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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

EU ACHO …

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que já eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

*** CLARICE LISPECTOR

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Há normas que podem variar de uma empresa para outra, mas todas seguem um padrão. Cada bem tem de três a quatro cotistas – um jato Phenom 300 foi oferecido recentemente em três cotas e uma lancha Phantom 500, em quatro. Se um deles quiser vender sua parte, a empresa envolvida atuará como uma corretora. O agendamento para uso dos bens deve ser feito via aplicativo ou pela central de atendimento, e há taxas mensais fixas e variáveis, de acordo com a utilização. Na Prime You, caso um avião esteja em manutenção ou a serviço de um cotista, a empresa consegue remanejar o voo para outro de seus ativos, o que deixa os clientes tranquilos quanto à disponibilidade.

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OS FILHOS SÃO A ALEGRIA DOS PAIS

O filho sábio alegra a seu pai, mas o homem insensato despreza a sua mãe (Provérbios 15.20).

O lar é o palco das grandes alegrias ou tristezas da vida. É nessa arena que travamos nossas maiores batalhas. É nesse campo que fazemos nossas mais importantes semeaduras e nossas mais abundantes colheitas. Os filhos são a lavoura dos pais. Há filhos que produzem bons frutos e são a alegria dos pais. Há filhos, porém, que crescem e, depois de homens feitos, desprezam os pais, abandonando-os à sua desdita. Assim, convertem-se em tristeza para a família. Um filho sábio alegra a seu pai, pois reflete na vida os valores aprendidos no lar. Um filho sábio honra a seu pai, pois transmite para as gerações pósteras o legado que recebeu dos antepassados. Um filho sábio é fonte de alegria para seu pai, porque seu caráter impoluto, sua vida irrepreensível e seu testemunho ilibado são a melhor recompensa de seu investimento. No entanto, é extremamente doloroso um filho chegar à idade adulta e, quando sua mãe já está velha, cansada e sem forças para o trabalho, desprezá-la, desampará-la e deixá-la sem sustento digno, sem proteção e sem apoio emocional. Não há desumanidade mais gritante do que desprezar pai e mãe. Não há agressão mais violenta do que colocar os pais, já idosos, no escanteio da vida, sem cuidado e amor. Os filhos devem ser a alegria dos pais, e não o seu pesadelo.

GESTÃO E CARREIRA

A MENTALIDADE CERTA COMO VANTAGEM COMPETITIVA

Logo, I.A. se tornará uma commodity – e a cabeça do empreendedor-usuário é que vai fazer a diferença

Em última instância, todas as empresas de saúde existem para gerar engajamento. Entre médicos e pacientes, entre pacientes e programas de cuidados de saúde, entre pacientes e medicação. Por meio de engajamentos bem-sucedidos, podemos evitar que as pessoas adoeçam, podemos curar, reduzir custos sem sacrificar qualidade e podemos controlar doenças crônicas para uma vida melhor e mais feliz.

Acredito que o que irá diferenciar as organizações de saúde modernas não é apenas a capacidade de adotar tecnologia, que já virou uma commodity, mas a capacidade de superar seus pares em como facilitar a construção de conexões pessoais e de alto valor para usuários e médicos. Isso é o que realmente importa.

Como reduzir custos com saúde, como ser assertivo, como fornecer respostas mais rápidas e, no final das contas, como construir conexões pessoais e verdadeiras de forma sustentável. Imagino que essas sejam as questões que os melhores líderes de saúde discutem com suas equipes todos os dias.

E quando penso nisso, e em como entregar resultados superiores, acho que inteligência artificial (AI, na sigla em inglês) terá um papel central.

E o que é inteligência artificial? Para Costas Boussios, um cientista de dados baseado nos Estados Unidos, AI é uma dimensão da ciência de dados, um conjunto de métodos usados por cientistas de dados para criar novas ferramentas e soluções. O que precede AI, ele aponta, é a análise de dados, ou a utilização de modelos matemáticos para estudar conjuntos de dados, a fim de se formarem novas ideias. A conexão entre a análise de dados e a ciência de dados são os códigos ou algoritmos que viabilizam uma ideia em solução, em uma ferramenta que produzirá resultados para o negócio. Tenho a impressão que a maioria dos líderes das empresas ainda vê AI como uma caixa-preta. Como um domínio exclusivo de alguns engenheiros ou matemáticos especializados, que trabalham, independentemente, em produtos secretos. Pode ser o caso para a maioria das empresas.

Os melhores líderes serão aqueles capazes de abrir a caixa-preta. E conseguirão oferecer AI como um serviço rotineiro e em escala para todas as pessoas de todas as áreas de uma empresa, para que possam resolver problemas de forma mais eficiente e eficaz em seus setores específicos.

E as empresas que conseguirem fazer isso serão aquelas que superarão seus concorrentes, oferecendo mais valor a seus usuários. E vencerão.

AI como serviço é igual ao Excel, por exemplo. Ainda me lembro de quando trabalhava em banco, e os analistas mais bem avaliados eram aqueles que dominavam o uso do Excel e traziam insights valiosos para auxiliar seus times na tomada de decisões.

Hoje, algumas grandes empresas de tecnologia já oferecem AI como serviço. Dependendo do perfil de uma determinada base de dados, um algoritmo recomenda qual a melhor técnica matemática para processar esse conjunto de dados. É tudo automático, sem interferência humana.

E se AI for uma commodity necessária e disponível para todos como um serviço automático, qual será a verdadeira vantagem competitiva? Acredito que será a mentalidade do usuário. A mente curiosa que está sempre em busca de uma forma diferente de melhorar as coisas, de fazer mais com menos. Pessoas que operam em modo de aprendizado continuo. Justamente o modelo mental do cientista que está sempre em busca de uma nova descoberta. Ou do empreendedor que enxerga seu trabalho como um experimento científico sem fim. No método científico, o pesquisador desenvolve uma hipótese, testa-a por vários meios e, em seguida, modifica a hipótese com base nos resultados dos testes.

Organizações entenderão que o fracasso e o sucesso são igualmente importantes para o aprendizado. Não se trata de “run fast and break things”. Trata-se de evoluir rapidamente em direção a uma solução por meio de erros produtivos e controlados. Afinal, alguém já disse que quanto mais erramos mais próximos de uma solução estamos.

Essa mentalidade valoriza transparência radical que gera agilidade. Vê valor na integração para haver o compartilhamento de dados e inteligência. Toma decisões com base em fatos e dados. Fomenta o trabalho multidisciplinar entre equipes, fundamental na área da saúde, com múltiplas perspectivas: do paciente, dos colaboradores, dos médicos e da companhia.

Na área da saúde, acredito que as empresas vencedoras oferecerão soluções de engajamento personalizadas, em escala, para médicos e pacientes. Utilizarão AI em escala, de forma difundida. Tudo viabilizado por um modelo mental de aprendizado constante. AI não deve ser vista apenas como uma ferramenta, mas como uma mentalidade que pode salvar muitas vidas.

*** THOMAZ SOUGI – fundador e executive chairman do dr. consulta, mestre em Políticas Públicas pela University of Chicago Harris School of Public Policy e Kauffman Fellow. Tem MBA pelo University of Chicago Booth School of Business, concluiu o GMP da Harvard Business School

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTE SAUDÁVEL E EM FORMA

Todos nós lidamos diariamente com algum nível de estresse, independentemente de questões como idade, gênero ou classe social. O Mindfulness pode ajudar a reduzir a ansiedade e aumentar o bem-estar psicológico

Com o estresse, surge uma série de sintomas desconfortáveis e perturbadores – ele não é apenas um sentimento ou um estado mental. Se não tratado, o estresse pode se infiltrar em todos os aspectos da sua vida. O esgotamento profissional, por exemplo, conhecido como síndrome de burnout, é um dos desdobramentos mais alarmantes do estresse crônico, tendo sido incluído na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Diante desse cenário, diversas pesquisas têm apontado que uma das formas mais eficazes de lidar com o estresse são as técnicas de mindfulness.

Mindfullness, cuja tradução possível seria “a tenção plena”, é uma palavra muito utilizada atualmente no contexto da Psicologia Positiva. O fundador da Clínica de Redução de Stress do Massachusetts Medical Center, Jon Kabat-Zinn, define mindfulness como a atenção voltada para o momento presente. De acordo com Kabat-Zinn, a técnica do mindfulness também está relacionada a: 1. ser você mesmo; 2. aceitar e valorizar o que o momento oferece; 3. não julgar a si mesmo; 4. ser paciente consigo e com os outros; 5. confiar em si e em seus sentimentos; 6. permitir que as coisas sejam como são e não ficar à mercê de expectativas, desejos e experiências.

Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, examinaram aproximadamente 19 mil estudos de meditação e, entre as descobertas, publicadas na JAMA Internal  Medinice, a meditação de atenção plena foi apontada como capaz de aliviar diversos estresses psicológicos, tais como depressão, dores e ansiedade.

De forma correlata, Elizabeth Hoge, psiquiatra do Centro de Transtornos de Ansiedade e Estresse Traumático do Hospital Geral de Massachusetts e professora assistente de psiquiatria da Harvard   Medical School, afirma que o mindfulness faz todo o sentido para o tratamento da ansiedade e do estresse. Segundo a pesquisadora, pessoas com ansiedade têm problemas para lidar com pensamentos perturbadores fora de controle. Essas pessoas não conseguem distinguir entre um pensamento voltado à solução de problemas e uma preocupação persistente incapaz de produzir qualquer benefício.

Mas como, então, o mindfulness pode aliviar o estresse? Simples: a atenção plena nos dá espaço para entender quais demandas de energia, atenção e emoções são válidas e quais não são. Com essa capacidade de distinção, nossa experiência de estresse e ansiedade torna-se muito diferente.  A pressão surge quando não temos esse espaço em nossa mente e em nossa vida. Sentimos alívio quando a meditação nos dá o espaço e a clareza de que precisamos para organizar nossas prioridades.

O outro elemento-chave está relacionado ao aumento dos recursos psicológicos. A ciência mostra que a plasticidade do cérebro – a capacidade desse órgão de mudar e se adaptar ao longo da vida – é extraordinária. Usando técnicas de mindfulness para treinar nossa mente, por exemplo, aumentam os nossos recursos mentais e nos tornamos mais capazes de lidar com elementos e cenários estressores.

Uma explicação para esses efeitos benéficos à saúde está relacionada aos níveis do cortisol, o hormônio do estresse. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Instituto Appana Mind, uma hora e 15 minutos de prática de ioga e meditação três vezes por semana, por dois meses, cortou pela metade a concentração de cortisol de um grupo de cuidadores de pacientes com Alzheimer cujos níveis de estresse e ansiedade atingiam índices alarmantes.

Como sociedade, as pessoas costumam partilhar uma consciência sobre a importância de ter um corpo saudável e em forma – não à toa, as academias estão cheias e o interesse pelo bem-estar físico é evidente. No entanto, é igualmente crítico ter uma mente saudável e em forma.

Por meio da prática do mindfulness, nossa mente pode se tornar mais capaz, focada e clara, permitindo-nos lidar melhor com situações estressantes e exigentes.

Nesse sentido, existem muitas técnicas de meditação de atenção plena que podem ser eficazes para aliviar o estresse e promover o relaxamento físico e psicológico. Na verdade, qualquer atividade que você realiza em que permaneça totalmente presente, completamente enraizada no presente e sem julgamento pode representar uma técnica de mindfulness que, quando praticada regularmente, pode trazer os benefícios da meditação para sua vida.

COMO PRATICAR O MINDFULNESS

Embora seja geralmente associado à meditação, existem várias outras formas de desenvolver a atenção plena.

ATIVIDADES – Qualquer atividade que você realiza pode se transformar em uma prática de mindfulness. Basta que você fique totalmente focado no que está fazendo.

SONS – Ouça conscientemente os sons de seu ambiente.

SENSAÇÕES – Atente às suas sensações. tanto físicas quanto emocionais.

PALADAR – Experimente saborear os alimentos prestando total atenção no gosto, na textura e no aroma.

PENSAMENTOS – Realize alguma atividade cotidiana e traga foco às ações que você realiza – e não ao que se passa em sua mente.

RESPIRAÇÃO – Inspire e expire devagar, sentindo cada movimento.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Traning, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundacbra da SBCoaching Social

EU ACHO …

OS HOMENS NÃO SÃO TODOS IGUAIS

É errado criminalizar a masculinidade como um problema em si

“Homem é tudo igual.” Provavelmente não existem mulheres que não tenham dito ou pensado isso diante do amplo arco de malfeitos masculinos que começa na toalha molhada jogada na cama e vai subindo até chegar à imposição da própria vontade pela força física ou financeira, à importunação sexual em vários graus ou ao abandono dos filhos. O caso de Andrew Cuomo, o governador de Nova York que colocou a si mesmo sob o risco de impeachment ou renúncia forçada, certamente está provocando esse tipo de reação. Poucas mulheres não terão passado por algumas das cretinices inconvenientes ou até delituosas agora associadas a Cuomo: as piadinhas que só têm graça porque contadas pelo chefe, a mão “esquecida” na cintura, as insinuações de natureza sexual e até o beijo roubado em pleno ambiente de trabalho – e em plena segunda década do segundo milênio nos Estados Unidos, um sinal, entre tantos outros plantados ao longo da história, de como o poder inebria, cega e, em casos que nem precisam ser extremos, emburrece. É dos Estados Unidos que veio, como tudo mais nesse terreno, a expressão “masculinidade tóxica”, que parece ter sido criada para definir o governador Cuomo depois da queda – antes, ele era tão venerado nos círculos progressistas que ganhou um Emmy por suas entrevistas coletivas no auge da Covid-19 em Nova York e deu ensejo ao autoexplicativo neologismo “cuomossexual”, usado por várias celebridades deslumbradas. O problema com o conceito de masculinidade tóxica é que ele não é aplicado apenas aos desvios e abusos, mas à própria essência masculina, como se ser homem implicasse automaticamente em comportamentos condenáveis que só podem ser corrigidos pela desprogramação – e é claro que já existem nos Estados Unidos cursos ministrados em universidades e empresas com esse objetivo.

Enquadrar todos os homens na categoria “tóxica” pode levar a absurdos como o que aconteceu na Inglaterra, onde o assassinato de uma jovem mulher que caminhava para casa à noite provocou grande comoção. Aproveitando o ambiente de consternação, Jenny Jones, integrante do Partido Verde que ascendeu à Câmara dos Lordes com o título de baronesa, propôs um toque de recolher, válido para todos os homens, a partir das 18 horas, como forma de garantir a segurança da circulação de mulheres à noite. Depois, ela disse que só tinha sugerido uma medida insensata para que os homens sentissem o gosto da punição coletiva experimenta da pelas mulheres quando a polícia recomendou que evitassem andar sozinhas à noite na área. (A recomendação deixou de ter valor depois que o assassino foi preso: um policial que trabalhava no serviço de proteção a diplomatas, o que torna a história ainda mais dramática.)

As mudanças sociais aceleradas e os exageros do antimasculinismo já estão ajudando a criar homens assustados, revoltados, comprometidos a não se casar nem ter filhos para não ser “explorados” por futuras ex-esposas. Tudo o que o mundo não precisa é de criaturas psiquicamente frágeis, chorando suas mágoas em redes sociais e trancadas em quartos onde se embriagam com um dos maiores combustíveis da masculinidade tóxica: pensar besteiras.

*** VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

VIOLÊNCIA SEXUAL NA PANDEMIA

Grupo luta pelo direito ao aborto legal à distância

Quando viu os leitos do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia tomados por pacientes da Covid-19, em meados de 2020, a ginecologista Helena Paro temeu pelo atendimento às mulheres vítimas de violência sexual. O Núcleo de Atenção Integral às Vítimas de Agressão Sexual, o Nuavidas, criado por ela em 2017, é um dos poucos serviços no Brasil que realizam o procedimento do aborto legal.

Depois da lei que autorizou o uso da telemedicina no país durante a pandemia, Paro foi até a direção do hospital. Seu pleito era para que o Nuavidas pudesse realizar o aborto legal de forma remota, valendo-se do recurso da telemedicina. Depois da análise da comissão de ética do hospital e do Ministério Público Federal, ela obteve a autorização. Desde então, entre agosto de 2020 e junho de 2021, 17 meninas e mulheres vítimas de estupro puderam ter garantido o direito ao procedimento de forma remota pelo Nuavidas. A legislação brasileira autoriza o aborto em caso de estupro, risco de vida à mulher – e anencefalia fetal (fetos que não desenvolvem o cérebro), mas o serviço no país é escasso.

Assinado por Débora Diniz e Alberto Pereira Madeiro, um estudo feito entre julho de 2013 e março de 2015 mostrou que, dos 68 serviços do tipo cadastrados no Ministério da Saúde, apenas 37 relatavam fazer o procedimento.

‘Mas dizer apenas que realizamos aborto legal à distância é simplório”, alerta a ginecologista. “Não estamos ensinando ninguém a fazer aborto ilegal, ou apenas dando comprimidos e mandando pacientes para casa. Eu estou 24 horas por dia com o telefone do Nuavidas. O outro telefone fica com a psicóloga. O trabalho é maior do que o aborto legal, que, vale repetir, é um direito previsto em lei”.

Em 2019, o Nuavidas realizou 19 interrupções de gravidez em decorrência de violência sexual. Em2020, foram 33 (nove delas via telemedicina). “O número total quase dobrou, o que é um indicador do aumento da violência sexual no país durante a pandemia”, afirma Paro. Na maioria das vezes, lembra a ginecologista, as vítimas são meninas de até 12 anos de idade. Ao todo, em 2020, o núcleo atendeu 244 meninas e 138 mulheres.

ACOMPANHAMENTO

Com o apoio de outras 20 profissionais – médicas, psicólogas, assistentes sociais e advogadas, entre outras -, Paro recebe as vítimas no Nuavidas, que fica dentro do Hospital de Clínicas da UFU, o terceiro maior hospital universitário do país. Na primeira consulta (presencial), a paciente ouve sobre suas opções de manter ou não a gravidez.

O aborto à distância só é aplicável para interromper gestações de até 63 dias e quando é possível a indução por medicamentos, sem a necessidade de cirurgia. Se essa for a opção da mulher, ela leva para casa os comprimidos e as orientações sobre o uso, além do contato da equipe, para chamara qualquer momento.

Vinte e quatro horas depois do procedimento em casa, a ginecologista faz uma consulta por telefone com a paciente. O acompanhamento médico e psicológico segue por, no mínimo, seis meses, “no mínimo”, enfatiza Helena Paro, porque “as implicações emocionais da violência sexual são muitas, e os vínculos criados com os profissionais são muito especiais”.

Segundo a ginecologista, o aborto legal até nove semanas feito com medicamentos é considerado seguro e recomendado pela Organização Mundial da Saúde, (OMS) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) desde 2018.

Um estudo publicado pelo Royal College of Obstetrics & Gynaecology, em fevereiro deste ano analisou 52 mil casos de aborto no Reino Unido com medicamento em gestações de até 69 dias, parte da forma remota (via telemedicina), parte da forma tradicional (em hospitais).

A taxa de sucesso nos procedimentos em ambos os modelos foi praticamente a mesma: cerca de 98%. O índice de hemorragias também foi próximo; oito casos entre as pacientes que fizeram o procedimento em hospital, e sete entre as que fizeram em casa. Nos casos acompanhados pelo Nuavidas até agora, segundo a fundadora do núcleo, houve 95% de eficácia.

O serviço de vanguarda chamou a atenção da Defensoria Pública da União (DPU) – e causou um racha na instituição. No mês passado, duas cartas em sentidos opostos partiram da DPU para o Ministério da Saúde e para o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Uma delas é assinada pelo defensor nacional dos direitos humanos, André Ribeiro Porciúncula, e pede a contraindicação do procedimento, alegando que apenas a prescrição do medicamento abortivo fora do ambiente hospitalar é “algo extremamente temerário”.

Do outro lado, um grupo de 41 defensoras e defensores de todo o país assinou uma nota pedindo ao Ministério da Saúde e ao CFM, a recomendação do aborto legal à distância, lembrando que o procedimento por telemedicina é reconhecido como seguro pela OMS e, também, é adotado por países como o Reino Unido e os Estados Unidos.

Procurada, a DPU respondeu que seus membros “têm independência funcional”. “Isso significa que podem agir livremente, sem a necessidade de aval. Nesse caso, trata-se de uma ação do defensor nacional de direitos humanos, André Porciúncula, que causou movimentação no sentido contrário de outro grupo de defensores. Isso já aconteceu várias vezes em outras matérias, não é incomum”, informou em nota.

O texto diz ainda que “é importante deixar claro que a Defensoria Pública Geral da União, que é comandada pelo defensor público geral federal, Daniel Macedo, não participou dessas ações e, portanto, não irá se manifestar sobre o tema.

‘SEM DIÁLOGO’

Já Alessandra Wolff, defensora pública e chefe do Grupo de Trabalho Mulheres da DPU, uma das signatárias da carta que endossa o procedimento adotado pelo Nuavidas, afirma que a carta de André Porciúncula “causou surpresa por ter sido feita sem nenhuma consulta ou diálogo com os demais defensores”.

“Não fomos ouvidas. Como órgão especializado no tema do direito das mulheres dentro da DPU, é natural e desejável que esse tipo de assunto seja debatido conosco”, afirma Wolff. “Criar recomendação em sentidos opostos gera insegurança jurídica e enfraquece a instituição”.

Em resposta às manifestações da DPU, o Ministério da Saúde lançou na semana passada, uma nota informativa sobre o tema em que “orienta os profissionais da saúde que o procedimento de aborto não pode ser feito por telemedicina”. A nota, assinada pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde, no entanto não tem caráter de lei.

Depois do comunicado da pasta, o Ministério Público Federal de Uberlândia, por sua vez, publicou texto reiterando a “recomendação” para que o NuaVidas siga fazendo uso da telemedicina para a realização do aborto legal.

“O atendimento por telemedicina, tal como previsto no protocolo do Nuavidas, é uma opção que as vítimas possuem de, se assim desejarem, especialmente em um momento de grande fragilidade física e emocional, continuar o tratamento em casa, junto da família, longe dos riscos de contaminação do ambiente hospitalar”, diz a nota do MPF.

Citando dados do Fórum de Segurança Pública, o Ministério Público Federal lembrou ainda que “todos os anos são registrados no Brasil mais de 66 mil casos de estupro, o que equivale a mais de 180 estupros por dia, ou um estupro a cada 8 minutos; a maioria das vítimas (57.8%), são meninas de até 13 anos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE JUNHO

O PREGUIÇOSO SÓ VÊ DIFICULDADES

O caminho do preguiçoso é como que cercado de espinhos, mas a vereda dos retos é plana (Provérbios 15.19).

Um indivíduo preguiçoso vive fora da realidade. É dominado por fantasias. O preguiçoso enxerga as coisas de forma desfocada. Ele vê o que não existe e aumenta o que existe. O caminho do preguiçoso não é cercado de espinhos, mas é como se fosse. O problema não existe, mas por causa de sua preguiça ele age como se existisse. O preguiçoso vê dificuldade em tudo. Ele não procura trabalho porque parte do pressuposto de que todas as portas da oportunidade lhe estarão fechadas. Ele não se dedica aos estudos porque está convencido de que não vale a pena estudar tanto para depois não ter recompensa. Ele só enxerga espinhos na estrada da vida enquanto dorme o sono da indolência. É diferente a vereda dos retos. Mesmo que haja espinhos, o homem reto os enfrenta. Mesmo que a estrada seja sinuosa, ele a endireita. Mesmo que haja vales, ele os aterra. Mesmo que haja montes, ele os nivela. O homem reto é aquele que transforma dificuldades em oportunidades, obstáculos em trampolins, desertos em pomares e vales em mananciais. Ele não foca sua atenção nos problemas, mas investe toda a sua energia na busca de soluções.

GESTÃO E CARREIRA

HOME OFFICE EXIGE PROTEÇÃO A COLABORADORES

Empresas que oferecem benefícios como assistência para reparos em casa tendem a reter mais talentos com a consolidação do novo modelo de trabalho após a pandemia

O que vai acontecer com o home office? O trabalho a distância, que antes parecia uma tendência para um futuro ainda longe, foi adotado com urgência a partir do final do primeiro trimestre de 2020. Ao longo de poucos meses, esse novo modelo transformou as rotinas das empresas. Elas agora se posicionam para manter o formato, em algum nível, para ao menos parte de seus times.   

De acordo com um levantamento realizado pela plataforma Workana, 84,2% dos líderes no Brasil pretendem manter, de uma forma ou de outra, o trabalho remoto em suas organizações. Não se trata apenas de um novo local: na avaliação dos entrevistados, a mudança está levando as organizações a valorizarem o cumprimento de objetivos e metas, mais do que jornadas fixas com horários rígidos.

Os colaboradores concordam e, no geral, sentem-se mais ativos profissionalmente: 40,6% das pessoas que responderam à pesquisa indicam que sua produtividade está excelente, 39,3%, muito boa, e 14,8%, boa. Já para 63,2% dos gestores, a performance das equipes se manteve ou aumentou.

Em coerência com esse pensamento, 96,7% dos trabalhadores ouvidos paro o levantamento dizem que o benefício do home office será decisivo na hora de escolher um emprego. E 91% afirmam que podem desempenhar suas tarefas com qualidade sem passar necessariamente oito horas diárias em um escritório.

FUTURO HÍBRIDO

A consultoria McKinsey analisou duas mil tarefas, realizadas por 500 atividades profissionais diferentes, em nove países. Concluiu que, na média, mais de um quinto da força de trabalho pode, ao menos em teoria, trabalhar de três a cinco dias por semana à distância. É um percentual três a quatro vezes maior do que o identificado antes da pandemia: se antes; 5% a 7% dos trabalhadores de países desenvolvidos atuavam de casa, agora a tendência é de estabilização entre 15% e 20%.

O levantamento identificou que muitas atividades manuais, que demandaram o uso de equipamentos fixos ou o atendimento presencial a outras pessoas, precisam ser realizadas de forma inteiramente presencial – elas incluem desde o trabalho de um mecânico ao de uma médica que atende em pronto-socorro.

Outras tarefas, em especial as que envolvem a capacidade de reunir e processar dados, de contadores a professores de ensino superior, teoricamente podem ser realizadas inteiramente à distância. E existem dezenas de casos em que a solução estará no trabalho híbrido, em que ações remotas são combinadas com momentos em que o trabalho presencial é mandatório.

O trabalho híbrido, de fato, é uma tendência identificada por 38% dos 500 executivos entrevistados para uma outra pesquisa da McKinsey. Antes da pandemia, apenas 22% das lideranças pensavam dessa forma.

SEGURO SOB MEDIDA

Essa é uma mudança que veio para ficar e transforma radicalmente a forma como os profissionais atuam – e também suas demandas por segurança, que agora se estendem para novos ambientes, em especial suas casas.

Para que as organizações possam garantir a segurança de seus colaboradores neste novo momento, a Kovr Seguradora está lançando o Seguro Home Office.

“Trazemos um produto especifico para que as empresas possam proteger o novo local de trabalho, que agora pode estar em qualquer lugar”, afirma o CEO da Kovr, Thiago Moura.

Os diferentes planos podem incluir cobertura para incêndio, danos elétricos, roubo na residência, equipamentos eletrônicos e acidentes pessoais, além de assistência 24 horas para uma série de situações, incluindo serviços de chaveiro, eletricista, reparos hidráulicos, assistência PET, baby sitter, cuidados para idosos ou mesmo limpeza de sofás e de colchões.

“Na Kovr, primeiro identificamos as necessidades dos clientes. Depois desenvolvemos produtos voltados para cada demanda. O Seguro Home Office é prova desse foco nas pessoas”, explica o CEO da Kovr Seguradora, que é resultado da fusão de outras empresas e da união estratégica de executivos com atuação destacada em grandes empresas do mercado de seguros. A companhia já nasce com mais de 47 anos de história, R$ 1 bilhão em faturamento e três mil colaboradores.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DOS HORMÔNIOS

O estrogênio não influi apenas na sexualidade feminina. Tem efeitos também em diversas capacidades cognitivas ­ tanto no homem quanto na mulher

De forma quase imediata, a palavra estrogênio evoca sexo e provoca associações quase sempre direcionadas à mulher. Esse hormônio sexual deve sua grande notoriedade à participação decisiva na condução de todos os processos do corpo feminino necessários à reprodução. Controla o ciclo menstrual, exerce influência no amadurecimento do óvulo a ser fecundado, dispara a ovulação e prepara o útero para a implantação do embrião. Sem o estrogênio, produzido em grande parte nos ovários – e existente, aliás, em variações muito semelhantes, razão pela qual se fala também em “estrogênios”, no plural -, vida nenhuma se desenvolveria no ventre materno. Na puberdade, seus níveis crescentes arredondam as formas femininas, trazendo a maturidade sexual. Em suma: é ele que faz das mulheres “mulheres”.

Não por acaso, o estrogênio é tido como o hormônio tipicamente feminino, e isso fez com que especialistas acreditassem durante muito tempo que sua atuação se restringia aos órgãos fundamentais para a reprodução. Mas posteriormente se verificou a existência de um complicado circuito regulatório por trás do controle dos níveis de estrogênio. Por um lado, mensageiros químicos do hipotálamo e da hipófise influem na produção hormonal dos ovários; por outro, o próprio estrogênio atua também sobre essas duas estruturas cerebrais. Assim sendo, ficou claro que nosso órgão do pensamento – ou ao menos partes dele – é sensível ao hormônio sexual.

Hoje, porém, os pesquisadores sabem que os estrogênios exercem sobre o cérebro influência muito maior que o mero controle da produção do hormônio sexual. Eles contribuem em diversas capacidades cognitivas, tais como o aprendizado e a construção da memória; controlam quais estratégias de comportamento ou de resolução de problemas vamos adotar; e também regulam nossa vida emocional. Vários estudos indicam que as células nervosas de algumas regiões cerebrais precisam dos estrogênios para entrar e permanecer em funcionamento. De resto, isso vale também para os homens, em cujo cérebro o mais importante hormônio sexual masculino – a testosterona – é transformado em estrogênio.

As primeiras indicações de que o estrogênio auxilia o trabalho cerebral provêm do início da década de 70, quando pesquisadores descobriram em células nervosas do cérebro de ratos moléculas de proteína que só se ligam ao hormônio sexual feminino. Por intermédio desses receptores o mensageiro químico transmite informações para as células nervosas. Receptores de estrogênio, porém, possuem não apenas neurônios transmissores de sinais, mas também outras células cerebrais, como as micróglias, importantes para a defesa imunológica, e as macroglias, que atuam como células de apoio e nutrição. É provável que o estrogênio cumpra tarefas distintas nos diferentes tipos de células, mas essas funções ainda não foram explicadas. Experiências com animais comprovam que o hormônio reprime a reação natural de defesa das micróglias contra estímulos inflamatórios. Isso pode ser muito útil, por exemplo, nos casos de esclerose múltipla ou da doença de Alzheimer, já que nessas duas enfermidades proteínas anômalas se depositam nos neurônios provocando um estado inflamatório que danifica e, em última instância, destrói as células nervosas.

Nas macroglias, o hormônio sexual cumpre função claramente trófica. Isso significa que ele estimula o metabolismo dessas células. Sob influência do estrogênio, as macroglias multiplicam a produção dos hormônios do crescimento, que, por sua vez, põem à disposição dos neurônios todas as substâncias de que necessitam para um funcionamento otimizado. Não apenas experiências com animais, mas também a observação de seres humanos indica que os estrogênios oferecem proteção contra algumas doenças neurodegenerativas, ou ao menos retardam seu avanço. Muito provavelmente, eles exercem esse efeito protetor não nos neurônios em si, mas sobretudo por intermédio dos receptores nas células gliais.

Segundo descoberta recente, o estrogênio é capaz também de amenizar as consequências de um derrame cerebral. Sob o comando de Phyllis White, pesquisadores da Universidade da Califórnia removeram os ovários de camundongos, limitando a produção natural de estrogênio. A seguir, dividiram os roedores em dois grupos, um dos quais recebeu estrogênios em baixa dosagem. Uma semana depois, bloquearam brevemente o fluxo de sangue em determinada artéria do cérebro, desencadeando um derrame. Então, passados poucos dias, compararam os vestígios do experimento deixados no cérebro.

Nos camundongos submetidos à “terapia de reposição hormonal”, os danos foram visivelmente menores. Segundo Phyllis, o estrogênio torna mais lento o avanço das lesões nas células induzidas pelo derrame. “Mais neurônios sobrevivem, sobretudo no córtex cerebral.” Em especial durante a fase final de um derrame, muitas células cerebrais sucumbem à chamada morte celular programada, mediante a qual o corpo se livra até de células pouco danificadas. O estrogênio parece limitar esse processo, também conhecido como apoptose. E mais: exerce um efeito positivo sobre o crescimento de novos neurônios.

O hormônio sexual transformou-se em tema discutidíssimo nas neurociências não só graças a essa atuação neuroprotetora. Interesse científico semelhante desperta a observação de que o estrogênio influencia diversas esferas cognitivas, como aprendizado, memória e comportamento. Afinal, independentemente de estereótipos e clichês, não há como ignorar a “pequena diferença” entre os sexos no tocante à prevalência de certos talentos específicos em homens e mulheres. Hormônios sexuais dão aí sua contribuição, e disso existe comprovação bastante convincente: nas mulheres, determinadas capacidades cognitivas se alteram de acordo com o nível do hormônio.

Não faz muito tempo, Onor Güntürkün, biopsicólogo do Instituto de Neurobiologia Cognitiva da Universidade do Ruhr, Alemanha, começou a investigar como voluntárias se saíam nos chamados testes de rotação mental em momentos diversos de seu ciclo menstrual. A tarefa a cumprir nesse teste é girar na mente uma figura geométrica. Ele avalia, portanto, nossa capacidade de visualização espacial. E, vejam só: durante a menstruação, quando os hormônios sexuais se encontram nos níveis mais baixos, as mulheres se saíram tão bem quanto os voluntários do grupo de controle. Ao final do ciclo, porém, quando os níveis de estrogênio sobem, o desempenho delas caiu sensivelmente. Mas melhorou em outro teste realizado paralelamente, no qual o objetivo era encontrar palavras apropriadas. Os resultados comprovam que as habilidades espaciovisuais das mulheres não são, em essência, inferiores às dos homens: o que ocorre com elas é, antes, uma oscilação mais forte do nível de estrogênio no cérebro, deslocando a ênfase de um talento para outro.

Também os ratos exibem certos comportamentos específicos de cada sexo. Como nos humanos, o nível de estrogênio parece desempenhar aí algum papel. Nos ratos, salta aos olhos sobretudo que machos e fêmeas não demonstrem o mesmo grau de interesse por um novo ambiente. Postos em território desconhecido, e em companhia de três objetos diferentes – uma garrafa, um tubo e uma bola, por exemplo -, as fêmeas põem-se no primeiro dia a examinar seu entorno de forma muito mais intensa que os machos.

Com o tempo, seu ímpeto investigativo decresce, mas torna a despertar de imediato se há um rearranjo dos objetos na gaiola. Isso, porém, acontece apenas com as fêmeas prontas para conceber, com baixos níveis de estrogênio. Somente elas inspecionam o ambiente modificado com curiosidade contínua. Os companheiros revelam de fato algum breve interesse, mas seu ímpeto investigativo torna a ceder com rapidez. Contudo, se as fêmeas não estão em fase de concepção, apresentando níveis altos de estrogênio, o novo arranjo do ambiente lhes é totalmente indiferente. Essa espécie de “balizamento hormonal do comportamento” faz todo o sentido. Provavelmente, fêmeas prontas para conceber tendem, na época da ovulação, a proceder a uma extensa investigação de seu entorno porque assim aumentam suas chances de encontrar um macho disposto ao acasalamento. Mesmo depois do parto, os níveis de estrogênio permanecem baixos, mas o ímpeto investigativo da mãe prossegue, o que lhe facilita proteger o rebento de eventuais perigos e prover-lhe comida suficiente.

Estudos como esse não deixam dúvida quanto à conexão entre os níveis de estrogênio e de desempenho de determinadas funções cognitivas, uma relação capaz de explicar certas diferenças entre os sexos. Pesquisas realizadas com o auxílio da ressonância magnética funcional mostram ainda que, já de antemão, homens e mulheres não utilizam as mesmas regiões cerebrais no cumprimento de algumas tarefas. Conforme se verificou em experiências com voluntários de ambos os sexos, quando se trata, por exemplo, de encontrar a saída de um labirinto virtual, ativam-se nas mulheres regiões nos lobos parietal e frontal direitos do córtex, ao passo que, nos homens, são neurônios do hipocampo que se agitam. Apesar disso, tanto homens como mulheres muitas vezes encontram a solução com a mesma rapidez. Seus cérebros, portanto, têm igual desempenho, embora adotem caminhos diversos.

A fim de descobrir como os estrogênios influem nessa complexa interação, pesquisadores passaram a investigar que regiões cerebrais possuem, afinal, células nervosas com acoplamentos compatíveis. A concentração de receptores de estrogênio é particularmente alta no hipotálamo e na chamada área pré-óptica. Era de esperar, uma vez que o hipotálamo integra o circuito regulador da síntese de estrogênio e, por meio de mensageiros químicos próprios, estimula a produção de hormônios sexuais. Quanto à área pré-óptica, ela parece participar no balizamento do comportamento reprodutor, ao menos nos animais. A hipótese é admissível, já que se trata de um hormônio sexual. Mas ocorre que também no hipocampo, e no córtex pré-frontal se encontram receptores de estrogênio em abundância. E essas são regiões vinculadas a funções intelectuais mais elevadas, tais como o aprendizado, a memória e o pensamento abstrato.

Experiências com camundongos e com ratos que tiveram os ovários removidos visando a diminuição do nível natural de estrogênio demonstraram que, após a remoção, os animais passaram a se sair muito piorem diversas tarefas de aprendizado e em testes de memória. Doses do hormônio, porém, anularam esse efeito negativo. Portanto, deve haver alguma ligação entre o estrogênio e a atividade no hipocampo, um centro de aprendizado.

Com o intuito de esclarecer essa conexão, a neurobióloga Catherine Woolley, da Universidade Rockefeller, em Nova York, passou a pesquisar as sinapses das células nervosas. É nesses pontos de contato que acontece a transmissão da informação entre os neurônios, e eles se situam nos chamados espinhos dendríticos – pequenos apêndices dos dendrites. Quanto mais ligações sinápticas existirem numa rede neuronal, melhor a transmissão. E, na linguagem do cérebro, aprender alguma coisa nada mais é que estabelecer novas sinapses e intensificar as conexões já existentes.

No hipocampo, os neurônios cultivam um gosto particular pelo contato: uma única célula nervosa pode estar em contato sináptico com até 20 mil outras. Quando estamos em processo de aprendizado, esse número comprovadamente aumenta. Como descobriu há alguns anos o grupo comandado por Catherine, com o auxílio de seções do cérebro com coloração especial, o estrogênio estimula a formação de novos espinhos dendríticos em determinados neurônios do hipocampo. Em 2001, Catherine e seu colega Bruce McEwen demonstraram que os espinhos adicionais não apenas fortalecem as conexões já existentes como também estabelecem novos contatos com outras células nervosas. Estudos equivalentes foram efetuados com fêmeas adultas de rato. O resultado ressalta acima de tudo como o cérebro permanece maleável mesmo na idade adulta. É à enorme plasticidade desse órgão que devemos o fato de uma antiga crença felizmente não corresponder à realidade: a de não ser possível aprender na velhice. É possível sim.

Os resultados da pesquisa também despertaram a esperança de, com o estrogênio, podermos desenvolver um novo medicamento contra a doença de Alzheimer, por exemplo, que causa a morte dos espinhos dendríticos no hipocampo. Em consequência disso, vai desaparecendo o poder da memória, que já não aceita novos dados. E outras capacidades cognitivas sofrem perdas crescentes, como a de orientação e visualização espacial. Considerando-se que o estrogênio dá suporte à formação de novas conexões sinápticas, esse hormônio talvez detenha a demência, ou desacelere seu avanço.

Mas as ambições de alguns cientistas vão mais longe, alimentadas pela observação de que, em todos nós, o número de espinhos dendríticos no hipocampo diminui com o tempo, assim como nosso desempenho intelectual decresce com a idade. Daí a ideia de empregar o estrogênio como o chamado cognitive enhancer – ou seja, como remédio para a melhora direcionada da memória e da capacidade de aprendizado.

Bruce McEwen, neuroendocrinologista da Universidade Rockefeller, pesquisa os mecanismos por meio dos quais o hormônio sexual feminino estimula, no plano molecular, o crescimento dos espinhos dendríticos nos neurônios do hipocampo. Para ele, está claro que esse mensageiro químico fortalece as funções de aprendizado e memória normais. “Mesmo sem a presença do estrogênio, há ainda um sem-número de ligações sinápticas no hipocampo. Nossos trabalhos mostram, porém, que, sem o hormônio, essas redes não operam com seu melhor rendimento no armazenamento e na evocação de determinados conteúdos de memória.”

O pesquisador defende uma espécie de terapia de reposição hormonal para o cérebro, da qual se beneficiariam sobretudo mulheres de mais idade. A razão para tanto é que, com a menopausa, os ovários praticamente param de sintetizar estrogênio. Sintomas como as ondas de calor e também os problemas psíquicos de que tantas mulheres sofrem durante essa fase parecem ter vínculo causal com a relativa escassez do hormônio – isso porque, em geral, as queixas diminuem com a aplicação de estrogênio.

Nesse meio-tempo, também o desempenho cognitivo de mulheres na menopausa já foi objeto de diversos testes. Os resultados são contraditórios. Em muitos estudos, o estrogênio melhora a capacidade de aprendizado, mas somente em relação a tarefas que demandem a utilização da memória verbal.

É para essa atuação seletiva que nos chama a atenção a psicóloga Donna Korol, da Universidade de Illinois. Ela se dispôs a investigar se, em ratos jovens que tiveram os ovários removidos, doses de estrogênio exerciam influência sobre determinadas estratégias de resolução de problemas. Com esse objetivo, aplicou dois testes aparentemente semelhantes, cujas soluções, porém, demandam do cérebro a ativação de redes neuronais distintas. Em essência, os ratos tinham de aprender a encontrar comida num labirinto. No teste A, a comida fica sempre no mesmo lugar, mas altera-se o ponto a partir do qual os ratos dão início à busca. Os animais que receberam estrogênio apreenderam o princípio do teste com muito mais rapidez do que os companheiros privados do hormônio.

Mas esses últimos foram muito superiores no teste B, em que o ponto de partida também é alterado, mas o rato sempre encontra sua comida, bastando para tanto que ele vire à direita no primeiro corredor. De acordo com Donna, o fato de os animais com deficiência de estrogênio terem aprendido a cumprir a tarefa com mais rapidez contradiz a noção de que o hormônio prestaria ajuda generalizada ao órgão do pensamento. “Se o estrogênio melhora nossa capacidade geral de aprendizado, então os resultados dos dois testes teriam de ser iguais.” Na opinião da psicóloga, o nível do hormônio sexual determina, antes, a estratégia cognitiva com o auxílio da qual o cérebro se lança à solução deum problema. “O estrogênio de fato favorece algumas formas de aprendizado, mas inibe outras.” E, mais importante: “Sem esse mensageiro químico, o cérebro trabalha de modo diferente, mas continua trabalhando bem”.

Os estudos de Donna Korol lançam nova luz sobre o declínio da capacidade cognitiva que muitas mulheres sentem após a chegada da menopausa. Em seu livro Animal research and human health, Donna defende a tese de que o nível decrescente de estrogênio pura e simplesmente altera o modo como o cérebro trabalha – direcionando-o para pontos que são fortes sobretudo nos homens, como a capacidade de orientação espacial. “Depois da menopausa, as mulheres poderiam melhorar seu desempenho em muitas tarefas se encarassem a coisa toda de maneira diferente”, explica. “Mas percebem as alterações provocadas pelo declínio hormonal como piora.”

Descobrir e fazer uso de novas forças decerto não é fácil, e Donna Korol ainda não ofereceu comprovação definitiva de sua teoria. Ainda assim, seus resultados parciais ensejam algumas dúvidas quanto à ideia de que, depois da menopausa, o cérebro feminino se beneficiaria como um todo de uma espécie de terapia de reposição de estrogênio. Certo, porém, é que o estrogênio pode fazer muito mais que dar às mulheres aparência diferente da masculina. Por meio de receptores em regiões cerebrais como o hipocampo, o mais importante hormônio sexual feminino contribui para muitas ” pequenas diferenças” no modo de pensar e nos talentos específicos de homens e mulheres. Mas enquanto os efeitos do estrogênio sobre o cérebro não forem conhecidos com exatidão, é necessário conter a euforia. Ou não servem de advertência as acaloradas discussões da atualidade a respeito da ampliação do risco de câncer em decorrência de terapias de reposição hormonal?

A SINERGIA ENTRE CÉREBRO E OVÁRIOS

Os hormônios sexuais femininos são produzidos nos ovários, mas sua síntese está sujeita ao controle de um circuito regulatório no qual duas regiões cerebrais desempenham papel decisivo: o hipotálamo e a hipófise (glândula situada na parte inferior do cérebro). Na primeira fase do ciclo menstrual, chamada folicular, o nível de estrogênio no sangue é baixo. No hipotálamo, isso estimula a síntese dos hormônios liberadores de gonadotropina. Um desses mensageiros químicos, o FSH-RF (sigla em inglês de fator liberador do hormônio folículo-estimulante}, induz na hipófise a liberação do hormônio folículo-estimulante (FSH), que, então, via corrente sanguínea, chega aos ovários. Ali, o FSH intensifica a síntese de estrogênios, ao mesmo tempo que fomenta o amadurecimento de um óvulo.

Quando o nível de estrogênio atinge determinado patamar, o hipotálamo a um só tempo interrompe a produção do FSH-RF e intensifica a de LH-RF (sigla em inglês de fator liberador do hormônio luteinizante, ou lutropina). Esse segundo hormônio liberador de gonadotropina provoca a ovulação e, com o auxílio da progesterona produzida nos ovários, prepara a membrana mucosa do útero para a implantação de um embrião. Caso não ocorra a fecundação, a concentração de estrogênio no sangue diminui drasticamente e, em consequência disso, a membrana mucosa do útero é expelida. Um novo ciclo, então, tem início.

EM BUSCA DE ALIMENTO

Embora ambos os testes se assemelhem, eles solicitam áreas diferentes da memória Ratos com nível normal de estrogênio levam a melhor no teste A. Mas aqueles com deficiência de estrogênio compreendem a tarefa B com mais rapidez

EU ACHO …

NADA MAIS QUE UM INSETO

Custei um pouco a compreender o que estava vendo, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma esperança, o que sempre me disseram que é de bom augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, com pernas que mantinham seu corpo em plano alto e por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a outra própria superfície. Parecia com um raso desenho que tivesse saído do papel e, verde, andasse. Mas andava, sonâmbula, determinada. Sonâmbula: uma folha mínima de árvore que tivesse ganho a independência solitária dos que seguem o apagado traço de um destino. E andava com uma determinação de quem copiasse um traço que era invisível para mim. Sem tremor ela andava. Seu mecanismo interior não era trêmulo, mas tinha o estremecimento regular do mais frágil relógio. Como seria o amor entre duas esperanças? Verde e verde, e depois o mesmo verde que, de repente, por vibração de verdes, se torna verde. Amor predestinado pelo seu próprio mecanismo semiaéreo. Mas onde estariam nela as glândulas de seu destino, e as adrenalinas de seu seco e verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes. Como eu? Eu. Nós? Nós. Nessa magra esperança de pernas altas, que caminharia sobre um seio sem nem sequer acordar o resto do corpo, nessa esperança que não pode ser oca, nessa esperança a energia atômica sem tragédia se encaminha em silêncio. Nós? Nós.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

SOB O EFEITO DO BATOM

Além de artigo econômico respeitado mundialmente, o simples ato de pintar os lábios entrou em discussão durante a pandemia. Mesmo com o uso de máscaras, do isolamento e das lojas fechadas, as mulheres não pararam de usar o produto

Se os olhos são a janela da alma, é pela boca que muitas personalidades são formadas, seja através da fala mansa, seja pelo beijo amoroso ou pela simples escolha de uma cor de batom. “Esse produto é a construção do feminino. É o primeiro item que a criança vai pegar da mãe e passar de maneira instintiva”, afirma a maquiadora Vanessa Rozan. Apesar do isolamento social, que fez com que as mulheres ficassem mais em casa, e o uso de máscaras ter ofuscado a exposição dos lábios, o batom continuou a fazer parte do embelezamento feminino. Tamanha é a importância do cosmético que Leonard Lauder, herdeiro da Estée Lauder, criou um conceito econômico que vai muito além de um produto de beleza ou do poder econômico. Ele define como as pessoas se comportam diante de grandes crises. O quadro é simples: mesmo em períodos de extrema dificuldade econômica, o batom é um item de venda constante e certeira, não só por seu baixo custo, mas também pela autoestima que proporciona a quem o adquire. “Mesmo por baixo da máscara, eu uso um brilho labial ou uma cor clara para não sujar a máscara. E isso não é só vaidade. Ajuda a manter a saúde labial com o frio que faz aqui em São José dos Pinhais”, diz a professora Patrícia Oro. “Se dou uma aula em vídeo, carrego mais na cor. Estou sempre de batom”.

Preocupada com uma possível queda nas vendas, as empresas investiram em tecnologia. Batons à prova d’água e outros que duram até 24 horas. “Você pode comer, colocar a máscara, tirar e vai continuar com um efeito lindo”, diz Vanessa, que reúne mais de um milhão de seguidores no Instagram e raramente está sem batom.

EM TEMPOS DE HOME OFFICE

“Tenho o privilégio de poder fazer home office, então passo um batom cinco minutos antes de entrar em uma reunião e é o que muitas mulheres estão fazendo”, diz. Para ela a vaidade não acabou e o mercado da beleza só cresceu. “Antes, a mulher usava batom, pó, lápis preto e máscara para cílios. Hoje há uma infinidade de produtos”, explica. A consultoria McKinsey realizou uma pesquisa global com nove cenários esperados no setor de cosméticos para o período da pandemia e o resultado é otimista para o futuro, embora este ano, por causa da Covid, se espere uma queda de 20 a 30%. Mas a estimativa é que a recuperação será rápida. Já no segundo semestre de 2021, crescerá 35%.

Para a psicóloga e farmacêutica Ana Volpe, que produz uma linha de produtos de beleza, “o batom é identidade da mulher”. Embora ela revenda batons, Ana mostra que os cosméticos de um modo geral estão muito valorizados mesmo tem tempos de pandemia. A linha de seus produtos é voltada aos cuidados com a pele, o chamado Skincare, que foi lançada mesmo durante a crise do coronavírus. Diz mostrou ter lucrado 30% acima do esperado.

Winston Churchill, primeiro-ministro britânico conhecido por suas manobras militares estratégicas e bem sucedidas, teve um papel fundamental na questão do embelezamento da mulher, contribuindo para transformar o batom, principalmente o vermelho vivo, em algo que até hoje significa força, garra e coragem para o empoderamento feminino. Mesmo com o racionamento de diversos alimentos durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill tornou obrigatória a distribuição de batons para as mulheres do Exército inglês por perceber o quanto isso afetava a moral das tropas femininas no front de guerra. Cunhou até o slogan “Agora, mais do que nunca, a beleza é seu dever”. Se a História tende a se repetir, na saúde ou na doença, na guerra ou na paz, o batom resistirá aos tempos bicudos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE JUNHO

NÃO PONHA LENHA NA FOGUEIRA

O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta (Provérbios 15.18).

Um indivíduo raivoso, emocionalmente destemperado, que deixa vazar sua ira pelos poros da alma, é um incendiário. Está sempre colocando lenha na fogueira, atiçando as brasas da contenda e provocando o fogo das desavenças. Uma mente perturbada e um coração iracundo produzem uma língua solta. E uma pessoa que fala sem refletir suscita contendas, semeia intrigas e planta a inimizade no coração das pessoas. Não há pecado que Deus abomine mais do que esse espírito contencioso, de jogar uma pessoa contra as outras. O propósito de Deus para nós é o oposto desse caminho de guerra. Podemos ser pacificadores em vez de provocadores de contendas. Podemos apaziguar os ânimos em vez de acirrá-los. Podemos jogar água na fervura em vez de colocar lenha na fogueira. Podemos ser ministros da reconciliação em vez de agentes da guerra. Não fomos chamados por Deus para cavar abismos nos relacionamentos interpessoais, mas para construir pontes de contato. Nossa língua pode ser remédio que cura em vez de ser espada que fere. Nossos gestos devem caminhar na direção de reconciliar as pessoas em vez de jogá-las umas contra as outras. Somos agentes da paz, e não promotores da guerra; protagonistas do bem, e não feitores do mal; veículos do amor, e não canais do ódio.

GESTÃO E CARREIRA

UM IDIOMA UNIVERSAL

Com bilhões de usuários, os e-games estão substituindo as redes sociais como ferramenta de socialização

Jogos virtuais são hoje a linguagem mais poderosa para conectar pessoas com as mesmas paixões ou experiências. Em tempos de isolamento, as disputas em consoles de videogame, na tela do computador ou do celular ganharam ainda mais apelo, movimentando um mercado de US$ 175 bilhões no mundo todo, segundo recente relatório da Intel e da consultoria especializada Newzoo. A previsão é de que a comunidade global de adeptos de algum tipo de jogo virtual chegue a 2,7 bilhões de pessoas no final de 2021 – mais de um terço da população mundial.

Antigos estereótipos de que o mercado seria dominado por homens ou por jovens ficam cada vez mais distantes, diz Ronaldo Geraldine, responsável por games e e-sports na Campus Party Digital. O evento conquistou relevância no calendário global de inovação e entretenimento digital. Este ano acontece de forma online, em julho, com foco em games e inclusão. Geraldine destaca, na programação, o campeonato voltado ao público trans, a Liga dos Surdos e o Afrogame como modalidades que buscam atender todos os grupos. “Há muito tempo o mercado de games deixou de ser um nicho”, diz Rafael Montalvão, diretor de marketing da Netshoes, patrocinadora da Campus Party deste ano.

Os jogos tomam espaço das redes sociais como destinos para socialização online. Dez anos atrás, as gerações mais jovens deixavam formas tradicionais de interação em troca das mídias sociais. Hoje, trocam as mídias sociais por experiências interativas e com algum componente de “gamificação”.

GAMIFICAÇÃO

Dividido em três plataformas (console, computador pessoal e aparelhos móveis), o mercado global de jogos em 2021 deve chegar a US$17,58 bilhões

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS ORIGENS DO MEDO DE AMAR

Nós não sobrevivemos sem cuidados afetivos. Para amar verdadeiramente são necessárias algumas condições emocionais, mas muitas pessoas têm pelo outro paixão, atração ou dependência

O afeto é vital para a sobrevivência e felicidade e para a manutenção da vida e do bem-estar. Mas muitos dos relacionamentos que têm conflitos intensos fracassam pelo fato de a pessoa não conseguir considerar o outro em seus desejos e necessidades.

Podemos pensar nessa dificuldade empática sob a luz da teoria do psicanalista inglês Donald Winnicott. Ele afirma a importância do ambiente e da mãe suficientemente boa para o amadurecimento saudável do sujeito. Se não houve ambiente suficientemente bom desde o nascimento, é provável que o indivíduo terá dificuldades em tornar-se “inteiro”. A conquista da integração do indivíduo em um si mesmo, uma pessoa inteira não é simples. Muito pode acontecer antes de se conquistar o amadurecimento de forma integrada. A jornada é longa. Se o indivíduo não se integrou em uma unidade, não conseguirá saber sobre o outro e considerá-lo.

Um conceito muito importante em sua teoria é o estágio do concernimento. Suas raízes têm origem na posição depressiva de Melanie Klein. A posição depressiva é atingida quando o bebê integra a realidade de que o mundo não foi criado por ele, iniciando a quebra de sua onipotência. Aos poucos percebe que existe um mundo real. A agressividade do bebê é natural e está ligada inicialmente aos instintos. Ele suga o seio da mãe com força, agita os pés e as mãos, dá chutes mesmo antes de nascer. Percebe gradativamente nesse contato com a realidade após alguns meses que suas atitudes são dirigidas a um outro e que podem afetá-lo.

A partir dessa conscientização, surge a preocupação com suas atitudes e a possibilidade de reparação destas. A integração da agressividade instintual é uma conquista. Mas o que devemos considerar é se o indivíduo consegue atingir a fase do amadurecimento, em que é um indivíduo (integrado) e assim capaz de colocar-se no lugar do outro e “vestir seus sapatos”.  Se esse estágio do concernimento não for alcançado e consolidado, o sujeito provavelmente terá dificuldades nas relações de forma geral: profissional, amorosa e familiar.

Isso possibilita o estabelecimento de uma relação afetiva real, na qual podemos dizer que há amor, troca e empatia.

As pessoas querem ser felizes, e a felicidade em nossa sociedade está ligada a alguns fatores, como: saúde, boas condições financeiras e amar e ser amado. Muitos afirmam que podem ser felizes sozinhos, contrariando Tom Jobim, que diz em uma de suas canções mais famosas que “é impossível ser feliz sozinho”.

Ficar só pode ser uma escolha ou pode ser que o indivíduo não se dê conta de que é muito difícil para ele estar de fato com alguém. Podemos pensar na fábula atribuída a Esopo e reescrita por Jean de La Fontaine, A Raposa e as Uvas. Na fábula, a raposa tenta pegar as uvas, como vê que, é impossível alcançá-las as despreza, dizendo que estavam verdes e não as queria mesmo.

A solidão pode camuflar o medo e a dificuldade de viver novas experiências e também uma incapacidade de estabelecer vínculos mais profundos.

Há indivíduos fechados para o mundo que não estão vivendo plenamente. Traumas podem ter ocasionado uma parada em algum ponto do caminho do amadurecimento, levando a patologias mais graves se essa parada ocorreu em períodos muito precoces.

