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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

EU ACHO …

O MUNDO SERÁ 5G

As conexões 3G democratizaram o acesso às redes. O 4G ofereceu mais entretenimento e programas de mobilidade urbana. Mas nada se compara à nova era que começa agora

A imaginação é uma das mais valiosas características da civilização. Fonte de ideias e catalisadora da criatividade, permite ao ser humano ver além do tempo presente, vislumbrar e até mesmo criar o futuro. Pensando nisso, proponho aqui um exercício de reflexão: como você imagina que a tecnologia impactará sua rotina nos próximos dez anos? Em poucos segundos, sua imaginação oferecerá uma série de possibilidades para responder a essa pergunta. E, posso assegurar, a materialização de grande parte dessas ideias está intrinsecamente conectada a dois pontos: o aprimoramento e a expansão da rede 5G.

Para projetarmos o futuro, é indispensável um olhar atento ao presente. Com a intensificação da integração entre pessoas e tecnologia que vem ocorrendo nos últimos meses, é nítida a necessidade de desenvolvimento de plataformas capazes de oferecer mais velocidade, suporte a múltiplos usuários simultaneamente, sem perda de desempenho, e maior nível de confiabilidade, sempre levando em consideração as particularidades de privacidade e segurança de dados.

Nas gerações anteriores de conexão, o 3G teve papel fundamental na democratização do uso da internet móvel, facilitando a navegação em redes, o acesso a e-mails e o compartilhamento de fotos. O 4G, por sua vez, possibilitou a criação de novos serviços relacionados a mobilidade urbana, delivery e elevou o nível de entretenimento em dispositivos móveis, com plataformas de streaming de vídeo e áudio. Nada disso, porém, se compara ao que o 5G pode proporcionar.

Em constante evolução, o 5G é um pilar de transformação do mundo como o conhecemos. Por meio de sua capacidade de conexão e congruência com o conceito de Internet das Coisas, impactará diversos setores da indústria, como saúde, construção civil, mobilidade urbana, agronegócio, logística e telefonia. Modificará a arquitetura das cidades, casas e economia. Mais do que isso: mudará nossa vida.

A rede 5G é peça-chave na construção de veículos autônomos, fortalecendo a inteligência artificial (IA), gerando informações em tempo real e diminuindo o tempo de reação de acordo com cada situação. Na telemedicina, o 5G viabilizará a realização de alguns procedimentos mesmo com o médico a quilômetros de distância do paciente. Modelos de empresas, escritórios e fluxos de trabalho serão repensados. Além de otimizar as indústrias existentes, o 5G contribuirá para o surgimento de novos modelos de negócio e formas de relacionamento.

Um dos pontos mais relevantes do 5Gserá, justamente, a potencialização do desenvolvimento de dispositivos convergentes ao conceito de Internet das Coisas. Cada vez mais produtos, dos mais variados tipos, passarão a operar on-line, criando, assim, uma grande rede integrada. Casas automatizadas ganharão ainda mais força, com os equipamentos eletrônicos conectados a um único sistema, desde o smartphone até a televisão, o notebook, o refrigerador, o aspirador, o ar-condicionado e a lavadora.

Grandes companhias em todo o mundo já estão voltando seus investimentos para o desenvolvimento de soluções com base no 5G. A Samsung assumiu uma posição de liderança na busca pela ampliação de produtos que sejam integrados à nova rede. De acordo com estudo conduzido pela Universidade Técnica de Berlim e pela IPlytics, divulgado em janeiro deste ano, a empresa é a que mais registrou patentes para 5G no mundo (2.633), com diversas aplicações, inclusive, já existentes em equipamentos como smartphones. A implementação da rede 5G e a tangibilização de produtos que tenham o 5G como ponto central serão graduais, assim como ocorre com as principais e mais inovadoras tecnologias disponibilizadas no mercado. Em um primeiro momento, a mudança mais evidente será em atividades comuns do cotidiano, potencializadas pelo substancial aumento da velocidade de conexão e pelo nível de desempenho de dispositivos com essa rede de conexão.

Nos países em que a rede 5G começou a ser implementada, como Coreia do Sul, Estados Unidos, Emirados Árabes e Alemanha, já é evidente o avanço na comunicação e nas opções de entretenimento, por exemplo. A alta velocidade e o nível de performance garantem urna conexão estável e imagens de alta qualidade em videoconferências. O aumento da capacidade de desempenho melhora a experiência de consumir e baixar conteúdo em plataformas de streaming de vídeo. Oferece, também, a possibilidade de que as pessoas desfrutem, no smartphone, mais qualidade e variedade de games, que antes eram disponibilizados apenas em consoles ou computadores.

Na América Latina, a expectativa é que, conforme a rede 5G seja expandida, os países da região, principalmente Brasil e México, que estão entre as nações em que a população mais utiliza a internet no mundo, tenham essa tecnologia como ponto central do contínuo desenvolvimento social, diminuindo as barreiras de acesso à educação e saúde de qualidade. Pois, além de otimizar as indústrias existentes, contribuirá para o surgimento de novos modelos de negócio e formatos de relacionamento. E essa, talvez, seja uma das principais razões pelas quais eu acredito que sua implantação possa vir a ser mais rápida que as gerações de conexão anteriores.

O momento atual reforça um caminho sem volta, uma estrada inescapável já inaugurada: o futuro exigirá uma integração ainda mais ampla e acelerada entre humanidade e tecnologia. Mais do que isso, essa valorosa união será benéfica ao criar mais oportunidades e integração entre famílias e culturas, que estarão a apenas um clique de distância, e ao vencer os desafios que aparecerão no caminho da humanidade, proporcionando uma qualidade de vida superior. Afinal, a tecnologia deve sempre estar a serviço das pessoas.

**MÁRIO LAFFITTE – é vice-presidente de Relações Institucionais da Samsung na América Latina

OUTROS OLHARES

SUCESSOS DA QUARENTENA

A pandemia criou novos hábitos de consumo: o maior tempo em casa fez com que produtos como cadeiras e pijamas virassem campeões das vendas online

É difícil imaginar que um dia pijamas e quebra-cabeças seriam os itens com maior crescimento nas buscas do Google, mas aconteceu. Junto às fritadeiras elétricas, cadeiras de escritório, pantufas e aspiradores de pó, esses produtos são os maiores objetos de desejo da quarentena. Se não há festas, por que comprar um vestido? Para o especialista em consumo Renato Meirelles, responsável pelo Instituto Locomotiva, entidade que analisa padrões de comportamento e compra, o processo de escolhas é natural. “No início, as pessoas compraram o que era prático e necessário”, diz Meirelles. “A importância dada a um produto, porém, é diferente entre as camadas sociais. Há moradias na favela que valorizam TVs de alta de definição, porque são fontes de entretenimento nesse período.”

PANTUFAS E MOLETONS

O professor universitário Tiago Andrade aproveitou a quarentena para realizar uma mudança radical em seu apartamento. “Nas primeiras semanas, dei aulas online na mesa da cozinha. Quando vi que o vírus veio para ficar, percebi que precisava montar uma estação de trabalho melhor.” Tiago comprou um computador novo, uma mesa e uma cadeira “gamer”, modelo voltado para quem passa longas jornadas na frente da tela. “Essas cadeiras são ideias para quem passa horas jogando videogame. Tem ajustes até para o pescoço”, afirma o professor, que chega a ficar mais de 46 horas sentado à frente do computador por semana.

Segundo o Google Trends, plataforma que analisa os termos mais buscados no Google, os quebra-cabeças tiveram um aumento de 150% nas buscas em maio, algo inédito até em datas como Natal e Dia das Crianças. A estudante Giovana Cassoni, de 17 anos, aproveitou as férias para montar quatro quebra-cabeças. Adquiriu ainda um kit complementar, com tapete imantado e potes organizadores para as peças. “Montar quebra-cabeças foi bom para passar o tempo, além de ser tranquilizante. Também me ajudou a ter uma pequena meta a ser cumprida”, diz Giovana.

Antes da pandemia, as reuniões da assessora de comunicação Amanda Rinaldi com clientes exigiam um figurino elegante. Hoje, passando mais tempo em casa, ela investiu em roupas confortáveis. “Comprei três pijamas e dois casacos de moletom”, diz Amanda. Com aumento de 500% nas buscas na quarentena, o pijama virou a peça mais querida do guarda-roupa.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE SETEMBRO

MEMÓRIAS QUE TRAZEM ESPERANÇA

Quero trazer à memória o que me pode dar esperança (Lamentações 3.21).

Jeremias foi testemunha ocular da destruição de Jerusalém. Viu a cidade cercada pelos inimigos e saqueada de suas riquezas. Viu o templo queimado e o povo passado ao fio da espada. Houve pranto e dor; gemidos e lamentos. Os velhos eram pisados pelas botas dos soldados caldeus, e as crianças eram arrastadas pelas ruas como lama. As jovens eram forçadas, e as mães choravam por seus filhos. O quadro era de total desolação. O profeta chorou amargamente essa realidade sofrida. Chegou, porém, um momento em que ele resolveu estancar no peito sua dor. Deixou de alimentar sua alma de absinto e buscou nos arquivos da memória aquilo que lhe poderia dar esperança. Jeremias tomou a decisão de recomeçar. Aqueles que alimentam a alma apenas com lembranças amargas adoecem. Aqueles que não se libertam do passado e não colocam o pé na estrada do recomeço acabam sendo vencidos pela mágoa. Como Jeremias, é importante tomar uma decisão: trazer à nossa memória aquilo que nos pode dar esperança. A única esperança que temos é a mesma que consolou Jeremias: As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha  porção  é o  SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele (Lamentações 3.22- 24).

GESTÃO E CARREIRA

A BELEZA SEGUNDO JESUS

Empresário carioca Daniel Fonseca de Jesus, que fundou a Niely e a vendeu para a L’Oréal, deve superar R$ 100 milhões em vendas neste ano com sua nova empresa, a Duty Cosméticos.

Quando a fabricante brasileira de cosméticos Niely foi vendida para a francesa L’Oréal, em 2014, muitos imaginavam que o fundador da maior empresa de produtos de beleza para pele e cabelo afro, Daniel Fonseca de Jesus, se tornaria um nome fora no cenário em pouco tempo. Com R$ 1 bilhão no bolso, porém, ele decidiu começar de novo, e investiu R$ 200 milhões para lançar sua nova marca, a Duty Cosméticos. Assim, Jesus voltou ao promissor mercado nacional da beleza – e tem conseguido multiplicar seus resultados.

Com atenção voltada aos cabelos das mulheres das classes C e D, a companhia, sob gestão da filha, Danielle de Jesus, comercializa produtos para coloração, além de xampus e condicionadores, e calcula faturar R$ 100 milhões em 2020. O foco inicial está nos pontos de venda de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. “O Brasil tem dimensões continentais e um mercado consumidor enorme que busca novidade, qualidade e preço justo. Estamos expandindo e vamos levar a marca para todos os cantos do País. Com o nosso e-commerce, já entregamos de Norte a Sul”, diz a vice-presidente Danielle, em entrevista à DINHEIRO.

A herdeira e empresária tem se mostrado satisfeita com a resposta dos consumidores aos produtos da empresa, apesar do curto tempo nas prateleiras – a comercialização começou em outubro, um mês após a apresentação da marca ao setor. “Estamos muito felizes com a aceitação do mercado. Sabemos que o ramo de cosméticos é maduro, com grandes marcas consolidadas. Conseguimos abrir os principais clientes do mercado conforme nosso plano de distribuição para 2019. Também batemos nossa meta de vendas no e-commerce”, afirma ela, sem revelar números.

Para a vice-presidente, a experiência do pai no ramo e a aposta da Duty nas classes C e D da população são essenciais para o fortalecimento da marca no País. “Daniel de Jesus possui anos de experiência no mercado, chegando a conquistar marcas inéditas no setor de cosméticos com uma empresa nacional e familiar”, diz ela, destacando os maiores legados de seu pai, como o conhecimento da consumidora brasileira e, principalmente, relacionamento com a malha de clientes de perfumaria, distribuidores, atacado e varejo. “A aposta nas camadas C e D se dá por causa da realidade no nosso País, onde a grande maioria da população se encontra nessas classes. É uma forma de chegar a todo o Brasil levando produtos de qualidade e a preço justo.”

MERCADO

O avanço da Duty no mercado brasileiro de cosméticos se dá em momento de transformações no ramo, que registrou crescimento real de apenas 0,69% em 2019. Para 2020, se estima avanço de 1,54%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal e Cosméticos (Abihpec). Aquisições ou fusões estão entre as estratégias traçadas pelas empresas para ampliar mercado e conquistar consumidores. A compra da Avon Products pela Natura &Co, no ano passado, aqueceu o setor, que já há alguns meses acompanha as negociações para comercialização da francesa Coty, dona de marcas como Monange, Risqué e Bozzano. A empresa prevê faturar entre US$ 8 bilhões (R$ 33 bilhões) e US$ 9 bilhões (R$ 37,1 bilhões) com as vendas da divisão de produtos profissionais para cabelo e unha, como Wella e Clairol, e da operação brasileira. Meta é reduzir dívida líquida de US$ 7,4 bilhões (R$ 30,5 bilhões), além de simplificar a estrutura.

O Grupo Boticário está entre os interessados no ativo da Coty, a exemplo do empresário Daniel de Jesus. Danielle, no entanto, não confirma a informação, mas admite futuras aquisições. “A Duty, no momento, está focada em desenvolver suas marcas próprias, mas tendo o objetivo de ser uma grande empresa de beleza. Porém, não descartamos a possibilidade de adquirir empresas do mercado”, afirma.

A empresa tem fortes aliados em busca da expansão. O empresário Jorge Paulo Lemann e os sócios Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira compraram participação na Duty Cosméticos ainda em 2019. Fatia adquirida e quantia desembolsada não foram reveladas pelas partes. “Temos contrato de confidencialidade com nossos sócios”, afirma a vice-presidente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELOGIO PODE, SIM, SER DEMAIS

A ciência mostra que enaltecer o tempo todo as conquistas e qualidades dos filhos tem o efeito de despregá-los da realidade e levar à insegurança e à aversão ao risco

Sai uma geração, entra outra e o debate sobre o ponto de equilíbrio entre o liberal e o severo na educação dos filhos segue firme. Cada família, imersa em sua própria cultura e modo de enxergar o mundo, envereda por uma trilha, num processo quase que intuitivo, à base de tentativa e erro. Mas já há boa ciência acumulada nesse terreno – um conhecimento capaz de derramar luz sobre os dilemas vividos por qualquer pai ou mãe e lhes dar algum norte sobre como agir. Uma nova frente de pesquisas vem se atendo a uma questão central, que atormenta progenitores de todo o planeta: até que ponto elogiar a criançada? Pois a conclusão colide com o velho ditado “Elogio nunca é demais” e sustenta que o excesso de manifestações positivas pode, sim, atrapalhar.

Uma das constatações a que os estudiosos chegaram reforça a ideia de que enaltecer o tempo todo os pequenos tende a gerar grandes bolhas, dentro das quais eles se percebem livres de defeitos e predestinados ao sucesso, conceitos naturalmente distorcidos. Outro efeito colateral do elogio em demasia é desencadear um ciclo movido a pressão, em que os filhos ficam constantemente tentando fazer frente às imensas expectativas depositadas neles. “Muitas vezes, avaliações generosas e abundantes sobre a habilidade da criança alimentam nela uma elevada ansiedade para corresponder”, frisa o holandês Eddie Brummelman, coautor de uma das relevantes pesquisas sobre o tema, liderada pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Ele e os colegas alertam ainda sobre um desdobramento na vida adulta daqueles que sempre recebem nota 10 dos pais (mesmo quando não merecem). “O choque de realidade pode levar à insegurança e à dificuldade de lidar com o fracasso. E a tendência acaba sendo a opção por caminhos mais fáceis com o objetivo de alcançar a sensação de vitória a qualquer custo”, diz Brummelman.

Capitaneada pela especialista Carol Dweck, autora do best-seller A Nova Psicologia do Sucesso, a pesquisa de Stanford mergulhou de forma qualitativa em um universo de 400 estudantes, entre 11 e 12 anos. De um lado, ficou a turma que recebia frequentes elogios de pais e professores acerca de suas notas e intelecto, e, do outro, um grupo exaltado pelo esforço envolvido na aquisição de saber na escola. Com todo o rigor científico, descobriu-se que aqueles que haviam sido sistematicamente valorizados pelo empenho se tornaram alunos mais interessados e abertos a desafios do que os que se acreditavam “brilhantes” – estes revelavam mais nervosismo antes das provas e preferiam explorar questões simples às mais complexas.

A ciência pode ajudar a tornar menos intuitivo o árduo exercício da maternidade, para o qual, como se sabe, não há gabarito. Pedagoga e também mãe, Maya Eigenmann, 33 anos, aprendeu a pisar no freio nos rasgados elogios que tecia à prole. “Fazia festa a cada pequena conquista, pois achava que essa era a melhor forma de incentivar e de demonstrar amor”, conta ela, que tem os filhos Luca, 5 anos, e Nina, 3, com quem vive na Inglaterra. Maya, que é adepta das teses de Dweck, acha que a mudança de rota funcionou: “Parei de celebrar tudo e sinto que hoje eles são mais independentes, demandando menos aplausos”, diz.

A ascensão do elogio como ferramenta para a educação data da década de 70, quando se popularizou nas universidades americanas o movimento “autoestima positiva”, em contraposição a uma rigidez então percebida como limitadora para o livre pensar. Daí nasceu a ideia, que viria a proliferar, de que professores e pais deveriam dar retornos favoráveis à turma jovem, como um estímulo para que eles não desistissem dos estudos. Esses novos ares foram ventilados também no ambiente familiar, logo suscitando correntes contrárias – e até hoje vivas – que se arvoram contra o que chamam de “aplauso tóxico”. Em 2010, o polêmico Grito de Guerra da Mãe Tigre, da escritora americana descendente de filipina Amy Chua, trouxe à baila, mais uma vez e com grande estrondo, a questão da disciplina na criação dos filhos, que fervorosamente defende – incluindo penalidades para os que não fazem a sua parte. Foi torpedeada por muita gente, mas propôs uma essencial reflexão sobre o equilíbrio na formação das novas gerações.

Outra que sacolejou o debate foi a americana Pamela Druckerman, que se mudou para Paris e percebeu no modo de educar francês um misto de autoridade e autonomia capaz de, segundo ela, produzir seres menos dependentes e mimados. Seu best-seller Crianças Francesas Não Fazem Manha concluiu que a chave estava em traçar limites sólidos, envolver as crianças na rotina da casa e jamais tornar a maternidade ou a paternidade o trabalho número 1 na vida de um adulto. Isso tudo não exclui o elogio quando ele bem couber. “Nunca reconhecer conquistas ou uma melhora de atitude descamba para o excesso oposto, podendo causar baixa autoestima”, pondera a psicóloga Ana Lídia Zerbinatti, ressaltando que aplauso tem hora e lugar (veja o quadro abaixo). Mãe de um quarteto, a professora Daniela Mazzarella, 33 anos, diz que tenta eleger de maneira racional o momento certo de bater palmas. “Aplaudo, principalmente, quando o resultado de meus filhos inclui uma mudança de postura”, explica ela, ciente de que não há resposta certa. Na dúvida, vale o bom senso: nunca exagere.

ENCORAJAR SEM ESTRAGAR

5 dicas para alcançar o tão delicado equilíbrio na educação dos filhos

EU ACHO …

LIVROS PARA QUEM?

Por que a proposta de um novo imposto sobre o produto é cruel

Eu tinha 15 anos quando falei à minha mãe que queria ser escritor. Ela me encarou entre a surpresa e a preocupação e disse: “Mas, meu filho, pra viver como escritor no Brasil só o Paulo Coelho!”. A rebeldia juvenil me fez continuar a escrever. Em 2010, aos 20 anos, lancei meu primeiro livro e, desde então, publiquei outros cinco, que foram traduzidos para o exterior e tiveram os direitos de adaptação vendidos ao cinema. Sei que tive (tenho) uma trajetória incomum. Por vezes, sou usado como exemplo de escritor best-seller. Apesar disso, posso garantir: eu não vivo dos direitos autorais dessas obras. Minha mãe estava certa. Talvez só o Paulo Coelho.

Faça as contas comigo: um livro custa, em média, 50 reais. Por contrato, o autor recebe 10% do preço de capa, o que dá 5 reais por exemplar. Considerando que os livros de um autor muito popular vendem 10.000 exemplares (número difícil de alcançar), o autor recebe 50.000 reais ao final do período que leva para vendê-los, ou seja, uns dois anos. Dá, em média, 2.000 por mês. Ajuda a pagar as contas? Ajuda. Mas está longe de garantir uma vida luxuosa.

Para onde vai o restante do dinheiro?, você me pergunta. O texto é só o primeiro passo. Depois vêm o editor, o revisor, o tradutor, o artista gráfico, o diagramador, a gráfica, o divulgador, o distribuidor e a livraria. Ninguém ganha muito no final das contas. Fazer literatura no Brasil é um trabalho hercúleo, só para apaixonados. Nos últimos anos, a recuperação judicial de duas redes, Saraiva e Cultura, prejudicou o mercado e fez com que editoras, especialmente as pequenas e médias, fechassem ou ficassem no vermelho.

Fiz questão de traçar um panorama porque, acredite, é sobre esse mercado em crise, com perspectivas tenebrosas, que o ministro da Economia, em sua proposta de reforma tributária, decidiu fazer incidir um imposto de 12%. Sim, a ideia é que o governo receba por livro mais que o próprio autor. A taxação também impactará no preço final. Questionado sobre a decisão, Guedes disse que deixar as obras mais caras não é um problema, já que o livro é um produto consumido pela classe alta. Mais uma vez, ele evidencia seu desconhecimento em relação aos livros e ao público leitor.

Em tempos normais, uma das principais atividades do escritor brasileiro é participar de eventos literários. Em 2019 estive em Joinville, Tocantins, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Garanhuns, Votuporanga, Brasília e Maceió. Com frequência recebo mensagens de leitores contando que vendem coxinha ou economizam dinheiro do lanche para comprar livros. O leitor médio do Brasil pertence às classes C e D, está fora dos grandes centros e conta cada centavo para obter o livro que deseja.

A proposta ainda será votada no Congresso Nacional. Se você ama os livros, o conhecimento, as boas histórias, pode fazer sua parte e pressionar nossos representantes para terem o bom senso de não aprovar a taxação. Além de assinar a petição on-line em defesa do livro (bit.ly/DefendaLivro), faça barulho, converse com os amigos, use a hashtag #defendaolivro em suas redes sociais e compartilhe posts contra a tributação. Tornar esses produtos ainda mais inacessíveis é vil e cruel, uma aberração.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

A FÚRIA NEGACIONISTAHá duas epidemias que se cruzam no Brasil: a de coronavírus e a de estupidez. Aos poucos e sob a persistente influência do presidente Jair Bolsonaro, uma onda de obscurantismo se abate sobre o País e faz cada vez mais pessoas desprezarem ou minimizarem a ciência e a medicina. Só isso explica que, em meio a mais grave crise sanitária do século, cresça o número de cidadãos que compartilha a tese falaciosa, propagada pelo governo, de que vacinas não devem ser obrigatórias e causam mais riscos à saúde do que benefícios

São ideias aterrorizantes e contra os fatos, que, se prosperarem, podem levar milhares ou até milhões de pessoas à morte ou à invalidez, nos próximos anos, por inúmeras enfermidades reconhecidamente erradicadas pela vacinação. Trata-se de um retrocesso civilizacional com os ares sombrios da Idade Média. Grupos de direita que se opõem à imunização em massa aproveitam a crise da Covid-19 para promover a resistência às vacinas, comportamento que ganhou força nos últimos anos e é considerado uma ameaça global pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, tenta-se, a todo custo, politizar a doença, lançar teorias conspiratórias e incentivar a desobediência civil. A vacina contra o coronavírus nem existe e Bolsonaro já lançou uma campanha de descrédito contra ela.

Na segunda-feira 7, a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) publicou no Twitter uma declaração do presidente dada na semana anterior: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. No dia 8, Bolsonaro voltou ao assunto e disse que “não se pode injetar qualquer coisa nas pessoas e muito menos obrigar”. Foram afirmações levianas e sem respaldo científico ou legal, que feriram princípios éticos, já que a vacinação não é uma escolha e a imunização que será oferecida para a população não será “qualquer coisa”. Na verdade, a lei 6259/1975, que estabeleceu o Programa Nacional de Imunização, prevê a obrigatoriedade da vacinação. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, também estabelece a imunização compulsória para brasileiros de até 18 anos e sanções para pais e responsáveis que não cumprirem essa obrigação. E o próprio Bolsonaro sancionou uma lei, em fevereiro, que permite a vacinação compulsória no enfrentamento da pandemia.

“Quando a autoridade pública diz que a vacinação não é obrigatória, ela está prestando um desserviço enorme e mostrando desconhecimento da função das vacinas”, diz o hematologista Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e membro do Comitê de Contingência do Coronavírus, em São Paulo. “O papel da vacina é a proteção social, antes de tudo. Não é só a proteção individual, mas da comunidade”, afirma. Quem fala, como Bolsonaro, que a vacina não é obrigatória, coloca o interesse coletivo em segundo plano. Além disso, todas as vacinas estão sendo testadas sob rígidos protocolos de segurança, apesar da situação de urgência. Prova disso é a suspensão temporária dos testes da vacina desenvolvida pela AstraZeneca, que vinha fazendo ensaios clínicos com voluntários no Brasil (ver box). Outras quatro vacinas estão sendo testadas e só chegarão à população quando tiverem a eficácia e a segurança comprovadas.

INTERESSE COLETIVO

As declarações antivacina de Bolsonaro causaram assombro na OMS. A cientista-chefe do órgão, Soumya Swaminathan, chamou atenção para a eficácia das vacinas. “O primeiro aspecto a se considerar é que as vacinas erradicaram doenças como sarampo e varíola e fizeram muito pela humanidade”, disse. “Essas declarações mostram o quanto é necessário educação, transparência e informação pública sobre a importância das vacinas em geral e, em seguida, sobre a vacina contra a Covid-19.” O diretor geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, também comentou o avanço do discurso negacionista. “As pessoas não devem ser confundidas por movimentos antivacinas, mas ver como o mundo usou a imunização para combater a mortalidade infantil e para erradicar doenças.” O fato é que as vacinas se revelaram uma das invenções mais salvadoras da humanidade. Segundo a OMS, a vacinação em massa evita, hoje, pelo menos 240 mortes por hora no mundo e causa uma economia de R$ 250 milhões por dia, diminuindo a pressão sobre os serviços de saúde. Esses cálculos incluem a imunização para doenças como difteria, sarampo, coqueluche, poliomielite, rotavírus, pneumonia, diarreia, rubéola e tétano. A OMS estima que as vacinas impeçam a morte de 2 a 3 milhões de pessoas por ano e poderiam salvar mais 1,5 milhão de vidas se a imunização fosse ampliada.

CAPITÃO CLOROQUINA

Uma evidente demonstração de que o pensamento antivacina prospera foi dada em uma manifestação na Boca Maldita, área no centro de Curitiba (PR), também no Dia da Independência, em que os participantes diziam em cartazes “não queremos a vacina, nós temos a cloroquina”. O grupo, que se autodenomina Curitiba Patriótica e marca seus atos pelas redes sociais, reuniu uma dezena de pessoas. “Organizamos o ato porque somos patriotas. Como não haveria o desfile cívico, nos prontificamos a fazer uma manifestação”, afirma o publicitário César Hamilko, um dos participantes do protesto. Ele costuma divulgar pelo Facebook vídeos com mensagens de incentivo ao tratamento precoce do coronavírus, nos quais defende o uso do vermífugo ivermectina, de vitaminas, especialmente a D, e da cloroquina. Segundo ele, quem faz o tratamento, a partir do mínimo sintoma, não tem chance de ficar doente. Hamilko acredita que “Bolsonaro foi eleito e tem legitimidade para dizer o que os brasileiros devem tomar para se precaver contra a Covid-19”. Quanto à vacina contra o coronavírus, ele declara que não vai tomar. “Não confio no que vem por aí”, diz.

Segundo o pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Akira Homma, as vacinas e o processo de vacinação são um binômio de alto custo-benefício para a sociedade e para a civilização e os ganhos dela decorrentes só são comparáveis aos da água potável, em termos de saúde pública. A vacinação em massa previne doenças e aumenta a qualidade de vida. Junto com o saneamento básico, foi a principal responsável pela diminuição da mortalidade infantil e pelo aumento da longevidade da população no século XX. “Os movimentos antivacinas são insidiosos, altamente prejudiciais à saúde”, afirma Homma. O discurso antivacina, o questionamento constante do isolamento social, a aversão às máscaras, a promoção de remédios milagrosos: tudo é parte de um mesmo pacote negacionista. Para os bolsonaristas de plantão, pouco importa se a recusa à imunização contribui para que as doenças se alastrem. Mais importante para esses grupos é promover a desinformação.

Enquanto coloca em dúvida a eficácia das vacinas e relativiza sua importância, Bolsonaro continua na sua saga particular na defesa da cloroquina e não perde uma oportunidade de promover o medicamento. É uma completa inversão de prioridades. O presidente tenta desacreditar a vacina e trata a cloroquina como a solução do problema, aumentando as compras do produto a níveis estratosféricos e pressionando médicos para que adotem o medicamento. Dessa forma, espalhando tolices por onde passa, ele coloca o Brasil numa posição de pária internacional, onde a imunização coletiva, que permitirá a retomada da atividade econômica e a volta da normalidade, será sempre colocada sob suspeita pelos observadores internacionais. A imagem do País que o presidente promove é de um lugar onde não existe responsabilidade no combate à doença e onde as pessoas acreditam em informações falsas e fazem o que querem, sem obedecer a qualquer planejamento governamental porque para o presidente o que importa é massacrar a verdade.

MOVIMENTO ANTIVAX

Entre os negacionistas há os que promovem a liberdade vacinal (só se vacina quem quer) e há os que rejeitam sumariamente qualquer imunização. De qualquer forma, a direita populista que ganha força em todo o mundo se apropriou desse discurso e passou a pregá-lo abertamente. Naturalistas também questionam o sistema de vacinação massificado, além de acusarem conspirações entre governos e a indústria farmacêutica. O movimento antivacina já se apresentava difusamente desde o início do século 20, quando campanhas de imunização enfrentavam a oposição de alguns setores da população – um caso clássico é o da Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro. Houve protestos contra a Lei de Vacinação Obrigatória e os serviços prestados pelos agentes de saúde. Pelo menos 30 pessoas morreram nos conflitos. Em 1998, um estudo publicado pelo médico britânico Andrew Wakefield na prestigiada revista Lancet vinculava a vacina tríplice viral a casos de autismo. Wakefield analisou a saúde de 12 crianças, das quais oito teriam manifestado o autismo duas semanas depois da aplicação da vacina. O pesquisador atribuiu esse fato a uma sobrecarga do sistema imunológico. Soube-se depois que as conclusões do trabalho de Wakefield foram fraudadas, mas o estrago já estava feito. Vinculou-se a vacinação a uma doença terrível e outras vacinas, além da tríplice viral, também foram estigmatizadas. Apesar de desmentida, a pesquisa deu munição para os negacionistas, que até hoje insistem nessa mentira, aumentou a crise de confiança em relação à imunização e levou muitos pais a deixarem de vacinar seus filhos.

Ao mesmo tempo em que lançam críticas, fake news e promovem mentiras para assustar a população, o problema da baixa imunização no Brasil se acentua ano a ano. Em 2019, atingiu proporções calamitosas. Segundo dados do Programa Nacional de Imunização (PNI), do Ministério da Saúde, sete das nove vacinas normalmente dadas para bebês registraram no ano passado os piores índices de cobertura desde 2013. No caso da tuberculose e da poliomielite, o percentual de crianças vacinadas foi o pior em 20 anos. Pela primeira vez no século, o Brasil não alcançou a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano, segundo dados do PNI. No ano passado, metade das crianças brasileiras não recebeu todas as vacinas previstas no Calendário Nacional de Imunização. Para Bolsonaro, porém, a precariedade na imunização é uma opção.

Segundo dados do PNI, a cobertura vacinal média no Brasil está em 51,6% para as imunizações infantis. No caso da tríplice viral, o índice é de 60%. O ideal é que essa cobertura ficasse entre 90% e 95% para garantir proteção contra doenças como sarampo, coqueluche, meningite e poliomielite. Essas doenças, que haviam sido erradicadas, estão voltando por causa do abandono da prevenção. Cada indivíduo que deixa de tomar vacina por opção é um agente infeccioso em potencial. O ambiente de incerteza que envolve o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 só piora essa situação e favorece a proliferação de boatos e meias-verdades sobre a vacinação e a medicina. Testes estão sendo feitos para garantir num futuro próximo uma imunização eficaz e segura. Mas as ideias de Bolsonaro perturbam o ambiente e reforçam a insegurança que afeta a todos por causa da pandemia. Enquanto em todo o mundo só se fala em colaboração e ajuda mútua, para o presidente brasileiro, um promotor da ignorância, o que vale é o cada um por si.

A farmacêutica AstraZeneca anunciou,na semana passada, uma “pausa voluntária” nos testes clínicos de suavacina contra a Covid-19. A interrrupção temporária dos ensaios em todo o mundo mostra que a segurança é preocupação fundamental nos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento. A suspensão ocorreu porque foi detectada uma reação adversa grave em um voluntário inglês que participava da iniciativa e teria desenvolvido uma doença inflamatória. “Essa é uma medida de rotina”, disse um porta-voz da empresa, associada à universidade de Oxford no projeto. “Como parte dos testes globais controlados e randomizados em andamento, nosso protocolo de revisão padrão foi acionado e fizemos uma pausa voluntária na vacinação, para permitir a revisão dos dados de segurança”.

A decisão adia os planos do governo brasileiro, que, apesar do negacionismo de Bolsonaro, esperava lançar a vacina da AstraZeneca nos próximos meses. Na terça-feira 8, em uma entrevista para uma youtuber mirim, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse que a intenção do governo era começar a vacinar as pessoas a partir de janeiro de 2021. “Esse é o plano. A gente está fazendo os contratos com quem está fazendo a vacina e, em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo”, disse o ministro. A vacina que deveria chegar, porém, é, a que teve os testes interrompidos. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), parceira da AstraZeneca no Brasil, prevê um atraso no estudo da vacina.

Há mais de 170 vacinas contra a Covid-19 em desenvolvimento, hoje, no mundo e 34 delas estão em fase de testes clínicos, sendo dez na fase 3, a penúltima. No Brasil, há quatro projetos em andamento. Um deles é o da vacina Sinovac, cujos estudos foram autorizados pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em junho. Essa vacina está sendo desenvolvida junto com o Instituto Butantan. Participam dos testes, que até agora não apresentaram qualquer imprevisto, nove mil pessoas. Outra iniciativa é da vacina Biontech e Wyeth/Pfizer. Deverão participar desse estudo 29 mil voluntários, sendo mil deles brasileiros. A Jansen-Cilag, divisão farmacêutica da Johnson & Johnson, também está desenvolvendo um estudo no Brasil que envolverá 60 mil voluntários.

A vacina russa Sputnik V desenvolvida pelo centro de pesquisas Gamaleya também está em fase 3 de testes. O estudo foi acolhido no Brasil pelos governos da Bahia e do Paraná. e os ensaios devem começar em outubro. Na quarta-feira 9, os laboratórios Dasa e a Covaxx, divisão da americana United Biomedical, anunciaram um novo projeto, o décimo do mundo a entrar na fase 3 e o quinto com testes clínicos no Brasil. Segundo Gustavo Campana, diretor médico da Dasa, a rede de laboratórios usará sua base de dados para recrutar os pacientes para os testes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE SETEMBRO

O EVANGELHO É PODEROSO

Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê… (Romanos 1.16a).

Paulo se preparava para visitar Roma, a capital do império. Seguia para Jerusalém a fim de levar aos pobres da Judeia uma generosa oferta. De Corinto, escreve sua mais robusta epístola e, já no prólogo, faz a mais audaciosa afirmação: Não me envergonho do evangelho. Paulo se sentia devedor do evangelho. Estava pronto para pregar o evangelho e dele não se envergonhava. Há indivíduos que se envergonham do evangelho e outros que são a vergonha do evangelho. Não é o caso de Paulo, mesmo tendo sido preso e mesmo tendo suportado açoites e apedrejamento por causa dele. Paulo não se envergonha do evangelho porque este é onipotente. O evangelho é o poder de Deus. Seu poder não é para a destruição; é o poder de Deus para a salvação. Não a salvação de todos sem exceção, mas a salvação de todos sem acepção. Há um limite estabelecido aqui. O evangelho traz salvação apenas para os que creem. Os que permanecem na incredulidade não serão salvos, exatamente por rejeitarem a única oferta da graça, por se recusarem a entrar pela única porta da salvação, por deixarem de andar pelo único caminho que conduz a Deus. A porta da salvação está aberta para você agora mesmo. Esta porta é Jesus. Eis a voz do Evangelho!

GESTÃO E CARREIRA

A FACILIDADE DO CLIQUE

Contabilidade digital pode ser a solução para uma gestão bem-feita e econômica, especialmente para pequenos negócios

A contabilidade de uma empresa exige organização e muita confiança. Ao mesmo tempo, não é um setor que pode ser deixado para segundo plano, já que uma pequena falha pode causar grandes dores de cabeça. Hoje o Brasil conta com pelo menos cinco milhões de empresas cadastradas no Simples Nacional que precisam do apoio de uma contabilidade profissional, além de sete milhões de microempreendedores individuais que utilizam esse tipo de serviço. É nesse ponto que surge uma nova oportunidade de negócio para startups possibilitando economia de até 50% nos custos mensais de pequenos e médios empreendedores: a Contabilidade digital.

A solução já conta com algumas ferramentas práticas que cuidam da folha de pagamentos, fluxo de caixa, impostos e documentos, como o Razonet – aplicativo que se adapta ao enquadramento tributário do cliente e ao tamanho da empresa. E o Agilize, outro serviço que vem com esse mote. Lançada em 2013 e com mais de cinco mil clientes, a plataforma foca o setor de serviços, oferecendo cálculo na apuração dos impostos, envio das declarações contábeis e fiscais, balanço mensal, Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), informe de rendimentos, Imposto de Renda Pessoa Jurídica e suporte completo gratuito.

São apenas dois exemplos do que o mercado já oferece e que funciona nessa área. “A contabilidade digital possui vantagens na otimização dos processos e agilidade na prestação de serviços, contudo, se não caminhar em conjunto com a expertise e consultoria do contador, a prestação de serviços pode ser precária e incompleta”, afirma a executiva da área de Contabilidade e Auditoria da Crowe – rede global nas áreas contábeis, auditoria e consultoria, Juliana Brito.

