OUTROS OLHARES

A BATALHA DAS MAQUININHAS

A guerra no segmento de pagamentos se acirra, gerando inovação e oportunidades profissionais.

A batalha das maquininhas

Do taxista ao pipoqueiro, da manicure ao flanelinha, é raro encontrar um prestador de serviço ou comerciante que não dê ao cliente o conforto de pagar no débito ou no crédito. As máquinas de pagamento se espalharam pelo país.

O movimento começou em 2010, quando a legislação decretou o fim da exclusividade entre bandeiras e credenciadoras de cartão, donas dos aparelhos. Antes, cartão Visa só rodava na Cielo e Mastercard só na Rede. Isso obrigava o vendedor a alugar mais de uma máquina, pagando taxas mensais nada convidativas. Como se não bastasse, o estabelecimento ainda precisava comprovar uma renda mínima, entre outros pré-requisitos. Resultado: autônomos ou quem tivesse um pequeno comércio raramente ofereciam essa vantagem ao consumidor. Mas o jogo virou. E o que se viu, de lá para cá, foi uma guerra comercial para ganhar espaço nesse mercado. As armas? Isenções, barateamento de taxas e propaganda no horário nobre. Em 2018, no ápice da batalha, apelou-se até para Michel Teló e Wesley Safadão cantando juntos para vender a Minizinha, produto da PagSeguro oferecido a 12 parcelas de 9,90 reais.

Para entender a dimensão dessa disputa, é preciso olhar os números. Em 2010, as credenciadoras Cielo (controlada por Banco do Brasil e Bradesco) e Rede (do Itaú) concentravam 90% das transações em débito ou crédito. Oito anos depois, com a entrada de concorrentes de peso, como PagSeguro, GetNet (do Santander), Stone e Mercado Pago (do Mercado Livre), a fatia caiu para 73%. De acordo com o Banco Central, hoje existem 16 empresas de maquininhas no país.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), há 5,1 milhões de pontos de venda com máquinas de cartão ou terminais eletrônicos espalhados pelo país. Juntos, eles movimentaram, só em 2017, 1,36 trilhão de reais. Projeções da instituição mostram que 60% dos pagamentos realizados no Brasil serão efetuados dessa forma nos próximos cinco anos — o percentual atual é de 33%.

Não é sem razão que o mundo voltou os olhos para o filão no país. Prova disso é o sucesso da PagSeguro e da Stone na Bolsa de Valores de Nova York. Um ano atrás, quando abriu o capital nos Estados Unidos, a PagSeguro bateu o recorde de valor arrecadado por uma brasileira: 2,27 bilhões de dólares. A Stone teve o mesmo destino em outubro, quando lançou oferta de ações. Com receita de 414,1 milhões de reais no terceiro trimestre de 2018 (avanço de 121,4% em comparação ao mesmo período de 2017), a companhia, fundada em 2013, captou nada menos que 1,5 bilhão de dólares na bolsa nova-iorquina. Uma fatia substanciosa das ações foi adquirida pelo Ant Financial, braço de pagamentos da chinesa Alibaba.

Para os especialistas, a aproximação da gigante com a brasileira movimentará ainda mais o setor. Hoje, a Ant Financial é considerada uma das startups mais valiosas do mundo e tem, entre outras tecnologias, a de pagamento por reconhecimento facial.

“Esses movimentos mostram o aquecimento desse setor, que é muito lucrativo”, diz Bruno Diniz, sócio da Spiralem, consultoria focada em inovação no mercado financeiro e professor do curso de fintech na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Hoje, quem atua no segmento ganha dinheiro não só com tarifas de cerca de 1% cobradas a cada transação mas também com a chamada taxa de antecipação, em que a credenciadora adianta a transferência de dinheiro ao comerciante, que paga entre 8% e 19% do valor a ser recebido.

Ninguém quer ficar de fora. Em 2018, a Cielo, líder no setor com cerca de 40% do mercado, lançou três novos produtos, entre eles a LIO+, primeira máquina de pagamentos que vem com smartphone, algo considerado uma inovação mundial. A empresa também tem investido em marketing (no terceiro trimestre foram 67,2 milhões de reais ante 55,2 milhões no mesmo período de 2017) e aumentado exponencialmente o número de vendedores. Segundo Sérgio Saraiva, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional da Cielo, foram contratadas 1.100 pessoas de vendas nos últimos três meses para expandir os negócios.

As medidas são uma resposta da Cielo ao baque provocado pela concorrência. No terceiro trimestre de 2018, o lucro líquido ajustado foi de 812,8 milhões de reais, 20% menor do que no mesmo período de 2017.

AINDA MAIS COMPETIÇÃO

Segundo analistas do BTG Pactual, a Cielo também está reduzindo os preços em 20% a 30% para enfrentar o duelo, que está longe do fim. De acordo com relatório recente do Bradesco BBI, a tendência é que grandes varejistas (sobretudo supermercados) virem credenciadoras, livrando-se das taxas cobradas nas transações. Em setembro, o Grupo Pão de Açúcar lançou a maquininha Passaí. O produto começou a ser usado em lojas da rede Assaí e é oferecido também a comerciantes e prestadores de serviço sem cobrança de aluguel, sem taxa de adesão e com conexão via chip e Wi-Fi. Dez por cento da taxa cobrada por transação (a depender do faturamento do cliente) vira pontos que podem ser trocados por produtos no supermercado.

Mas nem todos são concorrentes ferozes. As emissoras de cartões de débito e crédito, por exemplo, enxergam nessa briga uma boa oportunidade. Fernando Pantaleão, vice-presidente da Visa, diz que a empresa vem mapeando os estabelecimentos que ainda não trabalham com máquinas de cartão. “Repassamos semanalmente esses dados às credenciadoras. Conversamos até com os bancos regionais, pois não adianta levar as máquinas a uma localidade se poucas pessoas ali têm acesso aos cartões”, afirma o executivo.

Já a Mastercard aposta nas parcerias estratégicas. É o caso do trabalho em conjunto feito com a credenciadora GetNet para atender leilões de gado. João Pedro Neto, CEO da Mastercard para Brasil e Cone Sul, explica que nesse tipo de negócio as opções de parcelamento são diferentes das praticadas no mercado em geral. “Trabalhamos juntos e agora oferecemos uma máquina com mecanismo diferenciado. Nossa ideia é somar forças e levar máquinas para setores inexplorados, como pagamento de mensalidades de escola e de condomínio”, diz o executivo.

Quem também ganha no avanço da cadeia são as fabricantes dos cartões. Neste ano, a chinesa PAX teve de ampliar os turnos no Brasil, aumentar o maquinário e contratar serviços de terceiros para atender a pedidos de Cielo e PagSeguro. A produção cresceu 60% em 2018.

 OPORTUNIDADE PROFISSIONAL

Com tanta competição, as companhias voltaram a atenção para os profissionais. Há uma disputa por talentos. Em 2017, antes de virar CEO da Adiq, empresa de maquininhas, o engenheiro Marcos Cavagnoli, de 46 anos, recusou o convite de duas concorrentes e de um gigante do Vale do Silício na área de meio de pagamento. “Escolhi pela empresa na qual senti que teria mais espaço para liderar estratégias que fariam a diferença nesse mercado.”

Marcos, que foi presidente de uma unidade do J. P. Morgan da América Latina, um dos maiores bancos do mundo, está animado. Seu principal direcionamento à frente da Adiq é investir em tecnologia e customização, com soluções específicas para cada mercado. “Hoje, possuímos ferramentas que aumentam a taxa de aprovação da transação, impedindo que o cartão não ‘passe’ por algum erro do sistema, por exemplo. Também temos um software integrado à maquininha em que o comerciante pode oferecer pontos ou dinheiro de volta ao cliente de acordo com suas compras.”

Segundo Marcos, a competência mais importante para vencer num setor bélico como o de meios de pagamento é ter experiências diversas (ele também passou por Citibank e Alstom, e ajudou a criar startups do zero, como a Koin, que atua em pagamentos via boleto para lojas virtuais) e um olhar bastante atento às movimentações de mercado para não perder de vista novos produtos e transformações no comportamento do consumidor. “Trabalhamos num segmento sensível, em que as mudanças ocorrem muito rápido, então o profissional dessa área precisa estudar tendências, reconhecer as oportunidades e colocar as soluções em prática em pouco tempo”, diz. Quando contrata, Marcos busca exatamente esse tipo de característica no candidato.

