ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 22 – A HISTÓRIA DE LISA

John e eu trouxemos diferentes formas de pecado sexual e de dificuldades para o nosso casamento. Enquanto John lutava suas próprias batalhas, eu tive de lutar minha própria guerra íntima. Nunca imaginei que escolhas sexuais aparentemente despreocupadas que eu havia feito quando era uma estudante universitária de dezenove anos voltariam para confrontar minha liberdade como uma mulher recém-casada de vinte e dois anos.

Quando meus pais conversaram comigo sobre sexo pela primeira vez, eles me explicaram que o sexo estava reservado para o casamento, mas não me disseram por quê. O que lembro foi que a ênfase principal da conversa era o medo de contrair uma doença e a vergonha de ter uma gravidez fora do casamento.

O casamento dos meus pais era muito instável e parecia haver muita inconsistência entre o que eles diziam e o que de fato faziam. Um exemplo característico dessa inconsistência é o fato de que meus avós por parte de pai terem tido múltiplos casos sexuais. O conceito de pureza ou virtude nunca entrou na conversa. Segundo o que eu podia observar, parecia que o segredo era fazer o que você quisesse desde que se comportasse de forma responsável e não fosse apanhado.

Adotei essa lógica de ação durante a faculdade e a somei a um senso de moralidade que construí ao conviver com minhas amigas: eu só dormiria com pessoas a quem amasse e, além disso, faria sexo com responsabilidade. Um aspecto dessa “responsabilidade” era usar contraceptivos. Quando necessário, eu até levava algumas de minhas colegas menos responsáveis ao meu médico para que elas também pudessem adotar a pílula.

Então conheci John e, ainda no nosso primeiro encontro, ele me conduziu ao Senhor. Eu tinha vinte e um anos. Nasci de novo, fui cheia do Espírito Santo e fui curada, tudo na mesma noite. Durante a nossa conversa, eu disse algo ridículo. Fiz o comentário: “Fico feliz por nunca ter tido um comportamento imoral”.

Tenho de me perguntar por que eu disse algo tão estúpido! Não faço ideia da resposta, a não ser o fato de que eu não entendia a diferença entre moral e santo. Lembro-me de que eu pensava que dormir com pessoas que você amava era igual a ter moral. Embora eu tivesse nascido de novo, naquelas primeiras horas, minha mente estava longe de ter sido renovada.

Mais tarde, quando começamos a namorar, esperava que John tivesse esquecido o que eu dissera. Imagine meu terror quando ele me disse: “Fico muito feliz porque nós dois nos guardamos”.

Tive vontade de gritar: “Não! Aquilo era um bebê cristão ignorante e recém-nascido falando!” Foi quando descobri o quanto as consequências das minhas escolhas pessoais poderiam ser dolorosas para os outros.

Então chegou o dia em que eu soube que John ia me pedir para passar o resto da vida com ele, e eu soube que tinha de lhe contar a verdade.

Eu sentia que não merecia John e acreditava haver perdido a preciosa oportunidade de construir minha vida com um homem que amava a Deus e se importava comigo. Saí para caminhar um pouco e clamei a Deus. Eu sabia que havia sido perdoada, mas estava dominada pelo remorso que sentia das consequências das minhas escolhas sexuais.

Fui ao apartamento de John para falar com ele, mas, antes que eu pudesse confessar meu segredo vergonhoso, ele disse:

—  Você se importa se eu ler um versículo da Bíblia? Senti o desejo de compartilhá-lo com você.

Concordei, então John começou a ler:

— “Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17, AA). Sei que isso parece estranho — ele continuou —, mas senti como se Deus me falasse para dizer a você que as coisas velhas passaram. Você é inteiramente nova, e é como… uma virgem.

Pensei que fosse vomitar.

— Eu não sou virgem — eu disse. — Era isso que eu ia lhe dizer. John segurou-me pelos ombros, olhou-me nos olhos, e disse:

— Se Deus diz que você é, quem somos nós para discutir? Naquele instante, toda a minha vergonha desapareceu.

RESTAURANDO A SEXUALIDADE QUEBRADA

Ainda assim, eu havia despertado a minha sexualidade na dimensão da luxúria e não do amor. Quando entrei no casamento e quis amar, eu não sabia como fazer isso. Na minha mente, sexo era ruim. Era errado. Era proibido. Agora que estávamos casados, o sexo de repente era bom e era algo de Deus e devia ser celebrado. Eu não sabia como fazer essa transição.

Se John e eu ficávamos sozinhos, eu tinha um súbito e aterrorizante flashback de uma imagem de algum filme pornográfico horroroso que havia assistido cinco anos antes na faculdade. Ou eu me fechava sexualmente com vergonha por causa das memórias que tinha de encontros sexuais passados com um ex-namorado. Era terrível.

Quando devia ser capaz de me entregar livremente a meu marido com total abandono, eu me via amarrada ao passado. John merecia tudo de mim, e eu não conseguia ter liberdade sexual por causa das minhas violações anteriores. Eu lutava contra pensamentos e imagens impuras, comparações e vergonha. Eu lutava contra essas coisas, mas parecia que nada adiantava. Foi nesse período da minha vida que aprendi sobre o poder de quebrar os laços da alma e as maldições hereditárias.

Falamos das maldições hereditárias anteriormente neste livro. Como mencionei, havia uma história de imoralidade e infidelidade na minha linhagem, à qual eu tinha de renunciar. Mas eu também tinha de quebrar laços em minha alma criados por encontros passados para que a minha sexualidade fragmentada pudesse ser restaurada. Vamos ler um versículo que trata desse assunto:

Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: “Os dois serão uma só carne”. 1 Coríntios 6:15-16

Não estou chamando meus ex-namorados de prostitutos, mas o princípio aqui é o mesmo. Eu havia me unido a eles e sido uma só com eles, e agora eu tinha uma aliança com outro homem. A cada união e separação, minha alma havia sido fragmentada até eu não ser mais inteira – e agora, eu estava quebrada sexualmente. Quando você está quebrado sexualmente, torna-se incrivelmente difícil você se entregar completamente ao seu cônjuge, porque você não está mais completo.

Para andar em pureza e desfrutar o dom da intimidade, precisamos estar inteiros, e só Deus pode restaurar nossa integridade quando ela foi maculada. Só Deus pode restaurar a honra da nossa sexualidade onde houve violação e desonra. Só Deus pode pegar o impuro e contaminado e torná-lo santo e puro novamente. Só Deus pode nos dar uma bela coroa pelas cinzas que nós levamos a Ele.

Se sua sexualidade foi maculada por causa da imoralidade no passado (quer seja promiscuidade, pornografia unida à masturbação ou qualquer outra impureza), gostaríamos de convidá-lo mais uma vez a dedicar um tempo para uma oração de restauração. Mais uma vez, prepare-se espiritualmente antes de orar, e ore somente com seu cônjuge, com um amigo próximo, com um parceiro de oração, ou apenas com a presença do Espírito de Deus. Diga em voz alta:

Pai celestial,

Obrigado por enviar Teu Filho para sofrer a punição pelo meu pecado. Porque estou em Cristo, todas as coisas velhas passaram da minha vida. Agora todas as coisas são novas. De acordo com 2 Coríntios 5:21, Jesus levou meu pecado para que eu pudesse me tornar a Tua justiça. Isto é o que sou hoje.

Agora confesso e renuncio ao meu pecado e aos pecados de meus antepassados por todo e qualquer envolvimento em pecado sexual e por toda impureza, perversão e promiscuidade. (Tenha o cuidado de citar aqui especificamente os pecados aos quais você está renunciando. Diga-os em voz alta diante de Deus sem vergonha. Não há nada em oculto – Ele já conhece cada um deles e anseia por remover de você o peso da culpa e da vergonha. Então, quando estiver pronto, prossiga.)

