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GÊMEOS ENTRE O CÉU E A TERRA

A NASA fez uma experiência com dois irmãos idênticos: um foi para o espaço, o outro ficou na Terra. Depois de quase um ano, observaram-se diferenças surpreendentes entre eles.

Gêmeos entre o céu e a terra

“A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo.” A máxima do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) pode ser aplicada, sem esforço, para descrevera própria genialidade. Afinal, suas teorias eram de tal modo criativas, inusitadas, desconcertantes que, na impossibilidade de então comprová-las na prática, ele recorria a alegorias para torná-las compreensíveis – os famosos Gedankenexperiment. Tome-se o caso da Teoria da Relatividade, que, entre outras conclusões, trouxe a ideia de que tempo e espaço fazem parte da mesma equação, são flexíveis e também – com o perdão da redundância – relativos. Uma das formas utilizadas por Einstein para ilustrar o conceito foi o Paradoxo dos Gêmeos. Nele, imaginam­se gêmeos idênticos na seguinte situação: um é enviado ao cosmo, viajando próximo da velocidade da luz, enquanto o outro fica na Terra. O que aconteceria a ambos? Pela distorção do espaço­ tempo, o gêmeo cosmonauta envelheceria bem menos. Pois bem: no último dia 11, a Nasa divulgou, na revista científica americana Science, um estudo que lembra o Paradoxo dos Gêmeos.

Os personagens, agora reais, do experimento foram os americanos Mark e Scott Kelly, gêmeos idênticos nascidos em 21 de fevereiro de 1964, cinco anos antes de Neil Armstrong tornar-se o primeiro homem a pisar na Lua. Os irmãos cresceram no Estado de Nova Jérsey, ambos com o sonho de aventurar-se no espaço – como Armstrong. Formaram-se em engenharia, ingressaram na Aeronáutica e, após missões militares, candidataram-se ao trabalho na Nasa, sendo aprovados no mesmo ano, 1996, para a carreira de astronauta. Mark, porém, aposentou-se precocemente, em 2011, devido a uma tragédia: sua mulher, a deputada democrata Gabrielle Giffords, foi alvo de um atentado sórdido, e ele largou tudo para se dedicar ao seu restabelecimento. Scott, entretanto, continuou na profissão. Os caminhos diferentes seguidos por eles a partir daí deram abertura para uma experiência inédita, realizada entre 2015 e 2016: enviar ao cosmo um gêmeo (Scott) enquanto seu irmão (Mark) ficava por aqui, na Terra. Assim, Scott foi para a Estação Espacial Internacional e permaneceu lá durante 340 dias (um recorde para um astronauta da Nasa) enquanto Mark continuou sua vida normal no planeta. Cientistas de doze universidades americanas debruçaram-se sobre os resultados do estudo Em comparação com o corpo de Mark, o de Scott experimentou um grande número de mudanças em razão de sua permanência no espaço. Seu sistema imunológico produziu novos mecanismos de defesa e ele ganhou 5 centímetros de altura. No entanto, seu desempenho físico decaiu – mesmo com a exigência de duas horas de exercícios diários na estação espacial, enquanto Mark não seguia uma rotina similar e tinha uma dieta irregular. Em decorrência da falta de gravidade na estação espacial, Scott teve o organismo fragilizado: partes do globo ocular inflamaram-se, os ossos se tornaram 10% mais finos e músculos se atrofiaram. Já seu cérebro demonstrou boa performance: Scott levou vantagem em testes de atenção em relação a Mark.