A solidão pode ser a saída mais segura ou a única. Quando embarcamos na aventura de conhecer alguém, correremos todos os riscos que isso implica. Afinal, amar e não ser correspondido é um grande sofrimento. É necessária alguma estrutura psíquica para suportar se não houver correspondência ou perda da pessoa amada. Os mecanismos de defesa inconscientes podem ser consolidados e impedir que o indivíduo se lance na vida, não só para o amor e sim de forma geral. A pessoa nesse processo pode colocar muitos defeitos e impedimentos, fazer uma autossabotagem para dificultar que uma relação se inicie.

Sempre existe possibilidade de retomada de tudo aquilo que não foi bem estabelecido no desenvolvimento emocional. Pode-se ter esperança na plasticidade da psique. Lançar mão de estudos, teorias e de muitos profissionais que se dedicam a auxiliar e acompanhar o desenvolvimento e a busca do outro torna a vida mais feliz e satisfatória.

Em Fragmentos de um discurso Amoroso, o filósofo e escritor francês Roland Barthes propõe uma inquietante reflexão sobre o tema: “(…) encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um (…) foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo. Esse? por que o desejo por tanto tempo, languidamente?”.

Essas reflexões sobre os mistérios do amor e da vida são temas a serem mais explorados e que nunca se esgotarão.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistémica – Psicoterapia de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

MINHA CASA, MINHA FÁBRICA

Cresce no universo do design de interiores o interesse numa decoração com estilo industrial, inspirada nos galpões de artista americanos dos anos 1970

Ao entrar hoje em um apartamento de alto padrão em Nova York ou Berlim, mas também em São Paulo e no Rio de Janeiro, não será incomum deparar com uma parede de tijolos sem reboco, tubulações metálicas à mostra e móveis feitos com pranchas de madeiras de demolição. Não é desleixo – trata-se da mais forte tendência de design de interiores, que incorpora as imperfeições do ambiente para decorar a casa. O estilo, batizado de industrial, bebe dos balcões fabris para buscar suas referências.

O modismo chegou aos lares inspirado na atual geração de hamburguerias, barbearias e escritórios de startups, afeitos a exibir ares de novidade, mas nem sempre com orçamento suficiente para bancar grandes obras e acabamento de ponta. Daí a necessidade de adaptar a obra com o que estiver à mão. Em pouco tempo, irradiou-se para os fabricantes especializados em decoração. Há em São Paulo, por exemplo, a Prototyp&, e opções internacionais como a Steel Vintage, na Inglaterra, e a Go Home, nos Estados Unidos. As redes Tok&Stok e Leroy Merlin também surfam a onda. Um levantamento realizado pela rede social de compartilhamento de fotos Pinterest, traz uma visão do sucesso: a busca por referências para quartos com esse perfil cresceu 187%; para fachadas de casa, 345%; e iluminação, 800%, em comparação com doze meses atrás. “Em tempos de home office o estilo industrial ganhou ainda mais força por combinar com o aspecto de escritório”, diz Victor Noda, CEO da Mobly, loja de decoração com forte presença on-line.

Não é, ressalve-se, uma invenção dos nossos tempos. O formato é uma linha evolutiva das reformas de grandes galpões em Nova York, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1970. Ali, onde anteriormente funcionavam depósitos e outros tipos de dependência industrial ferida pela crise econômica, brotaram inovações. Com o vazio e a iminente demolição de imóveis, grupos de artistas passaram a ocupar os espaços, com novas ideias. A mais célebre das empreitadas foi a do artista plástico Andy Warhol (1928-1987,) o gênio irrequieto da pop art, que inaugurou a The Factory. O ambiente fazia as vezes de lar, salão de festai e palco de encontros culturais que mexeram com corações e mentes de uma geração. “Desde então, locações com esse visual, aparentemente cru, carregam uma impressão de intelectualidade, por abrir espaço para experimentações”, diz a coordenadora do curso de design de interiores no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, Sueli Garcia. Os especialistas alertam, no entanto, que, para funcionar, é fundamental pensar no estilo industrial como uma forma de adaptação do espaço, e não como um modelo pronto a ser copiado. “Uma parede estilizada ou um bom móvel de madeira rústica já dão a aparência fabril, sem deixar o ambiente datado”, diz o arquiteto Fernando Forte, do escritório FGMF, em São Paulo. Num momento em que muitas pessoas trabalham em casa, a tendência faz todo o sentido.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA ARQUITETURA DE INTERIORES

As principais mudanças dos estilos ao longo das décadas

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 15 DE JUNHO

O AMOR SUPERA A POBREZA

Melhor é um prato de hortaliças onde há amor do que o boi cevado e, com ele, o ódio (Provérbios 15.17).

O que faz uma pessoa feliz não é um requintado cardápio sobre a mesa, mas o sentimento de amor no coração daqueles que se assentam ao redor dessa mesa. Há famílias que podem ter sobre a mesa as melhores carnes, as mais refinadas iguarias e os doces mais apetitosos, porém esses pratos saborosos se tornam intragáveis porque as pessoas que se reúnem à volta da mesa não se amam. O ódio tira a paz e também o paladar. O ódio rouba a alegria e também o apetite. Onde há ódio, não há comunhão; e onde não há comunhão, a carne da melhor qualidade não tem sabor algum. Nossa família não precisa de mais conforto tanto quanto precisa de mais amor. Não precisamos de casas mais belas, de roupas mais sofisticadas ou de carros mais luxuosos. Precisamos é de mais amizade, mais companheirismo e mais amor no lar. É melhor comer verduras na companhia daqueles a quem amamos do que comer a melhor carne onde existe ódio e indiferença. O amor supera a pobreza. As pessoas mais felizes não são aquelas que têm mais coisas, mas as que têm mais amor. O amor transforma o casebre num palacete. O amor transforma um prato de hortaliças num cardápio sofisticado. O amor faz florescer o deserto da pobreza, tornando-o um rico jardim de mimosas flores.

GESTÃO E CARREIRA

PROCURAM-SE PROFISSIONAIS DE TI

Na contramão do mercado de trabalho, o setor de Tecnologia da Informação luta para preencher vagas abertas, que devem superar 400 mil até 2024. Entenda melhor a questão da falta de mão de obra e as possibilidades que o segmento oferece para quem deseja mergulhar nela.

20 milhões de brasileiros não têm emprego. Destes, 14,1 milhões estão em busca de um trabalho para chamar de seu, de acordo com o IBGE, enquanto os outros 5,9 milhões já jogaram a toalha e desistiram de procurar. Em contraposição a essa realidade está a área de Tecnologia da Informação, com muitas vagas em aberto e poucos profissionais para preenchê-las. Até 2024, serão 421 mil postos de trabalho criados no setor, segundo estimativas da Brasscom (a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação). Dá mais de 100 mil novas vagas anuais. Isso seria lindo, não fosse um problema: nossos cursos superiores formam menos de 50 mil novos profissionais de TI por ano.

Responsável por 6,8% do PIB brasileiro, o setor de TI movimentou RS494,7 bilhões em 2019. No último relatório do LinkedIn sobre profissões em alta, 9 dos 15 cargos destacados estavam relacionados à Tecnologia da Informação. As profissões ligadas à área também encabeçamos rankings das consultorias de recrutamento PageGroup e Robert Half.

Não é novidade para ninguém que se trata de um segmento em ascensão. Em 2018, a estimativa de vagas anuais em TI já era de70 mil. E o crescimento acelerado vem desde 2014, segundo o presidente da Brasscom, Sergio Paulo Gallindo. A pandemia, porém, agilizou o processo.

De um dia para o outro, boa parte do trabalho passou a ser feita de casa, a educação foi para o modo remoto, o e-commerce tomou de vez o lugar dos shoppings; o Rappi, o do restaurante por quilo; o Zoom, o da sala de reunião e do bar, e do consultório médico. Quase nada escapou do novo regime virtual. E os responsáveis por viabilizar tudo isso são justamente os profissionais de TI: programadores, desenvolvedores, cientistas dedados, especialistas em ciber segurança, em infraestrutura de nuvem…

E não se trata apenas de uma demanda das empresas de tecnologia propriamente ditas (Totvs, Locaweb, Linx), mas também de companhias diversas que estão reforçando suas áreas de TI, como varejistas, bancos e aplicativos de entrega.

“Não que a pandemia seja algo a se celebrar, longe disso, mas não se pode negar que a situação foi um propulsor para as transformações digitais”, diz o presidente da Brasscom. “De outra forma, a adaptação das empresas nunca teria acontecido tão rapidamente. E o impacto disso no mercado de trabalho é gigantesco.”

ÁREAS MAIS CARENTES

Também dá para mensurar essa ebulição da área em termos financeiros. A expectativa da Brasscom é de que o investimento em Tecnologia da Informação fique em torno de RS 90 bilhões por ano daqui até 2024.

Algumas áreas do setor fervem mais que outras (veja quadro ao lado). Mais de um terço dos investimentos anuais (RS 36 bi) devem ir para a Internet das Coisas (loT). Natural. A Internet of Things é a tecnologia por trás de objetos que começam a entrar para o dia a dia. O nome vem do conceito de “empoderar” objetos dotando-os de conexão com a rede. Até pouco tempo atrás, isso não passava de uma conversa (um tanto chata) sobre o poder que um liquidificador ou uma geladeira com internet teria (se você souber de algum, nos conte). Mas isso já faz parte do passado.

A Internet das Coisas já chegou no nosso dia a dia. É ela que faz a Alexa te dar a previsão do tempo e contar piada. É a IoT que permite a um dono de Apple Watch sair para correr sem celular no bolso e atender ligações pelo relógio. É a IoT que acende a luz das lâmpadas inteligentes.

Mais: com a chegada do 5G a internet vai adiantar outras coisas. Carros, por exemplo. É possível que tenhamos veículos autônomos o bastante para fazer viagens com o motorista lendo um livro ao volante, muito antes de as leis de trânsito permitirem a leitura de livros ao volante.

Uma área da TI, vale lembrar, puxa a outra. A IoT dá mais trabalho para o armazenamento em nuvem – algo que também já foi novidade, e que agora nos parece tão vital quanto o ar. Sem nuvem, sem música na Alexa. Sem nuvem, sem Gmail.

A nuvem real não é algo tão fofo quanto o nome indica. São só galpões gigantes cheios de processadores e discos rígidos distribuídos em rincões mundo afora. O ponto é que eles não guardam só o seu Gmail, as músicas do seu Spotify e as piadas da Alexa. Há anos, a maior parte das empresas está deixando de ter datacenters próprios, e migrando seus sistemas para nuvens. Nuvens como AWS, da Amazon, e a Azure, da Microsoft. Não por acaso, esses são os serviços mais rentáveis dessas duas companhias trilionárias – e o valor de mercado de cada uma delas é comparável ao PIB do Brasil (US$1,8 trilhão).

Segundo a consultoria Gartner, até 2025, 80% das empresas brasileiras terão migrado seus data centers para alguma nuvem. Com isso, a expectativa é a de que os investimentos em cloud computing por aqui somem quase outro terço do total esperado para a TI (RS 28 bi). Ou seja: quase 70% daquelas 100 mil vagas/ano em TI estarão nessas áreas nos próximos anos. Se você é do ramo, fique de olho.

EDUCAÇÃO A FÔRCEPS

Legal. Mas como preencher tantas vagas se os cursos superiores mal dão conta de metade delas? Discutir a ampliação de vagas nas universidades é fundamental para o futuro do país. O problema é que na TI o futuro já chegou. A demanda está aí, e a falta de gente preparada também. Nesse cenário, coube às próprias empresas irem atrás de uma solução rápida. E foi o que aconteceu: cada vez mais companhias estão dando um jeito de formar novos profissionais por conta própria. Não se trata de cursos de graduação, mas de capacitação – geralmente voltados ao ensino de linguagens de programação. Saber Python, Java e cia., afinal, é o primeiro passo para quem deseja ingressar na TI. E não menos importante: já torna os formandos completamente empregáveis.

A Localiza, o Banco Inter e a MRV se juntaram para formar 100 mil pessoas ao longo de 2021. O projeto funciona por meio de uma startup de inovação da qual as empresas são fundadoras, a Órbi Conecta. E tem três frentes personalizadas para atender às necessidades de cada negócio. A frente do Inter planeja formar desenvolvedores Java. As da Localiza e da MRV, para capacitar desenvolvedores nas linguagens de programação do sistema.NET. Em fevereiro, foram liberadas as primeiras 30 mil bolsas de estudos – outras 70 mil serão abertas nos próximos meses. Com carga horária de 90 horas, os alunos têm 75 dias para finalizar o curso (on-line) e, ao final, recebem um certificado e concorrem a uma vaga na empresa de cuja frente participaram.

Também há o Instituto da Oportunidade Social, que desde 1998 capacita jovens de 14 a 29 anos na área de tecnologia. Eles têm parceiros pesos-pesados, como Totvs, Dell, Microsoft e Deloitte. E oferecem cursos de programação (160 horas) e suporte em TI (300 horas), entre outros. Dos 2.250 formandos de 2019, 1.400 já foram contratados pelas empresas patrocinadoras.

Outra instituição de destaque nessa linha é a École 42, que ensina engenharia de software. Os cursos também são gratuitos, e duram de dez meses a dois anos. Há a capacitação para programação e também especialização em áreas como inteligência artificial, ciber segurança, desenvolvimento de aplicativos, entre outras. Em 2020, a École fechou uma parceria com o Itaú por dois anos – os alunos do curso se candidatam automaticamente a vagas em aberto na TI do banco.

A startup de educação Trybe tem um modelo diferente. O curso não é de graça, mas você só paga depois que já estiver empregado. Os alunos têm 1.500 horas de formação ao longo de um ano. E a preparação é abrangente: passa pelas dez linguagens de programação mais buscadas pelo mercado, de acordo com Geek Hunter, uma plataforma de recrutamento de profissionais de TI – Java script, HTML, CSS, React, Node, Express. js, SQL, NoSQL, Git e Python.

DIVERSIDADOS

Também existem cursos voltados a minorias. Um a iniciativa que junta a fome com a vontade de comer. De um lado, temos grupos com muito mais dificuldade para conseguir empregos. Do outro, uma área com mais vagas do que profissionais capacitados. Mais do que isso. O segmento de tecnologia da informação é até mais masculino e branco que a média do mercado de trabalho.

Só 37% dos profissionais são mulheres, e apenas 30% se declaram pretos ou pardos, de acordo com um levantamento da Brasscom.

Uma iniciativa que busca melhorar essa estatística é a Afro ­ Python. Trata-se de uma ONG formada por profissionais de TI (e de outras áreas também), que oferece cursos gratuitos de programação para a comunidade negra. Recentemente, ela participou da criação do DiversiDados – um curso de desenvolvimento de software do Nubank. De acordo com o banco, as aulas são voltadas a qualquer pessoa que “faça parte de algum grupo sub- representado, seja de gênero, etnia, orientação sexual ou outro”.

O Grupo Fleury também tocou um programa nessa linha, só que mais específico. Uniu-se à Carambola, uma startup de capacitação tecnológica focada em diversidade, para criar um curso voltado à formação de desenvolvedores trans. A iniciativa resultou em três contratados para o laboratório.

Se você não é da área, então, fique de olho nas oportunidades que mostramos aqui. E o mais importante. A dica também vale para quem acha que “não leva jeito para a coisa”. Como lembra Sergio Paulo, da Brasscom: “Não é necessário ser nenhum gênio da matemática para estudar TI. O que você precisa é ter um mínimo de raciocínio lógico e dedicação”.

O LADO MEIO VAZIO DO COPO

Iniciativas relevantes à parte, o fato é que o mundo real da TI segue com problemas antigos. O salário médio de um desenvolvedor python no país é RS 4.500, o de um programador java, R$ 3.800 – de acordo com o Glassdoor, um site global de avaliação do mercado de trabalho.

São ganhos bem maiores do que o salário médio do brasileiro (RS 2.300). Mas, considerando a carência de profissionais na área, são ganhos baixos, sim. Mesmo os profissionais com curso superior têm remunerações relativamente modestas para uma área tão pujante. Um engenheiro de dados, por exemplo, tira em média R$ 8.500.

Sim, é compreensível que muita gente ache esses valores rechonchudos o bastante. Mas não é o que os profissionais de TI sentem. Uma pesquisa da FIA Business School, feita em 2020 com sete empresas referência em tecnologia mostrou que 41,7% deles não consideravam seus salários justos. A média de insatisfação dos outros setores corporativos foi de 25%.

A disputa por mais e melhor mão de obra sempre tende a aumentar os salários. Mas o fato é que isso ainda não aconteceu de forma significativa. Talvez a mão invisível do mercado esteja precisando de um curso de TI, para ver se aprende a programar a melhor solução.

EU ACHO …

O PASSEIO DA FAMÍLIA

Aos domingos a família ia ao cais do porto espiar os navios. Debruçavam numa murada, e se o pai vivesse talvez ainda tivesse diante dos olhos a água oleosa, de tal modo ele olhava fixamente as águas oleosas. As filhas se inquietavam obscuramente, chamavam-no para ver coisa melhor: olhe os navios, papai!, ensinavam-lhe elas, inquietas.

Quando escurecia, a cidade iluminada se tornava uma grande metrópole com banquinhos altos e giratórios em cada bar. A filha menor quis se sentar num dos bancos, o pai achou graça. E isso era alegre. Ela então fez mais graça para alegrá-lo e isso já não era tão alegre. Para beber, escolheu uma coisa que não fosse cara, se bem que o banco giratório encarecesse tudo. A família, de pé, assistia à cerimônia com prazer. A tímida e voraz curiosidade pela alegria. Foi quando conheceu Ovomaltine de bar, nunca antes tal grosso luxo em copo alteado pela espuma, nunca antes o banco alto e incerto, the top of the world. Todos assistindo. Lutou desde o princípio contra o enjoo de estômago, mas foi até o fim, a responsabilidade perplexa da escolha infeliz, forçando-se a gostar do que deve ser gostado, desde então misturando, à mínima excelência de seu caráter, uma indecisão de coelho. Também a desconfiança assustada de que o Ovomaltine é bom, “quem não presta sou eu”. Mentiu que era ótimo porque de pé eles presenciaram a experiência da felicidade cara: dela dependia que eles acreditassem ou não num mundo melhor?

Mas tudo isso era rodeado pelo pai, e ela estava bem dentro dessa pequena terra na qual caminhar de mão dada era a família. De volta o pai dizia: mesmo sem termos feito nada, gastamos tanto.

Antes de adormecer, na cama, no escuro. Pela janela, no muro branco: a sombra gigantesca e balouçante de ramos, como de uma árvore enorme, que na verdade não existia no pátio, só existia um arbusto magro; ou era sombra da Lua. Domingo ia ser sempre aquela noite imensa e meditativa que gerou todos os futuros domingos e gerou navios cargueiros e gerou água oleosa e gerou leite com espuma e gerou a Lua e gerou a sombra gigantesca de uma árvore apenas pequena e frágil. Como eu.

*** CLARICE LISPECTOR

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMAGEM DISTORCIDA

A quarentena comprovou que as mulheres são as maiores vítimas da “síndrome do impostor” – a eterna sensação de não estarem à altura das funções que desempenham

Como se não bastasse a trabalheira imposta às mulheres na tripla jornada de trabalhar em home office, cuidar das tarefas domésticas e dar conta das crianças, a pandemia, sempre ela, vem contribuindo para aumentar os casos de um distúrbio insidioso, perturbador e, na maioria dos casos, escondido de todo mundo: a sensação de incompetência, de ser incapaz de fazer qualquer coisa direito – uma fenda na autoestima exacerbada pelo isolamento, que distancia a pessoa do mundo real e objetivo e a submerge mais ainda no ambiente filtrado e sem defeitos da internet.

Batizado de síndrome do impostor (embora não seja uma patologia), o conjunto de sintomas psicológicos associados ao sentimento de incapacidade, sobretudo nos ambientes acadêmico e profissional, é diagnosticado há décadas. No último ano, porém, ficou evidente que o comportamento, uma espécie de autossabotagem, afeta mais as mulheres do que os homens. “Sinto-me insuficiente como mãe e, principalmente, como profissional. As redes sociais agravaram o quadro, porque ficava me comparando com a vida perfeita que os outros parecem ter”, diz a paulista Camila Fremder, de 39 anos, que apresenta dois podcasts de sucesso, mas nunca escuta o próprio trabalho porque acha que não são bons o bastante.

Por terem entrado mais tarde no mercado de trabalho e lidarem até hoje com notórias desigualdades de tratamento, muitas mulheres encaram com preocupação e evidente insegurança os avanços na carreira. “Mesmo hoje, elas ainda são vistas como o sexo frágil, a quem cabe ser mãe e cuidar da casa porque são incapazes de cumprir obrigações profissionais”, observa a psicanalista Edoarda Paron. “Isso obviamente gera uma autopercepção bastante negativa.” O sentimento de não ser capacitada e estar enganando todo mundo espalha-se por diferentes profissões e classes sociais. Ele não impede que a mulher se desenvolva, é verdade, mas envolve o processo em doses exageradas de sofrimento e dúvidas.

A síndrome atinge, sim, muitas mulheres de prestígio reconhecido mundialmente: a ex-primeira dama americana e super influenciadora Michelle Obama, bem como as atrizes Emma Watson, Jodie Foster, Meryl Streep e Kate Winslet estão entre as que declararam sofrer esse tipo de insegurança. “Fico pensando: por que alguém vai querer me ver de novo em um filme? Além disso, não sei atuar, então por que continuo fazendo isso?”, abriu-se com franqueza, certa vez, Meryl Streep, a atriz multi­Oscar. ”A síndrome de impostor é dureza”, definiu Michelle em entrevista. “Duvidamos da nossa capacidade de julgamento, das nossas habilidades e dos motivos para estarmos naquela posição”, reforçou ela.

Um estudo realizado pela Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, mostrou que 70% das entrevistadas, todas executivas influentes, se sentem “uma fraude”, ou seja, não merecem os cargos que ocupam. A apresentadora e escritora brasileira Rafaella Brites, 34 anos, revela que sente o problema desde a faculdade e que foi piorando à medida que se via mais cobrada, ao ganhar visibilidade e reconhecimento profissional. Em 2020, Rafaella penou para lançar um livro – sucesso de vendas, diga-se de passagem – contando sua experiência com a síndrome. “Não entendia porque as pessoas comprariam meu livro, com tantas escritoras muito mais relevantes. Não me comparar com os outros e continuar escrevendo foi um exercício diário”, lembra.

Experiência semelhante relata a fotógrafa Hannah Lydia, 24 anos, sempre sobressaltada com a perspectiva de descobrirem que é “uma farsa” – mesmo tendo recebido prêmios por seu trabalho. Se não for tratado, em geral com terapia, avisam especialistas, o distúrbio pode desencadear ansiedade e depressão. “A pessoa se sente culpada diante do fracasso e, quando conquista algo, atribui à sorte ou ao destino”, diz a psicóloga Ciça Conte. Reconhecer a existência do problema é essencial, mas, ressalta a consultora de recursos humanos Sofia Esteves, as empresas também precisam fazer sua parte, valorizando a contribuição feminina, uma ação ainda lenta e tímida em vários locais de trabalho. “Cabe às corporações se esforçar para que as mulheres se sintam confortáveis e confiantes”, afirma. Da ultra bem-sucedida Michelle Obama vem a lição definitiva: “Encare os pensamentos negativos, sem deixar que eles a impeçam de ocupar espaços e fazer seu trabalho. A única maneira de crescer e superar os medos é aprender a confiar que sua voz e suas ideias têm valor”. Michelle sabe o que diz.

EU ACHO …

POR QUE ARTISTA DIZ BOBAGEM?

Antes de falar, eles devem refletir sobre o alcance das palavras

Pronto! Só em dizer que artista diz bobagem, também digo bobagem. Perdoem-me os antenados. Não quero me referir a artista nenhum, em particular. Atualmente, é até perigoso dar opinião. Uma frase fora de lugar e tentam cancelar a figura. Na real, o famoso vive sendo solicitado a falar sobre o que quer que seja. Acaba achando que sabe. Nos primórdios da carreira, quando nem era tão conhecido, em uma entrevista me perguntaram sobre a inteligência dos golfinhos. Hoje me calaria, até porque provavelmente são mais inteligentes que eu. Na época falei bobagens, já que não sabia nada sobre o tema. Ao longo do tempo, aprendi a silenciar. Até hoje, sempre vem a questão: “Qual a fórmula do sucesso? Gente, se eu soubesse estaria mais rico que o Elon Musk. Mais: se o sucesso tivesse uma fórmula específica, não existiriam tantos livros, cursos, gurus de autoajuda. Vou responder o quê?

Famosos são pressionados a dar opinião o tempo todo. Boa parte da imprensa e as redes sociais abdicaram de quem realmente sabe. Se descobrem um novo planeta, perguntam a um ator o que acha. Ele dirá uma bobagem, óbvio. Não é da área. Provavelmente vai dizer que há vida inteligente no espaço, já que falta na Terra.

Conversas que a pessoa teria em casa, com o companheiro(a), opiniões dadas sem muita precisão assolam as redes. Sai cada bobagem que não tem tamanho. Eu não critico meus colegas artistas. Artistas são pessoas comuns que ficaram famosas. Não necessariamente mais informadas ou mais cultas. Muitas pessoas têm, por exemplo, medo do comunismo. Essa é uma propaganda instilada em gerações, que vem da época em que se dizia que comunistas comiam criancinhas. Uma fake news repetida com insistência. Dizer o que é comunismo, propriamente, ninguém sabe. Nenhum de nós viveu ou teve contato com o comunismo. Há um medo de que o Brasil vire “uma ditadura comunista”, mais ou menos como se tem do bicho-papão. Frequentemente, surge uma gritaria, endossada também por famosos, de que os comunistas querem tomar o país. Eu, que nem conheço nenhum comunista, fico em silêncio. Aliás, sou um entrevistado chato. Dependendo da pergunta, digo “não sei”.

Elevados ao pedestal da fama, de onde podem falar de física quântica a mamadeiras em forma de pênis, alguns famosos passam a acreditar que sabem tudo. Muitos não são intelectuais. São grandes atores intuitivos. Ou cantores. Maravilhosos, mas enfiam o pé na jaca quando dão opiniões. Revistas, TVs, sites, plataformas e jornais sérios buscam quem sabe sobre o assunto. Mas na internet, principalmente, fala-se o que vem à cabeça.

Artistas devem refletir sobreo alcance de suas palavras. Muitos possuem milhões de seguidores. Emitir opiniões a torto e a direito só pode dar errado. Homofobia, política, questões de gênero e racismo são temas sérios. Não são questões emocionais, para chorar nos posts e angariar seguidores. Está na hora de o artista saber quando ficar quieto.

*** WALCYR CARRASCO            

OUTROS OLHARES

SEU DINHEIRO DE VOLTA

O cashback, mecanismo que devolve parte do valor de uma compra, ganhou impulso. Algumas instituições repassam até 10% da quantia gasta

Quem já passou pela experiência de encontrar um trocado esquecido, mesmo que se trate de uma peque na quantia, conhece bem a sensação. Recuperar parte de um dinheiro teoricamente gasto é um prazer que sempre vem a calhar, especialmente em tempos de crise. Atento a esse mecanismo, o mercado tem criado serviços de recompensa cada vez mais sedutores. No passado, fizeram sucesso os programas de milhagem e os cupons de desconto em restaurantes e lojas. Com a popularização do e-commerce o surgimento de moedas e boletos virtuais as alternativas se expandiram e uma palavrinha estrangeira tornou-se a nova febre do momento: cashback.

Trata-se deum sistema segundo o qual o consumidor, ao efetuar uma compra, recupera parte do valor em forma de saldo (em reais, e não pontos), que poderá ser reutilizado de diversas formas. O cashback foi desenvolvido nos Estados Unidos no fim do século passado e o que já era moda no exterior começou a ser amplamente adotado no Brasil durante a pandemia. Segundo levantamento da consultoria ClearSale, o setor de e-commerce cresceu 22% no país em 2020. No mundo, as transações com cashback movimentaram 108 bilhões de dólares e a expectativa é que continue avançando acima de dois dígitos por muito tempo. “O cashback é um benefício que atrai e fideliza o cliente”, afirma Pedro Guasti, cofundador da EbitlNielsen, plataforma que mede a reputação das lojas virtuais. “É uma alternativa bastante interessante, sobretudo para produtos de maior valor agregado.”

As buscas no Google pelo termo explodiram na última Black Friday e há cada vez mais iniciativas consolidadas. Na Méliuz, empresa pioneira em cashback no país, foram abertos 2,4 milhões de contas de janeiro a março, 73% a mais que no primeiro trimestre do ano passado. Uma das líderes do mercado é a Ame Digital, fintech da B2W, grupo que controla as Lojas Americanas, e soma 17 milhões de downloads de seu aplicativo. Presente em 1.700 lojas físicas e com cerca de 3 milhões de parceiros no país, a Ame movimentou 5,9 bilhões de reais no quarto trimestre de 2020, um crescimento de 200%, na comparação com um ano atrás. Recentemente, em parceria com a fintech Bcredi, a Ame ofereceu 2% de cashback em uma linha de empréstimo de 3 milhões de reais – o que renderia, portanto, a devolução de 60.000 reais. O abastece aí, que deixou de ser apenas um app de descontos nos postos Ipiranga e passou a ser uma plataforma de serviços que atrai 200.000 novos clientes por mês, e o PicPay são outros bons amigos dos caçadores de recompensas.

As inovações do setor muitas vezes esbarram na ausência de educação financeira adequada dos brasileiros. Estima-se que 80% dos investidores nacionais deixem seu dinheiro na poupança, um produto que, atualmente, rende apenas 70% da (baixa) taxa Selic. Além disso, o uso desenfreado do cartão de crédito pode levar a dívidas impagáveis. Recentemente, a plataforma tecnológica de investimentos XP anunciou uma novidade que almeja reduzir esses problemas, uma espécie de evolução do cashback, batizada de investback. Ao efetuar compras com o cartão de crédito, o cliente recebe de volta ao menos 1% em todas as compras e entre 2% e 10% naquelas efetuadas dentro do marketplace da empresa (Nike e Spicy estão entre as marcas parceiras com cashback máximo). O diferencial é que, ao ultrapassar a marca de 50 reais, o valor acumulado é encaminhado para um fundo de investimentos. Em vez de apenas recuperar o dinheiro, o cliente pode fazê-lo render. “Queremos que os cartões deixem de ser vilões do endividamento e passem a ser aliados de investimento”, afirma Guilherme Benchimol, fundador da XP.

Assim como qualquer tipo de promoção, o cashback pode trazer benefícios, mas convém tomar alguns cuidados. É primordial verificar a credibilidade da empresa e analisar suas regras, para não ficar exposto a golpes. Também é necessário comparar os preços – afinal, o que adiantaria um cashback de 5% sobre um produto 10% mais caro? Há ainda o risco comportamental exacerbado na pandemia. “Muitas pessoas estão abatidas em casa e têm preenchido esse vazio fazendo compras. Para economizar, é preciso se questionar: “Eu realmente preciso desse item?”, alerta Carol Dias, a mais influente educadora financeira do país, com 5,9 milhões de seguidores no Instagram. “As compras têm de ser racionais, e não emocionais.” Um descontinho, ou aquele dinheiro que você já não contava com ele, é sempre bem-vindo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE JUNHO

QUANDO A POBREZA É MELHOR DO QUE A RIQUEZA

Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação (Provérbios 15.16).

A riqueza é preciosa quando vem como fruto da bênção de Deus e do trabalho honesto. A bênção de Deus enriquece e com ela não tem desgosto. É Deus quem fortalece nossas mãos para adquirirmos riquezas, pois as riquezas e as glórias vêm de Deus. Entretanto, de nada vale ser muito rico e viver inquieto. Não há proveito algum em dormir numa cama de marfim, mas não ter paz de espírito. De nada se aproveita pôr a cabeça num travesseiro macio se a mente está sendo assolada pela inquietação. É melhor ser pobre e andar no temor do Senhor do que adquirir muitos bens, viver no fausto e no luxo, mas com a alma perturbada. É melhor ser pobre e temer a Deus do que ser rico e infeliz. É melhor ter pouco com o temor do Senhor do que ter muito dinheiro, mas viver sem paz. A riqueza mal adquirida pode dar-lhe conforto, mas não sossego para o coração. Pode proporcionar-lhe uma casa bonita, mas não um lar feliz. Pode garantir-lhe um funeral pomposo, mas não a vida eterna. Temer a Deus é melhor do que granjear fortunas. Temer a Deus é um tesouro mais precioso do que muito ouro depurado. Quem teme a Deus tem paz de espírito e, mesmo que sua riqueza aumente, não põe nela o coração.

GESTÃO E CARREIRA

EMPREENDEDORES DO DIVÃ

O crescimento das startups de saúde mental disparou na pandemia E as companhias brasileiras do ramo receberam 150% a mais em investimentos entre 2019 e 2020. Entenda o que elas fazem. E quais são as oportunidades de negócio nesse mercado.

Em 2016, o português Rui Brandão resolveu largar a carreira de médico e uma residência como cirurgião vascular nos Estados Unidos para empreender no ramo de saúde mental no Brasil. O gatilho para tomar a decisão rolou um ano antes: a mãe dele, que morava em Portugal, tinha recebido um diagnóstico de burnout, condição causada por excesso de trabalho, e que leva ao esgotamento físico e emocional.

Rui, que havia cursado uma parte da graduação no Brasil, entendia que o país era mais aberto a inovações na área da saúde do que a Europa. Com apenas 26 anos, fez as malas e voltou ao país disposto a criar uma startup que ajudasse pessoas como sua mãe. Nascia assim a Zenklub, uma plataforma de terapia on-line com preços acessíveis, a partir de RS80.

Para quem não conhece, funciona como um Uber de psicólogos. Você entra no site, escolhe um profissional (que publica seus preços, suas especialidades e seus horários disponíveis) e faz a consulta por vídeo, dentro da plataforma.

Nos cinco anos de vida da empresa, 1,5 milhão de pessoas passaram pelo divã virtual da Zenklub. Hoje, são mais de 800 profissionais de saúde cadastrados na plataforma e 50 mil consultas realizadas todos os meses.

De acordo com a Distrito, uma aceleradora de pequenas empresas, existem hoje pelo menos 30 startups voltadas para a saúde mental em atividade no Brasil – vamos ver algumas delas ao longo desta reportagem. “Os transtornos psicológicos por muito tempo foram estigmatizados. Mas, com o passar do tempo, as doenças mentais tomaram uma proporção gigantesca. É uma oportunidade para os empreendedores”, diz Rodrigo Demarch, diretor de Inovação do Hospital Albert Einstein.

Gigantesca mesmo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão ao redor do mundo. Outros 260 milhões, com ansiedade. Só no Brasil são 12 milhões de depressivos e outros 18,6 milhões de ansiosos. Isso dá, respectivamente, 7% e 11% da população adulta, com mais de 15anos.

DEZ ANOS EM UM

Em outubro de 2020, a OMS publicou um levantamento indicando que 93% dos serviços de saúde mental no mundo foram prejudicados ou interrompidos por conta da pandemia. Isso criou uma janela de oportunidade inédita para as terapias online.

A americana Talkspace, urna das primeiras empresas desse ramo, viu sua receita dobrar no ano passado, de US$27,2 milhões para US$ 50,5 milhões. O próximo passo da companhia, fundada em 2012, é se tornar a primeira empresa de saúde mental a vender ações na bolsa americana. O IPO, ou seja, a estreia na bolsa, deve acontecer neste ano, e o preço somado de todas as ações da companhia pode ficar em USS1,4 bilhão. O apetite dos fundos de investimento por essas empresas também nunca esteve tão alto.

Dados do PitchBook, um instituto de pesquisas, indicam que as startups de saúde mental americanas levantaram quase USS 1,6 bilhão em investimentos em 2020. O dobro de 2019.

As torneiras estão abertas no Brasil também. Segundo um levantamento da Distrito, no ano passado as startups do ramo amealharam USS 4,68 milhões em investimentos – 150% a mais do que em 2019, quando elas receberam USS 1,85 milhão. “Estudos já apontavam que o mercado de serviços para saúde mental e bem-estar iria despontar nas próximas décadas. O ponto é que a pandemia acelerou o que iria acontecer daqui a cinco, dez anos”, afirma Sheila Mittelstaedt, sócia da consultoria KPMG.

Prova disso é que boa parte da engorda da brasileira Zenklub aconteceu justamente no ano passado. Em 2020, o número de clientes da startup disparou 515%. Para acompanhar o ritmo de crescimento, o time de funcionários saltou de 28 para 80 pessoas. “A pandemia educou o mercado sobre a urgência de olhar para a saúde mental”, diz Rui Brandão.

O interesse de grandes investidores pela empresa do empreendedor também aumentou. Em maio de 2020, a Zenklub recebeu um aporte de RS16,5 milhões do Indico Capital Partners, maior fundo privado de venture capital de Portugal (um ano antes, a Indico já havia sido responsável pelo primeiro aporte da Zenklub, de RS2,5 milhões). E a cereja do bolo ainda estava por vir. Em fevereiro de 2021, a startup recebeu o maior investimento da sua história: RS 45 milhões, liderado pela gestora de investimentos brasileira SK Tarpon – ou seja, bem mais do que todo o setor recebeu em 2020.

HISTÓRIA RECENTE

O conceito de terapia on-line não é novo. Nos anos 1990, já se debatia o uso do telefone para atendimentos psicológicos. Entre 1995 e 1998, o psicólogo americano David Somrners ficou famoso por atender pacientes via chat.

Acontece que, até pouco tempo atrás, o atendimento remoto era proibido por lei no Brasil. Em 2005, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), passou a permitir atendimentos psicológicos on-line apenas em caráter experimental, para fins de pesquisa – sem cobrança de honorários. Sete anos depois, em 2012, o CFP publicou outra portaria, autorizando o atendimento por psicólogos de forma virtual, porém com um limite máximo de 20 sessões e restrito apenas a “orientações” – não a consultas propriamente ditas.

Isso só foi mudar em 2018, quando o CFP liberou totalmente o atendimento on-line. “O crescimento de negócios inovadores sempre acaba sendo freado pela incerteza jurídica”, diz Rodrigo, do Einstein. De fato. Basta pensar que, em 2018, a americana Talkspace já operava havia seis anos. Agora, a história é bem diferente. “A regulamentação do CFP deu mais segurança para investidores e estimulou a criação de novos serviços na área”.

BENEFÍCIO CORPORATIVO

As doenças mentais são uma das maiores causas dos afastamentos e pedidos de aposentador ia por invalidez – junto com acidentes de trabalho e lesão por esforço repetitivo. Em 2020, segundo a secretaria Especial da Previdência Social e Trabalho, 576 mil pessoas se afastaram do trabalho ou se aposentaram definitivamente por conta de transtornos mentais, número 26% maior que o registrado em 2019.

Perder bons funcionários por conta de problemas que poderiam ter sido resolvidos é um tiro no pé para qualquer empresa. E todas sabem disso. Um dos nichos que mais foram explorados após a regulamentação, então, foi o serviço para o mercado corporativo – já que o atendimento online é relativamente barato.

Empresas passaram a oferecer os serviços dessas plataformas como um benefício, subsidiando sessões para seus funcionários. E a pandemia, como era de se esperar, gerou um boom nessas iniciativas. O número de empresas atendidas pela Zenklub, por exemplo, saltou de 12, em 2019, para 200 em 2020. Hoje, o braço corporativo já responde por 40% do faturamento da empresa.

De olho nesse potencial, algumas startups já nascem focadas apenas no público corporativo. É o caso da Hisnek. Fundada pela empreendedora Carolina Dassie, de 36 anos, a empresa começou como um clube de assinaturas de snacks saudáveis, em 2014. Após cinco anos em atividade, em 2019, Carolina deu uma pivotada no negócio. “Percebemos que muitas companhias tinham psicólogos disponíveis, mas não conseguiam detectar o tamanho do problema em relação à saúde mental dos funcionários. É um tabu falar do assunto no trabalho, afina, diz. Caroline, então, desenvolveu a Ivi, uma inteligência artificial. Ela auxilia no rastreamento daqueles profissionais com maior risco de desenvolver doenças mentais. A Ivi funciona por meio de um aplicativo que os funcionários instalam em seus celulares. A cada acesso, eles respondem a um questionário relativo às emoções que estão sentindo naquele dia, incluindo as causas e a intensidade dos sentimentos. Com o passar do tempo, a tecnologia consegue identificar padrões de comportamento dos usuários que podem indicara presença (ou não) de transtornos mentais – sempre de acordo com padrões científicos. A partir daí, a Ivi oferece orientações relacionadas ao bem-estar emocional e, nos casos mais graves, encaminha os funcionários para psicólogos ou psiquiatras.

No ano passado, além de receber um aporte de RS 1 milhão de investidores – anjos, a Hisnek teve um crescimento de 60%e passou a atender gigantes como Suzano, Ambev e Pearson Educacional.

Outra startup que cresceu oferecendo serviços apenas para empresas foi a Mindself, uma companhia que oferece programas de meditação para o ambiente corporativo. “Estruturamos o serviço para que a prática da meditação seja vista como uma forma de exercitar o cérebro, assim como fazemos com o resto do nosso corpo, e não esteja ligada à religiosidade”, diz Wagner Lima, um dos fundadores da Mindself. Fundada em 2019 por Wagner e Alexandre Ayres, dois ex- executivos do mercado financeiro e de tecnologia, a empresa viu seu faturamento sair de RS200 mil para RS1 milhão no ano passado. Entre os clientes da Mindself, hoje, estão empresas como Bayer, Enel e Itaú. “Também notamos um aumento na demanda por companhias menores, e de fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo”, diz Alexandre.

ANTI-INSÔNIA

A regulamentação mais flexível também favorece a criação de produtos inusitados. É o caso da startup Vigilantes do Sono. Fundada em 2020 pelo engenheiro de computação Lucas Baraças e pela psicóloga Laura Castro, a empresa oferece um chat bot para tratar pessoas com insônia. Batiza do de Sônia, o robozinho interage com os usuários duas vezes ao dia: de manhã, para avaliar como foi a noite do sono, e à noite, para explicar técnicas que auxiliam a dormir melhor.

O software usa conceitos consagrados da terapia cognitivo comportamental para insônia (TCC-1). A TCC é uma linha terapêutica bastante popular, que se concentra na identificação e na mudança de hábitos dos pacientes. “Existe muito material sobre insônia na internet, mas pouca coisa baseada em estudos científicos. Então, muita gente fica perdida. Fora isso, os problemas para dormir e outras doenças mentais, como ansiedade e depressão, estão intimamente relacionados”, diz Lucas.

O modelo de negócios da startup, de acordo com o empreendedor, é inspirado na americana Sleepio. A plataforma, funda da em 2010, também utiliza chat­ bots aliados à terapia cognitivo comportamental para tratar os problemas para dormir. Em 2020, inclusive, um estudo envolvendo 7.078 pacientes do NHS, o sus britânico, detectou que o sistema da Sleepio ajudou 56% dos usuários a se livrar da insônia. O potencial da empresa despertou o interesse dos investidores. E, em junho do ano passado, a Big Health, empresa dona do Sleepio recebeu um aporte de USS 39 milhões dos fundos Gilde Health e Morningside Ventures.

A Vigilantes do Sono também possui alguns números expressivos para o mercado brasileiro. Até agora, ela recebeu dois aportes que somam RS 1,1 milhão da Taqtile, empresa de softwares e ex­ empregadora de Lucas. Até agora, a startup atendeu 2 mil pessoas. E o próximo passo é entrar no ramo corporativo. “Temos assinaturas individuais e planos para médicos incluírem pacientes. Mas com o produto para empresas vamos conseguir mais escala”, diz Lucas. É isso. Do jeito que 2021 caminha, com o fim da pandemia ainda longe do horizonte, não faltarão clientes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VALE MAIS DO QUE PESA

Estudo suíço revela que vinhos baratos recebem melhor avaliação quando alguém diz que seus preços são exorbitantes. E assim que a mente humana funciona

Eis uma verdade inconveniente: se você quiser impressionar os convidados para um jantar regado a vinhos – quando os encontros presenciais puderem voltar, é claro -, diga a eles que está oferecendo garrafas caras, mesmo sabendo terem custado pouco. Sirva no decanter, sem mostrar os rótulos. Segundo a ciência do comportamento, o anfitrião certamente impressionará os convivas, que rasgarão elogios à qualidade das bebidas. Parece exagero, mas um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Basileia, na Suíça, mostrou que o vinho barato bate mais agradavelmente no paladar quando é sugerido que seus valores são elevados. O experimento envolveu 140 mulheres e homens, que degustaram três tintos italianos, com preços e qualidade diferentes. Alguns dos degustadores puderam ver os preços reais, mas, para outros, a marcação foi propositalmente exorbitante. O vinho mais em conta, apresentado com um valor quatro vezes maior, teve um desempenho 20% mais alto no teste de degustação – e foi considerado o melhor de todos. A conclusão: existe um efeito psicológico evidente a depender do modo como o ser humano é submetido ao consumo.

“Durante muitos anos, valores altos eram indicativos de qualidade e durabilidade de um item, e instintivamente refletimos isso até hoje”, diz Paola Almeida, professora de psicologia comportamental da PUC de São Paulo. Um trabalho da Universidade de Bonn, na Alemanha, mostrou que inflacionar o preço de um produto tem impacto na fisiologia cerebral, aumentando de forma significativa a ativação da região associada a recompensa e motivação – a mesma área estimulada pelo uso de drogas. A reação vale para todo produto cobiçado, sejam vinhos, roupas, eletrônicos ou qualquer outro item considerado de luxo.

Nos últimos anos, com a crescente preocupação ambiental, a geração dos chamados millennials, formada por nascidos entre 1980 e 1994, começou a manifestar mais prazer em experiências pessoais do que na posse de produtos. Em vez de adquirir casa e carros, eles optam por alugar e aplicar o dinheiro em viagens e cursos de línguas, por exemplo. Um levantamento da empresa de consultoria americana Harris Group identificou que 72% dos americanos nessa faixa etária preferem gastar dinheiro em experiências individuais a comprar bens materiais. Acredita-se que isso esteja relacionado ao fato de tais vivências permanecerem na memória, e o quanto o valor percebido dos objetos enfraquece com o tempo. O curioso é que também nesse novo modo de consumir há estudos que identificam o mecanismo de recompensa, atrelado a etiquetas com preços salgados, o que reforça a submissão humana ao valor monetário de um produto. Por essa lógica, o item caro deve ser inevitavelmente bom.

No ano passado, a imprensa americana divulgou um episódio ocorrido em 2000, mas que vinha sendo guardado como segredo para evitar constrangimentos. Em um dos restaurantes mais badalados de Nova York, o Balthazar, quatro executivos de Wall Street pediram um Cháteau Mouton Rothschild 1989, o vinho mais caro da casa, listado a 2.000 dólares. Na mesa ao lado, um jovem casal escolheu um singelo pinot noir por 18 dólares. Por um erro de serviço, os vinhos acabaram trocados. O incrível da história é que os clientes nem sequer notaram a diferença. Convêm ressaltar, porém, que os degustadores experientes provavelmente identificariam o engano. Isso não invalida o resultado da pesquisa suíça. No fundo, o estudo mostra que o ser humano pode ser facilmente manipulado. Muitas vezes, basta cobrar caro.

EU ACHO …

EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA

Submeter a nossa mente a novidades a mantém em boa forma

Cerca de vinte anos atrás eu subi ao palco como integrante de um elenco de empresários que encenavam uma peça amadora para obter recursos para causas sociais. Ninguém era ator ou atriz profissional, mas estávamos todos compenetrados de nossos papéis. O teatro beneficente era um desafio que encarávamos com aplicação. Havia expectativa. Nos bastidores, aquele nervosismo natural de uma estreia, mas havíamos ensaiado e eu estava confiante. Entrei em cena, tão extravagante quanto a personagem exigia. Antes da minha fala, no entanto, ouvi uma frase que não estava no roteiro. “Filha, o que você está fazendo com esse laço na cabeça? Desce daí!” Era minha mãe, dona Floripes, que, perto dos seus 90 anos, fora levada ao teatro por irmão Alcides. Foi ne momento que a família teve certeza de que ela não estava bem. Nos dez anos seguintes, fomos perdendo-a aos poucos, com suas ausências cada vez mais prolongadas.

Tudo isso me veio à mente por causa do filme Meu Pai, com o magistral Anthony Hopkins, que retrata as provações da vida em família quando um de seus membros sofre algum tipo de demência. A lembrança me levou a perguntar se não há nada que se possa fazer para preservar a memória ameaçada pela idade. A resposta da neurociência é que há, sim – e não apenas para reverter perdas, como para melhorar a performance cerebral. O segredo do seu bom funcionamento é o exercício constante. Como uma barriga que desconhece flexões fica flácida, um cérebro sem desafios intelectuais tem sua elasticidade atrofiada.

O que fazer? Se você pensou em palavras cruzadas ou sudoku, acertou, mas só em parte. O psiquiatra americano Daniel Amen, craque em cuidar do cérebro, recomenda em obra recente uma série de exercícios para ativar as cinco principais partes em que esse órgão está dividido. Aqueles passatempos são recomendados para uma delas – o córtex pré-frontal, considerado o CEO do cérebro, que nos capacita a aprender com erros e fazer planos. Quem foca só o lado analítico, porém, não estimula corretamente o cérebro. É como querer cuidar do corpo todo fazendo apenas

abdominais. Da mesma maneira que criamos músculos, tonificando­ os, podemos criar neurônios, independentemente da idade, desde que submetamos nosso cérebro a novidades. Esse é um aspecto crucial, pois, quando passamos a dominar algum conhecimento, o cérebro se acomoda numa zona de conforto.

A lista de atividades recomendadas é extensa. Aprender uma língua ou começar a tocar um instrumento estão no topo do ranking. Jogos que envolvem estratégia, como o xadrez, são importantes, mas não menospreze a contribuição de games 3D. Memorizar um poema, além de aguçar sua sensibilidade, certamente provocará novas sinapses, aquelas conexões entre células nervosas que tornam possíveis pensamentos e emoções. Meditação também vale. Da mesma maneira que dançar, tentar se localizar sem GPS, jogar golfe ou caminhar com vigor para oxigenar o cérebro. O conjunto das iniciativas equivale a uma fornada de madeleines, aquele bolinho famoso por ter puxado o fio da memória em Proust.

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Geração de frutas e legumes geneticamente selecionados aposta em cores diferentes, sabores adocicados e máximo cuidado com o organismo

Na criação do premiado desenho Ratatouille, de 2007, Oscar de melhor animação, os produtores da Pixar entrevistaram biólogos, gastrônomos e chefs para construir a história e seus fascinantes personagens. Houve minucioso cuidado para que nenhuma informação soasse imprecisa. A certa altura, o mestre-cuca parisiense Auguste Gusteau resume a ópera à mesa: “A boa comida é como música que se saboreia, cor que se cheira”. A frase é o gatilho de inspiração para que o protagonista – um ratinho chamado Rémy – se aventure pelo mundo da gastronomia e comande um premiado restaurante francês. Nessa toada, em que a vida imita a arte, vive-se uma pequena revolução nas gôndolas dos supermercados e nas barracas das feiras: a profusão de produtos que seduzem os olhos com novas cores, bagunçando o arco-íris, e simultaneamente oferecem composições nutricionais cuidadosamente preparadas. Pode ser uma melancia amarela (sim, amarela!) com mais fibras, cebola que não provoque choro ao cortá-la e maracujá-roxo afeito a ser consumido in natura.

O carro-chefe, dado o sucesso imediato, é a melancia com poucos caroços, sabor doce e fibrosa – além, claro, do divertido espanto provocado pela tonalidade. Estima-se que até o fim do ano ela morda 15% do mercado de sua irmã original. Há uma vantagem competitiva: estabilidade no gosto e textura suculenta – independentemente da época do ano ou local em que for comprada. “Não há surpresas após a compra, ela será sempre doce”, diz Paulo Tomaseto, diretor comercial de sementes de frutas e hortaliças da Basf, empresa alemã responsável pela inovação. Convém não se assustar com a presença de uma companhia química, mais conhecida pela fabricação de corantes sintéticos e, no passado, fitas cassete, na lida com frutas e legumes. A inesperada aparência dos comestíveis esconde zelo rigoroso e atenção total à saúde. É aprimoramento que deve ser celebrado, e não confundido com loucuras de laboratório, sem sentido. Ao contrário: trata-se de um processo fundamental para a agricultura moderna, conhecido como melhoramento genético. Por meio dele, dá-se a mistura – hibridação, no linguajar técnico – de diversas linhagens de uma mesma espécie. “São processos que levam de dez a quinze anos em busca do cruzamento adequado entre espécies já existentes”, diz a professora Sandra Cabei, do curso de agronomia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Nesse caminho, centenas de combinações são estudadas e descartadas até que se chegue ao ideal esperado. “O método combina plantas de uma mesma família, mas que diferem na cor, no sabor e na acidez. No caso da melancia, por exemplo, o tom amarelado já existia em uma variação africana detectada há milhares de anos.

Se a variedade hoje faz rir, ao brincar com os cinco sentidos, é sempre bom entendê-la como uma homenagem ao progresso científico – o que não significa, muito ao contrário, a louvação de pesticidas que comprovadamente são perigosos. Não se trata, também, de apartar a qualidade dos produtos orgânicos, muito bem-vindos, embora caros. O controle de campos e estufas, pai e mãe do atual momento, representou nos anos 1960 um movimento que tirou dezenas de milhões de pessoas da fome. A chamada Revolução Verde, que premiou com um Nobel da Paz em 1970 seu mais ardente defensor, o engenheiro agrônomo Norman Borlaug (1914-2009), permitiu o aumento de 13% na produtividade agrícola em países em desenvolvimento, como o Brasil, entre 1960 e 1990. A atual e colorida reviravolta, embora não tão influente, pode representar relevante aliado na conquista de novos consumidores interessados em novidades. E há vasta janela de crescimento. Dados recentes do IBGE apontam que apenas 13% dos adultos consomem a quantidade ideal, 25 vezes por semana, de frutas e hortaliças. É pouco. “A produção hoje busca acompanhar o gosto do consumidor, cada vez mais preocupado com a qualidade e diferenciais do que consome”, diz Fábio Faleiro, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A instituição está na etapa final de estudos de um novo tipo de maracujá, raro no mercado brasileiro, mas já disponível no exterior. A polpa deve agradar a quem tem paladar mais adocicado e a cor arroxeada será um atrativo à parte. É para comer com os olhos também.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE JUNHO

É FESTA QUE NÃO ACABA MAIS

Todos os dias do aflito são maus, mas a alegria do coração é banquete contínuo (Provérbios 15.15).

Não há banquete melhor do que a alegria do coração. Não há festa mais empolgante do que ter paz de espírito. Não há prazer maior do que viver em paz com Deus, com o próximo e consigo mesmo. O sábio diz que o coração contente vive um banquete contínuo. O coração alegre está sempre em festa. A vida é sempre agradável para as pessoas que saboreiam as iguarias do banquete da alegria. Essa alegria não é apenas presença de coisas boas nem ausência de coisas ruins. Não é uma circunstância nem mesmo um sentimento. Essa alegria é uma pessoa. Essa alegria é Jesus. Ele é a nossa alegria. Com Jesus, nossa alma tem um banquete contínuo. Por outro lado, todos os dias do aflito são difíceis, maus e infelizes. Uma pessoa pode ter a casa cheia de bens, ter saúde e estar rodeada de amigos, mas, se não houver paz de espírito, se o coração estiver triste e oprimido, a alma murcha, o sorriso se apaga no rosto, e a infelicidade predomina. O sol pode estar brilhando, as circunstâncias podem parecer favoráveis, mas, se a pessoa está aflita, nada disso a satisfaz. Tudo se desvanece. A vida perde o sabor. O banquete cobre-se de cinzas, e as lágrimas passam a ser o seu alimento. A vida com Deus, mesmo timbrada agora de lágrimas e dor, é uma festa que nunca acaba. Haverá um dia em que Deus enxugará de nossos olhos toda lágrima. Então, nossa alegria será completa!

GESTÃO E CARREIRA

TUDO SOB CONTROLE

Conhecimento contábil, visão 360 graus e boa comunicação são algumas das atribuições de um controller – profissão em alta da área financeira. Veja como investir nessa carreira e a rotina de quem já está nela.

O controller é o head de contabilidade de uma empresa. Sua função primordial é coordenar a produção dos balanços da companhia. Isso o torna peça-chave principalmente em empresas de capital aberto, que devem satisfações a seus acionistas e a todo o mercado financeiro.

Para entender melhor a importância dessa figura, vamos a um exemplo prático. Em fevereiro de 2020, a gestora de fundos de investimentos Squadra verificou em uma análise de balanços que a resseguradora IRB Brasil estava superfaturando lucros em seus balanços. 85% do valor de mercado da companhia se perdeu nessa brincadeira. Mais tarde, a empresa colocaria a culpa em diretores que já tinham deixado a empresa.

Se os acionistas majoritários da resseguradora (Bradesco e Itaú) tivessem um bom controller – além de outro CEO e outro CFO, claro -, teria sido bem mais complicado para a diretoria da época ter perpetrado a maquiagem, que lhes conferia bônus vultosos. Pois está no escopo de atividades do controller ser os olhos e os ouvidos dos acionistas dentro da organização, de modo que a boa governança seja preservada.

Está aí o ponto- chave da profissão: garantir uma boa governança. Anos atrás, o controller era basicamente um profissional de contabilidade, com funções quase que exclusivamente burocráticas, como cuidar da documentação fiscal, regularizar a parte tributária, zelar pelos custos da empresa. Mas a profissão evoluiu. Depois de escândalos envolvendo a administração de grandes empresas – como da Lava Jato no Brasil e o da Enron, outra maquiadora de balanços, nos EUA -, boa parte das grandes empresas entendeu que precisava de um profissional que também fosse uma espécie de auditor exclusivo, um zelador da boa gestão e dos interesses dos donos. E essa honra coube ao cabeça da contabilidade, também conhecido como gerente ou diretor de controladoria: o nosso amigo controller.

