A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A TERAPIA DA JUSTIÇA E DO PERDÃO

Encontro entre vítima e agressor pode trazer alívio para ambos

A terapia da justiça e do perdão

Em muitos casos, o sistema legal não consegue ajudar quem sofreu uma ofensa nem quem a praticou. Anos depois de um crime, a pessoa que sofreu a agressão ainda pode sofrer de estresse pós-traumático, e os ex – condenados muitas vezes apresentam dificuldades depois de sair da prisão. Não é novidade que uma reabilitação ineficaz costuma significar o retorno à prática de delitos. Na opinião de alguns especialistas, no entanto, o método da justiça restaurativa (em que réus e agredidos ficam face a face) pode ajudar nessas situações e mudar a trajetória dos envolvidos, em geral traumática.

A maioria das vítimas que se dispõe a participar desse processo frequentando grupos de discussão e tem acesso ao depoimento dos criminosos depois de algum tempo sentem que podem perdoá-los. Os infratores, por sua vez, alegam sentir responsabilidade por suas ações. Dois estudos recentes randomizados controlados reforçam o crescente corpo de pesquisa sobre a eficácia desse tipo de abordagem.

A criminologista Caroline M. Angel e seus colegas, da Universidade da Pensilvânia, analisaram os efeitos da justiça restaurativa para as vítimas e os agressores em casos de roubos e furtos em Londres. Pessoas que passaram por situação de violência foram encaminhadas aleatoriamente tanto para reuniões de justiça restaurativa apenas quanto para esse serviço e também ao sistema judicial.

Paralelamente, facilitadores treinados propuseram a infra­ tores que discutissem sobre os efeitos do crime na vida das vítimas e de seus familiares e amigos. Aproximadamente 25% das pessoas atendidas somente pelo sistema de justiça criminal apresentaram sintomas clínicos de estresse pós-traumático, mas apenas 12% das pessoas do outro grupo manifestaram esses sinais. “Um dos pontos mais interessantes da justiça restaurativa é que permite às vítimas ressignificar a própria vida e curar algumas feridas ao longo desse processo”, diz a pesquisadora.

O segundo estudo, coordenado pelos criminologistas Lawrence Sherman e Heather Strang, da Universidade de Cambridge, se propunha a avaliar se esses métodos podem reduzir a reincidência. A pesquisa, publicada em março no journal of Quantitative Criminology, analisou dez estudos que utilizaram controles randomizados para investigar o efeito das reuniões de justiça restaurativa nos infratores. Os cientistas constataram que os criminosos que participaram dessas discussões cometeram menos crimes subsequentes.

Apesar do excelente custo-benefício, o uso dessa prática ainda é bastante restrito. Defensores da técnica acreditam que a cultura de punição severa e a necessidade de políticos de serem vistos como rigorosos em relação ao crime interferem na aceitação do método.

 

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A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO DE HOMENS E MULHERES REAGE A MEDICAMENTOS DE MANEIRA DIFERENTE

Em média, elas são até 75% mais propensas a manifestar efeitos colaterais

Cérebro de homens e milheres reagem a medicamentos de maneira diferente

As diferenças de gênero na resposta do organismo às medicações são muitas vezes negligenciadas em testes clínicos. Nos Estados Unidos, até meados dos anos 90, praticamente não havia voluntárias em estudos que avaliavam novos medicamentos. No entanto, elas são as principais pacientes: recebem quase duas vezes mais prescrições de remédios psicotrópicos (que alteram a química cerebral) que os homens. Pesquisas sugerem que hormônios femininos e diferenças na composição corporal e no metabolismo podem torná-las mais sensíveis a certas drogas. Não por acaso, mulheres são 50% a 75% mais propensas a manifestar efeitos colaterais.

No ano passado, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos anunciou as primeiras diretrizes para dosagem de medicamentos de acordo com cada sexo. O efeito do indutor de sono Ambien, por exemplo, é duas vezes mais potente nas mulheres. Algumas evidências sobre como alguns fármacos agem de acordo com o sexo:

ANSIOLÍTICOS

Como no caso dos antidepressivos, o meio estomacal menos ácido das mulheres absorve a medicação mais rapidamente – de maneira que doses padronizadas são potencialmente mais tóxicas para elas.

Os rins dos homens filtram os componentes das drogas mais rápido. Assim, mulheres devem esperar mais tempo entre uma dose e outra, especialmente benzodiazepínicos.

Benzodiazepínicos, aliás, são planejados para ser solúveis em lipídios e atravessar a corrente sanguínea em direção ao cérebro. Assim, a maior gordura corporal das mulheres aumenta as chances de o remédio permanecer mais tempo no organismo, tornando-as mais vulneráveis a sua toxicidade.

ANALGÉSICOS

Prescritos para combater dores crônicas e dores agudas intensas, os medicamentos opioides, como a morfina, são mais eficientes em mulheres. Isso ocorre provavelmente porque o hormônio estrogênio, que oscila durante o ciclo menstrual, é importante na modulação do sistema opioide endógeno.

Homens são mais propensos a se automedicar com doses exageradas de analgésicos. Mulheres, porém, têm mais dificuldade em deixar de usá-los. Uma vez dependentes, são mais propensas à recaída, particularmente na metade do ciclo menstrual, quando os níveis de glicose no cérebro estão mais baixos, o que compromete o autocontrole.

ANTIDEPRESSIVOS

Vários estudos sugerem que as mulheres respondem melhor a inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS). já os homens parecem se adaptar mais aos tricíclicos.

Alguns antidepressivos são mais potentes no sexo feminino. A eficácia de uma droga é afetada pelo grau em que ela se liga a proteínas no plasma sanguíneo. Quanto menos ligante a droga for, melhor ela pode transpor a membrana celular ou se difundir. O sangue das mulheres tem, em geral, menos capacidade de ligação, o que significa que as proteínas sanguíneas “limpam” menos substâncias estranhas. Se forem administrados com outras drogas, antidepressivos tricíclicos (como a amitriptilina) podem ficar em excesso na corrente sanguínea, o que aumenta a chance de efeitos colaterais. Além disso, o estômago das mulheres é menos ácido, de maneira que os ISRSs podem ser absorvidos mais rapidamente, o que aumenta sua toxicidade. A gordura corporal das mulheres é outro fator que pode manter os antidepressivos no corpo por mais tempo – de maneira que a chance de efeitos colaterais com doses menores é maior.

INDUTORES DE SONO

A maioria das drogas psicotrópicas é metabolizada no fígado. O organismo masculino metaboliza o Ambien e outros indutores de sono com mais rapidez, de maneira que as mulheres costumam apresentar mais quantidades do medicamento no corpo na manhã seguinte, o que pode prejudicar o desempenho em tarefas que exigem atenção, como trabalhar e dirigir

ANTICONVULSIVANTES

Abundante no fígado e no intestino e especialmente ativa em mulheres jovens, a CYP3A4 é uma enzima importante para o funcionamento do organismo. Ela oxida moléculas estranhas, como toxinas e drogas, de maneira a removê­las do corpo. Algumas substâncias são ativadas por essa enzima, mas outras são desativadas: é o caso dos anticonvulsivantes, que costumam ter menos eficácia nas mulheres. Estudos preliminares sugerem que a velocidade das reações catalisadas por enzimas difere em homens e mulheres, o que afeta a resposta a medicamentos de forma geral.

ANTIPSICÓTICOS

Exemplares da primeira geração, como o haloperidol, parecem ser mais eficazes para controlar alucinações em mulheres. Homens necessitam de doses maiores para responder ao tratamento.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PRECONCEITOS CONTRA SI MESMO

Quando nos sentimos discriminados, somos dominados pela angústia, a mente divaga e sofremos de um esgotamento momentâneo da memória que prejudica a capacidade intelectual. O mais curioso é que as ideias preconcebidas que nos fazem tanto mal são mantidas por nossas próprias crenças.

