A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTADO EMOCIONAL COMPROMETIDO

Uma condição frequente na população, entretanto pouco comentada, ainda mais ao pensarmos sobre seu impacto na qualidade da vida sexual, é a incontinência urinária

Estado emocional comprometido

A incontinência urinária se constitui em um problema de saúde pública, em especial na população feminina. Estima-se nos Estados Unidos que a prevalência de incontinência urinária ocorra em cerca de 15% das mulheres. Em relação à faixa etária, ela pode afetar pessoas com 30 anos de idade ou mais, muito embora seja mais comum após os 40 anos, e significativamente mais elevada entre os 50 e 69 anos de idade; outros países referem índices semelhantes, inclusive no nosso. Sua evolução costuma ser acompanhada por sequelas emocionais e sociais importantes.

Em linhas gerais a incontinência urinária pode ser classificada em:

INCONTINÊNCIA URINÁRIA DE ESFORÇO: perda involuntária de urina durante esforço físico como tossir, espirrar e outras atividades que elevem a pressão abdominal.

BEXIGA HIPERATIVA IDIOPÁTICA: perda involuntária de urina precedida de forte desejo de urinar.

INCONTINÊNCIA MISTA: aquela que combina os sintomas citados anteriormente. A incontinência urinária de esforço é a que tem sido mais relatada e em consequência diagnosticada. Estudos comentam que episódios de incontinência urinária também estão associados à menopausa, obesidade, doenças crônicas, tabagismo e sedentarismo.

Avanços têm ocorrido para a melhor compreensão dessa condição, suas causas, diagnóstico e terapêutica. Embora muitas mulheres sofram por apresentarem queixas de perdas urinárias, somente um quarto delas procura tratamento. A maioria alega sentimentos de vergonha e medo, como sendo os responsáveis por não procurarem tratamento especializado, tanto em fases inicias da perda urinária como nas mais avançadas, nas quais a perda atinge proporções que geralmente causam grande desconforto. As razões para não procurar tratamento para a incontinência urinária têm sido assim descritas: não considerar a perda urinária séria ou anormal, acreditar que a queixa faz parte do processo natural com o avançar da idade, baixa expectativa de existir um tratamento adequado, pouco conhecimento sobre o assunto, carência de centros de saúde disponíveis e capa- citados no manejo dessa problemática, e como procurar ajuda.

Apesar do impacto da incontinência urinária na qualidade de vida não estar diretamente relacionado ao grau da perda urinária, estudos demonstram que mulheres com menor perda têm melhor tolerância com essa situação. Os sintomas urinários podem ser perturbadores, tanto é que essa condição é frequentemente mencionada em estudos que avaliam a qualidade de vida. As alterações provocadas pela incontinência urinária podem repercutir em diversos setores da vida das mulheres, por exemplo: trabalho, relacionamento familiar e com a parceria, prática esportiva, atividades de lazer, entre tantos outros.

A relação entre doenças crônicas e/ ou situações de sofrimento prolongado com o humor e a autoestima é amplamente discutida, e essa associação pode interferir no ciclo de resposta sexual normal, acarretando em disfunções sexuais. O mesmo pode acontecer nas mulheres com incontinência urinária, ou seja, a sua correlação com sintomas depressivos.

Além de os sintomas da incontinência urinária interferirem diretamente na qualidade do sono, a sua existência é acompanhada por sentimentos de vergonha, diminuição da   autoconfiança e autoestima – emoções essas comentadas pela maioria das mulheres com queixas de perda urinária. Esses sentimentos refletirão no psiquismo como um todo, portanto a disponibilidade para o engajamento em uma atividade sexual estará comprometida, e não é incomum ouvirmos das pacientes que o desejo sexual e práticas sexuais como a masturbação estão afetados.

Com a finalidade de diminuir as perdas acidentais de urina, muitas mulheres passam a adotar comportamentos de esquiva social; do mesmo modo, não é incomum no relato das pacientes com perdas urinárias mais pronunciadas atitudes de evitar o contato sexual, em decorrência do receio de uma possível situação de constrangimento durante o ato sexual.

É notório que os aspectos emocionais e de relacionamento estão envolvidos na gênese das disfunções sexuais, mas cada mais vez evidências demonstram que as disfunções sexuais femininas estão relacionadas a problemas de origem orgânica, uma vez que a resposta sexual saudável depende da interação entre diversos fatores, como vasculares, neurogênicos, musculares e hormonais.

 

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

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OUTROS OLHARES

A NATUREZA SOB RISCO

Relatório das Nações Unidas, fruto do trabalho de 145 cientistas de cinquenta países, conclui que uma em cada oito espécies pode ser extinta em poucas décadas.

A natureza sob risco

Qual o real impacto das ações humanas na vida – mais exatamente na sobrevivência – de outros animais e das plantas do planeta? Até a semana passada, não se sabia ao certo a resposta para essa incômoda questão. Na segunda-feira 6, contudo, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um amplo levantamento que dimensionou as consequências mais concretas do avanço civilizatório, desde a pré­ história, sobre os seres vivos, com especial destaque para o que ocorreu nas últimas cinco décadas.

Ao longo de três anos, 145 cientistas de cinquenta países – ligados à Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o braço da ONU responsável pela compilação – se debruçaram sobre 15.000 artigos científicos para chegar aos resultados. O cenário é alarmante. Dos cerca de 8 milhões de espécies de animais e plantas existentes no globo, 1 milhão está sob ameaça de extinção. No continente, o principal grupo de risco são os anfíbios – 40% deles podem desaparecer em poucas décadas.