Outra função importante do cargo está atrelada à visão estratégica do negócio. Para que esse papel fique mais claro, vamos imaginar uma situação concreta. Recentemente, o Estado de São Paulo aumentou o ICMS de vários produtos, o que acarreta em aumento nos custos para as empresas. Em momentos assim, qualquer companhia entra num dilema. Repassar todo o aumento para os consumidores? Engolir o prejuízo, para não perder clientes? Buscar novos fornecedores, mais baratos, para anular a alta tributária? São decisões que, no fim, cabem ao CEO e ao CFO. Mas a presença de um controller competente, com todos os números da empresa na ponta da língua, é fundamental para que a empresa tome a decisão mais correta, mais financeiramente sustentável.

CONTROLLERS E CONTADORES

Nem todo contador é um controller em potencial, e nem todo controller é contador. A nomenclatura, afinal, se refere a um cargo, não a uma formação acadêmica. “Contadores, em geral, são assistentes, analistas ou até mesmo gerentes, que respondem ao controller”, diz Lucas Papa, gerente da consultoria de recrutamento Michael Page. Já o controller pode ter vindo de outra área, não necessariamente da contabilidade. Dentro desse cenário, os contadores vão preparar relatórios e produzir os números do orçamento. O controller junta todos esses dados e os interpreta dentro da realidade do negócio.

VISÃO ESTRATÉGICA.

É muito comum que em empresas menores o controller e o CFO sejam a mesma pessoa; afinal, visão estratégica, liderança e cuidados com a boa governança são atribuições do líder executivo do financeiro. Porém, em companhias maiores, são postos separados, em que o controller responde diretamente ao CFO.

Um dos motivos para a profissão estar em alta nos últimos anos é justamente por conta dessa ligação. Lucas Papa explica que, em tempos de crise (como o de agora), muitas organizações trocam de CFO e de controller para passar uma mensagem ao mercado: “olhem, estamos em busca de profissionais mais qualificados para organizar nossas finanças”. E isso tem feito a demanda pelo cargo aumentar.

REQUISITOS DE GENTE GRANDE

A formação mais comum de um controller é em Ciências Contábeis. Mas, como dissemos, não se trata de um pré-requisito. Outros cursos, como Administração, Economia e Engenharia, também são bem aceitos pelo mercado.

Mas a formação acadêmica é o de menos. Por se tratar deum cargo sénior, o que importa mesmo é a trajetória profissional. “Você não termina a faculdade e é contratado como controller. É comum empresas olharem para profissionais que já passaram por consultorias, por exemplo, por estarem familiarizados com auditorias e balanços”, afirma Lucas Papa.

Não só isso. Se o domínio da parte técnica bastava no passado, hoje também exige-se um bom perfil comportamental. Habilidades de comunicação e de mediação entre diferentes áreas da empresa são fundamentais. Sem isso, não há como contribuir na parte estratégica. Logo, não dá para ser um controller na acepção moderna do cargo.

Outro ponto de destaque é a visão holística, ou seja, entender a cultura da empresa, a importância de cada área para construção do todo e de que forma movimentos da sociedade e do mercado podem influenciar no negócio.

CURIOSOS POR NATUREZA

Formado em Ciências Contábeis pela PUC-SP, com pós-graduação em Finanças, Fernando Henrique de Moraes, 35 anos, começou a carreira ainda na faculdade, lá em 2005. Seu primeiro emprego na área de contabilidade foi na consultoria Deloitte, como auditor. Por nove anos, Fernando trabalhou com revisões financeiras, fiscais e tributárias. Até que, no final de 2014, surgiu a primeira oportunidade como controlador financeiro na GLP, uma multinacional de fundos imobiliários sediada em Cingapura.

Foi a partir desse primeiro contato que nasceu a paixão pela atividade. Hoje, Fernando é controller na empresa de locação e venda de imóveis Quinto Andar. (‘Vejo muito a minha profissão como a de um guardião da empresa, que precisa fazer a parte chata de pôr o pé no freio e avisar o que não dá para fazer. Mas que também ajuda na hora de viabilizar um projeto novo e está por trás de toda a concretização”. O dia a dia de Fernando no Quinto Andar começa com a digestão do noticiário. “Leio os principais jornais pela manhã e, em seguida, repasso para as áreas responsáveis o que acho que pode influenciar nos negócios. Pode ser um novo projeto de lei, o IPO de uma companhia que pode nos impactar, novidades tributárias, tudo que pode afetar nossa realidade enquanto empresa”, diz. Pelo menos 20% do seu dia corresponde a esse olhar atento.

Os 80% restantes não podem ser classificados como “rotina” pois são bem dinâmicos: reuniões com o pessoal de áreas diversas, revisões de relatórios, análises de projetos, aprovação de novos produtos e o treinamento constante de sua equipe de controladoria.

O segredo da profissão, segundo Fernando, está na curiosidade. Só com altas doses dessa característica o profissional terá condições de entender o negócio de diferentes empresas, interpretar demonstrações financeiras, adquirir conhecimentos jurídicos…Enfim, o necessário para aliar um respaldo técnico acima de qualquer suspeita à capacidade de tecer estratégias de longo prazo – o combo ideal para o cargo.

O DIA A DIA DO PROFISSIONAL

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

Visão analítica apurada, habilidades de comunicação e mediação, conhecimento contábil e inglês na ponta da língua (é comum o controller ter contato direto com investidores estrangeiros).

ATIVIDADE-CHAVE:

Elaborar planejamentos estratégicos e relatórios a partir de análises financeiras, fiscais, tributárias e legais; realizar apresentações dos planos para gestores, executivos e acionistas; manter os indicadores de performance da empresa atualizados.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Trata-se de um cargo sênior. Logo, é fundamental ter tido uma carreira ligada a finanças e contabilidade. Experiência prévia em grandes consultorias empresariais (McKinsey, EY, Deloitte, PwC) é desejável, já que confere aos profissionais um entendimento profundo sobre os negócios de companhias distintas.

PONTOS POSITIVOS:

A profissão é dinâmica e garante que o profissional esteja sempre atualizado sobre o que acontece no mercado financeiro, no legislativo e na sociedade.

PONTOS NEGATIVOS:

Demanda grande exposição por assinar as análises e balanços da companhia. Tem picos de trabalho excessivo nos períodos de fechamento de balanços.

QUEM CONTRATA:

Médias e grandes empresas, principalmente multinacionais.

SALÁRIO MÉDIO*

Entre R$15 Mil e R$ 30 Mil (Diretor)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMIDA PARA A MENTE

Pesquisas internacionais ratificam a influência positiva de determinados alimentos sobre o controle dos sintomas de doenças psiquiátricas

Depois de um dia difícil, vem a deliciosa compensação com um bom prato de macarrão, o hambúrguer suculento ou o sorvete mergulhado em calda. Quem nunca fez isso? Tentar minimizar sentimentos e experiências ruins com comida recheada de gordura e açúcar é uma necessidade identificada desde sempre. Já na pré-história, os alimentos mais calóricos, que proporcionassem estoque de energia por mais tempo, eram escolhidos por homens e mulheres para se defender das agruras cotidianas.

Em fascinante processo de evolução, o cérebro então se condicionou a preferir pratos mais gordurosos ou açucarados diante de adversidades. A novidade: estudos recentes revelam que o tipo de comida que induz ao bem-estar, no avesso da tristeza, pode ser de outra família, bem menos apetitosa. Surtiram efeito positivo, em cuidadosas pesquisas, os frutos do mar, vegetais, feijão e leite fermentado. Funcionam porque são ricos em nutrientes, naturalmente mais balanceados.

A descoberta resulta de uma área emergente da medicina batizada de “psiquiatria nutricional”. Ela estuda fartamente o impacto dos alimentos em doenças tão complexas como as da mente. Uma das maiores pesquisas já feitas, conduzida com 12.000 homens e mulheres ao longo de dois anos e publicada no American Journal of Public Health, mostrou que as pessoas afeitas a aumentar as porções de frutas e vegetais consumidos relataram ser mais felizes e satisfeitas com a vida, em relação às que não interferiram na dieta original. A explicação está na presença abundante de compostos específicos nesses alimentos, como vitaminas e minerais. Eles agem, basicamente, protegendo as células do efeito da oxidação. Entre as doenças mais influenciadas estão a depressão, a ansiedade e o stress crônico. Eles também têm mostrado capacidade de reduzir os danos causados pelo encolhimento cerebral, um mecanismo natural do passar da idade que pode levar a perda de memória e Alzheimer.

Uma das descobertas mais fascinantes está no papel protetor dos lactobacilos, bactérias saudáveis contidas em leites fermentados e alguns iogurtes. Esses microrganismos ajudam a equilibrar a flora intestinal, onde ocorre uma farta produção de serotonina, a molécula que nos leva ao estado de bem-estar. Um estudo feito no Centro de Saúde Mental, em Xangai, na China, mostrou a ligação de doenças psiquiátricas com o desequilíbrio do trato digestivo – que pode ser regulado com lactobacilos. Em 21 trabalhos analisados, os pesquisadores verificaram que o composto impactou positivamente em sintomas de ansiedade. Os efeitos foram vistos depois de doze semanas de consumo.

“Muito em breve será comum o paciente sair do consultório com uma dieta específica para a mente, assim como hoje já se faz com regimes para a saúde do coração, ossos e o emagrecimento”, diz Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Americana de Endocrinologia. Houve um tempo em que a busca por se afastar dos prazeres da mesa, atrelada a dietas, impunha comer com os olhos. Agora, a ideia é comer com o cérebro.

EU ACHO …

BICHOS (CONCLUSÃO)

A mudez do coelho, seu modo de comer depressinha-depressinha as cenouras, sua desinibida relação sexual tão frequente quanto veloz – não sei por que acho as tais relações mútuas dos coelhos de uma grande futilidade, nem parecem ter raízes profundas. O coelho faz-me ficar de um meditativo vazio: é que simplesmente nada tenho a ver com ele, somos estranhos, minha raça não vai com a dele. O curioso é que pode ser aprisionado e parece até conformado, mas não é domesticável: apenas aparente é a sua resignação. Em verdade, fútil e assustado como é, ele é um livre, o que não combina com sua superficialidade.

Quanto a cavalos, já escrevi muito sobre cavalos soltos no morro do pasto (A cidade sitiada), onde de noite o cavalo branco, rei da natureza, lançava para o ar o seu longo relincho de glória. E já tive perfeitas relações com eles. Lembro-me de mim adolescente, de pé, com a mesma altivez do cavalo, passando a mão pelo seu pelo aveludado, pela sua crina agreste. Eu me sentia assim: “a moça e o cavalo.”

Os peixes no aquário não param nem um segundo de nadar. Isso me inquieta. Além do mais acho esse peixe de aquário um ser vazio e raso. Mas deve ser engano meu, pois não só eles devoram comida como procriam: e é preciso ser matéria viva para isso. O que me intriga é que, pelo menos nos peixes de aquário, o instinto falha: eles comem até estourar, não sabem parar, eis um peixe morto. São seres aterrorizados quando pequenos, perigosos quando grandes. Além de pertencerem a um reino que não me é familiar, o que de novo me inquieta.

Sei de uma história muito bonita. Um espanhol amigo meu, Jaime Vilaseca, contou-me que morou uns tempos com parte de sua família que vivia em pequena aldeia num vale dos altos e nevados Pireneus. No inverno os lobos esfaimados terminavam descendo das montanhas até a aldeia, farejando presa, e todos os habitantes se trancavam atentos em casa, abrigando na sala ovelhas, cavalos, cães, cabras, calor humano e calor animal, todos alertas ouvindo o arranhar das garras dos lobos nas portas cerradas, escutando, escutando…

Mas sei da história de uma rosa. Parece estranho falar nela quando estou me ocupando de bichos. Mas é que agiu de um modo tal que lembra os mistérios instintivos e intuitivos do animal. Um médico amigo meu, Dr. Azulay, psicanalista, autor de Um Deus esquecido, de dois em dois dias trazia para o consultório uma rosa que ele punha na água dentro de uma dessas jarras muito estreitas, feitas especialmente para abrigar o longo talo de uma só flor. De dois em dois dias a rosa murchava e meu amigo a trocava por outra. Mas houve uma determinada Rosa. Era cor-de-rosa, não por artifícios de corantes ou enxertos, porém do mais requintado rosa pela natureza mesmo. Sua beleza alargava o coração em amplidões. E parecia tão orgulhosa da turgidez de sua corola toda aberta, das próprias pétalas grossas e macias, que era com uma altivez linda que se mantinha quase ereta. Pois não ficava totalmente ereta: com infinita graciosidade inclinava-se bem levemente sobre o talo que era fino. E uma relação íntima estabeleceu-se entre o homem e a flor: ele a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou, e com tanto amor era observada, que se passavam os dias e ela não murchava: continuava de corola toda aberta e túmida e fresca como flor nova. Durou em beleza e vida uma semana inteira. Só depois começou a dar mostras de algum cansaço. Depois morreu. Foi com relutância que meu amigo a trocou por outra. E nunca a esqueceu. O curioso é que uma paciente sua que frequentava o consultório perguntou-lhe sem mais nem menos: “E aquela rosa?” Ele nem perguntou qual, sabia da que a paciente falava. Essa rosa, que viveu mais longamente por amor, era lembrada porque a paciente, tendo visto o modo como o médico olhava a flor, transmitindo-lhe em ondas a própria energia vital, intuíra cegamente que algo se passava entre ele e a rosa. Esta – e deu-me vontade de chamá-la de “joia da vida” – tinha tanto instinto de natureza que o médico e ela haviam podido se viverem um ao outro profundamente, como só acontece entre bichos e homens.

E eis que de repente fiquei agora mesmo com saudade de Dilermando, meu cão, uma saudade aguda e dolorida e desconsolável, a mesma que tenho certeza ele sentiu quando foi obrigado a viver com outra família porque eu ia morar na Suíça e haviam me informado erradamente que lá os hotéis, onde teríamos que permanecer algum tempo, não permitiam a entrada de animais. Lembro-me, e a lembrança ainda me faz sorrir, de que uma vez, morando ainda na Itália, vim ao Brasil, deixando Dilermando com uma amiga. Quando voltei, fui à minha amiga para buscá-lo para casa. Mas acontece que nesse ínterim se tornara inverno e eu estava com um casaco de peles. O cão ficou parado me olhando, petrificado. Depois aventurou cautelosamente aproximar-se e sentiu o odor do casaco, talvez de algum animal ameaçador. E ao mesmo tempo, para a sua confusão, farejava meu cheiro. Tornou-se inquietíssimo, chegava a rodar em torno de si mesmo. E eu imóvel, esperando que ele viesse a mim, e me sentisse: se eu me precipitasse, ele se assustaria. Quando comecei a sentir calor na sala aquecida, tirei o casaco e da distância mesmo joguei-o longe num divã. Dilermando, ao me farejar puramente, atirou-se de repente num grande salto sobre mim, um pulo fantástico do chão ao meu peito, inteiramente alvoroçado, fora de si, me fazendo tanta festa doida que me deixou bem arranhada nos braços e no rosto, mas eu ria de prazer, e sorria às fingidas e rápidas mordidas leves que ele aloucadamente me dava, não doíam, eram mordidas de amor.

Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Eles às vezes clamam do longe de muitas gerações e eu não posso responder senão ficando desassossegada. É o chamado.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

NÃO COMPRE ESTE JEANS

O consumo consciente ganha força com o apoio de grandes marcas que investem cada vez mais na compra e venda de produtos duráveis ou de segunda mão

Muitos anos atrás, era comum o irmão mais velho conservar um paletó para ser usado depois pelo mais novo. Mesmo nos países ricos e industrializados, pais e mães guardavam seus melhores ternos e vestidos para quando os herdeiros crescessem. A era da produção em escala, porém, baixou sensivelmente o custo das roupas e provocou profundas mudanças de hábito. Nas últimas décadas, alavancadas pelas exportações indianas e chinesas, as compras dispararam, com centenas de milhões de pessoas gastando bilhões de dólares em peças nem sempre necessárias, deixando pelo caminho um rastro de destruição – estima-se que a fabricação conjunta de uma única calça jeans e um par de tênis demande mais de 10.000 litros de água. Essa tendência ao desperdício, porém, está dando uma volta de 180 graus. O consumo consciente vai aos poucos tomando o lugar do desenfreado, inclusive com o apoio da indústria da moda e de marcas renomadas como as americanas Levi’s e Nike, além de muitas outras.

Na semana passada, a Levi’s lançou uma campanha mundial que é um chamamento à racionalidade e à sustentabilidade. Sob o slogan “Compre melhor, use por mais tempo”, seis celebridades – entre elas o ator americano Jaden Smith, filho de Will Smith, e o atacante inglês Marcus Rashford, do Manchester United – propõem aos clientes comprar jeans feitos de matéria-prima menos danosa à natureza e estender seu uso. A ação envolve também incentivar a aquisição de peças de segunda mão e procurar as oficinas de costura das lojas da marca para reformar itens gastos pelo tempo, mas ainda aproveitáveis. Paralelamente, a empresa tem optado por fibras como o cânhamo e o algodão orgânico nas suas confecções porque elas demandam menos água ao longo das diversas etapas de produção.

Nesse mesmo movimento, duas marcas de produtos esportivos lançaram programas de renovação e revenda. A Nike anunciou o Refurbished (Reformado) e a canadense Lululemon, o Like New (Como Novo).

Em ambos os casos, por enquanto restritos ao mercado americano, o princípio é o mesmo: o cliente devolve a peça à loja, que dá em troca um desconto ou um vale-compra, e a fábrica avalia se recondiciona o produto, levando-o de volta às prateleiras a preços mais em conta, ou o encaminha para empresas de reciclagem.

Esses são dois exemplos práticos da chamada economia circular, que se baseia na redução do desperdício, na diminuição de resíduos e na regeneração de sistemas naturais. Pesquisas realizadas antes da pandemia já mostravam que a indústria seguiria nessa direção, o que se consolidou agora. Números da consultoria americana McMillan Doolittle sugerem que o mercado mundial de segunda mão crescerá expressivos 60% nos próximos três anos – porcentual maior que o de roupas novas -, saltando de 32 bilhões de dólares em vendas em 2020 para 51 bilhões em 2023.

O modelo econômico linear – de extrair, produzir, desperdiçar – não funciona mais. Consumir roupas novas em ritmo vertiginoso, às vezes só para exibi-las na vitrine das redes sociais, não está ajudando. No caso do Brasil, onde se produzem 9 bilhões de peças anualmente, a questão ambiental anda de mãos dadas com a econômica. “Nós não temos um planeta B”, alerta a estilista Alessandra Ponce, autora do livro Alinhavos, que ensina princípios básicos de moda a crianças, referindo-se aos recursos finitos da Terra. Na outra ponta, a professora Verena de Lima, do curso de moda da Universidade Anhembi Morumbi, lembra que, diante do alto custo de vida, a roupa, se conservada, será um item a menos na despesa do mês. Por isso, pensar em formas de manter por mais tempo no armário aquele paletó – ou qualquer outra peça – tornou-se tanto uma necessidade quanto um dever de todos. Como nos tempos solidários de outrora.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE JUNHO

CAÇA AO TESOURO

O coração sábio procura o conhecimento, mas a boca dos insensatos se apascenta de estultícia (Provérbios 15.14).

O conhecimento é um tesouro mais precioso do que muito ouro depurado. Muitas pessoas buscam riquezas, prazeres e aventuras, mas por falta de conhecimento atormentam sua alma nessa busca. Quando Salomão iniciou o seu governo em Jerusalém, não pediu a Deus riquezas e poder, mas sabedoria e conhecimento. Com o conhecimento e a sabedoria, recebeu também riquezas, glórias e poder. Quem é sábio procura aprender. Quem é regido pela sede do aprendizado busca o conhecimento, mas os tolos estão satisfeitos com a própria ignorância. O tolo não investe em educação. Não se prepara para o futuro. É imediatista e não lavra seu campo nem faz semeadura no campo do aprendizado. O resultado dessa insensatez é a pobreza e o opróbrio. Enquanto o coração do sábio procura o conhecimento, a boca dos insensatos se apascenta de estultícia. O tolo fala do vazio da sua mente e do engano do seu coração. Sua língua é mestra de nulidades e instrumento da estultícia. O insensato não apenas é uma fonte poluída que contamina os outros, mas também apascenta a si mesmo de estultícia. Em vez de ser uma fonte de bênção, é um poço de vergonha e maldição para si e para os outros. Que tipo de investimento você está fazendo para crescer no conhecimento e na graça de Cristo?

GESTÃO E CARREIRA

COMO CASAIS PODEM TER SUCESSO TRABALHANDO JUNTOS

Hoje, 12 de junho, é comemorado o Dia dos Namorados. O amor não escolhe dia e local para se manifestar, mas e quando ele surge no ambiente profissional? Para falar do assunto, o professor de MBA da FGV, Luciano Salamacha, dá importantes dicas aos casais apaixonados que trabalham juntos e querem ter sucesso nessas duas relações importantes: no amor e na carreira. 

NÃO QUEIRA que as pessoas que trabalham ao seu redor tenham mesmo grau de interpretação sobre o profissionalismo entre você e seu parceiro/parceira. Há um preconceito sobre como as pessoas que têm relacionamentos no trabalho se tratam dentro da empresa. Por exemplo: agir com carinho com colega é cordialidade. Agir com carinho com a pessoa que se tem relacionamento é misturar ambiente profissional com relacionamento amoroso.

EVITE debates direto com seu parceiro ou parceira dentro da empresa. E, se isso, for inevitável procure sempre estabelecer e exercitar que, quem está falando para você não é seu namorado, namorada, mas seu, sua colega de trabalho.

REALIZE as reuniões na empresa de maneira pública, ou seja, sempre com a presença de outras pessoas. Toda vez que houver uma conversa particular, ainda que seja totalmente profissional, é plausível que alguém pense que se trata de assunto amoroso.

ESTABELEÇA um pacto com seu parceiro ou parceira que assuntos profissionais não serão debatidos fora da empresa, assim como assuntos pessoais não serão debatidos dentro da empresa. O relacionamento fora e dentro da empresa será mais saudável.

NÃO DÊ OUVIDOS a comentários maldosos de colegas sobre seu relacionamento dentro da empresa. Leve em consideração a opinião de gestores, chefes imediatos ou de pessoas que realmente você sinta que são amigas e reavalie se algo sinalizar que a carreira está em cheque.

CONVERSE com seu parceiro, sua parceira sobre a importância do desempenho profissional de cada um e quais metas individuais têm para se alcançar na empresa. Duas pessoas afinadas nesse propósito podem crescer muito e juntas.

SE ANTECIPE a certas situações. Combinar com o parceiro/parceira como deverão se comportar num momento de crise, pode ser útil para não cair na armadilha da pessoalidade.

INTERPRETE situações como o se seu parceiro ou sua parceira fossem apenas colegas. De que forma você agiria?

O professor Luciano Salamacha afirma que casais que trabalham juntos podem criar maior conexão porque dividem as mesmas angústias e as mesmas alegrias e, muitas vezes, têm dentro de casa menos disputa de autoridade ou hierarquia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BRINQUEDOS FORA DO ARMÁRIO

Ao vislumbrara maior aceitação dos pais millenials, empresas e canais infantis perdem o medo de apostar na diversidade – já tem até versão LGBTQIA+ do Lego

Como tantas pessoas durante a pandemia, o inglês Matthew Ashton, 45 anos, decidiu mudar os móveis de lugar e dar uma nova cara à sua casa vertida em home office. Vice-presidente de design da Lego, empresa dinamarquesa dos indefectíveis bonequinhos e blocos de montar que dispensam apresentação, Ashton fez uma escultura de 10 centímetros de altura com as peças coloridas, formando um arco-íris para decorar o ambiente. O objeto que aparece ao fundo de suas videoconferências chamou a atenção de amigos, especialmente dos que compartilham com ele uma experiência de vida similar: quando criança, ainda sem saber o que ser gay significava, Ashton era vítima de bullying na escola.

O que mais o machucava, porém, era a insistência dos adultos em obrigá-lo a “agir como um menino”. “Eu achava as meninas incríveis e não entendia por que não podia brincar com elas”, contou Ashton.

As imposições deixaram marcas emocionais, mas não o impediram de assumir sua orientação sexual na vida adulta: “Eu nasci gay, não é algo que se aprende”. Há 21 anos na Lego, onde criou coleções de sucesso, do selo Star Wars ao popular Ninjago, além de assinar a produção executiva de filmes que somam 1 bilhão de dólares em bilheteria, Ashton abraçou os elogios à sua colorida e despretensiosa nova criação e decidiu, finalmente, mimar a criança que ele foi com o brinquedo que nunca pôde ter. No próximo dia 1º de junho, no mês do orgulho LGBTQIA+, chega ao mercado a invenção de Ashton: o kit Everyone Is Awesome (Todo mundo é incrível), modelo com 346 peças e onze bonequinhos monocromáticos, representando as cores do arco-íris, símbolo do movimento gay.

O conjunto é mais que um brinquedo. Na esteira de ações de outras empresas voltadas ao público infantil, a Lego marca, assim, uma posição simbólica, que atende não só à correção política em prol da diversidade, mas também a um setor carente e em expansão. Em uma das iniciativas pioneiras, a Mattel, casa da Barbie, lançou em 2019 uma coleção de bonecos sem gênero – com perucas e roupas de diferentes estilos para a criança montar como quiser. Neste ano, a Hasbro anunciou que daria à tradicional família Senhor e Senhora Cabeça de Batata a possibilidade de mudança de gênero: a criança pode vislumbrar a família que reflete sua realidade – inclusive com dois pais ou duas mães.

A principal barreira – que já começou a ruir – é o velho estigma que dita o que é supostamente ideal para meninos ou meninas, seleção que pode influir no tipo de personalidade e de habilidades que a criança terá, mas de forma alguma altera sua orientação sexual. “Desenhos e brinquedos com diferentes identidades sexuais não ‘ensinam’ alguém a ser gay”, diz a especialista em psicologia infantil Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná.

Uma pesquisa de 2017 do Pew Research Center nos Estados Unidos mostrou que 76% das famílias incentivam meninas a participar de brincadeiras e atividades consideradas masculinas, enquanto 64% estimulam os garotos a brincar com itens femininos. A porcentagem cresce para 80% e 71%, respectivamente, quando isolados os pais millennials, com menos de 36 anos. “Se uma criança tiver a liberdade de brincar com o que quiser, seu potencial será mais bem explorado”, afirma Lídia Weber. Ela explica que brinquedos ditos de menino costumam encorajar riscos, competições e exploração científica, enquanto os de meninas são direcionados à afetividade e às habilidades domésticas – um conjunto de capacidades, enfim, que não devem se restringir só a um gênero.

Desbravar esse terreno tem sido um esforço notável. Na TV e no cinema, grandes estúdios enfrentaram críticas na mesma medida em que arrebanharam elogios ao apresentar personagens gays em filmes e desenhos animados. Em 2016, a Nickelodeon introduziu o primeiro casal homoafetivo (e inter-racial) do canal, no desenho The Loud House. Anotícia enfureceu algumas famílias americanas, que ameaçaram fazer um boicote. Em resposta, o canal aumentou a participação dos novos personagens.

Voltada a crianças de 2 a 11 anos, a Lego se sentiu confortável para homenagear o público LGBTQIA+, por saber que conta com um fiel séquito de consumidores adultos. A aposta nesse público, especialmente na pandemia, com pessoas ociosas e ansiosas em casa, levou a empresa a crescer 13% em 2020, alcançando receita de 7 bilhões de dólares. “A nova coleção não visa ao lucro, mas a passar a mensagem de que a criatividade para se expressar está ao alcance de todos, sem exclusão”, diz Ashton. O ouro no final do arco­ íris ficou mais colorido.

EU ACHO …

BICHOS (I)

Às vezes me arrepio toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. Pareço ter certo medo e horror daquele ser vivo que não é humano e que tem os nossos mesmos instintos, embora mais livres e mais indomáveis. Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida.

Fiz notar a uma pessoa que os animais não riem, e ela me falou que Bergson tem uma anotação a respeito no seu ensaio sobre o riso. Embora às vezes o cão, tenho certeza, ri, o sorriso se transmite pelos olhos tornados mais brilhantes, pela boca entreaberta arfando, enquanto o rabo abana. Mas o gato não ri nunca. No entanto sabe brincar: tenho longa prática de gatos. Quando eu era pequena tinha uma gata de espécie vulgar, rajada de vários tons de cinza, sabida com aquele senso felino, desconfiado e agressivo que os gatos têm. Minha gata vivia parindo, e cada vez era a mesma tragédia: eu queria ficar com todos os gatinhos e ter uma verdadeira gataria em casa. Ocultando de mim, distribuíam os filhotes não sei para quem. Até que o problema se tornou mais agudo pois eu reclamava demais a ausência dos gatinhos. E então, um dia, enquanto eu estava na escola, deram minha gata. Meu choque foi tamanho que adoeci de cama com febre. Para me consolarem presentearam-me com um gato de pano, o que era para mim irrisório: como é que aquele objeto morto e mole e “coisa” poderia jamais substituir a elasticidade de uma gata viva?

Por falar em gata viva, um amigo meu não quer mais saber de gatos, encheu-se para sempre deles depois que teve uma gata em periódica danação: eram tão fortes os seus instintos, tão imperativos, que na época de cio, depois dos longos miados plangentes que ecoavam pelo quarteirão, ficava de repente meio histérica e se jogava de cima do telhado, machucando-se toda no chão. “Cruz-credo”, benzeu-se uma empregada a quem contei o fato.

Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu pétreo casco, não quero falar. Esse animal que nos vem da era terciária, dinossáurico, não me interessa: é por demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo próprio. O ato de amor de duas tartarugas não deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.

Sobre galinhas e suas relações com elas próprias, com as pessoas e sobretudo com sua gravidez de ovo, escrevi a vida toda, e falar sobre macacos também já falei.

Mulher feita, tive um cachorro vira-lata que comprei de uma mulher do povo no meio do burburinho de uma rua de Nápoles porque senti que ele nascera para ser meu, o que ele também sentiu em alegria enorme, imediatamente me seguindo já sem saudade da ex-dona, sem sequer olhar para trás, abanando o rabo e me lambendo. Mas é uma história comprida, a de minha vida com esse cão que tinha cara de mulato-malandro brasileiro, apesar de ter nascido e vivido em Nápoles, e a quem dei o nome rebuscado de Dilermando pelo que nele havia de pernosticamente simpático e de bacharel do começo do século. Desse Dilermando eu teria muito a contar. Nossas relações eram tão estreitas, sua sensibilidade estava de tal modo ligada à minha que ele pressentia e sentia minhas dificuldades. Quando eu estava escrevendo à máquina, ele ficava meio deitado ao meu lado, exatamente como a figura da esfinge, dormitando. Se eu parava de bater por ter encontrado um obstáculo e ficava muito desanimada, ele imediatamente abria os olhos, levantava alto a cabeça, olhava-me, com uma das orelhas de pé, esperando. Quando eu resolvia o problema e continuava a escrever, ele se acomodava de novo na sua sonolência povoada de que sonhos – porque cachorro sonha, eu vi. Nenhum ser humano me deu jamais a sensação de ser tão totalmente amada como fui amada sem restrições por esse cão.

Quando meus filhos nasceram e cresceram um pouco, demos-lhes um cão enorme e belo, que pacientemente deixava o menino lhe montar o dorso e que, sem que ninguém o tivesse incumbido, vigiava por demais a casa e a rua, acordando de noite todos os vizinhos com seus latidos de advertência. Dei a meus filhos pintinhos amarelos que andavam rente atrás de nós, embaralhando- nos os passos, como se fôssemos a galinha-mãe, aquela coisa mínima carecia de mãe como os humanos. Dei também dois coelhos, dei patos, dei micos: é que as relações entre homem e bicho são singulares, não substituíveis por nenhuma outra. Ter bicho é uma experiência vital. E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo. Quem se recusa à visão de um bicho está com medo de si próprio.

Mas às vezes me arrepio vendo um bicho. Sim, às vezes sinto o mudo grito ancestral dentro de mim quando estou com eles: parece que não sei mais quem é o animal, se eu ou o bicho, e me confundo toda, fico ao que parece com medo de encarar meus próprios instintos abafados que, diante do bicho, sou obrigada a assumir, exigentes como são, que se há de fazer, pobre de nós. Conheci uma mulher que humanizava os bichos, conversando com eles, emprestando-lhes suas próprias características. Mas eu não humanizo os bichos, acho que é uma ofensa – há de respeitar-lhes a natura – eu é que me animalizo. Não é difícil, vem simplesmente, é só não lutar contra, é só entregar-se.

Mas, indo bem mais fundo, chego muito pensativa à conclusão de que não existe nada mais difícil que entregar-se totalmente. Essa dificuldade é uma das dores humanas.

Segurar um passarinho na concha meio fechada da mão é terrível. Ele espavorido esbate desordenadamente e velozmente as asas, de repente se tem na mão semicerrada milhares de asas finas se debatendo esvoaçantes, e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão libertando-o, ou entrega-se-o depressa ao dono para que este lhe dê a maior liberdade relativa de uma gaiola. Enfim, pássaros eu os quero nas árvores ou voando, mas longe de minhas mãos. Talvez algum dia, em contato mais continuado no Largo do Boticário com os pássaros de Augusto Rodrigues, eu venha a ficar íntima deles, e a gozar-lhes a levíssima presença. (“Gozar-lhes a levíssima presença” me dá a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é, é engraçada a sensação, não sei se estou ou não com razão, mas isso já é outro problema.)

Ter uma coruja nunca me ocorreria. Mas uma amiguinha minha achou por terra na mata de Santa Teresa um filhote de coruja, todo sozinho, à míngua de mãe. Levou-o para casa, aconchegou-o, alimentou-o, dava-lhe murmúrios, terminou descobrindo que ele gostava de carne crua. Quando ficou forte era de se esperar que fugisse imediatamente mas demorou a ir em busca do próprio destino, o de reunir-se aos de sua raça: é que se afeiçoara essa estranha ave à minha amiguinha. Relutou muito, via-se: afastava-se um pouco e logo voltava. Até que num arranco, como se estivesse em luta consigo mesmo, libertou-se voando para as profundezas do mundo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A SILHUETA NA BERLINDA

A redescoberta nas redes sociais do espartilho, peça criada no Renascimento, leva a uma pergunta para além do tapete vermelho: as mulheres devem usá-lo hoje?

Nas cenas iniciais de Bridgerton, o onipresente seriado da Netflix passado na primeira década do século XIX, na antessala da era vitoriana, uma dama de companhia aperta até não mais poder o espartilho da jovem Prudence Featherington. “Ela não vai respirar, mãe?”, pergunta a irmã. “Na idade dela eu apertava a cintura até o tamanho de uma laranja e meia”, responde a matriarca. No TikTok, ali onde vicejam todas as ondas do mundo, inclusive as grandes bobagens, há um torneio, o corset challenge, cujo ridículo desafio é dar um apertão no acessório até que a silhueta fique finíssima, ao som de uma canção que diz o seguinte: “Você traz os corsets, nós fazemos os apertos; ninguém quer uma cintura com mais de 23 centímetros”.

Já não há, portanto, dúvida: ao passear vivamente pelo streaming e pelas redes sociais, o estilo anda nos corações e mentes. Beyoncé apareceu com uma cinta metálica da Burberry na festa depois da cerimônia do Grammy. A cantora Dua Lipa também surgiu espremida. A empresária-pop Kylie Jenner idem. E brotou, espetacularmente, uma pergunta: as mulheres devem usar espartilho, em plena era de briga intensa contra os estereótipos? Como moda é história, sempre que se tentou mexer na silhueta feminina houve ruído. Logo depois da Il Guerra Mundial, como resposta aos anos de restrições, de falta de pano e de postura compulsoriamente discreta, o estilista Christian Dior (1905-1957) lançou um movimento, em 1947, que seria chamado de New Look – embora ele mesmo nunca tenha usado a expressão. Era um aceno ao passado, explorando os perfis das mulheres, tornando-as mais sensuais. As saias tinham de ser amplas e rodadas, com comprimento invariavelmente de 40 escassos centímetros acima do chão. A cintura, sempre marcada, exageradamente afinada por cintas e espartilhos. Fez sucesso, entrou na moda, rodou o mundo, mas alimentou protestos. A crítica: podia ser bonito (e era), podia ser sexy (e era), mas talvez representasse um retrocesso comportamental, no avesso do vestuário prático, afeito ao trabalho e não à beleza.

Nos Estados Unidos, como resposta, despontou um pequeno mas ruidoso movimento contrarrevolucionário, digamos, o The Little Below the Knee Club (O Clube um Pouco Abaixo do Joelho), que defendia a retomada do estilo mais pé no chão, menos espalhafatoso, como imaginado por Coco Chanel entre 1920 e 1930. Mas, afinal de contas, Dior era um retrógrado? Não. Em suas memórias, ele revelou sempre ter desenhado para evocar a “infância feliz e burguesa, um passado cheio de esplendor”, que virou fumaça quando a fortuna familiar foi corroída pela crise.

A redescoberta da cintura fina, hoje, talvez represente uma resposta contra a dureza do cotidiano imposto pela pandemia. Pode não ser, portanto, uma simples marcha a ré. É mais complexo e, por isso mesmo, mais fascinante. Quem sabe não seja apenas vontade de viver – embora se entenda a grita de quem já não aceita a moda como mero instrumento estético. ”A cantora Madonna, na década de 80, usou o item como expressão de sensualidade”, diz Carla Cristina Garcia, professora da pós graduação em psicologia social da PUC de São Paulo.

Seria exagero, é claro, dizer que há uma volta ao Renascimento, quando os corpetes surgiram, assemelhando-se às proteções dos cavaleiros medievais. Só os usa quem quer, e recusar a beleza ancorada no desconforto é em suma postura de rebeldia. “Mas convém lembrar que o uso de peças que provocam mudanças no corpo é estratégia comum do vestuário desde sempre”, diz João Braga, professor de história da moda da Faap. Ressalte-se ainda, em nome de quem gosta da onda, que não há exatamente contra indicação médica entre mulheres adultas, como faz parecer o desmaio das personagens de Bridgerton, que chegam a perder o ar. “O espartilho só é nocivo às meninas abaixo dos 14 anos ou mulheres com problemas preexistentes na coluna”, diz Marcelo Kokis, ortopedista no Hospital Norte D’or, no Rio. Cabe usá­lo, sim, sem problema, mas com a devida moderação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE JUNHO

CORAÇÃO ALEGRE, ROSTO FELIZ

O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate (Provérbios 15.13).

A Organização Mundial de Saúde afirma que a maioria das doenças tem um pano de fundo emocional. As emoções se refletem na saúde física. Muitas doenças decorrem da ansiedade. Muitos males que afloram no corpo procedem de um coração triste. Um coração angustiado resulta num espírito abatido, pois a tristeza deixa a pessoa oprimida. Nenhum cosmético pode dar mais formosura ao rosto do que um coração alegre. Nenhuma cirurgia plástica pode corrigir melhor a forma do rosto do que a paz interior. Essa paz de espírito não se alcança com meditação transcendental. Essa alegria do coração não se compra em comprimidos de farmácia. Poderemos vestir roupas de grife, andar em carros importados e morar em verdadeiros palacetes e, ainda assim, ter um coração triste, um rosto abatido e um espírito oprimido. Essa alegria do coração não está em coisas, mas em Deus. Ele é a fonte da verdadeira alegria. É na presença de Deus que há plenitude de alegria e delícias perpetuamente. Jesus veio para nos dar vida e vida em abundância. Somente vivendo em Cristo é que poderemos ter um coração alegre e um rosto feliz.

GESTÃO E CARREIRA

CONFLITOS NO TRABALHO

Responsabilidade não é sinônimo de culpa!

Na vida profissional, temos de lidar com conflitos dos mais variados tipos. Quando isso ocorre, procurar culpados é a reação mais comum. Há uma busca desenfreada por alguém a quem atribuir o ônus pelo ocorrido, e respiramos aliviados quando não somos o nome em questão.

Saem na frente os profissionais que conseguem tomar para si a sua parte de responsabilidade pelo ocorrido e contribuir para sua solução. Porém, poucos se mostram capazes de agir assim, pois confundem responsabilidade com culpa. Não imaginam o tamanho do equívoco que cometem ao fazer isso.

Não é fácil definir com precisão o que exatamente significa a responsabilidade. Mas, em um contexto profissional, podemos entendê-la como a capacidade de arcar com as consequências de seus atos. Em um conflito, assume a dianteira quem consegue compreender e assumir qual papel desempenhou naquilo, lembrando que, nesses casos, não existe o famigerado “não tenho nada com isso”. A partir do momento em que uma pessoa se vê envolvida em um conflito, ela obrigatoriamente tem algo a ver com o assunto.

Chamar para si a responsabilidade pelo que lhe cabe não significa de forma alguma se assumir culpado pelo que ocorreu. Culpa denota erro, falta, omissão, depreciação. É perfeitamente possível ser responsável sem ser culpado.

Assumir a responsabilidade, aliás, ajuda a evitar o sentimento de culpa e a carga negativa que o acompanha, pois traz liberdade. Sim, liberdade para lidar com um conflito do qual se faz parte (querendo ou não, gostando ou não), encontrar formas de resolvê-lo, capacidade de agir ou responder criativamente a uma situação desfavorável, assumir as rédeas do próprio destino, ser autônomo. Afinal, não temos controle sobre os outros, apenas sobre nós mesmos.

Como já escrevi no livro A culpa não é minha, os conflitos normalmente decorrem das diferenças que existem entre as pessoas. Mas as diferenças, ao mesmo tempo em que provocam ruídos e divergências, nos fazem sair do lugar-comum e enxergar o mundo sob uma nova perspectiva, pelo olhar do outro. E quem não teme assumir responsabilidades tem muito mais chances de desfrutar de toda a riqueza que o convívio com o diferente traz.

ALLESSANDRA CANUTO – É especialista em gestão estratégica de conflitos, sócia da Alleaolado, empresa focada em consultoria e coaching para empresas, e coautora do livro ”A culpa não é minha”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAS QUE NÃO SE APAGAM

Estudos revelam que uma criação muito rígida dos filhos afeta áreas do cérebro, com efeitos que podem atrapalhar o desenvolvimento emocional

Em tese, todo pai quer o melhor para seu filho. Os problemas começam quando esta saudabilíssima ambição se torna um instrumento descontrole ditatorial da vida das crianças, em que sua autonomia – sim, elas têm vontades próprias, que precisam ser ouvidas – acaba sendo sumariamente suprimida para dar espaço àquilo que os pais julgam ser o melhor caminho. Quando o autoritarismo extremado ocorre repetidamente e por muitos anos, as consequências podem ser graves. Uma pesquisa de médicos canadenses publicada agora pela Universidade de Cambridge mostra que adolescentes criados por pais rígidos – e rigidez, aí, não significa necessariamente abusos físicos – apresentam redução significativa em duas estruturas cerebrais fundamentais para a regulação das emoções, o córtex pré­ frontal e a amígdala cerebelosa, e esse efeito os deixa mais propensos a desenvolver transtornos da mente. “A longo prazo, a recorrência do chamado stress tóxico na fase mais vulnerável do crescimento pode levar ao aumento de problemas de relacionamento, baixa autoestima e, em situações extremas, até dependência química”, alerta a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, presidente do departamento de desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Na psicologia, educação autoritária é aquela caracterizada por comportamentos excessivamente controladores, à base de grito, diálogos agressivos e repressão das emoções. A locutora Ida Nufiez, 65 anos, recorre à terapia há quase quarenta anos para lidar com as marcas de sua infância e adolescência, quando a mãe, por quem foi criada, tinha a incontestável última palavra sobre tudo dentro de casa. Aos 19 anos, sem estrutura financeira e psicológica, Ida se casou para se libertar – e entrou em mais um relacionamento abusivo. “Estou divorciada, mas percebo que sempre me envolvi com pessoas parecidas com a minha mãe. Isso é reflexo da minha criação porque aprendi a associar amor e cuidado a controle”, explica. Famosos de personalidades tão dispares quanto o escritor Franz Kafka e o cantor Michael Jackson (veja o quadro abaixo) relataram seu sofrimento nas mãos de pais ultra exigentes e empenhados em desmerecê-los e puni-los. Esse tratamento não impediu que seu talento artístico viesse a se manifestar, mas os transformou em adultos mais infelizes e inseguros.

As pesquisas mostram que adolescentes criados sob regras rígidas e inflexíveis costumam ser introspectivos e ter mais dificuldade de se relacionar socialmente. Em muitos casos, adotam uma vida dupla: em casa, obedecem aos pais sem discutir, mas da porta para fora fazem tudo o que eles jamais permitiram. O carioca Nikholas Antunes, de 19 anos, conta que, revoltado com as leis paternas que o impediam de se encontrar com os amigos e de jogar videogame, entre outros vetos, começou a consumir bebidas alcoólicas aos 15 anos e chegou a adotar comportamentos de risco. “Ele queria impor o estilo de vida dele, não tinha conversa. Quando cheguei à adolescência, fazia tudo escondido. Foi uma válvula de escape na época, mas hoje vejo como me coloquei em     perigo”, diz Antunes, que não mora mais com os pais. A terapeuta familiar Ana Cristina Fróes explica que, se o filho não encontra nos pais um porto seguro, é natural que ele comece a mentir e omitir para evitar conflitos. “Querer mandar em escolhas de amizade, profissionais e amorosas configura abuso psicológico. É uma forma de negar os desejos dos filhos e maltratar suas decisões”, afirma.

Não são só os pais autoritários que marcam de forma negativa a vida adulta dos filhos – os permissivos, que dizem sim a tudo, e os negligentes, que não lhes dão a atenção devida, também não contribuem para que se ergam bons pilares emocionais. Na criação da prole, a psicologia recomenda o que chama de modelo democrático, também chamado de autoridade afetiva, o único que estimula um desenvolvimento positivo. O princípio é o estabelecimento de regras e limites aliado à comunicação e ao afeto. Para o psiquiatra Lino de Macedo, do comitê científico do Núcleo Ciência pela Infância, não se trata de fazer todas as vontades dos filhos, mas de estar disposto a explicar as negativas e praticar o diálogo. “Se a criança recebe estímulos neurológicos que suscitam o medo, a ameaça, a dor, ela tende a não ter um amadurecimento saudável”, adverte Macedo. A pedagoga Larissa Mendes, 25 anos, teve uma infância turbulenta, repleta de sermões e castigos sem nem sequer entender o motivo. “Meus pais queriam impor respeito pelo medo e eu acatava para evitar uma reação agressiva. Eles não me viam como um ser humano completo e diferente deles, que tinha opiniões próprias”, relembra. Hoje mãe de Raví, de 4 anos, ela faz tudo ao contrário: preza as manifestações de afeto e acha bom vê-lo questionar suas regras. Ter autoridade sem ser autoritário – esta é a linha fina a ser entendida e decorada no manual de criação de filhos.

FAMA MISTURADA COM ANGÚSTIA

Artistas e intelectuais criados por pais excessivamente autoritários, que depreciavam suas habilidades, falaram de seu sofrimento em cartas e entrevistas. Alguns deles:

EU ACHO …

AO CORRER DA MÁQUINA – II

Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel. Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virgínia Woolf (só a li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto totalmente o que as outras pessoas são e sentem? Eu vivo na delas mas não tenho mais força. Vou viver um pouco na minha. Vou me impermeabilizar um pouco mais. – Há coisas que jamais direi: nem em livros e muito menos em jornal. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam que há coisas que se podem contar a muitos, há outras a poucos, e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente. E preciso amadurecer um pouco mais para me achegar a essas verdades. Que já pressinto. Mas as verdades não têm palavras. Verdades ou verdade? Não, nem pensem que vou falar em Deus: é um segredo meu.

Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.

Com duas pessoas eu já entrei em comunicação tão forte que deixei de existir, sendo. Como explicar? Olhávamo-nos nos olhos e não dizíamos nada, e eu era a outra pessoa e a outra pessoa era eu. É tão difícil falar, é tão difícil dizer coisas que não podem ser ditas, é tão silencioso. Como traduzir o profundo silêncio do encontro entre duas almas? É dificílimo contar: nós estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um só ser. Esses momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente lúcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade. Foram os momentos mais altos que jamais tive. Só que depois… Depois eu percebi que para essas pessoas esses momentos de nada valiam, elas estavam ocupadas com outras. Eu estivera só, toda só. É uma dor sem palavra, de tão funda. Agora vou interromper um pouco para atender o homem que veio consertar o toca-discos. Não sei com que disposição voltarei à máquina. Música não ouço há bastante tempo pois estou procurando me dessensibilizar. Mas um dia desses fui pegada desprevenida, ao ver o filme Cada um vive como quer. Tinha música e eu chorei. Não é vergonha chorar. É vergonha eu contar em público que chorei. Pagam-me para eu escrever. Eu escrevo, então.

Pronto, já voltei. O dia continua muito bonito. Mas a vida está muito cara (isso por causa do preço que o homem pediu pelo conserto). Preciso trabalhar muito para ter as coisas que quero ou de que preciso. Acho que livros não pretendo nunca mais escrever. Só vou escrever para este jornal. Eu queria um emprego de poucas horas por dia, digamos duas ou três horas, e que me fizesse (o emprego) lidar com pessoas. Tenho jeito para isso, embora pareça um pouco ausente às vezes. Mas, quando estou com uma pessoa verdadeira, fico verdadeira também. Se vocês pensam que vou recopiar o que estou escrevendo ou corrigir este texto, estão enganados. Vai é assim mesmo. Só que lerei para corrigir erros datilográficos.

A propósito de uma pessoa de quem estou me lembrando agora e que usa uma pontuação completamente diferente da minha, digo que a pontuação é a respiração da frase. Acho que já disse uma vez. Escrevo à medida de meu fôlego. Estarei sendo hermética? Porque parece que em jornal se tem de ser terrivelmente explícito. Sou explícita? Pouco se me dá.

Agora vou interromper para acender um cigarro. Talvez volte à máquina ou talvez pare por aqui mesmo.

Voltei. Estou agora pensando em tartarugas. Quando escrevi sobre bichos, disse, de pura intuição, que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim a ler que é mesmo. Tenho cada uma. Um dia vou escrever sobre tartarugas. Elas me interessam muito. Aliás, todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento. Parece que, se fomos modelados, sobrou muita matéria energética e formaram-se os bichos. Para que serve, meu Deus, uma tartaruga? O título do que estou escrevendo agora não devia ser “Ao correr da máquina”. Devia ser mais ou menos assim, em forma interrogativa: “E as tartarugas?” E quem me lê se diria: é verdade, há muito tempo que não penso em tartarugas. Agora vou acabar mesmo. Adeus. Até sábado que vem.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A VIDA COMEÇA AOS 50

Já se foi o tempo em que as mulheres se aposentavam do trabalho e de outras atividades após a menopausa – estudos comprovam que elas nunca estiveram tão felizes

Se o ser humano fosse um sistema operacional de computador, poderíamos dizer que ele acaba de ser atualizado. A vida agora começa aos 50, não mais aos 30, e essa afirmação não é um mero palpite: ela está baseada em fatos, pesquisas e estatísticas. E atenção: é a mulher, não o homem, que está no epicentro dessa revolução sexual, profissional e emocional. Estudos mostram que as mulheres acima de 50 anos têm mais libido, mais empregabilidade e são mais felizes do que costumavam ser quando jovens – ou, melhor dizendo, quando a sociedade as tachava como jovens, pois o mundo mudou, assim como mudou a percepção delas quanto à própria idade. Se a linha da vida faz uma curva em U, na qual o ponto mais baixo é o de maior insatisfação pessoal e o mais alto é o oposto disso, as piores fases se dão na faixa dos 30. Em contrapartida, a felicidade, imensa na infância (ao menos dos que não vivem um cotidiano de pobreza), volta a decolar a partir dos 40 e pouco anos, quando a mulher, livre inclusive dos grilhões da gravidez indesejada, equaliza a vida, ainda com algumas resistências a enfrentar, mas definitivamente feliz.

É verdade que, durante boa parte do século XX, o papel feminino era quase que exclusivamente cuidar da casa, do marido e das crianças. Assim nasceram estereótipos que, ao longo dos anos, foram caindo por terra, principalmente a partir das décadas de 60 e 70, quando a pílula anticoncepcional chegou ao mercado e alimentou gritos de independência – o mesmo mercado que começou a aceitar mulheres em cargos de chefia, vindas de faculdades que elas antes não frequentavam. O caminho para a felicidade também foi pavimentado pelo desenvolvimento da medicina, da farmacêutica e da estética, que têm proporcionado vida mais longa e, sobretudo, mais confortável. Perda de massa muscular e disfunções de tireoide foram compensadas com medicamentos hormonais avançados, a ponto de aumentar a expectativa média de vida de 48,3 anos em 1940 para 80,1 anos em 2019, em levantamento feito antes da pandemia. O homem está em desvantagem nesse quesito, com expectativa de 73,1 anos. “Os avanços feitos em medicina preventiva e curativa permitem esticar cada vez mais a linha da vida, que deve passar dos 85 anos em breve”, diz Alexandre Faisal Cury, ginecologista e pesquisador. Cury lembra que saúde é uma premissa da felicidade. É mais difícil ser feliz quando ela não está boa.

É ótimo que a vida – e o prazer que advém dela – comece a ganhar impulso a partir dos 50 anos, porque a faixa etária entre 50 e 64 já corresponde a mais de 17% da população brasileira de ambos os sexos, e a revolução de costumes está justamente sendo conduzida por uma boa parte das mulheres que adentraram agora esse estágio da vida. A mulher 50+ de hoje é bem diferente de sua irmã do passado, como atestam as entrevistas feitas. Cris Guerra, escritora de Belo Horizonte, diz que leva uma vida muito diferente daquela de sua mãe na mesma idade, ou seja, entrando nos 50: “Apesar de eu ser fisicamente parecida com minha mãe, sei que, nos tempos dela, a menopausa significava o fim”. Cris vive de forma que provavelmente sua mãe jamais pensaria – casada quatro vezes, ela tem tatuagens, usa minissaia e publica fotos de lingerie no Instagram. Está de bem com a vida e se considera uma empreendedora digital pioneira no Brasil. “Estou no auge da vida profissional, tenho vários sonhos e uma vida sexual ativa”, ela conta.

A declaração aberta e sincera de Cris Guerra é corroborada pelo estudo que identificou a tal curva em U, conduzido pelos economistas David Blanchflower e Andrew Oswald há alguns anos e que está novamente em voga. Livres da preocupação de construir uma vida, fazer carreira e montar família, as mulheres (e também os homens) começam se tornar mais felizes a partir dos 46 anos. Os pesquisadores britânicos concluem que os jovens de 20 anos acabam criando demasiadas expectativas sobreo futuro, várias das quais terminam em decepções dez ou vinte anos mais tarde – o ponto mais baixo da curva. Já aos 50 anos, o desapontamento com eventuais tropeços tende a desaparecer. Além disso, o stress diminui, os arrependimentos são deixados de lado e a vida fica mais divertida e tranquila – mas não menos ativa. Em outras palavras, elas descobrem o segredo da felicidade. Mais de 80% das pessoas entrevistadas sobre esse assunto em São Paulo, em 2019, responderam que não se veem como velhas, mas sim em um momento de transição no qual desfrutam o melhor estágio profissional da vida. “Comecei a trabalhar aos 18, mas estou no momento de maior realização agora,” diz a designer e comunicadora Adriana Coelho Silva, de 55 anos. Graças a seu site, divertidamente batizado de Viva a Coroa, Adriana é testemunha de que a mulher 50+ de hoje trabalha, cria, cuida da saúde e da beleza, namora, sai com as amigas e, em muitos casos, ainda estuda. A autoestima, ela garante, está lá em cima.

As mulheres, diga-se de passagem, estão mais corajosas e abertas a discutir assuntos vistos antes como embaraçosos. A atriz americana Gwyneth Paltrow, que fez par romântico com Robert Downey Jr. nos filmes da Marvel, foi a público cobrar o fim do tabu com a menopausa, uma vez que Hollywood tem histórico de pôr para escanteio as mulheres que ganham maturidade. Gwyneth faz bem em protestar, principalmente quando se constata o sucesso contínuo de mulheres acima de 50, como é o caso de Claudia Raia, que, enquanto aguarda o retorno dos musicais de sucesso que produz e estrela, mostra desenvoltura falando do bem-estar feminino no Instagram.

A atriz e cantora Jennifer Lopez, mais conhecida pelo seu apelido JLo, segue firme em sua carreira como produtora musical e de televisão – além de ser vista regularmente na imprensa e nas redes sociais na companhia de Ben Affleck. A vencedora do Oscar Julia Roberts pode estar meio sumida da tela grande, mas continua fazendo sucesso como atriz, tendo estrelado recentemente uma ótima série de TV da Amazon: Homecoming De Volta à Pátria. Também para a TV está retornando Jennifer Aniston, com um cachê estimado em 13 milhões dólares para fazer o especial de Friends, a série que a revelou em 1994.

O sucesso das cinquentonas de Hollywood, entretanto, nem sempre se reflete no cotidiano das brasileiras. Segundo Silvia Ruiz, criadora da consultoria PowerAge, que ajuda marcas a se comunicarem com o público 50 +, ainda há muita resistência a ser quebrada. “Conheço mulheres que não gostam de falar sua idade porque sabem que sofrerão preconceito no mercado de trabalho. E acho péssimo quando as pessoas dizem que 50 são os novos 30. Não tem nada de errado em ter 50.” Não só não há nada de errado como é uma fase de brilho e sucesso para a maioria das mulheres. Trata-se de uma geração mais antenada do que a anterior, repleta de profissionais em geral mais comprometidas e experientes, e que costumam se destacar nas empresas. Quem não enxergar isso aí, sim, mostrará que está irremediavelmente velho.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE JUNHO

A TOLICE DO ESCARNECEDOR

O escarnecedor não ama àquele que o repreende, nem se chegará para os sábios (Provérbios 15.12).