Preconceitos contra si mesmo

O astrônomo americano Neil Degrasse Tyson obteve seu doutorado em astrofísica na Universidade Colúmbia em 1991. Algo em torno de 4 mil astrofísicos viviam no país naquela época.

Tyson elevou o total de afro-americanos entre eles a parcos sete membros. Em discurso de formatura, ele falou abertamente sobre os desafios que enfrentava: “Na percepção da sociedade, meus fracassos acadêmicos são esperados e minhas conquistas atribuídas a outros”, disse Tyson. “Passar a maior parte da minha vida combatendo essas atitudes representa um imposto emocional que equivale a uma forma de castração intelectual. É um encargo que não desejo para meus inimigos.”

As palavras de Tyson abordam uma verdade desconfortável: estereótipos negativos impõem uma sobrecarga intelectual para muitas pessoas que acreditam ser vistas pelos outros como inferiores. Em muitas situações – escola, trabalho, esportes -, essas pessoas receiam fracassar e, assim, reforçar estereótipos depreciativos. Jovens atletas brancos temem não ter desempenho tão bom quanto seus colegas negros, por exemplo, e mulheres em aulas de matemática avançada têm medo de receber notas inferiores às dos homens. Essa ansiedade – o tal “imposto emocional” ao qual Tyson se refere – é conhecida como ameaça dos estereótipos. Centenas de estudos confirmaram que o fenômeno contribui para o fracasso: as pessoas ficam confinadas a um círculo vicioso em que os baixos resultados aumentam a preocupação, o que prejudica ainda mais o desempenho.

Nos últimos anos, psicólogos ampliaram muito o conhecimento sobre como preconceitos não só sobre os outros, mas também em relação a si mesmo, afetam as pessoas, por que isso acontece e, mais importante, como evitar essa situação. Embora atualmente alguns pesquisadores questionem se alguns estudos laboratoriais refletem com fidelidade a ansiedade no mundo real, destacando que esse seria apenas um dos muitos fatores que contribuem para a desigualdade social e acadêmica, outros cientistas argumentam que esse é um dos fatores que podem ser facilmente mudados – o que tornaria melhor a vida das pessoas. Em estudos realizados em escolas, intervenções relativamente simples – como exercícios de redação para aumentar a autoestima, concluídos em menos de uma hora – produziram efeitos espetaculares e de longa duração, diminuindo a disparidade de resultados e eliminando a ameaça dos estereótipos.

IDENTIFICANDO O RISCO

Foi em 1995 que os psicólogos Claude Steele, da Universidade Stanford, e Joshua Aronson, na época trabalhando na mesma instituição, cunharam o termo ameaça dos estereótipos. Assim como acontece atualmente, há quase duas décadas estudantes negros americanos obtinham, na média, notas piores que seus colegas e mostravam maior probabilidade de abandonar os estudos antes dos brancos em todos os níveis de ensino. As várias explicações para essa desigualdade incluía a ideia perniciosa (e preconceituosa) de que os estudantes negros eram, de forma inata, menos inteligentes. Steele e Aronson não estavam convencidos disso. Eles argumentavam que a própria existência desse estereótipo negativo poderia prejudicar o desempenho dos estudantes negros.

Numa experiência agora clássica eles apresentaram a mais de 100 universitários um teste frustrante. Os voluntários foram divididos em dois grupos. No primeiro, no qual os pesquisadores disseram que o exame não mediria habilidades intelectuais, participantes negros e brancos -com pontuação comparável num dos mais utilizados exames de admissão à faculdade, o SAT (originalmente chamado Scholastic Aptitude Test) – se saíram igualmente bem. Na outra equipe, onde Steele e Aronson informaram aos jovens que o teste iria avaliar sua capacidade intelectual, a pontuação dos alunos negros caiu, mas a dos brancos não. O simples pedido para que os estudantes registrassem sua etnia antecipadamente teve o mesmo efeito.

O estudo foi inovador. Steele e Aronson mostraram que testes padronizados estão longe de serem de fato padronizados: quando apresenta­ dos de forma que evoquem a ameaça dos estereótipos, mesmo que sutilmente, colocam muitas pessoas automaticamente em desvantagem. “Houve muito ceticismo no início, mas isso está diminuindo com o tempo. No começo, mesmo eu não acreditava no quanto esses efeitos eram fortes; eu pensava que mais alguém precisava replicar o experimento”, conta Aronson.

Muitos pesquisadores o fizeram. Até agora, centenas de estudos descobriram evidências da ameaça dos estereótipos nos mais variados tipos de grupos. Ela aflige estudantes de origem mais pobre em testes acadêmicos e homens em tarefas de sensibilidade social. Estudantes brancos sofrem diante de colegas asiáticos em testes de matemática e frente a colegas negros em esportes. Em muitos desses estudos, os mais hábeis enfrentam os maiores reveses. Os que cultivam maior expectativa de sucesso têm mais probabilidade de se aborrecer com um estereótipo negativo e grande probabilidade de apresentar desempenho inferior como resultado.

O grau exato de existência da ameaça dos estereótipos no mundo real continua incerto, provavelmente porque os estudos relevantes enfrentam os mesmos problemas que rondam boa parte dos experimentos de psicologia social. A maioria foi realizada com poucos estudantes universitários – o que aumenta as probabilidades de acasos estatísticos – e nem todos os estudos demonstraram um efeito intenso. Alguns críticos também ressaltam que experimentos são, com frequência, um fraco substituto do mundo real. Paul Sackett, da Universidade de Minnesota, argumenta que, fora do laboratório, a ameaça dos estereótipos pode ser menos comum e mais facilmente superada. Recentemente, Gijsbert Stoet, então na Universidade de Leeds, Inglaterra, e David C. Geary, da Universidade de Missouri- Columbia, examinaram cada estudo sobre ameaça dos estereótipos entre mulheres que realizavam testes de matemática.

A pesquisadora Ann Marie Ryan, da Universidade do Estado de Michigan, identificou algumas razões plausíveis para essas conclusões inconsistentes. Em 2008, ela e a psicóloga Hanna-Hanh Nguyen, então na Universidade do Estado da Califórnia em Long Beach, compararam os resultados de 76 diferentes estudos sobre a ameaça dos estereótipos em estudantes de ensino médio e universitários. Descobriram que no laboratório os cientistas são capazes de detectar a ameaça apenas sob determinadas condições, como quando pedem que voluntários resolvam um teste especialmente difícil, ou em ocasiões em que trabalham com pessoas que se identificam fortemente com seu grupo social.

O QUE É IMPORTANTE?

Na última década, psicólogos deixaram de apenas mostrar que a ameaça dos estereótipos existe e detiveram em entender como ela funciona. Pesquisadores demonstraram que a ameaça opera da mesma forma em diferentes grupos de pessoas. A ansiedade chega, a motivação cai e as expectativas ficam mais baixas. Avançando nessas descobertas, a psicóloga Toni Schmader, da Universidade da Colúmbia Britânica, sugeriu que a ameaça ataca algo fundamental. O alvo mais óbvio seria a memória operacional – habilidades cognitivas que nos permitem reter e manipular temporariamente a informação. Esse conjunto de habilidades é finito e a ameaça dos estereótipos pode esgotá-lo. É possível que as pessoas se tornem psicologicamente exauridas ao se preocupar com os preconceitos alheios e tentando provar que os outros estão errados. Para testar esta ideia, a cientista deu a 75 voluntários um teste difícil: eles tinham de memorizar uma lista de palavras enquanto resolviam equações matemáticas. Ela disse a alguns participantes que avaliaria sua capacidade de memória e que homens e mulheres podem ter diferenças inatas de habilidades. As mulheres, informadas sobre a suposta discrepância, guardaram menos palavras, enquanto os homens não tiveram esses problemas.