Nos oceanos, o perigo é maior para os mamíferos com um terço no limiar. Contribuiu decisivamente para isso o fato de que 47% dos ecossistemas foram reduzidos – o que pôs sob ameaça fatal um quarto de todas as espécies de plantas e animais da Terra estudadas mais afundo. Em números absolutos, a natureza sofreu em um patamar ainda maior. Estima-se que a biomassa global – a soma da massa de todos os organismos vivos – dos mamíferos selvagens tenha sido reduzida em 82%. Somente a partir de 1900, a quantidade de espécies nativas de cada hábitat caiu, em média, 20%.

O relatório identificou os principais fatores que causaram esta trágica situação. São eles: a alteração no uso do solo e dos oceanos, acarretando problemas como o da poluição; a exploração direta dos recursos naturais, o que leva, por exemplo, ao desmatamento; a inserção de espécies não nativas em determinados hábitats desequilibrando-os; e, em especial, as mudanças climáticas que afetaram o mundo, ocasionando o aumento de 1 grau na temperatura global desde a Revolução Industrial. As Nações Unidas, por meio de outro órgão ambiental de seu organograma, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), pressionam os 193 países-membros a adotar medidas de mitigação capazes de conter o avanço do aquecimento da Terra. Se essas ações não forem eficientes a elevação poderá chegar a 4 graus até o fim deste século. Em consequência desse aumento, ao menos 16% de todas as espécies de seres vivos poderão ser extintas.

A raiz do problema está em como a atividade humana – da expansão urbana ao despejo de gases do efeito estufa na atmosfera – interfere nos chamados serviços ecossistêmicos. Qualquer alteração no meio ambiente promove uma consequência em cadeia que chega a levar a alterações radicais no balanço natural, afetando regimes de chuvas, a polinização de plantas e a produção de alimentos, para ficar em apenas alguns aspectos. Trata-se de uma derivação da conclusão da Hipótese de Gaia, formulada na década de 70 pelo cientista ambientalista James Lovelock, segundo a qual o equilíbrio químico da atmosfera e de outras partes de um planeta é determinante para a manutenção da biomassa e da biodiversidade. Ou seja, quando se aumenta o desmatamento em uma floresta, interfere-se também, por exemplo, na produção de chuva, do mesmo modo que, se houver redução da população de abelhas em certo local, ocorrerá interferência na germinação das flores – e, como efeito indireto, na oferta de alimentos aos animais que habitam aquela área.

O ser humano, claro, também não escapa dessa cadeia. Mais de 2 bilhões de pessoas dependem, por exemplo, da queima de carvão como fonte de energia primária, 4 bilhões necessitam de medicamentos orgânicos, como as ervas, para sobreviver – vale ressaltar que cerca de 70% dos fármacos para tratamento de câncer dependem de produtos naturais. Se há diminuição da oferta desses recursos, por causa da devastação do meio ambiente, seus preços sobem, o que pode fazer com que muitos indivíduos deixem de ter acesso a tais produtos.

Na divulgação do levantamento da ONU, os cientistas foram taxativos quanto à exatidão dos resultados. “Conseguimos assegurar uma base muito sólida de provas que confirmam o declínio da natureza em termos globais. Os dados também mostram a evidência, irrefutável, da escala da queda de biodiversidade “, disse o antropólogo brasileiro Eduardo Brondízio, da Universidade de Indiana (EUA), um dos coordenadores do trabalho. Para ele, tornou-se inegável que o responsável pelo cenário devastador é o ser humano. “Criou-se um efeito cascata na sociedade e na natureza”, concluiu.

Se os responsáveis pelo estudo fizeram questão de não relativizar as ameaças que pairam sobre o planeta, também foram incisivos quando disseram que ainda há tempo de reverter as previsões mais catastróficas. Para tanto, a providência seria incentivar governantes a adotar políticas sustentáveis em seus países. Os cientistas apontaram, por exemplo, em conclusão inédita qual seria o papel de comunidades tradicionais, como as indígenas, na preservação do meio ambiente. Segundo o levantamento, 35¾ das áreas protegidas da Terra dependem do cuidado dessas sociedades. Ocorre, no entanto, que, em vez de atentarem para isso, muitas nações têm seguido o caminho oposto. Atualmente, os povos indígenas sofrem com a deterioração de algo em torno de 70¾ dos indicadores da natureza que seriam fundamentais para a manutenção de seus hábitos cotidianos.

O biólogo americano Thomas Lovejoy – um dos mais renomados ambientalistas do planeta e autor de um artigo sobre o novo levantamento da ONU, publicado também na segunda-feira 6 na revista dos EUA Science Advances – disse o seguinte “Os líderes nacionais que negam toda essa realidade estão prestando um desserviço em âmbito local e global A boa notícia é que países como o Brasil e os Estados Unidos possuem altos níveis de conhecimento sobre as dificuldades ambientais que o mundo enfrenta”. De acordo com um estudo realizado pela ONG ambientalista WWF, no Brasil, as espécies ameaçadas somam 3.286, sendo 1.173 de exemplares da fauna e 2.113 da flora. Do total não há nenhuma medida de proteção a 316 dessas espécies. No território nacional, 77% dos seres vivos ameaçados de extinção encontram-se nessa categoria por causa da degradação de seus hábitats.

“O Brasil é a maior potência de biodiversidade da terra. O relatório da ONU aponta Problemas  conhecidos, e agora precisamos dos meios para enfrentá-los”, afirmou o engenheiro florestal André Ferretti, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. “Já há tecnologias e métodos que atendem às necessidades conservacionistas. O que falta é direcionar recursos financeiros para isso, o que só será possível de conseguir por meio de políticas públicas apropriadas.” Nesse quesito o país não anda bem. Basta levar em conta que, nas últimas duas semanas, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou uma série de cortes em instituições ambientais. A verba destinada ao Ibama, por exemplo, teve diminuição de 24% (de 368,3 milhões de reais para 279,4 milhões). O que seria alocado para a Política Nacional sobre Mudança do Clima caiu de 11,8 milhões de reais para míseros 500.000 reais – uma redução de 96%.

