OUTROS OLHARES

BRASIL TEM 12,3 MILHÕES DE JOVENS QUE NÃO ESTUDAM NEM TRABALHAM

Número, superior ao da população da Bélgica, já representa 30% dos jovens na faixa etária até 29 anos; economia fraca prejudica a entrada no mercado de trabalho

O sonho de Gabriela Novazzi, de 17 anos, é conseguir um emprego para dar uma vida melhor ao filho, de 3 anos. Ela nunca teve um trabalho fixo, com carteira assinada. Apenas bicos que consegue em eventos. Desde 2016, quando foi obrigada a abandonar a faculdade de Educação Física por questões financeiras, Gabriela não estuda nem trabalha. “Era minha mãe que me ajudava nos estudos, mas ela ficou sem trabalho e parou de pagar a universidade”, diz.

Sem experiência, ela está à procura de qualquer oportunidade de entrar no mercado de trabalho. Mas a busca não tem sido fácil. “A maioria das empresas exige uma experiência anterior. É uma dificuldade”, diz. Além de dar estabilidade ao filho, Gabriela também  sonha em terminar a faculdade. “Nunca é tarde para recomeçar”.

Gabriela faz parte de um contingente de jovens de até  29 anos que cresceu muito nos últimos tempos. São os chamados “nem-nem”, um grupo de pessoas que nem estuda nem trabalha. Segundo a consultoria IDados, até o segundo trimestre de 2021, essa população representava 30% dos jovens dessa faixa etária. Isso significa 12,3 milhões de pessoas, cifra que supera a população da Bélgica.

O número de nem-nem teve um salto durante a pandemia, em 2020. Em 2021, os números recuaram um pouco, mas continuam acima do nível pré-covid 19. São quase 800 mil pessoas a mais ante o primeiro semestre de 2019 – quando o grupo representava 27,9% dos jovens até 29 anos. O problema é que desde 2012 o número está em crescimento. Naquela época, os nem-nem eram 25% da faixa etária (ou 10 milhões).

GARGALO

“Isso representa uma ineficiência enorme para o Estado, já  que muitas dessas pessoas tiveram um investimento público por trás”, diz a pesquisadora da consultoria, Ana Tereza Pires, responsável pelo levantamento. Além da questão econômica, tem também o lado individual de cada um dos jovens, sem experiência.

A cada ano, diz ela, novos estudantes se formam e não conseguem ser absorvidos no mercado, o que cria um bolsão de nem-nem. Sem emprego nem renda, eles não conseguem estudar e muitos param no meio do caminho, como no caso de Gabriela. Segundo Ana Tereza, terminar a faculdade numa fase de recessão pode ter reflexos para toda a vida profissional. Os que conseguem emprego podem ter salários mais achatados comparados a quem se forma durante a expansão econômica. Mesmo para quem já conseguiu emprego, a crise é um problema, porque pune primeiro os mais jovens, que têm menos experiência e recebem menos.

As empresas preferem garantir a permanência dos profissionais especializados e de difícil contratação. Sem contar que os mais jovens representam um custo menor na rescisão.

EDUCAÇÃO E PIB

Na avaliação do presidente da Trevisan Escola de Negócios, Vandyck Silveira, a situação dos jovens é resultado de uma série de questões. A primeira está associada à educação. “Temos uma escola de ensino fundamental e médio de péssima qualidade, que não prepara o estudante para nada.” O problema, para ele, não é por falta de investimento. Mas por investimento errado.

Soma-se a isso o baixo crescimento da economia. Desde 2013, o país não consegue encontrar o caminho da retomada consistente. Entre 2017 e 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu muna média de 1,4% ao ano – resultado muito abaixo da capacidade. “Para empregar todos os jovens que entram no mercado de trabalho, o Brasil precisaria crescer, pelo menos, 3% ao ano”, diz Silveira. “Estamos ficando definitivamente para trás.”

Para especialistas, o crescimento dos nem-nem significa perda de produtividade e de capital humano. Para Marcelo Neri, diretor do FGV Social, o Brasil teve na pandemia o maior contingente da história de jovens nem-nem. Mas esse porcentual deve cair pela metade até o final do século, resultado da demografia. Na avaliação dele, essa geração está sacrificando o presente e o futuro. “Logo, o futuro do país está comprometido pela falta de quantidade e pelo tratamento de baixa qualidade dado à juventude.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 27 DE JANEIRO

OLHANDO PARA JESUS

Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava (Números 21.9).

A murmuração é um pecado de ingratidão. Azeda a alma, entorpece a mente e apaga as luzes da esperança. A murmuração provoca a ira de Deus. O povo de Israel partiu do monte Hor, pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, porém o povo se tornou impaciente no caminho e começou a falar contra Deus e contra Moisés. Afirmaram já estar enfastiados do maná e o chamaram de pão vil. Deus colocou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel. Desesperados com as consequências trágicas de seu pecado, foram a Moisés e pediram para que este orasse a Deus, rogando a remoção das serpentes. Moisés clamou ao Senhor e Deus lhe respondeu, dizendo: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo mordido que a mirar viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava (Números 21.8,9). Mil e quinhentos anos depois, Jesus disse a Nicodemos: E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna (João 3.14,15). A única forma de sermos libertados do pecado, o veneno mortal da antiga serpente, é olharmos para Jesus, aquele que levou sobre si os nossos pecados. Nele temos completa redenção!

GESTÃO E CARREIRA

O POTENCIAL MERCADO DOS PRATEADOS

Redes de franquias começam a notar quem já passou dos 50 anos. O Brasil tem mais de 54 milhões de pessoas nessa faixa etária e pode ultrapassar 90 milhões em 20 anos

Já se foi o tempo em que pessoas com mais de 50 anos eram !descartadas” pelo comércio e serviços. Ainda que o ritmo de contratações, por exemplo, não seja o mais adequado para a experiência que eles podem oferecer, há outro segmento que está de olho em algo que os cinquentões, sessentões e setentões têm a oferecer: o poder de compra.

Tanto que hoje há um novo mercado, denominado “prateado”. Cabelos brancos ou acinzentados (em teoria, já que nem precisam ser assim exatamente) passaram a dominar as atenções. A valorização dessas pessoas começou a ser defendida com unhas e dentes pelas companhias.

Motivo para isso existe. O Brasil tem, hoje, 54 milhões de pessoas com mais de 50 anos, segundo dados do Instituto Locomotiva. Para 2045, a estimativa é que sejamos 90 milhões. Essa parcela da população movimenta em torno de R$ 1,6 trilhão da economia brasileira, de acordo com o mesmo instituto. Não à toa, o termo “economia prateada” tem ganhado mais destaque.

De olho nessa fatia que se torna cada vez mais importante no mercado, algumas marcas estão mirando nesse novo nicho e oferecendo serviços voltados a essa faixa etária. Movimentos assim não são incomuns e fazem parte do próprio giro dos negócios.

MUITO CONSUMO

O estudo “The truth about online consumers” ( A verdade sobre os consumidores on-line, em tradução livre), conduzido pela KPMG, em 2017, mostrou que pessoas acima de 50 anos fazem tantas compras on-line quanto os “novinhos”. São 15 transações por ano, e 19 da chamada Geração X (nascidos entre os anos 1960 e 1980) e 16 dos Millennials (nascidos nos anos 1990 em diante).

Por outro lado. ainda segundo o mesmo estudo, o valor médio das compras é o maior de todos: US$203 (os “X” gastam US$ 190 e os Millennials, US$ 173).

É claro que essa tendência de mercado iria chegar às franquias. Hoje, é cada vez maior o número de empresas que atendem exclusivamente ou principalmente quem tem mais de 50 anos. Mas não é só. Também começou a aumentar o número de empreendedores que se tornam franqueados.

Para o sócio -fundador da Kick Off Consultores, Renato Claro, também era um movimento esperado. “O empreendedor que busca uma franquia tem muita experiência profissional e de vida acumuladas, e eles tendem a ser muito exigentes em termos de informações sobre o negócio”, afirma.

Em geral, são pessoas que buscam negócios com baixo risco, pois normalmente estão investindo as economias de uma vida, e não terão tempo para recuperá-las em um possível fracasso. Ou seja, já pensou ter mais de 50 e conversar com esse público? Sucesso na certa.

O especialista em gestão empresarial e empreendedorismo Leandro Sobrinho aposta que a grande estratégia das redes é não criar rótulos para o público 50+. Ou seja, mantê-lo atualizado às tendências atuais. “Esse é um perfil de consumidor, sem dúvida, mais fiel e menos modal. Mas conquistar essa fidelidade é algo que demanda tempo e trabalho. Comunicar-se com o cliente de modo a trazer conforto e dar aquela sensação de que a pessoa está atualizada são boas dicas”, analisa.

Trocando em miúdos, a fidelização está ligada a uma experiência de consumo que o conecte com a inovação em uma linguagem clara. Seja ela na loja física, com atendentes que demostrem expertise, ou no on-line, que deve ter acesso fácil e simplificado não deixando dúvidas sobre o produto e em especial sobre a política de compra, pagamento e devolução. “Clareza e objetividade são pontos -chave para fidelizar o público mais maduro. Por exemplo: não há mais espaço para aquele antigo costume de um vendedor insistente, chato, que buscava converter a venda pelo cansaço. Isso definitivamente é algo que não funciona”, lembra Sobrinho.

O sócio -fundador da Kick Off Consultores aponta que esse público também tem muitas razões para ter segurança e autoestima elevada, e que não tem as inseguranças comuns aos jovens. Por já terem uma vida profissional, familiar e até econômica definidas, a principal questão – que Renato Claro chama de “calcanhar de Aquiles”- é a longevidade. “É comum a ideia de que eles não terão mais oportunidades no mercado de trabalho, e outros pensamentos. Assim, entender seus pontos de vista e sua linguagem, entender seus pontos de segurança e insegurança faz toda a diferença ao definir uma oferta para este público”, acredita.

Há ainda uma grande recomendação para os franqueadores: evitar a venda de impacto. “Uma possível insatisfação deste franqueado terá um peso negativo importante para a reputação da franqueadora”, acrescenta Claro.

PASSO IMPORTANTE

É na economia prateada que estão as pessoas mais preparadas para tocar um negócio próprio, mais estáveis, mais perseverantes e com capacidade financeira estabelecida.

No entanto, na avaliação dos especialistas ouvidos, ainda há muitas outras oportunidades que podem ser pensadas para esse público – sempre tendo em mente a não rotulação.

No programa de mentoria oferecido por Renato Claro, por exemplo, 80% do público está na faixa 50+. E a chance de uma franquia aberta por um empreendedor desse grupo não dar certo depende muito do estilo da franqueadora. “Nossa experiência diz que o maior risco é fazer negócio com franqueadores focados em apenas vender as franquias, e não construir uma história de sucesso”, resume.

OPORTUNIDADES PRATEADAS

Abaixo mostraremos alguns exemplos de franquias que entenderam as necessidades do mercado 50 +

HOME ANGELS

A Home Angels, franquia de cuidadores de pessoas, viu no aumento gradual da expectativa de vida dos brasileiros um potencial mercado a ser explorado. Pioneira no segmento, a marca tornou-se referência em cuidados com os idosos, prestando serviços em assistência física e emocional, além de um atendimento supervisionado e especializado aos pacientes e famílias. “A tarefa de um cuidador exige dedicação em momentos que os familiares não conseguem estar presentes e, além disso, quando o idoso é bem assistido, evolui clinicamente e em sua qualidade de vida”, avalia o sócio-diretor da rede, Artur Hipólito.

Para não só atender esse público, mas também chegar a outras cidades, a empresa criou a franquia Home Angels Express, para municípios com 100 mil habitantes. O valor de investimento inicial é de R$41 mil.

Além disso, outro serviço que fez diferença durante a pandemia e que permanece é o Home Angels Help um canal de atendimento médico via telefone que funciona 24 horas, minimizando a exposição do público-alvo à hospitais.

RAIO-X

Investimento: de R$ 41 mil a R$89 mil

Taxa de franquia: de R$25 mil a R$55 mil

Capital de giro: de R$ 7 mil a R$12 mil

Royalties: 8% sobre o faturamento bruto

Taxa de publicidade: 2% sobre o faturamento bruto

Faturamento médio mensal: Express – R$80 mil / Premium – R$130 mil

Lucro médio mensal: não informado

Prazo de retorno: de 18 a 24 meses

Duração do contrato: 4 anos

ODONTO COMPANY

Se um bonito sorriso faz diferença na boca de jovens e adultos, não haveria de ser diferente entre os mais experientes. Com a expectativa de vida cada vez mais alta, o público da terceira idade também tem sido uma parcela representativa dos clientes da Odonto Company, uma das maiores redes de clínicas odontológicas do mundo.

Entre os serviços mais procurados estão colocação de prótese dentária e implantes, “Esse grupo está mais suscetível a alguns problemas odontológicos e precisa ficar atento para evitar dores ou perda dos dentes, o que pode trazer dificuldades para a mastigação”, explica o fundador e presidente da empresa Paulo Zahr.

A rede aposta também na publicidade com artistas que são conhecidos e admirados pelo público, como os apresentadores Ratinho, Eliana (ambos do SBT) Rodrigo Faro, da Record TV e que têm como principal audiência as pessoas com mais de 50 anos, segundo levantamentos feitos pelas próprias redes de televisão.

RAIO-X

Investimento: a partir de R$120 mil

Taxa de franquia: a Partir de R$35 mil

Capital de giro: a partir de R$ 30 mil

Royalties: 7%  sobre o faturamento bruto

Taxa de publicidade: 2% sobre o faturamento bruto

Faturamento médio mensal: estimativa de R$110 mil a R$600 mil

Lucro médio mensal: de 25% a 27%

Prazo de retorno: de 16 a 20 meses

Duração do contrato: 5 anos

DOCTOR FEET

Não só os clientes entraram no rol dos desejos deste público, os pés também. Com a idade, a pele tende a ficar mais fina e delicada na região das pernas, e inchaços, ressecamento, rachaduras são bem comuns nesta fase. Na Doctor Feet, rede de franquias especializada em serviços de podologia, manicure e venda de produtos ortopédicos, é realizado tratamento completo com o corte técnico. Das unhas e hidratação.

Já a reflexologia, uma massagem relaxante, é indicada para reequilibrar o corpo, reduzir tensões e melhorar a circulação sanguínea.

RAIO-X

Investimento inicial: R$232 mil (2 cabines) e R$355 mil (4 cabines) – sem ponto

Taxa de franquia: R$60 mil (já incluída no investimento)

Capital de giro: de R$15 mil (2 cabines) a R$35 mil ( 4 cabines)

Royalties: 5%sobre o faturamento bruto

Taxa de publicidade: 2,5% sobre o faturamento bruto

Faturamento bruto mensal: R$35 mil (2 cabines) e R$80 mil (4 cabines)

Lucro médio mensal: 20%

Prazo de retorno : de 24 a 36 meses

Duração de contrato: 120 meses

ANJOS COLCHÕES & SOFÁS

Já quando o assunto é dormir, a rede de colchões e estofados Anjos Colchões & Sofás é especialista em proporcionar conforto e bem-estar aos mais velhos. A linha saúde, desenvolvida para 50+, oferece produtos que permitem um sono reparador, alinhado às necessidades  desse público. “Devido à experiência de vida, essas pessoas buscam produtos que proporcionam benefícios verdadeiros para sua saúde. Por meio desse público, conseguimos expandir a nossa marca e ainda aumentar a confiabilidade dos clientes sobre ela”, afirma o presidente da rede, Claudinei  Anjos.

RAIO-X

Investimento inicial: R$ 30 mil

Taxa de franquia: R$55 mil

Capital de giro: não informado

Royalties:isento

Taxa de publicidade: 2% sobre as compras

Faturamento bruto mensal: R$100 mil

Lucro médio mensal: de 15% a 25% sobre o faturamento bruto

Prazo de retorno: de 6 a 12 meses

Duração do contrato: 5 anos

TERÇA DA SERRA

O envelhecimento da população é uma tendência em todo o globo e, com isso, surge a necessidade de serviços para esse público mais velho não apenas para o cuidado, mas também em áreas como turismo e esporte.

A rede de assistência e cuidados para pessoas idosas Terça da Serra surgiu em Campinas (interior de São Paulo) após a doutora Joyce Duarte Caseiro passar por uma situação: querer ver um tratamento mais humanizado para o avô, que, na época, tinha 83 anos. “O fato de ser uma tendência já é um grande atrativo para se investir nesse mercado, além disso, existe uma escassez  de qualidade muito grande nesse tipo de serviço, o que “torna o trabalho da Terça da Serra mais fundamental”, pondera.

Em todos os locais que a rede inaugure uma unidade, já existe uma demanda reprimida   onde é possível atender. “O outro motivo da importância do público 50+ para a rede é que os filhos dos idosos que moram nos residenciais têm 50 anos ou mais. Então, o cliente da Terça da Serra é um  senhor ou senhora a partir de 50 anos, que tem os pais idosos e necessitam desse tipo de assistência para seus familiares”, complementa Joyce.

RAIO-X

Investimento Inicial: a partir de R$500 mil

Taxa de franquia: a partir de R$95 mil

Capital de giro: R$40 mil

Royalties: 5%

Taxa de publicidade: 2% sobre o faturamento bruto

Faturamento bruto mensal: R$100mil

Prazo de retorno: de 24 a 36 meses

DE OLHO NO MERCADO ATÉ CURSOS JÁ FORAM CRIADOS

A economia prateada está tão em alta que um curso vai abordar o crescimento desse mercado. Oferecido pelo lnsper, o “Negócios para a Longevidade” começa no dia 7 de fevereiro de 2022.

A formação terá 33 horas, e a proposta é oferecer aos alunos a oportunidade de entender a relevância e o potencial do segmento sênior, a partir das mudanças demográficas sentidas no Brasil e da importância do foco no curso de vida.

O curso também prioriza a discussão de caminhos para o envelhecimento saudável, a ênfase na diversidade etária nas instituições e o combate ao “idadismo” (o preconceito de idade) para o fortalecimento da economia nacional e mundial, “O foco é preparar os alunos para atenderem com excelência o segmento prateado, que é exigente e sabe o que quer. Urge a necessidade de quebrar a barreira do preconceito etário, mostrando a relevância do ‘novo idoso’ e a heterogeneidade deste grupo. O curso é em essência um aprendizado sobre nosso processo de envelhecimento como país e as decorrentes consequências econômicas e sociais”, afirma o docente-líder da iniciativa, Sérgio Duque Estrada.

EU ACHO …

DISCUTIR COM IDIOTAS

A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades

O advogado Tiago Pavinatto lançou, pela Edições 70, o livro Estética da Estupidez: A Arte da Guerra Contra o Senso Comum. O livro é muito interessante e serve para refletir o momento curioso em que nos encontramos. O autor mistura bom humor, ironia ácida, referências eruditas e lança catapultas sobre a Jerusalém de Brasília e seus Messias.

Comecei refletindo na epígrafe do livro: “Debater com um idiota é perder de maneiras distintas e combinadas. Perde-se tempo. Perde-se a paciência. E se perde o debate propriamente, porque ele só entenderá argumentos idiotas – e, nesse quesito, o imbatível é ele, não você”. (Reinaldo Azevedo).

A primeira reação ao ler o pensamento é sorrir. Ela já contém uma vaidade: se você gostou, há uma chance de não se considerar um idiota. Quem achou bom, naturalmente, imagina-se portador de cidadania plena na ilha da sabedoria e da razão e olha para os limitados com certa xenofobia. O pensamento de Azevedo termina com frase que, diria meu pai, usa de “contundência”. O termo comum para a conclusão, hoje, é “lacradora”. Sim, o adversário é imbatível porque é… idiota. Há certo consolo retórico e psicológico na  conclusão.

Despontam questionamentos válidos: a) como saberei, de fato, que não sou um imbecil? A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades; b) se não posso debater com idiotas e não tenho certeza sobre minha pontuação no campo da genialidade, com mais certeza terei dúvidas sobre quem é sábio ao meu redor e, por consequência, digno de debate; c) se eu perco o debate com idiota porque ele é melhor no manejo do argumento ilógico, com um sábio eu perderei porque ele é hábil no uso da razão; logo, perderei sempre?

Eu já dei este conselho em palestra, citando minha avó: “Não toque tambor para maluco dançar “. Li O Alienista de Machado algumas vezes e me dou o direito ao relativismo no campo da sanidade mental. Analisando algumas passagens da minha vida pretérita, eu ceda bons motivos para ocupar ampla suíte na Casa Verde do dr. Bacamarte. Itaguaí poderia conter o universo todo.

Sim, fui louco eventual. Continuarei sendo um idiota? Claro, querida leitora e estimado leitor, já ficou claro aqui que temos idiotas insanos e idiotas perfeitamente equilibrados daquele tipo que, em época menos cuidadosa com palavras, chamaríamos de “pessoa normal”. Como é patológico nos dias atuais identificar alguém como normal, digamos que a maioria das ações e pensamentos de alguns idiotas caracteriza um comportamento médio tido por aceitável pela sociedade.

Duas questões afloram: sou um idiota? Devo discutir com idiotas? Sendo a democracia inconciliável com a censura, estaríamos condenados (como pensou Umberto Eco) à fala onipresente do “idiota da aldeia”? A figura descrita por Eco tem base literária: anda, maltrapilho, incomodando pessoas com frases e gestos, todavia todos o tomam por inofensivo. Aliás, o “idiotada aldeia” tem profunda função social: serve para classificar todo o resto da comunidade como inteligente. É fundamental existir no grupo, o tipo limitado: a sombra da escassez cerebral dele ilumina a inteligência dos outros.

Nos tempos que despertam desejo daquele meteoro devastador como redenção possível, existe a categoria que Pierre Bourdieu chamou de ”meio-cientistas”, chave conceitual analisada por Pavinatto na página 175. Fazem eco a algum tema tratado por pesquisadores, misturam a outros, somam certo senso comum com linguagem elaborada e, le voilá, surge um post devastador contra vacinas… O meio-cientista reúne o pior de dois mundos e causa danos aos idiotas da aldeia e aos sábios.

Que futuro tem nossa sociedade se conseguimos classificar com quem se pode e com quem não se pode debater? Teremos uma Berlim reconstruída com um muro ao meio? Uma nova Guerra Fria?

Eu tenho alguns princípios para tentar conversa séria. O primeiro é concordância sobre ética e lei. Não discuto com racistas ou defensores da violência contra a mulher, por exemplo. É uma derivação do paradoxo de Karl Popper: não tolerar intolerantes: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”, segundo o austro-britânico.

Há mais condições propícias: a pessoa ouve e fala. A condição de um diálogo é a alternância entre ouvir e falar. Mais uma: existe uma vontade de análise sem fígado, adjetivos, fulanização ou violência verbal. Por fim, os dois lados reconhecem que não são donos absolutos da verdade e o outro tem direito à existência, mesmo que com argumentos contrários.

Na minha concepção, nunca saberemos se somos idiotas ou inteligentes. Porém, o debate com alguns princípios prévios aperfeiçoa meu raciocínio oferecendo o contraditório. Também aumenta minha visão e, eventualmente, muda minha ideia ou a do meu debatedor. Não existem as condições dadas. Melhor ficar de um lado de Berlim que lhe agrade lamentando o limite das pessoas do outro lado do muro. Enquanto isso, leia o livro de Pavinatto e seja feliz. No ano de 2022, os muros serão erguidos a alturas inimagináveis. Esperança média de bons debates…

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

POR QUE CRESCEM PELOS NO QUEIXO DAS MULHERES MAIS VELHAS?

Com a menopausa, o equilíbrio em seus corpos muda, o que pode causar uma produção maior de hormônios masculinos

Se você é uma mulher que vem observando novos pelos indesejáveis no queixo, a primeira coisa que deve saber é que, a maioria das vezes, “isso é perfeitamente  normal”, disse Joel Cohen, dermatologista e diretor da clínica AboutSkin Dermatology and DermSugery, em Denver.

Conforme as mulheres se aproximam da menopausa, diz ele, o equilíbrio dos hormônios em seus corpos muda, e elas podem começar a produzir mais hormônios do tipo masculino, conhecidos como andrógenos.

Esses andrógenos, explica Cohen, podem transformar os tipos de folículos capilares que as mulheres costumam ter no rosto – aqueles que produzem cabelos curtos, finos e claros, conhecidos como  “penugem de pêssego” –  em folículos que tomam os cabelos mis grossos e escuros.

Quanto ao motivo de algumas mulheres possuírem esses fios de cabelo, e outras não, isso geralmente se deve à genética, diz Angela Lamb, dermatologista no Mount Sinai, em Nova York. Se tem pelos indesejados, e sua mãe, irmão ou avó também, então isso é um sinal sólido de que esse tipo de cabelo cresce na família.

COMO REMOVÊ-LOS

Existem muitas maneiras seguras de remover os pelos faciais indesejados, incluindo pinça, cera ou cremes depilatórios. Se você está preocupada que qualquer uma dessas técnicas fará com que seu cabelo cresça mais espesso, você pode relaxar nessa parte, pois “é um mito”, disse Lamb.

Na verdade, pode até acontecer o contrário: passar cera, pinçar ou aparar pode reduzir o crescimento do cabelo, porque alguns folículos capilares são danificados com o processo de remoção e param de produzir cabelo, disse a especialista.

Outra forma de controlar o crescimento indesejado de pelos é usar o creme de eflornitina, que faz os cabelos crescerem mais lentamente, enfraquecidos, e possivelmente com uma cor mais clara quando aplicado duas vezes ao dia. Mas o recurso só funciona enquanto for usado – se suspender a aplicação, o pelo voltará a crescer da maneira como crescia antes, disse Lamb.

Se você quer eliminar os pelos do queixo de forma permanente, pode considerar a depilação a laser ou a eletrólise, que atuam danificando o folículo capilar, fazendo com que ele pare de produzir cabelo.

A eletrólise, que pode ser feita por um médico ou esteticista em uma clínica – e envolve a inserção de uma agulha no folículo, danificando a raiz com uma corrente elétrica – , é uma técnica segura para todos os tipos de pelo e cabelo.

A depilação a laser, na qual a  luz é usada para aquecer e destruir os folículos capilares, também pode ser feita em um consultório ou clínica. Mas muitas vezes não remove os pelos claros com eficácia e normalmente não pode ser usado com segurança em tons de pele mais escuros porque pode queimá-la, diz Cohen.

Você pode comprar aparelhos de terapia a laser para uso doméstico ou luz intensa pulsada, que também são uma opção para  tom de pele mais claros e danificam os folículos pilosos ao aquecê-los. Mas esses dispositivos costumam ser menos eficazes, funcionam mais lentamente e exigem mais sessões do que as realizadas por profissionais.

MOTIVO DE PREOCUPAÇÃO

Se você notar mais crescimento de pelos do que o normal, e não estiver aparecendo apenas no rosto, mas também em seu seio, parte inferior do abdômen, parte interna das coxas ou costas, o ideal é consultar um médico.

Esse tipo de crescimento excessivo do cabelo, denominado hirsutismo, pode ser causado pela genética ou como efeito colateral de certos medicamentos. Em muitos casos, não há nada com que se preocupar. No entanto, o hirsutismo também pode ser um sintoma de outra condição médica que requer tratamento, explicou Lamb.

Uma condição que pode causar hirsutismo é a síndrome dos ovários policísticos, assim chamada porque pequenos cistos crescem nos ovários. Eles levam ao aumento da produção de andrógenos, promovendo o crescimento do cabelo, resultando em pelos mais grossos e escuros, explicou Cohen.

Outros sintomas da síndrome incluem irregularidades menstruais, ganho de peso e acne. É importante para as mulheres com sintomas da síndrome consultarem um médico, disse Lamb, porque quando não tratada, ela pode levar à infertilidade. Normalmente, o tratamento inclui mudanças no estilo de vida e medicamentos, que podem ser de controle de natalidade, terapia com progesterona ou o medicamento antidiabético metformina.

O uso de corticosteroides por longo prazo, que fazem parte do tratamento de doenças autoimunes e também da asma, também pode levar a mudanças nos padrões de crescimento do cabelo, incluindo o crescimento excessivo, disse Cohen. Isso porque eles também estimulam a produção de andrógenos no corpo.

Normalmente, porém, não há o que se preocupar com o crescimento de cabelo repentino, algo muito comum.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAPASSO PODE TRATAR DEPRESSÃO, DIZ ESTUDO

Pesquisa realizada em parte no Brasil averiguou que pacientes com doença severa melhoraram com o uso do equipamento

O marcapasso, equipamento médico utilizado há décadas principalmente para problemas cardíacos, pode ter mais uma nova função – o tratamento contra a depressão. Um novo estudo, realizado principalmente no Brasil , avaliou os efeitos que a ferramenta pode ter contra a doença psiquiátrica e encontrou como resultado uma melhora bastante significativa nos pacientes.

Normalmente associado à marcação do ritmo cardíaco, o marcapasso teve muitas evoluções desde a década de 1960. Com ele, é possível tratar enfermidades cerebrais porque o cérebro “recebe comandos elétricos muito bem e a gente consegue controlar sintomas de várias doenças”, afirma Antônio De Salles, neurocirurgião do Hospital Vila NovaStar, da Rede D’Or, e coordenador da pesquisa.

O médico afirma que, hoje, o equipamento já tem uso conhecido para o tratamento de epilepsia, Parkinson, tremores e dores crônicas, por exemplo. A depressão é uma das doenças que estão sendo investigadas com o uso da ferramenta, assim como o Alzheimer.

O instrumento é responsável por emitir pulsos elétricos que atuam nos neurônios, que são as células cerebrais. Esses pulsos podem ser manipulados em diferentes fatores a depender da finalidade que se quer atingir como frequência, intensidade e   tamanho. É a partir desses pulsos que é possível manipular as funções cerebrais para tratar algumas doenças.

Por exemplo, caso um paciente tenha um tremor, é possível identificar os neurônios cerebrais que têm relação com o controle muscular. A partir daí, pulsos elétricos podem ser transmitidos durante uma cirurgia para observar se o tremor cessa. Caso isso aconteça, “nós sabemos que, se mantivermos esses pulsos elétricos através de um marcapasso implantado no paciente, ele não terá mais o tremor”, explica Salles.

Esse modelo, baseado na manipulação das funções cerebrais, é parecido com o que acontece com as drogas, mas o marcapasso tem a vantagem de não gerar efeitos colaterais nos pacientes. Como o marcapasso é ligado à áreas específicas do cérebro, ele “atua somente ali e [naquelas] redes elétricas, então não [atinge] outras partes do corpo”.

Com a pesquisa, a ideia de Salles em provar que, por meio do nervo oftálmico que fica embaixo da sobrancelha, seria possível levar impulsos elétricos ao cérebro e esses impulsos [manipulariam] a química relacionada à depressão”. Esses impulsos,  no caso, poderiam ser transmitidos por um marcapasso.

Para provar esse conceito, o cirurgião realizou a investigação que foi iniciada há cerca de cinco anos e contou com a participação de 20 pacientes diagnosticados com a doença. Esses participantes foram divididos igualmente em dois grupos um que realmente teve o tratamento experimental e o outro que era o controle.

Com o estímulo constante que o marcapasso ocasiona no nervo oftálmico, Salles afirma que foi possível ver uma melhora significativa para o grupo experimental.

“A gente [acompanhou os pacientes] por muito tempo para ter certeza da melhora”, afirma o neurocirurgião, indicando ainda que a maioria dos participantes do grupo experimental conseguiu fazer ações que antes não eram possíveis, como sair de casa, trabalhar e ter relações amorosas.

Uma dessas pacientes foi a publicitária Márcia Castrillo. Ela foi diagnosticada com depressão severa em 2007. “Parecia que minha vida tinha acabado. Eu não tinha força nem para ir trabalhar, tinha muita enxaqueca e dores”, relata.

Castrillo conta que procurou diversos médicos e tratamentos “para tentar melhorar, porque era muita tristeza e falta de ânimo”. No total, ela se tratou com sete antidepressivos, além de fazer acompanhamento psicológico. Mesmo assim, os anos foram passando e só havia algumas melhoras pontuais.

Em 2014, a publicitária descobriu a pesquisa coordenada por Salles e se inscreveu. Após passar por uma triagem, ela teve o marcapasso implantado em janeiro de 2015.

“Eu ia toda semana ao hospital para acompanhamento depois da cirurgia e tinha um questionário enorme para responder e eu respondia o pior quadro possível […], mas conforme o tempo foi passando, eu percebia que as respostas iam melhorando. Em um ano, já estava respondendo tudo no melhor cenário possível”, afirma. Além de melhorar o quadro depressivo, Castillo também conta que outros problemas advindos da doença foram aparecendo, como as enxaquecas que ela tinha constantemente. A melhora completa veio depois de aproximadamente dois anos da cirurgia, quando ela suspendeu o uso dos antidepressivos e também parou de fazer terapia.

Mesmo que haja sinais positivos no uso de marcapasso para tratar essa doença, o próprio Salles reitera que ainda são necessários outros estudos.

Atualmente, o neurocirurgião planeja uma nova pesquisa com maior número de pacientes – segundo ele, a ideia dessa segunda investigação é ter 200 participantes separados entre grupo experimental e controle para ter resultados ainda mais concisos sobre o marcapasso.

“É um tratamento que nós mostramos que funciona, mas a gente não recomenda ainda para todos, indiscriminadamente porque [foi só] uma pesquisa”, afirma.

OUTROS OLHARES

PASSAPORTE PARA O SEXO

Em tempos de pandemia e com novas variantes em circulação, aplicativos de relacionamento criaram espaço para uma informação fundamental: o status de vacinação

No início da pandemia de Covid-19, há quase dois anos, as regras sanitárias foram fundamentais para proteger vidas enquanto a vacina contra as temíveis infecções não vinha. Efeito colateral do distanciamento social, os relacionamentos amorosos e os contatos mais íntimos entre pessoas desconhecidas ficaram em suspenso, gerando uma expectativa que, em alguns casos, se converteu em uma nova forma de ansiedade, especialmente entre os jovens sem nenhuma experiência nesse campo. A criação de vacinas e o progresso da imunização no Brasil – 330 milhões de doses aplicadas e cerca de 140 milhões de pessoas com o ciclo de vacinação completo – e em outros países despertaram uma esperança para quem quer sentir o calor de outra pessoa na pele e, porque não, um pouco de prazer nestes tempos tão difíceis. Os aplicativos de relacionamento identificaram essa movimentação entre os usuários, que, além de celebrarem suas melhores qualidades, agora podem informar também como está sua imunização – o que facilita na hora de escolher entre o coraçãozinho ou o xis e, se for o caso, marcar o sonhado encontro.

Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) descobriram que a maioria dos jovens entre 18 e 25 anos recorreu a esse tipo de tecnologia para diminuir a carência e solucionar a falta de contato humano decorrente do isolamento. O Inner Circle, um aplicativo que exige “convite dos próprios usuários para poder ser usado, realizou uma pesquisa com aproximadamente 2.000 pessoas de seu catálogo exclusivo. O levantamento identificou que 80% dos pesquisados afirmam estar prontos para sair com alguém. Mas para 60% deles a vacina é um pré-requisito inegociável para que o encontro presencial se consume. Três em cada quatro participantes disseram que pretendem flertar mais neste ano em comparação com o verão passado, e quase metade deles só se sentiu à vontade para criar um perfil na plataforma depois do início do Plano Nacional de Vacinação. Além disso, segundo outra pesquisa, esta de setembro, mais de 45% das pessoas não sairiam com alguém que se recusa a tomar a vacina.

Diante das evidências, os aplicativos se adaptaram. Além do Inner Circle, o pioneiro Tinder e o popular Bumble já permitem aos usuários informar se tomaram uma ou duas doses da vacina, o que pode ser determinante para a realização do tão ansiado match. No futuro próximo, a ideia de combinar encontros com desconhecidos sem antes questionar seu status de vacinação pode parecer tão estranha quanto ir a um hospital sem máscara –   algo que, antes de 2020, era muito comum. Ainda que a reabertura esteja acontecendo, com mais pessoas se sentindo seguras para sair de casa, o receio de contrair o vírus por meio de novas variantes, como a delta e a mais recente, ômicron, continua sendo uma constante na vida dos solteiros. “Por mais que novos hábitos tenham sido incorporados, como o uso de apps de relacionamento por quem não estava acostumado ou até os encontros virtuais como primeiro passo, ninguém quer correr o risco de voltar a ficar isolado em casa se contrair a doença”, diz Ximena Buteler, gerente de marketing do Inner Circle no Brasil.

Não se trata apenas de desejo, mas de saúde pública. Nos Estados Unidos, onde o movimento antivacina é intenso e a imunização entre os jovens não tem grande penetração, o governo anunciou em maio que fecharia uma parceria com aplicativos de relacionamento para uma campanha de conscientização a favor da vacinação contra a Covid-19. No Brasil, apesar dos progressos na imunização, o cenário é preocupante, já que o governo demora a tomar decisões para proteger a população e insiste em menosprezar o que a ciência e os especialistas recomendam. O caso mais recente, envolvendo o passaporte vacinal para viajantes estrangeiros, teve a intervenção do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que determinou a exigência do documento para a entrada no país. Na contramão da ignorância, as pessoas em busca de parceiros criaram, de forma quase espontânea, as próprias regras e um passaporte de prazer. Para deitar e rolar sem medo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 26 DE JANEIRO

SÍNDROME DE GAFANHOTO

Também vimos ali gigantes […], e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos (Números 13.33).

O povo de Israel havia saído da escravidão, mas ainda não havia entrado na terra prometida. Doze espias foram enviados para avistar a terra da promessa. Eram príncipes do povo, líderes de escol. Depois que avistaram a terra, trouxeram os frutos excelentes. Dez dos doze espias, porém, trouxeram um relatório negativo, induzindo o povo a uma inquietação perturbadora. Semearam a incredulidade, promoveram a rebeldia, incitaram o povo contra Deus e contra Moisés. Disseram que a terra era boa, mas tinha cidades fortificadas e gigantes invencíveis. Disseram ainda que, aos olhos dos gigantes, eles eram como gafanhotos, bem como aos seus próprios olhos. Triste inversão! Consideraram-se menos do que príncipes, menos do que homens, insetos! Gafanhotos! O pecado desses líderes foi tão grave que o povo se insurgiu contra Deus e no coração voltou para o Egito. Toda aquela geração perambulou quarenta anos no deserto e não entrou na terra da promessa. Apenas os dois espias que confiaram em Deus, Josué e Calebe, entraram na terra prometida; os demais pereceram na jornada. Quem venceu foi a síndrome de gafanhotos, e não os gigantes. Eles foram derrotados não pelas circunstâncias, mas pelos sentimentos. Caíram por causa da incredulidade, e não por causa dos gigantes. Tropeçaram nas próprias pernas. Foram derrotados pelos próprios pecados. O pecado é maligníssimo. Ele nos priva das delícias da terra prometida.

GESTÃO E CARREIRA

SUSTENTABILIDADE EMOCIONAL

A sustentabilidade está chegando a uma nova etapa: a emocional, que coloca a saúde mental dos trabalhadores no centro da estratégia das empresas. Saiba como preparar sua companhia para esse cenário

Em uma sexta-feira de 2017, Sofia Esteves, fundadora e presidente do conselho do Grupo Cia de Talentos, recebeu urna mensagem que a deixou intrigada. O texto de uma de suas sócias era simples: perguntava se ela poderia entregar um relatório na segunda-feira seguinte. O problema é que Sofia simplesmente não se lembrava de qual documento a colega falava. Ao perguntar, descobriu que era algo referente a uma reunião – da qual Sofia também não tinha a menor recordação. “Sempre tive uma memória cavalar. Eu sei o nome, telefone e endereço do primeiro cliente de 33 anos atrás”, diz a executiva. Sua sócia disse que o lapso poderia ser cansaço e recomendou descanso. Foi o que Sofia fez. No fim de semana, ela só dormiu.

A terça-feira seguinte mudaria tudo. Sofia caminhava pelo corredor da Cia de Talentos quando cruzou com outra sócia, Maira Habimorad, que comentou que a apresentação de Sofia para um cliente havia sido um sucesso. Só que ela não se lembrava de nada – de novo. Chegou até a corrigir a amiga, pensando que ela falava de outra pessoa. A sócia insistiu e mostrou uma foto do executivo. Mas Sofia definitivamente não se lembrava e desabou a chorar. “Ali eu percebi que tinha acontecido algo.” Imediatamente, ligou para seu médico e  foi até  o hospital. “Imagine o pânico, porque a primeira coisa que pensei é que poderia ser um tumor.” Os exames não revelaram nada de errado fisicamente, mas o médico de Sofia foi taxativo: “Ainda não apareceu um buraco na sua cabeça, mas se continuar nesse ritmo vai aparecer”, disse ele. Era um alerta para que a executiva diminuísse a carga, o que ela  nem pensava em fazer. O médico argumentou afirmando que aquilo era uma decisão pessoal, mas que se Sofia não abrisse mão de nada não sobraria nada mesmo – nem para ela nem para os outros.

Depois de vários exames, foi confirmado o diagnóstico de burnout e Sofia ficou 50 dias afastada. Nesse período, não podia ler, usar o computador nem assistir à televisão. A desconexão total era importante para recuperar os danos que o excesso de atividades havia causado a seu cérebro. Segundo Sofia, seus neurotransmissores tinham sofrido muito e precisavam se regenerar – o que só seria possível com descanso profundo. “Eu me sentia tão realizada no trabalho que não me dei conta de que tinha esticado demais o elástico”, diz a executiva. Além do repouso, ela fez sessões de mindfulness, terapia e fisioterapia cerebral. “Descobri que tinha uma fantasia inconsciente de que se deixasse de ajudar alguém eu não seria merecedora de ter sido ajudada”, diz. Hoje ela se policia para não voltar ao ritmo alucinante e para cuidar mais de si mesma. “Tenho um acordo com meu marido e com meus filhos: se eles perceberem que eu estou exagerando, têm que me avisar.”

Assim como Sofia, o burnout – ou síndrome do esgotamento profissional – afeta milhões de pessoas. Dados da International Stress Management Association no Brasil (lsma-BR) estimam que 33 milhões de brasileiros já tenham sofrido com o problema. Em 2019, éramos o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que calculava que 18,6 milhões de brasileiros possuíam a doença, o que correspondia a cerca de 9% da população total daquele ano. Além disso, ainda segundo a OMS, somos a segunda nação com mais casos de depressão – ficamos atrás apenas dos Estados Unidos. E a pandemia de covid-19 aumentou os problemas psíquicos: uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) revelou que 80% dos brasileiros se sentiram mais ansiosos durante a crise.

A NOVA SUSTENTABILIDADE

Não é à toa que desde o ano passado as empresas intensificaram as ações voltadas para o bem-estar mental dos funcionários. Porém, mais do que criar programas pontuais ou simplesmente oferecer sessões de terapia, é necessário preocupar-se de maneira abrangente com o tema. E a ideia de sustentabilidade emocional pode ajudar a estruturar práticas eficientes e perenes. O conceito é simples e tema ver com a sustentabilidade ambiental. Se no meio ambiente a regra é que devemos viver em harmonia com os recursos ecológicos para que eles não acabem, na saúde mental nós precisamos encontrar um ponto de equilíbrio entre aquilo que o ambiente exige de nós e o que realmente podemos oferecer sem esgotar nossas capacidades. “Sustentabilidade emocional é sobre como podemos buscar recursos psíquicos para nos mantermos na vida não só nos momentos felizes, mas nos tristes também”, diz Sandra Tambara, psicóloga e coach executiva.

O conceito vai ao encontro de todas as esferas da saúde mental, da prevenção ao tratamento, e também passa pelo modo como o mercado encara questões que podem afetar nossa mente – como a produtividade que, para a jornalista Izabella Camargo, também precisa ser mais sustentável. Ela, que sofreu um grave episódio de burnout em 2018, especializou-se no tema, escreveu o livro Dá Um Tempo: Como Encontrar Limites Num Mundo sem Limites (Princípium Editora) e defende que devemos ser mais sustentáveis em nossas listas de tarefas. “Produtividade sustentável é a capacidade de trabalhar sem causar danos à saúde e aos relacionamentos. É não apelar para remédios, anestésicos, e não deixar o estresse e a falta de tempo desencadear comportamentos agressivos e outros desequilíbrios emocionais que vão deixando nossas relações mais confusas e difíceis”, diz Izabella. “Se você ama o que faz e quer continuar fazendo o que ama sem afetar sua vida de maneira nociva, vai precisar pensar e agir considerando a sustentabilidade de sua produção.”

Para que isso se torne um valor nas empresas – e permeie as ações das companhias como já acontece com a sustentabilidade ambiental –  é preciso começar um grande projeto de educação. Só assim será possível mudar as mentalidades de funcionários e líderes. “O que garante a sustentabilidade emocional é capacitar e habilitar cada um para usar as ferramentas emocionais mais adequadas ao contexto”, diz Raquel Dilguerian, líder de saúde populacional e corporativa do Hospital Israelita Albert Einstein.

TRABALHO DE LONGO PRAZO

Um dos primeiros passos no desenvolvimento desse conceito é o autoconhecimento –    afinal, apenas com percepção sobre nós mesmos entendemos quais são os recursos que temos para oferecer e quais ainda precisamos desenvolver. “O autoconhecimento fortalece aquilo que reconhecemos e o caminho que já vivemos em nossa história. Além disso, faz com que sejamos mais empáticos”, explica a psicóloga Sandra. Esse exercício é ainda mais fundamental para encarar a pandemia e o futuro incerto que temos pela frente. É preciso encontrar tempo para compreender e identificar quais emoções são produzidas em cada aspecto de nossa vida “Não somente pensar sobre esses sentimentos, mas agir também. Às vezes, de tanto racionalizar sobre o quanto aquilo nos incomoda, não conseguimos sair daquela situação”, afirma Tamara Rigoni, psicóloga e especialista em neuropsicologia.

Para dar mais ferramentas psicológicas a seus cerca de 12.000 funcionários no Brasil, a Unilever coloca, desde 2015, o bem-estar físico e mental dentro de sua estratégia. Para isso, seguiu algumas etapas. Primeiro, criou ações de autoconhecimento para todos os empregados. Depois, apostou na sensibilização dos líderes, que foram treinados para identificar problemas emocionais nas equipes. Em 2017, a empresa inovou ao adotar o biofeedback. A prática de educação psicológica ajuda os funcionários a identificar os gatilhos de estresse e ansiedade e traz orientações de técnicas para retomar o controle emocional. Agora o foco são as conversas francas sobre saúde mental, que têm o objetivo de acabar com tabus. “Essa jornada é uma mudança de cultura”, afirma Ana Paula Franzoti, diretora de desenvolvimento organizacional e cultura e líder de saúde mental da Unilever.

E a pandemia trouxe novas necessidades para os funcionários. Em pesquisas com os empregados sobre a experiência do home office, a Unilever descobriu, em julho de 2020, que havia uma dificuldade generalizada para organizar as agendas e dar conta das demandas pessoais e profissionais. Foi assim que nasceu o programa Regras de Ouro que, entre outras orientações, estabelece que não pode haver reuniões nos horários de almoço ou após as 18 horas, nem nas tardes de sexta-feira. Além disso, os encontros não devem ultrapassar 50 minutos e é proibido emendar uma videoconferência em outra. “Não estamos em home office, estamos tentando sobreviver”, diz Ana Paula.

Essa abertura para a vulnerabilidade estimulou a companhia a criar mais um projeto: o champions de saúde mental, que treina funcionários voluntários em práticas de acolhimento psicológico. As orientações somam 15 horas e abordam temas como os principais problemas de saúde mental, violência doméstica e luto. Depois de treinados, os champions podem ser procurados por todos aqueles que estiverem precisando de algum tipo de apoio – seja para conversar, seja para ser orientado e ajudado a procurar tratamento profissional. Atualmente 45 funcionários passaram pelo curso. “O objetivo não é ter um atendimento psicológico, mas ouvir, acolher e encaminhar”, explica Ana Paula.

CUIDADO INTEGRAL

Um dos grandes desafios das empresas que pretendem estabelecer a sustentabilidade emocional é desmistificar a saúde mental, já que o tema ainda é repleto de tabus. “É muito comum que o assunto seja tratado apenas sob a ótica da doença, reforçando o estigma e o preconceito que cercam esse tema. Devemos encarar a saúde mental corporativa de forma estratégica e preventiva”, afirma Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas e criador do Movimento Mente em Foco, que discute a saúde mental nas empresas. Outro ponto importante é não deixar que os cuidados aconteçam só quando os funcionários já estão sendo afetados por doenças psíquicas – realidade cada vez mais comum. De acordo com a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, na comparação de 2020 com 2019, houve um crescimento de 26% nos pedidos de afastamentos e aposentadorias por invalidez causados por transtornos mentais. “Não adianta agir quando a doença já está manifestada. Sabemos que o absentismo é muito grave e que está relacionado ao tema, por exemplo”, diz Carlo. Por isso, a preservação da saúde mental deve fazer parte da estratégia geral de saúde das companhias, o que demonstra que as empresas se preocupam genuinamente com as pessoas. “Estamos falando de humanização das relações”, diz a psicóloga Sandra. “Precisamos considerar a saúde em sua integralidade, entender que lidamos com seres  humanos e criar um ambiente que dê apoio diante dos desafios”. Com essas questões em mente, a fabricante de bebidas Ambev começou uma  transformação cultural. “Trouxemos novos valores para que a companhia seja mais aberta e inclusiva”, diz Ricardo Melo, vice­ presidente de pessoas para a América do Sul na Ambev. “Estamos falando de colaboração e escuta ativa.” Para que a nova mentalidade fosse disseminada, era impossível deixar o tema do bem-estar de lado – e o foco da multinacional é garantir que os mais de 30.000 empregados brasileiros se sintam integralmente saudáveis.

Foi assim que nasceu, em 2020, a diretoria de saúde mental. “Criamos a diretoria para expandir o alcance da saúde, que estava muito atrelado à questão física. Queríamos olhar o ser humano em sua totalidade e seguir o conceito de saúde da OMS, de completo equilíbrio entre o bem-estar físico, o mental e o social”, explica Ricardo. Quem lidera a área é a psicóloga Mariana Holanda, que já trabalhava na companhia no time de pessoas. A diretoria atua em três pilares: responsabilidade da empresa, responsabilidade do líder e responsabilidade do indivíduo – e todas as ações são feitas tendo em mente essa divisão. “As pessoas precisam mergulhar dentro de si mesmas para entender seus limites. A empresa deve dar espaço para o acolhimento e criar um ambiente para que as pessoas possam buscar ajuda. E os lideres devem estar preparados para recebê-las”, diz Ricardo. “Antes, saúde mental era um tabu. Ninguém falava e, quando se falava, não se sabia o que fazer.”

Entre as práticas, a Ambev tem uma plataforma de bem-estar, um guia educativo sobre saúde mental e parceria com especialistas para atendimento psicológico. Além disso, a empresa começou a fazer pesquisas semanais para verificar corno os funcionários estão se sentindo durante a pandemia – o que gera dados para possíveis ações. A companhia também colocou perguntas relacionadas à saúde mental em seu censo anual. Os resultados já começam a aparecer. Uma pesquisa interna revelou que 82% dos profissionais aprovam as iniciativas de saúde mental, 70% acreditam que o cuidado da liderança com o tema é muito bom e 65% afirmam que se sentem seguros para tratar do assunto na empresa. “Isso reflete o nível de segurança psicológica da organização”, diz Ricardo.

ENVOLVIMENTO DA LIDERANÇA

Como todo pilar de negócio, uma companhia só terá sucesso na implementação da sustentabilidade emocional se a liderança estiver conectada com o terna. “As empresas devem colocar a saúde na pauta. E não é só nomear um diretor; elas precisam de um movimento da alta liderança e de discussões estratégicas no conselho”, diz Raquel, do Hospital Israelita Albert Einstein.

As ações da chefia também devem refletir os cuidados com o bem-estar psicológico – o que é outro grande desafio. Tanto que uma pesquisa conduzida pela Virtude, plataforma de terapia online, e pela consultoria Opinion Box com mais de 1.000 brasileiros revelou que só 57% dos liderados consideram que seus gestores conseguem equilibrar vida pessoal e trabalho, e apenas 50% acreditam que os chefes se preocupam com o equilíbrio das equipes – mas para 86% um bom líder precisa cuidar da saúde mental do time. E o estudo traz um dado assustador: 30% dos entrevistados acreditam que o chefe está à beira do burnout. “Um líder que só quer ter resultados e coloca a culpa na equipe também não se sustenta”, diz Sandra. Esse problema só será solucionado com sensibilização e treinamento dos gestores.

É nisso que aposta o Grupo Boticário, que tem mais de 12.000 trabalhadores no Brasil. Entre maio e junho de 2021, a fabricante de cosméticos fez uma série de treinamentos com a liderança sobre assuntos como gestão do estresse, construção de relacionamentos de confiança e identificação de sofrimento psicológico entre os funcionários. “Buscamos trazer repertório para os líderes criarem consciência sobre o tema”, diz Suelen Morais, gerente de saúde integral do Boticário. Além de conhecimento, os gestores têm acesso a dados sobre o bem-estar das equipes, já que o Boticário aplica pesquisas semanais para medir a satisfação das pessoas.

Desde agosto de 2021, a ideia passou a ser garantir a construção de ambientes psicologicamente seguros na empresa. Isso já começou a ser feito com uma mudança importante na avaliação de desempenho, que não olha mais apenas para resultados e competências, mas para a maneira como os funcionários fazem suas tarefas – e se as atitudes tomadas estão conectadas aos valores culturais.

As conversas e os estímulos ao cuidado da saúde mental, no entanto, não ficam restritas aos gestores. A empresa possui uma equipe formada por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais para atender todos aqueles que precisam de apoio – além de uma plataforma digital que ajuda no acompanhamento dos pacientes. Isso tem incentivado as pessoas a buscar ajuda: no início da pandemia, apenas 4% dos trabalhadores do Boticário faziam algum tipo de terapia. Hoje, o percentual é de 18%. “Nossa preocupação sempre foi cuidar das pessoas para que elas sejam mais felizes e equilibradas”, diz Suelen.

MAIS DO QUE UM CRACHÁ

O psiquiatra e psicólogo suíço Carl Jung já dizia que a construção do nosso ser não está restrita a somente um aspecto da individualidade, mas a várias facetas que se conectam para formar quem realmente somos. É por isso que colocar todo o foco em apenas um dos lados daquilo que estabelece nossa vida – como o trabalho – pode ser altamente perigoso para a saúde física e mental. Esse foi o erro de Sofia Esteves e o que a levou a ter um episódio tão grave de burnout. “No trabalho, fui pela primeira vez reconhecida como ser humano, e isso foi determinante para que eu colocasse muito do meu prazer e realização ali”, explica Sofia.

Assim como a fundadora da Cia de Talentos, muitos profissionais apaixonados pelo que fazem – e que gostam genuinamente da empresa em que trabalham – não conseguem estabelecer limites e acabam ultrapassando a barreira do excesso de trabalho. Esse comportamento, que  durante muito tempo foi estimulado e até premiado pelas companhias, criou uma geração de pessoas que adoecem e que deixam de colocar esforços em outras áreas da vida. O problema é que uma hora o organismo grita – e bem alto. “O nosso corpo não foi feito para ficar muito tempo em produção”, diz a neuropsicóloga Tamara. “Nossos pensamentos também conduzem as reações químicas. O esgotamento mental ocorre quando existe um volume muito grande de trabalho sem uma válvula de escape e o corpo começa a ter sintomas de estafa.” Choro compulsivo, pressão arterial alta, depressão e ansiedade são algumas das pistas que recebemos do cérebro para sinalizar o desequilíbrio. Para que isso não aconteça, é necessário encontrar limites. “Você pode vestir a camisa do seu trabalho, desde que vista também o seu pijama e uma roupa para fazer atividade física. Ou seja, que você se inclua em sua agenda”, diz a jornalista e escritora Izabella.

O papel das companhias que querem ser humanas e socialmente responsáveis é mostrar aos empregados que deve, sim, existir vida além do trabalho. E que cada funcionário é uma pessoa complexa, com necessidades, emoções, expectativas e vulnerabilidades. “Se a empresa não olhar para isso, a conta não vai fechar. Não há RH que consiga trabalhar com um grupo de pessoas adoecidas e que não encontram propósito”, diz Raquel, do Einstein. Essa conta precisa fechar com urgência – e com equilíbrio mental.

OS QUATRO PILARES DA VIDA SUSTENTÁVEL

O psicólogo americano de abordagem humanista Carl Roger desenvolveu o conceito de vida plena, que afirma que precisamos estar sempre à procura do bem­ estar integral, desde que isso seja encarado como um processo, e não como uma meta. Para o pensador, as pessoas que se mantêm nessa busca se aprimoram. Segundo ele, existem quatro pilares que embasam avida plena:

1. ABERTURA CRESCENTE À EXPERIÊNCIA

Ser livre para viver seus sentimentos

2. AUMENTO DA VIVÊNCIA EXISTENCIAL

Viver cada momento de sua vida por inteiro

3. CONFIANÇA CRESCENTE EM SEU ORGANISMO

Respeitar sua intuição como sinônimo de respeitar a si mesmo

4. FUNCIONAMENTO PLENO

Experimentar todos os sentimentos e ter consciência de si próprio

EU ACHO …

A FADA

A cada ano, no mês de janeiro, ela esperava ansiosa pelo dia da visita. Vela, copos com água e sal, planta baixa da empresa com espaços milimetricamente traçados com os pontos cardeais em um mapa, tudo enfileirado aguardando o minucioso olhar da consultora de Feng Shui, apelidada carinhosamente de “fada”. A cliente, com uma fé intensa, e criada imersa no sincretismo religioso brasileiro, era devota de Santa Terezinha e também de Iemanjá, jurava que o filho quando pequeno parou de ter pesadelos quando colocaram o filtro dos sonhos pendurado em sua cama ao lado da figura do anjo Gabriel, seu protetor. A fusão das crenças em si era tão enraizada que não sabia mais o que pertencia a qual doutrina e uma ideologia própria cheia de significado se desenvolvia e a confortava ao longo da vida. Enquanto a medalha de Nossa Senhora estava presa à corrente, a fita vermelha da cabala seguia no pulso e a Bíblia e a Torá eram vizinhas na mesinha de cabeceira.

A consulta marcada sempre em janeiro para que o ano pudesse se encaminhar na direção correta era de longe um de seus momentos favoritos. A fada chegava, ouvia com calma os desafios e os desejos e seguia passo a passo, mesa a mesa, sala a sala, fazendo cálculos em sua pequenina calculadora, determinando ajustes e às vezes bem mais que isso.

“Aqui tem de ter a cor rosa, ali a pessoa tem de olhar para leste, e onde está a proteção da sala do futuro? Aqui realmente não temos opção, vamos abrir uma porta nessa parede! É o jeito para a energia entrar”, dizia.

A fala com sotaque francês que vinha de um corpo miúdo e um olhar vivo conhecido há 20 anos era fielmente seguida pela cliente com caderno de anotações em punho. As duas mulheres seguiam os afazeres da cerimônia por algumas horas, seguiam um ritmo, lembravam salmos que deviam ser lidos, programavam cartas para o futuro, agradecimentos por algum passado não tão generoso e perdão por erros cometidos. A fada contava histórias antigas e descobertas recentes, a cliente sentia a tal energia fluir melhor e pensamentos antes emaranhados em nós pareciam puxados fio a fio. Na despedida um sentimento de que participaram de uma liturgia, gratidão, carinho e fé. Alguma dúvida de que funciona?

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

GUIA DE COMIDA SAUDÁVEL INDICA VEGETAIS NO PRATO E PACOTINHOS LONGE DA BOCA

Associação Americana do Coração lança primeiro conjunto de diretrizes alimentares em15 anos, com dicas do que incorporar ao cotidiano e quais perigos evitar, como as carnes processadas, o álcool e as gorduras sólidas

A Associação Americana do Coração, principal referência mundial na área médica, acaba de lançar uma nova diretriz com orientações para o regime alimentar que reduz o risco de doenças cardiovasculares. É o mais completo guia já feito pela instituição ao longo de nove décadas de existência, com base em dezenas de pesquisas científicas – há 15 anos o órgão não se posicionava sobre o assunto.

Alguns dos destaques da nova cartilha são a contraindicação da suplementação vitamínica e de óleos tropicais, como de coco e de palma, e a defesa de legumes congelados.

A cardiologista Paolla Smanio, do Grupo Fleury, destaca a atenção da diretriz para a importância do preparo dos alimentos.

“Embora seja indicado o consumo de peixes, se ele é frito, sua qualidade nutricional, como õmega-3, é perdida”, diz. Um conceito que também permeia todo o novo guia é a necessidade de se evitar alimentos ultra processados.

“A recomendação é cortar e descascar mais e abrir menos pacotinhos”, avalia Smanio. No texto, os cardiologistas abordam os obstáculos para uma alimentação melhor, incluindo até mesmo o risco das compras online de refeições. “As compras online, inicialmente consideradas uma oportunidade para reduzir as disparidades  nas compras de alimentos, na verdade podem ter o efeito oposto ao usar a inteligência artificial para promover alimentos e bebidas não saudáveis. Essas  práticas podem ter um efeito desproporcional e deletério sobre os consumidores de baixa renda.  Esse marketing de alimentos e bebidas não saudáveis aumenta os efeitos adversos na dieta e na saúde”. Confira as principais dicas.

REDUÇÃO DE CALORIAS

As necessidades energéticas variam de acordo com a idade, atividade, tamanho e sexo da pessoa. É importante ficar atento que, durante a idade adulta, as necessidades de energia diminuem entre 70 e 100 calorias por década. O guia traz um alerta: “Grandes porções, mesmo para alimentos saudáveis, podem contribuir para o ganho de peso”. Ou seja, não é porque a comida é saudável que pode ser ingerida indiscriminadamente. Os especialistas contraindicam dietas de efeito rápido e milagroso.

FRUTAS E VEGETAIS

A dieta rica em frutas e vegetais, com exceção da batata branca, está relacionada a um risco reduzido de doenças cardiovasculares. Quanto mais coloridos, mais ricos em nutrientes. Aos pedaços oferecem mais fibras e proporcionam mais saciedade que as versões em suco; os congelados têm vida longa e teor de nutrientes semelhante ou superior aos frescos.

GRÃOS INTEGRAIS E COLESTEROL

Produtos feitos com pelo menos 51% de grãos inteiros são normalmente classificados como integrais. Estudos indicam que a substituição de grãos refinados por inteiros está associada a menor risco de doenças cardiovasculares. A casca dos grãos ajuda a levar a molécula do colesterol embora, como a aveia. Além disso, os integrais auxiliam na saúde da flora intestinal, que ajuda na defesa do corpo.

NEM TODA FONTE DE PROTEÍNA É BOA

A diretriz propõe quatro linhas para escolhas melhores das proteínas: consumo de proteínas vegetais, como soja, edamame e tofu, feijões, lentilhas, grão de bico e ervilhas, leguminosas ricas em proteínas e em fibras; peixes e frutos do mar, em razão doômega-3; produtos lácteos desnatados e com baixo teor de gordura e, caso a opção seja par frangos e carne vermelha, buscar cortes magros e evitar processados como bacon, salsicha e até peito de peru. As análises indicam que a substituição de carnes processadas por outras fontes de proteína está associada a taxas de mortalidade mais baixas.

PREFIRA ÓLEOS VEGETAISLIQUIDOS

A orientação é usar óleos vegetais líquidos em vez de óleos tropicais (coco, palma e caroço de palma), gorduras animais (manteiga e banha) e gorduras parcialmente hidrogenadas. Evidências científicas robustas demonstram os benefícios cardiovasculares no uso de óleos de soja, girassol e de oliva, quando substituem as gorduras saturadas e trans.

