GESTÃO E CARREIRA

COMUNICAÇÃO NA NOVA ERA: FALA QUE EU NÃO TE ESCUTO

Comunicação na nova era - fala que eu não te escuto

Retirada do livro “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”, de Javier Naranjo, obra que surpreendeu o mundo ao se tornar o maior sucesso da Feira Internacional do Livro de Bogotá em abril de 2013, essa frase esconde atrás de si uma grande verdade, o egoísmo latente de nossa comunicação.

Em “O Gene Egoísta”, Richard Dawkins, etólogo, biólogo evolutivo e escritor britânico, diz:

Um indivíduo se comunica com outro quando há uma influência no comportamento ou no estado de seu sistema nervoso.

Os exemplos de comunicação no mundo animal são numerosos: o canto das aves; o balançar da cauda e eriçar dos pelos em cães; o arreganhar dos dentes nos chimpanzés.

Os pintos, por exemplo, influenciam o comportamento de suas mães soltando pios agudos e penetrantes quando estão perdidos ou com frio. Isto geralmente tem o efeito imediato de chamar a mãe, a qual conduz o pinto de volta à ninhada. Poder-se-ia dizer que este comportamento desenvolveu-se para o benefício mútuo, no sentido de que a seleção natural favoreceu os filhotes que piam quando estão perdidos, e também as mães que respondem adequadamente ao pio.

No humano, esse sistema se dá pela linguagem e pelos gestos.

Segundo a analogia de Dawkins, nossa linguagem e gestos deveriam ter a função de influenciar o comportamento de outro indivíduo.

Porém, não é o que temos visto com frequência.

Cada vez mais pessoas reclamam de reuniões chatas e sem objetivo, apresentações entediantes, em que são perdidas horas e horas com comunicadores que falam de interesses próprios, de valores, missão, clientes, serviços e produtos maravilhosos. O modelo “eu falo e você me escuta” gera desinteresse e tédio e, de forma alguma, influencia o comportamento do ouvinte. Se não influencia, podemos entender que não existe comunicação?

Estamos tateando um momento novo, obscuro, imprevisível, uma nova geração de indivíduos com novos hábitos e uma nova forma de se comunicar.

A criança dessa geração já nasce em meio a controles remotos, milhares de canais na televisão, informação disponível em diferentes dispositivos, em todos os idiomas. A música, a dança, a arte, os games são parte dos exercícios escolares e as redes sociais e mensagens de texto representam amigos conectados 24 horas por dia.  

Surge um indivíduo mais crítico, mais contestador.

Pais e professores começam a enfrentar uma mudança de papéis, uma vez que já não são mais os únicos detentores da informação.

“Isso é assim porque é assim” não funciona com a nova geração. Tudo deve ter uma razão de existir, tudo tem uma explicação lógica. Tudo tem que ser comprovado. Não sabe? Procura no Google.

Na nova geração, não existe comunicação sem troca. O mundo digital nos abre a porta da revolução cognitiva, onde o repertório, ou seja, a bagagem de experiências de cada indivíduo deve ser levada em consideração.

Termos como colaborativoconexão e rede nunca estiveram tão em alta. E não tem como ser colaborativo sem prestar atenção no outro, sem construir junto, sem tratar cada ato de comunicar-se como único e sob medida para cada indivíduo, para cada situação.

Em seu livro, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, um dos maiores best-sellers do mundo desde 1937, Dale Carnegie dizia:

Ouvir é uma arte, uma habilidade e uma disciplina e, tal como outras habilidades, exige autocontrole. Você precisa aprender a ignorar suas necessidades e concentrar a atenção na pessoa que está falando. Escutar se transforma em ouvir apenas quando você dá atenção e acompanha de perto aquilo que está sendo dito.

Este é um dos fatos mais básicos da psicologia humana. Ficamos lisonjeados diante da atenção de outras pessoas. Isso nos faz sentir especiais. Queremos estar perto de pessoas que demonstram interesse por nós. Queremos mantê-las por perto. Nossa tendência é retribuir seu interesse mostrando interesse por elas.

Setenta e seis anos depois, ainda não sabemos ouvir. Por isso, temos aqui um dos desafios mais interessantes e motivadores da nossa era. A evidência clara que o interesse e a motivação do ouvinte são tarefas do comunicador.

Muitas vezes pensa-se que, para gerar interesse no ato de comunicar uma ideia, basta usar vídeos, imagens, novas tecnologias. As pessoas gastam um tempo enorme com seus PowerPoints, Prezis e keynotes, porém, nada disso irá provocar mudança de comportamento no outro se não gerar comunicação efetiva.

Se o novo indivíduo é colaborativo, é impossível não considerar sua participação na construção da comunicação. Aguçar a percepção e ouvir mais se tornam, então, as principais ferramentas dessa construção. As tecnologias ajudam; porém, são apenas alegorias que devem ser utilizadas para reforçar a troca de experiências.

Um exemplo:

Quando um vendedor expõe uma quantidade enorme de produtos e serviços utilizando as tecnologias mais modernas, com milhões de detalhes “super” importantes, gera uma angústia terrível no cliente, que não consegue nem solucionar o seu problema, nem guardar as informações recebidas.

Para provocar mudança de comportamento, ou seja, fazer com que o cliente queira comprar o produto oferecido, a comunicação deve ser construída em conjunto.

Primeiro, o comunicador ouve o cliente, convida-o a expor seus conflitos e necessidades e, em troca, recebe um cenário muito mais preciso do problema a ser resolvido. Após perceber esse cenário, ele tem condições de trazer uma solução objetiva e clara, direto ao ponto, sem precisar expor informações desnecessárias. O resultado é muito mais interessante, tanto para o vendedor, que não precisa ficar horas falando, quanto para o cliente, que fica satisfeito ao perceber que encontrou uma solução para resolver seu problema.

Não há mais espaço para uma comunicação em que há um indivíduo falando e outro ouvindo. Temos que pensar em um indivíduo dividindo seu conhecimento, baseado em percepções construídas em conjunto com o ouvinte.

Não estamos mais falando de reuniões cujo objetivo é ver quem tem razão. Estamos falando de reuniões cuja solução de um determinado assunto é o foco e os participantes são peças fundamentais para dividir conhecimento e chegar à solução.

Na nova era da comunicação não há mais espaço para a verdade absoluta. As experiências e repertório de cada indivíduo são levados em consideração, bem como suas diferentes percepções sobre um mesmo assunto. A união dessas percepções dá origem a novas ideias, que são discutidas e encontradas ao longo da construção da comunicação. Não é mais a sua ideia ou a minha ideia. É uma nova ideia que surgiu da junção de duas ou mais ideias.

Dessa forma, é possível criar uma identificação com o ouvinte, fazê-lo perceber que o seu momento está sendo valorizado. Que o assunto é ele e não o ego do comunicador.

Usar o egoísmo, ou seja, o interesse do público na construção da comunicação, pode nos ajudar, enfim, a influenciar seu comportamento.

JOYCE BAENA – é sócia-diretora da La Gracia Design, graduada em Comunicação Social pela PUC-SP e desde 2008 é jurada do Festival Universitário de Comunicação.

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ALTA QUILOMETRAGEM

Em 11 anos, o Brasil terá mais idosos do que jovens. Ao mesmo tempo que preocupa, o envelhecimento da população pode ser um ótimo negócio.