 MARCAS DA DESTRUIÇÃO

O levantamento da ONU compilou 15.000 estudos para retratar a dimensão da devastação ambiental decorrente da civilização. Conheça as principais causas e consequências das ações promovidas pela humanidade ao longo das últimas cinco décadas.

A natureza sob risco 2

GESTÃO E CARREIRA

A REGRA É SER VOCÊ MESMO

Para promover diversidade e melhorar o bem-estar dos funcionários, cada vez mais empresas liberam o dress code.

A regra é ser você mesmo

Com 27 tatuagens e dreadtoch no cabelo, Camila Ferrigno, de 48 anos, chama a atenção no escritório. Além do visual, sua postura é autêntica. Ela não esconde ser bissexual e fala com naturalidade sobre a opção pelo xamanismo – que busca conexão com o sagrado por meio da natureza. Gerente de RH da Roche Diagnóstica, divisão da farmacêutica suíça que fabrica equipamentos e reagentes para análise médica, Camila ilustra uma importante transformação que vem ocorrendo no mundo corporativo. O modelo rígido que se sustentou por décadas, com obrigatoriedade de salto alto para as mulheres e terno e gravata para os homens, está na berlinda. O número de empresas liberando o dress code e defendendo que as pessoas assumam seu estilo dentro das corporações só cresce.

Os códigos sobre o que usar no trabalho começaram a ser colocados em xeque na virada do século 21, quando chefes de novatas da tecnologia, como Google e Amazon, faziam os negócios crescer vertiginosamente sem abrir mão das calças Jeans e camisetas. Figuras como Steve Jobs ajudaram a quebrar o padrão corporativo, dando um recado sutil de que quem vê imagem não vê talento.

De que adianta ter gente engomada, mas sem criatividade? “Aos poucos, questionamentos sobre a necessidade de regras para se vestir ganharam força e, hoje, estão provocando transformações em setores tão conservadores e sisudos quanto o financeiro”, diz Maria José Tonelli, professora titular no departamento de administração e recursos humanos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Tanto que até o gigante Goldman Sachs entrou na onda. No mês passado, o quinto maior banco dos Estados Unidos surpreendeu os 36.000 funcionários com um comunicado sobre o fim das exigências. A instituição foi sucinta: “Roupas casuais não são apropriadas a todas as situações. Nós confiamos em seu bom senso. Vista-se de acordo com as expectativas do cliente”.

Em terras brasileiras, o Itaú está dando o exemplo. Dez meses atrás, o banco brasileiro se desapegou do velho ranço do pretinho básico e criou a campanha “vou como sou”. Nela, os 86.000 empregados, incluindo os de agências, foram liberados de formalidades. Com sabedoria, quase tudo é permitido, inclusive bermuda, tênis e sandália rasteirinha. “Até nosso presidente (Candido Botelho Bracher) tem circulado de Jeans pela companhia. Uma pessoa não é mais competente porque usa salto ou gravata. Cabelo comprido ou tatuagem também são partes da identidade. Nós queremos os indivíduos por inteiro e felizes. A infelicidade não produz”, diz Andrea Pinotti, diretora de RH.

Embora seja difícil correlacionar diretamente o dress code com produtividade, faturamento e lucro – esses resultados dependem de uma somatória de fatores – , a maior parte dos executivos de pessoas defende que permitir aos trabalhadores usar aquilo que os deixa à vontade torna o ambiente descontraído e ajuda a despertar a criatividade e a inovação, fatores essenciais para a sobrevivência dos negócios na era da disrupção. Ao incentivar que as pessoas sejam quem realmente são, no entanto, a empresa deve orientá-las.

Casos como o do Goldman Sachs, que liberou geral e apostou no bom senso, podem não dar certo. Mapear pontos críticos é fundamental para evitar mal-entendidos. Andrea Pinotti e sua equipe, por exemplo, chamaram funcionários de todas as áreas do banco para conversas informais. A ideia era colher opiniões sobre o tema, sentir a receptividade à mudança e captar os desafios que teriam de ser superados.

A campanha foi lançada com um vídeo explicativo, e dicas de moda foram divulgadas nos canais de comunicação interna. “Depois de 20 anos de terno e gravata, muita gente tinha medo de errar. Foi pensando nelas que elaboramos esse material com sugestões de combinações”, afirma a executiva. O banco incentivou os empregados a postar selfies na intranet mostrando o novo visual. A adesão foi tão positiva que o Itaú nem precisou prosseguir com outras ações que estavam programadas para dar sustentação ao programa. “Ao longo destes dez meses, não vi ninguém com roupa de praia ou qualquer escolha inadequada”, afirma Andrea. De imediato, a RH afirma que o pessoal está mais relaxado – no bom sentido. “Ainda é cedo para falar em aumento da performance, até porque é difícil fazer correlação. Mas, de maneira geral, os times parecem mais descontraídos e felizes. Vamos confirmar isso futuramente em nossa pesquisa de experiência do funcionário”, diz.

ALÉM DO VISUAL

De acordo com especialistas, a aceitação do jeito de ser não deve se restringir apenas ao guarda­ roupa. É preciso abrir a mente da organização, coordenando o fim do reinado de ternos e terninhos com uma transformação da cultura organizacional. Sozinhas, novas diretrizes de etiqueta não dão conta de tornar a empresa mais moderna, ágil e flexível.