Pai, toma a espada do Teu Espírito e corta todo laço sexual impuro que prenda a minha alma à alma de… (ouça o Espírito Santo e diga cada nome à medida que for ouvindo. É bem possível que os nomes possam ser de pessoas com quem você não teve relações sexuais, mas com quem você se envolveu sexual ou emocionalmente de uma maneira que deveria estar reservada ao seu cônjuge ou ao seu Salvador somente).

Depois de dizer cada nome individualmente, ore:

Pai, libera Teus anjos para recuperar os fragmentos da minha alma presos a essas pessoas. Restitui-os a mim pelo Teu Espírito para que eu possa ser íntegro, santo e separado para o Teu prazer.

Pai, renuncio à influência de toda imagem pervertida e promíscua. Perdoa-me por permitir que imagens vis e pervertidas fossem colocadas diante dos meus olhos. Faço uma aliança de acordo com o Salmo 101:3, de guardar as fontes do meu coração através da porta dos meus olhos. Não permitirei que nenhuma coisa vil esteja diante dos meus olhos. Renuncio a todo espírito impuro e ordeno que ele e sua influência saiam da minha vida.

Pai, lava-me no sangue purificador de Jesus, pois só ele tem o poder para purificar e expiar. Eu me consagro agora como Teu templo; pelo poder do Teu Santo Espírito, remove toda contaminação do espírito, da alma e da carne deste santuário. Enche-me até transbordar com a presença do Teu Espírito Santo. Abre meus olhos para ver, meus ouvidos para ouvir e meu coração para receber tudo o que tens para mim. Sou Teu. Faz a Tua obra em minha vida.

Com amor, Teu filho.

OUTROS OLHARES

A DIFÍCIL DECISÃO DE ENVELHECER

A longevidade foi a grande promessa da Modernidade. O que fazer agora?

“Acho que decidiu envelhecer.” A frase perdida lá pelo meio do livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, surpreende o leitor. Sobretudo aquele interessado no tema da longevidade. O texto de estilo indefinível é um relato sobre o luto baseado ou transpassado nos diários da cientista Marie Curie (1867-1934) e ora se faz de biografia. ora de romance, ora de reportagem, mas sempre de maneira potente.

A conclusão de Montero sobre sua personagem torna impossível apagar da cabeça um monte de perguntas filosóficas que insistem em andar atrás da falsa ingenuidade da frase. A tal “decisão” de Curie, conta a escritora, teria sido tomada depois de a cientista, única mulher vencedora de dois prêmios Nobel, viver um dos anos mais difíceis de sua vida.

Curie ficou repentinamente viúva de Pierre, atropelado por uma carruagem; enfrentou um linchamento público sob a acusação de ser o pivô do fim do casamento de seu novo companheiro, um ex-aluno bem mais jovem; lutou contra o machismo da academia sueca para receber, ela mesma, seu prémio, subindo em um palco reservado exclusivamente aos homens. “Estava destruída”, conclui Montero em um momento biógrafa. No ano seguinte, Curie, sempre segundo a romancista, voltou a ficar de pé. “Mas de alguma maneira nunca mais foi a mesma.” Eis outra frase reveladora da ideia do envelhecer. Pelo menos no início do século passado.

O que terá mudado? Nas últimas semanas, um exército de internautas pelo mundo todo –    com perdão da redundância – decidiu envelhecer. Saíram colocando fotos e mais fotos em um aplicativo e, em fração de segundos, estava tomada a tal da “decisão”. Simples assim. Só que não. Curie que o diga. Naquele ano de 1913, Albert Einstein (1879- 1955) disse que ela parecia “fria como um peixe”. Montero o reprova: “Mal sabia ele que estava vendo apenas a capa endurecida pela intempérie de um núcleo de lava”.  O mergulho dos internautas no túnel do aplicativo remete à mesma frieza. Ilusão. Einstein deixou-se impressionar por uma senhora ativa a fazer ciência de ponta em seu laboratório a despeito das desgraças da vida.

As representações gratificantes da velhice, no entanto, são dúbias. Ao mesmo tempo que ajudam a desconstruir os estereótipos, o preconceito ou o idosismo (minha tradução de ageism, a discriminação etária), ampliam o risco de a sociedade alimentar o processo de “reprivatização da velhice”, um termo já clássico na literatura das ciências sociais, cunhado em 1999 pela antropóloga Guita Grim Debert.

Assim como se entra em um aplicativo e enruga-se voluntariamente o rosto e branqueiam- se os cabelos, vive-se o perigo de atribuir a uma “decisão” do indivíduo aquilo que é coletivo, construído socialmente, e fazer a velhice desaparecer do leque de preocupações sociais. Cada um poderia tomar a “decisão” de maneira unilateral, a seu tempo e de forma fria. Sempre sem dor. E quem a toma sem precauções ou na hora errada, sublinha Debert, é julgado pela sociedade e condenado por ter sido negligente.

Faz tempo que essa falsa “decisão” é objeto de reflexão de pensadores. Em 2007, a Presse Universitaires de France (PUF) publicou um livro de professores e pesquisadores do envelhecimento com a coincidente indagação: Quand est-ce que je vieillis? (Quando é que eu envelheço?, em tradução livre). O ponto de interrogação no fim do título incomoda tanto quanto aquele torturante band-aid no calcanhar da música de Aldir Blanc. Claro, bem antes, tivemos Cícero (106 a. C- 43 a.C.) a nos alertar que “somente os idiotas se lamentam de envelhecer”. E tivemos Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) a convencer Paulino de que mais importante do que ocupar um alto cargo ou acumular riqueza era estudar filosofia. Por que? Porque a vida é breve.

Mas agora a vida é longa. Ao menos na promessa da longevidade, a grande revolução ou a grande conquista da Modernidade. Ah, a modernidade! Prometera-nos tanta coisa. Liberdade, democracia, bem-estar, e deixou muito a dever com sua ideia de progresso. Mas uma coisa terá sido cumprida. Nos deu uma vida mais longa. A tecnologia aplicada à medicina prolonga – até quando? – a expectativa de vida. O que mudou com a longevidade? Muitas coisas. Com uma exceção, segundo os filósofos franceses Eric Deschavanne e Pierre-Henri Tavoillot em Philosophie des dges de ln vie (Filosofia das idades da vida, em tradução livre): a idade como o critério irremovível na identidade legal. Escrevem eles: “podemos mudar de aparência, de nome, de nacionalidade e até mesmo de sexo, mas não de idade”. Talvez.

Essa assertiva de Deschavanne e Tavoillot é inquestionável no aspecto normativo, obviamente. Mas, se a modernidade falhou em vários aspectos, a Pós-Modernidade, se encarada como sua contendora, teria ganho um ponto ao afirmar o desaparecimento ou a compressão do espaço e do tempo. Como disse Paul Virílio (1932-2018), as duas referências sucumbiram como dimensões significativas do pensamento e da ação humanos. Se passamos a habitar ”o globo” e estamos “on-line”, em qualidade vivemos? Quando envelhecemos?

Em Economie du vieillissement (Economia do envelhecimento, em tradução livre), o economista Grégory Ponthiére, da Paris School of Economics, nos oferece uma alternativa bastante relevante. Vivenciamos o deslocamento da idade segundo ele, para o campo econômico. No século XXI, a humanidade vive uma perigosa exacerbação de uma definição da idade pela funcionalidade, produtividade ou status socio- econômico do indivíduo. Nessa perspectiva, a velhice pode chegar a qualquer momento?

