PSICOLOGIA ANALÍTICA

O MELHOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

Artista se dispôs a passar três dias no mais completo breu: foi hermeticamente vendado e imediatamente assumiu a postura de um ancião.

o melhor cego é aquele que não quer ver

A predominância da visão entre os sentidos humanos é tão grande que chegamos a usar coloquialmente as expressões “olha isso” ou “viu?” para indicar estímulos não visuais. Caçadores e coletores, nossos ancestrais viveram em estrita dependência da visão, pois apenas ela fornece imagens detalhadas de objetos distantes. Viver sem ver parece catastrófico para quem normalmente vê, mas o convívio com cegos bem adaptados demonstra que as compensações sensoriais e o aprendizado da falta permitem um notável grau de autonomia. Exímios navegadores da memória, refinados cartógrafos de texturas, senhores dos sons e odores, excepcionais interlocutores no trato com o próximo, os cegos bem temperados não inspiram pena e sim a mais franca admiração.

Em 2015 foi publicado o estudo eletrofisiológico de uma cegueira psicogênica, isto é, provocada não por deficiência anatômica ou fisiológica (hardware) mas por uma disfunção psíquica (software). O caso envolve o raríssimo transtorno dissociativo de identidade, em que o paciente atua como se possuísse distintas personalidades. Descrito há mais de um século por Charcot, Janet e Freud, esse transtorno foi posteriormente questionado como sendo um artefato terapêutico ou cultural. No caso em questão, uma paciente com múltiplas personalidades tornou-se cega após um traumatismo cranioencefálico, mas anos depois recuperou a visão quando sob a identidade de um adolescente do sexo masculino. Após uma sessão em que foram tratados temas especialmente traumáticos, subitamente a paciente tornou-se capaz de ler palavras inteiras. Depois, progressivamente, passou a reconhecer letras e finalmente imagens em geral. Sessões de hipnose levaram a uma generalização da visão para algumas outras personalidades da paciente, de modo que estados videntes e cegos passaram a se alternar na mesma pessoa em questão de segundos.

O registro de potenciais elétricos evocados por estímulos visuais mostrou que o córtex visual respondia apenas quando a paciente declarava ver, mas não quando reportava cegueira. Em outras palavras, a resposta fisiológica do cérebro dependia efetivamente da personalidade assumida a cada instante pela paciente. Ainda não está claro se este caso de cegueira histérica reflete processos cerebrais de cancelamento da imagem visual ou simplesmente um sutil mas eficaz desfocamento dos olhos. Seja como for, a documentação neurofisiológica do fenômeno indica que o transtorno dissociativo de identidade tem caráter biológico.

Se a instalação involuntária da cegueira sem causa orgânica aparente representa um quadro mental potencialmente revelador das misteriosas estruturas da mente, a cegueira voluntária é uma opção instrutiva para quem deseja explorar os limites da consciência. Buscando a experiência do verdadeiro escuro, o artista Leonardo Costa Braga dispôs-se a três dias de breu. Foi hermeticamente vendado e imediatamente assumiu a postura de um ancião. Durante as primeiras horas após o vendamento, expressou fragilidade, necessidade constante de apoio, medo evidente de perigos invisíveis e uma constante sensação de morte da personalidade que achava que a vida era apenas ver. Mover-se e viver tornou-se épico. A atenção chegou a tal extremo de foco que mesmo o som do mar a poucos metros tornou-se inaudível durante uma conversação com um guia durante uma caminhada.

Mas após uma noite de muitos sonhos, a adaptação foi emocionante. Retornou a postura corporal de adulto saudável, revigorada pelo aumento da sensibilidade dos outros sentidos. Instalou-se uma sinestesia poderosa, capaz de transformar em cores e formas os contatos do corpo com superfícies e sons do ambiente. Mestre da fotografia e da semiótica do cotidiano, Leonardo passou a retratar seu entorno com a clarividência de quem vê além da luz. Ao final da experiência, o artista nadava no Atlântico como se viajasse no espaço sideral, destemido e infinitamente livre.

Essa experiência encontra-se bem documentada no livro Olho mágico, fruto de um Prêmio Nacional Rede Funarte de Artes Visuais, em colaboração com o Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do curso de alfabetização visual para deficientes visuais do Centro Universitário Senac-SP. Para conhecer o trabalho do artista: http://www.leonardocosta braga.com

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS OUTROS SABEM SOBRE VOCÊ?

o que os outros sabem sobre você

TIPO 1

Pode-se dizer, para começar, que você tem necessidade de ser amado e admirado, e, contudo, pode ser muito crítico consigo mesmo. No plano das relações pessoais, você tem uma grande propensão a se dedicar ao outro. Inimigo do superficial, você não oferece sua amizade ou confiança a qualquer um. Sabe, por experiência própria, que não dá certo mostrar seus sentimentos tão facilmente. Mas sua sociabilidade sempre o leva a estabelecer relações de amizade sinceras, especialmente com as pessoas que escolheu para estar a seu redor. Apesar disso, você às vezes precisa ficar sozinho para recarregar as energias e se reencontrar. Sua abertura de espírito o faz aceitar com entusiasmo as ideias novas e enriquecedoras. Você pode se mostrar um tanto ciumento no amor, principalmente quando outra pessoa parece ameaçar a integridade e estabilidade de sua relação amorosa.

TIPO 2

As sensações prazerosas o atraem. Você adora alimentos saborosos, o que por vezes o leva a excessos na comida e na bebida. O belo e atraente provoca-lhe admiração e prazer. Por isso, a poluição do ambiente o preocupa e as cenas de destruição da Natureza o deixam indignado. Em sua vida, você curte certa dose de mudança e variedade pequenas ou grandes viagens, por exemplo – e por isso é difícil quando alguém (ou algo) lhe impõe limites. Às vezes sua calma es­ conde nervosismo. Você gosta de mostrar seu espírito independente e só aceita a opinião dos outros se seu proveito for claro – ainda que, vez por outra, você possa se deixar influenciar por alguém de que gosta muito. Seu senso de humor é bastante desenvolvido e o riso é para você sinal de saúde.

TIPO 3

A honestidade e a franqueza são qualidades que você preserva e seu senso de justiça o faz criticar todo tipo de injustiça e desigualdade, pois você acredita num mundo melhor. A preguiça é uma tentação a que você sucumbe de vez em quando, mas, quando está realmente motivado, sabe fazer seu trabalho com a maior dedicação e interesse. Você tem um potencial admirável e tudo o que é necessário para usá-lo a seu favor, mas muitas vezes as circunstâncias se opõem a você mais intensamente do que se poderia imaginar. Como ocorre a todo mundo, sua personalidade tem pontos fracos, mas geralmente você sabe muito bem como compensá-los. Nesse sentido, os defeitos são ótimas chances para seu crescimento pessoal, e é com determinação que você os assume. Mas seu lado levemente conservador permite que você aprecie um equilíbrio estável e seguro. Muitas vezes você se pergunta se tomou a decisão certa ou se fez o que deveria ser feito. Algumas de suas aspirações tendem a ser irrealistas, mas você tem consciência disso, pois acredita que na vida é preciso ter sonhos para mobilizar as energias e viver plenamente.

Já sabe em qual tipo se encaixa? Muito bem! Agora vale a pena saber: tendemos a nos reconhecer em análises generalizadas de personalidade como se dissessem respeito unicamente a nós e revelassem nossas características psíquicas. No ímpeto de nos adequarmos a descrições, preenchemos – sem nos darmos conta – as lacunas das descrições com nossas próprias imagens mentais. Em psicologia, esse fenômeno é chamado de efeito Barnum.

As pessoas adoram fazer testes que ofereçam informações sobre seus traços de personalidade. E eles proliferam nas revistas femininas e no Facebook. Em geral, diante do resultado da análise (muitas vezes mero resultado de combinações de informações geridas por algum algoritmo) a pessoa fica estupefata, com a impressão de que seu modo de ser e se relacionar com o mundo foi revelado. A curiosidade em relação às respostas que vêm prontas, de fora, responde a uma curiosidade moderna, já que em nenhuma outra época tentamos seguir de maneira tão estrita a injunção “Conhece-te a ti mesmo”. Ao lado de técnicas psicológicas reconhecidas de investigação da personalidade, horóscopo, grafologia e tantas outras áreas buscam revelar nosso universo interior, o que costuma despertar grande curiosidade. O efeito Barnum, assim denominado pelo psicólogo americano Bertram Forer, refere-se justamente à tendência que as pessoas têm de tomar o genérico como específico – e acreditar que dados gerais, superficiais e amplos, que facilmente se aplicariam a grande número de pessoas, dizem respeito a elas. Com isso, a descrição de personalidade apresentada (qualquer que seja ela) produz o mesmo efeito, contanto que seja um pouco gratificante e que o sujeito esteja convencido de que é específica para ele.

Em 1948, para denunciar a banalidade e generalidade dos horóscopos, Forer teve a ideia de fazer uma experiência surpreendente. Uma semana depois de submeter 39 estudantes a um teste sobre motivação, ele lhes apresentou uma curta análise da personalidade de cada um e pediu que avaliassem sua exatidão segundo uma escala de zero (nenhuma exatidão) a 5 (total exatidão). Acredite ou não, a descrição era a mesma para todos. E, ainda assim, cada um deles se reconheceu nela: dos 39 participantes, 16 deram nota 5; 18 optaram pela nota 4 e 4 pela nota 3. Apenas 1 deu nota 2. E ninguém escolheu nota 1 ou zero. É incrível que, nesse tipo de caso, nunca ocorre aos envolvidos, nem por um segundo, que sua descrição possa convir igualmente ao vizinho – exceto quando se pergunta a esse respeito de modo explícito. A impressão imediata de se reconhecer especificamente parece irrefreável.

Os criadores de testes duvidosos, formulados sem critérios científicos – muito diferentes dos usados por profissionais da psicologia que recorrem a ferramentas estudadas para psicometria, sem qualquer pretensão de antever o futuro – se fiam muito no sentimento de busca de adequação de seu público para assegurar seu sucesso. E o curioso é que mesmo pessoas bem informadas podem se mostrar facilmente ludibriáveis. De fato, não é raro que se argumente que determinado resultado é “verdadeiro” porque todo mundo se reconhece nas características apresentadas.

