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PARA APRENDER, NÃO BASTA OBSERVAR

A educação ganhou espaço para falar e também para ouvir. Os projetos práticos adotados hoje comprovam eficácia na cognição e na formação do sujeito.

Para aprender, não basta observar

Imagine uma criança em frente à televisão, assistindo a programas em alemão ou qualquer outra língua desconhecida, durante várias horas por dia. Em quanto tempo ela aprenderia a falar alemão? Depois de múltiplas exposições a uma mesma palavra ou frase, ela ganharia, no máximo, o entendimento de um vocabulário bastante limitado, que dificilmente conseguiria aplicar em uma conversa. Coloque a mesma criança para brincar com colegas e adultos que só falam alemão e em algumas horas de interação ela vai começar a testar palavras. Com interesse e necessidade, em poucos meses irá se comunicar naturalmente. Ninguém aprende a falar ouvindo, assim como não se aprende a andar assistindo a outros andarem.

Para aprender, é preciso fazer – errar inúmeras vezes, repetir de diversas formas. Em qualquer lugar do inundo, esse processo é base do trabalho com crianças pequenas. Elas aprendem a controlar as emoções, a dividir, a esperar a vez e a respeitar o outro em atividades práticas e interações sociais. E dessa mesma forma desenvolvem as habilidades motoras, de linguagem e de raciocínio.

Até que iniciam a fase de receber informações, divididas em disciplinas, geralmente independentes. E todas aquelas habilidades, que deveriam continuar sendo formadas, cedem lugar aos fatos, muitas vezes entregues de forma desconexa e distante da realidade dos alunos. São tantos que, para as escolas baseadas em conteúdo, não sobra tempo para as atividades coletivas. Nem para falar, nem para trocar ideias com colegas – apenas ouvir. A educação eficaz compreende que pouco se aprende somente escutando. Sabe que menos ainda há o aprendizado se aquilo o que se escuta está totalmente longe da realidade e fora do campo de interesse do ouvinte.

Uma educação focada no aluno não é compartimentada nem hierarquizada. Ela forma – e não apenas informa. O conteúdo não é desconexo e forçado, mas assimilado naturalmente em atividades que respeitam o processo de aprendizagem do ser humano, tão evidente em crianças pequenas – aquele que acontece na prática, envolvendo o ambiente e as pessoas que nele estão.

Toda a aprendizagem acontece por associação: a nova informação necessariamente é relacionada a um conhecimento já consolidado para que faça sentido. O que não faz sentido não é compreendido e sem compreensão não há aprendizagem. Há o que chamamos de “decoreba” – o que pode ser suficiente para passar em alguns testes, mas não para que a informação possa ser manipulada, aplicada e transferida para outras áreas. Um conteúdo muito distante da realidade da criança, portanto, não promove ganhos de habilidades nem de conhecimento e tende a ser logo esquecido. Nas escolas centradas no aluno, o que ele aprende não é depositado em algum lugar da memória para que um dia, se precisar, possa acessar. O Google e outros extensores da mente que carregamos no bolso tornaram essa prática mais desnecessária que nunca. Em meio à sobrecarga de informações, precisamos, mais que nunca, saber onde procurá-las e o que fazer com elas para transformá-las em conhecimento. Necessitamos, portanto, estimular nossa competência inata de questionar, desenvolver o pensamento crítico e fazer jus a um dos grandes diferenciais do cérebro humano, que é a capacidade de manipular informações para a resolução criativa de problemas.

Uma pessoa verdadeiramente educada, para o linguista e cientista cognitivo Noam Chomsky, não é aquela que tem mais facilidade para memorizar uma quantidade enorme de fatos e nomes, mas a que sabe onde procurar a informação, como formular questões relevantes e sabe questionar doutrinas padrão.

O escritor e pedagogo português José Pacheco faz parte do grupo de educadores desobedientes que questionam doutrinas padrão e participam ativamente do processo de transformação do ensino. Desde o início de sua jornada na educação, ele se recusou a seguir o sistema convencional, centrado no professor. Percebeu que a aprendizagem é movida por interesse e pela ação e revolucionou as práticas da Escola da Ponte, na cidade do Porto, que passaram do que ele chama de “paradigma da instrução” para o “paradigma da aprendizagem”.

Esse paradigma parte da instrução como evento cooperativo, centrada na ação e na interação – como acontece com a linguagem, raciocínio e habilidades motoras. “Ninguém é autônomo sozinho”, costuma destacar. Autonomia talvez seja a palavra que mais repete em seus discursos. Pois mais que ensinar, o grande papel das escolas é justamente esse: formar pessoas autônomas. Não individualistas nem autossuficientes, mas capazes de entender e cumprir seu papel em uma equipe, de planejar, de comunicar-se bem, de pesquisar e buscar conhecimento além dos muros da escola, de respeitar o outro, os limites e as diferenças.

Assim, no decorrer de um processo movido pela motivação e pela ação, os alunos trabalham habilidades que precisam ser continuamente exercitadas em todo o período da vida escolar (e não apenas no início): as sociais e emocionais, motoras, de linguagem e raciocínio. Sustentado por essas competências, o conhecimento – que inclui as informações previstas pela base comum curricular – passa a ser significativo e transformador; e os alunos, indivíduos que não apenas sabem, mas que pensam, decidem e fazem.

