Destaque

POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

post

Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

Anúncios

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A RELEVÂNCIA DA RESSURREIÇÃO

A mais fantástica de todas as afirmações cristãs é que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Ela desafia o limite de nossa credulidade. Os seres humanos têm tentado, com a maior criatividade, desafiar como também negar a morte. Mas só Cristo declarou tê-la dominado: ele a derrotou ao vivê-la ele mesmo, destituindo-a do seu poder sobre outros. “Eu sou a ressurreição e a vida”, declarou Jesus. “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente.” E mais adiante: “Eu sou… aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves (isto é, tenho autoridade sobre) da morte e do inferno.”

Além do mais, os primeiros cristãos já gozavam dessa confiança. Prova disso foi a coragem e disposição – e com júbilo, até – para morrer por Cristo, como também a pregação dos apóstolos nos tempos da igreja primitiva. Logo depois do Pentecoste, conta-nos Lucas, as autorida­des judaicas em Jerusalém estavam “ressentidas por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressur­reição dentre os mortos”. A essência dos seus sermões segue o mesmo padrão: “…vós o matastes… Deus o ressus­citou… nós somos testemunhas”. E Paulo não se desviou disto, de forma que os filósofos de Atenas, ao ouvi-lo em praça pública, concluíram que ele estaria defendendo duas divindades estrangeiras, pois o ouviam referir-se repetidas vezes a Iesous e a Anastasis (ressurreição). E, posterior­mente, ao transmitir aos coríntios um esboço do evangelho original que ele mesmo havia recebido, ele se concentrou “antes de tudo” na morte, sepultamento, ressurreição e aparições de Jesus. Estes primeiros seguidores de Jesus pareciam ter, ao mesmo tempo, clareza e confiança quanto à sua ressurreição.

A declaração de que Jesus ressuscitou (ou foi ressus­citado) dos mortos gera três grandes questionamentos. Primeiro, o que significa a ressurreição (uma questão de semântica)? Segundo, ela aconteceu de fato (uma questão de história)? Terceiro, ela tem importância (uma questão de relevância)?

O que significa a ressurreição?

A questão semântica foi imposta ao raciocínio público na Inglaterra na década de 80, através de certas provocações feitas por David Jenkins, da Igreja Anglicana. Suas decla­rações foram interpretadas, pelo menos na imprensa popular, como uma negação deveras chocante da ressur­reição de Jesus Cristo.

Mas precisamos ser justos com o Dr. Jenkins. Ele mesmo se descreve como um bispo “crente” e não um bispo “du­vidoso”. Insiste em dizer que respondeu “sem hesitação”, “afirmativamente” e “em plena boa fé” às questões que lhe foram impostas ao ser consagrado. É verdade que, em seu livro anterior, ele afirmou claramente as doutrinas da pessoa divina-humana de Jesus e da Trindade. Assim, em suas conferências intituladas A Glória do Homem, pro­feridas em Bampton, em 1966, ele escreveu: “Deus e o homem são realidades distintas, as quais, em e como Jesus Cristo, estão em perfeita união”. E na Universidade de Birmingham, em suas “Conferências Edward Cadbury”, que ele intitulou A Contradição do Cristianismo e nas quais explorou o que significa ser humano, ele se referiu à Trin­dade como sendo “a interpretação legítima e necessária da história experimentada e percebida de Deus, Jesus e o Espírito”.

Dr. Jenkins declara também que crê na ressurreição de Jesus Cristo. No início de novembro de 1984, ele declarou o seguinte: “Eu creio na ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos… Qualquer um que diga que eu não creio na ressurreição… é um mentiroso. Isto eu posso afirmar ardente e categoricamente.” Contudo, não é pelo simples uso de uma linguagem vigorosa e mesmo exagerada que ele vai con­seguir convencer as pessoas. Pois ainda nos resta a questão semântica: o que significa a ressurreição? Em que sentido ele acredita na ressurreição?

Durante a cerimônia religiosa em que foi consagrado bispo, na catedral de York, perguntaram-lhe: “Você aceita a doutrina da fé trinitária tal como a recebeu a Igreja da Inglaterra? Estas últimas oito palavras representam um importante pré-requisito. Elas implicam uma distinção entre duas maneiras possíveis de se “aceitar” a doutrina cristã. Uma delas poderia ser chamada de “tradicional”, isto é, a aceitação da doutrina da mesma maneira como a própria Igreja Anglicana a tem recebido e entendido a partir das Escrituras e dos Credos. A outra poderia ser chamada de “idiossincrática”, ou seja, a aceitação da doutrina na forma como a pessoa que está sendo indivi­dualmente questionada sente-se capaz de recebê-la, o que pode estar muito longe do ensinamento bíblico e da com­preensão tradicional. O “sim” do Dr. Jenkins deve ter sido neste último sentido, já que ele não acredita que a ressur­reição envolveu a transformação do corpo de Cristo, que é o que a Igreja da Inglaterra sempre acreditou e ensinou. De fato, em 1989, ele zombou dessa visão ao descrevê-la como “um passe de mágica feito com ossos”; e na Páscoa de 1989 ele declarou que o Senhor ressurreto não era “nem um cadáver, nem um fantasma”, como se nós estivéssemos confinados a esta alternativa.

Como é que se pode esclarecer a questão semântica? O que quer dizer o Credo com a ressurreição de Jesus Cristo? Como deveríamos imaginar o Senhor ressurreto? Talvez, se nós esclarecermos em que não cremos, antes de afir­mamos em que cremos, isso nos ajude um pouco.

Primeiro, o Senhor ressurreto não é apenas uma influên­cia que sobreviveu. Por um lado, ‘hão podemos pensar nele simplesmente como alguém que sobreviveu à morte, como se fosse um fantasma. “Vede as minhas mãos e os meus pés”, disse ele, “que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” Por outro lado, “ressurreição” não sig­nifica a mera sobrevivência de uma influência. Muitos líderes que durante a vida inteira exerceram influência sobre a mente e o coração dos seus contemporâneos con­tinuam vivendo após a morte, no sentido de que a memória do seu exemplo continua sendo uma inspiração.

E este certamente o caso de Che Guevara. Ele teve um número extraordinário de seguidores. Sartre descreveu-o, certa vez, como “o homem mais completo do seu tempo”. Em seus trinta e nove anos (antes de ser morto na floresta) ele foi médico, escritor, economista, banqueiro, teórico político e guerrilheiro. Durante a sua vida, transformou-se numa lenda, um herói popular. Em toda sala de aula cubana as crianças cantarolavam: “Nós seremos como Che”. E, após a morte, sua influência tornou-se ainda maior. Ele proporcionou aos marxistas a imagem de um santo e mártir popular. Durante anos os muros dos prédios estudantis da América Latina permaneceram pichados com as palavras “Che está vivo!”

O mesmo se passou com Macário de Chipre, quando ele morreu, em 1977. Seus seguidores picharam prédios públicos com as palavras “Macário está vivo!”

Será somente isso o que os cristãos querem dizer ao declararem que “Jesus vive”? Alguns parecem não estar dizendo muito mais do que isso, ou seja, que ele exerce seu poder e espalha seu amor pelo mundo. Outros reivindicam para Jesus uma espécie de existência pessoal e constante, de forma que “ele anda comigo e fala comigo pelas sendas estreitas da vida”. Mas a grande declaração do Novo Tes­tamento não é que “ele vive”, mas que “ele ressuscitou”. A ressurreição só passou a ser uma experiência para nós porque ela foi, acima de tudo, um evento que realmente inaugurou uma nova ordem de realidade.

Em segundo lugar, o Senhor ressurreto não é um cadáver ressuscitado. Ressurreição significa muito mais do que fazer alguém voltar à vida. “Ressuscitar” tanto pode sig­nificar fazer reviver um paciente que entrou em coma, como trazer novamente à vida alguém que havia sido declarado clinicamente morto. Neste segundo sentido, temos o re­gistro de três ressuscitações feitas por Jesus durante o seu ministério público. Ele “ressuscitou dos mortos” (i.e., restaurou a vida) a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro. Cada um deles estava morto e foi trazido de volta à vida por Jesus. Dá para entender a simpatia que C. S. Lewis expressou por Lázaro: “Ser trazido de volta à vida e ter que passar pela morte de novo foi um bocado duro.”

Mas a ressurreição do próprio Jesus não foi uma res­suscitação, em nenhum dos dois sentidos. Por um lado, ele não foi acordado de um desmaio ou de um coma, pois já estava morto havia umas trinta e seis horas. Por outro lado, ele não foi trazido de volta a esta vida, sendo-lhe necessário morrer novamente. Mas o que geralmente se pensa é que é assim que os cristãos imaginam a “ressur­reição”: que o corpo é miraculosamente reconstituído a partir das mesmas partículas das quais se compõe atual­mente e que depois ele volta a esta vida mortal e vulnerável. Mas Jesus, pelo contrário, foi elevado a um novo nível de existência, em que ele já não era mais mortal, mas estava “vivo pelos séculos dos séculos”.

Nestas duas primeiras negativas nós concordamos com o Dr. Jenkins. A ressurreição não foi “um passe de mágica feito com ossos” e o Senhor ressurreto não é “nem um cadáver, nem um fantasma”. O trágico é que, ao utilizar esta linguagem um tanto sensacional, o bispo deu a im­pressão de que os cristãos tradicionais estão comprome­tidos com uma destas duas alternativas. Mas, independen­temente do que pensem os outros, a fé da igreja nunca se resumiu em considerar o Senhor ressurreto, nem uma mera influência etérea e fantasmagórica, nem um cadáver ressuscitado.

Em terceiro lugar, o Senhor ressurreto não é uma religião resgatada na experiência dos discípulos. Foi esta a inter­pretação “desmitologizada” de Rudolf Bultmann. Ele começou declarando que “é óbvio” que a ressurreição de Jesus não foi “um evento da história passada”. Por que isto era tão óbvio para ele? Porque “um fato histórico que envolve uma ressurreição dos mortos é absolutamente inconcebível”. Mas, se a igreja, esse tempo todo, parece ter tido muito pouca dificuldade em conceber aquilo que Bultmann declarou inconcebível, qual era o seu problema? O problema reside na “incredibilidade de um evento mítico como a ressuscitação de um cadáver — pois é isto que significa ressurreição”. O que é verdadeiramente inacreditável, no entanto, não é a ressurreição de Jesus, mas, sim, o equívoco de Bultmann, ao confundi-la com uma ressuscitação. E então, como é que ele interpretou o “mito” da ressurreição de Jesus? Da seguinte forma: “Se o evento do Dia da Páscoa é, de alguma forma, um evento histórico acrescentado ao evento da cruz, ele não passa do crescimento da fé no Senhor ressuscitado… Tudo que a crítica histórica pode estabelecer é o fato de que os pri­meiros discípulos vieram a crer na ressurreição.” Em outras palavras, a Páscoa não foi um evento, mas uma experiência; não foi a ressurreição histórica e objetiva de Jesus dentre os mortos, mas sim um resgate pessoal e subjetivo da fé nos corações e mentes dos seus seguido­res.”

Em quarto lugar, o Senhor ressurreto não é apenas uma personalidade desenvolvida. Mas parece que é isso que David Jenkins acredita. Em 1969 ele escreveu: “A ressur­reição significa que Deus agiu de forma a estabelecer Jesus em sua pessoa, em seus feitos e em sua constante reper­cussão.” Em uma declaração posterior, ele afirma sua convicção de que Jesus “ressuscitou dentre os mortos”, e passa a explicar isto afirmando que “a própria vida, poder, propósito e personalidade que havia nele foram, na verdade, contínuos… na esfera da história, de tal maneira a fazer dele uma presença e uma possibilidade viva e ressurreta”. Em algum outro lugar, ele alude à ressur­reição como uma “explosão” da personalidade de Jesus. De fato, ele se refere constantemente à “personalidade” de Jesus e considera a ressurreição como o “estabelecimen­to”, “liberação” ou “explosão” dessa sua personalidade. Nesse caso, a ressurreição seria uma espécie de evento, mesmo não tendo envolvido o seu corpo. Jenkins acredita no fato de Jesus “ter ressuscitado” e “estar vivo”, só que no presente a sua personalidade não está encarnada (a não ser na igreja).

