A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES III

Obsessões e compulsões III

INFÂNCIA ATORMENTADA

Até a década de 80, os relatos de casos de TOC na infância e na adolescência eram poucos. Apesar das dificuldades de diagnóstico nessa faixa etária, estima-se hoje que aproximadamente um terço dos pacientes que apresentam sintomas obsessivo-compulsivos sejam crianças e adolescentes. Foi apenas em 1989 que o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), nos Estados Unidos, publicou o  primeiro estudo populacional sobre crianças e adolescentes com TOC, utilizando critérios padronizados para diagnóstico. Foram entrevistados todos os 5.596 estudantes de primeiro grau das oito escolas de uma cidade próxima de Nova York, e foi constatado que 20 deles apresentaram diagnóstico de TOC. Provavelmente esses dados foram subestimados, pois os pacientes com quadros mais graves poderiam não estar na escola – e 557 estudantes não preencheram todos os dados. Outro estudo americano detectou taxas ainda mais altas de prevalência, com 3% para TOC   e 19 % para sintomas obsessivo-compulsivos. Em Israel, os pesquisadores encontraram entre os  adolescentes uma prevalência de 3,5% para TOC. No Brasil, porém, não existem dados oficiais.

Uma das dificuldades para diagnosticar o problema é que nem sempre crianças reconhecem que seus sintomas são excessivos, ou sem sentido. E muitas vezes os escondem por vergonha ou medo, mais que entre os adultos.

Em geral, os sintomas são percebidos de forma indireta. Geralmente, as crianças são caladas, tímidas, perfeccionistas, com tendência a se isolar, evitando contato com outras pessoas. São comuns alterações de comportamento, como aumento do tempo gasto no banheiro, tanto em banhos prolongados quanto em lavagens repetidas das mãos; o desempenho escolar pode piorar, geralmente pelo tempo gasto em checar ou refazer as lições e, em algumas crianças, pela dificuldade em manter a concentração; os rituais para dormir ou comer passam a consumir tempo excessivo e a apresentar detalhes minuciosos e excêntricos. Um paciente de 8 anos não conseguia comer com talheres, pois não podia encostá-los nos lábios; outro de 13 anos só conseguia sair de casa após tocar 100 vezes em todos os móveis da sala de sua casa. Em crianças com TOC, quanto menor a idade, maior a prevalência de meninos. Já em pacientes mais velhos, essa diferença diminui, chegando a uma ocorrência igual ou até discretamente superior em mulheres adultas. Pesquisas têm demonstrado que, quanto mais precoce é o início dos pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos, maior a possibilidade de encontrarmos pessoas da família que também apresentem tais sintomas ou que tenham tiques.

Em relação ao quadro clínico, pensamentos obsessivos, só relatados após insistentes questionamentos, podem ser menos encontrados em crianças do que em adultos. Talvez por essa razão, pacientes predominantemente compulsivos sejam encontrados mais facilmente na infância  Assim, é comum na infância que as compulsões sejam realizadas apenas para aliviar sensações de mal-estar, ansiedade, incompletude ou imperfeição, sem relato de medo específico relacionado a elas.

O quadro de TOC comumente inicia-se com apenas uma obsessão e/ou compulsão, havendo,  posteriormente, sobreposição de sintomas. O início pode ser agudo ou gradual e os sintomas tendem a modificar-se bastante durante o curso do TOC, que geralmente é crônico e flutuante, sem um padrão determinado de evolução.

Como produtos mentais, as obsessões podem ser criadas a partir de qualquer substrato psíquico, tais como palavras, pensamentos, medos, preocupações, memórias, imagens, músicas ou cenas. Em relação ao conteúdo, também não existe limite para a variedade possível de obsessões e das com pulsões.

Outra dificuldade para o diagnóstico do TOC na infância é a semelhança entre os sintomas e comportamentos repetitivos característicos de determinadas fases do desenvolvimento.

Muitas vezes, o limite entre o que é parte esperada do desenvolvimento e patologia se confundem O maior desafio para os profissionais e para a família é reconhecer quando ações repetitivas, se tornam preocupantes e a criança precisa realmente de ajuda. Os comportamentos ritualísticos não excessivos auxiliam na socialização e no controle da ansiedade em fases de transição e são, habitualmente, fontes de prazer. Além disso, não interferem no desempenho saudável e não têm a frequência ou a intensidade dos sintomas. Para o diagnóstico do TOC é extremamente importante levar em consideração a frequência, a intensidade e as características dos comportamentos repetitivos. Os sintomas costumam ocupar ao menos uma hora por dia e causar interferências nos relacionamentos e na rotina.

Os rituais podem iniciar-se precocemente e persistir até a idade adulta. Aos 2 anos as crianças começam a apresentar intensificação de comportamentos compulsivos. Os ritos mais comuns na fase pré-escolar acontecem principalmente nos horários de dormir, comer e tomar banho, e os pais se veem obrigados a realizaras atividades de acordo com uma sequência fixa. É esperado que nessa etapa do desenvolvimento a criança peça para ouvir as mesmas histórias repetidamente; assista aos filmes várias vezes; queira que durante as refeições os alimentos estejam dispostos no prato da maneira que julgam adequada; ou insistam para tomar banho com seus brinquedos. Após os 4 anos, a quantidade de rituais tende a diminuir. A partir dos 6 anos os rituais se manifestam mais em brincadeiras grupais. Durante a fase escolar, os jogos passam a ter regras rígidas, muitas vezes tomando mais tempo para serem determinados do que a própria brincadeira. Nessa fase, desenvolvem-se os hobbies e iniciam-se as coleções dos mais variados objetos. Chaveiros, papéis de carta, revistas, álbuns de figurinhas, bonés e caixas de fósforos, entre outros, passam a ter extrema importância.

Na adolescência, os rituais passam a ser um fenômeno grupal. Comportamentos predeterminados são exigidos para que se possa pertencer a uma “turma”, que tem roupas, locais e atividades que seguem padrões repetitivos. Pensamentos intrusivos, sobre um ídolo ou um hobby, são frequentes nessa fase.