A maior de todas as tolices é ser tolo e julgar-se sábio. É não saber e julgar-se conhecedor. É ser carente de conhecimento e estar indisposto a aprender. Quando uma pessoa fecha a porta do aprendizado, passa a viver na masmorra da ignorância. Quando um indivíduo considera a pessoa que o repreende como adversário, cava sua própria ruína. O escarnecedor, o homem vaidoso, não gosta de ser corrigido. Ao contrário, odeia qualquer pessoa que procura interferir em sua vida. Uma pessoa soberba sente-se autossuficiente. Está tão cheia de vaidade que não tem mais espaço para aprender coisa alguma. O altivo de coração é arrogante e, mesmo como um restolho, onde só há sabugo e palha, mantém-se empinado. É como joio que, embora externamente pareça com o trigo, jamais se dobra diante do vento. A Bíblia diz que Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Os que se exaltam serão humilhados. Aqueles que se afastam dos sábios e passam a odiar os que os exortam, esses acabam colhendo os frutos de sua insensatez. Por não ouvirem a voz da exortação, oferecem as costas ao chicote da disciplina. Por não ouvirem conselhos, verão desabar sobre a própria cabeça o seu escárnio.

GESTÃO E CARREIRA

RETRABALHO: UM MALEFÍCIO DENTRO DAS EMPRESAS

”Não há indicadores medindo de forma rotineira o retrabalho e quanto ele representa de desperdício financeiro ao negócio. Em muitas situações, há uma paralisia da empresa quanto ao assunto na busca de soluções consistentes que evitem sua repetição”

Neste artigo quero sensibilizar as empresas quanto a um erro primário que é cometido diariamente e se repete ao longo do tempo: o retrabalho. Parece que essa situação faz parte do DNA da empresa e que ela convive harmonicamente com isso. E o pior é que as empresas não colocam isso na pauta de discussões das reuniões setoriais e de análise de resultados do negócio.

Além disso, não há indicadores medindo de forma rotineira o retrabalho e quanto ele representa de desperdício financeiro ao negócio. Em muitas situações, há uma paralisia da empresa quanto ao assunto na busca de soluções consistentes que evitem sua repetição.

E o pior dessa situação é que as horas de retrabalho entram no cálculo do custo do produto e serviços, aumentando o preço de venda, tornando-a pouco competitiva no mercado. Aliás, o gasto com o retrabalho nunca deverá ser colocado nos custos, transferindo para o cliente via preço a ineficiência da empresa. O mercado competitivo não aceita, muito menos o cliente.

Abaixo listo algumas causas que o retrabalho impacta na saúde e na qualidade do negócio:

1.   processos malfeitos e não revisados rotineiramente.

2.   baixa qualidade da equipe de trabalho na execução das tarefas.

3.   falta ou ausência de treinamento interno sobre processos e como executá-los.

4.   aumento de custos e despesas desnecessárias.

5.   prazos de entrega não cumpridos.

6.   a empresa não consegue explicar e dar solução ao cliente por erros constantes.

7.   perda de clientes.

8.   tolerância da empresa quanto ao retrabalho.

9.   aumento de horas extras onerando a folha de pagamento.

10. processos desenhados sem envolver e escutar a equipe da execução para as soluções.

11. quanto o retrabalho custa em % sobre a receita de vendas.

12. perda de lucratividade.                             

Fiquem atentos quanto a esse assunto e os impactos que isso causa para o seu negócio e o seu mercado. Continuamos a errar no básico, o que nos impede de subir ao próximo andar. Lembrando, quando medido o custo de um retrabalho, projete-o para 12 meses e você verá o tamanho do estrago que isso causa ou está causando há muito tempo às finanças da empresa.

ELISEU EDUARDO ELY – é consultor de empresas e palestrante. e-mail: telysconsultoria @gmail.com.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MÚSCULOS PARA A MENTE

Estudo americano confirma o decisivo papel da atividade física regular (tanto a aeróbica quanto a de resistência) na prevenção e tratamento da depressão

Com 350 milhões de casos no mundo, dos quais 15 milhões no Brasil, a depressão é a doença psiquiátrica mais prevalente no planeta. Contudo, por sua complexidade, é ainda um enigma para a medicina. Por isso, os pequenos avanços, e na vida é muito importante celebrá-los, são tratados com extrema euforia. O mais recente deles: os exercícios físicos têm real e decisivo impacto positivo na prevenção e tratamento do problema. Um estudo publicado na revista americana Molecular Biology mostrou que a ginástica melhora a função de estruturas cerebrais envolvidas no transtorno, como o hipocampo, o hipotálamo e a amígdala, além de reduzir o processo inflamatório dos neurônios. “Os achados concluem, de modo definitivo, a indicação médica dos exercícios como terapia da depressão”, diz Eduardo Rouen, médico do esporte e professor da pós-graduação de nutrologia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Os tratamentos convencionais, à base de antidepressivos, evidentemente ainda são essenciais no restabelecimento da química cerebral. Espera-se, porém, que a atividade física possa agora reduzir a necessidade de acompanhamento medicamentoso, sobretudo nos graus leve e moderado, os mais comuns, que envolvem sentimentos crônicos como tristeza, angústia, desânimo, alterações no sono e no apetite. Pesquisas indicam que não é preciso se esfalfar no treino para sentir a mudança. Os efeitos começam a surgir a partir de quinze minutos de atividade por dia, seja aeróbica, como caminhada e corrida, seja de resistência, como o levantamento de peso. O benefício é deflagrado também em atividades mais simples, como subir escada. O decisivo é a prática regular.

Mexer-se, claro, é indicado para o bem-estar em geral, e não apenas como alívio para quem não consegue lidar com a tristeza profunda, Mas saber identificar os primeiros sinais de depressão e então movimentar o corpo é vital. Celebra-se, portanto, uma outra boa-nova: pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, desenvolveram um exame de sangue capaz de detectar alterações de humor – o que incluiria aqui o transtorno bipolar. O estudo envolveu uma tecnologia como RNA, molécula que armazena e transmite informações genéticas. O exame, ainda sem previsão de chegar ao mercado, também abre portas para a indicação precisa e personalizada de medicamentos e a resposta do paciente ao tratamento. As descobertas – a da relevância da malhação e a da precocidade do diagnóstico – reforçam a sensação de estarmos diante de uma nova era no combate à depressão.

EU ACHO …

SEM TÍTULO

Como é que ousaram me dizer que eu mais vegeto que vivo? Só porque levo uma vida um pouco retirada das luzes do palco. Logo eu, que vivo a vida no seu elemento puro. Tão em contato estou com o inefável. Respiro profundamente Deus. E vivo muitas vidas. Não quero enumerar quantas vidas dos outros eu vivo. Mas sinto-as todas, todas respirando. E tenho a vida de meus mortos. A eles dedico muita meditação. Estou em pleno coração do mistério. Às vezes minha alma se contorce toda. Tenho uma amiga que tem cálculos renais. E, quando uma pedra quer passar, ela vive o inferno até que passe. Espiritualmente, muitas vezes uma pedra quer passar, então eu me contorço toda. Depois que ela passa, fico toda pura. É mentira dizer que a gente não pode ser ajudada. Sou ajudada pela mera presença de uma pessoa vivendo. Sou ajudada pela saudade mansa e dolorida de quem eu amei. E sou ajudada pela minha própria respiração. E há momentos de riso ou de sorriso. De alegria, a mais alta. Uma pessoa um dia escreveu-me: eu te deixaria por Deus. Eu entendo. Será que essa pessoa já pôde me deixar e me trocar por Deus? Ou tem saudade de mim? Creio que tem saudade de mim e que por momentos é possuída por Deus. No momento em que escrevo, minha nudez é casta. E é bom escrever: é a pedra passando enfim. Entrego-me toda a esses momentos. E possuo a minha morte. Já tenho uma grande saudade dos que eu deixarei. Mas estou tão leve. Nada me dói. Porque estou vivendo o mistério. A eternidade antes de mim e depois de mim. O símbolo do mistério é em Vila Velha, Paraná: ela é de antes do aparecimento do homem na Terra. O silêncio que devia haver naquele tempo não habitado. A energia silenciosa. De tempo que sempre existiu. O tempo é permanente. Nunca terminará. Não é lindo isso? Também tenho outra pedra, ainda mais antiga: os geólogos chegaram à conclusão de que vem da época da formação da Terra. O Brasil é muito antigo. Seus vulcões já estão extintos. Interrompi um instante de escrever para pegar nessa pedra e entrar em comunhão com ela. Deram-me também um pequeno diamante: parece uma gota de luz na palma de minha mão. Tenho fortes tentações e fortes desejos. Para superar tudo isso, passo 40 dias no deserto. Tenho junto de mim um copo de água. De vez em quando tomo um gole. Assim estou saciando todas as minhas sedes. Vou agora ensinar um modo hindu de se ter paz. Parece brincadeira mas é verdade. É assim: que se imagine um buquê de rosas brancas. Que se visualize sua brancura macia e perfumada. Depois, que se pense num buquê de rosas vermelhas, príncipe negro: são encarnadas, apaixonadas. Depois, que se visualize um buquê de rosas amarelas, que são, como já escrevi, um grito de alarme alegre. Depois, que se imagine um buquê de rosas rosadas, no seu recato, pétalas grossas e aveludadas. Depois, que mentalmente se reúnam esses quatro grandes buquês numa enorme corbelha. E, finalmente, que se tire cor-de-rosa, talvez, por ser tão recatada na sua palidez e por ser a rosa por excelência, e que se a leve mentalmente a um jardim e se a reponha no seu canteiro. Os hindus conseguem paz com essa mentalização. Penso na Índia, que provavelmente nunca conhecerei. Mas a fome não espiritualiza ninguém. Só a fome deliberada. Está chovendo, são quatro horas da madrugada. O vento sacode as portas fechadas de meu terraço. Mas meu corpo está quente. Era para eu sentir frio, mas estou quente e viva. Hoje de tarde vou ter um encontro muito importante. Respeito profundamente a alma de quem eu vou encontrar. E essa pessoa me respeita muito. Talvez seja um encontro em silêncio. Mandaram-me de Minas Gerais uma carta: nela estava desenhado o meu rosto e o homem dizia que me amava com mudo fervor. Eu respondi dizendo que todo fervor é mudo. E agradeci eu ser o objeto desse fervor. O desenho é muito bom. Pergunto-me se esse homem me conheceu pessoalmente, de quando eu estive em Belo Horizonte dando uma conferência. É um desenho mais fiel do que uma fotografia. E quem é Gilberto? Que me mandou um desenho em que apareço de corpo inteiro, com um cigarro na mão. Ao lado, Gilberto escreveu o título de livros meus e desenhos alusivos aos títulos. E, ao lado direito, muito juvenilmente, Gilberto escreveu: “Linda! Fascinante! Fatal!” Gilberto, não existe gente fatal, só no cinema mudo. O desenho também é muito bom. Você me conheceu pessoalmente, Gilberto? Desculpe, mas não me lembro de você. E você só assinou “Gilberto”, não mandou no envelope nenhum endereço, é por isso que estou respondendo aqui. Para tornar o encontro de hoje de tarde alegre vou me vestir muito bem e me perfumar. E, se falarmos, serão palavras de alegria. Que perfume usarei? Acho que já sei qual. Não digo que perfumes eu uso: são o meu segredo. Uso perfume para mim mesma. Estou lembrando de meu pai: ele dizia que eu era muito perfumada. Meus filhos também são. É um dom que Deus dá ao corpo. Humildemente agradeço. E um dia talvez eu vá à Índia. Farei talvez um empréstimo no Banco e terei dinheiro para ir e ficar uma semana lá. Terei coragem de ir sozinha? É preciso que eu tenha o endereço de alguém lá que me guie. Eu gostaria tanto de ir…  Vou terminar agora porque tenho um espaço determinado neste jornal. Vou ler um pouco. Sobre diamantes. Numa revista italiana que diz: “Tra le pietre prezíose é la piú bella, la piú ricercata, é l’idea stessa di pietra preziosa.”

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A IGNORÂNCIA MATA

Pesquisa da Universidade Harvard mostra que cresceu na pandemia o hábito de espalhar notícias falsas como se fossem fatos concretos – uma maldição que ganhou força nos tempos modernos e promove a desinformação, o atraso civilizatório e até mortes

Em pesquisa realizada em maio, confrontados com a afirmação de que “o governo, a imprensa e o setor financeiro dos Estados Unidos são controlados por pedófilos adoradores de Satã que operam uma rede global de tráfico sexual de crianças,”15% dos americanos entrevistados disseram acreditar, sim, na insanidade pregada por mentores de teorias conspiratórias. Na mesma linha, o estado da Geórgia elegeu em novembro uma deputada, Marjorie Taylor Greene, para quem o massacre de vinte crianças na escola Sandy Hook, em 2012 – fartamente documentado com fotos e testemunhos -, teria sido uma armação do movimento antiarmas. No Brasil, panaceias como a cloroquina, por mais que a ciência comprove a ineficácia, continuam a ser usadas como miraculosos remédios contra o novo coronavírus.

Desafiados a provar o que dizem, esses propagadores de absurdos, militantes ferozes na seara política, sacarão de argumentos estapafúrdios pescados em fake news com aquela certeza absoluta que só a ignorância produz. Eis aí um dos efeitos mais deletérios da polarização e da negação da ciência que vicejam nas redes sociais, um amplificador de convicções vazias potencializado neste ano cruel pela pandemia: a multiplicação das pessoas que, baseando-se no que não tem fundamento nem lógica, acreditam saber tudo, mas tudo mesmo, e se arvoram em donas da verdade.

Nada mais ilusório – a verdade verdadeira não é feita de certezas, muito pelo contrário. Cinco séculos antes de Cristo, o filósofo Sócrates foi apontado pelos sacerdotes do Oráculo de Delfos, espécie de guia moral e espiritual da sociedade, como o homem mais sábio da Grécia Antiga. Acostumado a provocar os cidadãos de Atenas com perguntas impertinentes que se transformavam em longos debates – o que acabou por condená-lo à morte por desrespeito às divindades e corrupção da juventude -, Sócrates olhou em volta e percebeu ser o único ali a ter consciência de que ninguém é capaz de deter todo o saber. A constatação, resumida na célebre frase “Só sei que nada sei”, se tornou a base do pensamento filosófico, um exercício de reconhecimento da própria ignorância para buscar respostas e, assim, construir o conhecimento. Aplicado à ciência, é princípio que alavanca todas as descobertas e explicações de fenômenos. Quem, na contramão, se sente à vontade para estufar o peito e ensinar o padre-nosso ao vigário é alvo preferencial da desinformação, do atraso e do desconhecimento.

Falar com convicção sobre temas que não se domina é um fenômeno catalogado pela psicologia desde que, há duas décadas, David Dunning e Justin Kruger, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, realizaram um estudo sobre a dificuldade do ser humano de admitir a própria ignorância. A dupla convocou voluntários para responder a uma série de perguntas e, ao fim, anotar a quantidade esperada de acertos. Quem tinha pouca cultura e informação errou feio na previsão, pois esperava acertar muito mais; quem conhecia bem os temas levantados também errou feio, pois se saiu muito melhor do que imaginava. Conclusão: as pessoas que conhecem profundamente um assunto subestimam sua capacidade e estão sempre levantando questões e duvidando do próprio taco, um processo inerente à busca da verdade. Já aquelas com vaga noção dão respostas incisivas – erradas, mas incisivas -, superestimam vastamente seus conhecimentos. Ao paradoxo deu-se o nome de efeito Dunning-Kruger, infelizmente super em voga nos tempos atuais. “Percebo muita desinformação e teorias da conspiração”, disse o psicólogo Dunning. “A internet impulsionou o efeito que descrevemos.”

Uma manifestação explícita do efeito Dunning-Kruger é a crença, até hoje firme e forte em certos grupos, de que a pandemia, que já matou 3,69 milhões de pessoas, é uma mentira disseminada para controlar cidadãos e atender a interesses espúrios. Outra é o movimento antivacinas, em expansão desde o advento da Covid-19. O ponto mais repisado na campanha desse grupo equivocado é alardear que as picadas podem tornar as crianças autistas, ignorando dezenas de estudos que provam o contrário. Uma pesquisa recente da Universidade Harvard confirma a tendência mostrando que, quanto mais baixo o nível de conhecimento sobre o tema, mais confiança a pessoa tem em pontificar sobre ele: 54% dos convictos entrevistados disseram duvidar em algum grau da eficácia de imunizantes. No caso das vacinas contra a Covid-19, recém-criadas e sujeitas a considerações ideológicas, o fenômeno avança. Um estudo, este feito no Brasil pelo Ipec – Inteligência em Pesquisa e Consultoria, mostra que 46% concordam com pelo menos uma notícia falsa sobre os imunizantes. É muita coisa.

Sem freios, o bloco dos sabichões da internet incomoda quem realmente sabe o que diz. O médico Maurício Lacerda Nogueira, coordenador de pesquisas sobre a vacina chinesa CoronaVac, que já presidiu a Sociedade Brasileira de Virologia e tem pós-doutorado nos Estados Unidos, conta que, em uma reunião no interior de São Paulo sobre prevenção da Covid-19, foi interpelado pelo dono de uma concessionária de automóveis, que lhe deu uma “aula” de transmissão da doença. “Respirei fundo e disse: ‘Eu não discuto preço de carro e o senhor não me ensina como o vírus se reproduz’.” A descrença de parte do público em relação ao conhecimento acadêmico tem raízes na dificuldade geral de entendimento de pensamentos complexos e do próprio método científico: criar hipóteses que precisam ser confirmadas e, nesse processo, abrir brechas para que sejam refutadas. “Não há verdade absoluta na ciência”, diz Nelio Bizzo, professor de biociências da USP e da Unifesp. “Os que a negam acham que ela é imutável e determinista, quando se trata exatamente do contrário.”

A neurociência atribui o negacionismo contumaz ao que chama de viés de confirmação, um traço de personalidade que faz o indivíduo absorver as informações que corroboram sua crença e ignorar as que a desmintam. “Em situações extremas, o viés de confirmação fica mais exacerbado. As pessoas passam a acreditar naquilo que querem, e não nas evidências”, diz Letícia de Oliveira, neurocientista da UFF. Essas crenças são muitas vezes expostas, com elevadas doses de convicção, graças a um componente humano de fundo narcisista. “Certas pessoas têm a necessidade de emitir sua opinião a qualquer custo para se sentir reconhecidas”, explica a psicanalista Paula Peron, da PUC-SP.

A ressonância de teorias como a de que a Terra é plana (basta olhar o horizonte) e de que o mundo foi criado em seis dias (basta ler o livro de Gênesis) se amplifica como nunca antes na fértil terra de ninguém das redes sociais. “As redes deram voz a uma legião de imbecis. Eles têm o mesmo direito à palavra que um prêmio Nobel”, sentenciou o escritor italiano Umberto Eco, pouco antes de morrer. Desenhadas para reunir pessoas e promover debates profícuos, na prática seus algoritmos agem no sentido contrário: por meio de um processo de seleção da informação chamado filtro bolha, o usuário só depara com conteúdo como qual tem afinidade. O resultado é uma “câmara de eco” em que a mesma opinião é repetida infinitas vezes. “As pessoas não querem ouvir a argumentação do outro”, diz David Nemer, professor da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. “É praticamente impossível encaminhar um debate que provoque a reflexão.”

A bolha virtual se faz especialmente presente na esfera política, progressivamente mais corroída pelas estultices e pela disseminação de falsidades. As eleições são cada vez mais influenciadas por correntes de mensagens nas quais a divergência não é permitida e as fake news circulam livremente. Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostrou que as notícias falsas têm 70% mais chances de ser passadas adiante no Twitter e alcançam os primeiros 1.500 usuários seis vezes mais rapidamente. Em grupos bolsonaristas, uma das narrativas sem amparo na realidade põe em dúvida a lisura da urna eletrônica e defende o voto impresso, que, segundo eles, possibilitaria conter fraudes e auditar resultados. Ponto 1: o sistema foi testado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2002 e só fez aumentar a vulnerabilidade do equipamento. Ponto2: desde que o Brasil adotou o voto eletrônico, nenhuma fraude foi comprovada. Os fatos convencem os apoiadores de Jair Bolsonaro? Não, nunca. Eles seguem firmes na reivindicação, que dá ao presidente a chance de se blindar contra uma eventual derrota em 2022, tal qual um Donald Trump dos trópicos.

Seja qual for o tema, o nível do debate nos redutos estanques das redes sociais será quase sempre rasteiro, superficial e surdo a ideias contrárias. Para se assistir a uma discussão de alto nível na internet, só apelando a gravações do chamado “debate do século XX”- o célebre embate público, no longínquo 1968, de duas privilegiadas cabeças pensantes em cantos opostos do ringue ideológico: o progressista Gore Vidal e o conservador William Buckley Jr., escritores e desafetos que se digladiaram em afiados diálogos televisionados durante as primárias dos partidos Republicano e Democrata. Vez por outra, é verdade, descambavam para a baixaria e os insultos – afinal, intelectual não é de ferro.

Felizmente, o mesmo ambiente que cultiva a arrogância dos que nada sabem serve de potente ferramenta para a divulgação de temas relevantes e para a obtenção da boa informação – inclusive de quem já disseminou abobrinhas. O youtuber Felipe Castanhari, com quase 14 milhões de inscritos no canal de educação que trata de temas atuais, começou errando e não nega ­ seu propósito era simplesmente traduzir o que lia em linguagem acessível e divertida. Uma série de equívocos depois, decidiu contratar especialistas para se informar seriamente e não disseminar bobagens. “Sei que influencio pessoas, então é importante ter um respaldo científico ou histórico para o que estou falando”, explica. Na popular seara das séries, sucessos como O Conto da Aia retratam os perigos embutidos em sistemas políticos organizados em torno da desinformação e do atraso. “A ignorância frequentemente gera mais confiança do que conhecimento”, dizia Charles Darwin, o pai da teoria da evolução que os donos da verdade teimam em negar. O saber genuíno, curioso e aberto a contradições é o vento que empurra a humanidade para a frente, e só o alcançam aqueles que sabem que nada sabem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE JUNHO

NÃO PODEMOS NOS ESCONDER DE DEUS

O além e o abismo estão descobertos perante o Senhor; quanto mais o coração dos filhos dos homens! (Provérbios 15.11)

Deus é onisciente. Ele conhece todas as coisas, de todos os tempos, em todos os lugares, de todas as pessoas, até mesmo aquelas que são ocultas. Ninguém pode fugir da sua face nem esconder alguma coisa de seus olhos. Ele sonda o coração dos homens. Seus olhos penetram além do véu. Ele vê os segredos guardados a sete chaves. Penetra nas motivações mais secretas e inconfessas daqueles que tentam esconder seus pecados. Se o Senhor sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos, como alguém poderá esconder dele os seus pensamentos? Até mesmo as sepulturas estão abertas diante dele, quanto mais o coração dos filhos dos homens! Deus é inescapável. Se tentarmos fugir de sua presença colocando o nosso ninho entre as estrelas, ele estará lá. Se descermos ao abismo e chegarmos ao fundo dos mares, ele também estará lá. Para ele, luz e trevas são a mesma coisa. Não é sensato continuar fugindo de Deus, buscando esconderijo para ocultar nossos pecados. Ao contrário, devemos voltar-nos para ele, rogando: Sonda-me, ó Deus, […] e conhece os meus pensamentos (Salmos 139.23). O que precisamos fazer não é fugir de Deus por causa do pecado, mas fugir do pecado por causa de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

A DIFERENÇA ENTRE ÓCIO E PROCRASTINAÇÃO

”A não produtividade é um tabu. Não à toa, a palavra negócio significa, etimologicamente, negar o ócio. Mas a vida não são só negócios, certo? Por isso, encontre tempo para você, pare, olhe para dentro e pense sem restrições”

Se você sempre deixa para amanhã as tarefas que considera chatas ou desgastantes, você é um procrastinador. Porém, por mais que adie a resolução dos problemas, cedo ou tarde, vocês se esbarrarão em alguma esquina. Quando acontecer, talvez o mal-estar seja ainda maior, pois será pego de surpresa para enfrentar o desafio. É aí que está uma das principais diferenças entre a procrastinação e o ócio. Enquanto a primeira atitude posterga indefinidamente questões incômodas, a segunda é uma opção consciente de não fazer nada. O ócio não é uma fuga. É um templo de reflexão sem culpa, porque quem o desfruta sabe que há outro momento reservado para resolver as pendências.

Assim como a procrastinação, o ócio também não costuma ser bem-visto por quem está ao nosso redor. Em um mundo focado em produzir e consumir, ficar parado sem fazer nada pode soar como uma atitude ofensiva. Contudo, o ócio permite fugir da rotina apressada e decantar nossos dilemas. Tão ruim quanto não encarar o que nos desafia e incomoda é tentar resolver a vida sem nenhuma calma ou reflexão.

O drama do ócio também é cultural. “Mente vazia, oficina do diabo!” – quem nunca ouviu ou disse essa frase? A não produtividade é um tabu. Não à toa, a palavra negócio significa, etimologicamente, negar o ócio. Mas a vida não são só negócios, certo? Por isso, encontre tempo para você, pare, olhe para dentro e pense sem restrições.

Existem assuntos que tendem a ser procrastinados. Problemas em relacionamentos, na família, doenças graves ou decisões complicadas no trabalho. São questões que, lá no fundo, você sabe que precisará resolver, mas lhe falta coragem para enfrentá-las. O primeiro passo para lidar com assuntos espinhosos é ter a coragem de encará-los. Quais tipos de problemas que mais o incomodam? Responder a essa pergunta é fundamental para seguir em frente.

A falta de comprometimento com projetos, sejam da empresa ou da família, também aumenta a chance de você procrastinar. Motivação, no entanto, não significa trabalhar sempre, até de madrugada, para resolver todos os problemas. Quem teve um dia difícil é capaz de perceber que algumas tarefas serão mais bem executadas depois de uma noite de descanso. Se há tempo suficiente para diluir as obrigações de maneira planejada, por que não?

Outro fator que pode levar à procrastinação é a busca pela perfeição. Pessoas perfeccionistas e muito exigentes consigo mesmas costumam acreditar que, se não podem fazer o melhor trabalho do mundo, é melhor nem começar. Quanto mais perfeccionista, menos tende a se arriscar naquilo que não conhece muito bem e, assim, adia essa experiência ou até a evita.

Então, não fazer nada é ruim? Claro que não! Como dito no começo do texto, o “fazer nada” não é um “pecado”. Fazer nada, conscientemente, é até muito bom, pois proporciona um momento para organizar, recarregar e clarear a mente. Diversas pesquisas científicas já comprovaram que o corpo precisa desses momentos para continuar produtivo.

A pergunta que fica é: como ter mais ócio e menos procrastinação? A primeira dica é identificar onde o seu calo aperta. Quais problemas são difíceis de encarar? Quais as resistências? Quais são as origens das dificuldades? E até: do que você sente medo? Olhar para dentro é difícil mesmo, e é por isso que algumas pessoas procuram ajuda profissional nessa fase, recorrendo a terapias, por exemplo.

Depois, coloque no papel as pendências que fazem seu coração acelerar. Coloque ordem nesses problemas e dê prioridade a cada um deles. Sabendo quais são seus obstáculos, estabeleça prazos factíveis para solucioná-los. Se há uma questão familiar que exigirá dedicação intensa, mas você está prestes a entregar um grande projeto no trabalho, garanta que no mês seguinte a família será prioridade. A consequência de não cuidar dos problemas é uma só: o que não é resolvido não sumirá. E, pior ainda, pode virar uma bola de neve. Quando estiver com a vida mais organizada, você terá mais facilidade para criar momentos de ócio. Sem culpa.

JORGE NETO – é psicólogo, gentólogo com mais de 20 anos de experiência em multinacionais, atuando nas áreas de operação, marketing, planejamento e RH.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO DEPRIMIR É NECESSÁRIO – III

O QUE É INDISPENSÁVEL SABER SOBRE DEPRESSÃO (*)

Principal causa de incapacitação para a vida profissional e afetiva, a patologia contribui de forma importante para o aumento da carga global de doenças, mas existem vários tratamentos eficazes. Segundo a OMS, tratamento psicológico é fundamental

Depressão não é tristeza. A condição é diferente das flutuações usuais de humor e das respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana. Quando tem longa duração e intensidade moderada ou grave pode se tornar uma condição crítica de saúde, afetando todas as áreas da vida da pessoa. Nos casos mais graves, a depressão pode levar ao suicídio (são registrados 800 mil a cada ano). Entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos é a segunda principal causa de morte.

Embora existam tratamentos eficazes conhecidos para depressão, menos da metade das pessoas afetadas no mundo (em muitos países, menos de 10%) recebe tratamento. Os obstáculos ao atendimento eficaz incluem a falta de recursos, de profissionais treinados e o estigma social associado aos transtornos mentais, que faz com que as pessoas adiem a busca por ajuda. Outra barreira ao atendimento é a avaliação imprecisa. Em países de todos os níveis de renda pessoas com depressão frequentemente não são diagnosticadas corretamente e outras que não têm o transtorno são muitas vezes avaliadas de forma inadequada, sendo submetidas a intervenções desnecessárias.

FATORES PREVENTIVOS

Um episódio depressivo patológico pode ser categorizado como leve, moderado ou grave, dependendo da intensidade dos sintomas. Uma pessoa com um episódio depressivo leve terá alguma dificuldade em continuar um trabalho simples e atividades sociais, mas sem grande prejuízo ao funcionamento global. Durante um episódio depressivo grave, é improvável que a pessoa afetada possa continuar com atividades sociais, de trabalho ou domésticas. Uma distinção fundamental também é feita entre depressão em pessoas que têm ou não um histórico de episódios de mania (euforia). Os dois tipos de depressão podem ser crônicos (isto é, acontecem durante um período prolongado de tempo), com recaídas, especial- mente se não forem tratados.

Atualmente é ressaltado que a depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Da mesma forma, a abordagem terapêutica não é única. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (como desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolver depressão e a patologia pode causar mais estresse, piorando a situação de vida e o transtorno em si. Há também relação entre a depressão e a saúde física: doenças cardiovasculares, por exemplo, podem levar à depressão e vice-versa.

DIAGNÓSTICO E CUIDADOS

Existem tratamentos eficazes para depressão moderada e grave, sendo de grande importância os tratamentos psicológicos e em muitos casos o uso de antidepressivos. Os remédios podem ser eficazes no caso de depressão moderada a grave, mas não são a primeira linha de tratamento para os casos mais brandos. Esses medicamentos não devem ser usados para tratar depressão em crianças e não são a primeira linha de tratamento para adolescentes. Ao optar pelo medicamento, é necessário levar em conta a possibilidade de efeitos adversos associados e considerar a intervenção psicoterápica individual ou em grupo, associada à prática gradativa de atividade física e à meditação.

A depressão é uma das condições prioritárias cobertas pelo Mental Healt Gap Action Programme (mhGAP), da Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo do programa é ajudar os países a aumentar os serviços prestados às pessoas com transtornos mentais, neurológicos e de uso de substâncias, por meio de cuidados providos por profissionais de saúde que não são especialistas em saúde mental. A iniciativa defende que, com cuidados adequados, assistência psicossocial e medicação quando necessário, dezenas de milhões de pessoas com transtornos mentais, incluindo depressão, poderiam começar a levar uma vida saudável, mesmo quando os recursos são escassos.

(*) Informações fornecidas pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), vinculada à OMS

EU ACHO …

SEM APEGO, COM AFETO

Coisas que carregam lembranças transcendem sua materialidade

Se o desapego é um atributo a ser valorizado, o apreço dirigido a objetos que nos são sentimentalmente caros é algo que também deve ser cultivado. Não pela materialidade das coisas, mas pela afeição que evocam. Não porque integrem um patrimônio, mas por fazerem parte da nossa história.

Recentemente, vivi em família a experiência de repartir pertences dos nossos pais. Eles nos deixaram nos últimos dez anos. Nesse período, mantivemos praticamente intacta a casa que haviam montado ao longo de décadas de um casamento feliz. Telas, fotografias emolduradas ou em porta-retratos, lembranças de viagens, vasos, estatuetas – tudo em volta remetia à memória, o lugar onde hoje vivem. Decidimos organizar os objetos em lotes. O acaso me brindou com um quadro em tamanho natural de minha mãe, de quem eu era muito próxima. Ela está sentada, encarando quem contemple a obra com uma expressão entre firme e serena. Fiquei também com uma coleção de coroas, compradas por meu pai e pelas quais ela tinha um xodó especial. Essas peças agora estão em casa, em locais onde com frequência repouso o olhar. Foi emocionalmente reconfortante ter feito a curadoria da parte que me coube.

O episódio me veio à mente enquanto refletia sobre a atitude do desapego. A contradição é apenas aparente. Tudo depende daquilo a que nos apegamos ou de que nos desapegamos. Quem pratica o desapego, deixando de lado a tralha que se revela inútil, aumenta as chances de ter uma vida mais plena. Afinal, para viver com intensidade, tudo de que precisamos é disposição para encarar o desconhecido, é curiosidade sobre culturas diferentes, é desejo de, quando as circunstâncias permitirem, se sentir em movimento pelo planeta.

Na pandemia muitas pessoas aproveitaram o maior tempo em casa para revisitar closets, prateleiras, baús e doar itens que sobravam. Essas são as pessoas verdadeiramente ricas, na definição do pensador americano Henry David Thoreau, conhecido por suas reflexões sobre a vida simples. “Uma pessoa é rica”, ele escreveu,” na proporção do número de coisas de que ela é capaz de abrir mão.” Trata-se da atitude de descartar o supérfluo e focar aquilo que importa: importa também guardar as memórias dos bons momentos, que ficam gravadas nas retinas, impregnadas para sempre no coração, às vezes com a ajuda de antigas fotografias. Imagino que nem mesmo o espírito mais desapegado abriria mão delas. Revê-las de quando em quando é uma nova experiência, diferente daquelas vividas no passado e reproduz dias em nossos álbuns afetivos, repletos de momentos em família. Luiz, meu companheiro de todas as horas, diz que temos de nos apaixonar pelas coisas que herdamos. Tem razão. Elas não são mais apenas madeira, metal, tecido, pigmentos. Superam a condição de simples coisas, adquirem aura própria, constroem um túnel do tempo – o que justifica nosso apego.

P.S. – Perdemos nesta semana a extraordinária chef Mari Hirata, amiga querida que me ensinou várias coisas; na cozinha, nas mesas e nos mercados de Tóquio. Virou estrela, embora para mim sempre fosse, brilhando mais do que qualquer uma do Michelin.

*** WILMA GRIZINSKI

OUTROS OLHARES

SINAIS DE FUMAÇA

O México se une ao crescente número de países dispostos a liberar o uso de maconha, acompanhando uma tendência da sociedade que já anima o mundo dos negócios

Por mais que autoridades e pesquisas científicas sigam alertando sobre os danos à saúde causados pelo uso intensivo de maconha, e eles existem, a planta está, decididamente, descendo os degraus da pirâmide de drogas proibidas e se encaminhando para entrar no clube das substâncias legais. A mudança é resultado de uma nova mentalidade em relação à cannabis, impulsionada principalmente pela franca expansão de seu uso medicinal e pelo fracasso da maior parte das políticas de contenção do narcotráfico. O mais recente anúncio de legalização partiu do México, país conhecido pelo conservadorismo que permeia sua cultura: a Câmara dos Deputados aprovou por ampla maioria um projeto de lei, que agora segue para o Senado, onde o aval é certo, e para a assinatura do presidente Andrés Manuel López Obrador, aberto defensor da iniciativa liberalizante.

Também no Canadá, no Uruguai e em vários estados americanos a maconha é liberada. Em Israel, África do Sul, Geórgia e Luxemburgo o consumo é tolerado com restrições, e em 42 países, inclusive o Brasil, o uso como medicamento foi autorizado pelo governo. “Observamos nos últimos vinte anos uma mudança radical na opinião pública em relação à cannabis”, diz Kassandra Frederique, diretora da Drug Policy Alliance, entidade que advoga por reformas na lei criminal. Quando entrar em vigor, a lei da maconha no México permitirá que maiores de idade portem até 28 gramas (o equivalente ao mesmo número de cigarros) e cultivem no máximo seis pés em casa. O governo planeja que o grosso do comércio e da venda seja conduzido por pequenos agricultores e varejistas e, assim, se consiga enfraquecer um braço (o menos lucrativo, aliás) dos negócios dos brutais cartéis que controlam parte do território mexicano. O processo de legalização foi gradativo. Em 2015, a Suprema Corte deu o primeiro passo, decidindo que proibir o consumo era inconstitucional. Dois anos depois, o uso de produtos medicinais, como o canabidiol, foi liberado. A nova lei faz do México, com seus 126 milhões de habitantes, o maior mercado potencial de maconha do planeta, com capacidade de movimentar 3,2 bilhões de dólares por ano. Do outro lado da fronteira, nos Estados Unidos, mais três estados – Nova Jersey, Arizona e a Dakota do Sul – votaram na eleição de novembro para liberar o uso recreativo, e Mississippi fez o mesmo em relação ao medicinal, elevando para dezesseis os que legalizaram e para 26 os que permitem só como remédio. Segundo especialistas, os Estados Unidos estão firmemente plantados na trilha para a liberação da maconha em praticamente todo o território, previsão confirmada por pesquisas e fatos. Levantamento do instituto Gallup mostra que a maioria tanto de democratas quanto de republicanos, adversários ferrenhos em quase tudo hoje em dia, concorda com a legalização – o Congresso, inclusive, já extinguiu as punições federais ao porte. Entre a população, 68% dos americanos são a favor, um recorde histórico. A vice-presidente Kamala Harris defendeu a liberação na campanha eleitoral. O presidente Joe Biden se diz favorável à descriminalização, mas prefere deixar a questão nas mãos dos estados. Seu secretário da Saúde, Xavier Becerra, no entanto, é notório defensor da legalização. “A decisão do México deverá aumentar a pressão por mudanças, e não só nos Estados Unidos”, diz Andrew Rudman, do centro de estudos Wilson Center, em Washington.

Do ponto de vista dos negócios, a tendência à aceitação da maconha pela sociedade está mobilizando as empresas com potencial de atuar no setor. Nos Estados Unidos, a Constellation Brands, dona da cerveja Carona, e a Altria, a maior fabricante de tabaco do mundo, acabam de anunciar a criação da Coalizão pela Política, Educação e Regulamentação da Cannabis, grupo lobista que tem como objetivo influenciar a legislação futura sobre o assunto. As duas empresas veem aí sua chance de recuperação entre os millennials, que formam a maio parte dos consumidores e que costumam rejeitar álcool e cigarros em prol da boa saúde, mas adotam a droga. Pelo contrário: impulsionado pelos jovens, o comércio da planta in natura e de uma variedade de alimentos e bebidas que contêm THC, seu princípio ativo, alcançou 18,3 bilhões de dólares em 2020, salto de 70% na comparação com 2019. O setor emprega mais de 320.000 pessoas no país e, na contra­mão de quase toda a indústria, registrou aumento de vagas na pandemia.

Em Israel, onde o consumo medicinal é autorizado e o recreacional é tolerado, mas não em público, apenas dentro de casa, o ex-primeiro-ministro Ehud Barak abriu uma empresa para comercializar maconha (por enquanto, só como remédio) e se tornou porta-voz da abertura em relação a seu uso. Ele prevê que, em futuro não muito distante, um em cada três habitantes do planeta estará consumindo alguma forma de cannabis – motivo pelo qual as oportunidades nesse ramo devem ser aproveitadas “agressivamente e imediatamente”. Também onde a maconha é permitida só para uso medicinal, como no Brasil e nos vizinhos Argentina, Peru, Colômbia e Chile, as chances de bons negócios são animadoras. Aqui, a indústria estima em 4 milhões o número de pacientes a ser beneficiados, gerando um mercado calculado em 4,7 bilhões de reais.

Ainda no mundo empresarial, países como Uganda, Gana, Ruanda, Lesoto e Malawi, na África, e Líbano, no Oriente Médio, continuam proibindo o consumo, mas estão autorizando o cultivo unicamente para exportação. A formalização do comércio de maconha e sua remoção do âmbito do crime organizado, no entanto, são tarefas complexas. No México, especialistas afirmam que as plantações existentes estão, todas, em território do tráfico – que, de qualquer forma, arrebanha a maior parte de seus rendimentos com a venda de cocaína e metanfetamina. “Na busca de popularidade, o governo está superestimando os efeitos da lei”, diz Falko Ernst, da consultoria lnternational Crisis Group. Até a Holanda, pioneira na liberação da maconha, está repensando o alcance da medida diante da crescente atuação do crime organizado no país. Ao que tudo indica, por mais sérios que sejam os problemas, porém, o baseado está saindo do armário para ocupar a sala principal de várias casas no exterior.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE JUNHO

A DISCIPLINA É AMARGA, MAS SEU FRUTO É DOCE

Disciplina rigorosa há para o que deixa a vereda, e o que odeia a repreensão morrerá (Provérbios 15.10).

Nossa natureza é inclinada para o mal. Fomos concebidos em pecado e nascemos em pecado. O pecado não se encontra apenas nas estruturas sociais e nas ideologias políticas, mas está instalado em nosso coração. Todos nós precisamos ser corrigidos e disciplinados para não nos desviarmos pelos descaminhos da morte. Aqueles, porém, que deixam a vereda da justiça e tapam os ouvidos à correção sofrerão disciplina rigorosa. Quem não ouve a voz da exortação receberá o chicote do castigo. Mesmo amarga, a disciplina rigorosa ainda é uma expressão de graça, pois aqueles que endurecem a cerviz no caminho da desobediência e odeiam a repreensão caminharão céleres e irremediavelmente para a morte. Quantos jovens foram ceifados precocemente porque rejeitaram a disciplina! Quantos casamentos foram destruídos porque os cônjuges não aceitaram nenhum tipo de aconselhamento! Quantas famílias foram desfeitas porque não buscaram nenhuma forma de ajuda! A repreensão pode ser amarga, mas seu fruto é doce. A disciplina pode ser dolorosa, mas seu resultado traz descanso para a alma. É melhor ser ferido pela disciplina do que morrer na perversidade.

GESTÃO E CARREIRA

QUER VENDER MAIS? COMPORTE-SE BEM

Não adianta dominar as técnicas de vendas, saber se comunicar, conhecer o consumidor e entender bem o produto se você não é capaz de se comportar ou se vestir adequadamente. Para ganhar o coração e a confiança do cliente, é preciso seguir algumas regras de etiqueta

Se você é vendedor sabe que muito do sucesso da empresa depende de uma boa performance sua. Afinal, o vendedor é a porta de entrada para qualquer negócio, especialmente aqueles que atuam no varejo. Porém, nem todo mundo tem perfil para trabalhar na área, outros até possuem, mas perdem boas oportunidades por falta de traquejo, de postura ou até do uso de roupas adequadas. “Vender é uma arte. Precisamos saber o que dizer, como se comportar, como reagir e identificar os melhores momentos para falar e se calar durante a negociação”, afirma o empresário Carlos Alexandre Gomes, que possui mais de 20 anos de experiência no mundo dos negócios e acumula mais de 500 franquias vendidas, dentre elas, San Martin e Banneg.

Para Gomes, essa arte vai muito além do saber falar, ela pede bom caráter, honestidade, seriedade, sinceridade, motivação, entre outros requisitos. “O indivíduo que se propõe a vender precisa estar sempre muito motivado. Despertar pela manhã com espírito preparado para esforços contínuos e, muitas vezes, de baixo resultado imediato. São ‘n’ contatos e visitas, ligações e mensagens, para depois suscitar o início de uma venda. Por isso, a questão emocional é tão importante”, explica.

Segundo a diretora comercial da 2a1 Cenografia, Danielle Paulino, o comportamento é fundamental para fechar um negócio. Para ela, entre algumas das dicas mais importantes estão conhecer o seu cliente, vestir-se adequadamente e, em alguns casos, até modular a voz para não passar uma ideia de arrogância. “Também é necessário ter um pouco de conhecimento de assuntos gerais para as reuniões. No caso da 2a1, as reuniões sempre caminham um pouco para o lado pessoal e, por isso, é essencial saber que quem puxa esse tipo assunto é sempre o cliente. Nossos vendedores também utilizam essa estratégia de aproximação pessoal. Dizemos que é preciso entender os gostos particulares de cada cliente”, aconselha.

O tom de voz é outra estratégia que deve ser talhada, assim como o vestuário. Essas preocupações podem parecer superficiais, entretanto, causam impacto na relação com a clientela. Segundo Danielle, o tom de voz foi um dos fatores que ela passou a observar ao longo dos anos: “às vezes, falamos um pouco mais alto e isso acaba passando uma impressão errada. O controle do volume da voz é muito importante em uma reunião”.

A respeito do vestuário, a diretora comercial pondera. “Como em nossa área não existe um código, é preciso tomar cuidado para não ser descontraído demais. Por mais que o ambiente seja informal, ainda é um ambiente profissional. Não costumo usar maquiagem escura para não desviar o foco, nem roupas curtas ou transparentes. Porém, como trabalho com criatividade, tento mostrar isso através das minhas roupas, afinal, ninguém vai querer comprar criatividade de alguém que se veste maneira sóbria”, diz. Por fim, após 20 anos na 2a1 Cenografia, Danielle ressalta a importância da postura, uma vez que o profissional passa confiança por meio dos gestos. “Devemos ser o mais claro possível, mostrando conhecimento e abordando os temas da reunião com segurança”, emenda.

O ATENDIMENTO

Muitas pessoas pensam que o trabalho do vendedor se resume a “vender” – e vender bem. O senso comum também dita que vender significa apenas ouvir o que o cliente deseja e entregar o produto final. Ou que o vendedor só alcança o sucesso com o cliente porque entrega o que foi requisitado. Mas as aparências enganam. Um bom atendimento engloba uma série de etapas, atender é conquistar o consumidor em seu todo e, dessa maneira, compreender não só o que ele deseja, mas também o que ele necessita. A sócia-diretora da Posiciona Educação & Desenvolvimento, Carolina Manciola, explica melhor esse processo: “para continuar existindo, o vendedor deve agregar valor ao processo de vendas, por isso, atuar identificando oportunidades é imprescindível. A questão não é ‘empurrar’ um produto ou manipular o cliente, mas usar da empatia para encontrar ‘problemas’ e oferecer soluções. Isso é ser consultivo, isso é ser vendedor”.

Durante uma venda, é preciso gerar conexões que possibilitem a apresentação dos benefícios que aquele produto ou serviço trará para o cliente. Para que isso ocorra é necessária a presença de um conjunto de ações, uma somatória de confiança, conhecimento do produto, motivação, vontade, roupas, comportamentos adequados, entre outros. A seguir, confira os principais tópicos para o vendedor ter sucesso em suas vendas e ir além da venda do produto, mas vender também uma boa imagem da empresa.

O QUE FALAR?

Os clientes não estão mais tão dependentes dos dados fornecidos pelas empresas ou da abordagem incisiva dos vendedores, especialmente porque hoje é comum que, antes de realizar uma compra, ele pesquise sobre o produto na internet. Quando os clientes chegam até a empresa, eles nem sempre estão na primeira fase da jornada de compra – consciência -, muitos deles já chegam até o seu vendedor em uma fase de consideração, ou seja, avaliando alternativas de produto ou serviço. Por isso, exigem dos vendedores uma abordagem mais consultiva e menos persuasiva. O processo de venda mudou. A mentora de negócios e CEO da ProPA, Patrícia Araújo, explica que o vendedor precisa descobrir as dores dos clientes para ajudá-los a encontrar as melhores soluções para seus problemas, apresentando novas soluções e perspectivas. “O vendedor/consultor se torna aliado do cliente, criando uma relação de confiança, passa ao cliente a percepção de que ele é um especialista do negócio e que dará as informações mais completas e eficientes à necessidade apresentada. A intenção é demonstrar que ele não quer apenas vender seu produto, isso é consequência. O desejo maior é solucionar a dor do cliente”, diz.

O QUE VESTIR?

Ter uma boa aparência é muito importante. O vendedor deve priorizar a postura que indique uma mensagem de confiança, competência e seriedade com a atividade que desempenha. A forma como um profissional se apresenta ao público pode sugerir muitas coisas sobre a sua imagem e até sobre a sua personalidade. Assim, de forma geral, os homens devem ter a barba feita, os cabelos cortados e penteados, enquanto as mulheres devem conservar uma maquiagem discreta, unhas feitas e perfume suave. “Nunca use roupas com decotes, muito justas, informais, desbotadas, rasgadas ou saias com fendas muito compridas. Prefira sapatos, calças e blusas sociais. A vestimenta errada pode atrapalhar o bom andamento de uma negociação, por exemplo”, sugere Patrícia Araújo.

COMO GESTICULAR E ABORDAR O CLIENTE?

Para ser reconhecido pelo seu potencial cliente como uma boa alternativa, você precisa demonstrar para ele que é confiável. E nada fará isso melhor do que com a linguagem corporal. Patrícia cita três exemplos que traduzem isso:

A.  O contato olho no olho transmite simultaneamente confiança, atenção e verdade. Fugir deste contato com uma pessoa pode transmitir hesitação ou falta de confiança, o que poderia enfraquecer suas chances de vender. Muito contato visual pode fazer você parecer intimidador e desesperado. Portanto, mantenha contato visual com o seu cliente por alguns segundos de cada vez. Isso será o suficiente para transmitir uma autoestima mais confiante, que não comprometa sua imagem.

B. Gesticular pode ser uma fonte de poder e expressão. Em vez de ficar parado, contando apenas com as palavras para fazer todo o trabalho pesado, ilustre seus pontos usando movimentos físicos. No entanto, mantenha seus movimentos sob controle. Gestos ansiosos, como mexer no cabelo ou ficar balançando a perna ou uma caneta, podem ser uma indicação de falta de confiança.

C.  As expressões faciais simpáticas são um componente-chave da comunicação não verbal e podem efetivamente demonstrar seu envolvimento na conversa. Manter um rosto imóvel vai fazer você parecer impessoal e robótico. Sorria tão frequentemente quanto uma conversa lhe permite, levante as sobrancelhas para ilustrar o interesse e expressar a sua seriedade quando o tempo exige. Você também pode ler as expressões faciais de seu cliente, a fim de obter uma leitura de seus pensamentos durante o curso da conversa.

COMO DEVE SE PORTAR O VENDEDOR DA SUA EMPRESA?

Coloque-se no lugar do cliente e entenda qual é a real necessidade dele. Cumprimente-o e ouça o que ele tem a dizer. Comunicação não é apenas falar, mas saber interpretar o que está sendo dito. Mantenha sua comunicação simples. Não utilize vocabulário complexo ou técnico demais para o seu cliente, nivele o vocabulário conforme o perfil dele. Chame-o pelo nome. Crie uma conexão entre vendedor-cliente e gere confiança. Problemas pessoais ficam fora da empresa, sempre. Não misture o ambiente corporativo com o pessoal e procure manter as relações com seus colegas de trabalho sempre saudáveis. “Vendedores egoístas, que não valorizam o trabalho em equipe e a colaboração mútua, não devem permanecer na empresa. Compartilhe conhecimento e experiências com seus colegas de trabalho e permita que eles compartilhem com você também! Auxilie sempre que possível, tanto no atendimento comercial quanto uma dúvida. Gentileza gera gentileza, que gera maiores resultados”, lembra Patrícia.

COMO UM VENDEDOR PODE FIDELIZAR UM CLIENTE?

Quando o cliente percebe que suas necessidades e desejos são compreendidos por sua empresa, que você sabe exatamente o que ele precisa e quando precisa, com certeza ele terá suas expectativas superadas. Esta é a melhor maneira de fidelizar clientes: conhecer o máximo possível sobre eles e atender a suas demandas de forma a surpreendê-los. Criar um programa de fidelização também é uma boa opção e, para isso:

1) Descubra o que seus consumidores realmente gostariam de ganhar; 

2) Determine recompensas que levem à ação porque realmente traduzem desejos e necessidades dos clientes;

3) Atraia seu público;

4) Desenvolva regras simples como participar, concorrer e ser premiado. Fidelizar um cliente trará mais informações sobre seus consumidores, muitas novas oportunidades surgirão, como vendas adicionais, vendas de oportunidade, vendas por impulso e aumento do ticket médio.

COMO SE DESTACAR E CONSEGUIR REALIZAR MUITAS VENDAS?

Um bom vendedor:

A. Jamais deve mentir! Se não for honesto por virtude, que o seja por esperteza. Afinal, o mundo está cada vez menor, os clientes estão cada vez mais informados e a internet deixa qualquer mentira com as pernas cada vez mais curtas. Se mentir, o vendedor logo será desmascarado e sua credibilidade irá a zero. Quem não tem credibilidade não pode sequer se considerar um vendedor.

B. Nunca deve falar mais do que ouve ou se portar com arrogância ou desinteresse.

C. Deve encarar cada insucesso como uma oportunidade de aprender algo novo: uma nova abordagem, um novo argumento de venda, uma nova “pergunta poderosa” a ser incluída em seu repertório ou uma nova visão do mundo (ou de um problema específico), uma objeção do cliente que pode ser sanada.

COMO CONQUISTAR UM CLIENTE EM UMA VENDA ON-LINE?

O marketing digital é um ótimo aliado nas vendas on-line. São técnicas e ações de comunicação especialmente empregadas na internet e demais meios digitais com a finalidade de conquistar e fidelizar clientes.

A. A primeira etapa consiste em atrair pessoas que não conhecem sua marca, para então transformá-las em visitantes. Pode ser feito para websites, blogs, páginas de captura, canais no YouTube, páginas no Facebook ou qualquer outro canal de comunicação. Podem ser usadas estratégias pagas (anúncios) ou gratuitas (tráfego orgânico).

B. A segunda etapa é a captura de leads. Um visitante se torna um lead quando você possui um modo de entrar em contato com ele posteriormente, seja através de e-mail, SMS, ligação telefônica, WhatsApp ou um anúncio direcionado (retargeting).

C. Na etapa final, ocorre a conversão dos leads em clientes, efetivação da compra do produto ou serviço, através de seus esforços em e-mails, vídeos e páginas de vendas. Quanto maior a qualidade dos leads e quanto mais leads forem gerados, mais vendas serão realizadas e mais o negócio cresce.

D. Conhecer bem o perfil do seu público para saber o que eles buscam ou rejeitam no seu produto é essencial para o funil de vendas on-line ser um sucesso.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO DEPRIMIR É NECESSÁRIO – II

DECISÕES MAIS SÁBIAS

Dilemas complexos exigem pensamento atento e habilidade política. Experiências de laboratório indicam que pessoas deprimidas são boas em resolver esses impasses, por analisar melhor as vantagens e desvantagens das opções possíveis

O que poderia haver de tão útil na depressão? Aparentemente, nada. Mas só aparentemente. Os deprimidos costumam pensar intensamente em seus problemas. Tais pensamentos são chamados de ruminações obsessivas: são ideias persistentes que tomam conta da mente e tornam difícil raciocinar sobre qualquer outra coisa e tudo parece desinteressante. Vários estudos já mostraram que, muitas vezes, esse modo de pensar é extremamente analítico. Nesse estado, a pessoa se debruça sobre um problema com- plexo, dividindo-o em componentes menores, examinando-os detalhadamente, um de cada vez.

Essa maneira analítica de pensar pode ser altamente produtiva. Cada uma das partes, quando isolada, não oferece tanta dificuldade, de modo que o problema se torna mais manejável. Na verdade, diante de uma situação difícil, a entrar em um estado depressivo (ainda que provisoriamente) é, não raro, uma reação que ajuda a resolver o problema. Em algumas de nossas pesquisas, encontramos indícios de que, em testes de inteligência, as pessoas que mais se deprimem ao lidar com proposições complexas são as que obtêm pontuação mais alta. Mas é preciso fazer aqui uma distinção entre o estado depressivo (assim denominado pela psicanalista Melanie Klein), marcado pela introspecção, necessário para elaboração de situações de angústia, e a depressão patológica, que pode ser incapacitante e até levar ao suicídio. O estado depressivo surge em situações de luto (seja pela perda de um ente querido, uma separação ou perda de emprego, por exemplo). O fato de ser saudável não faz dele menos sofrido. Pelo contrário, é marca- do pela tristeza necessária e por períodos de recolhimento.

GASTO DE ENERGIA

Do ponto de vista físico, a análise exige boa dose de pensamento ininterrupto e a depressão propicia muitas mudanças cerebrais que nos ajudam a avaliar vários aspectos sem nos dispersar. Para que uma pessoa não se desvie do objetivo é preciso que os neurônios do córtex pré-frontal ventrolateral (CPFVL) sejam continuamente ativados. Isso, porém, acarreta grande gasto energético no cérebro. Além disso, a excitação contínua pode levar ao colapso dos neurônios, assim como o motor de um automóvel tem maior probabilidade de quebrar quando forçado. Estudos sobre depressão em ratos mostram que o receptor 5HT1A está envolvido no fornecimento aos neurônios do combustível necessário ao funcionamento e à proteção contra o risco de colapso. Esses processos permitem a continuidade ininterrupta das ruminações, minimizando os danos neuronais, o que pode explicar a grande importância evolutiva dessa molécula.

O desejo de isolamento social, por exemplo, ajuda o deprimi- do a evitar situações que o obrigariam a pensar em outros assuntos. Da mesma forma, a incapacidade de obter prazer com o sexo ou outras atividades evita que ele se envolva em algo que o distrairia do problema. Pensando assim, fazem sentido todas as metáforas e obras de arte que representam esse quadro como uma espécie de prisão. Até a perda de apetite, comumente observada na depressão, pode ser vista como um estímulo aos pensamentos obsessivos, pois a mastigação e outras atividades orais interferem na capacidade do cérebro de processar informações.

A ruminação é tão resistente às distrações que as pessoas deprimidas geralmente têm pontua- ções menores do que aquelas que não se encontram nesse estado em avaliações cognitivas e testes de interpretação de texto. Há uma abundância de dados indicando que elas fazem menos pontos porque estão pensando em ou- tros assuntos, que interferem em sua capacidade de concentrar-se nos exercícios propostos. Os deprimidos simplesmente têm dificuldade para pensar em qualquer outra coisa que não os problemas que desencadearam a depressão.

