EU ACHO …

CALOR HUMANO

Não, não fazia vermelho. Era quase de noite e estava ainda claro. Se pelo menos fosse vermelho à vista como o era intrinsecamente. Mas era um calor de luz sem cor, e parada. Não, a mulher não conseguia transpirar. Estava seca e límpida. E lá fora só voavam pássaros de penas empalhadas. Mas era um calor visível, se ela fechava os olhos para não ver o calor, então vinha a alucinação lenta simbolizando-o: via elefantes grossos se aproximarem, elefantes doces e pesados, de casca seca, embora molhados no interior da carne por uma ternura quente insuportável; eles eram difíceis de se carregarem a si próprios, o que os tornava lentos e pesados.

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos, mas duros – e sobretudo boca voraz de nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada.

Seus olhos abertos e diamantes. Nos telhados os pardais secos. “Eu vos amo, pessoas”, era frase impossível. A humanidade lhe era como uma morte eterna que, no entanto, não tinha o alívio de enfim morrer. Nada, nada morria na tarde enxuta, nada apodrecia. E às seis horas da tarde fazia meio-dia. Fazia meio-dia com um barulho atento de máquina de bomba de água, bomba que trabalhava há tanto tempo sem água e que virara ferro enferrujado. Há dois dias faltava água na cidade. Nada jamais fora tão acordado como seu corpo sem transpiração e seus olhos diamantes, e de vibração parada. E Deus? Não. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.

Enquanto isso era verão. Verão largo como um pátio vazio nas férias da escola. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada: como a da casca lenta dos elefantes de couro ressequido. A esqualidez límpida e quente. Pensar no seu homem? Não, farpa na sola do pé. Filhos? Quinze filhos dependurados, sem se balançarem à ausência de vento. Ah, se as mãos começassem a se umedecer. Nem que houvesse água, por ódio não tomaria banho. Por ódio não havia água. Nada escorria. A dificuldade é uma coisa parada. É uma joia-diamante. A cigarra de garganta seca não parava de rosnar. E Deus se liquefez enfim em chuva? Não. Nem quero. Por seco e calmo ódio, quero isso mesmo, este silêncio feito de calor que a cigarra rude torna sensível. Sensível? Não se sente nada. Senão esta dura falta de ópio que amenize. Quero que isto que é intolerável continue porque quero a eternidade. Quero esta espera contínua como o canto avermelhado da cigarra, pois tudo isso é a morte parada, é a eternidade, é o cio sem desejo, os cães sem ladrar. É nessa hora que o bem e o mal não existem. É o perdão súbito, nós que nos alimentávamos da punição. Agora é a indiferença de um perdão. Não há mais julgamento. Não é o perdão depois de um julgamento. É a ausência de juiz e de condenado. E a morte, que era para ser uma única boa vez, não: está sendo sem parar. E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são duas pérolas secas. Vou vos dizer a verdade: por ódio enxuto, quero é isto mesmo, que não chova.

E exatamente então ela ouve alguma coisa. É uma coisa também enxuta que a deixa ainda mais seca de atenção. É um rolar de trovão seco, sem nenhuma saliva, que rola, mas onde? No céu absolutamente azul, nem uma nuvem de amor. Deve ser de muito longe o trovão. Mas ao mesmo tempo vem um cheiro adocicado de elefantes grandes, e de jasmim da casa ao lado. A Índia invadindo, com suas mulheres adocicadas. Um cheiro de cravos de cemitério. Irá tudo mudar tão de repente? Para quem não tinha nem noite nem chuva nem apodrecimento de madeira na água – para quem não tinha senão pérolas, vai vir a noite, vai vir madeira enfim apodrecendo, cravo vivo de chuva no cemitério, chuva que vem da Malásia? A urgência é ainda imóvel, mas já tem um tremor dentro. Ela não percebe, a mulher, que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava não era a tarde encalorada e sim o seu calor humano. Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MINHA CASA É O MEU MUNDO

Confinadas durante a quarentena, com o dinheiro das viagens parado no banco, as pessoas aproveitaram para renovar o lar, de modo a adaptá-lo à rotina transformada

Entre as dezenas de lições ensinadas à humanidade pela pandemia (nem todas aprendidas, diga-se), uma das mais permanentes é a importância de um lar confortável e completo. Durante alguns meses, casas e apartamentos se tornaram o universo exclusivo das famílias enclausuradas no trabalho remoto e no ensino a distância – e assim muitas seguem, com a rotina radicalmente reformulada. Entre quatro paredes, os quarenteners tiveram tempo de sobra para olhar em volta e avaliar cômodos, objetos e móveis do lar não mais tão doce e perceber seus defeitos no detalhe. Com novas demandas à mesa, necessidade de rearranjo de espaços e dinheiro (das viagens canceladas) para gastar, deu-se o estalo: é hora de reformar. O resultado é que nunca antes neste país, mesmo tendo ele passado meses parado e desanimado, se investiu tanto em melhorias domésticas.

O setor que engloba construção, arquitetura e decoração teve em 2020 um de seus anos mais surpreendentes. No início da crise, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) chegou a prever um encolhimento de até 11%, mas em dezembro, diante da demanda inesperada, a projeção recuara para 2,8%. Mais: em pleno avanço do desemprego, até outubro haviam sido criados quase 140.000 postos de trabalho. E a expectativa é de que o impulso se mantenha e alavanque uma subida de 4% em 2021 – a maior em quase uma década. “Após quatro anos de pouca procura, fico feliz em dizer que nunca trabalhei tanto”, diz a arquiteta Julia Oddone, que decidiu se tornar autônoma no fim de 2019 e não parou desde então. Outra pesquisa, essa do grupo Consumoteca, uma consultoria voltada para padrões de consumo, cultura e inovação, mostrou que 55% das pessoas de maior poder aquisitivo no Brasil fizeram alguma mudança na casa durante a quarentena. Nem só os ricos reformaram – 39% de famílias da classe C também mexeram em sua moradia.

O cômodo que mais atraiu as atenções foi, como era de se esperar, o escritório, um espaço que nem existia, ou se apertava em um vão de escada, na maioria das casas. ”As pessoas precisam de um mínimo de privacidade e conforto para fazer home office. Poucas tinham um local exclusivo e só perceberam isso quando a necessidade bateu à porta”, diz o arquiteto Alberto Barbour. Em segundo lugar nas reformas, empatadas, estão a cozinha e a sala. A psicóloga Jamile Gomes, que divide o apartamento no Rio de Janeiro com a mãe, o marido e um filho de 3 anos, teve de redesenhar a disposição dos eletrodomésticos para conseguir armazenar os mantimentos necessários à elaboração de três refeições diárias para a família. “A gente comia fora, no trabalho ou em restaurantes. De uma hora para outra, fiquei sem espaço”, conta Jamile, carioca de 36 anos, que ainda aproveitou para remodelar a varanda do apartamento.

A família de Jamile, como muitas, teve a renda reduzida durante a quarentena, mas as despesas também diminuíram bastante com o fim dos passeios no shopping, cinema, restaurantes e viagens – o que lhe permitiu poupar para a reforma. “Conseguimos nos organizar para adequar o espaço onde passamos quase 100% do nosso tempo”, diz. Transferir para a melhoria da casa os recursos economizados com o lazer interrompido foi a regra na pandemia. “Em um primeiro momento, quando ainda não se sabia quanto tempo ela ia durar, as pessoas investiram em coisas pequenas, como a compra de um ou outro móvel. Conforme o tempo passou, vieram as reformas mais ambiciosas”, diz Marina Roale, analista de pesquisa do Consumoteca.

Quem não conseguiu amealhar um pé de meia partiu para o plano B: pôr a mão na massa (corrida, no caso). No Google, as buscas por “como pintar parede” e “decoração” deram um salto, principalmente a partir de junho. A psicóloga paulista Ana Paula Figueiredo, de 54 anos, decidiu aproveitar o tempo livre e os dotes artísticos para repaginar diversos cômodos. “Sempre fui de deixar para depois. Ficando só dentro de casa, finalmente mudei o que me incomodava”, comemora. Além de pintar as paredes, Ana Paula trocou lâmpadas para melhorar a iluminação, comprou plantas para alegrar o ambiente e costurou novas almofadas. “Nunca gostei de chamar pessoas de fora para trabalhar na minha casa. Além de resolver problemas, me diverti muito”, afirma.

Segundo especialistas, a relação das pessoas com sua casa nunca mais será a mesma de antes da quarentena. “Ela foi reinventada. Ao nos isolarmos, valorizamos imensamente a segurança e o conforto do lar”, avalia Marina. A reviravolta tem sido comemorada pelos varejistas. A multinacional Saint-Gobain, dona de redes como Telhanorte, Tumelero e Norton, registrou aumento de vendas de quase 40% desde abril e fechou o ano com um crescimento de 12% em relação a 2019. “Nossos best-sellers são sofás, escrivaninhas e itens de cozinha, como panelas”, diz Flavia Marcolini, CEO do CasaShopping, no Rio de Janeiro, especializado em design de interiores, onde as vendas cresceram 50% desde o início do ano. A procura por matéria-prima de marcenaria e mobiliário foi tanta que houve até falta de alguns itens, como chapas de madeira e espuma para sofá. “Algumas fábricas acabaram parando no início da pandemia e não tiveram tempo de se recuperar antes do boom das vendas”, explica o arquiteto carioca Mauricio Nóbrega, que precisou reagendar a entrega de projetos. A indústria, no entanto, assegura que o abastecimento voltou ao normal e que está preparada para os próximos meses. Haja tinta para tanta parede a ser pintada.

LISTA DE COMPRAS

Os produtos de casa mais procurados por quem não sai dela

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE MARÇO

CONSELHO DO PERVERSO, ENGANO PERIGOSO

Os pensamentos do justo são retos, mas os conselhos do perverso, engano (Provérbios 12.5).

O justo é uma fonte de onde jorram a justiça e a retidão. Nas suas palavras há sabedoria, e nos seus conselhos, verdade; mas, quando o perverso abre a boca, seus conselhos são traiçoeiros e enganosos. Suas palavras produzem morte. Um clássico exemplo dessa fatídica realidade foi o conselho maligno que Jonadabe deu a Amnom, filho do rei Davi. O jovem príncipe apaixonou-se doentiamente por sua meia-irmã, Tamar. Em vez de buscar conselho em homens sábios, abriu seu coração para um jovem sagaz e perigoso, uma víbora venenosa. Os lábios de Jonadabe destilaram peçonha mortal. Seus conselhos deram início a uma tragédia irremediável na vida de Amnom e de sua família. Tamar foi violentada. Amnom foi assassinado. Absalão tornou-se homicida, e a casa de Davi foi transtornada. Os conselhos do perverso são como uma fagulha que incendeia toda uma floresta e trazem destruição e morte. Os pensamentos do justo, porém, são retos. O justo não se insurge contra Deus nem maquina o mal contra o próximo. Ele tem a mente de Cristo e o coração transformado. De sua boca fluem palavras de vida, e não conselhos de morte.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA EMPATIA

Colocar-se no lugar do outro nas crises é a melhor estratégia para preservar os resultados, inspirar a liderança e fortalecer o engajamento. Saiba como disseminar essa habilidade valorizada pela maioria dos CEOs

No início de março, a Organização Mundial da Saúde declarou uma pandemia global, ocasionada pela disseminação do novo coronavírus. Desde então, surgiram muitas histórias de solidariedade envolvendo pessoas de todo o mundo. Muitos casos de fabricantes de cosméticos suspendendo a operação para produzir álcool em gel, empresas oferecendo abastecimento de materiais e equipamentos gratuitos para profissionais de saúde, e até pessoas de cidades inteiras tocando instrumentos musicais de suas varandas para deixar a quarentena mais leve. A questão é que a empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro, nunca esteve tão em alta – seja nas ruas, seja nos corredores dos escritórios. Comum aos psicólogos, há um tempo essa palavra se tornou muito utilizada no vocabulário empresarial.

Um estudo da consultoria Businessolver divulgado em 2019, que ouviu 1.850 trabalhadores, profissionais de RH e executivos dos Estados Unidos, revelou que 79% dos CEOs reconhecem a empatia como chave para o sucesso das companhias. E essa percepção se fortaleceu nos últimos anos. Em 2017, a mesma pesquisa mostrava que 57% dos executivos acreditavam ser importante investir nessa habilidade no ambiente de trabalho. Em 2019, o índice saltou para 79%.

Por que isso acontece? uma das explicações é o fato de que profissionais que compreendem como os outros se sentem criam laços de afetividade com colegas e clientes conseguem resultados melhores. Prova disso é que as dez primeiras empresas no ranking Global Empathy Index de 2016, feito pela consultoria The Empathy Business e que analisou 170 empresas americanas, indianas e europeias em categorias como liderança e cultura organizacional lucravam 50% mais em comparação com as dez piores.

Mas a valorização da empatia pode ter explicações que vão além dos simples indicadores financeiros. “A globalização faz com que tenhamos mais contato com grupos diversos e os profissionais precisam desenvolver um bom relacionamento com pessoas cada vez mais diferentes”, explica Joana Story professora na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp).

É importante não confundir empatia com sociabilidade – as características são muito diferentes. Prova disso é uma pesquisa feita pela Universidade Estadual de Michigan que avaliou o nível de empatia em 63 países perguntando aos entrevistados se eles se importavam com situações que pudessem acontecer aos outros. O estudo ranqueou o Brasil, conhecido por seu calor humano, na 51ª colocação. O campeão foi o Equador: “O fato de sermos uma população comunicativa não significa que sabemos nos colocar no lugar dos outros, e isso explica muito a questão da polarização que vivemos hoje em dia: não conseguimos mais conversar”, afirma Virgínia Planet, sócia da House of Feelings, consultoria que trabalha os sentimentos dentro das companhias.

TRÊS PILARES

Ser empático envolve um processo ele compreensão emocional do outro, tocando suas reais necessidades e sentimentos diante de alguma situação. Daniel Goleman, jornalista especializado em estudos do cérebro e autor do já clássico Inteligência Emocional exemplificou bem o que é a empatia em um artigo escrito para a Harvard Business Review.  Ele disse que os executivos empáticos “são aqueles que encontram um consenso, cujas opiniões têm mais peso e com quem as outras pessoas querem trabalhar. Surgem como líderes naturais, independentemente da hierarquia organizacional ou social”.

Ainda de acordo com ele, essa habilidade é envolta por três pilares. O primeiro é a empatia cognitiva, a capacidade de compreender a perspectiva da outra pessoa e pensar em seus sentimentos. O segundo é a empatia irracional que diz respeito a sentir o que a outra pessoa sente, sem precisar refletir profundamente sobre isso. E o terceiro é a preocupação empática: interpretar e entender de quais formas a outra pessoa precisa de você.

Na teoria é até simples. O desafio é colocar isso na prática. “Quais são as atitudes que eu, como líder, parceiro ou alguém que é liderado, vou ter diante do conhecimento aprofundado de todas essas emoções? Isso é algo que não aprendemos na escola, na faculdade, em lugar nenhum”, explica Eduardo Albuquerque, fundador da Escola Conquer. Mas existe um alento: todos nós somos, em maior ou menor grau, naturalmente empáticos. “A empatia é própria do ser humano, nascemos com ela. A questão é quanto ao longo da vida nós a utilizamos e a desenvolvemos”, diz Regina Giannetti, coach de desenvolvimento pessoal, instrutora de mindfulness e criadora do podcast “Autoconsciente”.

Um dos primeiros passos para ser mais empático – e estimular esse comportamento internamente nas empresas – tem a ver com a diversidade. Isso porque, para entender o diferente, temos de necessariamente, nos colocar no lugar do outro. Grupos de afinidade, por exemplo, ajudam nesse sentido. Além de possibilitarem discussões de vieses inconscientes, eles estimulam a troca entre pessoas de diferentes origens, formações e histórias, o que permite ampliar o olhar de todos.

Também é importante desenvolver a escuta ativa (e atenta), algo fundamental na busca por sensibilidade. O ideal é conseguir formar um ambiente em que todos, independentemente do nível hierárquico, consigam ter disposição para se despir de conceitos preconcebidos e simplesmente se abrir para o que o outro tem a dizer. “É muito fácil você ouvir alguém e julgá-lo segundo suas próprias ideias. Já escutar sem julgar, essa, sim, é a prática que deve ser alimentada nas empresas e em todos os lugares”, diz Regina. Para conquistar isso, apoie-se também em seu lado emocional – importantíssimo para notar expressões corporais, tom de voz e como o outro se sente ao falar sobre determinado assunto (se está animado, apreensivo, estressado, sereno etc.).

SENSIBILIZANDO A LIDERANÇA

Importante saber que, além dos líderes que citamos no início da reportagem, os profissionais também estão mais atentos quando o assunto é empatia: 82% deles considerariam deixar o atual emprego para trabalhar em uma empresa mais empática, segundo o estudo da Businessolver. No entanto, as percepções de chefes e empregados sobre o grau empático da companhia são diferentes. Para 92% dos CEOs, a organização que lideram tem empatia – o índice cai para 72% sob a lente dos trabalhadores. O motivo dessa discrepância talvez esteja revelado em outro dado do levantamento: 58% dos CEOs não se sentem à vontade para criar vínculos. Isso pode ter a ver com o difícil equilíbrio entre a empatia e a cobrança por resultados.

“Em muitas empresas, a empatia só vai até a última semana do mês, quando está chegando a hora de bater as metas. Ainda existe uma dificuldade de falar de emoções e vulnerabilidade no ambiente de trabalho”, explica Lísia Prado, outra sócia da House of Feelings. Ela dizainda que a chefia não sabe lidar com a vulnerabilidade do outro. “Desde criança aprendemos a engolir o choro, ignorar os sentimentos e ir em frente. Fomos ensinados a seguir um padrão que não faz mais sentido hoje. Agora é parte do papel da liderança entender as dificuldades e os problemas dos funcionários é saber como direcioná-los.”

Esse foi um desafio para o RH da ExxonMobil, multinacional americana de petróleo e gás com 1.600 funcionários no Brasil. Em 2019, a pesquisa anual de clima revelou que a liderança não estava sendo tão bem avaliada quanto a companhia gostaria. “Mapeamos chefes que haviam sido apontados como focados em resultados práticos, e não na gestão humana”, diz Samantha Franco, gerente de recursos humanos da ExxonMobil.

Na busca pela solução do problema, a área de gestão de pessoas apostou em treinamentos de habilidades interpessoais e também de empatia. O programa dura três meses e trata temas como diversidade, vulnerabilidade e autoconhecimento – além de trocas de experiências com outras empresas no intuito de ampliar a visão de mundo. “Nossa intenção é criar um ambiente de trabalho psicologicamente seguro em que todos os funcionários se sintam livres para ser quem são e trazer suas dores quando precisarem”, diz Samantha.  Além dos cursos para os chefes, os funcionários também podem participar de dinâmicas sobre empatia. “É uma açãoeducacional voluntária”, diz. O sucesso foi tamanho que há lista de espera para ingressar nas novas turmas – e o feedback positivo de quem já participou chega a 80%. “As pessoas estão mais seguras em ser autênticas e compartilhar suas necessidades. O clima da empresa melhorou muito”.

EM OUTRA REALIDADE

Um dos aspectos cruciais do desenvolvimento da empatia é colocar-se no lugar do outro. Só assim conseguimos compreender, com profundidade quais são as dores e os desejos de quem está ao nosso lado. Mas essa é uma atitude que precisa ser cultivada dia a dia – pois demanda prática e treinamento. Para proporcionar esse olhar em seus futuros líderes, a Votorantim Cimentos criou, há dois anos, uma dinâmica de empatia em seu programa anual de trainees. Durante a seleção dos jovens profissionais, que é feita às cegas, existe uma dinâmica na qual eles trabalham lado a lado com coletores de materiais recicláveis que fazem parte da Pimp My Carroça, instituição que dá apoio a catadores e cooperativas de reciclagem. Os futuros trainees rodam as ruas de São Paulo procurando materiais recicláveis que, no final do dia são doados aos catadores. Além disso, há mentorias – para os postulantes às vagas e para os gestores que compartilham o projeto – com os catadores da organização parceira da Votorantim Cimentos. Cento e quarenta jovens passaram pelo processo.

“Nós começamos essa dinâmica de forma incipiente. Percebemos que a metodologia funciona e já estamos aplicando-a em outras temáticas, como o programa de estágio técnico para mulheres e o programa de liderança. Esse trabalho de empatia estimula a consciência social e humana de nosso público interno e externo”, afirma Aldo Frachia, gerente de diversidade da Votorantim Cimentos. As mudanças no processo seletivo dos trainees permitiram que a empresa ampliasse a presença de grupos minoritários entre os candidatos. Na edição para 2020, dos 80 concorrentes que participaram da dinâmica com os catadores, 62% eram mulheres; 31%, negros; e 15%, LGBT+.

A troca de papéis também é um método utilizado pela Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ) da lll Região. Em 2017, foi criado o projeto Vivendo o Trabalho Subalterno, que discute o tema da invisibilidade pública para melhorar a empatia dos juízes. “O juiz passa a matar parte do tempo escutando a narrativa de outras pessoas e tomando decisões. Esse projeto possibilita uma melhor capacidade de escuta”, explica Roberto Fragale Filho, Juiz auxiliar da Escola Judicial do TRT-RJ. Para isso, os juízes trabalham por um dia como garis, caixas de supermercado, auxiliares de limpeza, cobradores de ônibus, entre outras profissões.

Os participantes passam por urna carga horária de 60 horas, que são divididas entre atividades teóricas (aulas sobre relações sociais e metodologia de criação de um diário de campo), práticas (treinamentos para a função que será exercida) e momentos de feedback. Em três anos, 52 juízes já fizeram o curso e o sucesso foi tanto que a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho (Enamat) chegou a reformular seu ano acadêmico para melhorar as relações que existem entre a sociedade e o judiciário. ‘Isso permite formar juízes mais atentos, capazes de se colocar no lugar dos outros e com a oitiva aguçada”, explica Roberto.

É DANDO QUE SE RECEBE

Outra maneira de demonstrar o alcance empático das companhias é por meio de benefícios que são expandidos para a família dos funcionários. A pesquisa da consultoria americana Businessolver revela que 95% dos profissionais acham que empresas que cuidam dos parentes dos empregados são mais empáticas. Não é à toa que um dos programas mais valorizados pelos funcionários do Banco – RCI Brasil, braço financeiro das montadoras Renault e Nissan é o Programa de Apoio Pessoal Especializado (Pape), que     realiza atendimento sigiloso aos empregados por meio de um telefone 0800. Problemas financeiros, psicológicos, de saúde, inclusive de familiares, podem ser relatados em segredo. “Buscamos atender até mesmo a necessidades específicas em que, por vezes, cobrimos a despes do que foi pedido”, conta Roberta Nascimento, gerente de RH do banco. Casos como cobertura de plano de saúde, ajuda com dívidas e viagens emergenciais se enquadram no projeto, que já atendeu 5% do quadro de 161 trabalhadores.

EXISTEM LIMITES

As empresas podem – e devem – incentivar a prática da empatia, mas importante lembrar que ela tem limites que variam em cada um de nós. “Para qualquer palestra, aula ou ação funcionar, a pessoa tem de estar disposta àquele aprendizado. Ter autoconhecimento para entender os próprios sentimentos e julgamentos internos é fundamental na hora de estender a mão ao outro”, diz Regina. Nenhuma ação é infalível: sempre haverá aquelas pessoas que não conseguem ter empatia com seu próximo ou que não se importam o suficiente para mudar de comportamento ou atitude. Nesses casos, as empresas devem usar uma última abordagem: o hábito. Incentivar diálogos, promover grupos de afinidade, manter a liderança apta para a escuta ativa, são todas ações que se complementam e colocam os funcionários em             contato com a cooperação e a generosidade. “Mesmo que no início o sentimento não seja verdadeiro, o estímulo por meio do ambiente pode internalizá-lo”, diz Regina. O exemplo e a prática farão com que a empatia se espalhe – e é a disseminação de atitudes desse tipo o que precisamos com tanta urgência para enfrentar os grandes desafios do mundo hoje.

O QUE É SER EMPÁTICO?

Como os profissionais enxergam a empatia nos negócios, segundo o relatorio State of Workplace Empathy de 2019, feito pela consultoria Businessolver

EM SINTONIA

Como encorajar a empatia no ambiente de trabalho

1. FALE SOBRE O ASSUNTO:

Explique para os funcionários, independentemente do cargo que ocupam, por que a c0mpetência é importante para melhorar o desempenho das equipes. Leve dados objetivos e exemplos de outras companhias para conseguir convencer a todos.

2.ENSINE HABILIDADES DE ESCUTA:

Para entender os outros e sentir o que eles estão sentindo, precisamos ser bons ouvintes. demonstrar que estamos prestando atenção no que é dito e expressar entendimento sobre as preocupações e os problemas ajudam a aumentar a sensação de respeito.

3. INCENTIVE A DIVERSIDADE:

Cerca de 75% dos funcionários afirmam que empresas são mais empáticas quando têm diversidade em sua liderança, e nove em cada dez profissionais de RH e diretoria concordam, segundo dados da consultoria Businessolver.

4. CULTIVE COMPAIXÃO:

Crie um ambiente para que os gestores possam se preocupar com a forma como a equipe se sente no dia a dia de trabalho. E premie aqueles que se destacarem em promover isso em seus times. Ter uma cultura que proporcione boas relações entre as pessoas ajuda.

5. TREINE A LIDERANÇA:

Realize treinamentos de empatia e de vieses inconscientes com a liderança. A relação deles c0m os liderados é o cerne do clima da empresa. Além disso, se os chefes não derem o exemplo, fica mais difícil ter um time que queira agir com mais empatia na organização.

A TRÍADE DE OURO

Entenda o que são os três tipos de empatia, de acordo com o escritor Daniel Goleman

1. EMPATIA COGNITIVA:

O exercício da empatia cognitiva exige que os líderes racionalizem sobre os sentimentos dos outros. Essa é uma habilidade resultante da autoconsciência. A reflexão sobre nossos próprios pensamentos e o monitoramento dos sentimentos que fluem a partir deles permitem aplicar o mesmo raciocínio à mente de outras pessoas.

2. EMPATIA EMOCIONAL:

O acesso à empatia emocional depende da combinação de dois focos. O primeiro está centrado nas ideias e nos sentimentos da outra pessoa. O segundo se forma pelo rosto, pela voz e por sinais externos de emoção. Ter essa habilidade ajuda em trabalhos em grupo, momentos de feedback e apresentações.

3. PREOCUPAÇÃO EMPÁTICA:

Intimamente relacionada à empatia emocional, essa competência ajuda a compreender as expectativas dos outros em relação a nós. Aqui é importante ponderar até onde podemos ir para satisfazer as necessidades alheias.

PRONTAS PARA O FUTURO

Três características que serão importantes para as companhias acompanharem as transformações do mundo do trabalho, de acordo com Eduardo Albuquerque, fundador da escola Conquer

1. EMPATIA:

Muito além de se colocar no lugar do outro, empatia é a capacidade de tomar decisões com base não somente na perspectiva individual, mas na perspectiva dos demais.

2. COLABORAÇÃO:

Essa característica tem como principal papel acelerar a solução de problemas por meio da união de diferentes competências e habilidades. Esse é um traço essencial de empresas e pessoas que estão adaptadas à revolução digital em curso.

3. VULNERABILIDADE:

Cometer erros tem se mostrado a melhor maneira de aprender mais rápido e criar produtos e serviços. Para incentivar esse comportamento, a liderança precisa mostrar que é vulnerável, que pode falhar e que os deslizes são toleráveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PROPENSOS AO EXCESSO

Os jovens tomam contato cada vezmais cedo com o álcool e outras drogas psicoativas; sua vulnerabilidade cerebral e psicológica a essas substâncias merece redobrada atenção da família e da sociedade e demanda estratégias interdisciplinares de prevenção e combate ao uso abusivo antes que ele se torne dependência

A cada ano, estima-se que 1,7 milhão de adolescentes morram no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria é vítima de acidente, suicídio, violência, complicações decorrentes da gravidez e outros motivos passíveis de prevenção e tratamento. O abuso de álcool e outras drogas é um exemplo desta última categoria. O consumo de bebidas alcoólicas, que poderia ser apenas um “rito de passagem” para a vida adulta, traz consigo, a ameaça de um padrão de uso, cuja face mais comprometedora é a dependência.

Diante da instabilidade e das mudanças características da adolescência, período de “crise” no qual está em jogo a reestruturação psíquica, é fundamental compreender de que forma o uso de álcool e de drogas se insere na vida do adolescente. Em muitos casos, pode se tratar de uma fase de experimentação, transitória, decorrente da curiosidade e da elaboração do processo de entrada no mundo adulto.

A escala que vai do uso à dependência obedece a matizes, assim como um dégradé que vai do rosa-claro ao vermelho intenso, que nem sempre delimitam com clareza as fases da construção da dependência, como mostra a psicóloga Jandira Masur, falecida em 1990, em O que é alcoolismo (Brasiliense, 1991). Esse quadro se acentua quando lidamos com a população adolescente, dado que as variações ficam sobrepostas à própria instabilidade dessa fase.

Embora não possamos afirmar que haja um padrão de utilização absolutamente segura, existe a possibilidade da utilização recreativa do álcool e de outras drogas, que reflete o tipo de relação que o indivíduo estabelece com a substância. É importante ressaltar que tal uso não constitui um problema de ordem médica, passível de tratamento, mas muitas vezes requer algum tipo de esclarecimento à família e aos educadores a fim de ampliar sua compreensão sobre esse tipo de consumo.

Os pais, muitas vezes por falta de orientação, tomam medidas desesperadas ao descobrir que o adolescente usa determinadas substâncias, sobretudo se forem ilícitas, a exemplo da maconha. Por outro lado, percebe-se que o consumo de álcool é bastante tolerado pela sociedade, quando não incentivado, ocasionando maior dificuldade na detecção de um uso problemático.

Devemos dedicar particular atenção ao consumo de álcool entre adolescentes, em geral uma das primeiras substâncias psicoativas com as quais o jovem tem contato. Boa parte dos adolescentes começa a beber estimulada pelos pais (para muitos deles, o primeiro “porre” do filho adolescente pode ter conotação de masculinidade) ou é levada a experimentar por curiosidade quando vai comprar bebidas alcoólicas para os adultos.

É fato que a venda de bebidas alcoólicas a menores é pouco fiscalizada no Brasil. Entretanto, é extremamente importante que os pais se conscientizem de que essa é uma norma a ser seguida, e o modo como lidam com ela influirá no futuro comportamento de seus filhos diante do consumo de álcool e drogas.

Diferentemente da recreação, o abuso é um padrão de utilização que causa algum tipo de dano à saúde física ou mental do indivíduo, ou mesmo em outras áreas da vida como a social e a ocupacional, além de conflitos com a lei. Os prejuízos são recorrentes significativos e relacionados ao uso repetido da substância, mas não configuram ainda um quadro de dependência.

O adolescente, por exemplo, pode faltar às aulas, sofrer suspensão ou ter baixo desempenho escolar em decorrência do uso de substâncias psicoativas. É possível, ainda, apresentar-se repetidamente intoxicado em situações em que isso represente risco para sua integridade física, como durante a prática de esportes. Também são comuns problemas legais recorrentes, como condutas desordeiras, agressões, infrações, pequenos delitos e condução de veículos quando está intoxicado ou embriagado.

A dependência é caracterizada, sobretudo, pela perda de controle sobre o uso da substância, que se manifesta pelo consumo persistente e compulsivo, mesmo na vigência de problemas significativos decorrentes do uso. O quadro, em geral, é acompanhado de tolerância (necessidade de consumo cada vez maior para obter o efeito desejado) e síndrome de abstinência (presença de sintomas físicos e psíquicos ao diminuir ou parar o uso). Como diz o psiquiatra francês Claude Olievenstein em seu livro Destino do toxicômano (Almed, 1985), o estabelecimento da dependência ocorre a partir do encontro do indivíduo com a droga – suas particularidades farmacológicas e seus efeitos – em dado momento marcado por dificuldades específicas.

Sabe-se que a evolução entre os diferentes padrões de uso de substâncias psicoativas não apresenta uma divisão estanque, do mesmo modo que não necessariamente representa um continuum, em que, por exemplo, o uso recreativo passa ao abusivo e este à dependência. Tais fenômenos envolvem uma série de fatores, que incluem características individuais, propriedades farmacológicas e aspectos sociais. Por exemplo, um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) feito no final dos anos 90 indicou que, entre os indivíduos que já fizeram uso de maconha, apenas 5% desenvolveram de fato um quadro de dependência.

No que se refere à dependência de álcool, a história típica de seu desenvolvimento ocorre ao longo de alguns anos. Em geral, a pessoa começa a beber no período da adolescência ou no início da idade adulta, e aumenta de maneira progressiva a quantidade e a frequência do consumo, até chegar aos centros de tratamento por volta dos 35, 40 anos. Entretanto, esse perfil vem mudando. Os jovens estão começando a beber mais cedo e de forma mais intensa, apresentando problemas de saúde e alterações psíquicas ainda mais precocemente.

É por esse motivo que cada vez mais modelos de intervenção sobre o uso abusivo de álcool têm sido desenvolvidos, buscando por meio deles atingir a população jovem para que se interrompa o processo de estabelecimento da dependência.

O álcool distribui-se regularmente por todo o organismo. Quando alguém o consome em grandes quantidades, há o risco de vários órgãos e sistemas do corpo serem danificados.

Ao atingir o sistema nervoso central, a substância pode causar diversos problemas neurológicos e psiquiátricos, como depressão e ansiedade até problemas irreversíveis de memória, como é o caso da síndrome de Wemicke-Korsokoff, em que há perda da memória recente. Os jovens, cujo sistema central ainda está em formação são mais afetados.

O uso crônico de álcool também pode ocasionar a alteração denominada neuropatia periférica, caracterizada pela degeneração das ramificações de nervos, principalmente em membros (braços e pernas), levando a dores e formigamentos bastante desconfortáveis.

É bastante comum a associação do alcoolismo a problemas no fígado como a cirrose hepática – degeneração ocasionada pela agressão crônica ao órgão, em geral levando à morte quando não é possível realizar um transplante. Além disso, o fígado é um órgão vital responsável pela síntese e metabolização de diversas substâncias. Quando seu funcionamento está prejudicado, costumam ocorrer problemas variados, como alterações hormonais, varizes de esôfago, icterícia (coloração amarela da pele) e ascite (acúmulo de líquido no abdômen). Outras estruturas do sistema digestivo podem ser atingidas em decorrência do consumo excessivo de álcool. São bastante frequentes as esofagites e gastrites, problemas no pâncreas e na vesícula biliar.

A boca, que também integra esse sistema, pode sofrer diversas alterações, como mudanças do paladar, ulcerações, que algumas vezes resultam em câncer, sobretudo em tabagistas, e alterações da dentição, porque o consumo crônico de álcool modifica o equilíbrio ácido-base da cavidade oral, predispondo a essas modificações.

Os indivíduos dependentes de álcool são, ainda, mais propensos a problemas de impotência e infertilidade, tanto homens como mulheres. Essas alterações, embora sentidas diretamente, podem ser originárias de falhas na síntese de hormônios no fígado ou alterações no sistema nervoso central.

O uso crônico de álcool pode também fazer com que o indivíduo apresente diversas alterações nos sistemas imunológico e hematológico. Uma importante causa para isso deriva da desnutrição, com frequência verificada nessas pessoas, já que por conter uma concentração elevada de açúcares, o álcool diminui a fome. Na ausência de vitaminas, proteínas e sais minerais, o organismo fica predisposto ao aparecimento de doenças. No caso em questão, as comorbidades (presença de mais de um quadro patológico em um mesmo indivíduo) dizem respeito à presença de outro transtorno psiquiátrico, além do relacionado ao uso de substâncias. Diversos estudos têm mostrado as altas taxas de prevalência de comorbidades psiquiátricas, sobretudo depressão e ansiedade, entre usuários de álcool e drogas. Sabe-se que a comorbidade psiquiátrica modifica a evolução da dependência, exigindo abordagens terapêuticas específicas, como o uso de medicamentos.

Na população de adolescentes, fazer um diagnóstico adequado nem sempre é tarefa fácil. Muitas vezes, a presença de estados depressivos ou outros tipos de alterações de comportamento são encarados como parte “normal” do processo da adolescência, contribuindo para o agravamento do quadro. Os principais transtornos psiquiátricos associados ao uso de álcool e outras drogas nessa fase são os de humor, de ansiedade, de conduta, alimentares e do déficit de atenção e hiperatividade.

De acordo com dados do Cebrid, existem alguns fatores que, embora não possam ser apontados como desencadeantes, são úteis como “termômetros” para atentarmos à questão do uso de drogas nessa população. Embora não fique estabelecida uma relação direta entre seu consumo e a defasagem escolar em nosso meio, existem vários trabalhos científicos relatando forte associação entre uso de substâncias psicotrópicas e baixo rendimento escolar.

Outro fator que apresenta correlação importante com o uso de drogas é o absenteísmo às aulas. Levantamentos do Cebrid e diversos estudos internacionais têm demonstrado que, quanto mais intenso o uso de álcool e drogas, maior o número de faltas escolares. Com relação às classes socioeconômicas, algumas pesquisas afirmam que nos países em desenvolvimento há relação positiva entre o uso de certas drogas e o baixo nível socioeconômico. Ainda segundo dados do Cebrid, isso foi observado no Brasil, mas em uma população específica: meninos e meninas em situação de rua, ou seja, em crianças e adolescentes totalmente desprovidos de qualquer recurso social.

Com relação ao gênero, conforme pesquisa realizada em 1989 pela professora Beatriz Carlini-Cotrim, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e colaboradores, os indivíduos do sexo masculino tendem a fazer mais uso de substâncias como cocaína, maconha e álcool, enquanto os do sexo feminino tendem a usar mais medicamentos, como anfetaminas (remédios para emagrecer) e ansiolíticos (tranquilizantes). Tem-se notado, além disso, aumento do uso de esteroides anabolizantes e energéticos entre indivíduos do sexo masculino. No que se refere às idades, constata-se aumento de uso de drogas em pessoas acima dos 18 anos, mas com faixas estáveis de uso frequente nos últimos cinco levantamentos. Observa-se que os jovens têm, de forma geral, experimentado menos álcool que outros tipos de droga.

Diversos estudos nacionais, segundo dados do Cebrid, vêm apontando que a primeira experiência com drogas ocorre após contato prévio com álcool ou tabaco. Isso sugere que as estratégias preventivas devam ser orientadas para retardar as primeiras experiências com essas substâncias, aumentando a margem de segurança da experimentação de outras drogas. Quanto mais tardia for a experimentação de drogas, menores as chances de a pessoa desenvolver padrões de abuso e dependência.

Vários trabalhos têm mostrado que o tratamento ideal para indivíduos dependentes de drogas deve ser, a princípio, de caráter voluntário, em sistema ambulatorial e com equipe multidisciplinar em centros especializados. Ao pensar no tratamento ideal dirigido a adolescentes, sabe-se que, além desses fatores, deve-se contar com intervenções de apoio e suporte às famílias e com o emprego de atividades lúdicas e/ou artísticas, como forma de melhorar a adesão a este.

Do ponto de vista médico, é essencial que os pacientes sejam avaliados por um psiquiatra com o objetivo de verificar a presença de comorbidades e a necessidade de intervenção medicamentosa, bem como efetuar uma avaliação clínica criteriosa em função dos possíveis danos causados à saúde física desses indivíduos.

A indicação de internação no tratamento da dependência deve ser relativizada, sobretudo porque existe um mito em nosso meio de que ela tem capacidades “curativas”. O que se observa na prática, entretanto, é que diversas pessoas, uma vez internadas, dão início a um processo de sucessivas internações visando garantir a abstinência, mas com resultados frustrantes.

A internação não possui, de fato, caráter curativo e deve ser indicada, no que concerne ao uso de álcool e drogas, com o propósito de desintoxicação, para que o indivíduo se restabeleça e dê continuidade ao acompanhamento extra-hospitalar. Ela também pode ser levada em conta em casos semelhantes às internações psiquiátricas- por exemplo, na vigência de comportamentos que coloquem em risco a vida do usuário e dos outros, agressividade extrema e risco de suicídio -, bem como constituir uma forma de preservar a saúde física em situações em que a pessoa esteja extremamente debilitada ou haja risco de exposição social.

Os profissionais de saúde devem estar atentos às expectativas dos familiares quanto aos resultados do tratamento, é bastante frequente esperarem que o paciente consiga atingir um padrão de abstinência total logo no início do tratamento, não tolerando recaídas e fazendo julgamento moral sobre o uso. É por esse motivo que um sistema de apoio aos familiares dos pacientes deve fazer parte do tratamento, na forma de atendimentos individuais ou grupais, com o objetivo de fornecer informações, melhorar a comunicação entre eles e, não raras vezes, encaminhar a família para tratamento psicoterápico.

QUANTO MAIS CEDO, MAIS PERIGOSO

As chamadas drogas de abuso, como nicotina, cocaína e maconha, afetam o sistema límbico, conhecido como área de recompensa cerebral. Em geral, ela responde a experiências agradáveis, lançando no corpo o neurotransmissor dopamina, que proporciona sentimentos de prazer. Determinadas drogas, com tamanho e forma similares aos neurotransmissores naturais, aumentam a ação da dopamina e de outros neurotransmissores, como a noradrenalina e a serotonina.

Pesquisadores acreditam que a liberação de dopamina no núcleo accumbens seja o fator preponderante para o desenvolvimento da dependência. O hipocampo registra a satisfação rápida provocada pela droga e a amígdala cria uma resposta condicionada a esses estímulos.

A idade da exposição inicial a substâncias que viciam é inversamente proporcional ao risco de desenvolver drogadição, afirmam especialistas.

Estudos realizados com camundongos e cocaína têm favorecido a hipótese de que o cérebro adolescente seja mais vulnerável à dependência. A pesquisadora Michelle

Ehrlich, do Instituto Farber de Neurociências, da Universidade Thomas Jefferson, nos Estados Unidos, pesquisa as “adaptações moleculares” no cérebro em resposta a drogas psicoestimulantes.

Em 2002, um estudo liderado por ela, feito com camundongos, revelou que um fator de transcrição denominado delta-FosB (proteína envolvida na indução da síntese de outras proteínas) era produzido no corpo estriado desses animais quando expostos a cocaína e a anfetaminas com regularidade. A principal função dessa região cerebral parece ser o controle da motricidade. Os pesquisadores supõem que tal proteína integre um processo de “adaptação” do cérebro que programa respostas em longo prazo, como a dependência de drogas.

Eles descobriram que, em camundongos adolescentes, a proteína era produzida em escalas muito maiores em uma parte específica da estrutura associada à sensação de recompensa após o consumo de drogas. A experiência sugere que indivíduos jovens expostos a efeitos psicoestimulantes de drogas podem ter o equilíbrio químico do cérebro muito mais afetado do que se imaginava.

EU ACHO …

DECLARAÇÃO DE AMOR

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O VÔ TÁ LIGADO

Pessoas acima de 60 anos ficaram ainda mais ativas nas redes sociais e nas transações, on-line durante a quarentena: isso é ótimo, mas no universo digital traz riscos.

Pela primeira vez na história uma geração inteira de sessentões – e, quem sabe setentões e oitentões, noventões e o que mais vier por aí – terá pela frente a tecnologia. Como uma aliada da rotina. Por mais que a internet, as redes sociais e os gadgets pareçam, à primeira vista, destinados especialmente aos mais jovens, estudos recentes mostram que a turma sênior nunca esteve tão aberta às inovações trazidas pelos novos tempos. Eia está mais conectada, e isso não é apenas um retrato momentâneo, mas uma tendência que mudará para sempre a forma como a sociedade consome produtos e serviços. Com o avanço da medicina, está cada vez mais saudável envelhecer o envelhecimento da população, será preciso olhar para os idosos como um público capaz de entender, e desfrutar, as maravilhas do universo tecnológico. É lá que estão, por exemplo, as mídias digitais e os negócios on-line que ganharam nova dimensão na crise do novo coronavírus. É lá que os veteranos querem estar, e onde certamente estarão por muitos anos.

Não é exagero dizer que os sessentões e seus pares mais velhos são digitais hoje em dia. A avaliação pode ser comprovada por um amplo estudo realizado pela Kantar Ibope, que trouxe novas luzes sobre esse grupo etário. De acordo com o levantamento, 75% dos idosos com acesso à internet fizeram alguma transação on-line no ano passado, um recorde. Além disso, foi detectado um aumento de 66% nas interações via mídias sociais, na comparação com os últimos cinco anos. As mudanças não são à toa. Isoladas na pandemia, ou trabalhando em home office, as pessoas acima de 60 anos foram obrigadas a estreitar a relação com a tecnologia. Aprenderam a se virar, e gostaram do que viram. Os números da Kantar Ibope confirmam a percepção. A maioria delas aumentou a permanência na internet e nas redes sociais durante a pandemia, além de consumir mais streaming e itens on-line. A plataforma preferida foi o Facebook, acessada por 98% dos que têm acesso à internet, seguida pelo WhatsApp, com 95%.

Poucas atividades despertaram tanto o apetite dos mais velhos quanto o comércio eletrônico. Eles perceberam que as compras domésticas estão a um clique de distância, e uma pequena revolução foi desencadeada. Segundo a plataforma digital Supermercado Now, especializada em delivery de alimentos, bebidas, produtos de limpeza e tudo o que pode ser encontrado nas gôndolas, o número de usuários acima de 60 anos aumentou 1.575% em 2020, mais do que qualquer outra faixa de idade. Atualmente, eles representam 13% de clientes, e a participação não para de crescer. Como a digitalização é inevitável, surgiram iniciativas como o Vovó Hi-Tech, projeto que oferece aulas sobre tecnologia para idosos. “Nosso objetivo é trazer independência digital para as pessoas”, diz Paula Peleja, fundadora da empresa. Um dos alunos é Osvaldo Santana e Silva, psicólogo de 68 anos, de Brasília, que começou a frequentar o curso no início da pandemia. “Quando a crise chegou e tudo passou a ser feito virtualmente, entrei em pânico por não conhecer as ferramentas digitais”, revelou. “Por isso decidi buscar ajuda”.

Nem sempre é preciso dizer que a inclusão digital é bem-vinda. Sem ela, o acesso à informação é limitado, as oportunidades de trabalho desaparecem e a pessoa vive como se estivesse no limbo da sociedade. Tudo isso é verdade, mas existem riscos que não podem ser ignorados. Um exemplo é o fato de idosos serem mais suscetíveis a fraudes conhecidas como o phishing, método que se baseia na tentativa de obter dados pessoais por meio do envio de links falsos ou mensagens mal-intencionadas. Estudos já demonstraram que pessoas com mais de 60 anos são as vítimas preferidas dos criminosos. Não é só isso. Também há pesquisas indicando que elas caem mais frequentemente em fake News. De acordo com um artigo publicado recentemente na revista científica Science Advances, indivíduos acima de 65 anos são mais propensos a divulgar notícias falsas – em geral, isso ocorre porque não sabem identificar fontes confiáveis na internet.

A ciência demonstrou em inúmeros tratados os benefícios irrefutáveis da inclusão digital. Além da maior integração à sociedade, o acesso a dispositivos eletrônicos é um estimulante poderoso para o cérebro. A tecnologia também pode ser uma fonte de independência ao permitir a realização de compras, transferência bancárias e interações sociais pelo celular ou computador, mesmo para aqueles com dificuldade de locomoção. Não significa, porém, que basta largar o idoso conectado ao smartphone para deixar de visita-lo ou não fornecer o carinho indispensável. O vovô está ligado, mas ele não quer ficar sozinho.

CADA VEZ MAIS CONECTADOS

Ter idade mais avançada não é barreira para usar as tecnologias disponíveis

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE MARÇO

MULHER VIRTUOSA, COROA DO MARIDO

A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão nos seus ossos (Provérbios 12.4).

A Bíblia fala de dois tipos de mulheres. Não as classifica em belas e feias, ricas e pobres, jovens e velhas, mas em virtuosas e desavergonhadas. A mulher virtuosa é a recompensa de seu marido: traz- lhe alegria e honra (Provérbios 18.22). A desavergonhada é como câncer em seus ossos: produz-lhe sofrimento atroz e abrevia-lhe os dias. A virtuosa é fiel, e o coração de seu marido confia nela. A desavergonhada entrega-se às paixões e ao adultério, destruindo com suas mãos a própria casa. A mulher que procede vergonhosamente é aplaudida hoje em nossa cultura moribunda. A decadência dos costumes e o colapso da ética estimulam o adultério e promovem a infidelidade. O casamento tornou-se frágil, e o divórcio, banal. Os filhos estão se tornando órfãos de pais vivos, enquanto os cônjuges buscam com mais avidez novas aventuras. Nessa corrida desenfreada rumo à decadência dos valores morais, precisamos erguer bem alto a bandeira da verdade e dizer que a virtude traz honra, mas o comportamento despudorado promove sofrimento e morte. Precisamos alçar nossa voz e dizer que a mulher virtuosa é feliz e promove felicidade, mas a mulher desavergonhada é infeliz e fonte de profundo desgosto.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE FAZER COM O CANSAÇO MENTAL CAUSADO PELO EXCESSO ON-LINE?

De repente eu me vi toda arrumada para uma festa, cantando parabéns e brindando o aniversário de um amigo na frente da tela do computador com mais de 20 outras pessoas.

Parei para refletir sobre aquela cena que parecia surreal até alguns meses atrás. Por conta da pandemia do novo coronavírus, estamos, mais do que nunca, usando videochamadas no nosso dia a dia.

Se você está se sentindo mais exausto ao final do dia do que se sentia antigamente, não está sozinho!

Estamos olhando a tela do computador para basicamente quase tudo nessa pandemia: para trabalhar é na frente do computador, reuniões virtuais vieram para ficar, para estudar estamos on-line, falar com a família, idem, e por aí vai.

Mas isso pode trazer uma exaustão mental que nunca tivemos antes, o chamado Zoom fatigue. A expressão em inglês Zoom fatigue significa “cansaço do Zoom”, uma referência ao aplicativo de vídeos que se popularizou no mundo nos últimos meses.

Semana passada li uma matéria na Harvard Business Review sobre o tema e gostaria de compartilhar com vocês fazendo algumas contribuições para lidar com o cansaço on-line.

Segundo os especialistas, as reuniões em vídeo exigem muito do nosso cérebro e visão. Sem os detalhes do “ao vivo”, a comunicação não é totalmente eficiente e isso deixa a nossa cabeça estressada no fim do dia, aumentando a sensação de cansaço de trabalho.

Uma das razões que mais causam esse cansaço é a tentação da multitarefa. Isso mesmo: não caia na tentação! É fácil pensar que na frente do computador você pode fazer mais em menos tempo, abrindo várias janelas de programas diferentes para adiantar aquele relatório, responder a algumas mensagens do Whats App e até ler notícias do dia enquanto o colega fala na reunião à qual você deveria estar prestando atenção. Algo que não fariam se estivessem presencialmente com outra pessoa.

Quantos alunos eu chamo on-line que está conectado, mas bem longe de estar presente na minha aula. Isso não é legal para ninguém!

Pelo fato de olhar para a tela do computador, quase ninguém perceberá que você não está prestando atenção, por isso a tentação é grande de se deixar levar por fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas isso tem um preço para seu cérebro, que está registrando tudo.

Na próxima reunião on-line, feche todos os programas que podem distrair você, concentre-se na reunião para que termine logo. A propósito, procure trocar um pouco reuniões on-line por telefonemas e e-mails. Será mesmo que precisamos de tantas reuniões virtuais? Eu tenho usado também os áudios do WhatsApp para decisões na minha empresa, mas cuidamos para que não ultrapassem dois minutos de áudio (ninguém aguenta áudios longos que parecem podcasts).

Já é comprovado cientificamente que devemos fazer pausas a cada 52 minutos para melhorar nossa produtividade. A pausa não significa sair do Word e ir para o Excel, e sim tomar um café, fazer alongamento, andar pela casa, meditar, jogar um pouco de videogame e até assistir a um trecho da sua série favorita. Lembrando que cada pausa não é para ultrapassar 20 minutos. Fiquem atentos. Eu confesso que não paro a cada 52 minutos, faço as pausas a cada 1h30 ou a cada término de um trabalho específico e funciona para mim. Como se fosse “virar a página” para ler capítulo novo do livro.

O fim do isolamento social não significará o fim do home office para várias empresas estrangeiras e nacionais. Algumas estenderam o trabalho remoto até o fim do ano, outras já decidiram migrar de vez para o formato a distância e há aquelas que planejam voltar à medida que a crise sanitária melhorar, mas com flexibilização, possibilitando ao trabalhador ficar ou não em casa. Mesclar trabalho presencial e a distância deverá ser comum no cenário pós-pandemia.

Portanto, é preciso tomar cuidado para não desencadear novos problemas em nossa vida. Algumas dessas dicas apresentadas neste artigo talvez sejam difíceis no começo, mas poderão ajudar a prevenir a exaustão do seu cérebro e trazer mais tranquilidade para você trabalhar nesse novo normal.

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho. Mestra em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas. li http://www.danieladolago com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIGA-ME COM QUEM COME…

A quantidade de calorias ingerida por uma mulher depende do sexo da pessoa com quem ela compartilha a refeição. Pelo menos é o que mostra um estudo realizado na Universidade McMaster, no Canadá. Quando está com um homem, o total calórico de seu prato tende a ser menor do que se ela estiver acompanhada de outra mulher, constataram os pesquisadores em observações conduzidas na cafeteria da universidade.

Em grupos maiores, a quantidade de calorias foi inversamente proporcional ao número de homens que dividiam a mesa. Segundo os autores, os resultados reforçam a ideia de que a alimentação é uma atividade social. No caso das mulheres, explicam, é possível que pequenas porções de comida reflitam, de forma inconsciente, uma maior atividade que elas querem demonstrar para o sexo. O estudo foi publicado na revista Appetite.

EU ACHO …

ANONIMATO

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

TELA EM EXPANSÃO

Nos EUA, é dado como certo que a Apple, a marca de smartphones mais desejada, prepara o lançamento de um aparelho com visor dobrável

Desde que lançou, em 1984, o Macintosh, primeiro computador pessoal de uso verdadeiramente amigável, a Apple tem mudado a sociedade com inovações que alteram até mesmo a percepção que as pessoas têm do mundo ao redor. Em 2001, ela levou a indústria fonográfica à lona com o iPod: uma nova forma de ouvir centenas de músicas em um único diminuto aparelho. O lançamento do primeiro iPhone, em 2007, e do iPad, três anos depois – com suas telas sem botões e sensíveis ao toque -, impactou a humanidade de tal forma que as crianças nascidas a partir de 2010 têm sido chamadas de geração Glass (vidro) devido à fácil assimilação da tecnologia “touchscreen” desde a tenra idade. De 2007 para cá, mais de 2,2 bilhões de unidades de iPhone foram vendidas em todo o planeta e o número não para de crescer. O próximo desafio, ao que tudo indica, terá a mesma magnitude das inovações anteriores, de imensa repercussão: oferecer ao público uma tela de smartphone maior que possa ao mesmo tempo ser transportada no bolso. Em outras palavras, uma tela dobrável.

Para alcançar a liderança também nessa família de produtos, puxada pela Samsung, Motorola e Huawei, com a Xiaomi correndo por fora, a Apple tem se desdobrado – e costura alianças improváveis. Segundo profissionais especializados em interpretar os bastidores da empresa (e eles não costumam errar, sempre muito bem informados), a companhia deu as mãos para a arqui-inimiga Samsung, que forneceria as telas. Soa estranho, mas não é. A fabricante sul-coreana é a principal fornecedora de telas do tipo OLED, que compõem o iPhone.

Lembre-se que a Samsung lançou o expansível Galaxy Fold em abril de 2019 debaixo de críticas. Muitos usuários experimentaram incidentes como rachadura na tela e problemas de conexão. As reclamações foram tantas que o então CEO da empresa, Koh Dongjin, em ato de contrição, desculpou-se publicamente. Superadas as dificuldades, 1 milhão de unidades já haviam sido vendidas três meses depois do relançamento, sinalizando alguma adesão do público à nova tecnologia.

Nesse período, a companhia liderada pelo executivo Tim Cook não dormiu no ponto. Sabe que pode depender da Samsung, e também da LG, na compra de telas OLED, mas montou caminho próprio de modo a dar o salto decisivo. Fontes próximas da empresa disseram a jornalistas americanos que a Apple está desenvolvendo uma versão de smartphone com uma dobradiça literalmente invisível, como mágica de Harry Potter, que faria a tela ganhar o dobro da área de um iPhone 12 Pro Max, modelo top de linha com visor de 6,7 polegadas (cerca de 17 centímetros na diagonal). Em outras palavras, quando aberto, o celular ficaria parecido com um iPad.

Para além dos problemas ligados à integridade da tela, existem outras preocupações rondando o desenvolvimento dos smartphones dobráveis, que vão desde a vida útil da bateria, menor que nos celulares existentes hoje, até uma dispendiosa adaptação do software para os novos aparelhos. Além disso, a menos que os técnicos consigam tornar o iPhone ainda mais fino, ele tenderia a ficar volumoso demais quando dobrado, algo que de fato ocorre com o Galaxy Fold – que tem quase 2centímetros de espessura na área da dobradiça e incomoda a manipulação do usuário.

Espera-se o anúncio de novos iPhones e iPads nos próximos meses, mas a Apple, bem a seu feitio, mantém sob sigilo máximo o projeto de telas dobráveis para smartphones. O que mais se fala no mercado é de um modo wireless mais eficiente de carregamento de bateria, que eliminaria definitivamente a porta do aparelho onde é conectado o cabo para carregar. A opção por indução magnética já existe, mas é pouco explorada. Em se tratando de Apple, entretanto, é sempre bom não subestimar o efeito-surpresa. Gigante da tecnologia e campeã em marketing – tanto na capacidade de compreender os anseios das pessoas quanto no esforço contínuo de se reinventar – , a empresa criada pelo visionário e irascível Steve Jobs (1955-2011) há 45 anos tem em seu DNA a marca do fundador: a inovação. Seu faturamento no ano fiscal de 2020 foi de 274 bilhões de dólares, sinal de impressionante robustez. Superando a Amazon como a marca mais valiosa do mundo, ela provavelmente continuará na liderança por um bom tempo, com ou sem telefones dobráveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE MARÇO

A VIDA DO JUSTO, FIRMEZA INABALÁVEL

O homem não se estabelece pela perversidade, mas a raiz dos justos não será removida (Provérbios 12.3).

A prática do mal não compensa. Pode até render benefícios imediatos, mas depois traz tormentos permanentes. Aqueles que tentam se firmar mediante a impiedade serão desarraigados repentinamente. Serão como a palha que o vento dispersa. Serão como uma casa construída sobre a areia. A tempestade passará e a arrastará irremediavelmente, e grande será a sua destruição. Quanto maior a altura conquistada pelos artifícios da corrupção, maior será o tombo. Quanto mais alto o posto ocupado mediante os expedientes da maldade, mais humilhante será sua descida ao fundo do poço. Se o perverso se torna como uma lasca solta num mar bravio, o justo é como uma árvore solidamente plantada, cujas raízes não podem ser removidas. O justo pode até passar por provas amargas, por injustiças violentas e por tempestades borrascosas, mas sua raiz não será removida. Ele pode até perder sua vida e seus bens, mas jamais perderá sua reputação e sua descendência santa. A vida do justo é sólida aqui e feliz eternamente. O tempo não pode apagar sua memória nem deslustrar seu nome. O justo ultrapassará os umbrais da eternidade e habitará com o Senhor para todo o sempre, na mais esplêndida bem-aventurança.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO COM A SABOTAGEM

Por causa de pressão exagerada, descontentamento ou até ordens da chefia, funcionários boicotam as empresas. Saiba como proteger a companhia desses desvios de conduta

No fim do ano passado, a cervejaria, Backer, de Belo Horizonte (MG), ganhou a atenção dos noticiários por um triste motivo: a intoxicação de pessoas por uma substância que estaria presente em suas bebidas, o dietilenoglicol. Uma das possibilidades levantadas na investigação, que totaliza 42 casos suspeitos e nove mortes, é que a empresa, teria sofrido sabotagem de um ex­ funcionário. Em janeiro, a Backer apresentou à Justiça um vídeo que mostraria sabotagem nos barris de monoetilenoglicol, usado em serpentinas de resfriamento. 

A Suspeita ainda está em análise, mas chama a atenção para o risco de uma companhia sofrer por causa de empregados mal-intencionados. No caso da Backer, que vinha ganhando mercado, isso representou uma paralisação em seus negócios e uma mancha em sua reputação que, talvez, nunca seja superada.

No Brasil, o tema vem na esteira dos escândalos de corrupção que marcaram os últimos anos com operações da Polícia Federal batendo à porta de Odebrecht e JBS, entre outras. Alexandre Borges, sócio da consultoria Deloitte na área de riscos, conta que vem testemunhando, em comitês e órgãos de governança, a discussão sobre como se proteger de desvios dos funcionários. “Cresce o conceito de risco de conduta, que deve ser mapeado pelas empresas”, diz. Entre os riscos, que passam a ser contemplados está o de sabotagem.

FATORES EMOCIONAIS

Um dos pontos que diferenciam a sabotagem dos outros desvios é que, nela, o foco tende a ser o benefício pessoal de quem comete o ato, não necessariamente trazendo ganhos para a empresa, como na corrupção. Além disso, a sabotagem costuma alterar ou prejudicar um processo ou produto, que, de outra forma, não sofreria nenhum malefício.

Casos graves como o da Backer podem ser mais raros, mas para os especialistas, há uma série de desvios no dia a dia que podem prejudicar a companhia e sua reputação. ”Já tive de substituir um executivo que fraldava as compras em seu setor – e depois descobrimos que havia uma série de 1pssoas agindo em conjunto. A estrutura toda teve de ser mandada embora”, diz João Marcio Souza, CEO da Talenses Exeutive, especializada em recrutamento de alta liderança.

A sabotagem pode ser motivada por fatores emocionais, estresse, muita pressão por resultados ou insatisfação profunda. “Normalmente, quem sabota tem raiva ou descontentamento”, diz Nelson Fragoso, professor de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. “A gente pode comparar com o sentimento de vingança”.

