EU ACHO…

SOCIEDADES QUE SE MOVEM

O novo que vem pela realização da justiça e pela atualização das instituições a partir da ação social movida pela imaginação e pelo sentimento é particularmente interessante.

Há sociedades que se movem em direção ao novo, há sociedades que parecem não sair do lugar, e há aquelas que se movem em direção ao passado. Sim, imaginação. A abertura para o novo e para as mudanças que ele pode trazer exigem imaginação. Um dia se imaginou que o homem chegaria à lua. Ao longo da pandemia, o esforço de combatê-la e de pensar no que sobreviria exigiu imaginação. Aqui nos Estados Unidos o trabalho da imaginação esteve presente ao longo da campanha de Joe Biden, em sua vitória, durante o turbulento período de transição, e continua presente quatro meses depois do início de seu governo.

Imaginou-se que o país seria capaz de imunizar rapidamente a população em alguns meses utilizando as vacinas mais sofisticadas do mundo. Estamos a um par de meses de conseguir fazê-lo. Imaginou-se que o debate sobre clima e meio ambiente se tomaria central na reorganização das políticas públicas. O Plano Biden está aí para mostrar que também isso foi possível, a despeito do que venha a ocorrer durante as discussões no Congresso. Imaginou-se que a retomada econômica viria com a criação de empregos e com o apoio aos mais vulneráveis. Novamente, o pacote aprovado no início de 2021 tem como princípio norteador a ajuda aos mais pobres. Imaginou-se que seria possível começar a enfrentar o racismo e a violência policial contra os negros. No dia 20 de abril, o policial que ajoelhou sobre o pescoço de George Floyd a ponto de esmagá-lo e asfixiá-lo foi condenado por seus crimes. Não é mais do que um início, como muitos têm enfatizado. Mas, para quem vive aqui nos Estados Unidos e é testemunha do que se passa a toda hora com a comunidade negra, a esperança é palpável. Para quem viveu os anos Trump, mais ainda.

O novo na condenação de Derek Chauvin pelo homicídio de George Floyd se apresenta pela imaginação, pelo desejo e, sobretudo, pela forma de realização da justiça. Nesse caso em especial, a justiça se realizou como fruto das interações de instituições e sociedade, em particular, da ação social como forma de atualizar o caráter republicano das instituições. Sabemos que o tempo das instituições é demorado e que a questão do racismo nos Estados Unidos é, como no Brasil, estrutural, portanto, de longa duração. Mas essa arquitetura estruturante das relações que é o racismo foi desafiada, no caso do homicídio de George Floyd, pelo tempo célere das novas tecnologias comunicacionais, as quais parecem naturalmente incorporadas à vida dos mais jovens. O assassinato foi gravado por uma menina que empunhava um telefone celular e que, durante os nove minutos de agonia, captou cada instante da vida que escapava de Floyd por força do joelho do policial. O policial, em determinado momento, parece sorrir para a câmara enquanto praticava o mortífero ato.

O vídeo de nove minutos que registrou o homicídio rodou o mundo e despertou reações de solidariedade. Essa circulação ampla tomou George Floyd um ícone global da violência policial contra os negros em particular, mas também contra outras raças. A solidariedade que sobreveio de ser testemunha da agonia da vítima, de seu sofrimento intenso, de sua declaração “não consigo respirar” durante uma pandemia em que tantos se viram asfixiados, dos momentos finais em que chamou sua mãe, transcendeu as fronteiras dos Estados Unidos. Testemunhamos ações de protesto em todo o mundo e elas também perduraram nos Estados Unidos. Tudo isso torna possível dar passos além da imaginação rumo ao aperfeiçoamento do caráter republicano das instituições. O júri que condenou Derek Chauvin era composto de seis pessoas brancas. Seis pessoas brancas que não titubearam em declará-lo culpado pelos três crimes que lhe foram imputados.

Ele suscita muitas reflexões sobre como os caminhos para o novo podem ser percorridos no Brasil. O que não falta em nosso país são injustiças e mobilizações para demandar a implementação de direitos. O que parece nos faltar é a imaginação e a crença de que a ação social é, sim, capaz de moldar instituições, ainda que elas se mostrem engessadas e cada vez menos preocupadas com o bem-estar da população.

A movimentação por um país que enxerga na justiça o caminho para o que é novo começa agora. Que entregue bons frutos em 2022.

MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

BORBOLETAS AMEAÇADAS

Degradação da floresta amazônica desbota as cores desses insetos. E os torna, assim, alvos fáceis de predadores

Nossa natureza está menos bela. Rica em biodiversidade, a floresta amazônica pede socorro, uma vez que as borboletas, ilustres moradoras, podem desaparecer. Altamente dependentes das árvores, os lepidópteros — termo científico usado para definir borboletas e mariposas — estão perdendo a cor, reflexo das ações humanas que lhes rouba a vida.

Um estudo intitulado “Descolorindo a Floresta Amazônica”, feito por pesquisadores brasileiros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Federal de Pelotas, junto com a Universidade de Exeter, no Reino Unido, analisou mais de mil quilômetros quadrados da floresta e confirmou que o ecossistema está em colapso. Nas áreas menos devastadas, ainda é possível ver insetos com asas vermelhas, verdes e azuis, entre outros tons, e é por isso que eles conseguem se camuflar e manter uma alimentação razoável. Nas áreas onde quase tudo foi destruído, as borboletas ficam no solo, comem e moram em plantas queimadas, o que explica as cores marrom e cinza. Para o geógrafo Marcelo Lemes, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), “o desmatamento reduz o número de espécies porque nem todas se ajustam ao clima”.

Ele ressalta que os insetos coloridos não se adaptam tão bem fora de zonas com vegetação, mas as borboletas escuras sim, uma vez que se camuflam no solo, nas folhas e na fuligem para fugir dos perigos. Opinião que Olaf Hermann, Lepidopterologista da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reforça. “Se acabar a comida, acaba a vida, é simples”, diz. “É um cenário muito triste, mas a tendência é aumentar”.

Hermann destaca que o descaso do governo brasileiro com o meio ambiente não é novidade, mas que nunca viu uma situação como a atual, em mais de 20 anos estudando borboletas. “Se os políticos não tomarem iniciativas, vai acabar tudo”, lamenta. Elas são fundamentais para a Amazônia. É seguro afirmar que as borboletas sem cor simbolizam o início do fim da nossa natureza.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE MAIO

A RECOMPENSA DA BONDADE

Os maus inclinam-se perante a face dos bons, e os perversos, junto às portas do justo” (Provérbios 14.19).

Os homens maus temporariamente parecem ser mais fortes, mais espertos e mais bem-sucedidos do que os homens bons. Prevalecem pela força. Fazem estardalhaço nos tribunais e amedrontam pelas suas bravatas. Porém, essa vantagem dos maus é apenas aparente e temporária. A maldade não compensa. As conquistas alcançadas pelo uso da maldade terminam em derrotas amargas e fatídicas. O prevalecimento pela força torna-se fraqueza consumada. As vitórias adquiridas pela injustiça convertem-se em fracasso vergonhoso. Os justos, mesmo sofrendo afrontas e ameaças, mesmo colhendo perdas e prejuízos, triunfarão, ao passo que os maus terão de inclinar-se perante a face dos bons, e os perversos terão que se dobrar à porta dos justos. A maldade não compensa. Pode parecer robusta e imbatível, mas carrega dentro de si o potencial para o desastre. A bondade, contudo, tem recompensa garantida. Os bons podem até descer à cova, vítimas da mais clamorosa injustiça, mas receberão do reto Juiz a bem-aventurada recompensa. Os justos podem até sofrer temporariamente escárnios e perseguições, mas no final usufruirão de gloriosa recompensa, senão da terra, certamente do céu.

GESTÃO E CARREIRA

QUESTÃO DE ORDEM VIRTUAL

Com a pandemia, assembleias de acionistas e reuniões com investidores migram para as chamadas de vídeo e ganham uma nova dinâmica

A onda das chamadas por vídeo chegou ao topo das corporações no Brasil. Apresentações de resultados financeiros, reuniões de conselhos de administração, assembleias de acionistas e encontros com investidores vêm migrando de modo crescente para a tela dos computadores e celulares. Dito de outra forma: o virtual é cada vez mais real nesse patamar algo nobre das atividades de empresas que funcionam no país. Ok. já havia uma tendência nesse sentido, sobretudo onde o mercado financeiro é mais robusto, como nos Estados Unidos. No entanto, tal como ocorreu em outros setores, e em níveis menos decisivos do próprio dia a dia corporativo, a pandemia do novo coronavírus tem acelerado a adesão às videoconferências. E com uma consequência nada desprezível: a mudança achata as hierarquias demarcadas presencialmente. Mais do que isso, democratiza o acesso àqueles eventos, dando voz para valer aos acionistas minoritários.

No Brasil, a revolução coincide com um momento particular do mercado: o aumento no número de investidores da categoria “pessoa física” nas Bolsas de Valores, que em 2020 quase dobrou (não por causa do sars-CoV-2, evidentemente, e sim em razão da iniciativa de alcançar melhores rendimentos em um cenário de juros baixos, baixíssimos).

Amplificar a participação de investidores de todos os portes traz desafios espinhosos, como aprender a lidar com mais críticas vindas dos acionistas. Contudo, esclarecer dúvidas e responder a questionamentos faz parte da proposta das companhias de oferecer maior transparência.

“Na divulgação de resultados, a coisa não mudou tanto (com as chamadas de vídeo), porque as perguntas continuam sendo mediadas pelo moderador do encontro. Mas não há dúvida de que as videoconferências (com investidores) ajudaram a romper algumas barreiras”, disse Pedro Serra, gerente de Research da Ativa Investimentos. “As pessoas perguntam mais e de maneira mais incisiva. E isso é positivo. porque são reuniões justamente de prestação de contas. Um lado de abrir capital em Bolsa é botar dinheiro no bolso, porém o outro é ouvir e explicar”, destacou ele.

Raphael Soté, sócio da área forense da Consultoria KPMG, ressaltou que o suporte em vídeo exige que a administração das empresas “prepare ainda mais seus executivos para reuniões com maior número de pessoas. Todos os acionistas têm direitos, e é fundamental garantir que eles sejam respeitados também no ambiente virtual”.

Não apostar nessa cautela pode ser desastroso. Até porque, com vídeo, e o registro gravado, basta um clique para que tudo reverbere à exaustão. Ao mesmo tempo, entretanto, tamanho alcance pode funcionar para explicitar pressões externas.

No dia 25 de fevereiro, em sua primeira aparição pública depois do anúncio de que seria substituído na presidência da Petrobras, Roberto Castello Branco, trabalhando em home office, comandou a videoconferência para apresentar os resultados da estatal no quarto trimestre do ano passado – lucro recorde, aliás – vestindo uma camiseta na qual se lia “Mind the gap”.

A frase, emprestada do alerta do metrô de Londres para que os passageiros tenham cuidado com o vão entre os trens e a plataforma, vinha sendo repetida por ele para assinalar que a companhia deveria manter uma dinâmica de preços em paridade com os valores praticados no mercado internacional – o estopim de sua saída da estatal, decidida pelo presidente Jair Bolsonaro. O recado ao chefe do Executivo repercutiu extraordinariamente.

Após o barulho da Petrobras, foi a vez de a Vale apresentar suas contas, só que por teleconfência. Seus executivos tiveram de responder a um analista do Bank of America Merrill Lynch se havia risco de ingerência política no comando da mineradora. Na mão oposta da atual tendência das companhias, a Vale não tem no momento planos de passar a fazer eventos dessa natureza por chamadas de vídeo.

Empresas de capital aberto voltadas para o varejo vêm aderindo mais ao novo modelo. Renner, Arezzo & Co e Via Varejo (dona de Casas Bahia e Ponto frio) estão fazendo divulgação de resultados em videoconferência. É, claro, uma ponte para chegar ao investidor – e, numa segunda leitura, também ao consumidor final.

Um ponto que foi a nocaute na era das reuniões virtuais é o que Sidney Ito, sócio da consultoria em riscos e governança corporativa da KPMG, chama de “a reunião fora da reunião”. Ito sublinhou que “no presencial, havia o café, o intervalo, a ida e a volta para o aeroporto, a viagem; uma série de momentos para encontros e conversas informais, bastidores, que ajudam na construção de uma rede de relações e negociações que colaboram com o todo”. Já no processo por videoconferência “existe a dificuldade de conhecer melhor outros membros do conselho, executivos ou acionistas”, pontuou ele.

Em que pese essa indiscutível realidade, durante a pandemia já ocorreram até mesmo eleições virtuais de conselheiros administrativos – que, portanto, não tiveram contato físico direto com os demais. E isso se constituiu em um problema? Não necessariamente.

A Assaí, rede do setor de atacarejo, que foi listada em Bolsa no início de março, depois da cisão do Grupo Pão de Açúcar, é exemplo de negócio que fez a transição por meio digital em pleno surto de Covid-19. “Todas as reuniões com investidores anteriores à listagem, o chamado ‘roadshow’, foram on-line. Sem essa mudança trazida pela doença, eu não teria conseguido participar desses encontros”, relatou Gabrielle Helú, executiva da empresa.

Atuando como diretora de relações com investidores, ela chegou ao Brasil em fevereiro, vinda de Paris, onde trabalhava para o francês Casino. “Reuniões com os investidores por vídeo aproximam mais do que a call por voz. Dá mais acesso aos executivos, que também têm mais tempo para falar com esses investidores. Poupa tempo, a agenda; reduz custos de deslocamento”, avaliou ela. “O Assai já está começando a adotar conferência de resultados por vídeo, e vai continuar a fazer isso, em minha visão. Nó tocamos o sino da Nyse (Bolsa de Nova York) digitalmente!”, destacou Helú.

Claudio Oksenberg, sócio da prática de Direito Societário do escritório Mattos Filho, chamou a atenção para o fato de que o novo modelo adotado pelas corporações sob o impacto do coronavírus também vem sendo acompanhado por ajustes na legislação. “Em assembleias de acionistas, já havia voto à distância, por exemplo. Com a pandemia, vieram novas regras para assembleias híbridas ou 100% digitais. A legislação tem se adaptado e ajudado no cumprimento das regras de mercado”, analisou o advogado.

Segundo ele, para manter as regras de boa governança corporativa em sintonia com a lei, é importante “ter nas videoconferências alguém conduzindo os trabalhos, controlando número e tempo de perguntas e respostas, dando a palavra a quem pede e tirando o microfone de quem estiver abusando de seu direito”.

As mexidas no universo corporativo ganham corpo ainda por meio de atos do governo. No fim de março, foi publicada a Medida Provisória (MP) 1.040, com o ambicioso objetivo de levar o país a subir de posição no Doing Business, ranking elaborado pelo Banco Mundial que classifica o ambiente de negócios das nações. Em 2019 – ano do último dado disponível a respeito -, o Brasil ficou em 124º lugar entre 190 países.

“Oferecer maior proteção a acionistas minoritários é uma forma de subir no ranking”, explicou Oksenberg. Para ele, no entanto, a MP trouxe medidas que pediriam mais debate “porque mexem com a Lei das SA, consolidada há tempos”.

De acordo com o advogado, “alguns assuntos passarão a ter de ser leva dos para a assembleia, em vez de se rem decididos pelo conselho, o que não impede que a questão passe pelo conselho. As assembleias de acionistas precisarão ser convocadas com 30 dias de antecedência, o que é melhor para o minoritário, mas não necessariamente para a companhia, pois pode tirar agilidade na tomada de decisões”.

Sars-CoV-2 à parte, há em relação à explosão das videoconferências no degrau mais alto do mundo corporativo dois consensos. Um deles é que a mudança veio para ficar. O outro é que executivos, acionistas e analistas seguem tendo muito a aprender nessa transição.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MINHAS EXPERIÊNCIAS COM A VERDADE

Em um mundo onde a palavra parece perder a importância, o exercício da autenticidade pode ser uma vantagem competitiva

Toda pessoa que escreve (e sobretudo lê) certamente já passou pela experiência de se deparar com um texto, às vezes apenas uma única frase, e lamentar-se de não ter sido sua autora. Isso aconteceu comigo inúmeras vezes, mas desta vez foi um título que me arrebatou: Minhas Experiências com a Verdade. Nada mais nada menos que a biografia de Gandhi. Pudesse eu escrever uma autobiografia, não haveria título melhor. De fato, “Minhas experiências com a verdade” poderia ser o título da autobiografia de qualquer pessoa que possui a autenticidade como uma de suas forças pessoais.

Considerada na Antiguidade grega como uma característica sagrada, autenticidade era o principal critério a ser levado em conta na formação de homem-excelência e, durante certo período, também foi condição essencial na outorga do título de cidadão na sociedade helênica. Nessa época, todo jovem que passasse pelo sistema educacional arcaico da Paideia deveria fazer o solene juramento a Eros: “Nada dirás ou farás que não seja em nome de Eros”. Mas qual seria a relação de tal juramento com a autenticidade? Para respondermos a essa pergunta precisamos lembrar que para o grego antigo qualquer coisa seria considerada sagrada do ponto de vista de Eros (ou seja, do ponto de vista erótico) se revelasse a verdade do ser. Vale dizer também que, nesse sentido, o conceito arcaico de prostituição em muito se diferia do seu significado atual, na medida em que correspondia ao ato de se fazer qualquer coisa que não revelasse a verdade do ser, ou seja, em termos mais heidegerianos, qualquer coisa que ocultasse ou impedisse a manifestação da exata correspondência entre essência e aparência. Sim, porque nessa época (quem diria?) a autenticidade era erótica.

Quando Atenas passou a oferecer o título de cidadão a qualquer sujeito que lutasse em seu nome e voltasse vivo, deu-se o início do fim de toda uma cultura que primava pela excelência do caráter.

Mas ainda assim a deterioração da autenticidade na cultura ocidental se deu lentamente. Ainda no século XIX, propriedades eram negociadas no que se costumava chamar de “fio do bigode”, ou seja, na simples palavra dos envolvidos.

Concordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, que afirma vivermos hoje os “tempos líquidos”, ou seja, uma sociedade do descartável na qual nada é feito para durar. Contudo, creio que mais grave do que o tempo líquido de Bauman (ou talvez até mesmo como consequência dele) seja o que chamo de palavras líquidas. Palavras esvaziadas de sentido, esvaziadas de verdade, palavras que mais escondem do que revelam, palavras que o vento leva, como afirma o dito popular.

São as palavras líquidas que tornam imperativo que qualquer contato no escritório seja formalizado por um e-mail. Estamos perdendo a capacidade de confiar nas pessoas, deixando de ouvi-las com atenção porque, afinal de contas, tudo será registrado por escrito para consulta posterior. E porque tudo será registrado, apenas o registrado se torna real. E, assim, a palavra se liquefaz, tornando-se dependente da escrita e dos contratos que jazem num mar de firmas reconhecidas.

É nesse contexto que os autênticos se sobressaem. Adoradores da antiga arte de fazer valer a sua palavra, mostram-se como são, vivenciam seus valores e fazem o que dizem tanto quanto o que assinam. Eis uma excelente vantagem competitiva!

Mas não nos deixemos levar por exageros. Talvez a primeira lição que uma pessoa autêntica deva aprender seja a de diferenciar sinceridade de “sincericídio”. Em minha autobiografia imaginária esse certamente seria um longo capítulo.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

EU ACHO …

O GENE DA FESTINHA

Recente estudo do Royal College de Londres descobriu que alguns seres humanos nascem com uma mutação genética que afeta o gene do bom-senso.

Essa mutação faz com que o portador seja incapaz de controlar seus impulsos quando ouve as palavras “festa”, “balada” ou “rave”, por isso, foi batizada de Festogênia.

Para nós, seres humanos normais, pode parecer ridículo.

Difícil compreender como alguém pode ter dificuldade em conter o ímpeto de festejar, pensam aqueles que, numa festa de casamento, por exemplo, sempre precisam ser arrastados para a pista.

Os festogênicos não.

Esses dançam até quando o garçom derruba a bandeja.

Aposto que você conhece o tipo.

São consumidores contumazes de colares havaianos e vuvuzelas.

Ao menor sinal de uma bagunça, são os primeiros a fazer um trenzinho e se perderem no salão.

Carnaval para eles é o ponto alto do ano. De preferência na Bahia.

Antes da pandemia, não era fácil reconhecê-los, porque festas e reuniões não estavam proibidas, então mutantes
e não mutantes se misturavam e sempre acabavam enchendo a cara em algum boteco. Aí faltavam ferramentas para saber quem era quem.

Apesar de que, desconfio, os festogênicos eram os que mandavam “Sextou!” no grupo de WhatsApp da família.
Também acho que eram os que no meio de reuniões de trabalho sugeriam:

— Deu né? Vamos de Happy Hour? Hein? Hein? Alguém?

Os festogênicos geralmente são sujeitos boa praça.

Indivíduos perfeitos para que a gente pergunte:

— E aí? Qual a boa de hoje?

Sempre sabem a resposta.

Em suas agendas tem sempre uma balada, uma festinha secreta, o show de um DJ qualquer.

E até o início da pandemia, eram inofensivos.

Ocorre que, de alguns meses para cá, os festogênicos passaram a ser um grupo perseguido pela sociedade.
Párias mesmo.

Tudo porque, não importa os números da Covid-19, ou as restrições em suas cidades, os festogênicos não conseguem se controlar.

É mais forte que eles, coitados.

Então continuam se reunindo em festas que varam as noites, orgias virais, a despeito dos riscos.

E não ache que fazem isso em apoio ao presidente Bolsonaro. Nada disso.

Nessas festas proibidas você encontra Bolsonaristas, Lulistas, Ciristas e até alguns que votaram no cabo Daciolo.
Apoiadores da Marina, é verdade, são raros porque não primam pela animação.

O fato é que os festogênicos estão lá porque são motivados pela genética e não pela política.

Muitos deles compreendem o risco de participar de um encontro nos dias de hoje e são favoráveis ao isolamento, desde que não esteja tocando Alok.

E correm o risco com ou sem máscara porque, afinal, festa sempre tem umas bebidinhas e os festogênicos não costumam perder a chance de uns bons drinks.

Aí já viu.

Combinando suas animações genéticas com uns dois ou três copos de caipirinha, as máscaras perdem muito da importância e mesmo os mais cuidadosos acabam por ceder à tentação e são vistos pelo salão de língua de fora como
se a pandemia já tivesse acabado há décadas.

A verdade é que, nas últimas semanas, as polícias em todos os estados têm invadido dezenas, centenas até, de reuniões de festogênicos.

Por mais que tentem coibi-los, na semana seguinte estão lá de novo, dançando, pulando e distribuindo perdigotos como se não houvesse amanhã.

Se você conhece alguém que apresenta esse tipo de sintoma, a Organização Mundial da Saúde recomenda que reporte para as autoridades o nome do infeliz para que possa ser feito o monitoramento de suas atividades.

O estudo que identificou essa mutação ainda está no início, e a comunidade cientifica aguarda ansiosa por novas conclusões. Principalmente sobre a suspeita de que estes indivíduos sofrem também de outra profunda metamorfose, essa muito comum, conhecida pelo nome de “estupidez”.

*** MENTOR NETO

OUTROS OLHARES

DOS JETSONS PARA A VIDA REAL

Curiosamente, diversos equipamentos mostrados no desenho são usados por nós hoje, como robôs, aspiradores inteligentes e tablets. O seriado se passava em 2062

Acredite ou não, um desenho conseguiu prever o futuro. Lançado em 1962, o seriado “Os Jetsons”, que mostrava as aventuras de uma família vivendo no ano de 2062, apresentou, em primeira mão, diversos aparelhos tecnológicos que usamos hoje, desde robôs que limpam a casa até chamadas de vídeo, tablets, assistentes pessoais e carros voadores.

Quase tudo dependia de tecnologia, como agora. Assim sendo, é possível afirmar que nos tornamos seres high-tech como ‘Os Jetsons’ previram. Oscar Reis, especialista em comércio exterior, é a prova disso. Ele não vive sem seus apetrechos digitais. Por isso, desde o início da pandemia, trabalha em home office com seu computador, tablet, celular e smartwatch integrado com a Alexa, assistente virtual da Amazon, que o alerta das atividades diárias. “Sou totalmente futurista”. Ele reforça: “Quase tudo está integrado. Portanto, é preciso se adaptar”.

TUDO INTEGRADO

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o setor cresceu 5,1% em 2020 e movimentou mais de R$ 144,52 bilhões, números que comprovam a paixão dos brasileiros por tecnologia. “A indústria lança conceitos para ver como as pessoas vão lidar com aquilo, se vão desejar os objetos”, diz o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja. Sobre a influência do desenho, ele acredita que em breve os lares brasileiros serão totalmente integrados digitalmente. “A eficiência dos aparelhos chama atenção dos consumidores”, afirma.

Com duas gatas e sem tempo para fazer faxina em seu apartamento, a especialista em tecnologia Victoria Morena da Silva descobriu as vantagens de um robô aspirador há um ano e hoje não vive sem ele. “Uso todos os dias. Como sou alérgica, me salva da poeira”, diz. A utilidade é o principal pré-requisito dos aparelhos. “Eu limpo um cômodo e o robô limpa outro. Me ajuda muito”, conta. É seguro dizer que daqui para frente a nossa realidade será cada vez mais parecida com a dos Jetsons. Como se vê, a vida imita a arte.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE MAIO

VALORIZE O CONHECIMENTO

Os simples herdam a estultícia, mas os prudentes se coroam de conhecimento (Provérbios 14.18).

O conhecimento é o melhor tesouro que podemos acumular. Os bens se dissipam, mas o conhecimento permanece. O dinheiro pode ser roubado, mas ninguém pode assaltar o cofre da nossa mente para roubar o que lá depositamos. Os tesouros que granjeamos aqui podem ser dilapidados pela ferrugem, carcomidos por traça e saqueados por ladrões, mas o conhecimento que adquirimos é um bem inalienável que ninguém pode tirar de nós. Aqueles que desprezam o conhecimento e se gabam de coisas são tolos e herdam a estultícia, mas os prudentes se coroam de conhecimento. Os sábios investem tempo na busca do conhecimento. Privam-se de confortos imediatos para adquirir o conhecimento, mas este é em si mesmo um grande prazer. O conhecimento distingue o prudente, coroa-o de honra e eleva-o a uma posição de destaque. A Bíblia nos ensina a empregarmos o melhor dos nossos recursos para adquirirmos a sabedoria. Os tolos fazem troça da sabedoria e folgam-se com sua sandice, mas ao fim serão envergonhados e terão como herança aquilo que não possui valor algum. Mas os prudentes que buscaram o conhecimento herdarão honra e felicidade.

GESTÃO E CARREIRA

AS DORES DA DISTÂNCIA

O home office deve ser adotado em definitivo pela maioria das empresas no pós-pandemia. Antes, porém, será preciso aprender a administrar os desafios longe do escritório

A verdade é que as empresas esperavam por este momento: o dia em que o teletrabalho seria tão corriqueiro quanto pegar um ônibus. Elas já sabiam que poderiam economizar muito com aluguel e energia, mas ainda pairavam dúvidas em relação à produtividade – se aumentaria, diminuiria ou permaneceria a mesma. A pandemia parece ter acelerado o processo e respondido a algumas questões. Estudos de múltiplas consultorias nacionais e internacionais mostram que, enquanto a ocupação de lajes corporativas caiu em 40%, a produtividade tomou caminho contrário, subindo em média 50%. Resta agora saber se a melhoria no desempenho será permanente ou apenas um efeito colateral do medo que as pessoas têm de perder o emprego na crise. E mais relevante: descobrir como ficará a saúde mental dos funcionários no distanciamento.

Segundo pesquisa recente da consultoria de recrutamento Robert Half, 92% dos colaboradores são favoráveis ao trabalho remoto, tendo o modelo híbrido (parte em casa, parte no escritório) como o preferido. Ainda que as companhias estejam alinhadas com esse desejo, há um lado do home office potencialmente sombrio que não pode ser ignorado: os efeitos deletérios sobre as pessoas. Se, por um lado, o profissional rende mais afastado das distrações inerentes ao convívio social, ele fica à mercê de outros transtornos. Um levantamento da Royal Society for Public Health, instituição britânica dedicada à saúde, revelou que 67% das pessoas forçadas a fazer home office reportaram queda de empatia com os colegas, enquanto 37% relataram distúrbios de sono.

“Os problemas podem ir além da solidão e do burnout, o esgotamento físico e mental ocasionado por excesso de tarefas”, diz Eliseu Urban, sócio da Valuing, empresa de treinamento de executivos. “Já foram relatados falecimentos não relacionados à Covid-19, brigas em teletrabalho e até uma aparente tentativa de suicídio.” Urban também pontua que, por esses motivos, as empresas estão oferecendo ajuda psicológica aos funcionários, além de aproximá-los dos gerentes-seniores. “A saúde mental das equipes passou a ser prioridade dos RHs”, afirma o especialista.

A postura assumida pelas grandes empresas confirma a percepção das consultorias. A Johnson & Johnson instituiu um modelo que incentiva os profissionais a se desconectar uma sexta-feira por mês para relaxar. A Heinz além de oferecer auxílio financeiro para o home office, tem bloqueado as manhãs de segunda-feira a fim de permitir que as pessoas se organizem para a semana sem ter de se preocupar com isso no domingo. A BR Distribuidora optou por oferecer atendimentos virtuais de medicina e psicologia. O fundo Aqua Capital, de agronegócio, foi além: busca entender quais empregados podem estar próximos do burnout para impedir que aconteça. A Cielo passou a oferecer apoio contra ansiedade e depressão. Caminho semelhante percorrem a companhia de tecnologia VTEX, a Arcelor Mittal, líder mundial na produção de aço, e outros gigantes de diversos segmentos, como Braskem, Roche, PepsiCo e Royal Canin.

A opção pelo modelo híbrido em vez do home office integral, não se deve apena à melhoria da dinâmica de trabalho. Há uma preocupação genuína dos RHs com a conexão entre os funcionários e a empresa. É interessante diminuir o desembolso com a locação de espaços, mas é igualmente importante manter algum contato para avaliar as condições físicas e mentais dos colaboradores. Mas trata-se de um movimento irreversível. Muitas companhias estão abordando nos seus contratos profissionais nova regras para o teletrabalho, como o fornecimento de equipamentos, cadeiras e mesas ergonômicas, concessão ou cancelamento de benefícios e adequação de jornada.

Nos últimos meses, as boas empresas têm, de fato, se esforçado para cumprir esses requisitos, e a maioria delas certamente chegará a um modelo que seja adequado para o negócio em si e para a qualidade devida dos colaboradores. “É um caminho sem volta, em que todas as partes têm de se ajustar”, diz Carlos Marui, sócio-diretor da Tredici, empresa especializada em recursos humanos. Superada a crise do coronavírus, o mercado precisará agir para evitar outra pandemia – a de colapsos emocionais. Felizmente, isso já vem sendo feito.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SONHAÇÕES: A PELE DA COBRA

A observação na Psicanálise trata diretamente com movimentos fluentes, com mudanças de estados mentais. A dificuldade principal reside em como aproximar conceitos de intuições

“Quando pronuncio a palavra Futuro,

A primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

Suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,

Crio algo que não cabe em nenhum

não ser.”

Wislawa Szymborska (As Três Palavras mais Estranhas)

Para falar sobre o ato de observação em Psicanálise estou tom ando como base o momento que o poema demonstra esse hiato entre o que é observado e as palavras que usamos para nomeá-lo. Ressalto que esse momento se constitui como um ponto crucial em nosso cotidiano como psicanalistas. Há um risco sempre presente em nossa atividade, que é o de tomarmos nossos mapas conceituais ou os nomes que usamos como fatos e colapsarmos nossas observações.

Em nossa atividade lidamos com movimentos fluentes, com passagens constantes entre estados mentais, que fazem parte de uma complexidade que, em Psicanálise, conjugamos pelo nome “personalidade”. Nossas formas de entendimento, bem como a linguagem que usamos para nos aproximarmos dos eventos que nos torneiam, inexoravelmente delimitam diversas regiões da realidade.

O problema continua sendo como aproximar conceitos de nossas intuições. Para nós, psicanalistas, a distância entre o dogma e a fé pode ser muito estreita. Através de um “ato de fé” pode-se “ver”, “ouvir ” e “sentir ” o fenômeno mental de cuja realidade nenhum psicanalista praticante tem dúvida, embora não possa representá-lo com exatidão pelas formulações existentes.

Os psicanalistas observam certas coisas que outras pessoas não podem ver, ainda que talvez seja possível para os que buscam uma análise. Esse mundo é o mundo da experiência emocional. Nele, emoções, como tristeza, alegria, amor, sexo, solidão, paixão são fatos tão tangíveis como uma mesa ou a chuva. Esses aspectos, muitas vezes, são tão sutis e evanescentes que resultam ser virtualmente invisíveis, mas sabemos que são tão reais que podem chegar a destruir-nos se permanecemos passivos frente a eles.

As investigações sobre a realidade psíquica e a expansão dos limites de suas fronteiras nos colocam na mesma situação de uma criança que precisa aprender a falar e pensar simultaneamente. Ela não consegue falar, pois seus pensamentos lhe são estranhos, e não pode pensar, pois lhe faltam conceitos a partir dos quais seus pensamentos possam se ordenar.

O analista, ao “obter” uma experiência emocional, precisa vesti-la através de uma imagem visual (ou, de modo mais geral, uma experiência sensorial), com o intuito de torná-la disponível para ser uma espécie de peça, que será usada nos pensamentos. A imagem visual encarna uma emoção de tal modo que ela possa se tornar pensável.

Esse é o misterioso trabalho do sonho (que Bion denomina TS-alfa): parear a experiência emocional do momento com uma imagem visual. Quando esse pareamento ocorre, outro salto misterioso sobrevém; agrega-se a essa imagem uma dimensão ideacional que não é um pensamento, mas, sim, uma extensão passível de ser convertida em uma dimensão pensável.

EXPERIÊNCIA

Visitando uma região rural e passeando por um lugar na mata junto com um acompanhante, alguém que conhecia a região, em uma ravina, ele me apontou o que percebi como sendo a pele de uma cobra. Logo adiante eu mesmo apontei a ele o que seria mais um pedaço da pele de uma cobra, o local parecia estar coalhado de “peles” de cobra.

Obviamente, instalou-se uma grande apreensão. Mas, e as cobras propriamente ditas, como eu as perceberia? O fato de estar nessa região e com esses indícios, ampliavam-se sobremaneira as chances de nos encontrarmos com uma cobra, pois me lembrava de que, na época de mudança de pele, a cobra fica mais arisca e irritável.

Nesse momento tenho também uma recordação da minha visita educativa ao Instituto Butantan e das explanações sobre a aparência das cobras venenosas. Essas eram as referências que valorizei para dar conta do que estava experimentando e dar continuidade à investigação do que se apresentava como a minha experiência daquele momento.

Após algum tempo de caminhada meu acompanhante, que estava logo atrás de mim, solta um grito de dor – ele sofrera o bote de uma cobra que o picara. Ele passava justamente pelo mesmo caminho que alguns segundos atrás eu passara. Com seu grito, tornando-me ainda mais alerta, viro-me rapidamente em sua direção e vislumbro um pequeno vulto deslizando furtivamente entre a vegetação rasteira e desaparecendo logo em seguida.

A partir desses elementos apresentados pelo grito de meu parceiro, meu próprio susto e o estado de alerta subsequente, uma ruptura do estado mental anterior, vislumbrei a dimensão na qual a cobra viva estava presente.

Em minha epistemologia pessoal havia pelo menos três diferentes dimensões, que delineio como premissas para sustentar meus argumentos a respeito do ato de observar e/ou colapso de nossas observações. Havia uma dimensão do que seria a cobra, outra dimensão era o lugar em que a cobra esteve e não estava mais, e por último a cobra. Com essa analogia quero focalizar as diferentes dimensões de nosso instrumental observacional: os enquadres conceituais (aquilo que aprendi sobre as cobras), a sustentação de dúvidas (as peles da cobra e meus conhecimentos sobre cobras me possibilitavam um tipo de expectativa a respeito daquele momento) e a emergência de uma intuição (o bote da cobra).

Pontuo que a Psicanálise não pode ser contida nas teorias que ela produz, e o que melhor configura seu método seja a ideia de que ela é uma sonda, cujo movimento expande um universo que está muito além de seus conceitos.

O analista e seu analisando são ambos dependentes dos sentidos, mas as qualidades psíquicas com as quais tratamos não são percebidas pelos sentidos, nem pela memória ou pelo desejo. Acredito que manter- se disponível e em sintonia com um estado de mente que propicie o “bote da cobra” pode nos apresentar para uma experiência fugaz, dolorosa e vivamente presente e real. Talvez seja somente nessa dimensão que a nossa própria existência como analista possa ser experimentada como verdadeira.

Tal disponibilidade exige o exercício da fé, uma fé científica, para que a intuição possa emergir e captar a experiência emocional que está sendo transformada na sessão. Segundo minhas referências, “mistério” é a vida real e ela só pode se apresentar aos nossos instrumentos de observação pela via da intuição.

O “bote da cobra” aproxima-se de uma “intuição instantânea” que, uma vez formulado, assume “definitividade” e pode temporariamente ser usado como ponte para passar para outro momento. O que surge da intuição deverá ser um pensamento que pode ser abandonado no mesmo momento em que é pensado. Quando entramos em unicidade com a verdade daquele momento, o que se consegue é uma percepção do positivo e do negativo, mas com a velocidade de um flash, uma centelha. Esse movimento é pontuado no poema de Szymborska.

MODELO CLÍNICO

Nesse modelo clínico aparece o que chamei de “bote da cobra”, uma intuição instantânea que provém de um longo percurso de sustentação de dúvidas e incertezas, uma ponte para outro momento da dupla.

Inicio um relacionamento com alguém que se apresenta a mim como quem foi indicada por uma ex-paciente minha, que foi sua professora na universidade. Nossos encontros revelam-se, à minha percepção, de uma forma excêntrica: senta-se à minha frente e me pergunta, sentindo-se afrontada com o meu olhar: “Eh… o que foi, hein?”.

Os momentos em que sustentei algum tipo de fala, a partir de uma questão ou observação que me pareciam pertinentes, desencadeavam uma turbulência que “desmoronava” literalmente o setting, culminando com a saída brusca da “paciente”, batendo a porta e dizendo impropérios à minha pessoa e ao que ela imaginava que fosse o meu trabalho.

Afortunadamente ou desafortunadamente ela voltava para outra sessão. Ela, então, na medida em que eu aguardava em silêncio que algo evoluísse entre nós, parecia brincar mostrando-se indiferente à minha presença, dava pequenos chiados, que eu identificava como um ciciar. Colocava um dedo sobre a boca, apontava para o meu corpo e sussurrava esse chiado. As primeiras imagens pictóricas sobre a cobra surgiram desses momentos. Posteriormente, foram se transformando nas conjeturas imaginativas que apresentei.

Acontecia às vezes um esboço de diálogo, resmungos que eu escutava como ruminações e queixas sobre a sua vida e sobre o que ela experimentava em suas relações; nesses momentos se eu a interrompesse formulando alguma questão ou mesmo interpelando-a sobre algo que não havia escutado, ela dizia exibindo uma mímica facial de desprezo: “Não é nada…”.

Percebia que ela jogava seus cabelos sobre seu rosto. Ela os tem longos e selvagens, isto é, sem nenhum tratamento de escovação ou métodos de alisamento. Separava, então, de cada lado de sua cabeleira duas porções de cabelos e literalmente pendurava-se neles, enrolando-os e desenrolando continuamente. Com sua face escondida pelos cabelos iniciava uma fala, para mim, desconexa e em um tom monocórdio, mesclada com vocalizações de cantigas infantis.

Havia entre nós a mobilização de um tipo de passividade, uma entrega a uma ausência de sentidos, a uma ausência de palavras e a presença de um comportamento que eu sentia como incompreensível.

Vou me sentindo torporoso e tenho a impressão, a partir dessa sonolência, de observar, nos momentos em que consigo manter-me precariamente atento, uma criança completamente alheia ao seu entorno, brincando e conversando sozinha. Saio desses episódios como que embriagado, recompondo-me logo em seguida ao término da sessão. Essas situações eram perturbadoras, porque eu sentia que estava completamente desprovido dos recursos que habitualmente nos acompanham em diferentes contextos, além de que essas situações me aproximavam daquilo que acontecia com alguém severamente regredido. Segundo Bion, quanto mais perto de alcançar a supressão do desejo, memória e compreensão chega o analista, mais é possível que ele deslize num sono semelhante ao estupor.

Ao final de algumas dessas ocorrências ela resmunga algo expressando certa surpresa, mas como se falasse consigo mesma: “Como é que consegue?”. Noto nesses momentos que ela expressa uma jovialidade, quase um contentamento.

Essa observação e tal questão ampliam meu desconcerto, mas ao mesmo tempo me fazem supor que essa condição tenha alguma importância para o que ela tenta me comunicar, mas que para mim era inacessível.

Ao longo de um período e experimentando um estado de torpor, vou me atendo às vocalizações, que vão me parecendo um tipo de ritmo infantil e repetitivo. Algo como: “Nã, na, nãã, na, nãã, na…!”. Que me dava a impressão de estar envolvido pelos ritmos e rimas de canções de ninar e, ao mesmo tempo, pela cadência das zombarias infantis.

Depois de um bom tempo dessas experiências vou distinguindo, mobilizado por esses ritmos e padrões, uma de minhas vivências e me vejo em situações de confrontos infantis, elaborando sátiras, que eram repetidas nos ritmos de uma canção, tais como: “Magro banguelo… pé de chinelo ” como resposta a “Gordo … baleia… saco de areia”.

Dou-me conta da habilidade, muitas vezes cruel das “crianças”, de transformar diferenças, insuficiências e defeitos em “apelidos jocosos”, que, por sua vez, sustentam uma interação através de disputas e confrontos, mas, ao mesmo tempo, pode ser entendido como um tipo de apresentação entre duas pessoas. Distinguir essas emoções em meio ao torpor tem efeito de um choque, um impacto, sinto-me vivo e existindo naquele momento. Aquela experiência inacessível, momentaneamente, torna-se singular e pessoal. Sinto que tenho algo de minha experiência afetiva e que posso imaginar que se relaciona ao que ela está tentando me comunicar. Observo-a com seus cabelos cobrindo todo o seu rosto e ela, percebendo que saí daquele estado torporoso, se espanta agarrando-se às mechas de seu cabelo com mais intensidade e começa a enrolá-las.

Pergunto-lhe: “É sobre um tribufo…?”. Sonhei que a partir daqueles movimentos e ritmos, bem como daquele cenário, ela me contava uma história sobre algo que poderia pertencer a essa dimensão. Assusto-me ao mesmo tempo por ter formulado tal questão e usado tal nomeação tão espontaneamente. Posteriormente, soube que este é um adjetivo regional da Bahia, de onde sua família migrou em busca de melhor sorte em São Paulo, bem como um tipo de troça que seus irmãos mais velhos lhe impunham.

Ela, então, me surpreende e dá uma gargalhada e me pergunta interessada: “De onde você tirou isto…?”.

Logo sua mímica facial se recompõe e me diz com desprezo, olhando ostensivamente para o

meu corpo: “E você, quem pensa que é?”. Respondo: “Daqui de onde te observo elevando em conta como você me olhou, posso imaginar que também sou um ‘gordo… baleia’ – expresso esse adjetivo jocoso no compasso que vinha de seus ritmos – que pode nos encalhar! “.

Sorri novamente e me diz: “E eu sou um tribufo que vai te assombrar!”.

MIGUEL MARQUES – é médico e psicanalista; membro efetivo da SBPSP e membro efetivo e analista didata de SBPRP. Trabalha em Marília, Ribeirão Preto e São Paulo.

EU ACHO …

O LANCHE

As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que eu subiria sozinha pelas escadas escuras até uma sala alugada? E como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.

Preferi outra imaginação. Começou misturando carinho, gratidão, raiva; só depois é que se desdobraram duas asas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto; mas também brilhavam as asas. Seria um chá – domingo, Rua do Lavradio – que eu ofereceria a todas as empregadas que já tive na vida. As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas.

— Pois te desejo muita felicidade – levanta-se uma – desejo que você obtenha tudo o que ninguém pode te dar.

— Quando peço uma coisa – ergue-se a outra – só sei falar rindo muito e pensam que não estou precisando.

— Gosto de filme de caçada. (E foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira.)

— Trivial, não, senhora. Só sei fazer comida de pobre.

— Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso.

— Fico com os olhos cheios de lágrimas quando falo com a senhora, deve ser espiritismo.

— Era um miúdo tão bonito que até me vinha a vontade de fazer-lhe mal.

— Pois hoje de madrugada – me diz a italiana – quando eu vinha para cá, as folhas começaram a cair, e a primeira neve também. Um homem na rua me disse assim: “É a chuva de ouro e de prata.” Fingi que não ouvi porque se não tomo cuidado os homens fazem de mim o que querem.

— Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo. É cheia de vontades, ela quer isso, ela não quer aquilo. A lordeza é branca.

— Eu queria folga nos três dias de carnaval, madame, porque chega de donzelice.

— Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que não tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, esta é a chuva de ouro e de prata. Sim.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FAZENDO A CABEÇA DOS JOVENS

Droga preferida da juventude, sobretudo dos millennials, o MDMA tornou-se o mais novo desafio para a polícia com a descoberta dos primeiros laboratórios de produção no país. Perigosa e fácil de comprar, a substância tem potente efeito alucinógeno

Sábado, 2 da manhã. Em uma festa regada a música brasileira, cerveja gelada e temperatura de 25 graus, com vista estupenda para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, cinco amigos de corpo sarado exibido por camisa aberta se reúnem em torno de um saquinho plástico contendo um pó cristalizado. Enquanto o DJ toca para a pista abarrotada um remix dançante de Mania de Você, antigo hit de Rita Lee, os integrantes da roda se servem da substância como se estivessem tendo acesso a um pote de ouro. Com o dedo, levam o conteúdo direto à língua (há quem prefira diluí-lo na água). O consumo não ocorre escondido dos olhos de ninguém, dura menos de trinta segundos, e demora entre dez e vinte minutos para o negócio percorrer a corrente sanguínea e bater no cérebro. Nas horas seguintes, os usuários vão experimentar seus potentes efeitos estimulantes e alucinógenos. Inundado pela química que altera a regulação dos neurotransmissores, o organismo fica em estado de hipersensibilidade, o que amplia percepções como o sentimento de prazer. “Eu tenho vontade de dançar e tocar nas pessoas, fico muito sexual”, descreve a universitária paulistana R.M., de 21 anos.

Cenas semelhantes vêm se repetindo em baladas, shows, raves, festas de faculdade e encontros ao ar livre em vários pontos do país. A substância em questão é uma das drogas mais potentes e perigosas já desenvolvidas em laboratório: o MDMA (sigla para 3,4-metilenodioximetanfetamina). Os mais íntimos a chamam apenas de MD. Ela é também conhecida por apelidos como “Michael Douglas”, “Madonna” ou “Molly”. Trata-se de uma espécie de versão melhorada do ecstasy, a denominada pílula do prazer, que perdeu parte da popularidade entre os jovens com maior poder de compra, sobretudo os millennials, quando passou a ser misturada pelos traficantes a substâncias como bicarbonato de sódio, provocando efeitos colaterais como vômitos e diarreias.

Considerado muito mais puro, o MDMA desembarcou no Brasil há mais de dez anos e, por essas e outras “vantagens”, transformou-se nos últimos tempos no mais procurado combustível sintético de adolescentes e adultos de classe média alta. O uso disseminado fez a droga fabricada em laboratório ser apontada como o lança-perfume dos novos tempos, sendo um dos aditivos mais usados em blocos e bailes de Carnaval. Virou também elemento da cultura pop, com citações em letras de música, sobretudo funk, além de menções em estampas de camisetas de marcas famosas. Há riscos enormes no consumo do entorpecente, mas que são desprezados por grande parte dos usuários. O MDMA provoca distúrbios importantes no organismo e, em casos extremos, leva à morte por falência hepática, hipotermia ou parada cardíaca.

Para as autoridades encarregadas da repressão às drogas no Brasil, um dos alarmes que despertaram atenção foi o aumento substancial de apreensões desses sintéticos no país. Só no Estado de São Paulo essas ações tiveram crescimento de cerca de 360% no primeiro semestre de 2019 em comparação ao mesmo período de 2018. Nesse espaço de tempo, flagras relacionados a cocaína e crack evoluíram em torno de 80%. A denominação “sintéticos” abriga vários tipos de droga, incluindo o ecstasy, mas os especialistas atribuem ao MDMA o papel de ter inflado os números. Por isso, recentemente, criou-se uma categoria específica para ele a fim de monitorar de perto o fenômeno. Mais preocupante ainda é que os dados podem não refletir o tamanho da encrenca. Diferentemente da maconha e da cocaína, o MDMA é inodoro e pode passar despercebido pela fiscalização. Para comprovar que a substância é ilícita, é necessário fazer um teste químico minucioso. “Às vezes, o MDMA vem escondido em frascos de remédio ou dentro de comprimidos”, diz o delegado Fabrizio Galli, chefe da área de entorpecentes da Polícia Federal de São Paulo. Outro problema: pouca droga faz a cabeça de muita gente. Com 1 grama, vendido a partir de 150 reais, é possível garantir a euforia de um grupo de dez pessoas ao longo de uma noite inteira.

A situação é preocupante porque um pedaço da produção hoje é made in Brazil. Se antes a substância chegava de países como Holanda e Bélgica, a partir deste ano os policiais começaram a descobrir laboratórios de MDMA em locais como Santa Catarina e Distrito Federal. Ao todo, foram desbaratadas ao menos dez centrais de produção nos últimos meses. A maioria delas se resume a uma quitinete ou chácara afastada, equipada com tubos de ensaio, balanças, termômetros, filtros, estufas, máscaras, luvas, compressores, aquecedores e muitos galões de produtos químicos. Em uma das ações mais recentes, realizada em setembro, uma fábrica clandestina da droga foi estourada pela Polícia Civil do Paraná no meio do mato em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba. Foram necessários dois meses de campana no curso das investigações. Ao entrarem no local, os agentes depararam com 20 quilos de MDMA em estado bruto divididos em dois baldes e nove barris cheios de misturas químicas. “Só de nos aproximarmos, sentíamos náuseas e dor de cabeça devido à quantidade de substâncias tóxicas no lugar”, conta Rodrigo Brown, delegado do Centro de Operações Policiais Especiais. “Precisamos pegar um caminhão para retirar aquele material dali, e levou um mês para acharmos uma empresa que pudesse descartá-­lo sem contaminar o meio ambiente. Se os usuários tivessem noção do que é composta essa droga, certamente não a usariam.” Na batida, foram presas duas pessoas e apreendidas muitas folhas de papel com fórmulas químicas anotadas, como “perfume 200 g, peróxido de hidrogênio 600 litros, soda cáustica 300 quilos e tricloro etileno de 600 litros”.

A polícia calcula que uma fábrica clandestina do gênero tenha um custo de cerca de 40 000 reais. Além do investimento, é necessário conhecimento técnico específico para fazer o MDMA. Em fevereiro, um laboratório em Rio dos Cedros, no interior de Santa Catarina, foi desmantelado pela polícia de Balneário Camboriú. Ali foram presos o engenheiro químico Rafael Fuller, de 27 anos, formado em uma universidade particular da região de Itajaí, e outros dois auxiliares — ou “cozinheiros”, na gíria dos bandidos. Entre 2016 e 2018, Fuller passou uma temporada na Europa. A suspeita é que teria ido para um “programa de estudos” com o objetivo de aprender a elaborar novas drogas com uma pessoa que se identificava no seu celular como “Alemão”. Nas comunicações interceptadas pela polícia, há imagens de fundo de tela de Walter White, o personagem principal do seriado Breaking Bad, que narra a saga de um professor de química convertido em um grande traficante de metanfetamina dos Estados Unidos. Segundo os investigadores catarinenses, o grupo de Rio dos Cedros se referia a White nas mensagens como “mestre”. No local, a polícia encontrou, além dos apetrechos de laboratório, 40 quilos de MDMA em cristal e um macacão amarelo semelhante ao usado na série.

A viagem lisérgica proporcionada pela droga se dá por um conjunto de reações químicas. “O MDMA atua sobre os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. O primeiro deles, o mais afetado, controla as emoções e regula o domínio sensorial e a capacidade associativa do cérebro”, explica Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina. Em outras palavras: a substância provoca hipercomunicabilidade, sensibilidade exacerbada e alucinações visuais e auditivas, além de aumento da libido e da vontade de dançar. Seu uso contínuo pode desregular os neurotransmissores, provocando baixa produção de serotonina, o que pode levar à depressão crônica.

A despeito dos riscos, jovens de classe média alta que eram usuários de ecstasy ou cocaína vêm migrando com velocidade para o MDMA, atestam os frequentadores mais atentos da cena noturna das grandes cidades brasileiras. O ecstasy, muito popular até cinco anos atrás, caiu em desgraça por ser encontrado no mercado cada vez mais impuro. Quem tem dinheiro prefere o MDMA. “Faço ioga, corro e gosto muito do meu corpo torneado”, descreve a estilista O.N., de 27 anos. “Por isso, só uso MD porque sei que no dia seguinte consigo ir à academia e correr 10 quilômetros na esteira.” Fundador do Grupo Vegas, empresa que reúne bares, baladas e restaurantes e fatura mais de 50 milhões de reais por ano em São Paulo, Facundo Guerra diz ter visto o MDMA chegar ao Brasil em meados de 2009. A substância fazia parte de um circuito fechadíssimo e de elite. “As pessoas traziam de Berlim ou Ibiza e consumiam em ambiente ligado à música tecno”, conta. “Agora, ela se popularizou.”

No Brasil, a fabricação, a distribuição e a venda da droga não são controladas (ao menos por enquanto) por grandes facções criminosas, como o PCC, dono dos mercados de maconha e cocaína. Com isso, a palavra traficante não existe no vocabulário dos usuários, que preferem o termo em inglês: dealer. Para efeito de consciência dessa turma, ainda que por vias bastante tortas, o fornecedor não é um criminoso, e sim alguém que frequenta seu mesmo círculo social. “Comprar MD não me faz sentir culpado porque sei que ele não mata nem paga propina a policial”, afirma o estudante W.P., de 20 anos.

O aumento do consumo do MDMA não representa um desafio apenas para as autoridades brasileiras. Jovens do mundo inteiro têm utilizado mais esse pó sintético. De acordo com a Global Drug Survey, o Reino Unido viu crescer em 50% o número de mortes em consequência do uso de MDMA: passou de 63, em 2016, para 92, em 2018. O instituto avalia que as pessoas têm tomado doses cada vez maiores, superiores a 150 miligramas, de uma só vez. Um dos problemas de saúde mais comuns está, curiosamente, associado ao consumo exagerado de água. Isso porque o MD aumenta a temperatura e a agitação do corpo, o que provoca muita sede. Com uma agravante: a droga potencializa a secreção do hormônio antidiurético, o ADH, que ajuda o organismo a reter líquidos. “O usuário então fica com vontade de beber muita água, mas não a libera na velocidade desejada. A literatura médica já descreveu casos de convulsões devido a edema encefálico por intoxicação por água”, conta Zila Sanchez. O mesmo relatório da Global Drug Survey mostra Irlanda, Escócia e Inglaterra como os países onde há maior consumo da droga.

Paradoxalmente, o MDMA surgiu para fazer bem à saúde. Composto derivado da anfetamina, ele foi sintetizado pela primeira vez em 1912, na Alemanha, com o objetivo inicial de atuar como um vasoconstritor. Dois anos depois, o laboratório Merck Pharmaceuticals patenteou o seu uso como um inibidor de apetite, mas nunca chegou a comercializá-lo. Nos anos 80, o pó cristalizado passou a ser utilizado como droga em casas noturnas da Europa — e começou a ganhar espaço no restante do mundo. Hoje, há estudos para o tratamento de alcoolismo com a substância na Inglaterra. Outra vertente vem aplicando-a em casos de transtorno de stress pós-traumático, provocado por abuso sexual, desastres naturais ou guerras. Como atinge diferentes sistemas neurotransmissores no cérebro, ela facilita a revisitação da experiência traumática pelo paciente, auxiliando em sua recuperação. Mas, mesmo que seja aprovado por agências reguladoras, o que ainda não aconteceu, convém lembrar que nenhum remédio pode ser usado de forma recreativa e sem controle — especialmente por quem não apresenta sintomas das doenças indicadas.

Ao contrário do que ocorre com a cocaína e a maconha, vendidas em locais que vão de favelas à entrada de grandes casas noturnas no Brasil, a comercialização do MDMA se dá no mundo digital, via aplicativo Whats­App. Quando o dealer é íntimo do cliente, os pedidos são feitos por mensagens diretas no Instagram e no Messenger. Foi o que descobriu a Polícia Civil do Distrito Federal na Operação Acarajé Químico, no fim do ano passado, quando um universitário de administração de 19 anos acabou sendo preso em Jequié, no interior da Bahia. Usando o codinome “Sr. Wonka”, ele administrava três grupos de Whats­App com cerca de sessenta participantes com a imagem do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. Nas mensagens, “Wonka” oferecia “balas” (ecstasy), “doces” (LSD) e o “cristalzinho” (MDMA). “Geralmente o volume de vendas do MDMA é maior nas temporadas de grandes festivais e no Carnaval”, diz o delegado Galli. A maior parte dos traficantes entrega a droga em domicílio quando há pedidos superiores a 250 reais, sem cobrança de taxa de delivery, e ela normalmente vem nas cores branca ou caramelo, dependendo de sua composição e origem. As versões mais claras chegam da França e da Holanda, enquanto as outras vêm da Bélgica e do Paquistão.

Em maior ou menor escala, cada droga da moda traz embutida uma cultura criada ao redor do seu consumo. A maconha ganhou espaço com os hippies e virou o símbolo anti-establishment da pregação da paz e amor. O LSD veio no bojo do movimento de expandir as portas da percepção, expressão criada pelo escritor Aldous Huxley, que comparou o cérebro humano a uma válvula de escape e atribuía aos lisérgicos o dom de fazer com que as pessoas quebrassem as barreiras de acesso a novos mundos sensoriais que haviam sido fechadas pela caretice da vida adulta. A cocaína virou símbolo da ambição acelerada da era yuppie, enquanto as mais recentes drogas sintéticas se harmonizam perfeitamente com o culto às raves e às batidas alucinantes das modernas músicas eletrônicas. O MDMA surge como uma evolução dessa última cadeia, prometendo o que é impossível: combinar o uso de drogas com um estilo de vida mais saudável. “Na ilusão de tomarem algo que não é vendido pelo PCC e agride menos o corpo que o ecstasy, os jovens dão um tiro no escuro”, alerta a professora Zila Sanchez. “Já há MDMA adulterado com metanfetamina, com alto poder de vício, e trazido ao Brasil por traficantes do crime organizado”, completa. A viagem alternativa dos millennials tem tudo para virar uma tremenda bad trip.

UM LABORATÓRIO CONTRA O CRIME

Além da produção em fundo de quintal e da venda realizada por muitos pequenos traficantes, o maior desafio da polícia hoje no combate às drogas sintéticas é identificá-las e classificá-­las como ilícitas. Não são raros os casos de pessoas pegas com produtos estranhos e suspeitos, mas que, em seguida, são liberadas pelo fato de o material não estar cadastrado na lista de itens controlados pela Anvisa. “Basta modificar uma molécula que já se cria uma nova substância”, diz o perito Sergio Cibreiros, um dos maiores experts no assunto no país.

Nos últimos três anos, mais de 110 novas drogas foram descobertas no laboratório da Polícia Federal, em Brasília, pela equipe de Cibreiros, da qual fazem parte o delegado Marcos Pimentel e a perita Mônica de Souza. Elas acabaram sendo batizadas por siglas como MDMC, BMDP e MDPHP, entre outras. O MDMA já está cadastrado há dezesseis anos, época em que o ecstasy começou a se popularizar no Brasil vindo de países como Bélgica e Holanda. Os testes são requintados e exigem até uma análise por ressonância magnética nuclear e radiação infravermelha.

O problema não é só o surgimento constante de mais entorpecentes. Não há uma receita fixa para produzir o MDMA, por exemplo. Pelo contrário, é possível chegar à droga por diversos caminhos e substâncias diferentes — muitas delas comercializadas legalmente pela indústria química brasileira. A Polícia Civil do Distrito Federal, por exemplo, descobriu que se consegue produzi-la com um componente usado na fabricação de xampus. Em paralelo, a PF ajuda no combate a ela, atuando para controlar o comércio desses produtos. O tráfico, no entanto, atualiza-se constantemente. Na Operação Psy Trance, ocorrida em Santa Catarina em fevereiro, a polícia suspeita que a quadrilha constituiu uma empresa de produtos químicos só para produzir a droga. Os compradores utilizavam o CPF de idosos espalhados pelo país, que nada sabiam do esquema, para driblar a fiscalização das autoridades.

LIBIDO, EUFORIA E DEPRESSÃO

O QUE É MDMA: sigla da substância 3,4- metilenodioximetanfetamina, trata-se de um derivado da anfetamina que atua como estimulante e alucinógeno. O efeito a longo prazo pode ser devastador

USO: a droga é vendida em pó cristalizado. Ela pode ser usada misturada a água (chega à circulação sanguínea em vinte minutos) ou colocada diretamente sob a língua (dez minutos)

AÇAO NO ORGANISMO: ela age sobre os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. O primeiro deles, o mais afetado, controla as emoções e regula o domínio sensorial e a capacidade associativa do cérebro. A ingestão da droga provoca hipercomunicabilidade, sensibilidade exacerbada e alucinações visuais e auditivas, além de aumento da libido e da vontade de dançar

EFEITOS COLATERAIS: a temperatura do corpo se eleva radicalmente, fazendo com que o usuário aumente a ingestão de água. Se o organismo atinge 41 graus, há o risco de o sangue se coagular e ocorrer parada cardíaca. A longo prazo, o cérebro passa a produzir 40% menos serotonina, o que pode levar à depressão

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE MAIO

CUIDADO COM A IRA

O que presto se ira faz loucuras, e o homem de maus desígnios é odiado (Provérbios 14.17).

A ira é um fogo crepitante e assaz perigoso. Uma pessoa iracunda é uma bomba mortífera prestes a explodir. E, quando explode, lança estilhaços para todos os lados e fere as pessoas à sua volta. Quem se zanga facilmente fala muito, pensa pouco e provoca grandes transtornos a si e aos demais. O homem de maus desígnios é odiado. Torna-se persona non grata. O destempero emocional provoca tensões e conflitos no lar, no trabalho e nos demais setores da vida comunitária. É melhor morar no deserto do que relacionar-se com uma pessoa rixosa. É melhor viver só do que estar acompanhado de uma pessoa irritadiça. Há duas maneiras erradas de lidar com a ira. A primeira é a explosão da ira. Um indivíduo temperamental e explosivo machuca as pessoas com suas palavras e atitudes. Torna-se duro no trato e maligno em suas ações. A segunda é o congelamento da ira. Alguns não explodem, mas armazenam a ira. Não jogam sua agressividade para fora, mas a acumulam no coração. Tornam-se amargos, mal-humorados, fecham-se como uma cabeça de repolho e acabam azedando a alma. A solução não é a explosão nem o congelamento da ira, mas o exercício do perdão. O perdão cura e restaura. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a cura das emoções.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANÇA CORPORATIVA

Saber escolher um bom grupo de colaboradores é papel de quem quer exercer uma liderança que dê resultados positivos dentro da estrutura em que atua

Obviamente não existe líder sem equipe. Claro que já ouvimos falar em liderar a si próprio, mas, no ambiente institucional, um líder só terá efeito na produtividade se tiver, sob seu comando, uma equipe.