Mas existe indício de que toda essa ruminação faça algum bem? A maioria dos clínicos e pesquisadores acredita que os pensamentos obsessivos típicos do rebaixamento do humor sejam prejudiciais. Os pesquisadores acreditam que se essa hipótese estivesse correta, as estratégias para evitá-los ou interrompê-los deveriam levar a uma resolução mais rápida. Mas os fatos não confirmam essa previsão. Indivíduos que tentam evitar as ruminações, distraindo-se ou buscando fuga no álcool e nas drogas, tendem a ter episódios depressivos mais longos. Intervenções que estimulam a ruminação, porém, como a psicoterapia e em alguns casos o incentivo à escrita que expresse os próprios sentimentos costumam promover a resolução mais rápida da depressão.

Outros dados que apontam na mesma direção provêm de diversos estudos em que se demonstra que pessoas em estados de ânimo depressivo se saem melhor na solução de dilemas sociais – conflitos de interesse com um parceiro de cuja cooperação sejam dependentes. “Essas situações complexas, que envolvem vários elementos – exatamente o tipo de desafio que exige análise concentrada –, são também relevantes o suficiente para motivar a evolução de um estado mental tão oneroso”, afirmam.

Dilemas complexos exigem pensamento atento e habilidade política. Experiências de laboratório indicam que pessoas deprimidas são boas em resolver esses impasses, por analisar melhor as vantagens e desvantagens das opções possíveis. As pesquisas indicam também que tais dilemas são gatilhos naturais da depressão – por exemplo, conflito com o parceiro.

Considerando que a depressão é despertada por problemas sociais complexos, a ruminação ininterrupta ajudando os deprimidos a resolver esses problemas, a capacidade ancestral do receptor 5HT1A de ativar o rebaixamento do humor e o papel deste na garantia de que os pensamentos obsessivos não sejam interrompidos, parece pouco provável que a depressão seja um transtorno no qual o cérebro funcione de modo irregular. Ao contrário, esse estado de fato se assemelha à febre – um com- plexo elemento organizado de nossa biologia que, apesar de doloroso, cumpre uma função específica.

Não resta dúvida de que a depressão existe como patologia, mas, tal qual se dá com a esquizofrenia e o transtorno obsessivo compulsivo, sua taxa de incidência está provavelmente mais próxima de 1% ou 2% da população do que de 30%. O número exagerado de diagnósticos pode se dever ao fato de que as pessoas às vezes relutam em falar sobre os problemas que desencadearam seus episódios depressivos. As questões envolvidas costumam ser embaraçosas, delicadas e, geralmente, dolo- rosas. Algumas pessoas acreditam que devem seguir em frente ignorando as angústias, ou simplesmente não sabem expressar em palavras seus conflitos internos. Em casos assim, são maio- res as chances de que o terapeuta ou pesquisador pense no episódio depressivo não como uma reação saudável às dificuldades da vida, mas sim como consequência de uma disfunção. A depressão, porém, é a forma que a natureza encontrou para dizer que temos problemas sociais complexos e que a mente está determinada a resolvê-los. O reconhecimento da verdadeira razão de ser da depressão ajudaria milhões de sofredores a descobrir as raízes de suas emoções dolorosas e a enfrentar seus problemas de maneira mais proveitosa.

EU ACHO …

HOLOFOTES NO “TIMONEIRO”

A festa dos 100 anos do Partido Comunista não vai ser tranquila

Em julho de 1921, treze intelectuais chineses saídos de grupos de estudos marxistas se reuniram em Xangai e começaram a traçar, obviamente sem saber disso, o que viria a ser talvez o maior milagre de reconstrução nacional de todos os tempos. Interrompida pela polícia, a reunião continuou a bordo de um barco no lago da cidade de Jiaxing. Foi, assim modesto, o nascimento do Partido Comunista da China, hoje a maior organização do planeta, com 94 milhões de membros. Como a Roma dos césares, o partido sobreviveu à loucura maximalista de seus próprios líderes, inclusive e acima de tudo Mao Tsé-tung, grande reconstrutor e ao mesmo tempo destruidor da nação. Com Mao embalsamado no seu mausoléu na Praça da Paz Celestial, os líderes aberturistas do partido liberaram as forças produtivas engessadas pela ortodoxia ideológica, lançando ao mar o transatlântico do progresso econômico em escala jamais vista – incluindo-se aí a Alemanha e o Japão derrotados e vencidos na II Guerra, mas com o capital humano preservado para tocar a reconstrução. Em fevereiro passado, Xi Jinping, que agora adotou o título de “Timoneiro”, antes exclusivo de Mao, fez um dos primeiros anúncios dos muitos que acompanham as celebrações dos 100 anos de fundação do partido: “A árdua tarefa de erradicar a pobreza extrema foi cumprida”. E, como bom quadro, deu os números detalhados. Foram exatamente 98,99 milhões de pessoas, habitantes de 128.000 localidades rurais, que tiraram o pé da lama. Quando o PCC tomou o poder, em 1949, depois da arrasadora guerra civil, o PIB per capita era menos de 1 dólar. Hoje, é de 10.200 dólares.

Ironicamente, nesse ano de comemorações oficiais, a China enfrenta suspeitas cada vez mais concretas de que não apenas tentou abafar a eclosão da epidemia do novo coronavírus, mas também escondeu deliberadamente sua origem. Qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual percebe que não pode cravar que o vírus escapou do laboratório da Mulher­ Morcego, a virologista Shi Zhengli que conduzia pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan, a poucas centenas de metros do mercado de animais silvestres abatidos na hora para os fregueses, o suposto foco da pandemia. Mas também não é possível garantir a hipótese contrária, o que foi feito com excesso de entusiasmo, inclusive por cientistas talvez motivados pelo desejo de desmoralizar Donald Trump. O que se sabe já é suficiente para tirar o fôlego do planeta: as pesquisas de Shi Zhengli incluíam manipulações na proteína do coronavírus que o tornam mais propenso a contaminar os receptores humanos. Três técnicos do laboratório foram internados em novembro de 2019 com doença respiratória. Testes em 80.000 espécimes animais não encontraram até agora traços do novo vírus, ao contrário do que ocorreu com seus antecessores Sars e Mers. O que aconteceria na hipótese, ainda remota, de se comprovar que o vírus saiu do laboratório da Mulher-Morcego? “Ou se morre como herói ou se vive o bastante para se tornar o vilão”, filosofaria seu primo Batman. A festa dos 100 anos do partido não vai ser tranquila.

*** VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

A ORDEM AGORA É TER FILHOS

Preocupada com o recuo nos nascimentos, a China, o país mais populoso do planeta, aumentou para três o número de crianças permitidas por casal a fim de preservar seu projeto de potência mundial

A medical staff member feeds a baby at a hospital in Danzhai, in China’s southwestern Guizhou province on May 11, 2021. (Photo by STR / AFP) / China OUT

Quem diria que o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes, um dia se veria atormentado pela perspectiva de faltar gente para tocar o projeto de se tornar a maior potência do planeta. Pois é: a China encontra-se em uma encruzilhada demográfica, com o nascimento de bebês em queda e o envelhecimento em alta acelerada. A preocupação é tamanha que, na segunda-feira 31, o Partido Comunista anunciou que vai flexibilizar novamente a política de controle de natalidade e permitir que cada casal tenha até três filhos, além de expandir a rede de creches e garantir o emprego das mães. A medida enterra de vez a política de filho único que vigorou por quase quatro décadas e que já havia sido reformada há cinco anos, quando a cota familiar passou para dois herdeiros. O impulso para o novo aumento foi a revelação contida no último censo, em maio, de que apenas 12 milhões de bebês nasceram em 2020, um recuo de 15% na comparação com o ano anterior – a quarta queda consecutiva e fator decisivo para a taxa de crescimento populacional se situar em mero 0,5% ao ano, a mais baixa já registrada.

A pandemia tem sua parcela de responsabilidade, mas a pouca disposição dos chineses para se reproduzir vem de antes dela e, apesar dos incentivos do governo, não dá indícios de se reverter. Com o custo de vida subindo sem parar, educação e moradia cada vez mais caras e jornadas de trabalho exaustivas, os jovens chineses adiam a chegada de filhos e, em muitos casos, não pretendem ter nenhum. Em pesquisa realizada logo após o aumento da cota de rebentos no Weibo, a versão chinesa do Twitter, com 31.000 millennials chineses, 95% disseram que pretendem ter no máximo uma criança porque não podem sustentar família maior. “Há sérias razões para o governo chinês se preocupar com o futuro de sua população”, diz Yong Cai, sociólogo especialista em assuntos chineses da Universidade da Carolina do Norte.

Nesse contexto, o controle de natalidade imposto pelo governo se torna inócuo e vozes dentro da própria China defendem que ele simplesmente deixe de existir, transferindo para os pais a decisão sobre quantos filhos querem ter. Segundo especialistas, porém, dificilmente o governo abrirá mão desse instrumento de controle social. Primeiro, porque estaria reconhecendo que a política do filho único foi um equívoco – e o PC chinês não é dado a admitir erros. Além disso, ter a palavra final sobre reprodução continua sendo útil para controlar numericamente minorias como os muçulmanos uigures, da província de Xinjiang, onde as mulheres são obrigadas a ter poucos filhos.

Se confirmadas as projeções atuais, o crescimento populacional da China cessará por completo em 2030 e até o fim do século o país registrará pouco mais de 700 milhões de habitantes – a metade de hoje. Tal encolhimento seria desastroso para a construção da potência global que o presidente Xi Jiping tem em mente. Nos últimos quarenta anos, o governo chinês mobilizou sua enorme vantagem populacional para alcançar taxas de crescimento espantosas, convocando os habitantes da empobrecida zona rural para trabalhar na indústria a custo baixíssimo. A manobra atraiu empresas de toda parte, que lá instalaram os parques manufatureiros que fazem da China, hoje, a fábrica do mundo. A virada demográfica, no entanto, já está mudando esse cenário.

O contingente de 900 milhões de chineses na faixa etária entre 15 e 59 anos é 7 pontos porcentuais menor do que há dez anos e a escassez de trabalhadores tem provocado um apagão de mão de obra. Em Guang­zhou, a 130 quilômetros de Hong Kong, recrutadores de empresas abordam jovens na rua para oferecer emprego. Na industrial Hangzhou, montadoras de automóvel não conseguem preencher vagas e estão apelando para a robótica na linha de produção. Nessa toada, dificilmente Xi Jinping conseguirá alcançar seu objetivo de dobrar o PIB até 2035 e elevar a China ao posto de maior economia do planeta. “A demografia vai restringir os planos mais ambiciosos do governo. Ela deve afetar a composição de instituições cruciais, como o Exército Vermelho, e, no longo prazo, pode ameaçar até a liderança do Partido Comunista”, diz Kent Deng, professor de história econômica da London School of Economics.

Por mais que o país exiba um avanço fenomenal em menos de meio século, saindo da extrema pobreza para a potência que é agora, seu Índice de Desenvolvimento Humano continua sendo inferior ao dos Estados Unidos e Europa, e o PIB per capita, de 17.000 dólares anuais, é um terço do americano. “Com a queda prevista de população, dificilmente a China conseguirá superar os Estados Unidos no contexto da geopolítica global”, afirma Julian Evans-Pritchard, economista da consultoria Capital Economics. Em paralelo ao encolhimento do número de jovens, a quantidade de velhos se expande rapidamente –   atualmente, 13% da população tem 65 anos ou mais, a mesma porcentagem que o Japão registrava na década de 90, quando mergulhou em período de estagnação que dura até hoje. O rombo previdenciário se alarga e, segundo estudos do próprio governo, sem mudanças – como o aumento da idade de aposentadoria, que é de 60 anos para homens e 50 para mulheres – o sistema de pensões entrará em colapso em 2036.

A política do filho único apertou ainda mais o nó demográfico da China, mas o problema está presente em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Passado o crescimento espantoso da população mundial no século XX, quando ela saltou de 1 bilhão para 6 bilhões de pessoas, o ritmo desacelerou, fruto do aumento do custo de vida e da entrada das mulheres no mercado de trabalho. A taxa global de fecundidade, que calcula o número médio de filhos por mulher, chegou a 4,7 em 1950 e hoje está em 2,4 no planeta, 1,7 no Brasil e apenas 1,3 na China – sendo 2,1 o ponto de equilíbrio ideal. Um estudo publicado na revista The Lancet projeta que em 23 países, entre eles Espanha, Itália e Japão, a população terá caído pela metade no fim do século. Até nos EUA, durante décadas a imagem da nação jovem onde reposição populacional nunca era problema, o Censo divulgado em abril mostrou avanço no número de habitantes de 7,4% nos últimos dez anos, o segundo pior resultado da história. Para evitar o colapso, os governos promovem políticas públicas de incentivo à natalidade, que vão de bônus para cada criança nascida a licença paternidade remunerada. A Itália acaba de aprovar um pacote de ajuda financeira que vai do sétimo mês de gravidez da mãe até os 18 anos do filho. Falta apenas combinar com os jovens, que cada vez menos se animam com a ideia de virarem pais.

SOCORRO, CHINESES SUMINDO

A política de filho único desacelerou o crescimento da população, como era previsto, mas os efeitos foram além do esperado e não há sinal de reversão

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE JUNHO

CAMINHOS QUE AGRADAM A DEUS

O caminho do perverso é abominação ao Senhor, mas este ama o que segue a justiça (Provérbios 15.9).

A Bíblia fala de caminhos que ao homem parecem direitos, mas no final são caminhos de morte. O caminho do perverso é largo e cheio de luzes. É o caminho das facilidades, dos atrativos do mundo, dos prazeres da carne, das aventuras e das paixões infames. Nesse caminho tudo é permitido, nada é proibido. Nesse caminho não há tabus nem leis. Cada um vive a seu modo e segue os ditames de seu próprio coração. Nesse caminho o sentimento de culpa é banido, a ideia de certo e errado é desfeita, e os valores morais são colocados de cabeça para baixo. Esse caminho é popular. Por ele passa uma multidão com forte sentimento de liberdade, uma multidão que escarnece daqueles que entram pelo caminho estreito da santidade. Mas o caminho do perverso, embora seja aplaudido pelos homens, é abominação para Deus. O fim desse caminho largo é a morte e a condenação eterna. Por outro lado, Deus ama o que segue a justiça. Ainda que trilhem uma estrada estreita, íngreme e cheia de perigos, Deus ama aqueles que seguem por esse caminho. Ele é estreito, mas seguro. Exige renúncias, mas oferece salvação. Requer arrependimento, mas conduz à bem-aventurança eterna. É rejeitado pelos homens, mas aprovado por Deus.

GESTÃO E CARREIRA

ENTRE LIKES E VENDAS

Converter seguidores em consumidores está muito além dos gráficos

Chuva de likes, interações, engajamento. O que todos esses elementos significam na hora de transformar seguidores em consumidores reais do seu produto ou serviço? Eles são dados que mudam seu impacto de acordo com as transformações sofridas pelas redes e a maneira como você conduz sua comunicação. Há pouco tempo, o próprio dono do Facebook, Mark Zuckerberg, escreveu em seu blog umpouco sobre o que ele estava preparando para um futuro próximo: “acredito que o futuro da comunicação vai ser cada vez mais privado. Serviços encriptados em que pessoas tenham segurança de que o que elas falam entre si vai permanecer protegido e suas mensagens e conteúdos não vão durar para sempre”.

O que isso significa para o marketing de rede? Adaptação. Se o feed era formado majoritariamente pelos conteúdos pessoais que o algoritmo julgava ser de maior interesse para aquele usuário, agora ele vai priorizar eventos e grupos, por perceber que, uma vez que encontra o grupo certo, as pessoas passam a entrar mais na plataforma para consumir o conteúdo vindo direto de lá. Além disso, o Messenger torna-se o principal espaço de compartilhamento de informação – o que pode fazer do chatbot umaideia ainda mais interessante para as empresas. E não subestime o valor dos Stories do Facebook, já que eles atingem cerca de 500 milhões de pessoas por dia. Por fim, mas não menos importante, o Instagram vai passar por atualizações no design, incorporando um adesivo de doação aos Stories e eliminando a contagem de curtidas no feed. A experiência com a marca vai ser mais e mais importante, a ponto de os números já não dizerem muita coisa quando o objetivo é conversão.

O QUE EU TENHO QUE FAZER?

Comece entendendo a melhor plataforma para seu negócio. Em seguida, elabore uma identidade de marca, além de planos estratégicos e táticos. “Em média, 9% da nossa base de seguidores se relaciona diariamente com a OZLLO, por likes, views, comentários etc. Apesar de o alcance ser bem maior, nos importamos com quem de fato se relaciona conosco. É importante entender a função de cada rede social para saber como utilizá-la. Atualmente, quase 10% da população usa o mobile para ver filmes, por isso, criar conteúdo e filmes no YouTube pode ser interessante para uma marca também, além de ser a terceira rede social mais usada pelos brasileiros. Se considerarmos WhatsApp como rede social, ele é um grande gerador de vendas. Você consegue se comunicar e se relacionar com os clientes de uma forma humana e personalizada. Você pode enviar conteúdo semanal, por exemplo, dado que o Whats App é uma ferramenta que a população usa todos os dias”, conta Zoe Póvoa, fundadora do brechó de luxo OZLLO.

Ela ressalta que 60% do tráfego em seu site de vendas vem das redes sociais. “Isso nos leva a dizer que, em torno de 2% dos clientes que se relacionam com a gente pelas redes sociais são aqueles que se interessam pelo nosso serviço a ponto de se deslocar para o site, sendo assim possíveis consumidores”, completa a empreendedora, que ainda dá algumas dicas para que a conversão funcione bem: entenda o conteúdo que o seu público quer ver e gaste energia nisso; interaja, responda aos comentários, dúvidas e perguntas. Nunca deixe o cliente falando sozinho; tenha embaixadores da marca – pessoas de fora que farão propaganda para você; facilite o processo da compra, vendendo pelo Instagram, por exemplo.

O analista de marketing e novos negócios na Webfoco, Murilo Borrelli, explica que uma página do Facebook atinge em média 2% de sua base de fãs de maneira orgânica, enquanto o Instagram impacta 10%. Isso mostra que criar conteúdos para impulsionar também pode ajudar. A especialista em mídia paga Denise Norões conta que a primeira informação para criar uma boa estratégia de campanha é entender o objetivo real do negócio e qual o KPI (Key Performance Indicator), que são indicadores-chave a ser utilizados para avaliar o desempenho. Além disso, é preciso correlacionar esses dois elementos.

“Seria interessante também entender qual o modelo de atribuição experimentado pela empresa para que o objetivo de uma campanha contribua com o resultado final, mesmo que o tipo de conversão não esteja diretamente relacionado aos canais. Por exemplo, mesmo que uma campanha de social não esteja gerando conversões, o engajamento trazido por esse canal pode ajudar a taxa de conversão da mídia paga”, completa Denise.

Para ela, o que pode levar tudo a perder em uma campanha é não definir os objetivos de maneira assertiva ou ter muitos KPIs para um mesmo projeto. Querer que uma mesma campanha atinja todas as pessoas, gere engajamento, converta e retenha, por exemplo, pode atrapalhar, além de não trazer retorno. “Tem uma frase muito boa que se aplica: if you can’t measure it, then it doesn’t exist (se você não pode mensurar, então isso não existe). Em resumo, entenda seus objetivos e mensure sempre”, finaliza.

“Fazer seus seguidores comprarem produtos pode ser um grande desafio, especialmente quando o impacto do conteúdo que você publica está diminuindo. O segredo do sucesso é utilizar as plataformas de maneira estratégica e proporcionar a melhor experiência possível em cada ponto de contato do consumidor com a marca”, explica Borrelli, lembrando ainda que o LinkedIn deve ser lembrado na hora de estratégias B2B. Segmentação correta, teste A/B, testes com criativos diferentes, comunicação adequada e entrega de valor são elementos que podem definir o sucesso ou fracasso de uma campanha.

POR DENTRO DAS REDES

Poucas coisas ainda fazem sentido ao levar em conta número de seguidores. No Instagram, por exemplo, você só pode adicionar link externo aos Stories se passar dos 10 mil. Mas quantidade não significa qualidade. Exemplo disso são os famosos influenciadores digitais – aqueles que mais convertem seguidores em consumidores são os segmentados e com poder de fala sobre o assunto, ao invés de personalidades com uma base gigante de fãs. Prova disso foi uma série que a Samsung lançou para promover o Galaxy Note 9. Foram nove vídeos de criadores de conteúdo mostrando a plataforma como ferramenta criativa. No fim das contas, 17% das pessoas que assistiram à série se mostraram mais aptas a comprar o aparelho.

Mas uma verdade é que o Instagram é uma das plataformas que tem dado melhores resultados. Sendo assim, entender quem é o seu público-alvo é o começo de uma boa criação de conteúdo. Existem ainda algumas ferramentas como Grow Social, que permite que a marca defina quem são as pessoas com quem você vai interagir automaticamente, gerando engajamento e seguidores que realmente se interessam pelo assunto. Esse tipo de ação é controversa – há quem ame, há quem odeie, há quem se sinta invadido. Porém, o fato é que funciona e você pode interagir por interesse, localização geográfica, entre outros.

Usar hashtags é lição básica do Instagram, já que elas funcionam como filtro de pesquisa e também se saem muito bem dentro dos Stories. Tomar cuidado ainda com a quantidade de publicações é essencial, uma vez que mais de dois posts ao dia podem fazer com que o público crie um sentimento inverso à marca.

Taty Ferreira produz o canal de YouTube e as redes sociais Acidez Feminina. Ela conta que nunca fez publicidade para alavancar os vídeos e, mesmo assim, chegou a uma média mensal de 1,7 milhão de visualizações, ou seja, mais de 100% do número de inscritos, que somam 1.650 milhão. “Estando no mercado há mais de nove anos, descobrimos que o que o Acidez mais tem a acrescentar é o fato de gerar discussão sobre temas vistos por muita gente como tabu. Partindo disso, sabemos que o que funciona para nós, enquanto mídia publicitária, é produzir um conteúdo questionador a quatro mãos. Além de funcionarmos como espaço publicitário, gostamos de produzir conteúdo que consiga agregar não só ao público como também ao cliente, de maneira que a marca possa replicar e, às vezes, dar segmento baseado no que foi discutido entre os próprios seguidores”, explica.

Para ela, o que não falha na hora de converter público em consumidor por meio de vídeos é usar uma linguagem simples e dinâmica; focar o conteúdo antes de criar um envelope interessante; ser o mais orgânico possível, já que quanto mais você escancara a publicidade, menos ela será replicável. Por fim, é importante entender que existem motivos pelos quais os seguidores apoiam um influenciador, e o principal desses motivos é, geralmente, a linguagem e o que essa pessoa já demonstra. Quanto mais você respeitar isso, mais sua marca será absorvida e compartilhada.

“Atualmente, estamos vivendo a pluralização dos influenciadores digitais. Apesar de muita gente almejar ser o novo Whindersson ou marcas priorizarem anunciar com o Whindersson, o que mais agrega para marca, público, criador de conteúdo e comunidade é anunciar em nichos específicos que tenham a ver com os valores da marca. Poucos leads quentes são infinitamente mais relevantes que muitos leads frios”, adverte.

O QUE MAIS?

•  A comunicação privada de Zuckerberg já é responsável por 84% de todos os compartilhamentos.

•  Formatos do tipo Stories seguem crescendo e abrem caminho para conteúdos específicos para esse formato.

•  Redes mais fechadas, como Tik Tok e Reddit, devem ganhar relevância.

•  Falar com todo mundo ao mesmo tempo não é mais o melhor caminho. O ideal é que a marca busque estar conectada com as comunidades específicas onde seu público está.

•  Os anúncios dentro das redes sociais continuam dando resultados.

DICAS INFALÍVEIS

1.  Produza conteúdo de qualidade com material exclusivo.

2.  Movimente suas redes todos os dias.

3.  Faça concursos e sorteios (mas lembre-se de adequar essas campanhas às regras da Caixa Econômica).

4.  Faça parcerias em troca de divulgação.

5.  Conte com profissionais especialistas.

Fonte: WEBFOCO.

O MUNDO NA REDE

•  Brasileiros passam pelo menos nove horas por dia conectados, sendo 90% desse tempo no celular – o que mostra a necessidade de criar conteúdos que tenham fácil consumo pelos aparelhos móveis.

•  Segundo o Qualibest, 71% dos brasileiros que estão on-line seguem algum influenciador.

•  Até 2021, os serviços por voz como o Assistente Google devem ultrapassar o número de tablets usados por brasileiros.

•  O consumo do podcast – conteúdo segmentado em áudio – subiu para 330%.

•  Segundo pesquisa do Google, youtubers já são mais influentes que jornalistas, porém menos que familiares e amigos.

•  O YouTube é responsável por 37% do tráfego mobile em todo o mundo.

•  Inusitado, porém real, o Snapchat é responsável por 8,3% desse tráfego, estando na frente do Instagram, que tem 5,7%. O Facebook fica com 8,4% e o WhatsApp com 3,7%, segundo pesquisa da norte-americana Sandvine.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO DEPRIMIR É NECESSÁRIO – I

Especialistas defendem que, em muitos casos, a depressão pode ser uma adaptação mental saudável que nos oferece melhores condições para resolver problemas complexos

Os números são assustadores. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 300 milhões de pessoas no planeta sofram hoje com depressão. No dia a dia, é raríssimo encontrar um adulto que não conheça alguém que já apresentou sintomas ou tenha, ele mesmo, enfrentado o problema. A prevalência incrivelmente alta – em comparação com outros distúrbios mentais que afetam apenas cerca 1,5% da população, como a esquizofrenia e o transtorno obsessivo compulsivo – parece representar um paradoxo evolutivo. O cérebro desempenha funções cruciais para a sobrevivência e a reprodução, portanto, as exigências da evolução deveriam ter tornado esse órgão tão complexo mais resistente. E, em geral, os transtornos mentais são raros. Mas por que isso não se aplica à depressão?

A questão poderia ser solucionada se o quadro fosse decorrente do envelhecimento ou uma consequência do estilo de vida moderno. O avanço da idade, porém, não funciona como explicação, pois os primeiros episódios depressivos tendem a se manifestar na adolescência ou no início da vida adulta. Assim, à semelhança da obesidade, a depressão talvez seja um problema que surge devido às enormes diferenças entre as condições da vida moderna e as de nossos ancestrais. Mas essa explicação também não é satisfatória. Os sintomas da depressão são encontra- dos em todas as culturas já examinadas em profundidade, como a dos Aché, no Paraguai, e a dos !Kung, no sul da África: sociedades nas quais as pessoas vivem em ambientes similares aos que existiram em nosso passado evolutivo.

E SE NÃO FOR DOENÇA?

Existe outra possibilidade: talvez, na maioria dos casos, a depressão não deva absolutamente ser considerada um distúrbio. Muitos cientistas acreditam que esta seja, na verdade, uma adaptação, um estado mental que sem dúvida traz um ônus real, mas que também produz benefícios concretos. “Na depressão, a mente se torna mais analítica e concentrada – uma reação útil para a resolução de problemas complexos que provavelmente estão na base dos primeiros fatores a desencadeá-la”, afirma o doutor em psicologia Paul W. Andrews, pesquisador na Universidade McMaster, no Canadá. “Se os profissionais de saúde mental a enxergarem sob este prisma, estarão mais bem preparados para aliviar a dor e o sofrimento que acompanham o quadro.”

Ao longo de sua história, a psiquiatria se esforçou para definir o conceito de doença mental. Psiquiatras como J. Anderson Thomson Jr., pesquisador da Universidade da Virgínia, lembra que os critérios diagnósticos atuais exigem a presença de “sofrimento ou incapacitação clinicamente significante” para que uma condição psicológica seja vista como um transtorno. Mas questiona se um traço seria o bastante para representar um distúrbio.

Thomson Jr. propõe que consideremos o fato de que uma pessoa com febre alta parece experimentar sofrimento e incapacitação: sua capacidade de trabalhar e pensar é prejudicada e, muitas vezes, sente fortes dores, além de mal-estar generalizado. Ele ressalta que tais sintomas não são, porém, suficientes para garantir que a febre seja considerada um transtorno. Trata-se, é claro, de uma reação que desenvolvemos contra as infecções, que mobiliza células de defesa aos tecidos com maior risco de infecção e regula a produção de substâncias necessárias à ação imune – mas que poderiam causar graves danos ao organismo se produzidas todas ao mesmo tempo.

Essa sofisticada “coordenação” é um forte indício de que a febre é adaptativa: trata-se de um traço moldado pela seleção natural ao longo do tempo para cumprir uma função útil. De fato, diversos estudos envolvendo humanos e outros animais demonstraram que suprimir a febre com aspirina ou outro medicamento tende a prolongar a doença e que a febre aumenta as chances de sobrevivência em casos de infecções graves. Thomson Jr. e Andrews salientam que esse

critério do “sofrimento e incapacitação” adotado pela psiquiatria leva a conclusões equivocadas sobre os transtornos – a febre não resulta do funcionamento deficiente do corpo; o que ocorre é exatamente o contrário.

Na depressão também surgem sofrimento e incapacitação. Trata-se de uma condição emocional dolorosa e os indivíduos deprimidos têm, com frequência, dificuldade para exercer suas atividades cotidianas. Não conseguem se concentrar no trabalho e nos estudos, costumam se isolar socialmente, ficam letárgicos, e, muitas vezes, perdem a capacidade de extrair prazer de atividades como a alimentação e o sexo. Isto, porém, não significa que um episódio depressivo seja um transtorno mental, assim como os sintomas dolorosos da febre não configuram, por si sós, uma doença.

Ainda que seja falha a definição psiquiátrica dos transtornos mentais, porém, são necessários mais elementos para que possamos suspeitar que um estado mental tão debilitante seja adaptativo e não disfuncional. Uma das razões para acreditar que a depressão pode ser útil é fornecida pelas pesquisas sobre uma molécula cerebral conhecida como receptor 5HT1A. Ela se liga ao neurotransmissor serotonina, outra molécula do cérebro profundamente envolvida nos mecanismos que desencadeiam a depressão e visada pela maior parte dos medicamentos antidepressivos disponíveis. Roedores desprovidos desse receptor exibem menos sintomas depressivos em resposta ao estresse, o que indica que o 5HT1A está, de algum modo, envolvido na origem da depressão. Ao comparar a composição da parte funcional do receptor 5HT1A dos ratos à dos homens, notou-se uma similaridade de 99%, indicando que a molécula é tão vital que a seleção natural a preservou por milhares de anos desde o tempo em que viveu nosso ancestral comum. Assim, a capacidade de “acionar” a depressão parece ser algo importante – e não mero acidente evolutivo ou o resultado de uma disfunção cerebral.

EU ACHO …

SOBRE OS OSSOS DE FREUD

Como o “psicologismo” se tornou uma praga no cotidiano

Freud mudou a maneira de pensar sobre nós mesmos. Fosse religioso, sua tumba seria objeto de peregrinação, seus ossos miraculosos, exibidos em um altar. A adoração de muitos psicanalistas por Freud é semelhante à de um fiel a Santa Terezinha. Repetem suas palavras, como mantras. Mas não tenho nada a ver com isso. A não ser que me trate com algum deles. Freud é o fundador da psicanálise, o primeiro a trazer o inconsciente para a ordem do dia. É profundo, instigador. Mas o jargão psicanalítico entrou no cotidiano das pessoas. Encontro com um amigo e reclamo de que estou com dor de estômago. “Deve ser psicológico.” Sorri, satisfeitíssimo com o rápido diagnóstico. Só que nunca estudou psicologia ou psicanálise. Seria impossível explicar as teorias de Freud aqui, resumidamente. Mas sou obrigado a conviver diariamente com palavras como “neurose”, “trauma”, “inconsciente”. Há algum tempo, uma conhecida pediu meu apartamento no Rio emprestado para passar uma temporada. Respondi que não, nunca empresto. Meu motivo: eu fico bastante no Rio, trabalhando, e a convivência com quem está de férias não dá certo. O comentário dela com um amigo: “Ele deve ter algum trauma”. Quer dizer, eu não quero emprestar o apartamento e, por causa disso, tenho um episódio terrível segregado nas profundezas do meu inconsciente (eta, Freud)? O jargão psicanalítico virou um tipo de fé. Já vi alguém comentar, sobre um assassino cruel, que certamente agia assim devido a traumas de infância. Não tenho formação para saber. Mas o psicologismo transformou-se em uma nova fé, que tudo explica. E, assim, “perdoa”. Ou complica. Uma expressão que veio à tona é “ato falho”. Está banalizada. Em linhas rápidas, é quando você quer dizer algo e fala outra coisa, que o denuncia. Um amigo certa vez trocou o nome da esposa pelo da amante. O resultado foi uma DR de proporções inacreditáveis. Eu mesmo já aprontei coisas do tipo várias vezes. Quem nunca? Imagino que, em outros séculos, seria uma simples troca de nome. Com a influência maligna do psicologismo no cotidiano, vem logo uma explicação. E o falho que se livre.

Há situações mais cruéis. É comum acreditar-se que o câncer tenha uma origem psicológica. Uma amiga, já falecida, teve no seio. Encontrei com ela, em pleno processo, estava melhor e acreditando na cura. Reclamou: “O pior é quando as pessoas dizem que é psicológico, que tudo depende da minha atitude. Como se, além de tudo, eu fosse a culpada da minha própria doença”.

O ser humano é complexo. Mas a banalização da psicologia criou conceitos tão rígidos quanto os dos evangélicos. Se é psicológico, depende de você, de sua atitude, e você mesmo pode curar-se. Mas, se alguém aprontou feio, é preciso explicar, entender e superar. É difícil conviver com essa selva de conceitos psi. Eu tento, mas quase nunca entendo exatamente o que querem dizer. Só não me preocupo porque também ninguém sabe o que está dizendo. Os ossos de Freud devem estar chacoalhando na tumba.

OUTROS OLHARES

BARREIRA INFANTIL

Estudos mostram que crianças têm menor incidência de problemas respiratórios e cardiovasculares crônicos e são mais resilientes à infecção grave pelo coronavírus do que adultos

A princípio, parecia apenas uma “virose”, aquele sinônimo para problema de saúde que pode ser tudo. No entanto, três dias de febre incomodando o pequeno Gabriel, de 5 anos, seus pais se alarmaram. Ao notar que o menino estava muito prostrado, correram com o filho para a emergência de um hospital de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. “A médica que o atendeu olhou a garganta e o nariz, e ouviu pulmão. Aparentemente, estavam normais”, contou a mãe, Vanessa Borges de Freitas. Para acabar com a dúvida, Gabriel fez o PCR e foi mandado para casa, no Flamengo, bairro daquela mesma região carioca. A febre, contudo, não cedia. No sexto dia, o garoto acordou com uma tosse rouca, só queria ficar deitado e não tinha o menor apetite. Consultado pelo telefone, o pediatra orientou que Gabriel voltasse para o hospital onde fora atendido. Lá, ao abrirem o teste que ele fizera, veio a confirmação do que já se suspeitava: positivo para Covid-19.

Com a terceira onda da pandemia assolando o país, e a faixa etária dos infectados caindo de forma expressiva, um resultado como esse alerta a todos – autoridades sanitárias, famílias, escolas -, pelo temor de que um maior número de crianças se contamine e desenvolva casos graves da doença. O que, felizmente, não ocorreu. Um estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), baseado em dados do Ministério da Saúde, indicou queda nas taxas de hospitalização e de morte de pacientes entre 0 e 19 anos de janeiro ao início de março, mesmo com novas variantes do coronavírus em circulação.

O levantamento da SBP mostrou que em 2021 os percentuais de internações e óbitos de crianças e adolescentes foram, respectivamente, de 1,79% (2.057 de um total de 114.817 hospitalizações) e 0,39% (121 de um total de 30.305 mortes), enquanto em 2020 o mesmo grupo etário apresentou índices de 2,46% das internações e de 0,62% dos óbitos. Já a letalidade nessa faixa de idade – que representa 25% da população brasileira – entre hospitalizados por Síndrome Respiratória Aguda Grave (srag) relacionada à Covid-19 também sofreu redução: passou de 8,2% no ano passado para 5,8% em 2021.

“A gente entende que essa taxa seja fruto da melhor qualidade do atendimento. Aprendemos algumas lições no manejo do vírus”, afirmou Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento Cientifico de Infectologia da SBP. ” Embora essas variantes, por serem mais transmissíveis, possam gerar mais mortes, isso não quer dizer que estejam associadas a uma letalidade ou agressividade maiores na população infantil”, ressaltou ele.

Gabriel, felizmente, confirmou a pesquisa da Sociedade. “Meu filho estava desidratado, por causa dos muitos dias de febre; depois que tomou soro, ficou mais animado – e doido para ir embora dali. Apesar de tensa o tempo todo, tentei não demonstrar isso para ele”, revelou a mãe, por telefone.

Com prescrição de isolamento e ingestão de antitérmicos, o garoto – que teria sido contaminado durante uma viagem com os pais a um resort – saiu do hospital. No nono dia depois de iniciada a febre, estava “zerado”. E passado o período de quarentena, retornou às aulas presenciais, no final de março, seguindo à risca todos os protocolos de segurança: uso de máscara e álcool em gel e distanciamento.

Os casos graves da doença são raros entre os pequenos – que, em sua maioria, desenvolvem, como Gabriel, formas clínicas leves ou assintomáticas. Isso não quer dizer, porém, que situações perigosas e extremas não existam. Assim, os especialistas aconselham aos responsáveis que não baixem a guarda quanto aos cuidados de prevenção. Um deles é o uso de máscara com duas camadas já a partir dos 2 anos de idade. “Até porque a Covid está longe de ser controlada”, ressaltou Sáfadi. No ano passado, 1.203 pessoas entre 0 e 19 anos morreram no Brasil por causa da doença. Neste ano, até 1° de março, foram 121 óbitos.

No ano de 2020, o país registrou mais de 600 casos de síndrome inflamatória multissistêmica diátrica (SIM-P), um quadro grave atualmente associado à Covid-19. Destes, 41 terminaram em morte.

Médico do menino Gabriel, Marcio Nehab, pediatra e infectologista do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), instrui que, a qualquer sintoma, as crianças sejam examinadas e testadas. “Em momentos de pico de pandemia, qualquer sintoma de pediatria pode ser Covid: um simples resfriado, gastroenterite, manchas vermelhas”. E, sendo Covid-19, não significa que haverá uma evolução para um quadro grave.”

Nehab explicou que as apresentações clínicas da doença nas populações infantis são diversas – vão, por exemplo, de simples febre a uma pneumonia séria. Em casos menos comuns ocorrem sintomas neurológicos e síndromes inflamatórias pós-Covid (de duas a seis semanas depois da infecção), como as da doença de Kawasaki, que causa inflamação nas paredes das artérias, principalmente as coronárias. Os quadros clínicos mais complexos geralmente são vistos em crianças com comorbidades, como paralisia cerebral e doenças pulmonares crônicas. Asma só entra nessa lista quando é considerada grave.

Pais das gêmeas Elis e Isadora, de apenas 3 anos, Alessandra e Gilson Bernini hoje respiram aliviados – com o perdão da metáfora, tratando-se do sars-CoV – 2 – vendo a bagunça das meninas em casa, no Méier, Zona Norte do Rio. Neste ano, eles viveram momentos dramáticos com as duas, que pegaram o novo coronavírus. Elis chegou a passar 22 dias em UTI, em duas internações. Os sintomas apareceram durante o recesso de Carnaval, sendo diagnosticados inicialmente como de uma faringite.

“O primeiro sinal foi uma febre. Passados seis dias, veio a tosse, e Elis ficou muito congestionada, com dificuldade respiratória e broncoespasmos fortes; chegou a uma saturação de 89%. Já a Isadora teve os mesmos sintomas, só que leves, e tratáveis no ambiente doméstico mesmo”, lembrou Alessandra. Três dias depois de Elis dar entrada na UTI saiu o resultado positivo do exame de Covid-19. “Foi um susto muito grande. Sabia que crianças corriam risco de pegar Covid, mas não imaginava, por elas não terem problemas de saúde, que poderiam passar por isso. Muitas mães acreditam que os pequenos nem sequer são infectados”, observou.

No caso de Elis, dez dias depois de ter passado mais de uma semana internada, ela precisou retornar ao hospital. Com dificuldades para respirar, a garota foi de novo para a UTI, onde ficou por mais 13 dias. Nas duas vezes, a família ainda viveu a angústia de ter de aguardar 24 horas por um leito na rede particular. “Não tem como explicar o que a gente sentiu e viveu. Havia o medo constante de intubação. Hoje vivo apavorada”, confessou Alessandra, que trabalha com o marido, famoso compositor de sambas, na produção de eventos.

A história de Elis ganhou as redes sociais quando Caetano Veloso e Xande de Pilares dedicaram uma live para a menina. Xande é um dos parceiros de Gilson Bernini na popular “Tá escrito”, dos versos Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé/Manda essa tristeza embora. A canção virou uma oração para o casal: enquanto Alessandra cantava a música para Elis no hospital, Gilson cuidava de Isadora em casa, com a letra na mente e no coração”, relatou ele. “Eu tenho já uma pancada na minha vida porque meu filho mais velho, aos 24 anos de idade, faleceu ao bater com o carro. Essa dor de enterrar um filho é a pior dor do mundo, e já senti isso. Eu me perguntava: ‘Será que vou passar por essa situação de novo?’ Fiquei desesperado. Não dá nem para descrever”, recordou Gilson, emocionado. “É uma alegria ver Elis e Isadora aqui, mesmo sabendo que estão ainda em tratamento.”

Como os sintomas apareceram dias depois de as irmãs voltarem a frequentar a escola, os pais acreditam que elas tenham contraído a doença lá. Alessandra disse, inclusive, que se arrepende de ter concordado que as filhas retomassem as atividades presenciais de ensino. Entretanto, os especialistas avaliam que atualmente os ambientes escolares sejam seguros, desde que se respeitem, é claro, todos os protocolos. Salas ventiladas, turmas menores, higienização constante e uso de máscara são regras básicas. Não enviar alunos com qualquer sintoma de Covid-19 é outra medida que deve ser respeitada.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, estudos apontam que crianças menores de 10 anos têm menos probabilidade de serem infectadas do que adolescentes e adultos. O CDC afirma também que foram uma taxa maior do que o registrado na população geral da cidade no mesmo período: 33% encontrados índices mais baixos de transmissão entre crianças dessa faixa etária.

No fim de abril, a Pediatrics, publicação da Academia Americana de Pediatria, divulgou um trabalho feito no Complexo de Manguinhos que concluiu que é mais comum crianças e adolescentes adquirirem o coronavírus de adultos do que eles próprios atuarem como transmissores. O artigo “A dinâmica da infecção de sars-CoV-2 em crianças e contatos domiciliares em uma comunidade pobre do Rio de Janeiro” reúne cientistas da Fiocruz, da Universidade da Califórnia e da London School of Hygiene and Tropical Medicine.

A pesquisa, realizada entre maio e setembro de 2020, envolveu 667 pessoas de 259 domicílios. Do total de participantes, 323 eram crianças (de 0 a 13 anos), 54 adolescentes (14 a 19 anos) e 290 adultos. Os testes de 45 crianças (13,9%) deram positivo para a Covid, e a doença foi mais frequente em menores de 1 ano e na faixa de 11 a 13 anos. Todos esses infectados tiveram contato com um adulto ou adolescente que manifestara sinais recentes da Covid-19. Na comunidade, havia o agravante de que um terço dos contatos domiciliares pesquisados tinha sido exposto ao novo coronavírus por volta de agosto do ano passado, uma taxa maior do que o registrado na população geral da cidade no mesmo período: 33% em relação a 75% em todo o Rio de Janeiro.

Para pesquisadores, “as crianças incluídas no estudo não parecem ser a fonte da infecção de sars-CoV-2 e mais frequentemente adquiriram o vírus de adultos”. Eles acrescentam que as descobertas “sugerem que em cenários como o estudado, escolas e creches poderiam potencialmente reabrir se medidas de segurança contra a Covid-19 fossem tomadas e os profissionais adequadamente imunizados”.

Como as crianças são pouco sintomáticas, no começo da pandemia existia o receio de que elas fossem fontes de transmissão. Isso levou ao fechamento precoce de escolas em vários países, como cita o trabalho publicado na Pediatrics. Na fase em que pouco se conhecia da doença também havia o me­ do de os pequenos ficarem mais doentes que os adultos, por se tratar de um vírus respira­ tório. A verdade é que a Covid é uma doença multissistêmica, que usa o sistema respiratório para se multiplicar, gerando males em outros órgãos. Uma fase de pânico foi justamente quando surgiram os primeiros casos de SIM-P, que nas crianças evolui de modo bem mais grave do que nos adultos.

“No início, esperávamos uma guerra na terapia intensiva pediátrica, contudo ela acabou não acontecendo”, disse a intensivista Fernanda Lima Setta, coordenadora médica da Divisão de Terapia Intensiva Pediátrica da Rede D’Or São Luiz, que atende de recém-nascidos a adolescentes de 18 anos. Nos hospitais da rede no Rio, a ocupação hoje nas UTIs pediátricas é, inclusive, menor do que o habitual para esta época: gira em torno de 50% a 60%, enquanto antes da pandemia o percentual era de cerca de 80%.

“A gente tem visto um aumento discreto de internações. Sem dúvida, quando as pessoas voltaram a circular, os pequenos voltaram a ficar doentes por outras causas. Mas não podemos dizer que agora, neste pico da Covid-19, temos casos infantis mais graves do que antes. A população não deve ficar tão alarmada em relação às crianças, poupadas nesta pandemia: os pacientes graves são os adultos”, atestou a intensivista.

Em 15 UTIs pediátricas do país que foram alvos de estudos do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), de março do ano passado a fevereiro deste ano, para 2,1%, ou 119 crianças internadas de um total de 5.654, a doença foi confirmada. Na análise por trimestres, houve aumento no último pesquisado. Enquanto entre setembro e novembro de 2020 o percentual ficou em 1,5% (23 crianças de um total de 1.551), de dezembro a fevereiro de 2021 ele foi de 2,5% (40 crianças de 1.588 internadas).

Pneumologista pediátrica, Patrícia Barreto, presidente do Departamento de Doenças Respiratórias da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio (Soperj), destacou que os pequenos foram inseridos no processo de flexibilização com a abertura escolar em plena realidade de aumento da transmissão comunitária. Todavia, diante das dúvidas e temores que a retomada das aulas presenciais possa motivar, ela ponderou: “Nos países sem abertura escolar, as crianças estão participando até de maneira errada da flexibilização, sendo inseridas em aglomerações sem o controle do monitoramento escolar. Estão nos playgrounds dos prédios, em pracinhas lotadas, sem a presença do inspetor da escola cuidando para que estejam de máscara”. E acrescentou: “Não abrir escola não significa proteger o público infantil. O que acontece é um risco maior de a criança ser inserida de forma errada e equivocada no processo de flexibilização que o adulto precisava, porque ninguém aguenta um sistema de isolamento 100% por mais de um ano”.

Patrícia Barreto sublinhou que estudos feitos em diferentes nações depois da liberação das escolas concluíram que os pequenos normalmente se infectam dentro de casa, onde as medidas sanitárias costumam ficar da porta para fora. No entanto, não se pode esquecer que, nesta fase da pandemia, as chances de o vírus entrar nas unidades de ensino também crescem – logo, o ambiente escolar deve se blindar com o máximo de camadas de proteção.

Por outro lado, o isolamento da população mais jovem é motivo de preocupação dos médicos, que já veem aumento de casos de obesidade e também de problemas oftalmológicos por causa dos longos períodos passados diante de computadores e outros equipamentos eletrônicos, para não falar dos impactos emocionais do isolamento, tudo isso redundando na chegada aos consultórios de mais crianças e adolescentes com transtorno de ansiedade e depressão. Os estragos são amplificados com a elevação do abandono escolar – uma tragédia no desenvolvimento dessa geração, cujo abismo de conhecimento vai se refletir daqui a dez, 15 anos.

O pediatra Mareio Nehab faz eco à máxima que costuma ser repetida entre especialistas em saúde quando se toca na questão: “Escolas têm de ser tratadas como serviço essencial Devem ser as primeiras a abrir e as últimas a fechar”.

A pneumologista Patrícia Barreto concorda, e frisou que é hora de discutir o tema, em especial no âmbito do ensino público. “Não podemos perder a oportunidade de utilizar este momento para colocar a educação como atividade primordial. Precisamos conseguir estrutura física adequada para que a escola possa receber a todos e manter os protocolos de mitigação”, avaliou a médica, que defende a prioridade na fila de vacinação para os profissionais da área. Sem contar a imunização dos menores no mesmo tempo e velocidade dos Estados Unidos: lá, a expectativa é que crianças de até 12 anos comecem a receber as doses entre o fim do ano e começo de 2022, sendo que os adolescentes devem já entrar no cronograma neste ano, pelos testes e pesquisas em andamento.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE JUNHO

O CULTO SEM VIDA NÃO TEM VALOR

O sacrifício dos perversos é abominável ao Senhor, mas a oração dos retos é o seu contentamento (Provérbios 15.8).

É um ledo engano pensar que podemos adorar a Deus de qualquer jeito. É tolice pensar que podemos nos aproximar daquele que é santo com um coração entupido de sujeira. Deus não se satisfaz com ritos sagrados e liturgias pomposas. Ele vê o coração e procura a verdade no íntimo. Os perversos também oferecem culto. Eles também fazem seus sacrifícios. Também têm uma expressão religiosa. Mas o serviço religioso daqueles que com sua vida desonram a Deus é abominável ao Senhor. Deus não se satisfaz com adoração; ele procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Se o culto dos perversos é abominável para Deus, a oração dos retos é o seu contentamento. Antes de aceitar nossas orações, Deus precisa aceitar nossa vida. Antes de receber a oferta, Deus recebe o ofertante. Caim e Abel ofereceram sacrifícios a Deus, mas o Senhor se agradou de Abel e de sua oferta, ao passo que rejeitou Caim e sua oferta. Não é possível separar a adoração do adorador. Não é possível distinguir a oferta do ofertante. Se nossa vida é reprovada por Deus, nosso culto também não será aceito por ele. A melhor oração que podemos levar a Deus é nossa própria vida no altar.

GESTÃO E CARREIRA

ZONA DE DESCONFORTO

Quero empreender: que bicho é esse? Confira dicas para uma transição de carreira assertiva e entenda como identificar oportunidades para unir o útil ao agradável

Se você cansou de trabalhar para outras pessoas e quer ir atrás do próprio negócio, está no lugar certo. Mudar de carreira não é tão simples quanto parece, tampouco é impossível. Segundo a Pesquisa Mariaca sobre Demissão, 54% dos executivos em transição de carreira estão otimistas em relação a uma recolocação no mercado, mas 94% deles aceitariam receber um salário menor que o anterior. Nesse caso, por que não arriscar um novo empreendimento próprio usando toda a experiência somada até aqui?

Está na dúvida se dá certo? Dá uma olhada nestes números: mais de 10 milhões de inscritos em seu YouTube, mais de 3 bilhões de views, uma série documental na Netflix, três prêmios internacionais em dez dias e a roda da fortuna segue girando. Sabe de quem se trata? A administradora Anitta. Ela, que já foi chamada a estagiar na Yale, usou seu conhecimento em marketing obtido durante as aulas para entrar de cabeça na música. E não entrou em campo sem ter a certeza de que faria gol. Seu esforço e foco constantes fizeram com que se tornasse a primeira personalidade brasileira a receber um filtro do Instagram, e seus números nas redes sociais impressionam, assim como suas empreitadas no mundo dos negócios.

Já Caito Maia é músico formado pela Berklee norte-americana, mas foi nos óculos que encontrou sua veia empreendedora. “Acredito que o ser humano tem que entender os avisos que a vida dá para ele. Nem sempre o que foi planejado como sonho de carreira vai ser exatamente aquilo… E tudo bem. Eu tive alguns conflitos na área musical que me levaram a investir em óculos, que eu sempre gostei, e isso surgiu junto às oportunidades financeiras. Em uma área eu não tinha ganho algum e, na outra, consegui expandir bastante. Foi uma oportunidade que a vida me deu e tenho muito prazer no que faço”, conta. Ele ainda ressalta que a música e a moda nunca deixaram de andar juntas: “um cara que está cantando também está usando moda. E se expressa através do seu comportamento e atitude. Então, tudo é englobado e a gente até podia inventar um nome, não sei qual, juntando os dois movimentos (risos)”.

Claro que, para Anitta e Caito, as novas oportunidades pareciam muito claras. Mas como identificar essas brechas do mercado? Primeiro, é preciso entender seu próprio perfil. Você pode, por exemplo, fazer uma lista de itens simples de que goste de fazer, como ler um livro ou viajar, acrescida de uma lista de assuntos que você domina, como conhecimentos específicos. Em seguida, leia muito! Entenda as novidades do mercado e avalie com bastante cuidado quais vieram para se desenvolver a longo prazo e quais são passageiras. Também observe quais setores já estão saturados e outros que sempre têm uma boa demanda de clientes e consumidores, como as áreas de saúde ou educação.

Em seguida, faça um brainstorming e não subestime ideias. Você imagina o que seria se Mark Zuckerberg achasse que o Facebook era besteira e não o colocasse em prática? O que parece uma loucura agora pode ser inovador depois. Identifique o cliente e, mais do que isso, quais problemas você pretende resolver para ele – lembre-se de que um novo empreendimento precisa ser uma solução para alguém. Entenda o tempo que seu negócio precisa para ser implantado e se esse tempo não vai deixá-lo ultrapassado, por exemplo. Em todo esse processo, nunca deixe de olhar em volta, de conversar com pessoas de setores diferentes do seu e, principalmente, de ficar atento ao que está acontecendo no mercado.

Há pouco mais de 23 anos, o hoje empresário Caito Maia trazia os óculos dos Estados Unidos de maneira amadora, colocava em seu carro e vendia os produtos por aí. Agora, ele possui a maior empresa de revenda de óculos de sol, relógios e acessórios da América Latina, querendo chegar a 1.000 lojas até o fim do ano e a um faturamento estimado em R$700 milhões. O maior desafio? Para ele, foi e é renovar e se reciclar sempre.

“Uma empresa que tem 23 anos de mercado precisa ter um valor absurdo para se reinventar, né?! Então, essa constante reinvenção no dia a dia da Chilli Beans, depois desses anos todos, é o meu maior desafio. Não entre no negócio pelo dinheiro, e sim por amor ao que você faz. Tente não copiar, traga personalidade para a sua marca ou faça alguma coisa diferente que não existe no mercado para ter um posicionamento e um diferencial. E deve-se fazer contas para entender a sustentabilidade do negócio”, completa. Para Maia, é essencial não querer reinventar a roda, mas observar as oportunidades em setores que parecem estagnados.

PREPARAÇÃO É ESSENCIAL

Outro exemplo de quem soube aproveitar as novas oportunidades é Marcelo Cardoso, ex-executivo de RH da Natura e atual fundador da Chie Integrates. “Durante muito tempo, fui me preparando para fazer tudo o que eu faço hoje na Chie Integrates. Acredito que, do ponto de vista executivo que muitos empreendedores sofrem, esse não é o meu sofrimento, porque gestão e outras diversas coisas eu fiz em empresas muito maiores do que o meu atual negócio. O principal ponto é que eu fui me preparando ao longo da vida executiva em paralelo com o que eu já fazia quando trabalhava nessas empresas. Fui agregando funções e estratégias aos poucos. Esse é um ponto importante quando se quer fazer uma transição e agregar novas funções, não dá para fazer abrupto, você tem que sobrepor uma coisa à outra, essa jornada tem que ser paralela”, explica.

Das experiências que ele trouxe para o novo projeto, o investimento em pessoas foi a maior delas. Marcelo já atuou no Hopi Hari, onde teve o desafio de trabalhar por dois anos com um grupo de cerca de 50 pessoas e 10 líderes – todos apaixonados pelo trabalho, mesmo que ele exigisse dedicação em tempo quase que integral.

“Duas coisas importantes em um projeto são: ter uma causa que engaje e ajude as pessoas a levantarem da cama animadas e dormirem querendo que o próximo dia chegue e escolher um time de pessoas que se complemente. Também não adianta querer escolher as pessoas que são iguais a você, acho que isso é um grande desafio para o empreendedor, reconhecer que ele não tem algumas competências. No fim, é isto: uma causa, um propósito e um time de pessoas que se conecte com determinada causa”, ressalta o empreendedor, que leva para outros negócios um tipo de consultoria para intervenções duradouras.

Mas o que não pode faltar no momento da transição? Abertura para aprender, entender que sempre há desafios e dúvidas – aceitando ambos – é a maneira mais sábia de fazer um bom planejamento. Além disso, Cardoso atenta que é necessário ter foco, já que vivemos um momento com excesso de possibilidades, e lembrar sempre que não se faz nada sozinho. O empresário ainda indica o livro A Identidade no Trabalho, de Hermínia Barra, que fala sobre os passos para uma transição de carreira saudável e assertiva. Veja alguns conselhos:

1. Quando você deixa de ser executivo para ser empreendedor, é importante reconhecer que isso é um ciclo razoavelmente longo, de dois a cinco anos.

2. É preciso ter clareza de propósito a serviço do que você está fazendo.

3. Tenha condição de realizar o processo da maneira mais paralela e suave possível, com menos ruptura.

4. Quando já estiver no novo papel, faça uma lista do que você acha que gosta e crie networking e relacionamentos nessa área. Um dos exemplos mencionados no livro é de um executivo de investimento que desejava ser coach e, para isso, fez um pequeno curso na área, além de procurar conversar com profissionais, entender a rotina, processos e desafios.

5. Tenha cuidado ao achar sempre que “a grama do vizinho é mais verde”. Não aumente os pontos negativos do que está fazendo e muito menos idealize os positivos da nova realidade.

“Eu acredito ser fundamental nesse processo a questão do autoconhecimento. Porque a zona de desconforto é a da vida: sempre que tentarmos manter-nos muito confortáveis, a vida vai apertar e trazer alguma coisa. Então, o que eu diria aqui é como você entra em um processo de se autoconhecer profundamente e entendendo a forma como você funciona, não deixando você mesmo se boicotar quando começar a enfrentar as dificuldades”, finaliza.

TEM UMA FÓRMULA SECRETA?

