PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUE COISA FEIA!

Numa sociedade em que as queixas em relação à aparência e a busca pela perfeição do corpo e da pele são tão frequentes, algumas pessoas passam a supervalorizar em si mesmas “falhas” físicas – mínimas, comuns e às vezes até inexistentes – que as incomodam profundamente, a ponto de se considerarem deformadas.

Que coisa feia!

Aos 17 anos, sem motivo aparente, o jovem S. passou a se incomodar com os cabelos cacheados, considerando-os um sério problema. Decidiu alisá-los. Durante um ano, passou por procedimentos químicos semanais, que só interrompeu depois de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjados. Anos mais tarde, ao ver seu reflexo na vitrine de uma loja, percebeu que seu nariz era muito grande e torto. Depois disso, só conseguia pensar nesse “terrível defeito” e passava horas diante do espelho.

O rapaz optou então pela cirurgia plástica. Mas uma semana após a operação estava de volta ao espelho – e percebia cada vez mais falhas. Para piorar, arrependera-se da cirurgia. Isso não o impediu de procurar novamente o médico para remoção da cartilagem das orelhas. Deprimido, já não trabalhava nem estudava. Meses depois, ele reconheceu seus sintomas em um livro sobre transtorno dismórfico corporal (TDC), também chamado de dismorfia, um quadro no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível em sua aparência. A preocupação excessiva em relação à própria aparência costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e à depressão e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio.

O distúrbio é surpreendentemente comum. De maneira geral, os pacientes com o transtorno sofrem por características faciais, como acne, cicatrizes, excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lábios. Também podem rejeitar partes específicas do próprio corpo, como seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos em relação à altura e aos genitais. Muitos acreditam ser repulsivos, ainda que sejam considerados atraentes ou até mesmo com beleza acima da média.

Essa convicção perturbadora pode trazer diversos prejuízos. Em geral, aqueles que sofrem do TDC gastam diversas horas diariamente na frente do espelho enquanto examinam a aparência, conferem a pele com os dedos ou adotam outros comportamentos compulsivos que tomam o tempo do trabalho, da família ou de atividades importantes. Capturados pelo próprio reflexo, muitos perdem a noção de tempo e acabam demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores estimam que pelo menos durante uma semana aproximadamente30% dos pacientes com TDC não conseguem sair de casa; 30% apresentam algum transtorno alimentar e 25%, em média, tentam o suicídio. O abuso de álcool e drogas ilícitas também é bastante presente nessa população.

É inegável que fatores psicológicos como fragilidades egoicas, dificuldade de apropriação da própria identidade, baixa autoestima e absorção idealizada de modelos socialmente construídos sobre beleza e perfeição estão na base do distúrbio. Recentemente, porém, pesquisadores descobriram que pacientes com TDC também apresentam percepção visual distorcida, o que sugere que no futuro essas pessoas poderão ser beneficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual.

Originalmente, o transtorno dismórfico corporal era conhecido como dismorfofobia (medo da feiura), um termo cunhado pelo psiquiatra italiano Enrico Morselli em 1891. Ele havia tratado 80 pacientes preocupados com deformidades imaginadas que interferiam excessivamente na vida cotidiana. Em 1980, a dismorfofobia apareceu na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). O termo “transtorno dismórfico corporal” substituiu o antigo na versão de 1987, após a constatação de que o estado estava mais relacionado a convicções irracionais do que a fobias.

Apesar de ser considerado oficialmente como um transtorno psiquiátrico, o TDC – também conhecido como complexo de Térsites, por causa do guerreiro descrito na Ilíada, de Homero, como o “homem mais feio do exército grego” – é relativamente desconhecido, mesmo entre psicólogos e médicos. Não raro, pacientes com a doença são diagnosticados com depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou até mesmo com os três tipos de distúrbio de uma vez.

E frequentemente os profissionais não percebem que o TDC pode ser a causa de todos esses sintomas.

Por outro lado, é comum indivíduos com TDC falarem pouco sobre o problema porque não o reconhecem como um distúrbio menta l, pois acreditam que são simplesmente feios. Muitos também têm vergonha de citar seus comporta­ mentos estranhos numa consulta médica. Como resultado, não raro esperam de três a 13 anos pelo diagnóstico correto. Nesse tempo, muitos procuram a ajuda de cirurgiões plásticos. Mas, assim como no caso do jovem S., esse tipo de intervenção não resolve porque não consegue alcançar a raiz do problema. Já num processo psicoterápico ou analítico esses temas invariavelmente terminam vindo à tona, por isso é tão importante buscar atendimento psicológico.

É comum que o TDC surja na puberdade, quando mudanças radicais no corpo podem contribuir com sentimentos de inadequação relacionados à autoimagem. A maioria dos pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais da doença nesse período.

Fatores como crescer num lar que coloca ênfase excessiva na beleza física ou ter vivido situações traumáticas como bullying e repetidas críticas sobre características físicas, como peso e manchas faciais, também podem contribuir para o aparecimento dos sintomas dismórficos. Em um estudo de 2007, o psicólogo clínico Ulrike Buhlmann e seus colegas da Escola Médica da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts constataram que voluntários com TDC disseram sofrer provocações sobre a aparência mais frequentemente do que participantes do grupo de controle que não tinham o distúrbio.

É provável, porém, que fatores biológicos, como genes e química cerebral, predisponham uma pessoa a essas inseguranças – embora dificilmente, por si sós, determinem o aparecimento do quadro. Seguindo a abordagem neurológica, alguns pesquisadores acreditam que o distúrbio esteja relacionado a alterações nos níveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, um problema semelhante ao que acontece na depressão, que atinge aproximadamente 70% dos pacientes com TDC. Há alguns anos, a psiquiatra Katharine A. Phillips e seus colegas da Escola de Medicina Alpert da Universidade Brown relataram em dois estudos separados que a maioria dos pacientes com TDC apresenta melhora após o tratamento com antidepressivos que inibem a recaptação de serotonina por células cerebrais. Porém, sem acompanhamento psicológico, que permita ao paciente ressignificar a própria imagem e lidar com os efeitos que a distorção da própria imagem lhe causou ao longo dos anos, os efeitos da medicação não se sustenta.

QUEM PROCURA ACHA

Nos últimos anos, alguns pesquisadores começaram a questionar se a combinação entre uma personalidade vulnerável e um ambiente desfavorável poderia explicar o distúrbio. Embora na maioria dos casos a resposta seja sim, surgiu recentemente a hipótese de que o transtorno esteja relacionado, pelo menos em parte, a um problema perceptivo. Em um estudo coordenado pelo  psiquiatra José A. Yaryura-Tobias, do Instituto Biocomportamental em Great Neck, de Nova York, foi pedido a três grupos de dez voluntários cada – um com pacientes com TDC, outro com pessoas com TOC e um terceiro com participantes emocionalmente saudáveis – que fizessem alterações, se julgassem necessário, em uma figura computadorizada mais precisa de seu próprio rosto para corresponder ao que acreditavam representá-los. Metade dos pacientes com TDC e TOC modificou as figuras, ao passo que ninguém do grupo de controle propôs mudança significativa. Os dados sugerem que algumas pessoas com o distúrbio não percebem o próprio rosto da mesma forma que a maioria.

Evidências apontam que pacientes com TDC podem ser visualmente mais “sintonizados”. Em um estudo publicado na Abnormal Psychology, o psicólogo Ulrich Stangier e seus colegas da Universidade de Jena, na Alemanha, apresentaram brevemente uma figura de um rosto feminino junto com cinco representações alteradas digitalmente da mesma imagem a 21 voluntárias com TDC, 20 pacientes com doenças de pele desfigurantes e 19 participantes sem nenhum distúrbio – e pediram que julgassem o grau de deturpação. Nos rostos manipulados, os olhos eram mais espaçados, os cabelos mais claros, o nariz era maior e havia espinhas e cicatrizes adicionais. As voluntárias deveriam escolher entre cinco níveis de distorção que variaram de “baixo” a “extremo”. Os pesquisadores constataram que as pacientes com TDC julgavam melhor o grau de manipulação da imagem do que as demais, o que sugere que tinham percepção mais aguçada.

Curiosamente, essa capacidade apurada pode resultar numa assimilação deturpada. O psicólogo Thilo Deckersbach e seus colegas da Universidade Harvard publicaram um estudo em que pediram a pessoas com TDC que copiassem uma figura complexa e, em seguida, que a duplicassem de memória. Os pacientes demonstraram baixo desempenho (desenharam muitos detalhes, mas sem capturar a figura de forma geral) quando comparados com indivíduos emocionalmente saudáveis. Embora tenham mostrado pensamento estratégico pobre na tarefa, o principal problema pode ser a ênfase exagerada em detalhes visuais, o que ajuda a explicar por que se preocupa m tanto com “defeitos” minúsculos em sua aparência.

Feusner e a neurocientista cognitiva Susan Bookheimer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, encontraram evidências que reforçam a tese. Os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética funcional para observar o cérebro de 12 pacientes com TDC e 12 indivíduos saudáveis enquanto viam três versões de várias fotografias de faces: comuns, borradas e achatadas, mas altamente detalhadas.