A gerontologia – o estudo do envelhecimento – sempre trabalhou com a idade cronológica e a idade biológica em sua ardorosa tentativa de descolar velhice e doença. A velhice, de acordo com esse entendimento, é um processo biopsicossocial, o resultado de um ciclo de vida e o momento no qual desagua tudo o que foi acumulado neste percurso jamais preciso, como nos disse Fernando Pessoa.  No entanto, quando reforçamos nessa interpretação o pilar socioeconômico, o resultado é desafiador – ou desesperador neste século XXI.  Existem várias velhices!

Vivemos mais e melhor. E isso vale, relativamente, para todas as classes sociais em comparação com as gerações anteriores. A economia contemporânea, todavia, assumiu uma hegemonia como determinante da idade do indivíduo deste século, e o fato de isso ocorrer justamente quando o mundo envelhece é algo opressor. Segundo Ponthiére, além das idades biológica e cronológica, temos uma idade econômica. Essa última, ainda pouquíssimo explorada, passa a influenciar as outras duas. A economia esvazia qualquer poder de decisão e pode até devolver o indivíduo a um conceito de idade que pensamos superado pela modernidade, no qual a velhice precisava ser ocultada dos olhos alheios.

A velhice, como e sabe, era invisível. (Era?) Apenas os povos tribais valorizavam seus velhos e o conhecimento adquirido. A partir da ascensão de uma certa estética humana, o envelhecimento foi escondido, pois era um sinal de perda de poder. Os monarcas absolutistas envelheciam escondidos, a ponto de despertarem dúvidas sobre a data exata de sua morte. Era o refúgio aos aposentos, daí a palavra aposentadoria. Uma decisão difícil.

William Shakespeare (1564-1616) explorou o dilema em Rei Lear, curiosamente, baseado na primeira tragédia inglesa de inspiração senequiana. O intento de Lear era, como diz na cena inicial, “livrar nossa velhice de cuidados”. Calculou mal. Ou teria, já naquela época, tomado sua decisão sem considerar uma idade econômica? Desleixou o parentesco de direitos e deveres. Foi vítima da quebra do pacto de solidariedade intergeracional. A tempestade lembrou-lhe que o envelhecer é, por natureza, um fato social. Jamais poderá ser algo privado.

Se é assim, e se é tão difícil para os indivíduos, que o diga para a sociedade. Quando a sociedade decide envelhecer? Eis a questão para o Brasil. As estatísticas sobre o envelhecimento da população são públicas e conhecidas, entretanto agimos como um ingênuo Lear a vislumbrar apenas a parte de maior interesse egoístico ou ganancioso, sem nos darmos conta da complexidade do todo. Goneril e Regan, as filhas ingratas, estão a nossa espreita.

A questão que se coloca é menos a de o Brasil envelhecer antes de ficar rico, como se repete à exaustão, ou a velocidade de nosso envelhecimento – embora esse seja um ponto importante -, mas, sim, em qual economia estamos envelhecendo. Os países ricos desfrutaram da economia desenvolvimentista do pós-Segunda Guerra Mundial, endividaram-se em condições generosas no Plano Marshall – sobretudo os europeus ocidentais -, modernizaram seus parques industriais importando petróleo do Oriente Médio a preços irrisórios, praticaram o protecionismo espalhando subsídios agrícolas durante décadas. Em 1955, o barril bruto de petróleo custava USS 1,93 e, em janeiro de 1971, continuava a custar apenas USS 2,18. Em termos reais, observou o historiador Tony Judt (1948-2010), o petróleo nesse período glorioso do capitalismo tomou-se inacreditavelmente mais barato, desafiando a lei da oferta e da procura.

Esse é apenas um resumo do quadro econômico que permitiu aos países ricos viverem um interstício do capitalismo chamado Trinta Anos Gloriosos (1945-1975), o de mais prolongado crescimento econômico mundial em tempos de paz. Nesse período, os países ricos construíram seus campeões nacionais, reforçaram suas universidades e seus sistemas de ensino e, principalmente, ergueram o chamado Estado de Bem-Estar Social, que vai, até hoje, muito além da Previdência social. Decidiram, eles sim, envelhecer.

Depois dos anos 70, com os dois choques do petróleo a ampliar a vulnerabilidade da economia americana já cambaleante devido aos gastos na Guerra do Vietnã, tudo mudou na economia global. O presidente do Banco Central Paul Volcker reagiu à ameaça de inflação com uma pancada nas taxas básicas de juros. É o chamado “golpe de 1979”. O capital financeiro assumiu a hegemonia definitiva sobre a vida de todos nós. Mas o mundo rico já estava velho. A decisão de envelhecer – lembre-se de Marie Curie! – éirreversível. Assim como o indivíduo nunca mais será o mesmo, as sociedades também não.

O envelhecimento das populações alterou de maneira categórica a geopolítica global. E está estabelecendo uma nova corrida entre os países. Se na Guerra Fria era a corrida armamentista, agora é a “corrida populacional”. Os países ricos pagaram com duas guerras mundiais em seus territórios o preço da construção do Estado de Bem-Estar Social. Jamais assistirão à economia capitalista do século XXI destruir e o patrimônio, esse “seguro coletivo” em nome da paz, de braços cruzados.

Quem financiará o envelhecimento de quem? No século passado, a grande fonte de financiamento do bem-estar foi o petróleo barato. Essa riqueza natural ainda está em cena, mas outras fontes precisam ser exploradas alhures. O “seguro coletivo” dos países do Hemisfério Norte ainda é portentoso, embora sob risco.

O Brasil, além do petróleo, tem outras duas fontes econômicas almejadas na geopolítica do envelhecimento: a Amazônia e o sistema de Previdência por repartição. As novas caravelas já partiram para além-mar. O objetivo nessa corrida é o de sempre. Elas vêm explorar a riqueza alheia, desta vez, não mais para sustentar a construção de grandes catedrais de ouro, mas para manter a maior delas, o Estado de Bem-Estar Social. Os países ricos sabem que nenhuma Cordélia virá salvá-los em meio à tempestade.

O Brasil precisa tomar essa decisão difícil de envelhecer. Envelhecer de verdade. Não o envelhecimento fake do aplicativo. Isso implica, antes de mais nada, fazer valer o que está no papel, o marco normativo da Política Nacional do Idoso (Lei 8.842/1994) e do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003). Mas, principalmente, o país precisa enxergar o fenômeno do envelhecimento muito além da Previdência, onde o tema, sempre com lentes fiscalistas, está confinado faz tempo.

Além da defesa de suas principais riquezas, o Brasil necessita agir para que a sociedade, o Estado e os indivíduos assumam seus papéis na difícil tarefa de envelhecer. Aliás, tal como está escrito no artigo 230 da Constituição Federal. O maior risco, neste momento, é o envelhecimento populacional ser um fator a mais a acentuar a desigualdade social. Uma interpretação da dinâmica demográfica apenas con1 lentes fiscalistas, indubitavelmente, resultará nesse desastre.

Os países ricos, a despeito do desafio de emprestarem sustentabilidade a seus sistemas de seguridade social, já perceberam o envelhecimento como a grande transformação econômica do século. Se por um lado a transição demográfica implica custos, por outro gera riqueza. O investimento em educação epesquisa na área do envelhecimento aparece nos documentos oficiais da União Europeia como prioridade. De 2014 a 2018, apenas o Projeto Horizon 2020 investiu €2 bilhões na área do envelhecimento, recursos somados ao orçamento dos países e das agências de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento.

O objetivo dessas pesquisas é dominar outra área emergente, a gerontecnologia, a tecnologia para os cuidados de longa duração de pessoas idosas. Esses produtos de alto valor agregado constituem uma parte importante daquilo que é denominado “economia da longevidade”, um filão de (re)industrialização dos países ricos a partir de uma nova cesta de consumo das famílias – com menos crianças e mais idosos. Os países ricos estão preocupados em construir um complexo industrial da saúde e do cuidado. Solidariedade, ecologia e tecnologia formam a tríade-chave quando uma sociedade decide envelhecer bem. Deschavanne e Tavoillot falam da necessidade de emergência de um “Estado solidário”, enquanto o sociólogo Serge Guérin prefere um “Estado acompanhante”. O envelhecimento transforma o meio ambiente: o uso de recursos naturais e o consumo de energia são diferenciados nos domicílios com mais idosos. A tecnologia amplia, ainda mais, seu poder de intermediação no cuidado cotidiano e nas atividades básicas e instrumentais da vida, principalmente com seu impacto no mundo do trabalho.