Na idade adulta, pode ocorrer acentuação das características compulsivas durante os períodos pré, peri e pós-natais. Segundo alguns autores, ao final da gestação e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê, os pais, em especial a mãe, passam por um período de alteração do estado mental, com exacerbação de algumas características obsessivo-compulsivas. Pensamentos sobre o bem-estar do bebê ocupam muito do tempo da mãe e dificultam sua concentração em qualquer outra atividade que não seja a maternagem. Preocupações excessivas com a saúde, a aparência e com a possibilidade de algo ruim acontecer ao filho levam a verificações repetidas. Apesar de saber que o bebê está bem, essas mães checam várias vezes se ele está respirando, se continua no berço ou se a fralda não está molhada.

 

DEDOS CRUZADOS

Outros exemplos de comportamentos ritualísticos normais são as superstições. Comuns em várias culturas, estão geralmente divididas entre comporta­ mentos que podem trazer má sorte ou proteção contra acontecimentos ruins. Encontradas em todas as faixas etárias, parece haver uma  mudança qualitativa com a idade. Em crianças, os temas dos comportamentos supersticiosos são repletos de fantasia, característica do pensamento pré-lógico ou mágico (dos 2 aos 6 anos) e do pensamento lógico ou concreto (dos 7 aos 11). Por exemplo: não deixar as portas dos armários abertas para que nada de ruim aconteça, ou cruzar os dedos para não serem punidas quando mentem. Apesar das semelhanças com as superstições dos adultos, são poucos os estudos que abordam diretamente essa questão e não existe evidência de continuidade entre comportamentos ritualizados ou supersticiosos e TOC.

O objetivo principal do tratamento é sempre ajudar a criança ou o adolescente a ter um desenvolvimento sem prejuízos psíquicos. É preciso, porém, ter em mente que o TOC é um transtorno crônico, o que fará com que o paciente precise de tratamento por um longo período. O primeiro passo para tratar o TOC é a realização de uma avaliação abrangente do paciente e de sua família. Após a determinação dos sintomas , estabelece-se o programa de acompanhamento, que pode ser realizado por meio de orientação e apoio, psicoterapia e medicamentos.

Apesar de a maioria das pesquisas ter sido realizada com pacientes adultos, já existem dados comprovando que as mesmas medicações utilizadas em pacientes adultos, ou seja, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), são eficazes para crianças e adolescentes. É importante iniciar o tratamento com doses baixas e realizar aumentos gradativos de drogas como a clomipramina, sertralina, paroxetina e auoxetina.

Pacientes com TOC associado a tiques parecem beneficiar-se da associação de doses baixas de neurolépticos (tais como a risperidona e o pimozide) com os ISRS. As psicoterapias cognitivo-comportamentais também têm apresentado bons resultados no controle dos sintomas.

Uma parte importante do tratamento se refere à orientação do paciente e da família sobre os sintomas e qual a melhor forma de lidar com eles. No Brasil, foi criada em 1996 a Associação de Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Astoc) Desde então, a entidade vem desenvolvendo um trabalho pioneiro no sentido de dar apoio familiar a pacientes, estimular a pesquisa, promover encontros e principalmente divulgar informações atualizadas sobre esses transtornos.

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OUTROS OLHARES

GÊMEOS ENTRE O CÉU E A TERRA

A NASA fez uma experiência com dois irmãos idênticos: um foi para o espaço, o outro ficou na Terra. Depois de quase um ano, observaram-se diferenças surpreendentes entre eles.

Gêmeos entre o céu e a terra

“A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo.” A máxima do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) pode ser aplicada, sem esforço, para descrevera própria genialidade. Afinal, suas teorias eram de tal modo criativas, inusitadas, desconcertantes que, na impossibilidade de então comprová-las na prática, ele recorria a alegorias para torná-las compreensíveis – os famosos Gedankenexperiment. Tome-se o caso da Teoria da Relatividade, que, entre outras conclusões, trouxe a ideia de que tempo e espaço fazem parte da mesma equação, são flexíveis e também – com o perdão da redundância – relativos. Uma das formas utilizadas por Einstein para ilustrar o conceito foi o Paradoxo dos Gêmeos. Nele, imaginam­se gêmeos idênticos na seguinte situação: um é enviado ao cosmo, viajando próximo da velocidade da luz, enquanto o outro fica na Terra. O que aconteceria a ambos? Pela distorção do espaço­ tempo, o gêmeo cosmonauta envelheceria bem menos. Pois bem: no último dia 11, a Nasa divulgou, na revista científica americana Science, um estudo que lembra o Paradoxo dos Gêmeos.

Os personagens, agora reais, do experimento foram os americanos Mark e Scott Kelly, gêmeos idênticos nascidos em 21 de fevereiro de 1964, cinco anos antes de Neil Armstrong tornar-se o primeiro homem a pisar na Lua. Os irmãos cresceram no Estado de Nova Jérsey, ambos com o sonho de aventurar-se no espaço – como Armstrong. Formaram-se em engenharia, ingressaram na Aeronáutica e, após missões militares, candidataram-se ao trabalho na Nasa, sendo aprovados no mesmo ano, 1996, para a carreira de astronauta. Mark, porém, aposentou-se precocemente, em 2011, devido a uma tragédia: sua mulher, a deputada democrata Gabrielle Giffords, foi alvo de um atentado sórdido, e ele largou tudo para se dedicar ao seu restabelecimento. Scott, entretanto, continuou na profissão. Os caminhos diferentes seguidos por eles a partir daí deram abertura para uma experiência inédita, realizada entre 2015 e 2016: enviar ao cosmo um gêmeo (Scott) enquanto seu irmão (Mark) ficava por aqui, na Terra. Assim, Scott foi para a Estação Espacial Internacional e permaneceu lá durante 340 dias (um recorde para um astronauta da Nasa) enquanto Mark continuou sua vida normal no planeta. Cientistas de doze universidades americanas debruçaram-se sobre os resultados do estudo Em comparação com o corpo de Mark, o de Scott experimentou um grande número de mudanças em razão de sua permanência no espaço. Seu sistema imunológico produziu novos mecanismos de defesa e ele ganhou 5 centímetros de altura. No entanto, seu desempenho físico decaiu – mesmo com a exigência de duas horas de exercícios diários na estação espacial, enquanto Mark não seguia uma rotina similar e tinha uma dieta irregular. Em decorrência da falta de gravidade na estação espacial, Scott teve o organismo fragilizado: partes do globo ocular inflamaram-se, os ossos se tornaram 10% mais finos e músculos se atrofiaram. Já seu cérebro demonstrou boa performance: Scott levou vantagem em testes de atenção em relação a Mark.