Os voluntários sem o distúrbio processaram os rostos comuns e os borrados em áreas do hemisfério direito do cérebro, região responsável pela decodificação de características visuais de maior escala; o lado esquerdo foi ativado somente quando viram as imagens detalhadas. Já aqueles com TDC usaram o hemisfério esquerdo para interpretar todas as fotografias. “Eles processam todas as figuras como se fossem altamente detalhadas. É como se o cérebro tentasse extrair nuances que não existem”, observa Feusner.

Os resultados sugerem que o TDC pode estar relacionado, em parte, a alterações no processamento da informação visual. Afinal, é possível pensar que a capacidade de apreciar a beleza tem valor evolutivo. Um corpo atraente pode, em alguns casos, estar associado ao estado de saúde. Ou seja, a “feiura” indicaria menor aptidão. É possível que a habilidade de escolher a pessoa “mais bonita” como parceira tenha aumentado as chances de transmitir bons genes para a prole. Nesse sentido, o TDC representa uma versão extrema desse talento. “Mas ainda não sabemos se pessoas com TDC nascem com dificuldades no processamento visual ou se o distúrbio deflagra o problema”, admite Feusner.

O ROSTO DOS OUTROS

Considerando que alterações no processamento visual contribuem com o TDC, no futuro terapias poderão ser desenvolvidas para ajudar pacientes a enxergar as coisas de forma mais global usando o lado direito do cérebro. Feusner acredita que a exposição repetida a imagens borradas, vistas à distância ou visualizadas por apenas uma fração de segundo, por exemplo, poderia forçar o cérebro a adotar essa estratégia.

O psiquiatra afirma que medicamentos também podem alterar o lado do cérebro usado para processar informações visuais. Estudos preliminares sugerem que benzodiazepínicos favorecem a transferência da atividade neural para a direita durante uma tarefa do processamento visual, mas os efeitos colaterais são inegáveis. A saída seria o uso de drogas alternativas que podem agir de maneira similar, causando menos danos.

Contudo, especialistas concordam que o problema não é totalmente visual. Levando em conta que nove entre dez pacientes com TDC afirmam também examinar a aparência alheia, principalmente as características que mais detestam em si mesmos, uma pesquisa desenvolvida por Buhlmann e seus colegas mostrou que pessoas com o distúrbio não enxergam as mesmas distorções que veem em si no rosto dos outros. Indivíduos que sofriam de dismorfia classificaram fotografias de outras pessoas (consideradas “atraentes” pelos pesquisadores) como significativamente mais bonitas do que fizeram outros grupos sem o distúrbio. Isso sugere que a percepção detalhada sobre os outros não evoca a mesma resposta emocional negativa relacionada à própria aparência.

De fato, alguns profissionais tratam o TDC abordando aspectos emocionais, como o perfeccionismo e o medo de rejeição, focando as percepções distorcidas e sugerindo ações para ajudar os pacientes a abandonar hábitos destrutivos. Em alguns casos, são instruídos a pedir um retorno sobre a própria aparência para outras pessoas, como amigos, familiares ou até mesmo estranhos. Psicólogos cognitivo-comportamentais apostam que comentários alheios positivos, ou pelo menos neutros, podem ajudar o paciente a desenvolver uma autoimagem melhor e mais realista. No entanto, essa técnica mais uma vez coloca o referencial de auto aceitação fora da pessoa. Nesse sentido, psicoterapias comportamentais podem ser úteis num primeiro momento, mas os processos terapêuticos mais eficientes ainda parecem ser aqueles que permitem a reelaboração das vivências mais profundas. Lidar com as próprias faltas abre possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que se considera imperfeito no próprio corpo não impede a pessoa de ser atraente, merecedora de afeto e de relacionamentos saudáveis.

Que coisa feia!. 2

EM BUSCA DA IMAGEM PERFEITA

Em tempos de selfies e outras formas de auto exposição, em especial nas redes sociais, a preocupação exacerbada com a própria imagem parece cada vez mais presente. E o resultado disso se vê nos consultórios médicos. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que o número de procedimentos estéticos aumentou 10% em 2014, no Brasil, o que significa aproximadamente 1 milhão de cirurgias plásticas realizadas. Embora na opinião de alguns profissionais como a dermatologista Luciana Conrado, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o termo “dismórfico” não seja necessariamente o mais adequado para descrever o transtorno, ela reconhece que a insatisfação é a “massa de trabalho” dos profissionais que atendem pessoas em busca de correções físicas. “O limite é tênue, mas em certos casos, a diferença entre a maneira que o indivíduo vê o próprio corpo e a maneira como os outros o enxergam é muito distante”, observa a médica, pós-graduada em psicossomática psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.

O interesse por compreender melhor o que estava por trás da preocupação exagerada com um defeito pequeno ou inexistente apresentada por alguns pacientes que chegavam ao seu consultório a motivou a estudar esse “problema secreto”, que muitas vezes os pacientes escondem e, não raro, os próprios profissionais têm dificuldade de identificar e manejar. Segundo ela, na população em geral, 2%das pessoas apresentam o transtorno; entre pacientes dermatológicos 7% se enquadram no diagnóstico e quando consideramos os que buscam tratamentos cosméticos esse percentual chega a 14%, um índice considerado bastante alto.

Para chegar a esses resultados, a dermatologista desenvolveu uma pesquisa, inspirada no estudo da psiquiatra americana Katherine Phillips, para a conclusão de seu doutorado, em 2009, levando em conta o enquadre diagnóstico, a epidemiologia e a avaliação do nível de crítica dos voluntários, usando testes psiquiátricos para fazer a avaliação. Na ocasião, entrevistou 350 pessoas: 150 pacientes dermatológicos, outros 150 que haviam procurado tratamento cosmético e 50 provenientes da ortopedia, que compuseram o grupo de controle. Luciana Conrado salienta ainda que não apenas dermatologistas e cirurgiões plásticos recebem essas pessoas, mas também otorrinolaringologistas, oftalmologistas, dentistas e mesmo profissionais que trabalham com estética devem ficar atentos aos clientes que nunca parecem satisfeitos e continuam pedindo novas intervenções. Ela defende o atendimento multiprofissional para esses pacientes. Trabalhando na Universidade Justus Von Liebig, em Giessen, na Alemanha, ela acompanhou o tratamento de pessoas com o transtorno que recebiam atendimento diversificado: acompanhamento dermatológico e psiquiátrico, medicação para conter a obsessão, sessões de terapia de grupo e arte terapia. Ainda que seja difícil falar em cura definitiva, o acompanhamento focado na diminuição da percepção do suposto defeito pode trazer grande alívio ao paciente.

Que coisa feia!. 3

ESPELHO, ESPELHO MEU …

Em sua clínica em São Paulo, a médica Noemi Wahrhaftig, membro da Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria, costuma receber com frequência pessoas ansiosas por fazer tratamentos estéticos que as tornem mais jovens e belas. Recentemente, porém, ela se surpreendeu quando uma paciente de 40 anos desatou a chorar copiosamente em sua frente, profundamente angustiada com a constatação de que estava envelhecendo. A dermatologista acredita que a mulher apresente um subtipo de dismorfia conhecido como síndrome de Dorian Gray, numa alusão ao personagem de Oscar Wilde que faz um pacto com o demônio no intuito de manter a juventude enquanto um retrato seu, cuidadosamente escondido, se deforma com o passar do tempo.

A médica reconhece, porém, que sua própria angústia diante do pedido de muitos pacientes de se submeter compulsivamente a procedimentos estéticos não é muito comum entre profissionais

que trabalham com procedimentos cosméticos – e sua atitude crítica, por vezes, provoca estranhamento entre seus pares. “Vivemos em uma sociedade que nos cobra sermos assépticos, sem cheiro, com dentes brancos, sem pelos ou poros abertos, com cabelos lisos, sem manchas ou marcas na pele e isso me incomoda”, comenta. “Muitos pacientes cultivam a fantasia de que um médico os tornará perfeitos, mas sofrem com a insatisfação numa busca que continua, continua…”. E ainda que o corpo se transforme, permanece a rejeição por si mesmo.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

A MÍNIMA DIFERENÇA

Os ícones da feminilidade se modificaram e as diferenças entre os sexos têm se diluído, mas permanecem os impasses e as pretensões de homens e mulheres em torno do amor e do desejo.

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Há mais de cem anos não se fala em outra coisa. O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo em um tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens como a mais universal das mercadorias? O escândalo e o enigma do sexo permanecem deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – , avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como sempre, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.

Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e de suas ressonâncias, mas o que se diz já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar e próprio do homem, Narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos de sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “O que faço para (voltar a) ser mulher?”, “Como posso (voltar a) ser homem?”.

CAMPO MINADO

Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/ inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os disc ursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, parte das exigências do superego, parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário – , mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma: os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? No ­ vos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos, e sim com um campo minado ainda desconhecido.

Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social {e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado {por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revista americana Time publicou em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e mulheres nascem diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nas últimas décadas parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de Narcises frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer “Devagar com a louça!”, aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem a sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?

Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem de ser dissimulada com os engodes fálicos da beleza e da indiferença , tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza?

AGRURAS DA PAIXÃO

Os artistas da virada do século 19 para o 20 já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karenina (Tolstoi, 1873 -1877) pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o amor não é meio de vida, não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary (Flaubert, 1853-1856) queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher, que foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então, ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.

