A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANSIEDADE INCONTROLÁVEL

Agorafobia e transtorno de personalidade esquiva são apenas dois dos distúrbios que provocam inúmeros desconfortos, mas que, identificados de forma correta, podem ser tratados para minimizar seus efeitos

Ansiedade incopntrolável

Nunca estivemos tão ansiosos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o quinto colocado em geração de depressão e transtornos decorrentes da ansiedade. Os dados revelam que 9,3% da nossa população sofrem de transtorno de ansiedade, quase o triplo da média mundial. A mente humana é, definitivamente, um mistério que, a cada dia, desafia os profissionais e especialistas da área. Existe uma infinidade de distúrbios e transtornos que podem surgir a partir da exposição do estresse e ansiedade e, sem uma avaliação criteriosa, podem se confundir e dificultar o diagnóstico, sem uma avaliação criteriosa, podem inclusive se confundir.

No caso do transtorno de personalidade esquiva, por exemplo, o indivíduo tem um padrão extremamente tímido e inibido do ponto de vista social. Percebe-se deslocado em acontecimentos sociais e comporta-se bastante melindroso a comentários e apreciações pejorativas a seu respeito, podendo ficar intensamente melancólico nessas ocorrências. Forma ideia de inferioridade, considera-se incapaz e que não possui qualificação própria (vamos abordar detalhadamente mais à frente).

A agorafobia, por sua vez, vem do termo grego ágora = praça pública, multidão; e fobia = medo. Ou seja, medo de lugares com muitas pessoas. A agorafobia tem como característica principal forte ansiedade que eclode no momento em que o indivíduo se encontra em lugares ou situações em que a fuga é dificultosa, iniciando, assim, uma crise semelhante ao ataque de pânico. Pode acontecer em ambientes públicos ou lugares com grande aglomeração de pessoas, como em praças públicas, shopping centers, dentro de bancos, shows musicais abertos ou fechados, elevadores etc.

Os leigos costumam confundir a agorafobia com o transtorno do pânico pela proximidade dos sintomas. É bom que saibamos que o transtorno do pânico pode ocorrer sem agorafobia. Porém, a agorafobia sem pânico é incomum, embora existam casos raros relatados na área psiquiátrica, pois a agorafobia é uma condição exclusiva, na qual as pessoas parecem ter medo de frequentar lugares abertos ou fechados desacompanhadas.

O medo e a clausura encontram-se sempre presentes entre as evidências e os sintomas mais habituais. O indivíduo com esse transtorno faz o possível para não se expor a determinadas localidades ou circunstâncias que possam manifestar outros episódios de crises de pânico, ou, então, percepções de reclusão ou dificuldade de se retirar do local.

São demasiadamente incômodas as crises de transtorno do pânico quando ocorrem. Todavia, não comprometem o estilo de vida como acontece com a agorafobia, quando os portadores são diretamente dependentes de terceiros, no sentido de executar tarefas primordiais, como sair de casa para ir ao supermercado ou ir ao médico.

Esse transtorno também dificulta que o indivíduo aceite convites para festas, que saia de casa para trabalhar ou que compareça a quaisquer eventos onde aconteçam alvoroços, envolvendo aglomerações de pessoas, mesmo que esses eventos sejam para cumprimentos de protocolos ou formalidades. A agorafobia costuma se manifestar de duas formas, dependendo das ocorrências vinculadas ao transtorno: simples ou patológica.

SIMPLES – Quando a situação ameaçadora é superada e tudo volta ao normal após psicoterapia.

PATOLÓGICA – Quando a situação ameaçadora não é superada e o indivíduo necessita de medicação para amenizar os sintomas.

“A agorafobia ‘leve’ pode ser exemplificada pela pessoa que hesita em dirigir sozinha por longas distâncias, mas consegue ir e voltar de carro para o trabalho; que prefere se sentar no corredor nos cinemas, mas segue indo ao cinema; que evita lugares lotados”.

Fatos considerados naturais podem ser perturbadores para uma pessoa portadora da agorafobia. Exemplos: voar em aviões, atravessar pontes, túneis, passarelas, adentrar elevadores, trafegar em ônibus, trens, metrôs, eventos musicais etc. O mais interessante de tudo isso é que esses tipos de bloqueios se tornam amenos e vencíveis se o agorafóbico estiver acompanhado. Até mesmo a companhia de uma criança pode trazer mais conforto às suas inquietações.

O comportamento de evitação dos locais e das situações citadas acima é um fator determinante para a concretização do diagnóstico. Na maioria dos casos, os lugares sempre coincidem por tratar-se de registros mentais fixados no inconsciente da pessoa afetada e, pela mesma razão, o agorafóbico desencadeia mal-estares vinculados ao receio de percorrer tais trajetos, manifestando, assim, crises de pânico ou sensações dos sintomas recorrentes. Por vezes, sua imaginação se torna tão fértil que o leva a ter crises mesmo que nada de concreto tenha ocorrido.

As crises de pânico na agorafobia, mesmo que se manifestem intensas e prolongadas, não devem ser confundidas com eventos traumáticos (no caso do transtorno do estresse pós-traumático – TEPT), sobremodo que nem todo ataque de pânico deve ser rotulado de agorafobia. Um indivíduo pode apresentar os mesmos sintomas somente imaginando que futuramente terá de atravessar uma ponte ou passarela, fazendo com que a possibilidade da eclosão dos sintomas venha à tona mesmo sem sair de casa.

“A agorafobia ‘moderada’ é exemplificada pela pessoa que só dirige em um raio de 15 km de casa e somente se estiver acompanhada; que compra em horário fora do pico e evita grandes supermercados; que evita aviões ou trens. Já a agorafobia ‘grave’ está relacionada à mobilidade muito limitada, às vezes, até mesmo a ponto de não sair de casa”.

DURAÇÃO E SINTOMAS

A fobia e o afastamento das situações de pânico geralmente duram seis meses ou mais.

Os sintomas psicológicos provocados pela agorafobia são receio de morrer; medo de lugares repletos de gente; pavor de ficar só ou sair sozinho; ansiedade; baixa autoestima; insegurança.

Os sintomas físicos provocados pela agorafobia são disparo da frequência cardíaca; falta de ar; dor ou compressão no peito; vertigens; dormência pelo corpo; suor em demasia; calafrios; vômitos; diarreia; desmaios.

A agorafobia apresenta fatores de risco, como sintomas de precedentes dos transtornos de ansiedade, fobias ou pânico; convívio em um meio propício para o estresse elevado; manifestações de crises de pânico e medo irracional exagerado; mau uso de substâncias – a utilização abusiva de ansiolíticos e antidistônicos, como os benzodiazepínicos; gestos ansiosos, inquietos e nervosos; lembranças de eventos traumáticos; infância violenta; fatos históricos de doença na família.

Um dos principais fatores da agorafobia é o biológico – compreendendo os caracteres de saúde e genética: índole, temperamento, estresse ambiental e experiências de aprendizagem podem desempenhar um papel no desenvolvimento da agorafobia.

“Aqui não há mistério, pois a alma bastarda e impura pela desorientação mental sofre por ansiedade. A mente é como um bando de andorinhas sem ter onde pousar, desprendendo-se o voo pelo vão dos ares sem destino. Assim é a nossa mente procurando encontrar-se nesse mundo tumultuado em que vivemos. Dessa forma, a ansiedade é fato constante que possibilita interpretações equivocadas de nós mesmos (…). Naquele instante em que vacilamos, a mente estimula a ansiedade e a nossa insegurança. Nesse momento, fogem a inteligência e a racionalidade, e o medo torna-se nosso inimigo mortal. (…). Ao adormecermos, as trevas do nosso labirinto do sono surgem como eterna visão ansiosa e assentam-se junto à nossa mente. Mas esse mar de problemas tem solução! Precisamos nos conectar à nossa essência, ao nosso mundo interior, onde também há um mar de tranquilidade que nos espera, às luzes da consciência mais profunda”.

Ela desperta quando o sujeito que apresentou repetidos ataques de ansiedade adquire um medo terrível de que eles se desencadeiem em circunstâncias reais. Esse medo incontrolável é fundamentado pelo pensamento de que essa crise possa se repetir mais vezes e de que será mais complicado obter ajuda de alguém.

O tratamento prático para a agorafobia, de modo geral, envolve a psicoterapia e a medicação. A Psicanálise, a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de exposição (psicoterapia com auxílio de realidade virtual) estão entre os procedimentos que produzem mais efeitos sobre o transtorno.

Ainda não existe uma forma segura para a profilaxia da agorafobia. E, por isso, a ansiedade tende a disparar seu gatilho quanto mais evitar situações que desencadeiam o medo. Se o portador da agorafobia principiar a sentir medos insignificantes sobre locais não confiáveis, seria aconselhável frequentar esses lugares uma vez ou outra antes que esse medo se torne incontrolável. É evidente que essa tarefa não é fácil, mas, se não for possível soluciona r por conta própria, vá em busca de um profissional habilitado, solicitando que um familiar ou amigo possa estar presente nesse momento.

