A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTIR EXIGE DECISÕES RÁPIDAS E DISCERNIMENTO

A mentira patológica pode ter origem em um desequilíbrio raro da substância cerebral, segundo cientistas da Universidade do Sul da Califórnia. Para sua pesquisa de doutorado, Yaling Yang escaneou o cérebro de 12 mentirosos confessos e de outros voluntários que não tinham histórico de mentir compulsivamente. Yang ficou surpresa ao descobrir que o cérebro dos mentirosos tinha 22% a mais de substância branca nas regiões pré-frontais, relacionadas à tomada de decisão e ao discernimento. A substância branca liga os neurônios entre si – que, em conjunto, são chamados de substância cinzenta.

A mentira patológica pode ser muito complicada. Mentirosos compulsivos precisam apresentar informações que pareçam corretas, embora falsas. “Talvez, para essas pessoas, seja apenas mais fácil mentir”, diz Yang. Segundo ela, o excesso de substância branca cria conexões abundantes entre dados que, de outra forma, seriam contraditórios e compartimentados. Por ora, mais estudos são necessários para determinar se os mentirosos nascem com mais substância branca ou se a desenvolvem como resultado de suas frequentes invenções.

Outros cientistas que realizaram escaneamentos por ressonância magnética em tempo real de pessoas no ato de mentir constataram a ativação excessiva da área dos lobos pré-frontais. Eles concordam que esses padrões de atividade podem servir como detectores de mentira bastante confiáveis. Se for assim, é possível que algum dia as imagens cerebrais saiam dos laboratórios e passem a fazer parte dos tribunais.

OUTROS OLHARES

EPIDEMIA HOMICIDA

Crimes de agressão à mulher e feminicídios disparam e mostram que o Brasil enfrenta uma grave doença social, que nem o endurecimento das leis é capaz de conter

São seis horas da tarde na cidade de São Paulo. Na avenida Sumaré, uma mulher é agredida por assaltantes que tentam levar a sua bolsa. Ela grita e pede socorro às pessoas que passam ao seu redor: “Estou sendo assaltada!”. A comoção se insinua, mas logo termina quando o assaltante investe no disfarce de marido traído. “Não é um assalto. Você me traiu, sua vagabunda”. E como se aprendeu que em briga de marido e mulher não se põe a colher, ninguém se mete e a mulher termina a noite assaltada e agredida. Nessas terras, desde que homem nasce homem e mulher nasce mulher, uma bolsa, ou um atentado à propriedade, é mais grave do que a violação de um corpo feminino. O fato de homens atacarem e matarem mulheres à luz do dia sem qualquer pudor acontece porque a violência de gênero é autorizada pela sociedade e o comportamento agressivo masculino é justificado pela culpabilização da vítima. A escalada dos feminicídios revela que o País enfrenta uma doença social em que atitudes extremas eclodem de uma hora para outra em lugares insuspeitos.

Os últimos números de violência contra a mulher deixam claro que a sociedade brasileira sofre de uma séria enfermidade. Há algo muito errado acontecendo com os homens, e atos sexistas, em que eles se impõem pela força, estão sendo cometidos em proporções alarmantes. Uma epidemia de agressões e de assassinatos passionais acomete o País. Dados do Mapa da Desigualdade Social 2019 divulgados terça-feira 5, pela Rede Nossa São Paulo, uma ONG que acolhe vítimas, mostram que os casos de feminicídio na capital paulista aumentaram 167% no ano passado. No primeiro semestre deste ano, o crime de morte por questão de gênero cresceu 44% na cidade, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Foram 82 casos. Em Brasília, estudos mostram que enquanto os homicídios caem, os feminicídios sobem. Registros de outros tipos de agressão contra as mulheres também crescem. O serviço “Ligue 180” do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos recebeu 60.580 denúncias de violência entre janeiro e agosto, uma a cada seis minutos.

“A maior parte dos casos de feminicídio ocorre depois da ruptura de um relacionamento, quando a mulher termina uma relação abusiva. Os homens não aceitam a nova situação e matam”, diz a psicóloga Vanessa Molina, porta-voz da Associação Fala Mulher, que oferece assistência e proteção para vítimas de violência doméstica e atendeu oito mil mulheres em 2018. “Os abusos começam antes da violência física, com manifestações de ciúmes, xingamentos e com o afastamento da mulher de familiares e amigos. É como se o homem achasse que a mulher pertence a ele, que não se conforma com a perda do controle sobre sua ‘posse’”. Para Vanessa há uma necessidade urgente de mudar a cultura machista que está por trás dos crimes de ódio, que acontecem em famílias de todas as classes sociais e, frequentemente, são cometidos dentro de casa, no lugar em que a mulher deveria se sentir mais segura. Foi o que aconteceu com Patrícia Salviano Irrthum, de 23 anos, assassinada na segunda-feira 4, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela foi morta com tiros na nunca, no rosto e no peito e o principal suspeito é o marido, o sargento da PM Glaysson de Souza Costa, de 46 anos, que está foragido. Depois do crime foram publicados vários posts no WhatsApp de Patrícia, escritos pelo criminoso, e um deles dizia: “Fui trair meu marido ‘polícia’ e deu nisso”.

Apesar do endurecimento das leis que penalizam esse tipo de violência, a epidemia de crimes passionais não arrefece. A Lei Maria da Penha, que estabelece cinco formas de agressão machista (física, psicológica, moral, patrimonial e sexual) e a Lei do Feminicídio, que caracterizou o homicídio de gênero, deram proteção legal para as mulheres, aumentaram o rigor da pena para agressores e assassinos, mas não inibiram os atos extremos.

Na semana passada, em mais uma demonstração de que a sociedade tenta reagir à doença social, o Senado aprovou em primeiro e segundo turno proposta de emenda constitucional (PEC) que modifica o inciso 42 do artigo 5º da Constituição e torna inafiançável e imprescritível o crime de feminicídio. A PEC segue agora para a Câmara e tornará a cadeia inevitável para os assassinos de mulheres. O que se vê, porém, é que o feminicida, na maioria dos casos, não está preocupado com as consequências de seu ato. Age enlouquecidamente e acha que está com a razão. O ódio e o desejo de vingança são maiores do que o medo da pena. Ele mata a mulher no meio da rua ou em lugares públicos e depois foge ou se suicida. No fim de semana, quando as famílias se reúnem, há uma incidência maior desses crimes.

MEDIDAS PREVENTIVAS

“Não será só com leis que vamos resolver o problema. É preciso reeducar a sociedade, é um processo evolutivo”, afirma Larissa Schmillevitch, gerente do Mapa do Acolhimento, ONG que cuida de mulheres ameaçadas e agredidas. “Outra questão é achar que a violência contra a mulher é algo privado em que ninguém se mete. A sociedade precisa entender que se trata de algo público, que pode ser evitado”. O Mapa do Acolhimento é uma rede de solidariedade coordenada pela ONG Nossas, um laboratório de ativismo feminista. Para Larissa, o aumento das denúncias tem relação direta com o crescimento da violência, e também com o fato de as mulheres terem mais acesso às informações e estarem menos caladas e conseguindo identificar com clareza as situações abusivas de seu relacionamento. Isso permite que se tomem medidas para impedir atitudes violentas de maridos e namorados transtornados.

A medida principal que as ativistas dos direitos da mulher defendem para conter a onda de feminicídios é a prevenção. Segundo ela, esse crime pode ser inibido com uma atuação assistencial no início do ciclo da violência, quando começam os abusos. Mas mulheres que denunciam seus algozes precocemente se expõem a um risco maior e necessitam de proteção. “A lei é muito boa, mas precisa ser aplicada de forma adequada”, afirma Larissa. “A gente enfrenta problemas nas delegacias da mulher por falta de profissionais qualificados e percebe um sucateamento nos serviços públicos de atendimento.

É difícil realizar uma denúncia”. Quer dizer, as mulheres estão falando mais sobre seus dramas, mas não estão sendo ouvidas.