A Tesla, fabricante de carros elétricos e soluções de energia alternativa, parece ter sofrido com um profissional descontente por não ter recebido uma promoção. Segundo Elon Musk, presidente executivo da companhia, o sabotador alterou o código de programação do sistema de produção e enviou informações sigilosas da empresa para terceiros. O empreendedor citou ainda outro incidente: um pequeno incêndio em uma das instalações da organização, também possivelmente ligado à sabotagem. A Tesla é conhecida por suas inovações – como os carros voadores -, e a competição por estar sempre na vanguarda pode, também, aumentar a vulnerabilidade à sabotagem. “Grande parte das organizações está investindo muito em processos de inovação, que são a deixa para alguns funcionários tirarem vantagem”, diz Alexandre, da Deloitte.

MAPEANDO OS RISCOS

O risco da má conduta de um empregado, que pode ir desde a postagem de fake news sobre a companhia nas redes sociais até o desligamento de um sistema, costuma ter dois aspectos. O primeiro é comportamental e comum a todas as empresas, que precisam conhecer – e treinar – a conduta dos profissionais, principalmente no que diz respeito à ética e à conquista de prêmios e bônus (forçar muito a remuneração variável, por exemplo, pode incentivar atitudes perigosas). O segundo diz respeito a processos e cenários específicos daquele tipo de negócio, que devem ser mapeados para encontrar os pontos de atenção. “Grande parte das empresas nacionais ainda não tem esses riscos estabelecidos”, diz Alexandre.

Conhecê-los ajuda a definir que programas e diretrizes são necessários para orientar os funcionários, além de refinar processos de qualidade e auditoria interna. Estabelecer de forma clara as consequências dos atos de empregados de qualquer nível é essencial e não cabe somente à área de compliance – o RH precisa mapear os riscos em conjunto. “O grande acerto é na hora da contratação”, diz João Marcio. “É o pri­meiro-passo para não haver desvios de conduta lá na frente.”

Esse é o momento para fazer as checagens possíveis: falar com antigos pares, líderes e subordinados para entender como aquela pessoa se comporta em determinados cenários. Processos como o background check, que investiga o passado do candidato, podem ser importantes especialmente para contratações de alto nível. O grau de autoridade que cada profissional tem para interferir em processos da empresa também deve ser levado em conta.

Uma das práticas que vêm sendo adotadas são os testes de integridade. Eles podem ser úteis porque cada um possui gatilhos diferentes para se envolver em atitudes anti­éticas. “O objetivo não é ver se a pessoa é honesta, mas encontrar as situações em que ela pode ter menos resiliência”, explica Mário Junior, sócio fundador e diretor do Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental, IPRC Brasil.

JOGO CLARO

“Você precisa mostrar as consequências das atitudes, boas e más”, diz Mario. “Não podemos assumir que todos têm o julgamento correto de tudo.” Por isso, os treinamentos precisam ser constantes e gerar engajamento, com o uso de vídeos e simulações de cenários em que o funcionário é forçado a fazer uma escolha – debater as decisões é essencial.

Outra solução passa pela automatização de processos sensíveis para a companhia – e que possam ser robotizados sem que haja perda de qualidade. Carlos Plazza, consultor e especialista em gestão de crises, cita a governança sem intermediários, operada através de tecnologia blockchain. “Ela obriga todos a operar de acordo com o que foi determinado, e tudo no processo é visível, certificado e imutável”, diz. “Usar tecnologias que rastreiem o que é feito tem sido algo muito bem-visto no mercado.” A postura da liderança também faz toda a diferença. Além de dar o exemplo, os chefes devem evitar um clima de medo na equipe. Muitas vezes vem dos gestores a pressão para saber quem foi a pessoa que fez uma denúncia ou reportou um problema. Isso gera um cenário de desconfiança que desestimula os empregados a apontar condutas duvidosas.

PROBLEMAS DE CULTURA

Um agravante em questões comportamentais é que o fator humano não é tão previsível. É por isso que grande parte da prevenção passa pelo clima organizacional. Ambientes muito competitivos, baseados no controle ou em uma quantidade exorbitante de tarefas sem recompensas, podem deflagrar sentimento de impotência, além de gerar pouca colaboração. “Aspessoas sentem que precisam ‘matar’ as outras para não ser demitidas”, diz Carlos. “Podem surgir traços psicopáticos e outros transtornos, além de burnout.”

A falta de reconhecimento é mais um peso. Um funcionário que se sinta desprestigiado pode apelar para a sabotagem como compensação. “Ele racionaliza a situação: faz algo porque a empresa merece aquilo ou para ser, enfim, reconhecido”, diz Mário, do IPRC. A única forma que as companhias têm de evitar isso é observar como as pessoas estão se sentindo e abrir espaços de comunicação que acolham os sentimentos dos empregados. “A empresa precisa saber o que acontece com os profissionais, se estão aborrecidos, se passam por alguma dificuldade”, diz Nelson, do Mackenzie.

Um caso recente ilustra bem tudo isso: Em março desse ano, um funcionário da American Airlines, com mais de 30 anos de casa foi preso depois de admitir ter adulterado uma aeronave que ia partir do Aeroporto Internacional de Miami para Nassau, nas Bahamas   com 150 passageiros. Ele relatou aos investigadores que estava chateado como resultado de uma negociação entre a companhia e o sindicato. Com a ideia de conseguir horas extras, colou um pedaço de isopor em um dos tubos para fazer com que a aeronave fosse enviada à manutenção. Sua intenção, afirmou, não era causar danos a ninguém, mas ganhar um extra, já que passava por um período de muitas dificuldades financeiras.                 

QUANDO HÁ SUSPEITAS

Se a empresa suspeitar de sabotagem, alguns cuidados devem ser tomados. A investigação começa por meio de entrevistas com todos os possíveis envolvidos, aplicadas normalmente pela área de auditoria e compliance. Mas o pessoal de gestão de pessoas também deve participar. “Seria importante treinar o RH para conduzir entrevistas e identificar riscos comportamentais, inclusive em processos de recrutamento e de demissão”, diz Mário.

A investigação precisa ser feita de forma transparente, mas com confidencialidade. Isso inclui não expor sem necessidade as pessoas envolvidas – e ter empatia com suspeitos para entender todos os lados da história. “A maioria não entra na empresa querendo cometer uma sabotagem ou fraude”, diz Mário. “É necessário usar esse momento para entender o que se passou e evitar que se repita.”

A medida também vale para resguardar a empresa. “É importante dar oportunidade para a defesa do empregado”, diz Daniela Yuassa, do escritório de advocacia Stocche Forbes. O ideal é que tudo seja documentado. “Deve haver uma política de conduta por escrito, que precisa ser assinada pelos funcionários.” Quanto mais clara e direta for a política, melhor.

Nem sempre é possível reunir provas suficientes para uma demissão por justa causa. Nesses casos, Daniela diz que algumas companhias podem se ver obrigadas juridicamente, a readmitir um funcionário. Essa é uma das razões para recomendar sistemas de backup de todas as máquinas, por exemplo. Caso a empresa passe por uma sabotagem, o melhor caminho é o aprendizado: analisar profundamente os erros para não sofrer novamente no futuro.

MEDIDAS DIFERENTES

O Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC) conduziu uma pesquisa para entender como um mesmo grupo de pessoas pode reagir a situações de desvios comportamentais no trabalho. Muitas vezes, o que falta é uma definição clara de quais são as condutas apropriadas. Os dados também mostram que a atuação do líder tende a definir a do restante da equipe

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMITAÇÃO FORTALECE VÍNCULO AFETIVO EM PRIMATAS

O ato de imitar o semelhante é importante para estreitar laços afetivos entre primatas. Uma pesquisa com macacos-prego, realizada por cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde, nos Estados Unidos, apoia essa ideia – já demonstrada por outros trabalhos. O curioso desta pesquisa, no entanto, é que as evidências vieram não da observação da imitação entre os próprios macacos, mas do comportamento dos animais em relação aos pesquisadores.

Segundo artigo sobre o resultado do experimento, publicado na revista Science, os macacos preferiram a companhia dos cientistas que os imitaram, em detrimento daqueles que não reproduziram seus gestos e expressões. Os primatas não apenas gastaram mais tempo com os imitadores humanos como também preferiram participar de tarefas simples com eles, ignorando a solicitação dos pesquisadores que não os imitaram. Segundo os autores, a repetição de gestos e expressões parece ser compreendida como uma demonstração de empatia e tem um papel fundamental na formação dos grupos sociais.

EU ACHO …

INSÔNIA INFELIZ E FELIZ

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe se são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AH, NÃO, OUTRA REDE …

Uma nova plataforma, misto de clube privado e sala de bate-papo e programa de rádio, o Clubhouse virou mania entre jovens adultos – resta saber se vai sobreviver

Quando se pensava que não haveria nada de novo tão cedo em termo de redes sociais, uma vez que Facebook, Instagram, Twitter e Reddit, com alguns derivados e cópias têm presença hegemônica na internet, eis que surge uma sensação que está tomando de assalto os jovens adultos que adoram ouvir a conversa dos outros e até se meter nela. Trata-se do aplicativo clubhouse, uma tendência entre famosos, curiosidades do momento e tentação irresistível para quem teme perder as novidades.

Ao contrário de seus rivais pela atenção dos usuários, o Clubhouse não foi feito para a publicação fotos, vídeos e textos. A interface é sutil, ainda mais simplificada que a da maioria dos aplicativos, e permite apenas interação por voz. Assim, a rede se organiza em salas de bate-papo para os mais diversos temas – literatura, cinema, viagens, negócios, sexo -, dos mais amenos aos mais picantes, conforme a preferência do usuário.

De acordo com as predileções, o aplicativo sugere salas de bate-papo adequadas ao gosto do indivíduo. Dentro da conversa, cada pessoa adota a postura que preferir, seja apenas de ouvinte ou participando efetivamente do debate — mas ela só pode falar se o moderador permitir, já que ficaria impraticável 5.000 participantes (o limite por sala) falando ao mesmo tempo. As conversas podem ser informais, entre amigos, ou estruturadas, na forma de conferências. Não raro, por exemplo, um famoso é convidado a ser palestrante no grupo.

Lançado em abril do ano passado por um executivo e um engenheiro do Vale do Silício, Clubhouse virou assunto da hora quando Elon Musk, bilionário da Tesla e da SpaceX, comentou que teve uma conversa pelo app com Vlad Tenev, CEO da Robinhood, corretora protagonista na valorização inédita das ações da empresa de videogames GameStop. Em maio, a rede social tinha 1 500 usuários e valia cerca de 100 milhões de dólares. Agora, tem 6 milhões de inscritos e valor de mercado estimado em 1 bilhão de dólares, o que a instala no seleto grupo dos supervalorizados unicórnios digitais.

Seletividade, a propósito, é o termo apropriado para o aplicativo. Ele é exclusivo para convidados e cada usuário tem direito de convidar só duas pessoas. Além disso, só há versão para iPhone — donos de smartphones Android estão barrados no baile, pelo menos por enquanto. Além de Musk, estão na rede social o diretor da Globo, Boninho, e o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, entre outras celebridades. Outro diferencial é o fato de que nenhuma conversa fica registrada na plataforma, ainda que qualquer um possa gravar o bate­papo por outro dispositivo — a conversa de Musk, por exemplo, transmitida no YouTube.

A liberdade de expressão oferecida pelo Clubhouse mostrou-se atraente, mas não permanente. Quando chineses começaram a comentar assuntos polêmicos, como os protestos em Hong Kong, o governo tratou tirar logo a plataforma do ar. Quanto à exclusividade, aqueles que têm boa memória devem lembrar que, em 2011, o Google tentou criar sua própria rede social, o Google+, que funcionava por meio de convite. Apesar do alvoroço inicial, desidratou-se até ser desativado. Alguns anos antes, o próprio Facebook exigia que o convite para ingressar partisse de um usuário (ainda que sem limite de envios), política que acabou abandonada.

A exclusividade desse clube, porém, está com os dias contados. Se a empresa quiser mesmo ganhar dinheiro com sua plataforma, ela precisará ser abrangente, oferecendo mais convites e a versão para Android, sistema operacional predominante no mundo. No entanto, até que a festa seja aberta para todos, já tem gente disposta a pagar quase 300 reais por um convite no Mercado Livre. Isso faz com que analistas do setor fiquem empolgados com o futuro da nova plataforma. Só no Brasil, os programas de áudio chamados podcasts tem mais de 28 milhões de ouvintes, indicativo do potencial a ser explorado: “Tem tudo para ser um sucesso, pode ser um companheiro em tempos de home office”, diz Edney Soares de Souza, da Digital House Brasil. Já os mais céticos se perguntam para que ter mais uma rede social na vida, em um ambiente tecnológico que, em vez de ampliar o tempo livre, parece estrangular cada vez mais os momentos de lazer e aprendizado. Como diria Groucho Marx (1890-1977), o mais irônico da velha guarda de comediantes, “não quero fazer parte de nenhum clube que me aceite como sócio”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE MARÇO

BONDADE, O CANAL DO FAVOR DIVINO

O homem de bem alcança o favor do Senhor, mas ao homem de perversos desígnios, ele o condena (Provérbios 12.2).

Deus não tem prazer no homem mau. Não se deleita naqueles cujo coração é uma indústria de perversidades. O homem bom alcança o favor de Deus, mas aquele que planeja a maldade, o Senhor o condena. Deus não é um ser amoral, que faz vistas grossas ao pecado; nem é um ser imoral, que aplaude o vício e escarnece da virtude. Deus é santo e justo. Aborrece o mal e ama o bem. Ele é luz, e não há nele treva nenhuma. Ele aborrece os altivos de coração e resiste ao soberbo. Abomina até mesmo o sacrifício dos perversos. Deus reprova os intentos e desígnios dos perversos, mas abençoa aqueles que, de coração reto, buscam o bem. A bondade é um atributo moral de Deus. É fruto do Espírito. Só podemos ser homens de bem quando imitamos a Deus e somos conduzidos pelo seu Espírito. Andar por essa estrada é ter a promessa segura do favor divino. Deus se torna galardoador daqueles que o buscam. Entrar, porém, pelos labirintos da maldade é colocar-se sob a ira de Deus e expor-se ao seu reto e justo juízo.

GESTÃO E CARREIRA

ESCRITÓRIO NO DIVÃ

Aumenta a preocupação das empresas em cuidar do bem-estar e da saúde mental dos funcionários. Aprenda a estruturar bons programas

Estamos vivendo uma epidemia de transtornos mentais. No Brasil, mais de 18 milhões de pessoas sofrem de algum distúrbio de ansiedade – quase 10% da população -, pelos números mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2017. Quando se fala em depressão, estamos entre as nações com maior número de doentes: cerca de 12 milhões. E esses dados certamente já estão desatualizados, uma vez que não contabilizam os prejuízos que instabilidade econômica, desemprego, radicalização política e pandemia de covid-19 somaram à saúde mental do brasileiro.

Antes mesmo de o coronavírus virar tudo de pernas para o ar, as transformações pelas quais o mundo do trabalho está passando já apontavam para o que culminou em uma crise global de saúde mental. “Hiperconexão, cargas horárias excessivas, as demandas do mundo Vuca [sigla, em inglês para Volátil, incerto, complexo e ambíguo], deterioração das relações de trabalho, alta competitividade e forte pressão por resultados criaram desequilíbrio entre vida privada e profissional, insatisfação e sofrimento”, avalia Eduardo Ballia Santiago, médico e diretor da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).

A síndrome de burnout, provocada pelo excesso de estresse no trabalho, foi reconhecida em 2019 como fenômeno ocupacional. Boa parte dos casos de dependência química (álcool, drogas e medicamentos) e suicídio está ligada à mesma causa. O movimento recente das companhias de cuidar do bem-estar mental dos trabalhadores se fortaleceu depois de um alerta da OMS.

A instituição afirmou que doenças como ansiedade e depressão podem causar prejuízo em torno de 1 trilhão de dólares por ano à economia global em queda de produtividade. Nas duas últimas edições do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, as lideranças reunidas trataram da criação de investimentos em políticas de saúde mental como prioridade econômica e social.

No Brasil a explosão no número de pedidos de afastamento do trabalho por transtornos depressivos e ansiosos obrigou a empresas a agir. Pelos dados mais recentes da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia, referentes a 2017, eles foram o terceiro maior motivo para concessão de auxílios-doença no país, somando mais, de 72.000 benefícios. Diferentemente das doenças físicas que normalmente permitem que o profissional volte ao trabalho depois de algumas semanas, as mentais não têm essa previsibilidade”, diz Edwiges Parra, psicóloga organizacional e fundadora da Emind Mente Emocional, consultoria de desenvolvimento humano. “O retorno pós-depressão ou síndrome do pânico por exemplo, pode levar de seis meses a um ano. Ainda assim, a pessoa não volta no mesmo ritmo, além de ser comum ter recaídas e o desempenho comprometido.”

E o problema não são somente as licenças. “Os custos aparecem também na forma de absenteísmo, alta rotatividade e queda no rendimento do empregado que está ali, mas com dificuldade de se concentrar e tomar decisões”, explica Maria José Tonelli, professora no Departamento de Administração e Recursos Humanos da FGV Eaesp.

O PESO DO ESTIGMA

O preconceito em torno dos transtornos mentais é o principal obstáculo para que sejam tratados como merecem no contexto do trabalho. Muitas vezes parte do próprio empregado, que, por medo de demonstrar fragilidade, ficar estigmatizado ou ser demitido, segue trabalhando em vez de buscar tratamento. Por parte dos empregadores, o receio de ser invasivo e a falta de articulação entre as áreas de recursos humanos e saúde são apontados como obstáculos para criar programas de saúde mental consistentes.

A pesquisa Tendências de Saúde Mental 2019, da Mercer Marsh Benefícios, que levantou informações de 11 países da América Latina e do Caribe, revelou que somente 21% das empresas brasileiras têm programas ou políticas para gestão da saúde mental. São principalmente treinamentos e políticas de prevenção ao assédio e ao abuso de álcool e drogas, ainda de acordo com a pesquisa. Das companhias pesquisadas, 65% não realizaram estudo para obter dados de saúde mental dos funcionários nos últimos dois anos. Um erro, segundo os especialistas, já que o momento certo para trazer o tema à tona é quando todos estão saudáveis. “Cuidar da doença mental quando ela está instalada é enxugar gelo”, afirma Fatima Macedo, psicóloga organizacional e CEO da Mental Clean, consultoria de saúde mental. “O primeiro passo é falar sem medo sobre o assunto, tratando as doenças emocionais com a mesma naturalidade com que se fala das físicas”, diz.

O tratamento da saúde mental é como um quebra-cabeça, com peças que vão além do universo do trabalho. ”Paciente, família, médico, psicólogo, gestor e recursos humanos precisam se integrar para que as estratégias adotadas funcionem”, diz Eduardo, da. ABQ\T.

Do lado das empresas, as iniciativas são diversas e variam de acordo com o número de empregados, o segmento em que operam e a estrutura física. Mas uma delas pode ser aplicada em qualquer companhia: a educação. Campanhas, workshops, palestras e material gráfico sobre desdobramentos comuns das doenças mentais (dependência química; transtornos alimentares e suicídio) são úteis para remover o estigma e orientar sobre como procurar e oferecer ajuda.

BOTÃO DA CALMA

Incentivar um estilo de vida saudável por meio de convênios com academia, assessorias de corrida, consultorias de nutrição, aulas coletivas de ginástica laboral, sessões de meditação e mindfulness é outra medida interessante.

Essa é a aposta da farmacêutica Roche, que desde 2013 tem um programa global de saúde mental e bem estar. As práticas presenciais e semanais de mindfulness, por exemplo, têm boa adesão dos funcionários. Fora isso, em todos os telefones da empresa é possível ouvir áudios de meditação guiada de 5 e 20 minutos –  é só apertar um botão. As equipes são incentivadas a usar esse recurso antes de reuniões, uma vez dentro da sala, todos meditam por 5 minutos. O objetivo é desenvolver o hábito e levá-lo para fora do trabalho. Fazer essas pausas para reconexão é importante para o equilíbrio emocional”, diz Cyntia Silva, coordenadora de RH da Roche. Em home office por causa da pandemia da covid-19, os profissionais estão recebendo acesso às meditações para não interromper a prática.

AMBIENTES ACOLHEDORES

A estrutura física também pode contar a favor do bem-estar. Na Locaweb, o espaço da sede foi pensado para que as pessoas possam desconectar de vez em quando: há sala de descompressão e cochilo, área com pufes, sala de massagem e um jardim privilegiado onde acontecem meditações. “Acreditamos que é essencial criar meios para que os funcionários consigam equilibrar o trabalho com o lado pessoal. Com menos estresse e mais bem-estar, colhemos criatividade, produtividade e inovação”, diz Simony Morais, gerente de gente e gestão da companhia.

Outra prática importante é permitir o trabalho remoto, já que ficar em casa poupa o funcionário de gastar horas por dia se deslocando. Porém, para que seja de fato uma opção vantajosa para todos, é preciso criar uma rotina (para não trabalhar horas a fio ou até tarde da noite) e entrar em acordo com a família e a equipe a fim de estabelecer limites entre vida profissional e doméstica. “Mulheres podem se sentir especialmente sobrecarregadas se não se organizarem para fazer essa separação”, avisa Edwiges.

TERAPIA ONLINE

O atendimento à distância foi reconhecido recentemente pelo Conselho Federal de Psicologia. Consiste em uma sessão de terapia comum, com a diferença de a conversa entre paciente e psicólogo ser por videochamada. A plataforma Psicologia Viva, que atende mais de 40 empresas e operadoras de saúde, realizou cerca de 50.000 atendimentos em 2019, pelo menos 80% por meio de programas corporativos. “Ansiedade e depressão são as principais motivações para busca da terapia”, diz Edinei Santos, sócio fundador da startup. Para Fatima, da Mental Clean, quando o foco é a carreira, o psicólogo precisa estar preparado. “É importante ter conhecimento de saúde ocupacional e olhar para o paciente como um trabalhador”, diz.

Quando o atendimento é via empresa, normalmente uma linha telefônica é disponibilizada ao funcionário e ele é direcionado para uma espécie de consultoria para tirar dúvidas de ordem psicológica (sem ser uma terapia), jurídica, financeira e até pedagógica, no caso de mães e pais com alguma dificuldade na criação dos filhos. É uma forma de acolher o empregado em suas necessidades privadas e facilitar o equilíbrio entre todas as esferas da vida. “Para algumas pessoas, ajudar a resolver questões práticas é o suficiente para aliviar desconfortos emocionais, também pode auxiliar a identificar quando um problema merece terapia. Isso ajuda a prevenir o adoecimento”, diz Fatima.

CENÁRIO PÓS-PANDEMIA

A incerteza em relação ao avanço do coronavírus e ao futuro do emprego sornada às mudanças na rotina por causa da quarentena, tende a intensificar a ansiedade, o estresse e a depressão.

Assim, a busca por ferramentas e serviços de apoio on-line (de palestras sobre saúde emocional a sessões de meditação e atendimento psicológico à distância) vem crescendo. Só na primeira semana da quarentena; a plataforma Virtude, de terapia online, registrou aumento de 250% na busca de seu serviço para organizações. A Psicologia Viva viu saltar de 7.000 para 1.000 os atendimentos no primeiro mês de quarentena.

A mudança para jornadas mais flexíveis também parece um caminho sem volta. O home office será uma realidade – para cada vez mais pessoas, principalmente nas grandes cidades. Empresas que antes relutavam em dar essa opção aos times agora terão de aceitar o modelo para reduzir custos com estrutura e cuidar do bem-estar dos funcionários” diz Fatima.

O momento também é de reinvenção das lideranças, que mais do que nunca precisam ser direcionadas para a gestão de pessoas. “Habilidades como empatia, transparência, acolhimento e boa comunicação são indispensáveis neste momento de quarentena”, explica Maria José, da FGV Eaesp. Pressionados; os gestores também vão ter de apostar em muita inteligência emocional para equilibrar tudo. Por isso, vale o conselho da professora: “É preciso ter consciência da necessidade de cuidar de si para cuidar dos outros”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HORMÔNIO DA RESILIÊNCIA

Que características biológicas fazem uma pessoa mais ou menos resistente às adversidades da vida? Com essa pergunta em mente e certos de que a resposta a ela pode ajudar muitas pessoas a superar sofrimentos psíquicos, pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, chegaram ao hormônio deidropiandrosterona, mais conhecido como DHEA, secretado pelas glândulas adrenais em resposta ao stress.

O estudo foi realizado com soldados americanos que participaram de um curso militar de qualificação para combate debaixo d’água, seguido de exame altamente estressante devido a exercícios radicais de mergulhos noturnos. Os participantes foram avaliados, antes e depois do curso e da prova, por questionários psicológicos e medidas da concentração sanguínea de DHEA. Os resultados mostraram que, ao final do exame, aqueles com níveis mais elevados do hormônio se apresentavam mais tolerantes ao stress físico e psicológico.

Pesquisas com animais já haviam apontado que a DHEA age em receptores do hipocampo, região cerebral muito sensível aos efeitos negativos do stress. Segundo os autores do estudo publicado na revista Biological Psychiatry, os resultados abrem a perspectiva de que, no futuro, drogas similares à DHEA possam ser usadas para proteger soldados do intenso desgaste de operações militares.

EU ACHO …

CARTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destinadas para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sinto-me com mais direito de falar com o Ministro da Educação por já ter sido estudante.

O senhor há de estranhar que uma simples escritora escreva sobre um assunto tão complexo como o de verbas para educação – o que no caso significa abrir vagas para os excedentes. Mas o problema é tão grave e por vezes patético que mesmo a mim, não tendo ainda filhos em idade universitária, me toca.

O MEC, visando evitar o problema do grande número de candidatos para poucas vagas, resolveu fazer constar nos editais de vestibular que os concursos seriam classificatórios, considerando aprovados apenas os primeiros colocados dentro do número de vagas existentes. Esta medida impede qualquer ação judicial por parte dos que não são aproveitados, não impedindo, no entanto, que os alunos tenham o impulso de ir às ruas reivindicar as vagas que lhes são negadas.

Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! e que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas faculdades os que tirarem melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiraram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela. Eu mesma fui universitária e no vestibular classificaram-me entre os primeiros candidatos. No entanto, por motivos que aqui não importam, nem sequer segui a profissão. Na verdade eu não tinha direito à vaga.

Não estou de modo algum entrando em seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto.

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa.

Se a verba para universidades é curta, obrigando a diminuir o número de vagas, por que não submetem os estudantes, alguns meses antes do vestibular, a exames psicotécnicos, a testes vocacionais? Isso não só serviria de eliminatória para as faculdades, como ajudaria aos estudantes que estivessem em caminho errado de vocação. Esta ideia partiu de uma estudante.

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra “excedente”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentira desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.

O senhor sabe o preço dos livros para pré-vestibulares? São caríssimos, comprados à custa de grandes dificuldades, pagos em prestações. Para no fim terem sido inúteis?

Que estas páginas simbolizem uma passeata de protesto de rapazes e moças.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A TERAPIA DA AGULHA

Os bordados de tricô e crochê voltaram à moda como hobby, remédio contra o estresse e até oportunidades de negócios para pessoas de todas as idades

No passado, a tarefa de aprender a bordar era exclusiva de algumas “mulheres prendadas”, que se dedicavam a aprimorar essa qualidade essencial para quem desejava ser uma “boa esposa”. O mundo mudou e esse conceito ficou congelado no passado, mas o hábito em si, não: o bordado, o crochê e o tricô ganharam a indústria da moda, deixaram o sexismo de lado e atualmente são sinônimos de bem estar emocional para pessoas de todos os gêneros e idades.

“Comecei a postar vídeos quando ainda nem era possível ganhar dinheiro com o Youtube. Hoje tenho mais de meio milhão de inscritos no meu canal”, comemora Daísma Vaz, influenciadora digital conhecida como “Day Vaz” nas redes sociais. Prestes a lançar um aplicativo para celular voltado para o ensino de técnicas de tricô e bordado, ela garante que seu público é cada vez mais jovem e diversificado. “Tenho interessados dos 12 aos 65 anos.”

É o caso da artesã e empresária Caroline Weiss. Após trabalhar no setor de marketing de uma empresa de fios, descobriu no crochê uma vocação que acabou virando negócio próprio. “Decidi aprender para conhecer melhor o produto da minha empresa e não parei mais. É terapêutico e viciante”, diz. Caroline acredita que existe uma nova percepção sobre o trabalho manual e o artesanato. Visto até pouco tempo como uma coisa ultrapassada, passou a ser considerado algo moderno e divertido. “Você começa com um ponto simples e aos poucos vai aprendendo técnicas mais complexas. É um trabalho permanente da habilidade, como em um jogo de videogame”, compara. Durante a pandemia, Caroline abriu uma loja virtual com peças de decoração sob medida – todas produzidas por ela.

PAIXÃO

A aposentada Ana Yamaoka nunca foi obrigada a aprender a costurar: para ela, o crochê é uma paixão. No final de 2019, aos 53 anos, fez um curso durante o isolamento e bordou centenas de “quadradinhos”, estampas que vão se transformar em uma colcha repleta de detalhes. “Trabalho no meu cantinho aqui em casa e, se não presto atenção, esqueço do mundo. O tempo passa e você não vê.” Ela se matriculou em diversos cursos ao longo da vida, mas foi manuseando as agulhas que ela encontrou sua atividade favorita. “Sou apaixonada pelo crochê. Todos deveriam aprender”, recomenda. E garante que ninguém vai se arrepender. “É um caminho sem volta.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE MARÇO

DISCIPLINA, O CAMINHO DA SABEDORIA

Quem ama a disciplina ama o conhecimento, mas o que aborrece a repreensão é estúpido (Provérbios 12.1).

A disciplina não é castigo, mas um ato responsável de amor. Não visa esmagar ou destruir o ofensor, mas restaurar-lhe a alma. A disciplina é preventiva, evita que outros caiam no mesmo erro; e também restauradora, ajuda o caído a levantar-se. A disciplina não produz alegria imediata, mas frutos permanentes. As feridas provocadas por ela trazem cura, mas curar superficialmente uma ferida gera a morte. Deus só disciplina os filhos a quem ama. Os bastardos, que não são filhos, não são corrigidos. Por isso, perecem em seus pecados. Salomão é categórico: Quem ama a disciplina ama o conhecimento (Provérbios 12.1). Aprendemos pelos preceitos, pelos exemplos e também por meio dos nossos erros. Um fracasso só é fracasso quando não aprendemos com ele. Nossos erros não precisam ser nossos coveiros; podem ser nossos pedagogos. Só os estúpidos aborrecem a repreensão; os sábios amam a disciplina. A disciplina é o caminho do conhecimento prático e da sabedoria que vem lá do alto.

GESTÃO E CARREIRA

TIME DE CENTAUROS

Os desafios e as vantagens de montar uma equipe de RH metade humana, metade máquina com inteligência artificial

Em 11 de maio de 1998, em Nova York, o computador Deep Blue, da IBM, venceu o sexto e último jogo de xadrez contra Gary Kasparov, na ocasião o melhor enxadrista do mundo. Foram duas vitórias para Deep Blue, uma para Kasparov e três empates. Depois do sexto jogo, um Kasparov ainda agitado disse à imprensa que não era apenas ele quem havia perdido – mas toda a humanidade.

Passada uma década, Kasparov tornou-se o maior defensor de uma mudança radical nas regras do xadrez profissional, de modo a permitir uma disputa nova, chamada “xadrez-centauro”. Diferentemente de dois jogadores humanos, um de cada lado, Kasparov propõe duas duplas, compostas de um jogador de carne e osso e um computador. A pessoa decide quais movimentos gostaria de fazer; a tecnologia calcula as consequências possíveis daquela sequência. A combinação humano-máquina reduz imensamente o risco de um erro tático, mas mantém o indivíduo no comando da estratégia. “Quando jogamos com a assistência de um computador”, afirma Kasparov, “podemos nos concentrar no planejamento estratégico do jogo em vez de perder tempo calculando a força de cada posição. Nessas condições, a criatividade humana ganha imensa importância.”

Algo semelhante ao xadrez centauro está acontecendo no mundo corporativo. Em essência, cada empresa compete com as outras ao tentar reunir a melhor combinação possível de funcionários. Com a popularização da tecnologia, as organizações não têm mais somente o desafio de atrair e contratar os melhores trabalhadores, mas de montar o melhor time de centauros, mais ou menos à moda de Kasparov: metade humanos, metade máquinas com inteligência artificial (IA). A novidade é que essa exigência também vale para a área de recursos humanos, na qual o uso de IA é mais difícil.

NOTA 9

Um fato ocorrido na Embraer pode ilustrar bem a força de um time de centauros. Sempre que anuncia a intenção de contratar estagiários, milhares de jovens se inscrevem. Antes de agosto de 2018, a equipe de RH mais os responsáveis pelas vagas precisavam analisar 20.000 currículos, escolher, entre eles, 900 candidatos para a entrevista e, só no fim do processo, contratar 180 – ou, em outras palavras, de cada dez entrevistados, a Embraer admitia apenas dois deles. “A quantidade de inscritos sempre foi absurda”, diz Ricardo TozettI, gerente de RH da Embraer. “O processo seletivo durava meses, mas mesmo assim não era possível avaliar criteriosamente o currículo e o perfil de tanta gente.”

Em 2018, a fabricante de aeronaves obteve a ajuda de uma startup especializada em aplicar IA a processos de seleção, a Gupy. Para que um sistema assim funcione bem, ele precisa ser “treinado” com dados reais. Por isso, Ricardo e seus colegas passaram uma parte de 2018 procurando identificar, nas várias áreas da companhia, onde estavam as informações relevantes, e puderam treinar o sistema com elementos relativos a 15 anos de contratações. Quando o sistema ficou pronto, a Embraer anunciou o programa de estágio – os 18.000 interessados entraram num site próprio para o processo seletivo, inserido dentro do sistema de IA, forneceram algumas informações e fizeram testes (comportamental, inglês, lógica). O software escolheu sozinho, os melhores candidatos para cada vaga, usando as regras que inferiu durante o treinamento. O pessoal do recrutamento examinou brevemente a lista de selecionados para ver se não havia nenhum erro gritante, mas não achou nada. O sistema, então, enviou automaticamente os convites. Em agosto de 2018, em poucos dias, os 260 candidatos pré-selecionados por IA compareceram na Embraer, fizeram uma dinâmica de grupo de manhã, almoçaram e foram entrevistados à tarde. À noite, a empresa já sabia quem deveria contratar entre os visitantes do dia.

De cada dez entrevistados, sete foram admitidos. “Durante poucos dias, preenchemos todas as 181 vagas. Os gestores ficaram contentes por terem gastado menos tempo com uma seleção tão certeira de estagiários e deram nota 9 ao processo como um todo”, diz Ricardo.

TREINANDO SEM MENTIRAS

Sempre que um fornecedor como a Gupy e um cliente como a Embraer obtêm sucesso juntos, se esforçam para divulgar a notícia, e por isso o interessado em histórias desse tipo talvez elabore a seguinte tese: “Para que a área de recursos humanos use inteligência artificial e ajude sua organização a competir melhor, basta que ache um bom fornecedor de tecnologia”. Essa ideia é falsa. Um fornecedor competente, interno ou externo, é necessário para o sucesso da empreitada, mas não suficiente.

“As empresas raramente têm tudo aquilo que os manuais recomendam para o bom uso de inteligência artificial, especialmente bancos com dados no formato certo e na quantidade certa”, diz Vinicius Aloe, superintendente de RH do Santander. Se a corporação vai usar informações para permitir que o software inteligente depreenda as regras que definem determinadas atividades e decisões (é isso o que treinar um sistema de IA significa), os elementos precisam ter ótima correspondência com a realidade – quer dizer, devem refletir fielmente a história. Mas muitas vezes os dados contêm parcialidades ou injustiças (ou seja, vieses, a palavra da moda) especialmente aqueles relativos a processos de gestão de pessoas. Por exemplo: um gestor G gostaria de promover o funcionário no ano que vem, mas neste ano o desempenho de F foi medíocre (Talvez por causa de um problema pessoal). Pelas regras corporativas, contudo, F só pode subir de cargo se suas notas de desempenho forem maiores do que 8. Durante a avaliação anual do time, G tem a ideia de atribuir nota 9 a F- fazendo isso, os bancos de dados do RH já não correspondem mais à história real e não podem ser usados para treinar um sistema de IA.

Par a evitar que um problema grave como esse aconteça, Vinícius acumula no Santander o papel de responsável pelas informações analíticas. Ou seja, pelos bancos de dados que a instituição pode usar para elaborar análises do que está acontecendo com os recursos humanos. O executivo comanda uma equipe de especialistas em modelos preditivos, em técnicas estatísticas e em elaboração de relatórios de resultados. Com essas informações e esse time, o RH do Santander fornece aos empregados vários serviços. Para citar um exemplo, envia avisos aos gestores dizendo: “No ritmo com que o Fulano de Tal está tirando dias de folga, não conseguirá zerar suas horas extras antes do prazo legal”. Esses serviços, contudo, não são a principal missão de Vinícius – são secundários em relação à sua tarefa mais importante, que é garantir bancos de dados fiéis à história da organização, livres de parcialidades e injustiças, a fim de que no futuro possam ser usados para treinar sistemas de IA. “Se alguém usar Inteligência artificial a partir de documentos com vieses, mata o projeto, porque o sistema cometerá erros. E, como tais sistemas são automáticos e velozes, têm um potencial enorme para fazer besteiras”, diz Vinícius. Talvez pareça que a Embraer, ao usar IA para contratar estagiários, soube contornar o problema dos vieses em bancos de dados, mas não é verdade. A maior parte das Informações foi fornecida pelos próprios candidatos ao preencher as fichas e fazer os testes. A máquina não perguntou qual era a área de interesse do estudante nem qual faculdade ele fez. “Para nós, não interessava se íamos colocar um engenheiro no RH ou um advogado no marketing. Exceção feita, é claro, para os cargos em que um curso especifico era essencial”, diz Ricardo Tozetti. Portanto, o software utilizou elementos limpos de preconceitos porque os dados eram, na maior parte, novos e desenhados para que não contivessem soslaios. “Se não fizéssemos isso, não teríamos diversidade, um dos objetivos do novo processo de seleção.”

Agora, tanto Embraer quanto Santander procuram oportunidades para usar Inteligência artificial em outros processos de gestão de pessoas. Ambas as empresas estão na fase de criar os projetos-piloto. Parte importante desse desenho é rever os procedimentos que, no fim das contas, alimentam os bancos de dados que serão usados para treinar a IA, de modo a limpá-los de vieses. Graças à vontade de usar uma máquina Inteligente, as duas companhias vão se tornar um pouco melhores do que já eram – talvez mais verdadeiras.

PARA FICAR DE OLHO

Três dicas de Mark Essle, sócio da consultoria de negócios A.T. Kearney no Brasil

1. Ainda não existem sistemas de inteligência artificial que analisem o perfil do candidato segundo a técnica Myers-Briggs Type lndicator, mas tais sistemas vão surgir logo e mudar bastante o modo como o RH contrata profissionais no mercado.

2. O impacto da IA em tarefas repetitivas, mesmo que de natureza fortemente intelectual será imenso. Por isso, a principal característica do profissional do futuro é a habilidade de atuar lado a lado com essas máquinas, e isso significa a capacidade de aprender sozinho assuntos difíceis. “O pessoal de RH pensa assim: ‘Visto que trabalho com gente, não vou perder meu emprego para robôs, pois robôs não lidam com gente’. Mas essa ideia é falsa,” diz Mark.

3. Poucas companhias investem no treinamento de empregados. Retreinar significa fazer uma pessoa passar por um curso não para aprender o que não sabe, mas para refletir mais profundamente sobre o que já conhece. “Isso é muito importante, especialmente porque os sistemas de inteligência artificial forçam a empresa a olhar para si mesma de um jeito diferente.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SOLIDÃO DA PASSAGEM

Apesar de a morte ser um dos principais medos do ser humano, morrem hoje mais pessoas por suicídio do que nas guerras e as tentativas chegam a 10 milhões

Tabu profundo, aquilo que ninguém quer lembrar. Desejo de não mais desejar, dilema de toda a vida. Algumas pessoas não pensam nisso e outras evitam pensar. Quantas pensam todo dia? Por tristeza, vergonha, dor, ódio, culpa ou ansiedade, a cada ano 1 milhão de pessoas em todo o planeta tiram voluntariamente a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número anual de tentativas fracassadas de suicídio chegue a 10 milhões. Eis aí, afinal, um comportamento tipicamente humano?

Talvez. Muitos animais são capazes de expressar tristeza, mas em geral lutam arduamente para permanecerem vivos. Dessa regra não escapa nem mesmo o lemingue, roedor do Ártico que ficou famoso em filmes de Walt Disney – como o documentário de 1958, White wildemess, sem título em português, mas – que poderia ser Imensidão branca – pela suposta propensão ao suicídio em massa. Na verdade, o comportamento de lançar-se coletivamente de altas falésias é um desafortunado acidente migratório na história natural da espécie, fruto de superpopulação e desconhecimento da rota. Com seres humanos não é tão simples. Morre mais gente por suicídio do que nas guerras. Uns porque almejam o paraíso pós-morte e outros porque não suportam o inferno da vida. Na maior parte dos casos, por uma angústia insuportável de existir. O que há de errado conosco?

Se nascemos e morremos sós, nada lembramos do parto, pois nessa hora a consciência está em fase de formação. Entretanto, na porta de saída, temos encontro marcado com a suprema solidão. Quando partimos rumo ao desconhecido, esperar uma vida nova causa menos ansiedade do que encarar o vazio de frente. Com ou sem expectativa de continuação, o temor da morte é o maior de todos os medos. Por isso, mesmo no sofrimento mais atroz, grande parte das pessoas se agarra à vida com unhas e dentes. O que faz o suicida é o sofrimento psíquico. No momento derradeiro, prestes a cometer o ato, pior do que estar sozinho é não ter nem a si mesmo por perto.

O suicídio é uma opção, e o tratamento também. Há 100 anos, usava-se ópio para amortecer o desespero. Atualmente, os antidepressivos se baseiam no aumento direto ou indireto dos níveis de neurotransmissores como a serotonina. Eficaz no início, a terapia farmacológica frequentemente esbarra no problema da tolerância. Doses cada vez maiores podem ser necessárias para manter um estado que não chega a ser de felicidade, mas de conformação. Nos quadros de extrema depressão, por vezes apenas a eletroconvulsoterapia consegue retirar o paciente do mundo em que tudo é triste, doloroso e frustrante.

Mas existe outro caminho, difícil e precioso, que precisa ser trilhado bem antes do precipício. Com disciplina e coragem, voltar-se para dentro. Nutrir a mente integrada ao corpo, enraizar-se no real, mergulhar no infinito íntimo e celebrar o mistério último. Cantar, dançar, meditar e criar. Sem pressa de chegar, sorver a emoção de viajar. Acompanhar-se integralmente na passagem, na presença completa de si. Deve ser melhor assim.

SIDARTA RIBEIRO – é neurobiólogo com Ph.D. pela Universidade Rockefeller e pós-doutorado pela Universidade Duke. Atualmente é chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde investiga as bases neurais do aprendizado, comunicação, sono e sonhos.

EU ACHO …

AS TRÊS EXPERIÊNCIAS

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte, mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.

Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.

Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?

Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FELIZ NO INFINITO MUNDO DAS PALAVRAS

Os clubes de livros se expandem no País e mostram que o brasileiro aderiu a uma nova forma de adquirir obras literárias que abrangem os mais diversos gêneros

Ao mesmo tempo em que o movimento de compradores diminuiu no interior das livrarias, tanto que diversas delas encerraram suas atividades, aumentou o número de adeptos de clubes de livros. Trata-se de um fenômeno paradoxal e cabe indagar: o que está levando gente apaixonada por leitura a essa mudança de comportamento? A resposta não é única, mas a principal delas é a união daquilo que se pode chamar de tradição mercadológica com a sofisticação da tecnologia. Essa nova forma de demanda fez com que as editoras passassem por uma adaptação nos moldes de comercialização, agora enviando os seus produtos diretamente aos clientes. Os assinantes dos clubes pagam mensalmente um valor fixo e recebem um livro escolhido por renomados curadores que trabalham para essas empresas literárias — é como se a obra escolhesse o leitor e não mais o contrário, já que os títulos são, na maioria das vezes, surpresa. Em um mundo onde tudo é virtual, tais clubes também disponibilizam a possibilidade de conexões. Ou seja: os assinantes têm acesso a encontros e debates online e usam aplicativos para interação com demais associados. Aí mora boa parte da magia e sucesso desse novo negócio.

OUTRA HISTÓRIA

O universo dos clubes de livros não é um ambiente totalmente desconhecido. Entre a década de 1970 e o início dos anos 2000 existiu no Brasil o chamado “Círculo do Livro”. A ideia era a mesma: fazer chegar mensalmente uma nova obra na residência dos associados. A diferença é que hoje os livros que os curadores elegem mensalmente seguem critérios editoriais com olhos em temas que estão colocados na sociedade. Por exemplo: acompanhando o justo e bom crescimento da luta contra o racismo, os clubes podem enviar uma obra atual, mas, também, um clássico do século 19 que já condenava a escravatura. Outro ponto: se alguém, em uma suposição, quiser ler somente histórias de terror, basta avisar o clube do qual é cliente e só receberá esse gênero literário. E há algo extremamente sofisticado: se um participante quiser um livro estrangeiro que ainda não foi traduzido no Brasil, pode requisitá-lo. O clube faz a tradução e o envia ao destinatário. “Eu assino cinco clubes diferentes e optei por aqueles que não anunciam qual será a próxima leitura”, diz Shirlei Milane. “Além disso, os encontros virtuais tiram o sentimento de solidão que me abate quando termino de ler e não tenho com quem compartilhar a história”.

Entre as principais editoras que escolheram esse nicho de mercado estão a Tag, Intrínseca, Todavia e Boitempo. Os números mostram que o conceito de comprar e ler está, de fato, mudando. Somente a Tag conta com mais de cinquenta mil assinantes em todo o País. Já o clube da editora Intrínseca teve um crescimento de clientes na casa dos 124% ao longo de 2020. “Eu acho que é uma mudança que vai continuar acontecendo porque a demanda por troca de conhecimento sempre existiu”, diz Marcelo Bueno Catelan. “É uma fórmula que o mercado editorial brasileiro fez bem em descobrir”. Essa nova atmosfera que se criou dentro do mercado editorial claramente expandiu-se para demais horizontes. Aficionados por livros também passaram a se reunir de maneira independente. Pequenos ou grandes grupos fazem leituras orientadas, discutem capítulo por capítulo e reúnem-se para dirimir dúvidas, ampliar descobertas e questionamentos. “São percepções diferentes sobre um mesmo assunto. E, durante a pandemia, serviu como gigantesco refúgio”, diz Letícia Teixeira. “Envolvem estilos de vidas diferentes que transformam o simples fato de ler em uma nova experiência de vida”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE MARÇO

PUNIÇÃO DO ÍMPIO, CERTA E RIGOROSA

Se o justo é punido na terra, quanto mais o perverso e o pecador! (Provérbios 11.31).

Não é verdade que a vida do justo é um mar de rosas. Ser um cristão não é viver numa colônia de férias ou num parque de diversões. O justo é afligido na terra, ora por suas fraquezas, ora mesmo quando pratica a justiça. O apóstolo Paulo diz que nos importa entrar no reino de Deus por meio de muitas tribulações. Contudo, se o justo não é poupado de punição na terra, quanto mais o perverso e o pecador. Eles estão acumulando ira para o dia da ira. Sofrerão não apenas o castigo que seus atos merecem, mas também a penalidade de eterna destruição. Serão banidos para sempre da face do Deus vivo e acabarão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. O sofrimento do justo é disciplina, e não castigo. Deus disciplina a quem ama. A disciplina é um ato responsável de amor. As aflições do justo não vêm para o destruir, mas para lhe fortalecer a alma. O castigo do perverso, porém, em vez de quebrantar-lhe o coração, ainda o torna mais duro e rebelde, pois o mesmo sol que amolece a cera endurece o barro. O justo é disciplinado e corre para os braços do Pai arrependido; mas o perverso é afligido e blasfema contra o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

SEGUNDA CHANCE

Para não perder funcionários que estão com problemas de desempenho, empresas oferecem programa de recuperação. Aprenda como eles devem ser estruturados

É praticamente impossível manter, por um longo período, um altíssimo nível de produtividade, dedicação, atenção e criatividade no trabalho.

Nem máquinas são capazes de fazer isso – elas se desgastam e necessitam de manutenção de tempos em tempos. E os humanos também precisam ser recauchutados de vez em quando. Mas nossa gama de problemas vai além de parafusos soltos e curtos-circuitos. Passa por assuntos pessoais – doença na família, divórcio ou dívida – e por questões do dia a dia do trabalho – desalinhamento de perfil como chefe, despreparo para uma nova função ou incômodo com uma transferência de localidade.

O entendimento de que a queda de desempenho é natural, e muitas vezes passageira, leva empresas a criar programas para recuperar funcionários que não estão indo bem. “Não existe receita de boio. Há várias modalidades, desde as mais simples, com base em feedbacks objetivos, até as mais complexas, que envolvem processos de coaching e assessoria psicológica”, diz Silvio Celestino, sócio sênior na Alliance Coaching, consultoria de treinamento.

BOM PARA TODOS

Mas isso não é feito simplesmente por uma questão humanitária. Quando a volta por cima dá certo, os benefícios são para as duas partes: o profissional tem a chance de se reerguer e contribuir novamente com a companhia; e as organizações economizam tempo e dinheiro ao evitar os processos de demissão e recrutamento. “As empresas têm de se pautar pelo racionalismo de recursos e de gestão. É um pensamento pragmático: o que é melhor para o funcionário muitas vezes é o que também ajuda a corporação”, diz José Augusto Minarelli, sócio da Lens & Minarelli, consultoria de recrutamento executivo.

Na MSD Saúde Animal, fabricante de medicamentos veterinários, o programa de reabilitação profissional existe há dez anos com um índice de sucesso que varia de 60% a 70%. O plano, disponível para todos os níveis hierárquicos, envolve necessariamente o empregado, o gestor e um diretor. Com esse tripé, a empresa tenta se precaver de julgamentos pessoais resultantes de animosidades criadas em relações hierárquicas problemáticas. “A oportunidade é oferecida a todos, mas cabe à pessoa aceitar participar”, diz Odair Castro, gerente de RH. A prática é importante para a multinacional não apenas para preservar o investimento no treinamento técnico e altamente especializado, mas também por uma questão de alinhamento com a missão da companhia. “Um dos valores é melhorar a vida das pessoas. Se eu defendo isso para fora, tenho de praticar dentro de casa. Não podemos ser disfuncionais”, diz Odair.

GUARDIÕES DA CULTURA

O fator cultura é crucial para entender porque é preciso dar mais uma chance antes de demitir. Afinal, funcionários com tempo de casa são guardiões dos valores organizacionais. “A cultura tem de ser mantida e preservada para a construção de uma identidade duradoura”, diz Silvio. Por isso, até na fabricante de bebidas Ambev, conhecida por exigir alta performance de seus empregados, há um plano de reversão para quem está com dificuldade de cumprir as entregas. O programa, desenhado por gestor e subordinado, tem no mínimo três meses de duração e acompanhamento constante do líder. “Queremos formar e manter funcionários que se identificam com nosso jeito de ser, se desenvolvam internamente e construam resultados. É mais fácil recuperar gente com potencial de crescimento do que recontratar e iniciar um novo processo do zero”, afirma Camilla Tabet, diretora de desenvolvimento e gente da Ambev.

O OLHAR DOS LÍDERES

As ferramentas formais de avaliação de desempenho ajudam (e muito) a acompanhar a evolução e as entregas. Mas os gestoresprecisam estar atentos para notar se alguém de sua equipe apresenta desvios de comportamento que possam levar a um baixo comprometimento com o trabalho. “Tem de saber identificar, principalmente, os fatores extraprofissionais. É preciso observar os detalhes, como aumento de uso do celular, ausências para ligações particulares e tensão”, diz José Augusto. Na BrasilPrev, empresa de previdência complementar do Banco do Brasil isso tem sido uma preocupação do RH. “Nossos gestores são treinados para identificar situações críticas. Eles têm de se antecipar para avaliar se o funcionário está ou não feliz e avaliar os impactos que isso pode gerar na produtividade”, diz Rosiney Acosta, gerente de pessoas da instituição. Uma vez identificado um problema sério de desempenho, entra em prática o programa de recuperação – acordado entre empregado, gestor e RH. “Explicamos o que está acontecendo e o que vamos fazer para que o funcionário melhore. Há um cronograma definido conjuntamente e o processo dura no máximo três meses”, diz Rosiney. Com essas medidas, a BrasilPrev consegue recuperar 50% dos funcionários.

Outro aspecto importante – e que deve ser respeitado por todos os RHs que queiram construir um projeto de recuperação – é a confidencialidade. “O processo deve ser discretíssimo ou até sigiloso. Há um acanhamento inegável para o profissional, que deve ser preservado para sua melhor recuperação”, afirma Silvio. Por isso, a BrasilPrev cuida para que apenas as partes interessadas saibam o que está acontecendo. “Para os empregados que estão no plano, é constrangedor, eles sabem que estão na berlinda,” diz Rosiney. Afinal, o objetivo não é envergonhar, mas trazer de volta alguém que um dia já contribuiu com a empresa.

5 FATOS SOBRE PROGRAMAS DE RECUPERAÇÃO

Quais são os aspectos mais comuns desse tipo de prática

1. CADA CASO É UM CASO

Os projetos devem ser adequados à realidade da empresa e ao perfil do empregado. Um funcionário de vendas com baixo desempenho necessita de requalificação diferente da aplicada para um gerente de projetos, por exemplo.

2. METAS SÃO ESSENCIAIS

Desenhar um plano com objetivos específicos e resultados realistas para os funcionários aumenta a chance de sucesso. Também é importante estabelecer um período para que as metas sejam alcançadas e maneiras como elas devem ser medidas. Assim, evita-se margem para interpretações subjetivas e frustrações ­ tanto da empresa quanto do empregado.

3. SEM SIGILO, HÁ CONSTRANGIMENTO

O funcionário em recuperação pode se sentir inibido. Por isso, para que o programa tenha sucesso, épreciso evitar a exposição de quem se encontra nessa situação. Os colegas não devem saber o que está acontecendo.

4. QUANTO MAIS ÁGIL, MELHOR

Sempre que um problema de desempenho for detectado, a liderança precisa agir para identificar o motivo do baixo nível das entregas e da insatisfação. Feedbacks formais e informais e avaliações de desempenho ajudam nesse sentido.

5. NEM TODOS PODEM SER SALVOS

Especialistas e gestores de RH são unânimes em apontar a impossibilidade de reverter todos os casos desse tipo. Por isso, o índice de 50% de sucesso é considerado aceitável

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU, VOCÊ E OS OUTROS

Nestes tempos modernos, em que a internet oferece um leque variado de opções amorosas, jovens estão trocando a monogamia por relacionamentos abertos

Já famosos e celebrados em meados do século passado, os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir chocavam o mundo com seu escandaloso relacionamento:  formavam um casal que vivia cada um em sua casa, sem filhos e receptivos a envolvimentos amorosos com outras pessoas. Fosse hoje, a relação aberta dos papas do existencialismo – bem mais existencial para ele do que para ela, diga-se – não seria visto com tanta surpresa. Mergulhada em sua individualidade, o motor dos tempos modernos, e impulsionadas pela facilidade de encontrar parceiros via internet, as novas gerações parecem cada vez mais dispostas a desatar as amarras da monogamia e se deixar levar pela tentação da carne, tudo devidamente combinado e acordado entre as duas metades da laranja.  “As pessoas vêm perdendo o interesse em se fechar em um contrato a dois, cheio de possessividade. Não me surpreenderia se, daqui a algumas décadas mais casais optem por ligações abertas do que pelas que exigem exclusividade”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de livros sobre o tema.

As relações abertas modernas são consensuais e igualitárias, praticadas por casais que admitem contato sexual com outra pessoa, mas mantém o companheiro ou companheira como prioridade. “Há pessoas que não se adaptam à exclusividade e precisam buscar alternativas para viver um relacionamento saudável”, avalia Carmita Abdo, psiquiatra e coordenadora geral do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. “Mas não é para todo mundo. Demanda muito equilíbrio entre as partes, comunicação, maturidade e, claro, desapego”, avisa ela, que ainda acrescenta a ressalva: “Muitas mulheres principalmente fazem concessão para tentar salvar o casamento, mas, assim que percebem o que de fato significa, tudo vai por água abaixo”.

Não há números que comprovem a crescente prática da relação aberta no Brasil, mas basta uma pesquisa na internet – e olhar em volta, no caso dos mais jovens – para confirmar a tendência. A gaúcha teca Curio, de 39 anos, é coordenadora da Rede Relações Livres (RLi), um coletivo que reúne não monogâmicos em todo o Brasil. Casada há 21 anos, viveu com o marido, Alessandro, um casamento tradicional por mais de uma década, mas aos poucos começou a notar que ambos gostariam de ficar com outras pessoas. “Não queríamos enganar um ao outro. Antes que nos magoássemos, decidimos abrir a relação”, diz teca, que passou a pesquisar sobre o tema e foi conhecendo os demais membros do grupo. “A monogamia criou um peso enorme nos primeiros aos de casamento, gerava competitividade e ciúme. Agora resolvemos tudo com diálogo”, afirma. Teca e Alessandro são tão bem resolvidos em sua decisão que passaram o conceito para a filha, de 21 anos, também avessa à monogamia. Mas o casal até hoje enfrenta resistência, inclusive da família dele. “É porque incomoda, mexe no mito do príncipe encantado”, acredita ela.

A ideia de adicionar terceiros à equação do casal seria, de certa forma, uma volta às origens das relações comunitárias, quando homens e mulheres não tinham parceiros fixos e as crianças eram responsabilidade de todos. O conceito de família começou a se desenhar há cerca de 5.000 anos, com a invenção da propriedade privada e, por tabela, da herança – fórmula facilitada pela existência de um núcleo familiar definido. Daí para a imposição da fidelidade foi um passo e a posterior associação do amor romântico ao casamento direcionou os seres humanos, definitivamente, para as convenções sociais que ainda prevalecem. A corrente que prega a quebra de restrições nunca deixou de existir, crescendo ou minguando de acordo com a conjuntura social e política. Agora, pegando carona na opção preferencial de cada um por si, está em viés de alta. “A juventude atual explora sua sexualidade cada vez mais cedo e com mais liberdade, sem tantas amarras”, diz Stella Schrijnemaekers, professora da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP-SP).

As redes sociais e os aplicativos de namoro, que ampliam as possibilidades para conhecer pessoas e marcar encontros sexuais, abriram caminho para a expressão dos novos sentimentos. A atriz Fernanda Nobre, que há três anos vive um casamento aberto com o dramaturgo José Roberto Jardim, explica que foi atraída pela liberdade oferecida às mulheres pela não monogamia – e hoje não se vê vivendo de outra forma. “No início tive de lidar com o medo de, quem sabe, estragar nossa relação. Mas tudo mudou conforme amadurecemos”, contou em vídeo postado em seu Instagram; “Acho que atingimos, sim, a igualdade que eu tanto reivindicava”.

Um estudo desenvolvido nos Estados Unidos pelo economista David K. Levine, professor do Instituto Universitário Europeu, mostrou que entre 4% e 9% dos adultos americanos estavam envolvidos em algum tipo de relação aberta em 2020. No Brasil, as pesquisas pela pergunta “o que é relacionamento aberto?” aumentaram 70% nos últimos doze meses, enquanto a busca por “relacionamento aberto significado” cresceu 300%. “recebo com frequência em meu consultório pacientes com dúvidas sobre como poderiam trazer essa discussão ao casamento para melhorar sua dinâmica ou solucionar o problema da falta de sexo após muitos anos”, diz Regina Navarro Lins. “A curiosidade é um sintoma de que o modelo amoroso da nossa cultura não está mais funcionando para todos”.

Honestidade e independência foram as engrenagens que fizeram o professor de educação física Flávio Chiari, de 27 anos, se envolver em seu primeiro namoro não exclusivo, há cerca de cinco anos, e reproduzir a experiência no atual romance, com a analista de relações públicas Carolina Vachi, de 26. “Nos comunicamos com muito mais clareza, presença e franqueza”, diz ele. O incentivo ao diálogo é visto como uma das principais vantagens desse tipo de arranjo. Assim como a maior parte dos casais que se aventuram no modelo sem exclusividade, Flávio e Carolina estabeleceram algumas regras para evitar conflitos. Os dois combinaram nunca apresentar demais parceiros um ao outro, e amigos próximos estão fora de cogitação. A estudante de psicologia Milena Depentor, de 22 anos, leva uma relação aberta há um, a primeira que encara. Ela admite que a transição não foi fácil. “Era muito ciumenta e senti insegurança”, diz. E, embora se sinta julgada por quem não aprova sua escolha, também faz críticas aos adeptos mais radicais. “Eles tendem a falar com um ar de prepotência, como se fossem mais evoluídos, o que não tem nada a ver”, afirma.

A busca pelo novo modelo cresceu tanto que já existem aplicativos específicos para quem busca encontros passageiros fora do relacionamento principal ou sexo a três. O 3Fun, disponível no Brasil, se vende como uma rede para encontrar solteiros e casais “mente aberta”, enquanto o 3Somer faz o mesmo serviço e garante o anonimato dos usuários. As novas plataformas não diminuíram a popularidade do Tinder e de outros aplicativos mais tradicionais, nos quais os adeptos da relação aberta expões claramente a preferência em seus perfis. Como se pode imaginar, a passagem de um relacionamento tradicional para um formato mais flexível, em geral, não é um passeio. A empresária Thuany Ribeiro, 27 anos, conta que sentiu muito ciúme em sua primeira experiência não monogâmica, em 2005, com um namorado de cinco anos. Hoje, acha que já superou as dúvidas e está mais madura para se adaptar. “Consigo estar com uma pessoa só, mas gosto da liberdade de saber que, se surgir o desejo, posso ir em frente sem magoar ninguém”, diz Thuany, que mora no Rio de Janeiro. Ela reclama, no entanto, de certo preconceito: “Muita gente relaciona minha forma de viver com promiscuidade, quando é só um jeito diferente de amar”. O tempo dirá se os relacionamentos abertos vão virar o casamento de cabeça para baixo e entrar, como tantas outras coisas neste mundo em mutação, para o rol do novo normal.