Para conseguir uma mudança que impacte verdadeiramente a forma de pensar e de fazer negócios, o primeiro passo é mexer no mindset da liderança. Se os chefes não desconstruírem o próprio imaginário, passando a aceitar a indumentária e a história de cada subordinado, a metamorfose não acontece. Isso porque um programa “vem de você” bem estruturado pressupõe acolher as diferenças. Mais do que liberar o uso de roupas descoladas no expediente, a prática deve englobar fatores subjetivos, como personalidade, origem familiar, religião, visão de mundo e desejos. “Hoje, as pessoas querem se expressar. Se não forem ouvidas, elas vão embora, em especial as da nova geração”, diz Raissa Lumack, sócia da consultoria Blue Management Institute (BMI). De acordo com ela, se a hierarquia for engessada, não adianta mandar as pessoas ser quem são. “Deve-se acabar com essa coisa de andar e restaurante exclusivos para diretor e de secretária  ‘leão de chácara’ que inviabiliza o acesso aos executivos. Isso é do século passado.

Na Roche Diagnóstica, o programa No Dress Code foi lançado em janeiro deste ano. Mas ações para estimular a livre manifestação de ideias e sentimentos entre 350 empregados foram implantadas antes, em 2018. “A vestimenta é a primeira liberdade de expressão, mas não é a única”, analisa Henrique Vallati, diretor de RH da multinacional no Brasil. Para colocar esse discurso em prática, a organização criou uma espécie de Linkedln interno, no qual, além de se conectar com colegas, os empregados gerenciam a carreira, indicando o que gostariam de fazer. Antes de ser gestora de RH, Camila, que abre a reportagem, era diretora de serviços. “Tive burnout e, quando me recuperei, decidi que não queria continuar, ainda que estivesse no comitê executivo. Para muitos, foi um passo atrás, mas quis fazer essa mudança e encontrei apoio.”

A regra é ser você mesmo. 2

DEMANDA JOVEM

Embora o Vale do Silício seja fiador desse tipo de mudança no mundo corporativo, há outro fator importante a ser considerado: o perfil da nova geração. Maria José Tonelli, da FGV, está concluindo uma pesquisa que mostra que os jovens não desejam mais trabalhar nas grandes multinacionais só porque elas têm uma marca forte. “Se a empresa não se encaixar no propósito deles, eles vão embora”, afirma a estudiosa. Nesse sentido, ou as organizações flexibilizam as regras ou serão irrelevantes para os novos talentos. Por isso, é recomendável comunicar a ausência de trajes específicos já na fase de recrutamento, de maneira a fortalecer a marca empregadora.  Na Atento, multinacional espanhola de atendimento ao cliente, segue esse conselho. “Estamos sempre reforçando, inclusive durante a seleção, que as pessoas podem ser o que são aqui dentro. Não há nenhuma restrição, nem de gênero, nem de religião, nem no jeito de se vestir”, diz Majo Martinez, vice­ presidente de RH.

As únicas restrições são chinelo de dedo e boné, ambos por questão de segurança – o primeiro para evitar possíveis acidentes e o segundo para permitir a identificação dos indivíduos. Os demais itens estão liberados, incluindo os turbantes, que voltaram à moda. Sobre esse acessório, Majo cita um episódio curioso: recentemente, foi preciso fazer um treinamento com a equipe terceirizada de segurança, que insistia em inspecionar o adereço em busca de objetos ilícitos.

Temos um ambiente de inclusão aqui, mas isso ainda não se estende à sociedade”, analisa Majo. A Atento tem 80.000 empregados, 1.300 deles usando crachá social, pois há transexuais, travestis, homossexuais, andróginos e quem prefere ser chamado por outro nome.

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CLIMA FAMILIAR

O fato é que ninguém mais quer criar uma persona no escritório. Prova disso é que uma pesquisa nos Estados Unidos com 2.653 profissionais acima de 21 anos pela MetLife, seguradora americana, mostrou que seis em cada dez pessoas dizem se comportar no trabalho como se estivessem em casa. Publicado em 2018, o estudo conclui que, na era da internet, trabalho e vida pessoal se sobrepõem. Por isso, medidas que melhorem essa experiência, como a extinção das regras de vestimenta, a flexibilização do horário e a adoção de home office, serão cada vez mais importantes para engajar e manter talentos. Raphael de Carvalho, CEO da MetLife no Brasil, é sucinto ao explicar: “Por que fazer isso? Porque é o correto a ser feito, além de bom para os negócios”. Se o profissional é competente, pouco importa a roupa que está usando.

SENTINDO-SE EM CASA NO TRABALHO

Pesquisa revela que a maioria dos profissionais se comporta na empresa do mesmo jeito que fora dela.

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ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 18 – O SEGREDO DO DIÁRIO

 

Tenho o firme compromisso de manter um diário espiritual por um motivo que engloba tudo: “A quem tiver, mais lhe será dado; de quem não tiver, até o que tem lhe será tirado” (Marcos 4.25).

Não confio em minha mente. Minha memória é como uma peneira. Se não anotar, há 99% de chance de eu esquecer. Então, quando Deus revela algo valioso para mim a partir de sua Palavra, não confio que eu vá me lembrar depois. Eu anoto. Ele foi muito gentil em me iluminar com a sua verdade e agora preciso ser um despenseiro zeloso da confiança que me foi depositada retendo, meditando e considerando como deverá impactar a forma como vivo.

Mantenho um diário por uma simples razão: estou desesperado por mais! E sei que não receberei mais, a menos que eu tenha administrado adequadamente o que já me foi dado. A única forma que encontrei de repassar as coisas que Ele me transmitiu foi escrevendo-as em um diário para poder consultá-las depois.

Portanto, quando sugiro um diário, não estou falando de um diário pessoal nem de fazer anotações do tipo: “Hoje Susan veio me visitar. Tomamos café da manhã juntos e fomos ao shopping”. Não. Estou falando de algo bem mais importante e significativo.

