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EM DEFESA DOS BEBÊS

A ciência já oferece avanços estupendos para gerar crianças saudáveis, e mais novidades virão em breve – mas as questões éticas continuam a assustar.

Em defesa dos bebês

“Experimentos em hibridização de plantas.” Foi em um artigo científico batizado com esse título e publicado em 1866 que nasceu o que hoje se conhece como genética. Nele o autor do texto histórico – o monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884), formado em ciências naturais pela Universidade de Viena – detalhava um experimento de sete anos de duração. No total, Mendel cultivou 30.000 plantas de ervilha, dissecando as partes reprodutivas com o objetivo de promover cruzamentos controlados que permitiam escolher atributos dos vegetais. Assim ele podia, por exemplo, manipular a cor das flores e o formato das sementes. No fim das contas, o pesquisador provou algo que já se intuía; certas características dos pais são transmitidas a filhos, netos, bisnetos. Ou seja, são hereditárias. Passados mais de 150 anos, tudo o que se sabe sobre o DNA tem como base a estupenda experiência de Mendel. O detalhe a um só tempo extraordinário e preocupante é que a genética avançou a passos tão largos que hoje já se pode falar em “experimentos em hibridização de humanos”. Sim, não mais experimentos apenas em plantas, mas em humanos. Técnicas de edição genética que começaram a ser testadas nos anos 2010 permitem, de certo modo, que a ciência faça com bebês aquilo que o austríaco fez com ervilhas.

Não há dúvida de que as conquistas científicas nessa área abriram possibilidades de resolver muitos problemas relacionados à reprodução humana. Embora alguns desses avanços só venham a ser postos em prática em um período de dez a cinquenta anos, outros já estão sendo empregados. A lista de procedimentos bem-sucedidos é promissora.

Em 2014, realizou-se o primeiro transplante de útero que realmente deu certo, no hospital sueco da Universidade Sahlgrenska, em Gotemburgo: uma mulher, infértil, recebeu o órgão de outra, fértil, e, com isso, pôde gerar um filho. Desde então, mais sete bebês nasceram graças ao método, no mesmo hospital. Em dezembro último, um avanço surpreendente foi anunciado no Brasil. O médico obstetra Dani Ejzenberg, do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clinicas, executou esse transplante com uma diferença fundamental: a retirada do útero da doadora foi realizada após sua morte. “A cirurgia é delicadíssima. A técnica, porém, se prova ideal para mulheres mais velhas que querem engravidar. Ou, pensando no futuro, até para possibilitar o mesmo a transexuais”; disse Ejzenberg. O obstetra paulistano realizou a operação em setembro de 2016. O feito, entretanto, foi divulgado dois anos depois, quando um artigo do médico saiu no periódico inglês The Lancet.

No caso de transplantes de útero, a interferência ocorre, é claro, na mãe. Contudo, já é possível também atuar nos embriões. O mais estarrecedor dos procedimentos nessa direção foi revelado em novembro passado, pelo biólogo chinês He Jiankui. Foi quando o cientista apresentou a história das gêmeas Lulu e Nana, que tiveram o DNA modificado em laboratório. Mexeu-se nos embriões por meio de uma técnica chamada Crispr-Cas 91 que permite manipular o sequenciamento genético com a introdução de substâncias químicas. No processo das gêmeas, Jiankui desativou o gene CCR5, responsável por produzir proteínas que deixam o organismo vulnerável ao HIV – vírus presente no pai. Com a manipulação, as gêmeas nasceram imunes à aids. O resultado é uma grande notícia, mas traz questões de fundo altamente sensível e preocupante. Afinal, a edição genética de embriões humanos, tal como realizada por Jiankui, abre as portas para intervenções semelhantes às de Mendel. Ou seja: ela possibilita mudar a cor da pele, a textura do cabelo ou até mesmo traços comportamentais. Em outras palavras, dá asas aos mais perigosos anseios eugenistas, como os que levaram às catástrofes produzidas pelo nazismo, que buscava a pureza racial. Por esse motivo, a técnica de Jiankui é proibida em países como EUA e Brasil. Na China, onde foi realizada, não há lei que a libere nem que a proíba. Mas o governo parece ter julgado o ato ilegal. Dias após o anúncio da proeza, Jiankui sumiu; desconfia-se que tenha sido preso pelas autoridades.