Na pesquisa, detectaram-se ainda alterações nos genes. Uma delas, de teor surpreendente: houve um prolongamento dos telômeros, partes do DNA que protegem o organismo do envelhecimento. No espaço, esses trechos se alongaram, o que retardou a deterioração do corpo. Diferentemente do que prevê o Paradoxo dos Gêmeos na hipótese criada por Einstein, isso não ocorreu por causa de alguma distorção no espaço-tempo – Scott, claro, não viajou à velocidade da luz -, e sim por prováveis efeitos da radiação dos raios cósmicos. “Mesmo depois de estar aqui por quase um ano, não me sinto normal”, declarou Scott em 2017, após seu retorno ao solo terrestre. O corpo do astronauta começou a se adaptar ao planeta cerca de um mês depois do regresso – lentamente. Durante algum tempo, Scott relatou, por exemplo, que sentia as “pernas bambas, as juntas doendo e a pele queimando”. “O fato de que Scott e Mark são gêmeos idênticos realmente eliminou alternativas do motivo de terem surgido diferenças entre os organismos deles no período da experiência”, afirma a bióloga Susan Bailey, da Universidade do Colorado, que participou do estudo. ”Podemos dizer que as alterações em Scott se deram em razão do voo espacial, “completa ela.

Desde o início da exploração espacial o próprio cosmo serve de principal laboratório para a preparação das missões. Em 1967, os soviéticos puseram em órbita a primeira nave Soyuz tripulada, na tentativa de descobrir se seria possível realizar o que hoje é um feito corriqueiro: acoplar a nave a outro módulo em pleno espaço. O experimento culminou em tragédia: ao entrar na atmosfera, o paraquedas da nave não se abriu e ela se chocou contra o solo, matando o cosmonauta Vladimir Komarov. Contudo, somente porque houve tentativas como essa – e outras, bem-sucedidas – é que hoje se tem o conhecimento necessário para realizar missões regulares em direção à estação espacial.

Um dos principais objetivos da pesquisa com os gêmeos foi fornecer informações que possam ajudar outros astronautas. Para combater, por exemplo, a deterioração de ossos e músculos, podem ser desenvolvidos exercícios físicos e até mesmo medicamentos capazes de reduzir tais efeitos provocados por uma eventual longa estada fora de órbita. Já as transformações genéticas e do sistema imunológico podem vir a orientar quais tipos de vacina devem ser tomados antes do embarque para uma jornada nas estrelas.

Para além dessa proposta de buscar mitigar efeitos físicos da permanência no cosmo, será     preciso atentar ainda para as consequências psíquicas decorrentes de viagens dessa natureza. No fim do primeiro dia de exploração da Lua, o astronauta americano James Irwin (1930 – 1991), por exemplo, integrante da Apollo 15, avisou no rádio de comunicações que estaria tendo visões epifânicas enquanto caminhava no satélite (ele foi o oitavo homem a realizar tal proeza). Ao retornar à Terra, em 1971, Irwin pôs de lado a ciência e se dedicou a fundar uma seita, que tentou encontrar destroços da Arca de Noé. Preparar os astronautas, física e psiquicamente, para longas estadas sem gravidade será fundamental para o êxito de um dos mais ambiciosos projetos humanos: enviar uma primeira missão tripulada a Marte, algo que a Nasa planeja fazer até os anos 2030.

Gêmeos entre o céu e a terra. 2 

SEM O PESO DO MUNDO

Enquanto Mark Kelly permaneceu na Terra, seu irmão Scott passou 340 dias na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Leia as principais consequências da vivência em órbita.

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A CORRIDA PELO COMPUTADOR QUÂNTICO

Tecnologia que deve movimentar US$ 50 bilhões até 2030 traz a premissa de acelerar o avanço da Inteligência Artificial e revolucionar a economia, da agricultura à medicina.

A corrida pelo computador quântico

O padrão de computação com o qual estamos acostumados se baseia no sistema binário. ISSO Significa que em um arquivo de texto (o código base usado em todo tipo de arquivo), cada letra é representada por combinações dos números zero e um. Já na computação quântica, a métrica é infinitamente mais abrangente porque o modelo binário dá lugar a sobreposições sem limite. Assim, os bits quânticos, ou qubits, têm a capacidade de armazenar não só um único texto por arquivo, mas todos os textos possíveis para a mesma quantidade de caracteres — inclusive os textos que ainda nem foram escritos. Está confuso? Então pense na computação atual como a era anterior à invenção da prensa móvel por Gutenberg, no século 15. A computação quântica é tudo o que virá depois. Nela, os computadores serão expressivamente mais rápidos e irão consumir muito menos energia. Parece coisa de ficção científica, e por isso ela desperta uma corrida entre gigantes como IBM, Google, Intel e Microsoft, além de startups como Rigetti ou a canadense D-Wave.

