A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POUCA IDADE PARA MUITA PRESSÃO

Todo excesso em educação tem um preço difícil a se pagar mais tarde. A ansiedade pode levar justamente ao fracasso escolar e à desmotivação para esportes, artes e outras atividades.

Pouca idade para muita pressão

Vítimas do desconhecimento e vaidade dos pais, do excesso de zelo ou negligência dos adultos no lar e na escola, de uma agenda excessivamente cheia de afazeres e planejamento absoluto de seus deveres e até dos momentos de diversão, das exigências em ser sempre bem-sucedido, popular, líder de grupo e outros tantos desafios extenuantes, vemos hoje um número excessivo de crianças e adolescentes ansiosos e que chegam a um nível de estresse muito impróprio para a pouca idade.

Além dos danos ligados ao emocional e ao social, existe um prejuízo pessoal que compromete o desenvolvimento e o aprendizado escolar. Exigir das crianças disciplina e dedicação às tarefas que são de sua responsabilidade, em casa e na escola, incutindo um desafio gradativamente alcançável, é sem dúvida desejável, pois proporciona motivação para o amadurecimento, mas é preciso atenção e cuidado com as cobranças.

Nos primeiros seis anos de vida, as crianças precisam de brincadeiras livres, mas também de brincadeiras estruturadas, nas quais os adultos agem como “modelos”, mas sem excesso de formalidade. E preciso agir com cautela, de acordo com o desenvolvimento e a idade da criança, privilegiando oportunidades em que as aptidões sociais possam ser treinadas com a supervisão dos pais.

As crianças são seres em desenvolvimento, não estão emocional ou biologicamente preparadas para enfrentar uma maratona que vai muitas vezes das 7h da manhã às 10h da noite, sem descanso. Precisam de pausas para assimilar o aprendizado, necessitam de tempo de brincadeira com os seus pares, de ar livre, exercícios físicos e um pouco daquilo que muitos pais chamam de tempo perdido, mas que na verdade é o melhor do dia: a hora em que podem curtir seus brinquedos, usar seu Ipad, fazer o esporte favorito, assistir um programa divertido, ler, conviver com os irmãos e amiguinhos. Depois podem voltar aos afazeres escolares, às aulas de música, de esportes, de idiomas etc.

É compreensível que os pais, trabalhando fora o dia todo, queiram ver os filhos ocupados com atividades dirigidas e bem supervisionadas e desejem enxergar o progresso da criança na forma de um boletim brilhante ou u campeonato bem-sucedido.

Porém nosso cérebro tem uma forma praticamente idêntica de reagir àquilo que interpreta como uma ameaça ao seu equilíbrio, seja verdadeira ou imaginária. Via de regra, o ser humano lida com as dificuldades de quatro maneiras, que são reveladoras de estresse e apontam para a necessidade de ajuda e compreensão dos adultos.

A primeira que se instala é uma súbita resistência infantil a mudanças, a tentativa constante de permanecer em meio a situações familiares que lhe parecem seguras e a relutância em enfrentar todo tipo de risco, por menor que seja. É o chamado comportamento de luta, que pode advir inclusive das próprias ansiedades dos pais, do desencorajamento para a criança crescer fazendo gradualmente suas opções e arcando com os resultados de suas ações. Ensinar limites e responsabilidades cria pessoas fortes e independentes, desde que tenham oportunidade de vivenciar na prática essas situações em que os pros, os contras e as consequências sejam claros. Sem pressão, mas com estímulo e o aprendizado de novas estratégias, a criança vai vencer essa relutância em se arriscar e desenvolver a resiliência para a frustração.

Também é comum nas crianças estressadas um comportamento de fuga, que se caracteriza por evitar determinadas circunstâncias, usando desculpas como doenças, cansaço, ficando à margem dos amigos, dos grupos, fazendo até coisas de que não gosta para fugir de situações que acha que não consegue enfrentar.

O comportamento de bloqueio lembra uma espécie de engessamento mental e físico, do qual não se consegue identificar a causa. Quando inquerida numa prova, a criança chega a parecer que não sabe nada. Quando está em situação de ser centro das atenções, perde a fala, comporta-se de modo estranho. Não suporta pressão, não sabe lidar com situações novas, o que na escola representa um problema de difícil manejo.

Junta-se ao quadro o comportamento gregário, ou seja, vive no grupo, se diluindo nele. Quer ser exatamente como os amigos, não deseja se destacar deles, segue suas normas e se torna superficial na aprendizagem escolar. O que muitos pais chamam de pré-adolescência precoce pode ser perfeitamente um sinal bastante sério de estresse infantil. Conhecer e conviver com os amigos dos filhos podem ser úteis para saber se o grupo tem ou não uma forma similar de agir que os pais privilegiam, seja em termos de comportamento social como também de interesse pelos estudos, esportes, artes etc.

É sempre aconselhável que as crianças tenham mais de dois grupos de amigos, para aprenderem a lidar com as diferenças e se sentirem mais seguras, menos ansiosas e mais preparadas para tomar as próprias iniciativas.

Ajudar as crianças a terem metas de acordo com suas aptidões é importante, até para elas aprenderem a identificar a finalidade de seus esforços em uma atividade.