A profissional diz que uma das principais vantagens é o custo, pois muitos softwares de contabilidade on-line oferecem um baixo custo comparado aos escritórios de contabilidade, porém ela adverte que há casos que não existem contato humanizado, tampouco uma central de relacionamento e/ou atendimento técnico. Juliana lembra que a contabilidade, atualmente, é utilizada muito mais com o enfoque de consultoria e gestão empresarial do que simplesmente no mero cumprimento de obrigações e prestação de contas ao Fisco. Por esse motivo, a relação de proximidade do contador com seus clientes permite o amplo conhecimento no negócio e assessoria para tomada de decisões. “Contudo, é extremamente importante que os contadores estejam cada vez mais focados em tecnologias para otimização de processos, eliminando muitas tarefas manuais e utilizando seu tempo mais na análise de dados do que na execução, praticando a consultoria contábil com o propósito de agregar valor ao seu cliente”, admite.

Por esse motivo, Juliana completa que o uso de plataformas digitais tem facilitado a dinâmica dos empresários de pequenas e médias empresas, permitindo a alocação maior de seu tempo aplicado ao negócio e, da mesma maneira, com a visão para os escritórios contábeis, a tecnologia propicia maior análise de dados e diminuição de trabalhos manuais.

PROCESSO DE CONTABILIZAÇÃO

A contabilidade digital surgiu com o objetivo de simplificar a relação do empresário com o processo de contabilização mensal da sua empresa. Como todo processo de digitalização, está alicerçada na automatização de atividades rotineiras (muito comum no mundo contábil) e na simplificação da comunicação entre o prestador de serviço e o cliente. Esta é a grande vantagem: desburocratizar e encurtar o processo de comunicação entre o cliente e o contador através de uma plataforma digital. “A desvantagem é que a contabilidade digital ainda é processo restrito para empresas de menor porte, cujas interações necessárias com a contabilidade são menos frequentes e podem ser padronizadas”, resume o co-founder da Accontfy – startup brasileira que visa simplificar o processo de análise dos balancetes financeiros das empresas, gerando relatórios de demonstrações financeiras em segundos – , João Pedro Mano.

Ele explica que o processo de contabilização de uma empresa se divide em três principais blocos: Organização das informações transacionais (pagamentos e recebimentos, emissão de notas fiscais, movimentação do estoque, entre outros), processamento dessas informações (efetivo processo de contabilização, apuração de impostos; processamento da folha de pagamento, cumprimento das obrigações principais e acessórias) e análise da performance da empresa.

A complexidade do processo de contabilização acaba variando muito conforme o tamanho e o segmento da empresa. “Por exemplo, empresas enquadradas no Simples Nacional possuem uma quantidade de obrigações junto à Receita Federal muito menor do que empresas optantes pelo Lucro Real. Da mesma forma, empresas de serviços como consultorias e escritórios de advocacia e pequenos comércios possuem um processo de apuração de resultado mais simples do que indústrias, por exemplo, que precisam controlar estoque de matéria-prima e mercadorias, realizar o processo de apuração de custos, criar um controle de depreciação, além de uma série de outras atividades necessárias para o adequado processo de contabilização. Por esse motivo, temos visto uma expansão da contabilidade digital ainda direcionada a negócios de menor complexidade como MEIs, empresas de serviço com baixa emissão de notas fiscais e franquias”, conta.

As plataformas digitais existentes oferecem vários tipos de serviços e vêm facilitando o processo de criação e contabilização de alguns segmentos de empresas. Elas oferecem planos que vão desde o processo de criação da nova empresa até o gerenciamento da folha de pagamento para empresa de menor porte. Com essas ferramentas é possível interagir on-line com contadores, o que agiliza a tratativa dos assuntos contábeis.

Pedro Mano destaca alguns dos cuidados necessários na hora de escolher a melhor plataforma. Para ele, o maior risco está mesmo no âmbito fiscal – algo que não está restrito somente às plataformas on-line, mas também ocorre na contabilidade tradicional. Por isso, a empresa precisa ter muito cuidado com a entrega das obrigações junto aos órgãos governamentais. “O Brasil ainda é um país muito burocrático e isso afeta diretamente as empresas. Comumente, elas são autuadas e multadas em grande parte dos casos por erro no processo de apuração e recolhimento de impostos. Por esses motivos, é essencial que as empresas acompanhem de perto esse assunto e cobrem controles que forneçam segurança de que as obrigações estão sendo devidamente entregues”, analisa.

A F360º é uma empresa paulista de gestão financeira completa indicada para franquias, já que permite gerir várias unidades ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Ela integra conciliação de cartões com fluxo de caixa, contas a pagar e a receber, DRE e outros. O sucesso dos serviços prestados desde 2013 colocou a marca no ranking das 100 Startups to Watch 2019, que reúne empresas inovadoras com potencial de impactar seus mercados.

SEGURANÇA EM PRIMEIRO LUGAR

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 43% das micro e pequenas empresas ainda fazem a sua contabilidade no papel. Além disso, 53% dos empreendedores não fizeram nenhum curso para melhoria do conhecimento sobre como administrar um negócio. Esses dois valores mostram que ainda existe falta de conhecimento sobre as facilidades da tecnologia e até sobre como fazer isso de maneira segura. O co-founder da Accountfy lembra que, antigamente, existia receio em inserir dados na nuvem ou em utilizar sistemas SaaS – aqueles que a empresa paga mensalidade para utilizar um sistema cuja estrutura também está na nuvem. “Existia a falsa impressão de que os dados estavam expostos e desprotegidos. Esse receio foi reduzindo à medida que todos começaram a utilizar e-mail para transferência de qualquer tipo de informação e começaram a armazenar seus documentos na nuvem – principalmente para resguardá-los de perda ou dano. Além disso, as plataformas SaaS estão cada vez mais robustas, provando que os dados não precisam estar dentro do espaço físico da empresa para estarem seguros”, ressalta.

Mesmo assim, é importante certificar-se de alguns pontos. O primeiro passo é sempre buscar conhecer a política de segurança da plataforma que está prestes a adotar, incluindo informações sobre como é a política de backup da informação, se a plataforma possui certificações de segurança e outras. Além disso, o ponto principal a que os empreendedores precisam ficar atentos é com a política de uso da informação. Uma vez que a empresa é proprietária dos seus dados, deve certificar-se de que a política de uso da(s) plataforma(s) garanta que eles só poderão ser usados para outro fim caso ela tenha a sua autorização.

UM MERCADO DE TENDÊNCIAS

Uma coisa é certa independentemente do setor: as plataformas digitais estão rompendo com diversos modelos de negócio tradicionais. Há mudanças na forma de distribuir filmes e músicas, acessar transporte público, alugar imóvel, a maneira de se locomover pelas grandes cidades e tantas outras situações. “Com contabilidade e finanças não poderia ser diferente. As atividades rotineiras e manuais vêm sendo substituídas por plataformas que consigam automatizar partes do processo e assim entregar um serviço mais ágil e de menor custo do que o modelo tradicional. Com a utilização de plataformas digitais, as empresas cada vez mais delegarão essas atividades para plataformas digitais e se concentrarão na análise dos números a fim de definir estratégias que melhorem sua performance”, acrescenta Mano.

Considerando o fluxo necessário para a adequada contabilização, algumas plataformas e soluções têm se posicionado com o intuito de suportar as empresas em uma ou mais etapas do processo e na parte de análise, mas sempre de maneira robusta nas informações. Há sistemas como o Nibo, Conta Azul, Omie e outros, que atuam como sistemas financeiros para organização dos movimentos transacionais das empresas (pagamentos, recebimentos e emissão de notas fiscais) e organização dessas informações para envio ao contador. “Com essas informações, a contabilidade faz o processamento e gera o balancete contábil que sistemas como o Accountfy se propõem a organizar, ajudando as empresas a interpreta-las e utilizá-las de maneira a obter melhores resultados, além de conectar as informações geradas pela contabilidade para criar cenários de projeção futura, elaborar um orçamento para o próximo ano e acompanhar seus indicadores de desempenho”, completa e conclui o co­-founder da Accountfy.

COMO ESCOLHER A MELHOR PLATAFORMA?

•  Conheça muito bem seu negócio e suas necessidades.

•  Verifique se os serviços oferecidos pela plataforma suprem todas as demandas.

•  Avalie a reputação na internet, buscando comentários em lojas virtuais como Google e Aplle Store (no caso de Aplicativos) ou em sites como Reclame Aqui.

•  Lembre-se de que a ferramenta fará a gestão de seu dinheiro e, por isso, deve estar devidamente legalizada e registrada no órgão oficial da classe incluindo seus funcionários.

•  Analise com cuidado os critérios de segurança da informação, especialmente no que diz   respeito ao armazenamento de dados e garantias contra ataque de terceiros ou hackers. A dica é preferir um armazenamento em nuvem.•  Ainda no tópico segurança, assegure-se de que só terão acesso às informações pessoas autorizadas, de acordo com suas funções exercidas. Leia as linhas pequenas para ter certeza de que essas pessoas só podem utilizar seus dados até certo ponto. A guerra pela informação tem se tornado maior que a busca por petróleo, e todo

COMO ESCOLHER A MELHOR PLATAFORMA?

•  Conheça muito bem seu negócio e suas necessidades.

•  Verifique se os serviços oferecidos pela plataforma suprem todas as demandas.

•  Avalie a reputação na internet, buscando comentários em lojas virtuais como Google e Aplle Store (no caso de Aplicativos) ou em sites como Reclame Aqui.

•  Lembre-se de que a ferramenta fará a gestão de seu dinheiro e, por isso, deve estar devidamente legalizada e registrada no órgão oficial da classe incluindo seus funcionários.

•  Analise com cuidado os critérios de segurança da informação, especialmente no que diz   respeito ao armazenamento de dados e garantias contra ataque de terceiros ou hackers. A dica é preferir um armazenamento em nuvem.•  Ainda no tópico segurança, assegure-se de que só terão acesso às informações pessoas autorizadas, de acordo com suas funções exercidas. Leia as linhas pequenas para ter certeza de que essas pessoas só podem utilizar seus dados até certo ponto. A guerra pela informação tem se tornado maior que a busca por petróleo, e todo

COMO ESCOLHER A MELHOR PLATAFORMA?

•  Conheça muito bem seu negócio e suas necessidades.

•  Verifique se os serviços oferecidos pela plataforma suprem todas as demandas.

•  Avalie a reputação na internet, buscando comentários em lojas virtuais como Google e Aplle Store (no caso de Aplicativos) ou em sites como Reclame Aqui.

•  Lembre-se de que a ferramenta fará a gestão de seu dinheiro e, por isso, deve estar devidamente legalizada e registrada no órgão oficial da classe incluindo seus funcionários.

•  Analise com cuidado os critérios de segurança da informação, especialmente no que diz   respeito ao armazenamento de dados e garantias contra ataque de terceiros ou hackers. A dica é preferir um armazenamento em nuvem.•  Ainda no tópico segurança, assegure-se de que só terão acesso às informações pessoas autorizadas, de acordo com suas funções exercidas. Leia as linhas pequenas para ter certeza de que essas pessoas só podem utilizar seus dados até certo ponto. A guerra pela informação tem se tornado maior que a busca por petróleo, e todo cuidado é pouco.

FIQUE SABENDO!

Valorize a contabilidade e utilize-a. O “custo-Brasil” relacionado à burocratização contribuiu no tempo para construir a ideia de que a contabilidade serve apenas para entregar ao Governo as obrigações legais. Esse é um erro muito comum e muito prejudicial para qualquer tamanho de empresa. O pequeno e médio empreendedor precisa acreditar que os números contábeis são a melhor fonte de informação que ele pode obter para gerenciar o seu negócio. Para isso, ele precisa trabalhar a fim de garantir processos que permitam à sua contabilidade ter acesso às informações necessárias para realizar o processo de contabilização adequado e, principalmente, precisam cobrar do seu contador mensalmente a entrega do balancete em tempo hábil para ele analisar.

Portanto, é essencial que ele busque ferramentas digitais que o ajudem a organizar a entrada das informações transacionais e soluções que lhe possibilitem a análise das informações geradas pela contabilidade, de modo que consiga direcionar o seu negócio de maneira assertiva. O empreendedor precisa fazer com que os seus números contábeis reflitam a realidade da sua empresa. Somente assim conseguirá gerenciar melhor; identificar oportunidades de melhoria, prevenir-se de fraudes e acessar linhas de crédito mais estruturadas para sua empresa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE MENINOS E MENINAS

Psicóloga americana estuda os primeiros indícios do pensamento em bebês. No início da vida, papel dos hormônios é maior que o da cultura

Se tivesse sido cego a vida inteira e de repente passasse a enxergar, será que você distinguiria pela visão o que já conhecia pelo toque – por exemplo, diferenciaria um cubo de uma esfera? As flores pareceriam com as flores tocadas e os rostos com os rostos, ou tudo seria uma grande confusão? De que forma começaria a dar sentido aos vários objetos apresentados imediatamente à sua vista? Se nascemos sem saber nada, como passamos a saber alguma coisa?

A psicóloga Elizabeth Spelke, professora da Universidade Harvard, leva essas questões àqueles que talvez sejam os mais habilitados para respondê-las: os bebês. No amplo laboratório do William James Hall, Spelke e seus colaboradores têm lidado com alguns dos mistérios mais insondáveis do conhecimento humano pesquisando seres que ainda não conseguem falar, andar ou mesmo engatinhar. Ela tem o que chama de “apetite insaciável” para estudá-los. Seus colegas de laboratório procuram voluntários por meio de páginas na internet, folhetos e cartas enviadas a berçários e consultórios de pediatria. Eles observam como os bebês sentam no colo de suas mães, procurando pelos sinais que permitem aferir suas primeiras compreensões de números, linguagem, percepção de objetos, espaço e movimento.

As descobertas de Spelke ajudaram a rever drasticamente nossos conceitos sobre a percepção humana nos primeiros dias, semanas e meses de vida. A pesquisadora forneceu algumas das evidências mais substanciais até hoje a respeito de questões como Natureza versus cultura e características inatas versus adquiridas. Suas constatações sobre aquilo de que um bebê é capaz se tornaram centrais para desvendar a cognição humana.

A partir de suas conclusões, a psicóloga construiu uma teoria audaciosa – se não polêmica – do core knowledge ou “conhecimento de base”, segundo a qual todos os humanos nascem com habilidades cognitivas que lhes permitem entender o mundo. Esse conhecimento básico, diz ela, fundamenta tudo que aprendemos ao longo da vida e tanto nos unifica como nos distingue enquanto espécie. A teoria levou a Associação Americana de Psicologia a laureá-la com o William James Fellow Award no ano 2000. E seu trabalho mostra que, apesar das diferenças entre as pessoas, todos temos mais em comum do que em geral reconhecemos.

CLAREZA, NÃO CONFUSÃO

O cerne da metodologia de Spelke é a observação do “olhar preferencial” – a tendência de bebês e crianças a examinar mais demoradamente aquilo que é novo, surpreendente ou diferente. Mostre repetidas vezes a um bebê um coelhinho de brinquedo e ele vai olhá-lo por um período cada vez mais curto. Mas experimente colocar quatro orelhas no coelhinho ao mostrá-lo, digamos, pela décima vez. Se o bebê detiver o olhar por mais tempo, você saberá que ele diferencia quatro de dois. A abordagem consegue contornar as incapacidades do bebê em falar ou em articular movimentos e tira o máximo da única coisa que ele controla bem: o tempo em que fixa os olhos em um objeto.

Spelke não inventou o método de estudo do olhar preferencial. O crédito é de Robert L. Fantz, psicólogo da Universidade Western Reserve, que na década de 50 e no começo da de 60 descobriu que chimpanzés e bebês olham por mais tempo para objetos inesperados. Um pesquisador conseguiria avaliar a capacidade de discernimento e percepção de um bebê ao lhe mostrar uma sequência de eventos diferentes e controlados, observando quais mudanças seriam percebidas como novidade.

Usando essa técnica básica, Fantz e outros descobriram que o mundo dos bebês não era, como supunha o psicólogo William James em 1890, uma “confusão cheia de movimentos e zumbidos”. Os bebês davam sentido ao mundo de imediato. Por exemplo, Fantz e outros descobriram que os recém-nascidos podiam diferenciar o vermelho do verde; com 2 meses discriminavam todas as cores primárias e, com 3, preferiam o amarelo e o vermelho ao azul e ao verde.

Eles constataram que um recém-nascido é capaz de distinguir o rosto da mãe do de um estranho (exceto quando ambos os adultos usavam um lenço sobre o cabelo), um bebê de 4 meses reconhece familiares e um de 6 pode interpretar expressões faciais. Na década de 70, os psicólogos reconheceram o primeiro ano de vida como um período de enorme desenvolvimento, muito mais agitado do que então se considerava.

SEM CAIR

Esse trabalho atraiu Spelke quando ela ainda era universitária na Faculdade Radcliffe. De 1967 a 1971, ela estudou com o psicólogo do desenvolvimento infantil Jerome Kagan, de Harvard, e se entusiasmou com a investigação das operações essenciais da cognição através da análise de crianças. Spelke prosseguiu com essa pesquisa quando trabalhou em seu doutorado em psicologia na Universidade Cornell, onde a famosa psicóloga do desenvolvimento Eleanor J. Gibson a orientou. Gibson, uma das poucas psicólogas premiadas com a Medalha Nacional de Ciência, revelou muito sobre a cognição infantil com alguns experimentos de alta qualidade. Sua experiência mais conhecida é a do “abismo visual”, em que faz uso de uma chapa de vidro sobre o tampo de uma mesa. Ao engatinhar sobre essa superfície escorregadia, os bebês evitariam uma provável queda, A maioria sim, descoberta que modificou as teorias sobre a percepção espacial dos bebês.

Inspirada por essas pesquisas, Spelke chegou à sua própria experiência inovadora. Quis investigar se quando os bebês olham e escutam percebem imagem e som como duas coisas separadas ou se reconhecem a relação entre ambos.  Ao se perguntar como averiguar isso, ela conta que imaginou dois eventos visuais lado a lado, como dois filmes, e um alto ­ falante onde se poderia alternar o som de cada um dos eventos. “O bebê viraria o olhar para o evento correspondente à trilha tocada pelo alto-falante: “Essa experiência virou minha tese de doutorado. Foi a primeira vez que fui capaz de começar com uma pergunta geral sobre como organizamos um universo unitário a partir de modalidades múltiplas e transformar a questão em um experimento de olhar preferencial simples – que se revelou bastante eficaz.”

VINCULAÇÃO INATA

Spelke descobriu que os bebês reconhecem a ligação entre som e visão, movimentando o olhar conforme a trilha sonora. Assim teve início a sua carreira de análise de grandes questões por meio de experimentos aplicados a crianças. A abordagem de modalidade mista tratou do mesmo “problema de vinculação” enfrentado pelos cegos que subitamente começam a ver, investigando como o cérebro decodifica os sinais de diferentes sentidos numa única impressão. Segundo Spelke, a abordagem não respondeu como essa habilidade parece ser inata.

Ao longo dos anos, a especialista conduziu outras investigações sobre o reconhecimento de objetos e rostos, movimento, navegação espacial e números (incluindo relações numéricas). Como é capaz de desenvolver testes simples, mas tão poderosos? “Penso como uma criança de 3 anos”, diz ela. Ao mostrar aos bebês objetos em movimento e depois interromper seu curso lógico ou a velocidade, ela descobriu que mesmo um bebê de 4 meses infere que um objeto em movimento deve se manter em movimento. Apesar disso, apenas aos 8 meses ele entende o princípio da inércia e espera que o trajeto do objeto seja constante.

Ao mostrar aos bebês diferentes séries de discos, ela descobriu que os de 6 meses conseguem distinguir 8 de 16 e 16 de 32 – mas não 8 de 12 ou 16 de 24. Spelke constatou que bebês de 1 ano de idade, ao observar uma pessoa escolher entre dois objetos, sabem pelo olhar do adulto qual objeto ele pegará, enquanto os de 8 meses não têm essa capacidade.

À medida que aumentavam os dados resultantes desses projetos, Spelke começou a desenvolver sua teoria do conhecimento de base, em boa parte feita em colaboração com colegas como o renomado linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o matemático e neuropsicólogo cognitivo francês Stanislaus Dehaene e a psicóloga de Harvard Susan Carey. Os sistemas do conhecimento de base, diz Spelke, são “módulos ” neuronais presentes no nascimento para a construção das representações mentais de objetos, pessoas, relações espaciais e numéricas. Similar à “gramática profunda” que Chomsky acredita estar subjacente a toda linguagem humana, esses módulos de conhecimento básico permitem que todos os bebês organizem sua percepção.

TEORIA POLÊMICA

A sofisticação desses sistemas em bebês parece a dos módulos de primatas não-humanos, o que sugere um desenvolvimento antigo e evolucionário; um bebê de 6 meses tem a mesma compreensão de números, espaço, objetos e rostos que um macaco reso adulto. Spelke entende que esses instrumentos cognitivos são subjacentes a habilidades mais complexas e a conhecimentos que adquirimos ao longo do crescimento, como habilidade de falar novos idiomas, manipulação de números e outras operações mentais abstratas.

O conhecimento de base constitui o fundamento para um robusto aparato cognitivo que nos acompanha durante a vida, fato que pratica mente ignoramos. “Mesmo para os adultos”, afirma Spelke, “a maior parte das capacidades que nos permitem lidar com o mundo (guiar nossas escolhas através do ambiente, articular o que dizemos, calcular se um carro na rua pode nos atropelar ou se objetos em queda nos acertarão) é completamente inconsciente. Quantas coisas fazemos sem pensar direito nelas? Operamos com sistemas cognitivos complexos que em geral não estão acessíveis à simples introspecção. Para mim, esse é mais um sinal de que a maioria de nossas operações cognitivas é como as dos bebês – construídas sobre o conhecimento de base que temos desde pequenos.”

Essa visão de Spelke é o que os filósofos chamam de teoria “inatista” – a certeza de que nossas características são inatas. Elas são naturais e não construídas. Spelke sabe bem que isso a coloca em uma posição arriscada. Falar de habilidades naturais dá margem a especular sobre diferenças naturais para essas habilidades.

Há poucos anos, Spelke se viu envolvida em acalorada controvérsia sobre essas possíveis diferenças quando foi bastante questionada sobre a declaração do reitor de Harvard, Lawrence Summers, de que as disparidades biológicas podem ajudar a explicar por que as mulheres ocupam tão poucos postos nos departamentos de matemática e ciência daquela universidade.

É claro que Spelke foi a escolha natural para debater o assunto, não apenas por ser uma cientista altamente reconhecida da mesma universidade de Summers, mas também por ter estudado precisamente as habilidades inatas mencionadas pelo reitor. Embora não tenha inclinação para a briga, Spelke é espirituosa, engraçada, bem informada e dotada de habilidade argumentativa. Assim, cumpriu com elegância a tarefa de baixar a bola de Summers.

“Se você encarar as coisas de acordo com o ponto de vista de Summers,” diz ela com um leve sorriso, “pesquisar as habilidades cognitivas inatas, como eu faço, é um estudo das diferenças entre os sexos. Na verdade, eu não sabia que estudávamos diferenças de gênero, porque não encontramos nenhuma. Mas uma vez que o assunto apareceu, fiquei feliz em lhe contar sobre nosso trabalho.”

BRINCANDO DE ESCONDER

Spelke explicou em várias entrevistas e num debate público, bastante noticiado, com o colega e amigo Steven Pinker, psicólogo de Harvard, como o grande volume de evidências, reunidas depois de décadas de pesquisa, mostra pouca (ou quase nenhuma) diferença baseada no sexo de bebês ou de crianças pequenas. Nesses primeiros anos, quando a cultura exerce o mínimo de efeito e os níveis de hormônios sexuais estão extremamente altos, não apareceu nenhuma diferença determinada pelo sexo na enorme variedade de habilidades relacionadas ao pensamento matemático.

Por exemplo, coloque uma criança de 4 anos numa sala especialmente arrumada, esconda um bloco em um canto, faça a criança fechar os olhos e a gire, e então peça que ela procure o bloco. Algumas delas vão se reorientar rapidamente na sala e encontrar o objeto; outras não. A porcentagem de meninos e meninas que conseguem, no entanto, é idêntica. Portanto, embora “haja uma base biológica para o pensamento matemático e científico”, como Spelke lembrou no debate com Pinker, “esses sistemas se desenvolvem igualmente em homens e mulheres”.

Otimista inabalável, Spelke acredita que a compreensão crescente das habilidades cognitivas irá reduzir, e não alimentar, a discórdia sobre as qualidades humanas. “Algumas pessoas acham assustadora a ideia de termos habilidades naturais, porque isso parece estimular a noção de que alguns tipos podem nascer mais dotados que outros. Se você é um inatista no que se refere às capacidades cognitivas básicas, como eu, isso o leva a ser um inatista sobre, digamos, as diferenças entre os sexos?: Essas alegações de base biológica podem evoluir até o ponto de ser invocadas para explicar tudo. Mas você tem de ser muito cuidadoso sobre os dados que utiliza.”

A informação que parece indicar diferenças entre os sexos, afirma Spelke, vem de estudos problemáticos cujos resultados são distorcidos por influências culturais – como pais que respondem de modo diferente para meninas e meninos, departamentos de universidade que avaliam as mulheres com mais rigor. Summers deve ter levado o último ponto ao pé da letra: em maio, anunciou que Harvard gastaria US$ 50 milhões em dez anos para admitir e manter mulheres e minorias em sua faculdade.

Enquanto isso, as crescentes pilhas de informação sobre as crianças – pessoas ainda não contaminadas pela cultura – mostram uma paridade surpreendente entre os sexos e as raças. “Obtivemos evidência de um sistema intrincado e rico de conhecimento de base compartilhado por todos e que nos dá um fundamento comum”, declara Spelke. “Em um mundo com tantos conflitos, acho que isso é algo de que precisamos muito.”

EU ACHO …

FALA, WILSON

Situações de isolamento têm um limite, dependem de cada pessoa

Ninguém vive apartado da sociedade, dos amigos, dos parentes por um tempo que parece não ter fim. O limite é variável, depende de cada pessoa, de seu temperamento, das circunstâncias, do planejamento. No início da pandemia, houve quem projetasse cem dias de reclusão, achando talvez que estivesse arredondando para mais o período de confinamento. Hoje já estamos em cinco meses – e contando. É natural que assim seja. O ser humano é gregário por natureza. Lembro-me de Tom Hanks, em Náufrago, que, para amenizar os efeitos do isolamento numa ilha deserta do Pacífico, durante quatro anos conversou com uma bola de vôlei, a quem chamava de Wilson. Por fim, entre a perspectiva de continuar sobrevivendo sozinho à base de monólogos intermináveis e a possibilidade remota de voltar à civilização a bordo de uma jangada improvisada, ele não teve dúvida em arriscar tudo. Havia chegado ao seu limite.

Qual é o seu limite? Provavelmente depende de uma série de fatores. Limites são elásticos, vão sendo reconfigurados a partir da realidade que se impõe. O que ontem era inaceitável hoje pode ser perfeitamente possível. Outro dia recebi pelo WhatsApp uma mensagem que, lida em meio às incertezas atuais, provoca um riso nervoso: “O primeiro ano da quarentena sempre é o mais difícil”. Tenho reparado que o stress provocado pelo novo coronavírus está dividindo os brasileiros em dois estados de espírito: o perseverante e o ansioso. Não os vejo como categorias estanques. Elas estão presentes em cada um de nós. Convivemos, imagino, com um pouco de um e do outro. Um dia acordamos determinados a nos manter fiéis à rotina autoimposta, mas à tarde fraquejamos e ficamos afoitos para dar uma voltinha no quarteirão.

O perseverante e o ansioso que nos habitam são o anjo e o diabo da nossa consciência, dizendo o que devemos fazer ou o que estamos perdendo por agir assim. “Continue se preservando”, diz o primeiro. “Que nada! A vida não espera”, diz o segundo. Um apela à saúde física, o outro à sanidade mental. Percebo que o diabinho está sendo cada vez mais ouvido. Entre os que se mantêm no isolamento, há quem se sinta um idiota ao ver amigos levando uma vida normal.

A humanidade parece ter desenvolvido uma capacidade de subestimar o perigo. No começo da quarentena, li que o isolamento exigido por uma epidemia costuma acabar antes de a cura ser encontrada. Foi assim no fim da I Guerra Mundial, em 1918: após o anúncio do cessar-fogo, as pessoas saíram às ruas para comemorar, esquecendo-se que a gripe espanhola ainda não havia sido debelada.

Diante de tantas dúvidas sobre o que fazer, o meio-termo parece ser uma alternativa razoável. Sair às ruas, mas sem se expor. Ficar em casa, mas sem enlouquecer. Num cartum que vi recentemente um personagem comenta: “Fico me perguntando como seria minha vida se eu tivesse feito outras escolhas”. E o outro, com cara de tédio, responde: “Você estaria se perguntando como seria a sua vida se tivesse feito outras escolhas”. O importante, acredito, é que essas escolhas, quaisquer que possam ser, sejam conscientes.

O que você acha, Wilson?

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

AS BICICLETAS PEDEM PASSAGEM

Vendas do setor mais do que duplicaram durante a pandemia e devem crescer ainda mais. Bikes elétricas conquistam adeptos

Abram alas para as bikes passarem. Reflexo do isolamento social causado pela pandemia, o setor teve um crescimento de 118% nas vendas entre os meses de junho e julho, em comparação com o mesmo período de 2019, segundo especialistas. Por conta das medidas restritivas adotadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e órgãos públicos, o veículo tornou-se uma alternativa eficaz na hora de driblar aglomerações. Segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), a quarentena impulsionou a comercialização do meio de transporte e houve uma explosão de demanda em maio.

“O aumento se deu especialmente porque a população procura soluções que evitem as viagens de transporte público”, afirma André Ribeiro, vice-presidente da Aliança Bike. O fator qualidade de vida também é visto como ponto importante na hora da escolha. E há um terceiro motivo para a febre das duas rodas: a ampliação da rede de ciclovias, algo que se verifica em várias cidades. “Comecei a andar de bicicleta para fugir do trânsito. Há ciclovias até a região do meu trabalho, então eu vou embora”, conta o galerista Tito Bertolucci, que mora na região do Itaim Bibi e trabalha na Vila Madalena, zona Oeste de São Paulo. “Durante a pandemia comprei uma bike elétrica. Ela é boa porque eu não chego suado no trabalho e não faço tanto esforço físico”.

A NOVA MODA

Com motor recarregável por meio de cabos ligados em tomadas simples (110v ou 220v), a bike elétrica atinge velocidade média de 25 km/h e pode ser comprada a partir de R$ 2 mil. De acordo com a Aliança Bike, a expansão na comercialização do produto foi de 34% ao ano entre 2016 e 2019. “Queria aumentar o uso de bike no meu dia a dia pra fugir do trânsito e do transporte público. O custo benefício é bom demais”, diz o videomaker Gabriel Nogueira, que após alugar uma bicicleta elétrica recentemente, se apaixonou e resolveu comprar a sua. “Com a pandemia, não troco minha bike por nada”, conclui. Tudo indica que as bicicletas terão um lugar cada vez mais importante no futuro pós-pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE SETEMBRO

FUJA E NÃO OLHE PARA TRÁS

… Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás… (Genesis 19.17b).

Ló havia levado sua família para Sodoma. Buscava as glórias da terra e as riquezas do mundo. Pensando dar o melhor para sua família, perdeu-a. A alma de Ló foi atormentada nessa cidade promíscua e violenta. Ele ganhou projeção na cidade, mas ali não viu nenhuma conversão. Investiu na cidade, mas ali perdeu seus bens e sua mulher. Quando Deus estava prestes a derramar fogo e enxofre sobre Sodoma, enviou dois anjos à casa de Ló, que lhe deram um ultimato: fugir da cidade, correr para as montanhas e não olhar para trás. Ló não conseguiu convencer seus genros a fugirem. Precisou ser arrastado pelos anjos com sua mulher e suas filhas. Quando estavam subindo as encostas, a mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal. Jesus, dois mil anos depois, alertou: Lembrai-vos da mulher de Ló (Lucas 17.32). Essa mulher tornou-se um monumento da incredulidade e do amor ao mundo. Cobiçou Sodoma e seus prazeres e pereceu com Sodoma. Desobedeceu às ordens de Deus e tornou-se uma estátua de sal. A Palavra de Deus é enfática em dizer que não podemos ser amigos do mundo, nem amar o mundo, menos ainda nos conformar a ele. Como Sodoma, o mundo passa, e só aqueles que fazem a vontade de Deus permanecem para sempre. A vida real, abundante e feliz não estava no glamour de Sodoma, mas na fuga para longe dessa cidade pecaminosa!

GESTÃO E CARREIRA

O CLUBE DO LIVRO AGORA É DIGITAL

Mais de 300.000 livros foram baixados pelo aplicativo da Skeelo desde o começo da pandemia

O brasileiro não gosta de ler? Em maio do ano passado, os empreendedores Rodrigo Meinberg e Rafael Lunes decidiram apostar contra esse senso comum e lançaram um aplicativo de assinatura de e-books chamado Skeelo. Diferentemente dos concorrentes, que oferecem acesso ilimitado ao catálogo digital de livros, a dupla resolveu focar a curadoria de conteúdo e disponibilizar por mês um único título ao assinante, em geral um best-seller. Caso o leitor não goste da sugestão, tem um prazo para efetuar a troca pelo aplicativo. No total, já foram entregues mais de 80 milhões de livros aos assinantes.

Uma pessoa pode assinar o serviço por 23,90 reais por mês. Além disso, os sócios criaram um modelo de negócios em que as operadoras de telefonia e os bancos pagam pelo serviço para os clientes. Hoje, Claro, Algar Telecom, Tim, Oi e Banco do Brasil oferecem o aplicativo da Skeelo como benefício aos usuários. Com isso, a Skeelo passou de 3 milhões de assinantes no fim de 2019 para 21 milhões em junho deste ano. ”As operadoras agilizaram o processo de adesão ao Skeelo por causa do coronavírus”, diz Meinberg. De 23 de março a 29 de junho, foram mais de 300.000 e-books lidos, 275% mais do que no primeiro trimestre. A Skeelo planeja entrar em novos negócios. ”Vamos lançar audiobooks usando o mesmo conceito”, diz Lunes.

A HORA DO LIVRO             

A pandemia acelerou o crescimento de clubes de assinatura de livros, e-books e audiobooks

SKEELO

Preço: RS 23,90 por mês

O que é: clube virtual de livros

best-sellers

Crescimento: o consumo de livros mais do que dobrou em abril e maio em comparação aos três primeiros meses de 2020

TURISTA LITERÁRIO

Preço: RS 71,90 + frete

O que é: clube de assinatura de livros para jovens

Crescimento: de março a junho, o programa cresceu 70% em relação ao mesmo período de 2019

INTRÍNSECOS

Preço: RS 54,90 + frete

O que é: clube de assinatura da editora Intrínseca

Crescimento: o número de assinantes em maio cresceu 100% em relação ao ano anterior

STORYTEL

Preço: RS 27,90 por mês

O que é: serviço de streaming de audiobooks e e-books

Crescimento: o consumo local de conteúdo subiu 57% na plataforma desde o início da pandemia

TAG LIVROS

Preço: RS 55,90 + frete

O que é: programa de assinatura de livros

Crescimento: as visitas no site e os downloads dos aplicativos subiram 70% de março a junho em relação ao ano anterior

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEXO PARA QUE?

Novos estudos revelam que, para a atual juventude, o prazer a dois na cama perdeu parte da graça, trocado pela vida eletrônica, e já não é sinônimo de contestação contra a caretice

Vai soar como oxímoro, uma impossibilidade, uma maluquice para tempos exageradamente modernos, mas é melhor ir direto ao ponto: os adolescentes e os jovens adultos, homens e mulheres, andam desinteressados do sexo. Para quê?, é o que parecem perguntar, alheios à sinfonia hormonal, de desejos à flor da pele, de tão tenra idade. Uma coleção de estudos internacionais atesta esse movimento de corpo. O trabalho mais recente, publicado em julho deste ano, feito por especialistas do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, em parceria com instituições como o Departamento de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, revelou que quase 31% de homens dos 18 aos 24 anos não fizeram sexo ao longo dos últimos doze meses. Entre as mulheres, 19% disseram “não, não quero”. E mudança histórica. Em 2002, menos de 20% do universo masculino dessa faixa etária dizia se abster das relações sexuais. As mulheres negavam deitar-se em 15% dos casos. Esperava-se, dada as sucessivas conquistas comportamentais, aos brados de igualdade e direitos, especialmente entre elas, que a libido se multiplicasse, mas não foi o que aconteceu.

É o que os especialistas chamam de “apagão sexual”. Não se trata de gente defendendo castidade ou sem vontade passando por momentos ruins na vida. É, a rigor, uma postura que dá as mãos aos novos humores, ao cotidiano reinventado, pendurado nas redes sociais, nos smartphones, na vida a um toque – a um toque do dedo no aparelho eletrônico. “Vejo como certa imaturidade quem põe o sexo como um dos assuntos mais importantes da vida”, diz Millene Müzel, 29 anos, estudante e estagiária de engenharia de materiais, numa frase cuja simplicidade resume a toada de toda uma geração. Mas, enfim, se algo se apagou, o que foi que acendeu?

A facilidade de comunicação por meio da internet, que exclui, em muitas situações, o contato físico. O prazer, hoje, pode ser o de ver azuladas as duas marquinhas do WhatsApp, a expansão meteórica das curtidas no Instagram ou algo um pouquinho mais apimentado, mas não muito. Metade dos jovens entre 18 e 22 anos já recebeu nudes como forma de conquista, mostra pesquisa conduzida pela Match Corporate, empresa que controla gigantes do segmento de relacionamentos amorosos, como o Tinder e o OkCupid. Um nude para cá, outro para lá, e basta. “O sexo virtual permite não só a conexão rápida, como também a desconexão sem grandes encargos e desgastes”, diz o antropólogo Michel Alcoforado, sócio do instituto de pesquisa Consumoteca, de São Paulo. Além disso, o alto consumo de conteúdo pornográfico, que chega às telas dos mais jovens cada vez mais cedo, também é contraproducente. O prazer solitário, imediato, fácil, facílimo, acaba por prejudicar interações fundamentadas do encontro a dois. “Chegamos a um ponto extremo, em que jovens saudáveis não conseguem manter um relacionamento por ser incapazes de se estimular ao lado de outra pessoa”, diz Carmita Abdo, psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex).