Ora, o efeito Barnum demonstra que o fato de as pessoas acharem correto o que é dito sobre sua personalidade absolutamente não comprova a validade da avaliação.

O efeito, aliás, aparece também nos testes sérios e validados cientificamente. É análogo ao placebo, que contribui para os resultados benéficos de remédios e práticas sem eficácia comprovada. Também chamado de “efeito da validação subjetiva”, o fenômeno foi batiza do de efeito Barnum em 1956 por Paul Meehl, em homenagem ao criador do primeiro circo moderno, o célebre Phineas Barnum Circus. Ele, que possivelmente ficaria espantado de ver seu nome passar do mundo dos espetáculos populares para o da psicologia, atribuía seu sucesso a duas razões, chegou a declarar que “a cada minuto nasce um trouxa” e que “é preciso reservar algo para apresentar a cada um deles”. A credulidade do público, evocada na primeira afirmação, não está somente no efeito Barnum; e a segunda afirmação aponta aquilo que evidencia os processos da percepção que o indivíduo tem de sua própria identidade.

A experiência de Forer foi refeita diversas vezes, com pequenas variações destinadas a verificar hipóteses secundárias, mas sempre se confirmou. Na mesma escala de zero a 5, a média das avaliações quanto à exatidão da descrição é 4,2, com desvio muito pequeno. Assim, nem a idade nem o sexo dos participantes parecem ter influência sobre os resultados e o mesmo vale para profissão (além dos estudantes, grupo preferido dos psicólogos responsáveis pela experiência, operários, funcionários da área administrativa de empresas e diretores de recursos humanos também passaram por testes).

Foi constatado, entretanto, que a manifestação do efeito Barnum varia levemente, de acordo com o elemento ou a prova que serve de base para a análise da personalidade. Assim, as pessoas julgam um pouco mais exata a descrição proposta quando acreditam que ela é feita a partir de um teste projetivo.

PREENCHENDO CONTORNOS

Mas como explicar o efeito Barnum? Será somente resultado de ingenuidade ou vaidade? Ao que tudo indica, para responder isso é preciso estender um pouco a análise e se debruçar sobre os processos presentes na elaboração de nossa percepção sobre nós mesmos.

Os primeiros elementos para a explicação residem na redação do retrato “personalizado”: o texto emprega termos vagos e genéricos, as apreciações podem se aplicar a muitas situações e abranger grande número de condutas. É aquele que recebe a análise e, sem perceber, define seus contornos ou preenche as lacunas com suas próprias imagens e representações mentais. Além disso, a maior parte dessas descrições apresenta um traço de personalidade e seu contrário, dando a impressão de um retrato com nuances. Consequentemente, o elemento de personalidade com que a pessoa mais se identifica se impõe no processo de seleção perceptiva, em detrimento de sua alternativa.

Certos analistas vão ainda mais longe: estimam que, como seus elementos são universais e caracterizam as pessoas em geral, podemos considerar os retratos Barnum como “verdadeiros”. Sendo assim, o fato de se identificar com eles não é sinal de credulidade excessiva. Sem dúvida, os seres humanos são muito mais parecidos que costumamos supor. De onde vem então essa impressão de que o texto descreve de maneira tão precisa aquilo que nos descreve como uma pessoa única?

É claro que os retratos propõem às pessoas uma avaliação globalmente positiva. Ora, diversas experiências demonstraram que ninguém se estima inferior à média quando se trata de avaliar uma de suas qualidades ou um traço de personalidade socialmente desejável. Assim, numa enquete sobre a avaliação de qualidades sociais, as pessoas se declararão de acordo com a frase “De modo geral, sou consciente dos efeitos de minhas ações sobre os outros”, e em desacordo com “De modo geral, as pessoas são conscientes de suas ações em relação aos outros”. Parece, portanto, que cada um de nós se julga ligeiramente melhor que os outros – mas não muito, pois é preciso ser realista em relação aos diversos aspectos da personalidade. Ademais, alguns elementos desfavoráveis do retrato Barnum, ainda que sejam pouco numerosos, podem às vezes ser julgados exatos, pois permitem que a pessoa admita pequenos defeitos, mostrando-se lúcida em relação a si mesma – outra qualidade muito valorizada socialmente.

Além disso, falando em aspectos negativos, parece que quanto mais se está convencido da competência do analista ou da verdade do sistema empregado, mais os elementos desfavoráveis na avaliação de sua personalidade são aceitos.

A maneira como construímos nossa identidade pode explicar melhor o fenômeno Barnum. Primeiro, como mostraram as teorias psicológicas, na maioria das vezes, não temos acesso direto àquilo que somos de verdade; falta-nos visão clara de nossos processos e de nossas características. É claro que percebemos nossos estados afetivos, até com muita intensidade em dadas situações, mas o cérebro só constrói o conhecimento a partir de informações exteriores a ele, e a percepção de si não escapa à regra. Assim, o conceito de si, que alguns ligam à identidade, repousa em um sistema de representações (o que chamamos de introspecção é apenas um trabalho mais ou me­ nos aprofundado sobre essas representações).

A observação de nossos comportamentos e reações emocionais, as informações de nós mesmos que os outros nos oferecem (que na verdade são filtradas por nossa percepção), assim como as conclusões e deduções tiradas de categorias precedentes constituem o essencial do material de base dessas representações. O cérebro tem a tarefa de fazer uma síntese desses elementos, ou pelo menos criar uma impressão de unidade, coerência, estabilidade e sentido. Para que seja aceitável, essa avaliação deve ser reconfortante, e é por isso que escolhemos os elementos que confirmam nossas ideias já estabelecidas, mais fáceis de serem aceitas. Nós as interpretamos fazendo relações entre esses elementos e “desligando-os” de explicações e significados anteriores. As inferências que fazemos sobre nós mesmos se exprimem como traços de personalidade estáveis, que parecem perdurar e dar conta de condutas diversas – é o papel da memória na identidade pessoal. Apesar de serem categorias semânticas vagas, as palavras que traduzem esses traços são aquelas que empregamos todos os dias para descrever e explicar nossa personalidade e a dos outros.

A imagem de si é estável e, contudo, nunca é definitiva – nutre-se constantemente de novas informações. Para cada um de nós, ela é um frágil edifício virtual, já que nossa imagem não se funda sobre um conhecimento verdadeiro do que se passa em nosso interior e dos fatores reais que regem nossa conduta. Mas, a inda assim, essa quimera é consubstancial a todos os aspectos de nossa existência, intervindo como um poderoso fator de motivação. Esse processo pode ser mais ou menos cambiante, mais ou menos intenso – de acordo com a pessoa e as circunstâncias, tendo em conta, por exemplo, o caráter familiar ou de novidade de uma situação -, mas o conceito de si funciona como uma teoria que precisa ser continuamente confirmada, total ou parcialmente.

UM POUQUINHO MAIS BONITOS

Como toda percepção, nossas representações de nós mesmos são povoadas de algumas ilusões – como a de sermos (um pouco) melhores que os outros; já que tendemos a superestimar levemente os julgamentos positivos que fazem de nós, pensamos dominar o meio em que vivemos. E temos um otimismo irrealista em relação ao futuro. Tendemos a crer, por exemplo, que “a infelicidade só acontece com os outros!” – e nos surpreendemos quando algo grave se passa conosco.

Para nosso bem-estar psicológico, compomos uma imagem positiva de nós mesmos, e, para consegui-la, procuramos prioritariamente coisas que a confirmem, assumindo deliberadamente a complacência. Demonstramos, com efeito, que descrições lisonjeiras, mesmo que redigidas como retratos Barnum, não somente fazem bem, como também aumentam a sensação de nossa competência. Alguns psicólogos acreditam que a saúde mental é diretamente ligada a essa sutil superestimação, e que se enganam aqueles que creem curar seus clientes levando-os a uma visão “objetiva” e realista de si mesmos. Ao contrário, pesquisas diversas revelam que pessoas depressivas têm uma percepção mais exata do julgamento dos outros e tendem menos a “embelezar” tal julgamento. O efeito Barnum é mais manifesto quanto mais positivo for o julgamento: quanto mais elogioso for, mais a pessoa tende a considera ­ lo justo e específico. Para construir nossa imagem interior, temos, portanto, uma inexorável necessidade de apreciações favoráveis. O efeito Barnum revela esse anseio. As descrições propostas pelos “peritos” são para nós um presente dos céus: nos poupam por um momento da busca de informações e do esforço para tratá-las cognitivamente, dando-nos a chance de saborear por um instante a doce e reconfortante sensação de sermos únicos e notáveis, estáveis e coerentes.

Os pseudopsicólogos levam a melhor, numa época em que o autoconhecimento é um imperativo da moda. Mas a credulidade de uns ou a facilidade de se enganar de outros são explicações insuficientes para o fenômeno. O fato de se reconhecer em uma descrição feita “por nós” não é sinal de tolice, mas o reflexo de processos cognitivos e afetivos que estão na base de nossa identidade.

Para além do efeito Barnum, resta uma questão: é possível conhecer a nós mesmos de forma objetiva? Podemos até nos perguntar se é legítimo falar em personalidade e em meios de desvendá-la. Não se trata, absolutamente, de negar as diferenças entre as pessoas, mas de constatar que os recursos de que dispomos para dar conta um caminho longo, que certamente não vem de fora de nós.

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 AO ALCANCE DE TODOS

A experiência idealizada por Forer em 1948 foi repetida dezenas de vezes. De fácil execução, sempre oferece resultados bastante consistentes. Em um módulo de astrologia num curso sobre comportamento realizado pela Sociedade Rádio Canadá, refizemos a experiência em uma classe com 20 alunos dos dois sexos, com idades entre 18 e 48 anos.

Num primeiro encontro, pedimos que os voluntários avaliassem o grau de acerto da descrição de sua personalidade feita a partir de seu signo solar. O texto foi entregue por escrito e eles deveriam proceder “com a maior objetividade possível”, independentemente de sua crença na astrologia, como se nós quiséssemos verificar em que medida os signos do zodíaco seriam capazes de descrever personalidades. Avisamos ainda que os textos haviam sido redigidos por um psicólogo, sem as metáforas e alusões mitológicas normalmente empregadas pelos astrólogos. Por fim, os 18 alunos interessados em participar da experiência escreveram seu nome e data de nascimento em uma folha.