Sérgio Saraiva, da Cielo, concorda com Marcos sobre os talentos precisarem estar preparados para viver uma experiência intensa. “Antigamente, falava-se muito da importância do coeficiente de inteligência para a contratação. Depois, o coeficiente emocional ganhou importância. Em nossa área, damos atenção especial ao QA, coeficiente de adaptação. O profissional — oriundo geralmente das áreas de tecnologia, engenharia, estatística, matemática, vendas, marketing, entre outras —, além de entender amplamente do negócio, precisa ser rápido na execução de projetos. Dizemos que somos uma empresa grande com alma de startup.”

Se no mundo corporativo há em- presas contratando, os caminhos estão abertos também para os empreendedores. Carolina Mendes, de 22 anos, que o diga. Formada em administração, ela resolveu fundar a startup LaPag quando, frequentando um salão de beleza, percebeu que ali havia grandes oportunidades. “A área de beleza ainda é pouco estruturada. Senti que havia espaço para oferecer algo direcionado às suas necessidades, com ferramentas de gestão agregadas”, afirma.

A maquininha da LaPag, utilizada em estabelecimentos de beleza e estética, divide automaticamente a comissão entre o prestador de serviço e o dono do estabelecimento, pagando separadamente o proprietário do salão, a manicure e o cabeleireiro. “Além disso, a máquina é conectada a um sistema que controla o estoque de produtos e a agenda, e até se comunica com o cliente, mandando SMS para confirmar o horário”, diz Carolina.

Fundada em outubro de 2016, a startup levantou 1,5 milhão de reais de aporte em seu primeiro ano de operação. Atraiu, entre outros investidores, Renato Freitas, um dos fundadores do aplicativo 99.

Com 100 clientes na carteira, a expectativa é avançar ainda mais. A LaPag cresce 20% ao mês. A startup estima que existam hoje no Brasil cerca de 750.000 salões de beleza. “Nosso maior desafio é ter destaque entre os meios de pagamento desse setor”, diz Carolina. Que a luta por relevância siga gerando serviços melhores, com benefícios para comerciantes, clientes e profissionais.

Anúncios

OUTROS OLHARES

QUATRO MANEIRAS DE CONTROLAR A INSÔNIA

Livro do jornalista britânico Henry Nicholls — portador de distúrbio que desregula o ritmo do sono — aponta técnicas para dormir melhor.

Quatro maneiras de controlar a insônia

PERSEGUIR A ESTABILIDADE DO SONO

Portador de narcolepsia, um distúrbio que desregula o ritmo do sono, o jornalista britânico Henr y Nicholls passou os últimos anos pesquisando formas de dormir melhor. Em seu livro Sleepyhead: The Neuroscience of a Good Night’s Rest (Sonolento: a Neurociência de uma Boa Noite de Descanso), ele propõe novos hábitos a quem sofre para dormir.

O primeiro deles é estimular a estabilidade, o que Nicholls considera o traço fundamental de um sono restaurador. Para alcançá-la, é preciso treinar o cérebro para dormir e acordar diariamente nos mesmos horários, inclusive nos fins de semana.

 DERRUBAR O MITO DAS OITO HORAS

É ponto pacífico na medicina que dormir oito horas diárias é fundamental para uma vida saudável. Mas, ao participar de sessões de terapia cognitiva e entrevistar neurologistas, Nicholls descobriu que esse parâmetro pode ser um impeditivo para combater a insônia. A necessidade de sono varia entre os indivíduos, e perseguir uma meta traz ainda mais ansiedade ao insone. Contra isso, ele sugere que cada um investigue sua necessidade de sono anotando diariamente, ao longo de duas semanas, sua duração média.

USAR A CAMA SOMENTE PARA DORMIR

O móvel deve ser, necessariamente, associado ao sono. Permanecer na cama lendo, assistindo à TV ou usando o celular pode ter efeito sonífero em quem não tem problemas para dormir. Mas causa ainda mais ansiedade nos insones. A sugestão é tolerar no máximo até quinze minutos na cama sem dormir.

PRIORIZAR A LUZ NATURAL

Nicholls cita o trabalho de três cientistas americanos laureados com o Nobel em 2017 para explicar a importância da exposição do corpo à luz natural ao nascer e ao pôr do sol. A pesquisa disseca a sincronia entre o corpo humano e a luminosidade solar e mostra que a luz artificial atrapalha o sono por confundir o cérebro, enquanto a exposição à luz natural ajuda a regulá-lo.

OUTROS OLHARES

ESCOLA SEM PARTIDO

Os interesses em jogo em um espaço que é político por excelência.

Escola sem partido

O espírito reacionário exibe sua virulência ao criminalizar e perseguir professores que fazem do espaço educacional uma resistência incondicional aos retrocessos de um poder governamental corrupto que usa a coisa pública em favor dos interesses privados da sua cúpula criminosa. Os espaços educacionais, espaços políticos por excelência, são vigiados pelos olhares de abutres dos delatores que, intrinsecamente dominados por disposições ressentidas, não aceitam que os sujeitos ocupem as escolas e universidades para a realização de debates políticos, protestos e outros atos contestatórios do regime temerário em vigor. A ignorância reacionária, convertida em obtusa virtude, faz da educação um caso de polícia. Toda manifestação de insatisfação de professores e de estudantes ao poder vigente é reprimida militarmente e juridicamente, preparando o terreno da desolação política para a necrofilia fascista. Só mesmo um governante desqualificado pode dizer que o ensino à distância é uma alternativa de se combater o marxismo na educação e a doutrinação pedagógica.

Essa ação orquestrada de dissolução da liberdade discursiva do professor que atende pelo nome de Escola sem Partido expressa a submissão da atividade educacional aos ditames neo­liberais da privatização da vida e da mercantilização da cultura em nome de seu inerente processo de formatação unidimensional da existência, que se irmana cada vez mais com o fascismo. Em nome da suposta neutralidade epistemológica da educação, a Escola sem Partido visa criminalizar todo tipo de discurso pedagógico imputado como sectário de perspectiva política de esquerda, em favor da preservação da pretensa liberdade de consciência dos estudantes, afetados por um apregoado arbítrio tirânico dos professores que fazem do seu exercício docente um espaço de politização discursiva. Os ideólogos da Escola sem Partido não reclamam de empresas que coagem trabalhadores a fazerem campanha para candidatos alinhados com o autoritarismo do mercado ou de pastores-empresários que manipulam as consciências dos fiéis também para esse objetivo.

No âmbito educacional, o projeto ultraliberal visa estabelecer uma gestão pedagógica rigorosamente pragmatista, de modo a formar quadros técnicos altamente especializados para a organização dos seus escalões elevados, ao mesmo tempo em que visa precarizar as bases estruturais do sistema público de educação, de modo a naturalizar nas consciências juvenis as divisões sociais perpetradas pela ordem capitalista como se esta fosse uma estrutura inevitável. Henry Giroux argumenta que O conhecimento, como capital no modelo empresarial, é privilegiado como forma de investimento na economia, mas parece ter pouco valor quando está relacionado com o poder de auto definição, com responsabilidade social, ou com a capacidade dos indivíduos de expandir o âmbito da liberdade, da justiça e das operações da democracia (GIROUX, 2003, p. 61).

Eis um dos motivos pelos quais as disciplinas de Filosofia e de Sociologia, que justamente estimulam uma reflexividade crítica sobre os valores vigentes, as ideias, o sentido da ação humana, as organizações sociopolíticas e suas contradições, sofrem contínuas fragmentações didáticas de modo a empobrecer a qualidade do trabalho educacional dos seus docentes na era da espoliação ultraliberal, inclusive sob o risco de retirada do currículo escolar. Nos saberes críticos o estudante é estimulado pedagogicamente a analisar as bases sectárias de nossa formação política, tarefa que exige de cada pessoa uma inevitável autoanálise de seu papel como ator social, revelando suas contradições axiológicas e suas feridas existenciais. Para Edgar Morin

A educação atual fornece conhecimentos sem ensinar o que é o conhecimento. Ela não se preocupa em conhecer o que é conhecer, ou seja, os dispositivos cognitivos, suas dificuldades, suas instabilidades, suas propensões ao erro, à ilusão. Isso porque todo conhecimento implica risco de erros e de ilusões.