EU ACHO …

O ÚLTIMO CONFINADO

Como não ceder aos apelos para ignorar o coronavírus – e cair na farra

Veio o carnaval, eu no Rio de Janeiro. Uma revoada de amigos começou a ligar: “Vamos nos ver?”. Tinham vindo para fazer farra. Respondia: estou confinado. Ouvia um “oh!” de decepção. “Só um papo, um café… eu estou bem…” Como se o fato de ser amigo anulasse os riscos. E me tratavam como chato. Já perdi muitos amigos desde que a pandemia começou. Simplesmente não entendem que confinado quer dizer confinado. Estive em Portugal, em dezembro. Lá, é completamente diferente. Desci no aeroporto, todos de máscara. Logo vieram verificar meu visto e o exame de Covid. Só entrei no país porque tenho residência. Ruas vazias. Comida, só por aplicativo de entrega. Ao voltar, a diferença gritou já no aeroporto. Raríssimos com máscara. Fui para casa e me tranquei. Eu tinha um grupo de amigos no condomínio e todas as quartas tomávamos vinho no quiosque. Descobri que o vinho estava suspenso: casos haviam surgido no condomínio. E beber vinho de máscara é tecnicamente impossível.

Continuei confinado. No Instagram, contemplava amigos em jantares incríveis, erguendo taças de vinho. Sou próximo de um casal que fez teste de Covid para me encontrar. Eu me senti exagerado… A maior parte das pessoas que conheço flutua na inconsciência. Veio o Carnaval. Pensei: vou ressignificar. Ser calmo. A vantagem de ser escritor é que trabalho não falta, dentro de casa. Se falta, a gente inventa um conto, um romance… Agora estou afundado até as orelhas em Verdades Secretas 2, para a Globo. Logo que começou o distanciamento social, eu e meus amigos autores de televisão achamos normal. Estamos todos acostumados a passar meses trancafiados durante uma série, uma novela… demorei para perceber que para boa parte das pessoas o confinamento não é bem assim. Só tomei consciência quando vi as fotos de um amigo numa festa clandestina (que ele postou). “Eu estava precisando” – explicou-se. Bem, mas quem não está?

A ideia de ressignificar o Carnaval era boa. Fazer artesanato… o crochê está voltando à moda. Cozinhar, sempre dá certo. Dedicar-se, ó esperança, a um relacionamento mais profundo. O confinamento não seria para casar? Mas não, a farra continua. Reconheço, muita gente não pode ficar reclusa. Tem de trabalhar, comer. E, se já não está reclusa o ano inteiro, para que se trancar no Carnaval que passou?

Dá vontade de dizer que brasileiro não gosta de seguir regras. Adora quebrar. Não somos só nós. Quem realmente queria pular o Carnaval e tinha dinheiro foi para Cancún. Lá teve balada, festa de todo tipo, gente fervendo na praia. A Riviera Maya transformou-se no novo Rio de Janeiro. (Não é por acaso que a Covid está explodindo no México.)

As pessoas rindo, se divertindo… eu continuo sendo o chato. Que fazer? Sou um chato calmo, meditativo. Estou lendo um livro de 500 páginas, vendo filmes… Mesmo que venha a vacina, a vida nunca será a mesma. Peguei o hábito de ficar em casa. Quieto. Que venham outros Carnavais, continuo lendo!

Esta é minha vocação. Serei o último confinado.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A VIDA NA CASA DA MAMÃE

Mesmo depois dos 30 anos, um número cada vez maior de filhos descobre as delícias de morar junto com os pais. Com isso, livram-se das obrigações dos adultos

Maturidade é sempre um tema em debate. Um adulto com mais de 30 anos morando na casa dos pais é quase um tabu. Mas há uma mudança de comportamento e os casos estão cada vez mais corriqueiros. O ciclo habitual é que os filhos fiquem em casa enquanto não formam uma nova família ou não se sustentem economicamente. Mas há muitos filhos que discordam. O psicólogo Yuri Busin diz que existem vários motivos para a permanência na casa dos pais. “A formação das famílias e a entrada no mercado de trabalho acontecem cada vez mais tarde”, explica o psicólogo. “E também há adultos com a Síndrome de Peter Pan, que não querem crescer, não gostam de responsabilidades e não lidam bem com as frustrações”.

“A cobrança feita às pessoas que ainda moram com os pais depois dos 30 é gigantesca”, relata a relações públicas Ana Paula Prado, 50 anos. Ela mora com a mãe de 83 anos – o pai faleceu há sete anos – e se incomoda com o preconceito que sofre. Diz que sempre morou com os pais e foi assumindo novas responsabilidades dentro da família, especialmente as financeiras, num movimento natural. “Eu me sustento desde os 22 anos, mas sempre gostei do ambiente que tenho em casa. Sair para que?”, questiona. Ana diz que já terminou um relacionamento por morar com os pais. “Um namorado dizia que era uma situação muito infantil”, lembra. Para ela, o problema é quando a pessoa mora com os pais e fica dependente economicamente, não trabalha e nem estuda.

Há uma comodidade evidente no cotidiano do servidor público e bailarino Thomás Côrtes. Aos 30 anos ele mora com o pai de 53 e um irmão de 31. A mãe se separou do pai quando ele tinha 15 anos. “Ficamos eu e meus irmãos com nosso pai. Em casa a gente não tem obrigações. Ele provê tudo, inclusive a empregada doméstica”, diz. O bailarino acha que não seria bom emocionalmente sair de casa e diz que o problema não é financeiro. “Tenho um bom salário, mas tive uma criação muito próxima e tenho dificuldade em sair”, afirma. Para o psicólogo Francesco Pellegatta, o medo é o principal sentimento da relação entre pais e filhos adultos. “Alguns pais ficam felizes por proteger os filhos. E os filhos temem enfrentar a vida. Existe um acordo”, diz. Já o psicólogo Yuri Busin não classifica esses filhos que vivem na casa dos pais como imaturos, embora alerte que a experiência de morar sozinho é importante como aprendizado e lição de vida. Cada vez mais adultos jovens, porém, estão dispensando essa experiência.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE MARÇO

GANHAR ALMAS, GRANDE SABEDORIA

O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio (Provérbios 11.30).

A vida do justo é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, e o fruto do justo é árvore de vida. O fruto do justo alimenta os famintos e fortalece os fracos. Da boca do justo saem palavras de vida eterna, e das suas mãos, obras da bondade. O justo também é sábio, e a maior expressão de sabedoria é investir na salvação dos perdidos. Aquele que ganha almas faz um investimento eterno e ajunta tesouros que os ladrões não podem roubar, nem a traça pode destruir. Investir na salvação de almas é entrar numa causa de consequências eternas. Uma alma vale mais do que o mundo inteiro. De nada adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma. De nada adianta ajuntar tesouros na terra se esses bens não estão a serviço de Deus para ganhar almas. O melhor e mais duradouro investimento que podemos fazer é investir na salvação de vidas. O melhor e mais sábio uso do nosso tempo é proclamar as boas-novas de salvação. A maior alegria que podemos ter é gerar filhos espirituais. A maior recompensa que poderemos receber é ver almas se rendendo aos pés de Jesus como fruto do nosso labor. Seja sábio, invista seu tempo, seu dinheiro e sua vida na grande empreitada de ganhar almas!

GESTÃO E CARREIRA

CAUSA MORTIS: TRABALHO

O ritmo diário, os salários baixos e a falta de tempo para cuidar da própria saúde levam à morte 120.000 pessoas por ano apenas nos Estados Unidos – um prejuízo de 180 bilhões de dólares

As pessoas estão morrendo por um salário. Essa é a conclusão do professor de comportamento organizacional da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas em gestão de pessoas do mundo, Jeffrey Pfeffer. Sua estimativa é que o emprego acabe com a vida de 120.000 pessoas por ano apenas naquele país – um prejuízo de 180 bilhões de dólares, ou 8% do custo total com saúde. Para chegar a esses números, ele avaliou dados coletados por organismos públicos e privados, corrigindo fatores como idade, gênero e classe social. O resultado da análise está no livro Dying for a Paycheck (Harper Business, sem edição no Brasil), lançado em meados de 2018. “A má notícia é que o trabalho está matando,” disse Jeffrey. “E ninguém realmente se importa.”

Esse problema não estaria restrito à nação mais poderosa do planeta. Uma consulta rápida nos dados da Previdência Social no Brasil mostra que, nos nove primeiros meses, foram concedidas pelo INSS 8.015 licenças por transtornos mentais e comportamentais adquiridos no serviço – um avanço de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o afastamento por depressão e ansiedade aumentou quase 5 pontos percentuais. Há uma década, quando começaram a ser mapeadas, as doenças mentais representavam menos de 4% dessas situações. Assim como nos Estados Unidos, a conta brasileira é alta. Em quatro anos (de 2012 a 2016), os gastos públicos ligados a transtornos psicológicos e comportamentais somaram 784,3 milhões de reais, o equivalente a 7% das despesas médicas do país.

Situações relacionadas ao dia a dia do trabalho, aos baixos salários e à falta de tempo para cuidar da própria saúde seriam os principais agentes de causa mortis (veja quadro abaixo). Parte, claro, é consequência da sociedade moderna, que exige indivíduos conectados 24 horas por dia. As pessoas, acredita Sigmar Malvezzi, professor de psicologia da Universidade de São Paulo, têm dificuldade de se adaptar a um ritmo tão intenso. “Oseventos acontecem numa velocidade alta e a competitividade é grande.” Essas condições roubam o ser humano dele mesmo, a fim de colocá-lo a serviço de outros. Variados estímulos repetitivos tornariam os indivíduos reativos, sem tempo de reflexão e, no limite, autoritários. “O que seobserva é que osprojetos de vida são pequenos”, afirma Sigmar. “A gente vive uma situação de desumanização.”

Contudo, outra parte é sequela da cultura corporativa instalada nos últimos anos. “Falamos ‘reter’, ‘pipeline’, ‘selecionar’, uma linguagem na qual as pessoas são tratadas como um recurso a explorar”, diz Marcelo Cardoso, ex-CEO do Hopi-Hari e hoje presidente da Chie, consultoria especializada em transformação organizacional. A conjuntura seagrava conforme mudam as relações trabalhistas. cada vez mais gente atua na chamada gig economy, fazendo bicos ou prestando serviços extras com a ajuda de aplicativos, como quem dirige pela Uber ou faz entregas pela Rappi. Isso resulta em uma quantidade maior de trabalhadores que precisam se virar por conta própria, não têm acesso a planos de saúde nem outros benefícios e sofrem de insegurança financeira. “Os profissionais são vistos como únicos responsáveis por si mesmos, e isso intensifica a pressão”, afirma Anderson Sant’Anna, professor do mestrado profissional em Administração na Fundação Dom Cabral, onde também coordena o Observatório de Relações Individuo-Organizações-Sociedade.

Fora ou dentro do mundo empresarial, os humanos se transformaram em meras engrenagens.

CUSTO DE MANUTENÇÃO

Toda máquina, até mesmo a humana, precisa passar por urna revisão. Quando isso não acontece, entra em parafuso. Criou-se até um termo para definir quem se exaure de trabalhar: burnout. A rotina extenuante, o excesso de cobrança, a escassez de recursos são a combinação perfeita para a instalação de doenças crônicas (como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares), que representam três quartos dos gastos com saúde nos Estados Unidos. Para Jeffrey Pfeffer, esses males estão intimamente relacionados ao estilo de vida e à higiene mental dos indivíduos – duas coisas impactadas pelo trabalho. “Se você abusa de um equipamento e faz com que o custo de manutenção seja alto, você é demitido. Mas se abusa de alguém, causando desgaste, ninguém parece prestar tanta atenção”, diz o professor, ao concluir que as empresas são o mal e não a vítima, da famosa inflação médica.

No Brasil segundo Alberto Ogata, conselheiro de gestão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), essa perda poderia representar 6% da folha de pagamentos das organizações só no aumento de taxas de seguro de saúde. Além dos gastos, funcionários adoentados e estressados pioram os índices que os líderes de recursos humanos adoram medir, como os de rotatividade e de produtividade.

Quem tem Burnout, por exemplo, “questiona todo dia a própria capacidade, e isso tem impacto direto no desempenho”, diz Brian Heap, sócio da Gallup no Brasil. De acordo com um estudo da consultoria americana, os funcionários esgotados são 50% menos propensos a conversar com o chefe sobre suasnecessidades de entrega e 63% mais propensos a faltar no trabalho por causa de doença. Ao mesmo tempo, sua probabilidade de procurar um novo emprego é três vezes maior. Resultado: gente infeliz, improdutiva e entrincheirada.

Jeffrey calcula que os custos indiretos provenientes do desengajamento, da desmotivação e do presenteísmo sejam cinco vezes superiores ao montante das despesas médicas diretas.

MARIONETES DO TRABALHO

Um determinante na saúde das pessoas é o nível de controle sobre seus afazeres – o que Jeffrey chama de job control. Em sua análise, ele diz que, assim como o fumo é um fator Importante para predizer o risco de doenças cardíacas, a autonomia sobre horários e local de trabalho e a clareza nas responsabilidades seriam tão ou mais relevantes para avaliar o nível toxicológico de um emprego.

Nem sempre o controle é explícito. Longos períodos de deslocamento, jornadas extensas, mudanças constantes e pressão por resultado também geram a impressão de comando. “O que mata é não ter uma visão de futuro”, diz Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de liderança da empresa que leva seu sobrenome. “Se o trabalho é pesado e o funcionário sente que vai perder o emprego ou que não dará conta, o estresse é duplo.” Às vezes, nem descansar é possível, pois há a percepção de que e-mails e mensagens de WhatsApp precisam ser respondidos em tempo real.

Essa rotina está tão entranhada na cultura corporativa e na forma como gestores lidam com a equipe que é difícil perceber suas consequências. Por isso, Jeffrey Pfeffer defende políticas para limitar as horas trabalhadas – dentro e fora das organizações – e para acabar com a “glamourização” do estresse. Menos radical, Jennifer Deal, pesquisadora do Center for Creative Leadership, nos Estados Unidos, acredita que o fim da microgestão e de prazos impossíveis tornaria o trabalho mais agradável. “As companhias precisam dar autonomia e colocar prazos específicos nas tarefas, para que sejam plausíveis”, diz. “As práticas de carreira devem ser transparentes e apoiar questões pessoais e financeiras.”

O Grupo Algar, que reúne empresas de tecnologia a turismo, tenta seguir esses conselhos. No fim de 2018, optou por dar autonomia aos 19.000 funcionários. Dessa forma, eles, que já contavam com práticas de home office e horário flexível, foram beneficiados com o Talento Flex, que abre a possibilidade do horário intermitente e de cada um acertar sua jornada. “A gente via que algumas mulheres, por exemplo, paravam de trabalhar quando tinham filhos”, diz Eliane Garcia Melgaço, vice-presidente de gente do grupo Algar. A ideia é que, em vez de se demitirem, elas reajustem o expediente com o gestor de forma a facilitar a vida. Já o horário Intermitente permite aos empregados entrar e sair do serviço conforme necessário, em acordo com o chefe. Agora, o time de RH busca casos de sucesso para divulgá-los ao restante da corporação: o desafio é convencer a liderança. “Precisamos identificar pontos de resistência e criar um ambiente propício para a nova política”, diz Eliane. O foco tem sido explicar a estratégia dessas ações, motivadas pela crença de que dá para cobrar pela entrega de resultados, e não pelo tempo no escritório. “Isso se torna um fator de atração, principalmente de jovens, que buscam liberdade.” Em dezembro também foi lançado o projeto Estação, uma unidade especial da Algar Telecom que pretende testar modelos ágeis de gestão, com as equipes organizadas em squads, com menos hierarquia e mais liberdade. “Precisamos ser um bom lugar para trabalhar, porque é uma questão de longevidade do negócio”, diz a executiva. A expectativa é que cerca de 10.000 funcionários possam se beneficiar das novas modalidades.

Rever uma mentalidade enraizada há tanto tempo não é tarefa fácil. Ainda mais quando isso exige mudar radicalmente a forma como se enxerga o emprego: em vez de um local de cobrança, um de confiança; diferentemente de trabalhadores tratados como centros de despesa, eles seriam parceiros necessários para atingir a estratégia do negócio. O professor de Stanford sugere que as pessoas sejam geridas não com base nos custos que incorrem, mas como ativos.

Enquanto essa mudança não acontece, as companhias investem em ações sutis para minimizar os danos. Foi o que fez a Multiplus, empresa de planos de fidelidade. Há três anos, o escritório saiu do centro de São Paulo para Alphaville, a 26 quilômetros de distância. O risco de perder gente e sofrer uma queda na motivação era alto. Isso fez com que o RH buscasse ouvir a opinião dos empregados. Um canal de comunicação foi aberto para receber as preocupações; em paralelo, o time de recursos humanos revia os benefícios. A Multlplus decidiu assumir o dinheiro gasto com pedágio e gasolina, e ainda contratou fretados. Para compensar as horas de deslocamento, deu força ao home office (permitido por dois dias) e à flexibilidade de horário. Os chefes passaram por um mês de teste antes de o projeto serestendido. “No começo, as pessoas achavam que quem ficava em casa estava de folga ou inacessível”, diz Heloísa Scarantino, gerente sênior de gestão de pessoas. Essa crença foi sedissipando conforme a prática se consolidava. Hoje, os benefícios estão claros. “Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é nosso segundo fator de retenção, só perde para oportunidade de crescimento”, diz Heloísa, que comemora 89% de satisfação na última avaliação de clima.

ATIVOS PRECIOSOS

Além de mudar a cultura de comando e controle, as empresas teriam de repensar suas práticas de qualidade de vida, uma vez que a maioria delas foca o comportamento dos indivíduos, mas não faz uma mea culpa das condições corporativas. “Você diz para as pessoas fazerem meditação, massagem, mas o problema é a organização do trabalho, com pouca transparência, comunicação falha e sensação de injustiça”, afirma Alberto Ogata, da ABQV. Uma alteração significativa exigiria a criação de indicadores médicos que fossem além do gasto com sinistros e afastamentos por licença. Afinal, a saúde, estudos científicos já provaram, engloba aspectos como relacionamentos, lazer, realização e estabilidade financeira – nenhum deles isolado entre si.

Uma das melhores formas de medir essa relação é perguntando diretamente aos funcionários. A autoavaliação, segundo indica Jeffrey em seu livro, é um preditor importante de problemas, podendo ser mais eficiente do que check-ups.

Essa é a abordagem do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que desde 2010 mantém o programa Bem-Estar, premiado internacionalmente. Sua principal ferramenta é o questionário de autoavaliação que os mais de 3.000 funcionários preenchem. Com ele, o RH analisa indicadores como sedentarismo e estado emocionai. E, graças a ele, o time de gestão de pessoas colocou em prática coisas como aulas de canto e toga e uma academia com orientação de um profissional para fortalecimento e fisioterapia. O ambulatório conta ainda com médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e farmacêuticos. “Isso se alinha ao nosso lema, que é “quando somos bem cuidados, podemos cuidar melhor”, diz Cleusa Ramos, superintendente de desenvolvimento humano e institucional do Oswaldo Cruz.

Mais de 50 profissionais foram certificados em coaching de saúde e bem-estar para atuar no programa. “Essa capacitação é para auxiliar o empregado a montar uma agencia única com o objetivo de melhorar sua vida”, diz Cleusa. Ao longo dos anos, essa equipe, coordenada pelo gerente de qualidade de vida Leonardo Mendonça, começou a ser procurada com frequência para orientar em mudanças de hábito, com foco em atuação preventiva, o que trouxe às pessoas uma nova mentalidade em relação às consultas de rotina. Para aumentar a adesão, o RH implantou um sistema de milhagem: as equipes concorrem entre si para ver qual teve mais participação e as vencedoras recebem prêmios. Os setores que apresentam problemas são acompanhados de perto e o gestor é chamado para conversar. Os resultados vieram. Em 2010, a empresa tinha apenas 48% de adesão aos exames periódicos – que, aliás, são obrigatórios por lei. Hoje, ela é de 98%. Além disso, de 2010 a 2017, houve uma redução de 37% na média de pressão arterial, de 35% no colesterol e de 46% no tabagismo. O nível de estresse, avaliado por meio do questionário, caiu 31%; já o absenteísmo passou de 3,6% para 2,4% a partir de 2013. Graças ao quadro saudável, o hospital passou três anos sem renegociar os valores do plano de saúde. No fim do ano passado, o programa foi ampliado aos dependentes e agora são 6.500 vidas atendidas.

EM PRIMEIRO PLANO

Casos como o do Oswaldo Cruz mostram que investir é a melhor estratégia no longo prazo. Em tempos de crise econômica e política, como esta pela qual passa o Brasil, torna-se ainda mais urgente propiciar um ambiente de segurança psicológica para os trabalhadores. Contudo, na prática acontece o contrário. Na tentativa de equilibrar o caixa, as companhias entoam o mantra “cortar, cortar, cortar”. De acordo com uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh com 690 organizações no país, metade delas pretende redesenhar o programa de benefícios com foco no controle dos custos – muitas rebaixaram ou mudaram de operadora de saúde nos últimos trêsanos para economizar. Apenas 38% planejavam expandir os programas voltados para o bem-estar nos próximos dois anos. A fabricante de cosméticos Avon segue esse caminho. Há três anos, o RH notou um número maior de funcionários faltando no emprego para ir ao pronto-socorro, mas a ida ao médico não solucionava o problema e a visita se tornava recorrente. Foi quando veio a percepção de que era preciso melhorar a qualidade de vida. “Se não temos um ambiente em que o funcionário possa cuidar de sua saúde, ele vai deixá-la em segundo plano, mesmo que diga que é prioridade”, diz Meire Blumen, gerente de saúde e bem-estar na Avon. As práticas e os benefícios foram consolidados num só programa, o VivaBem. A evolução começou do básico, com a reforma do ambulatório, que passou a ocupar um lugar mais visível e a oferecer consultas odontológicas, ginecológicas e de clínica-geral, além de coleta de exames básicos. Como o público é em grande parte feminino, há salas específicas para amamentação e creches. Todas as informações ficam armazenadas em um sistema único, junto com atestados e dados de medicamentos comprados com o subsídio da empresa (de75%), e são usadas em análises preditivas. A Avon ainda acompanha cerca de 600 funcionários e dependentes com doenças crônicas, que recebem orientação continua. “Mostramos às lideranças que isso não é uma questão de custo, mas de valor”, diz Meire. E os gastos diminuíram. O contrato do plano de saúde foi renegociado para o modelo de pós-pagamento, já que o conhecimento da população possibilita prever o uso. Entre 2017 e 2018, o sinistro teve queda de quase 14% com exames, 19% com consultas e 13% com Internações.

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE

Se nas últimas décadas, em meio à competição acirrada pela globalização, o discurso em relação à carreira foi se alterando, com Ideias como “empregabilidade” (que colocam a responsabilidade da vida no trabalho sobre as próprias pessoas), para Jeffrey Pfeffer isso não exime as companhias dos efeitos que seu ambiente causa aos indivíduos. “Esse argumento presume que se pode facilmente encontrar outro emprego, o que não é verdade”, diz. Além disso, há uma série de fatores psicológicos que dificultam a troca de serviço, especialmente quando o trabalhador está doente, estressado e esgotado. Segundo Jeffrey, aspessoas não podem ser responsabilizadas por questões de estrutura ou gestão.

Mas o professor de Stanford não acredita que, sozinhas, as organizações farão muita coisa para rever esse quadro. Seria preciso os funcionários se organizarem politicamente. Um dos motivos de sua descrença está na competitividade exacerbada e nas mudanças aceleradas, que fazem com que o pensamento no mundo corporativo seja de curto prazo. “Quando asempresas precisam se reportar aos acionistas a cada trimestre, isso cria um conflito de interesses”, diz o consultor Roberto Aylmer. O padrão é cobrar (e priorizar) o retorno financeiro imediato.

Para Andersen Sant’Anna, da Dom Cabral, isso prejudica a todos: “Pode parecer vantagem no curto prazo, mas para o negócio é danoso. O risco é de minar a inovação e a competitividade”. Ambientes inseguros provocam medo de inovar e arriscar com novas ideias. E nenhum serhumano é capaz de pensar – nem em inovação nem em nada – com a cabeça cheia e o corpo cansado. O organismo entra em colapso.

Por isso, Jeffrey Pfeffer insiste: “Só se cria valor e se oferece o melhor serviço por meio de melhores funcionários”. Mirar a redução de custos não acrescenta perenidade ao negócio, pelo contrário.

Da mesma forma, cortar gente traz consequências nefastas. É preciso começar a impor limites – a pensar na sustentabilidade humana.

IMPACTO DA DEMISSÃO

Segundo Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford nos Estados Unidos, ninguém ganha com dispensas em massa – nem empresas nem sociedade. Para as companhias, há gastos com multas, outplacement e impostos, além de novas contratações. Já o custo social é grande. Taxas de suicídio crescem duas vezes e meia depois de uma demissão; mortes decorrentes de doenças cardiovasculares aumentam até 40%

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOB O ATAQUE DA MENTE

Da mesma forma que a sugestão é capaz de beneficiar a saúde, o efeito nocebo, espécie de “gêmeo mau” do placebo, pode levar pessoas a adoecer gravemente; em alguns casos, a convicção de morte iminente conduz de fato a esse desfecho

Tarde da noite, atravessando um pequeno cemitério no Alabama, nos Estados Unidos, Vance Vanders deu de cara com um curandeiro local que espirrou um líquido mal cheiroso de uma garrafa em seu rosto, dizendo que ele iria morrer e ninguém poderia salvá-lo. Ao voltar pra casa, Vanders enfiou-se na cama, sentindo-se mal. E desde então passou a definhar. Algumas semanas depois, muito magro e debilitado, parecendo estar à beira da morte, ele foi internado no hospital de sua cidade, onde os médicos não conseguiram encontrar a causa de seus sintomas – e nada que fizessem trazia melhora. Foi então que sua mulher contou a um dos médicos, Drayton Doherty, sobre o feitiço. Na manhã seguinte, ele chamou a família do paciente para a cabeceira de sua cama. Disse que, na noite anterior, havia atraído o médico-feiticeiro para o cemitério e o pressionado até que ele explicasse como funcionava a maldição. Segundo Doherty, o curandeiro havia posto ovos de lagarto no estômago de Vander, que eclodiram em seu corpo. Um dos répteis sobrevivera e estava devorando suas entranhas.

Em seguida, convocou uma enfermeira que, antecipadamente, havia enchido uma grande seringa com um líquido, que Doherty disse ser “poderoso”. Com gestos teatrais, como se participasse de uma grande cerimônia, ele inspecionou o instrumento e injetou o conteúdo no braço do paciente. Alguns minutos depois, o homem começou a vomitar descontroladamente. No meio da confusão, sem que ninguém visse, Doherty deu seu golpe de mestre – apresentou a todos um lagarto verde que estava escondido em sua mala preta. “Veja o que saiu de você, Vanders! A maldição está quebrada”, gritou.

O paciente recuou para a cabeceira da cama e caiu em um sono profundo. Quando acordou, na manhã seguinte, estava alerta e faminto. Rapidamente recuperou suas forças e recebeu alta depois de uma semana.

Os fatos desse caso, ocorridos há 80 anos, foram corroborados por nossos pesquisadores. Talvez, o mais notável seja o fato de Vanders ter sobrevivido, pois existem, em muitas partes do mundo, vários casos documentados de pessoas que morreram após serem amaldiçoadas. Sem registros médicos ou resultados de autópsias, porém, não há como ter certeza do que, exatamente, causou a morte dessas pessoas. Mas essas histórias, em geral, começam com uma figura respeitável, que ocupa um lugar de suposto saber, e amaldiçoa uma pessoa. Algum tempo depois, a vítima morre, aparentemente de causas naturais.

Você pode pensar que esse tipo de coisa é cada vez mais rara e limitada a tribos remotas. Mas, de acordo com o pesquisador Clifton Meador, médico da Escola de Medicina Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, Estados Unidos, que documentou casos como o de Vanders, maldições têm hoje uma “nova cara”. Um exemplo é o caso de Sam Shoeman, que faz parte da literatura médica. O paciente recebeu diagnóstico de câncer terminal de fígado na década de 70. Os especialistas lhe deram apenas alguns meses de vida. E Shoeman morreu pontualmente dentro do período de tempo estimado – entretanto, a autópsia revelou que os médicos haviam cometido um equívoco. O tumor era minúsculo e não havia se espalhado. “Ele não morreu de câncer, mas por acreditar que estava morrendo de câncer. Se todos o tratam como se estivesse no fim, você acredita e todas as partes do seu ser começam a morrer”, afirma Meador.

Situações como a de Shoeman podem ser exemplos extremos de um fenômeno amplamente distribuído. Estudos comprovam que aqueles que acreditam ter risco de desenvolver certas doenças mostram maior probabilidade de apresentá-las que os que têm os mesmos fatores de risco, mas não se consideram em situação de perigo. E mais: muitas pessoas que sofrem com efeitos colaterais negativos de algum tratamento, de fato, apresentam os sintomas após saber que essas reações eram esperadas. Isso nos faz pensar que os feiticeiros modernos usam jaleco branco e carregam estetoscópios. Ou têm um diploma de psicólogo pendurado numa parede.

ESTRANHO FENÔMENO

A ideia de que acreditar que está doente pode realmente adoecer uma pessoa parece ilógica. Mas estudos rigorosos estabeleceram que, sem sombra de dúvida, o inverso é verdade – o poder da sugestão é capaz de beneficiar a saúde. É o conhecido efeito placebo. Placebos não fazem milagres, mas produzem efeitos físicos mensuráveis.

E esse efeito tem um gêmeo do mal: o nocebo, no qual pílulas falsas e expectativas negativas podem produzir um efeito nocivo. O termo, criado em 1960, vem do latim, e significa “fazer mal”, “prejudicar”. Trata-se de um fenômeno que é muito menos estudado do que o efeito placebo, uma vez que não é nada fácil conseguir aprovação ética para estudos que planejam fazer com que as pessoas se sintam mal.

Mas o que se sabe sugere que o efeito nocebo tem amplo alcance. “As mortes por vodu, se existirem, podem representar apenas uma forma estranha do fenômeno nocebo”, diz o antropólogo Robert Hahn, do Centro para Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos, em Atlanta, Geórgia, que estudou o assunto.

Em testes clínicos, cerca de um quarto dos pacientes nos grupos de controle – que recebem terapias supostamente inertes – apresentam efeitos colaterais negativos. A severidade dessas reações adversas, em alguns casos, é igual à associada à droga real. Um estudo retrospectivo de 15 experimentos que envolviam milhares de pacientes que receberam betabloqueadores ou um medicamento com propriedades inócuas mostrou que ambos os grupos relataram níveis comparáveis de efeitos colaterais, incluindo fadiga, sintomas depressivos e disfunções sexuais. Um número similar de participantes das duas equipes teve de ser afastado dos estudos por causa disso.

Ocasionalmente, os efeitos podem representar risco para a vida dos pacientes. “Crenças e expectativas não são apenas um fenômeno consciente e lógico e também têm consequências físicas”, diz Hahn. Os efeitos nocebo são também vistos na prática médica cotidiana. Cerca de 60% dos pacientes que passam por quimioterapia começam a se sentir mal antes mesmo que o tratamento surta efeito. “Isso pode acontecer até alguns dias antes do procedimento ou no caminho para o hospital”, diz o psicólogo clínico Guy Montgomery, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York. Algumas vezes, um mero pensamento sobre o tratamento ou a voz do médico é o suficiente para fazer com que o paciente se sinta mal. Essa “náusea antecipada” pode ocorrer, em parte, pelo condicionamento – quando os pacientes ligam subconscientemente algo na experiência ao mal-estar – e, em parte, pela expectativa. Não raro, a pressão arterial das pessoas também sobe apenas porque um profissional da saúde se aproxima para fazer a medição.

É alarmante: o efeito Nocebo pode ser, até mesmo, contagioso. São conhecidos há séculos casos em que sintomas, sem razão aparente, se espalham entre integrantes de um grupo – é o chamado distúrbio psicogênico em massa. Um caso inspirou um estudo recente, desenvolvido pelos psicólogos Irving Kirsch e Giuliana Mazzoni, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Os pesquisadores disseram aos estudantes que participavam da investigação que estavam testando uma amostra de gás que continha “uma toxina ambiental suspeita”, capaz de provocar dores de cabeça, náuseas, coceiras e tontura. Em seguida, pediram a alguns dos voluntários que inalassem uma porção de ar comum durante alguns segundos, sem dizer exatamente do que se tratava. Metade dos jovens também assistiu à cena de uma mulher inalar a amostra e, aparentemente, desenvolver esses sintomas. Embora o ar fosse inócuo, os estudantes que fizeram a aspiração se mostraram mais propensos a relatar os sintomas, que também eram mais pronunciados em mulheres, especialmente naquelas que haviam visto a moça ficar “doente”.

Os cientistas observaram que, ao assistir à expressão de um possível efeito colateral ou ouvir sobre ele, as pessoas se tornam mais propensas a desenvolvê-lo. Isso coloca os médicos em uma situação difícil. “Por um lado, pessoas têm o direito de ser informadas sobre o que devem esperar, mas isso torna mais provável que sofram com esses efeitos”, diz Mazzoni. Isso significa que os médicos precisam escolher suas palavras cuidadosamente para tentar minimizar expectativas negativas. “Tudo está relacionado mais com o como você fala do que com o que se fala”, afirma Montgomery. Em sua opinião, em muitos casos a hipnose pode ajudar a diminuir expectativas, ansiedade e stress.

BECO SEM SAÍDA

Especialistas reconhecem que há atualmente muitas questões em torno do nocebo – e grande parte delas ainda sem resposta. Não se sabe ao certo, por exemplo, se há predisposição determinada por traços de personalidade, em que circunstâncias ocorre o efeito e quanto tempo os sintomas duram. Parece que seus resultados variam bastante e dependem muito do contexto. “Em espaços clínicos, os placebos, por exemplo, são frequentemente muito mais potentes do que os induzidos em laboratório. Talvez em relação aos nocebos o ambiente também tenha grande influência”, comenta o psicólogo Paul Enck, do Hospital Universitário de Tübingen, na Alemanha.

Também não está claro se há pessoas mais ou menos suscetíveis. Sabe-se que estados de humor, o nível de labilidade, o otimismo ou o pessimismo podem ter papel nas dinâmicas psíquicas, mas não há indicadores consistentes. Indivíduos de ambos os sexos podem sucumbir ao distúrbio, embora as mulheres relatem mais sintomas do que os homens. Enck mostrou que, em homens, os sintomas nocebo são mais influenciados pela expectativa do que pelo condicionamento. Nas mulheres, ocorre o oposto. “Elas tendem a se deixar influenciar mais por experiências passadas, enquanto que os homens parecem mais relutantes em levar o próprio histórico para uma situação atual”, diz ele. Está se tomando claro que o fenômeno, aparentemente psicológico, tem consequências reais no cérebro. Usando técnicas de neuroimagem, o cientista Jon-Kar Zubieta, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Estados Unidos, observou o cérebro de pessoas que haviam recebido um placebo ou nocebo, no ano passado. Ele constatou que os efeitos negativos estavam ligados à diminuição da dopamina e da atividade opioide. Isso explicaria por que os nocebos podem aumentar a dor – e o placebos produzem a resposta oposta.

Enquanto isso, Fabrizio Benedetti, da Escola de Medicina da Universidade de Turim, na Itália, descobriu que a dor induzida pelo nocebo pode ser suprimida por uma droga chamada proglumida, que bloqueia receptores para o hormônio colecistocinina (CCK, na sigla em inglês). Normalmente a expectativa de dor induz a ansiedade, que ativa os receptores de CCK – aumentando a sensação dolorosa. A causa final do efeito nocebo, entretanto, não é neuroquímica, mas sim, uma crença.

De acordo com o antropólogo Robert Hahn, é muito comum que cirurgiões fiquem receosos ao operar pessoas que acreditam que vão morrer – porque esses pacientes em geral morrem durante ou logo após a intervenção. Da esma forma, a mera crença de uma pessoa de que é suscetível a um ataque cardíaco pode ser um fator de risco. Um estudo descobriu que mulheres que acreditavam ser propensas a ter um ataque cardíaco tenham quatro vezes mais chances de morrer de condições coronarianas do que outras com os mesmos fatores de risco.

Mas mesmo com as evidências crescentes de que o efeito nocebo é real, é difícil, numa era racional, aceitar que a crença de uma pessoa pode matá-la. Afinal, a maioria de nós riria de um homem estranhamente vestido pulando, acenando com um osso na mão e dizendo que vamos morrer. Mas imagine corno você se sentiria se ouvisse a mesma coisa de um médico bem vestido, com uma parede cheia de diplomas e um computador repleto de resultados de exames. A base socio­cultural é crucial. Meador discute que o erro no diagnóstico de Shoernan e seu falecimento subsequente têm os mesmos elementos essenciais de uma “morte por bruxaria”. Um médico poderoso pronuncia uma sentença de morte, que é aceita sem questionamento pelo paciente vítima e sua família – e todos passam a agir de acordo com a crença. Shoeman, seus parentes e médicos acreditavam que ele estava morrendo de câncer. Isso se tornou uma profecia – que se completou quase que automaticamente.

“Más notícias promovem má fisiologia. Por isso é possível persuadir pessoas dizendo que elas vão morrer e isso, de fato, acontecer. Não existe nada místico nisso, embora muitos de nós se sintam desconfortáveis com a ideia de que palavras ou ações simbólicas podem causar a morte porque isso desafia nosso modelo biomolecular do mundo”, observa Meador.

A OVERDOSE

Deprimido, depois de terminar com sua namorada, Derek Adams tomou todas as suas pílulas… e se arrependeu. Com medo de morrer, pediu a um vizinho para levá-lo ao hospital, onde teve um colapso. Tremendo, pálido e tonto, a pressão caiu e sua respiração ficou acelerada. Mesmo assim, os testes toxicológicos voltaram limpos. Nas quatro horas seguintes, Adams recebeu 6 litros de solução salina, mas melhorou pouco. Então, chegou um médico do estudo clínico de antidepressivos do qual Adams participava, havia cerca de um mês. Ele contou que, inicialmente, se sentira bem-humorado e calmo ao tomar a droga, mas a briga com a ex-namorada o motivou a engolir os 29 tabletes que restavam. Foi então que o médico revelou que Adams fazia parte do grupo Controle e as pílulas que havia tomado eram inofensivas. Ao ouvir isso, Adams ficou muito surpreso, emocionado – e aliviado. Em 15 minutos, sua pressão e taxa cardíaca voltaram ao normal.

O CONTÁGIO PELA OBSERVAÇÃO

Em novembro de 1998, uma professora de uma escola no Tennessee notou um cheiro parecido com gasolina e começou a reclamar de dor de cabeça, náusea, falta de ar e tontura. A escola foi evacuada e, na semana seguinte, mais de cem funcionários e alunos apareceram no pronto-socorro local reclamando de sintomas semelhantes. Depois de muitos testes, não foi encontrada uma explicação médica para a doença relatada. Um questionário, feito um mês depois, revelou que as pessoas que apresentaram os sintomas eram, na maioria, mulheres e haviam visto ou sabido de um colega de classe doente. “Foi o efeito do nocebo em grande escala. Não havia nenhuma toxina no ambiente, mas as pessoas começaram a se sentir realmente mal”, diz o pesquisador Irving Kirsch, da Universidade de Hull, no Reino Unido. Ele acredita que ver os colegas desenvolverem os sintomas moldou as expectativas de doença em outras crianças e adolescentes, disparando um distúrbio psicogênico de massa. Há registros desse tipo em várias partes do mundo. Na Jordânia, em 1998, 800 crianças, aparentemente, sofreram efeitos colaterais de uma vacina e 122 foram internadas, mas não foi encontrado nenhum problema com a vacina.

EU ACHO …

PERSONA

Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia seu filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo futuro marido e filhos, absorve, no entanto, a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? e o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida.

Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas.

Persona. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.

Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.

Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.

É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. Como pessoa teve que passar pelo caminho de Cristo.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

SÁBIAS ESCOLHAS

Compras de produtos sem procedência e supérfluos estão perdendo espaço na vida das pessoas, e isso pode ser bom para toda a sociedade

Os novos hábitos, impulsionados pela pandemia, insista-se, aceleraram uma atitude cada vez mais visível no século XXI: o consumo consciente. “Será que preciso mesmo de tantas roupas?”, começaram a se questionar as pessoas, trabalhando de bermuda e chinelos, remotamente, em casa. Outras tantas, desempregadas ou com a renda reduzida, tiveram de conter suas tentações e gastar apenas o necessário. O minimalismo está se consolidando até mesmo entre fornecedores – com recursos limitados, vender muito deixou de ser a meta hegemônica das empresas, como era no passado. Na decisão de compra, a busca das sociedades evoluídas será agora por equilíbrio entre satisfação pessoal e compromissos ambientais, sociais e financeiros.

Consumo consciente não é o mesmo que voto de pobreza. Na verdade, em muitos casos, o cliente aceita pagar mais caro para apoiar a marca que respeita uma causa importante para ele: preservação de florestas, bem-estar animal e reversão de parte da renda para causas sociais, apenas para citar alguns exemplos. A ascensão de brechós virtuais é outro sinal de comportamento que atende tanto a uma necessidade quanto a um desejo. Pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Akatu, que mobiliza a sociedade para o consumo consciente, mostrou que mais de 70% dos consumidores, principalmente os mais jovens, querem que a iniciativa privada pare de agredir o meio ambiente e estabeleça metas para tornar o mundo melhor. Algumas marcas acabam fazendo uso desse engajamento de uma forma até mesmo polêmica, como foi o caso da fabricante californiana de roupas Patagonia, que anos atrás lançou uma campanha com o slogan “Não compre esta jaqueta”. Entre a hipocrisia e o real posicionamento da empresa quanto a causas sócio-ambientais, venceu a crença dos clientes na marca: eles compraram do mesmo jeito e, ao que tudo indica, bem cientes do que estavam fazendo. De todo modo, a Patagonia tornou-se referência do consumo da nova era.

“Consciência e lucro não são excludentes. Empresas engajadas atraem clientes fiéis, o que gera mais retorno para seus acionistas a longo prazo”, afirma Hugo Bethlem, presidente do Instituto do Capitalismo Consciente Brasil, que em 2020 viu dobrar o número de associados, incluindo gigantes como Magazine Luiza e Natura. Na mesma medida, companhias que insistem em ir na contramão da história – explorando funcionários, sendo conivente com discriminação e destruindo a natureza – podem ser alvo de buycott, neologismo que mescla palavras em inglês e significa “boicote de compra”. Essa ação bloqueadora acabou, por vezes, ingressando no território de causas menos nobres, como vingança política por parte de grupos sectários em todo o espectro ideológico, no Brasil e em diversos países.

No mundo real, nos assuntos que realmente importam à sociedade, os exemplos de boas práticas por parte das grandes corporações têm se multiplicado. A anglo-holandesa Unilever, maior companhia de bens de consumo do planeta, comprometeu-se a reduzir pela metade o uso de plástico virgem em suas embalagens e excluir do processo mais de 100.000 toneladas de plástico até 2025. “É crucial que toda a indústria faça uma transição rápida para a economia circular “, afirmou o CEO da Unilever, Alan Jope. Na linha de pensamento de Bethlem, nunca a felicidade do consumidor final pode se dar à custa do sofrimento de outra parte da cadeia, sejam pessoas, animais ou o meio ambiente. O plástico é uma das maiores ameaças ao ecossistema, pois demora muitos anos para se decompor – os oceanos estão poluídos com 150 milhões de toneladas do material.

O Brasil também vem ganhando protagonismo no consumo consciente. Grandes redes varejistas e processadores de proteína estão trabalhando para banir, até o fim desta década, a venda de carne suína e de ovos de galinhas oriundos de animais criados em torturantes celas de gestação e gaiolas. O Banco do Brasil, uma instituição financeira bicentenária e fundamental no desenvolvimento do agronegócio, foi considerado a nona empresa mais sustentável do mundo, de acordo com o ranking Global 100, da Corporate Knights, em razão de seus investimentos em economia verde, redução da emissão de carbono e inclusão social. Conscientizar significa adquirir conhecimento: saber o que se está fazendo. Quando a consciência agrega moral e ética, a sociedade melhora e é mais feliz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE FEVEREIRO

CONFIAR NA RIQUEZA, É QUEDA CERTA

Quem confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem (Provérbios 11.28).

As riquezas não são confiáveis. São um falso refúgio. Não podemos depositar nossa confiança na instabilidade das riquezas. Elas não nos podem dar segurança verdadeira nem felicidade permanente. Aqueles que confiam em suas riquezas em vez de confiar em Deus percebem que o dinheiro se evapora como nuvem passageira. O dinheiro não tem raízes. É liso como sabão. Desaparece no horizonte tal como um relâmpago risca os céus como facho de luz e depois desaparece na escuridão. O dinheiro não nos pode dar as coisas mais importantes da vida, como o lar, o amor, a felicidade, a paz e a salvação. O dinheiro não pode transpor conosco os umbrais da morte. Nada trouxemos para este mundo e dele nada levaremos. O dinheiro pode até nos dar um belo funeral, mas não nos garante a vida eterna. Só os loucos pensam que a segurança da sua alma está no dinheiro. Confiar na riqueza é queda certa. Todavia, os justos, aqueles que confiam em Deus, reverdecerão como a folhagem. Mesmo que as crises cheguem, eles não perderão sua beleza nem deixarão de dar seu fruto. É melhor ser um justo pobre do que um rico insensato. É mais seguro confiar em Deus do que depositar a confiança no dinheiro.

GESTÃO E CARREIRA

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA

Empresas obrigadas a demitir funcionários por causa da crise criam programas para auxiliar os desligados e os familiares que perderam o emprego

Não é novidade que as projeções econômicas da crise do coronavírus são desoladoras. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o impacto da covid-19 no número de horas trabalhadas é dez vezes pior do que o vivido na crise financeira de 2007- 2008, por exemplo. O órgão ainda estima que o desemprego em seus países-membros será o dobro no final de 2020 em comparação a 2019. (10% ante 5,3%). No Brasil, o cenário também é desfavorável e há expectativa de um PIB negativo em 6,6%, segundo o Relatório Focus do Banco Central, divulgado em julho. E isso, é claro, reflete-se em desemprego. Em junho, o país atingia 13,3% de pessoas desocupadas, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Continua) mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os líderes têm sentido todos esses índices na pele e precisam tomar decisões difíceis nos meses decorrentes ao início da pandemia. Com queda nos resultados, demitir tornou-se, em muitos casos, uma medida necessária para a sobrevivência dos negócios. Mas esse processo é sempre complicado. Ainda mais porque agora os desligamentos acontecem não por desempenho, mas por custo – o que pode ser cruel. É por isso que tem surgido um movimento no mercado: a ajuda efetiva para que ex funcionários se recoloquem.

“Mais do que estratégicas, essas são ações humanitárias. Há muitos profissionais que não estão sendo demitidos por má avaliação, e sim por necessidade de reestruturação”, diz Alexandre Benedetti, diretor do Talenses Group e especialista em carreira.

“As empresas querem ter mais impacto social, e auxiliar quem está saindo neste momento é algo valorizado, que mostra a cultura corporativa”, explica Maria Eduarda Silveira, gerente de recrutamento da Robert Half.

PEDIDO DA EQUIPE

Esse é o caso da Stone, empresa de maquininhas de cartões e soluções para pagamentos. Com a crise que impactou fortemente o varejo, os negócios da companhia sofreram uma queda brusca. Por isso, em 12 de maio a empresa demitiu 1.300 funcionários, o equiva1ente a quase 20% de sua força de trabalho, que hoje é fornecida por 5.500 pessoas.

Estimulados por seus próprios times, com os quais promovem conversas semanais, os gestores começaram a pensar em como amparar os desligados. Surgiram então quatro pilares de atuação, nas áreas de saúde, alimentação, recolocação e finanças. “Em uma hora delicada, pois sempre tivemos como norte o respeito às pessoas”, diz Fernanda Teich, líder do processo de recolocação e sócia da Stone.

Assim, num primeiro momento, decidiu-se estender os benefícios: o plano de saúde ganhou quatro meses adicionais; o vale-alimentação, também seguiu valendo por até mais quatro meses, proporcionalmente ao tempo de casa; para a recolocação, foi oferecida assinatura do LinkedIn Premium por dois meses; e, para aqueles com mais de seis meses na empresa, foi doado o notebook de trabalho. Por fim, houve um pagamento adicional, também proporcional ao tempo de casa.

Na busca por transparência, a companhia faz todas as sextas-feiras um bate papo online entre líderes e empregados. “Não tentamos em nenhum momento dourar a pílula. Dissemos o que estava acontecendo, pedimos sugestões”, diz Fernanda. Das conversas e do sentimento de desconforto que sempre resta para quem é obrigado a demitir nessas circunstâncias, surgiu a ideia de dar um passo adiante e fazer o processo de recolocação. A Stone montou um time com cerca de 20 pessoas que, durante 30 dias, logo depois das demissões, ficou totalmente focado na missão de selecionar quais ex-funcionários seriam indicados a determinadas companhias. Depois disso, Fernanda passou a coordenar reuniões semanais de acompanhamento com um grupo menor. “Temos várias empresas parceiras, sabíamos que muitas delas estavam contratando e vimos que, com nossa indicação, poderíamos aumentar as chances de os colaboradores que estavam saindo se recolocarem.” Num primeiro momento, foram fechadas mais de 30 parcerias com companhias como OLX, Abastece Aí, Hotel Urbano, Vítreo e Loft. A Stone buscou parceiros em todo o país, visto que ela própria trabalha com grande capilaridade na entrega das maquininhas.

Além disso, o time remanescente ajudou os demitidos via postagens no LinkedIn, dando visibilidade aos currículos dos ex-colegas. A ação provocou um sentimento generalizado de que a empresa se preocupa com seu time. “Indicamos dando um selo de qualidade, uma garantia do profissionalismo dessas pessoas”, explica Fernanda.

FOCO NAS FAMÍLIAS

Os estilhaços da pandemia, no entanto, às vezes não atingem diretamente os funcionários, mas seus entes queridos – o que pode influenciar fortemente os profissionais. A partir dessa percepção, o escritório de advocacia paulistano Stocche Forbes, com atuação voltada para o direito comercial, resolveu agir para minimizar as preocupações de empregados cujos parentes foram desligados.

”Pensamos em ajudar os familiares. Sempre somos procurados para indicar advogados, mas podemos colaborar em outras áreas também. Nosso maior ganho é o bem-estar de nossos colaboradores”, diz Daniela Yuassa, profissional responsável pela área trabalhista do escritório. Daí surgiu o programa Stocche Forbes Conecta, que tem como meta orientar esses familiares e identificar projetos ou oportunidades em que possam se encaixar. O programa foi sugerido por um dos sócios do escritório e prontamente aceito pela direção. Sua estruturação foi feita pela área de recursos humanos.

A ideia do Conecta é oferecer os serviços de RH do escritório em duas frentes: formatação de currículos e ponte direta entre familiares e empresas parceiras, identificando os perfis mais adequados para as funções requeridas. “Criar uma rede de relacionamentos ajuda mais do que a simples solução de distribuir currículos frequente. Damos mais visibilidade aos candidatos e aproveitamos informações privilegiadas que temos em relação ao mercado”, diz a advogada. O escritório, que tem 200 funcionários entre advogados e administradores está fazendo essa ponte por meio de suas redes sociais e de seu mailing. Até agora, 15 pessoas recorreram ao serviço submetendo seus currículos.

A CULTURA SE IMPÕE

Cortes são sempre doloridos, não só para quem os sofre ou é obrigado a fazê-los, mas para a organização como um todo. Estão em jogo sofrimentos e dificuldades individuais dos envolvidos, a percepção dos remanescentes (sempre divididos entre alívio e culpa) e o funcionamento da própria empresa.

Do ponto de vista corporativo, há pontos delicados, como a perda da memória organizacional em razão da saída daqueles que dominam os processos, e diminuição da eficácia e da familiaridade entre as unidades quando a demissão envolve as lideranças. “Com isso, a tomada de decisão perde agilidade, o que pode ter efeito na qualidade de produtos e serviços”, diz Tatiana lwai, professora e pesquisadora de comportamento organizacional e liderança no Insper.

Mas a cultura sempre se impõe nessas situações e mostra qual é o verdadeiro comprometimento da empresa com os funcionários. Um exemplo negativo, que ficou famoso recentemente, foi a faculdade que demitiu professores por um aviso no sistema interno e substituiu aulas por palestras motivacionais. “É preciso fazer o corte de forma digna”, diz Tatiana.

A comunicação é crucial. Se os funcionários acompanham a situação da empresa por meio de informes claros, mostrando as etapas que podem levar à demissão em caso de um cenário negativo, como um corte de benefícios antes da efetivação de um desligamento, por exemplo, fica mais fácil aceitá-lo. “Nenhuma comunicação acontece no vácuo. A mais efetiva é aquela que ocorre de forma periódica. Só assim, você toma a narrativa para si”, diz a professora do Insper, dando a entender que, do contrário, abre-se espaço para conjecturas e fantasias as mais diversas, verdadeiras ou não.

Também é importante gerenciar os remanescentes. Além do emocional abalado, eles podem ter de suportar sobrecarga de trabalho. O normal é que o corte deixe resíduos que exigem tempo para ser absorvidos. O histórico da empresa pode tornar isso um momento difícil. A cultura institucional é um dos pilares,” afirma Tatiana.

MOMENTO DELICADO

A manutenção de um bom ambiente e a superação das demissões ampliam a necessidade de os líderes terem uma postura mais humanizada. “Um desligamento feito com frieza e distância pode gerar um grande dano psicológico”, diz Rebeca Toyama, especialista em estratégia de carreira. “A cultura de que o bom gestor é aquele que investe nos controles foi superada pela gestão do capital humano. É imprescindível ter interesse por pessoas, pelo bem-estar geral.”

O ideal é que o líder esteja preparado para esse tipo de decisão. Ele precisa ser treinado não só para dar feedbacks que mostrem concretamente acertos e pontos a melhorar dos funcionários, mais também para saber quem escolher na hora do desligamento, com critérios justos e transparentes para o demitido e para a equipe. E, sobretudo, precisa realizar o processo de maneira saudável. O demitido deve ser comunicado antes de outros membros da equipe, e o desligamento não pode ser feito em horários inadequados. “A comunicação tem um contexto: deve ser oportuna, no momento certo, de forma adequada, num local reservado, sempre sem exposições desnecessárias. Tem de ser feita com um bom tom de voz, uma boa maneira de se portar, com o uso de palavras corretas e exemplos e justificativas do porquê”, diz Alexandre, do Talenses Group.

CUIDAR DA EXPERIÊNCIA

A crise atual trouxe elementos diferente para as empresas e para a área de pessoas. Segundo Alexandre, nas crises recentes, como a de 2014, a questão mais visível era econômico-financeira. Agora, apesar de esse item também estar presente, o cenário é diverso. “Até então, o braço direito do CEO era o CFO. Neste momento, o diretor de RH é quem tem um papel fundamental para ajudar a escolher quem reter na empresa”, avalia. O grande diferencial acaba sendo o engajamento do funcionário. E, para que ele exista, a companhia tem de trabalhar outros dois aspectos que formam um trio essencial: atração e retenção. Maria Eduarda Silveira, da Robert Half, lembra que depois de anos falando em foco no cliente, agora a experiência do empregado está no topo da preocupação das empresas. “O capital humano tem sido mais bem tratado. E isso é fundamental para a atração de novos funcionários”, diz Maria Eduarda.

Essa experiência começa na contratação e termina na demissão – por isso humanidade e empatia e, se possível, auxílio para encontrar um novo emprego durante uma das crises mais severas da história farão com que o ex-funcionário mantenha um laço de admiração com sua antiga contratante.

DEMISSÃO SEM TRAUMAS

Quatro passos para seguir durante os desligamentos

LIDERANÇA

O RH deve dar informações sobre como proceder. O demitido não pode ser o último a saber, não pode haver bloqueio de senha, retirada de computadores, muito menos demissão na sexta-feira às 18 horas.

TRANSPARÉNCIA

A comunicação deve justificar os motivos e o contexto da empresa, se passível ressaltando as qualidades do funcionário.

OBJETIVIDADE

Se a motivação for mau desempenho ou mau comportamento, é recomendável munir-se de exemplos das oportunidades dadas anteriormente. Se as razões forem éticas, é mandatório que o RH esteja presente.

ESCUTA ATIVA

Ouvir o demitido, suas impressões e sugestões é muito importante. Isso valoriza a pessoa e, ainda, pode ajuda-la na busca por um novo emprego.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMAGENS DA FEMINILIDADE

O imaginário acerca da figura feminina sofreu grandes transformações no decorrer do tempo. Inicialmente vistas como donas da vida e da morte, as mulheres foram, aos poucos, com ajuda da literatura e da ficção, reconciliando beleza e virtude; mas é no século XXI que se abrem mais frestas para a diversidade

A imagem tem papel central na construção da ideia de feminino. Ao longo do tempo esse imaginário ganhou contornos diversos, na forma de grandes mães, madonas, deusas como Vênus/Afrodite, stars, pin-ups e top models – até assistirmos a uma significativa ruptura paradigmática pós-moralista, promovida pela sociedade da comunicação. Presenciamos a dessacralização feminina e a relação a seus referenciais religiosos e patriarcais, possibilitando um novo modo de pensar a imagem feminina, tornando-a indeterminada e privilegiando as singularidades da “mulher qualquer”.

As primeiras imagens construídas sobre a mulher na história originam-se de um imaginário comum: o temor ao feminino. Esse tipo pode ser explicado pelo desconhecimento inicial do papel social e biológico do homem na reprodução – e atribuição à mulher da autonomia na geração da vida por supostos poderes sobrenaturais. Eram as chamadas grandes mães, ligadas às forças da natureza valorizadas por sua condição materna não vistas como dotadas de vontades e virtudes, e sim tomadas como donas da vida e da morte (e por isso temidas). E, por possuir esse poder paradoxal, sua imagem foi associada a imagens igualmente contraditórias e cíclicas: a Lua, a serpente, a irracionalidade e ao caos. Deveria, por isso, estar sob domínio constante do controle racional masculino, o que foi representa do em uma série de obras em que homens apareciam matando serpentes, por exemplo.

A mulher não era, nas imagens míticas tradicionais, cultuada por sua beleza, pois sequer era reconhecida como pertencente ao ‘belo sexo” – papel que cabia ao homem. A reverência ao masculino pode ser ilustrada, particularmente, na Grécia pela presença pública de milhares de kouroi, estátuas de rapazes nus. As imagens de mulheres, raras em espaços públicos, guardavam uma forte semelhança com o corpo masculino. Com ombros largos, braços fortes, sem marcação da cintura, distinguiam-se apenas pelos seios. A beleza da mulher, quando valorizada, vinha sempre repleta de contradições: era bela, entretanto, má. Por isso, era um ser perigoso. Personagens como Pandora, a primeira humana criada por Zeus responsável por levar todos os males do mundo aos homens em uma caixa, e Eva, responsável pelo pecado original, representam esse ideário.

A associação entre mulher e beleza efetiva-se apenas no Renascimento, momento em que se legitima o corpo feminino como objeto de contemplação. A mulher ganha centralidade simbólica como figura literária e ficcional, e não como ser humano comum. Idealizada como Vênus-Afrodite, ora com formas femininas e teatrais, ora o símbolo máximo da virtude e da bondade com as célebres e inúmeras Madonas (que representavam a imagem de Maria), o imaginário acerca da mulher reconcilia, assim, beleza e virtude – em uma ruptura com sua tradicional demonização. Esse fato a colocará, definitivamente, como imagem representativa da beleza. Entretanto, trata-se de uma mulher construída simbolicamente para oferecer-se à contemplação e resignar-se com seu papel decorativo e passivo. Um imaginário de aparente reverência aos atributos femininos, mas que impede a intervenção na vida social, como bem alertou Simone de Beauvoir 1908-1986 em O segundo sexo, vol. 1 (1980): Achar-se situada à margem do mundo e não é uma posição favorável para quem quer recriá-lo”.

BONECAS DO LAR

Sob o signo dos centros urbanos do consumo, da imprensa massiva, do cinema e da fotografia, o imaginário social democrático do século XX foi responsável pela transição da estereotipia tradicional /patriarcal e religiosa da imagem do feminino para a autonomia, multiplicada em uma escala nunca antes vista. As estrelas de Hollywood, que nascem nos anos 20, fazem mais do que alimentar os sonhos, mas também comportamentos muito reais, relativos à moda, ao vestuário, ao penteado, à maquiagem e à maneira de ser. Essa imagem cumpre um inicial, mas nem por isso menos importante, papel de incentivo de desregulamentação dos papéis sexuais tradicionais. Pois “desde que Lauren Bacall se aproximou de Bogart para convidá-lo a acender seu cigarro”, no filme À beira do abismo (Howard Hawks, 1945), “o cinema vem contribuindo para legitimar a iniciativa feminina, e nisso ele se mostra menos como reflexo do real do que como produtor de novos modelos de comportamento “, defende o filósofo francês Gilles Lipovetsky.

Ainda no contexto dessa primeira fase do imaginário democrático surge outra imagem midiática da mulher que avança, timidamente: as pin-ups. Símbolo da arte gráfica nos anos dourados, elas também são chamadas de garotas de calendário (feitas para pendurar na parede) ou de cheesecake. Elas aparecem ainda em uma segunda variação: as “bonequinhas do lar”. Mulheres belas, maquiadas, de salto agulha e saia rodada que alegremente controlam seus eletrodomésticos e cuidam da casa, do marido e dos filhos. São representadas, frequentemente, vestindo aventais, símbolo do seu lugar doméstico e serviçal. Se, por um lado, a pin-up se distancia da moral cristã, por outro, não se afasta do imaginário masculino, oferecendo-se como um objeto belo, serviçal e facilmente manobrável. A mulher passa, então, a ter apenas duas posições sociais: “boneca do lar” ou “vedete”.

No entanto, a pin-up diferencia-se das musas do cinema em um aspecto importante: não é tão distante, etérea e idealizada, preserva a beleza ideal das estrelas, mas também povoa cenas cotidianas e transita no espaço urbano, faz supermercado, dirige e cozinha. Ela é responsável pela primeira aproximação entre a imagem pública da mulher e a vida comum – mesmo que ainda esteja restrita ao espaço e às atividades domésticas.