Alta quilometragem

O Brasil está envelhecendo rápido. Previsões do Instituto Brasileiro ele Geografia e Estatística (IBGE) mostram que até 2030 os idosos chegarão a 41,5 milhões (18%) – jovens de até 14 anos serão 39,2 milhões (17,6%). Isso significa que, em 11 anos, haverá mais pessoas acima de 65 anos do que crianças no país. Além disso, a expectativa de vida seguirá aumentando, chegando a 80 anos nas próximas décadas (hoje é de 76). O fenômeno, apelidado por especialistas como “tsunami prateado”, implicará mudanças profundas na economia, nas políticas públicas, na assistência social, no mercado de trabalho, na Previdência e, claro, nos negócios.

Se por um lado esse mar de grisalhos impõe desafios, por outro gera oportunidades. Embora não existam pesquisas mensurando a capacidade exata de consumo desse pessoal, os números dão pistas do potencial. Um levantamento da Quorum, consultoria especializada em hábitos de consumo da população mais velha, estima que os clientes mais maduros movimentem 12,4 bilhões de reais ao ano só no Brasil. Globalmente, as cifras são ainda mais impressionantes. Segundo o relatório Consumer Generations, divulgado pela Tetra Pak em 2017, o poder de compra dessa geração será de 20 trilhões de dólares até 2020. As perspectivas são tão positivas que a Euromonitor International, empresa global de pesquisa de mercado, classificou produtos voltados para idosos como a principal tendência para 2019.

Empreendedores brasileiros estão começando a sacar isso. Após conduzirem um levantamento no ano passado, a Hype60+, consultoria de marketing especializada no consumidor sênior, e a Pipe.Social, vitrine de negócios de impacto social, notaram que o movimento é bem recente. Ao mapear 221 iniciativas com soluções para o envelhecimento, a conclusão foi de que os negócios do setor ainda engatinham: 73% possuem menos de cinco anos e 40% ainda nem sequer têm faturamento. “Tudo nessa área é muito embrionário. Empresas e investidores atinaram agora para esse mercado”, diz Layla Vallias, co­fundadora da Hype60+.

Embora existam negócios voltados para saúde, bem-estar, segurança, autonomia, moradia, geração de renda e lazer, as propostas mais bem­ sucedidas, por enquanto, vêm da área de tecnologia – uma tendência que se observa não só por aqui, mas ao redor do mundo também.

Que o diga o robô americano Elliq, desenvolvido para atuar como companheiro, assistente e cuidador de idosos. Recém – lançado nos Estados Unidos, esgotou rapidamente por fazer de tudo um pouco: cria lembretes, responde a perguntas, envia mensagens, atente telefone, toca música e exibe vídeos.

No Brasil, as inovações são menos audaciosas e, segundo especialistas, ainda se limitam a coisas mais básicas, com sensores de mobilidade, que ajudam a subir escadas e evitam quedas no banheiro, por exemplo.

Como o mercado é incipiente, quem deseja atuar nele precisa ser resiliente e ter perspicácia para fazer a leitura de dados ainda pouco consolidados. A maior dificuldade é atender a diversidade desse público, que possui realidades e necessidades bem diferentes, sobretudo de renda e capacidade física e mental. “Ao mesmo tempo que é complicado, ser pioneiro numa área onde falta praticamente tudo é também muito promissor”, diz Layla, da Hype60+.

Alta quilometragem. 2

ONDE HÁ DEMANDA

Com sessentões, setentões e oitentões trocando remédios e hospitais por diversão e bem-estar, além dos empreendedores, ganham relevância diversos profissionais. Vanessa Cepellos, professora de gestão de pessoas da Fundação Getúlio Vargas, diz que serão altamente valorizados psicólogos, geriatras, gerontólogos, personal trainers para a terceira idade, fisioterapeutas, agentes de turismo e até especialistas em aconselhamento para aposentadoria. “Haverá demanda na área da saúde e em setores como alimentação, estética, finanças, moradia, entretenimento e tecnologia. “Mas, a despeito de todo otimismo, é preciso colocar à mesa alguns problemas incômodos. Dados mostram que idosos brasileiros são, de modo geral, pobres. A parcela de grisalhos que desfruta de uma condição financeira confortável é pequena – a maioria dos aposentados do INSS (72%) recebe apenas um salário mínimo. Ou seja, a renda necessária para que essa população consuma e usufrua de tantos produtos esbarra em duas questões importantes: a atual reforma da Previdência, que corta na carne dos mais desfavorecidos, e o preconceito do mercado de trabalho, que exclui trabalhadores com rugas e cabelos brancos.

Foi pensando em reverter essa situação que o engenheiro de software Mórris Litvak, de 36 anos, criou a Maturi Jobs, plataforma de empregos para pessoas com mais de 50 anos. A ideia dele é justamente conectar essa mão de obra com empresas interessadas. Desde 2017, a startup já publicou cerca de 1.000 vagas em 750 empresas. Ao todo, 40.000 pessoas se candidataram e 850 foram contratadas. “O preconceito etário ainda faz parte do cenário brasileiro, o que é um equívoco. Cerca de 70% de nossos 85.000 inscritos têm nível superior e 20% tem MBA, por exemplo,” afirma o empreendedor.

Na visão dele, empregar essa fatia da população é interessante por vários aspectos: redução de gastos do governo com saúde, incentivo ao consumo, aumento da autoestima dessa população e ganhos macroeconômicos. Para ter noção, um estudo da consultoria PwC em parceria com a FGV mostrou que o Brasil aumentaria seu PIB em 18,2 bilhões de reais por ano se elevasse para cerca de 60% o nível de empregabilidade de pessoas acima de 50 anos (em 2015, esse índice estava em 26%). “Profissionais com bagagem e experiência na tomada de decisões só trazem ganhos para as companhias”, afirma João Lins, professor na FGV. Resta saber se o mercado, além de vender, também está disposto a trazer os idosos para dentro de suas operações.

Alta quilometragem. 3

APOSTA

Oito setores promissores e os profissionais mais cobiçados em cada um deles.

TURISMO

Planejadores voltados para a criação de roteiros de viagens para idosos e guias para acompanhar esse tipo de grupo.

BELEZA

Engenheiros químicos capazes de desenvolver itens especiais que atendam às necessidades de pele de pessoas com mais de 60 anos; vendedores especializados em atender esse público.

ALIMENTAÇÃO

Nutricionistas e engenheiros de alimentos capazes de criar produtos para idosos e dietas adequadas à faixa etária.

SAÚDE

Enfermeiros, cuidadores, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e médicos que façam diagnóstico, prevenção e acompanhamento de idosos.

MOBILIDADE

Arquitetos, urbanistas e engenheiros que sejam especializados em planejar espaços que facilitem a locomoção e a acessibilidade desse pessoal em ruas, edifícios e espaços públicos.

TECNOLOGIA

Desenvolvedores e programadores, para sustentar soluções inovadoras que minimizem as agruras do envelhecimento.

PUBLICIDADE

Marqueteiros, jornalistas e social media, gente com habilidade para analisar o comportamento e os novos hábitos de consumo dessa população.

EDUCAÇÃO

Professores, sobretudo de idiomas e informática. há mais de 9 milhões de brasileiros acima de 55 anos no Facebook: 50,82% deles têm de 61 a 70 anos. o interesse em aprender e o tempo disponível levam os mais maduros a procurar cursos.

FONTE: Especialistas FGV, PwC e HYPER60+

GESTÃO E CARREIRA

A INOVAÇÃO QUE VEM DE PARCEIROS

Em tempos de dificuldade crescente para inovar a portas fechadas, grandes empresas se aproximam de startups para buscar soluções para seus problemas, gerar novos negócios e transformar a cultura interna.