Entre os recentes avanços científicos na genética, há possibilidades menos polêmicas. A fisioterapeuta paulistana Tatiana Weigand beneficiou-se de uma dessas conquistas. Na primeira tentativa de gravidez, em 2013, ela e o marido, Fernando, descobriram que ambos tinham a doença hereditária gangliosidose GMI, que afeta uma em cada 100.000 pessoas e atrasa o desenvolvimento motor e cognitivo. Eles não apresentavam sintoma da enfermidade, mas poderiam transmiti-la a um filho. Foi o que aconteceu. O primogênito do casal nasceu com a doença e, em decorrência de complicações, acabou falecendo dois anos após o nascimento. Antes da segunda gravidez, em 2014, Tatiana e Fernando souberam que já era possível mapear o código genético de embriões fecundados in vitro. Não para editá-los, como realizou o biólogo chinês, mas para selecioná-los, a exemplo do que Mendel fez com ervilhas. Assim, o casal valeu-se da fertilização in vitro, e os embriões foram rastreados atrás de um que fosse livre da gangliosidose. Nasceram, então, saudáveis, os gêmeos Eduardo e Rafael. “Algumas pessoas próximas me julgaram, achando que o que fiz iria contra os planos de Deus”, relatou a mãe. “É preciso compreender que a triagem não teve o intuito de escolher características superficiais e sim garantir a sobrevivência de meus filhos.”

O procedimento é acessível a qualquer um que tenha como pagar em torno de 30.000 reais. Quem não dispõe dessa quantia pode recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS.) Foi o que fez a enfermeira Talitha Pádua, paulista da cidade de Marília. Em uma consulta prévia, o marido, Rodrigo, já havia detectado que tem neoplasia endócrina múltipla, condição que leva ao desenvolvimento de tumores que reduzem a 50% a chance de um filho saudável. “Alguns médicos especulavam que, devido aos genes do meu marido, as chances de gerar uma criança saudável eram baixíssimas sem a triagem genética”, lembrou ela, que decidiu apostar. Em procedimento realizado pelo SUS no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, foi possível optar por um embrião saudável – e dele nasceu Davi, hoje com 4anos.

A tecnologia atual nem sempre detecta previamente doenças genéticas. A administradora de empresas paulistana Juliana Sena, por exemplo, entrou em desespero ao saber que sua filha, Giovanna, que nasceu em 2014, tinha anemia falciforme – doença que altera o formato dos glóbulos vermelhos – e estava em estágio tão grave que os médicos não davam à criança mais do que poucos meses de vida.

A solução seria um transplante de medula óssea, mas não se encontrava um doador compatível. Juliana recorreu, então, à triagem genética. “Selecionamos um embrião para gerar meu outro filho, Matheus, de forma que ele tivesse células compatíveis”, recordou a mãe. Matheus nasceu em 2016 e logo passou por uma cirurgia de transplante de células para sua irmã. Deu certo. Curada, Giovanna completará 5 anos em 2019. Em um futuro próximo, casos graves como o de Giovanna poderão ser solucionados de maneira mais simples. É o que aponta um experimento em curso com o americano Brian Madeux, de 44 anos. Ele nasceu com síndrome de Hunter, anomalia cromossômica que cria deformações físicas. Em novembro de 2018, Brian tornou-se o primeiro individuo a submeter-se a um novo tipo de tratamento, que edita os genes defeituosos. Adicionadas à sua corrente sanguínea, substâncias manipularam células do fígado. Ainda não se sabe em que medida o tratamento teve êxito, mas, se vingar, a experiência mostrará que, no futuro, será possível exterminar praticamente todas as doenças hereditárias. Já se testou até mesmo um método que mistura o DNA dos pais com o de uma doadora para diminuir a probabilidade de o filho nascer com anomalias. Exibida em 2016 por médicos mexicanos e americanos, a técnica mesclou genes para gerar uma criança sem a síndrome de Leigh, que afeta o sistema nervoso e que poderia ter sido transmitida pela mãe.

Ao que tudo indica, em poucas décadas qualquer pessoa poderá recorrer à genética para orientar a gestação. É um inegável progresso para garantir a saúde dos bebês. Entretanto, esse horizonte arrasta consigo a sombra de uma distopia aterrorizante, como a narrada pelo escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) em sua obra-prima Admirável Mundo Novo (1932).