Mas se você (portador da agorafobia) perceber algum sintoma ansioso em lugares que possam desencadear ataques de pânico, procure tratamento médico e psicoterápico com rapidez. Evite que o quadro sintomático se agrave. A ansiedade na agorafobia, como em muitas outras categorias de transtornos ansiosos, pode ser mais difícil de cuidar se você prolongar essa ajuda.

“Na complexa vida moderna, a ansiedade e os ataques de pânico estão se tornando mais comuns. Mas a boa notícia é que a compreensão sobre esses distúrbios aumentou e as formas de tratamento estão mais eficientes”.

MÉTODOS ALTERNATIVOS

Existem, também, métodos alternativos para acalmar as crises de pânico na agorafobia:

RESPIRE PROFUNDAMENTE – Se você estiver em meio a um ataque de pânico, é provável que comece a hiperventilar. Mesmo que não haja hiperventilação, a respiração profunda pode auxiliar na redução do estresse e facilitar no fornecimento de mais oxigênio ao cérebro para compensar o equilíbrio neuronal. Ao notar que uma crise queira se manifestar, pare e abrevie a cadência respiratória. Sus­ tente a respiração. Assim, reduz-se a sensação de supressão, a circulação do sangue e a incapacidade de res­ pirar. Depois da respiração segura, comece a respirar lentamente, exercitando o diafragma. Ponha uma das mãos sobre o tórax e a outra no abdômen. Você vai sentir o ventre subir e descer durante o exercício. Em seguida, aspire o ar pelo nariz em um intervalo de 5 segundos. Prenda a respiração por dois segundos. Depois expire pausadamente pela boca em um tempo também de 5 segundos. Prossiga a respiração diafragmática por mais alguns minutos até observar um alívio no relaxamento muscular e limpidez de concentração.

CONCENTRE-SE NO RELAXAMENTO – Em uma crise de pânico, os reflexos cerebrais podem ficar desordenados. É provável que você perceba diversos sintomas nesse mesmo instante, o que contribui para a tensão nervosa. Esse processo vem à tona porque o corpo impulsiona o gatilho do mecanismo de “luta ou fuga” do sistema nervoso simpático, dispersando a cadência cardíaca e respiratória, contraindo os músculos e os canais de vasos e artérias sanguíneos. Relaxe por um instante no intuito de abreviar o ritmo cardíaco e pulmonar, para ganhar harmonia com as experiências sensoriais. Esse processo também pode auxiliar na manipulação da reação automática de reagir a agentes estressantes. Logo após, tente elaborar uma listagem sobre o que está ocorrendo, sem julgar ou criticar os acontecimentos túrbidos. Exemplo: “Meu coração está batendo descompassadamente…Minhas mãos estão transpirando… Acho que eu vou desmaiar”.

Logo após, fortaleça a ideia em sua mente de que essas manifestações são mero fruto da ansiedade. Evite fiscalizar essas sensações. Isso pode ativar o gatilho da ansiedade. Fique certo de que são sintomas transitórios. Fique imóvel enquanto faz a listagem dos sintomas. Essa postura, com o passar do tempo, manipula o cérebro, ajudando-o a reconhecer que a circunstância não é tão nociva quanto parece. O exercício empregado pode induzir o cérebro a compartilhar com mais veemência o quadro sintomático de pânico.

CONFUSÃO

É importante não confundir o transtorno de personalidade esquiva com fobia social, apesar de haver muita semelhança. Na fobia social as pessoas fazem o possível para evitar certos acontecimentos sociais. No entanto, não perdem as ligações afetivas. Já no transtorno da personalidade esquiva, o sujeito contrapõe-se a qual quer caráter de convivência pessoal. Nesse caso, há o impulso de aproximar-se das pessoas, porém o temor de não ser aceito é mais forte, contribuindo, assim, para a resistência.

Na maior parte dos casos os sintomas são experimentados pelo indivíduo como normais (eu- sintônico), de modo que o diagnóstico só poderá ser ordenado a partir de um panorama externo.

“A psicoterapia deve ser ajustada à capacidade do paciente à medida que ele se demonstra disposto a enfrentar situações que geram sua ansiedade. Mesmo na Psicanálise, chega um momento em que o paciente deve enfrentar seus medos. O psicólogo ou psicanalista terá um papel fundamental no acolhimento e posterior encorajamento do paciente”.

No Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – DSM-5, ficaram assim outorgados os indicadores diagnósticos para o transtorno de personalidade esquiva:

“Um padrão difuso de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à avaliação negativa que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por quatro (ou mais) dos seguintes:

  1. Evita atividades profissionais que envolvam contato interpessoal significativo por medo de crítica, desaprovação ou rejeição.
  2. Não se dispõe a se envolver com pessoas, a menos que tenha certeza de que será recebido de forma positiva.
  3. Mostra-se reservado em relacionamentos íntimos devido ao medo de passar vergonha ou de ser ridicularizado.
  4. Preocupa-se com críticas ou rejeição em situações sociais.
  5. Inibe-se em situações interpessoais novas em razão de sentimentos de inadequação.
  6. Vê a si mesmo como socialmente incapaz, sem atrativos pessoais ou inferior aos outros.
  7. Reluta de forma incomum em assumir riscos pessoais ou se envolver em quaisquer novas atividades, pois estas podem ser constrangedoras”.

Como prestar auxílio a um portador do transtorno? Jamais o critique, se ele optar por não comparecer a um evento social por receio de ser rejeitado. Também não o julgue nem o deprecie. Esses episódios, excentricamente, sobrecarregarão seus pensamentos negativos e a pessoa experimentará sensações de rejeição, fato este que o fará se sentir mais inferiorizado. Ao contrário disso, estimule-o a sair de casa, buscando o lazer como fonte de preenchimento mental, mesmo que sua resposta seja negativa. Proponha também projetos que despertem seus desejos, demonstrando que ele poderá contar sempre com você nos momentos de aflição. Incentive-o a não se deixar levar pelo medo de repulsa de outrem, pois o importante é estar confiante para desatar-se dos laços fóbico-ansiosos.

Em uma perspectiva freudiana, esse transtorno de personalidade se constitui a partir das vivências e pelo desenvolvimento em fases da libido (energia vital/sexual), pelo modo como se estrutura o desejo inconsciente e as formas como o ego lida com os conflitos e frustrações libidinais.

“As pulsões sexuais dos transtornos de personalidade percorrem um caminho sinuoso de desenvolvimento para então alcançar o ‘primado da zona genital’. Antes de este ser alcançado, a pulsão pode ficar fixada em alguma organização pré-genital, como a oral e a anal, às quais retornará quando ocorrer uma repressão, o que caracterizaria uma regressão” (Sigmund Freud).

Em relação aos tratamentos, a terapia cognitivo-comportamental – TCC pode ser de bom préstimo. Essa modalidade de terapia psicológica oferece o respaldo de que o raciocínio flutuante do paciente estaria provocando o referido transtorno, e que, de certa forma, centraliza-se na transformação de paradigmas cognitivos distorcidos por ponderar a legitimidade das suposições por trás do problema. Outra excelente técnica para tratamento é a análise da transferência, que é um dos focos principais da Psicanálise. Ela é direcionada a pacientes com graves distúrbios de personalidade por considerar qualquer interpretação transferencial no contexto do que está ocorrendo na vida atual do paciente. As transferências negativas ou positivas desses pacientes devem ser trabalhadas restritamente no “aqui e agora”, sem que se tente atingir reconstruções genéticas, pois a falta de diferenciação e individualização dos objetos interfere na capacidade para diferenciar os relaciona mentos objetais presentes e passados.

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GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS COM CAUSA

Por que resolver problemas socioambientais é a melhor estratégia para atrair talentos e consumidores, promover a inovação e contribuir para uma sociedade mais justa

Empresas com causa

“Os empresários acreditam que estão defendendo a livre-iniciativa quando asseguram que as empresas não estão preocupadas ‘apenas’ com o lucro, mas também em promover fins ‘sociais’ desejáveis; que as empresas têm uma ‘consciência social’ e levam a suas responsabilidades de oferecer empregos, eliminas a discriminação, evitar a poluição e quaisquer outras frases prontas da safra de reformistas contemporâneos (…) Empresários que falam dessa forma são marionetes involuntárias das forças intelectuais que, nas últimas décadas, vêm minando a base de uma sociedade livre”.

Esse é apenas o começo do artigo The Social Responsability of Business is to Increase its Profits, publicado em 13 de setembro de 1970 na revista dominical do jornal The New York Times. No texto de quase 3 mil palavras o economista Milton Friedman (1912-2006) atacava duramente as companhias que ensaiavam as primeiras políticas de responsabilidade socioambiental.