A decisão de envelhecer implica promover a saúde, a educação ao longo de toda a vida, a adaptação das cidades, a adaptação das moradias, as boas condições de trabalho, a segurança alimentar. Não adianta confinar o tema apenas na Previdência. O perfil epidemiológico do Brasil, por sinal, assume o contorno de uma sociedade envelhecida, com ampliação de doenças crônicas, no entanto sem perder o aspecto de jovem, isto é, insistindo ainda em doenças bacterianas.

A educação na pré-escola, como destaca a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é o período mais fundamental para o bom envelhecimento e para uma força de trabalho produtiva. É preciso preparar a capacidade cognitiva para uma vida mais longa e para um mercado de trabalho no qual as habilidades perdem valor cada vez mais rápido devido ao avanço tecnológico. Na faixa entre 55 e 64 anos, mostra o IBGE, daqueles que ingressaram no ensino superior, apenas 13% terminaram, e 21% têm ensino superior incompleto.

Quando falamos de envelhecimento populacional, estamos falando de redução do quantum de força de trabalho. Se a solução apontada ê o prolongamento do tempo laboral, a saúde torna-se uma barreira. É curioso assistir ao debate sobre sustentabilidade do sistema de Previdência descolado das condições de trabalho e da saúde no trabalho. Um dado: 9% dos idosos não consomem a dose diária mínima de vitamina D. A obesidade, um problema social, atinge 20% da população. Estudar eestar apto a novas aprendizagens depois dos 50 anos depende de exercício físico, pegar sol e ter uma alimentação saudável. Se estivermos negligenciando esses fatores, estamos desperdiçando vidas e encurtando a idade econômica da população.

A mudança do perfil epidemiológico dos trabalhadores brasileiros tem elevado o número de aposentadorias por invalidez. De 1992 a 2017, passou de 64 mil para 211 mil. As pesquisadoras do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano, Daniele Fernandes e Solange Kanso questionam: a saída precoce do mercado de trabalho, tão apontada no debate da reforma da Previdência, é uma consequência do custo de oportunidade do aspecto normativo ou um sinal de uma ampla discriminação com as pessoas idosas, sobretudo asde menor escolaridade, pele preta e piores condições de saúde? Se a resposta for a segunda opção, o Brasil ainda está longe de tomar a difícil decisão de envelhecer.

JORGE FELIX – jornalista, professor, doutor de gerontologia da Universidade de São Paulo e comentarista de longevidade do Bem-Estar (Rede Globo) Lançará o livro Economia da longevidade (Ed. 106 Ideias)

GESTÃO E CARREIRA

DO ZERO AO BILHÃO

Nunca uma startup da América Latina levantou tanto investimento em tão pouco tempo quanto o aplicativo colombiano de entregas Rappi. Agora, ele quer crescer ainda mais depressa

Existem poucas empresas de tecnologia no mundo que já levantaram mais de 1 bilhão de dólares com fundos de capital de risco em apenas uma rodada de investimentos. Até mesmo no Vale do Silício, onde não falta dinheiro para financiar desde aplicativos de paquera até fabricantes de carros autônomos, é raro encontrar startups que tenham arrecadado tamanho volume de recursos. Nas poucas ocasiões em que isso ocorreu, as empresas tornaram-se candidatas naturais a liderar a “próxima revolução” da tecnologia. Foi assim com o aplicativo de transporte Uber, com a empresa de escritórios compartilhados WeWork e com o site de hospedagem Airbnb. A nova empresa a entrar para essa lista de privilegiados é a Rappi, um aplicativo de entregas criado há três anos e nove meses por empreendedores colombianos e que cresce como poucas vezes se viu na América Latina.

No fim de abril, o conglomerado japonês Softbank — que tem investimentos em uma série de empresas de tecnologia, incluindo a Uber — revelou ter feito um aporte de 1 bilhão de dólares na Rappi. Metade dos recursos veio do Vision Fund, fundo da empresa japonesa destinado a apostas de longo prazo no setor de tecnologia. A outra metade teve origem no Innovation Fund, fundo de 5 bilhões de dólares criado recentemente também pelo Softbank para investir em startups latino-americanas. Mas a realidade é que o investimento total levantado pela Rappi é maior do que o anunciado. Ele soma 1,2 bilhão de dólares (aproximadamente 4,8 bilhões de reais). Os 200 milhões de dólares adicionais foram aplicados pelos fundos de capital de risco que já tinham participação no aplicativo de entregas, entre eles os americanos Sequoia Capital, Andreessen Horowitz e Tiger Global, além do DST Global, fundo de origem russa. Esses fundos são alguns dos principais investidores por trás das maiores empresas de tecnologia do planeta.

Com a nova rodada de investimentos — a quarta da Rappi —, o volume total já levantado pela empresa subiu para 1,7 bilhão de dólares. É um feito sem precedentes para uma empresa de tecnologia da América Latina em tão pouco tempo de existência. “Para mim, não faz muito sentido que a América Latina, com um mercado tão grande, com mais de 640 milhões de pessoas, uma economia equivalente à metade da China, um PIB per capita quatro ou cinco vezes mais alto do que o da Índia, não receba mais investimentos as- sim. A gente espera que a Rappi seja parte de uma mudança desse cenário”, diz Sebastian Mejía, de 34 anos, um dos fundadores da Rappi, em sua primeira entrevista depois do novo investimento. Mejía fundou a empresa com os sócios Simón Borrero, presidente executivo, e Felipe Villamarin, responsável pela área de tecnologia. Os três já tinham uma startup que oferecia uma ferramenta digital para que os supermercados criassem suas lojas on-line, chamada Grability. Daí para desenvolver a Rappi foi um pulo.

O que tem atraído o interesse de investidores pela Rappi e por outras startups de entregas ao redor do mundo é a combinação entre uma mudança de comportamento do consumidor e o avanço das novas tecnologias. Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as pessoas buscam cada vez mais conveniência e usam seus smartphones para resolver as tarefas no dia a dia. A Rappi aposta nisso. O aplicativo de entregas per- mite não só pedir uma pizza ou outra opção de comida em casa ou no trabalho, assim como os concorrentes iFood e Uber Eats, mas também um leque crescente de produtos — compras de supermercado, itens de farmácia, fraldas para bebês, bebidas alcoólicas, ração para animais etc. Outros serviços também estão disponíveis, como despachar encomendas ou pedir a entrega de dinheiro em espécie. Num dos pedidos mais inusitados já feitos, segundo Mejía, um usuário chegou a encomendar a entrega de uma iguana pela Rappi.

Assim como as pessoas passaram a usar aplicativos de táxi ou de carro particular, a expectativa é que cada vez mais consumidores passem a fazer compras cotidianas sob encomenda. Nos Estados Unidos, o número de consumidores que utilizam aplicativos para fazer compras de supermercado e mantimentos deverá passar de 18 milhões em 2018 para 30 milhões em 2022, na estimativa da consultoria eMarketer. No Brasil e na América Latina, os números são mais modestos, mas o crescimento segue a mesma tendência. A Rappi tem hoje 6,5 milhões de usuários nos sete países em que atua (Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai), que fizeram cerca de 70 milhões de pedidos nos últimos 12 meses. O Brasil, onde a empresa desembarcou em 2017 e está presente em 20 cidades, já é responsável por, aproximadamente, 35% das vendas. O volume de entregas no país tem crescido 30% ao mês, segundo os executivos da startup. A expectativa é que o novo investimento ajude a acelerar a expansão nas cidades onde a empresa já atua e também nos demais municípios do país com mais de 400 000 habitantes.