A ideologia ultraliberal, expressão cabal da visão unidimensional do empresariado na dinâmica econômica do capitalismo tardio, não apenas converte a experiência da cidadania como a capacidade do sujeito ampliar seus atos de consumo, como também faz da própria práxis educacional um filão de lucros para os investidores, direcionando a pauta pedagógica das instituições de ensino conforme os critérios da rentabilidade, de modo a atender a maior demanda possível de estudantes configurados como consumidores-clientes, que jamais podem sofrer qualquer retração em suas demandas pessoais. Segundo José Carlos Libâneo,

Quer-se subordinar os sistemas educacionais à economia já que, no novo paradigma de produção, as novas tecnologias requerem trabalhadores mais qualificados, com mais flexibilidade profissional para atender novas demandas do mercado de trabalho e com mais espírito empreendedor para fazer frente à competitividade econômica internacional.

O economicismo educacional se configura assim como uma ideologia que naturaliza as contradições estruturais do capitalismo e visa preparar o jovem educando para um modelo de vida imputado como o único possível e, por conseguinte, o melhor; nega-se assim a orientação da consciência reflexiva para alternativas societárias e políticas, convergentes com um modo de vida mais sustentável.

É conveniente que questões partidárias não sejam inseridas na práxis pedagógica, evitando­ se assim a polarização propagandística de ideias concernentes a uma dada associação política. Contudo, isso não significa a anulação da reflexão política em sua indissociável relação com a dimensão educacional, pois o processo pedagógico é um ato social. Ocorre no discurso da Escola sem Partido uma tendenciosa confusão entre partidarismo e política, visando justamente retirar da dimensão educacional a necessária análise dos fenômenos concretos da prática política. O projeto de Escola sem Partido, que apregoa lutar contra a manifestação de ideologias na educação é, ele mesmo, ideológico. Esse movimento apenas mascara os seus interesses reais na despolitização da educação como forma de criar uma massa profissional alienada mediante sua adequação ao ultra liberalismo econômico, ao mesmo tempo em que chancela os propósitos espoliativos de partidos reacionários do espectro da direita associado aos setores mais conservadores da sociedade civil tradicionalmente atrelada a uma agenda nitidamente retrógrada e moralista incompatível com os paradigmas modernos da laicidade política.

Os promotores da Escola sem Partido pretendem excluir do debate educacional quaisquer temas usualmente associados ao espectro progressista para que as pautas direitistas dos partidos interessados nessa estigmatização da crítica política encontrem assim espaço livre para sua inoculação, visando degradar as já frágeis bases democráticas da sociedade brasileira, de modo a favorecer a hegemonia dos grupos políticos caracteristicamente obscurantistas e adeptos do discurso truculento afiliado ao fascismo. A própria luta pela secção violenta entre ensino e estofo político reforça, inevitavelmente, o entrelaçamento entre educação e política. Por conseguinte, os ideólogos da Escola sem Partido ratificam a partidarização da es­ cola, convenientemente aos seus interesses escusos. Portanto, em um estranho paradoxo, os defensores da Escola sem Partido evidenciam afiliação aberta em relação aos partidos de agenda política reacionária. Vemos o  renascimento da lista negra macarthista contra toda atividade pedagógica imputada como subversiva, ou seja, objetora do autoritarismo institucionalizado vivamente presente em nosso cotidiano sociopolítico e dos imperativos mercadológicos do capitalismo monopolista, espoliador da coisa pública e da vivência cidadã. Nesse contexto, toda inserção de temáticas culturalmente polêmicas, que contestem a estruturação normativa do status quo são passíveis de vituperação e de judicialização, não obstante a liberdade de cátedra garantida constitucionalmente. Uma vida cultural esclarecida não hesita em debater qualquer temática, dissolvendo os tabus que envolvem determinados conteúdos relegados ao esquecimento como forma justamente de se compreender os erros e os acertos de dada experiência sociopolítica. Quando ocorre o silenciamento da análise crítica em nome da pretensa harmonia pedagógica abre-se o caminho para a legitimação da barbárie, pois as vozes de dissenso são emudecidas e a unidade axiológica se torna o padrão por excelência. Segundo Henry Giroux,

O conhecimento que é privado de considerações éticas e políticas oferece noções limitadas, se alguma, de como as escolas deveriam educar os estudantes para combater os limites opressivos da dominação baseada em gênero, raça, classe e idade. Essa linguagem também não proporciona as condições pedagógicas para que os estudantes envolvam- se criticamente com o conhecimento como uma ideologia profundamente comprometida com questões e lutas que diz em respeito à produção de identidades, cultura, poder e história. A educação é uma prática moral e política, e sempre pressupõe uma introdução e preparação para formas especificas de vida social, uma interpretação particular das noções de comunidade e daquilo que o futuro pode trazer (GIROUX, 2003, p. 61).

O projeto da Escola sem Partido ratifica a condição de pária do professor na sociedade tecnocrática, como se o docente fosse o culpado por todos os problemas estruturais de nossa vida pública, que se encontram na má gestão governamental, nas injustiças econômicas e sociais, na  corrupção e na ação inescrupulosa de segmentos da iniciativa privada que não hesitam em fazer  com que as riquezas estatais beneficiem seus interesses particulares. Podemos então afirmar que a   penalização do professorado decorre de uma tentativa reativa de se afetar o lado mais fraco da  estrutura social fragmentada, tal como ocorre usualmente na extrema virulência manifestada pelo   homem médio contra os praticantes de pequenos delitos, responsáveis por violações ínfimas do  tecido social, enquanto os atos degradantes dos grandes criminosos de colarinho branco permanecem comumente despercebidos pela opinião pública, assim como são constantemente absolvidos dos seus graves crimes contra a coisa pública e até mesmo benquistos por grande parcela da população, que no fundo gostaria de ser também tal como essas figuras distintas. Analisemos os “princípios deontológicos” do projeto Escola sem Partido para que possamos comentá-los criticamente:

I – O Professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias (Na formulação dos ideólogos, os alunos são imputados como figuras passivas que não participam autonomamente da aula, reproduzindo o discurso do espectador de um acontecimento).

II – O Professor não favorecerá, não prejudicará e não constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas (O professor, grosso modo, já é constrangido pela ideologia mercadológica de adequação aos imperativos do alunado para que facilite sua vida acadêmica. Na lógica capitalista vigente, o professor não encontra nem mesmo os meios para exercer esse pretenso autoritarismo).

III – O Professor não fará propaganda político­ partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas (Muitos estudantes encontram na figura do professor o exemplo intelectual de intervenção na ordem sociopolítica. Quando as motivações para participação em manifestações coletivas e afins são em honra de causas democráticas/emancipatórias, é um dever que o professor estimule seus estudantes para que se unam a tais mobilizações. Se não luto por causas libertárias que contestem a opressão, quem lutará por mim? Se até mesmo mandatários políticos convocam mobilizações multitudinárias, por qual motivo os professores não poderiam fazê-lo? Quando a adesão dos alunos para uma manifestação política é voluntária, movida por ideais democráticos, não há qualquer problema moral quanto a isso. A única exceção ocorreria se porventura o professor exigisse participação dos alunos nesses atos para que eles obtenham notas em avaliação ou registro de presença na chamada. Participação em passeatas não é atividade pedagógica fora de sala, mas uma adesão coletiva perante uma causa reivindicatória imputada como justa).

IV – Ao tratar de questões políticas, sócio- culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade – as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito (Essa prédica não é original dos proponentes da Escola sem Partido; na verdade encontramos versões similares em diversos outros códigos deontológicos de conduta, como, por exemplo, para a regulação da profissional jornalística, que poucos seguem, por sinal. Na teoria formula-se uma bela regra normativa, mas na prática raramente se aplica. Se os jornalistas cumprissem rigorosamente os preceitos deontológicos da profissão, nossa esfera pública seria muito mais reflexiva, inteligente e contestadora do status quo. Talvez um professor robotizado consiga desenvolver a pretensa “forma justa”, isto é, proporcional, na apresentação e problematização dos temas concernentes aos conteúdos didáticos de sua disciplina. Existem dados que são mais enxutos, outros mais amplos. Não é possível se mensurar precisamente esse ansiado equilíbrio, tornando assim imprecisa qualquer tentativa de controle.