E, evidentemente, não se trata de uma corrida por vaidade pelo pioneirismo. Trata-se de muito dinheiro. É um mercado potencial que deve movimentar, somente nesta fase de testes, ao menos US$ 50 bilhões até 2030, de acordo a consultoria Boston Consulting Group (BCG). A capacidade computacional quântica irá revolucionar todos os setores. Agricultura, energia, finanças, saúde. Nada será como é. O setor farmacêutico, por exemplo, dará um salto, pois a nova tecnologia permite acelerar a criação e os testes de novos medicamentos, já que vai multiplicar a capacidade de prever efeitos que hoje a indústria leva anos para mapear. Tal avanço pode representar US$ 20 bilhões em negócios no setor nos próximos 10 anos.

Outra possível aplicação está no segmento dos algoritmos de busca e aprendizado das máquinas, o que tende a acelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas. E isso é só o começo. “Esperamos que a computação quântica se desenvolva em direção à maturidade nos próximos 25 anos”, escreve Massimo Russo, sócio do BCG, em relatório. Hoje as grandes empresas de tecnologia ainda testam suas soluções para fornecer ambiente confiável de testes para os clientes. A IBM está um passo à frente da concorrência ao apresentar ao mercado, em janeiro, o Q System One, um dos primeiros computadores quânticos comerciais, com capacidade de 20 qubits.

O Google deu um importante passo para a concepção do seu computador ao anunciar, no começo do mês passado, que desenvolveu em laboratório próprio um novo processador quântico. A Intel e a Microsoft também trabalham para apresentar seus protótipos. Para imaginar a forma dessas máquinas, esqueça toda a referência da imagem de um PC. O computador quântico ocupa o espaço de uma sala, e seu núcleo fica resguardado por uma câmara de vácuo que mantém o ambiente em temperaturas baixíssimas – a 273º Celsius negativos. A utilização dessa plataforma é feita por meio da nuvem. No entanto, as soluções são ainda muito embrionárias.

A capacidade do Q System One, de 20 qubits, é baixa e ainda não possibilita a simulação, por exemplo, do comportamento de moléculas. “Para modelar uma molécula simples de cafeína são necessários 50 qubits”, diz Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil. De acordo com BCG, a tecnologia se encontra hoje em um ponto equivalente ao estágio inicial do aparecimento de computadores binários. “A segunda geração da computação quântica, que vai se desenvolver entre 2028 e 2039, será o período no qual as máquinas alcançarão a capacidade de até 50 qubits”, escreve Russo no relatório da consultoria.

Para atingir esse nível de desenvolvimento, é preciso um esforço coletivo entre setor público, privado e academia. Um dos ambientes de testes mais populares é o IBM Q Experience, que desde 2016 disponibiliza à comunidade um computador quântico de testes com plataforma aberta para que desenvolvedores de universidades e empresas possam aprender a programar na nova linguagem.

“É uma fase importante de aprendizado”, diz Mello. Grandes empresas também usam a iniciativa para estudar soluções a seus negócios. O JP Morgan, maior banco dos Estados Unidos, tem dois grandes objetivos: buscar maneiras de aumentar a segurança de dados e proporcionar maior precisão nas estratégias de investimento. Para a coreana Samsung, interessa produzir chips mais potentes com componentes microeletrônicos e uma nova geração de isolantes de calor. A Exxon Mobil, por sua vez, pretende modelar elementos químicos para tornar os catalisadores mais eficientes e, assim, diminuir a emissão de CO2 na atmosfera. Cerca de 300 empresas e 2.500 universidades de todo o mundo promovem testes na plataforma.

Outras grandes corporações buscam meios alternativos para entender a aplicação da tecnologia nos seus negócios. A Bayer firmou, em novembro do ano passado, parceria com a empresa de tecnologia Atos e com a RWTH Aachen, a maior universidade da tecnologia da Alemanha, para avaliar o uso da computação quântica na pesquisa e análise de padrões de doenças humanas. O esforço não é à toa. Executivos da indústria farmacêutica estimam que a computação quântica pode acelerar o tempo de desenvolvimento de novas drogas em 15% a 20%.