A inovação que vem dos parceiros

A lentidão da justiça brasileira, cujo excesso de burocracia costuma retardar a conclusão dos processos, é uma velha conhecida das empresas. O setor jurídico do banco Itaú, no entanto, está cada vez menos preocupado com esse problema. Isso porque a área ganhou no ano passado um reforço tecnológico: uma parceria com a startup Mediação Online levou as demandas judiciais a um ambiente integralmente digital, facilitando a resolução de casos que envolvam pessoas físicas e empresas. O banco passou a usar uma plataforma da Mediação Online para resolver pendências financeiras dos clientes. Após um período de avaliação de cerca de um ano, com mais de 700 mediações, o Itaú fechou uma parceria com a startup para a gestão de 5.000 casos por mês. O banco avalia que, para cada real investido na parceria, já teve um retorno de 103 reais.

O aumento da eficiência na área jurídica é apenas um dos resultados obtidos pelo banco desde a criação do centro de empreendedorismo tecnológico Cubo Itaú em 2015. Instalado em São Paulo, o prédio abriga mais de 300 pequenas empresas e serve de espaço para coworking e geração de negócios com grandes corporações que buscam inovação. “Não há receita de bolo para a transformação digital. As startups são ferramentas para facilitar esse processo”, diz Renata Zanuto, executiva responsável pelo relacionamento com as startups do Cubo. Em três anos, o Itaú já realizou mais de 70 projetos com startups residentes no cubo. “Grande parte delas não é ligada à área financeira, mas impacta na transformação de processos internos do banco”, afirma Reynaldo Gama, responsável por fomentar os negócios entre grandes empresas e as startups do Cubo.

O que o Itaú está colocando em prática é o que se chama de inovação aberta, um conceito formulado no início dos anos 2000 pelo americano Henry Chesbrough, professor na Universidade da Califórnia. A expressão se refere à disposição de uma empresa em aceitar cooperação externa, seja de startups, seja de instituições de ensino, seja de governos, para desenvolver novas tecnologias em produtos e processos. Foi o caso do revolucionário iPod, lançado pela Apple em 2001, mas com parte de sua tecnologia desenvolvida pela startup americana PortalPlayer. Hoje, a ideia de inovação aberta passa por uma ampliação: engloba o corporate venture capital – prática mais ligada a investimentos de grandes companhias em startups ou de criação de uma startup interna. Mais recentemente, surgiu o conceito de corporate – startup engagement, algo que vai além da criação de novos negócios. “As grandes empresas querem trabalhar em diversas modalidades com as startups, e não necessariamente ser donas delas”, afirma Bruno Rondani, presidente da 100OpenStartups, uma plataforma que conecta grandes organizações às pequenas inovadoras. “A ideia é unir para criar mais valor”.

A contratação de serviços de startups é apenas uma das possibilidades de parcerias com grandes empresas. A indústria química Basf, por exemplo, aposta na estratégia de aceleração. Em uma parceria com a aceleradora ACE, a empresa alemã criou o programa AgroStart e, por meio dele, investiu em mais de dez startups, trazendo a inovação para dentro de casa. “A iniciativa é voltada para melhorar, de uma forma digital, a eficácia da aplicação de agro- defensivos e as tecnologias de análise de solo”, afirma Manfredo Rübens, presidente da Basf para a América do Sul. Hoje, por exemplo, a empresa usa drones para identificar situações de risco em lavouras. Após a análise, o aparelho transmite dados a uma equipe da Basf, que envia recomendações para que o agricultor resolva o problema de forma eficiente.

A Basf está satisfeita com os resultados que vem obtendo com a inovação aberta. E quer mais. Há cerca de duas semanas, inaugurou em São Paulo um centro colaborativo de experiências científicas digitais, batizado de Onono. “É um lugar onde confrontamos clientes e funcionários com as novas tecnologias e a digitalização”. diz Rübens. Ele acredita que o Brasil tenha um ambiente propício para transformações na cultura da empresa. “Já trabalhei na Alemanha, nos Estados Unidos e no Brasil. Por aqui, as mudanças são muito mais reconhecidas como oportunidades e menos como ameaças aos funcionários do que em outras regiões do mundo”.

Essas transformações, claro, acabam afetando os clientes finais em sua relação com a tecnologia. De olho na evolução das formas de pagamento, a empresa de serviços financeiros Visa fechou uma parceria, no início de abril, com a empresa de entregas Rappi na terra natal da startup: a Colômbia. Juntas, elas vão lançar um cartão de débito. A ideia é substituir o dinheiro vivo em transações pequenas. A Visa também tem centros de inovação espalhados pelo mundo – um deles em São Paulo -, além de um programa de aceleração de startups desde 2017. De lá para cá, mais de 50 empresas de inovação receberam investimentos. “As parcerias quebram o mito de que os bancos são rivais das fintechs”, diz Percival Jatobá, vice-presidente de produtos da Visa. “O envolvimento com startups nos permite também estabelecer nossa marca no ecossistema, além de sermos instigados por seus modelos de pensamento”.

Não são apenas as startups que enriquecem o ecossistema da inovação. Na indústria de alimentos BRF, a experiência positiva com pequenas empresas levou a corporação a ficar ainda mais receptiva às ideias externas. Depois de criar o programa b.Connect em 2016, para se aproximar das startups, a BRF aprimorou a iniciativa e lançou, em fevereiro deste ano, o brfHU, que reúne novos parceiros. “Entendemos que havíamos deixado de fora uma parte relevante do modelo de conexão: instituições de ensino superior, de ensino técnico e empresas de tecnologia em geral”, diz Sérgio Pinto, gerente executivo de inovação da BRF. “Colocando todos os parceiros em uma única avenida, o diálogo fica mais fácil”. No novo programa, a BRF lançou um site onde publica desafios em áreas diversas, como pesquisa e desenvolvimento, recursos humanos e vendas. “Há muitas ações bacanas na academia e no mercado. O que faltava era conexão”, diz Pinto. Para a BRF e outras empresas que perceberam os benefícios da inovação aberta, não falta mais.

A inovação que vem dos parceiros. 2

ABERTAS PARA APRENDER – E FAZER NEGÓCIOS

Algumas formas de cooperação entre grandes empresas e startups

 RECONHECIMENTO

Para construir uma reputação de marca inovadora, a empresa pode promover competições de inovação, oferecer mentorias para startups ou compartilhar espaços de trabalho.

QUEM FAZ: O Itaú mantém o Cubo, espaço que abriga startups. Elas têm acesso livre para eventos promovidos no local, e o banco pode fazer parcerias com fornecedoras mais inovadoras.

COCRIAÇÃO

Para resolver problemas de clientes ou ter parceiros inovadores, as empresas podem atrair startups e manter rotinas de exposição a alguns de seus desafios.

QUEM FAZ: a Visa passou a receber startups e clientes para discutir inovação. Assim ajudou por exemplo, o Bradesco a criar um atendimento automático em rede social.

ACELERAÇÃO

Em parceria com aceleradoras de startups, a empresa pode lançar seu próprio programa para ajudar as novatas a crescer, com foco em temas que considera estratégicos.

QUEM FAZ: a empresa química Basf lançou em 2018, o programa AgroStart e, desde então, acelerou dez startups. Os novos serviços ajudam os produtores rurais a detectar problemas nas lavouras.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MENSAGENS PARA O INCONSCIENTE

Os sentidos captam informações que escapam à consciência, mas há dúvidas de que esses dados possam manipular nossa vontade. Pesquisas mostram, porém, que esses estímulos provocam reações cerebrais mensuráveis.