Não. Mas há maneiras de fazer com que tudo seja muito mais assertivo. De acordo com o especialista em Carreira e Grandes Mudanças Cícero Andrade, o planejamento não garante 100% do sucesso, mas aumenta bastante a possibilidade dele. Entenda com clareza o que quer, aonde pretende chegar e a viabilidade. “Uma visão global e aprofundada do negócio e do seu papel nele traz, naturalmente, este mapeamento, assim como os caminhos a seguir a partir dele”, completa.

Outro ponto que ele destaca é a mudança de mindset. Quando você está em uma grande corporação, por exemplo, tem toda uma estrutura à sua disposição que, quando abre seu próprio negócio, passa a não existir mais logo de cara. Entender isso é importante para não tentar dar passos maiores que as próprias pernas e, principalmente, para se adaptar à nova realidade. A princípio, você não terá uma área de RH para cuidar dos pagamentos ou uma de TI para arrumar seu computador e vai precisar fazer um pouquinho de cada coisa ou contratar um novo time que o faça.

“É preciso ter clareza e saber exatamente para onde quer ir. Às vezes, conduzimos nossa vida sem dar sentido a ela. Aqui, trago o exemplo de uma ‘corrida de táxi’. Quando entramos em um táxi, a primeira pergunta que o motorista nos faz é para onde queremos ir. Se a gente não souber responder a essa pergunta, ou o táxi não sai do lugar ou o taxista decide para onde vai nos levar. Isso nos leva a tomar decisões pelo que é melhor no momento e com muito pouca visão de longo prazo. Todas as nossas ações nos conduzem para onde estaremos no futuro! Fazê-las de forma inconsciente não trará mudanças. Por isso, quem está em uma transição de carreira deve ter muita clareza e consciência do médio e longo prazo, para agir estrategicamente no curto prazo”, completa o especialista, dando destaque para a importância em ser resiliente.

Em suma, saber o que exatamente deseja mudar, identificar seu perfil comportamental, planejar a transição, definir o público-alvo e entender a maneira como ele se comporta são as ações que precedem o primeiro passo tático. Lembre-se ainda de que não apenas seus talentos devem ser levados em conta no momento da transição. Tudo deve ser observado – desde a situação familiar até o momento financeiro, emoções, mercado e aquilo que deseja a longo prazo para sua vida. Além disso, as oportunidades serão identificações suas com o meio e as possibilidades de negócio. Portanto, suas características de personalidade, competências técnicas e comportamentais, incluindo as fraquezas, serão pontos determinantes no potencial para desenvolver o empreendimento.

A psicóloga e coach de carreira Aline Saramago endossa essas ideias. Ela lembra que, para entender o caminho a seguir, deve-se extrair algumas informações relevantes a respeito da sua personalidade, potencialidades e da sua história de vida, o que pode ser feito com a ajuda de um especialista, através de entrevistas e testes apropriados. Com esses dados, ficam mais claras as escolhas que foram realizadas até o presente momento, quais características podem ser utilizadas para fortalecer e ajudar o indivíduo, além de quais devem ser administradas para que não o limitem em sua trajetória.

“Um tiro no pé neste processo pode ser não ouvir o cliente final e não estudar a viabilidade de seus objetivos. Às vezes, o empreendedor tem clareza do que quer fazer e se planeja muito bem, mas segue ‘encantado’ pelo seu sonho e despreza se o que quer fazer é realmente viável e se existem pessoas que possam se interessar pelo que ele tem a oferecer. Checar o mercado, entender a viabilidade e os desejos do cliente final são fundamentais”, adverte Cicero.

“Empreender ou fazer um concurso, por exemplo, não é para todo mundo. Assim como todas as carreiras. Engana-se quem diz que pode ser bom em qualquer coisa. Nós temos talentos específicos e características únicas que nos fazem especiais em pouquíssimas atividades. É comum errar ou fracassar, e essas experiências podem ser agregadas, tornando-se aprendizados para encarar mudanças e desafios constantes do empreender. Persistência e otimismo também são fundamentais para não interromper o movimento empreendedor. Já atendi, porém, a diversos casos de empreendedores desmotivados, e isso envolve um trabalho interno que pode ser realizado com a ajuda profissional a fim de que se encontre motivação, ou seja, motivos para ação”, conta Aline.

MÃOS À OBRA

Existem algumas ferramentas que podem auxiliar o processo. O mapeamento de competências, por exemplo, pode ajudar a entender em que tipo de atividade você se destaca, já que as divide em básicas (conhecimentos como capacidade de leitura, expressão, comunicação verbal e escrita), genéricas (capacidade de trabalhar em grupo, planejar, negociar), específicas (conhecimentos técnicos) e outras.

Há ainda avaliações como a DISC, que examina o comportamento do indivíduo em determinado ambiente, entre outros métodos. Os benefícios incluem comunicação mais eficaz, resolução de conflitos, orientação de carreira, desenvolvimento de líderes, gerenciamento de pessoas, identificação de talentos. Ao conhecer seus pontos fortes e oportunidades de melhoria, será muito mais fácil trilhar o caminho para a alta performance em todas as áreas.

”As qualidades geralmente são características que nascem com a gente e, com o tempo, nós conseguimos aprimorar. São habilidades que você possui e que geram valor para outras pessoas. São seus talentos, aquilo que você faz e que as pessoas ficam impressionadas com seu feito. Os pontos falhos ou fracos geralmente são aqueles que atrapalham ou sabotam você e as outras pessoas na hora do planejamento e, principalmente, na execução. Depois de identificados esses pontos, analise sua história pregressa de insucessos profissionais, que geralmente estão presentes em feedbacks recebidos ao longo de uma trajetória. Dessa forma, estará em suas mãos duas possibilidades: replicar o passado ou construir um futuro onde o insucesso foi seu mestre mais importante na vida”, acrescenta a master coach Erika Guarnieri.

Há ainda elementos a serem dominados que não podem ser deixados para trás. Entenda seu negócio e nicho, sem deixar de aprender sobre as novas tecnologias e três áreas indispensáveis a qualquer empreendimento: vendas, marketing digital e inovação. Além disso, comprove o potencial do seu produto ou serviço. Erika destaca cinco perguntas importantes sobre seu empreendimento que ajudarão a identificá-lo:

1. Seu negócio cria valor significativo para o seu cliente? Qual problema ele soluciona? A ideia tem que tornar a vida de alguém melhor.

2. Ele tem potencial de lucratividade?

3. Qual é a estimativa de lucro?

4. Qual é a capacidade da equipe envolvida? Tem condições de executá-la?

5. É perene ao longo do tempo?

Além da distribuição do tempo do processo Pomodoro, você pode utilizar uma metodologia mais abrangente para dar conta de todas as competências que precisa exercer no processo de mudança. O método 70-20-10 pode ser usado da seguinte forma: 70% do tempo focado em executar e entregar o que é exigido na sua função, as questões mais práticas; 20% do tempo pode ser usado para refletir ou falar com outras pessoas sobre como realizar melhor suas atividades – aqui também podem se encaixar cursos e estudos, por exemplo; e 10% do tempo deve ser dedicado a refletir e discutir com outras pessoas como a empresa poderia ser melhor.

Erika ressalta que já estamos na quarta revolução industrial e não dá mais para atuar da mesma maneira de antes. O formato de negócio atual mudou e o empreendedor precisa ter perfil de comando, procurar oportunidades sempre e não esperar que elas apareçam. Além disso, é necessário constantemente promover uma interação positiva e inteligente com seus colaboradores”, completa.

O GUIA DA TRANSIÇÃO

1. CLAREZA: saber exatamente o que deseja, sem influências do meio e sendo íntegro aos seus desejos.

2. AUTOCONHECIMENTO: entender com profundidade seus talentos, comportamentos, limitações, emoções e, até mesmo, seus sabotadores, pois essa construção deve ser personalizada.

3. VIABILIDADE: entender com profundidade se o sonho não é só seu, se existe público consumidor para a empresa e se isso resultará, de fato, em um negócio produtivo, além de entender se uma mudança de carreira é realmente viável para a sua vida.

4. PLANEJAMENTO INTELIGENTE E ESTRATÉGICO: estruturar com profundidade de que maneira chegar até lá, levando-se em conta os passos anteriores, a(s) pessoa(s) por trás do projeto e que nem sempre o melhor caminho é o mais lógico.

5. AÇÃO DIRECIONADA E CONSTANTE: colocar-se em ação e fazer acontecer, pois não adianta montar o mais belo projeto se ele não for colocado em prática.

CERTO E ERRADO NA TRANSIÇÃO

•  Faça as mudanças com calma, para proteger-se ao máximo de eventuais fracassos.

•  Cuidado com as “pontes” e caminhos fáceis que prometem o sucesso, mas que acabam não se concretizando.

•  Leve a reflexão a sério a todo momento, tanto no planejamento quanto durante a caminhada. Não tenha medo de mudar se preciso for.

•  Entenda o que está incomodando no processo e atue em cima disso, para lidar melhor com o estresse, dificuldades e ansiedade.

•  Não se esqueça de planejar. Não importa o quão certo você está de tudo que vai realizar – sem planejamento, você deixa de observar detalhes que podem ser fatais a curto ou longo prazo.

•  Autoconhecimento é essencial. Muitos desistem por falta de equilíbrio emocional.

•  Estude, pois o conhecimento cognitivo lhe dará confiança e firmeza nessa nova estrada.

•  Pense positivo. Pare de se preocupar com o que os outros vão pensar ou falar a seu respeito, pois isso afeta expressivamente sua autoconfiança.

•  Conecte-se com pessoas que tenham objetivo em comum e com empreendedores que já atingiram o lugar almejado. Lembre-se: você é a média das cinco pessoas com quem mais convive.

PRECISA SAIR DO PAPEL!

PROCRASTINAÇÃO: é o diferimento ou adiamento de uma ação, é o famoso empurrar com a barriga para começar um projeto ou resolver um problema. Essas atitudes desencadeiam inúmeras situações, como estresse, sensação de culpa, perda de produtividade e até mesmo perda de prazos. É preciso adotar um senso de urgência para a execução de cada etapa de um processo para que você não caia na artimanha sorrateira que tentará mantê-lo como espectador dos seus projetos.

DICA:

TÉCNICA POMODORO – consiste em fatiar o tempo em frações menores que as habituais. É trabalhar mais com menos tempo. Ela aumenta a produtividade com a seguinte proposta: 25 minutos de trabalho focado para 5 minutos de descanso. Depois de quatro blocos de 25 minutos+ 5 minutos, faça um descanso maior de 30 minutos.

Fonte: ERIKA GUARNIERI.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTAMOS MEDICANDO A IMATURIDADE?

Todos os distúrbios neurológicos afetam a concentração e muitos deixam de ser identificados com uma frequência lastimável, mascarados pelo popular diagnóstico de “déficit de atenção”

Até o final da década de 90, a sigla TDAH, do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, era pouco conhecida fora da área da saúde, e drogas como metilfenidato (Ritalina) raramente eram prescritas. Em cerca de duas décadas, o termo entrou para o vocabulário corriqueiro de pais, professores e qualquer profissional que trabalha com crianças.

Os americanos iniciaram uma falsa epidemia de TDAH, que veio acompanhada do uso muitas vezes desnecessário e irresponsável de medicação psicotrópica por crianças. E o Brasil logicamente logo se espelhou no modelo norte-americano de criar e resolver problemas, posicionando-se em segundo lugar da lista dos maiores mercados mundial de metilfenidato.

Atualmente, nada menos que 11% das crianças americanas em idade escolar e 20% dos meninos do ensino médio são diagnosticados com o transtorno, sendo que mais da metade desses não vai à escola sem o estimulante (dados do Center for Disease Control and Preventúm, órgão federal americano de controle e prevenção de doenças). No Brasil não há dados do percentual de crianças medicadas, mas não devemos estar muito longe dos americanos, já que a venda de estimulantes como Ritalina cresceu 775% entre 2003 e 2012, segundo levantamento do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ).

Essa onda de TDAH começou logo depois de uma mudança discreta na definição do distúrbio, apresentada com o lançamento, em 1994, da quarta revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-IV – referência mundial da saúde mental. Entrevistado, o psiquiatra líder da equipe que redigiu o manual, Allen Frances, contou que não imaginava que uma mudança tão pequena, visando facilitar a identificação entre as meninas, fosse causar essa explosão no diagnóstico. A expectativa era de que a incidência se mantivesse entre os 2% e 3% da população infantil, sendo que apenas os casos mais severos dentro desse percentual se beneficiariam da medicação – ao menos em curto prazo.

O problema é que a indústria farmacêutica não deixa escapar as oportunidades que são criadas com os afrouxamentos de critérios ou inclusão de novos distúrbios no manual da Psiquiatria. Existem também mudanças culturais e educacionais envolvidas nesse fenômeno da impulsividade e falta de foco das crianças. Mas certamente o marketing da indústria, dirigido a médicos, psicólogos e mesmo aos pais (no caso dos Estados Unidos, onde essas empresas podem anunciar diretamente ao consumidor), cumpriu um papel fundamental na popularização do diagnóstico.

Frances, em seu livro Saving Normal – traduzido para 16 idiomas e com lançamento previsto para março no Brasil -, destaca que todos os distúrbios neurológicos afetam a concentração e muitos promovem hiperatividade. Alguns são bastante comuns e infelizmente deixam de ser identificados com uma frequência lastimável, mascarados pelo popular diagnóstico de “déficit de atenção”. Entre eles estão os transtornos de aprendizagem – como dislexia -, que poderiam ser trabalhados com estímulos e metodologia adequados para resultados seguros, eficazes e definitivos.

Outra ótima evidência de como a inadequação às exigências acadêmicas muitas vezes é respondida com distração e hiperatividade está na alta incidência de TDAH entre crianças mais novas da sala. Frances revela em seu livro que um estudo canadense envolvendo cerca de 940 mil crianças, concluído em 2012, constatou que meninas nascidas mais perto da data de corte de cada nível escolar (que no Brasil seriam as crianças de final de ano) apresentavam 77% mais chances de serem medicadas com estimulantes, e entre meninos esse índice aumentava em 41% “É ridículo tornar a imaturidade na infância uma doença e medicá-la”, lamenta.

A solução rápida e prática oferecida pelos estimulantes tem sua eficácia reduzida e segurança desconhecida quando usada em longo prazo. Para se certificar se o uso das drogas para déficit de atenção compensa em longo prazo, uma equipe de 18 pesquisadores, com apoio do Instituto de Saúde Mental americano, investigou, no decorrer de oito anos, o desempenho de 579 crianças diagnosticadas com o transtorno. Publicada em 2009, foi a maior pesquisa já realizada com essa finalidade. Concluíram que depois de um ano e meio, mesmo com o aumento contínuo de dose, as crianças medicadas não apresentaram melhor desempenho em nenhum aspecto com relação às que não receberam medicação.

Depois de um tempo, portanto, restam apenas as reações indesejadas do desequilíbrio provocado pela droga. Reações que em curto prazo são conhecidas e estudadas, mas ainda ignoradas por pesquisas que investigam a segurança em longo termo do uso do estimulante na infância. Com poucas evidências de que vale a pena e pouco conhecimento dos efeitos da droga no futuro, o que estamos fazendo, ao medicar com poucos critérios, é muito bem definido por Allen Frances: “É uma experiência mundial descontrolada com as crianças, usando-as como ratos de laboratório sem seu consentimento e sem que seus pais sejam devidamente informados antes de concordar”.

MICHELE MULLER – é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br

EU ACHO …

JEJUM ESTÁ NA MODA

De tempos em tempos, surge uma dieta diferente – e me atiro nela

Acordo, não como. Desabo em uma poltrona. Pego um livro, não leio. Estou sem forças. O máximo que consigo é trocar mensagens pelo WhatsApp. Continuo sem comer. Tomo um café. Um chá. Aguardo. Tomo mais café. Vou desfalecer, sei que vou! Mas completo dezesseis horas sem comer. Eu me atiro sobre uma porção minúscula de mamão fatiado. E um copo de leite de amêndoas. Só depois, o dia começa.

Tudo começou quando elogiei o corpo esguio de minha amiga e parceira profissional Amora. Animada, contou seu segredo: jejum intermitente. Traduzindo: fica-se muitas horas sem comer por dia. (Alguns só fazem duas ou três vezes por semana). O metabolismo acelera. Gorduras queimam. Inicialmente, como tantas coisas na minha vida, fui na loucura. Comecei com catorze horas. Primeira semana, 1 quilo. Segunda, 2. Terceira, 3! Na quarta, resolvi comemorar com uma feijoada, pra começar. Readquiri rapidamente os quilos perdidos e ganhei alguns mais!

De tempos em tempos, um método de emagrecimento entra em moda. Já passei por vários. Tive uma nutricionista que me dava quatro nozes à noite, como jantar. Emagreci no começo, e aumentei a quantidade de nozes. Quando comecei e triturar meio quilo entre os dentes, a velha e conhecida barriga voltou a seu lugar. Outra profissional me encheu de proteínas e eliminou os carboidratos. Em alguns dias, peguei horror até de pernil e torresmo! Também teve a do frango com batata-doce. Enjoei, até hoje tenho restrições a frango. São muitos os regimes, dietas que funcionam. Principalmente nas livrarias, e as editoras faturam muito com livros de como emagrecer.

Antes do advento da Covid, notei uma aglomeração de senhoras rechonchudas numa livraria. Curioso, quis saber do que se tratava. Eram nutricionistas no lançamento de um livro de uma colega. Nutricionistas gordas? Juro. Antes de me pesar, peso a nutri primeiro.

Finalmente, encontrei uma endocrinologista magra e linda. Óbvio, voltei para casa com as normas do jejum radicalizadas. Na primeira fase, eram catorze horas. Agora, no mínimo dezesseis. Um amigo médico disse que o melhor seria dezoito! Logo você acostuma. Corra na esteira sem comer, funciona mais. Socorro!

Os benefícios do jejum intermitente são muitos, afirma-se. Dá um up em toda a saúde. Tem sentido. A própria Bíblia não aconselha o jejum? Sabedoria dos antigos. É uma norma dietética milenar.

Antes, nem tinha ouvido falar. Agora, parece que todo mundo está fazendo. É tendência. Tem até aplicativo de jejum, com cálculos de queimas calóricas. Outro dia liguei para um amigo. Com voz fraca, confessou que completava as vinte horas sem comer. Pior que é magro.

Estou há um mês no retorno ao tal jejum. Depois de três semanas, emagreci 1 quilo. Inocente, quis comemorar. Ataquei um sanduiche de pão com mortadela, que adoro. Mais uns três pedaços de pudim. Pronto! Engordei 1 quilo e meio. Fiquei pior que antes! A barriga, invicta. Dá-lhe jejum, jejum! Outro dia, após dezesseis horas de estômago vazio, devorei um churrasco de abobrinha. Sabem que até achei delicioso?

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

QUE SEJA ETERNO ENQUANTO DURE

Exposição nas ruas do Reino Unido com fotos de idosos em cenas sensuais escancara um relevante e necessário debate global: o sexo na terceira idade

Há poucos dias, as ruas do Reino Unido foram tomadas por centenas de imensos painéis com fotos em preto e branco expondo cinco casais nus, em situações sensuais. Eles mostram beijos ardorosos, mulheres insinuando o prazer da masturbação e homens em abraços íntimos. Não fariam muito barulho, em cidades que aos poucos retomam a rotina da pandemia controlada, não fosse a idade dos personagens, dos 65 aos 87 anos. A campanha, batizada de Vamos Falar sobre a Alegria do Sexo na Terceira Idade, foi criada pela ONG britânica Relate em parceria com a agência de publicidade Ogilvy. “Há um grande pudor a respeito do tema, e no Brasil não é diferente”, disse o brasileiro Dedé Laurentino, diretor-geral da empresa de propaganda. “O silêncio não significa que não tenham vida sexual.”

A ruidosa ação publicitária escancara uma discussão que já deveria ter sido deflagrada há tempos. O estereótipo de uma velhice assexuada vem sendo derrubado por pesquisas recentes. Levantamento feito com idosos, conduzido pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostrou que para 74% dos entrevistados o sexo é fundamental no relacionamento (veja no quadro abaixo). No Brasil, o pioneiro site de relacionamentos Coroa Metade, cujo inventivo nome e os seguros protocolos de acesso ajudaram a atrair mais de 600 mil cadastrados, pediu, em uma pesquisa recente, que os inscritos, todos na maturidade, indicassem o grau de relevância de diversas características dos pares em busca de companhia. Para 42% dos homens, ser “bom de cama” foi classificado como “muito importante”.

A vida sexual longeva, porém, é conquista recente. Ela está associada às mudanças morais da sociedade, especialmente em relação às mulheres. Até bem pouco tempo atrás, era comum, aos primeiros sinais do envelhecimento do corpo, elas deixarem de procurar um parceiro. Com a menopausa, o estrógeno diminui drasticamente, atingindo o desejo e a lubrificação. No corpo masculino, a produção da testosterona, o hormônio sexual, começa a cair aos poucos a partir dos 40 anos, mexendo na libido e na ereção. A medicina hoje, contudo, é capaz de driblar parte dos problemas.

Os homens são os mais beneficiados, com uma diversidade de remédios que estimulam e ereção. Na ponta do lápis: cerca de 70 milhões de prescrições do Viagra, o mais antigo medicamento de sua categoria, já foram emitidas em todo o mundo. As mulheres podem recorrer à reposição hormonal e a cremes. São avanços notáveis. “Um homem e uma mulher de 70 anos podem ter hoje uma qualidade no relacionamento sexual semelhante ao que mantinham aos 50 anos”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP.

A atividade sexual, não há dúvida, prolonga a vida. O hábito regular, seja na frequência que for, eleva os níveis de hormônios, como a oxitocina, que ajuda a reduzir o stress, e aumenta os níveis de imunoglobulinas, responsáveis pelo combate a infecções. Convém dar as mãos ao poeta irlandês William Butler Yeats, que, em 1938, cunhou uma bela frase: “Parece-te horrível que luxúria e ira cortejem a minha velhice; quando jovem não me flagelavam assim”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE JUNHO

O CANAL DO CONHECIMENTO

A língua dos sábios derrama o conhecimento, mas o coração dos insensatos não procede assim (Provérbios 15.7).

O conhecimento não é como um tesouro que se descobre na superfície, mas uma conquista que se alcança por meio de intenso esforço. O conhecimento não é um bem que adquirimos rapidamente, mas um processo que leva a vida toda. O conhecimento nos advém do estudo e da experiência, do exame e da observação. No entanto, o conhecimento das coisas mais profundas não resulta apenas da investigação, mas sobretudo da revelação. Só podemos conhecer a Deus porque ele se revelou a nós. Não o conhecemos pela elucubração, mas pela revelação. Deus se revelou a nós na criação, em sua Palavra e em seu Filho Jesus Cristo. A língua dos sábios derrama esse conhecimento, porém o coração dos insensatos não procede assim. O coração do tolo não se aplica ao conhecimento das coisas de Deus nem valoriza a meditação da Palavra. Apenas cogita das coisas dos homens. Seu coração não busca as coisas lá do alto, onde Cristo vive. O insensato é terreno e só busca as coisas que seus olhos veem, as coisas que perecem. Os sábios adquirem o conhecimento, e sua língua derrama esse conhecimento. Eles não apenas se abastecem nessa fonte da vida, mas também se tornam canais que distribuem essa bênção para os outros.

GESTÃO E CARREIRA

TIJOLO POR TIJOLO

Não basta ter uma boa ideia para fazer um negócio de sucesso. O investimento para realizá-lo é necessário e, às vezes, o recurso próprio pode ser o melhor (ou único) caminho

Ter um negócio é mais do que ter um produto ou serviço inovador – é preciso conseguir meios para validar a ideia e poder oferecê-la ao mercado. Nesse ponto, um aporte financeiro para o start é necessário para a realização e efetivação do início desse empreendimento, produto ou serviço. Levantar recursos próprios, pedir para amigos e familiares ou conseguir um investidor são os caminhos mais tradicionais. No entanto, conseguir dinheiro externo nem sempre é uma tarefa fácil, por isso, o bootstrapping é um caminho frequentemente utilizado para início de MPEs, principalmente entre as startups.

Em tradução livre, a expressão é uma junção de boot (bota) e strap (alça), que pode ser interpretada como “levantar-se pela alça das próprias botas”. No Vale do Silício, capital mundial de nascimento e consolidação de startups, os investidores começaram a usar esse termo para falar das empresas que tentavam crescer exponencialmente sem receberem um aporte financeiro externo. A escolha por essa forma de empreender depende dos objetivos e das oportunidades que a empresa tem em sua trajetória. Nesses casos, os pilares serão o empreendedor, seus sócios e sua capacidade de execução. “No Brasil ainda é raro alguém investir em uma ideia ainda no papel. Normalmente investidores-anjo aportam em fases de prova de conceito e protótipo. Para começar um negócio, pode-se fazer bootstrapping, ou seja, com seu próprio capital, endividar-se ou pegar emprestado. Para cada business e ocasião um sairá melhor que o outro”, opina o CEO da CM Tecnologia, startup de health tech mineira que iniciou com investimento próprio, Fernando Soares.

No Brasil, entre as startups que começaram dessa maneira, a MaxMilhas, que faz intermediação para compra e venda de milhas aéreas, iniciou com aporte de pouco mais de R$14 mil e hoje mudou o mercado de milhagem e comércio de passagens de avião. A MaxMilhas foi fundada por Max Oliveira, engenheiro de produção com carreira iniciada e consolidada na área corporativa, mas que percebeu seu perfil de empreendedor dentro de grandes empresas. “Aprendi que empreendedorismo não é sobre o currículo, mas sim sobre as atitudes. Eu me comprometia, assumia riscos e responsabilidades, pensava em soluções fora da caixa e me motivava. Todas essas ações foram essenciais para compor meus skills (habilidades) para o momento em que decidi ter a minha própria empresa. Então, se você quer empreender, deve se perguntar primeiro: já sou um empreendedor no lugar em que trabalho?”, indica Oliveira.

Crescer e se validar como negócio sem investimento externo é, obviamente, uma tarefa muito difícil. “No caso da MaxMilhas, começamos sem investidor porque não conseguimos, e não porque não queríamos. Recebemos várias negativas, principalmente no início. Mas, passado um tempo, refleti por que estava procurando investimento naquele estágio. Teria sido, com certeza, antes da hora certa. Primeiro, é necessário achar o market fit do seu negócio, ser minimamente escalável para, posteriormente, pegar o dinheiro do investidor para crescer”, sugere o fundador da startup de milhagem.

Embora seja desafiador e, geralmente, arriscado, costuma ser bastante gratificante e recompensador financeiramente. ”A escolha por esse tipo de início envolve abraçar não só os riscos de validação de um produto ou negócio como também arcar com os custos desta validação. Obviamente, não serve para produtos que exigem altos investimentos na aquisição de clientes ou longos ciclos de desenvolvimento tecnológico. Mas serve muito bem para negócios B2B, caracterizados por um investimento do comprador e uma promessa de retorno sobre esse valor investido”, pontua o COO da Propz, startups de soluções de inteligência artificial e big data para o varejo físico, Israel Nacaxe. Ele criou a Propz com investimento próprio e, até hoje, possui 100% do capital nas mãos dos seus fundadores e principais executivos.

Os caminhos para começar e crescer sem investimentos externos existem e devem ser considerados e explorados de diversas maneiras. Sarnir Iásbeck, um dos fundadores da Qranio, startup de game e educação, acredita que a melhor forma, nesses casos, é pensar, formular a ideia e vender na prototipagem a um grande comprador. “Com um protótipo do seu produto muito bem feito, procure grandes empresas e o ofereça, negociando um prazo maior para entrega. Com um pedido de uma empresa grande, os riscos diminuem e a credibilidade e valorização do negócio aumentam”, sugere o empreendedor, que também começou seu negócio com cerca de R$300 mil de recursos próprios.

DOIS LADOS

Como dinheiro é pouco ou limitado, o segredo é gastar o mínimo possível. “Sem investimento você tem que manter seu custo fixo e um burn rate (queima) baixo. Se não entra dinheiro, então não dá para gastar”, lembra o CEO da Descola.org, André Tanesi. Portanto, ser o mais enxuto possível ajuda no começo. “Na Descola, por exemplo, nós levamos mais de três anos para contratar a primeira pessoa. Somos em três sócios e aprendemos a fazer tudo nós mesmos. Isso foi ótimo, pois evoluímos muito em diversas tarefas e competências. Com o passar do tempo e com o faturamento aumentando, fez sentido começar as contratações. Também recomendo parcerias. Encontrar produtos ou soluções complementares à sua pode ajudar a ter um produto mais completo ou a acessar um novo mercado. Veja como é possível se complementar para alavancar as duas iniciativas”, indica o executivo da Descola.

A vantagem, nesses casos, é que o empreendedor tem total autonomia sobre o negócio, o que pode ser ao mesmo tempo um ponto negativo e positivo. “Se não houver um estudo do mercado e muita dedicação, pode-se acabar jogando tudo por água abaixo. É necessário, portanto, pesquisar sobre o modelo de negócio e se colocar no lugar do cliente. Só assim se começa a entender toda a jornada do negócio e fazer as mudanças necessárias para continuar crescendo”, diz o fundador da MaxMilhas.

O trabalho é árduo, mas a recompensa chega. Com as apostas certas, muita dedicação e união de pessoas competentes e confiáveis, com algumas dezenas de clientes, será possível aumentar rapidamente a aposta, adquirindo mais clientes “financiadores” ou mesmo reinvestindo os ganhos iniciais em busca de um crescimento sustentável. Talvez, neste estágio, seja válido buscar investidor externo ou parceiro estratégico que poderá ser obtido em condições muito mais favoráveis do que quando seu negócio era apenas uma ideia e um PowerPoint.

Pé no chão e paciência são fundamentais em vista da velocidade de crescimento inicial. O consultor de startups e cofundador da Orgânica, Renato Mendes, lembra que o principal contra do bootstrapping está relacionado à velocidade de crescimento. “Por falta de recursos, uma empresa pode perder o timing de entrada em um mercado ou ser muito mais lenta que as concorrentes no ganho de tração e crescimento”, relata. “Mesmo desenvolvendo e entregando valor rapidamente aos primeiros clientes, não ter sobra de caixa sacrifica o crescimento acelerado e a escala do negócio no curto prazo. Afinal de contas, não é possível contratar grandes equipes ou abrir várias frentes de produto ao mesmo tempo. A margem para erro é muito pequena”, complementa Israel Nacaxe, da Propz.

PACIÊNCIA E… SUCESSO!

Bootstrapping requer uma mentalidade de qualidade, assertividade e austeridade. E deve-se escolher as batalhas com mais chances de vencer, usando as promessas só quando for possível cumpri-las. Procure e escute especialistas, encontre bons mentores, pesquise bastante, inspire-se em modelos vencedores e, acima de tudo, dizem especialistas, desenvolva a capacidade de adaptar-se rapidamente às oportunidades que forem sendo descobertas no processo de venda e durante o amadurecimento do produto, descartando iniciativas com baixo retorno de curto prazo. Fernando Soares, da CM Tecnologia, lembra que cada produto é um e não existe uma receita de bolo, mas se o empreendedor quiser crescer sem capital externo, terá que ter um controle forte de fluxo de caixa e reinvestir todos os resultados da companhia para crescer.

O interessante é ir andando com capital próprio até realmente precisar de dinheiro para contratar, escalar ou validar o produto, e, nesse momento, pode ser hora de buscar capital. “O resultado depende de avaliar corretamente o momento da startup e vislumbrar a janela de oportunidade naquele mercado, velocidade que ela quer, entre outras metas. Daí você vai ter a resposta se precisa de capital externo ou não”, diz Soares, da CM Tecnologia. “Investir do seu próprio dinheiro para iniciar um negócio é bom para dar ainda mais motivação e garra de fazer acontecer. O importante é focar o negócio e aonde você quer chegar, independentemente se irá pegar capital externo ou não. Ficamos dois anos em bootstraping na CM. Após essa fase, pegamos R$535 mil com um Angel para validar o produto no mercado. Após isso, um round de R$5 milhões com um fundo de Venture Capital para escalar os produtos. Para cada startup, seu produto e mercado, é uma história diferente”, afirma.

Para Mendes, consultor da Orgânica, o ideal é criar um modelo de negócio que seja autossustentável, ou seja, que gere receitas no curto prazo, capazes de financiar o crescimento da empresa via reinvestimento. O uso inteligente dos recursos é fundamental, já que eles costumam ser escassos. Sem dinheiro, você precisa pensar dez vezes em como gastar cada centavo.

Vale lembrar que alguns modelos de negócios são mais propensos a crescer via bootstrapping que outros, ou seja, aqueles com capacidade de geração de caixa e obtenção de lucro desde o dia um.   Negócios intensivos em capital ou em setor de alta concorrência dificilmente conseguem ser  competitivos sem injeção de capital externo e, dessa forma, não servem para esse modelo inicial.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O COMPONENTE AUDITIVO DO AUTISMO

Novas evidências sugerem que autistas entendem os sinais sociais transmitidos por vozes de forma mais eficiente do que pela visão; para especialistas, essa descoberta pode facilitar o processo de inclusão dessas pessoas

Expressões faciais, olhares e movimentos dos lábios dizem muito sobre o que se passa em nossa mente, às vezes até mais do que gostaríamos de revelar. Para pessoas com autismo, porém, captar e compreender mensagens, sejam de felicidade, medo, tristeza ou qualquer outra emoção transmitida pelas feições, é uma missão muito complexa e, não raro, impossível. Muitos pesquisadores tomam essa dificuldade como evidência de que o autismo envolve sérios déficits de processamento de informações sociais. Mas a voz também pode fornecer pistas emocionais, e vários estudos recentes indicam que, quando ouvem vozes, autistas são capazes de reconhecer sentimentos e outras mensagens, assim como as pessoas que não apresentam distúrbios significativos no funcionamento mental – e em alguns casos com mais precisão.

“Nessa fase, nossos estudos se concentraram apenas em adultos autistas bastante funcionais, cujas habilidades não são necessariamente representativas da população autista mais ampla”, salienta Andrew Whitehouse, chefe de pesquisa de autismo no Instituto Telethon Kids, em Perth, na Austrália. “Também preciso considerar que o êxito em uma tarefa de laboratório não se traduz necessariamente em sucesso em interações sociais no mundo real”, acrescenta Helen Tager-Flusberg, professora de ciências psicológicas e cerebrais na Universidade de Boston. Ainda assim, os estudos sugerem que para pelo menos alguns subgrupos de pessoas autistas, em certas situações, déficits na identificação de emoções estão restritos principalmente à visão.

“Isso é uma grande notícia de uma perspectiva de trata- mento”, comemora Kevin Pelphrey, diretor do Instituto de Autismo e Distúrbios de Desenvolvimento Neurológico da Universidade George Washington. “É muito mais fácil ajudar alguém a superar uma incapacidade de ler emoções em rostos do que seria tratar de uma profunda falta de compreensão dos sentimentos em todas as modalidades.”

TRÊS COMPROVAÇÕES

O pesquisador Daniel Javitt e seus colegas do Instituto Nathan Kline para Pesquisa Psiquiátrica, nos Estados Unidos, exibiram fotografias de rostos que expressam felicidade, tristeza, medo ou raiva a voluntários autistas. Os 19 participantes não foram bem ao identificar essas emoções. Mas, quando pesquisadores tocaram audioclipes de vozes que transmitiam sentimentos similares, os participantes identificaram as emoções relevantes tão bem quanto um grupo de controle. Os dados saíram no Journal of Psychiatric Research.

A neurocientista Tamami Nakano, da Universidade de Osaka, no Japão, e seus colegas pediram que participantes avaliassem vozes cantadas reais e outras geradas por computador. Embora o desempenho dos grupos de autistas e de controle fosse diferente para as vozes reais, os 14 participantes autistas deram às vozes artificiais as mesmas notas baixas por suas qualidades humanas e emocionais que seus pares não autistas. Os resultados foram publicados em agosto, em Cognition. Uma equipe liderada por I-Fan Lin, da Universidade Metropolitana de Tóquio, mediu a rapidez com que pessoas conseguiam julgar se um determinado som vinha ou não de um humano. (Os exemplos de áudio incluíram um violino tocando uma dada nota musical e uma pessoa pronunciando a vogal “i”.) Os 12 participantes com autismo não só executaram a tarefa mais rapidamente que seus pares sem diagnóstico de autismo, como também se saíram melhor, ao responderem prontamente a vozes, mesmo quando faltavam importantes componentes acústicos. Os resultados foram publicados na Scientific Reports.

EU ACHO …

VICIADO NO CELULAR

O difícil exercício de usar menos essa droga moderna

Um dia percebi que não conseguia ficar sem celular. Um caos. Se estava lendo, dava uma pausa a cada página. Só para dar uma geral no WhatsApp, no Instagram e em todo aplicativo de mensagens existente. Parece impossível. Mas eu li toda obra de Dostoievski conferindo o celular. Se estava escrevendo, de instante em instante ia olhar a telinha. Celular vicia. Tem os efeitos semelhantes aos de uma droga. A abstinência provoca ansiedade. O som de uma chamada descarrega adrenalina. Descobri que era grave em viagens de avião – que, até um tempo relativamente recente, não tinham internet. Espertas, as companhias aéreas agora vendem pacotes. Se estou nas nuvens, ainda posso disparar um “oi, tudo bem” no direct.  É um vício tremendo.

Não só meu. Entro em um restaurante e, na maioria absoluta das mesas, vejo gente no celular. Mesmo de frente uma para a outra. Às vezes até teclando entre si e rindo. Enviando emojis que seriam divertidos se não tivessem se tornado banais. Simplesmente, as pessoas não vivem sem seu aparelhinho! Estão conectadas o tempo todo. Pior. Quem envia mensagem quer resposta e pronto! Mais ou menos como se eu estivesse na minha casa, alguém entrasse pela porta e exigisse toda atenção. Sem ser convidado. A atitude de quem envia zaps é exatamente igual. Se não respondo imediatamente, vem uma pergunta do tipo: “está tudo bem? “; “aconteceu alguma coisa”; “algum problema?.” Ei, ei! Quando quero cuidar das minhas coisas é por que estou com problema? Um dia eu descobri que ficara seis horas só trocando mensagens sobre a vida, a saúde etc. Seis horas de papos superficiais!

Existe coisa mais difícil que parar uma conversa no celular? Eu digo que tenho de parar. Vem uma resposta com gancho para outra resposta, de minha parte. Tipo: “mas está tudo bem?”. Pior é quando mandam mensagem de voz. Odeio, porque demora para ouvir. Quando eu digo “não ouço mensagem de voz”, vem a resposta: “quando você puder, você ouve”. Há quem mande fotos, vídeos que eu nunca pedi. Jamais vou escolher alguém para um elenco porque mandou um vídeo no Instagram. Tudo também ganha um caráter de urgência. Querem respostas imediatas, críticas, opiniões! Socorro!

Há semanas, tive uma dor horrível no braço direito. Procurei um profissional. “Você fica muito no celular?” – ele perguntou. “Sim!” Resultado: era o início de uma tendinite. Causada pelo esforço repetitivo. Há um código de etiqueta do celular que ninguém segue. Como não se ofender, se a pessoa diz que está ocupada. Ou não invadir o celular alheio com mensagens de vaquinhas, correntes, pedidos de ajuda. Recebo centenas e mais centenas!

Decidi dar um tempo com o celular desligado, diariamente. Comecei com duas horas. Já estou indo para três. Sofri uma onda de revolta de amigos insistindo: “por que não responde?”. Continuei radical. Se gostam de mim, têm de perceber que não estou sempre à disposição.

E você, quanto tempo gasta por dia? Pense nisso. Ou prefere se tornar escravo do celular?

PS- Enquanto escrevia este texto, conferi dezoito vezes o celular.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

DIVERSÃO PARA TODOS

O mercado internacional de games aposta em adaptações de acessibilidade para atrair uma nova legião de jogadores: pessoas com deficiências

Há uma admirável jornada iniciada com o game Magnavox Odyssey – o primeiro jogo doméstico da história, lançado em 1972. Desde então, deu-se impressionante avanço do realismo nas telas, com histórias cada vez mais inovadoras e interativas. Os jogadores, por sua vez, foram protagonistas de outra revolução: passaram de meros interessados em diversão e distração a profissionais gabaritados, com horas de preparação em tiro, estratégia e dribles de futebol. A evolução desembocou em uma receita global de 159 bilhões de dólares em 2020, e em ritmo de crescimento. Dessa rápida passagem de fases, cabe agora celebrar uma em especial, que tem ganhado relevância: a adaptação das brincadeiras e dispositivos para pessoas com deficiências.

Integra essa nova onda um controle lançado pela Microsoft que funciona em computadores e nos mais recentes videogames do tipo Xbox. O item tem poucos botões e é adaptável para diferentes tipos de limitações motoras. “O decisivo é que cada pessoa use o aparelho da forma que mais se adeque às suas necessidades,” diz Bruno Motta, gerente de Xbox no país. Nessa toada, as empresas desenvolvedoras de jogos também seguiram a trilha do respeito às dificuldades. Trataram, portanto, de incluir recursos para serem usados por pessoas com visão prejudicada, comprometimento motor e surdez. “Mudanças simples, como legendar todos os alertas sonoros, permitem que mais pessoas tornem-se aptas a jogar”, diz Christian Bernauer, representante brasileiro da organização americana Able Gamers, responsável por promover acessibi idade no ramo.” É claro que não podemos parar por aí, há muito ainda a ser feito.”

Lembre-se, ainda, que os jogos virtuais tornaram-se nos últimos anos ambiente de encontro e conversa, a ágora inescapável dos millenials e das crianças. Promover o acesso amplo a quem tem alguma necessidade específica é também permitir que essas pessoas disponham de meios de manter-se conectadas com seus círculos sociais. Trata-se, por sinal, de um grupo imenso. Só nos Estados Unidos o número de jogadores com alguma deficiência ultrapassa 46 milhões de pessoas. Diz Renan Barreto, gerente da maior feira brasileira especializada no setor, a Brasil Game Show; “Todo avanço é atalho para inclusão e simultâneo crescimento da indústria”. Que assim continue.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE JUNHO

CUIDADO COM O LUCRO ILÍCITO

Na casa do justo há grande tesouro, mas na renda dos perversos há perturbação (Provérbios 15.6).

Está na moda a chamada teologia da prosperidade. Medem a bênção de Deus pela quantidade de dinheiro que você tem. Pensam que uma pessoa fiel a Deus deve ser rica, pois a pobreza é vista como maldição. Há, porém, coisas melhores do que dinheiro, como a paz de espírito, um cônjuge fiel e uma família unida. Na casa do justo há grande tesouro. E esse tesouro pode ser material, fruto do trabalho honesto, ou pode ser moral, resultado da permanente bênção celestial que inunda a casa de alegria, comunhão e paz. Sacrificar esses valores na busca pelas riquezas terrenas é insensatez. Construir o sucesso financeiro sobre os escombros da família é tolice. Acumular riquezas mal adquiridas é ajuntar tesouros para a sua própria destruição. Na renda dos perversos há inquietação. Não se usufrui plenamente aquilo que foi acumulado com desonestidade. Essas pessoas comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se saciam. Deitam em camas macias, mas a mente não descansa. Cercam-se de ricas provisões, mas a alma não se deleita. É melhor ser um pobre rico do que um rico pobre. É melhor ser desprovido de riquezas, mas ter paz na família, do que estar cercado de ouro e viver um inferno existencial. Não corra atrás do lucro ilícito; busque em primeiro lugar o reino de Deus, e as demais coisas lhe serão acrescentadas.

GESTÃO E CARREIRA

TESTE

SOU UM BOM EMPREENDEDOR COMUNICADOR?

Todo bom empreendedor chama a atenção pela sua aptidão em saber entusiasmar as pessoas pelas suas ideias e projetos. De um modo geral, os empreendedores são persuasivos e convincentes, pelo carisma de abertura para o diálogo. O empreendedor comunicativo é capaz de estabelecer ampla rede de relacionamentos profissionais e de articulação de novos negócios. Sua competência em saber dialogar, expressar opiniões e ideias e estabelecer relacionamentos favorece a superação de conflitos, a busca de entendimentos em processos de negociação e a capacidade de integrar pessoas e equipes. Leia as questões e avalie-se em relação a cada uma das características apresentadas, que ajudam a definir o perfil de um bom comunicador. Você terá a oportunidade de receber um valioso feedback sobre as suas habilidades e competências comportamentais em comunicação. Esse questionário favorecerá a identificação dos pontos fracos a serem trabalhados.

1. VOCÊ É UMA PESSOA ABERTA AO DIÁLOGO?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

2. VOCÊ PERMITE QUE O OUTRO SE EXPRESSE SEM INTERROMPÊ-LO?

A. sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

3. VOCÊ ESCUTA AS “ENTRELINHAS”, AQUILO QUE AS PESSOAS QUEREM DIZER ALÉM DAS PALAVRAS?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

4. VOCÊ SE ESFORÇA PARA DESENVOLVER SUA HABILIDADE EM RETER INFORMAÇÕES IMPORTANTES?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

5. VOCÊ É SIMPÁTICO COM SEUS INTERLOCUTORES?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

6. AO CONTAR UM ACONTECIMENTO OU EXPLICAR UMA SITUAÇÃO VOCÊ É CLARO E PACIENTE PARA RESPONDER ÀS DÚVIDAS QUE POSSAM SURGIR?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

7. AO REMEMORAR UM ACONTECIMENTO QUALQUER VOCÊ SE PREOCUPA EM INDICAR E REGISTRAR OS FATOS MAIS IMPORTANTES?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

8. VOCÊ É CLARO E OBJETIVO EM SUAS EXPLICAÇÕES E ARGUMENTAÇÕES?

A. sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

9. AO PERCEBER QUE ESTÁ ERRADO COSTUMA MUDAR DE OPINIÃO?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

10. COSTUMA REPETIR PARA O SEU INTERLOCUTOR OS DETALHES ESSENCIAIS DE UMA CONVERSA, ANTES QUE ELA CHEGUE AO FIM, VISANDO CONFIRMAR A INTENÇÃO DA MENSAGEM COMUNICADA?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

11. EM UMA CONVERSA INFORMAL, ENTRE AMIGOS, VOCÊ RESPEITA AS OPINIÕES CONTRÁRIAS ÀS SUAS?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

12. COSTUMA TORNAR-SE HOSTIL OU IRÔNICO QUANDO O PONTO DE VISTA DO SEU INTERLOCUTOR DIFERE DO SEU?

A.  sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

13. QUANDO EM GRUPO, COSTUMA ESCUTAR COM ATENÇÃO E INTERESSE O QUE AS OUTRAS PESSOAS TÊM A DIZER?

A. sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

14. VOCÊ CONSEGUE MANTER UMA CONVERSAÇÃO POLÊMICA SEM ENVEREDAR PARA O BATE-BOCA?

A. sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

15. VOCÊ EXPRESSA SUAS IDEIAS COM CLAREZA E OBJETIVIDADE?

A. sempre

B. quase sempre

C. raramente

D. nunca

RESULTADOS:

DE 12 A 15 RESPOSTAS MARCADAS COMO ”SEMPRE”

Que maravilha! Você é um empreendedor que sabe usar a comunicação como ferramenta para seus negócios. Muitas pessoas não veem importância em manter um canal de comunicação claro com seus colaboradores e com clientes, e isso é um ponto crítico para o empreendimento. Você está fora da curva, parabéns!

DE 7 A 11 RESPOSTAS MARCADAS COMO ”QUASE SEMPRE”

Você tem tudo para ter um empreendimento de sucesso. Mas, para isso, precisa ajustar alguns pontos na sua gestão. Percebeu que há ruídos com a comunicação do seu negócio? Seja assertivo e faça uma autoavaliação. Reveja onde você pode melhorar e quais ferramentas utilizar para isso.

A PARTIR DE 5 RESPOSTAS MARCADAS COMO ”RARAMENTE”

Opa! Vamos com calma. Você precisa rever sua estratégia de comunicação. Deve aprender a respeitar e ouvir mais os seus colaboradores e clientes. Caso você fique resistente a isso, pode ser que seu negócio não vá para frente. Mas fique tranquilo. Basta esforçar-se para mudar.

A PARTIR DE 3 RESPOSTAS COMO ”NUNCA”

Cuidado! Você pode estar entrando em um caminho sem volta. Já parou para pensar que você pode estar cometendo erros gravíssimos? Seu negócio pode estar correndo sérios riscos, pois seu empreendimento não vai fluir se não mantiver por perto um capital humano qualificado. E para isso é necessário abrir um canal de comunicação positivo com seus colaboradores, caso contrário, você ficará na mão. Logo vai ter prejuízos.

RECOMENDAÇÕES PARA SUA AUTOAVALIAÇÃO:

• Ao apurar suas respostas procure fazer uma reflexão sobre os pontos a serem melhorados em suas atitudes e comportamento.

•  Aprenda a permitir que os outros expressem seus pensamentos sem interrompê-los.

•  Saiba ouvir as “entrelinhas”, pois nem sempre o outro diz tudo só com palavras. A comunicação não verbal precisa ser considerada.

•  Dedique-se a desenvolver a sua capacidade de concentração no que o seu interlocutor fala.

•  Seja claro, objetivo e conciso em suas palavras para evitar a má compreensão ou a distorção da sua fala/ mensagem.

•  Não se exalte ou se irrite se as ideias do outro forem contrárias às suas convicções.

•  Aprenda a respeitar opiniões contrárias às suas, desenvolvendo flexibilidade para mudanças de ideias e desenvolvimento de novos pontos de vista.

•  Você poderá identificar seus pontos fracos utilizando-se deste questionário para melhorar a sua capacidade de comunicação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SUPER- HERÓIS X MEDO

Para superar seus medos, nada como enfrentá-los. Uma equipe israelense encontrou uma maneira original de fazer isso: assistir aos filmes do Homem-Aranha

Imagine um monstro repulsivo, caminhando em sua direção. E não importa se esse ser asqueroso é apenas uma inofensiva aranha ansiosa por não ser incomodada por humanos. Se você é uma das milhões de pessoas que se apavoram diante de um aracnídeo, é provável que tudo o que deseje nesse momento seja contar com ajuda para se salvar. Se for de um super-herói, melhor ainda. O pesquisador Yaakov Hoffman, da Universidade Bar-Ilan, em Israel, e seus colegas seguiram essa linha de raciocínio para sugerir um tratamento original para aracnofobia: assistir aos filmes do Homem-Aranha.

Em um experimento, os cientistas apresentaram trechos de um desses filmes para cem pessoas, com medo de aranhas em diferentes graus. Numa cena com duração de apenas sete segundos, os participantes do experimento viram o artrópode que daria seus poderes ao herói rastejando em sua teia. Os resultados foram promissores: enquanto estavam atentos ao filme, a intensidade do medo dos voluntários, medida por um questionário antes e depois da visualização, diminuiu em 20%. Já os integrantes do grupo de controle (também com fobia de aranha), que viram uma cena da natureza, não experimentaram nenhuma melhora.

Colocar a pessoa em contato com o objeto fóbico não é novidade. O benefício observado não resulta de uma diminuição geral do medo causado pela visualização em si, mas explica-se pela exposição ao estímulo temido. Segundo esse método para tratar tal tipo de fobia, inicialmente o paciente imagina uma aranha, em seguida olha detalhadamente uma fotografia do animal e, na sequência, observa a aranha ao vivo. O objetivo é, gradualmente, superar o próprio medo, pelo simples fato de confrontá-lo, até que se sinta à vontade para tocá-lo com a mão. Segundo os pesquisadores, porém, a eficiência seria aumentada dez vezes pelo contexto positivo associado às aranhas no filme.

Os resultados do experimento, no entanto, são preliminares. Os cientistas salientam que será necessário medir o quão sustentável é a melhoria. Mas, se esse método confirmar sua eficácia, pode ser um complemento de escolha para as terapias atuais, fornecendo uma maneira simples e divertida de expor os pacientes ao objeto de seu terror. O mais interessante é que o potencial do método não se limita às aranhas. Os pesquisadores também conseguiram reduzir o medo das formigas graças ao filme Ant-Man (Homem-Formiga).

Felizmente, a lista de super-heróis é quase tão grande e variada como a de fobias: Batman para atenuar medo de morcegos (chiropterafobia), Mulher-Gato para diminuir o desconforto diante de felinos (ailurofobia, também chamada de galeofobia), Aquaman para combater o medo de água do mar (talassofobia) e até Tartarugas Ninja contra a fobia de répteis ou coisas que se arrastam (herpetofobia). Há até personagem para atender quem sofre de ornitofobia, o medo de aves: Howard the Duck (nos cinemas do Brasil lançado como Howard, o Super-Herói), um pato acidentalmente transportado para a Terra.

EU ACHO …

SOCORRO, SENHAS!

Como sobreviver à avalanche delas no mundo on-line

Instagram, Facebook, WhatsApp, bancos, livrarias virtuais, moda on-line, eletrodomésticos… O uso da internet se tornou exponencial. Dá pra comprar, vender, realizar transações financeiras, se exibir, conhecer um grande amor etc, etc. Todos os sites e aplicativos do universo, porém, exigem senha. Quanto mais se usa, mais senhas. Meus neurônios lampejam. Não tenho cérebro para armazenar tantos dados… No início, anos-luz atrás, era só uma senha no banco… as primeiras na internet. Pediam para não botar data de nascimento, ou outras facilmente quebráveis. Eu tinha uma imbatível: o número de um telefone fixo antigo, que nunca me saiu da cabeça. Mas, um dia, o site exigiu letras maiúsculas e minúsculas. Criei nova senha, que me apressei em decorar.

As senhas seguintes se tornaram mais complexas. Avaliavam meu grau de dificuldade: mínimo! Entrou um aviso: eu deveria pedir uma nova a um gerador de senhas. Obediente, dei um enter. Veio: A2b3c5d7Elll3gl7hl9123. Tentei pronunciar, senti um sufoco, quase desmaiei de falta de ar. Como decorar uma senha que nem consigo falar? Tentei minhas próprias. Juntei novas letras e números, ai, ai, ai. Mesmo assim, houve quem me desvendasse. Recebi um e-mail com a senha de meu computador! O autor avisava que pretendia destruir minha vida, divulgando os meus nudes e cenas de sexo on-line. Pedia 50.000 dólares. Nem pisquei. Nunca mandei nudes, muito menos pratiquei sexo virtual. Mas mudei a senha.

Criei mais e mais outras, com mil artifícios! Nas avaliações, ganhei alto grau de dificuldade. Mas aí fui entrar num site que não via há muito tempo. Senha recusada. E outro, e outro. Não consegui fazer compras em certas lojas nunca mais. Meu PayPal inválido. Eu esquecera as senhas, não lembrava onde estavam salvas! Uma tragédia.

Em muitos casos, foi preciso uma atitude bem pouco virtual para resolver. Telefonemas. Súplicas! Ainda tem quem não me aceite! De fato, muitas das mensagens de segurança não entram no meu celular. Alguém me clonou, será? Quase enlouqueci. Por via das dúvidas, mudei o cartão de crédito.

Terrores são também certas transações bancárias ou em sites complexos. Há que ter uma senha, depois outra digital. Quando vou executar o procedimento, avisam que estão mandando um Token para meu celular. Pego às pressas, boto no site. Frequentemente o Token já expirou. Tento obter um novo antes de arranhar as paredes. Mas é difícil.

Finalmente, descobri a solução: arquivar as senhas em segurança total! Óbvio, mas nem tanto. Onde? Pensei em botar no celular. Mas, e se roubam? No computador? E se quebram o acesso? Ui, ui, ui. Tudo tem solução! Há uma maneira única, imbatível! Uma agenda de papel, como se usava há cinquenta anos. Anoto todas as senhas. Está bem guardadinha, não é suspeita – tem uma capa com uma inocente reprodução de Magritte. Só eu tenho acesso.

Não preciso lembrar de senha pra entrar. É só abrir. Não é digital, não é on-line, nem é moderna. Mas funciona.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A OUTRA PANDEMIA

Lentes já permitem frear o avanço da miopia em crianças de 8 a 12 anos, fase da vida em que começa a disfunção – e que a quarentena colada a eletrônicos ampliou

A miopia foi o problema de saúde de maior impacto entre as crianças ao longo do último ano, em decorrência da pandemia. O alerta veio de um novo estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology, a maior referência científica na área. A conclusão: a prevalência da doença aumentou até três vezes em meninas e meninos de 6 a 8 anos em 2020, em comparação ao perío do de 2015 a 2019. Dois hábitos extremamente nocivos aos olhos, típicos da vida moderna, foram agravados com o confinamento doméstico – a exposição insuficiente à luz natural, sem horizonte à vista, e a leitura de perto, de muito perto, resultado do uso exagerado de smartphones, tablets e computadores.

Não há cura para a disfunção, mas há excelentes novidades, sobretudo para a faixa etária em que a miopia é deflagrada, entre 8 e 12 anos. Duas lentes de contato recentemente lançadas, das marcas Johnson & Johnson e CooperVision (esta já aprovada no Brasil), conseguiram, de modo inédito, desacelerar a progressão da visão turvada. As próteses de material sintético agem no controle da esclera, a parte branca (no olho míope ela é maior que o normal), e nas alterações na curvatura da córnea, a porção que envia a luz para a retina, justamente onde se forma a imagem. O uso desse tipo de lente, indicam as pesquisas, pode reduzirem média 60% o aumento do grau. Para funcionar, as lentes da CooperVision, por exemplo, precisam ser usadas seis vezes por semana, durante o dia, por pelo menos dez horas seguidas, até que a doença se estabilize. O custo é de 500 reais por mês. A miopia é retrato do nosso tempo, atualíssima. Hoje, em todo o mundo, cerca de 30% da população, o equivalente a 2,5 bilhões de pessoas, sofre dela. Em 2050 serão quase 50%, ou 5 bilhões de indivíduos que passarão a ver o mundo por meio de óculos. Destes, 1 bilhão apresentarão a forma grave, com graus avançados. O problema ocorre quando a luz que entra no olho não é focalizada no local correto, o que faz com que objetos distantes sejam visualizados de maneira embaçada. Há aceleração na infância porque nessa fase de crescimento a presença da luz é ainda mais essencial ao órgão. É na primeira década de vida que a curvatura e o comprimento do olho se desenvolvem de modo a pôr o foco no ponto correto.