As 18 pessoas leram, sem saber, a mesma descrição, que foi escrita a partir de várias fontes e incluía elementos relativos a diversas dimensões da existência: social, afetiva, intelectual etc. Dezoito cópias do texto foram impressas, e para personalizar o retrato, cada uma continha o nome e o signo astrológico do participante; os adjetivos eram flexionados de acordo com o sexo dele. Note-se que nossa amostra continha nove dos 12 signos zodiacais. Para evitar que a aparência dos papéis distribuídos revelasse nossa (tão inocente) manobra, a divisão de parágrafos era diferente para cada signo. Uma folha de resposta era entregue junto com a descrição. Os participantes deveriam anotar se o retrato os descrevia totalmente (5), em grande medida (4), em boa medida (3), regularmente (2), um pouco (1), ou em nada (O). A título indicativo, deveriam responder se, independentemente da descrição que acabavam de ler, acreditavam em astrologia (as opções de resposta eram: muito, mais ou menos, e não acredito).

Uma semana depois, reencontramos os estudantes. A descrição personalizada e a folha de resposta foram distribuídas e repetimos as instruções, insistindo sobre o caráter objetivo da avaliação. Eles levaram entre cinco e dez minutos para ler o texto e responder. Em seguida – obviamente depois de recolher as folhas de res posta -, explicamos o que é o efeito Barnum, do qual eles tinham acabado de ser vítimas.

Os resultados foram os seguintes: duas pessoas acharam que o texto as descrevia totalmente; 12, correto em grande medida; três, em boa medida; uma, achou que a descrevia regularmente. Esses números são totalmente condizentes com os que forer e outros pesquisadores obtiveram. Além disso, nada indica que tenham relação com a crença na astrologia: ninguém disse acreditar muito em nessa área; os dois participantes que disseram se reconhecer totalmente nas descrições acreditavam medianamente; dos 12 que se reconhecem “em grande medida”, oito se fiavam “medianamente” o poder dos astros e quatro não acreditam; os três que se reconheceram em boa medida no retrato alegaram crer medianamente. E o estudante que se identificou regularmente não acreditava. Em outros termos, das cinco pessoas que disseram não acreditar em astrologia, quatro acharam que o texto proposto as descrevia em grande medida. Portanto, não é o fato de crer nas pseudociências que ocasiona o efeito Barnum. Pensamos que uma descrição que parecesse ainda mais personalizada para o participante, que lhe fosse apresentada como feita a partir de seu mapa astral, em vez de expor características gerais de seu signo, teria provavelmente provocado resultados ainda mais convincentes.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

CRIANDO FILHOS MAIS SAUDÁVIS E FELIZES

Na tentativa de serem “bons pais”, muitos erram apesar das boas intenções: investem em uma rotina cheia de compromissos escolares e extracurriculares para a criança, envolvem-se nas dificuldades dos filhos a ponto de querer resolvê-las ou, ainda, deixam de cuidar de si com a justificativa de que é preciso cuidar do outro. Especialistas apontam atitudes que podem prejudicar o desenvolvimento de habilidades necessárias para uma vida adulta mais feliz e autônoma.

criando filhos mais saudáveis e felizes

 1. PERMITIR MOMENTOS DE ÓCIO E TÉDIO.

Escola, esporte, cursos extracurriculares. Muitas crianças têm agendas dignas de adultos muito atarefados, com poucas horas livres ao longo do dia. Até mesmo nos fins de semana e férias, que não raro são pré-programados com passeios e viagens. Efeito da nossa cultura, que não vê com bons olhos “não ter o que fazer”. No entanto, estudos sugerem que seguir rotina cheia de compromissos desde cedo pode prejudicar a criança. Um deles, publicado na Frontiers of Psychology em 2014, relaciona a quantidade de atividades estruturadas, como aulas de futebol ou dança, no dia a dia de crianças de 6 anos ao menor desenvolvimento de uma “função executiva autodirigida”. Basicamente, esse processo mental ajuda os pequenos a regular emoções e definir e atingir metas por conta própria, além de ser associado a maior estabilidade emocional e profissional na vida adulta. O que os pais podem fazer então? “Deixe que seus filhos caiam na monotonia e descubram algo para fazer por conta própria”, sugere o psicólogo Michael Ungar, codiretor do Centro de Pesquisa de Resiliência da Universidade Dalhousie, em Nova Escócia. “O tédio num contexto hiperestimulado pode permitir exercer a criatividade e desenvolver a iniciativa, a persistência e a sensação de que podem influenciar o mundo”, explica.

2. DEIXAR QUE RESOLVAM PROBLEMAS.

Não são poucos os pais excessivamente protetores, que se envolvem nas dificuldades cotidianas dos filhos além da conta. A superproteção não favorece o desenvolvimento de habilidades que serão necessárias na vida adulta, como autonomia e resiliência. Pesquisas no campo da autodeterminação relacionam a super­proteção a níveis mais elevados de ansiedade e depressão, notas mais baixas na escola e menor satisfação com a vida quando adultos. “Pouco comprometimento dos pais não é positivo. Mas o envolvimento em demasia também não”, afirma a psicóloga do desenvolvimento Holly H. Schiffrin, professora associada da Universidade de Mary Washington, na Virginia. ” Percebo esse comportamento em sala de aula. Há pais que me procuram para ajustar o horário de aula dos filhos ou ligam para conversar sobre as notas deles. Costumo responder que os próprios alunos podem marcar uma reunião comigo para discutir o assunto”, diz.

3. “COLOCAR A MÁSCARA DE OXIGÊNIO PRIMEIRO”.

A instrução dada antes das viagens de avião é uma boa metáfora da parentalidade – é preciso cuidar de si mesmo para poder cuidar bem de outra pessoa. Mães com diagnóstico de depressão, por exemplo, são mais propensas a ignorar ou a exagerar comportamentos inadequados dos filhos, segundo um estudo longitudinal de dois anos publicado na Psychological Science. Pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia constataram que adultos com TDAH também se tornam pais atenciosos depois de receber tratamento para o distúrbio. Todas as outras atividades cotidianas relacionadas com a saúde também importam. Um estudo de 2015 sobre os dados nacionais de saúde do Reino Unido sugere que o modo de vida dos pais pode ser tão decisivo como a genética na “transmissão” da obesidade. Outra evidência: crianças que participaram de uma pesquisa de 2014 da Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres e com pais biológicos com excesso de peso tinham probabilidade 27% maior do que outras de apresentar sobrepeso. Filhos adotados também demonstraram susceptibilidade similar, de 21%. Seguindo essa linha de raciocínio, adotar uma dieta mais saudável e colocar atividades físicas na rotina vai além do autocuidado: é um gesto de amor por aqueles que dependem de nós. Um bom motivo para começar, não?

PSICOLOGIA ANALÍTICA

BEBÊS SÃO MAIS ESPERTOS DO QUE VOCÊ IMAGINA

Crianças desvendam o mundo de um modo muito semelhante ao dos cientistas: por meio de experimentos, análises estatísticas e formação de teorias intuitivas em relação à fenômenos físicos, biológicos e psicológicos.

bebês são mais espertos do que você imagina

Há 30 ou 40 anos, a maioria dos psicólogos, filósofos e psiquiatras julgava que bebês e crianças pequenas eram irracionais, egocêntricas e amorais. Acreditavam que se limitavam ao concreto, ao aqui e agora – incapazes de compreender causas e efeitos, imaginar as experiências de outras pessoas ou apreciar a diferença entre a realidade e a fantasia. E, frequentemente, crianças ainda são vistas por leigos como “adultos imperfeitos”.

Nas últimas três décadas, porém, cientistas descobriram que até os bebês com poucas semanas sabem bem mais do que supúnhamos. Além disso, estudos têm mostrado um fato curioso:     crianças desvendam o mundo de um modo muito semelhante ao utilizado por cientistas, recorrendo a experimentos, análises estatísticas e formação de teorias intuitivas no âmbito físico, biológico e psicológico. No entanto, há pouco mais de uma década pesquisadores começaram a   compreender os mecanismos computacionais, evolutivos e neurológicos subjacentes que escoram   notáveis aptidões precoces. Essas descobertas revolucionárias não apenas mudam nossos conceitos sobre bebês, mas também apresentam novas perspectivas sobre a natureza humana.

Por que nos enganamos tanto, e durante tanto tempo, sobre os bebês? De fato, se observarmos crianças de 4 anos ou menos, poderemos concluir que não há grande atividade intelectual. Afinal, bebês não sabem falar. E até as crianças em idade pré-escolar não têm muita destreza para relatar o que pensam. Faça uma pergunta vaga a uma criança de 3 anos e provavelmente receberá como resposta um lindo – mas incompreensível – monólogo, com palavras fluindo livremente, nem sempre com a coerência valorizada pelos adultos. Até precursores do estudo do funcionamento da mente infantil, como o psicólogo suíço Jean Piaget, concluíram que o pensamento dos pequenos era egocêntrico, “pré – causal” (sem noção de causa e efeito), irracional e ilógico.

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FÍSICA PARA OS PEQUENOS

Abordagens científicas iniciadas no final da década de 70 dependem de técnicas que focalizam o que bebês e crianças pequenas fazem – e não o que falam. Bebês se detêm mais demoradamente em situações novas e inesperadas que naquelas previsíveis – e os pesquisadores podem utilizar esse comportamento para tentar descobrir o que os pequenos esperam acontecer.  Entretanto, os resultados mais contundentes vêm de estudos que também consideram as ações: que objetos os bebês tentam agarrar ou alcançar engatinhando? Como imitam as ações de crianças mais velhas e de adultos?

Embora os muito jovens tenham grande dificuldade para nos dizer o que pensam, podemos utilizar a linguagem com mais sutileza para induzi-las a revelar o que sabem. O pesquisador Henry Wellman, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, por exemplo, analisou gravações de conversas infantis espontâneas para obter pistas sobre como os pequeninos pensam. Podemos lhes fazer uma pergunta muito direta, pedindo que escolham entre apenas duas alternativas, em vez de outra mais vaga e aberta.