Em quinto lugar, o Senhor ressurreto não é meramente uma experiência ativa do Espírito. Quem sabe, a análise mais abrangente sobre o tema da ressurreição nos últimos anos seja A Estrutura da Crença na Ressurreição {The Structure of Resurrection Belief), de Peter Carnley. Assim como Jenkins, ele salienta que nós deveríamos ver a res­surreição como uma experiência presente e não um evento passado, e especialmente como uma experiência do Espí­rito. Em seu capítulo de abertura ele deixa clara sua postura de descrédito. Ele diz que em lugar nenhum Paulo faz alusão ao túmulo vazio, nem mesmo em 1 Coríntios 15:3-8, e que as assim chamadas “aparições” não foram objetivas. Ele argumenta que ophthe (“ele apareceu”), mais que uma percepção através da visão (uma aparição visível), significa a recepção de uma nova revelação (uma apreensão intelectual), ou no máximo uma mistura das duas coisas, com ênfase na segunda.

Seguem-se três longos capítulos nos quais Carnley ar­gumenta que na verdade não existiu nenhum evento pós-morte; o verdadeiro acontecimento da Páscoa foi o fato de os discípulos terem chegado à fé. Por isso mesmo, nos capítulos 5 em diante ele já não se refere à “ressurreição” (um evento), mas, sim, ao “Cristo ressurreto” (uma expe­riência). Afinal, a fé pascal “implica uma experiência pós-morte de encontro com o Cristo ressurreto”, que é conhe­cido como o Espírito. E nós chegamos a reconhecer o verdadeiro Espírito de Jesus pelo fato de que ele continua a manifestar hoje na comunhão cristã o mesmo amor autodoador que expressou na cruz. Entretanto, por mais engenhosa que seja essa tentativa de reconstituição, ela não parece conferir com os dados do Novo Testamento, como pretendo demonstrar mais adiante.

Em sexto lugar, e em contraste com as cinco propostas anteriores, o Senhor ressurreto é uma pessoa transforma­da. A prova apresentada nos Evangelhos é que, tanto antes como depois da ressurreição, Jesus é a mesma pessoa, com a mesma identidade (“Sou eu mesmo”), só que a ressur­reição lhe deu um corpo glorificado, transfigurado e trans­formado. A ressurreição foi um ato dramático de Deus, através do qual ele interferiu no processo natural de corrupção e decomposição (“não permitirás que o teu Santo veja corrupção”), resgatou Jesus do reino da morte e transformou seu corpo em um novo veículo para sua per­sonalidade, dotando-o de novos poderes e conferindo-lhe imortalidade.

“Eu creio na ressurreição”, disse Jenkins, “exatamente no mesmo sentido em que São Paulo cria na ressurrei­ção.” Mas como ele pode dizer isto, se não acredita em uma ressurreição corporal? É por causa de 1 Coríntios 15. Este importante capítulo divide-se em duas partes, uma relativa ao fato (versículos 1 a 34) e a outra à natureza (versículos 35 a 38) da ressurreição. Na primeira parte as aparições de Jesus ressurreto parecem ser físicas; mas a segunda parte diz que “semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (versículo 44). Portanto, como é que podemos conciliar as duas metades de 1 Coríntios 15? Alguns estudiosos valem-se da expressão “corpo espiri­tual” para insistir que as aparições de Jesus ressurreto citadas nos versículos 5 a 8 devem ser entendidas à luz disso.

De acordo com o Novo Testamento como um todo, porém, o processo de assimilação deveria ser exatamente o oposto, ou seja, a natureza do “corpo espiritual” deveria ser in­terpretada de tal forma a não contradizer os indícios de que o Jesus ressuscitado teve um corpo físico. Tais evi­dências podem ser encontradas não apenas nas narrativas evangélicas do túmulo vazio (que os estudiosos liberais tendem a descartar, por serem, segundo eles, demasiado recentes para serem confiáveis), mas também nos primei­ros sermões de Pedro e nos versículos iniciais de 1 Coríntios 15. Eu vou me concentrar neste último. Na declaração de Paulo acerca do evangelho, que ele tanto diz ser o evangelho original, que ele mesmo “recebeu” (versículo 3), como o evangelho universal, no qual ele e todos os outros criam (versículo 11), ele faz quatro afirmações, a saber, que “Cristo morreu…, que ele foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia, e que ele apareceu…”. Dois aspectos da ressurreição tornam-se muito claros a partir disso.

Primeiro, foi um evento histórico e objetivo. Na verdade, foi até um evento “datável”: aconteceu “no terceiro dia”.

Para David Jenkins, trata-se, “não de um evento, mas de uma série de experiências”. Mas ela só se tornou uma série de experiências porque antes foi um evento. E, na provi­dência de Deus, as palavras “no terceiro dia” dão teste­munho da historicidade da ressurreição de Jesus, assim como as palavras “sob o poder de Pôncio Pilatos” no Credo dos Apóstolos atestam a historicidade do seu sofrimento e morte.

Segundo, a ressurreição foi um evento físico: ela envol­veu o corpo de Jesus. Agora o argumento é que os quatro verbos (morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu) têm, todos eles, o mesmo sujeito: “Cristo”, uma pessoa física, histórica. No caso dos dois primeiros verbos, isto não deixa dúvida alguma. Foi o seu corpo que morreu e seu corpo é que foi sepultado. A pressuposição natural, portanto, é que o mesmo Cristo físico e histórico é o sujeito do terceiro e do quarto verbos, ou seja, ele ressuscitou e depois apa­receu. Seria necessário um alto nível de ginástica mental para se afirmar que o sujeito muda, sem mais nem menos, no meio da sentença, e que, embora o seu corpo tenha morrido e sido sepultado, só a sua personalidade tenha ressuscitado e sido vista, e que de fato ele ressuscitou, mas continuou enterrado. De jeito nenhum. Se o seu corpo é que foi sepultado, deve ter sido seu corpo que ressuscitou. Isto provavelmente explica a menção de seu sepultamento em alguns dos primeiros sermões apostólicos. É intei­ramente gratuito, à luz disso tudo, sustentar que o apóstolo Paulo ignorou o túmulo vazio.

E verdade que o corpo morto e sepultado de Jesus, ao “ressuscitar”, modificou-se neste processo. O que estamos vendo não é uma ressuscitação (em que ele foi ressuscitado em corpo, mas não transformado), nem uma vida além-túmulo (em que ele se transformou em espírito, mas de maneira alguma ressuscitou em corpo), mas, sim, uma ressurreição (em que ele ressuscitou e se transformou, simultaneamente).

A ressurreição aconteceu mesmo?

Digamos que os apóstolos, inclusive Paulo, acreditavam mesmo em uma ressurreição e transformação física, datável e literal de Jesus. Será que eles estavam certos? Será que nós, que vivemos no mundo moderno e sofisticado da astrofísica, da microbiologia e da ciência da computação, também podemos acreditar na ressurreição? E claro que podemos. E devemos. Milhões de pessoas o fazem.

Muitos livros já foram escritos na tentativa de dar provas da ressurreição. Esta é uma parte importante da apologética cristã. Tudo que eu posso fazer aqui é tentar resumir com franqueza as principais provas.

Primeiro, temos o desaparecimento do corpo. Todo mundo concorda que o túmulo de José estava vazio, até mesmo aqueles que refutam as histórias dos autores do Evangelho; os rumores da ressurreição nunca poderiam ter ganho credibilidade se as pessoas, ao visitarem o túmulo, tives­sem encontrado ali o corpo imóvel. Mas o corpo sumiu. A questão sempre foi: “O que foi feito dele?” Nunca houve uma explicação satisfatória para o seu desaparecimento, a não ser a ressurreição.

Nós não podemos admitir que Jesus só desmaiou na cruz, e depois reviveu no túmulo e saiu de lá sozinho. Primeiro, porque, tanto o centurião como Pilatos tomaram o cuidado de se certificar de que Jesus estava de fato morto. E depois porque, quando ele reapareceu, a impressão que as pessoas tiveram ao vê-lo foi a de que ele havia vencido a morte, e não que quase fora derrotado por ela e que era agora um homem seriamente doente, precisando de tratamento hospitalar.

Portanto, será que as autoridades (fossem elas romanas ou judaicas) removeram deliberadamente o corpo, a fim de evitar que os discípulos espalhassem a notícia de que ele havia ressuscitado? Isto é difícil de acreditar, uma vez que, quando os apóstolos começaram a anunciar “Jesus e a ressurreição”, as autoridades poderiam ter abafado ime­diatamente o novo movimento apresentando o corpo; mas, ao invés disso, elas apelaram para a violência.

Neste caso, teriam os discípulos furtado o corpo como parte de um embuste, a fim de enganar o povo, fazendo-o pensar que ele havia ressuscitado? Esta teoria é impos­sível, pois eles estavam preparados para sofrer e morrer pelo evangelho, e ninguém se dispõe a virar mártir por uma mentira inventada por si mesmo.

Nenhuma explicação para o túmulo vazio subsiste, a não ser a que diz que Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Em segundo lugar, temos o reaparecimento do Senhor. O corpo de Jesus desapareceu do túmulo onde tinha sido deixado, e o próprio Jesus continuou reaparecendo durante um período de quase seis semanas. Dizem que ele apareceu para certas pessoas sozinhas (por exemplo, Maria Madalena, Pedro e Tiago), para os Doze, tanto com Tomé como sem ele, e em certa ocasião “foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez”, muitos dos quais ainda eram vivos quando Paulo escreveu isto, mais ou menos no ano 54 d.C., e bem poderiam ter sido sondados a este respeito.

Essas aparições de Jesus ressurreto não podem ser descartadas como mera invenção, já que não resta dúvida alguma de que os apóstolos realmente acreditaram que Jesus havia ressuscitado. As histórias não haviam sido inventadas. Mas também não eram alucinações. Pesca­dores durões como Pedro, Tiago e João não fazem bem o tipo de personalidade suscetível a tais sintomas de desordem mental. Além do mais, a grande variedade de tempo, lugares e pessoas relacionadas com as aparições, juntamente com a reação inicial de descrença do povo, tornam insustentável a teoria da exploração da ingenui­dade popular. A única alternativa para invenções e alu­cinações é   a existência de aparições válidas e objetivas.

Em terceiro lugar, vem o surgimento da igreja. Alguma coisa deve ter acontecido para transformar os apóstolos e enviá-los em sua missão pelo mundo afora. Quando Jesus morreu, eles ficaram abatidos, confusos e amedrontados. Mas em menos de dois meses saíram do esconderijo, cheios de gozo, confiança e coragem. O que produziu essa trans­formação tão dramática? Só pode ter sido a ressurreição, juntamente com o Pentecoste, que se seguiu logo depois. Daquele bando de joões-ninguém desiludidos nasceu uma comunidade universal que soma hoje um terço da população do mundo. Seria preciso muita credulidade e muito cinismo até para acreditar que todo o edifício cristão tenha sido construído sobre uma mentira, uma vez que Jesus Cristo nunca ressuscitou dos mortos.

O desaparecimento do corpo, o reaparecimento do Se­nhor e o surgimento da igreja constituem, juntos, um sólido fundamento para se acreditar na ressurreição.

Qual a importância da ressurreição?

O que nós precisamos indagar sobre a ressurreição não é apenas se ela aconteceu, mas se realmente importa se ela aconteceu ou não. Afinal de contas, se ela aconteceu, foi há cerca de 2000 anos! Como é que um evento tão antigo pode ter tanta importância para nós hoje? Por que cargas d’água os cristãos fazem tanto barulho a seu respeito? Ela não seria irrelevante? Não, não é. Meu argumento agora é que a ressurreição é uma resposta à nossa condição humana. Ela fala às nossas necessidades, como nenhum outro evento distante jamais o fez ou poderia. Ela é o mastro principal da nossa segurança cristã.

Primeiro, a ressurreição de Jesus nos garante o perdão de Deus. Já vimos que o perdão é uma das nossas necessidades mais básicas e uma das melhores dádivas de Deus. Conta-se que o chefe de um grande hospital psiquiátrico da Inglaterra disse: “Eu poderia dispensar metade dos meus pacientes amanhã mesmo, caso eles pudessem ter certeza do perdão.” Afinal, todos nós temos um ou dois esqueletos escondidos em algum armário escuro, memórias de coisas que temos pensado, dito ou feito e das quais, nos nossos melhores momentos, nos sentimos profundamente enver­gonhados. Nossa consciência nos incomoda, condena, ator­menta.

