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EM DEFESA DOS BEBÊS

A ciência já oferece avanços estupendos para gerar crianças saudáveis, e mais novidades virão em breve – mas as questões éticas continuam a assustar.

Em defesa dos bebês

“Experimentos em hibridização de plantas.” Foi em um artigo científico batizado com esse título e publicado em 1866 que nasceu o que hoje se conhece como genética. Nele o autor do texto histórico – o monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884), formado em ciências naturais pela Universidade de Viena – detalhava um experimento de sete anos de duração. No total, Mendel cultivou 30.000 plantas de ervilha, dissecando as partes reprodutivas com o objetivo de promover cruzamentos controlados que permitiam escolher atributos dos vegetais. Assim ele podia, por exemplo, manipular a cor das flores e o formato das sementes. No fim das contas, o pesquisador provou algo que já se intuía; certas características dos pais são transmitidas a filhos, netos, bisnetos. Ou seja, são hereditárias. Passados mais de 150 anos, tudo o que se sabe sobre o DNA tem como base a estupenda experiência de Mendel. O detalhe a um só tempo extraordinário e preocupante é que a genética avançou a passos tão largos que hoje já se pode falar em “experimentos em hibridização de humanos”. Sim, não mais experimentos apenas em plantas, mas em humanos. Técnicas de edição genética que começaram a ser testadas nos anos 2010 permitem, de certo modo, que a ciência faça com bebês aquilo que o austríaco fez com ervilhas.

Não há dúvida de que as conquistas científicas nessa área abriram possibilidades de resolver muitos problemas relacionados à reprodução humana. Embora alguns desses avanços só venham a ser postos em prática em um período de dez a cinquenta anos, outros já estão sendo empregados. A lista de procedimentos bem-sucedidos é promissora.

Em 2014, realizou-se o primeiro transplante de útero que realmente deu certo, no hospital sueco da Universidade Sahlgrenska, em Gotemburgo: uma mulher, infértil, recebeu o órgão de outra, fértil, e, com isso, pôde gerar um filho. Desde então, mais sete bebês nasceram graças ao método, no mesmo hospital. Em dezembro último, um avanço surpreendente foi anunciado no Brasil. O médico obstetra Dani Ejzenberg, do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clinicas, executou esse transplante com uma diferença fundamental: a retirada do útero da doadora foi realizada após sua morte. “A cirurgia é delicadíssima. A técnica, porém, se prova ideal para mulheres mais velhas que querem engravidar. Ou, pensando no futuro, até para possibilitar o mesmo a transexuais”; disse Ejzenberg. O obstetra paulistano realizou a operação em setembro de 2016. O feito, entretanto, foi divulgado dois anos depois, quando um artigo do médico saiu no periódico inglês The Lancet.

No caso de transplantes de útero, a interferência ocorre, é claro, na mãe. Contudo, já é possível também atuar nos embriões. O mais estarrecedor dos procedimentos nessa direção foi revelado em novembro passado, pelo biólogo chinês He Jiankui. Foi quando o cientista apresentou a história das gêmeas Lulu e Nana, que tiveram o DNA modificado em laboratório. Mexeu-se nos embriões por meio de uma técnica chamada Crispr-Cas 91 que permite manipular o sequenciamento genético com a introdução de substâncias químicas. No processo das gêmeas, Jiankui desativou o gene CCR5, responsável por produzir proteínas que deixam o organismo vulnerável ao HIV – vírus presente no pai. Com a manipulação, as gêmeas nasceram imunes à aids. O resultado é uma grande notícia, mas traz questões de fundo altamente sensível e preocupante. Afinal, a edição genética de embriões humanos, tal como realizada por Jiankui, abre as portas para intervenções semelhantes às de Mendel. Ou seja: ela possibilita mudar a cor da pele, a textura do cabelo ou até mesmo traços comportamentais. Em outras palavras, dá asas aos mais perigosos anseios eugenistas, como os que levaram às catástrofes produzidas pelo nazismo, que buscava a pureza racial. Por esse motivo, a técnica de Jiankui é proibida em países como EUA e Brasil. Na China, onde foi realizada, não há lei que a libere nem que a proíba. Mas o governo parece ter julgado o ato ilegal. Dias após o anúncio da proeza, Jiankui sumiu; desconfia-se que tenha sido preso pelas autoridades.