Incentivar a terem suas próprias metas, planos, responsabilidades, estarem motivadas na tarefa escolhida, sentirem-se apoiadas pelos pais e terem tempo para ser crianças é uma complexa situação que no dia a dia corresponde a dar educação, criando filhos sem estresse e com ansiedade controlada a níveis favoráveis para seu perfeito desenvolvimento e aprendizado.

 

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, EducaçãoEspecial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia –  ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

 

Anúncios

OUTROS OLHARES

EM DEFESA DOS BEBÊS

A ciência já oferece avanços estupendos para gerar crianças saudáveis, e mais novidades virão em breve – mas as questões éticas continuam a assustar.

Em defesa dos bebês

“Experimentos em hibridização de plantas.” Foi em um artigo científico batizado com esse título e publicado em 1866 que nasceu o que hoje se conhece como genética. Nele o autor do texto histórico – o monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884), formado em ciências naturais pela Universidade de Viena – detalhava um experimento de sete anos de duração. No total, Mendel cultivou 30.000 plantas de ervilha, dissecando as partes reprodutivas com o objetivo de promover cruzamentos controlados que permitiam escolher atributos dos vegetais. Assim ele podia, por exemplo, manipular a cor das flores e o formato das sementes. No fim das contas, o pesquisador provou algo que já se intuía; certas características dos pais são transmitidas a filhos, netos, bisnetos. Ou seja, são hereditárias. Passados mais de 150 anos, tudo o que se sabe sobre o DNA tem como base a estupenda experiência de Mendel. O detalhe a um só tempo extraordinário e preocupante é que a genética avançou a passos tão largos que hoje já se pode falar em “experimentos em hibridização de humanos”. Sim, não mais experimentos apenas em plantas, mas em humanos. Técnicas de edição genética que começaram a ser testadas nos anos 2010 permitem, de certo modo, que a ciência faça com bebês aquilo que o austríaco fez com ervilhas.

Não há dúvida de que as conquistas científicas nessa área abriram possibilidades de resolver muitos problemas relacionados à reprodução humana. Embora alguns desses avanços só venham a ser postos em prática em um período de dez a cinquenta anos, outros já estão sendo empregados. A lista de procedimentos bem-sucedidos é promissora.

Em 2014, realizou-se o primeiro transplante de útero que realmente deu certo, no hospital sueco da Universidade Sahlgrenska, em Gotemburgo: uma mulher, infértil, recebeu o órgão de outra, fértil, e, com isso, pôde gerar um filho. Desde então, mais sete bebês nasceram graças ao método, no mesmo hospital. Em dezembro último, um avanço surpreendente foi anunciado no Brasil. O médico obstetra Dani Ejzenberg, do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clinicas, executou esse transplante com uma diferença fundamental: a retirada do útero da doadora foi realizada após sua morte. “A cirurgia é delicadíssima. A técnica, porém, se prova ideal para mulheres mais velhas que querem engravidar. Ou, pensando no futuro, até para possibilitar o mesmo a transexuais”; disse Ejzenberg. O obstetra paulistano realizou a operação em setembro de 2016. O feito, entretanto, foi divulgado dois anos depois, quando um artigo do médico saiu no periódico inglês The Lancet.

No caso de transplantes de útero, a interferência ocorre, é claro, na mãe. Contudo, já é possível também atuar nos embriões. O mais estarrecedor dos procedimentos nessa direção foi revelado em novembro passado, pelo biólogo chinês He Jiankui. Foi quando o cientista apresentou a história das gêmeas Lulu e Nana, que tiveram o DNA modificado em laboratório. Mexeu-se nos embriões por meio de uma técnica chamada Crispr-Cas 91 que permite manipular o sequenciamento genético com a introdução de substâncias químicas. No processo das gêmeas, Jiankui desativou o gene CCR5, responsável por produzir proteínas que deixam o organismo vulnerável ao HIV – vírus presente no pai. Com a manipulação, as gêmeas nasceram imunes à aids. O resultado é uma grande notícia, mas traz questões de fundo altamente sensível e preocupante. Afinal, a edição genética de embriões humanos, tal como realizada por Jiankui, abre as portas para intervenções semelhantes às de Mendel. Ou seja: ela possibilita mudar a cor da pele, a textura do cabelo ou até mesmo traços comportamentais. Em outras palavras, dá asas aos mais perigosos anseios eugenistas, como os que levaram às catástrofes produzidas pelo nazismo, que buscava a pureza racial. Por esse motivo, a técnica de Jiankui é proibida em países como EUA e Brasil. Na China, onde foi realizada, não há lei que a libere nem que a proíba. Mas o governo parece ter julgado o ato ilegal. Dias após o anúncio da proeza, Jiankui sumiu; desconfia-se que tenha sido preso pelas autoridades.

Entre os recentes avanços científicos na genética, há possibilidades menos polêmicas. A fisioterapeuta paulistana Tatiana Weigand beneficiou-se de uma dessas conquistas. Na primeira tentativa de gravidez, em 2013, ela e o marido, Fernando, descobriram que ambos tinham a doença hereditária gangliosidose GMI, que afeta uma em cada 100.000 pessoas e atrasa o desenvolvimento motor e cognitivo. Eles não apresentavam sintoma da enfermidade, mas poderiam transmiti-la a um filho. Foi o que aconteceu. O primogênito do casal nasceu com a doença e, em decorrência de complicações, acabou falecendo dois anos após o nascimento. Antes da segunda gravidez, em 2014, Tatiana e Fernando souberam que já era possível mapear o código genético de embriões fecundados in vitro. Não para editá-los, como realizou o biólogo chinês, mas para selecioná-los, a exemplo do que Mendel fez com ervilhas. Assim, o casal valeu-se da fertilização in vitro, e os embriões foram rastreados atrás de um que fosse livre da gangliosidose. Nasceram, então, saudáveis, os gêmeos Eduardo e Rafael. “Algumas pessoas próximas me julgaram, achando que o que fiz iria contra os planos de Deus”, relatou a mãe. “É preciso compreender que a triagem não teve o intuito de escolher características superficiais e sim garantir a sobrevivência de meus filhos.”