Diversas vezes durante o seu ministério público Jesus pronunciou palavras de perdão e de paz e, no cenáculo, ele se referiu ao cálice da comunhão como sendo “o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados”. Dessa maneira ele estabeleceu uma relação entre o nosso perdão e a sua morte. E como, através das Escrituras, a morte sempre está ligada ao pecado, como a sua merecida recompensa (“o salário do pecado é a morte”), ele só poderia estar dizendo que iria morrer em nosso lugar a morte que nós merecíamos morrer, a fim de que nós fôssemos poupados e perdoados.

Isso é o que ele disse. Mas como podemos saber se ele estava certo, se com sua morte ele conquistou o que disse que iria conquistar e se Deus aceitou sua morte em nosso lugar como “um pleno, perfeito e suficiente sacrifício, oblação e satis­fação para os pecados do mundo inteiro”? A resposta é que, se ele tivesse permanecido morto, se não tivesse ressusci­tado de entre os mortos, pública e visivelmente, nós nunca ficaríamos sabendo. Pelo contrário: sem a ressurreição, teríamos que concluir que sua morte foi um fracasso. O apóstolo Paulo viu claramente esta lógica: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé.” E, novamente, “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo, pereceram.” As consequências terríveis da não-ressurreição seriam que os apóstolos são falsas testemunhas, os crentes não estão perdoados e os cristãos mortos pereceram. Mas de fato, continua Paulo, Cristo ressuscitou dos mortos; e, ao ressuscitá-lo, Deus nos garantiu que aprova sua morte expiatória, que ele não morreu em vão e que aqueles que confiam nele recebem perdão livre e pleno. A ressurreição dá validade à cruz.

Segundo, a ressurreição de Jesus nos garante o poder de Deus. Nós tanto necessitamos do poder de Deus no presente quanto do seu perdão do passado. Será que Deus pode realmente mudar a natureza humana, que parece tão intratável, transformando pessoas cruéis em pessoas bon­dosas, egoístas em altruístas, dando domínio próprio a pessoas imorais e tornando doces pessoas amargas? Será que ele pode pegar pessoas que são cegas para a realidade espiritual e torná-las vivas em Cristo? Sim, ele realmente pode! Ele é capaz de dar vida a quem está espiritualmente morto. Ele pode transformar-nos, tornando-nos semelhan­tes a Cristo.

Mas estas afirmações são muito sérias. Será que elas podem ser comprovadas? Podem, sim, mas só em virtude da ressurreição. Paulo ora para que os olhos do nosso coração sejam iluminados, para que possamos saber “qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos”. E, para que compreendamos a medida do seu poder, Deus nos dá não apenas uma iluminação interior pelo seu Espírito, mas também uma demonstração exterior, pública e objetiva desse poder através da ressurreição. Afinal de contas, o poder que hoje está à nossa disposição é o próprio poder que “exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos…”. Assim, a ressurreição é retratada como a prova suprema na história do poder criativo de Deus.

Nós estamos sempre correndo o risco de baratear o evan­gelho, de minimizar o que Deus é capaz de fazer por nós e em nós. Nós falamos em tornar-se um cristão como se isto não passasse de virar uma folha na vida, fazendo alguns ajustes superficiais em nossos padrões de comportamento comuns e tornando-nos um pouquinho mais religiosos. Mas é só arranhar o verniz, quebrar a superfície, e pronto! Por baixo nós continuamos a ser o mesmíssimo pagão de sempre, sem nada de redenção nem mudança. Nada disso! Tornar-se um cristão e ser um cristão, de acordo com o Novo Testamento, é algo muito mais radical do que isso. E um ato decisivo de Deus. É nada menos do que uma ressurreição da morte da alienação e do egocentrismo e o começo de uma vida nova e deliberada. Em outros termos: o mesmo Deus do poder sobrenatural que ressuscitou a Jesus da morte física pode ressuscitar-nos da morte espiritual. E nós sa­bemos que ele pode nos ressuscitar porque sabemos que ele o ressuscitou.

Em terceiro lugar, a ressurreição de Jesus nos garante a vitória definitiva de Deus. Uma das maiores diferenças entre as religiões e as ideologias do mundo é quanto a sua visão do futuro. Algumas delas não oferecem esperança alguma; pelo contrário, sucumbem em desespero existen­cial. Bertrand Russell, quando ainda nos seus trinta anos, expressou sua convicção de que nenhum fogo, nenhum heroísmo, nenhuma intensidade de pensamento e sentimento pode preservar uma vida depois da sepultura; pois todos os lidares dos tempos, toda devoção, todo o brilho ofuscante do gênio humano, são destinados à extinção na vasta morte do sistema solar, e o templo inteiro dos feitos do homem há de ser inevitavelmente sepultado sob os escombros de um universo em ruínas.

Outros veem a história mais em termos circulares do que lineares, como um ciclo interminável de reencarnações, para o qual não há libertação a não ser a não-existência do nirvana. Os marxistas continuam prometendo uma Utopia na terra, mas essa visão perdeu a credibilidade. Os humanistas seculares sonham assumir o controle de sua própria evolução, mas, pelo menos no que depende da manipulação genética, este sonho acaba virando um pesa­delo.

Os cristãos, por sua vez, são confiantes no futuro, e nossa “esperança” cristã (que é uma expectativa segura) tanto e individual como cósmica. Individualmente, a não ser através de Cristo, o medo da morte e da desintegração pessoal é quase universal. Para nós do Ocidente, Woody Allen tipifica este terror, que para ele acabou virando uma obsessão. É verdade que ele ainda consegue fazer pouco caso disso. “Não é que eu tenha medo de morrer”, satiriza ele; “eu só não quero estar por perto quando isso acontecer.” Mas em geral ele vive apavorado. Num artigo publicado em Esquire, em 1977, ele disse: “A coisa fundamental que se esconde por detrás de toda motivação e de toda atividade é a constante luta contra a aniquilação e a morte. Ela é absolutamente assustadora em seu terror e deixa sem sentido as realizações de qualquer um.”

Jesus Cristo, porém, liberta os seus discípulos desse horror. Ele não só há de sobreviver à morte, mas também ressuscitou dela. Nós haveremos de receber nossos corpos novos, tal como o seu corpo ressuscitado, com poderes novos e inimaginados. Afinal, ele é chamado “as primícias” da colheita e também “o primogénito de entre os mor­tos”.  Ambas as metáforas dão a mesma garantia. Ele foi o primeiro a ressuscitar, e depois virá todo o seu povo. Nós teremos um corpo como o seu. “Assim como somos seme­lhantes ao homem feito da terra (Adão), assim também seremos semelhantes ao Homem do céu (Cristo).”

Mas a nossa esperança para o futuro também é cósmica. Nós cremos que Jesus Cristo irá voltar em espetacular magnificência, a fim de conduzir a história à sua plenitude na eternidade. Além de ressuscitar os mortos, ele irá regenerar o universo; e fará novas todas as coisas. Nós temos convicção de que toda a criação será libertada dessa presente sujeição à corrupção e à morte; que os gemidos da natureza são as dores de parto que prometem o nas­cimento de um mundo novo; e que haverá um novo céu e uma nova terra, onde habita justiça.

Portanto, a esperança viva do Novo Testamento é uma expectativa visivelmente “material”, tanto para o indi­víduo como para o cosmos. Individualmente, o crente tem a promessa, não de uma mera sobrevivência ou mesmo imortalidade, mas de um corpo ressuscitado e transforma­do. E o destino do cosmos não é um “céu” etéreo, mas um universo recriado.

Mas será que existe alguma prova dessa maravilhosa declaração, de que tanto nós quanto nosso mundo seremos totalmente transformados? Sim, a ressurreição de Cristo é o fundamento de todas as nossas esperanças. Ela é a prova pública, sólida, visível e tangível do propósito de Deus de completar aquilo que começou, de redimir a natureza, de dar-nos novos corpos em um mundo novo. Como disse Pedro, Deus “nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mor­tos”. A ressurreição de Cristo foi o começo da nova criação de Deus. Não basta acreditar que a personalidade, a pre­sença e o poder de Jesus persistem. Precisamos saber que seu corpo ressuscitou, pois o corpo ressurreto de Jesus foi a primeira partícula da ordem material a ser redimida e transfigurada. Ela é o penhor divino de que um dia o resto há de ser redimido e transfigurado.

A ressurreição de Jesus nos dá, pois, a garantia do perdão, do poder e do triunfo definitivo de Deus. Ela nos possibilita encarar o nosso passado (por mais motivos que tenhamos para nos envergonhar dele), confiantes do perdão de Deus através daquele que morreu por nossos pecados e foi res­suscitado; encarar o nosso presente (por mais fortes que sejam as nossas tentações, e mais pesadas as nossas res­ponsabilidades), confiantes na suficiência do poder de Deus; e encarar o nosso futuro (por mais incerto que seja) con­fiantes na vitória definitiva de Deus, cuja garantia é a ressurreição. A ressurreição, justamente por ter sido um ato decisivo, público e visível de Deus, dentro da ordem material, dá-nos a absoluta garantia de um mundo que, de outra forma, seria completamente inseguro.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A agitação dos sentimentos

A AGITAÇÃO DOS SENTIMENTOS

 É comum que, em suas obras, autores apresentem personagens e até mesmo sociedades fictícias em que as emoções foram banidas em nome dos benefícios   da racionalização e da ordem. No cinema, por exemplo, o garotinho-androide David, interpretado por Haley Joel Osment, de A.I. – Inteligência Artificial, o robô­ mordomo Andrew, vivido por Robin Williams em O homem Bicentenário, e os replicantes de Blade Runner têm na “humanização” seu trunfo e perdição os sentimentos representam uma espécie de infração que os Jaz cultivar desejos e enfrentar a dor do sentir. Já Dr. Spock, do clássico seriado Jornada nas estrelas, parece conviver bem com o excesso de lógica, muito raramente contaminado por uma nesga de afetividade. Talvez, no caso do tripulante da Enterprise, a maior rebeldia não seja exatamente dele, mas esteja na história do encontro de seus pais, um vulcano e uma terráquea que, a despeito do abismo entre ambos, os dois têm um filho juntos. Nos episódios, com frequência ele se espanta com as reações emocionais humanas e se pergunta o que de fato significam.

E certamente ele não é o único. Definida pelo Dicionário Houaiss da língua portuguesa como “agitação de sentimentos”, na vida real a emoção tem sido estudada por filósofos, psicólogos e neurocientistas. Falar delas, entretanto, não é fácil. Como escreveu Fernando Pessoa, em Caracterização individual dos heterônimos, “toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois não se dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente”. Mas é esse desafio que tomam para si os autores dos artigos sobre o tema no especial deste mês.

Vale ressaltar que não há emoções “boas” ou “más” em essência, embora seja comum o uso do termo “positivo” para designar sentimentos prazerosos como alegria e bom humor e “negativo” para raiva, tristeza ou nojo. O certo é que o efeito que causam em nós depende fundamentalmente da forma como lidamos com o que sentimos. E, quaisquer que sejam as formas como as denominamos, o que seria de nós, humanos, sem as emoções? Não falo nem de sua importância para a sobrevivência da espécie. Mas de algo até bem mais superficial. A final, que graça teria a vida sem o frio na barriga do susto, sem a explosão de alegria que sentimos ao receber aquele tão almejado “sim”, sem a possibilidade de nos comovermos com a dor de quem amamos ou de nos emocionarmos com as desventuras da protagonista no escuro do cinema? Por vetes, podemos até considerar que, talvez, não nos emocionarmos nos pouparia de muitos contratempos. Mas certamente a vida seria bem menos interessante…

GESTÃO E CARREIRA

homem-de-negocios

NEGÓCIO FECHADO

Aprenda a aperfeiçoar sua habilidade de negociação e consiga melhores resultados mesmo durante a crise econômica.

No ano passado, empregados e empreendedores tiveram de se virar para fazer boas entregas. Com a crise e menos recursos disponíveis, essa tarefa não foi fácil. Foi preciso desenvolver, na prática, a habilidade de negociação – para definir prioridades com a chefia, convencer a equipe a trabalhar com prazos menores e persuadir parceiros da necessidade de reduzir preços.

Melhorar essa habilidade é possível.