Entre os recentes avanços científicos na genética, há possibilidades menos polêmicas. A fisioterapeuta paulistana Tatiana Weigand beneficiou-se de uma dessas conquistas. Na primeira tentativa de gravidez, em 2013, ela e o marido, Fernando, descobriram que ambos tinham a doença hereditária gangliosidose GMI, que afeta uma em cada 100.000 pessoas e atrasa o desenvolvimento motor e cognitivo. Eles não apresentavam sintoma da enfermidade, mas poderiam transmiti-la a um filho. Foi o que aconteceu. O primogênito do casal nasceu com a doença e, em decorrência de complicações, acabou falecendo dois anos após o nascimento. Antes da segunda gravidez, em 2014, Tatiana e Fernando souberam que já era possível mapear o código genético de embriões fecundados in vitro. Não para editá-los, como realizou o biólogo chinês, mas para selecioná-los, a exemplo do que Mendel fez com ervilhas. Assim, o casal valeu-se da fertilização in vitro, e os embriões foram rastreados atrás de um que fosse livre da gangliosidose. Nasceram, então, saudáveis, os gêmeos Eduardo e Rafael. “Algumas pessoas próximas me julgaram, achando que o que fiz iria contra os planos de Deus”, relatou a mãe. “É preciso compreender que a triagem não teve o intuito de escolher características superficiais e sim garantir a sobrevivência de meus filhos.”

O procedimento é acessível a qualquer um que tenha como pagar em torno de 30.000 reais. Quem não dispõe dessa quantia pode recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS.) Foi o que fez a enfermeira Talitha Pádua, paulista da cidade de Marília. Em uma consulta prévia, o marido, Rodrigo, já havia detectado que tem neoplasia endócrina múltipla, condição que leva ao desenvolvimento de tumores que reduzem a 50% a chance de um filho saudável. “Alguns médicos especulavam que, devido aos genes do meu marido, as chances de gerar uma criança saudável eram baixíssimas sem a triagem genética”, lembrou ela, que decidiu apostar. Em procedimento realizado pelo SUS no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, foi possível optar por um embrião saudável – e dele nasceu Davi, hoje com 4anos.

A tecnologia atual nem sempre detecta previamente doenças genéticas. A administradora de empresas paulistana Juliana Sena, por exemplo, entrou em desespero ao saber que sua filha, Giovanna, que nasceu em 2014, tinha anemia falciforme – doença que altera o formato dos glóbulos vermelhos – e estava em estágio tão grave que os médicos não davam à criança mais do que poucos meses de vida.

A solução seria um transplante de medula óssea, mas não se encontrava um doador compatível. Juliana recorreu, então, à triagem genética. “Selecionamos um embrião para gerar meu outro filho, Matheus, de forma que ele tivesse células compatíveis”, recordou a mãe. Matheus nasceu em 2016 e logo passou por uma cirurgia de transplante de células para sua irmã. Deu certo. Curada, Giovanna completará 5 anos em 2019. Em um futuro próximo, casos graves como o de Giovanna poderão ser solucionados de maneira mais simples. É o que aponta um experimento em curso com o americano Brian Madeux, de 44 anos. Ele nasceu com síndrome de Hunter, anomalia cromossômica que cria deformações físicas. Em novembro de 2018, Brian tornou-se o primeiro individuo a submeter-se a um novo tipo de tratamento, que edita os genes defeituosos. Adicionadas à sua corrente sanguínea, substâncias manipularam células do fígado. Ainda não se sabe em que medida o tratamento teve êxito, mas, se vingar, a experiência mostrará que, no futuro, será possível exterminar praticamente todas as doenças hereditárias. Já se testou até mesmo um método que mistura o DNA dos pais com o de uma doadora para diminuir a probabilidade de o filho nascer com anomalias. Exibida em 2016 por médicos mexicanos e americanos, a técnica mesclou genes para gerar uma criança sem a síndrome de Leigh, que afeta o sistema nervoso e que poderia ter sido transmitida pela mãe.

Ao que tudo indica, em poucas décadas qualquer pessoa poderá recorrer à genética para orientar a gestação. É um inegável progresso para garantir a saúde dos bebês. Entretanto, esse horizonte arrasta consigo a sombra de uma distopia aterrorizante, como a narrada pelo escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) em sua obra-prima Admirável Mundo Novo (1932).