ALIMENTOS MINIMAMENTE PROCESSADOS

O processamento dos alimentos é dividido da seguinte forma: não processados ou minimamente processados; ingredientes culinários minimamente processado por prensagem, refino ou moagem; alimentos de qualquer um dos grupos anteriores em que adicionaram sal, açúcar ou gorduras, e alimentos ultraprocessados, em que além da incorporação de sal, adoçantes ou gordura há inclusão de corantes, sabores artificiais e conservantes que promovem a estabilidade, preservam a textura e aumentam a palatabilidade. “As vendas de alimentos processados aumentaram dramaticamente em todo o mundo e prevê-se que aumentem ainda mais até 2024”, alerta o guia. “O consumo é preocupante por causa de sua associação com resultados adversos à saúde, incluindo sobrepeso e obesidade, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas”.

BEBIDA ALCOÓLICA E AÇUCAR

Os cardiologistas recomendam minimizar a ingestão de açúcares adicionados ao longo da vida, pois “têm sido consistentemente associados a um risco elevado de diabetes tipo 2, doença cardiovascular e excesso de peso corporal. Sobre o uso de adoçantes, ainda há dúvidas sobre os efeitos ao peso do corpo e resultados metabólicos.

ALIMENTOS COM NENHUM OU POUCO SAL

“Existe uma relação direta entre a ingestão de sal (cloreto de sódio) e a pressão arterial. Em ensaios clínicos randomizados, a redução da ingestão de sódio diminui a pressão arterial em indivíduos hipertensos e não hipertensos, melhorando assim a prevenção e o controle da hipertensão”, diz a diretriz. As principais fontes de sódio na dieta são alimentos processados, refeições preparadas fora de casa e comida de restaurantes. Mesmo os alimentos rotulados como 100% integrais ou orgânicos podem ter alto teor de sódio, alerta o documento.

POUCO ÁLCOOL

Os cardiologistas admitem que a relação entre a ingestão de álcool e doenças cardiovasculares é complexa. O risco varia de acordo com a quantidade e padrão de ingestão de álcool, idade e sexo dos indivíduos  e tipo de doença. De modo geral, a recomendação é de não ultrapassar uma dose de bebida por dia para mulheres e duas doses por dia para homens.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LINGUAGEM PET

Especialistas mostram como animais se comunicam pela expressão corporal

”O meu cachorro só falta falar.” Dez entre dez tutores de pet já fizeram essa observação ao menos uma vez na vida. Apesar de amplamente reconhecida e estudada, a capacidade de comunicação, de entendimento e uso da linguagem corporal  pelos cães segue causando espanto e sendo motivo de admiração.

“Eu e a Pandora conversamos o dia inteiro”, disse a gestora de recursos humanos Laylla Lopes Roque, 23 anos, sobre a interação cotidiana com sua pet da raça Pastor de Shetland. “Ela me entende, faz diversas coisas e fala com o olhar. Quando está triste, por exemplo, ela pede colo com o rabo para baixo e os olhos para cima”, disse.

O publicitário André Felipe de Castro, 49 anos, também diz “falar de igual para igual” com o Obi-Wan e a Lupita (cães da raça Jack Russell Terrier). “Eu falo coisas como: ‘tá indo aonde?’. ‘volta aqui’, ‘agora não, estou trabalhando’”, conta. ”Estou trabalhando de casa. Durante o dia, eles ficam próximos do meu local de trabalho e se deitam. Eu acabo minha última ligação do dia e, imediatamente, os dois se levantam e pedem para brincar”, diz.

Segundo Castro, Obi-Wan põe a orelha para trás quando está sentindo algum desconforto. Já a Lupita é mais vocal – e late para demonstrar o que está sentindo ou pedir alguma coisa. “A Lupita boceja quando quer alguma coisa”, lembrou. ”É diferente de outros cães, o Obi­Wan rosna para pedir carinho.”

Nos últimos dez anos, pesquisas mostraram que a conversa de Laylla com Pandora e o tête­à-tête de Castro com Obi-Wan e Lupita podem ser muito mais do que exageros de mães e pais de pet. Entre esses estudos, o que teve mais repercussão foi o realizado na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

“O estudo constatou que os cães têm a ativação da região cerebral e o entendimento compatível ao que foi pronunciado por seus tutores, independentemente da entonação que esses tutores utilizaram durante a comunicação. Ou seja, os cães compreenderam os significados das palavras, muito além de qualquer instinto decorrente de entonação”, disse Ricardo Menezes, veterinário, supervisor de capacitação técnico-comercial da PremieR pet. “Pensando nisso, podemos sugerir que os cães possuem comportamentos herdados geneticamente, mas que são pautados por linhas de pensamento, cognições e até pensamentos contínuos. De tal forma que têm a compreensão do que fazem e para que fazem”, completou o veterinário.

Para o neurocientista Fabiano Abreu Agrela Rodrigues, “é narcisismo acreditar que somos superiores a outras espécies”. ”Os cães não são mais burros. Eles têm a inteligência suficiente para sobreviver. Olhando para trás, na época das cavernas, os lobos entenderam que se juntar aos homens era inteligente do ponto de vista da sobrevivência. E, por outro lado, os homens também se juntaram aos lobos por questão de sobrevivência”, falou.

ADESTRADORES

Pandora e a dupla Obi-Wan e Lupita têm adestradores – profissionais que potencializam o desenvolvimento dos cães, mas que, principalmente, observam o  talento natural dos pets para a comunicação. Luciano Pereira, adestrador da Pandora, conta que alguns cães têm um nível de comunicação direta. “Quando o cachorro quer comida, por exemplo, ele vem até o dono, raspa a perna do dono, late, senta em frente ao dono e fica olhando”, enumera “Quando ensinados, essa comunicação torna-se mais sofisticada. O meu cachorro, por exemplo, toca um sininho para pedir comida.”

Pereira observa ainda como os cães comunicam a vontade de dormir. “Os cães vão para cama com um osso, brinquedo ou cobertor. O meu vai e rosna com um ossinho na boca. Na maioria das vezes, fazem isso nos mesmos horários que os donos vão para a cama.”

Fernando Gurjão Lopes, 63 anos, é o adestrador de Obi­Wan e Lupita. “Hoje, os cães estão dentro das casas. Entender como se comunica um cachorro é fundamental. Todos os sinais são importantes”, diz Lopes. “Para mim, os cães se comunicam principalmente pela postura. Se levantou a orelha para frente ou se arrepiou, ele está sofrendo alguma ameaça ou está atento a algo. Já se ele está feliz, pode ficar de barriga para cima ou levantar a cabeça.”

SEM COMUNICAÇÃO

A veterinária e comportamentalista Kátia de Martino afirma que a comunicação dos cães é muito complexa: “ Os tutores acham que conhecem os cães, mas será que conhecem realmente a comunicação que precisam ter com eles? É na falta de entendimento entre tutores e cães que acontecem os problemas”.

“Hoje, depois de tantos mil anos de domesticação, ainda existem problemas de entendimento. Os nossos cães estão muito mais próximos da gente. Vivemos em espaços menores, eles frequentam nossas camas, nossos sofás. Ainda assim, existem questões não resolvidas nesta comunicação.”

Katia afirma que o ruído na comunicação com os cães está na tendência de humanizá-los em demasia. “Meus cães são meus filhos, mas eles têm necessidades especiais. Eles precisam farejar, comer, brincar, cavar… Se a gente não der o que eles precisam, os cães se tornam medrosos, inseguros, latem o tempo inteiro e criam muitos problemas”, disse.

“Assim como as crianças precisam frequentar creches para aprender a usar a linguagem, os cães precisam de um tempo com a ninhada, perto da mãe, para aprender a linguagem dos cães. Quando pegamos cães recém-nascidos e tiramos de perto da ninhada, estamos fazendo um desserviço e interrompendo um processo de aprendizagem”, finalizou.

OUTROS OLHARES

FOFINHO, MAS NÃO SAUDÁVEL

Pesquisas revelam que durante a pandemia cresceu o total de crianças e adolescentes com excesso de peso. A situação já é considerada uma séria crise de saúde pública

Bebezinhos gorduchos são absolutamente irresistíveis. O problema é que a fofura não é nada bonitinha para a saúde da criançada. Ao contrário do senso comum, o excesso de peso desde muito cedo é prenúncio de saúde frágil ao longo da vida. E indicadores recentes não trazem boas notícias. A condição se agravou demais durante a pandemia. No início do mês, a revista científica The Lancet publicou um relatório do governo do Reino Unido mostrando que 2021 registrou o maior incremento da taxa de obesidade entre crianças e adolescentes desde a produção do primeiro levantamento, há quinze anos. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças relatou, em setembro, que o índice de massa corporal – indicador de classificação de peso adequado, sobrepeso, obesidade e obesidade mórbida – dobrou nos últimos dois anos na faixa de 2 a 19 anos. O crescimento mais expressivo se deu entre crianças de 6 a 11 anos. No Brasil, a falta de dados atualizados já é uma tradição, mas, a contar pela experiência de profissionais tarimbados, o fenômeno se repete. No consultório do pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg registra-se, em média, aumento de 6 quilos nos pacientes de 5 a 12 anos. Fisberg está à frente do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi, ligado ao Sabará Hospital Infantil, em São Paulo.

Na apresentação dos dados, o periódico The Lancet definiu assim a dimensão do problema: o que até agora era uma preocupação acaba de se tornar uma séria crise de saúde pública. Há duas principais razões para o alerta. O acúmulo de gordura está associado a maior risco para doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo, e a determinados tipos de câncer. Começar esse processo tão cedo só encurta o caminho rumo às enfermidades. Deve-se lembrar ainda que, em geral, a obesidade vem acompanhada de diabetes tipo 2, sedentarismo e alta concentração de gorduras nocivas, incrementando o conjunto perfeito de fatores de risco. Do ponto de vista de saúde pública, a escalada do aumento de peso entre os pequenos eleva hoje e aumentará no futuro os custos da saúde, questão central no debate sobre a sustentabilidade financeira dos sistemas de atendimento.

O crescimento do total de crianças fora do peso na pandemia tem origem conhecida. Os pequenos ficaram dentro de casa, sem espaço para gastar energia e com tempo de folga para os eletrônicos. Um estudo publicado em novembro no Jornal da Associação Médica Americana revelou que nesses dois anos o tempo médio dos adolescentes americanos em frente às telas passou de 3,8 horas por dia para 7,7. A qualidade da alimentação também piorou. Pizza, salgadinhos e doces integraram os cardápios conforme o isolamento em casa se prolongava. Em famílias privilegiadas, no início até se tentou outro caminho. “Houve um período de lua de mel nutricional para algumas famílias, que cozinharam e fizeram refeições juntas”, diz Fisberg. “Mas isso demorou pouco e elas foram em direção à praticidade”.

Pesquisas realizadas antes da pandemia já apontavam uma situação crítica. Em 2017, a análise de mais de quarenta anos de estudos sobre o tema rendeu a previsão de que se as tendências pós anos 2000 continuassem, em 2022 o mundo teria, pela primeira vez, mais crianças e adolescentes obesos do que com baixo peso. O levantamento, feito pelo Imperial College London e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tinha como cenário a tendência mundial de aumento da obesidade. O peso e a altura de quase 130 milhões de crianças, adolescentes e adultos foram avaliados. Resultado: as taxas de obesidade saltaram de menos de 1% em 1975 para 6% entre meninas e 8% entre os meninos em 2016. A OMS alertava sobre o fato de que o número de crianças de 5 a 19 anos no mundo com peso excessivo tinha aumentado mais de dez vezes, passando de 11 milhões em 1975 para 124 milhões em 2016. À época, Majid Ezzati, professor da Escola de Saúde Pública do Imperial College London e autor principal do estudo, apontou algumas causas para os resultados. “As tendências refletem o impacto do marketing e das políticas de alimentos. Opções saudáveis e nutritivas são muito caras para famílias pobres,” disse.

No Brasil, os estudos indicavam a mesma direção. O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, que reúne dados nacionais, mostrou, em 2019, que 7,9% das crianças menores de 2 anos estavam com sobrepeso ou obesidade. Entre adolescentes, o índice era de18%. Segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil feito no mesmo ano, 80% das crianças brasileiras de até 5 anos consumiam alimentos ultraprocessados, como biscoitos, o que também podia ser observado entre bebês com menos de 2 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria relembrou uma previsão sombria da OMS. Em 2030, o Brasil pode ser o quinto país com o maior número de crianças e adolescentes obesos. Se nada for feito, a possibilidade de reverter a projeção é de somente 2%.

Mudanças de hábitos e políticas públicas consistentes não nascem de uni dia para o outro. Contudo, há tempo para agir. No Reino Unido, teve início no mês passado um programa para atendimento de crianças e adolescentes severamente obesos em clínicas especializadas do Sistema Nacional de Saúde. O serviço oferece de planos de dieta a tratamento para depressão e ansiedade, dois fatores de risco para o excesso de peso. O envolvimento da escola e das famílias somado a iniciativas da indústria para colocar no mercado produtos mais saudáveis ajuda também.

Além disso, coisas simples, como resgatar o básico na cozinha, a comida como faziam nossos avós, é outra saída. “É fundamental adotar preparações tradicionais, menos industrializadas”, orienta Daniela Neri, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo. E, para conquistar o paladar dos pequenos, vale passear na feira, brincar no preparo das refeições, juntar a família à mesa. Comer direito pode ser divertido, e certamente levará a adultos mais saudáveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 25 DE JANEIRO

A LEPRA DO PECADO

Se ela se estender na pele, o sacerdote declarará imundo o homem; é lepra (Levítico 13.22).

A lepra era a doença mais temida nos tempos bíblicos. Medidas preventivas eram tomadas para que essa enfermidade contagiosa não se alastrasse. A lepra é um símbolo do pecado. Quais são as características da lepra? A lepra é contagiosa, tira a sensibilidade, deixa marcas, separa as pessoas, cheira mal, não tem cura; a lepra mata. Assim também é o pecado. O pecado é contagioso. Quem anda no conselho dos ímpios, no caminho dos pecadores, e se assenta na roda dos escarnecedores acaba sendo atraído e arrastado para essa rede mortal. O pecado tira a sensibilidade, endurece o coração e cauteriza a consciência. O pecado deixa marcas profundas na mente, nas emoções e na vontade. Macula a alma e adoece o corpo. O pecado separa as pessoas de Deus e do próximo. O pecado é desagregador. Não há comunhão no pecado. O pecado é maligníssimo e repugnante. É pior que a pobreza e o sofrimento. O pecado é uma doença incurável. O ser humano não pode purificar a si mesmo. Nenhum remédio da terra pode aliviar o ser humano de uma consciência atormentada pela culpa. O pecado, à semelhança da lepra, mata. O salário do pecado é a morte. Morte física, espiritual e eterna. Morte significa separação. Na morte física, a alma é separada do corpo. Na morte espiritual, o homem é separado de Deus. Na morte eterna, os que forem condenados no juízo serão banidos para sempre da presença de Deus!

GESTÃO E CARREIRA

CORRIDA POR TALENTOS

A área de tecnologia terá que recrutar cerca de 420.000 profissionais nos próximos três anos – mas o brasil só forma 46.000 pessoas anualmente. Quais são as melhores estratégias para atrair esses especialistas para sua empresa?

Com a corrida pela digitalização, as empresas vivem um paradoxo: abrem oportunidades de TI, mas não conseguem preenchê-las. Uma projeção da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) afirma que a área terá que recrutar aproximadamente 420.000 profissionais nos próximos três anos – mas o Brasil só forma 46.000 pessoas por ano. “O mercado já estava aquecido, com muitas empresas investindo na automação de processos, mas com a pandemia de covid-19 isso se intensificou, e novos pilares entraram na busca por pessoas de TI”, afirma Caio Arnaes, diretor de recrutamento da Robert Half. O primeiro pilar, segundo ele, é que a adesão ao home office abriu muitas brechas de segurança, e os ataques cibernéticos aumentaram – o que demanda profissionais especializados. O segundo está relacionado à quebra de barreiras geográficas nas contratações, já que as companhias perceberam que é possível contar com pessoas de qualquer lugar do mundo. “Há um movimento de negócios de fora, como Estados Unidos e Europa, buscando pessoas aqui no Brasil”, diz Caio. Empresas do Vale do Silício, por exemplo, contratam desenvolvedores brasileiros fluentes em inglês com um salário muito atrativo. Isso fez a disputa por talentos – que já era alta – ficar ainda maior.

Outro ponto, de acordo com Aliesh Costa, CEO da consultoria Carpediem RH, é a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), em vigor desde setembro de 2020, que obrigou as empresas a buscar adequações na forma de tratar os dados pessoais de seus clientes. “Para seguir a nova lei, as organizações passaram a contratar mais profissionais de TI”, afirma.

SELEÇÃO REDESENHADA

Essas mudanças exigem do RH um novo olhar para as ações de recrutamento e seleção dessa área – e uma das mais urgentes é diminuir o número de etapas. Processos de cinco ou seis fases devem dar lugar a programas mais ágeis. “Quanto mais curto, melhor. É preciso ter em mente que, geralmente, os profissionais estão participando de mais de urna seleção por causa do mercado aquecido, e corre-se o risco de perder talentos com processos muito longos”, explica Caio.

Na Atos, empresa que atua com serviços de tecnologia, a forma de abordagem já mudou. “Não dá mais para aplicar um programa de testes intenso e cansativo. O número de etapas depende da posição, mas tentamos que, entre o contato do recrutador e a entrevista com o gestor imediato, haja no máximo três interações”, diz Alexandre Benatti, diretor de recursos humanos da Atos para a América do Sul. A ideia é pensar no recrutamento como uma jornada de experiência, sem baixar a régua da qualidade, mas oferecendo um processo que seja interessante e atrativo para o candidato. Em alguns casos, por exemplo, a aposta é realizar entrevistas em grupo, com duas ou três pessoas falando com o profissional em apenas um contato.

Outra iniciativa da empresa é estabelecer parcerias com instituições de ensino para capacitar profissionais de TI em diversas regiões do país. No início deste ano, por exemplo, a companhia iniciou uma parceria com a Universidade Franciscana (UFN) de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Com isso, foi possível a criação do primeiro centro tecnológico da região, o que beneficiou os estudantes da UFN e os moradores da cidade de Santa Maria. De acordo com Alexandre, as academias, como são chamadas as capacitações, abordam ternas que envolvem toda a jornada de tecnologia – da programação ao atendimento ao cliente -, como service desk, Java, ABAP e SAP. A iniciativa é uma das estratégias de recrutamento da empresa que, além de formar mais profissionais para o mercado, ainda seleciona os melhores talentos para atuar na Atos. “Todos os programas são acompanhados por especialistas da Atos, seja para desenhar o curso, seja para disseminar conhecimento. Assim, conseguimos ver quem está se destacando e tem potencial e perfil para ingressar na empresa”, afirma.

PORTA DE ENTRADA

Investir na formação de novos profissionais por meio de programas bem estruturados de estágio é outra maneira de preencher as vagas de TI. A Companhia de Estágios, que oferece soluções em recrutamento e seleção de estagiários, trainees e aprendizes, mostra que a busca por estudantes de TI aumentou 73% em três anos. Hoje, no banco de talentos da empresa, que conta com cerca de 1,4 milhão de universitários cadastrados, 83.000 são estudantes de tecnologia. Só em 2020, ano em que se iniciou a pandemia, a busca por estagiários tech cresceu 11% – isso em um período em que a abertura de novas vagas caiu em média 30%. Segundo Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios, a escassez de gente qualificada para segmentos altamente estratégicos, como cibersegurança, computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas e big data, tem levado companhias a criar programas de estágio de tecnologia, que devem contar com mentorias, treinamentos, cursos e imersões em problemas do negócio. Tiago exemplifica com a aplicação dos chamados hackathons – desafios nos quais as empresas buscam encontrar talentos de tecnologia que resolvam desafios reais enfrentados pelas organizações.

O Hospital Sírio-Libanês é uma das empresas que apostam nesse tipo de prática. O Programa Tech Estágio começou no início deste ano, teve mais de 3.000 inscritos e se divide em três etapas: teste online, entrevistas coletivas e hackathon. A instituição selecionou oito dos 240 estagiários entrevistados. “O objetivo da ação é fortalecer a marca empregadora em tecnologia do hospital e formar profissionais com conhecimento técnico na saúde, olhar sistêmico e de impacto no negócio”, diz Glaucia Nogueira, superintendente de pessoas e cultura organizacional da companhia. No programa de estágio de tecnologia do Sírio, os jovens funcionários precisam desenvolver um projeto de TI que será apresentado para a área em que o estagiário está atuando e para a diretoria. Além disso, os estudantes rodam por diferentes departamentos. “O profissional passa por várias áreas de tecnologia, além de setores como centro de diagnóstico e farmácia. A ideia é que conheça toda a estrutura da empresa: dos departamentos com grandes cases de TI aos que precisam implementar alguma ação nesse sentido”, explica.

ATITUDES CONTAM

Olhar para a parte técnica é essencial para a contratação de profissionais de TI, mas o RH não pode deixar de lado o comportamento, como explica Carlos Guilherme, CEO e sócio da FESA Group, consultoria especializada em gestão de talentos e desenvolvimento organizacional. “As empresas estão muito acostumadas a checar o perfil técnico, como as linguagens de TI que o candidato conhece, mas esquecem que esse profissional também vai se relacionar com outras pessoas, seja como gestor, seja como liderado”, diz. Sempre bom lembrar que, sem equilíbrio entre o técnico e o comportamental, a companhia pode ter problemas muito sérios com os profissionais no futuro.

Nesse sentido, o Hospital Sírio-Libanês aposta em trilhas de treinamentos que desenvolvem competências e comportamentos para a formação de um profissional completo, como empatia, feedback, comunicação não violenta, planejamento de carreira e rnetodologia ágil. Há, ainda, mentoria com tutores da empresa, tanto de tecnologia quanto do RH.

“Já vemos empresas olhando muito mais para a história de vida do profissional, seu potencial, sua vontade e seus valores. Quando encontram uma pessoa conectada ao propósito empresarial, fica muito mais fácil acelerar a aprendizagem da parte técnica”, explica Tiago, CEO da Companhia de Estágios.

DE OLHO NA DIVERSIDADE

Na corrida por profissionais qualificados em TI, outro ponto que merece atenção é a inclusão – e uma das maneiras de aumentar a diversidade é ampliar a busca, convidando pessoas que não são da área de tecnologia. Foi o que fez o Itaú Unibanco, que criou em março de 2021 um programa de formação exclusivo para pessoas com deficiência que ainda não têm conhecimento em tecnologia ou que estão em transição de carreira. O projeto de formação capacita os alunos para que se tornem analistas back-end. Em apenas uma semana após o lançamento, foram mais de 1.000 inscrições. O Itaú já capacitou 98 profissionais e contratou 33 deles até julho deste ano.

Segundo Valéria Marretto, diretora de recursos humanos do Itaú Unibanco, para ampliar ainda mais o leque de diversidade, foram realizadas contratações rápidas de TI para mulheres e pretos e pardos entre março e junho de 2021. “Estamos investindo em lives e cursos curtos para mostrar como é trabalhar na empresa e levar um conteúdo relevante para as diversas comunidades de tecnologia”, diz. A ideia é que a companhia tenha times com perfis que contemplem diferentes modos de pensar para que as percepções e soluções sejam realmente complementares. Nesse sentido, Valéria explica que, quando falamos em acessibilidade, por exemplo, é essencial que pessoas com deficiência sejam envolvidas no processo de criação das soluções – só assim as barreiras serão corretamente identificadas e eliminadas.

CHECK-LIST

Os passos importantes para processos seletivos de TI bem-sucedidos

  • Defina corretamente o perfil técnico e comportamental para cada uma das vagas que estão em aberto
  • Tenha em mente o perfil da empresa e seus aspectos culturais para ficar claro quais são os comportamentos necessários para a vaga e a empresa
  •    Entenda o projeto em que o profissional vai trabalhar, assim como as tecnologias envolvidas
  • Avalie os candidatos que realmente possuem os requisitos técnicos da vaga, lembrando que experiência é diferente de conhecimento
  • Os testes técnicos, quando aplicados, não devem ultrapassar uma hora. Evite aplicar testes para posições de nível sênior – uma conversa técnica resolve
  • Sempre que possível, seja transparente com relação às faixas salariais e, principalmente, dê retorno a todos os candidatos entrevistados

FONTES: Christina Curcio e Janaína Lima, sócias da Icon Talent especialistas em contratação na área de TI

FUJA DESSAS PRÁTICAS

Conheça os principais erros no recrutamento de TI

BUSCAR APENAS FORMADOS NA ÁREA

Com a escassez de profissionais preparados, o RH deve ser flexível, olhando para possibilidades que vão além dos cursos voltados para TI, como ciência da computação, engenharia de software e análise e desenvolvimento de sistemas. “Há graduações bem interessantes para trabalhar nessa área, como todas as engenharias, matemática e estatística”, explica Tiago Mavichian, da Companhia de Estágios.

ESQUECER O COMPORTAMENTO

Boa comunicação, empatia, cordialidade e entendimento do negócio são competências que também devem ser observadas na seleção de profissionais de TI. “Não adianta, por exemplo, o candidato ser um gênio de desenvolvimento, se não entende do negócio nem tem habilidade para lidar com pessoas”, afirma Caio Arnaes, da Robert Half. Assim como não adianta ser tecnicamente bom sem compartilhar dos valores e princípios da empresa.

CRIAR PROCESSOS MUITO LONGOS

Programas com cinco ou seis etapas e que duram meses precisam ficar no passado. O RH deve ter em mente que os profissionais de TI estão disputados e participam de mais de uma seleção ao mesmo tempo. O ideal é ter, no máximo, três interações.

DESCUIDAR DO JOB DESCRIPTION

A descrição do cargo deve estar totalmente alinhada com o perfil que a empresa busca. Isso porque o universo de especialidades nessa área é enorme, e é comum a exigência de conhecimentos específicos. “É importante, também, que os recrutadores tenham conhecimento sobre a área tecnológica para se ter sucesso no recrutamento e seleção dessas posições”, diz Aliesh Costa, da Carpediem RH.

EU ACHO …

EM BUSCA DO AUTORRESPEITO

É um processo de dizer muito mais não do que sim e enxergar o que importa

Como diz o samba de Jorge Aragão, “saber se respeitar. Se unir para se encontrar. Autorrespeito é o tema que gostaria de tratar nos próximos textos. É um tema de que gosto muito de ouvir sobre, de internalizar nas minhas práticas, pois é uma chave para o crescimento pessoal, ao mesmo tempo que é uma conquista difícil. Para mim, a jornada em busca de autorrespeito começou com um “basta”. Dediquei muito tempo dizendo sim, ajudando qualquer um que me pedisse, parando de fazer o que estava fazendo.

Muitas vezes, por acreditar que era o certo a se fazer, de querer ser legal e outras ilusões. Mas outras vezes por internalizar a lógica colonial que espera isso de mulheres negras.

Nascemos numa sociedade que impõe destinos, querem-nos de cabeça baixa, dizendo “sim, senhor” Dizer sim para tudo é uma chave para o autodesrespeito, mas muitos, presos no sistema, ficamos com um leque reduzido de opções que não seja cumprir os destinos impostos.

Já sabemos que, se tivermos a audácia de fazermos algo que desestabilize o esperado, o tronco está nos esperando para nos infligir as 50 chibatadas diárias sem que reclamemos de dor, muito menos revidemos.

No meu caso, apesar do lugar imposto, pude desafiar expectativas estereotipadas sobre mim, o que trouxe momentos duros de transcendência, mas que foi parte decisiva da caminhada por autorrespeito.

Na sabedoria ancestral, um ditado diz que, de tanta bondade, o abutre ficou de cabeça pelada. Então sigo num processo de ser fiel a mim, de impor limites a pessoas que querem invadir meu espaço, de denunciar a naturalidade com que desrespeitos a mim são feitos.

De não olhar na cara de quem segurou um chicote. De dizer mais não do que sim, e de só dizer sim aquilo que, de fato, importa. É um processo que busco cada vez mais, um caminho que não preciso terminar, mas que só por traçá-lo, já vale a viagem.

Sendo a base da pirâmide social, ou seja, que sustenta a pesada estrutura sobre os ombros, sabemos que, muitas vezes, é necessário, inevitável, infelizmente fazer concessões diárias ao destino imposto.

Milhões de mulheres negras seguem no trabalho doméstico, herança presente da escravidão. No serviço, lidam com diversos desrespeitos, desde cuecas e calcinhas sujas, até palavras e pensamentos sujos. Minha mãe contava sobre quando, ainda muito jovem, teve de se defender ameaçando o patrão com uma frigideira cheia de óleo quente. Ele queria investir sobre ela.

Minha mãe, até hoje é um exemplo de autorrespeito para mim. Tanto sobre como alcançá-lo, quanto sobre como sua busca é desafiadora. Mesmo enredada em um sistema que busca a todo momento nos desumanizar, ela mantinha uma dignidade no andar, no olhar, nas palavras.

Mas sim, minha mãe tomou decisões infelizes de fazer o bem sem olhar a quem e acabou presa fácil de gente aproveitadora. Quando falamos das vezes em que faltou autorrespeito, não podemos nos esquivar da autorresponsabilidade.

Numa vida tão difícil, minha mãe seguia determinada sobre seus passos e sua vida, mas deixou que dela vantagem fosse tirada, mesmo sabendo, no fundo, que as relações não tinham reciprocidade. Ao falar dela, falo de mim também, e em nosso nome sigo a limpeza de nossa linhagem buscando sempre relações que tenham reciprocidade.

Na sabedoria do candomblé, a troca é o domínio de Exu, o primeiro orixá a ser saudado e reverenciado. A reciprocidade é a sua língua. Brincalhão, não tem o menor problema em tomar de quem recebeu e não entregou, como de rir de quem entregou sabendo que não iria receber. Quando eu “quebro a minha cara” numa troca mal­sucedida, penso em Exu me dizendo: “Eu avisei, minha filha, mas você não quis me ouvir, agora eu vou é rir de você!” O que posso fazer, senão rir junto com ele e ficar mais esperta?

*** DJAMILA RIBEIRO

ESTAR BEM

PÃO SEM GLÚTEN É MAIS SAUDÁVEL DO QUE O NORMAL?

Especialistas explicam: produtos que não são à base de trigo deveriam ser destinados a pessoas portadoras da doença celíaca, já que essas opções costumam ter mais gordura, açúcar e sal, além de serem mais caras e mais perecíveis

No mercado que frequento, a seleção de pães se estende por um corredor inteiro. E, em meio a bolos e pãezinhos, algumas opções são sem glúten, que podem custar mais que seus equivalentes à base de trigo. Seriam eles uma escolha mais nutritiva? Como costuma ser o caso com dúvidas sobre nutrição, a resposta é individual, disse a nutricionista Jerlyn Jones, porta-voz da Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos. Para a maioria das pessoas, escolher um pão sem glúten em vez do feito à base de trigo não é uma opção necessariamente mais nutritiva, e os pães sem glúten podem pesar mais no bolso, uma vez que costumam ser mais caros e têm uma vida útil mais curta, completou Jones.

O glúten é uma proteína encontrada nos grãos de trigo, cevada e centeio. No pão tradicional feito com farinha de trigo, o glúten forma uma rede de proteínas que torna a massa coesa e elástica e dá ao pão aquela textura extremamente satisfatória e macia.

Mas o glúten ou outros componentes do trigo podem causar problemas de saúde em algumas pessoas. Para cerca de 1% da população mundial portadora da doença celíaca, uma condição autoimune grave desencadeada pela ingestão de glúten, a proteína causa danos intestinais que podem prejudicar a absorção de nutrientes e levar a sintomas como diarreia, perda de peso, fadiga, anemia, bolhas, coceira e irritação na pele. A única maneira eficaz de controlar a doença celíaca é evitar totalmente o glúten por toda a vida.

Para outras pessoas com sensibilidade mais branda relacionada ao trigo, comer o grão não causa os danos intestinais da doença celíaca, mas pode gerar desconforto gastrointestinal e sintomas como a fadiga e dor de cabeça, que geralmente desaparecem quando o trigo é evitado. Não está claro quantas pessoas manifestam essa condição, chamada de sensibilidade não celíaca ao trigo, mas pode ser mais comum do que a doença celíaca.

Uma terceira condição, muito menos relacionada ao trigo comum, é a alergia ao trigo, que pode causar reações como diarreia, vômito, inchaço facial ou dificuldade para respirar de minutos a horas após ingerir o trigo.

CRENÇAS INFUNDADAS

Se você tem doença celíaca, sensibilidade ao trigo ou alergia ao trigo, escolher um pão sem glúten é claramente a melhor escolha. No entanto, em uma pesquisa de 2017 com mil pessoas nos EUA e Canadá que compraram mantimentos sem glúten, 46% disseram que escolheram esses produtos por outros motivos que não uma rendição médica. Entre suas principais motivações: querer reduzir a inflamação ou consumir menos ingredientes artificiais, acreditar que produtos sem glúten são mais saudáveis ou mais naturais e pensar que eles ajudariam na perda de peso.

Mas nenhuma dessas crenças é verdadeira, disse a nutricionista Anne Lee, professora assistente de medicina nutricional da Universidade Columbia em Nova York.

“Normalmente, os produtos sem glúten têm mais gordura, mais açúcar, mais sal e menos fibras, vitaminas B e ferro”, disse ela.

Fazer pão sem glúten é um desafio tecnológico, e as fabricantes tendem a confiar em ingredientes como farinhas feitas com arroz refinado, batata ou tapioca, que contêm muito menos proteínas e fibras do que a farinhas de trigo, disse Lee. A maioria das farinhas de trigo refinadas usadas nos EUA são enriquecidas com ferro e vitaminas B, ácido fólico, niacina, riboflavina e tiamina, enquanto as farinhas usadas em produtos sem glúten geralmente não contêm esses nutrientes adicionados.

As fabricantes de pães sem glúten também costumam adicionar açúcar, gordura e sal a seus produtos para torná-los mais saborosos, disse Lee. E por normalmente comerem mais água, gordura e amido refinado do que os pães à base de trigo, eles estragam e envelhecem mais rapidamente. Por essas razões, ficar sem glúten nem sempre é a melhor escolha.

“Se você acha que tem intolerância ao glúten, antes de retirá-lo de sua dieta, consulte um gastroenterologista e realmente faça o teste apropriado”, aconselha Lee.

Além disso, a doença celíaca é mais difícil de ser diagnosticada em pessoas que já eliminaram o glúten de suas vidas, alerta.

Também há qualidade de vida a ser considerada. Restringir sua dieta pode deixa-lo  mais ansioso em situações sociais ou mais relutante em experimentar alimentos caseiros nas refeições familiares, disse Jones. O alimento “não é apenas combustível   para nossos corpos, mas também nos dá prazer”, acrescentou ela, referindo-se a quem evita o glúten sem motivo médico.

Para seus pacientes que precisam eliminar o glúten, Lee recomenda pensar menos em produtos processados sem glúten e mais em alimentos integrais, como frutas, vegetais, feijão e grãos sem glúten, além de sementes como amaranto, trigo sarraceno, quinoa, teff e painço.

“Se você fizer uma dieta sem glúten usando alimentos naturalmente sem glúten, sua alimentação pode ser incrivelmente saudável”, disse ela.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ACUMULAR OU NÃO ACUMULAR, EIS A QUESTÃO

Todas as coisas em nossas gavetas, armários e cantos são um perigo, mas existem maneiras de mantê-las sob controle. Veja quatro dicas de como organizar os espaços

Muitas pessoas aproveitaram as longas e solitárias horas das quarentenas da Covid-19 para limpar seus armários, gavetas e guarda-roupas, livrando-se de itens que não servem mais ou de produtos vencidos e arquivos não mais relevantes. Eu fui uma delas e entrei de cabeça no “bota-fora”: vestidos e ternos mal ajustados, sapatos nos quais eu não conseguia mais andar, centenas de recipientes de plástico e vidro vazios.

Pessoas como eu, que enchem de coisas os armários ou cômodos vazios desde que os espaços de convivência permaneçam em ordem, não chegam ao limite de acumular, que é considerado um diagnóstico psiquiátrico. Mas a desordem tem seus próprios riscos, como os estresses clínicos e repetidos que podem surgir ao procurar freneticamente em pilhas de bagunça por um papel importante ou correr para limpar uma bagunça antes que as visitas cheguem.

A desordem também distrai, roubando a atenção de pensamentos e tarefas valiosos. Consome tempo e energia e reduz a produtividade. Um estudo de 2015 na Universidade St. Laurence mostrou que quartos bagunçados têm relação com sono ruim.

Você pode se perguntar por que pessoas como eu colecionam tantas coisas que provavelmente nunca irão precisar. O medo de acabar é uma das razões pelas quais muitas vezes compro a granel. Quando me sinto deprimida, também acabo me entregando à terapia do varejo, muitas vezes comprando coisas que não preciso.

Alguns também se sentem compelidos a se apegar ao passado, ou, por culpa do sentimento, acham difícil abrir mão de presentes inúteis de pessoas que amam.

Aqui vão quatro dicas para manter a organização e arejar a cabeça neste final de ano:

ESTABELEÇA UM PLANO

Você pode querer ir de cômodo em cômodo ou focar em uma categoria, como casacos ou sapatos, ou evite mudar de curso no meio do caminho antes de terminar a tarefa já iniciada;

VÁ COM CALMA

Estabeleça metas razoáveis com base no seu tempo disponível e energia. Se um armário inteiro for muito intimidador, mesmo uma tarefa tão pequena como limpar itens de uma única gaveta ou prateleira pode ajudar você a começar a trilhar a direção certa:

Se uma abordagem mais gradual for mais administrável, considere a sugestão da minha amiga Gina: manter um recipiente em cada cômodo para as desistências. Quando ela experimenta algo que não cabe mais ou não parece bom, vai direto para a sacola de doações, não volta para o armário;

Se necessária, peça ajuda de um amigo, parente ou consultor pago que não tenha o mesmo apego pelos seus bens;

SEPARE POR CATEGORIAS

Crie três pilhas: manter; doar e descartar. Não duvide de sua avaliação inicial; imediatamente jogue fora a pilha de descarte e agende uma coleta para as doações ou leve-as para um destino digno;

Se a sua desordem inclui itens que você está armazenando para outras pessoas, considere dar a ele, um prazo para retirá-los ou sugerir que eles aluguem um armário em um depósito;

NÃO VOLTE ATRÁS

Finalmente, evite retroceder. Resistir à tentação de reabastecer os espaços que você liberou com mais coisas.

OUTROS OLHARES

PARA QUE HUMANOS?

As empresas não precisam gastar fortunas patrocinando influenciadores de carne e osso. Basta criar robôs que fazem todo o serviço – e eles jamais decepcionam

Em 2003, nos primórdios do e-commerce no Brasil, o empresário Frederico Trajano criou urna personagem virtual para “humanizar” o processo de compras no Magazine Luiza. Tia Luiza, como era chamada, ajudaria os ainda inseguros consumidores a colocar informações sensíveis, como o número de seus cartões de crédito, no site da empresa. Corta para 2021. A mesma personagem, rebatizada de Lu, é hoje a influenciadora virtual mais popular do planeta, com  5,7 milhões de seguidores só no Instagram. Nos últimos anos, ganhou novo visual, tornou-se a voz da companhia nas redes e até dançou ao vivo na TV, fazendo uma coreografia ao lado de Anitta, em uma amostra da avançada tecnologia por trás de sua existência.

A Lu é a face mais conhecida de um fenômeno que vem ganhando força: a popularidade de influenciadores digitais no sentido literal da expressão. Eles são criações computadorizadas dotadas de personalidade, visual chamativo e outras características para gerar identificação com os seguidores. A inspiração vem do entretenimento. “Para ter referência, estudamos muito os personagens da Pixar”, diz Pedro Alvim, gerente sênior de marca e redes sociais do Magazine Luiza. A quantidade de iniciativas recentes mostra que a estratégia pegou. Afinal, não faz muito sentido gastar dinheiro patrocinando influenciadores de carne e osso se as empresas podem criar seus próprios robôs – e, claro, controlar tudo o que dizem e fazem.

É fácil entender a empolgação pelo modelo. Os influenciadores virtuais podem estar em vários lugares ao mesmo tempo e não têm as limitações de seus concorrentes humanos, como hora certa para trabalhar. Garantem, ainda, uma comunicação sem ruídos, avessa a tolices, característica decisiva em um momento em que os usuários das redes sociais exigem posicionamentos sobre demandas da sociedade. “Na internet, às marcas se comportam como pessoas e são cobradas como tal”, afirma Mafê Albuquerque, vice-presidente global de marketing da Havaianas. A fabricante de calçados lançou sua assistente virtual, Iana, em 2020. Há alguns dias, ela foi transformada em uma persona 3D que atuará como embaixadora do Twitter da companhia.

O ecossistema de personagens virtuais também é povoado de criações sem conexão direta com marcas, em um modelo que se aproxima dos influenciadores humanos. É o caso de Lil Miquela, fruto do trabalho da startup americana de tecnologia Brud. Com visual extremamente realista, ela já conquistou 3 milhões de seguidores no Instagram. Miquela aparece em fotos ao lado de famosos como Ariana Grande e “publica” cenas de sua rotina, seja na praia, seja na balada. Não à toa, participou de campanhas para grifes como Prada e Calvin Klein.

Celebridades estão aderindo à digitalização. O caso mais recente é o de Satiko, avatar inspirado em Sabrina Sato. “Construímos uma personagem com algumas características dela, além de tudo o que ela queria ter, mas não tem”, diz Ricardo Tavares, CEO da Biobots, startup responsável pelo projeto. Satiko, por exemplo, curte esportes radicais. Com isso, faz mais do que Sabrina, alcançando um público diferente e consolidando ainda mais a sua presença nas redes. Desenvolvida ao longo de cinco meses, Satiko foi o projeto de estreia da startup, que agora já tem uma fila de empresas interessadas em criar projetos semelhantes.

Esse tipo de interação deve se tornar ainda mais frequente –  e ninguém parece achar isso estranho. O público gamer já se acostumou a visitar exposições, participar de eventos e assistir a shows em ambientes virtuais, representados por seus avatares. A pandemia teve papel importante nessa transformação. “Fomos forçados a fazer um uso mais frequente de ferramentas como chatbots e atendentes virtuais”, diz João Vitor Rodrigues, professor de marketing digital da ESPM. “Isso ajuda a naturalizar a tecnologia!” Quem diria, os influenciadores humanos, que pareciam invencíveis, têm agora rivais que ameaçam a sua primazia. Talvez um dia todos eles serão substituídos por robôs.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 24 DE JANEIRO

A ARCA DA ALIANÇA

Também farão uma arca de madeira de acácia […]. De ouro puro a cobrirás; por dentro e por fora… (Êxodo 25.10,11).

A arca da aliança era uma caixa de madeira de acácia, coberta de ouro, que ficava no Santo dos Santos, no tabernáculo. Se o tabernáculo é um símbolo da igreja, a arca da aliança é um símbolo de Cristo. A igreja é a habitação de Deus, e Cristo habita na igreja. A arca era feita de acácia, porque o Verbo se fez carne. Assim como a acácia é uma madeira dura e cheia de nós, Cristo assumiu não apenas a nossa humanidade, mas tomou sobre si os nossos pecados. Dentro da arca, havia três objetos: as tábuas da lei, o vaso com maná e a vara de Arão que floresceu. Esses três objetos apontam para Cristo. Jesus é a verdadeira Palavra de Deus, o Verbo encarnado, a revelação máxima de Deus. Jesus é o verdadeiro Pão que desceu do céu e alimenta todo homem. O maná é um pão perecível, mas Jesus é o Pão da vida; quem come desse pão nunca mais terá fome. Jesus é a vara seca que floresceu, pois, embora tenha sido crucificado, morto e sepultado, ressurgiu dentre os mortos e está vivo pelos séculos dos séculos. Vale destacar que Jesus está na igreja. A igreja é seu corpo. A arca era  um símbolo da presença  de Deus no meio  do povo. Jesus está  em nós. Transportamos sua presença. O Rei da glória que nem o céu dos céus pode conter habita em frágeis vasos de barro. Bendito mistério!

GESTÃO E CARREIRA

CRISE TIRA O PODER DE BARGANHA DO TRABALHADOR NA HORA DA ADMISSÃO

Segundo dados do novo Caged, valor do salário médio real do brasileiro completou seis meses consecutivos em queda

A recuperação dos postos de trabalho tem sido cada vez mais concentrada em ocupações com rendimentos menores também no emprego formal. Por seis meses seguidos o salário médio real – descontada a inflação – de admissão do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) está em queda, assim como o rendimento médio real medido pela da Pnad, que engloba também a informalidade, aponta o economista da LCA Consultores, Bruno lmaizumi.

Ao mesmo tempo, desde o início da pandemia, os números da Pnad compilados pelo economista indicam redução de 8% na quantidade de ocupados com rendimentos superiores a dois salários mínimos.

Ele destaca que o mercado de trabalho mal tinha se recuperado 100% da forte crise de 2015 e 2016 quando chegou a segunda crise, provocada pela pandemia. Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia (ibre)  da Fundação Getúlio Vargas (FGV) concorda e lembra que, quando a pandemia começou, o mercado de trabalho brasileiro estava fragilizado e a recuperação dos postos ocorria por meio da informalidade.

Além disso, já existiam problemas estruturais para preencher vagas mais qualificadas que foram agravados pela maior demanda por profissionais voltados para tecnologia, que se intensificou com o isolamento social.

QUALIDADE

Imaizumi observa que a baixa remuneração e qualidade dos empregos que estão sendo gerados está atrelada à incapacidade de o brasileiro médio se inserir em um posto que exija mais habilidades.  “O movimento das empresas de intensificar o uso de capital e de tecnologia e utilizar menos mão de obra já vinha acontecendo antes da pandemia. “E isso já tinha levado muitos trabalhadores a buscar ocupação na informalidade. Com a pandemia, o quadro se agravou.

A grande questão do mercado de trabalho hoje é não só olhar para a recuperação na quantidade de postos, que, de fato, está acontecendo, mas também para a qualidade do emprego, que piorou, diz Tobler, da FGV.

Ele observa que uma conjugação negativa de fatores leva as pessoas a aceitarem uma remuneração menor. Existe um grande contingente fora do mercado, o desalento é elevado, a inflação alta consome boa parte dos rendimentos e o poder de barganha dos trabalhadores para obter reajustes é cada vez menor.

No ano passado, 47,7% das negociações salariais ficaram aquém da inflação, aponta um estudo do Dieese, a partir dos dados inseridos no Mediador do Ministério do Trabalho. Foi o pior resultado desde 2018.

Reajuste abaixo do custo de vida é resultado de uma combinação de inflação alta com recessão – quando a desocupação está muito elevada, os sindicatos não têm poder de barganha nas negociações, observam economistas especializados em emprego. É o pior cenário para os trabalhadores.

Essa situação faz, por exemplo, Roseni Camargo de Abreu, de 48 anos, estar disposta a trabalhar por um salário mínimo – desde que terminou a faculdade de Nutrição em 2020 ela não conseguiu emprego na área. Atualmente, Roseni faz bico como diarista e tira R$ 600 por mês. “Preciso comer”, argumenta. A nutricionista foi estudar depois de criar os filhos na expectativa de que ganharia um pouco mais. “Mas neste País não há oportunidade. É muito triste”, afirma.

Para romper esse círculo vicioso de desemprego alto e precarização do trabalho, economistas dizem que a saída é o País voltar a crescer 2,5% ao ano de forma sustentável por um longo período.

EU ACHO …

SONHAR O FUTURO

Antecipar o futuro contém chance alta de erro. Quem poderia ter avaliado a experiência pandêmica de 2020/2021 alguns meses antes da crise? Apesar disso, muitos autores conseguiram prever características do que estava pela frente. Intuição? Palpite aleatório? Pessoas com dom de vidência?

Júlio Verne descreveu ficções próximas do que encontramos, em especial no livro Paris no 10 Século XX. Aldous Huxley fez o mesmo com seu Admirável Mundo Novo. Cada vez mais, a robótica torna os livros de Isaac Asimov próximos da realidade. Para não entrar tão densamente na literatura: na infância, a gente via os Jetsons e havia consultas e reuniões por vídeo. Como sempre; nas obras de ficção existe uma crítica ao mundo que se vive e uma utopia/distopia pela frente.

Em época pessimistas como a nossa, costumamos pensar em futuros terríveis. Exemplo? Quais os impactos da implantação de um chip direto no cérebro como Elon Musk pretende? Se isso representar um salto de memória e de capacidade será que, em breve, entrevistas de emprego apenas selecionarão quem tiver um bom chip? Ainda faz sentido falar em controle na nossa sociedade com essa tecnologia? O que controlamos hoje? Pior: um mundo controlado diretamente por um empreendedor inteligente será pior do que o nosso onde os controles ainda são indiretos?

Então: quando alguém lê borra de café, coloca cartas de tarô ou joga búzios, associamos  tais ideias de antecipação como parte do imenso universo do “pensamento mágico”. Porém, muitos avanços possuem origem em uma espécie de delírio (um sonho, devaneio  lúcido ou inspiração prática) como simbolizamos em Arquimedes na água ou a queda da maçã perto de Newton. No  cérebro  desses gênios, algo que vinham pensando encontra uma iluminação e uma lei abre caminho para o futuro.

Na Bíblia, há dois Josés que lidam com sonhos proféticos, o do Egito e o marido de Maria. O do Antigo Testamento interpretou o mundo onírico de funcionários reais e, depois, do próprio faraó. A arte de decifrar o fez sair da prisão e subir na carreira. O sonhador do Novo recebeu inspirações noturnas e soube da inocência da noiva, do risco enfrentado pelo filho recém-nascido e da possibilidade de retornar a Nazaré.

Quem ousa imaginar o futuro ou sonhar em janeiro de 2022? Estamos muito carentes e amargos. Tenho sonhado com a esperança, ainda sem chip.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

EXERCÍCIO REGULAR PROTEGE O CÉREBRO QUE ENVELHECE

Atividades simples, como caminhadas estimulam as células imunológicas cerebrais, o que pode até evitar o Alzheimer

Manter-se basicamente ativo à medida que envelhecemos reduz significativamente o risco de desenvolver demência, e isso não só para exercícios prolongados. Andar ou simplesmente mover-se, em vez de ficar horas sentado, pode ser o suficiente para ajudar a fortalecer o cérebro, explica um novo estudo com octogenários de Chicago, nos EUA.

A pesquisa rastreou a frequência com que as pessoas mais velhas se moviam ou ficavam sentadas e, em seguida, examinou profundamente seus cérebros após a morte, descobrindo que certas células imunológicas vitais funcionavam de maneira diferente ao cérebro de quem era ativo em comparação com seus pares mais sedentários.

A atividade física parecia influenciar a saúde de seus cérebros, suas habilidades cognitivas e até a perda de memória característica do Alzheimer. As descobertas aumentam as evidências de que, quando mexemos nossos corpos, mudamos nossas mentes, independentemente do quão avançada seja nossa idade.

Evidências cientificas indicam que a atividade física aumenta o tamanho do cérebro. Pessoas mais velhas e sedentárias que começam a andar por cerca de uma hora diariamente, por exemplo, normalmente adicionam volume ao hipocampo, o centro de memória do cérebro, reduzindo ou revertendo o envelhecimento normal ao longo dos anos.

Pessoas ativas de meia-idade ou mais velhas também tendem a ter um desempenho melhor em testes cognitivos e de memória do que pessoas da mesma idade que raramente se exercitam e têm quase metade da probabilidade de, eventualmente, serem diagnosticadas com Alzheimer. As pessoas ativas que desenvolvem demência geralmente apresentam seus primeiros sintomas anos mais tarde do que as pessoas inativas.

CÉLULAS VIGILANTES

O mecanismo exato que faz o exercício remodelar nossos cérebros ainda permanece um mistério embora os cientistas tenham indícios de experimentos com animais. Quando ratos de laboratório adultos correm sobre rodas, por exemplo, elas aumentam a produção de hormônios e substâncias neuroquímicas que estimulam a criação de novos neurônios, bem como sinapses, vasos sanguíneos e outros tecidos que conectam e nutrem essas células cerebrais jovens.

O exercício dos roedores também retarda ou interrompe declínios relacionados ao envelhecimento no cérebro dos animais, mostram estudos, em parte pelo fortalecimento de células especializadas chamadas micróglias. Pouco compreendidas até recentemente são agora conhecidas por serem as células imunes e vigilantes do cérebro.

As micróglias procuram sinais de diminuição da saúde neuronal e, quando as células em declínio são detectadas, liberam substâncias neuroquímicas que iniciam uma resposta inflamatória – a inflamação, a curto prazo, ajuda a limpar células problemáticas e resíduos biológicos. Depois, libera outas mensagens químicas que acalmam a inflamação, mantendo o cérebro saudável e organizado e o pensamento intacto.

Mas, à medida que os animais envelhecem, descobriram estudos recentes, sua micróglia pode começar a funcionar mal, iniciando a inflamação sem revertê-la posteriormente, levando a uma inflamação cerebral contínua. Essa inflamação crônica pode matar as células saudáveis e causar problemas, às vezes suficientemente graves para induzir uma versão do Alzheimer.

A menos que os animais se exercitem. Nesse caso, exames póstumos de seus tecidos mostram que os cérebros dos animais normalmente fervilham de micróglias saudáveis até a velhice, exibindo poucos sinais de inflamação cerebral contínua, enquanto os roedores idosos mantinham uma capacidade juvenil de cognição e memória.

AMPLA BASE DE DADOS

No entanto, não somos ratos e, embora tenhamos micróglias, os cientistas não haviam encontrado uma maneira de estudar se a atividade física regular à medida que envelhecemos influenciaria – ou não – o funcionamento interno das células micróglias.

Assim, para o novo estudo, que foi publicado em novembro no Journal Of Neuroscience, cientistas do Centro Médico da Universidade Rush, de Chicago, e da Universidade da Califórnia, em São Francisco, além de outras instituições. recorreram a dados do ambicioso Projeto Rush de Memória e Envelhecimento. Nele, centenas de cidadãos de Chicago, a maioria com 80 e poucos anos, participaram de extensos testes anuais de cognição e memória e usaram monitores de atividade por pelo menos uma semana. Poucos faziam exercícios de verdade, mostrou o monitor atento, mas alguns se moviam ou andavam com muito mais frequência do que outros.

Muitos dos participantes morreram ao longo do estudo, e os pesquisadores encaminharam os tecidos cerebrais de 167 deles, em busca de marcadores bioquímicos remanescentes da atividade micróglia. Eles queriam ver, de fato, se a micróglia das pessoas parecia ter sido perpetuamente super estimulada durante seus últimos anos, levando à inflamação do cérebro, ou se era capaz de diminuir sua  atividade quando apropriado, bloqueando o processo inflamatório.

Em seguida, cruzaram esses dados com informações dos monitores de atividade. E descobriram uma forte relação entre o exercício e uma micróglia saudável, especialmente em partes do cérebro ligadas à memória. As células micróglias mais ativas continham marcadores bioquímicos que indicavam que as células sabiam como ficar quietas quando necessário. Mas a micróglia dos sedentários, mostrou sinais de ter ficado presa a um excesso de atividade em seus anos finais. Os inativos também pontuaram mais baixo em testes cognitivos.

Talvez o mais Interessante, porém, é que esses efeitos foram melhores em pessoas cujos cérebros mostraram sinais de Alzheimer quando morreram, independentemente de terem ou não graves problemas de memória enquanto ainda estavam vivos. Se essas pessoas fossem inativas, sua micróglia tenderia a parecer bastante disfuncional e sua memória irregular.

Mas se as pessoas se movimentassem com frequência durante a vida adulta, sua micróglia geralmente teria um aspecto saudável após a morte, e muitos não haviam experimentado perda de memória expressiva em seus últimos anos. Seus cérebros podem até ter mostrado sinais de Alzheimer, mas suas vidas e habilidades de pensamento, não.

O que essas descobertas indicam é que a atividade física pode atrasar a perda de memória do Alzheimer em idosos, em parte por manter a micróglia em forma, explica Kaitlin Casaletto, professora assistente de neuropsicologia da Universidade da Califórnia, que conduziu o novo estudo.

E o volume de atividade necessária para obter os benefícios não era grande, disse Casaletto. Poucos haviam se exercitado formalmente. “Mas havia uma relação linear” entre o sedentarismo deles e a saúde do cérebro, disse ela.

”Quanto menos se sentavam, mais ficavam em pé, quanto mais se moviam, melhores foram os resultados.”

Segundo Mark Gluck, professor de neurociência da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, os resultados são “os primeiros a usar análises póstumas do tecido cerebral para mostrar que um marcador de inflamação no cérebro, a ativação da micróglia, parece ser o mecanismo pelo qual a atividade física pode reduzir a inflamação do cérebro e ajudar a proteger contra os estragos cognitivos do Alzheimer embora sejam necessárias mais pesquisas em pessoas vivas.

Além disso, ninguém acredita que a micróglia seja o único aspecto do cérebro afetado pelo movimento, conclui Casaletto. A atividade física altera outras células, genes e substâncias químicas no órgão, ela continua, e alguns desses efeitos podem ser mais importantes do que a micróglia para nos manter aguçados.

Esse estudo também não prova que a atividade faz com que a micróglia funcione melhor, apenas que a presença dessa célula saudável é comum em pessoas que são ativas. Porém, não nos diz se obtemos benefícios adicionais para o cérebro por sermos fisicamente ativos quando temos muito menos de 80 anos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTE DA MAQUINA

Inteligência artificial consegue prever demência antes de sinais

Uma nova ferramenta de inteligência artificial pode prever com 92% de precisão quem irá desenvolver demência com dois anos de antecedência. A descoberta é de um estudo realizado pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, publicado na revista Jama Net World Open.

Dados de mais de 15 mil pacientes que frequentavam uma rede de 30 clinicas de memória do National Alzheimer’s Coordinating Center, nos Estados Unidos, foram usados para treinar a inteligência artificial a detectar quem desenvolveria ou não algum tipo de demência. A técnica funciona identificando padrões para descobrir quem corre maior risco. No início do estudo, todos participantes apresentava problemas de memória ou outras funções cognitivas, mas não apresentavam demência. Entre 2005 e 2015 um em cada dez participantes recebeu diagnóstico de demência dentro de dois anos após visitar a clínica.

Os pesquisadores descobriram que cerca de 8%dos diagnósticos de demência pareciam ter sido errados, já que foram posteriormente revertidos. De acordo com o estudo, o modelo de aprendizado de máquina identificou com 92% de precisão e dois anos de antecedência os pacientes que iriam desenvolver o problema e com 80% de acerto os diagnósticos inconsistentes.

A técnica funciona identificando padrões ocultos em dados do paciente rotineiramente disponíveis na clínica, como memória e função cerebral, desempenho em testes cognitivos e fatores de estilo de vida específicos.

DIAGNÓSTICO ÚNICO

O médico geriatra Otavio Castello, diretor científico da regional Distrito Federal da Associação Brasileira de Alzheimer, explica que o diagnóstico de demência é essencialmente clínico. Isso significa que, embora os exames de imagem tenham evoluído muito nos últimos anos, quem dá o veredicto é o médico, apoiado pelo histórico do paciente, testes neuropsicológicos, exames de imagem e de laboratório.

“Ferramentas de inteligência artificial jamais irão substituir o médico, mas podem ajudar a dar um diagnóstico mais preciso”, afirma.

O próximo passo do trabalho é conduzir estudos de acompanhamento para avaliar o uso prático desse método em clínicas, o que podeajudar a melhorar o diagnóstico, o tratamento e o cuidado da demência.

“A inteligência artificial tem um enorme potencial para melhorar a detecção precoce das doenças que causam a demência e pode revolucionar o processo de diagnóstico para pessoas preocupadas com elas mesmas ou com um ente querido com sintomas. Esta técnica é uma melhoria significativa em relação às abordagens alternativas existentes e pode dar aos médicos uma base para recomendar mudanças no estilo de vida e identificar pessoas que podem se beneficiar de apoio ou avaliações  aprofundadas”, escreveu, em comunicado, Rosa Sancho, chefe de pesquisa da Alzheimer’s Research UK, organização sem fins lucrativos que financiou o estudo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência em todo o mundo, e há quase 10 milhões de novos casos a cada ano. Estima-se que esse número aumente para 78 milhões em 2030 e 139 milhões em 2050.

Marcos Pais, psiquiatra e pesquisador do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), explica que a demência não é uma doença e sim uma síndrome ou um conjunto de sintomas. Ela faz a deterioração da função cognitiva além do que se poderia esperar naturalmente no envelhecimento biológico. As pessoas perdem o funcionamento cognitivo a ponto de isso interferir nas atividades diárias.

ALZHEIMER

A condição é resultado de uma variedade de doenças e lesões que afetam o cérebro, sendo o Alzheimer a causa mais comum, responsável por cerca de 70% dos casos.

“Mas existem outras possibilidades, como demência vascular, fronto-temporal e com corpos de Lewy. Existem ainda demências relacionadas a eventos clínicos que podem ser reversíveis, como a demência da vitamina 12 em idosos”, explica Pais.

O tratamento da demência depende da causa. No caso das demências provocadas por doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, não há cura, mas há tratamento. Nos últimos cinco anos, cientistas têm investido no desenvolvimento de exames de imagem, sangue e ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina capazes de rastrear a doença anos antes dos primeiros sintomas. Mas o que fazer com esses resultados diante de uma doença incurável?

A detecção precoce é fundamental para melhorar a qualidade de vida e o prognóstico da doença.

“As demências não têm cura, mas têm tratamento e alguns remédios funcionam melhor quanto mais precocemente o diagnóstico for dado”, afirma Castello.

O diagnóstico precoce possibilita ainda iniciar uma abordagem prevenindo fatores de risco, como obesidade e pressão alta. Um relatório preenchido por 28 especialistas da Comissão Lancet para prevenção, intervenção e assistência à demência, publicado em 2020, mostrou que a modificar 12 itens associados ao estilo de vida pode atrasar ou prevenir 40% dos casos.

Os fatores de risco modificáveis apontados pela comissão são: perda auditiva, depressão, baixo nível de escolaridade, tabagismo, isolamento social, diabetes, hipertensão, obesidade, falta de atividade física, traumatismo craniano, consumo excessivo de álcool (mais de 21 unidades por semana) e exposição à poluição do ar.

Ter uma boa alimentação rica em frutas e verduras e baixo consumo de alimentos ultraprocessados, além de manter a mente e o corpo ativos, ajudam a reduzir bastante o risco de demência. Um estudo publicado recentemente por pesquisadores chineses no Reino Unido mostrou que algumas xícaras de chá ou café também diminuem em 30% a chance de desenvolver a condição.

OUTROS OLHARES

TUDO EM FAMÍLIA

Cercada de mistérios, a contratação de atores para o papel de parentes em situações reais no Japão é um fenômeno que ganha força e já inspira até a ficção

O cineasta alemão Werner Herzog construiu seu estilo explorando situações psicológicas extremas. Quando não está dirigindo documentários, busca em histórias verídicas a inspiração para seus filmes ficcionais. É o caso de Uma História de Família, longa-metragem mais recente do diretor, em cartaz no Brasil. A trama é centrada em Yuichi Ishii e sua empresa de aluguel de parentes, chamada Family Romance. Funciona assim: atores substituem pais, mães, namorados ou amigos de contratantes que não têm entes queridos para exibir à sociedade. Solteiros simulam relacionamentos amorosos felizes, órfãos relembram como é ter figuras parentais e noivos enchem seus casamentos de convidados. O roteiro foi escrito por Herzog, mas tanto Ishii quanto sua agência existem de verdade.

O serviço começou de forma inusitada. Uma conhecida de Ishii não conseguia inscrever o filho em um jardim de infância porque era mãe solteira. Cansada das recusas, fez um apelo ao amigo: queria que ele fingisse ser seu marido. Ele topou, mas a entrevista foi um desastre. “Não sabia como agir direito com a criança, nem o que dizer como pai”, disse Ishii. Foi assim que teve a ideia de criar a agência, que ofereceria treinamentos e cursos de dinâmica familiar para atores, além de informações sobre a vida dos clientes, evitando situações embaraçosas como a vivida na reunião escolar. O preço seria calculado de acordo com a dificuldade de cada caso, mas a média ficaria em 200 dólares por quatro horas de serviço. O negócio deu certo. Em 2019, a Family Romance tinha 2.200 funcionários. Foi nessa época que Herzog se interessou pela agência. O cineasta entrou em contato com o Ishii e misturou diversas histórias para contar o caso, supostamente verídico, de uma mãe que contrata um dos atores para se passar por seu marido ausente e criar uma conexão entre ele e a filha adolescente.