Mas, antes de tudo, é preciso entender que uma boa negociação não se limita a ganhar ou perder. Negociar bem consiste, na verdade, em chegar a um acordo que seja interessante para as duas partes – o famoso ganha-ganha, uma teoria defendida por um dos nomes mais representativos das táticas de negociação nas empresas, o antropólogo americano William Ury. Autor de Como chegar mais com você mesmo, fundador do programa de negociação da Escola de Direito de Harvard e responsável por intermediaçôes difíceis- como a saída de Abílio Diniz da presidência do Grupo Pão de Açúcar -, ele defende que negociar é desenvolver qualquer comunicação Interpessoal de mão dupla, na tentativa de chegar a um acordo”. Isso é importante não por bondade, mas porque um pacto que não satisfaça às duas partes não se sustenta.

“Atender aos dois lados não significa que devo ter a mesma coisa que você, e sim que teremos nossos interesses atendidos”, diz Simone Simon, autora do livro Faça Ser Fácil, e professora na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Limites e necessidades

Claro que há negociações e negociações. Uma pechincha com o feirante é um acordo pontual em que um dos lados vai ganhar. Mas, no mundo corporativo, é importante buscar uma relação que beneficie a todos, em maior ou menor grau. “Em uma crise, as pessoas tendem a defender apenas sua parte, mas temos de sair do paradigma de querer ganhar a qualquer custo, diz Eliana Outra, master coach do International Coach Federation, do Rio de Janeiro.

Antes de iniciar a negociação, estabeleça quais são seus limites para ver até onde é possível fazer concessões e ter a noção exata sobre sua margem de manobra, o que ajuda a criar uma argumentação mais convincente. Além disso, fique atento aos limites do parceiro para notar até onde dá para pressionar. “Negociadores amadores começam pelo objeto da negociação; negociadores profissionais começam pelo relacionamento”, diz Simone.

E lembre-se de que uma proposta recusada não significa, necessariamente, o término da negociação. A questão não é que o outro lado não queira fazer negócio, mas sim, que aquela pessoa tem outras necessidades. Para entender as prioridades de seu interlocutor, procure desenvolver laços de credibilidade. Segundo uma pesquisa feita por Simone com 664 alunos do curso de MBA da FGV (com cargos que vão de coordenação a presidência), 67% dos entrevistados acreditam que os acordos foram melhores quando feitos com pessoas em quem confiavam. “Com uma confiança desenvolvida, você consegue encarar a negativa de maneira racional e tenta construir uma resposta positiva” diz Simone.

Foi por entender as necessidades do outro lado que Rogério Oliveira, de 41anos, diretor comercial da Frooty, fabricante de produtos à base de açaí, de São Paulo, conseguiu pensar em boas soluções para melhorar a visibilidadedos produtos nos principais pontos de venda. “A rentabilidade é o mais importante para os varejistas, então notei que tinha de criar um plano para mostrar a eles os ganhos que teriam se abrissem mais fileiras para nossa marca”, diz Rogério. Seguindo essa lógica, ele ainda conseguiu convencer os clientes da necessidade de reajustar o preço dos produtos por causa da diminuição da produção de açaí no país. “Por mais que o mercado mostre que a inflação existe e que

ninguém está subindo o preço para ter lucro, mas para não sofrer prejuízo, o comprador poderia não aceitar o reajuste “, afirma Rogério. Com essas estratégias, a empresa conseguiu crescer 32% no ultimo ano.

Atenção aos sinais

O que o executivo fez foi uma boa leitura do ambiente em que estava inserido. Essa habilidade é mais um pilar para negociações bem sucedidas. “Se você apresenta a ideia e o outro tem uma expressão facial diferente, já dá para perceber se poderá continuar naquela linha ou não “, diz Tatiane Nascimento, especialista em desenvolvimento, de São Paulo. Para isso, vale ser curioso, fazer perguntas específicas e ouvir as necessidades alheias – desde que essa escuta seja atenta. “Ouça mais do que fale”, diz Gabriel Almeida, gerente da Talentos, consultoria de recrutamento, de São Paulo. Essa estratégia aumenta o grau de empatia porque ajuda a encontrar os pontos que você e seu interlocutor teem em comum. Ter essa postura em momentos de crise, quando todos estamos pressionados e receosos em perder, é essencial. Caso contrário, a negociação pode travar porque você enxerga o outro como oponente, e não como parceiro.

É preciso, ainda, ter controle emocional. Não vale entrar em uma negociação acreditando totalmente que o resultado será positivo ou negativo, o que pode embaçar seu raciocínio. E, se acontecer algum descontrole, pense sobre o que o levou a perder as estribeiras. “Anote como se sentiu para entender o porquê e, assim, impeder que aquilo ocorra de novo”, diz Gabriel. Outro erro a ser evitado é levar o resultado de um acordo para o lado pessoal. “Não há o que negociar se não há um impasse, por isso é preciso saber separar as pessoas do problema”, diz Simone.

Uma situação em que é importante unir empatia e inteligência emocional é durante uma demissão – principalmente quando você é o mensageiro da má notícia. Ricardo Blandy, de 34 anos, vice-presidente da Nexsteppe, empresa que comercializa sementes de sorgo, de Campinas, passou por isso ao ter de cortar 35% da equipe no ano passado. “Eu me coloquei no lugar dos funcionários, porque foi muito difícil demitir por causa da crise”, diz. “Traçamos uma estratégia para não deixar as pessoas na mão, com auxílio para recolocação e manutenção de beneficios, como plano de saude.” Assim, embora a situação tenha sido difícil, o executivo conseguiu manter o controle e a serenidade. “Esses profissionais fizeram muito pela empresa”, afirma. Ricardo ainda teve de negociar o valor do aluguel do escritório da companhia. “Expliquei a situação e passamos para um contrato mais barato, diz. Com esses acordos, a companhia prevê um aumento de 20% a 50%nas vendas em 2017, e novas contratações. Uma prova de que, negociando, é Possível passar bem pela crise.

 

AS VANTAGENS DE NEGOCIAR

Mais espaços: os profissionais que negociam são bem vistos pelos empregadores como capazes de solucionar situaçõesdifíceis e ganham mais atenção do mercado.

Todos saem ganhando: Quando você escuta o outro lado e promove um crescimento colaborativo, tem a chance de conseguir resultados superiors ao esperado.

Parcerias de longo prazo: Estar aberto a ouvir e interpretar os sinais alheios aumenta a simpatia dos outros em relação a você e cria parcerias duradouras.

Diminui as despesas:  Ao renegociar o aluguel e os custos com fornecedores, os gastos da empresa podem diminuir consideravelmente – algo essencial na crise.

Raciocínio mais rápido: Pensar em soluções para transformer o não” em “sim” amplia sua capacidade de raciocínio e sua flexibilidade.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

CRISTO E SUA CRUZ

O evangelho é boa nova de libertação. Foi este o tema do último capítulo. Mas isto, por si mesmo, é uma ênfase unilateral, pois o que o evangelho anuncia, de acordo com o Novo Testamento, não é só o que Cristo oferece às pessoas hoje, mas o que ele fez um dia para possibilitar essa oferta. O evangelho dos apóstolos con­cilia o passado com o presente, o “outrora” com o agora, o evento histórico com a experiência contemporânea. Ele declara não somente que Jesus salva, mas também que, para fazê-lo, ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou da morte. Se se proclamar o poder salvador, omitindo os eventos salvíficos, especialmente a cruz, então o que se pregou não foi o evangelho.

Neste capítulo iremos refletir sobre uma das maiores declarações de Paulo acerca da origem, conteúdo e poder do evangelho, e particularmente acerca da centralidade da cruz de Cristo.

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de lin­guagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demons­tração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus.

Neste texto, essencialmente trinitário, destacam-se três grandes lições acerca da evangelização. Elas têm a ver com a Palavra de Deus, a cruz de Cristo e o poder do Espírito.

A Palavra de Deus

O evangelho é a verdade proveniente de Deus. Segundo Paulo, o que ele proclamou aos coríntios não foi “osten­tação de linguagem”, ou seja, sabedoria humana ou a sabedoria do mundo, mas a palavra de Deus ou a sabedoria de Deus, que aqui ele chama de “testemunho” (martyrion) ou “mistério” (mysterion). As palavras gregas são simi­lares e a evidência do manuscrito entre elas é perfeitamente equilibrada. Além do mais, ambas ocorrem dentro dos dois primeiros capítulos desta carta: martyrion pode ter relação com 1.6, enquanto que mysterion pode estar relacionada com 2.7. Qualquer que seja a leitura correta, o sentido é o mesmo, isto é, que a mensagem de Paulo veio de Deus. Se a palavra correta é “testemunho”, então significa “a verdade confirmada de Deus”; se o certo é “mistério”, então é “a verdade secreta de Deus” (BLH). Em todo caso, o evangelho do apóstolo é a verdade de Deus.

É aqui que deve começar toda evangelização de verdade. Nós não inventamos nossa mensagem. Não abordamos as pessoas com nossas próprias especulações humanas. Somos, isto sim, portadores da Palavra de Deus, encarregados do evangelho de Deus, mordomos dos segredos revelados de Deus.

Além disso, o que Paulo transmitia era compatível com sua mensagem. Ele não foi até os coríntios com “ostentação de linguagem” nem com “sabedoria” (versículo 1). Quanto ao conteúdo, ele abriu mão da orgulhosa sabedoria huma­na, submetendo-se humildemente, ao invés disso, à palavra de Deus acerca de Cristo (versículo 2). Quanto à mensagem, ele abriu mão da orgulhosa retórica humana para basear-se humildemente no poder do Espírito Santo (versículos 3 a 5). Como diz C. H. Hodge em seu comentário, ele não veio “nem como retórico nem como filósofo”.

Por favor, não me interpretem mal. Não existe aqui nenhuma tentativa de justificar um evangelho sem con­teúdo, nem tampouco um estilo sem forma. O que Paulo está abdicando aqui não é uma substância doutrinária, nem um argumento racional, mas somente a sabedoria e a retórica do mundo. Nós sabemos disso porque Lucas nos conta em Atos 18, como foi o ministério evangelístico do apóstolo em Corinto. Primeiro ele “discorria na sinagoga” todo sábado, “persuadindo tanto judeus como gregos” (versículo 4). Daí ele passou dezoito meses “ensinando entre eles a palavra de Deus” (versículo 11). Por isso ele pôde levar adiante o seu ministério de ensino em Corinto tentando “persuadir” as pessoas. Ele não somente ensi­nava a verdade às pessoas, mas também convencia-as da verdade.

Portanto, quando convidamos as pessoas a aceitarem a Cristo, não temos nenhum direito de fechar, endurecer ou anular a mente delas. De maneira nenhuma. Deus as criou como seres racionais e espera que usem o seu raciocínio. Para dizer a verdade, elas nunca haverão de crer, a não ser que o Espírito as ilumine. Sem isso, todo argumento será infrutífero. “Mas”, escreve Gresham Machen, “só porque o argumento é insuficiente, isto não significa que ele seja desnecessário. O que o Espírito Santo faz no novo nascimento não é tornar cristã uma pessoa, independente das evidências, mas, sim, dissipar a neblina dos seus olhos e capacitá-la a atentar para essas evidências.”

Assim, o evangelho é a verdade que vem de Deus e foi confiada a nós. Nossa responsabilidade é apresentá-la da forma mais clara, coerente e convincente possível e, assim como os apóstolos, argumentá-la com a maior persuasão possível. E em todo o tempo, ao fazê-lo, estaremos con­fiando que o Santo Espírito da verdade haverá de dissipar a  ignorância das pessoas,  superar seus preconceitos  e convencê-las acerca de Cristo.

A cruz de Cristo

Chegamos agora ao versículo 2: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” Tem gente que lê isto de forma errada, como se Paulo tivesse escrito “senão Jesus Cristo crucificado”; a conclusão é, então, que o seu único tema era a cruz. Mas o que Paulo escreveu mesmo (e que é coerente com a descrição de Lucas em Atos acerca de sua obra evangelística) foi que ele decidiu nada saber “senão Jesus Cristo” (sua mensagem centra­lizava-se neste) “e (especialmente, embora não exclusiva­mente) este crucificado”. E o que dizer, então, sobre a ressurreição de Cristo? Esta com certeza tinha um lugar de grande importância na pregação dos apóstolos. Mas eles a entendiam e proclamavam, não como um evento isolado e independente, mas em relação com a cruz. Afinal de contas, a ressurreição não foi apenas uma sequela da morte de Jesus; ela foi a reversão da opinião humana a respeito dele e a vindicação pública do propósito divino na sua morte.