V- O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções. (Essa prédica reforça a noção doutrinária do papel pedagógico do professor em incutir nos jovens valores morais, como se os mesmos fossem indissociáveis dos conteúdos epistêmicos. Exceto em casos específicos de instituições de ensino confessionais convenientemente outorgados legalmente, o professor deve seguir os parâmetros laicos da constituição federal, inclusive encontrando liberdade de cátedra para formular críticas a determinados valores morais e/ou religiosos que porventura atentem contra os direitos humanos e o progresso da consciência intelectual.

VI – O Professor não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula (Essa prédica impõe ao professor um poder ao qual talvez não lhe pertença mais, pois continuamente espoliado de sua autoridade intelectual e dignidade profissional).

Conforme o planejamento educacional estabelecido pelos ideólogos da Escola sem Partido, há distinção epistêmica entre educação e instrução, cabendo aos pais a primeira e aos professores a segunda, ou seja, apenas a transmissão objetiva dos conteúdos pedagógicos concernentes a uma dada disciplina para o seu alunado. A ignorância acerca do que é a essência da experiência educacional pelos signatários desse projeto reacionário gera a confusão entre as instâncias citadas. Educação é cultivar, formar, construir, de modo a realizar no sujeito sua capacidade de agir autonomamente como ator social em suas mais diversas segmentações. Por conseguinte, não cabe  apenas aos pais essa tarefa, mas também a todos os profissionais pedagógicos em seus afazeres didáticos com seus estudantes. A tacanha compreensão sobre a experiência da educação pela ideologia da Escola sem Partido visa enfatizar acima de tudo o seu aspecto normativo, como se tal dispositivo fosse um mecanismo de controle sobre a subjetividade do jovem, incutindo-lhe valores cívicos e morais convenientes ao status quo. Ao propor separar a educação da instrução, o discurso doutrinário da Escola sem Partido estabelece um processo análogo da divisão técnica do trabalho na dimensão pedagógica, compartimentando as ações em estatutos estanques sem qualquer diálogo, favorecendo assim a atomização social e a cisão política, ainda que defenda o contrário. Para Henry Giroux,

A educação política significa reconhecer que a educação é política porque é diretiva e dirige-se a uma natureza inacabada daquilo que significa ser humano, intervir no mundo, pois o protagonismo humano é condicionado e não determinado. Significa, também, reconhecer que as escolas e outros espaços culturais não podem abstrair-se das condições socioculturais e econômicos de seus habitantes, de suas famílias e de suas comunidades. A educação política também significa ensinar aos estudantes a correr riscos, fazer perguntas, desafiar aqueles no poder, honrar tradições críticas reflexivo a respeito da forma como a autoridade é utilizada na sala de aula e em outros espaços pedagógicos. Uma educação política propicia a oportunidade para que os estudantes não apenas se expressem de forma crítica, mas para que alterem a estrutura de participação e o horizonte de debate pelo qual suas identidades, seus valores e seus desejos são moldados. Uma educação política constrói condições pedagógicas para capacitar os estudantes para entenderem como o poder opera sobre eles, através deles e por eles, para construir e ampliar seu papel como cidadãos críticos (GIROUX, 2003, p. 161).

Os signatários da Escola sem Partido representam os aspectos mais grotescos da degradação política brasileira, apresentando uma agenda social nitidamente reacionária, pois contrária aos avanços paulatinos das pautas libertárias concernentes a um Estado laico, ainda que formalmente. As bancadas da bala e da bíblia, regidas pelo sectarismo e pela truculência, são grandes defensores desse projeto ideológico, circunstância que evidencia o perigo para a democracia que esses segmentos políticos representam para a esfera pública e seus efeitos deletérios no progresso educacional brasileiro. Por isso essa imbecilidade parlamentar defende a Bíblia no lugar da Constituição e as armas no lugar dos livros. Fernando Savater defende a tese de que

O ensino deve ser tanto pluralista quanto a própria sociedade, e convém que nela possam encontrar lugar estilos e tendências diferentes[…] A criança vai à escola para se pôr em contato om o saber de sua época, não para ver confirmadas as opiniões de sua família (SAVATER, 2012, p. 163-164).

A cada nova geração que passa é possível percebermos que ocorrem contínuas aberturas acerca da aceitação dos padrões de comportamento outrora considerados destoantes dos padrões normativos estabelecidos, assim como mudanças nas concepções sociais, sexuais, políticas, mais abrangentes e democráticas, circunstância positiva que exige a reconfiguração dos conteúdos pedagógicos. No entanto, contra todos os avanços culturais que esclarecem a consciência humana e favorecem a sua abertura intelectual para a diversidade e a afirmação das diferenças axiológicas, o espírito reacionário evidencia claramente sua ausência de neutralidade, ao pretender impor um modelo discursivo de verdade para a sociedade inteira, sem respeitar sua pluralidade cultural e seus direitos cidadãos, seja na religião (a hegemonia do Deus cristão), seja na ordem familiar (a biparental), seja na questão da sexualidade (estigmatização de todas as práticas consideradas “anti­naturais”, pois contrárias aos mandamentos eternos de “Deus”), seja na política (legitimação do sistema patriarcalista, no qual a mulher não possui visibilidade e dignidade social e a propriedade privada é imputada como um bem sagrado), seja na economia (glorificação do empreendedorismo, da desregulação do mercado e da meritocracia), seja na segurança pública (criminalizando a pobreza e estabelecendo visões maniqueístas sobre as contradições sociais). Por conseguinte, o espírito direitista ousa afirmar seu ideário sem qualquer vergonha, pois a onda conservadora inoculada no tecido social chancela os seus pronunciamentos autoritários.

Os sectários desse disparate educacional fingem não reconhecer que inexiste qualquer pretensa neutralidade discursiva, quimera idealista que mascara as bases concretas da produção social do conhecimento. Essa questão também se manifesta em setores de grande impacto na ordenança social, como a atividade midiática e a atividade científica, ambas desprovidas de qualquer neutralidade em seus ofícios. Em ambos os casos é o interesse que se potencializa como o motor das ações dos seus agentes, mesmo que movidos pelas intenções mais nobres.

Assim como não existe saber desinteressado, também não existe ação desinteressada. Mesmo a defesa incondicional da neutralidade axiológica já se configura uma tomada de decisão, uma escolha singular. Exigir neutralidade de alguém, portanto, denota tendenciosidade. Somente o reacionarismo temerário, certamente por má fé e tacanhez intelectual, insiste nessa proposta indecente. O bom senso determina que não se exija neutralidade de ninguém, pois assim se evita mistificações ideológicas geradoras de grandes problemas concretos. Por exemplo, no plano das relações internacionais, está provadíssimo que mesmo países proclamados politicamente neutros que são flexíveis em suas legislações bancárias (paraísos fiscais) favorecem a satisfação de interesses particulares de países, grupos empresariais ou pessoas implicadas em crimes e transações desonestas. Por conseguinte, a ausência de posicionamento axiológico legitima a barbárie, a violência, o delito.

Todo conhecimento educacional é manipulado pelo professor que organiza e planeja as suas aulas e, o que cabe investigar é se tal processo de manipulação é ideológico ou não, isto é, se visa esclarecer os agentes sociais sobre as contradições intrínsecas das relações sociais ou se ratifica o status quo, naturalizando suas bases autoritárias como se fossem efetivamente democráticas. Segundo Louis Althusser,

É pela aprendizagem de alguns saberes contidos na inculcação maciça da ideologia da classe dominante que, em grande parte, são reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista, ou seja, as relações entre exploradores e explorados, e entre explorados a exploradores. Os mecanismos que produzem esse resultado vital para o regime capita­ lista são naturalmente encobertos e dissimulados por uma ideologia da escola universalmente aceita, que é uma das formas essenciais da ideologia burguesa dominante: uma ideologia que representa a escola como neutra, desprovida de ideologia (uma vez que é leiga), aonde os professores, respeitosos da “consciência” e da “liberdade” das crianças que lhes são confiadas (com toda confiança) pelos ”pais” (que por sua vez são também livres, isto é, proprietários de seus filhos), conduzem-nas à liberdade, à moralidade, à responsabilidade adulta pelo seu exemplo, conhecimentos, literatura e virtudes “libertárias” (ALTH U SSE R, 1985, p. 80).