O destino de Nora (lbsen, 1879) nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que lbsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de…mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e a segunda (e a terceira, e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder às paixões masculinas sem “se desgraçar”?

No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já no século 20 é a de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo (Guimarães Rosa, 1956) se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em consequência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí, sim, é que ela é mesmo mulher.

O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século 21 sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade(s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s)- o que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento, de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou em Mal-estar na cultura (1920), sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças”, tentando explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais, sobretudo as que pesavam sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.

FALOS E BRUXAS

No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. já para o homem, toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem interessa manter a mulher a distância, tentando garantir que esse “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.

A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas pelo demônio, assim se designavam na Antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada de sua feminilidade até um limite intolerável. Se a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de pôr fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.

SERES ESVAZIADOS

E quem duvida de que Ana Karenina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista desse “a mais” que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal “a mais” da mulher!), a morte de um reconhecimento pelo outro, na falta do qual a mulher cai em um vazio intolerável. Pois, se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.

Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são, nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky e a Rodolfo Boulanger? Não; eu diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.

Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer essa mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter de se reconhecer.

Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que se trata o abandono e a solidão da mulher. já nos primórdios dessa movimentação toda, os psicanalistas Melanie Klein e Joan Riviere escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar etc. etc. – ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.

E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito de nosso mal-estar, antes que este texto se torne paranoico ; mas como não ser paranoico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina?

 

MARIA RITA KEHL – é psicanalista, doutora em psicanálise e autora, entre outros livros, de O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo, em impressão). Este artigo foi publicado originalmente no livro A mínima diferença o masculino e o feminino na cultura (Imago, 1996), esgotado.

 

 

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

DO LUTO À LUTA

Um diagnóstico devastador de uma doença sem cura abala qualquer pessoa. Mas alguns casos podem surpreender e contrariar as expectativas dos médicos.

Do luto à luta

 

Essa é uma história de resiliência que mostra como o equilíbrio psicológico é tão importante na vida de todos nós. Quem conversa hoje com a astróloga de 55 anos Denise Medeiros, vivendo a expectativa de lançar um livro, não imagina que ela esteve à beira da morte em 2011. Na verdade, quando começou a escrevê-lo, nem sabia se conseguiria terminá-lo: o diagnóstico de miocardiopatia dilatada (doença progressiva do músculo cardíaco, agravada por um bloqueio total pelo ramo esquerdo) trouxe, na época, a sentença de três meses de vida e muito medo. Mesmo sem cura, depois de quatro cirurgias e muitos processos, Denise vive agora sem os sintomas. Onde o Deserto Encontra o Mar (Autografia) é o registro diário, contado em detalhes, de quem perdeu a saúde e passou a conviver com a antinaturalidade do estar doente. Denise precisou se reencontrar nesse caminho, desde a descoberta da doença até o resultado, passando pela experiência de quase morte e assumindo a montanha-russa de sentimentos que tomaram conta dela: da revolta pelo diagnóstico à aceitação e decisão de lutar pela vida.

“A aceitação do diagnóstico passa por diferentes fases e pode ser comparada ao processo de luto. Uma das teorias mais conhecidas sobre o processo de luto foi desenvolvida por Elizabeth Kübler-Ross, em seu livro Sobre a Morte e o Morrer, que divide o luto em cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Ao receber o diagnóstico de uma doença crônica grave, o indivíduo precisa fazer o luto daquele corpo saudável e passar a conviver com as limitações impostas pela nova condição, pois jamais terá o mesmo vigor que tinha até então. Portanto, é comum que o indivíduo flutue entre essas fases, assim como fez Denise, até chegar na aceitação e, a partir daí, se movimentar para se adaptar a uma nova realidade.”

A história real e transformadora de Denise é uma injeção de coragem e faz pensar sobre o quanto o ser humano é capaz de superar desafios, ainda que derradeiros. O importante, no caso de Denise, foi buscar fazer dar certo, aliado ao tratamento adequado e ao acesso a médicos, enfermeiros e outros profissionais determinantes para a guinada na sua condição.

“Não é fácil, nem imediato, mas é preciso estar determinado ao sucesso, mesmo diante daquilo que parece impossível. É aí que um novo universo vai se abrir. Meu envolvimento com esse livro é muito profundo, nasceu dentro de mim em um momento bem diferente do atual. Hoje, a emoção me inunda de tal forma que tenho certeza de que fiz a coisa certa” acredita Denise, alinhada à missão de dividir com pessoas que vivem uma situação difícil o relato de esperanças, vitórias e superação.

“Essa capacidade que Denise demonstrou de lidar com a adversidade e fortalecer-se a partir do seu diagnóstico é denominada de resiliência. Em situações de doença grave, por vezes, o indivíduo pode apresentar elevados sintomas de estresse, deixando o organismo ainda mais suscetível à doença. Apesar de difícil, estar resiliente nesse contexto pode contribuir com a melhora dos sintomas. Muitos fatores pessoais e sociais influenciam na maneira como o indivíduo utiliza seus recursos internos, mas um fator importante é o suporte oriundo do sistema familiar. Atualmente, reconhece-se a necessidade de implementar ações, no contexto de doença crônica, que visem o fortalecimento da resiliência, dados seus benefícios para estes pacientes.

ETAPAS

Em Onde o Deserto Encontra o Mar, o leitor conhece as etapas diversas desse pedaço da vida da autora, incluindo, entre outros, a reação das pessoas e as decisões médicas. Ela aponta, como uma das passagens principais, o estado de ânimo que se instalou nela como fundamental para mudar o destino, encontrar as pessoas certas e chegar a um resultado surpreendente. O livro mostra como Denise decidiu que o que chegasse primeiro, a morte ou a vida, a encontraria preparada. ”A doença foi a minha melhor professora. Nesses sete anos vivi séculos, sou muito grata a ela: “São muitas as pesquisas que destacam o papel positivo da espiritualidade no tratamento de doenças crônicas, como as doenças cardíacas. Vale destacar que espiritualidade se trata da relação do indivíduo com valores, significados e sentidos de vida, enquanto que a religiosidade está ligada à devoção por alguma coisa. Existe um estudo bem importante que avaliou 4.028 indivíduos com cardiopatias congênitas, em 15 países de cinco continentes, e encontrou que a espiritualidade e a religiosidade estavam associadas com maior qualidade devida e satisfação com a vida, além de comportamentos voltados para maior cuidado com a saúde. Essa busca de Denise por uma nova forma de viver, a partir de um diagnóstico tão devastador, foi permeada por recursos da sua espiritualidade, uma vez que ela precisou conectar-se ao sentido de sua vida e ressignificá-la. É comum que a gente viva no piloto automático, sem nos darmos conta do que acreditamos ser o sentido da nossa vida, até nos depararmos com esse tipo de situação: Após ter o seu caso negado em diversos hospitais, foi no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul que Denise encontrou parceiros na luta por recuperar a sua saúde. A primeira tentativa, um tratamento medicamentoso para insuficiência cardíaca, não conseguiu controlar a progressão da doença e dos seus sintomas. “Era necessário realizar um procedimento que fosse capaz de melhorar a qualidade e expectativa de vida de Denise. Para o seu caso, as possibilidades giravam em torno de um transplante cardíaco ou do implante de um marcapasso ressincronizador’ relembra um dos cirurgiões cardíacos que acompanharam o caso, dr. Roberto Sant’Anna.

Apesar de reverter completamente o quadro da insuficiência cardíaca, o transplante é um procedimento de alto risco que depende da doação de um órgão compatível. Por isso, a escolha dos médicos foi apostar no marcapasso ressincronizador, tecnologia que faz com que o coração funcione de forma sincrônica e assim recupere sua força de contração.

O implante de marcapasso é um procedimento pouco invasivo e pode ser realizado apenas com anestesia local e sedação. A cardiologista que acompanha o caso de Denise, dra. Imarilde Giusti, considera a intervenção um sucesso. “Ela teve uma resposta excelente à terapia de ressincronização cardíaca. Isso, em conjunto com o tratamento clínico, permitiu que a função cardíaca se recuperasse gradualmente.

Hoje os sintomas da insuficiência cardíaca como falta de ar e fraqueza quase não estão mais presentes e a expectativa de vida da Denise é normal. Uma situação completamente diferente da que encontramos quando ela chegou até nós”, diz a especialista.

PSICÓLOGA

Denise também teve atendimentos com uma psicóloga, que foi importante durante todo o tempo de tratamento, desde o descobrimento da doença até nas fases de recuperação de cirurgias e no pós-cirúrgico e lembra que essa profissional foi de suma importância para o seu tratamento. Com isso, percebe-se a importância da assistência psicológica em pacientes com doença crônica, que tem por finalidade minimizar o sofrimento do paciente que apresenta esse diagnóstico e promover a melhoria da qualidade de vida através de intervenções que possam auxiliar os pacientes e seus familiares e profissionais da saúde no enfrentamento da patologia.