A corrida pelo computador quântico. 2

FINANCIAMENTO PÚBLICO 

A corrida para estar na vanguarda dessa tecnologia não se limita ao setor privado. O governo dos Estados Unidos anunciou, em dezembro do ano passado, que vai disponibilizar US$ 1,2 bilhão para financiar pesquisa quântica no país. A Comissão Europeia desembolsou, em 2016, US$ 1,1 bilhão para o mesmo propósito. Mas a China lidera a corrida ao aportar US$ 10 bilhões para a construção de um laboratório de Ciência da Informação Quântica com previsão para ser inaugurado em 2020. O Brasil ainda não tem uma linha específica de financiamento. “Os países que dominarem antes essa tecnologia terão indústrias mais avançadas com a produção de materiais químicos melhores e maior quantidade de produtos inovadores”, diz Mello, da IBM. A vantagem competitiva será quântica.

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ODOR DE PARKINSON

Usando a habilidade de uma mulher com olfato aguçado, pesquisadores americanos criaram um marcador biológico da doença que poderá ser usado para o diagnóstico precoce.

Odor de Parkinson

O aguçado olfato da enfermeira escocesa Joy Milne, de 68 anos, foi o atalho para um dos mais recentes avanços nas pesquisas médicas relacionadas ao Parkinson, distúrbio do sistema nervoso central progressivo que afeta os movimentos e se caracteriza por tremores e rigidez. A história começou em 1974, quando Joy notou que sentia um cheiro diferente, forte e adocicado, toda vez que o marido, Les Milne, então saudável, se aproximava. Mais de uma década depois, ele foi diagnosticado com Parkinson.

A mulher passou a acompanhá-lo nos encontros com grupos de pacientes que também sofriam de Parkinson. Ela percebeu, nas outras pessoas, aquele mesmo cheiro que emanava do companheiro. Joy contou o caso a um grupo de cientistas e o relato chegou aos pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Deu-se o início, ali, da descoberta deum marcador biológico do Parkinson, uma espécie de “perfume da doença”.

Agora, os estudiosos identificaram a origem do cheiro sentido por Joy. Notaram que ele era mais intenso na parte superior das costas e na testa, mas não nas axilas. Isso significa que o odor não era de suor, mas de sebo, substância produzida pelas glândulas sebáceas na pele. Sabe- se que os portadores de Parkinson apresentam uma concentração maior de compostos produzidos pelo sebo. A equipe coletou amostras repletas dessas substâncias das costas de 64 voluntários – alguns com a doença, outros não. No laboratório, pediram a Joy que cheirasse as amostras e sinalizasse toda vez que o odor característico aparecia. Em todos os casos havia coincidência entre a indicação da enfermeira e a presença do Parkinson nas “cobaias”. Ainda se desconhece porque pessoas com a doença exalam esse odor – algumas pesquisas sugerem que certos micróbios são mais comuns na pele dos pacientes.

O “perfume da doença”, divulgado na semana passada pela revista americana ACS Central Science, pode ser um atalho futuro para o diagnóstico precoce do Parkinson. A enfermidade acomete 10 milhões de pessoas no mundo, 200.000 delas no Brasil. Atualmente, não há nenhum teste definitivo para sua detecção. “O diagnóstico é clínico, quando a doença já está instalada”, diz o neurologista Renato Anghinah, professor da Universidade de São Paulo. O faro de Joy pode ter mudado para sempre essa história.

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A MATERNIDADE ADIADA

O poder de decisão da mulher sobre a hora de ter um filho e o aprimoramento da ciência fizeram crescer a procura pelo congelamento de óvulos.

