OUTROS OLHARES

A SALA DE AULA É NA COZINHA

Com os portões fechados, escolas correm para ensinar a distância, a garotada tenta se adaptar e os pais procuram entender seu papel nisso tudo

Há pelo menos dois séculos, quando emergiu o modelo de escola que persiste até hoje, a rotina da criançada vem sendo muito parecida: acordar, tomar café, ir para o colégio. Mas aí a devastação provocada mundo afora pelo coronavírus trouxe ao vocábulo cotidiano o isolamento social. E os portões tiveram de se fechar (por força da lei, em grande parte dos casos). Estima-se que mais da metade da população estudantil do planeta esteja longe das carteiras escolares e, em um ciclo que ninguém conseguiria prever semanas atrás, começou a ter aulas em casa, como acontecia no passado remoto. Estes tempos ultra­ conectados, porém, tornam tudo diferente – e uma parcela da turma em quarentena segue a toda no universo do ensino on-line. No Brasil, o movimento é mais acentuado entre escolas particulares, que já tateavam a educação pelas redes, mas também está presente em diversas públicas, que correm para tentar amenizar os estragos do vírus no ano letivo. Ao todo, pelo menos 38 milhões de estudantes se encontram hoje reclusos, urna reviravolta para professores, pais e alunos, que precisam se adaptar às pressas.

Transformar a casa em escola demanda vários tipos de ajuste, a começar pelo mais básico: o rearranjo das funções dos cômodos e a preservação do silêncio no lar. O professor Leandro Freitas viu-se às voltas com o desafio de ensinar semelhança de triângulos a alunos do 8º ano do ensino fundamental sem o uso de sua preciosa lousa nem o contato visual com a turma. “Quando olhei para a parede de azulejos da copa, branquinha, pensei: é aqui que vai ser a partir de agora”, conta o matemático, que engatou mais seis aulas até agora, visualizadas em tempo real por sua classe do Colégio Liessin, no Rio de Janeiro. A escola, a exemplo de outras, está preservando na medida do possível a rotina pré-vírus, com as aulas dadas nos mesmíssimos horários e até intervalo para o recreio. Tudo transcorre no ambiente do Google Classroom, urna das plataformas já adotadas por vários colégios para reforçar os estudos no ambiente virtual. Agora, ela e outras, como a Plurall e a Descomplica, passaram a ser, em muitos casos, o único canal pelo qual os mestres se comunicam com a garotada, propõem exercícios à tropa confinada e corrigem a lição.

A nova realidade impõe a todas as partes envolvidas altas doses de disciplina. “Na primeira semana observamos que 20% dos alunos faltaram. Hoje as salas estão completas”, festeja Célia Saada, diretora do Liessin. Concentração na frente do computador, com um monte de pequenos acontecimentos no entorno (uma TV ligada, um telefone que toca), é também um aprendizado. “Lutar contra a distração em casa não é fácil”, reconhece Artur Leal, do 2º ano do ensino médio do colégio Anglo, de São Paulo, que adota a Plurall. A escola é uma das que estão testando ensinar em tempo real. Outras, como a Luminova, disponibilizam as aulas gravadas e deixam os professores de plantão no exato período em que estariam ministrando a lição entre quatro paredes. Artur sente falta do que só a educação ao vivo e em cores oferece: interação em grau máximo. Justamente por isso especialistas sugerem que os estudantes abusem de grupos de WhatsApp para discutir a matéria (ocupar a tela com Candy Crush não vale). Mas, dica das dicas, nada de ficar ligado nas redes sociais, que naturalmente minam a atenção

Os tropeços iniciais neste admirável mundo novo já trouxeram algum aprendizado. “No começo, a plataforma saía do ar e a carga de tarefas era tanta que pedimos à escola que desse uma desacelerada nesta fase de adaptação”, diz Fabíola Kempis, representante de um grupo de pais da Escola Luminova, de São Paulo. A ficha de que, afinal, não são férias está caindo aos poucos, e professores relatam quanto têm se esmerado para manter o ânimo da meninada. “Tomo cuidado redobrado com as lições gravadas. Quero que sejam curtas e ao mesmo tempo interessantes”, diz o professor de história Vinícius de Paula. Sem saberem por quanto tempo se estenderá o confinamento, os colégios já começam a debater formas de avaliar a turma em casa. Existe um consenso de que a prova tradicional não se amolda à nova realidade. “Temos de avaliar a capacidade de dissertação e pesquisa do aluno, desenvolvendo métodos que evitem a cola”, acredita Vinicius.