Para o vencedor do Nobel de 1976, a defesa corporativa de valores éticos não passava de “fachada hipócrita”, estado de “miopia” e ”impulso suicida” de alguns empresários. Em resumo, uma ameaça à sobrevivência dos negócios. A missão de uma empresa, defendia veementemente, seria apenas e tão somente gerar lucro. E sua única responsabilidade era para com seus acionistas.

Época intensa aquela. Anos de revolução de costumes e ideias. Do movimento hippie da década de 60 e do ativismo político da década de 70. Do “flower power” e “peace and love” dos jovens cabeludos com roupas coloridas. Do grito pela paz. Do “não” à violência. Da defesa do amor livre e vida em comunidade. Do “eu tenho um sonho”, de Martin Luther King (1929-1968), que, em agosto de 1963, levou 250 mil pessoas ao Lincoln Memorial, em Washington, por uma sociedade mais igualitária. Do “é proibido proibir” dos estudantes franceses que, em maio de 1968, tomaram as ruas de Paris, insatisfeitos com o sistema educacional. Do “o privado é político”, da feminista americana Car Hanisch, hoje com 77 anos. Dos sutiãs queimados em praça pública, em 7 de setembro daquele 1968, em Atlantic City durante o protesto de 400 ativistas do Womens’s Liberation Movement contra o concurso de beleza Miss América.

No campo da ciência, em 1972, a bióloga americana Lynn Margulis (1938-2011) e o ambientalista inglês Jam Lovelock, 99 anos, formularam a Teoria de Gaia, segundo qual a Terra é um organismo vivo, inteligente, consciente e integrado. Pela primeira vez, a ONU falou em mudança climática, efeito estufa, resíduos sólidos, recursos renováveis…O Brasil de então lutava contra a ditadura e assistia ao recrudescimento do movimento sindical – com as greves históricas do ABC paulista.

À exceção das raríssimas empresas nascidas com DNA do ativismo, como as americanas Patagonia, de roupas esportivas, e a Ben&Jerry’s, de sorvete, ou a inglesa Body Shop, de cosméticos e produtos de beleza, o mundo dos negócios manteve-se alheio à efervescência daqueles anos. Seguiu a ferro e fogo os preceitos de Friedman. Lucro, lucro e lucro – “the business of business is business”.

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FRIEDMAN X FREEMAN

Nos anos 80, no entanto, alguns empresários e teóricos da economia começam a defender uma nova narrativa do Autor do best-seller Strategic Management: A Stakehold Approach, de 1984, o filósofo Robert Edward Freeman, anos, tornou-se a principal voz do movimento ao defender que os empreendedores não têm do que se envergonhar desde que seus negócios sejam acompanhados por senso de propósito e de moralidade… Em geral, somente 20 das pessoas ao redor do mundo confiam que homens mulheres de negócios estejam fazendo a coisa certa, ou seja, 80% das pessoas não confiam nos executivos”, disse Freeman, em entrevista, em novembro de 2018, “Como chegamos até aqui? Ao ponto de os negócios ocuparem um lugar tão baixo na sociedade em termos morais?”

Capitalismo consciente, capitalismo inclusivo, investimento de impacto, investimento socialmente responsável, empreendedorismo social… Não importa o termo, a filosofia corporativa está em processo de transformação profunda. De mudança de paradigmas. Como costuma dizer Bethlem, diretor-geral do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, atualmente, “o negócio de todos os negócios está nas pessoas”. E os sinais dos novos tempos são evidentes.

Na última edição da Parada Gay de São Paulo, em junho passado, várias empresas participaram da festa de 3 milhões de pessoas na avenida Paulista. Estiveram presentes companhias da nova economia, como Salesforce e Google, quanto as seculares Basf e Boyer. Tânia Cosentino, presidente da Microsoft no Brasil, e Alessandra Del Debbio, vice-presidente jurídica da gigante de tecnologia, desfilaram no carro oficial do evento, o trio elétrico da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Bissexuais e Intersexos (ABGLT). Por intermédio do grupo Respeito, de defesa da diversidade, a Barilla caminhou ao lado do coletivo “Mães da Diversidade”.

Outro indício? Ganham espaço as consultorias especializadas em estratégias de posicionamento. Uma das proeminentes é a Cause – imperativo do verbo “causar”. Criada em 2013 por quatro ex- executivos de grandes empresas, entre 2017e 2018 registrou um crescimento de estrondosos 78% na receita bruta e 36% de aumento no número de projetos realizados. “Nós não fabricamos causas”, diz o antropólogo Rodolfo Guttilb, 57 anos, um dos fundadores da consultoria. “Elas surgem do encontro entre o propósito da organização e as demandas da sociedade.” É natural as empresas mais jovens, como as startups, tenham desde sua fundação um propósito claro, bem definido.

Ex- executivo da Natura, uma das primeiras empresas brasileiras de fato engajadas em questões socioambientais. Rodolfo conta que muito se avançou nos últimos anos, ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Algumas organizações estão fazendo ‘marketing de oportunidade’ define ele. “Excessivamente pragmáticas, querem saber o que devem fazer para aparecer no Jornal Nacional.”

Se o propósito não for genuíno, não se sustenta. Fácil entender, portanto, por que 29% dos consumidores brasileiros definem as empresas que se posicionam como oportunistas. O dado é de uma pesquisa com 1,2 mil consumidores, realizada pelo lpsos Global Reputation Center e fruto de uma parceria entre a Cause, a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e o Instituto Ayrton Senna. Por outro lado, o mesmo trabalho indica que a maioria de nós espera que as empresas abracem mais causas e contribuam efetivamente para o bem-estar da sociedade – muito mais do que faziam no passado; se é que faziam alguma coisa no passado.

Empresas com causa. 2

MAIS CONSCIENTES E MAIS EXIGENTES

Analisadas as faixas etárias, os que mais defendem o engajamento das companhias são os Millennials, os nativos digitais. No mundo do tudo ao mesmo tempo e agora, das redes sociais, do encurtamento de distâncias e da aproximação de realidades e experiências, os consumidores são naturalmente mais conscientes – e exigentes. Ultra conectados, querem informação. E para já. De onde veio? foi feito? Por quê? Não compramos mais apenas serviços. Consumimos causas. Pela inclusão e equidade de gênero, raça, orientação sexual, religião… Por um mundo sustentável. Por respeito, liberdade e transparência, de cada cem Millennials, 95 não titubeariam em mudar de marca em nome de uma causa na qual eles acreditam. E essa turma não é fraca, não. Estima-se que eles tenham um poder de gasto anual de US$ 2,5 trilhões.

Recentemente, a festejada Prose, startup que utiliza inteligência artificial para desenvolver produtos personalizados para os cabelos, foi interpelada por um consumidor no Twitter:

– O que nós realmente queremos saber é se os ingredientes usados por vocês foram testados em animais.

Ao que a empresa, com escritórios em Paris, Manhattan e no Brooklyn, respondeu:

– Nós somos certificados pela PETA (People for the Ethical Treatment of Animais).

O selo PETA – Approved Vegan and Cruelty Free, nos dias de hoje, vale ouro. Segundo a agência de pesquisas Grand View Research, o mercado global de cosméticos veganos deve chegar a US$ 20,8 bilhões, em 2025. “A maioria dos consumidores considera a crueldade contra os animais antiética e está espalhando alertas para essa tomada consciência”, lê-se no documento do instituto.

Fazer o bem para a sociedade e para o mundo no qual vivemos, definitivamente, faz bem aos negócios. Segundo o relatório Ali In Inclusion & Diversity Drive Shopp Habit”, sobre o impacto da inclusão e da diversidade nas escolhas dos consumidores, elaborado pelo Accentur multinacional de consultoria, 42% dos compradores estão dispostos a pagar um adicional de 5% ou mais para comprar de empresas comprometidas com a inclusão e a diversidade. Foram ouvidos 4.662 consumidores dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, entre novembro e dezembro 2018. “0 silêncio não é uma estratégia aceitável”, conclui o estudo da Accenture.

Em artigo exclusivo, o antropólogo Caio Magri, 64 anos, diretor-presidente do Instituto Ethos, escreve: “Em escala global, temas como diversidade, direitos humanos, integridade e meio ambiente são questionados por movimentos que flertam com o retrocesso (É chegada a hora do protagonismo destas lideranças empresariais] revelar sua vital importância para a sociedade, Ir além de seu papel tradicional nas pautas corporativas puramente econômicas e setoriais”.

O levantamento anual da Edelman, líder global e relações públicas, mostra que, em 2018, 64% dos 40 mil entrevistados, ao escolher uma marca, se guiaram por crenças – um aumento de 13% em relação ao ano anterior. Realizado em oito países (Alemanha, Brasil, China, Estados Unidos, França, índia, Japão e Reino Unido, o estudo vai além. Para a maioria dos consumidores, as empresas são poderosas para promover transformações sociais do que os governos de seus próprios países. Par uma ideia, segundo Michael 72 anos, professor da Harvard Business School, em 2013, enquanto os recursos do governo americano somavam USS 3,1 trilhões, os das empresas eram de USS 20,1 trilhões – e o das ONGs, USS 1,2 trilhão. “É uma nova relação entre em consumidor, onde a compra é baseada no movimento da marca em viver seus valores, agir com propósito e, se necessário, dar o salto para o ativismo”, disse Richard Ed, 65anos, CEO da agência. Independentemente do grau de engajamento da companhia, é um caminho sem volta. A questão, segundo os especialistas, não é se uma empresa deve ou não assumir uma posição e sim, como fazê-lo – os chamados investimentos éticos totalizam verbalmente USS 114 bilhões.