A luz solar estimula o enrijecimento da esclera, o arcabouço do olho – nos míopes, a esclera é mais elástica que o normal, o que provoca uma modificação no formato do órgão. Demasiadamente ovalado, ele fica afeito ao foco em um ponto inadequado.

O uso constante de smartphones, insista-se, contribui para o desenvolvimento da miopia porque, durante a visualização próxima, seja na leitura de um livro, seja no uso de dispositivos eletrônicos, a lente do olho ganha volume para além do natural. A pressão ocular aumenta, empurrando a esclera, o que faz com que o foco das imagens não atinja a retina. Na China, país com a maior proporção de míopes no mundo, as evidências do cotidiano na visão dos jovens são cada vez mais conclusivas. Lá, nove entre dez crianças são diagnosticadas com miopia. Os chineses são extremamente pressionados a ter sucesso na escola – o que os deixa horas a fio sobre os livros. Eles gastam quinze horas por semana nas lições de casa, muito mais que a média mundial. No Brasil esse tempo é de cerca de três horas.

No século XIX a miopia praticamente só existia entre pessoas de classes mais altas e instruídas, as que permaneciam por mais tempo com os olhos sobre os livros. “Na Dinamarca daquela época a incidência do problema entre operários não especializados, marinheiros e agricultores era de menos de 3%, mas de 12% entre artesãos e 32% entre estudantes universitários”, diz Daniel Lieberman, autor do livro A História do Corpo Humano. Lieberman ainda argumenta que, como os genes não mudaram muito nas últimas centenas de anos, a expansão da miopia é resultado de mudanças ambientais. A boa notícia: é possível, portanto, frear o avanço da doença com uma simples mudança de hábitos. “As crianças devem ficar mais tempo ao ar livre, agora com todo o cuidado imposto pelo novo coronavírus”, recomenda o oftalmologista Paulo Schor, professor da Escola Paulista de Medicina. Sábio conselho.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE JUNHO

FILHOS, OBEDEÇAM A SEUS PAIS

O insensato despreza a instrução de seu pai, mas o que atende à repreensão consegue a prudência (Provérbios 15.5).

O conflito de gerações está cada vez maior. Muitos pais perderam o controle sobre seus filhos, e estes já não respeitam mais seus pais. O lar tornou-se uma arena de disputas e brigas, ou um cenário de silêncio e indiferença. Hoje, muitos pais abandonaram a trincheira da educação dos filhos e terceirizaram essa nobilíssima tarefa à escola ou à televisão. Cada vez mais os valores absolutos que devem reger a família e a sociedade estão sendo escarnecidos. Promove-se a imoralidade. Faz- se apologia do vício. Nesse cenário cinzento de relativismo e degradação, muitos filhos desprezam a instrução do pai e sacodem de sobre si todo jugo de disciplina. Isso é consumada insensatez. É colocar o pé na estrada escorregadia do fracasso. É lavrar sua própria sentença de morte. O filho sábio é aquele que escuta e obedece a seus pais. É aquele que atende à repreensão e aceita humildemente a disciplina. Esse consegue a prudência e vive de forma feliz. Nestes dias em que a família está sendo tão impiedosamente atacada, é preciso erguer a voz para dizer que o caminho da vida não é a rebeldia, mas a obediência.

GESTÃO E CARREIRA

O BOOM DAS HAMBURGUERIAS

Com ou sem crise, o ramo das hamburguerias só cresce. Das versões gourmet servidas com talheres àquelas em que se come com as mãos, comer um bom hambúrguer é sempre ótima opção. Mas como sair na frente nesse ramo? Respondemos a seis dúvidas para quem quer abrir seu negócio com tudo!

Bateu aquela fome na última hora, que tal ir de hambúrguer? Ele é saboroso, versátil, prático e nunca sai de moda. Prova disso é que o negócio das hamburguerias está em franco crescimento e promete sempre mais. Hoje, os burgers já não são mais tão caros como na época em que as versões gourmet estavam em alta. Houve também um resgate da tradição de comer um bom burger usando as mãos e não mais com pratos e talhe­ res. O fato é que a qualidade dos lanches permanece, mas há sempre espaço para criatividade e diversidade de sabores.

Para ter uma ideia de como anda o ramo, a cidade de São Paulo pode, sem sombra de dúvida, ser considerada a capital do hambúrguer no Brasil. De acordo com dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei), concentram-se cerca de 350 hamburguerias apenas na capital paulista. O desenvolvimento desse mercado se deu de maneira mais forte nos últimos seis anos. Em 2015, quando o conceito de “hambúrguer gourmet” viveu seu ápice, o crescimento do setor foi de 500%.

Se avaliarmos sob a ótica do franchising, em 2017, as redes de hamburguerias que expandem pelo sistema, juntas, faturaram cerca de R$700 milhões. Os resultados mostram que elas ocupam a terceira colocação entre os preferidos da população, tendo sido escolhidas por 10,38% dos participantes do estudo.

O sócio-diretor e consultor da Prosphera Educação Corporativa, Haroldo Eiji Matsumoto, explica que houve uma explosão de novos negócios voltados para o setor nos últimos cinco anos. “Embora o segmento seja antigo, talvez a novidade tenha sido as hamburguerias fora do circuito das grandes franquias de fast-food focado no segmento gourmet ou artesanal. O valor do hambúrguer, inicialmente maior que as redes de fast-food, foi ao longo dos anos diminuindo e se ajustando ao orçamento mais enxuto dos clientes”, lembra.

Matsumoto ressalta que quem deseja investir na área precisa ter em mente que o mercado é extremamente competitivo – e ter a marca própria é uma grande luta do empreendedor em face das grandes marcas. “Diante desse contexto, o empreendedor deste segmento deve estar atento à gestão desde a qualidade e o sabor, passando por bom atendimento e fortalecimento da marca para atrair novos clientes”, reforça.

Assim como em outros setores, deve-se focar diferenciais e a criação de uma proposta que conquiste a clientela. Somente assim é possível se destacar entre as centenas de estabelecimentos, sejam eles já consolidados ou abertos recentemente. Para ajudar quem deseja entrar no setor, responderemos às seis dúvidas que mais preocupam os empreendedores do ramo. Confira!

1. O QUE VOCÊ PRECISA TER PARA MONTAR UMA HAMBURGUERIA?

Como em grande parte dos ramos da economia, há modelos de negócios que vão dos simples aos mais complexos. É possível começar em espaços pequenos, sem um ponto comercial movimentado e optar pelo delivery, ou investir pesado e caprichar no ponto comercial, da arquitetura à decoração, apostar na tecnologia e em um cardápio sofisticado. A princípio, toda hamburgueria precisa de uma cozinha composta da parte de higienização, pré-preparo, fogão industrial para cozimento, grelhas e fritadeiras, local para armazenamento de embalagem (no caso de delivery) ou para o preparo e finalização do prato. “O sistema de exaustão deve ser implantando por empresas especializadas, principalmente se for atuar com salão, onde os clientes consomem no mesmo local. Seria péssimo o ambiente com cheiro de fumaça”, exemplifica Matsumoto.

2. COMO MONTAR UMA HAMBURGUERIA?

O plano de negócio é muito importante. Uma das ferramentas recomendadas é o Canvas Model, de Alex Osteiwalder, em que o empreendedor poderá tirar a ideia da cabeça, explorar o conceito e desenvolver o negócio, considerando pessoas, recursos, estrutura e serviços envolvidos na entrega do valor final – neste caso, o hambúrguer. Sobre infraestrutura, por exemplo, deve-se levar em conta a criação de uma cozinha, balcão de atendimento, salão, delivery; quanto à mão de obra necessária, o básico é composto por cozinheiro, balconista, auxiliar de limpeza e, se houver salão, garçom. O dono, no início, faz a parte administrativa de compras, recebimentos e gestão do estoque e departamento pessoal. “No começo, deve-se reduzir ao máximo o custo fixo do negócio que é, principalmente, mão de obra, aluguel, internet, água, luz e serviços terceirizados, como contador e sistema de gestão para restaurantes. Conforme o negócio atinge o ponto de equilíbrio, momento em que as receitas pagam todas as despesas, pode-se começar a projetar o crescimento e, com ele, a melhoria da operação. Nesse caso, com o aumento da receita, o serviço pode ter mais pessoas para não atrasar o atendimento nem perder a qualidade”, indica Matsumoto. O especialista dá uma dica importante para os empreendedores de primeira viagem: “não utilize todo o capital na estrutura e inauguração, esquecendo o capital de giro, dinheiro para cobrir as despesas dentro de um ciclo entre venda, pagamento das despesas e recebimento, lembrando que normalmente no primeiro ano o empreendedor não tem lucro e, por isso, tem que ter uma reserva para suprir suas necessidades pessoais até que o negócio comece a dar lucro”.

3. É POSSÍVEL MONTAR UMA HAMBURGUERIA COM POUCO DINHEIRO?

“Sim! Conhecemos histórias de empreendedores que começaram na cozinha de casa oferecendo aos amigos e parentes”, lembra Matsumoto. “Claro que o recomendável é ter todas as licenças de manuseio de alimento, alvarás de funcionamento e atender a toda a legislação necessária, mas o que quero afirmar é que tendo uma boa ideia e força de vontade, é possível começar qualquer negócio”, emenda.

4. QUANTO DE INVESTIMENTO É NECESSÁRIO PARA MONTAR UMA HAMBURGUERIA?

São muitos fatores que influenciam essa soma, desde a reforma ou construção do ponto do restaurante até os equipamentos de cozinha, licenças, material de divulgação e os primeiros meses de operação. Porém, grosso modo, é possível abrir um estabelecimento no ramo com investimento inicial de R$60 mil.

5. QUANTO É POSSÍVEL LUCRAR COM UMA HAMBURGUERIA?

O sócio-diretor e consultor da Prosphera Educação Corporativa conta que, a partir da experiência de restaurantes que atendeu, chamado segmento de Alimentação Fora do Lar (AFL), há uma variação de 12 % a 18% de lucro líquido. “Na prática, uma hamburgueria que tem o ticket médio de R$42,00 e atende cerca de 1.900 clientes por mês tem o faturamento bruto de R$79.800,00 e lucro líquido de 12%, o que equivale a R$9.576,00 por mês” explica Matsumoto.

6. COMO TER UMA HAMBURGUERIA E SE DIFERENCIAR DA CONCORRÊNCIA?

Compreenda o tipo de cliente que pretende atrair para sua hamburgueria. Será um cliente que prefere um bom hambúrguer tradicional? Prefere sabores e combinações inusitadas? É um público vegano (já tem os hambúrguer de soja)? É feito para jovens se divertirem ou famílias que comemoram datas especiais? Tem uma história por trás da cozinha e essa história tem poder de atrair clientes? Os ingredientes que você usa têm algo a ver com seus valores? O local é decorado para certo tipo de cliente? São muitas as possibilidades – e todas elas dependem muito da inovação e criatividade do empreendedor.

HAMBÚRGUERES SOBRE RODAS

Uma das hamburguerias que vêm se destacando no cenário paulistano é o Busger. O primeiro diferencial da marca é ter suas cozinhas instaladas em ônibus antigos, em modelos tipicamente norte-americanos ou londrinos, daqueles que só se vê em filmes. Para criar uma experiência diferente, pautada pelo fast casual, a marca criou um ambiente em torno dos ônibus, com espaço coberto, mesas e cadeiras, aquecedores ligados em dias frios e ombrelones abertos nos dias quentes, a fim de proteger os clientes do sol. Além disso, há iluminação de led por todo o espaço, música ambiente baseada no rock dos anos 1950 até 1980 e televisores de 60 polegadas. O objetivo é proporcionar uma experiência que fique exatamente entre o conceito de comida de rua e a dinâmica das lanchonetes tradicionais, com uma pegada mais despojada.

O negócio, concebido pelos sócios Rodrigo Arjonas e Luciano Oberle, vem dando bons resultados. Criado em meados de 2014, o Busger, que tem um menu com 13 opções de hambúrgueres, incluindo duas receitas vegetarianas, petiscos deliciosos e uma variedade interessante de rótulos de cervejas e chopes, vem crescendo de maneira sólida. “Nosso objetivo era criar uma hamburgueria para ocupar o espaço que existia entre os food trucks e as lanchonetes tradicionais, com cardápio composto apenas por produtos de qualidade, conforto para os clientes usufruírem de uma experiência diferente e um ambiente que fosse ao mesmo tempo moderno e acolhedor”, conta Rodrigo Arjonas, sócio- fundador do Busger.

Arjonas conta que já pensava, há alguns anos, em empreender na área de gastronomia. Buscava um ramo que trouxesse, além de retorno financeiro, satisfação pessoal. O sócio, Luciano Oberle, tinha o mesmo pensamento. “Na época, surgiu uma oportunidade de comprar um ônibus antigo. Junto com a oportunidade, veio a ideia, levei o projeto até ele e, durante um almoço de uma hora, fechamos a sociedade. Tínhamos um feeling de que o futuro do negócio próprio estava naquela máquina com 12,5 metros de comprimento”, conta.

No começo os sócios criaram o projeto do negócio e fizeram uma grande reforma no ônibus para deixá-lo com a imagem do conceito planejado. Em paralelo, desenvolveram as receitas dos lanches, dos acompanhamentos, das sobremesas, entre outros itens, tudo com o apoio de nutricionistas. “Na sequência, desenhamos ideias de parcerias com empresas de bebidas e, então, partimos, em junho de 2015, para o teste do negócio em eventos. A estreia aconteceu no interior de São Paulo e a aceitação foi incrível”, relata Arjonas.

O investimento na primeira unidade foi de R$500 mil. “Aderimos ao sistema de franquias para expandir. Nossos franqueados investem entre R$500 mil e R$550 mil para abrir uma unidade Busger. O lucro é de mais ou menos 15% do faturamento bruto mensal, que pode chegar a R$300 mil por mês”, afirma o sócio.

“Acho que não existe um segredo, mas a combinação de alguns fatores, como qualidade, localização, ter um diferencial. Nós procuramos empregar qualidade em absolutamente tudo: dos ingredientes à composição de cardápio, passando pelo atendimento, limpeza etc. Também procuramos estar em locais com boa circulação de pessoas e formamos uma identidade visual muito interessante. Os ônibus chamam a atenção das pessoas, assim como o ambiente e a atmosfera que criamos nas unidades”, lembra.

ARTESANAIS EM UM FOOD TRUCK

Ao chegar de uma viagem a Nova York, o chef Deco Sadigursky pensou em montar um negócio e resolveu explorar as possibilidades. Depois de algumas pesquisas, chegou ao modelo de burgers artesanais em um food truck. O sucesso foi estrondoso.

Sadigursky pegou emprestada uma ambulância velha do seu tio, reformou e abriu o primeiro food truck. O alcance do público na região foi tão grande que viram uma oportunidade de negócio e investiram em um espaço para a hamburgueria.

Com o sócio, Maurício Coutinho, que conhecera o modelo de fast casual nos Estados Unidos, lançou a primeira flagship store (loja física) em Maceió, Alagoas. Em 2017, os sócios escolheram o mercado de Brasília para testar a marca, onde o sucesso foi tão grande que mais duas lojas na cidade foram abertas no mesmo ano. Ainda em 2017, abriram oportunidades para franqueados. “Mesmo com muitas hamburguerias no mercado, não tivemos dificuldade, pois investimos forte em nossa comunicação e entrega de um produto de alta qualidade ao consumidor”, conta Maurício Coutinho, CEO da The Black Beef.

“Nosso diferencial é não ter segredos! Trabalhamos com matéria-prima de alta qualidade e fornecedores com os melhores produtos do mercado.

Ou seja, não acreditamos em ingredientes secretos, na The Black Beef queremos que nossos clientes saibam o que estão consumindo e, assim, sintam o sabor dos ingredientes”, finaliza o sócio da rede.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ROER UNHAS EM BUSCA DA PERFEIÇÃO

Os hábitos repetitivos focados no corpo podem ser compreendidos como uma forma de tentar aliviar o tédio, a irritação e a insatisfação consigo mesmo

O senso comum atribui o hábito de roer unhas à ansiedade, mas novos estudos sugerem outra causa para esse comportamento: o perfeccionismo. Em um deles, publicado no Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, pesquisadores analisaram a habilidade de controlar as emoções e comportamentos relacionados com a organização de 48 voluntários, metade deles com algum comportamento repetitivo focado no corpo, como roer unhas, arrancar os cabelos ou cutucar a pele. Estes marcaram, em comparação ao grupo de controle (sem nenhum desses hábitos), maior pontuação na escala que media perfeccionismo. Além disso, demonstraram inclinação a se sobrecarregar e a se sentir rapidamente frustrados com poucas atividades. Os hábitos repetitivos, sugerem os autores, seriam uma forma de tentar aliviar o tédio, a irritação e a insatisfação. Os mesmos voluntários foram expostos a situações elaboradas para provocar quatro diferentes emoções: estresse (os cientistas mostraram um filme de um acidente de avião); tranquilidade (documentário sobre ondas do mar); frustração (os pesquisadores apresentaram um quebra-cabeça com alto grau de complexidade, dizendo que seria fácil montá-lo); e tédio (participantes foram deixados sozinhos em uma sala). O primeiro grupo demonstrou comportamentos focados no corpo em todas as situações, exceto durante o filme relaxante.

Pesquisas anteriores sugerem que o hábito de morder e coçar, de fato, pode favorecer a sensação de bem-estar, mas somente temporariamente – o que talvez satisfaça a vontade do perfeccionista de fazer algo. Depois do alívio inicial, porém, essas pessoas costumam sentir dor, vergonha e constrangimento.Alguns estudos demonstram que esse tipo de crença e comportamento pode ser amenizado com a terapia cognitivo-comportamental. Aprender a agir e pensar de forma diferente quando a tensão aumenta pode permitir interromper o impulso

EU ACHO …

CIÚME DO INSTAGRAM

Acredite: a plataforma de fotos se transformou no novo Tinder

Descobri o Tinder há anos. Inicialmente, pensava ser um aplicativo para encontros, que só atraía gente ousada. Em resumo: pares desejosos de ir aos finalmentes o mais rápido possível. Sem necessidade de falar de amor, e outros detalhes que tomam tempo de quem só quer sexo. Estava enganado. O Tinder é para todas as idades, gostos. Eu me surpreendi quando, em uma reunião de pesquisa entre mulheres de classe média, ouvi: “É melhor encontrar alguém pela internet. Dá pra conversar, conhecer melhor, antes de nos vermos pessoalmente”. Mais ainda: na entrega de um prêmio, uma das vencedoras, em cenário e design, elogiou: “Agradeço ao Tinder.

Eu não me interessava por desenho, mas aí conheci um cara… O relacionamento não durou, mas através dele descobri…”. Juro, eu estava lá. Testemunhei. Outros aplicativos surgiram. Sei de um somente para quem quer “esperar” para depois do casamento. Gente, até virgens (de ambos os sexos) buscam alguém pela internet!

Tudo evolui. Ávidas por relacionamentos, amor ou pegação, as pessoas transformaram o Instagram no novo Tinder! Claro que alguém pode passar a vida postando fotos de culinária. Eu gosto muito de falar de livros, por exemplo. Mas não estouro nas curtidas. Um amigo postou uma foto pelado. Ganhou 150.000 likes. Milhares de seguidores, só naquele dia.

Recebo muitas mensagens pelo direct. Outro dia, uma garota bonita mandou ver: “Topo tudo”. Nem perguntou o signo! Mas, também, o relacionamento pode evoluir como um namoro do século passado – só muda a plataforma. Muita conversa, depois o convite para um café…

Há todo um ritual. Gostou da foto? Você pode começar a seguir. Muitas vezes é o suficiente, a outra parte já puxa conversa. Caso contrário, a saída é curtir os posts. Fazer comentários. Óbvio, seguir. Os suaves falam de beleza e simpatia. Os atrevidos já vão direto ao ponto. Uma mensagem no privado, tipo “quero te conhecer”, muitas vezes é suficiente. Não confunda: há também profissionais, de ambos os sexos. Abrem o jogo rapidamente. Fotos muito insinuantes, ou quase explícitas, já dizem do que se trata. (Embora o app tenha uma política severa de restrição a essas fotos.) Há também quem se apresente com fotos alheias. É desonesto. Mas às vezes rola. Uma conhecida de 30 anos falava com um cara de 32, alto e atlético. Mais tarde ele disse que era um pouco mais velho. Quando se conheceram pessoalmente, viu que tinha 55, era baixinho e calvo. Seguramente, ótimo de conversa. Ela se apaixonou. Casou. Ótimo de papo, realmente. Não trabalhava. Foi um longo e tormentoso relacionamento. Mas o Instagram, diretamente, não tem nada a ver com isso.

Essa rede se tornou uma porta para alguém entrar em sua vida. Isso é lindo. Mas o mesmo vale para seu parceiro ou parceira. Estão juntos, vendo um filme, um reality? Ela olha para o celular e sorri. Você acha que está falando com uma amiga. Na real, pode estar marcando um encontro.

Prepare-se. Você ainda vai ter ciúme do Instagram. Se é que já não tem.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

HERÓIS SEM CAPA

Eles não vestem branco, mas estão na linha de frente do combate à Covid. As histórias de profissionais que atuam indiretamente ajudando a salvar vidas em hospitais e unidades de saúde

São 5 horas da manhã, e Jorge Sebastião de Aquino Muniz está a caminho do ponto de ônibus. Carrega na mochila o uniforme do Hospital Badim, no Rio de Janeiro, onde trabalha há dez anos como maqueiro. Ainda está escuro quando ele sobe no 455, linha que liga Copacabana ao Méier, na Zona Norte da cidade. Na ida, o ônibus tem menos de 20 passageiros, quase todos de máscara. “O problema é a volta. Aí a condução fica lotada, e muita gente não usa máscara. Sorte que meu trajeto é curtinho”, disse.

São 20 minutos de casa, no Méier, até o hospital. Quando chega, ele passa primeiro num prédio administrativo, vizinho à sede, para vestir o uniforme, e segue para a entrada dos funcionários. Em fila, outros maqueiros, técnicos de enfermagem, auxiliares, seguranças, recepcionistas e faxineiros vão batendo o ponto enquanto o dia começa a clarear. Jorge Muniz então se posiciona na entrada da emergência para começar o expediente. De lá, receberá os chamados para mover pacientes entre as alas do hospital. Assim ele define seu ofício: “Ser maqueiro é saber lidar com as pessoas, ser solícito, educado e pegar peso. Não tem mistério. É mão de obra pesada e gentileza”.

Aos 44 anos, Muniz nasceu e cresceu em Vila Valqueire, Zona Oeste do Rio. O pai era mecânico, a mãe, dona de casa. Seu primeiro emprego foi ainda criança, aos 9 anos, como ajudante de borracheiro. Depois, adolescente, trabalhou em barraca de feira e, mais tarde, como recepcionista de hospital. Quando perdeu esse emprego, preparou o currículo para levar ao Hospital Badim. Soube que lá só havia vaga para maqueiro. Apresentou-se mesmo assim e ganhou o posto, em 2010. Nos últimos anos, passou a cursar enfermagem. “É com estudo que se sobe um degrau”, disse.

Desde o início da pandemia, as chamadas pelo rádio aumentaram, e ele torce para que a equipe o esteja convocando para mover um paciente de Covid-19 que recebeu alta. Nesses casos, divide com médicos e enfermeiros os agradecimentos pela recuperação. Mas há também os momentos em que lhe pedem para buscar a “outra maca”: “É um modelo especial, com uma tampa que encaixa para ninguém ver o que tem dentro. Só abro no subsolo, para o familiar reconhecer o corpo. É o pior momento da vida de uma pessoa, e eu, um maqueiro, estou lá”.

Não há dados precisos sobre o número de maqueiros em atuação no país. Tampouco se sabe quantos são os que trabalham na cozinha, na segurança, na recepção ou na lavanderia dos hospitais. São como heróis invisíveis que ajudam a sustentar o sistema de saúde na maior crise sanitária das últimas décadas e, no entanto, não são reconhecidos com o título de “profissionais da saúde”. Muitos estão longe dos grupos prioritários de vacinação. Num cruzamento de informações de diversas fontes, como o Ministério da Saúde, os conselhos de classe e as secretarias de Saúde pelo país, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estima que existam mais de 2 milhões de profissionais de nível técnico, auxiliar e de apoio, dos quais cerca de 1,5 milhão estão na linha de frente do enfrentamento à pandemia.

Para a socióloga Maria Helena Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), eles “são invisíveis aos olhos da sociedade, da própria equipe, das estatísticas, da imprensa e da academia”. Ela completa: “Émuita invisibilidade. Precisamos conhecer a realidade deles e torná-los visíveis, saber quem são, o que fazem, como estão suas condições de trabalho e de saúde mental em tempos de pandemia”.

Machado é coordenadora de uma pesquisa que começou em janeiro deste ano e que tenta justamente quantificar e traçar um perfil desses trabalhadores, dos maqueiros e técnicos de raio-X aos motoristas de ambulância e equipes de limpeza e lavanderia das unidades de saúde. Os profissionais foram convidados a responder um questionário on-line, que estava disponível no site da ENSP/Fiocruz (ensp.fiocruz.br) até maio.

Muitos desses trabalhadores, lembrou ela, nem sequer têm uma entidade de classe, como os funcionários das cozinhas dos hospitais, o que os torna ainda mais imperceptíveis para a sociedade. A origem dessa invisibilidade, porém, é anterior à representação de classe. “É discriminação”, resumiu a socióloga. “A raiz histórica dessa invisibilidade é social. O extrato social do qual advêm esses trabalhadores é mais baixo. São pessoas que moram em lugares de difícil acesso, que têm salários muito baixos e um padrão de escolaridade baixo. Infelizmente, os ‘visíveis’ neste país são aqueles que têm um contrato social mais elevado, ou seja, os médicos, os que têm formação de nível superior. É um equívoco isso. Os técnicos, os auxiliares, os trabalhadores da limpeza e da cozinha têm um papel crucial na estrutura do sistema e dedicam a vida inteira a trabalhar nas instituições de saúde”, completou Maria Helena Machado.

O piloto de avião Thiago Aparecido Alexandre, de 36 anos, já trabalhava para uma empresa que transporta pacientes entre hospitais no país. Se em março do ano passado voou 35 horas, no início deste ano chegou a fazer 90 horas de voo num mês. O pico foi em janeiro, com a crise de Manaus. “Vários pacientes saíam de lá para outros estados”, contou. “O que acontecia antes da pandemia era transportar pacientes do interior para a capital. Agora é de capital para capital. Por exemplo, de Manaus, levei muito paciente para São Paulo.” Formado em ciências aeronáuticas, o paranaense começou a transportar pessoas doentes em jatos e aviões turboélices em 2010. Certa feita, viu um homem levar 35 choques para ser reanimado em pleno voo e precisou mudar o destino final para que o paciente fosse salvo a tempo. Na pandemia, disse, é diferente. Além de pilotar paramentado, vestido com um macacão que cobre da cabeça aos pés, ele contou que o passageiro só pode ser transportado quando estabilizado. “Com paciente de Covid, a gente vive momentos tensos antes de embarcar. Se o estado dele fica instável, ele não pode voar. Já aconteceu de irmos buscar alguém, e ele já não estar mais lá.”

Dos 67 anos de sua vida, Cecília Fernandes passou 37 na cozinha do Hospital São Paulo. Era 1984, e ela fez uma prova para ser admitida. Trabalhou cerca de 15 anos no fogão e, depois, passou para a equipe do preparo. “Fogão cansa muito, precisa revezar”, ela explicou. Desde então, sua função inclui seis horas ininterruptas lavando e cortando legumes, das 6 horas da manhã, quando chega ao hospital, até por volta do meio-dia. Só pode parar para almoçar quando já estão arrumadas as marmitas na esteira, para que as copeiras as distribuam aos pacientes internados no hospital.

Depois do almoço, ela faz tudo igual. Lava e corta legumes que serão usados para o preparo do jantar. Também se dedica ao lanche da tarde dos pacientes. “A gente corta e passa manteiga em mais de 500 pães. Depois, tem de ensacar e colocar na esteira para as copeiras levarem. Na pandemia, dobrou o trabalho, porque tem muita gente internada, não é? Tem dia que a mão fica cansada, mas a gente acostuma.”

Dos 200 colegas que com ela fazem o trabalho na cozinha, Cecilia Fernandes estima que 50 foram contaminados na pandemia. Ela própria ficou internada por 20 dias na UTI do hospital, em janeiro. “Fui tratada como uma autoridade”, disse, rindo. “Aqui todo mundo me conhece. Vi muitos dos médicos entrarem aqui como alunos e agora são formados. Na UTI, eles deixam a gente ficar com celular, porque é muita solidão, mas eles mesmos não me deixavam sozinha. Ia sempre alguém me ver.”

A cozinheira contou que costuma conversar com as meninas do preparo de alimentos sobre o fato de serem pouco ou quase nunca lembradas quando ouvem falar sobre o cansaço e os problemas dos profissionais na linha de frente da pandemia. “A gente não aparece, mas é linha de frente também. Se não tiver nutrição, lavanderia e limpeza, não tem hospital. Ontem mesmo enquanto a gente cortava os legumes, as meninas diziam: ‘Nem falam da gente, esquecem que existimos’. Queremos ser reconhecidas.”

Na linha de frente e talvez ainda mais invisíveis, há trabalhadores como a costureira baiana Maria Nazaré Carqueija Pereira Lima, funcionária do Hospital São Rafael, em Salvador, uma das unidades de referência no Nordeste. Aos 56 anos, Naza, como é conhecida, chegou a fazer o molde de capas para serem usadas em casos de óbitos no ano passado, quando o hospital se preparava para enfrentar a pandemia. “Graças a Deus, só fiz o molde, não precisei costurar. Foram poucas mortes aqui”, disse a costureira, responsável por coser lençóis, fronhas, aventais e capas de equipamentos para o Hospital São Rafael desde 2013. Durante a pandemia, ela viu o marido ser dispensado do trabalho e, para salvar o orçamento da casa e a saúde mental da família, passou a costurar máscaras de tecido quando retornava do hospital. “Chegava todo dia, tirava a roupa lá fora, tomava banho e já tinha café pronto para começar a costurar de novo. Meu marido comprava o tecido, revirava a máscara para colocar o elástico. Fui designando funções, e ele passou a sorrir, a se sentir seguro de novo.”

De família “paupérrima”, como ela mesma define, Naza começou a trabalhar em casa de família aos 9 anos de idade. Ficou até os 15, quando foi dispensada pela patroa. Nesse tempo, não foi à escola, não aprendeu a ler, não fez amigos e via a família uma vez por ano, no Natal ou no São João. “Quando saí, eu vi que minha irmã mais nova sabia ler, e eu não. Fiquei muito triste. Queria ler a Bíblia”, contou. Começou a trabalhar numa confecção abrindo bolsos de paletó e, nos horários de almoço, se aventurava às escondidas nas máquinas de costura para aprender os pontos sozinha. Foi flagrada pela patroa, que, a partir daquele dia, deixou que a garota treinasse no período da tarde.

Aprendeu a costurar, trabalhou em confecções até ser chamada para uma vaga em hospital. Quando, no ano passado, a direção do São Rafael lhe pediu que pensasse em capas para óbito, contou que achou “assustador”. “Estou acostumada a fazer roupa para quem está vivo. Aquele pedido me impactou muito”, disse. Depois, costurou aventais para a UTI, botas e elmos, “aquela peça que cobre das costas até a cabeça, como um capuz de filme”.

No mesmo hospital, a engenheira eletricista Litza Melo Gusmão da Silva, de 46 anos, conhecida entre os colegas pela habilidade de resolver qualquer tipo de problema, foi convocada a pensar numa solução para o armazenamento das máscaras N95. “No início da pandemia, estávamos com medo de faltar EPI, e havia uma diretriz que permitia a reutilização das máscaras por 15 dias. Mas como armazenar as máscaras de 2 mil funcionários com segurança, sem deformar, sem contaminar? Todas as lojas de Salvador estavam fechadas. Então, fui para o supermercado e comecei a testar a máscara nos potes, para ver se cabia sem deformar. Deu certo”, conta. Para que as máscaras pudessem “respirar”, a engenheira fez furos nos potes e, para evitar trocas, gravou o nome de cada funcionário nos recipientes.

Contratada do hospital desde 2010, Litza Gusmão não tem um cargo que a defina. Começou na área de educação, mas é hoje uma espécie de faz-tudo. No início da pandemia, montou 300 face shlelds e identificou cada um com o nome da ala à qual o material pertencia. Customizou com super-heróis e personagens aqueles que seriam usados nas áreas com crianças, “para dar uma alegria”. Também criou todas as placas de sinalização para indicar os caminhos aos voluntários da pesquisa da vacina de Oxford, que teve no hospital um de seus centros de testagem. “Em março do ano passado, quando começou a pandemia, eu pensei: Não tem outro lugar do mundo onde eu queria estar. Não sou médica nem enfermeira, mas sou útil com as minhas habilidades”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE JUNHO

A TERAPIA DA COMUNICAÇÃO

A língua serena é árvore de vida, mas a perversa quebranta o espírito (Provérbios 15.4).

A língua é um pequeno órgão do corpo que, tal qual o leme de um navio, o governa. Quem domina a sua língua domina todo o seu corpo. A língua pode ser como bálsamo que alivia ou como vinagre na ferida. A língua pode ser remédio que cura ou veneno que mata. Pode ser uma fonte de refrigério ou um fogo que se espalha. Pode ser árvore de vida ou tormento de morte. A língua serena é árvore de vida: alimenta, instrui e conduz pelos caminhos da vida abundante. A língua serena é a terapia da alma, um refrigério para o coração. Sempre que uma pessoa ferida se aproximava de Jesus com o coração quebrantado, saía com esperança para viver a vida com entusiasmo. As palavras de Jesus ainda curam, restauram e refazem a vida. Suas palavras são espírito e vida. São palavras de vida eterna. Suas ovelhas ouvem sua voz e o seguem rumo à glória celeste. No entanto, a palavra perversa, que doutrina para o mal, que desvia as pessoas das sendas da justiça, que atormenta e machuca, leva à escravidão e à morte. Muitos filhos carregam uma alma ferida porque desde a infância foram insultados com palavras insensatas por parte dos pais. Muitos indivíduos nunca superaram seu passado de dor porque foram quebrantados pela língua perversa.

GESTÃO E CARREIRA

COMO LIDAR COM AS QUEDAS NA CARREIRA?

”Acredito que os erros cometidos e os tombos que levamos validam os momentos de vitória, por isso é importante que os vivenciemos. E por que não os valorizamos?”

Quem nunca teve uma queda na vida pessoal e profissional? Errar faz parte da vida profissional de qualquer pessoa, mas por que não falamos abertamente sobre as crises, quedas e erros na empresa? Parece que é assunto proibido nas organizações. Em um mundo de aparências e acirrada competição, reconhecer uma queda é sinal de que perdeu o jogo no trabalho e, por isso, torna-se proibido falar sobre a questão.

Acontece que vivemos por ciclos e é impossível acertar todas as vezes. Ninguém gosta de errar ou sofrer uma queda no trabalho, mas lhe digo com absoluta certeza: isso vai acontecer com você inúmeras vezes!

Todos querem ser felizes, não é mesmo? Porém, para isso acontecer, será inevitável passar por um momento de profunda tristeza, senão jamais reconhecerá um momento de felicidade. Mesmo que ninguém goste ou queira lidar com a tristeza, ela será necessária para sua felicidade.

Nossas quedas são mais frequentes que nossas vitórias, mas vivemos em uma ditadura da vitória constante, como se a única coisa que realmente importasse fosse a chegada ao topo. Só que não há lugar no topo para todos! E até chegar lá, muitos tombos acontecerão nessa escalada.

Acredito que os erros cometidos e os tombos que levamos validam os momentos de vitória, por isso é importante que os vivenciemos. E por que não os valorizamos? Como se não aprendêssemos com nossos tombos, como se toda ralação de nossa estrada de carreira nem tivesse que ter acontecido, como se os perrengues que enfrentamos fossem desnecessários. Até quando vamos silenciar sobre nossas falhas?

Viver essa falsa realidade nas empresas é muito perigoso, pois muitos acabam tendo a sensação de não serem dignos, merecedores ou capazes. Aí é que mora o perigo, pois as doenças têm adentrado nas empresas de maneira estarrecedora. A grande sacada é saber o que fazer quando cair. Como reagir perante as dificuldades do dia a dia?

Como não sabemos lidar com erros, será raridade um colega de trabalho ampará-lo quando você os cometer. Saiba que os tombos serão inevitáveis; levantar e continuar na caminhada será escolha e responsabilidade sua. Pare de se criticar de maneira improdutiva, de se culpar de forma doentia todas as vezes que errar. Aceite que aquele erro não foi de propósito e escolha fazer uma autocrítica construtiva, assumir a responsabilidade por tudo que experimenta em sua vida e por todo aprendizado que cada situação pode lhe trazer. Essa simples mudança não permitirá que sua força interna diminua e trará leveza para aquela situação.

Escolha “preferir” ao invés de “exigir” que as coisas aconteçam da sua maneira. O mundo não foi criado para que você, diferentemente de qual­ quer outro ser humano, tenha uma vida mais fácil. Escolha respeitar seu tempo de florescer com cada que- da na carreira. Respeite seus próprios limites. Se ao errar e falhar você tem hábito de se culpar ou punir de forma improdutiva, pare agora com isso! Não vai ajudá-lo em nada. Prefira fazer autoanálise de que está dando seu melhor de acordo com a consciência que tem nesse momento.

Por fim, escolha celebrar com alegria quem você é, escolha se amar e se respeitar. Ninguém gosta de errar ou cair, porém, ao agir com essas simples atitudes, sua força interna vai se refazer no tempo ideal. Caiu de novo? E só levantar e continuar. Força!

*** DANIELA DO LAGO

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PREÇO DA DESCONFIANÇA

Suspeitar demais das intenções alheias prejudica a capacidade de ganhar dinheiro; em vez de nos proteger, descrença na honestidade alheia pode provocar prejuízos

A maior parte da população mundial vive hoje em cidades. Isso significa, entre outras coisas, que menos gente conhece seus vizinhos. Em algum momento parece inevitável nos perguntarmos se devemos nos aproximar de outras pessoas ou levantar a guarda e nos fecharmos para fugir de eventuais perigos. Alguns pesquisa- dores acreditam que a falta de confiança pode não apenas prejudicar o convívio social (e nos privar de benefícios que isso traz para a saúde mental), mas também custar dinheiro.

Um número cada vez maior de estudos revela um dado intrigante: pessoas que confiam pouco em seus colegas ganham menos em transações financeiras. Num estudo realizado há uma década em laboratório, e várias vezes replica- do, os voluntários que subestimaram o número de parceiros que dariam retorno a seu investimento, em um jogo que se- guia princípios da economia, investiram menos e acabaram com receita menor do que poderiam ter conseguido. Agora, um novo artigo publicado em maio no Journal of Personality and Social Psychology estabelece algumas relações curiosas entre o mundo real do prejuízo financeiro e a descrença. O cientista Daniel Ehlebracht, pesquisador da Universidade de Colônia, na Alemanha, constatou que as pessoas que reconheceram ter “visão cínica” da natureza humana tiveram renda menor (em milhares de dólares, após dois e nove anos), em comparação aos seus colegas mais otimistas. Para obter dados mais confiáveis, os pesquisadores excluíram várias explicações sugeridas para a ligação entre desconfiança e renda, como traços de personalidade dos participantes, condições de saúde, educação, idade, gênero e situação profissional.

Ehlebracht sugere que o cinismo aumenta o sentimento de suspeita, o que dificulta – e às vezes impede – a cooperação. Se isso é verdade, essa característica não deve ser prejudicial em lugares em que um alto grau de suspeita é justificado. Examinando a situação em 41 países europeus, os pesquisadores constataram que em nações com os índices de criminalidade mais elevados e menos cooperação, o cinismo não se correlacionava com menor renda. Então, conceder aos outros o benefício da dúvida pode não significar oferecer a possibilidade de ser enganado. Em vez disso, parece ser bastante compensador.

EU ACHO …

TRÊS MULHERES

Alta performance em campo com participação feminina ainda minoritária

A história da pandemia ainda está sendo escrita, mas nela já estão garantidos os lugares honrosos de Sarah Gilbert, a chefe da equipe que desenvolveu a vacina de Oxford; Katalin Kalikó, a cientista húngara que passou a vida pesquisando o uso terapêutico de moléculas do código genético, o método utilizado nas vacinas da Pfizer e da Moderna; e Kate Bingham, a especialista em novos remédios que coordenou a bem-sucedida campanha de vacinação no Reino Unido. Nenhuma delas, obviamente, se faz de vítima ou acha que merece mérito especial por ser mulher, embora a condição feminina tenha seu peso.

Kate Bingham, por exemplo, formada em bioquímica por Oxford e com mestrado em administração por Harvard, ficou em dúvida se era suficientemente qualificada quando o primeiro­ ministro Boris Johnson a convocou para chefiar a Força-Tarefa da Vacina.

Foi convencida pela filha. Especialista em apostas de risco no campo farmacêutico, ela levou a experiência no setor privado para dinamizar uma tarefa que nunca tinha sido feita antes – e que muitos, em perfeita boa-fé, julgavam ser impossível. Jamais uma vacina tinha sido desenvolvida em menos do que vários anos. Bingham assumiu o cargo – sem remuneração – no começo de abril e em 8 de dezembro a primeira pessoa a receber num país ocidental uma vacina contra a Covid-19, fora dos testes com voluntários, foi imunizada com uma dose da Pfizer-BioNTech.

O empreendimento conjunto da farmacêutica americana e do arrojado laboratório alemão tinha sido propelido por Katalin Kalikó, depois de uma vida inteira de perda de verbas e portas fechadas porque o desenvolvimento de remédios com base no RNA mensageiro não chegava a lugar nenhum. “Quando eu sou derrubada, sei como levantar”, disse ela sobre os percalços na pesquisa da tecnologia genética sempre tão promissora na teoria e tão frustrante na prática. Quando a onda maligna da pandemia se ergueu, a bioquímica húngara baseada nos Estados Unidos estava no lugar certo: a vice-presidência da BioNTech, o laboratório alemão fundado por um casal de origem turca. Filha de um açougueiro, Katalin Kalikó deixou a Hungria poucos anos antes do fim do comunismo, levando o dinheiro da venda de seus bens dentro de um urso de pelúcia da filha – futura medalha olímpica de ouro no remo. Os mais entusiastas falam num Nobel de Química para ela e o pesquisador Drew Weissman pela descoberta da intervenção num nucleosídeo do RNA em que abriu caminho ao seu uso medicinal. A vacina desenvolvida em Oxford pela pesquisadora Sarah Gilbert e equipe já era a mais adiantada do mundo quando explodiu a pandemia, só precisou ser adaptada para o novo coronavírus. “Só”, evidentemente, é uma figura de linguagem. Mulheres em profissões STEM (sigla de ciências, tecnologis, engenharia e matemática) são 35% da força de trabalho total no Reino Unido, uma proporção relativamente estável nos últimos anos. Cultura e biologia são permanentemente invocadas como motivos que seguram uma equiparação total e continuarão a ser discutidos ainda por muito tempo – no caso de Sarah Gilbert, seu marido precisou parar de trabalhar quando ela teve trigêmeos. Uma certeza: o mundo da ciência ficou melhor com a contribuição dessas três mulheres.

*** VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

BALANÇA MAS NÃO CAI

Modelos de sutiã mais confortáveis, sem bojo nem aros metálicos, ganham a preferência entre as mulheres, ideia que serve aos humores de hoje

Na cena inicial de Psicose, o incontornável clássico de Alfred Hitchcock, de 1960, a câmera sai dos edifícios sem graça da cidade conservadora de Phoenix, no Arizona, para entrar no quarto e então na cama onde está uma jovem, Marion Crane, vivida pela adorável Janet Leigh. A vesti-la, apenas um sutiã branco e volumoso. Fez furor, provocou imenso ruido, ainda que aos olhos contemporâneos soe quase pueril. “Senti necessidade de filmar daquele jeito a primeira tomada porque o público muda e evolui”, diria o diretor britânico. Atento aos humores da sociedade, ele intuiu que a lingerie, uma simples peça intima, teria poder deum manifesto político. Os tempos mudavam, e Hitchcock tratou de iluminá-lo na pele de sua personagem deitada.

Cobrir ou não cobrir os seios ainda hoje, e cada vez mais, é um modo de expressão feminina. A atual valorização do conforto e da simplicidade, com sapatos baixos e conjuntos de moletom, serve de atalho para uma vontade das mulheres: mostrar os seios de modo mais natural possível. Resultado: saem de cena os modelos com bojos, com estruturas de espuma circulares que cobrem e moldam os seios, e os aros inferiores, destinados à sustentação – o item muda o formato e impõe

Um visual mais levantado ao busto. Entram em cena as peças com tecido liso ou rendas, com acabamento discreto e que não camuflam o real formato do peito. Pesquisas no mercado brasileiro apontam que as vendas de sutiãs mais confortáveis quintuplicaram no comércio on-line de um ano para cá e aumentaram em 50% nas lojas físicas no último ano. “As mulheres têm buscado uma sensualidade mais natural e elegante”, diz Álvaro Gutierrez, diretor da divisão brasileira do grupo italiano Calzedonia, da marca Intimissimi. De olho na tendência, respeitadas etiquetas decidiram dar um chega pra lá no pudor e exibiram em desfiles recentes o sutiã em carreira-solo – sem blusa -, em composição com calças alfaiataria e saias, com o colo e o abdome à mostra. Foi o caso, por exemplo, das francesas Celine e Jacquemus, e da italiana Alberta Ferretti.

Convém sempre prestar atenção aos movimentos do sutiã, porque eles realmente dizem mais do que parece. Tome-se como exemplo o célebre episódio de 1968, em Atlantic City, nos Estados Unidos, quando um grupo de mulheres ensaiou a queima do artigo como forma de protesto contra o machismo do concurso Miss América. O que se viu foi um ato simbólico de descarte de itens que se dizia serem “aprisionadores”. Logo em seguida, durante os anos do movimento hippie, o artigo praticamente caiu em desuso entre as mulheres mais descoladas. No vaivém da moda, retornou com estardalhaço nos anos 1980, quando os seios fartos e a sensualidade recuperaram espaço. “Com o passar dos anos, o sutiã perdeu a carga de opressão que carregava e sua aparição aos poucos deixou de ser um grande tabu”, diz Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda. Agora, em plena pandemia, com muita gente em casa, não se trata de queimá-lo – mas de louvar modelos que deixam leve e solto o que está por trás deles.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE JUNHO

DEUS ESTÁ OLHANDO PARA VOCÊ

Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons (Provérbios 15.3).

Os ateus dizem que Deus não existe. Os agnósticos dizem que não podemos conhecê-lo. Os panteístas afirmam que Deus não é pessoal. E os deístas dizem que Deus está muito distante de nós. A Bíblia, porém, ensina que os olhos do Senhor estão em todo lugar. Deus é onipresente. Não há um único centímetro do universo em que Deus não esteja presente. Deus não apenas está presente, mas também conhece e sonda todos os seres humanos. Seus olhos contemplam os maus e os bons. Deus não é um ser bonachão nem um velho de barbas brancas como Papai Noel. Deus não é um ser amorfo e amoral que trata da mesma forma o bem e o mal. Ele é santo em seu caráter e justo em todas as suas obras. Ele distingue entre o bem o mal. Ele contempla os maus e os bons. Deus se deleita naqueles que seguem a bondade, mas abomina aqueles que maquinam o mal. Deus tem prazer quando andamos pelo caminho da santidade, mas se desgosta quando capitulamos ao pecado. Deus está olhando para você. O que ele está vendo? Seu coração é íntegro diante de Deus? Sua alma anseia por Deus? Você anda na luz? Fala a verdade? Pratica a justiça? Tem prazer na misericórdia?

GESTÃO E CARREIRA

A ENTREGA COMO ESTRATÉGIA NO NEGÓCIO

Aplicativos de delivery têm modificado a forma de consumo de produtos e serviços. Mas qual seria a melhor maneira para aumentar as vendas com esse tipo de serviço sem perder qualidade?

A comodidade e a possibilidade de personalizar os pedidos no consumo de produtos e serviços têm ganhado espaço no Brasil e no mundo, ditando caminhos aos empresários. O popular delivery, ou entrega em domicílio, é um dos serviços que vêm crescendo exponencialmente nos últimos anos. Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) apontam que o mercado de delivery movimentou R$15 bilhões no último ano, impulsionado pelos novos hábitos do consumidor, que, além do tradicional telefone, tem sites e aplicativos à disposição para suas compras.

Independentemente da localização do negócio – em cidade grande ou pequena -, esse novo modal, atualmente, está cada vez mais deixando de ser uma estratégia de venda para ser uma real necessidade no mercado. De acordo com um levantamento feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), há uma clara preferência dos consumidores por locais que ofereçam entrega em domicílio. Em resposta, metade dos restaurantes e lanchonetes atendidos pela instituição em todo o País oferece o serviço, sem terceirização, para dar mais comodidade ao cliente. Ainda segundo a pesquisa, 18% não possuem loja física, trabalhando exclusivamente por meio de entregas, sem portas abertas para a rua. “Nos casos de restaurantes exclusivamente deliveries, há a vantagem da redução de gastos com funcionamento e estrutura do espaço como: energia, aluguel, funcionários e outros. Junto a isso, o produto chega a lugares e pessoas que talvez você não atingiria somente com o restaurante físico”, lembra o diretor-presidente da Brasileirinho Delivery, Jhonathan Ferreira.

O comportamento do consumidor está mudando, e no food service essas mudanças são percebidas pela busca por mais praticidade, personalização, agilidade, conforto e segurança, os pilares básicos de um bom delivery, modelo que possibilita a atuação em diferentes mercados, desde alimentos e bebidas a pet shops, passando por vestuário e medicamentos. Qualquer que seja o perfil da atividade, prestar um atendimento de excelência é o segredo do sucesso para quem aposta no setor.

No geral, esse direcionamento tem ganhado força através do modelo de aplicativos de entrega, como o iFood, por exemplo, que começou a funcionar em 2011 e, atualmente, recebe mais de 18 milhões de pedidos por mês. No Brasil, segundo pesquisa da empresa em parceria com o Ibope e a plataforma Conectaí, 56% das pessoas que têm o iFood realizam ao menos um pedido por semana, enquanto 14% pedem duas refeições a cada sete dias. A maioria dos pedidos ocorre no período noturno, durante os fins de semana (67%), e a classe B é a que mais utiliza a plataforma (69%). O produto mais procurado é a pizza, seguido por comida japonesa, sanduíches e marmitex.

ESTRATÉGIA DE ATENDIMENTO

Na análise do diretor de logística da Liv Up, startup brasileira que produz, comercializa e entrega alimentos saudáveis, Thiago Vasconcellos, os tipos de delivery são na verdade uma evolução na maneira de consumir. ”Antes da internet, usávamos o telefone, depois passamos a usar a internet e agora a tendência é pedirmos pelo celular. Logo, acredito que o melhor tipo para as empresas que têm surgido é apostar na nova tendência: o celular. As outras modalidades também são interessantes, mas estão perdendo espaço para o celular”, opina. Tenha em mente, porém, que os aplicativos de entrega cobram até mais que 15% por uma entrega.

Com mais de 100 unidades pelo Brasil e realizando mais de 200 mil pedidos, sendo 80% destes correspondentes à entrega, o diretor da Brasileirinho Delivery, Jhonathan Ferreira, afirma que é fundamental contar com as ferramentas certas para que toda a operação delivery seja facilitada e seja possível se preocupar com o que realmente importa. “Hoje já existem sistemas de automação exclusivos para delivery, que possuem funcionalidades focadas nesse tipo de operação. Com bom planejamento, um sistema eficiente e organização cotidiana, seu delivery tem muito mais chances de ser um sucesso e aumentar o seu faturamento”, completa.

ESTRUTURA E LOGÍSTICA

Segundo a AbraselSP, porém, antes de explorar essa oferta de serviço ou aumentar a conversão por entregas, é preciso pensar no estabelecimento e sua capacidade de produção, de atendimento e operação com pedidos por telefone e pela internet, na presença de moradias nas proximidades e acesso a entregadores. Não pode ficar de fora o cuidado com o produto e a embalagem. “O produto deverá chegar em tempo e com qualidade ao consumidor”, afirma o presidente da AbraselSP, Percival Maricato.

Vasconcellos, da Liv Up lembra que, apesar de ser uma iniciativa que pode gerar bons frutos para o negócio, é necessário avaliar sua rentabilidade, analisando, principalmente, os custos logísticos envolvidos na operação e o potencial de receita que poderia ser acrescido com a oferta desse serviço. “A principal análise que precisamos fazer ao refletir sobre a oferta de um delivery é o custo logístico envolvido na operação. Alguns produtos ou serviços têm um custo logístico muito alto (grandes volumes/pesos ou serviços que precisam da logística reversa), e para que o negócio se torne rentável é necessário que o volume de entregas seja muito alto. Muitas empresas operam hoje com margens negativas no seu delivery apostando no crescimento dessa modalidade e em uma rentabilidade futura”, diz.

Portanto, não é necessário fazer grandes investimentos para implementar um delivery. Com o uso da tecnologia, muitas empresas se desenvolveram nesse ramo, possibilitando a implementação do serviço cobrando um percentual da receita. “Pode ser uma boa oportunidade para testar a aderência dos clientes ao seu delivery”, sugere o diretor da Liv Up. A plataforma on-line Supermercado Now, por exemplo, aumentou em cinco vezes o raio de influência das lojas físicas parceiras, podendo administrar também a estrutura de digitalização de estoque, venda e distribuição de produtos.

Os aplicativos e softwares são bons caminhos para vendas, mas não os únicos. Call center e aplicativo próprio podem fortalecer a marca. “O importante é darmos opção para o consumidor com uma plataforma web ou mobile. Se não for possível ter um app, ter um site responsivo é fundamental, uma vez que muitos brasileiros possuem smartphones”, indica o CEO do Supermercado Now, Marco Zolet.

CARDAPIO E EMBALAGEM

Vale lembrar que nem tudo que se vende no ramo de alimentação se enquadra no sistema do delivery. Alguns tipos de carnes, bebidas e até sobremesas são muito complexas para a entrega, e o empresário que pensa em adotar esse sistema impulsionado pela crescente procura precisa antes avaliar se vale a pena e, principalmente, se preparar para não prejudicar o seu negócio.

A embalagem também deve ser considerada como um dos pontos mais importantes no delivery. Seja para pizza, lanches ou comida, desde a apresentação até a embalagem do transporte, tudo deve ser pensado para essa função. “Sacolas plásticas estão ficando no passado, e o uso de embalagens recicláveis ou sacos SOS (de papel) estão ganhando espaço. A embalagem onde vai o alimento também deve ser apresentável, higiênica, seguir normas e, claro, ser atrativa. O conteúdo é importante, já que é o alimento, mas a embalagem por fora deve criar a expectativa do que há dentro. Uma dica: insira na embalagem informações como site, aplicativos, benefícios e informações relevantes sobre a marca e/ou produto”, indica o presidente da Brasilerinho Delivery.

ENTREGA ESPECIAL

Para quem já tem um negócio e quer apostar no delivery, geralmente é bom ajustar o cardápio. Ao começar do zero, por outro lado, indica-se pensar em opções que combinem com o estilo do consumidor – porções menores, alimentos fracionados e opções que facilitem o consumo são o segredo.

A entrega do produto é sempre o ponto alto de qualquer compra para o sucesso do delivery – é nessa etapa que o cliente atinge o ápice da expectativa. Este, talvez, seja um dos momentos mais importantes para o sucesso do sistema. Enquanto o adiantamento do prazo de entrega pode surpreender o cliente, o atraso causará frustação e problemas no relacionamento futuro com esse cliente, que pode migrar para o concorrente. Ao empresário, portanto, é importante se concentrar no perfeito fechamento do serviço para concluir corretamente como prometido.

COMO TER UM SERVIÇO DE SUCESSO NO DELIVERY

PROMOÇÕES EXCLUSIVAS: pensar e elaborar combos, kits e preços especiais para aplicativos chamam a atenção de clientes indecisos.

INVISTA EM PUBLICIDADE: promova publicações nas mídias sociais com os combos que levem o cliente para sua página, seja no aplicativo, seja no site, sempre utilizando estratégias de público, palavras-chave e marketing digital para garantir que o seu cliente em potencial receba essa publicidade na melhor hora.

BOAS FOTOS: assim como em seu cardápio, as fotos on-line (app ou site) devem ser boas, apetitosas e com apelo para a escolha.

DESCRIÇÃO DOS PRATOS: trabalhe a linguagem pensando no cliente e quem é a pessoa que pede comida em casa, sempre considerando a identidade de sua marca e a linguagem on-line.

AVALIAÇÃO: assegure um bom serviço de entrega para garantir boa avaliação. Usuários levam bastante em consideração as “estrelas” e o “rankeamento” das empresas na internet, além da rapidez das respostas aos comentários e educação e gentileza nos retornos.

INTEGRAÇÃO DOS CANAIS: escolha um bom sistema de automação que se integre ao app e não apenas receba os pedidos, mas também gerencie todas as operações do seu delivery sem a necessidade de retrabalho. Com a integração, as informações já estão prontas para emissão do pedido: impressão do pedido no ponto de produção (cozinha, copa, estação de frituras etc.), baixa no estoque, emissão da NFC-e e controle de expedição. Tudo de forma automática e ágil, diminuindo, assim, o tempo de entrega do pedido na casa do cliente.

FONTE: MVARANDAS.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NASCIDOS NA PANDEMIA

Os coronials, integrantes da geração que veio ao mundo após o vírus, ainda não fizeram grandes passeios, mas podem ter nos pais um belo estímulo para dar os primeiros passos

Quem vê um bebê nos seus primeiros meses de vida, ainda com sono longo e sem todos os movimentos que logo o tornarão um ser ultra-ativo, do qual os adultos não poderão desgrudar os olhos, não tem ideia do que se passa no interior de seu cérebro. Nessa fase, ocorrem ali 1 milhão de sinapses por segundo, uma ebulição cerebral que será valiosa por toda a vida. É justamente por isso que os estímulos mais simples se fazem tão valiosos nos primórdios da existência. Mas como provê-lo nestes tempos pandêmicos, quando o mundo lá fora está, por ora, com restrições a interações e passeios mais ambiciosos? Pais de todo o planeta se veem hoje às voltas com essa questão-chave que, mesmo com a natalidade em baixa, bate à porta de 183 milhões de famílias – 3 milhões delas no Brasil. Trata-se da leva que nasceu depois da eclosão do novo coronavírus, do já longínquo fim de 2019 até agora, uma geração que estreia no planeta em condições bem distintas das de suas antecessoras e já tem até nome: coronials.