Os processos estão sendo lapidados pelas escolas ao mesmo tempo que as aulas a distância se desenrolam – isso quando acontecem. Muitas instituições não estavam preparadas para o sacolejo e agora aceleram para abraçar o ensino on-line e não parar. “Recebemos um monte de telefonemas diários de diretores em busca de um colete salva-vidas, querendo implantar a jato o ensino a distância”, relata Marco Fisbhen, CEO do Descomplica, que prevê um aumento de 50%nas próximas semanas. Nas escolas públicas, entram em jogo questões ainda mais básicas. Para que alunos sem acesso à banda larga não fiquem de fora, a busca é por conteúdo que possa ser baixado e visto off-line. “Estamos neste momento treinando professores para que aprendam a mexer na plataforma que vamos adotar”, diz Pedro Fernandes, secretário estadual de Educação do Rio de Janeiro. Em São Paulo, o material digital que seria usado para reforço é adaptado para manter as aulas (a distância, claro) nos colégios do estado a partir de 22 de abril.

A temporada em casa tem o potencial de afiar nas crianças algumas habilidades deste século XXI, como independência para percorrer sozinhas os caminhos do conhecimento, senso de cooperação em meio à dificuldade e resiliência. No material que disponibilizou aos alunos, a escola Eleva, no Rio e em Brasília, curiosamente incluiu aplicativos de ioga e meditação. A ideia é manter o espírito apaziguado e seguir firme. A dona de casa Rosângela Neufeld vê germinar sob seu teto um interessante movimento de camaradagem: os filhos, Eric, 7 anos, Raul, 10, e Cássia, 13, estão começando a ajudar uns aos outros, ainda que com as tensões esperadas pelo convívio em excesso. Outro dia, a mais velha prestou providencial socorro ao caçula na lição. ”Até eu estou reaprendendo a estudar”, diz a mãe. Não estamos todos?

PRESENTE. SÓ QUE NO QUARTO

Especialistas dão dicas para que a multidão de alunos em quarentena tire o melhor proveito das aulas on-line

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 9 DE ABRIL

É MAIS TARDE DO QUE VOCÊ IMAGINA

… Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século (Mateus 24.3b).

O futuro chegou. Os prognósticos feitos ontem sobre o futuro são a realidade do nosso hoje. O amanhã é um tempo desconhecido pelo homem, mas conhecido por Deus. O Senhor não só conhece o amanhã, como disseca suas entranhas. Em seu sermão profético, Jesus apontou para os sinais que precederão a segunda vinda e o fim do mundo. O primeiro sinal da segunda vinda de Cristo é a proliferação do engano religioso. Jesus disse que o tempo do fim seria caracterizado pelo engano religioso. Multiplicar-se-iam os falsos mestres e as falsas doutrinas. Os falsos mestres, inspirados pelo espírito da iniquidade, que já opera no mundo, realizariam milagres e com isso enganariam aqueles que não têm o selo de Deus. O tempo do fim seria não apenas caracterizado pela disseminação do erro, mas também pela intolerância com a verdade. As pessoas não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentirão comichões nos ouvidos, buscando avidamente as falsas promessas de um falso evangelho. Esse prognóstico futuro é o nosso presente. Essa é a realidade indisfarçável dos nossos dias. É mais tarde do que podemos imaginar. Você já está preparado para aquele glorioso dia? Já entregou seu coração a Jesus? Hoje é o dia oportuno. Hoje é o dia da salvação!