O procedimento é acessível a qualquer um que tenha como pagar em torno de 30.000 reais. Quem não dispõe dessa quantia pode recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS.) Foi o que fez a enfermeira Talitha Pádua, paulista da cidade de Marília. Em uma consulta prévia, o marido, Rodrigo, já havia detectado que tem neoplasia endócrina múltipla, condição que leva ao desenvolvimento de tumores que reduzem a 50% a chance de um filho saudável. “Alguns médicos especulavam que, devido aos genes do meu marido, as chances de gerar uma criança saudável eram baixíssimas sem a triagem genética”, lembrou ela, que decidiu apostar. Em procedimento realizado pelo SUS no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, foi possível optar por um embrião saudável – e dele nasceu Davi, hoje com 4anos.

A tecnologia atual nem sempre detecta previamente doenças genéticas. A administradora de empresas paulistana Juliana Sena, por exemplo, entrou em desespero ao saber que sua filha, Giovanna, que nasceu em 2014, tinha anemia falciforme – doença que altera o formato dos glóbulos vermelhos – e estava em estágio tão grave que os médicos não davam à criança mais do que poucos meses de vida.

A solução seria um transplante de medula óssea, mas não se encontrava um doador compatível. Juliana recorreu, então, à triagem genética. “Selecionamos um embrião para gerar meu outro filho, Matheus, de forma que ele tivesse células compatíveis”, recordou a mãe. Matheus nasceu em 2016 e logo passou por uma cirurgia de transplante de células para sua irmã. Deu certo. Curada, Giovanna completará 5 anos em 2019. Em um futuro próximo, casos graves como o de Giovanna poderão ser solucionados de maneira mais simples. É o que aponta um experimento em curso com o americano Brian Madeux, de 44 anos. Ele nasceu com síndrome de Hunter, anomalia cromossômica que cria deformações físicas. Em novembro de 2018, Brian tornou-se o primeiro individuo a submeter-se a um novo tipo de tratamento, que edita os genes defeituosos. Adicionadas à sua corrente sanguínea, substâncias manipularam células do fígado. Ainda não se sabe em que medida o tratamento teve êxito, mas, se vingar, a experiência mostrará que, no futuro, será possível exterminar praticamente todas as doenças hereditárias. Já se testou até mesmo um método que mistura o DNA dos pais com o de uma doadora para diminuir a probabilidade de o filho nascer com anomalias. Exibida em 2016 por médicos mexicanos e americanos, a técnica mesclou genes para gerar uma criança sem a síndrome de Leigh, que afeta o sistema nervoso e que poderia ter sido transmitida pela mãe.

Ao que tudo indica, em poucas décadas qualquer pessoa poderá recorrer à genética para orientar a gestação. É um inegável progresso para garantir a saúde dos bebês. Entretanto, esse horizonte arrasta consigo a sombra de uma distopia aterrorizante, como a narrada pelo escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) em sua obra-prima Admirável Mundo Novo (1932).

No livro, conta-se a história de um mundo no qual crianças são editadas geneticamente para que uma maioria nasça com déficits físicos e mentais, “preparando-as” para encarar trabalhos insalubres, enquanto uma minoria ganha aprimoramentos. Assim, os privilegiados acabam incumbidos, naturalmente, da tarefa de governar. Fora da ficção, deve-se atentar para o que disse He Jiankui, o pioneiro editor de genes: “A sociedade decidirá o que deve fazer a seguir”.

Em defesa dos bebês. 2

 

Em defesa dos bebês. 3.jpg 

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELE E ELA – COMPLETUDE OU CONFORTO?

Homens e mulheres diferem no comportamento porque uma parte importante tem suas raízes na cultura, na educação, na vida social, e tudo o que fazemos acontece a partir de determinação cerebral.

Ele e ela - completude ou conforto

Estudos neuropsicológicos constatam que as diferenças existem entre homens e mulheres e não são exclusivamente culturais. Os pesquisadores de Harvard descobriram que determinadas partes do córtex frontal, envolvido em funções cognitivas importantes, são proporcionalmente mais volumosas em mulheres do que em homens, assim como partes do córtex límbico, envolvido nas reações emocionais. Outra região do cérebro que difere anatomicamente entre os sexos em sua resposta ao estresse, e o hipocampo, estrutura essencial para o armazenamento de lembranças e para o mapeamento espacial do ambiente. Essas divergências anatômicas podem estar ligadas à diferença no modo como homens e mulheres se comportam: os homens tendem a se orientar estimando a distância e sua posição no espaço, enquanto as mulheres se orientam observando pontos de referência.