No livro, conta-se a história de um mundo no qual crianças são editadas geneticamente para que uma maioria nasça com déficits físicos e mentais, “preparando-as” para encarar trabalhos insalubres, enquanto uma minoria ganha aprimoramentos. Assim, os privilegiados acabam incumbidos, naturalmente, da tarefa de governar. Fora da ficção, deve-se atentar para o que disse He Jiankui, o pioneiro editor de genes: “A sociedade decidirá o que deve fazer a seguir”.

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NOITES BRANCAS ELETRÔNICAS

Estudo comprova que usar aparelhos como smartphone e tablet em lugares escuros antes de dormir afeta a qualidade do sono dos adolescentes.

Noites brancas eletrônicas

Olhe por uma nesga da porta do quarto de seu filho: sete em cada dez adolescentes utilizam algum aparelho eletrônico antes de dormir. O impacto negativo desse hábito na qualidade do sono foi sempre uma certeza dos pais, mas não havia comprovação cientifica tão certeira. O maior estudo já conduzido sobre o assunto, publicado na revista científica Environment Interntional, decretou o fim das dúvidas: sim, usar smartphones, tablets, laptops e vídeo games na escuridão do quarto antes de dormir afeta seriamente a qualidade do sono. Ficar conectado no breu até uma hora antes de dormir é ainda pior do que fazê-lo com a luz do quarto acesa. Cinco vezes pior.

O efeito prejudicial do uso de telas no escuro tem uma base fisiológica e outra comportamental. A fisiológica: quando a luz do quarto está apagada, a pupila se dilata, e os olhos ficam ainda mais expostos à incidência da claridade proveniente das telas, chamada de “luz azul”. É um tipo de luz com grande interferência no organismo porque a cor azul inibe a produção do hormônio que induz o sono, a melatonina. Tal substância é essencial para regular o ciclo de sono e vigília. Alguns modelos de celular já vêm com uma película de proteção contra essa fonte luminosa ou estão equipados para neutralizar a luz azul à noite – o objetivo dessas novidades é diminuir quase totalmente a emissão de luz azul filtrando-a. Agora, a base comportamental: a luz apagada “engana” os pais. “O adolescente que fica no quarto escuro, em tese, não estaria mais acordado, e os pais não desconfiam que possa estar conectado nos aparelhos”, diz a neurologista Andrea Bacelar, da Associação Brasileira do Sono (meninos e meninas, desculpem-nos pela revelação, mas saibam que era um segredo de polichinelo).

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O estudo, conduzido pelo Imperial College London, no Reino Unido, foi feito com 6.616 jovens com idade média de 12 anos, usuários de todos os tipos de tela e para os mais diversos fins – tanto para estudo como para diversão. Os adolescentes responderam a detalhados questionários para medir o papel dos aparelhos no sono e na qualidade de vida. Os que utilizavam os dispositivos antes de dormir tinham noites de descanso mais curtas (o ideal nessa fase da vida são ao menos nove horas de repouso) ou sofriam para pegar no sono. Além disso, despertavam várias vezes durante a noite ou acordavam mais cedo que o normal. O trabalho mostrou que o aparelho mais usado é o smartphone, seguido do tablet.

Um sono ruim afeta drasticamente a vida de qualquer pessoa. Na adolescência, o impacto no corpo é ainda maior. Nessa fase, a necessidade de sono vem, em especial, de uma mudança fundamental no organismo: a puberdade. Para que essa condição, caracterizada por uma revolução hormonal se realize plenamente, é preciso que o adolescente tenha um sono reparador -do contrário, ele poderá sofrer prejuízos ao longo do desenvolvimento. A falta crônica de sono (que significa dormir muito pouco, menos que as tais nove horas, ao longo de um mês, no mínimo) acarreta a liberação de mais cortisol, o hormônio associado ao stress. Com isso, eleva-se o risco de oscilações bruscas de humor, depressão e transtornos de ansiedade. É também durante o sono que o corpo aumenta a liberação de GH, o hormônio do crescimento ósseo e muscular. Em outras palavras: o adolescente cresce quando dorme. O risco de obesidade é igualmente maior nos jovens que dormem pouco, pois os hormônios relacionados ao ciclo de fome e saciedade, como a grelina e a leptina, são produzidos durante a noite. Se não se dorme direito, o impacto imediato também é péssimo: em relação à escola, destacam-se faltas e atrasos, dificuldades de atenção, problemas de memória, concentração e aprendizagem, que levam à redução no desempenho escolar. Despontam também problemas comportamentais, com uso e abuso de drogas, acidentes de carro e baixa imunidade.