Agora dá para ver que Paulo, antes de chegar a Corinto, tomou a decisão de concentrar sua pregação em Cristo, e especialmente na cruz. Eu “decidi” (ERAB), escreveu ele, “me propus” (ERC), “resolvi” (BLH) fazê-lo. É esta decisão que precisamos analisar: por que ele precisou tomá-la?

A interpretação popular da situação é bem conhecida. Paulo chegou a Corinto vindo de Atenas. Seu sermão para os filósofos atenienses (diz a teoria) tinha sido um fiasco. Além de ter sido muito intelectual, Paulo não havia pregado o evangelho. Em vez de concentrar-se na cruz, tinha enfocado a criação. O resultado é que não houve nenhuma conversão. Assim, em seu caminho para Corinto, Paulo arrependeu-se do evangelho distorcido que havia pregado em Atenas e resolveu que, em Corinto, limitaria sua mensagem à cruz.

Eu confesso que a primeira vez que ouvi essa teoria, há muitos anos, ela me desceu goela abaixo com isca, anzol e tudo. Mas depois eu tive que rejeitá-la, pois vi que ela não resiste a uma análise mais profunda. Primeiro, porque a missão de Paulo em Atenas não foi um fracasso. Pelo contrário, “houve alguns homens que se agregaram a ele, e creram; entre eles estavam Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dámaris e com eles outros mais”. Segundo, Lucas, em sua narrativa de Atos, não dá qualquer indício de que ele acha que o sermão de Paulo foi um equívoco; pelo contrário, ele o registra como um modelo da pregação dos apóstolos para os intelectuais gentios. Terceiro, é quase certo que Paulo pregou, sim, a cruz em Atenas, já que ele proclamou “Jesus e a ressurreição”, e não se pode pregar a ressurreição sem a morte que a precedeu. A verdade é que, por causa do seu público, composto de gentios, Paulo aproveitou a situação e começou com a idolatria e a criação, ao invés da Escritura veterotesta­mentária. Mas ele não parou ali. O sermão que Lucas registra deve ter durado apenas uns dois minutos; portan­to, Paulo deve ter elaborado consideravelmente esse esbo­ço. Quarto, Paulo não mudou realmente sua tática em Corinto. Assim como em Atenas, também em Corinto Lucas o descreve ainda argumentando, ensinando e persuadindo. Mas, então, qual foi a decisão de Paulo? Por trás de toda resolução existe alguma indecisão anterior, uma situação em que varias opiniões se apresentam e nós somos obri­gados a escolher, optar por uma delas em detrimento das outras. É evidente, pois, que por detrás da decisão de Paulo de pregar somente a Cristo, e especialmente a cruz, jazia uma alternativa, ou mesmo uma tentação, ou de pregar a Cristo sem a cruz, ou de deixar definitivamente de anunciar a Cristo, pregando, ao invés disso, a sabedoria do mundo. Mas, então, por que isto teria sido uma tentação para Paulo enquanto ele viajava de Atenas para Corinto? Com toda certeza não foi por causa do seu suposto fracasso em Atenas, mas, sim, pelo temor da recepção que o aguardava em Corinto. Mas quem eram esses coríntios, para que Paulo estivesse tão intimidado e tão apreensivo ao abordá-los (“em fraqueza, temor e grande tremor”, v. 3), e em relação aos quais ele deve ter achado necessário tomar uma firme resolução?

Ao indagarmos e respondermos estas questões, iremos desvendar também as principais objeções que se fazem hoje à mensagem de Cristo e sua cruz. Ou melhor, veremos por que nós mesmos precisamos tomar essa decisão hoje.

(a) A objeção intelectual, ou a loucura da cruz. Paulo já havia se deparado com desprezo intelectual em Atenas. Os filósofos o haviam insultado, chamando-o de spermologos, ou “apanhador de grãos”. Esta palavra era aplicada literalmente a aves de rapina, e, por extensão, aos vagabundos que se alimentavam de restos de comida encontrados nas sarjetas. Metaforicamente, referia-se a mestres que se alimentavam apenas de ideias copiadas dos outros. Os atenienses veneravam a originalidade e des­prezavam tudo que fosse retrógrado e obsoleto.

Os filósofos escarneceram quando foi mencionada a res­surreição. Eles “zombaram dele” (BLH). Eu acho que isto significa que eles caíram na gargalhada. Como é que eles reagiram quando Paulo pregou sobre a cruz, isso Lucas não diz. Mas Paulo viu que ela era “escândalo para os judeus, loucura para os gentios”. Para o judeu incrédulo era inconcebível que o Messias devesse morrer “em ma­deiro”, ou seja, sob a maldição de Deus. Para o gentio incrédulo era ridículo imaginar que um deus, um dos imortais, morresse. Celso, o cínico do século II d.C, criticou os cristãos com o maior sarcasmo por causa disso. Con­forme Orígenes, ele achava que “ao adorarmos aquele que [como ele diz] foi feito prisioneiro e levado à morte, nós estamos agindo como” os outros, que na verdade adoravam os mortos.

Corinto não havia escapado à arrogância intelectual de Atenas. Estas cidades distavam apenas cinquenta milhas uma da outra. A primeira Epístola de Paulo aos Coríntios evidencia muito claramente que o orgulho intelectual era um dos principais pecados da igreja em Corinto. Foi este o contexto em que Paulo tomou sua decisão de abrir mão da sabedoria do mundo em favor da “loucura da cruz”. O que o aguardava era zombaria e escárnio. Mas ele sabia que “a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens”. Ainda hoje a mensagem da cruz é profun­damente desprezada. A doutrina bíblica evangélica da ex­piação de Jesus (que diz ter Cristo padecido em nosso lugar, como nosso substituto, a morte que merecíamos morrer) é rejeitada e até ridicularizada. É considerada “primitiva”, “retórica”, “injusta”, “imoral” e “bárbara”. A. J. Ayer chamou as doutrinas relacionadas ao pecado e à expiação de “intelectualmente desprezíveis e moralmente ultrajan­tes”. E um teólogo liberal contemporâneo descreveu aspectos da minha própria apresentação em A Cruz de Cristo como sendo “indefensáveis”, “ininteligíveis”, “não só inexplicáveis mas também incompreensíveis” e, portan­to, “incomunicáveis”. Como é que devemos responder a essa bateria de epítetos negativos? Não negamos que certas formulações evangélicas têm sido desequilibradas e não-bíblicas. Sempre que relegamos Jesus Cristo ao papel de uma terceira pessoa, que interveio para nos resgatar de um Deus irado, fazemos dele uma caricatura ridícula e sujeita a condenação, já que Deus é quem amou o mundo e foi Deus quem tomou a iniciativa de enviar seu Filho para morrer por nós. Só que a iniciativa que ele tomou levou Cristo a ser “feito pecado” e “feito maldição” por nós, e tal linguagem geralmente produz uma hostilidade extre­mamente emocional. Daí a tentação de retocar o evangelho do Cristo crucificado, de eliminar seus aspectos que causam mais objeções e de tentar adaptá-lo ao gosto dos sensíveis paladares modernos. Não é de admirar que o apóstolo pareça quase violento ao expressar sua decisão de “saber somente a Jesus Cristo”, e especialmente a sua cruz. Ele teve de optar entre fidelidade e popularidade.

(b) A objeção religiosa, ou a exclusividade do evangelho.

Se Paulo achou Atenas “cheia de ídolos” é pouco provável que ele tenha achado os coríntios menos idólatras. Sabe-se que a cidade de Corinto tinha pelo menos duas dúzias de templos, cada um dedicado a uma divindade diferente. Ainda hoje existem remanescentes do antigo templo de Apolo, sete pilares maciços erguidos entre as ruínas de Corinto. E, por detrás da cidade, uns 2000 pés acima, ergue-se a rochosa Acrocorinto, onde existiu um dia o templo de Afrodite. Portanto, os coríntios, tal como os atenienses, eram “acentuadamente religiosos”. Eles adoravam muitos deuses, que toleravam uns aos outros em amigável co­existência.

Os coríntios não teriam criado tanta objeção caso os evangelistas cristãos se tivessem contentado em acrescen­tar Jesus ao seu já tão rico panteão. Só que o apóstolo Paulo, ao visitar a cidade, tinha em vista um objetivo muito diferente. Ele queria que Corinto, com todos os seus ha­bitantes e todos os seus deuses, se curvasse e adorasse Jesus. Ele chegou ali com a firme intenção de nada saber “senão Jesus Cristo, e este crucificado”. Ele sabia muito bem, como lhes escreveu mais tarde, que havia “muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores'” que disputavam a lealdade dos coríntios. Mas, para ele, havia “um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também por ele”; portanto, não estava disposto a se comprometer. Na opinião dele, a sua visita teria estabe­lecido um compromisso de casamento entre eles e Cristo; portanto, sentia por eles um zelo santo. “Eu vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo”, escreveu ele. “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo.” Afinal de contas, Jesus Cristo não iria dividir sua glória com Apolo ou Afrodite, ou qualquer outro que fosse.

A situação religiosa do mundo não mudou muito desde aqueles dias. E verdade que os velhos deuses da Grécia e de Roma já foram desacreditados e descartados há muito tempo. Mas em lugar deles surgiram novos deuses, assim como ressurgiram outras crenças antigas. Um dos resul­tados dos meios modernos de comunicação e da facilidade de viajar é que muitos países vêm se tornando cada vez mais pluralistas. O que as pessoas querem é um sincretismo fácil, uma trégua para a competição interreligiosa, uma mistura do que há de melhor em todas as religiões. Mas nós, cristãos, não podemos abrir mão, nem da supremacia, nem da unicidade de Jesus Cristo. Simplesmente não existe ninguém que seja igual a ele; sua encarnação, sua redenção e ressurreição não têm paralelos. Portanto, ele é o Media­dor — aliás, o único — entre Deus e a raça humana. Esta afirmação da exclusividade de Jesus tem produzido ressen­timentos amargos e profundos. Muitos a consideram “in­toleravelmente intolerante”. Mas, por amor à verdade, nós temos que mantê-la, por mais ofensa que possa causar. Este tópico eu volto a considerar no capítulo 18.

(c) A objeção pessoal, ou a humilhação do orgulho hu­mano. Todas as religiões, com exceção do cristianismo, têm em comum a arrogante idéia (expressa de diferentes ma­neiras) de que nós somos capazes, se não de conquistar a nossa salvação, pelo menos de contribuir substancialmente para ela. Essa doutrina da salvação própria engorda mui­tíssimo a nossa auto-estima. Ela agrada ao nosso orgu­lhoso ego e salva-nos do supremo embaraço de sermos humilhados diante da cruz.

Os coríntios não eram uma exceção; eles eram um povo orgulhoso. Tinham orgulho de sua cidade, a qual, após ter sido destruída um século antes em uma rebelião, fora caprichosamente reconstruída por Júlio César em 46 a.C. Orgulhavam-se do fato de que Augusto havia elevado Co­rinto acima de Atenas, tornando-a a capital da nova província da Acaia. Tinham orgulho do seu comércio, da sua afluência, da sua cultura, dos seus, jogos típicos e do seu zelo religioso.

Aí apareceu aquele missionário cristão afobado, um joão-ninguém metido a importante, um camaradinha feio e careca, de pernas tortas e sobrancelhas cerradas, que parecia não ter o mínimo respeito pela distinta cidade deles. E tinha a petulância de dizer a eles que nem sua sabedoria, nem sua opulência, nem sua religião poderiam salvá-los; que na verdade eles nem podiam fazer coisa alguma para salvar -se do juízo de Deus, e nem sequer ajudar a conquistar a sua própria salvação; que por isso é que Jesus Cristo havia morrido por eles; e que, sem ele, todos eles iriam perecer. Quem ele achava que era para insultá-los desse jeito?! Era humilhação demais para um povo tão orgulhoso! A men­sagem da cruz era uma pedra de tropeço, tanto para or­gulhosos judeus quanto para gentios orgulhosos. Não é de admirar que a principal resposta ao evangelho em Corinto tenha vindo dos mais baixos escalões da sociedade: “Ir­mãos, reparai na vossa vocação… não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento.” Pelo contrário, foram os loucos, os fracos, os humildes e os desprezados, que sabiam que nada tinham a oferecer, que Deus escolheu e chamou.