Seria superficial, embora decisivo, atribuir a desaceleração das atividades sexuais apenas aos contratempos de ordem digital. Há um outro interessante aspecto das atitudes da nova geração: a demora para engrenar nas atividades que remetam à vida adulta, como a saída da casa dos pais, o casamento e a conquista de certa independência financeira. Se no passado a juventude era naturalmente “empurrada” para a rua, hoje não é mais. Com o prazo para a maturidade estendido, a vida sexual também fica em segundo plano, por igualmente representar uma emancipação da realidade adolescente. Sem pressa, tudo muda. “Os jovens estão mais calmos para encontrar seus desejos e pô-los no lugar, sem ter que alardear nada”, afirma a professora Stella Christina Schrijnemaekers, antropóloga da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Essa calma, diga-se, carrega postura louvável. O batido e constrangedor hábito masculino de espalhar feitos sexuais, inevitavelmente falsos, virou tolice. Diz a psicóloga Raquel Varaschin, presidente do conselho da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash): “O sexo não perdeu o protagonismo, mas está concorrendo com outros assuntos também relevantes como o vestibular e o mercado de trabalho extremamente competitivo”.

Desde que o mundo é mundo, o sexo conduz o comportamento da humanidade e por questões que vão muito além do caráter biológico. Na história moderna, ele representa uma das mais potentes ferramentas revolucionárias. Homens e mulheres que viveram os anos 1960 e 1970 viram florescer uma reviravolta feminina que mudou para sempre a concepção de desejo e libertação de corpos. Brotaram nessas duas décadas – para nunca mais deixar de existir – a pílula anticoncepcional e o divórcio. Nos anos 1980 e 1990 a epidemia causada pelo vírus HIV reergueu a patrulha moral sobre o que os corpos fazem na intimidade. E hoje, pela primeira vez, a atividade sexual talvez esteja perdendo seu caráter contestador. “Há uma certa exaustão sexual deflagrada pela carga histórica” diz a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg. É como se homens e mulheres já não quisessem carregar nos ombros tanta responsabilidade. O direito de escolha, tão defendido pelas gerações anteriores, se manifesta agora em um novo tipo de liberdade, que parece cair bem aos novos tempos: o direito de não fazer. Ou fazer só de vez em quando, entre uma curtida e outra no Instagram, um piiim no WhatsApp.

EU ACHO …

DINHEIRO EMPRESTADO

Na quarentena, cuidado para não perder a grana e os amigos

Empréstimo, quem gosta de pagar? Quantia pequena nem se fala. O devedor reage: “Você vai me cobrar essa miséria?”. Quando eu tinha 20 anos, passei uma temporada nos Estados Unidos. Até me surpreendi quando alguém me devolveu 2 dólares. Lá, não importa a quantia. Empréstimo é empréstimo. Na quarentena, os pedidos explodiram. Mesmo com a flexibilização, muitos negócios não voltaram a ser como antes – e talvez não voltem nunca. A situação é difícil. Mas muitos já pediam antes do isolamento social. Um amigo, certa vez, precisava muito resolver uma emergência, nem me lembro qual. Ajudei. Passaram-se os anos. No Instagram, vi posts de suas viagens, na Bahia no Carnaval, em Trancoso no verão. Agora houve um corte em sua empresa. Vou salvar a situação de novo? Generosidade não é burrice. O pior é quando o calote assume o papel de justiça social. “Você não precisa” – é um mantra que sempre ouvi dos devedores. Quando cobro, sou acusado de mesquinharia. Surgem comentários entre os amigos.

Eu já emprestei bastante, até ajudei um amigo a fazer um curso. Prometeu que, quando arrumasse emprego, devolveria tudo. Nem um centavo. Agora, na pandemia, crise em seu trabalho. Pediu-me um empréstimo mensal, para quitar aluguel, supermercado…Sem deixar cair o nível de vida. Respondi a ele que empréstimo mensal não dá. Ofendeu-se. Caloteiro se ofende fácil. Nunca foi tão válido o velho ditado: “Quando se empresta dinheiro, perdem-se o dinheiro e o amigo”.

Há dois anos, um deles me ligou de madrugada. Tinha batido o carro em outro veículo, era culpado, estava sem seguro. Tinha emprego, carro… Avisei-o que teria uma responsabilidade: se não me pagasse, nunca mais eu emprestaria dinheiro a ninguém. Estaria prejudicando os outros no futuro. Em lágrimas, a pessoa me agradeceu. Bem mais tarde, saiu do emprego, vendeu seu carro, viajou… E nada! Foi uma lição.

Outra modalidade é o empréstimo de cartão. Uma funcionária deu o próprio para a melhor amiga comprar um eletrodoméstico a crédito. A tal amiga sumiu, óbvio. Da amizade, sobraram as prestações. Pior foi aquele que emprestou o nome. Primeiro, para a irmã montar uma empresa. Ela faliu. Depois de uma temporada no exterior, ele pediu um novo cartão no banco. Não conseguiu. Nome sujo. A irmã não encerrara o negócio, nem pagara o imposto de renda de anos. Gastou uma grana para resolver. Novamente, tentou o cartão de crédito. Ainda bloqueado. Muito antes, tinha emprestado o nome à namorada para financiar um carro. Ela não só não pagara, como devolvera o veículo. Este foi leiloado. Mas não quitou a dívida, que continuou rolando. Juros e juros. O rapaz teve de pagar tudo, e nem carro tinha para compensar. E se lamenta: “Se ela já estava com o nome sujo, qual a lógica de emprestar o meu?”.

Caia na real: quem tem o hábito de pedir empréstimo, seja de grana, seja do nome, não gosta de pagar. A quarentena está difícil? Quer ser generoso? Faça uma doação. Pelo menos você não vai passar pelo stress de brigar para receber.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

MEU GALPÃO, MINHA VIDA

A pandemia provocou inédito aumento de procura pelos self storages, como são chamados os espaços para guardar objetos pessoais e estoques de empresas

O isolamento social provocado pelo novo coronavírus afetou a forma como as pessoas e as empresas ocupam espaços. Áreas de convivência familiar passaram a ser usadas para as aulas dos filhos e o trabalho dos pais. Com a desaceleração abrupta da economia, escritórios e comércios viram o movimento cair e muitos tiveram de migrar para lugares menores. Ao mesmo tempo, outras atividades aproveitaram as mudanças de comportamento para adequar os negócios à crescente demanda pelo comércio eletrônico, o que obrigou grandes e pequenos varejistas a recorrer a locais específicos para estocar e distribuir mercadorias com agilidade. O novo cenário criou o ambiente perfeito para o avanço dos self storages. O conceito surgiu nos Estados Unidos na década de 60, mas apenas nos últimos anos se profissionalizou a ponto de atrair investimentos. Agora, virou febre. Para quem não conhece, os self storages são galpões onde é possível alugar boxes – que vão de 1 a 200 metros quadrados. Os usos são os mais variados: podem servir para guardar o berço aposentado até o estoque de cosméticos vendidos pela internet.

Fernanda Orbite, 40 anos, consultora de vendas do setor farmacêutico, se mudou há dois anos com a filha Lara, de 4, para a casa da mãe, que na época se recuperava de uma cirurgia. Ela optou por alugar seu imóvel e parte da mudança foi parar em um self storage. Com a pandemia, foi preciso fazer um novo ajuste na área do apartamento para que Lara assistisse às aulas pelo computador e Fernanda pudesse trabalhar em casa. “Só mantenho comigo o que realmente preciso usar”, diz. “Guardo de tudo, de aquecedor a impressora, além de brinquedos e roupas que não uso”. O boxe da consultora de vendas de São Paulo tem 3 metros quadrados e não lembra em nada os antigos e empoeirados guarda-móveis. O acesso é com senha e é possível chegar de carro até as docas para descarregar os volumes.

Os números confirmam a expansão do setor. Uma recente pesquisa encomendada pela Associação Brasileira de Self Storage (Asbrass), realizada pela consultoria Brain, mostra que, na comparação entre o primeiro e segundo trimestre do ano, o total de boxes no país subiu de 69.445 para 79.300. Com mais clientes, houve uma pressão nos preços. O valor médio do aluguel mensal do metro quadrado passou de 94 reais para 99 reais. “Com a pandemia e a necessidade de isolamento social, as pessoas estão buscando mais espaço em casa”, diz Rafael Cohen, presidente da Asbrasss. “Além disso, muitas empresas entregaram seus escritórios depois de migrar para o home office.”

O crescimento também vem sendo puxado pelas vendas do e-commerce. Concentrados nas maiores cidades do país, os galpões têm avançado para regiões centrais, o que torna o serviço de armazenamento uma espécie de extensão dos centros de distribuição. Com isso, as empresas conseguem descentralizar seus estoques e reduzir prazo de entrega dos pedidos. Maior companhia do setor, a GuardeAqui Self Storage, com 25 pontos, detectou uma disparada na procura por boxes. No primeiro semestre, o número de novas locações aumentou 33%, em comparação aos primeiros seis meses de 2019. Mariane Wiederkehr, CEO do GuardeAqui, conta que a demanda maior vem de contratos assinados por pessoas físicas, mas que o atendimento a empresas tem aumentado. “O self storage passou a ser uma extensão da casa e também atende ao novo mercado de trabalho”, diz a executiva.

Não à toa, as companhias do setor têm atraído um volume expressivo de recursos. O GuardeAqui recebeu nos últimos anos aportes do Pátria Investimentos e da Equity International. Outra empresa do ramo, a GoodStorage captou 300 milhões de dólares no mercado. Na GoodStorage, o processo de contratação do espaço é on-line e o acesso aos galpões é feito por senhas e biometria. Segundo o fundador Thiago Cordeiro, a pandemia impulsionou a procura em cerca de 20%. Apesar de o maior volume de negócios ainda vir de pessoa física, Cordeiro acredita que os pequenos empresários que voltarem seus empreendimentos para o comércio eletrônico deverão aderir a esse tipo de armazenamento. “Com o crescimento do e-commerce, as entregas aumentaram muito, o que foi facilitado pela quantidade menor de veículos em circulação durante a pandemia”, diz o executivo. Como será quando o tráfego voltar ao normal? “As empresas e as pessoas vão precisar de espaços pulverizados pelas cidades para diminuir o tempo de entrega dos pedidos, e é aí que nós entramos”, diz o presidente da companhia. Tudo indica, portanto, que o bom e velho quartinho da bagunça ficará definitivamente para trás.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE SETEMBRO

RENDIÇÃO, UMA NECESSIDADE IMEDIATA

Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará (Salmos 37.5).

A Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. Era o ano de 1945. Hiroshima e Nagasaki haviam sido varridas do mapa pelo poder da bomba atômica. Os países do eixo, Alemanha, Itália e Japão, estavam derrotados. O presidente norte-americano e o primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchil, desembarcaram em Tóquio, a fim que Hiroíto, o imperador japonês, assinasse o tratado de rendição. O imperador disse: “Eu assino o tratado, mas tenho algumas exigências a fazer”. Churchil respondeu com firmeza: “Não aceitamos exigências nem condições. Primeiro assine o tratado de rendição, depois reconstruiremos o Japão”. É assim que Deus faz conosco também. Não podemos exigir nada dele. Primeiro, nós nos rendemos a seus pés e depois ele restaura nossa vida. Não há esperança para o pecador enquanto ele não se render aos pés do Salvador. Não há cura para nossas feridas enquanto não nos curvamos diante daquele que tem o bálsamo de Gileade. Não há esperança para nossa alma a menos que nos prostremos diante daquele que é poderoso para perdoar, restaurar e salvar. Deus resiste ao soberbo, mas dá graças ao humilde. Somente aqueles que se ajoelham diante de Jesus, o Rei dos reis, poderão ficar de pé no Dia do Juízo final.

GESTÃO E CARREIRA

SALVAÇÃO OU ARMADILHA?

Quem abre um negócio por necessidade costuma sofrer com a alta carga emocional e com o despreparo para gerir uma empresa. Saiba como se preparar para empreender com segurança

Quando Kelli Carretoni, de 36 anos, e o marido, Marcos Senise, de 35, decidiram sair de Sidrolândia (MS) para recomeçar a vida em Florianópolis (SC) imaginaram que seria fácil abrir um food truck e se sustentar vendendo lanches. Desempregados, eles estavam morando de favor com a família havia seis meses quando decidiram arrumar as malas em agosto de 2018. Como já haviam visitado a ilha catarinense durante as férias de verão, pensaram que a multidão de turistas significaria sucesso garantido.

Mas a realidade do inverno em que chegaram à cidade foi bem diferente. Além de custos com locação e manutenção do trailer, o casal teria de arcar com alvará de funcionamento – e, também, com o aluguel de apartamento e todos os outros custos de vida. As contas não fechavam. “Decidimos recuar do nosso projeto inicial. Ficamos apavorados, pois tínhamos muitas despesas, o dinheiro estava indo embora e o desespero bateu”, diz Kelli. O sonho de ter um food truck durou apenas dois dias. Marcos começou a procurar emprego em lojas e restaurantes de Florianópolis. Apesar de carregar um diploma universitário de agronomia, ele não teve sucesso em sua área. Para piorar a situação, Kelli passou por um problema na coluna que exigiu repouso, internação e medicamentos – o que tornou a situação financeira do casal ainda mais preocupante. Foi então que tiveram a ideia de fazer bolos no pote para vender no comércio e na praia. Advogada de formação, Kelli sempre gostou de preparar doces e ficou encarregada. da produção, enquanto Marcos cuidava das vendas. Ele havia conseguido um emprego de vendedor durante o horário comercial e saía para vender bolos após o expediente. Depois de dez meses empregado, Marcos foi demitido e passou a se dedicar integralmente ao negócio. Com muito esforço, saíram do vermelho e hoje conseguem pagar todas as contas com os doces. A história poderia ter terminado mal, mas eles tiveram sorte. Em seu segundo verão na ilha, o casal está se preparando para formalizar a empresa e já sonha em abrir uma loja própria.

PURA NECESSIDADE

Histórias como a desse casal estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil – e não é porque o brasileiro se descobriu como empreendedor. O enfraquecimento da atividade econômica e o avanço do desemprego nos últimos anos são dois dos fatores que têm levado cada vez mais pessoas a abrir um negócio por necessidade.

Uma pesquisa realizada pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostrou que a taxa de empreendedorismo no Brasil está crescendo rapidamente, chegando a 38% em 2018, o equivalente a 52 milhões de pessoas. E, dos que abriram um negócio, 37,5% o fizeram por necessidade. A abertura de empresas que se enquadram no MEI (microempreendedor individual) também é um indicativo dessa tendência: de janeiro a outubro de 2019, o Brasil ganhou 1,5 milhão de novos microempreendedores, alcançando um total de 9,2 milhões. Com o registro, os empresários cujo faturamento chega a até 81.000 reais por ano podem ter CNPJ e emitir notas fiscais, além de ter acesso a direitos previdenciários e a auxílio-maternidade. “Há muita gente que não tem opção no trabalho formal e consegue no MEI um caminho para se formalizar e estar no mercado de trabalho”, afirma o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

COM EMOÇÃO

Se empreender por oportunidade já é desafiador, empreender por necessidade é ainda pior. Segundo especialistas, quem abre um negócio por não encontrar uma alternativa de renda costuma sofrer mais riscos de fracassar porque a carga emocional é muito mais intensa e tende a impactar a qualidade das decisões. “São muitas camadas de emoção envolvidas junto com um nível de conhecimento quase zero. As pessoas nessa situação ficam desesperadas porque o dinheiro nem sempre vem rápido”, afirma Marina Proença, especialista em marketing e criadora do curso Empreenda Simples.

Ao mesmo tempo, não há as mesmas garantias oferecidas por um emprego de carteira assinada, como fundo de garantia, férias remuneradas e 13º salário. Segundo Sandro Magaldi, fundador da startup Meu­ sucesso.com, que atua com educação empreendedora, a instabilidade dos rendimentos aliada a essas condições é um dos fatores mais desafiadores. “Empreender é sinônimo de risco. A segurança não é a mesma quando se tem uma ocupação formal”, afirma.

Outro ponto de atenção é a pressa para retirar uma renda de seu negócio, o que não permite que a empresa receba os investimentos necessários ao longo do tempo. “Esses ingredientes formam um bolo perigoso”, afirma Rubens Massa, professor no Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV Eaesp.

Em muitos casos, é preciso encontrar alternativas de renda até o negócio começar a dar certo. Foi o que fez Kênia Nazaro, de 33 anos. Formada em arquitetura, ela teve dificuldade para encontrar um emprego na área quando se formou em 2014. “O Brasil já estava em crise e meu mercado tinha quase chegado ao fundo do poço”, diz. Em vez de esperar por uma vaga, ela decidiu entrar em ação e começar a atuar por conta própria. “Precisava de dinheiro e também valorizar a graduação que eu fiz”, afirma. Com a marca Nazario Arquitetura, criou um perfil no Facebook com seu portfólio e, com dinheiro emprestado de sua mãe, imprimiu 5.000 panfletos para divulgar o negócio. Alguns meses depois, conseguiu o primeiro cliente. “Ele sabia que eu era inexperiente, mas decidiu arriscar”, diz. A clientela demorou a crescer e, até o início de 2018, Kênia precisou diversificar seu leque de atuação. Além de projetos de arquitetura, ela locava equipamentos recreativos para festas infantis. “Eu ficava por meses sem clientes e, para poder pagar as contas, comecei a alugar esses brinquedos”, diz. Agora, graças ao forte trabalho de divulgação nas redes sociais e na internet, Kênia conseguiu consolidar seu negócio de arquitetura. “O Instagram e o Facebook me dão clientes. Cheguei a um ponto em que eu não preciso mais ficar pagando para fazer propaganda porque os próprios clientes me indicam a outros”, diz a arquiteta, que está pensando em contratar um estagiário para ajudá-la.

PLANEJAMENTO É A CHAVE

Para quem está pensando em empreender por não encontrar mais nenhuma opção, a dica é buscar informação e pla11ejar o máximo possível antes de começar. Cursos gratuitos do Sebrae e informações disponíveis na internet são uma ótima alternativa para quem não tem dinheiro para investir em capacitação. Estar em contato com outros empreendedores também é uma boa ideia, seja por meio da internet, seja em feiras e eventos.

É essencial formular um modelo de negócios levando em conta o que a empresa vai fazer, quem será o cliente, como será o relacionamento com esse público, quais serão as principais atividades e os parceiros, assim como custos e receitas. “É preciso dar um primeiro passo e pesquisar”, diz Marina. Caso contrário, o risco de trabalhar muito e não ganhar dinheiro é alto. Também é importante considerar como seu negócio vai se diferenciar da concorrência, oferecendo produtos inovadores ou lançando mão de campanhas de marketing originais. “Se não souber responder qual dor você cura, nem comece”, afirma Pedro Superti, especialista em marketing de diferenciação.

Esse planejamento faz parte da história de Beatriz Carvalho, de 27 anos. Jornalista que nunca conseguiu atuar na área, ela criou, em 2017, o projeto Mulheres de Frente, que tem como objetivo usar a internet como ferramenta de empoderamento de mulheres da periferia da cidade do Rio de Janeiro. A ideia é ensiná-las a usar as redes sociais como ferramenta de trabalho. “As mulheres da favela são muito estigmatizadas pelo machismo e pelo racismo, e isso me incomodava muito”, diz. Para ajudar a mudar essa realidade, Beatriz oferece consultoria em mídias sociais, produção de eventos e também realiza workshops e oficinas presenciais em áreas carentes. Com isso, ela ajuda empreendedoras a divulgar seus produtos e serviços na internet de forma positiva, servindo de inspiração para outras mulheres.

Para tirar o negócio do papel, Beatriz precisou criar uma rede de contatos na região metropolitana do Rio. Sua principal fonte de negócio são as organizações não governamentais (ONGs) que atuam nessa região. “Procuro oferecer ajuda para eventos que elas realizam, e assim vou criando uma rede de contatos”, conta. Grupos de mensagens e participação em coletivos feministas também têm ajudado Beatriz em sua jornada empreendedora.

Em meados de 2017, o projeto foi mapeado pela Rede Favela Sustentável, da ONG Comunidades Catalisadoras. Em 2019, passou a fazer parte de uma incubadora de outra ONG, a Asplande. Na incubadora, Beatriz está aprendendo sobre modelo de negócios, marketing digital e gestão de negócios. “Esse mapeamento tem me dado mais visibilidade e um networking muito importante”, conta. No mesmo ano, ela se registrou como MEI para poder emitir notas fiscais. No longo prazo, sua intenção é levar o Mulheres de Frente para outros estados do Brasil e até para o exterior. Da necessidade pode ter surgido um grande projeto de vida.

POR QUE SER O PRÓPRIO PATRÃO?

A abertura de uma empresa é baseada na oportunidade ou na pura necessidade de conseguir renda. Veja como andaram essas duas motivações ao longo dos últimos anos

10 CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR DE SUCESSO

1. É atento a mercado e aposta em inovação

2. Dedica tempo ao planejamento

3. É resiliente e focado

4. Consegue manter a calma apesar das turbulências

5. Procura maneiras de se diferenciar da concorrência

6. Sabe quem é seu público-alvo

7. Tem clareza de receitas e custos

8. Entende que empreender é um processo

9. Não desiste se a primeira ideia não der certo

10. Gosta de aprender

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE FIZ ISSO?

Estudos científicos mostram que não estamos totalmente no controle de nossas atitudes

Você já se pegou pensando por que fez uma pergunta em um momento importuno? Ou então, por qual motivo comprou aquele livro que jamais foi folheado? Todo mundo já teve algum desejo, medo ou ideia que surgiu sem se saber bem como e de onde. Essas atitudes podem ter sido influenciadas pela manifestação do inconsciente, que atua sobre nossa mente o tempo todo, seja enquanto dormimos ou estamos acordados.

“No dia a dia, nos deparamos com fatos que nos fazem pensar ‘por que fiz isso?’, ‘de onde veio esse pensamento?’ ou até ‘como fui capaz disso?’, Eles seriam difíceis de explicar apenas com a suposição da consciência e que precisam ser investigados a fundo. As nossas atitudes são permeadas por esses atos psíquicos que nos surpreendem e por pensamentos cuja origem não conhecemos”, destaca a psicóloga Maria Carolina Martins Furini.

PSIQUE EM ORDEM

Grande parte do que fazemos diariamente são processos inconscientes – ainda que sejam invocados de maneira voluntária, como andar, comer e falar. Aprendemos durante a vida e os realizamos automaticamente, pois ficam registrados na mente na forma de memória. Já outras lembranças ficam no inconsciente porque simplesmente julgamos que não sejam tão relevantes (ou você se lembra do número de telefone de todas as pessoas que já te passaram um dia?). Por último, nas profundezas do inconsciente, existem memórias de experiências que vivemos mas que, por algum motivo particular, insistimos em reprimir (geralmente situações que causaram desconforto, medo ou sofrimento).

Essa organização existe para que fosse possível manter a ordem da psique, já que seria impossível viver tantos anos guardando nitidamente todas as experiências passadas. Somos bombardeados o tempo todo por imagens, sons e sensações e o cérebro não tem tempo de processar racionalmente tudo.

NO COTIDIANO

Ainda que a influência do inconsciente chegue a ser imperceptível, ela é constante. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, acreditava que a “voz” do inconsciente podia escapar de forma direta ou indireta, por meio de sonhos, por exemplo. Há ainda os atos falhos, que podem ocorrer por equívocos na fala (trocar o nome das pessoas), na memória (se confundir onde guardou as chaves) e até nas ações (abraçar em vez de apertar a mão em um cumprimento). Claro que o episódio também pode ocorrer por pura distração, porém, se for recorrente, é importante ser analisado por você mesmo e até com a ajuda de um psicólogo.

Em seus estudos sobre o inconsciente, Freud aponta a influência do psíquico em nosso cotidiano. “Ao examinar a dificuldade em compreender o motivo ou a determinação de alguma conduta pessoal, ele compreende que os critérios utilizados pela consciência para tal decisão não conseguem se justificar ou não alcançam a totalidade da compreensão. Isso demonstra que algo para além da consciência, ou seja, algo do inconsciente, está inscrito aí”, explica Maria Carolina.

A análise poderia ser interpretada de que, mesmo o inconsciente estando presente nas ações, ele é despercebido por ser de difícil apreensão. “A racionalidade nos faz pesar os prós e os contras de nossas atitudes e decisões, enquanto o inconsciente se revela nas ações que julgamos inadequadas, impertinentes ou que não encontramos uma justificativa satisfatória para a mesma”, destaca a psicóloga Glaucia Guerra Benute.

A CIÊNCIA PROVA

Somar 8 mais 2 exige que você faça um pequeno esforço mental consciente, certo? De acordo com um estudo francês, você não precisa calcular racionalmente o resultado, já que a leitura e as operações matemáticas simples (com até três números de 1 a 9) podem ser executadas inconscientemente.

Por meio de alguns experimentos, os cientistas da Universidade de Bordeaux concluíram que diversas ações, até então consideradas racionais, podem ser feitas inconscientemente. No estudo, 300 voluntários foram expostos a palavras e equações com uma técnica chamada supressão contínua do flash (CFS, em inglês). Ela consistia em mostrar uma frase ou sequência numérica em frente ao olho esquerdo de cada indivíduo, ao mesmo tempo em que o olho direito recebia imagens com formas coloridas que mudavam rapidamente – que serviam para chamar a atenção, enquanto as outras informações eram registradas inconscientemente. Em seguida, ao ser apresentada a uma série de números, a pessoa reconhecia os números que representavam o resultado da soma ou a subtração que acabava de ver ou, então, as palavras e frases. Para os cientistas, o ser humano guarda e usa sem saber mais informações do que a ciência imaginava.

NA POLÍTICA

Outro exemplo de como o inconsciente influencia de forma imperceptível muitas de nossas ações tidas como racionais é uma pesquisa realizada em 2006 por psicólogos da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Os cientistas apresentaram aos participantes do estudo fotos de candidatos a cargos políticos do país por apenas um quarto de segundo. Em seguida, pediam que eles dissessem qual candidato parecia ser mais competente. Para a surpresa dos pesquisadores, 69% dos candidatos escolhidos pelos participantes tinham vencido as eleições para o governo e 72% se tornaram senadores. Incrível, não é?

ATÉ NAS COMPRAS

Nossas decisões na hora de fazer compras também são regidas pelo inconsciente. Um estudo realizado na Escócia indicou como o som do ambiente pode influenciar inconscientemente as atitudes do consumidor. Os pesquisadores colocaram vinhos franceses e alemães do mesmo tipo e preço nas prateleiras de um supermercado. Alternadamente, o estabelecimento tocava música francesa em um dia e alemã no outro. Nos dias em que o som do local era música francesa, 77% dos vinhos vendidos eram da França; já quando a música era alemã, 73% dos consumidores levaram garrafas da Alemanha. Ao entrevistarem os participantes da pesquisa, um em cada sete admitia a influência da música em suas compras, sendo que apenas um em cada 44 afirmou que o som ambiente neste caso teve um papel decisivo na escolha do vinho.

Como a compra de algo que exige tanta análise, como tipo de uva, região de origem e prato que será servido, pode ser influenciado simplesmente pelo som do momento? Só mesmo o enigma do inconsciente para explicar!

NEUROMARKETING

A importância da ação do inconsciente nas vendas é tanta que publicitários vêm apostando em um ramo conhecido como neuromarketing para despertar cada vez mais a atenção da mente do consumidor. Derivado da junção do marketing e da ciência, o objetivo é entender a essência do comportamento do consumidor – desejos, impulsos e motivações – visando a um maior lucro das marcas. Os resultados das pesquisas ainda são inconclusivos, porém, já se sabe que a maior parte das decisões de compra é tomada em nível subliminar. Sendo assim, é importante impactar o inconsciente do consumidor com memórias, emoções e experiências positivas para que ele se lembre mais facilmente de uma marca ou um produto na hora de escolher o que levar para casa.

FREUD X NEUROCIÊNCIA

O físico norte-americano Leonard Mlodinow é um defensor da ideia de que a mente subliminar é responsável pelos instintos que nos ajudam a sobreviver e socializar. Para explicar o funcionamento do inconsciente e medir todo seu poder, Mlodinow escreveu o livro Subliminar (Editora Zahar), onde reuniu uma ampla bibliografia sobre o assunto – da filosofia do século 18 aos estudos dos anos 2000, quando o surgimento das máquinas de ressonância magnética revolucionou as pesquisas sobre o tema. O autor defende que inconsciente é diferente daquele imaginado por Sigmund Freud. Até onde a ciência sabe, Freud acertou ao supor que o pensamento racional ocupa apenas uma parte pequena do cérebro, mas errou ao descrever o inconsciente como uma parte totalmente reprimida da mente. Exames de ressonância magnética mostram que o cérebro usa os mesmos circuitos neurais tanto para processar pensamentos conscientes quanto inconscientes, ou seja: as áreas racionais e irracionais estão interconectadas o tempo todo. O inconsciente seria a soma de memórias infinitas, porém, além de arquivá-las, ele as coloca em um processo de associação por meio de um método que ainda foge à compreensão do ser humano. Isso explica por que algumas lembranças, que nem sabíamos que tínhamos, simplesmente surgem em nossa mente sem que a invoquemos. “O inconsciente é um sistema psíquico que busca aparecer por meio da consciência, ou seja, são conteúdos que mesmo de forma confusa ou escondida tentam se manifestar em nossas atitudes e em nossa forma de agir no mundo”, completa a psicóloga Maria Carolina Martins Furini.

EU ACHO …

JUSTIÇA PARA AS VÍTIMAS DE ESTUPRO

Atraso na análise de kits de evidências pode impedir prisão de mais criminosos

Por todo o país, uma imensa quantidade de kits de análises de crimes de estupro não está sendo corretamente testada. Essas caixas de papelão contêm envelopes repletos de pelos, células da pele, sêmen, roupas e outras evidências forenses coletadas das vítimas após o relato do ataque sexual. Se o DNA em um kit corresponder a algum DNA guardado em um banco de dados de criminosos, alguém pode ser preso. Portanto, é um crime levar as mulheres a um processo de coleta, que é difícil do ponto de vista físico e emocional e dura horas, e nunca analisar os kits. Porém, mais de 100 mil kits de estupro estão empoeirando nas prateleiras de laboratórios, hospitais e delegacias nos EUA porque falta aos estados dinheiro ou vontade de processá-los.

Agora sabemos que, se os kits forem analisados, mais criminosos serão capturados. Por exemplo: o promotor distrital de Manhattan, em Nova York, concedeu subsídios para kits de estupro para 20 estados entre 2015 e 2018, e foram feitas 186 prisões e 64 condenações, muitas envolvendo estupradores em série cujo DNA apareceu em vários kits. Um esforço contínuo para testar um arquivo de kits antigos em Cuyahoga Count) Ohio, levou a mais de 400 condenações, principalmente em casos antigos. “É perigoso deixar essas pessoas soltas”, diz llse Knecht, diretora de políticas da Joyful Heart Foundation, uma ONG que apoia sobreviventes de agressão sexual. “Pesquisas mostram que, quanto mais tempo elas ficam nas ruas, mais crimes cometem porque é comum que sejam criminosos seriais”. Mais jurisdições deveriam se juntar a esses esforços. Resolver esse problema não depende apenas de dinheiro. Muitos estados agem como se os kits não fossem importantes e não tivessem um sistema para rastreá-los e processá-los: eles sequer têm um registro exato de quantos estão sem uso.

 Além de Washington, D.C., 32 estados já aprovaram leis que exigem que os kits recém-coletados sejam testados e 25 estados exigem algum tipo de rastreamento. Mas as leis são uma colcha de retalhos e não atendem tudo o que precisa ser feito. Em nível federal, em dezembro de 2019, o presidente Donald Trump assinou a Lei Debbie Smith, autorizando novamente uma lei de 2004 para disponibilizar US$ 151 milhões por ano para testar evidências forenses criminais. Mas o dinheiro é para todos os tipos de evidências de DNA, não apenas kits de estupro, e suas subvenções ajudam apenas com os kits não testados que já foram enviados para laboratórios, e não tocam no maior estoque de kits ainda nos armazéns da polícia ou dos hospitais.

Como essas são apenas soluções parciais, a situação geral está piorando. Um relatório de 2019 constatou que, entre 2011 e 2017, o número de solicitações para análise de DNA de cenas de crime em atraso – compostas principalmente por kits de estupro – cresceu 85%. “A demanda [por testes] aumentou tanto que em alguns lugares há uma nova série de pedidos”, diz Knecht. Embora os estados ainda estejam tentando processar os kits antigos, a polícia os está usando com mais frequência, em parte porque há mais conscientização da utilidade das evidências forenses na obtenção de condenações. “Em geral, é preciso aumentar a capacidade do sistema como um todo”, diz ela.

Poucos estados estão implantando completamente todas as seis estratégias sugeridas pela Joyful Heart para resolver o problema: (1) exigir um inventário anual estadual de kits não testados, (2) tornar obrigatório o teste de todos os kits não testados, (3) tornar os testes de novos kits obrigatórios. (4) estabelecer um sistema de rastreamento em todo o estado, (5) exigir que os sobreviventes sejam informados sobre o status de seu kit e (6) fornecer o financiamento para cada uma dessas iniciativas.

Fazer isso é o melhor caminho para que as vítimas sobreviventes recebam justiça. Devemos acreditar no que elas nos dizem e honrar a coragem delas em denunciar crimes e fornecer evidências ao usarmos essas evidências para capturar estupradores.

OUTROS OLHARES

A NOSTALGIA É CHIQUE

Deflagrada pelo TikTok, a nova tendência para o vestuário entre os jovens é copiar referências clássicas do Renascimento

De onde ecoam as mais avassaladoras tendências de comportamento hoje? Nove entre dez são difundidas pelo aplicativo chinês TikTok, a rede social com mais de 1,5 bilhão de usuários e que Donald Trump transformou em cavalo de batalha na Guerra Fria contra a China. Não há, enfim, território mais afeito aos interesses da chamada Geração Z (dos nascidos entre 1995 e 2010, de 10 a 25 anos de idade) e ao consumo imediato, ligeiro, do que o infindável arsenal de vídeos curtos, de quinze segundos, ou pouco mais. Caiu, portanto, como uma luva para o universo sempre efêmero – mas interessantíssimo – da moda. O atual sucesso é um vestido de tom rosa-claro com decalques brilhantes em formato de moranguinhos, aplicados em um generoso tecido do tipo tule, que se desdobra em uma saia rodada. O modelo primaveril tem causado furor entre as usuárias, que postam depoimentos relatando ansiedade para a chegada do item depois da compra on-line.

A criação é obrada designer nova­iorquina Lirika Matoshi e custa 490 dólares, algo em torno de 2.750 reais. Convém ressaltar que não há nenhum item luxuoso na vestimenta que justifique o preço. Mas há um trunfo valioso em tempo de diversidade: manequins que vão do tamanho pequeno ao extra grande. Viralizou, aliás, a imagem da modelo plus size Tess Holliday com um deles na entrega do prêmio Grammy, em janeiro, antes da pandemia, quando o mundo era outro. Mas foi dentro de casa, no confinamento, que o fenômeno explodiu realmente, associado ao interesse pelas coisas do passado, natural e agradável porta de saída para a dureza do cotidiano. O vestido com a estampa silvestre remete, claramente, ao Renascimento, do século XIV ao XVI. A referência está sobretudo no recorte das peças, com mangas levemente bufantes e cintura marcada, logo abaixo dos seios. A saia mais solta, com generosas quantidades de tecido, também conversa com aquele período de transformações na Europa.

“O Renascimento foi uma época revolucionária para o vestuário feminino, quando as mulheres descobriram que podiam seduzir os homens ao realçar a cintura”, diz João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado, de São Paulo. As citações renascentistas vão além: o gosto por tiaras para cabelo acolchoadas e blusas com decote quadrado. “A busca de referências do passado é uma forma de escapar dos problemas do dia a dia”, resume Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda. “Quanto mais distante um período está, mais ele é romantizado e visto como ideal, em contraposição à atualidade.” Vive-se a história de um presente virado de cabeça para baixo – e o guarda-roupa é um bom modo de entendê-lo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE SETEMBRO

A DISTÂNCIA NÃO LIMITA O PODER DE JESUS

Vai-te, e seja feito conforme a tua fé (Mateus 8.13).

Um soldado graduado viajou até Cafarnaum para implorar a Jesus em favor de seu criado, a quem amava, pois estava sofrendo muito em cima de uma cama, quase à morte. Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo (Mateus 8.7). Mas o centurião lhe respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado (v. 8). Aquele soldado romano demonstrou grande humildade e também robusta fé. Sabia que Jesus tinha poder para curar o seu criado. Sabia, porém, que ninguém pode achegar-se a Deus ostentando méritos ou fazendo exigências. Em vez de apresentar seus títulos a Jesus, afirmou que não era digno de recebê-lo em sua casa. O centurião não fez exigências, mas súplicas; não reivindicou direitos, mas clamou por misericórdia. Jesus ficou tão admirado com sua atitude, que afirmou: Nem mesmo em Israel achei fé como esta (v. 10). E, naquela mesma hora, o servo ficou curado. Jesus honra a fé do centurião e cura o servo à distância. Jesus pode fazer o mesmo ainda hoje. Não desista de clamar em favor de sua família e de seus amigos. Não há problema insolúvel quando o entregamos aos pés do Senhor. Não há causa perdida quando a depositamos nas mãos de Jesus. O Senhor pode tudo quanto ele quer. Cristo tem todo poder e autoridade no céu e na terra.

GESTÃO E CARREIRA

A REINVENÇÃO DOS NEGÓCIOS

A pandemia obrigou empresas tradicionais a buscarem novas fórmulas de atuação para fazer frente à crise. E algumas soluções deram tão certo que devem se transformar em prioridade de várias corporações

Quando a pandemia chegou, uma série de empresas teve de baixar as portas e a criatividade passou a ser a única alternativa para não deixar o negócio morrer na praia. Hotéis, restaurantes, organizadores de eventos e até sorveterias tiveram de se virar para ganhar uma sobrevida e resistir ao destino nebuloso que o vírus decretou ao mundo. Mas o que podia ser o fim já se mostra um novo começo. Soluções inusitadas ganharam forma e fazem tanto sucesso que devem permanecer no portfólio de muitas corporações daqui pra frente. É o caso dos quartos de hotéis da rede Accor, que viu sua ocupação despencar 80% desde março. Foi então que camas e poltronas saíram, abrindo espaço para mesas e cadeiras de escritório. Estava criado um ambiente alternativo para muitos executivos terem seu home office longe da rotina da residência.