Apesar de todas as evidências científicas, a batalha para afastar um filho da tecnologia é inglória. Há solução? Talvez não, mas convém um pouco de bom-senso. Um caminho é estabelecer regras. “Tentem fazê-lo deixar o celular carregando no corredor durante a madrugada”, diz a neurologista Andrea Bacelar. Boa sorte aos pais.

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GESTÃO E CARREIRA

OU ISTO OU AQUILO

Pessoas que enxergam todos os lados de uma questão normalmente são tachadas de indecisas, mas essa qualidade – conhecida como ambivalência – pode ser uma grande ferramenta no trabalho se bem usada.

Ou isto ou aquilo

Quente e frio, claro e escuro, cabeça e coração. Operações simples como estas fazem parte de nosso cotidiano e explicam em muito a forma como raciocinamos: em pares. Quase sempre uma ideia tem seu oposto definido, que é, muitas vezes, visto como excludente. “É da natureza do ser humano a dualidade”, diz José Roberto Marques, coach e presidente do Instituto Brasileiro de Cooching, em São Paulo. Na língua, expressamos essa dualidade com esses opostos, mas a realidade é mais complicada e menos dividida. ”É por isso que uma escolha pode ser um momento difícil porque envolve optar por um destes caminhos supostamente opostos, que às vezes se confundem. Especialmente para as pessoas denominadas ambivalentes.

A ambivalência ocorre quando vemos todos os fatores de uma questão, dando igual importância às possíveis perspectivas, e nos sentimos divididos. Todos nós podemos passar por essa situação, mas há pessoas que costumam agir assim para a maior parte dos problemas. Para elas, o cenário se torna tão cheio de detalhes e nuances que uma decisão dificilmente parece ser suficiente para dar conta de tudo. Por isso, são constantemente tachadas de indecisas e em cima do muro, às vezes de forma injusta. “Ambivalência não é indiferença nem ignorância”, diz Roberto Camanho, sócio-diretor da consultoria Side-C e professor da ESPM, de São Paulo. “Significa que se tem fortes convicções em duas direções”. E essa atitude não é, necessariamente, um defeito.

Isso porque ela nos motiva a buscar mais informações e a não nos contentarmos com a primeira resposta. Em uma situação ruim, por exemplo, essas pessoas têm mais facilidade em encontrar aquilo que pode ser positivo. Também são mais hábeis em organizar as informações disponíveis e entender as consequências de diferentes decisões. Apesar de o mundo corporativo exigir respostas rápidas e decisões assertivas e cobrar dos líderes uma postura mais objetiva, a ambivalência, se bem usada, pode trazer benefícios para os negócios e para as equipes. Um estudo de 2009 feito por Nils Plambeck (professor da escola de negócios francesa HEC Paris) e Klaus Weber (da americana North­ western University) com CEOs alemães descobriu que os líderes que abrem espaço para a ambivalência conseguem resultados mais criativos e mais inovadores. A explicação é que, quando os presidentes conseguem expressar fortes sentimentos tanto a favor quanto contra uma ideia, eles despertam uma participação maior da equipe, que busca soluções diferentes para aquele problema. Assim, um líder que expressa claramente dois lados da mesma moeda pode criar uma energia positiva para a busca de soluções.

Ou isto ou aquilo. 2

UM PROCESSO DIFERENTE

Apesar de ser considerada por muitos como improdutiva, a ambivalência é apenas uma forma diferente de lidar com as coisas. Uma pessoa que age rapidamente e faz ajustes ao longo da ação para corrigir a primeira decisão normalmente é vista como alguém que resolve rápido. Já outra que pensa por mais tempo antes de agir, mas, uma vez decidida, age mais rapidamente, é vista como lenta e indecisa. “São processos diferentes, mas, no fim o tempo de entrega é o mesmo”, diz Fernando Seacero, psicólogo e cofundador da i9ação, consultoria de recursos humanos em São Paulo. A diferença é que o primeiro age antes e corrige durante o processo e o segundo tenta prever os possíveis erros para agir uma só vez – ele leva mais tempo para decidir, mas sua ação tende a ser menos custosa no longo prazo.