A maternidade adiada

“Congele seus óvulos aos 30 anos e eles não envelhecerão com você”. “Congelamento de óvulos pelo preço de um lanche” – frases como essas viajam pelas redes sociais nos Estados Unidos. Elas vendem um negócio que nos últimos anos tem conquistado milhares de adeptas: o congelamento de células sexuais femininas, procedimento feito em clínicas de fertilização. No Brasil, o movimento dá sinais de decolar. Não existem estatísticas oficiais, mas clínicas ouvidas calculam que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de cerca de 200%. “As mulheres estão cada vez mais no controle da hora de ter filhos, tenham ou não um parceiro”, diz Edson Borges, diretor médico da Fertility Medical Group, em São Paulo.

Seja qual for o motivo, profissional ou sentimental, as mulheres têm preferido adiar a maternidade. De acordo com o IBGE, o porcentual de mães que dão à luz pela primeira vez aos 30 anos passou de 22.5%, em 2000, para 30,2 %, em 2012, segundo os dados mais recentes disponíveis. A intenção de virar mãe mais tarde se choca com uma realidade: a chance de engravidar naturalmente diminui muito cedo, de 25% a possibilidade de uma mulher de 25 anos, no auge da fertilidade, engravidar ao longo de cada ciclo menstrual. Cai para 8% no caso de uma mulher de 40 anos, ainda em pleno vigor físico. Diz Márcio Coslovsky, diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro. “A queda da fecundidade é causada, sobretudo, pelo envelhecimento dos óvulos”. As mulheres já nascem com o total de células sexuais que o organismo terá a vida inteira. Com o passar dos anos, o ovário libera óvulos em menor quantidade e de menor qualidade.

Em cada ciclo menstrual, na faixa em que a mulher tem entre 18 e 35 anos, sob estimulo da medicina o ovário libera mais facilmente a quantidade de óvulos considerada adequada pelos médicos: dezesseis. “O grande volume é crucial porque nem todo óvulo saudável consegue ter bons resultados na hora de formar um embrião”, diz Cláudia Gomes Padilla, diretora-médica do Grupo Huntington, em São Paulo. O valor médio de um procedimento de congelamento gira em torno de 15.000 reais. Para manter os óvulos armazenados, pagam-se 1.000 reais anuais. Eles duram para sempre.

Além da mudança de comportamento, o avanço científico ajudou a aumentar o interesse em conservar óvulos. A técnica tradicional que usava mecanismos de congelamento lento, com duração de mais uma hora, danificava muitas células. Essa demora deflagrava a formação de cristais de gelo que agrediam os óvulos. Agora, trabalha-se com outro recurso, a vitrificação. Por meio dela, o óvulo é congelado em segundos, o que impede a formação dos cristais. A vitrificação faz com que nove em cada dez óvulos fiquem ilesos. Antes, apenas seis em cada dez prosperavam. Pesquisadores de Brigham and Women’s Hospital, em Boston, desenvolveram uma tabela que calcula a taxa de sucesso na gestação de um bebê a partir do congelamento de óvulos. Até os 35 anos, chega a espantosos 85%. Em tese, a mulher que armazenar suas células sexuais nessa etapa da vida, quando for implantá-las de volta, para engravidar, terá essa mesmíssima probabilidade de fecundação em qualquer idade posterior. É a ciência a serviço das mudanças de comportamento. A paulista Andréa de Carvalho Knabe, uma anestesista de 36 anos, decidiu congelar seus óvulos aos 32anos. “Achei que não era hora de ter um bebê, apesar da vontade do meu marido. Não hesitei. Hoje tenho dezesseis óvulos guardados, saudáveis, à espera do melhor momento”.

A maternidade adiada. 2

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O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO FAST FOOD

O desenvolvimento sustntável do fast food

A noite do dia 30 de março se tornou um evento à parte na atribulada rotina dos funcionários do McDonald’s no Brasil. Nessa data, das 20h30 às 21h30, apagam-se as luzes externas dos mais de 900 restaurantes brasileiros da Arcos Dorados, franqueadora master da maior rede de fast food do mundo. O ato é repetido religiosamente há 11 anos e representa um compromisso da empresa com a Hora do Planeta, iniciativa criada pela ONG World Wildlife Fund (WWF). Mas as ações do McDonald’s não param por aí. A companhia já utiliza embalagens 100% certificadas e dá destino correto aos resíduos plásticos e de óleo de cozinha, em parcerias com cooperativas de reciclagem. A rede ainda tem projetos de impacto social em comunidades que ficam no entorno dos restaurantes. “Uma empresa do nosso porte tem um grande impacto para a sociedade e o meio ambiente”, diz Leonardo Lima, diretor de desenvolvimento sustentável do McDonald’s no Brasil. “Por isso, nós temos uma estratégia arrojada em relação a iniciativas de conscientização dos nossos funcionários e da sociedade.”