Na pesquisa, detectaram-se ainda alterações nos genes. Uma delas, de teor surpreendente: houve um prolongamento dos telômeros, partes do DNA que protegem o organismo do envelhecimento. No espaço, esses trechos se alongaram, o que retardou a deterioração do corpo. Diferentemente do que prevê o Paradoxo dos Gêmeos na hipótese criada por Einstein, isso não ocorreu por causa de alguma distorção no espaço-tempo – Scott, claro, não viajou à velocidade da luz -, e sim por prováveis efeitos da radiação dos raios cósmicos. “Mesmo depois de estar aqui por quase um ano, não me sinto normal”, declarou Scott em 2017, após seu retorno ao solo terrestre. O corpo do astronauta começou a se adaptar ao planeta cerca de um mês depois do regresso – lentamente. Durante algum tempo, Scott relatou, por exemplo, que sentia as “pernas bambas, as juntas doendo e a pele queimando”. “O fato de que Scott e Mark são gêmeos idênticos realmente eliminou alternativas do motivo de terem surgido diferenças entre os organismos deles no período da experiência”, afirma a bióloga Susan Bailey, da Universidade do Colorado, que participou do estudo. ”Podemos dizer que as alterações em Scott se deram em razão do voo espacial, “completa ela.

Desde o início da exploração espacial o próprio cosmo serve de principal laboratório para a preparação das missões. Em 1967, os soviéticos puseram em órbita a primeira nave Soyuz tripulada, na tentativa de descobrir se seria possível realizar o que hoje é um feito corriqueiro: acoplar a nave a outro módulo em pleno espaço. O experimento culminou em tragédia: ao entrar na atmosfera, o paraquedas da nave não se abriu e ela se chocou contra o solo, matando o cosmonauta Vladimir Komarov. Contudo, somente porque houve tentativas como essa – e outras, bem-sucedidas – é que hoje se tem o conhecimento necessário para realizar missões regulares em direção à estação espacial.

Um dos principais objetivos da pesquisa com os gêmeos foi fornecer informações que possam ajudar outros astronautas. Para combater, por exemplo, a deterioração de ossos e músculos, podem ser desenvolvidos exercícios físicos e até mesmo medicamentos capazes de reduzir tais efeitos provocados por uma eventual longa estada fora de órbita. Já as transformações genéticas e do sistema imunológico podem vir a orientar quais tipos de vacina devem ser tomados antes do embarque para uma jornada nas estrelas.

Para além dessa proposta de buscar mitigar efeitos físicos da permanência no cosmo, será     preciso atentar ainda para as consequências psíquicas decorrentes de viagens dessa natureza. No fim do primeiro dia de exploração da Lua, o astronauta americano James Irwin (1930 – 1991), por exemplo, integrante da Apollo 15, avisou no rádio de comunicações que estaria tendo visões epifânicas enquanto caminhava no satélite (ele foi o oitavo homem a realizar tal proeza). Ao retornar à Terra, em 1971, Irwin pôs de lado a ciência e se dedicou a fundar uma seita, que tentou encontrar destroços da Arca de Noé. Preparar os astronautas, física e psiquicamente, para longas estadas sem gravidade será fundamental para o êxito de um dos mais ambiciosos projetos humanos: enviar uma primeira missão tripulada a Marte, algo que a Nasa planeja fazer até os anos 2030.

Gêmeos entre o céu e a terra. 2 

SEM O PESO DO MUNDO

Enquanto Mark Kelly permaneceu na Terra, seu irmão Scott passou 340 dias na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Leia as principais consequências da vivência em órbita.

Gêmeos entre o céu e a terra. 3

GESTÃO E CARREIRA

UBER CHAMANDO

Empresa que reinventou o conceito de mobilidade fará seu IPO no próximo mês e deve valer (muito) mais que a Ford.

Uber chamando

Há um poderoso dilema pairando sobre o IPO da Uber, que acontecerá no próximo mês. Comprar uma ação significa apostar suas economias em uma empresa que faz receitas de US$ 21,5 mil a cada 60 segundos. Ao mesmo tempo, representa a aposta numa companhia que perdeu o equivalente a US$ 3,4 mil por minuto ao longo de 2018. A startup americana que mudou a definição a respeito de mobilidade no mundo fará a abertura de capital e a projeção é de que levante US$ 10 bilhões, o que será um dos 15 maiores IPOs da história — Alibaba, que fez US$ 21,8 bilhões em 2014, lidera o ranking.

De acordo com a história oficial da Uber, seus dois fundadores , Garrett Camp e Travis Kalanick, não conseguiam um táxi numa manhã de neve em dezembro de 2008, em Paris. Ali decidiram pensar um aplicativo, o UberCab, que seria lançado em São Francisco, EUA, quatro meses depois. De início, era para chamar carros de luxo. A primeira corrida foi feita em julho de 2009. Em dezembro de 2011, ao internacionalizar a operação e estrear em Paris, mudou o modo como pensamos a mobilidade.

O IPO da Uber contém esse componente inescapável. Uma empresa disruptiva de um lado, mas deficitária do outro. Espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde da tecnologia. Seu faturamento anual foi de US$ 11,3 bilhões em 2018, 43% acima do ano anterior. Suas despesas, porém, somaram US$ 14,3 bilhões, 19% mais que em 2017. O prejuízo no ano passado bateu US$ 1,8 bilhão (a conta exclui outras despesas com aquisições e/ou vendas de ativos), bem abaixo dos US$ 4 bilhões de 2017. Receita ascendente com despesas e prejuízos descendentes são bom sinal. Mas não no curto prazo. Em carta a investidores, o CEO, Dana Khosrowshahi, não esconde isso. “Não vamos deixar de fazer sacrifícios financeiros de curto prazo quando vemos benefícios claros a longo prazo.”

O paradoxismo também se dá em terreno que envergonha a empresa. Por um lado, ela se tornou uma máquina de empregabilidade a pessoas de diferentes formações. Por outro, vive às voltas com casos de agressão sexual por parte de motoristas, relatos de assédio internamente, práticas de espionagem da concorrência e outros penduricalhos que culminaram, em 2017, com a saída de Kalanick do cargo de CEO.