Ainda hoje não existe uma coisa que leve tanta gente a abdicar do reino de Deus quanto o orgulho. Como disse Emil Brunner, em todas as outras religiões “o homem é poupado da suprema humilhação de saber que o Mediador (no caso, Jesus Cristo) deve sofrer a punição em seu lugar… Elas não o deixam absolutamente despido.” O evangelho, porém, nos desnuda (não temos nenhuma roupa com que nos apresentar diante de Deus) e nos declara falidos (não temos dinheiro algum com o qual comprar o favor dos céus).

(d) A objeção moral, ou o chamado ao arrependimento e à santidade. Corinto era um próspero centro comercial, que comandava as rotas de negócios, tanto no sentido norte-sul por via terrestre como leste-oeste através do mar.

A cidade, portanto, vivia cheia de mercadores, viajantes e navegadores. Já que eram estrangeiros numa cidade estranha, eles pouco se preocupavam com restrições morais. Alem disso, Afrodite, conhecida pelos romanos como Vênus, a deusa do amor, reinava em seu templo acima da cidade, encorajava a promiscuidade sexual entre os seus devotos e proporcionava milhares de prostitutas que vagavam à noite pelas ruas da cidade. Era uma verdadeira “feira da vaidade” do mundo antigo. O verbo grego korinthiazomai significava “praticar a imoralidade”.

De uma cidade descaradamente imoral como Corinto não era mesmo de se esperar que acolhesse o evangelho, com seus apelos ao arrependimento, suas advertências de que os sexualmente corruptos não herdarão o reino de Deus e com sua insistência no fato de que após a justificação vem a santificação (crescer em santidade) e depois da santificação vem a glorificação (quando o mal será abolido).

O mundo moderno não é em nada mais receptivo do que o mundo antigo no que concerne ao chamado do evangelho para o domínio próprio. Ele gosta de dizer que esse negócio de absolutos morais já não existe mais, que moralidade sexual é apenas uma questão de costumes sexuais, que a abstinência é uma coisa ruim e a permissividade uma coisa boa, e que o cristianismo, com suas proibições, é inimigo da liberdade.

(e) A objeção política, ou o senhorio de Jesus Cristo. Havia no Império Romano uma boa dose de fervor político (para não dizer fanatismo). Leais procuradores romanos tendiam a incentivá-lo e agiam com toda crueldade para acalmar qualquer tentativa de rebelião. Convém lembrar­mos que o próprio Jesus foi condenado numa corte romana pela ofensa política da sedição, por declarar ser um rei, em rivalidade a César. Paulo e Silas, de igual forma, foram acusados em Filipos de estarem “propagando costumes que não podemos receber nem praticar porque somos roma­nos”, enquanto que em Tessalônica disseram que eles estavam “procedendo contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei”.

Eram falsas ou verdadeiras essas acusações? Eram falsas e eram verdadeiras. Naturalmente, nem Jesus nem os apóstolos jamais instigaram rebelião armada contra Roma. Eles não eram zelotas. Mas eles proclamaram, sim, que Jesus havia anunciado ter chegado o reino de Deus, que seu reino tinha prioridade sobre todas as outras lealdades, menos importantes, que esse reino se espalharia pelo mundo todo e que o rei iria voltar para assumir o poder e o reino. Tinha todo o jeito de sedição. Na verdade, era sedição, se é que sedição significa negar ao estado autoridade incon­testável, dando-a ao Cristo de Deus.

Ainda hoje, se há uma coisa que um regime totalitário não consegue suportar é que lhe neguem a lealdade absoluta que ele exige. Os cristãos submetem-se conscientemente ao estado, desde que a autoridade que lhe é dada por Deus seja usada para promover o bem e punir o mal; nunca, porém, iremos adorar o estado. E a Cristo que nós adoramos, a Cristo, a quem foi dada toda a autoridade no céu e na terra, pois ele morreu e ressuscitou a fim de ser o Senhor de tudo.

Eis aqui, pois, cinco objeções que se costumam fazer ao evangelho de Cristo e sua cruz, e que Paulo esperava encontrar em Corinto. Ele sabia que sua mensagem do Cristo crucificado seria considerada intelectualmente loucura (incompatível com a sabedoria), religiosamente exclusiva (incompatível com a tolerância), pessoalmente humilhante (incompatível com a auto-estima), moralmen­te exigente (incompatível com a liberdade) e politicamente subversiva (incompatível com o patriotismo).

Não é de admirar que Paulo se sentisse “fraco e tremendo de medo” e admitisse que precisava tomar uma decisão. Foi, por um lado, uma decisão negativa, de abrir mão da sabedoria do mundo, ou seja, de todo sistema que se oferece como uma alternativa para o evangelho; e, por outro lado, foi uma decisão positiva, de só proclamar Jesus Cristo e especialmente sua cruz. Hoje nós nos deparamos com a mesma alternativa. Temos que escolher entre a sabedoria do inundo, que é loucura para Deus, e a loucura da cruz, que é a sabedoria de Deus.

O poder do Espírito

Certos cristãos contemporâneos, se ouvissem Paulo con­fessar que sentia fraqueza, temor e tremor, com certeza iriam repreendê-lo. “Paulo”, diriam eles, “você não tem nada que ficar nervoso ou com medo. Anime-se! Você não sabe o que é ser cheio do Espírito Santo? Você tem que ser forte, ousado e corajoso!”

Mas Paulo não temia admitir que estava com medo. Para dizer a verdade, ele tinha um poderoso intelecto e uma forte personalidade, e esses poderes ele havia dedicado a Cristo. Mas ele era também fisicamente fraco e emocionalmente vulnerável. Segundo a tradição, sua aparência não era nada atraente. Conforme os seus críticos, suas cartas eram “graves e fortes; mas a presença pessoal dele era fraca, e a palavra desprezível”. Portanto, ele nada tinha que chamasse aten­ção, fosse para vê-lo, fosse para escutá-lo. Além disso, algum tipo de enfermidade (o seu chamado “espinho na carne”) parece ter afetado sua visão, ou mesmo desfigurado-o. E ele sabia da impopularidade do seu evangelho, da oposição que se levantaria em Corinto e, portanto, do custo de ser fiel a ele.

Mas, então, em que ele depositou a sua confiança? Ele nos dá a resposta em 1 Coríntios 2.4-5. Sua confiança não estava em “linguagem persuasiva de sabedoria” (ERAB) ou em “linguagem de sabedoria humana” (BLH). Isto é, ele não se baseava, nem na sabedoria nem na eloquência do mundo. Ao invés da sabedoria do mundo ele pregava a Cristo e sua cruz (v. 1-2), e em vez da retórica do mundo ele confiava na poderosa demonstração que o Espírito Santo dá à palavra. Afinal, somente o Espírito Santo pode convencer as pessoas dos seus pecados e necessidades, abrir-lhes os olhos para enxergarem a verdade do Cristo crucificado, dobrar sua orgulhosa vontade e submetê-las a ele, libertá-las a fim de crerem nele, e dar-lhes um novo nascimento. Esta é a poderosa “demonstração” que o Espírito Santo dá a palavras ditas em fraqueza humana.

Esta questão do “poder através da fraqueza” é um ele­mento vital na correspondência corintiana de Paulo. Em ambas as cartas existentes o apóstolo enfatiza que é através da fraqueza humana que melhor opera o poder divino. Ele insinua que Deus, deliberadamente, torna fraco o seu povo e o mantém assim, a fim de mostrar que o poder é dele. Paulo chega até a dizer que este princípio se aplica tanto a Deus quanto a nós, pois é através da sua própria fraqueza na cruz que ele manifesta o seu poder de salvar.

Em 1 Coríntios 1 e 2 o mesmo tema do poder através da fraqueza se repete em três variações. Primeiro, nossa mensagem é fraca e louca (Cristo e a cruz). Segundo, ela é proclamada por pregadores fracos e loucos. Terceiro, ela é acolhida por pessoas fracas e loucas. Assim, Deus esco­lheu um instrumento fraco (Paulo) para levar uma men­sagem fraca (a cruz) a pessoas fracas (os operários de Corinto). Por quê? “A fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” e para que “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Os cinco primeiros versículos de 1 Coríntios 2 são talvez a mais nobre e mais preciosa declaração feita no Novo Testamento sobre a evangelização. Eles nos dizem que o evangelho é a verdade proveniente de Deus acerca de Cristo e sua cruz no poder do Espírito. Assim, o evangelho não é especulação humana, mas, sim, revelação divina; não é sabedoria popular, mas Cristo e sua desprezada cruz; não é imposto através de propagandas ou personalidades, mas é transmitido pelo Espírito Santo. O evangelho vem de Deus, concentra-se em Cristo, e este crucificado, e é au­tenticado pelo Espírito Santo. É este é o evangelho trinitário do Novo Testamento.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Mimica Faciial

MÍMICA FACIAL – INTERPRETANDO AS EXPRESSÕES

Prestar atenção na alteração de expressões e nas variações de voz daqueles com quem convivemos é fundamental; quem interpreta corretamente os sinais emitidos pelos outros tem mais chances de antecipar intenções alheias e agir de forma adequada.

Quando quero descobrir se uma pessoa é inteligente ou tola, boa ou má, ou o que está pensando naquele momento, procuro imitar sua expressão facial com exatidão e aguardo os pensamentos ou sentimentos que combinam e, inevitavelmente, surgem quando imito sua fisionomia”, escreveu Edgar Allan Poe (1809- 1849). Para o escritor de histórias de suspense e mistério, essa postura parecia muito simples: seu herói Auguste Dupin, de A carta roubada, por exemplo, precisava apenas estudar a face de alguém para desvendar o que lhe passava pela cabeça. De fato, frequentemente os traços faciais de alguém podem oferecer inúmeras pistas sobre estados de humor – e até a respeito de características de personalidade. Na maioria das vezes, emoções fundamentais como alegria, medo ou raiva podem ser interpretadas sem grande dificuldade.

Charles Darwin (1809 -1882) tinha grande conhecimento sobre o significado da mímica como forma de comunicação. Em livro publicado em 1872, A expressão das emoções no homem e nos animais, recém-lançado no Brasil pela Cia. Das Letras, o criador da teoria da evolução interpretou as mensagens emocionais emitidas por seres humanos e animais como um comportamento que auxiliava a sobrevivência. Segundo Darwin, quem interpreta corretamente os sentimentos de seus pares consegue antecipar as intenções alheias e, assim, reagir de forma adequada em cada situação. O indivíduo percebe, o momento mais adequado para se afastar ou se aproximar. A visão de um rosto distorcido pelo ódio, por exemplo, sugere uma retirada discreta; o nariz torcido e uma expressão de nojo diante de um alimento sugerem que insistir em consumi-lo pode não ser uma boa ideia.

Nem todos, porém, têm habilidade em identificar com facilidade os variados sinais emocionais enviados pelo rosto de outras pessoas. Em situações extremas essa incapacidade pode ser caracterizada como um distúrbio raro denominado prosopagnosia, uma espécie de “cegueira para feições”, causada geneticamente ou por lesões neurológicas. O termo resulta de uma junção da palavra grega prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Pessoas com esse problema em geral enxergam bem, mas não conseguem reter detalhes das feições na memória ou identificar peculiaridades das variações de expressão.

MAIS FÁCEIS DE ENTENDER

Para descobrirmos quão bem – ou mal – as pessoas podem ler os sentimentos de outras em seus traços faciais, utilizamos há dez anos no Laboratório de Emoções da Universidade de Ulm o teste FEEL (Facially Expressed Emotion Labeling). Inicialmente, os participantes vêm a imagem de uma pessoa com expressão neutra em uma tela de computador durante um segundo e meio. Após pausa de um segundo, aparece o mesmo rosto durante 300 milissegundos, mostrando uma das seis emoções que elegemos como básicas do ponto de vista evolutivo: alegria, tristeza, raiva, nojo medo ou surpresa. Os sujeitos da pesquisa devem dizer o que o modelo aparenta sentir.

O teste revelou que a maioria das pessoas identifica sentimentos de seus semelhantes de forma praticamente imediata. No entanto, nem todas as emoções são percebidas com a mesma destreza: enquanto alegria, raiva e surpresa são quase sempre corretamente interpretadas, o reconhecimento de medo nojo e tristeza causa alguma confusão.

Além disso as pessoas diferenciam-se consideravelmente em sua capacidade de decifrar esses sinais. Como demonstramos em um estudo realizado em 2007, os participantes que sofriam de pânico tinham, claramente, maior dificuldade em detectar a tristeza e o ódio do que os integrantes do grupo de controle que não apresentavam o problema. Os pacientes com a síndrome tendiam principalmente a interpretar de forma equivocada algumas expressões faciais vendo-as como irritadas, ainda que não se apresentassem assim.