Faça do seu diário um local onde você relata detalhadamente as verdades espirituais que estimulam seu espírito, enquanto está no lugar secreto. Quando Deus o alimenta com este maná, registre-o. Então, examine-o mais tarde. Continue repassando essa verdade até tecer um tecido de sua experiência e conduta cristãs.

Vamos analisar o contexto inteiro das palavras de Jesus já mencionadas anteriormente:

Então ele disse para eles: “Considerem atentamente o que vocês estão ouvindo, continuou ele. Com a medida com que medirem, vocês serão medidos; e ainda mais lhes acrescentarão. A quem tiver, mais lhe será dado; de quem não tiver, até o que tem lhe será tira­ do”. – Marcos 4.24-25

Estava lendo essas palavras de Jesus enquanto observava um jogo de futebol americano na TV: “A quem tiver, mais lhe será dado”. Então, apliquei isso à linguagem do futebol: “Quem recebe o que é lançado para ele, terá a bola lançada novamente”. Os melhores receivers (recebedores) obtêm mais oportunidades. Se um receiver (recebedor) continuar deixando a bola cair, o quarterback (lançador) irá parar de arremessar para ele. Da mesma maneira, se deixarmos cair o que Deus nos deu, Ele irá parar de nos dar mais.

A frase “com a medida com que medirem” refere-se à maneira como você reage e vive a Palavra que ouve. Se guardarmos a Palavra de Deus em nossos corações com grande zelo, esforçando-nos não apenas para sermos meros ouvintes, mas praticantes, então Ele nos medirá segundo a nossa percepção com o mesmo grau de diligência.

Mas a passagem também contém uma advertência clara. Se formos negligentes com as percepções que Deus nos dá, Ele retirará de nossas vidas até mesmo aquilo que pensávamos ter. Aquele que continua deixando a bola cair não só deixará de receber mais passes, como também será tirado do jogo.

Portanto, manter um diário é fundamental para mim. Estou convencido de que não consigo reter o que Deus me dá, a menos que eu anote. Se eu não fizer um diário fiel e deixar integrar em minha vida as coisas que Deus me dá, Ele retirará de mim até mesmo o que eu já tenho. O diário, então, é um elemento vital para ser fiel a Deus.

Mantenho um diário porque estou consciente de minha responsabilidade perante Deus. “Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lucas 12.48). Que eu possa ser encontrado fiel em relação às coisas que Deus me entregar!

Além disso, estou consciente de Mateus 13.12: “A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado”. A abundância espiritual não é uma garantia para todos os cristãos. Ela é assegurada somente àqueles que são fiéis com o que recebem. Portanto, uma vida abundante em Cristo não é recebida passivamente. Ela é obtida com esforço.

Deixe-me falar um pouco mais sobre o meu diário. Eu o mantenho em meu computador. Isso funciona muito mais para mim do que um diário de papel. Depois de digitar meus registros no diário, geralmente os classifico em pastas de acordo com os tópicos ou temas. Portanto, meus registros do diário tornaram-se uma biblioteca portátil dentro de meu laptop. Eles são uma matriz de recursos sobre muitos tópicos que eu posso reler quando estiver estudando determinados assuntos. Talvez você já tenha percebido, mas eu estou me baseando muito em meu diário para escrever este livro, assim como fiz em outras obras minhas que já foram publicadas.

Fiz do voto do salmista minha ambição pessoal: “Tenho prazer nos teus decretos; não me esqueço da tua palavra” (Salmos 119.16). Quando Deus me alimenta com a percepção da Palavra, adoto todas as medidas necessárias para reter aquela verdade em meu coração e em minha alma.

E eis mais um de meus segredos: anoto e examino cada anotação de vez em quando.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DITADURA DA BELEZA

Fala-se muito em transtornos alimentares entre as mulheres, mas esse fenômeno é mais comum do que se pensa no universo masculino

Ditadura da beleza

Para nós, o corpo funciona como uma espécie de mostruário. É por meio da aparência que pretendemos expor e “vender” nossa individualidade. Nesse processo, a imagem vira objeto de investimento e mercadoria. A busca pela aparência ideal jamais termina. Diante da forte pressão exercida pelo mercado de consumo, somos levados a ofertar nossos corpos com artigos que enfeitam uma carnavalesca vitrine, ao deleite e desfrute da cultura de massa.

A busca pelo físico perfeito, que antes era vista como encanação de mulher, surge então como uma urgência também masculina. Pesquisa feita entre adolescentes britânicos, por exemplo, mostrou que a cultura do corpo tem atingido igualmente meninas e meninos. Ao questionar sobre os hábitos de um grupo de 500 jovens, o estudo mostrou que cada vez mais meninos sofrem distúrbios alimentares.

Publicado recentemente no British Journal of Health Psychology, a pesquisa, coordenada pela psicóloga Emma Halliwell (do Centre for Appearance Research, da University of the West of England), mostrou que os fatores que provocam os distúrbios alimentares em rapazes são basicamente os mesmos que afetam as garotas. Ou seja, são fruto da insatisfação com a imagem corporal.

É verdade que o quadro é menos dramático para os meninos. Pelo menos é o que ressalta o artigo. Segundo o material, há algumas diferenças bastante sutis entre homens e mulheres na hora de avaliar a própria imagem: as meninas quase sempre se veem de forma depreciativa quando se comparam às amigas, considerando-se invariavelmente gordas ou feias; entre os meninos, porém, apenas aqueles que se acham muito acima do peso costumam fazer comparações negativas em relação à sua aparência.

Além de procurar entender como os jovens se sentem em relação ao corpo e como eles se avaliam perante seus ideais de beleza, a pesquisadora também levantou informações sobre os hábitos alimentares desses adolescentes. Ao responder os questionários, eles contaram se comem de modo descontrolado em algumas ocasiões, se fazem controle alimentar ou se usam algum método purgativo, como vômito ou abuso de laxantes.