GESTÃO E CARREIRA

APROVEITE O DIA

Profissionais estão restringindo o uso da internet para reduzir a ansiedade de querer saber de tudo o que acontece e poder curtir mais os momentos offline

Assim que deixa o escritório do Google, em São Paulo, a primeira providência de Vinícius Malinoski é colocar o smartphone em modo avião — e o celular só vai voltar ao estado-padrão no dia seguinte, quando o diretor do The Zoo, área de criatividade do Google, sair de casa para ir ao trabalho. Sem notificações nem a necessidade de checar e responder às mensagens, Vinícius fica longe de interrupções e sentimentos como ansiedade, o que o ajuda a desopilar e a encontrar tempo para apreciar momentos em que possa se fazer presente de maneira mais intensa. Aos 37 anos, os últimos quatro dedicados à multinacional de tecnologia mais valiosa do planeta, ele adotou essa postura por notar que a hiperconectividade pode ser prejudicial. “Percebi que era mais saudável não estar conectado o tempo todo, que precisava sair um pouco desse círculo virtual e aproveitar para relaxar”, diz. “Nas manhãs corro, nado, faço ioga ou jogo tênis. Depois, vou de bicicleta até o trabalho, onde fico das 9 às 18 horas. Deixo 30 minutos do meu almoço para meditar e, à noite, depois de jantar com minha esposa, leio um livro ou estudo música”, conta. E essa postura se reflete em sua equipe, composta de quatro profissionais. “Tento preservar, pois tenho pessoas no meu time que preferem adotar um horário diferente do meu para estar com a família.”

O comportamento de Vinícius — e de outros que, como ele, estão sentindo prazer em ficar longe da internet — já tem nome: Jomo, acrônimo de joy of missing out, que significa algo como “alegria em ficar por fora”. A atitude, que surgiu dentro das empresas de tecnologia, é um contraponto ao Fomo ( fear of missing out), que, segundo o dicionário Oxford, pode ser traduzido como “ansiedade gerada pela possibilidade de um evento emocionante ou interessante estar acontecendo em outros lugares, muitas vezes despertada pelas redes sociais”.

Basicamente, enquanto o Fomo representa o desespero em saber de tudo o que acontece no mundo digital e o pavor de ficar de fora de todo o burburinho das redes sociais, o Jomo vai no caminho contrário e estimula as pessoas a se desconectarem para que possam experimentar intensamente alguma coisa no mundo offline. “Na busca pela consciência sobre os próprios desejos e com vontade de viver o momento presente e usufruir dele, as pessoas têm se questionado sobre o uso da internet e suas funções. Por estarem mais criteriosas e selecionando melhor o que fazem e as informações que consomem, elas acabam dando espaço ao Jomo”, diz Karen Vogel, psicóloga e professora da The School of Life, de São Paulo. Essas são preocupações importantes em tempos atuais. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, o Brasil conta hoje com 230 milhões de celulares ativos. Computadores, notebooks e tablets somam 180 milhões. Já o Cetic.br, responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre disponibilidade e uso da internet no Brasil, aponta que, em 2017, mais da metade da população brasileira já tinha acesso à rede mundial de computadores. Os números expressivos fizeram o governo olhar o assunto com atenção. Em julho deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um programa de “detox digital”, o Reconecte, que, além de alertar a população para os riscos do uso excessivo da tecnologia, propõe um desafio ao público: trocar, durante um dia inteiro, o tempo gasto com celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos por atividades offline. E o Instagram, que, segundo uma pesquisa do Reino Unido, é a rede social mais prejudicial para a saúde mental, está escondendo o número de curtidas nas fotos. Segundo a empresa, isso é feito para “aliviar a pressão” que as pessoas sentem ao postar uma imagem.

IMPACTOS NA CARREIRA

Mas nem todos parecem entender a necessidade de ter momentos de prazer fora da internet. A pressão por resultados, a facilidade de falar com subordinados e colegas em grupos corporativos do WhatsApp e do Telegram e de acessar o e-mail do trabalho pelo celular estariam dificultando o processo de desconexão por parte dos empregados não só nos fins de semana e feriados mas também nas férias. Uma pesquisa do LinkedIn realizada em 2018 demonstra isso. De acordo com o estudo, 70% dos consultados admitiram não se desligarem do emprego nas férias. A prática de não aproveitar o período de descanso para se desconectar e recarregar as energias, apesar de comum, tem consequências bem negativas: estresse, ansiedade, queda do potencial produtivo, diminuição da criatividade e baixa capacidade de inovação. “A redução da concentração e da inventividade pode afetar a produtividade em setores em que a criação é importante. O acesso digital excessivo também pode limitar vivências não previstas ou que não tenham sido filtradas por dispositivos digitais”, diz Anderson Sant’Anna, professor adjunto da FGV-Eaesp. “Daí a importância de praticar momentos de oxigenação que possam colocar o indivíduo em contato com diferenças, inovações e possibilidades de surgimento do novo, fora do controle dos algoritmos.”

Foi o que percebeu a publicitária Cláudia Gambaroni, de 40 anos. Depois de meses vivenciando uma exaustiva rotina digital, sentiu que era hora de repensar seus hábitos e suas relações pessoais após um alerta feito por sua mãe. “Ela disse que, quando eu a visitava ou estava em momentos de lazer com familiares, ficava apenas no celular. Que era como se eu não estivesse ali e que sentia falta da minha presença. Aquilo me fez refletir”, afirma a empresária.

Durante quase um ano, enquanto coordenava diversas equipes e redes sociais, Cláudia chegou a trabalhar por até 20 horas seguidas hiperconectada. Ela teve problemas de ansiedade, estresse, insônia e irritação depois de assumir a liderança de uma grande campanha de marketing político na internet. “Estava com os nervos à flor da pele. Falava com muitas pessoas, avaliava informações o tempo todo e até dormia com o celular embaixo do travesseiro para responder às mensagens da equipe. Só percebi que algo não ia bem, entretanto, quando, após o término da campanha, com o alerta da minha mãe, notei que estava condicionada a olhar a internet de maneira agressiva mesmo sem estar trabalhando”, diz. A mudança de comportamento ocorreu de forma mais drástica num primeiro momento. “Fiquei fora das redes sociais por quatro meses e passei a investir esse tempo em atividades físicas e a me dedicar a meus relacionamentos presenciais, com amigos e familiares. Não queria nada mais a distância. Também estabeleci uma meta diária e hoje uso menos a internet, apenas no escritório. Nos fins de semana, acesso a rede por apenas 15 minutos para ver coisas pessoais — e só”, diz Cláudia, que controla as horas que gasta na web depois de instalar um app com essa finalidade. “Não foi fácil no começo, mas encontrei uma maneira mais saudável de viver cuidando da mente, do corpo e do espírito. Passei a usar meu tempo para ler, praticar esportes e estar com minha família. Ganhei qualidade de vida.”

MAIS EQUILÍBRIO

De acordo com o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o Brasil é o segundo país do mundo no ranking de navegação na internet. Segundo ele, cada usuário gasta, em média, 9 horas e 29 minutos por dia na rede. E, apesar de não haver um estudo que mostre o percentual de dependentes tecnológicos no Brasil, a premissa internacional aponta que 10% dos usuários de computadores e smartphones estão sujeitos a algum grau de vício em internet.

O impacto na saúde dos funcionários poderia ser menor, principalmente se as empresas já trabalhassem com políticas corporativas de bem-estar digital para despertar hábitos online mais conscientes nas equipes e, claro, se os profissionais não acreditassem que o comportamento multitarefa é positivo para o currículo. “Ser multitarefa não é melhor para a produtividade. Ao contrário, o cérebro não é multitarefa, é programado para focar uma coisa por vez. Ele trabalha com o único propósito de finalizar o que foi iniciado”, explica Cristiano.