SUPERMERCADO EM CASA

Nem sempre é mais prático e rápido fazer uma compra de supermercado num aplicativo, pois a entrega pode levar horas até chegar em casa, dependendo do volume. Mas, por causa do trânsito e da vida cor- rida nas cidades, cada vez mais pessoas vêm se acostumando com essa ideia. No ano passado, as vendas de alimentos e bebidas pela internet estiveram entre as que mais cresceram, de acordo com a consultoria Ebit, uma das principais fontes de dados sobre as vendas na internet no Brasil. A categoria ainda é incipiente, mas tem ganhado participação no comércio eletrônico, um setor que, ao todo, deverá movimentar mais de 61 bilhões de reais neste ano no país. É de olho nesse mercado que varejistas como o Grupo Pão de Açúcar, dono das redes Extra, Pão de Açúcar e Assaí, tem apostado em soluções digitais. Além de permitir realizar compras pela internet, hoje é possível fazer o pagamento pelo aplicativo da empresa. Em algumas lojas da rede Pão de Açúcar também dá para escolher os produtos pessoalmente e pedir para que sejam entregues em casa. Já os usuários que não querem ir ao supermercado têm a opção de fazer o pedido pelo aplicativo James Delivery, uma startup concorrente da Rappi comprada pelo Pão de Açúcar no ano passado. Antes disponível apenas em Curitiba, a James Delivery começou a fazer entregas em São Paulo em maio.

Segundo uma fonte ouvida, o Grupo Pão de Açúcar preferiu apostar na própria startup porque viu a atividade da Rappi como parte do negócio central da companhia, já que todo o conhecimento sobre os hábitos de compra dos consumidores acaba ficando com o aplicativo. “É como se o supermercado virasse um mero fornecedor da Rappi”, diz a fonte. Um risco, porém, é perder vendas por estar fora do aplicativo. Outros varejistas, como o grupo Carrefour, preferem investir na parceria com a Rappi, adaptando as lojas para atender os pedidos feitos pelo aplicativo e enviar as compras por meio de seus entregadores.

As entregas de compras de supermercado já são a segunda maior categoria da Rappi, depois do atendimento a pedidos de restaurantes. Mas é essa última área que a Rappi deseja expandir nos próximos meses. Mejía, o cofundador, afirma que a startup deve implementar uma estratégia agressiva para integrar mais restaurantes em sua plataforma. É uma briga que deve esquentar o já aquecido mercado de entrega de comida pela internet. Só o aplicativo iFood atende 50.000 restaurantes, tem 9 milhões de usuários e processa quase 11 milhões de pedidos por mês. Já o Uber Eats tem crescido no Brasil fazendo promoções agressivas para atrair usuários. Como se pode ver, a briga entre as empresas para entregar a pizza em sua casa — ou sua compra de supermercado — nunca foi tão emocionante.

PEÇA PELOS APPS

O uso de aplicativos de entrega de compras de supermercado e comida deve crescer nos Estados Unidos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONTE RÁPIDO: QUANTOS SÃO?

Cientistas estimam que de 3% a 6% da população sejam incapazes de contar objetos rapidamente. Eles isolaram a região da contagem no cérebro e, com isso, tentam descobrir como as pessoas calculam o número de itens existente em determinado recinto.

O problema em identificar com precisão essa área é que o ato de contar implica obrigatoriamente usar a linguagem, e as regiões da linguagem são ativadas quando o cérebro enumera. Para mantê-las desativadas, a pesquisadora Fúlvia Castelli, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, usou cores.

Isso porque ela descobriu que o sulco intraparietal – uma longa “lasca” de tecido na parte de trás do cérebro – tabula “quantos?” e não “quanto”. Voluntários convocados para um teste foram expostos a uma série de clarões de azul e verde que preenchiam retângulos num tabuleiro apresentado em vídeo. Quando as cores apareciam em quadrados isolados, o sulco era ativado – mas, quando as cores eram combinadas em fileira, isso não ocorria.

Uma analogia com esse processo na vida real é, por exemplo, perceber de imediato qual fila no caixa do supermercado éa mais curta. Há quem visualize as pessoas uma a uma para ver quantas há na Ala, outras criam uma representação mental de seu comprimento real. Pessoas com a chamada disfunção de cálculo não conseguem desenvolver esse mapa mental, o que as obriga a contar todo mundo lentamente. Castelli espera estudar maneiras de fortalecer essa capacidade de representação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVA TECNOLOGIA PARA CRIANÇAS

A terapia do esquema é uma forma inteiramente nova de trabalhar fortalecendo e enriquecendo a personalidade infantil em formação

Em uma sala de psicoterapia projetada para o atendimento infantil, uma criança representa seus conflitos em um cenário semelhante a sua sala de aula, por meio de fantoches retratando a professora e os colegas. Na encenação é dia de entrega de notas. Ela afirma, com um rosto desconcertado, que não faz sentido a nota que tirou, pois ela é muito inteligente. 

A cena prossegue e a criança fica cada vez mais tensa. Seu fantoche simula olhar demoradamente a nota. O fantoche da terapeuta, que agora representa a professora, lhe diz: “Você foi bem!”. E o fantoche da criança, que quase não tem mais sua função mediadora, diz: “Mas por dois décimos eu não tirei oito, dois décimos! Isso não é possível, eu sou muito inteligente! Isso não pode ser! Tem algo de errado com essa nota!”.

A cena continua com a terapeuta utilizando todos os fantoches a sua disposição para diminuir a inconformidade e o sofrimento presentes na cena, mas a criança insiste: “São dois décimos para oito, e nem é um nove, ou dez”. A terapeuta percebe que há uma grande tensão interna na criança, pois ela vê incoerência entre quem acredita ser e o que a realidade, “a nota”, lhe trouxe por evidência. Reatar os fios da conexão consigo mesma e promover um senso de eficácia são prementes, pois é preciso ajudar essa criança a suprir suas necessidades psíquicas de se sentir ela mesma, acertando ou errando.

Mas é difícil vencer o “pai exigente” que essa criança tem internalizado, que tenta punir a “criança vulnerável” que chora a perda da nota. Sabendo disso, sua terapeuta a convida para uma outra atividade: analisar o que aconteceu na “sala do conselho de modos”. A terapeuta usará agora outra técnica. Ela sabe que a criança já conhece bem os vários lados (modos) de seu “eu” e sabe identificar quando sua parte vulnerável, zangada, impulsiva, exigente ou punitiva acionou um botão mental e a fez pensar, agir e sentir de uma forma que não ajuda.

Pede, então, que a criança identifique qual botão estava acionado em sua cabecinha quando ela representou ter recebido a nota, e a criança diz: “Minha criança fraquinha!” (vulnerável em termos técnicos). Nesse momento a criança, que já sabe que dentro dela existem vários botões mentais que quando “acionados” lhe causam grande sofrimento, é convidada pela terapeuta a analisar seu conflito de forma diferente.

Ela pega o boneco que sempre tem representado o modo frágil da criança e o leva para um tabuleiro onde estão dispostos um trono e nove outros lugares ao redor. Cada lugar é ocupado por um “modo” do seu “jeito de ser”. Há lugar para todos seus lados criança: a zangada, a impulsiva, a vulnerável e a feliz. Também há lugar para seus lados pais: exigente e punitivo. Há ainda três lugares para as formas desengonçadas (estratégias desadaptadas) para lidar com os problemas da vida, nesse caso a nota.