 

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

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COMPULSÃO PELA INTERNET

As redes sociais são uma realidade e estão na nossa vida para o bem e para o mal. Estar plugado constantemente é uma forma de desplugar de “si mesmo”

Compulsão pela internet

Um husky siberiano persegue freneticamente a própria cauda e gira sem parar, outra vez e outra vez. Um gato, toda noite, acorda sua dona mordiscando repetidamente seu ombro ou sua orelha. O que tem isso a ver com a internet? Imagine uma cena de laboratório: Um ratinho branco aciona urna alavanca para receber uma gota de água açucarada, num experimento de condicionamento. Agora troque a alavanca por um celular.

Animais domesticados também desenvolvem compulsão e sofrem de estresse, tédio, ansiedade e depressão. Não só o vício em drogas, mas também o uso compulsivo da internet apresenta-se em pessoas que frequentemente são tomadas por estados de raiva (frustração), ansiedade e depressão.

Se décadas atrás até a propaganda subliminar era empregada para aumentar a venda de produtos a qualquer custo, hoje as empresas de internet gastam bilhões pesquisando como fazer com que você e eu passemos mais horas ainda plugados.

A internet e as redes sociais são uma realidade e estão nas nossas vidas para o bem e para o mal. Não se trata de demonizar as ferramentas. A vida antes seguiu, e segue agora. Porém, atualmente, organizações ocuparam-se de estratégias de como capturar o nosso desejo com fetiches, mas não nos tornamos (totalmente) robotizados e submetidos.

O que o husky, o gato, eu e você temos em comum é o fato de todo mal­ estar emocional disparar mecanismos de defesa (mantenedores de homeostase) de dois tipos: 1- ação, movimento (gastar energia, Reich explica) e 2- desviar a atenção, evitar a constatação, “saber”. Como nos três macaquinhos que cobrem olhos, ouvidos e boca. No caso da internet, estar plugado compulsivamente é uma forma de desplugar de “si mesmo”. Ou seja, não é a internet isoladamente – apesar dos investimentos – que “vicia”. Há a contra­partida no sofrimento emocional presente naquele que desenvolve o sintoma.

Mas há também uma dimensão coletiva envolvida. Heidegger, por exemplo, equivocadamente tornado como crítico à tecnologia, em verdade apontou que a modernidade (e o desenvolvimento tecnológico) foi acompanhada de uma forma coletiva de “ser no mundo” em que a reflexão tornou- se ausente. Reflexão como autorreflexão. Aquilo que é vivido quando se observa em quietude uma fogueira. Reich, por sua vez, demonstrou como a neurose individual tem como contraponto uma neurose de massa na qual a angústia e os mecanismos de evitação da mesma são onipresentes, levando a uma forma de alienação.

Um bom exercício de imaginação é ficar quieto, sem fazer nada (e sem dormir). Ou então ir a um lugar sem energia elétrica, sem a possibilidade de uso de tecnologias, por uma semana. Sem internet.

Em síntese, a internet não “cansa” nada. É a nossa relação com ela que determina sua utilidade ou as desordens e sintomas. O objetivo das grandes empresas de tecnologia só é alcançado, em última instância, em função de nossas eventuais fragilidades emocionais. Por causa da nossa condição humana, e naquilo que partilhamos com os outros animais.

 

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano. Doutor em História das Ciências. Técnicas e Epistemologia(HCTE/UFRJ) Psicanalista, precursor das psicoterapias corporais.

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CELEBRAÇÃO SEM SUSTO

O bilionário mercado de festas de formatura, que custam em média 600.000 reais, atraiu o interesse de uma fintech paulistana, a Keeper. Ela gere o dinheiro das turmas e já fatura 20 milhões de reais.

Celebração sem susto

O administrador paulista Caio Zenatti, de 32 anos, até hoje lembra em detalhes de sua festa de formatura do ensino médio. Ele estudou no Bandeirantes, um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, e fez parte da comissão que organizou o evento. As celebrações de encerramento de curso costumam reunir 5.000 pessoas, contando os alunos e seus familiares. Os próprios estudantes contratam empresas especializadas em eventos e escolhem quanto vão pagar por mês para ter a celebração dos sonhos. Na formatura das faculdades, a dificuldade de organização e de gestão do dinheiro se mantém. Zenatti começou a acompanhar de perto o mercado de formaturas e seus gargalos e viu que havia oportunidade ali. Em 2014, criou a Keeper, startup de arrecadação e gestão do dinheiro de alunos de cursos universitários com a finalidade de pagar a festa de formatura. “Notamos que havia urna lacuna de negócios que administrassem de forma transparente os recursos financeiros depositados pelos alunos que vão usar o dinheiro para a formatura”, diz Zenatti.