No livro, conta-se a história de um mundo no qual crianças são editadas geneticamente para que uma maioria nasça com déficits físicos e mentais, “preparando-as” para encarar trabalhos insalubres, enquanto uma minoria ganha aprimoramentos. Assim, os privilegiados acabam incumbidos, naturalmente, da tarefa de governar. Fora da ficção, deve-se atentar para o que disse He Jiankui, o pioneiro editor de genes: “A sociedade decidirá o que deve fazer a seguir”.

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O CRESCIMENTO DO DELIVERY DE BELEZA

Depois de consolidados em São Paulo e Rio de Janeiro, aplicativos para profissionais da área estética miram expansão a outros centros do País

O crescimento do delivery de beleza

Camila Tebar é empresária do segmento de moda em São Paulo. Para ela, se apresentar com unhas arrumadas, sobrancelhas definidas e cabelo em ordem é mais do que um sinal de vaidade. É essencial aos negócios. “Eu me sinto mais segura”, afirma. Para manter o visual confiante, porém, ela carecia de tempo: passar no salão em meio à agenda de reuniões e compromissos da vida profissional era quase impossível. Há seis meses, ela descobriu a solução: um aplicativo de serviços de beleza, o TokBeauty. Operando como um “Uber da beleza”, ele faz a conexão entre profissionais autônomas e clientes. Lançado em 2017 e operando em Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, o app veio na onda de outros, como o da Singu, que tem três anos e meio. Ambos, porém, somente agora devem se espalhar pelo País. As duas marcas preveem expansão em 2019.

A operação é simples e intuitiva. Em poucos cliques, a pessoa faz o cadastro e já pode selecionar o serviço desejado, acertar o valor e agendar o atendimento onde for mais cômodo, seja em casa, local de trabalho ou um hotel, por exemplo. As opções são a de qualquer salão de beleza: cabeleireira, designer de sobrancelha, depiladora, manicure, maquiadora e massagista. Segundo o CEO do TokBeauty, Marcelo Mendonça Calixto, “trata-se de um mercado que, entra crise, sai crise, está sempre em expansão”.

Um de seus principais concorrentes, o Singu, também prevê expansão. Lançado em junho de 2015 com investimento de R$ 15 milhões, ele opera como marketplace que reúne profissionais de diversas áreas de tratamento estético. O app foi idealizado pelo fundador do Easy Taxi, Tallis Gomes, e opera na Grande São Paulo e no Rio de Janeiro. “Vejo um mercado muito bem qualificado, que irá se tornar cada vez mais competitivo”, afirma Tallis. Em 2018, o TokBeauty recebeu aporte da 5xmais Holding Business e traçou novo plano de crescimento. A meta, segundo o investidor Marco Túlio Fernandes de Almeida, é alcançar outras 11 capitais até o fim deste ano e saltar de 65 mil para 400 mil clientes, e de 5 mil para 30 mil profissionais cadastrados.

SEGURANÇA 

Especialistas como Richard Klevenhusen, da Associação Brasileira de Salões de Beleza (ABSB), e Diego Smorigo, do Sebrae-SP, dizem que a maior preocupação é a segurança sanitária do atendimento. Os dois serviços afirmam manter rígidos controles para o cadastro das profissionais, passando por análise de registros criminais, entrevistas e amostras dos trabalhos. A TokBeauty deixa que as próprias clientes façam avaliações dos serviços prestados. Quando a média fica abaixo de 4, num máximo de 5, a profissional é suspensa até que faça uma reciclagem. A Singu adota sistema semelhante.

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PARECE LOJA, MAS É BANCO

Varejistas transformam subsidiárias financeiras em instituições independentes para aumentar a oferta de crédito.

Parece loja mas é banco

O ambiente de uma loja de qualquer grande rede de varejo não se parece em nada com a frieza controlada de uma agência bancária. Em vez de oferecer mercadorias organizadas por cores e atendentes que sorriem, os bancos se protegem dos clientes com portas giratórias, seguranças armados e filas intermináveis para quem quer apenas deixar as contas em dia. Apesar das diferenças, quem pisa em estabelecimentos da Renner ou da Riachuelo, duas das maiores varejistas do País, estão, sem perceber, entrando em instituições financeiras. Nessas lojas é possível fazer cartões de crédito, contratar seguros e até contrair empréstimos. Embora a prática de disponibilizar seus balcões para vender produtos financeiros não seja nova, o varejo resolveu ir além. As empresas estão, legalmente, se transformando em bancos para ocupar espaço nos meios físico e digital. Além de encorpar os ganhos, a prática garante a fidelidade da clientela.