Ela pode se afundar no problema, pode agir como se o problema não existisse, ou pode agir como se, dada sua suposta superioridade, não devesse se importar com a nota. Mas finalmente há lugar para sua parte sábia, criativa e inteligente, que a ajuda a se equilibrar e encontrar formas mais adequadas de atender suas necessidades psicológicas.

Todos os lados (modos) têm bonecos que os representam e estão presentes nessa sala de conselho dos “modos” de ser: no trono, primeiro se senta o lado “fraquinho”, e a criança fala de todo o seu sofrimento, fragilidade, medo, dor e incompreensão através de seu boneco. O trono vai sendo ocupado sucessivamente pelos outros modos na tentativa de resolver o problema, mas apenas o modo sábio e o modo feliz conseguem encontrar soluções saudáveis.

Depois disso tudo, a criança é convidada a fazer uma técnica de relaxamento ou de mindfulness. Entretanto, antes de ir embora, a terapeuta procura fazer pontes para a vida e, com o auxílio da criança, procura estender os aprendizados da sessão para as situações concretas que ela enfrenta. Essa é uma sessão típica de terapia de esquema com crianças. Técnicas mais sofisticadas podem ser utilizadas com adolescentes, mas a tônica é sempre a mesma: dar voz aos vários “modos de esquema” que a criança e o adolescente possuem dentro deles, debater, refletir, questionar, encontrar soluções e fazer pontes para a vida.

Neste artigo procuraremos apontar como uma psicoterapia cognitiva de terceira onda, originalmente orientada para o trabalho com pacientes com transtornos de personalidade e transtornos crônicos graves, pode ajudar no trabalho com crianças e adolescentes. Numa primeira e superficial leitura dos textos sobre terapia do esquema pode parecer que essa abordagem se aplicaria apenas a crianças e adolescentes com transtornos graves, como os externalizantes, ou aos pequenos e adolescentes que parecem apresentar sinais prodômicos de futuros transtornos de personalidade. Isso é falso. Essa é uma forma inteiramente nova de trabalhar, fortalecendo e enriquecendo a personalidade em formação.

INTEGRAÇÃO

Para avançarmos na compreensão do poder transformador da terapia do esquema na infância e, especialmente, na adolescência podemos começar definindo claramente o que é personalidade, como ela se constitui e como se desenvolve, já que os esquemas iniciais adaptativos estão na base de uma personalidade saudável, e é sobre a promoção de esquemas iniciais adaptativos que o trabalho do terapeuta do esquema se dará, especialmente o daqueles que se dedicam à infância e adolescência. O dicionário da American Psychological Association afirma que personalidade diz respeito “a configuração de características e comportamento que inclui o ajustamento de um indivíduo à vida, incluindo traços, interesses, impulsos, valores, autoconceito, capacidade e padrões emocionais importantes. A personalidade é vista como uma integração ou uma totalidade complexa e dinâmica, moldada por muitas forças, incluindo hereditariedade e tendências constitucionais, maturidade física, treinamento precoce, identificação com indivíduos e grupos significativos, valores e papéis culturalmente condicionados e experiências e relacionamentos críticos. Várias teorias explicam a estrutura e o desenvolvimento da personalidade de diferentes formas, mas todas concordam que a personalidade ajuda a determinar o comportamento”.

A partir dessa definição, algumas perguntas nos saltam aos ouvidos: quando um indivíduo começa um processo de desajuste psíquico na vida? Isso pode começar na infância? Quando e como suas estratégias para lidar com seus problemas cotidianos, seus interesses, seu autoconceito começam a lhe trazer sofrimento significativo? Na infância? Às vezes! Na adolescência? Muitas vezes!

Um ouvido ainda mais aguçado ficaria atento a algumas coisas a mais: se a personalidade é moldada por múltiplas forças, aquelas que são constitucionais ou herdadas (por exemplo, o temperamento) e aquelas que advêm do ambiente no qual as pessoas estão inseridas (modelos e modelagem de habilidades e competências sociais), como proteger o desenvolvimento da personalidade de experiências e relacionamentos críticos e desastrosos? Terapeutas do esquema apresentam uma resposta simples, porém muito consistente: identificando, avaliando e oferecendo o suprimento de necessidades psicológicas básicas, quais sejam: senso de conexão e pertencimento; senso de autonomia e capacidade; padrões de comportamento equilibrados e responsabilidade e limites adequados.

Fica claro que essas necessidades começam a surgir e se desenvolvem ao longo da infância e da adolescência e que o não suprimento delas levaria a quadros psicológicos mais graves, especialmente os transtornos de personalidade. Sendo assim, quanto mais precocemente aplicarmos tecnologias psicológicas para melhorar o processo de formação de uma personalidade saudável, mais saúde mental ofereceremos às pessoas em geral. O objetivo dos terapeutas do esquema que trabalham com crianças, adolescentes e com famílias é auxiliar na aquisição ou ativação de estratégias saudáveis para obtenção de senso de pertencimento, autonomia responsável, senso de capacidade realista, regulação emocional e comportamental e senso de limite.

MODOS DE ESQUEMA

Todos são estados ou partes do self que estão ativos em um dado momento e envolvem uma combinação de emoções, cognições e respostas comportamentais. Essa combinação de elementos aponta para um ou mais EIDs ativos momento a momento, apresentam dez modos de esquemas que são distribuídos em quatro categorias: modos criança, modos de enfrentamento disfuncionais, modos pais disfuncionais e modos adulto saudável.

Os modos criança são inatos, sendo assim todas as crianças têm o potencial de manifestá-los de quatro formas: modo criança vulnerável ou ferida, modo criança zangada, modo criança impulsiva e modo criança feliz. A criança vulnerável agrupa grande parte dos EIDs como os de abandono, abuso, privação emocional. Com esse modo ativo, a criança/adolescente acredita que ninguém é capaz de perceber as “injustiças” que ela acredita estar sofrendo. O modo criança feliz diz respeito ao momento no qual a pessoa sente que suas necessidades emocionais foram atendidas.

Os modos de enfrentamento disfuncionais são: o capitulador complacente, no qual a pessoa se submete às pessoas e situações, mantendo seu conflito. No caso dos adolescentes, por exemplo, eles se submetem a desejos e interesses do grupo de amigos temendo perdê-los; o protetor desligado, no qual o indivíduo se afasta do sofrimento utilizando diferentes formas de evitação (comportamental, emocional e cognitiva). Nesse caso, o adolescente passa a evitar situações e emoções conflituosas desligando-se emocionalmente de pessoas e situações que ele insiste em dizer que não o afetam. Por último, o hipercompensador reage aos EIDs através de comportamentos hostis contra outras pessoas ou de autoengrandecimento, que nos jovens aparece quando eles exageram competências e qualidades para se sentirem mais seguros.

Os modos pai/mãe disfuncionais são resultantes da internalização dos cuidadores (pais, educadores, avós) da criança ou do adolescente e podem ser classificados como punitivos ou exigentes. O primeiro (pais punitivos) diz respeito à punição de um dos modos criança devido ao seu “mau comportamento”. Nesses casos, os adolescentes começam a pensar que são inadequados, incapazes, sem valor e podem se punir de diferentes maneiras, como, por exemplo, em casos mais graves, infringindo-se cortes (automutilação) enquanto pensam:

“Você não merece…”; “Você não é digno…”; “Você não tem o direito…”.

O modo pai/mãe exigentes é a cobrança de padrões altos de desempenho. Neste caso, a criança e o adolescente apresentam um perfeccionismo que os leva a sofrimento, sentindo-se algemados a altos padrões de performance. Os pensamentos giram em torno de: “Seja forte!”, “Seja o melhor!”; “Sempre há algo para melhorar!”.