O professor comprometido pedagogicamente com a formação de um coletivo de estudantes intelectualmente autônomos, reflexivos, dotados de senso crítico, quer que eles assim o sejam, circunstância que demonstra sua atuação proativa em favor desse processo ótimo de desenvolvimento das capacidades intelectuais. Se porventura postulássemos a absurda existência de professores desprovidos desse objetivo emancipatório, o docente guiado pelos princípios do formalismo da neutralidade se assemelharia a uma máquina propagadora de conteúdos, sem qualquer humanidade na criação do discurso pedagógico. Conforme argumenta Henry Giroux,

Os educadores e pais terão que passar a encarar a escola não como neutra nem objetiva, mas sim como uma construção social que incorpora interesses e suposições particulares [… ] O conhecimento torna-se importante na medida em que ajuda os seres humanos a compreenderem não apenas as suposições embutidas em sua forma e conteúdo, mas também os processos através dos quais ele é produzido, apropriado e transformado dentro de ambientes sociais e históricos específicos (GIROU X, 1997, p. 39).

Baixos salários, assédio moral constante, precarização das condições trabalhistas, diversas condições degradantes são a regra do cotidiano profissional do professor, cada vez mais desestimulado a desenvolver uma carreira inovadora e proativa. O cerceamento da autonomia didática do professor decorrente da concretização do projeto normativo da Escola sem Partido torna o docente ainda mais espoliado pelo sectarismo do status quo, refratário ao processo de esclarecimento intelectual que é resultado direto da livre iniciativa para pensar de todos os sujeitos inseridos no mundo educacional. Não apenas submetido ao crivo do mercado, que exige do professor a transmissão de conteúdos adequa­ dos ao espírito do capitalismo para tornar seus estudantes mais preparados para o processo altamente competitivo e imperdoável da sociedade administrada, mas também ao silenciamento do discurso imputado como subversivo pelos defensores do moralismo conservador como princípio dogmático. O quadro se revela tenebroso para a frágil democracia vigente, pois o discurso virulento que perpassa as organizações reacionárias não fica nada a dever aos grupos fascistas que fazem da truculência e do autoritarismo as suas bandeiras guerreiras. Fernando Savater indaga reflexivamente:

A educação deve preparar gente apta a competir no mercado de trabalho ou formar homens completos? Deve dar ênfase à autonomia de cada indivíduo, com frequência crítica e dissidente, ou à coesão social? Deve desenvolver a originalidade inovadora ou manter a identidade tradicional do grupo? Atendem à eficácia prática ou apostam no risco cria­ dor? Reproduzirá a ordem existente ou instruirá os rebeldes que possam derrubá-la? (SAVATER, 2012, p. 17).

Quando o nome de Paulo Freire é difamado pela ideologia da Escola sem Partido como um “doutrinador marxista”, anulando todas as suas contribuições irrefutáveis internacionalmente reconhecidas para os estudos sobre filosofia da educação e temas conexos, fica cada vez mais evidenciado o caráter obscurantista que movimenta as ações virulentas desse projeto antidemocrático. Paulo Freire empreendeu diversos trabalhos educacionais fundamentais para a alfabetização de massas camponesas e outros trabalhadores subalternos de sociedades politicamente conservadoras, e depreciar o seu legado pedagógico sem qualquer análise rigorosa do mesmo revela a natureza ressentida dos seus detratores. Paulo Freire, em suas colocações epistemologicamente extemporâneas, afirma que

A sociedade alienada não tem consciência de seu próprio existir. Um profissional alienado é um ser inautêntico. Seu pensar não está comprometido consigo mesmo, não é responsável. O ser alienado não olha para a realidade com critério pessoal, mas com olhos alheios (FREIRE, 1983, p. 35).

O currículo escolar não é estabelecido de maneira neutra pelos tecnocratas das secretarias de ensino, reproduzindo antes os seus anseios ideológicos. Dependendo das circunstâncias funcionais, poucos professores encontram flexibilidade pedagógica para dobrarem a rigidez desses parâmetros curriculares, uma vez que os processos de ensino ficam submetidos ao crivo das avaliações de admissão ao ensino superior, e determinados conteúdos são privilegiados em detrimento de muitos outros. Conforme argumenta Michael Apple,

O currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos, que de algum modo aparece nos textos e nas salas de aula de uma nação. Ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado da seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo (APPLE, 2013, p. 71).

A politização dos processos pedagógicos exige que tanto os diretores como os professores e os alunos dialoguem abertamente sobre as demandas educacionais da instituição de ensino, inclusive sobre os saberes formativos componentes das estruturas curriculares. A ausência do debate isonômico entre as instâncias da dimensão educacional ratifica a lógica autoritária de nossa organização social e seu engessamento hierárquico, gerando contínuos focos de tensão no cotidiano escolar. Talvez haja medo, da parte dos mandatários pedagógicos, em realizar esse processo dialógico, por considerarem que assim o poder burocrático da direção de ensino perderia sua autoridade e sua força centralizadora. Nessas condições, é imprescindível que haja uma progressiva mudança de mentalidade na gestão educacional, em prol do estabelecimento de uma organização escolar em conformidade aos parâmetros democráticos desejados. Segundo Moacir Gadotti,

A educação é atualmente um lugar onde toda a nossa sociedade se interroga a respeito dela mesma, se debate a se busca; educar é reproduzir ou transformar, repetir servilmente algo que foi, optar pela segurança do conformismo, pela fidelidade à tradição ou, ao contrário, ficar frente à ordem estabelecida e correr o risco da aventura; querer que o passado configure todo o futuro ou partir dele para construir outra coisa (GADOTTI, 1987, p. 18).

Nos períodos de exceção política em que o autoritarismo ditatorial regulava a práxis organizacional das instituições de ensino com sua ideologia da defesa da segurança nacional e da necessidade de se criar funcionários especializados para a perpetuação do establishment, o patrulhamento sobre o cotidiano dos estabelecimentos educacionais se tornou ainda mais asfixiante, pois a lógica do poder consistia justamente em eliminar todo traço de dissenso, em nome da moral, dos bons costumes, da ordem e do progresso, e os conteúdos pedagógicos que estimulavam a reflexão sobre a própria natureza do poder e da autoridade repressiva sofreram transformações epistemológicas de modo a se tornarem inofensivas para o sistema vigente.

Todo processo educacional nas instituições de ensino é inevitavelmente um exercício político não apenas por se realizar no espaço social da convivência, a esfera pública, mas também porque é uma preparação intelectual para que o estudante venha a ser um participante ativo na organização social, não apenas como profissional, mas como sujeito político cônscio de sua cidadania, muitas vezes escamote­ ada, mas que não pode jamais ser suprimida, não obstante todo reacionarismo contrário. De acordo com José Carlos Libâneo,

A educação escolar tem a tarefa de promover a apropriação de saberes, procedimentos, atitudes e valores por parte dos alunos, pela ação mediadora dos professores e pela organização e gestão da escola. A principal função social e pedagógica da escola é a de assegurar o desenvolvimento das capacidades cognitivas, operativas, sociais e morais pelo seu empenho na dinamização do currículo, no desenvolvimento dos processos do pensar, na formação da cidadania participativa e na formação ética (LIBÂNEO, 2015, p. 115).

Como o processo de desenvolvimento educacional mediado pela instituição de ensino engloba uma série de atividades intelectuais que estimulam diversas potencialidades da subjetividade do estudante, em suas dimensões culturais, societárias, políticas, psicológicas, axiológicas etc., é um absurdo o postulado da neutralidade do processo de transmissão de conteúdos pedagógicos, pois diversos valores e ideais se mesclam inevitavelmente nessa dimensão formativa. Oxalá a pretensão normativa da Escola sem Partido, apesar de seu profundo apelo nas camadas reacionárias da sociedade brasileira, se torne em breve apenas mais uma tenebrosa página virada de nossa trajetória educacional, mas para que tal superação se efetive é imprescindível que os professores, os estudantes e toda a sociedade civil comprometida com a democracia se unam em prol da defesa incondicional da educação livre das contingências reativas contrárias ao livre pensar.