O esgotamento da memória operacional cria vários bloqueios ao sucesso. As pessoas tendem a repensar ações que, de outra forma, seriam automáticas e se tornam mais sensíveis a sugestões que possam indicar discriminação. Uma expressão ambígua pode ser equivocadamente entendida como escárnio, e mesmo a ansiedade pode se tornar um sinal de fracasso iminente. A mente divaga e o autocontrole enfraquece. Quando Toni Schmader interrompeu mulheres no meio de um teste de matemática e perguntou o que elas estavam pensando, as que estavam sob a ameaça do estereótipo mostraram probabilidade maior de estarem devaneando.

Mais recentemente, pesquisadores passaram do estudo da ameaça dos estereótipos nos laboratórios para escolas e salas de palestras reais, onde tentaram dissipar ou evitar a ameaça totalmente. “Vejo três linhas de pesquisa: a primeira foi para identificar o fenômeno e até onde ele vai; a segunda olhou para quem experimenta o efeito e seus mecanismos; a terceira traduz esses resultados em intervenções”, diz a cientista. O doutor em psicologia Geoffrey Cohen, também de Stanford, conseguiu resultados particularmente impressionantes. Seu método é de uma simplicidade desconcertante: ele pede que as pessoas considerem o que é importante para elas (popularidade ou habilidade musical, por exemplo) e escrevam por que isso é importante. O exercício de 15 minutos age como uma vacina mental que aumenta a autoconfiança dos estudantes, ajudando-os a combater qualquer futura ameaça dos estereótipos.

Em 2003 Cohen visitou escolas de ensino médio na Califórnia e aplicou seu exercício num experimento controlado de forma aleatória – o teste consagrado em medicina que checa se uma intervenção funciona comparando-a com um placebo. Cohen administrou seu exercício a estudantes do sétimo ano: metade escreveu sobre seus próprios valores e os demais sobre coisas não importantes para eles. O teste foi o duplo-cego, o que significa que nem Cohen nem os estudantes sabiam a que grupo estavam integrados.

No fim do trimestre, estudantes negros que concluíram o exercício reduziram em 40% a defasagem acadêmica entre eles e seus colegas brancos. Melhor ainda, os alunos mais fracos da classe foram os que mais se beneficiaram. Nos dois anos seguintes os mesmos estudantes realizaram duas ou três versões de reforço do exercício original. Apenas 5% dos que tinham notas mais baixas que escreveram sobre seus valores precisaram de aulas de reforço ou repetiram de ano, em comparação com 18% do grupo de controle. Finalmente, as médias de notas dos estudantes negros subiram 0,25 ponto e as dos que exibiam pior desempenho aumentaram 0,40 ponto.

Umas poucas frações de pontos aqui e ali podem não parecer um grande avanço, mas mesmo pequenas mudanças no grau de confiança – positivas ou negativas – têm efeito cumulativo. Crianças que vão mal desde cedo podem rapidamente perder autoconfiança ou a atenção de um professor; em contrapartida, sinais de um progresso modesto podem motivar um avanço muito maior. Ao intervir no início, assegura Cohen, os educadores podem tornar ciclos viciosos em virtuosos.

A tarefa proposta por Cohen é tão simples que Ann Marie Ryan e outros pesquisadores não ficaram inteiramente convencidos dos seus resultados. Desde então o teste tem sido replicado inúmeras vezes. Nos últimos cinco anos o exercício foi usado para “mudar a sorte” de estudantes negros em três escolas de nível médio e para praticamente eliminar a desigualdade entre os gêneros numa classe de física de nível universitário.

Cohen, porém, tem buscado novos meios de ajudar estudantes. Ele colaborou com Greg Walton, também de Stanford, para abordar um isolamento induzido com frequência pela ameaça dos estereótipos. Muitos componentes de grupos minoritários temem que seus colegas acadêmicos não os aceitem. Walton combateu essas preocupações com estudos e citações de estudantes mais velhos, mostrando que esses sentimentos são comuns a todos, independentemente de etnia, e que eles desaparecem com o tempo. “Isso faz com que os jovens reformulem suas próprias experiências por meio das lentes dessa mensagem e não pela da etnia”, considera Walton. Walton e Cohen testaram seu exercício de uma hora de duração com estudantes universitários no primeiro trimestre. Três anos depois, quando os estudantes se graduaram, a disparidade de resultados entre negros e brancos havia caído pela metade. Os jovens negros estavam mais felizes e saudáveis que seus colegas que não participaram do exercício de Walton e nos últimos três anos eles haviam adoecido menos que os colegas do grupo de controle. Walton reconhece que um exercício tão simples pode parecer trivial, mas, para quem está preocupado se será aceito, saber que suas angústias são partilhadas e temporárias é muito significativo. Cohen e Walton trabalham atualmente na ampliação de intervenções simples e baratas. Os dois – assim como Carol Dweck e Dave Paunesku -, também de Stanford, criaram o Project for Education Research That Scales (PERTS), que permite administração rápida de intervenções on-line, combinando programas e avaliando resultados. Esse esforço está na aposta de que desfazer o efeito estereótipo não é panaceia contra a desigualdade ou uma solução definitiva e muito menos única para uma questão psíquica e pessoal tão complexa. Cohen, por exemplo, testou seu exercício de redação apenas em escolas com etnias mistas e admite que não está seguro se funcionaria em outros contextos. Mas o que é animador é a perspectiva de avançar no enfrentamento de situações que trazem sofrimento a tanta gente. Trabalhos recentes sobre o fenômeno do estereótipo oferecem esperança realista de aliviar o problema e subverter crenças arraigadas. Ao diminuir a ameaça, os pesquisadores mostram que nossos próprios preconceitos não têm fundamento. As desigualdades de desempenho entre estudantes negros e brancos ou entre cientistas homens e mulheres não indicam diferenças de capacidade, mas refletem preconceitos que se pode mudar.

Preconceitos contra si mesmo. 2

OUTROS JEITOS DE VER A BELEZA

Pense em uma propaganda de um produto, um carro, por exemplo, e tente descrever a primeira imagem que vem à cabeça – há por acaso mulheres magras e altas, dentro dos padrões de beleza atualmente tão valorizados (e inacessíveis), junto à máquina? Agora busque evocar alguma peça publicitária de veículos adaptados para deficientes. “Se se lembrar de alguma, vai perceber que há somente o carro na imagem. Um anúncio totalmente focado no produto, não no público para o qual é voltado. Apesar de haver cerca de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, eles ainda não são vistos pelo mercado como consumidores, como parte da economia e da sociedade”, diz a fotógrafa Kica de Castro, criadora de uma agência de modelos exclusiva para deficientes físicos. Atualmente são 81 homens e mulheres agenciados, a maioria com passagem por cursos de moda e teatro, com algum tipo de deficiência, como paralisia cerebral, paraplegia, membros amputados e nanismo.

A seleção para fazer parte do casting é por meio de entrevistas e avaliação do preparo profissional do candidato a modelo – o que não significa que pessoas sem formação voltada para esse mercado, mas com aptidão natural, apesar de mais raras, não possam ser escolhidas. Se o candidato é aprovado na entrevista, a própria agência arca com os custos do material fotográfico, o book, que servirá como amostra. Mais tarde, se chamado para algum trabalho, o modelo paga uma porcentagem à agência, que fica em São Paulo. “No início as pessoas disseram que o projeto não daria certo, mas houve aceitação. Ainda não há tantas oportunidades no Brasil, mas no exterior sim”, diz Kica, que começou a fotografar pessoas com deficiência há quase uma década, quando trabalhava em um centro de reabilitação fazendo fotos nas quatro posições globais (frente, costa e laterais) para prontuários e fichas médicas. As fotografias de moda foram uma maneira de se aproximar dos fotografados e ajudá-los a relaxar. Segundo Kica, as pessoas chegavam cabisbaixas, ficavam seminuas, e era evidente a baixa autoestima delas nesse momento.

“Depois de uma conversa com uma amiga psicóloga, comprei várias quinquilharias na rua 25 de Março (centro de comércio popular em São Paulo) e passei a dizer, antes das fotos, que estava fazendo um trabalho para um editorial de moda e os convidava para se enfeitar e participar.