Essa iconografia midiática em transição abre caminho para a emancipação do imaginário feminino. Pois, se o objetivo inicial era excluir a mulher da vida pública, sua valorização como rainha do lar torna-se o fundamento para as conquistas que se seguiram – já que o movimento feminista só se tornou uma força quando dominou a linguagem da vida doméstica. “O feminismo politizou a subjetividade – abalou a distinção dentro e fora para problematizar a sexualidade, a família, o trabalho doméstico”, escreveu o sociólogo Stuart Hall em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade. Não por acaso, um dos slogans do feminismo pregava que “o que é pessoal é político”.

Será apenas com o amadurecimento do imaginário democrático na década de 60, que se dará a efetiva ruptura da imagem feminina com imaginário patriarcal. Marcada pelo binômio da magreza e da juventude, essa imagem que tem, agora, a top model como símbolo, apresenta uma mulher que conquistou sua autonomia estética, mesmo que isso custe excesso de auto controle e vigilância do corpo. A crítica ao comando tradicional, a emergência da autoridade racional-legal, a valorização da imagem feminina na sociedade de consumo, o seu poder de compra, a moda, a profissionalização da mulher e a ciência higienista são elemento fundamentais dessa transição.

Produz-se, pela primeira vez, uma imagem voltada exclusivamente para mulheres, mas que, ritmada pelo corpo magro, nega as formas da mulher. moda dos anos 60 traz os cabelos curtos e o vestido tubinho, privilegiando mais o movimento das pernas do que a marcação da cintura e dos seios. Asrevistas femininas passam a revelar os segredos da beleza que pareciam inalcançáveis e há a valorização do rosto e dos olhos, em detrimento do corpo, em uma tentativa de marcar a personalidade. A descoberta da pílula e sua comercialização, em 1961, constituiu “o fundamento de um habeas corpus para mulheres: um filho se eu quiser, quando eu quiser, como eu quiser”, como lembra a historiadora Michelle Perrot. Esse momento é marcado também pela chegada da mulher às universidades e ao mercado de trabalho, bem como por um conjunto de mudanças e conquistas que invertem sentidos e promovem a autonomia do imaginário feminino.

No entanto, a emancipação da iconografia da mulher na modernidade do século XX é paradoxal. Se, por um lado, é possível, pela primeira vez na história, constituir um imaginário distante das coerções patriarcais, por outro, a sociedade de consumo, por meio de um universo supostamente feminino, cria uma imagem marcada pelo controle: é preciso ser magra, bem-sucedida, boa mãe e estar na moda. As imagens veiculadas pela mídia apresentam demandas de condutas eficientes que se tomam um peso para a mulher, gerando ansiedade, depressão e frustração. Para dar conta das demandas, muitas se tomam vítimas da lógica efêmera da moda e adotam meios radicais, apelando para regimes cíclicos e desenvolvendo comportamentos patológicos, como anorexia e bulimia. Assim, não negamos a importância da magreza, da moda e da publicidade para promover a autonomia do feminino em relação ao imaginário masculino, mas também não devemos nos esquecer de problematizar o novo tipo de controle “pan- ótico” instalado por essa imagem da sociedade de consumo. Ela está mais a serviço – do que efetivamente serve-se – do consumo das imagens. Há, porém, mais controle que prazer, mais sacrifício que fruição, mais busca de identificação com modelos que construção de singularidades. E é justamente a tomada de consciência desse paradoxo que aciona a criação de uma nova imagem social da mulher.

O CULTO A SI MESMO

A imagem feminina da mulher produzida na sociedade pós-moralista não mistifica a mulher, mas amplia a possibilidades de identificação, legitimação e reconhecimento das diversas formas de ser e estar no mundo. Nasce no final do século XX e consolida-se no século XXI sob a denominação de “mulher real” nas imagens veiculada pelos meios de comunicação em massa como resultado do amadurecimento social, que produz uma “mídia em diálogo”, em consonância com a acentuação dos princípios democráticos, que produz imagens fruto da interseção entre a mídia e a sociedade. Surgem mulheres comuns, de diversas etnias, raças, corpos, idades e comportamentos que passam a descentralizar os modelos de beleza, o que se configura, mais visivelmente, na publicidade, em campanhas como as da Natura e dos produtos Dove, por exemplo.

A lógica dessa imagem também se expande para a mídia em geral e as capas das revistas semanais, constantemente, denunciam o modelo rígido de beleza. Existe também o importante lócus contemporâneo de auto representação da imagem da mulher criado com a Internet. Blogs, sites, Facebooks, Orkuts fornecem espaço e incentivo para a produção frenética da própria imagem. É a consagração do “culto de si” em um espaço que concilia, paradoxalmente, individualismo e trocas interativas. Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano e mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem está “próximo”. Há, na base desse fenômeno, uma espécie de democratização dos desejos de expressão individual, na medida em que as mulheres buscam conquistar “espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar da simples condição de consumidora” das imagens alheias, afirma Lipovetsky. As mulheres querem colocar sua imagem no mundo. “Ser ou não ser: existir na tela ou não existir”, indaga o autor.

Mas seria correto anunciar o “crepúsculo das estrelas”, como o fez o sociólogo e filósofo Edgar Morin? Será que abandonamos os modelos estéticos e a contemplação das celebridades, das top models? Já ampliamos a existência da mulher para além da imagem da beleza? A emancipamos? É cedo para afirmar isso. Paradoxalmente, atrizes e celebridades continuam a atrair leitores para as colunas de fofocas e modelos magérrimas protagonizam campanhas publicitárias, impulsionando as vendas de revistas femininas.

Presenciamos, simultaneamente, o nascimento de uma imagem revolucionária sobre a mulher e a permanência das tradicionais e modernas. Isso não impede, no entanto, a emergência, no século XXI, de uma imagem; sem imagem definida, que escapa e abre frestas para uma diversidade de formas singulares de ser mulher. Surge a possibilidade de “um ser qualquer”, algo que, para o filósofo italiano Giorgio Agamben, seria a única possibilidade de uma existência social ética. O termo “qualquer” (do latim, quodlibetens) significa “o ser que, seja como for, não é indiferente”; contém algo que remete à vontade (ibet), o ser qualquer estabelece uma relação original com o desejo. Podemos, enfim, nos apropriar da formulação do psicanalista Comelius Castoriadis (1922-1997) para pensar que a relação da mulher e da imagem socialmente dada do que é o feminino “não pode ser chamada de relação de dependência. É uma relação de inerência, que como tal não é nem liberdade nem alienação, mas está no terreno no qual liberdade e alienação podem existir”.

EU ACHO …

DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.

E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou- se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.

Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. – Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro- me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PAVOR MODERNO

A presença constante na internet, em especial em plataformas de videoconferência, faz surgir um novo tipo de neurose comportamental

O advogado e comentarista Jeffrey Toobin, muito conhecido nos Estados Unidos por seu trabalho na revista The New Yorker e na CNN, viveu um incidente no mínimo inusitado dois meses atrás. Ao que tudo indica, ele esqueceu a câmera do computador ligada em uma videoconferência, via plataforma Zoom, e acabou cometendo um erro fatal para sua carreira: foi flagrado se masturbando. Sem fazer juízo de valor quanto às preferências de Toobin, o caso traz à tona uma preocupação crescente das pessoas que trabalham remotamente: o risco de ser pego em situações delicadas e o estado de constante alerta para evitar que isso aconteça.

Apelidado de Fobo, fear of being on (medo de estar on-line), o receio está virando neurose. Sinal dos tempos, o aumento vertiginoso do uso de aplicativos e plataformas de videochamada gera pensamentos paranoicos. Desliguei a câmera? Cliquei para fechar o som antes de gritar com o cachorro? Lavei o rosto antes de entrar na reunião? Será que viram o que esqueci na estante atrás de mim?

Uma vez que a adoção de reuniões remotas é um procedimento que veio para ficar – Google Meet e Zoom ganham cada vez mais usuários -, a única forma de combater o medo de gafes e descuidos é adotar alguns hábitos compulsórios quando for entrar on-line, seja pelo computador, seja pelo smartphone. Especialistas recomendam conferir a aparência e o modo como está vestido, exatamente como se fosse uma reunião presencial. É sempre bom dar uma olhada no ambiente antes de começar: o lugar da reunião precisa ser apropriado, silencioso e discreto. Quanto ao sistema de bloqueio de som e imagem, aconselha-se dominar completamente o dispositivo que estiver usando. Além disso, toda vez que terminar de falar, é melhor apertar “mudo”. Se virar um hábito natural, deixará de ser neurose, como quando se ganha experiência ao dirigir e os movimentos se tornam naturais.

O medo de estar on-line, embora possa parecer tolo, não é gratuito. Afinal, um incidente aparentemente banal é o suficiente para gerar embaraços que vão desde o desconforto entre colegas até a demissão, como ocorreu com Toobin. Além das inconfidências auto infligidas, a privacidade está sujeita a ataques de terceiros. No ano passado, foi descoberta uma falha no Zoom que permitia que hackers controlassem a câmera de computadores, inclusive para invadir reuniões e videochamadas caso não estivessem protegidas por senha.

Vale destacar que ameaças à privacidade não se concentram apenas no Zoom. À medida que atraem mais usuários, sites e aplicativos estão sujeitos a fraudes e exposição externa. Sob diversos aspectos, o mundo virtual é uma guerra sem trégua entre provedores de serviços e criminosos – uma dança interminável de inteligência e contrainteligência. O Zoom tem sido o alvo preferido, pois ocupa a primeira posição na preferência dos usuários. Embora exija cautelas, o fenômeno não deveria ser motivo de pânico, uma vez que falhas de segurança costumam ser detectadas e corrigidas, na maioria dos casos, em questão de horas pelas plataformas.

O termo Fobo foi criado pela designer Holly Allen, do site Slate. Segundo ela, o medo de estar on-line é definido como uma ansiedade que culmina na necessidade de verificar se a pessoa está mesmo invisível aos olhos da tecnologia – algo que, na prática, ninguém pode garantir. Na verdade, a sigla é uma variação do Forno, seu primo mais conhecido, acrônimo de fear of missing out, ou medo de ficar de fora, que consiste na vontade irrefreável de absorver todo o conteúdo possível das redes sociais, sem perder nenhum show, notícia, anúncio ou atualização no Facebook, por exemplo. Igor Lemos, psicólogo da escola Cognitiva Scientia, acredita que a pandemia funcionou como um gatilho para disparar sintomas que já existiam, aumentando sua frequência: “Muito antes de 2020, eu já tinha pacientes que relatavam sintomas desse tipo, como medo preocupante de fazer ligações sem querer”. No Brasil, estima-se que a dependência digital já atinja mais de 4,3 milhões pessoas, 25% delas adolescentes. O índice brasileiro de permanência na internet é um dos mais altos do mundo: mais de nove horas em média, contra menos de sete horas de outros países.

O problema de tendências como o Forno e o Fobo, segundo estudiosos do assunto, é que suas cicatrizes podem ser mais duradouras e profundas do que se pensa, afetando o comportamento social e a saúde mental. Pensamentos obsessivos, que geram perturbações emocionais e apreensão, não são inteiramente compreendidos pelas pessoas. Mais alarmante é o fato de que são poucos os brasileiros que buscam informações sobre as consequências advindas do uso exagerado da internet. Por outro lado, abrir mão dos serviços que o mundo virtual oferece não seria prático. Estudo a distância, transferências financeiras, compras e, no caso em evidência, comunicação remota com colegas de trabalho são atividades já efetivamente implementadas na sociedade. O melhor é se adequar a elas, seguindo as regras da boa convivência. Se começar a relaxar demais, lembre-se do flagrante de Toobin.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE FEVEREIRO

BUSQUE O BEM, E ELE VIRÁ A SEU ENCONTRO

Quem procura o bem alcança favor, mas ao que corre atrás do mal, este lhe sobrevirá (Provérbios 11.27).

Você encontra aquilo que procura. Se a sua vida é uma corrida atrás do bem, você será respeitado e verá cumprido o seu desejo. Porém, se você corre atrás do mal, ele virá ao seu encontro. O filho pródigo deixou a casa do pai e partiu para um país distante. Gastou o dinheiro em rodas de amigos e com prostitutas. Viveu dissolutamente e esbanjou irresponsavelmente sua herança. Acabou colhendo o que semeou. Ficou sem dinheiro no bolso e sem amigo na praça. A fome o torturava, até que ele foi parar num chiqueiro. Ele buscou o mal, e o mal lhe deu um abraço apertado. Esse jovem, então, caiu em si e lembrou-se do pai e de como tinha pão com fartura na casa paterna. Arrependido do seu erro, resolveu voltar para o pai. Sabedor de que havia sido inconscientemente feliz na casa do pai, estava agora conscientemente infeliz no país distante. Ao colocar o pé na estrada da volta, encontrou o pai de braços abertos. Disposto a ser apenas um trabalhador, recebeu de volta a posição de filho. Porque o filho pródigo procurou o bem, alcançou o favor do pai. Faça você o mesmo. Busque o bem, empenhe-se por alcançá-lo, e ele virá ao seu encontro. Deteste o mal, e ele fugirá de você.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER DO DIFERENTE

Em uma sociedade polarizada por opiniões radicais e verdades únicas, ganham as empresas que estimulam a diversidade cognitiva, prática baseada no diálogo e no respeito ao outro

Embora extremamente importante, a diversidade vem sendo tratada em diferentes níveis de maturidade, dependendo da companhia. Algumas sequer iniciaram a discussão, apesar de serem muito cobradas pela geração predominante no mercado – os nillennials, que consideram a inclusão essencial no ambiente de trabalho, segundo o estudo lnclusion insights, da Deloitte. Outras avançaram olhando para equidade gênero, enquanto poucas, mas representativas, já estão desenvolvendo ações afirmativas em quase todos os pilares: gênero, raça e etnia, geracional, social, LGBTI+, e por aí vai.

Mas chegou a hora de dar um novo passo para garantir outro tipo de diversidade: a cognitiva, que depende de um ambiente em que opiniões contrárias sejam debatidas, refutando-se polarizações – tão comuns nos dias de hoje. É daí que vem o verdadeiro ganho com a questão da diversidade: extrair a melhor solução a partir de olhares divergentes. “Estamos vivendo em um mundo dividido, e as empresas ganham a responsabilidade de contribuir para a mudança na sociedade, afirmando: ‘Aqui nós aceitamos o debate e opiniões diferentes das nossas”, diz Antônio Salvador, líder de negócios de career para o Brasil da consultoria Mercer.

Claro que, em um país como o Brasil, com um dos maiores índices de desigualdade do mundo, a diversidade cognitiva precisa fazer parte de uma política ampla de busca por representatividade. “Uma coisa é tratar a questão cognitiva por si só na Suécia, onde quase não há desigualdade de renda. Mas nossa realidade não está pronta para contemplar apenas a diversidade de pensamento”, diz Liliane Rocha, fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em diversidade e sustentabilidade. “Se defendermos somente essa ideia, se tornará cômodo para o conselho falar que estão contemplando a diversidade cognitiva, quando estará trabalhando nisso dentro dos 87% de executivos que são homens brancos.”

PONTOS DE ATENÇÃO

Ter pessoas de diferentes origens num grupo aumenta a chance de o pensamento diverso acontecer. Liliane pontua, por exemplo, que, por mais que uma mulher negra da periferia tenha estudado numa instituição de ensino elitizada, ela terá uma visão de mundo marcada por sua origem, que será diferente da visão da maioria de seus colegas.

Mas, segundo Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia fundadora da Nêmesis, consultoria   especializada em neurociência organizacional, a diversidade por si só não assegura a pluralidade de raciocínio. “Quando trazemos pessoas de realidades diferentes, espera-se que elas tenham visões de mundo diferentes, mas não garantimos isso com amplitude. Então entramos nessa necessidade de olhar para a diversidade cognitiva, porque ela precisa necessariamente refletir uma diversidade de pensamento, de perspectiva, e ai, sim, aumentamos o potencial de criação.”

A diversidade cognitiva está relacionada à personalidade dos indivíduos, já que cada um tem uma maneira de reunir e processar informações, de tomar decisões e de comunicar. Diante de situações de ganhos e perdas, enquanto alguns focam as recompensas, outros concentram-se nos prejuízos – e aí está um exemplo de distinção cognitiva. Estudos sugerem que os times que entregam melhores resultados são aqueles em que se consegue aproveitar as diferenças para encontrar soluções e resolver desafios.

Uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review chegou à conclusão de que as equipes resolvem problemas com mais rapidez quando são cognitivamente mais diversas. O time de pesquisados autores britânicos Alison Reynolds e David Lewis desafiou grupos com diversidade de fenótipos e outros com comprovada diversidade cognitiva (identificada após a aplicação de testes) por mais de 100 vezes nos últimos 12 anos. O resultado foi que alguns grupos se saíram excepcionalmente bem e outros incrivelmente mal, independentemente da diversidade de gênero, etnia e idade. Um aprofundamento do exercício, por sua vez, mostrou uma correlação significativa entre alta diversidade cognitiva e alto desempenho.

“Não podemos detectar facilmente a diversidade cognitiva de fora. Ela não pode ser prevista ou facilmente orquestrada. O próprio fato de ser uma diferença interna exige que trabalhemos duro para superá-la e aproveitar seus benefícios”, explicam os autores em artigo.

VIÉS FUNCIONAL

Um inibidor à divergência de pensamentos pode ser o excessivo enquadramento cultural exigido pelas empresas. Quando um novo funcionário entra na companhia e logo é ensinado sobre como deve se comportar, o que é aceitável em determinados fóruns de discussão, o dress code rigoroso que precisa seguir e o par que o orientará quanto ao modo de conduzir suas tarefas, ele já está abrindo mão de sua forma própria de executar e pensa r – o que vai minando o raciocínio diverso.

“Se eu entrego o que precisa ser entregue, por que tanto apreço ao como? A expressão é de cada um. O que importa é a performance, e não a forma. Acredito que as empresas estejam migrando para esse olhar”, explica a neurocientista Ana Carolina, da Nêmesis.

Segundo os autores do artigo publicado na Harvard Business Review, a tendência é que as pessoas gravitem em torno de colegas que pensem e se expressem de maneira parecida. Como resultado, as organizações geralmente acabam com equipes com ideias semelhantes. Quando isso acontece, dizem os pesquisadores, “temos o que os psicólogos chamam de viés funcional – e baixa diversidade cognitiva”. O viés funcional nada mais é do que seguir o padrão e fazer tudo de acordo com o que o grupo legitima como correto.

A mesma máxima torna-se realidade quando lideranças muito conservadoras e autoritárias tentam imprimir sua forma de agir e realizar em todos os membros do time. Alison Reynolds e David Lewis dizem que “as pessoas gostam de se encaixar, então elas são cautelosas ao não arriscar o pescoço. Quando temos uma cultura forte e homogênea (por exemplo, uma cultura de engenharia, uma cultura operacional ou uma cultura relacional), reprimimos a diversidade cognitiva natural nos grupos por meio da pressão para se conformar”.

Para superar essas barreiras, é importante que os processos de recrutamento identifiquem, além do alinhamento cultural, a diferença de pensamento e recrutem com foco na diversidade cognitiva. E, mais do que isso, como líder, é importante saber estimular um ambiente de discussões saudáveis. Portanto, diante de uma situação nova, incerta e complexa, em que todos concordam sobre o que fazer, encontre alguém que discorde – e valorize essa atitude. O embate se faz necessário.

BOA BATALHA

Um ambiente de conflito respeitoso estimula a inovação. Isso porque a convivência com grupos diversos, em um contexto aberto à discussão, provoca o fenómeno da neuroplasticidade, ou seja, a formação de novas conexões cerebrais que são construídas diante de novidades e durante a troca de experiências – favorecendo, dessa forma, o processo criativo e o aprendizado.

A interação com diferentes formas de pensar e de avaliar o mesmo cenário mantém o cérebro constantemente desafiado, estimulando o pensamento criativo. “Quanto mais convivemos com pessoas diferentes, mais diminuímos a força dos vieses. Ganhamos multiplicidade e passamos a entender que não existe um caminho 100% certo “, explica Ana Carolina.

Autores do livro The Best Team Wins (“O melhor time ganha”, numa tradução livre, ainda sem edição em português), os americanos Adrian Gostick e Chester Elton dedicaram um capítulo para tratar conflitos após estudarem 860.000 profissionais de empresas de diversos setores. A conclusão foi que em grupos onde inexistem contestação e divergências os resultados são menos inovadores e produtivos. Para evitar que tudo seja feito sempre da mesma forma, é preciso que as equipes discordem – e, como mágica, novas ideias surgem. Segundo o livro, bons lideres promovem fóruns de discussão com temas específicos e dão espaço para que os liderados discordem de tudo e de todos, inclusive deles. O primeiro passo é cultivar um ambiente onde as pessoas saibam que podem se manifestar, fazer perguntas e expressar divergências.

Fazer isso é promover o que especialistas chamam de respeito cognitivo, ou seja, a capacidade de criar uma conexão geral e disseminar o entendimento de que cada pessoa tem uma perspectiva válida, mas talvez diferente.

Outra regra é ouvir com respeito, ouvir para aprender e, em seguida, ter curiosidade em construir a partir de ideias novas, em vez de adotar uma visão competitiva. “Valorizar a diversidade é conviver de forma harmônica”, diz Liliane, da Gestão Kairós.

Segundo a neurocientista Ana Carolina, para construir esse caminho as empresas têm investido muito nos aspectos de empatia, lógica de confiança e abertura de diálogo, “Promovendo, assim, um espaço onde é possível discordar, e onde o erro é aceito de maneira saudável, como busca por aprendizado. Trabalhar diversidade cognitiva sem trabalhar soft skills não muda a cultura”, explica.

Outra possibilidade é garantir a mensagem já no momento do recrutamento. “Empresas têm adotado um modelo onboard diferente para garantir que as pessoas coexistam e interajam   entre si, independentemente de suas personalidades”, afirma  Antônio Salvador, da Mercer Brasil.

MUDANÇAS NO PROCESSO

A Braskem, multinacional brasileira da indústria química, está avançando em seu programa de diversidade. Criado em 2014 com foco em aumentar a participação de mulheres no setor, expandiu a atuação, definindo em 2015 os pilares do programa que agora atinge todos os grupos minorizados. Para o próximo ano, a companhia fará reajustes no recrutamento dos estagiários com objetivo exatamente de aumentar a diversidade cognitiva.

“Muitos candidatos esbarravam nas questões de raciocínio lógico, que exigiam aptidão em matemática, e essa não era uma necessidade para todas as vagas”, diz Fernanda Tognolli, analista de employer branding da Braskem e responsável pelo programa de estágio. “Nossa empresa tem uma origem tecnicista, e precisamos de outros tipos de inteligência para agregar transformações à organização”, completa Debora Gepp, responsável pelo programa de diversidade e inclusão da Braskem. Assim, o processo terá uma avaliação diferente: um jogo em que os candidatos vão simular a tomada de decisão diante de um desafio da companhia. “Todas as respostas estarão certas, mas elas dirão respeito como a pessoa pensa, age e toma decisões. Com base nesse teste, vamos identificar a aderência do candidato a determinada vaga”, explica Fernanda.

Isso é interessante porque, com a substituição das provas de matemática pelo teste de tomada de decisão, a Braskem recruta com mais diversidade cognitiva e amplia o escopo dos candidatos: não serão apenas os que tiveram acesso a uma educação mais privilegiada que terão a chance de ser aprovados. “O processo fica mais orientado a trazer profissionais com diferentes perspectivas, diferentes repertórios e comportamentos aderentes do que esperamos. A gente valoriza as competências comportamentais”, diz Débora. “Com isso, esperamos ter um ambiente de mais inovação e disrupção de processos, com pessoas que questionem nosso modus operandi.”

Para promover um ambiente em que os funcionários se sintam à vontade para questionar, a Braskem está investindo em transformações como flexibilização do código de vestimenta e inserção de duas novas competências na avaliação de desempenho: vulnerabilidade (poder errar e não ter todas as respostas) e adaptabilidade (ser flexível e se adaptar a diferentes cenários e pessoas). “Com isso, espera se que as pessoas sintam que podem se expressar verdadeiramente aqui”, diz Fernanda.

MAPEAR É PRECISO

Na Visa, a área de recursos humanos tem aplicado o mapeamento de perfis para identificar as diferenças cognitivas representadas nos times. Recentemente, o setor de marketing recebeu um novo gestor e, para promover uma atividade de aproximação e reconhecimento de toda a área foi aplicada a metodologia insights discovery, que mapeia dados da personalidade de todos os membros da equipe, independentemente do nível hierárquico. “Pela ferramenta conseguimos perceber o estilo, as características de cada um na tomada de decisão, na influência e no relacionamento interpessoal”, afirma Priscila Mônaco, diretora de RH da Visa. Como resultado, os profissionais recebem um relatório detalhado com a análise do comportamento e dos pontos fortes e fracos.

“Compartilhamos qual é o estilo de pensamento e de trabalho de cada um e focamos o modo corno devemos nos comunicar e nos relacionar com cada pessoa, conforme seu jeito. Isso corrobora para uma equipe mais harmônica”, explica Priscila.

Além de se entenderem melhor, os membros dos times acabam ficando mais confortáveis em se expressar verdadeiramente, já que são compreendidos por suas maneiras de pensar. Incentiva-se, dessa forma, um ambiente respeitoso cognitivamente.

Outra vantagem é fazer ajustes para conquistar mais diversidade. “Quando olhamos os resultados, percebemos que tínhamos muita gente do mesmo perfil atuando junta. Entendemos que valia fazer algumas mudanças e trocamos alguns profissionais entre áreas”, afirma a diretora de RH. Ela ainda garante que as equipes que sofreram os ajustes tiveram melhora na performance.

Afinal, com pessoas com o mesmo comportamento, é impossível fazer diferente.

DISCORDAR FAZ PARTE

Veja cinco passos para estimular o pensamento diverso

1. Não punir quem discordar do status quo; ao contrário, incentivar esse comportamento

2. Criar ambientes em que os funcionários se sintam seguros para dar suas opiniões, mesmo que divergentes

3. Capacitar as lideranças para ouvir atentamente ideias fora do padrão e avaliar como os insights devem ser aplicados

4. Mapear os estilos de comportamento e de pensamento das equipes para fazer intercâmbios de pessoas que pensem de maneiras diferentes. Isso diminui a homogeneidade na tomada de decisão.

5. Desenhar programas de recrutamento que ampliem a diversidade, seja atraindo grupos minorizados seja tirando as amarras de testes que padronizem os candidatos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DE CURA DA MENTE

As expectativas do paciente têm enorme influência sobre o sucesso do tratamento e as alterações metabólicas do corpo e do cérebro desencadeadas por placebos já são mensuráveis. O efeito desses agentes é provocado não apenas pela crença, mas por condicionamento

O senhor Wright sofria de câncer terminal. Os médicos já sabiam que só lhes restava tentar diminuir seu sofrimento. No entanto, ele estava confiante: tinha ouvido falar em um novo medicamento chamado Krebiozen – e queria ser tratado com ele de qualquer jeito. Em 1957, o psicólogo Bruno Klopfer (1900-1971), da Universidade da California, em Loa Angeles, descreveu o histórico clínico do paciente no artigo “Magnitude da influência psicológica sobre o câncer. Wright recebeu sua primeira injeção numa sexta-feira. No fim do dia, o médico responsável deixou no hospital um homem com dificuldades para respirar, febril e acamado. Mas na segunda-feira ele já estava passeando alegre pelos corredores e conversando com as enfermeiras. E o mais importante: nos três dias seguintes à aplicação da droga os tumores foram reduzidos á metade do seu tamanho.

Dois meses depois, surgiram na mídia vários relatos controversos sobre a eficiência do Krebiozen que deixaram o senhor Wright bastante inseguro. Ele sofreu uma recaída. Foi então que seu médico decidiu enganá-lo: disse-lhe que a medicação expirava após certo tempo, mas havia agora um outro Krebiozen “melhorado”, duas vezes mais eficiente, recém-lançado. O paciente entusiasmou-se e o médico aplicou-lhe uma injeção – que não tinha uma única molécula do medicamento. Mesmo assim, melhorou ainda mais que da primeira vez: os tumores simplesmente desapareceram.

Tais casos dramáticos sugerem que a expectativa de um paciente em relação ao tratamento tem uma enorme influência: aparentemente, o estado de saúde de Wright dependia fortemente de sua crença no Krebiozen, cuja efetividade, aliás, logo foi contestada. Mesmo as injeções sem nenhuma substância ativa levaram a um sucesso evidente. Nesse caso, os médicos falam em efeito placebo – o poder curativo de um agente que não possui nenhuma substância farmacológica.

CONTRA A DOR

Esse fenômeno é provavelmente tão antigo quanto a profissão de curador. No século XVIII, os médicos utilizavam conscientemente as chamadas “pílulas inertes” quando não tinham nenhum medicamento adequado à mão. Com isso, esperavam apoiar o processo de cura. Na metade do século XIX, as pessoas se impuseram o objetivo de explicar doenças físicas de forma puramente físico-química, o que fez com que, por volta da virada do século, os placebos quase desaparecessem da prática terapêutica.

Nas últimas décadas, porém, a documentação detalhada do uso de pseudotratamentos se multiplicou para quase todos os tipos de patologias. Assim, os placebos ajudam no caso de dores, depressões, ansiedades e problemas cardiovasculares. Também apresentam efetividade considerável na doença de Parkinson em problemas inflamatórios. Mesmo no caso do câncer é possível comprovar um pequeno efeito: pelo menos um estudo estima que em uma parcela de 2% a 7% dos pacientes os cancros reagem a esse recurso.

Mas como eles funcionam? A princípio parece inacreditável que possam reduzir fortes dores em pouco tempo. Será que os pacientes realmente apenas imaginam a recuperação? Ou não têm coragem de admitir para o médico que na verdade não sentem nenhuma melhora? Essa hipótese cai por terra, já que vários estudos comprovaram que os placebos desencadeiam inúmeras alterações mensuráveis no metabolismo do corpo e do cérebro. Recentemente, Donald Price, da Universidade da Flórida, em Gainesville, e seus colaboradores acompanharam pacientes com síndrome do intestino irritável e os submeteram a tomografias por ressonância magnética. Os cientistas constataram que a convicção de que tinham recebido analgésico associava-se a uma atividade neural reduzida em regiões cerebrais processadoras da dor – incluindo as regiões primárias somatossensoriais, onde estímulos dolorosos vindos do corpo chegam em primeiro lugar.

Atualmente, pesquisadores partem do princípio de que a resposta ao placebo ocorre devido a dois componentes: a expectativa e o condicionamento, sendo este último pouco associado à crença e à confiança. Especialistas acreditam hoje que estímulos como a roupa típica dos médicos, aparelhos e odores característicos são suficientes para deflagrar reações físicas inconscientes. Assim, apenas a visão do médico com uma seringa na mão já pode desencadear, em algumas pessoas, efeito positivo, se a situação já foi anteriormente associada a uma recuperação perceptível. Tudo isso ocorre sem que seja necessária a crença explícita na efetividade da substância.

A melhora ou, no melhor dos cenários, a cura dos sintomas, surge da combinação do efeito farmacológico do medicamento com a reação condicionada. Esta última pressupõe experiências positivas com medicamentos e profissionais da área da saúde. O nosso grupo de trabalho, sob a coordenação de Manfred Schedlowski, comprovou em inúmeros experimentos com animais e seres humanos no Hospital Universitário de Duisberg-Essen e na Escola Técnica Federal de Zurique que o condicionamento funciona bem no caso de reações imunes. Para nossos estudos, desenvolvemos um modelo de condicionamento em ratazanas. Utilizamos como estímulo incondicionado (EI) a ciclosporina A (CsA), uma droga imunossupressora, ministrada em pacientes que sofreram transplantes para evitar a rejeição. Concomitantemente à injeção de CsA, oferecemos aos animais uma beberagem até então desconhecida por eles: adoçante sacarina diluído em água. Assim, aparentemente surge no cérebro dos roedores uma associação entre a substância ativa (EI) e a bebida. Esta última transforma-se em estímulo condicionado (EC). Quando apresentamos às cobaias, após essa associação temporária, apenas a solução com sacarina, observamos resposta imune enfraquecida. Como as ratazanas não vinculam nenhuma expectativa consciente à bebida, o efeito placebo deve estar embasado no condicionamento, um processo associativo de aprendizagem e memória. Isso também demonstra que, para que um placebo tenha efeito, não é obrigatoriamente necessário que a pessoa tenha esperança quanto aos resultados.

Estudos com animais que receberam transplantes demonstraram que esse tipo de condicionamento também é clinicamente significativo: as ratazanas sobreviveram durante tempo expressivamente mais longo com o coração de uma outra linhagem do que as cobaias não condicionadas do grupo de controle. Em alguns dos indivíduos submetidos à solução de sacarina, os corações transplantados chegaram a bater durante mais de 100 dias – período considerado de imunotolerância em ratazanas.

Em seres humanos, o condicionamento imunológico com ciclosporina também funciona, como a pesquisadora Marion Goebel, de nosso grupo de trabalho, demonstrou pela primeira vez em 2002, em uma pesquisa com sujeitos saudáveis. Os voluntários tomaram a droga por três dias seguidos na forma de cápsulas, junto com uma vitamina de morango tingida de verde, aromatizada com lavanda. Cinco dias depois, eles receberam a bebida com uma cápsula sem a substância ativa. Consequência: todos os parâmetros imunológicos caíram visivelmente após a administração do remédio.

Será que a tão citada crença no efeito de um tratamento, no final das contas, não é nada mais que um condicionamento? Afinal, seria concebível que o senhor Wright estivesse sugestionado pelas promessas da mídia com base na experiência aprendida de que um medicamento reconhecido e elogiado pela mídia seria eficiente? Diversos resultados de pesquisas, porém, indicam que a expectativa e o condicionamento são processos diferentes. Por exemplo, em 1999 Martina Amanzio e Fabrizio Benedetti, da Universidade dos Estudos de Turim, na Itália, investigaram a influência de pseudo tratamentos por meio de um teste de dor no braço em 229 voluntários. No primeiro grupo experimental, o efeito placebo foi induzido apenas por expectativas. Um dizia aos participantes: “Agora você vai receber um potente medicamento para aliviar a dor” – e injetava-lhes uma simples solução salina. Mesmo assim, essas pessoas sentiam menos dor no teste subsequente do que aquelas que não tinham recebido o reforço verbal.

Os resultados do segundo grupo experimental demonstraram que esse resultado da expectativa se baseava principalmente na ação de opioides, analgésicos produzidos naturalmente pelo corpo: nesse segundo caso, o médico também prometeu uma redução da dor, mas injetou, em vez da solução salina, o antagonista do opioide, Naloxon, ou seja, uma substância que impede que os opioides desenvolvam seu efeito. E, nesse caso, o efeito placebo redutor da dor de fato foi totalmente inexistente!

O pesquisador Jon-Kar Zubieta e seus colegas da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, comprovaram por meio de exames por imagem, em 2005, que após a administração do placebo, a atividade neuronal mediada pelos opioides aumenta justamente nas regiões cerebrais que participam do processamento da dor.

LIBERAÇÃO HORMONAL

Mas a sensação dolorosa pode ser aliviada de diversas formas. Assim, os cientistas de Turim administraram a uma parte dos sujeitos durante dois dias consecutivos, antes do teste, a substância analgésica Ketorolac, que tem efeito bastante diferente dos opioides. Mais uma vez, os cientistas conseguiram uma associação do medicamento ao procedimento da injeção. Antes do último teste de dor, os pesquisadores aplicaram uma solução de sal diluído em água.

Resultado, as injeções de placebo tiveram efeito um pouco mais fraco. O fato surpreendente ocorreu quando, em vez desse preparado salino, foi injetado o bloqueador de opioide Naloxon. Aparentemente, nesse caso o placebo era construído por dois componentes: o efeito da expectativa que é transmitido pelos mecanismos opioides – e eliminado pelo bloqueador – e o efeito condicionador que provavelmente funciona da mesma forma que o analgésico utilizado e é, portanto, insensível ao Naloxon.

Provavelmente, o efeito da expectativa interfere fortemente em sintomas dos quais as pessoas têm consciência, como é o caso da dor. Isso está de acordo com uma observação de Fabrizio Benedetti, feita com base em um estudo realizado em 2003. Ele e seu grupo conseguiram suprimir os efeitos placebo analgésicos por meio de sugestões negativas opostas: assim, se um sujeito recebe uma substância inócua que tem a mesma aparência do comprimido que já o ajudou várias vezes, mas o médico diz: “Desta vez você está recebendo uma substância que aumenta a dor”, então o efeito analgésico desaparece.

Curiosamente, esse efeito nocebo não funciona com processos físicos inconscientes, como a liberação de hormônios. No experimento de Benedetti, os sujeitos receberam o medicamento Sumatripan, contra enxaqueca, que estimula a liberação do hormônio de crescimento GH e que, por sua vez, inibe o cortisol, hormônio do stress. A injeção de solução salina no dia seguinte desencadeou um aumento do nível do hormônio de crescimento e uma queda da concentração de cortisol – independentemente de o médico ter acompanhado a aplicação da injeção de sugestões positivas ou negativas.

Um campo bastante promissor para o uso de placebos é o das alergias. Um segundo estudo de Marion Coebel demonstra isso. Ela condicionou pacientes com intolerância à poeira com a administração de uma bebida nova junto com Desloratadin, droga bloqueadora do efeito das histaminas que servem como mensageiras nas reações alérgicas, por cinco dias. Os pacientes que receberam, durante a fase evocatória, um placebo com a bebida, sentiram-se melhor e o teste de pele de alergia teve resultados mais leves.

Além disso, a resposta imunológica enfraquecida também foi detectada pela atividade de determinadas células de defesa – um efeito que não pôde ser atingido somente pela instauração de uma expectativa positiva.

Por meio de qual mecanismo fisiológico os placebos influenciam a resposta imunológica? Uma coisa é certa: nenhum caminho escapa da passagem pelo cérebro. Quando nosso grupo identificou áreas neurológicas que desempenham papel importante no condicionamento de ratazanas, com ciclosporina A e sacarina, o córtex insular revelou-se uma região-chave. Mas a amígdala, que comprovadamente participa de processos de apredizagem, também foi indispensável para o condicionamento imunológico.

Considerando que a maioria dos efeitos placebo apoia-se em uma combinação de condicionamento com expectativa positiva, as respostas imunológicas e hormonais são mais influenciadas pelo condicionamento do que por desejos conscientes. Os dados experimentais também mostram que o efeito placebo quase sempre é maior quando há condicionamento anterior com medicamento efetivo do que em situações em que o pseudomedicamento já é utilizado desde o início do tratamento.

A importância e o condicionamento poderiam explicar por que até hoje não se conseguiu identificar características de personalidade que tornem uma pessoa mais ou menos suscetível aos placebos. Por outro lado, a apresentação do pseudomedicamento é importante: tamanho, cor, frequência da administração e até mesmo o nome – inclusive quanto tempo o médico dedica ao paciente. Hoje os pesquisadores partem do princípio de que o efeito placebo é acentuado quando o procedimento médico parece mais complicado. O uso do pseudotratamento, portanto, distancia-se do simples comprimido sem substância ativa e aproxima-se da simulação convincente de um tratamento real.

Nesse contexto, causou sensação um experimento realizado em 2004 por Cynthia McRae, da Universidade de Denver, no Colorado, no qual pesquisadores implantaram neurônios embrionários no cérebro de pacientes com Parkinson – ou só fingiram que o faziam! Realmente, os 30 voluntários haviam concordado em participar de testes. Pouco antes de iniciar o procedimento, o cirurgião abria um envelope lacrado que o informava se faria uma operação real ou aparente. Em seguida, ele realizava todos os passos da operação em detalhes, apenas as células-tronco faltavam na preparação, em parte das intervenções. Surpreendentemente, após um ano não houve nenhuma diferença significativa em relação aos pacientes dos dois grupos – nem nas suas condições físicas, nem nas psíquicas. Somente a suposição dos voluntários de que tinham participado do grupo que realmente sofreu a intervenção cirúrgica ou dos pseudo-operados influenciou a forma como se sentiram depois.

Os últimos resultados das pesquisas libertam o efeito placebo do limbo do inacreditável e do superficial e o transformam em um recurso terapêutico promissor. Cada vez mais se difunde a ideia de que quando os profissionais da saúde não apenas reforçam a crença dos pacientes no sucesso do tratamento, mas também utilizam conscientemente estímulos condicionados, os benefícios podem ser efetivos – e fazer grande diferença no processo de cura.

APRENDER SEM PERCEBER

Durante a fase de associação, uma ratazana recebeu durante vários dias consecutivos um medicamento imunossupressor (ciclosporina A) como estímulo incondicionado (EI). Concomitantemente, foi oferecida água adoçada com sacarina ao animal e este estímulo neutro transformou-se em estímulo condicionado (EC) por meio do “emparelhamento temporal”. Na chamada “fase evocatória” do experimento, os animais receberam a solução de sacarina sem o medicamento. Resultado: somente a presença da bebida (os animais a evitam depois da etapa de aprendizagem) leva a uma resposta imunológica mais fraca. Quais áreas cerebrais participam da reação imunológica condicionada? Em animais com o córtex insular lesionado (aqui visível em um corte aumentado de um cérebro de rata­ zana) não se pode mais observar a imunossupressão condicionada. Ao que tudo indica, essa área neurológica representa a região-chave para a associação de estímulos químicos (EI e EC). Porém, uma amígdala intacta também é indispensável, mas apenas na fase de associação. O hipotálamo, por sua vez, é necessário só na fase evocatória. Ele provavelmente funciona como uma espécie de porta de saída e regula o caminho do sinal imunossupressor dentro do corpo.

NEM TÃO INÓCUO ASSIM

Os placebos produzem o efeito que seu nome promete: por meio da liberação de dopamina e endorfina, despertam sentimentos agradáveis. Não importa se em forma de comprimido, talismã ou como encenação de uma cirurgia, os placebos funcionam desde que o paciente tenha expectativa de melhora. Os resultados levantam a questão sobre propriedade de uso de comprimidos de lactose ou de amido. Especialistas recomendam o uso de placebos em regime de abstenção de drogas. Afinal, o aumento da produção de dopamina não exigiria necessariamente uma “substância” forte – bastaria um pouco de pó branco, mas inofensivo. Mas é preciso ser prudente. Pois os placebos também não são completamente inofensivos. Há pacientes que reclamam de efeitos colaterais típicos, como sequidão bucal, cansaço, tontura e mesmo distúrbios de visão. Observa-se até mesmo a ocorrência de delírios de abstinência após a suspensão dos pseudo medicamentos.

E mais forte é a objeção segundo a qual os placebos não equivalem aos medicamentos substituídos. Eles produzem efeito, mas de outra maneira. Assim, Helen Mayberg, da Universidade Emory, em Toronto, adverte para o risco do uso exclusivo de placebos. Em seus pacientes depressivos, o medicamento Prozac atuou não apenas com mais eficácia, mas um exame com tomografia por emissão de pósitrons (TEP) indicou também que o fármaco verdadeiro provocou reações em mais regiões do cérebro, em comparação aos efeitos do pseudomedicamento.

EU ACHO …

VITÓRIA NOSSA

O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.

Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que já tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PANDEMIA, ANO 2

As mudanças de protocolos e tratamentos ocorridas depois de doze meses de Covid- 19 por meio dos heróis de Jaleco do Hospital Albert Einstein, em São Paulo no diagnóstico da doença

Faz só um ano e parece uma eternidade. O presidente Jair Bolsonaro divulgara um vídeo convocando a população a apoiá-lo em uma série de manifestações contra o Congresso Nacional; programadas para dali a vinte dias, em 15 de março.  As primeiras páginas dos jornais publicaram a foto do humorista Marcelo Adnet, destaque da escola de samba São Clemente, na pele do capitão que ocupa o Planalto, com o ridículo gesto da arma nas mãos. Na véspera, a Viradouro atravessara a Sapucaí com pinta de campeã, ao contar a história das lavadeiras da Lagoa do Abaeté, em Salvador. Em um dos camarotes da avenida, a atriz Malu Mader temia pelo fracasso de Regina Duarte na Secretaria de Cultura. Roberto Carlos levava ao delírio milhares de fãs a bordo do navio MSC Fantasia, atracado em Búzios. A Amazon abria seu primeiro supermercado sem caixas nos Estados Unidos. Donald Trump não parava de tuitar. Íamos ao cinema para ver Minha Mãe é uma Peça 3. E, então, como senha para o início de um novo tempo, na noite da terça-feira 25, o Ministério da Saúde anunciou a descoberta do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil. Na sua edição, VEJA daria capa com uma chamada forte: “Ele está entre nós”.

Aquele 25 de fevereiro, terça-feira gorda de Carnaval, hoje é história, capítulo inicial de uma Quarta-Feira de Cinzas que se estenderia por doze meses infindáveis, e ainda está entre nós — e, não por acaso, a festa de 2021 nas ruas e nos clubes foi cancelada, triste e necessariamente. Naquele dia de 2020, a diretoria do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, avisou as autoridades de que, na segunda-feira 24, um homem de 61 anos, J.C.F.C, que chegara três dias antes de uma viagem a trabalho na Lombardia, no norte da Itália, com embarque em Milão e conexão em Paris, fora ao pronto-socorro da instituição paulistana com sintomas típicos de Covid-19 — tosse seca, febre, dor de garganta e coriza. Com resultado positivo, anunciado a uma bióloga por WhatsApp, ele fora liberado para isolamento doméstico e rigoroso acompanhamento do estado clínico. O mundo contabilizava então 2 834 mortes em decorrência do vírus, 2 747 delas na China, e 82 329 casos. Hoje são 2,4 milhões de mortes, das quais mais de 250.000 no Brasil, e pelo menos 110 milhões de casos globais. Há um ano, de modo a acompanhar os primeiros passos hospitalares depois do susto inicial, no Brasil, estivemos no coração do Albert Einstein, mergulhado em um dia a dia de responsabilidade e drama — voltou agora para descrever os avanços de tratamento e as mudanças de protocolos, com muito mais compreensão do vírus, mas colossal pressão imposta por um ano extenuante na luta contra o inimigo invisível. O novo cotidiano do Einstein que registramos ajuda a trilhar uma aventura humana ancorada na ciência que poderia receber o seguinte título: “Pandemia, ano 2”. “O surto não está sendo um marco apenas para o Einstein”, diz Sidney Klajner, presidente da instituição. “Mudou profundamente a forma de trabalhar e as reações emocionais dos profissionais de saúde em todo o país.”

Na história oficial da chegada do novo coronavírus ao Brasil, caberá sempre espaço para um personagem central, o infectologista Fernando Gatti, 44 anos. Foi ele quem suspeitou estar diante do primeiro caso de infecção e quem, depois da alta, nunca mais abandonou os laços de amizade e carinho com o paciente zero. Os dois estabeleceram uma relação de extrema confiança. O executivo, que desembarcara da Itália, e que nunca quis se expor publicamente, procura o médico com frequência para discutir e tirar dúvidas a cada nova notícia sobre a infecção. O peso de estar no coração da pandemia desde o princípio foi avassalador na vida de Gatti. O movimento de seu consultório aumentou 150% ao longo do ano. As mensagens de pacientes e colegas em busca de informações sobre a doença passaram a piscar no celular dia e noite, sem parar. Em um ano, engordou 10 quilos e conviveu muito pouco com o filho de 3 anos. Foi diagnosticado com a chamada síndrome de Burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, distúrbio provocado pela exaustão extrema, sempre relacionada ao trabalho. A percepção veio quando começou a sentir um cansaço crônico e ter ataques de choro sem motivo palpável. Parou por dez dias, foi tratado com antidepressivos, e terminou por voltar em ritmo igual. Atendeu pacientes na véspera e nos dias de Natal e Ano-Novo. “Começamos praticamente do zero e com extrema dedicação, mas estamos conseguindo mudar o percurso da Covid-19”, diz ele.

A figura de Gatti, o pioneiro, é espelho de uma engrenagem incansável do Einstein — a de atenção com os cuidados terapêuticos e a absorção de novidades na briga contra a pandemia. O Einstein é simultaneamente vetor de descobertas e esponja de reputados estudos internacionais. Pelo menos cinquenta especialistas, entre médicos, biólogos, farmacêuticos e equipes de enfermagem, foram designados a ler, traduzir e compilar artigos científicos sobre o vírus — num total de estrondosos 30 000 trabalhos esmiuçados. Dentro de duas semanas, a nova empreitada será a participação nos testes de uma vacina, a Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, com aplicação de doses em 3.600 voluntários. Outros dois imunizantes devem também entrar para o rol de pesquisas do hospital. Desse modo, o Einstein sabe fazer parte de um movimento único na história da medicina moderna, no qual foram investidos globalmente 20 bilhões de dólares em 61 países, na lida com oito vacinas já sendo injetadas e outras dezesseis em fase de investigação final. É corrida que parece estar refletida permanentemente nos vidros e corredores de uma organização de saúde pega no olho do furacão.

Aprende-se a cada minuto, de uma ponta a outra da doença, da contaminação às terapias. Já não há, entre os orgulhosos profissionais de jaleco do Einstein, o receio dos dias iniciais. “Quando chegava um paciente com Covid-19, pensávamos que invariavelmente seríamos contaminados pelo vírus”, diz o infectologista Moacyr Silva, 47 anos, na linha de frente do atendimento de doentes contaminados, que foi capa de revistas em 2020. “Com o tempo, percebemos que a paramentação correta reduz o risco ao mínimo.” As incertezas iniciais em torno da proteção mais primária chegaram a ser estimuladas até mesmo pela própria Organização Mundial da Saúde, que minimizou por um bom tempo a importância do uso de máscaras — e, sabe-se hoje, portá-las é tão imprescindível quanto manter o distanciamento social. Os equipamentos de segurança do Einstein são usados, acertadamente, à profusão. Os números são homéricos. Em um ano, foram quase 11 milhões de máscaras utilizadas, entre as cirúrgicas simples e a mais recomendada, a já famosa N95. Até agora, o Einstein registrou 3 351 profissionais da saúde infectados, o equivalente a 20% do total, quase a metade da média global. Entre eles, ressalve-se, o próprio Moacyr Silva — que, atrelado à modéstia dos grandes, ainda assim insiste em celebrar o pequeno risco de quem se protege adequadamente.

Os obstáculos a que foram submetidos heróis como ele, e não há exagero em tratá-lo desse modo, resultaram em vitórias. Os bons frutos decorrentes dos esforços médicos podem ser contabilizados, um ano depois. Hoje, no Brasil, a taxa de mortes é de 2,65% dos infectados e a de pessoas recuperadas de 97,35%. No longínquo mês de março, a proporção era outra: 38,72% de recuperação e 61,28% de mortalidade. Um dos grandes motores dessa inversão foi o entendimento de se estar lidando com uma doença que vai além de um problema respiratório e pulmonar. O novo coronavírus ataca vários órgãos do corpo, em especial o cardiovascular. Estudo publicado na revista Jama Cardiology identificou a presença do microrganismo no músculo cardíaco em 60% das vítimas autopsiadas. O vírus aumenta o risco de trombose, coágulos que se formam dentro de um vaso. “Quatro em cada dez mortes por Covid-19 são em decorrência de complicações cardíacas”, diz Ludhmila Hajjar, professora de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e intensivista da Rede D’Or. Era informação até há pouco tempo desconhecida. O controle cardíaco é, portanto, atalho para remissões mais rápidas e consistentes.

Descobriu-se também que o vírus provoca muitas vezes uma reação do sistema imunológico exagerada e isso faz com que o organismo crie uma intensa atividade inflamatória, difícil de controlar. Os corticoides, potentes anti-­infla­ma­tó­rios são agora introduzidos nos tratamentos, capazes de acalmar o processo e reduzir o número de mortes em 30%. Foi crucial, ainda, o investimento na redução do tempo de resultado dos testes de rastreamento de Covid-19. O mais elaborado deles, o chamado PCR, considerado o padrão ouro no diagnóstico da doença, chegou a demandar um prazo de dez dias para entregar resultados. “Hoje, totalmente automatizados, exigem somente dois dias, e logo será apenas um”, diz João Renato Rebello Pinho, coordenador do Laboratório de Técnicas Especiais do Einstein.

Há entusiasmo, depois de tanta descrença, mas há ainda um bom caminho pela frente rumo ao fim da pandemia, e as curvas atuais no Brasil impõem cautela. “Estamos quase empatando o jogo contra o vírus”, diz Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. “E, quando isso ocorrer, será uma questão de muito pouco tempo para vencê-lo de vez”. As novas variantes estão entre os desafios para a ciência. Ainda não há consenso se são mais ou menos letais, mas sabe-se que aumentam o número de reinfecções, como se verificou em Manaus, origem de uma das mutações recentes do novo coronavírus. Pesquisa publicada na revista Science mostrou que cerca de 80% da população da capital amazonense já tinha anticorpos da doença e, mesmo assim, parte dela se reinfectou com a nova variante. A questão: vacinas serão eficazes contra elas? Muito provavelmente sim, é o que indicam trabalhos recentes. Todos os vírus mudam seu material genético, e na maioria das vezes as mutações não conferem vantagens nem desvantagens, são meras consequências aleatórias e naturais. O agente da gripe, por exemplo, tem uma taxa de mutação que é o dobro em relação às identificadas no novo coronavírus. A do HIV, quatro vezes maior. Estima-se que as vacinas para Covid-19 tenham de ser reformuladas a partir de 2022 — mas não agora. Não há aí nenhum grande susto. Todo ano os antígenos para gripe têm de ser modificados. “Até o próximo ano, a eficácia dos imunizantes atuais será suficiente para reduzir dramaticamente o número de mortes, casos graves e hospitalizações”, diz Salmo Raskin, geneticista da Sociedade Brasileira de Genética Médica que participou da equipe internacional do Projeto Genoma Humano.

A pandemia virou o ano vivíssima, assusta, mas já não pode ser resumida ao espanto e imprevisibilidade dos tempos inaugurais, quando um profissional como Fernando Gatti começou a enfrentar o desconhecido, e teve de vencê-lo na marra. A melhor imagem atual talvez seja a de seu sorriso largo, embora tímido, na terça-feira 16, ao exibir o registro de vacinação com a CoronaVac do Butantan. Assim, de maneira esperançosa, ancorada nas certezas científicas, começa o segundo ano da pandemia.

CURVAS DE ESPERANÇA

Os avanços da medicina no tratamento da infecção hoje salvam mais vidas (taxa de recuperação e mortos em porcentagem no Brasil

O RETRATO DA INFECÇÃO

Os casos no mundo

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE FEVEREIRO

GENEROSIDADE, FONTE DA PROSPERIDADE

A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado (Provérbios 11.25).

A prosperidade não é resultado da usura, mas da generosidade. A avareza é a mãe da pobreza, mas a generosidade é a progenitora da prosperidade. Aqueles cujo coração foi aberto por Deus têm mãos e bolsos abertos para socorrer os necessitados. Jesus Cristo disse que mais bem-aventurado é dar do que receber. A contribuição não é um favor que fazemos às pessoas, mas uma graça que recebemos de Deus. Quando abrimos a mão para ofertar, estamos investindo em nós mesmos e semeando em nosso próprio campo. Quem dá ao pobre empresta a Deus, que jamais fica em débito conosco. Deus multiplica a sementeira daquele que semeia na vida dos seus irmãos. Quem dá alívio aos outros, alívio receberá. A Bíblia diz: Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição dos seus inimigos. O Senhor o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama (Salmos 41.1-3). Quando damos a beber a quem tem sede, dessedentamos a nós mesmos. O bem que fazemos aos outros retorna para nós em dobro. No reino de Deus temos o que damos e perdemos o que retemos.

GESTÃO E CARREIRA

CONTROLAR OU NÃO CONTROLAR?

No home office de emergência da pandemia essa é uma questão que tem causado muitas dúvidas. Veja o que fazer

O trabalho à distância parece ter vindo para ficar. De acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, a prática deve crescer 30% no mercado brasileiro pós-crise. Embora o teletrabalho tenha caído nas graças das companhias, existem diversas dúvidas jurídicas sobre a questão. Uma delas diz respeito à jornada: é necessário controlá-la em casa?

A Reforma Trabalhista, aprovada em 2017 e parte da legislação vigente, diz que não e que acordos devem ser feitos entre empregado e empregador. O problema que a aplicação Integral do trabalho remoto em caráter de emergência tem causado Interpretações diferentes sobre a lei.

Para remediar os efeitos da pandemia, partiu do Executivo a edição da Medida Provisória 927 em março de 2020, que isentou empregadores de regras estipuladas na CLT para a adoção de teletrabalho, como a necessidade de aceite do empregado para iniciar suas funções na modalidade remota ou aviso prévio de 15 dias e aditivo contratual – o prazo caiu para 48 horas. Além disso, a MP suspendeu a necessidade de fazer uma adição ao contrato de trabalho falando sobre o home office. A medida provisória não foi votada pelo Congresso, o que garantiria sua vigência. Suas disposições tem se mantido de pé apenas pelo decreto de calamidade pública, aprovado pelo Senado em março, que tinha data de validade até dezembro de 2020. O que vai acontecer depois é incerto. Por isso, é preciso se preparar.

Para o especialista em direito empresarial, Marcus Vinícius de Carvalho Ribeiro, embora a CLT explicite que não é preciso supervisionar o tempo de jornada no teletrabalho, empregados em regime de home office transitório (que estão assim exclusivamente por causa da pandemia e que, em algum momento, retornarão às atividades presenciais) devem ter algum tipo de monitoramento. É necessário que as empresas tenham o controle de jornada, pois não há Legislação olhando para esses casos”, diz.

Benefícios como cadeira ergonômica e ajuda de custo para despesas de internet e luz também não são obrigatórios legalmente. Mas Andrea Massei, sócia da divisão trabalhista do escritório de advocacia Machado Meyer, faz um alerta: “Algumas convenções coletivas têm previsões nesse sentido e estipulam taxas fixas mensais que a empresa deve pagar para fins de ajuda no custeio do acréscimo de despesas”.

VAMOS COMBINAR

Como prevenção, os advogados sugerem a criação de uma política interna de home office e a redação de aditivos contratuais. “Se as empresas têm a intenção de permanecer nesse regime, é importante regular seus aspectos: como o teletrabalho vai acontecer, quem é elegível, quais são as questões de segurança, medicina, custeio e equipamentos”, diz Andrea.

Segundo Jacqueline Resch, fundadora da consultoria Resch RH, o controle de ponto por meio de acesso à máquina do funcionário tem sido uma opção adotada por algumas empresas. Porém, isso não é necessariamente efetivo na garantia de produtividade e entregas. E mais: lideranças com perfil de micro gerenciamento podem acabar frustradas por não entenderem a forma de produtividade mais flexível que o momento pede.

Neste mundo em que tudo muda constantemente, ninguém – nem o líder – dá conta de ficar no micro gerenciamento -, analisa.

Mas as companhias precisam ficar atentas. Por não haver ainda multas decisões sobre o pagamento de horas extras em regime de teletrabalho, Marcos Vinícius alerta ser imprevisível como os juízes vão julgar o tema daqui para a frente. Porém, se um empregado se sentir excessivamente cobrado e pressionado a trabalhar muito mais horas para dar conta das tarefas e não tiver a intrajornada respeitada, ele poder recolher provas (troca de mensagens em aplicativos como WhatsApp e de e-mails, por exemplo) e requerer indenização por assédio moral e recebimento de horas extras. “É muito fácil comprovar a hora extra considerando conversas por meios eletrônico”, diz Marcus Vinícius.

TRÊS ASPECTOS IMPORTANTES

Fornecer condições de trabalho e alinhar direitos e deveres faz a diferença

FERRAMENTAS

O empregador não é obrigado por lei a fornecer ferramentas de trabalho, mas pode ser acionado judicialmente em caso de doença adquirida pelo funcionário durante o teletrabalho. No dia a dia, a falta dessas ferramentas também pode impactar na produtividade individual.

REGRAS

Os trabalhadores que adotaram o teletrabalho durante a vigência da Medida Provisória 927 podem permanecer sem aditivo contratual e aceite. Já os que entrarem nesse regime após o fim da vigência da MP precisarão de aditivo contratual, aceite e aviso sobre home office com 15 dias de antecedência.

É recomendável criar políticas internas descrevendo direitos e deveres de empregados e empregadores.

ALTERNATIVA

Uma alternativa para o controle de jornada é realizar um ritual de metodologia ágil chamado daily. Nele, os membros de uma equipe têm entre 15 e 30 minutos para dar um panorama geral das tarefas que vão realizar no dia, sinalizar para o gestor as entregas do dia anterior e apontar as dificuldades presentes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOU DEIXAR PARA AMANHÃ …

A tendência à procrastinação tem comprometido a carreira, a saúde e a vida financeira de muita gente; embora a biologia possa ser responsabilizada – pelo menos em parte – por esse hábito, é possível se livrar dele

Um jovem advogado, denominado aqui pela inicial de seu primeiro nome, R., era conhecido no escritório por adiar o retorno de importantes ligações de negócios e a assinatura de súmulas legais. O comportamento que a princípio parecia inofensivo passou aos poucos a ameaçar seriamente sua carreira, o que o fez buscar a ajuda do psicólogo clínico William Knaus, de Longmeadow, Massachusetts. Ele entregou a R. uma sinopse de duas páginas sobre procrastinação, pediu-lhe que a lesse e “verificasse se a descrição se aplicava”.

R. concordou em fazê-lo durante um voo para a Europa. Em vez disto, assistiu a um filme. A seguir, prometeu que leria na primeira noite no hotel, mas caiu no sono cedo. Depois disto, a cada novo dia, surgia algo mais urgente a ser feito. No fim, segundo o cálculo de Knaus, o advogado gastou 40 horas adiando uma tarefa que ele completaria em, no máximo, 15 minutos.

O fato é que quase todo mundo ocasionalmente adia decisões e tarefas. É o que o economista Piers Steel, professor da Universidade de Calgary, no Canadá, define como procrastinar voluntariamente uma ação pretendida, apesar de saber que essa atitude lhe trará consequências negativas – que poderia facilmente evitar. Mas é preocupante que, assim como R., cerca de 20% dos adultos adiem rotineiramente atividades que melhor seria se fossem realizadas imediatamente. De acordo com uma pesquisa de 2007, coordenada por Steel, o problema aflige colossais 90% dos universitários, cujos horários acadêmicos lotados e distrações como “festa na república” os colocam em situações de desconforto.

Procrastinar não significa programar deliberadamente tarefas menos cruciais para momentos futuros. O termo é mais adequado para situações em que uma pessoa deixa de seguir essa lógica e acaba adiando as tarefas de maior urgência. Ou seja, se o simples pensamento sobre o trabalho de amanhã provoca um arrepio no pescoço ou a compulsão de fazer algo mais trivial, a pessoa provavelmente estará procrastinando.