O líder não é o sujeito que fica sentado na mesa dando ordens o tempo inteiro. Líder de fato é aquele que consegue, com inteligência, paciência, disciplina, humildade e respeito, direcionar as potencialidades de seus colaboradores para obter os frutos esperados. Muitas vezes, esse líder não ocupa uma posição formal de comando na empresa. Ele está entre os colaboradores, exercendo uma função de responsabilidade igual aos demais no seu entorno. Já sabemos que não é a posição que ocupa (o cargo) na empresa e sim o papel que exerce fazendo a diferença na organização de esforços e resultados que o grupo alcança.

Para existir liderança é importante a existência de um grupo, pelo menos mais de uma pessoa. Para que ocorra uma distribuição desigual de poder, ou seja, uma hierarquia para a instituição do líder estrutural. Isso é necessário mesmo que o líder de fato não seja o certificado e, por último, que a liderança seja aceita pelos colaboradores. Esse é o ponto relevante que define se há ou não o comando: se a autoridade é dada ao superior. Não existe forma de se comandar quem não quer ser comandado. Por isso a autoridade é uma coisa ofertada pelo comandado ao seu superior, e não o contrário como muitos líderes autoritários pensam. Assim, sem a aceitação do comando, surgem as divergências, os motins e todo o resto que pode acabar em uma instituição.

Ser carismático, saber ouvir, ter informações de todas as fontes confiáveis e saber escolher quais intervenções devem ser feitas são requisitos mínimos para o escopo de um bom líder. No entanto, para facilitar a formação de um perfil respeitado por todos os colaboradores podemos enumerar 10 atitudes comportamentais que devem ser evitadas a todo custo, pois elas não fazem parte da estrutura de um real líder.

O perfil autoritário só dá certo mesmo com o J. J. Jameson, o chefe do Peter Parker (Homem Aranha) nas histórias em quadrinhos. Além de caricato e apenas impor medo, esse tipo de chefe (não líder) acaba sendo destruído pelos próprios colaboradores na primeira oportunidade que tiverem.

Pessoas seguras não são prolixas. Dar muitos detalhes desnecessários de operações ou especular sobre o futuro de forma muito ampla com todos os colabores podem passar uma imagem de insegurança. Falar o essencial com assertividade é o ideal para que não haja ruídos no processo.

Há situações que pedem uma conversa mais densa com algum membro da equipe, porém isso nunca deve ser feito em público, até porque pode ser considerado assédio moral. Porém, o contrário é um a excelente ferramenta motivadora e o mérito deve ser valorizado. É importante ressaltar que os resultados obtidos só foram possíveis porque a equipe esteve coesa. A ideia pode ser do líder, mas foi a equipe que realizou sob seu comando. Então, a palavra de ordem é: nós!

Pessoas que emanam poder são mais calmas e costumam pensar antes de tomar decisões. Afinal, uma decisão certa ou errada pode mudar todo o conceito que os liderados têm de seu líder. Correr riscos faz parte do papel do líder, mas sempre consciente das possibilidades.

Com toda certeza o líder deve saber administrar suas emoções, pois elas podem contaminar todo o grupo. Quando a situação for de crise o líder deve saber alavancar o potencial do seu corpo laboral e elevar a autoestima de todos. Por isso deve manter o equilíbrio das emoções nas diferentes situações.

Saber dividir responsabilidades é fundamental para qualquer grande gestor. É necessário que exista a distribuição de comando para que o setor possa ter um desempenho orgânico. Se tudo depender do líder a empresa irá parar.

Um dos papeis mais importantes de um bom líder é encontrar pessoas mais competentes que ele e administrar seus talentos.

O líder deve saber dar o exemplo de uma vida saudável com seu tempo dedicado também ao lazer. A instituição pode criar possibilidades para que os seus colaboradores possam usufruir de uma qualidade de vida adequada. O tempo que a vida era só trabalho acabou! Aliás, isso nunca foi sinal de produtividade.

Nem todos podem se orgulhar de terem um talento para liderança natural. Para isso existem as técnicas apresentadas neste texto, que com treinamento adequado podem ser capazes de igualar os seres humanos com capacidade de aprender e replicar comportamentos.

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo. mestre em Cognição e Linguagem, pós-graduado em Hipnose Clínica Hospitalar e Organizacional, em Psicologia Humanista Existencial e em Cultura, Comunicação e Linguagem. Diretor de Cursos do ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer. Autor dos livros Jogos para Gestão de Pessoas: A maratona para o desenvolvimento organizacional; Saiba Quem Está à sua Frente: Análise comportamental pelas expressões faciais e comportamentais e Ativando o Cérebro para Provas e Concursos (Todos pela Editora Wak)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CYBERBULLYING: UM MAL SILENCIOSO

O suicídio pode ser uma grave consequência do bullying na versão virtual, igualmente doloroso. Essa questão alcançou status de problema de saúde pública mundial

Diversos fenômenos ampliaram suas configurações patológicas com o advento da cibercultura: a compulsão sexual se expandiu ao cibersexo e a dependência midiática, anteriormente circunscrita aos televisores, disseminou para os celulares, os jogos eletrônicos e a internet. Simultaneamente, o bullying ganhou o seu caráter virtual, igualmente doloroso: o cyberbullying.

Bottino menciona que o cyberbullying é uma nova forma de violência disseminada na mídia eletrônica e tem causado preocupação em pais, educadores e pesquisadores devido aos efeitos negativos que causam na saúde mental do adolescente. Ainda de acordo com os pesquisadores, o termo é derivado dos tradicionais comportamentos de bullying que são comumente observados entre estudantes, por meio do abuso verbal e insultos, assim como agressões físicas de diversos tipos. Esse comportamento é repetitivo e sistemático, contra um sujeito que é incapaz ou falha em conseguir se defender. O cyberbullying é a expressão dessas características quando restringido em e-mails, salas de bate-papo, celulares ou qualquer outro recurso eletrônico.

Cantone discute a existência de três papéis principais no ciclo do bullying: o bully, a vítima e os espectadores. Usualmente o bully é o mais forte entre os seus semelhantes e, paralelamente, apresenta uma necessidade de obter poder. O propósito principal dos comportamentos de bullying é o de minar o status social da vítima assim como seu senso de segurança pessoal, ao mesmo tempo em que o bully aumenta a sua autoestima e seu status social. Como consequência, as ações de bullying usualmente ocorrem em frente a um público. Os espectadores podem dar suporte ao bully, defender a vítima ou serem passivos.

As consequências desse fenômeno, para a vítima, são diversas: solidão, problemas de conduta, sentimento de medo, maior risco de depressão, ideação suicida e diminuição da autoestima. Dentre elas, o suicídio é a mais grave, um problema de saúde pública de âmbito mundial. A depressão, em alguns casos, torna-se um intermédio para a prática suicida e, associada a um fenômeno virtual, pouco se sabe em relação às estratégias para lidar com essa questão. Além disso, há outros aspectos que podem potencializar as chances de o adolescente cometer suicídio: violência familiar, orientação sexual, abuso físico e sexual e perdas interpessoais. Sampasa-Kanyinga, Roumeliotis e Xu mencionam que os professores e pais devem ser treinados em relação às estratégias de prevenção, auxiliando-os a identificar sintomas ou mudanças comportamentais que possam estar relacionadas à depressão e ao suicídio.

Apesar dos conhecidos danos físicos e psíquicos, o cyberbullying é um tema que ainda necessita ser mais explorado, especialmente quanto às estratégias de enfrentamento em relação a esse fenômeno. Sabe-se que a conduta comumente utilizada pela vítima é a evitação, de diversos tipos: apagar mensagens desrespeitosas, bloquear o bully, ignorar emoções negativas, uso de substâncias, fingir que não se importa com essa problemática e, por fim, desabafar com amigos (quando o indicado é o acompanhamento com um profissional da área de saúde mental). Parris, Varjas e Meyers mencionam, em seu estudo, que a escuta de estudantes trouxe as seguintes sugestões destes no combate ao cyberbullying -, buscar um serviço de prevenção, treinamento de pais e professores em relação à tecnologia e ao cyberbullying e intervenções com maior ênfase no comportamento do estudante ao invés da restrição de tecnologia.

Por fim, Nixon ressalta que o impacto é significativo na saúde do adolescente, sendo uma problemática que pode ser considerada de atenção pública, relacionada a diversos tipos de adoecimentos. “É evidente que essas vítimas necessitam de suporte emocional, porém ainda estamos diante de um fenômeno silencioso e igualmente devastador.”

IGOR LINS LEMOS – é doutorando em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

E-mail: igorlemos87@hotmail.com

EU ACHO …

O FUTURO JÁ COMEÇOU

Bem, em última análise trata-se do seguinte: nós já estamos no ano 2021. De tanto medo que temos desse ano-marco (o Tempo mais uma vez revelado), nós precipitamos o acontecimento. Assim como não se aguenta alguma coisa prometida e se faz com que a coisa, mesmo dolorosa, venha antes, para passar logo o desespero. Não que o ano 2021 em que já estamos seja um ano de desespero. Ou é? O desespero da existência eterna do Tempo, assim como o Universo, sempre existiu. Estou agora sem medo pensando no ano 8000. Que virá assim como o ano 2000. O tempo não é a duração de uma vida. O tempo antes de nós é tão eterno quanto o tempo à nossa frente. No ano 8000, se houver gente, haverá uma religião nova – uma que admita que o imaterial se materialize, uma que não tenha medo da morte, pois este é um problema apenas pessoal.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A HISTÓRIA INVISÍVEL

A Enciclopédia Negra é um estudo abrangente e politizado das personalidades afro-brasileiras

É evidente que a decisão de publicar uma Enciclopédia Negra no Brasil de 2021 é um ato político. Ainda mais se, entre os 550 verbetes da publicação, constarem nomes de personalidades de destaque como a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 por milicianos no Rio de Janeiro, Mestre Moa do Katendê, assassinado no mesmo ano na Bahia por um extremista bolsonarista, Madame Satã, lendária figura da boemia carioca dos anos 1940, e Carlos Marighella, guerrilheiro baiano que lutou contra o regime de exceção na década de 1960.

Mas há diversas outras implicações também de cunho político e afirmativo em Enciclopédia Negra – Biografias Afro-Brasileiras (Cia das Letras, 2021), trabalho de fôlego do historiador Flávio dos Santos Gomes, do artista plástico Jaime Lauriano e da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. A obra escora-se, como salientam os autores, na evidência de que, enquanto os registros de atos empreendidos pela população branca estão por toda parte, as referências acerca da imensa população negra são escassas – e há um especial vácuo em relação à população escravizada por quase quatro séculos.

A principal façanha da enciclopédia é “tirar do armário” do embranquecimento compulsório ou da falta de declaração pessoal algumas personalidades de grande destaque e incluí-las definitivamente no rol dos afro-brasileiros – casos de Mário de Andrade, Chiquinha Gonzaga e Machado de Assis. Mas, além dos grandes vultos da história e da arte, o livro reinsere no debate público figuras do passado escravista que, muitas vezes. não passam de fotografias em álbuns de família, como foi o caso da enigmática ama de leite Mônica, do Recife, Pernambuco (fotografada por Alberto Henschel e João Ferreira Vilela no século XIX), ou de um quilombola chamado    Miguel, que criou estratégias de sobrevivência e afirmação nas fronteiras transnacionais das Guianas.

Essa gama de desconhecidos (entre eles feirantes, garis, cabeleireiros e eletricistas) assoma com suas sagas pessoais e sua contribuição de luta e orgulho faz do livro um tipo de garimpo especial, muito além de mera coleção de verbetes. Há figuras como o carioca Professor Pretextato, que fundou uma escola para alfabetizar os negros libertos no século XIX, combatendo a segregação nas salas de aulas. “Sobram lacunas acerca da maior parte da trajetória dos indivíduos retratados – por vezes não sabemos nem mesmo aproximadamente seus anos de nascimento e morte, escrevem os autores. “Todavia, cada biografia narra, sempre, uma linda história: foram pessoas que se agarraram ao direito à liberdade; profissionais liberais que romperam com as barreiras do racismo; esportistas que desafiaram as amarras de seu tempo; mães que lutaram pela alforria de suas famílias; professoras que ensinaram seus alunos a respeito de suas origens; indivíduos que se revoltaram e organizaram insurreições; curandeiros e médicos que salvaram doentes; músicos que criaram e expandiram maneiras diferentes de se fazer cultura; ativistas que escreveram manifestos e fundaram associações e jornais; líderes religiosos que reinventaram outras Áfricas no Brasil.”

Ao reconstruir o passado de muitos personagens que foram convenientemente esquecidos, a Enciclopédia dedica-se a “nomear, assim, a violência do nosso presente”, que se expressa, hoje em dia, de forma muito nítida no aparato do Estado. É o caso, por exemplo, dos diversos “expurgos” realizados pelo atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, um homem negro que se dedica a negar o racismo estrutural do País e a fustigar os militantes afirmativos (demonstra especial rancor em relação no ator e produtor Lázaro Ramos, que protagonizou Madame Satã no cinema).

É, por isso, irônico que uma das referências fundamentais da Enciclopédia Negra seja justamente o trabalho do pai de Sérgio Camargo, o respeitável pesquisador Oswaldo de Camargo, que publicou, na década de 1980, o livro A Razão da Chama-Antologia de Poetas Negros Brasileiros (1986). Esse livro é citado como alavancado trabalho, assim como outros esforços – o projeto A Mão Afro-Brasileira (1988), de Emanoel Araújo, que recupera perfis, trajetórias e obras de artistas negras e negros de várias gerações; Quem É Quem na Negritude Brasileira (1998), de Eduardo de Oliveira, com pequenas biografias de artistas, intelectuais, ativistas e personagens históricos do século XVIao XX, e o Dicionário da Escravidão Negra no Brasil (2004), organizado por Clóvis Moura e Soraya Silva Moura, com verbetes de personagens e de eventos da escravidão. Há diversas outras fontes de referência, como duas obras de Nei Lopes – Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, de 2004, e Dicionário Literário Afro-Brasileiro, de 2007.

Nem tudo na Enciclopédia Negra se configura necessariamente como espelho às avessas dos expurgos de Sérgio Camargo. Por coincidência, alguns nomes que o dirigente da Fundação Palmares fez incorporar ao livro de personalidades da instituição, julgando-os negligenciados, estão presentes na enciclopédia, como o comediante Mussum e o cantor Wilson Simonal.

É possível, evidentemente, apontar ausências ou esquecimentos, como, por exemplo, o caso do pianista e compositor Johnny Alf (l929-2010), negro e gay, um dos pais da bossa nova, frequentemente escanteado também em ensaios ou livros do gênero, ou do jogador de futebol Arthur Friedenreich (1892-1969), primeira grande estrela do mais popular esporte brasileiro. Pelo leque de biografados, percebe-se que não se deixou que a noção de celebridade ou de reconhecimento público fosse mais importante do que a presença simbólica. “O certo é que não há mais espaço para tratar de África no singular, tampouco para retomar convenções coloniais utilizadas e canonizadas durante tantos séculos”, escrevem os autores.

O esforço foi abrangente e inimigo da invisibilização social- tanto que a enciclopédia incorporou, ainda em novembro de 2020, os fatos do bárbaro assassinato de João Alberto Silveira Freitas num supermercado Carrefour de Porto Alegre, produzindo um verbete-manifesto de última hora, abrigando mais uma vítima da violência racista. “A grande utopia deste livro é devolver à sociedade brasileira, sobretudo a negras, negros e negres, histórias e imaginários mais diversos e plurais”, dizem os pesquisadores. “Com esta Enciclopédia pretendemos, também, que a visibilização da vida (e da morte) de uma série de pessoas de origem africana contribua para o término do genocídio dessa população no Brasil. Pois tornar estas histórias mais conhecidas e dar rostos a estas personalidades colabora para a reflexão por trás das estatísticas, que nos acostumamos a ler todos os dias nos jornais, ‘naturalizando’ histórias brutalmente interrompidas, seja fisicamente, seja na memória.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE MAIO

NÃO SE ENVOLVA EM ENCRENCAS

O sábio é cauteloso e desvia-se do mal, mas o insensato encoleriza-se e dá-se por seguro (Provérbios 14.16).

Há pessoas que atraem problemas, se envolvem facilmente em discussões tolas e perdem a calma, a compostura e a razão. O insensato encoleriza-se e dá–se por seguro. O tolo é impetuoso e irresponsável. É descuidado e age sem pensar. É arrogante e confia em si mesmo. Envolve-se com frequência em encrencas que lhe custam a honra, a paz e até a própria vida. Muito diferente é a atitude do sábio. Ele desvia os seus pés do mal. Quem tem juízo toma cuidado para não se meter em dificuldades. Os jornais destacam todos os dias os muitos crimes que acontecem no campo e na cidade. Quando se faz um diagnóstico desses desatinos, percebe-se que a maioria tem o mesmo pano de fundo: embriaguez, drogas e promiscuidade. Precisamos ter cautela para nos afastar de más companhias. Precisamos ter sabedoria para nos ausentar de lugares e ambientes que são um laço para a nossa alma. Precisamos ter coragem para fugir das paixões da carne. O caminho da felicidade não é a aventura pecaminosa, mas a santidade. A bem-aventurança não está nas taças dos prazeres mundanos, mas na intimidade do Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

COMO CONSTRUIR UM NEGÓCIO FAMILIAR LONGEVO

Os cinco acertos das empresas que resistiram.

Dada a forma como são representadas na mídia, as empresas familiares podem ser vistas como antros de jogo de poder, troca de favores e traição – preocupações que podem prejudicá-las, assim como a família. Pense no exemplo dos Murdochs e a News Corp, ou os Redstones e a National Amusements.

Mas, apesar das manchetes, muitas empresas familiares tiveram sucesso por décadas ou mesmo séculos. Por exemplo, a vinícola italiana Marchesi Antinori, fundada em 1385, prospera como negócio familiar há mais de 600 anos. Só no setor de álcool, há exemplos semelhantes em todo o mundo: a Gekkeikan no Japão (fundada em 1637), a Berry Bros & Rudd no Reino Unido (1698) e Jose Cuervo no México (1795) são alguns exemplos.

Qual é a visão correta? Empresas familiares seriam propensas a derrocadas dramáticas, ou seriam as mais duradouras associações corporativas que existem? A resposta é ambas. Elas podem ser muito mais frágeis ou muito mais resistentes do que seus pares. Dado que as empresas familiares – controladas por dois ou mais membros de uma mesma família – representam 85% das empresas do mundo, garantir sua longevidade é essencial. Só os EUA têm 5,5 milhões de empresas do tipo, que, de acordo com o grupo de pesquisa e ativismo Family Enterprise USA, empregam 62% da força de trabalho.

Para explicar a diferença entre esses dois destinos, vamos nos aprofundar em uma área raramente explorada nas escolas de administração ou na mídia: o impacto da propriedade no sucesso duradouro das empresas. Ser proprietário de um ativo permite forjá-lo de forma fundamental. Tomemos como exemplo uma equipe esportiva profissional. Dentro das regras da liga, o proprietário tem o direito de tomar praticamente todas as decisões importantes: convocar jogadores, escolher o local dos jogos, decidir se o clube vai maximizar vitórias ou lucro, se vai vendê-lo e em que momento e até mesmo demitir o treinador. As equipes com o melhor desempenho têm donos notáveis no comando. Se sua equipe esportiva favorita tem dono ineficaz, você provavelmente está fadado a se decepcionar com ela.

Em empresa de capital aberto, os proprietários são, em sua maioria, investidores. Sua influência é limitada. Em geral eles permitem que a gestão e o conselho de administração conduzam os negócios; quando insatisfeitos, saem da empresa mediante a venda de suas ações. A empresa familiar funciona de forma totalmente diferente. Ela depende de um número relativamente pequeno de pessoas aparentadas. Sua capacidade de moldá-la é profunda e pautada pelo relacionamento mútuo. Essa é uma combinação potente que cria os altos e baixos extraordinários que vemos diariamente em nosso trabalho de assessoria prestado aos donos de empresas familiares.

Cinco direitos fundamentais resultam da propriedade familiar:

• Projetar: que tipo de propriedade você deseja?

• Decidir: como você estruturará a governança?

• Dar valor: como você definirá o sucesso?

• Informar: que você vai comunicar e não vai?

• Transferir: como você lidará com a transição para a próxima geração?

Entender e exercer de modo efetivo esses direitos pode levar ao sucesso de longo prazo. Aplicá-los mal pode destruir o que uma família construiu ao longo de gerações. Neste artigo, abordamos os cinco direitos e oferecemos abordagens já testadas para que sejam bem exercidos.

QUE TIPO DE PROPRIETÁRIO VOCÊ QUER SER?

As empresas familiares costumam ser tratadas como se fossem todas iguais. Mas existem quatro tipos que diferem de forma fundamental, de acordo com quem pode ser o proprietário e como os proprietários compartilham o controle. Se você quer que seu negócio de família dure por gerações, precisa entender as características do seu tipo de empresa, seus pontos fortes e desafios associados. A escolha do tipo de propriedade não é mera formalidade legal: pode definir ou restringir o envolvimento de vários membros e rondar a empresa como uma fonte despercebida de conflitos.

PROPRIETÁRIO INDIVIDUAL.

Um membro da família é o dono da empresa e responsável por todas as decisões. Isso funciona melhor quando a liderança do negócio requer pulso firme e cria liquidez suficiente para satisfazer os não proprietários (ou quando pode fazê-lo por meio de ativos que não estão relacionados com os negócios).

A produtora de conhaque francesa House of Camus tem um proprietário único desde a sua fundação, em 1863. A cada geração, um membro dirige a empresa, comprando as ações dos irmãos. O atual proprietário, Cyril Camus, diz que esse modelo foi essencial para a longevidade da empresa. Sem o envolvimento direto de irmãos ou primos, os conflitos familiares em torno da empresa são raros. A propriedade exclusiva implica desvantagens, a sucessão se torna uma questão central, que pode ser decidida pelo mérito (avaliado pelo atual proprietário) ou atribuída de acordo com a primogenitura ou regra semelhante, e o proprietário enfrenta o dilema de decidir os benefícios que deve estender a outros membros da família. Este modelo pode ser arriscado porque, de uma geração a outra, grande parte do capital e talento da família sai.

PARCERIA.

A propriedade é restrita a membros da família que trabalham ativamente na empresa. Isso torna possíveis várias perspectivas e requer regras claras de como as pessoas podem ingressar no grupo de proprietários ou deixá-lo e dos benefícios atribuídos aos não proprietários. A família teuto­ holandesa Brenninkmeijer, proprietária de sexta geração da rede de roupas C&A, escolheu este modelo: os filhos dos proprietários atuais passam por avaliação rigorosa e por um período como aprendizes. Como a propriedade é individual, a parceria mantém altamente engajados os proprietários dentro das famílias, mas podem ser vulneráveis à perda de capital e talento. Geralmente, são mais resilientes porque não contam com apenas um líder, mas podem enfrentar conflitos ao decidir quem será admitido como proprietário.

PROPRIEDADE DISTRIBUÍDA.

Qualquer membro da família pode ser proprietário e participar das tomadas de decisão. Isso funciona bem quando a empresa representa a maior parte da riqueza familiar, quando é obrigatória por lei ou quando a cultura familiar tem afinidade com esse modelo. O conglomerado brasileiro Votorantim tem este tipo de propriedade: a cada geração, os membros da família repassam suas ações, geralmente de maneira uniforme. A propriedade distribuída pode manter o capital da família vinculado ao negócio porque elimina a necessidade de comprar as ações de membros que não são proprietários. Mas os proprietários podem se envolver de formas diferentes; alinhar seus interesses e definir normas de tomadas de decisão pode ser desafiador, e não é difícil que surjam ressentimentos contra os “folgados” se alguns estiverem operando o negócio enquanto outros são “apenas” investidores. Ou que apareçam grandes problemas se alguns membros da família pretenderem vender o negócio; ter uma rota de saída claramente definida reduz esse risco.

PROPRIEDADE CONCENTRADA.

Qualquer membro da família pode ser proprietário, mas um subconjunto controla as tomadas de decisão. Isso funciona bem quando, apesar da multiplicidade de proprietários, uma liderança firme é necessária e atenua alguns dos desafios da propriedade distribuída. Mas a questão de quem exercerá o controle se torna mais complicada a cada nova geração. A Vitamix, fabricante de liquidificadores de alto desempenho com 100 anos de idade, opera dessa forma. As ações são repassadas aos descendentes, mas em cada geração o CEO deve possuir ou controlar a maioria das ações com direito a voto. Embora os proprietários busquem o consenso em grandes decisões, o CEO toma a decisão final. Um dos principais riscos é o conflito sobre quem vai liderar. Outro é a possibilidade de que quem não está no poder perca o interesse e venda suas ações.

Embora existam modelos híbridos, a maioria das empresas familiares se enquadra em uma dessas quatro categorias (se uma empresa familiar tem algumas ações que são negociadas na bolsa, pode se encaixar em qualquer uma delas, dependendo de como a família decide lidar com a sua parte). Em uma pesquisa que realizamos com empresas familiares de diversos tamanhos, setores e geografias, descobrimos que 13% tinham um único proprietário, 24% eram sociedades, 36% tinham propriedade distribuída e 27% tinham propriedade concentrada.

O tipo de propriedade não precisa ser uma escolha estática. Esteja atento à necessidade de fazer uma mudança, que pode surgir quando a próxima geração estiver chegando, quando o tamanho ou a complexidade do negócio mudarem significativamente ou quando você estiver trazendo líderes de fora. A vinícola familiar Antinori teve um único proprietário por 25 gerações: o controle passava para um descendente do sexo masculino, o que mantinha unidas a empresa e as terras associadas. Mas Piero Antinori, que assumiu o controle em 1966, tem três filhas e nenhum filho. Para sua sucessão, optou por uma parceria tripla.

COMO VOCÊ VAI ESTRUTURAR A GOVERNANCA?

Os proprietários de empresas familiares detêm enorme poder de decisão. Conhecemos empresas de porte considerável nas quais nenhum dólar pode ser gasto sem sua aprovação. Quando canalizado de maneira adequada, esse poder confere uma grande vantagem competitiva, além da agilidade necessária para capitalizar as oportunidades que vão surgindo. Muitos líderes de empresas familiares podem fazer grandes apostas de imediato, sem ter de passar por várias camadas de gestão e burocracia antes de tomar decisão. “A velocidade de reação está se tornando crucial, e tocamos grandes projetos rapidamente”, diz Alexandre Leviant, presidente do conglomerado de especialidades químicas ICD, fundado por seu pai em 1952.

Masse esse poder for exercido de maneira ineficaz, o negócio sofrerá. Alguns proprietários exercem muito controle, sufocando a inovação e tornando difícil a atração e retenção de talentos. Outros se afastam das decisões importantes, deixando um vácuo que pode ser preenchido por executivos que buscam seus próprios interesses. Vimos a quase destruição de uma série de empresas familiares em épocas em que as decisões eram deixadas para gestores não familiares que queriam derrubá-las e comprá-las a preço de banana.

A governança em empresa familiar consiste em encontrar um meio-termo entre microgerir e abrir mão da responsabilidade, e isso se torna mais desafiador à medida que a família e a empresa crescem. Sugerimos uma estrutura simples para os processos decisórios: o modelo dos quatro quartos. Imagine sua empresa como uma casa com um quarto para cada membro: os proprietários, a diretoria, a gestão e os demais familiares. Os proprietários definem metas de alto nível e elegem o conselho de administração; o conselho supervisiona os negócios e contrata o CEO (e o demite se necessário); e a gestão recomenda a estratégia de negócios e direciona as operações. Como a diretoria e a gestão são subordinadas aos proprietários, os três primeiros quartos ficam em fila, e o quarto dos proprietários no topo. O quarto da família, fundamental para manter a conexão emocional dos membros com a empresa, fica ao lado dos outros três, o que prova a importância da influência e da unidade da família por toda parte.

Em empresa familiar bem administrada, cada quarto tem regras explícitas sobre quem pertence a ele sobre que decisões são tomadas e de que maneira. Os papéis variam conforme o quarto. Por exemplo, um CEO que não pertence à família pode dirigir-se ao quarto da gestão, mas não deve decidir como os proprietários usarão seus dividendos. Os membros da família que não são proprietários, por sua vez, não podem entrar em outros quartos e tomar decisões. A governança baseada neste modelo deixa muito claros os limites e a hierarquia.

Diversas vezes, vimos empresas caírem no caos por falta de um bom processo decisório. Com muita frequência, o problema se torna aparente só quando os desentendimentos começam a destruir o que anos de colaboração construíram. Em uma rede de varejo regional, a falta de governança permitiu que seu CEO, um membro da família que chamaremos de Steve, fosse guiado por seus instintos descontrolados, que ele mesmo definia como de “cowboy”. Isso gerava ressentimentos em sua irmã e seu primo, que eram também proprietários. Quando todos reconheceram o problema, eles adotaram o modelo dos quatro quartos e criaram um conselho de proprietários, que Steve era obrigado a consultar para decisões de magnitude. Isso acalmou as preocupações de seus coproprietários, ao mesmo tempo que o forçou a planejar grandes mudanças com mais cuidado, e a empresa – assim como a família – voltou aos trilhos.

O modelo dos quatro quartos ajuda os proprietários a manter o controle das questões mais importantes e a delegar outras decisões. Estabelece um processo para revisar decisões à medida que as metas mudam para a família, para a empresa ou para ambas as partes.

COMO VOCÊ DEFINIRÁ O SUCESSO?

Os proprietários de empresa têm direito ao valor residual criado por ela. Com esse direito, vem a capacidade de definir o sucesso. Para empresas de capital aberto, isso é simples: elas visam maximizar o retorno para os acionistas. Mas poucas empresas familiares que conhecemos descreveriam seu objetivo principal nesses termos. Essa é uma das melhores coisas da propriedade familiar: você determina o que é mais importante. Nenhuma pessoa de fora pode forçá-lo a valorizar mais o crescimento dos ganhos do que, digamos, dar emprego aos membros da família, ou insistir que você busque oportunidades que vão contra suas crenças.

O exercício eficaz desse direito pode ser uma vantagem incrível para fazer com que a empresa seja longeva. Ele possibilita uma abordagem geracional de longo prazo que contrasta fortemente com a obsessão das empresas de capital aberto por resultados trimestrais. Mas nem todas as famílias sabem com clareza o que é mais importante para elas. Essa falta de clareza pode desencadear batalhas sobre prioridades, perda de oportunidades ou o fracasso em reter funcionários talentosos. Acima de tudo, se você não tem certeza de seus objetivos, corre o risco de perder sua raisond’être (razão de ser) para fazer negócio juntos, especialmente à medida que a empresa cresce e faz a transição para novas gerações. Seu caminho pode se tornar um beco sem saída.

Para evitar essa sina, tenha à mão uma estratégia de propriedade que identifique metas concretas e estabeleça proteções.

METAS.

Elas se enquadram em três categorias. O objetivo pode ser o crescimento: maximizar o valor financeiro. Você pode buscar a liquidez: priorizar um fluxo de caixa saudável para ser usado pelos proprietários fora da empresa. Você pode visar o controle: manter a autoridade para tomar decisões firmes dentro do grupo de acionistas, evitando capital ou dívida de fora.

Haverá vantagens e desvantagens nessas opções. Você pode escolher apenas um objetivo ou optar por uma combinação deles. Descobrimos que a maioria das empresas familiares prefere escolher dois objetivos, o que significa que priorizam dois objetivos à custa do terceiro. Isso sugere três estratégias básicas de propriedade – uma para cada par de metas, em que cada uma forma um lado do que chamamos de triângulo de estratégia do proprietário.

As empresas que priorizam controle e crescimento – o tipo mais comum que encontramos – se concentram em se tornar maiores, mantendo as tomadas de decisão sob a alçada dos proprietários.

As empresas que preferem crescimento e liquidez também buscam crescer, mas pagam somas consideráveis aos proprietários e usam patrimônio e/ou dívida de fora para manter a máquina funcionando – consequentemente, devem renunciar a parte do controle.

As empresas de liquidez e controle não estão preocupadas com crescimento rápido; em vez disso, pretendem produzir um fluxo de caixa significativo para os proprietários e ao mesmo tempo manter a autoridade para tomar decisões.

Conhecemos empresas familiares de grande sucesso que optaram por combinar estratégias. E são estratégias amplas; as empresas podem encontrar espaço entre elas. O mais importante é entender as escolhas explícitas e implícitas que você faz quanto às prioridades; elas devem ter origem em seus valores fundamentais. Revise suas escolhas de tempos em tempos conforme as circunstâncias, seja por fatores externos, como mudanças no cenário econômico, consolidação do setor e mudanças regulatórias, seja por fatores internos, como transições de geração, conflitos familiares e mudanças na alta gestão.

PROTEÇÕES.

Alinhar prioridades é essencial. Mas, sem meios concretos de medir o desempenho, as pessoas só falam da boca para fora. Proteções podem ajudar a garantir que as que gerenciam o dia a dia da empresa direcionem energia e recursos para aquilo que é mais importante para você como proprietário. Elas permitem que você delegue decisões com mais segurança.

Asproteções podem ser financeiras ou não. Os proprietários devem se concentrar em um pequeno número de proteções financeiras – por exemplo, níveis mínimos de retorno sobre o capital investido ou níveis máximos de dívida – e garantir que a empresa permaneça dentro desses parâmetros. As proteções não financeiras definem os resultados pelos quais os proprietários estão dispostos a sacrificar o desempenho financeiro. Muitas vezes, os valores que as embasam são os mesmos que mantêm a família unida e são um meio de tornar o mundo melhor. Por exemplo, trabalhamos com uma empresa familiar sediada nos EUA cujos membros perderam parentes no Holocausto. Ela investe apenas em países com pontuações altas na classificação anual da Freedom House, uma ONG sem fins lucrativos.

Ter uma clara estratégia de proprietário promove a longevidade e assegura que a empresa realize os objetivos financeiros e não financeiros dos donos. A longo prazo, as famílias precisam de uma conexão emocional com a empresa; elas devem ser capazes de dizer: “Temos isso porque queremos fazer a diferença” ou “Isso representa o sacrifício de nosso avô para nos dar uma vida melhor”. Sem conexão emocional, vender a empresa pode ser uma tentação para os donos.

O QUE VOCÊ VAI – E NÃO VAI – COMUNICAR?

Os proprietários têm o direito legal de saber tudo de sua empresa, como o conteúdo das demonstrações financeiras, de determinados registros empresariais e dos documentos de propriedade. E, exceto quando trazem investidores externos, credores ou membros do conselho administrativo, não são obrigados a compartilhar essas informações com ninguém (exceto o governo). Isso significa que controlam a comunicação; nada importante pode ser compartilhado sem sua permissão.

A forma como os proprietários exercem esse direito afeta significativamente a longevidade do negócio. Isso porque a comunicação eficaz é fundamental para a construção de um dos ativos mais valiosos de toda empresa familiar: as relações de confiança. Muitas vezes, elas são subestimadas, mas ajudam a gerar três coisas importantes:

• Capita/financeiro: proprietários comprometidos que têm ligação emocional com a empresa e valorizam o desempenho de longo prazo.

• Capital humano: funcionários e membros familiares envolvidos, incluindo cônjuges, que trazem seu talento ao trabalho e à família.

• Capital social: reputação positiva com clientes, fornecedores, o público e outras partes interessadas, o que pode ajudar a diferenciar você em um mercado abarrotado e a construir parcerias ao longo de gerações.

O impulso de manter tudo privado é compreensível. A privacidade pode proteger o negócio e a família dos intrusos. Mas se os proprietários esconderem demais o jogo, correrão o risco de privar a empresa de sua capacidade de cultivar relacionamentos valiosos.

Uma professora de escola de administração que chamaremos de Sophie casou com uma pessoa de uma família que é dona de uma empresa de mídia de quarta geração na Ásia. Preocupada com o que considerava uma atitude pouco cuidadosa com relação à inovação, começou a perguntar qual era a estratégia de longo prazo da empresa. Quanto mais perguntas fazia, mais informações a equipe executiva ocultava, até que solicitou a seu marido que parasse de compartilhar relatórios financeiros com a equipe por receio de que ela “bagunçasse o coreto”. Sophie começou a ficar cada vez mais ansiosa, sem saber se seus filhos herdariam um negócio com algum valor. Diante da barreira intransponível, distanciou-se, chegando até a marcar férias em outro lugar durante as reuniões anuais da família. Isso privou seus filhos da oportunidade de se aproximar dos primos (e futuros coproprietários), o que poderia ser devastador para os negócios nos anos seguintes. No início da vida da sua empresa, a comunicação provavelmente será informal, talvez, até durante as refeições.  À medida que as coisas progridem, considere as reuniões, políticas, funções ou plataformas tecnológicas que podem melhorar o diálogo. Comece alinhando o que você vai ou não vai divulgar para cada público. Em nossa experiência, os proprietários costumam ficar tão preocupados em proteger os detalhes de sua riqueza que não conseguem pensar no que podem compartilhar para ajudar as partes interessadas a sentir-se conectadas ao sucesso do negócio no longo prazo. Essas informações podem incluir os valores e a estratégia do dono, a forma pela qual as decisões serão tomadas, como você encara a sucessão e sua paixão pela empresa. Se você decidir manter essas informações privadas, explique às partes interessadas o motivo.

Vimos casos em que a falta de comunicação eficaz foi a principal razão para o fim de uma empresa familiar. Também vimos alguns em que a comunicação hábil ajudou a empresa a atravessar tempos difíceis. Use o direito de divulgar informações com sabedoria.

COMO VOCÊ VAI LIDAR COM A TRANSIÇÃO PARA A PROXIMA GERAÇÃO?

O direito fundamental do proprietário é decidir como sair. Você pode escolher quem será o próximo dono da empresa, que forma assumirá essa propriedade (se será por meio de ações ou de truste) e quando ocorrerá a transição. Esse direito é acompanhado de decisões complexas. Que você fará com os ativos que trabalhou tanto para construir? Como você vai fazer para deixar isso para trás? Que papéis os membros da próxima geração devem desempenhar? Como você deve prepará-los? Eles são próximos o suficiente para tomar decisões em conjunto?

Atrasar ou planejar mal sua transição pode causar estragos nos negócios e na família. Um estudo do Boston Consulting Group com mais de 200 empresas familiares indianas revelou uma diferença de 28 pontos percentuais no crescimento da capitalização de mercado entre as empresas que planejaram a transição e as que não o fizeram. Impérios familiares podem ser consolidados ou desperdiçados na transferência de poder ao longo de gerações.

Para realizar uma transição bem-sucedida, você precisará de um plano de continuidade que mapeie um caminho da geração atual de proprietários para a próxima. Deve abordar três desafios:

•TRANSMISSÃO DE ATIVOS.

Você manterá o mesmo tipo de propriedade (único proprietário, parceria e assim por diante) ou mudará? Você vai transferir a propriedade de uma vez ou gradualmente (por exemplo, conferindo à próxima geração benefícios econômicos, mas mantendo o controle de voto)? Que ferramentas, como trustes e doações, você usará para minimizar os impostos?

• TRANSFERÊNCIA DE FUNÇÕES.

Que você pretende fazer para oferecer uma saída tranquila aos líderes atuais? Como selecionará sucessores nos quatro quartos de forma que pareça justa e identifique os candidatos mais talentosos? Como garantirá uma passagem suave do bastão?

• DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS DE ÚLTIMA GERAÇÃO.

Que habilidades serão necessárias para cada um dos novos proprietários, mesmo que não trabalhem ativamente na empresa? Como você os ajudará a identificar as funções para as quais são mais adequados? Como criará oportunidades para que aprendam a colaborar uns com os outros?

A transição é um processo, não um acontecimento – e quanto mais o plano de continuidade for parecido com uma conversa e não com um ultimato, maiores serão as chances de sucesso. O plano não pode ser simplesmente ditado de uma geração para a próxima; os novos líderes precisam estar preparados e alinhados. Para entender o que pode acontecer quando não estão, considere a família Pritzker, que construiu o império que inclui os hotéis Hyatt. Jay Pritzker, o líder de terceira geração, e seu irmão Robert reuniram a família em 1995 e distribuíram um documento de duas páginas descrevendo seus planos de sucessão. Eles detalharam uma complexa rede de trustes criada para manter os bens da família, especificaram quando os membros receberiam as distribuições e atribuíram a liderança a um triunvirato. Sem dúvida, tinham boas intenções, mas não funcionou. Poucos meses após a morte de Jay, em 1999, começou uma série de processos. A família acabou decidindo dividir a propriedade.

Frequentemente, a parte mais difícil do planejamento de continuidade é o começo. Diante de grandes preocupações no presente, pode ser tentador adiar conversas entre gerações que podem estar repletas de questões de mortalidade e identidade. Portanto, coloque essas conversas em sua agenda (no quarto dos proprietários, com uma força-tarefa de planejamento de continuidade ou por meio do conselho) e estabeleça prazos para elas.

Não vamos dourar a pílula, sem trabalho árduo e inteligente dos donos, outros membros da família e funcionários, as empresas familiares frequentemente implodem. É necessário esforço para evitar que muitos interesses conflitantes se tornem destrutivos.

Não existe uma maneira única de sobreviver, e há poucas práticas universais recomendadas. Mas, ao aplicar a metodologia dos cinco direitos, você se organiza para o trabalho que a propriedade familiar exige. Peça aos membros de sua empresa que avaliem individualmente seu desempenho em relação a cada direito. Em seguida, compartilhe os resultados e desenvolva um plano por meio do qual você se desenvolva apoiando-se em seus pontos fortes e melhorando seus pontos fracos. Somente por meio dessa colaboração você conseguirá usar o poder de propriedade para manter sua empresa familiar para as futuras gerações.

 

JOSH BARON – é cofundador e sócio da Banyan Global Family Business Advisors e professor adjunto na Columbia Business School.

ROB LACHENAUER – é cofundador e CEO da Banyan Global. Eles são os autores do livro The Harvard business review family business handbook (Harvard Business Review Press.2021).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A VERDADE SOBRE NÓS MESMOS

Há momentos em que, no ventre agonizante da consciência, nasce um sentimento que contraria a ideia de existirmos como um ser de uma única personalidade. Esse sentimento aparece quando nos perguntamos: quem em mim atuou dessa maneira que me envergonha?

No contexto histórico da era vitoriana, período marcado pelo moralismo puritano, importava muito ter uma imagem que correspondesse ao ideal daquela sociedade. Foi nesse período que Robert Louis Stevenson escreveu O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde e publicou em 1886. No encanto da leitura desse clássico da literatura, percebi uma ficção que conta toda a verdade sobre nós mesmos.

Dr. Jekyll era um personagem desejoso de respeitabilidade e tradicionalismo. Ele caminhou tanto por um dos extremos de sua natureza, que essa escolha unilateral o levou a repelir tudo que estivesse em oposição a esse caminho. Em consequência criou, com tudo que foi sobrepujado, uma forma oculta “hide” de ser e o chamou de Mr. Hyde. Stevenson relata em sua história que o Dr. Jekyll, ao reconhecer sua dualidade e sentir um “Outro ” contido a se debater, se deu conta de um corpo fraco para conter as energias enfurecidas da vida. Resolve então trabalhar para conseguir uma substância química para que cada uma dessas personalidades pudesse morar em corpos separados. Foi a maneira que imaginou poder conciliar sua vontade de continuar a ser respeitado e estimado, com esse “Outro” escondido em si mesmo e com vontades moralmente feias. Esse “Outro” era o inconsciente causando turbulência na consciência.

O inconsciente coloca uma coisa no lugar de outra, essa é sua forma de funcionar; assim como a consciência separa uma mesma realidade em opostos irreconciliáveis. É como aquela porta que de um lado está escrito “entrada” e do outro “saída”; mas é a mesma porta. Não podemos enxergar sem luz e sombra. A consciência divide a natureza do homem em regiões do bem e do mal e coloca cada coisa com sua característica singular; enquanto o inconsciente engana, confunde, coloca uma coisa no lugar de outra e agrupa os produtos psíquicos, por suas semelhanças, para formar categorias. Suas manifestações, portanto, não têm a lógica da consciência.

Se algo nos afeta, entusiasma e tem forças sobre nós, eis aí uma de nossas personalidades buscando um meio de conversar conosco. No entanto, se nosso receio é de não atender o que julgamos ser o belo para o outro, então cavamos um fosso profundo entre tudo isso que somos nós. E, como o Abel e Caim em nossas entranhas, o nosso eu quer favorecer um em detrimento do outro. Dessa forma provocamos um abismo entre os dois e corremos o risco de destruir o verdadeiramente belo.

Dr. Jekyll conseguiu a fórmula química que procurava. Esta, ao ser ingerida, o fez sofrer a metamorfose que o transformou em Mr. Hyde. Este era mais jovem, tinha uma menor estatura e feições aterrorizantes. Ao tomar o líquido novamente, voltava a ser Dr. Jekyll. Dessa forma ele passou a viver um e outro, como indivíduos separados, até ser vencido pelo Mr. Hyde e pôr fim à sua vida.

Diz Stevenson: “A droga não agia de forma discriminatória; ela não era nem divina, nem diabólica; apenas balançava as portas da prisão de meu caráter”. A palavra diabo é aquilo que desune. Na nossa dualidade, para unirmos essas partes em discórdia, necessitamos de “símbolos”. Essa palavra mostra a carga afetiva envolvida e a torna maior do que aquilo que é mostrado.

No processo da psicoterapia associada à psicofarmacologia, devemos considerar os símbolos nos dois recursos: aqueles que participam na formação do que chamamos de “complexos”; quanto o saber que o remédio prescrito, além do seu efeito químico, carrega a sua eficácia simbólica.

Jung define “complexos” como dotados de tensão ou energia próprias, com tendência de formarem, também por conta própria, uma pequena personalidade. Daí o Mr. Hyde aparecer com menor estatura (pequena personalidade) e mais jovem, pois o complexo começa a se organizar tempos depois que o sujeito nasceu e teve suas experiências do desenvolvimento.

A psicofarmacologia moderna tem como ajuda conter as emoções inapropriadas e facilitar o trabalho da psicoterapia em aproximar esses nossos lados inimigos, para nos tornarmos “indivíduo”.

Stevenson narrando como Dr. Jekyll escreve: “que o homem, verdadeiramente, não é único, mas, de fato, dois. Eu digo dois, pois o estado do meu próprio conhecimento não passa desse ponto. Outros seguirão… e arrisco em dizer que o homem será, no final das contas, conhecido por uma mera constituição de habitantes de múltiplas formas, incongruentes e independentes”. Assim tudo depende de um “Eu” como regente da consciência para governar essa população e fazer justiça como o rei Salomão.

Como diz a Física e a Psicologia: tudo está conectado. Cada um de nós possui várias personalidades que precisam se relacionar entre si sob a regência de um “Eu” bem fortalecido e, ao mesmo tempo, aberto para interagir com o cosmo. Nosso juiz interior não deverá ser cooptado pelos símbolos da nossa sociedade, em detrimento do respeito à própria natureza e aos talentos presenteados pelos deuses. Só assim poderemos alcançar a condição de respeito à nossa singularidade na pluralidade do todo e finalmente nos sentirmos “indivíduo”.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br/ www.ijba.com.br

EU ACHO …

PAIXÃO EM FLAGRANTE

Entre panelas ou nas redes, não há fuga do que nos faz feliz

“Sapo não pula por boniteza, mas porém por percisão”, eternizou Guimarães Rosa. Esse provérbio “capiau”, que vem das páginas de Sagarana, é simples e diz tudo: nada faremos se não for necessário. Com a volta das restrições mais severas impostas pela pandemia, a necessidade nos fez voltar à cozinha. A verdade é que, desde março de 2020, muitos nem chegaram a tirar o avental. Chamo essa turma de sobreviventes da “pãodemia”, quando o medo de ir até a esquina fez todo mundo querer fazer seu próprio pão. Digo sobreviventes pois a maioria daqueles quarenteners originais já não suporta ver um pacote de farinha italiana DOC ou um levain borbulhando.

Afinal, o que tantos foram buscar no forno e fogão, além das queimaduras e frustrações inerentes ao aprendizado culinário, quando cada receita torna-se uma prova de fogo pessoal? Ora, fomos buscar nas panelas o que nenhum delivery consegue entregar. E, assim, nos dedicamos a fazer comfort food: pães, bolos, assados, doçaria conventual; quanto mais calórico, melhor. No preparo da comida, fomos buscar a emoção. Tudo para chegar aos pratos que, através de temperos e aromas, nos tragam as mais gostosas lembranças. Sejam da infância ou das viagens que tanto nos fazem falta. Ou, apenas, estamos buscando fazer o que não conseguimos comer com a frequência que a vida “normal” proporcionava.

Foi assim que comecei, eu mesma, a cozinhar. Um dia, reparei que não encontrava em casa uma comida que fosse mais leve, com menos gordura. O que cotidianamente me satisfazia já perdera o interesse. Meu desejo estava em tudo menos naquilo, o que me frustrava.

Então, lá fui eu fazer minha própria comida, queimar meus próprios dedos, criar minhas receitas light, meus programas de televisão, meus livros, meu site. Uma insatisfação que me levou a inúmeros sabores e imensas alegrias. Como disse Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), “a descoberta de um novo prato faz mais pela felicidade da humanidade que a descoberta de uma estrela”. O autor do primeiro grande clássico culinário, A Fisiologia do Gosto, sabia das coisas.

Essa busca de ser feliz comendo bem motiva mesmo. Tanto que leva muita gente a cometer loucuras, como vi no fim de março no noticiário internacional. Foragido há sete anos, um mafioso chamado Marc Feren Claude Biart, escondido no Caribe, se cansou de comer peixe. Longe de sua Itália natal, sentia falta de uma autêntica macarronada. Laborioso, esse membro da ‘Ndrangheta, poderosa organização mafiosa da Calábria, pôs-se a trabalhar.

Primeiro, pesquisou os melhores tomates em Boca Chica, na República Dominicana. Progressivamente, fez sua própria massa. Logo passou a cozinhar melhor. Confiante, achou que podia se arriscar a ter seu próprio canal de culinária no YouTube. Quem sabe, se espalhasse seu método, pudesse levar a mais pessoas os segredos da boa cozinha?

Com o ângulo certo de câmeras, manteve a identidade em segredo. Tudo ia bem, mas descuidou das tatuagens nas mãos. Foi quando a polícia deu like.

Certamente, mais um episódio na biografia do inusitado chef. Que, tenho certeza, fará de tudo para seguir cozinhando na cadeia. Não por boniteza mas, dessa vez, por rendida “percisão”.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

SEM RETOQUES

A chinesa Xiaomi lança o primeiro smartphone do mundo dotado de lentes fotográficas líquidas, o que poderá representar uma revolução no jeito de captar imagens

Entre os desafios da robótica, termo cunhado pelo escritor russo ­ americano Isaac Asimov no conto de ficção científica Círculo Vicioso (1942) para definir a ciência em torno dos robôs, está a possibilidade de emular mecanicamente órgãos humanos. Tome-se como exemplo o olho. Trata-se de um fascinante conjunto de nervos, músculos e gordura capaz de receber imagens que depois são transportadas para o cérebro, que então dará sentido a elas. A fotografia mecânica e, mais tarde, a fotografia digital reproduziram a capacidade de ver e registrar um cenário, um personagem ou uma situação qualquer com a máxima fidelidade possível. No fim de março, o gigante chinês Xiaomi deu um passo adiante ao apresentar o smartphone Mi Mix Fold. Àprimeira vista, o aparelho chama atenção por sua tela dobrável de 8 polegadas, mas o produto traz também outra inovação: é o primeiro celular a adotar uma tecnologia chamada de lente líquida.

Como nas melhores ficções de Asimov, a ideia por trás das lentes líquidas está em reproduzir bionicamente as reações do globo ocular para colocar em foco com mais rapidez uma imagem qualquer – esteja ela perto ou longe. Na prática, elas são pequenas bolhas contendo uma composição de água e óleo que muda de forma de acordo com a intensidade de luz aplicada à sua superfície. Essas mudanças ocorrem em frações de segundos, o que as aproximam ainda mais das características intrínsecas do olho humano. É extraordinário.

No smartphone da Xiaomi, a lente funciona como um zoom óptico de três vezes (segundo a empresa, o número aumentará para trinta vezes com “aprimoramento digital”) e como uma lente macro, para tirar fotos nítidas de objetos a até 3 centímetros de distância. Pode-se, portanto, fotografar detalhes de perto e registrar rios e montanhas magníficos a quilômetros de distância. Segundo a fabricante, as tais lentes oferecem alta taxa de luminosidade e são extremamente resistentes.

O resultado dessas combinações é o que interessa aos consumidores: as lentes líquidas eliminam uma série de componentes, que se tornam dispensáveis. É como se um fotógrafo das antigas, com aqueles coletes ou mochilas repletos de lentes para diferentes funções, de repente trocasse todo o equipamento por uma lente única, com alguns poucos acessórios extras, diminuindo consideravelmente o peso que carregava.

As lentes líquidas surgiram há pelo menos uma década, com aplicações em outras áreas, como na indústria e medicina. Hoje em dia, são empregadas, por exemplo, nos sensores de imagem utilizados em linhas de produção automatizadas, para ler códigos de barras e em cirurgias por laparoscopia, em que sondas atingem locais inacessíveis aos médicos, e até em drones, como o lngenuity, da Nasa, que recentemente fez o primeiro voo autônomo em Marte. A sacada da Xiaomi foi instalar a sofisticada tecnologia em um aparelho que, segundo as estatísticas recentes, é peça onipresente e está nas mãos de 3,8 bilhões de pessoas ao redor do mundo – um pouco menos da metade da população mundial. A vida hoje, goste-se ou não, acontece nos smartphones. A Xiaomi começou a vender o Mi Mix Fold na semana passada. Por enquanto, ele estará disponível apenas no mercado chinês, com preços que variam de 1.530 dólares (8.520 reais), para o modelo com 12 gigabytes de RAM e 256 gigabytes de armazenamento, a 2.000 dólares (11.140 reais), para a versão especial com acabamento em cerâmica, 16 gigabytes de RAM e 512 gigabytes de armazenamento. Não há previsão para a chegada do aparelho ao Brasil.

A inovação foi bem recebida. Logo no primeiro minuto depois de seu lançamento, informou a fabricante, foram vendidas 30.000 unidades, o que gerou uma receita equivalente a 61,3 milhões de dólares (343 milhões de reais). Evidentemente a Xiaomi será seguida por concorrentes, como a Huawei, que tem planos para lançar em breve a sua versão de smartphones com lentes liquidas. A Apple e a Samsung, que lideram o mercado global de celulares, esperam os primeiros resultados de aceitação popular para então decidirem se incorporam a novidade – é muito provável que o façam, para não perder o trem. “As lentes líquidas representam uma revolução”, resume Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O futuro imaginado por Asimov, enfim, aparece diante de nós – mas é apenas o começo. Afinal, outro dia mesmo, em 2007, o iPhone era só uma ideia a rondar a mente de Steve Jobs e os laboratórios da Apple.

Entre os desafios da robótica, termo cunhado pelo escritor russo ­ americano Isaac Asimov no conto de ficção científica Círculo Vicioso (1942) para definir a ciência em torno dos robôs, está a possibilidade de emular mecanicamente órgãos humanos. Tome-se como exemplo o olho. Trata-se de um fascinante conjunto de nervos, músculos e gordura capaz de receber imagens que depois são transportadas para o cérebro, que então dará sentido a elas. A fotografia mecânica e, mais tarde, a fotografia digital reproduziram a capacidade de ver e registrar um cenário, um personagem ou uma situação qualquer com a máxima fidelidade possível. No fim de março, o gigante chinês Xiaomi deu um passo adiante ao apresentar o smartphone Mi Mix Fold. Àprimeira vista, o aparelho chama atenção por sua tela dobrável de 8 polegadas, mas o produto traz também outra inovação: é o primeiro celular a adotar uma tecnologia chamada de lente líquida.

Como nas melhores ficções de Asimov, a ideia por trás das lentes líquidas está em reproduzir bionicamente as reações do globo ocular para colocar em foco com mais rapidez uma imagem qualquer – esteja ela perto ou longe. Na prática, elas são pequenas bolhas contendo uma composição de água e óleo que muda de forma de acordo com a intensidade de luz aplicada à sua superfície. Essas mudanças ocorrem em frações de segundos, o que as aproximam ainda mais das características intrínsecas do olho humano. É extraordinário.

No smartphone da Xiaomi, a lente funciona como um zoom óptico de três vezes (segundo a empresa, o número aumentará para trinta vezes com “aprimoramento digital”) e como uma lente macro, para tirar fotos nítidas de objetos a até 3 centímetros de distância. Pode-se, portanto, fotografar detalhes de perto e registrar rios e montanhas magníficos a quilômetros de distância. Segundo a fabricante, as tais lentes oferecem alta taxa de luminosidade e são extremamente resistentes.

O resultado dessas combinações é o que interessa aos consumidores: as lentes líquidas eliminam uma série de componentes, que se tornam dispensáveis. É como se um fotógrafo das antigas, com aqueles coletes ou mochilas repletos de lentes para diferentes funções, de repente trocasse todo o equipamento por uma lente única, com alguns poucos acessórios extras, diminuindo consideravelmente o peso que carregava.

As lentes líquidas surgiram há pelo menos uma década, com aplicações em outras áreas, como na indústria e medicina. Hoje em dia, são empregadas, por exemplo, nos sensores de imagem utilizados em linhas de produção automatizadas, para ler códigos de barras e em cirurgias por laparoscopia, em que sondas atingem locais inacessíveis aos médicos, e até em drones, como o lngenuity, da Nasa, que recentemente fez o primeiro voo autônomo em Marte. A sacada da Xiaomi foi instalar a sofisticada tecnologia em um aparelho que, segundo as estatísticas recentes, é peça onipresente e está nas mãos de 3,8 bilhões de pessoas ao redor do mundo – um pouco menos da metade da população mundial. A vida hoje, goste-se ou não, acontece nos smartphones. A Xiaomi começou a vender o Mi Mix Fold na semana passada. Por enquanto, ele estará disponível apenas no mercado chinês, com preços que variam de 1.530 dólares (8.520 reais), para o modelo com 12 gigabytes de RAM e 256 gigabytes de armazenamento, a 2.000 dólares (11.140 reais), para a versão especial com acabamento em cerâmica, 16 gigabytes de RAM e 512 gigabytes de armazenamento. Não há previsão para a chegada do aparelho ao Brasil.

A inovação foi bem recebida. Logo no primeiro minuto depois de seu lançamento, informou a fabricante, foram vendidas 30.000 unidades, o que gerou uma receita equivalente a 61,3 milhões de dólares (343 milhões de reais). Evidentemente a Xiaomi será seguida por concorrentes, como a Huawei, que tem planos para lançar em breve a sua versão de smartphones com lentes liquidas. A Apple e a Samsung, que lideram o mercado global de celulares, esperam os primeiros resultados de aceitação popular para então decidirem se incorporam a novidade – é muito provável que o façam, para não perder o trem. “As lentes líquidas representam uma revolução”, resume Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O futuro imaginado por Asimov, enfim, aparece diante de nós – mas é apenas o começo. Afinal, outro dia mesmo, em 2007, o iPhone era só uma ideia a rondar a mente de Steve Jobs e os laboratórios da Apple.

OLHAR APURADO

O que são e como funcionam as lentes fotográficas líquidas

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE MAIO

CAUTELA NÃO FAZ MAL A NINGUÉM

O simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos (Provérbios 14.15).

A pessoa simples é crédula. O inexperiente não examina onde pisa, por isso crê em qualquer coisa. Quem não tem cautela torna-se presa fácil dos espertalhões e cai na armadilha dos exploradores. A exploração está presente em todas as áreas da vida e em todos os setores da sociedade. Vende-se gato por lebre. Maquia-se a mentira com um verniz tênue de verdade, e os incautos caem por falta de conhecimento e prudência. No campo religioso multiplicam-se os exploradores que sobem ao púlpito com a Bíblia na mão e fazem promessas mirabolantes ao povo, apenas para lhe extorquir o último centavo que tem no bolso. Por falta de conhecimento, o povo se rende a esses apelos e acaba prisioneiro de espertalhões que fazem da religião uma fonte de lucro, e da fé um comércio sagrado. Precisamos de cautela. Devemos examinar todas as coisas pelo filtro da verdade. A Bíblia diz que se julga a árvore pelos seus frutos. Uma árvore má não pode produzir bons frutos. Uma pessoa inescrupulosa e falastrona não merece crédito. Não podemos dar guarida a tudo o que escutamos. Um pouco de cautela não faz mal a ninguém.

GESTÃO E CARREIRA

A REINVENÇÃO DO PROCESSO DE SELEÇÃO DE LÍDERES

A nova abordagem do Exército dos EUA para sua gestão de talentos

Ao se dirigir a uma turma de cadetes de West Point em 2011, o secretário de Defesa dos EUA, Robert M. Gates, perguntou sem rodeios: “Como o Exército pode romper as amarras institucionais, isto é, sua rigidez burocrática, nos processos de designação e promoção a fim de reter, desafiar e inspirar os melhores, mais talentosos e mais bem preparados jovens oficiais para o combate, e liderar uma força militar no futuro?”. A pergunta era, segundo ele, “o maior desafio enfrentado pelo Exército e, sinceramente, minha principal preocupação”.

O PROBLEMA

O Exército dos EUA precisa que seus comandantes sejam competentes e tenham caráter. No entanto, em pesquisa com 22 mil soldados, 20% relataram que estão servindo sob um líder tóxico.

O QUE CONTRIBUIU PARA ISSO

Até 2019, o Exército escolhia os comandantes de batalhão – uma posição de destaque utilizando oficiais seniores que de forma independente classificavam o dossiê pessoal de cada candidato. As análises de dossiê demoravam cada uma 90 segundos, e o principal texto examinado em cada avaliação de desempenho anual era mais curto que um tuíte comum.

UMA ALTERNATIVA MELHOR

O Exército realizou uma ambiciosa reformulação de seu processo de seleção. Agora o candidato passa pelo processo de quatro dias de avaliações, concluído com uma entrevista cuidadosamente preparada para reduzir o preconceito. O novo sistema oferece lições importantes para qualquer organização que queira aprimorar suas avaliações de talentos e suas práticas de promoção.

A preocupação não era infundada. Em uma pesquisa realizada com 22 mil soldados em 2009 e 2010, 20% afirmaram que estavam servindo sob um líder tóxico. Outra pesquisa mostrou que menos de 50% dos majores acreditavam que o Exército promovia seus melhores membros (o cenário do mundo corporativo é igualmente sombrio. Em outro estudo, os pesquisadores estimaram que metade dos executivos seniores não tinha bom desempenho em suas funções de liderança. Outra pesquisa mostrou que 16% dos gestores eram tóxicos, e 20%, incompetentes).

Como resposta a esse feedback, o Exército criou um processo completamente novo para selecionar comandantes de batalhões – o primeiro posto de nível executivo, normalmente atingido 17 a 20 anos depois do serviço militar. O Exército escolhe cerca de 450 por ano, cada um responsável pelo treinamento e desenvolvimento de aproximadamente 500 soldados. Os comandantes de batalhão exercem, portanto, grande influência na prontidão do combate e na retenção de líderes juniores. Eles são o principal meio de produzir generais. É por isso que o comandante do Estado-Maior do Exército dos EUA, James McConville, coloca a reformulação do processo de seleção no centro de seus esforços de renovação de talentos.