O diretor alemão não foi o único a documentar o serviço oferecido pela agência. Publicações de diversas partes do mundo foram atrás de Ishii – e acabaram ludibriadas por ele. Em novembro de 2018, a rede pública japonesa NHK lançou um documentário sobre a Family Romance centrado em um homem que teria contratado atores para representar sua mulher e filhos após a morte da esposa. Depois, a rede descobriu que também o entrevistado, assim como outros supostos clientes, eram todos atores da agência. Nem mesmo a prestigiosa The New Yorker escapou da teia de relações ambíguas da Family Romance. A revista publicou uma reportagem sobre a indústria japonesa de aluguel de parentes, explorando detalhes e esquisitices do serviço. Mas a suspeição da NHK disparou um alarme entre os jornalistas, que decidiram refazer a apuração. A investigação mais profunda mostrou que os principais personagens citados haviam mentido para os checadores de fatos sobre seus relacionamentos, dizendo serem viúvos ou solteiros quando, na verdade, eram casados. De forma inédita, a The New Yorker devolveu o prêmio National Magazine, oferecido à publicação pelo texto sobre a agência. De acordo com a revista, apesar de as mentiras recorrentes terem abalado a credibilidade do fenômeno, ele é real.

O que levou ao surgimento de empresas como a Family Romance? A resposta está na própria cultura oriental, segundo Herzog. “O Japão tem a maior população de idosos do mundo, e muitos deles sofrem com a solidão”, afirmou o cineasta. Há ainda uma questão de reputação. Para os asiáticos, manter uma boa imagem é vital para a conquista de um bom emprego ou assegurar um lugar de destaque na sociedade. As redes sociais potencializaram o fenômeno. “As mídias permitem que os usuários se retratem de forma idealizada, algo que não conseguem fazer no mundo real”, explica Alton Chua Yeow Kuan, pesquisador de redes sociais da Universidade Tecnológica de Nanyang e autor de diversos estudos sobre os efeitos do uso dessas plataformas. “Seria melhor que a sociedade não precisasse desse tipo de serviço, mas, por enquanto, não é assim”, diz Ishii. Com certa melancolia, ele descobriu que a carência pode ser um bom negócio.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 23 DE JANEIRO

DEUS VEIO MORAR COM OS HOMENS

E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles (Êxodo 25.8).

O Deus que nem o céu dos céus pode conter resolve habitar com seu povo. Então, ordena a Moisés que lhe faça um santuário. As prescrições para essa morada divina são absolutamente precisas. O santuário seria feito de acácia, uma madeira dura e cheia de nós, símbolo da nossa natureza pecaminosa. Essa madeira deveria ser cerrada em tábuas iguais, para mostrar que na igreja de Deus não existe hierarquia. Somos todos nivelados no mesmo patamar; somos servos. Depois essas tábuas deviam ser presas umas às outras por meio de um engaste. Isso significa que estamos aliançados uns com os outros. Somos membros da mesma família. As tábuas seriam colocadas na vertical, e não na horizontal, representando a posição de ação da igreja no mundo. Mas essas tábuas deveriam ser erguidas não sobre a areia do deserto, mas sobre uma base de prata. E a prata remete à redenção. Entre nós e o mundo existe a cruz de Cristo. Estamos no mundo, mas não somos do mundo. Somos construídos morada de Deus sobre o sólido fundamento da redenção. Depois que o santuário ficou pronto, Deus ordenou a Moisés cobrir toda a madeira de acácia com ouro puro. Isso remete à justificação. Embora pecadores, fomos justificados e cobertos pela justiça de Cristo. Quando Deus nos vê, não nos trata mais segundo os nossos pecados, mas nos vê cobertos com a perfeita justiça de seu Filho. O apóstolo Paulo diz que o nosso corpo é o santuário do Espírito Santo e que Deus habita em nós!

GESTÃO E CARREIRA

VOLTA DA LICENÇA É DESAFIO PARA REINSERIR MÃES NO MERCADO

Organizar processo seletivo exclusivo e valorizar habilidades desenvolvidas na maternidade são boas práticas de inclusão

Quando se olha para a participação das mulheres no mercado de trabalho, um dos grandes funis é o da maternidade.

Ao lado das obrigações profissionais, surgem jornadas, muitas vezes triplas, em que elas precisam dar conta dos filhos e do cuidado com a casa e a família. A pandemia deixou isso ainda mais explícito: sofreram e sofrem as que não puderam trabalhar de casa, enquanto as escolas e demais atividades recuaram, e, também, aquelas que fazem parte de menos de 10% da população que, segundo a Pnad Covid-19, ficaram em home office.

A pandemia fez com que o índice de participação de mulheres no mercado de trabalho atingisse o ponto mais baixo em 30 anos, considerando aquelas acima de 14 anos que trabalham ou procuram emprego. No último trimestre de 2020, o número ficou em 45,8%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as mães com crianças de até dez anos de idade em casa, houve recuo de 7,7% na atuação profissional.

Antes da covid-19, a situação já não era satisfatória. De acordo com uma pesquisa realizada pela plataforma de empregabilidade Catho, com 2,3 mil pessoas em 2018, 30% das mulheres deixam o mercado de trabalho para cuidar dos filhos. Já entre os homens, o índice é de apenas 7%.

Após observar que muitas mães iam para o empreendedorismo por não conseguir uma vaga no mercado de trabalho, Daniela Scalco, que tem dois filhos, criou, em 2019, a ParentslN, startup que conecta mães, pais e cuidadores a empresas. Em uma plataforma, as mulheres podem colocar seus currículos, e as empresas selecionam candidatas. Além disso, a startup faz workshops de cultura inclusiva nas organizações para identificar soluções de baixo custo.

No fim do ano passado, a Ambev Tech (hub de tecnologia da Ambev) fez seleções em parceria com a ParentsIN para recrutar duas mães para ocuparem cargos de negócios. Segundo a recrutadora de tecnologia da empresa, Letícia Schmidt, o projeto ajudou a organização a avançar em uma de suas metas ,a de ter mais mulheres em posições de liderança.

Uma das contatadas foi Élida Lisboa, agora Agile Master na Ambev Tech. Após tirar a licença-maternidade onde trabalhava, ela percebeu que não teria como voltar à rotina com os cuidados da filha, hoje com cinco anos, e se demitiu. “Foram dois anos bem intensos de cuidados e de total dedicação à educação e à maternidade que não foram fáceis. Horas de angústia, alegria, crise. E, mais uma vez, o receio em relação ao mercado de trabalho”, conta.

Após muitas candidaturas, Élida foi contratada em outra empresa. Apesar de bem recepcionada, diz que a maternidade não era fator determinante no ambiente de trabalho. “Foi isso justamente que pesou para mim, porque acabei me distanciando da minha filha, mas não daquela preocupação integral em relação a como ela estava, o que estava sentindo, se escava sendo bem cuidada.”

Élida defende que as empresas precisam se preparar melhor para a volta das mães ao mercado, adotando horários mais flexíveis para que elas e os filhos atravessem o desmame de forma mais leve. Durante o processo da Ambev Tech, ao ter de fazer uma apresentação quando a filha estava doente, preferiu não remarcá-la e compareceu com a criança no colo. “Eu achei que fui mal, estava meio desanimada, mas me ligaram falando que eu tinha passado. Foi incrível!”

MENTORIA.

Outro projeto é o Mãellennials, com foco em consultoria para organizações e na empregabilidade de profissionais de tecnologia e comunicação. A iniciativa é fruto da experiência pessoal da fundadora Paula Sousa, que pediu demissão após o nascimento da filha.

Até 4 de fevereiro, a organização recebe inscrições para mães que querem mentoria e mulheres líderes no mercado que possam mentorá-las por um trimestre. Para se candidatar a mentora, é preciso ter experiência com gestão de pessoas e disponibilidade semanal ou quinzenal para reuniões. As inscrições são online: para madrinhas em https:/{lnkd.in/dGmUuak8 e para mentoradas em https: //bit.ly/3Kw\VrNq.

BOAS PRÁTICAS

PARA EMPRESAS

*** Criar ambiente para que mães e pais se sintam à vontade na organização

*** Entender as configurações familiares: as famílias não são iguais e, por isso, têm necessidades diferentes

*** Rever benefícios (estilo atingindo os objetivos?)

*** Oferecer maior flexibilidade de horários, além da possibilidade de trabalho remoto ou híbrido

PARA MÃES

*** Listar o que você aprendeu desde que ficou grávida

*** Pensar em como esses novos conhecimentos podem ajudar na carreira

*** Atualizar seu currículo e perfil no LinkedIn: nesta rede, quando for adicionar um novo cargo, é possível selecionar a opção ‘autônomo’ na área ‘tipo de emprego’ (assim, não será obrigatório listar uma empresa) e descrever o período da licença e o que aprendeu com ela

EU ACHO …

FINALMENTE, O FUTURO

Enfim, a humanidade evoluirá para seres assexuados imortais, todos iguais

Como tratar de um romance que você acha essencial sem dar spoiler? Esta questão tem me acompanhado especificamente, no caso de um romance que, suspeito, acertou em grande medida o que será nosso futuro, se a ciência chegar aonde queremos que chegue e realize nossos mais escondidos sonhos utópicos.

Talvez tenha achado a solução. Discutir a utopia realizada no romance – que, devido à alta qualidade do autor, é descrita em poucas páginas da obra, mas de forma definitiva – , avançando suas características e consequências sem entrar no mérito do enredo em si.

Se você reconhece o romance é porque já o leu, tudo bem. Estamos entre iguais. Mas não vá você dar spoiler no Painel do Leitor. Se não reconheceu e se interessar, pergunte ao Google.

Todos imaginamos que processos científicos disruptivos – adoro essa palavra fetiche do mercado de picaretas motivacionais – são levadas a cabo por pessoas motivadas em avançar a ciência em favor da humanidade. No caso do romance, o brilhante cientista é um deprimido profundo, sem nenhuma esperança e sem qualquer vida afetiva.

Suspeito que ninguém possa ter capacidades cognitivas superiores sem que elas derivem de sintomas psíquicos graves. O que não significa que todo mundo com problemas mentais tenham tais capacidades, a maioria é só uma vítima de seu quadro clínico.

As pesquisas em biologia molecular do nosso personagem deprimido o levam a descobrir que todos os males humanos – doenças, envelhecimento, morte, desencontros do desejo, instabilidades sexuais, sociais e tristezas decorrentes de tudo isso tudo ­ são consequências da reprodução cruzada humana e da meiose a ela associada – meiose é o processo de divisão celular das células reprodutivas.

Sem entrar aqui no mérito técnico das diferenças entre mitose e meiose – de novo, o Google explica -, o fato é que a reprodução dos gametas sexuais via meiose gera instabilidade e essa instabilidade, trazida pela diferença envolvida nos gametas masculinos e femininos, causa todos aqueles males descritos acima e que todos conhecemos, segundo estudos de nosso gênio deprimido.

A ficção científica envolvida na trama é a descoberta de que, uma vez que o ser humano reproduza celularmente só via mitose todas as suas células serão sempre iguais a si mesmos. Portanto, não haverá instabilidades introduzidas pelas diferenças entre os sexos que reproduzem a espécie.

Enfim, a humanidade ‘evolui’ para seres assexuados imortais, todos iguais, nem homens, nem mulheres – logo, o agêneros e assexuados venceram a polêmica idiota dos gêneros – que podem ou não ser gerados em quantidades maiores ou menores pelas farmacêuticas a  partir de acordos multilaterais entre os países ricos – os pobres e fundamentalistas, isolados em reservas, ainda permanecerão um tempo reproduzindo via sexo entre homens e mulheres, até a extinção do homo sapiens sexuado e infeliz atual.

O romance é escrito por um desses nossos “descendentes, já da outra espécie, que dedica o livro ao homo sapiens, esse infeliz. A única espécie que chegou à conclusão de que seria  melhor extinguir a si mesmo para fazer evoluir o mundo.

O mundo agora é feliz. Para além de todas as mentiras comuns em nossa época, a metafísica o contemporânea sai do armário nessa obra: o que está em jogo é suprimir a morte material à todo custo, o resto é propaganda enganosa. Não existem mais famílias, a nova espécie não tem sexo nem gênero. Não há desejos, não há dependências afetivas, ninguém envelhece nem adoece, ninguém “quer” nada. O nirvana é de fato aqui e agora. Nem heranças, nem inventários.

Os problemas são outros. Se ninguém morre, como decidir fabricar mais gente? Quem decide? Quem interdita? A medida que a biotecnologia em jogo se torna mais barata, a questão é como controlar a possível “democratização” desse processo e a explosão populacional de imortais sem nenhum desejo, Sem riscos de guerras nem consumo exagerado, o planeta repousa nas mãos de uma nova espécie sem nenhum anseio destrutivo. A depressão como paraíso. Enfim uma mudança de ares.

*** LUÍS FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

A FISIOTERAPIA COMO ALIADA NO TRATAMENTO DE TUMORES

Usada comumente na recuperação de torções e fraturas, a especialidade também melhora a qualidade de vida de pacientes graves

Muitas vezes a fisioterapia aparece como mero complemento ou etapa final de um tratamento, sobretudo nos pequenos traumas ou imobilizações temporárias. Nesses casos, há um período limitado de sessões para que se alcance o restabelecimento dos movimentos e as dores sejam amenizadas. Entretanto, essa ciência da saúde vai além disso. Ela tem se tornado cada vez mais uma importante aliada na terapêutica de casos graves, como os tumores do sistema nervoso central, encéfalo e medula espinhal, que podem prejudicar ou limitar as funções motoras do corpo, as paresias (perda da força nos membros e tronco) ou plegias (ausência de movimento voluntário).

De acordo com o neurocirurgião Jean de Oliveira, líder do Centro de Referência de Tumores do Sistema Nervoso Central do A.C. Camargo Canter Center, o crescimento de um tumor nessas áreas pode causar não só distúrbios motores e sensitivos, como também de comportamento, equilíbrio, perda da fala, visão, audição, entre outros.

Há duas situações diversas. Os tumores que nascem do tecido nervoso oferecem uma possibilidade maior de comprometimento das fibras motoras e sensitivas, pois há a destruição das estruturas cerebrais. Osque nascem das membranas que protegem o tecido nervoso, como os das meninges, que empurram o cérebro, comprometem as funções motoras em um primeiro momento, mas, ao ser operado, com o fim da compressão, a tendência é a recuperação dos movimentos.

Oliveira afirma que em ambos os casos a fisioterapia é fundamental logo no começo dos sintomas, ainda no diagnóstico, e deve seguir durante o tratamento operatório ou quimioterápico, e após as intervenções.

“Quanto mais precocemente você iniciar a fisioterapia, maior a chance de recuperação. Em relação ao déficit motor, o que vai fazer o paciente melhorar, inclusive, é a fisioterapia, e não a cirurgia, que terá como objetivo fazer com que não haja mais a condição que levou a essa situação”, diz. “Atualmente, em centros de tratamento para o câncer, o conceito é multidisciplinar. Há a quimioterapia, radioterapia, fisioterapia e a fonoterapia, essencial para quem teve comprometimento da fala ou da deglutição”, explica.

PRIORIDADES

A fisioterapeuta Glenda Ramos, sócia da Clínica Corpo, na zona sul de São Paulo, é especialista em casos assim. Para ela, há quatro prioridades que a fisioterapia deve oferecer a esses pacientes: tratamento da dor, independência, sono de qualidade e retomada da vida social. Isso tudo decidido entre ela e o paciente.

”No caso dos tumores, a função motora passa a ser diferente. Há a fraqueza muscular e a dificuldade de controlar a musculatura. A sensibilidade também é alterada. Você pode passar a mão na pele da pessoa e ela sentir algo mais agressivo. Ou não sentir calor, frio e pressões mecânicas. O tratamento, então, vai por etapas”, explica.

A ideia é deixar o paciente o mais ativo e com o menor nível de dor possível. Entre os recursos disponíveis para alcançar esse objetivo estão alongamento, fortalecimento muscular e redução dos pontos de tensões musculares, seja manualmente ou com eletroestimulação. Tudo feito com critério para não estimular o crescimento do tumor (em casos não operáveis).

Outro aspecto observado por Glenda é a prevenção de doenças derivadas de uma condição de pouca mobilidade, como pneumonia e infecções urinárias, que podem levar a internações ou mesmo ao óbito. “Não podemos deixar essas doenças oportunistas surgirem. O fisioterapeuta também fica atento a elas, com estimulo pulmonar, de intestino e bexiga.”

Glenda gosta de prestar atenção nos desejos de cada paciente e trabalhar para que eles sejam alcançados. Uns, conta a fisioterapeuta, querem voltar a cuidar do jardim da casa. Outros, sair para almoçar com a família. “Se não é possível abaixar e cuidar das plantas, que ele tenha o máximo de autonomia possível para frequentar aquele ambiente. Ou que ele saia com a família e tenha condição de se alimentar sozinho”, observa.

Uma das pacientes de Glenda é uma mulher de 62 anos, que prefere se manter anônima. Ela estava em Portugal quando o lado esquerdo de seu corpo ficou paralisado. Ao procurar um médico, recebeu o diagnóstico de um tumor no cérebro. Após a cirurgia, com sequelas motoras, iniciou a fisioterapia. ”Não é fácil se sentir com um tumor na cabeça. Você pensa que vai perder a vida) a autonomia”, conta ela, que faz fisioterapia seis vezes na semana. “Na hora da sessão, tudo fica mais alegre. Já nessa fase de recuperação, tive uma neta. Depois, a notícia de que outra nasceria. A fisioterapia me ajudou a poder segurá-la no colo, brincar com ela”, comemora.

A paciente já faz planos para o próximo ano. Quer voltar a Portugal e ainda visitar “uma praia dessas bem legais”, como Punta Cana, na República Dominicana. “Isso me dá uma perspectiva de vida futura, uma sensação de que tudo vai continuar:”

Para o neurocirurgião Jean Oliveira, a disposição que a paciente de Glenda relata em aderir ao tratamento tem papel fundamental no resultado. “O paciente interessado nas sessões terá melhora mais rápida e consistente. É igual a um indivíduo que vai uma vez por semana a academia e faz 30 minutos de esteira e outro que está lá todos os dias, se dedicando.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE DETERMINA SE UMA CRIANÇA SERÁ DESTRA OU CANHOTA?

O fato de um lado do corpo dominar o outro na realização de atividades depende da predisposição genética e do meio

Nos primeiros três ou quatro meses de vida, os bebês usam as duas mãos indistintamente para segurar tudo ao redor. É um cérebro imaturo, com funcionamento primário e global. Aos 18 meses, começam a definir a lateralidade que será consolidada nos próximos anos. À medida que o cérebro do recém-nascido evolui, sua predisposição genética e seu ambiente natural vão moldando o domínio de uma parte do corpo, as extremidades superiores e inferiores, na realização de atividades de maneira funcional

Em relação à preferência manual, de 85% a 90% dos humanos apresentam lateralização destra. Deste percentual, 96% das pessoas que usam a mão direita têm domínio do lado esquerdo do cérebro para a linguagem. No caso dos canhotos, esse percentual seria de 70%.

A neuropsicóloga infantil Berta Zamora Crespo lembra que o cérebro nos primeiros anos de vida, é simétrico, “n]ao possui especialização de funções e, portanto, não têm uma dominância cerebral”. Quando crescemos, as necessidades aumentam.

“Por isso, precisamos que nosso cérebro amadureça e se especialize”.

Para adquirir essa especialidade, o cérebro inicia um processo de maturação. “Até os primeiros dois anos, realiza movimentos bilaterais simétricos, que visam descobrir o seu próprio corpo e os seus componentes”, diz ela, que explica ainda que entre as idades de 2 e 5 anos “há uma fase de alternância em que as crianças usam as mãos e os pés, muitas vezes indistintamente, com o objetivo de explorar o ambiente testando-se na realização das atividades”.

Depois, ela continua, “entre os 5 e 6 anos de idade, surge uma nova fase, denominada automação, em que dominam um lado do corpo que mais tarde se consolidará por experiências motoras e sensoriais e maturação cerebral”.

LATERALIDADE CRUZADA

A aquisição da lateralização afeta outras funções. Crespo explica que esse domínio “nos ajuda a otimizar nossos recursos cerebrais. Facilita o processo de aprendizagem cognitiva e o desenvolvimento psicomotor, ajudando-o a ser funcional e ideal”.

Quando a lateralidade não é definida em um dos dois hemisfério que determinam a terminologia destro ou canhoto, mas o lado esquerdo é utilizado para realizar algumas atividades e o direito para outras, ocorre a lateralidade cruzada.

“Isso pode afetar a organização e o desenvolvimento de funções superiores, principalmente a percepção espaço -temporal”, acrescenta a especialista.

Sobre o desenvolvimento da lateralidade cruzada Isabel Maria Medina Amate, psicóloga da saúde infantil, afirma que “é um distúrbio neurofisiológico relacionado às dificuldades de coordenação dos dois hemisférios, que leva a problemas de coordenação, lentidão na leitura escrita ou no cálculo mental”.

Nesses casos, uma das maiores “desvantagens” de quem a sofre são as dificuldades de rendimento escolar ou profissional. Muitos deles, comenta a psicóloga da saúde infantil, são descritos como “preguiçosos” ou “desajeitados”, com problemas de “atenção e concentração”. Circunstância que, ela prossegue, “impacta diretamente o seu meio social e familiar, em que é como o surgimento de problemas de comunicação e integração com os outros que podem levar a transtornos de ansiedade ou depressão se não houver um diagnóstico precoce”, afirma Medina Amate.

Uma vez descoberto o transtorno, “as escolas devem ser treinadas pua intervir e cumprir um protocolo de ação que atenda às necessidades de cada sujeito com lateralidade cruzada. As famílias também devem ter recursos especializados nesse tipo de transtorno., onde as pessoas possam descobrir, investigar, aprender e ter um espaço em que se sintam compreendidas e amparadas”, acrescenta a especialista.

As ações que seriam necessárias para casos dessetipo de lateralidade, conclui Isabel Maria Medina Amate, seriam através de um trabalho multidisciplinar (professor-família-psicólogo).

“Em relação ao campo educacional, eles estariam diretamente relacionados à suas próprias necessidades, com foco em processos como escrita, leitura, cálculo mental ou orientação espaço-temporal. Seria necessário envolver a família em todas as ações, atuando como eixo principal para auxiliar o sujeito a administrar todas aquelas consequências advindas desse tipo de transtorno, como baixa autoestima, estresse, ansiedade ou insegurança”.

Sobre a área das funções linguísticas e de que forma se relacionam com a lateralidade, Mabel Urrutia Martinez, da Universidade de Concepción, no Chile, explica que ”a lateralização da linguagem é contra-lateral no cérebro, ou seja, o lado esquerdo do cérebro, onde a linguagem se desenvolve predominantemente, está relacionado ao domínio do lado direito do corpo e vice-versa”.

Urrutia Martinez defende que se fale mais da especificação hemisférica do que do domínio da lateralização porque, como destaca, “na área das neurociências, sabe-se que os dois hemisférios estão ligados pelo corpo caloso, conjunto de fibras e nervosas que permitirá a integração e codificação das informações, unificando-as e dando-lhes sentido”.

A existência de uma assimetria lateral, afirma a especialista, “pode estar relacionada a problemas de leitura como dislexia, desempenho e capacidade de desenvolver a linguagem e a escrita devido à falta de coordenação olho- mão, bem como a operações simbólicas, como as matemáticas. Por outro lado, pode afetar a motricidade grossa, mostrando inabilidade motora ou dificuldade em ordenar as etapas de um procedimento”.

PREDISPOSIÇÃO  GENÉTICA

Na forma como a dominância se desenvolve na pessoa ao longo da infância, a predisposição genética tem destaque, questão que, embora as pesquisas ainda não tenham sido conclusivas. “é inegável que existe”, afirma Crespa.

Segundo ela, “a lateralização, como o resto dos processos do sistema nervoso central e do cérebro, segue uma sequência ordenada e temporal de maturação, que pode ser alterada ou modificada por fatores genéticos e ambientais, dando origem a distúrbios do neurodesenvolvimento. Assim, a genética precisa do meio ambiente, e vice-versa, para o desenvolvimento de um cérebro saudável  para a especialização do cérebro e o surgimento dos processos neurocognitivos”.

Às vezes, o ambiente em que a criança cresce tenta modificar sua lateralidade latente, como é o caso daqueles que sofram da dominação manual. Isso é totalmente contraproducente para o desenvolvimento dela.

Mabel Urrutia afirma que é “importante que o bebê mostre sua preferência lateral e faça exercícios que potencializem essa tendência, mas nunca são aceitáveis práticas antigas em que a lateralidade esquerda tenta ser corrigida, como amarrar a mão, porque a criança tem grande probabilidade se tornar ambidestra. Da mesma forma, exercícios de estimulação cognitiva não são recomendados para potencializar a especialização de ambos os hemisférios”.

OUTROS OLHARES

IMPLANTE BOMBA

Sociedades médicas se mobilizam para coibir o uso do chip da beleza. Os produtos contêm uma mistura explosiva de hormônios e oferecem graves riscos à saúde

A obsessão do ser humano pelo ideal de beleza é tão antiga quanto os problemas decorrentes dos exageros cometidos nessa busca. Não é preciso ir muito longe para lembrar alguns exemplos. Na década de 80, a colocação no rosto de materiais tóxicos e não biodegradáveis deformou faces para sempre. Na onda de seios fartos, muitas mulheres acabaram com mamas disformes. O mais recente despropósito é a febre do chamado chip da beleza, que de chip não tem nada e muito menos de beleza. O produto é uma bomba de hormônios em forma de bastonetes colocados sob a camada superficial da pele das nádegas com a promessa de aumentar músculos, a disposição e a libido. Anúncios de clínicas médicas oferecendo o novo milagre e as redes sociais popularizaram o engodo de forma irresponsável, como sempre, e não mencionam, claro, que o tal chip é um sério risco à saúde. As consequências estão começando a aparecer. Em muitos consultórios, pacientes chegam manifestando queixas como mudança da textura da pele e acne, aumento de pelos, alteração da voz e crescimento do clitóris. Porém os prejuízos são mais extensos e incluem sobrecarga do fígado, onde os medicamentos são metabolizados, e arritmias.

O tamanho dos bastonetes não passa de 3 centímetros. Mas, como se vê, é o suficiente para danos que podem ser irreversíveis.

A razão está no fato de que, dentro deles, há substâncias que sozinhas ou misturadas a outras têm efeito explosivo. Testosterona, hormônio responsável pelas características masculinas, e gestrinona, hormônio sintético que inibe a produção de estrogênio, esteroide sexual feminino, são as principais. O objetivo é promover no organismo alterações próprias da testosterona – ganho muscular, especialmente. A questão é que, em primeiro lugar, qualquer intervenção hormonal deve ser conduzida por médicos especialistas, realizada sob estrito acompanhamento e ser transparente quanto aos medicamentos e doses utilizados, o que, há décadas a gestrinona é página virada na medicina. Nos anos 1970, a molécula chegou a ser experimentada como opção contra a endometriose, doença caracterizada pelo alojamento de células do endométrio (tecido que reveste a parede interna do útero) sobre os ovários ou na cavidade abdominal. Mas logo foi substituída por alternativas bem mais eficientes e menos danosas. Nos anos 1980 e 1990, ela figurou como uma entre outras possibilidades de terapias hormonais para atenuar efeitos do envelhecimento. Também acabou descartada.

A preocupação é que o composto não é proibido no Brasil e tampouco está na categoria de anabolizante, como é classificado pela World Anti-Doping Agency e, portanto, listado pela entidade como molécula banida. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou apenas uma nota técnica na qual afirma que não estão permitidas a manipulação, comercialização ou outras atividades envolvendo a gestrinona para uso sob a forma de implante ou finalidade estética. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia movimentam-se para acabar com esse vácuo perigoso, uma vez que a nota não tem valor legal. “Nosso objetivo é que a Anvisa atue na fiscalização e coíba o uso da substância”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, da SBEM. A sociedade pede ainda que a gestrinona seja incluída no bulário eletrônico e na lista da agência em que estão 28 fármacos de efeito anabolizante. O intuito é fazer com que a informação seja mais um recurso contra o implante-bomba.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 22 DE JANEIRO

AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO

O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13.10).

Moisés subiu ao monte Sinai e ali Deus falou com ele. Apresentou-se como o Deus da redenção antes de lhe entregar as tábuas da lei. Os dez mandamentos são os princípios morais que devem reger a vida do povo de Deus. São duas tábuas, porque a primeira, contendo os quatro primeiros mandamentos, orienta nosso relacionamento com Deus; e a segunda, contendo os últimos seis mandamentos, regulamenta nosso relacionamento com o próximo. Os dez mandamentos são sintetizados em dois: amar a Deus e amar o próximo. Quem ama a Deus não tem outros deuses, uma vez que Deus não divide sua glória com ninguém. Quem ama a Deus não faz imagem de escultura, pois sabe que Deus abomina a idolatria. Quem ama a Deus não toma o nome do Senhor em vão, porque sabe que Deus é santo; nem despreza o dia de descanso e devoção, porque sabe que Deus deve ser o nosso maior deleite. Quem ama o próximo respeita pai e mãe, seus próximos mais íntimos. Quem ama o próximo não mata, pois reconhece a dignidade da vida, nem adultera, porque respeita a honra do próximo. Não furta, porque respeita os bens alheios. Não fala mal do próximo, porque valoriza seu nome. Não cobiça, porque tem gratidão por aquilo que já recebeu de Deus. Amar a Deus e amar o próximo é o caminho da felicidade. O prazer não está na rebeldia, na transgressão ou no pecado, pois esses são caminhos de dor, pesar e morte. Os mandamentos de Deus não são penosos; devem ser o nosso maior prazer!

GESTÃO E CARREIRA

HORA PARA DESCONECTAR

O trabalho remoto acabou com as fronteiras entre a casa e o escritório. E isso pode aumentar o tempo dedicado às atividades profissionais, o que é perigoso para todos

Ainda em 2017, começou a vigorar na França uma lei que representa bem as transformações que a tecnologia trouxe para o mundo do trabalho: o direito à desconexão. Segundo a Legislação francesa, empresas com mais de 50 empregados precisam criar acordos formais com a força de trabalho sobre o uso de meios eletrônicos – como e-mails e aplicativos de mensagens – fora do horário de expediente. A lei não impõe que empregadores precisem impedir o acesso dos funcionários em horários específicos, mas garante que os trabalhadores tenham direito a permanecer desconectados.

No Brasil, não existe uma regulamentação específica sobre esse assunto. A CLT, por si só, estabelece que o limite da jornada de trabalho é de 44 horas semanais com o acréscimo de 2 horas extras diárias, que deve haver um intervalo mínimo de 11 horas entre as jornadas e que há descanso remunerado semanal por 24 horas consecutivas. As regras são de 1988 e, na época, não existiam as tecnologias que possibilitam o acesso ao trabalho de qualquer lugar. Essa realidade, que já era presente na última década, se intensificou com a pandemia, que acelerou a adesão das empresas ao trabalho à distância.

Não à toa os processos trabalhistas que envolvem home office aumentaram 270% entre março e agosto de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, segundo levantamento feito com dados das Varas do Trabalho. E muitas dessas disputas jurídicas têm a ver com o fato de os funcionários exercerem jornadas mais longas e não conseguirem desconectar do trabalho em casa.

“Alguns chefes acreditam que o empregado deve ficar conectado o tempo todo, podendo de forma austera ou mesmo sutil coagir o trabalhador a estar disponível em tempo integral, sob pena de ser desligado, ou constrangê-lo em frente aos colegas ‘mais disponíveis’, o que configura assédio moral”, diz Janaina Fernandes, advogada especialista em direito do trabalho e sócia do escritório J. Fernandes Advogados. Ela ainda lembra que existe outra situação comum aumentando a carga dos profissionais: as demandas surgem não apenas dos chefes, mas dos colegas e de outros departamentos da empresa. “Um empregado se vê precisando atender a todos em tempo real. Isso gera grande volume de trabalho e desequilíbrio emocional”.

QUAIS SÃO AS REGRAS?

Embora os termos “home office· e “trabalho remoto” sejam usados quase como sinônimos, cada um é um regime trabalhista diferente. O home office é usado para designar que o funcionário exercerá parte de seu trabalho em casa – mas com as mesmas regras de controle de jornada e horas-extras das atividades presenciais.

Já o trabalho remoto foi formalizado na Reforma Trabalhista de 2017, que determina que o funcionário precisa passar mais tempo fora do escritório do que na empresa, que é necessário que a atividade seja exercida por meio digital e que não há necessidade de controle de horas, já que o empregado teria autonomia para controlar seu horário. “A duração do trabalho e da jornada deve constar expressamente em contrato individual que especificará as atividades que serão realizadas pelo empregado”, afirma Carolina Villas Bôas, advogada do Solon Tepedino Advogados. “Quando não há a separação do ambiente físico do trabalho como da residência do trabalhador, certamente estamos diante de uma situação muito mais propícia para que o funcionário passe mais horas trabalhando.”

A falta de uma regra geral pode ocasionar problemas sérios. “O que estamos vendo são empresas totalmente desinformadas sobre a forma adequada de tratar os funcionários que estão à distância, muitas vezes os sobrecarregando via diversos meios telemáticos, sem se preocupar com a jornada e com o modelo de contrato de trabalho, situação que poderá prejudicar ambas as partes”, afirma a advogada Janaina. Do ponto de vista dos empregados, as consequências podem surgir em problemas de saúde física e mental pelo excesso de tarefas. Do lado das empresas, o risco é ter que lidar com processos trabalhistas por horas extras (que podem ser comprovadas mesmo quando não há controle de ponto, por meio de login no sistema e respostas às mensagens eletrônicas, por exemplo), por assédio moral, por danos à saúde e ao bem-estar do funcionário.

DEBATE NO PLENÁRIO

As discussões sobre as atividades profissionais à distância já chegaram até a Câmara dos Deputados. Entre as diversas propostas que estão tramitando, o Projeto de Lei nº 4.831/20 defende que a jornada de trabalho remoto tenha as mesmas regras do trabalho presencial. O PL é de autoria do deputado Joao Daniel (PT-SE) e propõe que, se houver atividades além do expediente previsto, há garantia de horas-extras. Além disso, o texto afirma que comunicações com o funcionário por meio de aplicativos, e-mail ou redes sociais nos períodos de desconexão deverão ser consideradas tempo dedicado  ao serviço, computando horas­ extras. Desde março de 2021, o projeto está em análise na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP).

EU ACHO …

BOA PORCARIA

Abro a geladeira. Encontro a salada mista que sobrou do almoço. E iogurte natural, água, alface, chicória, queijo fresco, ovos e uma tigela de morangos. Penso em tirar uma foto e postar no Instagram com uma legenda motivadora: “Por uma vida mais leve e saudável”. Ganharei seguidores e ninguém suspeitará a saudade devoradora que sinto da época em que simples e natural era se empanturrar de porcarias.

Até os 30 anos, eu ingeria veneno como se todo dia fosse aniversário de criança. Era um festival de corantes e aromatizantes artificiais. Abria um pacote de Doritos e passava cream cheese em cada nacho, os dedos ficavam cor de laranja por três dia. Comia pão branco com glúten, queijo processado sabor cheddar e salsichas tipo Viena, isso quando não comprava cachorro-quente na rua, com uma mostarda tão amarela quanto uma placa de trânsito.

Adorava um picolé vermelho que mais parecia tinta congelada no palito. Comia pizza industrializada. Churrasquinho de gato vendido em frente a estádio de futebol. Churros de doce-de-leite fritos numa panela com azeite reaproveitado há duas semanas.

Bala de goma, pirulito com chiclete dentro, pipoca de micro-ondas, bolacha recheada, barras gigantes de chocolate, refrigerante normal, McLanches e seus derivados. Fazia muitos anos que havia abandonado as bonecas, os bambolês, já namorava, trabalhava e levava vida de gente grande, mas ainda não conseguia cortar os laços com a parte da infância que me preenchia de satisfação e cáries.

Palitinhos de queijo, croissants, risoles, empadinhas, folhados e mais tudo que fosse feito com farinha. Brigadeiros, quindins, balas de coco, leite condensado e mais tudo que levasse açúcar. Já fui muito adepta das falsas promessas de felicidade.

Era uma época de displicência e farra dos sentidos. Cancerígenos eram a nicotina e o alcatrão. Vibrei quando o cigarro virou o vilão da turma prejudicial à saúde – não ter sido fumante era meu salvo conduto, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Até que engravidei. E intuí que mães deveriam dar bons exemplos. Reduzi as porcarias e comecei a incluir alimentos de verdade no cardápio, mas a desintoxicação foi lenta e a despedida, dolorosa. Custei a atingir a maturidade nutricional. Hoje, ao entrar no supermercado, percorro os corredores das guloseimas sem melancolia, já não me abalo diante dos pacotes de salgadinho. Dou fraquejada em eventos festivos, claro, mas estou no controle, consigo entrar em êxtase com o azeite extravirgem, a cúrcuma e o sal do Himalaia. Acolho frutas, verduras e peixes. No desespero por um doce, o chocolate 80% cacau resolve a questão. Chega para todo mundo a hora de olhar para trás e se conformar: basta, já me diverti o bastante.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

USO DA MELATONINA FOI APROVADO; CONHEÇA SEUS EFEITOS

Conhecida como hormônio do sono, ela teve permissão da Anvisa para ser vendida como suplemento alimentar, mas antes de ingeri-la é preciso entender seus benefícios e seus possíveis impactos no organismo

A melatonina, conhecida como hormônio do sono, foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ser utilizada na composição de suplementos alimentares no Brasil. Até meados de outubro, quando a agência publicou a notícia, a substância só podia ser vendida em farmácias de manipulação e com receita médica por falta de evidências científicas que comprovassem sua eficácia – muitas pessoas tomam a versão sintética do hormônio para ajudar a dormir.

Suplementos com melatonina deverão ser consumidos apenas por pessoas com 19 anos de idade ou mais e na quantidade máxima de 0,21 mg por dia, próxima da dose fisiológica (produzida naturalmente no corpo humano). Há contraindicação para gestantes, lactantes e crianças. A dosagem foi definida a partir de um estudo da Anvisa que avaliou como outros países comercializam a substância.

Enquanto nos EUA a melatonina é vendida apenas como complemento alimentar, nove países classificam a versão sintética do hormônio como medicamento. Entre eles Argentina, Austrália, Canadá, Chile, Japão e Reino Unido. Já em países como Alemanha, Itália, França e Bélgica, a substância pode ser considerada como suplemento alimentar ou medicamento, dependendo da dosagem (de 0,3 a 2 mg).

Por aqui, especialistas acreditam que a venda da melatonina como suplemento pode aumentar a confusão sobre como ela atua no corpo. “O problema de vender sem receita dá a sensação de que é suplemento, que pode ser consumido a qualquer momento e por qualquer pessoa, e na verdade é um hormônio”, diz o endocrinologista Bruno Halpern, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBE \­ SP). “As pessoas acham que consumir tudo o que parece fazer bem é um estilo de vida favorável. Mas é preciso ter cuidado”, diz a neurologista Dalva Poyares, pesquisadora do Instituto do Sono e professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

HORMÔNIO DO SONO? NÃO.

Embora tenha fama a partir desse título, a melatonina não é exatamente o hormônio do sono. Ela ajuda, sim, a preparar o corpo para dormir, já que começa a circular no organismo quando anoitece. “Mas ela não é um indutor do sono; é a mensageira dele, responsável por deixar a gente com aquela sonolência”, explica Poyares.

Enquanto dormimos, a melatonina tem a função de sinalizar a cada órgão que é hora de trabalhar, mas não só: o hormônio também regula o ciclo circadiano (nosso relógio biológico), desde o funcionamento físico e químico ao psíquico. Durante a madrugada, por exemplo, o fígado aumenta a produção de glicose, enquanto a liberação de insulina pelo pâncreas diminui.  “Por isso, não é bom comer nesse período”, diz Halpern.

POP, MAS CONTROVERSAS

Ao longo dos últimos anos, a melatonina se tornou a alternativa mais cobiçada para melhorar o sono nos Estados Unidos, onde é vendida como suplemento alimentar em farmácias e supermercados – alguns países da Europa seguem o mesmo modelo. Se em 2012 os norte-americanos gastaram em média US$ 259 milhões com o hormônio, em 2018 foram US$ 425 milhões, de acordo com o Nutrition Business Journal. Porém, mesmo com a alta demanda, não há estudos comprovando que a ingestão da substância funciona.

Há também indícios de que a melatonina ajudaria a melhorar a imunidade e o estresse oxidativo das células a partir de estudos em ratos, mas a ciência não tem comprovação dos benefícios em humanos.

TELAS EM EXCESSO PIORAM LIBERAÇÃO DA MELOTONINA

O hormônio é liberado pela glândula pineal, no cérebro, conforme escurece. Por isso, quanto mais exposição às telas, mais atrasada fica essa produção. O ideal é que todas as informações luminosas diminuam de duas a três horas antes do sono, principalmente no caso de crianças. “Uma dica é apostar em iluminação indireta e mais amarelada”, sugere Poyares.

Evite também as lâmpadas de led, que emitem mais luz azul (a mesma das telas de computadores e smartphones) e são mais prejudiciais ao sono de qualidade. Segundo pesquisadores da Universidade Harvard, nos EUA, esse tipo de luz suprime duas vezes mais a melatonina, assim como desregula o ritmo circadiano na mesma medida depois de uma exposição de 6h30.

Até aquela luzinha estática que permanece acesa quando desligamos a televisão inibe a secreção do hormônio. O ideal é manter o ambiente o mais escuro possível à noite.

SEMPRE NO MESMO HORÁRIO

Por ser um hormônio que serve para sincronizar o ritmo biológico, a melatonina deve ser ingerida com disciplina e, de preferência, sempre no mesmo horário, à noite. Se consumida durante o dia, pode causar diversos danos no longo prazo. ”Ela vai mandar uma informação para o corpo de que é noite, quando na verdade é dia”, afirma Halpern.

ALIMENTOS CONTÉM MELATONINA

Mesmo em pequena concentração, alguns alimentos são fonte de triptofano, aminoácido responsável por se converter em serotonina e então melatonina no corpo humano. Frutas como morango, cereja, uva, banana e manga, assim como ovos, peixes, carne e leite contêm a substância.

PARA QUEM É INDICADO?

Ao envelhecer, a produção de melatonina diminui cerca de 25%. Mas só isso não é sinal de que a população idosa precisa da versão sintética do neuro-hormônio. Apenas quando houver dificuldade de dormir. Pessoas com deficiência visual podem ter problemas para produzir a melatonina na glândula pineal. Quem faz uso de betabloqueadores (para doenças cardiovasculares) ou para melhorar o jet lag depois de uma viagem longa. Ou para quem tem muita dificuldade de pegar no sono a noite e se sente sonolento durante o dia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APOIAR E NÃO MENTIR: ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM O LUTO INFANTIL

Quando a criança perde alguém querido, é preciso responder as dúvidas com paciência e clareza, de uma forma que ela possa compreender sem sentir medo

Se encarar a morte de uma pessoa querida não é fácil, para as crianças o desafio é maior porque elas ainda não entendem o que de fato isso significa. “A compreensão que a criança tem sobre a morte ainda está em construção”, diz a psicóloga Luciana Mazorra, cofundadora do Quatro Estações Instituto de Psicologia, especializado no atendimento a pessoas enlutadas. “Apesar disso, ela tem recursos de enfrentamento e é capaz de elaborar o luto de forma saudável quando tem o suporte de seus demais cuidadores.”

Por isso, é importante conhecer as particularidades do luto infantil, de forma a permitir que a criança encontre o caminho para lidar com seu sofrimento. Para os menores, inicialmente, a morte é vista como um fenômeno temporário e reversível”, explica a psicóloga Luciana. “Ela acredita ser possível recuperar a pessoa perdida”, adverte. Quando a criança não recebe a explicação de que quem morre não volta a viver, de que seu corpo para de funcionar e que não necessita mais de ar e alimento, pode ficar angustiada ao achar que o falecido está sofrendo embaixo da terra. E tende a achar que seus pensamentos podem provocar a morte – o que pode trazer culpa.

Segundo a psicóloga Luciana, por volta dos 6 anos a criança começa a entender que quando alguém morre o seu corpo para de funcionar. “E começa a compreender que todos vão morrer um dia, inclusive ela mesma.”

EXPRESSAR A DOR.

”É preciso dizer que ela e as outras pessoas não vão morrer agora”, orienta Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte. Segundo ela, é essencial que um adulto que tenha um bom vínculo com a criança permita que ela expresse a dor e tire dúvidas.

Bernardo Villar, hoje com 6 anos, teve liberdade de chorar à vontade pela morte de suas irmãs gêmeas Alícia e  Olívia, em dezembro de 2018 e janeiro de 2019 respectivamente. ”Hoje ele não está mais com coração tão pesado”, percebe sua mãe, Stefanie Hamer Villar, que perdeu as filhas com poucos dias de vida. “Ele queria muito ter um irmão, e demorou para entender o que tinha acontecido”, conta. Para ajudar Bernardo a lidar com o luto, Stefanie escreveu uma história sobre ele e as irmãs e fez um livrinho. Ao terminar a história, teve uma boa notícia – estava grávida de Isabela, que nasceu em setembro de 2020. Outro recurso lúdico foi produzir dois “ursinhos da memória”, feitos com os macacões das gêmeas. A professora da USP Maria Julia Kovács confirma a importância de não esconder da criança as próprias emoções. “É importante que ela perceba que pode expressar seus sentimentos.”

ÓRFÃOS DA COVID

Experiências como essas certamente têm sido vividas em muitas outras famílias no País. Mais de 130 mil crianças brasileiras até 17 anos ficaram, órfãs por causa da covid, entre março de 2020 e abril de 2021, segundo pesquisa feita em 21 países e publicada na revista The Lancet. Laura, de 13 anos, perdeu a mãe para a covid em março passado e passou a morar com uma tia, Miriam, de 50 anos. Os nomes são fictícios a pedido de Miriam. Ela conta que a menina ficou indignada por não ter recebido a notícia da morte da mãe no dia em que havia ocorrido, nem participado do enterro. “Ela disse que gostaria de ter vivido esse momento.” Atenta a sobrinha, Miriam percebeu que o comportamento mudou muito após a morte da mãe. “Ela tenta esconder seus sentimentos, mas percebo uma revolta dentro dela”, observa.

Para cuidar de si mesma e buscar orientação para apoiar a sobrinha, Miriam procurou o Projeto Acolhe-Dor, que promove encontros online gratuitos, conduzidos por profissionais voluntários da saúde mental. A psicanalista Monika Borges, uma das fundadoras do projeto, lembra-se que Miriam chegou no grupo desesperada. Mas, ao desabafar, conseguiu pouco a pouco organizar os sentimentos. ”Assim, espera-se que ela tenha mais recursos para acolher Laura, demonstrando que ela também fica triste e sente saudades”, diz Monika. “Aqui vale o chavão: não se pode cuidar do outro sem cuidar de si primeiro.”

COMO APOIAR A CRIANÇA

•  NÃO ESCONDA a morte de uma pessoa querida, nem minta. Quando a criança encontra no ambiente a mentira e o silêncio, fica desamparada e sem recursos para compreender o que está acontecendo.

•  SEJA CLARO para que a criança não tenha expectativa de que a pessoa vai voltar’. Metáforas como “ele fez uma viagem” ou “virou estrelinha” podem confundir.

•  CONVIDE-A para os rituais funerários, mas não force. Durante esses rituais, garanta que a criança esteja acompanhada de um adulto que responda as perguntas dela e acolha seus sentimentos.

•  PERMITA que ela expresse os sentimentos. Evite falas como ”não chore”, “não fique triste” ou “seja forte”, que podem reprimir essa manifestação importante.

•  EXPLIQUE que o corpo enterrado ou cremado já não sente dor ou sofre.

  NÃO USE a expressão “sono eterno” para se referir à morte, já que a criança pode ficar com medo de dormir.

•  EVITE a pregação religiosa. A criança não receberá bem o discurso de que “Deus quis levar”  uma pessoa tão importante para ela.

•  AJUDE-A a entender que, embora a morte seja inevitável, não significa que todos irão morrer agora.

OUTROS OLHARES

BOM PARA CACHORRO

Além de receber bichos de estimação com petiscos e agrados, bares e restaurantes estão criando cardápios para pets que imitam os pratos servidos aos humanos

Seres humanos convivem com pets (lobos, no início da relação) há milênios. Calcula-se que a proximidade tenha começado entre 40.000 e 20.000 anos atrás, quando os primeiros animais foram domesticados na Europa, provavelmente por interesse mútuo: uns ganhavam restos de comida sem fazer esforço, outros se sentiam protegidos, nas caçadas, de ataques de predadores. De lá para cá, a ligação se estreitou a ponto de bichos de estimação fazerem parte da família, usarem roupas, frequentarem manicure e cabeleireiro, serem tratados com acupuntura e florais e outros mimos alheios à vida selvagem. Só faltava sair para almoçar ou jantar fora. Não mais: restaurantes no Rio de Janeiro e em São Paulo, principalmente, oferecem, junto com o cardápio regular, um menu com os mesmos pratos adaptados ao cliente de quatro patas.

O afago gastronômico é uma extensão do conceito pet friendly (sofisticados que são, os bichinhos deitam e rolam nos termos em inglês), adotado em toda parte, com direito até a placa oficial – bares, lanchonetes e restaurantes que não só permitem a entrada de cães como oferecem água fresca, biscoitinhos e manifestações de carinho à vontade. Só no Rio são mais de 250, e parte deles já empreendeu a passagem do mero petisco ao prato caprichado servido pelo garçom, que em geral custa pouco menos da metade do equivalente para humanos. Um dos pioneiros, o bar Noo Cachaçaria, no Centro, oferece cãoxinha (recheada de frango e batata -doce), aumôndega e cãocrete (5,60 reais duas unidades), tudo no formato consumido por gente, só que feito com carne crua e sem tempero.

Também consta do cardápio canino um pudim de banana, mel, iogurte e polvilho ( 9 reais). O QCeviche!, restaurante peruano na orla de Copacabana, adaptou para o gosto canino um de seus carros-chefes, o lomo saltado. No prato, ele é composto de filé mignon, arroz, batata e molho temperado. Na tigela, simplifica-se em carne crua picada e arroz (34 reais).

Nesses restaurantes, os clientes caninos são bem-vindos, mas têm de seguir o protocolo social: permanecer de coleira, sentar no chão (por enquanto) e não latir. Animais de grande porte costumam ser acomodados na área externa. “O ambiente precisa ser acolhedor para todos”, justifica Vanessa Marzano, dona do Noo. Em São Paulo, a sorveteria Le Botteghe Di Leonardo criou o peppino (11,50 reais), um picolé de fruta feito com iogurte orgânico sem lactose e sem açúcar, uma fruta ou legume ralado, gota de mel orgânico e um ossinho no lugar do palito. No Tea Connection, de comida natural, a gerente de produtos Carol Reine divide a mesa com o schipperke Shoyu e o vira-lata Gohan. A família mora em apartamento e ela, quando sai para passear, faz questão de levá-los. “Eu me informo sobre onde ir nas redes sociais. Tem de ser um lugar em que eles possam interagir, em vez de ficar sentados esperando que a gente acabe de comer”, ensina.

Segundo o IBGE, o Brasil tem a segunda maior população de cães do mundo – 54,3 milhões, mais do que crianças. Esse saltitante mercado, que já vinha crescendo havia tempos, expandiu-se mais ainda durante a pandemia: o faturamento de 50 bilhões de reais previsto para 2021 é 22% maior que o do ano passado, que já havia superado em 15% o de 2019. Aproveitando o impulso, Erik Jacquin, o chef-celebridade, assina a linha Plat du Jour, latinhas com apetitosos pedaços de carne bovina e de frango vendidas em pet shops e mercados. Por sua vez, a Padaria Pet, de São Paulo, abriu uma rede de franquias que já conta com 29 lojas e vai inaugurar mais quatro até o fim do ano. Na Pet, os bichinhos podem se deliciar, in loco ou levando para casa, degustando mais de oitenta produtos, de petiscos – pipocas, biscoitos, chocolates (de mentirinha) – a pratos prontos, como arroz de carreteiro, carne de panela e risoto de frango. “Nosso espaço foi todo pensado para os animais”, diz o sócio Arquelau So. “Não é só para comprar comida e ir embora. Queremos que eles aproveitem a visita.” Bom apetite.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 21 DE JANEIRO

JEOVÁ RAFÁ

… nenhuma enfermidade virá sobre ti, das que enviei sobre os egípcios; pois eu sou o Senhor, que te sara (Êxodo 15.26).

A obediência a Deus traz benefícios eternos para a alma e cura para o corpo. Depois de entrar no deserto rumo a Canaã, o povo de Israel lidou com a dramática experiência da falta de água. A sede implacável era o novo desafio. Eles caminharam três dias pelo deserto sem uma gota d’água. Ao chegarem a Mara, encontraram fontes de água, porém as águas eram amargas. Mais uma vez o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber? (v. 24). Moisés clamou a Deus e o Senhor lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas águas, e estas se tornaram doces. Deus os provou e lhes deu mandamentos e estatutos, dizendo que, se eles dessem ouvidos a seus mandamentos e guardassem seus estatutos, nenhuma enfermidade viria sobre eles, como as que enviara sobre os egípcios. Para colocar um marco sobre essa promessa, apresentou-se ao povo com um novo nome: Jeová Rafá, o Senhor que sara. O nosso Deus é quem perdoa todas as nossas iniquidades e quem sara todas as nossas enfermidades. Toda cura, em última instância, é cura divina. Deus cura com os meios, sem os meios e apesar dos meios. Jesus andou por toda parte, fazendo o bem e curando todos os oprimidos do Diabo. Levantou os paralíticos, purificou os leprosos, deu vista aos cegos, fez que os mudos falassem e os surdos ouvissem. Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ele pode fazer o mesmo ainda hoje!

GESTÃO E CARREIRA

ESTÉTICA RESPONSÁVEL

 Xampu, creme de barbear, maquiagem: empresas investem em cosméticos sólidos, que usam menos água e não precisam de plástico na embalagem para atender a um público cada vez mais exigente

Antes de começar a ler este texto, entre no seu banheiro (ou pense nele) e conte quantas embalagens estão ali. Xampu, creme de barbear, loção hidratante. O número de cosméticos que usamos no dia a dia é alto, porém maior ainda é a quantidade de lixo produzido.

A estética e a sustentabilidade devem caminhar juntas. Ao menos é nisso que acreditam as empresas que apostam em produtos em barra. Durante a pandemia, os consumidores passaram a se interessar mais pelos valores das empresas, além de seus produtos. O fenômeno ganhou o nome de clean beauty, uma beleza que preza por produtos naturais e diminuição dos industrializados.

Mais do que prometer algo milagroso, esses produtos valorizam uma rotina de beleza consciente, livres de químicas pesadas, sem testes em animais e com embalagens recicláveis. Além disso, economizam água em sua produção e gastam menos CO2 na entrega dos produtos que, por serem mais concentrados, rendem mais.

No início do isolamento social imposto pela pandemia de covid-19, a  nutricionista e influenciadora digital Luana Friedrick descobriu o mundo dos cosméticos sólidos e teve uma mudança de vida. “Sempre busquei produtos não testados em animais, com uma formulação mais natural, mas até bem pouco tempo atrás não havia tantas opções no mercado e o preço, muitas vezes, tornava esses produtos de difícil acesso”, lembra. ”Nessa busca, encontrei a Amokarité. Olhei a composição: pigmento de fruta, óleo de rícino, cera. Tudo é natural. Precisava testar”, recorda. “Mas, o que me chamou a atenção é que, além de tudo, é uma maquiagem de tratamento. Nunca tinha ouvido falar de um produto que quanto mais se usa, mais ele trata a pele. Achei incrível.” A descoberta a levou a testar outros produtos com o mesmo apelo. “Experimentei e passei a utilizar diariamente os xampus e condicionadores em barra também. Ainda não é o cenário ideal, gostaria de fazer isso com muitas outras coisas, mas estou caminhando,” comemora.

MULTIFUNCIONAL

Um dos atrativos dos produtos da Amokarité, marca criada por Estephanie Racy em 2019, é a multifuncionalidade. ”Me dei conta que não era mais preciso ter sombra, blush, batom… Podia fazer um produto para todas essas aplicações num só potinho – ainda de plástico, mas a quantidade de embalagens era significativamente menor”, conta Estephanie. Hoje, a maquiagem sólida da marca vem envolta em celofane vegetal biodegradável que a mantém fechada, segura, estável e com proteção térmica. Também foram criadas maquiagens multifuncionais pastosas, que usam embalagem de papel.

Vegana há três anos, Estephanie se viu sem alternativas na hora de escolher maquiagens “Fiz uma limpa nos meus cosméticos e eliminei tudo que tinha origem animal ou era feito por empresas que faziam testes em animais. Fiquei sem nada”, conta. “Foi então, observando e ajudando minha mãe, que tinha aprendido a fazer sabonetes artesanais, que eu me perguntei: ‘Por que não produzir minhas próprias maquiagens’.?”

Assim, ela começou a pesquisar. Com a primeira leva de matéria-prima, ela fez batons só com ingredientes naturais: ceras vegetais (carnaúba, coco) manteiga de Karité (que virou o nome da marca, porque a manteiga de karité vai em quase todos os produtos), óleos  vegetais e pigmentos extraídos de rochas (óxido de ferro e mica) e de cascas de frutas.

Em seis meses, a empresa de Estephanie já tinha uma linha de maquiagem completa. Mas, apesar do sucesso, a empresária não estava satisfeita. “Me dei conta da quantidade de embalagens e de plástico que isso demandava e comecei a procurar soluções”, lembra. Isso chamou a atenção de Clara Klabin, A administradora e expert em sustentabilidade se apaixonou pela marca e entrou na sociedade há um ano agregando sua experiência no ramo de embalagens.

MUDANÇAS

Não é incomum ver empreendedores que tinham um incômodo pessoal com o mercado de cosméticos e decidem criar sua própria empresa. Foi assim com uma das pioneiras no Brasil, a B.O.B (Bars Over Bottles, ou barras em vez de garrafas).

Amigos de infância, Andreia Quercia e Victor Falzoni uniram forças para criar uma marca que ajudasse a reduzir o impacto ambiental. “Começamos a analisar o quanto de pegada deixavam os produtos de uso rotineiro. E nos deparamos com a poluição plástica, um dos maiores desafios da nossa e das próximas gerações”, lembra Andreia. Nesse processo, eles descobriram que em uma embalagem de xampu, por exemplo, cerca de 80% do produto é água. “Começamos a calcular o impacto de transportar essa água por toda a cadeia produtiva e a necessidade do uso de plástico descartável que esse produto líquido exige para ser armazenado e transportado”, pontua Andreia. “Entendemos que essa era uma oportunidade: tirar a água dos produtos cosméticos.”

A dupla resolveu apostar na waterless beauty  (beleza sem água) A ideia por trás da tendência é encontrar formas alternativas de cuidado, que envolvam menor uso e consumo de água, seja na produção ou na forma como são utilizados. “Separando o sólido do líquido é possível embalar o produto em papel, um material biodegradável, que se decompõe em até seis meses, ambientalmente amigável.”

ACESSÍVEL

”Quando a gente embarca nesse mundo dos cosméticos naturais, entra em toda reflexão que está por trás desses cosméticos”, diz Cláudio Marques, cocriador da Kurandé Cosméticos, ao lado de Felipe Garcia. “Começamos a questionar o que estamos consumindo, o que eu realmente preciso, o que é necessário consumir para ter uma beleza, uma pele saudável e bem-estar.”

Criada em julho de 2019, a Kurandé propõ elevar fórmulas de autocuidado e amor por meio de receitas caseiras que valorizam o saber ancestral. “A gente via muitas vezes a sustentabilidade em pautas que não contemplavam o nosso jeito de viver, o lugar onde a gente mora”, conta. “Nossos ancestrais sempre foram sustentáveis e não precisavam dessas palavras e nem desse discurso. Era de fato um estilo de vida no qual eles conheciam as ervas e o poder dos produtos naturais.”

A empresa, fundada no Complexo do Alemão, no Rio, tem como missão a promoção e o fortalecimento da autoestima de pessoas negras e indígenas, mostrando que para ser sustentável basta querer.

”Tem muito insumo aqui no Brasil, tem muita matéria-prima brasileira, nacional. Da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, que tem um preço muito acessível e às vezes um poder de ação até melhor para o nosso corpo, para o clima no qual a gente está.  Investimos  muito também em pesquisas sobre o que temos aqui e como transformar isso num cosmético de uso diário para as pessoas”, diz.

Por serem criadas por um público jovem e majoritariamente consumidas pela mesma faixa etária, as marcas são fortes nas redes sociais e possuem lojas virtuais intuitivas. A B.O.B usou a força online para explicar ao público os benefícios da compra de produtos em barra. “O brasileiro é aberto a novidades, gosta de testar, aceita essa troca, desde que você explique bem e dê argumentos convincentes”, explica Andreia.

O site da marca indica a quantidade de embalagens que deixam de ser consumidas na compra de cada produto. De acordo com os sócios da B.O.B., desde 2019, quando a empresa foi fundada, seus produtos de formulação sólida foram responsáveis pela eliminação de 2,5 milhões de embalagens plásticas.

FUTURO

Apesar de parecer tentador transformar todos os cosméticos em barra e  acabar de vez  com as embalagens de plástico, isso ainda não é possível. A Ollie, por exemplo, marca brasileira que traz proteção solar em seus produtos, ainda busca por uma solução em embalagens recicláveis. Enquanto não encontra, foca em outras atitudes para ajudar o planeta.

“A gente quis trazer um produto que fosse o  mais ‘clean’ possível. Não é testado em animais, é totalmente livre dos ingredientes que são taxados como prejudiciais aos corais, não tem água em sua formulação, são livres  de parabenos”, enumera a criadora da marca, Társilla Mendonça. Além do cuidado com o planeta, a empresa foca no cuidado pessoal “A ideia é exatamente conscientizar as pessoas da importância do uso do FPS, ao mesmo tempo que tem um autocuidado com a pele, sem modificar quem você é.” De acordo com o Caderno de Tendências 2019 -2020, estudo feito pela Associação Brasileira da Indústria  de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) e o Serviço Brasileiro de Apoio às  Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a beleza com foco em ingredientes de origem natural cresce entre 8% e 25% ao ano no mundo todo. O relatório ainda mostra que 41% dos brasileiros têm interesse em maior variedade de produtos de beleza e cuidados pessoais com ingredientes de origem natural.

AO NATURAL

Outras marcas de cosméticos sustentáveis

CHA DAO

Inspirada nas cerimônias do chá da China, as criadoras da marca combinam ervas com aromas, sabores e texturas únicas em chás, cosméticos e produtos naturais. ”Temos em nossa essência, o contato íntimo e ritualizado com a natureza”, contam elas no site. Instagram:@cha dao.

THE GREEN CONCEPT

Luizi, CEO e fundadora da marca, se queixava do fato de o mercado da beleza ser liderado por multinacionais que nem sempre levam em conta os impactos ambientais e sociais derivados de sua produção e comercialização. Assim, ela passou a produzir cosméticos que fossem na contramão dessa proposta. Instagram: @thegreenconcept.

UNEVIE

A empresa tem em seu portfólio mais de 120  itens autorais, com responsabilidade animal e sustentável. Além de maquiagem, sabonete e xampu sólidos, a marca oferece desodorante, espuma de barbear e até pasta de dente sólidos. Instagram:@unevei cosmeticos

NATURA BIOME

Recém-lançada pela Natura, a marca conta com xampu de uso diário e de hidratação, condicionador, sabonete comum e esfoliante em barra. A novidade está à venda na loja-conceito da marca na Rua Oscar Freire, em São Paulo, mas em breve também estará disponível no e-commerce próprio. Instagram:@naturabiome.