A empresa, lançada no final de 2014, já atendeu mais de 200 turmas de formandos de universidades, como a Católica de São Paulo, a Unicamp e a Mackenzie. No ano passado, a receita da Keeper chegou a 20 milhões de reais. A meta é dobrar em 2019. O negócio ganhou corpo há quatro anos, quando Zenatti conheceu Ricardo Buckup, de 39 anos, fundador de uma das maiores empresas de festas de formatura do país, a B2, de São Paulo. Ambos frequentavam a Endeavor, ONG que oferece apoio a empreendedores. Buckup já havia percebido que existia uma demanda por negócios que se dedicassem exclusivamente a gerenciar o dinheiro dos formandos. Os valores são coletados durante ao menos dois anos para bancar festas que custam em média 600.000 reais. O mercado de festas de formatura e casamento fatura cerca de 17 bilhões de reais por ano no país. Mais de 1 milhão de universitários se formam todos os anos. Desses, ao menos 40% fazem festas de formatura. Mas é um negócio em que são comuns as histórias de empresas que quebram ou não conseguem entregar o produto prometido, um problema que se acentuou nos últimos anos com a retração econômica e o aumento da inadimplência. O mercado é pulverizado, e está nas mãos de centenas de companhias regionais, que passaram por dificuldades nos últimos anos. Empresas como a Celebração Eventos, do Piauí, e a Original, de Goiânia, faliram em 2018, cancelando mais de 100 festas de formatura que estavam programadas para os próximos anos.

Como os clientes são jovens acostumados a realizar transações online, os sócios decidiram criar uma plataforma virtual. Os empreendedores chamaram Guilherme Mori para participar do negócio. Mori foi coordenador da área de análise de dados e estratégia da 99 (antiga 99 táxis), aplicativo de transporte que, no ano passado, se tornou a primeira startup brasileira a atingir um valor de mercado de 1 bilhão de dólares. No início, todos os clientes vinham por meio de indicações da B2, que já existe há 16 anos e é uma das líderes do setor. Para expandir a base de usuários, os empreendedores investiram em campanhas em mídias sociais e na comunicação direta com os consumidores. A plataforma permite simulações de festas de diversos jeitos e de quanto é preciso pagar mensalmente para chegar lá. As regras de como será aplicado o dinheiro e o resultado das operações financeiras podem ser acessados, em tempo real, no site da Keeper. É dada preferência a investimentos conservadores, de bancos tradicionais, com perfil de baixo risco. A startup fica com cerca de 5% sobre o valor total depositado pelos formandos. Os rendimentos são devolvidos aos formandos – em média, chegam a 0,5%ao mês.

A Keeper é um exemplo de como as empresas do tipo fintech, as startups financeiras, abrem terreno em nichos de mercado cada vez mais específicos. Hoje, o Brasil já tem algumas centenas de fintechs. A metade delas foi criada de 2016 para cá e, como costuma acontecer em negócios muito novos, apenas 12% conseguiram conquistar faturamento anual superior a 10 milhões de reais, segundo um estudo da consultoria PwC. Nos Estados Unidos e na Europa, startups de serviços financeiros receberam mais de 40 bilhões de dólares de investimento em 2018, de acordo com urna pesquisa da consultoria KPMG. “O mundo está assistindo a uma expansão desses serviços, que atendem a necessidades específicas de certos públicos e contam com ferramentas de aproximação com os clientes”, diz Oliver Cunningharn, sócio em inovação e transformação digital em serviços financeiros da KPMG no Brasil. “Mesmo quem inova num segmento logo ganha novos concorrentes.” A festa da Keeper deve ganhar novos convidados em breve. Para os formandos, quanto mais opções, melhor.

Celebração sem susto. 2

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TODOS CONTRA A NETFLIX

A plataforma de streaming deixou a TV por assinatura para trás nos Estados Unidos e vai pelo mesmo caminho no Brasil. Seu sucesso forçou operadoras e produtoras de conteúdo a reagir. A disputa é boa para o consumidor?

Todos contra a netflix

Se faltava um marco na impressionante trajetória da plataforma americana de streaming Netflix, não falta mais. Em janeiro, Roma, um filme produzido e lançado pela empresa, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, foi indicado a dez prêmios Oscar, incluindo o de melhor filme. É a primeira vez que uma produção feita para streaming disputa o maior prêmio da indústria do cinema. E é mais um lembrete do poderio da empresa que surgiu como uma locadora de DVDs na virada do século e virou um gigante com 145 bilhões de dólares de valor de mercado. A Netflix tem 139 milhões de assinantes no mundo e cresce a uma taxa anual na casa dos 30%. No início de 2017, ela superou o total de clientes da televisão a cabo no maior mercado do mundo, os Estados Unidos, com 51 milhões de assinantes versus 48 milhões das TVs. No Brasil, a história não é tão diferente. A consultoria britânica Ampere Analysis estima que a Netflix fechou 2018 com 10 milhões de usuários no Brasil. Ainda não é o suficiente para ultrapassar os 21milhões de clientes de TV a cabo, mas é o bastante para deixar para trás a líder do setor no país, a Claro Brasil, que engloba as marcas Net e Claro TV.

O sucesso da Netflix estimulou a entrada de novos participantes no mercado de streaming aqui. Atualmente, no Brasil, além da Netflix, é possível assinar diversos aplicativos de conteúdo de vídeo sob demanda: Amazon Prime Video, Globo Play, Fox+, YouTube Premium, HBO Go, Esporte Interativo Plus e Watch ESPN, entre outros. A enxurrada veio bem num momento de crise financeira, quando mais famílias passaram a repensar gastos domésticos. Resultado: houve uma onda de transferência de clientes da televisão por assinatura, com pacotes mais caros, para o streaming. A consultoria de pesquisa de mercado CVA Solutions ouviu mais de 7.000 pessoas que possuem um smartphone e descobriu que 15% dos assinantes da Netflix no país cancelaram a assinatura de TV paga. “A Netflix chega aos que não tinham TV por assinatura e mostra para um perfil de cliente que o streaming pode ser o suficiente”, diz Sandro Cimatti, sócio da CVA Solutions. A mensalidade básica da Net é 49,99 reais, ante19,90 da Netflix.