Nos negócios 4.0, como na vida cotidiana, a ofensa pode ser devastadora. Em 2013, o presidente da Barilla, Guido Barilla, então com 55 anos, sem nenhum constrangimento, disse que casais gays jamais apareceriam em anúncio empresa, líder global do setor de massas. A uma rádio, ele garantiu que preferiria associar a imagem da companhia à da “família tradicional”. O estrago estava feito. Ao redor do mundo, consumidores convocaram um boicote à marca. A empresa tomou um susto. Cuidou de ir a público duas vezes para se retratar. Internamente, a Barilla se mobilizou. Criou um comitê de inclusão e diversidade. E, no ano seguinte, conquistou um lugar na lista da americana Human Rights Campaign (HRC), poderoso grupo de defesa dos direitos civis LGBTQ+, Guido fez o mea-culpa: “Todos nós aprendemos muito sobre a real definição e significado de família”.

Mais recentemente, no final de junho passado, um funcionário da Votorantim Cimentos publicou uma página da fintech Nubank, no LinkedIn: “Líder é líder, independente escolha sexual. Ter um líder LGBT é de uma idiotice sem tamanho”. Cretinice é escancarar o preconceito e achar que sexualidade se esconde. Obviamente, a grita foi geral. O rapaz foi demitido e a Votorantim, em nota, explicou que aquele comportamento fere o código de conduta da empresa.

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MARKETING DE CAUSA

Há basicamente duas formas (excludentes, diga-se) de conduta dos negócios rumo ao engajamento. A mais comum é pelo chamado marketing de causa. Ou seja, a companhia defende um posicionamento que, sabidamente, tem a ver não só com seu propósito, mas com o de seus clientes também. Um exemplo clássico no Brasil de marketing de causa é o da Visa. “O propósito da marca é conectar pessoas”, define Fernanda Teles, 52 anos, CEO da empresa de cartões no Brasil. São 3,5 bilhões de consumidores no mundo. 55 milhões de estabelecimentos e 16 mil instituições de pagamento. Como impactar a sociedade por intermédio do eco sistema dos meios de pagamento.

Dessa provocação surgiu, há cerca de um ano e meio, o Visa Causas. “Depois de várias pesquisas, de olhar para as necessidades do país e avaliar os oito objetivos da ONU para 2030, nós optamos por cinco causas”, diz Fernando. “Crianças e adolescentes, idosos, animais e educação e capacitação, representadas por 17 instituições.” Quem decide a causa da Visa é o cliente. Para a transação ser feita por meio dos cartões de crédito, débito ou pré-pago, a empresa destina um centavo para a entidade da preferência do cliente. “A empresa conecta a pessoa com a causa que ela julga relevante”, explica o CEO. E o que a Visa ganha com isso?

Ao apelar para as crenças de seus clientes, ao incentivá-los a fazer o bem, a empresa espera que eles usem mais e mais o pagamento eletrônico. “Eu quero que as pessoas paguem o cafezinho, o pão, o metrô com o plástico”, resume o executivo. Nesse momento, ganhar mercado é essencial. Com previsão de movimentar RS 1,8 trilhão até o 2019, a indústria de meios de pagamento no Brasil passa por transformações profundas. O setor assiste à chegada de fintechs, gigantes de hardware e software e empresas de telefonia. As companhias financeiras tradicionais têm de se mexer para não perder mais espaço. E, como prega a cartilha da economia 4.0, engajar-se em uma ou várias causas pode ser uma ótima estratégia.

O Visa Causas conta atualmente com 150 mil associados. Ainda que a empresa não divulgue a base de clientes no país, é evidentemente um contingente baixo.” Nosso grande desafio é vencer a barreira do cadastramento”, reclama Fernando. A empresa estuda formas mais diretas, simples de o consumidor se inscrever no programa. “0 potencial de doação anual é da ordem de R$ 60/65 milhões”, aposta o executivo. Até meados de junho, o número de doações estava em torno de 76 milhões.

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ATIVISMO CORPORATIVO

Entre as empresas militantes, a métrica é outra. Tomemos a Ben&Jerry’s como exemplo. No Brasil, a causa da fabricante cante de sorvetes é a criminalização da LGBT fobia e a educação para a diversidade. Nas eleições do ano passado, em parceria com a plataforma Me Representa, a companhia apresentou à população os candidatos simpáticos das causas. “Ao final, o que nos interessava era sabe quantas dessas pessoas foram eleitas no Legislativo brasileiro”, comenta Rodrigo Santini, 39 anos, líder da marca. “O palco não é para mim nem para a empresa. É para a causa”, resume. Em 13 de junho passado, o Supremo Tribunal Federa determinou que a discriminação por orientação sobre identidade de gênero passe a ser considerada crime, pela Lei do Racismo.

As empresas militantes não estão preocupadas se as pessoas aceitam ou não sua militância. “Nós não somos misóginos, racistas ou LGBTfóbicos”. Neste espaço, é assim que funciona – e tudo bem se alguém não quiser”, diz Rodrigo. “Todo mundo tem a opção de sair daqui e buscar outra coisa. O consumidor não é a causa de decisão para a empresa pensar suas ações.” Sem dúvida, o ativismo corporativo é uma estratégia de negócios mais arriscada. Vira e mexe, a Ben&Jerry’s sofre ataques nas redes sociais:

– Me desculpem, mas vocês deveriam se limitar a vender sorvete e não ficar falando desses assuntos. Não vou mais comprar o sorvete de vocês.

Ao que a empresa costuma responder:

– Está desculpado.

Na década de 70, os amigos de infância Ben Cohen Jerry Greeafield, ambos com 68 anos hoje, como todos os hippies, queriam mudar o mundo. Mas precisavam de dinheiro para sobreviver. Encontraram uma máquina de sorvete bem baratinha, fizeram um curso por correspondência de apenas US$ 5, juntaram USS 12 mil e assim nasceu a Ben&Jerry’s – em um posto de gasolina na cidade de Burlington, em Vermont. “Ninguém precisa de sorvete. Sorvete é legal, é bom, mas não é necessário”, costuma dizer Jerry. “O mundo precisa de mais compaixão”. Se no Brasil, a causa é a do movimento LGBTQ+, nos dos Unidos, com o slogan “Black lives matter”, critica a violência policial contra a população negra. E na Europa coloca-se ao lado dos imigrantes. Comprada em 2000 Unilever, a Ben&Jerry’s está em 27 países, com cerca de 600 pontos de venda. Seu faturamento global gira em torno de US$ 1 bilhão.

Recentemente, a indústria de sorvetes foi sacudida nos Estados Unidos pela chegada ao mercado da Top. Fundada em 2011, tem um apelo irresistível nos dias atuais. Com o slogan “Cuilt-free zone”, a Halo Top vende a ideia de que é possível ser saudável sem se abster dos prazeres à mesa. Com dificuldades para controlar as taxas de açúcar no sangue, Justin Woolverton, 39 anos, advogado e especialista em marketing digital, desenvolveu na cozinha de sua casa, em Los Angeles um sorvete de baixíssimas calorias, com quantidades reduzidas de açúcar e gordura, se comparadas às marcas tradicionais. Em apenas oito anos, os americanos levaram a Halo Top à sexta posição entre os sorvetes mais consumidos, o que equivale a 3,7% do mercado, segundo o Euromonitor, superando inclusive a Hangen Dazs e Ben&Jerry’s.

Poucas marcas superam a Patagônia em militância corporativa. Fundada na virada das décadas de 60, 70, pelo ambientalista Yvon Chouinard, hoje com 80 anos, a empresa sugere aos consumidores que evitem o consumo exagerado – mesmo o de seus produtos. Um clássico foi do Black Friday americano de 2011. Naquela tradicional sexta-feira de novembro, em que as pessoas saem de casa enlouquecidas para comprar, a Patagônia em um anúncio de página inteira no The New York Times estampou a foto de uma de suas jaquetas, acima da qual se lia: “Não compre essa jaqueta”. Em suas etiquetas a empresa costuma provocar: “Você realmente precisa disso?”.  A Patagônia se propõe a consertar roupa para que as pessoas não comprem novas. Faz a intermediação na doação e troca de peças usadas. E se o produto realmente estiver sem condições de uso, a empresa dispõe a buscá-lo e reciclá-lo.