A modalidade está dando tão certo que dos 330 hotéis da rede no País, 80 já oferecem a solução, que agora inclui salas de reuniões e até brinquedotecas para família. “Tivemos de agir rápido e criar alternativas. O sucesso foi tanto que a experiência está sendo replicada na Europa e chegará em breve à Ásia”, explica Patrick Mendes, CEO da Accor para América Latina, rede que tem entre suas bandeiras os hotéis Ibis, Sofitel, Mercure, Novotel, Pullman, entre outras. As diárias vão de R$ 29 a R$ 300, dependendo da marca. Os custos, segundo Patrick, foram marginais e a iniciativa compensou por manter as unidades funcionando.

A rapidez também foi a arma do Grupo MM. Especializada em eventos, a empresa havia realizado mais de 2,7 mil encontros, entre workshops, seminários e feiras em 2019, e apostava num crescimento de até 15% para este ano. Tudo estava indo como planejado até março, quando o jogo virou e foi preciso renegociar eventos cancelados pelos clientes com os fornecedores. “Tínhamos coisas agendadas até 2021, algumas até pagas”, diz a fundadora Meire Medeiros. Depois de enxugar seu quadro, ficando com 40% dos 120 funcionários, ela percebeu que o problema não seria restrito ao primeiro semestre e foi atrás de alternativas para realizar eventos virtuais. Encontrou parceiros que ofereceram plataformas robustas para substituir o presencial pelo online e agora já contabiliza 172 eventos contratados.

“Em um deles tínhamos dois mil convidados e conseguimos manter 1,6 mil conectados simultaneamente”, comemora. Daqui para frente, Meire acredita que a tecnologia vai continuar fazendo parte dos negócios e, mesmo que surja uma vacina, os eventos devem se tornar híbridos. O setor de eventos, que já amargou perdas de até R$ 90 bilhões neste ano, agora vê na tecnologia a chance de acrescentar mais gente aos encontros. “Por isso, investimos em um estúdio para gravação dos eventos online”, afirma. Mesmo não substituindo o formato tradicional, a nova modalidade conseguiu impedir uma queda total do faturamento da empresa, que manteve 60% da receita. E se os impactos foram severos para hotéis e eventos, no setor de alimentação não foi diferente. Impedidos de abrir as portas por meses, muitos apostaram no delivery. Mas como resolver o problema da entrega quando o produto é sorvete? A sorte da Bacio di Latte é que essa questão já estava sendo pensada pela empresa desde 2019. Em janeiro do ano passado, apenas três lojas da rede conseguiam entregar o produto com qualidade. Com testes de embalagens térmicas feitos há mais de um ano, a empresa encerrou 2019 com 55 lojas prontas para entregar e agora já são 120 das 135 lojas em todo o Brasil fazendo delivery.

APOSTA NO DELIVERY

Mas não foi fácil vencer o temor de que o produto não chegasse integro. Assim, a empresa arregaçou as mangas e junto com uma agência lançou uma campanha maciça na internet para mostrar que estava vendendo e se surpreendeu com uma questão básica, mas que jamais tinha imaginado. Nos sistemas de entrega de comida, o usuário procurava por sorvete e não gelato. “Não aparecíamos nem nas buscas e tivemos de mudar isso rápido”, explica o diretor de marketing da Bacio di Latte, Fábio Medeiros. Outro ponto crucial foram as quantidades. Tinha apenas duas embalagens para entrega, uma de 1,3 litro a R$ 89, e outra de 630 ml a R$ 65. O ticket médio nas lojas era de apenas R$ 16, porque as pessoas pediam apenas um sorvete de casquinha. “Criamos embalagens individuais, a R$ 20”. Aí vieram os kits que permitem às pessoas montar seu sorvete e, para melhorar, as pessoas podem usar vale refeição no pagamento. Agora a empresa trabalha na diversificação dos canais de venda, como supermercados e restaurantes. Com todas as ações, a rede comemora o salto de três mil para 40 mil pedidos mensais por delivery.

Nem as franquias escaparam dos efeitos da pandemia. A rede de spas urbanos Buddha criou uma modalidade onde massagistas e terapeutas atendem os clientes em suas casas. O Smart Spa já virou uma nova modalidade de franquia. Presente em shoppings, aeroportos e metrôs a Nutty Bavarian, que comercializa castanhas, precisou fechar todos os quiosques (mais de 120) em março e decidiu investir em vendas via WhatsApp, além do e-commerce. Para os franqueados participarem da nova frente foi criado um link para que cada um virasse um vendedor. A entrega é feita pelo iFood e até a sede em São Paulo virou um ponto de coleta para delivery. Além disso, tirou do papel o plano de entrar no varejo com vendas em supermercados. Diante da pandemia, a saída é inovar e se preparar para uma mudança profunda. Os negócios nunca mais serão os mesmos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NECESSIDADE DE AFETO

As pessoas reagem de forma diferente às manifestações afetivas. Como podemos atuar como gestores das nossas emoções para uma vida mais saudável

A palavra afeto é um substantivo abstrato, o que significa que ela não existe sozinha, depende de alguém ou algo para existir. Trata-se de uma inclinação a uma pessoa ou objeto, uma disposição, seja positiva ou negativa. Os afetos foram, por muito tempo, subestimados, tratados como algo impreciso, irracional e primitivo, que remete ao início de nossa existência. Porém, hoje podemos perceber como eles são importantes em nossa vida e em nossas interações, pois somosseres relacionais. Apesar de fazer parte de nossa essência, cada pessoa lida de maneira diferente com os afetos, mas por quê? Essa é a questão que busco responder aqui. Para isso, parto do conceito de afeto e de uma contextualização histórica de seu estudo ao longo dos séculos, chegando aos pesquisadores contemporâneos. Dessa maneira poderemos compreender a que fatores estão ligadas essas diferenças e como podemos lidar melhor com os afetos em nossa vida.

A afetividade é um estado psíquico que engloba os sentimentos e as emoções. Mas, qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é uma reação episódica, que envolve uma alteração no nosso corpo, como aumento na frequência cardíaca: medo, alegria e raiva são exemplos de emoção. O sentimento, por sua vez, é um estado psicológico de longa duração e nós o interpretamos de acordo com as nossas experiências, vivências, ou seja, ele tem uma dimensão subjetiva.

CONTROLE DAS EMOÇÕES

O psiquiatra Daniel Siegel e a psicanalista Tina Payne Bryson explicam que as emoções estão relacionadas à parte de baixo do cérebro (tronco cerebral e região límbica), já a parte superior do cérebro (córtex cerebral e suas diversas partes) garante uma percepção mais completa do mundo, como pensar, imaginar e planejar. Quando essa parte superior está funcionando bem, nós conseguimos controlar bem as nossas emoções, refletir antes de agir e reagir. Podemos afirmar então que quando alguém tem um ato de afeto ou reage positivamente a uma demonstração afetiva está com as duas áreas do cérebro integradas, pois consegue interpretar suas emoções em forma de sentimentos saudáveis. Os psicólogos Ângela Branco e Jaan Valsiner classificam os afetos em níveis: no nível inferior estão os processos fisiológicos imediatos (como uma sensação de bem-estar), no meio estariam as emoções (ódio, medo, alegria, raiva) e, no nível mais alto, estariam os estados afetivos (como os valores, sentimentos, convicções) que são sentidos por cada um de nós de forma diferente.

REGISTROS DA MEMÓRIA

Alguns autores acreditam que as emoções elementares, como o medo e a raiva, estariam se atrofiando no decorrer da evolução do ser humano pois foram configuradas no processo evolutivo da espécie e possuíam, naquele momento, função de reação fisiológica ao ataque e à defesa. Acredita-se que, devido às mudanças nas nossas condições de vida, elas seriam desnecessárias e, por vezes, nocivas para nós. Meu modo de entender os afetos é muito similar ao de Lev Vygotsky. O psicólogo não deixa de tomar como premissa a origem biológica das emoções, porém, segundo ele, elas também podem ser construídas por meio das relações sociais.

Além disso, as emoções elementares não se tornaram inúteis no processo evolutivo da espécie, essa premissa analisa o fato apenas por um viés biológico e deixa de lado o psicológico. Vygotsky destaca que as emoções sempre foram poderosas organizadoras de comportamento e essa função continua existindo até hoje.Assim, acreditando na possibilidade que temos de perceber as emoções, refletir sobre os sentimentos e buscar formas mais saudáveis de agir e reagir no mundo, as emoções podem ser fortes aliadas para uma vida melhor.

Considero que, como uma dimensão do psiquismo, a afetividade dá um sentido especial às nossas vivências e nossas lembranças e influencia sensivelmente os nossos pensamentos. Afetividade e cognição se complementam: sentimos de acordo com o que pensamos e pensamos de acordo com o que sentimos. A partir das memórias que guardamos de todas as nossas vivências, experiências individuais e sociais, construímos nosso modo de pensar, nossas ideias e nossos conceitos e essas questões nos influenciam e moldam a forma como vamos reagir aos afetos recebidos. É impossível desconsiderar o desenvolvimento do ser humano e seus afetos sem o poder das relações intrapessoais e interpessoais e da troca com o meio desde a mais tenra idade.

CARGA EMOCIONAL

Tendo discorrido sobre a relevância da esfera afetiva sobre nossa vida e sua relação com a parte cognitiva, o foco agora cairá sobre a forma como reagimos aos afetos. Para isso, vou me basear na teoria da inteligência multifocal (TIM), que busca oferecer uma compreensão sobre a construção dos pensamentos e sobre a importância de agirmos conscientemente sobre eles, para buscarmos uma saúde emocional melhor.

Segundo a TIM, as nossas experiências são armazenadas por meio de um fenômeno inconsciente chamado RAM (registro automático da memória), que registra, automaticamente, tudo aquilo que apreendemos por meio dos cinco sentidos e guarda essas memórias em “janelas”. Se uma experiência foi vivenciada com alta carga emocional, seja ela positiva ou negativa, ela será mais facilmente resgatada na memória em meio aos milhões de outros registros (janelas) que foram construídos ao longo da vida.

É importante compreender que não construímos nossos pensamentos somente porque queremos, de forma consciente (pela decisão do eu), muito pelo contrário, a construção é, em grande parte, feita de forma inconsciente, por meio do registro das experiências na memória.

Aquelas vivências que tiveram uma forte carga emocional criam janelas killer ou janelas light. As killer recebem esse nome por serem “assassinas da inteligência”, ou seja, elas não permitem que tenhamos reação inteligente diante de estímulos estressantes. Elas contêm nossas experiências traumáticas, como frustrações, perdas, medos, rejeições, traições etc. Já as janelas light são chamadas assim por “iluminarem a nossa inteligência”, permitindo respostas mais sábias diante das situações da vida. Correspondem às experiências saudáveis como superações, coragem, capacidade de se colocar no lugar do outro etc.

Tudo o que percebemos, sentimos, pensamos, experimentamos, torna-se tijolo na construção da plataforma de formação do eu. É por isso que o autoconhecimento da dimensão afetiva, ou seja, perceber aquilo que nos emociona e que nos faz sentir bem ou mal ajuda nas inúmeras decisões do dia a dia e na resolução de conflitos de natureza pessoal e interpessoal.

O que quero dizer é que ao vivenciarmos uma situação, nosso cérebro buscará, em milésimos de segundos, informações para sabermos como responder a ela, E onde ele vai buscar informações? No nosso maior banco de dados, na nossa memória. Assim, se você está tendo uma experiência afetiva qualquer em sua vida e os registros em sua memória em relação a esse tópico são majoritariamente janelas killer, provavelmente você não conseguirá ter uma reação saudável. Dessa maneira, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos é diferente devido, majoritariamente, às diferentes experiências de vida que tivemos e ao registro delas em nossa memória.

GESTOR DA PSIQUE

Então, se tivemos experiências negativas em relação aos afetos, sempre responderemos de forma negativa às novas experiências? Não. Porque somos gestores de nosso psiquismo e podemos alterar em nossa memória não o registro, não a lembrança, mas a carga emocional ligada a elas, agregando novas janelas de compreensão e aprendizado sobre as situações.

A partir dessa compreensão, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos depende de algumas variáveis ligadas à nossa memória e à maneira como agimos sobre ela. Essas variáveis seriam: “como estou” (estado emocional e motivacional no momento da vivência), “quem sou” (a história existencial arquivada nas janelas da memória), “onde estou” (ambiente social que influencia meu jeito de ser e minhas respostas), “quem sou geneticamente” (natureza genética e matriz metabólica cerebral) e o “como atuo como gestor da psique” (como atuo conscientemente diante dos registros da minha memória). Na sequência, falarei um pouco a respeito de estudos sobre os efeitos de determinadas experiências sobre os afetos, notadamente sobre o papel da família no desenvolvimento afetivo de seus filhos.

DESENVOLVIMENTO AFETIVO

Desde o princípio da vida fetal, milhões de pensamentos e emoções já são registrados na nossa memória, tecendo complexas redes de janelas na nossa psique, dando início desde cedo a nossa vida afetiva. Assim, é importante a família ter consciência de que precisa preparar um ambiente saudável e afetivo durante a gravidez para que o fenómeno RAM do bebe registre vivências e construa janelas da memória associadas a emoções tranquilas e, dessa maneira, desenvolva habilidades afetivas saudáveis. O feto carregará essas memórias por toda sua infância e vida adulta e elas se transformarão em pensamentos, em noções de si e do mundo, que se desdobrarão em reações daquele ser às manifestações e necessidades afetivas (abraço, segurança, proteção, interações com os outros).

Crianças privadas de afeto apresentam, entre outros prejuízos, alterações no funcionamento de áreas cerebrais associadas ao processamento das emoções, os efeitos serão observados a longo prazo, na idade adulta. Há uma clara evidência de que crianças que não desfrutaram de vínculos afetivos sólidos terão maior tendência à agressividade e ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas como depressão. Isso é o que afirma o pesquisador Jamie Hanson, do Departamento de Psicologia da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, ao salientar que “a negligência emocional praticada por pais e cuidadores em relação às crianças deixa marcas nos circuitos neuronais” e que “no futuro, essas cicatrizes podem contribuir para o surgimento de sérios distúrbios afetivos”.

Assim compreendemos o papel imprescindível da família nesse processo de desenvolvimento dos afetos, pois é nela que se estabelecem os primeiros vínculos fundamentais para a possibilidade de pertencimento a outros grupos mais amplos no futuro. No núcleo familiar, a criança entra em contato com o meio que lhe fornecerá suporte para desenvolver seus afetos.

Contudo, muitas crianças nascem em famílias que se encontram em situação socioeconômica degradante, esse fator pode propiciar a vulnerabilidade de vínculos e afetos durante seu desenvolvimento. O abandono parental e a desestruturação familiar são considerados fatores de risco para a construção da afetividade nas crianças.

TEORIA DO APEGO

Corroborando essa linha de pensamento, o psicanalista inglês John Bowlby já havia apontado, na década de 1950, a importância do relacionamento com o cuidador primário no desenvolvimento   social e emocional da criança. Bowlby percebeu que existia uma dinâmica recorrente nas formas como nós nos apegamos às pessoas, o que ele chamou de teoria do apego. Segundo ele, nos relacionamentos amorosos podemos observar três perfis: o perfil A, mais saudável, tem facilidade  de se aproximar dos outros, o B, ansioso, anseia por amor e não sente que tem reciprocidade do  parceiro, e o C, distante, sente-se desconfortável quando alguém chega perto demais dele. Esses padrões de comportamento remontam a padrões da infância, ou seja, experiências traumáticas na infância geram relações amorosas conflituosas. Concluiu-se que as pessoas C provavelmente tiveram alguém da família que estava fisicamente presente, mas emocionalmente distante, por isso essas crianças desenvolveram um entendimento afetivo de que se conectar com alguém machuca. Jó o perfil B foi exposto a uma perda ou desaparecimento do cuidador durante a criação dele, por isso desenvolve o pensamento de que a qualquer momento será abandonado. Ninguém possuí cem por cento de nenhum dos três perfis, mas sim uma maior tendência a algum deles, o que faz com que pessoas que têm percepções muito diferentes do afeto entrem em atrito ao se relacionar.

Além das experiências de cuidado dentro da família e do meio social para o desenvolvimento dos afetos, algumas variáveis traumáticas podem afetar negativamente a forma como vamos lidar com eles, como o abuso sexual. Diversos estudos demonstram que as consequências do abuso sexual infanto juvenil facilitam o aparecimento de psicopatologias graves e prejudicam a evolução psicológica, social e afetiva da vítima. Esses efeitos podem se manifestar de várias formas, em qualquer idade. Muitas vítimas criam mecanismos de proteção que as impedem de continuar a viver como antes, como, por exemplo, desenvolver aversão a algumas formas de manifestação de afeto (abraços, beijos e qualquer tipo de toque no corpo).

É importante frisar que não somente as experiências de alto impacto emocional como traumas ou negligência familiar influenciam o nosso desenvolvimento afetivo, mas todas as nossas experiências e relacionamentos. Discorri sobre as mais impactantes, porém até mesmo situações que pareçam sem importância podem trazer influências às nossas reações afetivas. Portanto, é essencial que possamos pensar sobre a maneira como vivemos e expressamos nosso lado afetivo, colocando nosso eu como gestor, buscando respostas cada vez mais saudáveis e alinhadas ao que desejamos para nossa vida e a daqueles que nos rodeiam.

REAGIR AO AFETO

Com a correria dos dias de hoje, deixamos de nos preocupar com aspectos importantes para a nossa saúde emocional como os afetos. Olhar para dentro de nós é conseguir entender o que acontece na nossa mente para poder dialogar com nosso círculo social sobre o que nos causa dor e, também, sobre nossas alegrias, expectativas, sonhos.

Nós precisamos ser ativos na gestão do nosso psiquismo. O ser humano aprendeu a decifrar sua inteligência para atuar na vida social, mas não para atuar na sua própria mente. A forma como reagimos aos afetos vem sendo configurada desde quando estávamos no útero materno, de maneira inconsciente, mas existe uma forma consciente de modificar tais códigos: não podemos apagar as nossas janelas killer, mas podemos ressignificá-las a partir do momento em que temos consciência de que somos gestores do nosso eu, dos nossos pensamentos e nossos sentimentos.

Uma forma de reeditar nosso inconsciente é questionar qualquer pensamento não saudável que ronde a nossa mente, criticando-o e determinando ter uma nova reação, uma nova atitude, uma nova visão sobre ele. A partir desse processo consciente, retiramos o poder das janelas killer, e aumentamos o número de janelas light com relação àquele assunto que nos traumatiza, nos entristece, nos frustra, e isso influenciará nossas reações diante de acontecimentos do futuro. Um eu gestor que aprende a administrar seus pensamentos e emoções e a reeditar as zonas de conflito expande suas habilidades afetivas.

Assim como Vygotsky, devemos dar a devida importância à nossa vida afetiva, cuidando do que sentimos e do que pensamos. Ao fazer isso, também contribuímos para que outras pessoas possam refletir sobre seus afetos e cuidamos também de nossos relacionamentos, sejam eles afetivos, familiares e também profissionais. Pois toda relação tem afeto em maior ou menor grau.

Podemos concluir então que diferentes variáveis atuam influenciando nossos afetos, porém temos a possibilidade de alterar de maneira consciente nossas reações afetivas ao cuidarmos do nosso mundo interno. Não temos o poder de mudar nossa genética e nem as experiências que vivemos, mas temos o poder de alterar a carga emocional do registro dessas experiências, escrevendo uma nova história de sucesso de dentro para fora.

EU ACHO …

COMO MELHORAR A SUA IMUNIDADE

Algumas medidas simples e práticas podem aumentar sua resistência aos vírus

À medida que a ansiedade por causa do coronavírus se espalhou, proliferaram as falsas panaceias prometendo proteção contra ela. Mas há algumas medidas baseadas na ciência que se pode “adotar” para manter um sistema imune saudável.

Para começar, não fume. Fumantes são muito mais vulneráveis a infecções respiratórias. Segundo, certifique-se de seguir uma dieta com uma ampla variedade de vegetais, frutas e outros elementos de uma dieta saudável. “Uma ótima dieta diminui o risco de infecções e reduz a severidade delas”, diz Wafaie Fawzi, professor de nutrição e saúde global na Universidade Harvard. Terceiro, pratique uma boa higiene do sono para aumentar as chances de um adequado descanso noturno. E quarto, faça regularmente exercícios, o que também ajudará a dormir.       

Na área da dieta, vários nutrientes têm sido associados a uma resistência melhor aos vírus. Tomar suplementos de zinco, por exemplo, foi associado a uma menor taxa de infecções respiratórias e menor duração de sintomas relacionados. A deficiência em zinco, um mineral encontrado em carnes, moluscos, nozes e cereais integrais, é mais comum em países pobres, diz Fawzi, mas pode ocorrer em países ricos, em períodos de alto desemprego e interrupções na cadeia de abastecimento alimentar.

Também se mostrou que as vitaminas C e D melhoram a resistência a infecções respiratórias. A vitamina C desempenha um papel em reduzir danos teciduais criados por nossas próprias respostas imunes, o que talvez seja relevante para a covid-19. Doses orais da vitamina também abreviaram o período de permanência na UTI e na ventilação em pacientes de cirurgias cardíacas, segundo uma metanálise de 2019. Ela poderia ajudar pacientes de covid? Isso está sendo investigado, diz Fawzi.

Quanto à vitamina D, uma metanálise de 2017 de 25 ensaios randomizados controlados descobriu que suplementos de vitamina D reduzem o risco de infecção respiratória aguda, em especial para pessoas com baixos níveis dessa vitamina, o que corresponde a cerca de 40% dos americanos. A porcentagem é muito maior em afro-americanos e hispânicos. Fawzi observa que o final do inverno, quando a pandemia teve início nos Estados Unidos, também é a época em que os níveis de vitamina D estão baixos porque nós a adquirimos principalmente através da exposição ao sol. Fawzi e seus colegas co1meçaram a investigar se a vitamina D pode ajudar pacientes da covid.

Sabemos há muito tempo que o sono é essencial para melhorar nossas defesas. Estudos mostram que se uma pessoa é privada de sono depois de receber uma vacina, ela produzirá uma resposta de anticorpos mais fraca do que alguém que dormiu. Pesquisas sugerem que o sono acentua a migração de células T para os nodos linfáticos, onde são apresentadas às estrangeiras que desencadeiam a produção de anticorpos, diz Luciana Besedovsky, da Universidade de Tübingen, na Alemanha.

Um estudo de 2015 que mediu a duração média do sono de 164 voluntários saudáveis e então pingou um rinovírus em seus narizes descobriu que os que dormiram seis ou menos horas por noite tinham quatro vezes mais chance de desenvolver um resfriado do que os que dormiam mais de sete horas. E outro estudo que acompanhou 57 mil mulheres concluiu que as que dormiam cinco ou menos horas por noite foram 40% mais propensas a sofrer uma pneumonia, ao longo de quatro anos do que as que dormiam oito horas. Uma privação do sono extensa, diz Besedovsky, pode criar um estado inflamatório de baixo grau: “Isso parece esgotar seu sistema imune no longo prazo, de maneira que ele pode não ser capaz de combater infecções tão bem”.

Comprometer-se com uma hora regular de ir para a cama e uma rotina noturna que ajude a dormir, junto com uma dieta saudável – e talvez um multivitamínico – não vai necessariamente manter o coronavírus longe. Mas essas medidas têm um verdadeiro lado positivo de ajudá-lo a aguentar e resistir melhor a quaisquer ameaças à saúde que soprem em sua direção.

*** CLAUDIA WALLIS – é uma premiada escritora de ciência e ex-editora-chefe de Scientific American Mind.

OUTROS OLHARES

UMA PAIXÃO NACIONAL (E CADA VEZ MAIS ESPECIAL)

Há quase 300 anos o café chegava ao Brasil para provocar uma revolução na história do País. Do cafezinho ao blend mais sofisticado, o consumo só evolui mais a cada dia

Consagrado universalmente durante o período industrial, o café passou por uma transformação cultural e gastronômica através dos anos. Beber café virou um ato social tão valorizado que hoje a escolha de determinado blend da bebida traduz quem tem ou não um paladar sofisticado.

“O movimento econômico que acontece com a maioria dos produtos após o consumo em massa gera um momento de requinte e faz surgir novos mercados”, afirma o consultor Ensei Neto, um dos maiores especialistas em café do país. Hoje qualquer um pode tomar um pingado por R$ 3, mas também é possível pagar até R$ 40 em uma bebida especial como aquela em que a fruta passa por processos extremamente complexos antes de ser levada para a torra. A única certeza nesse mercado é que o segmento do café especial é uma realidade e veio para ficar. As cafeterias, locais que caíram no gosto do público e onde esse tipo de produto era geralmente consumido antes da pandemia, sofreram com o cenário. A boa notícia, porém, é que o hábito se transferiu para o home office: a procura pela bebida aumentou 35%.

Café Especial ou Café de Especialidade é o nome dado para as bebidas que possuem um selo oficial de qualidade. O termo vem do inglês Speciality Coffee e designa a bebida que obtém a classificação de 80 pontos ou mais em uma escala de 100 da “Metodologia SCAA” (Specialty Coffee Association of America) de avaliação sensorial. Se os sommeliers precisam de formação para avaliar corretamente um bom vinho, o mesmo acontece com o café. Apenas degustadores certificados pela SCAA ou por um Q-Grader licenciado pelo Coffee Quality Institute (CQI) podem fazer a pontuação. Apesar dos termos em inglês, os cursos são oferecidos no País, inclusive online.

A associação americana começou somente em 1982 a da parâmetros à qualidade das bebidas. Como explica a barista e mestre de torra, Isabela Raposeiras, essa preocupação com o café é muito recente. “Na história da humanidade o café é uma das bebidas mais jovens. Para se ter uma ideia, vinho, cerveja, destilados e chá são milenares. Já o café possui apenas 500 anos de história dentro do consumo que conhecemos hoje: a bebida, a infusão, a torra”, afirma Isabela. Para ela, o interesse pela gourmetização da bebida é recente. “O café é uma bebida complexa que sempre esteve presente na mesa do brasileiro. As novidades do mercado chamam a atenção do público”, diz ela, que, durante o período de isolamento social, colocou todas as suas forças nos cursos voltados para a formação de profissionais e entusiastas na área. “O café possui mais de mil compostos aromáticos, enquanto o vinho tem de 600 a 800, assim como o chocolate. Ou seja, o café é hoje a bebida popular aromaticamente mais complexa que existe”

Para o empresário Diego Gonzales, responsável pela rede de franquias Sofá Café, o consumo da bebida passou por diversas fases. Inicialmente, não havia preocupação com a qualidade. “Foi somente após a Segunda Guerra que se começou a olhar com mais seriedade para o café. Em seguida, veio o Café Especial”. Gonzales possui seis franquias no país, uma delas dentro do escritório do Google em São Paulo. “Eu só fechei uma loja nos EUA. No Brasil, eu consegui segurar tudo, inclusive funcionários”, diz ele, que faturava cerca de R$ 1 milhão por ano antes da pandemia. Em público ou em casa, o brasileiro não vai abandonar a bebida mais exportada e a segunda mais consumida do País – o café perde apenas para a água.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE SETEMBRO

MINHA DOR NÃO VAI PASSAR

Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece (Jó 3.25).

Jó foi um homem aprovado por Deus, questionado por Satanás e acusado pelos homens. Mesmo amado no céu, foi fuzilado na terra. Sofreu as maiores perdas, enfrentou as maiores angústias, curtiu as maiores dores. Perdeu bens, filhos e saúde. Perdeu o apoio da mulher e dos amigos. Ficou só no pó e na cinza, amargando sua dor. Quando estava encarquilhado, magérrimo, com a pele necrosada e o corpo tomado por feridas cheias de pus, ergueu aos céus sua queixa. Do profundo de sua alma clamou, dizendo: Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio? (16.6). O sofrimento de Jó foi atroz. Incluía sofrimento físico e emocional, moral e espiritual. Porém, no meio da noite escura da alma, esse velho patriarca ergue os olhos rumo ao futuro e diz: Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus (Jó 19.25,26). No tempo oportuno de Deus, brotou a cura para Jó. Deus restaurou sua sorte. Devolveu-lhe seus bens em dobro. Restaurou seu casamento e deu-lhe mais dez filhos. Sua dor cessou, e seu testemunho ainda ecoa nos ouvidos da história. O mesmo Deus que consolou Jó e restaurou sua sorte pode trazer um tempo de refrigério para a sua alma.

GESTÃO E CARREIRA

O ZOOM NOSSO DE CADA DIA

O número de downloads dos aplicativos de videoconferência quase dobrou nos últimos dois meses. Conheça os impactos e aprenda a lidar com essa nova realidade

O movimento começa cedo na casa de Josiane Santiago, de 37 anos, em Curitiba. Às 7h30 ela e o marido levantam e às 8 horas já estão trabalhando – ambos para a Copel, companhia de energia do Paraná. O filho Nicolas, de 7 anos, vê os vídeos gravados da escola às 10 horas, cinco vezes por semana. Já o mais novo, Leonardo, de 2 anos, acorda por volta das 10 horas. “Tenho deixado ele dormir”, diz Josiane, que é gerente da universidade corporativa da Copel. Desperto, Leonardo vê TV no quarto, que virou o escritório adaptado da mãe.

Em home office desde 23 de março e com expediente das 8h às 17h, Josiane e seu marido tiveram de priorizar a escola do menino mais velho, em fase de alfabetização. Além dos vídeos matutinos, à tarde Nicolas tem aulas virtuais ao vivo por três horas, de segunda a sexta, e inglês três dias por semana. O estudo acontece na sala de estar, que se transformou no local de trabalho do pai. Josiane ainda faz aulas de doutorado por Skype e aproveita o vídeo para falar com a família e ensaiar com o coral da igreja. “Nossa vida se tornou uma eterna reunião. Você olha a agenda e vê oito, nove compromissos por dia – e, na maioria dos casos, nem tem a opção de recusar”, diz Josiane. A história da gerente ilustra o que tem acontecido em outros lares: a vida em quarentena foi dominada pelos encontros virtuais. Prova disso é que os aplicativos de videochamada explodiram ao redor do mundo. Hangout, Microsoft Teams e Zoom alcançaram 72 milhões de downloads nas lojas do Google e da Apple globalmente durante a semana de 14 a 21 de março, um crescimento de 90% na média semanal de 2019, de acordo com uma pesquisa da App Annie. Só o Zoom tem registrado por dia mais de 300 milhões de pessoas em reuniões online no mundo – algo que contribuiu para o valor de mercado da empresa bater 49,78 bilhões de dólares, mais do que as sete maiores companhias aéreas juntas. No Brasil, as buscas no Google por termos relacionados a videoconferência tiveram um salto repentino de março a maio, sendo que a palavra “Zoom”, especificamente, subiu mais de 300%. Ficou claro que as reuniões não servem só para trabalhar ou estudar quando o próprio Zoom identificou um aumento de quase 2.000% nas videochamadas nos fins de semana. O fato é que a prática se tornou tão normal que zooming virou verbo nos Estados Unidos.

Conforme aumentou o tempo em isolamento, cresceu a variedade de usos dos vídeos online. Mundo afora, há concertos, espetáculos de circo, peças teatrais e até festas de aniversário de adulto ou de criança acontecendo na tela. Um estudo do centro de pesquisas Pew apontou que um terço dos americanos adultos já participou de uma comemoração virtual com amigos ou familiares.

ENCONTRO VIRTUAL, ESTRESSE REAL

O tempo em frente às telas – seja por diversão, seja por trabalho – tem gerado também exaustão. Para os especialistas, essa sensação é causada não só pelo maior número de reuniões, mas por termos de nos adaptar a muitas novidades desse estilo de vida isolado. “Enquanto essa rotina estiver sendo construída, ela será cansativa. O cansaço não vem da falta de energia, mas de sistemas que estão constantemente monitorando nosso comportamento e tentando resolver situações novas. O fato de não estarmos no piloto automático deixa o cérebro em alerta, e isso gera estresse e exaustão”, diz Carla Tieppo, neurocientista e fundadora da consultoria Ilumne. As reuniões também têm seu peso na fadiga. E isso tem a ver com a maneira como o ser humano aprendeu a se comunicar. Para interpretar uma mensagem, nosso sistema de transmissão e recepção avalia, além da linguagem verbal, as expressões faciais, o olhar, o movimento corporal e a distância entre os corpos. “A comunicação é o resultado do impacto que você causa em mim –   daquilo que eu estou dizendo e da forma como capto suas respostas. Para tal, uso as áreas sensoriais – os órgãos do sentido. Tudo isso me dá o poder de interpretar sua linguagem”, explica Vera Martins, consultora especializada em comunicação assertiva e inteligência emocional. “Essa linguagem não verbal equivale a dois terços do processo de comunicação”, diz Vera, que também é autora de Seja Assertivo (Altabooks, 58 reais). Na videoconferência, essas entrelinhas ficam de fora. Ninguém consegue vero pé do outro balançando em sinal de nervosismo, por exemplo. Quando um desses elementos é perdido, tanto quem fala como quem ouve precisam se concentrar mais para compreender a outra parte.

As ferramentas de conference call provocam outros desconfortos. Geralmente, quem tem a palavra ganha destaque na tela. Para os tímidos é um problema. Para os extrovertidos, também. Os primeiros nunca querem estar em evidência, enquanto os outros odeiam ficar de escanteio. Além disso, quem está falando fica com um rosto enorme na tela. Nosso cérebro, ao ver a imagem, interpreta o indivíduo como muito perto e liga o instinto de lutar ou correr, segundo um estudo da Universidade Stanford.

Fato é que precisamos nos esforçar mais nas conferências online. Uma reunião com vários participantes, exibidos no modo galeria, desafia a visão central do nosso cérebro. Ao sermos forçados a decodificar tantas pessoas ao mesmo tempo, ninguém passa por uma análise significativa, nem mesmo o orador. A mente fica sobrecarregada pelo excesso de estímulos, ao mesmo tempo em que se concentra na busca de pistas não verbais – que não consegue encontrar. Esse esgotamento generalizado fez surgir nos Estados Unidos o termo “Zoom fatigue” ou “fadiga do Zoom”. Essa sensação acontece por diferentes motivos. Um deles é a impossibilidade de fitar diretamente os olhos da outra pessoa. Para ver o interlocutor, temos de focar sua imagem na tela, mas, para dar a impressão de que estamos mirando seus olhos, precisamos encarar a câmera – e deixamos de ver o outro. “Sem o olhar profundo, a gente não fecha os ciclos, algo importante para a construção de grupo”, diz a neurocientista Carla. Outras pesquisas indicam que as pessoas se sentem desconfortáveis em ver suas expressões faciais na tela e ficam o tempo todo se analisando, preocupadas com a luz e com a imagem que irão passar. Por outro lado, com a câmera desligada, ficam com medo de os outros pensarem que estão escondendo algo ou que não estão produzindo. Além disso, há as questões de conexão de internet. Um artigo publicado no International Journal of Human-Computer Studies indica que atrasos de 1,2 segundo na transmissão fazem o interlocutor parecer menos atencioso, amigável e disciplinado.

NA HORA MARCADA

Ana Reno, vice-presidente de RH da Airbus, acredita que a pandemia fez crescer a quantidade de informações com que precisamos lidar. “As pessoas mandam mais e-mails, convites para webinars e lives.” Para ela, a covid-19 também misturou os papéis. “A gente está trabalhando em casa e vivendo no trabalho. Você tenta criar fronteiras, mas o emprego invadiu o canto do repouso. É a maior confusão. É como se você estivesse no bar e chegassem sua mãe, o padre, o professor”, afirma a executiva, que tem aproveitado as videoconferências para praticamente tudo.

De seu apartamento em Miami, nos Estados Unidos, ela participa de calls de trabalho; organiza happy hours com os colegas da Airbus espalhados por países como Itália, Índia e Espanha; encontra os amigos paulistas; aprende a tocar ukulele e flauta transversal; fala com a mãe duas vezes por dia; e faz atendimento psicológico como trabalho voluntário aos fins de semana. Além disso, arruma tempo para cursos e palestras virtuais. Como ela organiza tudo? “É preciso ter disciplina”, afirma Ana.

Disciplina é a palavra do momento. Se há um lado bom da pandemia, é que as pessoas aprenderam a respeitar uma simples regra de etiqueta: a pontualidade. As reuniões começam e terminam no horário e, caso alguém precise se atrasar por 2 minutos, já manda uma mensagem de aviso aos colegas. Ter o número certo de integrantes na sala virtual também garante eficácia na discussão. “Estão sendo convidadas pessoas realmente importantes para cada tema. Antes, a gente colocava 30 numa sala em que cabiam 20. Hoje, a média é de dez participantes e as decisões ficaram mais rápidas. Uma reunião que durava 3 horas agora acontece em 1 hora – e as pessoas saem sabendo o que devem fazer”, diz Silene Rodrigues, vice-presidente de RH da Sephora.

MAIS COMPAIXÃO

Talvez a lição mais importante da crise do coronavírus seja importar-se com o outro. Foi necessário o mundo se isolar em casa e se contatar apenas por máquinas para despertar nas pessoas o lado humano e trazer à tona a empatia. Fica difícil para um líder hoje ligar para o funcionário que tem três filhos e está trabalhando de casa, na mesa de jantar, com a internet ruim, e não perguntar como vão as coisas. “A situação cria compaixão não só pelo outro, mas também a autocompaixão. Mas muita gente que está em home office não consegue se olhar assim e entender que faz parte do momento não conseguir entregar tudo”, afirma Henrique Bueno, especializado em psicologia positiva e CEO do Wholebeing Institute Brasil.

Por isso, é importante que a fala seja focada, acolhedora e enfática. Outra estratégia na conversa a distância é checar se a mensagem está sendo entregue ao receptor. “Fale com frequência: ‘Eu estou te ajudando? Isso está fazendo sentido para você?’. No mundo virtual, aumentou a necessidade desse feedback”, diz Vera. Não é por acaso que, em muitas empresas, perguntar “Como você está?” virou script de começo de reunião, orientado pela área de recursos humanos. A busca é por conexão.

“Antes, nós estávamos ao lado uns dos outros, mas não estávamos verdadeiramente juntos. Achávamos que sentar perto já era o bastante”, diz

Josiane, da Copel. “Agora nós estamos rompendo barreiras. Quando voltarmos, tudo será diferente.”

10 DICAS PARA CONFERÊNCIAS ONLINE

O que fazer e o que não fazer, de acordo com os especialistas entrevistados nesta reportagem

1- Nem toda reunião precisa da câmera ligada. Quando as atualizações são rápidas, é possível fazê-las só por áudio

2- Evite videoconferências consecutivas. Dê a seu cérebro um intervalo

3- Estabeleça as regras do encontro: o objetivo, o tempo estimado para cada item e o resultado esperado. No final, destaque os próximos passos

4- Reduza o número de slides. Mais chato do que uma reunião longa é uma reunião longa lotada de apresentações online. Incentive a discussão

5- Nomeie uma pessoa para guiar a conversa, evitar falas atropeladas e mediar a participação de todos. No final, peça que cada um abra o microfone e dê sua opinião

6- Anote as ideias principais num papel – isso ajuda a reter o conhecimento

7- Seja seletivo na hora de convidar as pessoas. Quanto menos gente, melhor

8- Chamadas individuais, para saber como o outro está, ajudam a quebrar o isolamento social e a manter o time conectado

9- Reunião como mecanismo para checar se o funcionário está trabalhando é uma afronta.