O pendor para adiamento cobra seu preço. A procrastinação acarreta perdas financeiras, coloca em risco a saúde, prejudica relacionamentos e põe fim a carreiras. “A procrastinação mina o bem-estar, mas pode haver ganhos secundários recorrentes do mau hábito: os perpetuamente vagarosos parecem obter benefícios emocionais da tática que é sua marca registrada, que sustenta a inclinação humana de evitar o desagradável”, observa o psicólogo Timothy A. Pychyl, diretor do Grupo de Pesquisa de Procrastinação da Universidade Carleton, em Ottawa.

Ao longo da vida, aprendemos a adiar atividades, mas certos traços estruturais da personalidade aumentam a probabilidade de uma pessoa adquirir o hábito. “Procrastinação é uma dança entre o cérebro e a situação”, diz Pychyl. A concepção “natureza versus criação” faz parte de uma nova linha de pesquisa sobre o processo e a prevenção da procrastinação.

FALTA DE FOCO

Sucumbir às seduções do adiamento pode ser custoso. Especialistas estimam que 40% das pessoas tiveram uma perda financeira por causa da procrastinação, grave em alguns casos, por adiar pagamentos, decisões acerca de investimentos, compras ou vendas. Em 2002, os americanos pagaram US$ 473 milhões a mais em impostos como resultado da pressa e dos erros consequentes. A exiguidade dos fundos para a aposentadoria entre os americanos pode ser, em parte, atribuída ao fato de as pessoas adiarem o momento de separar de lado algum dinheiro. E no Brasil a prática de “deixar para a última hora” é cada vez mais comum.

A procrastinação também pode pôr a saúde em risco: depois de realizar uma triagem para colesterol alto em mais de 19.800 pessoas, a epidemiologista Cynthia Morris e colegas da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon relataram em 1990 que 35 % dos que tomaram conhecimento de que tinham colesterol elevado adiaram a consulta com um médico por pelo menos cinco meses. Em 2006, a psicóloga Fuschia Sirois, da Universidade de Windsor, em Ontário, relatou em um estudo com 254 adultos que os procrastinadores tinham níveis mais altos de stress e problemas agudos de saúde, em comparação com indivíduos que concluíam as tarefas no momento oportuno. Os procrastinadores também fizeram menos checkups médicos e odontológicos e tiveram mais acidentes domésticos, resultado do adiamento de tarefas monótonas, como a manutenção de utensílios eletroeletrônicos.

A aversão a tarefas é um dos principais gatilhos externos da procrastinação. Quem deixa para fazer depois algo que adora? De acordo com a análise de Steel, metade dos estudantes universitários pesquisados citou a natureza da própria tarefa como o motivo da protelação. Sem dúvida, poucos se entusiasmam com a tarefa de escrever uma dissertação sobre a reprodução dos nematoides ou de limpar o armário. “Procrastinação muitas vezes tem a ver com a falta de projetos em nossa vida que realmente reflitam nossas metas”, diz Pychyl.

Somos mais propensos a nos distrair e a procrastinar quando o prazo parece a entrega de um projeto está distante. O motivo está num fenômeno conhecido como retardo temporal, que significa que quanto mais perto uma pessoa estiver de uma recompensa (ou de uma sensação de realização), mais valiosa parecerá a gratificação e, portanto, menos provável será que ela adie a realização do trabalho necessário para merecê-la. Em outras palavras, gratificação imediata é mais motivadora que os prêmios ou louvores a serem acumulados num futuro distante – o que pode ter forte base evolutiva. O futuro para as pessoas da   Idade da Pedra era, na melhor das hipóteses, imprevisível. “Portanto, havia verdade no dito ‘mais vale um pássaro na mão que dois voando’. Em prol da sobrevivência, os seres humanos têm tendência à procrastinação embutida em seu cérebro”, diz Pychyl.

Em 2004, o neurocientista Barry Richmond e colegas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos relataram a descoberta de uma base biológica dessa tendência. Primeiro, a equipe treinou macacos a soltar uma alavanca sempre que um ponto vermelho na tela do computador se tornasse verde. Quando as cobaias continuavam a soltar corretamente a alavanca, o brilho de uma barra cinza aumentava, deixando que os animais soubessem que estavam se aproximando de uma recompensa, uma guloseima. Assim como os procrastinadores humanos, os animais eram relaxados durante as primeiras etapas do experimento, cometendo muitos erros. Mas quando o saboroso prêmio ficou mais próximo, os animais permaneceram na tarefa e cometeram menos equívocos.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que o neurotransmissor dopamina, um dos responsáveis pela sensação de recompensa, poderia estar na base desse comportamento. Trabalhando com Richmond, o geneticista molecular Edward Ginns utilizou um engodo molecular chamado DNA antissentido para impedir parcialmente a produção de um receptor de dopamina na região do cérebro dos macacos chamada córtex rinal, que associa indícios visuais com recompensa. A intervenção diminuiu os efeitos da dopamina até o ponto em que os animais não conseguiam mais prever em que momento do experimento teriam a guloseima. Assim, eles reforçaram as apostas, trabalhando duramente o tempo todo.

Mas nem todos os macacos com respostas diminuídas de dopamina se comportaram da mesma maneira. Alguns permaneceram sossegados depois do tratamento que reprimia a dopamina, empenhando-se pouco, mesmo quando o tempo até a recompensa diminuiu. Essa observação nos alerta sobre as características individuais da procrastinação: alguns de nós somos mais propensos a ela.

No final do século XX, alguns psicólogos começaram a estudar cinco grandes traços que se combinam para descrever a personalidade: conscienciosidade, afabilidade, neuroticismo, abertura a experiências e extroversão. De acordo com Steel, o grau em que uma pessoa exibe cada um desses traços ajuda a determinar a inclinação desse indivíduo à procrastinação.

A característica mais fortemente ligada à procrastinação é a conscienciosidade – ou a falta dela. Uma pessoa altamente conscienciosa é zelosa, organizada e diligente. Portanto, alguém que não apresente esse traço tem alta probabilidade de procrastinar. “Impulsivos também são proteladores em potencial. Não conseguem proteger uma intenção da outra, portanto, distraem-se à toa com as tentações – digamos, a oferta de uma cerveja – que surgem repentinamente no meio de um projeto, como redigir um trabalho de fim de semestre “, diz Pychyl.

FÓRMULA DO ADIAMENTO

A procrastinação também se origina da ansiedade, uma ramificação do neuroticismo. Muitas vezes, procrastinadores protelam por medo do fracasso, receio de cometer um erro ou de não lidar bem com o sucesso. Estes traços de personalidade entram em cena em situações particulares, em combinação com o ambiente. Os pesquisadores agora estão tentando capturar a interação natureza-criação para unificar as teorias existentes da procrastinação e predizer quem tem propensão ao adiamento de tarefas importantes e em quais circunstâncias. Steel desenvolveu uma fórmula matemática que define “utilidade”, ou seja, quão desejável uma tarefa é para um indivíduo. Para determinar a utilidade de uma tarefa e, portanto, a probabilidade de uma pessoa realiza-la imediatamente, Steel reúne quatro fatores básicos, expectativa (E), valor (V), retardo até a recompensa ou punição (D) e sensibilidade pessoal ao retardo (f), na seguinte equação:

Quando uma pessoa espera se sair bem numa atividade ou valoriza essa tarefa, é mais propensa a fazê-la. Logo, um número maior para expectativa ou valor aumentará a utilidade. Por outro lado, se uma recompensa ou punição se situar muito longe no futuro ou se uma pessoa for particularmente “sensível”, implicando distraível, impulsiva ou com falta de autocontrole, ela será bem menos propensa a fazer a tarefa, pelo menos a tempo.

Vários cientistas discordam da ideia de que um comportamento humano complexo possa ser definido por uma fórmula matemática. “Isto nos leva a acreditar que, se eu colocar números ali eu poderia lhe dizer o que você estará fazendo na próxima sexta-feira”, explica Pychyl. Mesmo assim, a equação de Steel é uma tentativa inicial de unificar várias teorias motivacionais e psicológicas da procrastinação e de dar um arcabouço para futuras pesquisas.

Em lugar de quantificar os traços de personalidade e resolver fórmulas, alguns pesquisadores preferem “extrair” a psicologia por trás do comportamento. Dois elementos importantes no desejo de deixar que os projetos desmoronem são a sensação de desconforto com uma atividade e o desejo de evitá-lo. “Um procrastinador diz, ‘eu me sinto horrível com uma tarefa’, e, portanto, me afasto para me sentir melhor”, explica Pychyl. O psicólogo Joseph Ferrari, da Universidade DePaul, cunhou a expressão “procrastinador por esquiva” para descrever aquele em quem a evitação é a principal motivadora.

Outro propulsor psicológico da protelação é a indecisão. Digamos que uma mulher pretende visitar uma amiga no hospital Em lugar de simplesmente apanhar as chaves e sair, a procrastinadora indecisa começa a debater internamente se irá de carro ou pegará o metrô. A dúvida pode continuar até que passe tempo bastante para que o horário de visita se encerre.

Uma terceira explicação muitas vezes citada para um atraso irracional é o estado de excitação. O “procrastinador pela excitação ” jura que trabalha melhor sob pressão e precisa da adrenalina do último minuto para dar a partida. Essa pessoa acredita que a protelação propicia uma experiência que o psicólogo Mihaly Csíkszentmihályi, da Escola Drucker de Administração da Universidade de Pós-Graduação de Claremont, define como se perder na atividade. Nesse momento, é como se o tempo desaparecesse e o ego se dissolvesse.

Mas procrastinação não facilita o fluxo, de acordo com o cientista social Eunju Lee, da Universidade Halla, da Coreia do Sul. Em 2005, ele relatou uma pesquisa com 262 estudantes e descobriu que os procrastinadores tendiam a ter menos, e não mais desse tipo de experiência. Afinal, uma pessoa precisa conseguir se libertar de si própria para “se perder” dentro de uma experiência, e os procrastinadores geralmente têm dificuldade em fazê-lo.

Pychyl e seu aluno de pós-graduação Kyle Simpson mediram os traços associados à excitação, entre os quais a busca de emoções e a extroversão, em estudantes que frequentemente procrastinavam. Na tese de doutorado de Simpson, ele e Pychyl mostram que nenhuma dessas qualidades explicava o desperdício de tempo que os estudantes relatavam. Portanto, provavelmente, os procrastinadores não estão realmente precisando de excitação, mas usam a crença de que precisam da pressão do último minuto para justificar o fato de estarem se arrastando vagarosamente, quando, na verdade, tentam contornar o desprazer. Outros, protelam estrategicamente os projetos como desculpa para um eventual mau desempenho. Dizem a si mesmos ou aos outros que poderiam ter se saído melhor se tivessem começado antes. Tal estratégia pode, em alguns casos, servir de escudo para um ego frágil.

TRUQUES DO OFÍCIO

Procrastinação nem sempre é prejudicial. Em uma pesquisa de 2007 com 67 universitários, que se reconheciam como “adiadores” de tarefas, o psicólogo Gregory Schraw, da Universidade de Nevada, Las Vegas, e colegas aprenderam que esses estudantes tinham encontrado maneiras criativas de usar o mau hábito a seu favor. Muitos deles, por exemplo, só escolhiam cursos nos quais o professor oferecia um sumário detalhado, em lugar de um esboço grosseiro, dos trabalhos a serem entregues. Essa especificidade permitia adiamentos “planejados”: os estudantes poderiam programar como prorrogar a execução da tarefa e, desta forma, se dar ao luxo de ter o máximo de tempo para atividades mais atraentes.

Para lidar com a culpa e a ansiedade acarretadas pela espera até o último minuto, alguns jovens adquiriam logo todos os livros necessários para a realização do trabalho – e os punham numa prateleira. Os estudantes diziam que, quando faziam isso, era como se “colocassem na prateleira” os incômodos pensamentos sobre a tarefa. Também se desviavam da culpa, dizendo a si próprios: pelo menos providenciei os livros. Só 48 horas antes do prazo para a entrega do projeto o procrastinador passava a produzir freneticamente para conseguir terminar a tarefa. Consequentemente, os estudantes faziam o máximo num tempo mínimo – com um mínimo de dor.

Portanto, embora esses alunos estivessem adiando o trabalho por mais tempo do que deveriam, ainda assim conseguiam terminar a tarefa e, ao mesmo tempo, manter a sanidade. Schraw enfatiza que seu estudo não pretende defender a procrastinação, mas destacar que a prática é capaz de engendrar algumas aptidões úteis para a sobrevivência, como planejamento tático, para realizar uma tarefa em tempo limitado e com o mínimo de tensão. “A moral da história é que as pessoas protelam na tentativa de ter uma vida mental melhor”, diz Schraw.

HORA MARCADA

Mas nem todos os especialistas concordam com ele. De fato, a análise de Steel sugere que 95% dos procrastinadores gostariam de mudar essa característica, mas não conseguem. “Hábitos são processos cerebrais não conscientes. Quando a procrastinação se torna crônica, uma pessoa está essencialmente andando em piloto automático”, diz Pychyl.

Alguns especialistas sugerem substituir o reflexo de protelação pelas prescrições de ação cronologicamente determinadas. O psicólogo Peter Gollwitzer, das Universidades de Nova York e de Konstanz, Alemanha, aconselha a criação de “intenções de implementação”, que especificam onde e quando uma pessoa exibirá determinado comportamento. Então, em vez de colocar uma meta vaga como “vou ficar saudável”, ela define uma estratégia, inclusive cronológica, embutida: digamos, vou encaminhar amanhã, às 7h30″, por exemplo, ou “a partir de hoje deixo de comer carne vermelha”.

PRAZOS PRÓPRIOS

A definição de prescrições tão específicas parece realmente inibir a tendência de procrastinar. Em 2008, o psicólogo Shane Owens e colegas da Universidade Hofstra demonstraram que procrastinadores que produziam intenções de implementação eram oito vezes mais propensos a cumprir uma intenção do que aqueles que não usavam esse recurso. ‘Você precisa criar, de antemão, um compromisso específico com uma hora e lugar em que você agirá. Isto o tomará mais propenso a ir até o fim”, diz Owens.

Um cronograma inteligente também pode frustrar a procrastinação. Em um experimento de 2002, o economista comportamental da Universidade Duke, Dan Ariely, que na época era do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e o professor de marketing Klaus Wertenbroch, da lnsead, uma escola de administração com campi na França e Cingapura, pediram a alunos de um curso para executivos que determinassem seus próprios prazos para a entrega de três monografias naquele semestre. Ariely e Wertenbroch estabeleceram punições, impostas para aqueles que se atrasassem. Entre os estudantes, 70% escolheram datas de entrega espaçadas ao longo do semestre, em vez que agrupá-las no final do curso. O curioso foi que aqueles que definiram prazos menores se saíram melhor, em média, que os frequentadores de um curso similar, no qual Ariely definiu uma única data para os três artigos no final do semestre. Tal planejamento pode neutralizar a inclinação para adiar o trabalho.

Pychyl aconselha os procrastinadores a “simplesmente dar a partida”. Frequentemente, a expectativa de realizar a tarefa se revela muito pior do que a realização em si. Para demonstrar este fato, o grupo dele, num trabalho publicado em 2000, deu pagers a 45 estudantes e entrou em contato com os voluntários 40 vezes num intervalo de cinco dias para perguntar sobre o seu humor e com que frequência estavam adiando uma tarefa que tinham prazo para cumprir. “Verificamos que, quando os voluntários realmente fazem a tarefa que estão evitando, as percepções que têm da atividade mudam significativamente. Muitos deles realmente gostaram de fazê-la.”

EU ACHO …

POTÊNCIA E FRAGILIDADE

E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho entrou no meu olho esquerdo: duas vezes ciscos, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez perguntei ao Dr. Murilo Carvalho, cirurgião dos Oculistas Associados, e também um artista em potencial que realiza sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo:

– Por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência?

Ele respondeu não; que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de “olho diretor”. E, por ser mais sensível, disse ele, prende o corpo estranho, não o expulsa.

Quer dizer que o melhor olho é aquele que mais sofre. É a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a dor insuportável de um cisco ferindo e arranhando uma das partes mais delicadas do corpo.

Fiquei pensativa.

Será que é só com os olhos que isso acontece? Será que a pessoa que mais vê, portanto, a mais potente, é a que mais sente e sofre. E a que mais se estraçalha com dores tão reais quanto um cisco no olho.

Fiquei pensativa.

SIM

Eu disse a uma amiga:

  • A vida sempre superexigiu de mim. Ela disse:
  • Mas lembre-se de que você também superexige da vida. Sim.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

HISTÓRIAS PARA ADULTOS

Aplicativos com contos de ninar viram sensação entre pessoas com dificuldade para dormir – técnica já validada pela ciência

Os contos de fadas nem sempre foram puros, delicados e construtivos, afeitos a fazer as crianças sonhar com a vida. A bruxa que comia uma menina de chapeuzinho vermelho a devorava mesmo, como metáfora da fome que grassava na Europa da Idade Média. Eram relatos feitos por adultos e para adultos. Foi apenas no século XVII, com a ”invenção” da infância, em residências com quartos separados entre pais e filhos, com compreensão mais detalhada das faixas etárias, que surgiram as histórias infantis, adaptadas e divulgadas pelo francês Charles Perrault (1628-1703). E foram todos felizes para sempre… Não é novidade, portanto, do ponto de vista histórico, que os grandões se interessem por ouvir narrativas idílicas e oníricas, por vezes assustadoras, com uma moral lá no desfecho. O novo – e interessante – é que pais e mães voltem a procurar textos dessa linhagem, modernizados, e com um objetivo: acalmar-se.

A onda da hora: celebridades internacionais e nacionais têm emprestado a voz, invariavelmente doce e aveludada, para acalanto por meio de aplicativos. O Caim, desenvolvido nos Estados Unidos e já lançado no Brasil, chegou a mais de 100 milhões de downloads. No YouTube há dezenas de canais especializados no recurso. A fórmula é descrever ambientes e sensações. Os personagens costumam ser graciosos. Já lançaram áudios desse gênero as atrizes Kate Winslet, Eva Green e os atores Matthew McConaughey, Idris Elba e Cauã Reymond. Uma campeã nacional é a mineira Juliana Tamietti, que faz da meditação uma arte, ao postar vídeos com histórias para dormir ao menos três vezes por semana.” Recebo inúmeras mensagens de pessoas dizendo que estão menos ansiosas e de famílias que buscam os áudios para relaxar juntas”, diz ela. Os tempos atuais, mergulhados nos temores da pandemia, aceleraram o movimento de busca por paz.

Há uma explicação científica para o fato de gravações em tom monocórdio ajudarem os adultos a cair no sono. A chave é o “foco”, mecanismo cerebral que envolve, sobretudo, as emoções e a memória. Se os pensamentos estão direcionados para problemas ou atividades que precisam ser feitas no dia seguinte, o sono demora para se instalar. “Essas histórias funcionam porque permitem prestar atenção em algo totalmente diferente do que causa o stress”, explica Leonardo Ierardi Goulart, neurologista especialista em medicina do sono do Hospital Albert Einstein. As historinhas, contudo, não funcionam como tratamento para quem sofre de insônia crônica – são apenas alento para momentos de tensão. E entregam a adultos o que contos de fadas sempre fizeram com os pequenos. Como disse René Diatkine (1918-1997), um dos lendários psiquiatras infantis franceses, em entrevista, em 1993: “Ouvindo histórias, ou lendo-as, a criança cria um espaço em sua cabeça para um mundo mágico literalmente fabuloso. Ela aprende a reagir a situações desagradáveis e a resolver seus conflitos pessoais”. Os adultos redescobriram esse fascinante caminho.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE FEVEREIRO

MÃOS ABERTAS, BOLSOS CHEIOS

A quem dá liberalmente, ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo, ser-lhe-á em pura perda (Provérbios 11.24).

Na economia de Deus, você tem o que dá e perde o que retém. O dinheiro é como uma semente: só se multiplica quando é semeado. A semente que se multiplica não é a que comemos nem a que guardamos, mas a que semeamos. A semeadura generosa terá uma colheita farta, pois a quem dá liberalmente ainda se lhe acrescenta mais e mais. É o próprio Deus quem multiplica a nossa semente e faz prosperar a nossa sementeira quando abrimos a mão para abençoar. Mãos abertas produzem bolsos cheios. O contrário, porém, também é verdadeiro. Ao que retém mais do que é justo, isso lhe será em pura perda (Provérbios 11.24). Vazará dentre os dedos. É como receber salário e colocá-lo num saco furado. Aqueles que acumulam com avareza o que poderia socorrer o aflito descobrem que esse dinheiro acumulado não lhes pode dar felicidade nem segurança. Aqueles que ajuntaram fortunas e viveram no fausto e no luxo, deixando na penúria o próximo à sua porta, descobrirão que, quando a morte chegar, não poderão levar um centavo. Não há caminhão de mudança em enterro, nem gaveta em caixão. Mas o que você dá com generosidade é como uma semente bendita que se multiplica e alimenta milhares.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO: COACH DE INSTAGRAM

As mídias sociais se tornaram a vitrine do momento para quem oferece serviços de coaching. Entenda como escolher um bom profissional e não se deixar enganar por curtidas e número de seguidores

Se você está em uma rede social, certamente já foi impactado por um post (ou anúncio) de algum serviço de coaching. Não é à toa. A internet está repleta desses profissionais. Uma simples busca pela palavra “coach” no Instagram traz mais de 43 milhões de menções. O número dá uma amostra de como o serviço se popularizou nas mídias sociais: são fotos, imagens inspiradoras, vídeos, stories e transmissões ao vivo com frases motivacionais, dicas sobre carreira, liderança e, claro, forte divulgação do trabalho de coaching feito pelos mais diferentes profissionais.

Alguns deles, inclusive, têm números estratosféricos: garantem ter turbinado mais de 100.000 currículos ou ter recolocado 100% de seus clientes. O que nem sempre corresponde à realidade. “Existe muito marketing e é fácil encontrar uma mensagem apelativa e sedutora”, diz Mário Pires de Moraes, gerente de pesquisa e criação de conteúdo do Instituto Brasileiro de coaching (IBC).

O efeito colateral da popularização do coaching – importante para consolidar a atividade e ajudar no desenvolvimento de muitos executivos – é a banalização da prática, o que gera grande desconfiança sobre a categoria. Em meio a tantas ofertas e promessas, o profissional de RH se vê diante de um desafio ao ter que procurar um coach para atuar com sua equipe, correndo o risco de cair na charlatanice.

CLAREZA DE OBJETIVOS

Saber o que quer é o ponto inicial na busca por um profissional desse tipo – pode ser que a companhia precise aplicar coaching, mentoring ou assesment, por exemplo. E esses três serviços, diferentes entre si, não são claros para as pessoas. De acordo com uma pesquisa global da lnternational Coaching Federation (ICF), apenas 30% das pessoas sabem o que é, de fato, coaching.

A gama de trabalhos de um coach varia: o profissional pode ser contratado para atuar pontualmente na resolução de um problema de performance de um funcionário ou de uma equipe, ou para auxiliar a liderança a conduzir uma profunda transformação cultural. “Entender onde está estagnado, o que precisa desenvolver, quais são os bloqueios, por que acreditou que o coach seria a solução – o profissional de RH tem que ter tudo isso definido ao contratar um coach”, explica Ricardo Basaglia, diretor-geral da consultoria de carreira e recolocação Page Group.

Mas um bom coach não faz milagre e costuma ser especializado em algumas questões ou em níveis hierárquicos. Portanto, um sinal de alerta podem ser aqueles profissionais muito generalistas, que fazem de tudo e com um trabalho muito padronizado, ou que usam uma   metodologia única. “O coach que diz resolver todos os problemas normalmente não resolve nenhum”, alerta Ricardo.

DIVÃ OU AUTOAJUDA?

É importante lembrar que coaching é uma metodologia de desenvolvimento profissional que tem como meta potencializar a performance. Não por acaso, o coach empresta o nome em inglês do treinador esportivo, que usa técnicas e métodos para explorar o potencial máximo do atleta de alto rendimento. A prática entrou no mundo corporativo, inicialmente, com foco na formação de lideranças e acabou absorvida. A questão é que ainda confunde-se coaching com terapia. “A prática não vai ocupar o lugar da psicologia jamais; é uma ferramenta”, explica Mario, do IBC. O especialista ainda lembra que não há problema em um psicólogo atuar como coach, desde que haja a compreensão geral de que as atividades não são as mesmas, mas complementares.

Outro ponto de atenção é o viés de autoajuda. Um profissional sério não vai dizer o que deve ser feito nem entregar fórmulas prontas baseadas em metodologias rasas – ou em metodologia nenhuma. A construção é sempre conjunta e tem como objetivo, como explica a ICF, “estimular o coach a maximizar seu potencial”.

Por isso, a entrevista é um dos momentos mais importantes para a escolha do coach. A recomendação de Eliete Gomes, master coach para a América Latina da consultoria LHH, é que uma das principais perguntas a se fazer seja “Como você acha que pode me ajudar?”. Isso auxilia a entender qual é exatamente a expertise do candidato. Também é importante pedir detalhamento sobre a metodologia e as ferramentas utilizadas e verificar quanto o coach está realmente interessado em compreender o problema que precisa ser resolvido, ou se está apenas “vendendo método”, nas palavras deRicardo, do Page Group.

DE OLHO NAS CERTIFICAÇÕES

A pesquisa global da ICF apontou também que, para os consumidores, um obstáculo na contratação de um coach são “pessoas não certificadas que chamam a si mesmas de coachs”. A mesma pesquisa revelou que a grande maioria considera muito importante haver profissionais credenciados, tanto entre aqueles que já tiveram a experiência de um processo (83%) como entre os que nunca fizeram isso (70%).

Para Eliete, é fundamental checar as escolas de coaching e se fixar nas certificadas, já que trabalham as competências necessárias para ser um bom profissional, com horas de estudo, prova escrita e oral, e sobretudo mantêm o código de ética do coach. A ICF, por exemplo, periodicamente faz uma reciclagem desse manual de conduta, que precisa ser acompanhada por seus membros e credenciados, os quais recebem créditos pela atualização no tema.

Esses cuidados são relevantes, já que não existe regulamentação da atividade no Brasil e ela tem se popularizado por aqui. De acordo com a ICF, nosso país tem 211 coachs cadastrados. Na América Latina, ficamos atrás somente da Argentina e do México. Mas apenas oito brasileiros detêm o certificado Master Certified Coach (MCC), que exige mais de 200 horas de treinamento e 2.500 horas de prática.

O certificado não resolve tudo. É necessário saber o quanto o profissional está atualizado   sobre as mudanças do mercado. Na pandemia, liderança à distância, transformação digital e empatia ganharam ainda mais força, e os coaches precisam estar por dentro de tudo isto. Resta ao RH verificar como o profissional acompanha as tendências. Afinal, as competências agora são diferentes das de um ano atrás, e as lideranças precisarão de apoio para a transformação – mas apoio sério, e não anúncios de que é possível mudar a vida depois de assistir a uma live e curtir posts de Instagram.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VALE QUANTO CUSTA?

Transações financeiras costumam ser marcadas por emoção e irracionalidade; o curioso é que o excesso de autoconfiança, a excessiva valorização de nossos bens em detrimento do que pertence ao outro, e a dificuldade de admitir decisões equivocadas podem causar prejuízos – ou lucros

Um homem que sabe lidar perfeitamente com dinheiro, calcula com tranquilidade, mantém sempre a cabeça fria em questões financeiras e toma decisões lúcidas. Assim, encontra a melhor solução para si, seja na bolsa de valores, na vida pessoal ou no e-bay. Seu nome: Homo oeconomicus. Esse administrador tão eficiente, porém, existe apenas no papel. E é um modelo fictício com o qual economistas descrevem a atuação humana na economia. De maneira geral, ele deve ser racional e voltado para o próprio lucro. Porém, os psicólogos estão convencidos de que o Homo oeconomicus é pura ficção – um ideal com o qual o consumidor comum não tem quase nenhuma semelhança. Há mais de 30 anos pesquisadores tentam provar com experimentos comportamentais que, quando se trata de dinheiro, com frequência nos deixamos guiar pela irracionalidade e pelos sentimentos.

Tudo começou na década de 70 com os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Após uma série de estudos, eles chegaram à conclusão que realizamos avaliações lógicas somente com base em simples regras gerais, as chamadas heurísticas. Para demonstrar a incapacidade lógica do homem, em 1994, os psicólogos Veronika Denes-Raj e Seymour Epstein, da Universidade de Massachusetts, encheram dois potes com balas de geleia vermelhas e brancas. A tarefa dos voluntários que aceitaram participar do experimento era fazer o possível para, de olhos vendados, pegar uma bala vermelha de um dos dois potes. No recipiente menor havia dez balas, entre elas, uma vermelha. O grande continha 100 balas, dentre as quais cinco vermelhas. Os participantes foram informados de que sua chance de sucesso no pote pequeno era de 10% e no grande, de 5%. Apesar de saberem que estavam agindo de forma ilógica, a maioria dos jogadores decidiu pegar a bala do pote grande.

Aparentemente, eles não atentaram para a porcentagem das balas vermelhas, mas para o seu número absoluto, segundo Denes-Raj e Epstein. No primeiro caso, eles imaginavam apenas uma bala diante de si, no segundo, cinco. Os psicólogos chamam isso de poder do contador ou cegueira fracional: apesar de a chance de pegar uma guloseima vermelha estar mais associada ao número de balinhas brancas, elas foram ignoradas pelos participantes. As pessoas evidentemente não estão acostumadas a lidar com probabilidade – o que pode prejudicar muito seu sucesso econômico.

A incapacidade do homem de agir racionalmente pode ser observada nas mais simples atividades rotineiras: por exemplo, em supermercados nos quais os clientes têm de andar no sentido dos ponteiros do relógio para chegar ao caixa, eles gastam mais dinheiro do que em lojas estruturadas segundo o princípio anti-horário. Pessoas que fazem compras com cartão de crédito, em vez de usar dinheiro vivo, tendem a comprar mais. Diferentemente do que acontece com o Homo oeconomicus, para o indivíduo “normal”, de carne e osso, aparentemente vale a regra: dinheiro não é igual a dinheiro. Por isso, ele entrega sem pensar duas vezes o dinheiro de plástico ao caixa da loja, mas se separa com dificuldade das moedas verdadeiras que tilintam nos bolsos de sua calça.

A suposição de que o homem deseja fundamentalmente aumentar seus ganhos parece, em princípio, óbvia. Porém, também nesse caso os psicólogos fazem suas objeções. Como o pesquisador americano, já falecido, Richard Hernstein pôde comprovar em inúmeros experimentos, as pessoas têm em vista principalmente ganhos em curto prazo. Não as interessa tanto se, com uma decisão, terão sucesso a longo prazo em um jogo financeiro. “Temos mais dificuldade de calcular os benefícios de uma alternativa que se estende no tempo e, com isso, tendemos a ‘garantir’ ganhos momentâneos, ignorando possibilidades melhores no futuro”, diz o psicólogo de economia, Erich Kirchler, da Universidade de Viena. Diferentemente do Homo oeconomicus, em geral, somos mais espontâneos e fixados no presente.

Segundo Kirchler, essa lógica vem desde a infância. Se crianças podem escolher entre um chocolate grande e outro pequeno, invariavelmente optam pelo grande. Se, no entanto, tiverem de decidir entre receber uma barra pequena hoje e uma grande amanhã, escolhem frequentemente a menor – desde que imediatamente. Se, porém, lhes perguntarmos se querem ter um tablete pequeno de chocolate daqui a sete dias ou se preferem um grande em oito, eles se decidem inversamente. “Nesse caso, um dia ou dois a mais ou a menos deixa de ter importância para muitos e a escolha recai sobre o chocolate grande”, observa Kirchler. Racional isso não é, afinal, o atraso de 24 horas deveria ser igualmente ruim, independentemente de quando esse período de espera for acrescido. O fato de pessoas muitas vezes abrirem mão de um lucro maior a fim de parecerem justas perante seus semelhantes vai contra a teoria de que há um excessivo e generalizado interesse em obter lucros. Atualmente, pesquisadores estudam por meio de técnicas de neuroimagem quais fundamentos neurobiológicos levam à decisões irracionais nos chamados jogos de dilema ou ultimato. Será que o homem age fundamentalmente de forma irracional? Será que lhe faltam discernimento e know-how em questões relacionadas a dinheiro? Provavelmente, a maioria dos psicólogos cognitivos responderia a essas perguntas com um sim. Porém, economistas têm outra visão. Para eles o Homo oeconomicus nascido no final do século XIX, ainda não perdeu sua utilidade.

Talvez até mesmo a imagem do racional protagonista do mercado Homo oeconomicus esteja com seus dias contados. Tanto os opositores quanto os defensores desse modelo buscam suas provas em três grandes áreas: a pesquisa voltada para a overconfidence, segundo a qual os homens são pequenos impostores que superestimam suas capacidades e chances de sucesso; a pesquisa endowment, que mostra como tendemos a considerar nossos bens mais valiosos do que realmente são; e, por fim, a pesquisa commitment, que procura investigar o mecanismo que faz pessoas se manterem irracionalmente ligadas a projetos econômico que trazem prejuízos.

Desde os anos 80, psicólogos sempre voltam a oferecer provas de que aproximadamente dois terços dos adultos se consideram melhores do que a média, não importa se se trata de dirigir, fazer contas ou construir casas. Do ponto de vista estatístico, eles obviamente estão errados em sua suposição – porém, há uma boa causa para sustentar essa crença, como acredita o ganhador do Nobel de Economia, Daniel Kahneman: “A combinação de otimismo e autoconfiança exagerada é uma das mais importantes forças motrizes que mantêm o capitalismo vivo”.

CANBERRA OU ADELAIDE?

Mas será que o orgulho excessivo é realmente uma característica humana fundamental? O economista Ralph Hertwig, da Universidade de Basiléia, na Suíça, reuniu junto com Andreas Ortmann, alguns experimentos que demonstram que a supervalorização de si mesmo poderia ser também um “artefato metodológico”, ou seja, ser evocada pelo planejamento do experimento pelos pesquisadores. Pois em estudos nos quais a “sobreconfiança” foi detectada, quase sempre foi apresentada uma escolha arbitrária de perguntas – ou mesmo questões que deviam confundir propositalmente os sujeitos. Uma dessas perguntas seria: “Qual cidade tem mais habitantes: (a) Canberra ou (b) Adelaide, ambas na Austrália?”. A resposta correta é Adelaide, mas a maioria dos participantes escolhe a primeira opção e, em geral, estão bastante seguros de sua escolha. Um claro caso de supervalorização de seus próprios conhecimentos? Não, acreditam Hertwig e Ortmann. Pois Cabrera é uma capital – e capitais quase sempre são também as maiores cidades de um país. Assim, a confiança dos sujeitos não é irracional. Em estudos nos quais a escolha das perguntas reflete melhor a realidade, o desempenho dos sujeitos também está mais de acordo com a sua confiança declarada, segundo os economistas.

Um outro mecanismo frequentemente estudado por psicólogos macula a imagem do Homo oeconomicus racional: o homem tem orgulho de seus bens, por isso não gosta de vender suas coisas – mas quando o faz exige valores fantasiosamente altos. Cientistas falam em “endowment”: efeito da dotação. “Segundo ele, consideramos um objeto A que chamamos de nosso mais valioso do que um B, idêntico ou comparável, que não consta entre nossas propriedades”, diz o economista Georg Kirchsteiger, da Universidade Livre de Bruxelas. Quem possui algo, superestima o valor dessa propriedade em, aproximadamente, duas vezes mais – pelo menos do ponto de vista de potenciais compradores. Kahneman demonstrou o efeito da dotação no início dos anos 90 em um experimento. O psicólogo distribuiu canecas de café aos participantes de seu experimento com as palavras: “Elas agora lhes pertencem”. Em seguida, pediu-lhes que marcassem em uma lista o preço pelo qual estariam dispostos a vender as canecas. Por fim, apresentou os mesmos objetos a um grupo de compradores e quis saber quanto eles pagariam por elas. Resultado: os proprietários das canecas de café pediram por elas, em média, US$ 7,12 a compradores potenciais, que, porém, se propunham a pagar apenas US$ 2,78.

PRESENTE E BOM HUMOR

As descobertas sobre o efeito da dotação têm sido replicadas com variados objetos. Não importa que se trate de canetas, iPods ou maçãs – o resultado é o mesmo. As empresas tiram proveito desse princípio ao oferecer a interessados a possibilidade de testar aparelhos caros, como televisões, durante um período. Dessa forma, os clientes começam a se sentir “proprietários”. A consequência: o valor subjetivo do produto aumenta – e, com isso, também a disposição para comprá-lo. Experimentos na área de estudos do cérebro poderiam explicar por que temos tanta dificuldade em nos separar de nossas coisas: quem vende algo experimenta isso como perda, e ela dói, no sentido literal. Como comprovou Ben Seymour, do Centro Wellcome Trust de Neuroimagem, em Londres, perdas financeiras e dor física são processadas nas mesmas regiões cerebrais.

Em situações de negociação, porém, a avaliação errônea pode ser vantajosa: pessoas nas quais o efeito da dotação é mais forte, são mais duras e mais bem-sucedidas em transações comerciais. Há pouco tempo, os pesquisadores Charles Plott, do Instituto California de Tecnologia, e Kathryn Zeiler, do Law Center, de Georgetown, porém, mostraram que há situações em que o efeito de dotação desaparece. Primeiro eles realizaram o clássico “jogo da dotação”. Distribuíram lápis e canecas aos participantes do experimento com as palavras: “Nós os presenteamos com estes objetos”. Em seguida, as pessoas preencheram um questionário enquanto suas “propriedades” permaneciam à sua frente. Por fim, foi pedido que negociassem entre si. Como de costume, cada pessoa superestimou o seu bem, motivo pelo qual ocorreram poucas transações.

Em uma segunda rodada, os pesquisadores variaram o experimento: os lápis e as canecas foram distribuídos com a informação: você ganhou isso em um sorteio! Além disso, os questionários foram preenchidos sem que os objetos estivessem diante deles. Essas pequenas mudanças já bastaram para aniquilar o efeito de dotação. Plott e Zeiler acreditam que as pessoas, em parte, apenas negociaram suas propriedades a um valor superestimado porque as consideravam um presente do coordenador do experimento – e as pessoas não gostam de trocar presentes por dinheiro. Se eliminarmos esse gosto emocional, o efeito de dotação enfraquece notavelmente.

Quando as pessoas estão de bom humor, a ideia de propriedade se torna mais fraca, como demonstrou a psicóloga Ayelet Fishbach, da Universidade de Tel Aviv. E mais: quando as pessoas se aconselham com terceiros ou negociam alguma coisa que adquiriram apenas para revender, o efeito também some. Assim, para não perder seu objetivo de vista, as pessoas muitas vezes se prendem a crenças e estratégias, mesmo que elas já tenham se mostrado irracionais há muito tempo. Cientistas falam em “commitmenr, ou seja, compromisso. ‘Damos valor àqueles que permanecem fiéis a seus objetivos e confrontam todas as resistências “, diz o psicólogo Roman Soucek, da Universidade de Nüremberg-Erlangen. O problema, porém, é que muitas pessoas se fixam em planos irreais. ‘Todo compromisso pode e deve ser revisto, infelizmente há os que não se oferecem essa oportunidade e fazem investimentos escalonados”, diz Soucek. Nessa situação, o investidor, por exemplo, pode aplicar cada vez mais dinheiro em uma decisão que já causou altos prejuízos.

Em um típico cenário de laboratório, a pessoa assume o papel de um empresário com a tarefa de decidir se deve investir no produto A ou no B. Ao fazer sua escolha recebe a seguinte informação: este produto teve piores resultados no mercado em comparação ao outro que você não quis continuar desenvolvendo. Em seguida, a pessoa deve decidir em que projeto colocará o dinheiro da empresa. “O curioso é que a maioria permanece no caminho tomado e continua investindo no produto mal­ sucedido. Mesmo quando fornecemos repetidamente o feedback de que sua decisão foi errada e custosa”, diz Soucek. Pesquisas mostraram ainda que quanto maior a sensação de proximidade de um objetivo, mais relutantes as pessoas se tomam em deixar o rumo escolhido, por mais desastroso que se mostre. E quanto mais tempo alguém se mantém ligado a uma decisão, mais próximo ele crê estar, subjetivamente, de seu objetivo – mesmo que isso não seja assim objetivamente. Segundo a psicóloga motivacional, Veronika Brandstatter, da Universidade de Zurique, quem trabalha durante muito tempo com uma meta, costuma pensar: “Agora acho que logo vai dar certo!”. E nesse processo os novos prejuízos são percebidos como menos graves, uma vez que a pessoa já se acostumou ao prejuízo.

Como comprova um estudo publicado em 2008 por pesquisadores coordenados por Kim Wong, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, pessoas que têm forma de pensar extremamente racional encontram dificuldades em rever decisões equivocadas. “Supostamente, elas reúnem bons motivos a favor ou contra uma decisão. A partir do momento em que se comprometem, consideram sua escolha como extremamente refletida e por isso não se questionam tão rapidamente quando há problemas”, afirma Wong. Como também existem exemplos de projetos que, após situações aparentemente sem solução, acabam sendo bem-sucedidos; se manter fiel a objetivos definidos não é, necessariamente, irracional. “É difícil definir a partir de que momento manter-se preso a um objetivo é evidentemente um erro”, reconhece Soucek. Afinal, desistir cedo demais de um objetivo também é um risco. Ou seja: alguns comportamentos que, à primeira vista, podem parecer irracionais, podem trazer vantagem em longo prazo. Que os céus nos protejam!

ECONOMISTAS X PSICÓLOGOS

O pesquisador Andreas Ortmann, da Universidade Karls, em Praga, está convencido de que as pessoas, de maneira geral, agem racionalmente. Quase sempre experimentos originários da área econômica comprovam tal teoria. O motivo da divergência entre psicólogos e economistas, segundo Ortmann, estaria provavelmente no procedimento científico negligente dos primeiros que enganam seus sujeitos da pesquisa – não lhes explicam a verdadeira intenção do experimento. Os psicólogos observam um comportamento apenas uma vez e dispensam novas medições. Com isso, não vêm como os homens são capazes de aprender questões financeiras. Só porque agem irracionalmente na primeira vez, não significa que precisam se comportar da mesma forma na segunda e na terceira vezes.

O psicólogo social Fritz Strack, da Universidade de Würzburg, Alemanha, considera essas críticas injustificadas. Em sua opinião, alguns temas simplesmente não poderiam ser estudados sem omissões. Não é possível chegar, por exemplo, a posturas encobertas se revelarmos nossos motivos como experimentadores. Na medicina, por exemplo, é prática comum trabalhar com placebos. Strack também considera razoável que psicólogos prefiram deixar seus participantes decidir apenas uma única vez em seus experimentos, pois a vida é composta de inúmeras “opções únicas”, como fechamento de contratos de seguro e compra de imóveis. Sua lógica: na vida falta tempo para realizar tudo várias vezes e aprender com os erros. Por que então os pesquisadores deveriam dar esse tempo aos participantes de seus experimentos?

MÉTODO CIENTÍFICO PARA DECIDIR

Para tomar decisões econômicas, frequentemente precisamos avaliar as probabilidades. Para tanto, recorremos a regras simples – as chamadas heurísticas de julgamento. Os psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman apresentaram em 1974 três funcionamentos, várias vezes comprovados experimentalmente, nos quais as pessoas se apoiam. Essas regras gerais não irracionais muitas vezes levam a julgamentos tão bons quanto os obtidos por meio de complicados processos intelectuais.

Heurística da representatividade. Será que o vizinho um pouco tímido, mas que adora ordem e detalhes, é bibliotecário ou pedreiro? As pessoas quase sempre arriscam o palpite de que ele trabalha com livros, pois sua descrição é representativa para esse grupo profissional – ou melhor, para o clichê relacionado à profissão. Porém, elas se esquecem da “porcentagem básica”: existem claramente mais pedreiros que bibliotecários, por isso, muito provavelmente o vizinho também trabalha com um martelo na mão.

Heurística da disponibilidade. Em português há mais palavras que começam com “c” (como “capela”) ou palavras com “c” na terceira posição (como “macaco”)? A maioria das pessoas aposta no primeiro caso – e erram. Motivo: é mais fácil reativar na memória palavras iniciadas por “c”, pois elas estão mais disponíveis mentalmente. Pela mesma razão, as pessoas também consideram mais provável a ocorrência de acidentes sobre os quais leram há pouco no jornal. Talvez isso explique, pelo menos em parte, porque tanta gente tem medo de andar de avião, mas não de carro, uma vez que acidentes aéreos têm muito mais destaque na mídia.

A heurística da âncora. Qual porcentagem de países africanos é membro da Organização das Nações Unidas (ONU)? Uma pergunta capciosa. Por isso, ao responder, os sujeitos gostam de se ligar a uma “âncora”, ou seja, um número à disposição no momento, pelo qual se orientem. A origem dessa âncora é bastante arbitrária: quem girou uma roleta anteriormente e tirou um número alto, estimou a porcentagem dos membros da ONU maior do que os sujeitos aos quais o jogo de azar forneceu um número baixo.

A MENTE EM BUSCA DA SATISFAÇÃO

Já na década de 30, Freud mencionou a possibilidade de estudar fenômenos do âmbito econômico com ajuda de ideias desenvolvidas pela psicanálise. Para ele, o fato inquestionável de que diferentes indivíduos, etnias e nações se conduzem de forma variada, sob as mesmas condições econômicas, por si só é bastante para mostrar que os motivadores de decisões que envolvem economia são inúmeros. É incompreensível que aspectos psicológicos possam ser desprezados quando estão em questão reações dos seres humanos, uma vez que por meio delas os sujeitos dão vazão às pulsões de autopreservação, agressividade, necessidade de ser amados, tendência a obter prazer e evitar desprazer. Tudo isso ficou muito nítido na recente crise econômica que o mundo inteiro vem enfrentando. As decisões, que se apoiam nos passos antecedentes da percepção e avaliação das condições oferecidas, constituem a essência dos atos humanos e reúnem a capacidade de captar informações, analisa-las e ponderar sobre elas, abrindo caminho, assim, para a função especial do pensar que, seguido pelo agir, pode criar e transformar. Segundo a psicanálise, a economia psíquica dos indivíduos e grupos os impulsiona para a satisfação de suas necessidades e desejos. Em Aprendendo com a experiência, Wilfred Bion afirma que se a intolerância à frustração prevalece, mecanismos poderosos envolvendo fantasias onipotentes serão acionados, o que nos relembra diversas situações de avaliação demonstradas experimentalmente por Kahneman e Tversky em seus trabalhos de 1974 e 1979. Naqueles casos, o julgamento frequentemente sofria vieses como, por exemplo, [tirei as preposições] confiança excessiva, facilidade de relembrar ou imaginar, ilusão de validade, correlação ilusória, e tantas outras heurísticas, em vez de uma análise mais isenta, rigorosa e completa dos fatos.

Outro importante fenômeno que vem atraindo o interesse de muitos pesquisadores no mundo todo, devido à sua crescente prevalência, é o endividamento, no que se refere à impossibilidade subjetiva de adiar o gasto, fazendo-se contas mirabolantes para encontrar uma fórmula capaz de justificá-lo frente às reais posses do sujeito naquele momento. O que pode ser mais ilusório do que um cartão de crédito, que parece prometer que tudo é possível e acessível, como se nunca tivesse de ser efetivamente pago? Ou a compra de um veículo, de muitos milhares de reais, que começa com “entrada de R$ 1”, sem chamar a atenção, é claro, para o número de prestações que se seguirão e, menos ainda, para o valor total em que redundarão.

EU ACHO …

BOLINHAS

Não tomo bolinhas. Quero estar alerta, e por mim mesma. Fui convidada para uma festa onde na certa tomavam bolinha e fumavam maconha. Mas minha alerteza me é mais preciosa. Não fui à festa: disseram que eu não conhecia ninguém, mas que todos queriam me conhecer. Pior para mim. Não sou domínio público. E não quero ser olhada. Eu ia ficar calada. Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não? Dizem que é delicada. Vou resolver. Dizem que fala muito de como é. Estou fazendo isso? Não quero. Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. Maria Bethânia me conhece dos livros. O Jornal do Brasil me está tornando popular. Ganho rosas. Um dia paro. Para me tornar tornada. Por que escrevo assim? Mas não sou perigosa. E tenho amigos e amigas. Sem falar de minhas irmãs, das quais me aproximo cada vez mais. Estou muito próxima, de um modo geral. É bom e não é bom. É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

AGORA É ASSIM

Adaptadas à cartilha antivírus, escolas brasileiras reabrem seus portões, dando a largada para sanar as lacunas do ano que passou e com o imenso desafio de atrair a atenção da garotada que perdeu o hábito de estudar

Nesses últimos tempos, aconteceu de tudo na vida estudantil. Muita gente confinada por causa da pandemia se viu de repente sem aula. Aí veio o ensino 100% remoto, depois a fase híbrida, com uma parte da lição na escola e a outra em casa, até que chegaram as férias. E essas foram únicas, com pais, professores e alunos compartilhando a sensação de que a montanha-russa acadêmica acabou por comprometer a aquisição de conhecimento e daquelas habilidades socioemocionais que se aprendem nas trocas humanas. A situação enche a todos de ansiedade e dúvidas sobre o que está por vir no ano letivo que se inicia agora para boa parte dos 47,3 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Meu filho estará mesmo seguro na sala de aula? Como recuperar o que não foi assimilado em 2020? E, após tanto sacolejo, como retomar a rotina de estudos de forma saudável e produtiva?

Para tentar responder a essas perguntas, ouvimos especialistas, famílias e mais de uma dezena de escolas de todas as regiões do país, empenhadas em proporcionar um regresso às carteiras sem solavancos, cercado dos cuidados sanitários que a presença do novo coronavírus ainda impõe. Todas elas vão oferecer a modalidade híbrida, sempre deixando aberta a opção àqueles que preferem por ora manter os filhos em casa. Outro traço que as une é a estratégia de retomar os trabalhos a partir de avaliações que indiquem em que pé da matéria os alunos verdadeiramente estão. “Vamos demorar um tempo para conseguir dar conta doque ficou para trás”, reconhece Christina Sabadell, diretora do colégio Pueri Domus; em São Paulo. Até lá, dá-lhe revisão de disciplinas passadas, mas não sedimentadas. “Sem uma boa revisão de conteúdos-chave, a aprendizagem fica comprometida”, diz Felipe Sundin, diretor-geral do Colégio e Curso AZ, no Rio de Janeiro. Nesse caso, o reforço está sendo oferecido em chamadas virtuais em que as dúvidas são sanadas pelos professores em tempo real e à base de encontros individuais.

Entrar em uma escola nos dias de hoje é um passeio pelo novo normal, recheado de protocolos estabelecidos mundialmente. Máscara, álcool em gel e divisórias de acrílico nas mesas são só o começo. A visão algo distópica segue no pátio, com número reduzido de crianças, monitoradas para que respeitem a distância umas das outras. No Colégio Seriõs, em Brasília, as turmas foram divididas em “bolhas”, compostas de quinze estudantes cada uma. O cronograma é montado para que uma não esbarre com a outra. Ao deixar a garotada no colégio, pede-se aos pais que não saiam do carro. “Como não tivemos nenhum caso de Covid-19 quando abrimos, em outubro, a confiança das famílias em mandar os filhos para o colégio saltou de 42% para 70%”, conta a diretora pedagógica Vanessa Araújo. A vigilância precisa ser permanente. Em São Paulo, o colégio Avenues, por exemplo, fará toda semana testes de Covid-19 nos alunos e na equipe pedagógica.

A batalha que se inicia com a volta às aulas exige um imenso esforço de adaptação de todas as partes. Os alunos se desacostumaram de suas rotinas e, como já foi vastamente medido, isso impactou no desempenho geral. Uma pesquisa da FGV-SP, encomendada pela Fundação Lemann, indica que, se as escolas não agirem ativamente, o atraso em português e matemática pode superar um ano. “A preocupação nesse momento é cultivar o hábito do estudo, difícil de adquirir e fácil de perder”, disse o matemático americano Salman Khan, dono da maior plataforma de aulas on-line do planeta. Também os pais têm um papel relevante no caminho de volta. Os especialistas recomendam que, sobretudo no caso de crianças pequenas, eles redobrem a atenção e, diante de sinais de que o processo está emperrado, acionem o colégio. “A comunicação entre as famílias e a escola é fundamental para que funcione”, enfatiza Olavo Nogueira, da ONG Todos pela Educação.

Para dar conta das matérias que ficaram para trás, os pedagogos de plantão também estão quebrando a cabeça para rearranjar os currículos e fazer caber neles tópicos fundamentais que acabaram não sendo bem absorvidos no ano que passou. Com isso, nasce uma espécie de dois em um, uma fusão entre o que estava programado para 2020 e o previsto para 2021. No Bandeirantes, de São Paulo, o conteúdo que não se encaixar agora será dado ao longo das séries seguintes, de forma diluída. A rede estadual paulista, que retomou o modo presencial na segunda 8, avisa que 2020/2021 serão como “um ciclo único” e lançou um quarto ano do ensino médio, para quem acharque precisa correr atrás do tempo perdido. As escolas municipais do Rio, de portas abertas no próximo dia 15, promoverão remexida semelhante no currículo e, para tentar frear a revoada de alunos sem computador nem celular para embarcar no ensino remoto (um nó que deixou muita gente sem lição), darão acesso às aulas em TV aberta e fechada.

O regresso à lição presencial, mesmo em sistema híbrido, inclui ainda um delicado desafio que extrapola a zona do aprendizado propriamente dito. A quarentena provocou em uma parte da turma mudanças de comportamento que merecem atenção. Uma pesquisa realizada na Espanha e na Itália, países bastante atingidos pela pandemia, revela que 85% dos pais perceberam nos filhos dificuldade de concentração (76%), tédio (52%), irritabilidade (39 %), nervosismo (38%) e solidão (31%). Uma parcela ainda demonstra ansiedade crescente e, às vezes, depressão. “Iniciativas para manter a criançada saudável e com a sensação de acolhimento são essenciais neste período”, frisa Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV. Para os mais novos, isso conta muito. “Desde dezembro, meus filhos participam de um programa de ressocialização. Vão para a escola só para brincar”, fala Carima Orra, 27 anos, mãe de um trio de 2, 4 e 5 anos que volta ao batente no colégio Pen Life, de São Bernardo do Campo, em 18 de fevereiro. “Estamos lidando com uma comunidade que se encontra em patamares diferentes de ansiedade e, por isso, é vital dar acompanhamento psicopedagógico a cada aluno”, afirma Nigel Winnard, diretor da Escola Americana do Rio.

Mandar ou não os filhos à escola é uma decisão individual, mas abrir os portões, dando a opção para quem quer frequentá-la, tem se demonstrado um caminho acertado. Mundo afora, o retorno às aulas presenciais, sempre aplicando a cartilha antivírus, não levou a uma alta de infecção entre os estudantes – ao contrário, ela foi baixíssima, segundo um relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças. Baseada nisso, a agência americana CDC recomendou a retomada das aulas nos Estados Unidos, mantendo-se o olhar atento para as boas regras sanitárias. O Brasil, um dos países que por mais tempo suspenderam a lição in loco – foram quarenta semanas de salas desertas em 2020, segundo a Unesco – , não destoa de tantos outros ao voltar às aulas entre quatro paredes. Se bem que, nestes tempos tão diferentes, até as paredes estão sendo derrubadas. Várias escolas começam a ensinar a matéria em praças, centros esportivos e parques. “Adaptamos sete estações de aprendizagem em parque recém-inaugurado para educar nossas crianças”, orgulha-se Vasti Ferrari, gestora da rede municipal de Jundiaí, a 57 quilômetros de São Paulo. São novos e bem-vindos ares.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE FEVEREIRO

MÃOS ABERTAS, BOLSOS CHEIOS

A quem dá liberalmente, ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo, ser-lhe-á em pura perda (Provérbios 11.24).

Na economia de Deus, você tem o que dá e perde o que retém. O dinheiro é como uma semente: só se multiplica quando é semeado. A semente que se multiplica não é a que comemos nem a que guardamos, mas a que semeamos. A semeadura generosa terá uma colheita farta, pois a quem dá liberalmente ainda se lhe acrescenta mais e mais. É o próprio Deus quem multiplica a nossa semente e faz prosperar a nossa sementeira quando abrimos a mão para abençoar. Mãos abertas produzem bolsos cheios. O contrário, porém, também é verdadeiro. Ao que retém mais do que é justo, isso lhe será em pura perda (Provérbios 11.24). Vazará dentre os dedos. É como receber salário e colocá-lo num saco furado. Aqueles que acumulam com avareza o que poderia socorrer o aflito descobrem que esse dinheiro acumulado não lhes pode dar felicidade nem segurança. Aqueles que ajuntaram fortunas e viveram no fausto e no luxo, deixando na penúria o próximo à sua porta, descobrirão que, quando a morte chegar, não poderão levar um centavo. Não há caminhão de mudança em enterro, nem gaveta em caixão. Mas o que você dá com generosidade é como uma semente bendita que se multiplica e alimenta milhares.

GESTÃO E CARREIRA

ATENÇÃO NA DESPEDIDA

Entrevistas demissionais são um mecanismo importante de coleta de dados e podem evitar a judicialização de conflitos

Desde a Reforma Trabalhista de 2017, o número de novos processos trabalhistas em primeira instância caiu cerca de 30% no país, segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Isso se deve ao fato de os trabalhadores precisarem arcar com os custos caso percam suas ações. Mesmo assim, no ano passado o Brasil contabilizou 1,5 milhão de processos trabalhistas – e as empresas precisam usar diferentes estratégias para se protegerem de questões judiciais.

Uma maneira de fazer isso é aproveitar as entrevistas demissionais, conduzidas pela empresa depois de o funcionário ser informado de que não faz mais parte do quadro da companhia, para mapear problemas de conduta de colegas ou chefes e insatisfações que, no futuro, poderão se transformar em processos (como o não pagamento de horas extras).

“É uma oportunidade para resolver eventuais dúvidas ou conflitos existentes entre as partes, evitando, com isso, que o trabalhador saia da empresa com mágoas ou com a sensação de que foi injustiçado em razão de ter sido desligado”, explica Manoela Pascoal, advogada trabalhista no escritório Souto Correa Advogados. “A empresa sempre tem alguma coisa que precisa ser ajustada, e, nesse momento em que já não faz parte da companhia, a pessoa se sente mais à vontade para contar o que se passa”, complementa Luciana Cordeiro, gerente de RH da Reamp + Jellyfish, companhia de marketing digital.

Renato Santos, sócio da S2 Consultoria, especializada em prevenir e tratar atos de fraude e de assédio nas organizações, destaca que as empresas costumam ser dedicadas aos processos de admissão, mas não dão atenção ao processo demissional. “Esquecem que esse momento pode ensinar a organização sobre vários aspectos, que vão do clima à liderança.”

Foi conduzindo uma entrevista demissional para um de seus clientes que Renato deparou com um caso de corrupção, por exemplo. O funcionário confessou que seu chefe o convidou para participar de um esquema, que já contava com dois colegas da área. O profissional se recusou e, dois meses depois, foi demitido pelo gestor. Ele acreditava que isso havia ocorrido por não ter se juntado ao grupo de corruptos.

O caso foi levado à direção, que o apurou e tomou as medidas cabíveis. “Existem algumas empresas que entrevistam somente quem pediu demissão, porque acreditam que, quando o desligamento parte do gestor, a motivação é clara. Mas isso é uma mentira”, diz Renato.

EVITANDO A JUDICIALIZAÇÃO

Apesar de as entrevistas demissionais não terem força de prova em eventuais processos justamente por acontecerem em um ambiente controlado pelo empregador, recentemente o TST indeferiu o pedido de uma funcionária que solicitava o pagamento de horas extras e indenização por danos morais com base em sua conversa demissional e em um depoimento inicial ao entrar na empresa. “Fundamentaram ser incabível o acolhimento dos pedidos quando a própria empregada declarou em sua entrevista de desligamento que pedia demissão porque conseguira outra oportunidade de trabalho, fazendo comentários positivos acerca de sua relação com a ex-contratante e dizendo que trabalhava em outra companhia no horário em que supostamente teria feito horas extras”, diz Manoela, do Souto Correa Advogados.

Apesar de importantes, as entrevistas demissionais não podem ser obrigatórias e, para que sejam eficazes, devem abordar temas como cultura corporativa, políticas internas e condições de trabalho.

Além disso, é necessário treinar muito bem quem irá conduzir essas conversas para antecipar respostas e condutas, como explica Renato, da S2. “Se existir um relato de assédio sexual, por exemplo, a empresa já precisa ter um direcionamento definido. Se a companhia não fizer nada diante de um caso como esse, a entrevista demissional poderá ser mais prejudicial do que benéfica”.

CJHECK-LIST

Três passos para conduzir boas conversas de desligamento

1. SEM OBRIGAÇÃO

As entrevistas demissionais devem ser facultativas e conduzidas por um profissional neutro – melhor até se for de uma empresa contratada

2. ACOLHIMENTO

Lembre-se de que o funcionário pode estar abalado e deixe claro que o bate-papo é para sanar dúvidas e ouvir feedbacks sobre processos que podem ser melhorados ou sobre condutas inadequadas de chefes ou colegas

3. COLHA EVIDÊNCIAS

Embora as entrevistas não tenham peso de prova, podem compor evidências em eventuais processos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM PALAVRAS

Algumas crianças, como Mário, de 6 anos, passam parte da infância sem dizer uma só palavra fora do círculo de sua família, não se comunicam nem com as professoras ou parceiros de brincadeiras; trata-se do mutismo seletivo, um distúrbio da linguagem vinculado à dificuldade de regular o nível de excitação emocional

O menino de 6 anos já frequentava o jardim-de-infância desde os 4 e ninguém na escola jamais ouvira sua voz. Pelo menos não até aquele dia, quando, por puro entusiasmo, ele deixou escapar três palavras: “Deixa eu agora!”. Queria ver uma câmera fotográfica, tocá-la… “Posso apertar?” A criança tímida, normalmente calada, hoje não desgruda da fotógrafa e de mim. E fala conosco – mesmo que em voz baixa e apenas a uma distância segura de todos os outros. Um fato admirável, considerando que há três anos Mário (a mãe quer seu nome alterado para protegê-lo) se cala sempre que uma pessoa estranha entra na sala – e mantém a boca fechada, bem apertada, para que nenhuma palavra escape. A vigilância o transformou em um mestre do silêncio: quando quer alguma coisa de alguém, puxa a manga da própria blusa, e responde às perguntas balançando a cabeça. E quando se sente pressionado, o que ocorre com facilidade, seus olhos se enevoam e ele fica “ausente”, como se uma cortina interna baixasse.