Eram uns poucos minutos que os ajudavam a fazer as fotos médicas com mais satisfação”, diz Kica, que pouco depois começou a fazer books particulares a pedido dos fotografados, tipo de trabalho que ainda continua a fazer. Nenhuma das fotos é tratada com programas de edição de imagem, como o Photoshop, que geralmente é usado para retocar “imperfeições” das modelos como, aliás, também acontece em outros trabalhos fotográficos.

Preconceitos contra si mesmo. 3

NO FIM, TODOS SAEM PREJUDICADOS

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de culturas estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência praticada contra estrangeiros, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg. Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio por parte dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E de fato houve: estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma só: preconceito.

Os estereótipos, entretanto, não dificultam a vida apenas de pessoas e grupos estigmatizados. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir extremamente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja, essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MENSAGENS PARA O INCONSCIENTE

Os sentidos captam informações que escapam à consciência, mas há dúvidas de que esses dados possam manipular nossa vontade. Pesquisas mostram, porém, que esses estímulos provocam reações cerebrais mensuráveis.

Mensagens para o inconsciente

Quando falamos em estímulos subliminares, em geral pensamos em imagens que aparecem de forma tão fugaz a ponto de não serem percebidas pela consciência, mas que mesmo assim são capazes de influenciar as nossas decisões. Alguns acreditam que esse recurso permite criar determinados estados de ânimo e até obter ganhos, influenciando as pessoas a fazer certas escolhas. Usada de forma indiscriminada, essa técnica poderia ser um risco nas mãos de publicitários e políticos. Os cientistas demonstraram, porém, que o efeito da percepção subliminar não é tão espetacular como durante muito tempo se acreditou.

Essas técnicas vieram à tona em 1957, com uma experiência desenvolvida pelo publicitário americano James Vicary (1915 – 1977), especialista em pesquisa de mercado. Durante uma projeção em um drive-in, ele exibiu – em velocidade muito alta, sem que o público notasse – uma mensagem na tela: “Coma pipoca e beba Coca-Cola”. Na ocasião, Vicary anunciou que o sistema aumentou em 20% o consumo do refrigerante e em 60% o de pipoca. No entanto, cinco anos mais tarde o próprio Vicary admitiu que nunca levara a cabo uma experiência nesses moldes, e que queria apenas incrementar o faturamento de sua agência publicitária. Mas o mito da manipulação inconsciente já tinha nascido. Posteriormente, ele de fato fez uma experiência em um cinema na presença de um grupo de jornalistas, mas os dados haviam sido falsificados: o famigerado tactoscópio, aparelho que envia as breves mensagens, teria tido seus dados fraudados.

Para o cinquentenário de “Coma pipoca e tome Coca-Cola”, em 2007, o psicoterapeuta Jim Brackin, especialista em publicidade e hipnose, realizou uma experiência similar em um congresso de marketing em Istambul. Usando imagens subliminares, divulgou o produto inexistente, Delta. Após a projeção, os 400 congressistas tinham de escolher entre o Delta e outro produto, Theta. Resultado: 81% escolheu a primeira opção. Mas nunca se procedeu a uma comprovação – normalmente usada nos estudos científicos – para estabelecer se a mesma experiência sem as mensagens subliminares poderia trazer um resultado diferente.

CRUCIFIXO MISTERIOSO

No final de 2007, suspeitou-se que o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos    Mike Huckabee tivesse procurado manipular os eleitores durante a propaganda eleitoral. No centro das suspeitas havia uma estante de livros branca, visível na propaganda atrás de Huckabee. Com a ajuda do enquadramento e de um pouco de boa vontade, os eixos horizontais e verticais da estante formavam uma cruz. A acusação feita ao ex-pregador batista era de que ele pretendia associar, na mente do público, a própria imagem a um símbolo cristão. Aqui, porém, o termo “subliminar” é insuficiente. Em latim sub limen significa “sob o limite” e se refere a estímulos tão fracos a ponto de não serem percebidos conscientemente; mas a estante “em cruz” era bem reconhecível pelos espectadores.

Os cientistas desenvolveram um critério mais rigoroso que o limite de tempo, no qual um símbolo pode ser considerado “subliminar”. Se, por exemplo, o “4” aparece por um segundo na tela, é percebido conscientemente. Mas se o tempo de exibição for reduzido, chega-se a um patamar limite e quem observa garante que não enxerga nenhum número. Ainda assim, caso se deva adivinhar se o número mostrado é inferior ou superior a “5”, a resposta é descoberta com frequência superior à média: evidentemente, quem olha enxerga alguma coisa sem se dar conta.

Portanto, uma percepção é considerada subliminar mesmo se, como no caso descrito, os participantes adivinham só por acaso. O número não deve aparecer na tela por mais de 30 milissegundos. Além disso, deve ser logo “disfarçado” por uma faixa com uma série de letras colocadas por acaso. É assim que os pesquisadores definem esse artifício – caso contrário a imagem que fica na retina poderia ter uma impressão fixa. Assim sendo, a estante de Huckabee estava muito acima desse limite da percepção.

Como deve ser o estímulo para que passe despercebido? Pode ser de vários tipos, como demonstraram experiências desenvolvidas por psicólogos e neurocientistas. Sem que saibamos, o cérebro entende palavras, interpreta a mímica dos rostos, decifra símbolos e capta sons. Numerosas experiências de priming (facilitação) desvendam a influência dos símbolos que escapam à consciência: um impulso desencadeado abaixo do patamar limite, o prime, influencia a reação a um estímulo percebido conscientemente, o target (alvo). Os exemplos clássicos dessas experiências têm base nos números: os participantes veem na tela um número entre 1 e 9 e devem classificá-lo, apertando a tecla esquerda se inferior a 5 e a direita, se superior. É uma tarefa tão simples que, em geral, ninguém costuma errar.

A ação dos estímulos subliminares se manifesta principalmente no tempo da reação: os indivíduos reagem mais rápido se, antes do estímulo-target percebido conscientemente, aparecer ligeiramente um estímulo-prime subliminar, que requer apertar a mesma tecla. Se, por exemplo, um 7 for rapidamente iluminado antes de um 8 percebido conscientemente, os participantes decidem com mais rapidez apertar a tecla correta. Ao contrário, um 4 subliminar os faria hesitar por mais tempo. A experiência também funciona se o número estiver escrito por extenso, como no caso de “sete”. As palavras com significado emotivo, como “medo”, também influenciam a escolha, e a mímica dos rostos, mais ainda.

A elaboração subliminar da expressão facial foi acompanhada em 2007 pelos psicólogos Monika Kiss e Martin Eimer, pesquisadores da Universidade de Londres, por meio do registro de medidas com o eletroencefalograma (EEG). Durante a experiência, 14 participantes eram orientados a diferenciar as fotos de pessoas com expressão assustada ou neutra. Os voluntários conseguiam realizar a tarefa com desenvoltura se o rosto fosse exibido por 200 milissegundos. Quando o tempo era reduzido para 8 milissegundos, as respostas eram eventuais. Neste caso, o estímulo podia ser definido como subliminar. Mesmo assim o eletroencefalograma mostrava as mesmas variações que têm origem também com a percepção consciente.

FORTES EMOÇÕES

O “mito da ação subliminar” tem, portanto, uma base empírica: estímulos não captados conscientemente provocam reação que pode ser medida no cérebro. Não é aceitável, porém, falar de 1 manipulação profunda dos nossos julgamentos e decisões.