Mensagens para o inconsciente

Quando falamos em estímulos subliminares, em geral pensamos em imagens que aparecem de forma tão fugaz a ponto de não serem percebidas pela consciência, mas que mesmo assim são capazes de influenciar as nossas decisões. Alguns acreditam que esse recurso permite criar determinados estados de ânimo e até obter ganhos, influenciando as pessoas a fazer certas escolhas. Usada de forma indiscriminada, essa técnica poderia ser um risco nas mãos de publicitários e políticos. Os cientistas demonstraram, porém, que o efeito da percepção subliminar não é tão espetacular como durante muito tempo se acreditou.

Essas técnicas vieram à tona em 1957, com uma experiência desenvolvida pelo publicitário americano James Vicary (1915 – 1977), especialista em pesquisa de mercado. Durante uma projeção em um drive-in, ele exibiu – em velocidade muito alta, sem que o público notasse – uma mensagem na tela: “Coma pipoca e beba Coca-Cola”. Na ocasião, Vicary anunciou que o sistema aumentou em 20% o consumo do refrigerante e em 60% o de pipoca. No entanto, cinco anos mais tarde o próprio Vicary admitiu que nunca levara a cabo uma experiência nesses moldes, e que queria apenas incrementar o faturamento de sua agência publicitária. Mas o mito da manipulação inconsciente já tinha nascido. Posteriormente, ele de fato fez uma experiência em um cinema na presença de um grupo de jornalistas, mas os dados haviam sido falsificados: o famigerado tactoscópio, aparelho que envia as breves mensagens, teria tido seus dados fraudados.

Para o cinquentenário de “Coma pipoca e tome Coca-Cola”, em 2007, o psicoterapeuta Jim Brackin, especialista em publicidade e hipnose, realizou uma experiência similar em um congresso de marketing em Istambul. Usando imagens subliminares, divulgou o produto inexistente, Delta. Após a projeção, os 400 congressistas tinham de escolher entre o Delta e outro produto, Theta. Resultado: 81% escolheu a primeira opção. Mas nunca se procedeu a uma comprovação – normalmente usada nos estudos científicos – para estabelecer se a mesma experiência sem as mensagens subliminares poderia trazer um resultado diferente.

CRUCIFIXO MISTERIOSO

No final de 2007, suspeitou-se que o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos    Mike Huckabee tivesse procurado manipular os eleitores durante a propaganda eleitoral. No centro das suspeitas havia uma estante de livros branca, visível na propaganda atrás de Huckabee. Com a ajuda do enquadramento e de um pouco de boa vontade, os eixos horizontais e verticais da estante formavam uma cruz. A acusação feita ao ex-pregador batista era de que ele pretendia associar, na mente do público, a própria imagem a um símbolo cristão. Aqui, porém, o termo “subliminar” é insuficiente. Em latim sub limen significa “sob o limite” e se refere a estímulos tão fracos a ponto de não serem percebidos conscientemente; mas a estante “em cruz” era bem reconhecível pelos espectadores.

Os cientistas desenvolveram um critério mais rigoroso que o limite de tempo, no qual um símbolo pode ser considerado “subliminar”. Se, por exemplo, o “4” aparece por um segundo na tela, é percebido conscientemente. Mas se o tempo de exibição for reduzido, chega-se a um patamar limite e quem observa garante que não enxerga nenhum número. Ainda assim, caso se deva adivinhar se o número mostrado é inferior ou superior a “5”, a resposta é descoberta com frequência superior à média: evidentemente, quem olha enxerga alguma coisa sem se dar conta.

Portanto, uma percepção é considerada subliminar mesmo se, como no caso descrito, os participantes adivinham só por acaso. O número não deve aparecer na tela por mais de 30 milissegundos. Além disso, deve ser logo “disfarçado” por uma faixa com uma série de letras colocadas por acaso. É assim que os pesquisadores definem esse artifício – caso contrário a imagem que fica na retina poderia ter uma impressão fixa. Assim sendo, a estante de Huckabee estava muito acima desse limite da percepção.

Como deve ser o estímulo para que passe despercebido? Pode ser de vários tipos, como demonstraram experiências desenvolvidas por psicólogos e neurocientistas. Sem que saibamos, o cérebro entende palavras, interpreta a mímica dos rostos, decifra símbolos e capta sons. Numerosas experiências de priming (facilitação) desvendam a influência dos símbolos que escapam à consciência: um impulso desencadeado abaixo do patamar limite, o prime, influencia a reação a um estímulo percebido conscientemente, o target (alvo). Os exemplos clássicos dessas experiências têm base nos números: os participantes veem na tela um número entre 1 e 9 e devem classificá-lo, apertando a tecla esquerda se inferior a 5 e a direita, se superior. É uma tarefa tão simples que, em geral, ninguém costuma errar.

A ação dos estímulos subliminares se manifesta principalmente no tempo da reação: os indivíduos reagem mais rápido se, antes do estímulo-target percebido conscientemente, aparecer ligeiramente um estímulo-prime subliminar, que requer apertar a mesma tecla. Se, por exemplo, um 7 for rapidamente iluminado antes de um 8 percebido conscientemente, os participantes decidem com mais rapidez apertar a tecla correta. Ao contrário, um 4 subliminar os faria hesitar por mais tempo. A experiência também funciona se o número estiver escrito por extenso, como no caso de “sete”. As palavras com significado emotivo, como “medo”, também influenciam a escolha, e a mímica dos rostos, mais ainda.

A elaboração subliminar da expressão facial foi acompanhada em 2007 pelos psicólogos Monika Kiss e Martin Eimer, pesquisadores da Universidade de Londres, por meio do registro de medidas com o eletroencefalograma (EEG). Durante a experiência, 14 participantes eram orientados a diferenciar as fotos de pessoas com expressão assustada ou neutra. Os voluntários conseguiam realizar a tarefa com desenvoltura se o rosto fosse exibido por 200 milissegundos. Quando o tempo era reduzido para 8 milissegundos, as respostas eram eventuais. Neste caso, o estímulo podia ser definido como subliminar. Mesmo assim o eletroencefalograma mostrava as mesmas variações que têm origem também com a percepção consciente.

FORTES EMOÇÕES

O “mito da ação subliminar” tem, portanto, uma base empírica: estímulos não captados conscientemente provocam reação que pode ser medida no cérebro. Não é aceitável, porém, falar de 1 manipulação profunda dos nossos julgamentos e decisões.

Em 2000 surgiu o temor de possíveis influências políticas ocultas quando, para combater o adversário político Al Gore, um assessor da equipe de George W. Bush sugeriu iluminar muitas vezes em uma propaganda eleitoral a palavra bureaucrats (burocratas) e, por três centésimos de segundo apenas, as quatro últimas letras: rats, ou seja, ratos. Mas o uso da palavra “negativa” realmente influenciava os eleitores? O grupo de pesquisa coordenado pelo neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene, pesquisador do Collège de France, em Paris, estudou de que maneira os estímulos subliminares podem ser captados. O pesquisador Lionel Naccache, membro da equipe, forneceu a primeira demonstração direta da influência das palavras com conteúdo emotivo. Ao acompanhar três pacientes epiléticos que tinham em seu cérebro eletrodos para o trata- mento da patologia, chamou sua atenção que palavras subliminares com forte dose emotiva exercem influência sobre a amígdala, uma região cerebral determinante no processamento de emoções. “Tais vocábulos modificavam a atividade da amígdala, justamente como acontece com a elaboração consciente”, afirmou Naccache.