O décimo e último modo identificado é o modo sábio e inteligente. A criança/adolescente deve ser capaz de monitorar, cuidar e curar os outros modos disfuncionais, encontrando formas saudáveis de obter a satisfação de suas necessidades de conexão, autonomia e desempenho, autocontrole e livre expressão de ideias e sentimentos de forma equilibrada.

ETAPAS

A terapia do esquema para adolescentes consiste em três etapas principais: identificação, psico – educação e modificação de EIDs e modos de esquema, tanto nas crianças e adolescentes quanto em seus pais/cuidadores diretos.

O conceito de modo de esquema é trabalhado extensamente nos protocolos por meio de diferentes técnicas, como teatro de fantoches – técnica utilizada na etapa cujo objetivo é avaliar, psicoeducar e modificar modos presentes na criança, relacionando-os às situações de conflito reais (pontes para a vida). Com as mesmas finalidades,

usam-se “clipcharts”, nos quais se inserem os modos dentro de uma representação gráfica do próprio adolescente, ou ainda a técnica das cadeiras, na qual cada uma delas representa um modo que deve ser explicitado pela criança ou adolescente quando estes se sentam na respectiva cadeira.

Da mesma forma, os pais são avaliados e psicoeducados. Busca-se diminuir o efeito dos modos disfuncionais dos pais na relação com os filhos. Não é incomum encontrarmos pais com seus modos criança ativos procurando educar seus filhos adolescentes, ou ativando seus pais punitivos e exigentes quando não conseguem alcançar objetivos em suas práticas de educação, sentindo-se frustrados, ineficazes e cobrando exageradamente de si e de seus filhos. Outros ainda evitam suas tarefas de orientar e educar, ou hipercompensam exagerando habilidades que lhes faltam. Em muitas ocasiões, compreendem que esses modos se perpetuam há gerações em suas famílias e sabem que não é simples conscientizarem-se para combater suas formas desadaptadas de lidar com conflitos. À medida que a terapia dos pais e dos filhos evolui, assistimos ao nascimento ou ao ressurgimento de relações entre pais e filhos nas quais as necessidades psicológicas de conexão e pertencimento vão emergindo, e núcleos familiares, muitas vezes, se sentem “família” pela primeira vez em muito tempo.

Buscar a conexão saudável entre pais e filhos, senso de competência e eficácia em todos os membros da família; verificar em pais e filhos a capacidade de se autocontrolar e gerenciar de forma equilibrada suas emoções e comportamentos; encontrar o equilíbrio dinâmico de dar e receber auxílio e afeto e aprender que há formas adequadas para expressar qualquer ideia e sentimento são as metas da terapia do esquema.

A IMPORTÂNCIA DO PAPEL DA FAMÍLIA

Os esquemas iniciais desadaptativos (EIDs), que obstaculizam o desenvolvimento da personalidade saudável, se organizam a partir de uma atmosfera nociva presente no núcleo familiar, nas experiências escolares e nos grupos de amigos. Eles se originam, grosso modo, nas condições de privação de necessidades psicológicas básicas não atendidas, gerando crenças de desconexão e rejeição; uma visão de incapacidade ligada a um senso de autonomia e desempenho prejudicados; falta de limites precisos, o que leva a comportamentos impulsivos e mimados; um forte direcionamento a suprir as necessidades dos outros e, ainda, uma expectativa de punição ou exigências que levam à supervigilância do ambiente e à inibição de comportamentos mais espontâneos

ATMOSFERA EM QUE OS EIDS SE DESENVOLVEM NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

DESCONEXÃO E REJEIÇÃO

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são geralmente individualistas, frios, rejeitadores, explosivos, imprevisíveis ou abusivos.

AUTONOMIA E DESEMPENHOS PREJUDICADOS

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são, geralmente, emaranhados, afetiva e comportamentalmente à criança/adolescente, minando sua confiança, superprotegendo-os.

LIMITES PREJUDICADOS

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são caracterizados por excessiva permissividade, abuso, falta de direção e por inflarem um senso de superioridade.

DIRECIONAMENTO PARA O OUTRO

Os pais ou responsáveis. professores e/ou colegas foram ou são pessoas que baseiam sua relação com a criança em aceitação condicional: as crianças devem suprimir aspectos importantes de si mesmas a fim de ganhar amor, atenção e aprovação de seus pares.

SUPERVIGILÂNCIA E INIBIÇÃO

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são cruéis, exigentes e às vezes punitivos. Nestes contextos relacionais desempenho, dever, perfeccionismo, seguimento de regras, ocultar as emoções e evitar erros predominam sobre o prazer, alegria e relaxamento.

OUTROS OLHARES

ESSE É “FREE-BOI”

A procura por hambúrgueres que imitam a textura e o sabor de carne deixou as grandes redes de fast- food com água na boca. Até o Burger King entrou na onda

Uma das maiores redes de fast­ food do mundo, o Burger King tem a tradição de louvar em seus cartazes a cultura da gastronomia ogra, estratégia comum também entre seus principais concorrentes. E tome fotos de sanduíches com vários andares de carne, intercalados por queijo e fatias de bacon. No último dia 12, a empresa fundada nos Estados Unidos em 1954 fez um dos movimentos mais radicais de sua história, anunciando a versão vegetariana de um dos carros- chefe do seu cardápio, o Whopper. A cadeia de lanchonetes lançou no mercado americano o Impossible Whopper, que leva esse nome por usar o hambúrguer desenvolvido pela Impossible Foods, companhia especializada em produtos plant­ based, ou seja, alimentos criados a partir de vegetais, imitando a textura e o sabor da proteína animal. A novidade tem 40% menos gordura saturada em comparação ao similar tradicional.

O negócio chega ao Brasil em setembro, em 58 lojas da cidade de São Paulo. Por aqui o lanche plant- based será chamado de Rehei Whopper e, outro grande sinal da mudança dos tempos, sua proteína terá a marca da Marfrig, uma das líderes na produção de carne bovina no mundo, em parceria com a americana Archer Daniels Midland Company, processadora agrícola e fornecedora de ingredientes alimentícios que está entre as maiores do planeta. O interesse é tão grande que os dois gigantes também vão produzir o seu hambúrguer vegetal para a venda em supermercados. “Muita gente quer reduzir o consumo de carne ou até se tornar vegetariana, mas valoriza seu sabor”, diz Ariel Grunkraut, diretor de marketing do Burger King no Brasil.

Os investimentos mostram que o produto está deixando de ser um negócio de nicho. A primeira rede brasileira a usar um hambúrguer 100% vegetal foi a Lanchonete da Cidade, com cinco endereços em São Paulo. Em maio passado, a cadeia lançou o Futuro Burger, que tem proteína de ervilha e soja, além de grão-de-bico e beterraba. A receita leva ainda queijo e maionese veganos. O hambúrguer é fornecido pela Fazenda Futuro, startup brasileira especializada ao assunto e que já recebeu mais de 30 milhões de reais de investidores externos. “A sacada foi perceber que o consumidor poderia comer algo com um significado, um propósito, que não seja apenas satisfazer a fome”, teoriza Vinícius Abramides, diretor-geral da Companhia Tradicional de Comércio, dona da Lanchonete da Cidade. Existe mesmo demanda pelo Futuro Burger, que custa 29 reais: no último mês, foram vendidos cerca de 10.000 sanduíches do tipo, o equivalente a 20% do total de lanches comercializados. Ele só não agrada ao paladar de alguns críticos gastronômicos (veja o quadro abaixo).

O estabelecimento não é o único atendido pela Fazenda Futuro (no Rio, a TT Burger usa seu produto). São mais de 3.000 pontos de venda atualmente, contando as bandejas de hambúrgueres comercializadas pelas redes Extra, Pão de Açúcar e Carrefour. A empresa fechou recentemente urna parceria com o Spoleto e vai fornecer também almôndega e carne moída vegetal à franquia de massas. Até o fim do ano, a Futuro terá capacidade de produção de 550 toneladas de carne vegetal. “Existe espaço no país para a criação de um player global de alimentos plant-based”, diz Marcos Leta, fundador da Fazenda Futuro.