Embora a rotina mais reclusa imponha privações, há terreno de sobra para incentivar o desenvolvimento dos novos bebês dentro de casa – tarefa que, postas as circunstâncias, recai sobre os pais. A boa notícia é que o esforço em mantê-los alertas pode trazer bons ventos. “A dedicação do pai e da mãe para estabelecer comunicação constante com o filho pequeno deve ser suficiente para que seu cérebro compense o tempo perdido distante do mundo exterior”, diz David Lewkowicz, professor do Centro de Estudo da Criança da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Desde que deixou a maternidade nos braços de sua mãe, o fofíssimo Kalue, de 9 meses, se alterna entre o lar e os jardins do condomínio onde mora, em São Paulo. Viu os avós poucas vezes e recebeu uma ou duas visitas de parentes. Quando vai ao pediatra, olha com avidez para o entorno. “Se cruzamos com outra criança, percebo em seu rostinho a curiosidade de quem esbarra com algo diferente”, diz a mãe, a fonoaudióloga Pierina Prado, 34 anos.

A ciência que se dedica a compreender o desenvolvimento desses mini-humanos já concluiu que, nos primeiros meses, a socialização com outras crianças não é primordial. O que mais conta aí é atender a necessidades básicas e dar combustível para que tenham os sentidos aguçados à base de boas doses de afeto. Não há nada de mirabolante nos manuais amplamente aceitos, que agora precisaram ser ajustados aos dias de isolamento. De acordo com uma cartilha da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, vale até ir à janela e apontar objetos e pessoas indo e vindo e brincar de fazer expressões num momento em que elas andam escondidas pelas máscaras, pois a criança aprende imitando (veja o quadro abaixo). “Dá para produzir estímulos visuais, motores, auditivos de modo bem simples”, afirma o psicólogo Lino de Macedo, do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância. Uma tentação comum nestes tempos é pôr a criança diante da tela da TV ou do smartphone, o que, em excesso, é contraindicado: a tecnologia usada como muleta pode até frear o avanço da linguagem e afetar o desenvolvimento físico.

Há muitos estudos em andamento sobre os efeitos da pandemia na geração coronial, alguns já com resultados preliminares. Um levantamento conduzido pela Universidade Oxford Brookes, no Reino Unido, com pais de crianças entre 8 e 36 meses, apontou que muitas têm demonstrado mais medo de estranhos, timidez e maior dependência de quem cuida delas. Também associa a diminuição das atividades ao ar livre a um sono irregular. Para romper com esse ciclo desencadeado pela falta de contato com humanos fora de casa, os estudiosos dizem que há evidências de que as videochamadas, tão adotadas no home office, funcionam também para pôr a mente infantil para trabalhar. A blogueira Eduarda França, 30 anos, que vive em Porto Alegre, costuma conectar via Zoom as filhas Isabella, de 7 meses, e Manuela, de 4, com a banda da família que está em Florianópolis. “Até minha menor reconhece a voz dos avós e sorri na frente do computador”, conta a mãe.

Uma parcela desses bebês que nascem em plena pandemia enfrenta o risco de assimilar substâncias presentes na barriga da mãe ligadas a stress e outros transtornos que surgem enquanto o vírus ainda resiste. Uma pesquisa da Universidade de Calgary, no Canadá, com 11.000 bebês nascidos entre 2020 e 2021, identificou nas gestantes níveis de ansiedade e depressão até quatro vezes mais elevados do que antes da epidemia. Nesses casos, o corpo adulto produz hormônios que podem passar ao feto. Mas isso não é definidor de nada. “Desde que recebam carinho e estímulos, os bebês têm tudo para crescer saudáveis e bem desenvolvidos”, diz o psicólogo Gerald Giesbrecht, envolvido no estudo canadense.

Mães de coronials atravessaram uma gravidez cercada de dúvidas, que aos poucos a ciência vai desanuviando. “Vivi momentos de muita angústia e até considerei fazer o parto em casa para não precisar ir ao hospital”, lembra a apresentadora gaúcha Titi Müller, 34 anos, que deu à luz a Benjamin em junho passado. O menininho de feições levadas ainda não conheceu o avô, o que acontecerá tão logo ele tome a segunda dose da vacina. Em seu aniversário de 1 ano, o esperado encontro vai se consumar, algo que certamente se depositará em sua memória afetiva. “Se os pais se mantiverem sensíveis e conseguirem dar aos filhos uma boa vida, mesmo entre quatro paredes, as consequências destes tempos sombrios tendem a ser inexistentes”, pondera o médico e especialista do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, Nathan Fox. Quem sabe não se origina daí uma geração mais resiliente e preparada para o que der e vier.

EU ACHO …

UM PREÇO ALTO PARA ISRAEL

Ter a superioridade bélica faz perder a simpatia da opinião pública

Toda vez é a mesma coisa: imagens de civis feridos chegando a hospitais, famílias arrastando suas poucas posses diante de casas e prédios completamente destruídos, pais arrasados pela perda de filhos. Como não se solidarizar com a dor dessas pessoas? É impossível, obviamente. Por causa dessas cenas, Israel entra em qualquer conflito em Gaza já perdendo a batalha da opinião pública, por mais proezas bélicas que alcance num campo de combate quase insustentável: cidades de alta densidade populacional. As disparidades no número de vítimas também são invocadas para acusar Israel de reação desproporcional. Algumas considerações ajudam a entender os fatos:

■ Israel move céus e terra para defender sua população. Tem abrigos antiaéreos que atendem boa parte dos habitantes e desenvolveu o Domo de Ferro, o sistema de mísseis, originalmente considerado impossível, que consegue interceptar até 90% dos foguetes lançados a partir de Gaza pelas duas organizações que operam no território, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina.

■ Os dois grupos fazem exatamente o contrário. Construíram extensos sistemas de túneis por toda a Faixa de Gaza, chamados pelos militares israelenses de “metrô”, mas nenhum civil tem acesso a eles. A rede subterrânea é usada apenas pelos militantes armados para se proteger e desfechar ataques em caso de invasão por terra. Boa parte dela foi destruída nas últimas semanas.

■ Comandos operacionais, depósitos de armas e baterias de foguetes, que entram em Gaza procedentes do Irã através dos túneis na fronteira com o Egito, são instalados deliberadamente ao lado, debaixo ou até dentro de casas, prédios, escolas, mesquitas e hospitais.

■ Como atingir um inimigo protegido por várias camadas de escudos humanos? O método desenvolvido por Israel consiste em avisar antes que vai bombardear um determinado prédio. Avisar literalmente: desde o conflito anterior, em 2014, a inteligência militar de Israel levantou 650.000 números de telefone de moradores de Gaza, com as respectivas localizações. Um telefonema em árabe dá o ultimato. Um método complementar é disparar um míssil de baixo poder explosivo no topo dos prédios, como uma espécie de precursor do que está por vir.

■ É horrível? Sem dúvida. E nem sempre é dado o aviso. “Guerra é crueldade; não tem como mudar isso. Quanto mais cruel, mais cedo acaba”, resumiu notoriamente o general William Tecumseh Sherman, que massacrou o sul americano durante a Guerra Civil.

■ A legitimidade dos alvos tem de ser aprovada pelos advogados das Forças Armadas israelenses. Isso, evidentemente, não impede erros, mas minimiza o número de vítimas civis.

■ Nada disso aconteceria se Hamas e Jihad não tomassem a iniciativa de jogar foguetes dirigidos deliberadamente contra alvos civis. Gaza, uma pequena e estreita faixa de terra de 40 quilômetros de comprimento, conquistada por Israel na guerra defensiva de 1967, foi entregue aos palestinos em 2005. Tornou-se o pior exemplo, para os israelenses, do que acontece quando abrem mão do controle de territórios que deveriam constituir um futuro Estado palestino, tão justo e necessário. E, infelizmente, tão longe da realidade.

***VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

COMEÇAR DE NOVO

Depois de tantos meses sem pegação, parte dos solteiros, mesmo vislumbrando o futuro pós-vacinas, ente medo de buscar parceiros em um mundo cheio de protocolos

Solteiros à procura deum par – seja com intenções sérias, seja para uma ficada rápida – seguiam uma cartilha básica: ir a um bar ou a uma festa, engatar uma conversa ao pé do ouvido, compartilhar uma cerveja e, em algum ponto da noite, trocar beijos. Pois tudo, rigorosamente tudo o que configurava a arte da paquera foi por água abaixo na pandemia. Se antes já estava difícil encontrar um match decente, com o advento da Covid-19 muitas pessoas sem par fixo abandonaram a nau dos esperançosos, deletando a chance de encontros ao vivo e se desencantando com a falta de espontaneidade dos flertes via Zoom. Agora que a vacina começa a abrir a janela para a vida mais ou menos normal, esses refratários, em vez de soltar foguetes, se debatem em dúvidas. Ele usa máscara? Ela evitou ao máximo sair de casa? Encontro de dia, no parque, tem algum futuro? Existe bate-papo sem os assuntos contágio, mortes, home office e delivery? “Depois de meses de quarentena, é normal a pessoa se sentir um peixe fora d’água na paisagem da paquera e achar que não tem lugar nele”, diz Logan Ury, diretora do aplicativo de relacionamentos britânico Hinge.

De tão frequente, o pé atrás na seara dos encontros ganhou nome em inglês, inventado pelo próprio Hinge: Fear Of Dating Again (medo de voltar a paquerar), resumido no acrónimo – totalmente inofensivo no idioma original – F.O.D.A. A criadora de conteúdo Helena Morani, 25 anos, identifica-se com o transtorno pandêmico. ” Encontros são tão difíceis, com todos os protocolos e cuidados, que a gente fica com receio de se relacionar.

Estou aproveitando o momento para aprender a ficar sozinha e curtir a minha própria companhia”, conta ela, que em seu perfil no Instagram publicou uma divertida vídeoparódia de uma fala antiga da jornalista Marília Gabriela – “Eu virei um animal solitário. Eu leio, vejo série, fico em silêncio. Meu celular não toca mais” -, com mais de 50.000 visualizações.

No fim do ano passado, em urna pesquisa realizada por outro aplicativo de namoro, o Bumble, duas a cada três pessoas disseram estar se sentindo muito solitárias em todos os aspectos da vida, sobretudo o amoroso, e 90% declararam que sua vida mudou radicalmente com a pandemia. Cerca de 60% afirmaram estar mais preocupados em se preservar do que em buscar encontros casuais e mais da metade revelou que, em um eventual encontro pessoal, gostaria que ambos estivessem de máscara. No aplicativo OkCupid, 40% dos candidatos a namoro na faixa de idade dos millennials frisaram que cancelariam o encontro se a pessoa dissesse que não pretendia se vacinar. No Tinder, a presença da frase “Uso máscara” nas biografias dos usuários duplicou ao longo da pandemia. “Antes, ficaria horrorizada se um cara passasse álcool em gel nas mãos durante um encontro. Agora, fico excitada”, brincou uma adepta do aplicativo.

Nos perfis publicados em sites de relacionamento, o tipo alto, forte e bonitão deu lugar ao rapaz de máscara e praticante do isolamento social na escala de atração. Nos Estados Unidos, Reino Unido e onde quer que a imunização esteja avançada, o carimbo de “vacinado” sempre acompanha as fotos dos usuários. Mesmo assim, muitos solitários não se sentem seguros para voltar à pegação a que estavam habituados – o que, segundo especialistas, não deve ser motivo de maiores preocupações. “O medo é um fenômeno absolutamente normal e compatível com o momento atual. Foi ele que fez a gente chegar até 2021. O comportamento cauteloso só se torna um problema quando paralisa, vira uma fobia social”, avalia Pablo Vinicius, neurocientista da Universidade de Brasília.

Embora a tendência seja de os solteiros retomarem o ritual da conquista, há quem veja na retração de agora uma mudança definitiva. “Ficamos mais arredios. Acho que, futuramente, vamos ser mais seletivos nos relacionamentos e parar de marcar encontro com pessoas em quem a gente sabe que não está interessada de verdade”, reflete a estudante Kethlyn Verona, 20 anos, há meses distante de bares e festas. O psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo, confirma: “A crise do novo coronavírus vai ter um impacto permanente na moral sexual. Os que se cuidam vão seguir roteiros de precaução no campo amoroso, dando preferência a pessoas que já conhecem e monitorando suas atitudes nas redes”, prevê Dunker. Para quem acha que F.O.D.A. é isso mesmo que o acrônimo indica, fica a esperança: a paquera, quando ela voltar a acontecer, deve ser mais criteriosa e produtiva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

A LÍNGUA É O PINCEL DOS SÁBIOS

A língua dos sábios adorna o conhecimento, mas a boca dos insensatos derrama a estultícia (Provérbios 15.2).

A língua dos sábios não apenas revela conhecimento, mas também adorna o conhecimento. O conhecimento não é somente útil, mas também belo. É não apenas necessário, mas também atraente. Uma pessoa sábia torna o conhecimento apetitoso. O aprendizado deixa de ser um processo doloroso para tornar-se algo prazeroso. O conhecimento na língua dos sábios recebe contornos de beleza invulgar. A língua dos sábios é como um pincel nas mãos de um artista. Transforma as coisas comuns da vida em raras obras de arte. O oposto disso é a boca dos insensatos. Quando uma pessoa tola abre a boca, deixa sair uma torrente de estultícia. A boca do insensato é a picareta que abre sua própria cova. O homem tolo destrava a boca apenas para falar o que não convém e o que corrompe os bons costumes. Vangloria-se de suas palavras chulas e rasga a cara em gargalhadas espalhafatosas para contar suas piadas indecentes.  A boca do homem insensato é como o romper de uma barragem. Provoca inundação e muita destruição. Da boca do insensato saem enxurradas pestilentas que arrastam para a vala da podridão a reputação das pessoas. Que Deus nos livre da boca dos insensatos. Que Deus nos ajude a adornarmos o conhecimento com nossa língua.

GESTÃO E CARREIRA

ELES PAGAM PARA VOCÊ COMPRAR

Empresas que trabalham com sistema de cashback têm conquistado consumidores antenados e que buscam vantagens para comprar. A devolução de parte do dinheiro tem ganhado espaço não só nas compras virtuais como também nas realizadas em lojas físicas. Conheça quem anda fazendo isso aqui no Brasil

O nome já diz muito sobre o tema dessa reportagem: cashback, que em português significa “dinheiro de volta”. É assim: você paga por um produto ou serviço e parte do valor volta para você. Sem rodeios. Às claras. Esse tipo de recompensa para o consumidor tem sido a aposta de grandes varejistas, que optam por programas próprios ou players do mercado que criam parcerias com lojas para permitir a operação com os clientes.

A gigante de cartões de crédito Visa é um grande exemplo de empresa que tem investido em várias ações de cashback. Uma das mais recentes é em parceria com a Amazon. Nela, o participante cadastrado no Vai de Visa, plataforma de ofertas da empresa, recebe R$70 de volta na fatura ao acumular R$200 ou mais em compras na Amazon Brasil. “Não houve alteração no sistema da Amazon ou do banco – basta utilizar o cartão e tê-lo cadastrado em nossa plataforma”, explica a diretora de Soluções para o Comércio da Visa do Brasil, Lucia Chaves.

Outro exemplo de aposta em cashback aos clientes foi a ação de estímulo de transações fora do Brasil, em que o participante cadastrado ganha 10% de volta na fatura com qualquer transação realizada em restaurantes nos EUA. Não há nenhuma sinalização nos estabelecimentos ou ação adicional requerida do consumidor final. “Desse modo, conseguimos trazer o diferencial e entregar uma experiência simples, positiva e relevante para os nossos clientes e parceiros”, destaca a executiva.

Lucia Chaves acredita que uma boa experiência é parte fundamental de uma estratégia de fidelização, para qualquer produto ou serviço. Não basta ter apenas preço, mas a experiência de compra, de uso, de pós-venda e de atendimento compõem a satisfação do consumidor em relação a uma marca, de modo que todos os itens devem ser consistentemente acompanhados e revisitados.

Há quatro anos, a Visa trouxe para o Brasil uma plataforma com soluções de fidelização que, baseadas na capacidade da empresa de ver transações de portadores dos cartões na rede, permite buscar comportamentos de compra dos clientes. Ou seja, a Visa consegue operacionalizar, por exemplo, uma ação com um grande varejista ou emissor, sem que o consumidor tenha que se identificar no momento da compra ou que haja qualquer treinamento/preparo da força de vendas do estabelecimento comercial para o atendimento. Basta utilizar o cartão Visa que o sistema consegue confirmar, em tempo real, se aquela é uma transação elegível e, caso seja, enviar automaticamente a premiação via crédito em fatura.

NOVIDADE NO MERCADO

É 100% nacional e o nome não poderia ser mais brasileiro: Meu Dim Dim. A plataforma de cashback é uma startup que sabe bem o que quer: permitir que lojas de pequeno, médio ou grande porte possam oferecer cashback como benefício para os clientes. De maneira geral, só os grandes e-commerces oferecem parte do dinheiro de volta.

Para começar a operar, a startup investiu cerca de R$150 mil. O tempo desde a concepção da ideia, incluindo estudo de mercado, desenvolvimento do sistema até o lançamento foi de aproximadamente um ano. “Posso afirmar que o brasileiro vem comprando cada vez mais essa ideia [de cashback], porém ainda há um espaço imenso para crescimento e para ser explorado”, analisa o head do Meu Dim Dim, Dyego Joia, que acrescenta: “experimente perguntar para alguém da sua família ou amigos se eles utilizam cashback em suas compras, pouquíssimas pessoas já conhecem ou experimentaram”.

Atualmente, o Meu Dim Dim conta com 5 mil usuários ativos e 250 lojas prontas para oferecer cashback como benefício. Algumas das marcas participantes são Ponto Frio, Submarino e Lojas Renner. Mas os planos são grandiosos e ousados: a ideia é atingir a marca de 800mil usuários cadastrados até o fim de 2021. Além disso, a startup quer contar com um catálogo de três mil lojas virtuais parceiras.

Para ter acesso aos benefícios que o Meu Dim Dim propõe, o consumidor precisa se cadastrar gratuitamente na plataforma e realizar todas as compras a partir dela. No entanto, caso um usuário acesse qualquer uma das lojas participantes do programa de recompensa sem passar pela plataforma, seja por falta de hábito ou por esquecimento, verá um lembrete na página da loja on-line e poderá acessar o Meu Dim Dim por ele. Os resgates dos valores em dinheiro acumulados pelos participantes poderão ser realizados a partir do valor mínimo de R$20,00.

Do lado das lojas on-line, a startup quer contribuir com uma questão antiga e um dos maiores desafios do setor: ampliar a taxa de conversão que, na média, é de 1,6% aqui no Brasil. “Quando se oferece um benefício ao consumidor, as chances de ele, de fato, realizar a compra, aumentam de maneira significativa”, avalia Joia.

SÓ NA LOJA FÍSICA

Se por um lado o Meu Dim Dim tem como foco o cashback no comércio eletrônico, o Beblue atende o consumidor que compra em lojas físicas. Trata-se de uma plataforma de pagamentos (as maquininhas de cartão) atrelada à recompensa por meio do dinheiro de volta. O cliente que opta pelo pagamento nas máquinas do Beblue recebe parte do valor pago de volta. Esse saldo pode ser acompanhado por meio de um aplicativo para smartphone e usado em estabelecimentos parceiros.

Desde sua fundação, em maio de 2016, o Beblue já devolveu mais de R$130 milhões de reais em cashback para 2.703.821 usuários cadastrados, que consumiram em 16.853 estabelecimentos credenciados durante todo o período. “O Beblue se sustenta por meio de uma comissão sobre as vendas realizadas nos estabelecimentos comerciais cadastrados”, revela o CMO do Beblue, Daniel Abbud. O executivo da empresa defende que o Beblue é mais do que um programa de fidelidade: “por meio da parceria com a plataforma, as empresas credenciadas têm outros benefícios, como o aumento do ticket médio devido à oferta de cashback, aumento na frequência de consumo de seus clientes, acesso a um rico sistema de CRM, redução dos investimentos em publicidade tradicional e atração de novos clientes através de campanhas de cashback especial”.

FORTALECENDO A REDE PARCEIRA

Mas nem sempre o cashback está atrelado ao consumo de produtos. Na Ozonean Group, quem paga por serviços também recebe dinheiro de volta. O grupo de empresas de consultorias optou por criar um formato que é válido para ambos os lados: contratante e contratado.

Quando uma empresa do ecossistema da Ozonean adquire um serviço da própria Ozonean ou de uma das empresas do grupo, o cashback pode variar de 4% a 6% (dependendo do serviço). Já quando o serviço é adquirido de outra empresa, não pertencente ao grupo, mas cadastrada no sistema, o retorno fica entre 1% e 2%.

Até aí tudo semelhante a outras empresas, mas vem uma diferença decisiva: esse valor pode ser movimentado pela empresa contratante sempre a partir do primeiro dia do quarto mês a contar do dia do pagamento da fatura. ”A Ozonean tem usado mecanismos de investimento variados para fazer com que as verbas retidas de cashback rendam durante esses três meses de retenção, o que representou ao grupo uma receita variável interessante. Esta ação também tem nos proporcionado um melhor relacionamento com as instituições financeiras”, revela o fundador e CEO da Ozonean Group, André Castilho.

A estratégia passou a ser usada pelo grupo em novembro de 2018, mas começou a ser desenvolvida seis meses antes. O aumento das receitas do grupo e da aquisição de serviços no sistema de novembro de 2018 até maio de 2019 superaram todas as vendas do grupo no ano de 2018 (até o mês de setembro). A taxa de cancelamento teve também uma redução de quase 30% para o período.

4 PONTOS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE CASHBACK

1º – A PERCENTUAL DE RETORNO É VARIÁVEL: Os programas ou ações de cashbacks variam de empresa para empresa. Normalmente partem de 1% e, depois disso, crescem conforme o valor do produto ou serviço.

2º – RETORNOS COM MAIS DE DOIS DÍGITOS SÃO PONTUAIS: Não se assuste se o programa ou a loja oferecerem cashback acima de 10%. Casos como esses são menos comuns, mas não impossíveis. Grande parte das vezes, trata-se de campanhas pontuais e de curta duração.

3º – NEM SEMPRE VOCÊ PODERÁ SACAR O SALDO: Com o aumento do número de plataformas, os formatos de retorno têm variado. Alguns permitem que o consumidor faça transferência para uma conta bancária após determinado valor. Outros, que o uso seja restrito a um grupo de empresas cadastradas.

4º – ALGUNS PROGRAMAS DE CASHBACK EXIGEM ASSINATURA MENSAL: A maioria das empresas que trabalham com cashback não cobra nada do cliente para a adesão ao programa de recompensas. No entanto, com o crescimento do modelo no Brasil, algumas empresas já oferecem assinaturas ou compras de pacote que garantem benefícios a mais, entre eles, percentuais de devolução maiores do que para os demais clientes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DORMINDO COM O INIMIGO

O Brasil registra mais de 240.000 denúncias de abuso psicológico feitas por mulheres que decidiram reagir à rotina de humilhações masculinas

No princípio são só flores, demonstrações de afeto e juras de amor eterno. Com o tempo, entra o ciúme travestido de cuidado, que por sua vez dá lugar às ofensas, humilhações e tentativas de controlar cada passo. Àbriga, inevitável, seguem o pedido de desculpas e a promessa de que não vai acontecer de novo. Aí começa tudo outra vez. Eis o ciclo do relacionamento abusivo, um foco de sofrimento que permaneceu escondido sob a fachada de que vida a dois é assim mesmo, até que o problema passou a emergir dentro e fora das redes sociais, impulsionado por depoimentos de celebridades que experimentaram o calvário, como a cantora Anitta, a atriz Cleo Pires, a apresentadora Adriane Galisteu e a modelo Yasmin Brunet. “Sofri toda sorte de agressão e até hoje faço terapia para lidar com os traumas que os namorados tóxicos me causaram. Cheguei a ouvir de um deles que merecia um prêmio por me aturar. Achava que amor era isso”, desabafa Yasmin, 32 anos, que diz ter sido vítima de uma série de relações do tipo e demorado anos para distinguir amor de abuso.

Por se tratar de uma violência antes de tudo psicológica, calcada em expressões e atitudes vistas como “normais”, a mulher – de longe a parte mais afetada por abusos dessa natureza – em geral custa a reagir. O agressor insiste em que faz o que faz porque gosta dela, criando uma armadilha na qual os dois ficam presos – ele, maltratando e desdenhando, ela sofrendo e esperando passar. “As mulheres precisam ter consciência de que o primeiro indício de um relacionamento abusivo é o xingamento, não o tapa na cara”, afirma Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo. “Ligar o tempo todo para o trabalho, aparecer na porta da faculdade sem avisar e se queixar da maquiagem não são crimes, mas formas de minar a segurança e manipular a parceira.”

Tivemos acesso a um levantamento feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que aponta 246.240 registros de violência psicológica no Brasil no ano passado – em 2019, quando a métrica era menos precisa, foram 3.887 violações. Entram nesse rol impressionante as denúncias de ameaça, assédio moral, constrangimento, exposição e tortura psíquica feitas nos canais oficiais da pasta que indicam o algoz, seja namorado, marido ou companheiro. O total deve ser bem maior, levando-se em conta a vasta subnotificação e os relatos registrados no ministério que não revelam o autor da agressão. Mesmo assim, o fato de tantas terem criado coragem de se manifestar sinaliza que elas estão, cada vez mais, abrindo os olhos para uma situação em que a mistura de sentimentos dificulta a identificação dos sinais. “Nesse tipo de relação, o agressor manifesta afeto, demonstra fragilidade, e a vítima sente culpa quando pensa em terminar ou denunciar”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli.

Indício numérico de que violências como essas saem das sombras é o aumento das buscas da expressão “relacionamento abusivo” no Google: 1.000% nos últimos cinco anos, 300% só em 2020, com picos de 500% cada vez que uma mulher famosa fala publicamente sobre o tema. Os testemunhos são consequência direta da explosão, em 2015, de movimentos como Meu Primeiro Assédio e MeToo, que abriram a comporta dos segredos represados e promoveram, nas redes sociais, em documentários, reportagens e programas de TV, uma enxurrada de denúncias de assédio sexual e violência física contra mulheres, tanto conhecidas quanto anônimas.

Daí para a exposição de casos de abuso psicológico foi um pulo. Só nos últimos quatro meses, três cantoras, Anitta, Billie Eilish e Demi Lovato, revelaram em documentários autobiográficos terem vivido relacionamentos abusivos. Em um caso de grande repercussão, a influenciadora digital Duda Reis, 19 anos, anunciou em janeiro o término do noivado com o funkeiro Nego do Borel, 28 anos, e foi à polícia prestar queixa por lesão corporal psicológica e física, injúria, ameaça e estupro de vulnerável. “Vivia em um ciclo vicioso. Já até esperava as brigas, porque sabia que depois ele voltaria a me tratar bem, mesmo que por poucos dias”, conta Duda. Segundo ela, as pessoas em volta não se davam conta dos abusos. “Quando ele me humilhava, elas viam aquilo como brincadeira e ignoravam a minha dor”, afirma.

Ainda que categorizar esse tipo de relação abusiva não seja simples, especialistas apontam padrões de comportamento que se repetem em todas elas. A violência está sempre presente, seja psicológica, física, financeira (o controle do caixa conjugal é dele) ou tecnológica – a insistência em ter a senha dos aplicativos e bisbilhotar curtidas em fotos alheias são algumas das formas de o agressor exercer dominação no ambiente virtual. Outros fatores a se estar atento são aqueles que o passar do tempo agrava: a frequência dos abusos, o escalonamento das agressões e o nível de sofrimento causado. Casada durante sete anos e divorciada há dois, a empresária gaúcha Bárbara Dalpont, 36 anos, mesmo depois de separada precisou ir à Justiça para se desvencilhar do ex­ marido: em março do ano passado, ela ganhou uma medida protetiva de urgência após ser perseguida intensivamente por ele na internet. “Achei que com a separação teria a paz de volta, mas minha vida virou um verdadeiro inferno. Se durante nosso relacionamento ele me desmoralizava, com a separação passou a me perturbar por telefone e a entrar em contato com todos os homens que comentavam as minhas fotos”, relata Bárbara, que teve de mudar de cidade três vezes e hoje processa o ex por ameaça, perseguição, calúnia e difamação.

O Brasil é o país que mais pesquisa no Google sobreo assunto, seguido de Portugal, Jamaica, África do Sul e Estados Unidos. Segundo a fundação americana One Love, que oferece cursos on-line para ensinar as pessoas a reconhecer problemas e diferenciar as relações saudáveis das doentias – mais de 100 milhões de alunos já se matricularam neles -, as mulheres entre 16 e 24 anos são as que mais sofrem violência psicológica por parte dos parceiros. Outro estudo mostra que, entre as vítimas, muitas nem sequer enxergam os maus-tratos como comportamento abusivo, e, além de sentirem vergonha e medo de denunciar, precisam encarar a desconfiança geral que costuma acompanhar suas queixas. “Para esse grupo de mulheres, a violência psicológica é uma forma de lesão corporal, em razão do dano à saúde psíquica”, dispara Izabella Borges, advogada de Duda e Bárbara, que contratou uma equipe de psicólogos para acompanhar os casos e comprovar que as alterações psíquicas sofridas pelas clientes foram causadas pelos agressores.

Durante séculos as mulheres foram acostumadas a depender do marido e a ser controladas por ele, um comportamento que, como mostra a atual exposição de relações abusivas, deixou raízes mesmo após a primeira, a segunda e a terceira onda de feminismo no planeta. “Na minha cabeça não era abuso, era desentendimento de casal. Tinha certeza que a culpa de ele me tratar feito lixo era minha”, relata a atriz Julia Konrad, 30 anos, que terminou um relacionamento abusivo depois de três anos e meio, resumindo o sentimento da imensa maioria. “É preciso superar a questão cultural”, alerta a antropóloga Mirian Goldenberg. “No Brasil, ter um relacionamento é considerado um valor, mesmo que ele seja problemático e seja fonte de sofrimento.” Os testemunhos e as denúncias dos últimos tempos são a prova de que, ao contrário do que prega o ditado, ruim com ele, melhor sem ele.

EU ACHO …

TOMEI A VACINA!

A emoção de ser imunizado contra a Covid-19 – e sem furar a fila

Finalmente chegou minha vez! Graças a uma antecipação de idade em São Paulo, tomei minha primeira dose de vacina anti- Covid. Puxa vida, que espera! Aguardei a invenção das vacinas. Depois, a fabricação. E aí veio o momento de levar a picada. Minha família sempre valorizou as vacinas. Criança, tomei contra a poliomielite. Tive até um amigo de escola com paralisia infantil, portanto, o risco era bem presente. Também tomei (e isso prova que sou de época) contra a varíola. Altamente infecciosa, a doença matava cerca de 30% dos contaminados, principalmente bebês. Deixava sequelas, como cegueira e marcas por todo o corpo. O último caso relatado foi em 1977. Erradicada graças à vacinação. Só existe em algum laboratório de alta segurança, atrás de portas blindadas, para estudo, nos Estados Unidos e talvez em outros países.

Sou muito grato por amar minha profissão, trabalhar em casa, e saber ficar sozinho. Confinamento não é difícil para nenhum autor de novelas ou série de televisão. A gente escreve dezenas de páginas por dia. Escritores de livros, teatro, poetas também amam ficar sozinhos. Ou vocês acham que Erico Veríssimo escreveu O Tempo e o Vento indo a churrasco com os amigos? Eu gosto de vida social, não nego. Mas não exaustivamente. Também para outras pessoas – não necessariamente escritores – ficar mais tempo com a família, concentrar-se em si mesmo, teve um efeito positivo. Claro, engordei. Mas agora estou começando um regime – provavelmente o centésimo da minha vida, enquanto minha barriga só aumenta.

Perdi amigos, que me acharam radical. Os sinceros entenderam minha rigidez. Se nos encontrávamos, faziam teste de Covid antes. Afinal, sou grupo de risco. Mas tenho de confessar uma coisa. Tive a enorme tentação de furar a fila. Em conversa com minha amiga Lucília, ela disse que jamais faria isso. Foi um alerta precioso. Em situações extremas se descobre quem a gente realmente é. Não sou esse cara capaz de furar fila e talvez enviar alguém diretamente para a UTI. Eu me inscrevi, sim, nos postos de saúde, no caso de sobrar vacina – em São Paulo é legalmente permitido. Muita gente tem sido chamada, e aproveitam material que ia ser descartado. Eu não fui. Mas há três ou quatro semanas um amigo me procurou. Tinha um esquema certeiro, através de uma tia que coordena um posto de saúde. Eu me recusei. Se sou contra os outros furarem, por que vou furar? É preciso ser coerente com o que se pensa.

Meu dia chegou no tempo certo. Acordei cedo. E, rapidamente, tinha tomado minha vacina. Viva o SUS! O tratamento é de Primeiro Mundo! A picada doeu, mas faz parte! No dia seguinte, eu me senti cansado. Tinha medo de reações adversas. Mas estou bem. Sentindo dor pelos que partiram, não conseguiram resistir. Cada dia alguém é hospitalizado, ou vai embora, muita gente que conheço!

Espero pela segunda dose. E por uma certa liberdade. Mas não muita. Há novas cepas do vírus por aí. O confinamento, maior ou menor, não sai mais da nossa vida.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

ESCOLA COM PARTIDO

A Câmara dos Deputados se prepara para votar o projeto de lei que regulamenta o ensino em casa, bandeira bolsonarista apoiada pela bancada evangélica

No rol de 34 matérias que tramitam pelo Congresso Nacional e são consideradas prioritárias pelo governo, apenas uma diz respeito à educação – e seus desdobramentos preocupam. A Câmara dos Deputados se prepara para votar, em regime de urgência, um projeto de lei que regulamenta o ensino domiciliar, no qual os pais se encarregam da educação formal dos filhos. O homeschooling, como ficou conhecido, é compromisso de campanha de Jair Bolsonaro com sua base conservadora, sobretudo a poderosa ala ligada às igrejas evangélicas. Por se tratar de tema polêmico, permaneceu adormecido na gaveta das lideranças até ser resgatado agora pelo atual presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Ao negociar o apoio do Planalto na disputa pelo cargo, ele se propôs a pôr o projeto em pauta ainda no primeiro semestre. O debate em plenário promete emoções, já que o aprendizado em casa reverte a obrigação de que crianças de 4 a 17 anos frequentem a escola – o modo pelo qual, estabelecido por lei, se deu o avanço no grau de instrução da população brasileira nas últimas décadas.

Mundialmente, o conceito de homeschooling é bandeira de duas ideologias opostas: a ultra libertária, que não vê nem qualidade nem utilidade no ensino formal; e a ultra conservadora, para quem a sala de aula é um antro de bullying, uso de drogas e, no caso brasileiro, suposta doutrinação marxista por parte de professores e educadores. O projeto que tramita na Câmara tem a assinatura dessa segunda linha, tanto que dois ministros ideológicos disputam protagonismo no seu andamento: Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – que articulou até a criação de uma frente parlamentar para defender a ideia -, e Milton Ribeiro, pastor presbiteriano à frente da pasta da Educação. “O homeschooling é o caminho de a gente livrar as famílias da forma agressiva pela qual a esquerda tomou conta da educação”, prega com todas as letras o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), representante da bancada evangélica.

Na tentativa de evitar um bate-boca virulento quando o assunto chegar ao plenário, Lira entregou a redação do projeto à deputada Luísa Canziani (PTB- PR), de 25 anos, a mais jovem da casa. Apesar da pouca experiência, a relatora circula bem entre as correntes políticas, interessa-se pelo ensino e preocupou-se em dar contornos mais técnicos do que ideológicos ao texto. “Esta modalidade de educação já é hoje abraçada por alguns brasileiros sem nenhum tipo de regra”, diz Luísa. A Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) calcula que 17.000 famílias adotem o sistema no Brasil – menos de 1% do total. Só que os pais e mães das crianças envolvidas estão sujeitos a processo por abandono intelectual dos filhos. Em setembro de 2018, examinando um desses casos, o Supremo Tribunal Federal determinou que o ensino domiciliar em si não fere a Constituição, mas precisa ser regulamentado por lei específica. “Estamos em um limbo jurídico. Pelo menos 100 famílias foram processadas depois da decisão do STF”, lembra Rick Dias, presidente da Aned.

Tivemos acesso exclusivo ao texto do projeto de lei, que está praticamente pronto e deve ser apresentado até 15 de junho. Ele estabelece, em primeiro lugar, que o ensino doméstico tem de cumprir a Base Nacional Comum Curricular ensinada nas escolas. Também determina que os pais apresentem certidão de antecedentes criminais, que ao menos um deles tenha diploma universitário e que aceitem receber visitas do Conselho Tutelar. Outra condição para o ensino domiciliar é que a criança esteja matriculada em alguma escola e nela se submeta a avaliações periódicas em uma instituição credenciada pelo MEC. A ala radical dos defensores do homeschooling na Câmara, contudo, discorda da exigência. “Obrigar o aluno a fazer diversas provas dentro da escola é burocratizar demais o sistema, tornando a educação em casa inviável”, argumenta o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP), outro prócer da bancada evangélica.

Os opositores do projeto apontam na insistência dos evangélicos por sua aprovação um interesse não só ideológico, mas também financeiro. Uma ideia não incorporada ao texto, mas não descartada, é que os pais possam contratar um preceptor para assumir o ensino dos filhos, figura que as igrejas se dispõem a providenciar. Ofereceriam inclusive aulas em dependências religiosas, o que faria delas uma espécie de escola informal. Assumindo essa função, poderiam se sentir no direito de reivindicar uma fatia do Fundo de Educação Básica, o Fundeb, como fizeram em outras ocasiões – todas frustradas. Otimistas, instituições evangélicas já começaram até a vender na internet material didático voltado para o ensino doméstico e ainda cursos de treinamento para os pais.

Entre as críticas ao ensino em casa, a principal diz respeito ao isolamento da criança e sua exposição a um modo único de pensar. “A ideia de homeschooling é pautada pelo fim do convívio com o diferente e com a diversidade do ambiente escolar”, diz Priscila Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educação. Outro temor é que a nova lei contribua para agravar a evasão escolar, um velho problema da educação brasileira. Preocupa ainda o fato de, longe dos olhos de mestres e colegas, as crianças ficarem mais sujeitas a violência doméstica, abusos sexuais e trabalho infantil.

Com certo atraso, o Brasil repete o dilema por que passou a maior parte dos 65 países onde o ensino domiciliar já é legalizado. Nos Estados Unidos, a prática está em vigor, de diferentes maneiras, em todos os cinquenta estados, abrangendo 2 milhões de crianças. Um estudo da Universidade Harvard mostrou que mais da metade das famílias adeptas do método é cristã fundamentalista, que questiona a ciência, promove a subserviência feminina e chega a defender a supremacia branca. “Crianças têm o direito de crescer expostas a ideias e valores diversos dos de seus pais, em nome de um futuro aberto, em que elas escolham o próprio caminho”, diz a americana Elizabeth Bartholet, coordenadora do Programa de Direito da Criança da Harvard Law School. O conhecimento, para ser libertador, não deve estar delimitado pelos muros da casa de cada um.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

COLOCANDO ÁGUA NA FERVURA

A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1).

Nosso maior problema não é com nossas ações, mas com nossas reações. Podemos conviver em paz com uma pessoa a vida toda, desde que ela nos respeite. No entanto, quando essa pessoa nos provoca com uma pergunta insolente, perdemos o controle e a compostura e tendemos a dar uma resposta à altura. É por isso que o sábio nos mostra que não é a palavra branda que desvia o furor, mas a resposta branda. Isso é mais do que ação, é reação. Mesmo diante de uma ação provocante, a pessoa tem uma reação branda. É como colocar água na fervura e acalmar os ânimos. Em outras palavras, é ter uma reação transcendental. O oposto disso é a palavra dura e deselegante. Essa palavra, em vez de jogar água na fervura, coloca mais lenha na fogueira. Em vez de abrandar o coração, provoca ira. A escolha é nossa: podemos ser pacificadores ou provocadores de contendas. Podemos dominar nossas ações e reações, ou podemos ferir as pessoas com a nossa língua e com nossas atitudes. Nesse mundo em ebulição, o caminho mais sensato é jogar água na fervura. Em face das tensões da vida e diante da complexidade dos relacionamentos, o melhor caminho é ter palavras doces e respostas brandas.

GESTÃO E CARREIRA

TALENTOS EXTRAORDINÁRIOS

Companhias de diversas áreas de negócios descobrem as notáveis qualidades dos profissionais autistas. Não á toa, eles começam a ocupar mais terreno no mercado de trabalho

“Você é autista? Nem parece, é tão inteligente e comunicativo. “Frases como essa têm se tornado cada vez mais comuns em escritórios e reuniões virtuais de trabalho. Apesar de ofensivas e baseadas em velhos e equivocados estereótipos, trata-se de um ótimo sinal. No passado, os debates sobre o autismo se baseavam na esteira dos avanços da medicina, girando em torno da infância, das formas de identificá-lo e do papel dos pais para minimizar os danos de um transtorno incurável. Mas essas crianças crescem e precisam tocar sua vida como qualquer adulto, com os mesmos sentimentos e fragilidades, e eventualmente com muito mais habilidades. E essa é a grande mudança. Eis um fato inconteste, cientificamente comprovado, que o mercado de trabalho está assimilando rapidamente: autistas podem ser excelentes profissionais – e excelentes profissionais podem ser autistas.

O Brasil ainda é carente de dados confiáveis. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, um em cada cinco autistas já consegue emprego – uma taxa modesta de 20%, mas em franco crescimento, uma vez que a inserção no mercado de trabalho era quase inexistente no passado. Autistas de grau leve podem apresentar algumas dificuldades, como sensibilidade a luz e barulho ou falhas na compreensão de figuras de linguagem – nada que não seja contornável, sobretudo levando-se em conta as contrapartidas. “O cérebro dos autistas tem qualidades específicas que podem e devem ser aproveitadas. Em diversos aspectos, eles são mais eficientes”, diz Joana Portolese, neuropsicóloga da Faculdade de Medicina da USP. Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), os autistas têm sido especialmente aceitos nos ramos de tecnologia e programação, pois respondem muito bem quando lhes é dado um planejamento. São disciplinados e tendem a se especializar em assuntos de seu interesse. Há profissões não recomendadas, como cozinheiro ou guarda de trânsito, pois são atividades que geram situações de stress exagerado e imprevistos.

Estudos recentes mostram que há 2 milhões de autistas diagnosticados no Brasil, mas estima-se que o número real possa ultrapassar 3 milhões, devido a diagnósticos tardios e à imensa subnotificação. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o transtorno acomete uma a cada 160 crianças, mas estudos nos Estados Unidos apontam incidência bem maior, de uma a cada 59. Esmiuçada pela primeira vez em 1943 pelo psiquiatra infantil austríaco Leo Kanaer (1894-1981), a condição passa por constantes releituras. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria decidiu abarcar diversos tipos de desordens neurológicas, incluindo a síndrome de Asperger – grau mais leve de autismo constantemente relacionado à genialidade -, dentro de uma única definição, o transtorno do espectro do autismo (TEA). No Brasil, um ano antes, a aprovação da lei 12.764, também conhecida como Lei Berenice Piana, tornou-se um marco ao incluir autistas entre os demais portadores de deficiência, garantindo a eles tratamento via Sistema Único de Saúde (SUS) e sua presença no mercado de trabalho pelo sistema de cotas.

Nenhum autista é igual a outro, mas há similaridades como a dificuldade de interação social e a presença de padrões restritos de comportamento, interesses ou atividades. Em suma, há três gradações: o autismo leve ou funcional, em que chamam atenção comportamentos excêntricos ou repetitivos; o moderado, o qual há déficit nas habilidades de comunicação verbal e não verbal; e o severo, quando a capacidade cognitiva é altamente prejudicada, exigindo suporte absoluto. O primeiro grupo é plenamente capaz de viver de forma autônoma, ter filhos e uma profissão. O americano Donald Triplett, hoje com 88 anos, primeira pessoa diagnosticada com TEA, aos 5 anos, demonstra excepcional memória e trabalhou na empresa da família.

Boas iniciativas vêm ganhando impulso nos últimos anos. A Specialisterne é uma das organizações que mais contribuem para a neurodiversidade no Brasil, trabalhando em parceria com empresas como Itaú e Danone. A ONG já propiciou a contratação de cerca de 120 autistas, com 90% de taxa de retenção nos cargos. O processo de capacitação e seleção dura quatro meses, e a chegada ao escritório do colega “atípico” (termo que autistas costumam usar para se definir) exige adaptação e suporte. “Um workshop esclarece aos funcionários tanto sobre o que é o autismo quanto acerca das particularidades da pessoa”, afirma Rute Rodrigues, gerente da Specialisterne. Há algumas recomendações simples de integração que fazem toda a diferença no ambiente de trabalho, como reservar ao autista um local silencioso, com iluminação controlada, e evitar conversas fora de hora e mudança abrupta de rotina.

A neurodiversidade não é um tipo de assistencialismo, mas, sim, parte de uma estratégia lucrativa das empresas. Pesquisa da consultoria McKinsey mostrou que companhias que promovem diversidade em seus quadros têm receitas até 33% maiores. Com a inclusão de minorias, elas conseguem ampliar seus horizontes e atingir suas metas. “Pessoas com visões diferentes trazem soluções mais robustas, o que é fundamental para uma empresa de inovação”, diz Ricardo Neves, CEO da Everis, multinacional de consultoria de Negócios e TI.

Transformação de tal magnitude, evidentemente, tem seus desafios. Uma reclamação recorrente entre os profissionais autistas é sobre a ausência de um plano de carreira. Assim como ocorre com a maioria dos deficientes físicos ou visuais, eles geralmente trabalham como colaboradores, não funcionários contratados, e têm salário mais baixo. Esse é um dos motivos que levam muitos a esconder sua condição e a priorizar processos seletivos tradicionais. Outra razão é o constrangimento provocado por colegas desinformados, que insistem em trata-los de maneira infantilizada. Esse comportamento tem nome: capacitismo, o preconceito contra deficientes, uma segregação muitas vezes velada. Filmes e séries de TV costumam influenciar as pessoas, fazendo-as olhar para os autistas como incapazes ou, no outro extremo, gênios excêntricos. Na maioria dos casos, porém, são indivíduos que têm fragilidades intensas tanto quanto talentos notáveis – como todo e qualquer ser humano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A JUVENTUDE TRANCAFIADA

Pesquisa inédita revela sinais de mau humor, irritação e solidão entre os jovens. É fato: o isolamento tem sido duro, mas pode ser uma valiosa lição de vida para essa turma

“A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também. O Romance de Tarzan está passando no Coliseu, como há cerca de seis semanas. Eu gostaria tanto de poder ir ao cinema assistir ao filme. A escola abre esta semana, na quinta-feira! Você sabia? Como se não pudessem esperar até segunda-feira!” Esse trecho do diário de Violet Harris, uma adolescente de 15 anos de Seattle, nos Estados Unidos, poderia ter sido escrito hoje, hoje mesmo, sem tirar nem pôr- mas tem mais de 100 anos, foi rabiscado em 15 de outubro de 1918, em um dos momentos de abre e fecha da quarentena imposta pela Gripe Espanhola. Ressalte-se que aquela pandemia, na comparação com o surto do novo coronavírus, tinha uma característica assustadora para quem namorava a idade adulta: atingia e matava mais os jovens, filhos de um período histórico em que houve duas tragédias simultâneas, a da saúde e a da I Guerra. Havia pouco respiro e escassa esperança, em um tempo evidentemente sem internet, em que as janelas fechadas isolavam as pessoas do mundo – até que as autoridades sanitárias autorizassem algum sorriso, alguma liberdade celebrada em letras miúdas nas cadernetas carcomidas pelo cotidiano.

Agora é diferente, as válvulas de escape brotam a um toque de dedo no smartphone, nas conversas por WhatsApp, nas reuniões por Zoom, nas reclamações diante de intermináveis aulas on-line, apesar do heroico esforço dos professores e diretores de escolas. Os adolescentes não são as vítimas prioritárias do vírus, do ponto de vista epidemiológico e de internações. E, no entanto, a juventude dos anos 20 do século XXI, o nosso tempo, será outra quando o contágio se aquietar, com vacinação em massa e respeito aos cuidados de isolamento.

Há uma geração na berlinda e convém estar atento às transformações pelas quais ela passa- e que, se já não brotam em diários, pululam nas redes sociais. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante a pandemia revela o que vai nas mentes e corações de adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos. Há relatos de mau humor, irritação e solidão. Há tristeza. Há dificuldade em manter hábitos saudáveis, como a dieta balanceada. São nós que alcançam os jovens adultos. “Não é exagero dizer que, do ponto de vista psíquico, é o grupo mais afetado”, diz a responsável pelo estudo, Célia Szwarcwald, pesquisadora titular da Fiocruz.

Há uma dificuldade inerente à idade. A adolescência é como uma sinfonia hormonal sem tonalidade definida, de violinos brigando com tubas, sem partitura, irregular – e calhou desse rico e incontrolável período de qualquer vida coincidir com os freios determinados pelo vírus. Uma primeira e evidente má novidade: a distância do toque, do olho no olho, do dia a dia agora intermediado pelas câmeras.

Não se justifica o injustificável, mas as imagens dos últimos dias de festas clandestinas frequentadas por uma garotada sem máscara em ambientes com pouca ventilação representam um ato extremado (e perigosíssimo) de uma geração contida na marra. Apenas em São Paulo, ao longo do último fim de semana de março, por volta de 100 bares e aglomerações proibidas foram alvo de blitz e policiais. Cenas semelhantes foram vistas em Manaus, Rio e Florianópolis. “Há uma questão comportamental muito forte ligada a essa época da vida, que é sentir-se imortal”, diz o infectologista Marcos Boulos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Tentamos explicar das mais diversas formas quanto é arriscado se expor a esse tipo de evento, mas eles acham que nunca acontecerá algo de ruim com eles.”

Mas pode acontecer, evidentemente, e por ora a única saída é a cautela, compulsória e, para muitos, exageradamente restritiva. As escolas correm para amenizar o desânimo generalizado. No colégio de alto padrão Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, ficou combinado que os estudantes que já concluíram o ensino médio poderão voltar à instituição quando houver queda relevante do número de casos em decorrência da Covid-19, que chegou a assustadoras 3.200 mortes na média móvel de sete dias, com mais de 500.000 vítimas. “Esse tipo de atividade tem um ganho inestimável ao construir memórias em uma época tão decisiva da vida”, diz o professor João Roberto de Souza Silva, diretor das classes de ensino médio na instituição. Nos Estados Unidos, a formatura do chamado high school, o último passo antes da formação universitária, não contou com os tradicionais bailes, mas foi comemorada por meio de fotos e faixas na porta das casas e jardins das famílias dos formandos. Talvez não baste, mas é um jeito de tocar o barco, porque viver é preciso.

Viver e viver, apesar dos sustos em torno do que se enxerga lá fora. O vírus ainda não se mostrou letal para os mais jovens, longe disso, mas há uma sombra incômoda, que se avizinha. Por motivos que vão do aumento da exposição ao microrganismo às características das novas cepas, mais agressivas, análise da Fiocruz constatou aumento de casos graves entre homens e mulheres com idades de 20 a 29 anos na ordem de 256% ao longo das quinze primeiras semanas de 2021 – e, como consequência, mais hospitalizações. Entre idosos de 80 a 89 anos, a título de comparação, a alta foi de 154,39% – com a vital diferença deque avós e avôs começam a ser vacinados e já desenvolvem os tão desejados anticorpos. Ao estender a lupa para outros países, como a França, é possível notar um crescimento até de contaminação entre crianças e adolescentes. Uma análise epidemiológica no país revelou que a faixa etária entre 10 e 19 anos teve cinco vezes mais casos da doença em março do que em janeiro deste ano. Atribui-se a escalada à manutenção do funcionamento das escolas e a algum relaxamento natural, depois de tantos meses, depois de tanto cansaço.

Em meio ao medo, as boas novas são celebradas com incontida euforia. Na quarta-feira 31, o consórcio formado pelas farmacêuticas Pfizer e BioNtech apresentou extraordinários resultados com testes de vacina entre crianças de 12 a 15 anos. Em ensaio clínico com 2.260 voluntários, em quem foram aplicadas duas doses em um intervalo de três semanas, não se verificou um único caso de contágio. O trabalho ainda não foi publicado em revista científica, mas as autoridades de saúde dos Estados Unidos já se organizam para ampliar a reabertura das escolas de ensino fundamental e médio assim que as agulhadas chegarem à turma que mal começou a vida, e, portanto, poderia retomá-la.

À espera do definitivo achatamento das curvas, na fila pela vacina, convém não perder o bom humor. A pandemia, reafirme-se, não durará para sempre e há como enxerga-la de outro modo. A atual situação abre caminho para que os jovens que se aventuram pela primeira vezno mercado de trabalho desenvolvam uma capacidade fundamental para os novos tempos: a adaptação. “O estágio de trabalho em home office é uma boa experiência para que eles sejam mais independentes e aprendam a controlar a própria produtividade”, diz Seme Arone Junior, presidente do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). “Mas é preciso que as empresas ofereçam a contrapartida decisiva para esse momento da carreira, as orientações e retornos claros.” A resiliência é também outra palavra-chave usada pelos especialistas em intercâmbios estudantis – atividade que despencou 46% no ano passado em comparação com 2019. Muitos dos alunos que tinham interesse em viajar para fora do país adaptaram-se ao novo cenário por meio de aulas on-line em instituições estrangeiras. “As escolas internacionais decidiram flexibilizar diversas regras e incluíram aulas virtuais no currículo para que estudantes de outros países, como o Brasil, possam aprender com qualidade da própria casa e só precisem viajar quando for seguro”, diz Priscilla Gomes, diretora de eventos da Business Marketing Internacional (BMI), empresa responsável pelo Salão do Estudante, a maior feira do setor no país. “Ninguém precisa desistir do sonho, basta esperar um pouco ou adaptá-lo para a atual realidade.”

Sublinhe-se, então, depois de mais de um ano da eclosão do surto em Wuhan, na China, apesar das agruras, apesar da tristeza, que nem todos guardarão na memória apenas episódios traumáticos do período em que sair de casa representava um grande risco à saúde. Há meninas e meninos que aproveitaram positiva e calorosamente o inesperado período de convivência junto aos pais e sentiram algum alívio nas pressões por vezes impostas no convívio escolar, da sala de aula, do ir e vir diariamente. Esconder-se por trás de uma câmera pode funcionar como escudo. Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde (NIHR), no Reino Unido, com 1.000 estudantes com idades de 13 a 14 anos em dezessete escolas da Inglaterra, mostrou que os níveis de ansiedade entre a garotada reduziram-se na casa dos 10% ao longo do período de lockdown. Houve, portanto, um aumento no bem-estar geral. Para os que não estão lidando tão bem com a situação – o que é absolutamente aceitável – é bom relembrar que esta não é a primeira nem será a última vez que a humanidade foi posta em situações-limite. “Os pais podem trazer referências históricas ao conversar com seus filhos”, diz Ilana Pinsky, psicóloga clínica e coautora do recém-lançado livro Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Editora Contexto). “Houve restrição de liberdade e muito receio sobre o futuro ao longo das guerras mundiais e em outras ocasiões de epidemias”, diz Ilana. “Pensando nisso, precisamos aprender que a vida nunca será absolutamente previsível e cabe a nós a adaptação para atravessar as tempestades. “E quando tudo passar, porque passará, com total segurança sanitária, de mãos dadas com a ciência, alguém voltará ao diário, abrirá o Instagram, para anotar, como se a adolescente Violet da Gripe Espanhola olhasse para 2021: “A proibição foi suspensa hoje. Não mais… máscaras. Tudo aberto também”.

UMA GERAÇÃO NA BERLINDA

O Impacto da pandemia nos Jovens de 12 a 17 anos•

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.

A DUAS DOSES DA LIBERDADE

Em março do ano passado, tão logo a pandemia foi confirmada, criou-se uma atmosfera de blindagem de homens e mulheres acima de 60 anos, o grupo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Os avós passaram, então, a aparecer em fotos e vídeos recebendo carinho a distância de netos, por meio da tela de smartphones ou por trás dos vidros da janela de casa. Um ano depois, uma fagulha de esperança começou a circular na internet, com imagens completamente diferentes – famosos e anônimos passaram a exibir nas redes sociais os braços oferecidos a profissionais de saúde. A profusão de posts criou expressões de grande sucesso na internet, como #vacinados e #vemvacina.

Os primeiros beneficiados foram aqueles com idade acima de 90 anos. Agora, dois meses depois do início da imunização no país, a faixa etária está em torno dos 60 anos. O resultado vai muito além de toda a comoção causada pelos cliques. A vacinação começa a apresentar sinais concretos de alento entre a geração mais antiga. De acordo com levantamento, pelo menos três capitais já apontam redução do impacto da Covid-19 entre os imunizados. No Rio de Janeiro, houve queda de 34% nas mortes e 30% das internações por Covid-19 entre os que estão acima de 90 anos. Na cidade de São Paulo, as médias de internações despencaram 57% e as mortes, 70%, na mesma faixa etária, após o início da campanha de vacinação. No Distrito Federal, as internações de idosos com 80 anos ou mais em UTIs da rede pública caíram 45%. Trata-se de uma decisiva indicação de que a celeridade na vacinação deve ser perseguida a todo custo pelo Ministério da Saúde. Só dessa maneira todos, e não só os avós devidamente protegidos com duas aplicações dos imunizantes, poderão voltar a abraçar seus amigos e familiares.