A cultura da decisão rápida também tem seus críticos. O autor britânico Carl Honoré defende em Solução Gradual (Editora Record) que, para resolver problemas complexos de forma consistente, temos que parar de buscar soluções simples e imediatistas. “Tentar resolver problemas com pressa, colocando esparadrapo quando se precisa de cirurgia, traz um alívio temporário. Mas mais tarde se paga o preço”, diz Carl. Paciência, energia e tempo são necessários para refletir a respeito de uma questão complexa. Nesse caso, quem tem uma visão ambivalente sai ganhando, já que essa característica pode ser um instrumento para análises mais profundas. Só que saber usá-la pode ser um grande desafio.

Ficar atormentado pelas diferentes possibilidades foi algo pelo qual o empresário Ângelo Almeida, de 41 anos, de São Paulo, já passou diversas vezes. “Quando era mais novo, ficava ansioso pensando nas coisas que tinha de resolver”, diz. Ele conta que chegou a passar noites em claro considerando os diversos cenários para uma decisão. Foi assim quando teve de decidir sair de um emprego em uma grande empresa de tecnologia para abrir sua própria consultoria de sistemas. Hoje, ele diz que desenvolveu mecanismos para lidar com o nervosismo, mas continua sendo analítico em problemas mais sérios. “Acho que pensar assim me faz tomar decisões melhores e com mais segurança, afirma.

Para não se perder, ele coloca as dúvidas no papel, com listas de prós e contras. E, a partir do momento em que toma uma decisão, vai até o fim. Ângelo costuma fazer um exercício diário de aceitar que cada decisão é uma renúncia, especialmente para não se questionar uma vez tendo feito sua escolha. Em seu trabalho como consultor, ele usa constantemente a sua ambivalência para buscar as melhores soluções para os clientes e para mediar conflitos. “Como consigo ver os dois lados, é fácil me distanciar e conduzir uma conversa”, diz. “E sou sempre aquele que diante de situações extremas levanta a mão e fala ‘mas tem outro lado, vamos tentar ver o positivo’”.

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MAIS DE UMA REPOSTA

Um fator que dificulta a tomada de decisão dos ambivalentes é a ideia de que há uma única resposta correta. “Aprendemos desde a escola que somos obrigados a resolver todos os problemas”, diz Roberto. Essa pressão traz sofrimento porque, às vezes, diferentes atitudes podem ser igualmente válidas. E, não sabendo lidar com isso, podemos ficar paralisados. A recomendação não está em mudar seu Jeito de analisar o problema, mas usá-lo a seu favor, como conseguiu fazer Ângelo ao longo da carreira. Importante ressaltar que esse é um processo contínuo e que melhora conforme temos mais maturidade, inclusive para perceber quais problemas merecem, de fato, toda essa atenção. “Tem gente que se perde alimentando o próprio sofrimento”, diz Roberto. “A pessoa cultiva a ambivalência em toda oportunidade.” Por exemplo, podemos perder um tempo enorme considerando escolhas simples, como o sabor de um sorvete. Para essas decisões de baixo impacto, é preciso criar rotinas para vencê-las rapidamente e dedicar energia ao que realmente importa.

A se ver dividido em uma questão importante, tente exagerar o cenário das possíveis decisões. “Esse exercício serve para sentir um impacto maior ao avaliar racionalmente as consequências”, diz José Roberto. O exagero força o cérebro a buscar outras situações que ele conhece e, por vezes, elaborar novas associações, trazendo soluções não pensadas. A intuição ou o insight, normalmente vêm disso. Você pode também separar as variáveis que interferem na sua escolha: primeiro, o que vai ganhar com uma decisão. Depois, o que perderá com ela. E, por fim, o que ganha e perde caso escolha o contrário.

Outro conselho é estabelecer uma data limite para a tomada de decisão e se permitir experimentar decisões sem ter todas as informações disponíveis, para aumentar sua confiança. Mas, caso perceba que questiona todas suas decisões e se vê frequentemente sem conseguir escolher, pode ser o caso de buscar ajuda. E é importante lembrar que não podemos cobrar de nós mesmos uma racionalidade infalível. “Não somos o doutor Spock”, diz Roberto. “Ficamos chateados porque temos a falsa ideia de que somos completamente racionais. “Mas a verdade é que não somos capazes de dar conta de todas as possibilidades e cenários que o mundo oferece. Muitas vezes o que nos faz pender para um lado ou outro é um sentimento. E tudo bem.