Em meados dos anos 80 e até a década seguinte, os cientistas que aplicaram essa técnica descobriram que os bebês já sabem muita coisa a respeito do mundo que os cerca. E esse conhecimento vai muito além do concreto, das sensações de aqui e agora. Pesquisadores como as doutoras em psicologia Renée Baillargeon, da Universidade de Illinois, e Elizabeth S. Spelke, da Universidade Harvard, constataram que bebês entendem relações físicas elementares, como trajetórias de movimento, gravidade e contenção. Olham mais pausadamente para um carrinho que parece atravessar uma parede sólida que para situações que se encaixam em princípios fundamentais da física cotidiana.

Ao atingirem 3 ou 4 anos, as crianças têm ideias básicas sobre biologia e uma compreensão inicial de crescimento, herança genética e processos de adoecimento. Isso revela que elas vão além das aparências perceptivas superficiais quando pensam sobre objetos ou fenômenos. A doutora em psicologia com especialização em linguística Susan A. Gelman, também de Michigan, descobriu que elas acreditam que animais e plantas têm uma “essência” – algo invisível que permanece imutável, mesmo quando os aspectos externos mudam. Para bebês e crianças pequenas, o conhecimento mais importante de todos é o de outras pessoas. O doutor em psicologia Andrew N. Meltzoff, codiretor do Instituto do Aprendizado e Ciências do Cérebro e pesquisador da Universidade de Washington, demonstrou que recém-nascidos já entendem que pessoas são especiais e imitarão suas expressões faciais.

A cientista Betty Repacholi e eu constatamos, em 1996, que bebês de 18 meses entendem que eu posso querer uma coisa, enquanto você quer outra. Durante o experimento, uma pesquisadora mostrava a dois grupos de crianças, um de 1 ano e 2 meses e outro de 1 ano e meio, uma tigela com brócolis e outra com biscoitos em forma de peixinhos, e depois experimentava um pouco dos dois, fazendo uma expressão de desagrado ou apreciação. Em seguida, ela entregava o recipiente aos bebês e, na sequência, estendia a mão e perguntava: “Vocês podem me dar um pouco?”. As crianças de 1 ano e meio lhe deram brócolis quando ela agiu como se gostasse, embora não o escolhessem para si mesmas. (As de 1 ano e 2 meses sempre lhe deram biscoitos). Conclusão: nem mesmo nessa tenra idade as crianças são completamente egocêntricas, pois têm a capacidade de assimilar a perspectiva de outra pessoa, ainda que de modo simplificado. Aos 4 anos, sua compreensão de psicologia cotidiana é ainda mais refinada. Conseguem explicar, por exemplo, se uma pessoa está agindo estranhamente porque acredita em algo que não é verdade.

No fim do século 20, os experimentos haviam mapeado um impressionante conhecimento abstrato e sofisticado sobre bebês, bem como uma igualmente admirável quantidade de informações à medida que as crianças cresciam. Alguns cientistas chegam a argumentar que os bebês parecem nascer cientes de muita coisa que os adultos sabem sobre objetos, pessoas e seus comportamentos. Sem dúvida, recém-nascidos estão longe de ser páginas em branco, mas as mudanças no conhecimento infantil sugerem também que os bebês aprendem sobre o mundo que os cerca por meio das próprias experiências.

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EXPERTS EM ESTATÍSTICA

Um dos maiores mistérios da psicologia e da filosofia é como os seres humanos desvendam o mundo com base em um desnorteante emaranhado de dados sensoriais. No decorrer da última década, pesquisadores começaram a entender muito mais como bebês e crianças pequenas são capazes de aprender com tanta rapidez e perspicácia. Em particular, descobrimos que têm uma extraordinária habilidade de assimilação de padrões estatísticos.

Os pesquisadores Jenny R. Saffran, Richard N. Aslin e Elissa L. Newport, todos então da Universidade de Rochester, demonstraram essa capacidade pela primeira vez em estudos sobre os padrões de sons da linguagem. Eles tocaram sequências silábicas com regularidades estatísticas para alguns bebês de 8 meses. Por exemplo, “bi” podia seguir a sílaba “ro” apenas 30% das vezes, enquanto “da” sempre ocorria na sequência de “bi”. Em seguida, tocaram novas séries de sons que podiam ou não seguir esse padrão. Os bebês prestaram atenção mais demoradamente às sequências estatisticamente incomuns. Estudos mais recentes mostram que bebês conseguem detectar padrões estatísticos de tons musicais e cenas visuais, bem como padrões gramaticais mais abstratos.

São até capazes de compreender a relação entre uma amostra estatística e população. Em um estudo de 2008, minha colega Fei Xu, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mostrou a bebês de 8 meses uma caixa cheia de bolas de pingue-pongue misturadas: por exemplo, 80% brancas e 20% vermelhas. A pesquisadora então tirava cinco bolas de modo aparentemente aleatório. Os bebês ficaram mais surpresos (ou seja, observaram a cena mais demorada e intensamente) quando ela tirava da caixa quatro bolas vermelhas e uma branca – resultado improvável – do que quando ela extraia quatro brancas e uma vermelha.

Detectar padrões estatísticos é apenas o primeiro passo na descoberta científica. Mais impressionante ainda é que, assim como cientistas, as crianças usam esses dados para tirar conclusões sobre o mundo. Em uma variante do estudo com bolas de pingue-pongue, envolvendo bebês de 1 ano e 8 meses, foram utilizados sapos verdes e patos amarelos. A pesquisadora tirava cinco brinquedos da caixa e em seguida pedia a uma das crianças que lhe desse um bichinho igual aos que estavam sobre a mesa. Os pequenos voluntários se envolveram plenamente na brincadeira e não demonstraram espontaneamente nenhuma preferência de cor quando a experimentadora retirava mais sapos verdes da caixa de brinquedos onde a maioria era verde. Mas lhe davam especificamente um pato amarelo quando ela retirava mais patos da caixa. As crianças concluíram que sua seleção estatisticamente improvável significava que ela não agia de forma aleatória, mas simplesmente devia preferir patos.

Em meu laboratório temos investigado como crianças pequenas utilizam evidências estatísticas e experimentações para descobrir causas e efeitos e concluímos que sua maneira de pensar está longe de ser “pré ­ causal”. Nós lhes mostramos um aparelho que chamamos de detector blicket, uma máquina que acende uma luz e toca música quando você deposita certas coisas nela, mas não outras. Com ela, podemos fornecer às crianças padrões de evidências sobre o detector e observar suas conclusões causais. Quais são os objetos do blicket?

Em um trabalho com a mestre em estatística e doutora em psicologia cognitiva Tamar Kushnir, diretora do Laboratório de Cognição na Primeira Infância da Universidade Cornell, descobrimos que crianças em idade pré-escolar sabiam aplicar probabilidades para aprender como a máquina   funciona. Colocamos várias vezes um de dois blocos sobre o aparelho, e a luz acendia duas em cada três vezes para o cubo amarelo, mas apenas duas em cada seis vezes para o azul. Então demos os blocos às crianças e pedimos que “acendessem a máquina”. Embora ainda incapazes de somar ou subtrair, elas provavelmente colocariam o cubo amarelo, de maior probabilidade, em cima da máquina.

E realmente escolheram de forma correta quando balançamos o bloco de alta probabilidade   sobre o equipamento, ativando-o, mas sem tocá-lo. Embora pensassem que esse tipo de “ação a distância” fosse improvável no início do experimento (nós perguntamos sobre isso), meninos e meninas sabiam como empregar a probabilidade para descobrir fatos inéditos e surpreendentes a respeito do mundo.

Em outro experimento, a doutora em ciência cognitiva Laura Schulz e eu mostramos a crianças de 4 anos um brinquedo com um interruptor e duas engrenagens em cima – uma azul e outra vermelha. As engrenagens giram quando você aciona o interruptor. Esse brinquedo simples pode funcionar de várias maneiras. Talvez o interruptor faça as duas engrenagens se moverem simultaneamente, ou talvez o interruptor acione a engrenagem azul, que aciona a vermelha, e assim por diante. Mostramos às crianças fotos ilustrando cada uma das possibilidades – a engrenagem vermelha empurraria a azul, por exemplo. Depois, mostramos brinquedos que funcionavam de um ou outro desses jeitos e lhes fornecemos evidências bastante complexas sobre o funcionamento de cada um deles. Por exemplo, as crianças que receberam o “brinquedo causal sequencial” percebiam que, se você removesse a engrenagem azul e acionasse o interruptor, a engrenagem vermelha continuava se movendo; mas, se a engrenagem vermelha fosse tirada e o interruptor acionado, nada acontecia. Pedimos às crianças que escolhessem a imagem que ilustrava o funcionamento do brinquedo. As de 4 anos foram as que se saíram surpreendentemente bem ao determinar como o brinquedo funcionava, com base no padrão de evidências que lhes foi apresentado. Além disso, quando outras crianças foram deixadas a sós com o aparelho, elas brincaram com as engrenagens de um modo que as ajudasse a aprender como ele funcionava – como se estivessem   experimentando.

Outro estudo de Laura Schulz envolveu um brinquedo com duas alavancas que faziam aparecer um pato e um fantoche. A um grupo de pré-escolares foi mostrado que o pato surgia quando se pressionava uma alavanca, e o fantoche, ao apertar a outra. O segundo grupo viu que, ao acionar as duas alavancas simultaneamente, os dois brinquedos despontavam, mas as crianças desse grupo nunca tiveram uma chance de ver o que as alavancas faziam separadamente. Em seguida, a pesquisadora fez com que as crianças brincassem com a engenhoca. As do primeiro grupo se entretiveram muito menos que as do segundo. Já sabiam como ela funcionava e estavam menos interessadas em investigá-la. A segunda turma deparou com um mistério, brincou espontaneamente com o aparelho e logo descobriu qual alavanca fazia o quê.

Esses estudos sugerem que, quando crianças brincam voluntariamente, deixando-se envolver livremente, exploram também causas e efeitos e fazem experimentos – o modo mais eficaz de descobrir como funciona o mundo.