Seguindo nas comparações entre estruturas cerebrais, o aumento na densidade do córtex auditivo feminino pode estar relacionado ao melhor desempenho em testes de fluência verbal. Essas características não representam mais capacidades, mas a maneira como a estrutura do nosso cérebro se desenvolve. Existe a capacidade de reagir de maneira diferente à violência, o que não quer dizer, obviamente, que as mulheres não possam ser agressivas.

Em relação à inteligência emocional, a situação não é diferente. A inteligência emocional pode ser entendida como a capacidade de se conhecer para lidar bem consigo mesmo e, da mesma forma, conhecer e lidar bem com o outro, nos relacionamentos sociais, familiares ou profissionais. Dessa forma, trata-se da capacidade de conciliar as emoções e a razão, de modo a facilitar esse equilíbrio fundamental na habilidade de trabalho em grupo ou para ouvir nossos próprios sentimentos.

As mulheres apresentam melhor desempenho em relações humanas e tendem a se sobressair em empatia e proteção. Por outro lado, os homens têm mais facilidades na independência e nas habilidades matemático-espaciais. A região parietal inferior do córtex no hemisfério esquerdo é maior nos homens, privilegiando as habilidades mentais de raciocínio matemático, conforme foi verificado no cérebro de Albert Einstein e de outros físicos e matemáticos.

Foi descoberto, no entanto, que o cérebro das mulheres processa a linguagem verbal nos dois hemisférios simultaneamente, enquanto os homens só processam a linguagem verbal no hemisfério esquerdo. Como consequência dessa descoberta, na Universidade de Yale percebeu-se que os homens e as mulheres usam estratégias diferentes para desempenhar as funções cognitivas. Se de um lado eles têm força corporal para competir, elas conseguem vantagens sociais através da argumentação e da persuasão.

É interessante, ainda, que existe um feixe de fibras nervosas ligando os dois hemisférios cerebrais, sendo esse o ponto essencial do desenvolvimento intelectual. Esse feixe é maior nas mulheres, que acessam várias partes do cérebro para resolver determinado problema, enquanto os homens pensam com regiões mais específicas do cérebro, podendo ter respostas mais sintetizadas e objetivas, menos analíticas.

 

 

 

 

Atualmente, em virtude do acentuado desenvolvimento tecnológico, as relações sociais transformam-se em sua essência, provocando um descompasso na construção identitária do sujeito pós-moderno, que aumenta velozmente a sua interação com a máquina enquanto, inversamente, diminui seu contato com o gênero humano, dificultando o exercício da chamada inteligência emocional porque se dedica mais ao computador que ao conhecimento de si, enquanto pessoa.

Segundo Foucault (1926-1984), o estudo da sexualidade deve centrar-se nos discursos do desejo, explorando as palavras, a linguagem e os símbolos.

Desse modo, a sociedade se constrói nas relações afetivas, familiares, educacionais e profissionais. Sem dúvida, é na família que a identidade da mulher e do homem recebe as primeiras programações culturais. A divisão dos papéis entre o casal para a educação dos filhos reflete os valores e as crenças da instituição familiar. Cada família tem regras e valores próprios. É comum no Ocidente que as meninas, ainda no berçário, ganhem brincos e recebam um laço de fita na cabeça logo após nascer. Os meninos são comemorados sem esses detalhes. Assim, daquele momento em diante, instala-se um aprendizado que deverá fazer parte da identidade feminina ou masculina, num contexto social. A identidade é produto social e reflexo do olhar do outro, ou seja, de como o outro nos percebe, porque o autoconceito se forma a partir das informações que se recebe.

Para Foucault (1926-1984), que enfatiza o papel do poder na evolução do discurso em sociedade, as contradições podem ser vistas como um princípio organizador. O conjunto de traços contraditórios fundamenta os discursos que na atualidade se desdobram em diversos temas sobre os sexos, no qual a mulher é associada ao dilema entre carreira e maternidade, à culpa, à angústia, à incompletude, convergindo para uma identidade em crise, enquanto o homem segue competindo pelo poder e domínio, porém liberado para se emocionar, fazer tarefas caseiras e demonstrar afetividade.

Enfim, o crescimento do número de mulheres em lugares anteriormente ocupados apenas por homens deverá contribuir para o aumento considerável de valores como compreensão, solidariedade e aceitação de diferenças, contribuindo para um mundo mais justo e inclusivo, que abrace a diversidade de gênero.

 

LUIZA ELENA L. RIBEIRO DO VALLE – é psicóloga, doutora em Ciência no Departamento de Psicologia Social (USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e Educacional (PUC-Campinas), MBA Executivo em Psicologia Organizacional (AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching (Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha Cognitivo –Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.

OUTROS OLHARES

NOITES BRANCAS ELETRÔNICAS

Estudo comprova que usar aparelhos como smartphone e tablet em lugares escuros antes de dormir afeta a qualidade do sono dos adolescentes.

Noites brancas eletrônicas

Olhe por uma nesga da porta do quarto de seu filho: sete em cada dez adolescentes utilizam algum aparelho eletrônico antes de dormir. O impacto negativo desse hábito na qualidade do sono foi sempre uma certeza dos pais, mas não havia comprovação cientifica tão certeira. O maior estudo já conduzido sobre o assunto, publicado na revista científica Environment Interntional, decretou o fim das dúvidas: sim, usar smartphones, tablets, laptops e vídeo games na escuridão do quarto antes de dormir afeta seriamente a qualidade do sono. Ficar conectado no breu até uma hora antes de dormir é ainda pior do que fazê-lo com a luz do quarto acesa. Cinco vezes pior.