As operadoras tentam reagir enquanto há tempo. Um dos caminhos é responder na mesma moeda, com conteúdo próprio a fim de se diferenciar das concorrentes. Mas há uma jabuticaba no caminho: uma lei brasileira não permite que empresas de conteúdo sejam distribuidoras nem que as empresas de distribuição produzam conteúdo. Por causa da separação que impõe, a lei foi apelidada no setor de “Tratado de Tordesilhas”. A questão está se tornando caso de disputa. No fim do ano passado, a Claro Brasil entrou com um questionamento na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre a estratégia de empresas corno Fox e Esporte Interativo, produtores de conteúdo que estão oferecendo sua programação por meio de serviços sob demanda, ao estilo Netflix. Eles também ofertam a programação ao vivo, sem a necessidade da assinatura de um pacote de TV. Isso, na visão da Claro, é ilegal – a empresa, basicamente, quer que a lei mude para poder lançar seus próprios pacotes de conteúdo. A lei é o motivo para a Anatel não ter aprovado, em 2017, a fusão da AT&T, controladora da Sky, com a Time Warner, responsável por canais como Warner Channel, Cartoon Network e o próprio Esporte Interativo.

Se a legislação for alterada, a Claro investirá em conteúdo no Brasil, segundo declarações dadas por seu presidente, José Félix, na época da entrada do questionamento na Anatel. Esse caminho poderia ser percorrido também pela espanhola Telefônica, dona da Vivo no Brasil. A companhia já realizou parcerias com ligas esportivas como a NBA, de basquete americano, para a distribuição de conteúdo exclusivo no Brasil. Na Espanha, a operadora investiu 70 milhões de euros para produzir a série La Peste, que conta a história da epidemia de peste bubônica no século 16. A Telefónica também firmou uma parceria para integrar os serviços da Netflix a seus aparelhos. O lançamento da parceria ocorreu com uma propaganda simulando uma ligação entre Reed Hastings e José Maria Álvarez-Pallete López, presidentes da Netflix e da Telefónica, respectivamente. “Essas parcerias trarão uma melhor experiência para o cliente, que pode pagar a Netflix por meio da conta telefônica”, diz Márcio Fabbris, vice­ presidente da Vivo.

A Oi foca na distribuição do streaming dentro de seus pacotes de telefonia. Para ter acesso aos conteúdos digitais de Fox, ESPN, HBO, Discovery I<ids e ainda assistir a vídeos na Netflix sem utilizar dados da franquia, o cliente precisa assinar um plano de telefone pós-pago de 250 reais. “É uma tendência de médio e longo prazo aumentar a oferta de conteúdo junto com a banda larga”, diz Bernardo Winik, diretor de varejo e digital da Oi. “Essa mudança é influenciada por um comportamento geracional. Meus filhos não assistem mais TV.” Netflix e Sky não deram entrevista.

As empresas de conteúdo, por sua vez, investem em suas próprias plataformas de streaming. A Fox, cujo serviço é contestado pela Claro, cobra 35 reais ao mês por seu aplicativo, e não concorda que seu avanço no mercado seja contra as regras nem que esteja afetando as empresas de TV paga. “Não rivalizamos com as operadoras, pois estamos atrás daqueles clientes que têm um smartphone e não querem ter um plano de televisão por assinatura”, afirma Michel Piestun, diretor-geral da Fox Brasil. A Globo Play, serviço sob demanda da Globo, aposta no sucesso especialmente de novelas e séries. O produto que deve ser o grande diferencial, no entanto, é o Premiere Play. Por 79,90 reais, o cliente pode ter acesso a todas as partidas de futebol do Campeonato Brasileiro, que a Globo transmite com exclusividade, sem precisar ter uma assinatura de TV. “A visão do Grupo Globo é que, a médio prazo, a área de streaming vai ser tão importante para as receitas quanto a TV Globo.

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EDUCAÇÃO LIDERA STARTUPS BRASILEIRAS

A má notícia: num ranking de 21 cidades do planeta, São Paulo, com 62 edtechs, está em 18º lugar. Pequim tem 3.000

Educação lidera startups brasileiras

Fintechs? Que nada. Num levantamento feito pela Associação Brasileira de Startups, em parceria com o Centro de Inovação para a Educação Brasileira, o segmento que lidera em quantidade é o da educação, as chamadas edtechs. Elas representam 7,8% do total de startups. O mapeamento mostrou a presença de edtechs em 25 dos 26 estados brasileiros. “São 364 startups de educação mapeadas no Brasil, acredito que esse número possa chegar a 600 no total”, diz Thiago Chaer, CEO da Future Education, aceleradora de startups com sede no Brasil e escritório no Canadá. “Existe um movimento no mundo de repensar a educação, de repensar o papel dos professores e dos pais, é aí que surgem oportunidades para essas edtechs.”

O crescimento das edtechs é fenômeno mundial. Mas o Brasil ainda ocupa um lugar modesto nesse ranking. Em julho de 2018 a Navitas Venture, empresa australiana pioneira no setor de startups de educação, fez uma pesquisa em 21 cidades do planeta. São Paulo, com 62 edtechs, ficou apenas no 18º lugar. Pequim, com 3.000 edtechs, lidera a lista. Outra cidade chinesa, Xangai, aparece em segundo lugar, ao lado de Nova York, com 1.000 edtechs – para chegar perto do topo São Paulo precisaria multiplicar por quase 50 suas edtechs. Para Chaer, a boa notícia é que o mercado está aquecido e vai continuar assim, inclusive com cada vez mais participação de fundos de investimentos.