O desenvolvimento sustntável do fast food. 2

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FRÁGEIS TRAMAS DO DIREITO À VIDA

A perda de vínculos coloca muitos sob o risco de privarem-se também do reconhecimento da própria semelhança com o conjunto da humanidade.

Frágeis tramas do direito à vida

Assassinatos de mendigos raramente aparecem nas primeiras páginas dos jornais. São vários os casos registrados todos os anos, mas a maioria deles tem aparecido, no máximo, em pequenas notas – ou simplesmente viram estatísticas. Quando jovens de classe média mataram um índio ateando fogo a seu corpo, em Brasília, em 1997, um deles declarou que pensavam se tratar “só de um mendigo” – como se assim pudesse justificar o crime. Um texto publicado em setembro de 2007 na revista Caros Amigos ressalta a indiferença de moradores de um condomínio em relação à morte de um homem que vivia na mesma rua, citando a afirmação de uma das crianças do prédio: “Mataram um cara aí, mas não era nada, não. Era só um desses mendigos que estavam sempre cheirando cola por aqui”. Diante da extrema conformidade com a morte do outro, surge a pergunta: como se cria tanto desprezo por vidas humanas?

Uma primeira hipótese pode ter origem na crise do modo como a sociedade se organiza em torno do trabalho remunerado. Quando as pessoas dependem dele como meio de vida, mas o mercado não consegue criar opções para todos, surge um grande problema.

Não é novidade que aqueles que não nascem ricos precisam trabalhar para sobreviver. Os sistemas de previdência e outras formas de proteção social estão, na maioria dos países (inclusive no Brasil), associados à atividade assalariada. Além disso, muitas pessoas passam grande parte do dia – e da vida – no trabalho. Em função dele, organizam-se os horários cotidianos e os ciclos de vida (estudos, carreira e aposentadoria). Assim, a atividade profissional torna-se uma referência importante na construção da identidade (é costume mesclar essência e profissão, perguntando “o que você é?” ou “o que você vai ser quando crescer?”). O local de trabalho é ainda um espaço privilegiado para a criação de laços de sociabilidade. Quem se vê desempregado sofre não só com a queda no padrão de consumo e a incerteza quanto ao futuro, mas também com a sensação de vazio, vergonha e inutilidade.

O sociólogo francês Robert Castel explica em As Metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, de 1995, os fenômenos do aumento do desemprego duradouro e da instabilidade e precarização nas condições de trabalho na Europa desde a década de 70, como crise da sociedade salarial. As pessoas se organizaram em torno do trabalho assalariado, mas com a revolução tecnológica ele deixou de ser suficiente para cumprir aquilo que se espera dele. Na América Latina, e em particular no Brasil, as taxas de informalidade, a precariedade das relações trabalhistas e o desemprego também não são novidades. Discute-se se chegou a haver uma sociedade salarial por aqui (que hoje está em crise), ou se ela nunca se realizou de fato. De qualquer forma, a ausência de ocupações estáveis para todos traz efeitos semelhantes em várias partes do mundo.

Se a ocupação remunerada é um vetor importante de integração do indivíduo à sociedade, um dos efeitos da falta dela na vida cotidiana é a ausência de reconhecimento de uma posição socialmente legitimada para os desempregados e com poucas chances de reinserção. Como não participam das relações de produção nem têm poder de compra, os excluídos dos mercados de trabalho e de consumo também não podem exercer pressão sobre os agentes econômicos. Com dificuldades de encontrar outro modo de pertencimento, fica difícil identificar interesses comuns com outras pessoas na mesma situação e criar um projeto coletivo de futuro. Os excluídos encontram-se, assim, isolados. Trata-se não só de uma situação real, verificável, mas também de um sentimento subjetivo de solidão. Sem dúvida, essa avaliação só pode ser feita sob determinado tipo de racionalidade, que privilegia a utilidade econômica e a mede segundo a capacidade de produção de lucro.