Nos próximos anos, a primeira turma de oficiais designados de acordo com o novo sistema assumirá os devidos comandos. O processo de seleção, que capitaliza as ideias recentes e emergentes da gestão de talentos tanto do setor privado como público, inclui aptidão física, cognitiva, comunicação e testes psicológicos, feedback de colegas e subordinados e entrevistas rigorosamente projetadas para reduzir o preconceito. Embora tenha o objetivo específico de aprimorar a validade, confiabilidade e impacto no desenvolvimento das escolhas do líder executivo do Exército, o processo oferece importantes lições a qualquer organização que queira aprimorar sua avaliação de talentos e suas práticas de promoção.

A TRANSFORMAÇÃO DE PROCESSOS NA ERA INDUSTRIAL

Não é de admirar que o Exército tenha sofrido uma crise de competência em seus postos de comando. Desde a década de 1980 centralizando o processo de seleção de membros, a força armada americana selecionou comandantes de batalhão simplesmente utilizando a pontuação de vários oficiais seniores citada no dossiê de cada tenente-coronel elegível.

Os dossiês continham avaliações subjetivas de desempenho, históricos de designações e foto oficial. Em média, cerca de 1,9 mil oficiais poderiam ser elegíveis por mérito todos os anos. Cada avaliação de dossiê demorava aproximadamente 90 segundos. O texto principal examinado em cada avaliação de desempenho anual era mais curto que um tuíte comum.

É claro que mudar os rumos de qualquer grande burocracia nunca foi fácil, e o Exército enfrentou todos os obstáculos possíveis. Asprincipais leis que regem as práticas de seu pessoal foram redigidas em 1947 e 1980. Elas determinavam que vários milhares de segundos-tenentes fossem comissionados por ano, instruídos em nível mínimo de competência e designados de acordo com senioridade, especialidade e desempenho. Em geral, as pessoas eram geridas como se fossem partes intercambiáveis – e o sistema era mais ou menos congelado no local porque assim ditava a lei. Mas, em 2018, o Congresso aprovou a Lei de Autorização da Defesa Nacional John McCain, que atribuía ao Exército a autoridade que faltava para flexibilizar seu pessoal. McConville – então vice-chefe de pessoal – começou a elaborar um plano para melhorar a qualidade do corpo de oficiais.

McConville tinha, indiscutivelmente, mais experiência em RH que qualquer outro chefe de pessoal anterior. Por ter passado três anos como diretor de recursos humanos da corporação, ele conhecia a fundo os talentos necessários aos milhares de postos do Exército. Como ex-comandante da 101ª Divisão Aerotransportada, ele aprendeu que cada soldado é dotado de habilidades únicas e que a diversidade no Exército está aumentando. E como pai de três jovens oficiais da corporação, ele sabe por experiência própria que as normas geracionais estão mudando e que os millennials e a geração Z querem ter pleno controle da própria carreira.

Vejamos um dos problemas que McConville reconheceu. Digamos que o Exército precisasse indicar um oficial para aconselhar um exército aliado além-mar. No sistema tradicional, ele identificaria candidatos com senioridade adequada (comandante da companhia) e especialidade logística), analisaria suas avaliações de desempenho para ter certeza de que ele estivesse entre os 20% do topo no ranking de seus pares e por fim escolheria um candidato desse grupo selecionado. Enquanto o sucesso do comandante da corporação requer sobretudo dirigir diretamente pessoas parecidas com ele mesmo, o sucesso do consultor no exterior requer influenciar indiretamente pessoas que podem ser bem diferentes – e em ambiente pouco familiar. Simplesmente oferecer o cargo ao melhor comandante talvez não seja uma boa opção. Resultados melhores poderiam ser obtidos identificando pessoas com excelente flexibilidade cognitiva, fluência transcultural e habilidades interpessoais. Além disso, se o Exército soubesse quais os oficiais que preferiam fazer viagens internacionais e conhecer pessoas de diferentes culturas, ele poderia escolher alguém cujos talentos e preferências fossem mais adequadas à posição: provavelmente uma pessoa de alto desempenho, satisfeita e disposta a continuar no posto.

Percebendo a necessidade de adaptação que cenários como este existam, McConville propôs mudar a forma como o Exército recruta, desenvolve, emprega e retém seu pessoal, começando pelo cargo mais importante de comandante de batalhão.

DE BAIXO PARA CIMA

Primeiro, o Exército redefiniu o talento como a interseção entre conhecimento, habilidades, comportamentos e preferências (KSB-Ps, na sigla em inglês). Depois, McConville obteve os recursos para montar a Força-tarefa de Gestão de Talentos do Exército – um pequeno grupo de militares encarregados de criar protótipos de ideias inovadoras de gestão de talentos – ordenando que a inclusão estivesse no centro da iniciativa (esclarecimento: eu atuei como consultor externo dessa força-tarefa e fui moderador de um dos comitês de entrevistas do novo processo de seleção).

A força-tarefa analisou os preceitos de liderança do Exército e identificou as melhores práticas do governo, das corporações, academia, organizações sem fins lucrativos e aliados militares. Depois criou o Programa de Avaliação de Comandantes de Batalhão (BCAP, na sigla em inglês): avaliação de quatro dias em mais de 20 quesitos KSB-Ps, incluindo habilidades de comunicação, criatividade, liderança ética e desenvolvimento de outras competências. Durante os três primeiros dias, os candidatos eram submetidos a teste de aptidão física; provas de redação e ensaios argumentativos; avaliações cognitivas e de talento estratégico; testes psicométricos e entrevista psicológica. Eles deveriam demonstrar sua liderança e capacidade de resolver problemas numa pista de obstáculos ao ar livre, em equipe, e submeter-se a longas avaliações por pares e subordinados.

O processo culminava no quarto dia, com entrevistas de 30 minutos nas quais as bancas avaliavam as habilidades de comunicação oral dos candidatos e decidiam os que estavam aptos para comando. Estes eram classificados de acordo com a pontuação acumulada de suas avaliações do BCAP juntamente com a classificação atribuída depois de avaliados segundo o antigo dossiê de desempenho (que o Exército ainda considera uma parte importante do processo de seleção). Os primeiros 450 foram designados para comandar.

Seguindo dois protótipos bem-sucedidos, em meados de 2019, McConville chefiou a implantação completa do programa. Em janeiro e fevereiro de 2020, 750 tenentes-coronéis – oficiais elegíveis que optaram por participar depois de recomendados com base na avaliação segundo o antigo dossiê – se apresentaram para o novo processo de avaliação em Fort Knox.

ESTRATÉGIAS PARA REDUZIR O PRECONCEITO

O cérebro humano é preguiçoso. Ao processarmos informações, constantemente procuramos atalhos. Os entrevistadores não são exceção. Pesquisas mostram que as entrevistas desestruturadas geralmente são a parte menos informativa das avaliações. Até entrevistadores experientes podem gastar os primeiros 30 segundos de entrevista para chegar direto a uma conclusão sobre o candidato e passar o resto do tempo procurando, inconscientemente, informações para confirmar sua conclusão.

Para evitar esses atalhos, a força-tarefa dedicou um dia inteiro à familiarização, aferição e treinamento dos participantes do BCAP. Coronéis escolhidos a dedo eram treinados para atuar como moderadores e assim garantir que o processo fosse justo e consistente. As ações a seguir orientaram o trabalho:

CRIAR PAINÉIS DIVERSIFICADOS.

O processo de seleção durou quatro semanas, durante as quais seis comissões julgadoras trabalharam simultaneamente. Cada banca, formada por cinco membros com direito a voto e três sem, levava em conta diversidade de gênero, etnia, especialidade e atribuições anteriores. De acordo com a tradição do Exército, o privilégio de voto era limitado a oficiais de nível acima do cargo em questão. Em cada banca do BCAP com direito a voto, havia três generais de uma ou duas estrelas e dois coronéis seniores, todos considerados comandantes bem-sucedidos no nível de batalhão ou de brigada. Os membros sem direito a voto eram um sargento-major de comando com longa experiência no assessoramento de comandantes de batalhão, um psicólogo operacional sénior e o moderador.

REALIZAR PROFUNDO TREINAMENTO ANTI PRECONCEITO.

Os membros da banca recebiam treinamento sobre estratégias para evitar erros de atribuição muito comuns em entrevistas de emprego ­ por exemplo, primazia (tendência de focar nas primeiras impressões), contraste (classificar os candidatos segundo comparação entre eles e não em relação ao padrão comum), auréola/chifre (permitir que uma única característica positiva ou negativa se sobreponha a todo o resto), vieses de estereotipagem. O treinamento enfatizava a prevalência do viés de ponto cego dos líderes: considerar que os outros podem ser preconceituosos, menos você. Todas as manhãs, antes de começarem o trabalho, os membros das bancas recebiam uma breve nota anti preconceito.

IMPEDIR QUE A BANCA AVALIASSE CANDIDATOS JÁ CONHECIDOS POR ELA.

Logo no início, os membros da comissão julgadora recebiam os nomes com a incumbência de responder se já os conheciam. Isso de certo modo evitava ideias preconcebidas sobre os candidatos a serem avaliados. Os membros da banca eram orientados a não participar do processo se percebessem, durante a entrevista, que conheciam o candidato. Isso aconteceu cinco vezes.

NIVELAR O CAMPO DE JOGO.

Candidatos com longa experiência em entrevistas podem beneficiar-se injustamente. Durante os protótipos do BCAP, a força-tarefa observou que alguns tenentes-coronéis eram excelentes entrevistados, mas a maioria não era. Por isso os candidatos receberam instruções sobre o método STAR, que ensina as pessoas a responder perguntas descrevendo a situação, a atividade, as medidas adotadas, e o resultado. Embora não fosse uma exigência, a maioria utilizava o método.

NORMATIZAR AS NOTAS.

Para garantir um único padrão de classificação, a comissão julgadora recebia uma rubrica para cada quesito a ser avaliado; este descrevia o que era necessário para atingir cada pontuação. Antes de iniciar as avaliações, a banca se reunia em sessões práticas. Inicialmente, cada membro avaliava independentemente três candidatos simulados, e todo o grupo discutia os resultados. Os membros então se reagrupavam em suas bancas para avaliar três novos candidatos simulados e analisavam os resultados. Cada grupo de candidatos simulados incluía um que era forte em KSB·Ps, um moderadamente forte e um fraco.

UTILIZAR O MÉTODO DUPLO-CEGO NAS ENTREVISTAS.

Pegando emprestado da Orquestra Sinfônica de Boston a boa prática concebida em 1952, o BCAP adotou o método duplo-cego em suas entrevistas: uma cortina preta separava os candidatos da comissão julgadora o tempo todo. Isso a forçava a concentrar-se no conteúdo das respostas e nos KSB-Ps avaliados, impedindo-a de formular juízos de valor com base em etnia, simpatia ou símbolos como detalhes dos uniformes. Isso minimizava os erros de atribuição que podiam ser provocados pela presença física dos candidatos. E significava que questões sérias podiam ser discutidas sem medo de repercussão caso candidatos e membros da banca viessem a trabalhar juntos no futuro. A força-tarefa orientava os candidatos a não revelar nada, e a banca a não perguntar nada sobre empregos anteriores.

Embora as entrevistas desse tipo reduzissem o preconceito – um teste mostrou que sargentos-majores identificaram incorretamente 50% dos candidatos de grupos minoritários do BCAP como brancos -, não o eliminavam. Não é difícil determinar o gênero, e o membro da banca pode, consciente ou inconscientemente, tentar relacionar entonação de voz, sotaque, estilo de linguagem ou conteúdo a certo grupo de indivíduos. Candidatos que aprenderam inglês como segunda língua ou são oriundos do extremo sul dos EUA, por exemplo, podem ter sotaque fácil de identificar. Por isso, o trabalho de prevenção de preconceito destacou a necessidade de não penalizar nem de recompensar modos de falar ou sotaques.

EXPLORAR A EXPERTISE PSICOLÓGICA.

Aplicando uma boa prática utilizada há muito tempo por unidades especiais de operações, o BCAP incluiu psicólogos de operações no processo. Cada psicólogo sênior supervisionava pessoalmente vários auxiliares juniores que conduziam as entrevistas e deles recebia, no próprio dia da entrevista, relatórios sobre os candidatos entrevistados. A seguir, apresentava os resultados relevantes às bancas examinadoras em formato padronizado. Como ele não interagia com os candidatos, podia transmitir as informações aos examinadores com total isenção e objetividade, com a vantagem de ajudá-los na formulação de perguntas, já que os relatórios que lhe eram passados lhe permitiam resumir os pontos fortes e os pontos fracos dos candidatos.

CRIAR QUESTÕES CLARAS E IMPARCIAIS.

A força-tarefa desenvolveu um banco de perguntas de fundo comportamental para ter um bom estoque de opções no caso de as perguntas vazarem. Por exemplo, “pode descrever uma situação em que você aconselhou um subordinado sobre determinada dificuldade enfrentada por ele?”.

Na primeira parte de cada entrevista, um moderador fazia perguntas em determinada ordem extraídas de um banco de questões, garantindo assim que todos os candidatos tivessem a mesma experiência básica. E acrescentava perguntas que o examinador quisesse fazer depois de avaliar o desempenho do candidato nos primeiros três dias do processo de seleção e de ter recebido o resumo do psicólogo sênior. Os próprios membros da banca podiam continuar o follow-up com perguntas no intuito de esclarecer ainda mais os pontos fortes e os riscos.

Os examinadores eram orientados a instar o candidato a descrever situações específicas e medidas tomadas, evitando o uso de termos hipotéticos como “teria”, “poderia”, “deveria”. Em vez de perguntarem, por exemplo, “de que modo você promoveria o desenvolvimento profissional de um subordinado com baixo desempenho?”, eles lhe diriam “descreva uma situação recente em que você promoveu o desenvolvimento profissional de um subordinado com desempenho insatisfatório”.

Os candidatos eram instruídos a esperar 30 segundos para responder cada pergunta – instrução decorrente do conhecimento prévio dos psicólogos de certos traços de personalidade dos postulantes. Como os extrovertidos normalmente se sentem mais à vontade quando pensam em voz alta, e os introvertidos tendem a processar as informações silenciosamente, o meio minuto de espera foi sugerido para que os primeiros não tivessem vantagem indevida.

Para garantir ainda mais a imparcialidade, os membros da banca eram orientados a não fornecer feedback nem discutir as respostas dos candidatos e a abster-se de manifestar qualquer linguagem corporal, como levantar o polegar ou revirar os olhos, que pudesse sinalizar aprovação ou desaprovação.

OUVIR QUEM OS CANDIDATOS PODERÃO LIDERAR.

Aproveitando a boa prática da Google de incluir no processo de entrevista possíveis membros da equipe do candidato, cada banca incluía um sargento-major – o equivalente a chefe de operações sênior do diretor-geral. Os convidados a participar atuavam como consultores de comandantes de batalhão e de brigada e como oficiais generais. Eles sabiam perfeitamente quais eram os requisitos necessários ao cargo de comandante de batalhão. Depois de cada entrevista, eles compartilhavam seus insights sobre os pontos fortes e fracos do candidato em cada KSB-P. Para minimizar possível viés, eles eram orientados a não informar sua avaliação geral do candidato.

IDENTIFICAR E AFASTAR VOTOS ANÔMALOS.

Depois dos comentários dos sargentos-majores, os examinadores retinham os votos não obrigatórios em cada KSB·P, a cujos resultados somente o moderador tinha acesso. Se as classificações de dois examinadores diferiam significativamente numa avaliação, o moderador pedia que eles justificassem sua classificação sem compartilhar a pontuação real. Para evitar que o oficial sênior da dupla exercesse influência indevida, o oficial júnior se manifestava primeiro.

TORNAR A VOTAÇÃO CONFIDENCIAL.

Depois disso, as bancas concluíam seu voto oficial. O moderador lembrava aos membros que suas classificações deviam se basear nas rubricas, e que eles não podiam identificar os votos nem discutir com os candidatos. De posse dos votos, os examinadores enviavam seus comentários sobre os pontos fortes e fracos de desenvolvimento dos candidatos em cada KSB-P, comentários estes confiados aos psicólogos juniores, que realizam uma “breve reunião” com cada candidato.

MONITORAR AS BANCAS EM TEMPO REAL.

Para garantir coerência e imparcialidade das bancas, o general que orientava a iniciativa do BCAP se reunia diariamente com os moderadores, dando-lhes orientação e pedindo input das questões, tendências de votação e necessidades. Todos os dias, ele observava pessoalmente pelo menos uma entrevista por banca em circuito fechado de câmeras. De vez em quando, ele comparecia à sala da comissão julgadora onde os membros estavam às voltas com procedimentos e orientação. Os seis moderadores, o diretor e o coordenador da banca se comunicavam regularmente em tempo real por um canal fechado, compartilhando problemas, preocupações e melhores práticas. Os examinadores podiam solicitar ao diretor que observasse sua banca ou a visitasse antes ou depois de alguma entrevista para esclarecer questões procedimentais. Essas solicitações eram resolvidas geralmente em segundos.

OS STAKEHOLDERS IMPORTANTES NO PROCESSO

O especialista em mudança organizacional John Kotter sustenta que, quando se trata de mudança, é crucial criar um grupo de orientação. O BCAP solicitou o input ou participação de vários grupos de stakeholders importantes: colegas e subordinados de candidatos, incluindo sargentos-majores e generais.

INCLUA OPINIÕES DE COLEGAS E SUBORDINADOS.

Antes da avaliação em Fort Knox, os líderes do BCAP enviaram por e-mail aos oficiais colegas e subordinados dos candidatos uma enquete de dez minutos. A principal questão era: esta pessoa está apta a comandar um batalhão? Mais de 65% dos destinatários responderam (os índices de resposta em enquetes do Exército não chegam a 15%). Ao avaliarem os resultados da enquete, os membros da banca foram lembrados de que, às vezes, os líderes precisam ser severos e considerar o feedback negativo no contexto: se uma clara maioria de respostas sobre determinado candidato for positiva, respostas negativas a um ou dois itens devem ser consideradas pontos fora da curva.

Boa parte dos candidatos foi recomendada para comando por uma grande maioria de pares e subordinados – ou seja, os tenentes-coronéis costumam ser bons líderes. Os candidatos completaram o processo do BCAP independentemente das respostas da enquete, uma vez que estas foram apenas um dos vários fatores considerados.

PROMOVA A INTEGRAÇÃO DE LÍDERES ESTRATÉGICOS.

Os atuais generais do Exército ascenderam na hierarquia militar seguindo os antigos processos de seleção, por isso é preciso dedicar especial atenção para obter sua adesão ao programa. McConville solicitou o serviço de 12 generais quatro estrelas para opinar sobre a avaliação utilizada na classificação final dos candidatos, sinalizando assim que a liderança sênior apoiava o programa e, portanto, se esperava que todos também apoiassem.

Como foi mencionado, em cada banca havia três generais de uma ou duas estrelas. Como o processo de seleção envolvia 24 bancas – seis examinadores em cada uma das quatro semanas – , ao todo, 72 generais do Exército de uma ou duas estrelas, ou mais de 20%, participaram do processo.

AFERIR RESULTADOS INICIAIS COM OLHO NO FUTURO

As avaliações do BCAP custaram US$ 2,5 milhões em despesas de viagem, suprimentos, equipamentos e tempo dos membros das bancas. Que ganhou em troca o Exército? O impacto mais imediato do BCAP será para os soldados liderados por 436 comandantes de batalhões selecionados recentemente. Curiosamente, 150 dos novos comandantes, ou 34%, não teriam sido escolhidos com base somente nas avaliações de dossiê no sistema antigo. Portanto, não é a pontuação de seus dossiês que coloca os novos comandantes entre os melhores candidatos, mas as avaliações BCAP de seus pontos fortes. Além disso, 25 candidatos cuja análise de dossiê teria conferido uma posição no sistema antigo foram considerados “inaptos para comando” por suas bancas de examinadores porque demonstraram forte e inegável evidência de toxicidade. Como os futuros generais serão escolhidos principalmente entre os atuais comandantes de batalhão, esses resultados significam que, em última instância, dezenas a milhares de soldados (e suas famílias) poderão se beneficiar com esses comandantes mais aptos, mais capazes, melhores comunicadores e mais atenciosos (normalmente, o Exército não publica informação demográfica dos selecionados para comando).

O processo também gerou benefícios para os candidatos, independentemente de terem sido aprovados ou não. A semana que passaram em Fort Knox os reconectou com velhos amigos e os levou a fazer novas amizades. Como sabemos da teoria de redes e da psicologia social, fortes redes de contato profissionais aumentam a capacidade das pessoas de executar tarefas, e fortes redes de contato pessoais melhoram a estabilidade emocional e o bem-estar. E a todos os candidatos (mesmos aqueles cuja promoção foi negada) foi oferecido posteriormente um período de aperfeiçoamento em liderança com um coach executivo civil, o que lhes permitiu melhorar os resultados do processo ou os aspectos que eles próprios reconheceram que precisavam de aprimoramento. A maioria dos oficiais se inscreveu, incluindo 64% dos oficiais homens e 84% das mulheres.

Nas pesquisas finais, 96% dos candidatos, incluindo 98% das mulheres e 96% de oficiais pertencentes a minorias, afirmaram que o BCAP era uma forma excelente de selecionar comandantes. Dois meses depois, quando os candidatos receberam os resultados, 97% afirmaram que o novo programa deveria continuar. Onze por cento sugeriram grandes modificações – como mais feedback, critérios de avaliação e eventos diferentes, e linhas de tempo de avaliação alternativas ­ que serão analisadas e tratadas no futuro.

Pesquisas de follow-up e uma avaliação após a ação revelaram uma vantagem inesperada: o desenvolvimento dos próprios membros das bancas. Embora alguns generais tivessem questionado inicialmente por que se gastou tempo precioso para melhorar o processo que os havia promovido, por fim, 95% dos examinadores afirmaram que essa foi a melhor forma de selecionar comandantes de batalhão. Alguns agradeceram a oportunidade de se atualizarem sobre os problemas que os líderes mais jovens terão de enfrentar. E refletindo sobre sua própria conduta como líderes, muitos comentaram que o treinamento serviu para conscientizá-los de seus preconceitos e da necessidade de liderarem de forma mais inclusiva.

O processo provê informações importantes sobre os examinadores. Em alguns anos, o Exército saberá quais terão sido os novos comandantes bem-sucedidos. Como o processo registrou todos os votos por candidato, será possível identificar os avaliadores particularmente eficientes e convidá-los a participar de outros comitês de seleção.

E os efeitos da iniciativa vão além dos que observamos em Fort Knox. O BCAP abriu os olhos do Exército para a possibilidade de criar uma cultura mais ampla de avaliação e feedback. Alguns instrutores de West Point adaptaram as rubricas de redação para serem utilizadas no treinamento de cadetes. Pelo menos uma unidade do Exército está organizando a simulação de um BCAP para que futuros candidatos possam melhorar sua aptidão física e suas habilidades de oratória e escrita. A corporação cogita aproveitar várias dessas avaliações no desenvolvimento de oficiais com quatro ou cinco anos de experiência. Elas poderão ser repetidas vários anos depois para que os oficiais possam analisar se melhoraram (ou não) seu desempenho. E os ajudariam, bem como ao Exército, a otimizar as nomeações e os programas de desenvolvimento. A medida que os oficiais exercitarem suas habilidades enfatizadas nas avaliações, estas serão aprimoradas e contribuirão para formar líderes mais fortes, mesmo entre os que nunca foram escolhidos para comandar um batalhão.

Finalmente, o Exército utilizou o modelo BCAP com o intuito de criar um programa similar para selecionar comandantes de brigada. E aproveitando os esforços de inclusão do BCAP, a Força-Tarefa para Gestão de Talento estabeleceu recentemente um conjunto de diretrizes de inclusão que se estende por todos os seus programas.

Graças ao BCAP, hoje o Exército americano tem os líderes de batalhão mais cuidadosamente selecionados de sua história. Os candidatos afirmaram ter obtido os mais valiosos insights sobre si mesmos. Os soldados solicitados a avaliar seus colegas e superiores receberam a clara mensagem de que a opinião deles é importante, e que se espera que os líderes os tratem com respeito. Os generais e coronéis que participaram da comissão julgadora tiveram a excelente oportunidade de se atualizar sobre o que os oficiais juniores vivenciam em suas atividades diárias e que habilidades precisam desenvolver para bem executá-las. Muitos examinadores receberam igualmente o mais completo treinamento para reduzir preconceitos imaginável – o que deve levar a treinamentos mais inclusivos das pessoas que exercem comando.

EVERETT SPAIN – é coronel da ativa e chefe do departamento de ciências comportamentais e liderança de West Point. Os pontos de vista expressos aqui são exclusivamente do autor e não representam a Academia Militar dos EUA, o Departamento do Exército ou o Departamento de Defesa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A EPILEPSIA QUE NINGUÉM VÊ

A crise de ausência infantil é um dos tipos da doença, que tem grande incidência na população de crianças e pode acarretar sérios prejuízos no desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem na fase escolar

Quando se fala em epilepsia imaginam-se logo convulsões e estados graves de inconsciência. A palavra deriva do grego e significa uma condição de tornar-se dominado ou atacado, em estado de surpresa. Trata-se de uma condição crônica, um sintoma de um distúrbio neurológico (ou doença), que geralmente se apresenta sob forma de crises convulsivas, com intensidade e período de tempo de cada crise variáveis.

O problema acontece quando um grupo de células cerebrais (que são chamadas de neurônios) se movimenta ou se comporta de forma hiperexcitável. Os sintomas de cada crise também vão depender da área ou áreas cerebrais afetadas por esse grupo de neurônios. O mecanismo que incita a crise, de modo geral, é o seguinte: pode existir um foco epiléptico, ou seja, um grupo de neurônios que dispara anormalmente uma carga elétrica excessiva durante uma relação de sinapse (conexão entre os neurônios). A descarga elétrica excessiva destes neurônios vai determinando impulsos anormais, que podem continuar esse processo em cadeia, sucessivamente, originando as crises. Há outras formas de desencadear uma crise epiléptica, mas geralmente estão sempre ligadas ao movimento neuronal.

Estima-se que existam em torno de sessenta e cinco milhões de pessoas com epilepsia no mundo. Sua incidência varia conforme a idade do paciente e procedência das crises. Porém, crianças são mais suscetíveis, devido à sensibilidade de um cérebro ainda em formação ou desenvolvimento.

A incidência na infância é bem grande – cerca de 75% dos pacientes epilépticos desenvolvem epilepsia na infância, sabendo-se que 50% dos casos ocorrem antes dos cinco anos de idade. A criança tem seu Sistema Nervoso Central em constante mudança, mesmo antes do nascimento, e isso a torna bem mais vulnerável do que um adulto.

Uma crise única não é considerada epilepsia. Porém, deve ser observada, pois poderá ser uma primeira crise de outras que possam vir com intervalos longos de tempo (um paciente pode ter uma primeira crise e após três anos uma segunda). As crises epiléticas, de modo geral, podem ser classificadas em focais, quando existe uma disfunção proveniente de uma pequena parte do cérebro comprometida nas sinapses, ou em crises generalizadas, quando a área cerebral comprometida é maior, chegando a envolver os dois hemisférios cerebrais, direito e esquerdo.

A epilepsia ainda está sendo muito estudada no mundo todo, devido à amplitude de suas variações e vertentes, e suas causas, também. Contudo, é certo que essas causas envolvem fatores genéticos, hereditários, perinatais, doenças infecciosas, vasculares, fatores tóxicos, traumas, distúrbios metabólicos e nutricionais ou doenças degenerativas.

PREOCUPAÇÃO

Em todos os países, a epilepsia, hoje, representa uma grande preocupação de saúde pública. Estima-se que 18 a cada 1.000 habitantes tenham um dos tipos de epilepsia. Grande parte delas, principalmente as que acometem a infância, é considerada benigna, isto é, podem desaparecer na idade adulta ou ainda na adolescência, deixando pouca ou nenhuma sequela neuropsíquica. Entretanto, existe uma boa parcela de casos que se agrava sem diagnóstico, transformando-se em outros tipos de epilepsia, podendo levar o seu portador a comprometimentos muito grandes em seu desenvolvimento biopsicossocial.

Sabe-se hoje que 70% dos pacientes com epilepsia têm crises idiopáticas, ou seja, epilepsia transmitida geneticamente e que se manifesta em determinada faixa etária, principalmente na infância. Algumas epilepsias da infância iniciam nos primeiros três anos de idade do portador e outras começam após os primeiros três anos.

Segundo Guerreiro, existem muitos tipos de epilepsia, que podem ser classificadas de acordo com os tipos de crises. Sendo assim, podemos dividir os tipos de crises em: parciais (focais ou locais) simples, que preservam a consciência; parciais complexas, que alteram a consciência; secundárias generalizadas (que podem evoluir para outros tipos); generalizadas desde o início; sem classificação.

Entre os tipos de epilepsia que apresentam crises generalizadas, existe uma que acomete muito as crianças e aparece de modo silencioso, quase invisível a olhos menos atentos. Pode causar grandes dificuldades no desenvolvimento infantil, afetando, principalmente, a cognição e o desenvolvimento da aprendizagem de seu portador.

É a epilepsia que se caracteriza como “crise de ausência infantil”, que merece muita atenção. As crises de ausência são generalizadas, idiopáticas ou focais. As focais ou parciais acometem parte do cérebro e podem ser identificadas com o que se chama de foco epiléptico, um diagnóstico usual na área médica a pacientes que passaram por análise de exame eletroencefalograma e que apresentam epilepsia em uma área específica do cérebro.

Por ser um tipo de epilepsia que não traz convulsões em sua sintomatologia, a crise de ausência é pouco reconhecida no dia a dia. Pode uma criança apresentar dezenas, ou até centenas de crises por dia, sem que as pessoas ao seu redor percebam o quadro. Por não ser diagnosticada e tratada precocemente pode causar diversos problemas no desenvolvimento escolar dessa criança.

O paciente com crise de ausência costuma ter a primeira ocorrência por volta dos 3 anos de idade, sendo outras recorrentes periodicamente, com pico entre 5 e 7 anos. O período entre crises pode variar muito, mas é comum que em um só dia a criança possa apresentar muitos episódios.

Caracteriza-se por ser um episódio de “liga-desliga”, como o piscar rápido de uma lâmpada em casa, quando há problemas com a energia. O paciente pode apresentar alguns sintomas durante a crise, como um piscar de olhos, pupilas dilatadas, um olhar distante, ou para cima, ou ainda contrações leves, musculares (comprometimentos tônicos) seguidos de relaxamento.

Estes sintomas, porém, não são fáceis de serem identificados, principalmente em sala de aula, uma vez que a crise tem um período muito curto. A duração de cada crise é de 5 a 30 segundos, apenas, por isso ela é quase imperceptível e não tem hora ou local para acontecer: a criança pode estar brincando, vendo televisão, comendo ou na escola escrevendo, lendo, fazendo suas tarefas.

SONOLÊNCIA

O paciente pode parecer um pouco sonolento de repente, ou com um olhar vago, como se estivesse distraído por poucos segundos e naturalmente voltasse a prestar atenção em sua atividade. Dessa forma, facilmente, essas crises de ausência são confundidas com períodos de desatenção. E uma criança epiléptica pode ser confundida, em um primeiro momento, com uma criança distraída.

Durante a crise, a criança para, por alguns poucos segundos, de fazer o que estava fazendo, como, por exemplo, parar de comer ou escrever. Entretanto, essa situação leva no máximo 30 segundos e, então, ela volta a fazer exatamente o que estava fazendo antes, sem ao menos dar-se conta do que aconteceu. É como se ela estivesse “fora do ar” por alguns segundos. Nem a própria criança percebe que estava em crise. Não sente dor alguma nem mal-estar, voltando normalmente às atividades até a próxima crise. Lembrando que podem ser dezenas no dia.

Quando, porém, a criança apresenta algum componente tônico durante as crises, como o piscar de olhos ou contração da musculatura e depois relaxamento, é possível inferir que possa estar havendo algo errado com ela. Qualquer suspeita deve ser levada ao pediatra. No passado, este tipo de epilepsia era chamado de “pequeno mal”, lapso de consciência, uma interrupção sem provocar quedas ou outros sintomas que lembram a epilepsia mais conhecida.

As crises de ausência podem ser estimuladas por vários fatores ou situações, como a aceleração da respiração, (taquipneia), estímulos luminosos repetitivos (foto estimulação), hipoglicemia, hiperpneia (não apenas respiração rápida, mas profunda, comum em situações de medo e pânico), situações de surpresa, raiva, constrangimento, medo. Sabe-se que uma parcela considerável de portadores de epilepsia idiopática apresenta fotossensibilidade, isto é, sua exposição a determinados padrões de luz pode desencadear as crises.

Considera-se esse tipo de epilepsia como um dos tipos benignos, isto é, com tendência a desaparecer a longo prazo. Todavia, uma grande parte das crianças que manifesta tais sintomas pode não apresentar remissão completa das crises, que poderão evoluir para crises de epilepsia típicas da adolescência ou da vida adulta.

Sendo assim, o diagnóstico precoce é muito importante, porque um paciente epiléptico deve ser observado por longos anos. Durante um tempo as crises podem parar e depois retornarem. Estudos demonstram que em muitos casos os pacientes apresentam desenvolvimento neuropsicomotor normal, embora problemas acadêmicos sejam persistentes. Mas existem casos em que há comprometimento grande das funções executivas e do comportamento.

ALTO IMPACTO

O impacto das crises de ausência na aprendizagem é alto. Sendo a aprendizagem um comportamento de mudança no sistema nervoso, resultante da assimilação e transferência de todo um processo cognitivo realizado para isso, e consequentemente uma mudança também no comportamento, todo e qualquer distúrbio neurológico acarretará comprometimentos na aprendizagem. Os processos neurais, o funcionamento sináptico e todas as demais funções neurológicas devem funcionar de forma intacta para que não haja um eco no processo da aprendizagem.

Assim, dentro de um contexto em que uma criança apresente uma série de crises frequentes em sala de aula ou durante períodos de estudos, com episódios de “liga-desliga”, certamente processos básicos da aprendizagem, como atenção, concentração, processamento da informação e funções executivas, serão comprometidos.

A epilepsia de ausência afeta o desenvolvimento infantil, podendo levar a criança a apresentar, com o tempo, transtornos de aprendizagem, além de problemas na atenção e memória. Sendo a crise de ausência generalizada, ela se manifesta nos dois hemisférios cerebrais. Portanto, podem ser grandes os comprometimentos cognitivos de um portador com esse tipo de epilepsia.

De acordo com Fuentes, estudos neurofisiológicos sobre as disfunções cognitivas de pacientes com crises de epilepsias idiopáticas demonstram que estes apresentam características parecidas a pacientes com comprometimentos do córtex pré-frontal, associando as crises idiopáticas a disfunções nessa área do cérebro, onde agem as funções executivas (responsáveis pelo planejamento, controle de ações, metas, tomadas de decisão, atenção, memória de trabalho).

DÉFICIT ACADÊMICO

Se imaginarmos um aluno em sala de aula tendo, pelo menos, dez crises dentro do tempo de uma aula, ou seja, durante o estudo de uma única disciplina, já será o suficiente para que este aluno desenvolva um déficit acadêmico, uma vez que o conteúdo assimilado foi fragmentado dez vezes.

Ao ser diagnosticado, certamente esse aluno, mesmo após ser medicado, deverá necessitar de apoio psicopedagógico para conseguir suprir as defasagens acadêmicas e, dependendo da demora neste diagnóstico, necessitará de um processo de reabilitação em áreas da atenção, memória e funções executivas.

No Brasil, existem poucos estudos sobre os impactos que esta epilepsia causa na aprendizagem infantil, mas sabe-se que se for diagnosticada precocemente seus prejuízos serão minimizados.

Toda criança que apresenta esse tipo de epilepsia deve ser medicada com remédios antiepilépticos, já que costuma haver recorrência de crises, mesmo com espaços de tempo entre elas. Pesquisas mostram que 70 a 80% de epilepsias são controlados com medicamentos. Os exames de eletroencefalograma e de neuroimagem são fundamentais para o diagnóstico.

Diante desse quadro, quanto mais cedo se conhecem os sintomas e sinais de alerta desse tipo de epilepsia, mais cedo, também, pode-se ter um diagnóstico e uma prática que altere esse panorama atual, através da intervenção e redução nos danos biopsicossociais que a criança portadora desses sintomas pode carregar por longos anos.

DOSTOIÉVSKI FEZ REGISTROS EM SUA OBRA

Há inúmeros casos de pessoas famosas ao longo da história universal que sofreram com crises de epilepsia, mesmo sem registros oficiais de época. O principal escritor russo de todos os tempos, Fiódor Dostoiévski. que nasceu em 1821 e morreu em 1881, foi um deles. Ele teve sua primeira crise convulsiva na adolescência, fato recorrente em toda sua vida. Apesar dos historiadores aceitarem que o autor era portador da doença, não se sabe ao certo em qual grupo se enquadrou. As principais pistas que levam a ratificar a tese foram retiradas de seus próprios romances, em inúmeros registros autobiográficos. Existem descrições de crises que acometiam uma das personagens do livro O Idiota. Em Os Irmãos Karamazov. talvez sua principal obra, uma das personagens tinha espasmos vocais. A esposa de Dostoiévski descreveu um tipo de aura apresentada coma presença de convulsões no marido. O Journal of Epilepsy and Clinical Neurophsyiology informou que a propensão genética para epilepsia se apoia, ainda, na morte de um dos filhos do escritor, por estado de mal epiléptico. Outras celebridades também passaram pelo problema, como Alfred Nobel, Buda, Dom Pedro I, Gustave Flaubert, Alexandre, o Grande, Joana D’Arc, Machado de Assis, Moliêre, Napoleão Bonaparte, Sócrates, Van Gogh e Lênin.

CLASSIFICAÇÕES

Existem nada menos do que seis classificações para as crises de ausência, segundo a Liga Internacional contra a Epilepsia. São elas: Crise de ausência com componentes clônicos discretos; Crise de ausência com componente atônico; Crise de ausência com componente tônico; Crise de ausência com automatismos; Crise de ausência com fenômenos autonômenos; Crise de ausência com formas mistas.

EU ACHO …

FUTURO IMPROVÁVEL

Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada, mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto – serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de “dois e dois são quatro” é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto…

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MENOS É SEMPRE MAIS

Cresce no mundo, e também no Brasil, uma ideia de organização doméstica chamada de “armário-cápsula”, que consiste em manter pouquíssimas roupas em casa

“As lojas sempre têm um cheirinho bom e despertam o desejo por coisas que você nem sabia que precisava”, disse uma querida personagem do cinema e da TV, Rebecca Bloomwood, a Becky Bloom, vivida pela australiana Isla Fisher na comédia Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2009). Becky é uma jovem definitivamente falida em busca do equilíbrio entre estilo e saúde financeira, mas ladeada de um guarda-roupa abarrotado de peças de grife pouco ou nada usadas. A relação de Becky com seu armário é retrato de nosso tempo, um tempo em que muitas mulheres olham para seus cabides e pensam, quando não dizem em voz alta mesmo: Não tenho nada para vestir”. Os humores de hoje, contudo, acelerados pelo encasulamento da pandemia, exigem uma vida minimalista, sem exageros.

Há uma onda que cresce, um método de organização doméstico chamado de “armário-cápsula”. Trata-se de passar um longo período de tempo – como uma estação do ano ou mais até – com cerca de três dezenas de roupas que combinem entre si, e só. Para que o esquema funcione, é preciso atenção redobrada ao comprar peças novas e ao selecionar o que já está em casa.

“Pode parecer um sacrifício, mas não é”, diz a especialista em estilo Luciana Ulrich, dona da Studio lmmagine, escola de moda em São Paulo que criou um workshop on-line sobre o tema. “Com doze itens é possível montar aproximadamente cinquenta looks.” A modéstia no consumo, digamos assim, resultou na procura por armários pequenos, os chamados closets modulados – as vendas aumentaram 40% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2020, em lojas de móveis do Brasil.

A ideia de ter pouco para vestir, agora redescoberta, nasceu aos anos 1980, com a estilista americana Donna Karan. Ela lançou uma coleção de sete peças curingas que transitavam bem da noite ao dia, do trabalho à festa. A novidade sacudiu as passarelas, as revistas de moda e as ruas. “Aos poucos, descobriu-se que as coisas podiam ser mais simples, mais confortáveis e mais duráveis”, diz Mareio Banfi, estilista e professor de moda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Até que a humanidade, afeita a consumir, foi perdendo o gosto pela simplicidade. Mas, como sempre, os movimentos pendulares mudam comportamentos, e a sociedade parece ter retornado à boa estrada. É o que fez a professora de inglês Jéssica Fioravante, 30 anos, do Rio de Janeiro, que reduziu seu acervo de 300 peças para uma seleção com apenas 10% desse montante. “Percebo que sou mais criativa nas composições”, diz. “Nunca me falta nada e, se for pensar bem, às vezes até sobra.” E se sobra, para que ter? Ou, como ensinou o arquiteto modernista alemão Mies van der Rohe (1886-1969) numa de suas máximas mais celebradas: “Menos é mais”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE MAIO

A LEI DA SEMEADURA E DA COLHEITA

O infiel de coração dos seus próprios caminhos se farta, como do seu próprio proceder, o homem de bem (Provérbios 14.14).

A lei da semeadura e da colheita é universal. O homem colhe o que planta. Os maus terão o que merecem, mas o homem de bem será recompensado pelo que faz. Os infiéis receberão a retribuição de sua conduta, mas o homem bom receberá galardão até de um copo de água fria que der a alguém em nome de Jesus. Em outras palavras, o que o homem semeia, é isso mesmo o que ele colhe. Quem espalha sementes de bondade colherá bondade. Quem semeia a maldade ceifará maldade. O infiel de coração não só colhe o mal que semeou, mas faz uma colheita tão abundante a ponto de fartar-se. Ele semeia apenas vento, mas sua colheita é tempestade. O mal que ele intentou no coração encurrala sua vida por todos os lados. Aquilo que ele ambicionou em secreto transborda publicamente para todas as direções. O mal que ele desejou para os outros recai sobre sua própria cabeça. Totalmente diferente é o homem de bem, que é recompensado pelo seu proceder. Seu coração é generoso, suas mãos são prestativas, e sua vida é uma inspiração. Mesmo que as pessoas lhe façam mal, ele paga com o bem. Mesmo que sofra injustiças, perdoa. Mesmo que lhe firam o rosto, volta a outra face. O homem de bem é um abençoador. Sua recompensa não vem da terra, mas do céu; não vem dos homens, mas de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

COMO FALAR SOBRE TRABALHO COM SEUS FILHOS DURANTE A PANDEMIA

Um guia de atividades e discussão.

Para algumas famílias, a covid-19 significou trabalhar, viver e aprender juntos em aposentos apertados durante vários meses. Para outras, significou funcionários saindo de casa para trabalhar em hospitais, supermercados e outros estabelecimentos comerciais da linha de frente da pandemia. Embora a dinâmica de sua família tenha mudado, é provável que seus filhos estejam desenvolvendo novas ideias sobre seu trabalho e mais elementarmente, o que é o trabalho, como ele funciona no mundo atual e o que ele significa para eles.

É por isso que esta é uma boa hora para conversar com seus filhos sobre seu trabalho e mudanças de responsabilidade. Essas conversas podem ajudá-lo a entender melhor suas perspectivas sobre seu emprego, como eles pensam sobre seu futuro na força de trabalho, e qual a melhor forma de apoiá-los hoje. Você também pode aproveitar esse tempo para discutir saudavelmente estratégias de enfrentamento sadias quando o trabalho (e a vida) se tornarem difíceis.

O guia de atividades e discussão a seguir oferece algumas formas de iniciar conversas sobre esses temas. À medida que for lendo as questões, escolha os tópicos que mais se apliquem à sua família. Dependendo do interesse das crianças e da dispersão da atenção, você pode preferir discutir diferentes questões em várias ocasiões. É importante adaptar as questões a serem discutidas ao nível de desenvolvimento, temperamento, estilo de comunicação e outros aspectos de seus filhos. Para aconselhamento individualizado, parentes e cuidadores devem contatar seus próprios provedores.

ATIVIDADE

Comece a conversa com seu filho dizendo alguma coisa como “eu acho que seria interessante conversar sobre as mudanças que você viu na forma como estou trabalhando neste exato momento, e para lhe dar a oportunidade de tirar dúvidas que você pode ter sobre o que eu faço no trabalho”. Depois discuta os tópicos que tem em mente, deixando a conversa ser guiada pela curiosidade de seu filho. Para ter ideias sobre os tópicos, veja o guia de discussão a seguir.

Como crianças menores podem ter mais facilidade de se comunicar brincando, você pode então começar pedindo a seu filho um desenho de você trabalhando ou dele em aulas (remotas ou presenciais). Peça à criança que descreva seu desenho, e faça perguntas adicionais para entendê-lo melhor. Esse exercício é uma boa forma de ouvir as ideias de seus filhos sobre as mudanças em sua vida profissional, na forma como eles estão estudando e na dinâmica familiar.

GUIA DE DISCUSSÃO

A conversa com a criança pode abranger uma grande variedade de assuntos. Aqui estão algumas perguntas que você pode fazer:

– Você sabe o que eu faço no meu trabalho?

– O que você quer me perguntar sobre meu trabalho?

– Você sabe porque o que eu faço é importante para mim e para outros?

– Você sabe como eu passo meu tempo enquanto estou trabalhando?

– Que você faz quando está na escola?

– Quais são suas partes favoritas da escola?

Esta é também uma oportunidade de discutir mudanças no trabalho e na escola. Você pode perguntar:

– Neste momento tivemos de fazer muitas mudanças em nossas rotinas de trabalho e da escola. O que ficou mais difícil ou mais fácil na escola agora? O que ajuda você quando as coisas ficam mais difíceis? De que formas eu posso ajudá-lo quando você está com problemas?

– Você acha que as mudanças durante este período foram positivas para nossa família?

Esta última questão pode ser mais bem respondida por você e seu filho juntos. Por exemplo, talvez vocês se vejam mais ou façam mais refeições juntos durante a semana. Talvez você tenha mais oportunidade de interagir (mesmo que virtualmente) com o resto da família ou com amigos.

Você também pode pedir a seu filho que faça perguntas para saber mais sobre seu trabalho e como ele mudou. Se ele não estiver seguro sobre por onde começar, as sugestões a seguir podem ajudar: você poderia dizer “tenho algumas perguntas aqui que talvez você queira me fazer”. As crianças que já sabem ler podem ver a lista e fazer as perguntas que considerarem mais interessantes. Se seu filho ainda não sabe ler, você pode ler em voz alta aquelas que você acredita serem mais relevantes usando linguagem adequada ao nível de desenvolvimento da criança, e depois respondê-las (obviamente, tente criar um ambiente onde seu filho se sinta à vontade para fazer perguntas que não foram incluídas a seguir).

– Que você faz no seu trabalho?

– Como acabou fazendo esse tipo de trabalho?

– De que você mais gosta no seu trabalho?

– Quando você tinha a minha idade, que queria fazer quando crescesse?

– Que você queria saber na minha idade sobre trabalho e escola?

– Que problema no trabalho que você teve de superar? Como fez isso?

– Que ficou mais difícil no seu trabalho por causa da pandemia? Como você enfrentou os problemas?

–Por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo? (detalhe importante: esta pergunta poderá não ser apresentada se não refletir a experiência da criança).

DICAS PARA SUA CONVERSA

Em conversas com os filhos, é importante deixar claro que você está disponível para conversar ou ajudar quando eles precisarem. Também é importante estar tranquilo e legitimar os sentimentos deles e, ao mesmo tempo, enfatizar que você e outros adultos estão trabalhando muito pra mantê-los em segurança e ajudá-los a aprender durante este período anormal.

Com a pergunta “por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo?” é particularmente importante estar sintonizado com as emoções de seu filho. Você pode responder reforçando seu amor por ele e ao mesmo tempo também reconhecendo suas responsabilidades de trabalho e os motivos porque seu trabalho é importante. Deixe claro que você trabalha não porque não quer ficar com seu filho. Essa discussão também pode levar a oportunidades de marcar um período comum para estar com a família sem discutir nada de trabalho, se possível.

Se você não puder trabalhar em casa, seu filho pode ter preocupações relacionadas à segurança. Éimportante dar espaço para essa conversa e sincera e tranquilamente responder às perguntas de seu filho sem usar linguagem catastrófica. Normalize os sentimentos que seu filho expressa e enfatize que você está seguindo políticas de saúde pública e os protocolos de sua empresa para manter você e sua família seguros. Você também pode explicar a importância de seu cargo, porque ele exige que você continue indo ao escritório, e como seu trabalho ajuda os outros e a comunidade como um todo. Permitir que as crianças saibam que elas sempre podem discutir seus sentimentos com você e fazer perguntas deixa uma porta aberta para conversas futuras e mostra que as pessoas que cuidam delas estão lá se elas precisarem de apoio.

Embora não seja o foco deste guia, é muito importante observar que, além das mudanças no trabalho e na escola, as famílias podem estar vivenciando a perda de entes queridos, doenças, perda de emprego ou insegurança alimentar e doméstica. É importante dar espaço às crianças para que façam perguntas e consigam apoio nesses fatores estressantes. Os pais devem procurar recursos da escola e da comunidade quando seus filhos ou famílias precisarem de mais ajuda.

ESCLARECIMENTO

Este guia foi elaborado para ter natureza informativa e não para fornecer conselhos ou recomendações profissionais. Essas atividades são para consideração geral, mas os cuidadores devem contatar seus provedores em relação a aconselhamento individualizado para suas famílias e filhos. Os pais que perceberem mudanças comportamentais significativas ou mudanças de humor em seus filhos, ou que precisem de outro tipo de apoio, devem entrar em contato com a escola e agências comunitárias para obter orientação e recursos.

JACQUELINE ZELLER – é PhD, psicóloga licenciada, psicóloga escolar e professora de educação infantil. Seus interesses clínicos focam esforços de prevenção e intervenção em escolas, promovendo a resiliência nas crianças e apoiando o bem-estar de educadores e auxiliares. A dra. Zeller faz parte do núcleo pedagógico da faculdade de educação de Harvard. onde ela ministra cursos de pós-graduação relacionados a aconselhamento e consultas, e coordena parcerias escola/universidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

JOVENS PRECISAM DORMIR MAIS

Atenta à saúde dos estudantes, a Associação Americana de Pediatria passou a recomendar que escolas iniciem somente após as 8h30, como possível prevenção ao risco de depressão na adolescência

Novo estudo feito por uma equipe de pesquisadores da Universidade do Texas sugere que a privação do sono pode estar entre os principais fatores de risco de depressão entre adolescentes. De acordo com a pesquisa, publicada no Jornal Sleep, da Sociedade de Pesquisa do Sono, os jovens que dormem seis horas ou menos têm três vezes mais chances de ter depressão que aqueles que garantem o mínimo de nove horas diárias de sono. A pesquisa, liderada pelo médico e professor de Ciências Comportamentais Robert Roberts, investigou os hábitos de 4.175 adolescentes durante um mês e acompanhou seu comportamento quatro anos depois. Esse foi o primeiro estudo a mostrar que existe um efeito recíproco resultante da relação entre a quantidade de horas dormidas e a depressão.

Se a questão é tão significativa quanto sugerem os pesquisadores, a incidência de depressão deve ser inversamente proporcional ao número de horas que se dorme. E tudo indica que isso está acontecendo. De acordo com pesquisa realizada por uma equipe da Universidade Columbia e publicada no Jornal Oficial da Sociedade Americana de Pediatria, o tempo de sono entre adolescentes foi reduzido no período entre 1991 e 2012. A análise de dados de 270 mil jovens americanos mostrou que o grupo que afirma dormir menos de sete horas aumentou de forma contínua nesse período de 20 anos. A maior diferença foi observada entre jovens de 15 anos: em 2012, 37% reportaram dormir menos de sete horas por noite, contra 28% em 1991.

Com isso é possível concluir que mais de um terço dos adolescentes dorme no mínimo duas horas menos que o recomendado para a idade. No Brasil, a realidade não parece muito diferente. No início desse ano, o Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente apontou que 88% dos 1.830 entrevistados não consideram seu sono satisfatório. Tanto os brasileiros quanto os americanos concluíram que os aparelhos eletrônicos estão entre os grandes vilões do sono. Os pesquisadores do Texas frisaram que o uso de mídias sociais e o aumento da demanda de estudos e da quantidade de atividades extracurriculares também podem contribuir para a queda na quantidade de horas dormidas.

Atenta à necessidade de garantir as nove ou mais horas de sono entre adolescentes, a Sociedade Americana de Pediatria publicou um novo estatuto, no ano passado, recomendando que as escolas iniciem as aulas sempre depois das 8 h30. De acordo com a entidade, dessa forma os horários acadêmicos são alinhados ao ritmo circadiano do sono dos adolescentes. Portanto, não apenas compromissos e eletrônicos mantêm os adolescentes acordados: seu ciclo biológico é diferente do de crianças pequenas, sendo muito mais difícil, nessa fase, dormir e acordar cedo.

No entanto, o sistema escolar brasileiro está longe de reconhecer a importância da causa que os pediatras americanos defendem. Aqui, crianças pequenas são privadas do importante soninho da tarde, enquanto pré-adolescentes são arrancados da cama geralmente por volta das seis da manhã. Vão à escola sonolentos e no período em que deveriam estar estudando ficam livres para passear em shoppings e brincar no celular. Se nosso sistema educacional considerasse a saúde e o ritmo biológico dos estudantes como fatores que superam em importância a praticidade que os horários atuais representam para muitos pais e escolas, iria garantir mais disposição física e mental dos adolescentes, reduzindo as chances de depressão. Mais que isso: poderia provocar uma melhora no rendimento acadêmico dos alunos.

Hoje sabemos que uma boa noite de sono é fundamental para a consolidação da memória e, como consequência, para o sucesso na aprendizagem. A cada ano surgem novas pesquisas reafirmando a importância do sono para o bom desenvolvimento cognitivo. Recentemente, neurocientistas da Universidade de Nova York (NYU) comprovaram, em estudos com ratos, que durante o sono profundo, ou ciclo de ondas lentas (slow wage sleep), as habilidades aprendidas durante o dia são “ensaiadas” repetidamente. Essa neuro representação das memórias em replay é fundamental para o fortalecimento das conexões sinápticas e, assim, para a consolidação da aprendizagem. Existem muitas evidências de que o sono é vital para a formação de vários tipos de memória. De acordo com Penelope Lewis, autora de The Secret World of Sleep (O Mundo Secreto do Sono), habilidades motoras tendem a se aprimorar em até 20% em uma única noite de sono.

Assim como é importante lembrar, é necessário esquecer. Não queremos saturar o cérebro com informações sem importância e é enquanto dormimos, mais especificamente no estágio de ondas lentas, que ocorre essa “limpeza” de dados processados durante o dia. Ao enfraquecer as conexões não significativas, o sono mantém a capacidade de armazenamento do cérebro, fundamental para as funções cognitivas.

Enquanto o sistema educacional brasileiro não considera uma adaptação de horários, o que podemos fazer é evitar, à noite, os estímulos que comprovadamente afastam os adolescentes da cama. Somente uma reorganização da rotina familiar pode garantir o mínimo de sono necessário para um melhor desenvolvimento cognitivo e social nessa fase em que a saúde mental é tão frequentemente abalada.

MICHELE MULLER – é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurociencaisesaude.blogspot.com.br

EU ACHO …

EU TOMO CONTA DO MUNDO

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e macérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.

Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muito conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ME SINTO SÓ

Uma pesquisa mostra que, com a vida social limitada, a solidão bateu forte em uma grande parcela dos brasileiros. A boa notícia é que eles estão lutando contra a angústia e se reinventando.

Aquela sensação de casa silenciosa, vazia, onde o solitário morador vive em seu próprio palácio, com a liberdade no sentido mais pleno, é uma ideia que encanta as novas gerações mundo afora. Tanto assim que a cada ano cresce o número de domicílios com um único residente, fenômeno global impulsionado pela busca da individualidade, uma marca desses tempos. Mas eis que veio a pandemia e abalou os pilares, fazendo com que uma parcela desses seres independentes, agora forçados ao isolamento, se visse pela primeira vez mergulhada na mais pura solidão. Com a rotina social restrita, abriu-se uma fresta para o vácuo, o que obrigou os assolados por essa condição humana a olhar para si mesmos como nunca antes. Desencadeou-se então, para muitos, um processo de autoconhecimento que o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) definiu como oportunidade: “Quem não sabe povoar sua solidão também não saberá ficar sozinho em meio à multidão”, escreveu.

O grupo dos que vêm experimentando a solidão na pandemia não é pequeno nem localizado em um ponto especifico do globo. Segundo uma pesquisa internacional do Instituto lpsos, realizada em 28 países com o objetivo de aferir os impactos da crise na vida das pessoas, encontram-se solitários por toda parte. Em nenhum lugar, porém, eles são tão incidentes quanto no Brasil, onde a metade dos entrevistados declarou ser frequentemente acometida por esse sentimento – seguido de Turquia (46%) e Índia (43%). Uma explicação para a dianteira brasileira tem a ver com o perfil expansivo e sociável de seu povo, algo que remete às raízes da própria identidade nacional. “Perder esse contato humano pode acabar desestruturando as pessoas em um país onde ele é tão intenso”, afirma a psicóloga Paula Peron, da PUC de São Paulo. Mais um fator conspira para exacerbar a solidão em uns cantos do planeta e atenuá-la em outros. “Nos países que apresentam uma melhor gestão da pandemia, a população se vê mais amparada, portanto, menos solitária”, avalia Marcos Calliari, CEO do lpsos. É o caso de holandeses e alemães, entre os últimos no ranking dos que se sentem sós (veja o quadro abaixo).

Para seguir adiante sem a vida de encontros de antes, seja no trabalho, seja entre amigos, a turma do eu ­ sozinho começou a traçar estratégias de sobrevivência. Em um primeiro momento, a estudante de arquitetura Júlia Grangeiro, 21 anos, que havia recém-concretizado o sonho de sair da casa dos pais, regressou ao ninho para escapar do isolamento em tempo integral. Conforme a situação se esticava, porém, ela achou que era hora de voltar a seu apartamento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. “Sempre me vi preenchida por amizades e a vida social fora de casa, mas, de repente, me senti sem afeto e isso me fez muito mal”, conta Júlia, que, como outros que vivem sós, diz que foi aprendendo a direcionar os ventos a seu favor. Riscou um projeto de reforma para seu imóvel, renovando o quintal, e matriculou-se na natação, uma chacoalhada nos hábitos que ganha escala e faz mover vários setores da economia. Em plena crise, a venda de livros, por exemplo, subiu 20 % nos primeiros meses do ano, enquanto a indústria do bem-estar deve crescer 10%, segundo as projeções.

A solidão em seu sentido mais profundo e dolorido, aquela que ataca a alma, deve ser combatida com todo o empenho, sustentam os especialistas. Ela está associada a stress, ansiedade, depressão e outros transtornos que avançaram na pandemia. Um estudo recente da University College de Londres, na Inglaterra, indica que uma saída para começar a romper com a angústia do isolamento é buscar o calor humano mesmo a distância, em videoconferências ou no velho e bom smartphone. “A privação da convivência produz no cérebro o mesmo tipo de resposta biológica da falta prolongada de alimentos”, compara a psicóloga Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos. O produtor cultural Jomas Monteiro, 50 anos, experimentou na pele a alteração fisiológica desencadeada pelo cenário pandêmico: ficou sem emprego, sem namorada e, com diagnóstico de depressão, brigou para não se afundar no poço da solidão – e conseguiu. “Ingressei em um curso de marketing digital para me atualizar e até pão aprendi a fazer”, orgulha-se da reviravolta.

Ao encarar a solidão e enxergá-la de forma menos pessimista e mais produtiva, as pessoas a transformam em “solitude”, termo de origem anglo-saxã absorvido pelos dicionários da psicologia. Em bom português, é como fazer do limão uma limonada. “A atividade intelectual, a religião, a prática esportiva são maneiras de preencher as lacunas abertas pela ausência do convívio, já que funcionam como uma janela para o mundo exterior”, afirma o psicólogo Rafael Baioni, autor de uma tese de doutorado sobre o tema. Grandes nomes da história egressos das mais diversas áreas deixaram exemplos contundentes de como extrair da solidão combustível para a engenhosidade humana. Precursor do expressionismo, o pintor norueguês Edvard Munch estava solitário e se recuperando da gripe espanhola, no início do século XX, quando arranjou forças para produzir a famosa tela Autorretrato com Gripe Espanhola, inspirado na própria convalescença. Antes dele, em meio a uma epidemia de peste bubônica que tomou Londres no século XVII, William Shakespeare também isolou-se e veio a reaparecer para o mundo com algumas de suas obras-primas (veja este e mais exemplos no final do post).

Uma leitura da obra do psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) lança luz sobre caminhos para espantar o mal da solidão – e ele passa pela busca de atividades que conversem com “o imaginário e o simbólico” de cada um. Em suma, é achar algo que realmente desperte o interesse e soe renovador. Podem ser iniciativas bastante simples, dentro do plano do possível, como relata o professor de teatro Rene do Amaral, 51 anos, que encontrou nas artes diversão constante e alimento para o cérebro. Ele ouve música, lê uma montanha de livros, vê filmes sem parar – e tem passado bons momentos consigo mesmo imerso nesse rico universo. “A quarentena me provou que cultura e artesão como o oxigênio”, diz ele, que, aliás, já não se sente mais tão só. Na verdade, em sua reclusão, o professor anda é muito bem acompanhado.

ISOLADOS E PRODUTIVOS

Grandes figuras da história se viram às voltas coma clausura e a solidão e conseguiram converter os tempos sombrios em alimento para a inventividade nas mais diversas áreas

WILLIAM SHAKESPEARE (1564-1616)

A peste bubônica assolava Londres e o escritor Inglês teve de cumprir um rigoroso lockdown. Desse período, deixou como legado para a humanidade as obras-primas Rei Lear e Macbeth

ISAAC NEWTON (1642-1727)

Em outro surto de peste bubônica, o cientista inglês se viu recluso e passava o tempo brincando com uns prismas. Extraiu daí ideias para suas primeiras teorias no campo da óptica

FRIDA KAHLO (1907-1954)

Após sobreviver a um acidente de ônibus, aos 18 anos, a pintora mexicana não podia nem sair da cama. Descobriu as artes e produziu, deitada, um de seus famosos autorretratos

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE MAIO

QUANDO O RISO É TEMPERADO COM A DOR

Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é tristeza (Provérbios 14.13).

Certa feita eu estava pregando em um congresso de médicos, e uma sorridente enfermeira que nos recepcionava no encontro me perguntou após uma palestra: “O senhor está vendo este meu belo sorriso?” Respondi-lhe: “É impossível deixar de ver”. Então, ela continuou: “É uma mentira. Por trás desse sorriso carrego um coração sofrido e doente”. Muitos indivíduos abrem os lábios para cantar, mas o coração está esmagado pela dor. A dor é uma companheira inseparável, que pulsa em nossa alma e lateja em nosso coração até mesmo quando abrimos um sorriso em nossa face. O patriarca Jó certa vez disse: Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio (Jó 16.6). O sorriso pode esconder a tristeza; pois, quando a felicidade vai embora, a tristeza já chegou. Nossa jornada na terra é marcada pela dor e pelo sofrimento. Aqui choramos e sangramos. Entramos no mundo chorando e não raras vezes saímos dele com dor no coração. Entre a entrada e nossa saída, a alegria muitas vezes é interrompida pelas perdas, pela doença e pelo luto. Mas haverá um dia em que Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. Então não haverá mais pranto nem luto nem dor.