Se soubesse disso, o advogado e especialista em direito do consumidor Marco Antônio Araújo Júnior, de 44 anos, teria evitado um ciclo tecnológico de 16 horas diárias na internet a partir de 2013, prática que afetou seu foco e sua produtividade. Para dar conta das duas funções que exercia na época, a de diretor executivo de um grupo educacional e a de professor de direito em um curso preparatório para o exame da OAB, e despachar o que era preciso, Marco se valeu dos benefícios da internet, mas logo passou a ter problemas. “No home office respondia a mais de 400 e-mails por dia, fazia reuniões online e, mesmo trabalhando das 7 às 23 horas, acordava de madrugada para responder a dúvidas de alunos pelas redes sociais. Eram cerca de 500 mensagens por dia”, conta.

Com um horário hiperextendido de trabalho e sem conseguir um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, Marco passou a não se alimentar direito, permanecia longos períodos sentado e tinha menos interações com a família. A consequência veio no ano seguinte: uma hérnia, resultado de meses de uma postura indevida no uso de dispositivos digitais. Apesar dos tratamentos médicos aos quais foi submetido para o problema na coluna, o “detox” das redes, entretanto, só aconteceu anos mais tarde. “Em 2018 percebi que não estava sendo realmente produtivo por causa da internet. Foi então que comecei a aplicar algumas técnicas de coaching que aprendi no dia a dia e a mudar meus hábitos”, explica Marco, que começou a monitorar o tempo gasto na rede de computadores e estabeleceu metas pessoais. “O início foi difícil. Eu queria saber o que estava acontecendo nas redes o tempo todo, mas logo consegui organizar as tarefas com a ajuda de estratégias.”

Hoje, além da prática de exercícios e de fazer seu horário de almoço sem o celular, Marco trabalha 1h30 sem as distrações da internet faz uma pausa de 30 minutos para responder aos e-mails e às mensagens profissionais. Sua meta é chegar a 3 horas ininterruptas, o que ele garante que conseguirá em breve. A organização trouxe uma rotina diferente para sua vida. “Ganhei tempo de qualidade om minha família, fora da internet, e com base em minha experiência pude ensinar táticas a meus alunos para se concentrarem mais nos estudos fazendo menos uso do celular”, diz o profissional, que administra uma plataforma de cursos preparatórios online chamada Meu Curso.

SINAIS DE ATENÇÃO

Como identificar se é hora de dar um tempo na internet e nas redes sociais

*** Você dorme com o celular embaixo do travesseiro ou na cabeceira da cama e acorda para responder às mensagens.

*** Fica ansioso e angustiado quando percebe que a bateria está acabando e não está com o carregador.

*** Escuta o alerta de notificação e fica aflito para ler e responder às mensagens rapidamente.

*** Se pega pensando em qual momento poderá mexer no celular novamente.

*** Negligencia atividades importantes para usar o smartphone e, no fim do dia, percebe que foi improdutivo.

*** Tenta reduzir as informações que consome na internet, mas não consegue.

*** Ignora momentos com familiares e amigos e põe em risco o emprego por não se desconectar das redes.

*** Busca informações quando não precisa, muda de tela continuamente e se sente frustrado por não encontrar nada interessante.

*** Fica se comparando: acha que a vida dos outros é mais interessante e mais bem aproveitada que a sua.

SEM CONEXÃO

Dicas para se desintoxicar do mundo digital e experimentar o conceito Jomo

AVALIE O TEMPO QUE GASTA NA INTERNET

Consulte o consumo de dados de seu celular para saber quais apps mais acessa, reduza o tempo gasto nos que estiverem no topo da lista e estabeleça metas diárias de uso.

REVEJA SUA ROTINA

Escolha atividades que gostaria de incluir no dia a dia — e antes não tinha tempo — e organize para que a prioridade de sua agenda seja você.

FAÇA O QUE LHE DÁ PRAZER

Coloque em sua rotina momentos prazerosos, como música, esporte, culinária, leitura e passeios. Descubra o que lhe dá prazer e garanta que não seja incomodado nesse período.

OFFLINE E SEM CULPA

Quando estiver em seu momento pessoal, liberte-se de responder a mensagens imediatamente. Desligue o celular, deixe-o em “modo avião” ou silencie as notificações, preservando apenas grupos e contatos prioritários — como o da família.

TENHA UM DIA (OU VÁRIOS) LONGE DA INTERNET

Experimente ficar fora das redes sociais nas folgas, nos fins de semana e nas férias. use o tempo livre para ler, ver amigos, viajar e trabalhar em projetos pessoais que não exijam acesso à web.

CURTA O MOMENTO

Experiências devem ser aproveitadas na hora que acontecem, com quem está a seu lado. Por isso, desligue o celular enquanto almoça com a família ou conversa com amigos.

SEJA UM LÍDER DANDO O EXEMPLO

Evite incomodar sua equipe com assuntos profissionais fora do expediente.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 2 – QUANDO SUA HISTÓRIA É DESAFIADA

O número de anos de uma jornada não conta toda a sua história. Um casamento de cinquenta anos pode significar cinquenta anos de dificuldades, ou cinquenta anos de felicidade constante. Mas, com muito mais frequência, o casamento é um mosaico de estações variáveis e diversas.

Quando olhamos a imagem da árvore na capa deste livro, fica evidente que cada anel aumenta o diâmetro da árvore. Não importa se o ano foi de dificuldade ou abundância, ele acrescentou volume à história e significado à jornada. Será que O Peregrino, de John Bunyan – um livro que continua sendo publicado mesmo depois de três séculos – seria uma obra prima duradoura se Cristão (o personagem principal da história) tivesse chegado à Cidade Celestial (seu destino) sem ter passado pelo Pântano da Desconfiança ou sem ter triunfado sobre o gigante Desespero? Sem o enredo complexo entremeado por alegrias e desafios, sua história seria monótona e vazia de acontecimentos especiais. Os perigos que Cristão suporta e vence são o que fazem com que sua história valha a pena ser lida. Os desafios pelos quais passamos em nossos casamentos têm o potencial de acrescentar às nossas histórias empolgação e significado semelhantes.

Não despreze os momentos de desânimo. Use-os para se aproximar da graça de Deus e encontrar Sua força divina que desafiará os limites da sua capacidade emocional e espiritual. Ao longo de mais de três décadas de casamento, descobrimos que foram exatamente os momentos que pareceram ser mais sombrios que se tornaram mais tarde faróis para iluminar nosso caminho. Eles nos compeliram a nos levantarmos e nos posicionarmos. Seus problemas atuais podem se tornar alguns dos mais importantes momentos da sua história.

O ESPÍRITO DO CASAMENTO

Antes de mergulharmos na história do casamento, vamos parar por um instante e explorar seu propósito. Não há dúvidas de que o casamento é maravilhoso, mas às vezes ele é um processo doloroso. A maioria de nós tende a ter muito mais paciência com a dor envolvida em um processo quando entendemos seu propósito. Por exemplo, você pode suportar duas horas na cadeira de um dentista se souber que o procedimento cumprirá o propósito de erradicar uma dor de dente incessante. No seu casamento, você provavelmente já passou por dias que pareciam mais uma visita ao dentista do que um passeio na praia (e se ainda não passou por isso, você passará). É nesses momentos dolorosos que ter consciência do seu propósito torna-se ainda mais crucial.

Hoje em dia, o propósito do casamento está sendo questionado. Por não entenderem o propósito de suas uniões, muitas pessoas estão prontas para pular fora quando as águas turbulentas fazem seus barcos balançarem. Outros argumentam que a instituição do casamento como um todo está falida, e precisa ser revista ou eliminada. Alguns até sugerem que os contratos de casamento deveriam ser limitados a um período predeterminado – aparentemente, para sempre é muito tempo para se esperar de qualquer um de nós. Essas pessoas argumentam que é irrealista tomar decisões sobre como vamos nos sentir daqui a vinte anos, quando mal podemos controlar a maneira como vamos nos sentir amanhã.