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O CRESCIMENTO DO DELIVERY DE BELEZA

Depois de consolidados em São Paulo e Rio de Janeiro, aplicativos para profissionais da área estética miram expansão a outros centros do País

O crescimento do delivery de beleza

Camila Tebar é empresária do segmento de moda em São Paulo. Para ela, se apresentar com unhas arrumadas, sobrancelhas definidas e cabelo em ordem é mais do que um sinal de vaidade. É essencial aos negócios. “Eu me sinto mais segura”, afirma. Para manter o visual confiante, porém, ela carecia de tempo: passar no salão em meio à agenda de reuniões e compromissos da vida profissional era quase impossível. Há seis meses, ela descobriu a solução: um aplicativo de serviços de beleza, o TokBeauty. Operando como um “Uber da beleza”, ele faz a conexão entre profissionais autônomas e clientes. Lançado em 2017 e operando em Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, o app veio na onda de outros, como o da Singu, que tem três anos e meio. Ambos, porém, somente agora devem se espalhar pelo País. As duas marcas preveem expansão em 2019.

A operação é simples e intuitiva. Em poucos cliques, a pessoa faz o cadastro e já pode selecionar o serviço desejado, acertar o valor e agendar o atendimento onde for mais cômodo, seja em casa, local de trabalho ou um hotel, por exemplo. As opções são a de qualquer salão de beleza: cabeleireira, designer de sobrancelha, depiladora, manicure, maquiadora e massagista. Segundo o CEO do TokBeauty, Marcelo Mendonça Calixto, “trata-se de um mercado que, entra crise, sai crise, está sempre em expansão”.

Um de seus principais concorrentes, o Singu, também prevê expansão. Lançado em junho de 2015 com investimento de R$ 15 milhões, ele opera como marketplace que reúne profissionais de diversas áreas de tratamento estético. O app foi idealizado pelo fundador do Easy Taxi, Tallis Gomes, e opera na Grande São Paulo e no Rio de Janeiro. “Vejo um mercado muito bem qualificado, que irá se tornar cada vez mais competitivo”, afirma Tallis. Em 2018, o TokBeauty recebeu aporte da 5xmais Holding Business e traçou novo plano de crescimento. A meta, segundo o investidor Marco Túlio Fernandes de Almeida, é alcançar outras 11 capitais até o fim deste ano e saltar de 65 mil para 400 mil clientes, e de 5 mil para 30 mil profissionais cadastrados.

SEGURANÇA 

Especialistas como Richard Klevenhusen, da Associação Brasileira de Salões de Beleza (ABSB), e Diego Smorigo, do Sebrae-SP, dizem que a maior preocupação é a segurança sanitária do atendimento. Os dois serviços afirmam manter rígidos controles para o cadastro das profissionais, passando por análise de registros criminais, entrevistas e amostras dos trabalhos. A TokBeauty deixa que as próprias clientes façam avaliações dos serviços prestados. Quando a média fica abaixo de 4, num máximo de 5, a profissional é suspensa até que faça uma reciclagem. A Singu adota sistema semelhante.

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PARECE LOJA, MAS É BANCO

Varejistas transformam subsidiárias financeiras em instituições independentes para aumentar a oferta de crédito.

Parece loja mas é banco

O ambiente de uma loja de qualquer grande rede de varejo não se parece em nada com a frieza controlada de uma agência bancária. Em vez de oferecer mercadorias organizadas por cores e atendentes que sorriem, os bancos se protegem dos clientes com portas giratórias, seguranças armados e filas intermináveis para quem quer apenas deixar as contas em dia. Apesar das diferenças, quem pisa em estabelecimentos da Renner ou da Riachuelo, duas das maiores varejistas do País, estão, sem perceber, entrando em instituições financeiras. Nessas lojas é possível fazer cartões de crédito, contratar seguros e até contrair empréstimos. Embora a prática de disponibilizar seus balcões para vender produtos financeiros não seja nova, o varejo resolveu ir além. As empresas estão, legalmente, se transformando em bancos para ocupar espaço nos meios físico e digital. Além de encorpar os ganhos, a prática garante a fidelidade da clientela.