O cientista Raphael Gaillard, outro pesquisador da equipe de Paris, demonstrou que palavras fugazes com conteúdo emotivo entram na consciência antes daquelas com sentido neutro. Durante sua experiência, mudou o tempo em que um vocábulo apresentado de forma subliminar é disfarçado, aleatoriamente, pela exibição de vá- rias de letras na mesma cena. No caso daquelas neutras, de cada dois pacientes um se lembrava do que estava representado na tela. Quando se tratava de termos com conotação negativa, três em cada duas pessoas se recordavam deles. Gaillard concluiu que o conteúdo emotivo de uma palavra pode reduzir o limiar da percepção consciente. E que as palavras percebidas de que possamos nos dar conta são elaboradas de maneira específica, de acordo com o seu conteúdo semântico. É muito improvável que com esses artifícios seja possível manipular as pessoas, porque, quando o estímulo não atinge a consciência, a influência dura pouco tempo. A experiência de Gaillard demonstra serem determinantes não apenas a duração da percepção, mas também o seu conteúdo. Além disso, os estímulos subliminares são elaborados de acordo com a atividade que a pessoa está desempenhando naquele momento.

Esse tema foi estudado pelo neurologista Kimihiro Nakamura, da Universidade de Kyoto. Fazendo uso da estimulação magnética transcraniana (EMT), ele desativou algumas áreas do cérebro em um grupo de pessoas que enxergavam imagens subliminares nas palavras. Com essa técnica, ele podia interromper dois efeitos priming. No primeiro caso, em um teste de reconhecimento verbal, os voluntários deveriam apertar uma tecla para comunicar se a faixa de letras rapidamente sobrepostas formava ou não uma palavra. Se o mesmo vocábulo era proposto de forma subliminar, os voluntários reagiam com mais velocidade, desde que o estímulo magnético não impedisse essa ação.

No segundo caso, os participantes do teste tinham de pronunciar em voz alta uma palavra inscrita. Desta vez a resposta era mais rápida quando era projetada de forma subliminar. E, também neste caso, a EMT podia anular o efeito priming.

Com base nessa tarefa, era preciso desativar várias áreas do cérebro: se os indivíduos mantinham separadas entre si as palavras e as faixas com as letras colocadas ao acaso, havia uma desativação da parte superior do lobo temporal. Ao contrário, na tarefa de leitura a área magnética precisava estar na parte inferior do lobo temporal. Isso significa que a área em que o estímulo subliminar deixa rastros no cérebro é determinada pela tarefa na qual os candidatos são submetidos à percepção subliminar.

Segundo Stanislas Dehaene, pode ser que elaboremos o estímulo subliminar em nível semântico. Seria um resultado fascinante: o estímulo óptico é reconhecido como palavra, a faixa de letras é decifrada e a representação da palavra é lembrada pelo cérebro. Tudo isso acontece sem nos darmos conta.

De acordo com Nakamura, o efeito priming subliminar passa de uma modalidade sensorial a outra. Mesmo se a palavra fosse inserida sob a forma escrita por 3 centésimos de segundo e a tarefa sucessiva de reconhecimento verbal consistisse na sua pronúncia, a faixa de letras inserida de forma subliminar diminuía o tempo de reação das pessoas. Dehaene deduz que percebemos os estímulos de maneira consciente quando produzem uma “reverberação” distribuída e duradoura no cérebro. Portanto, não apenas o tempo do estímulo é determinante, mas também os processos cognitivos superiores: por exemplo, a tarefa em que a pessoa está envolvida naquele momento ou na qual deve se concentrar.

Mas a questão científica ainda está aberta. Os céticos refutam a ideia de que possamos ler palavras em um nível inferior ao patamar da consciência. É provável que as faixas com poucas letras tenham sido “arquivadas” no cérebro como figura completa e criado efeitos priming.

Em 2000, o psicólogo Richard Abrams, da Universidade de Washington, encontrou alguns indícios disso. Inicialmente, permitiu que os indivíduos determinassem o conteúdo emotivo dos termos: a palavra smile (sorriso), por exemplo, tinha efeito positivo, enquanto smut (sujeira) assumia conotação negativa. Após a experiência de priming, Abrams confirmou que uma palavra subliminar de cunho negativo provocava reações mais rápidas nos indivíduos quando se davam conta conscientemente de uma palavra que tinha o mesmo significado.

Mas também os acrônimos sem sentido como anrm suscitavam o efeito de uma palavra prime de caráter positivo se antes os indivíduos tivessem lido várias vezes palavras de conotação positiva, como angel (anjo) e warm (calor). Abrams conseguiu até transformar smile em uma palavra subliminar emotiva- mente negativa: deixou que os indivíduos lessem várias vezes smut (sujo) e bile (bílis). O psicólogo deduz que, em nível subliminar, reconhecemos apenas fragmentos das palavras na memória.

Em 2007, a empresa coreana Xtive lançou um programa de computador que sussurrava em frequências não audíveis frases bem-humoradas como “desligue este treco” às pessoas dependentes do computador. Os produtores argumentam que a mensagem subliminar pode curar a dependência. Existe até “CDs subliminares” à venda: em geral, são inofensivas gravações de textos extraídos do seu contexto, acrescidos à música relaxante, que ajudam as pessoas a pegar no sono (pelo menos tem esse efeito para boa parte delas). No entanto, não existe uma indicação com relação ao efeito exato desse material. E há poucas pesquisas em curso: do ponto de vista científico, esses produtos são pouco discutidos. Por definição, quem os compra não sabe que alcance têm as mensagens “disfarçadas” – se é que realmente têm algum efeito.

Essas propostas estão quase totalmente em desacordo com a definição científica do estímulo subliminar. Se, por um lado, pesquisadores como Stanislas Dehaene usam esses recursos para medir o limite da consciência, por outro alguns supostos especialistas se apropriam do assunto e propõem uma “programação da mente”, apostando que um estímulo imperceptível do inconsciente pode fazer a fantasia humana alçar voo. Porém, se excluímos o que foi demonstrado pela ciência, o efeito que se pode obter com essas técnicas é pura questão de fé.

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ SABE O QUE É RESILIÊNCIA?

Businessman in crisis

Do universo da física, o conceito de resiliência migrou para o cotidiano das empresas e tornou-se uma competência cada vez mais valorizada e requerida pelas empresas, que buscam profissionais com capacidade de resolver problemas e suportar reveses.

Segundo Emerson Weslei Dias, coach e consultor de carreira, ser resiliente significa que, mesmo diante de adversidades, é possível lidar com os próprios problemas, encontrar alternativas e enxergar oportunidades para alcançar o seu propósito. As empresas buscam profissionais com essa característica porque acreditam que eles vão conseguir, mesmo passando por dificuldades, superá-las com alguma facilidade. Além disso, pessoas resilientes não vão transpor pro ambiente o que sentiram de negativo, porque já absorveram e já trabalharam internamente os problemas, solucionando-os.

Como desenvolver essa habilidade? O primeiro passo é tentar se conhecer melhor. Não existe a possibilidade de mudarmos como a gente reage perante determinada situação se, em primeiro lugar, não soubermos como reagimos. Portanto, a sugestão para o desenvolvimento dessa habilidade é passar por um processo de autoconhecimento.