Em 2000 surgiu o temor de possíveis influências políticas ocultas quando, para combater o adversário político Al Gore, um assessor da equipe de George W. Bush sugeriu iluminar muitas vezes em uma propaganda eleitoral a palavra bureaucrats (burocratas) e, por três centésimos de segundo apenas, as quatro últimas letras: rats, ou seja, ratos. Mas o uso da palavra “negativa” realmente influenciava os eleitores? O grupo de pesquisa coordenado pelo neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene, pesquisador do Collège de France, em Paris, estudou de que maneira os estímulos subliminares podem ser captados. O pesquisador Lionel Naccache, membro da equipe, forneceu a primeira demonstração direta da influência das palavras com conteúdo emotivo. Ao acompanhar três pacientes epiléticos que tinham em seu cérebro eletrodos para o trata- mento da patologia, chamou sua atenção que palavras subliminares com forte dose emotiva exercem influência sobre a amígdala, uma região cerebral determinante no processamento de emoções. “Tais vocábulos modificavam a atividade da amígdala, justamente como acontece com a elaboração consciente”, afirmou Naccache.

O cientista Raphael Gaillard, outro pesquisador da equipe de Paris, demonstrou que palavras fugazes com conteúdo emotivo entram na consciência antes daquelas com sentido neutro. Durante sua experiência, mudou o tempo em que um vocábulo apresentado de forma subliminar é disfarçado, aleatoriamente, pela exibição de vá- rias de letras na mesma cena. No caso daquelas neutras, de cada dois pacientes um se lembrava do que estava representado na tela. Quando se tratava de termos com conotação negativa, três em cada duas pessoas se recordavam deles. Gaillard concluiu que o conteúdo emotivo de uma palavra pode reduzir o limiar da percepção consciente. E que as palavras percebidas de que possamos nos dar conta são elaboradas de maneira específica, de acordo com o seu conteúdo semântico. É muito improvável que com esses artifícios seja possível manipular as pessoas, porque, quando o estímulo não atinge a consciência, a influência dura pouco tempo. A experiência de Gaillard demonstra serem determinantes não apenas a duração da percepção, mas também o seu conteúdo. Além disso, os estímulos subliminares são elaborados de acordo com a atividade que a pessoa está desempenhando naquele momento.

Esse tema foi estudado pelo neurologista Kimihiro Nakamura, da Universidade de Kyoto. Fazendo uso da estimulação magnética transcraniana (EMT), ele desativou algumas áreas do cérebro em um grupo de pessoas que enxergavam imagens subliminares nas palavras. Com essa técnica, ele podia interromper dois efeitos priming. No primeiro caso, em um teste de reconhecimento verbal, os voluntários deveriam apertar uma tecla para comunicar se a faixa de letras rapidamente sobrepostas formava ou não uma palavra. Se o mesmo vocábulo era proposto de forma subliminar, os voluntários reagiam com mais velocidade, desde que o estímulo magnético não impedisse essa ação.

No segundo caso, os participantes do teste tinham de pronunciar em voz alta uma palavra inscrita. Desta vez a resposta era mais rápida quando era projetada de forma subliminar. E, também neste caso, a EMT podia anular o efeito priming.

Com base nessa tarefa, era preciso desativar várias áreas do cérebro: se os indivíduos mantinham separadas entre si as palavras e as faixas com as letras colocadas ao acaso, havia uma desativação da parte superior do lobo temporal. Ao contrário, na tarefa de leitura a área magnética precisava estar na parte inferior do lobo temporal. Isso significa que a área em que o estímulo subliminar deixa rastros no cérebro é determinada pela tarefa na qual os candidatos são submetidos à percepção subliminar.

Segundo Stanislas Dehaene, pode ser que elaboremos o estímulo subliminar em nível semântico. Seria um resultado fascinante: o estímulo óptico é reconhecido como palavra, a faixa de letras é decifrada e a representação da palavra é lembrada pelo cérebro. Tudo isso acontece sem nos darmos conta.

De acordo com Nakamura, o efeito priming subliminar passa de uma modalidade sensorial a outra. Mesmo se a palavra fosse inserida sob a forma escrita por 3 centésimos de segundo e a tarefa sucessiva de reconhecimento verbal consistisse na sua pronúncia, a faixa de letras inserida de forma subliminar diminuía o tempo de reação das pessoas. Dehaene deduz que percebemos os estímulos de maneira consciente quando produzem uma “reverberação” distribuída e duradoura no cérebro. Portanto, não apenas o tempo do estímulo é determinante, mas também os processos cognitivos superiores: por exemplo, a tarefa em que a pessoa está envolvida naquele momento ou na qual deve se concentrar.

Mas a questão científica ainda está aberta. Os céticos refutam a ideia de que possamos ler palavras em um nível inferior ao patamar da consciência. É provável que as faixas com poucas letras tenham sido “arquivadas” no cérebro como figura completa e criado efeitos priming.

Em 2000, o psicólogo Richard Abrams, da Universidade de Washington, encontrou alguns indícios disso. Inicialmente, permitiu que os indivíduos determinassem o conteúdo emotivo dos termos: a palavra smile (sorriso), por exemplo, tinha efeito positivo, enquanto smut (sujeira) assumia conotação negativa. Após a experiência de priming, Abrams confirmou que uma palavra subliminar de cunho negativo provocava reações mais rápidas nos indivíduos quando se davam conta conscientemente de uma palavra que tinha o mesmo significado.

Mas também os acrônimos sem sentido como anrm suscitavam o efeito de uma palavra prime de caráter positivo se antes os indivíduos tivessem lido várias vezes palavras de conotação positiva, como angel (anjo) e warm (calor). Abrams conseguiu até transformar smile em uma palavra subliminar emotiva- mente negativa: deixou que os indivíduos lessem várias vezes smut (sujo) e bile (bílis). O psicólogo deduz que, em nível subliminar, reconhecemos apenas fragmentos das palavras na memória.

Em 2007, a empresa coreana Xtive lançou um programa de computador que sussurrava em frequências não audíveis frases bem-humoradas como “desligue este treco” às pessoas dependentes do computador. Os produtores argumentam que a mensagem subliminar pode curar a dependência. Existe até “CDs subliminares” à venda: em geral, são inofensivas gravações de textos extraídos do seu contexto, acrescidos à música relaxante, que ajudam as pessoas a pegar no sono (pelo menos tem esse efeito para boa parte delas). No entanto, não existe uma indicação com relação ao efeito exato desse material. E há poucas pesquisas em curso: do ponto de vista científico, esses produtos são pouco discutidos. Por definição, quem os compra não sabe que alcance têm as mensagens “disfarçadas” – se é que realmente têm algum efeito.

Essas propostas estão quase totalmente em desacordo com a definição científica do estímulo subliminar. Se, por um lado, pesquisadores como Stanislas Dehaene usam esses recursos para medir o limite da consciência, por outro alguns supostos especialistas se apropriam do assunto e propõem uma “programação da mente”, apostando que um estímulo imperceptível do inconsciente pode fazer a fantasia humana alçar voo. Porém, se excluímos o que foi demonstrado pela ciência, o efeito que se pode obter com essas técnicas é pura questão de fé.

OUTROS OLHARES

DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA

Expansão indiscriminada da Internet, em graus mais contundentes, pode provocar uma espécie de vício aos usuários, desde em jogos eletrônicos em rede até em sexo virtual.



A expansão em larga escala da Internet, no Brasil, é uma faceta relativamente recente. Apenas em 1995 esse modelo tecnológico tornou-se uma realidade nos domicílios brasileiros (ainda que circunscrito, inicialmente, em lares de famílias com maior poder aquisitivo), tendo em vista que, anteriormente, o seu acesso era restrito a centros acadêmicos.

Indiscutivelmente, o usufruto da Internet, dos jogos eletrônicos e do celular, traduzidos pela popularização da cibernética, modificou substancialmente o processo de comunicação, diversão e trabalho. Tornou-se comum, exemplificando de forma breve, a utilização desses recursos de forma simultânea, ou seja, independentemente da necessidade de se ter um periférico eletrônico específico. É possível, enquanto se navega na Internet, jogar com os amigos e conversar com outras pessoas por programas de chat (Skype, que é equivalente ao uso do celular, um recurso de comunicação, porém, sendo possível ver a outra pessoa, caso ela tenha uma webcam). Esta é apenas uma das facilidades que os recursos cibernéticos propiciaram à população, que acabaram por revolucionar a maneira de experienciar o mundo.