10- Use aplicativos diferentes para conferências de trabalho e de lazer. Isso ajuda a criar uma separação das coisas

REUNIÃO PARA QUÊ?

Como os americanos têm usado as ferramentas de videoconferência para além do trabalho

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM CONTROLE

Em equilíbrio, a ansiedade e o estresse podem ser úteis, mas, em excesso, se tornam transtornos mentais graves

“A diferença entre o remédio eo veneno é a dosagem”. A frase popular é uma explicação para o desenvolvimento da ansiedade e do estresse de recursos naturais do organismo para distúrbios da mente. Partes da experiência humana, ambas emoções são extremamente úteis para o processo de sobrevivência da espécie. Até mesmo hoje em dia ter essas reações afloradas pode ser um combustível extra para sair da zona de conforto e empreender as mudanças necessárias na vida. Em situações de perigo, esses sentimentos são ferramentas ainda mais valiosas e essenciais para o indivíduo conseguir agir de forma apropriada. Entretanto, quando presentes de forma recorrente no cotidiano, podem se tomar prejudiciais, tirando o sujeito do controle de suas emoções.

Na atualidade, a ansiedade e o estresse têm se mostrado cada vez mais populares no Brasil. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, o cenário do país é alarmante. Segundo o estudo, cerca de 9% dos brasileiros sofrem com algum tipo de ansiedade na rotina, o que deixa a nação na liderança dos índices mundiais do transtorno. Já em relação ao estresse, a pesquisa mais recente realizada pela instituição lnternational Stress Management Association (ISMA) aponta que mais de 70% dos brasileiros convivem com essa reação do organismo – o dado deixa o Brasil atrás apenas do Japão no quesito.

MUDANÇAS PSICOLÓGICAS

A origem da ansiedade e do estresse é ainda motivo de discussão. Uma das causas apontadas é experiências traumáticas, que são capazes de gerar uma forte instabilidade na psique, possibilitando o desenvolvimento de condições patológicas. Uma mudança brusca no ambiente profissional ou pessoal também pode ser um fator condicionante para o surgimento de distúrbios – Uma maior exigência no trabalho, separação conjugal ou demissão são alguns dos exemplos. Outro fator importante para se observar é o aspecto genético. Estudos apontam que, como em grande parte dos quadros psíquicos, a ansiedade e o estresse estão relacionados ao processo de neurodesenvolvimento que por sua vez, conta com uma significativa contribuição genética.

Ainda em relação às causas, uma avaliação realizada por neurocientistas da Universidade da Califórnia, em São Francisco nos Estados Unidos, apontou que duas áreas do cérebro são ativadas e trocam sinais entre si em pessoas ansiosas ou depressivas. A pesquisa que contou com 21 pacientes, descobriu que, em 113 dos voluntários que demonstraram tais características, houve uma movimentação entre a amigdala cerebelosa (neurônios pertencentes ao sistema límbico responsável pelas emoções) e, o hipocampo (estrutura cerebral que tem controle sobre os sentimentos) em formato de ondas cerebrais. Essa relação entre ambas partes neurais e uma mudança de humor foi tratada como uma informação importante por possibilitar aos pesquisadores avançarem na direção de um diagnóstico e de tratamentos mais precisos dos transtornos.

PERIGO CONSTANTE

Sentir-se sempre com os nervos à flor da pele é um perigoso sinal de que o estresse e a ansiedade se instalaram de forma prejudicial. No cenário em que tais reações se tornam patologias, os sintomas corporais começam a se manifestar e a mente, que antes exercia controle sobre os pensamentos, se embaralha, passando a não ter mais domínio sobre si própria.

Na ansiedade, a perspectiva de um confronto futuro gera no indivíduo um temor constante e presente, percebido como uma ameaça pela psique. Nas diversas manifestações do distúrbio, é possível notar reações de ansiedade e medo. “Na primeira, a pessoa presencia tensões musculares e comportamentos de vigilância para um problema que está por vir. No segundo, encontram-se presentes pensamentos de perigo e a necessidade de fuga imediata”, explica o neuropsicólogo Thiago Gomes.

Esse tipo de manifestação pode acontecer de diversas formas. Entre elas, as mais comuns são fobias, transtorno obsessivo compulsivo, ataques de pânico, transtorno de estresse pós traumático e ansiedade generalizada. Nesses casos o sujeito pode apresentar alguns sintomas físicos universais do quadro: tontura, tremores, sudorese, falta de ar, insônia e desmaios. Além disso, caso não busque tratamento psicológico, a pessoa ansiosa também pode observar um avanço do seu quadro para distúrbios consequentes, como a depressão.

REAÇÃO ROTINEIRA

Em relação ao estresse a desordem ocorre, muitas vezes, por problemas profissionais, pessoais ou sociais que inserem o indivíduo em um ambiente exaustivo, responsável por incapacitar suas ordens mental, emocional e física naturais. “Somos expostos a situações que vilanizam o estresse à medida em que ele começa a nos causar diversas dificuldades”, aponta a hipnoterapeuta Luciene Lima.

Dessa forma, o distúrbio surge em aspectos físicos como dores de cabeça, tensão muscular, problemas estomacais e decorrentes da baixa imunidade como gripe. “O estresse também se manifesta a partir do cansaço mental, gerando problemas de comportamento e diminuição da capacidade de pensar de modo produtivo, organizado e criativo. Apesar dos sintomas variarem, falta de paciência, desânimo, cansaço físico, distúrbios do sono e repetição de hábitos são alguns dos sinais mais comuns”, salienta Luciene.

REEDUCAÇÃO NECESSÁRIA

Para lidar com quadros emocionais de forma adequada é essencial alterar alguns pensamentos. De início, muitas vezes, as pessoas precisam mudar essa concepção de que procurar ajuda psicológica é um sinal de fraqueza e, por virtude, uma experiência negativa. Da mesma forma, que, ao sofrer de um problema cardíaco, procurar um cardiologista para saber se o quadro é grave é o mais adequado, buscar a opinião de especialistas da psique é o mais indicado para tratar um transtorno mental.

outra etapa fundamental para obter uma maior chance de cura é rever comportamentos prejudiciais. Por mais que seja difícil alterar alguns hábitos e se acostumar a isso de uma hora para  a outra, entender que a importância da exclusão de alguns atos da rotina para evoluir é um passo crucial no caminho para ter mais bem-estar.

À PROCURA DE AUXÍLIO

Tanto o estresse quanto a ansiedade precisam ser diagnosticadas por profissionais para que sejam tratados de forma apropriada. Apenas a partir de uma análise aprofundada – responsável por mapear sintomas e possíveis causas -, que o quadro emocional poderá ser constatado, possibilitando ao indivíduo um posterior tratamento sob medida. “Todo transtorno é diagnosticado somente quando os sintomas não são consequência dos efeitos fisiológicos, do uso de um medicamento ou não são mais bem explicados por outro distúrbio”, afirma o neuropsicólogo Thiago Gomes.

Para identificar a ansiedade, são recomendados profissionais como psiquiatras, neurologistas, psicólogos clínicos ou neuropsicólogos. É importante salientar que determinar uma desordem, é o primeiro passo para obter auxílio, pois contar com uma visão analítica pode proporcionar à pessoa uma valiosa oportunidade de compreender a si mesmo e buscar meios para o seu próprio bem-estar.

EU ACHO …

QUANDO A CIÊNCIA É INCAPAZ DE DAR UMA RESPOSTA

Em tempos de coronavírus, nossos conhecimentos são maiores, mas as dúvidas são idênticas

É julho de 1944, e o vírus da poliomielite devasta os Estados Unidos em meio ao verão inclemente e à guerra em continentes longínquos. Em contraste com a Covid-19, as crianças são as mais atingidas pela paralisia. Nas férias, mesmo sem aulas, continuam a frequentar o pátio escolar, onde jogam beisebol e treinam outros esportes, sob a orientação de um professor de educação física. Aos poucos, a doença começa a fazer vítimas, sem que ninguém saiba direito dizer de onde vem, nem se as medidas de precaução são suficientes para garantir a segurança. Nos casos graves, só um pulmão artificial dá alguma esperança contra a morte precoce. As sequelas são visíveis nos sobreviventes. A pólio é atribuída ao leite contaminado, ao cachorro-quente servido numa lanchonete pé-sujo, à falta de desinfetantes e higiene nas mãos, a uma gangue de outro bairro que vem procurar briga e cospe no chão.

“Puseram um aviso de quarentena numa casa na minha rua. Há um caso de pólio na minha rua!”, esbraveja outra. “Tem que haver uma coisa a fazer, mas não estão fazendo nada!”, diz uma terceira. “Não seria melhor se ficassem em casa até que isso terminasse? A casa não é o lugar mais seguro numa crise como essa?”

Tal é o cenário pintado pelo romancista Philip Roth em Nêmesis, obra de sua fase final em que narra a tragédia pessoal de um professor de educação física dividido entre a lealdade às crianças de quem deve tomar conta no pátio escolar e o desejo de fugir para uma colônia de férias e reencontrar a noiva, assumindo um novo emprego perto dela e longe da dor. “Como é que posso deixar todos esses garotos na mão? Não posso abandoná-los. Eles precisam de mim mais do que nunca”, diz àquela que ama. Só fica mais tranquilo quando o pai dela, um médico, lhe revela a dificuldade dos próprios cientistas para lidar com o mal: “Não sabemos quem ou o que são os vetores da doença, nem como ela penetra no organismo. Uma doença que aleija em especial as crianças – isso é difícil para qualquer adulto aceitar”. Questionado sobre a necessidade de fechar o pátio onde meninos e meninas se divertem, mas estão a cada dia mais amedrontados, o doutor responde com outra pergunta: “O que fariam se não pudessem ir para o pátio? Ficariam em casa? Não, jogariam bola em qualquer outro lugar – nas ruas, nos terrenos baldios, nos parques. É impossível impedir que se juntem. Vão tomar um gole na garrafa de água do companheiro, por mais que se diga para não fazerem isso. Não são anjinhos – são meninos”.

Em tempos de coronavírus, nossos conhecimentos são maiores, mas as dúvidas são idênticas. Sabemos que a Covid-19 é mais branda nas crianças e que é pequena a chance de alguém contraí-la de quem tem menos de 10 anos. Que, para reduzir o risco, é possível adotar medidas como distanciamento, máscaras, ventilação e turmas menores. Que ficar em casa retarda o desenvolvimento infantil, e que o ensino à distância não tem a mesma eficácia do presencial. Que a retomada das aulas tem funcionado com poucos sobressaltos em países como Dinamarca ou Alemanha. Mas também sabemos que houve ressurgimento da epidemia em Israel, graças ao surto numa escola do ensino médio. Que, nos Estados Unidos, jovens se aglomeram nos estados onde as aulas foram retomadas, sem medidas de segurança nem cuidados com o avanço da epidemia. Que, por toda parte, a tensão toma conta das associações de professores e de profissionais da educação, em virtude dos riscos desconhecidos, ainda que sabidamente inferiores aos que afetam áreas como saúde e transporte. Todos olham para a ciência em busca de uma resposta, mas a ciência não tem resposta para tudo, não tem o poder de proteger todos, nem de impedir o pior. Qualquer decisão será necessariamente política – e o romance de Roth, como toda boa literatura, nos mostra que nem sempre é possível evitar a tragédia.

***HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

 UM DOCE REMÉDIO

Novo estudo conduzido pela Universidade de Oxford confirma a ação medicinal do mel nos tratamentos de tosse e dor de garganta

Um homem pendurado em um cipó, em esforço tremendo para coletar o mel de abelhas selvagens em uma colmeia aparentemente inalcançável. Muito provavelmente, eis a representação mais antiga da deliciosa substância dourada e viscosa, ilustrada em uma pintura rupestre nas cavernas de Arafia, em Valência, na Espanha, há 8.000 anos. Na Mesopotâmia, uma tábua de argila datada de 2000 a.C. traz uma receita para feridas do corpo: “Moer até que a areia do rio vire pó e amassar com água e mel, azeite puro e óleo de cedro e aplicar quente”. Poucos compostos naturais são reconhecidos como produto terapêutico há tanto tempo na história da humanidade. Os diversos (e bons) efeitos do néctar de flores processado pelos insetos acompanham as gerações em receitas caseiras. Faltavam apenas evidências científicas para comprovar a intuição. Finalmente elas surgiram.

O mel age contra sintomas de resfriado, como tosse e dor de garganta, atestou um trabalho conduzido pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, a partir dos resultados de catorze pesquisas que envolveram mais de 1.700 pessoas. A conclusão: o alimento pode ser tão ou mais eficaz que os antibióticos. O levantamento mostrou ainda que as bactérias não criam resistência ao mel. Um dos grandes problemas atuais é o fortalecimento desses microrganismos, devido ao uso indiscriminado de antibióticos. O mecanismo nocivo remonta à teoria da seleção natural das espécies. “Quando esses microrganismos são expostos aos antibióticos, um grupo pequeno e mais forte pode sobreviver, ciclo que é reforçado a cada geração”, diz Antônio Carlos Nascimento, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Como mel, não haveria esse fenômeno. As qualidades antibacterianas do mel são atribuídas em grande parte às enzimas da saliva da abelha, usada na fabricação natural da substância, mas também à acidez alta da substância (pH em torno de 3 e 4,5), o que ajuda a matar os microrganismos. Os pesquisadores afirmam, contudo, ser necessário realizar novos estudos para confirmar a descoberta – e não se trata, evidentemente, de sonegar a eficácia de produtos farmacêuticos. O mel, porém, já entrou nas diretrizes de saúde de órgãos regulatórios de alguns países. No Reino Unido ele se tornou recentemente a primeira opção no tratamento da maior parte das tosses, um modo de minimizar o uso indiscriminado de antibióticos.

O uso do mel para o tratamento de doenças precisa, logicamente, ser acompanhado por um especialista. “O mel pode ser consumido no intervalo de duas a três semanas a partir do início dos sintomas”, afirmou em comunicado a médica Tessa Lewis, representante do Instituto Nacional de Excelência na Saúde, organização que emite recomendações ao sistema público de saúde da Inglaterra. “Mas se nesse período o sintoma piorar e a pessoa se sentir indisposta ou sem ar, ela deve procurar um médico”. Em documento, a Organização Mundial da Saúde estabelece que chá de limão e mel tende a aliviar sintomas de tosse em crianças acima de 1 ano. Alguns cuidados também são necessários. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sugere cautela na manipulação do produto para que não se percam suas propriedades. O mel é delicado. Deve-se evitar aquecê-lo, para que suas enzimas não percam a potência, mantendo-se o alimento até a temperatura de no máximo 70 graus.

Embora o efeito antibacteriano do mel seja o mais louvado, e agora comprovado, há outros benefícios. As 200 substâncias que compõem o alimento deflagram inúmeros impactos positivos para a saúde (veja no quadro abaixo). Um dos mais surpreendentes é fato de conter lactobacilos. O mel, portanto, pode também prevenir gastrites intestinais. Não há consenso, porém, sobre a quantidade ideal a ser consumida. Os especialistas recomendam porções equivalentes a uma colher de chá ou a uma colher de sopa diariamente.

Mas nem tudo são flores. Nos últimos quatro anos, as abelhas entraram pela primeira vez na lista de espécies ameaçadas de extinção. Nos Estados Unidos, o país mais afetado pelo problema, o número desses insetos caiu pela metade. Há sumiço também no Brasil. Os motivos do desaparecimento são os mais variados – mudanças climáticas, abuso no uso de pesticidas, incêndios florestais. Sem abelhas, faltará mel – e não apenas mel. Elas são responsáveis pela polinização, que, ao garantir a perpetuação de espécies e frutos mais resistentes, responde por cerca de 60% das plantas cultivadas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE SETEMBRO

O CAMINHO DA PROSPERIDADE

A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado (Provérbios 1. 25).

A generosidade, e não a usura, é o caminho da prosperidade. Aqueles que mais semeiam são os que mais colhem. Aqueles que mais abençoam são os mais abençoados. Corações generosos e mãos dadivosas produzem bolsos cheios, pois a Palavra de Deus diz que a alma generosa prosperará. Quando semeamos no campo do próximo, Deus multiplica a nossa sementeira. Quando repartimos as sementes da generosidade, multiplicamos nosso próprio celeiro. As sementes que se multiplicam não são aquelas que comemos nem as que armazenamos, mas as que semeamos. Aquele que dá ao pobre empresta a Deus. Isso é muito diferente da teologia da prosperidade. Há muitos ricos vivendo uma vida miserável, assim como há muitos pobres vivendo uma vida plena. Há pobres ricos e ricos pobres. O apóstolo Paulo chegou a dizer que aqueles que querem ficar ricos caem em tentação e cilada e serão atormentados com muitos flagelos. Nada trouxemos para este mundo e nada dele levaremos. O contentamento é um aprendizado. Devemos contentar-nos com a fartura e também com a escassez. Devemos depender mais do provedor que da provisão. Devemos ajuntar tesouros no céu, e não na terra. Devemos colocar nosso coração em Deus, e não no dinheiro. Devemos abrir a mão para socorrer o necessitado, e não armazenar tudo com usura para nós mesmos. Mais bem-aventurado é dar que receber. Esse é um princípio transmitido a nós pelo próprio Senhor Jesus!

GESTÃO E CARREIRA

O APETITE DA TYSON FOODS PELO BRASIL

Empresa americana compra 40% do frigorífico gaúcho “Vibra”, coloca um pé no mercado doméstico e passa a ter acesso ao suprimento de aves para reforçar o abastecimento de clientes em mercados externos.

A Tyson Foods, gigante americana do setor de alimentos, vem acelerando seus planos de internacionalização nos últimos anos – em ritmo semelhante ao de concorrentes como JBS, BRF e Marfrig. Chegou a vez de o Brasil entrar no cardápio da estratégia de expansão da companhia. Neste mês, com a aquisição de 40% da divisão de alimentos do grupo brasileiro Vibra, do Rio Grande do Sul, produtora e exportadora de produtos avícolas, os americanos colocam um pé no mercado brasileiro e passam a ter acesso ao suprimento de aves no País para atender parte de suas operações globais. Além disso, existe a possibilidade de distribuição de produtos Tyson no varejo brasileiro.

Proprietária de marcas conhecidas nos Estados Unidos, muitas delas no segmento de hambúrgueres e carnes processadas, a Tyson faturou US$ 42 bilhões no ano passado e possui 121 mil empregados. Seus executivos estimam que nos próximos cinco anos 98% do crescimento do consumo de proteínas acontecerá fora dos Estados Unidos. Daí a importância de expandir as operações para mercados variados. No ano passado a Tyson Foods comprou as operações de aves na Tailândia e Europa da também brasileira BRF. Mas, ainda assim, foi um negócio fora do território doméstico. Entrar no mercado brasileiro dará mais flexibilidade à companhia. “Este investimento na Vibra nos permitirá atender clientes brasileiros e de mercados de demanda prioritária na Ásia, Europa e Oriente Médio”, disse o presidente da área internacional da Tyson Foods, Donnie King, em nota. A Tyson já esteve no Brasil com marca própria, mas não teve sucesso e vendeu as operações para a JBS por US$ 175 milhões em 2014. O investimento na Vibra representa um retorno mais seguro, dentro de uma operação já estruturada.

O economista e consultor de agronegócio Marcos Fava enxerga como positiva a chegada da Tyson Foods ao mercado brasileiro. As expectativas de crescimento da economia, aliadas à alta competitividade do setor no Brasil, são fatores preponderantes para a decisão ter sido tomada. “O Brasil é hoje o País mais competitivo no segmento de frangos. Operando por aqui, a Tyson terá mais facilidade para abastecer seus clientes em outros continentes. Eu acredito que ela também tenha interesse em ampliar a atuação no mercado brasileiro, que deve crescer cerca de 2,5%”, disse Fava. “Em que ritmo ela pretende explorar o mercado nacional é uma variável que não sabemos.”

Com sede no município gaúcho de Montenegro, a Vibra tem 4 mil funcionários e 14 unidades de produção espalhadas pelo Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais. No mercado nacional atende principalmente as regiões Sul e Sudeste. Mas sua força maior está nas exportações. As vendas realizadas para cerca de 50 países contribuíram com 60% do faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019. A empresa gaúcha fornece anualmente cerca de 170 mil toneladas de carne de frango e pretende faturar em 2020 em torno de R$ 1,6 bilhão com abatimento de 200 mil toneladas. Hoje são abatidas cerca de 520 mil cabeças por dia. O Oriente Médio representa 50% de suas vendas externas, mas Europa e Ásia também são mercados importantes.

A relação da Vibra com a Tyson Foods não é recente. Há dois anos, ambas são parceiras em sistema de “copacking”, em que a brasileira produz e embala, por demanda, produtos com a marca Tyson, que vão para países do Oriente Médio. “Eles gostaram do nosso desempenho e forma de trabalhar e aceitaram ampliar a parceria por meio dessa operação que na prática foi uma capitalização da Vibra”, explica o CEO, Gerson Luís Muller.

EXPANSÃO

Com os recursos dessa capitalização – que não tiveram os valores revelados – a Vibra poderá crescer organicamente e atingir a meta traçada para os próximos cinco anos, de aumentar em 70% o abate de aves. Muller não descarta adquirir concorrentes, mas isso não deve ocorrer de imediato. “Não é o momento de comprar. Os valores estão altos. Vamos aguardar as oportunidades surgirem.”

Para a Vibra, o negócio também possibilita acessar mais mercados consumidores por meio da estrutura comercial da Tyson Foods, além da oportunidade de absorver know how comercial, tecnológico e compartilhar escritórios mundo afora. “A Tyson fornece para redes de fast food e tem laboratórios que desenvolvem produtos específicos para seus clientes. Acho que podemos absorver conhecimento e expandir nossa área de atuação através da estrutura deles”, diz o executivo, que afirma não haver no contrato cláusula que preveja a venda da Vibra à Tyson Foods. “Se houver interesse, a gente conversa.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOZ INTERIOR

O que seu inconsciente tem a ver com sua intuição? Saiba as respostas que a ciência já oferece

Sabe aquela sensação de que tem alguma coisa errada acontecendo, mesmo que não seja tão óbvio? É esse o sentimento que poderia representar muito bem a intuição. “A intuição é um processo inconsciente que dá a sensação de resposta para alguma situação que a pessoa está passando. Está ligada às emoções e, portanto, o sistema límbico atua diretamente no processo, deixando a decisão mais automática e menos racional”, explica o neurocientista Aristides Brito.

TIPOS

A intuição pode ser dividida em três tipos: uma permite saber o que outra pessoa está sentindo sem fazer esforço; a segunda tem a ver com a experiência, ou seja, você repete tanto alguma coisa que não precisa mais pensar para fazê-la; e a última é sobre a capacidade de prever o futuro.

Você se lembra da Cida, que participou do reality show Big Brother Brasil? Em uma manhã, quando estava no programa, ela começou a ouvir vozes e entendeu como sendo sua irmã chamando por ela. O surpreendente éque a irmã de Cida (que estava fora da casa) tinha câncer e, horas depois do pressentimento, a produção do BBBdisse que ela tinha falecido. Ou seja, a intuição de Cida estava trazendo uma mensagem.

Embora possa ser assustador, do ponto de vista científico, nós temos premonições o tempo todo. “Existem pessoas mais intuitivas e que seguem suas intuições. Geralmente, conseguem captar informações em algum ‘lugar’ não acessível a todos. Existem mães que, de repente, sentem que algo errado aconteceu com seu filho, sem que nada justifique esse sentimento, e logo recebem a notícia que confirma sua intuição”, conta o médico homeopata Roberto Debski.

Mas até que ponto isso é favorável? “As vantagens estão relacionadas à ampliação de soluções erespostas, quando a pessoa dá espaço para a intuição. As pessoas intuitivas são normalmente mais criativas. O lado negativo é que nem sempre fundamentam suas decisões, e isso pode gerar erros primários”, afirma Aristides.

A CIÊNCIA EXPLICA

Outro tipo de intuição é aquela que acontece em decorrência da experiência, de forma inconsciente. Por exemplo, o treinador de tênis Victor Braden percebeu que todas as vezes que estava assistindo a uma partida de tênis conseguia adivinhar se o atleta iria cometer dupla falta (situação em que o jogador erra as duas chances de saque a que tem direito). O que o fazia conseguir prever os erros era sua própria experiência, que melhora com o tempo e de forma inconsciente. Ou seja, mesmo sem perceber, Victor tinha tanta prática em tênis que era capaz de notar pequenos detalhes que fariam a diferença no final. “Pesquisas atuais indicam que há ‘campos morfogenéticos’, ou campos de informação, que algumas pessoas podem perceber, e que já eram descritos por civilizações antigas, como o Akasha dos hindus ou o inconsciente coletivo, proposto por Carl Gustav Jung. Quem consegue acessar esses campos de informação, onde tudo está conectado, tem um conhecimento intuitivo”, esclarece Roberto.

Um estudo feito na Universidade de Iowa (Estados Unidos) comprovou o processo de aprendizado inconsciente. Para isso, foram utilizados quatro maços de cartas, dois azuis e dois vermelhos, sendo que os participantes do experimento deveriam ir virando as cartas ao acaso: dependendo do que aparecia nelas, a pessoa ganhava ou perdia pequenas quantias em dólares. A “pegadinha” estava no fato de que as cartas vermelhas ofereciam prêmios mais interessantes, mas, muitas vezes, correspondiam a grandes penalidades, que fariam o jogador ficar sem nada se ele insistisse em virá-las. Em outras palavras, o melhor seria virar só as cartas azuis, que sempre traziam um prêmio considerável e, no máximo, penalidades suaves. O objetivo era descobrir quanto tempo as pessoas demoravam a notar que existia essa pegadinha. Em média, depois de 50 jogadas, os voluntários começaram a preferir as cartas azuis, sem saber explicar o motivo disso – eles só conseguiam justificar a escolha quando o número de cartas viradas chegava a 80.

Na busca para compreender a dinâmica do cérebro dos participantes, o grupo de Iowa mediu a produção de suor nas glândulas que as pessoas têm na palma das mãos, já que o suor nessa região é um indicador de estresse. Em torno da 10ª carta virada, o suadouro nas mãos ligado ao estresse já se manifestava diante do maço de cartas vermelhas. Portanto, mesmo de forma inconsciente, as pessoas já tinham notado que havia algo de errado ali. A lição que fica dessa experiência éque a intuição dizia para os indivíduos tomarem a atitude certa antes que a parte racional do cérebro soubesse o que estava acontecendo.

CULPA DAS EXPRESSÕES

Outro tipo de intuição é a que nos permite simpatizar ou não com alguém. Ao longo de um único dia, você pode conhecer duas ou mais pessoas e conversar sobre o mesmo assunto, o que não quer dizer que você vai gostar de todas elas. O responsável por seu “santo bater” ou não com alguém é o inconsciente, que analisa as expressões faciais das pessoas e transmite a informação de que elas são confiáveis ou estão sendo falsas.

É mais ou menos o que acontece com uma criança pequena: se você chama a atenção do bebê que está na dele, brincando, ele olha no seu rosto para saber se você éuma ameaça. Nesse momento, se você simular como sendo uma ameaça, fazendo uma careta, ele dará sinal de desaprovação. Portanto, a intuição éalgo tão instintiva que, mesmo não percebendo, seu cérebro analisa as situações, busca relações com fatos anteriores e permite tomar decisões assertivas mesmo sem racionalidade.

EU ACHO…

TECNOLOGIA NÃO É PEDAGOGIA

Os avanços tecnológicos são apenas mecanismos de transmissão

Com grandes dificuldades, Guglielmo Marconi tentava vender aos navios o seu telégrafo sem fio. Mas eis que, em 1912, um iceberg entrou na rota do Titanic. Graças ao telégrafo embarcado, um cargueiro nas proximidades captou o SOS e resgatou 700 passageiros. No fim das contas, o iceberg vendeu mais equipamentos do que conseguiria algum mago de marketing.

Apesar dos loquazes arautos de tecnologias redentoras, a escola sempre deu as costas a elas. O cinema vai revolucionar a escola! Com o rádio a escola chega a qualquer grotão! Com a TV a escola não será a mesma! Entram em cena os computadores na educação, e lá se vão cinquenta anos de tentativas. Agora é a nuvem. O que têm em comum esses inventos revolucionários é o seu fracasso retumbante no ensino acadêmico. Nada deu certo. Ou foi ignorado ou não mostrou resultados (como é o caso do computador na aula). Como qualquer organização, a escola tem sua cultura, suas práticas consagradas e, igualmente, ferozes mecanismos para defendê-las. Não é um reles computador que mudará seus hábitos seculares. Com um peteleco, a tralha vai para o armário e nunca mais é vista. Ou enguiça e ninguém conserta.

Não prestam essas inovações? Prova de seu valor é a sua adoção nos cursos profissionais, naqueles oferecidos nos programas de educação corporativa e em tudo que não é o ensino acadêmico. Bravamente, a escola resistia.

A Covid-19 foi o iceberg que se chocou com essas escolas. O serviço foi feito por um bicho desse tamanhinho. Depois de rejeitar, negacear e empacar, da noite para o dia as instituições de ensino foram obrigadas a se bandear para a educação a distância, cuja íntima convivência com a tecnologia vinha de bom tempo.

Quem se persignou, vendo na tecnologia coisa do diabo, de uma hora para outra passou a pilotar computadores, PowerPoints, Zoom, Blackboard, chats e tudo o mais que há por aí. Bem feito, pois a tecnologia tem muito a oferecer (tudo que foi citado acima pode ter o seu lugar).

No entanto, é preciso não cometer um outro pecado. Tecnologia não é pedagogia. É apenas uma mecânica de transmitir conteúdos. Não é a pizza, mas apenas o seu entregador.

O YouTube congela e conserva imagens digitais. Serve para tudo, até para ensinar, desde tabuada até medicina genômica. Pode propor a decoreba. Mas, no “ensino invertido”, permite implementar uma pedagogia eficaz. Nela, o aluno vê o vídeo e depois discute na aula. O YouTube é apenas o meio de transporte.

Confundir o entregador com a pizza é achar que, introduzindo tecnologia, tudo estará resolvido. Não estará. O mais reluzente tablet pode estar a serviço de decorar as capitais da Ásia Central. Mas dá certo quando é o canal para estratégias de ensinar conteúdos de forma criativa. Devemos também entender: tecnologia não é agente de mudança. E tecnologia comprada não vem com as ideias necessárias para o seu bom uso.

Primeira lição: lamentamos, mas há mudanças que requerem uma tragédia para ser implementadas. Segunda: tecnologia na educação é apenas meio de transporte, nem redentora nem portadora de uma boa pedagogia.

***CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

PERDENDO O GÁS

A Coca-Cola procura alternativas para reverter a contínua queda de vendas causada pela rejeição dos millennials aos refrigerantes e agravada pela pandemia

Há 134 anos, o farmacêutico americano John Pemberton (1831-1888) misturou noz-de-cola, extrato de folhas de coca e água em uma fórmula secretíssima e – eureca! – inventou a Coca-Cola, o refrigerante mais popular do planeta. Nem ela, no entanto, escapou do rombo que a pandemia abriu no consumo em geral. No auge das medidas de confinamento, entre março e junho, a empresa sofreu um baque de 28% no faturamento, em relação aos meses anteriores. No mercado de ações, sua avaliação caiu 14%, em comparação ao início de 2020. Esse retrocesso tem uma explicação óbvia: metade das vendas do refrigerante se dá em restaurantes, cafés, lanchonetes e hotéis, todos fechados na quarentena mais abrangente da história. “Foi o trimestre mais difícil em mais de um século de empresa”, disse James Quincey, presidente global da companhia. O fato, porém, é que a Coca-Cola já vinha perdendo consumidores, alvejada, mais até do que as concorrentes, pela preferência da geração atual de jovens, os chamados millennials, por produtos mais naturais e sustentáveis. Segundo especialistas, a Coca-Cola está pagando o preço de ter se mantido presa à linha de bebidas, sem se expandir para outras áreas. Para efeito de comparação, durante a pandemia as perdas registradas pela Pepsi, sua principal concorrente, não passaram de 3%, justamente por causa das receitas provenientes de sua cesta de produtos alimentícios – um dos poucos setores a se expandir nestes tempos difíceis. Já a Coca-Cola, ainda que ofereça sucos, águas e leites em seu catálogo, continua a ter nos refrigerantes seu carro-chefe, e eles não param de perder o gás.

Jovens empenhados em levar vida saudável, um fenômeno global, se arrepiam diante da informação de que cada latinha de Coca carrega, em média, 35gramas de açúcar, dez a mais do que o consumo diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Resultado: passado o pico do mercado, nos anos 1990, o consumo de refrigerantes nos Estados Unidos teve queda de 35%, acentuada na última década (veja no gráfico abaixo). O México, maior freguês mundial de bebidas gaseificadas, criou um imposto extra sobre refrigerantes para frear o hábito, medida adotada também por França, Noruega e Portugal. “Os jovens querem bebidas e alimentos que sejam reflexo do seu estilo de vida”, diz Rochelle Bailis, da Connexity, empresa de análise de consumo.

A Coca-Cola Brasil não divulga seus resultados, mas calcula-se que a queda do faturamento acompanhou o padrão mundial, mesmo tendo a empresa montado uma operação de guerra para manter o ritmo dos negócios em meio às restrições. Um programa-piloto de vendas através do WhatsApp, comandado por inteligência artificial, fez o número de varejistas saltar de 10.000 usuários para 180.000. Também foram incentivados os combos promocionais, que unem refeições e bebidas, em serviços de delivery de comida. Mas sobreviver na pandemia não resolve o problema maior da mudança de hábitos no planeta. No Brasil, segundo pesquisa do Ministério da Saúde, houve redução de 53% no consumo regular de refrigerantes e bebidas açucaradas entre 2007 e 2018. No ano passado, a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (Abir), que reúne 58 fabricantes, incluindo Coca-Cola, Ambev e Heineken, assinou um protocolo voluntário com o governo comprometendo-se a reduzir o açúcar de seus produtos até 2022. Ciente dos novos tempos, a Coca adquiriu marcas como as bebidas de soja Ades e o iogurte Verde Campo, e lançou o Café Leão. “Adequamos nosso portfólio às diferentes demandas de uma jornada diária”, diz Flávio Camelier, vice-presidente de transformação digital da empresa no Brasil. “Nosso olhar acompanha as oportunidades de inovação, e a pandemia acelerou esse processo.”

Diante das dificuldades crescentes, a matriz americana está dando início à mais ousada revisão no portfólio da Coca-Cola das últimas décadas. Das 400 marcas principais, metade representa apenas 2% do lucro – e o presidente Quincey, em balanço recente, deixou entrever que boa parte vai sumir das prateleiras. Uma das apostas para fugir dos refrigerantes é investir na linha de bebidas alcoólicas. Em agosto, a Coca lançou nos Estados Unidos (ainda sem previsão de chegar ao Brasil) a Topo Chico, uma água com gás alcoólica à base de frutas. A novidade vem tendo boa aceitação entre os cobiçados millennials, por ter menos calorias que a cerveja e teor alcoólico semelhante. “A Coca enfrenta uma questão séria. Em um mundo em total transformação, encontra-se em baixa na maioria dos países”, analisa Roberto Kanter, especialista em varejo da Fundação Getúlio Vargas. Reinar entre os refrigerantes, definitivamente, já não tem o mesmo gosto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE SETEMBRO

OS SINAIS DA SEGUNDA VINDA DE CRISTO

… e haverá fomes e terremotos em vários lugares (Mateus 24.7b).

Os sinais da segunda vinda de Cristo estão drapejando suas bandeiras. O alarme já foi tocado. A trombeta já está soando. Guerras, conflitos, fomes, pestilências e terremotos são avisos do céu. O terremoto que sacudiu o Japão e o tsunami que varreu algumas de suas cidades em março de 2011 ainda nos chocam. A natureza geme e se contorce de dor. Os terremotos e maremotos, além de fenômenos naturais, são também trombetas de Deus aos ouvidos da humanidade. Esses desastres provêm de causas naturais e também de intervenção sobrenatural. Os efeitos da queda atingiram não apenas a raça humana, mas também a natureza, que agora está sujeita à servidão e aguarda, com gemidos profundos, a restauração desse cativeiro (Romanos 8.20- 22). De igual forma, a igreja, tendo as primícias do Espírito, também geme à espera de sua completa redenção, quando teremos corpos incorruptíveis e gloriosos. Até mesmo o Espírito Santo está gemendo, com gemidos inexprimíveis, intercedendo por nós, em nós, ao Deus que está sobre nós (Romanos 8.26). Precisamos olhar para os fenômenos da natureza não apenas com os olhos da investigação científica, mas também com a perspectiva da fé, pois esses fenômenos são sinais da segunda vinda de Cristo.

GESTÃO E CARREIRA

SEM RISCOS E COM MENOS TRIBUTOS

Todas as empresas pagam, pelo menos, dez contribuições aos governos federal, estadual e municipal. Especialista dão orientações para que sua empresa pague somente aquilo que é obrigatório

Não à toa, o Brasil tem a maior carga tributária do mundo. O País, e aqui também se incluem os estados e municípios, mordem o equivalente a 35,07% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Um valor que atingiu recorde histórico em 2019.

Só para se ter uma ideia, são R$2,39 trilhões. Isso cantando empresas e pessoas físicas. Um avanço de 1,33% se compararmos com 2018, a maior alta desde o início da série histórica, em 1947. Os dados foram coletados pelos economistas José Roberto Afonso e Kleber de Castro, extraídos de fontes oficiais.

São pelo menos dez impostos obrigatórios em todo o País. E com a economia dando poucos sinais de recuperação – “andando de lado”, como consideram muitos -, pagar os tributos e se manter no azul é sempre uma dificuldade. “O maior problema do Brasil não é a quantidade de impostos em si, mas a complexidade do nosso sistema tributário. Temos também uma infinidade de obrigações acessórias que demandam das empresas investimentos em sistemas e capacitação de pessoal para que estejam em dia com suas obrigações tributárias”, afirma o sócio do escritório Loeser, Blanchet e Hadad Advogados, Fernando Loeser.