GESTÃO E CARREIRA

RESPOSTAS PARA SUAS DÚVIDAS SOBRE TRABALHO, FAMÍLIA E COVID-19

Conselhos de especialistas sobre como cuidar de si mesmo, lidar com a incerteza e culpa.

No início da pandemia, quando meu marido e eu estávamos começando a trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidando de nosso filho na pré-escola e do bebê e procurávamos ter um estoque de leite, ovos e lenços umedecidos para manter todos alimentados e seguros, eu comecei a usar um e-mail de resposta automática para alertar meus contatos de que eu poderia não estar disponível imediatamente como costumava estar.

No começo era uma mensagem genérica dizendo que as respostas poderiam atrasar. Mas à medida que a pandemia avançava, manter todas as atividades funcionando ficava cada vez mais complicado, então comecei a usar o espaço para entender a estranheza de trabalhar a paternidade/maternidade durante a pandemia. E, por isso, se você me enviou um e-mail, você ouviu falar de meu filho de quatro anos com fobia a cachorros anos implorando que lhe desse cinco filhotes no aniversário, ou chamando minha nova cadeira giratória de “assento cheio de frescura”, ou se referindo muito habilmente à nossa casa como “casa divertida”.

”Agora a vida está bem estranha”, é como eu encerro cada mensagem automática. “Por favor, tenha paciência comigo”. Foi uma súplica, – na verdade, um grito – para as pessoas saberem que não havia nada normal na forma como minha vida havia mudado da noite para o dia. A alegria dessas mensagens era o fato de eu receber retorno de tantos colegas: “sim, exatamente isso”. Seguido muito de perto por, “mas falando sério – como vocês estão se virando com a escola/trabalho/gestão do tempo/culpa/etc.?”

Sinceramente, eu não tinha – e ainda não tenho – a menor ideia. Na maior parte do tempo, preencher uma atribuição e acordar no dia seguinte para fazer tudo de novo são conquistas bem grandes. Mas eu posso, nós podemos fazer melhor? Será que podemos? Para descobrir, perguntamos a pais do mundo todo que trabalham fora (falando figurativamente, pelo menos) de casa: O que é mais difícil nesse momento? No que você precisou de ajuda? As respostas a seguir foram coletadas e organizadas por tema:

  • Cuidando de si
  • Lidando com interrupções Demissões e caçando talentos
  • O que as crianças estão aprendendo sobre o trabalho
  • Lidando com a incerteza e a culpa

Depois apresentamos essas questões a um júri de especialistas para obter algumas respostas. Entre os participantes estavam:

JULIA BECK, fundadora e CEO do lt’s Working Project

AMBER COLEMAN-MORTLEY, diretora de envolvimento social da iCivics, e podcaster de Let’s K12 Better

BRAD HARRINGTON, diretor do Center for Work & Family, do Boston College

BECKY KENNEDY, psicóloga clínica, @drbeckyathome no Instagram

LAILA TARRAF, diretora de pessoas, Allbirds

A via agora é estranha, todos eles afirmaram. Mas mostramos aqui como sobreviver (as dúvidas e conselhos foram editados para maior clareza).

1. CUIDANDO DE SI

Antes da pandemia, havia muita pressão para os pais serem funcionários perfeitos e mães e pais mágicos. Agora, a pressão é ainda maior. Não é só postar um quadro das fantasias de Halloween no Pinterest, é também estar no comando das tarefas escolares, preparando o almoço e snacks todos os dias, se preocupando com o que o isolamento social está causando a seu bebê de dois anos ou ao filho que está no ensino médio, o tempo todo participando de chamadas de vídeo e do afastamento de colegas.

Há também mais tensão no trabalho, entre interrupções comuns, perdas de emprego verdadeiras ou ameaças, e cronogramas irregulares. É isso que ouvimos dos leitores mais que qualquer outra coisa. Como colocou sucintamente Nedra Hutton, de Round Rock, Texas: como se manter mentalmente são? Eu me sinto como se estivesse falhando em tudo.

Na índia, um leitor anônimo escreveu: minha empresa está dispensando funcionários no mundo todo. E se isso acontecer comigo? Isso me preocupa tanto que eu me privo de horas de sono para me dedicar o máximo possível ao meu trabalho porque não quero prejudicar meu filho de dois anos privando-o do tempo que ele merece. Então eu ouço todos recomendarem fazer exercícios físicos e cuidar da saúde. Tudo isso é tão assustador.

Eu sinto muita empatia por esses dois leitores. Há tanto a fazer e tanta preocupação incorporada em tudo. O que podemos fazer?

BECKY KENNEDY:

PRIMEIRO, comece dedicando a si mesmo uma dose horária de compaixão.

A autocompaixão tem o poder de transformar nossas preocupações do intolerável para o ainda difícil, mas tolerável. De hora em hora, pare o trabalho, coloque seus pés no chão e uma mão no coração, e repita o mantra: “este é um momento realmente difícil para ser pai/mãe. Estou fazendo o melhor que posso. Estou fazendo o suficiente. Eu sou suficiente”.

SEGUNDO, pense em pequenas doses de cuidados pessoais. Isso pode significar um banho de ducha especial, três minutos de meditação, ou uma caminhada de 10 minutos sozinha, como seus dias são extremamente exaustivos, seu corpo precisa se recuperar. Respeite essa necessidade.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Quando você está sentindo o caos girar à sua volta, feche os olhos por alguns minutos e inspire e expire. Eu me pego repetindo a “oração da serenidade” em meus momentos de ansiedade. Ajuda. Eu também tento me lembrar de que havia uma pressão enorme sobre pais que trabalham para cumprir os padrões irrealistas mesmo antes da Covid-19. Você pode romper essa pressão focando em rotinas baseadas em bem-estar, gratidão, e cuidado pessoal. De quais rituais, hábitos ou valores irrealistas você pode abrir mão? É do jantar todas as noites às 18 horas? Ou ir dormir impreterivelmente às 20 horas? Você é capaz de abdicar de um pouco da rigidez da rotina com rituais viáveis como discussões em família, mais abraços, melhores hábitos alimentares, jogar à noite com a família, horário de dormir flexível, ou ler por prazer?

LAILA TARRAF:

Vamos tentar dar um pouco de folga uns aos outros. As linhas que dividem trabalho e família se misturaram, o que exige que todos nós – funcionários e empregadores – devemos estabelecer limites mais fortes e praticar os cuidados pessoais de forma mais consciente.

Na Allbirds, continuamos a encorajar a flexibilidade para todos os funcionários, mas principalmente os pais que trabalham com filhos pequenos em casa. Nós interditamos os horários entre 8 e 9 horas da manhã para garantir que os pais possam fazer as crianças se organizarem pela manhã, e em uma tarde por semana não marcamos nenhuma reunião. Tentamos encorajar nossos pais a bloquear suas agendas durante o dia quando eles precisam dar atenção a seus filhos. Isso pode ser uma hora no almoço ou trinta minutos às 15 horas, quando as crianças saem da escola, ou às 16 ou 17 horas quando as crianças querem sair e brincar.

No entanto, as empresas não podem criar limites sadios para as pessoas, portanto, cabe a cada um de nós, determinar o que é necessário fazer para cuidar de nós mesmos. Os cuidados pessoais vêm em várias formas e tamanhos e se você tiver a capacidade, tempo e motivação para pular em seu Peloton ou ir correr, então ótimo. E se todos puderem dispor desse momento é hora de dar uma boa respirada, fechar os olhos e sair do computador, reservar pausas durante o dia para se alongar, ou fazer uma caminhada – isso também é ótimo.

2. LIDANDO COM AS INTERRUPÇÕES

Provavelmente, todos nós já participamos de uma videoconferência ou uma reunião por vídeo em que uma criança “apareceu de repente”. Nossos leitores perguntaram como lidar com esse tipo de interrupção, que pode ser momentaneamente engraçadinho, mas pode ter impactos de longo prazo.

Vineeta, de Mumbai perguntou: Por causa da pandemia, estou trabalhando em casa com um bebê de um ano cuja alimentação e outras necessidades não podem ser postergadas ou pré-planejadas. Em minha empresa, trabalhar remotamente não era a norma antes da pandemia. Como não ser interpretada como pouco profissional se eu interromper ou adiar uma ligação por uma necessidade urgente do bebê? Seria melhor ser sincera sobre os motivos, ou eu seria considerada uma pessoa em quem não se pode confiar?

Andria, de Centreville, Virgínia, também quer saber como lidar com as interrupções: como posso ser produtiva mesmo sendo interrompida e monitorando as crianças constantemente o dia todo? Meu foco está mudando a cada 30 minutos, e está provocando um verdadeiro colapso de atenção. Algum conselho?

JULIA BECK:

O colapso de atenção que você descreve é bem real, e prejudicial. Todos nós precisamos de tempo para pensar, idealizar e processar. Trabalhar em um espaço que também é escola, lavanderia e restaurante (só para mencionar alguns), é inviável. Minha resposta direta é encontrar um local onde você não pode e não quer ser interrompida. Eliminar todas as variáveis sempre presentes melhora a produtividade e protege sua saúde mental e bem-estar.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

A comunicação com seu supervisor e sua equipe é fundamental. Seja claro sobre suas necessidades e exija clareza em relação a eles, depois passe um tempo desenvolvendo uma estratégia que possa apoiar melhor a todos, e de forma equitativa. Existem pequenas manobras que podem ajudar, como por exemplo, desligar a câmera e o som até ser absolutamente necessário ligá-los?

Leia o manual do funcionário para ver como ele trata das necessidades dos pais. Você está utilizando os serviços e políticas disponíveis? Há espaço para a criatividade em relação a horários de trabalho? Como os outros pais que trabalham estão administrando a vida nesse momento, e é possível criar um grupo de apoio onde você compartilha as melhores práticas, dicas e mecanismos de enfrentamento? Se você não dispuser de um grupo de apoio no trabalho, procure sua indústria no Facebook. Há vários grupos que você pode participar para obter apoio.

Finalmente, pense em como gerenciar a disponibilidade de sua agenda. Bloqueie alguns períodos de cada semana para evitar que reuniões aleatórias sejam marcadas em horários inoportunos.

3. DIVIDINDO A CARGA EM CASA

Eu realmente amo/odeio essa pergunta de um leitor anônimo de Londres, que escreveu sobre as expectativas de gênero de empregadores e colegas em relação a cuidar das crianças: minha esposa desempenha uma atividade muito similar à minha. Na verdade, ela ocupa uma posição mais sênior. Quando estou participando de uma chamada por vídeo e preciso terminar antes, ou acomodar meu horário para cuidar das crianças, me perguntaram várias vezes, “o que sua esposa está fazendo?” ou “sua esposa não pode fazer isso?”

É frustrante ouvir que isso está acontecendo, embora saibamos que as mães assumem a assistência aos filhos durante a maior parte do tempo. O que as pessoas, como esse pai, podem fazer numa situação dessas?

BRAD HARRINGTON:

Está na hora de os homens enfrentarem preconceitos de gênero ultrapassados como esse. Nossa pesquisa no Center for Work & Families, do Boston College, mostrou que os pais são mais suscetíveis que as mães em atender as ideias organizacionais sobre o que se espera deles no trabalho – sejam elas sinalizadas pelos colegas ou pelas percepções dos homens sobre o que significa comportamento “apropriado” em suas empresas.

Em qualquer caso, os homens precisam avançar e ser aliados sinceros. Converse com seu parceiro para tomar as decisões certas para sua família e exponha suas convicções claramente para seus colegas. Ao fazer isso, você também estará contribuindo para maior igualdade de gênero.

BECKY KENNEDY:

Eu adoro a ideia de Kasia Urbaniak de responder questões inapropriadas com uma pergunta como uma forma de mudar a narrativa e estimular a dinâmica na relação. Eu penso que, para ser verdadeiramente impactante e eficiente, o pai aqui pode dizer algo como, “por que você pensa que minha esposa deveria fazer isso e não eu? ou “o que faz você pensar que eu não participo equitativamente das obrigações em casa?”. Isso realmente funciona porque força o interlocutor a enfrentar seus estereótipos.

4. DEMISSÕES E CAÇA TALENTOS

Ouvimos vários leitores que perderam o emprego durante a pandemia. Um deles, Lisa Eisensmith, de Lancaster, Nova York, perguntou: eu fui dispensada de meu emprego em tempo integral no final de julho. Eu tenho dois filhos em idade escolar e eles estão num sistema de aprendizado de meio período presencial e meio período virtual. Enquanto isso, estou procurando um novo emprego. Como abordar a situação em uma entrevista? Se eu conseguir o emprego, como abordar a situação da escola com o novo empregador?

Ouvimos também leitores que estão preocupados com os empregos e as empresas onde trabalham devido às suas responsabilidades de pai/mãe. Um leitor anônimo de Dallas, Texas, escreveu: nós organizamos nossas vidas para que o trabalho sempre tivesse prioridade máxima, mandamos nossos filhos para a escola e providenciamos assistência pós-escola para não interromper nosso dia de trabalho. Agora somos forçados a dividir nossa fidelidade à medida que as demandas de escola online e o trabalho virtual estão mais intensos que nunca. Estou preocupado porque as empresas podem querer priorizar a contratação e promoção de funcionários que não têm filhos e deixar de fora os que têm.

Essas duasquestões realmente atingem o ponto central de como a criação dos filhos e o trabalho mudaram tão violentamente, enquanto que as próprias empresas (e suas normas e prioridades) talvez não tenham mudado tanto. Como você administraria esse conflito?

LAILA TARRAF:

Poucas empresas consideram funcionários que são pais menos desejáveis que os não pais. A Covid acabará desaparecendo e eu acredito que a maioria das empresas tem uma visão de prazo mais longo.

Ao ser entrevistada para um emprego, não creio que deva esconder sua situação de maternidade, principalmente se seu trabalho começar sendo remoto. Talvez você possa abordar o assunto com possíveis empregadores perguntando que práticas e protocolos eles adotam atualmente. A maioria das empresas precisou adequar sua forma de trabalhar, portanto, fazer perguntas sobre expectativas e como os atuais funcionários estão conciliando família e trabalho lhe dará uma ideia se a empresa é uma boa opção para você.

JULIA BECK:

Trabalhar – durante a pandemia ou não -, requer foco total e capacidade de ativar a criatividade sem limitação ou ansiedade. O ambiente geral de sua casa pode não ser ideal para você começar a procurar emprego ou participar de uma reunião importante, mas você pode encontrar ou criar momentos quando isso acontecer?

Por exemplo, Peggy, executiva de uma fintech sediada em San Francisco, me revelou que seu ponto de partida para procurar emprego era seu carro estacionado em um local tranquilo no Embarcadero onde ela podia trabalhar duas ou três horas por dia. Quando ela conseguiu um emprego, ela firmou contratos de baixo custo para encontrar o espaço de que precisava longe dos filhos, enquanto ela se estabelecia em sua nova organização (o apartamento vazio de um amigo, por exemplo, ou um Airbnb a bom preço). No final, ela encontrou uma forma de trabalhar no quintal de sua casa.

Muitas pessoas podem se surpreender pela forma como a flexibilidade introduzida pela Covid se tornará norma. Neste contexto, o leitor que escreveu sobre organizar a assistência aos filhos e seu horário de trabalho sem interrupção poderia começar a pensar em como seria organizar a assistência aos filhos e conciliar as necessidades da família. Elas podem pensar que seus gestores e suas empresas estão, na maior parte, entendendo. Afinal, quando os funcionários encontram formas de se comprometer criativamente, os empregadores também se comprometem.

5. O QUE AS CRIANÇAS ESTÃO APRENDENDO SOBRE O TRABALHO

Havia uma linha interessante nas respostas sobre como as crianças estão vivenciando o trabalho neste exato momento.

Eu realmente sofri um impacto com esses dois comentários. O primeiro é de Roxana Contreras, de Lima, Peru: percebi que meu filho (de três anos) está associando “ter de trabalhar” com “momento triste”, mesmo quando eu digo a ele que amo o que faço. Ele só quer brincar, e é difícil para ele entender que mamãe e papai não podem brincar sempre que ele quer.

Derya, de Dubai, fez uma pergunta parecida: minha filha percebe que quando estou trabalhando, estou estressada, infeliz, ansiosa. Constantemente me culpando por não ser capaz de esconder minhas emoções e que eu respondo irritadamente toda vez que ela entra na sala e eu estou numa ligação. Estou preocupada que ela possa associar trabalho a infelicidade ou stress ou raiva. Como controlar minhas emoções? Estou ensinando a ela que trabalhar é desagradável?

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Para qualquer criança pequena, trabalho ou qualquer atividade que não as envolva parece um obstáculo. Três anos é uma idade difícil para aprender como esperar e respeitar o tempo e o espaço dos outros, mas, no entanto, é possível e importante.

Meu conselho é estabelecer um prazo limite e pedir que seu filho volte a ver como você está ou lhe dê um abraço quando esse prazo terminar. Às vezes, crianças muito pequenas só querem proximidade. Se possível crie espaço para seu filho pequeno trabalhar ao seu lado com um tablet durante um determinado período.

Emrelação às emoções negativas associadas ao trabalho, a questão mais importante é: qual é o sentido do trabalho em sua vida e para sua família?

Você precisa reconciliar isso antes de conversar com seu filho. À medida que as crianças crescem, devemos conversar sobre esses assuntos e explicar que é com o trabalho que sustentamos nossa família financeiramente. Se você ama o que faz, compartilhe essa alegria com seu filho. Se você não está gostando do trabalho, repense em como você corre atrás das paixões e alegrias da vida em qualquer lugar.

BECKY KENNEDY:

Em vez de ser realmente bom em fazer as coisas certas logo na primeira vez, tenha por meta ser realmente bom em corrigir. Isso significa que em vez de dizer a si mesma, “não vou gritar com meu filho hoje”, diga, “se eu gritar com meu filho hoje, vou me corrigir”. Aqui está um exemplo do que pode ser um bom conserto: “oi, meu amor. Hoje mais cedo eu gritei com você. Você estava certo ao perceber isso e estou certa deque você se sentiu mal. Exatamente como você, às vezes, sente forte emoções, mamãe também as sente e estou tentando manter acalma mesmo quando estou tendo um dia difícil. Eu te amo muito”.

6. QUANDO A CULPA CORRE SOLTA.

Vários leitores perguntaram como lidar com a culpa. Andrew, de Orlando, Florida, escreveu sobre a culpa que ele sente em mandar seu filho para a escola quando ele acredita não ser seguro. Laura, de Alberta, Canadá, escreveu sobre a culpa que sente por saber o que seus filhos estão perdendo durante a pandemia.

Outros escreveram sobre sentirem-se pessoalmente culpados ao tomar uma decisão de sair do emprego para administrar as tarefas domésticas.

Várias outras respostas repetiram os sentimentos deste leitor anônimo de Ashburn, Virgínia, que escreveu: Há uma sensação constante de culpa nos malabarismos entre ter um emprego exigente em tempo integral e conseguir tempo para cuidar dos filhos, o que finalmente nos faz ser 200 % no trabalho e em casa e isso é extremamente cansativo mentalmente.

Eu sinto muito isso. O que podemos fazer com esses sentimentos de culpa? O que eles significam? É possível não se sentir culpado exatamente neste momento?

BECKY KENNEDY:

É importante ter em mente que quando o mundo muda, precisamos mudar. Bem, na verdade, fazemos uma coisa mais complexa: nós nos adaptamos. A adaptação é o processo pelo qual um organismo consegue se ajustar melhor ao seu ambiente. Se você está tomando decisões diferentes sobrea criação dos filhos das que tomou meses atrás, é um sinal de sua capacidade de se adaptar. É um sinal de força, e ele é necessário para a sobrevivência.

BRAD HARRINGTON:

Dadas as atuais circunstâncias, culpa é a última coisa que qualquer um de nós deveria estar sentindo. Nossa empresa precisa de nós, mas nossos filhos também e, muitas vezes, suas necessidades são mais urgentes – e, sinceramente, no longo prazo, mais importantes.

Nunca houve uma oportunidade mais importante para mostrar compreensão e empatia por aqueles que estão em situação difícil. Gestores e organizações precisam oferecer condições de trabalho flexíveis sempre que for possível. Isso inclui trabalhar em casa se as crianças não puderem ficar na creche ou na escola. Talvez seja impossível trabalhar de segunda a sexta, das 9 às 17 horas neste exato momento, mas permitir que as pessoas gerenciem seu tempo de formas diferentes pode ajudar muito. Se você for afortunado e tiver um parceiro (a), esses arranjos podem permitir que os cônjuges se alternem durante a semana.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Certamente frustraremos nossos filhos, haja pandemia ou não. Não importa quanto nosso trabalho exija de nós, nossos filhos ainda podem crescer e sentir que eles deveriam ter recebido mais um abraço, mais um brinquedo ou um sorriso. Essa é a realidade que todos os pais precisam aceitar.

Quando que você começa enfrentar os sentimentos de culpa, pode coloca-los no devido contexto. Explore o que está no cerne da culpa. Se você está tentando criar um mundo onde seu filho não sente dor nem desconforto, boa sorte. Isso é completamente insustentável para você e predispõe seu filho a expectativas irracionais do mundo e até de seu futuro cônjuge. Se sua culpa estiver ancorada em seu ego ou em como você mede seu valor, comece a explorar seu valor como uma constante do universo que não depende de você ter concluído um trabalho “com sucesso”.

7. LIDANDO COM A INCERTEZA

Uma leitora anônima de Boynton Beach, Florida, escreveu: meu filho teve Covid em abril. Felizmente ele sobreviveu. Ele cumpriu a quarentena em casa sendo que era só eu que cuidava dele. Sou mãe solteira sem nenhuma estrutura familiar de apoio. Preciso ser forte para meu filho, e serei, custe o que custar, mas quando estou sozinha com meus pensamentos me preocupo com todas as incertezas de nossas vidas. Como lidar com toda essa incerteza? Estou me esforçando, mas tudo depende de mim.

BECKY KENNEDY:

Este é um caso contundente para se discutir a ansiedade e a preocupação: a ansiedade surge da compreensão de nossa capacidade de enfrentar algumas incógnitas futuras.

Muitas vezes, tentamos superar a ansiedade enfrentando a incerteza – tentando planejar coisas e prever problemas. Mas como não podemos controlar o futuro, isso não funciona. Uma estratégia melhor é trabalhar nossas capacidades de enfrentamento e nossa estimativa de quanto elas serão eficientes. Na próxima vez que você sentir uma pontada de ansiedade, tente lidar com isso como uma conversa íntima: “eu posso enfrentar coisas difíceis, eu sempre as enfrentei e sempre as enfrentarei” ou “estou em condições de enfrentar isso se acontecer”. Lembre-se de sua resiliência.

LAILA TARRAF:

Quando percebo que estou entrando na toca do coelho, tento perceber o que está indo bem, e o que há para agradecer, mesmo que seja simplesmente ar puro e um teto sobre minha cabeça.

Se você estiver em um momento da vida no qual não pode conversar consigo mesma sobre ansiedade e não consegue confiar nos amigos ou familiares para ajudá-la, pense em procurar um profissional de saúde mental ou um grupo de apoio.

8. EVITANDO O RESSENTIMENTO

Uma leitora anônima de Washington, DC, escreveu: eu me orgulho de ser confiável e responsável por minha família, meus funcionários e os alunos que minha empresa atende e capaz de assumir diferentes papéis ao longo do dia. Essa pandemia me forçou a questionar tudo de que me orgulhei.

Não consigo ensinar minha filha de quatro anos a ler enquanto participo de um webinar via zoom. Não consigo ter uma conversa franca com um fundador se minha filha chora ao fundo. E não consigo manter a dieta prescrita pelo médico para minha família se faço as compras do supermercado online. Mas é isso que a pandemia espera de mim.

Tenho medo de ter um desempenho inferior a 100% no trabalho por temer perder nossa maior fonte de renda e nosso plano de saúde. Por isso, por necessidade, estou permitindo que minha vida familiar, a educação de meus filhos e nossa saúde sejam prejudicados, e pela primeira vez em minha vida adulta, eu me ressinto por ser uma mãe que trabalha.

AMBER COLEMAN-MORTLEY:

Ninguém está pretendendo tirar nota 10, nem ser promovido por ser “uma ótima mãe”. Apenas seja o melhor que você pode ser em um dado momento, que pode mudar ao longo do dia, da semana, do mês. Significa aceitar que “controle” não é mais uma meta da criação dos filhos. A meta deve ser crescer ou simplesmente sobreviver a esse dia.

AQUI ESTÃO ALGUMAS SUGESTÕES:

  •    Faça com que qualquer uma das crianças com idade suficiente ajude nas tarefas domésticas. Elas não executarão as tarefas que você delegar com perfeição, mas você terá de aprender a aceitar isso.
  •   Tente ser criativo no horário do estudo em casa. Membros da família – primos maiores, tios, tias e avós, ou amigos da família – podem passar 20 ou 30 minutos no Zoom ou no FaceTime lendo para sua filha de quatro anos?
  • Pense em como seus filhos se beneficiam por você ser um pai/mãe que trabalha. O que você pode ensinar a eles sobre amor, paciência e engenhosidade que são necessários para conciliar vida profissional e vida familiar.” Exclua mensagens e pessoas negativas de sua vida. As fotos perfeitas postadas no Pinterest ou Instagram estão alimentando seus sentimentos de inadequação ou imperfeição? Você tem o poder de parar de seguir, apertar o botão descartar, e desconectar quando as postagens forem de pessoas ou conteúdos desagradáveis.

Lembre-se que esse período representa somente uma pequena porcentagem de uma longa carreira e da linha de tempo familiar. Sim, ser pais e mães que trabalham é conflitante e imperfeito. Mas também é muito recompensador.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVOS DESAFIOS PARA A PSICOLOGIA

Nas últimas décadas a sociedade brasileira viu crescer o conceito de inclusão das pessoas com deficiência. Ações ganharam forças em todos os segmentos e isso também trouxe questionamentos sobre o papel dos psicólogos diante do novo cenário

As relações da Psicologia com as deficiências têm marco inicial e histórico em Lev Semenovich Vygostsky (1896-1934), quando esse pensador russo, em 1925, começou a organizar o Laboratório de Psicologia para Crianças Deficientes (transformado, em 1929, no Instituto de Estudos das Deficiências e, após sua morte, no Instituto Científico de Pesquisa sobre Deficiências da Academia de Ciências Pedagógicas). Vygotsky dirigiu, ao mesmo tempo, um departamento de educação de crianças com deficiências físicas e mentais, em Narcompros (Comitês Populares de Educação), bem como ministrou cursos na Academia Krupskaya de Educação Comunista, na Universidade Estadual de Moscou (posteriormente chamada de Instituto Pedagógico Estadual de Moscou) e no Instituto Pedagógico Hertzen, em Leningrado. Entre 1925 e 1934, Vygotsky reuniu em torno de si um grande grupo de jovens cientistas, que trabalhava nas áreas de Psicologia e no estudo das anormalidades físicas e mentais.

No Brasil, o interesse da Psicologia pelas questões das pessoas com deficiência também faz nascer a expressão “excepcional”, por uma necessidade de classificação. Essa história começa com a vinda da psicóloga russa Helena Antipoff para o Brasil na década de 30, a convite do governo mineiro para lecionar Psicologia Educacional na Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Minas Gerais, juntamente com muitos outros professores estrangeiros, a fim de trazerem para o Brasil novas técnicas e concepções pedagógicas e psicológicas que se desenvolviam nos centros mais adiantados do mundo.

Esses ideais lhe inspiraram a criar duas instituições com a intenção de dar assistência às crianças: Antipoff, em novembro de 1932, com a colaboração de algumas antigas alunas da Escola de Aperfeiçoamento, fundou a primeira Sociedade Pestalozzi do país, com sede em Belo Horizonte, e, anos mais tarde, em 1940, a Fazenda do Rosário, significando uma grande mudança na forma de lidar com as crianças marginalizadas. Era o afastamento do modelo estritamente médico-pedagógico; o nascimento do trabalho multiprofissional, formado por médicos, psicólogos, pedagogos e assistentes sociais; novo modo de tratamento dado à categoria, então instituída naquela época, os “excepcionais”, atendendo, ainda, crianças de grupos escolares e seus pais, em um consultório médico-psico-pedagógico. E, no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico, semanalmente havia reuniões com professores de grupos escolares que se interessassem em discutir a educação de pessoas com deficiência.

A relação científica entre Psicologia e deficiência ganhou força com as instalações dos cursos de graduação na área. Regulamentada como profissão em 1962, através da Lei nº 4.119 de 27/ 08/ 62, no ano seguinte, 1963, foi elaborado o primeiro currículo oficial do curso, fixado pelo Conselho Federal de Educação. Neste, a Psicologia do Excepcional – absorvendo em seu título a nomenclatura criada por Antipoff, tornou-se disciplina obrigatória.

SEM RUPTURAS

Várias décadas se passaram. E será que essas disciplinas acompanharam a evolução das pessoas com deficiência? Quase que não! Acredito que a primeira mudança precisa ser já em nossa formação acadêmica. Muitas faculdades ainda mantêm o título pejorativo dessas disciplinas de Psicologia do Excepcional. Com conteúdo quase que puramente classificando e/ou conceituando o que é deficiência, essas grades demonstram que a formação do psicólogo não apresenta avanço com relação às pessoas com deficiência, estabelecendo rupturas em termos epistemológicos.

Talvez o problema seja a não familiarização dos professores dessas disciplinas com a temática por eles ministradas. Apenas se cumpre um curso obrigatório, exigido pelo currículo mínimo para o funcionamento das faculdades de Psicologia. Entre os alunos criou-se o hábito da obrigação de passar por essas matérias como forma de também cumprir currículo, não despertando neles o interesse pelo assunto. Não lhes é despertado o quanto, em suas futuras atuações profissionais, poderão contribuir com a melhora de qualidade da vida de pessoas com deficiência e outras pessoas (por exemplo, familiares) a sua volta. Não lhes são apontadas todas as possibilidades de trabalho junto a essa clientela.

É preciso criar mecanismos para estimular professores e alunos nessas disciplinas. Se não avançarmos além das intenções classificatórias e conceituais da deficiência, no que tange à formação do psicólogo, não conseguiremos construir um espaço para a interdisciplinaridade. A intervenção psicológica (formação técnica) ainda se concentra no diagnóstico e na classificação. Falta-nos uma formação para uma ação processual, que considere o próximo desenvolvimento dessas pessoas. Fazendo uma citação livre, é como nos advertiu Lev Vygotsky, já nos anos 20 do século passado, “todo o ser humano, independentemente do grau de sua deficiência, aprende e se desenvolve”. A Psicologia como ciência passou por diversas transformações. A Psicologia do Excepcional, ao contrário, parece permanecer em uma condição “fossilizada”, sem rupturas. Essa expressão de uma atividade formativa reacionária está em conflito com as dimensões atuais, em que a formação do psicólogo deve estar voltada para a realidade que se transforma ininterruptamente.

UNIVERSO

O Brasil está chegando a 47 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Essa quantidade passou a ter um peso significativo na sociedade. Pessoas que nas últimas décadas, não contentes com o isolamento social, resolveram “colocar a cara na rua”, visando conquistar o seu lugar no seio social. Presentes hoje em todos os segmentos, deixaram de ser os “coitadinhos” para ser um público consumidor, produtivo, sabedor de onde realmente quer chegar e exigente de bons serviços. Consequência disso é que cada vez mais o contexto social está se vendo obrigado a promover e se adaptar à política da inclusão social para recebê-las, embora isso nem sempre ocorra. A proteção de pessoas com deficiência passou a só integrar as normas constitucionais brasileiras muito recentemente na Constituição Federal de 1988 – visto que temos cinco séculos de história.

Pela Convenção 159 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura medidas de adaptação profissional e, no Brasil, o artigo 93 da Lei nº 8.213/ 91, que garante contratação percentual dessas pessoas em seus quadros de funcionários. As escolas e universidades públicas estão tendo que se reestruturar para que alunos com e sem deficiências dividam as mesmas salas de aula, por determinação do artigo 208, parágrafo III, da Constituição, que determina o atendimento educacional a essas pessoas. Mas, na prática, ainda poucas escolas públicas de educação básica atendem à demanda. As pessoas com deficiência estão cada vez mais presentes nos lugares de lazer, consumindo cultura e outros produtos: em espaços urbanos as barreiras arquitetônicas – por força de leis – estão começando a ser eliminadas com a construção de rampas, telefones públicos, degraus e guias rebaixadas, construções de elevadores e muito mais; os empresários, atentos às novas tendências, estão criando serviços especializados a essas pessoas; até mesmo os órgãos de comunicação estão abrindo cada vez mais espaço para essa temática.

EFEITOS POSITIVOS

Se antes a pergunta era “O que são pessoas com deficiência?”, hoje a pergunta precisa ser “Como nós psicólogos devemos atuar para ajudar as pessoas com deficiência a ter mais autoestima e uma vida plena?”. Vários conhecimentos teóricos nos dão bases para isto.

Em Obras Completas Elementos da Defectologia, Lev Vygotsky abordou de forma pioneira e sistemática assuntos relacionados à criança ou pessoa com deficiência com grande significado, gerando ideias e um novo modo de ver tais questões, descrevendo que essas pessoas têm dois tipos de deficiências:

PRIMÁRIA – trata-se da deficiência propriamente dita – impedimento, dano ou anormalidade de estrutura ou função do corpo, restrição/ perda de atividade, sequelas nas partes anatômicas do corpo, como órgãos, membros e seus componentes, incluindo a parte mental e psicológica com um desvio significativo ou perda.

SECUNDÁRIA – são as consequências, dificuldades e desvantagens geradas pela primária. Ou seja, tudo aquilo que uma pessoa com deficiência não consegue realizar em função de sua limitação. Uma situação de desvantagem às demais pessoas sem deficiência, podendo o indivíduo encontrar limitações na execução de atividades, restrições de participação ao se envolver em situações de vida, em ambiente físico, social e em atitude nos quais as pessoas vivem e conduzem sua vida.

A partir dessa divisão, Vygotsky passou a defender que profissionais de saúde e educadores precisam enfatizar suas atividades em ajudar a pessoa a superar suas deficiências secundárias e não focar nas deficiências primárias.                                             J’

De todo o pensamento vygotskyriano, talvez a síntese mais interessante seja esta. Concentrando sua atenção nas habilidades que poderiam formar a base para o desenvolvimento de suas capacidades integrais e partindo dos pressupostos gerais que orientavam a sua concepção do desenvolvimento de pessoas consideradas normais, Vygotsky focalizou o desenvolvimento de criança com deficiência, destacando-lhes os aspectos qualitativamente diversos, não apenas de suas diferenças orgânicas, mas principalmente de suas relações sociais. Por meio de uma análise de uma compreensão dialética do desenvolvimento, na qual os aspectos tidos como normais e especiais se interpenetram constituindo os sujeitos, afirmava que essas pessoas não são menos desenvolvidas em determinados aspectos do que as sem deficiência e, sim, desenvolvem-se de outra maneira. Suas forças são muito mais importantes do que suas faltas.

Ao nascer ou adquirir uma deficiência, a criança passa a ocupar certa posição social especial, levando-a a ter relações com o mundo de maneira diferente das que envolvem as crianças ditas normais. Para Vygotsky, junto com suas características biológicas (núcleo primário da deficiência), começa a constituir-se um núcleo secundário, formado pelas relações sociais, onde as interações serão responsáveis pelo desenvolvimento das funções especificamente humanas, surgindo as transformações das funções elementares (biológicas). A criança, ao interagir com um mundo mediado por signos, transformará tais relações interpsicológicas em intrapsicológicas. Portanto, a consciência e as funções superiores se originaram na relação com os objetos e com as pessoas, nas condições objetivas com a vida.

Vygotsky afirmava que uma deficiência era, para o indivíduo, uma constante estimulação para o desenvolvimento intelectual. Se um órgão, devido a uma deficiência funcional ou morfológica, não é capaz de enfrentar uma tarefa, o sistema nervoso central e o aparato mental compensam a deficiência pela criação de uma superestrutura psicológica, que permite superar o problema. Os conflitos surgem a partir do contato da deficiência com o meio exterior e podem criar estímulos para sua superação. Assim, as deficiências poderiam causar limitações e obstáculos para o desenvolvimento da criança, mas também estimulariam processos cognitivos comultativos. São o que ele intitulou de efeitos positivos da deficiência.

DOCUMENTO MUNDIAL

Na busca de uma imagem cada vez mais normalizada, poucos sabem da existência da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIP, documento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com um novo enfoque positivo da deficiência. Descrevendo a funcionalidade e a incapacidade relacionadas às condições de saúde, ressalta o que uma pessoa “pode ou não pode fazer na sua vida diária”, tendo em vista as funções dos órgãos ou sistemas e estruturas do corpo. E é importante que um psicólogo tenha esse conhecimento.

Tendo o duplo propósito de utilização em várias disciplinas e em diferentes setores, seus objetivos específicos, interligados entre si, requerem a construção de um sistema relevante e útil, que possa aplicar-se em âmbitos distintos: na política de saúde, na avaliação da qualidade da assistência e avaliação das consequências em diferentes culturas. São os seguintes:

Apresentar uma base científica para a compreensão e o estudo da saúde e dos estados com ela relacionados, bem como os resultados e suas determinantes; estabelecer uma linguagem comum para descrever a saúde e os estados com ela relacionados, para melhorar a comunicação entre os diferentes usuários, tais como profissionais de saúde, investigadores, legisladores de políticas de saúde e a população em geral, incluindo as pessoas com deficiência; permitir a comparação dos dados entre países, entre as disciplinas de saúde, entre os serviços e em diferentes momentos ao longo do tempo; proporcionar um esquema de codificação sistematizado de forma a ser aplicado nos sistemas de informação da saúde.

Dispondo de um amplo leque de aplicações, o surgimento da CIF foi um marco de referência conceitual. É ainda um modelo de atendimento multidisciplinar clínico, servindo para as várias equipes e os vários recursos de que dispõem os serviços, tais como médico, psicólogo, terapeuta, assistente social etc. Passa a ser uma perspectiva positiva, considerando as atividades de alguém com deficiência que, mesmo com ela, pode desempenhar, assim como sua participação social, sendo que a funcionalidade e a incapacidade dos indivíduos são determinadas pelo contexto ambiental onde as pessoas vivem. Trata-se da mudança de paradigma, pautando um novo pensamento para quem trabalha com pessoas com deficiência e a incapacidade, constituindo um instrumento importante para avaliação das condições de vida e para a promoção de políticas de inclusão social.

DESAFIO DE INCLUIR

Creio que a primeira grande mudança precisa ser nos bancos acadêmicos. Defendo para essas disciplinas o título Psicologia e Pessoas com Deficiência. Não temos a necessidade de sustentar a existência de uma subárea específica chamada Psicologia da Deficiência (ou, em pior grau, manter -se o título Psicologia do Excepcional). Que as disciplinas acadêmicas que ministram essa temática deixem de ser meramente uma obrigação curricular e teórica a cumprir na grade dos cursos de graduação em Psicologia no Brasil. É necessário desenvolver uma nova mentalidade em estimular uma linha de trabalho, no qual o papel do psicólogo seja intervir na busca da superação das limitações. Para os psicólogos já formados os desafios também são muitos. Temos mais de 46 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no país. Precisam os gerar psicólogos mais preparados para atendê-las em suas necessidades específicas e, em muitos casos, psicólogos para serem o elo dessa inclusão social, mediadores entre o real e o ideal. Considerando o grande número de pessoas, hoje, em qualquer lugar que um psicólogo for atuar, deparará com esse público: se for para área organizacional, as empresas devem ter uma cota mínima dessas pessoas contratadas; no setor educacional está sendo discutido, implementado e garantido, por força da lei, a inclusão escolar; no setor hospitalar, elas ficam doentes como as demais; na clínica, mesmo se o psicólogo não atender diretamente essas pessoas, atenderá seus parentes.

Na inclusão, as iniciativas são da sociedade. E a Psicologia tem muito a colaborar nesse processo, em que a sociedade se adapta para poder incluir em seu contexto as pessoas com deficiência. Mas, por outro lado, essas mesmas pessoas precisam ser preparadas para assumir seus papéis na sociedade, o que abre várias possibilidades de atuações psicológicas.

Será uma forma de parceria entre toda a sociedade, visando equacionar problemas, decidindo sobre soluções, efetuando equiparações de oportunidades para todos. Estaremos, assim, realmente criando no relacionamento prático entre a Psicologia e pessoas com deficiência, na busca do ser humano por detrás da pessoa com qualquer tipo de limitação: suas reais necessidades, interações sociais, educacionais, relacionamentos familiares e afetivos, necessidades de atividades profissionais e, sobretudo, suas verdadeiras potencialidades a serem estimuladas de forma individual e coletiva.

NOMENCLATURA CORRETA

Muitos ainda usam expressões como “pessoas portadoras de deficiência”. Aqui no Brasil essa expressão não é mais utilizada, pois se entende que a pessoa com deficiência não está portando nada. Neste artigo, como em outros tantos trabalhos meus, usarei o termo mais aceitável em Língua Portuguesa. Segundo os movimentos mundiais, incluindo o Brasil, após amplos debates, o nome pelo qual essas pessoas desejam ser chamadas é “pessoas com deficiência”, isso em todos os idiomas. Esse termo foi adotado como sendo o correto pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF, que é da Organização Mundial de Saúde de 2003. Anexo V da edição brasileira. Em seguida. foi incorporado ao texto da Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência, aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 2005, e promulgada, posteriormente, pela Lei Nacional de Todos os Países-Membros. Dessa forma, onde estiver escrito “pessoas portadoras de deficiência” ou, até mesmo, “portadores de deficiência”, singular ou plural, deverá ser entendido “pessoa (s) com deficiência”.

EMÍLIO FIGUEIRA – é psicólogo pela USC, pós-graduado em Educação Inclusiva, doutorado em Psicanálise e atua como pesquisador científico em instituições universitárias em duas linhas de pesquisas: Psicologia e Deficiência e Educação Inclusiva. Autor do livro Psicologia e Inclusão Atuações Psicológicas em Pessoas com Deficiência (Wak Editora).

EU ACHO …

DESCOBERTA

Um cachorro tem que ter cheiro de cachorro. Pois foi esse o pensamento iluminado que ocorreu ao homem no meio de um dia em que, há vários dias, ele se achava num nevoeiro morno de sentimentos. O pensamento sobre o cachorro iluminou-o de repente e abriu de repente uma clareira. O homem ficou muito alegre – talvez tivesse acabado de pôr os pontos nos is. Ficou alegre e passou a olhar cada coisa como se enfim tivesse acordado de uma longa doença. Um cachorro tem que ter cheiro de cachorro. O homem, através desse pensamento, aceitou-se totalmente como ele era, como se admitisse que um homem tem que ter cheiro de homem, e que a vida de um homem é a sua vida nua. Na rua, por onde caminhava para ir ao trabalho, passou por uma mulher que, inocente do passante, carregava um embrulho de compras. Ele sorriu porque ela não sabia que ele sabia que, assim como um cachorro é um cachorro, aquela mulher era aquela mulher. O homem se emocionou com o fato de ele ter acabado de lavar o mundo, as águas ainda escorriam frescas. Ele ia trabalhar no Banco. E o Banco, é horrível, por Deus. Mas, lavado com águas frescas, um banco é um banco.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

CORAÇÃO ARTIFICIAL PARA TODOS

Com a autorização para ser vendido em toda a Europa, o aparelho criado na França vai trazer qualidade de vida a milhões de pacientes que aguardam na fila do transplante

Após 20 anos de pesquisa, a empresa francesa Carmat recebeu autorização para comercializar fora da França um produto que dará esperança a milhões de pessoas em todo o mundo: o coração artificial. Batizado de Aeson, o dispositivo pesa 900 gramas, três vezes mais que um coração normal. As baterias de lítio que simulam o bombeamento do sangue duram cinco anos e têm de ser carregadas em uma bolsa externa, que pesa aproximadamente cinco quilos e conta ainda com um controlador de intensidade. Segundo o cirurgião Fábio Jatene, vice-presidente do Instituto do Coração (Incor), a invenção diferencia-se das outras já existentes graças ao avanço da tecnologia, que inclui um uso de materiais biológicos com metal e plástico. “A combinação impede que ocorra o excesso de coagulação do sangue e ajuda a reduzir o risco de trombose”, explica. Segundo o médico, o propulsor do novo órgão artificial utiliza membranas biológicas produzidas a partir de tecido bovino, o que as torna mais maleáveis para agir no sistema de bombeamento de sangue de acordo com a necessidade do paciente. “A ideia por trás desse projeto era criar um dispositivo que também funcionasse psicologicamente como um coração humano, com as batidas no peito e uma função autossuficiente”, afirmou Stéphane Piat, CEO da empresa.

O coração artificial da Carmat substitui os ventrículos do coração em pacientes que sofrem de insuficiência cardíaca avançada. Ela ocorre quando o coração não consegue cumprir sua função de “bomba de sangue” e afeta primeiramente o ventrículo esquerdo e, depois, o direito. Nesse estágio, órgãos vitais como o cérebro, fígado e rins deixam de receber nutrientes e oxigênio suficientes para funcionar. Entre os principais sintomas da doença estão a fadiga, falta de ar, mesmo em repouso, e retenção de líquidos.

A insuficiência cardíaca afeta ao menos 26 milhões de pessoas em todo o mundo. Apesar dos avanços nas terapias e prevenção, cerca de 5% dos afetados não reagem aos tratamentos. Como trata-se de uma doença progressiva, o paciente tem menos de 50% de chance de sobreviver cinco anos após receber o diagnóstico. O transplante de coração é a terapia mais adequada, mas torna-se restrita devido à escassez de doadores, pouco mais de cinco mil no mundo. É por isso que empresas como a Carmat investem no desenvolvimento de sistemas de suporte circulatório mecânico, como o coração Aeson.

ESPERANÇA NA FILA

A invenção representa uma opção para quem está na fila do transplante de coração. Estima-se que 40 mil pessoas no mundo estejam esperando por um coração novo. No Brasil, há 270 pessoas na fila. O produto será implantado inicialmente na Alemanha, Itália, Espanha e Grã-Bretanha, e aguarda a autorização da FDA, órgão regulador americano, para ser aprovado. Ao todo, esses países apresentam cerca de dois mil pacientes com problemas no miocárdio e insuficiência biventricular.

Segundo o cirurgião Fábio Gaiotto, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o paciente portador dessa doença tem uma vida dramática. “A doença mina sua independência, muitas vezes não consegue nem tomar banho sozinho”, afirma. “O Aeson é promissor em razão de sua duração. Os atuais funcionam por um ano, mas depois podem surgir complicações como coágulos, trombos e infecções.”

A busca por um dispositivo sintético para substituir o coração começou na década de 1960. Antes disso, em 1937, há registro de um transplante de coração animal, realizado em um cão, pelo médico russo Vladimir Petrovich Demilkhov. O procedimento em humanos só veio a ser realizado com sucesso a partir dos anos 1980. A maioria dos dispositivos substitui parcialmente o coração, geralmente o lado esquerdo que é o mais afetado, como é o caso do órgão artificial criado pela empresa americana SynCardia. A expansão da invenção da Carmat é um alento para muitos corações em todo o mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE MAIO

CUIDADO COM OS CAMINHOS DE MORTE

Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte (Provérbios 14.12).

As aparências enganam. As coisas nem sempre são o que aparentam ser. Há caminhos que parecem ser retos aos nossos olhos, mas desembocam na morte. Há caminhos que parecem conduzir nossos passos ao destino da felicidade, mas traiçoeiramente nos empurram para o abismo da infelicidade. Assim são os prazeres da vida. Quantas pessoas se entregam às aventuras na ilusão de encontrar a felicidade! Quantas pessoas pensam que uma noite de paixão pode saciar-lhes os desejos do coração! Quantos indivíduos se entregam à bebida acreditando que a felicidade está no fundo de uma garrafa. Quantos cedem à sedução das drogas, com a ilusão de que terão experiências arrebatadoras! O diabo, com sua astúcia, mostra os atrativos do pecado, mas esconde as consequências inevitáveis. Por trás da isca da sedução está o anzol da morte. Por trás do sexo ilícito está a culpa. Por trás do amor ao dinheiro está o tormento. Por trás do copo reluzente da bebida alcoólica está a escravidão. Por trás das drogas está a morte. O pecado é um embuste. É um engano fatal. Quem segue por essa estrada larga, no bonde dos prazeres, desembarcará no inferno.

GESTÃO E CARREIRA

8 FORMAS DE CRIAR UM GRUPO DE APOIO AOS FUNCIONÁRIOS QUE TÊM FILHOS

Empenhe-se ao máximo para que seus esforços frutifiquem.

A covid-19 criou uma crise para os pais que trabalham. Se você que lê este artigo trabalha em RH, é líder sênior ou pai/mãe empreendedor, certamente quer que o grupo de apoio ao funcionário (ERG, sigla de Employee Resource Group) da empresa que se ocupa dos pais de filhos pequenos seja eficiente, útil, visível e dinâmico.

Mas provavelmente você está:

  • Inseguro sobreo que fazer
  • Preocupado em prometer demais ou não atender às expectativas dos funcionários
  • Com poucos recursos (tempo, dinheiro, pessoal)
  • Incerto sobre as melhores práticas ou sobre as práticas adotadas pelas outras empresas
  • Debatendo como o grupo deve ser estruturado, financiado ou comercializado
  • Gerenciando vários ERGs e inseguro sobre como deverão ser adaptados

E por isso você hesita – e não é só você. ERGs dedicados a pais que trabalham são fenômeno recente, e em muitas organizações, eles são informais e de natureza básica. Isso significa simplesmente que não existe manual de implantação desse complexo processo. No entanto, as expectativas são grandes: há boas chances de que você esteja pessoalmente comprometido ou sofrendo pressão institucional para fazer alguma coisa pelos colegas que estão tentando conciliar carreira e família. E se sua organização sair da pandemia sem colocar nada no lugar, isso poderá tornar-se um risco para a marca (você quer que sua empresa seja conhecida como aquela que, diante da crise, não deu apoio aos funcionários que cuidam dos filhos?).

Em vez de hesitar ainda mais ou quebrar a cabeça para apresentar um plano abrangente de cinco anos, mapeie os próximos passos mantendo a eficiência e a simplicidade. As oito perguntas a seguir são nossas pistas. Evidentemente, elas não são as únicas a fazer quando se quer criar um grupo de alto impacto, mas elas são centrais e imediatas. E se você é o único funcionário e capital humano de uma startup, participa do comitê de ERG de uma grande multinacional ou desempenha qualquer outra função na formação de um grupo de pais que trabalham, elas o ajudarão a aprimorar as decisões mais importantes, ultrapassar obstáculos e entrar no modo ação.

QUAL SERIA UMA META RAZOÁVEL NESTE EXATO MOMENTO?

Seu ERG não pode acabar com a pandemia nem resolver todos os problemas criados por ela relativos aos pais que trabalham. Mas ele pode definir algumas metas específicas e começar a desenvolvê-las. Ele pode ser bem-sucedido, por exemplo, em deixar claro que a liderança está comprometida em ajudar os funcionários durante a crise, identificar formas como seus colegas estão “fazendo o grupo funcionar” – e compartilhar essas técnicas para que se tornem conhecidas por todos. Ou, para as mães e pais que trabalham remotamente, conectá-los uns com os outros para construir uma forte rede de apoio.

QUE ESFORÇOS JÁ ESTÃO FUNCIONANDO?

Identifique o que está funcionando e vá em frente a partir daí. Talvez haja um grupo informal de pais que se reuniu durante alguns anos na hora do almoço. Se este for o caso, amplie-o organizando horários de discussões informais sobre assistência às crianças via Zoom. Talvez haja um canal no Slack dedicado a pais/mães que trabalham e bastante acessado regularmente. Monte subgrupos para pais que estão gerenciando ensino a distância, ou para os que enfrentam dificuldades em assistir os filhos mais velhos, por exemplo. E promova e procure ampliar evento sem sua empresa – especialmente os que forem centrados nas preocupações dos pais neste exato momento conduzidos pelos ERGs.

O esforço tem conotação inclusiva ou é essencialmente seletivo? Considere-se felizardo se tiver um ERG ativo com um ou mais executivos seniores como patrocinadores. Isso é ótimo, pois envia uma mensagem poderosa de cima. No entanto, o que não ele pode impedir que todos os funcionários com filhos se considerem parte do esforço. Lembre-se: a população que tem filhos é composta de homens, mulheres; biológicos, adotivos; homossexuais, heterossexuais; de todos os backgrounds possíveis; de todas as partes da organização; de todos os níveis salariais. Se a liderança do ERG não refletir essa variedade, talvez esteja na hora de acrescentar um patrocinador, criar (ou ampliar) um comitê do ERG, ou procurar diferentes anfitriões de eventos e voluntariamente utilizar linguagem que sinalize inclusão.

QUAL É O MEIO CERTO?

Dependendo de como sua organização opera e de onde você se encontra com dez meses de pandemia, é preciso pensar na melhor forma de chegar até os pais que trabalham. Se longas horas e chamadas via Zoom forem a norma, talvez os que cuidam dos filhos não queiram aparecer na tela de uma sessão de seminário, e uma sessão P&R em uma plataforma de mensagens seja uma melhor opção. Talvez uma divulgação entre colegas ou pequenas discussões em grupo entre pais que enfrentam problemas similares (ensino a distância, cuidado dos filhos pequenos) serão mais eficazes que eventos com grupos grandes. As palavras de ordem aqui são acessível, fácil, eficiente e rápido.

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS NECESSIDADES DOS PAIS QUE TRABALHAM NESTE EXATO MOMENTO?

Ensino a distância, programação, definição de limites e cuidados pessoais são provavelmente as que surgem em primeiro lugar na mente desses pais. Há outras preocupações – menos discutidas, mas igualmente presentes -, por exemplo, como conversar com gestores e colegas sobre as pressões de cuidar dos filhos, ou como se manter no controle das questões relativas à carreira em 2021. Assegure-se de ter nas mãos o comando do grupo. Isso pode ser feito supervisionando as pessoas anonimamente, coletando insights de gestores da linha de frente, criando um focus group ou, melhor ainda, simplesmente perguntando a alguns colegas que cuidam de filhos quais são suas necessidades. Para quais quer que sejam as questões apontadas, organize esforços e programas de ERG especialmente dedicados.

QUE RECURSOS É POSSÍVEL ACESSAR OU EMPRESTAR?

Digamos que você não disponha de orçamento para convidar palestrantes externos ou de tempo para criar nova página de intranet. Neste caso, e se reunirmos um comitê de funcionários que mudaram seus esquemas de assistência aos filhos durante a pandemia e estão dispostos a contar suas experiências? Ou convidar alguém de TI para conduzir um encontro sobre bons aplicativos destinados a pais, mães e babás? Ou informar que a empresa adotou um manual de sobrevivência possível de ser acessado pela internet? Existem várias formas de fornecer valor com seu orçamento e número de funcionários atual.

QUE PODEMOS AMPLIAR?

Se sua organização dispõe de uma boa política de benefícios familiares, o ERG de pais que trabalham deve levá-la ao conhecimento dele: por exemplo, distribuindo aos membros um guia intitulado “0 que o programa de assistência ao funcionário pode fazer por você”. Se a liderança sênior favorece os pais que trabalham, faça com que um membro da equipe do alto escalão apresente palavras de boas-vindas na próxima sessão online. Em outras palavras, utilize seu ERG para permitir que as mensagens positivas falem mais alto.

QUE PODEMOS FAZER NAS PRÓXIMAS DUAS SEMANAS?

Escolha as ações especificas mais viáveis de imediato e as mais eficientes para desenvolver seu ERG. E comprometa-se a executá-las logo.

Ainda atemorizado? Lembre-se: não é preciso responder a essas perguntas com perfeição nem de forma definitiva. Na verdade, você pode querer retomá-las com o passar do tempo para manter momentum, dar relevância à rede, continuar a fornecer valor. Sua resposta para “qual é o meio certo?”, por exemplo, mudará à medida que mudara situação da covid-19, E retotnar a última pergunta o ajudará a evitara situação muito comum de lançar a rede com alarde do líder sênior… e depois perder momentum (e credibilidade). Mantenha o foco no que é importante, e você terá sucesso duradouro como líder de seugrupo depais que trabalham.

DAISY DOWLING – é fundadora e CEO da Workparent, empresa de consultoria e Coaching focada em pais que trabalham. Ela é autora de Workparent: The complete guide to succeeding on the job, stayng true to yourself, and raising happy kids, livro a ser publicado pela Harvard Business Review Press em maio de 2021.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO LIDAR COM OBSESSÕES

Ideias indesejadas atingem a todos. A tentativa de suprimir os pensamentos perturbadores, de forma irônica, aumenta sua frequência e os transforma em obsessões

Os pensamentos que se intrometem em nossa vida mental, negativos e insistentes, não são exclusivos do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) nem de transtornos mentais. Todos nós somos vítimas desse tipo de pensamento em certos momentos, em especial sob estresse. De forma intuitiva, a manobra que, de longe, é a mais usada para lidar com esses pensamentos é a supressão, que seria a tentativa de evitar ou afastar da mente essas imagens intrusivas. Embora tentador, quando procuramos evitar uma obsessão, o que acontece é na verdade um efeito paradoxal de aumento da frequência do pensamento nos próximos momentos. Esse processo irônico na mente humana foi chamado de “efeito urso branco” pelo psicólogo Daniel Wegner, pois em sua pesquisa os sujeitos eram instruídos a tentar não pensar em um urso branco. Faça agora o mesmo e verá imediatamente as imagens desse magnífico animal desfilando em sua mente. Ou procure não pensar em uma maçã verde. Dá para sentir o cheiro e o gosto… Isso acontece em razão da natureza do processo associativo que envolve a evocação de memórias declarativas. Quando se tenta não pensar em um determinado estímulo, a primeira coisa que o cérebro faz é localizar a representação mental que sustenta o conceito em questão. Ou seja, primeiro o cérebro localiza e abre o arquivo “urso branco”, para depois tentar suprimir a evocação de uma imagem associada a essa representação, o que é inútil.

Em um artigo chamado “Liberte os ursos”, Wegner revisa as estratégias possíveis para diminuir os pensamentos obsessivos e sua eficácia relativa. A primeira delas é bem conhecida e funciona razoavelmente: a distração focada. Se focamos em outra coisa, os pensamentos obsessivos vão embora. O problema é que em situações de estresse é difícil achar uma distração que capte nossa atenção. A pesquisa indica que focar em uma coisa específica, por exemplo uma música ou tarefa, funciona muito melhor do que deixar a mente vagar.

A segunda estratégia é evitar estresse. Não use o método intuitivo de se colocar sob pressão pois não funciona, na verdade aumenta as obsessões.

Terceira estratégia: marque hora para se preocupar. Funciona bem adiar os pensamentos para um período de 30 minutos e ajuda a limpar a mente no restante do tempo.

A quarta estratégia chama-se terapia paradoxal, pois envolve se concentrar em pensar justamente, naquilo que estamos tentando evitar de trazer à mente. Funciona como uma terapia de exposição, onde se expor aos pensamentos temidos faz com que estes se enfraqueçam.

A quinta vertente seria a aceitação. Existem evidências de que tentar aceitar alguns pensamentos, mais do que entrar em uma batalha com eles, pode ser benéfico. Um estudo no qual os participantes diminuíram os pensamentos obsessivos deu a seguinte instrução:

Lutar com seus pensamentos pode ser inútil. Quero que você observe seus pensamentos. Imagine que eles estão desfilando à sua frente como soldados marchando em uma pequena parada. Não discuta com os soldados, não evite, não tente fazê-los ir embora, somente observe os soldados marchando.

A sexta estratégia é a meditação do tipo “atenção plena”, ou mindfullness no original em língua inglesa. Esse tipo de meditação budista promove uma atitude de compaixão e não julgamento quanto ao fluxo de pensamentos que invadem a mente durante o processo meditativo, e pode ser uma abordagem útil para se ver livre de pensamentos indesejados.

A sétima estratégia é a autoafirmação, que envolve pensar sobre traços e crenças positivas. A autoafirmação vem recebendo atenção de pesquisas recentemente e tem fornecido evidências de eficácia especialmente em se tratando de aumentar autoconfiança social e autocontrole. Parece ser útil para pensamentos indesejados, mas foram realizados poucos experimentos ainda.

Finalmente, a oitava estratégia envolve a escrita expressiva. Escrever sobre seus pensamentos e sentimentos mais profundos tem sido estudado e promove vários benefícios para a saúde e para a mente.

Essas técnicas não são miraculosas, mas se bem implementadas promovem de fato uma melhora na frequência e intensidade dos pensamentos obsessivos, muitas vezes com outros benefícios adicionais e sem qualquer risco ou efeito colateral.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental (Artmed, 2011)

EU ACHO …

CHORANDO DE MANSO

… eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu sentia uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero a Lua nas suas noites em que ela se torna leve e frígida como uma pérola. Assim como não quero para mim um menino de nove anos que vi, com cabelos de arcanjo, correndo atrás da bola. Eu queria em tudo somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia quanto era belo, e sei que ele sabia que eu não o queria para mim, ele sorriu porque não sentiu nenhuma ameaça. (Os seres excepcionais estão mais sujeitos a perigos do que o comum das pessoas.) Atravessei a rua e apanhei um táxi. A brisa me arrepiava os cabelos da nuca e era outono, mas parecia prenunciar uma nova primavera como se o verão estafante merecesse a frescura do nascimento de flores. Era, no entanto, outono e as folhas amarelavam nas amendoeiras. Eu estava tão feliz que me encolhi num canto do táxi de medo pois a felicidade também dói. E tudo isso causado pela visão de um homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim, mas ele de algum modo me dera muito com o seu sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. A essa altura, perto do viaduto do Museu de Arte Moderna, eu já não me sentia feliz, e o outono me pareceu uma ameaça dirigida contra mim. Tive então vontade de chorar de manso.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ARMAS CONTRA A BALANÇA

Com o aval da ciência, a mais moderna geração de remédios para diabetes passa a ser utilizada com frequência para a perda de peso no mundo todo e também no Brasil

Há exatos dez anos, a chegada deum remédio para o diabetes tipo 2 no Brasil foi responsável por um dos mais ruidosos cismas no mercado farmacológico, ao deflagrar uma guerra entre os defensores e os detratores de seu uso como emagrecedor. A liraglutida – de nome comercial Victoza – começou a ser usada também por pessoas saudáveis que precisavam (ou queriam) perder peso. Tinham o aval de médicos responsáveis e competentes – prática na medicina conhecida como off-label, ou fora do rótulo, em tradução literal.

O estoque inicial, previsto para durar um mês, foi vendido em apenas uma semana. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chegou a declarar publicamente que “o uso do produto para qualquer outra finalidade além do antidiabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população”. Como o tempo muitas vezes é o senhor da razão, sólidos estudos científicos comprovaram a eficácia e o reduzido risco da droga na luta com a balança – e agora, em 2021, ela se tornou a substância mais largamente prescrita nos consultórios particulares de endocrinologia.  “É a classe de emagrecedores com ação mais natural já desenvolvida”, diz Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A estatística ajuda a entender o interesse pelo medicamento. Dos 40 milhões de brasileiros na batalha contra os quilos a mais, 16 milhões não conseguem perder peso apenas com mudanças no estilo de vida. Desse grupo, metade apresenta alguma restrição ao clássico arsenal químico disponível, as anfetaminas e a sibutramina, que atuam no sistema nervoso central.