Na conhecida canção “Mrs. Jackson”, o grupo de hip-hop OutKast expressou um sentimento popular: Eu e sua filha

Temos algo especial

Você diz que é coisa de criança Nós dizemos que é um amor maduro Espero que nos sintamos assim, que nos sintamos assim para sempre Você pode planejar um bonito piquenique Mas não pode prever se vai haver sol

A música “Mrs. Jackson” é o pedido de desculpas de um homem à mãe de uma jovem que ele engravidou, mas por quem não sente mais amor. Infelizmente, essa canção reflete perfeitamente uma visão predominante do amor e do casamento: eles devem fazer com que eu me sinta bem. Essa perspectiva se fundamenta na convicção de que nossas emoções nos dizem o que é certo e errado, e que somos incapazes de controlá-las. Se não me sinto feliz, então obviamente tenho de fazer alguma coisa para mudar isso. Afinal, não posso controlar como me sinto, assim como não posso controlar a mudança das estações. Ou, como o grupo OutKast diz, você pode planejar um bonito piquenique, mas não pode prever se vai haver sol.

Há outros que querem que a definição de casamento se adapte às diferentes épocas. Eles perguntam: “Por que não podemos ser mais flexíveis? Se esta instituição vai sobreviver, ela precisa se ampliar para incluir uniões entre dois homens e entre duas mulheres”. Certas celebridades estão até mesmo se recusando a se casarem até que os parâmetros do casamento tenham sido revistos. (Para ser claro, todo casamento deve sempre crescer e se adaptar, mas a definição e os participantes do casamento não mudam.) Então, a quem devemos ouvir? Quem tem o direito de definir – ou redefinir – o casamento? Quem tem as credenciais para nos dizer como o casamento deve impactar nossas vidas?

Acreditamos que Deus é o Único que tem esse direito. Sua Palavra declara: Foi o Eterno que fez o casamento, não você. Seu Espírito permeia até os menores detalhes dessa união… Portanto, guarde o espírito do casamento dentro de você. Malaquias 2:15, A Mensagem

Esse versículo não deixa espaço para dúvida: “Foi o Eterno que fez o casamento, não você”. Ele não apenas criou o casamento, como também Se envolveu pessoalmente no processo pelo qual duas pessoas se tornarem uma.

Todo casamento é composto de muitos elementos diferentes, alguns simples e alguns tremendamente complexos, mas, pelo Seu Espírito, Deus revigora (ou traz vida a) os detalhes mais íntimos do casamento.

Observe que Malaquias 2:15 diz: “Seu Espírito [de Deus] permeia até os menores detalhes dessa união”. Em outras palavras, Deus nos permite ter expressão criativa no casamento, mas Ele retém todos os direitos de Criador sobre o que é o casamento e a quem ele inclui. O casamento não pode ser recriado sem o consentimento e a participação de Deus, e Ele é claro quanto às questões fundamentais: “Eu sou o Senhor e não mudo” (Malaquias 3:6, NTLH).

DE VOLTA AO ÉDEN

Vamos voltar ao jardim. Você se lembra das duas árvores? Uma delas, a árvore do conhecimento do bem e do mal, era a única árvore cujo fruto era proibido a Adão e Eva. Deus os advertiu que se eles comessem de seu fruto, eles morreriam. Mas algo naquela árvore fez com que eles se recusassem a ouvir a advertência de Deus e partilhassem o fruto proibido.

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento… Gênesis 3:6 (ACF), grifo do autor.

Certamente muitas árvores nesse jardim eram boas para se comer e agradáveis aos olhos. Mas uma árvore cujo fruto tinha o poder de elevar uma pessoa à condição de Deus era outra coisa completamente diferente! Eva pensou que houvesse algo além daquilo que já lhe havia sido dado. Achamos impressionante o fato de a mulher ter agarrado algo que não devia ter (igualdade em relação a Deus) perdendo nesse processo algo que ela já tinha o potencial para possuir (sabedoria).

Adão e Eva desejaram ser como Deus, separados de Sua influência e autoridade. Eles se agarraram a um papel que não lhes era lícito assumir. Essa decisão contrasta claramente com a escolha feita por um de seus descendentes:

[Jesus], embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se… Filipenses 2:6

Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus, mas não iguais a Ele. A imagem de algo fala de um reflexo, e não de uma representação em sua totalidade. A falsa promessa de igualdade com Deus fez com que o homem e a mulher pensassem que estavam recebendo alguma coisa, quando na verdade ambos estavam perdendo. Eles não receberam sabedoria; eles aceitaram um engano.

O casal enganado e desobediente foi banido do jardim. Eles nunca mais teriam acesso ao fruto encontrado na árvore da vida. Sem esse fruto vivo, Adão e Eva estavam condenados à mortalidade. Eles morreram, e o jardim deles desapareceu há muito tempo. Mas, de certa maneira, eles vivem, porque somos sua descendência. Homens e mulheres não têm mais imortalidade individual nesta Terra, mas o casamento é uma maneira de dar continuidade à vida através da reprodução.

A boa notícia é que a Cruz de Cristo agora é nossa árvore da vida definitiva. Ela restaura tudo o que foi perdido no jardim. E um casamento segundo o coração de Deus pode funcionar como uma árvore que perpetua a vida. Ele tem em si a base necessária tanto para o legado quanto para a intimidade. Por isso é tão importante para Deus honrarmos o casamento, guardarmos o seu espírito e amarmos um ao outro.

Não é preciso ser um especialista em relacionamentos para perceber que algo significativo se perdeu na transição do jardim para o agora. Muitos casamentos são o oposto de uma árvore que perpetua a vida. Divórcio, adultério, decepção, infelicidade e ofensa destroem nossos casamentos e lares. Por causa desses momentos em que o amor falha, muitos não entendem o propósito do casamento – ou sequer por que eles deveriam querer se casar. Outros, que são casados, estão simplesmente tentando sobreviver ao fogo cruzado. Para eles, o casamento não é um porto seguro. É uma zona de guerra.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MULHER ELÁSTICO

Assim como a personagem do desenho animado, a mulher contemporânea tem de ser elástica para dar conta das demandas do cotidiano

Em uma tarde de domingo caía uma fina garoa paulistana. Fui despertada de meus pensamentos longínquos por uma solicitação dos meus Alunos. Eles me pediam que os levasse para assistir ao filme Os incríveis, da Disney.

Arrastada pelo entusiasmo deles, entrei numa longa fila, na companhia barulhenta de pais, avós e crianças que se acotovelavam na porta da sala do cinema, na tentativa de conseguir um bom lugar. Pipoca, Coca-Cola e chocolate! Enfim, bem instalados nas poltronas, esperamos o filme começar.

Na tela, desenhou-se a imagem do cotidiano de uma vida familiar cheia de encantos e desencantos, como todas as outras. Tarefas, alegrias e tristezas, limites e frustrações, lamentos e questionamentos são experimentados pelos personagens: um casal de ex­ super herois e seus filhos que, impedidos de exercer seus poderes, são obrigados a levar uma vida “normal”. O poder do Sr. Incrível está na força. A Sra. Incrível transforma-se na mulher -elástico. A filha mais velha, uma garota de uns 12 anos, magrinha e tímida, pode se tornar invisível. Falante e ágil, o filho do meio, tem a habilidade de correr a uma velocidade enorme. E o caçula, um bebê engraçadinho e comilão, de início parece ser o único membro da família sem capacidades extraordinárias.

À medida que me vejo interessada pela figurada mulher­ elástico, me dou conta da sutileza do filme na escolha dos poderes dos personagens. Percebo, pela reação dos meus filhos, que eles também se interessavam pelas características dos diversos personagens, identificando semelhanças e diferenças entre os protagonistas e eles próprios. Não demorou muito para trocarmos olhares de cumplicidade e risadinhas diante de algumas cenas que lembram situações conhecidas por todos nós.

Saímos do cinema comentando animadamente o filme e continuamos a discuti-lo durante toda a semana. A partir daí, a imagem da mulher-elástico, excelente representação para a mulher na contemporaneidade, não me abandonou mais. Lembrei-me de que Freud localiza o mal-estar do seu tempo na repressão da vida sexual devido à moral civilizada daquela época. Inicialmente, ele compreende que a neurose atinge mais as mulheres que os homens – embora certamente esteja presente também neles – justamente porque são elas o alvo privilegiado dessa moral repressora. Ao restringir a sexualidade ao casamento, a sociedade no início do século XX organizava-se para manter a mulher no espaço privado, longe da “tentação” do âmbito público, fonte de saber e de autonomia.