RELAX COSMÉTICOS

No coração da Avenida Paulista fica a marca que hoje tem a missão de criar meios para o consumo ético e sustentável de cosméticos revitalizadores. Seu diferencial é oferecer produtos sustentáveis para todos os tipos de pele e cabelo. No site, é possível optar por “pele sensível”, “com manchas”, ou “maduras”, por exemplo. Já para o cabelo, oferece produtos em barra para os danificados, coloridos e até com queda. Instagram:@relaxcosmeticos.

SIMPLE ORGANIC

De Florianópolis para o mundo. Séruns, hidratantes, xampus, batons, bases: a marca afirma que sua matéria-prima é cruelty-free, vegana, natural e orgânica, retirada da natureza por meio do manejo sustentável. Diz ainda neutralizar o C02 de toda a cadeia de produção e conta com sistema de logística reversa para cuidar do produto mesmo após o seu descarte. Instagram:@simpleorganic.

EU ACHO …

PACTO SOCIAL

Se em 2021 a vacina foi eleita a palavra do ano, em 2022 um dos tópicos mais frequentes das primeiras semanas tem sido o “pacto social” que ela representa, ou pelo menos deveria representar.

Vejo uma correlação direta deste pacto sobre o qual estamos falando na atualidade com o contrato social presente na obra do filósofo francês Rousseau, um dos precursores do iluminismo que nos faz refletir, entre outras coisas, sobre o quanto vontades individuais, embora precisem ser respeitadas, precisam ceder frente ao coletivo.

E essa discussão que estamos tendo exatamente agora entre as pessoas que se vacinam. Há quem se vacine por entender que este é um ato de responsabilidade. E que, ao fazê-lo, por mais que não goste das empresas fabricantes, não confie plenamente na eficácia, tenha medo de agulha ou qualquer outra razão, saiba que esse ato colabora não só para a sobrevivência individual, mas para a redução de mortalidade provocada pelo coronavírus coletivamente. Vide os números que mostram a eficácia cientifica. Estamos num momento em que o que é óbvio (ou o que parece ser) precisa ser dito e redito.

Por outro lado, ao ver colegas, parentes, desconhecidos ou ainda nomes consagrados se colocando como negacionistas antivax, nota-se que o pacto social não é tão óbvio assim.

O sérvio Novak Djokovic, tenista número 1 do mundo, é um dos exemplos mais marcantes. Por mais que isso possa prejudicar a carreira, recusa a se vacinar. Bem como o surfista Kelly Slater ou ainda Letítia Wright, atriz com grande destaque no filme “Pantera Negra” que afirma preferir deixar a Marvel do que tomar vacina. Uma pena.

Diante desse movimento antivax, persistente, alguns governos resolveram tomar medidas mais drásticas. A Itália tornou a vacinação obrigatória para pessoas com mais de 50 anos. Quando o pacto social por si só falha ao garantir um consenso coletivo, outras medidas acabam sendo tomadas.

Vacina sim porque vacina deveria ser vista não apenas pelo prisma de uma decisão individual, mas como parte de um acordo coletivo, para o bem comum. Algumas pessoas têm dificuldade de enxergar que a vida não é só sobre elas ou sobre suas próprias vontades.

Vejo muita similaridade quando levamos o pacto social para outras esferas. Como, por exemplo, em assuntos como o racismo estrutural. Numa mesa de bar, a gente fala que o racismo e o machismo são partes da estrutura social, reproduzida por todos. E aí alguém se manifesta dizendo: “Mas eu não sou racista. eu até tenho uma amiga negra”.

Se racismo tivesse vacina para combatê-lo, provavelmente estes mesmos diriam: Não preciso de vacina antirracista”.

Sinto que mesmo olhando uma outra questão, há semelhança nestes discursos com os dos antivax. Afinal, em ambos os casos muitos se esquecem que a vida não gira em torno deles. Se o rompimento do pacto social pelos antivax coloca em perigo a saúde coletiva, aqueles que negam a corresponsabilidade em causas estruturais também atrasam em muitas medidas a resolução de doenças sociais.

Se há um problema coletivo, há um problema que precisamos levar para esfera individual, ainda que muitos queiram se isentar disso. Devemos abrir mão da individualidade e assumir um problema coletivo do qual somos corresponsáveis. Espero que seja um legado da pandemia.

Para além da Covid, quem sabe essa forma de olhar o pacto social nos ajude a combater outros graves problemas e doenças sociais para as quais ainda não há vacinas.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaiguadaderacial.com.br

ESTAR BEM

QUANTO TEMPO DURA NA GELADEIRA A COMIDA COZIDA?

Alimentos já preparados tendem a se manter bons por mais tempo em condições adequadas de refrigeração do que os crus. Especialista explica onde deve ficar cada coisa no refrigerador para evitar contaminação

Esta é uma questão muito importante. não só para a nossa saúde individual, mas também para evitar o enorme desperdício de alimentos que ocorre no mundo desenvolvido. A Organização das Nações Unidas paro a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que jogamos fora 1,3 bilhão de toneladas de comida por ano. Essa perda de alimentos limita a capacidade da sociedade de alimentar de forma sustentável uma população em crescimento, além de representar um problema ético, uma vez que mais de um bilhão de pessoas (11%) da população) passam fome em todo o mundo.

O desprezo massivo pelos recursos e seu impacto ambiental tornaram a redução do desperdício de alimentos uma importante estratégia de mitigação ambiental e uma   das metas atuais de desenvolvimento sustentável.

Os cidadãos europeus, por exemplo, são os primeiros a desperdiçar alimentos na cadeia alimentar, uma vez que 53% dos resíduos provêm das famílias, seguidos da indústria alimentar (19 %) e dos serviços de catering e restaurantes (12%). Alguns hábitos alimentares atuais, como comprar mais comida do que o necessário, servir porções excessivas nos pratos, jogar sobras no lixo, conservar mal os alimentos ou descartar os produtos embalados depois que o prazo de validade já passou contribuem para os números exorbitantes de desperdício alimentar registrados na União Europeia.

A correta conservação dos alimentos é, em muitos casos, a melhor forma de minimizar o desperdício.

Os alimentos frescos deterioram-se com o tempo devido à ação de organismos vivos, à ação físico-química do meio ambiente e à atividade biológica dos próprios alimentos. Esta deterioração implica na redução das características organolépticas (sabor, cheiro, etc.) e do valor nutricional, além de comprometer a segurança micro biológica dos alimentos.

Para a correta preservação de muitas comidas, o frio é a melhor opção, pois retarda os processos biológicos que permitem a proliferação de bactérias e outros microrganismos responsáveis por sua degradação. Por isso, em muitos casos,recomenda-se manter esses produtos na geladeira ou mesmo congelá-los quando seu consumo não for imediato. Em outros c:asos, o armazenamento refrigerado é totalmente contraindicado, como no caso da banana, cujo amadurecimento ótimo ocorre à temperatura ambiente (15-20ºC) enquanto o armazenamento refrigerado leva à perda de sabor e aceleração de sua deterioração.

APÓS O COZIMENTO

O principal objetivo do cozimento de alimentos é modificar suas propriedades físico-química e suas características organolépticas para torná-los digeríveis e eliminar possíveis microrganismos presentes nos ingredientes crus. Ao cozinhar, lembre-se de que cada técnica afeta de uma forma as propriedades nutricionais.

Após o preparo, uma vez que o vapor dos alimentos tenha evaporado, cubra-os e guarde-os na geladeira. Não devem ser deixados fora da geladeira para esfriar completamente, pois o aumento da temperatura pode favorecer o crescimento indesejado de microrganismos.

Quando temos grandes quantidades de preparos, como guisados e assados de carne, para acelerar o seu resfriamento devem ser divididos em porções menores. Não é recomendável sobrecarregar o refrigerador com alimentos quentes, pois isso aumentará a temperatura geral do aparelho e com isso a possibilidade de crescimento de bactérias nos pratos.

Alimentos cozidos não devem ser armazenados na geladeira junto com alimentos crus, para evitar contaminação cruzada direta. Alimentos cozidos podem ser re -contaminados por meio de vegetais ou carnes cruas, como frango.

Aquecê-los na hora do consumo e ou colocá-los no micro-ondas não é suficiente para eliminar a passivei carga poluente. Por esse motivo, recomenda-se colocar os alimentos cozidos nas bandejas superiores da geladeira, para evitar pingos dos crus, que ficam mais bem armazenados em recipientes fechados e localizados nas bandejas inferiores para evitar completamente o contato entre eles.

Uma vez que, quando cozinhamos os alimentos, estamos eliminando possíveis micro  -organismos presentes neles, os alimentos cozidos tendem a durar mais tempo em condições de refrigeração adequada, do que os alimentos crus.

Carnes cozidas geralmente precisam de temperaturas de refrigeração entre 1ºc e 4ºC, e podem ser mantidas na geladeira por um período de um a quatro dias, dependendo do tipo de carne, do teor de gordura e da forma como a carne é preparada. No caso específico de caldos de carne, recomenda-se mantê-los refrigerados por no máximo dois dias. Frutos do mar e peixes cozidos podem ser mantidos refrigerados por três a quatro dias, sendo os mais perecíveis aqueles com maior teor de gordura.

No caso de  vegetais cozidos, recomenda-se que sejam resfriados e secos, e mantidos por três a cinco dias na geladeira, pois a presença de água pode acelerar sua degradação. Já os ovos cozidos podem ser mantidos refrigerados por até no máximo uma semana, desde que a integridade da casca não seja alterada. Lembrando que com o passar dos dias, a clara endurece, modificando sua textura. No caso de ovos cozidos sem casca, eles devem ser mantidos frios por um período máximo de 24 horas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIBA CULTIVAR A RESILIÊNCIA E SER MAIS FELIZ EM 2022

A vida na pandemia não precisa ser apenas uma tarefa de sobrevivência. É possível se tornar mais forte e pronto para o próximo desafio, afirmam especialistas. Dicas de como ter uma rede de apoio e interromper o ciclo de estresse ajudam no processo

Maimuna Majunder sentiu-se tão bem preparada quanto uma pessoa poderia estar quando a pandemia de Covid-19 começou, no início de 2020. Como epidemiologista de doenças infecciosas na Faculdade de Medicina de Harvard e no Hospital Infantil de Boston, ela vinha estudando doenças emergentes há uma década. Mas essa era pessoal.

Ela perdeu colegas para a Covid -19 e o suicídio durante esse período. Seu tio passou um tempo em uma unidade de terapia intensiva em Bangladesh. Durante longos dias de trabalho, ela se esquecia de comer por 14 horas seguidas. Ao mesmo tempo, Majunder. uma mulher muçulmana que fala publicamente sobre a pandemia, enfrentou vários ataques e ameaças nas redes sociais.

Para evitar desmoronar com o estresse, ela se concentrou no trabalho e buscou grupos de apoio, além de dedicar pelo menos 15 minutos por dia ao cuidado de si mesma com atividades criativas, como pintura, e estabelecer laços profundos com os colegas de trabalho. Todas essas etapas, disse ela, ajudaram a preservar seu bem-estar.

“Todos nós passamos por uma experiência realmente traumática em resposta a essa pandemia, mas passar por isso juntos foi uma experiência unificadora”, disse ela. “ Isso é algo pelo qual sou muito grata”.

A saúde mental se tornou uma pandemia dentro  da própria pandemia de  Covid, com taxas crescentes de ansiedade, depressão e esgotamento. Mas alguns estudos mostram que uma parte substancial dos adultos encontrou suas maneiras de contornar o problema. Essa tendência ilustra o potencial humano para o que os psicólogos chamam de resiliência, a capacidade de se recuperar de experiências negativas e suportar as adversidades.

Como acontece em qualquer crise, algumas pessoas se tornaram ainda mais fortes do que eram antes da pandemia – com mudanças positivas na maneira como elas veem a si mesmas, seus sentimentos ou seus relacionamentos. Os psicólogos chamam essa reação de crescimento pós-traumático.

A boa notícia é que tanto a resiliência quanto a capacidade de superar as adversidades podem ser cultivadas, seja nos melhores ou piores momentos. Estudos sugerem que uma série de estratégias – como buscar apoio de amigos, cultivar uma perspectiva positiva e interromper o estresse – podem moldá-lo para permanecer forte, ou até mesmo ficar mais forte, em momentos difíceis.

Resiliência é um conjunto de habilidades que a pessoa desenvolve”, disse Steven Southwick, psiquiatra especializado em estresse pós-traumático na Escola de Medicina de Yale.  “E virtualmente qualquer um pode aprender a ser mais resiliente”.

Aqui vão quatro dicas para ajudar você a cultivar a resiliência em 2022.

CONSTRUA UMA FORTE REDE DE APOIO

Uma semana depois que o Canadá implementou as restrições sanitárias contra a Covid-19, em março do ano passado, Simon Coulombe, um pesquisador de psicologia e relações industriais da Universidade Lavai, em Quebec, e Tyler Pacheco, um estudante de PhD em psicologia da Universidade Wilfrid Laurier , em Waterloo, começaram a pesquisar mais de mil canadenses em idade adulta sobre seu bem-estar.

Eles repetiram o experimento algumas semanas e dois meses depois do início da pandemia. Os participantes relataram muito estresse devido à insegurança no trabalho ou ao medo do vírus e, para muitos, esse estresse estava relacionado à sensação de que a vida havia perdido parte de seu significado. Mas o apoio e a interação sociais acabaram protegendo as pessoas de parte desse estresse, uma tendência que persistiu por meses, disse Coulombe.

Algumas pessoas provavelmente nascem mais resilientes do que outras, acrescentou, mas há muito espaço de manobra para se fortalecer, e construir uma rede de apoio é um dos maiores fatores de proteção, de acordo com décadas de estudos.

ENCONTRE MOMENTOS DE OTIMISMO

Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, segundo pesquisas, até 70% das pessoas disseram que se sentiram deprimidas. Mas 60% também relataram que seus relacionamentos pareciam ter ficado mais fortes, junto com sentimentos de afeto pelos seus entes queridos. Com base em um estudo com várias dezenas de estudantes universitários da época, os pesquisadores concluíram que a gratidão, o amor e outras emoções positivas que surgiram nas semanas posteriores ao evento, e mesmo em meio a problemas para dormir e para se concentrar, forneceram uma proteção crucial contra a depressão.

Para cultivar a positividade, os pesquisadores recomendaram buscar conforto nas crenças espirituais ou religiosas, fazer atividades agradáveis e conversar sobre os melhores momentos – na terapia, se necessário. Humor, relaxamento r pensamento otimista podem ajudar a evocar positividade e facilitar o enfrentamento em meio a tempos difíceis, de acordo com estudos que datam da década de 1990.

Mesmo que o otimismo não seja algo natural para você, é uma habilidade que pode ser cultivada, disse George Everly Jr., psicólogo e especialista em saúde pública da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que fez pesquisas com pacientes em diálise e veteranos de guerra.

“Há pesquisas da neurociência indicando que, mesmo que você tenha nascido pessimista, pode se tornar um otimista”, disse ele. “Devemos partir daí e dizer: quais são as lições aprendidas?

INTERROMPA O CICLO DE ESTRESSE

Reduzir o estresse que você sente em resposta a eventos traumáticos na sua vida pode ser psicologicamente benéfico, disse Southwick, cujo campo de pesquisa inclui o trabalho com instrutores das Forças Especiais e pessoas que sobreviveram a desastres naturais.

No cérebro, afirma, o estresse crônico pode aumentar o volume de algumas regiões em detrimento de outras, reduzindo potencialmente nossa capacidade de regular as emoções, entre outros efeitos.

Mas técnicas como atenção plena (mindfulness) e exercícios respiratórios (respirações lentas e profundas ou exalações prolongadas) ativam as regiões do cérebro responsáveis pela atenção, as emoções e a autoconsciência. Essas mudanças, por sua vez, são capazes de Interromper a progressão do medo para a ansiedade e ajudar a facilitar a cura.

Vale a pena tomar medidas agora para proteger sua saúde mental para o futuro, dizem os especialistas. Em uma revisão de 2019, pesquisadores relataram que programas desestresse e encontrar significado em suas experiências levaram a uma melhora da saúde mental e maior qualidade de vida.

ABRACE A MUDANÇA

Ninguém deve se sentir mal por estar experimentando um estado deprimido, disse Southwick. O sofrimento extremo é um pré-requisito para o crescimento pós-traumático e pode levar meses ou anos para que esse crescimento aconteça. Estresse e enfrentamento costumam ocorrer ao mesmo tempo. Mas uma mudança dramática em sua vida pode leva-lo a reavaliar o que é importante, e isso pode ser bom.

“Vemos isso acontecer com pessoas que sobreviveram a luto, desastres naturais, acidentes automobilísticos, condições médicas e entre veteranos de guerra e pessoas que trabalham na área médica”, afirmou. “Eles podem se pegar pensando: eu sou mais vulnerável do que pensava, mas sou mais forte do que jamais imaginei.

OUTROS OLHARES

DORES SILENCIADAS

Mulheres vítimas de violência obstétrica na rede pública perdem bebês e ficam com lesões

Em agosto do último ano, a confeiteira Raquel Afonso, de 39 anos, chegou a uma maternidade pública de Florianópolis com 41 semanas de uma gravidez sem sobressaltos. Ela foi internada e levada para o ‘”sorinho” – na verdade, ocitocina sintética na veia para acelerar o parto, que pode causar complicações graves – e seu companheiro não pôde acompanhá-la, direito assegurado por lei. Pouco depois, a bolsa rompeu dando início a dores lancinantes que foram ignoradas e só terminariam, três horas depois, numa cesárea de emergência no centro cirúrgico. O sofrimento que a marcaria para toda a vida viria logo em seguida: Melissa, a bebê saudável de 3.660 Kg que carregava, nasceu morta. Raquel tem o nome da filha tatuado em um dos braços.

“Quando o útero rompe, precisa tirar o bebé muito rápido. Se eles tivessem me olhado, me dado atenção, minha filha poderia estar nos meus braços”, lamenta Raquel.  “Depois de tudo que passei, meu marido ouviu do médico que, como não era meu primeiro filho, eu não iria sofrer tanto.

O termo violência obstétrica ganhou notoriedade nas últimas semanas, depois que a influenciadora Shantal Verdelho acusou o ginecologista Renato Kalil de maus-tratos durante seu parto em uma maternidade particular na capital paulista. Na rede pública as gestantes estão ainda mais suscetíveis de acordo com a mais ampla pesquisa já feita sobre o tema. O levantamento Nascer no Brasil, da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), de 2012, mostra que 30% das mulheres atendidas em hospitais privados sofrem violência obstétrica, enquanto no Sistema Único de Saúde (SUS) a taxa é de 45%. Em casos extremos, como o de Raquel, as violações podem resultar até em morte da mãe ou do bebê.

“Não se trata de disputar quem sofre mais, mas as mulheres mais vulneráveis à violência obstétrica são as pobres, pretas, pardas, periféricas, LGBTs. Nossa sociedade e os serviços públicos de saúde são elitistas, classistas e racistas”, afirmou a médica Melânia Amorim, professora de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Violência obstétrica é toda ação feita sem o consentimento da mulher, que desrespeite sua autonomia e cause sofrimento físico ou emocional. Pode ocorrer no pré-natal, parto, pós-parto e abortamento. Inclui a adoção de procedimentos sem evidências científicas de benefícios – como episiotomia de rotina, tricotomia e manobra de Kristeller -, além de práticas como obrigar o jejum durante o parto, proibir a paciente de se movimentar, e de estar acompanhada e até xingá-la. Abrange ainda a negligência no atendimento, a discriminação racial e o abuso sexual. Frases comuns ao repertório dos abusadores são: “na hora de fazer, você não gritou” ou “você vai acabar matando seu bebê”.

APÓS ABUSOS, DEPRESSÃO

Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a pesquisadora Tatiana Henriques investiga as consequências da violência obstétrica para as mulheres e seus bebês. Ela integra a equipe que vai coletar novos dados para a pesquisa Nascer no Brasil. Segundo Tatiana, as vítimas sofrem mais com depressão pós-parto, deixam de procurar o serviço de saúde depois que o filho nasce e têm mais dificuldade para amamentar.

“Ainda não há evidências científicas de que o bebê nasce com o Apgar (índice de vitalidade do recém-nascido) mais baixo, vai para UTI ou a óbito. Mas, quando pensamos que uma das dimensões da violência obstétrica é a negligência, então não é nenhum absurdo fazer essa associação”, observa Tatiana.

O parto é um ato fisiológico que requer intervenção médica somente em casos específicos. Mas a realidade é outra, sobretudo no Brasil, que é o segundo país do mundo em número de cesarianas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2018, 55,7% do total de nascimentos foram cirúrgicos, atrás apenas da República Dominicana, com 58,1%. Embora salvem vidas quando necessárias, as cesáreas também têm riscos. A recomendação do órgão é que não excedam 15% do total de partos, de modo a reduzir os índices de mortalidade da mãe e do bebê. No setor privado, a proporção de cesárias chega a 88% dos nascimentos; no público, a 46%.

A dona de casa Michele Fernandes, de 36 anos, sonhava com um parto mais natural possível, mas foi o extremo oposto. Durante as 16 horas de trabalho de parto da primeira filha, em 2007, em Belo Horizonte, sofreu o pacote completo da violência obstétrica. À sua revelia, administraram ocitocina, deram analgesia, fizeram uma manobra de Kristeller e episiotomia. Das enfermeiras e médicos, ela ouviu que “na hora de fazer, não pediu ajuda” e que “estava com frescura e fazendo corpo mole”. Proibida de comer e de andar, Michele teve depressão pós-parto e tomou remédio por três anos, até engravidar de novo. Só entendeu tudo que tinha acontecido com ela dez anos depois.

“O que mais me traumatizou foi a enfermeira subindo em mim. Doía demais. A sensação era de que ela estava com muito ódio e descontou na minha barriga”, conta Michele.

“Só recentemente percebi que não tive um parto. É como se tivessem roubado um momento único meu”.

HUMILHAÇÃO E ABANDONO

Uma face menos exposta da violência obstétrica, mas não menos grave, é a de mulheres que sofreram aborto. Grávida de 22 semanas e com a bolsa rompida, a vigilante Paula Vasconcelos, de 25 anos, deu entrada num hospital público de São Paulo em outubro passado. Na recepção, esperou 40 minutos para ser chamada enquanto ouvia conversa alta e risadas vindas da sala onde seria atendida. Quando chegou à sala de cirurgia, já não dava tempo para analgesia, e Matheus nasceu com 500 gramas. Paula permaneceu mais de três horas na mesma maca suja de sangue, onde se urinou duas vezes, sem assistência. Soube da morte do filho quando uma médica entrou e perguntou, com o verbo no passado, como ele  “iria” se chamar. “Não foram minimamente humanos”, lembra.

Faltam estatísticas no Brasil. A procuradora Bruna Menezes, do Ministério Público Federal, coordenou um comitê pioneiro de enfrentamento à violência obstétrica no Amazonas e afirma que quase a totalidade de cerca de 150 casos investigados em sete anos foi arquivada pelo Conselho Regional de Medicina, sem análises aprofundadas e com base na palavra do profissional de saúde. Na Justiça, houve algumas condenações que somaram mais de RS 1 milhão em indenizações contra o Estado.

Em nota, o CRM do Amazonas rechaçou as acusações e afirmou que todas as denúncias seguem o rito determinado pelo Código de Processo Ético-Profissional.

Depois de perder a filha, ter o útero retirado e quase morrer, Raquel só quer Justiça. O caso ainda é investigado pelo Ministério Público:

“Do mesmo jeito que vou carregar isso para o resto da vida, quero que eles saibam que foram os responsáveis pelo que aconteceu com a minha filha. Essa é a punição que desejo.

PRINCIPAIS PRÁTICAS CONDENADAS NA HORA DO PARTO

EPISIOTOMIA

Corte no períneo, grupo de músculos entre o ânus e a vagina que sustenta os órgãos pélvicos, feito sob o argumento de que facilita a saída do bebê. Pode levar a lacerações graves e à disfunção do assoalho pélvico.

OCITOCINA SINTÉTICA

Conhecida como “sorinho”, é administrada para acelerar o trabalho de parto, mas pode gerar complicações, como alterar batimentos cardíacos do bebê, hemorragia e ruptura do útero.

MANOBRA DE KRISTELLER

O profissional de saúde pressiona o útero da gestante com as mãos para forçar a saída do bebê. Pode levar à ruptura uterina, fratura de costelas, dano ao esfíncter anal e traumatismo craniano no feto.

LITOTOMIA

Conhecida como posição ginecológica, a mulher fica deitada e com as pernas flexionadas ­ forma como a maioria das mulheres têm parto vaginal no Brasil, embora contraindicada. Posições mais verticais, com a mãe ajoelhada, sentada ou de cócoras, são mais eficazes.

TRICOTOMIA

Depilação da vulva e do períneo, com o objetivo de higienizar a região e facilitar a sutura. Não é recomendada pela OMS e pode aumentar risco de infecções.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 20 DE JANEIRO

UM BECO SEM SAÍDA

… Não temais; aquietai-vos e vede o livramento do Senhor que, hoje, vos fará… (Êxodo 14.13).

O povo de Israel viu as portas da prisão serem abertas, o jugo ser despedaçado e o cativeiro opressor chegar ao fim. Enfim, o sonho da liberdade se cumpria. As orações eram respondidas. O povo marchava resoluto rumo à terra prometida. Não tardou, porém, para que surgisse o primeiro desafio. O povo já estava acampado junto ao mar Vermelho, perto de Pi-Hairote, defronte de Baal- Zefom. De repente, os egípcios surgiram furiosamente com todos os cavalos e carros do Faraó, e os seus cavalarianos e todo o exército os alcançaram. Quando os israelitas levantaram os olhos, eis que os egípcios  vinham  atrás  deles.  Estavam encurralados:  pela  frente,  o  mar;  pelas laterais,  as montanhas; e, por trás, os egípcios. Era um beco sem saída. Ao mesmo tempo que clamavam a Deus, também murmuravam contra Moisés. Era um problema insolúvel, uma causa perdida, uma situação irremediável. Moisés disse ao povo para não temer, mas ver o livramento de Deus, e Deus disse a Moisés que o povo deveria marchar. Uma coluna de fogo se interpôs entre o exército do Faraó e o povo de Israel naquela dramática noite, de tal forma que o inimigo não pôde aproximar-se do povo de Deus. Em seguida, o mar se abriu e o povo de Israel passou a pé enxuto, enquanto os egípcios pereceram afogados. O mesmo mar que foi estrada segura para os israelitas revelou-se a sepultura de seus inimigos. Ainda hoje, Deus nos dá livramentos extraordinários. Ele é o mesmo Deus cheio de graça e Todo-Poderoso. Não precisamos temer; podemos confiar. Mesmo quando somos encurralados por problemas insolúveis e ficamos presos num beco sem saída, do alto vem o nosso socorro!

GESTÃO E CARREIRA

HABILIDADES MULTIPLAS

Nem Softnem Hard. Entenda o que são e como desenvolver as habilidades reais, competências que vão fazer a diferença para o sucesso dos negócios no presente e no futuro

Com a pandemia e os muitos desafios que ela impôs aos negócios, ficou claro que os que se saíram melhor, conseguindo sobreviver e prosperar, foram aqueles que souberam de alguma maneira se reinventar. Ter agilidade para se adaptar a mudanças e entusiasmo e criatividade para solucionar problemas são características que passaram de desejáveis a essenciais em profissionais de todos os segmentos. Poderiam ser classificadas como soft skills, como se diz das competências comportamentais ou interpessoais.

Mas o autor de livros de negócios considerado guru do marketing, o norte-americano Seth Godin, propõe incluí-las em outra categoria, a das real skills. “Habilidades reais porque são exatamente aquelas de que o mundo precisa hoje. E porque, ainda que um profissional tenha muitas aptidões técnicas, elas têm pouca utilidade sem as competências que nos tornam humanos, ou seja, aquelas que não se pode programar o computador para fazer”, define Godin.

Outros exemplos dessas qualidades: facilidade para falar em público, proatividade, diplomacia, firmeza para tomar decisões, e poder de persuasão. Não há uma lista estanque ou uma definição simples, mas as habilidades reais podem ser entendidas como o tipo de qualidade que seria bem-vindo em qualquer profissional. Ok, não deixam de ser comportamentais, mas são mais do que isso: combinam atitudes, conhecimentos e percepções de mundo do indivíduo. “Tem a ver com integrar competências comportamentais e técnicas para se tornar um profissional inteiro e, sobretudo, um indivíduo mais completo e sensível ao seu entorno, seja no trabalho, em família, seja na rua”, explica Maurício Pedro, gerente de atendimento corporativo do Senac São Paulo.

Podemos apenas estar diante de mais um termo novo criado pelo marketing. Ainda assim, os especialistas concordam que as tais competências reais, ou verdadeiras, elencadas por Godin são uma demanda que sempre existiu. Só que, por serem subjetivas demais, empresas e recrutadores não sabiam — e estão apenas começando a entender, aliás — como defini-las, avaliá-las e desenvolvê-las. Mas não é porque não podem ser ensinadas que não devem ser incentivadas dentro e fora do ambiente de trabalho. “O desenvolvimento das chamadas competências reais está diretamente ligado à capacidade de aprendizado contínuo e ativo tanto via treinamentos e cursos quanto por meio das experiências cotidianas e da interação com as pessoas em diferentes ambientes”, afirma Maurício.

CATALISADORAS DA TRANSFORMAÇÃO

A edição de 2020 do relatório produzido anualmente pelo Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho destaca a urgência de as empresas assumirem o papel de catalisadoras da aprendizagem e da requalificação para os profissionais se manterem capacitados diante dos novos desafios globais. Dentre as aptidões mais valorizadas, segundo levantamento entre mais de 290 companhias pelo mundo, além daquelas ligadas a habilidades digitais, em que ainda há um vácuo de talentos, estão as focadas em autoconhecimento e inteligência emocional, autogestão, tolerância ao estresse, empatia e capacidade de trabalhar em equipe.

Novos modelos de trabalho pedem profissionais capazes de gerenciar a si mesmos — seu tempo, tarefas, aprendizagem, hábitos e emoções — e com isso entregar produtividade sem acabar com a saúde, uma das principais preocupações das organizações hoje. “No expediente remoto, por exemplo, ficou claro que não dá para separar completamente vida pessoal e trabalho. Funcionários autoconscientes, que têm suas estratégias de bem-estar e autocuidado, são mais valorizados, enquanto aqueles que apresentam dificuldade para conciliar as diferentes áreas da vida podem acabar se tornando um problema para a empresa”, diz João Furlan, CEO da Rocket Mentoring School, instituição de ensino que forma e certifica mentores. Não à toa que nos últimos anos as companhias passaram a investir fortemente em programas de atenção à saúde.

Com a adoção das metodologias ágeis em muitas empresas, a capacidade de trabalhar em equipe, a tomada de decisões, o gerenciamento de conflitos e a comunicação clara e assertiva à distância passaram a ser qualidades mais requisitadas. É por isso que a Visa do Brasil aposta na implantação de projetos multidisciplinares como estratégia para impulsionar a colaboração entre áreas e níveis hierárquicos distintos, a inovação e a prática de feedbacks informais e, com isso, a autoconfiança e o autodesenvolvimento. Também conta com a Visa University, plataforma de estudos com conteúdos de capacitação comportamental e técnica, para apoiar o aprendizado contínuo dos empregados. “Hoje é fácil o profissional se tornar obsoleto em suas capacidades se não buscar aprimoramento constante, por isso incentivamos que a busca por conhecimento parta de cada um”, diz Priscila Monaco, diretora executiva de RH da Visa do Brasil. “Se o próprio funcionário não tiver a mentalidade voltada para crescer, sabendo ouvir, questionar e se preparar, não haverá ferramenta ou organização que possa fazê-lo se desenvolver “.

Na área de tecnologia, em que criatividade e pensamento estratégico são pontos fortes para muitos, aprender autoconhecimento, equilíbrio emocional e habilidades de liderança, por exemplo, pode ajudar a formar profissionais completos. “Quanto mais híbrido o conjunto de capacidades do empregado, mais preparado ele vai estar para descobrir seu propósito, trabalhar por ele e assumir o protagonismo da própria carreira”, explica Cyntia Tanaka, profissional com mais de 15 anos de experiência na área de recursos humanos no segmento de tecnologia e atualmente líder de gente & gestão da Cadmus Soluções em TI.

ALÉM DO BÁSICO

Para Anamaíra Spaggiari, diretora executiva da Fundação Estudar, um dos aspectos mais valorizados pelos jovens ao escolherem uma empresa para trabalhar é a oportunidade de continuar aprendendo depois de sair da faculdade. “Mas é importante ir além dos cursos e treinamentos estruturados e garantir que essa mentalidade de aprendizado constante esteja refletida na cultura da organização, na atitude da liderança, no escopo das atribuições e na oferta de programas de mentoria, por exemplo”, diz.

A farmacêutica Bristol-Myers Squibb (BMS) aposta em experiência e neurociência para incentivar as pessoas a aprender e modificar comportamentos na direção da missão da empresa, que tem forte cultura de inclusão e diversidade. A companhia incentiva, por exemplo, a troca constante entre os funcionários por meio da prática de mentoria e feedback informais, além de estimular o job rotation para existir o contato com diferentes habilidades e realidades. Também disponibiliza palestras, workshops, leituras e cursos que utilizam neurociência para explicar mecanismos que levam a pensar e agir de forma preconceituosa e para conscientizar quanto ao impacto disso no outro. O objetivo é aprimorar a cultura praticando a inclusão para não correr o risco de inadvertidamente excluir ninguém. “No fim, queremos que as pessoas se sintam seguras para se expressar sem precisar desperdiçar energia e tempo para se encaixar em padrões. Com isso, elas conseguem empregar seu talento no que sabem fazer, são mais felizes, produtivas e entregam melhores resultados”, afirma Jennifer Wendling, diretora de recursos humanos da BMS.

EU ACHO …

A MENINA E A MONTANHA

Ela tinha 7 anos quando chegou da escola correndo pela casa, ofegante, procurando alguém para saber se a nova irmã já estava lá. Em poucas horas, estavam frente a frente, conhecendo-se. A mãe maravilhada com a nova bebê na casa onde já moravam duas meninas e dois meninos. A irmã mais nova cresceu mostrando personalidade, liderança, inteligência, além de uma memória prodigiosa. Aos 5 anos, cantava as trovas acadêmicas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde o irmão estudava e exibia o talento da pequena para amigos que frequentavam a casa.

Cresceu com uma certa angústia interna nitidamente maior que a da maioria. Foi uma adolescente cheia de questões e uma certa indiferença pelo que já existia no mundo, querendo sempre modificá-lo de alguma forma. Enquanto a irmã mais velha se maravilhava com qualquer pequena novidade do dia a dia, a mais nova tinha pretensões elevadas sobre como viver, por onde passear e gastar seu tempo. Um despretensioso cineminha no domingo era quase uma ofensa para aquela mente cheia de novos desejos e a convivência entre as irmãs era desafiadora.

A irmã mais nova cresceu e se transformou em uma bela e pulsante mulher. E foi ao lado do par ideal que sua alma encontrou um propósito maior. Uniram-se, ele com uma ideia e ela com sua inquietude, força e energia de construção. Em meio a uma montanha arborizada, enxergavam uma nova experiência na hotelaria. Não queriam agradar e nem desagradar ninguém, não se importavam. A irmã mais nova queria produzir algo genuíno e brasileiro em cada detalhe e contratou só mão de obra local, da montanha. Do barista ao pianista, todos foram formados ali. Vidas ao seu redor ganharam nova dimensão impulsionadas por sua vontade de criar.

Abrindo caminhos, suas ideias que pareciam sonhos se materializam. Suas aflições internas transformaram a montanha mágica em um lugar melhor quando ela colocou sua alma reformadora nas coisas que amava. Seu hotel-sonho ser transformou em realidade, ganhou prêmios e admiradores.  Mas, em alguns anos, o dia a dia, puro e simples, a monotonia do cotidiano voltou a impregnar tudo como “conhecido” que para ela significava falta de emoção. A irmã mais nova, bela mulher e agora cheia de experiência, viu que era hora então de partir. ”Empacotou” a vida, marido, quatro filhos, vendeu a montanha mágica e foi para o outro lado do mundo. Talvez esteja em busca de outra montanha para transformar e histórias para criar, como sempre fez.

***ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

BELEZA SEM FILTRO

 Ao normalizar a própria pele com acne, ela descobriu que ajudava na autoestima de outras pessoas com questões semelhantes

Nome: Kerén Paiva

Idade: 25anos

História: Uma das precursoras no debate sobre o movimento da pele livre nas redes sociais, ela defende que é preciso se amar na própria pele.

É quase um rito de passagem se incomodar com a pele durante a adolescência. As mudanças do corpo, os hormônios, as comparações, tudo nos faz questionar: somos bonitas o suficiente, somos aceitas o suficiente? Kerén era mais uma menina incomodada com a aparência, até que ela decidiu se perguntar porquê.

“A gente começa a entender que existe uma sociedade que lucra em cima da nossa insegurança, e isso foi esse essencial para eu tirar a culpa de ter uma pele acneica”, diz. A partir daí, a menina de então 17 anos virou uma das vozes mais importantes do movimento #pelelivre nas redes sociais e passou a ajudar outros que, assim como ela, sofriam com a pressão para ter uma pele perfeita.” Pele boa é a que você tem”, afirma ela.

Acordar, passar bases e corretivos, ir para escola e voltar com algum tipo de fórmula mágica para a pele. Esse era um dia comum na vida de Kéren. Ela, que começou a ter acne aos 11 anos, teve de lidar com bullying, opiniões não requisitadas e muita insegurança por boa parte da sua vida até se reerguer e assumir a acne com orgulho.

“A adolescência foi uma época difícil pra mim porque a acne sempre foi vista de um jeito muito errado. As  pessoas acham que é sujeira, descuido e, como eu acreditava que era culpa minha, tentei várias coisas malucas para me livrar da acne”, lembra ela, tirando pomadas e tratamentos. “Até tentei aquele famoso com isotretinoína, que é, sim, muito forte e traz diversos efeitos colaterais. Fiz 9 meses desse tratamento e tive uma recidiva. Foi quando entendi que minha acne é resistente”.

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a acne atinge 56% da população adulta, sendo uma das doenças mais comuns do mundo. Em alguns casos. como o de Kéren, são pessoas que tratam da pele a vida toda, justamente por ter algum tipo mais resistente. “Muito mais do que a estética, a acne causa dores no corpo e consequências emocionais e psicológicas. Impacta na qualidade de vida da pessoa, pode levar a transtornos alimentares e psíquicos e isso é muito sério. Cada tentativa que não dava certo me gerava mais frustração.”

Até que em 2017 ela conheceu à influenciadora Layla Brígido. “Quando a vi falando sobre autoestima, apesar de não ser diretamente sobre a pele, virou uma chave na minha cabeça para eu começar a pensar de uma forma diferente de como me via antes e a ver que era possível eu me sentir bonita. Foi aí que fui atrás de informação para entender de onde vinha a minha acne de verdade. Desde então, comecei a questionar o que me foi imposto. Como eu era descuidada se me cuido, me limpo?”, reflete.

Quando começou a falar sobre essas questões online, ela percebeu que não era a única a se sentir mal por causa da acne.  “Eu vi ali na internet na criação de conteúdo, uma forma de colocar minha voz para fora. Para tentar comunicar coisas que eu sentia, via, vivia, e acabei atingindo pessoas que também passavam por tudo isso. Eu sabia que existia, mas não imaginava nunca a proporção que tomou”, diz a respeito dos seus mais de 50 mil seguidores.

A PELE

Hoje, a mineira de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, segue em tratamento, mas com outras propostas. “Não tenho expectativa de nunca mais ter acne. Antes, quando usava a pomada, era na base do ódio, não como um momento de cuidar de mim. A gente perde o significado do que é cuidado com a pele, a gente está ali numa vontade desesperada de ter pele perfeita e vira um processo mais nocivo do que era para ser.”

Assim como o skincare, a maquiagem também era um fardo. Kéren lembra que um frasco de base durava, no máximo um mês, na tentativa de esconder detalhes de sua pele. “Queria tudo apagado, queria tirar o foco do meu rosto e hoje vejo que uso sombras coloridas, pedrarias e uns 10 quilos de iluminador”, brinca.

Segundo ela, o mais difícil é parar de buscar a pele perfeita e normalizar as texturas do rosto. “Foi um processo que começou por dentro, quando passei a me entender e me ver diferente, para depois conseguir externar isso”, explica. “Ao falar sobre isso, eu evolui e comecei a amadurecer o processo. Não podemos esperar que as pessoas nos vejam de maneira diferente, a gente tem de se ver primeiro. Quando nos enxergamos dessa forma, isso muda o olhar deles sobre nós.”

Em suas redes, Kéren sempre repete: pele boa é a que você tem. “E sobre a liberdade de viver na pele que eu vivo. Não tem como eu arrancar e colocar outra, então preciso viver em paz comigo, em paz com ela. E minha pele tem uma função para muito além da aparência. Seria injusto eu viver com essa culpa.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FRAGRÂNCIAS QUE PODEM PROVOCAR BOAS SENSAÇÕES

Como o olfato mexe com as emoções, aromas usados no ambiente têm poder de combater a tensão, a ansiedade e o desânimo

O olfato é tão poderoso que somos capazes de reter até 10 mil odores, enquanto a visão pode perceber no máximo 200 cores, já apontaram pesquisas no campo dos sentidos. Como os aromas mexem com as emoções, as fragrâncias têm poder de mudar o clima do ambiente e provocar sensações em quem nele se encontra. Espalhadas no ar, por palitinhos dentro de frascos ou em difusores, elas não apenas deixam um cheiro agradável, como também proporcionam bem-estar.

Um perfume pode evocar memórias e sentimentos e, assim, ajudar a combater a tensão, a ansiedade ou o desânimo. Para agir contra o estresse, um dos aromas possíveis de se usar é verbena. Canela traz alegria e carrega a conotação de prosperidade. Aromas cítricos acalmam e relaxam, mas cada um atua de um modo adicional. O limão, por exemplo, trabalha o foco e a concentração.

“Uma fragrância passa uma mensagem e pode trazer sensações boas”, diz Alessandra Tucci, fundadora da Paralela Escola Olfativa. “É importante pontuar, porém, que existe aromaterapia e perfumaria. A primeira é uma ciência, cuida dos males da sociedade com óleos essenciais. Já a fragrância é uma fórmula complexa, com ingredientes naturais e sintéticos” diz a expert em perfumes, com 20 anos de experiência.

ATMOSFERA ALEGRE

A aromaterapia trata problemas de saúde. “Agora, se você quer promover o bem-estar com algo sensorial, é o que a gente chama de aromaterapia vibracional ou holística”, explica Maria Aparecida das Neves, criadora do Grupo Essence, com cursos na área. Psicóloga, ela é professora da pós-graduação de Naturopatia da Universidade Paulista (Unip) e da especialização em fitoterapia e Plantas Medicinais da Escola de Educação Permanente do curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Com o avanço da vacinação e a proximidade do fim do ano, reuniões em família ou entre amigos vêm sendo planejadas. Alessandra dá dicas de aromas para criar uma atmosfera alegre. “De dia, podem ser cítricos, florais, madeiras leves. De noite, algo mais defumado, por exemplo, wood. Para olfatos sensíveis, uma lavanda.”

NOMES E CORES

A expert recomenda atenção aos nomes e às cores dos produtos quando for comprar uma fragrância. “Pelo nome ela já diz a que veio. Uma linha botânica tende a ser mais fresca do que uma do Oriente”, diz Alessandra. “A cor, no geral, tem uma coerência com o olfativo. Algo mais para vermelho ou um tom fechado traz um ambiente sensual ou uma atmosfera noturna sofisticada.”

Com uma equipe majoritariamente de mulheres, a Paralela tem a sensibilidade feminina para realizar cursos e experiências. A primeira escola de perfumaria do Brasil, fundada em 2012 por Alessandra, mantém parceria exclusiva com a Cinquième Sens, de Paris, escola francesa com 45 anos.

Já os blend de óleos essenciais em geral levam de 8 a 10 gotinhas, priorizando um aroma para sobressair na mistura. No calor, puxe mais para herbáceos, caso do cipreste ou gerânio, indica Maria Aparecida. A especialista trouxe também em 2012 a Tisserand, renomada marca inglesa de aromaterapia. Importante: é preciso gostar do cheiro escolhido, porque ele não pode fazer bem se atacar a rinite ou causar algum desconforto. “Quando estamos procurando trazer uma sensação, precisamos levar em consideração  a pessoa e o que ela está buscando. Mas temos uma gama grande de óleos essenciais, dá para trocar por aquele que é agradável”, ensina Maria Aparecida.

Há um aroma para cada momento da vida? “Não existe uma única fragrância, existem estilos, assim como na moda”, diz Alessandra. De forma semelhante ao universo dos vinhos, explica a expert, “tem de criar um repertório mínimo para se desenvolver no assunto”.

Para quem deseja percorrer esse caminho, a Paralela oferece cursos desde o nível iniciante. Empresas podem contratar treinamentos e experiências, como a que a escola preparou para a Booking, plataforma de reserva de hospedagem.

CHEIRO DE VIAGEM

Lugares também estão associados a aromas. Praia, por exemplo, está ligada a sol, água e até cremosidade do protetor solar. Esse conjunto traz uma sensação olfativa com ele. Foi esse desafio que a Paralela aceitou da Booking: encontrar um aroma para cada estilo de viagem.

“A praia tem cheiro de brisa, mais aquoso e algo fresco. A fragrância  pode conter algo de melão ou melancia. Tem também o calor e o lado solar. Aí a gente pode usar flores para lembrar isso e um pouco só de coco, para não pesar”, explica Alessandra. “Na viagem de negócios, a gente  foi mais para um tostado do café por causa dos eventos e coffee breaks.” Segundo a pesquisa da Booking, os cheiros que os brasileiros  mais escolheriam para relaxar em uma massagem ou um hotel são: lavanda (48%), flores (44%) e hortelã (23%).

EXPERIMENTE

Confira que aroma usar para cada finalidade

Na hora de decidir que fragrâncias usar, preste atenção nos ingredientes predominantes nas fórmulas (de perfumes) ou nos blends (no caso de óleos essenciais).

CALMA

Limão e laranja são alguns dos cítricos que suscitam calmaria quando usados em fragrâncias naturais ou sintéticas. De acordo com Maria Aparecida, entre os óleos essenciais, a bergamota é um estabilizador de humor e agente contra a melancolia.

VIGOR

Menta, além de refrescante, age contra a fadiga mental. Gengibre e cardamomo dão uma sensação de energia, diz a expert Alessandra.

LEVEZA

Em geral, devido ao frescor, os aromas florais podem ser usados para promover ambientes mais leves. Uma das flores mais usadas em essências é a lavanda, pura ou misturada. Por causa de sua suavidade, costuma ser bem-aceita por olfatos diversos. Relaxante, a lavanda é uma boa escolha contra a ansiedade.

ACONCHEGO

Aromas como musk, sândalo e wood são opções para quem busca acolhimento. Especiarias mais quentes, como cravo e canela, podem ser usadas com esse mesmo fim, mas a pessoa precisa gostar de cheiros mais marcantes.

OUTROS OLHARES

NA PONTA DA LINGUA

Banco de DNA com saliva e suor de criminosos ajuda polícia a prender assaltantes e estupradores

Entre 2008 e 2019, Welington Ribeiro se tomou um dos maiores estupradores em série do Brasil. Seu modo de agir era quase sempre o mesmo: se aproximava, anunciava um assalto, obrigava as vítimas a subirem na sua moto e as levava, sob ameaça. para um lugar isolado onde consumava o crime. Sem usar o capacete para dificultar a identificação, foi preso algumas vezes por casos isolados, fugia e voltava a atacar mulheres. Com a prisão em setembro de 2019, a carreira criminosa foi interrompida: graças à Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos do Ministério da Justiça, a Polícia de Goiás, até agora, identificou ao menos 40 vítimas.

A prisão de Wellington Ribeiro é uma das mais de três mil investigações ao redor do país que, de acordo com relatório de novembro do ministério, foram beneficiadas pela ampliação dos bancos de perfis genéticos nos últimos três anos. O armazenamento de DNAs de criminosos, compartilhados entre as polícias estaduais e federais, soma atualmente mais de 136 mil amostras genéticas, a maior parte de indivíduos condenados.

“O banco acusa quando tem vários perfis coincidentes sendo inseridos. E nós tínhamos esses casos de crimes sexuais, mas ainda não sabíamos quem era o criminoso. Quando percebemos que teve várias coincidências, levamos para a Polícia Civil e mostramos que havia uma semelhança geográfica também: a maioria dos casos era na região de Aparecida de Goiânia. Uma força-tarefa chegou ao estuprador”, explica Marcos Egberto Melo, superintendente de Polícia Científica de Goiás.

136 MIL AMOSTRAS

O perfil genético de Ribeiro foi Incluído no banco de dados em 2015 após ser coletado em uma das vítimas.

A Policia, entretanto, não sabia sua identidade. Dois anos depois, outra mulher foi vítima de Ribeiro, e o DNA novamente apareceu no sistema, que acusou uma coincidência. Em 2018, o número de amostras coletadas com “match” chegou a nove. A operação para prender Ribeiro no ano seguinte durou 45 dias e envolveu inúmeros policiais. Foragido de um presídio desde 2013, ele passou anos enganando a polícia. Desde então, acumula derrotas e condenações na Justiça.

“É uma ferramenta muito poderosa, porque o perfil genético é uma prova técnica praticamente inconteste num tribunal. E, além disso, os materiais coletados que nos permitem chegar à autoria são variados: sangue, cabelo e até mesmo um simples toque”, afirma Maio.

A estratégia de ampliar o banco de dados de perfis genéticos ocorreu a partir do início do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Até novembro de 2018, havia 18 mil perfis cadastrados. Segundo os dados levantados pelo Ministério da Justiça, 74% dos 136 mil perfis existentes hoje são de condenados. A Lei de Execução Penal de 1984 já determinava a coleta de perfis genéticos, mas a norma não era cumprida à risca. A partir de lei aprovada em 2012, é obrigatória a identificação do perfil genético de criminosos condenados por crimes graves como homicídios, latrocínios, sequestros ou estupros.

Até novembro deste ano, segundo a pasta, foram observadas 4.238 coincidências no banco: isso acontece quando um perfil genético incluído no sistema é idêntico a outro que já está lá, como ocorreu com os dos crimes cometido por Ribeiro entre 2015 e 2017. Na última semana, a Polícia Federal prendeu 15 bandidos por participação no mega assalto a banco de Araçatuba, no interior de São Paulo. A identificação de alguns deles só foi possível graças a vestígios deixados pelos suspeitos, impressões digitais, marcas de sangue, saliva e até mesmo suor. As investigações apontam que muitos assaltantes vieram de cidades maiores como São Paulo e Campinas. Ao todo, 32 pessoas já foram pesas. “Não existe crime perfeito. A capacidade técnica das políticas hoje permite que a gente identifique e depois localize o criminoso”, comemorou à época Rodrigo Bartolamei, superintendente da Polícia Federal.

A maioria das coincidências  é entre vestígios, isto é, DNAsidênticos encontrados em dois locais de crimes distintos. Ao todo, foram 3.226 coincidências desse tipo. Há, entretanto, coincidências entre vestígios e indivíduos: quando o DNA de uma pessoa que já está no sistema é encontrado na cena do crime.

GANGUE DE MOTEL

Em outro caso também elucidado pela polícia, um grupo que assaltava motéis além de cometer estupros, foi identificado pelo DNA. A quadrilha praticava os crimes em Goiás e no Maranhão. Peritos do Maranhão tinham inserido os perfis genéticos no banco após a prisão de dois suspeitos e houve compatibilidade com substâncias retiradas de locais de crime.

A conclusão de investigação de crimes sexuais merece destaque entre os resultados. Duas a cada três coincidências são relacionadas a esse tipo de ocorrência. No caso das coincidências de DNA entre um vestígio e um indivíduo, os crimes sexuais respondem por 56%.

Além disso, em alguns estados, o banco tem sido utilizado para ajudar na identificação de desaparecidos. Em mutirões, são coletados o DNA de familiares que estão em busca de seus parentes. Os perfis genéticos sã incluídos, então, no banco de dados em busca de semelhanças com o de pessoas desaparecidas. Até o momento, foi possível estabelecer vínculos genéticos de 156 pessoas desaparecidas, de acordo com o Ministério da Justiça.

“Esses corpos ficam no IML esperando um familiar para serem identificados. Em algumas situações, isso é impossível porque se trata de ossadas, cadáveres em decomposição ou pessoas sem documentos”, afirma Melo. Em 2019, o Ministério da Justiça investiu R$ 35 milhões no trabalho do banco de perfis. Em 2020, os investimentos saltaram para R$ 80 milhões, em parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, Polícia Federal e secretarias de segurança estaduais.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 19 DE JANEIRO

LIVRAMENTO PELO SANGUE

… quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito (Êxodo 12.13).

A Páscoa foi o momento decisivo da saída do povo de Israel do Egito. A palavra “páscoa” significa “passagem”. O anjo que executou o juízo divino sobre os primogênitos do Egito poupou os primogênitos israelitas, não porque fossem melhores do que os egípcios, mas porque estavam debaixo do sangue do cordeiro. Naquela fatídica noite do juízo, o cordeiro foi imolado e seu sangue foi passado nos batentes das portas. O sangue aplicado tornou-se o escudo protetor. O livramento da morte não tinha a ver com as qualidades morais ou espirituais de cada primogênito. O único distintivo que separou os que viveram dos que morreram foi o sangue. Na noite em que Deus passou pela terra do Egito para executar juízo sobre todos os deuses do Egito, foram mortos todos os primogênitos, desde os homens até os animais, exceto aqueles que estavam debaixo do sangue. A páscoa tipificava o derramamento do sangue de Cristo. Jesus é o nosso cordeiro pascal. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É por meio do seu sangue que fomos libertados da morte. É por meio do seu sangue que somos purificados de todo pecado. É por meio do seu sangue que somos reconciliados com Deus. Não há remissão de pecados sem derramamento de sangue. Porém, sangue de animais não pode limpar-nos; somente o sangue de Cristo. A páscoa era uma sombra; a realidade é Cristo. O sangue do cordeiro aplicado nas vergas das portas era um tipo de sangue de Jesus aplicado em nosso coração.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE EU IA FAZER MESMO?

O conceito de foco profundo, que estimula a capacidade de se concentrar sem distrações, ajuda a diminuir a ansiedade e a aumentar a inovação. Saiba como implementá-lo em sua empresa

Conseguir manter o foco é algo raro hoje em dia. Em um mundo hiperconectado, no qual as informações chegam de todos os lugares – e-mail, telefone, WhatsApp, aplicativos corporativos de mensagens -, e tendo que conciliar diversos papéis durante o trabalho, dedicar-se a uma atividade sem interrupção tem sido difícil para muitos. Isso sem falar nas preocupações com a saúde, com a crise econômica e com a família, que se intensificaram com a pandemia de covid-19. Quando menos esperamos, em meio à produção de um relatório importante, lá vem mais distração – seja com uma notícia que chega sem aviso, seja com as mensagens que não param de aparecer.

Um estudo feito pela professora Gloria Mark, do departamento de informática da Universidade da Califórnia Irvine (UCI), mostra que as pessoas trocam de atividade, em média, a cada três minutos. Segundo ela, isso torna impossível o trabalho profundo, ou seja, a concentração em uma tarefa. Gloria exemplifica com a elaboração de um artigo. Para escrever algo com mais complexidade, uma pessoa leva em torno de uma hora para começar a pensar com criatividade. Assim, se mudar de tarefa a cada dez minutos, por exemplo, não será capaz de pensar com a concentração que a atividade exige. Isso porque trocar completamente o tipo de pensamento e voltar à atividade principal é mais difícil quando pulamos de uma obrigação para outra sem parar.

SOBRECARGA COGNITIVA

Para melhorar o foco, é possível usar uma técnica interessante: o deep work, ou foco profundo, conceito cunhado por Cal Newport, professor na Universidade de Georgetown e autor de Trabalho Focado: Como Ter Sucesso em um Mundo Distraído (Alta Books). Ele define o deep work como a capacidade de se concentrar, sem distrações, em uma tarefa que exige muito poder cognitivo. Segundo o autor, é uma habilidade que permite dominar mais rapidamente informações complicadas e produzir melhores resultados em menos tempo. Cal explica em seu livro que a maioria de nós perdeu a capacidade de se aprofundar e passa os dias numa corrida frenética de escrever e-mails, checar as redes sociais e apagar incêndios. Esse comportamento impacta a inovação e a produtividade. “O problema é que isso está virando normal. Vejo pessoas participando de um treinamento, por exemplo, ao mesmo tempo que respondem a e-mails e interagem em uma reunião virtual. O cérebro não foi feito para se repartir em tantos focos de atenção”, afirma a psicanalista Claudia Cavallini, consultora e professora na HSM Educação Executiva. Segundo ela, isso acontece, na maior parte das vezes, em consequência das equipes reduzidas e do medo de perder o emprego. A sensação de muitos é que é preciso dar conta. “Há tanta pressão, hoje, para as pessoas acompanharem o ritmo das mudanças, que há uma sobrecarga cognitiva – o oposto do deep work”, diz Caroline Marcon, fundadora da Marcon Leadership Consulting e sócia da Field Top Teams Consulting, consultorias de desenvolvimento de times executivos. Para ela, o foco profundo é uma das habilidades mais raras hoje em dia – e uma das mais valorizadas e importantes. “Quem conseguir entrar nesse estágio irá se diferenciar e ter insights inovadores. Isso porque, para inovar, precisamos refletir e descansar. Ou seja, dar tempo para a mente se recuperar e, assim, ter mais ideias”, afirma Caroline.

FOCO SE CRIA

A boa notícia é que é possível desenvolver foco, como explica o educador Eduardo Valladares, designer de experiência de aprendizagem. “Foco não é uma habilidade inata. Foco se cria e pode ser desenvolvido a cada dia”, diz. Segundo ele, a grande dificuldade do trabalho focado é que as pessoas não depositam a atenção necessária em cada atividade por causa das distrações vindas da tecnologia, da sobrecarga de trabalho e das muitas demandas de que precisam dar conta. “É preciso um exercício diário, sempre realizando uma coisa de cada vez”, diz. Par a isso, o planejamento é essencial. Algumas perguntas podem ajudar nesse sentido: quais são as demandas da semana? O que é prioridade? Quais imprevistos podem acontecer? “A separação do tempo, o planejamento e a priorização são cruciais para o trabalho focado”, afirma Eduardo. É importante também cogitar os imprevistos, como não ter sinal de internet ou enfrentar algum problema pessoal que não possa esperar. “Pensar num plano B ajuda a não perder a concentração”, afirma.

Roberta Valezio, gerente de engajamento e experiência da Neon, é um exemplo de profissional que aprendeu a ter foco. Ela encontrou no deep work uma alternativa para sua vida agitada e seu perfil multitarefas. “Sempre fui uma criança agitada. Fazia violão, natação, cantava na igreja. Quando entrei no mercado de trabalho, essa característica me acompanhou”, diz. Mas, segundo Roberta, a rotina ficou insustentável, com efeitos em seu corpo, como perda do sono, irritabilidade e ansiedade. Ela lembra que dormia com um caderno ao lado da cama para fazer anotações de ideias e projetos que surgiam durante a noite. “Comecei a pensar em como tirar aquele caderno de lá. Cheguei à meditação e a conceitos como o deep work”, afirma. Entre as técnicas, ela utiliza a disciplina do sono, o planejamento, a meditação e a reserva do tempo. “Sempre olho para a semana antes de ela começar. Claro que há imprevistos, mas planejo meus dias no domingo, reservando tempo para os assuntos prioritários, por exemplo, e estabelecendo quais pratos eu não posso deixar cair.”

Outro ponto importante para a gerente é organizar os horários para as atividades que demandam mais e menos concentração. Roberta divide o tempo em blocos, pois como RH precisa interagir com várias áreas, é necessário saber como irá agir. “Reservo, por exemplo, duas horas ininterruptas para desenhar um projeto ou estudar o mercado, e períodos para checar os canais de comunicação.” Segundo ela, um ponto importante para essa rotina dar certo é fazer combinados com a equipe e com a família. “Os acordos são essenciais. Aviso ao meu time que em determinado período ficarei indisponível e, se algo urgente acontecer, peço para me ligarem”, diz.

Outro hábito de Roberta é dormir oito horas por noite. “Às 22 já me desconecto das redes sociais para, às 23, conseguir dormir com tranquilidade. Acordo às 7 revigorada e pronta para o meu dia. Voltei até a sonhar”, diz. Roberta lembra que, antes do deep work, vivia num ritmo desenfreado, de só apagar incêndios. “Hoje tenho muita clareza de quais são minhas prioridades e do que preciso entregar”, afirma. Segundo ela, além de ajudar na própria concentração, a prática se reflete na equipe e até nos indicadores de clima. ”Você passa a liderar de maneira mais empática e respeitosa.”

CULTURA, COMUNICAÇÃO E LIDERANÇA

Disseminar a importância do trabalho focado exige, muitas vezes, criar uma nova cultura e repensar, por exemplo, como a liderança se comporta no dia a dia. A gestão é baseada na confiança ou no tradicional formato de comando e controle? As pessoas têm liberdade de falar com os líderes? Como a empresa orienta – e cobra – os lideres sobre seus relacionamentos com as equipes? Para o foco profundo dar certo, é preciso, por exemplo, um balanço entre a comunicação síncrona, aquela que acontece em tempo real, e a assíncrona, cujas respostas podem ocorrer de forma intermitente. “Um líder que solicita a disponibilidade da equipe 24 horas por WhatsApp, por exemplo, e exige respostas em cinco minutos, nunca terá um funcionário focado”, diz Eduardo. A recomendação é o equilíbrio. Claro que reuniões são importantes e há assuntos urgentes, mas é necessário refletir sobre o que realmente precisa ser definido em um encontro e quais profissionais devem estar presentes. “Hoje, há uma marcação desenfreada de reuniões. Algumas pessoas nem precisavam estar na conversa, mas são chamadas”, diz Claudia.

Na Alelo, o RH criou o Dia do Foco. Toda quarta-feira, a companhia incentiva e orienta os funcionários a não agendar reuniões para que possam se dedicar a atividades que exigem mais concentração, como a construção de materiais e projetos, ou a realização de treinamentos. O objetivo é ter um dia de trabalho sem interrupções. De acordo com Soraya Bahde, diretora de gente e transformação da Alelo, a ideia surgiu depois de uma pesquisa interna sobre melhorias na rotina de trabalho. “A maioria relatou o excesso de reuniões como um entrave para a produtividade”, diz. O levantamento colheu frases do tipo: “precisamos diminuir a quantidade de reuniões; somos tomados 100% do dia por elas, e não sobra tempo para planejar e executar as atividades”; “há reuniões em excesso; tem dias em que elas acontecem durante todo o expediente e só tenho o horário depois disso para, de fato, trabalhar”.

Para auxiliar o time a aproveitar bem o  Dia do Foco,  a empresa criou um manual de boas práticas, com dicas de como realizar um trabalho concentrado. Nele, há recomendações como comprometimento no dia e transparência na comunicação. Uma vez que convites de reuniões podem surgir, a recomendação é que, se não for algo urgente, a data seja renegociada. Além disso, o manual tem dicas para otimizar o tempo, que incluem planejar as atividades e separar um período para responder e-mails e olhar os canais de comunicação. O documento também aborda a importância dos combinados com o líder sobre os momentos em que estará ausente e estimula pausas entre uma tarefa e outra. “Os resultados têm sido ótimos. Nas reuniões mensais sempre surgem comentários sobre os benefícios da prática, e alguns colegas de RH já me procuraram para implementar algo do tipo nas empresas em que trabalham”, afirma Soraya.