Em junho passado, a Renner obteve permissão do Banco Central (BC) para transformar sua subsidiária financeira em uma instituição independente, a Realiza. “Ela foi criada a partir de uma plataforma aberta, para abrigar serviços de parceiros”, diz Laurence Gomes, diretor financeiro e de relações com investidores da Renner. Um dos objetivos é tornar os processos mais ágeis. “Já estamos emitindo cartões por meio do nosso aplicativo, e conseguimos aprovar o crédito em quatro minutos”, diz Gomes. No ano passado, o plástico com bandeira própria representou 44,2% das vendas e 19,7% na geração de caixa, e a Renner quer aumentar esse percentual.

O exemplo da Renner estimulou a concorrência. Em novembro passado, a Riachuelo, controlada pelo grupo Guararapes, informou o mercado que aguarda autorização do BC para transformar a Midway, sua financeira, em um banco completo. O crescimento orgânico da operação incentivou a decisão. Até o terceiro trimestre de 2018, a receita com empréstimo pessoal da Riachuelo havia crescido 69,7% na comparação anual e somava R$ 466,6 milhões. Com esse incremento, os serviços financeiros responderam por 47% da geração de caixa do grupo nos nove primeiros meses de 2018. Até setembro do ano passado, somente os cartões da própria loja responderam por 45% das vendas. “Essa operação ainda têm um fôlego de crescimento bastante interessante ao longo de 2019”, afirmou Tulio Queiroz, diretor financeiro da companhia durante teleconferência com analistas em novembro do ano passado.

Ao transformar uma financeira em banco, as empresas ficam aptas para incrementar a captação de recursos para além do modelo antigo, ligado a fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) ao abrir mais opções para atrair recursos de investidores. “Essas instituições podem passar a emitir CDBs e Letras de Crédito Imobiliário e Agrícola”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. No varejo, a mudança reflete no aumento da fidelidade. “A tendência é que uma pessoa física tenha um relacionamento muito maior e duradouro com um banco do que com uma financeira”, afirma. Para os investidores, a vantagem é a maior transparência na análise dos resultados. “Com a separação das atividades de varejo e finanças, é possível precificar melhor o negócio”, diz Nicolas Takeo, analista da Socopa. Com essa abertura para inovações nas operações financeiras, as varejistas podem concorrer com as fintechs na avaliação de Carlos Netto, presidente da empresa de tecnologia Matera. “Essas empresas têm um canal de distribuição já formado, o que as coloca com uma vantagem no segmento financeiro”.

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SAÚDE É O QUE INTERESSA

Saúde é o que interessa

As mudanças nos hábitos de consumo fazem com que marcas consagradas busquem alternativas mais saudáveis para continuarem relevantes nas gôndolas dos supermercados. Isso é o que aponta o relatório Eat, Drink & Be Healthy, elaborado pela Kantar Worldpanel, que analisa oito mercados globais – Brasil, China, Espanha, Estados Unidos, França, México, Portugal e Reino Unido. De acordo com o levantamento, o lanche saudável está em alta, mesmo com as pessoas se alimentando cada vez menos em casa. A fruta fresca, por exemplo, aumentou sua presença na mesa dos consumidores, enquanto que o café da manhã segue como a principal refeição feita nos lares mundialmente. No Brasil, o pão é o tipo de petisco preferido para 30% das pessoas no meio das tardes, diferentemente de países como China, Espanha, México e Reino Unido, onde as frutas já são privilegiadas, o que confirma que a procura por produtos saudáveis é uma tendência sem volta no mundo.

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TODO MUNDO AGORA DANÇA

Com produção profissional e intensa estratégia de marketing, os canais no YouTube que ensinam coreografias que vão do funk aos ritmos latinos alcançam milhões de seguidores.

Todo mundo agora dança

Nunca tanta gente esteve tão preparada para dançar como no último carnaval. Muito dos passinhos sincronizados que se viu nas ruas foi resultado de aulas de coreografia exibidas no Youtube e vistas por milhões de fãs. “Vivemos o melhor momento da dança”, diz Fabio Duarte, cofundador da FitDance, uma das empresas que está por trás da moda e que, com um modelo de negócios de alta potência, ajudou a torná-la onipresente em todo o País. Criada em 2014, a companhia foi inspirada na Zumba, um programa de fitness colombiano que estourou em 2006 com a mistura de dança e exercícios ao som de muita música latina. As aulas de zumba chegaram a mais de 150 países.