Para atingir esse objetivo, vale a pena investir em um programa de coaching. Quem passa por essa experiência ganha vantagens em situações como dinâmicas de grupo e painéis de negócios da seleção. O candidato adquire maior capacidade de adaptação, consegue identificar suas debilidades e tem a possibilidade de tentar se fortalecer nesses pontos.

A seguir, o especialista lista algumas atitudes que podem ser praticadas no dia a dia.

ENCARE MUDANÇAS COMO OPORTUNIDADES
Aceite que a mudança é uma oportunidade de crescimento e de melhoria. Não se faça de vítima. Ainda que a situação seja complicada, é possível aproveitar o momento para amadurecer de maneira muito mais rápida.

TENHA AUTOCONFIANÇA
Esse comportamento está relacionado à segurança para enfrentar diversas situações. Acredite que você é capaz de superar os desafios.

SAIA DA ZONA DE CONFORTO
Evite o comodismo intencionalmente através de experiências que promovam novas possibilidades em sua vida. Desafie a si mesmo. Essa prática permitirá que você pense diferente e tenha novas crenças a respeito daquilo que se deseja.

OUÇA A OPINIÃO DOS OUTROS
Saber ouvir opiniões diferentes e aceitar críticas é outro ponto que ajuda a fortalecer sua resiliência.

SEJA FLEXÍVEL
Ter flexibilidade é a ser capaz de se adaptar. Quando não conseguir, tente identificar quais são seus limites e o que pode fazer para ultrapassá-los.

LISTE AS COISAS QUE LHE DÃO ÂNIMO
Pense em todas as coisas que mais gosta de fazer, como assistir um filme, praticar um esporte ou frequentar determinado lugar. Tenha essa lista sempre à mão e assim será mais fácil saber o que fazer quando se sentir desmotivado.

CULTIVE BOAS RELAÇÕES
Mantenha relacionamentos com familiares, amigos e colegas de trabalho que sejam significativos pra você. Conversar com pessoas que gosta e que se sente à vontade para falar sobre suas dificuldades promove bem-estar e saúde psicofísica.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUE COISA FEIA!

Numa sociedade em que as queixas em relação à aparência e a busca pela perfeição do corpo e da pele são tão frequentes, algumas pessoas passam a supervalorizar em si mesmas “falhas” físicas – mínimas, comuns e às vezes até inexistentes – que as incomodam profundamente, a ponto de se considerarem deformadas.

Que coisa feia!

Aos 17 anos, sem motivo aparente, o jovem S. passou a se incomodar com os cabelos cacheados, considerando-os um sério problema. Decidiu alisá-los. Durante um ano, passou por procedimentos químicos semanais, que só interrompeu depois de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjados. Anos mais tarde, ao ver seu reflexo na vitrine de uma loja, percebeu que seu nariz era muito grande e torto. Depois disso, só conseguia pensar nesse “terrível defeito” e passava horas diante do espelho.

O rapaz optou então pela cirurgia plástica. Mas uma semana após a operação estava de volta ao espelho – e percebia cada vez mais falhas. Para piorar, arrependera-se da cirurgia. Isso não o impediu de procurar novamente o médico para remoção da cartilagem das orelhas. Deprimido, já não trabalhava nem estudava. Meses depois, ele reconheceu seus sintomas em um livro sobre transtorno dismórfico corporal (TDC), também chamado de dismorfia, um quadro no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível em sua aparência. A preocupação excessiva em relação à própria aparência costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e à depressão e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio.

O distúrbio é surpreendentemente comum. De maneira geral, os pacientes com o transtorno sofrem por características faciais, como acne, cicatrizes, excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lábios. Também podem rejeitar partes específicas do próprio corpo, como seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos em relação à altura e aos genitais. Muitos acreditam ser repulsivos, ainda que sejam considerados atraentes ou até mesmo com beleza acima da média.

Essa convicção perturbadora pode trazer diversos prejuízos. Em geral, aqueles que sofrem do TDC gastam diversas horas diariamente na frente do espelho enquanto examinam a aparência, conferem a pele com os dedos ou adotam outros comportamentos compulsivos que tomam o tempo do trabalho, da família ou de atividades importantes. Capturados pelo próprio reflexo, muitos perdem a noção de tempo e acabam demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores estimam que pelo menos durante uma semana aproximadamente30% dos pacientes com TDC não conseguem sair de casa; 30% apresentam algum transtorno alimentar e 25%, em média, tentam o suicídio. O abuso de álcool e drogas ilícitas também é bastante presente nessa população.

É inegável que fatores psicológicos como fragilidades egoicas, dificuldade de apropriação da própria identidade, baixa autoestima e absorção idealizada de modelos socialmente construídos sobre beleza e perfeição estão na base do distúrbio. Recentemente, porém, pesquisadores descobriram que pacientes com TDC também apresentam percepção visual distorcida, o que sugere que no futuro essas pessoas poderão ser beneficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual.

Originalmente, o transtorno dismórfico corporal era conhecido como dismorfofobia (medo da feiura), um termo cunhado pelo psiquiatra italiano Enrico Morselli em 1891. Ele havia tratado 80 pacientes preocupados com deformidades imaginadas que interferiam excessivamente na vida cotidiana. Em 1980, a dismorfofobia apareceu na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). O termo “transtorno dismórfico corporal” substituiu o antigo na versão de 1987, após a constatação de que o estado estava mais relacionado a convicções irracionais do que a fobias.

Apesar de ser considerado oficialmente como um transtorno psiquiátrico, o TDC – também conhecido como complexo de Térsites, por causa do guerreiro descrito na Ilíada, de Homero, como o “homem mais feio do exército grego” – é relativamente desconhecido, mesmo entre psicólogos e médicos. Não raro, pacientes com a doença são diagnosticados com depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou até mesmo com os três tipos de distúrbio de uma vez.

E frequentemente os profissionais não percebem que o TDC pode ser a causa de todos esses sintomas.

Por outro lado, é comum indivíduos com TDC falarem pouco sobre o problema porque não o reconhecem como um distúrbio menta l, pois acreditam que são simplesmente feios. Muitos também têm vergonha de citar seus comporta­ mentos estranhos numa consulta médica. Como resultado, não raro esperam de três a 13 anos pelo diagnóstico correto. Nesse tempo, muitos procuram a ajuda de cirurgiões plásticos. Mas, assim como no caso do jovem S., esse tipo de intervenção não resolve porque não consegue alcançar a raiz do problema. Já num processo psicoterápico ou analítico esses temas invariavelmente terminam vindo à tona, por isso é tão importante buscar atendimento psicológico.

É comum que o TDC surja na puberdade, quando mudanças radicais no corpo podem contribuir com sentimentos de inadequação relacionados à autoimagem. A maioria dos pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais da doença nesse período.

Fatores como crescer num lar que coloca ênfase excessiva na beleza física ou ter vivido situações traumáticas como bullying e repetidas críticas sobre características físicas, como peso e manchas faciais, também podem contribuir para o aparecimento dos sintomas dismórficos. Em um estudo de 2007, o psicólogo clínico Ulrike Buhlmann e seus colegas da Escola Médica da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts constataram que voluntários com TDC disseram sofrer provocações sobre a aparência mais frequentemente do que participantes do grupo de controle que não tinham o distúrbio.