Há algum tempo, o psicólogo trabalhava somente nos aspectos relacionados à saúde-doença, ou em instituições que promoviam saúde mental. Hoje se sabe que esse profissional possui uma atuação mais ampliada em diversos setores da saúde, realizando promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento de doenças. O psicólogo começou a adquirir seu espaço em hospitais, unidades básicas, postos de saúde, dentre outras instituições, sendo figura de extrema importância nesses serviços para suporte a pacientes, familiares e toda equipe de profissionais.

De acordo com a definição do órgão que rege o exercício profissional do psicólogo no Brasil, o psicólogo especialista em Psicologia Hospitalar tem sua função centrada no âmbito de atenção à saúde, atuando em instituições de saúde e realizando atividades como: atendimento psicoterapêutico; grupos psicoterapêuticos; grupos de psicoprofilaxia; atendimentos em ambulatório/ unidade de terapia intensiva; pronto atendimento; enfermaria geral; psicomotricidade no contexto hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico; consultoria e interconsultoria, refletindo no número de demandas para esses profissionais, inclusive na área da oncologia (CFP, 2003). Nesse sentido, a Psicologia, atuando em pacientes com doenças crônicas, consiste na área de atuação ampliada que se aplica no acompanhamento psicológico ao paciente com doenças crônicas e a sua família e aos profissionais de saúde envolvidos em seu tratamento, na reabilitação e na fase terminal da doença (se for o caso), utilizando conhecimento educacional, profissional e metodológico proveniente da Psicologia da Saúde. O psicólogo também pode atuar na pesquisa e no estudo de variáveis psicológicas e sociais relevantes para a compreensão da incidência, da recuperação e do tempo de sobrevida após o diagnóstico. Além disso, pode auxilia r na organização de serviços que visem ao atendimento integral do paciente, enfatizando de modo especial a formação e o aprimoramento dos profissionais da saúde envolvidos nas diferentes etapas do tratamento.

APOIO

O papel do psicólogo em doenças crônicas propõe o apoio psicossocial e psicoterapêutico diante do impacto do diagnóstico e de suas consequências. Além disso, mostra a possibilidade de auxílio para melhor enfrentamento e qualidade de vida do doente e de seus familiares, através de um apoio psicossocial no enfrentamento dos efeitos negativos do tratamento contra a doença. Também demandam intervenções psicoterapêuticas especializadas. Além disso, as funções desse profissional devem: favorecer a adaptação dos limites, das mudanças impostas pela doença e da adesão ao tratamento; auxiliar no manejo da dor e do estresse associados à doença e aos procedimentos necessários; auxiliar na tomada de decisões; preparar o paciente para a realização de procedimentos invasivos e dolorosos, e enfrentamento de possíveis consequências dos mesmos; promover melhoria da qualidade de vida através de intervenções que possam auxiliar os pacientes e seus familiares no enfrentamento e na aceitação da realidade; auxiliar na aquisição de novas habilidades ou retomada de habilidades preexistentes; e revisão de valores para o retorno à vida profissional, familiar e social ou para o final da vida.

Sugere-se que o trabalho da equipe multidisciplinar seja pautado no enfoque integral do sujeito, com o intuito de possibilitar a ressignificação da doença e aumentar sua sobrevida. Outra constatação importante é a formação do vínculo que ocorre entre profissionais da saúde e pacientes, visando assegurar a sua adesão às propostas e às orientações combinadas, no sentido de fortalecer sua autonomia, competência e segurança na busca das metas, para que alcancem resultados positivos em sua saúde e, por conseguinte, em sua qualidade de vida. As estratégias utilizadas para se atingir essa condição devem ser inspiradoras para o indivíduo, almejando seu envolvimento no processo. Também é fundamental o respeito à autonomia do educando por parte do educador, evitando o autoritarismo. Quando o vínculo se estabelece, propicia-se mais facilmente a identificação das necessidades de respostas mais apropriadas, ficando facilitado, com isso, o acompanhamento dos indivíduos e das famílias nos diferentes momentos da vida.

Ademais, a equipe multidisciplinar tem papel fundamental na educação de pacientes e familiares, para que tenham um entendimento completo em relação aos efeitos na sua doença. Os objetivos desse processo são ensinar, reforçar, melhorar e avaliar constantemente as habilidades dos pacientes para o autocuidado. Sob esse prisma, o psicólogo é o profissional tecnicamente capacitado para abordar os aspectos emocionais e deve ser membro permanente nas equipes, auxiliando no tratamento e contribuindo, assim, para uma melhor adesão ao processo, fornecendo subsídios para os pacientes enfrentarem as várias mudanças que ocorrerão no estilo de vida.

Do luto à luta. 2

 DOENÇAS CRÔNICAS: DESAFIOS DA ERA CONTEMPORÂNEA

As doenças crônicas se apresentam como um grande desafio da época contemporânea, por ainda serem associadas à dor, ao sofrimento e, muitas vezes, à morte, requerendo tratamentos dolorosos, invasivos e, muitas vezes, mutiladores, que comprometem a qualidade de vida dos indivíduos. Os pacientes precisam lidar com as questões do dia a dia, acrescidas pelas características e necessidades de tratamentos agressivos e longos desse tipo de patologia. A doença crônica pode produzir diversos sintomas. como baixa autoestima, depressão, incertezas sobre o futuro, pânico, tristeza profunda, revolta, angústia, insegurança. Com todo esse sofrimento emocional, os pacientes e seus familiares não conseguem lidar como problema e, muitas vezes, o paciente tem dificuldades de aderir ao tratamento, o que acarreta perdas importantes na qualidade de vida dos indivíduos com esse diagnóstico.

Do luto à luta. 3

MIOCARDIOPATIA DILATADA

Trata-se de uma doença do músculo do coração, que impede o bombeamento eficiente de sangue para o corpo, provocando problemas, como arritmias, coágulos de sangue, e até morte súbita. A miocardiopatia dilatada atinge, especialmente, o ventrículo esquerdo, uma importante câmara de bombeamento do coração. O ventrículo esquerdo fica ampliado e as fibras musculares se esticam ao máximo.

Do luto à luta. 4 

TANATOLOGIA

A psiquiatra suíça Elizabeth Kúbler-Ross (1926-2004) publicou seu livro mais famoso em 1969, com o título “Sobre a Morte e o Morrer. A obra marcou o rumo de seu trabalho, que foi enriquecido, em seguida, por contribuições de especialistas de uma área específica da profissão médica: a tanatologia. No livro. Elizabeth identifica fases nos períodos que antecedem a morte e cria métodos para médicos, enfermeiros e familiares acompanharem e ajudarem um paciente terminal.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

AS INJÚRIAS DA FELICIDADE

O mundo não é uma brincadeira de criança sem risco. A vida adulta exclui a imaginação lúdica saudável e dá lugar às crenças inerentes aos pensamentos positivos rumo ao futuro.

As injúrias da felicidade

Já dizia o poeta: “Não quero ter razão, quero ser feliz!” Em tempos de promessas, virada de ano, tempos difíceis, mudanças, de crises existenciais e outras mais, cada um recorre a algo a que possa se segurar. Muitos recorrem à onipotência do pensamento chamado de positivo, combatendo o negativo como se o querer consciente fosse um milagre retilíneo uniforme. Ainda que este tipo de pensamento designado de positivo pela consciência tenha seu lugar e suas funções confortantes para muitas pessoas, ele não é definidor de mundo.

Não se trata de ser pessimista o fato de saber que o mundo não gira ao redor do umbigo do pensamento, mas se trata de encarar a angústia magna existente para o ser falante. Ao falar, indagar, inserir a linguagem que corta o todo naturalizado do mundo, o ser humano se depara com a intrínseca angústia de não ser todo. Falar é assumir que é faltante, viver é isso, fazer da falta um bom motivo para fazer algo de tudo. A falta pode ser adereço central do desejo se a tomarmos como faísca de linguagem.

Muitos, na sua essência faltante, em sua euforia de querer ser mais em meio à sociedade do espetáculo feliz, das imagens do todo, da ditadura do sorriso de prótese, acabam se angustiando ao saber que a felicidade plena é inconivente com o modo humano de ser. Para estes, a felicidade surge como mercadoria promissora, onde vendem os pergaminhos, bulas, treinos, itens e tudo mais que for necessário para irem tamponando o que não tem tampa, mas tem borda. Ao apostar todas suas fichas nesses indícios prometidos e fracassar perante o delineado esperado, o sujeito inaugura nova rotina de angústia em resposta ao exercício da castração que ameaça o Eu.

A angústia, em Psicanálise, é um sinal de alerta a ser escutado. Ela vem, estrangula o dito não dito, agita o ser por falar tocando diretamente na víscera real do corpo que habitamos. A angústia chama para a vida ao lembrar da morte: e agora? O sujeito tem que se haver com sua condição. Não dá para se estabilizar na angústia, pois ela é o afeto que não brinca em serviço. A angústia, que rasga de dentro para fora, mostra que não se foge de si mesmo. É imprescindível encará-la, ainda que a vontade seja a de sair correndo, sem rumo, lenço e documento.