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“VAMOS DESCOBRIR…”

Obviamente, crianças não fazem experiências nem analisam estatísticas do modo intencional e consciente como cientistas adultos. Entretanto, o cérebro infantil deve estar processando informações inconscientemente de uma maneira que se iguala aos métodos de descobertas científicas. Embora depois da descoberta da plasticidade neural a ideia de que o cérebro funcione como uma máquina tenha se tornado controversa – e, sob muitos aspectos, simplista -, podemos tomar aqui, com ressalvas, a liberdade de compará-lo a um tipo de computador desenvolvido pela evolução e programado por experiência. Cientistas de computação e filósofos começaram a aplicar   ideias matemáticas sobre probabilidade para compreender as potentes habilidades de aprendizagem de cientistas – e crianças. Uma nova abordagem para desenvolver programas de computador para aprendizado mecanizado utiliza os chamados modelos probabilísticos, conhecidos também como modelos bayesianos ou redes de Bayes. O programa pode solucionar complexos problemas de expressões genéticas ou ajudar a entender mudanças climáticas. Essa abordagem também levou a novos conceitos sobre como os computadores cerebrais infantis poderiam funcionar.

Os modelos probabilísticos combinam duas ideias básicas. Primeiro, aplicam a matemática para descrever as possíveis explicações que as crianças têm para coisas, pessoas ou palavras. Por exemplo, podem os representar o conhecimento causal de uma criança como um mapa das relações causais entre acontecimentos. Para reproduzir essa hipótese, uma seta poderia apontar, por exemplo, “pressione a alavanca azul” para “pato aparece”.

Segundo, os programas sistematicamente vinculam as hipóteses à probabilidade de diferentes padrões de acontecimentos – como os modelos que emergem de experimentos e análises estatísticas na ciência. Suposições que se adequam melhor aos dados tornam-se mais prováveis. Tenho argumentado que o cérebro infantil também poderia relacionar hipóteses sobre o mundo a padrões de probabilidade. Crianças raciocinam de maneira complexa e sutil, que não pode ser explicada através de simples regras ou associações.

Em pesquisa recente, meu grupo constatou que crianças pequenas que pensam estar sendo instruídas modificam suas análises estatísticas e, consequentemente, podem tornar-se menos criativas. Nesse caso, a experimentadora mostrou a meninos e meninas de 4 anos um brinquedo que tocava música se elas executassem a sequência correta de ações nele, como puxar uma alça e depois apertar uma lâmpada. A pesquisadora disse a algumas das crianças “não sei como esse brinquedo funciona – vamos descobrir”. E começou a experimentar diante delas várias ações sequenciais mais longas, algumas das quais terminavam com a sequência curta e produziam música, outras não. Ao pedir às crianças que fizessem o brinquedo funcionar, muitas delas tentaram a série curta e correta, omitindo, de forma astuta, movimentos que provavelmente eram supérfluos com base nas estatísticas do que haviam observado.

A outro grupo de crianças, a experimentadora disse que ensinaria como o brinquedo funcionava ao lhes mostrar as sequências que produziam música e as que não o faziam, e ela manuseou o equipamento de acordo com isso. Ao serem solicitadas a fazer o brinquedo funcionar, essas crianças nunca tentaram um atalho de ações. Em vez disso, elas imitaram exatamente toda a sequência de movimentos mostrada. Essas crianças estavam ignorando as estatísticas do que viram? Talvez não. O comportamento delas é precisamente descrito por um modelo bayesiano, em que se espera que o “professor” escolha as sequências mais instrutivas. Em outras palavras: se ela soubesse que séries mais curtas de ações funcionavam, não lhes teria mostrado os movimentos desnecessários.

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PROJETADOS PARA APRENDER

Se o cérebro é um computador projetado pela evolução, também podemos perguntar quais são as   justificativas evolucionárias e a base neurológica para as extraordinárias aptidões de aprendizagem que observamos em crianças muito jovens. O pensamento biológico recente está plenamente de acordo com o que constatamos no laboratório de psicologia.

Da perspectiva evolucionária, uma das coisas mais admiráveis sobre os seres humanos é nosso longo período de imaturidade. Nós temos uma infância muito mais prolongada que qualquer outra espécie. Por que fazer com que os bebês sejam tão indefesos, durante tanto tempo e, assim, exigir que os adultos empenhem tanto trabalho e dedicação para mantê-los vivos?  No reino animal, a inteligência e a flexibilidade dos adultos estão correlacionadas com a imaturidade dos filhotes.  Espécies “precociais”, como galinhas, dependem de capacidades inatas, altamente especificas, adaptadas a um nicho ambiental em particular e, por isso, amadurecem rapidamente. Já as   “altriciais” (cujas proles necessitam de cuidados e alimentação pelos pais) dependem do aprendizado.  As gralhas são capazes de catar um objeto novo, como um pedaço de arame, e   descobrir como transformá-lo em uma ferramenta, mas seus filhotes dependem de seus pais muito mais tempo que os pintinhos.

Uma estratégia de aprendizado tem muitas vantagens, mas até que este se concretize a criaturinha está indefesa. A evolução soluciona esse problema com uma divisão de trabalho entre bebês e adultos. Os bebês desfrutam um período protegido para aprender sobre seu meio ambiente, sem de fato precisarem fazer nada. Ao crescerem, eles podem aplicar seu conhecimento e descobrir o que é melhor para sobreviver e se reproduzir – e cuidar da próxima geração. Os bebês são projetados para aprender.

Neurocientistas começaram a entender alguns mecanismos cerebrais que permitem todo esse aprendizado. O cérebro de bebês é mais flexível que o de adultos, tem muito mais conexões entre os neurônios, embora nenhuma delas seja particularmente eficiente, mas com o passar do tempo os conectores inutilizados são desbastados e os úteis se tornam mais fortes. O cérebro de bebês tem também um nível elevado daquelas substâncias químicas que mudam facilmente as conexões.

A região cerebral chamada córtex pré-frontal é distintamente humana e leva um tempo longo para amadurecer. As capacidades de concentração, planejamento e ações eficientes dos adultos são governadas por essa área e dependem do longo aprendizado que ocorre na infância. Os circuitos dessa área podem não estar plenamente desenvolvidos até os 20 e poucos anos.

A falta de controle pré-frontal em crianças pequenas parece ser um enorme obstáculo, mas na realidade pode ser tremendamente útil para o aprendizado. A região pré-frontal inibe   pensamentos ou ações irrelevantes, mas o fato de serem desinibidos pode ajudar bebês e crianças pequenas a explorar o mundo livremente. Existe uma permuta entre a aptidão para explorar criativamente e aprender com flexibilidade, como uma criança, e a capacidade de planejar e agir com eficiência, como um adulto. Mas precisamente essas qualidades necessárias para agir com competência – como um rápido processamento automático e um circuito cerebral refinado e coerente – podem ser intrinsecamente antitéticas às propriedades úteis ao aprendizado, como a flexibilidade.

Uma nova imagem de infância e natureza humana emerge das pesquisas da última década. Longe de serem meros adultos inacabados, os bebês e as crianças pequenas são primorosamente projetados pela evolução para mudar e criar, aprender e explorar. Essas aptidões, tão inerentes ao significado de ser humano, aparecem em suas formas mais puras nos mais tenros anos de nossa vida. Nossas realizações mais valiosas são possíveis porque já fomos crianças dependentes e indefesas, e não apesar disso. Infância e dedicação são fundamentais para nossa qualidade de seres humanos.

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O SALTO COGNITIVO E A TEORIA DA MENTE

Do ponto de vista neurológico, nossos cérebros estão equipados para nos permitir pensar sobre nós mesmos e a respeito dos outros – e assim criar formulações, prever intenções e, consequentemente, comportamentos das pessoas. Essa capacidade nos permite a interação social ao fazer parte de grupos, aprender e cooperar. As primeiras hipóteses sobre essa capacidade – denominada teoria da mente – surgiram há quase meio século, quando foi constatado que, por volta dos 4 anos, as crianças experienciavam uma espécie de “salto cognitivo” bastante significativo. A forma padrão para testar a teoria da mente de uma criança é narrar uma história usando fantoches, apresentando a ela cenas que permitem, ao término, questioná-la sobre o que o boneco pensaria em determinada situação. Por volta dos 4 anos, os pequenos costumam dizer, com confiança, o que o personagem gostaria que ocorresse ou que tem intenção de fazer, percebendo nuances da realidade. Por exemplo: se um fantoche está enganado sobre algo, a criança consegue saber o que ele pensa, qual é seu engano e o que de fato aconteceu sem que ele tenha percebido.

Por si só, esse “ir e vir” mental já indica uma sofisticação psíquica bastante grande em crianças pequenas. Há poucos anos, porém, foi publicado na Science um estudo mostrando que a teoria da mente já podia ser observada em bebês a partir de 15 meses. Embora não pudessem responder, eles acompanhavam a história dos bonecos e detinham o olhar em cenas que os surpreendiam. Quando um dos personagens procurava um brinquedo em um lugar onde não deveria esperar encontrá-lo, os meninos se detinham por mais tempo no movimento, parecendo entender que as pessoas podem ter crenças falsas ou simplesmente se equivocar. Curiosamente, o estudo foi repetido em 2010 com crianças de 7 meses e os resultados obtidos foram muito semelhantes.

A cientista cognitiva Rebecca Saxe, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), salienta que atualmente já não é descartada a possibilidade de que desde muito cedo tenhamos uma forma básica, ou implícita, de teoria da mente que, por volta dos 4 anos, se torna mais refinada. Essa, aliás, não seria a única habilidade que passa por um processo de “aprofundamento”. É o que acontece, por exemplo, em relação aos números. Muito antes de ser possível contar, as crianças têm capacidade de distinguir entre muito e pouco, mais e menos, embora não saibam fazer as quatro operações básicas. Nossa capacidade de tomar decisões também pode desenvolver duas etapas. Há fortes indícios de que temos um sistema automático e intuitivo para a tomada de decisões e um segundo, mais lento e detalhista, que se manifesta desde muito cedo. O cientista cognitivo lan Apperly, pesquisador da Universidade de Birmingham, Reino Unido, encontrou evidências de que crianças têm um sistema implícito mais rápido que os adultos. “Pode haver dois tipos de processos, de um lado para a velocidade e eficiência, e de outro para a flexibilidade”, escreveu em um artigo publicado pelo periódico Psychological Review.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

POR QUE MULHERES VIVEM MAIS?