INOVAÇÃO E RETENÇÃO DE TALENTOS

Ao abraçar uma causa, uma empresa também ganha (e muito) da porta para dentro. Na imensa maioria dos casos, funcionários se sentem bem trabalhando onde trabalham. Sentem orgulho. Em todas as organizações, não importa a indústria, sentimentos positivos como esse reduzem o turnover e atraem novos talentos.

Um fato interessante aconteceu na consultoria de software ThoughtWorks. Por meio do programa Enegrecer a Tecnologia, a empresa busca aumentar a participação de desenvolvedores negros em seu quadro de funcionários. O projeto é resultado de um trabalho intenso de conscientização dentro da ThoughtWorks. Dos 600 funcionários da empresa, em 2017, 13% se declaravam negros. No ano seguinte, 18%. Esse aumento, porém, não se deveu somente as políticas de equidade racial. ”Algumas pessoas, entram na ThoughtWorks, não se enxergam como negras”, conta Renata Gusmão, 30 anos, diretora de Justiça Social e consultora sênior da empresa. “A partir dos programas de conscientização, compartilhamento de histórias pela representatividade, elas começaram a se identificar, se reconhecer como pessoas negras, com maior compreensão da importância de sua presença nesse ambiente”.

Uma empresa onde os funcionários estão livres para ser quem são é, naturalmente uma empresa mais produtiva e inovadora. Não se trata, portanto, de assistencialismo, tampouco caridade. É incentivar as pessoas para que elas cheguem a seu potencial máximo. Nesse sentido, uma iniciativa interessante é a da fabricante de computadores Dell.

Em parceria com a Universidade Estadual do Ceará, foi criada o Le@d, centro de pesquisa e inovação dedicado a desenvolver sistemas para aumentar a empregabilidade e a produtividade de pessoas com deficiência. “Nós queremos que as pessoas prosperem por meio da tecnologia”, diz Eder Soares, 36 anos, gerente de projetos de inovação da Dell e líder do Le@d. Por enquanto, as criações do laboratório ficam na Deli, mas a ideia, no futuro, é que elas sejam oferecidas no mercado. Da sede em Fortaleza, por exemplo, já saiu um programa que permite aos surdos testar a caixa de som dos computadores. Uma outra linha de pesquisa investiu na criação de um dicionário que traduza para a linguagem dos sinais palavras do universo tech. Como se representa ”algoritmo” em libras? E “Java”? Um dos projetos que mais entusiasmam os pesquisadores atualmente é o desenvolvimento de um exoesqueleto que permita aos cadeirantes trabalhar de pé, na linha de montagem dos computadores.

Como diz Rosi Teixeira, 42 anos, consultora de desenvolvimento principal da ThoughtWorks: “Não tem como o mundo ser bacana apenas para mim. Ou a gente vive em uma sociedade bacana para todos ou estaremos fadados a violências cada vez maiores”. Que nos sirva de inspiração.

 

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

Qualificados - Tony Cooke

CAPÍTULO SETE – A COISA CERTA

“Integridade significa que se a nossa vida privada for subitamente exposta, não teremos qualquer razão para ficarmos envergonhados ou embaraçados. Integridade significa que a nossa vida pública é consistente com as nossas convicções interiores.” — Billy Graham

 

Pensamento-chave: Integridade e fidelidade são essenciais para a fundação da verdadeira liderança espiritual.

Ali estava ele, um profeta idoso e grisalho. Seu semblante refletia uma vida inteira de serviço marcado por honestidade e integridade.

Lágrimas podem ter umedecido os seus olhos enquanto refletia acerca de sua jornada ao longo de décadas e falou àqueles a quem havia servido (1 Samuel 12:2-5):

Agora, pois, eis que tendes o rei à vossa frente. Já envelheci e estou cheio de cãs, e meus filhos estão convosco; o meu procedimento esteve diante de vós desde a minha mocidade até ao dia de hoje. Eis-me aqui, testemunhai contra mim perante o SENHOR e perante o Seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei o jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? E das mãos de quem aceitei suborno para encobrir com ele os meus olhos? E vo-lo restituirei. Então, responderam: Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma das mãos de ninguém. E ele lhes disse: O SENHOR é testemunha contra vós outros, e o Seu ungido é, hoje, testemunha de que nada tendes achado nas minhas mãos. E o povo confirmou: Deus é testemunha.

Samuel tinha completado a sua carreira com as mãos e o coração limpos. Ele resistiu às tentações que todo líder enfrenta e se recusou a perder a sua integridade ou ceder à atração de explorar o povo ou abusar do seu poder.

 INTEGRIDADE E MATEMÁTICA

A palavra “integridade” está realmente relacionada a um termo matemático, “número inteiro”. Um “número inteiro” é um número que não é dividido ou que não contém uma fração. Por exemplo, 2 e 7 são “inteiros”. Já 2/3 ou 5,7 não são. Uma pessoa com integridade, portanto, é uma pessoa que não está dividida; ela é uma pessoa “inteira”. Ela não está vivendo 92% para Deus e 8% no prazer do pecado. Ela não fala a verdade 96% do tempo ou exagera e fala mentira nos outros 4%. Estou ciente de que nenhum ser humano nesta terra é impecavelmente perfeito ou incapaz ou errante, mas uma pessoa de integridade não vive uma vida dupla. Se ela erra em uma área, ela se arrepende, recebe perdão, se corrige e segue em frente. Ela não leva um estilo de vida que é parcialmente comprometida com a santidade e parcialmente não.

Ecoando o legado de integridade de Samuel, Paulo disse:

  • “Acolhei-nos em vosso coração; a ninguém tratamos com injustiça, a ninguém corrompemos, a ninguém exploramos” (2 Coríntios 7:2).
  • “… me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens” (Atos 24:16).
  •  “Vós e  Deus  sois  testemunhas  do  modo  por  que  piedosa,  justa  e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes” (1 Tessalonicenses 2:10).

 INTEGRIDADE INFLUENCIA OUTROS

Paulo ensinou que não importa quão alta ou baixa seja a nossa posição na sociedade, todo seguidor do Senhor Jesus Cristo pode ser qualificado ou desqualificado — eficaz ou ineficaz — quando se trata de ser uma boa influência para outros. Vivendo em uma sociedade na qual a escravidão era comum, Paulo instruiu os cristãos escravos a como serem uma testemunha positiva:

Quanto aos servos, que sejam, em tudo, obedientes ao seu senhor, dando-lhe motivo de satisfação; não sejam respondões, não furtem; pelo contrário, deem prova de toda a fidelidade, a fim de ornarem, em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador. — Tito 2:9-10

A partir desse versículo, concluímos que uma pessoa não precisa ter um alto status na vida ou uma posição ministerial imponente para ter uma influência positiva sobre outros. Não tem nada a ver com o nosso status ou posição; definitivamente, tem a ver com o nosso caráter e conduta.

José é um grande exemplo bíblico de um indivíduo que teve o favor de Deus em sua vida, quando ele era um escravo e um prisioneiro (e, com o tempo, o primeiro-ministro do Egito).  Ele deliberada e intencionalmente manteve a sua integridade diante de Deus, mesmo quando tentado pela esposa de Potifar. José não aproveitou a situação, mas em vez disso, agarrou-se tenazmente ao plano e a vontade de Deus para a sua vida. Ele disse: “… como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gênesis 39:9).

Daniel é outro exemplo marcante de um homem cuja vida refletia um caráter temente a Deus. Muito antes de ele ser um profeta, era um estudante com convicções santas e fortes. Depois disso, ele serviu como primeiro-ministro de dois impérios diferentes. Suas posições, contudo, não o definiam; seu caráter, sim.

Então, o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino. Então, os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa. — Daniel 6:3-4

Uma história de origem desconhecida tem circulado em livros de ilustrações para pregações, e agora ela está amplamente difundida pela Internet. Seja essa história verídica ou fictícia, o fato é que ela tem um grande impacto:

Muitos anos atrás, um pregador de fora do Estado aceitou um chamado para uma igreja em Houston, Texas.

Algumas semanas após a sua chegada, ele precisou tomar um ônibus da sua casa para o centro da cidade. Quando ele se sentou, descobriu que o motorista, acidentalmente, lhe dera 25 centavos a mais de troco.

Enquanto considerava o que fazer, pensou: Você deveria devolver os 25 centavos. Seria errado ficar com ele. Então ele pensou: são só 25 centavos! Quem iria se preocupar com esse valor? De qualquer maneira, a companhia de ônibus já arrecada muito dinheiro; jamais sentirão falta disso. Aceite isso como um presente de Deus e fique quieto.

Quando chegou ao seu ponto de descida, ele parou momentaneamente na porta e disse: “Aqui, você me deu troco a mais”.

O motorista, com um sorriso, respondeu: “Você não é o novo pregador na cidade?” “Sim”, ele replicou.

“Bem, ultimamente tenho pensado muito a respeito de ir a algum lugar para adorar. Eu só queria ver o que você iria fazer se eu lhe desse troco a mais. Eu o verei na igreja no domingo.”