Escutar a si mesmo é tarefa árdua, difícil, inefável e laboriosa, pois não se trata de escutar o rasante dos pensamentos tão somente, uma vez que por eles inclusive nos enganamos e maquiamos em fantasias o que não vai bem. Escutar a si mesmo é aceitar sua dolorida condição. Daí, numa Psicanálise, as pessoas que esperavam tudo aconchegante saírem com labirintite psíquica. Em pensamentos, reformulamos o mundo de forma afável, somos carismáticos conosco mesmos, maquiamos narcisicamente nossa condição, ensimesmamos fetiches de salvação. Penso, logo egoísmo. Necessitamos ir além das defesas pensantes que criamos se desejamos romper com as rígidas repetições que nos alinham no sofrer. Na dinâmica da vida é preciso fazer o luto da onipotência, permitindo indagar o pensamento, aceitando a condição faltante. Não será sem suporte, certamente será com medidas paliativas, cada um com as suas, tal como aponta Freud: “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas” (Freud, 1930).

Cada pessoa deverá analisar quais medidas paliativas lhe servem em seu propósito de vida.

As injúrias da felicidade. 2

CIVILIZAÇÃO

Em se tratando de civilização, Freud afirma que uma das condições centrais para que esta exista, ainda que manquejando, é a de que “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (Freud, 1930). Desse modo, suportar as pequenas diferenças e se ouriçar nas relações é condição sine qua non para viver em civilização. Por ouriçar, entendamos, conforme Schopenhauer aponta em sua escrita dos porcos­ espinhos na noite de inverno: caso estejam muito próximos, se ferem e sangram, podendo morrer pela proximidade sufocante e perfurante dos espinhos. Se muito distante, podem morrer pelo frio. Portanto, se faz necessária uma distância encontrada que não seja muito próxima ou tão longínqua.

Aqueles passos que sonhamos para alcançar a felicidade, aqueles conselhos que indicam o caminho, os manuais do que fazer e como fazer que garantem sucesso jogam com nosso desamparo. Aqui se encaixa bem um postulado de Freud, em O Mal-estar na Civilização: “Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem que descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo” (Freud, 1929). A vida humana é singularmente inventiva, não há roteiro, manual, passo a passo, nada que garanta. A felicidade, sempre em pedaços, é feita, construída, às vezes aparece de surpresa, e esta vai além do cair nas artimanhas da sedução de soluções rápidas.

É confortante deslocar as resolutivas dos problemas ao poder do pensamento ou a alguém. O outro nada pode por nós, pode “com nós”. E apostar no pensamento mágico é se portar como se fôssemos bebês com a onipotência de seu choro: chora­ se, esperneia-se, basicamente não se faz mais do que isso e o mundo nos atende. Os pensamentos mágicos são derivados de nossas experiências da tenra infância. Desde os primórdios, o pensamento mágico demarca presenças, nos credos, rituais tribais e mitos fundadores. Chora-se e magicamente aparecem quentinho copo de leite, seio com afeto, soluções mirabolantes, acaloramentos, nutrientes afetivos e vitamínicos. Eis aqui o protótipo do credo no pensamento mágico onipotente. Econômico e até então eficaz. Até então.

Até então, pois a posteriori o princípio de realidade surge e demarca que castrações nos chamam ao movimento. Pelo atemporal do inconsciente (o inconsciente tem um peculiar tempo psíquico, no qual memórias amalgamam e reinventam noções de passado, presente e futuro), muitos ainda estão enraizados nesse badalar da vida psíquica, crianças de várias adultas idades. O infantil em nós é por toda vida. Por esse motivo, pelos traçados da infância, ao lado disso tudo, o que se está colocando é a onipotência de uma carência que existe em nós: de um outro que cuide de nós, que faça por nós, que nos acolha, que nos indique e que nos ensine a caminhar, que segure nossa mão, alguém que nos salve ainda que saibamos não se tratar de salvação. Demandamos amor e buscamos enrijecer o poder a um outro da verdade, cremos nele, não por ele, mas pelo amor dele: “Uma criança sente-se inferior quando verifica que não é amada, o mesmo se passa com o adulto” (Freud, 1936).

As injúrias da felicidade. 3

PRINCÍPIO DE REALIDADE

A identificação, o espelho, a tentativa imitante, ecolalias do fazer constituem papel fundamental no desenvolvimento do sujeito frente ao seu mal-estar. Desenvolver aponta que primeiro se envolve e depois se “desenvolve” para herdar algo e fazê-lo teu. Do princípio de prazer, no qual se desenvolvem desejos e fantasias, advém, em um porvir existencial, o princípio de realidade, no qual se desenvolve o ajeitar-se em meio às ameaças de castração do mundo social. O princípio de prazer é pulsionalmente mortífero, visa o princípio de nirvana.

O advento do princípio de realidade não anula o princípio de prazer. Segundo Freud, “a substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade não implica a deposição daquele, mas apenas sua proteção” (Freud, 1911). A partir desse motivo, dentre outros, é que somos desmedidas e incomensuráveis vezes guiados por nós mesmos para lá, onde não sabemos que sabemos. Um saber que escapa à razão pensante e que diz pelos rastros repetitivos dos experimentos da vida cotidiana. Em busca de algo outrora perdido para sempre manifestamos dizeres em lapsos da língua, do corpo, da memória, por pilhérias, trocadilhos e chistes, além de dizermos em metáforas, nos sonhos e sintomas. O inconsciente diz de um saber que relutamos saber que sabemos, uma resistência que adoece produzindo estrangulados dizeres sintomáticos. Quanto mais o sujeito tenta negar a si mesmo, mais ele se afirma sem perceber. O inconsciente é dinamizado por processos primários que escapam à lógica do tempo cronológico, à realidade externa, à caracterização de bem e bom, é afirmativo e ainda ausenta contradições mútuas. As características do inconsciente, como podemos perceber, diferenciam-se, e muito, dos pensamentos. Secundariamente é que emerge, organizando-se para a consciência e os outros, o escopo pensante. Uma psicanálise não é para fazer pensar alinhavado, e sim causar ondas para que algo mude, ainda que o sujeito nem saiba de onde aquilo veio. No pensamento, assim como na confissão, fala-se o que se sabe, e no inconsciente, pela associação livre sob transferência, o sujeito diz mais do que sabe, até prega em si mesmo surpresas acerca de quem se é.

Portanto, compreendemos que os pensamentos são fabricados a partir de processos primários de cada um, sendo este um dos caminhos a escutar, destrinchar e seguir rumo a algo dito em suas entrelinhas. O pensamento é um derivado secundário da vida psíquica, tem sua importância, compete sabermos de qual modo ele se encaixa na psicopatologia da vida cotidiana do sujeito. Ele advém como produto condensado e alinhavado de elementos que desconhecemos que sabemos, “ah, sei lá!”, dizem comumente as pessoas, apontando que em algum lugar sabem, mas não percebem onde e de que modo, mas, ao inverso do que podemos imaginar, o inconsciente que não é inconsequente, “parece que não está em mim essa coisa”, “fiquei cego na hora’ “não sei, tem algo em mim”, “quando vi, já tinha feito’ é linguagem nossa e somos por ela responsáveis. Escutar é ético, na medida em que coloca o sujeito nas rédeas do responder às suas mazelas e delícias.

Acerca dos pensamentos, podemos pensar (ironia) que eles, os pensamentos, são coberturas da razão. A razão é uma cobertura de algo, o dito senso comum já o aponta ao dizer que tal pessoa “está coberta de razão”. Usam e abusam dessas coberturas, como drogas, mesmo, viciosas. O pensamento está certeiramente nas procrastinações, assim como a razão está nas defensivas ante os afetos. Os pensamentos estão na busca lógica pela felicidade plena inalcançável por excelência.

As injúrias da felicidade. 4

INJÚRIAS DO PENSAMENTO

Freud (1915) postula que “o pensamento é o ensaio da ação”. Um ensaio que desmedidas vezes aniquila a ação. Como numa festa marcante, num show, compra-se o ingresso meses antes, por exemplo, pensa­ se como será bom, deleita- se, traça-se o que fazer, com quem fazer e como fazer, gozam-se maravilhas no pensamento, perdem-se noites de sono e quando está para chegar a hora já se esvaziou aquela expectativa criada e um desânimo emerge. O pensamento aqui não saiu do ensaio e ficar nele garante ao sujeito que a ação não atrapalhe a delícia construída por ele. Outro exemplo do pensamento como realização em si mesmo, se assim podemos dizer, é quando uma pessoa vai caminhando em direção ao seu patrão, e o patrão em direção à pessoa, e ela pensando: “Vou pedir aumento, vou pedir aumento, vou pedir…” o patrão passa e ela “eu deveria ter pedido aumento, deveria ter pedido!” O pensamento estava montado, ela sabia o que fazer, mas algo maior na história daquela pessoa fez com que ela, frente a um lugar de poder, recuasse em seu propósito.