A formação do educando pressupõe o debate acerca de todas as temáticas pertinentes na conjuntura sociopolítica em vigor. O lento processo de democratização social brasileiro, ainda que às duras penas, traz para a dimensão educacional a reflexão inevitável sobre as questões de gênero, sobre o caráter histórico da família, sobre a construção social da identidade, suprimindo os seus arcaicos traços metafísicos e atemporais que somente chancelavam o discurso unívoco favorável ao modelo de vida normativo dominante que impede o florescimento da diferença. Reflexão sobre temas imputados como socialmente polêmicos, como tabus milenares, não é doutrinação, o espaço educacional da análise crítica não pode ser controlado pela política do silêncio, que gera consenso não por convencer, por debater, por intercomunicar, mas por optar autoritariamente pelo vazio discursivo. Se porventura todos os temas considerados como tabus pelo status quo fossem descartados na dimensão educacional, científica e cultural acreditaríamos ainda ser a Terra uma estrutura plana e o centro do uni­ verso. Nessas condições, todo progresso técnico não apenas pressupõe progresso cultural, mas, acima de tudo, liberdade para reflexão, mesmo que tal exercício cultural afete as subjetividades pessoais refratárias a qualquer orientação axiológica divergente da sua. O respeito incondicional pela dignidade humana pressupõe a liberdade de expressão, desde que essa não atente contra a consciência de outrem, e a problematização de temas acerca de questões que não nos interessam ou das quais não concordamos não significa a violação de nossa dignidade pessoal se porventura estivermos no espaço por excelência para o debate amplo e irrestrito, o espaço educacional, e se também não ousarmos impor nossas convicções a outrem. O projeto da Escola sem Partido e seu histérico combate contra a dita doutrinação política sobre as subjetividades dos estudantes gera uma atmosfera de insegurança sobre a produção social do conhecimento na sua expressão educacional. É função pedagógica de cada educador instigar o desenvolvimento da consciência política em cada estudante, inclusive estimulando na prática a participação em eventos emancipatórios. Nessas condições, essa estultícia ideológica da Escola sem Partido é uma violação da consciência crítica do professor que ousa debater temas progressistas para os seus educandos justamente por impor como diretrizes normativas a exclusão de qualquer tema que seja contrário ao credo pessoal dos estudantes. Por conseguinte, tal projeto ideológico é que é a verdadeira instância assediadora, e não o contrário, tornando-se um perigo para a construção de uma sociedade democrática na sua luta contra o fascismo institucionalizado. A despolitização educacional empreendida pela Escola sem Partido visa subjugar as consciências subversivas, dominando-as para que aceitem docilmente o choque de ordem do autoritarismo do mercado e seu dispositivo destruidor dos direitos sociais adquiridos com luta e sangue dos cidadãos. Não é o professor o inimigo público número um, mas os empresários inescrupulosos, os lobistas, os políticos corruptos, os pastores-doutrinadores.

Terminamos assim o texto com as contundentes palavras de Paulo Freire: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa” (FREIRE, 2006, p. 104).

OUTROS OLHARES

ZONA FRONTEIRIÇA

Passa ano, entra ano, vira e mexe, o tema vem à tona: reduzir ou não a maioridade penal? Eis uma questão sempre polêmica e de difícil consenso.

Zona fronteiriça

Já nos pronunciamos outras vezes afirmando que apenas diminuir ou manter como está, nos 18 anos, não adianta nada.

Com efeito, hoje um indivíduo com 17 anos e 364 dias de vida se cometer um crime, por mais hediondo que seja, será inimputável, receberá medida socioeducativa e estará na rua em breve, tenha ou não periculosidade social.

Se esse mesmo indivíduo cometer igual crime um dia depois, o ato lhe será plenamente imputável, responderá a processo e poderá ser condenado a muitos anos de reclusão em presídio comum.

Se a idade penal cair, como querem alguns, para 16 ou qualquer outra idade, o problema continuará exatamente igual. Ou seja, até um dia antes da idade limite, inimputável; um dia depois, imputável.

Em outras palavras: maniqueísmo puro, seja qual seja a baliza estabelecida. E esse nada ou tudo não existe na natureza, lembrando que há uma lei pétrea, não criada pelos homens, que ser humano nenhum pode mudar: natura non facit saltus (“a natureza não dá pulos”). Com efeito, o fruto amadurece aos poucos, a noite torna-se dia por meio da aurora, assim como os neurônios cerebrais mielinizam-se progressivamente, a mentalidade e a responsabilidade plena se dão passo a passo, do nascimento aos 18 anos.

Essa lei da natureza, se respeitada e aplicada à legislação, introduzirá a necessária semi- imputabilidade penal, esquecida completamente pelos nossos legisladores.

Trocando em miúdos, seria o seguinte: do nascimento aos 12 anos, menoridade total e inimputabilidade; dos 13 aos 17 anos, maioridade relativa e semi-imputabilidade; e dos 18 em diante, maioridade e imputabilidade, conforme hoje se verifica.

Para crimes praticados até os 12 anos de idade (menoridade, inimputabilidade), o infrator é sumariamente absolvido e aplica-se o que já está estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Por sua vez, se o indivíduo cometer delito entre os 13 e os 17 anos (menoridade relativa, semi-imputabilidade) é julgado da mesma maneira que os maiores criminosos. Porém, por ser portador, ainda, de desenvolvimento mental incompleto, a pena cominada poderá ser reduzida de um a dois terços, conforme os antecedentes do indivíduo (aliás, já previsto no parágrafo único do artigo 26 do Código Penal), e convertida em medida de segurança detentiva, a qual, se ainda vigente quando completar 18 anos, transforma-se automaticamente em pena corporal, ou seja, o infrator é transferido para presídio comum a fim de cumprir o que lhe resta da sanção aplicada na origem.

Para que funcione, não são necessários muitos acertos legais, pois os nossos códigos já observam vários artigos bem-feitos sobre essa área entre a inimputabilidade e a imputabilidade, entre o desenvolvimento mental incompleto e o desenvolvimento mental completo.

Como exemplo, suponhamos um menor, com 16 anos, que praticou homicídio qualificado grave. Julgado como criminoso comum, seriam 30 anos de reclusão. Digamos que não tenha antecedentes ruins, então obteria redução de dois terços: cai para 10 anos. Está com 16 anos, fica sob medida de segurança até completar 18 anos. Depois é transferido para presídio comum, no qual ficará mais 8 anos. E se os antecedentes pessoais forem ruins (criminalidade precoce e reincidência), em vez de redução de dois terços, diminui-se um terço, o que daria, depois de completar a maioridade e cumprir medida de segurança, mais 18 anos de reclusão.

É questão de introduzir a semi- imputabilidade nessa zona fronteiriça que medeia o menor e o maior, acabando com o maniqueísmo obtuso.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 11: 1 – 2

Pensando biblicamente

AFIRMAÇÕES IMPORTANTES

 

V. 1 – Da mesma maneira como a religião, com relação a Deus, é uma ramificação da justiça universal (não é um homem honesto o que não é devoto), também a justiça para com os homens é uma ramificação da verdadeira religião, pois não é um homem de­ voto aquele que não é honesto, nem pode esperar que a sua devoção seja aceita: pois:

1. Nada é mais ofensivo a Deus do que a fraude no comércio. Uma balança enganosa aqui representa todas as formas de práticas injustas e fraudulentas, ao lidar com qualquer pessoa, práticas estas que são, todas elas, uma abominação para o Senhor, e tornam abomináveis para Ele os que se permitem usar estas amaldiçoadas formas para prosperar. É uma afronta à justiça, da qual Deus é o defensor, bem como uma injustiça para com o nosso próximo, de quem Deus é o protetor. Os homens fazem pouco de tais fraudes, e pensam que não existe pecado naquilo pelo que se consegue dinheiro, e, uma vez que estes atos passam despercebidos, não podem se culpar por eles; uma mancha não é uma mancha, até que seja descoberta (Oseias 12.7,8). Mas eles não são menores aberrações para Deus, que será o vingador daqueles que são enganados por seus irmãos.

2. Nada agrada mais a Deus do que atitudes justas e honestas, e nada é mais necessário para nos tornar, e a nossas devoções, aceitáveis a Ele: o peso justo é o seu prazer. Ele mesmo se guia por um peso justo, e segura a balança do juízo com uma mão imparcial, e por isto se alegra com aqueles que, nisto, são seus seguidores. Uma balança engana, sob o pretexto de ser extremamente precisa, e por isto é uma abominação ainda maior para Deus.