Em geral, porém, não é tão simples atribuir as divergências individuais a respeito da percepção dos sentimentos a eventuais distúrbios neurológicos ou psiquiátricos. Se a capacidade de empatia dos sujeitos, assim como suas habilidades em demonstrar resentimentos, são testadas por meio de um questionário, surgem apenas fracas coincidências com o FEEL. Outros pesquisadores também não conseguiram comprovar nenhuma conexão entre os sentimentos de uma pessoa e sua capacidade de reconhecê­ los nas demais. Será que essa correlação realmente não existe ou o método de medição é inexato?

Realmente, as condições do teste são simples: afinal, uma foto frontal sem sofisticação não corresponde a uma situação concreta. Na vida real, a mímica emocional modifica-se constantemente e, muitas vezes, surge apenas subliminarmente – inserida em um acontecimento social complexo. Sendo assim, não surpreende quando métodos de reconhecimento da emoção que trabalham apenas com estímulos mímicos levam a resultados que têm pouca relação com autodescrições subjetivas feitas em testes psicológicos.

Considerando essa questão, aperfeiçoamos nosso sistema de testes e passamos a mostrar aos sujeitos de nossas pesquisas vídeos nos quais feições neutras se transformavam, mais uma vez expressando raiva, medo, alegria, surpresa, tristeza ou nojo, só que agora de forma mais dinâmica. Nos filmes, as faces podiam ser vistas durante período semelhante ao do teste estático FEEL: o rosto neutro que surgia por mil a 1.800 milissegundos se metamorfoseava em um intervalo de 400 a 1.200 milissegundos, revelando alguma expressão emocional que, por sua vez, desaparecia após 300 milissegundos.

IMAGENS EM MOVIMENTO

No teste por vídeo, porém, os participantes tiveram resultados quase iguais aos obtidos na versão por foto: 102 voluntários aos quais mostramos 36 fotos e 36 vídeos identificaram em ambas as séries de teste – apesar das diferenças consideráveis – as variadas emoções de forma quase idêntica. As imagens em movimento apenas levavam ao reconhecimento um pouco mais rápido da surpresa e do medo; as fotos, por sua vez, ofereciam leve vantagem na detecção de traços de alegria.

Ao que tudo indica, as pessoas conseguem processar rapidamente a expressão mímica – pelo menos de forma mais rápida que nosso olhar lê o rosto completo do outro. Quem tem um pouco mais de tempo acompanha o movimento facial e consegue, assim, absorver mais informações. Dessa forma, no entanto, a melhora do resultado do reconhecimento da expressão dos sentimentos é irrelevante. Isso nos leva a concluir que, provavelmente, possuímos dois sistemas de decodificação da mímica humana, um rápido e outro lento.

O que se passa então em nossa cabeça quando analisamos expressões emocionais? Estudiosos do cérebro já indicaram há bastante tempo uma região do sistema límbico em formato de amêndoa como importante centro emocional: a amígdala. Essa área se excita durante a observação, assim como ocorre quando a pessoa experimenta emoções, principalmente o medo. O caso de pessoas com a amígdala lesionada mostrou-se especialmente ilustrativo para as pesquisas – como a paciente P., que Adam Anderson e Elizabeth Phelps acompanharam. Em 2000, os dois cientistas, à época na Universidade Yale, em New Haven, relataram que a mulher de 54 anos conseguia reconhecer rostos sem dificuldade e também lhes atribuir expressões de surpresa e raiva. Com outros sentimentos, como medo, nojo e tristeza, no entanto, ela falhava completamente. A própria S. P. conseguia, porém, expressar facialmente esses três últimos sem problemas. Assim, sua comunicação social mostrou-se prejudicada apenas em uma direção. Foi constatado, portanto, que a amígdala é indispensável para a recepção de mensagens emocionais corno o temor, mas a emissão de sinais por meio do próprio rosto seria possível também sem a participação dessa área cerebral.

Durante muito tempo, pesquisadores acreditaram que a amígdala funcionasse exclusivamente como centro do medo. Diversos novos estudos, entretanto, nos levam a questionar tal suposição. O grupo de pesquisadores dirigido por Christian Keysers, da Universidade Groningen, na Holanda, conseguiu provar em 2007 que essa região se excitava assim que os voluntários da pesquisa assistiam a vídeos de pessoas emocionadas. No entanto, não constatamos nenhuma diferença entre a apresentação de rostos neutros, alegres, enojados ou amedrontados.

Por outro lado, a amígdala reagia também quando as pessoas simplesmente estufavam as bochechas no filme, o que nos leva a considerar que essa área cerebral responde a movimentos do rosto de maneira geral e pode estar envolvida apenas indiretamente no processo de detecção de expressões emocionais.

O grupo de trabalho de Ralph Adolphs, do Instituto Califórnia de Tecnologia, em Pasadena obteve resultados semelhantes em 2005. A amígdala de sua paciente S. M. estava afetada de ambos os lados. A mulher, na época com 38 anos, tinha, assim como S. P., grande dificuldade em reconhecer o medo em seus semelhantes. Mas, afinal, o que nos leva a concluir que a pessoa à nossa frente está assustada? Análises dos movimentos oculares revelaram que homens e mulheres saudáveis se orientam principalmente pelos olhos arregalados, que atraem a atenção do observador de forma intensa. Isso, porém, não acontecia com S. M. Ela parecia evitar os olhos estatelados de medo de uma pessoa assustada: seu olhar parecia dançar vago e incerto na região central do rosto a ser avaliado.

VISÃO ASSUSTADORA

Em uma segunda série de experimentos, Adolphs e seus colegas treinaram a participante para que observasse especialmente os olhos dos retratos apresentados. Graças ao exercício, S. M. passou então a reconhecer rostos amedrontados. Os pesquisadores perceberam então que, em vez de servir simplesmente como um filtro passivo, a amígdala funcional ofereceomandos que “avisam” aos olhos que devem atentar para certas características.

Será que podemos concluir que apenas a visão nos revela sentimentos de nossos semelhanets? Para responder a essa questão, os pesquisadores Holger Hoffmann e Henrik Kessler dividiram graficamente as imagens dos rostos de nossos testes em uma região superior (com olhos e nariz) e outra inferior (que incluía a boca e laterais da face). Assim, poderíamos apresentar as expressões emocionais apenas parcialmente, enquanto a outra metade do rosto permanecia inalterada.

Essa divisão das faces teve efeito dramático sobre o reconhecimento de estímulos emocionais. De maneira geral, os 57sujeitos de nossa pesquisa puderam detectar melhor os sentimentos na parte inferior dos rostos. Nesse caso, o índice de acerto foi de 63%, mas caiu para 49% quando, em vez de boca e bochechas, os voluntários viam apenas olhos e nariz. E subiu para 83% quando o rosto completo era apresentado.

A interpretação de cada uma das emoções apresentou diferenças substanciais: o temor foi, conforme esperado, detectado quase que exclusivamente na parte superior do rosto. Em manifestações de surpresa, os olhos também desempenham papel de destaque. Mas no caso da alegria ocorre exatamente o oposto: sem a boca, ela praticamente não pode ser percebida. Já uma expressão triste ou enojada também se revela, principalmente, por meio da parte inferior do rosto.

CÉREBRO CONFUSO

Os movimentos do olhar dos voluntários, que acompanhamos com um sistema de rastreamento, comprovaram os diferentes pesos durante o reconhecimento de emoções: em uma fisionomia amedrontada, as pessoas atentavam mais nos olhos; em um rosto alegre, sua atenção voltava-se para a boca; em uma face triste, todos os elementos adquiriam grande importância. Os relativamente curtos períodos de exposição de nossos estudos comprovaram a rápida percepção das emoções. Mas, aparentemente, seres humanos precisam mesmo de informações de todo o rosto para uma correta análise dos sentimentos demonstrados por um semelhante. Caso contrário, o sistema de reconhecimento de emoções pode se confundir.

Não se pode negar que, de fato, algumas pessoas parecem ter um senso extraordinário para compreender o pensamento e sentimentos alheios. Outras se mostram menos talentosas. Acreditamos, porém, que essa habilidade exista independentemente da capacidade objetiva de detectar emoções em rostos. De maneira geral, fica demonstrado que o processo de apreensão de expressões faciais depende muito do tempo de visualização. Uma apresentação próxima da realidade, como no filme, possibilita que o cérebro analise os traços emotivos da expressão como um todo. Ao que tudo indica, nosso sistema perceptivo precisa acompanhar a dinâmica do rosto do outro para direcionar a atenção para aquelas partes que nos ajudarão a ler as emoções. E, assim, talvez possamos nos relacionar melhor.

NARIZ DE PINÓQUIO

É possível aprender a mentir convincentemente? “Com certeza. Basta pensar como um jogador de xadrez, controlar os sentimentos e sintonizar a mímica com a atenção do interlocutor, para que ela seja bem interpretada “, garante o psicólogo americano Paul Ekman, da Universidade da Califórnia, São Francisco, que há mais de 40 anos se dedica a estudar a mímica facial humana. Além disso, quanto mais o mentiroso acredita em sua própria história e se sai bem, mais difícil será perceber o embuste. Ekman aconselha que, durante um interrogatório, os investigadores de polícia façam perguntas inesperadas. Em vez de “Você esteve ontem à noite no supermercado X?”, é melhor “Onde costuma fazer compras?”

Embora seja possível treinar o reconhecimento das micro-expressões, nem sempre se consegue considerá-las indícios de mentira. Quando treina profissionais de segurança, Ekman recomenda que sempre se pergunte o que o interrogado está sentindo. Isso diminui o risco de cometer o “equívoco de Otelo”: no drama de William Shakespeare, o protagonista interpreta o medo no semblante de Desdêmona como sinal de traição, e a mata com base em uma percepção equivocada. Não só mudanças na mímica facial, mas também detalhes da atitude corporal, e variações na entonação da voz, podem apontar deslizes. A prova de que alguém está dizendo a verdade só seria possível mesmo se nosso nariz fosse como o de Pinóquio. Por que é tão difícil reconhecer a mentira? Segundo Ekman, gostamos de acreditar no que nos é contado. “Quem quer ouvir que está sendo traído no casamento? Para aceitar é preciso enfrentar o problema, e isso a maioria quer evitar”, diz. Devido a mecanismos de defesa, as evidências tendem a passar despercebidas. Do ponto de vista evolutivo, não é vantajoso ser um detector de mentiras. Em grupos pequenos, um dos envolvidos geralmente é expulso da comunidade ou se afasta dela.

Ekman vê paralelos entre seu trabalho e o do Dalai Lama, com quem se encontrou algumas vezes. Na busca pela verdade, ele quer ajudar as pessoas a entender melhor seus sentimentos e dominar seus impulsos. Assim, espera colaborar para conscientizá-las das próprias emoções antes que estas sejam expressadas de forma inadequada. “Para decidir quando uma mentira é permitida, pergunto-me como meu interlocutor se sentiria se descobrisse que menti”, explica. Se ele interpretar como quebra de confiança ou tentativa de tirar vantagem, pode ser prejudicial. Isso não vale, porém, para convenções sociais e gentilezas. “Afinal, depois de um jantar, você diria abertamente a seu anfitrião que a comida estava horrível?”.

CONCEITOS-CHAVE

  • Ao longo dos séculos, a habilidade humana de perceber o que os outros estão sentindo por meio de suas expressões faciais foi fundamental para o desenvolvimento de nossa espécie. Embora nem todos tenham acuidade para captar com a mesma facilidade o que seus pares transmitem, pelo menos seis sentimentos costumam ser identificados pela maioria das pessoas: alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa.
  • Um distúrbio raro chamado prosopagnosia, uma espécie de ‘cegueira para feições”, causado por falha genética ou lesão neurológica. Pacientes com esse problema, em geral, não conseguem captar alterações nem reter detalhes de rostos na memória.
  • A aplicação do teste FEEL (Facially Expressed Emotion Labeling), por pesquisadores do Laboratório de Emoções da Universidade de Ulm, Alemanha, mostrou que a percepção das expressões faciais alheia s está vinculada ao tempo em que nos detemos na face da pessoa observada. No experimento, a apresentação próxima da realidade, em um filme, permitiu que o cérebro dos voluntários analisasse os traços emotivos como um todo.