As modificações descritas anteriormente não ficaram circunscritas apenas às residências, elas foram disseminadas a outros ambientes, sendo inseridas também no âmbito organizacional. Carlotto (2011) comenta que é visível que as organizações têm incorporado os modelos de interações virtuais, o que pode ser traduzido por novos processos de comunicação intermediados por vídeo ­ conferência, telefone ou e-mail. Desta forma, é possível questionar: a tecnologia interfere na vida dos sujeitos? Apesar da possível obviedade da resposta, Carlotto opta por afirmar que o mais relevante, antes de buscarmos este posicionamento, é apontá-la como sendo neutra. O que se deve levar em consideração é o modo como o sujeito interpreta (aspecto cognitivo) e usa (aspecto comportamental) esta tecnologia.

Estes dois fatores, em sintonia, podem levar o indivíduo ao estado patológico ou saudável, neste íntimo relacionamento com os jogos eletrônicos, a Internet e o celular.

USOS PROBLEMÁTICOS

O uso problemático da Internet, que pode, em nível mais grave, desenvolver-se para uma dependência tecnológica, possui disseminações relevantes, desde o uso de jogos eletrônicos em rede até a dependência de sexo virtual e a pornografia.

Apesar de a pornografia ser antiga na história da civilização, apenas nas duas últimas décadas estudos foram desenvolvidos sobre o acontecimento restrito ao ciberespaço. Desta forma, contemporaneamente, considera-se, pela literatura científica, a existência de um novo tipo de interação sexual, agora, em caráter virtual.

Este novo comportamento on­line obteve amplo êxito na avaliação dos seus usuários, devido às inúmeras vantagens do seu usufruto: não há a necessidade da presença física do parceiro ou da parceira para haver interação sexual; o anonimato (o que pode se tornar uma fonte de problemas judiciais, tendo em vista a possibilidade de fuga de crimes cibernéticos, como a pedofilia); a busca imediata pelo prazer, sem a necessidade do deslocamento do internauta para um local de estrutura física real (motel, apartamento, boate etc); a existência de um mercado ilimitado para essa prática; prevenção do medo da rejeição (podendo ser considerado, em alguns casos, uma estratégia compensatória do usuário, como os pacientes com transtorno de ansiedade social); e, por fim, um espaço seguro para a experimentação entre a fantasia e o mundo off-line (termo em inglês que equivale a “estar desconectado da Internet”).

Ressalta-se que há diferenças entre a dependência de sexo virtual (tendo como seus principais sintomas a obsessão e a compulsão pelo uso da pornografia na Internet, agressividade e isolamento social) em detrimento de um viés caracterizado pelo uso recreativo de tal artefato tecnológico, que não é considerado patológico (nesse sentido o usuário tem total controle do seu comportamento e cognições, assim como não há o envolvimento com atividades ilegais na rede).

Delmonico e Griffin (2011) sugerem que este último grupo (usuários com uso saudável), que não revela problemas em seu comportamento on-line, perfaz 80% dos internautas que utilizam recursos pornográficos na Internet, sendo um número visivelmente superior aos 20% dos sujeitos que possam estar inclusos no grupo de uso desadaptativo desse recurso virtual. Um estudo conduzido por Grov et ai. (2011) revela vantagens comportamentais dos internautas de uso saudável, sendo uma delas a melhoria na comunicação sexual em seus relacionamentos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUE COISA FEIA!

Numa sociedade em que as queixas em relação à aparência e a busca pela perfeição do corpo e da pele são tão frequentes, algumas pessoas passam a supervalorizar em si mesmas “falhas” físicas – mínimas, comuns e às vezes até inexistentes – que as incomodam profundamente, a ponto de se considerarem deformadas.

Que coisa feia!

Aos 17 anos, sem motivo aparente, o jovem S. passou a se incomodar com os cabelos cacheados, considerando-os um sério problema. Decidiu alisá-los. Durante um ano, passou por procedimentos químicos semanais, que só interrompeu depois de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjados. Anos mais tarde, ao ver seu reflexo na vitrine de uma loja, percebeu que seu nariz era muito grande e torto. Depois disso, só conseguia pensar nesse “terrível defeito” e passava horas diante do espelho.

O rapaz optou então pela cirurgia plástica. Mas uma semana após a operação estava de volta ao espelho – e percebia cada vez mais falhas. Para piorar, arrependera-se da cirurgia. Isso não o impediu de procurar novamente o médico para remoção da cartilagem das orelhas. Deprimido, já não trabalhava nem estudava. Meses depois, ele reconheceu seus sintomas em um livro sobre transtorno dismórfico corporal (TDC), também chamado de dismorfia, um quadro no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível em sua aparência. A preocupação excessiva em relação à própria aparência costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e à depressão e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio.

O distúrbio é surpreendentemente comum. De maneira geral, os pacientes com o transtorno sofrem por características faciais, como acne, cicatrizes, excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lábios. Também podem rejeitar partes específicas do próprio corpo, como seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos em relação à altura e aos genitais. Muitos acreditam ser repulsivos, ainda que sejam considerados atraentes ou até mesmo com beleza acima da média.

Essa convicção perturbadora pode trazer diversos prejuízos. Em geral, aqueles que sofrem do TDC gastam diversas horas diariamente na frente do espelho enquanto examinam a aparência, conferem a pele com os dedos ou adotam outros comportamentos compulsivos que tomam o tempo do trabalho, da família ou de atividades importantes. Capturados pelo próprio reflexo, muitos perdem a noção de tempo e acabam demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores estimam que pelo menos durante uma semana aproximadamente30% dos pacientes com TDC não conseguem sair de casa; 30% apresentam algum transtorno alimentar e 25%, em média, tentam o suicídio. O abuso de álcool e drogas ilícitas também é bastante presente nessa população.

É inegável que fatores psicológicos como fragilidades egoicas, dificuldade de apropriação da própria identidade, baixa autoestima e absorção idealizada de modelos socialmente construídos sobre beleza e perfeição estão na base do distúrbio. Recentemente, porém, pesquisadores descobriram que pacientes com TDC também apresentam percepção visual distorcida, o que sugere que no futuro essas pessoas poderão ser beneficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual.

Originalmente, o transtorno dismórfico corporal era conhecido como dismorfofobia (medo da feiura), um termo cunhado pelo psiquiatra italiano Enrico Morselli em 1891. Ele havia tratado 80 pacientes preocupados com deformidades imaginadas que interferiam excessivamente na vida cotidiana. Em 1980, a dismorfofobia apareceu na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). O termo “transtorno dismórfico corporal” substituiu o antigo na versão de 1987, após a constatação de que o estado estava mais relacionado a convicções irracionais do que a fobias.

Apesar de ser considerado oficialmente como um transtorno psiquiátrico, o TDC – também conhecido como complexo de Térsites, por causa do guerreiro descrito na Ilíada, de Homero, como o “homem mais feio do exército grego” – é relativamente desconhecido, mesmo entre psicólogos e médicos. Não raro, pacientes com a doença são diagnosticados com depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou até mesmo com os três tipos de distúrbio de uma vez.

E frequentemente os profissionais não percebem que o TDC pode ser a causa de todos esses sintomas.

Por outro lado, é comum indivíduos com TDC falarem pouco sobre o problema porque não o reconhecem como um distúrbio menta l, pois acreditam que são simplesmente feios. Muitos também têm vergonha de citar seus comporta­ mentos estranhos numa consulta médica. Como resultado, não raro esperam de três a 13 anos pelo diagnóstico correto. Nesse tempo, muitos procuram a ajuda de cirurgiões plásticos. Mas, assim como no caso do jovem S., esse tipo de intervenção não resolve porque não consegue alcançar a raiz do problema. Já num processo psicoterápico ou analítico esses temas invariavelmente terminam vindo à tona, por isso é tão importante buscar atendimento psicológico.