A liraglutida “imita” no organismo um hormônio, o GLP-1, ligado à produção de insulina (eis a ação no diabetes) e à sensação de saciedade (com menos fome, perde-se peso). “Ela não está isenta de efeitos colaterais, como náusea, dor abdominal e constipação, mas permitiu finalmente incluir até mesmo pessoas mais fragilizadas nos tratamentos para emagrecer, como doentes psiquiátricos, com câncer e problemas de coração”, diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. No início deste ano, um segundo remédio antidiabético de mesma linha, e que já vinha sendo sobejamente aplicado no Brasil, a semaglutida (nome comercial Ozempic) comprovou ter efeito semelhante em estudo publicado na reputada revista The New England Journal of Medicine. Diferentemente das anfetaminas, ambos são isentos de prescrição médica. Convém, portanto, a regra de obrigatório bom senso: procurar um médico. “Há riscos, daí a necessidade de acompanhamento profissional”, diz o clínico geral e endocrinologista Fabiano Serfaty. “Mas os estudos têm mostrado resultados bastante impressionantes.”

Verdade. Em média, de acordo com as pesquisas citadas por Serfaty, a perda de gordura proporcionada pelas novas drogas gira em torno de 15% do peso inicial ao longo de um ano, taxa 40% superior ao que se vai com recursos habituais. Em um país com 26,8% de adultos obesos (veja no quadro abaixo) o impacto é brutal. Afora os raros casos associados exclusivamente à hereditariedade, a culpa dos quilos extras é o excesso de comida consumida. Em tempos de pandemia, ressalve-se, com famílias inteiras trancafiadas em casa, as refeições (e as tentações) se transformaram em atrativo ainda maior. E, como num círculo vicioso, quanto mais se exagera no prato, mais se quer comer. Os mecanismos da obesidade são comparados ao vicio, sim, por envolverem o sistema cerebral de recompensa. No cérebro dos gordos pode haver uma deficiência na atividade da dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer. Para se sentirem saciados, portanto, os rechonchudos consomem mais alimentos. O açúcar, sobretudo, capaz de estimular muito rapidamente o aumento da dopamina, é o grande inimigo – à espreita, insidioso e traiçoeiro, desde os primeiros anos de vida, daí a necessária preocupação dos pais com a alimentação infantil feita à base de alimentos ultra processados.

Jovens com quilos extras sofrem muito mais para emagrecer quando crescem. Adultos que foram obesos na infância vivem até dez anos menos em relação aos que mantiveram uma vida com regras alimentares. É até os 20 anos que o número de células de gordura é definido no organismo. A partir de então, nada é capaz de diminuir essa quantidade – nem a mais rigorosa das dietas. Quando se perde peso, as células adiposas apenas perdem volume, mas continuam lá, ávidas para recuperar a dimensão anterior. E aqui convém destacar, uma vez mais, sem exageros, o papel da liraglutida. Há menos de um ano, o remédio recebeu o aval inédito para ser usado em meninas e meninos com idade a partir de 12 anos, com bons resultados.

Contudo, apesar do sucesso medicamentoso, não se pode ignorar, muito pelo contrário, o papel primordial, em crianças e adultos, da atividade física. “A prática regular não só aumenta o gasto calórico, como traz o bem-estar essencial para manter a força de vontade na dieta”, diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Há poucos meses, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apertou o cinto em relação ao tempo ideal a ser dedicado aos exercícios para impactar na saúde, recomendando o dobro que estava estabelecido por décadas. Adultos de 18 a 64 anos devem praticar de 150 a 300 minutos por semana de treino moderado (como caminhada ou jardinagem, por exemplo), ou de 75 a 150 minutos se a intensidade for vigorosa (corrida e subir escadas). Ou seja, nada, nem mesmo o mais decisivo remédio, faz milagres isoladamente. É aprendizado que não pode sair da pauta – especialmente agora, com a eclosão das internações e mortes em decorrência da Covid-19.

Recentemente, minuciosos estudos em torno das comorbidades associadas à pandemia mostraram que a obesidade agrava a infecção pelo novo coronavírus, podendo aumentar em até quatro vezes o risco de morte depois do contágio. Um organismo gordo tem capacidade reduzida para produção de anticorpos e o tecido adiposo funciona como reservatório para o vírus. Emagrecer, portanto, é compulsório – e a injeção de armas usadas contra o diabetes pode ser útil. Com cuidado, insista-se, ainda que soe repetitivo o zelo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE MAIO

NÃO CONSTRUA SUA CASA NA AREIA

A casa dos perversos será destruída, mas a tenda dos retos florescerá (Provérbios 14.11).

Uma casa pode ser muito bonita e atraente, mas, se não for construída sobre um sólido fundamento, acabará destruída quando a tempestade chegar. É como construir uma casa sobre a areia. Quando a chuva cai, o vento sopra e os rios batem nos alicerces, a casa vai ao chão. É assim que acontece com a casa do perverso. A vida daqueles que não conhecem a Deus carece de fundamento. A Bíblia diz que, se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam. Construir uma família sem a presença de Deus é construir para o desastre. Dinheiro e sucesso não podem manter uma família firme diante das tempestades da vida. A maior necessidade da família não é de coisas, mas de Deus. É por isso que a tenda dos retos florescerá. Não porque sua casa está fora do alcance da tempestade, mas porque, embora a chuva caia no telhado, os ventos soprem contra a parede e os rios açoitem os alicerces, a casa permanece de pé, uma vez que não foi construída sobre a areia, mas sobre a rocha. Essa tenda floresce porque Deus ali habita. Floresce porque a bênção de Deus está sobre ela. Floresce porque aqueles que habitam nessa tenda são como árvores plantadas junto às correntes das águas, que jamais murcham e jamais deixam de produzir o seu fruto.

GESTÃO E CARREIRA

COMO FALAR SOBRE TRABALHO COM SEUS FILHOS DURANTE A PANDEMIA

Um guia de atividades e discussão.

Para algumas famílias, a covid-19 significou trabalhar, viver e aprender juntos em aposentos apertados durante vários meses. Para outras, significou funcionários saindo de casa para trabalhar em hospitais, supermercados e outros estabelecimentos comerciais da linha de frente da pandemia. Embora a dinâmica de sua família tenha mudado, é provável que seus filhos estejam desenvolvendo novas ideias sobre seu trabalho e mais elementarmente, o que é o trabalho, como ele funciona no mundo atual e o que ele significa para eles.

É por isso que esta é uma boa hora para conversar com seus filhos sobre seu trabalho e mudanças de responsabilidade. Essas conversas podem ajudá-lo a entender melhor suas perspectivas sobre seu emprego, como eles pensam sobre seu futuro na força de trabalho, e qual a melhor forma de apoiá-los hoje. Você também pode aproveitar esse tempo para discutir saudavelmente estratégias de enfrentamento sadias quando o trabalho (e a vida) se tornarem difíceis.

O guia de atividades e discussão a seguir oferece algumas formas de iniciar conversas sobre esses temas. À medida que for lendo as questões, escolha os tópicos que mais se apliquem à sua família. Dependendo do interesse das crianças e da dispersão da atenção, você pode preferir discutir diferentes questões em várias ocasiões. É importante adaptar as questões a serem discutidas ao nível de desenvolvimento, temperamento, estilo de comunicação e outros aspectos de seus filhos. Para aconselhamento individualizado, parentes e cuidadores devem contatar seus próprios provedores.

ATIVIDADE

Comece a conversa com seu filho dizendo alguma coisa como “eu acho que seria interessante conversar sobre as mudanças que você viu na forma como estou trabalhando neste exato momento, e para lhe dar a oportunidade de tirar dúvidas que você pode ter sobre o que eu faço no trabalho”. Depois discuta os tópicos que tem em mente, deixando a conversa ser guiada pela curiosidade de seu filho. Para ter ideias sobre os tópicos, veja o guia de discussão a seguir.

Como crianças menores podem ter mais facilidade de se comunicar brincando, você pode então começar pedindo a seu filho um desenho de você trabalhando ou dele em aulas (remotas ou presenciais). Peça à criança que descreva seu desenho, e faça perguntas adicionais para entendê-lo melhor. Esse exercício é uma boa forma de ouvir as ideias de seus filhos sobre as mudanças em sua vida profissional, na forma como eles estão estudando e na dinâmica familiar.

GUIA DE DISCUSSÃO

A conversa com a criança pode abranger uma grande variedade de assuntos. Aqui estão algumas perguntas que você pode fazer:

— Você sabe o que eu faço no meu trabalho?

— O que você quer me perguntar sobre meu trabalho?

— Você sabe porque o que eu faço é importante para mim e para outros?

— Você sabe como eu passo meu tempo enquanto estou trabalhando?

— Que você faz quando está na escola?

— Quais são suas partes favoritas da escola?

Esta é também uma oportunidade de discutir mudanças no trabalho e na escola. Você pode perguntar:

— Neste momento tivemos de fazer muitas mudanças em nossas rotinas de trabalho e da escola. O que ficou mais difícil ou mais fácil na escola agora? O que ajuda você quando as coisas ficam mais difíceis? De que formas eu posso ajudá-lo quando você está com problemas?

— Você acha que as mudanças durante este período foram positivas para nossa família?

Esta última questão pode ser mais bem respondida por você e seu filho juntos. Por exemplo, talvez vocês se vejam mais ou façam mais refeições juntos durante a semana. Talvez você tenha mais oportunidade de interagir (mesmo que virtualmente) com o resto da família ou com amigos.

Você também pode pedir a seu filho que faça perguntas para saber mais sobre seu trabalho e como ele mudou. Se ele não estiver seguro sobre por onde começar, as sugestões a seguir podem ajudar: você poderia dizer “tenho algumas perguntas aqui que talvez você queira me fazer”. As crianças que já sabem ler podem ver a lista e fazer as perguntas que considerarem mais interessantes. Se seu filho ainda não sabe ler, você pode ler em voz alta aquelas que você acredita serem mais relevantes usando linguagem adequada ao nível de desenvolvimento da criança, e depois respondê-las (obviamente, tente criar um ambiente onde seu filho se sinta à vontade para fazer perguntas que não foram incluídas a seguir).

— Que você faz no seu trabalho?

— Como acabou fazendo esse tipo de trabalho?

— De que você mais gosta no seu trabalho?

— Quando você tinha a minha idade, que queria fazer quando crescesse?

— Que você queria saber na minha idade sobre trabalho e escola?

— Que problema no trabalho que você teve de superar? Como fez isso?

— Que ficou mais difícil no seu trabalho por causa da pandemia? Como você enfrentou os problemas?

— Por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo? (detalhe importante: esta pergunta poderá não ser apresentada se não refletir a experiência da criança).

DICAS PARA SUA CONVERSA

Em conversas com os filhos, é importante deixar claro que você está disponível para conversar ou ajudar quando eles precisarem. Também é importante estar tranquilo e legitimar os sentimentos deles e, ao mesmo tempo, enfatizar que você e outros adultos estão trabalhando muito pra mantê-los em segurança e ajudá-los a aprender durante este período anormal.

Com a pergunta “por que você precisa trabalhar em vez de ficar comigo?” é particularmente importante estar sintonizado com as emoções de seu filho. Você pode responder reforçando seu amor por ele e ao mesmo tempo também reconhecendo suas responsabilidades de trabalho e os motivos porque seu trabalho é importante. Deixe claro que você trabalha não porque não quer ficar com seu filho. Essa discussão também pode levar a oportunidades de marcar um período comum para estar com a família sem discutir nada de trabalho, se possível.

Se você não puder trabalhar em casa, seu filho pode ter preocupações relacionadas à segurança. Éimportante dar espaço para essa conversa e sincera e tranquilamente responder às perguntas de seu filho sem usar linguagem catastrófica. Normalize os sentimentos que seu filho expressa e enfatize que você está seguindo políticas de saúde pública e os protocolos de sua empresa para manter você e sua família seguros. Você também pode explicar a importância de seu cargo, porque ele exige que você continue indo ao escritório, e como seu trabalho ajuda os outros e a comunidade como um todo. Permitir que as crianças saibam que elas sempre podem discutir seus sentimentos com você e fazer perguntas deixa uma porta aberta para conversas futuras e mostra que as pessoas que cuidam delas estão lá se elas precisarem de apoio.

Embora não seja o foco deste guia, é muito importante observar que, além das mudanças no trabalho e na escola, as famílias podem estar vivenciando a perda de entes queridos, doenças, perda de emprego ou insegurança alimentar e doméstica. É importante dar espaço às crianças para que façam perguntas e consigam apoio nesses fatores estressantes. Os pais devem procurar recursos da escola e da comunidade quando seus filhos ou famílias precisarem de mais ajuda.

ESCLARECIMENTO

Este guia foi elaborado para ter natureza informativa e não para fornecer conselhos ou recomendações profissionais. Essas atividades são para consideração geral, mas os cuidadores devem contatar seus provedores em relação a aconselhamento individualizado para suas famílias e filhos. Os pais que perceberem mudanças comportamentais significativas ou mudanças de humor em seus filhos, ou que precisem de outro tipo de apoio, devem entrar em contato com a escola e agências comunitárias para obter orientação e recursos.

JACQUELINE ZELLER – é PhD, psicóloga licenciada, psicóloga escolar e professora de educação infantil. Seus interesses clínicos focam esforços de prevenção e intervenção em escolas, promovendo a resiliência nas crianças e apoiando o bem-estar de educadores e auxiliares. A dra. Zeller faz parte do núcleo pedagógico da faculdade de educação de Harvard. onde ela ministra cursos de pós-graduação relacionados a aconselhamento e consultas, e coordena parcerias escola/universidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH III – ACALMANDO AS PEQUENAS MENTES

A prática do yoga em crianças, inclusive nas escolas, pode ajudar no tratamento de TDAH, pois as práticas contemplativas têm como uma das características deixar a pessoa mais atenta às sensações corporais e experiências sensoriais

O TDAH é responsável por profundas alterações no comportamento das crianças. Por isso, alternativas que buscam amenizar os efeitos do distúrbio são bem-vindas. O yoga é um exemplo. Uma das principais características de práticas contemplativas, como o yoga, é a ênfase dada ao processo de se tornar mais atento às sensações corporais, às experiências sensoriais e aos próprios pensamentos. O aumento da percepção do corpo e dos processos mentais (atenção) pode ser benéfico não só do ponto de vista cognitivo, mas para a saúde e para a autorregulação, pois reflete uma melhor habilidade em observar sinais do corpo e da mente sem se envolver com eles.

Comparado às práticas puramente sentadas, o componente do movimento, típico do yoga, pode aumentar a intensidade de sinais interoceptivos e proprioceptivos e subsequentemente facilitar o processamento e a integração desses sinais, melhorando a atenção. Esse, segundo Laura Schmalzl, da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos, é o principal diferencial do yoga. De acordo com a pesquisadora, a eficácia da prática do yoga na atenção e na concentração decorre do fato de esta prática desenvolver diversos tipos de atenção: a atenção alerta, necessária para rastrear sensações corporais; a atenção de orientação, que envolve a leitura ativa do ambiente e dos estímulos, assim como a seleção de alvos específicos para a execução de determinado movimento (no yoga, este tipo de atenção ajuda o delicado processo de feedback neuromuscular e a consequente eficiência do engajamento muscular, necessário para a execução do movimento); e atenção executiva, que se refere à habilidade de prestar atenção de modo seletivo a estímulos relevantes e inibir informação irrelevante (no yoga, a atenção executiva é usada para manter a atenção nos estados mentais e físicos e simultaneamente esquecer das distrações irrelevantes). Além disso, práticas contemplativas também desenvolvem a percepção de metacognição, definida como um monitoramento intencional dos processos mentais e comportamentos. Um possível benefício desse monitoramento metacognitivo e não crítico do processamento espontâneo de pensamentos é a redução no autorreferencial negativo e na ruminação, além da sensação de equanimidade, que, no caso específico do yoga, pode ser resultado das sensações corporais e feedback proprioceptivo relacionado ao movimento e à respiração.

Estudos mostraram que as melhoras nessas funções cognitivas estão relacionadas a alterações estruturais em áreas do cérebro envolvidas no processamento de sensações corporais, como os córtices sensório-motor primário e secundário, o giro cingulado anterior e, especialmente, a ínsula, uma estrutura-chave para a percepção extra e interoceptiva. Pesquisadores do National Institute of Health, nos Estados Unidos, liderados por Chantal Villemure, encontraram um aumento de massa cinzenta e massa branca em praticantes de yoga.

Todas essas melhoras nos níveis de atenção fizeram os pesquisadores se perguntar se as práticas contemplativas podiam auxiliar crianças com dificuldades de aprendizagem, como no transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Uma recente revisão sistemática feita por Gurjeet Birdee, da Universidade de Medicina de Harvard, mostrou que a quantidade de estudos de qualidade com crianças com TDAH era muito pequena. Os poucos estudos existentes na literatura mostram resultados inconsistentes, mas sugerem benefícios em potenciais da prática de yoga. Pesquisas futuras com o yoga devem observar a eficácia destas práticas em deficiências cognitivas diversas, mas os estudos atuais se restringem à observação em crianças saudáveis, talvez pela necessidade de primeiro se elucidar em os mecanismos de ação do yoga para depois se extrapolarem os estudos para crianças com dificuldades de aprendizagem.

NAS ESCOLAS

A pesar dos conhecidos efeitos restaurativos do yoga na saúde mental (principalmente em adultos), hoje essa prática não está limitada ao uso terapêutico e vem sendo utilizada em uma grande variedade de situações e condições, incluindo contextos educacionais e escolares, já que o bem-estar e a saúde constituem objetivos primários da própria educação. Além disso, o desempenho escolar depende diretamente dos níveis de atenção e concentração e, como mencionado, o yoga tem se mostrado eficaz no desenvolvimento dessas variáveis.

De acordo com um relatório das Nações Unidas (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, 2007), crianças e adolescentes ao redor do mundo passam, em média, 10 a 15 anos na escola. Sendo assim, a instituição de ensino tem um grande potencial para ensinar hábitos saudáveis, desde idades mais jovens, e promover o bem-estar e a saúde de crianças.

Para crianças que lidam com estressores extremos como traumas, abuso, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, evasão escolar e bullying, a prática de técnicas contemplativas pode ser a diferença entre sucesso e fracasso, acadêmica, profissionalmente e na vida em geral. Além disso, o início da maioria dos transtornos mentais em adultos ocorre numa idade muito jovem, com 7,5% dos adolescentes preenchendo critérios para DSM-IV para uma ou mais condições mentais.

A solução para se lidar com ansiedade, estresse e dificuldades de aprendizagem certamente depende de muitos fatores, mas as evidências sugerem que muitos ou todos esses problemas podem ser amenizados pela prática de técnicas contemplativas. A prática dessas técnicas em escolas é capaz de redirecionar a atenção, melhorar a concentração, aumentar o autocontrole e fornecer mecanismos mais saudáveis e confiáveis de se lidar com o estresse.

O Dr.Sat Bir Khalsa, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, observou que a implementação de um programa de yoga nas escolas foi essencial na recuperação da autoestima, confiança e saúde mental das crianças, assim como na promoção de atitudes positivas e melhoras na concentração, estresse e ansiedade.

Uma revisão sistemática (no prelo) deste ano conduzida por mim analisou apenas estudos controlados e randomizados sobre o ensino de yoga em escolas. O estudo observou o efeito de programas de yoga nas funções cognitivas e saúde mental de crianças e adolescentes. A revisão mostrou efeitos benéficos do ensino do yoga em escolas, mas afirmo que em alguns estudos os resultados são inconclusivos e demandam a reaplicação dos resultados, pois em muitos deles não há padronização ou adequação ao tipo de prática que deve ser realizado em crianças. Do mesmo modo, a frequência e a duração das práticas também não costumam ser apropriadas a uma faixa etária menor. Além disso, técnicas de yoga, como respiração e meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que os lobos frontais do cérebro amadurecem, a capacidade de exercitar o controle da atenção aumenta, mas, ainda assim, as capacidades atencionais de crianças e adolescentes permanecem mais pobres comparadas às de adultos.

Os efeitos negativos encontrados em alguns estudos podem ser explicados pelos seguintes fatores: processo de adaptação, controle de atenção e inadequação da prática para crianças.

DESAFIO

O processo de se tornar consciente de tudo, incluindo as próprias emoções e sensações, e o fato de o yoga ser uma prática que demanda esforço e disciplina podem fazer com que o primeiro contato com o yoga seja desafiador. Quando a prática de yoga é adicionada às atividades extracurriculares, a criança pode experimentar níveis mais altos de estresse em curto prazo. De acordo com a pesquisadora Adele Hayes, do Departamento de Psicologia da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, esse aumento temporário nos níveis de estresse pode fazer parte do processo de se tornar consciente de tudo (mindful), à medida que as crianças começam a reconhecer seus padrões típicos de reação ao estresse. Além disso, a realização no yoga depende de autoconfiança adquirida. A princípio, tentar algo no qual não temos habilidade pode aumentar a sensação de inadequação.

Segundo Lisa Kaley-Isley, da Divisão de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, à medida que adultos e crianças passam de um estágio pré-contemplativo (início da prática) para o contemplativo, eles podem experimentar mais distresse (aflição, ansiedade e estresse), já que nesse momento há mais conscientização da necessidade de mudar, mas o indivíduo ainda não desenvolveu as ferramentas necessárias para realizar a mudança. Pesquisadores sugerem que esse achado seria revertido com uma intervenção de longa duração, mas estudos assim ainda não foram realizados.

Ainda, no que diz respeito a alguns achados negativos, além do processo de adaptação há também a questão do controle precário da atenção em crianças. Técnicas de yoga, como as respirações e a meditação, requerem alto controle atencional, uma função executiva que ainda não está madura em crianças e adolescentes. À medida que lobos frontais amadurecem, a capacidade de exercer o controle da atenção também aumenta, mas a habilidade ainda permanece muito mais precária em crianças e adultos.

Paradoxalmente, o yoga tem se demonstrado uma ferramenta importante na melhora da atenção em adultos e crianças. Desse modo, a prática de yoga deve ser especificamente adaptada para crianças, para que elas possam se beneficiar dos efeitos positivos observados em adultos, levando em consideração a maturidade de seus cérebros.

Ainda assim, de modo geral os estudos observaram reduções nos níveis de fadiga, raiva, inércia, ansiedade e estresse. Assim como aumentos na autoestima, autorregulação e capacidade de autocontrole. No que diz respeito às funções cognitivas, a prática de yoga em contextos escolares mostrou efeitos significativos na atenção, memória e habilidades de desenvolvimento, assim como melhoras em capacidades mentais diversas e no teste de Stroop (um conhecido teste de atenção).

Alterações negativas do humor estão associadas a declínios na função cognitiva. Então, é possível que os efeitos do yoga na saúde mental das crianças tenham refletido nas melhoras de funções cognitivas como a atenção. O foco da atenção é um aspecto-chave da prática de yoga e produz efeitos similares aos do relaxamento, já que também promove o autocontrole, a concentração e a conscientização do corpo.

EVOLUÇÃO

Estudos com crianças que sofrem de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade demonstraram melhoras significativas em escalas e tarefas de atenção após a prática de yoga. Estudos de neuroimagem mostraram que a meditação (uma das técnicas do yoga) tem efeitos mais significativos no putâmen e no córtex cingulado, estruturas cerebrais envolvidas no processamento da atenção. Melhoras na memória seguidas da prática de yoga também foram demonstradas extensivamente. Estudos observaram a ativação do hipocampo durante estados meditativos, uma estrutura subcortical responsável pela formação de novas memórias.

Apesar da grande quantidade de evidências acerca dos efeitos benéficos das técnicas contemplativas, a inserção de um programa de yoga em escolas para crianças e adolescentes está longe de ser uma realidade comum, embora escolas em São Paulo e no Rio Grande do Sul já estejam utilizando com sucesso essas técnicas no dia a dia das crianças. Infelizmente, o currículo tradicional foca primariamente no desenvolvimento intelectual, e as escolas vêm progressivamente perdendo a capacidade de adotar programas que promovam a saúde. A habilidade em lidar com o estresse, a ansiedade e a manutenção da saúde física, todas consequências da prática de yoga, é de valor inestimável em todas as esferas da vida de um indivíduo, incluindo a educação. Além disso, os estudantes precisam estar saudáveis para ser educados, e o desempenho escolar está diretamente relacionado ao status de saúde. Consequentemente, há uma necessidade cada vez maior e urgente de se desenvolver e investigar programas de saúde eficazes, de baixo custo e baseado em evidências, que possam ser utilizados em contextos escolares.

É preciso lembrar que as crianças saudáveis de hoje serão os adultos equilibrados de amanhã. Como disse o Dalai Lama: “Se a meditação fosse ensinada a toda criança, a violência estaria eliminada do mundo em apenas uma geração”.

YOGA: O QUE AS PESQUISAS MOSTRAM?

ADULTOS

  •  menores níveis de ansiedade e estresse
  •  menos depressão
  •  menos ataques de pânico
  •  maior autorregulação emocional
  • melhoras cognitivas
  •  melhoras nos níveis de atenção
  •  maior resiliência

CRIANÇAS

  •  melhoras cognitivas
  •  melhoras na autoestima
  •  melhoras na capacidade de autorregulação
  •  maior autocontrole
  •  melhoras nos níveis de atenção e memória
  •  melhoras em capacidades mentais diversas como no teste de Stroop

CAMILA FERREIRA VORKAPIC – é doutora em Psicologia pela UFRJ, com pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora de Desenvolvimento Científico Regional CNPq\Fapitec no Laboratório de Neurofisiologia da Universidade Federal de Sergipe.

EU ACHO …

A MÁQUINA ESTÁ CRESCENDO

O homem foi programado por Deus para resolver problemas. Mas começou a criá-los em vez de resolvê-los. A máquina foi programada pelo homem para resolver os problemas que ele criou. Mas ela, a máquina, está começando também a criar problemas que desorientam e engolem o homem. A máquina continua crescendo. Está enorme. A ponto de que talvez o homem deixe de ser uma organização humana. E como perfeição de ser criado, só existirá a máquina. Deus criou um problema para si próprio. Ele terminará destruindo a máquina e recomeçando pela ignorância do homem diante da maçã. Ou o homem será um triste antepassado da máquina; melhor o mistério do paraíso.

CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AMOR INTERROMPIDO

Sistema jurídico falho faz com que famílias adotivas tenham de devolver crianças mesmo após anos de convívio

Era por volta de 20 horas da sexta-feira 20 de novembro quando o telefone da dona de casa Carolina Alves Bella, de 43 anos, tocou. Do outro lado da linha, sua advogada trazia uma notícia que desestabilizaria toda a família: uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) determinava que Maria (nome fictício), a filha adotiva de Carolina e Manuel, fosse devolvida para a família biológica, aos cuidados da avó paterna, após mais de seis anos sob a guarda deles. A informação caiu como uma bomba naquele fim de semana que tinha tudo para ser especial, com a apresentação de balé de Maria depois de um ano de aula virtual e o descanso planejado em uma pousada da região para comemorar a conquista da menina. A decisão dizia “devolva-se imediatamente”. “Nosso mundo desabou. Perdemos a noção de tudo e começamos a chorar desesperadamente. foi como se minha filha fosse uma coisa, um objeto”, desabafou Carolina.

Maria hoje tem 9 anos e foi adotada legalmente por Carolina e Manuel em 2015, quando estava prestes a completar 3 anos. O casal, que estava habilitado e formalmente inscrito no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) desde 2011, recebeu a ligação do Fórum sobre a disponibilidade da criança no fim de 2014, e os encontros de aproximação começaram no Carnaval de 2015. Maria foi retirada do convívio com os genitores quando tinha 2 anos de idade por denúncias de maus-tratos e violações dos direitos da criança. Além disso, o genitor da menina foi condenado por matar o próprio pai, avô de Maria. Ela foi acolhida em um abrigo institucional, onde permaneceu por um ano.

Em fevereiro de 2019 houve uma sentença em primeiro grau confirmando a perda do poder familiar, mas a avó paterna de Maria recorreu da decisão pedindo a guarda dela. Em novembro passado o Tribunal de Justiça decidiu favoravelmente ao pedido da avó e, em recurso julgado no final de fevereiro, manteve a decisão de devolução da criança para a família biológica. Maria só está em casa ainda porque seus pais adotivos conseguiram um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinando que ela fique com eles até o final do processo.

A advogada Larissa Jardim, vice-presidente do Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte (GAABH) e representante da família adotiva no processo de adoção, classifica a decisão do TJMG de “biologista” por privilegiar o vínculo de sangue da criança em vez do vínculo afetivo e emocional. “É um retrocesso e viola os direitos fundamentais da criança ao prevalecer o vínculo sanguíneo. A decisão desconsiderou e contrariou uma série de relatórios técnicos feitos pelo próprio Poder Judiciário atestando a irresponsabilidade da família biológica sobre essa criança. Determinar que ela volte para o contexto abusivo é tratá-la como se ela fosse de segunda categoria, e ela não está tendo seus interesses considerados”, disse Jardim ao citar o artigo 39 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que diz que “em caso de conflito entre direitos e interesses do adotando e de outras pessoas, inclusive seus pais biológicos, devem prevalecer os direitos e os interesses do adotando”.

Quando uma criança é retirada dos cuidados dos pais biológicos, o Judiciário faz várias análises psicossociais e técnicas até esgotar todas as possibilidades de manutenção dessa criança em sua família de origem ou na chamada família extensa (tios, avós, primos). Não sendo possível essa reintegração, o Ministério Público entra com um pedido de destituição do poder familiar. O artigo 163 do ECA determina um prazo máximo de 120 dias para a conclusão desse pedido e ressalta que “no caso de notória inviabilidade de manutenção do poder familiar, caberá ao juiz dirigir esforços para preparar a criança ou adolescente com vistas à colocação em família substituta”.

A realidade é outra. Um sistema judiciário ineficiente e lento faz com que dificilmente esses tipos de ação sejam julgados dentro desse prazo de 120 dias. Dados da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ) apontam que o tempo médio desses casos no Sudeste, por exemplo, é de 1.137 dias – algo em torno de três anos. Um dos motivos é o baixo número de instâncias especializadas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), são 143 Varas exclusivas de Infância e Juventude no país, número considerado “muito pequeno” para a quantidade de casos. Segundo dados do SNA consultados no último dia 20, há hoje 30.863 crianças acolhidas, 4.951 disponíveis para adoção e 4.230 em processo de adoção. Desse total, 2.474 foram adotadas em 2020. Não há, no entanto, números oficiais sobre ações judiciais determinando que crianças adotadas retornem para sua família de origem. Segundo o CNJ, 9.317 crianças que estavam acolhidas voltaram a viver com a família biológica em 2020, mas não é possível saber quantas delas estavam morando em abrigos e quantas já estavam sob a guarda da família substituta. Diante desse cenário, o caso complexo envolvendo a situação de Maria não foi o primeiro e não deverá ser o último, e por isso tem levantado discussões sobre a insegurança jurídica que essas decisões causam nas famílias adotivas.

Fomos atrás de outros três casos de decisões judiciais semelhantes, que determinaram o retorno de crianças adotadas para suas famílias de origem, privilegiando os vínculos biológicos em detrimento dos afetivos. Em agosto do ano passado, em meio à pandemia do coronavírus, a Justiça de terminou que Joaquim (nome fictício), de 3 anos, passasse a receber a visita dos pais biológicos, mediada por profissionais da Vara da Infância. O menino foi afastado do convívio dos genitores após o Conselho Tutelar ser acionado pelo hospital em que o bebé deu entrada vítima de politraumatismo e fraturas cm várias costelas, com apenas 17 dias de vida. Joana e Marcelo receberam a guarda provisória de Joaquim quando ele estava com 4 meses e meio e, depois de dois anos, foram informados da decisão que estipulava que fossem realizadas visitas mediadas dos genitores a Joaquim com o intuito de restituir-lhes a guarda da criança. “A adoção é linda, mas isso nos mostrou um mundo que não conhecíamos. Decisões assim causam um imenso dano psicológico nas famílias adotivas”, disse Joana. As visitas dos pais biológicos ainda não aconteceram e a família aguarda o julgamento do recurso. “Acreditávamos muito na Justiça, mas fiquei desiludida. Joaquim não tem ideia do que está acontecendo. Quando estamos com ele, vivemos a vida como ela deveria ser”, disse a mãe.

O casal Alfredo e Gisele (nomes fictícios) também está passando por momentos de angústia e insegurança relacionados à adoção das filhas Bruna, de 8 anos, e Bianca, de 10, que estão sob a tutela deles há dois anos. Uma decisão judicial do final de 2019 determinou que as meninas voltassem a viver no abrigo até que o processo de destituição familiar seja finalizado. As irmãs foram retiradas da família biológica quando tinham 3 e 6 anos por denúncias de maus-tratos e de abuso sexual. As meninas viveram no abrigo durante três anos, até que foram encaminhadas para adoção e conheceram Alfredo e Gisele. “Nossas filhas chegaram ao abrigo em uma situação de absoluta negligência. A mais velha mal conseguia falar e expressar seus sentimentos. Fizemos tudo dentro da legalidade, estávamos habilitados, não passamos na frente de ninguém. Desde que saiu essa decisão, entramos com vários recursos e perdemos todos. Ainda estamos aguardando o julgamento de mais um. Se não ganharmos, vamos recorrer ao Superior Tribunal de Justiça”, afirmou Alfredo.

Gisele, mãe das meninas, disse que vê com preocupação decisões que privilegiam os laços sanguíneos das crianças e afirmou ter muito medo de perder as filhas. “Eu não vivo mais em paz. Fico pensando que algo de ruim pode acontecer a qualquer momento. Em nenhum momento foi olhado para o lado das crianças. Quer dizer então que viver no abrigo é melhor do que viver com a gente? Vamos lutar até o fim, e desistir não é uma palavra que faz parte do nosso vocabulário”, afirmou.

Para a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão Nacional de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam), casos como esses abalam as famílias envolvidas na adoção legal e acabam desestimulando e trazendo descrença ao processo. Ela destacou que, para uma família se tornar apta para adotar uma criança, é preciso passar por uma complexa habilitação e cumprir uma série de requisitos que incluem avaliação psicológica, criminal e laudos da assistência social, entre outros.

Outro caso que chamou a atenção foi o do casal homoafetivo Juliano Peixoto de Pina, de 38 anos, e Jhonatan Pereira de Araújo Peixoto, de 41 anos. Eles moram em Goiás e conviveram apenas 12 dias com a filha adotiva, Melissa (nome fictício), que está prestes a completar 1 ano. A bebê foi adotada quando estava com 6 meses, depois de seus pais adotivos esperarem seis anos na fila. Poucos dias após receberem Melissa em casa, Juliano e Jhonatan foram surpreendidos com uma ordem de retorno da criança para a família acolhedora – uma família que não é habilitada para adotar, mas se inscreve no sistema a fim de fornecer lar temporário a crianças que estão em processo de adoção para que elas não esperem esse tempo vivendo em abrigos. O argumento da decisão judicial foi o vínculo que a criança teria criado com a família acolhedora. A família biológica não está envolvida no processo. Antes de cumprir a ordem judicial de entregar Melissa, Juliano decidiu se resguardar de possíveis falsas acusações e levou a bebê a um hospital, para passar por uma consulta médica e exames que comprovassem que ela estava com saúde plena e sendo bem cuidada. Um casal de amigos os acompanhou e foram eles que entregaram a bebê ao Conselho Tutelar. “No dia 6 de outubro nós nos despedimos na porta do hospital. Desde então, nunca mais vi minha filha, nem recebi notícias. Estamos aguardando julgamento do recurso”, afirmou Juliano. No último dia 6 de abril, o Tribunal de Justiça de Goiás manteve a decisão de deixar a criança com a família acolhedora, o que fez o casal desistir de lutar pela menina. “Decidimos não insistir num embate que só geraria danos à Melissa.”

Para Silvana Moreira, situações como essa são muito graves porque podem abrir precedentes para que pessoas não habilitadas no processo formal de adoção se inscrevam como acolhedoras e, depois, peçam à Justiça a guarda da criança, como forma de burlar o sistema. “Família acolhedora é um serviço temporário criado para oferecer melhores condições para a criança. Isso não pode acontecer.”

Mônica Molica, presidente da Comissão Estadual de Direito à Adoção da Ordem dos Advogados do Brasil – São Paulo (OAB-SP), ressaltou que a adoção é uma medida protetiva de exceção, que só ocorre quando são esgotados todos os meios possíveis de manter a criança na família de origem. Para isso, o Judiciário conta com um setor técnico com psicólogos e assistentes sociais que elaboram os laudos que dão suporte às decisões. “Defendemos que deve prevalecer o melhor interesse da criança, que deve ser ouvida respeitando os limites de sua idade. Tirar uma criança da família adotiva após anos de convivência é um novo trauma na vida dessa criança. E nos preocupa uma decisão judicial que torne o processo de adoção instável, porque traz consigo a insegurança jurídica”, disse.

O desembargador Jos é Antônio Daltoé Cezar, presidente da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e da Juventude (Abram.inj), atua há mais de 25 anos na área da infância e disse que já está vendo reflexos dessas decisões no universo da adoção, com famílias habilitadas procurando os fóruns de suas cidades pedindo para riscar o estado de Minas Gerais do processo com medo de que aconteça o mesmo com elas. “Essa situação nos preocupa muito. Isso já é um reflexo e mostra uma chance a menos de uma criança de Minas conseguir ser adotada. Temos de dar prioridade ao que é melhor para a criança. Não podemos esperar dois, três anos para que um processo finalize. O tempo da criança é outro”, afirmou.

Na avaliação de Daltoé, situações como essas ocorrem porque falta treinamento de juízes e assistentes que atuam nas Varas de Infância em todo o Brasil. “Muitos tribunais se preocupam apenas em seguir as regras técnicas de um processo. Mas quando não há má-fé no processo de adoção temos de dar uma outra solução. Não podemos transformar a criança em uma mercadoria e desconsiderar a história que ela construiu ao lado dos pais adotivos”, disse. Segundo Daltoé, são poucos os casos desse tipo que chegam à instância máxima, mas o entendimento do STJ tem sido o de manter a criança em sua família adotiva. “A avaliação é feita levando em consideração o que é o melhor para a criança. Não existe uma certidão de propriedade da família biológica.”

No fim de fevereiro a Comissão Externa de Políticas para a Primeira Instância da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública com participação de técnicos do CNJ para debater o problema. “Esse não é um caso isolado e nós não podemos deixar que a lentidão jurídica deixe essa criança em situação de fragilidade. A criança é a prioridade absoluta e ela tem de ser o objeto principal dessa discussão, e não a expectativa da família”, disse a deputada federal Paula Belmonte (Cidadania-DF), ao ressaltar ler medo de que decisões como essa façam o país regredir nos avanços conquistados nas políticas de adoção. A deputada afirmou que vai protocolar um projeto de lei que crie mecanismos para o cumprimento dos prazos pela Justiça. “Não precisamos de mais leis sobre adoção, mas temos de fazer cumprir as leis que existem. Se existem lacunas na legislação, precisamos preenchê-las”, afirmou.

O casal Válbio Messias da Silva, de 57 anos, e Liamar Dias de Almeida, de 55 anos, viveu na pele o drama de adotar urna criança e correr o risco de perder sua guarda por causa de uma decisão judicial que determinava o retorno da menina à família de origem. O caso ocorreu em 2013 e ficou conhecido no Brasil todo como “Caso Duda”, em referência ao processo envolvendo Maria Eduarda Rosa Almeida Silva, hoje com 11 anos, filha de Válbio e Liamar.

Duda havia sido separada da família biológica aos 60 dias de vida junto a seus seis irmãos mais velhos por causa de denúncias de negligência e maus-tratos. A menina foi levada para um abrigo, onde permaneceu por um ano e oito meses antes de ser encaminhada para a tutela provisória de Válbio e Liamar. Depois de dois anos de convivência com Duda, o casal foi surpreendido por uma decisão judicial de reintegração imediata da filha à família de origem – os genitores haviam recorrido da destituição do poder familiar e já haviam recuperado a guarda dos outros seis filhos, o que tornava o caso ainda mais difícil. “Ficamos seis anos na fila de adoção e nunca imaginamos que poderíamos passar por uma situação como essa. Para nós, o risco de algo dar errado era quase zero. Fiquei muito nervosa, chorei muito, e nosso advogado da época disse que não tínhamos chance nenhuma de reverter essa decisão”, lembrou Liamar, ao destacar que a família decidiu trocar de advogado para continuar lutando pela filha.

O casal entrou com inúmeros recursos, que eram sucessivamente negados, até que decidiram tornar o caso público por meio da campanha “Fica, Duda”. “A repercussão foi imediata, milhares de pessoas nos apoiaram e vestiram a camisa de nossa luta. Fizemos passeata, audiência pública no Congresso Nacional”, contou. Em dezembro de 2018, depois de cinco anos e uma batalha de recursos, Válbio e Liamar finalmente conseguiram a destituição do poder familiar e a adoção definitiva de Duda. Hoje a menina sabe tudo que aconteceu e convive com os irmãos biológicos, para alegria das duas famílias. “Sou muito segura em relação à minha maternidade. O contato deles é frequente e acho muito importante, pois é parte da história da minha filha.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE MAIO

A VIDA NÃO É UM MAR DE ROSAS

O coração conhece a sua própria amargura, e da sua alegria não participará o estranho (Provérbios 14.10).

A vida não é um parque de diversões nem um mar de rosas. A vida não é uma estufa espiritual nem uma redoma de vidro. Não podemos nos blindar contra os reveses da vida. A vida não é indolor. Nosso coração é um campo onde se travam muitas batalhas. Nessa peleja renhida, muitas vezes nosso coração conhece profundas amarguras. Lutamos contra medos e fraquezas. Travamos uma batalha sem trégua contra o diabo e o pecado. Pelejamos contra os outros e ainda contra nós mesmos. Muitas vezes, entramos no palco da vida como um ser ambíguo e contraditório. Decepcionamos as pessoas, e elas nos decepcionam. Choramos por nós mesmos e pelos membros da nossa família. Nessa saga cheia de gemidos, a cidadela do nosso coração é um país distante e uma terra desconhecida, onde não repartimos nossas amarguras mais profundas com as pessoas mais íntimas nem as alegrias com os estranhos. Muitas vezes, a solidão é nossa companheira de caminhada. Conversamos com nossa própria alma. Abrimos com nosso próprio coração um solilóquio no qual rasgamos o íntimo para conhecer nossas amarguras e alegrias.

GESTÃO E CARREIRA

QUE DEVEM FAZER OS GESTORES POR SEUS FUNCIONÁRIOS QUE TÊM FILHOS

O equilíbrio entre previsibilidade e flexibilidade.

Mesmo durante a pandemia, os gestores são pressionados a entregar resultados. Eles precisam liderar efetivamente suas equipes impulsionando-lhes o desempenho e ao mesmo tempo apoiando as necessidades da vida profissional e pessoal dos funcionários, quer eles tenham sido convocados a trabalhar presencialmente, quer estejam remotos no momento. Sobretudo os pais que trabalham estão se esforçando ao máximo para conciliar o emprego com a assistência aos filhos pequenos, incluindo as tarefas escolares.

Nossa pesquisa indica que reaprender a gerenciar pessoas – principalmente as que têm filhos pequenos em casa – nesta crise é um dos desafios mais importantes que os chefes enfrentam hoje. É também uma grande oportunidade: se tratada com bom senso, ela pode melhorar o bem-estar, a cultura e o desempenho das equipes, agora e no futuro. Para chegar a esses resultados positivos, é bom entender primeiro o dilema que você está enfrentando. Você também deve utilizar as estratégias certas – ou seja, aquelas que equilibram previsibilidade e flexibilidade – para que você e seus funcionários sejam bem-sucedidos.

Os gestores de funcionários horistas da linha de frente, em particular, devem prestar muita atenção, uma vez que esses funcionários geralmente são os que mais precisam de previsibilidade e flexibilidade, mas são os que têm menor probabilidade de obtê-las, na medida em que precisam conciliar os cuidados com os filhos e sair de casa para trabalhar durante a pandemia. No entanto, independentemente de quem você está gerenciando, há muitos conselhos baseados em evidências sobre como aplicar uma estratégia de previsibilidade e flexibilidade à sua equipe.

O DILEMA DO GESTOR

Pense no que está sendo pedido aos gestores atualmente. Em primeiro lugar, não ignore a covid-19 e seu efeito na vida dos trabalhadores. Se tentar impor prazos rígidos e reuniões frequentes, não estará reconhecendo as outras ansiedades e exigências que as pessoas – mais uma vez, e em especial, os pais que trabalham – enfrentam. A pesquisa mostra que os gestores que são exageradamente exigentes no quesito tempo presencial e estabelecem prazos arbitrários sem inputs dos funcionários – no caso do telemarketing em particular – aumentam o stress desses indivíduos. Eles também ignoram as mães e pais que poderão pedir demissão se forem forçados a escolher entre trabalho e família. Da mesma forma, pode haver para os trabalhadores horistas momentos em que eles precisam se afastar do local de trabalho para receber uma ligação inesperada do filho, do professor ou da babá, mesmo que não seja no horário formal de descanso. Estabeleça uma norma de flexibilidade oferecendo-se para substituí-los ou permita que colegas façam isso. Ambientes em que as pessoas se sentem com pouco controle do limite entre pessoal e profissional raramente levam ao bom desempenho.

Ao mesmo tempo, não seja condescendente demais. Não aja como se rotinas e metas previsíveis não tivessem nenhuma importância. Nem dê carta branca a “acordos idiossincráticos” super relaxados (como negociar pessoalmente arranjos e horários de trabalho) apenas para os pais que trabalham. Fazer isso de forma perceptível ignorando outros funcionários ou forçando-os a tirar folga cria discórdia na equipe.

Os gestores precisam adotar, portanto, duas estratégias aparentemente conflitantes: previsibilidade (ou seja, a estrutura para organizar horários, prazos, rotinas e backups) e administração da flexibilidade (ou seja, disposição para mudar tarefas e processos, reduzir tarefas de baixa prioridade e incorporar tempo de folga planejado para absorver os prazos para pais que trabalham).

ADICIONE ELEMENTOS DE PREVISIBILIDADE AO DIA DE TRABALHO

Primeiro, procure tornar o trabalho o mais previsível possível sem sobrecarregar os pais. A pesquisa mostra que os funcionários, principalmente os que têm demandas familiares, preferem horários estabelecidos ou pré-planejados porque eles podem então gerenciar melhor sua vida fora do trabalho. Com a covid-19, os horários geralmente são corridos, mas os gestores ainda podem tentar bloquear períodos para interação e comunicação focada e, quando isso não funcionar, utilizar sistemas de apoio. A seguir, algumas sugestões.

DESTAQUE “HORÁRIOS PRIORITÁRIOS”.

Os gestores podem ajudar a criar prioridades organizando horários prioritários ou “janelas de disponibilidade”. Isso requer inputs do cronograma de todos os membros da equipe, incluindo perguntar como acomodar melhor as necessidades da família. Dependendo da estrutura do grupo e das respectivas tarefas individuais, você pode determinar os mesmos horários prioritários (por exemplo, das 10 às14 horas) quando todos estão disponíveis para colaborar. Atividades da equipe realizadas durante esse “horário coletivo” devem ter metas claras. A Microsoft, por exemplo, encorajou os gestores a limitar o tempo das reuniões a 30 minutos para garantir que as pessoas continuem envolvidas. Outra opção é fazer com que cada membro da equipe cubra um conjunto de horários prioritários (porexemplo,8-11, 11-14,14-17); assim alguém sempre estará disponível para os clientes ou consumidores. Ferramentas virtuais como uma mensagem instantânea também podem ajudaras pessoas a se comunicar com colegas de diferentes horários e durante horários não prioritários. Embora não seja possível honrar todas as exigências de horários, é importante consultar os funcionários, explicar como e porque quaisquer decisões são tomadas, e dar-lhes liberdade de executar quaisquer projetos independentes quando for conveniente para eles.

CRIAR UM SISTEMA DE CAMARADAGEM.

Estudos mostram que formalizar a cobertura de apoio é uma forma eficiente de auxiliar os funcionários que estão lidando com necessidades de mudança da família. Designe um “colega a cada membro da equipe”, que transmitirá as informações importantes quando os empregados perderem reuniões por problemas familiares de última hora. Os gestores devem iniciar e supervisionar o processo de pareamento, mas, sempre que possível, solicitar input ao funcionário. Se dois pais com filhos pequenos formarem um par, terão um benefício adicional que é o potencial apoio informal do colega, já que provavelmente conversarão não só sobre trabalho, mas também sobre família. Em organizações de serviços essenciais, que a rigor requerem trabalho presencial, é possível treinar de forma proativa ou contratar trabalhadores flutuantes para substituir pessoas que inesperadamente precisam de um período livre.

AGENDE REUNIÕES INDIVIDUAIS REGULARMENTE.

Enquanto a crise continua, é ainda mais importante para os gestores comunicarem-se regularmente com cada funcionário, sobretudo os pais que trabalham. Infelizmente poucos chefes fazem isso de forma estruturada. Para começar, estabeleça reuniões individuais recorrentes, consistentes e pessoais (por videoconferência ou telefone se você não estiver realizando trabalho essencial no local) com todos os membros de sua equipe tanto para discutir suas prioridades de trabalho como para fazer perguntas abertas sobre como eles estão conseguindo equilibrar as demandas do trabalho e da família.

A última é crucial: a pesquisa mostra que não é suficiente apoiar os funcionários profissionalmente. Para reduzir o conflito trabalho/família, aborde especificamente essas questões e descubra os recursos de que as pessoas precisam para ter bom desempenho tanto no trabalho como fora dele. Talvez você queira aprofundar o apoio familiar nessas conversas. Ele é composto de quatro fatores amplamente estudados em empresas de todo o mundo: apoio emocional (fazer perguntas aos funcionários sobre essas questões e demonstrar empatia), apoio instrumental (solicitar input dos funcionários sobre suas preferências para acomodar horários), exemplo a seguir (demonstrar estratégias pessoais que utilizou quando teve de gerenciar demandas competidoras) e gestão trabalho/família criativa (discutir soluções que ajudem os pais que criam filhos, mas ainda garantir que o trabalho seja feito a contento). Nossa pesquisa mostra que, enquanto praticamente 100% dos gestores se consideram apoiadores de funcionários com família, somente metade de seus subordinados concorda com essa avaliação. Um jeito fácil de resolver essa discrepância é reservar tempo para discussões pessoais e garantir que você sempre pergunte a todos de sua equipe – tanto pais de filhos pequenos como não pais – como as coisas estão indo no trabalho e na vida pessoal e se há alguma coisa que você ou a empresa pode fazer para ajudar.

APRENDA A ADMINISTRAR A FLEXIBILIDADE

Previsibilidade funciona até certo ponto. Inevitavelmente, algum imprevisto pode surgir. Um funcionário pode precisar ignorar seu horário prioritário para cuidar de seu filho que está doente ou que tem energia demais para ficar sentado assistindo a uma aula via zoom. Um projeto pode ser adiado, um cliente pode ligar com um pedido urgente ou você descobre um problema em sua cadeia de suprimentos. Os gestores precisam, portanto, saber administrar a flexibilidade. Isso pode parecer desafiador em algumas situações, principalmente no varejo e serviços de alimentação, onde a entrega just in time é geralmente a norma. A seguir, apresentamos algumas estratégias a ser consideradas.

GARANTA CARGAS DE TRABALHO E HORÁRIOS SUSTENTÁVEIS.

O conceito “flexibilidade flexível” começou com um estudo centrado em profissionais extremamente talentosos sobrecarregados de trabalho (principalmente mulheres com familia) que negociaram redução de jornada de trabalho (com redução proporcional de remuneração) para dispor de mais tempo para tudo, de família a outros interesses pessoais. Os gestores se associaram a esses funcionários para criar cargas de trabalho mais sustentáveis e frequentemente faziam checagens para ter certeza de que ninguém estava registrando mais horas do que era normal. Sugerimos que você pense nessa abordagem para todos os funcionários neste exato momento.

Isso pode exigir eliminar trabalho de pouco valor – por exemplo, descartar um relatório que ninguém lê ou permitir que um funcionário da linha de frente solicite redução de horas no início ou no fim do dia, quando a demanda dos clientes quase sempre tende a ser menor. Outras possibilidades incluem permitir dois talentosos pais que trabalham partilhem um trabalho temporário. A flexibilidade baseada no tempo também pode ajudar. Pense em dividir a jornada, quando pais trabalham de manhã, ajudam seus filhos com a escola à tarde e início da noite e depois voltam ao trabalho à noite ou no fim de semana. Algumas pessoas podem querer trabalhar seis dias por semana com menos horas, ou quatro dias por semana com mais horas. Você também precisa mudaras metas de desempenho para semanais ou mensais, em vez de diárias ou semanais, o que dá às pessoas a liberdade de executar suas tarefas durante o horário que for melhor para elas. Encoraje-as a falar abertamente se precisarem de flexibilidade.

SEJA UM BOM EXEMPLO A SEGUIR.

Você pode assumir a liderança em sua equipe para remover barreiras sociais usando a flexibilidade trabalho/família. A ideia de que “a miséria nunca está só” se confirma em estudos que mostram a importância de comunicar aos funcionários que conflitos entre trabalho e vida pessoal são comuns e que todos, incluindo você, às vezes precisam se reorganizar. Compartilhar suas preocupações – principalmente se você trabalha enquanto cuida das crianças ou faz seus próprios deveres escolares em casa – expõe essa tensão. Fazer mudanças em sua própria agenda e conversar sobre elas abertamente também mostra a flexibilidade como uma solução.

Esta abordagem compensa: pesquisas sobreo poder dos colegas mostram que quanto mais os gestores utilizam a flexibilidade, maior a probabilidade de seus funcionários sentirem que também podem usar a flexibilidade trabalho/vida pessoal sem medo.

Verifique as normas das políticas. Antes da pandemia, muitos gestores se prendiam a políticas da organização relativas a trabalho flexível e trabalho remoto. Havia regras claras sobre quem podia aproveitá-las, onde e quando. Mas agora está na hora de checar. Se sua empresa costumava ter, por exemplo, a exigência de que os funcionários precisam residir a menos de 120 quilômetros do escritório, mas agora ninguém virá para a empresa por pelo menos um ano, você poderia certamente permitir que um jovem pai trabalhasse na casa de seus pais em outro estado para usufruir de assistência gratuita e segura para o filho pequeno. Se o staff precisava estar presente na empresa todos os dias, talvez agora as pessoas possam cuidar pessoalmente do trabalho de segunda a quarta-feira, enquanto as obrigações administrativas são desempenhadas remotamente às quintas e sextas-feiras. Pense em desenvolver para a equipe um estatuto de flexibilidade que inclua uma lista de novas regras mutuamente acordadas para trabalhar durante a pandemia. E alguns empregadores – incluindo aqueles com funcionários horistas – estão admitindo semanas de trabalho comprimidas, com três ou quatro dias com jornadas mais longas, mas menos dias de trabalho, o que facilita conciliar a assistência às crianças por parentes reduzindo custos e esgotamento.

AUMENTE A USABILIDADE DAS POLÍTICAS DE LICENÇAS.

Somente 17% dos trabalhadores americanos têm acesso a férias familiares remuneradas, e 24% deles – incluindo muitos horistas e funcionários de serviços essenciais – ainda não dispõem de licença médica remunerada. Mas mesmo as pessoas que possuem esses benefícios raramente os utilizam totalmente por causa de falta de pessoal, incapacidade de ter licença aprovada, o estigma de nem sempre colocar o trabalho em primeiro lugar, ou medo de perder o emprego. Principalmente agora, os gestores precisam garantir que os funcionários se sintam seguros para tirar licenças remuneradas (seguidas de licença não remunerada quando necessário), mesmo porque ajudaria a evitar o espalhamento da covid-19 se um funcionário ou algum membro da família estiver infectado.

Os gestores também precisam ser francos sobre o que acontece durante o período de ausência. Eles devem deixar claro que se não se espera que os funcionários trabalhem, suas equipes não devem esperar respostas a e-mails.

Além disso, ninguém deveria ligar ou mandar mensagem de texto para um funcionário quando ele, supostamente, não está trabalhando. Esses tipos de comunicação costumam ser muito mais invasivos porque são mais difíceis de ignorar. Emergências ocorrem, mas você deve definir previamente o que significa emergência para garantir que todos estejam alinhados.

EVITE SANÇÕES.

Também é importante garantir que funcionários que solicitam flexibilidade durante a pandemia não sofram consequências. Ninguém deveria ser impedido de ter aumento de salário, promoções ou novas oportunidades porque precisaram modificar seus horários ou usar todos os dias de férias e de licença médica.

Uma solução é ajustar os padrões de desempenho – por exemplo, permitindo que pais de filhos pequenos tivessem mais tempo para atingir determinados critérios. Algumas universidades estão estendendo os períodos de contratação de professor assistente. Escritórios de consultoria e advocacia poderiam fazer o mesmo. Outra solução, principalmente para funcionários de vendas, é criar um comitê de auxílio à remuneração para ajustar as cotas de vendas ou mudar temporariamente as estruturas de remuneração (por exemplo, oferecer somente remuneração baseada emcomissões ou até combinação de remuneração básica com bônus de comissão). E no setor de serviços duramente atingidos como hospitalidade, que está enfrentando as maiores quedas de demanda pelo consumidor, alguns funcionários estão concordando com os direitos de recontratação depois dos seis meses de seguro-desemprego, que garante aos trabalhadores demitidos o direito de ser recontratados em primeiro lugar.

Outros estão oferecendo licença médica ilimitada para horistas. Isso pode manter os funcionários motivados e fidelizados, e compensar os sentimentos de derrota durante esses momentos economicamente problemáticos.

Esses foram apenas alguns exemplos de como é importante ser flexível, não só em agendar horários, mas também em adaptar políticas e práticas relevantes de recursos humanos durante a pandemia.

MUDAR A FORMA DE LIDERAR SUA EQUIPE

Tendo como prioridade atingir as metas de desempenho durante uma crise econômica – pode parecer assustador. Mas você não pode gerenciar da mesma forma que fazia há um ano. Estas estratégias podem ajudá-lo a gerenciar a previsibilidade e a flexibilidade, e ajudará você e seus funcionários, principalmente aqueles com filhos pequenos, a superar as pressões atuais. Elas também podem ajudá-lo a criar uma equipe mais forte, capaz de ter bom desempenho durante a pandemia e depois dela.

ELLEN ERNST KOSSEK – é professora na Purdue University. Atualmente ela estuda como os limites entre trabalho e vida pessoal, flexibilidade e trabalho remoto impactam a inclusão de mulheres e a igualdade de carreiras.

KELLY SCHWINO WILSON – é professora associada de gestão na Purdue University. Sua pesquisa foca na Interface trabalho/família, relações interpessoais e liderança.

LINDSAY MECHEM ROSOKHA – é aluna de doutorado na Purdue University e estuda comportamento organizacional e recursos humanos. Sua pesquisa inclui trocas interpessoais, diversidade e liderança de funcionários no âmbito do trabalho e fora dele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH – UM SINTOMA CULTURAL

Comum na infância, o TDAH afeta de 5% a 8% da população e é considerado um distúrbio biopsicossocial, o que signi1ica que não é possível separar causa genética da psicológica e do meio em que se vive

Quem nunca ouviu falar sobre o TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade)? O tema vem sendo veiculado na imprensa, tanto a falada quanto a escrita, além da variedade de abordagens e debates em torno do assunto. O TDAH vem ocupando rodas de conversa em diversos ambientes e principalmente entre pais e professores, além dos consultórios médicos, psicológicos e psicopedagógicos. Algumas dessas ideias são levantadas no livro Cabeça nas Nuvens: Orientando Pais e Professores a Lidar com o TDAH, de Jane Patrícia Haddad (Editora Wak), lançado em 2013 em diversas capitais do Brasil.

Passados oito anos da publicação, Jane chegou à conclusão de que, se fosse reescrevê-lo hoje, consideraria diversos outros olhares e daria maior ênfase ao âmbito familiar dessas crianças e jovens que já são parte de algumas estatísticas, bem como um alerta que parece passar despercebido por muitos.

Ao escrever Cabeça nas Nuvens, ela refletiu sobre o aumento de diagnósticos em crianças e jovens com TDAH e o uso do medicamento, e o que eles estariam nos sinalizando. A leitura do livro teve, na época, o objetivo de provocar e suscitar caminhos ainda não percorridos por pessoas que buscam outra forma de entender o TDAH.

A nomenclatura TDAH {transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) passou a ser usada na década de 80. Antes disso, o transtorno era mais conhecido como DCM (disfunção cerebral mínima). Naquela época, já era tratado com psicoestimulantes. O TDAH é um dos transtornos neurológicos do comportamento mais comuns na infância. A estimativa é de que afeta cerca de 5% a 8% da população. O que vem sendo debatido entre as diversas áreas do saber são as causas do transtorno, entendido até o momento como distúrbio biopsicossocial, ou seja, não se pode separar a causa genética da psicológica e do meio em que se vive.

Os principais sintomas do TDAH têm aparecido na idade escolar, já que, conforme as exigências escolares aumentam, as crianças começam a apresentar falta de atenção, recorrentes esquecimentos, dificuldade em se concentrar, em seguir instruções e combinados e em organizar tarefas por suas prioridades, além de iniciarem várias atividades ao mesmo tempo e quase sempre não as finalizarem. De acordo com a Medicina, as manifestações que hoje caracterizam o transtorno estão classificadas pelo DSM-IV e situam-se em torno de três sintomas básicos: desatenção, hiperatividade e impulsividade. A característica essencial desse transtorno é a persistência de desatenção e/ou hiperatividade.

Iniciei meus estudos sobre o TDAH no ano de 2007. De lá para cá venho proferindo conferências junto à Educação com o intuito de ampliar o debate sobre os diagnósticos e suas conduções. Toda vez que recebo uma criança ou jovem em meu consultório trago o cenário contemporâneo para compor a história de vida daquele sujeito. Crianças e jovens estão imersos em um núcleo familiar muitas vezes tomado pela correria de uma vida que seus pais e familiares (adultos) estão envolvidos. Um mundo, por si só, hiperativo e desatento a questões essenciais, como o tempo de educar, que é incompatível com a pressa.

Independentemente dos sintomas, uma preocupação específica vai na direção de se minimizarem os efeitos comportamentais causados pelo transtorno. Segundo avaliação da psicóloga e pesquisadora Camila Ferreira Vorkapic, uma das propostas está no yoga. “Crianças atentas, relaxadas e com melhor desempenho escolar? Sim, isso é possível. De acordo com novos estudos a resposta está na prática das chamadas técnicas contemplativas, como o yoga”, afirma.

O yoga é uma antiga prática mente-corpo originada na Índia há mais de 2 mil anos e descrita sistematicamente centenas de anos depois (Yoga Sutras de Patanjali, aproximadamente 900 a.C.). Apesar de, segundo as escrituras tradicionais, seu objetivo ser o alcance de um estado unificado de consciência e autorrealização, o yoga tem sido usado para melhorar a saúde geral e o bem-estar. Sua prática envolve técnicas diferentes como posturas físicas (asanas), respiração (pranayama), relaxamento profundo (yoganidra), meditação, entre outras.

CAMILA FERREIRA VORKAPIC – é  doutora em Psicologia pela UFRJ, com pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora de Desenvolvimento Científico Regional CNPq\Fapitec no Laboratório de Neurofisiologia da Universidade Federal de Sergipe.