Para adensar o cenário, a concorrência aumentou. Tanto a local (Lyft) quanto a global (Didi, que no Brasil opera como 99). Esta, aliás, é a maior no segmento, com 550 milhões de usuários e 30 milhões de corridas diárias — a Uber tem 75 milhões de usuários (22 milhões no Brasil, seu segundo maior mercado) e faz 15 milhões de corridas por dia. Concorrentes de peso exigem recursos contínuos. Além disso, os serviços são cada vez mais diversificados. Scooters, aluguel de bikes, carros autônomos, delivery de comida, tudo entra no radar. O que pede mais dinheiro.

Então, por que o IPO da Uber deve se tornar um dos maiores da história? Porque, entre outros motivos, estima-se que seu valor de mercado atinja US$ 100 bilhões. A Ford Motor Company vale um terço disso (US$ 37,1 bilhões), o que não deixa de ser irônico. Fundada em 1903, ela revolucionou a mobilidade ao introduzir, para a produção da série Ford T, a linha de montagem. Aí aparece uma startup 106 anos mais nova, que nem dá dinheiro, e é percebida como três vezes mais valiosa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES II

Obsessões e Compulsões II

TRANSTORNO COMPARTILHADO

É como uma pedrinha que se atira num lago e faz as águas se movimentarem: os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) costumam ter forte impacto sobre todos os membros da família. Interferem nos relacionamentos, nos compromissos sociais e profissionais e na vida econômica. Para evitarem conflitos, parentes acabam se adaptando aos sintomas e às exigências do paciente, e a família muitas vezes termina por se isolar, já que há grandes dificuldades até mesmo para convidar pessoas para visitar a casa. As acomodações, porém, se dão de forma dolorosa, atravessadas pela raiva e pela frustração, frequentemente exteriorizadas sob a forma de discussões e até agressões físicas. É muito comum que, nessas condições, conflitos conjugais evoluam para separações. Levantamentos indicam que mais de 40% de pessoas próximas de quem tem TOC modificam sua rotina em razão do transtorno. No caso de o paciente ser o marido, 88% das mulheres se adaptam aos rituais.

Por todos esses motivos, muitos consideram o TOC uma doença familiar, tal o impacto que exerce sobre todo o grupo. Estudos mostram que a ocorrência do distúrbio é quatro ou cinco vezes mais comum entre parentes do que na população em geral, o que evidencia a existência do fator familiar em sua origem, que pode ser ambiental ou hereditário ou resultado da combinação dos dois aspectos. Em gêmeos idênticos, observou-se que os tiques e a concordância de sintomas podem chegar a mais de 80%.

Embora deva ser levado em conta o componente genético na etiologia da doença, há controvérsias a respeito da transmissão e das possíveis formas de ocorrência.  É importante considerar também  que o TOC é um transtorno bastante heterogêneo, e é possível que a herança seja distinta para suas diversas formas de manifestação. O fato de haver mais de uma pessoa do grupo familiar comprometida, especialmente quando se trata de alguém que está em posição de grande influência sobre os demais membros, como pai, mãe ou avós, além de sugerir possível fator de ordem genética, indica influências ambientais: os rituais do TOC e as crenças distorcidas que o caracterizam podem ter sido adquiridos por aprendizagem. Certos sintomas, em particular, influem de forma mais acentuada na dinâmica da família. Por exemplo, os armazenadores em geral se sentem bem ao lado das coisas que juntam, mesmo que a casa esteja atravancada de objetos sem utilidade. Enfrentam extremo desconforto ou raiva, como se sua privacidade tivesse sido violada porque alguém pegou ou trocou seus objetos de lugar, e são comuns também os conflitos quando alguém põe algo no lixo sem o seu consentimento. Os pacientes têm enorme necessidade de ter o controle de tudo ao seu redor, protegendo o que lhe pertence de eventuais danos, uso indevido e, principalmente, de extravio. Da mesma forma, os que apresentam obsessões de contaminação e lavagem com muita frequência impõem aos demais seus rituais de limpeza, aos quais a família se submete como forma de evitar conflitos, embora a maioria das pessoas não acredite que a atitude contribua para a melhora do paciente.

PIOR EM CASA

Em aproximadamente um terço dos casos os parentes com frequência apoiam os pacientes,  participando dos rituais e assumindo responsabilidades por eles, por não tolerar a impotência sentida ao assistir a um ente querido se debatendo, prisioneiro de rituais exaustivos e intermináveis, uma vez que essa atitude proporciona alívio imediato. Entretanto, com esse procedimento, reforçam os sintomas.

Se, por um lado, o paciente muitas vezes induz aqueles que estão a seu redor a alterar seus hábitos (mesmo sem percebê-lo), por outro, conflitos domésticos costumam agravar as expressões do TOC. É comum que os sintomas sejam mais intensos em casa e diminuam em outras situações, como durante viagens. Uma paciente que tinha relação conflituosa com sua mãe, pessoa muito exigente e crítica, apresentava o transtorno apenas quando estava na casa dos pais: acendia e apagava a luz várias vezes , ligava e desligava a televisão e outros eletrodomésticos. Sempre que ocorria discussão, os sintomas se exacerbavam. Quando estava em outra cidade, porém, as manifestações praticamente desapareciam.

Acredita-se que as atitudes da família em relação aos sintomas (hostilidade, crítica exagerada, rejeição, ou apoio e tolerância) interfiram nos resultados do tratamento. Parentes tanto encorajam a busca por ajuda como a desestimulam por não acreditar em possíveis mudanças; podem influenciar na adesão ao tratamento ou contribuir para seu abandono, que com frequência ocorre depois de uma briga em casa.

É por isso que muitos terapeutas costumam incluir os familiares no tratamento do TOC, ainda que nem todos participem de todas as sessões. Particularmente quando há participação evidente no reforço dos rituais, hostilidade em relação ao paciente e, sobretudo, quando os sintomas são muito graves e a pessoa está dominada por suas obsessões, não oferecendo nenhuma resistência aos atos compulsivos, é fundamental a inclusão do grupo. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), bastante utilizada para controlar sintomas do distúrbio, é comum a participação da família, principalmente no caso de pacientes adolescentes, no início da puberdade, sendo indispensável quando o paciente é criança. Também é vantajosa a inclusão do cônjuge (ou mesmo do namorado ou namorada), que pode oferecer ajuda valiosa na identificação dos sintomas, na avaliação dos progressos e em eventuais dificuldades ou recaídas – particularmente se o casal tiver relacionamento de boa qualidade.