Quando se trata de tempo, só o estresse ou mesmo a capacidade intelectual não explicam a diferença entre os sexos. Ao longo da evolução, o papel do corpo era crescer e se reproduzir, mas não valia a pena durar muito, pois o risco de uma morte acidental era grande. E, outras palavras, genes são imortais, mas o corpo é descartável. E o masculino, mais ainda.

por que mulheres vivem mais

Se ainda há alguém que acredita que as mulheres são o sexo mais frágil, já passou da hora de reconsiderar essa ideia. De levarmos em conta a prova mais fundamental de força – o poder de permanecer vivo-, as mulheres são mais resistentes que os homens do nascimento até a idade avançada extrema. O homem médio talvez conclua uma corrida de 100 metros com mais rapidez que a mulher mediana e levante volumes mais pesados. Mas atualmente elas sobrevivem a eles por cerca de cinco a seis anos. Aos 85 anos existem aproximadamente seis mulheres para cada quatro homens. Aos 100, a proporção é de mais de duas para um. E, aos 122 anos, o atual recorde de longevidade humana, a pontuação é de um a zero a favor das mulheres. Então, por que elas vivem mais? Há algumas décadas podia ser considerada a hipótese de que eles têm morte prematura por conta de todas as dificuldades e estresses de suas vidas de trabalho. Mas a realidade se encarrega de colocar a tese por terra – afinal, se fosse assim, nesses dias de maior igualdade entre gêneros, seria de se esperar que a lacuna de mortalidade desaparecesse ou pelo menos diminuísse. No entanto, há pouca evidência de que isso esteja acontecendo. Hoje, as mulheres ainda sobrevivem aos homens por mais ou menos o mesmo tempo que suas mães que não trabalhavam fora de casa sobreviviam aos seus pais. Além disso, quem realmente acredita que as vidas de trabalho dos homens naquela época eram tão mais prejudiciais à saúde que as rotinas domésticas de mulheres? Considere por um momento os estresses e tensões que sempre existiram nos papéis tradicionais femininos. De fato, estatisticamente falando, representantes do sexo masculino lucram muito mais com o casamento que suas mulheres: homens casados tendem a viver muitos anos a mais que os solteiros; enquanto mulheres casadas só vivem um pouco além das solteiras. Então quem, de fato, teria uma vida menos estressante?

Pode ser que as mulheres sejam longevas porque desenvolvam hábitos mais saudáveis que os homens ao, por exemplo, fumarem e beberem menos e escolherem uma dieta melhor. Mas aí, de novo, é preciso se confrontar com os dados da realidade. O número de fumantes femininas está crescendo, e muitas mulheres bebem e consomem alimentos que não são saudáveis. De qualquer modo, se elas são tão saudáveis, por que tantas passam mais anos da velhice com mais problemas de saúde que homens, apesar de sua maior longevidade? O argumento do estilo de vida, portanto, também não responde à pergunta.

A gerontologia aborda essa questão de uma perspectiva biológica mais abrangente ao analisar também outros animais. Foi constatado, por exemplo, que as fêmeas da maioria das espécies vivem mais que os machos, o que sugere que a explicação para a diferença entre humanos talvez tenha suas raízes no fundo de nossa biologia.

Muitos cientistas acreditam que o processo de envelhecimento resulta do acúmulo gradual de um enorme número de pequenas falhas individuais, um dano a um filamento de DNA aqui, uma molécula de proteína desregulada ali, e assim por diante. Essa somatória degenerativa significa que a extensão de nossas vidas é regulada pelo equilíbrio entre a rapidez com que novos danos atingem nossas células e com que eficiência esses problemas são corrigidos. Os mecanismos do corpo para manter e reparar nossas células são maravilhosamente eficazes, razão pela qual vivemos tanto tempo; mas esses mecanismos não são perfeitos. Alguns danos escapam sem serem consertados e se acumulam à medida que os dias, meses e anos passam. Envelhecemos porque nossos corpos ficam cometendo erros.

Podemos, no entanto, nos perguntar por que nossos corpos não se consertam com mais eficiência. De fato, provavelmente poderíamos reparar danos melhor do que já fazemos. Pelo menos em teoria, poderíamos fazer isso suficientemente bem para viver para sempre. A razão por que não o fazemos, penso eu, é porque teria custado mais energia do que valia a pena quando o nosso processo de envelhecimento evoluiu, na época em que nossos ancestrais, caçadores e coletores enfrentavam uma luta constante contra a fome. Sob a óptica da seleção natural para aproveitar da melhor maneira os escassos suprimentos de energia do organismo, nossa espécie deu maior prioridade ao crescimento e à reprodução que a viver para sempre. Nossos genes trataram o corpo como um veículo de curto prazo que devia ser suficientemente bem mantido para crescer e se reproduzir, mas que não valia a pena um investimento maior em termos de durabilidade quando o risco de sucumbir a uma morte acidental era tão grande. Em outras palavras, genes são imortais, mas o corpo, aquilo que os gregos chamavam soma, é descartável.

HOMENS PARA JOGAR FORA

Pelo menos foi essa a ideia que propus no final da década de 70. Desde então, as evidências para sustentar essa teoria do soma descartável cresceram significativamente. Em meu laboratório, mostramos, há alguns anos, que animais mais longevos têm sistemas de manutenção e reparação melhores que animais de vida mais abreviada. Os animais que vivem mais tempo também são os mais inteligentes, os maiores, ou os que, como pássaros e morcegos, evoluíram e sofreram adaptações (como as das asas) para tornar suas vidas mais seguras. Se você pode evitar os riscos do meio ambiente por um período um pouco mais longo ao sair voando de um perigo, ou sendo mais esperto ou maior, então o corpo, correspondentemente, se torna um pouco menos descartável – e compensa gastar mais energia em reparos.

Seria possível que as mulheres sejam mais longevas porque são menos descartáveis que os homens? Apesar de polêmica, essa noção faz excelente sentido biológico. Em humanos, como na maior parte das espécies animais, o estado do corpo feminino é muito importante para o sucesso da reprodução. O feto precisa se desenvolver dentro do útero materno, e o bebê tem de mamar em seu peito. Portanto, se o organismo do animal fêmeo está excessivamente enfraquecido por danos, existe uma ameaça real às suas possibilidades de produzir descendentes saudáveis. Já o papel reprodutivo masculino é menos dependente de sua contínua boa saúde, pelo menos de forma direta.

É demasiado radical afirmar que, no que diz respeito à biologia, tudo o que importa é que os machos atraiam uma fêmea para acasalar, podendo morrer depois disso. Um estudo de crianças na Tanzânia, por exemplo, mostrou que os pequenos que perderam um pai antes dos 15 anos tendiam a ser um pouco mais baixos que seus colegas, e a altura é um referencial razoavelmente bom para a saúde.

Mas crianças que perderam a mãe se saíram pior ainda: elas eram mais baixas, mais pobres e não viveram tanto quanto os órfãos sem pais. De um ponto de vista evolutivo, no entanto, os impulsionadores do sucesso de acasalamento para homens em geral não são os estímulos de longevidade. De fato, elevados níveis de testosterona, que aumentam a fertilidade masculina, são bastante ruins para a sobrevivência de longo prazo.

Mulheres ainda estão lutando para conquistar a igualdade em muitas esferas da vida, mas ser menos descartável é uma facilidade que oferece alguma compensação. Há evidências em estudos de roedores de que as células em um corpo feminino fazem reparos melhores de danos que as dos corpos de machos e que a remoção cirúrgica dos ovários elimina essa diferença. Como muitos proprietários de cães e gatos podem atestar, animais machos castrados muitas vezes vivem mais que seus congêneres intactos. De fato, as evidências apoiam a noção de que a castração de um macho pode ser caminho para uma vida mais longa.

O mesmo poderia ser válido para humanos? No passado, eunucos eram membros da elite em muitas sociedades. Na China, meninos eram castrados para que pudessem servir ao imperador sem o risco de engravidar as concubinas. Na Europa, essas práticas extremas foram utilizadas para manter a sublime qualidade de canto de garotos à medida que eles transitavam para a adolescência.

O registro histórico não é suficientemente bom para determinar se eunucos tendem a viver mais que homens saudáveis que não sofreram a intervenção tão agressiva, mas alguns lamentáveis registros sugerem que sim. Há alguns anos, a castração de homens em instituições para os mentalmente perturbados era surpreendentemente comum. Em um estudo de várias centenas de homens em uma instituição não identificada por nome no Kansas, foi constatado que os homens castrados viviam, em média, 14 anos mais que seus iguais não castrados. Ainda assim, duvido que muitos homens, inclusive eu, escolheríamos um remédio tão drástico para ganhar alguns anos extras de vida.

MENOS INTELIGÊNCIA, MENOS TEMPO

Recentemente, especialistas de áreas que nem sempre estiveram próximas têm se unido em busca de pistas que possam prever quais aspectos de fato influenciam o bem-estar e as doenças que antecipam (ou retardam) a morte. É o caso dos doutores em psicologia Alexander Weiss e lan J. Deary e do especialista em epidemiologia David Batty. Os pesquisadores utilizam séries históricas de estudos em saúde, que abrangem várias décadas. Nesses projetos, centenas, milhares ou às vezes até 1 milhão de pessoas são sistematicamente avaliadas e acompanhadas ao longo de vários anos. Analisando cuidadosamente esses dados, eles e outros pesquisadores descobriram uma nova forma de prever a longevidade das pessoas: os escores obtidos em testes de inteligência quando jovens.

“Os resultados são inequívocos, embora poucos profissionais da saúde os conheçam: quanto mais baixo o nível de inteligência de uma pessoa, maior o risco de ela ter uma vida mais curta, desenvolver doenças físicas e mentais com o passar dos anos e morrer de patologias cardiovasculares, suicídio ou acidente”, afirma Deary. Obviamente não é possível fazer generalizações, mas é surpreendente que baixo nível de inteligência ofereça prognóstico tão forte de fatores de risco bem conhecidos para doenças e morte, como obesidade e hipertensão. Mas simplesmente ter boa capacidade intelectual não basta para garantir a longevidade: é preciso agir e decidir como pessoas inteligentes. E, muitas vezes, funcionamentos psíquicos e aspectos emocionais não permitem que as pessoas usem o potencial que têm a seu próprio favor.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS BEBÊS TÊM A DIZER?