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Versão brasileira criada por dois irmãos, a FitDance compõe a maior parte de seu repertório com funks cariocas — o que significa muito rebolado. A empresa está crescendo a um ritmo acelerado, triplicou seu lucro em 2018 e espera dobrá-lo em 2019. De acordo com os sócios, seu programa consiste principalmente em qualificar instrutores e estes, credenciados como “instrutores FitDance”, pagam mensalidades de R$ 70 para poderem dar aulas usando o nome do método. “O coração da empresa são as aulas presenciais. O Youtube é só uma plataforma de marketing”, diz Fabio Duarte. De “só uma plataforma” o canal da companhia não tem nada. Atualmente são 9,7 milhões de inscritos que acompanham as coreografias postadas — para se ter ideia, a cantora Anitta tem apenas 1,5 milhão a mais. O valor da empresa não é revelado, mas certamente está na casa dos milhões. Além do império no Youtube, ela está presente em mais de 15 mil academias no Brasil e na Argentina e se prepara para chegar nos EUA, na Espanha e na Índia.

Não é de agora que o País se joga nas coreografias individuais. Nos anos 1990, a moda surgiu com tudo com o grupo É o Tchan, quando Carla Perez e Jacaré colocaram o País inteiro para dançar. Depois surgiram grupos de lambaeróbica que coreografavam as músicas, como Filhos do Sol e Swing do Bixo. Com o passar dos anos, no entanto, o pagode baiano desacelerou, principalmente em São Paulo. A dança recuperou o ritmo com a Zumba, que até hoje atrai milhares para a academia. Outro que contribuiu foi o professor Daniel Saboya, o primeiro a postar no Youtube vídeos com coreografias gravados com uma qualidade profissional. Ele começou em 2012, virou febre nesse promissor mercado virtual e recentemente até se lançou como cantor. Com 13 milhões de seguidores na internet, é atualmente procurado por artistas que querem lançar músicas. Mas nem sempre foi assim. “No começo nós tínhamos muitos vídeos bloqueados porque as pessoas os encaravam como pirataria”, diz Saboya. Quando criou o canal, as gravadoras não permitiam que ele usasse as faixas dos artistas, devido aos direitos autorais. Com o crescimento, a rota mudou de direção e ele passou a ser procurado pelos cantores. “A Lexa foi uma das primeiras que bateu o pé e pediu à gravadora para liberar sua música”, diz ele. A partir daí, seu canal virou um aliado na divulgação dos lançamentos dos artistas e também sua principal fonte de renda. Para coreografar uma música e postá-la, ele cobra em torno de R$ 10 mil.

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O NEGÓCIO É FAZER CARÃO

O professor Justin Neto também não fica para trás no assunto coreografia e é conhecido como o queridinho das celebridades. Diferentemente dos outros, no entanto, ele não utiliza as redes sociais para ensinar as danças, mas apenas para divulgar seu trabalho. Com 727 mil seguidores no Instagram, está sempre viajando pelo Brasil para dar aulas. É recorrente a participação de famosos como Dani Calabresa, Claudia Leitte e Juliana Paes. A marca de Justin é justamente ensinar suas alunas a fazer “carão”, ou seja, a colocarem atitudes nas poses, como fazem as modelos, para se sentirem com a autoestima lá em cima. Entre suas alunas, estão mulheres que recorreram à dança para recuperar o amor próprio após traumas como separações.

Outro canal que faz sucesso nas redes é o Mete Dança. Criado há cerca de dois anos, possui um número bem menor de seguidores em comparação aos outros, mas estão no auge do crescimento. No ano passado, a audiência dobrou e o faturamento quintuplicou. Com 745 mil inscritos, o pacote para montar uma coreografia e postar no canal sai em torno de R$ 5 mil. Idealizado pelo empresário baiano Danilo Alencar, que já agenciou bandas de “arrochadeira”, um estilo musical baiano, o canal conta com parcerias com dançarinos que coreografam as músicas e com uma produtora de vídeos. A monetização também ocorre por meio da divulgação de bandas e contratos publicitários. Enquanto a população se diverte, os empresários faturam.

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EMAGRECER NA FACA

O Brasil já é o segundo país que mais realiza a cirurgia bariátrica, nome do procedimento que reduz o tamanho do estômago. E concorre para se tornar o primeiro do mundo. Por quê?