Outra forma de utilizar o pensamento como modo de ser feliz, ou de despistar tristeza, ou de tentar se garantir que se prova ineficiente ou demasiado limitado é quando a pes­ soa tenta conduzir sentimentos pelo pensamento. Até dizem “vai namorar com ele mesmo? Pensou direito?”, “Gosta dela mesmo? Tem que pensar duas vezes”. Como se uma forma de pensamento, de interpretação fosse capaz de garantir uma felicidade e prevenir o sujeito de embaraços. Na lógica reacional, há quem, em luto, sofrendo pelo término, diga a si mesmo e reafirme reiteradas vezes: “Não vou me apaixonar, não vou me apaixonar, não vou…” e quando menos se espera, quando percebe, já está sendo levado a uma relação. Algo aqui escapa. Algo conduz. Esse fetiche do pensamento, como forma motriz de garantia de felicidade, tem a consequência de limitar o sujeito. Obviamente, o pensamento é importante. No entanto, é mais óbvio ainda termos que indagar o óbvio para não ficarmos reféns do mundo. Como ser senhor de seus pensamentos é uma interessante questão. Pensamentos lapidados, sedutores, sem furos servem para? Acomodar-se em demasia assassina o desejo, estrangula a fabricação de si. Na obsessividade do pensamento podemos falar em um “penso, logo desisto”. Para outros, “penso, logo procrastino”. E, ainda, “penso, logo suporto”. Tudo isso não anula a epígrafe famosa do “penso, logo existo”, porém é preciso saber que existimos fora do pensamento.

Por essas supracitadas vias podemos pensar em ao menos dois usos distintos do pensamento: aquele ao qual se é levado pela ilusão e ao qual se é impelido ao se mover, devido ao surgimento de um desassossego. Um pensamento que finda e um pensamento que funda o comprometimento. A diferença está na posição do sujeito. No primeiro, o sujeito se coloca como passivo da atuação, refém das conspirações do universo, sufoca sua existência singular e se faz objeto dos rotacionais movi­ mentos de forças maiores. Ativa um suposto e confortante controle, pois sabe o que fazer por e com ele. Este controla tudo pela mente, pelo seu credo, nada pode fazer além disso, de aceitar, de receber, logo nada faz para que se realize, deixa à mercê do querer alheio da força maior chamada de destino. Anula em si que destino é construção e que estamos fadados a repetição se não tratarmos de analisá-lo. Desvirtua o seu desejo, sequer deseja, pois desejar é ser rotacional em outro ritmo e ali não se permite tal injúria.

As injúrias da felicidade. 5

REFLEXOS

No segundo modo de pensamento, o reflexivo, que visa reflexos do interno, que desacalenta e cria movimentos pelos furos existentes, o sujeito se coloca incomodado e encara o ato, vai ao fazer, se vira, assume-se como senhor, em parte, de sua casa, arca com as consequências, responde aos efeitos, responsabiliza-se por mudar o que, na outra lógica estaria fadado a, abandona a queixa e parte rumo à tentativa que soluciona, estando, assim, ativo na atuação que nasce de um pensamento e passivo perante o resultado, pois tudo pode acontecer, não se sabe o que virá, como virá e de onde, mas não objetaliza-se recuando do viver. Em ambos os modos de pensar temos ilusões que o sujeito cria, uma do alcance da possibilidade castrada e outra de que forças maiores reservam vanglórias a si. A ilusão é uma medida paliativa que nos habita desde cedo na vida. Em uma ilusão, na da vanglória que ele tanto merece, e cria justificativas racionais para tal, a felicidade em seus pedaços está no pensamento de que dará certo e pronto, fala por ânsia fantasmagórica. Na outra ilusão, a de pensar que nem tudo pode e por isso deve estar apto a viver lutos se der errado, a felicidade é uma aposta que poderá surgir ou não nos pedaços das realizações deste porvir. De todo modo, a ilusão nos move da imagem está­ tica a um drama e por esse drama é que o ser humano ilude a si mesmo, o que não significa ser um erro, não é isso. É um arranjo que deve ser avaliado na singularidade. Para ter ilusão é preciso ter alguma história. Podemos tomar a ilusão como uma das formações distorcidas do desejo: “Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, nem tampouco um erro. […] O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. […] As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis, ou em contradição com a realidade” Freud, 1927).

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SINTOMA DA CAUSA E EFEITO

Cura em Psicanálise: queijos no divã. Muito se diz do tratamento psicanalítico, tratamento existencial sob transferência – vínculo clínico. A Psicanálise trata sintomas? Sim, mas não tão somente aqueles psiquiátricos. São sintomas singulares, não para serem eliminados, mas sim tratados, escutados. Esses sintomas dizem do sujeito, o organizam desorganizando-o, eliminá-los é emudecer o existir. Se o sujeito não reinventa outro modo de lidar com seu profundo mal-estar fica ruim com o sintoma e pior sem ele, o desamparo assola, pois o sujeito perde parte falante de si. Trata-se, então, de escutá-lo para fazer falar de outro modo. Fazer falar o sintoma é ser causa de desejo. São sintomas que se entregam à transferência. O sujeito em seu inconsciente aceita ser tratado: sim, toma! E entrega seus dizeres rumo à possibilidade de desembaraçar-se dos conflitos da confusão de língua. Tendo um irredutível do ser, a Psicanálise possibilitando a reinvenção singular do sujeito, com seus pares e ímpares, não busca uma cura no sentido médico do termo. É o sujeito que utiliza o bisturi da língua para operar sua relação com o destino flexibilizando repetições. Então qual cura é possível? A cura do queijo. Queijo curado é aquele maturado pelo tempo dele, o tempo lógico se faz importante e mediante contatos externos e borbulhas internas eles fazem sua consistência e sabor serem únicos. Queijo curado depende do corte. do manejo, fica com seus furos e particularidades. Queijo curado tem história, necessita de cuidados e responde a eles. Queijo curado é queijo que, com o modo de se relacionar com o que lhe toca, clima, bactérias, material que suga salmoura ou não, luz, cria uma crosta fiel à sua necessidade e consegue resistir cada vez mais ao mundo aberto e seus perigos. Vive melhor em locais nos quais antes apodrecia, ficava amargo. Aprende a lidar com o que o circunda. Essa é a cura, a construção de uma nova capacidade de lidar com o mundo sob a essência antiga, transformação, não sem dificuldades!

PSICOLOGIA ANALÍTICA

LIDAR COM A AUTOSSABOTAGEM

É comum criarmos obstáculos e empecilhos de forma consciente ou inconsciente que atrapalham na hora de realizar tarefas ou conquistar objetivos.

Lidar com a autossabotagem

Por mais absurdo que nos possa parecer, alguns de nós temos medo de ser feliz. Esse medo é quase sempre inconsciente, embora lenha grande influência em nossas atitudes diante dos desafios e conquistas ao longo da vida. Se, por alguma razão consciente ou inconsciente, achamos que não merecemos ser felizes, faremos de tudo para que essa profecia se realize. Esse medo desenvolve um mecanismo ao qual chamamos de autossabotagem. Não são poucas as pessoas que ao conquistarem um ótimo emprego, um relacionamento feliz ou a viagem dos sonhos sabotam as próprias conquistas, não se permitindo usufruí-las e, pior, fazendo de tudo para que dê errado pelo simples medo de ser feliz.

A autossabotagem pode estar presente em todas as áreas de nossa vida: relacional, educacional, profissional e até mesmo na saúde. O primeiro passo para que tomemos as rédeas da vida em nossas mãos é nos conscientizar de nossos mecanismos de autossabotagem e do quanto eles prejudicam o alcance de nossas metas. Nunca ter tempo para a vida social ou para fazer aquele curso que tanto queremos, pensarmos que não há mais perspectivas no trabalho ou mesmo não conseguir fazer um tratamento de saúde até o fim podem ser indicativos de autossabotagem.

Essa autopunição, em geral, tem origem na infância e frequentemente é moldada no núcleo familiar, onde adquirimos nossas primeiras referências e elaboramos nossa percepção do mundo pautada nesses critérios. Se sofremos muitas comparações em condições inferiores, por exemplo, podemos desenvolver o sentimento de menos valia, responsável pela sensação de que não merecemos vencer ou usufruir dos prazeres do prêmio.

A autossabotagern pode se tornar tão grave a ponto de provocar transtornos de ansiedade, cardiopatias, obesidade, depressão e pensamentos suicidas. Em seu 1úvel crônico, pode levar a pessoa a se automutilar, provocando feridas que simbolizam a punição pelos sucessos e prazeres da vida. No entanto, fiquemos todos atentos a esse estranho processo, pois a grande maioria das pessoas sofre desse mal, em maior ou menor escala. Quantas vezes temos que fazer algo importante mas procrastinamos e acabamos não fazendo? Quantas vezes já iniciamos uma dieta e não conseguimos levá-la até o fim? Quantas vezes nos vemos reféns de relações tóxicas que nós mesmos buscamos?

Existe uma técnica interessante que aprendi na Gestalt-terapia que diz que precisamos perguntar insistentemente “para quê” fazemos as coisas e não “por quê”. Quando fazemos a primeira pergunta somos remetidos à utilidade prática da ação, ao “para quê” me serve fazer isso. Outra pergunta insistente que devemos fazer para toda ação autossabotadora é o que ganhamos com ela. Essa pergunta parte do princípio de que toda ação mantida tem um ganho secundário, subjacente e que na maioria das vezes nos escapa à consciência imediata.