Desde a década de 50, as transformações no modo de vida das mulheres vêm se processando de maneira mais acelerada. A entrada no mercado de trabalho, o acesso à formação universitária e às novas formas de erotismo organizaram a luta feminina em defesa dos seus direitos. A pílula anticoncepcional e as mudanças nos contratos matrimoniais também foram, aos poucos, organizando a saída da mulher do  universo doméstico e do exclusivo cuidado dos filhos, conduzindo-a para o espaço público, antes reservado quase exclusivamente aos homens.

IDEAIS AMPLIADOS

A progressiva conquista de novos lugares e papéis femininos trouxe uma infinidade de ganhos que, como não poderia deixar de ser, teve seu preço. Isso solicita uma mudança na posição subjetiva da mulher, o que certamente exige a passagem pelo luto da perda de garantia das antigas posições. Caminho tortuoso e difícil, pois a estrada é em direção à autonomia, única via de acesso a novas realizações, pede que a mulher assuma o preço da responsabilidade de uma posição de sujeito, propriamente desejante.

A mudança dos tempos traz sempre consigo a transformação dos ideais, resultado de novas conquistas do ser humano no saber sobre si mesmo. Ocorrem aí o abandono de interesses antigos e a descoberta de novos interesses e necessidades. No entanto, para as mulheres essa mudança trouxe também uma ampliação dos ideais. No que diz respeito à sua inserção na cultura, elas confrontam se hoje não apenas com as modificações dos ideais, mas com um verdadeiro acúmulo deles.

Presas à necessidade de corresponder ainda aos ideais do âmbito doméstico, reinado de suas mães e avós, as mulheres se vêm hoje requisitadas pelas demandas próprias do espaço público – profissional e social. Às voltas com o difícil caminho que qualquer mudança de posição subjetiva exige as mulheres parecem ter diante de si um espectro amplo de ideais a alcançar.

Esticadas entre uma identificação passiva e materna e outra ativa e fálica, tentam lidar com o excesso que caracteriza as demandas do seu cotidiano. Resulta dar um verdadeiro acúmulo que requer uma elasticidade nunca antes sequer imaginada. Se a necessidade de perseguir ideais constrói a trajetória cultural do ser humano ao longo do tempo, o percurso das mulheres, em particular, nos permite constatar que, ao modelo de santidade e beleza, veio juntar-se também o de sucesso – tão caro à cultura contemporânea.

Assim, uma boa representação do ideal de feminino dos dias atuais é a figura da mulher-elástico. Para tentar dar conta de tantos ideais, a mulher atual – tão bem representada pela Sra. Incrível – precisa ter um funcionamento verdadeiramente elástico. Deve desempenhar com sucesso, uma gama tão variada de funções que só mesmo uma elasticidade originária poderia lhe garantir ao menos, algum êxito numa empreitada tão fantástica, própria dos super-heróis!

Se a particularidade da relação da menina com a castração, tal como destacou Freud, assinala a dificuldade de acesso à sublimação e à construção do superego, é essa mesma particularidade que parece lhe garantir a elasticidade de sua organização libidinal e, consequentemente sua diversidade de possibilidades identitárias.

Se, por um lado, a mulher pode desfrutar de inúmeras possibilidades de gozo sexual, por outro, essa diversidade lhe garante uma elasticidade considerável de interesses – e não apenas sexuais. Fala-se com frequência na capacidade feminina de fazer muitas coisas e investir simultaneamente, em campos diversos. No entanto, para além dessa elasticidade originária, não existiria também uma dimensão essencialmente conflitiva nessa amplitude de exigências?

Para corresponder às inúmeras demandas próprias de sua época, a mulher-elástico precisa não só ser ideal, mas também ter o corpo ideal. Além de mãe dedicada, compreensiva e bem-humorada, deve conservar-se sempre jovem. Amante ardente e bem-disposta, precisa ter uma diversidade de investimentos. Com igual obstinação, realiza os exercícios físicos indispensáveis à manutenção do corpo perfeito e mantém vivos seus interesses culturais nos destinos da humanidade.

Mantendo um pé na academia de ginástica e o outro na mostra de cinema do momento, a mulher­ elástico é medianamente culta. Bem informada, é capaz de falar sobre qualquer assunto, mesmo que deixe transparecer certa mediocridade em muitos deles. Além de magra, realizada e bem-sucedida profissionalmente, é bonita, bem-cuidada e economicamente independente. Assiste a filmes de Godard com o mesmo entusiasmo com que entra em uma churrascaria, embora se prive de boa parte do menu disponível. Serena e controlada, a mulher-elástico come carne – desde que acompanhada de salada!

MAGREZA EM DESTAQUE

A hipervalorização da magreza tem acentuado a relação entre a autoestima e a imagem do corpo esguio, particularmente para o sexo feminino. Há 20 anos, as modelos pesavam 8% a menos que a média das mulheres, atualmente a diferença chega a 20%. Embora a aparência física seja um elemento fundamental para a imagem feminina em diversas épocas e culturas, a magreza nem sempre foi o ideal almejado. Muito pelo contrário.

Uma breve passagem pela história da arte revela que a Renascença valorizava corpos fartos, quadris grandes e abdomens avantajados. Embora se saiba que a exigência de magreza nas mulheres tenha começado por volta dos anos 20, em sintonia com o início do movimento de liberação feminina, nas décadas de 40 e 50 as estrelas de Hollywood, como Rita Hayworth, por exemplo, exibiam seios abundantes e formas a curvilíneas, valorizadas pela sensualidade. A exigência de magreza intensificou-se nos anos 60 e acentuou-se consideravelmente na década de 70. As formas do corpo idealizado tornaram-se menos arredondadas.

Embora padrões estéticos tenham se modificado, a luta para atingir o modelo de beleza vigente marca a relação da mulher com seu corpo em todas as épocas e culturas. Em 1580, o escritor Michel de Montaigne (1533-1592) já chamava a atenção em seus ensaios para o fato de que as mulheres desprezam a dor em função da vaidade. É assim que, ao longo dos tempos, elas escravizam o corpo em nome de parâmetros ao qual aspiram em cada época.

Houve o tempo em que esfolavam a pele para adquirir a tez mais fresca, ou buscavam propositalmente desenvolver problemas estomacais para conseguir a palidez valorizada na ocasião ou, ainda, apertavam o ventre em duros espartilhos para exibir a cintura delgada. Qualquer semelhança com a submissão aos atuais tratamentos estéticos e cirúrgicos, muitas vezes bastante dolorosos, e a especial dedicação às dietas alimentares para emagrecer, algumas radicais e perigosas para a saúde, não uma mera coincidência.

O ideal de magreza domina a cena contemporânea, não somente como ícone desucesso. Constitui-se até como modelo de perfeição moral, o corpo magro é a senha para se conseguir aprovação, poder e dinheiro. A idealização de forma bem esculpidas exige da mulher-elástico disciplina e firmeza – só desse modo poderá permanecer no ringue da luta pela beleza fetichizada pela cultura.

Engajada na busca pelo valorizado corpo fino e rígido, ela se lança na corrida insana para não perder o bonde de seu tempo, Escrava da amplitude e da diversidade dos ideais, dos quais precisa ao menos conseguir se aproximar, mulher-elástico, vitimada pelo excesso e pelo cansaço diante de suas incríveis atribuições, vive culpada diante da constatação da impossibilidade de ser tudo o que se exige dela.

CONFLITO E QUESTÃO

Endividada consigo mesma e com os que a cercam, ela é, ao mesmo tempo, culpada e impotente. Experimentando frequentemente uma dolorosa sensação de que algo lhe escapou, de que alguma coisa transborda sempre do seu cotidiano assoberbado, a mulher­ elástico constata, desamparada, que seu corpo dói!