Em junho passado, a Renner obteve permissão do Banco Central (BC) para transformar sua subsidiária financeira em uma instituição independente, a Realiza. “Ela foi criada a partir de uma plataforma aberta, para abrigar serviços de parceiros”, diz Laurence Gomes, diretor financeiro e de relações com investidores da Renner. Um dos objetivos é tornar os processos mais ágeis. “Já estamos emitindo cartões por meio do nosso aplicativo, e conseguimos aprovar o crédito em quatro minutos”, diz Gomes. No ano passado, o plástico com bandeira própria representou 44,2% das vendas e 19,7% na geração de caixa, e a Renner quer aumentar esse percentual.

O exemplo da Renner estimulou a concorrência. Em novembro passado, a Riachuelo, controlada pelo grupo Guararapes, informou o mercado que aguarda autorização do BC para transformar a Midway, sua financeira, em um banco completo. O crescimento orgânico da operação incentivou a decisão. Até o terceiro trimestre de 2018, a receita com empréstimo pessoal da Riachuelo havia crescido 69,7% na comparação anual e somava R$ 466,6 milhões. Com esse incremento, os serviços financeiros responderam por 47% da geração de caixa do grupo nos nove primeiros meses de 2018. Até setembro do ano passado, somente os cartões da própria loja responderam por 45% das vendas. “Essa operação ainda têm um fôlego de crescimento bastante interessante ao longo de 2019”, afirmou Tulio Queiroz, diretor financeiro da companhia durante teleconferência com analistas em novembro do ano passado.

Ao transformar uma financeira em banco, as empresas ficam aptas para incrementar a captação de recursos para além do modelo antigo, ligado a fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) ao abrir mais opções para atrair recursos de investidores. “Essas instituições podem passar a emitir CDBs e Letras de Crédito Imobiliário e Agrícola”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. No varejo, a mudança reflete no aumento da fidelidade. “A tendência é que uma pessoa física tenha um relacionamento muito maior e duradouro com um banco do que com uma financeira”, afirma. Para os investidores, a vantagem é a maior transparência na análise dos resultados. “Com a separação das atividades de varejo e finanças, é possível precificar melhor o negócio”, diz Nicolas Takeo, analista da Socopa. Com essa abertura para inovações nas operações financeiras, as varejistas podem concorrer com as fintechs na avaliação de Carlos Netto, presidente da empresa de tecnologia Matera. “Essas empresas têm um canal de distribuição já formado, o que as coloca com uma vantagem no segmento financeiro”.

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SAÚDE É O QUE INTERESSA

Saúde é o que interessa

As mudanças nos hábitos de consumo fazem com que marcas consagradas busquem alternativas mais saudáveis para continuarem relevantes nas gôndolas dos supermercados. Isso é o que aponta o relatório Eat, Drink & Be Healthy, elaborado pela Kantar Worldpanel, que analisa oito mercados globais – Brasil, China, Espanha, Estados Unidos, França, México, Portugal e Reino Unido. De acordo com o levantamento, o lanche saudável está em alta, mesmo com as pessoas se alimentando cada vez menos em casa. A fruta fresca, por exemplo, aumentou sua presença na mesa dos consumidores, enquanto que o café da manhã segue como a principal refeição feita nos lares mundialmente. No Brasil, o pão é o tipo de petisco preferido para 30% das pessoas no meio das tardes, diferentemente de países como China, Espanha, México e Reino Unido, onde as frutas já são privilegiadas, o que confirma que a procura por produtos saudáveis é uma tendência sem volta no mundo.

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TODO MUNDO AGORA DANÇA

Com produção profissional e intensa estratégia de marketing, os canais no YouTube que ensinam coreografias que vão do funk aos ritmos latinos alcançam milhões de seguidores.

Todo mundo agora dança

Nunca tanta gente esteve tão preparada para dançar como no último carnaval. Muito dos passinhos sincronizados que se viu nas ruas foi resultado de aulas de coreografia exibidas no Youtube e vistas por milhões de fãs. “Vivemos o melhor momento da dança”, diz Fabio Duarte, cofundador da FitDance, uma das empresas que está por trás da moda e que, com um modelo de negócios de alta potência, ajudou a torná-la onipresente em todo o País. Criada em 2014, a companhia foi inspirada na Zumba, um programa de fitness colombiano que estourou em 2006 com a mistura de dança e exercícios ao som de muita música latina. As aulas de zumba chegaram a mais de 150 países.