Quando o pregador desceu do ônibus, ele literalmente agarrou-se ao poste mais próximo e disse: “Ó, meu Deus, eu quase vendi o Seu Filho por 25 centavos”.

Ao comentar acerca da influência de David Livingstone em sua vida, Henry M. Stanley disse: “Quando eu vi a paciência incansável e o zelo incansável daqueles filhos iluminados da África, eu me tornei um cristão ao seu lado, embora ele jamais tenha falado uma só palavra para mim”.

Revelando o poder do exemplo, Francisco de Assis supostamente disse: “Pregue o Evangelho em todo o tempo e, se for necessário, use palavras”.

Como embaixadores de Deus na terra, não somos chamados apenas para pregar uma mensagem, mas para conduzirmos vidas exemplares a fim de que, segundo Tito 2:10: “… fazer o ensino sobre Deus nosso Salvador atrativo de todas as formas”.

Seríamos tolos, todavia, em pensarmos que somos aqueles que fazemos as pessoas virem a Deus. Paulo também disse: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus” (2 Coríntios 4:5). Ele entendia totalmente que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1:16). Entretanto, as nossas vidas deveriam expressar a bondade do Evangelho para outros, e não distraí-los dele.

INTEGRIDADE ESTÁ CONECTADA À FIDELIDADE

Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade. — 1 Timóteo 1:12-13

Sabemos que o ministério de Paulo teve a sua origem no chamado e na misericórdia de Deus, mas houve uma resposta na parte de Paulo a qual foi essencial para a sua iniciação e promoção no ministério. Qual foi? Deus considerou Paulo fiel.

Fidelidade é tão importante que Paulo disse: “… é [essencialmente] exigido dos mordomos que um homem seja achado fiel [provando-se digno de confiança]” (1 Coríntios 4:2, AMP). Um mordomo é alguém que gerencia os assuntos de outro, e é exatamente isso que fazemos quando servimos a Deus. Deveríamos vigiar e executar fielmente a obra (Sua obra) que Ele nos atribuiu para fazermos.

Alguns dos sinônimos e palavras atribuídas para “fidelidade” incluem: constante, dedicado, devotado, bom, leal, firme, resistente, fidedigno, confiável, responsável, sólido, experimentado, digno, decidido, determinado, resoluto, entusiasta, fervoroso e impetuoso. Essas são todas boas palavras para descrever o que Deus deseja ver em nossas vidas, à medida que respondemos ao Seu chamado e à Sua Palavra.

Jesus descreveu a natureza essencial da fidelidade em Lucas 16:10-12:

Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso?

Existem três áreas distintas em nossas vidas onde Deus procura por fidelidade:

1. NAS PEQUENAS COISAS (“se for fiel no pouco, você será fiel no muito”). Algumas pessoas acreditam que não há problema em se tornarem fiéis apenas quando Deus lhes der uma tarefa realmente grande e importante. Com base nesse raciocínio, elas acreditam que está tudo bem dispensar um esforço mínimo ou ser pouco dedicado a uma tarefa caso ela não pareça assim tão grande ou interessante. Contudo, muito ao contrário, Jesus disse que é vital, para nós, sermos fiéis mesmo nas pequenas coisas e que a nossa fidelidade nas coisas pequenas indica que seremos fiéis nas responsabilidades maiores. Alguém disse: “Deus não tem um campo maior para o homem que não é fiel fazendo a obra onde ele está”.

2. NAS COISAS PRÁTICAS OU NATURAIS (“… se você é desonesto nas riquezas naturais, quem irá confiar a você as riquezas do céu?”).

Fidelidade se aplica muito mais do que simplesmente a coisas consideradas espirituais ou religiosas. Jesus se refere especificamente a riquezas materiais e firmemente implica que exercer boa administração no que tange a coisas naturais é um pré-requisito para que alguém seja encarregado de coisas espirituais. Se as pessoas são descuidadas e imprudentes ao lidar com o seu dinheiro, então isso é um indicativo de como elas lidariam com as riquezas espirituais.

3. NAS COISAS QUE NÃO SÃO SUAS (“… se você não é fiel com as coisas das outras pessoas, por que você seria confiável com as suas próprias coisas?”). Algumas pessoas expressam um desejo pelo seu “próprio” ministério, mas como elas têm se comportado ao ajudar outra pessoa a cumprir a tarefa que Deus lhe tem confiado? O que realmente importa não é se eu estou no comando, mas que a vontade de Deus seja realizada. Se isso significa assumir um papel de apoio, então deveríamos estar tão entusiasmados e comprometidos como estaríamos se fôssemos os líderes “principais”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CONSTRUÇÃO DAS EMOÇÕES

Há um grande corpo de estudos que sugere que emoções são construções sociais, contradizendo a visão de que são universais e pré-programadas

A construção das emoções

Apesar de não haver consenso entre os pensadores – Descartes entre eles – que refletiram sobre quantas e quais emoções são consideradas básicas, o senso comum sempre nos fez acreditar que são universais e que todos os seres humanos são pré-programados a senti-las. Rostos felizes, tristes e preocupados são facilmente identificados em qualquer cultura, o que foi comprovado em pesquisas, sendo as conduzidas por Paul Ekman na década de 1970 a mais difundida. Então a neurociência passou a investigar o assunto de forma mais objetiva, a partir de imagens do cérebro e outras informações.

Foi o que fez a neurocientista canadense Lisa Barrett durante duas décadas. Após centenas de pesquisas com neuroimagens e análises de estudos das emoções, concluiu que nossa intuição está essencialmente errada: as emoções não são necessariamente universais e a interpretação das expressões evocadas por elas pode ser considerada pouco confiável. Inúmeras investigações lideradas por Barrett mostram que uma mesma expressão facial pode representar emoções distintas e, portanto, é extremamente dependente do contexto e até mesmo da cultura para ser identificada.

Em seu livro How Emotions Are Made, ela defende que não existe um circuito neural pré-programado para processar as emoções complexas. Elas seriam construções do cérebro baseadas em predições, assim como acontece com toda a aprendizagem e interpretação do mundo.

Para que possa interpretar um estímulo, bem como um sentimento, o cérebro recorre a experiências anteriores e prediz o que está acontecendo. Trancado na caixa escura do crânio, para que possa dar sentido de forma ágil às informações que recebe e integra, ele preenche lacunas e fabrica os detalhes a partir do que já vivenciou. Qualquer novo conhecimento interfere na construção de sentido feita pelas predições. Assim, quando olhamos a face de alguém, predizemos o que está acontecendo ou o que vai acontecer, o que o outro sente ou a emoção que determinado estímulo irá provocar com base nas nossas experiências anteriores. Essas previsões são aprendidas de acordo com o ambiente e nas interações sociais.

Isso não significa que não existe uma base emocional inata comum a todos os seres humanos. Mas é preciso distinguir os fenômenos psicológicos mais complexos daqueles que são reguladores dos processos biológicos essenciais para a manutenção da vida, como conforto e desconforto, o prazer e o desprazer – motivadores da busca de oportunidades e prevenção contra ameaças que dividimos com todas criaturas com sistema nervoso.

Na visão de Barrett, esses conceitos são sentimentos simples que acompanham os processos fisiológicos e atuam como um reflexo do que está acontecendo no corpo. Mas não dizem muito sobre o que está acontecendo no mundo de fora. Tais detalhes são aprendidos socialmente para que o cérebro construa sentimentos complexos, como ansiedade, frustrações, alívio, remorso, encantamento, fascínio e até felicidade.

A ideia de que a emotividade não é um processo fixo, e sim fluido e adquirido, é também defendida pelo neurocientista português Antônio Damásio em seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas: “Ao que parece, a maquinaria dos nossos afetos é educável, até certo ponto, e boa parte daquilo a que chamamos de civilização ocorre através da educação dessa maquinaria no ambiente da nossa infância, em casa, na escola, e no ambiente cultural”.

Essas conclusões podem significar mais que uma mudança na forma como as emoções são compreendidas e explicadas. A ideia de que são construídas indica, segundo Barrett, que também podem ser desconstruídas e modificadas a partir da autoconsciência. Podemos ser o que ela chama de “arquitetos das próprias emoções” ao perceber o que nos provoca determinadas respostas emocionais negativas.

Não significa que isso seja simples, pois não temos acesso consciente às circunstâncias e situações que formaram o enorme arsenal emotivo que guia nosso comportamento. Esse ganho de controle é um exercício diário, que envolve a identificação da emoção e o reconhecimento de que é fluida, está relacionada a situações sociais inconstantes e, muitas vezes, a necessidade e fisiológicas também impermanentes.

Barrett lembra em seu livro que o corpo não pode ser esquecido quando falamos em processos mentais. Assim como envolvem o contexto social, as emoções envolvem também movimentos fisiológicos nos quais não damos atenção e que podem explicar grande parte das mudanças de humor. Fazemos isso quando cuidamos de crianças pequenas e com o tempo passamos a nos considerar “seres racionais” e a tratar corpo e mente de forma separada -uma separação que nunca acontece.