 

V. 2 – Observe:

1. Como aquele que se exalta é aqui humilhado, e desprezado. Vindo a soberba, virá também a afronta. A soberba é um pecado da qual os homens têm razão para se envergonhar; é uma vergonha para um homem que veio do pó, que vive de doações, que depende de Deus, e que perde tudo o que tem, por ser soberbo. É um pecado que os outros julgam vergonhoso, e que consideram com desdém; aquele que é soberbo se torna desprezível; é um pecado, pelo qual Deus frequentemente abate os homens, como fez com Nabucodonosor e Herodes, cuja ignomínia acompanhava a sua vanglória; pois Deus resiste aos soberbos, e os contradiz, e se opõe a eles, naquilo de que mais se orgulham (Isaias 2.11, e versículos seguintes).

2. Como aquele que se humilha é aqui exaltado, e lhe é atribuído um excelente caráter. Da mesma maneira como, com os soberbos, há loucura, e haverá vergonha, também com os humildes há sabedoria, e haverá honra, pois a sabedoria de um homem lhe conquista respeito e faz com que o seu rosto brilhe diante dos homens; ou, se alguém for tão vil, a ponto de pisotear os humildes, Deus dará a estes últimos a graça, que será a sua glória. Considerando o quanto estão a salvo, e tranquilos, os que têm um espírito humilde, e a comunhão que têm com Deus e a consolação que têm em si mesmos, diremos: Com os humildes está a sabedoria.

OUTROS OLHARES

A MULTIDÃO QUE FITA O VAZIO

Quando consumir se torna imposição social e o prazer de presentear entes queridos se perde, é hora de questionar por que nos vemos na obrigação de comprar o que não precisamos.

A multidão que fita o vazio

Fim de ano, tempo de merecido descanso, ainda que por alguns dias – pelo menos para grande parte das pessoas. Época de rever projetos, avaliar realizações dos meses passados, se preparar para novas empreitadas, abraçar pessoas queridas. Período de paz e alguma providencial reclusão para recarregar as energias. Certo? Nem sempre. Quem empreende cansativas jornadas em busca de presentes (ou lembrancinhas, que sejam), roupas novas (e acessórios que combinem com elas) e ingredientes para preparar os pratos das ceias nos dias que antecedem o fim do ano sabe que essa rotina tem bem pouco de reconfortante.

No fim de semana que antecedeu o Natal, presenciei uma cena emblemática em uma loja num shopping de São Paulo. Uma mulher visivelmente irritada, carregada de sacolas, comentava com a adolescente com semblante exausto, que a acompanhava: “Agora só falta comprar três malditos presentes daquela maldita lista!” A jovem respondeu: “Não, mãe, faltam os do meu pai e do Júnior”. A mulher resmungou um palavrão, enquanto aguardava sua vez de ser atendida na fila do caixa. Não pude deixar de pensar que os “malditos presentes” eram certamente para as pessoas mais próximas daquela senhora: o cônjuge, parentes e amigos por quem, provavelmente, ela nutre algum afeto. Mas, diante da imposição (certamente mais subjetiva que externa) de cumprir a lista, os destinatários se tornavam malditos. Vê-se na obrigação de comprar para cumprir exigências o desvirtuamento da tradição de presentear entes queridos nessa época, inspirada na lenda dos três Reis Magos, que teriam levado ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus, na noite do nascimento da criança.

Mas de onde vem essa sedução pela compra que afeta milhões de pessoas e as faz descobrir, semanas depois (ao examinar os extratos da conta bancária e a cobrança do cartão de crédito), que talvez tenham exagerado no impulso consumista? Não me refiro aqui a pessoas com traços fortemente patológicos, histéricos graves e principalmente compulsivos, para quem o consumo desenfreado realmente se caracteriza como um sintoma do distúrbio. Falo de pessoas aparentemente equilibradas, que sacrificam preciosas horas livres (ou espremidas entre um afazer e outro) para comprar e comprar, como se o consumismo tomasse o lugar de uma incontrolável catarse, que em alguns casos parece impossível evitar.

A ânsia de consumir está relacionada a questões do próprio sujeito, sua história de vida, as faltas e a maneira como aprendeu a lidar com elas. Mas não apenas. Há fatores sociais que também devem ser considerados. Em meados do século 19, quando Gustave Flaubert lançou seu romance Madame Bovary, foi processado por ofensa à moral e à religião. Emma, a protagonista, foi condenada como se fosse uma pessoa de carne e osso. Décadas mais tarde surgiu o termo “bovarismo”, proposto pelo psiquiatra Jules Gaultier, para designar a insatisfação com a vida e a ilusão de ser uma outra pessoa. No romance de Flaubert, a atormentada Emma Bovary, assolada pelas dívidas, termina por cometer suicídio. O surgimento da personagem que busca refúgio nas compras tem um contexto histórico específico, marcado pela transformação das formas de produção; é justamente quando nasce o romantismo, movimento que possivelmente guarda algum parentesco com o consumismo. Afinal, ambos podem ser vistos como desencadeadores de ilusões e mantidos pela “auto estimulação” (seja por meio da emoção romântica ou da aquisição de bens).

A quantidade de opções disponíveis em lojas de ruas ou shoppings, prateleiras e balcões de estabelecimentos de conveniência abertos 24 horas, bancas de camelô e quiosques, assim como as apresentadas pela internet, nos anúncios de jornais e revistas nos torna tão acostumados à “necessidade” de consumir que, o estivermos atentos, corremos o risco de tomar esse gesto como “natural”. O problema começa quando os iludirmos com a ideia de que, comprando, será possível aplacar angústias, ansiedades, dores que podemos até “enganar” por algum empo. Mas o acalanto ilusório é efêmero. Muitas vezes essa lógica funciona internamente, mesmo que racionalmente a ideia possa parecer estapafúrdio (afinal, em sã consciência, quase todo mundo concorda que dar um presente bonito não compensa lacunas afetivas; tampouco uma roupa nova muda a vida de alguém, exceto talvez da Cinderela, mas essa já é outra história).

Publicitários e empresários, porém, sabem que uma das formas de tornar um produto “necessário” é aproximá-lo tanto do consumidor em potencial que se torne difícil distinguir se, de fato, é tão imprescindível. Exemplo disso são determinadas músicas que nem gostamos nas primeiras vezes que escutamos, mas de tanto escutá-las terminamos por decorar a letra e cantar junto. Passado algum tempo, temos até vontade de ouvi-la de novo. O mesmo acontece com produtos e marcas que nos são apresentados constantemente. Isso pode nos fazer considerar que em tempos de tanto assédio convém, mais do que nunca, ficarmos atentos para detectar em nós o que de fato precisamos, em vez de nos curvarmos às imposições que nos arrebatam e nos fazem pensar, equivocadamente, que demandas cuidadosamente fabricadas por profissionais astutos são anseios nossos.

A multidão que fita o vazio. 3

Uma experiência realizada há mais de 40 anos pelos pesquisadores Stanley Milgram, Leonard Bickman e Lawrence Berkowitz, da Universidade da Cidade de Nova York, tem sido utilizada com frequência por professores de graduação para abordar o tema da persuasão nas aulas de psicologia social. Um voluntário foi instruído a ficar parado em uma rua movimentada fitando o céu por um minuto. O objetivo era observar a reação das pessoas que passavam por ele. Os estudiosos constataram que a maior parte dos pedestres apenas se desviava do voluntário ou trombava com ele, sem sequer se dar conta do que fazia ali parado. Menos de 5% se juntavam ao homem que fitava as nuvens.

O experimento foi então repetido, mas com uma variação: em vez de apenas uma pessoa olhar para cima, os pesquisadores pediram que cinco outros colaboradores se juntassem ao primeiro.  Com o aumento do grupo, a porcentagem de transeuntes que parou e também voltou os olhos para o céu quadruplicou. Num terceiro momento, quando foram usados 15 colaboradores, 40% dos passantes naquele trecho da rua, durante 60 segundos, se juntaram aos primeiros, praticamente parando o trânsito.