O efeito prejudicial do uso de telas no escuro tem uma base fisiológica e outra comportamental. A fisiológica: quando a luz do quarto está apagada, a pupila se dilata, e os olhos ficam ainda mais expostos à incidência da claridade proveniente das telas, chamada de “luz azul”. É um tipo de luz com grande interferência no organismo porque a cor azul inibe a produção do hormônio que induz o sono, a melatonina. Tal substância é essencial para regular o ciclo de sono e vigília. Alguns modelos de celular já vêm com uma película de proteção contra essa fonte luminosa ou estão equipados para neutralizar a luz azul à noite – o objetivo dessas novidades é diminuir quase totalmente a emissão de luz azul filtrando-a. Agora, a base comportamental: a luz apagada “engana” os pais. “O adolescente que fica no quarto escuro, em tese, não estaria mais acordado, e os pais não desconfiam que possa estar conectado nos aparelhos”, diz a neurologista Andrea Bacelar, da Associação Brasileira do Sono (meninos e meninas, desculpem-nos pela revelação, mas saibam que era um segredo de polichinelo).

Noites brancas eletrônicas. 2

O estudo, conduzido pelo Imperial College London, no Reino Unido, foi feito com 6.616 jovens com idade média de 12 anos, usuários de todos os tipos de tela e para os mais diversos fins – tanto para estudo como para diversão. Os adolescentes responderam a detalhados questionários para medir o papel dos aparelhos no sono e na qualidade de vida. Os que utilizavam os dispositivos antes de dormir tinham noites de descanso mais curtas (o ideal nessa fase da vida são ao menos nove horas de repouso) ou sofriam para pegar no sono. Além disso, despertavam várias vezes durante a noite ou acordavam mais cedo que o normal. O trabalho mostrou que o aparelho mais usado é o smartphone, seguido do tablet.

Um sono ruim afeta drasticamente a vida de qualquer pessoa. Na adolescência, o impacto no corpo é ainda maior. Nessa fase, a necessidade de sono vem, em especial, de uma mudança fundamental no organismo: a puberdade. Para que essa condição, caracterizada por uma revolução hormonal se realize plenamente, é preciso que o adolescente tenha um sono reparador -do contrário, ele poderá sofrer prejuízos ao longo do desenvolvimento. A falta crônica de sono (que significa dormir muito pouco, menos que as tais nove horas, ao longo de um mês, no mínimo) acarreta a liberação de mais cortisol, o hormônio associado ao stress. Com isso, eleva-se o risco de oscilações bruscas de humor, depressão e transtornos de ansiedade. É também durante o sono que o corpo aumenta a liberação de GH, o hormônio do crescimento ósseo e muscular. Em outras palavras: o adolescente cresce quando dorme. O risco de obesidade é igualmente maior nos jovens que dormem pouco, pois os hormônios relacionados ao ciclo de fome e saciedade, como a grelina e a leptina, são produzidos durante a noite. Se não se dorme direito, o impacto imediato também é péssimo: em relação à escola, destacam-se faltas e atrasos, dificuldades de atenção, problemas de memória, concentração e aprendizagem, que levam à redução no desempenho escolar. Despontam também problemas comportamentais, com uso e abuso de drogas, acidentes de carro e baixa imunidade.

Apesar de todas as evidências científicas, a batalha para afastar um filho da tecnologia é inglória. Há solução? Talvez não, mas convém um pouco de bom-senso. Um caminho é estabelecer regras. “Tentem fazê-lo deixar o celular carregando no corredor durante a madrugada”, diz a neurologista Andrea Bacelar. Boa sorte aos pais.

Noites brancas eletrônicas. 3

GESTÃO E CARREIRA

OU ISTO OU AQUILO

Pessoas que enxergam todos os lados de uma questão normalmente são tachadas de indecisas, mas essa qualidade – conhecida como ambivalência – pode ser uma grande ferramenta no trabalho se bem usada.

Ou isto ou aquilo

Quente e frio, claro e escuro, cabeça e coração. Operações simples como estas fazem parte de nosso cotidiano e explicam em muito a forma como raciocinamos: em pares. Quase sempre uma ideia tem seu oposto definido, que é, muitas vezes, visto como excludente. “É da natureza do ser humano a dualidade”, diz José Roberto Marques, coach e presidente do Instituto Brasileiro de Cooching, em São Paulo. Na língua, expressamos essa dualidade com esses opostos, mas a realidade é mais complicada e menos dividida. ”É por isso que uma escolha pode ser um momento difícil porque envolve optar por um destes caminhos supostamente opostos, que às vezes se confundem. Especialmente para as pessoas denominadas ambivalentes.

A ambivalência ocorre quando vemos todos os fatores de uma questão, dando igual importância às possíveis perspectivas, e nos sentimos divididos. Todos nós podemos passar por essa situação, mas há pessoas que costumam agir assim para a maior parte dos problemas. Para elas, o cenário se torna tão cheio de detalhes e nuances que uma decisão dificilmente parece ser suficiente para dar conta de tudo. Por isso, são constantemente tachadas de indecisas e em cima do muro, às vezes de forma injusta. “Ambivalência não é indiferença nem ignorância”, diz Roberto Camanho, sócio-diretor da consultoria Side-C e professor da ESPM, de São Paulo. “Significa que se tem fortes convicções em duas direções”. E essa atitude não é, necessariamente, um defeito.