GESTÃO E CARREIRA

MUITO PRAZER, FAMÍLIA OSÉ

Produtos imorais, obscenos, indecentes e profanos serão desclassificados.” A Consumer Technology Association (CTA) usou desse argumento para banir o vibrador Osé da CES, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo. Quando? No ano passado. Sim, em pleno 2019! A grita foi geral. Acusada de misógina e sexista, três meses depois a CTA voltou atrás e reconheceu o erro de sua decisão. Conceitos revistos (ainda bem!), em janeiro último, Lora Haddock, fundadora e CEO da sextech desenvolvedora do sex toy, voltou à CES e saiu de lá com o CES Honoree Innovation Award, por suas novas criações. Criados em parceria com o Colégio de Engenharia, da Universidade Estadual do Oregon, os novos integrantes da família Osé se valem da microrrobótica para potencializar o prazer feminino. Desenhado para acompanhar a anatomia do organismo das mulheres, o Onda (à direita) simula o movimento dos dedos sobre o ponto G. Menorzinho, o Baci (à esquerda) promete orgasmos clitorianos, ao imitar a movimentação dos lábios e da língua. “Não é apenas sobre tecnologia. Não é apenas sobre orgasmo”, diz Lora. “É sobre como as experiências sexuais aprimoradas pela tecnologia podem proporcionar bem-estar, melhorando a qualidade do sono, reduzindo o estresse e elevando o humor.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PIORA DA DEPRESSÃO COM OS ANTIDEPRESSIVOS

Estudo que acompanhou pacientes deprimidos durante nove anos mostra uma perspectiva sombria para o uso de antidepressivos

Um novo estudo testou o uso de antidepressivos com uma estratégia diferente, de acompanhar a evolução do tratamento a longo prazo e não somente por um ou dois anos, como é o usual. Dessa. vez, durante nove anos pessoas deprimidas foram acompanhadas detalhadamente nessa pesquisa. Um grupo de pacientes deprimidos tomou antidepressivos. Outro grupo não tomou nenhuma medicação. O resultado surpreendente mostrou que o grupo que não tomou qualquer remédio, nove anos mais tarde, estava melhor do que aquele que tinha tomado medicação. Os dados desse estudo sugerem que tomar antidepressivos causa mais danos do que nenhuma medicação ao longo do tempo, uma conclusão absolutamente chocante, que nos faz repensar a validade da prescrição dessa categoria tão popular de medicamentos.

Esses efeitos negativos podem ser resultado de muitos fatores, como por exemplo, os efeitos da retirada da medicação. Os antidepressivos podem mudar permanentemente a forma como os neurotransmissores atuam no cérebro, e estamos apenas começando a arranhar a superfície dos complexos processos de ajuste neuroquímico que ocorrem com seu uso.

Além disso, a maioria dos efeitos dos antidepressivos é resultado do efeito placebo. Muita gente não sabe, mas estudos sobre o efeito placebo com uso de medicação antidepressiva mostram que a esmagadora maioria do efeito desses medicamentos ocorre da mesma forma se os pacientes tomarem um comprimido de farinha idêntico ao medicamento, sem saber que se trata de farinha.  Uma metanálise das publicações que usaram placebo e medicamentos indicou que entre 90% e 95% dos efeitos antidepressivos são iguais no grupo que toma farinha, a não ser nos 5% dos casos mais graves, nos quais os antidepressivos têm efeito maior.

Os resultados desse estudo mostram que o tratamento que inclui medicação piorou a depressão ao longo do tempo, e, até que os benefícios e danos sejam mais bem compreendidos, apontam para a prescrição de medicamento antidepressivo somente se benefícios a curto prazo, por exemplo redução do risco de suicídio, têm maior probabilidade de superar consequências remotas negativas.

Os benefícios a curto prazo são bem conhecidos – eles podem ajudar pessoas em crise. Contudo, os estudos que testam os efeitos de antidepressivos usualmente seguem os pacientes por curtos períodos, enquanto esse estudo acompanhou nove anos e incluiu dados de 15 mil pessoas nos EUA. Nenhuma das pessoas estava em hospital. Cerca de 10% experimentaram episódio depressivo maior ao longo de um ano. Cerca de 38% das pessoas não receberam tratamento para sua depressão, 4% tiveram tratamento sem antidepressivos e 13% receberam tratamento que incluía medicação.