O fato de a maioria das pessoas, incluindo o próprio paciente, desconhecer as características do transtorno psiquiátrico, as perspectivas terapêuticas e as atitudes mais adequadas a serem adotadas costuma dificultar a busca por tratamento. Esclarecer tanto aquele que manifesta o TOC quanto as pessoas com quem convive é um passo fundamental para lidar com o distúrbio, eliminar preconceitos e auxiliar os envolvidos a desenvolver atitudes mais realistas e objetivas, além de tolerância e cooperação. Desde que seja respeitada a intimidade da pessoa em tratamento, a família pode contribuir com informações – já que, na maioria das vezes, os pacientes têm vergonha dos seus comportamentos, rituais e restrições, que podem ser ocultados do psicólogo ou do médico que os acompanha.

Nesse sentido, a entrevista conjunta facilita a coleta de dados e o esclarecimento dos sintomas. Os fundamentos e as características da terapia cognitivo-comportamental devem ser esclarecidos também para a família: em que pressupostos ela se baseia; que estudos embasaram sua aplicação e comprovaram sua efetividade. É indispensável que as pessoas sejam informadas sobre o que acontece durante a terapia: o aumento inicial da ansiedade em razão dos exercícios, o fenômeno da habituação e o desaparecimento gradual dos sintomas.

Obsessões e Compulsões II. 2

O QUE PODE AJUDAR O PACIENTE

  • Encorajá-lo a enfrentar as situações que o incomodam e a encontrar outras formas de abster-se de executar rituais.
  • Lembrá-lo que, especialmente no início, isso é muito difícil e pode provocar medo e aflição, mas que o mal-estar é passageiro.
  • Responder às suas perguntas uma única vez. Ser honesto nas respostas, explicando o que é TOC e enfatizando que é impossível ter certeza absoluta sobre tudo o tempo todo.
  • De forma gentil, apontar o excesso de verificações.
  • Manter as combinações feitas com o terapeuta. Ser firme, sem ser autoritário.
  • Tentar garantir os compromissos profissionais, as horas de lazer e a vida social.
  • Participar de grupos de auto- ajuda: parentes de outros pacientes podem oferecer dicas valiosas a respeito de como lidar com diferentes situações.
  • Realizar os exercícios prescritos pelo terapeuta junto com o paciente e permanecer ao seu lado durante as atividades que possam causar medo ou ansiedade.
  • Pedir à pessoa com o distúrbio que avise quando estiver na iminência de seguir rituais. Ficar ao seu lado e estimulá-la a resistir.
  • Auxiliá-la a reconhecer seus sintomas, assinalando aqueles que talvez não tenha percebido.
  • Ficar atento aos sinais de recaída e informar o paciente sobre eles de maneira delicada.

Obsessões e Compulsões II. 3

MANIFESTAÇÕES MAIS COMUNS

Formas obsessivas de pensar desencadeiam modos compulsivas de agir – ou evitar a ação

OBSESSOES

  • Preocupação excessiva com sujeira, germes ou contaminação
  • Dúvidas recorrentes
  • Preocupação com simetria, exatidão, ordem, sequência ou alinhamento
  • Impulsos de ferir, insultar ou agredir pessoas
  • Ideias indesejáveis relacionadas a comportamento sexual violento e abuso sexual de crianças
  • Desejo intenso de armazenar, poupar, guardar coisas inúteis
  • Preocupações com doenças ou com o corpo
  • Culpa, receio de pecar ou blasfemar
  • Superstições, receio de que certos números, datas, horários e cores atraiam tragédias
  • Rememoração de palavras, cenas ou músicas intrusivas

 

COMPULSÕES

  • Lavagem ou limpeza
  • Verificações ou controle
  • Repetições de gestos ou confirmação de informações
  • Contagem de objetos
  • Ordem, simetria, sequência ou alinhamento
  • Acúmulo de coisas inúteis (colecionismo), economia excessiva
  • Rezas, repetições de palavras, frases ou números
  • Impulso de tocar, olhar, bater de leve, confessar. Estalar os dedos

 

ALGUMAS EVITAÇÕES

  • Não tocar em trincos, corrimãos, válvulas de descargas ou torneiras de banheiro.
  • Isolar cômodos da casa, impedindo o acesso a eles.
  • Obrigar parentes a tirar os sapatos, trocar de roupa ou tomar banho ao chegarem da rua.
  • Não sentar em bancos ou cadeiras de lugares públicos.
  • Não encostar roupas “contaminadas” nas que estão dentro do guarda-roupa.
  • Não usar objetos utilizados por outras pessoas como talheres e telefones públicos.
  • Evitar pisar no tapete do banheiro em casa ou no escritório ou só pisar em ladrilhos de determinadas cores.

Obsessões e Compulsões II. 4

FIOS DE CABELO, FEIÚRA E DOENÇAS IMAGINÁRIAS

Existem transtornos que se assemelham ao TOC por suscitar comportamentos repetitivos, pensamentos intrusivos ou evitações. São os distúrbios do chamado espectro obsessivo­ compulsivo – como o jogo patológico e a síndrome de Tourette, que com frequência aparecem associados ao TOC. Esta última, por exemplo, atinge de uma a duas pessoas em cada 100. O distúrbio genético, de natureza neuropsiquiátrica, é caracterizado por fenômenos compulsivos que resultam em múltiplos tiques motores e/ou vocais. Há casos em que a pessoa faz caretas e pronuncia palavrões e expressões chulas sem que tenha intenção de fazê-lo.

Há ainda três condições muito comuns com as quais o TOC eventualmente se confunde, ou pode estar associado: tricotilomania (mania de arrancar os cabelos), transtorno dismórfico corporal e hipocondria, todos descritos no DSM-IV. Embora seja um impulso desencadeado por situações de stress ou de ansiedade, a tricotilomaniase manifesta também em momentos de relaxamento e distração (quando a pessoa assiste à TV ou lê um livro), em geral quando está isolada, sem a presença inibidora de parentes ou amigos. Não é precedida por obsessões, como usualmente ocorre no TOC, e sim por tensão crescente, seguida de sensação de prazer, satisfação e alívio.

