A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANGÚSTIA: A PATOLOGIA DA VIDA PÓS-MODERNA

A sociedade contemporânea mudou o perfil do homem, e a Psicanálise é um caminho no qual o sujeito busca alternativas para aliviar suas dores e criar uma responsabilidade por si e também pelos outros

Angústia - a patologia da vida pós-moderna

A sociedade pós-moderna vem se transformando de uma forma galopante. O homem que a opera é um ser tomado pela sua própria ânsia de sempre se superar e está sentindo na pele os reflexos de sua criação. De um lado tem-se o avanço científico e tecnológico, que facilita a vida do homem, e de outro lado tem o dilema de ter que enfrentar os efeitos colaterais de sua própria criação.

Hoje, as pessoas se deparam com uma sociedade narcísica, onipotente, onipresente, onisciente, centrada no modelo do capitalismo selvagem, que está deixando o sujeito suspenso no estado de desamparo, pois acabou por centrar-se apenas em si mesmo, esquecendo de que existe um outro que é essencial em uma relação entre humanos. As mudanças contínuas que acontecem no mundo estão definindo o modo de ser do homem pós-moderno.

Freud, criador da Psicanálise, em sua obra memorável de 1930, coloca que o homem tem sua própria natureza de lidar com o “mal-estar da civilização”, e a forma de amenizar esse estado está centrada no estabelecimento de relações saudáveis entre os seres, que começam com as relações parentais.

Para que haja uma constituição psíquica saudável é preciso um modelo familiar equilibrado, pautado no afeto amoroso, no amparo e na lei que interdita a demanda de gozo infindável do infante. A criança nasce totalmente dependente de um adulto, este que mantém sua sobrevivência, e daí surge a constituição psíquica que se dá na primeira infância (0 a 9 anos). Isso significa que a criança precisa de uma relação afetiva que a ampare, proteja e signifique o mundo interno e externo. E nesse processo é necessário que o adulto imponha limites que protejam a criança, garantindo sua evolução física e psíquica. É o sujeito adulto que faz isso, nenhuma outra coisa substitui essa relação. Mesmo havendo o estabelecimento desses laços, as pessoas estão fadadas a lidar com as frustrações, com a dor, com a incompletude; nas relações humanas, algo sempre escapa, pois todos são seres culturais.

A cultura impõe suas condições, ninguém fica fora dela. Pode-se observar esse movimento ao longo da história da humanidade. Por exemplo, pode-se citar o modelo da sociedade vitoriana, que predominou até o início do século XX, que era um modelo de sociedade repressora, impunha valores morais rígidos, fundados no poder patriarcal. A sociedade era organizada de uma forma vertical, pois a lei maior era do “pai”, e não podia ser questionada. Essa organização social deixou seus rastros registrados nas neuroses (histeria, neurose obsessiva e fobias).

Hoje, houve uma ruptura com o modelo vitoriano. As mudanças vêm ocorrendo desde os anos 1960, abrindo novos vértices para a constituição da sociedade pós-moderna, que se pauta na liberalidade sexual, social, política e cultural da vida moderna. A modernidade impõe suas condições ao sujeito, cuja principal característica foi o individualismo. Nesse modelo o outro foi perdendo espaço e consistência, a relação interpessoal ficou diluída, liquidificada. O homem modelo é o da consciência, herdeiro do cartesianismo e do discurso das ciências. Ele se empodera do conhecimento e traz a tecnologia como instrumento de transformação.

Freud surge nessa época, anunciando que o ser não é o da consciência, é determinado por uma “coisa”, denominada inconsciente, que imputa suas ações. Ele diz que o homem é um ser de desejo e não da consciência. É uma mudança de paradigma na concepção do entendimento humano. A ideia do homem soberano, racional e detentor de todo saber é abalada. Freud anuncia que o comportamento do homem está atrelado a uma representação inconsciente que ele não domina. O movimento pulsional ultrapassa os limites da consciência, o que pode ser constatado pelos sintomas que trazem sofrimento, e este, se não consegue evitar. Esse movimento desejante é dinâmico e incessante e vai definir as características da vida pós-moderna.

O homem moderno empoderado do seu narcisismo traça o psiquismo da geração pós-moderna. Hoje, há uma busca infindável de realização de desejo. Desejo, para a Psicanálise, é diferente de vontade, é um impulso inconsciente que atende o princípio do prazer. Este, por sua vez, é insaciável, insólito, inefável. Não há limite para o gozo, tornando-o um processo mortífero que aprisiona. Essa é a característica da modernidade.