E para que tudo isso? Às vezes, é no ponto extremo da dor que se pode encontrar, ou reencontrar o próprio limite a essa espécie de tirania velada que nos leva, frequentemente, a nos posicionar como objeto no desejo do outro. Poder reinventar cada dia, os caminhos do próprio desejo e seguir construindo um discurso próprio supõe uma mudança de pergunta, para quem tudo isso? A mudança da questão supõe a existência de um sujeito a quem se destinam os esforços realizados e, certamente, também os prazeres das vitórias conquistadas. Isso exige que a mulher se pergunte se é ela mesma o destinatário desses esforços, o sujeito dessa pergunta.

Todas nós, mulheres, experimentamos na carne as diversas formas de manifestação da angústia que a exigência de elasticidade acaba por despertar no cotidiano. Se abandonar o terreno das certezas não é nem mesmo uma possibilidade para a mulher contemporânea, visto que há muito as certezas já se foram, resta reconhecer a dimensão essencialmente de conflito colocada em cena pelas próprias conquistas em direção à autonomia.

Obviamente, não se trata de nos culpar pelas conquistas e pelos avanços obtidos, muito menos de defender o retrocesso a posições anteriores. Sem ilusões ou hipocrisias, devemos admitir que o que tínhamos antes certamente não era melhor do que o que temos hoje. Devemos, ao contrário, usufruir prazerosamente de tudo que foi conquistado. Trata-se, então, de nos colocarmos no interior do conflito para problematizá-lo, para circunscrevê-lo com a circulação de perguntas e não com a enunciação de ingênuas certezas. Assim, em nosso caro mundo contemporâneo, seguiremos, todas nós, mulheres-elástico, cansadas, doloridas, culpadas e cheias de incertezas, porém sem jamais perder um certo brilho que insiste em sobreviver e clarear perguntas – uma espécie de testemunho de rebeldia que nos habita e constitui Herdeiras da Fênix, somos consumidas pelo fogo com mais frequência do que seria desejável. No entanto, renascemos das cinzas! Talvez somente por teimosia ou, simplesmente, por insistir em sustentar a esperança de viver meramente como diz Caetano Veloso, sabendo a dor e a delícia de ser o que é”.

MARIA HELENA FERNANDES – é psicanalista, doutora em psicanálise e psicopatologia pela Universidade de Paris VII, com pós-doutoramento pelo Departamento de Psiquiatria da Unifesp, professora do curso de psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae.

OUTROS OLHARES

A VEZ DOS TIKTOKERS

Aplicativo chinês de vídeos curtos vira mania entre adolescentes e cria nova leva de influencers

Há algumas semanas, em sua edição comemorativa de 10 anos, a VidCon — conferência realizada anualmente no sul da Califórnia para celebrar influenciadores e criadores de conteúdo digital — pareceu ter testemunhado o início de uma revolução. Tratados como superestrelas do evento, com direito a segurança reforçada e contato quase impossível com os fãs, os youtubers passaram a ter de dividir atenções e idolatria com uma rede de criadores praticamente desconhecida até o começo deste ano: os tiktokers. Adolescentes ou jovens adultos cujos vídeos de até 15 segundos acumulam milhões de visualizações eram tratados como astros do rock em meio à multidão juvenil que tomou a cidade de Anaheim. Acessíveis, eles distribuíram autógrafos, fizeram selfies e gravaram conteúdo com os fãs — e podem ganhar até US$ 1 milhão por publicação.

É bem provável que você desconheça a existência de uma plataforma chamada TikTok — apesar de o aplicativo ter sido o terceiro mais baixado do mundo no primeiro quadrimestre de 2019, o primeiro, se considerarmos apenas redes sociais —, mas isso é questão de tempo. Tente perguntar para um adolescente conhecido e terá uma resposta, provavelmente confusa, sobre de que se trata.

Grosso modo, o TikTok é um aplicativo baseado na criação e no compartilhamento de vídeos curtos. Ele nasceu a partir de outra plataforma, o Musical.ly, que era voltado à produção de lip syncs (dublagem performática de uma música, como um playback) e virou um fenômeno teen. Criado em 2014, o Musical.ly foi vendido para a startup chinesa ByteDance num negócio estimado em US$ 1 bilhão em novembro passado. A nova dona juntou a base de dados da aquisição com a do Douyin, nome em chinês do TikTok, e tornou global a rede social.

Hoje, o TikTok está disponível em mais de 150 países, em 75 idiomas, e conta com mais de dez escritórios espalhados pelo mundo (incluindo um em São Paulo), tendo base em Pequim. Apesar de não divulgar números oficiais, estima-se que a plataforma tenha 1,2 bilhão de usuários mensais, superando o Instagram (que afirmou ter 1 bilhão em 2018) e ficando atrás apenas do YouTube (1,9 bilhão) e Facebook (mais de 2 bilhões).

Mas, afinal, o que diferencia o TikTok de outros sistemas baseados em vídeos curtos, como o Snapchat e os stories do Instagram?

“É um lugar de vídeos curtos e autênticos. Rápidos, de pessoas reais para pessoas reais. O grande diferencial também é a narrativa que você consegue construir com as ferramentas de trilha sonora, filtros, efeitos e até mesmo usando os cortes ao gravar”, explicou Bruno Carvente, formado em sistemas de informação na Universidade de São Paulo (USP). Na rede social, onde é especializado em vídeos com efeitos especiais (fruto de um intercâmbio em Nova York), Carvente atende pelo nome de @iBugou e é um dos principais tiktokers do Brasil, com 2,4 milhões de seguidores.

Presente em mais de 150 países, em 75 idiomas, o TikTok tem cerca de 1,2 bilhão de usuários mensais, o que o coloca atrás apenas do YouTube (1,9 bilhão) e do Facebook (mais de 2 bilhões) principais tiktokers do Brasil, com 2,4 milhões de seguidores.

O TikTok disponibiliza toda uma gama de efeitos de edição rápidos e intuitivos dentro do aplicativo, além de filtros especiais e a possibilidade de procurar sons e músicas para usar como trilhas dos vídeos.

Os usuários ainda são fortemente incentivados a interagir com outros, mesmo aqueles que não estão em sua lista de seguidores — outro diferencial em relação às demais plataformas. Tanto é que, quando o usuário abre o aplicativo, a primeira coisa que vê não é um feed de publicações de amigos, mas uma página chamada “Para você”. Ela é criada por meio de um algoritmo baseado nos vídeos com os quais o usuário interagiu ou aos quais acabou de assistir. O material é interminável. A prioridade ali não é necessariamente saber o que seus amigos estão fazendo, mas estimular a criação de conteúdo a partir de vídeos que você parece ter demonstrado querer assistir. A partir deles, o usuário pode fazer vídeos de “resposta” ou criar “duetos” — duplicando um vídeo famoso e adicionando seu próprio conteúdo. Ou participar de um dos muitos desafios de hashtags (de dança, canto, esportes, memes ou o que quer que seja) propostos pelo próprio aplicativo ou por outros usuários.

“Lá podemos ser plurais: fiéis a nosso conteúdo, mas não limitados a ele”, explicou Letícia Gomes (@leticiafgomes), cujo perfil tem 1,1 milhão de seguidores. Na plataforma, ela é especialista em vídeos de transformação — seu conteúdo mais famoso, visto mais de 12 milhões de vezes, é um vídeo de 15 segundos em que, usando maquiagem e criatividade, ela se “transforma” em Michael Jackson. “Outra vantagem é que podemos postar um vídeo a qualquer momento, sem horário específico, diferente das outras redes, que possuem várias métricas. Um vídeo que você postou há uma semana, por exemplo, continua sendo entregue para as pessoas, e os números crescem cada vez mais.”