A medicação estava associada a uma evolução pior da depressão a longo prazo. Esse padrão sugere possíveis efeitos “istrogênicos”, (ou seja, causados pelo próprio tratamento) a longo prazo para os antidepressivos. Medicações antidepressivas podem recrutar processos que se opõem, e eventualmente superam os benefícios a longo prazo. Isso resulta em perda de eficácia, resistência ao tratamento, efeitos paradoxais como suicídio, síndromes de retirada, talvez pela perturbação do complexo controle homeostático dos neurotransmissores monoaminérgicos no cérebro humano. Precisamos de mais cautela com a crença de que estamos trazendo benefícios ao indicar medicamentos antidepressivos, e é necessário estímulo à procura de tratamentos alternativos que são eficazes, como tratamento através da psicoterapia, e mudanças no estilo de vida, como a busca de novos padrões de exercícios físicos, sono e nutrição.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente · como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).

OUTROS OLHARES

A DECORAÇÃO VIROU ACADEMIA

A regra deste tempo de isolamento é manter a boa forma – agora com a ajuda de vídeos e muita criatividade

A brusca freada na vida imposta pela pandemia, essa que nos pôs compulsoriamente entre quatro paredes, trouxe naturalmente um olhar um tanto retrô, de volta ao mundo como costumava ser, e uma preocupação: como manter o corpo são e a mente sã? A união das duas pontas, a da nostalgia e a dos cuidados físicos, fez renascer nas redes sociais os exercícios pela televisão que Jane Fonda apresentava ao mundo, nos anos 1980, ao inaugurar a febre global do fitness. A mensagem: se não é para sair de casa, e não é mesmo, movimente-se. “Esse período de privação faz com que o sistema imunológico fique mais vulnerável”, diz o professor de educação física Marcio Atalla, idealizador e produtor do documentário Vida em Movimento. “Por isso é crucial seguir a recomendação da OMS de permanente atividade corporal.” A Associação Americana de Cardiologia sugere a todo adulto duas horas e meia por semana de movimentação aeróbica, de intensidade moderada.

O nome do jogo, segundo a educadora física Adriana Pinto Molina, de São Paulo, é “criatividade”. Ou seja: tentar usar o equipamento doméstico mais banal como aparelho de ginástica – pode ser a cadeira da sala, a parede do quarto, o chão, e pouca coisa mais. Vale contar, como guia, com a ajuda dos vídeos postados na internet. É o que tem feito o preparador físico paranaense Everton Oliveira, responsável pelo condicionamento da dona do cinturão do UFC, Amanda Nunes. No Instagram (@evertonvvoliveira), ele mostra ideias simples. “Não se trata de formar atletas, claro, mas de oferecer bem-estar”, diz. A carioca Chris Igreja, instrutora de ioga, também usa sua conta no Instagram (@chrisigreja) para divulgar as aulas diárias, das 9 às 10 da manhã, de segunda a sexta, que decidiu ministrar por meio da plataforma Zoom. Se a necessidade faz o homem, tome-se o exemplo do alemão Joseph Pilates (1883-1967), criador do método de fortalecimento muscular que leva seu nome. Foi em um período de reclusão na Ilha de Man, durante a I Guerra, que Pilates desenvolveu seu sistema de exercícios.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 8 DE ABRIL

MANDAMENTOS RELIGIOSOS E MORAIS

Então, falou Deus todas estas palavras: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Êxodo 20.1,2).

Deus deu a Moisés duas tábuas da lei, contendo dez mandamentos. Os quatro primeiros mandamentos da lei de Deus, contidos na primeira tábua, tratam dos mandamentos religiosos. Falam sobre nossa relação com Deus. Não há vários deuses. Há um só Deus, mas três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não podemos ter outros deuses, não podemos fazer nem adorar imagens de escultura que representem a divindade, não podemos escarnecer de seu nome, nem nos omitir em dedicarmos um dia na semana para estreitarmos a comunhão com ele. Os seis últimos mandamentos, da segunda tábua, tratam dos mandamentos morais e falam sobre nossa relação com o próximo. Somos exortados a honrarmos pai e mãe, a respeitarmos a vida, a honra, os bens e a reputação do próximo. Além disso, somos exortados a não cobiçarmos em nosso coração o que é do próximo. Os mandamentos da lei de Deus se referem a coisas objetivas e também subjetivas. Deus vê não apenas nossas obras, mas também ouve nossas palavras. Deus conhece não apenas nossas ações, mas também sonda nossas motivações. A lei de Deus é como uma tomografia computadorizada que faz uma leitura do nosso interior. Embora não possamos ser salvos pelos mandamentos, não estamos dispensados de observá-los. Essa lei deve reger nossa vida, nossa conduta e nossa postura tanto diante de Deus quanto diante dos homens. Jesus sintetizou toda a lei num único mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