O resultado pode ser explicado pelo que se convencionou chamar de “validação social”. Em linhas gerais, o conceito refere-se à busca de modelos para nossas próprias atitudes no comportamento daqueles que nos cercam. Ao longo da evolução de nossa espécie, essa forma de agir com certeza garantiu a sobrevivência de muitos de nossos antepassados. E até hoje um dos aspectos que mais influem em nossas decisões é a atitude dos outros: olhamos para o que os demais fazem (ou fizeram) em circunstâncias similares e procuramos seguir seu exemplo, ainda que (felizmente) com alguma dose de criatividade. Tendemos a apostar que se muitos seguem um determinado caminho aquele deve ser o mais correto. Mas isso nem sempre acontece. Às vezes, a multidão pode estar apenas fitando o vazio.

OUTROS OLHARES

AI QUE MEDO DO MEU SMARTPHONE!

Há tantos benefícios oferecidos em tão pouco tempo pela tecnologia que, muitas vezes, não nos damos conta das incômodas demandas associadas a eles. Muitas vezes, porém, é inevitável experimentar as angústias despertadas pelo universo digital.

Ai que medo do meu smartphone!

Eles são espertíssimos, com design charmoso, cheios de funções e extremamente úteis. Ainda assim, podem se tornar fonte de inquietação e ansiedade-seja por “exigirem” a todo o momento o envio de respostas, checagens, curtidas e postagens ou simplesmente porque, eventualmente, não estão por perto para possibilitar tudo isso. Consagrados como objetos de desejo, já há algum tempo os smartphones se tornaram muito mais que equipamentos para fazer ligações telefônicas. Na prática, funcionam como máquinas fotográficas, meios de acesso às redes sociais, guardiões de inúmeros aplicativos que nos ajudam a administrar nossa vida e, principalmente, fazem às vezes de janela para o mundo – o que pode ser cansativo. Para muitas pessoas, essa relação tão próxima com a tecnologia reedita inseguranças e angústias que nada têm de “novo” – a não ser o meio que as deflagra.

Afinal, alguém duvida de que é próprio do ser humano sentir medo do desconhecido? Ou que novidades tecnológicas possam significar o desafio de lidar com um universo do qual pouco se sabe? Sob a óptica da evolução, não é difícil perceber que costumamos nos intimidar diante do que não conhecemos – e é bastante provável que a tecnologia integre essa lista, especialmente para aqueles que nasceram antes da década de 80. Além dessa conclusão óbvia, porém, podemos pensar em angústias que despertam novas formas de ser e estar no mundo. Os populares selfies, por exemplo, tanto podem trazer percepções distorcidas e críticas à própria imagem quanto concorrer para o culto a padrões estéticos idealizados. Da mesma forma, as redes sociais que exaltam os pequenos toques de glamour e sucesso de pessoas comuns tendem a instigar a competição, a inveja e o ciúme. Não raro, pessoas que recentemente terminam relacionamentos empenham-se em uma busca masoquista sobre novidades da vida do ex – uma pesquisa que, em geral, traz muito mais sofrimento que alívio.

Mas nada disso é novo. Nos anos 70 dizia-se que fornos de micro-ondas produziam radiação com potencial para causar má-formação congênita. Nos anos 50, temia-se que a TV derretesse células cerebrais. Nos anos 30, acreditava-se que rádios fossem excessivamente estimulantes e prejudicassem o desempenho escolar das crianças. Agora, novas tecnologias aparecem (e desaparecem) mais rapidamente que nunca. Mal temos tempo de nos adaptar a um equipamento antes que ele mude mais uma vez. Não é surpresa, então, que nosso medo do futuro também assuma outros contornos.

Atualmente tememos o efeito de eletrônicos sobre o cérebro das crianças e em sua capacidade de se socializar. Sabemos que governos e grandes empresas coletam nossos dados e tememos por nossa privacidade. Muita gente ainda receia que celulares provoquem câncer cerebral. É verdade que nossos medos geralmente acabam sendo infundados. Ainda assim, alguns podem ser motivo genuíno de alarme – o fato é que ainda não sabemos, pois não há comprovações suficientes. A talidomida, um medicamento para enjoos matinais provocava má-formação congênita. Usar o celular no carro sem dúvida mata milhares de pessoas todos os anos. A Agência Nacional de Segurança realmente espiona americanos, dirigentes de outros países e quiçá eu e você.

Desconfortável. A opção de barrar o avanço da tecnologia, porém, não parece viável. Mas a parte surpreendente sobre o medo razoável é que ele pode ser saudável – quando canalizado na forma de pensamento crítico. Se tememos que as crianças se percam no próprio universo porque desde muito pequenas são extremamente hábeis para lidar com a tecnologia, cabe a nós, adultos, oferecer a elas outras oportunidades de experiências – ainda que seja mais cômodo deixá-las em silêncio com um tablet nas mãos. Se percebemos que parece mais importante postar uma foto para que os outros curtam e compartilhem – e, talvez, no “melhor” dos cenários “viralize” – em vez de viver a experiência, pode ser o momento de rever as próprias prioridades. Ou seja: da mesma forma que temos uma longa tradição de temer novas tecnologias, também temos a capacidade de corrigir o curso de situações que podem ser prejudiciais. De uma forma ou outra, a tecnologia sempre nos mudará e sempre nos assustará, mas olhar para ela de forma crítica e fazer escolhas saudáveis e sempre uma possibilidade atraente. E, para isso, uma pitada de desconfiança e medo de ser tragado pelas comodidades da era digital pode ser muito útil.

Ai que medo do meu smartphone!. 2

O QUE FAÇO SEM ELE?

É compreensível que, em um mundo em que a informática parece tão onipresente e a realidade concreta se mistura com a virtual com tanta facilidade, muitos se assustem diante de novidades – às vezes de forma exagerada (neofobia) ou, mais especificamente, temam a tecnologia (tecnofobia). Ainda que racionalmente o medo não se justifique, o que importa são os sentidos que o novo – e, mais especificamente, a informática – ganha no imaginário dessas pessoas. Por outro lado, quando olhamos para o arsenal tecnológico ao qual boa parte de nós tem acesso atualmente, também pode parecer perturbador pensar em abrir mão de certas comodidades.

Que o diga quem já se encantou por um e-reader com tela fosca, de um centímetro de espessura, daqueles que cabem na bolsa, têm ótima resolução e armazenam mais de 2 mil livros. Ou se acostumou a ter à mão um celular que acessa redes sociais; visualiza páginas simultâneas; aceita GPS; grava, edita e transmite vídeos on-line, lê códigos de barras; trava e destrava portas do carro, abre o porta-malas, controla o ar-condicionado; guarda senhas e escaneia retinas para permitir acesso; transforma voz em texto; organiza a lista de contatos e disca automaticamente. Ufa!

Como medos são inerentes ao ser humano – e funcionam como uma proteção ao que identificamos como perigoso-, a máxima vale para qualquer coisa que vemos como ameaça. É possível, portanto, entender também que aqueles que se habituaram a acessar os recursos de smartphones quase como extensão do próprio corpo se sintam apavorados diante da possibilidade de se afastarem do equipamento – e assim perderem a sensação de controle em relação ao meio e a oportunidade de se comunicar. Não por acaso, recentemente uma marca de carro mostrou numa campanha publicitária um rapaz que ficava completamente nu sem seu celular. A ideia era divulgar a interatividade do veículo e de fato captou a sensação de tanta gente quando não tem seu aparelho ao alcance – ainda que não esteja esperando mensagem, uma informação ou realmente queira falar com alguém naquele momento. Ainda assim a sensação não é apenas de falta, mas de enorme desproteção.

O grande medo de ficar sem o aparelho e, consequentemente, desconectado – de si mesmo e do outro – por algumas horas ganhou nome: nomofobia (contração da expressão no mobile phobia). Um estudo desenvolvido com mil pessoas no Reino Unido (onde a palavra foi utilizada pela primeira vez) revelou que quase 70% dos voluntários se sentiam “muito angustiados” com a ideia de perder o celular. A proporção chegou perto de 80% entre jovens de 18 a 24 anos. Claro que se nos debruçarmos sobre esse medo vamos encontrar inseguranças e angústias bem mais antigas, possivelmente não diretamente relacionadas à falta do smartphone em si, mas sim ao receio de exclusão, da própria fragilidade e ao pavor do abandono.