Apesar de todo o otimismo com as edtechs, ainda existem barreiras para um crescimento maior. Como 80% das escolas de ensino básico são públicas, a aquisição de tecnologia ainda é muito baixa por causa da burocratização e da pouca estrutura. Junte-se a isso a questão comportamental dos professores, que precisam se adaptar às novas tecnologias. Mudar essa postura será decisivo, diz Pedro Filizzola, CEO da Samba Tech, que licencia a tecnologia de vídeos educacionais para universidades e cursos preparatórios. “É preciso uma mudança de mentalidade, mas temos visto com bons olhos a flexibilização do governo em relação ao modelo de ensino a distância”, diz Filizzola. “O que a gente tem percebido é a preferência pelo modelo híbrido, complementando o ensino presencial, que tem gerado maior engajamento dos alunos.”

Quem consegue furar o bloqueio e entrar na educação pública consegue bons resultados. É o caso da startup Mira Educação, que criou o aplicativo Mira Aula para ajudar a combater a evasão de alunos. As ferramentas são oferecidas gratuitamente para as escolas. Não há necessidade de se usar wifi ou 3G. Com apenas alguns toques, o professor registra a presença ou ausência e as mensagens são enviadas para os pais, que também recebem o conteúdo das aulas e as avaliações. Recentemente, a edtech entrou no ranking das empresas mais amadas do Brasil, que foi criado pelo site Love Mondays, em 2013. Foi a primeira vez que uma startup que cria ferramentas para a educação pública apareceu no ranking. Exemplos assim não passam mais sem chamar
a atenção.

Os chineses, por exemplo, já estão colocando dinheiro no Brasil. Desde o ano passado, a Microduono, edtech com projetos de eletrônica e de robótica, trabalha com 30 instituições de educação. A meta é que até o fim deste ano ela esteja em mais de 500, tornando o país o seu terceiro mercado em cinco anos. Por isso se tornou comum funcionários de consulados e embaixadas buscarem informações para empresas de seus países investirem no Brasil. “Nós já fomos procurados pelas embaixadas de Austrália e Dinamarca”, afirma Chaer. “O País é uma forte opção para eles, principalmente na educação básica, um grande mercado.” Sua empresa, a Future, já ajudou a criar 32 edtechs em três anos, captando R$ 3,1 milhões e atingindo 50 mil alunos, mais de 1.500 professores e 600 escolas. Um caminho que ainda parece longo, mas altamente promissor.

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DOS GAMES PARA A SALA DE AULA, A REINVENÇÃO DA SAMBATECH

A Samba Tech nasceu criando jogos para celular, em 2004, e foi a pioneira na distribuição de vídeos na América Latina. Nos últimos dois anos, a startup percebeu que grupos educacionais estavam procurando por segurança e qualidade, e começou a investir nesse setor. Hoje, metade dos clientes já vem dessa área, casos da PUC Minas, Kroton e Estácio de Sá. O portfólio da empresa, que era de 200 clientes, superou os 300.

“A revolução do ensino começa pelo vídeo”, afirma Pedro Filizzola, CEO da Sambatech. “A gente oferece soluções inovadoras de segurança para que não haja pirataria, e qualidade para que a experiência do aluno seja a melhor possível.” Mas isso, o próprio Filizzola diz, não garantia a atenção. “Claro que o conteúdo, que é propriedade intelectual das instituições, precisa ser atraente para fazer um bom casamento com a tecnologia e reter a atenção do aluno.”

O empresário calcula que nos próximos 5 anos, 50% dos cursos educacionais no país serão feitos a distância. Hoje o ensino superior, por exemplo, já alcança mais de 1 milhão de alunos. “As matrículas para os cursos presenciais estão caindo e há um crescimento nos cursos a distância. Há casos como o de cursos preparatórios para o Enem em que o ensino 100% on-line funciona muito bem”, afirma. “Mas em cursos universitários, o sentimento de pertencer e de ter contato com outras pessoas é fundamental. Nesse caso, a tecnologia é usada para complementar o ensino presencial.”

Educação lidera startups brasileiras. 3

RECONHECIMENTO FACIAL E ROBÔS NA SALA DE AULA

A USP inovou no vestibular deste ano e utilizou a biometria facial no processo seletivo da Fuvest para aumentar o controle de segurança do exame e agilizar a identificação dos vestibulandos. A tecnologia substituiu a coleta da impressão digital feita em papel. O sistema foi criado por um time de profissionais com mais de 15 anos de experiência em biometrias que desenvolveu, com a equipe técnica da Fuvest, um aplicativo que compara as faces dos candidatos presentes com as fotos das matrículas. A Full Face, startup brasileira especializada em biometria facial, percebeu que havia essa demanda no setor educacional e começou a atuar no segmento. A empresa desenvolveu um algoritmo facial que transforma a imagem original em números, o que traz mais segurança e privacidade. No sistema, não existe a foto da pessoa, mas um registro com 16 mil dígitos. “O processo fica mais rápido, porque ocupa menos espaço”, diz Danny Kabiljo, CEO e fundador da Full Face. “Trabalhamos com a autenticação de alunos em provas online, presença em salas de aula e controle de acesso pelas catracas.”