Há pacientes que arrancam não só os cabelos, mas também sobrancelhas, cílios, pelos pubianos e axilares. Tricotilomaníacos podem arrancar os cabelos de outras pessoas e pelos de animais de estimação, bem como fios de tapetes e roupas. Outros comportamentos estão associados ao distúrbio, como examinar a raiz capilar, enfiar mechas entre os dentes ou comer cabelos (tricofagia). Os fios ingeridos se depositam no sistema digestivo, causando anemia, dor abdominal, náuseas, vômitos e obstrução ou perfuração intestinal.

Também é comum que as pessoas com tricotilomania tentem esconder as falhas no couro cabeludo que revelam o transtorno, utilizando chapéu ou rapando a cabeça. Na infância, o distúrbio acomete igualmente meninos e meninas, mas em adultos é mais comum em mulheres, associado a outros comportamentos, como roer unhas, beliscar-se ou coçar-se. De acordo com a abordagem terapêutica cognitivo-comportamental, a pessoa com tricotilomania deve seguir as seguintes recomendações:

  1. Identificar as situações críticas em que tem o impulso de arrancar cabelos e registrá-las;
  2. Identificar os movimentos que precedem o comportamento;
  3. Treinar a exposição e a prevenção do impulso;
  4. Desenvolver atividade com as mãos que seja incompatível com o gesto de arrancar cabelos;
  5. Juntar e guardar os fios arrancados;
  6. Adotar manobras reparatórias;
  7. Treinar o relaxamento muscular e a respiração abdominal;
  8. Planejar atividades agradáveis nos momentos críticos;
  9. Evitar situações de solidão, nas quais o impulso é mais acentuado;
  10. Reconhecer os progressos;
  11. Ficar atenta a recaídas.

Outro transtorno facilmente confundido com o TOC é a dismorfia corporal (TDC), uma espécie de “feiúra imaginária”. A característica principal é a preocupação excessiva com supostos defeitos na aparência ou o incômodo exagerado com alguma característica. Essas apreensões são embasadas na crença equivocada de que se sofre de deformações. As queixas mais comuns se referem à face, às orelhas e aos genitais, mas podem dizer respeito também a outras partes do corpo. Essas pessoas acreditam ser extremamente feias – e temem a rejeição. A preocupação, às vezes, assume características delirantes e psicóticas. O transtorno é crônico e causa sofrimento, em razão da baixa auto- estima e do isolamento, comprometendo a vida afetiva, social e profissional do paciente. Quando se torna delirante, podem surgir ideias ou tentativas de suicídio.

Geralmente, os pacientes não procuram ajuda médica por considerarem sua preocupação infundada. O transtorno começa, em geral, na adolescência, fase em que surgem os problemas de aceitação das mudanças físicas, mas deve-se distinguir o TDC das preocupações normais do jovem em formação. A hipocondria, por sua vez, é considerada um transtorno somatoforme (referente a sintomas físicos), caracterizado pela preocupação persistente (ao menos por seis meses) de ter uma doença grave, com base na interpretação errada da sintomatologia. Os hipocondríacos não se tranquilizam com os exames que não identificam nenhuma doença. O distúrbio pode aparecer como resposta ao stress, às vezes motivado pela morte inesperada de um ente querido. Nesses casos, o paciente relata sintomas parecidos com os da pessoa falecida. Curiosamente, em momentos em que a certeza ou o temor da doença são muito intensos, o hipocondríaco evita procurar um médico, mesmo diante de situações que necessitariam uma avaliação, com medo de que seja “confirmado o pior”.

OUTROS OLHARES

A CORRIDA PELO COMPUTADOR QUÂNTICO

Tecnologia que deve movimentar US$ 50 bilhões até 2030 traz a premissa de acelerar o avanço da Inteligência Artificial e revolucionar a economia, da agricultura à medicina.

A corrida pelo computador quântico

O padrão de computação com o qual estamos acostumados se baseia no sistema binário. ISSO Significa que em um arquivo de texto (o código base usado em todo tipo de arquivo), cada letra é representada por combinações dos números zero e um. Já na computação quântica, a métrica é infinitamente mais abrangente porque o modelo binário dá lugar a sobreposições sem limite. Assim, os bits quânticos, ou qubits, têm a capacidade de armazenar não só um único texto por arquivo, mas todos os textos possíveis para a mesma quantidade de caracteres — inclusive os textos que ainda nem foram escritos. Está confuso? Então pense na computação atual como a era anterior à invenção da prensa móvel por Gutenberg, no século 15. A computação quântica é tudo o que virá depois. Nela, os computadores serão expressivamente mais rápidos e irão consumir muito menos energia. Parece coisa de ficção científica, e por isso ela desperta uma corrida entre gigantes como IBM, Google, Intel e Microsoft, além de startups como Rigetti ou a canadense D-Wave.

E, evidentemente, não se trata de uma corrida por vaidade pelo pioneirismo. Trata-se de muito dinheiro. É um mercado potencial que deve movimentar, somente nesta fase de testes, ao menos US$ 50 bilhões até 2030, de acordo a consultoria Boston Consulting Group (BCG). A capacidade computacional quântica irá revolucionar todos os setores. Agricultura, energia, finanças, saúde. Nada será como é. O setor farmacêutico, por exemplo, dará um salto, pois a nova tecnologia permite acelerar a criação e os testes de novos medicamentos, já que vai multiplicar a capacidade de prever efeitos que hoje a indústria leva anos para mapear. Tal avanço pode representar US$ 20 bilhões em negócios no setor nos próximos 10 anos.

Outra possível aplicação está no segmento dos algoritmos de busca e aprendizado das máquinas, o que tende a acelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas. E isso é só o começo. “Esperamos que a computação quântica se desenvolva em direção à maturidade nos próximos 25 anos”, escreve Massimo Russo, sócio do BCG, em relatório. Hoje as grandes empresas de tecnologia ainda testam suas soluções para fornecer ambiente confiável de testes para os clientes. A IBM está um passo à frente da concorrência ao apresentar ao mercado, em janeiro, o Q System One, um dos primeiros computadores quânticos comerciais, com capacidade de 20 qubits.