É comum que o TDC surja na puberdade, quando mudanças radicais no corpo podem contribuir com sentimentos de inadequação relacionados à autoimagem. A maioria dos pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais da doença nesse período.

Fatores como crescer num lar que coloca ênfase excessiva na beleza física ou ter vivido situações traumáticas como bullying e repetidas críticas sobre características físicas, como peso e manchas faciais, também podem contribuir para o aparecimento dos sintomas dismórficos. Em um estudo de 2007, o psicólogo clínico Ulrike Buhlmann e seus colegas da Escola Médica da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts constataram que voluntários com TDC disseram sofrer provocações sobre a aparência mais frequentemente do que participantes do grupo de controle que não tinham o distúrbio.

É provável, porém, que fatores biológicos, como genes e química cerebral, predisponham uma pessoa a essas inseguranças – embora dificilmente, por si sós, determinem o aparecimento do quadro. Seguindo a abordagem neurológica, alguns pesquisadores acreditam que o distúrbio esteja relacionado a alterações nos níveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, um problema semelhante ao que acontece na depressão, que atinge aproximadamente 70% dos pacientes com TDC. Há alguns anos, a psiquiatra Katharine A. Phillips e seus colegas da Escola de Medicina Alpert da Universidade Brown relataram em dois estudos separados que a maioria dos pacientes com TDC apresenta melhora após o tratamento com antidepressivos que inibem a recaptação de serotonina por células cerebrais. Porém, sem acompanhamento psicológico, que permita ao paciente ressignificar a própria imagem e lidar com os efeitos que a distorção da própria imagem lhe causou ao longo dos anos, os efeitos da medicação não se sustenta.

QUEM PROCURA ACHA

Nos últimos anos, alguns pesquisadores começaram a questionar se a combinação entre uma personalidade vulnerável e um ambiente desfavorável poderia explicar o distúrbio. Embora na maioria dos casos a resposta seja sim, surgiu recentemente a hipótese de que o transtorno esteja relacionado, pelo menos em parte, a um problema perceptivo. Em um estudo coordenado pelo  psiquiatra José A. Yaryura-Tobias, do Instituto Biocomportamental em Great Neck, de Nova York, foi pedido a três grupos de dez voluntários cada – um com pacientes com TDC, outro com pessoas com TOC e um terceiro com participantes emocionalmente saudáveis – que fizessem alterações, se julgassem necessário, em uma figura computadorizada mais precisa de seu próprio rosto para corresponder ao que acreditavam representá-los. Metade dos pacientes com TDC e TOC modificou as figuras, ao passo que ninguém do grupo de controle propôs mudança significativa. Os dados sugerem que algumas pessoas com o distúrbio não percebem o próprio rosto da mesma forma que a maioria.

Evidências apontam que pacientes com TDC podem ser visualmente mais “sintonizados”. Em um estudo publicado na Abnormal Psychology, o psicólogo Ulrich Stangier e seus colegas da Universidade de Jena, na Alemanha, apresentaram brevemente uma figura de um rosto feminino junto com cinco representações alteradas digitalmente da mesma imagem a 21 voluntárias com TDC, 20 pacientes com doenças de pele desfigurantes e 19 participantes sem nenhum distúrbio – e pediram que julgassem o grau de deturpação. Nos rostos manipulados, os olhos eram mais espaçados, os cabelos mais claros, o nariz era maior e havia espinhas e cicatrizes adicionais. As voluntárias deveriam escolher entre cinco níveis de distorção que variaram de “baixo” a “extremo”. Os pesquisadores constataram que as pacientes com TDC julgavam melhor o grau de manipulação da imagem do que as demais, o que sugere que tinham percepção mais aguçada.

Curiosamente, essa capacidade apurada pode resultar numa assimilação deturpada. O psicólogo Thilo Deckersbach e seus colegas da Universidade Harvard publicaram um estudo em que pediram a pessoas com TDC que copiassem uma figura complexa e, em seguida, que a duplicassem de memória. Os pacientes demonstraram baixo desempenho (desenharam muitos detalhes, mas sem capturar a figura de forma geral) quando comparados com indivíduos emocionalmente saudáveis. Embora tenham mostrado pensamento estratégico pobre na tarefa, o principal problema pode ser a ênfase exagerada em detalhes visuais, o que ajuda a explicar por que se preocupa m tanto com “defeitos” minúsculos em sua aparência.

Feusner e a neurocientista cognitiva Susan Bookheimer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, encontraram evidências que reforçam a tese. Os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética funcional para observar o cérebro de 12 pacientes com TDC e 12 indivíduos saudáveis enquanto viam três versões de várias fotografias de faces: comuns, borradas e achatadas, mas altamente detalhadas.

Os voluntários sem o distúrbio processaram os rostos comuns e os borrados em áreas do hemisfério direito do cérebro, região responsável pela decodificação de características visuais de maior escala; o lado esquerdo foi ativado somente quando viram as imagens detalhadas. Já aqueles com TDC usaram o hemisfério esquerdo para interpretar todas as fotografias. “Eles processam todas as figuras como se fossem altamente detalhadas. É como se o cérebro tentasse extrair nuances que não existem”, observa Feusner.

Os resultados sugerem que o TDC pode estar relacionado, em parte, a alterações no processamento da informação visual. Afinal, é possível pensar que a capacidade de apreciar a beleza tem valor evolutivo. Um corpo atraente pode, em alguns casos, estar associado ao estado de saúde. Ou seja, a “feiura” indicaria menor aptidão. É possível que a habilidade de escolher a pessoa “mais bonita” como parceira tenha aumentado as chances de transmitir bons genes para a prole. Nesse sentido, o TDC representa uma versão extrema desse talento. “Mas ainda não sabemos se pessoas com TDC nascem com dificuldades no processamento visual ou se o distúrbio deflagra o problema”, admite Feusner.

O ROSTO DOS OUTROS

Considerando que alterações no processamento visual contribuem com o TDC, no futuro terapias poderão ser desenvolvidas para ajudar pacientes a enxergar as coisas de forma mais global usando o lado direito do cérebro. Feusner acredita que a exposição repetida a imagens borradas, vistas à distância ou visualizadas por apenas uma fração de segundo, por exemplo, poderia forçar o cérebro a adotar essa estratégia.

O psiquiatra afirma que medicamentos também podem alterar o lado do cérebro usado para processar informações visuais. Estudos preliminares sugerem que benzodiazepínicos favorecem a transferência da atividade neural para a direita durante uma tarefa do processamento visual, mas os efeitos colaterais são inegáveis. A saída seria o uso de drogas alternativas que podem agir de maneira similar, causando menos danos.

Contudo, especialistas concordam que o problema não é totalmente visual. Levando em conta que nove entre dez pacientes com TDC afirmam também examinar a aparência alheia, principalmente as características que mais detestam em si mesmos, uma pesquisa desenvolvida por Buhlmann e seus colegas mostrou que pessoas com o distúrbio não enxergam as mesmas distorções que veem em si no rosto dos outros. Indivíduos que sofriam de dismorfia classificaram fotografias de outras pessoas (consideradas “atraentes” pelos pesquisadores) como significativamente mais bonitas do que fizeram outros grupos sem o distúrbio. Isso sugere que a percepção detalhada sobre os outros não evoca a mesma resposta emocional negativa relacionada à própria aparência.