Mesmo sem se expressar verbalmente, crianças com pouco tempo de vida podem se beneficiar de trabalhos psicológicos ou psicanalíticos; voltados para as relações primordiais entre pais e filhos, profissionais procuram identificar quanto antes eventuais riscos psíquicos, o que tem propiciado intervenções cada vez mais precoces, levando em conta a capacidade dos pequenos.

o que os bebês têm a dizer

Parece desafiador falar em trabalho psíquico com aqueles que estão nas etapas iniciais do processo de subjetivação, já que ainda não falam e aparentemente não sabem tornar inteligíveis suas demandas. É certo que um mediador se faz necessário na relação do bebê com o mundo. Ainda assim, pesquisas e experiências clínicas têm mostrado que os bebês apresentam enorme potencial – até mesmo para responder a psicoterapias. Profissionais da saúde, em especial psicólogos e psicanalistas, têm se voltado cada vez mais à observação das etapas precoces do   desenvolvimento, com destaque para a saúde mãe-bebê, buscando formas adequadas de intervenção terapêutica.

Para tanto, é preciso pressupor que o recém-nascido tenha certa sensibilidade para perceber as demandas, tanto da pessoa que dele cuida como do meio, deixando-se inscrever nelas. As práticas de assistência oferecidas a crianças com poucos meses – sejam no campo da medicina, da psicologia ou da psicanálise – se estruturam justamente com base nessa suposição. Pelo viés do psiquismo, destacam-se três tipos de proposta de trabalho: observação de bebês, consultas psicanalíticas mãe-bebê e formação de profissionais de várias áreas para detectar sinais preditivos de risco psíquico. O acesso a tais possibilidades se dá mais facilmente em locais que recebem bebês e suas mães, como hospitais, consultórios pediátricos, de psicologia e de psicanálise, unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais, escolas de educação infantil, creches e organizações não governamentais (ONGs).

A prática de observação de bebês tem o objetivo de mapear seus sistemas cognitivo e afetivo e identificar desajustes em sua formação psíquica, bem como possíveis correlações que deem conta de explicar a causa. Os estudos sobre o psiquismo perinatal ou fetal, por exemplo, que contam hoje com instrumentos tecnológicos capazes de acompanhar o desenvolvimento intrauterino – caso dos equipamentos de ultrassonografia em três dimensões (3D) -, indicam um esboço da função cognitiva já a partir de 15 semanas de gestação, quando o córtex cerebral está bem formado. Com base em constatações como essas, procura-se intervir no ambiente do bebê para facilitar sua relação com o meio. Vários autores consagrados da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise dispõem de técnicas para essa prática.

As primeiras obras do pensador suíço Jean Piaget (1896 -1980) sobre o tema – O nascimento da inteligência na criança (1936) e A construção do real na criança (1937) – já marcavam o início do interesse do criador da epistemologia genética pela inteligência dos bebês. Ele buscou relacionar   a inteligência dos adultos com sua formação na tenra infância. “Piaget nos mostra um bebê sozinho, que consegue resolver problemas cada vez mais complexos, mas, paradoxalmente, não tem nenhuma representação mental, nem pensamento, antes da idade de 2 anos”, lembra a psicanalista francesa Marie-Claude Fourment-Aptekman, professora titular da Universidade Paris   13. Para o pensador, o bebê é egocêntrico (outra forma de dizer narcísico, auto erótico), e seu mundo, povoado por objetos físicos a serem ou não percebidos por ele.

Já para o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896 – 1971), um bebê sozinho não existe: ele precisa de outro humano para se constituir. Se chora, a mãe lhe oferece alimento. Se resmunga, recebe carinho. Quando percebe que o filho desenvolveu estratégias de apelo, a mãe, aos poucos, vai deixando de responder de imediato a ele, pois passa a acreditar na capacidade da criança de suportar sua ausência e se satisfazer, ainda que por pouco tempo, sozinha. “Para Winnicott, essa capacidade de enfrentar a falta progressiva da mãe já constituiria um esboço de pensamento”, lembra Marie-Claude. Embora o mundo físico esteja a seu dispor, a criança só existe do ponto de vista subjetivo a partir de um outro, caracterizado pela figura materna. A mãe precisará se mostrar progressivamente faltante para que o bebê possa desenvolver curiosidade sobre o mundo em geral.  Mas, se as faltas dela forem demasiadas ou insuficientemente progressivas, poderão levar a um “excesso de pensamento”, o que, para Winnicott, se traduz como ausência materna.

Segundo o psicanalista, “inteligência oculta certa privação”, uma vez que o pensamento do bebê seria um substituto materno. Ainda na visão de Marie-Claude, Winnicott indica a possibilidade de as funções de pensamento e de fantasia, abordadas por Freud, caminharem em paralelo. Segundo suas observações, alguns bebês têm aptidão precoce para a fala, chamada por ele de ação de pensar. Outros se especializam nas experiências sensoriais e perceptivas (visão, audição) e criam experiências alucinatórias. Essas duas expressões servem como substitutos da presença da mãe. O bebê recorre a esses recursos para se satisfazer, ao menos temporariamente.

AMBIENTE SEGURO

Winnicott já supunha que tudo o que o bebê registrava “fosse catalogado, categorizado e comparado”. Hoje, técnicas de habituação, provenientes da psicologia do desenvolvimento, comprovam que desde os 2 meses o bebê já é capaz de diferenciar as formas e as cores. “Um pouco mais tarde, também, se torna apto a classificar em duas categorias retratos de homens e de mulheres e consegue encontrar uma matriz idêntica em figuras complexas”, afirma a psicanalista francesa. E mais: logo após o nascimento, o bebê já diferencia fala de ruídos.

Quanto à teoria do apego, do psiquiatra inglês John Bowlby, esta não supõe fenômenos inconscientes na gênese do pensamento. Traz uma concepção desenvolvimentista em termos de segurança e autonomia; quanto maior o estado de segurança, mais disponibilidade a criança tem para descobrir o mundo – o que exige um afastamento gradual da figura materna, tendo em vista a autonomia do filho. Baseados nisso, autores da psicologia do desenvolvimento descrevem tipologias da dupla mãe-criança em função da qualidade do apego (seguro, evitante, ambivalente ou desorganizado) para compreensão de transtornos e psicopatologias infantis. Se há boa interação entre mãe e bebê, ou apego saudável, a criança adquire progressivamente a capacidade de adaptar-se a situações novas, estressoras ou adversas. Caso contrário, torna-se vulnerável às   adversidades da vida, sem condições de enfrentamento. Segundo Marie-Claude, essa teoria   comportamental encontra-se “longe da sobredeterminação freudiana que nos ensina a prudência, indicando-nos que a fragilidade psíquica nunca pode vir de uma única causa”. E acrescenta: ainda que os critérios comportamentais pudessem fornecer “boa preditividade dos sujeitos vulneráveis”, “não nos ajudam em nada a compreender por que, em percursos idênticos, alguns conseguem se livrar (da catástrofe) e outros não”.

Ao psicanalista cabe “escutar ” a relação mãe-bebê e traduzi-la como apelo – tanto a fala materna  e suas hesitações quanto a manifestação do bebê e seus sintomas -, tornando possível, dessa  forma, uma intervenção que se baseia na interpretação do discurso daquele adulto que ocupa a função materna.

POSIÇÃO ESTRATÉGICA

Contemporânea de Jacques Lacan (1901- 1981), com quem trabalhou, a psicanalista francesa   Françoise Deito (1908 – 1988) foi uma das pioneiras a propor um estudo preventivo em relação às psicopatologias infantis. Após um longo trabalho com crianças psicóticas e autistas, criou a Maison Vert, espécie de creche que os pais ou acompanhantes podiam frequentar, contando sempre com   um psicanalista de plantão para escutá-los e atendê-los.

Também psicanalista, a francesa Marie ­ Christine Laznik, da Universidade Paris 13, defende uma intervenção precoce na díade mãe-bebê quando detectados, por meio da observação e escuta do  discurso  materno, dois sinais que poderiam apontar para um risco de autismo: “Um não olhar da  mãe a seu bebê, sobretudo se esta não se dá conta disso, e a não instauração do terceiro tempo do circuito pulsional”. Acrescenta ela: “Intervir na relação do Outro [daquele que ocupa a função   materna) com a criança significa prevenção (..) a síndrome autística clássica é consequência de uma falha no estabelecimento dessa relação, nesse laço sem o qual nenhum sujeito pode advir”.

A psicanalista brasileira Raquel Degenszajn, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), aponta quanto é importante o médico acompanhar o processo de subjetivação da criança, em especial se as funções materna e paterna estão sendo exercidas, uma vez que o bebê produz respostas que podem ser verificadas pelos indicadores de desenvolvimento. O pediatra é quem está em posição estratégica, visto que oferece acompanhamento clínico periódico durante toda a infância, podendo levantar suspeitas diagnósticas, observar a persistência de alterações psíquicas e até encaminhar a criança no momento oportuno ao profissional especializado.

Tanto para os problemas orgânicos que necessitam de esclarecimento quanto para as  perturbações psíquicas (que podem se apresentar sob a forma de manifestações somáticas importantes), é desejável que o pediatra desenvolva instrumentos de leitura que o ajudem não  apenas na detecção dos problemas da criança, mas também na orientação à família e no encaminhamento de seus membros a especialistas, cujo êxito depende de um trabalho de base  sobre a implicação dos pais no sintoma do bebê.

Trabalhos como o de Raquel Degenszajn –  que englobam o ensino na área da saúde mental da criança para residentes do primeiro ano de pediatria comunitária no nível de atenção básica –  têm como meta a interlocução entre campos distintos, com o objetivo de articular a subjetividade da criança e da família aos problemas levados ao pediatra, utilizando como eixo a relação médico-paciente. É muito importante, assim, que as pesquisas relacionadas ao atendimento de bebês levem em conta a formação psíquica destes na interação com os adultos cuidadores (sejam eles os pais, sejam os profissionais da saúde e da educação), bem como a qualidade dessa interação. A interlocução entre as diversas áreas que acompanham o desenvolvimento subjetivo dos bebês é fundamental para a construção de uma prática clínica diversa da tradicional, mais condizente com a adoção de políticas públicas de prevenção e intervenção precoce em educação e saúde mental.