Emagrecer na faca

Passado o Carnaval, voltemos à dura realidade. De cada 100 brasileiros, cinquenta estão fora do peso – ou melhor, acima do peso. Levam no corpo cerca de 15 quilos a mais, tomando-se como referência uma pessoa com 1,70 metro de altura. Desses cinquenta, dezesseis estão empenhados numa guerra contra a balança, mas não conseguem voltar à forma nem mudar seus hábitos alimentares. E, ainda dentro dos cinquenta, há 32 milhões de brasileiros que vivem uma situação dramática em termos de peso – são obesos, com pelo menos 30 quilos extras. Por desajustes biológicos, propensão genética ou maus hábitos alimentares, esses homens e mulheres tentam de tudo na academia e à beira da mesa, e, no entanto, nunca obtêm êxito em melhorar a silhueta e a própria saúde. O que fazer?

A alternativa, que ganha cada vez mais tração na sociedade brasileira, é a cirurgia bariátrica, nome esquisito para um procedimento que consiste na redução da dimensão do estômago e do intestino e vem sendo adotado desde o início da década de 90. É uma saída radical. Nos últimos anos, com o avanço das técnicas de operação e o desenvolvimento de medicamentos que permitem uma convivência mais saudável com o novo corpo, deu-se uma explosão de busca pela cirurgia bariátrica. Em apenas cinco anos, a procura pelo procedimento aumentou 47%, de acordo com as estatísticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. É um crescimento superior ao de cirurgias mais simples, como a extração de vesícula (subiu 38%) ou de tireoide (6%).

Com esse salto, o Brasil pulou para o topo do ranking mundial da redução de estômago – perdendo apenas para os Estados Unidos, o império mundial da obesidade. O país, no entanto, não é o segundo lugar em obesidade no mundo – ocupa o quinto posto, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. Mas o cenário nacional vem piorando em ritmo acelerado. Em 1980, apenas 7% da população brasileira era obesa. Em 2015, eram 18% – um aumento semelhante ao observado nos Estados Unidos. Mas, considerando-se apenas a última década, a taxa de obesidade no Brasil cresceu em ritmo superior ao da taxa americana. A continuar assim, estima-se que em cerca de dez anos os brasileiros possam estar tão obesos quanto os americanos.

Por quê? Porque, além de questões biológicas ou genéticas, estamos comendo mais em resposta aos apelos de uma indústria que incentiva o consumo de alimentos hipercalóricos, vende porções de fast- food cada vez mais robustas e espalha máquinas automáticas de alimentos em todos os cantos. O mecanismo da obesidade é comparável ao vício porque envolve o sistema cerebral de recompensa. Por isso tudo, a cirurgia bariátrica tem virado uma preferência nacional – que vai aumentar ainda mais. Em uma decisão recente, o Conselho Federal de Medicina ampliou a indicação do procedimento. Antes, a bariátrica era recomendada apenas a adultos com obesidade mórbida – ou seja, com índice de massa corporal, o IMC, acima de 40.

Agora, é indicada também para adolescentes e, para aqueles com IMC a partir de 30 e com diabetes descontrolado.

“Quanto antes for feita a cirurgia, melhor”, diz Almino Ramos, presidente da Federação Internacional para Cirurgia de Obesidade e Transtornos Metabólicos. “O cálculo é simples: quanto mais tempo uma pessoa se mantiver obesa, menor será seu tempo de vida.” Os quilos a mais ainda na juventude provocam aumento da pressão arterial e alterações importantes na estrutura do coração. É um perigo. Adultos com obesidade grave desde a infância vivem até dez anos menos do que quem manteve a linha. O desequilíbrio prematuro faz aumentar em três vezes o risco de diabetes do tipo 2. “Somente 10% das pessoas conseguem perder muito peso e manter essa condição por mais de cinco anos só com estilo de vida”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho.

Atualmente, há 5 milhões de brasileiros elegíveis para emagrecer na faca. Repetindo: 5 milhões. As mulheres adultas, com idade de 25 a 35 anos, são as que mais recorrem ao tratamento – elas são 70% dos pacientes. Há poucos meses, a consultora de telemarketing Sarah Cortez de Sousa, 34 anos e 105 quilos, submeteu-se à bariátrica em um hospital de São Paulo. O procedimento foi feito a partir de cinco microcortes na região abdominal com menos de 1 centímetro cada um. Por eles entraram pinças, um grampeador de titânio e uma micro­ câmera. Controlados por um cirurgião, os instrumentos passaram por uma camada de 8 centímetros de gordura, até chegar ao estômago. O órgão foi então grampeado e passou a ter 10% de seu tamanho original. Em oito meses, ela perdeu 43 quilos.