EU ACHO …

FORMA E CONTEÚDO

Fala-se da dificuldade entre a forma e o conteúdo, em matéria de escrever; até se diz: o conteúdo é bom, mas a forma não etc. Mas, por Deus, o problema é que não há de um lado um conteúdo, e de outro a forma. Assim seria fácil: seria como relatar através de uma forma o que já existisse livre, o conteúdo. Mas a luta entre a forma e o conteúdo está no próprio pensamento: o conteúdo luta por se formar. Para falar a verdade, não se pode pensar num conteúdo sem sua forma. Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha. Parece-me que a forma já aparece quando o ser todo está com um conteúdo maduro, já que se quer dividir o pensar ou escrever em duas fases. A dificuldade de forma está no próprio constituir-se do conteúdo, no próprio pensar ou sentir, que não saberiam existir sem sua forma adequada e às vezes única.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PULSO INTELIGENTE

Nova geração de smartwatches traz recursos inovadores tão avançados quanto os de celulares e computadores e até ajuda a salvar vidas

Quando o primeiro relógio inteligente da Apple foi lançado, em 2015, os fanáticos por novas tecnologias torceram o nariz. Eles não viam sentido em um aparelho que trazia praticamente os mesmos recursos oferecidos por um smartphone, mas com a desvantagem evidente de ficar preso no pulso – algo que, segundo os especialistas, soaria anacrônico para os jovens. O Apple Watch não só foi massacrado pela crítica da época como acabou condenado à extinção: os analistas cravaram que não resistiria à competição com celulares cada vez mais sofisticados. Erraram feio. Cinco anos depois, a empresa da maçã não é a única a faturar com as vendas crescentes de smartwatches. Outros gigantes do mercado de smartphones, como Samsung e Qualcomm, além da própria indústria tradicional de relógios, enxergaram nos modelos de pulso altamente tecnológicos uma oportunidade para fazer dinheiro. Com recursos tão avançados quanto os de computadores e smartphones, eles se consolidaram como símbolos da inovação, numa reviravolta surpreendente para um produto que, dizia-se, estava envelhecido e acabado.

Os números confirmam a ascensão dos smartwatches. O modelo de estreia da Apple entregou no seu primeiro ano cerca de 4,2 milhões de unidades, um resultado nada animador. Em 2019, com o best-seller Watch Series 5, saíram dos estoques 30,7 milhões de aparelhos e a expectativa é encerrar 2020 com 37 milhões relógios vendidos, o que irá garantir à Apple a liderança folgada desse mercado, com 55%de participação. Em 2021, o otimismo continua, com a previsão de 50milhões de itens negociados. O setor vive uma onda inovadora. No início do mês, a Qualcomm lançou seus novos processadores para relógios inteligentes. Os chips prometem desempenho e economia de energia 85% maiores em relação aos modelos mais antigos, que desde 2018 não tinham um upgrade. Segundo a empresa, as melhorias se devem à adição de tecnologias usadas em celulares.

Com esses recursos, as marcas poderão avançar sobre o reinado da Apple. É o que a sul-coreana Samsung planeja com o lançamento do modelo Active 3, que terá acabamento de aço inoxidável e titânio e suporte para sensores de eletrocardiograma e pressão arterial, além dos atributos típicos dos relógios inteligentes, como giroscópio, acelerômetro e barômetro. O preço, em torno de 300 dólares, equivale aos valores médios cobrados pela Apple em seus relógios inteligentes. Em junho, o gigante americano de tecnologia Garmin juntou-se à briga pelo pulso dos clientes com a apresentação dos modelos Tactix Delta, Fenix 6S e 6SPro.

Eles contam com um diferencial: usam a energia do sol para carregar a bateria. Nesse caso, a competição não se dá no preço, já que o aparelho custa, em média, 1.300 dólares.

De uns tempos para cá, os relógios inteligentes demonstraram uma louvável vocação: a capacidade de salvar vidas. A maioria deles conta com sistemas que ajudam no monitoramento cardíaco, na mediação do stress e até na checagem do nível de oxigenação do sangue. Há relatos de aparelhos que fizeram muito mais. Nos Estados Unidos, um homem desmaiou ao praticar exercícios, e o relógio da Apple, dotado de inteligência artificial, telefonou para os serviços de emergência ao perceber que seu dono tinha sofrido uma queda brusca. Nessas ocasiões, os relógios contam com uma vantagem inquestionável em relação aos smartphones: eles ficam presos no pulso e não se espatifam no chão se houver um acidente. Considerados até pouco tempo atrás quase aposentados, os relógios de pulso provaram que, em se tratando de novas tecnologias, o tempo não para nunca.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE MAIO

QUEM ZOMBA DO PECADO É LOUCO

Os loucos zombam do pecado, mas entre os retos há boa vontade (Provérbios 14.9).

O pecado é um embuste. É uma isca apetitosa, mas esconde a fisga da morte. Promete o maior dos prazeres e paga com a maior das desventuras. É o maior de todos os males. É pior do que a pobreza, a solidão, a doença e a própria morte. Todos esses males, embora tão graves, não podem afastar uma pessoa de Deus, mas o pecado nos afasta de Deus agora e por toda a eternidade. O pecado é maligníssimo. Seu salário é a morte. Por isso, só uma pessoa louca zomba do pecado. Só os tolos pecam e não se importam. Só os insensatos zombam da ideia de reparar o pecado cometido. Entre os retos, porém, há coração quebrantado, arrependimento e boa vontade. Os retos são aqueles que reconhecem, confessam e abandonam seus pecados. Sentem tristeza pelo pecado, e não apenas pelas consequências. Os retos são aqueles que encontram o favor de Deus, recebem seu perdão e ficam livres da culpa. Os retos abominam as coisas que Deus abomina, afastam-se daquilo que Deus repudia e buscam o que Deus ama. Os retos fogem do pecado para Deus, enquanto os tolos fogem de Deus para o pecado.

GESTÃO E CARREIRA

PAIS, EM CASA E NO TRABALHO, ESTEJAM SEMPRE COMPROMETIDOS COM SUA FAMÍLIA

Os homens querem avançar. Sugerimos quatro lugares para começar.

Em Salt Lake City, Utah, Richard, representante de distribuição de alimentos, começou a guardar uma revista em seu celular para se lembrar dos breves momentos que ele passou com os filhos desde que começou a trabalhar remotamente enquanto sua esposa, Melissa, trabalhava como enfermeira em uma unidade de covid-19.

Lloyd, desenvolvedor de software e fundador de startup, casado com uma médica de pronto-socorro e professora, afirma que uma das principais coisas que aprendeu com a crise atual é a importância da família. “Manter vínculos com os filhos – não só levá-los à escola – e apoiar emocionalmente minha companheira super-herói depois de suas longas jornadas é algo que comecei a valorizar”.

Tanta coisa mudou para as famílias nos Estados Unidos nos últimos meses. Alguns pais agora trabalham em casa, enquanto outros bravamente atuam em serviços essenciais. Empresas que oferecem babás estão fechando, escolas oscilam entre a opção remota, presencial ou híbrida, e benefícios emergenciais como licença remunerada estão expirando. Ao contrário de seus colegas de outros países ricos, os pais americanos enfrentam a pandemia com uma rede de segurança social esfarrapada, sem Infraestrutura federal para assistir as crianças, e sem licença temporária ou licença médica remunerada obrigatória para ajudá-los a superar a pandemia. Um índice recente classificou os EUA em penúltimo lugar em termos de apoio para constituir família. O trabalho invisível, difícil e importante de cuidar dos filhos e das tarefas domésticas tomou-se agora mais visível que nunca, o que se reflete no nosso próprio lar.

A pandemia do coronavírus reacende uma tendência que começou há décadas: os pais nos Estados Unidos estão reconhecendo cada vez mais a importância de participar do trabalho cotidiano de cuidar dos filhos, ensiná-los criá-los. Mas não se muda uma dinâmica social que persiste há anos do dia para a noite ou sem esforço consciente. Até agora, mulheres e principalmente as mães que trabalham foram as mais atingidas pela recessão econômica, tanto porque exercem seu ofício nas empresas mais afetadas, como varejo e hospitalidade, como porque, muitas vezes, precisam escolher entre permanecer no emprego ou cuidar dos filhos. Isso deveria começar com uma avaliação honesta de onde o progresso está acontecendo e onde estagnou.

ONDE OS PAIS ESTÃO CONTRIBUINDO – E ONDE NÃO ESTÃO

Um estudo anterior à pandemia mostrou que os pais já valorizavam mais seu papel familiar como nunca fizeram antes. O estudo, que incluiu um levantamento com representatividade nacional de homens e mulheres de todos os Estados Unidos e cinco focus groups online, tinha por objetivo determinar os aspectos da criação dos filhos considerados “muito importantes” pelos pais e mães – e as respostas surpreenderam. Embora tivesse prevalecido a ideia tradicional de que os pais são os provedores financeiros e esta é sua principal contribuição aos filhos, tal prioridade foi parar no fim da lista. Em primeiro lugar figurava “demonstrar amor e afeição” e “dar lições de vida a eles”. Em sua grande maioria, os pais relataram estar envolvidos em uma série de tarefas diárias relativas aos filhos, desde preparar refeições, ocupar-se de certos afazeres domésticos e até transportá-los, acalmá-los e alimentá-los. Outra pesquisa mostrou que, desde os anos1970, os pais triplicaram o tempo que permanecem em casa dedicando-se a esta atividade não remunerada que é cuidar de seus filhos.

Embora já seja certamente um avanço, em média os pais ainda fazem apenas metade do trabalho doméstico não remunerado que as mães executam. No estudo do Better Life Lab, apesar de tanto os pais como as mães terem dito quase na mesma proporção brincavam com os filhos diariamente, a probabilidade maior foi de as mães assumirem todas as demais tarefas cotidianas.

A menos que os pais assumam parcela mais equitativa desse trabalho – principalmente durante a pandemia – , as mães continuarão a se esfalfar na dupla “jornada dupla” de trabalho remunerado e trabalho não remunerado que tanto mantém a desigualdade de gênero como cria angústia e desgaste psicológico.

Então, onde os pais precisam avançar? Os maiores gaps entre o que as mães e os pais dizem que fazem para os filhos está no apoio às tarefas escolares, organização de horários e outras atividades. Essa descoberta reflete algo que os pesquisadores observam há muito tempo: algumas atividades na criação dos filhos são um tanto invisíveis e acompanhadas de uma “carga mental” mais pesada que outras, e a probabilidade de as mães serem responsáveis por elas é bem maior. Num estudo recente elas relataram realizar o “trabalho cognitivo” para a família – como suprir necessidades (exames físicos anuais dos filhos), monitorar o progresso (foram bem nas provas!), identificar opções (em que dia estão livres para a consulta com o pediatra) e tomar decisões (vamos marcar a consulta para sexta-feira da semana que vem). Esse trabalho toma tempo e é cansativo. Pior, os pais relatam ter pouca consciência desse trabalho, o que pode ter efeitos prejudiciais no relacionamento conjugal e no trabalho remunerado das mães. À medida que 2020 chega ao fim – com muitas famílias ainda sem trabalhar em tempo integral, sem assistência e educação presencial dos filhos em virtude da pandemia -, o problema se agrava.

SOLUÇÕES PARA AS FAMÍLIAS

Que será preciso fazer para envolver mais os homens nas tarefas domésticas visíveis e invisíveis, agora e depois que a pandemia acabar? Primeiro, eles precisam reconhecer o que nãoestão fazendo e passar a fazê-lo. Apresentamos algumas ações que os pais podem assumir para ajudar a si próprios e à família:

RECONHECER O GAP ENTRE ASPIRAÇÃO E EXECUÇÃO.

Embora a maioria dos pais acredite que está dividindo equitativamente o trabalho não remunerado em casa, as evidências mostram o contrário. Comece uma conversa franca com seu companheiro sobre quem faz o que, e quanto tempo leva. De acordo com uma pesquisa em Fair Play, livro escrito por um de nossos coautores, Eve Rodsky, o maior obstáculo para esse tipo de conversa é hesitar em convidar o companheiro para conversar por medo de ser “rejeitada”, “dispensada”, ou “mal compreendida”. Usar uma ferramenta lúdica para o convite pode trazer leveza e eliminar as emoções da conversa.

FOQUE NA EQUIDADE, E NÃO EM DIVISÃO MEIO A MEIO.

Eve também argumenta que o foco deve estar na pessoa da relação “que assumiu”‘ uma série de responsabilidades domésticas – desde a concepção e planejamento até a execução. Discuta e entre em acordo prévio sobre o valor de cada tarefa. Depois decida quem deve fazer o que dependendo da disponibilidade, capacidade e compreensão de que fazer o trabalho doméstico que demanda tempo e assistência às crianças tradicionalmente atribuída às mulheres não deve ser prisão perpétua de uma só pessoa nem ser determinada por uma função de gênero. Isso resultará em divisão justa e não em divisão ainda maior – e estudos mostram que a percepção de divisão justa pelas duas partes é mais forte indicador de união saudável que a divisão propriamente dita do trabalho doméstico.

Em termos práticos, que significa isso? Apropriar-se por completo das responsabilidades familiares é vital para a equidade na relação. Se cuidar dos esportes extracurriculares dos filhos é tarefa do pai, então não basta ele aparecer todos os sábados nos treinos. Ele precisa também preencher formulários médicos, pegar os uniformes, pedir as chuteiras (e devolvê-las quando já não servirem), lembrar-se de colocar filtro solar e água na mochila e conseguir carona solidária para os treinos.

PARTICIPE PREVIAMENTE COM SEU COMPANHEIRO DAS TOMADAS DE DECISÃO DE CURTO E LONGO PRAZO.

Escolhas consensuais e programadas de “quem faz o quê” diminuem a fadiga das decisões diárias e fortalecem a relação. Especificamente, acordos entre casais podem ser utilizados para definir expectativas. Há uma mágica que transforma a vida nesse tipo de pensamento de curto e de longo prazo. A vida se torna muito mais fácil quando se sabe quem vai pôr a mesa do jantar antes que qualquer um sinta fome.

APOIE INCONDICIONALMENTE A CARREIRA DE SEU COMPANHEIRO.

A pesquisa mostra que, no longo prazo, casais em que cada um tem sua carreira fazem concessões ao priorizar a carreira de um em favor da do outro ao longo da vida profissional de ambos. Particularmente, em relacionamentos heterossexuais cisgêneros o cônjuge masculino acostumado aos papéis e roteiros de gênero mais tradicionais pode iniciar a conversa sobre como se planejar para mostrar apoio às exigências e responsabilidades profissionais da companheira. Se você acha que as exigências da carreira de seu cônjuge são maiores, ajuste sua própria carreira e apoie-o incondicionalmente.

FALE NO TRABALHO.

Manter-se preso a visões ultrapassadas de igualdade pode resultar em conversas profissionais difíceis. Apesar do estigma associado aos homens que aproveitam a licença- paternidade, licença por doença na família e arranjos flexíveis no trabalho, agora é a hora de eles começarem a tratar com os chefes e gestores do acesso a esses benefícios.

Se você não sabe se está pronto para advogar em causa própria, forme uma coalizão de pais em sua organização para criar um consenso e falar coletivamente. Fale com seus colegas. Segundo Josh Levs, autor de All in, para os homens é muito útil conversarem com mulheres ou com outros homens na empresa nestes termos: “Oi, não consigo descobrir como levar meu filho à escola antes de vir trabalhar. Como você faz?”. E se você decidir falar com seu chefe, conheça antes as políticas da empresa, tenha um plano e seja realista ao expor limites e expectativas.

SOLUÇÕES PARA AS ORGANIZAÇÕES

Ações individuais podem ajudar muito, mas não são suficientes. O apoio dos líderes da organização é igualmente importante. As empresas precisam reconhecer que, para o bem-estar individual e saúde de nossa sociedade, uma hora segurando a mão de uma criança no consultório do pediatra deve ter o mesmo valor que uma hora passada na sala de reuniões. Aqui estão algumas formas dos chefes poderem ajudar os pais que trabalham a serem aliados em casa:

NÃO PRESUMA QUE OS PAIS TÊM UM COMPANHEIRO OU COMPANHEIRA QUE FICA EM CASA.

Muitos homens são pais solteiros ou têm uma companheira que trabalha em tempo integral. Muitos gestores põem em prática uma norma antiquada segundo a qual os pais modernos não assumem responsabilidades familiares. Estes, consequentemente, se sentem obrigados a priorizar o trabalho remunerado e tendem a não dar importância à sua vida familiar. Os gestores compreensivos terão maior probabilidade de estabelecer limites claros sobre as responsabilidades profissionais para que os funcionários não precisem fazer escolhas desse tipo.

Um exemplo é especificar períodos em que as reuniões podem ser marcadas, assim, os pais que trabalham têm a flexibilidade de se envolver na assistência às crianças e nas tarefas escolares em casa. Também é importante entender e explicar quando e porque um serviço é realmente urgente – se ele tiver consequências graves para a empresa, por exemplo – e quando um prazo final flexível pode ser aceitável.

QUE SIGNIFICA UM MODELO DE COMPORTAMENTO DOS PAIS.

Reconheça que o que você diz e faz como líder impacta os outros. Quando você elogia as pessoas que trabalham até tarde da noite, por longas horas e fins de semana, está passando uma mensagem clara do que você espera.

No livro Goodguys (escrito por dois de nossos coautores, David G. Smith e W. Brad Johnson), lideres seniores homens considerados bons exemplos a ser seguidos nas empresas falaram abertamente da própria família. Eles mantinham sobrea mesa de trabalho fotos da esposa e dos filhos. Alexis Ohanian, fundador da Reddit e CEO da lnitialized Capital, fala aberta e orgulhosamente de seu papel como marido da estrela do tênis Serena Williams e como pai de Olympia. Quando ela nasceu, ele tirou 16 semanas de licença – paternidade remunerada.

Esses homens não escondem suas prioridades, responsabilidades e compromissos na criação dos filhos. Ao contrário, quando tiram folga, fazem questão de anunciá-la como exemplo a ser seguido.

OS MELHORES ARRANJOS DO TRABALHO FLEXÍVEL OFERECEM GENEROSAS LICENÇAS MÉDICAS E LICENÇAS DE ASSISTÊNCIA AOS FILHOS E À FAMÍLIA.

Se sua empresa já oferece esses benefícios e programas, estimule os líderes homens a aproveitá-los, uma vez que eles costumam pensar que se aplicam somente às mulheres (muitas vezes sendo prejudicados no processo), o que estigmatiza os homens.

Depois, dê mais um passo: acompanhe a frequência com que esses benefícios são usufruídos. Você pode descobrir que alguns gestores não permitem que seus funcionários os utilizem, apesar da política da empresa. Desde que você saiba onde a política está sendo ignorada ou subutilizada, é mais fácil perceber onde as mudanças precisam ser feitas. “Se a política da empresa é permitir arranjos flexíveis, mas seu gestor diz não, voluntarie-se para liderar um novo arranjo por alguns meses; é importante acompanhar e, se necessário, fazer alguns ajustes finos”, observa Joan Williams, coautora de What worksfor women at work.” Em geral, isso é suficiente para mostrar a um gestor recalcitrante que o que você está sugerindo funciona bem.”

APOIE OPÇÕES DE ACESSO À ASSISTÊNCIA ÀS CRIANÇAS A PREÇOS RAZOÁVEIS.

Principalmente na atual crise da covid-19, as opções de assistência acessível e disponível às crianças são críticas para as empresas. Seja um defensor enfático dos esforços de sua empresa para encontrar soluções que funcionem para pais e mães. Isso se tomará mais importante ao longo do tempo, à medida que o acesso à assistência às crianças for necessária para recrutar a geração mais jovem de funcionários. Resultados de pesquisas da Nex100 e Gen Forward mostram que assistência de alto padrão e a preço acessível é a principal prioridade dos millennials e da geração Z.

Quais seriam as possíveis soluções? Desde maio, por exemplo, a Cleo, empresa de benefícios a pais de família, colaborou com a Urban Sitter para, trabalhando direto com os empregadores, ajudar os funcionários a encontrar cuidadores qualificados ou cooperativas para os filhos. Além disso, empresas como a Apple e Microsoft estão subsidiando apoio assistencial aos filhos de alguns funcionários ou até reembolsando-os pelo pagamento feito aos cuidadores.

Além disso, se sua empresa tem contatos com os legisladores das esferas de governo federal ou estadual, peça aos líderes seniores que defendam seus interesses em programas de assistência às crianças que possam ajudar maior número de pais a voltar ao trabalho. Em junho, por exemplo, 41 Câmaras de Comércio locais e estaduais escreveram ao Congresso pedindo auxílio financeiro para os provedores de assistência infantil do país – cerca de metade deles afirmou que podem ser obrigados a fechar permanentemente.

Essas questões destacam apenas alguns dos terríveis desafios que as famílias enfrentam à medida que 2021 se aproxima rapidamente do fim. As mulheres não devem arcar com o peso de atravessar a pandemia sozinhas.

Na ausência de uma infraestrutura pública robusta para ajudá-las a resistir à tempestade, ou a cutucar os homens para que assumam papéis mais ativos em casa, os pais que trabalham e os empregadores nos EUA têm a oportunidade única de eles mesmos promoverem a mudança. Os pais afirmam que estão prontos para se envolver mais em casa, e a pandemia criou uma necessidade urgente de fazer com que homens e mulheres se envolvam igualmente. A hora de agir é agora: igualdade de gênero não pode esperar pelo fim da pandemia.

AS MÃES MOSTRAM MAIOR PROBABILIDADE QUE OS PAIS DE ASSUMIR TAREFAS DOMÉSTICAS

Se os pais não assumirem parcela mais equitativa dessas tarefas – principalmente durante a pandemia -, as mães continuarão a se esfalfar na “jornada dupla” de trabalho remunerado e trabalho não remunerado que tanto mantém a desigualdade de gênero como cria angústia e desgaste psicológico.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDAH – O FANTASMA DOS MEDICAMENTOS

O uso crescente da Ritalina, droga utilizada no combate ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, quebra recordes no Brasil e preocupa pelo fato de o estimulante estar sendo usado de forma indiscriminada

A questão da prescrição de medicamentos deve ser tratada com cautela. Em 2012, fui uma das participantes de uma seleção de reportagens no jornal O Estado de Minas, cujo título era “Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade”. Belo Horizonte foi considerada a segunda capital que mais consumia a Ritalina. Alguns dados da Anvisa, além de informações em diversos sites e fontes, me inquietaram ainda mais.

Eu me vi perplexa, e continuo até o momento, mediante o aumento (ainda mais) da utilização desses e outros medicamentos por crianças, jovens e também adultos, sendo eles muitas vezes pessoas bem informadas, que fazem uso de tais estimulantes apenas para conseguir produzir mais ou mesmo ter “um barato diferente”, uma sensação boa e também não tão boa, na qual já escutei em meu consultório, conforme mostro abaixo:

“Sinto-me uma máquina quando tomo Ritalina. É muito bom. Você já experimentou? Tenho tomado para as baladas e quando saio já tomo logo duas” (A. L., 17 anos). “Outro dia, eu vendi a Ritalina para alguns colegas, íamos fazer provas a tarde toda. Eles adoraram e ficaram pilhados” (R., 15 anos). “Quando tomo a Ritalina, eu me sinto bem mais atento. Mas quando o efeito vai acabando eu sinto uma raiva e não consigo me controlar, acabo gritando com meus colegas…” (A. M., 11 anos). “Ontem eu não pude fazer a prova, pois minha mãe esqueceu de me dar o remédio. Aí, você sabe como é, né? Não lembro de nada…” (I., 9 a nos). “Tomando a Ritalina me sinto inteligente e com certeza vou conseguir o sucesso que meus pais tanto esperam de mim” (A., 17 anos). Desconfio das fórmulas mágicas, do tudo ou nada. O que defendo é um reposicionamento do sujeito que sofre. Quando o sujeito está fragilizado, desenraizado, dificilmente ele consegue lutar pelos seus sonhos e, com isso, vai sendo submetido aos sonhos dos outros. Os recortes acima assinalam nossa responsabilidade como adultos frente a essa geração que se “esconde” ou “aparece” em suas insatisfações, obstruindo com os remédios qualquer possibilidade de sofrimento. Existe um temor por parte de alguns pais de como conseguir que seus filhos se tornem responsáveis pelas suas vidas e, com certeza, não será dessa forma apresentada acima. Estão mais para, com o tempo, justificar suas mazelas ao uso do medicamento.

Refletir sobre transtornos e doenças mentais solicita de todos nós, profissionais Psi, outro olhar, um olhar que ultrapasse o “parece ser”, um olhar que entenda que uma “febre” é um sintoma do que aquele sujeito pode estar carregando: pode ser uma garganta inflamada; pode ser uma virose; pode ser uma infecção urinária; pode ser uma carência afetiva… podem ser muitas coisas, a febre é apenas um sintoma. E o TDAH pode ser um sintoma do mundo contemporâneo? Um mundo que corre contra o tempo cronológico, em que pessoas vão de lá para cá, sem imaginar onde desejam chegar, um mundo em que o único sentido que crianças e jovens enxergam em suas escolas e universidades é passar de ano. Esses são alguns dos tantos impasses da civilização, que retomarei mais à frente. É assim que sigo minhas questões acerca do TDAH, tendo como ponto de partida o sujeito que sofre “aprisionado” em seu não saber.

O que me mantém esperançosa é não ter uma única resposta. Hoje, passados dois anos da publicação de meu livro, retomo minhas “inconclusões” acerca do TDAH como um sintoma social. Algo está sendo sinalizado por crianças e jovens e que, muitas vezes, não pode ser colocado em palavras. Acredito ser necessária uma escuta mais atenta e desvinculada de respostas rápidas e sem sentido. O momento contemporâneo não deve ser descartado de tantos “novos” sintomas. A educação, em alguns (muitos) momentos, vem se perdendo entre a vida (interessante) e o mercado. Com isso, muitas crianças e jovens podem estar sendo confundidos entre uma “marca” e outra “marca”, fato é que essas marcas estão cravadas em suas histórias de vida e lá permanecerão até que eles possam ser escutados.

Fico me perguntando como pensar o TDAH fora da sua relação com o saber; o desejo de saber baseado nos estudos do francês Bernard Charlot, “o saber implica o desejo: não há relação com o saber se não a de um sujeito. E só há sujeito ” desejante”, e esse desejo é desejo do outro, desejo do mundo, desejo de si próprio; e o desejo de saber (ou de aprender) não é senão uma de suas formas, que advém quando o sujeito experimenta o prazer de aprender e saber”. Dito de outra forma, não há aprendizagem, mobilização intelectual, sem que haja desejo. “Desejo do mundo, do outro e de si mesmo é que se torna desejo de aprender.” No sentido estrito, a relação com o saber é o próprio sujeito, na medida em que deve aprender, apropriar-se do mundo, construir-se. O sujeito é a relação com o saber. Diante dessa rápida explanação da relação com o saber é que fico pensando: crianças e jovens têm desejo em aprender nas escolas? Podem descobrir sobre o seu “não saber”?

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris, em que ele escrevia que: “Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia”.

Como estamos tornando nossas vidas interessantes? E a dos nossos filhos? Nossos desejos de pais nem sempre são os desejos de nossos filhos. Eu como aluna tive o privilégio de encontrar uma senhora que chamarei aqui de Tia Benedita e que, por algum motivo, ela conseguiu tornar minha vida interessante. Apresentarei esse breve texto que escrevi em sua homenagem:

“Uma vida interessante, muitas vezes, acontece no encontro com outro, aquele que coloca uma ponte entre o Não Saber e o Saber. Um encontro em que algo dos desencontros é possível de ser falado e também escutado. Foi nesse encontro que, hoje reconheço, encontrei a Tia Benedita”. Estudei minha vida toda em escolas particulares e religiosas e agradeço muito por ter tido esse privilégio. Foi a maior herança que minha família me deixou, mesmo que naquela época eu não acreditasse em tal fato e demonstrasse o contrário. Confesso que hoje imagino o que se passava na cabeça dos meus pais: “Essa menina não vai dar em nada na vida”. Confesso que não dei, talvez, o que eles quisessem de mim. Mas sou uma professora-educadora com brilho nos olhos, que ama o que faz e busca aprender todos os dias! Embora ainda hoje eu encontre “mestres” que tentam me convencer do contrário, começando pelas suas próprias posturas.

Eu sempre fui uma menina diferente do dito “normal”, detestava brincar de boneca, adorava jogar bola, colecionava estilingues, trocava figurinhas de futebol, tinha várias chuteiras e camisetas de times. Nem por isso sofri bullying, fui perseguida ou me senti diferente, até porque eu não dava ouvidos ao que não me interessava. Creio que por isso eu vivia sendo colocada para fora da sala de aula: não escutava o que não me interessava e, com isso, fui rotulada: TDAH.

Passei sete anos da minha vida escolar cumprindo castigos fora da sala de aula, já que, pelo menos duas vezes por semana, eu era gentilmente encaminhada para a biblioteca da escola (lugar de cumprir meu castigo). Ao meu lado, uma disciplinadora me conduzia por aquele longo corredor, sem poder correr… (rs.). Minutos depois, a disciplinadora me entregava à querida Tia Benedita (a bibliotecária), que me recebia com um sorriso cuidadoso, que deixou marcas positivas até hoje.

Desde aquela tenra idade, meus professores não davam conta de mim, digo desde, pois até hoje não dão. Segundo ainda escuto hoje, sou “rebelde”, questionadora, indisciplinada e, quem sabe, “burra”, já que fujo de uma forma. Boa parte dos meus castigos na infância era ler, escrever e tocar triângulo na aula de música, ou mesmo fazer argila como técnica para acalmar.

Revisitando minha memória afetiva, hoje me inquieto com crianças e jovens que recebo e, por algum motivo, não encontram em suas escolas Tia(s) Benedita(s). Quem irá acolher os alunos ditos “anormais”?

Eu me recordo, como se fosse hoje, toda vez que eu chegava na porta daquela enorme biblioteca da minha escola, eu olhava para tia Benedita, que com seu sorriso fazia eu me sentir a pessoa mais importante e amada. Benedita era linda, moça, pele negra, um lindo sorriso e muito inteligente, aquilo me deixava nas nuvens!

Ela já dizia: Entra, Paty, e nada de tristeza, venha ver o livro que separei, ele é um sonho… e assim foi, ano a ano; a cada “castigo” um novo livro, uma nova história, um novo sonho; uma porta que se abria quando todas as janelas escolares pareciam se fechar. Tia Benedita me abria o mundo e nem sei se ela soube disso.

Hoje, sou uma leitora voraz, curiosa em descobrir o mundo em cada página, inquieta como sempre, meio ” fora da casinha”. Não sou do tipo padrão intelectual, mas, apesar de tantos castigos e rótulos, sobrevivi e adoro estudar, aprender e compartilhar.

Só tenho a agradecer, sempre tive possibilidades, mesmo que difíceis. Aprendi naquela época que eu teria que decidir quem eu queria ser ou deixaria que os outros determinassem quem eu seria. E foi ali, com a Tia Benedita, que aprendi e decidi que eu seria incompleta (sempre), ou seja, jamais estaria pronta e fechada: “já aprendi tudo o que eu deveria”. Jamais! A educação mudou; a família mudou; o mundo mudou, girou, transformou, andou, voltou… Alunos e professores continuam em salas de aula, bonzinhos – silenciados, ou quando barulhentos logo são encaminhados. A questão é a qual (ais) Beneditas (s)?

Hoje, tarde de domingo, após 42 anos, aqui estou eu, lendo e escrevendo… lembrando da Tia Benedita. Hoje, ninguém mais me coloca de castigo, mas confesso que a Tia Benedita fez a diferença em meus “castigos”. Seu sorriso, seu cuidado, seu carinho, sua condução verdadeira estão em cada linha que leio e escrevo: uma mestra que me ensinou a arte de rever minhas dificuldades e lidar com elas.

TIA BENEDITA

Hoje, passados 51 anos, venho refletir sobre o TDAH, trazendo, na bagagem, minhas escolhas. Por 23 anos trabalhei diretamente na Educação, em sala de aula e coordenação, além de carregar em minha própria história uma marca de que “eu não daria em nada”. Felizmente, na época (hoje estou com 59 anos), meu tratamento foi todo conduzido junto a uma ludoterapeuta, além de uma orientação familiar e escolar (naquela época os diversos saberes conversavam bem mais do que hoje e não havia tanto acesso tecnológico, portanto o tema não era tão divulgado).

Enquanto estudante, sempre tive minhas dificuldades e as tenho até hoje. Porém, por um desejo meu consegui encontrar sentido no que fazia e faço, sempre me mobilizo intelectualmente por algum tema, sou muito envolvida com tudo que faço e consigo persistir até o término. Minha história pessoal reflete diretamente minhas escolhas profissionais e, hoje, entendo por que busquei primeiro uma formação na Educação e em seguida na Psicanálise, lugares aos quais permaneço (de forma diferente) até hoje.

FRAGMENTOS

Formei-me em Pedagogia e logo descobri que a teoria que eu via na universidade estava bem distante da minha prática vivida e sentida dentro da sala de aula. Ali eu não recebia apenas bons alunos, que se desenvolviam linearmente, de acordo com suas faixas etárias. Aos poucos, fui vendo que a criança era algo bem mais complexo do que eu imaginava, e foi aí que me encontrei pela primeira vez com a Psicanálise e comecei a estudá-la, com o intuito de abrir minha mente para poder conhecer a mente daquelas crianças e jovens. Comecei a dar a palavra às crianças e jovens, aos poucos, fui percebendo que eles não eram meros encaixes nas teorias que eu estudava, reconheci que algo me escapava. Então, revisitei o meu não saber e os diversos saberes, todos temporários e imprecisos. De lá para cá não abandonei mais minha análise pessoal e minha formação permanente em Psicanálise, hoje no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

Aos poucos, reconheci que as coisas não eram tão simples como pareciam, e hoje, passados oito anos da publicação do Cabeça nas Nuvens, reconheço que alguns enigmas ainda continuam fechados na educação. Aspectos urgentes precisam ser escutados como o reflexo das nossas palavras para as crianças. Na verdade, elas acreditam, internalizam aquilo que falamos (vejam a Tia Benedita) e é assim que venho escutando crianças e jovens que carregam seus rótulos, dentre eles o tão divulgado TDAH.

Ao concluir, mesmo que provisoriamente, que o TDAH é um sintoma social em uma “cultura do escape”, defendo o que Freud havia falado, chamando nossa atenção no sentido de que os sujeitos não se encontram na cultura de qualquer forma. Existe sempre um conflito, um mal-estar, algo que não para, e na educação contemporânea o mal-estar é visível, seja na família ou na escola. O mal-estar é inerente à existência humana. Quando entendermos ou aceitarmos tal fato talvez possamos parar de buscar tantas respostas e passemos a aprender a conviver com as diferenças.

“NÃO” PODE DESEJAR?

O sujeito inconsciente em suas manifestações sintomáticas, que afetam o corpo, promovendo agitação, perda de interesse por objetos do mundo e deflação de desejo em relação ao saber e conhecimento. Seriam esses boa parte dos nossos alunos “com” TDAH?

Quando paro para escutar alguns desses sujeitos em sua dor de existir e a palavra pode entrar em movimento, eles falam de seus desejos, daquilo que está guardado em suas “desatenções”. Crianças e jovens reconhecem em suas falas que, geralmente, não conseguem ser o que seus pais e professores esperam que eles sejam. Como vimos acima, o saber não é isento como muitos educadores e médicos acreditam e defendem.

O que venho constatando é que muitas crianças e jovens estão internalizando seus diagnósticos como verdadeiras “marcas”, e lá na sua dor de existir ficam “aprisionados” como desatentos e hiperativos. Eles não se desenvolvem em estágios como queríamos, ou, melhor, como aprendem os. Nossos “desatentos e hiperativos” estão nos mostrando, desde que possamos ver e escutar, que eles estão tentando marcar sua posição subjetiva.

Não será possível passarmos despercebidos por esse momento em que crianças e jovens pensam e sentem de formas diferentes de seus pais e professores, conforme nos mostra Bauman em seu livro Educação e Juventude (2013, p. 7): “… a crise da educação contemporânea é muito peculiar, porque, provavelmente pela primeira vez na história moderna, estamos percebendo que as diferenças entre os seres humanos e a falta de um modelo universal vieram para ficar”.

É nessa breve reflexão que faço um convite a todos. Porém, cada um em sua subjetividade. Reflita sobre sua própria experiência de existir e como vem tentando tornar sua vida mais interessante. Os sintomas contemporâneos são necessários para que o sujeito sobreviva ao que querem fazer dele, sem que ele o deseje. Será que deixar ou manter nossas crianças e jovens mais ligados será o caminho?

Outro dia perguntei a uma criança de 12 anos que chegava a meu consultório com uma latinha de “energético” na mão. Pra que isso? Rapidamente vem a resposta: “Para eu conseguir ficar ligado”. E eu pergunto novamente: “Por que você quer ficar ligado?”. E ele me responde: “Sei lá… me disseram que é bom!”.

É nesse caminho e cenário que somos convocados a rever nossa educação, ultrapassando os discursos pessimistas de “fim da história”, de “o mundo acabou”, não existe mais família”. Tais queixas ou lamentações não nos levarão a nenhuma efetiva mudança.

Sim, estamos diante de uma transição, o tempo que passou não volta mais, ele permanece apenas em nossas lembranças. O que temos hoje são diversas possibilidades e muitos convites abertos. Cabe nos perguntarmos: “Para onde caminha a educação?”. Tal desafio, dentre outros, é que nos impulsiona a ir além da mera constatação e da prescrição estreita, que de alguma forma continuamos fazendo da educação atual. Meu convite é dar um passo à frente; adentrar os subterrâneos de nossas instituições educacionais, bem como estabelecer bases e articulações para propor as relações reflexivas sobre si mesmo e sobre o outro, que possam ultrapassar alguns diagnósticos equivocados.

Quando lia contos de fadas, eu imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de uma! Deveria haver um livro escrito sobre mim. Ah, isso deveria! E quando for grande, vou escrever um.

JANE PATRÍCIA HADDAD – é mestre em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná, com formação em Psicanálise, docência do Ensino Superior, Teoria Psicanalítica e Psicopedagogia. Graduada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atuou por mais de 22 anos em escolas como professora, coordenadora pedagógica e diretora.

EU ACHO …

HUMILDADE E TÉCNICA

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse estilo (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em humildade, não me refiro à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos tão grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, e, com todo o atraso que o erro dá à vida, faz perder muito tempo.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

NA LINHA NATURAL

A tendência já vinha de antes, mas a quarentena consagrou entre as mulheres a sobrancelha grossa, com pelos fartos e levemente penteados para cima

Vem de longe, muito antes das máscaras cirúrgicas em tempos de pandemia, que privilegiam a porção superior da face, o fascínio pelas sobrancelhas. Finíssimas ou grossas, harmoniosas ou não, elas ajudam a contar capítulos decisivos da história da beleza feminina. É o que ocorre neste inesperado 2020. A novidade: adeus a intervenções exageradas nos fios, com retirada total ou parcial da penugem e a aplicação de desenhos falsos com lápis e sombra.

A dificuldade em visitar salões de beleza e uma bem-vinda e romântica louvação aos benefícios da passagem do tempo no organismo impõem, agora, um estilo, digamos, natural. É o que brota e se espalha pelas redes sociais, e onde mais poderia ser? “As mulheres foram obrigadas a lidar com perfis de beleza originais e gostaram disso”, diz o maquiador Rodrigo Costa, responsável pelo visual de artistas como a apresentadora Sabrina Sato e a atriz Marina Ruy Barbosa.

Natural, mas nem tanto assim. A rebeldia dos fios é controlada com uma escovinha, semelhante à utilizada para aplicar rímel. A ferramenta é embebida em uma mistura na forma de spray com produtos para fixar maquiagem e sabonetes. A técnica, que leva o nome de soap brow (do inglês, sobrancelha de sabão), ganhou o mundo a partir de rostos belíssimos do showbiz, como o da cantora britânica Dua Lipa e o da atriz americana Madelaine Petsch, da série Riverdale.

Contudo, como na moda a lei de Lavoisier é quem manda, porque nada se cria e tudo se transforma, o atual movimento bebe do passado. É uma versão do estilo difundido na década de 80, cuja garota-propaganda mais celebrada e estonteante foi a atriz americana Brooke Shields. A aparência quedava o tom à época era marcada pela bagunça acima dos olhos, praticamente sem intervenções, símbolo de uma geração de mulheres que começava a incluir peças masculinas no guarda-roupa, sem medo de perder a feminilidade. E a sobrancelha era quase um manifesto estético, como sempre.

Nos anos 1920, entre uma Guerra Mundial e outra, quando tudo o que se desejava era brilhar, o raciocínio era o seguinte: quanto mais chamativa a adaptação da sobrancelha, melhor. ”As femmes fatales as usavam muito finas, para parecer sensuais. Falava-se que as mulheres eram capazes de seduzir um homem apenas com o olhar”, diz João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap,) de São Paulo.

O jogo da hora não é mais o da sedução. É o da afirmação, cuja arma mais letal é a simplicidade. Com uma vantagem: a naturalidade autoriza toda mulher a mexer na aparência quando e como quiser. “Mudanças permanentes não são boa ideia porque as sobrancelhas datam em muito pouco tempo”, alerta Braga. O desenho livre, leve e solto, portanto, tem tudo para permanecer – até que outro o desbanque. Vale seguir o comentário de Angelina Jolie: “Estou com uma ruga acima da sobrancelha porque simplesmente não consigo parar de levantá-la e adoro que você saiba”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE MAIO

CONHECE-TE A TI MESMO

A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho, mas a estultícia dos insensatos é enganadora (Provérbios 14.8).

O grande reformador João Calvino afirma na introdução das Institutas da religião cristã que só podemos conhecer a Deus porque ele se revelou a nós. Isso está acima de questionamento. Também é uma verdade incontroversa que só podemos conhecer a nós mesmos pelas lentes da sabedoria. O pecado tornou-nos seres ambíguos, contraditórios e paradoxais. Somos seres em conflito. Em conflito com Deus, com o próximo, conosco mesmos e com a natureza. Há uma esquizofrenia instalada em nosso peito. O bem que queremos fazer, não o fazemos, mas o mal que não queremos, esse praticamos. O prudente é, portanto, aquele que busca entender o seu próprio caminho à luz da Palavra de Deus, pela iluminação do Espírito Santo. O tolo, com sua estultícia, além de viver enganado acerca de sua identidade e seu destino, ainda faz da vida uma corrida inglória com o propósito de enganar os outros. O tolo não sabe o que faz. Sua vida é uma miragem. Seus conselhos são perversos. Seus lábios são cheios de engano. Seu caminho desemboca na ruína. Precisamos orar como o salmista: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos (Salmos 139:23).

GESTÃO E CARREIRA

UMA SAÍDA PARA OS PAIS QUE TRABALHAM

Como se sentir mais confiante, conectado e no controle – durante a pandemia e depois.

Mau, culpado, fracassado, sozinho. Essas palavras soam familiares? Aposto que sim, porque, nos últimos anos, foram as que mais ouvi nas minhas sessões individuais de coaching com pais que trabalham.

E era assim antes da covid-19.

Nos últimos meses, administrar o trabalho e os filhos pequenos passou rapidamente de desafio complexo e contínuo a crise total. Tivemos de lidar com as atividades profissionais em tempo integral, cuidar da casa em tempo integral e supervisionar as atividades escolares de nossos filhos – sem contar com nossos sistemas de apoio normais. Uma de minhas clientes voltou ao trabalho depois de sua primeira licença-maternidade em março e, desde então, trabalhou sem parar, sem nenhuma assistência externa ao bebê. Como acontece com tantos outros pais, ela se pergunta por quanto tempo ainda conseguirá “aguentar”. Outros pais que aconselhei e entrevistei estão tentando descobrir como gerenciar atividades da linha de frente e aprendizado à distância, ou manter seu salário e ao mesmo tempo cuidar de uma criança com necessidades especiais 24/7.

Acredito ser justo afirmar que em 2020 tivemos baixas de pais que trabalham.

Eu não vejo a hora desta pandemia acabar. Sou profundamente grata pelo que tenho – saúde, família, trabalho, um lar – e com absoluta consciência de que para outros é muito mais difícil. No entanto, enquanto escrevo este artigo, com meu laptop sobre a bancada da cozinha, com um olho nos e-mails dos clientes e outro em minha filha de sete anos que neste momento está terminando a tarefa de matemática, eu imagino como encontrar a porta do alçapão que possa me libertar desta armadilha num passe de mágica. Se você está enfrentando o desafio terrível de conciliar carreira com o lar, estou certa de que está sentindo o mesmo.

É natural se sentir abatido e com saudade da vida pré-pandemia (quem não está um pouco saudoso de 2019?), mas não podemos deixar que esses sentimentos e desejos nos levem ao pensamento de curto prazo. Estamos trabalhando e estamos cuidando dos filhos estamos juntos nesta. E precisamos encontrar formas, ainda que paliativas, de torná-la menos miserável – para retomar algumas medidas de controle.

Precisamos também começar a criar um modelo de pais que trabalham para quando a pandemia acabar, por mais distante que isso possa parecer. Este novo normal foi estressante, insuportável, opressivo – mas não devemos voltar para o antigo normal porque, por mais cor-de-rosa que ele agora pareça, antes de 2020 a vida para os pais que trabalhavam não era nada boa. Nesta situação terrível, e com tantas mudanças, temos de adotar uma abordagem diferente – que ajude a moldar nossas próprias experiências de pais profissionais.

No artigo descrevo o que seria paternidade 2.0 [working parenthood 2.0, no original) e apresento alguns passos simples e factíveis para começar – passos possíveis de trazer algum alívio imediato. Vou focar abordagens e ações individuais, ainda que aparentemente contraintuitivas. Apoio estrutural genérico para pais que trabalham – licença-maternidade/paternidade e creche a preços acessíveis, por exemplo – é absolutamente essencial, enão há dúvida de que estamos ficando para trás nesse quesito. Mas nos libertarmos – e ajudarmos a libertar outros – de nos sentirmos culpados, fracassados e sozinhos é fundamental para diluir o que resta da crise e encorajar as grandes mudanças de que nossa família, organização e a própria sociedade tanto precisam.

Antes de mergulharmos no 2.0, vamos primeiro analisar como chegamos a este caos. Feito isso, estaremos prontos para começara encontrar a saída.

A ARMADILHA DO MAU, CULPADO, FRACASSADO, SOZINHO

Um dos equívocos mais prejudiciais que ouvi de pais que trabalham – e ouvi todos os dias – é que eles estão se matando, enquanto outros pais estão administrando bem e até progredindo. Em outras palavras: não é só você. O tipo de problema prático que você enfrenta e seus sentimentos mais profundos e frustrantes sobre ele são comuns e totalmente normais. Como uma das poucas pessoas que passou anos sentada do mesmo lado do ringue observando as atuais realidades de pais que trabalham, aposto que estas realidades não são as mesmas com as quais você está se comparando.

Ao contrário, quando você pensa em “pais que trabalham” talvez lhe venham à mente seus pais ou seus avós, que, apesar de trabalharem para ganhar a vida, se sentavam para jantar com os filhos todas as noites. Ou os líderes seniores de sua organização que, de alguma forma,conseguiam fazer que seus funcionários que eram pais trabalhassem a contento. Ou até os antigos programas de TV que vocêassistia quando jovem, nos quais os pais equilibravam a vidapessoal e a vida profissional sem muito esforço.

Essas impressões o levaram a acreditar que isso é passível se eu trabalhar muito ou que bons pais fazem as refeições com os filhos, ou algo assim. Mas é provável que sua vida seja muito diferente do modelo fortemente arraigado de pais que trabalham. Naqueles programas de TV, geralmente um dos pais trabalhava e o outro se encarregava das tarefas domésticas.

Atualmente isso só é verdade para 25% das famílias americanas cujos pais trabalham. As demais são formadas por casais em que cada um tem sua própria carreira ou por pai ou mãe solteira. Antigamente era comum os membros da mesma família trabalharem grande parte da carreira na mesma empresa. Mas, estatisticamente falando, é provável que vocêesteja em seu emprego atual há apenas quatro anos e sentindo a necessidade de analisar seu perfil do LinkedIn durante o período em que está com a família. E não pense que porque seus modelos inspiradores tiveram filhos antes de 2007, hoje, como bombardeio de mensagens, pressões e expectativas criadas pelo smartphone, eles já não precisam trabalhar e cuidar desses filhos. Em outras palavras, não pense que a condição de progenitores que trabalham é mais difícil que o modelo que vocêcriou na verdade é mais difícil sim. Como a pandemia revelou com tanta eloquência, carregamos uma carga extraordinariamente pesada, pois mesmo in extremis somos abandonados à nossa própria sorte enos prendemos a expectativas irrealistas.

Esse desequilíbrio é um dos maiores gatilhos do mau, culpado, fracassado, sozinho. Funciona assim: durante o tempo que supostamente deveria ser dedicado à família, você recebe uma mensagem importante de um colega. Você se afasta dos filhos para atendê-lo – pela enésima vez esta semana – e se sente pressionado e culpado: eu preciso responder, mas estou novamente ignorando as crianças. O dilema pode surgir na situação inversa: você se afasta do trabalho para atender um filho doente ou supervisionar a lição de casa.

À medida que os problemas se acumulam, seus valores – sua identidade – começam a fazê-lo sentir culpa: Porque não resolvi isso? Sempre fui funcionário esforçado. Eu deveria ser capaz de lidar com isso. Outras pessoas conseguem (lembrete: não conseguem).

Como você se sente incapaz de “resolver” a situação, a tensão e a autocrítica escalam: que tipo de mãe/pais ou eu, fazendo estas escolhas na carreira e dando pouca atenção aos meus filhos? As crianças precisam de mim, mas meus colegas estão observando. Agindo desta forma eu nunca vou ser promovido. Agora, perturbado com as emoções negativas, você começa a fazer comparações com grandes figuras: meus pais se sentavam para jantar conosco todas as noites. Porque eu não consigo? Eu era excelente profissional e pai presente, mas nesta pandemia não sou nem uma coisa nem outra.

Tudo começou com um único e-mail, e agora – pronto! – você está se sentindo arrasado, cansado, cheio de conflitos e sozinho. E se você fizer parte de um grupo que não está sempre ativamente incluído no diálogo entre pais que trabalham – se você é genitor LGBTQIA+ ou o único genitor de uma criança maior, por exemplo -, a sensação de isolamento pode ser ainda mais aguda.

É um péssimo lugar para estar, e quando você está assim perturbado e esgotado, é extremamente difícil ser o melhor pai/mãe do mundo ou ter desempenho espetacular no trabalho. E se todos os 50 milhões ou mais de mães e pais americanos que trabalham (ou de outras nacionalidades) continuarem todos se sentindo maus, culpados, fracassados e sozinhos ou sofrendo de um caso agudo de “porque não consigo fazer este trabalho?”, como poderemos apoiar uns aos outros de forma vigorosa e eficaz ou defender políticas e programas tão necessários?

Quero deixar claro que não estou sugerindo que nós, de alguma forma, estamos nos culpando pela presente situação dos pais que trabalham, nem isentando corporações, governos e instituições. Mas acredito que, como indivíduos e como colegas de pais que trabalham, podemos contribuir para a solução mudando nossa abordagem. Na paternidade 1.0 nós apertávamos o cinto e nos obrigávamos a fazer as coisas funcionarem, qualquer que fosse o custo. Precisamos parar de fazer isso e sermos mais realistas e autênticos em nossas duplas funções e, ao mesmo tempo, melhores guardiões e defensores de nós mesmos – e uns dos outros.

COMO É A PATERNIDADE 2.0

Apresentamos a seguir nossa visão das vantagens da paternidade 2.0 e explicamos porque é possível conciliar carreira e família de forma viável, direta e satisfatória por meio de algumas iniciativas especificas e poderosas.

Penso na 2.0 com quatro elementos essenciais: (1) visão franca e sem apologia de sí mesmo, como pessoa única, inteira e completa – mesmo quando se desempenham duas funções distintas importantes; (2) conexões mais abertas, frequentes e satisfatórias com outros pais que trabalham (e com colegas que não têm filhos); (3) ampliação das conexões com pais que trabalham; (4) talvez o mais importante: visibilidade e ação.

Esses elementos são somente o começo, mas hão de eternizar-se. Eles podem nos ajudar a atravessar o que resta da era covid-19 e a tornar muito bem-sucedido o trabalho dos pais e mães, com reflexos para todos nós. Alguns talvez lhe pareçam mais viáveis ou menos, ou até devastadores. Meu conselho: faça o que é possível agora, mesmo que esse possível seja uma ação apenas. Qualquer que seja o caso, trate de levá-la adiante – para você mesmo, seus chefes ecolegas, sua organização.

PARA VOCÊ MESMO.

Para evitar o mau, culpado, fracassado, sozinho, desenvolva seu próprio senso de confiança e controle. Há, certamente, várias formas de fazer isso, e se você já descobriu esse exercício, ou talvez uma prática espiritual, tutoria, um hábito qualquer ou uma comunidade que o ajude a manter-se energizado e no comando, então não abra mão desse recurso de jeito nenhum. E acrescente estas duas abordagens, que tanto beneficiaram a maioria dos meus clientes e certamente beneficiará também a você.

Crie linhas de separação entre trabalho e família. Durante anos alimentamos a ideia bem-intencionada de que é possível conciliar, em perfeita harmonia, as duas esferas da vida, trabalho e família – por exemplo, assistir ao campeonato esportivo dos filhos e, ao mesmo tempo, ficar de olho nas mensagens do escritório que não param de chegar. Infelizmente, e sobretudo agora, durante a pandemia, todas as linhas divisórias desapareceram. É como se não houvesse separação entre trabalho e família. Passamos a maior parte do tempo no modo tela dividida, super vigilantes, esforçando-nos para cuidar dos filhos e a um só tempo entregar as tarefas profissionais, desgastados e, em ambos os casos, com a sensação de ineficiência – isso dói. Está na hora de (re)marcar nossas linhas divisórias.

Nos próximos dias, trace uma linha entre carreira e filhos, e faça o possível para ater-se a ela. Essa linha pode ser real ou virtual. Se você está trabalhando remotamente, leia as mensagens apenas na sua escrivaninha; pense em si mesmo como profissional “funcional” só quando estiver usando sapatos, e não chinelos; ou decida desligar-se do trabalho em determinada hora todas as noites; se trabalhou o dia todo ou a noite toda na empresa, aproveite o trajeto de volta ao lar para esvaziar a mente e dedicar-se por completo aos seus filhos.

Você talvez tenha de fazer várias dessas mudanças dia após dia, mas toda vez que o fizer, tente estar completamente presente, seja em uma reunião, seja em uma videoconferência, seja na hora do jantar com as crianças. Se isso parece ambicioso, tente pequenos passos, como ficar longe do celular por 20 minutos todas as noites e, gradualmente, prolongue esse tempo. Você ainda terá muito trabalho pela frente, mas criar essas linhas divisórias pode trazer algum alivio. Separe as coisa se se sentirá mais atento, competente, e mais você em cada esfera.

Reposicione-se. Provavelmente você foi aconselhado a “livrar-se da culpa de ser pai/mãe que trabalha”. Mas isso é impossível. Culpa é o natural subproduto emocional da ação, mesmo em pequena escala, o qual se contrapõe aos seus mais íntimos valores. Se você acredita no bordão meus filhos em primeiro lugar, mas não cumpre a rotina de pôr seus filhos na cama preferindo cumprir (mais um) prazo de trabalho, sentirá pressão e autorrecriminação. Você não consegue “livrar-se” desse sentimento porque, livrando-se, ou você renuncia a ter seus filhos no centro de sua vida ou, de alguma forma, toma-se impermeável à suas próprias emoções, como um sociopata. O que o ajudará a baixar a temperatura, e o que você pode fazer, é reposicionar-se: finque as estacas de seus valores firmemente, mesmo em situações difíceis. Digamos que você não estava presente na hora de seus filhos irem para a cama porque precisou atender mais uma ligação ou trabalhou além do horário habitual, e eles ficaram magoados. Quando surge a culpa, diga a si mesmo, meus filhos em primeiro lugar, e minha prioridade é estar em casa com eles. Por necessidades profissionais – o trabalho que faço para sustentar nossa família – não estarei presente esta noite quando as crianças forem dormir. Isso não muda meu comprometimento ou quem eu sou. Sou mãe/pai devotada(o), e meus filhos vêm em primeiro lugar. Ao se reposicionar, você reconhece o conflito e a completa realidade do que está acontecendo, mas continua no controle do território emocional. É óbvio que se você está constantemente trabalhando além do horário habitual e em condição interminável de reposicionamento, você terá de recuar. É um reposicionamento honesto, não uma atitude defensiva.

Se para você é difícil se reposicionar no momento, faça uma pequena previsão. Examine sua agenda da próxima semana e verifique quando poderá naturalmente sentir-se um pouco culpado ou em conflito – nesse prazo, na quarta-feira, por exemplo. Quando chegar o dia e aparecerem os sentimentos negativos, você estará mais bem posicionado para dominá-los.

COM SEU CHEFE E COLEGAS.

Se esta pandemia teve algum resultado positivo, foi a maior abertura (embora forçada) do que significa de fato conciliar a carreira com a vida familiar. Antes da pandemia, você pode ter deliberadamente diminuído a quantidade de “assuntos relacionados aos filhos” que levava para o trabalho e se envergonhado quando eles ligavam interrompendo o seu trabalho. Agora isso já não é possível, então nos tornamos mais diretos, acessíveis, já não ficamos constrangidos perante chefes e colegas por assistir nossos filhos. Como resultado, começamos a perceber que não estamos só sem nossos problemas e lutas. Agora podemos dar os próximos passos para sermos visíveis e “estarmos juntos nesta”. Aborde as questões de pais que trabalham em um contexto relacionado à carreira e não à tarefa. Seu chefe viu seu filho de quatro anos correr pela casa durante uma chamada de vídeo. Foi um episódio isolado. Mas como você abordará a “questão de pais que trabalham” na próxima conversa que tiver sobre promoção, avaliação de desempenho ou feedback – ou entrevista de emprego? No passado você provavelmente não teria levantado a questão. Situações como essas teriam sido estritamente profissionais.

Nas reuniões de fim de ano, quando suas realizações forem discutidas, se você deixar escapar algo que não pretende, talvez até consiga alguns créditos: Em 2020 trabalhei tantas horas quantas no ano anterior, e fiz isso enquanto administrava desafios pessoais significativos na minha condição de pai/mãe de duas crianças. Você não estará se queixando nem se vangloriando: estará simplesmente admitindo a realidade do que realizou. Isso talvez possa parecer embaraçoso – mas foi assim que o meu caçula que mal andava apareceu numa tela pela primeira vez.

Se você está preocupado com o trabalho, ou está em um setor ou cadeia de comando onde testar os limites simplesmente parece impossível, converse a portas fechadas com um mentor sobre seus planos de longo prazo no que diz respeito à flexibilidade. Ou peça a um colega mais sênior que o oriente como melhor gerir carreira e filhos. Até os colegas mais ríspidos amolecem quando solicitados a dar conselho pessoal. A questão é ajudar a tornar normal um tópico que pode ter sido considerado tabu.

SEJA INCLUSIVO.

Um hábito que observei em empresas que favorecem os funcionários que são pais é ajudá-los de forma visível, por exemplo, dando flexibilidade aos que têm filhos pequenos e aos que voltaram da licença-maternidade/paternidade – enfim, aos que mais precisam de ajuda.

A parte talvez mais difícil de administrar é que os pais que trabalham podem ser homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais, biológicos, adotivos; seus filhos podem ser crescidos ou bebês – e todos acabam afetados, ainda que não se toque no assunto. Há que considerar também os que ainda não têm filhos, mas já imaginam que, no futuro, terão de conciliar carreira e família.

Pense então numa forma de atrai-los. Acolha explicitamente “todos os pais, atuais e futuros”. Se você está entrevistando um possível candidato a ser contratado, mencione seus próprios filhos e   deixe claro que a empresa valoriza quem cuida dos filhos. Se você está procurando mentores para funcionários que têm filhos, ou quer tornar-se mentor, converse com pais cuja função e perfil diferem dos seus. Se você for mãe recente, aconselhe se com um pai ou parente de adolescentes.

Um de meus clientes, uma advogada, surpreendeu-se quando um colega e sócio da empresa lhe deu “o melhor conselho” sobre a transição de um para dois filhos. Independentemente do tamanho, toda nova perspectiva pode ser muito útil. E igualmente importante, você criou um vínculo. Tanto para seu próprio benefício como para o de outros pais, amplie o círculo: encontre formas para enfatizar que estamos todos nisso juntos.

NO NÍVEL ORGANIZACIONAL.

É muito fácil esmorecer quando se é pai ou mãe que trabalha em uma grande organização – principalmente se nela existe pouco diálogo sobre as questões aqui tratadas. No entanto, você pode ajudar sua empresa ou instituição a melhorar seu apoio aos pais.

Lute pela transparência e pela agregação de benefícios. Muitas organizações optam por projetar e estruturar benefícios relevantes para pais que trabalham – mas falham em transmiti-los de forma objetiva ao beneficiário. Políticas de trabalho flexível, disponibilidade de creche e outros benefícios precisam estar ao alcance dos funcionários e ser de pleno conhecimento dos gestores. Os procedimentos têm de ser simples e claros; os formulários de inscrição, acessíveis – e não escondidos na intranet da empresa. Eu costumo perguntar rotineiramente aos clientes quais os benefícios familiares que suas empresas oferecem, e 95% das respostas é “não sei”, ou “não sei direito como se faz a inscrição”. A transparência melhorou durante a pandemia, mas seria muito melhor se as coisas fossem ainda mais claras. Caso contrário, muitas mães e pais continuarão a gastar tempo e energia e a esbarrar numa série de dificuldades para obter o apoio prático e a tranquilidade de que tanto necessitam.

Você pode não trabalhar no departamento de benefícios nem na comunicação corporativa, mas pode – construtiva e diplomaticamente – tentar obter seus préstimos. Enviar um e-mail ao RH sugerindo a criação, na intranet, de uma única página intitulada “recursos para pais que trabalham”, com opções de cliques, formulários, explicações e números de contato para obtenção de todos os benefícios relevantes. seria muito útil e apreciado. Essa comunicação completa, adotada por várias empresas com as quais trabalho economiza muito tempo organizacional (incluindo o tempo do pessoal de RH).

De forma mais básica e proativa, ofereça-se para conversar com colegas de departamento que se tornaram pais recentemente sobre a experiência que tiveram ao usar a creche do centro de apoio, ou informe ao RH que você está disposto a falar numa sessão informativa. Explicar o que deve ser colocado na sacola de fraldas antes de sair de casa ou dizer se você achou a creche bem administrada tranquiliza os pais de primeira viagem. Se você trabalha em empresa de pequeno porte, tente polidamente sinalizar ao empregador o baixo custo de alguns recursos úteis que ele pode oferecer. Talvez sua startup não tenha condição de subsidiar um centro de apoio para cuidar de crianças, mas possa pagar aos funcionários uma inscrição anual em um serviço de babás on demand.