GESTÃO E CARREIRA

SEJAM BEM-VINDAS, CRIANÇAS, A UM NOVO MODELO DE ESCOLA

Com metas agressivas, Alicerce Educação pretende alcançar 4 milhões de alunos em cinco anos – aulas contemplam atividades socioemocionais e são baseadas nos métodos mais modernos do mundo

São 14h 30 de uma sexta-feira e, assim como em todos os dias da semana (antes do novo coronavírus, claro), um grupo de alunos se prepara para uma sessão de mindfulness, técnica de meditação que ajuda a aumentar a capacidade de concentração. A atividade acontece no início dos dois turnos de aulas do Alicerce Educação, que atua como um reforço educacional para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, de famílias das classes C e D. Os alunos podem frequentar o local de três a cinco vezes por semana, a um custo que varia de R$ 149 a R$ 199 por mês. Para chegar a mensalidades tão baixas, a instituição aposta em alguns pilares. Em vez de construir sedes, adapta imóveis disponíveis para locação na periferia, como a sobreloja de um estabelecimento comercial, por exemplo. Além disso, adquire mesas e cadeiras em uma fábrica a baixo custo. Também não há recepção, nem aparelhos supermodernos.

Por lá, tudo é bem diferente de um ambiente escolar tradicional. As salas de aula com carteiras enfileiradas dão lugar a espaços de aprendizagem com mesas para cerca de seis alunos, que são divididos por nível de dificuldade, seguindo o conceito peer learning, algo como educação colaborativa. As paredes são coloridas e não é raro encontrar peças feitas pelos alunos espalhadas pelo ambiente, como simulações de gráficos criados para a aula de matemática. Ou mensagens positivas para o dia em um cartaz pendurado na parede, que dispõe de envelopes com recados sobre temas como gentileza, amizade, amor e paciência.

A ideia é oferecer um ensino completo, olhando os alunos de forma integral. Isso quer dizer disponibilizar aulas de português, matemática, inglês e programação, mas também que abordem competências comportamentais, chamadas pela instituição de habilidades para a vida. Os temas para essas aulas foram definidos tendo como base o The Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (Casel), uma das principais autoridades no avanço da aprendizagem socioemocional (SEL), que já desenvolveu programas bem-sucedidos em escolas americanas de regiões de alta vulnerabilidade social. Aliás, todo o projeto pedagógico tem como base as mais modernas técnicas de educação com o intuito de transformar o ensino no Brasil. O último levantamento do Programme for International Student Assessment (Pisa) mostra que 68% dos estudantes brasileiros de 15 anos não sabem o básico de matemática; 55,3% apresentam baixo desempenho em ciência e 50,1% são fracos em leitura. “As crianças e os adolescentes não estão aprendendo, e isso traz sequelas enormes – sociais e profissionais – para a população”, diz Mônica Weinstein, vice-presidente de aprendizagem e responsável pelo projeto pedagógico do Alicerce. A pesquisadora global nas áreas de aprendizagem e cognição liderou o desenvolvimento dos métodos Todos Aprendem e Coruja, aplicados por Pearson, Avenues Schools e muitas escolas públicas de 2013 a 2018. Segundo Mônica, o primeiro passo para mudar a realidade brasileira é ter em mente que a educação e a área social são inseparáveis. “Ou você compra a ideia de uma criança integralmente, ou não consegue ajudar”, afirma.