Os terapeutas têm um termo para esse fenômeno: “mutismo seletivo”. Em determinadas situações, as crianças ou adolescentes não conseguem pronunciar nem uma palavra, apesar de (diferentemente dos “mutistas totais”) terem condições fisiológicas de falar normalmente, o que em geral ocorre quando se sentem seguros, por exemplo, em situações em que estão sozinhos com pessoas muito próximas. A maioria desses pacientes engole até mesmo o riso, choro e gritos de dor. Mário também só fala com algumas poucas pessoas “escolhidas”: a mãe intensamente amada, o pai, os avós, um vizinho, uma colega de sua mãe, um menino mais velho com quem costuma brincar e sua terapeuta, Gabriele Biegler-Vitek (que recentemente desenvolveu um estudo sobre o transtorno na Universidade Danúbio, em Krems). E agora ele falou conosco, duas mulheres desconhecidas. Pediu para explicarmos tudo sobre as câmeras, essas máquinas maravilhosas. “Deixa eu agora!”, uma frase curta, mas uma espécie de marco no caminho de muitos passos pequenos e árduos que Mário trilha há meses na terapia.

Os pequenos pacientes vão ao consultório de Biegler-Vitek pelos motivos mais diferentes, mas os integrantes desse grupo têm algo em comum: mostram-se inibidos e hesitantes, os braços permanecem colados ao corpo, e a cabeça, baixa. Encontram-se toda segunda-feira há mais de um ano. “Tudo bem com você?” pergunta a psicoterapeuta ao loirinho ao seu lado. A roda de aquecimento. Uma após outra, as crianças contam o que viveram na semana passada. “Tudo bem”, sussurra Mário, tão baixinho que eu, três poltronas à frente, mal o ouço. Mantém seu olhar fixo na terapeuta, conta apenas para ela aquilo que deveria dizer a todos. Na próxima hora, a profissional volta a solicitar que se dirija diretamente a um colega quando quiser alguma coisa dele. Mário sempre atende ao seu pedido, mas nunca toma a iniciativa. O mais importante, porém, é que faz algo que normalmente não consegue na escola ou no parque: fala! Para Mário é imensamente difícil encontrar seu lugar entre as outras crianças, e, não raro, fica à margem. No grupo de terapia isso é diferente: sabe que está num ambiente protegido e pode falar no seu ritmo. É como se fosse um campo de treinamento que o prepara para a vida “lá fora”.

TONS ACINZENTADOS

Acredita-se que o mutismo seletivo atinja menos de 1% da população abaixo de 15 anos – mas trata-se apenas de estimativas baseadas em pequenas amostras. O número de casos desconhecidos é provavelmente alto, já que crianças quietas passam facilmente despercebidas. Como as pessoas afetadas não querem chamar a atenção de forma alguma, o problema muitas vezes não é diagnosticado. “O mutista é como a cor cinza sobre um fundo cinza”, comenta Mira, 45 anos, integrante do fórum da Associação de Auto Ajuda ao Mutismo da Alemanha. Ela mesma ficou calada durante longo tempo durante a infância. Segundo diversos levantamentos, aquelas que crescem em ambiente multilíngue são as que mais frequentemente sofrem com o problema. Esse é o caso de Mário, com o qual os pais falam tanto alemão quanto italiano. O risco parece ser ainda um pouco mais alto no caso de imigrantes: talvez porque as crianças se encontrem, de uma hora para outra, em um ambiente estranho, no qual não são entendidas, ou tenham de enfrentar a mudança de sua família.

Muitas vezes, parentes não reconhecem o problema, supõem que a criança é apenas distraída, teimosa ou tímida, principalmente porque raramente é tão reservada em casa. E, não raro, pais, educadores e até psicólogos acreditam que essa dificuldade vai se resolver por si só e “desaparecer com o tempo”. Essa, porém, é uma visão muito simplista, pois o mutismo não é uma recusa a falar, na qual a criança decide, cedo ou tarde, voltar a conversar. Trata-se, na verdade, de um distúrbio grave de fundo emocional e, sem ajuda profissional, ela corre o risco de permanecer continuamente em seu mutismo e solidão. O que significa isso no dia-a-dia? No jardim-de­ infância, por exemplo, Mário não vai ao banheiro porque não consegue falar com a professora. Mais alguns anos sem terapia e ele provavelmente não andaria de metrô na adolescência, não sairia com amigos – caso fizesse algum. E na escola, provavelmente, teria maus resultados. Talvez um psicoterapeuta diagnosticasse um distúrbio do pânico ou uma fobia social.

Frequentemente encontram-se indícios de inibição linguística no decorrer de várias gerações. “Calados nunca vêm de famílias de festeiros”, diz o psicólogo infantil Boris Hartmann, especialista em mutismo. Se essa disposição é transmitida mais fortemente pelos genes ou pela educação ainda é objeto de discussão. De qualquer forma, nas famílias onde há uma criança mutista encontram-se com frequência pais e mães introvertidos, avós extremamente quietas e outros parentes bastante tímidos.

No caso de Mário, o pai também não falava na época em que começou a frequentar a escola, na Itália, mas de alguma forma ele conseguiu escapar de sua mudez. Mas os pais de Mário não querem contar com essa vaga esperança. Junto com Biegler-Vitek, eles formularam uma meta: quando entrar na escola fundamental, Mário terá de estar falando. Uma decisão acertada: quanto mais esperar, mais difícil será o processo. “A criança perde uma parte da socialização que não pode mais ser recuperada. Crianças quietas transformam-se em pessoas fechadas e caladas, algumas não pronunciam nenhuma palavra até a idade adulta”, alerta a psicoterapeuta.

O mutismo precoce começa quase sempre por volta dos 4 anos. Já o “escolar” ou “tardio” aparece entre 5 e 8 anos. Quando Mário entrou no jardim-de-infância se mostrava “tímido e observador”, conta a mãe. Mas adaptou-se rapidamente e, no início, não queria nem mesmo ir embora, de tanto que gostava de lá. Algum tempo depois, porém, ele começou a se retrair e parou de falar com parentes e amigos.

VESTIR PERSONAGENS

No consultório de Biegler-Vitek, as crianças se preparam para a representação semanal de papéis e vestem fantasias: jaquetas, calças e acessórios. Mário pega um chapéu e volta a se sentar. “Quem você quer ser?”, pergunta a terapeuta. “O prefeito”, ele murmura. Por quê? Ele quer cuidar de todos na cidade. Estranho, me dirá Biegler-Vitek mais tarde: “Normalmente, Mário não se arrisca muito”. As regras são combinadas: os “malvados”, o incendiário, o caçador e o espião devem ficar parados e se deixar levar quando o prefeito os encontrar. “Você está preso”, sussurra Mário, e os colegas põem as mãos para a frente. O menino fecha as algemas, mas move-se lentamente, como se o ar fosse composto de gelatina. Para ele, tudo acontece de modo rápido demais.

Segundo a tese de Biegler-Vitek, mutistas têm dificuldades para acompanhar mudanças de emoções e interações sociais. Segundo ela, o distúrbio raramente se desenvolve em consequência de um trauma, como erroneamente supõem alguns. É muito mais provável que seja inato. Enquanto a maioria dos bebês se “desliga” momentaneamente quando recebe estímulos ambientais em excesso, alguns – como Mário – mostram, desde muito cedo, dificuldade de regular seu nível de excitação. Crianças com tendência ao mutismo demoram mais para processar essa auto regulação, acredita Biegler-Vitek. Elas vagam desamparadas nesse mar de sinais que não conseguem classificar nem controlar. Com a pessoa mais próxima, como a mãe, quase sempre se desenvolve uma convivência ativa; mas, tão logo outras pessoas surgem, sente sobrecarregadas. Quando precisa sair do ambiente conhecido que compensa suas fraquezas, essa insegurança se transforma em medo de errar e ser ridicularizadas.

NÃO HÁ CULPADOS

Um perfeccionismo exagerado, típico dessas crianças, reforça o problema: como não consideram a fala e os sinais não verbais suficientes para superar o desconhecido, esses meninos e meninas se calam completamente. Inicia-se então um círculo vicioso: na tentativa de ajudar esses meninos e meninas e tornar as situações menos desagradáveis, outras pessoas passam a falar por eles. Quando a vizinha cumprimenta, a irmã responde. Quando alguém oferece algo, o pai agradece. Se a dona da loja esquece de dar a Mário as balinhas de sempre, ele reclama para a mãe. Rapidamente, aqueles que rodeiam a criança passam a ser seus “intérpretes”. E logo tudo passa a girar em torno dela, muda: em casa ou na escola. Essa posição especial representa ganho secundário do distúrbio. A terapeuta, que também frequenta a casa de seus pacientes, fala sobre pequenos tiranos que dominam, mandam e desmandam em sua família. A família, porém, mal percebe, aceita essa situação ou simplesmente não consegue pôr fim nela.

Tudo isso junto conserva o mutismo. “Mas não o desencadeia”, ressalta a terapeuta. “Nem a mãe nem a família têm culpa da mudez. Elas apenas reagem.” E, quanto mais cedo forem tomadas providências, melhor. Na idade de Mário, com a terapia, a chance de ele voltar a falar normalmente é de nove para uma. Para atingir seu objetivo, a terapeuta aposta na interdisciplinaridade: uma mistura de psicoterapia comportamental, logopedia (conjunto de métodos utilizados para a correção de hábitos de pronúncia) e pedagogia dos distúrbios da fala. Biegler-Vitek começa com consultas individuais nas quais formula regras claras: “Aqui você vai falar – e a mamãe vai lá para fora”, ela disse a Mário logo no início. Na primeira consulta, o primeiro som: “Quando isso funciona, então eu sei que vencemos”.

Mas, nesse momento, ela não se refere à fala propriamente dita. Exigir um “a, e, i, o, u” seria sobrecarregar a criança. Em vez disso, propõe uma brincadeira: pede para Mário soprar. Ele o faz e a pena que segurava sai voando suavemente. Logo ele assopra mais forte, movendo objetos mais pesados: bolinhas de lã, lascas de madeira e caquinhos de vidro. Esse método ajuda a superar barreiras que normalmente prendem as palavras em sua garganta.

Apesar de Mário ter falado na terceira consulta com Biegler-Vitek, a primeira fase da terapia durou aproximadamente seis meses. Então ele entrou no grupo e, lá, a palavra de ordem é treinar: tomar-se ativo em papéis como o do “prefeito”, interferir, impor-se – e falar alto espontaneamente. Um esforço fenomenal para o menino. No final da encenação ele está quente, suas bochechas estão vermelhas e as orelhas queimando

Ao mesmo tempo, Biegler-Vitek realiza um trabalho mais amplo, que chama de “instalar a fala”: envolve as pessoas que estão à volta do menino, amplia a “conversa com a terapeuta” cautelosamente para a “conversa com a terapeuta e outra pessoa”. Se Mário falar com alguém uma vez, então falará com essa pessoa também no futuro. Com a fotógrafa e comigo, por exemplo. Como ele nos encontrou no grupo no qual usa palavras para se comunicar, consegue falar conosco também na escola. No entanto, lá isso só é possível “escondido”, como ele nos confidencia: os outros não podem vê-lo falando. Para mutistas, abrir a boca em lugares onde as pessoas só os conhecem mudos é um grande desafio, pois é preciso abrir mão do lugar “daquele que não fala”. Talvez a frase: “Mas você sabe falar!” seja a mais temida. E é justamente isso que acontece no jardim-de-infância. “Ele falou uma coisa, eu ouvi!”, comenta uma garotinha, cheia de espanto. Quando Mário percebe, o brilho de entusiasmo desaparece de seus olhos e ele aperta a boca com força. Ele ainda não está pronto. Mas logo vai criar coragem.

SINAIS DE ALERTA

  • Ansiedade no trato social, variações de humor, enurese e hábito de roer as unhas
  • O mutismo dura meses e parece não melhorar
  • A criança age normalmente em casa, mas não fala na presença de estranhos
  • Quando alguém se dirige a ela, abaixa a cabeça e fica paralisada
  • A criança se acomoda em sua mudez, desenvolvendo o próprio sistema de sinais
  • Ao brincar, não faz barulho; evita até mesmo tossir, espirrar ou rir
  • Gagueira, atraso no desenvolvimento da fala ou dicção ruim

COM A AJUDA DOS ADULTOS

O mutismo seletivo não é causado por erros na educação, mas pode ser reforçado por eles. Além da terapia, atitudes de pais e educadores podem ajudar a criança a sair desse estado.

•  Principalmente as mães devem ficar atentas para não se envolver de forma simbiótica com os filhos mutistas, deixando de lado outros aspectos da própria vida

• É importante que o paciente enfrente a insegurança diante de situações novas; andar de bicicleta, nadar ou participar de esportes coletivos ajuda a superar o medo

•  A criança deve participar igualmente das tarefas em casa e na escola; assumir trabalhos

domésticos e responsabilidades da mesma forma que irmãos e colegas

•  Adultos devem evitar fazer papel de “pombo-correio” da criança, falando por ela

•  Comemore os aniversários e outros eventos, mesmo que a criança não queira convidar ninguém

•  Se os pais se sentem inseguros, devem procurar terapia individual para lidar melhor com as próprias questões

•  A família deve desenvolver habilidades sociais, por exemplo, convidando regularmente amiguinhos e seus pais para visitas

•  Deixe que a criança realize tarefas adequadas à sua idade, como alimentar-se sozinha, amarrar os próprios sapatos, lavar as mãos etc.

•  O papel do pai deve ser claro e reforçado; é importante que a criança confie nele e os dois tenham um tempo para se divertir juntos

EU ACHO …

DOS PALAVRÕES NO TEATRO

Eu própria não uso palavrões porque na minha casa, na infância, não usavam e habituei-me a me exprimir através de outro linguajar. Mas o palavrão – aquele que expressa o que uma palavra não faria – esse não me choca. Há peças de teatro, como A volta ao lar (Fernanda Montenegro, excelente) ou Dois perdidos numa noite suja (Fauzi Arap e Nelson Xavier, excelentes), que simplesmente não poderiam passar sem o palavrão por causa do ambiente em que se passam e pelo tipo dos personagens. Essas duas peças, por exemplo, são de alta qualidade, e não podem ser restringidas.

Além do mais, quem vai ao teatro em geral já está pelo menos ligeiramente informado, por rumores até, da espécie de espetáculo a que assistirá. Se o palavrão lhe dá mal-estar ou o escandaliza, por que então comprar a entrada?

E mais ainda: as peças de teatro têm censura de idade, e o mais comum é só permitir a entrada de menores a partir de dezesseis anos, o que é uma garantia. Embora mesmo antes dessa idade os palavrões sejam conhecidos e usados pela maioria da juventude moderna.

Qual é então o problema que o uso do palavrão adequado a um texto poderia suscitar? E sem falar que, agrade ou não, o palavrão faz parte da língua portuguesa.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MUDANÇA DE HÁBITO

Quem sempre viajou para comprar artigos de luxo está se rendendo à comodidade do comércio on-line

Nos velhos tempos em que viajar era uma atividade ao alcance de boa parte da humanidade, as madames com contas bancárias recheadas pegavam o avião, desembarcavam em Paris, Londres ou Nova York e partiam direto para seu turismo favorito: se esbaldar nas lojas da Prada, Dior, Gucci e Chanel, enchendo sacolas e mais sacolas de roupas, sapatos e bolsas caríssimos, mas ainda assim mais em conta do que em São Paulo ou Rio de Janeiro. As estatísticas confirmam a preferência nacional pelo esporte: em 2019, 58%das compras de artigos de luxo feitas por brasileiros ocorreram fora do Brasil. No ano passado, aquele diferente de tudo que se viu até agora, pegar avião deixou de ser possível e ficar dentro de casa, pendurado no celular e no laptop, passou a ser a nova realidade. Entre as muitas consequências desta reviravolta na vida das pessoas, uma de grande impacto foi a implosão do consumo de grifes de alto luxo – de uma hora para outra, os clientes sumiram e o faturamento desmoronou. Premido pela necessidade, o setor abriu uma brecha no muro da exclusividade e aderiu, ele também, às vendas on-line, para as quais sempre torceu o empertigado nariz.

Teve uma grata surpresa: as clientes aprovaram. “Por mais resistentes que sejam, as marcas tiveram de se tornar digitais. O comportamento do consumidor mudou”, explica Renata Carvalho, coordenadora da Câmara Brasileira da Economia Digital. Esnobado com o ambiente reservado a fregueses que não tinham traquejo social para frequentar o a r rarefeito das maisons, o comércio on-line está sendo a salvação do alto luxo. Segundo pesquisa do Instituto QualiBest, 40% das mulheres da classe altano Brasil estão comprando mais pela internet, 23% mantêm o volume de consumo de antes da pandemia e 12% são consumidoras novinhas em folha do e-commerce – ou seja, quase 80% das compradoras de maior poder aquisitivo estão comprando a distância. A assessora jurídica Paula Dias, de 28 anos, de Mato Grosso do Sul, sempre adorou desembarcar em Paris e bater perna nas lojas mais sofisticadas das Galeries Lafayette, seu ponto preferencial de compras. Quando o novo coronavírus fechou as fronteiras, Paula, sem outra opção, resolveu enfrentar a maratona de pesquisas nos sites de luxo – e aprovou. “Consegui descontos que nunca tinha visto no mercado de luxo. E ainda ganhei um monte de brindes junto com as compras”, relata, feliz da vida.

Animada com o potencial deste mercado, a L’Oréal Brasil, responsável por perfumes e maquiagem de marcas como Yves Saint Laurent e Giorgio Armani, investiu nas vendas on-line e viu aumentar em 30% o número de consumidores cadastrados. Em volume, o acumulado até outubro de 2020 já ultrapassava os números de 2019, apesar dos três meses de lojas físicas fechadas. “Para atrair a clientela, oferecemos vantagens como atendimento em português e um pós-compra descomplicado”, diz Roberta Sant’Anna, diretora da divisão de luxo da empresa. Além de vendas em seu próprio site, a L’Oréal também faz uso dos chamados marketplaces – sites em que vários lojistas vendem seus produtos e o cliente paga tudo junto, em um único carrinho. Dessa forma, é possível encontrar na Americanas. com, por exemplo, perfumes da Prada, óculos de Dior e Dolce & Gabbana e, no caso da americana Ralph Lauren, até algumas peças de vestuário. “Parte da atração dessas marcas está no fato de serem inalcançáveis para a maioria. Mas, quando a aura de exclusividade resulta em vendas raquíticas, as empresas não sobrevivem”, explica André Cauduro D’Angelo, autor do livro Precisar, Não Precisa: um Olhar sobre o Consumo de Luxo no Brasil.

Shopping centers conhecidos pela quantidade de grifes luxuosas em seus corredores, como o Iguatemi e o Cidade Jardim, em São Paulo, também se abriram com alarde ao comércio via internet, possibilitando a compra on­line de vestidos, bolsas e calçados de marcas inacessíveis ao comum mortal, como Missoni, Christian Louboutin e Gucci. Do lado da clientela, aqueles que se aventuraram no luxo on-line perceberam que, com o real desvalorizado, comprar no exterior deixou de ser tão bom negócio, mesmo levando em conta os altíssimos impostos locais. “Atualmente, só o que compensa nas viagens para consumir é a experiência da recepção, da hospitalidade”, afirma Catarina Sampaio, que trabalha com hotelaria e pesquisa este mercado. “Somando todos os fatores que impactam o preço final, é provável que, mesmo depois da crise, parte desse consumo continue no Brasil”, concorda Carlos Ferreirinha, presidente da consultoria MCF. Sem falar na maior de todas as vantagens de comprar artigos de luxo no país, só agora descoberta por muitas turistas do consumo: o inefável prazer de parcelar. A estudante Pietra Lins, 22anos, de Niterói, virou entusiasta do recurso tipicamente brasileiro: “A economia de comprar fora era absurda, mas agora já não vale tanto a pena e ainda perco a opção de pagar em várias vezes”. Como se vê, a pandemia, que mudou tudo no planeta, está deixando sua marca no até então inabalável mundo das marcas caríssimas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE FEVEREIRO

DESEJOS SANTOS, FRUTOS BONS

O desejo dos justos tende somente para o bem, mas a expectação dos perversos redunda em ira (Provérbios 11.23).

Lawrence Crabb Junior, ilustre psicólogo americano, diz que o desejo produz o comportamento, e o comportamento desemboca em sentimento. O homem faz o que pensa em sua mente e deseja em seu coração. O que ele faz determina o que ele sente. Tudo começa com o desejo. É dessa fonte que brotam os ribeiros da vida ou os rios da morte. O coração é a cabeceira onde nasce esse rio. Ele pode levar a vida ou transportar a morte. O desejo dos justos tende para o bem, pois seu coração já foi transformado. Longe de ser uma fonte envenenada, é um manancial de onde fluem águas cristalinas que dessedentam os cansados. Já a esperança dos perversos é como uma torrente caudalosa que transborda para fora do leito, levando destruição por onde passa. A expectação dos perversos redunda em ira, pois parte de um coração soberbo, violento e impuro. A esperança do perverso é como um mar agitado que lança de si lodo e lama. As ondas revoltas que se levantam do coração do ímpio são verdadeiros tsunamis que devastam tudo à sua volta. O desejo do justo dá bons frutos, mas a esperança do perverso redunda em ira.

GESTÃO E CARREIRA

O ANO DA SAÚDE MENTAL

Sete em cada dez brasileiros estão com medo acima do normal devido à pandemia de covid-19. Essa vulnerabilidade acelerou uma tendência nas organizações: cuidar do psicológico dos funcionários. Veja quais são as melhores práticas

Bem antes de a covid-19 ser oficialmente declarada uma emergência mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) previu que a depressão seria a doença mais incapacitante do mundo até 2020. Não deu outra. O ataque global do coronavírus veio aprofundar o que já era tido como uma pandemia silenciosa – a dos transtornos mentais – e chamar a atenção para o fato de que cuidar da saúde da mente é tão importante quanto da saúde física. Até porque, pelo conceito da própria OMS, saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou de enfermidade”.

Em maio deste ano, o censo norte-americano revelou que aproximadamente um terço da população do país mostrava sinais de ansiedade (30%) ou depressão (24%) como consequência da pandemia.

Por aqui, um levantamento realizado em maio pelo Instituto Bem do Estar e pela NOZ Pesquisa e Inteligência com mais de 1.500 pessoas em todo o Brasil mostrou que 53% estão tendo alterações de humor durante o isolamento, sendo que as impressões mais citadas foram medo acima do normal (71%), preocupação (70%), desânimo (56%) e sensação de que algo muito ruim pode acontecer (51%).

Outro estudo, do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Universidade Yale, dos Estados Unidos, realizado com mais de 3.300 estudantes e profissionais de diversas áreas residentes em todos os estados do país, revelaram que os índices de estresse alto, ansiedade, depressão, que já estavam acima das médias estabelecidas como aceitáveis para a população, quase dobraram entre março e abril, os primeiros meses de quarentena no Brasil. “Alguns grupos mais afetados pelas perdas econômicas, como empresários, administradores e trabalhadores do comércio, apresentaram níveis de depressão até 50% acima da nédia das demais ocupações”, diz Alberto Filgueiras, coordenador do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva da Uerj e coautor do estudo. “Profissionais que precisam sair para o trabalho mostram indicadores de estresse, ansiedade e depressão até 12 % maior do que quem tem a opção de trabalhar em casa.”

Em junho, as buscas por termos ligados a saúde mental no Google atingiu um recorde: aumentaram 61% em relação ao mesmo mês em 2019 e 70% em comparação com fevereiro deste ano, logo antes de as práticas de distanciamento social serem adotadas no Brasil. Procuras por “saúde mental na quarentena” e “exaustão mental” cresceram 150%, ainda de acordo com a plataforma.

TEMORES E INCERTEZAS

Isolamento social, medo de ficar doente, luto pela morte de amigos e parentes, mudanças na rotina doméstica e profissional, desemprego, preocupações financeiras, excesso de informações (e desinformação) e um horizonte de incertezas hoje se somam para tirar a tranquilidade dos brasileiros, desencadeando – ou agravando para quem já tinha o diagnóstico – quadros de estresse crônico, transtornos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e burnout, o esgotamento profissional. Isso sem falar em mais queixas de insônia, Sedentarismo, alimentação desregrada, tabagismo e abuso de álcool, drogas e medicamentos que também se refletem negativamente no bem-estar geral. Quando o foco vai para as mulheres, é possível ver que muitas enfrentam ainda, o peso da jornada tripla de funções e, em casos mais graves, da violência doméstica.

Dois fatores diretamente ligados ao trabalho, a migração às pressas para o home office teve (e continuam a ter) forte impacto no bem-estar mental dos trabalhadores. Se, por um lado, poupar tempo e saúde evitando trânsito, deslocamento e aglomeração no transporte são vantagens, por outro, o trabalho remoto se mostrou potencialmente desgastante. Isso porque nem todo mundo estava contava com estrutura de escritório e boa conexão com internet em casa, por exemplo. E, no caso de pais e mães com crianças, houve quem sempre precisou se desdobrar para conciliar a atividade profissional com as tarefas domésticas e a assistência ao estudo online dos filhos. Além disso, queixas como expediente estendido, excesso de reuniões (ainda que virtuais), vigilância de horários e rigidez em relação à produtividade e aos resultados se tornaram comuns.

Pensando em otimizar e tornar mais leve o trabalho em home office, a Novartis concedeu auxílio em dinheiro para que os funcionários pudessem fazer melhoria estrutura do escritório em casa, como mobiliário e iluminação funcionais. “Também incentivamos que os times sigam uma agenda consciente de reuniões, evitando encontros desnecessários e em horários críticos, como o horário do almoço, muito pela manhã ou no fim da tarde”, explica Julia Ruback Pirola, diretora de RH da farmacêutica. A área também organizou rodas de conversas sobre homeschooling (o ensino domiciliar), cuidados com pets e outros temas de interesse de quem está passando mais tempo em casa do que o normal.

Os gestores são estimulados a manter contato constante com as pessoas para saber como estão física e mentalmente, e empregados que precisam dedicar algum tipo de cuidado especial a filhos ou pais ganharam direito a um período de licença remunerada sem desconto nas férias. O retorno ao trabalho presencial será flexível, com cada um ficando responsável por definir quando prefere voltar, desde que em função elegível. “É uma maneira de demonstrar confiança e dar autonomia às pessoas”, comenta Julia, que cita o índice de satisfação mais alto do que nunca nas pesquisas de clima recentes.

POR QUE CUIDAR DO PSICOLÓGICO?

Não é de hoje que se defende que colocar dinheiro em iniciativas de saúde mental precisa ser visto como investimento, e não como gasto. De acordo com dados da OMS, cada dólar destinado por governos e organizações a políticas e treinamentos para manter equipes psicologicamente sadias resulta em retorno de 4 dólares em produtividade. “O capital humano é o ativo mais importante das empresas. Profissionais que se sentem cuidados são mais presentes, engajados, criativos, se relacionam melhor e cometem menos erros”, afirma Ana Maria Rossi, doutora em psicologia e presidente da International Stress Management Association (Isma-BR).

Dados pré-pandemia da Secretaria de Previdência do Ministério da Economia revelam que, até 2017, transtornos ansiosos e depressivos eram o terceiro motivo de concessão de auxílio-doença no país, somando mais de 72.000 benefícios. Na área jurídica, por exemplo, chegam a responder por até 60% dos casos de afastamento de advogados e procuradores, de acordo com números de 2019 do Ministério Público do Trabalho. A pandemia obviamente tornou todos esses índices obsoletos e, embora seja impossível calcular a quantidade de trabalhadores emocionalmente doentes, estamos diante de uma emergência de saúde.

No Fórum Econômico Mundial de 2019, em Davos, na Suíça, o bem-estar psicológico do indivíduo foi incluído pela primeira vez no relatório que trata dos fatores de risco à economia global. Estimativas mostram que gastos relacionados a doenças emocionais poderiam chegar a 6 trilhões de dólares em todo o mundo até 2030 – mais do que a soma das despesas com diabetes, doenças respiratórias e câncer, segundo dados do fórum. E isso sequer considerava o impacto do coronavírus. Ainda de acordo com o documento, o que vai determinar o crescimento de uma economia baseada no conhecimento, como a do século 21, seria capacidade das organizações de construir ambientes de trabalho acolhedores e seguros psicologicamente.

“Muitas vezes, o trabalhador com ansiedade ou depressão é rotulado como preguiçoso, incapaz ou incompetente quando, na verdade, ele está doente. Se não houver investimento por parte das empresas no sentido de cuidar dos empregados para evitar que adoeçam, haverá uma queda brutal de produtividade e, pior, que se estenderá por anos”, observa Alberto Filgueiras, da Uerj.

Diferentemente das doenças físicas, que, de modo geral, permitem o retorno ao trabalho depois de um período de recuperação de semanas ou poucos meses, as mentais não têm essa previsibilidade. A volta pós-depressão, síndrome do pânico ou estresse pós-traumático, por exemplo, pode demorar mais de um ano. “Ainda assim, a pessoa não volta no mesmo ritmo, o desempenho pode ficar limitado e pode haver recaídas”, diz Ana Maria, da Isma-BR.

Com a flexibilização da economia e o retorno gradual às atividades presenciais, muita gente está experimentando uma sensação que vem sendo chamada de FOGO, acrônimo para Fear Of Going Out, oumedo de sair de casa. Comparável à síndrome da cabana, um fenômeno psicológico vivido por trabalhadores e moradores de locais isolados após longos períodos de confinamento ou durante invernos rigorosos, a FOGO apresenta sintomas típicos de ansiedade, como palpitações, respiração ofegante, tensão muscular, vontade de chorar, medo paralisante, dificuldade de concentração e alterações no sono. Para quem convive com ela, é como se pegar o elevador, encostar em pessoas ou objetos, sair brevemente para compras essenciais e aí, respirar fora de casa se tornassem ameaças. Se não tratada – com ajuda de terapia, de preferência, para entender que sentir medo é normal diante das mudanças bruscas na rotina e conseguir superá-lo, com adoção de hábitos saudáveis e socialização com pessoas quer queridas, para evitar sentimentos de solidão -, pode evoluir para ansiedade generalizada, síndrome do pânico e depressão.

Outro desdobramento da pandemia esperado pelos especialistas em saúde mental é uma explosão nos casos de estresse pós-traumático, que é altamente incapacitante e uma das principais causas associadas ao suicídio. Os sintomas podem demorar até dois anos para se manifestar depois do evento traumático, e o tratamento pode levar até mais dois anos, ou seja, a capacidade funcional do trabalhador fica comprometida por muito tempo. ‘”Como os sintomas incluem agressividade, raiva e agitação, além de perda de vitalidade geral, como ocorre na depressão, pode haver ocorrências de assédio moral, comportamentos hostis e problemas de clima”, diz Alberto, da Uerj.

PREPARANDO AS LIDERANÇAS

 Gestores desempenham papel-chave na promoção do bem-estar. Agora muitos têm diante de si o desafio de liderar à distância e ainda assim manter equipes coesas e motivadas, além de se sentindo acolhidas em suas inseguranças e necessidades. “Boa comunicação é habilidade indispensável neste momento”, afirma Ana Cristina Limongi, professora do Programa de Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração. “Os chefes devem se mostrar próximos do time e genuinamente interessados em como cada um está se sentindo. Trocas constantes, por meio de conversas virtuais para quem está em home office, e escuta ativa são fundamentais”, diz.

A presença, porém, não deve ser pretexto para vigilância. Confiança, flexibilidade, empatia, tolerância e autonomia são aspectos que devem orientar a relação com os subordinados neste momento, a fim de simplificar o dia a dia. Isso vale tanto para os que estão em atividade remota quanto para os que não deixaram o trabalho presencial – afinal, é importante levar em consideração que estes últimos também enfrentam conflitos emocionais pelo medo da exposição e pela tensão geral do contexto.

Desde o início da pandemia, todos os treinamentos de liderança na Heineken foram direcionados para o acolhimento dos funcionários, comenta Renato Souza, diretor de RH do grupo. Depois de identificar, por meio de feedbacks do estafe remoto, o excesso de reuniões muito longas que vinham sendo agendadas nos primeiros meses em isolamento, gestores foram incentivados a limitar a 45 minutos o tempo de cada encontro, além de relaxar no monitoramento do expediente, procurando garantir apenas que não houvesse exagero de horas extras.

Em julho, uma live com o presidente da Heineken, que reuniu 40.000 funcionários e familiares, teve o objetivo de conscientizar todos da importância de manter práticas de saúde física e mental como autocuidado e de explicar sobre os planos da organização em prol das pessoas durante a quarentena. Foram ouvidos também o médico da empresa sobre os cuidados para evitar o contágio pelo coronavírus e um especialista em psicologia positiva para entender como cultivar pensamentos e atitudes que ajudem a atravessar a crise sem perder o equilíbrio emocional.  “A conexão faz parte da essência da companhia. Nossa preocupação agora é manter a proximidade e cuidar da segurança não só dos nossos empregados, mas dos seus parentes, pois sabemos que o bem-estar em casa também conta para a saúde mental”, diz Renato.

Os chefes podem fazer muito para remover o estigma em torno do diálogo sobre saúde mental no ambiente de trabalho, considerado o principal obstáculo para que a questão seja abordada com a seriedade e profundidade que merece. Estimular conversas coletivas, ainda    que informais, sobre como as equipes estão se sentindo é um primeiro passo.  Estar atento, reconhecer quando alguém está precisando de apoio de algum tipo, mesmo que não relacionado às atividades profissionais – afinal, questões familiares, financeiras e da vida prática também abalam as emoções – , e colocar se à disposição para escutar é desejável e pode fazer grande diferença para a segurança emocional e o sentimento de pertencimento.

Expor as próprias dificuldades e estratégias para cuidar da saúde emocional, além de compartilhar experiências de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e outras doenças da mente seria determinante para diminuir o preconceito em relação aos transtornos mentais. Isso já ocorre em países como Inglaterra e Canadá, onde o debate público sobre saúde mental está em curso e muitas empresas já entenderam que é preciso se comprometer com a construção de uma cultura de promoção de saúde psíquica no contexto do trabalho.

TRANSFORMAÇÃO CULTURAL

A Virtude, plataforma de terapia online e educação emocional, viu saltar de 20 para 78 o número de empresas atendidas pela solução corporativa que oferece, passando a ter 150.000 usuários (eram 22.000 no pré-covid). “A pandemia escancarou uma demanda que já existia, mas não vinha sendo respeitada pelas empresas de atenção integral ao colaborador”, explica Tatiana Pimenta, CEO da startup. “Hoje os empregadores não têm mais como se isentar do cuidado com o funcionário. Isso influencia a reputação de qualquer marca e o valor da empresa no mercado.”

Para a Log-In, companhia de logística intermodal que mantém mais de 60% do efetivo total em trabalho presencial em embarcações e nos portos onde opera, a terapia à distância tem sido de grande ajuda para tranquilizar tanto os empregados (alguns quarentenados em hotéis depois de desembarcar de alguma viagem) quanto seus familiares. “Alguns enfrentam conflitos conjugais pela convivência no isolamento, outros devido à distância forçada pelo período em que os funcionários tiveram que ficar confinados. Nesses casos, cuidamos para ofertar psicoterapia com profissional especializado em casais”, explica Andréa Simões, diretora de gente e gestão da Log.In. No mais, todos funcionários remotos e presenciais, têm acesso a apoio psicológico, financeiro e jurídico pago pela companhia.

Rodas de conversa e palestras sobre temas ligados a saúde mental também estão em alta entre as soluções pensadas pelas áreas de recursos humanos para cuidar dos empregados. Para Toya Lorch, sócia fundadora da Get Ahead, empresa que desenvolve programas corporativos de bem-estar e saúde emocional, e da consultoria Kampas, são todas ações válidas e necessárias, mas que, isoladamente, têm função paliativa. “É claro que oferecem um alívio para o mal-estar e o sofrimento, mas devem ser apenas os primeiros passos de um programa estruturado de cuidados com a saúde mental”, diz. Ela defende que a preocupação com a saúde mental precisa estar embutida nos valores e na cultura da empresa, atravessar todas as áreas e pautar todas as decisões. “Não dá mais para ficar restrita ao momento da terapia ou da palestra sobre ansiedade ou mindfulness.”

Em outras palavras, é preciso desconstruir a mentalidade atual de saúde corporativa, focada na compensação dos prejuízos causados pelo dia a dia profissional à saúde física e emocional, e criar culturas organizacionais baseadas na consciência de cuidado integral com o funcionário e numa dinâmica de trabalho que evite o adoecimento. Por exemplo, em vez de apenas oferecer ginástica laboral ou fisioterapia para o indivíduo aguentar a sobrecarga de digitação, o correto seria rever todo o processo que permite que o empregado fique submetido a uma carga de digitação que o deixa doente e fazer as mudanças necessárias.

Também não adianta dar sessão de meditação, terapia à distância, palestra sobre resiliência e pufes para descanso, mas continuar submetendo o trabalhador a cargas enormes de estresse. “Por muito tempo, as organizações e as pessoas sacrificaram a saúde mental em nome da produtividade e da performance. Hoje não há mais espaço para isso”, diz Toya, da Get Ahead. “O conceito de saúde mental passa pela ideia de que é possível ser produtivo, exercer seu potencial e gerar valor para a empresa sem perder saúde. Ninguém teria que escolher entre uma coisa e outra”, diz.

E tem mais. Voltando aos países mais comprometidos com a promoção de bem-estar psíquico, o tema é foco de campanhas governamentais para disseminação de boas práticas entre a população geral e junto às organizações, além de inspirar a criação de políticas públicas. “A tendência é que o compromisso que as empresas têm com a saúde mental seja tão determinante para seu valor como ocorre hoje com a sustentabilidade e a diversidade”, afirma Toya.

DESAFIOS DO PRESENTE E DO FUTURO

Doenças emocionais não se instalam de uma hora para outra; vão escalando ao longo do tempo, sobretudo quando nada é feito para evitar que limitem a vida e a capacidade funcional do indivíduo. Da mesma forma, não é possível estimar a duração do impacto que terão na vida do paciente.

Em um editorial publicado em abril na Revista Brasileira de Psiquiatria, pesquisadores destacam, com base na experiência de epidemias passadas, que o número de pessoas com a saúde mental afetada tende a ser maior do que o de contaminadas pela doença infecciosa em questão e que as implicações para a saúde emocional podem durar muito mais tempo do que a própria epidemia, com impactos sociais, psicológicos e econômicos incalculáveis.

Diante disso, ao mesmo tempo que precisam agir agora para cuidar dos trabalhadores com dificuldades, as organizações começam a pensar em mudanças estruturais para evitar perdas ainda maiores no longo prazo em um mundo pós-pandemia que ninguém sabe exatamente quando ocorrerá. Nesse contexto, as tendências apontam para o surgimento de duas novas posições na estrutura organizacional: o diretor de bem-estar, de saúde mental ou de felicidade, dependendo da nomenclatura adotada (CWO, CMHO ou CHIO –   Chief Wellness Office, Chief Mental Health Officer ou Chief Happiness Officer, como já vem sendo chamado) e o mental health first aider, uma espécie de socorrista de saúde mental.

O diretor de saúde mental é um executivo com a função de liderar os esforços de desenvolvimento e a avaliação de programas corporativos de saúde e bem-estar. A Escola de Medicina da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, oferece um curso de uma semana de formação como CWO voltado para gestores. De acordo com a página da universidade, as aulas provêm ferramentas teóricas e práticas para a formatação de programas de saúde mental customizados e sustentáveis, além de estratégias de lideranças para colocá-los em prática e criar uma cultura que gere engajamento e realização pessoal.

O socorrista de saúde mental é o que o nome sugere: uma pessoa a quem o estafe pode procurar para primeiros socorros de saúde e bem-estar, ou seja, quando está se sentindo vulnerável, em crise, com dúvidas ou no caso de uma emergência psicológica. “Geralmente é alguém com conhecimento em saúde mental ou que se interessa pelo assunto, possui habilidades de acolhimento e escuta, conhece a cultura da organização e a estrutura de suporte que a empresa oferece para resolver a questão trazida pelo colaborador”, descreve Toya.

A função surgiu na operadora de saúde Care Plus como uma das primeiras iniciativas do comitê multidisciplinar criado para apoiar os empregados durante a pandemia. O Call Tree é um canal de comunicação por telefone que funciona 24 horas por dia com três profissionais da empresa à disposição para tirar dúvidas e dar informações aos funcionários e seus dependentes – de relatos de sintomas físicos de covid-19 até preocupação com os filhos, problemas financeiros e ajustes na estrutura e na rotina do home office. Dependendo da demanda, é resolvida prontamente pelo próprio “socorrista” ou encaminhada para o serviço de telemedicina, apoio psicológico, área de recursos humanos ou outra. Uma das voluntárias é a gerente executiva de RH da empresa, Camila Pignatari – as demais são uma diretora médica e uma profissional da área de compliance. “Quanto mais próximos estamos das pessoas e dispostos a escutar suas necessidades reais, mais preparados ficamos para tomar decisões assertivas que vão de fato ajudá-las”,’ diz Camila.

Na Inglaterra, por exemplo, já existem cursos de formação como socorrista de saúde mental para atuação com jovens e adultos, em escolas, organizações privadas e até nas forças armadas. E não existe a necessidade de ser um profissional de saúde para conquistar a formação. Mais de 178.000 pessoas já foram certificadas.

QUEM CUIDA DO RH?

A área de recursos humanos é a linha de frente para os cuidados com os trabalhadores e a manutenção da operação nas empresas. Com um bom comando da formação dos comitês de crise, da tomada de decisões difíceis – como as que implicam demissão, suspensão de contratos e corte de salários e de benefícios – e do compromisso de manter a comunicação e a motivação em dia, a imagem e a atuação do RH certamente sairão fortalecidas da crise. Mas não se pode esquecer que esses profissionais também sofrem com a situação geral da pandemia e do isolamento social.

Observando as inquietações e as experiências dos colegas, a consultora e sócia diretora da Resch RH, Jacqueline Resch, teve a ideia de criar um espaço de trocas e escuta para quem atua na área, que batizou de COMversas com RH. ”O que gera angústia é não saber como lidar em determinadas situações, e a crise trouxe muitas coisas novas. Saber que não está sozinho em uma situação desafiadora como a atual e ter a quem perguntar, com quem desabafar e trocar ideias faz muita diferença para se manter saudável e motivado”, explica Jacqueline. Os encontros virtuais já reuniram dezenas de pessoas e são um espaço para desabafar e para gerar insights de soluções que podem ser aplicados nos negócios. Para além do grupo de profissionais de recursos humanos a criação de comunidades por setor de atividade (bancos, indústrias, escolas, varejo etc.) é uma tendência na promoção de cuidados de saúde mental. E é interessante porque se volta para as necessidades específicas de cada área. A City Mental Health Alliance é um exemplo internacional. Trata-se de uma comunidade formada por pessoas – de todos os departamentos e posições hierárquicas – das empresas City, como é conhecido o centro financeiro de Londres. O objetivo é compartilhar conhecimento, disseminar boas práticas e influenciar a criação de políticas públicas voltadas para a atenção da saúde mental. Quando se trata de construir um ambiente humanizado e psicologicamente saudável, a união de diversas forças – entre líderes empresariais e governos – nunca foi tão importante.

COMO VOCÊ ESTÁ?

Levantamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Yale mostram como os sentimentos dos brasileiros mudaram na crise dacovid-19

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SUTILEZAS DO PRECONCEITO

Mesmo pessoas bem informadas e tolerantes costumam ter convicções que conscientemente abominam; a intenção de rever as próprias ideias, porém, pode levar o cérebro a fazer novas associações

“É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito.” Albert Einstein (1879-1955)

Não há nada mais doloroso para mim nesta fase de minha vida do que caminhar pelas ruas, ouvir passos e começar a pensar em um possível assalto; depois olhar à volta, ver uma pessoa branca e me sentir aliviado”, disse certa vez o ativista político americano Jesse Jackson. A observação ilustra um fato básico de nossa existência, do qual nem mesmo um ativista negro, que defendeu os direitos civis ao lado de Martin Luther King, pôde escapar: ideias que não endossamos racionalmente podem se alojar na mente e, sem nossa permissão ou consciência, influenciar percepções, expectativas e avaliações.

Utilizando métodos sofisticados, psicólogos têm comprovado que as pessoas inteligentes e bem informadas aderem, involuntariamente, a um assustador elenco de crenças e atitudes estereotipadas sobre os grupos sociais, como de negros, brancos, homens, mulheres, idosos, jovens, homossexuais, heterossexuais, gordos, magros e tantos outros. Embora preconceitos implícitos estejam presentes em todos nós, diferimos em relação a alguns aspectos, dependendo do meio ao qual pertencemos, do nosso desejo consciente de evitar as ideias pré-formadas e da configuração de nosso meio cotidiano.

Essa forma velada de preconceito predomina sobre o tipo aberto ou explícito, que associamos com os nazistas ou grupos como a Ku Klux Klan, e estudos mostram que seus efeitos são igualmente insidiosos. Isso não significa dizer que a discriminação explícita desapareceu, nem que seja menos relevante do que a forma encoberta. Segundo um relatório federal de 2005, cerca de 200 mil crimes de ódio ocorrem nos Estados Unidos todos os anos.

No Brasil, os números mostram que a violência tem cor, raça e território: os principais atingidos são os negros, os pobres e os moradores de favelas. Segundo o estudo sobre violência contra crianças, encomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em cada grupo de dez jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil, sete são negros.

É consenso que, em certos casos, cenários e situações podem ativar, automaticamente, estereótipos que afetam nossas percepções, juízos e condutas. Pesquisadores tentam agora aprofundar a questão. Eles querem saber coisas como: de onde exatamente provêm tais preconceitos? Até que ponto influenciam nosso comportamento? Se as atitudes estereotipadas estão inscritas em nosso psiquismo, um maior conhecimento a respeito do tema pode nos auxiliar a superá-las?

Associações implícitas surgem a todo momento e são inerentes à cognição humana. Revelam-se em nossa tendência para categorizar e absorver mensagens. Para dar sentido ao mundo à nossa volta e lembrar das relações entre objetos, ações e adjetivos dispomos em grupos as coisas que nos cercam, suas características e as sensações que despertam. Por exemplo, notamos automaticamente que carros podem deslocar-se com rapidez, aviões voam, bolos são doces e mosquitos picam. Sem tais deduções, teríamos enormes problemas para nos orientar no mundo e sobreviver, pois a cada momento tudo pareceria novidade.

Chegamos a tais associações de forma extremamente rápida e, com frequência, elas escapam da compreensão consciente. Assim, para medi-las, os psicólogos recorrem a testes indiretos que não dependem da capacidade ou disposição do sujeito para refletir sobre seus sentimentos e pensamentos. Vários métodos comumente usados aferem a velocidade com que as pessoas relacionam palavras ou figuras representando grupos sociais – jovens e idosos, homens e mulheres, negros e brancos, obesos e magros, judeus e muçulmanos – com termos positivos ou negativos ou traços estereotipados.

Como os conceitos intimamente ligados estão vinculados na mente, a pessoa responderá mais rapidamente a pares relacionado de ideias – digamos, “martelo e prego” – do que a um par aparentemente não relacionado, como “chafariz e tênis”. O tempo de resposta, portanto, pode revelar associações ocultas, tais como “negro e perigo” ou “mulher e incapacidade”, que formam a base do preconceito subjacente. Mas podemos nos livrar das associações implícitas? “A resposta é não. E é bom que seja assim, pois se nos desvencilharmos completamente delas perderemos um instrumento muito útil, necessário à vida cotidiana”, diz o psicólogo Brian A Nozek, da Universidade de Virginia.

O problema surge quando formamos associações que contrariam nossas intenções, crenças e valores. Muitas pessoas vinculam, involuntariamente, deficiência com fraqueza, árabe com terrorismo ou pobre com inferioridade, mesmo que tais estereótipos contrariem a racionalidade e até mesmo valores que lhes são caros, como o de justiça ou igualdade.

Questões pessoais, relativas à autoimagem, muitas vezes encobrem associações implícitas. Para favorecer nosso próprio status, estamos predispostos a atribuir características superiores a grupos aos quais pertencemos e a exagerar as diferenças em relação aos que estão fora deles. Até mesmo nossas percepções visuais básicas tendem a favorecer nossos pares. Vários estudos mostram que as pessoas se lembram com mais facilidade do rosto de indivíduos de sua própria etnia.

A identificação com um grupo ocorre de forma surpreendentemente rápida. Em estudo de 2002, o psicólogo Anthony C. Greenwald, da Universidade de Washington, e seus colegas solicitaram a 156 pessoas que lessem os nomes de quatro membros de duas equipes hipotéticas, Púrpura e Dourado. Os participantes tinham 45 segundos para memorizar o nome dos membros de apenas uma das equipes. Em seguida, realizaram duas atividades em que deviam distribuir rapidamente os nomes. Primeiro, eles agrupavam os integrantes de uma das equipes no conceito “vencedor” e os demais sob a palavra “perdedor”; na tarefa seguinte, vinculavam cada equipe com a noção de “eu” e de “outro”. Os pesquisadores descobriram que os 45 segundos que as pessoas passaram pensando em um time fictício fez com que se identificassem com o grupo, vinculando-o consigo e passando a considerar implicitamente os seus membros como “vencedores”.

Alguns preconceitos disfarçados parecem enraizados em emoções intensas. Em estudo de 2004, o psicólogo Wil A. Cunningham, da Ohio State, mediu a atividade cerebral de pessoas brancas, enquanto estas visualizavam rostos negros e brancos. Os pesquisadores descobriram que, em comparação com as faces claras, as negras, iluminadas por apenas 30 milissegundos (rápido demais para que os participantes as notassem atentamente), desencadeavam maior atividade na amígdala, área do cérebro associada à vigilância, emoção e, às vezes, ao medo. O efeito foi mais acentuado entre as pessoas que mostraram preconceito racial implícito mais forte.

O mesmo estudo revelou que, quando os rostos eram mostrados durante meio segundo – intervalo suficiente para que os voluntários os processassem conscientemente -, as faces negras provocavam intensa atividade nas áreas pré-frontais do cérebro, associadas à detecção de conflitos internos e ao controle de respostas. Isso sugere que os indivíduos estavam tentando, conscientemente, eliminar suas associações implícitas.

Por que os rostos negros provocam vigilância? A psicóloga social Jennifer A. Richeson, professora da Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, especula que os estereótipos culturais vinculando jovens negros do sexo masculino ao crime, à violência e ao perigo são tão sólidos que nosso cérebro pode, automaticamente, dar maior atenção a negros como uma categoria, assim como dá a animais ameaçadores (cobras, por exemplo). Em estudo recente ainda não publicado, Richeson e colegas descobriram que a atenção visual de estudantes brancos se dirigia mais rapidamente a fotografias de negros, mesmo que as imagens fossem fugazes demais para que os participantes as notassem conscientemente. Esta vigilância intensificada não surgiu, porém, quando os homens nas imagens não estavam olhando para a câmera. O olhar baixo, sinal de submissão nos humanos e em outros animais, elimina a percepção explícita de ameaça.

TRAÇOS NEGATIVOS

Quaisquer que sejam as bases neurais do preconceito implícito, fatores culturais – como piadas étnicas depreciativas e insultos jocosos manifestados por pais, professores, amigos e meios de comunicação – o reforçam. Sinais socioculturais sutis podem ter efeitos particularmente insidiosos. Em estudo ainda não publicado, o psicólogo Luigi Castelli, da Universidade de Padova, na Itália, e colegas investigaram comportamentos raciais de 72 famílias italianas brancas. Eles descobriram que as preferências das crianças não eram influenciadas pelas posturas explícitas dos pais (talvez porque aquelas atitudes fossem silenciosas). As crianças cuja mãe tinha mais atitudes depreciativas implícitas em relação a negros, porém, tendiam a escolher um companheiro branco e atribuíam mais traços negativos a uma criança negra fictícia do que a uma branca.

As crianças cuja mãe revelou menos preconceito racial implícito nos testes eram menos propensas a exibir tais preferências.

Isso leva a crer que muitas de nossas associações veladas sobre grupos sociais se formam antes de sermos maduros o suficiente para considerá-las racionalmente. Em experimento inédito, os psicólogos Mahzarin R. Banaji, professor da Universidade Harvard, e Yarrow Dunham, da Universidade da Califórnia, descobriram que crianças brancas em idade pré-escolar tendiam a categorizar expressões faciais zangadas racialmente ambíguas como negras; mas não faziam o mesmo quando se tratava de rostos alegres. Em 2006, Banaji e Andrew S. Baron, estudante da Harvard, mostraram que o preconceito racial implícito surge nas crianças por volta dos 6 anos.

Em 4 de fevereiro de 1999, quatro policiais de Nova York foram ao apartamento do imigrante africano Amadou Diallo, de 23 anos. Eles pretendiam interrogá-lo, pois a descrição física do rapaz coincidia com a de um homem suspeito de estupro. Momentos depois, Diallo caía morto. Os policiais, acreditando que ele sacaria uma arma, dispararam 41 tiros, 19 dos quais atingiram o alvo. O que o jovem procurava em seu bolso não era uma arma, mas sua carteira. Os policiais foram acusados de assassinato, mas argumentaram que atiraram porque acreditaram que suas vidas estavam em perigo. O argumento foi aceito e os réus, absolvidos.

No caso de Diallo, a repentina decisão de atirar teve consequências trágicas. O processo e os protestos públicos que se seguiram suscitaram questões perturbadoras. Em que medida nossas decisões são influenciadas por preconceitos sociais disfarçados? Como esses preconceitos velados motivam nossas escolhas? Se nosso comportamento é de fato influenciado por convicções que nem sempre admitimos, ações reflexas e juízos instantâneos podem ser perigosamente vulneráveis às associações implícitas. Vários estudos mostram, por exempio, que tanto negros como brancos tendem a confundir um objeto inofensivo, como um telefone celular, com uma arma se um rosto negro estiver acompanhando o objeto. Essa ocorrência é mais frequente em situações nas quais as pessoas precisam avaliar a situação rapidamente.

Em estudo de 2002 a respeito de atitudes raciais e comportamento não-verbal, o psicólogo John F. Dovidio, hoje na Universidade Yale, mediu as atitudes raciais implícitas e explícitas de 40 estudantes brancos. Ele solicitou que os participantes conversassem com uma pessoa negra e outra branca e filmaram a interação. Dovidio descobriu que as atitudes explícitas dos participantes brancos mais previsíveis representavam os tipos de comportamento que podiam controlar facilmente, como o caráter amigável das palavras. Os sinais não-verbais, porém, como a quantidade de contato visual que mantinham, dependiam de suas atitudes implícitas. Segundo Dovidio, as pessoas das duas etnias saíram da conversa com os voluntários com impressões muito diferentes. Os brancos consideraram as interações satisfatórias, mas os negros, atentos ao comportamento não-verbal dos universitários, consideraram que os jovens eram conscientes dele e apontaram a intolerância dos interlocutores.

Os preconceitos implícitos também podem contaminar decisões deliberadas. Os psicólogos Laurie A. Rudman e Richard D. Ashmore, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, descobriram, em pesquisa feita em 2007, que brancos que manifestam maior preconceito implícito em relação aos negros também têm mais tendência a realizar atos discriminatórios na vida cotidiana, como evitar a convivência com negros e depreciar seu trabalho, contar piadas raciais, insultá-los, ameaçá-los ou agredi-los fisicamente. Ou seja: ainda que as palavras neguem, os atos falam por si.

Em uma segunda pesquisa relatada no mesmo artigo, Rudman e Ashmore conceberam um cenário experimental para examinar com mais detalhe o elo entre o preconceito implícito contra judeus, asiáticos e negros e o comportamento discriminatório em relação a cada um desses grupos. Eles pediram aos participantes que observassem uma proposta orçamentária em avaliação na universidade e que fizessem recomendações para a alocação de fundos a organizações estudantis. Os estudantes que manifestaram maior intolerância não assumida em relação a determinado grupo minoritário tenderam a sugerir alocações desfavoráveis às organizações dedicadas aos interesses desses grupos. O preconceito implícito também pode influenciar as decisões relativas à contratação de empregados. Em experimento ainda não publicado, o economista Dan-Olof Rooth, da Universidade de Kalmar, na Suécia, enviou a 193 empregadores candidaturas fictícias a emprego, com nomes de homens árabe-muçulmanos e suecos. Em seguida, o pesquisador entrevistou os profissionais de recursos humanos que avaliaram os currículos e mediu seus preconceitos implícitos em relação a árabe-muçulmanos. Ele constatou o que era de se esperar: quanto maior o preconceito do empregador, menor a probabilidade de um candidato com nomes como Mohamed ou Reza ser chamado para entrevista. O curioso é que as pessoas não admitem esse comportamento e chegam mesmo a condená-lo nos outros.

MENTE ABERTA

O preconceito racial inconsciente ainda pode contaminar decisões médicas cruciais. Em estudo de 2007, Banaji e colegas de Harvard apresentaram a 287 médicos de pronto-socorro uma fotografia e um breve resumo clínico descrevendo um paciente de meia-idade – em alguns casos branco, em outros negro – que chegava ao hospital se queixando de dores no peito. Os médicos, em sua maioria, não admitiram o preconceito racial, mas, na média, revelaram, segundo os testes realizados, uma tendência desfavorável aos negros, de forma moderada a intensa. Quanto maior o preconceito racial do profissional, menor a probabilidade de dar a pacientes negros as modernas – e dispendiosas – drogas trombolíticas (que dissolvem coágulos).

Os pesquisadores acreditaram, durante muito tempo, que como as associações implícitas se desenvolvem bastante cedo e somos inconscientes delas, seria praticamente impossível mudá-las. Mas a pesquisa recente sugere que podemos reelaborar nossas crenças e atitudes implícitas ou, pelo menos, controlar seus efeitos.

Contemplar os grupos-alvo em contextos sociais mais favoráveis pode ajudar a enfrentar atitudes tendenciosas. Em estudos de laboratório, ficou demonstrado que diversas estratégias permitem enfraquecer o preconceito implícito. Surte efeito, por exemplo, ver um rosto negro com uma bonita paisagem ao fundo em vez de uma rua deteriorada; considerar exemplos de negros admirados, como Denzel Washington e Michael Jordan, ou, ainda, ler sobre as contribuições que árabes e muçulmanos deram à humanidade. Estudantes que assistiram a um curso sobre redução de ideias preconcebidas com professor negro mostraram, ao final do semestre, menos preconceitos implícitos e explícitos do que os estudantes que tiveram o mesmo curso com professor branco. O psicólogo Nilanjana Dasgupta, pesquisador da Universidade de Massachusetts Amherst, descobriu em pesquisa recente que alunas de engenharia que tiveram um professor de matemática, em vez de uma professora, manifestavam atitudes implícitas negativas em relação à disciplina e consideravam a matemática como “masculina”. O mesmo não ocorria com as estudantes que tiveram aulas com uma mulher.

Há mais de meio século, o psicólogo social Gordon Allport denominou os rótulos dados a grupos de “nomes que operam divisões”, apontando assim o poder que as palavras têm de dar forma ao modo como categorizamos e percebemos os outros. A pesquisa recente sugere que as palavras têm o mesmo poder no nível implícito. Em estudo de 2003, o psicólogo Jason Mitchell, de Harvard, junto com Nozek e Banaji, solicitou que estudantes do sexo feminino categorizassem nomes típicos de mulheres negras e homens brancos segundo a etnia ou o gênero. Os pesquisadores descobriram que a divisão das palavras segundo a raça desencadeava uma tendência pró-branco, mas a categorização segundo o gênero levava a uma tendência implícita pró-mulher (e, portanto, pró-negro). “Essas atitudes se formam e também podem mudar rapidamente, se reestruturarmos o meio para substituir as associações estereotipadas por posturas mais flexíveis”, acredita Dasgupta.

Em outras palavras, as mudanças nos estímulos externos, muitos das quais estão fora de nosso controle, podem levar o cérebro a fazer novas associações. Uma estratégia mais óbvia seria confrontar as atitudes tendenciosas com o esforço consciente. Evidências sugerem que a força de vontade pode funcionar. Entre os médicos da pesquisa sobre drogas trombolíticas que estavam cientes do propósito do estudo, os que mostraram maior preconceito racial não admitido foram os mais propensos a receitar o tratamento a pacientes negros. Isso sugere que o reconhecimento da presença do preconceito implícito ajudou a superá-lo. Além disso, aquele que manifesta uma forte motivação para não ser preconceituoso tende a ser menos implicitamente tendencioso.

A VIDA SEM VALOR

Alguns estudos indicam que a pessoa hábil no uso da lógica e da força de vontade para controlar os impulsos mais primitivos exibe menos preconceito implícito. Pesquisas sobre o cérebro sugere que os indivíduos que melhor conseguem inibir os conceitos velados são especialmente hábeis em detectar descompassos entre suas intenções e ações. Elaborar estratégias simples e concretas para superar conceitos preconcebidos em situações particulares também pode eliminar os preconceitos implícitos, sugere estudo. O psicólogo B. Keith Payne, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapei Hill, e seu colega Brandon D. Stewart, pós-doutorando na Universidade de Queensland, na Austrália, descobriram que os indivíduos decididos a pensar na noção de “segurança” sempre que vêm um rosto negro mostram enorme redução no preconceito racial implícito. “Não é preciso martelar isso na cabeça das pessoas. Basta ter essa estratégia na manga (pense no conceito e na palavra “segurança”), à qual se recorre sempre que necessário. Uma vez realizado ‘o plano’, ele se torna automático”, observa Payne.

Em artigo, publicado na edição de 2007 revista Group Processes & lntergroup Relations, os psicólogos Laurie A. Rudman e Richard D. Ashmore. Rudman e Ashmore disseram que o fato de crescermos em uma cultura na qual algumas pessoas são mais valorizadas que outras provavelmente permeará nossas concepções particulares, por mais desanimador que isso seja”.