CANTA, DANÇA, CONVERSA 

Assim como o reconhecimento facial, os robôs também têm invadido as salas de aula. A Somai é a representante oficial no Brasil do robô NAO, criado por franceses. No Recife, a máquina de 57cm interage com 40 mil alunos e uma em cada dez escolas municipais já usa o robozinho, que surgiu no ensino fundamental e hoje é utilizado no ensino médio. O NAO é uma máquina que dança, canta, anda e conversa. Equipado com câmeras, microfones, autofalantes e vários sensores, entre eles sensores táteis, de pressão e sonares. Tudo isso permite que reconheça face, voz e expresse emoções, fazendo com que a programação da sua capacidade de interação seja contínua. Os robozinhos também estão sendo utilizados para ajudar crianças com déficit de atenção, síndrome de down, autismo e para quem tem Alzheimer. Matar aula será cada vez menos divertido.

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ANIMAIS MÁGICOS

O homem não é a única espécie que faz uso de artimanhas visuais; aves, répteis e insetos recorrem a estratagemas para se disfarçar ou criar percepções equivocadas, a fim de enganar tanto possíveis pretendentes quanto potenciais predadores e até aqueles que desejam transformar em sua próxima refeição.

Animais mágicos

Nas florestas da Austrália e da Nova Guiné, vive uma criatura muito curiosa. Do tamanho de uma pomba, a ave é brilhante na arte da construção, mas também no ilusionismo. O pássaro-pavilhão (Chlamydera nuchalis) – um primo dos corvos e das gralhas – tem um ritual de acasalamento elaborado, marcado pela habilidade do macho de criar uma perspectiva forçada. Como é isso? Durante todo o ano ele constrói e mantém com muito cuidado sua “obra arquitetônica”: um corredor com cerca de 60 centímetros de comprimento feito com gravetos, que dá para um pátio decorado com seixos, conchas e ossos, com pouca variação de cores (veja imagem ao lado). Algumas espécies acrescentam também flores, frutas, penas, tampinhas de garrafa, cascas de nozes, brinquedos abandonados e qualquer outro objeto encontrado que sirva de ornamento. O macho toma enorme cuidado para arrumar os objetos de acordo com o tamanho, de modo que as peças menores fiquem mais perto da entrada do caramanchão e os itens menores, mais longe.

A estrutura exuberante não é um ninho. Seu único propósito é atrair a fêmea para o acasalamento. Uma vez completa a construção, o macho faz uma apresentação no pátio para a visitante, instalada no meio do corredor para a apreciação do espetáculo.

O pássaro canta, dança e desfila, brincando com alguns objetos que escolhe para impressionar sua potencial companheira. O ponto de observação da fêmea é bastante estreito, de modo que ela percebe os objetos que cobrem o pátio como se fossem todos do mesmo tamanho. Essa perspectiva forçada faz com que as prendas oferecidas pareçam grandes e, portanto, mais tentadoras.

Os objetos, e o próprio macho, são percebidos como se fossem maiores do que realmente são graças a um efeito visual chamado pelos cientistas de ilusão Ebbinghaus, que faz com que as coisas pareçam superdimensionadas quando são circundadas por objetos menores. É como diz aquela máxima: se quer parecer mais alto, ande em companhia de pessoas mais baixas que você. Em 2012, os ecólogos Laura Kelley e John A. Endler, ambos então na Universidade Deakin, na Austrália, confirmaram que entre os pássaros-pavilhão que viviam em Queensland, o grau de desempenho do macho ao criar essas ilusões constitui um prognóstico para o sucesso do acasalamento. Embora o comportamento da ave seja curioso, os pássaros-pavilhão são somente um dos muitos animais que empregam regularmente a duplicidade visual para permanecerem vivos e se reproduzirem. O fato de a ilusão visual não ser incomum no reino animal talvez ajude a explicar por que tantas culturas têm histórias de bichos trapaceiros – como o coelho que cria estratagemas para enganar a tartaruga ou o lobo nas fábulas de Esopo, ou mesmo o coiote dos mitos dos nativos indígenas americanos. Como costuma acontecer, porém, a realidade ultrapassa a ficção: as adaptações constituem argumentos para dizer que as ilusões não são simplesmente erros de percepção, mas também estratégias capazes de promover vantagens significativas. Alguns animais fazem mudanças em seu ambiente, como os pássaros-pavilhão, mas muitos outros transformam sua aparência ou comportamento para enganar um inimigo potencial ou uma refeição inocente. Analisamos aqui as três principais ilusões de que os animais lançam mão para alterar sua aparência – criptismo, disfarce e mimetismo – e pesquisamos alguns dos exemplos mais extraordinários de cada um.