Tudo indica que ainda vale a seguinte máxima: “para meninas, o importante é ser magra, para meninos, é ser musculoso”, salienta a psicóloga. Sabemos que os homens, da mesma forma que as mulheres, estão sujeitos a formar uma imagem corporal distorcida. Só que no público masculino é mais comum a obsessão por exercícios físicos. Alguns recorrem a suplementos energéticos, dietas e “bombas”, principalmente fisiculturistas. Essa preocupação excessiva é chamada de vigorexia ou complexo de Adônis (aquele personagem mitológico que é modelo de força e beleza masculina).

Quem nunca presenciou uma cena desse tipo: o constrangimento do garoto que simplesmente desiste de ir à praia por se achar magro demais (ou forte de menos)? Existem também casos em que o sujeito até é musculoso, mas não se considera forte o bastante. Note que a busca da forma perfeita, nesse caso, resulta da mesma fixação que leva certas mulheres a perseguir a magreza como um ideal. Então, vigorexia e anorexia têm em comum essa preocupação exacerbada em relação à aparência, além de uma percepção distorcida da própria imagem.

Estudos mostram que certos homens estariam mais predispostos que outros. É o caso daqueles que são obrigados a perseguir a silhueta magra e musculosa em razão do trabalho que exercem, como atletas, modelos, bailarinos e atores. Também é bastante evidente a valorização do perfil magro entre homossexuais tanto femininos como masculinos. Entre os homens com transtornos alimentares, de 10% a 42% se declaram homossexuais ou bissexuais. O índice varia de 35% a 42% entre os homens que têm bulimia. Os dados constam do livro Mentes Insaciáveis, livro sobre transtornos alimentares escrito pela psiquiatria carioca Ana Beatriz Barbosa Silva.

De acordo com os dados colhidos por ela, depois das mulheres heterossexuais, o grupo de maior prevalência dos distúrbios alimentares seria o dos homens e mulheres homossexuais. Parece que o padrão sonhado pelo grupo consiste naquele físico esguio e andrógeno bem ao estilo Twiggy, a modelo inglesa magérrima que lançou um padrão de beleza que seria abraçado por toda uma geração, tornando-se a primeira top model do mundo nos anos 60. Apesar de ser comumente tratado como “frescura” de adolescentes, o problema causa sofrimento e não deve ser banalizado por amigos e familiares. “O fato de os meninos estarem cada vez mais vulneráveis à pressão para se adequarem a padrões físicos é sintomático”, alerta Deanne Jade, porta-voz da entidade National Centre for Eating Disorders (Centro Nacional de Transtornos Alimentares) à agência BBC. “A diferença entre o que é aceitável e o que não é ficou muito pequena”, completa.

OUTROS OLHARES

O MACHISMO E A BÍBLIA

O uso de textos sagrados para reforçar comportamentos misóginos é equivocado e deve ser rechaçado a partir de uma leitura que considere o contexto histórico das Escrituras.

O machismo e a Níblia

Os equívocos hermenêuticos da visão bíblica e teológica a respeito da mulher deveriam ter ficado na poeira da história, mas ressurgiram com força no Brasil contemporâneo – um reflexo de antigos ensinamentos fora de contexto propagados em igrejas lideradas por homens e da mentalidade de setores evangélicos que ocupam a cada dia mais espaço no noticiário. Intérpretes fundamentalistas defendem a ideia de que os textos bíblicos exigem a subordinação total da mulher ao homem ou, no mínimo, sendo a mulher casada, que ela deva ser submissa ao marido.

As passagens mais utilizadas para sustentar essa desigual relação entre homem e mulher são extraídas dos escritos de São Paulo. Diz, por exemplo, o apóstolo: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja” (Efésios 5: 22-23,) e “a mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio” (1Timóteo 2:11-12). Interpretados fora de seu contexto histórico e tomados como mandamentos literais, tais textos perpetuam a estrutura patriarcal e machista das culturas que foram o berço da tradição bíblica.

Os tempos bíblicos, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, eram absolutamente masculinos. Dias difíceis para ser mulher. O mundo helênico onde viveu o apóstolo Paulo não guardava o menor apreço pelo gênero feminino. Aristóteles acreditava que a mulher era “um homem malfeito”. Seria destituída de alma racional e destinada apenas à procriação. Platão e Sócrates citam um dito popular que encorajava os homens a agradecer três bênçãos ao destino: ter nascido humano, e não animal; homem, e não mulher; grego, e não bárbaro. Talvez daí tenha vindo a oração comum aos judeus dos dias de Jesus, que agradeciam a Deus o fato de não terem nascido mulher, cachorro ou samaritano – isto é, miscigenado. Por isso, o bom entendimento da Bíblia nos dias atuais exige que se leve em conta o mundo em que ela foi escrita.

O apóstolo Paulo é, na verdade, um injustiçado nessa matéria. Embora ainda limitado às tradições de seu tempo, ele foi responsável por grandes guinadas na maneira como a mulher passou a ser percebida e tratada. É de sua pena também a expressão que demanda que o marido ame a esposa como Cristo amou a Igreja (Efésios 5:22-33), conceito subversivo e revolucionário para os ouvintes originais, de um período em que o cuidado com a mulher não se mostrava uma prioridade. Em sua epístola de orientação ao jovem Timóteo, Paulo trata da questão da relação homem­ mulher, discorrendo a respeito dos dois principais argumentos utilizados em sua época para afirmar a primazia do homem: “Primeiro foi formado Adão, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher, que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora” (1Timóteo 2:13-14). Os dois argumentos fundamentais são o princípio da ordem da criação – o homem foi criado primeiro – e o princípio da ordem do pecado – a mulher foi enganada primeiro.