A segunda hipótese sobre a discriminação de alguns seres humanos diz respeito justamente ao consumo. Em nossas sociedades, este é tratado como um valor, embora seja pouco acessível a muitos. Nas civilizações caracterizadas pelo consumismo, o poder de compra de cada pessoa passa a ter o papel de informar aquilo que ela é. No livro O mal-estar da pós-modernidade, de 1998, o cientista social Zygmunt Bauman mostra que atualmente as relações econômicas são centrais na definição das identidades. Hábitos de compra criam laços simbólicos entre pessoas que apresentam os mesmos desejos – e os realizam. Identidades comuns são desenvolvidas com base no uso das mesmas mercadorias, sejam elas roupas de marca, filmes ou pacotes de viagens. Quem não as partilha, seja porque não quer ou não tem dinheiro, está fora dessa identidade: é o outro que não é visto como semelhante, o estranho.

Enfim, uma pessoa que perde seus vínculos econômicos com a sociedade, atualmente, corre o risco de privar-se também do reconhecimento da própria semelhança com o conjunto da humanidade. No artigo “Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos excluídos necessários aos excluídos desnecessários” (publicado nos Cadernos CRH, em 1994), o pesquisador brasileiro Elymar Nascimento fala desse processo como a perda da possibilidade de obtenção de direitos, chegando à negação do mais fundamental, o direito à vida. O primeiro passo desse processo está nos avanços tecnológicos que poupam mão-de-obra. Sob uma ideologia que coloca em primeiro plano a produção para o lucro, desempregar significa tornar desnecessária para o mundo grande parcela da população mundial. Na óptica economicista predominante, ser supérfluo para a economia pode levar o indivíduo a ser visto – pelos demais e até por si mesmo-como inútil. Dentro dessa lógica, os desempregados pobres tornam-se um peso econômico para o Estado e para a sociedade. E passam a ser vistos como incômodos.

Num contexto de insegurança generalizada com a violência urbana, o imaginário popular associa cada vez mais a pobreza à violência. Assim, aquelas pessoas são consideradas ameaçadoras. E, nessa condição, se tornam ameaçadas de extermínio. Basta ver, além dos casos de agressões a mendigos, as chacinas de crianças de rua e de presidiários, defendidas por muitos.

Essa espiral de desvalorização da vida humana, sem dúvida, tem outros matizes. Além das origens culturais e político-econômicas, entrelaçadas, apresenta dimensões éticas que não podem ser esquecidas. Romper essa lógica cruel requer a transformação dos valores de uma sociedade inteira. Trata-se, entre outras coisas, de aprender a valorizar o ser humano para além de seu poder de consumo e de geração de lucros. Isso demanda a ressignificação do papel do trabalho e dos sentidos da própria vida humana.

 

GIULIANA FRANCO – é doutora em sociologia pela Unicamp; atualmente é professora de sociologia geral e brasileira da Faculdade de Administração da Aeronáutica.

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A EXPLOSÃO VEGANA

Mais de sete milhões de brasileiros declaram-se adeptos do veganismo: não consomem qualquer produto proveniente ou testado em animais. E esse público — assim como o mercado formado em torno dele — só deve crescer.

A explosão vegana

Virou uma febre nos restaurantes, em lojas de roupas modernas, de acessórios e até em fast foods. Propagandear que os produtos são veganos parece dizer ao cliente que ele está dentro do que há de mais contemporâneo em saúde e comportamento. Assim, a explosão vegana tomou conta do mundo. Só no Brasil são sete milhões de pessoas que se consideram adeptas do estilo de vida que deixa de fora o consumo de artigos provenientes ou testado em animais. Entre eles, alimentos, bolsas e produtos de beleza. Hoje são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos pelo país. A mais famosa cadeia de fast food do mundo, o Mc Donalds, entrou na onda e produz sanduíches para o nicho.