De fato, alguns profissionais tratam o TDC abordando aspectos emocionais, como o perfeccionismo e o medo de rejeição, focando as percepções distorcidas e sugerindo ações para ajudar os pacientes a abandonar hábitos destrutivos. Em alguns casos, são instruídos a pedir um retorno sobre a própria aparência para outras pessoas, como amigos, familiares ou até mesmo estranhos. Psicólogos cognitivo-comportamentais apostam que comentários alheios positivos, ou pelo menos neutros, podem ajudar o paciente a desenvolver uma autoimagem melhor e mais realista. No entanto, essa técnica mais uma vez coloca o referencial de auto aceitação fora da pessoa. Nesse sentido, psicoterapias comportamentais podem ser úteis num primeiro momento, mas os processos terapêuticos mais eficientes ainda parecem ser aqueles que permitem a reelaboração das vivências mais profundas. Lidar com as próprias faltas abre possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que se considera imperfeito no próprio corpo não impede a pessoa de ser atraente, merecedora de afeto e de relacionamentos saudáveis.

Que coisa feia!. 2

EM BUSCA DA IMAGEM PERFEITA

Em tempos de selfies e outras formas de auto exposição, em especial nas redes sociais, a preocupação exacerbada com a própria imagem parece cada vez mais presente. E o resultado disso se vê nos consultórios médicos. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que o número de procedimentos estéticos aumentou 10% em 2014, no Brasil, o que significa aproximadamente 1 milhão de cirurgias plásticas realizadas. Embora na opinião de alguns profissionais como a dermatologista Luciana Conrado, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o termo “dismórfico” não seja necessariamente o mais adequado para descrever o transtorno, ela reconhece que a insatisfação é a “massa de trabalho” dos profissionais que atendem pessoas em busca de correções físicas. “O limite é tênue, mas em certos casos, a diferença entre a maneira que o indivíduo vê o próprio corpo e a maneira como os outros o enxergam é muito distante”, observa a médica, pós-graduada em psicossomática psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.

O interesse por compreender melhor o que estava por trás da preocupação exagerada com um defeito pequeno ou inexistente apresentada por alguns pacientes que chegavam ao seu consultório a motivou a estudar esse “problema secreto”, que muitas vezes os pacientes escondem e, não raro, os próprios profissionais têm dificuldade de identificar e manejar. Segundo ela, na população em geral, 2%das pessoas apresentam o transtorno; entre pacientes dermatológicos 7% se enquadram no diagnóstico e quando consideramos os que buscam tratamentos cosméticos esse percentual chega a 14%, um índice considerado bastante alto.

Para chegar a esses resultados, a dermatologista desenvolveu uma pesquisa, inspirada no estudo da psiquiatra americana Katherine Phillips, para a conclusão de seu doutorado, em 2009, levando em conta o enquadre diagnóstico, a epidemiologia e a avaliação do nível de crítica dos voluntários, usando testes psiquiátricos para fazer a avaliação. Na ocasião, entrevistou 350 pessoas: 150 pacientes dermatológicos, outros 150 que haviam procurado tratamento cosmético e 50 provenientes da ortopedia, que compuseram o grupo de controle. Luciana Conrado salienta ainda que não apenas dermatologistas e cirurgiões plásticos recebem essas pessoas, mas também otorrinolaringologistas, oftalmologistas, dentistas e mesmo profissionais que trabalham com estética devem ficar atentos aos clientes que nunca parecem satisfeitos e continuam pedindo novas intervenções. Ela defende o atendimento multiprofissional para esses pacientes. Trabalhando na Universidade Justus Von Liebig, em Giessen, na Alemanha, ela acompanhou o tratamento de pessoas com o transtorno que recebiam atendimento diversificado: acompanhamento dermatológico e psiquiátrico, medicação para conter a obsessão, sessões de terapia de grupo e arte terapia. Ainda que seja difícil falar em cura definitiva, o acompanhamento focado na diminuição da percepção do suposto defeito pode trazer grande alívio ao paciente.

Que coisa feia!. 3

ESPELHO, ESPELHO MEU …

Em sua clínica em São Paulo, a médica Noemi Wahrhaftig, membro da Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria, costuma receber com frequência pessoas ansiosas por fazer tratamentos estéticos que as tornem mais jovens e belas. Recentemente, porém, ela se surpreendeu quando uma paciente de 40 anos desatou a chorar copiosamente em sua frente, profundamente angustiada com a constatação de que estava envelhecendo. A dermatologista acredita que a mulher apresente um subtipo de dismorfia conhecido como síndrome de Dorian Gray, numa alusão ao personagem de Oscar Wilde que faz um pacto com o demônio no intuito de manter a juventude enquanto um retrato seu, cuidadosamente escondido, se deforma com o passar do tempo.

A médica reconhece, porém, que sua própria angústia diante do pedido de muitos pacientes de se submeter compulsivamente a procedimentos estéticos não é muito comum entre profissionais

que trabalham com procedimentos cosméticos – e sua atitude crítica, por vezes, provoca estranhamento entre seus pares. “Vivemos em uma sociedade que nos cobra sermos assépticos, sem cheiro, com dentes brancos, sem pelos ou poros abertos, com cabelos lisos, sem manchas ou marcas na pele e isso me incomoda”, comenta. “Muitos pacientes cultivam a fantasia de que um médico os tornará perfeitos, mas sofrem com a insatisfação numa busca que continua, continua…”. E ainda que o corpo se transforme, permanece a rejeição por si mesmo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A MÍNIMA DIFERENÇA

Os ícones da feminilidade se modificaram e as diferenças entre os sexos têm se diluído, mas permanecem os impasses e as pretensões de homens e mulheres em torno do amor e do desejo.

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Há mais de cem anos não se fala em outra coisa. O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo em um tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens como a mais universal das mercadorias? O escândalo e o enigma do sexo permanecem deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – , avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como sempre, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.

Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e de suas ressonâncias, mas o que se diz já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar e próprio do homem, Narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos de sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “O que faço para (voltar a) ser mulher?”, “Como posso (voltar a) ser homem?”.

CAMPO MINADO

Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/ inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os disc ursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, parte das exigências do superego, parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário – , mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma: os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? No ­ vos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos, e sim com um campo minado ainda desconhecido.

Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social {e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado {por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revista americana Time publicou em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e mulheres nascem diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nas últimas décadas parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de Narcises frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer “Devagar com a louça!”, aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem a sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?

Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem de ser dissimulada com os engodes fálicos da beleza e da indiferença , tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza?

AGRURAS DA PAIXÃO

Os artistas da virada do século 19 para o 20 já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karenina (Tolstoi, 1873 -1877) pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o amor não é meio de vida, não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary (Flaubert, 1853-1856) queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher, que foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então, ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.

O destino de Nora (lbsen, 1879) nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que lbsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de…mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e a segunda (e a terceira, e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder às paixões masculinas sem “se desgraçar”?

No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já no século 20 é a de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo (Guimarães Rosa, 1956) se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em consequência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí, sim, é que ela é mesmo mulher.

O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século 21 sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade(s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s)- o que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento, de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou em Mal-estar na cultura (1920), sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças”, tentando explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais, sobretudo as que pesavam sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.

FALOS E BRUXAS

No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. já para o homem, toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem interessa manter a mulher a distância, tentando garantir que esse “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.

A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas pelo demônio, assim se designavam na Antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada de sua feminilidade até um limite intolerável. Se a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de pôr fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.

SERES ESVAZIADOS

E quem duvida de que Ana Karenina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista desse “a mais” que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal “a mais” da mulher!), a morte de um reconhecimento pelo outro, na falta do qual a mulher cai em um vazio intolerável. Pois, se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.

Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são, nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky e a Rodolfo Boulanger? Não; eu diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.

Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer essa mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter de se reconhecer.

Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que se trata o abandono e a solidão da mulher. já nos primórdios dessa movimentação toda, os psicanalistas Melanie Klein e Joan Riviere escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar etc. etc. – ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.

E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito de nosso mal-estar, antes que este texto se torne paranoico ; mas como não ser paranoico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina?

 

MARIA RITA KEHL – é psicanalista, doutora em psicanálise e autora, entre outros livros, de O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo, em impressão). Este artigo foi publicado originalmente no livro A mínima diferença o masculino e o feminino na cultura (Imago, 1996), esgotado.