Mas nem tudo é notícia ruim. É possível amenizar a quantidade de impostos pagos com alguma negociação, e sem comprometer a estabilidade jurídica da empresa. O advogado tributário do escritório Nahas Advogados, Luciano Pedro da Silva, enumera algumas dicas importantes. “Aprimoramento e melhora do controle financeiro e da produção; análise comparativa entre os Regimes Fiscais Tributários; análise de possíveis benefícios fiscais; subdivisão de empresas podem fazer sentido em alguns casos”.

O especialista alerta ainda para a análise de situações em que seja viável a terceirização de atividade não essenciais e complementa: “Buscar auxílio e integração entre o Departamento Jurídico Tributário (interno ou externo) e o Departamento Pessoal e Contábil (interno ou externo) para uma análise detalhada sobre os impactos da Reforma Trabalhista”. Para ele, vale também fazer a análise junto ao Departamento Jurídico para ajuizamento de ações ou requerimentos administrativos para diminuição da carga tributária e recuperação de valores pagos a maior ou que não foram objeto de compensação ou utilização de créditos disponíveis.

INCENTIVOS

Os incentivos fiscais oferecidos pelo governo também podem ser uma saída para quem precisa reduzir a carga de tributos. São vários programas oferecidos, como a Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei Federal de Incentivo ao Esporte, Fundo da Infância e Adolescência  (FIA), Fundo Nacional do Idoso (FNI), Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com deficiência (PRONAS), Programa Nacional de  Apoio à Atenção Oncológica  (PRONON) – todos em âmbito nacional.

Além disso, o empresário pode “assumir” algumas situações, como o investimento em áreas específicas da economia, troca de ações, adequação de regime e planejamento tributário. Para aderir a alguma delas, o credenciamento deve ser feito na secretaria responsável pelo incentivo, além da apresentação de documentos em períodos específicos para comprovar o investimento na opção escolhida.

BENEFÍCIOS LOCAIS

Cada estado e município pode criar benefícios próprios para reduzir impostos que são cobrados localmente. No entanto, Loeser lembra que isso gerou outro problema. “No passado recente tivemos muitos benefícios instituídos por alguns estados e que não eram aceitos por outros, o que resultou na conhecida “guerra fiscal. “Nessa situação, muitos contribuintes acabaram tendo problemas e precisaram ingressar com medidas judiciais”, pontua. Há uma queda de braço entre governos para acabar com a agenda fiscal, porém sem nenhuma definição à vista. ”A criação e concessão de incentivos fiscais não é algo sem limites.

Ou seja, existem regras que os governos federal, estadual e municipal devem seguir para que eles sejam validados”, completa.

Não é possível detalhar exatamente quanto pode ser deduzido do tributo, pois isso depende de cada tipo de incentivo e da forma como a adesão é feita. Em alguns casos, a redução chega a 3% sobre o IRPT para quem opta pelo lucro real, ou até 7% na redução total dos impostos.

A consultora tributária da King Contabilidade, Elvira de Carvalho, reforça que o planejamento tem que ser palavra de ordem na empresa. “No final de cada ano é necessário que os empresários tenham especial atenção para decidir qual regime tributário deve prevalecer para o próximo ano. Portanto, é o momento de procurar seus contadores a fim de que estes façam as simulações necessárias para tomada de decisão quanto a melhor tributação para o ano que se inicia”, afirma.

Opinião compartilhada pelo sócio- fundador da Baril Advogados Associados, Natan Baril. “O planejamento empresarial, àquele que tem foco na definição da matriz societária, governança, funcional e contratual, com ênfase na oportunidade de planejamento tributário, é a melhor ferramenta para minimizar os resultados do negócio sob a ótica fiscal”, completa.

DE OLHO NO CALENDÁRIO

É importante salientar que a escolha pelo sistema tributário é feita sempre em janeiro, e não pode ser mudada durante o ano. Com impostos reduzidos, outra dúvida paira sobre os empresários: e quem fez acordos com REFIS, Programa de Regularização Tributária (PRT) e Programa Especial de Regularização Tributária (PERT)? Os advogados explicam que també1n é possível renegociar os valores, desde que os eventuais acionamentos e questionamentos junto ao Fisco sejam retirados.

O contabilista, economista e fundador da Attend Assessoria, Consultoria e Auditoria SIS, Sandro Rodrigues, lembra que não é possível reduzir a carga tributária desses acordos, que já são definidos no momento em que a regularização é acertada – corrigidos geralmente pela Taxa Selic, quando se fala em âmbito federal, ou por outros índices se a negociação for acertada com estados ou prefeituras. ”Quanto menor o prazo para quitar os parcelamentos, maior será a redução de juros e multas. Em alguns casos, os débitos com o Fisco Federal podem ser abatidos total ou parcialmente com créditos oriundos de prejuízos fiscais, desde que a empresa seja optante do regimento tributário do lucro real e tenha devidamente registrados nas escriturações contábeis tais prejuízos”, detalha Rodrigues.

O parcelamento não muda se a empresa trocar a tributação para uma que seja mais vantajosa. “É possível a utilização de procedimentos administrativos para reduzir ou compensar créditos alocados ou não utilizáveis, independentemente do planejamento financeiro e contábil dos parcelamentos disponíveis – em que quase sempre há boas reduções e planejamento financeiro para alinhar”, complementa Luciano Pedro da Silva.

OS IMPOSTOS NACIONAIS

PIS – Contribuição para o Programa de Integração Social

O valor pode ser de 0,65% ou 1,65%, dependendo do regime tributário e se é cumulativo ou não cumulativo.

COFINS – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social

Pode ser de 3,0%, ou 7,6%, igualmente ao exposto sobre o PIS. Ainda há 0,65% para o PIS e 4% para a COFINS, quando o fato gerador for oriundo de receitas financeiras no lucro real.

IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados

A alíquota varia conforme o produto. Quanto mais necessário e básico, a quantidade é menor, podendo chegar a zero (casos de alimentos e remédios. De outro lado, se o produto é considerado “supérfluo” ou quando o governo deseja, o imposto é cobrado (exemplos: joias, perfumes, bebidas e cigarros).

DAS – Documento de Arrecadação do Simples Nacional

É diferente conforme a atividade. Pode ser a partir de 4,5% até 19%.

SOBRE O LUCRO PRESUMIDO

IRPJ – Imposto de Renda de Pessoa Jurídica

Alíquota para base de 8% para o comércio e indústria 16% ou 32% para serviços, variando de acordo com a atividade, aplicando em seguida a alíquota de 15%, além do adicional de 10 % quando a base de cálculo ultrapassar R$60 mil por trimestre.

CSLL – Contribuição Social sobre o Lucro Liquido

Alíquota de 12% para o comércio e indústria e 16% ou 32% para serviços (dependendo da atividade), aplicando-se em seguida a alíquota de 9%.

SOBRE O LUCRO REAL

IRPJ

A alíquota será de 15% sobre o lucro fiscal, acrescentado ao adicional de 10%, quando a base de cálculo ultrapassar R$240 mil, exceto se foi lucro real trimestral, que o limite volta a R$60 mil.

CSLL

A alíquota será de 9% sobre o lucro com os devidos ajustes da base de cálculo da contribuição social.

IMPOSTO ESTADUAL

ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços

No estado de São Paulo, eles variam de 7% até 20%, dependendo da mercadoria. Nos demais estados também são diferentes, alguns como elevados incentivos, como é o caso do Espírito Santo e Santa Catarina. As alíquotas fixas interestaduais podem ser de 4% (produtos importados) ou de 7% ou 12%, conforme o estado de destino.

IMPOSTO MUNICIPAL

ISS – Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza

Em São Paulo, os percentuais variam de 2% até 5% dependendo da atividade. Nos demais municípios, tais regras são semelhantes.

OS INCENTIVOS DO GOVERNO

LEI ROUANET (atual lei deincentivo à cultura)

Criada em 1991, permite que empresas destinem parte dos tributos para o financiamento de atividades culturais, como peças de teatro, shows musicais, filmes e qualquer outra forma de manifestação cultural. Apesar de envolvida em polêmicas, é considerada a “chave” da retomada da produção cultural do País nos anos 1990.

LEI DO AUDIOVISUAL

Diferente da Rouanet, é focada no financiamento de produções audiovisuais. Isso inclui, não apenas a produção, como também a distribuição de filmes, documentários, séries e outros formatos.

LEI DE INCENTIVO AO ESPORTE

Criada em 2006, destina­ se, entre outras coisas, à aquisição de materiais e uniformes esportivos, organização de eventos e alimentação em eventos esportivos.

PROGRAMA NACIONAL DE ONCOLOGIA (PRONON)

Os recursos das empresas são destinados às pesquisas e ao tratamento de pacientes com câncer.

PROGRAMA NACIONAL DE ACESSIBILIDADE (PRONAS)

O mecanismo de funcionamento é similar ao do PRONON, no entanto aqui o foco é o apoio às pessoas com deficiência. As empresas podem destinar até 1% do valor a ser pago em impostos ao apoio à projetos nessa área.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIR DA DEPRESSÃO

Além das drogas, outros tratamentos têm sido eficazes no combate ao distúrbio que afeta 20% da população

Os números são preocupantes: 10 milhões de brasileiros sofrem de depressão. Estima-se que o distúrbio se manifeste em 15 % a 20% da população do planeta pelo menos uma vez durante a vida. Quem sofre a primeira crise tem 50% de chance de reincidência. Após o segundo episódio, a probabilidade sobe para 70% e a partir do terceiro pula para 90%. Apesar das estatísticas pouco animadoras, existem diversos recursos disponíveis para controlar a doença que, dependendo da intensidade, além da tristeza profunda e inexplicável, pode incluir entre seus sintomas distúrbios de sono e de apetite, irritabilidade, cansaço, perda da memória, dores de cabeça e no corpo, problemas digestivos e até mesmo pensamentos suicidas.

Até a década de 70, quando surgiram os primeiros antidepressivos, o único tratamento disponível contra o distúrbio era a psicoterapia. Atualmente, existem mais de 60 medicamentos no mercado. Eles estão na linha de frente no combate ao problema, já que a de pressão envolve alterações neuroquímicas – embora também tenha fortes implicações psíquicas, emocionais e sociais. Do ponto de vista neurológico, o cérebro do depressivo sofre queda dos níveis dos neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. Os antidepressivos restabelecem esses níveis.

Além das quatro classes de antidepressivos comercializados desde as décadas de 80 e 90, o arsenal de combate à doença ganhou novas armas em 2005, quando foram lançados no Brasil os inibidores de noradrenalina e serotonina zenlafaxina e duloxctina (pertencentes à categoria de antidepressivos atípicos). “O fato de agirem em dois neurotransmissores faz com que esses medicamentos funcionem melhor. A remissão do quadro e o início da ação são mais rápidos que os verificados com as outras classes de antidepressivos. Além disso, também diminui o número de recaídas”, explica a psiquiatra Verusca Lastoria, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a médica, essa classe de drogas é especialmente eficiente para pacientes com depressão moderada ou grave, associada a sintomas somáticos, como dores no corpo.

TERAPIAS COMPLEMENTARES

Além da terapia farmacológica, atividades como ioga, meditação e acupuntura são cada vez mais bem­ vistas pelos especialistas como complemento para os modernos antidepressivos no combate à depressão. “Medicamento é indispensável e ao mesmo tempo insuficiente”, reconhece o psiquiatra Geraldo José Ballone, coordenador do site Psiqweb. A ciência vem descobrindo que, assim como o exercício físico, exercitar a mente pode estimular a gênese de novas células cerebrais e ajudar no tratamento de depressão, ansiedade e stress. Segundo Ballone, somente nos casos de depressão leve é possível melhorar sem medicamentos.

A ioga foi o complemento escolhido pela empresária paulistana Cláudia Pereira, de 40 anos, no combate à depressão e ao pânico. O problema começou em 1999, desencadeado por complicações financeiras. Ela evitou o tratamento durante mais de seis anos, e o caso evoluiu para crises de pânico, no começo de 2006. “Fiquei apática e passei a ter medo terrível, não sei do quê. O tele fone não podia tocar que eu achava que alguma coisa horrível tinha acontecido”, conta. Foi nesse ponto que decidiu procurar um psiquiatra e começou a tomar antidepressivo. “Voltei a ficar bem, parecia outra pessoa.” Como não sentia mais nada, a empresária decidiu abandonar a medicação e, após uma sobrecarga de trabalho, os sintomas voltaram. A solução foi novamente recorrer aos remédios, mas desta vez acompanhados da ioga. “Acho importante praticar uma atividade física, alguma coisa que faça a pessoa olhar para si e desacelerar. A depressão me fez esquecer das coisas de que eu gostava. Agora estou me tratando e tentando levar a vida menos a sério.” Ela pretende persistir nos dois tratamentos.

Outra técnica que vem sendo pesquisada para o combate à depressão é a acupuntura. “Empiricamente, ela auxilia no tratamento de depressão leve, que muitas vezes não exige o uso de remédios. Em casos mais avançados, tem sido um recurso terapêutico complementar ao tratamento clínico medicamentoso, ajudando na redução ou eliminação de efeitos colaterais potenciais e aumentando a tolerância às drogas.

Além disso, as agulhas melhoram a qualidade do sono e podem ser benéficas para tratar quadros paralelos como gastrite, dor de cabeça e tensão pré-menstrual. Elas potencializam os efeitos do tratamento e costumam acelerar a melhora”, explica o psiquiatra Francisco Carlos Machado Rocha, do departamento de psiquiatria da Unifesp, especialista em medicina chinesa e acupuntura.

Falar sobre o problema como forma de resolvê-lo ou amenizá-lo é o sistema adotado por grupos de auto- ajuda específicos para portadores de distúrbios psiquiátricos como depressão e pânico. Instituições sem fins lucrativos como a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) e a Associação Pró-Saúde Mental (Fênix) organizam reuniões semanais para pacientes e parentes, em que as pessoas partilham suas experiências. “Como não se trata de um tratamento, e sim de um coadjuvante contra a depressão, não existe orientação específica. Os participantes se encontram e trocam experiências”, explica o psicólogo Adriano Camargo, presidente executivo da Abrata. “Ao escutar relatos de vivências parecidas com as suas, as pessoas se sentem mais capazes de enfrentar seus problemas e deixam de se sentir como ETs.” Para os que preferem se expor menos, outra opção são os grupos de auto- ajuda on-line. Existem diversos espalhados pela internet.

CASOS EXTREMOS

Além da depressão leve e moderada, existem os casos mais graves, com grande risco de suicídio. Cerca de 30% dos pacientes não respondem nem aos medicamentos mais modernos. Para esses casos, a novidade é a estimulação magnética transcraniana (EMT), aplicada ainda de forma experimental tanto no Brasil como no exterior. “A EMT pode ser usada também em casos mais leves de depressão, para diminuir o tempo de tratamento. Os efeitos colaterais são mínimos, mas há relatos de dor de cabeça nas primeiras sessões”, explica o psiquiatra Roni Broder Cohen, que conseguiu aprovação da comissão de ética da Unifesp para utilizar a técnica clinicamente. Segundo ele, o tratamento requer dez a 15 sessões de cerca de 45 minutos. “É o suficiente para 70% dos casos”, diz.

Mais antiga e polêmica, mas também eficiente para depressão grave, é a eletroconvulsoterapia, o conhecido eletrochoque. A eficácia no tratamento do transtorno é muito alta (em torno de 90%), comparada com as medicações (em torno de 70%), segundo Ballone. O psiquiatra explica que o tratamento consiste na aplicação de uma carga elétrica no cérebro, com o paciente anestesiado (é utilizada anestesia geral com duração em torno de 5 minutos). A estimulação produz uma convulsão, mas muito diferente da que ocorre na epilepsia, pois a anestesia promove relaxamento muscular. “O eletrochoque é usado como primeira alternativa para depressão grave em países nórdicos, e nos Estados Unidos é bastante aplicada. Já no Brasil, existe muito preconceito, sendo praticada somente em universidades. Trata-se de um tratamento muito seguro, com complicações mínimas, especialmente em casos em que os medicamentos são contra- indicados, como na gravidez e em pacientes idosos.”

Apesar de os médicos preferirem não usar a palavra “cura” quando o assunto é tratamento do distúrbio (assim como acontece em outras doenças crônicas, como diabetes e pressão alta), o termo- chave é “controle”. Os diversos recursos da ciência e as terapias disponíveis permitem que o paciente mantenha o controle dos sintomas e leve vida normal.

ARSENAL FARMACOLÓGICO

ANTIDEPRESSIVOS DISPONÍVEIS NO MERCADO

INIBIDORES DA MONOAMINAOXIDASE (lmao) – Foram os primeiros antidepressivos largamente usados. Eles inibem a ação de uma enzima responsável pela degradação dos neurotransmissores noradrenalina, dopamina e serotonina. Raramente são prescritos como tratamento de primeira linha porque exigem uma dieta especial para evitar interações potencialmente perigosas, embora esporádicas, com certos alimentos. No entanto, ainda são indicados como último recurso.

ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADT) – Inibem a recaptação dos neurotransmissores noradrenalina e serotonina. Os ADTs têm efeitos colaterais desagradáveis como sonolência, boca seca e visão embaçada; cerca de 30% dos pacientes param de tomar o medicamento por causa desses problemas. Eles são potencialmente letais em altas doses. No entanto, ainda podem ser a melhor escolha para certos casos de depressão.

INIBIDORES SELETIVOS DE RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA (ISRS) – Drogas como Prozac e Paxil bloqueiam a recaptação da serotonina pelos neurônios pré-sinápticos. Eles substituíram os ADTs porque provocam menos efeitos colaterais e apresentam menor probabilidade de morte em casos de overdose. Mesmo assim, efeitos adversos como problemas gastrointestinais e sexuais não são raros. Indicações de que os ISRSs possam aumentar pensamentos e ações suicidas em crianças e adolescentes levaram a uma advertência obrigatória no uso do medicamento para essas faixas etárias nos Estados Unidos e à proibição para menores na Inglaterra.

ATÍPICOS – Afetam vários sistemas neurotransmissores ou usam mecanismos diferentes para o bloqueio da recaptação. Alguns exemplos são bupropion, venlaflaxina, nefazodona e mirtazapina.

EU ACHO …

MASCULINIDADE TÓXICA

Os homens precisam superar as velhas convicções de “macho”

Um grupo de homens está no bar, tomando cerveja. Passa uma mulher. Eles fazem comentários em voz alta. Ou assobiam, a chamam de “gostosa”. Todos sentem-se na obrigação de participar. Não fazer parte da turma é sinal de “fraqueza”, de ser menos “macho”. A necessidade de corresponder a parâmetros de masculinidade pesa sobre os homens. A tal ponto que está surgindo a tendência, ainda pequena, de discutir esses estereótipos. Seria uma contrapartida masculina ao feminismo.

Quando foi que você ouviu pela primeira vez a expressão “seja homem”? Também já escutei, em muitas rodas masculinas, o comentário: “Aquele lá não é homem”. A frase é utilizada para se referir a quem exibe atitudes frágeis ou expõe suas emoções. Segundo o documentário The Mask You Live ln (“A máscara em que você vive”), da americana Jennifer Siebel Newsom, o menino aprende que na vida deve:

*** ser bom em esportes,

*** ficar muito rico,

*** fazer sexo com o máximo possível de mulheres.

Muitos garotos sofrem bullying por não serem bons jogadores de futebol. Se um deles joga mal, os outros dizem que “joga que nem mulher”. O que está sendo ensinado a esses meninos sobre as mulheres quando se usa essa frase? Tenho um conhecido minimizado na família porque é bancado pela mulher. Os parentes chegam a dizer que ele é um “gigolô”. Mas, se o homem sustenta a mulher, acham supernatural. Homem tem de ser o “provedor”. Pior ainda, para ser “macho” é preciso fazer sexo com muitas mulheres. Eu sei de casos de executivos que, em festas das empresas, são praticamente obrigados a sair com prostitutas para não ficarem mal diante dos colegas. Houve um bem-casado que, para não trair a mulher, pediu à profissional que mentisse, e passou a noite conversando com ela. A verdade é que boa parte dos homens aprende sexo por meio de filmes pornô. A imagem que eles formam da relação e da mulher, como objeto de uso, é fortíssima. Quanto a eles próprios, assim como um ator pornô, “devem” performar na cama. Há também outra forte convicção masculina, que ainda está para ser realmente derrubada: “Só homem gosta de sexo”. Quando ele depara com uma mulher que gosta, sente que existe algo de errado com ela. O mundo está mudando, eu sei. Mas ainda falta.

Até a ministra falou que menino veste azul e menina veste rosa. É uma convenção. Mas reforça estereótipos. Se o garoto chora na escola, ele acaba sofrendo bullying e até apanha dos coleguinhas. O horrendo ditado “homem de verdade não chora” continua valendo. Desde pequeno, o menino aprende que deve mascarar a emoção, a dor, a própria fragilidade. Tudo o que é associado à mulher é demérito, como o serviço doméstico. Se alguém voltar sete gerações atrás, vai encontrar inúmeras histórias de abuso e violência, dos homens contra as mulheres, as famílias e, principalmente, contra quem é “diferente”. A masculinidade é tóxica para os próprios homens. Mas também mata as mulheres. A libertação desses parâmetros criará sujeitos mais plenos. Os homens estão começando a falar, e espero que não se calem mais.

*** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

A FICÇÃO VIROU REALIDADE

empresa americana lança cabine para a projeção de hologramas, o que deverá popularizar a tecnologia de apresentações tridimensionais consagrada na saga Star Wars

A cena é uma das mais marcantes do primeiro filme da saga Star Wars, de 1977, depois batizado de Episódio IV: Uma Nova Esperança. Luke Skywalker está limpando o robô R2-D2 e acidentalmente descobre o holograma da princesa Leia, que clama por ajuda. Pela primeira vez a técnica de projeção de imagens tridimensionais, criada pelo húngaro Dennis Gabor, era apresentada ao grande público, o que ajudou o longa a conquistar uma legião de fãs. A inovação demorou para emplacar. Em 2012, o cantor americano Snoop Dogg dividiu o palco de um festival com o rapper Tupac, morto em 1996 — ele estava presente na forma de um holograma. Em 2019, a Microsoft lançou um holograma tradutor, que converte o inglês para qualquer outro idioma. As iniciativas, porém, estavam restritas às grandes apresentações musicais ou a projetos corporativos, mantendo-se inacessíveis a pessoas comuns. Agora isso está prestes a mudar.

Há alguns dias, a empresa americana Portl apresentou uma cabine que permite a projeção de hologramas em tamanho real para todos os lugares. A invenção é revolucionária: trata-se da primeira máquina portátil capaz de “teletransportar” pessoas de carne e osso. Graças à tal cabine, a imagem do indivíduo pode ser projetada a milhares de quilômetros de distância, desde que o receptor tenha acesso a alguma fonte de energia e conexão de internet. “Estamos cumprindo uma promessa de longa data”, disse David Nussbaum, CEO da Portl e inventor do equipamento. “A ideia dos hologramas é antiga: apresentamos essa tecnologia desde Star Wars e De Volta para o Futuro. Agora, finalmente podemos abrir as portas de um novo mundo para o consumidor.”

O mundo novo custará caro. Segundo Nussbaum, a cabine será vendida inicialmente por 60.000 dólares ó cerca de 325.000 reais -, mas a ideia é lançar no ano que vem máquinas mais acessíveis. A tecnologia permite várias aplicações. Ela pode tornar reuniões de trabalho mais dinâmicas, mesmo com profissionais posicionados em cidades diferentes, ampliar o alcance de comícios políticos (o candidato fala de Washington mas sua imagem, digamos, aparece em Los Angeles) e abrir novos horizontes para palestrantes, sem a necessidade de que estejam presentes fisicamente no auditório. Sem contar, claro, as possibilidades abertas para o ensino a distância e a telemedicina, que ganharam novo impulso na crise do coronavírus. Nussbaum também prevê que, em breve, celebridades irão até a casa dos fãs usando a técnica da holografia. Star Wars, enfim, chegou à vida real.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE SETEMBRO

O VENTO E O MAR OBEDECEM À JESUS

E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança (Marcos 4.39).

As tempestades da vida são inevitáveis, imprevisíveis e inadministráveis. No entanto, elas não vêm para nossa destruição, mas para nosso fortalecimento. Depois de ensinar sobre as parábolas do reino, às margens do mar da Galileia, Jesus ordenou aos discípulos que passassem à outra margem. Quando estavam no meio do percurso, foram surpreendidos por furiosa tempestade. Os discípulos ficaram alarmados e gritaram: Mestre, não te importa que pereçamos? (v. 38). Jesus despertou do sono, acalmou o mar, mandou o vento aquietar-se e confrontou os discípulos: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? (v. 40). Os discípulos deveriam ter fé, e não medo, justamente por causa da ordem de Jesus para passarem à outra margem e da presença do Mestre com eles. Aquele barco não poderia naufragar com o Criador dos céus e da terra. Depois que o mar se acalmou, os discípulos, atônitos, perguntavam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (v. 41). As tempestades da vida são inevitáveis, imprevisíveis, inadministráveis, mas também são pedagógicas. Não vêm para nos destruir, mas para nos fortalecer na fé. As tempestades são maiores do que nossas forças, mas estão totalmente sob o controle de Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

ATRAÇÃO RECÍPROCA

Empresas usam ferramenta de marketing para se tornar desejadas – e conhecidas pelos profissionais que querem contratar. Conheça o Inbound Recruiting

Para resolver essa questão, uma estratégia está tomando conta das organizações: o inbound recruiting. O termo foi criado em alusão ao inbound marketing, estratégia que consiste em criar diferentes tipos de conteúdo para uma marca (como artigos, vídeos, e-books e podcasts) para atrair clientes e construir um relacionamento com quem pode se tornar um consumidor no futuro.

E é exatamente no relacionamento que essa técnica se baseia. A ideia é se aproximar dos talentos em potencial muito antes de recrutá-los. Para isso, as empresas utilizam as redes sociais e seus sites de carreira para divulgar informações relevantes para o público de interesse – e fogem do tradicional anúncio “venha trabalhar conosco”. O pulo do gato é conectar propósitos. “O profissional que se identifica com os valores comunicados vai consumindo aquele conteúdo e passa a admirar a marca. Com isso, a chance de ele se candidatar a uma vaga é muito maior”, diz Vanessa Cepellos, professora de gestão de pessoas na FGV-Eaesp.

HORA DE ENCANTAR

Mais do que informar, o objetivo do inbound recruiting é encantar os futuros funcionários. Uma das maneiras de fazer isso é transformar em protagonista quem conhece muito bem a companhia: os atuais funcionários. Essa estratégia é interessante quando a empresa dá voz a quem trabalha na operação e não apenas aos executivos. Os profissionais podem, por exemplo, gravar vídeos contando sua trajetória de carreira, dar depoimentos explicando como a companhia foi importante para sua família ou se posicionar nas redes sociais como especialistas naquela área de atração.

Quando a iniciativa dá certo, a companhia atrai naturalmente quem é alinhado a seus valores, propósitos e jeito de ser – e pode criar um banco de talentos de primeira. Foi exatamente isso que aconteceu com a empresa de tecnologia e engenharia Radix, que, em 2018 começou a utilizar as ferramentas de inbound recruiting de forma intensa. Segundo a diretora de gente e gestão, Daniella Gallo, o assunto surgiu em eventos de RH e chamou a atenção da equipe de recursos humanos. A partir de então, a empresa passou a cuidar com mais atenção da página de carreira de seu site e a publicar mais ativamente em suas redes sociais, principalmente no Instagram e no LinkedIn. “Decidimos criar uma série de vídeos com relatos de nossos funcionários e divulga-los”, afirma Daniella.

Para cativar seu candidato ideal, que é um jovem curioso, autodidata e apaixonado por tecnologia, a Radix divulga conteúdo técnico e artigos e outros materiais escritos pelos funcionários. Além disso, promove reuniões mensais para falar sobre temas de tecnologia e engenharia com o público externo – assuntos relacionados à transformação digital são recorrentes nesses eventos. Com a pandemia da covid-19, os encontros presenciais tiveram de dar espaço para eventos online.

Uma iniciativa importante foi a realização de um Hackathon com três dias de duração, no ano passado. A iniciativa reuniu 60 pessoas entre programadores, designers e outras pessoas ligadas a desenvolvimento de softwares. “Vários profissionais foram contratados depois”, afirma Daniella. A agilidade no recrutamento, aliás, aumentou: o tempo médio diminuiu drasticamente nos cargos mais difíceis de encontrar, como cientistas de dados e arquitetos de software. “A gente chegava a levar mais de 40 dias para contratar um especialista, mas esse prazo caiu para cerca de 20 dias”, diz a executiva. Mesmo os inscritos que não são contratados imediatamente, mas que têm alinhamento cultural e técnico, continuam observados pela Radix. “A pessoa fica no meu radar e, quando surge a vaga, eu posso acioná-la”, diz Daniella.     

PARTE DA ESTRATÉGIA

Encontrar profissionais capacitados e que gostem dos valores organizacionais é um desafio estratégico para as companhias – afinal, recrutar errado é caro. Uma pesquisa global feita pela consultoria PwC revelou que contratações equivocadas podem elevar os custos das companhias em 19,8 bilhões de dólares ao ano,

Por isso, na ThoughtWorks, consultoria global de software, o assunto é tratado com muito cuidado e existem duas pessoas dedicadas ao marketing de recrutamento. Como a companhia demanda competências técnicas específicas, a estratégia de inbound recruiting está calcada em conteúdos produzidos pelos funcionários da empresa em temas como tecnologia e gestão e em eventos próprios ou conduzidos com parceiros nos quais ficam claros pilares importantes para a companhia, como o de inclusão.

“Quanto mais as pessoas tiverem contato com a marca, melhor.  Principalmente as que a gente gostaria de ter em nossa empresa: profissionais especializados e diversos”, afirma Tais Silva, head de recrutamento. “Sempre trazemos a questão da representatividade em nossos conteúdos, porque isso atrai e fala muito sobre a marca.”

O grande benefício de manter o contato próximo com os potenciais candidatos é aumentar a quantidade e a qualidade dos postulantes às novas vagas. Em 2019, por exemplo, o número de jovens candidatos ao programa de contratação de recém-formados e universitários da ThoughtWorks aumentou 2,5 vezes. O impacto também foi expressivo nas três carreiras em que a companhia tem dificuldade de atração. Entre desenvolvedores de software júnior em São Paulo, o número de aplicações subiu 400%, de 2018 para 2019. Para desenvolvedores mobile em todo o Brasil, o avanço foi de 90%. Já para gerentes de projeto de desenvolvimento de software em todo o país, o crescimento de 300%. Com esses índices, o número de contratações previsto para 2019, que era de 180 pessoas, subiu para 250. “Além de atrair mais, notamos que o público que se candidata é mais aderente ao perfil desejado”, explica Tais.

DO CORAÇÃO

Embora os benefícios no recrutamento sejam visíveis, os especialistas destacam que os bons resultados de longo prazo só ocorrem se a jornada do profissional dentro da empresa confirmar todos os valores que foram usados para atrai-lo. “Caso a promessa não seja verdadeira, ocorre uma frustração que causa ruptura”, destaca a executiva da ThoughtWorks.

Para não cair nessa armadilha, as empresas devem tomar alguns cuidados na hora de planejar o marketing de recrutamento. O mais importante é que toda a comunicação reflita o que realmente acontece no dia a dia da organização. “É a cultura que gera a propaganda, e não uma imagem preestabelecida na cabeça de um gestor”, diz Carolina Cabral, gerente senior  de recrutamento da consultoria Robert Half. Em outras palavras, o inbound recruiting só dá certo quando é genuino.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO BOM DE ENVELHECER

Cada vez mais, pessoas vivem mais e por muito mais tempo

Sabedoras que sou estudiosa, escritora e pesquisadora sobre o processo de envelhecimento, não são raras as vezes que algumas pessoas, quando me encontram, vão logo dizendo: não quero falar sobre a velhice! – Isso me dói. Me dá medo. Falemos de assuntos mais interessantes; menos fúnebres. A priori, não tenho uma plaquinha sinalizando essa temática em mim. E também não dialogamos o que o coletivo não queira, mesmo sabendo da necessidade de debatermos alterações intrínsecas a um processo inerente a todo Ser humano. Tudo a seu tempo e hora. Estamos vivendo a era do envelhecimento. O mundo, habitado por mais de 800 milhões de pessoas de 60+ está tendo que se preparar para as consequências econômicas e sociais que a situação sugere. Cada vez mais, pessoas vivem mais e por muito mais tempo. Inicia-se a era da longevidade com centenários, superiores à população da Irlanda – cerca de 329 mil. O Brasil não foge à regra. Somos mais de 208 milhões de habitantes e, destes, 30 milhões são 60+. De uma avalanche de problemas com doenças, peles vincadas, perdas de sentidos, a velhice é assombrada por poucas oportunidades no mercado e muitas intervenções médicas. Mas, se há tanta coisa ruim assim, haveria alguma boa possibilidade vinculada a esse processo, a qual pudesse ser agrupada ao coletivo dos grisalhos? Pesquisas científicas mais recentes apontam que envelhecer não significa entrar em ritmo de decadência física e mental, como aconteciam em décadas passadas. Os estereótipos de velhices sedentárias, apáticas, deselegantes, desinteressadas e ultrapassadas já ficaram para trás. Com o passar do tempo algumas habilidades vão se tornando mais eficazes que outras. Poderíamos dizer que as pessoas envelhecidas:

MAIS INTELIGENTES: capacidade de resolver problemas, ter maior vocabulário, melhor orientação espacial e memória verbal.

MAIS FORTALECIDA MEMÓRIA IMUNOLÓGICA: proteção cumulativa promovida ao longo dos anos.

ALERGIAS EM DECLÍNIO: a produção dos anticorpos tende a diminuir com a idade e, portanto, aos 60 anos há quase um total desaparecimento dos quadros alérgicos.

MAIS PRAZER SEXUAL: isso se dá pela experiência de ambos, em especial, pela maior confiança da mulher.

MENOS ENXAQUECAS: as crises se tornam mais curtas, menos intensas e menos recorrentes.

MENOS SUOR: as glândulas sudoríparas encolhem e se tornam menos numerosas.

MAIOR RESILIÊNCIA: capacidade de se recuperar de eventos estressores.

MELHOR EQUILÍBRIO EMOCIONAL: as pessoas perdoam mais, têm mente mais aberta, respeitam amplamente as diferenças, administram melhor as críticas, não julgam com tanta facilidade, silenciam com mais frequência. Enfim, existem muitos motivos para se desejar envelhecer. Privilégio este negado a muitos.

PROFA. DRA. GENI DE ARAÚJO COSTA – Pesquisadora: Envelhecimento, bem-estar e qualidade de vida. Apresentadora do Quadro Vida Ativa – Rádio Universitária. Palestrante/Comunicadora/Escritora. Contato: genicosta6@gmail.com

EU ACHO …

O QUE FAZ UMA MULHER SER MULHER?

O devido respeito aos transgêneros vira absurdo da era PC

Está difícil ser mulher, embora tenha fila de gente querendo entrar para a categoria. A própria palavra “mulher” tem sido usada com cautela. Por ser considerada uma agressão, micro ou macro, aos que, tendo nascido biologicamente do sexo feminino, declaram pertencer ao outro clube. Daí decorrem alguns absurdos literalmente ridículos. Num tuíte sobre a nova recomendação para exames de colo do útero da Sociedade Americana do Câncer, a CNN anunciou que “indivíduos com cérvix” devem fazer o teste a partir dos 25 anos até os 65. A ideia é não ofender mulheres biológicas que se tornaram homens trans, mas continuam a ter aparelho reprodutor feminino. Incluindo colo do útero. Na Inglaterra, a situação é mais surreal ainda. Homens trans que se registraram como tal no Sistema Nacional de Saúde não recebem uma cartinha avisando que está na hora de fazer o exame de colo do útero e a mamografia. Embora continuem tendo colo do útero e, na maioria das vezes, mamas. Mulheres trans registradas como tal são convidadas a fazer o exame, embora não tenham colo do útero. Georgios Papanicolau, o médico grego que pesquisou os ciclos reprodutivos e descobriu as diferenças entre células malignas e normais no colo do útero, abrindo caminho para o exame que detecta câncer cervical em seu início, provavelmente ficaria intrigado.

Uma encrenca que já se tornou um clássico contemporâneo começou quando J.K. Rowling reclamou do tuíte de uma ONG referindo-se às agruras, durante a pandemia, de “pessoas que menstruam” e são muito pobres, sem acesso a produtos de higiene. “Tenho certeza de que essa gente tem um nome”, ironizou a “mãe” de Harry Potter, fazendo trocadilhos com a palavra women, mulheres em inglês: “Wumben? Wimpud? Woomud?”. O mundo politicamente correto, ao qual ela pertencia, caiu sobre sua ruiva cabeça. No sentido virtual, mas com ameaças reais de morte e estupro, outro triste clássico quando brigas na internet envolvem mulheres. Ou pessoas que menstruam, têm colo do útero e não transitaram pelo espectro dos gêneros.

Ser mulher, sem adendos, continua a ter importância quando prevalece a ideia regressiva de preencher cotas, como acontece agora com a senadora Kamala Harris. Apesar das muitas qualidades, ela não conseguiu emplacar como candidata a presidente e aceitou tocar o segundo violino, como vice de Joe Biden. Em 110% das reportagens sobre ela, é praticamente impossível achar referências à sua beleza, obviamente um atributo positivo para a imagem dela. Isso é considerado sexista, da mesma forma que falar sobre o físico fenomenal de Beyoncé virou tabu, embora seja a característica mais marcante, digamos, de suas apresentações, ao vivo ou em vídeo. Principalmente depois que a cantora virou politizada e escreveu “Feminista” na roupa. Se é que se pode se chamar de roupa. No Guardian, o guardião de todos os esquerdismos na imprensa em inglês, saiu uma reportagem sobre Anitta e sua carreira brilhante, cogitando inclusive a possibilidade de que se candidatasse a presidente. Nem uma palavra sobre o que ela tem em comum com Beyoncé. Fora, claro, pertencer à classe de “indivíduos com cérvix”.

***VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

NÃO TEM GRAÇA NENHUMA

o cyberbullying, fruto da incapacidade de lidar com as diferenças, avança entre os estudantes brasileiros, cada vez mais on-line na pandemia

Confrontos no ambiente escolar fazem parte da rotina social de qualquer aluno e são muitas vezes desejáveis por proporcionar o vital exercício de lidar com o contraditório. É diferente – e nada saudável – quando o duelo resvala para a implicância pura e simples, que se repete de forma sistemática, envolve violência verbal, e não raro física, e põe do lado mais frágil do ringue alguém que silencia por insegurança e vergonha, sempre na esperança de os ataques cessarem. A essa prática se dá o nome de bullying, verbete em inglês há tempos absorvido no dicionário nacional pela insistência em se pronunciar nos colégios brasileiros. Com a ascensão das redes, o fenômeno naturalmente ganhou o ambiente virtual e virou cyberbullying. Agora, com a pandemia, momento em que a garotada está longe da escola, cada vez mais conectada em grupos de WhatsApp e mergulhada no ambiente on-line, o problema se amplificou. Acendeu inclusive um sinal de alerta na Organização das Nações Unidas (ONU), que chamou a atenção de pais, alunos e professores para o risco de um caso desses estar acontecendo ao seu lado, ainda que sem alarde, na surdina habitual.