REMOTO X PRESENCIAL

Os níveis de distração podem ser diferentes no home office e no escritório. Mas isso depende do ambiente que o trabalhador tem em casa e se ele divide o espaço com a família ou com os amigos. Pais e mães podem ter mais dificuldade de concentração no trabalho remoto, pois geralmente têm mais interrupções.

Por isso é tão importante o papel do líder, que deve conhecer sua equipe e investir em conversas individuais para entender o contexto de cada um. Nesse sentido, a empresa pode fornecer dicas para ter um home office mais focado, como reservar um espaço para o trabalho, fazer acordos com as outras pessoas da casa e manter a mesa arrumada. “Um local limpo e bem organizado ajuda muito na concentração. Olhar uma pilha de coisas em cima da mesa pode interferir no foco”, explica Caroline. Apesar de a atenção em casa variar de acordo com o cenário individual, Caroline reforça que, nas empresas, é importante pensar em locais mais introspectivos para as atividades que exigem silêncio e concentração. “Ouvimos muito sobre espaços compartilhados e abertos para promover a integração, mas as companhias não podem esquecer de contar com áreas reservadas, como locais de reflexão e concentração”, afirma. Na visão de Claudia, é a hora de repensar os ambientes. “Precisam ser colaborativos, mas também respeitosos e voltados para combater o ruido”, diz.

EQUIPES MAIS CONCENTRADAS

O passo a passo para implementar o conceito de foco profundo em sua empresa

1. REALIZE UM DIAGNÓSTICO

O ponto de partida é ouvir as pessoas e entender quais são as principais queixas dos profissionais em relação ao desenvolvimento de suas atividades. A recomendação é realizar pesquisas de clima, conversas entre equipes e líderes, e pesquisas curtas (pulses.) Há muitas reuniões? Os gestores atuam no esquema de comando e controle, exigindo respostas imediatas? Os funcionários costumam planejar a agenda? Quais atividades prejudicam o trabalho concentrado?

2. ESTABELEÇA UM MANUAL DE BOAS PRÁTICAS

O ideal não é impor, mas criar em conjunto. É importante estabelecer, junto com o time, regras e condutas que favoreçam o foco, a cooperação e a boa convivência. É possível, por exemplo, ter um dia da semana livre de reuniões, orientar que não se marquem conversas na hora do almoço ou no final do dia, evitar mandar mensagens via WhatsApp por qualquer motivo, além de respeitar o outro quando ele disser que não pode responder em determinado momento.

3. PROMOVA TREINAMENTOS

É essencial levar informação aos funcionários por meio de treinamentos que abordem os conceitos do deep work e maneiras de inseri-los no dia a dia. “Depois do treinamento inicial, estabeleça uma agenda de conteúdos, que podem ser pílulas de incentivo sobre alguns pontos do deep work, como o uso consciente do celular, dicas para montar uma agenda inteligente ou a importância das pausas”, diz Rosana Fonseca, professora na Universidade São Judas.

4. CONSCIENTIZE A LIDERANÇA

Os líderes devem ser os propagadores das boas práticas de foco. Para isso, é essencial que o RH realize um trabalho de conscientização com os gestores, reforçando a importância da confiança e das conversas individuais. Afinal, não adianta pedir concentração se o gestor manda e-mails e convoca reuniões a todo momento, e ainda quer controlar as atividades do liderado. “Não é porque um aplicativo está disponível que as pessoas devem estar disponíveis. O profissional precisa ter a liberdade de dizer que não pode responder em determinado momento”, afirma Eduardo Valladares, designer de experiência de aprendizagem.

5. TRABALHE TEMAS DE COMUNICAÇÃO

A comunicação impacta diretamente o foco, por isso precisa ser desenvolvida. É conversando com a liderança, por exemplo, que um profissional defende o período em que precisa de mais concentração. Segundo a psicanalista Claudia Cavallini, as empresas devem ajudar os funcionários a descobrir qual é a melhor maneira de trabalhar e de falar sobre isso – o que pode ser feito com a disseminação de conceitos como autoconhecimento, comunicação assertiva e não violenta e segurança psicológica.

POR DENTRO DO FOCO TOTAL

As quatro regras do conceito criado por Cal Newport

1ª – TRABALHE PROFUNDAMENTE

É preciso estabelecer rotinas e rituais em seu dia. Para isso, pergunte: onde você vai trabalhar e por quanto tempo? Como vai desempenhar as atividades depois que começar a trabalhar? Quais apoios haverá no seu dia? Lembre-se que dá para estipular momentos de pausa para um café e horários para olhar as notícias, assim como agendar as tarefas focadas nos mesmos dias e períodos

2ª – ACEITE O TÉDIO

A ideia é parar de olhar sua caixa de e-mail e as redes sociais em todas as oportunidades que tiver. Segundo Cal, obter o máximo de trabalho focado exige treinamento para aprimorar a capacidade de concentração e superar o desejo por distração. Isso quer dizer que, se você ceder às distrações quando estiver entediado, será muito difícil desenvolver algum tipo de concentração intensa.

3ª – ABANDONE AS REDES SOCIAIS

De acordo com Cal, essas mídias fragmentam nosso tempo e reduzem a capacidade de concentração. Assim, determine um horário curto para a navegação e respeite-o.

4ª – ELIMINE A SUPERFICIALIDADE

É difícil evitar que as trivialidades se espalhem na agenda sem encarar seu equilíbrio atual entre trabalho focado e superficial. Por isso, Cal orienta que se pergunte o que faz mais sentido executar naquele momento. É importante ter essa reflexão antes de começar a agir sem planejamento.

COMO ESTÁ SUA CONCENTRAÇÃO?

O teste abaixo, desenvolvido  por Eduardo Valladares, educador e designer de experiência de aprendizagem ajuda a mapear se você está com problemas de foco. Responda às perguntas com sinceridade

*** Você consegue ficar uma hora sem necessariamente dividir a atenção com outros dispositivos além do que está usando no momento? Ou está no computador e pega o celular para checar uma mensagem?

*** Você consegue ler um texto em silêncio por cinco minutos sem pensar em outros assuntos? Ou para e vai fazer uma atividade aleatória (como tirar a roupa do varal) ou começa a escrever um relatório que precisa fazer a tarde?

*** Você escuta, por exemplo, um podcast e consegue reproduzir o que estava ouvindo? Faça um teste. Ouça os cinco minutos iniciais e dê uma pausa. O que ouviu até agora?

RESULTADO:

Se você tem dificuldade de realizar essas tarefas, talvez seja a hora de rever seu foco.

EU ACHO …

SUSTENTO FEMININO

Estive participando de um seminário sobre comportamento, onde foi dito que as mulheres estão de tal forma cansadas de suas múltiplas tarefas e do esforço para manter a independência que começam a ratear: andam sonhando de novo com um provedor, um homem que as sustente financeiramente. Não acreditei. Outro dia discuti com uma amiga porque duvidei quando ela disse estar percebendo a mesma coisa, que as mulheres estão selecionando seus parceiros pelo poder aquisitivo – não só as maduras e pragmáticas, mas também as adolescentes, que ainda deveriam cultivar algum romantismo.

Então é verdade? Pois me parece um retrocesso. A independência nos torna disponíveis para viver a vida da forma que quisermos, sem precisar “negociar” nossa felicidade com ninguém. São poucos os casos em que se pode ser independente sem ter a própria fonte de renda (que não precisa obrigatoriamente ser igual ou superior à do marido). Não é nenhum pecado o homem pagar uma viagem, dar presentes, segurar as pontas em despesas maiores, caso ele ganhe mais – é distribuição de renda. Mas se é ela que ganha mais, a madame também pode assumir o posto de provedora sênior, até que as coisas se equalizem. Parceria é uma relação bilateral. É importante que ambos sejam autossuficientes para que não haja distorções sobre o que significa “amor” com aspas e amor sem aspas.

As mulheres precisam muito dos homens, mas por razões mais profundas. Estamos realmente com sobrecarga de funções – pressão autoimposta, diga-se –, o que faz com que percamos nossa conexão com a feminilidade: para ser mulher não basta usar saia e pintar as unhas, essa é a parte fácil. A questão é ancestral: temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso, de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade, nosso mistério. O homem nos confirma como mulher, e nós a eles. Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assustados com essa senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais.

Podemos ser independentes e ternas, independentes e carinhosas, independentes e fêmeas – não há contradição. Estamos mais solitárias porque queremos ter a última palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa que não delega, não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber.

Garotas, não desistam da sua independência. Façam o que estiver ao seu alcance, seja através do trabalho ou do estudo, em busca de realização e amor-próprio. Escolher parceiros pelo saldo bancário é triste e antigo, os tempos são outros. É plausível que se procure alguém com o mesmo nível intelectual e social, com um projeto de vida parecido e com potencial de crescimento – mas para crescerem juntos, não para garantir um tutor.

A solidão, como contingência da vida, não é trágica, podemos dar conta de nós mesmas. Mas, ainda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir amada é o que nos sustenta de fato.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SUPLEMENTOS DE COLÁGENO REALMENTE IMPACTAM PELE, CABELO, UNHAS E ARTICULAÇÕES?

Benefícios parecem ser limitados, explicam especialistas, que não fazem indicação da suplementação para pacientes com osteoartrite

O colágeno é a principal proteína estrutural em animais, incluindo os seres humanos, desempenha um papel vital em tecidos como ossos, tendões, ligamentos, cartilagem e pele.

Também é cada vez mais popular em suplementos nutricionais, que afirmam repor esses mesmos tecidos.

“Consuma mais colágeno animal na forma desses suplementos, e você terá pele, cabelo e unhas mais saudáveis, além de acalmar as articulações e ajudar a função digestiva’, prometem os rótulos.

Tais suplementos são feitos de tecidos animais ricos em colágeno que poderiam serdescartados pelos processadores de carne, como pele e ossos de bovinos e suínos, bem como escamas e pele de peixe. Asproteínas são primeiro desnaturadas para formar gelatina e depois quebradas em fragmentos menores antes de serem incorporadas em produtos como pós, gomas, cápsulas e barras de proteína.

Suplementos comercializados como “colágeno à base de plantas” não contêm realmente colágeno: eles afirmam ajudar a produção de colágeno com uma mistura de aminoácidos, vitaminas e minerais.

PESQUISAS INCONCLUSIVAS

Qualquer benefício possível de um suplemento como o colágeno depende de como ele é digerido e absorvido no trato gastrointestinal e se os produtos da digestão podem chegar aos tecidos-alvo e ter um efeito terapêutico. Algumas pesquisas analisaram partes dessa sequência e indicaram alguns possíveis benefícios, mas a história está longe de estar completa.

Veja a pele, por exemplo. O colágeno é uma das principais proteínas da derme, contribuindo para sua firmeza e elasticidade, explica Diane Berson, professora associada de dermatologia na Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova York. A partir dos 20 anos, começamos a perder colágeno da pele, e ele pode ser ainda mais danificado pela exposição a fatores ambientais, como luz sombra, fumaça de cigarro e poluição. Tudo isso leva a flacidez, enrugamento e secura, disse Berson.

Mas ela não está convencida de que ingerir colágeno pode atenuar esses efeitos. Alguns estudos mostram que tomar suplementos de colágeno por vários meses  pode melhorar a elasticidade, a umidade e a densidade do colágeno na pele, mas Berson observa que são estudos pequenos e patrocinados pelas fabricantes dos  produtos, aumentando a chance de vieses na pesquisa.

“Não acho que esteja em posição de ridicularizá-los e dizer que isso definitivamente não funciona. Mas, como médica, gostaria de ver mais ciência baseada em evidências”, disse ela.

Em vez disso, Berson enfatiza a importância de usar proteção solar, manter uma dieta saudável, beber muita água, evitar a fumaça do cigarro e dormir o suficiente – todas formas de cuidar do colágeno que você já tem, em vez de tentar reabastece-lo com suplementos”, concluiu.

Existem poucas pesquisas sobre os efeitos do consumo de colágeno no cabelo e nas unhas. Um pequeno estudo descobriu que diminuiu a quebra da unha, mas faltou um grupo de controle para comparação. Outro produto que inclui colágeno como um dos muitos ingredientes parece melhorar o crescimento do cabelo, mas é impossível dizer que papel ele pode desempenhar nessa mistura.

REGULAMENTAÇÃO

Letícia Deveza, bolsista de reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Sydney, na Austrália, não recomenda de forma rotineira suplementos de colágeno para pacientes com osteoartrite.

“A melhor evidência disponível sugere que eles têm apenas pequenos efeitos sobre a dor nas articulações, que provavelmente não são significativos para os pacientes”,   disse ela, acrescentando: “Minha preocupação é as pessoas confiarem demais em suplementos que não têm benefícios claramente demonstrados e negligenciar outros componentes importantes do tratamento da osteoartrite, como exercícios e controle de peso.

Suplementos de colágeno também são comercializados para atletas, mas “não há evidências que mostrem que tomar proteína de colágeno melhore sua capacidade de reconstruir ou curar”, disse Stuart Phillips, professor de cinesiologia da Universidade Mc Master em Ontário, Canadá, e autor de um recente estudo internacional sobre suplementos dietéticos.

As alegações são “em grande parte lixo”, disse ele, acrescentando que a indústria de suplementos não é bem regulamentada.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

META DE ANO-NOVO É NÃO SE ENTUPIR DE METAS E CUIDAR DA SAÚDE MENTAL

Fazer listas pode ser gatilho para estresse, ansiedade e burnout; para especialista, é preciso fugir do ‘ritmo empresarial’

É chegada a reta final do ano e, há quem aproveite os recessos para traçar as famigeradas metas de ano-novo, as quais, não raro, são as mesmas de anos anteriores. Se você se identificou, provavelmente faz parte da maioria das pessoas que não cumpre os objetivos estabelecidos para o período.

Segundo estudo da Universidade de Scranton, na Pensilvânia (EUA), apenas 8% consegue concretizar o que idealizaram. E, se a solução fosse simplesmente não fazer resoluções de ano-novo?

Embora adotadas para nortear objetivos futuros, de ordem pessoal ou profissional, as listas de metas podem se tornar verdadeiros gatilhos para sofrimentos mentais, como ansiedade, burnout e até depressão, que cresceram na pandemia. Por isso, nem sempre são consideradas uma boa estratégia para todos, de acordo com Guilherme Navarro, psiquiatra clínico é forense e professor da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana ( FASEH), em Vespasiano (MG).

 “É problemático pensar que a gente precisa das metas e estabelecer isso enquanto uma unanimidade. Algumas pessoas vão estar em momentos em que faça sentido tê-las, outras não. Quando se coloca isso como algo generalizado, sentimos certa obrigação de funcionar e de pensar dessa forma, o que pode ser fonte de sofrimento”, explica Navarro. A frustração vem, muitas vezes, quando a decisão de se traçar metas parte de introjeções sociais e não de desejos genuínos do indivíduo, o que torna ainda mais difícil cumprir o estabelecido e pode causar sensação de vazio. Isso explica aquelas pessoas que, não se sentindo realizadas, acabam a cada ano criando resoluções ainda mais difíceis de  serem alcançadas. “Cada pessoa tem o seu tempo e está tudo bem”, salienta o professor.

OBJETIVOS MENORES

Foi o que observou Lígia Baleeiro, de 37anos, que, após listas frustradas, decidiu não traçar mais metas nesta época do ano. “É um momento emocional, quando a gente tem muita esperança e por isso se sente motivado a ser melhor e a fazer planos. Embalados por esse clima, acabamos por elaborar projetos grandiosos e vagos.”

Especialista em comportamento e neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), ela hoje se propõe a fazer auto desafios,   normalmente de curto prazo e que são mensuráveis. Foi assim que conseguiu aprender a dirigir recentemente. ”Essa era uma meta que voltava todo ano.”

A virada de chave se deu quando Baleeiro se identificou como uma pessoa perfeccionista e começou a quebrar as suas metas em objetivos menores. ”Tenho um planejamento mais estruturado de como vou fazer e não fico só num ideal. Antes, desistia quando via que não iria dar certo ou não estava num cenário perfeito. Hoje, revejo a rota e vou tentando até conseguir”, destaca ela.

De acordo com Guilherme Navarro, o padrão de felicidade e sucesso também é influenciado pela forma como a sociedade se organiza no sistema de trabalho, baseado em tópicos e metas. “Temos de alcançar mais e mais, como se fosse uma competição, que também pode ser fonte de aflição e angustia. Se não tomarmos cuidado, nos tornamos nosso próprio chefe, nosso próprio empregado e estabelecemos padrões que não tem tanto a ver com o que almejamos enquanto realizações pessoais.”

Os desejos são inerentes ao ser humano, mas, diz o professor, não precisam ser estabelecidos no tempo empresarial. Ou seja, não significa deixar de ter metas, mas é não colocá-las em velocidade e importância generalizada para todos.

“É engraçado que, no feriado de fim de ano, que é para ser um momento prazeroso, o indivíduo já está pensando de forma acelerada no próximo ano e na próxima meta”, ressalta o psiquiatra. ”Posso não conseguir cumprir um desejo em 2022 e ficar em paz. Não é um fracasso deixar de fazer algo num tempo específico.”

TROPEÇOS

Assim, antes de estabelecer novas resoluções, é preciso perguntar se elas fazem sentido no momento de vida e se, dentro das possibilidades subjetivas e materiais, são possíveis de serem realizadas. Nesse sentido, é preciso ter calma e perceber que tropeços podem acontecer.

Essa é a dica de Tiago Henriques, de 32 anos, criador de conteúdo e autor do livro Era Uma Vez (editora Belas Letras), lançado em outubro, que traz reflexões sobre as inseguranças criativas e a busca pela perfeição. “Comecei o ano passado com projetos demais e um deles era um livro, que exige muita dedicação. Precisei realocar para a frente outra ideia que havia me deixado empolgado e reduzir a carga. Os erros, pausas e reajustes fazem parte do processo e não devem ser usados como justificativa para a desistência”, destaca.

Em seu perfil no Instagram, o tira do papel, Tiago dá dicas sobre como começar a criar constância, respeitando a saúde mental. Segundo ele, é comum começar o ano motivado, mas é preciso inserir hábitos sustentáveis à rotina para que as metas sejam concretizadas. Isso significa sair do plano dos desejos e traçar ações, que envolvam planejamento e autoconhecimento, até para entender o que não deu certo e como melhorar.

OUTROS OLHARES

ESTRUTURA PIONEIRA CHEGA À REGIÃO ONDE VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA MENINAS É EPIDÊMICA

Recém-inaugurado em Vitória da Conquista (BA), Complexo de Escuta Protegida atende vítimas de abuso e exploração com protocolos para evitar revitimização de testemunhas e de quem sofreu violência

“Você está confortável?” Pergunta a entrevistadora forense para a garota de cinco anos. Ela pede para tirar as sandálias. Acomoda-se em uma das poltronas da sala de depoimento especializado Complexo de Escuta Protegida, em Vitória da Conquista (BA). São 10h30 quando Carolina (nome fictício) está à postos para ser ouvida como vítima de estupro por parte do padrasto, na primeira oitiva especial realizada no complexo em 7 de outubro. A pintura em tons de rosa e os quadrinhos na parede remetem a uma sala de terapia e não à dureza de uma audiência judicial para colher provas de um crime sexual. O espaço é parte do Centro Integrado dos Direitos da Criança e do Adolescente do município pioneiro na implantação da Lei 13.431, de 2017, que estabelece protocolos para evitar a revitimização de testemunhas e vítimas de violência.

Enquanto na sala ao lado a juíza inicia a audiência acompanhada do advogado do réu e do representante do Ministério Público, a depoente é poupada da leitura de peças, questões processuais e perguntas delicadas feitas sem o devido cuidado, Carolina brinca com massa de modelar e cria vínculo com a psicóloga, destacada para colher o relato de como o ex-companheiro da mãe a teria molestado.

“Porque você veio aqui hoje? indaga a profissional, quando 40 minutos depois a imagem das duas, captada por uma câmera no teto, passa a ocupar a tela da sala de audiência. É iniciado o depoimento conforme a lei, gravado em áudio e vídeo, transmitido ao vivo para os operadores da Justiça presentes.

“Por que ele mexeu comigo”, responde a menina, em referência ao homem de 43 anos, preso desde maio, após denúncia por estupro de vulnerável e de violência doméstica. Ao presenciar uma agressão, a enteada teve coragem de verbalizar: “Se você não parar de bater na minha mãe, vou contar aquele negócio.”

No registro da ocorrência, a mãe e a avó declararam relatos da criança: o padrasto tocava suas partes intimas, passava leite condensado no pênis e pedia que ela fizesse sexo oral. “Ele passava a mão e pegava o negócio dele para eu chupar repete a menina em juízo. Cochicha detalhes, como o uso de uma marca de leite condensado. “É coisa de bolo”, explica. “Ele colocava na binga”, sussurra, usando nome popular para o órgão sexual masculino.

A garota responde ainda a perguntas da promotoria e da defesa repassadas pela juíza, por telefone, à entrevistadora forense. “Você lembra se essa situação com o leite condensado aconteceu mais de uma vez?” A resposta é categórica; “Mais de uma vez”.

Carolina conta que o agressor, com quem ficava quando a mãe trabalhava, tirava o short, a blusa e a cueca. “Ele abaixava minha roupa. Depois amanhecia. Aí acabou a história. A frase marca o fim do depoimento de 25 minutos. “Com a oitiva especial em vídeo anexada aos autos evita-se a repetição desse tipo de relato de quatro a cinco vezes, pelo menos, um fator revitimizante afirma a juíza Julianne Nogueira, da vara de Violência Doméstica e Familiar.

Os demais órgãos e serviços de assistência também acessam o depoimento gravado,  poupando a vítima de reviver a violência narrada. “Este fluxo único é uma mudança de paradigma a partir da integração da rede de proteção às vítimas com o sistema de Justiça”, avalia a juíza.

Aos16 anos, Janaína (nome fictício) se recorda do quão difícil foi repetir em diversas instâncias os detalhes dos abusos que sofrera por parte do avô paterno dos 6 aos 13. “Era sempre à noite. Acordava assustada com ele no meu quarto. Não sabia que aquilo era sexo. Nunca teve penetração, mas ele tocava minhas partes íntimas”. Há  dois anos, com o suporte da mãe, denunciou o fato ao Conselho Tutelar. “Meu avô foi a pessoa que mais cuidou de mim. É difícil denunciar quem você ama”.

Um dos momentos mais constrangedores para a garota virgem foi  o exame de corpo de delito. “Fiz no necrotério com um médico idoso como meu avô”, relata. “Fiquei assustada com as perguntas sobre sexo. “É uma violência passar por esse tipo de interrogatório”.

Ela teme que o caso seja arquivado por falta de provas, por ser a palavra da adolescente contra a do avô,  um aposentado de 62 anos. “Ele cometeu um crime e teria de pagar pelo mal que me fez”, diz ela. A juíza informa que o processo está em andamento. A conversa com a reportagem é em uma das salas do centro integrado inaugurado em 215 no município baiano, o primeiro do Brasil a reunir, num só lugar, toda a rede de proteção, como preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente.

As instalações de uma antiga escola abrigam hoje, 14 órgãos ligados a assistência social e aos sistemas de Justiça e Segurança Pública. A vítima e sua família vão encontrar ali o Conselho Tutelar, a  Vara da Infância, Promotoria e Defensoria Pública e Polícia Civil.

A delegada Rosilene Correia, titular da Delegacia da Criança e do Adolescente, ocupa um ambiente cercado de brinquedos. “Adorei a ideia de atuar em um espaço que não  tem cara de delegacia: A delegada é entusiasta da mudança de protocolo na tomada de depoimento de crianças e adolescentes. “A escuta humanizada é uma forma de a vítima não precisar repetir ainda traumatizada a mesma história na delegacia, no IML, para o promotor e diante do juiz.”

Nos primeiros oito meses deste ano, a delegada acompanhou a via-crúcis de quatro meninas para a realização de aborto legal, todas grávidas após estupro intrafamiliar.

Uma quinta vítima, violentada pelo avô, só chegou à rede de proteção aos seis meses de gestação. Foi acolhida até o parto e o bebê encaminhado para adoção. “Na zona rural ainda existe uma cultura feudal, de dominação do homem que se sente o dono da mulher e das filhas e acha que pode fazer o que quiser com elas”, constata a conselheira tutelar Poliane Santana.

Tatiane dos Santos da Silva, 21, vendedora e jogadora de futebol do time local, bateu às portas do Conselho Tutelar Rural em maio de 2017, quando fugiu do jugo paterno no povoado de Inhobim.

“Ela chegou com várias lesões no corpo, uma cartela de anticoncepcional e provas de que vivia como mulher do pai desde os sete anos”, relata Joyce Fonseca, conselheira que acompanhou a adolescente nos serviços de acolhimento do município.

Após cinco anos, Tatiane começa a viver com as próprias pernas. A atacante do time de futebol local, o Vitória da Conquista, acaba de concluir o ensino médio e sonha em ganhar fama nos campos e ser advogada para ajudar outras vítimas de violência sexual. “Usei  o esporte a meu favor. Cada chute que eu dava na bola, menor era a dor que eu sentia”, diz ela, que  viu o pai ser condenado a 26 anos de prisão.

A pandemia fez aumentar os números de agressões e abusos na região. “O isolamento social resultou em mais casos de violência doméstica e sexual contra mulheres e crianças”, constata Poliane. Em setembro, foram registrados no município cinco casos de estupro de vulneráveis.

Vitória da Conquista também é cortada pela BR-116, rodovia que concentra o maior número de pontos críticos para exploração sexual de crianças e adolescentes no país.

“Dos 27 pontos críticos mapeados na BR-116 na Bahia, 9 deles ficam na região de Vitória da Conquista”, afirma Francisco Dadalt, coordenador do Mapear, levantamento realizado há 18 anos pela Polícia Rodoviária Federal e parceiros. No biênio 2019/2020, o estudo mapeou 170 pontos de maior atenção em todo o Brasil, 78 deles na Bahia. “O mapeamento jogou luz e mudou a dinâmica da exploração sexual, que já não é mais tão visível nas rodovias federais, levando o problema para rodovias estaduais e para dentro das cidades”, afirma Dadalt.

Entroncamento entre Minas e Bahia e comércio entre as regiões Nordeste e Sudeste, Vitória da Conquista recebe fluxo grande de caminhoneiros e turismo de negócio. “Hoje, o aliciamento de crianças e adolescentes são em casas, bares, em ambientes  fechados. Não tanto na pista ou em postos de gasolina como no passado”, diz o delegado, sobre os novos desafios do combate à exploração sexual na região.

Nesse cenário, um complexo integrado para garantia de direitos é aparato importante para estimular denúncias dos crimes e também contra a impunidade e para efetiva responsabilização dos agressores. “Implementar a lei da escuta protegida e ter um centro integrado de atendimento às vítimas de violência não é somente criar um espaço físico. É construir nova cultura”, afirma Michel Farias, secretário municipal de Desenvolvimento Social

“É um processo difícil de diálogo entre diversas instituições, o que pressupõe a ruptura de um modelo de atendimento. Para que seja de fato integrado, é preciso haver sinergia dos agentes das diversas políticas públicas envolvidas, de educação, saúde, assistência, segurança”.

Uma orquestração que fez o complexo de Vitória da Conquista virar referência nacional, com investimento de R$ 1 milhão em tecnologia e estrutura. Farias, um advogado de 31 anos e ativista na área de direitos da infância, passou a ciceronear comitivas de vários estados e autoridades federais que têm ido conhecer a experiência e pioneirismo no município baiano.

Um caminho desbravado a partir de tratativas do executivo local com o Tribunal de Justiça da Bahia e o Ministério Público Estadual. “Vitória da Conquista é a primeira cidade do país a realmente pactuar o atendimento integrado, que vai além da concentração física dos serviços”, afirma Itamar Gonçalves, gerente de Advocacia da Childhood Brasil.

A entidade firmou acordo de cooperação técnica com a prefeitura para capacitação de toda a rede municipal de proteção à crianças e adolescentes. Segundo o especialista, o município fez bem mais do que Instalar uma das mil salas de escuta protegida já em funcionamento em estruturas do judiciário em todo o país.

“Ali, todo o fluxo de atendimento foi integrado, o que impacta na qualidade da oferta dos serviços e na responsabilização de agressores, além de promover a dignidade da criança e de adolescentes que tiveram seus direitos violados

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 18 DE JANEIRO

DESTRONANDO OS DEUSES

… executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o Senhor (Êxodo 12.12).

O êxodo foi uma intervenção sobrenatural de Deus para tirar seu povo com mão forte e poderosa do grande Império Egípcio. Deus enviou dez pragas sobre a terra das pirâmides milenares. Cada praga tinha o propósito de destronar uma divindade do panteão egípcio. O êxodo significa a partida do povo da terra da escravidão para a terra que mana leite e mel. O êxodo fala da libertação da escravidão e aponta para a redenção. Contudo, antes de as portas da escravidão serem abertas e de o jugo ser despedaçado, Deus triunfou sobre os deuses do Egito, executando sobre todos eles o seu juízo. Os deuses dos povos são fabricados pela arte e imaginação humana. São deuses criados pelo homem para escravizar os homens. Só existe um Deus vivo e verdadeiro. É o Deus criador e redentor, o Deus da nossa salvação. Aqueles que se curvam diante de outros deuses provocam a ira do Senhor, pois ele não divide sua glória com ninguém. Deus poderia ter tirado o seu povo da escravidão desde o primeiro dia em que Moisés retornou ao Egito, mas o endurecimento do coração do Faraó proporcionou ao Todo-Poderoso manifestar, na terra dos deuses, que só o Senhor é Deus. Os deuses do Egito foram destronados, um a um. Todos tiveram de se curvar e reconhecer que o único Deus que livra e salva é o nosso Deus. Assim como Deus libertou o seu povo da escravidão do Egito no passado, ele também pode libertar você hoje das algemas do pecado. Por meio do sangue de Cristo, ele pode livrar você da morte eterna e dar-lhe segurança, vida e paz!

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO PRIMÁRIO

A saúde mental deixa de ser tabu na sociedade e começa a obrigar as empresas a tratar o tema já no processo seletivo. Como fazer isso com empatia e  sem estigmas?

Em meio à pandemia e à crise econômica e política, o cenário não anda fácil para a saúde mental dos brasileiros. Um levantamento da Fiocruz feito com 45.161 pessoas em 2020 mostrou os efeitos da pandemia: 53% dos participantes estavam ansiosos e nervosos, 40% se sentiam tristes ou deprimidos com frequência e 43% começaram a ter problemas para dormir.

Os números repercutem nas redes sociais. No Instagram, a hashtag ”saúde mental” soma 6,9 milhões de posts, enquanto no TikTok, os posts sobre o tema já contam com mais de 430 milhões de visualizações. Tornou-se comum ver vídeos de jovens discutindo os remédios psiquiátricos que usam, listando os sintomas que apresentam ou mesmo dando dicas que aprenderam na terapia. E, ao contrário das gerações anteriores, os mais jovens esperam que as empresas estejam prontas para acolher essas questões. “Aqueles entre 18 e 25 anos estão mais vulneráveis às doenças mentais, mas também mais dispostos a falar e a procurar ajuda profissional para resolver o seu problema”, diz Sâmia Simurro, vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). “A postura de não falar sobre isso e colocar para debaixo do tapete por medo ou por não saber como enfrentar mudou para uma postura de ‘vamos falar sobre saúde mental’.”

DEBATER E FAZER

Mas ainda há preconceitos. Em uma análise de dados de 2020, a consultoria McKinsey revelou que 75% das empresas reconheceram existir um estigma em relação à saúde mental em seu ambiente de trabalho. Não à toa, 37% dos funcionários afirmaram que evitavam procurar tratamento porque não queriam que as pessoas soubessem que tinham um transtorno mental. Ao mesmo tempo, na busca por uma cultura menos hierárquica e mais acolhedora, as próprias empresas estão dando abertura para o tema surgir com mais facilidade, inclusive no processo seletivo.

“Antes, se buscava o candidato perfeito para a vaga”, diz Fatima Macedo, psicóloga e sócia-diretora da Mental Clean, especializada em promoção e gestão de saúde mental no trabalho. Segundo ela, os profissionais se sentiam obrigados a esconder como estavam, tentando apresentar uma versão perfeita de si mesmos na entrevista. Agora a situação começa a mudar. “As pessoas estão sendo convidadas a ser transparentes, a falar quem são e como estão”, diz. “Mas quem está do outro lado está preparado para receber essa fala sem preconceito?”

É uma pergunta importante. Afinal, dar a abertura sem ter a contra partida de estar preparado para lidar com a questão pode gerar frustrações e perda de candidatos, além de manchar a marca empregadora no processo seletivo. “Se eu tenho uma experiência positiva, com empatia, vou continuar querendo trabalhar naquela empresa, mesmo se não tiver passado na entrevista”, diz Nathália Paes, responsável por desenvolvimento de negócios no Info Jobs, plataforma de recrutamento. “Mas, se minha experiência é negativa, isso prejudica a imagem da companhia.”

Tramita, inclusive, na Câmara um projeto de lei que prevê direitos e garantias a pessoas com transtornos mentais. De autoria de Benedita da Silva (PT-RJ), o PL 4918/2019 dispõe, entre outros assuntos, que as pessoas com transtornos mentais devem “ter direito a igualdade de oportunidades de emprego, assegurada proteção contra a exploração e a demissão do trabalho exclusivamente por motivo de transtorno mental”. Além disso, elas devem ser protegidas de discriminação em razão de transtorno mental. “Se for aprovado, será um grande marco”, diz Fatima, da Mental Clean. Ela explica que o texto altera a lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001, defasada no contexto atual. “As empresas já pensam na diversidade para vários públicos e terão que começar a pensar nas pessoas com distúrbios mentais – e muitas delas já estão nas organizações” , afirma.

MAIS ACOLHIMENTO

“A pandemia reforçou o papel da humanização em todas as relações das empresas com os profissionais”, diz Cassia Messias, diretora de operações do Zenklub, plataforma de terapia online que, só entre o primeiro semestre de 2020 e o primeiro de 2021, aumentou em 272% o número de companhias atendidas. “Os recrutadores devem ter consciência de que não vão encontrar todo mundo bem.” Na Flora, empresa de produtos de higiene e limpeza dona de marcas como Assim e Minuano, essa percepção levou a mudanças no processo seletivo. Pouco antes da pandemia, a companhia havia migrado o sistema de seleção para uma plataforma online, que oferecia a possibilidade de diversas etapas e testes. “Mas percebemos logo que não deveríamos usar todas as ferramentas disponíveis”, diz Lenita Freitas, líder de RH na Flora. “Ficou claro que processos extensos e com muitas demandas eram bem desgastantes para o candidato.” Por isso, a empresa decidiu manter apenas um teste, de alinhamento cultural, e duas etapas de entrevista.

Uma das fases eliminadas foram os vídeos de apresentação dos candidatos. “Muita gente com currículo bom desistia da vaga nessa hora”, explica Lenita. “Os profissionais deixavam para depois ou porque eram tímidos, estavam ansiosos, ou então porque já tinham feito muitos vídeos anteriormente.” Para ela, a mudança trouxe mais qualidade aos recrutamentos da empresa, que passaram a ser menos estressantes para os candidatos.

Uma das consequências de um processo mais humanizado é que certos assuntos aparecem mais. “A empatia e a presença deixam o candidato confortável em trazer questões de saúde mental”, diz Lenita. Segundo ela, quando isso acontece, os recrutadores tentam ajudar a pensar como a pessoa está lidando com isso, como superar. “Em vez de tentar ver como o candidato reage sob pressão, entendemos que com o acolhimento o profissional vai mostrar o melhor dele.”

Embora pareça uma atitude simples, ela representa uma mudança importante. Para Ronaldo Abe, diretor médico e de saúde corporativa na consultoria EY, um dos preconceitos mais comuns nas empresas é ver pessoas com transtornos mentais como menos capazes. “É comum que, em organizações que ainda não têm amadurecimento nem estrutura de suporte, o candidato com problemas de saúde mental seja barrado”, diz. “Elas têm medo de que vá sair caro, de que o risco de afastamento seja alto.”

Mas essa não é uma situação da qual dê para escapar. “Ninguém está livre de enfrentar uma depressão; ela é multifatorial, está presente na sociedade e ponto”, diz Cassia, do Zenklub. Para ela, as empresas devem focar o que podem controlar, criando ambientes seguros de escuta, conscientizando a liderança e trabalhando com elementos preventivos. O tema pode e deve aparecer nas entrevistas por iniciativa dos candidatos – resta às companhias aprenderem a lidar com o assunto sem preconceito. Fingir que está sempre tudo bem com os candidatos seria uma atitude pouco transparente.

No contexto atual, isso é ainda mais delicado. “O profissional que está entrevistando precisa entender o momento daquela pessoa, se faz tempo que está desempregada, se teve uma perda na família no último ano”, afirma Nathália, do Info Jobs. Apesar disso, ela lembra, questões invasivas não devem ser feitas. Perguntar se a pessoa está em tratamento ou se está tomando algum medicamento psiquiátrico, por exemplo, não pega bem. No lugar, devem ser feitas questões mais abertas, que deixem o candidato à vontade para falar se quiser, como questionar como está o momento pessoal e pedir para que ele descreva seu dia a dia.

Indagações como essas podem ajudar, inclusive, em um direcionamento mais acertado do processo. Se um recrutador percebe que uma pessoa está em um momento muito vulnerável, colocá-la em uma posição ou área em que o ritmo é intenso e as demandas são aceleradas pode gerar uma situação ruim para todos os envolvidos. No entanto, isso seria mais uma questão de alinhamento do que de competência. “O adoecimento mental não define o profissional. É só um estado: a pessoa está adoecida”, diz Fatima Macedo. “É claro que o sintoma impacta o profissional, mas isso não traduz quem ele é – você pode deixar de contratar alguém brilhante que naquele momento não estava bem.”

DIÁLOGO ABERTO

Justamente para garantir uma experiência mais acolhedora no processo seletivo, no Elo7, plataforma de vendas online, toda a equipe de recrutadores é formada por psicólogos. “São pessoas preparadas para lidar com esse tipo de situação, principalmente com a ansiedade e o nervosismo nos processos”, diz Aline Garcia, gerente de RH no Elo7. Segundo ela, tem sido mais comum ouvir os candidatos trazer questões de saúde mental à tona.

”As pessoas chegam com uma demanda maior, falam sobre essa necessidade de ser acolhidas”, diz. “Elas têm mais discernimento sobre patologias e entendem que não é culpa delas se tiverem depressão ou ansiedade.” Para a gerente, manter esse diálogo aberto ajuda a garantir tratamento antes que os casos piorem. Aline relata o exemplo de uma funcionária que, ainda no período de experiência, contou ter tido um ataque de pânico. “Conversamos com ela, a encaminhamos para atendimento, falamos com o líder”, diz. O resultado tem sido positivo: a profissional relatou nunca ter imaginado que trabalharia num lugar que a acolhesse dessa forma, e está engajada no próprio tratamento.

Apesar de notar o estado emocional dos candidatos, isso não deve ser usado para taxar alguém. “Jamais vou apresentá-lo à equipe falando que ele sofre de ansiedade”, diz Aline. ”Quando o candidato traz isso, acolhemos porque temos preparo para lidar com a questão internamente, então sabemos que podemos contratá-lo.” Ela lembra de uma ocasião em que uma mulher grávida, com sinais de ansiedade e depressão, era a melhor postulante. Mas a vaga talvez não fosse a ideal para o momento. Aline abriu o jogo: disse que ela era a preferida, mas que a posição tinha características que poderiam não ser as ideais para seu momento. “Falei que ela poderia tirar uns dias para pensar, e ela acabou optando por não continuar, mas elogiou nossa postura e saiu feliz do processo.”

NADA DE RÓTULOS

Não tomar esse cuidado na comunicação pode gerar a sensação nos candidatos de que foram prejudicados por terem trazido alguma questão de saúde mental ou, então, que sofreram discriminação. “Uma forma de evitar isso é mostrar ao longo do processo como essas questões são tratadas dentro da empresa”, diz Bruno Lucarelli, líder de recrutamento e seleção na EY Brasil.

Treinar e desenvolver a chefia, desde a diretoria até a gerência, também é uma forma de garantir que esse tema seja disseminado pela companhia. “Para avançar nas iniciativas, a participação da liderança nesse movimento é fundamental”, diz Sãmia, da ABQV. “É responsabilidade dela ser modelo, colocando na agenda a pauta do bem-estar. Os líderes devem ajudar a conscientizar e quebrar barreiras.”

Além disso, o próprio programa de integração já mostra que há apoio emocional para quem precisa. “O RH pode ser sutil nesse processo, dando acolhimento desde o primeiro dia, mesmo para quem não sinalizou problema algum”, diz Nathália, do Info Jobs. Deve haver, também, um acompanhamento periódico para ver como a pessoa está se adaptando ao trabalho. “Mesmo para os candidatos que não são contratados, você pode ter a política de indicar onde podem buscar apoio. É um aspecto mais humano”, diz Nathália.

Por outro lado, se a empresa não tiver nenhum programa de bem-estar emocional, de  nada adiantará ter todos os cuidados no processo seletivo. Fatima, da Mental Clean, explica que há três níveis de intervenção para a saúde mental nas empresas: primário, secundário e terciário. A maioria das ações, como fornecer terapia, encaminhar para médicos ou dar treinamentos, se encaixa nos níveis secundário e terciário. Ou seja, trata o problema existente, mas não previne. Por isso é importante se dedicar ao nível primário, olhando para cultura, carga de trabalho, equipes e horários. “É preciso se perguntar quais estressores contribuem para o adoecimento na minha organização”, diz Fátima. “Parece que dá trabalho, mas já há uma série de questões com as quais os líderes precisam lidar que podem ter raiz emocional e ser evitados.”

EU ACHO …

A FOME DA CAVERNA

Há duas ocasiões ricas para observar nossa espécie: quando estamos completamente sozinhos e quando estamos em situações de alimentação em grupo.

Vou me deter no segundo momento. Tudo muda quando fazemos parte de uma tribo em busca de comida. Ali falam nossos instintos mais antigos, nosso cérebro reptiliano. Milhões de anos lutando contra o mundo hostil em busca de algo para saciar o vazio do estômago, enfrentando animais maiores, perdendo para quase todos: nossa tradição mais arraigada é o medo da fome.

Você já presenciou a cena: casamento é elegante, os convidados estão bem-vestidos e parecem bem alimentados. É dada a largada da festa: começa busca de lugares à mesa. Os olhos de todos acompanham a  logística. “Por que começaram a servir do outro  lado?” ou  “aqueles já não estão respeitando a fila” e ainda “será que teremos camarões, quando chegar a minha vez?”. Muita angústia em rostos que parecem nunca ter passado pela terrível experiência da fome.

Quem já pegou um cruzeiro grande sabe que o ataque a bufê é quase selvagem. A civilização se encerra ali diante da comida exposta. Surgem passageiros felizes com pratos colossais, equilíbrios inverossímeis e desafios à lógica das leis de Newton.

Para garantir, testemunhei com frequência, depois de construir um pequeno Everest de alimentos sobre a circunferência do prato sempre insuficiente, o indivíduo já traz junto um sortimento de doces para garantir que os possa comer em paz. E, ainda assim, atulhado de tudo que serviria para alimentar uma pequena tropa, ainda repara que seu vizinho de mesa pegou muito filé e pouco purê, uma violação das regras implícitas do bufê.

Quando o resort à beira-mar usa o sistema all inclusive, ou seja, comida “a rodo”, deveria reinar uma paz profunda na inquietude tribal da disputa alimentar.

Mesmo ali, ou talvez principalmente naquele lugar, a orgia das refeições desce ao nível paleolítico. Grita a fome, morre a polidez.

Expulsem a natureza pela porta, ela voltará fortalecida pela janela. É a nossa fome ancestral desde as cavernas.

E, para quem acha que sou um crítico do festim alheio, quero informar que minha primeira pergunta no lobby do hotel ao me registrar é: “A que horas começa o café da manhã?”. Temos esperança de, um dia, civilizar o apetite infinito e vedar o buraco que a caverna abriu em nós?

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

MÉDICO CONTA COMO A VACINA PFIZER VAI AGIR NO CORPO DAS CRIANÇAS DE 5 A 11 ANOS

Renato Kfouri sabe tudo do assunto e explica por que demorou para chegar a vez dos pequenos

Viva,chegou a vacina! Finalmente crianças de cinco a 11 anos serão imunizadas! Mas você sabe o que isso quer dizer? Será que a vacina vai destruir o vírus?

A essa altura você, provavelmente está cansado de ouvir falar sobre o  novo coronavírus, o causador da doença que ficou conhecida como Covid-19. É bem possível também que você conheça pessoas que tiveram a doença e que ficaram longe da família ou foram parar no hospital.

A primeira coisa que temos que aprender é que a vacina é o melhor jeito de prevenir uma doença.

Mas aí você pode perguntar: “Mas meu tio/ avô/ primo se vacinou e ainda assim ficou com Covid-19”. E esta é outra lição importante: vacinas não protegem sempre – pode ser que o vírus consiga infectar a pessoa. Mesmo nesse caso, a doença vai ser bem menos grave do que poderia ser, e o risco de ir para o hospital diminui bastante.

Para nos ajudar a entender como a vacina contra a Covid- 19 funciona, conversamos com o Renato Kfouri, um dos médicos que mais têm estudado esse assunto. Ele é presidente do departamento de imunização (que cuida de vacina) da Sociedade Brasileira de Pediatria. E pediatria é a área da medicina que cuida da saúde das crianças.

“A vacina é algo que se parece com o que causa a doença, com a diferença de que não faz mal”. A vacina engana nosso corpo para achar que ele está sendo atacado, e ele produz defesas, como se fosse numa guerra”, conta Renato.

Com as defesas montadas, quando bactérias ou vírus invadem o organismo, eles não conseguem fazer o estrago que normalmente fariam.

Existem várias maneiras de se construir uma vacina, explica o médico. Uma delas é “amassar, triturar e lavar um vírus até que ele esteja morto”. São as vacinas de vírus inativado, incapazes de fazer mal, e que conseguem ensinar ao sistema de defesa quem é o inimigo e qual é a cara dele.

Muitas vezes só com um pedaço do vírus é o suficiente para construir esse “retrato falado” do bandido, e é esse o caso de duas outras possibilidades: uma é quando um vírus inofensivo carrega um pedacinho do malvadão e a outra é justamente a tecnologia da vacina que acabou de chegar para brasileiros de cinco a 11 anos. Nesta vacina é como se nosso corpo recebesse uma carta contendo uma fórmula secreta da proteína S (spike), uma das principais armas do coronavírus, usada na hora de invadira s nossas células.

Ao produzir e aprender como é a proteína S, treinamos nossas células de defesa e fazemos nossas próprias armas, os anticorpos, que são capazes de impedir que a S funcione.

O sistema de defesa fica bem treinado mesmo depois da segunda dose. Então não se esqueça de voltar ao posto depois de oito semanas.

Falando em esperar, você acha que demorou para a vacina chegar para as crianças?

“Não demorou tanto, era importante ter certeza que ela não iria fazer nenhum mal”, explica Renato Kfouri. “Os mais velhos, seus avós. por exemplo, eram os principais atingidos – por isso chegou para eles primeiro.”

Outra dúvida comum é se a vacina dói ou pode fazer mal. “A picada dói um pouquinho e na hora e é chato, mas a doença é muito pior, bem mais chata. Imagine só você, por não estar vacinado, transmitir o vírus para alguém da sua família e essa pessoa parar no hospital? É muito triste”.

“Todas as crianças têm que saber que já tomaram um montão de vacinas e estão saudáveis. Muitas doenças foram evitadas, e é por isso que estamos aqui”, diz Renato.

“Ainda assim, nenhuma das vacinas garante 100% de proteção. Então, enquanto houver pandemia, temos que fazer tudo que estiver ao nosso alcance para combater a Covid-19: usar máscaras, evitar aglomerações, e sempre lavar as mãos com água e sabão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TUDO É RELATIVO

Ansiedade, relógio biológico, luto, pandemia: em cada situação, o tempo parece correr mais rapidamente ou devagar. Ele pode ser aliado ou vilão, mas é possível ao menos (tentar) controlá-lo

Segundo o antropólogo Laércio Fidelis Dias, o tempo pode ser definido como “uma percepção de um movimento contínuo, do qual não temos controle, mas que podemos significar essa experiência e encontrar sentidos que “confiram valor para as nossas vidas”.  Momentos que passam rápido demais, dias que parecem não passar, encontros que lembram os distantes, mas que, na verdade, ocorreram ontem, e conversas recentes, porém realizadas anos atrás.

É normal ficar ”perdido no tempo”- especialmente na pandemia. Afinal, nossa percepção muda conforme o humor, momentos da vida ou com certas situações marcantes.” A relação com o tempo é muito tocada pela qualidade emocional do que você está vivendo. Eu sou da área da psicologia analítica e aqui nós falamos que existem duas vivências do tempo: o Chronos e o  Kairós. O primeiro é o cronológico, da data para entregar um trabalho, por exemplo. Já o Kairós, não é o tempo racional, mas sim do significado, da oportunidade”, explica a psicóloga Ana Lucia Pandini.

Uma das formas mais clássicas de domesticar o tempo, para proporcionar certa ordem para a sociedade, são os calendários. Ou seja, vivemos o tempo Chronos muito mais do que o Kairós,porém, durante a pandemia, ambos foram prejudicados justamente pela falta de experiências marcantes.

”O Kairós faz a gente entrar em contato com a plenitude da vida, com a criatividade interior, com a nossa originalidade mais profunda. É aquele tempo que é gostoso de ser vivido. Mas o estresse, o medo e a angústia provoca desgastes físicos e mentais o que fazem a gente ter a percepção de que o tempo Chronos está se ajustando”, diz Ana. A rotina de ficar em casa durante o isolamento fez parecer que os dias eram todos iguais, o que gerou a estranha sensação de que estamos ainda em 2020, como se a pandemia fosse um grande ano em vez de dois. “Isso é uma vivência muito difícil e ansiógena para todo mundo. As marcas do tempo, como festas de fim de ano, encontros, vão se dissolvendo, e as pessoas têm essa sensação de que é o ano que não acaba”, completa ela.

ANSIEDADE

A abrupta mudança do dia a dia veio junto com sofrimentos psíquicos e muita ansiedade, algo que a publicitária Luiza Carvalho, de 35 anos, conhece bem. Desde 2009, diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada, ela se trata, mas a pressão de produtividade do trabalho e a similaridade entre os dias fizeram com que o burnout também viesse à tona. “Um dia, em outubro do ano passado, eu apaguei, não conseguia fazer mais nada e estava em casa”, lembra. “Essa coisa de ter uma reunião atrás da outra, de não ter respiro, eu estava sem fazer esporte (muito importante para minha saúde mental). Tudo isso fez com que eu entrasse em desespero.”

Para aqueles que sofrem com ansiedade, o tempo dura muito – afinal, o futuro se faz presente o tempo todo. “A pandemia fez com que todo mundo passasse por um período de muita ansiedade, só que nós, que já éramos ansiosos, já sabíamos viver com esse sentimento de não saber o que vai acontecer, então eu me senti mais parecida com as outras pessoas, pela primeira vez na vida”, declara.

MEDIDOR

Uma das formas tradicionais de “domesticar” o tempo são os calendários. A partir deles, conseguimos uma experiência cultural de ordenação. “Um relógio ou um  calendário informa quanto tempo se passou desde um certo ‘agora’ –  e quanto tempo restantes de algum  ‘agora’  futuro”,  pontua Alan Burdick, escritor e autor do livro Por Que o Tempo Voa? ( Editora Todavia). “A questão é: quão grande ou pequeno esse ‘agora’ precisa ser? Quanto tempo você quer que dure o agora?”, reflete.

Horas, semanas e anos são importantes na organização do dia a dia, mas é como você preenche esse período que o faz valer a pena”. Em Oração no Tempo, por exemplo, Caetano Veloso o descreve como “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”. A canção, aliás, resume bem a vida da empresária Viviane Vieira, de 49 anos. Depois de três inseminações artificiais, ela ficou grávida aos 43 anos das gêmeas Ana Luísa e Sofia, hoje com 5 anos, de forma natural. “O processo foi muito desgastante, no sentido psicológico e teve também a questão financeira”, conta. Para dar um tempo e refletir sobre o processo, ela decidiu parar o tratamento por oito meses. Nesse período, ela e o marido fizeram uma viagem para espairecer.

“Lá, eu senti uma tontura muito grande, mas não me ocorreu fazer um exame de farmácia, talvez porque de forma inconsciente eu não queria passar por um erro de novo”, diz. O exame de sangue confirmou: Viviane estava grávida. “Eu não tive essa pressão do relógio biológico, até porque eu não tinha consciência de que após os 35 anos existe uma baixa de óvulos muito grande na mulher”, conta. “Por um lado foi positivo, porque a gente aproveitou muito o nosso casamento. Mas hoje a questão do tempo me preocupa. Ou seja, quero estar com saúde para viver muitos anos e curtir muito as minhas filhas. Quando elas tiverem 20; eu vou ter 64. então a gente tem essa preocupação de deixar elas encaminhadas e serem independentes.”

Durante a pandemia, para otimizar o tempo, as três passaram a cozinhar juntas. Assim, nasceu o estabelecimento da mãe, a casa de pães artesanais Sabor do Minho.

LUTO

O tempo é limitado. Essa é uma verdade para todas as criaturas vivas, mas nós, humanos, somos a única espécie que vive com isso em mente. Com a pandemia, o  lembrete ficou ainda mais forte.  “O luto me ensinou a viver o presente. Eu não sei se vou estar aqui daqui a dez anos, então eu penso em como posso ser feliz hoje, como eu posso aproveitar”, afirma a estudante Vitória Sterzza, de 22 anos. Em março de 2020 ela perdeu sua mãe, sua avó e seu tio para a covid-19.

“Do dia para a noite você perde aquilo que era constante, que estava com você o tempo todo. Isso me fez parar no tempo. Tinha a sensação de que estava num filme de terror, que tinham me jogado ali e que o tempo não corria. Era como se todos os dias fossem o dia seguinte da morte da minha mãe”, diz. “Então o mesmo tempo  que na época foi meu pior inimigo, porque ele não passava, hoje eu olho para trás e vejo o tanto que eu cresci. Ele me fez entender e aceitar”, conta.

Em uma cultura de ansiosos, queremos tudo para ontem. Não é permitido dar “tempo ao tempo”, algo fundamental durante o processo de luto. “Só se cura com o tempo. Claro que uma ajuda psicoterapêutica, o apoio das pessoas, é fundamental. Porém, todo ser humano precisa de um ano, dois anos, quanto for, para que sua alma e psique elabore esse processo de partida, de despedida, de separação, de perda”, explica ainda a psicóloga.

O tempo é subjetivo, assim como o processo de desenvolvimento da psique humana. Em vez da tradicional linha do tempo, vivemos numa espiral na qual podemos passar pelas mesmas situações diversas vezes – às vezes de maneira mais intensa do que em outras, mas sempre em movimento. Por isso, uma mesma situação pode passar rapidamente ou mais devagar, a depender do nosso humor e companhia.

“Um estudo conduzido em lares geriátricos descobriu que as pessoas que dizem que ‘o tempo está passando rapidamente’ tendem a ser mais felizes e ativas, enquanto aquelas que afirmam que o tempo passa lentamente tendem a ser inativas e deprimidas. Ser mais feliz fazia o tempo passar rapidamente? Ou o tempo passou rapidamente porque elas eram mais ativas? Elas estavam felizes porque eram ativas,   ou eram mais ativas por serem mais felizes?”, indaga Alan.

“Passei a pensar no tempo quase como uma linguagem – uma linguagem universal, a língua comum da vida. Somente por meio dele podemos nos conectar; nossa capacidade de compartilhá-lo é o que nos define como espécie social, na verdade, como criaturas vivas…”

O TEMPO SOB CONTROLE

PARA FAZER O TEMPO PARAR

Meditar, meditar e meditar. Para ficar no aqui e agora, o mindfulness ou medicação ativa é a melhor opção. Para isso, faça somente uma coisa, não duas ou mais de cada vez e fique 100% atento ao que está fazendo. Para ter um pouco mais de controle do tempo, estabeleça meras diárias e mensais.

PARA FAZER O TEMPO VOAR

Faça uma chamada de vídeo com seus melhores amigos, prepare sua comida favorita ou dance pela sala sozinho. Normalmente, quando dizemos “Uau, o tempo realmente passou voando”, o que queremos dizer é “perdi a noção do tempo”, o que acontece quando estamos muito felizes ou mais ocupados, como se não houvesse tempo suficiente para fazer todas as coisas que precisamos fazer. Sensação, aliás, bem comum no fim de ano.

PARA REFLETIR

É comum procrastinarmos tarefas – seja no trabalho, estudos ou na vida pessoal. Acontece que isso só contribui para a ansiedade, uma vez que vemos a lista de atividades só aumentar. Para ajudar, se pergunte quanto afetará seu futuro terminar ou não aquela tarefa, adiar aquele encontro ou desmarcar um compromisso. “A pandemia é um lembrete bastante enfático de que a vida é finita e pode ser efêmera. Ao mesmo tempo, nos convida a selecionar todas as experiências que podemos ter na vida, aquilo que seja mais significativo”, afirma Laércio.

PARA ASSISTIR E DISCUTIR SOBRE O TEMPO

Beleza Oculta. (GloboPlay), de David Frankel, e Questão de Tempo(Star+), de Richard Curtis. Em clássicos como De Volta Para o Futuro, Click, Matrix ou Feitiço do Tempo dá para perceber a adoração humana por falar sobre a passagem dos dias. Para quem é de documentário, vale a pena conferir Quanto Tempo o Tempo Tem (Netflix), de Adriana Dutra e Walter Carvalho.

OUTROS OLHARES

MIOMAS NA GRAVIDEZ EXPÕEM DESIGUALDADE RACIAL

Mulheres negras têm duas a três vezes mais risco de serem diagnosticadas com o problema, que pode causar dor durante a gestação e nem sempre recebe a atenção necessária durante o acompanhamento obstétrico

Aos cinco meses de gravidez do meu segundo filho, agarrei minha barriga com cólicas, tentando em vão me apoiar em uma posição confortável no carro. Meu marido estava ao volante, acelerando em direção ao hospital mais próximo, enquanto também cronometrava minhas contrações. Para nos distrair do pânico crescente, conversamos como se fosse uma viagem normal, mas pedi as ele para parar de me fazer rir – doía muito.

Inicialmente perplexos, os médicos do pronto-socorro me prepararam para um parto potencialmente prematuro, uma possibilidade que nunca foi totalmente considerada.

No entanto, depois de três dias de ultrassom e testes, eles descartaram o parto prematuro e estabeleceram um diagnóstico que explicaria meu abdômen latejante e as contrações iniciais: um mioma que havia crescido tanto que morreu de fome e, naquele momento, estava morrendo.

Um mioma em degeneração, como é chamado, ocorre quando um mioma uterino – tumor benigno que se desenvolve a partir do tecido muscular do útero – aumenta seu suprimento de sangue. A irritação e a inflamação ao redor da área da morte celular podem fazer com que as paredes uterinas se contraiam, me explicaram depois. Meu mioma degenerado estava provocando contrações regulares e uma dor aguda do lado esquerdo.

Fui liberada para casa com a recomendação de tomar um analgésico, se necessário, e com a garantia de que a dor diminuiria. Meus médicos disseram que eu deveria ter uma gravidez normal. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu.

COLAPSO DO MIOMA

Mulheres negras como eu têm duas a três vezes mais chances de serem diagnosticadas com miomas do que mulheres brancas, embora ninguém saiba ao certo por que tive miomas durante minha primeira gravidez, mas eles não causaram nenhum sintoma. Eu até descreveria a gravidez como fácil.

Mas quando três deles apareceram em um ultrassom precoce na segunda gestação, a médica me disse que ela os monitoraria, apesar de que não deveriam causar problemas. Embora um dos meus miomas fosse considerado grande, seu tamanho não é necessariamente um indicador de complicações futuras. E, para muitas mulheres, os miomas não causam nenhum sintoma. Não foi o caso dos meus.

Quando um mioma saudável não está recebendo fluxo sanguíneo suficiente, ele “para de crescer e encolhe”, o que pode se tornar muito dolorido, disse Hilda Hutcherson, professora de obstetrícia e ginecologia do Centro Médico Irving, da Universidade Columbia. Isso pode acontecer quando a paciente não está grávida, acrescentou ela, mas o aumento dos hormônios da gravidez pode desencadear o colapso de um mioma.

Quando voltei para casa do hospital, a dor intensa diminuiu, mas nunca totalmente. Os analgésicos não surtiram efeito. Se eu caminhasse mais, sentiria mais dor. E, à medida que o bebê crescia, também aumentava a pressão nos meus outros dois miomas. Repouso na cama passou a fazer parte da minha rotina diária.

CADÊ A GRAVIDEZ NORMAL?

Como me disseram que eu não sentiria mais dor, perguntei várias vezes à minha obstetra o que poderia estar causando aquilo. Suas respostas prontas me ofereceram pouco conforto: miomas geralmente não doem, ela dizia, e o que eu sentia era provavelmente o desconforto da gravidez.

Comecei a me sentir uma paciente incômoda, desesperada para que minha dor fosse levada a sério. Eu já tinha estado grávida antes, aquilo parecia diferente. Se os miomas não eram os responsáveis, como minha médica sugeriu, eu precisava descobrir o que era.

Vasculhei a web em busca de repostas, lutando para encontrar descrições que correspondessem à minha experiência.

Um mês depois da minha ida ao pronto-socorro e um dia depois que minha obstetra me disse novamente para “experimentar Tylenol eu estava de volta ao hospital com uma dor debilitante – um mioma diferente era o culpado, mas a sensação era escaldante.

Comecei a questionar se minha obstetra, até então muito prestativa, tinha experiência suficiente com  uma condição  que pode ser menos comum em seu grupo de pacientes. Decidi por conta própria mudar meus cuidados.

Uma familiar que por acaso é especialista em obstetrícia de alto risco sugeriu que eu procurasse um médico como ela, que poderia ter mais experiência no tratamento de pacientes com complicações na gravidez.

O especialista explicou o que estava acontecendo dentro do meu útero e descreveu o desconforto que pode acompanhar os miomas durante a gravidez. Ele disse que provavelmente eu sentiria dores por causa dos miomas, degenerando ou não, até dar à luz.

Senti um peso ser retirado dos meus ombro! enquanto ele falava. Embora me dissessem que mais dor viria, alguém finalmente validou minha experiência. A desconexão entre minha dor e o que me diziam estava afetando minha saúde mental.

Entrei em contato com Hutcherson, que disse que eu tinha feito a coisa certa conduzindo minha própria pesquisa e pressionando por um melhor atendimento.

“Uma gravidez, normal por si só é estressante. E as mulheres negras nem sempre são ouvidas. Quem está cuidando de você, deve respeitar sua experiência e se certificar de que você tenha um bebê saudável”, disse ela.

Agora que eu tinha a confirmação de que meus miomas estavam, de fato, causando a dor, eu não estava tão preocupada com um eventual problema não diagnosticado.

É improvável que miomas causem perda de gravidez, disse Hutcherson, e, no meu caso, o bebê ainda estava saudável e crescendo. Eu tinha a indicação de um remédio para lidar melhor com minha dor em casa e, com sorte, evitar uma terceira ida ao hospital.

Meus médicos disseram que, após o nascimento, meus miomas provavelmente encolheriam. E, para a maioria das mulheres no pós-parto, a dor desaparece. Permaneci cética, mas torcendo para que eles estivessem certos.

Poucos meses depois, meu bebê saudável chegou, embora não sem outra complicação. Após o nascimento, o útero normalmente se contrai para ajudar a desalojar a placenta. Os miomas podem interferir nesse processo, deixando o útero incapaz de expelir a placenta. Quando dei à luz, minha placenta travou e teve que ser removida manualmente, condição que pode colocar novas mães sob risco de perder sangue e até a vida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 17 DE JANEIRO

ESPERANÇA NO MEIO DO DESESPERO

E a mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que era formoso, escondeu-o por três meses (Êxodo 2.2).