Podemos exemplificar essa técnica por meio de uma situação prática. Imagine uma pessoa que foge toda vez que um relacionamento íntimo começa a ficar sério. Ela pode tentar se libertar dessa autossabotagem, perguntando-se insistentemente: “Para que me serve fugir? O que eu ganho com essa fuga?” A resposta pode ser difícil, mas é recomendável que anote e repita sobrea primeira resposta que lhe vier à cabeça. Anote também a segunda e a terceira e reflita com coragem sobre as três. Em geral, o ganho secundário está entre elas. Um ganho subjacente muito comum desse comportamento de fuga é evitar entregar-se por inteiro com medo de se machucar depois. Esse comportamento é comum às pessoas que tiveram experiências dolorosas no passado, mas é igualmente frequente em pessoas que se sentem muito poderosas e inatingíveis. Nesse caso, o medo é de se mostrar frágil e dependente, perdendo a onipotência ilusória.

Outra forma bastante comum de autossabotagem é a procrastinação. O conhecido “deixar pra depois” ou “ir empurrando com a barriga”, embora seja famoso como “filho da preguiça”, frequentemente esconde o medo de falhar, de cometer erros ou mesmo o medo de vencer. A formula é a mesma: pergunte ­ se que ganhos você tem procrastinando. Que zona de conforto você está mantendo ao empurrar essa decisão para depois. A autossabotagem é uma doença da alma que tem tratamento e cura, mas exige que sejamos firmes e insistentes na mudança de nossos hábitos e atitudes. Não basta apenas o desejo de mudar, é preciso que nos autodesafiemos e desconfiemos de nossas desculpas. Esse me­ canismo de autossabotagem só é vencido com determinação, pois ele é construído ao longo de muitos anos de lógica distorcida. Não basta apenas repetir para si mesmo uma nova maneira de ser, essa batalha é constante, até que nosso inconsciente desista de manter o status ao qual se acostumou. O caminho da libertação começa com o reconhecimento de nossas próprias armadilhas, pois conforme disse Dostoiévski: a maior felicidade é saber por que se é infeliz.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O MUNDO NÃO É COMANDADO PELO PENSAMENTO

Inúmeras pessoas têm o hábito de apostar no teor do pensamento, acreditar que dará certo por ter pensado assim, mas é preciso que o sujeito saiba que, ainda assim, as coisas podem sair de outro modo.

O mundo não é comandado pelo pensamento

O mundo não é comandado (talvez seja uma forma de guia de primeira viagem) pelo pensamento, ainda que assim desejemos. O lúdico, grande aliado das crianças em lidar com o mundo, segue essa lógica: no brincar, tudo pode, tudo se reorganiza. O brincar é o melhor remédio para a infância. Deseja que a criança tenha um futuro? Deixe-a brincar, inclusive brincando com ela! Na ludicidade, a criança se torna ativa onde na vida é passiva e vice-versa, faz atos do desejo impossível e satisfaz seus quereres. A criança desejaria que o mundo fosse uma brincadeira sem risco. Porém sabe que chega a hora de guardar os brinquedos na caixa e que terá que sair da ilusória vida criada para a vida que a espera, atormentando-a em determinados momentos. Lógica parecida surge nos games, drogas alucinógenas, redes virtuais, leitura, mentira, falar da vida dos outros, correr, praticar esportes, pescar, vícios lícitos e ilícitos, trabalhar em demasia e outros meios de distanciamento da realidade rumo a algo. São artifícios pontuais, que apaziguam, mas que não passam disso. Dizem que “beber, passa”, passa, mas volta. “Beber faz passar, jogar faz passar, navegar na internet faz passar…” A vida passa! Passa, mas volta e volta com o teor destrutivo, acumulado, persistente, pois não se foge de si mesmo.

Há um real em jogo no mundo que transcende, e muito, o poder dos pensamentos. Esse real não cessa de se inscrever. É bonitinho, romântico apostar tanto no teor do pensamento, acreditar que dará certo por ter pensado assim. Porém é preciso que o sujeito se comprometa e saiba que ainda assim as coisas podem sair de outro modo. Em sua origem, a palavra delírio traz o sentido de sair do trilho. No entanto, é delirante crer que a vida é um trem que não sai dos trilhos. Ainda que não possamos ser felizes totalmente e o tempo todo, ainda que cada um fabrique seus sintomas como modo de dizer de sua história descarrilhada, ainda que produzir sonhos não seja suficiente, ainda que, tal como nos vende o capitalismo urbano, a felicidade não possa ser adquirida e ainda que a busca do princípio de prazer não possa ser toda satisfeita, não se trata de desistir ou recuar, pelo contrário: inventar-se. Algo neste impossível é possível. Vivemos frente a um não todo possível.

“O programa de tornar-se feliz que o princípio de prazer nos impõe não pode ser realizado; contudo não devemos – na verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-los da consecução, de uma maneira ou de outra” (Freud, 1930).

Somos fisgados devido a nossa carência de ter uma garantia, de sermos acolhidos, determos o poder das certezas, o falo do controle, o império do saber, o gozo de dominar etc. Fisgamo-nos, tal como o peixe no anzol, ele se pega, o pescador apenas completa e oferta meios, mas é o peixe que se pega. A busca cega pela felicidade encontra muitas coisas, mas encontra a felicidade?

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A FAVOR DOS RESILIENTES

Como modo de lidar com o desamparo habitual do humano e fetichizado com o poder, inaugurou-se o seguinte dizer: “O mundo é dos espertos”, frase esta que legitima a anulação do outro em nome da esperteza, uma brecha, pode pisar, o mundo é dos espertos, dizem. Esse discurso que soa bonito não é sem consequências, é preciso ficar atento e indagá-lo. Em tempos objetizantes, ser esperto é ter alguma coisa a mais, é ser mais, é transbordar-se de maravilhas, de estética da amostra e ser superior. É ter o mundo, como numa mania de grandeza delirante. Então, de quem seria o mundo? A esta pergunta talvez não tenhamos resposta, mas resvalaremos no espaço de cada um em seu ser, em seu mundo. Então, de quem é seu mundo?

O viver do falante é com laços, nunca só. Carregamos conosco aprendizados e partes de onde vamos relando pela vida afora. Integramos partes do mundo, assim somos desde crianças, comendo e colocando tudo na boca, para sentir, para mais do que ter, para ser. Investimos afeto nas pessoas com quem temos convívio, nas coisas que estão no nosso dia a dia, nos fatos e até nos embaraços.

Para lidar com as crises, precisamos não recuar perante elas. Necessitamos muito mais do que a lógica da autoajuda (se faz bem, beleza, mas que não seja a única saída, que não seja a solidão de uma aposta na vida), do passo a passo a ser seguido, e ainda que manquejando, carecemos de nos comprometer, ter capacidade de resiliência e, com isso, lidar com a castração, reconhecendo­ a junto ao nosso limite de que nem tudo que sonhamos pode ser alcançado. Só ali podemos nos reinventar, no desamparo que nos é tão caro. Negá-lo, traçar um mundo retilíneo uniforme, de fuga, de unicórnios, afável, sem os atravessamentos do real do mundo, é secundarizar o que é do humano, sua essência desejosa, a falta como motora de seus desejos! Renegar a castração do mundo, combater o que não vai bem, tamponando-o, parece ser bonito quando se pensa, mas ineficaz para realojar a posição de sujeito que vai muito, mas muito, muito além do pensamento positivo.

“Infelizmente, o que a história nos conta e o que nós mesmos temos experimentado não fala nesse sentido, mas, antes, justifica a conclusão de que a crença na bondade da natureza humana é uma dessas perniciosas ilusões com as quais a humanidade espera que seja embelezada e facilitada sua vida, enquanto, na realidade, só causam prejuízo” (Freud, 1933).

O real do mundo não é positivo, tampouco negativo. Ele é, ele acontece, ele atravessa, ele é não todo controlado e menos ainda previsível, de forma que listinhas de afazeres dessem conta. Para Freud, o sofrimento do qual não podemos fugir e que sustenta o mal-estar, não é estar mal, é mal­estar, diz de um posicionamento, nos aparece em três direções: “O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode se voltar contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens” (Freud, 1930).

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SABER FAZER

A resiliência para lidar com esses três meios do mal-estar, nos desassossegarmos, é que nos faz sentir vivos. Resiliência não é esperteza de se fazer saber e, sim, de um saber fazer, algo prático que encara o que deve ser encarado. A relação com os outros homens, segue Freud, é a mais difícil e laboriosa ameaça. E se vestir de ditadura da felicidade, cobrando-se ser o que o mundo nos demanda, ser feliz de forma ininterrupta, tomar a felicidade pelo que o outro espera, ser feliz como cobrança e não como estado de espírito são tornar-se infeliz por excelência com máscaras sorridentes. Tal como quando pelas cobranças de ter que ser potente, não falhar, os homens começam a transar por pressão, para provar que dão conta (tendem a falhar) e não por prazer. Se faz bem, ótimo, mas que não seja a única saída, existe poesia!