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QUANDO É HORA DE INTERVIR

O bebê pode se beneficiar de estimulação precoce e de atendimentos que envolvam pais e profissionais da saúde

A falta de autonomia do bebê faz com que ele tenha de “pedir” pela satisfação de suas necessidades. Daí o choro, que deve ser entendido pelos adultos que o cercam como um pedido de amparo, isto é, reconhecido como linguagem, como demanda dirigida a eles.

Uma vez que o bebê é posto nesse circuito da demanda, passa a visar a mãe em primeira  instância, em especial a forma como esta lhe responderá: uma sonda oral sacia a fome, mas não o satisfaz, pois ele precisa da presença materna, do olhar e da voz que acompanham a mamada no peito aconchegante. Cria-se uma demanda de amor a esse outro cuidador e uma dependência não apenas física, sobretudo de reconhecimento. A identificação, que nos humanos não é natural como            no reino animal.                                                                        

Toda satisfação o bebê encontra no outro e não no mundo. A mãe, ao responder à demanda do filho, o faz com seu desejo: o modo como interpreta o choro e responde a ele reflete o que ela sente pela criança e o sentido que esta tem em sua vida. Portanto, também ela demanda a seu filho respostas a suas expectativas. Inaugura-se o movimento lógico e fundamental que insere a criança no mundo da cultura.

As trocas afetivas e simbólicas entre mãe e filho, que retiram o foco do organismo a fim de transferi-lo para a relação, iniciam-se assim que o bebê nasce, nas mama­ das, nas trocas de fralda, nos banhos e nas atividades que a família dispensa a ele. Quando ocorre de um recém-nascido, prematuro ou não, precisar de uma UTI neonatal, submetendo-se às rotinas hospitalares, em que seu organismo é o principal foco de ação, é fundamental, do ponto de vista psíquico, que este não seja o único objeto de atenção. Esse bebê, submetido às medicações e aos procedimentos clínicos, deve ter assegurada a possibilidade de estabelecer o circuito da demanda com seus pais – primeiro passo para deixar de ser só um organismo e tornar-se um corpo desejado e futuramente desejante.

A psicologia intervém nos casos em que detecta, por meio de sinais na relação da criança com o ambiente e com os familiares, que o lugar do bebê no desejo dos pais e no estabelecimento do circuito da demanda está ameaçado. Qualquer que seja o motivo que o tenha levado à internação precoce, o psicólogo deve intervir na equipe, sobre os pais e familiares e sobre o bebê, visando sempre um ato ou uma fala, dos adultos que o cercam, capaz de dar a ele a possibilidade de iniciar sua constituição psíquica.

Ao profissional cabe se posicionar de forma a escutar o discurso familiar sobre a criança. Esse discurso que precede o nascimento dela é enunciado pelos pais e parentes. Ele deve interrogar sobre o lugar do bebê no desejo familiar, isto é, os efeitos que tal desejo tem sobre o corpo da criança. Se em geral não é tão claro para os pais como cuidarão do filho, em uma situação em que ele está fisicamente ameaçado é bem provável que haja de fato uma paralisação. Diante de si, só veem o horror e, nesse horror, o bebê. O que pode reverter tal situação é o desejo dos próprios pais de retirar a criança desse lugar, traçando um futuro para ela.

Com a equipe institucional, o trabalho do psicólogo deve ser de parceria e corresponsabilidade. A ele não cabe apenas se ocupar das urgências, como a agressividade ou a infelicidade de pais e familiares que por vezes perturbam a rotina médica. Mais que isso, deve discutir com estes, buscando intervenções comuns e complementares que visem a relação de cada criança com seus pais. Portanto, o bebê pode ser assistido pelo psicólogo de duas formas: indireta (via trabalho de escuta do discurso dos pais e da equipe sobre a criança) e direta (por meio de estimulação precoce). De uma maneira ou de outra, o profissional tem de assegurar à criança o modo particular e estrutural com que seu corpo figura no desejo dos pais e atentar para que as ações institucionais não recaiam apenas sobre seu organismo.

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REFLEXOS DO ESTADO DE HUMOR MATERNO

Alguns trabalhos sugerem que o psiquismo fetal já estaria ao menos esboçado no período uterino e que experiências ocorridas nessa época teriam efeitos emocionais profundos sobre o desenvolvimento infantil. Na década de 90, a pesquisadora e psicanalista italiana Alessandra Piontelli fez um estudo observacional do comportamento fetal e infantil, desde a concepção até os 4 anos de idade. Sua metodologia incluía o acompanhamento regular da gestante no pré-natal, eventualmente do parto, e posterior observação da criança em casa. A partir das ultrassonografias de 11 fetos, sugeriu que suas expressões faciais, motoras e sensoriais poderiam estar relacionadas com o estado de humor materno. Sua investigação não foi conclusiva, mas contribuiu para a evolução da psicologia pré e perinatal. Nas imagens acima, simulação realizada com imagens de ultrassom 3D, recurso tecnológico de última geração.

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FORMAS DO PENSAMENTO INFANTIL

Até os 2 anos de idade o aprendizado é feito pelos sentidos e pela área motora.

O pensador suíço Jean Piaget (1896-1980), um dos mais renomados teóricos do desenvolvimento cognitivo, investigou a lógica formal que rege a criança na resolução dos diferentes obstáculos com os quais ela se defronta ao longo da infância. Constatou que para cada idade há uma lógica de exploração e solução de problemas.

São padrões organizados de comportamentos característicos de cada faixa etária que se modificam segundo a relação que a criança mantém com o ambiente. Piaget nomeou quatro modos de ação no mundo: sensório-motor (do nascimento aos 2 anos), pré­ operatório (dos 2 aos 6), operatório concreto (dos 6 aos 12) e operatório formal (a partir dos 12). O esquema sensório-motor caracteriza-se pelo aprendizado resultante dos sentidos e da atividade motora. Esse primeiro estágio divide-se em seis subestágios.

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QUANTO MAIS CEDO MELHOR

A intervenção precoce pode diminuir ou mesmo eliminar o risco de distúrbios. Abaixo, alguns marcadores psíquicos importantes, dignos de observação pelos profissionais e cuidadores que acompanham o bebê desde o nascimento até os 6 meses:

  • A mãe é capaz de transformar as necessidades fisiológicas do bebê em demanda dirigida a ela, supondo um sujeito?
  • Ela consegue afastar-se do bebê, alternando presença e ausência?
  • A mãe é capaz de diferenciar tipos de choro de seu filho?
  • Ela espera a reação da criança depois de realizar uma ação? Há ligação entre os olhares dela e do bebê?
  • O bebê apresenta indícios de comunicação: olhar, sorriso social, balbucies, experiências orais não alimentares como chupar o dedo, por exemplo?
  • Ele faz movimento em direção aos objetos?
  • A mãe fala com o bebê de um jeito particular? E ele, responde com vocalizações?
  • O bebê tem alterações de sono e vigília, de alimentação ou distúrbios intestinais?

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ARTICULAÇÕES FLEXÍVEIS X TRANSTORNOS DE ANSIEDADE

Pesquisadores da Universidade de Sussex, na Inglaterra, descobriram que pessoas com hipermobilidade articular tinham a amígdala aumentada. Essa estrutura é fundamental no processamento das emoções, principalmente o medo.

articulações flexíveis x transtornos de ansiedade

A elasticidade das articulações é geralmente associada ao bom condicionamento físico. Para dançarinos profissionais e atletas de algumas modalidades, ela é essencial. Cobiçada por muitos, porém, a flexibilidade nem sempre é positiva, afirma um crescente corpo de pesquisa que descobriu uma ligação surpreendente entre altos níveis de elasticidade e ansiedade. Um dos estudos mais recentes que reforçam esses dados foi publicado na Frontiers in Psychology, o qual relaciona articulações hipermóveis a maior atividade cerebral em regiões associadas com essa dificuldade emocional.

Característica de 20% da população, a hipermobilidade articular confere amplitude de movimento incomum. Muitos com essa peculiaridade podem, por exemplo, colocar facilmente as mãos espalmadas no chão sem dobrar os joelhos. A característica parece ser genética, resultante de variação no colágeno, a principal proteína estrutural do tecido conjuntivo.

“A hipermobilidade articular pode causar impacto sobre todo o corpo, e não apenas nas conexões entre os ossos”, diz a psiquiatra Jessica Eccles, da Universidade de Sussex, na Inglaterra. Em um estudo com imagens cerebrais de 2012, Jessica e seus colegas descobriram que indivíduos com hipermobilidade articular tinham a amígdala aumentada. Essa estrutura tem papel fundamental no processamento das emoções, principalmente o medo. Na pesquisa publicada mais recentemente na Frontiers in Psychology, de Jessica e sua equipe, em colaboração com pesquisadores da Espanha, os participantes com essa característica exibiram reatividade neural elevada em regiões envolvidas com a ansiedade quando expostos a cenas que evocavam tristeza ou raiva. Os cientistas observaram também associação entre a condição e o aumento do consumo de chocolate, tabaco e álcool – produtos frequentemente utilizados como automedicamentos para tentar amenizar a inquietação. A hipermobilidade articular pode estar associada também com uma exacerbação do mecanismo de “luta ou fuga”. Jessica e seus colegas encontraram mais evidências dessa hipótese num estudo com 400 pacientes psiquiátricos. Eles descobriram um mecanismo simples, mas poderoso por trás dessa relação: alterações no colágeno que deixam as articulações muito flexíveis parecem afetar os vasos sanguíneos, o que pode aumentar a probabilidade de acúmulo de sangue nas veias das pernas. Isso tende a favorecer respostas cardiovasculares exageradas para manter a saída do sangue do coração. Quando esse órgão precisa trabalhar muito mais fortemente apenas para preservar a circulação sanguínea, pode deixar o corpo à beira de uma reação de luta ou fuga, aproximando-o do pânico.

Jéssica acredita que esses pacientes podem se beneficiar, principalmente, dos betabloqueadores, medicamentos que ajudam a aliviar a ansiedade, reduzindo os sintomas da reação de luta ou fuga do organismo. Ela espera que estudos futuros investiguem esses tratamentos específicos para pessoas com articulações mais flexíveis.