O Brasil também é um dos campeões mundiais em outra área da medicina – a das cirurgias plásticas, quase sempre atreladas a preocupações estéticas, sobretudo com a redução da gordura corporal aparente. Não se pode comparar a plástica com a bariátrica, que invariavelmente nasce de um problema de saúde, e não de um padrão de beleza. Há, no entanto, uma ponte de comunicação entre as duas práticas. Em um país tropical, mais da rua do que da casa, o culto ao corpo faz diferença. Os gordos sofrem preconceito, os mais magros ganham elogios – é o que se vê desde cedo. “O bullying pode fazer inclusive com que a pessoa coma até como forma de automutilação”, diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do núcleo de obesidade e cirurgia bariátrica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Por tudo isso, somado ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, a bariátrica só cresce. Quando foi criada, na década de 80, apresentava um índice de mortalidade de 1,5%. Hoje, ele caiu para 0,1%. As operações duravam três horas. Hoje, apenas uma. O paciente tinha alta cinco dias depois. Agora, deixa o hospital em 24 horas.

Há dois tipos mais comuns de cirurgia bariátrica. A de Sarah, que perdeu 43 quilos em oito meses, é a mais frequente. Chamada de by-pass gástrico, caracteriza­ se pela redução do estômago por meio de grampeamento do órgão. A segunda variante é a gastrectomia vertical, que reduz o estômago para aproximadamente um terço do tamanho original. Essa técnica é recomendada para pessoas que precisam perder menos peso. Independentemente do tipo de operação, o paciente consegue seu objetivo, emagrecer, e porque perde a fome radicalmente – a quantidade de comida consumida cai a um quarto, em média, por falta de espaço de armazenamento. É esse o grande trunfo da bariátrica: reduzir a vontade de comer.

O momento pós-cirúrgico é um dos maiores desafios. Mesmo com a fome suprimida, não é simples habituar-se a pouca comida. Na primeira semana, somente líquidos são permitidos, e em quantidade pífia. Os operados consomem 50 mililitros de água (o equivalente a um copinho de café) a cada 15 minutos. Na segunda semana, a alimentação é cremosa. Na terceira, permite-se a textura de purê, mais consistente. Só a partir da quarta semana alguns alimentos são introduzidos na dieta sólida. Para o resto da vida os pacientes devem repor nutrientes, como vitaminas, sais minerais e proteínas.

Quatro meses depois da cirurgia, perdem-se, em média, 20% do peso total. O objetivo da operação é ficar com 40% a menos dos quilos originais em dois anos. “A cirurgia bariátrica não se resume ao emagrecimento, no entanto. Ela deflagra uma sinfonia de reações”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, o cirurgião Caetano Marchesini. Ao mexer na arquitetura do intestino e do estômago, a orquestra hormonal desregulada se rearranja. É como se redefinisse o ponto de ajuste, o pontapé inicial para o corpo voltar a funcionar – a tal da nova chance. Após a cirurgia, pelo menos dez hormônios produzidos sobretudo pelo estômago e intestino e relacionados à obesidade são alterados de modo a promover o emagrecimento. E o caso do freio na grelina (composto responsável pela sensação de fome), da leptina (substância da saciedade) e da dopamina (ligada ao bem-estar). O impacto da cirurgia nas doenças associadas ao excesso de peso é brutal. “Na primeira semana, a pressão arterial já está controlada e o diabetes também”, diz Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Cirurgia Metabólica do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A longo prazo, o risco de derrame cai 80%, o de apneia do sono, 85%. Os níveis de colesterol baixam 70%.

Apesar dos avanços técnicos e das facilidades, a cirurgia está longe de ser uma intervenção simples. Seu impacto biológico e comportamental é enorme, tanto que se recomenda, em alguns casos, acompanhamento psicológico. Em outras palavras, a silhueta muda, mas a cabeça também.