O idealizador do projeto, Paulo Nogueira Batista, advogado que fez carreira no mercado financeiro em instituições como Itaú BBA, Goldman Sachs e GP Investimentos, comprovou isso indo a campo. “Tinha como ideia inicial criar uma ONG para adolescentes a partir de 13 anos”, lembra. Segundo ele, o objetivo era melhorar o nível médio de educação do brasileiro e impactar a produtividade. “Como empreendedor, sabia das dificuldades de obter mão de obra qualificada”, diz. O negócio começou a se transformar no que é hoje nas primeiras visitas à periferia para testar o modelo. Apesar de os pais gostarem muito da ideia, algumas mães questionaram o que fariam com o filho mais novo. A questão não era apenas melhorar a educação de base para empregabilidade, havia problemas mais profundos. “Conhecemos a dor do contraturno. Mães que não têm com quem deixar seus filhos para trabalhar e que, muitas vezes, os deixam sob a responsabilidade do mais velho.” Foi aí que o projeto ganhou novos contornos. “O desafio aumentou. Não estávamos mais falando apenas de um programa de aceleração educacional pré-empregabilidade e, sim, de toda uma etapa anterior de desenvolvimento integral humano”, diz Paulo.

Para estruturar o Alicerce, Paulo visitou países como China e Estados Unidos, que são referência em modelos de after school, o tal período do contraturno. No país asiático, por exemplo, pelo menos 35% das crianças frequentam instituições como Tal Education e New Oriental, que oferecem serviços de reforço escolar. Nos EUA, a referência foi o Teach for America, que atua levando educação para bairros periféricos por meio de jovens de grandes universidades.

VISÃO INTEGRAL

Bruno Viegas, de 10 anos, chegou ao Alicerce com problemas socioemocionais, como irritabilidade e impulsividade. Apesar de ir muito bem em aulas como matemática e português, não conseguia controlar suas emoções e chegou a se cortar e ter alguns tiques nervosos. “Por um período o coloquei na terapia, mas não vi retorno. E como não podia arcar com a despesa, e no posto o atendimento é de apenas uma consulta por mês, busquei outras alternativas e cheguei ao Alicerce”, diz Andrea Viegas, mãe de Bruno. Em dois meses de aula, ela já viu melhoras no comportamento do filho e hoje tem mais tranquilidade para empreender. “Sei que ele está bem assistido”, diz. Com o auxílio de uma psicopedagoga, com quem Bruno pode conversar a hora que precisar, a mãe reforça que o filho está mais calmo e com vontade de ajudar os colegas. Hoje, é normal vê-lo sorrindo e interagindo com os colegas de forma mais afetuosa. “Ela [a psicoterapeuta] ajudou em meu desempenho familiar e emocional. Uma das coisas que me passou: sempre que quiser fazer algo ruim, apertar uma bolinha. Isso me deixa mais calmo”, diz Bruno. Além disso, ele gosta do método de ensino. “Na escola eu aprendo. Aqui sinto o conteúdo”, afirma.

A instituição, que tem hoje 49 unidades em bairros periféricos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, e em torno de 2 mil alunos, tem metas agressivas – pretende atingir 4 milhões de crianças e adolescentes nos próximos cinco anos – e sócios de peso. “É nesse ponto que começamos, de fato, a impactar a educação no Brasil”, diz Paulo, que faz uma conta rápida para chegar a esse número. “O Brasil tem um total de 40 milhões de alunos em vulnerabilidade educacional, ou com performance abaixo da desejada, o que representa 93% da massa de alunos brasileiros, segundo estudo da McKinsey. Assim, alcançar 4 milhões significa atingir 10% desse universo, um impacto que gera um ciclo virtuoso de transformação social”, afirma.

Ao lado de Paulo nessa jornada estão Eduardo Mufarej, ex-sócio da gestora Tarpon, ex-CEO da Somos Educação e fundador do RenovaBR, grupo de capacitação de novas lideranças políticas criado em 2017; Jair Ribeiro, fundador da Parceiros da Educação, associação que reúne empresários que apoiam escolas públicas; e o apresentador e empresário Luciano Huck. “O Alicerce é uma solução escalável e sustentável para enfrentar os desafios da educação brasileira, com alto nível de crescimento”, afirma Jair. Até agora, o negócio já levantou R$ 32 milhões e conta com a parceria de 21 companhias, como Natura, Pão de Açúcar e Albert Einstein. Essas empresas podem oferecer bolsas aos alunos ou firmar parceria para a criação de unidades. O Einstein, por exemplo, está com um projeto em Paraisópolis em desenvolvimento.