Animais mágicos. 2

Alguns animais são menos atraentes aos predadores, pois se assemelham a objetos familiares inanimados ou não comestíveis. Por exemplo, a larva da borboleta gigante rabo-de-andorinha (Papilio cresphontes) (2) se disfarça de fezes de passarinho, assim como a aranha-da-teia-arredondada (Cyclosa ginnaga). A larva da mariposa feathered thorn (Selenia dentaria)  (1) se disfarça de galho. A semelhança não está na forma e na cor: o inseto também se posiciona em um ângulo muito semelhante ao dos galhos na planta hospedeira. De modo semelhante, pássaros do gênero Nyctibius, com a plumagem da cor de casca de árvore, se camuflam como projeções de árvore ao permanecer imóveis durante o dia. Algumas espécies têm a flexibilidade de se assemelhar a diversos objetos pouco palatáveis em seu ambiente. Lulas, com sua pele de polvo, têm talentos de camuflagem incríveis e são capazes de mudar a cor de sua pele de repente. Podem se disfarçar prontamente de pedras ou algas. Assim como o camaleão, as larvas da mariposa peppered (Biston betularia) também são capazes de variar sua coloração para se assemelhar a diferentes galhos vizinhos. Alguns predadores também fazem uso desse truque. O louva-a-deus-fantasma (Phyllocrania paradoxa) (3) se disfarça de folhas mortas para enganar insetos incautos – e transformá-los em refeição.

Animais mágicos. 3

MIMETISMO

Manchas ocelares – círculos concêntricos que se assemelham a olhos de vertebrados – são frequentes entre as mariposas e borboletas, mas podem também ser pequenos e localizados somente perifericamente ou ser grandes e centrais. As manchas menores podem desviar a atenção dos predadores da cabeça ou outras partes vitais do corpo. Já as maiores se assemelham aos olhos do inimigo do predador, o que sugere que servem para intimidar potenciais atacadores. No livro infanto juvenil O caso da borboleta Atíria (coleção Vagalume,Ática, 1996), a autora, Lúcia Machado de Almeida, se valeu dessa característica noromance policial que se passa no mundo dos insetos. Na história, o assassino usa disfarces para cometer crimes.Em 2014 o biólogo Sebastiano DeBona, pesquisador da Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, e seus colegas concluíram que o mimetismo dos olhos – enão a conspicuidade de uma mancha ocelar – era responsável por evitar predadores.Para chegar a essa conclusão, os cientistasbiólogos fizeram um experimento: mostraram várias imagens numa tela de computador a passarinhos da espécie great tits (Parus major), que se alimentam de borboletas. As fotografias incluíam corujas (quese alimentam de great tits) e borboletas dediversos tipos. Algumas das imagens de borboletas apresentavam manchas ocelares que pareciam naturais, outras não tinham nenhuma, e um terceiro grupo exibia manchas manipuladas digitalmente, com o mesmo contraste de cor que as manchas reais, mas se assemelhavam menos a olhos. Resultado: os pássaros produziam respostas aversivas equivalentes quando se tratava de manchas ocelares miméticas e dos olhos verdadeiros da coruja. E respondiam de modo menos radical aos olhos modificados. Os animais miméticos descritos são criaturas inofensivas que, em virtude de seu som, aparência, comportamento ou odor, enganam seus predadores fazendo com que sejam tomados por espécies repugnantes ou nocivas. Um exemplo disso é a mosca-das-flores, que imita os padrões e cores da abelha. Os predadores que aprenderam a se afastar de picadas doloridas serão motiva-dos a deixar esse mímico em paz.

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 CRIPTISMO

Alguns animais se mesclam ao seu ambiente para passar despercebidos pelos predadores. Essa técnica, chamada criptismo, conta com o fato de o outro animal não perceber o enganador. Em contraste, criaturas que se disfarçam ou imitam não são difíceis de detectar, porém o animal que os vê os toma por outra espécie ou por um objeto inanimado. Há uma série de modos em que os animais crípticos, como essa esperança-do-líquen (acima), evitam detecção por meio da camuflagem. Graças à coloração e aos padrões que se confundem em sua pele ou no exoesqueleto, muitas criaturas efetivamente desaparecem no pano de fundo. Outras empregam ainda comportamentos crípticos, escondendo-se em tocas ou cobrindo-se com sedimentos.

OUTROS OLHARES

MONTEIRO LOBATO PARA O SÉCULO XXI

Ao cair em domínio público, os livros do Sítio do Picapau Amarelo incentivam grandes autores infantis brasileiros a recontar as histórias de Narizinho e Emília com uma linguagem politicamente correta.

Monteiro Lobato para o século XXI

Os grandes clássicos da literatura são atemporais. Com o passar dos anos, o público leitor continua sedento da genialidade de seus autores, que souberam como ninguém traduzir emoções resistentes ao tempo. Com Monteiro Lobato (1882-1948), não é diferente. O pai de Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia nunca deixou de fazer parte da infância dos brasileiros, mesmo que autores contemporâneos tenham tomado um pouco do seu espaço. Agora, quase cem anos após a publicação de seu primeiro livro, suas criações ressurgirão. A razão da guinada é que elas caíram em domínio público. A lei brasileira determina que as obras perdem proteções de Direitos Autorais após 70 anos contados do 1º de janeiro subsequente ao falecimento do autor. Como Lobato morreu em 1948, seus livros estão liberados em 2019. Na prática, isso significa que, para lançá-los, não é mais preciso pagar por direitos autorais ou pedir autorização aos herdeiros para realizar adaptações.