O Google deu um importante passo para a concepção do seu computador ao anunciar, no começo do mês passado, que desenvolveu em laboratório próprio um novo processador quântico. A Intel e a Microsoft também trabalham para apresentar seus protótipos. Para imaginar a forma dessas máquinas, esqueça toda a referência da imagem de um PC. O computador quântico ocupa o espaço de uma sala, e seu núcleo fica resguardado por uma câmara de vácuo que mantém o ambiente em temperaturas baixíssimas – a 273º Celsius negativos. A utilização dessa plataforma é feita por meio da nuvem. No entanto, as soluções são ainda muito embrionárias.

A capacidade do Q System One, de 20 qubits, é baixa e ainda não possibilita a simulação, por exemplo, do comportamento de moléculas. “Para modelar uma molécula simples de cafeína são necessários 50 qubits”, diz Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil. De acordo com BCG, a tecnologia se encontra hoje em um ponto equivalente ao estágio inicial do aparecimento de computadores binários. “A segunda geração da computação quântica, que vai se desenvolver entre 2028 e 2039, será o período no qual as máquinas alcançarão a capacidade de até 50 qubits”, escreve Russo no relatório da consultoria.

Para atingir esse nível de desenvolvimento, é preciso um esforço coletivo entre setor público, privado e academia. Um dos ambientes de testes mais populares é o IBM Q Experience, que desde 2016 disponibiliza à comunidade um computador quântico de testes com plataforma aberta para que desenvolvedores de universidades e empresas possam aprender a programar na nova linguagem.

“É uma fase importante de aprendizado”, diz Mello. Grandes empresas também usam a iniciativa para estudar soluções a seus negócios. O JP Morgan, maior banco dos Estados Unidos, tem dois grandes objetivos: buscar maneiras de aumentar a segurança de dados e proporcionar maior precisão nas estratégias de investimento. Para a coreana Samsung, interessa produzir chips mais potentes com componentes microeletrônicos e uma nova geração de isolantes de calor. A Exxon Mobil, por sua vez, pretende modelar elementos químicos para tornar os catalisadores mais eficientes e, assim, diminuir a emissão de CO2 na atmosfera. Cerca de 300 empresas e 2.500 universidades de todo o mundo promovem testes na plataforma.

Outras grandes corporações buscam meios alternativos para entender a aplicação da tecnologia nos seus negócios. A Bayer firmou, em novembro do ano passado, parceria com a empresa de tecnologia Atos e com a RWTH Aachen, a maior universidade da tecnologia da Alemanha, para avaliar o uso da computação quântica na pesquisa e análise de padrões de doenças humanas. O esforço não é à toa. Executivos da indústria farmacêutica estimam que a computação quântica pode acelerar o tempo de desenvolvimento de novas drogas em 15% a 20%.

A corrida pelo computador quântico. 2

FINANCIAMENTO PÚBLICO 

A corrida para estar na vanguarda dessa tecnologia não se limita ao setor privado. O governo dos Estados Unidos anunciou, em dezembro do ano passado, que vai disponibilizar US$ 1,2 bilhão para financiar pesquisa quântica no país. A Comissão Europeia desembolsou, em 2016, US$ 1,1 bilhão para o mesmo propósito. Mas a China lidera a corrida ao aportar US$ 10 bilhões para a construção de um laboratório de Ciência da Informação Quântica com previsão para ser inaugurado em 2020. O Brasil ainda não tem uma linha específica de financiamento. “Os países que dominarem antes essa tecnologia terão indústrias mais avançadas com a produção de materiais químicos melhores e maior quantidade de produtos inovadores”, diz Mello, da IBM. A vantagem competitiva será quântica.

GESTÃO E CARREIRA

AS CARÊNCIAS MAIS SENTIDAS PELOS MILENNIALS

Profissionais jovens percebem em si mesmo falta de habilidades relacionadas à inteligência emocional e pensamento crítico.

Carências mais sentidas pelos millenials

Brasileiros jovens entram no mercado de trabalho e se ressentem de um déficit de habilidades fundamentais para a vida profissional. Uma pesquisa recente da empresa de educação online Udemy colheu respostas de mais de mil profissionais com idade entre 21 e 35 anos. Para quase dois terços deles, o que mais faz falta não são conhecimentos técnicos, e sim capacidades que deveriam ser treinadas na escola e na universidade, relacionadas a inteligência emocional, comunicação, gestão do tempo e pensamento crítico – todas fundamentais para a produtividade e para os ambientes de trabalho mais competitivos de hoje. Além das deficiências óbvias em transmissão de conhecimento, o sistema educacional brasileiro falha também no desenvolvimento dessas habilidades, diz Sérgio Agudo, diretor da Udemy no Brasil. O executivo lembra que esse tipo de ponto fraco é hoje considerado problema grave num profissional e pode prejudicar carreiras seriamente. Um quarto dos jovens também se ressentiu de falta de habilidades de liderança, o que é facilmente compreensível em profissionais na primeira metade da carreira. Cerca de 95% dos respondentes consideram que existe uma lacuna de habilidades profissionais no país.

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ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 7-9

Alimento diário

A ORAÇÃO DE AGUR

 

V. 7 a 9 – Depois da confissão e do credo de Agur, aqui temos a sua litania, onde podemos observar:

I – O prefácio à sua oração: Duas coisas te pedi, ó Deus! Antes de orar, é bom considerar o que necessitamos, e quais são as coisas que temos que pedir a Deus. O que o nosso caso exige? O que os nossos corações desejam? O que desejamos que Deus faça por nós? para que não tenhamos que procurar a nossa súplica quando deveríamos estar apresentando-a. Ele implora, “não mas negues, antes que morra”. Na oração, devemos pensar em morrer, e orar de maneira apropriada. “Senhor, dá-me perdão, e paz, e graça, antes que eu morra, antes que eu me vá daqui e não mais exista; pois, se eu não for renovado e santificado antes de morrei; esta obra não será feita depois; se eu não prevalecer na oração antes de morrer, orações posteriores não prevalecerão, Senhor. Não há nada desta sabedoria ou destas obras na sepultura. Não me negues a tua graça, pois, se o fizeres, morrerei, perecerei; se te silenciares comigo, serei como aqueles que descem à cova (Salmos 28.11. “Não me negues, antes que morra”: enquanto eu permanecer na terra dos vivos, deixa-me continuar sob a condução da Tua graça e boa providência.