Alice Gabriela Alves Moreira é uma das bolsistas. Aos 15 anos, e no segundo ano, chegou ao Alicerce com dificuldades em matemática e em português. “O ensino é muito diferente. Além de mais pacientes, eles usam jogos, vídeos e atividades práticas, o que ajuda muito no aprendizado”, diz. Segundo ela, um dos exercícios da aula de matemática, por exemplo, foi criar uma empresa, pensando em qual seria a forma de lucro. “Aqui, eles nos estimulam a crescer, testar nossos limites e nos mostram que podemos ser o que quisermos”, diz. Ao final da primeira avaliação, Alice apresentou melhoras significativas, e a sua média final em português foi uma das maiores de sua turma no colégio.

BASE PEDAGÓGICA

O diferencial do Alicerce, segundo Mônica Weinstein, é a personalização do ensino e da aprendizagem. “Colocamos o aluno no centro do processo”, diz. Para isso, todos que chegam ao Alicerce passam por um assessment, feito com o apoio da tecnologia, para avaliar o conhecimento em leitura, escrita e matemática e, assim, identificar qual será a trilha de aprendizagem. Há ainda uma avaliação sob o aspecto socioemocional e físico. Além disso, os pais preenchem um questionário e, por uma semana, os professores observam o comportamento do aluno. “Já houve casos de percebermos que a criança precisava de óculos”, diz Mônica. As avaliações são feitas a cada dois meses, segundo indicadores educacionais do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). “Assim conseguimos montar turmas mais coesas e próximas do que precisam aprender e de que forma”, afirma. As salas recebem estudantes de 6 a 11 anos e de 12 a 17 anos, sem seguir as séries específicas. São as chamadas séries multisseriadas. Por lá, os professores, que são alunos universitários entre 18 e 28 anos e, na maior parte das vezes, de origem mais simples, têm autonomia para trabalhar, o que colabora com a absorção do conhecimento. Há um currículo básico, mas o docente pode escolher os métodos, os livros, o tipo de didática. Os líderes, como são chamados os professores no Alicerce, passam por um1 treinamento, claro, mas não voltado a metodologias, corno explica Mônica. “Minha preocupação é conscientizá-los de que o mais importante é entender como cada criança e adolescente aprende”, diz. Segundo ela, o mais importante é ensinar aprendizagem.

Para isso, ela se baseou nas mais modernas técnicas de aprendizado e educação do mundo. Um dos países de referência é o Canadá, que está entre os dez destaques do Pisa, e onde Mônica passou dois anos estudando as escolas públicas e a forma como o país entende a educação. “Lá, o desenvolvimento integral é corresponsabilidade da educação”, diz. Entre as práticas, Mônica destaca o conceito Universal Designer Learning (UDL), que consiste na elaboração de estratégias para acessibilidade de todos, tanto em termos físicos quanto de serviços, produtos e soluções educacionais. A ideia é que todos aprendam, sem nenhuma barreira. “Não é o mais fácil ou o que atinge mais pessoas, é o que todo mundo consegue entender e fazer”, diz. Outra é o ensino em camadas, com múltiplos sistemas de suporte.

Isso quer dizer ir para a sala de aula com, pelo menos, três maneiras de ensinar algo. “Cada pessoa aprende de forma diferente. Se não entendeu, não adianta ensinar do mesmo jeito. É preciso usar outros recursos”, afirma.

Aos 9 anos, Maria Luiza aprendeu de um jeito diferente: “Tinha muita dificuldade de entender as aulas de matemática no colégio, mas aqui consegui, pois eles explicam com calma e de várias maneiras”. Sua mãe, a cozinheira Kátia Maria da Silva, conheceu o Alicerce por meio de seu patrão e, em três meses, viu o impacto das aulas no desempenho da filha. Separada e sem ter onde deixar Maria Luiza, ela a levava todos os dias ao restaurante e mal tinha tempo – nem preparo – para ajudar a filha nas disciplinas. “Ela melhorou muito na escola e está mais independente. Sei, agora, que vai ter um futuro diferente do meu”, afirma. A ideia central do Alicerce é desenvolver competências que vão preparar as crianças e os adolescentes para desempenhar melhor em todos os aspectos – como pessoa, como profissional e como cidadão.

O ENSINO PELO MUNDO

Como o Brasil está em relação aos dez melhores países em educação, segundo o PISA