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A AUTOMUTLIAÇÃO DOS VÍNCULOS

Hoje, uma pessoa me solicitou textos acerca da automutilação. Nesse tema, apenas nesse tema, o texto que tenho é esse que aqui escrevo e você lê. A automutilação dos vínculos, continue lendo, não automutile esse laço. Hoje, acontece muito disso, as pessoas se desinteressam pelo que é do outro e rompem, crendo estar mutilando o outro, automutilam a relação. Eu não tinha o texto, poderia acabar ali. Mas não, quero usar detalhes do cotidiano para trabalhar o tema. Quantas vezes não paramos para escutar o que o outro está nos dizendo? Até de modo sutil, pois enquanto o outro nos fala, inúmeros de nós já estamos pensando no que falaremos, pensando em nosso tema a dizer sem dialogar com o que o outro está dizendo. Não estamos ouvindo, e sim preparando uma fala. Quantas vezes irrompem numa mesa de bar disputas pelo mais, pelo que tem mais, pelo que viaja mais, pelo que ganha mais, pelo que pega mais ou pelo que tem mais sofrimento, mais dificuldades, mas raramente dialogam? Quantas vezes o outro, ao dizer de sua dor, inúmeros de nós tomamos as palavras ditas como armas do falante e lhe atiramos críticas, julgamentos, e sequer paramos para escutar mais? Quantas vezes o assunto do outro nos faz bocejar, nos apressa a querer sair? Quantas vezes hein? Diálogo, trem de dois, trem que transpira novidades, é joia rara nos dias atuais. Quantas vezes o outro dizendo de seus problemas não estamos pensando em “que chato, só reclama”, “quer aparecer”. “que conta tenho com isso?”, e quando termina de falar, ao inverso de tecermos conversa, lacramos o assunto no caixão dizendo, pregando palavras, “vai ficar bom”, “não pense assim”, “que chato, viu aquela abelha voando ali?”, “que calorão…”.  Quantas vezes deixamos de render diálogos e acolhidas? Temos medos de acolher? Ou na carência de ser acolhido não suportamos acolher? Independe, estamos automutilando os vínculos. O desamparo é a navalha da relação Adolescentes cortam o corpo, pois não lhes resta mais nada para cortar, tudo já se cortou. Jovens abrem sua pele para evaporar linguagem, pois não têm onde falar sem serem julgados, moralizados e penalizados. Preferem cortar o corpo para a dor psíquica ser menor que a dor no corpo. Apaziguar, pois quando falam, o outro o corta na alma e esta dói mais que no corpo. Não raro estes, ao serem mais e mais pressionados, na ausência do simbólico, atuam na carne. Carnificina do próprio ser. Deve ter leitor dizendo a si mesmo: “E daí? Ele que tem que simbolizar!” Sim. ele, mas não só! O mundo nunca é só. Precisamos e carecemos de parar de automutilar nossas relações. Será assim que poderemos trabalhar o tema. Aproximando, acolhendo, escutando. Cortando e costurando o desamparo, a solidão.

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DIVÃ MÓVEL DO DESEJO

O divã não é cama de Procusto, onde se arrancam ou esticam os sujeitos para moldá-los a uma ditadura da normalidade. Diva é móvel de desejo e modos de descobrir um saber fazer com as pulsões. Móvel. não no sentido concreto de objeto físico. E sim no sentido abstrato de mover, de criar elasticidades, de descobertas, de permitir certa anormalidade que compõe a loucura que habita cada singularidade. Divã sem escuta e sem associação é sofá. O divã, em seu uso clinico, é móvel que move o sujeito rumo à responsabilização de suas estranhas entranhas mentais!

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INSPIRAÇÃO NA TELA

O cinema sempre traz roteiros, em geral, recheados de superação e sucesso para inspirar os espectadores. Em O Lado Bom da Vida. o personagem de Bradley Cooper tenta se recuperar do fim de seu casamento e reconstruir sua vida mantendo o pensamento positivo.

Em A Procura da Felicidade, o personagem de Will Smith decide investir todas as suas economias em um negócio que não dá certo, acaba perdendo o emprego, a casa, a esposa, mas não a confiança de que conseguirá dar a volta por cima. O filme é baseado na história real de Chris Gardner.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

NEM BOM NEM MAU

Na história de fausto, o homem bom e reto é posto à prova para que entendamos que o caminho de nossa espécie é levar o indivíduo a evoluir e aperfeiçoar sua natureza instintiva e tendenciosa.

Nem bom nem mau

Um homem, por sua capacidade de curar e prever o futuro, ganhou fama e dinheiro. Até que um dia descobriram um outro lado seu e, para os humanitários, passou a ser considerado um impostor e charlatão. Imaginaram então que ele fizera um pacto com o demônio.

Esse homem viveu na Alemanha no século XVI e era conhecido como Dr. Fausto. Dramaturgos, ao sabor de suas reflexões sobre o misterioso sentido da vida, contavam essa história com as cores de suas confabulações, transformando-as em um belo mito que encantou o menino Johann Wolfgang von Goethe, quando este assistiu a uma encenação dessa história em um teatro de marionetes.

Depois de um fato em que uma jovem engravidou de um desconhecido e praticou infanticídio por achar que fora vítima de um demônio, Goethe começou a escrever o primeiro fragmento da história de Fausto. Dedicou sua vida, ao longo de 60 anos, a enriquecê-la com a sua imaginação, tornando-a sua obra­ prima. Fausto Zero ficou conhecido em 1788, Fausto Parte I em 1808 e, por fim, Fausto II foi publicado alguns meses depois de sua morte, em 1832.

Carl G. Jung, aos 16 anos, fez contato com o Fausto de Goethe por meio de sua mãe, que o encantava lendo passagens dessa história. Mais tarde, como pensador e médico, no século XX, mergulhou no estudo dessa obra e entendeu que a “alma” humana em si mesma não se pode encontrar em nenhuma parte, mas apenas se ater às suas expressões em suas múltiplas formas de manifestação, como aquelas que ocorrem nas obras literárias. Daí a importância para o psicólogo de utilizar a literatura e sair da aparente segurança de sua especialidade, pois não se pode entender a psique humana limitando-a às observações de laboratório e do consultório. Nos tempos atuais, em que prevalecem rapidez e facilidades, surgiu um gênero literário denominado Graphic Novel, o romance gráfico, que vem transformando obras literárias com narrativas densas e complexas em uma leitura resumida e facilitada por desenhos e algumas frases bem construídas do autor. Nesse gênero, foi publicado recentemente Fausto em Quadrinhos: uma Tragédia, que traz juntas as histórias de Fausto Zero e Fausto I.

A narrativa começa com a intertextualidade do tema bíblico do Livro de Jó. Deus é desafiado por Mefistófeles, o demônio, que promete provar o quanto a obra divina, os homens, é imprestável. Para isso, Fausto, como Jó, um homem bom e esforçado, será levado por Mefistófoles a se afastar das graças divinas.

Deus e o Diabo, espírito e instinto, são as polaridades que estão juntas no inconsciente e se apresentam na consciência de forma separada para caracterizar o bem e o mal. Quando vivemos apenas uma dessas polaridades, estamos na ilusão da unilateralidade.

Para Jung, quando estamos conscientes de nossos atos, eles não são nem bons nem maus e sempre vão poder cansar o mal e o bem ao mesmo tempo. Nunca saberemos quando nem a quem, o importante é tomar consciência.

O Dr. Henrique Fausto, objeto da disputa, vivia intensamente o conhecimento de todas as áreas que nosso “Eu” pode dominar (Filosofia, Direito, Medicina, Teologia e Ciências em geral), talvez como alguém nos dias de hoje que busca na internet, de forma insaciável, um número infinito de informações, até ultrapassar sua justa medida. No entanto, Fausto reprimiu a experiência com os seus sentimentos e não viveu a vida mundana. Chegou à meia-idade sem conseguir encontrar o sentido da vida, entregando-se à magia com a intenção de desvendar os mistérios da existência e do universo. Desesperado por não ter uma razão para viver, pensou em acabar com a própria vida tomando veneno. Esse é o momento em que Mefistófeles lhe propõe um pacto para tornar sua vida prazerosa: entregar sua alma ao Diabo se um dia precisar dele.

Fausto e Jó viveram na unilateralidade da extrema obediência a tudo que fosse o politicamente correto, até que seu outro lado, o instinto do prazer impedido de se expressar, trouxesse o desequilíbrio e sua vulnerabilidade a essa necessidade de transformar-se para conseguir a compensação da psique.

Depois do pacto aceito, Fausto começa a mergulhar nas aventuras da vida com as suas emoções, que chegam de forma adolescente e desintegrada. Com a malícia e a astúcia de Mefistófeles, ele persegue a jovem virgem Margarida, com a sua pureza, e a engravida. Às escondidas, ela pratica o infanticídio e torna-se alvo do Diabo, que agora pode atuar sobre ela.

Quando os homens se confrontaram com a busca do prazer sexual e sua consequência natural em gerar os filhos que não queriam ter, a evolução tecnológica permitiu tirar a mulher de uma condição restritiva para viver com mais liberdade o prazer sexual sem essas consequências. Esse fato demonstra a evolução do Homo sapiens como capaz de manipular as leis naturais do mundo animal.

Na construção da identidade do “Eu” masculino, o que não foi incluído pela concepção do que é ser másculo torna-se um aspecto inconsciente da personalidade, a qual chamamos de “alma” ou “anima”, uma representação do que é feminino em seu ser.

Um homem como Fausto tem em sua alma esse aspecto de Mefistófeles, que é seu lado capaz de destruir uma mulher ao projetar nela sua incapacidade de se relacionar com o componente feminino de si mesmo. O desenvolvimento apropriado da alma humana consiste em estabelecer um relacionamento adequado entre os aspectos femininos e masculinos de sua própria personalidade.

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