Há relatos de abuso de álcool. Um grupo de trabalho da Universidade Pittsburgh, nos Estados Unidos, acompanhou homens e mulheres em dez hospitais ao longo de sete anos após a cirurgia bariátrica. Resultado: antes do procedimento, 7% abusavam de álcool. Depois da cirurgia, o índice saltou para 16%. Algumas hipóteses foram consideradas para esse aumento de consumo. A alteração fisiológica na absorção pelo intestino das bebidas e alimentos leva mais rapidamente à sensação de entorpecimento, com poucos goles. “Uma segunda possibilidade é o aumento do risco de substituição da fonte de prazer: da comida para o álcool”, diz Maurício Serpa, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

Ao lado dos desafios psicológicos, há também vantagens psicológicas. A melhora na autoestima é uma delas. Quem se submete à cirurgia bariátrica tem maior probabilidade de mudar o status de relacionamento, de acordo com um estudo sueco publicado na JAMA Surgery. Segundo os resultados, há um aumento de 15% no índice de divórcios entre os pacientes casados. Entre os solteiros, verificou-se um aumento de 21% no índice de casamentos ou de novos relacionamentos nos primeiros quatro anos depois de submetidos ao método. A cirurgia emagrecedora muda o corpo e a mente, e os depoimentos das pessoas que já se submeteram ao procedimento são um testemunho disso. Nos primeiros dias, os pacientes escondem a cirurgia, mas depois, com a redução do peso, passam a celebrá-la como uma vitória pessoal que antes soava inalcançável. É uma reviravolta extraordinária, como mostra exemplo radical – e assustador – de dom Sancho (932 – 966), rei da Península Ibérica.

O monarca tinha problema com sua circunferência exagerada, que o impedia de andar a cavalo, atividade fundamental naqueles tempos medievais. As limitações o fizeram perder o trono. Acompanhado pela avó, desesperado, ciente de que não conseguia fechar a boca, dom Sancho viajou para Córdoba, na Espanha, para ser tratado por um famoso médico de origem judaica. A solução dada pelo especialista foi aterradora: suturar os lábios do rei, deixando apenas espaço para a entrada de um canudo, pelo qual passou a se alimentar de uma dieta líquida. Sancho sofreu com dores lancinantes, mas meses depois, perdera metade de seu peso. E assim, podendo se movimentar como os outros monarcas de seu tempo, recuperou, a galope, o cetro perdido.

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A SEGUNDA CURA DA AIDS

Cientistas anunciam que mais um paciente, de Londres, está livre do HIV.

A segunda cura da aids

Pesquisadores da University College of London, na Inglaterra, anunciaram na semana passada uma notícia alentadora na luta contra a Aids. Em um artigo publicado na revista científica Nature, eles descreveram o caso da segunda pessoa no mundo curada da doença. O “paciente de Londres”, como ele foi chamado, já que não teve sua identidade revelada, junta-se agora ao americano Timothy Brown, o primeiro a ter sua cura anunciada, em 2008. Ele ficou conhecido como o “paciente de Berlim”, uma vez que foi tratado por médicos alemães da capital germânica depois de ter sido diagnosticado com HIV em 1995, quando estudava no país europeu.

Os dois passaram pelo mesmo procedimento: um transplante de medula óssea, indicado para pacientes com tumor de células sanguíneas. Além de Aids, Timothy tinha leucemia mielóide aguda e o paciente de Londres, linfoma de Hodgkin. Eles não melhoravam mesmo com as sessões de quimioterapia.

Há duas modalidades de transplante de medula óssea (o órgão que produz as células do sangue). A primeira é tirar e recolocar as próprias células do doente depois de passarem por modificações. A segunda é receber uma doação de uma pessoa saudável. Os dois passaram pela última opção. A diferença em relação a outros transplantes do gênero é que as células que Timothy e a pessoa de Londres receberam tinham uma mutação genética rara que torna o indivíduo imune ao HIV, o vírus responsável pela Aids. Chamada de “delta 32”, a alteração impede a fabricação, pelo gene CCR5, da proteína que permite que o vírus se ligue aos linfócitos-T, as células de defesa que o HIV invade e destrói.

A segunda cura da aids. 2

ESPERANÇA PARA TODOS

Timothy e o paciente de Londres não tomaram mais antiretrovirais após os transplantes e não apresentam sinais do vírus. A divulgação da notícia do segundo caso na Nature e em uma apresentação do pesquisador Ravindra Gupta, líder do trabalho, inspirou mais uma vez a esperança de que o caminho aberto pelos dois estudos leve também à cura os 35 milhões de soropositivos existentes no mundo hoje. Porém, é consenso que isso não está garantido e que ainda serão necessárias diversas experiências até que a cura para todos seja alcançada.