Ao voltarmos ao início da Bíblia, encontraremos no Gênesis a ordem da criação acompanhada de versículos que, se lidos com a intenção de exaltar o gênero masculino, reforçam a condição subalterna da mulher. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea” (Gênesis 2:18). As traduções restringem a mulher aos papéis de “ajudadora idônea” (para o homem), “auxiliar que corresponda” (ao homem), “alguém que ajude (o homem) como se fosse sua outra metade”, “alguém que ajude e complete” (o homem). O acolhimento literal e isolado desse relato reforça a noção de que a mulher foi criada por causa do homem e está a serviço dele.

Não se deve esquecer, entretanto, aquilo que diz o mesmo Gênesis, em seu primeiro capítulo, versículos 26 e 27: “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Ou seja: homem e mulher foram criados à imagem de Deus – e em pé de igualdade. Na ordem da criação, portanto, a relação homem-mulher articula-se a partir de conceitos como a diversidade e a complementaridade. A imago Dei – ou seja, a imagem de Deus – não repousa exclusivamente no homem ou na mulher, mas na unidade humana; não foi somente o homem criado à imagem e semelhança de Deus, mas toda a raça humana, numa unidade indissociável entre masculino e feminino.

Desde Eva, a mulher foi estigmatizada como causadora de males. Uma ideia perigosíssima que, perpetuada, faz com que até hoje mulheres sofram abusos e violências físicas. Basta ver os absurdos ditos por Tertuliano (160-220), o primeiro autor cristão, chamado de “Pai da Igreja”: “Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a primeira desertora da lei divina. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção – isto é, a morte -, até mesmo o Filho de Deus teve de morrer”.

 

ED RENÉ KIVITZ – é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.

GESTÃO E CARREIRA

SENHOR ESTAGIÁRIO

Saiba por que sua empresa deveria contratar estudantes com mais de 60 anos – e o que é preciso levar em conta ao abrir esse tipo de vaga.

Senhor estagiário

Pouco tempo atrás, só jovens estudantes em busca da primeira experiência profissional concorriam às vagas de estágio oferecidas pelas empresas. Embora eles continuem sendo os candidatos que mais aparecem nesse tipo de seleção, um novo público com vontade de colocar conhecimentos em prática no mundo corporativo vem surgindo no mercado: o da terceira idade. Um levantamento feito pelo Centro de Integração Empresa­ Escola (CIEE) em seu banco de dados mostrou que, no ano passado, havia 96 estagiários acima dos 60 anos atuando no pais, o que representava 1,5% do total. São Paulo, Bahia e Pará foram os estados que mais contrataram aprendizes nessa faixa etária. Os cursos universitários com maior demanda? Pedagogia, direito e serviço social.

Embora os números sejam tímidos, eles indicam mais disposição das empresas em abrir espaço para profissionais maduros. O percentual de idosos na força de trabalho saltou de 5,9%, em 2012, para 7,2%, em 2018. No ano passado, havia 7,5 milhões de pessoas da terceira idade atuando no mercado. Considerando que o envelhecimento demográfico caminha a passos largos no Brasil, essa mudança de comportamento é um sinal importante. Para ter noção, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1 milhão de pessoas se tornam idosas a cada ano no pais. Em 2017 havia 30,2 milhões de brasileiros com mais de 60 anos.

“O envelhecimento populacional é um fenômeno observado mundialmente. O fator que mais colabora para esse cenário é a redução das taxas de fecundidade, e não o aumento da expectativa de vida. Isso quer dizer que será preciso utilizar a mão de obra da terceira idade porque faltarão jovens no mercado de trabalho”, diz Reinaldo Gregori, sócio-diretor da Cognatis, consultoria especializada em geomarketing, analytics e bigdata.

Outro ponto que as empresas devem considerar: o perfil dos idosos está em plena transformação. Hoje, mesmo depois da aposentadoria, uma  boa parcela de homens e mulheres quer continuar na ativa – seja por necessidade financeira, seja pelo prazer de sentir-se útil, como o personagem do ator Robert De Niro em Um Senhor Estagiário (2015). No filme, que emula a realidade, um executivo setentão abraça a oportunidade de estagiar em uma startup para driblar o vazio que o tempo livre lhe impôs. “Além de continuar se relacionando socialmente, muitas pessoas da terceira idade desejam adquirir conhecimentos para participar mais amplamente do mundo”, diz o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil. Por isso há um número crescente de gente que chegou aos 60 se aventurando em uma nova carreira ou indo atrás do sonho de cursar uma faculdade pela primeira vez. Dados apurados pelo Censo da Educação Superior mostram que, em 2017, havia 18.900 universitários entre 60 e 64 anos matriculados em instituições públicas e privadas do pais. Com mais de 65, o número era de 7.800. E tudo indica que a demanda seria maior se existissem políticas públicas capazes de facilitar o acesso dos idosos às salas de aula.