A escravidão é uma realidade amarga e humilhante. O povo de Deus estava sob um terrível cativeiro. Amassando barro debaixo do chicote do carrasco, o povo trabalhava sob grande opressão. Não bastasse essa humilhação, o Faraó ordenou que todos os nascidos do sexo masculino fossem passados ao fio da espada ou jogados no rio Nilo para serem devorados pelos crocodilos. Nesse cenário de desespero, Anrão e Joquebede encontram espaço na agenda para se amar e nutrir na alma a esperança de ter um filho. Nasce Moisés. Sua mãe não desiste do filho. Ela arquiteta um plano para salvá-lo. As águas do Nilo não seriam sua sepultura, mas seu barco salva-vidas. Deus honrou a atitude daquela mulher, e o menino foi tirado das águas pela filha do Faraó. Em vez de morrer pelas mãos do Faraó, Moisés foi adotado pela filha do Faraó, para viver uma vida palaciana e tornar-se um doutor em todas as ciências do Egito. O mesmo Deus que libertou Moisés da morte libertou o seu povo do cativeiro através de Moisés. Deus pode acender uma candeia de esperança em seu coração mesmo no meio do desespero. Não entregue os pontos. Não desista de sonhar. Não desista de lutar. Deus está no controle e conduzirá você em triunfo.

GESTÃO E CARREIRA

O MITO DO TRABALHO PERFEITO

Embora algumas empresas comecem a discutir suas vulnerabilidades, o discurso-padrão é o de que as companhias nunca falham. Entenda por que essa mentalidade é prejudicial

Faz parte da natureza humana a incansável busca por relacionamentos ideais. Em se tratando de carreira ou relações românticas, a tendência é sempre a mesma: apego à falível ideia ele que há alguém, algo ou uma empresa – seja qual for o objeto de desejo – perfeita. No entanto, perfeição significa “ausência de falhas ou defeitos, em relação a um padrão ideal”, e isso não existe, pois ninguém nem lugar nenhum é infalível. “A perfeição é irreal e inalcançável. O componente das organizações são as pessoas, que trazem em suas bagagens as falhas. Portanto, não haveria a possibilidade de existir uma empresa perfeita”, afirma Adriana Prates, CEO e fundadora da consultoria de recrutamento Dasein Executive Search.

Embora algumas companhias já comecem a expor um pouco mais nas redes sociais suas imperfeições, reconhecendo seus erros, e estimulem que os líderes demonstrem vulnerabilidade, ainda há o discurso estereotipado de que aquele trabalho é o melhor do mundo ou de que aquela empresa é a melhor de todas. Apesar de ser louvável a busca por construir um excelente ambiente de trabalho, disseminar a ilusão de perfeição pode ser altamente prejudicial para as empresas, culminado em funcionários frustrados com a realidade, que muitas vezes pode ser mais dura do que o prometido.

Quem nunca ouviu aquele dito popular que é atribuído ao filósofo chinês Confúcio: “Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”? Impactante e motivador, mas extremamente romantizado. Encontrar seu ikigai (conceito japonês que pode ser traduzido pela frase “o que te faz levantar da cama todos os dias”), ou o famoso propósito, é relevante para a autorrealização; no entanto, por melhores que sejam as condições, trabalho é trabalho. Isso significa que haverá responsabilidades, decepções, chateações, pressão e outros atributos inerentes à vida humana, seja o profissional um trabalhador corporativo ou um empreendedor de seu negócio dos sonhos. Não há nada de errado em aspirar fazer algo que você ama – todo mundo quer uma carreira que seja gratificante e que pague as contas. “O problema é ter uma visão idealizada do que constitui esse emprego perfeito, pois nenhum trabalho tem desvantagens zero, e não é realista esperar a perfeição de uma função específica, do empregador ou de si mesmo. É um projeto do impossível”, diz Anderson Sant’Anna, professor na FGV-Eaesp e pós-doutor em teoria psicanalítica.

E tem sido nesse sentido que algumas empresas ainda estão se equivocando ao trabalhar o employer branding com muitos filtros e retoques, deixando de lado as fraquezas e oportunidades que também podem ser bastante atrativas para os profissionais que querem ser protagonistas das mudanças. Impulsionadas pelas listas das mais amadas, das melhores e outros rankings, não é raro que companhias percam a mão e vendam realidades fictícias. O segredo é expor a atratividade, potencializando o que há de bom, mas também deixar aparentes as oportunidades de melhoria, convidando os profissionais a evoluir junto com a empresa. Dessa forma, o processo de atração é mais assertivo. “É possível sonhar e realizar lugares incríveis; agora, perfeito nunca será. Almejar ser a empresa mais admirada é demodê. O que se espera hoje é que as pessoas digam que a empresa faz sentido em sua vida. Quando a companhia atinge isso, tem engajamento e resultado. Será vista corno um organismo que tem uma reputação orgânica, que não precisa investir em employer branding irreal”, afirma Marcio Fernandes, fundador da Thutor, consultoria especializada em cultura organizacional e gestão estratégica com pessoas e conselheiro independente.

ORGANISMOS VIVOS

“O trabalho não é algo constante. As empresas são organismos vivos. A organização muda, o chefe muda, uma revolução de mercado faz o trabalho em si mudar. Você pode ter o sonho de um trabalho que lhe dê equilíbrio para ajudar a realizar ambições fora dali, mas achar que será sempre perfeito é mito”, diz Gilvan Delft, presidente do PageGroup no Brasil, consultoria de recrutamento executivo. Isso significa que, por melhor que uma empresa seja, sempre haverá variáveis controláveis ou incontroláveis que vão fazer com que as percepções oscilem.

Importante lembrar que a transformação não é algo que acontece apenas nas organizações: pessoas também mudam. À medida que evolui e se desenvolve pessoal e profissionalmente, o indivíduo modifica seus anseios – e, em alguns casos, uma empresa que lhe parecia ideal em algum momento pode não ser mais compatível. Em um estudo de 2017, pesquisadores da Universidade Stanford descobriram que o mito do emprego dos sonhos está relacionado à ideia de que os seres humanos têm paixões fixas e que, uma vez que as encontrem e as apliquem ao trabalho, estarão realizados. De acordo com a pesquisa, “incentivar as pessoas a encontrar sua paixão pode leva-las a colocar todos os ovos na mesma cesta, mas depois largá-los quando se tornar difícil transportá-los” A verdade é que as paixões mudam; e os desejos também.

Por isso, não existe uma única fórmula que vá resolver tudo e que será igual para todo mundo. “Se partimos do princípio da diversidade, não faz sentido propor uma única solução, um modelo de empresa ideal para todos os profissionais”, afirma Felipe Zanola, vice-presidente de operações da Thutor. O executivo utiliza seu próprio exemplo para ilustrar o conceito de que não existe um lugar perfeito, e sim o que se adéqua melhor aos anseios de cada um, dependendo do momento. Quando trabalhava em uma multinacional, tinha um pacote de benefícios recheado e a oportunidade de ascensão internacional, mas não estava completamente realizado. Ali ele se sentia apenas parte de uma grande engrenagem, o que depois de algum tempo deixou de fazer sentido.

Em busca de identificação com o propósito pessoal, fez a transição para uma empresa menor, sem a possibilidade de construir uma carreira multicultural nem a mesma quantidade de benefícios, mas onde sentiu que faria a diferença. “Não dá para dizer que a primeira empresa era ruim, só não tinha a ver comigo. Ela fez a parte dela, entregou o que prometeu naquele caso. Mas descobri lá que o que fazia sentido para mim não era o crescimento acelerado, e sim me sentir útil, agente da mudança”, diz.

Recentemente, o apresentador Tiago Leifert deu um exemplo de como isso acontece na prática ao anunciar, no dia 9 de setembro, pela sua página no Instagram, a saída da Rede Globo após 16 anos de empresa. No post, ele disse: “Faz 20 anos que eu fui para os Estados Unidos estudar com a única missão de um dia trabalhar na Globo. Chegou a hora de declarar vitória e desfrutar de um final muito, mas muito feliz (…) Tomar a decisão de ir embora foi extremamente difícil, mas é o que eu quero neste momento”. Na manhã seguinte à publicação ele assumiu, no programa da Ana Maria Braga, que não estava mais realizado. Para jornalistas e apresentadores, como ele, a Rede Globo é uma das empresas mais almejadas do país; ele mesmo disse que seu único propósito profissional era trabalhar lá. Então, o que mudou? A sociedade, a empresa, ele próprio. Hoje, casado e com uma filha pequena, talvez Tiago queira mais tempo com a família.

Para Felipe, da Thutor, por muito tempo as empresas e a publicidade tentaram padronizar os modelos de felicidade, que agora estão sendo revistos. “Antes, acreditava-se que o símbolo de status profissional era crescer dentro de uma companhia e se tornar líder. Mas as novas gerações estão questionando isso. Não existe mais um único caminho para ser feliz”, diz. “As pessoas estão atrás do que faz sentido para a própria felicidade. E é esse movimento que cada empresa tem que fazer: não se vender como a melhor, mas verificar se o propósito dela faz sentido para aquele profissional que está chegando.”

ARMADILHA PERIGOSA

Os predicados que fazem as pessoas pensarem no lugar dos sonhos para trabalhar, como o tipo de função, o pacote de benefícios ou o prestígio da empresa, podem ser rapidamente eclipsados por um chefe horrível, uma cultura tóxica ou uma carga de trabalho excessiva. A verdade é que, vistos de fora, os empregos nem sempre têm a mesma aparência de quando o profissional chega lá. Isso pode ou não ser acentuado por uma aptidão da companhia em demonstrar apenas o que tem de bom, ou simplesmente pelo fato de que o trabalho que um colega acha perfeito não funciona para outro, ou pelo menos não funciona no atual momento de vida daquele profissional. Seja qual for a circunstância, quando o alinhamento não acontece, a situação pode ser ruim para ambas as partes.

Se alguém chega à empresa e depara com um dia a dia distante da perfeição que acreditava que encontraria, se frustra e perde engajamento. “Vamos imaginar um profissional que largou um cargo que lhe proporcionava estabilidade e no qual já tinha uma história, para ir para um novo lugar que, por sua vez, lhe gerou frustração. Ele vai sair desse novo emprego que não correspondeu ao que prometia. Ele perdeu estabilidade e tempo, de desenvolvimento e de oportunidade de crescimento”, diz Gil, presidente do PageGroup no Brasil.

Do ponto de vista das empresas, isso gera rotatividade, que acarreta aumento dos custos. “A companhia deixa de construir projetos novos porque gasta com as substituições e perde tempo pensando em processos de melhoria. A empresa fica rodando em círculos”, diz Caroline Cadorin, diretora do Talenses Group, consultoria de recrutamento. “O grande problema hoje é que as empresas se preocupam em blindar a informação em vez de compartilhar e aproveitar as contribuições para melhorar. Dessa forma, mantêm o risco de continuar investindo em profissionais que vão ficar pouco tempo na estrutura porque não se identificaram com a realidade que encontraram”, diz. E a imagem da companhia não fica incólume. “A empresa está exposta em redes sociais como LinkedIn e em plataformas como Glassdoor. Quando a perda de funcionários se torna frequente, a reputação da empresa pode ser derrubada”, diz Gil. Para os especialistas em recrutamento, profissionais menos experientes ou em início de carreira estão mais suscetíveis a ter uma visão romântica em relação ao trabalho – por isso é preciso especial cuidado com esse público. “Com a conectividade, estamos mais expostos àquilo que todo mundo gosta de compartilhar ou que entendemos que é a verdade sobre o outro”, diz Caroline. “Somos expostos a um mundo maquiado e que nos faz sentir obrigados a ser 100% realizados e completos em todos os aspectos.” Por isso aqueles que estão ingressando no mercado corporativo agora e só conheceram o mundo pelas redes sociais estão mais sujeitos a se enganar. Além dos jovens, pessoas menos curiosas, que investigam pouco a cultura e a realidade das empresas, tendem a sofrer mais com o desapontamento . “Profissionais menos informados correm mais risco de errar, de escolher pela placa bonita na frente da empresa. E os jovens, que talvez não tenham essa habilidade de investigar bem antes de agir”, afirma Gil.

SEM MEDO DE SER VULNERÁVEL

Demonstrar as vulnerabilidades e se colocar no mercado como marca empregadora sem filtros pode ser assustador para algumas empresas, mas no mundo atual, que grita por transparência, é uma grande oportunidade. “As lideranças precisam construir ambiências organizacionais para que o indivíduo tenha desejo de criar resultados. Excelência é padrão, é régua já dada, não operamos inovação no padrão. Quem já é perfeito não inova. Sempre há oportunidade de melhorar”, diz o professor Anderson Sant’Anna, da F’GV-Eaesp. “Uma empresa que se propõe a oferecer um bom ambiente de trabalho é aquela que cria condições para que os profissionais tenham protagonismo e tragam resultados para si próprios e para a companhia, com a possibilidade de errar”, explica Felipe Zanola, da Thutor.

Além disso, o bom e velho alinhamento cultural é importante para evitar frustrações. Reconhecer já no momento da atração se há identificação entre o candidato e os valores da empresa ajuda a diminuir o turnover de curto prazo. Mas uma ferramenta que vai além e rompe com a proposição do lugar perfeito é mostrar o cenário real da organização: as provocações e os problemas que o profissional vai encontrar ali. “Sempre que abrimos os desafios para as pessoas participarem, os resultados são incríveis. O primeiro passo para quem quer fazer qualquer transformação é viabilizar a participação coletiva”, afirma Marcio, da Thutor. Ele já fez isso quando foi presidente da distribuidora de energia Elektro e alavancou o crescimento dos resultados em 60% mantendo o tamanho do quadro de funcionários, mas iniciando uma cultura de construção colaborativa. “Abrimos os desafios para as pessoas e perguntamos como poderíamos superá-los juntos. Sendo envolvidas, elas se engajam e buscam formas de dar conta. Os profissionais se acomodam ou vão embora porque discordam do caminho”, diz.

Em um processo seletivo em que o líder abre suas vulnerabilidades, demonstra que não tem resposta para tudo e convida o novo profissional a resolver junto, a questão deixa de ser só dele e passa a ser um problema dos dois. “Mostra-se, então, confiança e que a construção será conjunta. Isso gera muito engajamento porque o profissional reconhece que não será apenas um executor, mas pensará a estratégia. Além disso, se sente necessário. Caso contrário, se a organização e o gestor não falham, por que precisarão dele?”, diz o professor Anderson Sant’Anna. E a transparência sobre os pontos a melhorar traz uma grande vantagem: atrai para a companhia pessoas que realmente se identificam com o que a empresa é de verdade – e que estão prontas para ajudá-la a superar seus desafios sem idealizações.

EU ACHO …

QUANDO  MENOS  SE ESPERA

Quando alguém se queixa de que não encontra sua cara-metade, que procura, procura, procura e nada, os amigos logo lembram o queixoso de que o amor só é encontrado ao acaso. Justamente no dia que você vai à padaria todo esculhambado, poderá esbarrar na mulher da sua vida. E naquela noite em que você sai do apartamento de pantufas para ir até a garagem do prédio desligar a droga do alarme do carro que disparou, o Cupido poderá atacar, fazendo com que o príncipe dos sonhos divida com você o elevador. Não acredita? Eu acredito. Nas vezes em que saí de casa preparada para a guerra, voltei de mãos vazias. Todos os meus namoros começaram quando eu estava completamente distraída. Mas não vale se fingir de distraída, tem que estar realmente com a cabeça na lua. Aí, acontece. O amor adora se fazer de difícil.

Pois foi meio assim que aconteceu com a universitária que foi parada numa blitz semana passada. Ela se recusou a fazer o teste do bafômetro, então teve a carteira recolhida e prestou algumas informações. Voltou para casa e pouco tempo depois recebeu um torpedo de um dos agentes perguntando se ela estava no Facebook, pois ele gostaria de conhecê-la melhor.

Vibro com essas conspirações do destino, que fazem com que duas pessoas que estavam absolutamente despreparadas para um encontro amoroso (um trabalhando na madrugada, outra voltando de uma festa) se encontrem de forma inusitada e a partir daí comece um novo capítulo da história de cada um. Claro, levando-se em conta que ambos tenham simpatizado um com o outro, que a atração tenha sido recíproca.

Não foi o caso. A universitária não se agradou do rapaz. Acontece muito. O Cupido passa trabalho, não é fácil combinar os pares. Nesses casos, todo mundo sabe o que fazer: basta não responder o torpedo, ou responder amavelmente dizendo que não está interessada, ou mandar um chega pra lá mais incisivo, desestimulando uma segunda tentativa.

A universitária desprezou essas três opções de dispensa. Inventou uma quarta maneira para liquidar o assunto: deu queixa do rapaz aos órgãos competentes. Dedurou o cara. Não perdoou que uma informação confidencial (o número do seu celular) houvesse sido utilizado indevidamente por um servidor público.

É duro viver num mundo sem humor. Uma cantada, uma reles cantada. Se fosse num bar, seria óbvia. Tendo sido após uma blitz, foi incomum. No mínimo, poderia ter arrancado um sorriso do rosto da garota que deveria estar pê da vida por ter a carteira apreendida. Depois de um fim de noite aborrecido, ela teve a chance de achar graça de alguma coisa, mas se enfezou ainda mais. No próximo sábado, é provável que esteja de novo na balada, cercada de outras meninas e meninos, a maioria se queixando de que o amor não dá mole.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

COMO CUIDAR DE CRIANÇAS COM COVID

Com a vacinação do grupo de 5 a 11 anos começando Brasil, Daniel Becker ensina como prevenir, identificar e tratar a doença nessa faixa etária: mais de 300 crianças morreram durante a pandemia

Com a vacinação infantil dando os primeiros passos no Brasil, pais e responsáveis de crianças de 5 a 11 anos estão cheios de dúvidas sobre como lidar com a infecção por coronavírus. Como protege-los? Há sintomas específicos entre eles? Qual o tratamento a ser seguido? Daniel Beck, pediatra, sanitarista e membro do Comitê de Enfrentamento da Covid da Prefeitura do Rio, decidiu escrever uma carta aberta aos pais e responsáveis de seus pequenos pacientes que inundavam seus contatos com dúvidas à cerca do atual cenário de saúde no país.

Em sua mensagem, o médico tenta acalmarpais e responsáveis, passando orientações práticas e reforçando seu apoio à vacinação infantil contra a Covid-19. O pediatra destaca que dificilmente uma criança vai ter um quadro grave ao se infectar pela doença. No entanto, a necessidade de internação pode acontecer e, por isso, os pais e responsáveis devem ficar atentos ao estado de saúde da criança. Dados contabilizados pelos Diários de Registro Civil brasileiros mostram que, entre março de 2020 e janeiro deste ano, foram notificados 324 óbitos na faixa de 5 a 11 anos causados pela Covid-19. Dentre as mortes, 65 ocorreram em pequenos de apenas 5 anos de idade.

No texto, Beck também chama a atenção para os grupos que fazem campanha contra a vacinação das crianças, classificando-os como “ferozes” e se diz impressionado com o número de mentiras espalhadas por eles. “A imensa maioria dos pais quer vacinar as crianças”, afirma o médico. “Alguns estão com medo de mandar seus filhos de volta para a escola

QUAIS SÃO OS PRIMEIROS SINTOMAS

Para qualquer pessoa – criança ou adulto –  com quadro febril, gripal (coriza, tosse, espirros, nariz entupido, incluindo dor de garganta e cefaleia), ou gastrointestinal (vômitos, diarreia) é preciso se isolar em casa e fazer um teste para saber se é Covid-19. Pode ser exame do tipo PCR ou de antígeno, já no segundo ou terceiro dia de sintomas.

Se um adulto sintomático testar positivo e houver crianças com sintomas em casa, elas podem ser consideradas positivas por suposição. Nesse caso, a família toda deve se manter em isolamento para evitar a disseminação do vírus.

O QUE FAZER QUANDO OS SINTOMAS APARECEREM

O critério principal segue sendo avaliar o estado geral da criança: se estão comendo, brincando, sorrindo quando não apresenta febre. Nestes casos, os pais podem seguir tratando em casa os sintomas, sempre observando a evolução da doença na criança.

Nessa faixa etária, os quadros gripais devem ser de leve a moderados. No entanto, eles costumam melhorar com 3 a 5 dias de acompanhamento. Dificilmente alguma criança fará um caso mais grave. Crianças de menos de um ano merecem observação mais atenta.

COMO TRATAR OS SINTOMAS EM CASA

O tratamento deve ser feito com muito soro nasal em spray, lavagem nasal com soro morno se a secreção ficar mais espessa ou o nariz estiver entupido. Deve-se oferecer frutas. A criança deve comer o que conseguir. Evitar biscoitos e outros ultraprocessados. É importante oferecer água com frequência. Hidratação é muito importante, e a criança não costuma pedir. Uma colher de chá de mel três vezes por dia para os maiores de um ano e meio ajuda a acalmar a tosse. Tratar febre só acima de 38,5. Usem paracetamol (0,8 gotas por kg) ou dipirona (0,6 a, 0,8 gotas por kg). Banho morno ajuda a baixar a febre e se sentir melhor. Nunca gelado.

QUANDO É O MOMENTO DE IR PARA O HOSPITAL

Se a febre persistir até o quarto ou quinto dia de sintomas e o estado geral for ruim, se houver piora progressiva  ou alterações respiratórias (criança ofegante, com a respiração encurtada sem ter feito nenhum esforço físico), ou qualquer sinal mais alarmante, a criança deve ser examinada por um médico. É o momento de entrar em contato com o pediatra do seu filho ou levá-lo a uma emergência.

Lá, a criança será avaliada e o profissional de saúde dará orientações específicas sobre o que fazer a partir daquele momento.

VACINEM SEUS FILHOS, NÃO CAIAM EM FAKE NEWS

Vacinem seus filhos. Os antivacina estão ferozes e espalhando muitas mentiras, é impressionante. Não existe segurança absoluta em nenhum produto, mas o risco das vacinas é multo menor que o da doença, a ciência é assertiva em demonstrar isso. Portanto, protejam seus filhos.

Para as crianças que tiveram Covid-19 recentemente, a orientação é dar um intervalo de um mês entre o primeiro teste positivo para a doença e a primeira dose da vacina.

Aos país: cuidem-se, tomando dose de reforço, usem boas máscaras.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO ALCANÇAR A FELICIDADE, SEM POSITIVISMO TÓXICO

Modelo do psicólogo Martin Seligman ajuda a ver mudanças possíveis de serem feitas, diz Carla Furtado, especialista em bem-estar

Não existe fórmula, tampouco pensamento positivo que leve à felicidade. “Não existe uma receita, nada dessa positividade tóxica”, diz Carla Furtado. A afirmação categórica vem da fundadora do Instituto Feliciência, com cursos sobre o tema, e professora na pós e no MBA da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

“Existem modelos científicos que vão sustentar caminhos que têm potencial de fomentar o bem-estar e a felicidade. Mas não é uma regra. Cada indivíduo, respeitando seu momento de vida, vai entender o que funciona para ele”, explica.

A especialista indica o Perma, modelo do psicólogo americano Martin Seligman que, segundo ela, pode servir para um leigo no assunto. E recomenda a leitura de  Florescer·, de Seligman, referência em Psicologia Positiva. Perma significa Positive  Emotion (em ações positivas), Engagement (engajamento),  Relationships (relações), Meaning (propósito) e Achievement (realizações). A seguir, Carla detalha os conceitos:

EMOÇÕES POSITIVAS.

“Pela perspectiva da neurociência, a emoção é uma reação corporal a um estímulo. Não é controlável. Não controlo se vou sentir medo ou inveja. “A resposta corporal se traduz em mãos suadas, coração acelerado e pupila dilatada, entre outras reações. “Olhando para o organismo, a gente vai aprender a mediar como agir diante da emoção.”

Carla pede cuidado com a procura por prazer. ”Álcool, drogas, sexo, comida e compras trazem prazer, mas não emoção positiva. São coisas diferentes. Se busco uma dose de prazer o tempo todo, entro numa escalada de dopamina.” De acordo com Carla, a pessoa tem de entender aquilo que ela faz e que traz bem-estar. “Tem o corredor amador, o que toca um instrumento, a pessoa que cuida da horta, aquela que cozinha, como eu”. De acordo com Carla, lançar mão dessas atividades tem o efeito de abrir um kit imaginário de primeiros socorros.

ENGAJAMENTO.

“Ocorre quando faço alguma coisa em que não percebo o tempo passar. Isso, na psicologia, se chama estado de flow ou fluxo”, explica. ”Vale também quando faço algo que me desafia, mas que tenho habilidade para fazer.”

RELAÇÕES.

“É muito importante, e não tem a ver com quantidade.” Para saber que relações são relevantes, ela recomenda responder à pergunta “Para quem eu poderia ligar às 3 horas da manhã se precisasse?”. Aí,é agir. “Estreite os laços com a pessoa. Como somos uma espécie social, nos beneficiamos muito com o contato com o outro”, diz. Pequenos gestos, como dar uma flor, fazem bem também a quem se doa. Mas ela lembra que a iniciativa tem de ser legítima. “Se estiver esperando algo em troca, não tenho o benefício do bem-estar.”

PROPÓSITO.

“É sobre sentido de vida”, afirma. “Costumo dizer para os alunos: “Senta em algum lugar na sua casa e vê sua realidade com olhar de estrangeiro. Traga para a mente as pessoas que coexistem com você”. A tendência é grande de a pessoa achar que já tem o que faz sentido. “Nesse exercício, é possível ver também o que mudar. “Dá muito trabalho viver uma vida bacana, mas dá muito mais trabalho viver uma vida ruim.”

REALIZAÇÕES.

“São as conquistas, e não são só um check-list de aquisições. Tem de ser aquilo que carrega significado”. Carla esclarece que não é sinônimo de sucesso. “Aqui é a realização pelo meu olhar. Posso morar numa casinha no interior e estar bem. Não é sobre o que a sociedade vai dizer. O sucesso pode ser perigoso porque precisa da aprovação do outro.”

OUTROS OLHARES

OUTRAS DORES DO PARTO

Vídeos com influencer põe em evidência violência obstétrica

Um vídeo do nascimento de Domênica, filha da influenciadora digital Shantal Verdelho, levou o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e os Hospitais São Luiz e Einstein a anunciar ontem que Investigam a postura do obstetra Renato Kalil. As imagens, que começaram a circular depois de Shantal ter enviado o vídeo a amigos, mostram Kalil xingando a paciente e insistindo com rudeza para que ela fizesse mais força no parto. Depois da disseminação, a influenciadora disse que “tem vídeo dele me rasgando com a mão”.

“Faz força, porra” é uma das frases ditas pelo ginecologista e obstetra no parto da influenciadora, que durou cerca de 48 horas.

Um áudio vazado tem outros palavrões atribuídos a Kalil, que também aparece criticando a forma como Shantal faz força. A influencer responde, na gravação: “Eu estou fazendo. Eu sou a maior interessada nisso”.

“Ele me xinga o trabalho de parlo inteiro. “Filha da mãe, ela não faz força direito. Viadinha. Que ódio. Não se mexe, porra'”. Depois que revi tudo, foi horrível”, comenta a influencer, que tem mais de 1,5 milhão de seguidores, no áudio.

Na mesma  gravação, Shantal conta que Kalil não teria gostado de sua recusa em realizar a episiotomia, procedimento cirúrgico no períneo para facilitar a passagem do bebê. E acrescenta que Kalil falou de sua vagina para terceiros, perante o marido.

“Tem o vídeo dele rasgando com a mão, a bebê não estava nem com a cabeça lá, não tinha a menor necessidade, era só para eu ficar toda arrebentada e ele falar “viu como precisava”, relata a influenciadora.

“Ele chamou meu marido e falou: “olha aqui, toda arrebentada. Vou ter que dar um monte de pontos na perereca dela”.

Em nota, Kalil disse que tem 36 anos de experiência e defendeu seu trabalho no nascimento de Domênica.

“O parto da sra. Shantal aconteceu sem qualquer intercorrência e foi elogiado por ela em suas redes sociais durante trinta dias após o parto”, afirma o comunicado,  que diz que o vídeo é “editado, com conteúdo retirado de contexto”.

“A integra do vídeo mostra que não há nenhuma irregularidade ou postura inapropriada durante o procedimento. Ataques à sua reputação serão objeto de providências jurídicas, com a análise do vídeo na íntegra”, diz a nota em nome do obstetra.

As investigações sobre Kalil são sigilosas, diz o Cremesp. O Hospital São Luíz, onde ocorreu o parto, informou que “reitera seu compromisso em coibir qualquer comportamento inadequado a prática médica”. O Einstein declarou que iniciou uma avaliação interna sobre a conduta do ginecologista. As duas instituições informaram    que não receberam reclamações oficiais.

A especialista Mariana Ferreira, da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, diz que viu várias condutas impróprias no vídeo: agressão verbal, puxo dirigido (pedir para a mulher fazer força) e expor a intimidade da paciente.

“O parto acontece naturalmente, independente do médico, não é correto pedir para a mulher fazer força além do possível. O machismo e violência com a qual o médico se refere  à influenciadora é abominável na medicina e em qualquer outra área”, critica.

Para a médica, nos partos em que há a necessidade de intervenção no canal do períneo, o correto é dar pontos necessários para conter sangramentos e a musculatura da área, sendo repudiado o famoso “ponto do marido”:

“Os partos em que há dilaceração devem ser reparados para evitar eventuais complicações e lesões musculares, mas nunca pensando no sentido de que a vagina precisa ficar mais apertada para satisfação sexual do companheiro.

Um estudo com 4,2 mil gestantes em Pelotas (RS), em 2015, mostrou que 18,3% sofreram ao menos um tipo de violência ao longo do trabalho de parto. A análise foi feita por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas e do Centro Latino-Americano de Perinatologia, ligado à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Outra análise de pesquisadores da Fiocruz, da Uerj e da Universidade Federal do Maranhã aponta que a falta de uma terminologia específica – nem sempre o termo violência obstétrica é ousada – somada à falta de definição do que constitui a irregularidade impedem políticas que previnam que mais mulheres sejam submetidas a agressões e situações vexatórias no parto.

“Essas mulheres procuram menos o serviço de saúde após o nascimento do bebê e   sofrem impacto na amamentação”, diz Tatiana Henriques, professora do departamento de Epidemiologia da Uerj.

Por não ser caracterizada como crime, a advogada Rachel Serodio, especialista em direitos da mulher explica que a violência obstétrica pode ser denunciada a partir de outras prescrições do Código Penal, como lesão corporal ou difamação:

“Todo tipo de agressão sofrido pela pessoa gestante durante o parto pode se enquadrar em algum crime.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 16 DE JANEIRO

RAMO FRUTÍFERO

José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus galhos se estendem sobre o muro (Genesis 49.22).

O patriarca Jacó se despede de seus filhos. Antes de morrer, distribui bênçãos a todos os filhos. Cabe a José, seu filho amado, uma bênção singular. Três verdades são enfatizadas nessa bênção. Em primeiro lugar, José é um ramo frutífero. Sua vida foi bênção em casa, no trabalho e no governo do Egito. Por onde passou, José deixou marcas positivas, frutos excelentes. Muitos passam pela vida desprovidos de frutos. Têm apenas folhas, muita aparência e nenhum resultado. Em segundo lugar, José é um ramo frutífero junto à fonte. Os tempos de sequidão não lhe tiraram o verdor, porque estava plantado junto à fonte, que é Deus. O segredo do sucesso de José é que ele mantinha profunda intimidade com Deus. Sua vida estava plantada nesse solo bendito. É assim a vida do justo: é como uma árvore plantada junto à fonte, cuja folhagem não murcha e que, no devido tempo, dá o seu fruto. Em terceiro lugar, José estendia sua influência para além dos muros. Quem é bênção em casa também é bênção fora de casa. Quem é bênção dentro dos muros também estende seus ramos sobre os muros. A vida de José nos desafia e nos estimula a sermos, de igual forma, ramos frutíferos da videira verdadeira. Deus é glorificado em nós quando produzimos muito fruto. O segredo para produzirmos fruto é permanecermos ligados à videira verdadeira. Somos desafiados ainda a sermos uma bênção aqui, ali e além das fronteiras!

GESTÃO E CARREIRA

BURNOUT GANHA STATUS DE DOENÇA OCUPACIONAL E ELEVA O PAPEL DO EMPREGADOR

Síndrome de saúde mental relacionada ao trabalho, incorporada em índice da OMS, atinge 3 de cada 10 profissionais no Brasil

A síndrome de burnout foi oficializada, em 10 de janeiro, como uma condição de saúde mental relacionada ao trabalho conforme a 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS). Considerada há mais tempo como esgotamento associado ao ambiente laboral, agora figura na categoria de doenças ocupacionais, mudança que demandará mais responsabilidade das empresas.

O quadro psíquico é “resultante do estresse crônico no total de trabalho não administrado com sucesso”, diz a definição. As características envolvem sensação de esgotamento ou exaustão de energia, aumento da distância mental do trabalho ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho e sensação de ineficácia e falta de realização.

A OMS destaca que a síndrome “refere-se especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicada para descrever experiências em outras áreas da vida”. Uma vez que 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros sofrem de burnout, segundo a International Stress Management Association, especialistas vislumbram alterações importantes nas relações de trabalho e na forma como as companhias se posicionam no mercado.

“As empresas vão passar a responder por isso com indicadores para acionistas, investidores, para a matriz, assim como hoje respondem por indicadores de acidente de trabalho. Elas vão responder por ausência por conta de burnout causado pelo ambiente de trabalho. Isso mexe com a reputação organizacional”, diz  a psicóloga Patrícia Ansarah, cofundadora do Instituto Internacional em Segurança Psicológica.

Veruska Galvão, também fundadora do instituto, vê uma mudança na percepção do indivíduo. “Ele terá consciência de que deixou esse ambiente interferir na saúde até a exaustão e que essa responsabilidade também é da empresa. As empresas não preparadas vão ter problemas sérios”, diz. Trabalhadores teriam ainda mais respaldo para buscar reparação de danos na Justiça.

Patrícia teve essa experiência em 2017, quando abriu processo contra a multinacional onde trabalhava havia um ano como gerente executiva. A relação tóxica com a gestora e a pressão por resultados a qualquer custo minaram a autoconfiança e as capacidades produtiva e criativa da psicóloga. Diagnosticada com síndrome de burnout, ela não recebeu qualquer apoio da companhia.

INIMIGO SILENCIOSO

Foram seis meses de desgaste emocional e mental até o atestado. “Foi um processo silencioso. Quando percebi, já estava em estado de burnout, não me reconhecia. Quando entendi, fui diagnosticada, medicada e busquei terapia”, conta. Sem acolhimento por parte do RH ou da liderança, ela buscou a linha de compliance da organização e levou o caso à matriz. Três meses depois, uma resposta veio com o desligamento da gestora dela. Mas a reparação de danos veio com um processo na Justiça no âmbito dos direitos trabalhistas, uma vez que por danos morais exigia testemunhas, o que colocaria em risco os colegas. ”Hoje, na CID, poderia recorrer sem expor outras pessoas.” Um ano depois, a Justiça encerrou o caso a favor dela.

O advogado trabalhista Cristóvão Macedo Soares, sócio do Bosisio Advogados, ressalva que, nas ações judiciais, a nova classificação traz detalhes a analisar com cuidado. ”Quando se fala de ‘estresse não administrado com sucesso’, a responsabilidade é exclusivamente do empregador ou envolve também o empregado? A gente está falando de uma síndrome com aspecto subjetivo muito grande”, pondera.

A consultora organizacional Caroline Marcon diz que “o RH tem a responsabilidade de encaminhar os profissionais diagnosticados para acompanhamento psicológico, consultas médicas e adotar providências para restabelecer a saúde mental”. “A equipe precisa avaliar as condições de trabalho da pessoa, como ambiente físico, relação com a liderança e pares, metas e clima organizacional, para melhorar as condições e prevenir novos casos”, diz.

Aier Adriano Costa, especialista em medicina do trabalho e médico responsável técnico da Docway, diz que a classificação da OMS permitirá um diagnóstico e acompanhamento mais adequados. Porém, a dificuldade é o empregado trazer a queixa, devido a tabus e preconceitos. Assim, é preciso melhorar a comunicação do RH e da medicina do trabalho.

EU ACHO …

MEDO  DE ERRAR

“A gente é a soma das nossas decisões.”

É uma frase da qual sempre gostei, mas lembrei dela outro dia num local inusitado: dentro do super. Comprar maionese, band-aid e iogurte, por exemplo, hoje requer o que se chama por aí de expertise. Tem maionese tradicional, light, premium, com leite, com ômega-3, com limão. Band-aid, há de todos os formatos e tamanhos, nas versões transparente, extra transparente, colorido, temático, flexível. Absorvente com aba e sem aba, com perfume e sem perfume, cobertura seca ou suave. Creme dental contra o amarelamento, contra o tártaro, contra o mau hálito, contra a cárie, contra as bactérias. É o melhor dos mundos: aumentou a diversificação. E, com ela, o medo de errar.

Assim como antes era mais fácil fazer compras, também era mais fácil viver. Para ser feliz, bastava estudar (Magistério para as moças), fazer uma faculdade (Medicina, Engenharia ou Direito para os rapazes), casar (com o sexo oposto), ter filhos (no mínimo dois) e manter a família estruturada até o fim dos dias. Era a maionese tradicional.

Hoje existem várias “marcas” de felicidade. Casar, não casar, juntar, ficar, separar. Homem e mulher, homem com homem, mulher com mulher. Ter filhos biológicos, adotar, inseminação artificial, barriga de aluguel – ou simplesmente não os ter. Fazer intercâmbio, abrir o próprio negócio, tentar um concurso público, entrar para a faculdade. Mas estudar o quê? Só de cursos técnicos, profissionalizantes e universitários há centenas. Computação Gráfica ou Informática Biomédica? Editoração ou Ciências Moleculares? Moda, Geofísica ou Engenharia de Petróleo?

A vida padronizada podia ser menos estimulante, mas oferecia mais segurança, era fácil “acertar” e se sentir um adulto. Já a expansão de ofertas tornou tudo mais empolgante, só que incentivou a infantilização: sem saber ao certo o que é melhor para si, surgiu o pânico de crescer.

Hoje, todos parecem ter 10 anos menos. Quem tem 17, age como se tivesse sete. Quem tem 28, parece 18. Quem tem 39, vive como se fossem 29. Quem tem 40, 50, 60, mesma coisa. Por um lado, é ótimo ter um espírito jovial e a aparência idem, mas até quando se pode adiar a maturidade?

Só nos tornamos adultos quando perdemos o medo de errar. Não somos apenas a soma das nossas escolhas, mas também das nossas renúncias. Crescer é tomar decisões e depois conviver em paz com a dúvida. Adolescentes prorrogam suas escolhas porque querem ter certeza absoluta – errar lhes parece a morte. Adultos sabem que nunca terão certeza absoluta de nada, e sabem também que só a morte física é definitiva. Já “morreram” diante de fracassos e frustrações, e voltaram pra vida. Ao entender que é normal morrer várias vezes numa única existência, perdemos o medo – e finalmente crescemos.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SAIBA DISTINGUIR SINTOMAS DE VÍRUS RESPIRATÓRIOS

Circulação simultânea de coronavírus, influenza e causador do resfriado comum complica diagnósticos. Especialistas explicam características de cada doença, ressaltando que só testagem é capaz de tirar a dúvida

Diante do comportamento que a Ômicron tem apresentado no mundo, com manifestações menos graves e diferentes das variantes anteriores, é comum ficar em dúvida em relação a sintomas como febre, dor de cabeça, mal-estar e coriza. Isso porque as doenças respiratórias, que também incluem resfriado e gripe, costumam apresentar sinais bem parecidos, por afetarem as mesmas regiões do corpo. A diferença é que alguns deles tendem a aparecer com mais frequência ou ter maior intensidade, a depender da enfermidade.

“A Covid-19 e a gripe “derrubam”. Já o resfriado só atrapalha a rotina”, afirma Salmo Raskin, médico geneticista e diretor do Laboratório Genetika, de Curitiba.

ÔMICRON

Responsável por grande parte das novas infecções no mundo, a Ômicron costuma provocar sintomas com menor intensidade em comparação com as demais variantes do Sars- CoV-2 até agora. O que não significa que seja ”leve”, como alertou o diretor da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adbanom na última quinta-feira. Mais transmissível, a cepa ainda tem o potencial de sobrecarregar sistemas de saúde e causar internações e mortes.

Segundo o estudo ZOE COVID, que pesquisa relatos de pacientes diagnosticados com a doença, seus principais sintomas são coriza, dor de cabeça, cansaço, espirros e dor de garganta.

Suas manifestações mais brandas podem ser explicadas, pelo que se sabe até agora, ao fato de a variante reproduzir-se mais rapidamente nas vias aéreas e poupar o pulmão. Os sintomas melhoram, em média, cinco dias após o início. A febre também pode surgir, mas, com menos frequência.

INFLUENZA

A febre pode ser um sintoma diferencial entre a Ômicron e gripe, da qual ela é um sintoma comum. Diante de um quadro febril, é possível, portanto, que o paciente esteja com a infecção desencadeada pelo vírus influenza. Mas a febre, por si só, não garante o diagnóstico.

De acordo com o Instituto Butantan, responsável por produzir a vacina de influenza usada no Brasil, os principais sintomas da gripe são: febre súbita, tosse (geralmente seca), dor de cabeça, dores musculares e articulares, mal-estar, dor de garganta e coriza.

Os sinais da gripe costumam durar de cinco a sete dias, sendo que a tosse pode levar duas semanas ou mais.

RESFRIADO

Já o resfriado tem sintomas mais leves que a gripe, e se parece bem mais om os sinais dados pela Ômicron, por também afetar mais as vias aéreas superiores. As principais manifestações do resfriado são: coriza, nariz entupido, espirros, dor de garganta, febre baixa (mais comum em crianças – adolescentes e adultos não costumam apresentar). A duração do resfriado costuma ficar entre três a quatro dias, mas pode se prolongar em fumantes, chegando a dez dias.

Ana Helena Figueiredo, infectologista do Grupo Iron afirma que não é possível diferenciar as três doenças apenas pelos sintomas, já que algumas pessoas podem apresentar quadros atípicos.

“Outro fator que impossibilita o diagnóstico somente pelos sintomas é a coinfecção, quando dois ou mais vírus acometem o indivíduo de uma só vez”, explica ela, que também é especialista em bioestatística em saúde pública pela Universidade Johns Hopkins.

A indicação é realizar primeiro o teste para a Covid-19. Como ainda não se sabe a prevalência da Ômicron no Brasil, a doença causada pelo coronavírus continua sendo a mais preocupante dentre as três.

Há medidas que ajudam a prevenir as três doenças, como uso de máscaras, higienização recorrente das mãos, distanciamento social. Além, é claro, das vacinas de Covid e gripe.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TAXA DE DEPRESSÃO PÓS-PARTO DOBROU NA PANDEMIA

Um estudo inédito realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, (HCFMUSP) com 184 mulheres que deram à luz durante a pandemia da Covid -19 revelou que 38,8% delas tiveram depressão pós-parto.

O índice é praticamente o dobro do período pré-pandemia no Brasil, quando girava em torno de 20%, de acordo com a literatura médica.

A pesquisa também mostrou que 14% das puérperas tiveram ideações suicidas durante o período.

O levantamento foi feito por meio de questionários entregues às mulheres que foram atendidas no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Hospital Universitário da  USP durante a pandemia da Covid-19, que começou em março de 2020.

Entre os principais fatores para a depressão pós-parto relatados por elas estavam a preocupação pela possível falta de leitos hospitalares, assim como a ausência do parceiro e ansiedade.

Já a ideação suicida também esteve associada, além da ansiedade, com as formas de receber informação sobre a Covid-19, como, por exemplo, por meio de amigos.

“Esse é um estudo de extrema importância, que revela outras consequências seríssimas da pandemia, além dos casos de Covid-19 em si. Atravessar a gravidez,  parto e pós-parto em um período tão difícil para toda a sociedade acabou claramente, afetando as gestantes e puérperas”, diz o pesquisador Marco Aurélio Galleta, professor do departamento de obstetrícia e ginecologia da FMUSP.

‘É preciso entendermos todos os fatores envolvidos para darmos a melhor assistência possível a elas nesse momento”, observa Galleta.

De acordo com a pesquisa, também se associaram à depressão pós-parto fatores como brigas em casa, tempo de isolamento, preocupação com o parto e com as notícias sobre o coronavírus.

O número de horas diárias de informações sobre a pandemia também teve impacto sobre a saúde mental das gestantes e puérperas.

Pacientes que tiveram ideações suicidas procuraram, em média, 4,5 horas de informação diária sobre a pandemia, contra duas horas em média daquelas que não apresentaram esse quadro.

Atualmente, o IPq (Instituto de Psiquiatria) do HCFMUSP busca mulheres com depressão pós-parto para testar uma nova forma de tratamento por meio de aplicativos de celular. Para participar do projeto, as mulheres devem ter de 18 a 40 anos, ter tido filho há no máximo 11 meses e sofrer de sintomas de depressão.

Também é preciso ter celular para uso pessoal e conexão com a internet.

As mães devem ter disponibilidade para participar de quatro encontros online durante dois meses. Elas serão acompanhadas por pesquisadores da área de saúde mental e desenvolvimento infantil da Faculdade de Medicina da USP.

Serão testados dois aplicativos de celular que ajudam a melhorar os sintomas de depressão por meio de diversas técnicas psicológicas.

Também serão realizadas avaliações online pelos profissionais de saúde ao longo do estudo.

As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo site maay.com.br

OUTROS OLHARES

PROIBIDO PARA MENORES DE 16 ANOS, CASAMENTO PRECOCE É NATURALIZADO NO BRASIL

Apesar de grande subnotificação, país ocupa 5° lugar no ranking mundial de uniões desse tipo, que roubam fase importante do desenvolvimento das meninas e articulam vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero

“Tinha muitas coisas para eu fazer, e eu não quis. Não tinha cabeça, não queria ser nada da vida. Nunca tinha pensado em ser isso ou aquilo.”  Aos 20 anos, sete deles dedicados a um companheiro oito anos mais velho que ela, Milena (nome fictício) avalia que hoje faria outras escolhas que não a de  viver, ainda aos 14 anos de idade, como se fosse casada. Seguindo o roteiro típico de meninas envolvidas em casamentos precoces, Milena largou os estudos, se isolou numa rotina de cuidados e afazeres domésticos, engravidou. Nunca havia tido aulas de educação sexual na escola de um bairro pobre de Belém (PA), onde frequentou metade do ensino fundamental. Por isso, mesmo mantendo relações sexuais desprotegidas havia meses, ela diz ter ficado surpresa ao ser informada de que estava grávida.

Sem formação, sem renda e sem um projeto de vida, Milena se tornou totalmente dependente do companheiro e de suas demandas. . “Eu deixei tudo pra ficar cuidando dele: estar em casa, arrumando as coisas, lavando roupa, fazendo almoço”, conta ela, moradora de uma casa sobre palafitas. “Ele dizia que eu não precisava trabalhar porque já me dava tudo. E por isso achava que podia fazer tudo o que quisesse, admite.

Naturalizado e subnotificado, tão complexo quanto invisível, o casamento infantil é definido como qualquer união, forma1 ou informal, que envolva alguém com menos de 18 anos. Em mais de 94% dos casos, esse alguém é menina.

Sob o manto de algum consentimento, seja dela, seja de sua família, a união precoce articula vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero. Ela rouba uma fase importante do desenvolvimento e amplia as desvantagens de meninas e mulheres, limitando ainda mais suas trajetórias de vida educacional e profissional e tornando-as mais suscetíveis à violência doméstica, seja ela física, psicológica, sexual ou financeira. Por isso, eliminar casamentos prematuros é parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, dentro da meta número 5: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Amigar, juntar, ajuntar, viver junto, morar junto, amasiar. Essas uniões em geral refletem as opções restritas disponíveis para meninas em situação de vulnerabilidade, ancoradas em normas sociais que ditam papéis bem definidos para meninas e mulheres: cuidadoras, submissas, donas de casa, mães. Nesse contexto, o casamento sempre teve lugar de destaque.

“No Brasil, o casamento precoce é um fenômeno adolescente que ocorre em média, aos 14, 15 anos, o que não quer dizer que não haja meninas se casando aos 12 anos”,  explica a pesquisadora Viviana Santiago, ativista pelos direitos das meninas.

“Esse é um fenômeno multicausal e invisibilizado porque seu fio condutor é a violência de gênero já que ele atinge majoritariamente meninas, para quem o casamento já era considerado um destino, O fato de ele acontecer mais cedo, portanto, é visto como algo natural. Com isso, diz Viviana, quase ninguém entende a união precoce como uma violência, fruto da negação de diversos direitos dessas meninas: educação, segurança alimentar e, especialmente, direitos sexuais e reprodutivos. “Precisamos desnaturalizar essas uniões precoces e atuar numa mudança cultural e esse estrutural para que as trajetórias das meninas sejam plurais, com todos os direitos garantidos para o seu desenvolvimento”, diz Gabriela Goulart Mora, oficial de desenvolvimento e participação de adolescentes do Unicef no Brasil. “É preciso enxergar a violência implícita no casamento infantil: as meninas assumem responsabilidades excessivas no âmbito doméstico, perdem sua rede de apoio e a convivência com seus pares, ficando mais vulneráveis a diversos tipos de violência, inclusive a sexual”, aponta. Só em 2019, mais de 80.829 meninas de até 19 anos se casaram oficialmente no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – 169 delas tinham menos de 15 anos de idade.

Como as uniões nessa faixa etária dificilmente são registradas, como foi o caso de Milena, são outros raros levantamentos sobre o tema que revelaram a prevalência do casamento infantil no Brasil.

“A gente só tem ideia de parte do fenómeno porque tem uma subnotificação gigantesca”, explica Raila Alves, gerente de gênero e empoderamento econômico da Plan Intemational, organização que atua internacionalmente na prevenção e no combate ao casamento infantil.

Como a gravidez na adolescência muitas vezes é causa ou consequência de uma união precoce, dados de nascidos vivos de mães adolescentes sugerem o tamanho da subnotificação. Em 2020, foram registrados 380.778 nascidos vivos de mães adolescentes, sendo 17.526 de mães com idade entre 10 e 14 anos, segundo o Ministério da Saúde.

Outro estudo do Ministério da Saúde perguntou a mulheres de 20 a 24 anos, em 2006, quando elas tinham se casado, formal ou informalmente: 1 a cada 4 respondeu que antes dos 18 anos. Isso faz do Brasil o quinto país no mundo no ranking absoluto de casamentos precoces. O país fica atrás apenas de Índia, Bangladesh, Nigéria e Etiópia, onde a prática envolve crianças ainda menores  em uniões arranjadas e ritualizadas.

O quadro tende a se agravar com a pandemia. A organização internacional World Vision aponta que os casamentos infantis dobraram em 2020 em relação ao ano anterior em alguns dos países que encabeçam o ranking global, e estimativas de agências da ONU (Organização das Nações Unidas) também apontam para um aumento dessa prática.

A principal hipótese para esse crescimento é o aumento da pobreza. Meninas de famílias pobres têm duas vezes e meia mais chance de se casarem antes dos 18 anos do que aquelas de famílias com mais recursos, segundo o projeto Girls Not Brides (meninas e não noivas, em tradução literal).

“Aqui na região, quando uma menina engravida, a família empurra ela para o casamento porque, do contrário, é uma boca a mais para alimentar em casa”, explica a ativista paraense Rebeca Souza, cuja origem numa comunidade cigana a doutrinou para o casamento precoce.

“No meu povo isso é muito comum. Existe todo um contexto que faz as meninas acreditarem que esse casamento é uma boa”, diz. “Não sou contra o casamento, mas acho ruim quando a gente cresce acreditando que ele é o nosso único destino. Fica muito difícil de se ver fora dele”, explica ela, que já teve um projeto de empoderamento de meninas em populações ribeirinhas da capital paraense, interrompido por falta de financiamento.

Por outro lado, diz ela, em certos grupos, particularmente em comunidades muito religiosas, a sexualidade só pode ser experimentada no casamento, o que impulsiona meninas a se casar cedo simplesmente para poder transar. “Observamos que muitas meninas, por questões estruturais, são incentivadas a morar com o parceiro e a estabelecer uma união desde muito cedo “, afirma Raila, da Plan International. “Estamos falando de normas culturais que são nocivas, sexistas, e racistas que colocam o casamento como algo preventivo:’ pelo menos ela não está à toa, ‘pelo menos não está roubando.”

A força desse tipo de ideia fica evidente na reprodução feita por algumas mulheres para justificar sua união precoce. “O casar cedo, que muita gente acha que é muita responsabilidade pra mim, foi bom porque eu poderia estar na rua, fazendo coisa errada, usando droga”, afirma Maria (nome fictício), 18, que se casou aos 16 anos na região da Grande São Paulo para escapar da violência física imposta por sua mãe.

“Eu era obrigada a cuidar dos meus irmãos, dois bebês gêmeos. E minha mãe chegava em casa bêbada e me agredia. Pra mim, foi um alívio me casar. Foi um jeito de fugir daquela situação”, admite ela, que tem uma filha de 1 ano e, por isso, vai deixar a faculdade para algum lugar do futuro. Muitas meninas, no entanto, encontram no casamento precoce não um porto seguro, mas uma nova experiência de violência. Globalmente, aquelas que se casam antes dos 15 têm 50% mais chance de sofrer violência por parte do parceiro do que aquelas que se casaram depois dos 18 anos. No Brasil, essas uniões foram proibidas para menores de 16 anos apenas em  2019, com lei que alterou o Código Civil. Antes disso, era permitido casar em casos de gravidez adolescente, ou de acordo com autorização dos pais ou autoridade  judicial.

Ainda assim, ter relações sexuais com menores de 14 anos sempre foi considerado crime sexual contra vulneráveis, E até 2.005, vigorava no país uma exceção ao artigo 107 do Código Penal que autorizava a união formal com crianças e adolescentes para que alguém maior de18 anos pudesse escapar de uma punição por crime sexual. Ou seja, era possível que meninas abusadas sexualmente fossem obrigadas a se casar com seus agressores, algo mais comum entre adolescentes em situação de vulnerabilidade social.  “Apesar de avanços nos tribunais, ainda ocorrem decisões que reforçam opressões, como o machismo”, explica a advogada Caroline Leal, que foi assessora jurídica em vara especializada em crimes sexuais contra crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul. “Em alguns casos, um estupro de vulnerável era declarado como consentido pela menina e, com isso, tudo se resolvia.”

Segundo ela, a questão do casamento infantil perpassa também o racismo. “Porque mulheres negras ainda não temos acesso a melhores condições econômicas e pelo fato de a mulher negra ser hiperssexualizada e objetiticada desde cedo”,  avalia. ”Uma mulher que cresce em vulnerabilidade econômica já cresce sem perspectiva e tem dificuldade de sonhar, o que faz com que enxergue o casamento como uma boa saída.”

Para algumas meninas, de fato, o casamento precoce se mostra como a garantia de destino supostamente seguro diante de um futuro incerto e sem perspectivas. Para outras, ele se mostra mesmo como uma saída: da pobreza extrema, do abuso sexual dentro de casa, do castigo físico ou de restrições muito severas impostas por famílias religiosas. Foi o caso de Débora Maria da Silva, 62, excomungada pelo pai por usar calças jeans e passar a tesoura nos cabelos longos, típicos de algumas denominações pentecostais. “Eu queria ir para o baile também, e não só para a igreja”, lembra ela, que aos 14 anos foi morar com o pai de seus três filhos.

“Não era a liberdade que eu procurava, porque eu ficava dentro de casa e ele ia pra rua, pro baile, pra tudo que é lugar, sempre sozinho”, lembra.

“Não são direitos iguais”, indigna-se ela, que teve filho assassinado durante os crimes de maio de 2006, em São Paulo. Fundadora do movimento Mães de Maio, Débora conta uma história que, mesmo tendo ocorrido 40 anos antes, se parece com a de Milena, 20. Seus companheiros não queriam que elas trabalhassem.

“O meu primeiro marido não queria. E, quando a gente não trabalha, fica sujeita a tudo o que o homem acha que tem direito porque é ele que sustenta”, diz Débora. É um amor de propriedade que, quando você fala ‘cansei: vêm várias intimidações”, avalia Débora. Por trás dessa dinâmica estão ciclos que reproduzem sistemas de dominação e que perpetuam a desigualdade de gênero que Débora assistiu acontecer com suas duas filhas ainda meninas, assim como Milena soube ter acontecido com sua mãe. A saída para estes ciclos, avaliam Débora e Milena, passa necessariamente pela educação. “Minha filha parou de estudar, como eu, e virou faxineira, como eu fui durante tanto tempo”, conta Débora. Segundo Gabriela, do Unicef, como no casamento precoce a educação deixa de ser a prioridade na vida da menina, aumentam as chances de reprodução do ciclo de pobreza, gravidez na adolescência e insegurança financeira e alimentar. “É a maior ilusão do mundo para uma mulher casar cedo. Uma cilada “, resume Débora. “A ilusão é a de arrumar um homem que ame ela, vai dar tudo pra ela”. É  fugir da miséria ou buscar liberdade. Mas são poucas que encontram isso de verdade.

GESTÃO E CARREIRA

CRIMES VIRTUAIS, PREJUÍZOS REAIS

As tentativas de ataques hacker cresceram 75% durante a pandemia. Quando bem-sucedidos, os delitos geram perdas financeiras e de reputação para as companhias

Na manhã de domingo de 30 de maio de 2020, a JBS enfrentou um sério problema: uma invasão hacker desativou as operações de fábricas nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. Os criminosos fizeram um ataque do tipo ransomware, no qual hackers conseguem controlar o equipamento da vítima e só liberam o uso após o pagamento de um resgate – como em um sequestro. Por orientação de uma consultoria de cibersegurança, a JBS decidiu pagar 11 milhões de dólares em bitcoins aos bandidos – de acordo com a exigência do grupo -, depois de negociar que o depósito seria feito após o restabelecimento dos sistemas. Isso aconteceu em 3 de junho. Foram dois dias inteiros de paralisação nas fábricas da companhia.

Em declaração para o The Wall Street Journal, André Nogueira, CEO da JBS nos Estados Unidos, disse que a decisão foi difícil, mas necessária para evitar qualquer risco potencial aos clientes e paralisação das operações. Em nota, a companhia afirmou que os servidores de backup foram preservados. Assim que o ataque ocorreu, a JBS informou o FBI sobre o problema, e o gabinete concluiu que o responsável havia sido o grupo russo REvil, também conhecido como Sodinokibi, que já esteve por trás de uma invasão contra a Quanta Computer, fornecedora da Apple.

Esse é apenas um exemplo de caso de ataque cibernético, já que o crime está em expansão pelo mundo. Só no Brasil, houve um crescimento de 220% em invasões hacker no primeiro semestre de 2020, segundo dados do grupo MZ, especializado em relações com investidores. Além disso, um levantamento da consultoria espanhola Minsait mostrou que as tentativas de invasão virtual aumentaram 75% durante a pandemia e que 80% das empresas não estão prontas para encarar o problema. “A mudança para o trabalho remoto foi feita de forma muito rápida, então várias companhias não tiveram tempo, nem caixa, para investir na segurança necessária”, afirma Eduardo Bezerra, líder de seguros cibernéticos da Wiz Corporate.

Com o aumento dos ataques, a procura por seguros cibernéticos também cresceu. Segundo dados apurados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), no ano passado os prêmios desse tipo emitidos pelas seguradoras dobraram em relação ao ano anterior. Algumas companhias encontram formas criativas de se proteger. “O Facebook dá recompensas para quem invade seus sistemas e reporta sobre a vulnerabilidade”, diz Poliana Szernek, advogada especializada em cibersegurança do escritório Campos Mello. O fato de os ataques se tornarem um mercado lucrativo também mostra a tendência de que esse tipo de problema aumente no futuro. ”Vamos ver cada vez mais jovens querendo ser hackers nos próximos 16 anos. Primeiro pela curiosidade, e também porque isso está virando um negócio”, afirma Eduardo.

CULTURA DE PROTEÇÃO

Não é por acaso que o aumento dos crimes aconteceu na pandemia, período em que pessoas e empresas passaram a depender mais da tecnologia para exercer suas atividades à distância – sejam profissionais, sejam pessoais. A implantação às pressas do home office também pode piorar o problema. Empresas com equipes de trabalho remoto devem refletir com muito cuidado sobre o acesso a sistemas por meio de equipamentos que não são da própria companhia, o que gera mais vulnerabilidade pela impossibilidade de monitoramento de sites, aplicativos de mensagens e e-mails pessoais, comumente usados como porta de entrada pelos hackers.

Com isso em mente, a multinacional de tecnologia Thales investiu 500.000 reais no processo de adaptação para o trabalho remoto na pandemia. Entraram nesse pacote compra de equipamentos para todos os funcionários que trabalhariam de casa, ferramentas de segurança digital e treinamentos. “A gente parte do princípio de que não existe nada que seja 100% seguro, então investimos em diferentes tecnologias, como antivírus, token com senha de segurança, VPN (virtual private network), firewall e criptografia de dados”, explica Luciano Macaferri Rodrigues, diretor-geral da Thales no Brasil. Mas a segurança de dados vai além das barreiras de proteção: passa pela educação. Inspirados pela experiência em home office durante a pandemia, o escritório de advocacia  Mattos Filho decidiu adotar o trabalho híbrido, com dois dias da semana em casa quando a crise passar. Mas isso só foi possível porque, desde 2013, a empresa está em um processo de transformação digital baseado em três pilares: tecnologia para o desenvolvimento do negócio, experiência online do cliente e dos empregados, e segurança da informação.   Treinamentos sobre temas como proteção de dados fazem parte da formação da nova cultura digital. “Todos os computadores e laptops são do escritório e têm criptografia e sistema antivírus, de forma que nós temos total acesso aos dados e a possíveis tentativas de invasão”, diz Leonardo Brandileone, diretor de tecnologia e conhecimento do Mattos Filho. “Há anos fazemos treinamento sobre esse tema para que os profissionais entendam quais cuidados devem ser tornados. O trabalho híbrido não daria certo sem essa cultura”, diz Renata Maiorino, diretora de desenvolvimento humano.

INFORMAÇÕES SENSÍVEIS

Além de se protegerem de criminosos, as empresas que atuam no Brasil estão com outra questão delicada: as adequações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que  regulamenta o uso de dados pessoais pelas companhias – sejam eles de clientes, fornecedores ou de funcionários. Caso as organizações descumpram as regras, poderão ser penalizadas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). E a exposição de  informações sensíveis, uma das consequências comuns de ataques hacker, é uma das violações previstas na lei.

A nova legislação é uma boa oportunidade para as companhias criarem uma mentalidade de segurança digital. Foi isso o que pensou a empresa de tecnologia FS Security que, para se adequar às normas da LGPD, contratou um escritório de advocacia. O primeiro passo foi mapear a situação da companhia para, depois, traçar um plano de ação com as adequações necessárias. Por meio de um comitê formado pelas áreas jurídica e de gestão de pessoas, a FS Security está cascateando as ações. “ALGPD envolve não só a proteção de dados, mas também a maneira de trabalhar. Há impacto sobre o modo como desenvolvemos um software, sobre as ferramentas de apoio nos sistemas e sobre como capturamos e armazenamos dados”, diz Marcus Garcia, VP de tecnologia e produto da companhia. “A gente já possuía protocolos de segurança para processos de contratação e demissão, mas a importância disso aumentou depois da aplicação das diretrizes da LGPD.”

FATOR HUMANO

É consenso entre os especialistas que, independentemente de todas as ferramentas de segurança adotadas, o elo mais fraco continua sendo nós – os usuários da tecnologia. Criminosos se utilizam da engenharia social para descobrir informações sobre pessoas, a empresa em que trabalham, do que gostam e demais informações que são voluntariamente publicadas nas redes sociais. Dessa forma, eles enviam um e-mail de golpe, o famoso phishing, para que o usuário clique em um link suspeito e deixe o hacker entrar na empresa por meio de um vírus que rouba senhas e dados.