O apetite para abocanhar esse negócio está em sintonia com a onda do consumo consciente de alimentos. Segundo levantamento do Datafolha em 2017, 63% dos brasileiros querem reduzir a ingestão de carne. A preocupação com a saúde ajuda a acelerar o processo de mudança. A Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos, acaba de divulgar um estudo que mostra que pessoas com uma dieta baseada em produtos animais e carboidratos têm probabilidade 32% maior de morrer de doenças cardíacas em comparação com as que adotam uma alimentação baseada em vegetais. “Se eu impacto menos o meio ambiete, não existe animal envolvido, tem menos gordura, não tem colesterol, por que não trocar de hambúrguer?”, diz Alessandra Luglio, diretora do departamento de saúde e nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira. Até o Burger King já entendeu que para uma parte considerável de clientes a resposta é “sim”.

NÃO HÁ MILAGRES NA NATUREZA: VEGETAL É VEGETAL

Para quem gosta de comer carne, os hambúrgueres vegetais que pretendem imitar a textura e o sabor dos que são preparados tradicionalmente decepcionam. Têm a consistência pastosa demais e lhes falta a granulação natural, decorrente da fibra animal. Carecem também da umidade e do suco da carne. Além disso, por mais que camuflem, ainda permanecem com o paladar da leguminosa predominante em seu preparo, soja, grão-de-bico ou ervilha.

Mas os hambúrgueres vegetais sabor carne não se destinam a quem quer evitá-la? Eis um paradoxo. Por que, então, apresentar textura e sabor similares aos dela? Talvez fosse melhor deixar essas características neutras. A não ser que o público-alvo seja o das pessoas loucas por uma picanha mal­passada ou uma costela gorda que, por convicções dietéticas, filosóficas ou até religiosas, se sintam culpadas depois de saborear a carne.

Não está em questão a qualidade dos produtos lançados agora no mercado, até porque são tecnicamente benfeitos. Algo que os ajudará a surfar na onda vegana e talvez cair no gosto descolado dos jovens millennials, a faixa demográfica da população mundial nascida entre a década de 80 e o começo dos anos 2000.

A soja, o grão-de-bico, a ervilha ou qualquer leguminosa recebem diversos tratamentos para que a textura do hambúrguer vegetal se assemelhe à da carne e passam por outros procedimentos destinados a obter um sabor parecido. Para que esses resultados sejam alcançados, faz-se necessária a intervenção cientifica. O espessante utilizado, por exemplo, costuma ser a metilcelulose, um composto químico derivado da celulose. Não há milagres na natureza: é inútil tentar recorrer a uma varinha de condão. Vegetal é vegetal: carne é carne.

GESTÃO E CARREIRA

PECHINCHA A BORDO

Os ônibus entram na onda dos aplicativos de viagens compartilhadas no estilo Uber, provocam queda significativa nos preços e sacolejam o mercado

Fretar um ônibus remete à ideia de um negócio de alta envergadura, que envolve logística complicada. Pois esqueça o velho conceito, reinventado nos dias de hoje para atender a um novo propósito: transportar gente que quer viajar pagando menos e sem ter trabalho. Até agora, duas empresas vêm chacoalhando o universo rodoviário ao oferecer um serviço já conhecido como o “Uber dos ônibus”. A exemplo do aplicativo que imprimiu outra lógica em um setor dominado pelos táxis, a safra que abarca os coletivos só opera on-line e consegue emagrecer os preços à base do casamento da demanda com a oferta. À medida que as pessoas compram as passagens na internet, a ocupação vai subindo, subindo, até que a turma reunida é suficiente para garantir o aluguel do ônibus com motorista — afinal é disso que tratam a paulista Buser, a maior do mercado que se desbrava no Brasil, e a gaúcha Levebus. Elas são “facilitadoras no compartilhamento”, como reza o jargão, e não companhias de transporte, já que não têm um único veículo na garagem.

Primeira a demarcar espaço nas estradas brasileiras, a Buser (pronuncia-se com “u” mesmo) surgiu na cabeça do engenheiro aeronáutico Marcelo Abritta, 37 anos, quando ele estava para se casar, na Bahia, em 2016, e queria levar trinta amigos de ônibus à cerimônia. Abritta fez as contas e concluiu que saía mais barato fretar um ônibus com motorista e deixá-lo esperando durante os quatro dias de festejos, até a volta, do que comprar as passagens. Decidiu então apostar junto com um amigo em um negócio que fizesse o meio de campo para os viajantes. A Buser começou a funcionar para valer em março de 2018 e, atualmente, roda em quarenta cidades brasileiras do Sudeste, carregando 1 500 pessoas por dia em ônibus fornecidos por trinta empresas, que também garantem o motorista. A Levebus, que estreou em fevereiro de 2019, alcança trinta cidades na Região Sul e em São Paulo. Graças a estruturas muito enxutas, ambas conseguem preços em média 60% mais baixos que os do mercado. “Fiquei na dúvida, mas passei a usar o aplicativo da Buser e nunca tive problema”, disse a produtora carioca Larissa Moraes, prestes a embarcar para São Paulo em sua décima viagem no esquema de frete.

A novidade está provocando uma pequena revolução no nicho rodoviário. Enquanto se vê uma enxurrada incomum de promoções, um dos grandes grupos, o Águia Branca, dono da Expresso Brasileiro, foi mais longe e criou em julho o braço Aguiaflex, que duela em preço com os novatos no estilo Uber. O embarque nem sempre é feito em rodoviária, pode ocorrer em algum ponto pré-combinado, e os bilhetes são vendidos exclusivamente pela internet — o que poda custos e faz com que as cifras ombreiem com as da Buser e da Levebus. Mas nem tudo é igual ao serviço convencional (veja o quadro). O administrador Denis Silva, 38 anos, ficou perdido na hora de achar o local exato do embarque, no Centro do Rio. “Faltou sinalização”, conta. “O serviço ainda está em fase de testes e aperfeiçoamento”, explica Thiago Chieppe, diretor do Águia Branca. No caso deles, o assento comprado é garantido, mas não na Buser ou na Levebus, que não marcam lugar e eventualmente precisam cancelar a viagem por falta de quórum. É prudente monitorar o site para saber. A Buser não revela a lotação mínima necessária para assegurar a partida; a Levebus informa que sai com uma ocupação em torno de 50%.

Como ocorreu com a Uber, o fretamento compartilhado é questionado juridicamente. “Essa é uma forma clandestina de prestação de serviços regulares”, afirma o advogado Alde Santos Júnior, que representa a associação do setor, a Abrati, em uma ação que tramita no Supremo Tribunal Federal. Um dos argumentos é que as novas plataformas digitais não cumprem exigências legais, como gratuidade para idosos e deficientes, além das normas de segurança que se aplicam à concorrência. Marcelo Abritta, da Buser, rebate: “A lei nos permite operar e seguimos, sim, os padrões de segurança”.

Muitas variações de transporte coletivo on demand têm surgido dentro e fora do Brasil, sempre contando com inteligência artificial para unir demanda e oferta. É o caso da goiana CityBus 2.0, que dita o trajeto de seus ônibus graças a um sistema acionado pelos próprios passageiros. As rotas são adaptadas à sua localização. Iniciativas semelhantes pululam em outras cidades, como Oxford e Nova York. No Cairo (Egito), a Uber acaba de inaugurar um serviço de vans compartilhadas, que tem tudo para vingar. É uma mudança no modo como as pessoas se locomovem e um impulso para trazer um quê de racionalidade ao quebra-cabeça do cada vez mais intrincado transporte urbano.