Isso porque ela nos motiva a buscar mais informações e a não nos contentarmos com a primeira resposta. Em uma situação ruim, por exemplo, essas pessoas têm mais facilidade em encontrar aquilo que pode ser positivo. Também são mais hábeis em organizar as informações disponíveis e entender as consequências de diferentes decisões. Apesar de o mundo corporativo exigir respostas rápidas e decisões assertivas e cobrar dos líderes uma postura mais objetiva, a ambivalência, se bem usada, pode trazer benefícios para os negócios e para as equipes. Um estudo de 2009 feito por Nils Plambeck (professor da escola de negócios francesa HEC Paris) e Klaus Weber (da americana North­ western University) com CEOs alemães descobriu que os líderes que abrem espaço para a ambivalência conseguem resultados mais criativos e mais inovadores. A explicação é que, quando os presidentes conseguem expressar fortes sentimentos tanto a favor quanto contra uma ideia, eles despertam uma participação maior da equipe, que busca soluções diferentes para aquele problema. Assim, um líder que expressa claramente dois lados da mesma moeda pode criar uma energia positiva para a busca de soluções.

Ou isto ou aquilo. 2

UM PROCESSO DIFERENTE

Apesar de ser considerada por muitos como improdutiva, a ambivalência é apenas uma forma diferente de lidar com as coisas. Uma pessoa que age rapidamente e faz ajustes ao longo da ação para corrigir a primeira decisão normalmente é vista como alguém que resolve rápido. Já outra que pensa por mais tempo antes de agir, mas, uma vez decidida, age mais rapidamente, é vista como lenta e indecisa. “São processos diferentes, mas, no fim o tempo de entrega é o mesmo”, diz Fernando Seacero, psicólogo e cofundador da i9ação, consultoria de recursos humanos em São Paulo. A diferença é que o primeiro age antes e corrige durante o processo e o segundo tenta prever os possíveis erros para agir uma só vez – ele leva mais tempo para decidir, mas sua ação tende a ser menos custosa no longo prazo.

A cultura da decisão rápida também tem seus críticos. O autor britânico Carl Honoré defende em Solução Gradual (Editora Record) que, para resolver problemas complexos de forma consistente, temos que parar de buscar soluções simples e imediatistas. “Tentar resolver problemas com pressa, colocando esparadrapo quando se precisa de cirurgia, traz um alívio temporário. Mas mais tarde se paga o preço”, diz Carl. Paciência, energia e tempo são necessários para refletir a respeito de uma questão complexa. Nesse caso, quem tem uma visão ambivalente sai ganhando, já que essa característica pode ser um instrumento para análises mais profundas. Só que saber usá-la pode ser um grande desafio.

Ficar atormentado pelas diferentes possibilidades foi algo pelo qual o empresário Ângelo Almeida, de 41 anos, de São Paulo, já passou diversas vezes. “Quando era mais novo, ficava ansioso pensando nas coisas que tinha de resolver”, diz. Ele conta que chegou a passar noites em claro considerando os diversos cenários para uma decisão. Foi assim quando teve de decidir sair de um emprego em uma grande empresa de tecnologia para abrir sua própria consultoria de sistemas. Hoje, ele diz que desenvolveu mecanismos para lidar com o nervosismo, mas continua sendo analítico em problemas mais sérios. “Acho que pensar assim me faz tomar decisões melhores e com mais segurança, afirma.

Para não se perder, ele coloca as dúvidas no papel, com listas de prós e contras. E, a partir do momento em que toma uma decisão, vai até o fim. Ângelo costuma fazer um exercício diário de aceitar que cada decisão é uma renúncia, especialmente para não se questionar uma vez tendo feito sua escolha. Em seu trabalho como consultor, ele usa constantemente a sua ambivalência para buscar as melhores soluções para os clientes e para mediar conflitos. “Como consigo ver os dois lados, é fácil me distanciar e conduzir uma conversa”, diz. “E sou sempre aquele que diante de situações extremas levanta a mão e fala ‘mas tem outro lado, vamos tentar ver o positivo’”.

Ou isto ou aquilo. 3

MAIS DE UMA REPOSTA

Um fator que dificulta a tomada de decisão dos ambivalentes é a ideia de que há uma única resposta correta. “Aprendemos desde a escola que somos obrigados a resolver todos os problemas”, diz Roberto. Essa pressão traz sofrimento porque, às vezes, diferentes atitudes podem ser igualmente válidas. E, não sabendo lidar com isso, podemos ficar paralisados. A recomendação não está em mudar seu Jeito de analisar o problema, mas usá-lo a seu favor, como conseguiu fazer Ângelo ao longo da carreira. Importante ressaltar que esse é um processo contínuo e que melhora conforme temos mais maturidade, inclusive para perceber quais problemas merecem, de fato, toda essa atenção. “Tem gente que se perde alimentando o próprio sofrimento”, diz Roberto. “A pessoa cultiva a ambivalência em toda oportunidade.” Por exemplo, podemos perder um tempo enorme considerando escolhas simples, como o sabor de um sorvete. Para essas decisões de baixo impacto, é preciso criar rotinas para vencê-las rapidamente e dedicar energia ao que realmente importa.