A sociedade pós-moderna se organizou horizontalmente. O poder do “pai” foi quebrado, a lei enfraquecida. Agora, os desdobramentos disso se dão pela falta de limite, incapacidade de lidar com as frustrações, desamparo, violência, empobrecimento da subjetividade e o esvaziamento interno pela falta de simbolização. É a sociedade robótica.

RELAÇÕES PARENTAIS

Psicanálise mostra que o sujeito é constituído a partir das relações parentais. Para tal é necessário que haja um adulto com afeto amoroso e uma lei que ampare e proteja esse infante. Freud denomina como uma lei primária de castração, que é primordial para que haja a organização subjetiva de um ser humano. Para que se tenha desejo é necessário que haja uma falta, e isso é o que a sociedade pós-moderna quer eliminar totalmente. Essa cultura prega que se pode ter todos os prazeres possíveis, ela fornece todos os objetos para o sujeito gozar, estão disponíveis no mercado, estão à mostra nas vitrines, nas esquinas, nas ruas; quem tem dinheiro compra, quem não tem tira de quem tem e compra. Se adoecer, também tem como comprar a cura, pois a doença está mercantilizada pelos laboratórios, que fabricam as pílulas mágicas. O consumo desenfreado, a flexibilidade das ideias e dos costumes, o pensamento fragmentado e automatizado, a falta de ideais políticos e sociais, a vulnerabilidade e o despreparo emocional abrem caminho para o desapontamento amoroso e criam uma onda de medo, dúvida e desamparo.

Esse modus operandi da pós-modernidade desfavorece a formação de laços saudáveis, instalando vínculos patológicos. Diante desse cenário, o homem depende cada vez menos do outro e instala a lei do vale-tudo. O afeto amoroso está cedendo lugar para o agressivo. Trata-se de uma sociedade que valoriza os meios e não os fins e, em consequência, os valores morais e éticos estão fragilizados e superficiais. As ofertas são infinitas para que o sujeito possa tapar os buracos deixados pelo esvaziamento da subjetividade.

A sociedade esvaziada de linguagem simbólica convoca o ato, e a objetivação ocupa o lugar da subjetivação – é o que se tem observado como sintoma da atualidade. O discurso está cedendo lugar para a imagem, para o imaginário, criando um terror sem nome que faz com que o sujeito vá para o ato para se aliviar do alto grau de angústia.

NO DIVÃ

A clínica psicanalítica está repleta de queixas referentes a mutilações, atitudes passionais, dependências químicas, consumismo, síndrome de pânico, explosões violentas, alto grau de somatizações físicas e mentais, podendo chegar no ponto máximo do ato, que é o suicídio. Recentemente, a mídia vem divulgando o jogo da Baleia Azul, no qual jovens entram em um jogo de morte, pois o máximo é tirar a própria vida. É, sem dúvida, algo preocupante, mas é preciso pensar que isso é apenas o reflexo da loucura social que está sendo produzida. Esse modelo convoca atos violentos, como morte, assassinatos e suicídios, pois acaba sendo a forma que se encontra para aliviar a dor da angústia, provocada pela impotência, da fissura, aniquilamento e falta de completude fusional dos amantes.

A sociedade está doente por falta de simbolização, de discurso de ética. É fundamental pensar novos vértices, que possam conduzir a vida humana a voltar-se para o processo de humanização. Para tanto, precisa-se de esforços interdisciplinares, pois o sujeito está acometido por comorbidades múltiplas, que favorecem a prevalência da pulsão de morte.

 RELAÇÃO SEGURA

Psicanálise é um processo terapêutico especifico, que tem como pilar o estabelecimento de uma relação segura e de confiança entre paciente e analista. Traduz-se pela transferência, pautada pela ética e conduzida pela técnica. Esse processo permite que o paciente tenha uma experiência singular e, no processo transferencial com o analista, vai encontrar um campo para se reinventar.

A transferência é um termo técnico que Freud utiliza para definir a relação paciente-analista. Nesse campo o paciente direciona para o analista as vivências de protótipos infantis experienciados com as figuras parentais. Como o inconsciente não tem tempo, espaço, limite, contradição, o analista pode trabalhar em tempo real os afetos ligados às figuras parentais, possibilitando que o sujeito faça uma reorganização psíquica.

A Psicanálise é um caminho que o sujeito pode buscar para aliviar sua dor e criar uma responsabilidade por si e pelos outros, além de novos segmentos da sociedade, como saúde, família, sociais, políticos etc. É preciso que as pessoas se movimentem no sentido de refletir sobre os danos causados ao homem, e buscar uma nova maneira de preservá-lo, porque sem o homem não se tem sociedade, não se tem nada. A sociedade está doente, sangrando, e é imprescindível união para curá-la.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.