 

HARALD C. TRAUE é psicólogo e doutor em biologia humana; atualmente dirige a Seção de Psicologia Médica do Hospital Universitário de Ulm.

GESTÃO E CARREIRA

Jovens no Board

TEM VAGAS PARA JOVENS NO BOARD

 Buscando mais diversidade e proximidade no negócio, as empresas estão mudando o perfil dos executivos que compõem seu conselho. Com isso, tem surgido espaço para profissionais mais jovens nessas cadeiras. 

Quando recebeu o primeiro convite para sentar em uma cadeira de conselheiro na empresa de autopeças Plascar S/A, o advogado paulistano Mauro César Leschziner tinha 34 anos. Até então a possibilidade de ser cotado para ocupar esse tipo de posição nunca havia lhe ocorrido. “Eu era muito jovem, estava focado em outras coisas e nem considerava participar de conselhos”, afirma. Hoje, aos 44 anos, além da Plascar, Mauro também compõe o board da empresa de educação executiva Affero Lab e concilia as duas funções com o cargo de advogado no escritório Machado Meyer. “No começo, você sente um pouco o peso da idade, mas depois se acostuma e começa a entender como as empresas e as concorrentes operam. Por não estar inserido no mundo corporativo, tive de estudar mais e dedicar mais tempo aos números. É um aprendizado que eu nunca teria advogando”, diz.

Tradicionalmente, quando se pensa no conselho de administração, a primeira imagem que vem à cabeça é de um grupo de executivos grisalhos com muitos anos de experiência no mundo corporativo. Embora essa imagem corresponda em grande parte à realidade, casos como o de Mauro estão se tornando cada vez mais frequentes e mudando a composição desses espaços. A necessidade de as empresas se tornarem mais competitivas – algo que foi intensificado pela crise econômica – tem feito com que elas busquem conselheiros com perfil mais próximo do negócio ou do consumidor de seus produtos e serviços. “Os conselheiros deixaram de ser executivos generalistas, muitas vezes figurões do mundo corporativo ou amigos dos CEOs, e passaram a ser definidos por funções específicas, de acordo com a necessidade do momento da empresa, por exemplo, um novo negócio, diz Arthur Vasconcellos, sócio da empresa de recrutamento e seleção Caldwell Partners Brasil, em São Paulo. Esse cenário, aliado a negócios cada vez mais tecnológicos, abriu espaço para profissionais mais jovens no board. “Muitos setores têm demandado novos temas, como compartilhamento de serviços, processos automatizados ou riscos cibernéticos. Em geral, quem entende desses assuntos são os mais jovens”, afirma Anna Maria Guimarães, coordenadora acadêmica do curso Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W) na escola de negócios Saint Paul, de São Paulo.

 JUVENTUDE E EXPERIÊNCIA

Companhias de capital aberto, sociedades anônimas, instituições financeiras ou seguradores são obrigadas por lei a ter conselhos de administração. Mas a preocupação com as boas práticas de governança tem feito com que até mesmo as empresas fechadas (as chamadas limitadas) se preocupem em formar um time de conselheiros. “Muitas empresas familiares que estão querendo se profissionalizarem buscam criar um grupo de profissionais capacitados para ajudar nesse processo”, afirma André Freire, sócio da consultoria de recrutamento Exec. de São Paulo.

Se em organizações tradicionais ter funcionários conectados é importante, nas empresas recém-abertas isso se torna ainda mais crucial. Esse é o caso da Hotmart, startup de tecnologia que, por fazer parte de um fundo de private equity e receber aporte de investidores precisou montar um conselho de administração. Na empresa, a idade dos membros varia de 27 a 38 anos. “O time é composto de investidores e convidados e a maioria é de tecnologia. Os mais jovens, mesmo que não tenham tanta experiência, contribuem na hora de projetarmos cenário, porque olham mais para o futuro, diz João Pedro Resende, fundador da Hotmart. Mas pouca idade nem sempre é sinônimo de pouca experiência. Alguns executivos na faixa dos 40 e poucos anos – considerados novos para o antigo perfil de conselheiros – já passaram por diversas experiências profissionais e conseguem o carimbo que antes poderia faltar. “Cada vez mais jovens tem ascendido a posições de liderança. Essas pessoas se educaram melhor, muitas têm experiência internacional e fizeram carreiras mais aceleradas. Isso referenda a participação delas no conselho”, afirma André Freire, da Exec.

Para Anna Maria Guimarães, da Saint Paul, fatos recentes, como a Operação Lava-Jato, demonstraram a necessidade de se repensar os conselhos. “Esses acontecimentos mostraram que muitos deles eram ineficazes. Num cenário onde o compliance ganhou destaque, o conselho não pode mais ser decorativo, para inglês ver, precisa se envolver e contribuir para as questões éticas e negócios das companhias”, afirma.

Por último, outro fator que tem contribuído para renovar a composição dos boards é a discursão acerca da promoção de igualdade de gênero nessa instância das organizações. “Diversas pesquisas apontam que companhias que possuem mulheres na liderança melhoram sua performance. Empresas, por exemplo que tem público consumidor feminino, precisam de alguém, na hora da tomada de decisão, que entenda esse mundo, diz Marienne Coutinho da consultoria KMPG. No congresso, já tramita projeto de lei PLS 112 de 2010, que estabelece que pelo menos 40% das cadeiras dos conselhos de administração sejam ocupados por mulheres. Enquanto isso não vira realidade, algumas empresas têm se antecipado. É o caso da Duratex, que tinha uma suplente e, recentemente, convidou a executiva Juliana Rozenbaum para compor o board. “Desejávamos alguém que viesse do varejo e, embora não fosse um pré-requisito, ficamos felizes de ser uma mulher. Um conselho somente masculino perde a riqueza e pluralidade de ideias”, afirma Salo Davi Seibel, presidente do conselho da empresa.

O CAMINHO DAS PEDRAS

Embora o convite para ocupar uma posição de conselheiro aconteça majoritariamente por indicação, manter uma boa rede de contatos e fazer alguns cursos pode ajudar quem deseja conquistar uma cadeira. “Mapeie em que tipo de companhia você pode se encaixar de acordo com sua experiência. Busque pessoas que trabalham nessas empresas ou conselheiros mais experientes que o ajudem a chegar lá, mas que também o oriente depois”, diz Adriane Rickli, gerente do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral.

Um curso de educação corporativa, além de aumentar seus conhecimentos sobre temas importantes que serão discutidos, também pode servir de vitrine e ampliar seu contato com esse universo. “Outra opção é começar em conselhos de ONGs ou comitês não remunerados para adquirir experiência e criar uma trilha de carreira até boards de grandes empresas”, afirma Marienne.

Mas como nem tudo são flores, é preciso ficar atento a algumas questões. Um dos ônus de ser membro de um conselho de administração é ser responsabilizado judicialmente em caso de condenação da empresa. “Se a organização falir, por exemplo, os bens desse conselheiro pode servir para liquidar dívidas. Ele tem a mesma responsabilidade de um diretor estatutário”, diz Arthur Vasconcellos, sócio da Caldwell Partners. Outra questão é o tempo a ser dedicado a essa função. “É preciso que o profissional negocie com a companhia onde ele é executivo. Algumas empresas acreditam que esse é um aprendizado enriquecedor, outras proíbem a atuação em outra companhia”, afirma Adriane. Por isso, antes de se sentar confortavelmente numa dessas cadeiras, analise se conseguirá lidar com os espinhos que ela pode esconder.

 QUEM É QUEM

Confira os tipos de conselheiro que podem integrar o board de uma empresa:

Internos: São empregados da organização.

Externos: Ex-funcionários da empresa, consultores, investidores ou controladores de outra empresa do mesmo grupo.

Independentes: Conselheiros externos que não têm relações familiares ou de negócios com a empresa.

 

 

DE ONDE ELES VÊM  
FORMAÇÃO %
ENGENHEIROS 27,6
OUTROS 22,1
ADMINISTRADORES 21,4
ECONOMISTAS 15,6
ADVOGADOS 13,3

 O TAMANHO DE CADA CADEIRA

Entenda os diferentes conselhos presentes nas organizações e a função de cada um deles:

 De Administração:

Além de decidir os rumos estratégicos do negócio, compete a esse tipo de conselho monitorar a diretoria, atuando como elo entre ele e os sócios. Nele, os conselheiros são os responsáveis legais pela empresa. 

Consultivo:

Tem todas as atribuições de um conselho de administração, mas seus conselheiros não respondem judicialmente pela empresa e suas indicações não precisam necessariamente ser seguidas pela empresa.

 Fiscal:

Sua missão é fiscalizar as ações praticadas pelos administradores e opinar sobre as contas. Ele é independente do conselho de administração, mas seus participantes respondem judicialmente pela empresa.

 Comitês:

São órgãos compostos de membros internos ou externos que assessoram o conselho de administração. Eles são criados para discutir assuntos específicos, como diversidade e sustentabilidade.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A VERDADEIRA LIBERDADE

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.
Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atraente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liberdade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, religiosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemente pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (nacional, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.
Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título “Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis”, Daniel Halpern perguntou-lhe: “Existe algum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?” “Sim”, respondeu John Fowles. “Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.
Todos os meus livros falam sobre isso.”
Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, “pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em veemente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de “liberdade” ou “libertação”. Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão”. Para aqueles que consideram “salvação” um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, “liberdade” é um excelente substituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.
Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpretada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. “Quando nós conseguirmos a liberdade”, exclamava ele, “todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali”, disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.
“Eu prefiro meu cigarro de palha”, gritou um gozador.
“Quando formos libertados”, continuou o marxista, ignorando a interrupção e esquentando mais o assunto, “todos vocês poderão andar num carro daqueles”, e apontou para um suntuoso Mercedes que ia passando.
“Eu prefiro minha bicicleta”, gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não suportando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: “Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe mandarem!”
O aspecto negativo: libertação de
Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que identificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreender como é que Cristo pode nos libertar.
Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicoterapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o “pecado” como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obrigações como seres humanos, como a nossa falha ao deixarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, “o homem é o único animal que fica envergonhado – ou que precisa fazê-lo”.
Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado “esconder”. Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: “O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar.”
“Mas”, como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, “em Deus está o perdão”, pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.
A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo, mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma intensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, “Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real – nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado… Eu estava incrivelmente feliz!”
Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: “Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de libertação? “Somos descendência de Abraão”, eles retrucaram, “e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”
Jesus replicou: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado.”
Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como “salvação”, “pecado” é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. “Eu não sou pecador”, diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensacionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas “pecado” tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim descobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com “pecado” é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamentos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclamando nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.
O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente “ego” ou “auto”. Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, autoafirmação, autoacusação, autoagressão, auto piedade, autocomiseração, autodestruição, autoindulgência, auto¬promoção, autopunição, autossuficiência…
Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do “calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu”. E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absorver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.
Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer “o poder da sua ressurreição”. Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.
Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia atemorizado pelos poderes que, conforme se acreditava, habitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos malignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar… É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supersticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opiniões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia.
Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto “debaixo de seus pés”. Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.
Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. “Antes de me tornar um cristão”, disse ele, “eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade.”

O aspecto positivo: liberdade para
Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.
É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é “supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral”, enquanto que livre é aquele “que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto”. Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O verdadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.
Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram posteriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: “Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?” E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades “que mais sensivelmente agitam nossos senti¬mentos” (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar “no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus.”
A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?
Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal. Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele “não pode” fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. “Ele não pode negar-se a si mesmo.” Fazê-lo seria, não liberdade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.
E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela natureza que Deus lhe deu.
O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retangulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.
E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como humanos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. “Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda”, disse Mário para Morris. “Nós necessitamos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar.” E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia “tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele”.
Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: “Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo.” Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente auto doador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verdadeira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.
A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a responsabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.
Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a novelista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.
“Você teve a liberdade que queria?”
“Sim”, disse ela, esclarecendo sua declaração: “Naturalmente, eu sempre era menos livre quando estava apaixonada por alguém…, Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo… Sou livre, sim.”
A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir completamente de amar.
Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á”, disse ele; “e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á.” Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a “vida” de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa (“me/mim”). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: “Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, recusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade.” Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.
A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é “descanso”, que parece abranger a ideia de libertação. “Eu vos aliviarei”, diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: “Achareis descanso para as vossas almas” (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele “cansados e sobrecarregados”, pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é “manso e humilde de coração”.