A se ver dividido em uma questão importante, tente exagerar o cenário das possíveis decisões. “Esse exercício serve para sentir um impacto maior ao avaliar racionalmente as consequências”, diz José Roberto. O exagero força o cérebro a buscar outras situações que ele conhece e, por vezes, elaborar novas associações, trazendo soluções não pensadas. A intuição ou o insight, normalmente vêm disso. Você pode também separar as variáveis que interferem na sua escolha: primeiro, o que vai ganhar com uma decisão. Depois, o que perderá com ela. E, por fim, o que ganha e perde caso escolha o contrário.

Outro conselho é estabelecer uma data limite para a tomada de decisão e se permitir experimentar decisões sem ter todas as informações disponíveis, para aumentar sua confiança. Mas, caso perceba que questiona todas suas decisões e se vê frequentemente sem conseguir escolher, pode ser o caso de buscar ajuda. E é importante lembrar que não podemos cobrar de nós mesmos uma racionalidade infalível. “Não somos o doutor Spock”, diz Roberto. “Ficamos chateados porque temos a falsa ideia de que somos completamente racionais. “Mas a verdade é que não somos capazes de dar conta de todas as possibilidades e cenários que o mundo oferece. Muitas vezes o que nos faz pender para um lado ou outro é um sentimento. E tudo bem.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 26: 1 – 5

Alimento diário

O TRATAMENTO APROPRIADO PARA OS TOLOS

 

V. 1 – Observe:

1. É muito comum que recebam honra os tolos, que são completamente indignos dela, e inadequados para ela. Os homens ímpios, que não têm juízo nem razão, nem graça, são, às vezes, preferidos por príncipes, e aplaudidos e aclamados pelo povo. A tolice é considerada com grande dignidade, como observou Salomão (Eclesiastes 10.6).

2. É muito absurdo e inconveniente, quando isto acontece. É algo tão incongruente como a neve no verão, e uma perturbação tão grande na comunidade como essa neve é, no curso da natureza e nas estações do ano; na verdade, é tão prejudicial como a chuva na sega, que atrapalha os trabalha­ dores e estraga os frutos da terra quando estão prontos para ser colhidos. Quando os ímpios estão no poder, normalmente abusam desse poder, desencorajando a virtude e tolerando a iniquidade, por falta de sabedoria para discernir a primeira e de graça para detestar a segunda.

 

V. 2 – Aqui temos:

1. A tolice da paixão. Ela faz com que os homens profiram maldições sem causa, desejando o mal aos outros, supondo que eles são maus e agiram mal, quando interpretam mal a pessoa, ou quando interpretam mal os fatos, ou ao mal chamam bem e ao bem, mal. Dê honra a um tolo, e ele profere seus anátemas contra todos aqueles que o desgostam, certo ou errado. Os nobres, quando são ímpios, pensam que têm um privilégio para conservar o respeito e a reverência daqueles que estão a seu redor, amaldiçoando-os e ofendendo-os, o que é uma expressão da mais impotente perversidade e mostra a sua fraqueza, tanto quanto a sua iniquidade.

2. A segurança da inocência. Àquele que é amaldiçoado sem causa, seja por furiosas imprecações ou solenes anátemas, a maldição não lhe provocará maior dano do que o pássaro que voa sobre a sua cabeça, do que as maldições de Golias causaram dano à Davi (1 Samuel 17.43). Ela voará, como a andorinha ou a pomba, que ninguém sabe para onde vai, até que retorne ao seu lugar apropriado, como a maldição, no final, retornará sobre a cabeça daquele que a proferiu.

 

V. 3 – Aqui:

1. Os ímpios são comparados com o cavalo e o jumento, tão brutos eles são, tão irracionais. tão ingovernáveis, que não serão governados, nem pela força, nem pelo medo, tão baixo o pecado trouxe os homens, tão abaixo de si mesmos. O homem, na verdade, nasce como o filhote de jumento, mas da mesma maneira como alguns, pela graça de Deus, são modificados, e se tornam racionais, também outros, pelo costume do pecado, são endurecidos, e se tornam cada vez mais embrutecidos, como o cavalo e a mula (Salmos 32.9).

2. Orientação é dada para usá-los, de maneira apropriada. Os príncipes, em lugar de honrar um tolo (v. 1), devem levar a desgraça a ele – em lugar de colocarem poder na sua mão, devem exercer poder sobre ele. Um cavalo indomado precisa de um açoite para a sua correção, e um jumento precisa de um freio para dirigi-lo e corrigi-lo, quando sair do caminho; da mesma maneira um homem corrupto, que não aceita a orientação e as restrições da religião e da razão, deve ser açoitado e freado, deve ser castigado severa­ mente, e deve sofrer pelo que fez de errado, e deve ser impedido de cometer novas transgressões.

 

V. 4 e 5 – Veja aqui a nobre segurança do estilo das Escrituras, que parecem contradizer a si mesmas, mas na realidade, não o fazem. Os sábios precisam ser orientados sobre corno lidar com os tolos; e nunca haverá mais necessidade de sabedoria do que quando lidam com eles, para saber quando devem ficar em silêncio e quando falar, pois haverá um momento para as duas coisas.

1. Em alguns casos, um homem sábio não se assemelhará a um tolo, respondendo-lhe conforme a sua tolice. Se ele se vangloriar, não respondas a ele, vangloriando a ti mesmo. Se ele ofender e falar de maneira inflamada, não ofendas e nem fales de maneira inflamada. Se ele contar urna grande mentira, não contes outra, corno se estivesse rivalizando com a dele. Se ele caluniar os teus amigos, não calunies os dele. Se ele provocar, não lhe respondas na sua própria linguagem, para que não te faças semelhante a ele, pois conheces coisas melhores, tens mais sensatez, e tiveste melhor instrução.