Além disso, ainda há o fato de que funcionários mal-intencionados podem ser os próprios hackers. Ricardo Caiado, advogado especializado em compliance e cibersegurança do escritório de advocacia Campos Mello, conta que um de seus clientes sofreu com o vazamento de dados. Após a demissão de alguns empregados, uma pessoa que trabalhava no RH da empresa enviou a um advogado trabalhista os contatos dos ex-funcionários. O objetivo era que o advogado prospectasse clientes para sugerir processos trabalhistas. “Fomos acionados para avaliar se era o caso de informar a Autoridade Nacional de Proteção de Dados”, diz Ricardo. Embora não seja possível garantir que não haverá um comportamento errado de um funcionário, as empresas podem se proteger. Por isso que o investimento em segurança digital não deve ser subestimado – embora 35% das companhias na América Latina e na Europa tenham diminuído o orçamento dessa área em 2020, segundo a Minsait. Adotar mecanismos de proteção, capacitar pessoas e adquirir dispositivos de trabalho próprios geram custos que, embora altos, devem ser vistos como inegociáveis. Afinal, os prejuízos de ataques e vazamentos são financeiros, penais e de reputação. E nem sempre a imagem corporativa sobrevive.

Um caso elucidativo é o da americana SolarWinds, especializada em tecnologia e que possui diversos contratos com o governo norte-americano. Em março de 2020, seu sistema foi invadido por hackers que, uma vez dentro da rede, invadiram diversos clientes, como órgãos do governo dos Estados Unidos e companhias como a Microsoft. Até hoje, apesar de a SolarWinds alegar que já resolveu o problema, muitos especulam que não é exatamente o caso. Há dúvidas sobre a origem do ataque, com suspeitas de espionagem Russa (o que não foi possível detectar) e de que há informações sensíveis que continuam expostas e acessadas. Em audiência pública para comitês federais, o CEO da SolarWinds culpou um ex-estagiário pelo uso de uma senha fraca, que seria “solarwinds123” e teria vazado em um fórum na deep web (usada, entre outros crimes, para divulgação e venda de dados). A empresa, segundo ele, falhou em identificar o problema e alterar a senha. Se a explicação for verdadeira, é chocante que o sistema de uma companhia de tecnologia tenha permitido um erro tão primário quanto uma senha fraca.

PROTEÇÃO EM 10 PASSOS

Eduardo Bezerra, líder de seguros cibernéticos da Wiz Corporate, traz conselhos para melhorar a segurança corporativa

1. Nos ambientes físicos, é preciso haver acesso restrito a locais onde se trabalhe com dados sensíveis, como os departamentos jurídico e de gestão de pessoas

2. Nunca deixe documentos expostos e com fácil acesso – às vezes o hacker está dentro da empresa

3. Triture todos os documentos em papel que tenham sido digitalizados e estejam seguros no sistema

4. Não deixe senhas em post-its colados no computador, nem salvas em blocos de notas ou anotadas em cadernos

5. Crie momentos periódicos para trocar as senhas

6. Adote um sistema de validação de senha em duas etapas. O token, que envia uma mensagem de confirmação da senha, costuma ser eficiente

7. Evite receber currículos e documentos externos em pen drives, que podem conter vírus

8. Faça treinamentos para impedir que os funcionários caiam em golpes virtuais

9. Adote antispam e antivírus com tecnologia endpoint detection and response (EDR)

10. Considere contratar um seguro de cibersegurança

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 15 DE JANEIRO

CELEIROS ABERTOS

Havendo, pois, fome sobre toda a terra, abriu José todos os celeiros… (Genesis 41.56).

O Egito, a terra dos faraós e das pirâmides, vivia um tempo de fome. José, o jovem hebreu, filho de Jacó, neto de Isaque e bisneto de Abraão, está no Egito por providência divina. Deixou a prisão para ocupar  o cargo de governador  do Egito. Depois de sete anos de fartura,  quando as safras abundantes foram armazenadas cuidadosamente, a fome prevalece por todos os lados. O Egito torna-se, então, o celeiro do mundo. Abastece a terra. Supre as necessidades de caravanas que vêm de todas as partes em busca de pão. Até mesmo os irmãos de José, que o haviam vendido como escravo ao Egito, precisam curvar-se diante deste príncipe provedor. Esse fato lança luz sobre uma gloriosa verdade espiritual. José, tipo de Cristo, é chamado de salvador do mundo. Jesus é o Salvador do mundo! Ele veio ao mundo como o Pão vivo que desceu do céu. É o único que pode migar a fome da nossa alma. Há uma fome que assola toda a terra. Fome não do pão que perece, mas de Deus. Fome não das coisas do mundo, mas das coisas celestiais. Fome não do que é efêmero, mas do que é eterno. As iguarias terrenas não podem alimentar o ser humano. As provisões humanas não nutrem a alma. Somente o Pão vivo de Deus pode satisfazer-nos. Os celeiros de Deus estão abertos. Há pão com fartura na casa do Pai. Os famintos são convidados: … vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite (Isaias 55.1).

EU ACHO …

O PROBLEMA DO MARKETING

O Homo sapiens sem uma boa cognição e como um pássaro de asa quebrada

Se uma propaganda vende pra você um carro e faz você sentir que, comprando este carro, pode ir a uma cachoeira de difícil acesso – no caso de um carro ter tração nas quatro rodas – , ela não está mentindo. Mas se um comercial de banking diz que se você abrir uma conta no banco X, você será o tipo de jovem que deixará “sua marca no mundo”, ele está mentindo.

Qual a diferença entre um comercial e outro? Por que um deles mente e o outro não? A diferença está no alcance da promessa. Alcançar cachoeiras difíceis é algo de pequeno impacto na percepção que alguém tem de si mesmo, da sua vida, da sua personalidade, das suas expectativas.

Quando dizemos a um jovem que ele, comprando um produto X, deixará uma marca no mundo, estamos mentindo sobre seu futuro: quase zero por cento da humanidade deixa alguma marca no mundo ­ algumas delas péssimas – , ao passo que embutir essa expectativa como estilo de vida tem um custo altíssimo em termos do cotidiano que alguém vive.

Parte da pré-história e da história da nossa espécie foi gasta num esforço descomunal para fazermos a diferença entre realidade e fantasia, por motivos, principalmente, de sobrevivência. Mas essa questão da sobrevivência nos escapa da consciência hoje.

Por exemplo, nossos ancestrais, idênticos a nós, passaram quase o tempo todo de suas vidas com fome e hoje as maiores frescuras do mundo se relacionam a comida. Só a fartura sustenta a frescura com alimentação.

Quando o mundo faz a guinada que está fazendo, e o marketing assume a liderança das narrativas, assumimos que existem em nós super-heróis, micos, deuses e deusas, demônios e efeitos sobrenaturais, o que, evidentemente, não existe. Brincamos com danos psicológicos e sociais empacotados pra presente. O marketing é um retrocesso cognitivo na evolução da espécie. O Homo sapiens sem uma cognição aguçada é como um pássaro com a asa quebrada.

No momento que o marketing se fez disciplina existencial, passando a vender estilos de vida, identidades sexuais e outros valores morais, projetos políticos – aqui a mentira é facilmente detectada para quem tem olhos pra ver – e significados para a vida, ele passou a se constituir numa percepção de realidade de alto risco, estragando a capacidade de fazermos a diferença entre fato e ficção. É como se o mundo fosse um eterno Carnaval em que a quarta-feira de cinzas nunca chega.

O capitalismo avançado apenas quer vender. Tendo saturado as sociedades ricas de produtos materiais, ele passa a vender produtos imateriais, e, com esse passo, ele opera uma ruptura metafísica, digamos, em que optamos por viver num mundo em que nós mesmos somos mera ficção – a melhor ficção possível, duro, mas nem por isso, menos irreal.

Todas as realidades psíquicas passam pelo crivo da fantasia e saem do outro lado como a “melhor versão de mim mesmo”. Mentira. Posso me reinventar. Mentira. Deixarei minha marca no mundo. Mentira. A prosperidade é uma questão de assertividade. Mentira. A esmagadora maioria foi, é e continuará sendo pobre.

A maior chance é que você envelhecerá só e que terá tido uma vida absolutamente irrelevante, se a sociologia estiver certa. O arquétipo da mentira aqui é que você seja uma pessoa diferente, especial, única. Mentira. Você é apenas banal. Esse arquétipo tem a parceria dos pais, que são os primeiros a comprar o marketing de “deixar uma marca no mundo”.

Muitos profissionais da área não têm a mínima ideia de tudo isso porque a formação é muito fraca. Munidos de teorias psicológicas miseravelmente comportamentais, reforçam apenas os mecanismos fantasiosos na relação com a realidade com nós mesmos. Com a entrada do digital, o processo eleva sua agressividade mitológica ao nível da vida privada como mercadoria e do sujeito como commodity.

Por outro lado, o marketing poderia ser de fato “disruptivo” e elevar o nível da reflexão, como alguns profissionais têm tentado, e parar de mentir. Muitos adultos estão ávidos por pessoas que mintam menos para eles. Estão cansados de serem tratados como retardados mentais.

*** LUÍZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

OS MISTÉRIOS E BENEFÍCIOS DA MACONHA INTERIOR

Ciência investiga os endocanabinoides, substâncias produzidas no corpo humano semelhantes às encontradas na canabis. Com ação na dor, memória e apetite, esses compostos podem ser ativados por hábitos saudáveis

Ela está no cérebro durante uma noite de sono reparador e inunda o corpo de bem-estar após um exercício. Flui para controlar a dor e se manifesta em toda parte do corpo que habitamos. É a nossa maconha interior, o sistema de moléculas produzidas pelo próprio organismo humano e batizado pela ciência de endocanabinoide. Ou seja, canabinoides, como os compostos da cannabis sativa, que feita pelas células humanas (endo, de interno).

Agora, uma análise de cientistas brasileiros mostra que é possível regular e potencializar os efeitos da maconha de cada dia por meio de dieta, atividade física e meditação – a tríade do bem-estar que a cada dia se mostra mais poderosa.

O sistema endocanabinoide é um dos mais misteriosos e cruciais mecanismos do organismo. Funciona como uma rede de substâncias químicas que conectam o cérebro ao resto do corpo. Ele regula algumas das funções mais essenciais, como aprendizado, memória, controle da dor, da temperatura, do estresse, da inflamação e do apetite.

Essa maconha humana está na base de uma nova medicina e tem sido internamente estudada por labora tórios farmacêuticos em busca de drogas com aplicações em quase todo tipo de doença, como depressão, obesidade e diabetes.

Porém, não é preciso esperar passivamente que novos medicamentos cheguem às prateleiras das farmácias. A ciência revela que essas pequenas moléculas que fluem pelo cérebro e estão em nossa carne, vísceras e ossos podem ser moduladas por nossos hábitos.

FATORES ESTIMULANTES

A maior e mais recente revisão científica sobre o que se sabe dos endocanabinoides mostra que exercícios, meditação e alguns alimentos podem ativar e controlar seus níveis no corpo.

“A força dessa espécie de maconha interior tem o poder de transformar a medicina. Com hábitos saudáveis ajudando nosso corpo a manter níveis adequados de endocanabinoides”, afirma o neurocientista Ricardo Reis, do Laboratório de Neuroquímica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele é um dos pioneiros no estudo dos endocanabinoides no Brasil e principal autor do novo artigo, intitulado “Qualidade de vida e uma revisão do sistema endocanabinoide humano” (em tradução livre do inglês) e publicado na revista Frontiers In Neuroscience, uma revisão do que se sabe sobre o tema. Reis destaca que os endocanabinoides têm funções antioxidantes, anti-inflamatórias e na proteção das células, com potencial terapêutico para doenças neurológicas e obesidade.

Esse sistema é difuso e existe na superfície das células. É composto pelos endocanabinoides em si e por seus receptores. Os canabinoides são dois. O primeiro é a anandamida, cujo nome vem do sânscrito e significa graça ou benção. O segundo é desprovido de sedução na denominação. É o 2-anaquidonoilglicerol ou 2-AG.

O outro braço do sistema fica também na superfície das células e é composto pelos receptores dos canabinoides, sejam endo ou fito. Chamam-se apenas CB1 e CB2. O primeiro é o receptor celular mais ativo no cérebro. O segundo está mais ligado ao sistema imune.

A anandamida e o 2-AG são moléculas de lipídios, cuja função é mediar sinais de mensagens químicas trocadas pelas células. Ou seja, são gorduras do bem mensageiras, cuja porta de entrada são CB1 e CB2. Sua função primordial é manter corpo e mente em equilíbrio. Por isso, estão em toda parte.

O organismo humano, porém, necessita de ajuda externa para produzir e manter o nível certo de endocanabinoides. Para fabricar essas gorduras, ele precisa dos ácidos graxos ômega 6 e ômega 3. O primeiro é abundante em alimentos, nas gorduras em geral. Está, por exemplo, em ovos, óleo de soja, carne vermelha.

Já o ômega 3 é naturalmente mais escasso, sobretudo na dieta baseada em alimentos industrializados. Ele está presente em óleos de peixes de carne escura, como salmão, atum, cavala, bonito, nas nozes, na linhaça e na chia, por exemplo.

O corpo humano precisa de uma proporção de 4 a 5 moléculas de ômega 6 para cada molécula de ômega 3.

Mas a alimentação saturada de gorduras ruins típica da dieta ocidental faz com que essa proporção seja de 20 do tipo 6 para apenas um da 3.

“Isso é um problema porque todos esses alimentos, que não eram baratos, estão proibitivos. Muitas vezes, a solução é a suplementação, mas mesmo ela é cara. Infelizmente, há desigualdade no acesso de nutrientes”, frisa a cientista Isis Trevenzoli, do Laboratório de Endocrinologia Molecular, do mesmo instituto da UFRJ e coautora da revisão geral sobre os endocanabinoides.

A dieta tem influência tão poderosa que seus efeitos são passados de mãe para os filhos. Estudos de Alinny Issac, do mesmo grupo de Reis e também coautora da análise, revelaram que filhotes de ratos com uma dieta pobre em ômega3 e excessiva em ômega 6 nascem com receptores do cérebro alterado e propensão a engordar.

Os endocanabinoides não são o único mecanismo por trás da obesidade, que tem múltiplas causas, mas são um componente importante, observa Trevenzoli.

A ação da atividade física era conhecida há mais tempo. Estudos mostraram que exercícios levam à liberação de anandamida. Ela, na verdade, é a responsável pela sensação de êxtase relatada por corredores e ciclistas e conhecida como “runner’s high”, ou “barato do corredor”. Além disso, eles “treinam” o metabolismo para dosar a maconha interior.

MEDITAÇÃO PLENA

A meditação regular também induz as células do cérebro a liberarem endocanabinoides, associados à sensação de plenitude.

“Pessoas com níveis de endocanabinoides equilibrados são menos vulneráveis aos efeitos nocivos do estresse”, observa Reis.

Parte do mistério da maconha interior está em descobrir a concentração ideal. E nisso o corpo humano é terra quase incógnita. Em excesso no hipotálamo, causa fome descontrolada. Não à toa a canabis provoca a larica.

Em outras partes cerebrais, os endocanabinoides produzem vários efeitos, como redução da ansiedade e depressão e controle da dor. Nos rins, melhoram a filtração.

A maconha interior foi descoberta nos anos 1990, quando cientistas investigavam o potencial terapêutico do canabidiol do THC, os dois principais dos mais de 400 canabinoides da planta.

É por isso que o canabidiol e o THC, chamados de fitocanabinoides (de fito, vegetal), têm ação terapêutica tão vasta e poderosa, explica a farmacêutica Luzia Sampaio, também no Laboratório de Neuroquímica.

“Fito e endocanabinoides se complementam. O canabidiol, por exemplo, aumenta a concentração da anandamida. Essa é a grande vantagem dos fitocanabinoides. Já os canabinoides sintéticos não são tão bons porque competem com os endocanabinoides”, diz Sampaio, autora de um estudo sobre essas substâncias e a dor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GASTOS DE VINGANÇA

Foram dois anos de vida monástica. Quem conseguiu poupar agora usa o cartão de forma frenética. Cortesia do nosso cérebro, que não consegue controlar os impulsos muito bem. Entenda o que são os “gastos de vingança”.

Virou tendência na china. Depois de meses de lockdown em várias regiões – um dos mais rigorosos já adotados no mundo, com início ainda em janeiro – , os consumidores saíram às compras em abril de 2020 para comemorar a reabertura do país. Nisso, esbanjaram mimos para si mesmos nas redes sociais, às vezes com o termo “consumo de reparação”. Nos seis meses que se seguiram àquela reabertura, a palavra foi citada pelo menos 3,5 milhões de vezes em postagens nas redes sociais, segundo a consultoria Linkfluence.

Nesse frenesi consumista, um café na cidade portuária de Qingdao viralizou ao vender seu tradicional chá de bolhas (uma bebida gelada e com bolinhas crocantes de tapioca) em um copão gigante, a oito vezes o preço adicional. A justificativa é que o exagero era para matar a saudade do chá nos três meses anteriores. Empresas como McDonald’s e Nestlé começaram a usar o mesmo termo em suas redes sociais chinesas para incentivar o consumo de suas marcas.

Foi por causa da China que, ainda em meados de 2020, a ideia de que as pessoas voltariam com tudo às compras no pós-pandemia começou a circular no mundo ocidental. O nome mudou para revenge spending, ou “gasto de vingança”, uma vontade irrefreável de comprar mais do que o normal após um período estressante ou de privação do consumo. O termo não é exatamente novo. O lance é que pessoas praticavam gastos de vingança quando conseguiam um trabalho após meses de desemprego ou depois de uma doença que havia exigido uma mudança temporária de estilo de vida, por exemplo. Os dois últimos anos criaram um cenário em que o mundo todo ficou ao mesmo tempo estressado e privado de gastar – e agora está pronto para tirar o atraso.

A China deu mostras bastante concretas da força do fenômeno nos segmentos de luxo. A marca francesa Hermes, por exemplo, faturou USS 2,7 milhões em vendas somente no dia de reabertura de sua loja principal em Guangzhou, em abril do ano passado. Foi o dia mais lucrativo para qualquer loja de artigos de luxo na China, segundo a mídia local. Em maio do mesmo ano, a marca de joias Tiffany viu uma queda de 40% em suas vendas globais, mas teve um aumento de 90% nos gastos na China Os resultados fizeram com que nomes como Dior, Cartier e Michael Kors direcionassem mais recursos para o país asiático.

Seria questão de tempo até isso se repetir no Ocidente – e, de fato, está acontecendo. O que mudou foi o timing. Agora que a maioria dos países de alta e média renda ostentam altas taxas de vacinação, e as fronteiras e o comércio pelo mundo parecem reabrir para ficar, o revenge spending dá sinais de que engatou.

POUPANÇA INVOLUNTÁRIA

A ideia de que o consumo vai aumentar porque as pessoas querem comprar mais no pós-pandemia não conta a história toda. Na verdade, grande parte do fenômeno esperado do revenge spending depende do fato de que as pessoas podemcomprar mais.

É que a pandemia criou um cenário contraditório no mundo. De um lado, o desemprego no Brasil decorrente da crise fez o ato de poupar quase impossível para uma parcela significativa da população. Mas quem teve a sorte de se manter empregado e migrar para o regime de home office se viu numa situação em que, quem diria, ficou mais fácil economizar.

Com bares, restaurantes e baladas fechados, o lazer foi parar nas telas de computadores e televisão. A Netflix já estava paga. Sem o transporte para o trabalho, economizamos, além de tempo, o dinheiro da gasolina, da passagem e do Uber naquele dia de atraso. E, ainda que o e-commerce tenha crescido, tem menor apelo para o gasto supérfluo que as voltinhas no shopping  “só para dar uma olhadinha” (e que sempre terminavam com uma comprinha ou outra).

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelou o seguinte: entre os brasileiros que conseguiram economizar, a opção “deixei de sair (ir a festas, viajar, beber e usar o carro)” foi disparado o motivo principal na criação da poupança, citado por 56% dos pesquisados (em 2019, o número foi 34%). É um patamar acima do clássico “guardei uma parte do salário todo mês”, citado por 11%. O impacto da pandemia foi tão grande que 7% deles – o que se traduz em mais ou menos 2,5 milhões de pessoas na população geral – afirmaram que guardaram dinheiro porque “não tinham onde gastar”.

Segundo dados do Cemec-Fipe, a poupança dos brasileiros cresceu R$ 334 bilhões em 2020, depois de ter encolhido R$ 314 bilhões um ano antes.

Não é exclusividade nossa. Em fevereiro de 2021, os americanos tinham um total de USS 2,4 trilhões em economias – USS1 trilhão inteirinho a mais do que o valor registrado no mesmo período de 2020, segundo o Departamento de Comércio dos EUA. Resultado, em grande parte, do polpudo auxílio emergencial e demais benefícios do governo, diga-se.

E eles estão dispostos a abrir a carteira. Uma pesquisa da consultoria Survey Monkey descobriu que quase 70% dos adultos americanos planejam gastar mais do que o normal nos próximos anos em ao menos uma categoria, como “alimentação” ou “viagem”. Pesquisas na Europa e na Austrália mostram tendências parecidas.

É aí que entra a segunda parte do fenômeno: querer gastar. A chave aqui é o “gastar mais que o normal” – afinal, o fenômeno do revenge spending não é apenas a retomada das compras, mas um frenesi de gastos que não ocorreriam em situações normais, mesmo com essa quantia de dinheiro guardada. Cortesia do nosso cérebro, um bicho bastante irracional quando o assunto é finanças.

SEM AUTOCONTROLE

Comprar traz prazer. Estudos já mostraram que pensar em compras já é o bastante para ativar áreas do cérebro ligadas à dopamina, o neurotransmissor do prazer. Imagine concretizar a aquisição, então. “Nós estamos sempre propícios a consumir porque achamos, em geral equivocadamente, que isso vai trazer realmente uma gratificação muito grande”, explica Vera Rita de Mello Ferreira, professora e especialista em psicologia econômica. É só a dopamina mesmo. E passa rápido.

Mas nem por isso saímos torrando todo nosso dinheiro e nos afundando em dívidas só para nos sentir bem – pelo menos não deveríamos, ainda que aconteça com algumas pessoas. É que somos dotados de uma capacidade especial para evitar situações como essa: o autocontrole.

Só que aí entra o fator pandemia. A nossa capacidade de segurar os próprios impulsos é finita, explica Vera Rita. E, ao longo da pandemia, tivemos que usá-la quase à exaustão: máscaras o tempo todo, álcool em gel, não sair sem necessidade de casa etc. Por dois anos, nos privamos do jantar especial, das idas ao cinema, das compras e de viagens. “Nós passamos a nos policiar o tempo inteiro, e esse monitoramento intensivo por quase dois anos nos deixou esgotados e sem a menor condição de exercer autocontrole.” Resultado? Aquelas comprinhas, que em situações normais você deixaria de lado pensando na fatura do cartão de crédito no fim do mês, passam quase sem culpa. A sensação de “eu mereço” prevalece – mesmo em casos de preços salgados.

Não só. Em contextos de tristeza, temos a tendência a ignorar o que a psicologia econômica chama de efeito-posse – o apego que temos às nossas coisas. Quando estamos para baixo, damos menos importância a elas. Aí, em busca da alegria da dopamina, continuamos a comprar. Tal como um vício, o efeito é cada vez mais efêmero e é preciso repetir a dose a todo instante.

Há outras explicações possíveis para gastos específicos. O mercado de luxo, por exemplo, se beneficia da retomada do convívio social como um todo – afinal, depois de mais deum ano usando pijama no dia a dia, nada como ostentar roupas de grife, bolsas ou uma joia. A XP recomenda a compra das ações da Vivara justamente por apostar no fenômeno.

EMBARQUE AUTORIZADO

O fato é que as justificativas para esbanjar não faltam, para a alegria de quem ainda tenta curar as chagas da pandemia. À Bloomberg, o CEO da Lamborghini creditou os bons números da companhia ao fenômeno do gasto de vingança. Na Califórnia, a Disney aumentou o preço do seu ingresso mais caro à Disneyland em 6.5% – confiantes que os consumidores vão comprá-los mesmoassim.

Nenhum outro setor sofreu tanto e se beneficia igualmente do revenge spending quanto o turismo. O presidente da Azul afirmou recentemente que nunca viu tanta demanda por passagens aéreas no final do ano – os preços já saltaram 50,36% em 12 meses até outubro. O Google diz que, em setembro, as buscas por viagens bateram o nível pré-pandemia, e a Abear (a associação das companhias aéreas) espera que a quantidade de voos alcance essa marca no começo de 2022, tamanho o interesse dos brasileiros de voltar aos ares.

O calendário de entrevistas para obter o visto americano está sem datas disponíveis até dezembro de 2022 – os EUA reabriram suas fronteiras para brasileiros em 8 de novembro, mas os consulados, com capacidade reduzida devido à pandemia, não estão dando conta de tanta gente querendo entrar. Faz sentido que o “turismo de vingança” deslanche agora. Afinal, dá para comprar quase tudo na internet, mas não viagens. Segundo Frederico Levy, vice – presidente da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), o setor já via o revenge spending mesmo antes da melhora dos números da pandemia – viagens demandam preparação, e os consumidores começaram a procurar planos já pensando no calendário da vacina. Com a alta da demanda, também subiram os preços, mas isso não impediu que as compras seguissem, como é típico dos gastos de vingança. “Só não vemos um boom generalizado porque os países estão reabrindo suas fronteiras de forma e em tempos diferentes, mas é um movimento claro”, diz Frederico.

Quem trabalha na área vê de perto o fenômeno. É o caso de Maria Lina Colnaghi, dona da agência de viagens Vida Modo Avião. No auge da pandemia, o negócio praticamente congelou – e ela teve que voltar para a área de comunicação, em que é formada, para sobreviver. Com o avanço da vacinação, e com a reabertura de vários países do mundo a partir de junho, começando pela Suíça, a demanda voltou a crescer – no pique revenge spending.

Não só as viagens voltaram como elas estão de cara nova, aliás. Os um pouco mais endinheirados se aventuram por classe executiva e escolhem a dedo o hotel cinco estrelas em que vão se hospedar. Mesmo quem ainda mantém um orçamento de férias em escala humana tem se dado pequenos luxos, antes impensáveis. “Tem gente que colocava pelo menos duas ou três viagens na pauta anual e acabou com essa grana reservada. Agora os preços dispararam por causa da demanda, mas eles dizem “não importa, eu quero viajar, não aguento mais”, diz Lina. De quebra, ainda desembolsam mais para privilégios pouco procurados em tempos não pandêmicos, como piscina privativa e transfer particular do aeroporto para o hotel – uma combinação entre distanciamento social e conforto.

Embora a vontade de gastar seja perfeitamente normal, a vingança pode acabar exagerada e prejudicar um dos poucos ganhos da pandemia: poupar sem esforço. A culpa não é totalmente nossa. Autocontrole é algo difícil, ainda mais depois de dois anos tão estressantes. Especialistas recomendam o de sempre: evitar se expor a tentações. Seja na voltinha no shopping, seja no Instagram com seus anúncios. “Se você está fazendo dieta, não vai sentar na frente de uma doceira e ficar olhando para todas aquelas delicinhas tentadoras”, diz Vera Rita. “Estabelecer um tempo para uso de redes sociais, que ficam toda hora enviando anúncio, é uma coisa que pode ajudar.” Você vê outras dicas de como não cair em ciladas no box da dupla anterior. Mas, antes de tudo, lembre-se: depois de tanto tempo de sacrifício, um mimo ou outro não vai te fazer mal.

COMO NÃO EXAGERAR

PLANEJE

É normal querer gastar mais depois de tanto tempo de autocontrole. Mas sem planejamento não rola. Se você decidiu tirar o escorpião do bolso, calcule antes quanto vai gastar nas compras extras. Também vale ver se o melhor não é aproveitar para realizar um projeto mais sólido para a sua biografia –  tipo aquela viagem que nunca rolou por falta de organização financeira.

LIMITE AS TENTAÇÕES

Se o objetivo é não exagerar, evite passeios no shopping e faça uma limpa no Instagram. Alguns cartões permitem que você reduza temporariamente o limite de crédito. E adie compras em alguns dias – pode acreditar: o tempo faz você reavaliar o quanto deseja alguma coisa.

INVISTA AUTOMATICAMENTE

Dinheiro na mão é vendaval. Daí que o jeito de não torrar suas economias é tirá-las da conta- corrente e transferir para algum investimento. O objetivo é fazer com que o saldo desapareça da sua tela inicial. Aproveite o momento de pagar boletos para concretizar esse autoengano. E, claro, use a deixa para buscar moradas mais rentáveis para o seu dinheiro.

OUTROS OLHARES

CAEM AS MÁSCARAS

O movimento da beleza natural, tão falado durante o confinamento… Será que persiste nesse verão mais flexível?

Em tempos de quarentena, muito se falou sobre a valorização da beleza natural das mulheres. Foi preciso encarar o espelho sem tantos recursos disponíveis e passar a conviver com fios brancos, unhas sem esmalte, rostinho lavado, sobrancelhas desalinhadas … E não é que uma boa parcela gostou e deu voz ao movimento?

Agora, após quase dois anos dominados pela pandemia da Covid, o Rio surfa em uma crescente flexibilização com o avanço do número de vacinados. As máscaras estão caindo (calma, tem um sentido figurado aqui… Liberada apenas ao ar livre e, mesmo assim, todo cuidado é pouco)! O ponto é: a tal aparência ‘como vim ao mundo’ vai se sustentar? Como as mulheres estão deixando a quarentena rumo ao verão carioca, estação mais sedutora do ano?

Segundo a empresa de pesquisa global Euromonitor, a volta ao “normal” está acelerando o mercado brasileiro de saúde e beleza, com expectativa de fechar o ano com crescimento em torno de 4,6%. Nos salões e consultórios dermatológicos, as agendas encheram. Recuperar o tempo perdido? A dermatologista Denise Barcelos afirma, sem titubear, que a preocupação com a aparência e a busca por tratamentos aumentaram muito, Porém, com uma percepção nítida de que há uma nova forma de se cuidar, como reflexo desse período. O excesso de preenchimento vem dando lugar a recursos bem mais voltados para viço, textura e firmeza da pele. “Arrisco dizer que a artificialidade dos rostos iguais vai finalmente ceder para a naturalidade sim. Na minha clínica, a procura está maciça nesse contexto. As pessoas me pedem para derreter os excessos de preenchimento e cuidar verdadeiramente da qualidade da pele. Não dá mais para adiar uma beleza consistente, não adianta só empurrar poeirinha para debaixo do tapete… A pandemia trouxe a meu ver, uma luz e mais consciência sobre a necessidade de um organismo mais saudável, que responderá muito melhor aos tratamentos para estimular colágeno. Não à toa essa procura por meditação e ioga deu um boom depois de meses de isolamento”, defende a médica.

A antropóloga Mirian Goldenberg estuda o tema e recorre, entusiasmada, à palavra “explosão” para definir o período atual. Para ela, o desprendimento dos padrões de beleza se disseminou fortemente com a pandemia  “A maior queixa das mulheres na quarentena foi a de que se sentiam sobrecarregadas, precisando dar conta de tudo e de todos. Nesse cenário, tiveram que reconhecer prioridades e deixaram um pouco de lado os rituais de beleza. Por outro lado, foi libertador! Muitas já queriam assumir cabelos brancos, por exemplo, mas não conseguiam porque há 15 anos, isso era raríssimo, visto como desleixo. Agora, o maravilhoso é ter modificado algo que era desviante, considerado feio. Não é só aceitar, é enxergar como bonito. Mudou o olhar. E o importante não são quantas mulheres já se libertaram, mas como … Estão “militando”, comemora Mirian. A antropóloga traça uma relação com sua tese de doutorado sobre Leila Diniz como a protagonista de uma revolução, causada quando ela apareceu coma barriga de grávida para fora, em 1971. “Não foi apenas uma moda, representou uma libertação, e todo um contexto que mudou depois. Não dá para comparar Leila a nada, mas há algo similar acontecendo.

Pode deixar a celulite aparecer, as rugas, os brancos e ser atraente, feminina. O que quero ressaltar é que esse movimento começou há muito tempo, uns 20 anos, mas agora explodiu”.

Empresa especializada em previsão de tendências de comportamento e consumo, a WSGN endossa a teoria de que algo mudou no conceito de autocuidado feminino – o que não significa o desinteresse por cremes, tintas e tratamentos.

Só que existe um olhar holístico em alta, envolvendo a relação da beleza com o bem-estar mental e enaltecendo a estética natural. Seguindo essa linha, faz sentido a queda nas vendas de maquiagens enquanto as de skincare sobem. O batom até que vem esboçando reação. Com o uso de máscaras, fácil compreender porque o item ficou em baixa – um decréscimo de 29% nas vendas em 2020 ( maior do que os18% da categoria maquiagem), de acordo com a ABTHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos). Mas de abril para cá, a procura pelo batom começou a subir.

A atenção se voltou para os olhos e as mulheres aprenderam a pintá-los, observa o cabeleireiro e maquiador Fernando Torquatto, que nota ainda que elas chegam ao salão com o desejo por uma pele leve em termos de textura e frescor. “A palavra para descrever esse momento é liberdade. Reparo um conforto maior com sua própria identidade, sem preocupação em agraciar grupos. Tem muito a ver com a pandemia. Depois de experiência com a finitude, as pessoas começaram a se tratar melhor”, diz Torquatto. O cuidado agora, ele acrescenta, é para a ditadura da beleza não ter mudado de lado.

A revolução é poder ser livre, fazer escolhas – não vale transformar esse movimento em uma prisão ao contrário. “Quem se sentir bonita num cabelo branco, está ótimo. Mas quem não quiser, tudo bem. Não podem começar  a ser julgadas por isso”, alerta

A pensadora e especialista em educação Rona Hanning traz a filosofia japonesa para enriquecer a discussão. Tema de uma de suas palestras, o wabi -sabi é a estética da imperfeição. ver beleza onde normalmente enxergam defeitos. “Tudo a ver com o que estamos vivendo. As flores secam e aparecem suas nervuras, ficam lindas. Por que temos que tapar tudo? Tem uma indústria que compreende a beleza como burlar o tempo. Esconder as marcas, cicatrizes… Nesse pós-confinamento, estamos vendo manifestações enérgicas contra isso, quebramos um padrão. Toda crise estabelece novos paradigmas. Esse movimento veio para ficar”, crava Rona.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 14 DE JANEIRO

ASSÉDIO SEXUAL, UM PERIGO REAL

Então, ela o pegou pelas vestes e lhe disse: Deita-te comigo; ele, porém, deixando as vestes nas mãos dela, saiu, fugindo para fora (Genesis 39.12).

José do Egito era um jovem formoso de porte e aparência (Genesis 39.6). Sua patroa pôs os olhos nele e lhe disse: Deita-te comigo (Genesis 39.7). Embora José fosse um jovem, recusou decisivamente esse apelo sedutor. A mulher não desistiu. Repetiu o mesmo apelo todos os dias. Assediou José sem pausa nem trégua. A reação de José foi sempre a mesma: não lhe deu ouvidos. Ao contrário, disse a ela que não poderia pecar contra Deus nem contra o marido dela. O assédio não parou por aí. Chegou a uma situação extrema. A mulher sedutora pegou José pelas roupas e lhe disse: Deita-te comigo (Genesis 39.12). José, porém, deixando as roupas em suas mãos, fugiu porta afora. Preferiu ser acusado publicamente a ser culpado no anonimato. Preferiu a prisão com a consciência livre a ficar livre com a consciência prisioneira. José foi parar na cadeia por sua integridade. Preferiu sofrer como inocente a ser promovido como culpado. José do Egito é um exemplo de que podemos enfrentar o assédio sexual vitoriosamente. O segredo da vitória nessa área é fugir. A mesma Bíblia que nos ensina a resistir ao Diabo nos ensina a fugir da tentação sexual. Ser forte nessa área não é enfrentar, mas fugir. O sexo é uma fonte de prazer e deleite. Porém, deve ser desfrutado com responsabilidade, no âmbito do casamento. O sexo antes do casamento é fornicação, e quem se entrega a essa prática está sob o julgamento de Deus. O sexo fora do casamento é adultério, e só aqueles que querem destruir-se cometem tal loucura. A alegria não está no banquete do pecado, mas na mesa da santidade!

GESTÃO E CARREIRA

LINHA DE FRENTE NÃO TEVE PREPARO PARA O DIGITAL

Por outro lado, trabalhadores essenciais disseram ter aprofundado vínculo com colegas, indica relatório da Microsoft

Mais da metade dos cerca de 2 bilhões de trabalhadores que atuam em setores essenciais da economia – os da linha de frente – sentiram que precisaram aprender sozinhos e de maneira adaptada a usar ferramentas de tecnologia e outras soluções digitais para seguir na ativa durante a pandemia.

O sentimento mundial é compartilhado também entre os brasileiros: 60% dos entrevistados relataram não ter recebido treinamento formal algum para usar novas tecnologias, segundo relatório divulgado pela Microsoft. O percentual global é de 55%.

A publicação da empresa de origem americana ouviu 9.000 trabalhadores em setores industriais para os quais o home office é praticamente impossível. São funcionários da indústria de bens, de automóveis, energia, finanças, hospitalidade, telecomunicações, mídia, varejo e saúde.

“Eles mantiveram as mercearias abastecidas, garantiram que as redes de energia seguissem funcionando, forneceram serviços de saúde essenciais e produziram e distribuíram os produtos dos quais o mundo precisa, tudo isso enfrentando riscos pessoais e contínuas rupturas”, afirma o relatório.

Jared Spataro, vice-presidente de uma divisão da Microsoft batizada de “trabalho moderno” diz que o percentual de trabalhadores da linha de frente que afirmou se sentir sob estresse já era esperado. Mas ele afirma ter ficado surpreso com certa “cultura de preocupação” identificada pela pesquisa.

Segundo a Microsoft, 76% dos trabalhadores da linha de frente disseram se sentir muito ligados aos colegas. Essa proximidade vem, principalmente, do estresse compartilhado durante a pandemia. A média mundial é muito similar ao resultado no Brasil, onde 77% dos trabalhadores desses setores disseram estar mais próximos daqueles com quem dividiram as angústias na crise sanitária.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores da linha de frente disseram sentir que a comunicação precisa ser priorizada a partir do alto escalão.

Entre os que disseram se sentir estressados, 45% citaram a carga de trabalho pesada, 44%, os salários baixos, e 41%, as longas jornadas.

Para os brasileiros, o rendimento baixo foi citado como fator de estresse por 55% dos trabalhadores da linha de frente, que também apontaram entre as preocupações: muito trabalho a ser feito (51%), jornadas muito longas (42%), medo de perder o emprego (34%) e rotina de trabalho rígida (34%).

Outro ponto surpreendente para o executivo da Microsoft foi o que ele chamou de uma visão positiva da tecnologia. Globalmente, 63% dos trabalhadores da linha de frente disseram estar animados quanto às oportunidades de trabalho que podem ser  abertas pelo uso de tecnologias.

Segundo a Microsoft, nesses segmentos de mão de obra, os trabalhadores são tradicionalmente mal- atendidos pela tecnologia.

Outra conclusão do relatório da Microsoft aponta para o que a empresa chama de um ponto de inflexão, em meio a uma grande reorganização do trabalho. Essa inflexão se expressa no estudo, por meio do desejo de melhores salários e balanceamento da vida pessoal com a profissional.

No Brasil, 80% disseram que melhores salários efeito para reduzir o estresse. Para 63%, melhorar o tipo de tecnologia aplicada ao trabalho seria um meio de melhorar as condições. Licenças remuneradas também foram citadas por 57% dos entrevistados.

EU ACHO …

QUEM VOCÊ VAI SER?

A gente é que escolhe o que interpretará na trama do destino

Eu já compreendi que, na vida, a gente escolhe papéis. Cada escolha tem um caráter dramatúrgico, capaz de definir o próprio destino. Na recente passagem de ano, muitos amigos se atiraram nas previsões. Eu tenho uma só, válida para todos os anos. O papel que se escolhe define tudo o mais. Uma mulher que eu conheço adora se fazer de vítima. Segundo seu modo de ver, tudo o que acontece no mundo é para acabar com a vida dela. Imagino que, se ganhasse na Mega Sena, choraria achando que tem algo de oculto e terrível por trás de tudo. Obviamente, não consegue ser feliz. Tudo vai bem: marido, filhos. Mas ela acha que o mundo está contra, e acabou.

Uma vez eu tive um amigo que vivia sempre a mesma situação: por falta de grana, buscava abrigo na casa de alguém. Meses depois, era convidado a se retirar e entrava em depressão.

Arrumava outro lugar para se hospedar. E assim por diante… Eu conheço um sujeito que nunca morou em casa própria, alugada… é um profissional de certo sucesso, mas sempre se dependura em alguém. Há pessoas que se agarram ao fracasso e talvez até se sintam desestabilizadas quando vem o sucesso. Outras mentem compulsivamente, sua vida é uma rede de invenções. Também existem as arrogantes militantes, que escolhem uma causa, e ficam furiosas se você não compartilha de suas ideias por um mínimo que seja – e daí pode ser o fim da amizade. Há as que interpretam as sem-noção e fazem da vida alheia um inferno. Por exemplo, chegam três horas atrasadas em um encontro e abrem as asas furiosas quando a gente reclama. Tem quem vive pedindo empréstimo como uma forma de vida. Há pessoas que vivem causando conflitos. Sem o confronto, não saberiam o que fazer. Ou as que sonham com uma outra vida, mas não montam uma estratégia para realizar. Nunca vou esquecer: uma vez estava em uma fila de autógrafos e uma senhora de idade avançada me pediu uma chance para ser atriz. Nunca tinha tentado realmente. Mas o sonho estava lá, guardado, causando uma frustração que durou décadas. Também conheço gente que se justifica demais, sempre tem explicação para tudo. Mas é incapaz de pedir desculpas, dizer… foi mau.

Também existem pessoas que são pura alegria de viver. Tudo para elas é bom, agradável. Mesmo diante de tragédias, fazem de tudo para superar. Pessoalmente são deliciosas de conviver. Obviamente, a vida sorri para elas. E, se não sorri, elas partem para outra. Enfim, é possível acompanhar a vida da pessoa como uma dramaturgia. Acredito em transformar o destino. Mas para isso a pessoa tem de estar disposta a sair dos papéis escolhidos. O velho ditado é verdadeiro: colhe-se o que se planta.

Um bom exercício é pensar no personagem que criou para si mesmo. Rejeitado? Muito amado? Por incrível que pareça, há quem coloque na cabeça que é feio, e não tem procedimento estético capaz de lhe trazer beleza.

Numa novela é bem difícil o ator mudar de personagem. Mas na vida dá, sempre! Neste ano, quero escolher bons papéis. E, no elenco da minha vida, descobrir com quem realmente quero contracenar.

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

PELOS DO NARIZ PROTEGEM DE RESFRIADOS E OUTRAS VIROSES?

Especialistas examinam os efeitos de aparar ou depilar as narinas no risco de contrair infecções respiratórias

Uma máxima médica afirma que os pelos do nariz filtram o ar que respiramos e, portanto, nos protegem de infecções por vírus, bactérias e outros patógenos transportados pelo ar. Mas, como costuma acontecer com muitas frases feitas, sua validade pode ser mais consagrada do que necessariamente verídica.

A ideia de que os pelos do nariz, conhecidos clinicamente como vibrissas, são capazes de oferecer proteção contra germes infecciosos remonta a mais de um século.

Em 1896, uma dupla de médicos ingleses, em um artigo na revista médica Lancet, observou que o “interior da grande maioria das fossas nasais normais é perfeitamente asséptico (estéril). Por outro lado, na entrada das narinas, as vibrissas que as revestem, e todas as crostas ali formadas, estão geralmente repletas de bactérias. Esses dois fatos parecem demonstrar que as vibrissas atuam como um filtro e que um grande número de micróbios encontra seu destino nas malhas úmidas do pelo que permeia a entrada das narinas”.

A conclusão dos médicos ingleses pode parecer lógica, mas, até então, ninguém havia realmente estudado se aparar os pelos do nariz tornaria mais fácil para os germes penetrarem mais profundamente no trato respiratório.

Foi só em 20ll que a densidade dos pelos do nariz foi rigorosamente estudada como possível agente de doenças. Em um estudo com 233 pacientes publicado nos Arquivos Internacionais de Alergia e Imunologia, uma equipe de pesquisadores da Turquia descobriu que pessoas com pelos nasais mais densos eram menos propensos a ter asma. Os pesquisadores atribuíram essa descoberta à função de filtração do ar dos pelos do nariz.

A observação deles foi interessante, mas veio de um estudo observacional que não pode provar causa e efeito, e a asma não é uma infecção. Os pesquisadores também não fizeram nenhum estudo de acompanhamento para avaliar como aparar os pelos do nariz pode influenciar o risco de asma – ou de infecção.

Demorou até 2015 para os médicos da Clínica Mayo realizarem o primeiro e, até agora, único  estudo para examinar os efeitos do corte dos pelos do nariz.

Os pesquisadores mediram o fluxo de ar nasal em 30 pacientes antes e depois de aparar os pelos do nariz e descobriram que o corte levou a melhorias nas medidas subjetivas e objetivas do trânsito de ar. Inicialmente observaram que as melhorias foram maiores naqueles que tinham mais pelos nas  narinas. Os resultados foram publicados no American Journal of Rhinology and Allergy.

SEM EVIDÊNCIAS

Novamente uma conclusão interessante, mas o melhor fluxo de ar nasal tem relação a um maior risco de infecção?

Nenhum dos estudos abordou essa questão diretamente. Mas David Stoddard, o principal autor do estudo feito pela Mayo, observou que, se alguém trabalha com gesso, por exemplo, “sou capaz de dizer que ele acabou de sair do trabalho pela poeira branca presa nos pelos do nariz. Mas são as partículas maiores que ficam presas. Os vírus são muito menores. Eles são tão pequenos que provavelmente passarão pelo nariz de qualquer maneira. Não acho que aparar os pelos do nariz de alguém os colocaria em maior risco de infecção respiratória”.

Com base no estudo limitado dos pelos do nariz, não há evidências de que apara-los ou depilá-los aumenta o risco de infecções respiratórias. E, assim como pelo menos um especialista que trabalhou na área especulou, provavelmente não.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ABUSOS SEXUAIS, DROGAS E REVERTÉRIO AMEAÇAM REPUTAÇÃO DE PSICODÉLICOS

Prevenção é uma maneira de impedir que predadores acabem com a credibilidade das pesquisas

Psicodélicos tem uma longa história com sexualidade, a começar pelo amor livredos hippies que, corrosivo como seu pacifismo, antecedeu a proibição do LSD e outras substâncias alteradoras da consciência.

Há também um lado perverso e antigo nessa relação, como a recusa da homossexualidade e os abusos sexuais um calcanhar de aquiles para o renascimento psicodélico.

A imagem positiva ressuscitada pela neurociência, agora com os tratamentos promissores para transtornos psíquicos da gravidade da depressão, não combina com a ideia de que possam ser usadas em terapias de conversão, a chamada cura gay.

Como relata Clancy Cavnar, nos anos 1960/70 o LSD chegou a ser usado com a finalidade suposta de tratar a homossexualidade, inclusive por terapeutas cultuados até hoje como Stanislav Grof (ainda que somente com pacientes atormentados por sua condição sexual).

“Os terapeutas que usavam psicodélicos para mudar orientação sexual nos anos 1960 e 1970 eram pioneiros que, baseados na compreensão limitada da homossexualidade na época estavam experimentando, embora isso estivesse sem dúvidas prejudicando os pacientes, não eram movidos por fervor religioso ou negação da ciência esclarecida desde então”, diz a terapeuta da Califórnia, diretora do Instituto  Chacruna em São Francisco.

“Duvido que os poucos provedores remanescentes da terapia de conversão que já foi denunciada amplamente como prejudicial eineficaz, estejam bem informados sobre psicodélicos ou vejam algum potencial neles”.

Cavnar, que dirige o Chacruna ao lado da antropóloga brasileira Bia Labate, dedicou sua tese de doutorado em psicologia aos “Efeitos da Participação em Rituais de Ayhuasca sobre Autopercepções de Gays e Lésbicas de 2011.

Ela cita no texto um documento interno da religião ayhuasqueira União do Vegetal (UDV), de 2008, no qual os dirigentes afirmam “… jamais podemos concordar com a prática do homossexualismo visto que contraria a origem natural da existência humana; ou seja, o relacionamento entre o homem e a mulher, dando início à geração”.

Procurado para esclarecer se mantém a doutrina condenatória da homossexualidade, a UDV limitou-se a reiterar nota enviada ao jornalista Carlos Minuano no ano passado para a reportagem “Psicodelia de Direita”, polarização se acirra entre usuários de ayahuasca”.

Na nota, sem repudiar a “posição religiosa” de 2008, a entidade diz que “seu objetivo é trabalhar pelo ser humano no sentido do desenvolvimento de suas virtudes morais, intelectuais e mentuais, sem distinção de cor, sexo, ideologia política, credo religioso ou nacionalidade”. E ainda: “A UDV aceita todos que a procuram, sem nenhum tipo de preconceito.”

“Há uma ênfase em ideais como o “equilíbrio cósmico”, a “Sagrada família”; a “divina união do masculino e feminino”, a “união dos opostos”, etc., que acaba servindo como base para um discurso heteronormativo, patriarcal e machista”, diz a antropóloga Bia Labate. “Nesse sentido, a “cura dos gays” passa a ser um projeto e uma missão. Infelizmente, isto é muito comum”.

Em contexto clínico profissional, não religioso, essa “conversão” parece hoje impensável em particular depois que a homossexualidade deixou de ser considerada patologia, ainda nos anos 1970. No entanto, como há pelo menos um líder da UDV(Luís Felipe Belmonte) e até médicos e psicólogos na esfera bolsonarista, não seria de todo surpresa se essa gente recorrer a dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca, ou outro psicodélico, para reconduzir ovelhas desgarradas ao que consideram caminho natural da virtude.

“Usar a ayahuasca para “converter gays, eufemismo para “evolução” ou “transformação espiritual” é inaceitável”, diz Labate. “Sabemos que muitos  dentro da UDV são contra o manifesto antigay. Essas vozes precisam ser apoiadas.

Esse abuso potencial, que decerto viria prejudicar a reabilitação progressiva dos psicodélicos para a medicina contrasta com outro, este sim um perigo real, antigo e presente: assédio. Abusos sexuais cometidos por terapeutas profissionais e curandeiros são tão velhos quanto a noção de que esses compostos forneçam panaceias para tudo.

O enredo, que não precisa envolver substâncias psicoativas, é arquiconhecido de escândalos como o de João de Deus, Roger Abdelmassih ou Prem Baba: uma figura de autoridade supostamente investida com o poder de curar ou iluminar; se aproveita da fragilidade do paciente ou discípulo para ter relações sexuais ou, simplesmente,  estuprar.

No caso de psicodélicos, a situação usual de risco vai potencializada por pelo menos três fatores específicos. Primeiro, sua associação com a liberdade sexuais conquistada pelo movimento da contracultura, uma revolução que não se fez sem vítimas.

Muitos provedores de terapias psicodélicas, antes e depois da proibição, são eles próprios adeptos dessas substâncias e de noções não convencionais sobre sexo. No submundo clínico a que essas práticas foram relegadas pela criminalização, a ausência de controle por associações profissionais e o segredo inerente dificultam o surgimento e propagação de denúncias.

Em segundo lugar, a depender de substâncias, o psiconauta pode ficar muitas horas física e mentalmente incapacitado para reagir. Por fim, psicodélicos podem ter algum efeito afrodisíaco, predispondo a pessoa em busca de cura ou bem-estar a investir seu desejo na pessoa do curador.

“Ouvimos muito falar de abuso sexual só por estarmos na comunidade de medicina vegetal por tanto tempo”, diz Cavnar, referindo-se à parceria com Labate. “Há sempre sussurros sobre algum escândalo, mas muita hesitação em expor os praticantes, por causa de implicações legais para todos os envolvidos e sentimentos de proteção para com a própria prática, evitando que seja vista como prática abusiva envolvendo mau comportamento sexual e drogas”.

Cavnar relata conhecer alguns casos de mulheres que buscam aventuras sexuais com xamãs ou encaram o sexo como forma de aprendizado para obter poderes espirituais. “Com mais frequência é o caso de uma mulher intoxicada que não entende o que está acontecendo, numa terra estranha, numa cultura estranha, idolatrando um curador misterioso da selva, que não sabe o que fazer ou quem procurar depois de uma violação.”

Nada disso isenta o terapeuta ou o xamã de responsabilidade, que em realidade aumenta. Mesmo que um participante intoxicado manifeste julgamento equivocado em estado vulnerável, ainda assim compete ao facilitador ou xamã em entender essa vulnerabilidade e proteger o participante, ressalva a psicoterapeuta.

Não que casos de abuso sejam coisa só de clínicas clandestinas e rituais obscuros, como apontou Will Hall num ensaio que correu a comunidade psicodélica em setembro. “Interrompendo o Silêncio sobre Abuso na Terapia Psicodélica “, Hall remonta uma história acabrunhante de denúncias de abuso, como as levantadas contra os terapeutas Rick Ingrasci (1989), que teria estuprado três pacientes após dar-lhes MDMA, e Francesco DiLeo, seu amigo.

O próprio autor do ensaio narra um traumático envolvimento sexual com o casal de terapeutas Aharon Grossbard e Françoise Bourzat, nos anos 1990, em São Francisco. E recupera o caso de abuso denunciado pela canadense Meaghan Buisson, ocorrido em 2015 quando participou como voluntária de estudo clínico com MDMA para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) dirigido por Richard Yensen.

Este último episódio é particularmente preocupante, porque se deu no contexto da pesquisa mais avançada para consagrar um psicodélico (MDMA) como tratamento para um transtorno psiquiátrico (TEPT). O ensaio de 2015 era de fase 2, mas os estudos patrocinados pela Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps) avançaram desde então para a fase 3, e se espera que psicoterapia assistida por MDMA para TEPT receba aprovação da agência FDA em 2023.

Hall critica o fato de formulários de consentimento informado usados nesses estudos em geral não incluírem entre os riscos do MDMA seus conhecidos efeitos sobre o apetite sexual.

A interdição de relacionamento sexual com pacientes antes, durante e depois do tratamento constitui regra básica de qualquer código de conduta para psicoterapeutas, como explicita a própria Maps. Dadas as especificidades da terapia assistida por psicodélicos, contudo, seria prudente dar mais ênfase aos riscos inerentes a a modalidade.

Coincidência ou não, o sexo terá destaque especial na próxima Global Drug Survey, um influente levantamento de usos e práticas com drogas realizado por internet em vários países, incluindo o Brasil. Pela descrição dos objetivos o GDS 2022 parece mais interessado nos efeitos positivos de psicodélicos sobre a sexualidade.

Porém, para evitar de fato o viés edulcorante criticado por Hall, no entanto, haveria que incluir na pesquisa perguntas diretas sobre abuso sexual sofrido sob efeito de psicodélicos em contexto clínico, ritual ou recreativo.

Por raro que seja esse tipo de abuso, conhecer sua dimensão e aperfeiçoar a prevenção são as maneiras seguras de impedir que predadores turvem as águas que mal começam a fluir desimpedidas.

OUTROS OLHARES

A BATALHA DA TORÁ

Feministas religiosas exigem igualdade de direitos para rezar no Muro das Lamentações

Todo mês, quando o sol de Jerusalém começa a se levantar no horizonte atrás do Monte das Oliveiras, um grupo de mulheres se reúne na entrada do Muro das  Lamentações com um objetivo: contrabandear um livro religioso para dentro de um lugares mais sagrados do judaísmo. O livro é o Rolo da Torá, também chamado de Sefer Torá. Em algumas vertentes do judaísmo ortodoxo, o acesso das mulheres ao objeto é restrito: elas não podem recitá-lo, apenas escutar sua leitura pelos homens.

Não é no que acreditam as Mulheres do Muro. Desde 1988, as ativistas feministas fazem questão não só de ler os rolos, mas também de adotar hábitos tradicionalmente masculinos na religião, como usar kipá na cabeça e, nos ombros, o talit, o xale para cerimônias religiosas.

PRESA CINCO VEZES

Na luta por direito iguais, as ativistas já compraram briga com judeus ultra ortodoxos, a Suprema Corte, o Parlamento e o governo de Israel. Por causa delas, ir ao muro com uma Sefer Torá privada foi proibido. Como o lugar é separado entre mulheres e homens e só no lado masculino há rolos públicos, a proibição garante que só eles possam rezar.

“Já fui presa cinco vezes, quatro por usar o talit e uma por tentar entrar com o rolo da Torá”, conta  Lesley Sachs, que pega a estrada de Tel Aviv todo mês para se juntar à reza.

A Sefer Torá não é um livro comum. Há uma versão da Torá impressa, à qual mulheres têm acesso. Já os rolos são produzidos por um escriba com pena e tinta preta num pergaminho de pele de animal costurado à mão. Podem demorar um ano para ficarem prontos.

Asmulheres não são proibidas de rezar no muro ( ou KoteI, seu nome em hebraico). Têm, inclusive, uma área reservada. O que incomoda alguns ramos ortodoxos é a adoção de papéis que consideram masculinos. É também objeto de revolta que a reza igualitária “obrigue” os homens a ouvirem vozes femininas.

“Homens ultra ortodoxos não querem ouvir a voz das mulheres. É considerado obsceno”, diz Lesley.

Em resposta ao grupo, o governo passou uma lei dizendo que a reza teria de respeitar os costumes do muro. Domingo passado, a confusão começou cedo. Jovens ortodoxos reclamavam das ativistas que usavam o raio-X  masculino.

“A placa separa a entrada de homens da de mulheres, mas eu acho que tanto faz entro por onde achar melhor”, diz a diretora-executiva Yochi Rappeport.

No dia da reza feminista, a revista é mais intensa do que o normal. Os guardas sabem que elas tentarão entrar com uma Sefer Torá e são orientados a revistar fundos de mochilas e bolsas. Não é toda a sociedade Israelense que se opõe às feministas. Em abril, o rabino reformista Gilad Kariv, recém-eleito para o Parlamento, fez um gesto de solidariedade usando sua imunidade para levar uma Sefer Torá ao muro.

Kariv prometeu repetir a visita em novembro, mas suspendeu os planos depois que o presidente Isaac Herzog se comprometeu a mediar o diálogo para “baixar a temperatura”.

Um juiz também reconheceu os direitos das mulheres de rezarem como os homens, abrindo precedente para a discussão sobre a construção de um espaço igualitário para a reza. Apesar de ter se comprometido com isso no “Acordo do Kotel” de 2016, a pressão dos ultra ortodoxos fez o então premier Benjamin Netanyahu voltar atrás. Hoje, o espaço existe, mas está degradado.

“Não há pressão contra da sociedade, é só um grupo que está contra nós. É o grupo da ortodoxia, que não quer compartilhar a religião judaica com outros grupos. A maioria da população israelense está conosco”, diz a rabina Sandra Kochmann.

A última eleição mudou as perspectivas. Saiu do comando Netanyahu e, junto com ele, foram alijados do poder os partidos ultra ortodoxos. Em campanha para voltar à liderança, o ex-premier aproveita agora para capitalizar no anti­ feminismo e agradar à base ultra ortodoxa. Quando um parlamentar tuitou chamando contra a cerimônia. Netanyahu endossou retuitando o conteúdo que pedia a fiéis que rezassem no local para impedir que o “Kotel fosse profanado”

As ativistas entendem não haver proibição explícita na Torá impedindo mulheres de rezá-la. Esse seria o entendimento dos ortodoxos baseado em interpretações. Eles alegam que o costume é parte da tradição de séculos, uma visão do mundo que não seria discriminatória contra mulheres.

“Na visão judaica ortodoxa, não é que a mulher é tida como um ser inferior ou que a função dela é servir o marido. Ela tem sua função designada e o homem também”, diz o rabino ortodoxo Efraim Schechter. “Elas fazerem isso no Kotel fica uma coisa meio provocativa, já que a maioria dos frequentadores ali é ortodoxa.

‘VÃO ARRUMAR UM MARIDO’

A estrutura para receber as feministas parece mais logística bélica do que religiosa. Cercas de metal separam o caminho do raio-X na entrada até o muro para evitar as cusparadas e os empurrões comuns em cerimônias passadas. As barreiras impedem cenas explícitas de violência, mas não bloqueiam os berros de jovens meninas ortodoxas que se debruçam sobre as grades tentando atrapalhar a cerimônia.

“Elas querem tomar o Kotel para elas. Por que aqui? Elas só vêm aqui para brigar”, diz Ronit Steren, enquanto discute com as ativistas.

O auge da cerimônia acontece quando o mistério é finalmente revelado: sim, as feministas conseguiram entrar com a Sefer Torá. Quando os rolos são levantados no ar, o ambiente fica mais emotivo. Adolescentes americanas que participavam da cerimônia enchem os olhos de lágrimas.

O fim da cerimônia é outra etapa dramática. Dezenas de policiais e soldados do Exército guardam um corredor de isolamento separando as mulheres de manifestantes que as xingam e acusam de profanar o muro. Além de serem acusadas de profanação, há um elemento nacional na disputa. Parte da força do grupo vem da presença de mulheres da diáspora judia, sobretudo dos EUA. Vistas  como estrangeiras anglófonas que só buscam o caos. A concessão que Netanyahu fez quando primeiro concordou em construir uma praça igualitária foi em resposta à pressão de grupos americanos.

“Voltem para a Améríca!” – grita um manifestante. “Vão arrumar um marido!”

No último domingo, ao caos da saída sob protestos de centenas de homens, adolescentes e jovens, que gritavam do outro lado do corredor de isolamento, somou-se a presença do parlamentar da extrema direita Itamar Ben-Gvir.

“Vocês estão profanando a Kotel”, gritava, dedo em riste, usando a imunidade para seguir o caminho de retirada das mulheres por dentro do corredor de isolamento, enquanto apoiadores de fora entoavam “Itamar!”, Itamar!” .

Apesar da oposição barulhenta e da dificuldade de implementar as conquistas na era Natanyahu, há expectativa de mudança e comemoração de vitórias, como o próprio Acordo de Kotel. Um ministro já disse que vai pô-lo em discussão de novo.

“Nossa maior vitória foi o governo ter passado o acordo. Não teria acontecido sem as Mulheres do Muro. Nós mudamos Israel”, diz Lesley Sachs. “Penso nas nossas mães, irmãs, nas sufragistas. Sinto que estamos nos apoiando sobre os ombros delas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 13 DE JANEIRO

O DESAFIO DE SER UM JOVEM PURO

Falando ela a José todos os dias, e não lhe dando ele ouvidos, para se deitar com ela e estar com ela (Genesis 39.10).

A pureza sexual é uma virtude quase em extinção em nossa decadente sociedade. A maioria dos jovens entra no casamento com múltiplas experiências sexuais. O sexo é uma bênção, pois foi criado por Deus, e tudo o que Deus fez é bom e perfeito. O sexo é puro, santo e prazeroso. Porém, o sexo é para ser desfrutado em sua plenitude no casamento. O propósito de Deus é que os jovens se mantenham castos até o casamento. O namoro dos jovens crentes precisa ser criterioso. Limites devem ser estabelecidos e obedecidos. Aqueles que se entregam ao desejo lascivo perdem a alegria espiritual e acabam minando o relacionamento. O apóstolo Paulo é categórico em sua orientação: que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus; e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos claramente, é o vingador (1Tessalonicenses 4.4-6). A pureza sexual é possível, pois Deus não apenas nos dá uma ordem, mas também o poder para cumpri-la. Paulo prossegue: Portanto, quem rejeita isso não rejeita o homem, mas Deus, que vos dá o seu Espírito Santo (1Tessalonicenses 4.8). O poder para uma vida pura vem do Espírito de Deus. Quanto mais cheios do Espírito formos, mais puros seremos!