Em um artigo intitulado “O TikTok vai mudar a maneira como suas redes sociais funcionam — mesmo que você o esteja evitando”, o jornal The New York Times explica que a plataforma “responde assertivamente à pergunta ‘O que eu devo ver?’ com uma inundação de conteúdo. Da mesma forma, fornece muitas respostas para a paralisante dúvida ‘O que devo postar?’”. O resultado é um leque enorme de possibilidades que os jovens — 60% dos usuários ativos têm entre 16 e 24 anos, de acordo com pesquisa da consultoria Mediakix — não teriam capacidade de inventar sem um empurrãozinho.

Com um volume tão grande e diverso de conteúdo sendo criado, e a formação de influenciadores próprios, seguidos por milhões de usuários, o TikTok passou a pautar outras redes sociais e até a “vida real”. “Hoje o público do aplicativo está ficando mais velho, e o motivo para ter mais adultos e adolescentes são os memes, os trends e os virais criados por lá”, reforçou Yurgen Maas, outro influencer brasileiro, cujo vídeo mais famoso, em que limpa seu teclado, de onde caem farelos, moedas, canetas e até um gato de verdade, passou pelas mais diferentes redes, por fóruns de humor, por um programa da RedeTV! e até mesmo por um canal de televisão chinês. Outro exemplo é o baiano Kaique Brito, de apenas 14 anos, que fez sucesso no Twitter e no WhatsApp com um vídeo ironizando discursos sobre “racismo reverso”.

Mas talvez o mais famoso caso de meme do TikTok que ganhou o mundo esteja na música. Na última segunda-feira 22, a música “Old town road”, do rapper Lil Nas X com o cantor country Billy Ray Cyrus, igualou o recorde histórico de “Despacito” (de Luis Fonsi e Daddy Yankee) e “One sweet day” (de Mariah Carey) como canção a ocupar por mais tempo a liderança das paradas americanas — são 16 semanas consecutivas. Isso só foi possível depois de a música — lançada de forma independente pelo americano de 20 anos, que comprou a melodia de um produtor holandês pelo YouTube — ter atingido o tiktoker Michael Pelchat (@nicemichael). Com traje de caubói, ele gravou um vídeo engraçado de 15 segundos e postou para seus 123 mil seguidores na plataforma em fevereiro. O clipe inocente inesperadamente viralizou e gerou uma série de versões de outros usuários. A partir daí, Lil Nas X assinou com gravadora, lançou um EP, apresentou-se em grandes festivais, como o inglês Glastonbury, saiu da casa dos pais e vem acumulando recordes.

O TikTok não revela quantos usuários brasileiros estão em seu banco de dados, mas confirma que tem planos de expansão no país. “O Brasil é um mercado importante para o TikTok e, por ter a maior população do continente, há um potencial enorme para mais brasileiros mostrarem seu talento e criatividade. Estamos trabalhando com marcas e também com superstars brasileiros”, afirmou em nota a empresa, que não trabalha com porta-vozes.

Recentemente, a cantora Anitta fez uma parceria com a plataforma para lançar o álbum Kisses, com desafios de coreografias voltados para diferentes países. O mesmo aconteceu com o DJ Alok, cujo single Pray também foi foco de uma ação no TikTok, que premiou o melhor vídeo com um iPhone X. Segundo a revista The Atlantic, só em 2018, a ByteDance gastou mais de US$ 1 bilhão em propaganda, chegando a pagar US$ 1 milhão para um vídeo de 15 segundos. Tudo isso para expandir sua atuação e não ser só mais uma rede social passageira.

Todos os influencers procurados pela reportagem confirmam que já receberam para criar conteúdos para marcas (os famosos publieditoriais), citando empresas como Sony Pictures, Warner Music, Disney e Amaro como contratantes. “Ao contrário de outras plataformas estabelecidas, como Facebook, Twitter e Instagram, o TikTok não tem seus formatos de mídia estabelecidos. Isso pode parecer uma desvantagem para o anunciante, mas é uma vantagem do ponto de vista criativo”, defendeu Larissa Magrisso, vice-presidente de criação e conteúdo na W3haus, agência pioneira na comunicação e publicidade digital.

“A linguagem do TikTok é muito contemporânea: são vídeos curtos, com uma linguagem pop, com música, os principais territórios são humor e música, mas ele também é usado para fazer tutoriais supercriativos de maquiagem, de receitas… E as possibilidades do aplicativo, como missões, desafios de dança, humor e lip sync, permitem, do ponto de vista da publicidade, ser mais criativo que na concorrência”, afirmou Magrisso.

GESTÃO E CARREIRA

PEGA NA MENTIRA

Mentir é humano, mas tem limite. Entenda até onde e quando isso é aceitável nas relações de trabalho e quando pode ter consequências sérias

Fale a verdade: você já contou alguma mentira no trabalho? Você pode não se lembrar ou não querer admitir, mas o mais provável é que sim. Quem garante são os especialistas em comportamento, que definem a mentira como uma espécie de estratégia de defesa necessária à sobrevivência em sociedade. “Onde houver relações humanas haverá mentira”, diz Luiz Scocca, psiquiatra no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. “Falar a verdade o tempo inteiro é tão raro quanto seria contraproducente para uma boa socialização.” Há quem diga que a presença da mentira obedece ao princípio de Pareto (também conhecido como regra dos 80/20): 20% das pessoas contam 80% das lorotas e os 80% restantes falam os outros 20%. Ou seja, uns inventam mais, outros menos, mas todo mundo mente.

No contexto do trabalho não poderia ser diferente. Valorizar o currículo com experiências e habilidades e maquiar pontos fracos e deslizes na carreira são clássicos. Um levantamento recente da DNA Outplacement revelou que 75% dos brasileiros mentem no CV. Informações sobre o salário no último emprego, domínio de inglês, tempo de inatividade e qualificações de ensino são as principais inverdades. Mesmo prevista pelos recrutadores, a prática pode custar caro. Em uma pesquisa deste ano da consultoria de recolocação Robert Half, 33% dos executivos disseram ter descartado candidatos no processo seletivo ao perceberem que não falavam a verdade.

De estagiários a executivos, o que pode variar é o grau de elaboração, mas todos mentem. Nem autoridades e profissionais altamente qualificados escapam. Há pouco tempo, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e a professora e pesquisadora Joana D’Arc Félix de Sousa viraram notícia por terem inflado o currículo com títulos que, na verdade, não têm – ele, o diploma de doutorado em direito; e ela, de pós-doutorado na área de química, ambos pela Universidade Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo. Sem explicar muito bem a manobra, depois de flagrados, os dois apenas corrigiram a informação na plataforma de currículos na internet, mas o filme já estava queimado. Para Marcela Esteves, gerente de recrutamento da Robert Half, nenhuma mentira está liberada quando se está buscando uma vaga. “Nem o nervosismo ou a pressão pela necessidade do emprego podem justificar faltar com a verdade. A rotina profissional é repleta de situações que colocam o indivíduo sob tensão e, se ele mente na entrevista, entende-se que vai agir do mesmo modo no dia a dia de suas funções”, avalia.

Mas nem toda mentira deve ser julgada pelo viés moral. Pense naquela vez que você inventou uma pendência para escapar do almoço ou café com o colega chato. Ou quando tranquilizou o chefe dizendo que estava terminando uma tarefa que nem sequer tinha começado. Ou quando deixou de dar uma opinião sincera sobre a roupa, o corte de cabelo ou uma ideia de alguém. São exemplos de mentiras sociais, quase sempre inofensivas e necessárias para manter girando a roda dos relacionamentos.

POR QUE INVENTAMOS?

Cada um tem uma motivação: uns para obter vantagens, outros para se sentirem valorizados; uns para evitar algum conflito, outros para ser aceitos no grupo. Na maioria das vezes, o que está em jogo é a segurança e a autoestima.