Mas se aceitarmos essa característica da condição humana, teremos de escolher como lidar com ela. Podemos ficar melancólicos e apáticos ou reagir com determinação, de modo a superar o preconceito. “Nossa capacidade de mudança é grande”, afirma Banaji. “Mas queremos mudar? Esta é a questão colocada a cada um de nós como indivíduos, psicólogos, psicanalistas, professores, cientistas, juízes, empresários – ou simplesmente seres humanos.”

PARA DETECTAR CRENÇAS ESCONDIDAS

O principal método para medir o preconceito implícito é o Teste de Associação Implícita (IAT, na sigla em inglês), desenvolvido em 1998 por Anthony G. Greenwald e colegas da Universidade de Washington.

Desde então, os pesquisadores usaram o IAT em mais de 500 estudos. O procedimento mede a rapidez com que o indivíduo reparte os estímulos em categorias particulares. Por exemplo, ao investigar atitudes implícitas em relação a jovens e idosos, é usado um dispositivo para as respostas dadas a rostos jovens associados a palavras positivas como “prazer” e “paz” e outro para as respostas a rostos idosos com vocábulos negativos como “agonia” e “terrível”. No momento seguinte, o teste propõe o inverso, apresentando rostos jovens vinculados a palavras negativas e idosos a positivas (os pesquisadores variam a ordem nas várias aplicações do teste). A diferença no tempo de resposta para as duas situações sugere a força com que a pessoa liga esses grupos sociais a conceitos positivos ou negativos. Para obter o teste (em português) acesse https:// implicit.harvard.edu/implicit

OS COMENTÁRIOS REVELADORES DOS FAMOSOS

Depois de contar várias piadas racistas durante uma performance, o comediante Michael Richards, de Seinfeld, desculpou-se em um programa de televisão: “Perdi o controle… Estou profundamente arrependido… Não sou racista”. Por fazer comentários anti-semitas ao ser detido por dirigir embriagado, o ator Mel Gibson (à direita) defendeu-se: “Saibam do fundo do meu coração que não sou anti-semita ou intolerante. Qualquer tipo de ódio contraria minhas convicções”. Ao desculpar-se por um comentário homofóbico que fizera, o comediante Jerry Lewis disse: ”Todos que me conhecem sabem que não tenho preconceitos neste aspecto”. Ao recuar da sugestão de que os negros seriam menos inteligentes do que os brancos, o biólogo e prêmio Nobel James Watson (à esquerda) expressou espanto e consternação: “Não entendo como posso ter dito o que alegam que eu disse.

Não há base científica para tal crença”. Tais desculpas públicas indicam certa ingenuidade sobre a natureza do preconceito. Como as pessoas em geral desconhecem a atitude tendenciosa que está em todos nós, ficam chocadas quando comentários racistas, homofóbicos ou anti-semitas são proferidos por personalidades que admiram. Até os que fazem tais comentários ficam, às vezes, perplexos. O conhecimento de como funcionamos ajuda a entender as origens dessas observações: elas surgem de conexões subconscientes enraizadas na mente. O fato é que qualquer um de nós poderia ter proferido essas afirmações. Afinal, não escolhemos de forma plena nossas atitudes, pois nem sempre a mente consciente nos dirige. Assim, desejar não ter preconceito não é o mesmo que não ser preconceituoso.de qualquer forma, é possível ficar atento para evitar vexames.

EU ACHO …

BRINCAR DE PENSAR

A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos de emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.

Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.

Bom, mas, quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo.

Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa, mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.

Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… E foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

RÁPIDO E PRA FRENTE

O desejo nostálgico por fitas cassete é o mais novo fenômeno retrô – e grandes nomes da música pop aderiram à onda

Era divertido, trabalho para horas a fio, mas era também desesperador quando aquela última canção não cabia mais no restinho de tempo da fita cassete – e dá-lhe a decepção no acabamento do presente para a namorada ou o namorado, naquela seleção que faria todo mundo dançar no bailinho, a balada daquele tempo, os anos 1960, 1970 e 1980. Com jeitinho, e a ajuda de um lápis sextavado, afeito a puxar daqui, puxar de lá, dava-se um jeito de então apagar a trilha indesejada para fazer caber. E não havia alegria maior do que gravar um programa inteiro de rádio – o rock da Fluminense FM, 94.9 no dial carioca, era o mais querido – e torcer para o locutor não falar nada, desmanchando os prazeres, estragando a peça que depois seria ouvida repetidas vezes no Walkman. Preparemo-nos, porque na trilha nostálgica, que sempre renasce em períodos difíceis da civilização, como este agora da pandemia, o K-7 voltou – e as sensações de antigamente estão aí à disposição. As estatísticas ecoam o crescimento de vendas das caixinhas.

No Reino Unido, tradicional reduto propagador de modismos musicais, a venda de cassetes passou das 157.000 unidades em 2020, maior teto desde 2003 – muito menos que o vinil, que bateu nos 4,8 milhões, e certamente menos que as músicas baixadas digitalmente, que representam 80% do mercado. Não é estatística avassaladora, evidentemente, mas indica um movimento interessante demais para ser desprezado. A campeã é Lady Gaga, com Chromatica, gravado especialmente para a antiga plataforma de rolinhas e oferecido em diversas cores, do branco ao rosa. Os lançamentos fazem parte da estratégia das gravadoras de acenar ao passado com peças de memorabilia. O produtor musical João Marcello Bôscoli, 50 anos, tem uma coleção de fitas cassete. A maior parte é de fitas enviadas por compositores ao longo da sua carreira, mas também há trabalhos de artistas de hip hop e R&B. Há pelo menos dois anos Bôscoli tem percebido o aumento da procura por essa família de produto de forma mais consistente. Uma das explicações é o comportamento dos fãs. “Mesmo no auge dos arquivos digitais, os artistas ainda vendem pôsteres, camisetas e outros produtos com seus nomes. Isso acontece porque o ser humano gosta do fetiche do ‘ter’, não quer só a memória etérea”, diz Bôscoli. “A fita cassete, assim como o vinil, faz parte desse contexto, porque é algo mais que se pode ter do artista, além de dar uma certa exclusividade para o fã”.

Atento a esse tipo de comportamento, há iniciativas empresariais recentes que fazem a roda girar. João Augusto, presidente da gravadora Decke consultor da Polysom, investiu, em maio de 2018, na fabricação e no lançamento de trabalhos de seus artistas também no formato tape. Até então, a Polysom era especializada em LPs. Para pôr a ideia em pé, o empresário comprou e reformou antigas copiadoras e impressoras. No começo, o público era formado por pessoas familiarizadas com a antiga mídia, mas o empresário percebeu com o passar do tempo com novos consumidores. “Fomos alegremente surpreendidos com uma infinidade de jovens comprando e saboreando o formato”, diz Augusto. “Acredito que existam os nostálgicos, os curiosos e aqueles que simplesmente gostam do formato”.

Mas, afinal de contas, onde se ouve o cassete? O interesse movimenta o mercado de segunda mão nos sites especializados e em grupos de fãs do tape espalhados pela rede social. A própria Sony, que inventou o Walkman lá atrás, em 1979, pegou carona no fenômeno e lançou uma edição limitada (e novíssima) do aparelho. Do modelo original só sobrou a aparência. O modelo reproduz áudio em alta qualidade via Wi-Fi ou por meio de um dispositivo micro SD de armazenamento com capacidade de 64GB.

E, como sempre, ouvidos mais delicados e saudosistas renitentes alimentam uma briga: qual é o melhor som? Os nostálgicos do cassete e do vinil, e agora também dos CDs, que viraram história, costumam dizer que as nuances das músicas, como eventuais acordes dissonantes, são suprimidas nas produções digitais, distribuídas por streaming. E a ausência do chiado – o “tape hiss”- incomoda os puristas. “Para quem gosta do black metal, vertente do heavy metal, é justamente essa sonoridade, o aspecto de algo mal gravado, com jeito de tosco, que atrai”, diz Gilberto Custódio Júnior, 43 anos, sócio da Locomotiva Discos, loja localizada na região central de São Paulo, especializada em CDs, LPs e fitas cassete. “É a sonoridade mais quente, confortável, apesar da baixa fidelidade”. As fitas custam de 40 a 45 reais. Um LP, 120 reais. Um CD, 30 reais. Os fiéis das mídias antigas, sublinhe-se, são colecionadores que não renegam o avanço da tecnologia, que começou com o MP3, ganhou tração com o iPod de Steve Jobs e levou a serviços indispensáveis como o Spotify. Mas para os amantes do K-7, os mais fervorosos, toda essa modernidade não foi capaz de apagar os sons do passado. Eis a graça de conviver com o novo e o antigo, simultaneamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE FEVEREIRO

BELEZA FÍSICA NÃO É TUDO

Como joia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição (Provérbios 11.22).

Uma mulher bonita sempre chama a atenção. Quando Deus criou a mulher, não usou mais o barro; tirou-a da costela do homem. A mulher é a última obra da criação, a mais bela, a mais encantadora. A mulher tem uma beleza física singular. No entanto, a beleza exterior sem a beleza interior é uma completa frustração. A Bíblia diz que enganosa é a graça e vã a formosura. O apóstolo Pedro exorta: Não seja o adorno das esposas o que é exterior (1Pe 3.3). O sábio Salomão compara a mulher bonita, mas indiscreta, a uma joia no focinho de um porco. O porco é um animal imundo, que vive se arrastando na lama. Seu focinho revira constantemente o lixo e a podridão. Assim é a mulher que tem um corpo bonito, mas a língua solta; tem uma aparência atraente, mas destrava a boca para espalhar boatarias. Formosura e leviandade não combinam. A beleza externa de uma mulher se apaga completamente se sua língua é uma fonte de onde jorra maldade. Nesse tempo em que se cultua a beleza e se escarnece da virtude, precisamos dar ouvidos às palavras de Salomão: Como joia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição (Provérbios 11.22). Beleza física não é tudo. É melhor ser bonito por dentro do que ser formoso por fora!

GESTÃO E CARREIRA

COMPLEXIDADE NO RH

A morte de um cliente por seguranças no Carrefour no dia 19 de novembro, caso de repercussão internacional, chocou o país e se tornou simbólica ao escancarar uma condição real e estrutural da sociedade brasileira na véspera do Dia da Consciência Negra. Eu gostaria de abordar esse caso não para fazer qualquer julgamento específico, mas para falar sobre o tamanho do desafio e da responsabilidade dos profissionais de recursos humanos hoje – em especial em situações complexas como a enfrentada pela rede de supermercados.

Muitos de nós fomos formados para trabalhar em um RH voltado para dentro, atuação que varia desde o perfil controlador e negociador com sindicatos (comum nos anos 1980 e 1990) até o dos profissionais atuais, focados em treinamento, atração e retenção de talentos. Mas, hoje, o papel dos recursos humanos vai muito além disso: precisamos estar atentos aos valores, à cultura, às arquiteturas das relações, à releitura social. É algo infinitamente mais complexo.

Isso significa que temos que estar, também, do lado de fora. Foi o que aconteceu com o Carrefour. No vídeo em que pediu desculpas à sociedade pelo ocorrido em uma de suas lojas, divulgado na TV aberta em horário nobre, o CEO da varejista estava acompanhado de seu executivo de recursos humanos, algo pouco provável anos atrás. Seu papel, naquele momento, era prestar contas ao público externo sobre os valores, as práticas e as políticas da empresa no combate à desigualdade.

Na medida em que o tema central do cardápio organizacional passa por compreender a sociedade e o ser humano, com uma estratégia de negócios que vai muito além dos resultados financeiros, é responsabilidade do RH ser o braço direito do CEO nesse entendimento. Não estamos aqui apenas discutindo diversidade, e sim uma questão de estrutura social.

Obviamente, isso tudo se torna desafiador na formação dos RHs. Nossos conhecimentos de psicologia e práticas de gestão de pessoas não são mais suficientes. Para conseguirmos interpretar e trazer para a realidade corporativa os temas de grande complexidade que estão sendo discutidos no mundo, temos que ir além dos negócios. É preciso entender de antropologia, de sociologia, de comunicação – e de todos esses temas que nos afetam como indivíduos e como corporações.

E, ainda assim, não adianta procurar sozinho as respostas para discussões que envolvem questões estruturais profundas. Um exercício importante é a busca por soluções de forma coletiva, promovendo debates e firmando compromissos com todo o mercado. O racismo – e a violência que decorre dele -, para ficarmos no exemplo deste artigo, não é um problema que uma empresa conseguirá resolver sozinha, por melhores que sejam suas ações e intenções. Esse é um desafio que se reflete fortemente em toda a sociedade e precisa ser ataca do em conjunto.

Que esse triste episódio sirva para que as empresas se unam mais em torno de grandes causas sob uma perspectiva de curto, médio e longo prazo. E a nós, RHs, cabe estarmos pilotando essas conversas e ações junto com os CEOs e os conselhos de administração.

VICKY BLOCH – é psicóloga, sócia da Vicky Bloch Associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR TRÁS DA DECISÃO DE COMPRAR

Como e por que resolvemos adquirir um produto? Seguimos um impulso ou ponderamos a situação racionalmente? Estudos mostram que sentimentos e mecanismos inconscientes interferem fortemente quando abrimos a carteira

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”, acreditava o matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662). Já seu compatriota e contemporâneo René Descartes (1596-1650), fundador do racionalismo moderno, afirmava: “Penso, logo existo”. Dois pensadores, duas visões extremas acerca do homem. O curioso é que séculos depois essas citações ainda delineiam o limiar tênue entre sentimento e razão no qual a ciência moderna se norteia. Durante muito tempo economistas reforçaram o valor da racionalidade e negligenciaram a influência das emoções no que diz respeito às decisões que envolvem finanças. Viam no consumidor um ser absolutamente racional, que ponderava egoisticamente os custos e benefícios de suas opções para sempre aumentar o próprio lucro. Essa imagem, porém, tem algumas limitações, pois fatores emocionais como confiança e justiça influenciam nossas escolhas, no mínimo, com a mesma intensidade e importância.

Porém, como é possível compreender conceitos abstratos como a confiança de forma puramente científica? Aparentemente, os economistas precisam incluir em suas pesquisas o órgão que faz opções: o cérebro. É exatamente isso que procura fazer a nova linha de pesquisa da neurociência. Neuroeconomistas têm estudado mais detalhadamente o conceito de Homo oeconomicus. O rápido progresso da tecnologia, principalmente na área dos procedimentos por imagem, fez com que esses estudos fossem impulsionados nos últimos anos.

Entre os pioneiros estão os neurologistas Antoine Bechara e Antônio Damásio, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, que estudaram pacientes com lesões cerebrais. Eles observaram que pessoas com o córtex pré-frontal lesionado apresentam comportamento social extremamente incomum: ponderam racionalmente vantagens e desvantagens das várias possibilidades, mas não parecem capazes de perceber e expressar seus próprios sentimentos ou de reconhecer os de seus semelhantes.

Com isso, mesmo decisões simples, como a compra de um xampu, tornam-se um problema: em vez de confiar em suas “sensações”, esses pacientes tentam analisar todos os prós e contras do produto – um processo extremamente demorado. Bechara e Damásio concluíram então que os sentimentos não apenas influenciam nossas decisões, substancialmente, mas que, na verdade, não conseguimos resolver absolutamente nada sem a ajuda das emoções. Segundo a teoria de Damásio, das marcas somáticas (soma, do grego, corpo), os sinais corporais emocionais influenciam a escolha entre duas alternativas, principalmente em situações complexas.

Mas, afinal, como sentimentos controlam nossas decisões econômicas? Para examinar essa questão, Alan Sanfey e outros pesquisadores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, convidaram em 2003 voluntários para um. “jogo do ultimato”: dois sujeitos sempre jogavam juntos, sendo que um recebia determinada soma em dinheiro, da qual podia escolher e doar uma parte para seu parceiro de jogo. O ponto­ chave: os dois só podiam ficar com o dinheiro se o receptor aceitasse a oferta. Se ele a recusasse, por considerá-la injusta, ambos ficariam sem nada. Coloque-se no lugar do receptor. Com um montante total de, por exemplo, R$ 100,00, você aceitaria a metade? Provavelmente, sim. Mas como seria se a doação fosse de apenas R$ 1,00 e o outro jogador quisesse ficar com os R$ 99,00 restantes? Se você fosse um Homo oecomnomicus racional deveria aceitar qualquer oferta – um ganho, mesmo que minúsculo, afinal, é melhor do que nada.

Realmente, os voluntários aprovaram principalmente as propostas em que o valor foi dividido de forma mais ou menos justa. Se a oferta, porém, estivesse drasticamente abaixo da linha dos 50%, a maioria recusava, indignada. Os participantes preferiam lidar com uma perda financeira a proporcionar aos seus parceiros um ganho muito mais alto que o seu. Mas quando os pesquisadores coordenados por Sanfey disseram que eles jogariam contra um computador, o quadro transformou-se: mesmo ofertas “desonestas” foram aceitas. Ao que tudo indica, o fato de termos uma máquina como opositor afeta menos nosso senso de justiça.

Enquanto os jogadores negociavam entre si, os cientistas acompanhavam sua atividade cerebral por tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf). Durante as medições, agitavam-se nos casos de ofertas especialmente injustas principalmente três regiões que participam da regulação de sentimentos: a área anterior da ínsula, o córtex cingular anterior, assim como uma parte do lobo frontal, e o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL). Os participantes encontravam-se evidentemente em um conflito emocional que se refletia em diversas atividades cerebrais. Sanfey e seus colegas interpretaram a descoberta como uma tentativa do cérebro de superar o sentimento negativo e aceitar a oferta injusta para aumentar o ganho.

Em outro estudo, realizado em 2006, um grupo coordenado pela neurocientista Daria Knoch e pelo economista Ernst Fehr, da Universidade de Zurique, Suíça, no entanto, chegou a um resultado um pouco diferente. Nesse caso, os voluntários testaram o jogo do ultimato enquanto cientistas desligaram eletivamente áreas dos CPFDL direito ou esquerdo por meio de estimulação transcraniana – que influencia áreas cerebrais específicas por meio de impulsos eletromagnéticos. Os participantes apenas aceitaram com mais frequência ofertas injustas quando o seu córtex direito estava bloqueado – o mesmo efeito não se dava do lado esquerdo. Porém, os jogadores continuaram considerando as propostas mesmo gritantemente injustas, apesar de aceitá-las.

CONFIANÇA PREMIADA

Knoch e Fehr supõem que a área cerebral direita suprima sinais egoístas, possibilitando que a pessoa coloque em prática suas próprias regras de justiça. O lobo frontal desempenha um papel importante em tais decisões, tão fortemente influenciadas pelas emoções. E a confiança? Um Homo oeconomicus não lhe dá grande valor – pois quem se baseia na integridade de seu parceiro de negócio invariavelmente arrisca-se a ser passado para trás. A experiência mostra, porém, que sem confiança mútua várias relações comerciais fracassam. Quem compra um carro usado está sempre correndo um risco. Não lhe resta quase nenhuma opção a não ser confiar nas declarações do vendedor. Cientistas coordenados por Kevin McCabe, da Universidade do Arizona, em Tucson, colocaram voluntários numa cilada em um “jogo de cooperação recíproca”: o jogador 1 tinha de escolher entre dividir justamente um montante de US$ 90,00 ou aumentar o valor total para US$ 405,00. Se escolhia a segunda alternativa, se colocava-se nas mãos do jogador 2, que, desse valor total, podia devolver 180 dólares para seu companheiro e ficar com os 225 restantes como recompensa – ou pegar tudo para si. O primeiro participante, portanto, arriscava-se a ser enganado pelo seu parceiro se quisesse aumentar seu próprio ganho em quatro vezes, de US$ 45,00 para US$ 180,00. Mais uma vez, os pesquisadores observaram o cérebro de seus sujeitos durante o processo. E revelaram-se diferenças significativas: em jogadores que entregavam a seus companheiros o capital inicial, ou, inversamente, premiavam a confiança de seus parceiros com um comportamento cooperativo, o córtex pré-frontal medial apresentou taxas metabólicas mais altas do que as dos que foram relutantes em cooperar. Essa região cerebral é associada à capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros. O grupo de pesquisadores coordenados por Jordan Grafman, do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrames, em Bethesda, descobriu em 2007 que, em um jogo de confiança semelhante, outra região cerebral também era estimulada. Entre os voluntários que desde o princípio confiaram em seus parceiros, o córtex pré-cingular agitava-se – uma área que analisa o próprio comportamento e as ações presumíveis do outro. Além disso nessas pessoas, uma estrutura do sistema límbico revelou uma atividade aumentada no septo, onde é controlada a liberação dos hormônios vasopressina e oxitocina, que regula o comportamento social. Uma pequena pitada de oxitocina, administrada por um spray nasal, já basta para elevar a confiança do jogador. Isso foi o que descobriram os cientistas de Zurique coordenados por Michael Kosfeld em 2005, em um experimento pioneiro.

Mas de volta ao dia a dia, o que acontece em nossa cabeça quando estamos diante da prateleira de supermercado? Em 2005, Michael Deppe, da Universidade de Münster, na Alemanha, mostrou junto com um de nós, Peter Kenning, a 22 pessoas que estavam dentro de um tomógrafo, sempre imagens de dois produtos que – com exceção da marca – não se diferenciavam em nada. Os voluntários deviam escolher um dos artigos apresentados sendo que mulheres precisavam decidir entre 15 tipos de café, enquanto homens optavam entre 20 cervejas. De forma aleatória, a marca preferida dos sujeitos sempre voltava a surgir entre os pares apresentados – a escolha então se tornava fácil.

Durante essas decisões simples, a atividade do CPFDL se reduzia. Em compensação, a do córtex pré-frontal ventromedial se mostrava mais intensa. Isso leva a crer que o centro de controle racional do CPFDL é exigido quando o ato de escolher não provoca grandes emoções. Mas, se avistamos nossa marca de café ou de cerveja preferidas, as regiões cerebrais do controle cognitivo são desativadas e aliviadas. Assim, sentimentos positivos facilitam nossas decisões.

O grupo de trabalho de Read Montague, da Escola de Medicina Baylor, em Houston, avaliou, em 2004, o quanto o marketing pode interferir em nossos processos mentais. Os pesquisadores texanos analisaram um fenômeno interessante: a Coca-Cola é considerada a bebida gasosa com cafeína mais vendida do mundo. No entanto, em degustações de olhos vendados, sua maior concorrente, a Pepsi, quase sempre obtém melhores resultados. Ambas as bebidas desencadeiam – enquanto sua marca é desconhecida – atividades cerebrais semelhantes. Assim que o degustador pode ver o logotipo da marca, seu CPFVM já se agita. Michael Koenigs e Daniel Tranel, da Universidade de Iowa, descobriram em 2008 que em pacientes com lesões no CPFVM a preferência pela Coca-Cola inexiste. Os voluntários gostavam mais da Pepsi, mesmo sabendo que não estavam experimentando Coca-Cola. Portanto, aparentemente algumas empresas conseguiram marcar­ se a ferro no cérebro do consumidor.

Um argumento econômico decisivo continua sendo o preço. Você por acaso gastaria R$ 30,00 em um tablete de seu chocolate preferido? Dificilmente. Mas talvez arrematasse um vinho caro para impressionar seus amigos. Os preços, então, têm dois lados: por um, doem no bolso, por outro, são considerados indício de qualidade, elevando assim o valor ideal do produto. Em 2007, sob coordenação de Brian Knutson, da Universidade de Stanford, pesquisadores examinaram o que acontece no cérebro durante essas ponderações. Foram oferecidos bombons para ser comprados pelos participantes; se eles o faziam, agitava-se, principalmente, o centro de recompensa no núcleo acúmbens. Mas, se a iguaria lhes parecia cara demais, a ínsula impunha seu veto.

Em 2008, pesquisadores coordenados por Antônio Rangel, também de Stanford, demonstraram que o preço pode enganar nossa percepção sensorial. Os voluntários foram colocados dentro do TRMf para uma degustação de vinhos. Durante o processo, porém, foram apresentadas algumas bebidas baratas como se fossem um Cabernet Sauvignon. A valiosa bebida teve excelente aceitação. O córtex orbito-frontal medial, que memoriza boas experiências relacionadas a sabores, cheiros ou músicas, trabalhou de forma intensa. As áreas sensoriais do cérebro, por outro lado, não apresentaram atividade aumentada – não se deixaram enganar.

CENTROS DE ECONOMIA

Principalmente o córtex pré-frontal ventromedial e o dorso lateral interferem nas decisões econômicas do cérebro.

ASSUNTO DE PSICOTERAPIA

A maioria das pessoas que se submete a um processo psicoterápico, em especial de base psicanalítica, provavelmente terá de se haver, em algum momento, com a questão do dinheiro. Não por acaso: de uma forma ou outra, todos nós temos inquietações – e sofrimento em nossas relações com o vil metal. Na clínica, ele não é apenas tema de análise, mas também um elemento da sustentação do setting. A maneira como o paciente lida com o pagamento das sessões, o quanto e o como dispõe de seus recursos costuma oferecer material de trabalho ao analista e ao analisando, dando margem a reflexões, interpretações, elaborações e insights. “Há uma diferença fundamental em relação à maneira como o dinheiro circula no mercado e na clínica, onde está associado à economia inconsciente”, ressalta o psicanalista Mauro Mendes Dias, membro-fundador Sociedade de Psicanálise de Campinas. “Na neurose obsessiva, por exemplo, o traço de avareza corresponde sentido miserável que o sujeito atribui a seu próprio desejo. O pagamento introduz uma questão decisiva destacada por Freud, que remete às primeiras trocas da criança com a mãe”, observa. Dias ressalta que, para o profissional, também há algo a ser pago para que possa oferecer um tipo específico de escuta terapêutica. Ele lembra que no texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, de 1958, Jacques Lacan fala de “três preços”. O primeiro está vinculado à palavra do analista, que sempre deve ter efeito de interpretação – e, portanto, não pode ser banal; o segundo tem a ver com o esvaziamento do próprio ego. Para dispor dessas duas condições o psicanalista precisa ter se submetido à própria análise e à formação – o que costuma ser dispendioso. O terceiro preço está relacionado à necessidade de sustentar sua função por meio um processo continuado de aprendizagem, leitura, atualizações, troca com pares, participação em grupos de discussão e eventos – e isso requer investimento permanente, não só de dinheiro, mas também de tempo e desejo.

OS MÉTODOS DA NEUROECONOMIA

Já há bastante tempo economistas utilizam métodos fisiológicos em suas pesquisas. Medições de resistência cutânea ou de reações da pupila têm fornecido dados, objetivos sobre o comportamento decisório de consumidores. Essas técnicas, no entanto, levam a afirmações generalizadas apenas em termos, já que simplesmente captam um único sinal físico que, por sua vez, deve ser contrabalançado com as declarações dos voluntários. Isso seria, por exemplo, semelhante a uma tentativa de avaliar a qualidade musical de uma orquestra sinfônica apenas com base na intensidade do som. Além disso, subsídios fornecidos pelos próprios sujeitos revelam-se problemáticos, já que, por um lado, são distorcidos por expectativas sociais e, por outro, refletem apenas impressões subjetivas. Por exemplo, o nosso corpo pode sentir frio quando tem febre, apesar de o termômetro mostrar uma temperatura elevada.

As atividades cerebrais revelaram-se um critério melhor. Procedimentos de medição emprestados da neurobiologia contribuíram de forma relevante para a estabilização na neuroeconomia: métodos não invasivos permitem, hoje, visões profundas do cérebro em atividade. Com eles, os pesquisadores detectam atividades eletromagnéticas das células neurais – como na eletro­encefalografia (EEG) e na magnetoencefalografia (MEG) – ou utilizam procedimentos por imagens, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf), que se baseiam em características metabólicas cerebrais. Enquanto os métodos eletromagnéticos oferecem grande exatidão temporal, possibilitando acompanhamento direto da atividade neuronal, os pontos fortes dos procedimentos por imagem estão na localização espacial precisa das áreas do cérebro ativadas. A eles acrescentou-se mais recentemente a estimulação magnética transcraniana (EMT), na qual determinadas regiões podem ser objetivamente inibidas ou estimuladas por meio de um impulso eletromagnético. Neuroeconomistas têm utilizado a EMT para verificar resultados de estudos já existentes.

EU ACHO …

QUANDO CHORAR

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

BÊ-A-BÁ DESIGUAL

A pandemia exacerba a desigualdade educacional no Brasil. Mas há saídas: investimento no professor e em alternativas às limitações tecnológicas regionais

A pandemia tornou a educação à distância um imperativo. Conseguiram avançar nessa seara os países que dispunham de infraestrutura educacional tanto em seus sistemas públicos e privados como também em sua própria sociedade, organizada para dar amparo aos alunos em casa. O Brasil não faz parte desse grupo. A falta de estrutura das redes de ensino locais – somada à imensa desigualdade social do país – deixou mais de 4,9 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio sem atividades escolares durante todo o ano. O resultado foi um ano quase perdido, em que até mesmo os sistemas que conseguiram implementar métodos de ensino não presenciais fracassaram ao não cumprirem a meta mínima de tempo de aluno em aula por dia. A educação do futuro – e um futuro que já começa no ano que vem – terá de apresentar novos formatos para conseguir absorver os alunos de forma presencial e virtual, enquanto a vacina não for uma realidade para a maioria dos brasileiros. Um estudo coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) durante a quarentena mostra um quadro considerado inaceitável: os pesquisadores constataram que a 13,5% dos estudantes de 6 a 15 anos não foi ofertada nenhuma atividade escolar. A análise por estrato de renda é ainda mais desigual. Alunos mais pobres foram 633% mais afetados do que os mais ricos, prejudicados pela falta de infraestrutura em casa. No ensino fundamental, 4,43 milhões de crianças e adolescentes não têm acesso à internet. No ensino médio, quase 1 milhão de alunos também são 100 % desconectados.

No Reino Unido, um dos países em que a eficácia da educação remota foi maior, um estudo do Institute for Fiscal Studies feito com 5.500 famílias com crianças entre 4 e 15 anos mostrou que o tempo dedicado à atividade escolar caiu para todos – de 6,6 para 4,4 horas por dia, em média. No Brasil, nem os mais ricos chegam perto desses patamares. O levantamento da FGV mostrou que no Acre um aluno em atividade remota fica 1,23 hora estudando virtualmente, enquanto em Brasília, o melhor entre os entes federados, um estudante passa três horas diárias em aula. Bem abaixo dos parâmetros ingleses e insuficiente para atender ao mínimo de horas ­ aula que um aluno deve estudar, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que estipula quatro horas diárias.

Cleiton Augusto Cruz integra o grupo limitado de alunos que conseguiram receber algum conteúdo durante o ano. Aos 16 anos, passou os quatro últimos estudando em escola pública em Goiânia, Goiás. Com o sonho de conseguir cursar Direito, está há nove meses sem pôr os pés na escola. “A pressão é dobrada porque faltou muito conteúdo neste ano”, afirmou, ao se lembrar do desafio do vestibular em 2021. Com o ensino remoto, ele teve dificuldades para manter sua dedicação à escola. “Eu tinha para mim que aprender não dependia do professor ou do colégio, que quem fazia o aprendizado era o aluno. Hoje percebo que não é bem assim”, disse. O estudante tem internet em casa e revezou com a irmã mais nova o uso do computador da mãe. Para ele, pior do que a barreira tecnológica foi a metodológica. Seus professores passavam conteúdos por grupos de WhatsApp, mas eram apenas listas de tarefas, indicação de leituras ou vídeos, sem interação. “Toda a animação da sala, a ambição do conhecimento, nem que fosse para saber mais que o outro, nada disso eu consegui encontrar no remoto”, contou.

Apesar da preocupação por não ter rendido como gostaria, Cruz reconheceu que havia colegas em situação pior. “Alguns não têm Wi-Fi em casa, então viam as mensagens só eventualmente. Tem colega que me disse que preferia repetir de ano”, relatou. Assim como o jovem, Helena Tesserolli, de 9 anos, tem o perfil de uma estudante dedicada e participativa. Ela precisou dividir os recursos tecnológicos da casa com seus irmãos – embora já tenha seu próprio celular. Aluna do quarto ano da rede municipal de Jaguariúna, São Paulo, ela conseguiu ter um ano estimulante. Fez projetos a pedido da professora – e um deles até por curiosidade própria, uma fonte d’água que não precisa de energia elétrica. “Para mostrar o que fiz, eu gravava vídeos e mandava para a professora. Minha irmã ou minha mãe filmavam”, contou.

Para Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, dadas as “profundas” desigualdades educacionais que já existiam no país antes da pandemia, as ações das redes de ensino foram até mesmo surpreendentes. “Muito cedo se constatou que uma resposta com base na conectividade não seria suficiente. Mesmo sem nenhuma coordenação do governo federal, estados e municípios adotaram abordagens combinando diferentes mídias, para chegar ao maior número de estudantes possível”, afirmou.

O Paraná foi o maior exemplo de sucesso em termos de conectividade: 95% dos alunos de ensino médio entraram constantemente na plataforma educacional lançada pela rede estadual em abril. Com o passar dos meses, o serviço foi ganhando novas funcionalidades e cursos extracurriculares, como aulas de programação. Na rede estadual do Rio de Janeiro, as aulas on-line também começaram em abril, mas até o mês de outubro 411 mil estudantes – 58% do total – não tinham acessado nenhuma atividade acadêmica.

Algumas redes municipais e estaduais tentaram minimizar a falta de conectividade por meio de dois modelos. Um deles foi a distribuição de chips de internet para os estudantes. Outro, usado pelo Paraná, foi organizar todos os conteúdos em um aplicativo que consome “dados patrocinados”. Funciona como uma espécie de ligação a cobrar: o estudante usa a banda, mas quem paga é o governo, dono do aplicativo. Ambos, contudo, esbarram na necessidade de os estudantes terem aparelhos relativamente novos e à disposição do uso escolar.

Apesar de reconhecer que muitos alunos acabaram excluídos, Costin ressaltou que o esforço foi sem precedentes. “Temos histórias de professores levando tarefas a cavalo para alunos da zona rural, de visitação domiciliar para tirar dúvidas com docentes indo de barco”, explicou a educadora. Ensino à distância não é sinônimo de aula on-line. Há diferentes maneiras de estimular a aprendizagem de maneira remota e, se bem estruturadas, as atividades educacionais podem cumprir mais do que uma função puramente acadêmica. “Teve secretário estadual enviando materiais impressos para redes municipais de cidades pequenas, que não tiveram condições de fazer esses materiais, de redes que não eram sua responsabilidade”, contou.

Costin reforçou que, apesar dos desafios de aprendizado, o ano trouxe aos alunos o desenvolvimento de outras aptidões. “Eles desenvolveram habilidades socioemocionais, como se abrir para novas experiências, se adaptar, ter persistência. Ainda que não seja na escola, estão aprendendo sobre vírus, contaminação, sobre como adultos podem ser irresponsáveis”, afirmou. Para 2021, sem certezas sobre como ficará o controle da pandemia, ela defendeu a prioridade de os professores receberem as vacinas. E lembrou ainda que escola é uma atividade tão essencial que, mesmo em meio a uma segunda onda muito forte, os países da Europa optaram por manter as aulas.

Outro passo essencial para o país é avançar na conectividade dos colégios públicos, já que muitas vezes nem mesmo a escola dispõe de uma rede capacitada para uma aula on-line. “Nada vai substituir o professor presencial, mas os professores hoje precisam usar as novas tecnologias para melhorar o processo de ensino-aprendizagem”, afirmou Mozart Neves Ramos, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-secretário estadual de Educação de Pernambuco. Ele lembrou que o Brasil tem um fundo especifico para a universalização dos serviços de telecomunicação, o Fust. “Parte desses recursos deveria ter sido usada para fazer a transição para a educação digital. O que aconteceu é que os governos, pela área econômica, usaram o Fust para superávit”, criticou. O Congresso chegou a votar um projeto de lei que previa utilizar a verba para universalizar a banda larga em escolas públicas, mas o presidente Jair Bolsonaro, por recomendação do Ministério da Economia, vetou. No Congresso, há um projeto de lei que prevê a oferta de conexão emergencial para 18 milhões de estudantes e 1,5 milhão de professores. O texto já foi aprovado na Câmara e aguarda votação no Senado.

O consenso entre os especialistas é que, sem uma perspectiva de fim da pandemia, o ensino híbrido, ora virtual, ora presencial, se torne a regra – o que exigira investimento e preparo pedagógico. “Ele é importante para as pedagogias ativas, que centram o processo na aprendizagem do aluno. Cada jovem poderia estudar pela manhã com todos os colegas e, à tarde, mediado por tecnologias, se aprofundar em assuntos mais pertinentes”, defendeu Ramos.

O modelo de ensino-aprendizagem com apoio de tecnologias já conta com a aceitação em massa dos professores. “Existem dois tipos de barreira: a hard, que é a falta de internet e aparelhos. A outra, que é a soft, é que era o receio dos professores. Antes da pandemia, muitos se perguntavam se valia a pena usar tecnologias para ensinar, mas boje eles querem”, afirmou Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann. Após a crise sanitária, uma pesquisa encomendada pela fundação constatou que 73% dos educadores disseram que vão utilizar mais tecnologia no ensino do que usavam antes. E só 3% disseram não se sentir preparados para o uso de tecnologias.

Em Sobral, no Ceará, município que tem um dos melhores resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), assim que as aulas foram suspensas a Secretaria de Educação investiu no aperfeiçoamento do corpo docente. Organizou um curso on-line sobre como lidar com as ferramentas digitais e passou a fazer duas lives semanais com professores por meio do canal do YouTube Tecnologias Digitais na Educação, que hoje tem mais de 62 mil inscritos. O aperfeiçoamento do ensino remoto foi além da internet. Na cidade, 36% dos alunos, sobretudo nos distritos rurais, não têm acesso a conexão e computadores e tablets. Para esses, os professores foram orientados a enviar atividades impressas semanalmente.

Um trabalho de articulação nas políticas educacionais poderia ser liderado pelo Ministério da Educação, na avaliação de Alexandre Schneider, presidente do Instituto Singularidades e ex-secretário municipal de educação de São Paulo. Contudo, diante da atual conduta do governo em relação ao problema como um todo, ele é cético quanto à possibilidade de essa liderança se concretizar. “As idas e vindas do governo federal e a falta de comunicação geraram muita insegurança para a retomada”, disse. Entre as funções que podem ser lideradas no âmbito federal está a confecção de um programa de transição digital na educação. Para isso, seria necessário desenhar um plano de recepção dos professores e estabelecer os parâmetros de um currículo híbrido. ” Para ter um plano de aulas híbridas, o professor precisa de formação para entender o que deve ser trabalhado presencialmente e o que funciona bem à distância”, explicou ele. A tecnologia é imprescindível, mas a boa pedagogia também.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRONTOS PARA GUERREAR?

A necessidade de viver em sociedade modula a agressividade humana; já o confronto rompe barreiras psicológicas, o que nos faz desqualificar o adversário e trata-lo como presa a ser caçada; ainda assim pesquisas apontam para uma conclusão surpreendente: empreender grandes batalhas não é o destino de nossa espécie

A agressividade contribui para determinar identidade social, limites simbólicos e fronteiras territoriais. Embora não seja programado geneticamente, esse aspecto importante da evolução se manifesta de diferentes formas na interação de indivíduos semelhantes ou de espécies distintas, por exemplo, por meio da luta, da competição, da fuga, da hostilidade e da submissão. Os correspondentes emocionais desses comportamentos são reações de medo, raiva, ataque e ameaça – que ativam uma ampla série de respostas físicas e variações de humor coordenadas pelo sistema nervoso simpático e parassimpático.

Essas respostas podem ser mais facilmente interpretadas nos mamíferos como gatos e cachorros, e em primatas não humanos. Isso foi evidenciado por Charles Darwin, em sua famosa obra A expressão das emoções no homem e nos animais (lançada pela Companhia das Letras no Brasil). O naturalista inglês comparou as diversas expressões faciais dos animais – particularmente os movimentos dos músculos e a postura da cabeça – com as dos homens para esclarecer a natureza das respostas e dos efeitos emocionais e somáticos como raiva e medo.

Entretanto, observar comportamentos num ambiente natural é muito diferente de acompanhá-los no laboratório. Se na presença de sinais ambientais conhecidos ou de comportamento combativo com indivíduos da mesma espécie o animal pode evitar a agressividade, optando pela fuga, no laboratório, em geral, escolhe o enfrentamento, o que torna a situação um tanto artificial. Em outros termos, as condições anormais que induzem agressividade no laboratório (isolamento compulsório, administração de choques elétricos etc.) alteram os dados experimentais, tornando-os pouco confiáveis.

Todavia, não há uma definição suficientemente clara, capaz de abarcar a vasta gama de comportamentos agressivos no animal e no homem. Se para o mundo animal podemos definir como agressivo qualquer comportamento que vise prejudicar ou ofender outros membros da mesma espécie, para o humano é bastante difícil especificar que comportamentos poderiam ser definidos como agressivos, violentos e, sobretudo, em que situações um comportamento poderia ser interpretado como uma forma de oposição, de defesa ou de protesto. Além disso, os comportamentos agressivos humanos frequentemente assumem características simbólicas extremamente sofisticadas, expressões permeadas por elementos da cultura ou explicitamente violentas no plano psíquico.

No âmbito neurobiológico, a violência e a agressividade estão associadas à ativação de estruturas subcorticais e do sistema nervoso autônomo que controla os demais órgãos internos do organismo (visceral autônomo), ao passo que a violência “culturalizada” (não menos destrutiva) se baseia predominantemente em estruturas corticais. Na realidade, os fatores que determinam violência e agressividade não são apenas neurobiológicos e individuais, mas também coletivos e socioculturais. Em geral, o reconhecimento e a elaboração das mensagens de alarme que anunciam atos violentos são efetuados por estruturas complexas como o córtex pré-frontal, a amígdala, o hipocampo, o córtex cingulado anterior e outras áreas cerebrais específicas. Parece, no entanto, que os correlatos neurobiológicos da agressividade se encontram no sistema límbico e no tronco encefálico. Por exemplo, diversos estudos demonstraram que estimulações elétricas leves no sistema límbico de ratos os levam a atacar animais próximos. Além disso, investigações sobre a influência do sistema neuro­endócrino identificaram a testosterona (hormônio sexual masculino) como um importante modulador de comportamentos agressivos, o que também explicaria, segundo alguns pesquisadores, a maior agressividade do homem em relação à mulher. Além disso, altas taxas de testosterona foram encontradas em mulheres particularmente violentas.

Embora a relação causal entre hormônio e agressividade não esteja clara, pois não se sabe se ela poderia induzir altos níveis do hormônio ou vice-versa, pesquisas recentes apontam para a possível influência, mesmo que indireta, de fatores genéticos sobre a agressividade e sua relação com problemas no desenvolvimento cognitivo – por exemplo, déficit de atenção – que podem resultar em condutas anti-sociais como demonstrou o neurologista Antônio Damásio, da Universidade do Sul da Califórnia. Em 1939, num estudo histórico, Heinrich Kluver e Paul Bucy, da Universidade de Chicago, descobriram que a retirada cirúrgica da amigdala reduzia a agressividade a hostilidade em animais e nos pacientes psiquiátricos violentos.

Esses resultados indicam existência de centros que exercem efeito inibidor e excitante da agressividade localizados no hipotálamo, no núcleo caudado, no septo e na amigdala, tanto no animal quanto no homem. E, um experimento famoso, em 1965, José Delgado, da Universidade Yale, demonstrou que a estimulação elétrica a distância dos centros inibidores cerebrais é eficaz a ponto de parar abruptamente o ataque de um touro. Por outro lado, alterações do sistema límbico (estrutura cerebral arcaica que recebe impulsos inibidores das regiões neocorticais) podem estar na base do comportamento fortemente violento de alguns indivíduos.

Essa sintomatologia configuraria a síndrome do descontrole, cuja origem seria uma patologia cerebral não especificada. Apesar destas evidências, estudos atuais indicam relações mais complexas entre a agressividade e o funcionamento cerebral. A antiga concepção que atribuía a regulação de funções a áreas específicas do cérebro, ou a um grupo isolado de neurônios, é claramente insuficiente à luz das mais recentes pesquisas neurofisiológicas. Parece muito mais plausível supor a existência de circuitos funcionais, constituídos por vias e áreas nervosas diferentes, que contribuem para a regulação de funções específicas. Todavia, embora a realidade seja mais intrincada do que julgavam os estudiosos que empreenderam as primeiras pesquisas nessa área, questionar a existência de centros da agressividade não implica necessariamente excluir a ação de circuitos neurais. Pesquisadores que usam ressonância magnética nuclear funcional (fMNR), tomografia computadorizada por emissão de fóton único (Spect) e tomografia por emissão de pósitrons (PET) orientam as pesquisas para a identificação de circuitos cerebrais responsáveis por comportamentos impulsivos e violentos.

Se a agressividade é um fenômeno biológico, individual e interno ao grupo, a guerra é, antes, um resultado da evolução cultural que ultrapassa determinantes biológicas, fazendo predominar condicionamentos culturais que levam o homem a matar. Diferentemente do confronto bélico, a agressividade é indispensável à sobrevivência, à evolução, às funções adaptativas e ao crescimento psicológico da criança – que tem de explorar o ambiente, avaliar a si mesma, descobrir o que lhe é permitido. Para o etólogo austríaco Eibl-Eibesfeld, a natureza da guerra é cultural, ao passo que a agressividade é um impulso inato, que podemos orientar em direção à evolução ou à autodestrutividade. O que impele o homem a guerrear são questões críticas como crescimento demográfico, devastação do ambiente, destruição da biodiversidade, competição violenta, ameaça de destruição em massa, recusa violenta da tradição, doutrinamento exasperado.

No curso da evolução, os grandes predadores desenvolveram forte inibição do uso das próprias armas naturais contra os membros da mesma espécie, sob pena de extinção. Essa inibição é praticamente ausente no homem, desprovido, como é, de armas naturais que lhe permitam matar rapidamente uma grande presa. Em outras palavras, na história humana faltou uma pressão seletiva que impulsionasse o desenvolvimento de mecanismos inibidores da matança de indivíduos da mesma espécie. Somente a invenção de armas que atingem de longe e de maneira anônima conseguiu inverter esse equilíbrio entre a capacidade de matar e as inibições sociais.

Proliferou ao longo da história, valores éticos como tolerância e solidariedade não foram suficientes para mitigar a destrutividade humana desencadeada por instintos arcaicos como a defesa de si, de seus pares e territórios. Quando, por mutação cultural, os mecanismos inibidores enfraquecem, o conflito transforma-se em guerra. Assim, se de um lado a agressividade individual entre os membros de um grupo é modulada por adaptações filogenéticas para evitar a intensificação destruidora, de outro a agressividade entre os grupos se expressa por meio do ferimento ou da matança dos inimigos com o uso de armas.

A guerra moderna, porém, não se realiza apenas com equipamentos que matam à distância. Também recorre uma doutrina voltada a menosprezar o inimigo. Isso demonstra como a agressividade entre os grupos se transformou num produto da evolução cultural, embora mobilize tendências inatas. O fenômeno contemporâneo baseia-se inteiramente na organização e na disciplina: o uso de armas que matam rapidamente permite eliminar o inimigo antes que ele envie sinais ou apelos capazes de inibir a violência. Para prevenir isso o inimigo é visto pelos combatentes como uma presa, uma caça ou um ser inferior. A finalidade é eludir os sistemas de inibição de agressividade, culturalmente mediados, que poderiam neutralizar o desdobramento do impulso para a guerra.

Nos conflitos que implicavam ataques a distâncias curtas, os combatentes poderiam perceber sinais de submissão e identificar-se com o adversário, o que poderia induzir sentimentos de compaixão capazes de frear comportamentos hostis. Freud formulou a hipótese de que os mecanismos de inibição da agressividade para com os semelhantes têm um fundamento psicobiológico. Com base em uma comparação etnográfica, ele notou que em diferentes populações primitivas os guerreiros que matavam seus semelhantes eram considerados imediatamente impuros e tinham de cumprir ritos de purificação para ser reinseridos em sua comunidade. “De todas essas proibições nos damos conta de que no comportamento para com os adversários também se exprimem outros impulsos além dos exclusivamente hostis. Vislumbramos expressões de arrependimento, de estima para com o inimigo, de remorso por ter lhe tirado a vida. Diria até que nesses selvagens esteja vivo o mandamento não matarás, como escreve Freud.”

Em tribos nilóticas da Etiópia, os sentimentos que animam um guerreiro vencedor são representados, como noutras culturas, por uma mistura de culpa e de orgulho pela ação realizada.

De um lado, pela admiração por parte do grupo a que pertence, de outro, pelo medo dos espíritos dos mortos e da vingança de seu grupo. O guerreiro que matou é obrigado a isolar-se numa choupana, enquanto as mulheres dançam à sua volta para propiciar o seu renascimento numa vida social normal. Em certos casos, o vencedor chega a assumir o nome do vencido, que, deste modo, se faz reviver simbolicamente. Em Etologia da guerra, Eibl-Eibsfeld relatou um notável volume de exemplos que indicam que a inibição para matar é inata. Além disso, ele mostrou que a ela se sobrepõem impulsos para matar inimigos fortemente culturalizados, mas incapazes de anular “o filtro das normas biológicas”. Nos conflitos tradicionais, nos quais prevalece o contato direto, um soldado não pode ignorar a natureza humana do adversário. Não raro, isso provoca um conflito interior, uma espécie de remorso.  Por esse motivo, no início de um conflito, quando a inibição à matança ainda está muito presente, adotam-se para superá-la por meio da psicologização do conflito estratégias voltadas a desumanizar o inimigo e a impedir qualquer contato interpessoal. A proibição de falar com pessoas da tribo inimiga, que vigora em diversas populações primitivas, ou as mais sofisticadas estratégias atuais dos governos,  para separar as operações de guerra do controle da consciência, como normas que visam a “não-fraternização”, com uso de armas a distância, proibição de ouvir a rádio inimiga e assim por diante, ilustram a estratégia de distanciamento.

CAMINHO DA PAZ

Durante a Primeira Guerra Mundial registraram-se inúmeros episódios de confraternização entre soldados de exércitos inimigos, os quais podiam pôr em risco os objetivos da guerra caso o ódio organizado viesse a faltar. Isso diz muito sobre a ambiguidade do comportamento humano: por um lado, os soldados arremessam-se uns contra os outros, pondo em campo todas as pulsões destrutivas da luta, quer inatas, quer suscitadas pela doutrinação; por outro, entram em conflito consigo mesmos quando, num confronto corpo a corpo, levam a cabo, pessoalmente, o homicídio.

A guerra como conflito armado entre grupos é tão antiga quanto o homem. Entretanto, em tempos pré-históricos os homens enfrentavam-se com utensílios rudimentares para conquistar territórios de caça e colheita, limitando-se a incursões repentinas que visavam surpreender pela tática da caça. Atualmente, os exércitos enfrentam-se numa espécie de “guerra total”. Como instrumento de política internacional, a guerra tem a finalidade de subjugar o inimigo. Alguns estudiosos chegaram até a defini-la como uma criação da civilização, na esteira da notória “continuação da política com outros meios”. Diferentemente dos embates tradicionais, a guerra deflagrada por conflitos entre Estados conferiu uma enorme importância a aspectos ideológicos e psicológicos. O recrutamento militar, por exemplo, só é eficaz se precedido por uma guerra psicológica preventiva.

A guerra fria – que só permaneceu fria por causa do risco de holocausto nuclear – foi um longo conflito. Mais do que qualquer outro, privilegiou batalhas psicológicas e ideológicas com o objetivo de enfraquecer a oposição adversária, reduzir a disposição de compreender a ideologia do inimigo e, ao mesmo tempo, repudiar seu sistema de valores. Por isso, antes de qualquer outra coisa, as tradições que conferem identidade à sociedade inimiga são repudiadas. Além disso, explora-se a eterna tensão entre a aspiração à liberdade do indivíduo e o poder do Estado, conflito que tem raízes na aspiração à autonomia e na rebelião contra o domínio ligado a essa aspiração.

Por outro lado, é possível incentivar as pessoas à desobediência simplesmente lhes oferecendo outra autoridade como alternativa mais segura. Até os profetas da antiautoridade erguem num pedestal modelos a ser honrados. Uma guerra desse gênero, não cruenta, pode ser vencida pelo grupo dominante quando este incute o seu próprio modo de pensar, seus próprios códigos, sua ideologia na mente dos adversários. Os slogans são as armas típicas dos conflitos ideológicos, precisamente como diz o termo alemão Schlagwort (de schlaghen = bater e wort= palavra). Esses conflitos podem ser incubadores de uma guerra quente, mas com maior frequência são apenas a forma humana do conflito como tal, pois proporcionam uma rejeição ao “inimigo” e podem levar à cisão da comunidade, destruição dos espaços de pluralidade e até mesmo a mudanças culturais.

Para os grupos dominantes, a guerra não é uma patologia, mas uma função: superá-la significa, em primeiro lugar, compreendê-la. Não basta mostrar aos homens a crueldade da guerra para que desistam dela. São ilusórias tanto as ideias de “pacifismo choroso”, de Aldous Huxley, quanto as ideias do “bom selvagem” e de sociedades animais idílicas. Uma cultura da paz tem de se livrar de qualquer preconceito antropocêntrico e reconhecer a realidade instintiva que condiciona nossos comportamentos. Antes de qualquer outro, o caminho da resolução não violenta dos conflitos provém, justamente, do mundo animal: as lutas pela posição e pelo território entre os vertebrados raramente levam à matança de um indivíduo da mesma espécie porque o conflito assume formas ritualizadas. Da destrutividade originária resta apenas um rastro e o caminho da pacificação permanece aberto.

UM INSTINTO COMO OUTRO QUALQUER?

Avaliar a importância relativa dos fatores inatos, por um lado, e dos fatores motivacionais e ambientais, por outro, tem sido decisivo na análise da agressividade humana. É necessário perguntar, com efeito, se a agressividade deve ser considerada um instinto que é parte da natureza animal ou um comportamento dependente de outros fatores, como a motivação, a frustração, a imitação e a aprendizagem. Com base nas teorias instintuais, entre elas a psicanálise, o comportamento agressivo vive de dinâmicas espontâneas, ou seja, elas se acumulam lentamente no organismo até alcançar níveis-limite que permitem uma descarga por meio de uma ação agressiva.

Para Konrad Lorenz, considerado o criador da etologia, a agressividade pode ser comparada a qualquer outro instinto, uma vez que é desencadeada por estímulos específicos e entra em ação por meio de comportamentos estereotipados, motivada por um impulso interno. Ora, o que ocorre se a tensão interna aumenta sem que um impulso alimentar, sexual ou agressivo seja satisfeito por falta de um estímulo desencadeador ou porque ele encontra obstáculo? É provável que o impulso aumente a um nível tal que qualquer estímulo não específico provoque descarga ou que, na falta de estímulos ambientais, aquele impulso se manifeste sob formas e expressões agressivas não reativas. Qual é, então, o significado da agressividade intra-específica? Em termos evolutivos, ela poderia significar vantagens relativas a posse de território, seleção sexual, autodefesa, cuidado com a prole e assim por diante. Para os etólogos, a agressividade estaria submetida ao controle de mecanismos inibidores, de modo a não se tornar disfuncional ou perigosa para a espécie. Após examinar uma ampla variedade de casos de aversão e frustração, em 1941, o pesquisador John Dollarde destacou a importância das situações reativas para os comportamentos agressivos do ser humano. Todavia, é preciso perguntar se reagimos desse modo em decorrência de frustrações ou as frustrações têm dinâmicas motivacionais autônomas. Parece mais plausível aceitar a segunda hipótese.

A emotividade – função adaptativa determinada pelas estruturas sociais – é o terreno necessário para a passagem da frustração à agressividade. Além dos aspectos naturais, foram investigadas também as determinantes culturais da violência. Mas nesse ponto as coisas não parecem fáceis. Diversas pesquisas realizadas com gêmeos e crianças, adotadas, com o objetivo de avaliar a predominância da conduta agressiva, não produziram resultados coerentes. A investigação do ambiente social evidenciou como a pobreza, a superlotação das periferias metropolitanas, a ausência de espaços para qualquer forma de atividade recreativa e a carência de higiene causam uma sensação de abandono e desespero que pode provocar comportamentos agressivos e desejo de desforra social. Um papel semelhante é desempenhado por crises econômicas, guerras, fome, doenças, que podem estar relacionadas a fenômenos ainda mais evidentes de criminalidade.

O ALTO PREÇO DOS CONFLITOS

Vítimas de traumas neurológicos sofrem declínio cognitivo mais rapidamente que a população em geral. Um estudo recente realizado nos Estados Unido com veteranos da guerra do Vietnã em processo de envelhecimento, com traumas causados por balas ou estilhaços alojados no cérebro, oferece um quadro sombrio do futuro de seus colegas que retornam do Iraque com ferimentos semelhantes, segundo o neurocientista Jordan Grafman, do Instituto Nacional de Transtornos Neurológicos e Trauma, que conduziu pesquisa equipe de Grafman descobriu que as funções cognitivas desse pacientes decaem quase duas vezes mais rapidamente que a de seus colega que não se feriram dessa forma. Porém, aqueles que tinham um alto grau de inteligência antes do trauma parecem ter ficado mais “protegidos” contra essa decadência. A educação tem também efeito protetor. “Quanto mais elevado o nível cultural da pessoa, mais apta se mostra para se recuperar” salienta o neurocientista. Os pesquisadores identificaram variáveis genéticas que podem ajudar a prever a deterioração pronunciada. As conclusões provavelmente se aplicam a combatentes do Iraque com o mesmo tipo de ferimento. “Sabemos que, em algum grau, essas pessoas sofrerão declínio cognitivo mais acelerado. Resta-nos oferecer-lhes acompanhamento neurológico adequado”, diz Grafman. Segundo os pesquisadores, dois terços dos soldados americanos atendidos no Walter Reed Medical Center ao retornar do Iraque já sofrem as consequências dos traumas neurológicos.

ENTRE PULSÕES DE VIDA E DE MORTE

Sigmund Freud, que num primeiro momento considerou as condutas agressivas como reação à busca frustrada do prazer, formulou a teoria das pulsões – sendo a de morte representada por Thanatos, antagonista do instinto de vida, Eros. Neste esquema, a primeira aproxima o indivíduo do estado inorgânico, opõe-se ao impulso vital, Eros. Segundo o modelo, o comportamento agressivo teria, por um lado, o objetivo de dirigir essa força para fora do organismo e, por outro, o de reduzir o estado de tensão. Na perspectiva freudiana, a guerra revela o homem primitivo que vive em nós, aquele que transforma o estrangeiro em inimigo a ser eliminado e banaliza a morte. Essa alteração na percepção da realidade de modo que as perdas pareçam estranhas ou irreais contrasta com a elaboração saudável do luto. Em dezembro de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, em carta ao amigo psiquiatra holandês Frederik van Eeden, publicada em 17 de janeiro de 1915, na revista The Amsterdammer, Freud escreveu: “Prezado colega, sob a influência desta guerra permito-me recordar-lhe duas assertivas que a psicanálise introduziu e que decerto contribuíram para tomá-la impopular com o público”. Do estudo dos sonhos e dos atos talhos das pessoas sadias, e também dos sintomas neuróticos, a psicanálise tirou a conclusão que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram de maneira alguma, mas continuam vivendo, ainda que recalcados, no inconsciente de cada pessoa·, esperando a oportunidade de reativar-se. A psicanálise, além disso, ensinou-nos que nosso intelecto é algo frágil e dependente, bibelô (futilidade, passatempo) e instrumento de nossas pulsões e de nossos afetos, e que somos obrigados a agir ora com inteligência ora com estupidez, conforme o querer de nossas atitudes íntimas e de nossas resistências. Pois bem, veja o que está acontecendo nesta guerra, veja as crueldades e as injustiças das quais se tomam responsáveis as nações mais civilizadas, a má-fé com que se comportam diante de suas próprias mentiras e iniquidades; e observe enfim como todos perderam a capacidade de julgar com retidão: é forçoso admitir que ambas as assertivas da psicanálise eram exatas”. Freud vislumbra no homem impulsos destrutivos primários prontos a reaflorar quando falham as ligações afetivas da comunidade.

A propensão gregária da maioria das pessoas supera a improvável submissão de suas pulsões à razão. Para Freud a salvação reside no (frágil) processo de civilização. Claro, as pulsões de morte não são neutralizadas pelas de vida. Aliás, uma interiorização excessiva, em outras palavras, uma intensa incorporação inconsciente das pulsões destrutivas não é desejável. Não obstante, para o criador da psicanálise, uma civilização deve ter em máxima consideração a potencialização do intelecto e a interiorização da agressividade, com todas as vantagens e os perigos que daí derivam. A guerra se contrapõe a todas as conquistas psicológicas alcançadas por meio da civilização. E é por isso que tudo o que favorece o ato de civilizar age também contra a guerra

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE FEVEREIRO

O HOMEM MAU RECEBE O CASTIGO CERTO

O mau, é evidente, não ficará sem castigo, mas a geração dos justos é livre (Provérbios 11.21).

É impossível praticar o mal e ficar sem castigo. É até possível que esse castigo não seja visto. É até possível que nesta vida a recompensa do mal não seja paga. Contudo, mesmo aqueles que escaparam do juízo dos homens jamais escaparão do justo julgamento de Deus. Asafe entrou em crise ao ver o ímpio, que blasfemava contra Deus, prosperando e vendendo saúde, enquanto ele, sendo um homem íntegro e fiel, era castigado todas as manhãs. Chegou a pensar que não valia a pena manter sua integridade e lavar suas mãos na inocência. Todavia, quando entrou na casa de Deus e atinou com o fim do ímpio, os olhos da sua alma foram abertos, e ele percebeu que o ímpio será irremediavelmente desamparado. O homem mau não prevalecerá na congregação dos justos nem encontrará amparo quando tiver de enfrentar o tribunal de Deus. A geração dos justos, porém, será poupada e desfrutará da verdadeira liberdade. Aqueles que buscam a Deus e confiam na sua graça recebem perdão para seus pecados e justificação diante do tribunal divino. Enquanto o homem mau será apanhado pelas cordas do seu pecado, o justo ficará livre dos seus para sempre. O mau recebe o castigo certo, mas o justo não ficará sem o seu galardão.

GESTÃO E CARREIRA

SAUDADE DO ESCRITÓRIO?

Os meses em home office nos ensinaram que o trabalho remoto funciona. Começa agora uma discussão sobre a volta às empresas. Mas qual é o propósito desses ambientes?