É provável, porém, que fatores biológicos, como genes e química cerebral, predisponham uma pessoa a essas inseguranças – embora dificilmente, por si sós, determinem o aparecimento do quadro. Seguindo a abordagem neurológica, alguns pesquisadores acreditam que o distúrbio esteja relacionado a alterações nos níveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, um problema semelhante ao que acontece na depressão, que atinge aproximadamente 70% dos pacientes com TDC. Há alguns anos, a psiquiatra Katharine A. Phillips e seus colegas da Escola de Medicina Alpert da Universidade Brown relataram em dois estudos separados que a maioria dos pacientes com TDC apresenta melhora após o tratamento com antidepressivos que inibem a recaptação de serotonina por células cerebrais. Porém, sem acompanhamento psicológico, que permita ao paciente ressignificar a própria imagem e lidar com os efeitos que a distorção da própria imagem lhe causou ao longo dos anos, os efeitos da medicação não se sustenta.

QUEM PROCURA ACHA

Nos últimos anos, alguns pesquisadores começaram a questionar se a combinação entre uma personalidade vulnerável e um ambiente desfavorável poderia explicar o distúrbio. Embora na maioria dos casos a resposta seja sim, surgiu recentemente a hipótese de que o transtorno esteja relacionado, pelo menos em parte, a um problema perceptivo. Em um estudo coordenado pelo  psiquiatra José A. Yaryura-Tobias, do Instituto Biocomportamental em Great Neck, de Nova York, foi pedido a três grupos de dez voluntários cada – um com pacientes com TDC, outro com pessoas com TOC e um terceiro com participantes emocionalmente saudáveis – que fizessem alterações, se julgassem necessário, em uma figura computadorizada mais precisa de seu próprio rosto para corresponder ao que acreditavam representá-los. Metade dos pacientes com TDC e TOC modificou as figuras, ao passo que ninguém do grupo de controle propôs mudança significativa. Os dados sugerem que algumas pessoas com o distúrbio não percebem o próprio rosto da mesma forma que a maioria.

Evidências apontam que pacientes com TDC podem ser visualmente mais “sintonizados”. Em um estudo publicado na Abnormal Psychology, o psicólogo Ulrich Stangier e seus colegas da Universidade de Jena, na Alemanha, apresentaram brevemente uma figura de um rosto feminino junto com cinco representações alteradas digitalmente da mesma imagem a 21 voluntárias com TDC, 20 pacientes com doenças de pele desfigurantes e 19 participantes sem nenhum distúrbio – e pediram que julgassem o grau de deturpação. Nos rostos manipulados, os olhos eram mais espaçados, os cabelos mais claros, o nariz era maior e havia espinhas e cicatrizes adicionais. As voluntárias deveriam escolher entre cinco níveis de distorção que variaram de “baixo” a “extremo”. Os pesquisadores constataram que as pacientes com TDC julgavam melhor o grau de manipulação da imagem do que as demais, o que sugere que tinham percepção mais aguçada.

Curiosamente, essa capacidade apurada pode resultar numa assimilação deturpada. O psicólogo Thilo Deckersbach e seus colegas da Universidade Harvard publicaram um estudo em que pediram a pessoas com TDC que copiassem uma figura complexa e, em seguida, que a duplicassem de memória. Os pacientes demonstraram baixo desempenho (desenharam muitos detalhes, mas sem capturar a figura de forma geral) quando comparados com indivíduos emocionalmente saudáveis. Embora tenham mostrado pensamento estratégico pobre na tarefa, o principal problema pode ser a ênfase exagerada em detalhes visuais, o que ajuda a explicar por que se preocupa m tanto com “defeitos” minúsculos em sua aparência.

Feusner e a neurocientista cognitiva Susan Bookheimer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, encontraram evidências que reforçam a tese. Os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética funcional para observar o cérebro de 12 pacientes com TDC e 12 indivíduos saudáveis enquanto viam três versões de várias fotografias de faces: comuns, borradas e achatadas, mas altamente detalhadas.

Os voluntários sem o distúrbio processaram os rostos comuns e os borrados em áreas do hemisfério direito do cérebro, região responsável pela decodificação de características visuais de maior escala; o lado esquerdo foi ativado somente quando viram as imagens detalhadas. Já aqueles com TDC usaram o hemisfério esquerdo para interpretar todas as fotografias. “Eles processam todas as figuras como se fossem altamente detalhadas. É como se o cérebro tentasse extrair nuances que não existem”, observa Feusner.

Os resultados sugerem que o TDC pode estar relacionado, em parte, a alterações no processamento da informação visual. Afinal, é possível pensar que a capacidade de apreciar a beleza tem valor evolutivo. Um corpo atraente pode, em alguns casos, estar associado ao estado de saúde. Ou seja, a “feiura” indicaria menor aptidão. É possível que a habilidade de escolher a pessoa “mais bonita” como parceira tenha aumentado as chances de transmitir bons genes para a prole. Nesse sentido, o TDC representa uma versão extrema desse talento. “Mas ainda não sabemos se pessoas com TDC nascem com dificuldades no processamento visual ou se o distúrbio deflagra o problema”, admite Feusner.

O ROSTO DOS OUTROS

Considerando que alterações no processamento visual contribuem com o TDC, no futuro terapias poderão ser desenvolvidas para ajudar pacientes a enxergar as coisas de forma mais global usando o lado direito do cérebro. Feusner acredita que a exposição repetida a imagens borradas, vistas à distância ou visualizadas por apenas uma fração de segundo, por exemplo, poderia forçar o cérebro a adotar essa estratégia.

O psiquiatra afirma que medicamentos também podem alterar o lado do cérebro usado para processar informações visuais. Estudos preliminares sugerem que benzodiazepínicos favorecem a transferência da atividade neural para a direita durante uma tarefa do processamento visual, mas os efeitos colaterais são inegáveis. A saída seria o uso de drogas alternativas que podem agir de maneira similar, causando menos danos.

Contudo, especialistas concordam que o problema não é totalmente visual. Levando em conta que nove entre dez pacientes com TDC afirmam também examinar a aparência alheia, principalmente as características que mais detestam em si mesmos, uma pesquisa desenvolvida por Buhlmann e seus colegas mostrou que pessoas com o distúrbio não enxergam as mesmas distorções que veem em si no rosto dos outros. Indivíduos que sofriam de dismorfia classificaram fotografias de outras pessoas (consideradas “atraentes” pelos pesquisadores) como significativamente mais bonitas do que fizeram outros grupos sem o distúrbio. Isso sugere que a percepção detalhada sobre os outros não evoca a mesma resposta emocional negativa relacionada à própria aparência.

De fato, alguns profissionais tratam o TDC abordando aspectos emocionais, como o perfeccionismo e o medo de rejeição, focando as percepções distorcidas e sugerindo ações para ajudar os pacientes a abandonar hábitos destrutivos. Em alguns casos, são instruídos a pedir um retorno sobre a própria aparência para outras pessoas, como amigos, familiares ou até mesmo estranhos. Psicólogos cognitivo-comportamentais apostam que comentários alheios positivos, ou pelo menos neutros, podem ajudar o paciente a desenvolver uma autoimagem melhor e mais realista. No entanto, essa técnica mais uma vez coloca o referencial de auto aceitação fora da pessoa. Nesse sentido, psicoterapias comportamentais podem ser úteis num primeiro momento, mas os processos terapêuticos mais eficientes ainda parecem ser aqueles que permitem a reelaboração das vivências mais profundas. Lidar com as próprias faltas abre possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que se considera imperfeito no próprio corpo não impede a pessoa de ser atraente, merecedora de afeto e de relacionamentos saudáveis.