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Versão brasileira criada por dois irmãos, a FitDance compõe a maior parte de seu repertório com funks cariocas — o que significa muito rebolado. A empresa está crescendo a um ritmo acelerado, triplicou seu lucro em 2018 e espera dobrá-lo em 2019. De acordo com os sócios, seu programa consiste principalmente em qualificar instrutores e estes, credenciados como “instrutores FitDance”, pagam mensalidades de R$ 70 para poderem dar aulas usando o nome do método. “O coração da empresa são as aulas presenciais. O Youtube é só uma plataforma de marketing”, diz Fabio Duarte. De “só uma plataforma” o canal da companhia não tem nada. Atualmente são 9,7 milhões de inscritos que acompanham as coreografias postadas — para se ter ideia, a cantora Anitta tem apenas 1,5 milhão a mais. O valor da empresa não é revelado, mas certamente está na casa dos milhões. Além do império no Youtube, ela está presente em mais de 15 mil academias no Brasil e na Argentina e se prepara para chegar nos EUA, na Espanha e na Índia.

Não é de agora que o País se joga nas coreografias individuais. Nos anos 1990, a moda surgiu com tudo com o grupo É o Tchan, quando Carla Perez e Jacaré colocaram o País inteiro para dançar. Depois surgiram grupos de lambaeróbica que coreografavam as músicas, como Filhos do Sol e Swing do Bixo. Com o passar dos anos, no entanto, o pagode baiano desacelerou, principalmente em São Paulo. A dança recuperou o ritmo com a Zumba, que até hoje atrai milhares para a academia. Outro que contribuiu foi o professor Daniel Saboya, o primeiro a postar no Youtube vídeos com coreografias gravados com uma qualidade profissional. Ele começou em 2012, virou febre nesse promissor mercado virtual e recentemente até se lançou como cantor. Com 13 milhões de seguidores na internet, é atualmente procurado por artistas que querem lançar músicas. Mas nem sempre foi assim. “No começo nós tínhamos muitos vídeos bloqueados porque as pessoas os encaravam como pirataria”, diz Saboya. Quando criou o canal, as gravadoras não permitiam que ele usasse as faixas dos artistas, devido aos direitos autorais. Com o crescimento, a rota mudou de direção e ele passou a ser procurado pelos cantores. “A Lexa foi uma das primeiras que bateu o pé e pediu à gravadora para liberar sua música”, diz ele. A partir daí, seu canal virou um aliado na divulgação dos lançamentos dos artistas e também sua principal fonte de renda. Para coreografar uma música e postá-la, ele cobra em torno de R$ 10 mil.

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O NEGÓCIO É FAZER CARÃO

O professor Justin Neto também não fica para trás no assunto coreografia e é conhecido como o queridinho das celebridades. Diferentemente dos outros, no entanto, ele não utiliza as redes sociais para ensinar as danças, mas apenas para divulgar seu trabalho. Com 727 mil seguidores no Instagram, está sempre viajando pelo Brasil para dar aulas. É recorrente a participação de famosos como Dani Calabresa, Claudia Leitte e Juliana Paes. A marca de Justin é justamente ensinar suas alunas a fazer “carão”, ou seja, a colocarem atitudes nas poses, como fazem as modelos, para se sentirem com a autoestima lá em cima. Entre suas alunas, estão mulheres que recorreram à dança para recuperar o amor próprio após traumas como separações.

Outro canal que faz sucesso nas redes é o Mete Dança. Criado há cerca de dois anos, possui um número bem menor de seguidores em comparação aos outros, mas estão no auge do crescimento. No ano passado, a audiência dobrou e o faturamento quintuplicou. Com 745 mil inscritos, o pacote para montar uma coreografia e postar no canal sai em torno de R$ 5 mil. Idealizado pelo empresário baiano Danilo Alencar, que já agenciou bandas de “arrochadeira”, um estilo musical baiano, o canal conta com parcerias com dançarinos que coreografam as músicas e com uma produtora de vídeos. A monetização também ocorre por meio da divulgação de bandas e contratos publicitários. Enquanto a população se diverte, os empresários faturam.

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