Em março, logo no início da pandemia, a Sephora do Brasil se viu forçada a fechar sua sede e todas as lojas no país, obrigando seus 600 funcionários a trabalhar de casa. Depois de cinco meses, a varejista de cosméticos decidiu reabrir as portas de seu escritório central, em São Paulo, para até dez funcionários diariamente. No primeiro dia, 17 de agosto, apenas oito dos que haviam se inscrito compareceram. No dia seguinte, nenhum. Desde então, a adesão tem sido mínima.

Voltar ao escritório tem se revelado uma frustração para quem esperava reencontrar o clima de antes da crise sanitária. Há uma proliferação de mesas vazias, com os objetos deixados para trás por quem esperava voltar em algumas semanas, e uma escassez de gente. As interações e a energia que caracterizavam o ambiente não estão mais lá.

Mesmo com o fim das medidas mais duras de isolamento, em todo o mundo prédios corporativos seguem esvaziados. Nos Estados Unidos, até 30 de agosto, menos de 35% dos trabalhadores relataram ter ido ao trabalho no dia anterior, segundo um monitoramento da consultoria Gallup. Gigantes do setor financeiro, como Goldman Sachs e J. P. Morgan, anunciaram em setembro que um número maior de funcionários deveria retornar, oferecendo benefícios para atrair o pessoal. A empresa de mídia Bloomberg passou a cobrir até 75 dólares de despesas com transporte individual como forma de incentivo.

Frente a esse desafio, mais do que questionar “se” e “quando” os ambientes de trabalho serão habitados novamente, o líder de RH deve provocar uma discussão mais profunda: o que será o escritório do pós-coronavírus? Qual será seu propósito existencial?

O TRABALHO EM XEQUE

Os seis meses de quarentena levantaram discussões. Nas metrópoles, perder horas e nervos para ir e voltar do trabalho nunca foi tão questionado. As viagens de negócios semanais se mostraram desnecessárias. A falta de confiança de gestores que queriam ter os subordinados por perto para controlar sua produtividade ficou evidente. E o desequilíbrio entre homens e mulheres na divisão das tarefas domésticas e nos salários foi escancarado.

As constatações advêm de uma crise que também é antropológica, segundo a consultora Betânia Tanure, sócia fundadora da empresa que leva seu nome. “Muda a dinâmica das relações e do que a gente valoriza no morar bem”, afirma Betânia. “E isso vai rebater diretamente no home office.

Para os indivíduos, o novo acordo está interessante. Uma pesquisa com 1.123 pessoas realizada pela Morning Consult com o The Times indica que quase 90% dos trabalhadores   remotos se dizem satisfeitos com o arranjo atual, mesmo que às vezes isso signifique atuar do quarto ou de outro cômodo travestido de escritório.

LIÇÕES DA PANDEMIA

Se os funcionários estão satisfeitos, as organizações buscam entender o seu papel no mundo pós-covid em meio aos aprendizados trazidos pela crise. O maior deles: nenhuma deixou de existir apenas por não poder aglomerar seus times sob o mesmo teto.

Suspeitas anteriores à pandemia, como a de que o home office comprometeria a produtividade e a inovação, não se confirmaram. Ao menos não ainda. Em uma recente entrevista ao The Wall Street Journal, Mary Barra, CEO global da GM, afirmou, como exemplo, que uma área em processo de mudança, com todos os funcionários trabalhando de casa, concluiu em um dia um projeto que, antes, levaria semanas.

Efeito similar foi percebido na varejista de cosméticos Sephora e na fabricante de produtos de limpeza Ypê. No meio da crise, a Ypê, que manteve suas fábricas funcionando por ser uma indústria essencial, passou a doar álcool em gel para hospitais da região. Foi impulso para o engajamento. ”Alguns funcionários se ofereceram para trabalhar no domingo, sem receber hora extra”, diz Bruno Szarf, vice-presidente de gente e gestão corporativa da Ypê, destacando que os trabalhadores registraram o ponto nesses dias.

O home office ainda abriu espaço para o RH inovar. A Ypê, por exemplo, com     sede em Amparo (SP), contratou profissionais de Belém (PA), Inglaterra e Estados Unidos para atuar remotamente até o fim da pandemia. O home office dá ao empregador a flexibilidade de buscar talentos em qualquer lugar.  Mas traz questionamentos. As companhias definem a remuneração pelo local em que os profissionais ficarão registrados, baseada em pesquisas com empresas da região.  “Se a pessoa vai trabalhar de casa, qual salário deve valer?”, pondera Bruno.

Outra mudança é na avaliação de desempenho. Existe um pensamento de que não faz sentido manter o modelo tradicional, baseado em metas, num ano como 2020. Na Sephora, a recomendação é que os gestores conversem não sobre metas, mas sobre prioridades – e que não sejam muitas. Já a Ypê criou um modelo chamado Diário de Competências. Por meio de uma plataforma, o funcion6rio pode dar, fazer e pedir feedback 3G0 graus, o ano todo. Um sistema de inteligência artificial monitora a ferramenta e, se perceber que há “coleguismo”, vai tirando peso das respostas. Para ajudar na análise, o empregado pode adicionar evidências, como uma apresentação.

UM DIA POR VEZ

A pandemia e a vida à distância também abriram espaço para novos comportamentos. Na Ypê, percebeu Bruno, graças ao uso massivo da tecnologia, as pessoas passaram a pensar de forma digital e robôs estão sendo construídos para otimizar os processos. Na Sephora, dos 600 funcionários, 75% trabalhavam nas lojas e nunca tinham feito home office. Com uma grade intensa de cursos, todos se voltaram para o e-commerce, ajudando a marca a aumentar as vendas online.

Novas atitudes passaram a ser vistas também na liderança. Chefes têm reconhecido sua fraqueza diante da crise, dando a sensação de uma gestão mais humanizada. Na primeira conversa com funcionários, Silene Rodrigues, vice-presidente de RH da Sephora, e os demais executivos explicitaram sua vulnerabilidade. “Demonstramos que os diretores também tinham medo de morrer, de ter um familiar doente, de ser demitido”, diz. O grupo ainda se comprometeu a falar a verdade. “Quando a gente não soubesse, iria dizer “não sei”, afirma. Desde então, ela tem se acostumado a não ter respostas. Qual será o futuro do escritório? Acho que o home office nunca irá ac abar, mas teremos de definir diretrizes para o trabalho.” E se os funcionários não quiserem voltar à empresa? ”Não sei. Estou vivendo um dia de cada vez.”

CHANCE DE MUDAR

Se o home office se comprovou efetivo, por que discutir um retorno ao escritório? A resposta mais comum é “por causa das relações pessoais e para manter a cultura”. Uma pesquisa do Gartner revela que a principal preocupação é não conseguir administrar o jeito de ser da empresa com o time disperso. “Existia um vínculo forte entre o lugar em que a gente trabalhava e o que a gente produzia. Isso foi realidade por muito tempo. Agora está sendo quebrado”, diz Russell McCall, conselheiro executivo do Gartner, em Washington.

Todos os ritos, cultos e heróis que moldara o jeito de ser corporativo foram desenvolvidos com base na interação presencial. Mas o fato de ser a forma que conhecemos não significa que é a única. Anderson de Souza Sant’Anna, professor na Fundação Getúlio Vargas, acredita ser possível construir e manter um ambiente – e as relações humanas – por meio da tecnologia. “Não preciso estar com gente no mesmo local geográfico para criar”.  O contato pode ser por holograma, Zoom – isso é pouco relevante.” Nessa transição, mais desafiador do que discutir o espaço será se livrar da amarra do tempo. “Antes, as pessoas tinham horas para o trabalho, para o deslocamento (que criava o rito de passagem) e para a vida pessoal. Isso será adaptado. Ainda não criamos uma cultura de trabalho remoto”, diz o professor.

A CASA NOVA

É provável que a maioria das empresas demore para criar uma cultura digital alinhada ao trabalho remoto. Antes disso, grande parte deve se mover para um novo conceito de escritório. O desafio é moldar um ambiente que, além de seguro contra o vírus, tenha um propósito forte capaz de convencer os funcionários a se deslocar.

Nos Estados Unidos já se fala do dynamic workplace (local de trabalho dinâmico, em tradução literal), uma versão flexível, com layout e gestão do open office. A ideia é que, com menos gente indo à empresa diariamente, parte atuando remotamente para sempre e parte seguindo um modelo misto, o ambiente corporativo seja um local de colaboração. Diferentemente do espaço aberto, desenhado para as pessoas irem pelo menos cinco dias por semana, o dynamic considera a rotatividade dos times e uma agenda elástica. O primeiro conceito foi criado para mudar a mentalidade das pessoas. O segundo surge para persuadir as pessoas a aparecer.

É nessa linha que os líderes de RH de Sephora e Ypê imaginam o escritório do futuro: um local para os times se encontrarem em reuniões importantes e comungarem nos projetos.  Na Sephora, apenas 1% dos respondentes de uma pesquisa interna afirmaram que gostariam de voltar ao prédio corporativo todos os dias. A maioria prefere ficar em casa três vezes por semana. Desde então, Silene tem refletido. “É importante ter endereço comercial e espaço físico. Mas ele muda de propósito: deixa de ser o ambiente onde vai trabalhar e passa a ser onde vai colaborar. Talvez as empresas não tenham mais um estilo formal, com mesa, cadeira, e mudem para um conceito tipo WeWork.” O tempo (e o espaço) dirão.

POR DENTRO DO TRABALHO REMOTO

Levantamento do Global Workplace Analytics mostra a relação das companhias e das pessoas com o home office

VAI DEMORAR

Pesquisa da revista Fortune perguntou aos CEOs das 500 maiores empresas listadas em 2020 quando eles acreditavam que pelo menos 90% da sua mão de obra retornaria ao ambiente de trabalho. Veja as respostas:

EU ACHO …

DAQUI A VINTE E CINCO ANOS

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação econômica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.

Mas se não sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muitíssimo mais depressa, porém, do que em vinte e cinco anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública. Só que é pior: a fome é a nossa endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os líderes que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoará os que descobrirem a cura do câncer.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O TAL NOVO NORMAL

O tradicional Dicionário Oxford não conseguiu escolher a palavra do ano. Entre “coronavírus”, lockdown e “reabertura”, e mais algumas que entraram na seleção final, os lexicógrafos decidiram ficar com todas.

Um único termo não faria jus a um ano tão conturbado como foi 2020. Em praticamente, todos os lugares do mundo, a rotina foi alterada e o modo de vida mudou. Algumas mudanças serão passageiras e outras talvez tenham vindo para ficar, mas só saberemos o que é o “novo normal” – outra expressão reverberada à exaustão – no decorrer da próxima década.

No fim de fevereiro, bastou a última escola de samba terminar o desfile para a crise já se apresentar na avenida: saíram mestre-sala e porta-bandeira, entraram álcool em gel e máscara – não de Carnaval, infelizmente. Antes utilizado quase que exclusivamente por profissionais da saúde, o acessório passou a ser exigido de todos os frequentadores de espaços públicos, inclusive sob pena de multa. Para quem está esperando pela vacina para se livrar dele, aconselha-se aguardar mais um pouco. Mesmo com a imunização, é possível que a recomendação de uso persista por um bom tempo. À parte o exagero da comparação, a gripe espanhola, que eclodiu em 1918, só desapareceu três anos depois, sem vacina, é verdade.

Na sequência dos acontecimentos, países começaram a levantar barreiras em portos e aeroportos como forma de evitar a propagação da Covid-19. Os aviões, no entanto, logo voltaram aos céus com novas regras de viagem. Além de exigir máscara, as companhias implementaram protocolos de segurança, como medição de temperatura e exigência de atestados médicos, além de higienização reforçada de aeronaves. Essas medidas devem ser mantidas no decorrer de 2021. Quanto aos cruzeiros marítimos, é melhor não contar com eles antes do verão de 2022.

Mal o ano letivo havia começado, e as escolas e universidades foram forçadas a paralisar as aulas. Algumas retomaram depois, outras não, e muitas adotaram o ensino a distância, principalmente, as particulares. Uma pesquisa conduzida pela Catho Educação apontou um aumento de 45% no interesse por cursos remotos já no começo da pandemia. Ao que tudo indica, o recurso sairá fortalecido da crise. Em julho, enquanto cada instituição de ensino tomava um rumo diferente, restaurantes e bares voltaram à ativa em alguns estados, ainda que com exigência de espaçamento entre grupos, horário de funcionamento controlado e número limitado de clientes. Estabelecimentos não conseguem sobreviver assim por muito tempo. Por isso, provavelmente os donos nunca mais vão querer ouvir falar de pandemia. mas o álcool em gel continuará nas mesas.

Durante o período de fechamento dos cinemas, que só voltaram em outubro, muitos lançamentos foram postergados (007 – Sem Tempo para Morrer foi adiado duas vezes) e outros estrearam diretamente no streaming. Houve algumas iniciativas isoladas de cinema ao ar livre, mas é difícil antecipar uma tendência aqui. Novidade mesmo foi a força que ganharam plataformas como Netflix, Amazon e a recém-lançada Disney+. Enquanto o futuro das salas de exibição é incerto, o de uma cinemateca própria dentro de casa é promissor.

Shows e concertos também tiveram de ser cancelados. No lugar, foram realizadas centenas de lives de artistas ao longo do ano, algumas com estrondoso sucesso, como a apresentação da cantora de sertanejo Marília Mendonça, que teve uma audiência de mais de 3,3 milhões de pessoas. No Brasil, as buscas por lives no YouTube cresceram 4.900% em seis meses. A executiva da plataforma, Amy Singer, afirmou que os vídeos ao vivo não serão esquecidos após a pandemia. Realmente, um show sem fins lucrativos como o que foi feito pelos Rolling Stones em abril é para ser lembrado para sempre.

O esporte foi outra atividade que levou caneladas do coronavírus. A fim de evitar aglomerações torcedores das mais diversas modalidades não puderam assistir aos jogos de seus times nos estádios. Os campeonatos de futebol acabaram eventualmente voltando no Brasil e na Europa, mas o público foi mantido em casa, o que garantiu maior audiência para os canais esportivos por assinatura. O som de torcida nas arenas vazias – ideia dos organizadores – dá uma sensação fantasmagórica, mas isso não é mais assustador que a iniciativa de monitorar a população por meio de câmeras termográficas. A Indonésia; por exemplo, mais flexível que os países ocidentais no quesito invasão de privacidade, intensificou o uso da tecnologia como forma de detectar pessoas febris nos aeroportos.

O ano de 2020 chega ao fim e uma outra palavra poderia ser escolhida por Oxford para emoldurá-lo: “desigualdade”. A crise escancarou a diferença abissal entre os que podiam ficar em casa e pedir entrega de comida e aqueles que, sem o auxílio emergencial do governo, nem mesmo sobreviveriam. Espera-se que, em 2021, a qualidade de vida de todas as pessoas melhore. Isso sim seria um aceitável novo normal.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE FEVEREIRO

A VIDA DO ÍNTEGRO, O DELEITE DE DEUS

Abomináveis para o Senhor são os perversos de coração, mas os que andam em integridade são o seu prazer (Provérbios 11.20).

Deus não é um ser apático e amoral. Ele se deleita naqueles que andam em integridade e sente repulsa pelos perversos de coração. Tem prazer na vida do justo e abomina aqueles que no coração maquinam o mal. Deus não se impressiona com as aparências. Muitos perversos de coração têm palavras doces, gestos nobres e apresentam-se como verdadeiros beneméritos da sociedade. Normalmente são pessoas que ocupam posições estratégicas nos altos escalões do governo e aparecem na mídia como heróis nacionais. Mas Deus não se deixa enganar. Não se impressiona com o desempenho rebuscado. Ele vê o coração, e não apenas o exterior. Deus abomina não somente a perversidade quando já está com seu maldito fruto maduro; Deus abomina o perverso quando essa maldade é apenas uma semente em seu coração. Se os perversos de coração são abomináveis para Deus, os que andam em integridade são o seu prazer. Deus é luz, e não podemos ter comunhão com ele andando nas trevas. Deus é santo, e não podemos navegar pelos mares da impureza e ao mesmo tempo desfrutar de intimidade com ele. Só os puros de coração verão a Deus. Só aqueles que trajam vestiduras brancas andarão na cidade santa com o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

BENEFÍCIOS À LA CARTE

O home office acelerou a tendência pela flexibilização da cesta de benefícios. Entenda quais cuidados devem ser tomados ao criar programas desse tipo

Nos primeiros meses de isolamento social, os RHs testemunharam um comportamento padrão entre os funcionários: a corrida para trocar o vale-refeição pelo vale-alimentação. Afinal, ninguém saía de casa para almoçar. Sem necessidade de se deslocar, incentivos como o vale-combustível e o estacionamento grátis no prédio da empresa também deixaram de ser atraentes. Em contrapartida, o plano de saúde foi ainda mais valorizado – uma pesquisa da consultoria de recrutamento Robert Half mostrou que esse é o benefício de maior importância para os empregados no pós-pandemia.

Todo esse contexto mostrou algo que, às vezes, passa despercebido: o valor não financeiro de um benefício pode mudar conforme a situação vivida pelos empregados – seja coletiva, seja individualmente. É por isso que começa a surgir a tendência. de flexibilizar os benefícios para torná-los mais personalizados. A proposta não é exatamente uma novidade, mas as necessidades durante a quarentena reforçaram um movimento que algumas empresas estavam promovendo por causa do aumento da valorização da diversidade e do bem-estar de seus empregados. “Há hoje uma força de trabalho muito mais diversa e é preciso ser capaz de servir às diferentes demandas, desde questões geracionais até de estilo de vida. Então o pacote de benefícios passa a suprir essas necessidades”, diz Tatiana lwai, professora de comportamento e liderança no Insper. Mas um bom programa vai além da troca do VR pelo VA. Em geral, ele funciona como um menu de opções: cada benefício tem uma pontuação ou peso, e o funcionário monta sua cesta conforme suas preferências e necessidades, desde que obedecido o teto de valor ou de pontuação. “É fantástico, mas há 20 anos tem baixíssima prevalência”, diz René Ballo, líder de benefícios na consultoria Willis Tower Watson (WTW). A empresa, inclusive, apontou em seu levantamento sobre o tema feito em 2019 que, embora uma em cada três companhias pretendam implementar pacotes flexíveis, apenas 9% já possuem ações em curso. A baixa adesão pode ser explicada pelo alto investimento – não necessariamente financeiro. “Há custos indiretos, como toda a energia que a área de recursos humanos irá despender com comunicação, educação, planejamento e gerenciamento do programa”, diz René.

Desenho detalhado Giselly Viveiros, gerente sênior de remuneração e benefícios da Danone, viveu essa experiência entre março de 2019, quando abriu concorrência para consultorias em flexibilidade de benefícios, e março de 2020, quando finalizou o projeto BenVocê, voltado para 4.500 funcionários e que começou a rodar em agosto. “É preciso desenhar muito bem. Sentei com o jurídico e o tributário para vermos ponto a ponto o que entraria de benefícios e de que maneira. O salário é tributável, já o benefício não é. Então não poderíamos gerar impostos sobre isso”, explica. “As liberações que antes eram em massa agora são praticamente individuais. “Durante o período de implementação do projeto, o RH ficou dez dias integralmente dedicado a atender aos pedidos e dúvidas dos funcionários.

O BenVocê, como grande parte dos programas de benefícios flexíveis, funciona por um sistema de pontuação. Cada funcionário tem direito a uma cota de pontos, que varia conforme o número de dependentes legais e a elegibilidade dos benefícios. Uma pessoa solteira e sem filhos, por exemplo, tem de 1.000 a 6.000 pontos para distribuir. O funcionário pode receber de 350 a 900 pontos a mais a cada dependente legal, a depender do padrão de assistência médica, que varia conforme o cargo.

RESPEITO E ABRANGÊNCIA

Na Serasa Experian, a prática entrou em vigor em 2017, depois que uma pesquisa interna mapeou que os empregados – que hoje somam 2.500 pessoas – gostariam de ter mais personalização em suas cestas. No início, o foco foi em benefícios tradicionais, como os de saúde e alimentação, e, depois de o programa estar maduro, entraram questões de educação e previdência privada, por exemplo. O programa também funciona por meio de pontos que podem ser distribuídos para opções sob demanda. “É uma mensagem bacana do empregador, pois mostra respeito aos funcionários”, diz Flavio Balestrin, vice-presidente de recursos humanos da Serasa Experian. Mas ele alerta: é necessário acompanhar os indicadores de perto. “Se a adesão é baixa, é preciso ver se faz sentido, porque é um trabalho que envolve muitos parceiros”, explica o executivo.

Além de mais engajamento, outra motivação das companhias que flexibilizam seus pacotes é atender às demandas de times heterogêneos. “Numa empresa com perfis tão diferentes, um pacote único não faz sentido. Fala-se tanto em escutar e ser ágil com o consumidor, temos que fazer isso com nosso time”, diz Sandro Bassili, VP de pessoas e assuntos institucionais do Grupo Boticário. A fabricante de produtos de beleza, que tem um quadro de 12.000 pessoas, implantou em outubro seu programa de benefícios flexíveis. Ele será válido para todos os trabalhadores da companhia: operadores de fábrica, vendedores e time administrativo. Chamada de Cesta Benflex, a iniciativa engloba questões como plano de saúde para pets, viagens, compra de equipamentos para home office, bolsa-educação e auxílio em ópticas.

SINAIS DE ALERTA

O empregador precisa ficar de olho em aspectos jurídicos na hora de flexibilizar as cestas. Vale lembrar, por exemplo, que alguns acordos trabalhistas exigem benefícios obrigatórios. Por isso, é preciso estabelecer os que são fixos e os que podem variar – e aqui entram ofertas que nem sempre são vistas corno essenciais, mas que têm alto valor agregado, como a previdência privada.

Outro ponto de atenção é a gestão dos fornecedores. Com a pulverização dos benefícios, o poder de barganha da empresa diminui e o RH precisa se dedicar para chegar a uma boa negociação.

“Os contratos e acordos são diferentes com cada fornecedor, incluindo prazos para renovações ou alterações. Nem as operadoras de saúde estão preparadas para benefícios flexíveis”, diz Gustavo Vitti, vice-presidente de pessoas do iFood, que adotou o modelo em 2018 e hoje oferece o programa para 2.500 funcionários.

Por isso a eleição – ou a modificação – da cesta, em geral, tem períodos para ocorrer (a cada seis meses ou a cada ano), com algumas poucas situações em que é possível realizar alterações, como uma promoção ou a entrada de um novo dependente.

FOCO NA COMUNICAÇÃO

Tudo o que mexe no pacote de remuneração gera dúvidas e inseguranças. Por isso a companhia tem que se preparar para comunicar as mudanças com muita transparência e agilidade. Intranet, newsletter, posts em redes sociais internas, lives com liderança e manuais de uso ajudam.

Além disso, a comunicação também auxilia o empregado a entender seu protagonismo e sua autonomia como beneficiário. “A principal vantagem desse tipo de programa é que o modelo privilegia o momento de vida de cada um e requer que todos se apropriem do programa e de suas escolhas”, diz Kelly Cristina Nunes, gerente sênior de pessoas da Vivo, que flexibilizou a cesta para os 33.000 funcionários. E ela destaca mais um bom motivo para aderir a essa prática: o aumento do reconhecimento da companhia como uma boa empregadora. “Os funcionários veem o programa como um valor.” Bom motivo para colocar essa política no radar.

FIQUE ATENTO

Ao alterar a política de benefícios, preste atenção nos pontos a seguir:

1. LIVRE-ARBÍTRIO

O funcionário deve ter liberdade para fazer ou não a substituição

2. SEM PREJUÍZO

O ideal é não existir piora na cesta oferecida. Se houver substituição de benefícios, eles devem manter a equivalência financeira com o que era disponibilizado anteriormente. Além disso, é preciso garantir que funcionários com mesma função tenham os mesmos direitos

3. FORMALIZAÇÃO

O empregado precisa assinar um documento concordando com as mudanças, que devem ser descritas detalhadamente

APOIO DAS STARTUPS

De olho na tendência de mercado, RHtechs auxiliam os gestores de pessoas a flexibilizar as cestas. Conheça duas delas

VEE

Com 600 clientes e 40.000 funcionários cadastrados, a plataforma teve crescimento de 500% de janeiro a setembro de 2020. O RH pode gerir os benefícios em um só lugar e a Vee disponibiliza um cartão com o qual os funcionários podem acessar benefícios de alimentação, mobilidade urbana, educação, home office, saúde, cultura, entre outros.

CREDITAS

A fintech de crédito ampliou seu portfólio e lançou, em setembro de 2020, o aplicativo @Work. A startup oferece a gestão de um cartão de benefícios com soluções de alimentação, refeição, mobilidade, cultura, saúde e educação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NUVEM PASSAGEIRA

P1esquisa revela que pessoas prestes a romper uma relação mudam o padrão de linguagem nas redes sociais e expõem suas frustrações muito antes de o namoro acabar

Lá naquela outra era, antes da internet, os relacionamentos amorosos inegavelmente duravam mais. Seja por preconceitos enraizados na sociedade, seja por puro comodismo, os casais passavam anos juntos, mesmo se isso representasse uma tormenta. Houve, obviamente, quem conhecesse a felicidade por longos períodos, mas também não foram poucos os que sofreram em silêncio, suportando o desgaste de cada dia, e no fim se arrependeram por uma vida que, afinal, não foi desfrutada como deveria. Poucas vezes relações doentias foram tão bem retratadas quanto no filme Cenas de um Casamento, de 1973, do diretor sueco Ingmar Bergman, que expôs, com a crueza dos grandes artistas, o sofrimento por trás de um convívio infeliz. Agora, os tempos são outros, e irresistivelmente diferentes. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman até criou uma expressão, “amor líquido” (nome de um livro seu que se tornou sucesso de público e crítica), para definir a cada vez mais comum instabilidade das uniões afetivas. Nesta nova modernidade, tudo muda rapidamente, e o impulso de substituir o parceiro por outro, e depois outro, e mais um — e assim por diante —, é o que parece mover boa parte da sociedade. Com as redes sociais, a tal característica “líquida” foi exacerbada. As mídias digitais servem para encontrar o futuro amor, mas também para desfazer laços, refazê-los, e desatá-los de novo, num processo sufocante que parece não ter fim.

Se as redes sociais são os motores dos relacionamentos da nova era, elas também podem oferecer, mesmo que involuntariamente, as pistas que indicam se uma relação será duradora ou, quem sabe, apenas nuvem passageira. Uma saborosa e inédita pesquisa realizada pela Universidade do Texas, em Austin, nos EUA, mostrou que os seres humanos são muito mais previsíveis do que podem imaginar, até quando o que está em jogo são os desígnios do coração. Ao lado da lista dos algoritmos que preveem o que as pessoas gostariam de comprar e das inteligências artificiais que antecipam as jogadas do oponente no xadrez, surge agora uma tecnologia capaz de profetizar o fim de um relacionamento meses antes de o desenlace ocorrer — e tudo isso a partir da análise de posts nas redes sociais.

O estudo foi publicado no dia 1º de fevereiro no renomado periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences. Os pesquisadores coletaram 1 milhão de posts realizados por 6.800 usuários que publicaram sobre o fim de seus relacionamentos na rede social Reddit e os colocaram em um software capaz de analisar os padrões de linguagem usados até dois anos antes da separação definitiva. Para satisfação dos cientistas, que já suspeitavam que as pessoas dão pistas de seus desencontros, elas começaram a mudar o teor das postagens, em média, até três meses antes de terminar o namoro. A palavra “eu” passou a ser mais usada, o que indica uma maior preocupação com assuntos particulares do que com aqueles que diziam respeito à vida do casal. Ou seja: quem deseja terminar uma relação inevitavelmente passa a pensar mais em si em detrimento do outro — e essa regra é válida quase sempre para cada ex-apaixonado, seja ele usuário do Reddit, Instagram ou Facebook. Cresceu também a quantidade de posts com termos como “acho” e “deveria”. De acordo com os pesquisadores, eles costumam ser usados quando alguém está tentando superar um problema.

É curioso perceber que, quando a ideia de pôr um ponto-final em um namoro começa a ser gestada, a maioria das pessoas atua da mesma maneira. A pesquisa detectou uma queda abrupta do número de posts com teor analítico, ou daqueles com linguagem formal e complexa. Por outro lado, cresceu a frequência das publicações despojadas e recheadas de narrativas pessoais. A justificativa, segundo os pesquisadores, é simples: quando a pessoa passa por um momento delicado, ela costuma dar preferência a relatos íntimos, que refletem sua introspecção.

A psicóloga Sarah Seraj, pesquisadora da Universidade do Texas e principal autora do estudo, explica os mecanismos por trás do comportamento humano. “A linguagem de uma pessoa apresenta mudanças sutis de acordo com o seu estado psicológico”, disse. “Embora não notemos essas alterações em conversas cotidianas, o que apenas um computador é capaz de fazer, elas estão presentes e podem refletir o fato de que o indivíduo está passando por momentos conturbados.” Seraj ressalta que o estudo também reafirmou o poder das redes sociais em influir nos relacionamentos interpessoais. Nesses sites, as pessoas escrevem sobre sua vida cotidiana e não apenas deixam rastros de seu estado emocional como são igualmente influenciadas por posts de outras pessoas.

De fato, a popularização das redes sociais, no começo da década passada, levou a uma superexposição inédita na história da humanidade. Levantamentos recentes mostram que 4 bilhões de pessoas usam regularmente Facebook, Twitter, TikTok, Instagram e afins — é mais da metade de todos os habitantes do planeta. Nada mais natural, portanto, que as plataformas tenham papel ativo na vida amorosa. Um estudo realizado recentemente pelo Pew Research Center investigou a influência das redes sociais em relacionamentos românticos. Os cientistas notaram que, entre os jovens que participaram da pesquisa, 60% disseram acreditar que as redes sociais os ajudam a permanecer mais conectados à vida do parceiro. Em outras palavras: eles precisam das mídias digitais para, de alguma maneira, provar seu amor.

Ao mesmo tempo que pode ser considerada o caminho mais curto para novos enlaces — basta dar uma espiada no sucesso do Tinder para comprovar isso —, a internet traz aspectos bastante negativos. Espionar as publicações e curtidas da namorada ou namorado não é apenas condenável como pode resultar em fixação perigosa. O stalking, termo em inglês para designar perseguição nas redes sociais, é relativamente comum entre casais recém-separados. Outro bom exemplo de novos desafios trazido pela era digital é o oversharing, ou “excesso de compartilhamento”, que consiste na postagem em demasia de palavras ou fotos que deveriam ser íntimas ou menos frequentemente publicadas. Dele resulta a superexposição, que pode ser danosa não só para uma pessoa, mas para o próprio casal.

As redes sociais são mesmo usadas para tudo. Até para terminar uma relação sem confrontar o outro diretamente, o que pode ser considerado um tremendo desrespeito. Laura Conrado, escritora mineira de 36 anos, passou por três términos on-line. “Depois do primeiro, comecei a ver as redes sociais como fonte absoluta de frieza nos relacionamentos”, diz. “Com o tempo, isso passou, e percebi que elas também podem oferecer oportunidades para muita coisa boa nos namoros.” Segundo Laura, o acesso às redes sociais oferece apoio que pode ser crucial para um casal que passa por fases difíceis. Além disso, diz ela, as mídias proporcionam um meio de contato contínuo utilíssimo em romances a distância. O psicólogo Fred Mattos, autor do livro Relacionamentos para Leigos, amplia o raciocínio. “Para casais que têm uma relação feliz, as redes sociais potencializam o namoro como um estimulante”, afirma Mattos. “Para os inseguros e controladores, as mídias tornam-se uma bomba conspiratória recheada de tensão, fantasias de rejeição e abandono.”

Seja como for, a realidade é que as mídias sociais são ao mesmo tempo combustível para romances, mas também inspiração para desfazê-los. Há muita gente disponível na rede, como existem também pessoas prontas para trocar o parceiro de hoje por uma experiência diferente amanhã. Nesses casos, é bom prestar atenção. Na próxima vez que o amor de sua vida falar em excesso de si próprio numa postagem, talvez seja o sinal de que ele não está mais tão a fim de você.

ROMANCE DESFEITO

Os detalhes do estudo feito pela Universidade do Texas, nos EUA

EU ACHO …

A FAVOR DO MEDO

Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.

Ora, em noite cálida, estava eu sentada a conversar polidamente com um homem cavalheiro que era civilizado, de terno escuro e unhas corretas. Estava eu, como diria Sérgio Porto, posta em sossego e comendo umas goiabinhas. Eis senão quando diz o Homem: “Vamos dar um passeio?”

Não. Vou dizer a verdade crua. O que ele disse foi: “Vamos dar um passeíto?

Por que passeíto jamais tive tempo de saber. Pois que imediatamente, da altura de milhares de séculos, rolou em fragor a primeira pedra de uma avalancha: meu coração. Quem? Quem já me levou na idade da pedra para um passeíto do qual nunca mais voltei porque lá morando fiquei? Não sei que elemento de terror existirá na delicadeza monstruosa da palavra passeíto.

Rolado o meu primeiro coração, engolida atrozmente a goiabinha – estava eu ridiculamente assustada diante de um improvável perigo.

Improvável digo eu hoje, muito da assegurada que estou pelos brandos costumes, pela polícia áspera, e por mim mesma fugidia que nem a mais mimética das enguias. Mas bem queria saber o que eu outrora diria, na idade da pedra, quando me sacudiam, quase macaca, da minha frondosa árvore. Que nostalgia, preciso passar uns tempos no campo.

Engolida, pois, a minha goiabinha, empalideci sem que a cor civilizadamente me abandonasse o rosto: o medo era vertical demais no tempo para deixar vestígios na superfície. Aliás não era o medo. Aliás era o terror. Aliás era a queda de todo o meu futuro. O homem, este meu igual que me tem assassinado por amor, e a isto se chama de amar, e é.

Passeíto? Assim também diziam para Chapeuzinho Vermelho, que esta só mais tarde cuidou de se cuidar. “Vou é me acautelar, por via das dúvidas debaixo das folhas hei de morar” – de onde me vinha essa toada? Não sei, mas boca de povo em Pernambuco não erra.

Que me desculpe o Homem que talvez se reconheça neste relato de um medo. Mas nem tenha ele dúvida de que “o problema era meu”, como se diz. Não tenha dúvida de que eu deveria tomar o convite pelo que ele na verdade devia ser, igual a ter me mandado antes rosas: uma gentileza, a noite estava tépida, ele tinha carro à porta. E nem tenha dúvida de que – na simplória divisão a que os séculos me obrigaram entre o bem e o mal – sei que ele era Homem Bom Caverna Direita Só Cinco Mulheres Não Bate Nenhuma Todas Contentes. E por favor me entenda – apelo para o seu bom humor – sei que homem de fronteira, como ele, usa com simplicidade a palavra passeíto, o que para mim, no entanto, teve a terrível ameaça de uma doçura. Agradeço-lhe exatamente essa palavra que, por ser nova para mim, veio me dar o bom escândalo.

Expliquei ao Homem que não podia dar o passeíto, fina que sou. Séculos adestraram-me, e hoje sou uma fina entre as finas, mesmo como no caso, sem necessitar, por via das dúvidas debaixo das folhas hei de morar.

O Homem, esse não insistiu, se bem que não me pareça poder dizer com verdade que ele se agradou. Defrontamo-nos por menos de um átimo de segundo – com o decorrer dos milênios, eu e o Homem fomo-nos compreendendo cada vez melhor, e hoje menos de um átimo de segundo nos chega –, defrontamo-nos, e o não, apesar de balbuciado, ecoou escandalosamente contra as paredes da caverna que sempre favoreceram mais as vontades do Homem.

Depois que o Homem imediatamente se retirou, eis-me salvaguardada e ainda assustada. Por um triz um passeíto onde eu talvez perdesse a vida? Hoje em dia sempre se perde a vida à toa.

Retirando-se o Homem, percebi então que estava toda alegre, toda vivificada. Oh, não por causa do convite ao passeio, nós todas temos sido durante milênios continuamente convidadas a passeios, estamos habituadas e contentes, raramente açoitadas. Estava alegre e revolucionada – mas era pelo medo.

Pois sou a favor do medo.

Então certos medos – aqueles não mesquinhos e que têm raiz de raça inextirpável – têm-me dado a minha mais incompreensível realidade. A ilogicidade de meus medos me tem encantado, dá-me uma aura que até me encabula. Mal consigo esconder, sob a sorridente modéstia, meu grande poder de cair em medos.

Mas no caso deste medo particular, pergunto-me de novo o que me terá acontecido na idade da pedra? Algo natural não foi, ou eu não teria conservado até hoje esse olhar de lado, e não me teria tornado delicadamente invisível, assumindo sonsa a cor das sombras e dos verdes, andando sempre do lado de dentro das calçadas, e com falso andar seco. Algo natural não terá sido, posto que, sendo eu por força e sem escolha uma natural, o natural não me teria assustado. Ou já então – na própria idade das cavernas que ainda hoje é o meu mais secreto lar – ou já então eu fiz uma neurose sobre o natural de um passeíto?

É, mas ter um coração de esguelha é que está certo: é faro, direção de ventos, sabedoria, esperteza de instinto, experiência de mortes, adivinhação em lagos, desadaptação inquietantemente feliz, pois descubro que ser desadaptada é a minha fonte. Pois bem se sabe que vai chover muito quando os mosquitos anunciam, e cortar minha cabeleira em lua nova dá-lhe de novo as forças, dizer um nome que não ouso traz atraso e muita desgraça, amarrar o diabo com linha vermelha no pé do móvel tem pelo menos amarrado os meus demônios. E sei – com meu coração que por nunca ter ousado expor-se no centro, e há séculos, mantém-se em sombra à esquerda –, bem sei que o Homem é um ser tão estranho a si mesmo que, só por ser inocente, é natural.

Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente. Passeíto dá morte certa, e a cara espantada fica de olho vidrado olhando para a lua cheia de si.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

MUDANÇA DE HÁBITO

Quem sempre viajou para comprar artigos de luxo está se rendendo à comodidade do comércio on-line

Nos velhos tempos em que viajar era uma atividade ao alcance de boa parte da humanidade, as madames com contas bancárias recheadas pegavam o avião, desembarcavam em Paris, Londres ou Nova York e partiam direto para seu turismo favorito: se esbaldar nas lojas da Prada, Dior, Gucci e Chanel, enchendo sacolas e mais sacolas de roupas, sapatos e bolsas caríssimos, mas ainda assim mais em conta do que em São Paulo ou Rio de Janeiro. As estatísticas confirmam a preferência nacional pelo esporte: em 2019, 58%das compras de artigos de luxo feitas por brasileiros ocorreram fora do Brasil. No ano passado, aquele diferente de tudo que se viu até agora, pegar avião deixou de ser possível e ficar dentro de casa, pendurado no celular e no laptop, passou a ser a nova realidade. Entre as muitas consequências desta reviravolta na vida das pessoas, uma de grande impacto foi a implosão do consumo de grifes de alto luxo – de uma hora para outra, os clientes sumiram e o faturamento desmoronou. Premido pela necessidade, o setor abriu uma brecha no muro da exclusividade e aderiu, ele também, às vendas on-line, para as quais sempre torceu o empertigado nariz.

Teve uma grata surpresa: as clientes aprovaram. “Por mais resistentes que sejam, as marcas tiveram de se tornar digitais. O comportamento do consumidor mudou”, explica Renata Carvalho, coordenadora da Câmara Brasileira da Economia Digital. Esnobado com o ambiente reservado a fregueses que não tinham traquejo social para frequentar o a r rarefeito das maisons, o comércio on-line está sendo a salvação do alto luxo. Segundo pesquisa do Instituto QualiBest, 40% das mulheres da classe altano Brasil estão comprando mais pela internet, 23% mantêm o volume de consumo de antes da pandemia e 12% são consumidoras novinhas em folha do e-commerce – ou seja, quase 80% das compradoras de maior poder aquisitivo estão comprando a distância. A assessora jurídica Paula Dias, de 28 anos, de Mato Grosso do Sul, sempre adorou desembarcar em Paris e bater perna nas lojas mais sofisticadas das Galeries Lafayette, seu ponto preferencial de compras. Quando o novo coronavírus fechou as fronteiras, Paula, sem outra opção, resolveu enfrentar a maratona de pesquisas nos sites de luxo – e aprovou. “Consegui descontos que nunca tinha visto no mercado de luxo. E ainda ganhei um monte de brindes junto com as compras”, relata, feliz da vida.

Animada com o potencial deste mercado, a L’Oréal Brasil, responsável por perfumes e maquiagem de marcas como Yves Saint Laurent e Giorgio Armani, investiu nas vendas on-line e viu aumentar em 30% o número de consumidores cadastrados. Em volume, o acumulado até outubro de 2020 já ultrapassava os números de 2019, apesar dos três meses de lojas físicas fechadas. “Para atrair a clientela, oferecemos vantagens como atendimento em português e um pós-compra descomplicado”, diz Roberta Sant’Anna, diretora da divisão de luxo da empresa. Além de vendas em seu próprio site, a L’Oréal também faz uso dos chamados marketplaces – sites em que vários lojistas vendem seus produtos e o cliente paga tudo junto, em um único carrinho. Dessa forma, é possível encontrar na Americanas. com, por exemplo, perfumes da Prada, óculos de Dior e Dolce & Gabbana e, no caso da americana Ralph Lauren, até algumas peças de vestuário. “Parte da atração dessas marcas está no fato de serem inalcançáveis para a maioria. Mas, quando a aura de exclusividade resulta em vendas raquíticas, as empresas não sobrevivem”, explica André Cauduro D’Angelo, autor do livro Precisar, Não Precisa: um Olhar sobre o Consumo de Luxo no Brasil.

Shopping centers conhecidos pela quantidade de grifes luxuosas em seus corredores, como o Iguatemi e o Cidade Jardim, em São Paulo, também se abriram com alarde ao comércio via internet, possibilitando a compra on­line de vestidos, bolsas e calçados de marcas inacessíveis ao comum mortal, como Missoni, Christian Louboutin e Gucci. Do lado da clientela, aqueles que se aventuraram no luxo on-line perceberam que, com o real desvalorizado, comprar no exterior deixou de ser tão bom negócio, mesmo levando em conta os altíssimos impostos locais. “Atualmente, só o que compensa nas viagens para consumir é a experiência da recepção, da hospitalidade”, afirma Catarina Sampaio, que trabalha com hotelaria e pesquisa este mercado. “Somando todos os fatores que impactam o preço final, é provável que, mesmo depois da crise, parte desse consumo continue no Brasil”, concorda Carlos Ferreirinha, presidente da consultoria MCF. Sem falar na maior de todas as vantagens de comprar artigos de luxo no país, só agora descoberta por muitas turistas do consumo: o inefável prazer de parcelar. A estudante Pietra Lins, 22anos, de Niterói, virou entusiasta do recurso tipicamente brasileiro: “A economia de comprar fora era absurda, mas agora já não vale tanto a pena e ainda perco a opção de pagar em várias vezes”. Como se vê, a pandemia, que mudou tudo no planeta, está deixando sua marca no até então inabalável mundo das marcas caríssimas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE FEVEREIRO

JUSTIÇA, O CAMINHO DA VIDA

Tão certo como a justiça conduz para a vida, assim o que segue o mal, para a sua morte o faz (Provérbios 11.19).

A prática da justiça é um caminho seguro. Mesmo que os homens não a reconheçam ou até mesmo nos persigam por causa dela, somos bem-aventurados. A justiça conduz para a vida. Aqueles, porém, que seguem o mal armam ciladas para seus próprios pés. Aqueles que andam pelos caminhos escorregadios da maldade transtornam a vida dos outros e abreviam seus próprios dias. Se a justiça é o caminho da vida, a maldade é a autopista da morte. A justiça é um caminho estreito, e poucos se acertam com ele; a maldade, porém, é uma avenida larga e espaçosa, e uma multidão se aglomera nessa maratona cuja reta de chegada é a morte. A justiça, mesmo cruzando vales escuros, subindo ladeiras íngremes e atravessando pinguelas estreitas sobre pântanos lodacentos, tem seu destino final na glória eterna. A justiça não ficará sem recompensa. A justiça conduz à vida, pois os justos são todos aqueles que foram justificados por Cristo e receberam dele a vida eterna. A maldade tem sua paga e seu salário. Também receberá sua justa recompensa. A Palavra de Deus é categórica: O que segue o mal, para a sua morte o faz (Provérbios 11.19). Siga o caminho da vida; fuja do caminho da morte!

ESTÃO E CARREIRA

AS PESSOAS NO CENTRO DO ROI

A abordagem humanizada do retorno sobre os investimentos se concentra em capacitar e energizar a força de trabalho para o presente e o futuro, com menos gastos em demissões

A forma de fazer negócios e a dinâmica corporativa vêm se alterando drasticamente por causa da pandemia. Os motivos vão desde a instabilidade da economia até a adaptação do modelo de trabalho para o home office, além da urgência em acelerar a transformação digital. Nesse sentido, o olhar atento às necessidades e aos anseios dos funcionários se tornou ainda mais relevante. São as pessoas – e como a companhia investe nelas e as desenvolve – que determinam se os negócios prosperam ou não. Isso exige um novo entendimento do retorno sobre os investimentos, o famoso ROI. Agora é preciso pensá-lo sob o ponto de vista das pessoas.

Essa abordagem se concentra em capacitar e reenergizar a força de trabalho para preencher funções atuais e futuras, com menos demissões, como explica Alexandre Marins, diretor de desenvolvimento de talentos da consultoria LHH. Isso significa abandonar estratégias de gestão de talentos reativas e caras, que se apoiam em uma abordagem de “demitir e contratar”, e adotar ações de capacitação de talentos que possibilitem passar de uma força de trabalho substituível para uma que seja renovável. “Na prática, quando olhamos para a equação financeira, vemos o retorno indireto de investir no capital humano”, diz Alexandre.

MELHOR PARA OS NEGÓCIOS

Segundo o estudo Future-Proofing the Workforce, do Adecco Group e do The Boston Consulting Group, as empresas que decidem requalificar e realocar em vez de demitir e contratar podem economizar até 136.000 dólares por funcionário. Isso porque investir em pessoas significa para as companhias evitar vários custos visíveis e invisíveis, como verba rescisória ou auxílio para transição ao funcionário que está deixando a empresa, gastos com recrutamento, perda de produtividade durante a contratação e a integração, e danos à marca empregadora caso a demissão seja malfeita, por exemplo.

Sem falar nos aspectos culturais do ROI que não é voltado para as pessoas. De acordo com Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira, ao olhar o desempenho do funcionário, é preciso mensurar “como ele entregou o resultado”, o que está muito alinhado aos valores da empresa, e não apenas “o que ele entregou”.

A postura de não investir no pessoal e optar sempre pela troca não possibilita que a companhia mantenha sua essência na realização das atividades, que envolve a maneira como cada profissional atua para chegar à meta. “Valores, competências e atitudes se sustentam mantendo um time mais coeso por mais tempo”, diz Rafael. Esse tipo de olhar requer uma ação estratégica que seja capaz de antecipar as necessidades de perfis e de competências que a organização terá no futuro. ”A área de recursos humanos não pode ser reativa, deve antever as demandas do negócio – esse é o maior desafio”, afirma Alexandre. Segundo ele, os líderes de RH precisam equilibrar a velocidade da execução do dia a dia, que é acelerada, e a transformação para o que está por vir.

HABILIDADE COM NÚMEROS

Apesar de o investimento em pessoas ser subjetivo, alguns indicadores podem ajudar nessa conta. Um deles é projetar quanto a empresa gastaria com desligamentos e reposições (valor total dos custos financeiros e de tempo dividido pela soma dos riscos envolvidos), versus o investimento em pessoas de forma planejada e antecipada. “É preciso fazer uma reflexão que permita que a maior parte dos recursos internos seja recapacitada e reaproveitada”, explica Alexandre.

O trabalho começa com a conscientização do RH sobre o tema e um mapeamento estratégico das tendências e características do negócio, do formato de trabalho e do perfil das pessoas. Segundo Rafael, o que geralmente acontece é que o RH, apesar de ter a mentalidade pró-desenvolvimento, carece de habilidades analíticas para interpretar informações de people analytics, por exemplo. “É preciso mostrar com mais dados quanto o investimento pode, de fato, ser mais impactante do que uma demissão”, afirma o CEO da Produtive. Ele sugere escolher índices para mensurar cada treinamento, o que tornaria o cálculo mais tangível. Uma capacitação em inovação e disrupção, por exemplo, pode usar indicativos de quantos produtos que estavam para ser lançados conseguiram sair do papel. “É possível olhar, ainda, dados da performance do indivíduo antes e depois do treinamento, o nível de engajamento e a média de turnover voluntário”, explica Rafael.

A CONTA FECHA

Analisar a retenção e a movimentação interna também ajuda no cálculo do novo ROI. A Atos, empresa que atua com serviços de tecnologia, tem metas globais para que suas vagas sejam preenchidas internamente e, no Brasil, o índice chega a 80%.

“Olhamos sempre para o grupo de pessoas que temos hoje, o que está acontecendo na tecnologia e no mercado, e quanto vamos precisar de mais pessoas preparadas”, diz Alexandre Benatti, diretor de recursos humanos da Atos para a América do Sul. Para isso, a companhia usa os conceitos de reskilling (capacitação do funcionário para que ele consiga fazer uma mudança de rota na carreira e se adaptar melhor ao mercado e às oportunidades abertas) e upskilling (capacitação que reforça e complementa o conhecimento do profissional na área em que ele já atua).

Segundo o executivo, essas capacitações são feitas por meio de academias internas de desenvolvimento, com cursos, palestras e materiais de diferentes áreas. “Isso traz velocidade à adaptação aos novos desafios e se traduz em números.” Alexandre explica, que um dos indicadores é o custo do desenvolvimento que a empresa teria com um novo funcionário. “Mesmo que tenha bons conhecimentos e entenda das demandas técnicas, ele vai entrar num ambiente novo e precisará de um tempo para se adaptar e entregar tudo o que pode. Vale muito mais investir no desenvolvimento do que arriscar em contratações desconhecidas”, diz.

A coordenação desses processos é possível por uma ação conjunta entre as áreas de operação e a equipe de recursos humanos da Atos, que está dedicada a identificar pessoas que possam se encaixar em novas oportunidades. “O RH é um facilitador. Temos buscado protagonismo para criar as pontes entre as diversas oportunidades e as pessoas”, afirma Alexandre.

SATISFAÇÃO QUE VIRA RESULTADO

Para que o cálculo do desenvolvimento das pessoas dê certo, o melhor é unir indicadores quantitativos e qualitativos, como crescimento da empresa, custos com demissão, análise de engajamento e taxa de absentismo. Na EDP, o retorno sobre os investimentos em pessoas se traduz em pilares como a alta taxa de engajamento na pesquisa de clima, que alcançou 86% em 2019 – o maior número elo grupo -, e o crescimento da empresa, que de 2014 para cá triplicou e alcançou 1,3 bilhão de reais de lucro líquido. “Para isso, olhamos para o colaborador de forma ampla, em todas as dimensões: emocional, física, social, espiritual, cultural e financeira”, explica Fernanda Pires, diretora de RH da EDP.

Do ponto de vista da educação, a empresa, que possui. uma universidade corporativa, investiu em 2019 na multiplicação interna com o intuito de capacitar pessoas para promoverem conhecimento especialmente sobre as demandas futuras. Um exemplo é o programa IMentors, que envolve treinamentos em design thinking e metodologias ágeis para, que funcionários se atualizem e atuem como multiplicadores. E, para medir a efetividade dessas capacitações, Fernanda conta que há sempre pesquisas pós-treinamento. Além disso, na pesquisa de clima, há perguntas voltadas apenas para esse tema. A executiva diz que, no último ano, a EDP cresceu dez pontos percentuais nas questões ligadas a iniciativas que impactam no desenvolvimento pessoal. “Esse é um termômetro para nós”, afirma Fernanda.

Mas esse novo ROI só será bem-sucedido, comenta Anderson Sant’Anna, professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), se houver interesse genuíno nas pessoas. “É preciso pensar o ROI de uma maneira mais humana, olhando o bem-estar, a saúde e a satisfação do funcionário”, diz o professor. E não há crise que consiga esconder essa necessidade.

PASSOS IMPORTANTES

O retorno sobre os investimentos do ponto de vista das pessoas envolve pensar em três disciplinas de RH distintas – contratação, aprendizagem e reestruturação -, com base em análises da força de trabalho. Para isso, é preciso abordar seis estágios:

1. VISUALIZAÇÃO

Considere não apenas o desenho organizacional, mas também as necessidades futuras de habilidades. Para isso, pense na seguinte questão: para executar os planos e estratégias de negócios, de que tipos de pessoas você precisa e onde irá encontrá-las?

2. AVALIAÇÃO

Antes de olhar para fora da organização, preste atenção no ambiente interno. Isso envolve a avaliação das habilidades e da adaptabilidade dos funcionários atuais. Você precisa saber quem está apto para o futuro e quem está muito fora da rota para contribuir com os planos da empresa.

3. COMPROMETIMENTO

O apoio dos líderes e dos funcionários é essencial para a mudança ser bem-sucedida. É fundamental que todos saibam dos detalhes da estratégia de preparação da empresa para o futuro. Dessa forma, você conquista a confiança do time. A palavra de ordem aqui é transparência.

4. EXECUÇÃO

Assegure que a comunicação sobre a capacitação e a requalificação o seja transparente e que todos tenham acesso a ela – independentemente do cargo e da área. É importante promover uma cultura interna em que os funcionários possam se candidatar e treinar para diferentes funções em diversas áreas da empresa.

5. REVISÃO

Nenhuma organização vai acertar na primeira tentativa. Será necessário revisar e analisar todos os aspectos do processo. Estar preparado para melhorar o trabalho da movimentação interna, por exemplo, com ações de qualificação, é essencial. Uma revisão das políticas e práticas existentes ajuda a encontrar lacunas que precisam ser reparadas.

6. VISUALIZAÇÃO

Considere não apenas o desenho organizacional, mas também as necessidades futuras de habilidades. Para isso, pense na seguinte questão: para executar os planos e estratégias de negócios, de que tipos de pessoas você precisa e onde irá encontrá-las?

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CÉREBRO NAS RELAÇÕES REMOTAS

Os hábitos impostos pelo trabalho à distância afetam o modo como a mente funciona. Descubra três passos para manter o bem-estar

A migração para o home office gerou mudanças intensas na rotina de muita gente. Passado o choque inicial e apesar das dificuldades de adaptação relatadas em diversos segmentos, tudo indica que a mudança veio para ficar – pelo menos até que se tenha acesso a uma vacina para a covid-19 ou à medida que fique provado que é possível manter os negócios girando com pessoas à distância.

”Trabalho remoto não é novidade, e é fato que, para uma porção de setores e funções, não há mesmo necessidade de estar fisicamente na empresa para se relacionar e produzir bons resultados. O problema é o modo como estamos fazendo home office na pandemia. Por exemplo, em um estudo da Oracle em parceria com a empresa de consultoria e pesquisa de RH Workplace Intelligence, 42% dos respondentes disseram que, em casa, estão trabalhando até 40 horas a mais por mês (uma média de duas horas extras por dia) do que quando iam para o escritório. Não é só por isso que os profissionais estão tão estressados – 44% se dizem mais esgotados do que na pré-pandemia, segundo uma pesquisa da Microsoft detalhada mais adiante. É verdade que, de toda a sobrecarga emocional que as pessoas estão recebendo neste momento, não é possível separar com exatidão o que se deve à dinâmica do trabalho e o que vem de fatores ligados à covid-19, como o medo de ficar doente e a perda de entes queridos.

Mas aspectos relacionados às atividades em home office, como a falta de interações presenciais e o excesso de reuniões por vídeo, certamente se somam para demandar esforços de adaptação do cérebro a uma nova rotina e novas formas de realizar as tarefas, afetando também o corpo, o comportamento e o nível de entrega ao trabalho.

Em situações de estresse, o hipotálamo, no cérebro, aciona a liberação dos hormônios adrenalina e cortisol, que colocam o corpo em situação de “luta ou fuga”, provocando uma série de reações físicas (aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e do ritmo da respiração) e cognitivas (distração, “brancos” e dificuldade de raciocínio podem surgir como reação no hipocampo, área associada à memória). Quando esse estado se torna crônico, prejudica a resistência do organismo contra inflamações e aumenta o risco de doenças físicas (como de pele e cardiovasculares) e emocionais (por exemplo, depressão e transtornos alimentares).

VELHO NORMAL?

O excesso de vigilância por parte dos chefes tem sido uma insatisfação comum no expediente remoto e se dá de várias formas: obrigando todos a manter a câmera ligada nas conferências, marcando sucessivas reuniões por dia e até instalando dispositivos que monitoram a atividade do usuário no computador. Uma atitude que deveria ficar no “velho normal”, segundo os especialistas.

“Demonstra uma ilusão de controle sobre o subordinado, como se a presença física garantisse entrega de resultado. O trabalho remoto pede uma mudança de mentalidade, baseada na confiança, na autonomia, na autorresponsabilidade e na capacidade de autogestão”, diz Thaís Garneiro, neurocientista e sócia da consultoria Nêmesis Neurociência Organizacional.

Diante da possibilidade de o home office se tornar permanente em muitas organizações, o psicólogo Daniel Abs, professor na área de gestão de pessoas e relações de trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chama a atenção para a urgência de repensar práticas e processos organizacionais a fim de impedir que seja dado um passo atrás na atenção à saúde mental.

“O cuidado precisa ser elemento central das estratégias de gestão. Os chefes não podem esquecer que, mais do que nunca, é difícil separar vida pessoal e profissional; a pessoa é uma só dentro e fora do trabalho. Estar atento ao relacionamento com a equipe e agir para facilitar a rotina de trabalho em casa devem ser medidas básicas de cuidado”, diz Daniel.

A seguir, mostramos por onde a sua empresa deve começar.

1. VIDEOCONFERÊNCIAS: MENOS É MAIS

Uma das principais reclamações de quem está trabalhando em casa é o excesso de reuniões por vídeo, muitas vezes sem necessidade e quando o assunto em questão poderia muito bem ser resolvido em um telefonema ou uma troca de e-mails.

Um estudo realizado entre abril e maio deste ano pela Microsoft com mais de 2.000 profissionais em regime de trabalho remoto em seis países comprovou o que já no início da pandemia ficou popular como “fadiga do Zoom”: o cansaço mental causado pelo tempo excessivo em reuniões por videochamada. A pesquisa utilizou um equipamento para monitorar a atividade cerebral de voluntários trabalhando e descobriu que o padrão de ondas cerebrais associadas a estresse e ansiedade foi mais alto durante videoconferências do que em tarefas sem essa interação, como escrever e-mails ou realizar outras atividades individualmente. Tem mais: ainda de acordo com a pesquisa, a capacidade de atenção diante da tela atinge um pico por volta de 30 a 40 minutos após o início da reunião, caindo bruscamente em seguida.

“Nas conversas virtuais em que só dá para ver o rosto da pessoa o cérebro precisa gastar mais energia na busca de sinais não verbais essenciais para estabelecer a comunicação, mas que são sutis online, como a linguagem corporal e o contato visual. Daí a sensação de fadiga mental”, diz a neuropsicóloga Adriana Fóz, mestre em ciências pelo Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Para piorar, reuniões e conversas mediadas pela tecnologia não têm a fluidez das presenciais – as ferramentas podem travar, o feedback não é imediato, o diálogo pode sair truncado e exigir que as mesmas informações sejam repetidas várias vezes, pedindo esforço extra do cérebro. “Pense nas funções cognitivas como os músculos do corpo: se você os exercita demais, eles entram em fadiga e o desempenho cai. Com a atenção é a mesma coisa”, diz Fabio Porto, neurologista comportamental do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

COMO RESOLVER

LIMITE A DURAÇÃO DAS REUNIÕES.

O máximo de 50 minutos é uma boa referência, e cuide para que haja objetividade. “Quanto mais denso for o tema da sessão, mais esforço cognitivo vai demandar dos participantes e, portanto, mais breve deve ser para que todos se mantenham focados”, sugere a neurocientista e professora Carla Tieppo, do Instituto Conectomus. Também é importante ser consciente ao agendar os encontros, respeitando a pausa para almoço e não marcando várias reuniões na sequência.

APOSTE NO PLANEJAMENTO DETALHADO DAS ENTREGAS

Assim não será necessário realizar calls diárias para alinhamento de ideias ou feedback – algumas empresas já adotam um ou mais dias por semana sem reuniões. Essa estratégia também permite que os funcionários se organizem para conseguir se dedicar a tarefas que demandem foco e atenção.

DIVERSIFIQUE AS FERRAMENTAS

Não é necessário usar vídeo para tudo. Muitas resoluções podem ser firmadas por telefone, e-mail, mensagem de texto ou áudio. Aplicativos de gerenciamento de projetos, como Trello e Slack, ajudam a manter a equipe conectada poupando videoconferências.

2. EQUIPE: A NOVA APROXIMAÇÃO

A conversa informal no café, a troca de ideias com o colega ao lado, a discussão pós-reunião que continua na hora do almoço, a radiopeão… Tudo isso deixou de existir para quem está em home office, para prejuízo dos negócios e do bem-estar dos empregados. Afinal, a convivência social engaja áreas do cérebro responsáveis pela linguagem e pela comunicação, e estimula emoções e competências como resolução de conflitos e tomadas de decisão. “As interações espontâneas são oportunidades de troca, formação de novos vínculos e colaboração. Sem elas, perde-se espaço para criatividade e inovação”, diz a neurocientista Thaís.

De acordo com a pesquisa já citada da Microsoft, a desconexão com o time foi considerada o segundo fator mais estressante do trabalho remoto – atrás apenas do medo de contrair a covid-19, no caso dos brasileiros entrevistados. Faz sentido. A privação de contato social altera os níveis de serotonina e dopamina no organismo, substâncias que entregam sensação de bem-estar e motivação.

Há, ainda, os obstáculos que podem impedir uma boa comunicação quando ela se dá exclusivamente via ferramentas digitais – pense em mal-entendidos, mensagens truncadas e potenciais conflitos em conversas por mensagem de texto, por exemplo -, fazendo o cérebro se esforçar mais para compreender e até refazer tarefas.

COMO RESOLVER

AVALIE A POSSIBILIDADE DE UM REGIME HÍBRIDO DE TRABALHO

Quando a volta for possível, desenhe um esquema que intercale o isolamento do home office com alguns dias no escritório físico e na companhia de colegas.

ESTIMULE ATIVIDADES EM EQUIPE

Elas ajudam a aprofundar as relações, reforçar o trabalho de time e aumentar o enga