Há, é claro, mentirosos mal-intencionados, que manipulam pessoas e informações de olho em objetivos pessoais. A servidora pública Ângela*, de 43 anos, chegou a ser exonerada do órgão em que atuava em um dos ministérios do governo federal por causa das invenções de uma subordinada. Há quatro anos, quando a mãe de Ângela faleceu, ela tirou o período de licença a que tinha direito. Depois de alguns dias afastada, a subordinada levou ao coordenador que a chefe não ia trabalhar há dias e que havia deixado projetos pendentes. Sem checar a situação no RH, o gestor acabou não só dispensando Ângela como promovendo a subordinada ao cargo dela. O emprego – em outra posição – foi recuperado em algumas sema nas, mas para isso foi preciso ameaçar com um processo e reunir outras vítimas das mentiras da funcionária: um estagiário acusado de furto, outra que levou fama por intriga e até a moça do cafezinho, acusada de falta de higiene quando, na verdade, era a outra, dissimulada, que a boicotava jogando sujeira na bebida.

Como agir com um colega, subordinado ou líder mentiroso vai depender da mentira, do autor dela e das consequências para as pessoas e aos interesses da companhia. O mesmo vale para a punição aplicada. No universo das corporações, o prejuízo de faltar com a verdade pode render desde uma advertência ou suspensão temporária até a dispensa do funcionário. Pelo Artigo nº 482 da CLT, atos de improbidade validam a demissão por justa causa. Ações ou omissões desonestas por parte do candidato ou empregado – como inventar uma morte ou doença para justificar falta ou apresentar documentos falsos, de atestados médicos a certificados de ensino, por exemplo – encaixam o trabalhador nessa categoria.

A punição está prevista em lei, mas a decisão de aplicá-la cabe ao empregador. De qualquer forma, sempre que uma mentira é contada no trabalho, o maior prejudicado é o autor dela. “Primeiro, porque ele sabe que mentiu, e o medo de ser desmascarado pode se transformar em estresse e insegurança, prejudicando o bem-estar e a produtividade do trabalhador”, diz Adriana Fellipelli, CEO da consultoria em desenvolvimento humano Fellipelli. Além disso, o mais comum é que equipe e gestor percebam o comportamento mentiroso, ainda mais quando é recorrente. “Isso coloca em dúvida o caráter e a credibilidade do colaborador, muitas vezes de forma irreversível. Talvez ele não seja despedido, mas poderá ser mais cobrado, rebaixado ou até excluído de projetos e processos, o que também dificultará a vida dele no ambiente profissional”, diz Nathana Lacerda, especialista em imagem e reputação. O indivíduo tem sempre a escolha entre dizer a verdade e mentir, mas os especialistas destacam que os líderes têm responsabilidade na criação de ambientes à prova de desonestidade e subterfúgios. “Culturas organizacionais pouco abertas a aceitar o erro como parte do aprendizado acabam estimulando a mentira”, afirma Maria Junior, sócio da S2, consultoria especializada em investigações corporativas e prevenção de fraudes nas empresas. Ele cita, ainda, hierarquias rígidas demais, alta pressão por resultados e gestores pouco acessíveis como fomentadores de insegurança. É claro que nada disso isenta o profissional do compromisso de ser honesto. “Valorizar a transparência e a vulnerabilidade ao erro, assim como desenvolver nas equipes a consciência de que a confiança é a base das relações de trabalho saudáveis, evitaria mentiras e desgastes causados por delas”, afirma Adriana Fellipelli.

OS DOIS LADOS DA TECNOLOGIA

Nunca se mentiu tanto quanto após o surgimento do e-mail e das redes sociais. Três vezes mais na comunicação por mensagens de texto em comparação com o olho no olho. Por e-mail, cinco vezes mais. Essa foi a conclusão de um estudo feito por psicólogos da Universidade de Massachusetts Amherst. Para os pesquisadores, a tecnologia permite uma distância psicológica maior do que a física, o que alimenta, a falsidade. Além disso, estar invisível atrás de uma tela evita ser denunciado pelos sinais não verbais, como a timidez e o nervosismo aparentes.

Por outro lado, as redes sociais podem se tornar uma armadilha para pegar mentirosos no pulo. Quem sabe bem é Gustavo*, de 31 anos, que trabalha no atendimento de uma agência de marketing esportivo. Na empresa era vetado aos empregados aceitar presentes de clientes e parceiros. Regra que a gerente de Gustavo desrespeitou algumas vezes, até que foi denunciada por si mesma ao postar uma foto durante uma viagem oferecida por um potencial cliente. Quem percebeu, e chamou Gustavo para explicações, foi o diretor-geral da companhia. “Como eu era do atendimento, primeira interface da agência com o cliente, o gestor imaginou que eu tivesse recebido e repassado o benefício, o que não havia acontecido”, lembra. A própria gerente admitiu o erro e tentou minimizá-lo dizendo que estava “fazendo relacionamento”. Enquanto Gustavo engoliu a seco a sensação de humilhação e desrespeito, ela foi demitida algum tempo depois.

AS LOROTAS MAIS CONTADAS

Nenhuma está liberada ou deve ser incentivada, mas é praticamente impossível eliminá-las do ambiente profissional. Veja a gravidade de algumas das mentiras mais repetidas no trabalho

TOLERÁVEIS

***De vez em quando, inventar uma desculpa para chegar atrasado ou sair mais cedo

***Elogiar o desempenho ou a aparência de um par ou do gestor só para agradar

***”Estou terminando”, quando nem começou ou está iniciando uma tarefa

***”Não recebi seu e-mail”, quando esqueceu ou não abriu a mensagem

***”Preciso terminar uma pendência” para escapar do almoço com um colega indesejado

PERIGOSAS

***Exagerar no currículo ou na entrevista de emprego em relação à fluência em outro idioma ou ao domínio de uma habilidade específica. Quando a competência em questão não é imprescindível à função diária ou há espaço para ser desenvolvida, é menos grave

***Agir contra as normas de conduta da empresa. Por exemplo: aceitar vantagens (materiais ou não) quando isso é vetado pela companhia

***Pegar sozinho o crédito por trabalhos feitos em parceria

IMPERDOÁVEIS

***Apresentar documentos adulterados, de atestado médico a certificados de ensino

***Mentir no currículo ou entrevista em relação à experiência anterior ou formação profissional, entre outras invenções que possam prejudicar o desempenho da função para a qual foi contratado

***Criar histórias envolvendo colegas. Por exemplo: Participação em atos lícitos ou ilícitos, envolvimento íntimo ou qualquer coisa que seja ofensivo à pessoa

***Alterar documentos ou manipular informações da companhia para fins internos, externos ou particulares

OS TIPOS DE CASCATEIRO

Nem todo mundo mente igual ou pelas mesmas razões. A seguir, listamos os principais perfis

SOCIAL

Age para despistar pequenas falhas, se valorizar, pertencer a um grupo ou forçar intimidade. Nem sempre as mentiras contadas afetam processos ou o trabalho coletivo, mas tiram pontos de credibilidade perante pares e gestores e deixam, sim, o contador com má fama. Por exemplo, distribui elogios só para agradar, está sempre a par dos assuntos e tem uma história para contar, raramente admite que comete falhas no trabalho.

CONVICTO

Exagerar, dar desculpas e simular que está por dentro é com ele mesmo. ele mente e não nega, porque crê na função social da prática, e não necessariamente por falta de caráter. Para Luiz Scocca, psiquiatra do HC-USP, mentir com eficiência não deixa de ser uma demonstração de inteligência. ” É preciso esforço mental para dominar os sinais não verbais (expressões faciais, postura, gestos) em alinhamento com a fala”, diz. Atenção para não passar dos limites e contaminar o ambiente.

MANIPULADOR

Mal-intencionados, psicopatas e pessoas com transtorno de personalidade antissocial têm consciência da dissimulação e normalmente estabelecem um objetivo específico. Agem por falta de empatia, ou seja, sem considerar o lado do outro, por isso frequentemente causam danos ou geram conflito.

PATOLÓGICO (MITÓMANO)

Não mente para conseguir alguma coisa, mas porque não consegue controlar. Pode criar de pequenas mentiras a histórias mirabolantes e é comum cair em contradição e contar versões fantasiosas de situações na frente de pessoas íntimas – o que não o faz mudar de comportamento, pois se trata de um transtorno psiquiátrico, que demanda tratamento complexo.