GESTÃO E CARREIRA

O LADO B DA LIDERANÇA INFORMAL

Incentivar que profissionais assumam postura e funções de liderança dentro das equipes é benéfico para as pessoas e os negócios. Mas é preciso atenção para não acabar sobrecarregando esses talentos

Em um mundo de incertezas e mudanças em alta velocidade, empresas vêm constantemente repensando seus modelos de gestão de modo a se manterem adaptáveis e eficientes. Isso sem perder de vista a motivação e o desenvolvimento das equipes. No contexto atual de ambientes de trabalho dinâmicos e estruturas menos hierarquizadas, profissionais com determinadas habilidades e estilos de atuação ganham a oportunidade de se destacar dentro das equipes como lideres informais. Eles podem não ter autoridade sobre os pares, poder de decisão em questões estratégicas nem autonomia para contratar, demitir e formar equipes, mas acabam desempenhando papel importante no engajamento, no andamento das tarefas e na comunicação com o gestor, por exemplo. Podem ocupar a função temporariamente, na ausência do chefe, ou assumi-la durante a execução de um projeto específico.

“Um líder informal geralmente é aquele profissional que tem influência sobre os colegas por ser carismático e se relacionar bem com todos, tem iniciativa e compreensão das demandas dos projetos e da organização, além de transmitir segurança aos colegas, sobretudo na ausência do líder formal. Ele não necessariamente é designado como representante do time, mas se sobressai naturalmente e se torna um canal direto entre a equipe e o chefe”, diz Vanessa Cepellos, professora da área de gestão de pessoas da FGV­ – Eaesp (veja mais qualidades que esse profissional deve ter no quadro “Como reconhecer uni líder informal?”).

Dar espaço para que os funcionários assumam papéis de liderança informal é uma das melhores maneiras de os gestores demonstrarem reconhecimento e apoiarem seu crescimento, mas não é tudo. É preciso estar presente e “jogar junto”, para que a experiência não acabe custando a saúde, a satisfação com o trabalho e a produtividade desses profissionais, quando não a performance de toda a equipe. De acordo com os achados de uma série de quatro estudos conduzidos por pesquisadores de universidades nos Estados Unidos e na Austrália com trabalhadores, a maioria em início de carreira, esses riscos são reais. A pesquisa foi publicada neste ano no Journal of Organizational Behavior. A explicação é que a dinâmica envolvida em manter o status de liderança, precisando atender às expectativas do chefe e dos pares, ao mesmo tempo que continua tendo que cumprir as atividades previstas para a função ocupada na organização, consome grande esforço mental e cognitivo e pode ser bastante desgastante. Em um dos levantamentos, participantes que tinham posições informais de liderança reportaram níveis de energia e entusiasmo com o trabalho 11% mais baixos do que os colegas que não tinham essa função. A situação foi pior quando os profissionais percebiam que não podiam contar com o chefe para conselho, ajuda ou tomada de decisão – nesse caso, a energia e a satisfação foram 20% menores. Em outro estudo da série, 27 dos 28 trabalhadores entrevistados relataram descontentamento na função de líder informal. Eles associaram a sensação principalmente ao esgotamento (por excesso de tarefas e horas trabalhadas, demandas que extrapolam o cargo, falta de autoridade e de reconhecimento por parte da chefia) e aos estados emocionais negativos gerados por estarem nessa posição (em razão de insegurança, falta de colaboração e confiança dos pares e ausência de reconhecimento e auxílio do gestor).

Um superior presente não só ajuda a diminuir a sobrecarga do líder informal, definindo limites de sua atuação e pegando para si (ou pelo menos compartilhando) responsabilidades-chave como planejamento e monitoramento de entregas da equipe, como também fornece suporte social e emocional – a sensação de poder contar com ele em momentos críticos é suficiente para ajudar a desenvolver autonomia e segurança para tomar decisões. “Além disso, o exemplo acaba vindo dele. Na ausência de um líder em quem possa se espelhar, o profissional menos experiente acaba tendo que encontrar por conta própria maneiras adequadas de exercer seu  papel de liderança informal, o que  pode ser exaustivo e desestimulante”, afirma Chad Chiu, diretor associado do Centre  for Workplace Excellence da University of South Australia e um dos autores do trabalho. “É importante encorajar os profissionais a assumir a liderança, mas também é necessário entender como apoiá-los para que continuem desempenhando papéis de destaque e, com isso, reter talentos valiosos para as organizações”, conclui.

COMO RECONHECER UM LÍDER INFORMAL?

“Liderança é comportamento e atitude, mais do que um cargo ou posição na estrutura da empresa”, afirma a coach executiva Caroline Marcon. Indivíduos que influenciam os demais, seja por causa da confiança estabelecida com os colegas no dia a dia, pela capacidade técnica, história e exemplo de vida, seja pelo comprometimento que têm com o trabalho costumam ser líderes em potencial. É importante que empreendedores e gestores estejam sempre atentos para identificar essas pessoas nas equipes e que, então, se mobilizem para treiná-las e incentivá-las a desenvolver suas potencialidades de forma benéfica para o time, trazer resultados e consolidar os valores da organização e a própria carreira. “Afinal, o verdadeiro líder é aquele que empodera outras pessoas para que também cresçam, ainda que não haja possibilidade de promoção à vista”, diz Caroline. Veja quais competências e características contam na formação de um líder informal.

*** Influência

*** Iniciativa

*** Autoconfiança

*** Boa comunicação

*** Bom relacionamento com a equipe

*** Entusiasmo e disposição

*** Versatilidade e flexibilidade

*** Escuta ativa

*** Capacidade de negociação

*** Ousadia e coragem para assumir riscos

*** Senso de coletividade

*** Diplomacia e facilidade para resolver conflitos

COMO OS GESTORES PODEM AJUDAR

Há diferentes maneiras de estimular e oferecer suporte aos líderes informais na equipe

DEFININDO LIMITES E EXPECTATIVAS

Tanto o líder informal quanto o restante da equipe precisam ter clareza do que é esperado e de até onde vão as atribuições do funcionário que assume mais responsabilidades. “Sem esses limites, o trabalho pode virar bagunça e acabar gerando conflito, disputa de poder entre os pares, insubordinação e frustração para todos”, fala Lígia Costa, mentora de líderes femininas e autora do livro Líder Humano Gera Resultados (Editora Gente). No desejo de entregar tudo o que sabe e superar as expectativas dos colegas e do chefe, pode acontecer de o líder informal se exceder na quantidade de energia ou de tempo dedicado ao trabalho e acabar exaurido, insatisfeito e improdutivo. Conversar e colocar esse tipo de limite no comportamento do empregado também está nas mãos do superior.

RECOHHECENDO E INCENTIVANDO O CRESCIMENTO

Falar em chance de promoção, aumento de salário ou upgrade de cargo é uma forma de apoiar materialmente a dedicação de um profissional destacado como liderança Informal, mas essas possibilidades não devem ser colocadas como condição ou se tornar promessas vazias para que ele aceite mais responsabilidades. Há outros tipos de incentivo a ser oferecidos: cursos, treinamentos e mentoria de liderança ajudam a expandir os horizontes de carreira, e dar autonomia para formação ou ampliação de equipe pode aliviar a possível sobrecarga de atividades no dia a dia.

FORNECENDO FEEDBACKS CONSTANTES

Investir na formação de lideranças informais passa por orientar como elas devem se comunicar com pares, clientes e superiores, avaliar seu desempenho e sugerir maneiras de aprimorar competências necessárias para a função, além de estar aberto a dar conselhos e tirar dúvidas relacionadas ao exercício das atividades. A falta de amparo por parte da gestão formal pode gerar insegurança, ansiedade e paralisia por medo de errar, e acabar afetando a performance e a satisfação do profissional, além do andamento do trabalho.

ATUANDO COMO ALIADOS, NÃO ADVERSÁRIOS

É comum haver insegurança por parte do superior, que passa a se sentir ameaçado ou ofuscado pelo talento do subordinado ou até a ter medo de perder para ele a autoridade sobre o time, o que levaria alguns a pensar em boicotar o surgimento de líderes informais. “Deixar de lado interesses pessoais e pensar no todo da equipe e da empresa ao apostar no desenvolvimento de talentos compartilhando o que sabe é colocar em prática uma mentalidade de abundância e o que se espera de bons líderes”, afirma Caroline Marcon, coach executiva e especialista em desenvolvimento humano.

EU ACHO …

AS HORAS VOAM

Como reduzir o andar da carruagem?

“E mais um ano se passou!” Nas últimas horas que antecederam o réveillon, certamente fizemos comentários como esse. Da mesma maneira que fizemos no fim do ano passado, e do ano anterior, e de todos os outros que vieram antes. A diferença, talvez, é que os intervalos entre os comentários parecem menores a cada vez. “Sim, e passou voando”, ouvimos provavelmente em resposta.

Todos nós já experimentamos a sensação de que não apenas o tempo passa rápido como passa cada vez mais rápido. Só as crianças, ansiosas pela juventude, ficam amuadas ao constatar a lentidão do tempo. A aritmética básica ajuda a explicar a percepção de cada faixa etária. Para uma criança de 5 anos, um ano a mais representa consideráveis 20% da existência; já para quem tem 50, são só 2% a mais. O resultado é a impressão de que quanto mais vivemos, mais o tempo recente parece relativamente menor ao tempo vivido.

A previsibilidade de uma rotina monótona tem peso decisivo nessa percepção. Quando nos esquecemos de desligar o piloto automático, os dias se tornam indistintos, e por isso se sucedem em ritmo acelerado. O trabalho sem desafios, o relacionamento sem manifestações de afeto, o cotidiano que apenas repete situações, as tarefas das quais nos desincumbimos irrefletidamente – tudo isso desestimula a mente, faz com que o nosso cérebro não preste atenção no instante vivido. Aquilo que não mais nos emociona nem nos chacoalha parece contribuir para fazer nosso tempo voar.

Daí a importância de quebrar a rotina. Ninguém precisa fazer uma revolução pessoal por dia nem aderir a radicalismos. Para efeito de estímulo mental, bastam pequenas mudanças. Coisas como alterar um trajeto diário, que se faz de olhos fechados, mudar os ingredientes de uma receita aprovada ou baixar semanalmente um novo aplicativo de celular e aprender os atalhos para usá-lo como um millennial. Podemos também ouvir um gênero musical diferente do que estamos acostumados. Se você gosta de música brasileira, experimente o pop. Se prefere sertanejo, tente um pouco de clássico. Se a sua tribo é metaleira, arrisque umas baladas românticas. O mesmo vale para a atividade física. Não é apenas o corpo que se acostuma a determinados exercícios – a mente também tende a ficar preguiçosa com a repetição. De vez em quando, troque a esteira pela raia, ou vice-versa.

Se a consistência dos hábitos é, por um lado, desejável, a variação não fica atrás. É tornando cada dia realmente único, diferente do anterior e do seguinte, que poderemos nos aproximar da sensação de retardar a passagem do tempo. Se vivermos plenamente cada dia, estaremos criando um repertório de lembranças que nos acompanharão para sempre, dando maior densidade ao tempo.

Se não podemos fazer o tempo retroceder, como o Super-Homem ou a Mulher-Maravilha, é sempre possível nos submeter a esses pequenos desafios, suficientes para provocar sinapses que prolongarão nossas horas neste ano que já começou. Que em 2022 possamos sair do lugar-comum, romper velhos hábitos e viver muitas novas experiências e emoções memoráveis. 

*** LUCÍLIA DINIZ

ESTAR BEM

ATIVIDADE FÍSICA PODE MELHORAR A NOSSA MEMÓRIA

Hormônio produzido pelos músculos durante o exercício a irisina pode entrar no cérebro e aprimorar a cognição nos seres humanos, sugere um estudo promissor conduzido com ratos de laboratório

Um novo estudo intrigante mostra como os exercícios podem melhorar a saúde do cérebro. O experimento foi conduzido em ratos, mas ele descobriu que um hormônio produzido pelos músculos durante o exercício pode chegar ao cérebro e melhorar a saúde e a função dos neurônios, aprimorando o pensamento e a memória em animais saudáveis e também naqueles que tinham uma versão da doença de Alzheimer. Pesquisas anteriores mostram que as pessoas produzem o mesmo hormônio durante o exercício e, juntas, as descobertas sugerem que a atividade física pode alterar a trajetória da perda de memória no envelhecimento e no processo de demência.

Já temos muitas evidências de que o exercício é bom para o cérebro. Estudos em  pessoas e animais mostram que o exercício estimula a criação de novos neurônios  no centro de memória do cérebro e, em seguida, ajuda essas novas células a sobreviver, amadurecer e se integrar à rede neural do cérebro, onde podem ajudar no pensamento e na memória.

Estudos epidemiológicos em grande escala também indicam que pessoas ativas tendem a ter muito menos probabilidade de desenvolver a doença de Alzheimer e outras formas de demência do que pessoas que raramente se exercitam.

Mas como o exercício afeta o funcionamento interno de nossos cérebros em um nível molecular?

Os cientistas especularam que o exercício pode alterar diretamente o ambiente bioquímico dentro do cérebro, sem envolver os músculos. Por outro lado, os músculos e outros tecidos podem liberar substâncias durante a atividade física que viajam para o cérebro e iniciam processos lá, levando a melhorias subsequentes na saúde do cérebro. Mas, neste caso, as substâncias teriam que ser capazes de passar pela barreira hemato­encefálica protetora e impermeável que separa nosso cérebro do resto de nosso corpo.

REDUZ RISCOS DE DEMÊNCIA

Há uma década, essas questões complexas despertaram grande interesse de um amplo grupo de cientistas da Faculdade de Medicina de Harvard e de outras instituições. Em 2012, alguns desses pesquisadores, liderados por Bruce M. Spiegelman e ao lado de Stanley J. Korsmeyer, professor de Biologia Celular e  Medicina no Instituto do Câncer Dana-Farber e da Faculdade de Medicina de Harvard, identificaram um hormônio, até então desconhecido, que era produzido nos músculos de ratos de laboratório e nos seres humanos durante o exercício e depois liberado na corrente sanguínea. Eles batizaram o novo hormônio de irisina, em homenagem a Iris, deusa mensageira na mitologia grega.

Ao rastrear o percurso da irisina no sangue, descobriram que ela frequentemente se concentrava no tecido adiposo, onde era sugada pelas células de gordura, desencadeando uma cascata de reações bioquímicas que contribuíam para transformar a gordura branca comum em marrom. A gordura marrom é muito mais metabolicamente ativa do que a do tipo branco, muito mais a comum, pois ela queima um grande número de calorias.

Portanto, a irisina, ao ajudar a criar a gordura marrom, acelera o nosso metabolismo.

Mas Spiegelman e seus colegas suspeitavam que a irisina também poderia desempenhar um papel na saúde do cérebro. Um estudo de 2019 realizado por outros pesquisadores mostrou que a irisina é produzida no cérebro de ratos após o exercício. Essa pesquisa anterior também detectou o hormônio na maioria dos cérebros humanos doados a um grande banco de cérebros.

Esse estudo sugeria fortemente que o hormônio reduz os riscos de demência. E no novo estudo, publicado em agosto na Nature Metabolism, Spiegelman e seus colaboradores, incluindo Christiane D. Wrann, professora assistente do Hospital Geral de Massachusetts e da Faculdade de Medicina de Harvard, além de autora sênior do novo estudo, se dispuseram a mensurar a ação da irisina.

Eles começaram criando ratos congenitamente incapazes de produzir irisina. Depois colocaram esses e outros animais adultos normais para correrem sobre rodas por alguns dias, algo que os animais parecem adorar fazer. Essa forma de exercício geralmente melhora o desempenho subsequente em testes de memória e aprendizado de roedores, que aconteciam entre os corredores normais. Mas os animais incapazes de produzir irisina mostraram poucas melhorias cognitivas, levando os pesquisadores a concluírem que essa substância é crucial para exercícios que aprimorem o mecanismo do pensamento.

Eles então examinaram mais de perto o cérebro de ratos que tinham e os que não tinham a capacidade de produzir irisina. Todos continham mais neurônios recém-nascidos do que cérebros de camundongos sedentários. Mas, nos animais sem irisina, essas novas células cerebrais pareciam estranhas. “Eles tinham menos sinapses, as junções onde as células cerebrais enviam e recebem sinais, e dendritos, as gavinhas serpenteantes que permitem que os neurônios se conectem ao sistema de comunicação neural. Esses neurônios recém-formados não se integravam facilmente à rede existente do cérebro, concluíram os pesquisadores.

Quando os cientistas usaram produtos químicos para aumentar os níveis de irisina nos animais incapazes de fazer os seus próprios hormônios, a situação em seus cérebros mudava significativamente.

Os pesquisadores também encontraram sinais de redução da inflamação no cérebro dos animais com demência, resultado importante, visto que acredita-se que a neuro­ inflamação acelera a progressão da perda de memória.

MEDICAMENTOS

Observado conjuntamente, esses novos experimentos sugerem fortemente que a irisina é um elemento-chave na “ligação do exercício à cognição”, disse Spiegelman.

Ela também pode algum dia ser desenvolvida na forma de um medicamento. O pesquisador afirmou que ele e seus colegas esperam, eventualmente, testar se as versões farmacêuticas da irisina podem retardar o declínio cognitivo ou mesmo aumentar as habilidades de pensamento em pessoas com Alzheimer.

Esse foi um estudo realizado com camundongos, ressalva-se, e muita pesquisa ainda precisa ser feita para estabelecer se nossos cérebros reagem como o dos roedores à irisina. Também não se sabe quanto ou quais tipos de exercí.io podem aumentar ainda mais nossos níveis de irisina.

No entanto, diz Wrann, o estudo reforça a ideia de que o exercício pode ser “um dos reguladores mais importantes” da saúde do cérebro.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CUIDADO COM SAÚDE MENTAL DE ESTUDANTES PODE EVITAR REPETÊNCIA

Resultados foram revelados em uma pesquisa liderada por um grupo de cientistas brasileiros e britânicos

Pelo menos dez a cada cem meninas que estavam fora da série escolar adequada para sua idade poderiam ter acompanhado a turma se transtornos mentais, principalmente os externalizantes (como déficit de atenção e hiperatividade), fossem prevenidos ou tratados.

O impacto negativo dessas condições mentais também se reflete na repetência: cinco em cada cem alunas não teriam reprovado. Para meninos, seriam  prevenidos 5,3% dos casos de distorção idade-série e 4,8% das reprovações.

Esses resultados foram revelados em sua pesquisa liderada por um grupo de cientistas brasileiros e britânicos e publicada na revista Epidemiology and Psichiatric Sciences. Os pesquisadores buscaram estimar o peso e o impacto de diferentes tipos de condições psiquiátricas nos resultados educacionais, usando como base dados de 2014.

Concluíram, em linhas gerais, que os transtornos externalizantes tiveram efeitos negativos mais amplos e robustos sobre a educação quando comparados a psicopatias ligadas a angústias e medos. Ao analisar por gênero, foram   particularmente prejudiciais para as mulheres, resultando em níveis mais baixos de alfabetização e perpetração de bullying.

“Uma das hipóteses que explicam esse achado é o estigma social, já que não é esperado das mulheres um comportamento agressivo ou exacerbado. Com isso, elas podem sofrer mais e apresentar pior desempenho escolar”, avalia o pesquisador Maurício Scopell Hoffmann, primeiro autor do artigo e professor adjunto do Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O trabalho, desenvolvido no pós-doutorado de Hoffmann, teve apoio da fapesp e do Newton Fellowship obtido pelo professor e pela pesquisadora Sara Evans-Lacko, na Academy of Medical Sciences do Reino Unido, realizado na London School of Economics and Political Sciences entre 2019 e 2020.

Os dados foram obtidos no Estudo Brasileiro de Coorte de Alto Risco para Transtorno Psiquiátricos na Infância (BHRC), uma grande pesquisa de base comunitária que acompanha crianças e jovens desde 2010.

Fazendo análise das informações referentes a 2014, os pesquisadores contextualizaram as descobertas em uma perspectiva populacional, mas já alertando que eram estimativas conservadoras. Concluíram que, à época, pelo menos 591 mil estudantes poderiam estar na série adequada para sua idade se transtornos psiquiátricos fossem detectados preventivamente e tratados. No caso da repetência, seria possível evitar que cerca de 196 mil alunos ficassem retidos na mesma série.

De acordo com Hoffmann, mesmo tendo passado quase sete anos da base de cálculo, o quadro obtido na pesquisa pode ser replicado para os dias atuais, fornecendo evidências da importância do tratamento e da prevenção de condições psiquiátricas para melhores resultados.

Em 2014, o Brasil registrou 49,8 milhões de matriculas em 188,7 mil escolas de educação básica (públicas e particulares). Em 2020, esses números caíram para 47,3 milhões e 179,5 mil, respectivamente.

Considerado um dos principais acompanhamentos sobre riscos de transtornos mentais em crianças e adolescentes já realizados na psiquiatria brasileira, o BHRC, também conhecido como Projeto Conexão – Mentes do Futuro, faz parte do Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes(INPD).

Apoiado pela Fapesp e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o  INPD tem como coordenador geral o professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paula (FM-USP) Eurípedes Constantino Miguel Filho e conta com mais de 80 professores e pesquisadores de 22 universidades.

Para o estudo recém-publicado, os pesquisadores analisaram dados da linha de base (iniciada em 2010) e de acompanhamento durante três anos (até 2014) do BHRC, considerando uma etapa de triagem e uma de avaliação.

A pesquisa usou pesos de pontuação de propensão (PSWs, na sigla em inglês) para equilibrar os participantes com e sem condições psiquiátricas para as características basais.

Na triagem, nos dias de matrícula obrigatória em 2020, pais de alunos de 22 escolas públicas de Porto Alegre (RS) e 35 de São Paulo foram convidados a participar. Para a avaliação completa houve a seleção de ‘2.511 famílias. Os alunos tinham de 6 a 14 anos.

Os transtornos mentais foram divididos em três grandes grupos: de angústia e sofrimento (como transtorno depressivo maior e depressivo não especificado, bipolar, obsessivo- compulsivo e  pós-traumático); de medos (pânico, fobias específicas, separação e transtorno de ansiedade social) e os transtornos externalizantes (déficit de atenção, hiperatividade, conduta de oposição e desafio).

O grupo usou a Avaliação de Comportamento de Desenvolvimento e Bem-estar e calculou as porcentagens de risco atribuíveis à população para estimar a proporção de resultados educacionais adversos ligados à condições psiquiátricas.

“Um dos objetivos foi analisar o quanto dos eventos escolares não desejados poderiam ser evitados se os transtornos mentais fossem tratados e em qual medida. Obtivemos um resultado prático muito claro, já que desfechos como distorção idade-série, repetência, desistência escolar e perpetuação de bullying estão ligados”, afirma Hoffmann à Agência Fapesp.

Segundo ele, além dos impactos negativos na educação, os problemas da saúde mental podem limitar no futuro oportunidades socioeconômicas, aumentando desigualdades de gênero no mercado de trabalho, por exemplo.

Estimativas apontam que uma a cada quatro pessoas pode desenvolver quadros de transtornos mentais ao longo da vida, estando entre as principais causas de incapacitação na faixa etária dos 14 aos 50 anos. De acordo com projeções da OMS (Organização Mundial da Saúde), o custo para a economia mundial com esses casos deve chegar a USS6 trilhões em 2030.

“Fazer o diagnóstico correto é o primeiro passo. Isso ajudaria a reduzir alguns problemas enfrentados nas escolas. Políticas que incentivam detecção e intervenção precoce de problemas de saúde mental na infância e adolescência podem ter consequências profundas no nível educacional dos cidadãos” completa o pesquisador.

O Censo Escolar 2020, do Ministério da Educação, apontou que a taxa de distorção idade-série alcança 22.7% das matrículas dos anos finais do ensino fundamental e 26,2% no médio. Além disso, há um aumento dessa taxa a partir do 3º ano do ensino fundamental, sendo mais alta no sétimo ano e na primeira série do ensino médio.

Essa distorção resulta entre outros fatores, do total de alunos reprovados ou que abandonam os estudos durante determinado ano letivo. Dificilmente esse processo é reversível, já que muitas vezes a criança; ao atrasar nos anos iniciais da educação básica, permanece nessa situação até a adolescência.

Esse quadro explica o fato de o Brasil ter o quarto maior percentual de jovens que repetiram de série pelo menos uma vez durante a vida escolar entre 79 países analisados em relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Segundo Hoffmann, que é médico, uma parceria entre educação e saúde, reforçando a prevenção, seria um dos caminhos para reduzir os efeitos negativos nas escolas. “Um exemplo são os casos de déficit de atenção (TDAHs). Sabemos que somente 20% deles são detectados no Brasil. Se a taxa aumentasse em dez pontos percentuais, para 30%, estimamos que cerca de 8.000 repetências poderiam ser evitadas a cada ano”.

Uma das alternativas é contar com a ajuda de professores nesse trabalho. Para isso, o grupo de cientistas criou um material psicoeducativo para pais e docentes tratando do tema e mostrando a importância do papel de mediação para evitar estigmas.

Durante a pandemia, o tema da saúde mental ganhou destaque e novos estudos, principalmente para avaliar os impactos do isolamento social e das aulas à distância. Hoffmann diz que um dos trabalhos dos cientistas agora, liderado pela pesquisadora na área de neurociência e comportamento humano Patrícia Pinheiro Bado, é investigar a relação do engajamento em aprendizagem online com a saúde mental dos alunos.

Há evidências de estudos britânicos publicados recentemente mostrando que, durante a pandemia de Covid-19, jovens, adultos e idosos com transtornos mentais prévios tiveram mais consequências prejudiciais, como a perda de empregos, problemas de saúde e emocionais.

No Brasil, com as escolas fechadas por causa da Covid-19 o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estimou que 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentaram as aulas em novembro de 2020. Outros 3,7 milhões de alunos matriculados deixaram de ter acesso a atividades escolares e não conseguiram continuar aprendendo em casa.

OUTROS OLHARES

RENDA DE 705 MIL BRANCOS É MAIOR QUE A DE TODAS AS MULHERES NEGRAS

Estudo aponta ainda que são negros 7 em cada 10 brasileiros que estão na base da pirâmide

Aos 60 anos, Graziela Pereira não pode pensar em parar de trabalhar. Desde 2019 entregando panfletos no teatro de Curitiba (PR), ela não reclama do sol ou do calor, só pede licença a quem atravessar a praça apressadamente  e oferece um cartão de  compra de ouro e joias. “Quando muita gente aceita, ganho meu dia”, afirma ela.

Do dinheiro que Graziela ganha trabalhando oito horas todos os dias depende uma neta de dez anos. Sem poder contar com ajuda dos pais da criança, ela, que já trabalhou em escritórios, lojas e restaurantes, tirou forças para estar nas ruas por mais um dia.

“A vida da gente é sempre incerta, mas prefiro agradecer por ter meu trabalho”.

Realidades como a dela ajudam a ilustrar um estudo alarmante no país, no Brasil, o  topo da pirâmide de renda tem cor e gênero, Os 705 mil homens brancos que fazem parte do 1% mais rico do país e representam 0,56 % da população adulta têm 15,3% de toda a renda, uma parcela maior do que a de todas as mulheres negras adultas juntas.

Elas, que somam 32,7 milhões de pessoas e são 26% da população adulta, detém apenas 14,3% da renda nacional, de acordo com levantamento exclusivo da Made/USP (Centro de Pesquisa Em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo).

O estudo tem como base os dados da mais recente POF ( Pesquisa de Orçamentos  Familiares), de  2017 e 2018, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e da declaração de IRPF (Imposto de Renda das Pessoas Físicas), da Receita Federal.

“A desigualdade de oportunidades que afeta sobretudo as mulheres negras se reproduz a cada geração e forma uma estrutura muito rígida”, diz Luiza Nassif Pires, pesquisadora no Made e do Levy Economics Institute, do Bard College, nos Estados Unidos.

Ela acrescenta que, embora os dados da POF tragam um retrato de quatro anos atrás, as edições mais recentes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, também conduzida pela IBGE, reforçam que as mulheres negras saíram da força de trabalho em maior número do que os outros perfis de trabalhadores e que essa desistência maior vai se refletir em um aumento da desigualdade no futuro.

A pesquisadora lembra que a pandemia serviu para concentrar ainda mais renda e aumentou a desigualdade de gênero e raça.

Embora o auxílio emergencial tenha conseguido diminuir temporariamente essa iniquidade, enquanto era de R$600 e para um número maior de pessoas, a redução posterior do benefício não foi mais suficiente para reduzir a desigualdade, diz Luíza.

“O efeito da pandemia tende a demorar mais para passar. A taxa de desemprego agora começa a cair primeiro para os homens brancos, enquanto a taxa de participação das mulheres negras no mercado segue em desvantagem”.

Os pesquisadores do Made fizeram a comparação da renda ( o fluxo de dinheiro, que entra todo ano) de acordo com raça e gênero. Uma investigação posterior do grupo deve também comparar o patrimônio (a riqueza que é acumulada) dos brasileiros sob o mesmo critério.

Entre os principais motivos para a diferença na remuneração das mulheres, Luiza destaca o tipo de emprego, o preconceito em relação a capacidade e a descontinuidade do trabalho, o que levaria a menores aposentadorias e menores rendas.

“A própria forma como a divisão se dá tende a direcionar mulheres a trabalhos de menores rendimentos, uma vez que essas são maioria no setor terciário, em expansão no Brasil e com altos níveis de precarização e informalidade”, diz a pesquisadora.

Essa realidade faz com que as mulheres ocupem trabalhos cada vez mais precários, com menos direitos, e salários mais baixos. Ela também destaca que, quando se olha para a base da pirâmide, onde estão os 10 % mais pobres, é possível perceber a importância do Bolsa Família, encerrado recentemente, após 18 anos. “Sem o programa, a concentração poderia ser ainda pior, e isso revela a necessidade de expandir os programas de transferência de renda, sem prazo para terminar”.

Dados de 2020 mostram que as mulheres negras representam 27% da população e ocupam 50% dos empregos informais. No trabalho doméstico, elas são 74% dos que estão em trabalhos informais, lembra Maitê Gauto, gerente de Programas e Incidência da Oxfam Brasil.

“Trata-se de um grupo de alta vulnerabilidade, sem garantia trabalhista ou proteção social. Durante a pandemia, informais e domésticos foram os grupos mais afetados, por terem sido dispensados do trabalho ou pelas medidas de distanciamento que levaram à queda na renda”.

Ao considerar os brasileiros brancos que estão nos 10% do topo da pirâmide (tanto os homens quanto as mulheres), eles representam 6,9% da população total, mas ficam com 41,6% da renda total, enquanto todas as pessoas negras, que são 53,8% do população, ganham 35% da renda total, ainda segundo o Made.

Além disso, sete em cada dez brasileiros mais pobres são negros. Eles representam 70% do décimo mais pobre da população, ou seja, os 10% com os menores rendimentos.

Os dados também apontam que os adultos brancos que integram os 10 % do topo – pouco mais de 8,6 milhões de pessoas – ficam com 41,6% de toda a renda. Esse montante é mais de sete pontos percentuais superior à renda de todos os adultos negros (35%), o que representa mais de 67,7 milhões de pessoas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 12 DE JANEIRO

ONDE EXISTE ÁGUA, TODA TERRA É TERRA BOA

E tornou Isaque a abrir os poços que se cavaram nos dias de Abraão, seu pai (porque os filisteus os haviam entulhado depois da morte de Abraão), e lhes deu os mesmos nomes que já seu pai lhes havia posto (Genesis 26.18).

Isaque é o símbolo de um homem manso. Ele não gostava de contender. Preferia sofrer o dano a lutar pelos seus direitos. Quando estava na terra dos filisteus, tomou duas atitudes. A primeira foi abrir os poços antigos que seu pai Abraão tinha cavado. A água estava lá e era boa, mas esses poços estavam entupidos de entulho. Isaque sabia que o entulho dos filisteus precisava ser removido para que as águas fluíssem. A segunda atitude foi cavar novos poços. Não podemos desprezar o passado nem nos limitar a ele. Isaque sabia que o Deus que fez é também o Deus que faz. Ele queria mais e, por isso, abriu novos poços. Deus fez brotar água do ermo, e o deserto floresceu. Onde existe água, toda terra é terra boa. É assim também com a nossa vida. Nosso coração pode parecer um deserto seco. Mas, se as torrentes de água viva, símbolos do Espírito Santo, descerem sobre nossa vida, nosso coração também florescerá. Quando visitei Israel pela primeira vez, passei pelo deserto da Judeia. De um lado, estava tudo seco, morto e sem vida. Do outro lado, havia um luxuriante laranjal com frutos excelentes. Perguntei ao guia turístico sobre aquele fenômeno. Como era possível, no mesmo deserto, de um lado reinar a morte e do outro explodir a vida? Ele explicou: Onde existe água, toda terra é terra boa!

GESTÃO E CARREIRA

HÍBRIDO DE VERDADE

Com diversas empresas adotando novos modelos de trabalho, a preocupação é manter essas transformações – e não voltar aos velhos hábitos. Saiba como fazer isso

Mais de um ano depois do início da pandemia, simplesmente voltar à rotina de antes não parece mais ser uma opção. Pelo menos é o que indica um estudo da consultoria Gartner com 2.419 profissionais nos Estados Unidos. O levantamento revela que quatro em cada dez funcionários se demitiriam caso sua empresa decidisse voltar ao modelo 100% presencial. Já uma pesquisa do LinkedIn com mais de 1.000 profissionais mostrou que 43% das pessoas querem o modelo híbrido, 30% preferem o home office integral, e 27%  pretendem trabalhar apenas no escritório.

Diante de números como esses, o híbrido vem despontando como a solução. Nem só presencial, nem só remoto, ele funcionaria como uma combinação ideal para todos os gostos. Mas como esse estilo vai funcionar é ainda uma questão em aberto. Para empresas como a Microsoft, uma das maiores defensoras do conceito, o híbrido deve significar a “flexibilidade radical”. Ou seja, dar a opção não só do lugar, mas também dos horários e da forma como as tarefas são desempenhadas. Mas não é assim em todas as companhias.

”Em algumas empresas, o trabalho híbrido é estar 70% do tempo em casa e 30% no escritório, por exemplo; já em outras, os funcionários podem fazer essa escolha livremente”, diz Mariana Poli, curadora e líder de produtos da Sputnik, escola de educação corporativa. A essa percepção soma-se o fato de que nem sempre o trabalho remoto é bem-visto: na mesma pesquisa do LinkedIn, 56% dos brasileiros dizem que ainda há um estigma negativo para quem faz home office.

Por outro lado, o momento de mudar é agora. Para Anna Gurun, diretora associada na HSM Advisory, braço de pesquisas da consultoria londrina, estamos em um momento inédito. “É a chance de redesenhar o trabalho para o futuro”, diz. A HSM desenvolveu um modelo baseado em quatro eixos para a transição (leia mais no quadro “Os pilares da transformação”).

O primeiro passo é entender o papel de cada cargo e o trabalho que é feito, avaliando expectativas e o que cada um precisa para ser produtivo e desempenhar bem sua função. Pode-se criar até “personas” para categorizar os diferentes modos de trabalho. Alguns terão momentos que exigem colaboração, para outros será necessária muita concentração, enquanto outros poderão precisar do contato presencial.

CASO A CASO

No Grupo Boticário, os últimos 18 meses têm sido de trabalho intenso para mapear todos os cargos e áreas dos cerca de 2.000 funcionários. “Antes de adotar qualquer modelo, queríamos entender como ser mais eficientes e produtivos”, diz Graziella D’Enfeldt, diretora executiva de gente do Grupo Boticário. Para isso, a empresa fez pesquisas com os funcionários e conduziu conversas com as equipes. Depois disso, três grupos de funções foram identificados: totalmente presenciais, totalmente remotos e híbridos. A mesma área pode ter pessoas em diferentes modelos, mas a estratégia do Boticário é priorizar o remoto em todas as funções que permitam isso. A decisão vem apoiada no ganho de produtividade e de diversidade que o trabalho à distância traz, principalmente ao abrir a possibilidade de contratações em cidades distantes dos escritórios físicos. E o trabalho híbrido se justifica por haver equipes que, em alguns momentos, precisam estar em contato direto com os produtos, como o pessoal de pesquisa e desenvolvimento. “Nosso cuidado foi criar premissas para garantir a melhor harmonização dos formatos”, diz Graziella.

Uma das proposições adotadas pelo Boticário foi a de que os líderes devem trabalhar remotamente. Por padrão, todas as reuniões são digitais. Quem está remoto pode ir ao escritório se quiser, mas só até duas vezes por semana – tanto para não lotar os locais quanto para evitar que as pessoas acabem retomando o velho hábito de priorizar o presencial. Uma pesquisa de monitoramento semanal acompanha como as pessoas estão se sentindo sobre isso. A ideia é que os profissionais possam fazer uma autogestão das jornadas, com foco na entrega, e não nas horas trabalhadas.

A liderança tem sido chamada a assumir o papel de apoiar na construção de novas rotinas das equipes, em vez de dizer como fazer o trabalho. Para ter fluxos de comunicação efetivos, outra premissa é priorizar a comunicação assíncrona, que exige não a disponibilidade simultânea de todos. Em vez de reuniões de briefing, por exemplo, orientações detalhadas por escrito devem ser enviadas. Além disso, o conhecimento da empresa precisa ser documentado e facilmente acessível. “Parece trivial, mas é uma mudança profunda na forma de trabalhar”, diz  Graziella.

PONTOS DE ATENÇÃO

De fato, a comunicação representa um duplo desafio nas empresas. O primeiro é o da mentalidade, já que nem tudo que funcionava bem no presencial pode ser replicado na modalidade mista. O que deverá surgir é algo diferente – e ainda desconhecido, o que causa desconforto e insegurança. Já o segundo desafio é mais prático, relacionado às ferramentas e tecnologias que darão apoio a essas mudanças. As comunicações via aplicativos, plataformas e videochamadas rapidamente se tornaram a principal forma de trabalhar em conjunto em grande parte das empresas. “A pandemia serviu para dar início a essa mentalidade, mas temos que capacitar as pessoas para que entendam que o mundo mudou”, diz Ronaldo Loyola, sócio da área de capital humano na consultoria Grant Thornton Brasil. O risco é que, uma vez de volta ao escritório, as pessoas retomem velhos hábitos. “Apenas transformando a cultura isso pode funcionar. Só impor um novo modelo não vai dar certo se as pessoas estiverem em uma mentalidade antiga.”

Para Luís Banhara, presidente da Citrix Brasil, companhia de softwares corporativos, a tecnologia tem um papel fundamental, mas sozinha não faz nada. “É preciso pensar em quanto tudo isso está integrado à experiência do usuário.” Um risco é comprar várias tecnologias que não conversem entre si, o que cria entraves.

Adotar ferramentas sem critérios claros e não treinar nem pessoas nem gestores também pode sabotar os resultados do trabalho híbrido. “Nunca vivemos isso e não há respostas prontas. Precisamos ter uma mentalidade de teste”, diz Mariana Achutti, cofundadora da escola Sputnik. “Os líderes e times devem entender qual é a tecnologia mais adequada para eles.”

A infraestrutura é outro desafio. O início da pandemia permitiu “puxadinhos”, que não devem ser mais tolerados. “O funcionário que aceitou um computador meia-boca no ano passado agora sente isso como uma barreira para a produtividade”, afirma Luís. A indisponibilidade de equipamentos como cadeira e acessórios e a falta de tecnologia e de acesso correto a aplicativos estão entre os maiores problemas. Além disso, muitos dos sistemas de segurança são datados e excessivos, causando mais entraves na rotina.

NOVOS RITUAIS

Para não perder o engajamento e os períodos de troca nas empresas, será necessário elaborar novas práticas. “No escritório, temos momentos, como o de tomar um café ou almoçar juntos, que criam essa conexão”, diz Mariana Poli, da Sputnik. “É importante criar rituais para o híbrido.” Isso evitaria, por exemplo, o acúmulo de reuniões motivadas pela insegurança em precisar se mostrar presente, algo que tem impacto na saúde emocional das pessoas, além de ser improdutivo. Deve-se também determinar, em conjunto com os  colaboradores, os dias livres, os critérios para decidir quando é preciso ir ao escritório e como as reuniões funcionarão para incluir todos os participantes, Na SKY, uma das decisões foi não ter reuniões mistas; ou todo mundo fica no presencial, ou todos ficam no digital. “Mesmo se só duas pessoas estiverem juntas na sala, a dinâmica já é outra, há comentários paralelos, linguagem corporal”, dizSimone Oechsler, diretora de RH da companhia. A empresa é mais uma a aplicar três modelos de trabalho: híbrido, presencial e remoto. Mas, por lá, essa será urna escolha de cada funcionário junto ao gestor. Em uma pesquisa interna, 60% das pessoas escolheram a modalidade híbrida; 29%, a remota; e 6%, o escritório. Hoje, 80% da empresa ainda está em home office, mas a expectativa é retomar as atividades presenciais aos poucos.

“Buscamos entender e respeitar o que as pessoas querem”, diz Simone. Assim, pode-se mudar de modalidade quando desejado – e o acordo do gestor precisa ser baseado na característica do cargo, e não em sua opinião pessoal. A estratégia está alinhada com a transformação cultural pela qual a empresa vem passando nos últimos dois anos para se tornar mais democrática e participativa. “Seria muito contraditório, com tudo isso que estamos construindo, impor um modelo”, diz. Mas para ela o presencial tem sua importância, e algumas reuniões exigirão a ida ao escritório. Além disso, a ideia é reunir todos presencialmente cerca de três vezes ao ano.

O novo escritório da empresa, inaugurado no ano passado, foi desenhado para ser um ambiente de colaboração e convivência. São mesas grandes, sofás e até balanços que dividem o espaço com salas menores. ”As pessoas podem transitar livremente e usar o local para relaxar, trocar ideias, fazer reuniões”, diz Simone.  A saúde mental também tem sido uma das preocupações com as pessoas passando mais tempo em casa. “Temos feito ações de mindfulness, escuta ativa e rodas de conversas com psicólogos.” Os funcionários têm um desconto de 40% na terapia. Outra ação foi bloquear uma hora no dia em que nenhuma reunião pode ser feita, além de estabelecer intervalos entre um compromisso e outro.

DE OLHO NA LIDERANÇA

Nenhuma das mudanças relacionadas à transição para o híbrido será possível se os líderes não as abraçarem. “Certamente existem gestores que entendem que, se não veem os funcionários, eles não estão trabalhando”, afirma Anna, da HSM. Mas eles precisam ser os modelos para o resto da organização. A maneira como a chefia se comporta tem impacto na percepção sobre o home office.

Além disso, é necessário deixar claro quais são os limites entre a vida em casa e a no trabalho, e ajustar as expectativas em relação a ter que ser mais produtivo porque está longe do escritório. As formas de medir desempenho também devem acompanhar esse movimento. “Alguns critérios de avaliação e até de produtividade caíram em desuso”, diz Ronaldo, da Grant Thornton. “É preciso olhar mais para os resultados.”

E tudo isso passa pelo fortalecimento da relação de confiança entre líderes e equipes – uma das prioridades no DOT Digital Group, empresa de tecnologia para educação. “A maior incerteza é saber qual é o modelo de trabalho ideal, porque isso é uma construção do que faz sentido para cada organização”, diz Ana Paula Lehmkuhl, gerente de pessoas e cultura da companhia. No começo da pandemia, a empresa se desfez do escritório, e o home office, antes eventual, passou a ser a realidade de todos. Foi uma oportunidade de contratar pessoas de diversos lugares no  Brasil, algo estratégico para a área de tecnologia e inovação. Hoje, dois terços dos 350 funcionários estão em outras cidades, estados ou países. O modelo adotado foi o do anywhere work: cada um pode, a qualquer momento, decidir se trabalha em casa, na praia, na fazenda ou na nova sede –  que será construída para proporcionar momentos de convivência. A percepção dos empregados sobre o novo jeito de trabalhar é medida por meio de pesquisas curtas.

Além de treinamentos reforçando o princípio da confiança nos líderes, as ferramentas de trabalho também priorizam a entrega, somada ao modelo de colaboração em squads. A ideia é que as equipes tenham mais autonomia, sinalizando, elas próprias, quando algo não estiver sendo feito. “Há um grande senso de colaboração e responsabilidade, que não exige o gestor acompanhando tudo o tempo todo”, diz  Ana Paula. O papel dos líderes está no desenvolvimento das equipes e na necessidade de dar apoio para que as pessoas possam crescer e trabalhar – e é exatamente essa a mentalidade que deve ser adotada por todas as companhias que buscam o trabalho híbrido.

OS SABOTADORES DO TRABALHO HÍBRIDO

Conheça os aspectos que podem prejudicar esse modelo

LIDERANÇA DESPREPARADA

Gestores com mentalidade obsoleta correm o risco de minar todas as mudanças. Exemplos são líderes muito controladores, que valorizam mais o presencial do que outras modalidades de trabalho ou que têm expectativas diferentes de produtividade se o funcionário está em casa ou no escritório.

IMPOSIÇÃO DE MUDANÇAS DE CIMA PARA BAIXO

Consultar as pessoas e dar abertura para o diálogo é essencial para entender qual modelo faz mais sentido para a empresa – e por quê.

INEXISTÊNCIA DE REGIAS CLARAS

Não se trata de impor regras e punições, e sim de ter “combinados” para facilitar as relações, como horários e modalidades de reunião, motivos para ir ao escritório e critérios para entender quem pode trabalhar remotamente.

TRANSFORMAÇÃO DO TRABALHO HIBRIDO EM BENEFICIO

Considerar o trabalho híbrido ou remoto um benefício da empresa cria o risco de os funcionários presenciais se sentir em injustiçados. É preciso deixar claro que a decisão tem a ver com a natureza do trabalho, e não com um privilégio ao alcance de poucos.

OS PILARES DA TRANSFORMAÇÃO

A HSM Advisory, braço de pesquisas da consultoria HSM de Londres, desenhou uma matriz de quatro eixos a serem considerados na transição para o modelo híbrido. Saiba mais

1. CARGOS E TAREFAS

É preciso entender os principais elementos dos cargos e tarefas, como energia, foco, coordenação e cooperação que cada um deles exige – e como serão afetados pelas mudanças.

2. PREFERÊNCIAS DOS FUNCIONÁRIOS

Ao desenhar o trabalho híbrido, deve-se considerar a preferência dos profissionais – e permitir ajustes para que todos se sintam bem.

3. PROJETOS E FLUXOS

Para que o trabalho híbrido seja um sucesso, é preciso entender como as atividades serão feitas e estabelecer fluxos que funcionem independentemente de onde as pessoas estão localizadas.

4. INCLUSÃO E SENSO DE JUSTIÇA

Questões de justiça e inclusão devem ser levadas em conta durante todo o processo de desenho de novas práticas e processos. Sentimentos de injustiça são um dos principais fatores por trás do baixo engajamento e da insatisfação no trabalho.

EU ACHO …

FILTRO ENTUPIDO

Já tentou tomar uma vitamina com um canudinho bem fino? Ficou lutando com ele entupindo? Irritante, né? É assim que muitas pessoas, especialmente mulheres e eu inclusa, se sentem ao dar entrevistas ou compartilhar suas trajetórias.

Sinto que contamos sobre nossas narrativas, novos desafios como, por exemplo, de gestão de pessoas, expansão de negócios, maternidade, machismo e racismo, e o filtro parece entupido. Ao descrever nossas histórias, muitos só focam no que já foi dito. É como ir num show de Caetano Veloso, Gil e Maria Bethânia lançando um novo álbum e pedir somente música de 20 anos atrás. Saca?

Conversando com uma amiga executiva, ela me confessou ter a mesma sensação. E disse ter recentemente recebido essa mesma percepção de outra colega. “Ufa” por um lado, o que demonstra que não é algo isolado, e “que saco” por outro. Porisso, senti a necessidade de trazer aqui o desafio de quem produz e consome conteúdo em tentar ver seus personagens e contextos sob novas óticas além da superfície.

Jornalistas, escritores e produtores de conteúdo têm o poder de serem gatekeepers, ou seja, guardiões dos portões da informação. Significa que nosso poder de filtro e veto

do que pode entrar e sair de informação contribui sobre como as pessoas enxergam uma pessoa ou uma pauta. E isso é muito sério.

Essa amiga deu a um veículo, uma longa entrevista sobre novos desafios assumidos, mas foram resgatar um fato de décadas atrás e colocaram os casos de racismo que ela sofreu como destaque da matéria. É como se quisessem um personagem que conte algo que já é esperado, repetido, um arquétipo.

Se for uma pessoa negra, o destaque do título será o racismo, se for pessoa com deficiência, será o capacitismo, independentemente se trouxerem outras pautas.

Obviamente, não estamos desmerecendo ou invalidando a necessidade de tocar em fatos relevantes e a denúncia de questões estruturais, mas matérias com esse enfoque já haviam sido disseminadas por diversas vezes. E ela reforça ter dado destaque ao novo desafio de carreira. Consequência? Nada novo sobre sua trajetória na matéria, enquanto há, na verdade, uma série de situações que poderiam ter sido compartilhadas.

Perde ela e perdemos nós o acesso a informações mais variadas. E depois falam que nós, mulheres negras, só falamos de racismo. Falamos sobre várias coisa, mas os títulos das matérias e os filtros de quem entrevista, por vezes, continuam entupidos.

Uma amiga jornalista disse que seu editor pedia matérias óbvias porque elas eram mais compartilhadas. Dá para sair do “mais do mesmo”?

Eu me pergunto frequentemente por que somos tão seletivos ao ouvirmos as trajetórias das pessoas?

Por que os produtores de conteúdo ainda fazem as suas entrevistas com títulos prontos e não se permitem descobrir outros ângulos? Especialmente num momento em que tudo se resume a um tuíte e as pessoas leem menos, precisamos pensar de modo mais criterioso os poucos caracteres que escolhemos.

Acredito que o primeiro passo é admitir que, ao longo do tempo, nossos canudinhos podem ficar entupidos e precisamos constantemente ampliar os nossos filtros para melhor saborear o mundo.

***LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

UMA VACINA TÃO ESPERADA

Pela primeira vez, cientistas testarão o poder de um imunizante para prevenir o câncer de mama. O avanço, o maior na área até hoje, abre uma nova frente contra a doença

As vacinas são uma das mais belas criações da humanidade. Uma delas erradicou a varíola, outras derrubaram as mortes por febre amarela, sarampo e meningite e são elas que agora sustentam a volta à vida depois do período mais duro da pandemia de Covid-19. Seu princípio básico de funcionamento é tremendamente simples: estimular o corpo a identificar e combater um agente estranho ao organismo. Baseados nesse conceito, há décadas pesquisadores na área do câncer perguntam-se qual seria o efeito do recurso contra a doença, uma vez que os tumores são conglomerados anormais de células crescendo entre os tecidos, configurando-se, portanto, em algo alheio à natureza dos órgãos. Não tem sido fácil achar a resposta, mas o anúncio feito há poucas semanas pela Cleveland Clinic, dos Estados Unidos, mostra que os estudiosos raciocinam no caminho certo.

Considerado um dos melhores do mundo, o centro americano de tratamento e pesquisa em saúde informou o início de um estudo clínico para testar a eficácia e segurança de uma vacina na prevenção e tratamento do tipo mais agressivo de câncer de mama. Se der certo, será o primeiro imunizante capaz de evitar diretamente o surgimento de um tumor. Atualmente, há opções de proteção indireta, como as vacinas de HPV e da hepatite B. A primeira atua sobre alguns tipos do Papilomavírus humano responsáveis por tumores, como o que causa câncer de colo de útero. A segunda protege de infecções pelo vírus da hepatite B, doença que promove inflamação crônica do fígado, tornando as células do órgão vulneráveis à proliferação descontrolada (característica do câncer).

Desenvolvido em conjunto com a empresa Anixa Biosciences, o imunizante será testado contra o tumor de mama triplo negativo. Embora incida sobre no máximo 15% das mulheres com a doença, o triplo negativo é seu gênero mais desafiador. As células doentes não possuem receptores para os hormônios estrógeno e progesterona e não produzem a proteína HER2 (daí o nome triplo negativo). Dessa forma, elas não respondem à terapia hormonal e o remédio desenhado para atuar sobre a HER2 não tem utilidade no seu caso. Se diagnosticado tardiamente, o prognóstico é ruim. “Mas temos esperança de que nosso trabalho seja o início de pesquisas mais avançadas provando a efetividade da vacina para deter o tumor de mama contra o qual temos menos tratamentos disponíveis”, afirmou o hematologista Thomas Budd, do Tanssig Cancer Institute, divisão da clínica onde o estudo será executado.

Participarão do ensaio clínico entre dezoito e 24 pacientes que tiveram o diagnóstico do câncer em etapa inicial nos últimos três anos, encontram-se sem o tumor, mas apresentam grande risco de recidiva. Até setembro de 2022, quando esse braço da pesquisa será encerrado, cada uma receberá três doses da vacina, aplicadas com intervalos de duas semanas entre cada uma. Nessa fase, o objetivo é examinar a resposta imune desencadeada pela vacina e efeitos colaterais. Ou seja, avaliar o desempenho do imunizante do ponto de vista terapêutico. A análise de seu poder preventivo se dará em passo subsequente, com o recrutamento de mulheres sem câncer, porém com alto risco de desenvolvê-lo e que se submeteram à retirada voluntária das duas mamas como forma de reduzir a probabilidade de aparecimento de células tumorais. O embasamento para a realização dos testes em seres humanos vem de resultados positivos obtidos em mais de uma década de pesquisa em laboratório e em cobaias. O estudo central foi publicado em 2010 na revista científica Nature. No artigo, os cientistas demonstraram que a vacina preveniu o surgimento ou impediu o crescimento do tumor em animais.

As vacinas como as conhecemos são feitas para provocar uma reação consistente de defesa do corpo contra um agente infeccioso. Convencionalmente, faz-se isso apresentando ao organismo o vírus ou a bactéria que se pretende combater nas formas inativa ou enfraquecida, mas suficientes para alertar o sistema imunológico sobre a invasão e estimulá-lo a conter o inimigo. Há cerca de um ano, o mundo conheceu outra tecnologia, a do RNA mensageiro (mRNA), usada na produção das vacinas contra a Covid-19 da Pfizer-BioNTech e da Moderna. Nesse caso, usa- se material genético criado em laboratório para ensinar as células humanas a fabricar uma proteína originalmente feita pelo vírus ou bactéria em questão. Assim, o corpo também aprende a reconhecer como ameaças a molécula e o vírus, consequentemente. Se for infectado pelo microrganismo, irá combatê-lo.

Quando se fala em imunizantes contra o câncer, a questão, é mais complexa. Embora o fundamento seja o mesmo, os alvos a serem acionados para alertar o exército de defesa não são facilmente identificáveis. Uma vez que o câncer surge a partir das nossas próprias células, é difícil para o sistema imunológico enxergar as proteínas produzidas. Por isso é árduo o trabalho para encontrar a substância específica, produzida por cada tumor, capaz de despertar o sistema imunológico. A vacina desenvolvida na Cleveland Clinic superou o obstáculo ao ter como endereço uma molécula presente em 70% das células tumorais de mulheres com câncer de mama triplo negativo. Além disso, a instalação e o crescimento do tumor denunciam que o sistema imunológico não está tão forte assim e que a dose para fortalecê-lo pode ser tão intensa quanto inviável. Esses obstáculos explicam a pequena quantidade de vacinas disponíveis. As poucas opções são restritas a tumores graves, como a Provenge, para pacientes com câncer de próstata que não responderam a tratamentos anteriores, e a T-VEC, aprovada para tratar o melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele, em fase avançada.

No entanto, o salto no conhecimento das características dos tumores tem impulsionado as pesquisas. No registro de estudos clínicos em andamento nos Estados Unidos, há dezenas envolvendo vacinas dirigidas a tumores de pulmão, de fígado e de intestino, entre outros. Um dos mais interessantes é conduzido no Memorial Sloan Kettering, em Nova York, onde se testa a eficácia de um imunizante feito com tecnologia mRNA contra o tumor de pâncreas. Os médicos descobriram o alvo certo ao investigar por que alguns raros pacientes sobreviviam por mais tempo que a média. Havia neles uma molécula tão distinta das demais que servia de chamariz para o sistema de defesa. O objetivo da vacina é ensinar as células tumorais dos outros pacientes a produzir moléculas iguais a ela. No Texas, o Centro de Nanomedicina desenvolve nanovacinas que sirvam como base para imunizantes contra leucemias e linfomas. O novo caminho finalmente está aberto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PESO DAS PRESSÕES SOCIAIS

            A pressão para conquistar uma vida bem-sucedida (vinda de familiares, amigos ou até de nós mesmos) pode acarretar transtornos físicos e mentais. Saiba como ser mais leve – com você e com os outros

Passar numa ótima faculdade, ter um emprego estável e com bom salário. Comprar um apartamento antes dos 30 anos, ser bonito, ser magro, um homem viril, ter dois filhos, ser uma mãe perfeita, ter um carro novo, viajar bastante – e ainda posar feliz nas redes sociais e ter muitos “likes”, claro.

Por influência da sociedade em que vivemos, as metas e exigências que determinamos para nós mesmos se sobrepõem e podem ser opressoras, a ponto de ameaçarem o nosso bem-estar emocional: trazem exaustão, perda de individualidade, sofrimento emocional com sintomas como ansiedade e pânico, com possibilidade de evoluir para transtornos psicológicos. E, com o fim do ano se aproximando, essas pressões podem crescer ainda mais.

“Ao longo da vida, várias vozes reforçam mensagens de cobrança social. Chega um momento em que você não precisa mais escutar isso, pois você já internalizou a mensagem”, diz o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, autor do livro Exaustão no Topo da Montanha. Segundo ele, os corpos e as mentes de muitas pessoas estão hoje exauridos por conta dessa autocobrança por produtividade, fruto daquilo que ouvimos desde que somos crianças. “Na sociedade do desempenho, descrita pelo filósofo Byung-Chul Han, para ter uma vida boa é preciso ser produtivo no trabalho, ter um corpo perfeito, sucesso nas redes sociais, entre outras coisas. Você é  empresário de si mesmo, o dono da sua produtividade, o algoz e a vítima.”

Queixas de sobrecarga física e emocional por conta da autocobrança como reflexo da expectativa social em relação ao trabalho, à estética e às relações amorosas são comuns no consultório da psicoterapeuta Melina Danza. “Sentimentos como insegurança, medo, depreciação, estagnação, agressividade, tristeza e raiva passaram a se manifestar como sintoma do colapso entre duas realidades: o que é esperado de uma pessoa e o que ela consegue de fato realizar.”

RECONHECIMENTO

Buscar reconhecimento social não é reflexo de insegurança, mas uma necessidade básica para a saúde psíquica desde que nascemos, explica Melina. Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não se tornar refém do julgamento alheio, além de cuidar para que a sociedade seja mais empática. Enquanto a psicoterapia pode ajudar no aspecto individual para aliviar a pressão social, é preciso estabelecer diálogo em núcleos sociais, como escolas, para trabalhar a empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro – e, assim, evitar situações opressoras. ”Há uma dificuldade de se colocar no lugar do outro, percebendo que ele pode ser diferente de nós mesmos.” Os jovens são o público mais vulnerável à pressão social, pois buscam o reconhecimento como um apoio para a identidade, na visão da psicoterapeuta Melina “Eles estão em um momento de transição, sofrem exigências de comportamentos para que tenham um ‘futuro promissor’, a garantia para serem aceitos na sociedade”, acrescenta.

A estudante Natálya Aldeia, de 22 anos, recebe, no seu canal no Instagram Papo de Vestibulando, pedidos de ajuda de vestibulandos que não sabem como lidar com pais que cobram excessivamente a aprovação. “A pressão colocada sobre os estudantes é desproporcional e absurda”, diz. Apesar de contar com a compreensão e apoio dos seus pais, Natálya acha que a pressão social e a autocobrança atrapalharam e a levaram a desenvolver um transtorno de ansiedade e início de crise de pânico, diagnosticados por seu psiquiatra.

A estudante não se esquece do mal-estar que sofreu em 2017, quando fazia uma das provas de vestibular. “Eu queria tanto ir bem que fiquei com dores no estômago, enjoo. Fiz a prova horrivelmente e fui direto para o hospital tomar soro na veia”, lembra. Natálya se sente hoje mais equilibrada e lamenta ter demorado tanto para aprender a administrar as emoções. “Hoje entendo que cada um tem o seu tempo. Só eu sei que dou o meu melhor todos os dias para alcançar a tão sonhada vaga. Foi difícil essa virada de chave, mas foi a melhor coisa que me aconteceu.”

Aos pais de vestibulandos, a psicóloga Paula Pimenta recomenda estabelecer um bom diálogo com o filho para compreender o seu estado emocional e os desafios enfrentados. “Demonstrar confiança, ser empático às possíveis frustrações e oferecer ajuda para buscar saídas mostra que você está dando apoio”, avalia. No seu trabalho no Anglo Vestibulares, ela atende alunos que procuram orientação  nos estudos, na escolha profissional ou querem falar sobre suas emoções.

LUTA PELA VAGA

O desafio emocional de quem disputa uma vaga na faculdade tem semelhanças com o enfrentado pelos estudantes que se dedicam aos concursos públicos. Após quase dois anos de uma rotina puxada de estudos, que conciliava com o trabalho em uma empresa mais os cuidados do filho pequeno, Natasha Rocha Nogueira de Sá, de 33 anos, conseguiu passar em 2013 em um concurso público paro o Tribunal Regional do Trabalho(TRT).

Apesar da conquista, percebeu que estava com a saúde mental abalada. Começou a fazer psicoterapia e procurou um psiquiatra que diagnosticou a tricotilomania, transtorno caracterizado pelo “impulso de arrancar os próprios fios de cabelo.” Demorei demais para perceber que estava sofrendo com a ansiedade e o estresse”, admite. Para Natasha, a ansiedade decorria da pressão social e da cobrança interna por sucesso no concurso. ”Sentia muita pressão familiar, já que meu marido tinha  passado no concurso”, conta. Começou um blog. Bitolei, para falar sobre a rotina de estudos, mas o que era para ser um desabafo trouxe mais pressão. Quanto mais pessoas a seguiam, mas ela se sentia na obrigação de passar no concurso. “Estava expondo a minha vida a muita gente, não queria ter o sentimento de derrota.”

Essa pressão pode desestabilizar emocionalmente o estudante e até trazer transtornos mentais, segundo a psicóloga Gabriele Issa. ”Há um impacto na autoestima e na confiança para a prova e para os estudos”, diz a especialista em apoio a quem presta concursos públicos.

PAPÉIS DE GÊNERO

Além das pressões sociais por desempenho, as pessoas enfrentam cobranças baseadas em papéis sociais, apontam os especialistas consultados. Alguns dos mais emblemáticos recaem sobre as mulheres. “Elas ocuparam novas posições na sociedade, mas com isso acumularam funções. As pressões para se casar e ter filhos continuam, mas também é preciso ser bem-sucedida, ter vida social, lazer, ter um corpo padrão”, observa a psicanalista Manuela Xavier.

A empresária Simone Alves, de 35 anos, que preferiu usar um pseudônimo por medo de ser prejudicada profissionalmente, conta que é cobrada com frequência por clientes, amigos e familiares para emagrecer. Já evitou sair em fotos por receio de ser julgada por estar, segundo ela, 15 kg acima do peso ideal. Como a ginástica e a alimentação regrada não resolvem, ela recorre às medicações. “Já chorei muito por causa disso, pois ninguém quer se sentir feia, né?” Ao mesmo tempo, ela não tem alívio no trabalho, pois gerencia um restaurante com muitos funcionários e se cobra para que tudo funcione bem. “Isso me traz um prejuízo emocional gigante, fico muito ansiosa.”

Quando uma mulher entra em sofrimento emocional por conta das pressões, o problema não é individual, na visão da psicanalista Manuela Xavier. “Existe uma estrutura social machista que leva as mulheres a sentirem que estão falhando. Mesmo a mulher consciente dessa realidade acaba por sentir culpa”, constata. O resultado ela vê no consultório: mulheres com ansiedade, estafa e depressão. “Mesmo que seja a CEO da empresa, na festa de fim de ano vão falar sobre a aparência dela, perguntar dos filhos. Se for mulher, sucesso profissional não basta.”

Mãe de duas crianças