 

II – A oração propriamente dita. As duas coisas que ele pede são graça suficiente e alimento apropriado.

1. Graça suficiente para a sua alma: “Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa”; livra-me do pecado, de todos os princípios, práticas e sentimentos corruptos, do erro e do engano, que estão no fundo de todos os pecados, do amor ao mundo e das coisas do mundo, que são apenas vaidade e mentira. Alguns entendem que esta é uma oração que pede o perdão do pecado, pois quando Deus perdoa o pecado, Ele o remove. Ou melhor, é uma oração com o mesmo objetivo que aquela: “Não nos induzas à tentação”. Nada nos é mais prejudicial do que o pecado, e por isto, não há nada contra o que devemos orar mais fervorosamente. para que não façamos o mal.

2. Alimento apropriado para o seu corpo. Tendo orado pedindo as operações da graça divina, aqui ele implora os favores da Providência divina, mas os que possam trazer o bem, e não o prejuízo, da alma.

(1) Ele ora para que da generosidade de Deus ele possa receber uma porção adequada das boas coisas desta vida: “Mantém-me do pão da minha porção acostumada”, o pão que julga res adequado para mim. Quanto a todos os dons da divina Providência, devemos recorrer à sabedoria divina. Ou, “o pão que é adequado para mim, como homem e chefe de família, aquilo que está de acordo com a minha posição e condição no mundo”. Pois assim como é o homem, também é a sua competência. O nosso Salvador parece se referir a isto, quando nos ensina a orar, “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, como isto parece se referir ao voto de Jacó, em que ele não desejava nada mais do que pão para comer e vestes para vestir’. O alimento conveniente para nós é aquele com que devemos nos contentar, ainda que não tenhamos delícias, manjares, ou algo supérfluo – o que é para suprir a necessidade, embora não tenhamos para o prazer ou para o ornamento; e isto é aquilo que podemos, com fé, pedir em oração, e em tudo isto podemos depender de Deus.

(2) Ele ora para que possa ser guardado de cada condição da vida que possa ser uma tentação para ele.

[1] Ele ora contra as situações extremas de abundância e necessidade: “Não me dês nem a pobreza nem a riqueza”. Com isto, ele não pretende aconselhar a Deus, nem ensiná-lo qual é a condição que Ele lhe deverá destinai; nem ora contra a pobreza ou a riqueza de modo absoluto, como sendo más em si mesmas, pois ambas, pela graça de Deus, podem ser santificadas e convertidas em um meio que nos trará o bem; mas, em primeiro lugar, com isto ele deseja expressar o valor que os homens bons e sábios dão a um estado intermediário de vida, e, com submissão à vontade de Deus, deseja que este possa ser o seu estado – nem uma honra excessiva, nem um grande desprezo. Nós devemos aprender como controlar as duas coisas (como o apóstolo Paulo, Filipenses 4.12), porém desejar estar sempre entre essas duas coisas. Em segundo lugar, com isto, ele indica o santo zelo que tinha consigo mesmo, o temor de que não conseguisse resistir às tentações, fosse em uma situação de aflição ou de prosperidade. Outros podem preservar a sua integridade em qualquer dessas duas situações, mas ele receia as duas, e por isto a graça o ensina a orar contra as riquezas tanto quanto a natureza o ensina a orar contra a pobreza; mas a vontade do Senhor será feita.

[2) Ele apresenta uma razão piedosa para a sua oração (v. 9). Ele não diz, “Que eu não seja rico, e sobrecarregado de preocupações, e invejado por meu próximo, e devorado por uma multidão de servos”, nem “Que eu não seja pobre e humilhado e forçado a trabalhar duro e ganhar pouco”; mas “para que eu não seja rico e peque, ou pobre, e peque”. O pecado é aquilo que um homem bom deve temer em cada condição e sob cada circunstância; veja Neemias (Provérbios 6.13), para me atemorizar, e para que eu assim fizesse e pecasse. Em primeiro lugar, ele receia as tentações de uma condição próspera, e por isto até mesmo a menospreza: Para que, porventura, de farto te não negue” (como Jesurum, que engordou e deu coices e deixou a Deus que o fez, Deuteronômio 32.15), e não diga, como Faraó, no seu orgulho: “Quem é o Senhor cuja voz eu ouvirei?” A prosperidade faz que as pessoas se assoberbem e se esqueçam de Deus, como se não tivessem necessidade dele e não tivessem nenhuma obrigação com Ele. O que o Todo-Poderoso pode fazer por elas? (Jó 22.17). E, por isto, não desejam fazer nada por Ele. Mesmo os homens bons receiam os piores pecados, tão enganosos julgam que podem ser os seus próprios corações; e sabe m que os maiores ganhos deste mundo não compensarão a menor culpa. Em segundo lugar, ele receia as tentações de uma condição de pobreza, e por esta razão, e nenhuma outra, a menospreza: “Que, empobrecendo, venha a furtar”. A pobreza é uma forte tentação à desonestidade, e domina muitas pessoas que estão prontas a pensar que isto será a sua desculpa, mas não os defenderá no tribunal de Deus. nem no tribunal dos homens, dizer, “roubei porque era pobre”; mas se um homem roubar para satisfazer a sua alma, quando tinha fome, o tribunal poderá decidir que se trata de um caso de compaixão (Provérbios 6.30), e algo a que podem ser levados até mesmo aqueles que têm alguns princípios de honestidade. Mas observe por que Agur receia isto, não porque se colocaria em perigo, mas ‘”para que não venha a furtar, e seja enforcado por isto, açoitado ou torturado, ou vendido como cativo”, como era o caso dos ladrões pobres entre os judeus, que não tinham com que fazer a restituição; mas para que não desonrasse a Deus com isto; “para que [não] venha a furtar e lance mão do nome de Deus, isto é, refute a minha profissão de religião por práticas que não condizem com ela”. Ou, “Para que eu [não] venha a furtar, e, quando acusado, negue sob juramento”. Portanto, ele teme apenas um pecado, porque este o levaria a outro pecado, pois o caminho do pecado é descendente. Observe que ele chama Deus de seu Deus, e por isto teme fazer alguma coisa que o ofenda, por causa do relacionamento que tem com Ele.