Uma parte das famílias que vive o problema em casa prefere manter o anonimato para proteger os filhos, mas outras decidem falar justamente na tentativa de frear as agressões. Elas se manifestam em todas as faixas etárias, até mesmo entre os mais novinhos. Aos 5 anos, Tadeu, que era visto como agitado pelos colegas, começou a ser seguidamente excluído das brincadeiras no pátio e, na quarentena, a amolação migrou para as aulas online. A mãe procurou mediar a situação junto aos pais. “Expliquei que aquilo estava realmente atrapalhando o Tadeu. Eles se solidarizaram, porém nada mudou”, diz a empresária Rafaela Azevedo, 36 anos, de São Gonçalo, região metropolitana do Rio. A escola bem que tentou agir, trocando a professora – sem sucesso, como tantas outras que admitem não conseguir debelar o cyberbullying. E Tadeu vai mudar de colégio.

As estúpidas provocações, no corpo a corpo ou na versão cibernética, são uma clara expressão de intolerância em um mundo paradoxalmente cada vez mais afeito à diversidade. O fato de essa forma de abuso ainda se fazer tão presente remete a uma característica humana exacerbada ao longo da adolescência: a dificuldade natural de conviver com as diferenças – seja um comportamento que destoe do grupo, seja um atraso cognitivo ou uma característica física incomum – justamente numa fase de pouca maturidade e com o caráter em formação. O bullying é a manifestação amplificada dessa aversão ao que se distingue do chamado normal, sendo praticado, em geral, por pessoas que não conseguem domar os próprios medos e frustrações. A internet põe à mesa um fator adicional. “Enquanto os jovens de hoje aprendem sobre aceitação e igualdade, eles são expostos a uma enxurrada de exemplos de intolerância nas redes, e precisam pesar quando ainda estão desenvolvendo essa capacidade”, pondera o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez.

A mudança a jato das carteiras escolares para as videoaulas deixou pelo caminho, como já se sabe, muitas arestas a ser aparadas. Uma delas são as brechas on-line que abrem espaço para pegar no pé do colega ó gesto corriqueiro que pode, pela recorrência e pelo teor, descambar para o cyberbullying. Durante a aula, ocorre muito de a turma usar o chat para torpedear um colega ou de um aluno silenciar o microfone do outro (ou até emudecer o do professor). Escolas e plataformas estão se mexendo para coibir isso – o Google for Education, por exemplo, criou ferramentas que restringem aos mestres o poder de moderação. “Esse é um problema que afeta não só o Brasil, mas vários países, por isso corremos para fazer os ajustes”, explica Zack Yeskel, gerente global de produtos do braço educacional do Google. Esse tipo de acerto não é detalhe para quem está imerso nas aulas a distância. Na escola particular onde estuda a pequena Heloisa, de 8 anos, em Palmas, no Tocantins, as crianças continuavam conversando e brincando no intervalo das lições, sem nenhuma espécie de supervisão. Ela passou a ser xingada e excluída, até que a mãe, Roberta Santos, percebendo a filha chorosa, entrou em ação. “O problema se resolveu quando falei diretamente com os pais dos coleguinhas”, lembra. O colégio, nesse caso, ancorou-se no bom senso: os estudantes passaram a ser monitorados por um adulto no ambiente virtual durante todo o período de aulas, que agora, por segurança, são gravadas. Mas, com tempo de sobra em casa, crianças e adolescentes têm ficado horas demais absorvidas pela internet – e aí se elevam os riscos de cyberbullying. “Um aluno nosso criou um perfil falso para ofender colegas e professores no chat. Foi descoberto e coube à escola orientá-lo para que não se repita”, relata Paulo Lima, coordenador-geral no colégio COC, em Brasília. A experiência vem sinalizando que acionar as famílias pode evitar que uma fagulha se converta em incêndio. “A chave está na ponte permanente entre a comunidade escolar e os pais”, afirma a professora Fernanda Morais, do Mater Amabilis, de São Paulo.

Um em cada três estudantes brasileiros declara já ter sido alvo de cyberbullying pelo menos uma vez na vida, em diferentes graus — dado da ONU semelhante ao de outros trinta países pesquisados. Seus efeitos variam — medo de ir à escola, isolamento, dores de barriga e de cabeça —, e às vezes são devastadores. “Desenvolvi depressão, ataques de pânico e problemas para dormir”, lista a estudante de veterinária Tatiane Camba, 24 anos, da Anhembi Morumbi, em São Paulo. Diagnosticada com transtorno de déficit de atenção, esteve na pandemia na mira dos colegas em um grupo de WhatsApp, onde se referiam a ela como “a burra”. “Fizeram até um abaixo-assinado para eu mudar de turma, e eu mudei”, resigna-se Tatiane, que, embora tenha recebido apoio da faculdade, nunca denunciou o assédio.

Os estragos causados pela agressiva implicância no ambiente virtual podem ser até de maior potência do que na sala de aula. “O cyberbullying é mais grave pelo efeito multiplicador característico da internet”, alerta o advogado especializado Marco Antônio da Costa Sabino. Também pesa o fato de ali, protegidos pela distância, os estudantes se sentirem mais livres e soltos para atuar. Do outro lado, levar uma paulada nos grupos de WhatsApp, com os quais esses jovens mantêm relação visceral, provoca uma dor imensa. O caso da carioca Fatou Ndiaye, 15 anos, negra e filha de senegaleses, chegou à esfera policial. Aluna do Liceu Franco-Brasileiro, no Rio, ela entrou na cruel roda do bullying sendo repetido alvo de manifestações de cunho racista. Saiu do colégio, assim como dois dos quatro adolescentes que pilotaram a maldade. Os outros vêm recebendo aulas virtuais separados da turma. Três foram indiciados por injúria racial. “A internet não é terra sem lei e as pessoas precisam parar de agir como se fosse”, diz Fatou, que resume: “Isso machuca”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE SETEMBRO

É FESTA TODO DIA

Todos os dias do aflito são maus, mas a alegria do coração é banquete contínuo (Provérbios 15.15).

Não há banquete melhor que a alegria do coração. Não há festa mais empolgante que ter paz de espírito. Não há prazer maior que viver em paz com Deus, com o próximo e consigo mesmo. O sábio diz que o coração contente vive um banquete contínuo. O coração alegre está sempre em festa. A vida é sempre agradável para as pessoas que saboreiam as iguarias do banquete da alegria. Essa alegria não significa apenas a presença de coisas boas ou a ausência de coisas ruins. Essa alegria não é uma circunstância nem mesmo um sentimento. Essa alegria é uma pessoa. Essa alegria é Jesus. Ele é a nossa alegria. Com Jesus, nossa alma tem um banquete contínuo. Por outro lado, todos os dias do aflito são difíceis, maus e infelizes. Ele pode encher a casa de bens, ter saúde e estar rodeado de amigos, mas, se não houver paz de espírito, se o coração estiver triste e oprimido, a alma murcha, o sorriso se apaga e a infelicidade predomina. O sol pode estar brilhando e as circunstâncias podem parecer favoráveis, mas, se a pessoa está aflita, nada disso a satisfaz. Tudo desvanece. A vida perde o sabor. O banquete cobre-se de cinzas, e as lágrimas passam a ser o seu alimento. A vida com Deus, mesmo quando timbrada de lágrimas e dor, é uma festa que nunca acaba. Haverá um dia em que Deus enxugará de nossos olhos toda lágrima. Então, nossa alegria será completa!

GESTÃO E CARREIRA

NO RASTRO DOS DADOS

Os crimes cibernéticos são um dos grandes perigos da atualidade. Por isso, surge a demanda pelos peritos forenses digitais

Em agosto de 2019, milhões de brasileiros correram o risco de ter suas informações pessoais vazadas na internet. Isso porque a Caixa Econômica Federal sofreu uma tentativa de ataque cibernético, mas conseguiu conter os criminosos tirando do ar por uma madrugada o sistema que contém os dados de FGTS, seguro-desemprego, Bolsa Família e aposentadorias. Assim, tudo ficou em segurança. O Banco do Brasil não teve o mesmo sucesso e, em dezembro de 2019, hackers roubaram 420.000 reais da conta do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) da Prefeitura de Iguape, no litoral paulista.

Essas tentativas de invasão aos sistemas de dados ´de bancos, empresas e órgãos públicos são diárias. Os criminosos têm urna motivação forte: dados cibernéticos são, hoje, mais preciosos do que petróleo. Analistas do Fórum Econômico Mundial indicaram, em 2018, que uma única invasão a um servidor que armazene informações na nuvem pode gerar um prejuízo de até 120 bilhões de dólares.

Para defender as instituições desse problema, surge uma nova carreira: perito forense digital. “Existe uma demanda alta nos órgãos públicos e também um mercado para ser explorado nas empresas privadas”, diz Marcos Supioni, professor na HSM University. Derivada da função clássica de perito forense, o foco no campo digital surgiu após os avanços da informática. “O momento é ideal para a especialização, enquanto o boom de contratações não ocorre.”

As opções de emprego são múltiplas: é possível atuar por conta própria como perito técnico das partes (ou seja, diretamente com o cliente que esteja com processo aberto na Justiça), como perito judicial (designado pelo juiz do caso), como funcionário público concursado e como empregado de empresas e consultorias. “Há oportunidades, mas é difícil encontrar profissionais qualificados”, diz Leandro Morales, perito em computação forense e sócio diretor da STW Brasil, empresa de segurança em TI.

O caminho mais comum é ingressar em tecnologia da informação e complementar com o aprendizado jurídico. Não é necessário ter formação superior em direito – cursos voltados para a área são suficientes. “É preciso saber sobre o meio jurídico, mas existem certificações próprias que valem mais do que uma graduação”, diz Leandro. A carreira é mais focada em técnicas de informática, como rastreamento de sistemas, do que em conhecimento de leis e processos judiciais.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO:

Horas Trabalhadas: Até 10 horas por dia, mas a rotina varia de acordo com o projeto

DIVISÃO DO TEMPO:

40% – Análise (buscando caminhos e falhas no sistema e investigando crimes)

40% – Elaboração de relatórios

20% – Coleta de material e provas

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

É imprescindível que o profissional tenha raciocínio lógico, domine os meios tecnológicos e possua conhecimento jurídico. O inglês deve ser avançado ou fluente, para melhor uso dos programas e sistemas de investigação. Calma, atenção e disciplina são Soft Skills recomendadas.

ATIVIDADES – CHAVE:

Analisar informações de computadores, celulares, pontos eletrônicos e outros dispositivos para a elaboração de laudos que atestem crimes ou fraudes virtuais. A coleta e a preservação de evidências também são realizadas, assim como testes de segurança de sistemas.

PONTOS POSITIVOS:

Existe um forte senso de propósito no serviço, que é a proteção de dados e/ou a solução de crimes cibernéticos. Para os concursados, ainda há a questão social de apoio ao sistema judiciário.

PONTOS NEGATIVOS:

Exige atualizações constantes nos dois campos de conhecimento: jurídico e tecnológico. As certificações devem ser recicladas com frequência. “Os hackers modernizam seus processos com muita velocidade. 0 perito também deve”, diz Marcos, da HSM University.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Graduações em Análise de Sistemas, Ciência da Computação e Tecnologia da Informação dão uma base, mas a especialização é fundamental e pode ser feita por meio de cursos internacionais, como CCFT (Certified Computer Forensic Technicals, CEH (Certified Ethical Hacker) E CHFI (Certified Hacker Forensic Investigat0r)

QUEM CONTRATA:

Empresas de tecnologia que trabalham com grande volume de dados, como bancos, consultorias, institutos de pesquisa. As esferas federal e estadual do governo também recrutam por meio de concursos públicos dos setores Criminal, Trabalhista e Civil.

SALÁRIO:

19.000 Reais para concursados e quem trabalha em empresas, ou 430 Reais por hora para autônomos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ZEN DIGITAL

A quarentena aumentou os níveis de stress e levou os ansiosos a buscar equilíbrio nos aplicativos de meditação. Muitos brasileiros aderiram à tendência

A crise do novo coronavírus provocou uma pandemia de stress. Milhões de pessoas confinadas em casa, empregos perdidos, incertezas sobre o futuro, medo de adoecer – tudo isso elevou os níveis de ansiedade da população mundial a patamares inéditos. Segundo um estudo conduzido pela Fiocruz, a Covid-19 fez com que 54% dos brasileiros se sentissem mais ansiosos. Pesquisas realizadas em outros países chegaram a conclusões parecidas, sempre identificando o aumento da inquietação de seus moradores. Na mesma medida em que a tensão subiu, a busca por formas de combatê-la também cresceu. Um dos instrumentos mais procurados por pessoas que precisam de um pouco de serenidade na vida são os aplicativos de meditação, que prometem incentivar o autoconhecimento e ajudar os adeptos a alcançar o sonhado equilíbrio. É a era do zen digital.

Atualmente, há cerca de 2.000 apps especializados em relaxamento. Juntos, eles somam 100 milhões de downloads, mas o número é crescente. Segundo relatório da consultoria Sensor Tower, apps ligados a saúde e bem-estar tiveram 2 milhões de downloads a mais em abril, já sob os efeitos da pandemia, do que em janeiro de 2020. No Brasil, o crescimento também foi notável: de acordo com os mais recentes dados disponíveis do portal RankMyAPP, as instalações desses apps dispararam 55% em março ante o mês anterior, o que representa um recorde.

Uma legião de brasileiros aderiu à tendência. A estudante carioca Julia Andrade, de 22 anos, conheceu os aplicativos de meditação em 2019, mas nunca levou a prática muito a sério. Quando veio a pandemia, notou que estava mais aflita, e decidiu recorrer aos apps. “Eles me ajudaram muito”, diz. “Agora, uso pelo menos três vezes por semana.” Um dos favoritos dos praticantes do zen digital é o aplicativo Headspace, que desde março registrou o aumento impressionante de 500% no número de downloads. O negócio faz tanto sucesso que acabou por atrair novos investimentos. Apenas no primeiro semestre, o Headspace captou 140 milhões de dólares no mercado.

Afinal, o que proporcionam esses aplicativos? De forma geral, eles oferecem cursos e exercícios de relaxamento, músicas que, dizem os praticantes, acalmam e sons (canto de pássaros, cachoeiras) que ajudam o usuário a desestressar, eliminar pensamentos negativos e concentrar-se em si próprio. Entre os mais baixados no Brasil estão os apps Caim, Meditopia e Zen. Em média, eles custam de 60 a 140 reais por ano para garantir ao adepto o direito de usufruir de todos os programas oferecidos digitalmente.

Uma das técnicas de meditação mais comuns presentes nesses aplicativos é o mindfulness, estado mental em que o indivíduo trabalha o foco e aprende a privilegiar o aqui e agora. O mindfulness começou a ser estudado na década de 70 nos Estados Unidos, chegando ao Brasil apenas em 2006, para se popularizar nos anos seguintes. “A atenção plena exercitada nessas sessões permite cultivar uma característica essencial do ser humano, que nos diferencia das máquinas e da inteligência artificial: a consciência”, diz Marcelo Demarzo, coordenador do Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde. “Essa capacidade se relaciona com a habilidade de direcionar os pensamentos e impulsos, proporcionando uma vida com menos ansiedade e stress.”

Nos últimos anos, a ciência tem se dedicado a mensurar os efeitos da meditação na melhoria da qualidade de vida dos praticantes. Um dos estudos mais completos foi feito em 2017 pela Universidade Harvard. Segundo a pesquisa, 32% das pessoas que passaram a meditar regularmente interromperam o uso de medicamentos para hipertensão. Outro levantamento, dessa vez realizado em 2018 pela Michigan Technological University, concluiu que apenas uma sessão de mindfulness foi suficiente para diminuir em 26% os níveis de ansiedade dos participantes. “A maioria dos estudos aponta para os benefícios dessas práticas, sobretudo em casos de pessoas já diagnosticadas com transtornos de ansiedade e depressão”, diz o neurocirurgião Júlio Pereira, da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

A eficácia dos aplicativos de meditação ainda não foi comprovada pela ciência. Afinal, trata-se de uma tendência relativamente nova e é preciso ter cuidado para não cair em falsas promessas. De todo modo, a maior parte dos profissionais de saúde parece concordar que o efeito de atividades como a meditação e o mindfulness existe, embora em muitos casos as mudanças sejam modestas. “A meditação baseada em mindfulness pode devolver o presente”, diz Isabel Weiss, psicóloga da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “Nos últimos meses, tivemos de nos reinventar sem saber o que pode acontecer amanhã. A busca da mente sã é essencial em um contexto enervante.” Ou seja: se você está estressado, desconecte-se do mundo por breves mas valiosos períodos, feche os olhos e aproveite para meditar. Sua saúde agradece.

EU ACHO …

A FÉ NÃO IMUNIZA

Os líderes evangélicos precisam assimilar a importância da ciência: já se foi o tempo em que ela rivalizava com a religião

Sobram profetas anunciando que o coronavírus é uma praga apocalíptica e a Covid-19, um juízo de Deus contra a maneira irresponsável e predatória como a humanidade vive no universo. Há também quem pregou que um grande jejum comunitário e compartilhado nas redes sociais pudesse ser o remédio contra o problema. Antes de entrar nos pormenores de cada questão, é preciso entender historicamente a longa e complicada relação da religião com a ciência. Associar os fenômenos sociais e naturais a causas espirituais e sobrenaturais é próprio de todo sistema religioso. É importante ressaltar que a religião encara o mundo como um mistério que exige explicação e sabe que não é a ciência que pode revelar o que está oculto por trás do aparente. Essa compreensão da religião, entretanto, abre um fosso de distanciamento que coloca a fé e as crenças de um lado e a razão e a ciência no extremo oposto. Um abismo perigoso e que não precisa ser tão profundo.

Em sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa, o sociólogo francês Émile Durkheim esclarece que a religião se ocupa da “ordem de coisas que ultrapassa o alcance de nosso entendimento, o sobrenatural, o mundo do mistério, do incompreensível. A religião seria, portanto, uma espécie de especulação sobre tudo o que escapa à ciência e, de maneira mais geral, ao pensamento claro”.

Explicar a ordem do universo natural a partir dos mistérios da sobrenaturalidade pode fazer alguma diferença em contexto de baixo desenvolvimento científico. Houve um tempo no qual as rupturas da ordem natural — períodos de seca quando se esperava chuva ou chuvas torrenciais fora do padrão, colheita escassa frustrando a expectativa de fartura, ou ter de lidar com pragas e pestes que destruíam os campos e as sociedades — podiam ser explicadas como ação dos deuses, ou mesmo de Deus, descarregando sua ira sobre o mundo. A mentalidade religiosa perdeu lugar à medida que o conhecimento científico foi domesticando a natureza. Para uma boa safra é melhor se fiar na tecnologia agrícola que no humor dos deuses. Contra pestes e pragas, Albert Sabin (que desenvolveu a vacina contra a poliomielite) e Alexander Fleming (descobridor da penicilina) ajudaram mais que rezas e quebrantos.

A noção de que a religião trata do que escapa à lógica racional e científica e explica aquilo de que a inteligência humana não dá conta sugere outro abismo perigoso — aquele que separa o racional do irracional. O passo seguinte é a condenação da religião como superstição de gente ignorante. Em termos simples, quanto mais ciência, menos religião; quanto mais esclarecimento, menos necessidade de fé; quanto mais iluminado ou ilustrado o mundo, menos supersticioso ele é, em tese.

Os profetas contemporâneos e os pastores que insistem em negar a voz da ciência em nome da fé prestam, portanto, grande desserviço à sua crença. Comprometidas em resguardar o papel da religião num mundo que o teórico social Max Weber chamou de desencantado, onde Deus é tido como hipótese desnecessária, as lideranças religiosas que pretendem combater o vírus com vigílias, orações e jejuns conseguem apenas reforçar a noção secular de que a experiência religiosa é mesmo para incultos e fanáticos.

Pastores que, apesar de todas as recomendações e orientações das autoridades competentes, insistem em manter seus templos abertos e dar continuidade a seus eventos e cultos expressam não apenas ignorância, como também atuam de maneira irresponsável e cruel, expondo seus fiéis e a própria sociedade à disseminação de um vírus que já se provou letal. A necropolítica encontra em líderes religiosos de caráter duvidoso, ou mal esclarecidos, sua face mais nefasta, pois é promovida em nome de Deus, em franca oposição às palavras de Jesus, que dizia: “Eu vim para que tenham vida”.

Paralelo parecido pode ser feito quando o assunto é a convocação para um jejum nacional no Brasil, ideia admirada por uns, rechaçada por tantos outros. Aos que desconhecem o hábito, tal convocação encontra contexto na Israel bíblica, quando um rei, que governava em um Estado teocrático e sob a autoridade religiosa dos sacerdotes, usava o período de abstinência de alimentos e de sacrifícios para apresentar a Deus seu arrependimento, livrando o povo, assim, de seu juízo. Falta a muitos religiosos, porém, um olhar atual sobre hábitos específicos do período registrado no Antigo Testamento da Bíblia. O Brasil não é um Estado teocrático, é um Estado democrático de direito. O Brasil não tem rei sob autoridade religiosa, mas um presidente eleito democraticamente, que governa sob a autoridade do pacto social expresso na Constituição. Como já dito, o flagelo que abate o Brasil e o mundo não é juízo de Deus contra a idolatria de seu povo. No Novo Testamento, o hábito do jejum foi ressignificado por Jesus como um ato de devoção íntima e pessoal, praticado no anonimato, e não com publicações nas redes sociais. Como diz o texto bíblico, o Pai (Deus), ao ver a oração íntima, recompensa aos seus — enquanto quem se vangloria de sua religiosidade busca somente o aplauso de homens. Reforço aqui: o caminho para a superação da pandemia passa pela submissão à autoridade da ciência e pelo rigor na observação das orientações e recomendações dos profissionais da saúde.

A cisão entre fé e ciência reflete mais ignorância que piedade. Atender às recomendações das autoridades governamentais, notadamente aquelas orientadas pelos profissionais da saúde, os especialistas e infectologistas, é uma expressão de sensatez e também uma forma de honrar a Deus. Pois, como bem disse Louis Pasteur, “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.

A religião não rivaliza com a ciência: assim como a fé não imuniza, também não existe vacina contra o preconceito, o egoísmo e a crueldade. Se é verdade, e assim creio, que o coronavírus deve ser enfrentado com boa medicina, e a superação da Covid-19 será inclusive uma conquista da ciência, também é verdadeiro que os suplementos de empatia, solidariedade, compaixão e misericórdia, necessários e heroicamente demonstrados por todos aqueles que se expõem ao risco para prover cuidado aos enfermos e vulneráveis, são qualidades que se encontram no coração dos que creem (ou intuem) que a vida descansa nos mistérios e virtudes do espírito humano e do Espírito divino. Assim é a fé saudável: não se fabrica em laboratórios nem se compra em farmácias.

ED RENÉ KIVITZ, teólogo, é mestre em ciências da religião e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.

OUTROS OLHARES

PENDURANDO O PALETÓ

Com o isolamento social, terno e gravata deixaram de ser o figurino oficial dos executivos. Há quem já nem pense em tirá-los do armário. Mas o traje social também precisa de cuidados para sobreviver.

A pandemia inaugurou uma fase em que home office e reuniões por videoconferência passaram a fazer parte do já aborrecido “novo normal”. Profissionais que passavam o dia no escritório, visitando clientes ou em reuniões externas, agora despendem seus dias trabalhando no próprio lar. Com isso, mudou também o dress code. Para todos. Especialmente, para quem precisava usar terno e gravata. Nesse contexto, surge uma preocupação: como cuidar dessas peças nos dias atuais, em que elas têm ficado muito mais tempo dentro de armários e guarda-roupas? E uma preocupação inédita com a higienização que esse tipo de roupa exige quando é usada.

Essas questões têm ocupado a mente de empresários e executivos das mais diversas áreas. Sócio da Lean IT, empresa especializada em consultoria e treinamentos, com sede em São Paulo, Rodrigo Aquino é um deles. Acostumado a usar ternos e paletós “quase todos os dias”, ele passou a adotar uma prática simples e eficiente, seguindo recomendações de autoridades da saúde. “Uma vez por semana, coloco alguns ternos na sacada, para que tomem um pouco de sol e vento”, disse Aquino. Mas ele sabe que isso é apenas o básico. Para se proteger do coronavírus e manter a qualidade das roupas sociais, Aquino decidiu comprar um equipamento que passa e lava as peças a seco. “Será um excelente investimento nesses dias de pandemia”.

Com o cargo de CSO da companhia de tecnologia Depp Center, o executivo Maurício Tinoco ainda não pensa em adquirir algo do tipo, mas também sentiu os efeitos da pandemia sobre seus ternos. Antes da Covid-19, Tinoco costumava usar um conjunto para cada dia da semana. Durante a pandemia, chegou a ficar 90 dias sem vesti-los. “Foi a primeira vez, nos últimos 20 anos, que passei tanto tempo sem usar terno”, afirmou. Agora, com a reabertura gradual de algumas empresas, Tinoco voltou a participar de reuniões presenciais e a fazer visitas a clientes em São Paulo, onde fica a empresa.  “Não está como antes, mas já estou usando os ternos duas vezes por semana”. Ao chegar em casa, deixa as peças por dois dias tomando sol na varanda. “E orientei nossa secretária a escovar e passar os ternos a ferro antes de guardá-los”. A recomendação está de acordo com estudos científicos, segundo os quais as altas temperatura otimizam a higienização e ajudam a combater o coronavírus.

ELES GOSTAM DE PASSEAR

Cada um à sua maneira, quem usa terno tem encontrado a melhor forma de cuidar das roupas durante a pandemia. É pouco provável, porém, que algum executivo utilize estratégia tão curiosa quanto a do advogado Jamerson Marra, sócio do escritório Ferreira & Marra, em Belo Horizonte. Com treze ternos no guarda-roupas, ele gosta tanto das peças que as trata com carinho admirável, como se fossem pets. “Os ternos precisam respirar. Não posso deixá-los confinados”, disse. “Tenho peças de R$ 15 mil. Elas merecem ser bem cuidadas”. Além de lavar a seco os ternos e de mandar passá-los logo após o uso, a solução que Marra encontrou foi usá-los mesmo sem necessidade, como em reuniões por video-conferência. “O pessoal do escritório tira onda quando eu apareço de terno em pleno home-office. Mas quero usar minhas roupas e sei que é bom tirá-las do armário”. Ele já chegou ao ponto de vestir as peças apenas para dar uma volta na rua. “Como nós, os ternos gostam de passear. Faz bem a eles”.

Um dos nomes mais respeitados do universo da moda no Brasil, o estilista e empresário Ricardo Almeida reforça a importância de todas as recomendações das autoridades de saúde, mas dá dicas específicas em relação ao armazenamento dos ternos. Com ou sem pandemia. “Independentemente do período que estamos vivendo, é essencial armazenar as peças da forma adequada, para garantir a boa conservação. Principalmente se o terno é feito a partir de fibras naturais, de origem animal ou vegetal”, afirmou. Segundo Ricardo Almeida, o local de armazenamento deve ser seco e arejado, prevenindo o desenvolvimento de bactérias. “É importante evitar guardar os ternos dentro de capas plásticas, como as de lavanderia, pois prejudicam a qualidade do tecido, já que o plástico pode sufocá-lo”. Com essas dicas e seguindo as orientações médicas, seus ternos estarão sempre bem-cuidados e sua saúde, protegida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE SETEMBRO

A CASA DE DEUS, DELEITE DA ALMA

Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te perpetuamente (Salmos 84.4).

Jesus tinha o costume de frequentar a sinagoga; tinha o hábito de ir à Casa de Deus. Os filhos de Coré dizem que um dia nos átrios da Casa do Senhor vale mais que mil dias nas tendas da perversidade. O salmista declara: Alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do Senhor (122.1). Na Casa de Deus temos três encontros importantes: com Deus, com nossos irmãos e também conosco mesmos. Quando entramos nos átrios da Casa de Deus, pisamos o terreno da felicidade, pois ali ouvimos palavras de vida. Ali contemplamos o Senhor na beleza da sua santidade. Ali temos uma compreensão da feiura do nosso pecado e da beleza do perdão divino. É na Casa de Deus que temos uma compreensão mais clara da transitoriedade da vida e da necessidade da graça. É na presença de Deus que temos plenitude de alegria e é na sua destra que desfrutamos de delícias perpetuamente. O salmista diz: Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te perpetuamente. Você se deleita em ir à casa de Deus? Como o salmista, pode dizer que se alegra quando o convidam a ir à Casa do Senhor? Você tem orado a Deus como Davi: Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo (Salmos 27.4)?

GESTÃO E CARREIRA

CONSUMO NA PALMA DA MÃO

O e-commerce ganha cada vez mais espaço entre os brasileiros e se torna um grande aliado dos negócios

Que o universo digital ganha cada vez mais espaço não é mais novidade. Fato é ainda que a busca por agilidade e praticidade em todos os processos tornou a população brasileira cada vez mais adepta das ferramentas que facilitam sua vida, incluindo nesta lista uma série de aplicativos, principalmente aqueles em que você pode comprar com um clique e receber seu produto no conforto do lar.

Não à toa, dados do Compre &Confie, da ClearSale, apontam um crescimento de 23% nas compras pela internet em relação a 2018 até o momento. No começo do ano, um estudo da Ebit Nielsen já previa um crescimento de 15% no setor de e-commerce em 2019, dando destaque para as categorias de cosméticos e moda, com um faturamento estimado em R$61,2 bilhões.

No fim do ano passado, uma pesquisa da SBVC com apoio técnico da BTR­Educação e Consultoria, Varese Retail e Centro de Estudo e Pesquisa do Varejo (CEPEV – USP) trouxe as “50 Maiores Empresas do E-Commerce Brasileiro”, que apontava nos três primeiros lugares B2W Digital, Via Varejo e Magazine Luiza Em 2017, elas somaram um total de R$36,2 bilhões – esse número corresponde a 75,89% das vendas totais do comércio eletrônico (calculadas pelo Ebit em R$47,7 bilhões). Somente as dez maiores somam R$29,91 bilhões em vendas, o equivalente a 62,7% do comércio eletrônico no País. Confira quais são na tabela “Posição das Empresas no Universo Digital”.

BEM-VINDO AO DIGITAL

Com dez anos de mercado nacional, a Privalia – outlet digital de moda – observou, no início, um ímpeto muito grande no crescimento acelerado de vendas e base de clientes, com pouca preocupação na sustentabilidade do negócio, tanto do ponto de vista operacional quanto financeiro. “De alguns anos para cá, após algumas empresas ficarem pelo caminho, eu vejo que as que mais rapidamente observaram a importância de uma operação bem estruturada e um negócio consistentemente rentável e bem administrado passaram a se destacar e ter sucesso”, explica o country manager da Privalia, plataforma que entrou no décimo lugar do ranking, Fernando Boscolo.

De acordo com ele, o mercado brasileiro passou por uma fase em que as empresas que conseguiram sobreviver, hoje estão se organizando e se capacitando, e agora podem fazer de forma mais madura um novo ciclo de crescimento, agora muito mais sustentável.

A outlet digital foi fundada em 2006, na Espanha, e chegou ao mercado brasileiro em 2009. Hoje, como parte do grupo francês criador do conceito flash sale, Vente Privee, está presente em 14 países e possui uma base fiel de 11 milhões de usuários ativos, além de 1,3 milhão de visitantes mensais e 150 mil consumidores por mês, totalizando uma média de 320 mil pedidos por mês, com cerca de 970 mil itens vendidos. Além do site, a Privalia conta com aplicativo, que atualmente representa mais de 83% da origem de receita.

O chef de marketing officer do Peixe Urbano e do Groupon da América Latina, Adalberto Da Pieve, avalia também que o crescimento desse mercado foi grande por conta da profissionalização do setor e da rápida adoção de internet e de compras on-line pelo brasileiro. “Hoje, temos um grande número de profissionais muito qualificados trabalhando no mercado. Houve um amadurecimento do e-commerce brasileiro com respeito à necessidade de lucratividade. A tecnologia também influenciou bastante. Vimos a chegada dos smartphones, da tecnologia móvel e das redes sociais digitais”, diz.

A declaração faz ainda mais sentido quando levado em conta que o brasileiro é campeão de tempo conectado na internet, com 9 horas e 14 minutos diários de acesso, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil divulgou em 2018. Isso sem falar que 49% desses internautas o fazem apenas pelo celular, sendo que outros 47% usam celular e computador.

Esses dados são bons indicadores do perfil do brasileiro que está on-line no celular e pronto para receber o impacto da sua venda on-line: geralmente são das classes D e E – visto que A e B possuem ainda outros tipos de dispositivos – e os pertencentes a regiões rurais ou ao Norte e Nordeste, onde a internet não chega com facilidade e os dados do aparelho ajudam a conexão.

O brasileiro é um early adapter e heavy user de todas as coisas de internet. Mais conectado do que a maior parte dos povos, o brasileiro usa a tecnologia de maneira intensiva e muito criativa. Passa mais tempo do que a grande maioria em redes sociais, conecta-se, comunica-se de forma muito veloz. “Isso aumenta muito nosso desafio como profissionais da área, mas também nos impulsiona. É muito difícil tentar preencher os desejos e necessidades do público brasileiro no que tange ao e-commerce”, completa Adalberto Da Pieve.

O diretor de operações do Olist – empresa que ajuda varejistas e marcas a conquistarem mais clientes e vendas -, Leonardo Dabague, conta também que ir para o mundo on-line quebra barreiras geográficas e permite que seu produto seja visto e adquirido por um mercado muito mais amplo do que o varejo tradicional. Assim como no comércio tradicional, é importante ter um bom sortimento, preços competitivos, estoques adequados. O que o e-commerce tem de bastante diferente do off-line é a necessidade de um excelente cadastro (boas fotos, bom título, descrição informativa e organizada) e uma operação ágil para receber pedidos e despachá-los no mesmo dia”, destaca lembrando como uma boa apresentação dos produtos e uma logística bem organizada podem ser o grande diferencial.

Segundo ele, o e-commerce atingiu R$133 bilhões em 2018. Em relação aos perfis de compra, independentemente do dispositivo usado para isso, ele conta que é bastante balanceado entre mulheres e homens e têm uma grande concentração nas regiões Sudeste e Sul. Mesmo assim, o celular ainda é a ferramenta mais utilizada e o meio de pagamento predominante é o cartão de crédito.

OS PRIMEIROS PASSOS

Como se destacar? “Uma cultura muito forte, disciplina, simplicidade, orientação aos clientes e parceiros, e claro, time” – é o que aconselha Fernando Boscolo, que passou por outras empresas grandes antes da Privalia, como a Natura Cosméticos, Jequiti e Água de Cheiro. Sobre as tendências para o setor, ele acredita que as marcas vão passar a entender o e-commerce muito mais como um complemento ao comércio físico do que, de fato, um canal concorrente dele. “Pense em como ser relevantepara os seus clientes em primeiro lugar. Não tente crescer para depois se tornar rentável. É importante ser rentável desde o começo e não menosprezar a importância de uma área de operações bem estruturada! O e-commerce de verdade acontece por trás do site”, aconselha.

No caso da Privalia, o atendimento ao cliente também é crucial. Dessa forma, a empresa busca adotar formas de comunicação que sejam mais aderentes às necessidades dos consumidores – e-mail, telefone, WhatsApp, chat e aplicativo.

Apesar de o Brasil ser um exemplo no volume e utilização de mídias sociais, ainda há um número grande de brasileiros que nunca fizeram uma compra por meio de um e-commerce. O country manager da Privalia acredita que isso está mudando dia após dia; uma vez que todos os clientes que já tiverem acesso à oportunidade de consumo pela internet, falarão para outros, que também se tornarão consumidores futuramente.

Contudo, é fundamental manter o espírito de startup: estar sempre testando coisas novas, sem medo de errar, e adaptando rapidamente ações. É justamente essa capacidade de se adaptar ao mercado que ajuda ele mesmo a evoluir. É algo que está profundamente enraizado na própria cultura brasileira. “Nos reinventamos várias vezes no passado e vamos continuar nos reinventando. O futuro se impõe. O consumidor está cada vez mais informado e exigente. A comparação da qualidade da experiência de consumo não se dá apenas entre empresas que atuam no mesmo setor – o consumidor compara um e-commerce com um aplicativo de entregas com outro de viagens, e exige que a experiência seja similar às melhores experiências que ele enxerga através de todas essas plataformas. É um comportamento um tanto novo, mas que veio para ficar”, completa Adalberto Da Pieve.

USE AS FERRAMENTAS A SEU FAVOR

Ferramentas são importantes, usamos as que nos parecem melhores para nosso momento, mas seguimos sempre provando novas tecnologias e adaptando-as à nossa realidade. “O mais importante é a cultura da empresa – de entender que o cliente está mesmo no centro de tudo, que estamos trabalhando para o cliente, e isso não é apenas um chavão. E o cliente, no nosso caso, são dois: o cliente que compra nossos produtos e serviços e nosso parceiro que fornece os produtos e serviços. Temos dois clientes e precisamos sempre pensar no que é melhor para eles, a fim de garantir uma parceria boa para todos e duradoura”, ressalta o chief de marketing officer do Peixe Urbano e do Groupon da América Latina.

Claro que não existe fórmula mágica para dar certo, mas um bom planejamento, divulgação pensando na aproximação com o potencial consumidor e um atendimento eficiente são pontos de partida que podem fazer toda a diferença no mercado. Um fator em comum entre as empresas de maior sucesso é o fato de acompanharem constantemente o mercado, concorrentes e fornecedores. Estar de olho em tudo isso é essencial, sem esquecer datas promocionais e questões sazonais, que podem gerar oportunidades ou prejuízos se não forem bem aproveitadas.

Outra tendência que vem chegando são os pagamentos simplificados, que podem variar desde o básico cartão de crédito até ferramentas como boletos bancários e inserção de saldo por meio de Paypal ou Mercado Pago, por exemplo.