Que coisa feia!. 2

EM BUSCA DA IMAGEM PERFEITA

Em tempos de selfies e outras formas de auto exposição, em especial nas redes sociais, a preocupação exacerbada com a própria imagem parece cada vez mais presente. E o resultado disso se vê nos consultórios médicos. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que o número de procedimentos estéticos aumentou 10% em 2014, no Brasil, o que significa aproximadamente 1 milhão de cirurgias plásticas realizadas. Embora na opinião de alguns profissionais como a dermatologista Luciana Conrado, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o termo “dismórfico” não seja necessariamente o mais adequado para descrever o transtorno, ela reconhece que a insatisfação é a “massa de trabalho” dos profissionais que atendem pessoas em busca de correções físicas. “O limite é tênue, mas em certos casos, a diferença entre a maneira que o indivíduo vê o próprio corpo e a maneira como os outros o enxergam é muito distante”, observa a médica, pós-graduada em psicossomática psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.

O interesse por compreender melhor o que estava por trás da preocupação exagerada com um defeito pequeno ou inexistente apresentada por alguns pacientes que chegavam ao seu consultório a motivou a estudar esse “problema secreto”, que muitas vezes os pacientes escondem e, não raro, os próprios profissionais têm dificuldade de identificar e manejar. Segundo ela, na população em geral, 2%das pessoas apresentam o transtorno; entre pacientes dermatológicos 7% se enquadram no diagnóstico e quando consideramos os que buscam tratamentos cosméticos esse percentual chega a 14%, um índice considerado bastante alto.

Para chegar a esses resultados, a dermatologista desenvolveu uma pesquisa, inspirada no estudo da psiquiatra americana Katherine Phillips, para a conclusão de seu doutorado, em 2009, levando em conta o enquadre diagnóstico, a epidemiologia e a avaliação do nível de crítica dos voluntários, usando testes psiquiátricos para fazer a avaliação. Na ocasião, entrevistou 350 pessoas: 150 pacientes dermatológicos, outros 150 que haviam procurado tratamento cosmético e 50 provenientes da ortopedia, que compuseram o grupo de controle. Luciana Conrado salienta ainda que não apenas dermatologistas e cirurgiões plásticos recebem essas pessoas, mas também otorrinolaringologistas, oftalmologistas, dentistas e mesmo profissionais que trabalham com estética devem ficar atentos aos clientes que nunca parecem satisfeitos e continuam pedindo novas intervenções. Ela defende o atendimento multiprofissional para esses pacientes. Trabalhando na Universidade Justus Von Liebig, em Giessen, na Alemanha, ela acompanhou o tratamento de pessoas com o transtorno que recebiam atendimento diversificado: acompanhamento dermatológico e psiquiátrico, medicação para conter a obsessão, sessões de terapia de grupo e arte terapia. Ainda que seja difícil falar em cura definitiva, o acompanhamento focado na diminuição da percepção do suposto defeito pode trazer grande alívio ao paciente.

Que coisa feia!. 3

ESPELHO, ESPELHO MEU …

Em sua clínica em São Paulo, a médica Noemi Wahrhaftig, membro da Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria, costuma receber com frequência pessoas ansiosas por fazer tratamentos estéticos que as tornem mais jovens e belas. Recentemente, porém, ela se surpreendeu quando uma paciente de 40 anos desatou a chorar copiosamente em sua frente, profundamente angustiada com a constatação de que estava envelhecendo. A dermatologista acredita que a mulher apresente um subtipo de dismorfia conhecido como síndrome de Dorian Gray, numa alusão ao personagem de Oscar Wilde que faz um pacto com o demônio no intuito de manter a juventude enquanto um retrato seu, cuidadosamente escondido, se deforma com o passar do tempo.

A médica reconhece, porém, que sua própria angústia diante do pedido de muitos pacientes de se submeter compulsivamente a procedimentos estéticos não é muito comum entre profissionais

que trabalham com procedimentos cosméticos – e sua atitude crítica, por vezes, provoca estranhamento entre seus pares. “Vivemos em uma sociedade que nos cobra sermos assépticos, sem cheiro, com dentes brancos, sem pelos ou poros abertos, com cabelos lisos, sem manchas ou marcas na pele e isso me incomoda”, comenta. “Muitos pacientes cultivam a fantasia de que um médico os tornará perfeitos, mas sofrem com a insatisfação numa busca que continua, continua…”. E ainda que o corpo se transforme, permanece a rejeição por si mesmo.

GESTÃO E CARREIRA

SOLIDÃO PROFISSIONAL

A solidão profissional é o preço que se paga pelo desenvolvimento da carreira, mas também o resultado pela forma como nos relacionamos com as pessoas no ambiente corporativo e pode ser um desastre na trajetória profissional.

Solidão profissional

Para o professor Luciano Salamacha, da Fundação Getúlio Vargas, “a relação dentro de uma empresa faz com que a troca de experiências com vários profissionais, da mesma área ou setores coligados, ajude no crescimento profissional e pessoal e nas tomadas de decisões mas, principalmente no aumento de conhecimento na própria área de atuação. É o principal pilar do crescimento numa empresa”.

Pessoas do mesmo nível hierárquico dividem dúvidas, angústias e insatisfações, além de receber ou dar conselhos sobre o trabalho mas, à medida que um profissional alcança postos de chefia ou liderança, o seu círculo de relacionamento muda.

O número de pessoas com quem se pode ter o feedback é menor. Quanto mais promoções o profissional recebe menor é o número de pessoas que estarão no mesmo nível na empresa e como gestor não pode dividir certas decisões ou acontecimentos com todos.

Salamacha alerta que quanto mais alto for o cargo exercido na estrutura organizacional maior é chance de se sentir solitário, por isso, esse fator acomete mais profissionais de cargos mais altos como presidência, CEO. A solidão profissional cresce na mesma proporção em que aumenta o poder de decisão na empresa e uma forma de combater esse efeito, existe hoje dentro das corporações o Mentor, uma das atribuições do professor Salamacha. O mentor é um consultor externo que pode com isenção, dar conselhos aos profissionais de cargos mais altos numa companhia.

O professor também afirma que pessoas com dificuldade em se relacionar com os colegas no trabalho também podem sofrer os efeitos da solidão profissional. Pessoas extremamente fechadas, às vezes, são mal compreendidas e até excluídas pelos grupos. Pessoas que trabalham sozinhas em home office também podem sofrer de solidão profissional e acabam se desestimulando, perdem a graça em trabalhar, mesmo com tantas vantagens que pode trazer esse tipo de atividade, cada vez mais comum nas grandes cidades com prestadores de serviços e profissionais autônomos.

Salamacha alerta para esse fenômeno que pode influenciar a performance no trabalho. O professor de gestão de empresas da FGV, especialista em carreira diz que pessoas que se sentem sozinhas passam a ficar inseguras por falta de referência, de informação. A insegurança, por sua vez, afeta muitas vezes o desempenho em tomadas de decisões simples.

O professor, que integra conselhos de administração em grandes empresas diz que já assistiu muitos gestores errar ao terem que decidir pequenas questões, mas diante de um impasse mais polêmico, acabam tomando medidas mais duras.

Salamacha afirma que no mundo corporativo, muitos bons profissionais acabam se perdendo nos melhores momentos de suas carreiras porque não reconheceram que necessitavam de ajuda e aconselha: “reveja suas relações, perceba se sente só e infeliz, tome uma atitude mais saudável para sua vida profissional e tenha certeza que terá mais sucesso”.