Prestar atenção em necessidades como sono, cansaço, incômodo físico, fome, alterações hormonais é uma das atitudes que nos ajudam a entender determinadas reações e a mudar as circunstâncias que promovem emoções negativas. Nomear as emoções, como veremos em uma próxima oportunidade, é outra forma de trabalhar a inteligência emocional.

Não precisamos ser reféns dessas emoções e agir sempre de acordo com elas: é possível, como já disse o filósofo Viktor Frankl, aproveitar o espaço entre estímulo e reação – um espaço que representa nossa liberdade e crescimento – para reconhecer a possibilidade de escolhas e assumir o controle sobre as ações.

 

MICHELE MULLER – é jornalista pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da Linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no Site:  www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

A RODOVIÁRIA DO FUTURO

A rodoviária do futuro

A 311 quilômetros de Amsterdã, Tilburgo é uma cidade de 200 mil habitantes. Foi o local da morte do rei Willem II (1792 -1849), que, vítima de problemas respiratórios, costumava dizer que somente lá conseguia respirar livremente e ser feliz. No século 19, a cidade era um dos principais centros têxteis da Holanda, capital da lã. Hoje, é famosa por uma animada feira. que, todos os anos, se estende por dez dias ao longo de julho. Agora, Tilburgo faz novamente história ao chegar no futuro, com sua rodoviária inteligente. Projetada pelo escritório de arquitetura cepezed, a belíssima (e minimalista) estação é composta por uma série de colunas finas e um toldo que, de tão leve, parece flutuar. À base de tecnologia fotovoltaica, a cobertura dispõe de 250 metros quadrados de painéis solares capazes de iluminar toda a rodoviária – das áreas de embarque e desembarque às placas digitais de sinalização. Sensores de movimento, colocados a cada 14 metros na borda de aço do toldo respondem à presença de pessoas e ônibus.

GESTÃO E CARREIRA

A GUERRA DAS CANCELAS

A chegada de novas concorrentes acirra a competição no mercado de pagamento automático de pedágios. E a disputa muito vai além das rodovias

A guerra das cancelas

Fundada no ano 2000, a Sem Parar foi a pioneira no mercado local de etiquetas de pagamento automático de pedágios, mais conhecidas como tags. E, assim como os carros que passaram a adotar o seu sistema, a empresa teve, durante mais de uma década, pista livre para desenvolver e expandir esse modelo pelas estradas — e, mais tarde, pelos estacionamentos do País. A primeira rival, de fato, surgiu apenas em 2013, com o lançamento da ConectCar, criada pela Ipiranga em parceria com a Odebrecht Transport. Quatro anos depois, foi a vez da MoveMais, com foco no segmento corporativo. No ano passado, a Veloe, da Alelo, engrossou essa lista. Agora, a Sem Parar começa a enxergar no retrovisor a chegada de novas concorrentes, em um cenário que promete redesenhar a competição no setor. Ao mesmo tempo, essa disputa tem tudo para alcançar outras cancelas além daquelas nas rodovias brasileiras.

O nome mais recente a ingressar nesse mercado é o C6 Bank. O banco digital recebeu sinal verde do Banco Central para operar em janeiro. Ainda em fase de estruturação, a empresa acaba de lançar o C6 Taggy, serviço de pedágio automático. Depois de uma etapa de testes com seus próprios funcionários, as tags estão sendo distribuídas
a sua base de clientes e já são aceitas em 61 concessionárias. Na contramão das rivais, não haverá cobrança de taxas de adesão e nem de mensalidade. O valor de cada transação será debitado diretamente da conta do correntista. “É como se fosse um cartão de débito do carro”, diz Maxnaun Gutierrez, líder de produtos e pessoa física do C6 Bank. Com a previsão de chegar também aos estacionamentos até o fim do ano, o C6 Taggy vai integrar um pacote de ofertas que inclui cartões múltiplos isentos de anuidade e transferências ilimitadas e gratuitas, entre outros recursos.

As novidades não se restringem ao C6 Bank. Outras empresas estão prontas para colocar seus pés — e etiquetas — nessa estrada. “Temos mais dois bancos e quatro meios de pagamento em fase de integração, além de negociações com mais de trinta empresas”, afirma João Cumerlato, CEO e cofundador da Greenpass. O empreendedor criou a startup no fim de 2017, ao lado de Carlo Andrey. Dois anos antes, a dupla havia deixado a ConectCar, serviço que ambos ajudaram a estruturar e cuja fatia de 50%, da Odebrecht, acabara de ser vendida ao Itaú Unibanco, por R$ 170 milhões. O acordo foi seguido pela movimentação de outras cifras no setor. Em 2016, a americana Fleetcor pagou R$ 4 bilhões para assumir o controle da Sem Parar.

Na sequência, o lançamento da Veloe concentrou um aporte de R$ 110 milhões, que contou com a participação do Bradesco e do Banco do Brasil, acionistas da Alelo. “Começamos a perceber que esse mercado ficaria restrito a uma briga de cachorros grandes”, diz Cumerlat. A Greenpass entrou nessa briga ao criar uma plataforma “bandeira branca” para que bancos e empresas de qualquer porte possam atuar no mercado de pagamentos automáticos de pedágios e estacionamentos. A startup responde pela tecnologia e a operação junto às concessionárias. Frentes como marketing e vendas ficam sob a alçada de seus clientes, como é o caso do C6 Bank, o primeiro projeto desenvolvido pela novata. “Nossa plano é permitir que essas tags custem muito pouco para o usuário na ponta”, afirma.

O preço ainda é uma das barreiras para que esse mercado ganhe mais escala. Em 2018, o segmento de pedágios movimentou R$ 19 bilhões, com 1,75 bilhão de transações. A participação das tags, no entanto, vem apresentando uma tendência de estagnação nos últimos anos, com um patamar que gira em torno de 47% do total de pagamentos. De uma frota de 48 milhões de carros no País, estima-se que cerca de 6 milhões possuam esses sistemas automáticos. “Esses são os ‘heavy users’, para quem faz todo sentido pagar uma mensalidade de R$ 25. Queremos ganhar escala ao tornar o acesso a esses serviços mais democrático”, explica Cumerlato. A meta da empresa é chegar, via parceiros, a uma base de 2 milhões de usuários no prazo de dois anos

DESCONTOS 

O fator preço e a competição mais acirrada já estão influenciando as estratégias das empresas que atuam há mais tempo nesse mercado. A ConectCar, por exemplo, está oferecendo a adesão com a isenção de cobrança de mensalidades nos primeiros três meses, além de um desconto de 20% durante toda a vigência do plano contratado. Quem também está recorrendo a esses expedientes é a Veloe, cuja oferta exclui a cobrança de mensalidade por um período de 12 meses. “É uma forma de mudar a visão de parte dos usuários”, diz Cesario Nakamura, CEO da Alelo. “Hoje, o pagamento via tags é uma comodidade disponível não apenas nos pedágios, mas também nos centros urbanos.” Presente em 64 rodovias e mais de 200 estacionamentos, a operação já concentrou um investimento de R$ 160 milhões desde o seu lançamento, em maio de 2018. Até 2020, a previsão é chegar a um aporte total de R$ 310 milhões e a uma base de 1,5 milhão de usuários.

Para alcançar esse número, a Veloe trabalha em duas pontas: usuários finais e mercado corporativo. Nessa frente, as sinergias com outras ofertas da Alelo, como as plataformas de gestão de frotas, são a aposta para ganhar terreno. A utilização dos canais de relacionamento de Bradesco e Banco do Brasil (os dois acionistas da operação) para a oferta do serviço aos correntistas são mais um componente. E a empresa vem criando parcerias. No início do mês, fechou acordo com a Zul Digital, responsável por um aplicativo de Zona Azul disponível em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza. Em junho, a companhia já havia se associado com a Unidas para que a frota de mais de 140 mil veículos da locadora seja equipada com suas tags. O mesmo caminho foi adotado recentemente pela ConectCar e pela Sem Parar, que firmaram parcerias com a Localiza e a Movida, respectivamente.

Responsável por desbravar o segmento, a Sem Parar não está de braços cruzados com a perspectiva de aumento da concorrência. Embora não revele o valor consolidado dos investimentos para este ano, a empresa informa que está ampliando em 30% o volume dos aportes na comparação com 2018. “Internamente, esse cenário aumenta nosso senso de urgência para acelerar as inovações. Temos de estar sempre três passos à frente”, afirma Fernando Yunes, CEO da companhia, que responde por cerca de 20% da operação global da Fleetcor, grupo que faturou US$ 2,4 bilhões em 2018. “De uma operação de pedágios eletrônicos, estamos nos transformando em uma empresa que elimina filas e paradas na vida das pessoas.”

