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A PRAGA DA DENGUE

Apesar da chegada do inverno, o vírus, agora do tipo 2, segue se alastrando principalmente pelos estados do Sudeste e Centro-Oeste, provando que a infecção se tornou uma tragédia nacional

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Na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro de Jardim Peri, na região norte de São Paulo, a dona de casa Luzia dos Santos Moraes, de 42 anos, escora o corpo onde pode. Ela está enfraquecida e cansada. As dores são muitos fortes e ficar em pé se torna um desafio. Suas filhas, Flávia e Fagna Santos de Moraes, de 21 e 22 anos, respectivamente, conversam com a reportagem de ISTOÉ enquanto a mãe espera ser atendida. Vindas de Belém do Pará há dois anos, tentam a “sorte” na capital paulista. Além das duas, Luzia tem outra filha, que recebeu, na primeira semana de julho, o diagnóstico de dengue. No bairro em que elas moram atualmente, Lauzane Paulista, há inúmeras pessoas infectadas. Depois de esperar pouco mais de duas horas e já dentro do ambulatório, Luzia recebe a notificação de suspeita de dengue. Dali, segue para fazer a “prova do laço” para saber a urgência do caso. O enfermeiro amarra uma faixa em seu braço e o deixa apertado por cinco minutos. Se pintas vermelhas aparecem, a doença pode trazer mais riscos e se tornar mais grave, causando hemorragias, uma vez que se revela alteração na coagulação sanguínea. Para a sorte de Luzia, nada apareceu. De acordo com a gerência da UBS, cerca de 90% dos casos que chegam são suspeitas posteriormente descartadas, devido à semelhança dos sintomas a outros quadros, como o de forte gripe.

O Brasil enfrenta hoje uma das piores epidemias de dengue de sua história, com 597 mil casos confirmados, e apesar da chegada do inverno, a enfermidade não dá sinais de arrefecimento. O problema é a dengue tipo 2, que ainda não havia sido detectada no País e atingiu principalmente os estados de São Paulo e Minas Gerais, que reúnem 60% dos casos. Desde 2015 não se via uma epidemia tão severa e prolongada, com tantos casos constatados e tantas mortes. Filas nos hospitais, pessoas com suspeitas de contaminação, mutirões de combate ao mosquito e campanhas de prevenção viraram rotina nas cidades paulistas e mineiras. Somente no primeiro semestre de 2019, os casos de morte por dengue aumentaram 163% no País, em relação ao mesmo período do ano passado. Em números absolutos, isso significa um salto de 139 para 366 óbitos. É a porcentagem mais expressiva desde 2015, quando foram registradas 752 mortes — a metade é de pessoas idosas, com mais de 60 anos. São Paulo lidera o ranking de falecimentos, 157, seguido por Minas Gerais, 98. Juntos, os dois estados somam 255 casos. O estado mineiro ainda investiga 137 óbitos, o que pode elevar a incidência letal da dengue. Em São Paulo, os casos prováveis bateram 267.602. Em Minas Gerais, o número foi mais assustador; 423.317, o que faz da atual epidemia a segunda pior de sua história, atrás apenas de 2016, quando houve 517.830 notificações. Tocantins teve a maior elevação, crescendo 1369% (de 210 para 3085, em relação a 2018)