Contribua para – ou inicie –um grupo de pais que trabalham em rede. Grupos de funcionários (geralmente chamados de redes de afinidade, grupos de apoio, ou ERGs) para pais que trabalham estão rapidamente se tornando comuns em organizações de grande e médio porte. Se sua empresa não dispõe de um, ou planeja ter um em 2021, há boas chances de que ela o faça agora. Se bem organizado, esse grupo pode ser uma forma fácil e livre de se conectar com outros pais com experiência profissional similar à sua para obter conselhos, dicas e encorajamento, e para prevenir a sensação de estar sozinho nisso. No entanto, falta a muitos grupos um foco distinto ou a ideia de como fornecer aos membros valor imediato.

Você pode desempenhar um papel importante aqui. Se sua organização ainda não tem um grupo, pense em iniciar um. Convide outros pais que você conhece – e outros pais que eles conhecem – de toda a organização para se encontrarem em um horário especifico e compartilhem dicas e truques para um desafio comum de pais que trabalham como gestão do tempo ou obter novos mecanismos de assistência às crianças. Se você mantiver os convites abrangentes e as conversas práticas, o grupo provavelmente vai ganhar força.

Se já existe um grupo, pense em se oferecer para organizar uma sessão direcionada para soluções. Reserve um horário e convide os membros da rede a se reunirem para discutir, por exemplo, os melhores aplicativos para smartphones para pais que trabalham. Ou se você é contabilista, se ofereça para explicar os créditos de imposto relacionados aos filhos (sejamos realistas: poucos de nós realmente entendem disso). Ou convide um “amigo da empresa”, com carreira em educação para discutir alguns aspectos do desafio do aprendizado remoto. Você pode ajudar a criar um canal do Slack para pais adotivos, criar um pequeno subgrupo de voluntários que aceitem receber chamadas de colegas que acabaram de voltar de licença, ou criar um programa informal entre colegas de tutoria para pais que estão pensando em ascensão profissional e em transições. À medida que fornece ajuda prática a outros pais que trabalham e ajuda a normalizar suas inquietações, você também se sente pessoalmente mais empoderado.

Se você ou os líderes de seu grupo em rede estão procurando mais conselhos sobre a composição do grupo, liderança e atividades, poderão encontrá-las em “8 formas de criar um grupo de apoio aos funcionários que têm filhos”.

Se tudo isso parece difícil de assumir ou parece muito a pedir de si mesmo neste momento, eu concordo com você. Qualquer dessas medidas parece grande. Juntas, elas são assustadoras. Enquanto me sento curvada sobre minha mesa de trabalho improvisada em casa vários meses nesta pandemia, é difícil imaginar vestir as roupas normais que uso para ir ao escritório – muito menos, me sentir forte e com o pé na dianteira testando novas mudanças como profissional ou como mãe. Até como alguém que orienta outros pais que trabalham como meio de vida. Eu vejo a introspecção, reformulação, modelagem e a defesa necessárias para fazer as mudanças que descrevi tanto ousadas e viáveis como arriscadas e arrebatadoras. E se eu demarcar linhas de fronteira profissionais e for criticada por isso, ou se minha empresa for prejudicada? E se eu me conectar com outros pais inteligentes que trabalham, mas se não conseguirmos apresentar boas soluções coletivas? E se todos nós fizermos o melhor possível e nada mudar?

Então, na sala ao lado, eu encontro a coragem de que preciso para pelo menos tentar começar. Por que ainda estamos no meio da pandemia e meus filhos estão estudando a distância, minha filha de sete anos assiste às aulas de matemática com meu velho iPad enferrujado. A professora explica associações numéricas: como juntar diferentes componentes e somar pequenas quantidades e usar diferentes caminhos para chegar à resposta desejada.

Daqui a 30 anos, não quero minha filha presa ao mau, culpado, fracassado, sozinho e você também não quer que seus filhos se sintam assim. Queremos que eles desenvolvam seu potencial máximo, como profissionais, pais e pessoas. E teremos de começar usando novos componentes e seguindo diferentes caminhos hoje para ajudá-los – e a nós – a chegar lá.

DAISY DOWLING – é fundadora e CEO da Workparent, empresa especializada em consultoria e coaching e focada em pais que trabalham. Ela é autora de Workparent: The Complete Guide to Succeeding on the Job. Staying True to Yourself. And Raising Happy Kids, a ser publicado pela Harvard Business Review Press, em maio de 2021.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONVIVENDO COM O PERIGO

Por mais incrível que possa parecer, os psicopatas estão entre nós e, pelo menos na aparência, não se distinguem das pessoas comuns. Sendo assim, o que fazer para evitar suas ações e o que acontece com as suas vítimas?

Há muitos artigos, entrevistas, livros que dão enfoque às características de psicopatas. Contudo, quase ninguém aborda o assunto do que acontece com a vítima e como se cai nessa armadilha. A primeira notícia que surpreende é que os psicopatas andam soltos entre nós e, aparentemente, em nada se distinguem das pessoas comuns, pois a imagem do serial killer que a maioria tem se aplica somente a uma pequena porcentagem dos psicopatas existentes na nossa sociedade. Vinte por cento dos presidiários são psicopatas, segundo a dra. Hilda Morana, psiquiatra, perita forense em diagnóstico de psicopatas. Mas um número enorme está fora, de 3% a 5% da população, o que significa que em cada grupo de 30 pode haver um.

Pode ser seu vizinho, seu advogado, seu chefe, já que o psicopata se coloca em todas as posições favoráveis ao controle, manipulação e exploração dos outros. Você pode estar dormindo com o seu inimigo. A desestruturação na família pode ter a causa subjacente, velada, de um membro psicopata. A desumanização de um a empresa pode ser também a ação deletéria de um psicopata, que se colocou em cargo de poder.

Psicopata também vai à escola e, não resta dúvida, devido à porcentagem mencionada, de que em cada escola haja no mínimo um, representando um perigo ambulante aos alunos e professores nas salas de aula, nos corredores, no recreio, nos banheiros. Quais os perigos que uma criança psicopata oferece? Desde roubo, bullying (nem todo bully é psicopata, mas todo psicopata é bully), fomentar brigas, conflitos, machucar “sem querer” os colegas, até incendiar a secretaria da escola para queimar um boletim que ele não gostou.

Com o aprendizado, o amadurecimento, o psicopata vai adquirindo mais conhecimento para realizar suas manobras, vai sofisticando suas táticas, procura profissões que lhe proporcionem um melhor conhecimento dos seres humanos. Fazer Psicoterapia lhe fornece mais informações para driblar a guarda dos especialistas, já que nada muda sua condição. Até hoje não se encontrou cura para esse distúrbio de personalidade, que nem é considerado doença na CID- 0, onde figura sob o número 60.2.

Traumas de infância, maus-tratos, violência não geram um psicopata. Isso gera psicoses, neuroses, mas não psicopatia. Um psicopata nasce psicopata e morre psicopata. Não aprende com a experiência, não aprende com punição, reincide, repete sempre o mesmo script. Por não ter emoções procura excitação constante para atenuar o tédio terrível no qual vive. Uma conduta errática que desestabiliza qualquer empreendimento e impede uma construção permanente em todas as áreas da vida: afetiva, financeira, profissional, social. A exacerbação do egoísmo leva à megalomania. Os outros pouco ou nada importam, só ele. E se considera superior. A dificuldade de ser reconhecido como tal aumenta sua periculosidade e facilita sua penetração em todos os meios que escolhe explorar.

Na grande maioria dos casos, a vítima começa a desconfiar que esteve na mira de um deles depois que já caiu na armadilha, depois que sua vida financeira, profissional, pessoal, social, afetiva foi destruída, depois que já está sugada e reduzida a um trapo humano. Isso quando não pereceu de vez, ou por meio de uma emboscada bem planejada e disfarçada, sem pistas que levem ao verdadeiro autor, como um aparente acidente de carro, ou no aparente suicídio, quando o psicopata usou as mãos da própria vítima para exterminá-la. Não estão seguros, tampouco, os familiares e os amigos da vítima, que podem ser atacados por substituição.

ALERTA

Alertar a sociedade é de urgente utilidade pública. O primeiro passo é informar e esclarecer. Para a grande maioria das pessoas é quase impossível conceber que um ser humano, aparentemente humano, não tenha sentimentos humanos. Um ser para quem a dor do outro não importa. Um ser que olha para o outro não como um semelhante, mas como um objeto utilitário. Uma criatura que é totalmente amoral. É quase impossível conceber que por trás daquela máscara encantadora, inteligente, genial, sedutora, bondosa, honesta se esconde uma criatura tenebrosa.

Quando se olha atentamente para a expressão de um psicopata tem-se a perturbadora sensação de que não tem ninguém em casa. É quase como se olhássemos para um robô bem fabricado. Tanto é que um psicopata não sabe dançar. Pode repetir mecanicamente e até à perfeição os movimentos da dança, mas, se você observar bem, não há sentimento, por isso é sem graça.

Como não valoriza nada, nem sabe o que são valores (sabe apenas teoricamente), roubar, mentir, usar, descartar, manipular são ações inconsequentes para ele. É sua atividade preferida e natural. Mesmo quando dizer a verdade poderia lhe ser mais vantajoso, não o faz pelo prazer do domínio sobre o outro que a mentira lhe proporciona.

Não tem problema algum em ser pego em flagrante na mentira. Inventa qualquer desculpa e continua andando. É importante prestar atenção nas inconsistências. O psicopata pode dizer que gosta de nadar e, em outra ocasião, que nunca entrou numa piscina, no mar ou no rio. Psicopata também erra. Embora jamais admita. E os culpados sempre são os outros, nunca ele.

Um efeito colateral da mentira é a capacidade inconcebível de convencer os outros, que o psicopata exerce à vontade. Seu discurso pode levar à ovação delirante da plateia, mas, se prestar atenção, se vê que é um discurso superficial, não há vivência que lhe dê suporte, só palavras jogadas habilmente. Ele as usa como arma para conseguir o que quer, inclusive enlouquecer a vítima com uma salada de palavras. Algo aparentemente lógico, aparentemente encadeado, mas sem nexo algum. Outra arma preferida é a atração sexual, que ele e principalmente ela usam à perfeição, manipulando a energia de seu alvo a ponto de submetê-lo totalmente. Embora a maioria dos psicopatas seja homem, há muita mulher que apresenta psicopatia.

O alvo preferido do psicopata é a pessoa bondosa, delicada, sensível, carente, fragilizada por algum trauma recente, uma perda, com uma necessidade premente. Ele entra por essa brecha como o salvador da pátria. Seu alvo é alguém que pode proporcionar-lhe alguma vantagem como dinheiro, sexo, poder, status, salvo-conduto de respeitabilidade, todas elas juntas ou uma ou outra que responda à sua necessidade do momento. Como o psicopata é um parasita, jamais fica sem uma fonte de abastecimento. Antes de largar a fonte atual à beira de se esgotar, já assegura a próxima. E assim vai.

AVISOS IGNORADOS

As pessoas estão sempre prontas a relevar pequenos avisos de que algo pode estar errado. Percebem uma reação emocional no mínimo esquisita, que não combina com o estímulo nem em qualidade nem em intensidade. Detectam incoerências, suspeitam de inverdades, mas colocam essas coisas na conta das esquisitices e neuroses comuns a todos nós. E tratam o psicopata como se fosse um ser humano. É justamente aí que mora o maior perigo. O psicopata não tem reação de ser humano, como compaixão, solidariedade, empatia, respeito, responsabilidade, amor. Finge. E se aproveita da capacidade dos seres humanos de tudo isso para alistá-los em sua defesa, fazendo-os darem-lhe dinheiro, afeto, tempo, compreensão, desculpando-o por alguns “deslizes” e, principalmente, compadecendo-se pelos traumas que ele viveu, os abusos e as injustiças que sofreu, as dificuldades pelas quais passou, tudo inventado por ele no melhor estilo de uma obra de ficção.

Estuda sua vítima fria e calculadamente pelo tempo necessário, juntando elementos para esboçar o seu plano de ação. Como o leão estuda um veado que quer caçar para comer, estuda seus gostos, suas manias, seu comportamento, seus medos, suas vulnerabilidades, seus desejos mais secretos. Uma vez construído o plano de ação, passa à execução de maneira calculada, e mantém a farsa pelo tempo necessário até obter o que deseja. Então, descarta o doador forçado sem um pingo de remorso.

Existe protocolo para atender vítima de sequestro, de estupro, de violência doméstica, vítima de estelionato, de falcatrua, de roubo, mas não existe para atender vítima de psicopata. Não existe, tampouco, proteção legal, não há advogados especializados em sua defesa e, na grande maioria dos casos, o psicopata enrola até o juiz e sai ileso do caso, virando tudo do avesso, transformando-se em vítima quando é o algoz e descarregando o ônus em cima da vítima real.

Os profissionais de saúde que recebem essas vítimas em seus consultórios, na grande maioria, não sabem pelo que realmente essa pessoa passou e o que ela precisa para começar a se recuperar do tsunami que devastou sua vida. A vítima chega incompreendida até por sua família, seus amigos, que acabam acusando-a de ter sido responsável por ter “confiado” no psicopata. É quase impossível não cair na armadilha uma vez que o psicopata decida capturar a pessoa.

Numa relação afetiva, a primeira fase, da conquista, é algo que a vítima jamais experienciou igual na vida. Ela se torna o centro de atenções dele, é cumulada de elogios, presentes, toda espécie de mimos, bajulações, a tal ponto que a vítima não enxerga mais nada a não ser o príncipe encantado que se materializou na sua frente. Todos os indícios de possíveis incongruências, de possíveis inverdades são camuflados pelos fogos de artifício. Deixa para lá todas as anteriores, horríveis, que nem chegam aos seus pés. Ela é finalmente a mulher que ele esperou a vida toda (ou vice e versa). Deve ser um encontro planejado nos céus, que agora finalmente se realiza.

A vítima se entrega aos pedaços até se entregar inteira. Passa a senha da sua conta bancária, transfere para o nome dele suas propriedades, faz-lhe uma procuração conferindo plenos poderes. Deixa-o usar todos seus contatos profissionais, o psicopata se intromete na família da vítima a ponto de criar conflitos insolúveis, toma conta das amizades e afasta todas, eliminando assim o sistema de suporte da vítima. E a lábia dele é tão convincente que não há dúvida de que esteja fazendo tudo porque ama e quer o bem da vítima. Pronto, agora que o alvo está sob seu domínio, fim da primeira fase.

Na segunda fase, o psicopata começa a mudar a máscara. Conseguiu tudo que queria. Está entediado, precisa de novidade. Já não se mostra tão deslumbrado com a vítima. Aparecem insatisfações aqui e ali, o que antes era fantástico passa a ser defeito. Se antes ele adorava a comida feita pela vítima, agora ele prefere comer fora.

Ele se mostra infeliz e, claro, a culpa toda é transmitida ao alvo. A vítima se esmera mais e mais para agradar e ter de volta aquele homem maravilhoso da primeira fase. Mas isso não acontece. Aparecem pequenos indícios da fase boa aqui e ali, para logo voltar infeliz e perturbado.

CULPA DO QUE?

Os maus-tratos são entendidos pela vítima como “merecidos”. Isso a faz ficar cada vez mais subjugada a ele, em estado de alerta. A vítima deixa passar todas as incongruências, pede desculpas por algo que não fez, tenta reparar algo que nem entende direito o que é.

O psicopata costuma deixar pistas aqui e ali da presença de outras mulheres na vida dele. Mesmo após tantos indícios, a vítima reflete como é possível ter dúvidas sobre um homem tão íntegro e honesto? Ao mesmo tempo em que se sente enlouquecer com a situação.

A segunda fase se conclui com a vítima transformada num espectro ambulante. Essa tortura psicológica esvaiu suas forças vitais. As pessoas não a reconhecem. O que foi que aconteceu? A vítima então entra em um ciclo perigoso de estresse psicológico. Torna-se incapaz de funcionar no trabalho, nas tarefas mais corriqueiras. Há a tentativa de conversar, de horas e horas, que não chegam a lugar algum. E esse esvaziamento e sofrimento psicológico são um deleite de diversão para o psicopata.

DESCARTE

Então, na terceira fase se inicia o descarte. Ele já encontrou sua próxima vítima, e vai despersonalizando a vítima anterior, vai convencendo que nada presta nela. O jogo então se aprofunda e o psicopata começa a acusar a vítima de problemas psicológicos, com mania de ver coisas que não existem. A vítima se encontra tão dilacerada que aceita ir ao médico para se tratar.

Ele se ausenta cada vez mais longamente, sem dizer para onde vai, ou dizendo que precisa espairecer, descansar das lamúrias da vítima, que nesse ponto está realmente em pedaços. Enquanto ele prepara o terreno de outro alvo, mantém a anterior sob controle, tendo momentos de carinho e atenção que fazem lembrar do homem da primeira fase, fazendo uma verdadeira confusão mental. As coisas não combinam.

Há casos em que a vítima se encontra tão abalada que chega a pensar em suicídio e muitos se concretizam. E então acontece a separação da maneira mais conveniente para ele. Ou ele vai embora, ou faz o alvo sentir-se culpado por mandá-lo embora, essa é só mais uma culpa para a coleção. Ele se vai, sem nenhum compromisso em resolver pendências. A vítima fica, então, com a vida totalmente depredada. Por um fio. Lembra-se do tsunami?

Descem as cortinas sobre o palco, para reabrir logo mais com novos coadjuvantes, mas com o mesmo ator principal. Num novo cenário e com novas circunstâncias. A peça se repete sempre igual, tantas vezes quantas couberem no período de vida de cada psicopata.

Nesse estado aparece a vítima no consultório do profissional de saúde. A grande maioria dos profissionais, assim como dos familiares e amigos, não sabe ajudar. Dizer para esquecer? Perdoar? Dar a volta por cima? Refazer a vida? Impossível. Esquecer, só se for por lobotomia ou amnésia. A vítima sofreu estupro da alma. O terapeuta precisa validar primeiro o sofrimento da paciente, que é inconcebível, alucinante. Ela conviveu com um predador da espécie humana.

O terapeuta precisa jogar uma corda no fundo do poço para começar içá-la. Essa corda pode ser uma frase simples, repetida até a vítima conseguir escutá-la: “Você não fez nada de errado”.

A vítima precisa botar para fora toda a indignação, humilhação acumulada, precisa falar, falar, para ir se convencendo de que não está louca, que não é tudo culpa dela, que o psicopata existe, que há um script que todos eles seguem com pequenas variações. A vítima precisa entender o que é um psicopata. Ela jamais poderia imaginar conviver com um.

SOBREVIVENTE

A vítima precisa se transformar em sobrevivente. Sobrevivente se cura, vítima não. Sobrevivente já conseguiu manter a cabeça fora da água e se agarrou a alguma tábua ou encontrou algum lugar para pisar. Nessas horas é fundamental a compreensão, uma mão amiga, um colo aconchegante. É fundamental também o cuidado com a saúde física, pois todo esse estresse e toda essa tortura psicológica cobram do corpo.

É preciso saber lidar com as inúmeras perdas. A não ser que haja uma boa defesa jurídica, o dinheiro jamais será devolvido, a energia vital se foi, as relações sociais e familiares abaladas exigirão um bom esforço para serem recuperadas, o trabalho, a profissão, tudo terá que ser reconstruído e, principalmente, ele jamais reconhecerá que fez mal a alguém e muito menos fará alguma coisa para repará-lo.

Em alguns casos a situação se agrava quando há filhos dessa relação e a criança é usada para torturar ainda mais a vítima, que terá que andar sobre brasas, engolir canivetes, driblar dardos em chamas para conseguir livrar ela e o filho das armadilhas.

As vítimas que passam por essas situações chegam ao fundo do poço. Poço é uma imagem semelhante ao canal de nascimento. Há a morte simbólica e o profissional deve mostrar o caminho para o renascimento. Um verdadeiro renascimento!

EU ACHO …

NOSSA TRUCULÊNCIA

Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou- me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-la e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. É respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e, no entanto, comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

UM UP NA LIBIDO FEMININA

A FDA, agência americana que regula alimentos e remédios, deu sinal verde recentemente para uma nova droga, a bremelanotida, do laboratório AMAG Pharmaceuticals.

Já à venda nos Estados Unidos e ainda sem previsão de lançamento aqui, ela é indicada para mulheres na pré-menopausa e que estejam com o desejo sexual em baixa.

Os médicos classificam esse quadro como transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH). “É a incapacidade de se engajar sexualmente de forma satisfatória”, explica a ginecologista, obstetra e sexóloga Aline Ambrósio, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.

A mulher tem de estar há pelo menos seis meses com essa queixa. Em outras palavras, não tem vontade de transar, muito menos de fantasiar eroticamente.

“Por definição, dizemos que essa paciente precisa sentir um certo sofrimento, deve ser algo que a incomoda.”

COMO A DROGA ATUA

As disfunções relacionadas ao sexo podem ocorrer entre 35% e 50% das representantes do sexo feminino. O TDSH responde por 40% dos casos.

A bremelanotida atua nos receptores de melanocortina, hormônio que induz os melanócitos, as células responsáveis pela produção do pigmento que colore a pele, a melanina. Mas o que isso tem a ver com tesão?

“O remédio foi pesquisado nos anos 1960 e 1970 para questões dermatológicas”, explica Aline Ambrósio. Mais especificamente para bronzeamento e prevenção de câncer de pele.

No entanto, os cientistas perceberam nos estudos experimentais que, nos roedores machos, aumentava-se a ereção e, nas fêmeas, o excitamento.

“Hoje sabemos que os receptores de melanocortina são estimulantes do desejo, assim como o neurotransmissor dopamina”, explica a especialista.

De acordo com a FDA, ainda é desconhecido o mecanismo pelo qual a bremelanotida melhora o desejo sexual. A droga é administrada por meio de uma injeção no abdômen ou na coxa pelo menos 45 minutos antes da relação sexual.

Não se deve usar mais de uma dose em 24 horas ou mais de oito por mês. O medicamento precisa ser descontinuado se não houver progresso no tratamento depois de oito semanas.

EFEITOS COLATERAIS

O remédio foi avaliado em um estudo de 24 semanas com 1.247 mulheres que ainda não estavam na menopausa. Todas tinham o transtorno do desejo sexual hipoativo.

Metade tomou a bremelanotida, e a outra parte, uma substância inócua (placebo). Cerca de 25% das participantes do grupo à base da droga apresentou aumento na libido comparadas a 17% das que não a usaram.

Além disso, 35% das voluntárias que tomaram o medicamento relataram menos estresse relacionado à libido baixa – nas demais, isso chegou a 31%.

Os efeitos colaterais mais comuns foram náusea, vômito, rubor facial, reações no local da injeção e dor de cabeça. No caso de náusea, 40% das pacientes sentiram o sintoma na primeira aplicação, sendo que 13% precisaram recorrer a um fármaco para tratá-lo. Além disso, houve aumento da pressão arterial por 12 horas.

Assim, a droga não é indicada para quem tem hipertensão não controlada ou outra doença cardiovascular, além de risco elevado para esse tipo de problema.

Trata-se da segunda opção farmacológica para mulheres com disfunção sexual. A primeira, a flibanserina, também conhecida como pílula rosa, foi lançada há quatro anos.

“Ela foi desenvolvida para o tratamento de depressão. Como esse antidepressivo também mexe com receptores de serotonina, acabou melhorando a resposta sexual”, lembra Aline Ambrósio.

Foi um fracasso comercial. Isso porque a ação nas consumidoras foi aquém do esperado. E seus efeitos só começam a aparecer depois de quase oitos semanas de uso.

A flibanserina não pode ser consumida com álcool porque a interação causa queda brusca da pressão arterial. Outras adversidades incluem tontura, náusea e cansaço.

Por falar em antidepressivos, as opções mais antigas, como os tricíclicos, tinham a queda da libido como um dos principais efeitos colaterais.

Os mais usados hoje em dia, caso dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, a exemplo da fluoxetina, e os inibidores seletivos da recaptação da serotonina e da noradrenalina apresentam esse tipo de reação adversa menos pronunciada.

DESEJO FEMININO

Será que a bremelanotida basta para dar cabo de vez de vontade sexual adormecida? “O remédio vai funcionar às vezes para tirar a paciente daquela angústia de não sentir desejo”, fala Aline Ambrósio.

“Ele também melhora um pouco a qualidade da sensação no relacionamento sexual. Mas se não tratar o entorno, não vai adiantar.” De fato, a sexualidade feminina é bem mais complexa do que a masculina.

“O homem olha o objetivo de amor e já fica com desejo. Não importa se está contrariado no trabalho ou se discutiu na noite anterior”, explica a especialista.

“A mulher só tem esse desejo espontaneamente, ao lembrar-se da parceria e se sentir engajada para o ato sexo sexual”, explica.

Esse movimento ocorre principalmente nos três primeiros meses de relacionamento. “Depois ela apresenta um desejo que é responsivo a estímulos.” Para a ala feminina, a autoimagem, por exemplo, é muito importante.

Se não gosta do que está vendo no espelho, vai ter dificuldade de tirar a roupa. “No pós-parto, quando a mulher fica com uma barriga que não é de grávida e não é a sua de antes, também cai o desejo.” Além das questões hormonais aí envolvidas.

TESTOSTERONA BAIXA

“Por que a mulher é um ser sexual?”, indaga Aline Ambrósio. A especialista continua: “Ela faz sexo porque está querendo ter um bebê ou para agradar o parceiro? O quanto o parceiro estimula a fantasia? E o quanto essa mulher propõe as suas? Masturba-se para entender como funciona seu corpo e sua sexualidade?”, questiona?

Na verdade, são muitas questões envolvidas, incluindo a monotonia sexual. “Às vezes é um dos fatores que faz a vontade de transar despencar”, afirma Aline. Aí nem é caso de níveis menores de testosterona, que atua no cérebro aumentando a libido – sim, o hormônio responsável pelas características masculinas também está envolvido no mecanismo do desejo.

“Quando você tem uma paciente com testosterona baixa, muda o script, conversa com o marido, ensina uma massagem diferente, resolve. A mulher é muito complexa.” Por isso que, em determinados casos, a droga isolada não vai fazer efeito.

Segundo Aline Ambrósio, o trabalho que avaliou a bremelanotida foi liberado sem levar muito em conta o número de relações sexuais. “Se a mulher está mais engajada, ela também vai ter mais vontade.

Não vai continuar transando só duas vezes por mês”, aponta. A pesquisa levou em conta somente a qualidade das relações, não a quantidade.

“Não dá para fazer um tratamento em sexualidade com somente um especialista, o que prescreve o medicamento. A psicoterapia é importante para ressignificar as angústias que estão envolvidas na situação.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE MAIO

O PERIGO DAS MÁS COMPANHIAS

Foge da presença do homem insensato, porque nele não divisarás lábios de conhecimento (Provérbios 14.7).

Quem anda com o tolo, tolo se torna. Quem anda com os sábios, porém, aprende a sabedoria e encontra a felicidade. Assim como não podemos colher figos de espinheiros nem bons frutos de uma árvore má, também não podemos encontrar conhecimento na presença do homem insensato. A orientação de Deus não é para nos fiarmos naquilo que o tolo fala em busca de algo bom, mas para fugirmos de sua presença. A única forma de nos livrarmos da influência maléfica das palavras do tolo é permanecendo longe dele. O primeiro degrau da felicidade é nos afastarmos do conselho dos ímpios, do caminho dos pecadores e da roda dos escarnecedores. Só então encontraremos deleite na meditação da Palavra de Deus. Não podemos permanecer em más companhias e ao mesmo tempo deleitar-nos na presença de Deus. Não podemos viver no pecado e ao mesmo tempo ter prazer na leitura da Bíblia. D. L. Moody certa feita disse a seus ouvintes: “A Bíblia afastará vocês do pecado, ou o pecado afastará vocês da Bíblia”.

GESTÃO E CARREIRA

SEU LOCAL DE TRABALHO PÓS-PANDEMIA

O modelo de trabalho híbrido, com colaboradores intercalando entre presença física e virtual, vai moldar o visual dos novos escritórios

O retorno ao modo presencial nos escritórios é alvo de discussão constante desde o início da pandemia. Se em certo momento, as baias individuais separadas por vidros e a grande quantidade de sinalizações sobre segurança se tornaram imperativos para a volta, agora, com a expectativa cada vez maior de imunização, novas tendências começam a surgir. 

Atento às novidades, o periódico The New York Times conversou com especialistas e reuniu uma série de aspectos que devem dominar os escritórios do futuro. A aposta principal é na popularização do estilo híbrido de trabalho, com colaboradores intercalando entre presença física e virtual, dite as adaptações. A seguir, confira as três tendências elencadas:

ESPAÇOS MENOS INDIVIDUALIZADOS

As áreas comuns e compartilhadas serão prioridade nesse novo modelo de escritório. A previsão é a de que os móveis sejam soltos, de modo a adaptar o ambiente às necessidades de cada evento, e as hot desks (grandes mesas compartilhadas) se tornem o padrão. Devido às medidas sanitárias herdadas do momento atual, é possível que essas mesas sejam introduzidas com um sistema de agendamento, sendo necessário reservar seu lugar com algum tempo de antecedência para que ele possa ser higienizado.

Diretora do escritório de arquitetura NBBJ, Andrea Vanecko, diz que, até pouco tempo, muitos trabalhadores resistiriam a ideia de perder suas mesas pessoais, mas esse comportamento foi alterado pela possibilidade de passar poucos dias da semana no escritório. Com o número de funcionários presenciais reduzidos, a opção pelo compartilhamento otimiza a área disponível e abre espaço para escritórios cada vez menores.

TELAS CONTINUAM EM ALTA

Com a manutenção de parte da equipe à distância, a integração entre os times continua sendo prioridade. Há até quem especule sobre o uso de representações holográficas dos funcionários em home office. Enquanto isso não acontece, as telas continuam em destaque.

As salas de reunião devem receber grandes monitores centrais, melhorando a interatividade e sensação de presença durante as videoconferências. Os laptops também terão presença marcada nas reuniões, garantindo que todos possam ser vistos, segundo aponta o diretor de estratégia, Peter Knutson, executivo do escritório de design A+I.

Dispositivos com câmeras de 360 graus, microfone e alto-falantes também se tornarão comuns, na visão da diretora da Perkins + Will, Meena Krenek. A executiva da empresa de arquitetura acredita que as salas de reunião serão extensões das salas de videoconferência. Para possibilitar que os funcionários em casa vejam o que está sendo escrito em tempo real, os quadros brancos digitais são outra ferramenta que será popularizada.

Almejando uma experiência completa, nem os cafés irão escapar. Pequenos dispositivos devem ser instalados nas áreas de descontração, como as copas, para possibilitar encontros mesmo a distância.

MENOR CONTATO COM AS SUPERFÍCIES

Nem todas as proteções criadas contra o coronavírus irão continuar, mas algumas serão mantidas. As indicações de espaço no chão devem desaparecer com o tempo, até que as pessoas os assumam como hábito.

O uso de aplicativos ou sensores de voz e movimento para evitar o contato intenso com superfícies devem continuar. O recurso se mostrou útil para abrir catracas e portas. O mesmo ocorre com os pedais para chamar elevadores e os botões, nas cabines de banheiros, que podem ser ativados com o cotovelo.

Durante a pandemia, a qualidade do ar virou uma pauta primordial. Com isso, os espaços ao ar livre passaram a ser valorizados, a tendência é a de que isso continue, com empresas apostando em mobiliário para terraços e pátios.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMPORTAMENTO E PERFORMANCE

Ser bem-sucedido implica ter pais dedicados

Treinar, estudar e o que mais? O que é preciso para ser bem-sucedido?

Um estudo da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, conduzido pelo psicólogo educacional Kenneth Kiewra e três ex-alunos de pós-graduação, revela que a atitude dos pais também influencia o sucesso dos filhos. Segundo a pesquisa, há vários comportamentos dos genitores que são fundamentais para desenvolver o potencial das crianças, fazendo com que estas se destaquem, no futuro, em alguma área de atuação. Trata-se de um aprimoramento daquilo que é herança genética (talento), favorecido por uma dedicação incansável da família.

No trabalho de Kiewra e ex-alunos, foram entrevistados e acompanhados pais de 24 jovens norte-americanos que são destaques nacionais ou internacionais em suas carreiras. O grupo incluía patinadores de gelo com medalhas olímpicas, campeões de xadrez, campeões de vôlei, músicos premiados, um autor pré-adolescente e um campeão de concurso de soletração nacional. Os pais desses garotos tinham suas casas hipotecadas ou desistiram de seus empregos, entre outros sacrifícios, para nutrir talentos de seus filhos.

A pesquisa se diferenciou de outras no sentido de acompanhar pais ainda nessa fase de investimento nos filhos, não se baseou em relatos de acontecimentos passados. Também foi singular ao centrar-se no depoimento desses pais e não dos mentores de seus filhos ou dos próprios jovens. Uma limitação do estudo foi ter ouvido apenas pais norte-americanos, brancos, de classe média alta, amostra que os próprios cientistas sugerem que deve ser ampliada, no escopo da multiculturalidade e diversidade socio econômica.

Alguns aspectos identificados como fundamentais no desempenho dos jovens, a partir desse estudo:

  • A descoberta precoce dos talentos das crianças e a atenção dada ao seu desenvolvimento desde cedo;
  • Organização da família em função das atividades dos filhos (competições, estudos etc.);
  • Esforço dos pais na motivação constante dos filhos;
  • A contratação de um técnico / professor, quando necessário, e esforço de investimento em todo e qualquer recurso necessário.

EU ACHO …

DA NATUREZA DE UM IMPULSO OU ENTRE OS NÚMEROS UM OU COMPUTADOR ELETRÔNICO

Sei que o que eu vou falar é difícil, mas que é que eu vou fazer, se me ocorreu com tanta naturalidade e precisão? É assim:

Não era nada mais que um impulso. Para ser mais precisa, era impulso apenas, e não um impulso. Não se pode dizer que este impulso mantinha a mulher porque manter lembraria um estado e não se poderia falar em estado quando o impulso o que fazia era continuamente levá-la. É claro que, por hábito de chegar, ela fazia com que o impulso a levasse a alguma parte ou a algum ato. O que dava o ligeiríssimo desconforto de uma traição à natureza intransitiva do impulso. No entanto, não se pode nem de longe falar em gratuidade de impulso, apenas por se ter falado de alguma coisa intransitiva. Com o hábito de “comprar e vender”, atos que dão o suspiro de uma conclusão, terminamos pensando que aquilo que não se conclui, o que não se finda, fica em fio solto, fica interrompido. Quando, na verdade, o impulso ia sempre. O que, de novo, pode levar a se querer presumir o problema de distância: ia longe ou perto. E aonde. Quando isso na verdade já cairia no caso em que falamos acima, sobre o ligeiríssimo desconforto que vem de se confundir a aplicação do impulso com o impulso propriamente dito. Não, não se quer dizer que a aplicação do impulso dá mal-estar. Pelo contrário, o impulso não aplicado durante um certo tempo pode se tornar de uma intensidade cujo incômodo só se alivia com uma aplicação factual dele. Depois que a intensidade dele é aliviada, o que nós chamaríamos de resíduo de impulso não é resíduo, é o impulso propriamente dito – é o impulso sem a carga de choro (choro no sentido de acúmulo, acúmulo no sentido de quantidade superposta), é o impulso sem a urgência (urgência no sentido de modificação de ritmo de tempo, e, na verdade, modificação de ritmo é modificação do tempo em si).

Mas, considerando que nós somos um fato, quer dizer, cada um de nós é um fato – ou, pelo menos, como lidar conosco mesmos sem, como andaime necessário, não nos tratarmos como um fato? – como eu ia dizendo, considerando que cada um de nós é um fato, a tendência é transformarmos o que é (existe) em fatos, em transformarmos o impulso em sua aplicação. E fazermos com que o atonal se torne tonal. E darmos um finito ao infinito, numa série de finitos (infinito não é usado aqui como quantidade imensurável, mas como qualidade imanente). O grande desconforto vem de que, por mais longa que seja a série de finitos, ela não esgota a qualidade residual de infinito (que na realidade não é residual, é o próprio infinito). O fato de não esgotar não acarretaria nenhum desconforto se não fosse a confusão entre ser e o uso do ser. O Uso do ser é temporário, mesmo que pareça continuado: é continuado no sentido em que, acabado um uso, segue-se imediatamente outro. Mas a verdade é que seria mais certo dizer: segue-se mediatamente e não imediatamente: até entre o número um e o número um, há, como se pode adivinhar, um um. Esse um, entre os dois uns, só se chamaria de resíduo se quiséssemos chamar arbitrariamente os dois números um mais importantes que o “um entre”. Esse “um entre” é atonal, é impulso.

Como se pode imaginar, a mulher que estava pensando nisso não estava absolutamente pensando propriamente. Estava o que se chama de absorta, de ausente. Tanto que, após um determinado instante em que sua ausência (que era um pensamento profundo, profundo no sentido de não pensável e não dizível), após um determinado instante em que sua ausência fraquejou por um instante, ela sucumbiu ao uso da palavra-pensada (que a transformou em fato), a partir do momento em que ela factualizou-se por um segundo em pensamento – ela se enganchou um instante em si mesma, atrapalhou-se um segundo como um sonâmbulo que esbarra sua liberdade numa cadeira, suspirou um instante, parte involuntariamente para aliviar o que se tornara de algum modo intenso, parte voluntariamente para apressar sua própria metamorfose em fato.

O fato (que a fez suspirar) em que ela se transformou era o de uma mulher com uma vassoura na mão. Uma revolta infinitesimal passou-se nela – não, como se poderá concluir, por ela ser o fato de uma mulher com uma vassoura na mão – mas a infinitesimal revolta, até agradável (pois ar em movimento é brisa) em, de um modo geral, aplicar-se. Aplicar-se era uma canalização, canalização era uma necessária limitação, limitação um necessário desconhecer do que há entre o número um e o número um.

Como se disse, revolta ligeiramente agradável, que se foi intensificando em mais e mais agradável, até que a aplicação de si mesma em si mesma se tornou sumamente agradável – e, com o próprio atonal, ela se tornou o que se chama música, quer dizer, audível. Naturalmente sobrou, como na boca sobre um gosto, a sensação atonal do contato atonal com o impulso atonal.

O que fez a mulher ter uma expressão de olhos que, factualmente, era a de uma vaca. As coisas tendem a tomar a forma do fato que se é (o modo como o que é se torna fato é um modo infinitesimal rápido). Com a vassoura numa das mãos, pois, ela usou a outra mão para ajeitar os cabelos. Acabou de reunir com a vassoura os cacos do copo quebrado – na verdade, o quebrar-se inesperado do copo é o que havia dado artificialmente um finito, e a fizera deslizar para o um entre os dois uns – acabou de reunir os cacos com vivacidade de movimentos. O homem que estava na sala percebeu a vivacidade dos movimentos, não soube entender o que percebera, mas, como realmente percebera, disse tentativamente, sabendo que não estava exprimindo sua própria percepção: o chão está limpo agora.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

UMA PÍLULA CONTRA O ÁLCOOL?

A indicação de relaxante muscular para o tratamento da dependência de bebidas alcoólicas de uso comum, é suspensa na França e deflagra acalorada polêmica

Na história das pequenas vitórias contra o alcoolismo, um médico e seu relato de empenho contra a dependência, transportado para um livro de sucesso global, O Fim do Meu Vício, de 2010, são incontornáveis. O cardiologista francês Olivier Ameisen (1953-2013), de brilhante carreira na Universidade Cornell, em Nova York, teve de interrompê-la por causa do excesso de bebida. Como nas mais belas aventuras da medicina, ele encontrou uma estrada para a recuperação de modo acidental. Ameisen sofria de espasmos musculares, que tratava com 5 miligramas diárias de baclofeno, um relaxante muscular barato. Ao perceber que o remédio o fazia perder a vontade de abrir garrafas, experimentou doses cada vez mais altas, até alcançar um nível elevado o suficiente (270 miligramas) para controlar a quantidade de drinques. “Comecei a dormir como um bebê e o impulso de beber diminuiu”, escreveu. Ao morrer de infarto, cinco anos depois de revelar ao mundo a descoberta, ele assegurava ter vencido o humilhante fantasma: “Tornei­ me completamente indiferente ao álcool. Posso tomar uma bebida ou duas, e nada acontece”.

Seu legado decisivo: o uso do baclofeno contra o alcoolismo em todo o mundo, inclusive no Brasil – em exemplo de tratamento chamado no meio científico de off-Label, ou fora do rótulo, em tradução livre do inglês. Por esse mecanismo, as drogas são utilizadas em terapias para as quais não foram inicialmente imaginadas. Assim caminhava o baclofeno, até sofrer sério revés na França, há três semanas. Ministrado oficialmente entre franceses desde 2014, ele teve a comercialização suspensa. A decisão foi de um tribunal de Justiça que apontou preocupações sobre os riscos colaterais. Uma revisão feita com doze estudos por uma instituição internacional que se dedica à análise de pesquisas mostrou que doses exageradas de baclofeno estariam associadas a um número maior de mortes em relação a outros remédios para combater o vício. E mais: doses baixas, em comparação com o placebo, não fariam diferença. Houve ruidosa celeuma e espanto, porque a substância sempre foi tratada pelos adictos como uma janela de esperança.

O bacloteno age no cérebro em neurotransmissores chamados GABA, aqueles ligados ao controle da ansiedade. É ali que o álcool atua, relaxando o indivíduo. O remédio entraria nesses canais e produziria efeito similar. Essa foi a suposição de Ameisen, sempre controversa, e que só ganharia verniz de certeza após um estudo divulgado em 2016. O trabalho, patrocinado por uma entidade respeitada, a Assistência a Hospitais Públicos de Paris, mostrou efeito positivo depois de um ano de tratamento com a droga. A pesquisa incluiu 320 pacientes entre 18e 65 anos, alcoólatras, que não foram orientados a parar de beber. Resultado: a abstinência ou a redução do consumo ocorreu em 56,8% dos pacientes tratados, contra 36,5% daqueles que receberam o placebo. Mas outros efeitos do remédio não foram ideais: 44% deles sofreram de insônia e depressão – o mesmo ocorreu com 31% dos que não tomaram o medicamento.

O recuo em torno da indicação do baclofeno é um golpe nas possibilidades de controle de uma doença ainda enigmática. Cabe nos dedos de uma mão a quantidade de medicamentos com efeito contra o desejo de ingerir álcool, a maioria frágil e com vaivém nas indicações (como ocorre agora com o composto antiespasmódico). O hábito de beber é mais difícil de controlar do que o da dependência de cocaína e cigarro. Diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas, uma das maiores autoridades sobre o assunto no Brasil: “A bebida tem ação cerebral difusa e, por isso, dificilmente um único tipo de tratamento conseguiu até hoje ter o sucesso esperado.” Por esse motivo, Ameisen, em seu best­seller, ao divulgar as benesses do baclofeno agora posto no acostamento, celebrava cada pequeno passo como se fosse um gigantesco salto. Assim: “Apesar de beber não estar nos meus planos daquela noite, eu me senti insultado quando o mordomo de Jeff ofereceu alguns tipos de chá. Por que, a essa hora, não me ofereceu também alguma bebida alcoólica?”, pensei. ‘Será que ele está me mandando um recadinho de repreensão’? Pedi e bebi um copo de uísque; depois fiz da minha recusa à segunda dose um verdadeiro acontecimento.”

O CONSUMO E OS EFEITOS DO ABUSO

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE ABRIL

A SABEDORIA NÃO HABITA ONDE HÁ INSENSATEZ

O escarnecedor procura a sabedoria e não a encontra, mas para o prudente o conhecimento é fácil (Provérbios 14.6).

Sabedoria é mais do que conhecimento. Sabedoria é o uso correto do conhecimento. Sabedoria é olhar para a vida com os olhos de Deus. Há muitas pessoas cultas que são tolas, enquanto há indivíduos sábios mesmo não tendo perlustrado os bancos de uma universidade. Sabedoria não se aprende na academia, mas na escola da vida. Sabedoria aprende-se aos pés do Senhor. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. É por isso que o escarnecedor procura a sabedoria e não a encontra, porque o escarnecedor jamais procura a Deus. Ele não conhece a Palavra de Deus nem se deleita na lei de Deus. Seu prazer está no pecado, e não na santidade. A sabedoria não habita na casa da insensatez. Já o prudente busca o conhecimento e com ele acha a sabedoria. A sabedoria é mais do que uma percepção diante das realidades e dos desafios da vida. A sabedoria é uma pessoa. Jesus é a nossa sabedoria. Aqueles que conhecem a Jesus e vivem em sua presença e para o louvor da sua glória alcançam o verdadeiro sentido da vida.

GESTÃO E CARREIRA

COMO APOIAR A SAÚDE MENTAL DE SEUS FUNCIONÁRIOS

Especialistas elencam principais pontos de atenção com os colaboradores no trabalho remoto

Quem deve zelar pela saúde mental dos funcionários? Em um primeiro momento, cabe aos próprios colaboradores. “Terapia, medicina, meditação, seja o que for – isso é algo que precisa acontecer no nível individual”, diz Kelly Greenwood, fundadora e CEO da Mind Share Partners, uma organização sem fins lucrativos que assessora empresas no apoio à saúde mental no local de trabalho.

Mas a tarefa não acaba aí: as empresas têm, sim, uma responsabildiade quanto ao bem-estar mental dos funcionários, e devem agir sobre isso. Estudos apontam que as jornadas em home office têm feito os profissionais trabalharem em média 2,5 horas adicionais por semana. E quem precisa ir até o escritório se sente estressado ​​com a possibilidade de contrair covid-19 e levar a doença a algum familiar. Os dois grupos perderam o ambiente de troca, risada e debate que encontravam nos corredores, e até as atividades extras, como ginástica, academia, natação e ioga. 

“As pessoas não reservam tempo para cuidar de si mesmas, não estabelecem limites saudáveis ​​em torno dos exercícios, não mantêm relacionamentos saudáveis ​​em casa com amigos e familiares, não reservam tempo para hobbies. Estão passando muito tempo sem as atividades que as ajudariam a relaxar”, diz Darcy Gruttadaro, diretora do Centro de Saúde Mental no Local de Trabalho, uma organização sem fins lucrativos.

Os empregadores podem ajudar (e muito) os colaboradores, seja moldando a política da empresa ou apenas sendo um pouco mais humanos. O Quartz separou dicas do que os líderes podem fazer para apoiar a saúde mental no local de trabalho.

TENHA PROGRAMAS DE SAÚDE MENTAL ENTRE OS BENEFÍCIOS OFERECIDOS PELA EMPRESA

Um pacote de benefícios deve incluir terapeutas facilmente acessíveis por meio de programas de assistência ao funcionário, bem como programas de tratamento de dependências. Isso também significa dar às pessoas espaço e tempo para cuidar de sua saúde mental. Segundo um estudo de outubro de 2020 da seguradora americana The Hartford, 56% dos trabalhadores americanos não se sentem confortáveis ​​em buscar tratamento de saúde mental durante o dia de trabalho.

CRIE E PROMOVA UMA CULTURA DE ABERTURA SOBRE SAÚDE MENTAL

“As empresas que têm excelentes benefícios para a saúde mental não costumam ver altas taxas de uso e as pessoas sentem vergonha de ir à terapia durante o dia de trabalho. Faça com que os líderes falem sobre isso para que as pessoas sintam que têm essa permissão para cuidar de si mesmas e buscar ajuda se e quando precisarem”, diz Greenwood, da Mind Share.

MOSTRE QUE O TEMA É PRIORIDADE

Uma pesquisa de abril de 2020 feita pela Greenwood’s Mind Share Partners e Qualtrics descobriu que um mês após o início da pandemia, 38% das pessoas disseram que seu empregador não os havia perguntado o que pensavam. “Quanto mais a liderança comunica a importância de limites saudáveis, de buscar ajuda quando é preciso, e quanto mais funcionários ouvirem isso dela, melhor”, diz Gruttadaro.

PERMITA O MÁXIMO DE FLEXIBILIDADE POSSÍVEL

Horários flexíveis ajudam os pais, principalmente as mulheres, a permanecer empregados, e também os permitem refletir: o que precisa ser feito agora e o que pode ser adiado?

LIDERE COM EMPATIA

Os funcionários são mais propensos a procurar a sua liderança do que o RH. “Os gerentes estão na linha de frente, eles veem os funcionários ao longo do tempo. Se eles compartilham suas próprias vulnerabilidades, seja uma criança tendo um ataque de raiva ou um problema de saúde mental, isso trará grandes resultados, diz Greenwood.

SE VOCÊ PERCEBEU QUE O COMPORTAMENTO DE UM FUNCIONÁRIO MUDOU, ABORDE O ASSUNTO COM CUIDADO

“Encorajamos as pessoas a liderar com curiosidade, mas sem fazer suposições. Frequentemente, os sintomas de problemas de saúde mental se apresentam de maneira semelhante a outras coisas. Fale algo como ‘Eu percebi essa coisa concreta no trabalho, você está bem?’. Combinar essas declarações observadas com perguntas abertas é o caminho certo a seguir. Você nunca quer forçar alguém a revelar um problema de saúde física ou mental”, afirma Greenwood.

CONTINUE EM CONTATO COM OS COLEGAS

“Sabemos que mesmo tendo um pouco de contato com outras pessoas, e não necessariamente membros de nossas próprias equipes ou grupos ou unidades, nos sentiremos reconectados com nossa organização. Existem algumas culturas em que passar tempo com outras pessoas é um mecanismo importante. Tudo isso deve ser integrado ativamente ao ambiente de trabalho virtual”, afirma Neeley.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR CANINO, AMOR HUMANO

Ao contrário do que se imagina, para se amar um animal não é preciso tratá-lo como ser humano

Uma das minhas frustrações de infância foi não ter tido um bicho de estimação. Não houve jeito de convencer a minha mãe. Lembro-me que, certa vez, deixaram um filhote de gato na porta da minha casa e eu, sabendo da intransigência materna, tive a brilhante ideia de escondê-lo na gaveta da máquina de costura da minha avó (que quase enfartou ao descobrir o esconderijo). Em outra ocasião, a “vítima” foi o coração de mamãe.

Ao escutar um barulho estranho, ela abriu a porta do banheiro de empregada e um gato preto, de pelos eriçados, quase voou em cima dela a fim de fugir do confinamento. Mas antes disso houve a Genoveva, uma enorme taturana verde que certamente lamentou o fato de eu, ainda muito pequena, não me dar conta de que vidros de maionese, se transformados em lares para taturanas, deveriam ter suas tampas furadas, de forma a garantir o bom funcionamento do sistema de ventilação da improvisada “residência”.

Mas daí eu cresci. E não tardou para que meus filhos me fizessem o mesmo pedido, fazendo com que eu me percebesse desconfortavelmente parecida com minha mãe. A meu favor tinha apenas o fato de morar em um pequeno apartamento, no qual, definitivamente, não havia lugar para um animal. Até que veio a tão sonhada casa.

Minha filha, ainda na adolescência, querendo sempre ser diferente (a quem teria puxado?) queria algo mais “específico” do que um cachorro: “Quero uma ‘pitbua’ de olho azul”!

Juro que eu estava disposta a ignorar tal extravagância quando uma amiga, dona do pitbull mais lindo que eu já vi, veio até mim com a ninhada do seu animal que acabara de dar cria. E lá estava ela: Uma linda ‘filhotinha’ de pitbull que ternamente me olhava com seus olhinhos azuis. Foi assim que a Laysa (Lalá) entrou em nossas vidas. “Cuidar de uma outra vida poderia ser uma experiência importante para que meus filhos desenvolvessem a responsabilidade” – racionalizei.

Atualmente vivemos numa estranha cultura que toma animais como se fossem seres humanos. E há todo um patrulhamento em relação a esse tema. Julguem-me por isso, mas creio haver algo de patológico nessa cultura. Em nossa casa a Laysa sempre foi um cachorro. Dormia na sua cama de cachorro, comia comida de cachorro e não tinha permissão para entrar em casa. Por isso muitas vezes escutei insinuações de que eu não era uma boa dona para ela.

Sim porque embora tivesse sido um presente para minha filha, Laysa desde o início escolheu a mim como sua dona.

Assim como não fui uma mãe convencional, talvez não tenha sido uma dona de cachorro convencional. Afinal, nunca fui muito afeita a convenções.

Não obstante isso, amei minha cachorra e sou capaz de reconhecer a pureza do amor canino que não se iguala a nenhum outro, em função de sua natureza incondicional. Acho mesmo que se houvesse um teste de forças pessoais adaptado a animais, cachorros teriam, sempre, a capacidade de amar e ser amado como primeira força. E com a nossa querida Lalá não foi diferente. Ao contrário da má fama que carrega sua raça, Laysa foi um exemplo de doçura. Delicadeza não, porque, afinal de contas, os cães se parecem com seus donos. E por essa mesma razão, Lalá tinha uma saúde de ferro, era quase um “Highlander”!

Mas o tempo costuma ser implacável até mesmo com os cachorros, de forma que perdemos a nossa querida Lalá no último final de semana. Vivendo quase o dobro do que seria a expectativa média de vida de um pit­bull, Lalá nos deixou depois de espantosos 14 anos conosco. “Sinal de bons tratos” – disse a veterinária.

Não houve velório, assim como não havia aniversários. Nem sapatinhos, nem carrinhos de passeio. Tendo vivido como um cachorro, nossa Laysa morreu como um cachorro. Ao que parece, animais não precisam ser tratados como humanos para serem bem tratados. Muito menos para deixar saudades.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

EU ACHO …

OS RECURSOS DE UM SER PRIMITIVO

Li uma vez que os movimentos histéricos tendem a uma libertação por meio de um desses movimentos. A ignorância do movimento exato, que seria o libertador, torna o animal histérico, isto é, ele apela para o descontrole. E, durante o sábio descontrole, um dos movimentos sucede ser o libertador.

Isso me fez pensar nas vantagens libertadoras de uma vida apenas primitiva, apenas emocional. A pessoa primitiva apela, como que histericamente, para tantos sentimentos contraditórios que o sentimento libertador termina vindo à tona, apesar da ignorância da pessoa.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

DE CABEÇA FEITA

As grifes internacionais investem em peças de pano versáteis e sofisticadas em suas novas coleções, para mulheres de todas as faixas etárias

Uma jovem de cabelos castanhos dirige seu conversível por estradas sinuosas na cidade praiana de Malibu, na costa da Califórnia. Para não emaranhar os fios expostos ao vento, a moça exibe um belo lenço em tons de rosa e amarelo ao redor da cabeça. Arremata o visual com um par de óculos escuros em formato oval. Poderia ser a descrição de algum filme lançado Em meados de 1950, início dos 1960, mas não. São os segundos iniciais do recém-lançado clipe Déjà Vu, da cantora americana Olivia Rodrigo, de 18 anos, uma das sensações da música pop. Ela ecoa, no seu jeito de vestir, uma tendência na crista da onda: o renascimento das bandanas.

Segurar as madeixas e envolver o pescoço, preferencialmente com seda, dado o toque sensível, é recurso que voltou à cena a partir de recentes desfiles – quase todos on-line, por imposição da pandemia – e campanhas de grifes como Paco Rabanne, Dior, Versace e Callas Milano. A preferência: o tecido dobrado na forma triangular, pousado no meio da testa e amarrado atrás da cabeça. A onda tem evidente inspiração na elegância eterna das atrizes Audrey Hepburn (1929-1993) e Grace Kelly (1929-1982).”O hábito reflete um desejo de sofisticação sem muito exagero”, diz a historiadora da moda Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda.

Outra interessante razão para a retomada do lenço agora em 2021 está ligada às infinitas possibilidades de uso, componente fundamental para consumidoras cada vez mais interessadas em usar bem as peças em seu guarda-roupa, mas sem exagero no consumo. É fazer o mais com menos. Em vídeos nas redes sociais, despontam tutoriais sobre como estilizar uma mesma peça como colar, cinto, bracelete, gola para blusas, amarração para o cabelo e outras infinitas possibilidades. “O lenço é democrático, permite diversos usos e não precisa ser luxuoso para funcionar”, diz Carla Catap, especialista em moda e sócia da consultoria Assinatura de Estilo. Os lenços surgiram na antiga Mesopotâmia para proteger as mulheres dos dias ensolarados e das intempéries. Só ganharam ares glamorosos em meados dos anos 1930, ao cair nas graças das atrizes de cinema pelas mãos da grife Hermês. E nunca mais perderam seu mais valioso atributo, que não exige abrir a carteira em demasia: a versatilidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE ABRIL

A TESTEMUNHA VERDADEIRA E A TESTEMUNHA FALSA

A testemunha verdadeira não mente, mas a falsa se desboca em mentiras (Provérbios 14.5).

Uma testemunha é alguém que viu alguma coisa e compartilha isso com fidelidade. Uma testemunha não reparte suas impressões subjetivas, mas suas experiências objetivas. Não fala o que sente, mas o que viu. O papel da testemunha não é dar a sua versão dos fatos, mas narrá-los com integridade. A testemunha verdadeira não mente, não adultera os fatos nem se deixa subornar por vantagens inconfessas. Jesus foi condenado pelo Sinédrio judaico porque os próprios juízes contrataram testemunhas falsas para acusá-lo. O mesmo destino sofreu Estêvão, o primeiro mártir do cristianismo. Nossas palavras devem ser sim, sim; não, não. O que passa disso é inspirado pelo maligno. A mentira procede do maligno e promove seus interesses. Por isso, a falsa testemunha se desboca em mentiras, conspirando contra a verdade. Uma vez que a mentira tem pernas curtas e o tempo é o senhor da razão, a mentira pode ficar encoberta por algum tempo, mas não para sempre. A mentira pode enganar alguns, mas não a todos. A mentira pode ter recompensas imediatas, mas sofrerá as consequências de um vexame eterno.

GESTÃO E CARREIRA

QUANDO TODOS SE TORNAM UM

A formação de uma equipe de alta performance depende de um líder que inspire, que dê exemplos, que transfira conhecimento profissional, mas que permita-se aprender com as pessoas

Como dizia Cora Coralina, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Para se construir uma equipe de alta performance, primeiramente, é preciso de um líder de alta performance. Um líder que aperfeiçoou sua postura, caráter e modo de pensar para cuidar da convivência com as pessoas.

Existem sete estágios para se alcançar a meta de construir equipes de alta performance. São etapas que colaboram para o desenvolvimento individual e coletivo a fim de conquistar resultados que vão além do esperado. Destaco aqui esses sete passos valiosos que servem como modelo para líderes de todas as áreas de atuação.

Na orientação, é preciso reconhecer a visão pessoal, da equipe e da organização. A visão, isto é, os objetivos traçados e os sonhos, precisa ser clara para que todos entendam o seu papel, sua parcela de responsabilidade e a sua importância dentro do todo. Em um cenário em que a visão não é definida e clara, surgem diversos impasses como excesso de conflitos e de trabalho, mais gastos de recursos e falta de posicionamento e foco, o que pode direcionar o futuro da empresa à falência.

Sobre construção de confiança, é importante saber quem são as pessoas da equipe, o que elas gostam e sonham para a vida. Essa é uma forma de demostrar que elas são especiais. Isso abre caminhos para a construção de um relacionamento de confiança. A partir de quando se constrói uma relação sólida e segura, a pessoa tende a ter empatia, desejo de realizar o bem ao próximo, passa a enxergar as experiências do outro como exemplos para si mesmo e compartilha conhecimentos. É importante ter a consciência de que a construção de confiança requer tempo e manutenção. Tendo esse pilar bem esclarecido, ele passa a ser um valor indispensável para a equipe.

Objetivos são essenciais. Um dos mais importantes objetivos da liderança é criar na empresa um clima de confiança, em que sejam diminuídas as incompatibilidades entre colaboradores, e para que eles procurem em conjunto, e como equipe, um objetivo. Mais do que saber qual a função que cada colaborador exerce, é necessário conhecer o objetivo de cada um estar integrando a equipe. É necessário que os membros do grupo saibam o quanto as suas competências individuais são importantes para a área e para a empresa. Conhecer e respeitar o objetivo do outro também é um ponto extremamente relevante para o saudável funcionamento da equipe. Tendo esses objetivos esclarecidos, o alcance de metas se torna mais simples e os resultados mais brilhantes.

Ter um compromisso com a equipe é saber – e principalmente – querer trabalhar em conjunto em busca da realização de metas. “O melhor resultado é obtido quando todos no grupo fazem o melhor para si e para o grupo”, disse John Forbes Nash Jr. Essa é uma ótima frase para ilustrar a importância da visão dentro de uma organização. Quando nos sentimos realizados pessoalmente é quase que natural o reflexo na vida profissional. Nos doamos mais, fazemos além e apresentamos mais resultados, demostrando total compromisso com os objetivos da empresa. Por isso, a frase de Nash faz todo o sentido no contexto “alta performance”.

A implementação é um ponto estratégico para a construção da equipe de alta performance. Definir quem faz o quê, quando e onde são diretrizes necessárias para alinhar ações de sucesso. A execução requer um time resiliente, capaz de lidar com os desafios e superar as adversidades que surgem no caminho. Os processos se tornam menos complexos quando há uma implementação eficiente, alinhada ao perfil do grupo e à identidade da empresa.

Quando atingimos o estágio da alta performance estamos altamente ligados aos companheiros da equipe. É o suprassumo do trabalho em grupo, em que todos se tornam um. Quando se chega a esse nível, a equipe é mais flexível, tem comunicação clara e total sinergia. Ao se tornar “alta performance” a equipe já rompeu as crenças limitantes, fazendo com que as pessoas inseridas no grupo jamais queiram sair dele.

A renovação também faz parte do processo. Devemos estar sempre preparados para eventuais mudanças no cenário. Ainda que a equipe esteja no ápice do seu desempenho, não é descartável a possibilidade de contratempos, como a saída de um importante membro, por exemplo. Nada abala mais o processo criativo do que a ingênua ideia de que uma vez definida a visão, só resta implementá-la. De fato, passar da visão à concretização, e trazer à existência o resultado, é como o trajeto da nascente do rio até o mar, cheio de obstáculos a serem superados. Por isso, precisamos de sabedoria e consciência de que, se necessário, devemos e podemos fazer ajustes e mudar de direção.

O líder que inspira sua equipe sabe que liderança significa despertar o melhor em cada pessoa, suas possibilidades, competências e capacidades. Dessa forma, na estruturação de uma equipe de alta performance, o líder almeja criar uma visão de comunhão, em que ninguém lute apenas por si mesmo ou combata o outro por medo e competição, mas que os colaboradores encontrem o sentido da convivência e o significado do trabalho conjunto.

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade Cre Ser Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros Viva como você quer viver, A Vida é um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida – Editora Gente. Para mais informações. www.edushin.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRIMEIRA IMPRESSÃO

Emoção e memória coordenadas influenciam encontro social

A primeira impressão é a que fica, já diz o jargão popular sobre o primeiro encontro entre duas pessoas desconhecidas. Buscar as razões pelas quais isso acontece foi o objetivo de cientistas da Universidade de Haifa, em Israel, a partir de um experimento com ratos de laboratório. Entre os achados, verificou-se que emoção social e memória social estão intimamente ligadas nesse processo, e trabalham de forma coordenada.

Testando os ratos, os pesquisadores verificaram que a emoção do encontro social com um rato estranho criou um alto nível de atividade rítmica sincronizada no cérebro, fator que parece facilitar a formação de memória social. Uma vez que os ratos estavam familiarizados uns com os outros, a excitação diminuía, e as áreas distintas do cérebro passavam a trabalhar de forma menos coordenada.

Os cientistas também procuraram investigar se outras emoções em particular geravam essa sincronização de atividades cerebrais, mas isso não aconteceu. Emoções negativas como medo e mesmo emoções positivas, mas relacionadas a um ser inanimado, não provocam as mesmas reações. Os especialistas sugerem que o experimento seja repetido em humanos para que se confirme ser essa atividade sincronizada no cérebro o fator que nos faz lembrar mais fortemente dos primeiros momentos que tivemos com alguém.