DRIVE THRU DO MCDONALD’S 

Hoje, os pedágios representam apenas 12% de utilização na rede da companhia, que possui 5,5 milhões de usuários ativos. Os 88% restantes estão divididos em diversos segmentos. Nos estacionamentos, que incluem shoppings, aeroportos, hospitais, condomínios e mesmo de rua, já são 1,2 mil pontos, além de 650 postos de combustíveis. Os lava rápidos, uma aposta recente, somam 20 estabelecimentos e o plano nesse segmento é chegar a 150 nos próximos meses. No fim de 2018, a empresa também fechou um acordo com o McDonald’s. Mais de 300 drive thrus da marca já contam com a opção de pagamento via tag da Sem Parar. A empresa negocia ainda com outras duas redes de fast food que planejam seguir a mesma trilha.

Toda essa movimentação não significa, no entanto, que a empresa deixou os pedágios em segundo plano. Nessa área, a Sem Parar acaba de desenvolver uma tecnologia intermediária para ser aplicada em cabines manuais. No lugar de tags, a solução será baseada nos celulares dos usuários e permitirá a abertura das cancelas com a desaceleração do carro ou da moto. A previsão é de que dois pilotos comecem a ser testados neste semestre. “Nosso primeiro passo foi concentrar a atuação ao redor do carro”, diz Yunes. “A próxima etapa é levar isso ao entorno do indivíduo. Sempre que houver fila e pagamentos, estaremos presentes.”

A guerra das cancelas. 2

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QUALIFICADOS

Qualificados - Tony Cooke

CAPÍTULO CINCO – O PERIGO DA DESQUALIFICAÇÃO

 Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra. — 2 Timóteo 2:21

Pensamento-chave: Paulo não estava apenas cauteloso quanto a liderar e influenciar outros, mas ele também via a grande necessidade de assegurar que ele mesmo permanecesse no caminho. Se você está jogando para ganhar, você tem que jogar pelas regras.

 

O apóstolo Paulo entendia que a jornada de liderança espiritual é desafiadora e que grande diligência é exigida para terminar bem.

Comparando a jornada cristã a uma corrida, ele disse:

Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. — 1 Coríntios 9:24-27

Em minha experiência cristã inicial, achei a declaração de Paulo alarmante: “… tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”. O que significaria tornar-se “desqualificado”? Quando eu comecei a ler a Bíblia, esse versículo me parecia ainda mais inquietante, ao perceber que Paulo expressava um desejo de não terminar como um “inútil”. Mais tarde, como um estudante de escola bíblica e como um jovem pastor ambicioso, ouvi advertências moderadas de ministros que terminaram no provérbio “monturo espiritual” devido à flagrante desobediência e persistente infidelidade. Lamentavelmente, eu tenho visto alguns terminarem dessa maneira.

Entretanto, nessa declaração, Paulo não está falando de filiação; ele está falando de ministério eficaz e duradouro, o qual é executado sem implosões autoinfligidas. Ele está se referindo a ser um atleta espiritual que está exercendo grande esforço, não para a glória pessoal, mas para o avanço do Reino. Paulo usa terminologias esportivas para introduzir a ideia da possível desqualificação. Ele fala do rigor atlético e da disciplina necessária para ser competente no ministério.

Observe que Paulo não estava apenas preocupado em “pregar a outros”. Ele era diligente em disciplinar o seu próprio corpo e reduzi-lo “à escravidão”. Paulo reconhecia que antes que ele pudesse liderar outros, primeiramente ele teria que liderar a si mesmo. Antes que ele pudesse efetivamente influenciar outros, primeiramente, ele teria que influenciar a si mesmo para permanecer “no curso”. É terrivelmente infeliz quando ministros buscam exceder em seu desempenho público, mas se deterioram em seu caráter e integridade. Patsy Cameneti uma vez disse: “No processo de se tornarem grandes pregadores, alguns se tornam cristãos repugnantes”.

A coisa mais fácil que você irá fazer no ministério é permanecer atrás de um púlpito e dizer aos outros como eles supostamente devem viver e o que eles supostamente devem fazer. O nosso desafio não é apenas ser um proclamador da Palavra, mas um praticante da Palavra. “Praticar” confere grande autenticidade para o nosso ensino.

George Whitefield, certa vez, foi indagado se certo indivíduo era um bom homem. Ele sabiamente respondeu: “Como eu poderia saber disso? Nunca vivi com ele”. Deus não julga a nossa espiritualidade e temor a Ele com base em como pregamos ou em como nos comportamos quando pessoas que queremos impressionar estão observando. Não é que a maneira como nos comportamos em público ou na igreja não seja importante, mas acredito que o teste definitivo para a nossa espiritualidade é como nos comportamos em casa com o nosso cônjuge e nossos filhos, e como nos comportamos quando ninguém está observando.

No primeiro capítulo, falamos sobre a seleção de Davi, quando ele foi escolhido para ser o novo rei de Israel. Esse trecho da Bíblia também fala da rejeição de Saul como o rei “autodesqualificado” de Israel.

Então, disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o SENHOR, teu Deus, te ordenou; pois teria, agora, o SENHOR confirmado o teu reino sobre Israel para sempre. Já agora não subsistirá o teu reino. O SENHOR buscou para si um homem que lhe agrada e já lhe ordenou que seja príncipe sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te ordenou. — 1 Samuel 13:13-14

Mais tarde, em 1 Samuel 15:23, Samuel disse a Saul: “Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, Ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei”.

O nome hebraico do apóstolo Paulo também era Saulo e ele era da mesma tribo (Benjamim) que o rei Saul, do Antigo Testamento. Ele recebeu esse nome em homenagem ao seu rei desobediente, o qual desqualificara a si mesmo para a liderança do Reino. Paulo estava determinado a não seguir nas mesmas pisadas de desobediência e desqualificação do seu homônimo. Em vez disso, ele resolveu completar a sua carreira com alegria (Atos 20:24).

Considerando que Paulo resolveu usar um evento esportivo (atletismo) para ilustrar a sua ideia, talvez possamos extrair mais revelação ao explorar esse tópico também. No atletismo, um corredor que “queima a largada” ou sai da sua faixa, pode ser desqualificado naquele evento. Entretanto, isso não significa que ele será banido do atletismo para sempre. Para essa corrida em particular, sim, todavia, ele terá que sair do caminho e deixar os outros corredores seguirem sem ele.

Diego Mesa é um amigo meu que pastoreia uma igreja no sul da Califórnia. Ele costumava correr maratonas e participar de triatlo. No início dos anos 80, ele se sentiu ótimo ao terminar em terceiro lugar em um evento muito competitivo. Ele foi bem na corrida, no ciclismo e na natação, portanto, ele alegremente recebeu o seu prêmio de 250 dólares (isso era muito dinheiro para ele na ocasião). Entretanto, em vez disso, ele recebeu um cheque de 175 dólares e foi informado de que ele negligenciara o uso do capacete durante a parte de ciclismo do evento. Como resultado, 75 dólares foram deduzidos da sua premiação. Imagino quantos crentes, e até mesmo pregadores, estarão diante do Senhor, pensando que fizeram coisas maravilhosas para Ele, apenas para descobrir que o seu prêmio foi afetado por motivos, atitudes e métodos errados.

Paulo avisou a Timóteo, um jovem pastor: “… o atleta não é coroado se não lutar segundo as normas” (2 Timóteo 2:5). Ao querer evitar o legalismo, muitos têm minimizado a ideia de “normas”, entretanto, existem diretrizes definidas e princípios envolvidos ao executar um serviço ministerial frutífero e eficaz. Semelhantemente, ignorar ou violar tais ensinamentos e preceitos pode diminuir consideravelmente a produtividade de alguém e, finalmente, afetar o seu prêmio.

Jesus falou abertamente acerca da influência espiritual de uma pessoa ser diminuída ou destruída completamente: “Permitam-me dizer por que vocês estão aqui. Vocês estão aqui para ser o sal que traz o sabor divino à terra. Se perderem a capacidade de salgar, como as pessoas poderão sentir o tempero da vida dedicada a Deus? Vocês não terão mais utilidade e acabarão no lixo” (Mateus 5:13, A Mensagem).

Foi na mesma veia de pensamento que Paulo expressou o cuidado de que, se ele não conduzisse sua vida de modo temente a Deus, ele poderia perder a sua utilidade e se tornar desqualificado. Ao falar para um grupo de crentes, Paulo disse: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. Mas espero reconheçais que não somos reprovados” (2 Coríntios 13:5-6).

De maneira a desqualificar-se, parece-me que uma pessoa teria que se tornar qualificada em primeiro lugar. Ao falar do seu próprio ministério, Paulo disse: “Deus nos testou duramente para que houvesse certeza de que estávamos qualificados para receber a Mensagem” (1 Tessalonicenses 2:3, A Mensagem).

O QUE FAREMOS, ENTÃO?

O nosso dever é buscar, de todo o coração, aquelas características que nos qualificam para o serviço eficaz e erradicam da nossa vida aqueles traços que nos desqualificariam. A analogia e a admoestação de Paulo em 2 Timóteo reforçam isso inteiramente:

Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra. — 2 Timóteo 2:20-21