Os números são mais assustadores quando se fala em casos prováveis de dengue, o que inclui os suspeitos de terem contraído a doença: um aumento de 561%. Isso equivale a um salto de 170.628 para 1.127.244 em todo o País, segundo o último boletim do Ministério da Saúde sobre doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, com informações até o dia 8 de junho. Além dos quatro tipos de dengue — 1, 2, 3 e 4, o mosquito também transmite a zika e chikungunya. “Enquanto não houver um controle rigoroso dos criadouros do Aedes enfrentaremos epidemias todos os anos”, diz a diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo, Regiane de Paula. “Além dos esforços do governo, os cidadãos também precisam fazer a sua parte, retirando lixo do jardim, dispensando recipientes que acumulam água e limpando calhas e ralos”. Dezenas de cidades paulistas estão realizando mutirões permanentes de combate à doença. São Caetano do Sul tem feito mutirões todos os fins de semana, assim como Ribeirão Preto e Birigui, que, por sinal, são a sexta e a sétima cidades com mais casos no estado de São Paulo. Em Ribeirão Preto, entre os 700 mil habitantes, foram confirmados 7.236 episódios e em Birigui, com uma população de 105 mil pessoas, houve o registro até agora de 6.636 doentes. A família da empregada doméstica René Faustina, de 48 anos, teve quatro pessoas infectadas pelo vírus: ela, a irmã, o sobrinho e o cunhado. O marido de uma prima e o filho deles também pegaram a doença. Faustina acredita que foi infectada em Birigui, a 20 quilômetros de Bilac, onde vive. Todos os dias, Birigui recebe um contingente grande de trabalhadores, entre os quais Faustina, que passa pouco mais de vinte minutos no transporte para fazer faxinas. Com ela, os sintomas seguiram o diagnóstico padrão da doença: dor de cabeça, febre e moleza no corpo, e perduraram por cerca de 15 dias. “Depois começaram a sair aquelas pintas que aparecem quando a gente está sarando. Não deixei de trabalhar nesse período e com dor no corpo fui fazer as minhas faxinas. Como é em casa de parentes é mais fácil, a gente pode sentar um pouco e descansar”, diz ela.

Para além dos primeiros sintomas, a irmã de Faustina, Ângela (nome fictício), aposentada e com 63 anos, também sentiu tonturas, disenteria e coceira pelo corpo. “É horrível, parecia que eu ia morrer. Muita gente foi infectada. Na minha rua, quase todos os vizinhos, e mesmo com o tempo seco”, conta ela. Seu filho, Guilherme, passou mal por sete dias. Durante esse período, não conseguiu trabalhar: “Nem levantava da cama, fiquei bem fraco, tamanha a desidratação”, afirma o jovem de 27 anos, analista de tecnologia da informação. Em janeiro, Maria Denice Lima e sua filha também adoeceram. “Fiquei mal por uns 30 dias, apresentei muitos sintomas e perdi 5 quilos. Dos moradores de Bilac, quase todos foram infectados pelo mosquito”, afirma Denice.

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MAIOR GRAVIDADE

“Desde a década de 1990 enfrenta-se a dengue. A gente convive com a doença o ano todo, numa situação endêmica”, afirma Luzia Passos, diretora do departamento de Vigilância e Planejamento da Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto. “Em 2019, só identificamos o sorotipo 2, que predomina em todos os estados, e encontramos pessoas muito vulneráveis”. Na cidade, em anos anteriores, houve contaminação dos sorotipos 1, 3 e 4. Quem já contraiu algum deles no passado tem mais chances de adquirir a versão mais grave da doença, que era chamada de hemorrágica. Além dos sintomas básicos, ela envolve também sangramentos, palidez, sudorese, dificuldade de respirar e comprometimento de alguns órgãos. Esse quadro pode evoluir para óbito.

Entre outros agravantes que levaram à atual situação, para além das políticas adotadas pelo poder público e da chegada do novo sorotipo, estão a alta infestação do vetor, um movimento migratório intenso, as chuvas e o longo período de calor que passou pelo outono e se estendeu, até recentemente, pelo inverno. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o verão de 2019 foi o quinto mais quente da história no estado de São Paulo. Com esse cenário, a epidemia começou mais cedo e deve terminar tardiamente. Outro fator é a falta de planejamento urbano que leva à formação de água parada, fonte para a reprodução do vírus da doença. Para piorar, em alguns lugares do País, falta inseticidas para combater o mosquito. No começo de junho, o Ministério Público Federal cobrou o Ministério da Saúde sobre a falta do produto, que é fornecido pelo governo federal e combate o mosquito na fase alada. No Congresso Nacional, a dengue chamou a atenção de alguns deputados. Em um pronunciamento no plenário do Senado, a parlamentar Zenaide Maia (Pros-RN) lamentou que o governo federal não tenha feito ainda uma campanha de prevenção em nível nacional. “Não é possível que a gente continue vendo pessoas morrerem de morte evitável. Nós sabemos quem é o inimigo, onde mora e o que o faz se reproduzir. Só existe uma maneira de evitar que pessoas morram por dengue: é fazendo uma campanha educativa nas escolas e junto à toda população”, alertou. Enquanto isso não acontece, a doença se prolifera e mata e só resta à população esperar o inverno chegar para que os mosquitos sucumbam. No próximo verão, porém, é bom se preparar porque eles estarão de volta.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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