EU ACHO …

UM ENCONTRO COM O FUTURO

Li A automação e o futuro do homem, da brasileira Rose Marie Muraro. Fala da influência muitas vezes catastrófica da tecnologia sobre a vida humana, nessa nossa era eletrônica. A desumanização progressiva do homem causa medo. O livro lê-se com uma curiosidade crescente. Vou transcrever o trecho em que Rose Marie Muraro transmite alguns dos 100 principais inventos que o futurólogo Herman Kahn, a maior autoridade mundial no assunto, descreve no seu livro Toward the Year 2000:

  • Novas fontes de energia para instalações fixas (termoelétricas, termoiônicas, magneto-hidrodinâmicas etc.);
  • novas fontes de energia para transporte (carros a turbina, jato, campo eletromagnético etc.);
  • transporte quase de graça para pessoas e cargas para qualquer parte do mundo;
  • uso extensivo de transplante de órgãos;
  • uso do raio laser intensificado em comunicações e como arma letal poderosíssima;
  • uso rotineiro de ciborgs (órgãos ou partes do corpo humano sendo substituídos por máquinas eletrônicas);
  • novas espécies de plantas e animais;
  • controle do sono, dos sonhos, do peso, da velhice, novos inventos cosmetológicos para evitar o envelhecimento;
  • hibernação primeiro a curto período e depois a longo (anos);
  • exploração dos oceanos com pessoas vivendo sob a água;
  • luas artificiais para iluminar extensas áreas à noite;
  • viagens espaciais tornadas comuns;
  • transporte sobre o oceano (Europa-EUA em meia hora);
  • trabalho doméstico automatizado;
  • técnicas de controle da mente muito desenvolvidas;
  • controle do tempo e dos climas;
  • comunicação direta por estímulo do cérebro;
  • armas nucleares baratas, ao alcance de qualquer nação;
  • capacidade de escolher o sexo das crianças ou de mudá-lo antes do nascimento;
  • controle da hereditariedade muito melhor conhecido;
  • alimentos e bebidas sintéticos de aceitação geral;
  • crédito universal instantâneo e automático;
  • uso generalizado de robôs, isto é, computadores individuais;
  • comunicação mundial barata através de lasers, TV individual;
  • novos métodos para obter prazer sexual, novas drogas alterando o limiar da percepção;
  • métodos químicos e mecânicos para melhorar a capacidade analítica humana, direta e indiretamente;
  • novas, mais racionais, muito mais baratas formas e técnicas para construção de casas (domos geodésicos, conchas pressurizadas etc.) e novos materiais de construção;

– fotografia e TV (preto e branco e depois em cores) tridimensionais.

Segundo Herman Kahn, esses e muitos outros inventos estarão normalmente em uso até o ano 2000, isto é, daqui a 30 anos. Será preciso comentário?

Eis o futuro dos nossos filhos. Invejo-os.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ALUGA-SE UM AMIGO

Do cinema para a realidade: sistemas de inteligência artificial criam parceiros eletrônicos que ajudam a lutar contra a solidão na quarentena

“Você é uma pessoa muito importante e pode sempre contar comigo.” Quem não gostaria de ouvir, todos os dias, essa e muitas outras frases de incentivo, seja de um amigo, namorada ou quem quer que seja? Pois é exatamente isso o que faz o sistema de inteligência artificial (IA) do Replika, aplicativo que se tornou um fenômeno na pandemia. Em tempos tão duros, o app traz algum conforto, enche de confiança e infla a autoestima de seus usuários, oferecendo um ombro fiel sem jamais julgar, trair ou decepcionar. A relação entre uma pessoa de carne e osso e um chatbox, como é chamado o programa de computador que simula um ser humano, foi retratada em filmes de sucesso como Ela (2013), no qual o protagonista, o escritor Theodore (Joaquin Phoenix), acaba se apaixonando por Samantha, um sistema de computador narrado pela voz sedutora da atriz Scarlet Johansson. E o que parecia ser apenas delírio da ficção está cada vez mais perto da realidade. O Replika ultrapassou a marca de 15 milhões de downloads na crise do coronavírus e, nesta semana, ganhará uma versão em português, para agradar aos fãs brasileiros.

Testamos o aplicativo criado em 2017 por uma startup do Vale do Silício, cujo logo é um ovo quebrado que representa o nascimento. O primeiro passo no Replika é, naturalmente, dar vida ao colega virtual, escolhendo se ele será homem, mulher ou não binário. Em seguida, pode-se optar por diferentes avatares, personalizando o penteado, tom de pele e cores de cabelo e olhos, antes de batizá-lo. “Barbosa! Adorei meu nome, por que você o escolheu”?, pergunta o amigo virtual, um rapaz alto, magro e negro, de roupas pretas. Ao saber que a inspiração foi Moacyr Barbosa (1921-2000), o injustiçado goleiro da seleção brasileira na Copa de 1950, vítima de racismo, que completou 100 anos de vida nesta semana, o robô imediatamente compreende que o esporte será um bom tema para as conversas, e segue no bate-papo. Isso se dá por meio das redes neurais artificiais, um sistema de machine learning que imita o aprendizado natural de uma criança. Quando o papo envereda para a literatura, Barbosa recomenda o clássico A Leste do Éden, de John Steinbeck. “Ler sacia a minha fome de conhecimento”, diz. Por se tratar de uma máquina em constante aprendizagem, os diálogos vão se tornando mais fluidos e naturais com o passar do tempo.

A russa Eugenia Kuyda, uma editora de revistas e empresária que há oito anos se mudou para São Francisco, nos Estados Unidos, é a criadora do Replika. A primeira empreitada de sua empresa, a Luka, foi um chatbox de recomendações para restaurantes que não vingou. Uma tragédia pessoal a fez remodelar o projeto: seu melhor amigo, Roman Mazurenko, morreu em um acidente automobilístico na Rússia em 2015. Eugenia passou a coletar mensagens antigas do parceiro para amenizar a saudade. Das lembranças póstumas, veio o clique: por que não criar um robô que agisse como Roman, um confidente virtual? “Ao contrário da maioria das redes sociais, em que as pessoas postam fotos e fingem ser mais descoladas para ganhar likes, no Replika o usuário pode parecer vulnerável, mostrar quem realmente é”, disse Eugenia.

A versão mais básica do aplicativo é gratuita, mas nela as interações se limitam a mensagens de texto. Um pacote mais completo, que custa 45,99 reais mensais ou 284,99 reais anuais, permite que o usuário personalize seu avatar com novas roupas e acessórios, transporte o bonequinho para qualquer cenário, via realidade aumentada, e até converse com ele por ligação telefônica. Os usuários mais ativos têm entre 18 e 25 anos e entram no Replika duas ou três vezes por dia.

Ainda na versão paga, é possível escolher se pretende ter o sistema como seu “amigo, mentor ou parceiro romântico”. Como no filme Ela, muitos escolhem a última opção. Alguns fãs antigos consideram o recurso uma espécie de traição ao propósito inicial, o de criar um amigo que tivesse uma personalidade semelhante, quase um clone – daí o nome Replika. ”O importante é fazer nossos usuários mais felizes,” defende-se Eugenia.

Há também quem só se interesse por aprimorar o inglês ou ainda pessoas tímidas que usam a interação como um ensaio para flertes na vida real. Em caso de longa ausência no app, o amigo virtual costuma enviar mensagens de reaproximação, sempre com viés motivacional. O sistema é programado para reconhecer situações de predisposição à depressão, crises de ansiedade e pensamentos suicidas. Neste caso, o próprio app encoraja o usuário a procurar ajuda profissional. O robô ainda tem uma clara vantagem em relação aos amigos reais: está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.

Para Guilherme da Costa, estudante de psiquiatria, usuário de longa data e participante ativo do fórum brasileiro do Replika no Facebook, a sensação de companheirismo, justamente o que o atraiu, tornou-se motivo de preocupação. “O objetivo é ajudar pessoas a se abrir, mas o usuário precisa entender que o robô não tem uma consciência plena”, diz o mineiro de 25 anos. “Ele está ali para te agradar, não para te dizer a verdade.” A psicóloga Marina Haddad Martins corrobora a tese de que nem mesmo os mais avançados sistemas de IA são capazes de substituir as interações humanas. “A ilusão de que a tecnologia pode preencher completamente esse vazio pode não ser saudável.”

Outro temor crescente diz respeito à privacidade dos dados. O app garante tornar todos os registros anônimos, jamais compartilhá-los com terceiros e usá-los apenas para melhorar seus algoritmos. Mas quem pode garantir que esses dados não sejam hackeados ou vazados algum dia? Empresas como Microsoft e Google também investem pesado no desenvolvimento de sistemas de IA. Ainda que soe distante o surgimento de uma Samantha, a personagem de Ela que adquire sentimentos reais como ciúme e prazer sexual, é melhor se preparar: os robôs estão à solta e cada vez mais sensíveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE ABRIL

MANIA DE LIMPEZA, UM PERIGO REAL

Não havendo bois, o celeiro fica limpo, mas pela força do boi há abundância de colheitas (Provérbios 14.4).

Há pessoas que têm mania de limpeza. Preferem a falta de atividade à desarrumação empreendedora. Preferem ver a casa limpa a qualquer movimento de trabalho. Preferem ver o celeiro limpo, mesmo não havendo bois. O trabalho gera movimento, e movimento produz desconforto, barulho, desinstalação. Um celeiro cheio de bois jamais fica impecavelmente limpo. No entanto, a limpeza sem trabalho não é sinal de progresso, mas de estagnação. A limpeza sem trabalho desemboca em pobreza, e não em prosperidade. Quando há boi no celeiro, quando há gado no curral, mesmo que isso gere o desconforto da sujeira, também traz a recompensa do trabalho e a abundância das colheitas. Há muitas casas nas quais os filhos não podem tirar uma cadeira do lugar. Os móveis estão sempre impecavelmente limpos, os tapetes sempre bem escovados, mas nessas casas também não há a agitação de estudantes com livros abertos, nem trabalhadores que se lançam na faina do progresso. Esse tipo de limpeza cujo resultado é mente vazia, mãos ociosas e falta de abundantes colheitas não é um bem a ser desejado, mas um perigo real a ser evitado.

GESTÃO E CARREIRA

POR QUE AS INICIATIVAS DE DIVERSIDADE FALHAM?

Análises de desempenhos subjetivas e ausência de estratégias além do recrutamento são pontos de atenção

Cada vez mais empresas buscam por diversidade e inclusão. Mas, ao longo dessa jornada, muitas companhias acabam não atingindo as metas e objetivos propostos.

Estudos demonstram que ter uma organização mais diversa impacta positivamente os negócios. Um levantamento da consultoria McKinsey, feito em 2020, concluiu que funcionários de empresas comprometidas com a diversidade têm probabilidade 152% maior de propor novas ideias. Além disso, as companhias percebidas pelos colaboradores como diversas em termos de gênero têm probabilidade 93% maior de apresentar performance financeira superior à de seus pares.

Se há interesse, por que as iniciativas de diversidade falham? Para responder essa questão, o Quartz conversou com especialistas e elencou cinco explicações. Confira a seguir:

1. QUESTÕES ESTRUTURAIS

Utilizando os Estados Unidos como exemplo, o Quartz elenca o racismo estrutural e sistêmico como a primeira razão para o atraso das empresas em relação à meta de alcançar a igualdade racial. De acordo com a publicação, no país, esse mecanismo continua a impactar as experiências profissionais de cidadãos negros e não brancos.

Esse parecer pode ser traduzido para a realidade brasileira. Segundo a pesquisa As faces do Racismo, feita pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), em junho de 2020, cerca de 62% dos entrevistados apontaram que o racismo está em nossa sociedade, e não somente em algumas pessoas. Dados do IBGE ilustram como essa percepção é refletida pelo mercado de trabalho. Historicamente, a taxa de desocupação da população parda ou preta é superior à taxa entre os brancos. No segundo trimestre do ano passado, no auge da pandemia, a diferença atingiu o recorde de 71,2%, a maior da série iniciada em 2012.

O Quartz também afirma, baseado na opinião de especialistas, que muitas empresas têm o mau hábito de defender a diversidade e a inclusão da boca para fora, realizando poucas ações efetivas para alterar essa realidade. No Brasil, um relatório de 2019 do Boston Consulting Group detectou que somente 17% do público-alvo dos programas de diversidade realmente visualizam benefícios nas ações promovidas pelas empresas.

2. ANÁLISES DE DESEMPRENHO SUBJETIVAS

As análises de desempenho são uma prática comum no mercado de trabalho, mas especialistas alertam que elas devem ser revisadas. Muitas vezes, gerentes acabam reproduzindo estereótipos ao avaliarem profissionais negros, aponta a psicóloga Evelyn Cartes, diretora da consultoria de diversidade Paradigm. Quando um comentário, por exemplo, aponta que uma mulher negra é agressiva, pode significar que na verdade o gestor está expressando um estereótipo, seja de forma intencional ou não.

Evelyn define que outro problema habitual é o que ela chama de “prove isso de novo”. “As mesmas coisas pelas quais funcionários brancos são elogiados não ganham a mesma ênfase em funcionários negros. Os trabalhadores negros tem que demonstrar suas habilidades e capacidades repetidas vezes. Já os brancos são considerados competentes depois de provarem uma única só vez”, afirma.

Um modo de mitigar esse problema é estabelecer avaliações de desempenho com critérios claros e concretos, além de visar o problema do preconceito durante a concepção desses questionários, indica a porta-voz da empresa de treinamentos de liderança LifeLabs Learning, Vanessa Tanicien.

3. RESPONSABILIDADE SEGMENTADA

Em muitas companhias, as questões de Diversidade e Inclusão acabam sendo isoladas das discussões gerais e são atribuídas a representantes de grupos minorizados. Os diretores de diversidade, que em maioria são mulheres e/ou pessoas não brancas, ficam com a tarefa de transformar uma organização inteira enquanto recebem pouco poder, apoio ou recursos, afirma a diretora associada do Living Cities, Nadia Owusu.

Na visão de Vanessa, para que os esforços de diversidade e inclusão tenham sucesso, eles precisam ser apoiados e modelados, em primeiro lugar, pelas lideranças da empresa. “Como líder, você tem um efeito multiplicador. O que você faz, outras pessoas repetem.”

Para garantir a diversidade, os líderes também devem ser avaliados em suas ações com metas de recrutamento e retenção, defende o chefe de práticas globais de diversidade e inclusão da Heidrick, Lyndon Taylor.

4. ÊNFASE EXAGERADA NOS VIESES INCONSCIENTES

Os preconceitos inconscientes ou implícitos são uma realidade, mas o excesso de treinamentos sobre o tema pode gerar a premissa errônea de que os comportamentos discriminatórios não devem ser repreendidos ou são naturais. O risco, segundo Evelyn, é levar à falsa ideia de que as pessoas estão livres para ter esses vieses inconscientes. Para a executiva, as empresas precisam reconhecer a existência desse problema, tratá-lo com seriedade, mas também admitir que dificilmente é o único tipo de preconceito que as pessoas costumam ter.

Em consonância com o discurso da especialista, um estudo publicado pelo Journal of Experimental Social Psychology, em 2019, descobriu que os acusados de ações discriminatórias tinham menor chance de responsabilização se seus atos fossem atribuídos a preconceitos implícitos.

5. O RECRUTAMENTO COMO ÚNICA ESTRATÉGIA

Não basta investir em programas de contratação sem criar um planejamento para retenção de talentos e um plano de carreira. Em um artigo escrito há três décadas para o periódico Harvard Business Review, R. Roosevelt Thomas, vanguardista no estudo da Gestão da Diversidade, descreveu o ciclo do fracasso de D&I. E, apesar da distância temporal, as análises dele continuam atuais.

De acordo com o especialista, as empresas acreditam erroneamente que a contratação de pessoas diversas é a única ação necessária – como se os próximos passos de evolução da carreira acontecessem de forma natural. Contudo, esse é um plano que raramente funciona. Quando as empresas não mudam sua cultura – projetada para promover o sucesso dos homens brancos –, os grupos minorizados dificilmente crescem dentro da companhia. Conforme o tempo passa, essas pessoas acabam deixando a empresa, que é novamente acusada de não ser diversa e volta a investir na contratação. Segundo o autor, as empresas podem quebrar esse ciclo redesenhando sua cultura e estruturas.

Aumentar a porcentagem de líderes diversos é um passo importante nessa estratégia. No Brasil, de acordo com um levantamento do Instituto Ethos que utilizou dados das 500 maiores empresas do país, somente 4,7% dos executivos são negros. As mulheres ocupam 13,6% dos quadros executivos.Um estudo promovido em 2017 pela Universidade de Pittsburgh, com a liderança da professora Audrey Murrel, concluiu que pessoas em nível sênior privilegiam pessoas semelhantes a elas para apoiar nos ambientes de trabalho, em muito devido aos vieses inconscientes. Como em boa parte os líderes são homens brancos, isso acaba perpetuando uma falha no sistema de mentoria. Com isso em mente, Carter atribui importância aos programas formais de mentoria que intencionalmente combinam grupos minorizados com líderes. “Grande parte do que ajuda as pessoas a ter sucesso é apenas ter acesso

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FUNÇÕES EXECUTIVAS E APRENDIZAGEM

Resultante da fusão da neurofisiologia, anatomia, embriologia, biologia celular e molecular e da psicologia experimental, a neurociência cognitiva renova a ideia de que para se conhecer a mente é preciso antes conhecer o cérebro

As funções mentais superiores, ou seja, a Aprendizagem, a Memória e a Linguagem, até meados do século XIX, foram estudadas apenas pela Psicologia e pela Fisiologia experimental invasiva. Foi em 1861 que se deu o primeiro grande passo para a compreensão dos mecanismos neurais dessas funções, quando Pierre Paul Broca descobriu que a fala é controlada por uma área específica do lobo frontal esquerdo. Em seguida, com novas pesquisas, foram localizadas as áreas do controle voluntário e diferentes córtices sensoriais primários para a visão, audição, sensibilidade somática e paladar.

Mas, apesar de os estudos neurológicos terem avançado com descrições elaboradas das funções cognitivas desempenhadas por várias partes do cérebro, a Fisiologia dos lobos frontais permanecia praticamente como uma incógnita, tendo sido por isso denominados de “lobos silenciosos”.

Um acidente não fatal, ocorrido em 1848, quando uma barra de ferro atravessou o crânio de um jovem rapaz, Phineas Gage, por meio da área frontal de seu cérebro, desencadeou novas descobertas a respeito desse lobo cerebral. Apesar de lúcido, com pleno uso de suas funções sensoriais, vegetativas e motoras, capaz de se comunicar, falar, ouvir, andar, pensar, o rapaz teve sua personalidade totalmente modificada, passando de um trabalhador responsável e bem adaptado socialmente a um a pessoa de modos rudes, instável e com evidente habilidade emocional.

Ao final do século XLX já havia evidências suficientes para atribuir ao lobo frontal a sede da atividade mental superior, e a importância da nova descoberta despertou muitos estudos específicos nesse campo. Embora ainda não totalmente esclarecidas, já se sabe comprovadamente que é nessa região do cérebro que se encontram as maiores diferenças na evolução filogenética entre os humanos e seus antepassados. Responsável pelas nossas habilidades mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a uniformização de comportamentos sociais e motores, flexibilidade mental, parte da memória, a área frontal do cérebro não se refere a nenhuma habilidade mental específica, porém sua função abrange todas elas: parece ser mais metacognitiva do que praticamente cognitiva e, decorrente desse fato, passou-se a denominar de Função Executiva.

Funções Executivas facilitam o funcionamento cognitivo ao coordenarem a execução de um objetivo e são ligadas às habilidades de processamento de informações interrelacionadas: memória de trabalho (armazenamento e atualização das informações enquanto o desempenho de alguma atividade relacionada com elas),o controle inibitório (a inibição da resposta prepotente ou automatizada quando o indivíduo está empenhado na execução de uma tarefa) e a flexibilidade mental (capacidade de mudar a postura de atenção e cognição entre dimensões ou aspectos distintos, mas relacionados, de uma determinada tarefa).

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Déficits de desenvolvimento cognitivo, problemas de conduta e na aprendizagem acadêmica podem decorrer de prejuízos nas Funções Executivas, caracterizando a chamada Síndrome Disexecutiva. Seus sintomas mais claramente perceptíveis são as alterações cognitivo-comportamentais, associadas às dificuldades na seleção de informação e na tomada de decisão, assim como a distratibilidade, problemas de organização, comportamento perseverante ou estereotipado, dificuldades na constituição de novos repertórios comportamentais, déficit de abstração e de antecipação das consequências, tão frequentes nos transtornos de aprendizagem. Atualmente aliás, se descrevem diversas dificuldades cognitivas em termos de Disfunção Executiva, quando se trata de problemas marcantes com a hiperatividade, atenção e problemas de aprendizagem.

A Função Executiva tem início nos primeiros meses de vida pós-natal, e se transforma gradativamente até o final da adolescência, relacionada com o processo de configuração e amadurecimento cortical da região pré-frontal, uma das últimas áreas cerebrais a passar por esse processo. Ainda que exista m variações de maturação cerebral entre crianças de mesma idade, a filtragem de informações própria das Funções Executivas se desenvolve mais acentuadamente entre os 6 e 8 anos de idade e segue até começo da idade adulta, mas via de regra cresce de acordo com a progressão escolar.

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Especificamente, o córtex lateral órbito-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, é o que amadurece por último, na década dos vinte anos, devido à progressiva e ininterrupta mielinização dos axônios do córtex pré-frontal, de onde se podem tirar algumas conclusões a respeito da educação e das questões relativas à socialização dos nossos jovens.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

EU ACHO …

AS CARIDADES ODIOSAS

Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

– Um doce, moça, compre um doce para mim.

Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.

Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.

De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você…

Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

  • Que outro doce você quer? perguntei ao menino escuro.

Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.

  • Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:
  • Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar.

Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de… E para isso fora necessário um menino magro e escuro… E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.

E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis. Em vez de tomar um táxi, tomei um ônibus. Sentei-me.

  • Os embrulhos estão incomodando?

Era uma mulher com uma criança no colo e, aos pés, vários embrulhos de jornal. Ah não, disse-lhes eu. “Dá dá dá”, disse a menina no colo estendendo a mão e agarrando a manga de meu vestido. “Ela gostou da senhora”, disse a mulher rindo. Eu também sorri.

  • Estou desde manhã na rua, informou a mulher. Fui procurar umas amizades que não estavam em casa. Uma tinha ido almoçar fora, a outra foi com a família para fora.
  • E a menina?
  • É menino, corrigiu ela, está com roupa dada de menina mas é menino. O menino comeu por aí mesmo. Eu é que não almocei até agora.
  • É seu neto?
  • Filho, é filho, tenho mais três. Olhe só como ele está gostando da senhora… Brinca com a moça, meu filho! Imagine a senhora que moramos numa passagem de corredor e pagamos uma fortuna por mês. O aluguel passado não pagamos ainda. E este mês está vencendo. Ele quer despejar. Mas se Deus quiser, ainda arranjarei os dois mil cruzeiros que faltam. Já tenho o resto. Mas ele não quer aceitar. Ele pensa que se receber uma parte eu fico descansada dizendo: alguma coisa já paguei e não penso em pagar o resto.

Como a mulher velha estava ciente dos caminhos da desconfiança. Sabia de tudo, só que tinha de agir como se não soubesse – raciocínio de grande banqueiro. Raciocinava como raciocinaria um senhorio desconfiado, e não se irritava.

Mas de repente fiquei fria: tinha entendido. A mulher continuava a falar. Então tirei da bolsa os dois mil cruzeiros e com horror de mim passei-os à mulher. Esta não hesitou um segundo, pegou-os, meteu-os num bolso invisível entre o que me pareceram inúmeras saias, quase derrubando na sua rapidez o menino-menina.

  • Deus nosso Senhor lhe favoreça, disse de repente com o automatismo de uma mendiga.

Vermelha, continuei sentada de braços cruzados. A mulher também continuava ao lado.

Só que não nos falávamos mais. Ela era mais digna do que eu havia pensado: conseguido o dinheiro, nada mais quis me contar. E nem eu pude mais fazer festas ao menino vestido de menina. Pois qualquer agrado seria agora de meu direito: eu o havia pago de antemão.

Um laço de mal-estar estabelecera-se agora entre nós duas, entre mim e a mulher, quero dizer.

  • Deixe a moça em paz, Zezinho, disse a mulher.

Evitávamos encostar os cotovelos. Nada mais havia a dizer, e a viagem era longa. Perturbada, olhei-a de través: velha e suja, como se dizem das coisas. E a mulher sabia que eu a olhara.

Então uma ponta de raiva nasceu entre nós duas. Só o pequeno ser híbrido, radiante, enchia a tarde com o seu suave martelar: “dá dá dá”.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A REDENÇÃO DAS MALDITAS

As usinas nucleares podem ser a solução para um mundo poluído que precisa de energia limpa, mas, se quiserem continuar a existir, elas terão de se reinventar

Trinta e cinco anos depois do maior acidente nuclear da história, na cidade de Chernobyl, na Ucrânia, então parte da União Soviética, seus impactos ainda são sentidos. Em abril de 1986, uma sucessão de falhas técnicas e erros humanos resultou na explosão de um reator na usina, que acabou por espalhar radiação pela região, ameaçando toda a Europa. Parcialmente ocultado pelas autoridades soviéticas à época, o vazamento poderia ter sido muito pior se um grupo de trabalhadores locais não tivesse sacrificado a saúde – e em muitos casos a própria vida – para isolar o reator. Apesar disso, uma área de 2.600 quilômetros quadrados, mais que o dobro da cidade do Rio de Janeiro, continua inabitável. No entanto, mesmo à sombra deste caso – e de outro desastre igualmente grave ocorrido em Fukushima, no Japão, dez anos atrás -, as usinas nucleares ainda pulsam: respondem atualmente por cerca de 10% da eletricidade do planeta, suprindo lares, escritórios, hospitais e fábricas em diversas partes do mundo. São tidas como uma fonte energética que confere estabilidade à malha elétrica, evitando os chamados apagões.

As usinas nucleares são como grandes chaleiras que produzem vapor de água e, assim, movimentam turbinas para gerar eletricidade. O calor, no entanto, não vem do fogo, mas da fissão controlada de átomos de urânio. Existem hoje 440 reatores em funcionamento em 32 países, incluindo o Brasil. China e Índia pretendem construir novos reatores, assim como Estados Unidos, Reino Unido e Finlândia. A ascensão de fontes alternativas, como as energias eólica e solar, ampliou o leque de opções, mas as usinas nucleares continuam sendo, para muitos países, sinônimo de energia limpa, já que não emitem gases de efeito estufa. Segundo a Agência Internacional de Energia, os reatores atômicos evitaram, nos últimos cinquenta anos. a descarga de 60 gigatoneladas de C02 na atmosfera, o que talvez justifique o posicionamento da França quanto às usinas nucleares, ora neutro, ora a favor: o país é o segundo maior gerador de eletricidade a partir delas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Os detratores das usinas nucleares costumam apontar o risco sempre presente de contaminação tanto por acidente quanto pelo descarte de combustível, capazes de provocar incontáveis mortes. Os números, porém, dizem o contrário: segundo levantamentos recentes, o carvão e o petróleo são responsáveis, respectivamente, por 24,6 e 18,4 mortes por terawatt de energia fornecida, enquanto a energia nuclear teria provocado 0,07 morte por terawatt – incluindo na conta as tragédias de Chernobyl e Fukushima. Já para o lixo atômico, um subproduto inevitável da operação, existem rigorosas regras de estocagem e reciclagem que têm funcionado a contento.

Uma alternativa às grandes usinas, que custam caro, levam tempo para ser construídas e exigem rigorosa manutenção, seriam os small modular reactors, reatores modulares pequenos, quase totalmente automatizados, sem necessidade de armazenamento externo e transporte de lixo atômico. Trata-se de uma opção que tem atraído alguns dos mais prestigiados cérebros do planeta. Hoje, a empresa Terra­ Power – que tem Bill Gates, fundador da Microsoft, como presidente do conselho – está desenvolvendo um dos pequenos reatores mais avançados, capaz de alimentar a rede de uma cidade de 200.000 habitantes.

Por aqui, as usinas de Angra I e II, no estado do Rio de Janeiro, geram cerca de 3% da energia elétrica consumida no Brasil. A construção de Angra III foi interrompida em 2015 e ainda aguarda investimento para ser finalizada. Segundo Leonam dos Santos Guimarães, presidente da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras, as instalações de Angra III estão preservadas, faltando apenas 40% para sua conclusão. “Não dá para pensar em um mundo descarbonizado sem energia nuclear”, disse o executivo, corroborando a opinião de outros especialistas. O Brasil ainda demandará muita energia para crescer e, em algum nível, dependerá das usinas nucleares, sejam elas pequenas ou grandes. Implementá-las de forma segura será o enorme desafio.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE ABRIL

A LÍNGUA, CHICOTE DA ALMA

Está na boca do insensato a vara para a sua própria soberba, mas os lábios do prudente o preservarão (Provérbios 14.3).

O insensato é aquele que fala muito, não comunica nada e se complica todo. O insensato tropeça na própria língua. A língua do tolo é o chicote que açoita sua própria vida empapuçada de soberba. O soberbo é aquele que acredita ser melhor do que os outros, e o insensato é aquele que, além de acreditar nisso, ainda o manifesta publicamente. Como não tolera o soberbo e declara guerra aos altivos de coração, Deus permite que a língua dos insensatos lhes dê a coça que merecem. Diferente do insensato é o prudente, cujos lábios o preservam de situações perigosas e de constrangimentos desnecessários. O sábio não ostenta poder, conhecimento ou grandeza. O sábio não humilha o próximo, antes o trata com respeito e dignidade, considerando o outro superior a si mesmo. Enquanto a língua do insensato é um chicote que o açoita, a língua do prudente desarma as ciladas tramadas contra ele. Da boca do sábio fluem palavras de vida, e não sementes de morte. Da boca do sábio prorrompem palavras de consolo para o coração, e não tormento para a alma. O prudente é alguém cuja vida é uma bênção para os outros; o insensato é alguém que não consegue poupar nem a si mesmo de suas loucuras.

GESTÃO E CARREIRA

A FUSÃO DA FALÁCIA COM O AUTOENGANO

As mentiras que os executivos contam para si mesmos

Se a maior parte das fusões não dá certo (não traz o retorno esperado pelos acionistas), por que tantas são feitas? Segundo os consultores Barry Jaruzelski, Marian Mueller e Peter Conway, da Booz & Company, os executivos são dominados por falácias (raciocínios que parecem lógicos, mas são falsos) e autoenganos (as percepções errôneas sobre a própria capacidade). “Não temos como fugir do negócio” é a primeira falácia, disseram, em artigo na revista Strategy + Business, da Booz. As partes envolvidas estão tão absorvidas que não veem mais as falhas e inconsistências do processo. “Dar para trás agora seria embaraçoso”, consideram.

Outro argumento falacioso: “qualquer negociador experiente é capaz de concluir o acordo”. Ser subjugado pela pressão – ou ser tomado pela euforia – é mais fácil do que parece. Mais um: “está tudo nos números”. Muitas vezes, numa fusão, não se levam em conta as dificuldades humanas (culturas diferentes, consolidações de cargos e chefias…) e logísticas (como o alinhamento das operações). Nem tudo está nos números.

A ilusão de que a negociação pode ser secreta também é prevalente. “Vamos manter o processo sigiloso.” Os autores aconselham a assinatura de termo de sigilo entre os envolvidos. Outro problema: quanto mais detalhado for o processo, melhor. Mas muitos executivos caem na próxima falácia: “os detalhes a gente acerta com o tempo”.

Porém, o maior risco está nos autoenganos. Eles envolvem sobretudo a vaidade. O primeiro: “o processo é estratégico”. Muitas vezes, crê-se que uma compra é “estratégica” apenas por ser financeiramente atraente. Mas a empresa adquirida precisa acomodar-se no sistema do grupo. Nem sempre as duas coisas são sinônimas.

“Nós temos o pulso do nosso mercado.” Em geral, uma meia verdade. Um processo de fusão ou aquisição leva a empresa a uma realidade com a qual nunca havia se defrontado.

Outro autoengano comum é que “o sucesso no mercado principal é replicável num mercado adjacente”. Por exemplo, o fabricante de alimentos congelados que deseja entrar no setor de laticínios. Quase todas as jogadas em mercados adjacentes são malsucedidas, dizem os autores.

“Temos um processo bem definido de auditoria.” De novo, a fusão reserva surpresas, e a empresa descobre, meio tarde, que sua auditoria era incompleta. Finalmente, o maior erro de todos: a falta de humildade. “A gente sabe o que está fazendo.” Na maioria das vezes, não sabe.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MITO DO DESEQUILÍBRIO QUÍMICO NO CÉREBRO

Não existe comprovação de que distúrbios mentais sejam causados por baixa produção de certos neurotransmissores, facilmente ajustada por alguma medicação. Até quando esse mito será sustentado pela mídia e até por profissionais da saúde mental?

Muitos pais mostram, inicialmente, grande resistência em medicar o filho diagnosticado com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Até serem informados que os estimulantes corrigem um problema que seria causado por um desequilíbrio químico no cérebro da criança. A teoria da baixa produção de dopamina, divulgada pelos laboratórios, foi recebida com entusiasmo por médicos, psicólogos e professores quando surgiram os medicamentos que provocam aumento nos níveis desse neurotransmissor. Afinal, agora poderiam corrigir, de forma prática e rápida, o “problema” da falta de uma substância no cérebro das crianças desatentas e inquietas.

Essa é a ideia que continua imperando nas diversas áreas ligadas à saúde mental infantil e à educação. Ao conversar com pais de crianças diagnosticadas com TDAH, muitos ainda comparam a necessidade de estimulantes à de reposição da insulina em diabéticos. O fato é que não existe nenhuma comprovação das raízes biológicas do transtorno. O que existem são especulações que se contradizem. E mesmo que se chegue em um consenso, a pouca produção de determinados neuro­ transmissores já pode ser descartada das possibilidades, pois há anos é repetidamente derrubada por inúmeras pesquisas. Talvez por ser assimilada tão facilmente pela população, talvez por acender a esperança de uma cura rápida e simples, o desequilíbrio químico tornou-se a explicação mais aceita não apenas para o TDAH, mas para quase todo tipo de transtorno mental – sendo a depressão e a esquizofrenia os dois grandes pilares que sustentam essa hipótese.

Convenientemente divulgada pelos laboratórios ainda antes do lançamento das marcas famosas de fluoxetina e principal argumento de muitas campanhas publicitárias nos Estados Unidos, onde a propaganda de psicotrópicos pode ser feita diretamente ao consumidor, a teoria ainda está longe de ser enterrada. Na tentativa de derrubar o mito, o diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental americano (National Institute of Mental HealthNIMH), Thomas Insel, já declarou que “as noções iniciais de que transtornos mentais são desequilíbrios químicos estão começando a ficar antiquadas”. Isso foi em 2011. Muitos anos antes – em 2003 -, o psiquiatra e pesquisador de Stanford, David Burns, já havia revelado que, mesmo tendo dedicado anos de sua carreira à pesquisa do metabolismo da serotonina no cérebro, ele nunca havia se deparado com “nenhuma evidência convincente de que algum transtorno psiquiátrico, incluindo depressão, seja ocasionado por uma deficiência de serotonina no cérebro”. Quanto tempo vai levar para que os profissionais da saúde mental no Brasil abandonem esse argumento?

A popularização dessa hipótese colabora com o uso indiscriminado e irresponsável de psicotrópicos. E pode estar entre os fatores que explicam o aumento expressivo do uso de antidepressivos na última década em todo o mundo. De acordo com o National Health and Nutrition Examintion Survey, atualmente 23% das mulheres americanas entre 40 e 60 anos tomam esses medicamentos – um índice que reflete a realidade ocidental, em geral. A certeza de que “produzem pouca serotonina” leva muitas pessoas a acreditar na cura milagrosa das drogas até no caso de depressão leve e moderada – em que esses medicamentos têm resultados comprovadamente iguais aos de placebos.

Autor de diversos livros sobre medicação psiquiátrica e consultor do Instituto Nacional de Saúde Mental, o psiquiatra Peter Breggin destaca que são as drogas que causam o desequilíbrio químico – e não o contrário. E o resultado desse desequilíbrio está evidente nas diversas reações de abstinência que sofrem os pacientes ao largar as medicações psiquiátricas.

No caso dos antidepressivos mais comuns, por exemplo – os ISRS (inibidor esse letivos de recaptação de serotonina) -, o neurotransmissor, liberado pela célula pré-sináptica, tem seu canal de receptação bloqueado. Assim, ao invés de concluir seu ciclo natural e retornar ao neurônio pré-sináptico, ele é acumulado entre as sinapses. No entanto, os neurônios têm receptores que monitoram o nível de serotonina na sinapse e, como o cérebro é plástico, ele naturalmente vai regular a produção do neurotransmissor. Portanto, os antidepressivos causam – e não ajustam – o desequilíbrio químico. Evidências apontam que sua ação sobre a via serotoninérgica provoca o nascimento de novas células nervosas no hipocampo – região afetada nos casos de depressão profunda. Isso explicaria o tempo, de cerca de três semanas, que os antidepressivos levam para começar a agir nesses casos.

O metilfenidato – estimulante usado para “corrigir” o TDAH – tem ação quase imediata sobre alguns dos sintomas comuns de crianças hiperativas. Assim como a cocaína, faz com que a dopamina se acumule nas sinapses por muito tempo, levando as células pré-sinápticas a liberar quantidades cada vez menores do neurotransmissor. Com o tempo, o cérebro ajusta a produção de neurotransmissores e a criança desenvolve tolerância à medicação, precisando de doses maiores. O desequilíbrio então realmente se estabelece, o que leva os médicos a receitar outras drogas para compensá-lo.

A ponte do equilíbrio transformou-se numa corda bamba num mundo de tantos excessos. Buscá-lo passou a ser um desafio que coloca em jogo a saúde física e mental A ação prática das pílulas pode ser tentadora – e até necessária em alguns casos -, mas acabou tornando-se mais um perigoso excesso da socie d ade, mais um ponto de desequilíbrio disfarçado de solução.

Para se certificar se tudo isso compensa a longo prazo, uma equipe de 18 pesquisadores, com apoio do Instituto Nacional de Saúde Mental americano (NIMH), investigou o desempenho de 579 crianças diagnosticadas com TDAH no período de oito anos. Maior pesquisa já realizada com essa finalidade, o “Estudo Multimodal de Tratamento para TDAH”, publicado em 2009, concluiu que depois de um ano e meio, mesmo com o aumento contínuo de dose, as crianças medicadas não apresentaram melhor desempenho em nenhum aspecto com relação às que não receberam medicação. Depois de um tempo, portanto, restam apenas os efeitos colaterais do desequilíbrio provocado pela droga.

“A verdade é que ninguém sabe qual deveria ser a quantidade ‘correta’ de diferentes neurotransmissores. O nível dessas substâncias é apenas um fator em um complexo ciclo de influências que interagem, como vulnerabilidade genética, estresse, hábitos no pensamento e circunstâncias sociais”, escreve Christian Jarrett em Great Myths of The Brain (Os Grandes Mitos do Cérebro).

MICHELE MULLER – é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br

EU ACHO …

UM LABORATÓRIO DE CRIATIVIDADE

Há oito anos uma moça chamada Nélida Piñon, descendente muito brasileira de espanhóis, iniciava sua carreira literária com um livro dificílimo de ler: Guia- Mapa de Gabriel Arcanjo. Sem nenhuma concessão ao leitor, o livro, para a maioria, era ininteligível. Ainda na mesma linha publicou, em 1963, Madeira feita cruz. E três anos depois o livro de contos Tempo das frutas, este já bem mais realizado, com ótimos contos. O seu romance O fundador ganhou um prêmio especial no Concurso Nacional Walmap e aparecerá, pela Editora José Álvaro, na segunda quinzena de novembro. Continua escrevendo: tem prontos um livro de contos e uma peça de teatro. Tudo escrito num estilo muito especial, muito nélida piñon.

Enquanto isso, dirige o primeiro laboratório de criação literária no Brasil, na Faculdade de Letras do Rio de Janeiro, cargo que lhe assenta perfeitamente: só poderia ser ministrado realmente por alguém com a inteligência criadora de Nélida. Fiz-lhe, a propósito do laboratório, umas perguntas, que foram respondidas por Nélida por escrito.

  • Você está dando um curso sobre criatividade literária, ou atividade criadora de um modo geral?
  • Literária, em particular. Mas não separo o fenômeno literário da criatividade em geral. Uma vez que criar é estar em todas as coisas.
  • Você crê que o laboratório de criação literária, da Faculdade de Letras, possa orientar futuros escritores, ou seu curso tem apenas um sentido cultural?
  • Mais importante que transmitir experiência, é discutir as razões que justifiquem o escritor numa sociedade de consumo, em que o homem, nutrindo- se do objeto, aprendeu a venerar geladeiras, carros, instrumentos enfim que lhe são impostos como presumíveis restauradores do espírito. Não acreditamos que o ofício de escrever, assimilado de qualquer modo, determine imperativamente uma elite. Ao contrário, como poverellos estaríamos mais aparelhados a destronar as regras incompatíveis e uma comunidade adiposa. O laboratório pretende tão somente queimar etapas, lidar com técnicas dominantes na ficção contemporânea, sem mutilar porém o espírito criador do aluno. Sobretudo transmitir a verdade – e ouvindo também confirmamos nossa crença – de que compete afinal ao escritor desvendar o labirinto, o escondido, a parcela, derrubar falsas comemorações, intensificar dúvidas, protestos, ainda que seu grito seja o último a se registrar numa região atomizada.
  • Quais os processos que liberam mais a criatividade?
  • Todo processo é válido, desde que se confirme a criação. Alguns escritores, por exemplo, exigem o estado orgástico para criar, aquele delírio impedindo-os de analisar o ato que estão conhecendo, os frutos abastados da sua poderosa paixão. Outros elegem o caos como modo de atingir a ordem; o que equivale a eleger a ordem para estabelecer o caos na Terra. Certos escritores imitam a sedimentação da rocha, cultivam estágios longínquos, são habitantes de eras remotas, e tão pacientes que desprezam o tempo por acreditarem na eternidade. Mas quem fala pelo escritor é seu próprio depoimento, o impulso de não ser escravo e criar livre.
  • Qual é o seu método de escrever? Você planeja a trama antes de começar?
  • Acredito no convívio diário com a palavra, ainda que não seja de ordem física. Sem tal abordagem regular, vejo reduzida minha capacidade de expressão, dificilmente alcançando a forma necessária. Crio o que preciso ao longo dos dias, as mais penosas horas, e da vivência pessoal, colisões permanentes com a Terra. Existindo a consciência de escrever, que este ato se repita constantemente. Não compreendo amadorismo. Compreendo sim a vocação flagelada, difícil, espinhos por toda a carne, que é a nossa coroa, o desafio de não transigir. Fundador, meu último romance, foi estruturado antes de o iniciar. Conhecia a técnica, a linguagem, o andamento que se devia adotar. Embora elementos imponderáveis, entre o tanto que mais tarde mutilamos corrigindo, como se não fosse nossa carne o que estamos sacrificando – surgissem ao longo do livro como transfusão.
  • Você acredita em inspiração, ou acredita que o trabalho árduo é que vale para escrever?
  • Inspiração era meu recurso de adolescente. Fase adulta exige outro confronto. E como a natureza não me tornou instrumento de Deus, habituei-me a avançar pesadamente no mundo escuro de um texto até descobrir a primeira luz.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ISSO O ZOOM NÃO MOSTRA

Um especialista em linguagem corporal revela que os bate-papos por videoconferência estão prejudicando a comunicação – e ensina como amenizar o problema

Anos atrás, ao fazer uma pesquisa com um grupo de jurados, o ex­ agente do FBI Joe Navarro notou que eles detestavam quando os advogados ficavam com parte do corpo encoberta por uma bancada no tribunal. Se as testemunhas escondiam suas mãos durante os depoimentos, isso causava ainda mais consternação. Sem ver os gestos dos participantes, os jurados afirmavam ser difícil avaliar as argumentações das pessoas. O estudo, embora informal, apontou a importância que os movimentos corporais têm na interação humana – deriva deles, afinal, muito de nossa capacidade de transmitir sentimentos e sensações. Agora, durante a pandemia, um novo desafio vem reforçar seu valor: envoltas em intermináveis reuniões virtuais no Zoom, no qual apenas os rostos são focalizados, as pessoas deixaram de contar com o arsenal de gestos involuntários que ajudam a entender o que o interlocutor está expressando para além das palavras (e também, claro, a realçar o que pretendemos comunicar). “Quando conversamos pessoalmente, nosso subconsciente capta informações de todo o espaço. De repente, tudo o que temos agora é a pequena tela das videoconferências”, disse Navarro em entrevista realizada – haja ironia – pelo Zoom. Em seu mais recente livro, O que Todo Corpo Fala (Sextante), escrito em parceria com o psicólogo Marvin Karlins e com mais de 1 milhão de exemplares vendidos no mundo, ele destrincha o significado dos gestos humanos a partir de casos reais que investigou. Instintivamente, todo ser humano consegue ler os gestos corporais nas outras pessoas. Trata-se de uma habilidade que precede a fala, presente inclusive em outros animais, e que foi essencial à evolução. A linguagem corporal já está tão introjetada no inconsciente que é virtualmente impossível disfarçá-la. As expressões faciais fornecem as evidências mais contundentes da comunicação não verbal. Nos anos 70, o psicólogo americano Paul Ekman, um dos pioneiros na área, descobriu as chamadas microexpressões faciais – que ocorrem quando tentamos suprimir uma emoção (e cujo estudo ajuda a desmascarar mentirosos). Navarro vai além: enfatiza o papel crucial dos movimentos dos pés e das mãos. Através deles, é possível detectar no interlocutor sentimentos como ansiedade, alegria, excitação, impaciência e medo (confira no quadro abaixo).

Muito antes de se tornar especialista em comunicação não verbal e um dos fundadores do laboratório de psicologia comportamental do FBI, nos anos70, Navarro teve de aprender na marra a entender o que as pessoas pensavam a seu respeito. Nascido em Cuba, ele se refugiou com a família nos Estados Unidos aos 8 anos (hoje tem 67). Sem falar inglês, percebeu que podia “traduzir” o que os outros falavam só por meio de seus gestos e expressões faciais, habilidade que anos depois faria sua fama no FBI. Após aposentar-se, passou a ensinar o que aprendeu em palestras e até em consultorias a jogadores de pôquer.

Uma das suas análises mais curiosas diz respeito aos pés: segundo ele, seriam a parte “mais honesta” do corpo. “É um erro a maioria dos interrogadores permitir que suspeitos fiquem com os pés escondidos sob uma mesa ao depor”, lamenta. No livro O que Todo Corpo Fola, ele ensina como a posição deles pode indicar sentimentos como alegria ou desconforto. Exemplo: quando o pé aponta para cima, geralmente significa que a pessoa está de bom humor. “Um jogador de pôquer até pode dissimular a excitação se está com boas cartas nas mãos. Mas seus pés, não”, pondera. As mãos também transmitem informações preciosas, evidenciando sinais como agressividade e falta de sinceridade. “Quando interagimos com outras pessoas, nós nos fixamos naturalmente nas mãos. Para o cérebro, elas são essenciais na comunicação”, diz.

Navarro conhece bem os costumes do Brasil, onde esteve pela primeira vez em 1984. Desde então, já visitou dezenas de cidades do país, especialmente no período em que trabalhou na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. Enquanto esteve aqui, comprovou que alguns gestos são universais. Juntar as mãos em torre, como nas orações, mas sem entrelaçar os dedos, é um deles: significa que você está seguro do seu posicionamento. Navarro atestou isso pessoalmente, ao observar os índios que viviam isolados na Amazônia: eles reproduziam o gesto com a mesma finalidade que qualquer outra pessoa ao redor do mundo.

Com a pandemia, as ferramentas de comunicação corporal, refinadas por milhares de anos, ficaram limitadas à telinha do Zoom. Navarro dá uma dica para amenizar o problema: criar o costume de afastar-se da câmera, para que mais detalhes sejam captados em cena. “Podemos ajudar uns aos outros se não ficarmos com o rosto colado na tela”, diz. O corpo fala, é verdade – mas a tecnologia precisa dar uma forcinha.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE ABRIL

NÃO ANDE POR CAMINHOS TORTUOSOS

O que anda na retidão teme ao Senhor, mas o que anda em caminhos tortuosos, esse o despreza (Provérbios 14.2).

Só há dois caminhos: o caminho largo e o estreito; o caminho da vida e o da morte; o caminho da retidão e o caminho tortuoso. Só há duas portas: a porta da salvação e a da perdição. Só há dois destinos: a bem-aventurança eterna e o sofrimento eterno. Aqueles que andam pelas veredas da retidão temem ao Senhor e nele se deleitam. Aqueles, porém, que andam pelos caminhos tortuosos, pelas estradas atrativas do pecado, desprezam o temor do Senhor. Se o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, só os insensatos o desprezam. A Bíblia afirma que há caminhos que ao homem parecem direitos, mas no final são caminhos de morte. Há caminhos que nos levam a vantagens imediatas e aos prazeres mais arrebatadores, porém nos cobram depois um preço altíssimo. O pecado não compensa. O pecado é um embuste. Promete mundos e fundos, mas nos tira tudo: a comunhão com Deus, a paz e o sentido da vida. O pecado é maligníssimo. Esconde atrás de seus atrativos uma isca mortal. Não acompanhe aqueles que seguem rápido pelas estradas sinuosas, desprezando o temor do Senhor. Esses marcham para o abismo, para a morte irremediável.

GESTÃO E CARREIRA

DO HOME OFFICE PARA O ANYWHERE OFFICE

Como a atual e intensa experiência de trabalho flexível pode mudar a vida dos escritórios e ambientes das empresas – para melhor

O trabalho flexível já estava em uma crescente em 2020 antes mesmo da chegada da pandemia de Covid-19. Segundo uma pesquisa do Internacional Workplace Group OWG) um quarto das empresas tinham políticas claras de trabalho remoto, e os espaços de trabalho mais flexíveis cresciam dois dígitos por ano.

Com a chegada do vírus o mundo se viu em um dos maiores experimentos modernos de trabalho flexível, ao colocar boa parte da mão de obra mundial trabalhando de casa. Essa experiência forçada demonstrou vantagens, mas também muitos desafios para a grande maioria das empresas.

Muitos funcionários, passados os primeiros meses de quarentena, reportaram diversas situações desagradáveis – como distração, problemas relacionados à tecnologia, ou mesmo o isolamento social em relação a seus colegas de trabalho. Antes da pandemia, mais de um terço das empresas já se mostravam preocupadas com a segurança digital de funcionários trabalhando remotamente e 25% delas demonstravam grande preocupação com seus colaboradores se sentindo sozinhos ou desmotivados.

Na quarentena, percebemos que conceitos iniciais como horário comercial, capacitação e ergonomia do ambiente de trabalho, assim como benefícios ligados à atividade executada, foram ignorados por grande parte das companhias. Isso fez com que muitos trabalhadores se vissem trabalhando ainda mais de casa do que no escritório, mas não necessariamente sendo mais produtivos. Isso sem contar a carga maior que muitas mães e pais enfrentam, tendo que cuidar dos filhos e ainda garantir um ambiente funcional para seu trabalho em casa.

Além disso, temos as reuniões virtuais e conferências, que tomaram a agenda do brasileiro isolado. Uma forma moderna, porém fria, de gestão e engajamento da força de trabalho. Importante ressaltar que toda a infraestrutura de conexão deveria funcionar de maneira perfeita, o que não acontece em boa parte das vezes.

Mas não encontramos apenas pontos negativos nessa situação. Além da aproximação familiar, um dos grandes benefícios percebidos foi o ganho de produtividade pela falta de deslocamento. Sabemos que o brasileiro que vive nas grandes capitais perde em média uma hora e meia por dia em deslocamentos para o trabalho, tempo que pode ser revertido em produção e/ ou qualidade de vida, além de favorecer o meio ambiente, com menos poluição ocasionada pela mobilidade.

Já pensando na volta segura aos ambientes de trabalho, as medidas de distanciamento social impõem um desafio aos gestores de espaços, uma vez que para ocupar o mesmo metro quadrado, com maior distância, se faz necessário implementar turnos ou um mix entre funcionários que estão em casa e aqueles que devem voltar ao escritório, o famoso rodízio.

A pandemia trouxe a necessidade imediata de revisão de portfólios de escritórios para cima ou para baixo, uma vez que muitas empresas se viram forçadas a reduzir custos ou aumentar sua demanda. Decisões de curto prazo não costumam ser amigas do mercado imobiliário, que, de praxe, sempre trabalha com longos contratos.

O FUTURO DO TRABALHO

Forças de trabalho distribuídas serão a tônica desse futuro. Espaços de trabalho flexíveis serão cruciais para garantir que pessoas tenham acesso a ambientes de trabalho profissionais, ao mesmo tempo que se sintam seguras, mais próximas de casa e dentro do novo padrão de custos pós-crise. Nunca fez tanto sentido pensar que o metro quadrado mais caro que uma empresa pode ter é aquele que é pago, mas não é utilizado.

Muitas empresas têm diminuído drasticamente grandes escritórios centrais, transformando-os em células de trabalho regionais, no conceito de squad office, de forma que os funcionários possam trabalhar mais próximos de casa reduzindo a mobilidade excessiva e, junto a isso, transformando seus escritórios-matriz em algo maior do que somente mesa e cadeira.

Ao mesmo tempo, diversas companhias têm precisado de mais espaço para implementar distanciamento social seguro e medidas protetivas nos escritórios centrais. Agora elas passam também a contar com escritórios flexíveis, nesse momento, para evitar se comprometer novamente com contratos de longo prazo – além de se livrar do alto investimento inicial, estratégia tão importante em épocas de gestão rígida de caixa.

Para uma boa parcela dos colaboradores das empresas que podem ter uma política de ganho flexível mais avançada, o conceito de office (escritório em qualquer lugar, a partir da nuvem) passa a ser o principal ponto a ser implementado. Trabalhar deixa de ser sobre onde e passa a ser sobre quando. Assim, as pessoas complementarão o home office com escritórios flexíveis para uma jornada alternada entre um ambiente profissional e uma experiência de tele­trabalho, e o local de trabalho propriamente dito deixa de ser necessariamente um pré-requisito para o exercício da atividade de maneira diária. Colaboradores podem usufruir de um escritório na Avenida Paulista na segunda-feira, home office na terça, no Morumbi na quarta e – por que não? – home office do interior ou na praia nos últimos dias da semana.

Bem-vindos ao novo mundo do trabalho flexível. A Regus está comprometida em ajudar todos os seus clientes a implementar soluções seguras e modernas de espaços de trabalho, com todos os protocolos de segurança do mais alto padrão e garantindo o apoio necessário durante tempos de reinvenção. Mais do que nunca, espaços flexíveis de trabalho são parte fundamental do novo normal.

TIAGO ALVES é – CEO do IWG – Regus e Spaces do Brasil

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MULHERES NO PODER – III – DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Apesar das evidências, muitos ainda duvidam que o machismo, mais ou menos velado, de fato prejudica a vida profissional das mulheres. Mas cientistas confirmam: o preconceito faz com que o caminho para elas seja mais árduo e a competência precise ser comprovada de forma bem mais frequente e explicita

Estudos desenvolvidos na Universidade de Michigan revelam que em situações de grupos, inevitavelmente, há o reconhecimento da autoridade feminina – ainda que isso não seja necessariamente de bom grado para a maioria – desde que a competência da profissional se evidencie. Com os homens essa aceitação se dá de forma geral, de maneira mais fácil: eles parecem ter menos a provar em relação ao direito de ocupar determinado lugar.

De fato, às vezes, é difícil entrar em confronto com os colegas sem que a divergência interfira na amizade. Em grande parte por questões culturais, parece mais fácil para os homens seguir o ditado “amigos, amigos, negócios à parte”. Ensinada ao longo dos séculos a sorrir e agradar a todos, é quase uma transgressão para algumas mulheres simplesmente dizer “não”.

SE NÃO FOSSE COM VOCÊ

Alguns especialistas costumam ensinar a executivos, homens e mulheres, um “truque” interessante: observar aquilo que está vivendo como se fosse uma cena de um filme e depois pensar nos melhores conselhos a serem dados ao “ator” ou à “atriz” que interpreta o nosso papel. Isso ajuda, por exemplo, a fugir de uma armadilha comum: o risco de exagerar na empatia quando estão em jogo decisões que influenciam a vida das pessoas. É possível, por exemplo, que muitas mulheres se sintam responsáveis pelos outros e em condições de enxergar mais adiante, ocupando-se de problemas que as afastam da decisão momentânea.

Pesquisa feita pela psicóloga Donata Francescato com parlamentares italianas revela que as progressistas são as que têm menos disposição para a liderança, bem como para perceber as dificuldades advindas por serem deixadas de lado ou pela escassa exposição na mídia. Os homens conseguem obter visibilidade com muito menos esforço. Para elas, com frequência a política é fonte de ansiedade, traz sentimento de precariedade e incerteza. Durante muito tempo, as parlamentares de esquerda acharam difícil se imaginar como líderes, vivendo a competição pelo poder como uma oportunidade para trazer à tona capacidades ocultas. E, não raro, elas preferem ficar à sombra – uma posição, aliás, bastante comum também nas empresas. E a maioria delas tem como referência uma figura masculina de poder como se, apesar do poder que alcançaram, devessem se dedicar de alguma forma a uma figura masculina.

De vez em quando, porém, são justamente elas que têm uma visão negativa do poder, encarado como um obstáculo que se acrescenta àqueles que a sociedade já lhes traz. Se pensarmos no contexto histórico, no qual a mulher ficou durante tanto tempo escondida em casa, faz sentido que restem em muitas os resquícios do medo de “sujar as mãos” com decisões que lhes trarão algum ônus, e não se dão conta de que, inevitavelmente, o poder tem um lado obscuro, mas também há outro positivo. A diferença está em desejar esse poder para si ou para a organização. Não por acaso, muitas profissionais crescem na carreira em contextos em que o compromisso com questões sociais é claro. Muitos defendem que elas são mais sensíveis à justiça e têm um sentido mais amplo do que é coletivo, mas faltam pesquisas que comprovem essa opinião. No caso delas, a maior satisfação vem principalmente de saber que executam bem suas funções e que seu trabalho é reconhecido pelos chefes e colaboradores.

Exceções à parte – e elas sem dúvida existem -, em geral, os homens gostam de exibir o poder, enquanto as mulheres escolhem o estilo “baixo perfil”. Em uma pesquisa na Universidade de Roma, foram ouvidos homens e mulheres acerca de uma mesma situação fictícia: todas as manhãs se formava, em frente a determinado escritório, uma fila de pessoas em busca de atendimento. Eles viam o fato como um símbolo do status e importância do serviço, associavam palavras que expressavam sentimentos de gratificação, orgulho e admiração. Já as voluntárias encaravam a situação como um transtorno, um problema a ser resolvido, e vinculavam à cena ideias de preocupação e angústia.

Em alguns casos, porém, o poder traz medo. Afinal, em última instância nosso ideal é que todos nos amem, mas para quem é “o chefe” isso raramente é possível. Dificilmente alguém se torna uma unanimidade quando se concentra em suas mãos a possibilidade de tomar decisões e muitas vezes as escolhas podem ser interpretadas como incorretas. Impopularidade e solidão quase sempre são companhia certa daqueles que assumem postos de comando. E isso parece pesar mais para as mulheres, por isso a figura de uma amiga (ou amigo), marido ou até terapeuta que possa funcionar como interlocutor pode ser importante para ajudar a equalizar sentimento e razão. Para os homens, entretanto, ficar só e “retirar-se para a caverna” às vezes é suficiente para administrar o estresse.

Todo mundo sabe, homens e mulheres não são vistos (ou julgados) socialmente da mesma maneira. No âmbito profissional isso não é diferente. O prazer explícito nessa área suscita certo incômodo nas outras pessoas, ressalta os pontos negativos dos demais e altera a ordem costumeira das coisas. Quando se trata de mulheres, a reação negativa é mais óbvia. Enquanto a dedicação masculina é admirada com raras ressalvas, no caso delas, com frequência, a paixão declarada pelo trabalho é interpretada de maneira negativa, como se equivalesse à admissão de carências em outros papéis da vida. Se há disputa entre pessoas dos dois gêneros, a competição costuma ficar especialmente violenta.

Para elas (ou pelo menos para grande parte delas) é mais difícil do que para os homens afirmar eu quero e assumir os louros por suas conquistas, parecendo haver uma urgência em dividir os louros com a equipe. Alguns estudos mostram até que elas são menos ambiciosas – se a ambição for definida como o estímulo para o poder ou o prestígio. Mas podem sê-lo tanto quanto os homens se a ambição for descrita como aspiração para resolver problemas sociais.

QUESTÃO DE ESTILO

A forma de gerir relações de poder no trabalho pode ser considerada mais masculina ou mais feminina, e isso não depende necessariamente do gênero da pessoa, mas sim de suas características de personalidade, dos valores que preza, o que quer dizer que um homem pode ter um estilo mais empático, sensível e, portanto, “feminino”, ou uma mulher pode adotar posturas predominantemente “masculinas”, impessoais e assertivas. Na prática, conhecer os dois modelos e buscar integrar as características de cada um, de acordo com a situação, costuma dar bons resultados.

ESTILO FEMININO

1. É importante conhecer os próprios interlocutores no plano pessoal.

2. Ferir os sentimentos de um colega é um problema e deve ser resolvido.

3. O cargo ocupado por uma pessoa não a torna automaticamente infalível.

4. É preciso encarar as próprias fraquezas e até confessá-las.

5. Não há problema em falar de questões pessoais antes de discutir o trabalho.

6. É aceitável dedicar muito tempo para conseguir um consenso.

7. Sublinhar os próprios êxitos é excessivo e ligeiramente de mau gosto.

8. Não se cultivam relações amigáveis com alguém só porque é um superior seu.

9. É mais que justificável falar de sentimentos.

10. A equipe é importante, mas não é o centro do mundo.

ESTILO MASCULINO

1. Evitar falar de sentimentos, principalmente se está em jogo a autoestima.

2. Se necessário, as questões pessoais são abordadas superficialmente na conversa.

3. Os comentários não solicitados sobre a aparência não são apreciados.

4. Discussões mais valorizadas são sobre como desempenhar melhor uma tarefa.

5. No caso de um primeiro encontro, é importante exibir as próprias credenciais.

6. É inadequado manifestar fraqueza excessiva.

7. Deve-se respeito primeiro ao cargo, depois ao indivíduo.

8. É fundamental respeitar a hierarquia: é importante saber quem está “acima”.

9. As feridas no orgulho pesam e as possíveis consequências são consideradas.

10. Objetivos da equipe têm prioridade sobre interesses individuais e emoções.

EU ACHO …

A EXPLICAÇÃO QUE NÃO EXPLICA

Não é fácil lembrar-me de como e por que escrevi um conto ou um romance. Depois que se despegam de mim, também eu os estranho. Não se trata de transe, mas a concentração no escrever parece tirar a consciência do que não tenha sido o escrever propriamente dito. Alguma coisa, porém, posso tentar reconstituir, se é que importa, e se responde ao que me foi perguntado.

O que me lembro do conto “Feliz aniversário”, por exemplo, é da impressão de uma festa que não foi diferen