Para ganhar novos leitores e lucrar com vendas de exemplares, diversas editoras estão preparando adaptações — uma rotina no mercado editorial, a exemplo do que ocorreu com “O Pequeno Príncipe” em 2015. Em relação a Lobato, lançamentos de livros e até a produção de um filme estão previstos para este ano. É o caso da Girassol Brasil Edições, que lançará o livro “Turma da Mônica — Narizinho Arrebitado”, assinado, ao lado de Lobato, por Mauricio de Sousa, outro criador consagrado de histórias infantis. Na nova versão da obra, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo ganham novas ilustrações: Narizinho tem desenho de Magali, Emília de Mônica e Pedrinho de Cebolinha. No início, Mauricio, de 83 anos, relutou em colocar o seu nome ao lado do de Lobato, de quem é fã desde criança. “Eu morava em Mogi das Cruzes, ainda uma cidade pequena do interior, e me encantei com o jeito caboclo dele descrever uma fazenda e seus habitantes”, diz à ISTOÉ. “Isso tudo estimula quem quer ser escritor ou desenhista como eu. As ilustrações dos livros de Lobato, obra de diversos grandes artistas, foram inspiradoras. O desenhista Belmonte era meu preferido.”

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EXPRESSÕES RACISTAS

Escritor nos períodos pré-modernista e modernista, Lobato revolucionou a literatura infantil. Além de traduzir para o papel a imaginação de uma criança, ele lançou ideias à frente de seu tempo, como o protagonismo feminino de Narizinho e Emília. Mas nem tudo são flores em sua obra. Lobato é bastante controverso, principalmente pelas manifestações racistas nas histórias. A principal vítima é Tia Nastácia, cozinheira que trabalha para Dona Benta e que confeccionou os bonecos vivos Emília e Visconde. Para relançar as obras de Lobato no século XXI, muitos optaram por adaptar esses trechos à etiqueta do politicamente correto. No livro de Mauricio, em vez de dona Benta ser descrita como “velha”, é chamada de “senhora”, e partes como “negra beiçuda” foram suprimidas. “A obra de Lobato não é em sua essência racista, por isso foi possível suavizar algumas expressões sem mudar radicalmente o texto”, diz Regina Zilberman, uma das maiores especialistas em Lobato, responsável pela adaptação. “Hoje em dia, temos mais cuidado com as palavras, e isso é muito bom. É só uma questão de afinar a linguagem para não criar situações embaraçosas na escola.”

O escritor Pedro Bandeira, que também compõe a lista dos maiores autores infanto juvenis, concorda com Zilberman. Ele está preparando o livro “Narizinho, a menina mais querida do Brasil”, da editora Moderna, uma adaptação do original “Reinações de Narizinho”, de 1931. “Eu não gosto de palavras como negra beiçuda, nem macaca de carvão. Se alguém quiser dizer, que o diga, mas não virá de minha autoria”, diz. Por outro lado, Bandeira diz ser contra os excessos do politicamente correto. “Outro dia eu vi o nome ‘Branca de Neve e os sete amiguinhos portadores de nanismo’. Anão é anão, não é um xingamento. Se tivermos de falar ‘o portador de nanismo’, o mundo acabou”, diz ele. Assim como outros fãs, parece difícil para Bandeira reconhecer o racismo de Lobato, mas ele não o nega. “As suas cartas e crônicas demonstram que ele era eugenista, mas em um tempo em que todo mundo acreditava na superioridade das raças. O Lobato sabia mudar de ideia. Se tivesse vivido mais, certamente teria mudado”, diz.

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PERDAS E GANHOS

Há quem defenda, no entanto, a leitura dos textos originais às crianças. É o caso de Camila Werner, que entre 2015 e 2018 foi responsável pelo selo Globinho, que edita os textos integrais de Lobato. “A literatura não está para fazer lição de moral, ela está para refletir o mundo e a gente pensar sobre ele”, diz ela. Para isso, seriam necessários mediadores que expliquem o contexto histórico em que foram escritos. “Em um país com tantos problemas na educação, será que os pais e professores vão saber conversar sobre isso?”, diz ela. No livro “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil”, fruto de uma tese de doutorado na USP, o professor e escritor Ilan Brenman defende que esconder conflitos não é saudável para as crianças, pois elas passariam a desconhecer o mundo como ele é. Ele acredita que os livros são uma oportunidade de os pequenos conhecerem e enfrentarem seus monstros interiores, no que chama de escoamento literário. “Eu nunca vi pessoas falando que leram Lobato e se tornaram racistas ou anti ecologistas. Se você tem vontade de matar uma onça e a matou no livro, a fantasia cumpriu a sua função”, diz Brenman. Ele ressalva, no entanto, que algumas adaptações não são um problema, desde que a alma da obra esteja contemplada. “O complicado é ir limpando e não sobrar nada. O politicamente correto às vezes se equivale a regimes ditatoriais, que apagam a história.”

Se, de um lado, o domínio público permite às editoras publicar sem custos autorais as obras de Lobato, de outro pode criar uma armadilha. O governo não compra livros nessas condições e assim as empresas perdem um relevante mercado. As adaptações surgem então como uma forma de vender, já que, com novos autores, surgem novos livros. No ano passado, porém, nem o Lobato adaptado — que não havia sido lançado —, nem o original — que estava para cair em domínio público —, puderam ser inscritos no Plano Nacional do Livro Didático 2019 e 2020, cujos editais selecionam os livros das escolas públicas. “Quem ganha com o domínio público de Lobato é a sociedade brasileira”, diz Pedro Bandeira. Os textos originais estão disponíveis gratuitamente em sua integridade para que o público possa conhecer a literatura da época e fazer os seus próprios juízos de valor.