2. Mas, em outros casos, um homem sábio usará a sua sabedoria para a convicção de um tolo, quando, prestando atenção ao que ele diz, pode haver esperança de fazer o bem, ou pelo menos, de evitar novos danos, quer para ele mesmo, quer para outras pessoas. Se tens razão para pensar que o teu silêncio será considerado urna evidência da fraqueza da tua causa, ou da tua própria fraqueza, neste caso, deves responder a ele, e que seja urna resposta ad hominem ao homem, combate-o com as suas próprias armas, e esta será urna resposta ad rem pertinente, ou quase. Se ele oferecer alguma coisa que se pareça a um argumento, deves responder e adequar a tua resposta à situação dele. Se não lhe responderes, e ele pensar que o que diz não tem resposta, então dá a ele urna resposta, para que não se julgue sábio e se vanglorie de urna vitória. Pois (Lucas 7.35) os filhos da sabedoria devem justificá-la.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A MAIS POTENTE ARMA CONTRA A DEPRESSÃO

EUA liberam remédio que tira pacientes de crises graves em duas horas. Festejada no mundo todo, a droga é apontada como uma revolução no tratamento da doença

A mais potente arma contra a depressão

É a maior novidade no tratamento da depressão em 33 anos. Na terça-feira 5, a Food and Drug Administration, agência americana responsável pela aprovação de medicamentos, liberou para a comercialização nos Estados Unidos o Spravato, nome comercial da droga inalável produzida pela Janssen Pharmaceuticals Inc que tem como composto principal a esketamina. Trata-se de uma parte da molécula da ketamina, um anestésico conhecido há décadas pela medicina e que, nos anos recentes, vinha se mostrando por meio de estudos científicos como uma das mais poderosas armas contra a depressão.

O remédio recebeu o sinal verde para a venda depois de passar pelo regime de aprovação urgente, aplicado somente a drogas que apresentam desempenho muito superior aos existentes. De acordo com a maioria das pesquisas, a esketamina de fato representa uma revolução contra a depressão. Sua administração tira os pacientes de crises graves em duas horas ou em dias, no máximo, afastando ideias suicidas e reduzindo a apatia que não deixa o indivíduo sequer da sair da cama, em muitos casos. Nenhum outro faz isso em tão pouco tempo. Em geral, os medicamentos levam semanas ou meses para fazer efeito.

Além desta limitação, estima-se que os remédios sejam inócuos para 30% dos pacientes. Isso ocorre por diversos motivos, entre algumas características genéticas do paciente que resultam na ineficiência das medicações. É por seu conjunto de atributos que o Spravato anima os médicos da mesma forma que o Prozac (fluoxetina), o primeiro antidepressivo, quando foi lançado em 1986. “Agora finalmente temos um remédio que funciona rapidamente contra uma doença tão grave”, explica o psiquiatra Todd Gould, professor da Universidade de Maryland (EUA) e não envolvido com as pesquisas feitas pela Jannssen.

A depressão é uma doença psiquiátrica que afeta 322 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, são 11,5 milhões de indivíduos. Junto com a ansiedade, a enfermidade compõe uma bomba relógio em termos de saúde pública. Ambas são responsáveis por índices elevados de incapacitação para o trabalho, redução de produtividade e estão associadas ao desenvolvimento de outras doenças, como o infarto e a diabetes. A incidência das duas só cresce — entre 2005 e 2015, os casos de depressão aumentaram 18% —, obrigando a ciência a correr atrás de opções eficazes e acessíveis.

A depressão é uma enfermidade de causa multifatorial, incluindo predisposição genética e ambiente. É caracterizada por um desequilíbrio na ação de substâncias que fazem a comunicação entre os neurônios (neurotransmissores), como a serotonina e a noradrenalina, envolvidos no processamento cerebral das emoções. Até hoje, os antidepressivos atuavam basicamente sobre esses compostos, tentando reequilibrar sua disponibilidade para devolver ao cérebro a capacidade de processar o humor adequadamente.

Até agora não se sabe exatamente o mecanismo de ação da ketamina. Concorda-se que ela atua sobre o glutamato, também um neurotransmissor, mas que até os anos 1990 não havia entrado no radar dos estudos sobre a depressão. No entanto, os resultados observados com a ketamina, ainda como anestésico e sabidamente atuante sobre o glutamato, levaram à conclusão de sua eficácia contra a depressão. Hoje, muitas clínicas usam a ketamina, administrada por via endovenosa, no tratamento para a doença. É uma utilização fora do rótulo e sem aprovação oficial. É importante que os pacientes não se submetam a tratamentos assim, até porque a substância apresenta riscos de episódios alucinatórios e de dependência. Por isso, qualquer tentativa de uso deve ser feita sob estrito controle médico, como os realizados em estudos conduzidos em instituições como a Universidade Federal de São Paulo.

O remédio agora liberado, feito apenas com uma parte da ketamina, exige também muito cuidado na administração (leia quadro). Só dessa maneira novidades como essa realmente beneficiam os pacientes e os deixam longe dos perigos do uso inadequado.

A mais potente arma contra a depressão. 2