Na visão de especialistas, não faltam motivos para contratar estagiários mais maduros. “Além das habilidades técnicas, quem passou dos 60 já acumulou uma boa experiência de vida e, portanto, desenvolveu competências emocionais que os jovens ainda não têm”, afirma Alexandre. De acordo com o médico, os idosos costumam ser mais calmos, resilientes e focados no trabalho. Eles tendem a tomar decisões com mais prudência em momentos de crise, ajudam a manter o time unido e muitas vezes tornam-se mentores dos mais novos, influenciando positivamente quem planeja chegar longe na carreira. “A vivência faz com que os mais velhos exerçam uma liderança natural sobre os demais estagiários”, diz Marcello Augusto Hamdan Ribeiro, coordenador no departamento jurídico da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro, que tem um estagiário experiente, estudante de direito, em seu time. Atualmente, a empresa conta com oito estagiários maduros espalhados pelo Brasil: seis acima dos 50 anos e dois com mais de 60 (sete deles cursam direito e um está no nível técnico).O período de aprendizado obedece às regras estabelecidas pela Lei do Estágio (nº 11.788/2008), de dois anos, e não traz limitações quanto à idade do candidato – basta que esteja matriculado em uma instituição de ensino. Só para lembrar, nesse tipo de contrato o empregador não tem obrigação de oferecer seguro-saúde – uma necessidade real para os mais velhos, diga-se de passagem. E vale dizer que o estágio pode ser computado para fins de aposentadoria se o próprio estagiário contribuir para a Previdência Social.

VANTAGEM

Ao criar vagas desse tipo, as organizações agregam um valor social ao mercado, contribuindo para diminuir o preconceito que acompanha os mais velhos em busca de recolocação. Aqui cabe uma ressalva: o Estatuto do Idoso, criado em 2003, assegura aos maiores de 60 anos o exercício da atividade profissional, respeitadas as condições físicas, intelectuais e psíquicas, e proíbe a discriminação e a imposição de um limite máximo de idade para exercer o cargo, exceto quando for imprescindível. Afinal, é preciso considerar questões de saúde que impeçam a realização de certas tarefas.

Outro aspecto importante a levar em conta é a diversidade geracional. Estudos mostram que ter funcionários de etnias, gêneros e idades diferentes promove inovação e, muitas vezes, aumenta a lucratividade das companhias.

Quem teve uma experiência positiva nesse sentido foi a Mobilitee, plataforma que ajuda empresas na gestão de gastos com transporte. A startup já contou com um estagiário de 63 anos que, depois de fazer carreira na área de tecnologia de um banco e se aposentar com uma boa renda, resolveu estudar desenho industrial e voltar à ativa para continuar se sentindo útil. De acordo com José Renato Mannis, CEO da Mobilitee, o senhor estagiário mantinha um bom relacionamento com toda a equipe (inclusive com a chefia) e, graças à sua larga bagagem, sugeriu melhorias em um projeto que a startup estava desenvolvendo. “Ele também agia com prudência e sabia antecipar os problemas que poderiam surgir, habilidade que o outro estagiário do mesmo setor, que era bem jovem, não tinha”, lembra José Renato.

Na opinião do CEO, a data de nascimento deverá ser levada cada vez menos em conta na escolha de um funcionário. “Há muito jovem com espírito velho por ai, e vice-versa.” Em outras palavras, o que importa é que a pessoa demonstre afinidade com o negócio, adaptabilidade e capacidade de aprender.

PEDRAS NO CAMINHO

É inegável que podem surgir problemas quando uma empresa, principalmente de setores mais tradicionais, abre suas portas para estagiários idosos. Embora o convívio de diferentes gerações seja benéfico e cada vez mais frequente no ambiente de trabalho, na prática o relacionamento pode ser conflituoso, pelo menos no início. Isso porque pessoas com idades variadas apresentam características distintas. Além de ter pontos de vista divergentes, nem sempre usam métodos semelhantes para atingir determinado resultado.

Os millennials, jovens nascidos entre 1980 e 2000, são considerados imediatistas e avessos à hierarquia, mas exibem um alto grau de engajamento na realização de projetos nos quais acreditam. Já a geração X, de meados dos anos 60, costuma ser paciente e organizada. No entanto, demora mais para se adaptar às inovações tecnológicas. A defasagem digital, aliás, é um obstáculo que as empresas enfrentam ao recrutar os mais velhos.

Para Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (lpea), a melhor maneira de ampliar a permanência do idoso no mercado de trabalho é investir em capacitação – até porque a mão de obra jovem vai diminuir e a reforma da Previdência certamente obrigará todo mundo a se aposentar mais tarde. “O Estado tem de estimular programas de profissionalização para a terceira idade, sobretudo a mais carente, e criar condições para que as empresas aumentem o número de contratados dessa população, mas na prática isso ainda não acontece”, diz. De acordo com a pesquisadora, uma saída seria reservar um percentual de vagas para os maiores de 60 (já existe inclusive essa proposta de emenda ao Estatuto do Idoso em discussão no Congresso Nacional). Como, em duas décadas, o número de grisalhos chegará a 57 milhões, inclui-los será não apenas uma necessidade mas também uma questão de estratégia. Ter gente madura nos times ajudará a entender as demandas dos consumidores mais velhos e a desenhar produtos e serviços mais interessantes para eles. A inclusão fará bem à sociedade – e também aos negócios.

Senhor estagiário. 2 

5 BENEFÍCIOS DE TER IDOSOS NA EMPRESA

Por que vale a pena investir em estagiários 60+

Senhor estagiário. 3

EQUIPE HETEROGÊNEA

Unir pessoas de gerações diferentes enriquece o ambiente de trabalho e estimula a indvação,o que pode alavancar os negócios.

Senhor estagiário. 4

PADRÃO DE QUALIDADE SÓLIDO

Graças a experiência acumulada, os idosos costumam executar tarefas com mais precisão e senso de responsabilidade.

Senhor estagiário. 5 MENOR ROTATIVIDADE

Como já trabalharam em outras companhias, os 60 + sabem o que querem e são mais comprometidos com o trabalho.

Senhor estagiário. 6

 VISÃO AMPLA DOS NEGÓCIOS

Uma bagagem sociocultural maior dá aos sessentões a capacidade de entender como os outros setores funcionam.

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SOLUÇÕES PLANEJADAS

Os idosos são mais prudentes ao tomar decisões e conseguem distinguir as tarefas urgentes das que “podem ficar para depois”.