E há espaço para mais crescimento. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope, 55% dos 2 mil entrevistados afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se eles estivessem com rótulos bem informativos e 60% os comprariam se custassem o mesmo preço dos comuns. Em geral, eles são mais caros.

Ser vegano, na verdade, significa estar no alto de uma pirâmide que tem como base o vegetarianismo, a dieta que exclui o consumo de carne. No segundo patamar, estão os ovolactovegetarianos. Além de vegetais, eles se alimentam de ovos, leites e derivados. No terceiro ficam os chamados vegetarianos estritos, que não consomem nenhum alimento de origem animal incluindo mel, ovo e laticínios. Os veganos estão no topo e recusam, além da alimentação, todo produto que utiliza produtos feitos a partir de ou testados em animais

O que embala a escalada dos veganos é a disseminação da cultura que busca melhor qualidade de vida, incluindo no conceito o cuidado com a saúde de forma mais natural e o respeito ao meio ambiente e aos animais. “É uma mudança de dentro para fora”, diz a vegana Anna Karine Fukamizu. “Primeiro vem a informação e depois você muda seu comportamento”, completa. Barbara, filha de Anna, foi quem convenceu a mãe a adotar a filosofia de vida, há seis anos. Desde então, elas deixaram de comer produtos derivados ou testados de animais. Usam roupas de algodão e pasta de dente natural. A estudante Victoria Mayer foi outra que cortou ovos, leites e derivados e parou com carnes. “Não acho certo o maltrato aos animais.” Ela também só adquire produtos veganos.

A explosão vegana. 2

A explosão vegana. 3

MERCADO EM ASCENSÃO

O aumento dos adeptos faz crescer o mercado. A Curaprox, por exemplo, especializada em produtos de limpeza bucal, lançou uma linha de pastas de dente vegana. Na composição, nenhum produto químico ou de origem ou testados em animais. “Os veganos podem usar sem medo”, afirma Hugo Lewzoy, CEO da marca. De acordo com o executivo, o creme dental possui uma enzima chamada glicose oxidase. Ela potencializaria a ação protetora da própria saliva, evitando a necessidade de antibactericidas químicos. Além disso, ela conteria extratos de ervas com propriedades regenerativas dos tecidos. O produto custa R$ 79.

Outra empresa é a Biozenthi, presente no Brasil, na Austrália, na Colômbia, no Equador e preparando-se para entrar no mercado espanhol. Ela fabrica cosméticos, artigos para cabelo e de higiene pessoal veganos. “Usamos cera de carnaúba para fazer batom, por exemplo”, explica Márcio Accordi, proprietário da companhia.

Assim como em relação ao vegetarianismo, há polêmica envolvendo a exclusão de alimentos de origem animal na dieta vegana. Médicos, nutricionistas e adeptos sabem que falta ao organismo de um vegano a vitamina B12, necessária para o bom funcionamento do sistema nervoso. “Mas mesmo quem não é vegano tem deficiência da vitamina. Normalmente, ela falta em 60% dos veganos e em 40% dos não veganos”, afirma a nutricionista Astrid Pfeiffer. Vegetariana há 14 anos, ela entrou para o veganismo há 6 meses. O prato perfeito para um vegano consiste em uma base de carboidrato (cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada), leguminosas (feijões, lentinha, ervilha, grão de bico) e salada com muitas folhas verdes. “Conseguimos encontrar todos os nutrientes em uma refeição equilibrada”, diz Astrid. O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, discorda. “É importante respeitar a liberdade de escolha individual de cada pessoa. Entretanto, do ponto de vista médico e nutricional, o que recomendamos é que, ao fazer qualquer opção alimentar restritiva, o indivíduo cheque como está sua saúde e tenha um acompanhamento regular para que todos os nutrientes necessários para mantê-la sejam contemplados na alimentação”, afirma. Ao que tudo indica, a discussão, iniciada com o vegetarianismo, se prolongará

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