Além disso, se a pessoa busca rapidez na hora de comprar, ela espera o mesmo da entrega do produto. Por isso, organize uma logística prática e inteligente. Por fim, no exterior já tem crescido a opção de compras por assistente de voz e é algo a ser pensado para o seu negócio. Acredito que existem incontáveis ferramentas para auxiliar empreendedores durante toda a caminhada. Desde os mais generalistas, como Sebrae e Endeavor, até organizadores de tarefa, como Asana e Evernote. Para quem planeja operar no varejo off-line, recomendamos ferramentas que facilitem a gestão, como ERPs e faturadores. Já quem for para o varejo on-line, recomendo visitar o site do Olist”, aconselha Leonardo Dabague.

QUEM NÃO SE MOSTRA NÃO É VISTO

Leonardo Dabague diz que é preciso vender, antes mesmo de ter o produto/serviço, ou seja, garanta que existam pessoas dispostas a pagar por eles. Muita gente quer desenvolver o produto, comprar ferramentas e soluções caras para viabilizar um negócio com um “palpite” de que existam pessoas dispostas a comprar. Mas é preciso simplificar e, antes de grandes investimentos, garantir que você consiga vender protótipos. “Claro que não existe receita de bolo, mas eu diria que a maior parte dos negócios pode ser iniciada em uma escala reduzida, ajustada, otimizada e só então realmente escalada. Treine o ‘pitch’ da sua empresa, do seu modelo de negócio e de como sua empresa ganhará dinheiro. Se não estiver claro para você, não espere que fique claro para o mercado”, ressalta Leonardo.

Com tudo isso bem claro e organizado, é hora de contar para as pessoas que você existe. É neste momento que o marketing tem que ser intenso e bem assertivo.

O empreendedor, influenciador e mentor em estratégias de marketing digital para empresas e palestrante de marketing digital e empreendedorismo, Thiago Regis, destaca como primeiro ponto que as marcas devem ser e agir de forma diferente da sua concorrência. “Não adianta ter um e-commerce e ficar brigando por preço, por desconto. Não funciona, pois seu produto vai se desvalorizando e ficando abaixo do mercado, com a margem de lucro lá embaixo. Deve-se apostar no diferencial, criando valor e empatia pela sua marca ou seu produto”, avalia.

Para fazer isso, ele aconselha a criar estratégias diferentes do que a maioria está fazendo. Por exemplo, o cliente comprou um vinho, mande uma carta personalizada junto com o produto, dê um saca-rolha sem ele esperar, isso vai fazer com que ele tire uma foto, poste no Instagram e marque a empresa. Essa atitude vai gerar mais seguidores para a marca. Outra coisa é montar um site bacana, bem estruturado, com as configurações certas de análise do Google. Todos esses são pontos importantes a serem trabalhados.

Comercializar um produto sem cuidar da imagem e identidade visual pode levar as vendas morro abaixo. Quando o consumidor não pode tocar o que tem na prateleira, ele precisa ser convencido pelas fotos. Outra dica interessante neste sentido é fazer algumas interações ao vivo para apresentar o produto e suas características, além de criar promoções que gerem engajamento. Gerar conteúdo de qualidade vai fazer toda a diferença para sua marca, já que as pessoas buscam nas compras cada vez mais conexão e empatia em detrimento da simples marca ou usabilidade.

Transforme-se em um personagem. Humanizar o nome da sua empresa pode trazer resultados muito maiores em conversão do que atuar como um robô falando a um público. “O negócio do novo empreendedor será destaque se houver a personificação dele. Além de dar descontos exorbitantes, trate os clientes como trataria seus amigos e outros. O importante é pensar completamente fora da caixa, criar experiências – o consumidor deixou de sentir-se atraído pelo mais do mesmo”, lembra Thiago Regis. Apesar de ter o elemento intuitivo nesse tipo de ação, lembre-se de usar os dados. Eles estão em todas as plataformas e vão determinar a melhor maneira de tratar o seu consumidor.

São essas métricas que também vão auxiliar um aspecto importante do e-commerce – a conexão dele com o Google. Faça isso trabalhando muito bem o título das páginas e as metas description delas. Isso significa pesquisar as palavras-chave com maior engajamento dentro do seu setor e colocá-las de maneira que faça sentido nesses lugares de destaque. Além disso, lembre-se de ter um setor de tecnologia da informação bastante envolvido, que trabalhe com certificados de segurança, SSL e HTTPS para que os links de seu site não sejam bloqueados ou percam relevância em buscas.

O site também precisa ser responsivo ou mobile, ou seja, com um layout adaptável para os diferentes dispositivos e que facilite a navegação. Por fim, lembre-se de colocar a descrição mais detalhada possível do produto e, se viável, inserir um blog na loja virtual, com dicas e novidades relacionadas ao seu segmento. “Achar que vai colocar a loja virtual no ar e ela vai começar a vender amanhã é um erro. Isso é o que faz a internet ser pulverizada de negócios que não funcionam e não dão certo. Começar sem estratégias não vai dar certo. É preciso estudar e afiar o machado antes de derrubar a árvore. Ou seja, estudar, analisar, entender, pesquisar, olhar para o lado e observar o que o concorrente está fazendo, o que está dando certo ou errado e achar onde você deve se diferenciar para dar o primeiro passo. Pensar muito antes de agir!”, conclui Régis.

Tenha em mente também que o boca a boca ainda é uma ótima divulgação. O consumidor acredita em indicações, seja de um familiar, seja de um influenciador no qual confia. Ele segue blogueiros, usa descontos de grandes marcas e é alcançado por cupons de Stories do Instagram. Faça parcerias planejadas e gere ainda mais engajamento dentro do seu planejamento.

ERROS E ACERTOS

•  Estude, aprenda e adapte. Não é preciso reinventar a roda, mas usar o que existe de maneira construtiva.

•  Contrate as melhores pessoas que puder, de preferência diferentes de você, especialistas em suas áreas, e deixe-as fazerem seu trabalho.

•  Tenha alguém competente para auxiliar no entendimento da dinâmica econômica e financeira da empresa.

•  Entenda o comportamento do seu segmento on-line e os valores que seu público-alvo procura.

•  Pesquise quais são os principais canais e peculiaridades do seu segmento.

•  Invista em um bom marketing de engajamento.

•  Leia sobre ou assista a vídeos de ERP, CRM e o que mais facilitar a gestão e operação da sua empresa.

ATENÇÃO AOS DETALHES

•  Escolhas que você precisa prever: modelo de negócios, plataforma, jurídico, financeiro, atendimento, posicionamento, marca, investimento, expectativa de retorno. Tenha ajuda especializada em cada uma dessas e de todas as outras áreas.

•  Não são apenas os profissionais contratados que vão lhe dar um termômetro de mercado. Observe negócios que deram certo, converse com os amigos, leia as pesquisas. Desenvolva suas metas e baseie seu planejamento de atuação nessa ampla pesquisa de campo.

•  Nunca se esqueça da importância administrativo­ financeira. É importante ter quem crie o produto, quem venda e quem receba o dinheiro. Muito cuidado com a “confiança” total. Ainda que você busque assessoria contábil e jurídica, dedique­ se a entender e a se comunicar com as pessoas do meio.

•  Compliance, controladoria, ouvidoria e outros mecanismos também podem se tornar importantes à medida que sua empresa cresce. Tenha sempre isso em mente.

•  Cuidado com a lei, principalmente no que diz respeito à propriedade intelectual, open- source e outros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SONO DOS JUSTOS

A ciência começa a desvendar a propensão genética para dormir ou permanecer em vigília. É uma revolução na crença de um padrão universal de descanso

Quem dorme pouco, menos de seis horas por noite, e ao acordar desperta vivíssimo, pronto para uma longa jornada, costuma celebrar essa invejável capacidade. O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, o empresário Elon Musk e o governador de São Paulo, João Doria, não perdem a chance de informar a meio mundo que, por se entregarem pouco tempo aos braços de Orfeu, trabalham mais. Relatos históricos mostram que Leonardo da Vinci e Benjamin Franklin eram dados a sair da cama com o dia escuro. Não há estatística confiável do tamanho da parcela da humanidade afeita a seguir nessa toada, distante das oito ou nove horas indicadas para a idade adulta (veja o quadro abaixo) – a novidade é que a ciência começa a entender, mais detalhadamente, o funcionamento do sono curto.

Recentes pesquisas demonstram que, desafiando o lugar-comum, não existe um padrão universal e pode haver propensão genética. Ou seja: cada pessoa tem seu tique-taque interno próprio, um relógio biológico único, intransferível – por isso umas precisam de mais tempo na horizontal e outras, de menos. É descoberta fascinante, que ajuda a responder a uma indagação permanente: por que alguns dormem tão pouco e acordam tão bem e muitos brigam para manter os olhos abertos durante o dia?

Um casal de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, os neurologistas Louis Ptacek e sua mulher, Ying-Hui Fu, parecem ter encaminhado a resposta. Eles identificaram genes atrelados a essa turma para a qual a vigília é a norma. Há uma década, Fu identificou o primeiro marcador genético ligado ao sono curto, mutação que permitia ao cidadão obter em escassas seis horas de sono os mesmos benefícios para a saúde de quem dormia oito horas, sem alteração genômica. Em 2019, Fu e Ptacek descobriram mais dois genes, e acabam de enviar para publicação evidências de uma quarta alteração. Os indivíduos que dormem pouco apresentam sinais evidentes de impulsividade e motivação por recompensas, ferramentas que contribuem, supostamente, para o sucesso profissional. Mas há um ponto ainda intrigante: saber qual o tamanho da população afeita a essa “vantagem competitiva”. Estudos preliminares indicam ser apenas 1% – é, pouco, mas um atalho para vastos campos de avanços em uma área da medicina pouco conhecida, misteriosa.

O que se sabe: dormir muito pouco é sinônimo de problemas de saúde, como o risco de obesidade, distúrbios psiquiátricos, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer. Contudo, insista-se, é uma generalização que começa a ser desmontada. “Há um parâmetro saudável individual”, diz a bióloga Claudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono. “É uma condição que pode ser avaliada de maneira muito objetiva, pela sensação de bem-estar de cada pessoa depois de uma noite de sono, independentemente da quantidade de horas e do período do dia.” Algumas são matutinas, com mais energia no início do dia; outras, vespertinas e gostam de ficar acordadas até tarde. São padrões regulados pelo chamado ritmo circadiano, um ciclo de 24 horas que faz parte do cronômetro interno do corpo – cada qual tem o seu, regido geneticamente, como se verifica agora, mas influenciado por estímulos externos, como luminosidade, clima e temperatura. O marcador de tempo biológico é que dita a liberação de hormônios, como a melatonina e outras substâncias químicas que afetam o sono e a vigília. Muitas das queixas de dificuldade para dormir vêm de pessoas que lutam contra a própria natureza. Na verdade, podem não ter nenhum problema, apenas a expectativa de que precisam repousar por um determinado período de tempo.

Há poucas certezas absolutas – como a de que adolescentes precisam dormir mais tempo (em razão da imensa energia demandada pelo crescimento) e idosos podem dormir menos (um agrupamento neurológico associado aos padrões de sono é “desligado” com o avançar da idade). De resto, há sombras, que começam agora a ser clareadas pela genética do sono. É área em que se debruçam os especialistas, porque dormir é vital e a dificuldade de relaxar, incômodo monumental. No Brasil, 45% dos cidadãos afirmaram, em levantamento recente da Associação Brasileira do Sono, ter tido algum problema relacionado ao sono, sobretudo insônia e apneia. Foi sempre assim e ainda mais durante a pandemia, dado o volume de temores. Não há dúvida, como diz a biomédica Monica Andersen, diretora do Instituto do Sono, de São Paulo: “O sono é o principal termômetro de um cotidiano feliz”. E valerá sempre a frase do escritor Mário de Andrade (1893-1945): “Que coisa misteriosa o sono!… Só aproxima a gente da morte, para nos estabelecer melhor dentro da vida”.

O RELÓGIO QUE AINDA VALE

O tempo necessário, por faixa etária, para o total restabelecimento — embora os cientistas comecem a enxergar predisposições genéticas, evitando generalizações

EU ACHO …

A LIÇÃO DAS PIONEIRAS

As vitórias e, em especial, as derrotas das feministas do século XX têm muito a ensinar sobre a causa

Se você tentar entender o que é ser uma feminista a partir das muitas histórias populares que existem hoje, os livros sobre “mulheres corajosas” ou “mulheres incríveis”, os filmes sobre cientistas negras ou sufragistas brancas, poderia pensar que é uma vida muito simples. Uma vida caracterizada por um senso de destino que se movimenta rapidamente pela clara estrada do progresso. Tenho certeza – espero, de qualquer modo – que muitas ativistas reconhecem esse ritmo em suas vidas.

Eu, nem tanto. Especialmente nos últimos anos, ser politicamente ativa muitas vezes foi como estar perdida em um campo escuro sem uma tocha. Estamos indo para a frente ou para trás? Quem colocou esse diabo de rochedo em nosso caminho? Por que todo mundo está brigando por causa do mapa? Será que alguém tem o mapa?

E foi por isso que me apaixonei pela nova série de tevê Mrs. América. Não são apenas as atrizes carismáticas ou o roteiro inteligente, é a maneira como ela dramatiza o fracasso. Acho que isso não a faz parecer tão interessante, mas, como legiões de fãs podem atestar, ela é.

A autora, Dahvi Waller, resvala nos acontecimentos reais para injetar verdadeiro drama, por exemplo, no furioso fracasso quando Gloria Steinem não conseguiu forçar uma importante votação sobre o aborto na convenção democrata de 1972, ou o fracasso heroico quando a candidatura de Shirley Chisholm à Presidência foi minada por feministas brancas que quiseram ficar ao lado dos homens brancos mais poderosos. Acima de tudo, ela salienta o amargo fracasso que espreita as mulheres idealistas que não conseguiram ver a reação que crescia, uma reação cuidadosamente plantada e cuidada pela líder conservadora Phyllis Schlafly.

Por que preciso tanto disso neste momento? Porque estou cansada das interpretações que passam verniz sobre esses duros desafios. Preciso ver isso reconhecido, que o ativismo político muitas vezes fala de fracasso. De ser abandonada pelos que você pensou que fossem seus aliados, ou reconhecer que você mesma foi uma má aliada ou subestimou todos os seus inimigos.

Ao estruturar a série toda em torno do fracasso das feministas da segunda onda para conseguir a ratificação da Emenda da Igualdade de Direitos, as autoras introduziram um ritmo de maldição. Fracasso, fracasso e mais fracasso perseguem as corajosas e inteligentes feministas de Mrs. América. Assim como fracasso, fracasso e mais fracasso podem estar espreitando os nossos passos hoje. De fato, a série foi claramente desenvolvida com um olhar para o agora, para dar substância a como as populistas de direita se imiscuíram e roubaram o sucesso debaixo dos narizes das progressistas. Por isso aprecio, quase contrariando meus instintos, que essa série dê ao espectador uma compreensão muito mais profunda do que motiva Schlafly e suas seguidoras. Seu desejo de respeito e seu medo de mudanças surgem de maneira quase visceral.

Se os autores simpatizam ou não com elas, não caíram na armadilha da condescendência, e isso parece importante em um mundo em que os ativistas de esquerda muitas vezes rejeitam os nossos inimigos como simplesmente deploráveis. Temos de aceitar nossos fracassos e aprender com eles, de vez em quando. Mas não se trata somente de fracasso. A série também fala, de maneira muito eficaz, sobre onde reside nossa esperança de sucesso – na solidariedade.

Com demasiada frequência, nestes tempos individualistas, colocamos ênfase demais no poder da líder carismática. Aceitamos a ideia de que a maior feminista é aquela com mais seguidores, a voz mais forte, a marca maior. No percurso, o feminismo com frequência foi visto como uma via para a força individual, e não para a mudança política mais ampla.

Mas essa série também nos lembra que nos movimentos políticos cada indivíduo faz parte de uma rede complexa. Cada feminista famosa – Steinem, Chisholm, Bella Abzug, Betty Friedan – é vista aqui, vitalmente, em suas relações com outras, tanto outras mulheres famosas como as menos conhecidas com quem elas trabalham nas conferências, revistas e grupos de trabalho. Vemos como cada uma das heroínas é apenas parte de um1a imagem maior, como elas captam energia umas das outras, como só podem crescer enquanto ecossistema, e não sozinhas.

Isso não quer dizer que a série faz a solidariedade parecer fácil. Ao contrário, ela é honesta sobre as questões insolúveis que dividem essas feministas, particularmente a incapacidade das mulheres brancas de reconhecer a liderança das negras, e a cegueira das mulheres hétero sobre o lesbianismo. E mesmo entre as mulheres brancas hétero há divisões profundas, enquanto elas vacilam quanto a trabalhar pragmaticamente com os políticos ou mais radicalmente contra eles, sobre dar prioridade à reforma ou à revolução. A cultura do cancelamento não é novidade na sororidade. Houve tempos na era das sufragistas e nos anos 1970, assim como hoje, em que as mulheres feministas não suportavam trabalhar juntas mesmo para algo aparentemente tão simples quanto o voto ou a Emenda da Igualdade de Direitos, por causa de suas diferenças.

Os movimentos sempre foram assim: fragmentados, divididos com amargor, cheios de ódio feroz, assim como de amor. Mas, quando as feministas se erguem para cantar juntas acima das divisões na enorme conferência em Houston, no penúltimo episódio de Mrs. América, sua solidariedade reverbera. Poderemos ainda ouvi-la retinir hoje, mesmo que nossas diferenças sejam tão dolorosas que não consigamos nos reunir nas mesmas conferências? Espero que possamos, que continuemos encontrando pontes e momentos de conexão. Só a solidariedade nos permitirá seguir em frente pelos tempos obscuros.

Nosso poder está não só no grito individual por liberdade, mas também na amplificação recíproca de nossas vozes. Mulheres da segunda onda fizeram avançar discussões políticas e culturais, atos, leis e visões que continuam até hoje. Elas muitas vezes falharam, mas às vezes tiveram êxito, e, se formos honestas sobre as primeiras, poderemos ser mais honestas, e talvez mais esperançosas, sobre as segundas.

Elizabeth Banks, Rose Byrne, Tracey Ullman, Margo Martindale, Cate Blanchett, and Uzo Aduba

OUTROS OLHARES

JOGA, FILHO, PODE JOGAR

Antes vistos com desconfiança pelos pais, os games para crianças fazem sucesso ao aliviar a falta de interação social na pandemia

A popularização dos smartphones e dispositivos eletrônicos provocou nos últimos anos uma guerra velada entre pais e filhos. De um lado, os adultos argumentavam que o excesso da tecnologia poderia atrapalhar o desenvolvimento saudável das crianças. De outro, os jovens não queriam perder a nova onda. A bandeira branca chegou com a pandemia: escola, terapia e encontros com amigos passaram a depender, inevitavelmente, da conexão virtual. Nesse cenário, a brincadeira digital também cresceu. De acordo com a consultoria Newzoo, a receita dos jogos virtuais deverá alcançar em 2020 o recorde de 159 bilhões de dólares. No setor mobile, o crescimento será de 13,3%, enquanto consoles terão uma alta de 6,8%. A surpresa é que boa parte dessa subida não se deve aos jogos para adolescentes, como seria de imaginar. Poucos games fizeram tanto sucesso na quarentena quanto o PK XD, da PlayKids, que é destinado para crianças de 8 a 13 anos. Durante a pandemia, o número de jogadores disparou 100%, atingindo impressionantes 25 milhões de usuários ativos por mês.

O resultado se deve a uma combinação de fatores, impulsionados pela natural necessidade de buscar formas de aproveitar o tempo durante a quarentena. Priscila Cavallieiro de Oliveira, mãe da Luiza, de 6 anos, conta que ainda existe uma rotina de tarefas em casa e a limitação de horários para brincar no celular. Com as crianças trancadas dentro de um apartamento, contudo, desconectar-se é um desafio. “Minha filha combina de se encontrar com os amigos no jogo, o que a ajuda a atravessar este momento”, disse Priscila. Entre outras tarefas impostas aos jogadores, o game ensina as crianças a entender o uso do dinheiro, como o ganho de moedas para fazer compras ou trocar mercadorias. “Minha filha está aprendendo desde cedo que precisa economizar”, diz Priscila. “Também há momentos em que ela tem de lidar com o sentimento de frustração.”

O jogo é território aparentemente seguro. De acordo com Breno Masi, diretor de produtos da PlayKids – a empresa integra o grupo Movile, dono do iFood -, três motivos principais explicam a expressiva adesão ao PK XD. “A criança não usa o próprio nome, não há cadastro com foto e o chat ocorre com frases prontas, desenvolvidas por uma equipe de pedagogos”, diz. Além disso, Masi afirma que as crianças podem se expressar de maneira livre e têm a opção de escolher qualquer estilo de roupa, cabelo e a forma como preterem brincar. Por fim, o PK XD é uma espécie de rede social. Com a limitação de contato entre amigos da mesma idade, o ambiente virtual se tornou a melhor forma de manter algum tipo de interação – isso, aliás, também explica a explosão do uso de redes para adultos, como Instagram e Twitter, durante a pandemia.

Para o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do grupo de dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP, a pandemia obrigou a sociedade a rever conceitos, como o número exato de horas dedicadas às telas. “O problema não é a tecnologia, mas o uso que se faz dela”, diz. “Se for para a conexão entre pessoas, será benéfica.” Segundo um estudo recente feito pela Kantar Ibope Media, 56% dos entrevistados afirmaram que a crise do coronavírus ajudou a adotar melhor a tecnologia no dia a dia. Com segurança e consciência, a rotina de confinamento pode ser mais divertida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 08 DE SETEMBRO

CONVICÇÃO INABALÁVEL

… porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia (2Timóteo 1.12b).

O apóstolo Paulo já havia passado por muitos dissabores desde sua conversão no caminho de Damasco. Fora perseguido em Damasco, rejeitado em Jerusalém e abandonado em Tarso. Na primeira viagem missionária, foi apedrejado em Listra; e, na segunda, foi preso e açoitado em Filipos. Na terceira viagem, enfrentou feras em Éfeso; e, ao levar uma oferta para os pobres da Judeia, foi preso em Jerusalém. Seus compatriotas, enfurecidos, resolveram tirar-lhe a vida. Diante da conspiração dos judeus e da covardia do governador Festo, Paulo apelou para ser julgado diante de César, em Roma. Na capital do império, o veterano apóstolo enfrentou duas prisões. Da primeira prisão conseguiu ser liberto, mas da segunda só saiu para o martírio. Mesmo sabendo que a hora da sua morte havia chegado, não se intimidou. Não havia recebido de Deus espírito de medo, mas de poder e moderação. Não tinha medo de morrer, pois sabia em quem havia crido e para onde estava indo. Não caminhava para um patíbulo de morte, mas para a coroação. Com santa ousadia e com audácia inabalável, Paulo escreveu: … sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia. Bendita certeza! Gloriosa convicção!

GESTÃO E CARREIRA

FEIRA PELO WHATSAPP

A rede de quitandas Hortifruti Natural da Terra, que tem mais de 60 lojas na Região Sudeste, internalizou entregas e viu as vendas pelo canal digital crescer mais de dez vezes. A estratégia agora é abrir lojas exclusivas para delivery e acelerar a expansão

O delivery de alimentos entrou na rotina dos brasileiros com a pandemia do novo coronavírus. Até mesmo o segmento de frutas, legumes e verduras, considerado o mais desafiador para as empresas de e-commerce, viu as vendas crescer 240% durante a crise, segundo a consultoria Compre e Confie.

Aproveitando sua experiência, a rede Hortifruti Natural da Terra, que tem mais de 60 lojas na Região Sudeste, acelerou os investimentos em tecnologia e já colhe os resultados: um crescimento de 1.000% na operação de delivery nas primeiras oito semanas de isolamento social. A companhia, fundada há 30 anos no Espírito Santo, é controlada desde 2017 pelo suíço Partners Group. Os primeiros passos em direção à digitalização foram dados no final de 2019, quando a rede fechou parcerias com os aplicativos de entrega Rappi e Supermercado Now. Com o aumento da demanda por causa da pandemia, a Hortifruti assumiu as entregas. De seus 7.000 funcionários, cerca de 1.000 foram alocados no delivery. Os pedidos chegam por WhatsApp, e a entrega é feita por transportadoras. O tempo médio de entrega caiu para menos de 24 horas e o canal digital, que representava 2% das vendas antes da crise, passou a responder por uma fatia de 20% a 25%. ”Temos duas grandes vantagens: fornecedores exclusivos e o fato de nossos funcionários saberem escolher exatamente o que o cliente pede”, diz Thiago Pícolo, presidente da Hortifruti. A estratégia deu tão certo que a empresa decidiu apostar em dark stores, lojas exclusivas para delivery. Com custo de operação mais baixo, elas permitem atender melhor regiões com alta demanda e entrar em novos bairros. Por enquanto, há duas em operação – uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. ”Se funcionar, a ideia é expandir rápido”, diz Pícolo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AUTOCONTROLE NO EMAGRECIMENTO

É mais importante trinar o cérebro do que seguir a dieta ou fazer exercícios físicos

Para emagrecer e manter o peso a longo prazo é mais importante treinar o cérebro do que seguir uma dieta à risco ou fazer exercícios físicos regulares. Qual é o erro mais comum das pessoas que tentam emagrecer?  Acreditar que precisamos trator só o corpo para perder   peso. O médico receita o medicamento, a nutricionista dá a melhor dieta, a pessoa entra na academia e mesmo assim não consegue emagrecer. Isso porque enquanto o corpo está tentando emagrecer sua mente está lutando contra. É a mesma coisa que querer apagar o fogo com gasolina.

É mais importante então treinar o cérebro do que adotar uma dieta específica? Sim. O autocontrole é a raiz de tudo. O cérebro come antes da boca.

Antes de comer, você já planejou, sentiu, salivou. O cérebro de sobrevivência quer que a gente coma o tempo todo para se prevenir da escassez. Já o cérebro emocional quer que a gente coma para fugir de algo ou preencher um vazio. É preciso trabalhar para dominar esse inconsciente e ter controle sobre os alimentos. Precisamos criar uma blindagem emocional, para que a pessoa seja capaz de dizer não quando lhe oferecem um doce. As pessoas sempre vão oferecer comida, você vai num jantar ou festa, vai continuar em sociedade. É impossível dominar as variáveis externas. Você só vai emagrecer se tiver um controle interno sobre o meio externo. O meio não vai mudar, não tem como tirar tudo da sua frente, você que precisa mudar.

Por que é tão difícil resistir às tentações? Nosso cérebro inconsciente sempre opta pela economia de esforço. Procuramos o caminho mais fácil em tudo, a indústria sabe disso e facilita nossa vida com alimentos prontos. Para mudar, temos que procurar o cainho mais difícil. O hábito é como se fosse uma estrada de terra. Quanto mais você passa por ela, mais funda e mais larga ela fica. Para criar um novo hábito você precisa formar uma nova estrada, achar um novo caminho, ainda cheio de obstáculos. E isso tem que ter uma primeira vez. É aí que o coach entra, ensinando a pessoa o construir novas estradas neurológicas com prática e repetição. Com o tempo, o cérebro acaba se esquecendo do caminho antigo e optando pelo novo. As pessoas se fazem diariamente a pergunta: por que não consigo emagrecer? Essa foi a pergunta que mais ouvi durante minha vida profissional. A resposta está no inconsciente. Sem saber disso, a pessoa não vai conseguir emagrecer.

EU ACHO …

A EVOLUÇÃO HUMANA

Nas previsões sobre o futuro, é comum falar apenas dos aprimoramentos tecnológicos. Mas precisamos considerar também o desenvolvimento das pessoas

Todos os dias somos bombardeados com informações a respeito do futuro de todas as coisas. Estamos inseridos em discussões infinitas sobre como a era da inteligência artificial, da robótica, das realidades imersivas, da internet das coisas, do block chain e da poderosa computação quântica transformará totalmente nossa sociedade.

O principal impacto será na economia. O futuro das trocas financeiras, do trabalho e das relações (sejam elas pessoais, governamentais ou corporativas) sofrerá profundas e potentes mudanças.

Muitos especialistas afirmam que essas tecnologias tornarão as pessoas “desempregáveis”. Mas essas declarações só geram medo e confusão. O que não se explica é que os empregos que desaparecerão serão os que estiverem diretamente conectados com atividades repetitivas da hard economy, ou “economia dura”- cujo modelo vem da Revolução Industrial 3.0, que era baseada na escassez, no comando, no controle e na pouca possibilidade de os profissionais criarem algo que fugisse do escopo das atividades predefinidas. Os humanos eram simplesmente os recursos de uma linha de produção num mundo mais lento e dividido em caixinhas. Esse mundo ficou no passado.

Os desafios de um planeta Vuca (acrônimo em inglês de quatro características marcantes que descrevem o momento que estamos vivendo: volatilidade incerteza, complexidade e ambiguidade) não podem ser atendidos com as fórmulas econômicas da Revolução 3.0. Quando analisamos o progresso tecnológico, que é a base da atual (r) evolução, verificamos que a tecnologia é neutra. Será o uso dela que determinará quais tipos de futuro cocriaremos – que podem ir de desejável a distópico, dependendo de nossas ações.

Do encontro da internet com os dispositivos móveis, economias digitais e criativas se tornaram realidade, e a transformação digital virou um mantra. Mas estamos às vésperas de receber, em massa, tecnologias muito poderosas. Serão elas que nos libertarão dos trabalhos nos quais somos usados como máquina. Isso trará a possibilidade de viver de acordo com novas dinâmicas. É a Economia 4.0, que pode ser definida como digital, criativa acessível, confiável e compartilhada. Desse conjunto de características nascerá a soft economy, ou, como muitos gostam de nomeá-la, “economia sutil”.

É importante entender que, com a tecnologia conectando cada vez mais pessoas globalmente em redes sem intermediários, não só as máquinas estão sendo desenvolvidas mas também os humanos.

Por isso, ao pensar no futuro, é preciso colocar na balança, ainda, a evolução das pessoas. Só assim poderemos traçar cenários mais complexos sobre o trabalho, os relacionamentos, a alimentação, o entretenimento e as religiões. Só assim as pessoas poderão construir mapas para a própria evolução, entendendo que o humano é o protagonista dos progressos sociais da tecnologia.

LIGIA ZOTINI – pensadora e pesquisadora de futuro, é fundadora do Voicers. Tem uma carreira de 15 anos em tecnologia e de 20 anos em educação. ligia@voicers.com.br

OUTROS OLHARES

ONDE TUDO É PERMITIDO

Em ascensão nos EUA a rede social Parler admite todo tipo de postagem – até fake news. Liberdade para publicar qualquer coisa atrai políticos, empresários e influenciadores digitais

As redes sociais surgiram com o nobre propósito de aproximar pessoas, estimular o livre debate de ideias e garantir a qualquer um o direito de expressar valores e sentimentos. De uns tempos para cá, porém, elas se tornaram um campo minado. Em certos grupos, opiniões foram substituídas por xingamentos, o bom senso deu lugar ao ódio e o respeito desapareceu para abrir caminho ao escárnio. Como não poderia deixar de ser, a nova realidade traduziu-se em todo tipo de postagens, inclusive manifestações que flertam com a intolerância e o preconceito. Em resposta a esse movimento, plataformas como Twitter e Facebook começaram a bloquear publicações consideradas abusivas. Mas isso suscitou outra questão: as redes sociais estariam pregando a censura? Em meio à inevitável polêmica, uma nova rede social vem ganhando adeptos com a promessa de garantir liberdade de expressão a seus usuários e abrir espaço para mensagens que jamais serão censuradas – mesmo que elas sejam visivelmente controversas.

Trata-se do Parler (falar, em francês), rede social criada em 2018 pelo programador americano John Matze. Dois anos depois de nascer, ela está em plena ascensão graças, sobretudo, aos apoiadores de Donald Trump, que migraram em massa para a plataforma depois que o Twitter passou a moderar com regularidade os posts do presidente americano, acusando-o de propagar fake news. Outro fator decisivo foi uma decisão tomada pela rede social Reddit, que baniu em junho uma seção do site com 750.000 seguidores que era dedicada à criação de memes em favor de Trump. Ações como essas revoltaram os usuários das redes convencionais, levando-os a buscar alternativas para propagar suas ideias. O Parler fisgou a oportunidade, oferecendo exatamente o que os incomodados procuravam: liberdade para escrever o que bem entenderem.

Não demorou para que brasileiros bloqueados pelas regras cada vez mais rígidas do Twitter e Facebook aderissem à debandada. Estão cadastrados no Parler o presidente Jair Bolsonaro e dois de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro, além do guru da família, Olavo de Carvalho. Flávio anunciou a criação de sua conta no Parler pelo próprio Twitter: “Siga-me no Parler, a rede social que tem como prioridade a liberdade de expressão”, tuitou o Zero1, ao comandar a revoada conservadora para a rede. Se comparado aos 3 bilhões de usuários do Facebook ou aos mais de 330 milhões do Twitter, o Parler tem uma base de usuários modesta. Mas ela cresce rapidamente: de janeiro a julho, o número de adeptos dobrou, chegando a 13 milhões de pessoas. O atrativo para os bolsonaristas foi reforçado depois que o Twitter e o Facebook deletaram perfis acusados de disseminar fake news. No dia 8 de julho, a rede de Mark Zuckerberg removeu 88 contas e perfis falsos que, segundo a empresa, estavam organizados para gerar desinformação e enganar usuários na plataforma. Em 24 de julho, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), influenciadores de direita, entre eles os blogueiros Bernardo Kiister e Allan dos Santos e o empresário Luciano Hang, tiveram seus perfis no Twitter bloqueados para acessos vindos do Brasil. Para onde migraram? Todos foram para o Parler.

Na tentativa de trazer diversidade de ideias para a nova rede social, o fundador John Matze anunciou o pagamento de 20.000 dólares a personalidades com mais de 50.000 seguidores em redes sociais que defendessem políticas à esquerda e topassem se juntar à plataforma. Ninguém aceitou a proposta. “Nunca tivemos o objetivo de ser pró-Trump”, disse Matze. Seja como for, a verdade é que o Parler avança, mas transita por um caminho tortuoso: sob o pretexto da liberdade de expressão, permite que discursos odiosos tenham vez.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 07 DE SETEMBRO

CORRUPÇÃO, UM CÂNCER SOCIAL

Respondeu-lhes [aos publicanos]: Não cobreis mais do que o estipulado (Lucas 3.13).

A corrupção é um câncer que está matando a sociedade brasileira. As famílias sentem-se exploradas pela corrupção endêmica e sistêmica dos poderes constituídos. Pagamos os impostos mais altos do planeta, e vemos pouco retorno. Somos a sexta maior economia do mundo, e temos uma das mais perversas distribuições de renda conhecidas. Somos uma nação rica e um povo pobre. Nossos recursos caem no ralo da corrupção. Os partidos políticos perderam sua ideologia e servem apenas para lotear o poder e facilitar a roubalheira. Entram governos e saem governos, mas a inclinação criminosa da corrupção continua como parasita, devorando os recursos destinados à saúde, à educação, à segurança e ao progresso. Neemias, governador de Jerusalém, mostrou que é possível ser um político íntegro. Por causa do seu temor a Deus e do seu amor ao povo, ele não roubou os cofres públicos nem permitiu que os escalões do seu governo roubassem. Quando homens avarentos e corruptos sobem ao poder, o povo geme, as famílias são roubadas e a injustiça campeia. Deus abomina a riqueza mal adquirida. Deus abomina a opressão. Devemos posicionar-nos firmemente contra toda espécie de corrupção, seja no governo, na igreja ou na família.

GESTÃO E CARREIRA

DIAMANTES NO DESERTO

Com a criação do polo conhecido como Silicon Wadi, uma espécie de Vale do Silício, Israel se afirma como referência na indústria da inovação

Vales marcados pela intensa aridez parecem ter se tornado ambientes ideais para o florescimento de frutos típicos do século XXI: os produtos tecnológicos. O maior centro de inovação do planeta se encontra em uma região seca da Califórnia. Todos os anos o Vale do Silício concentra 50 bilhões de dólares de investimentos de alto risco, usualmente destinados a startups – quase metade do montante movimentado dentro dos Estados Unidos -, além de 15% da produção de patentes deste país. A renda média de um morador da região ultrapassa os 110.000 dólares (em torno de 460.000 reais). Amais de 10.000 quilômetros de distância de lá no Oriente Médio, o Deserto de Negueve, em Israel, vê crescer, sobre seu solo abrasador, um complexo industrial que põe o território em disputa direta com a cidade chinesa de Shenzhen pelo posto de segundo maior polo de inovação do mundo. O oásis tecnológico leva o nome de Silicon Wadi (em hebraico, wadi significa vale). Nele proliferam companhias de ponta, que se espalham ainda pela costa litorânea nos arredores de Tel-Aviv, fazendo dessa pequeníssima nação com menos de 10% da área do Estado de São Paulo e população pouco maior que a da cidade do Rio de Janeiro, um sinônimo de progresso.

A flora de Wadi é composta de 8.400 companhias do setor; a cada ano, outras 1.000 se somam a elas. Na última década,1.210 startups daquele mínimo pedaço do globo foram adquiridas por multinacionais de peso, em acordos que superaram o valor total de 110 bilhões de dólares. “Foi por isso que passamos a ser apelidados de “startup Nation” (Nação Startup), disse, em pleno Silicon Wadi, o cientista político Israelense Ran Natanzon, cujo cargo no governo soa melhor em inglês: head of innovation & country branding (algo como “líder de inovação e marca no país) do Ministério de Relações Exteriores. “Israel é a única nação a ter uma função pública dessa natureza, destinada a promover a indústria tecnológica, o que revela como estamos à frente nesse aspecto”, comentou ele.

Como Israel transformou um deserto árido em centro de inovação mundial? Responde Natanzon, especialista em vender tal faceta do país: “Trata-se de uma combinação dos seguintes fatores, todos igualmente essenciais: somos uma nação altamente militarizada; mantemos à indústria em ligação com as pesquisas acadêmicas, o governo atua para fomentar o setor, há operação ativa de fundos de investimentos e multinacionais; e existe uma proliferação de startups”.

“Todo israelense, homem, ou mulher, é obrigado a servir no Exército ao completar 18 anos. O que não quer dizer, no entanto, que o contingente completo vá para a linha de frente. Há, por exemplo, uma unidade a 8.200 integrante do Corpo de Inteligência das Forças de Defesa, cujos membros se dedicam a decifrar códigos de computador. “Essa tropa fornece veteranos hábeis em trabalhar com segurança de dados digitais e em outras áreas do mercado da tecnologia, explicou o engenheiro israelense Lavy Shtokhamer, ele mesmo um oficial reformado da 8.200. “Saem preparados para trabalhar em postos cujos salários são altíssimos.”

Shtokhamer chefia o Cert (Time de Resposta Cibernética Emergencial, na tradução da sigla), uma divisão que mescla agentes ligados ao governo e representantes de empresas parceiras, como a IBM em ações contra ataques de hackers que têm como alvo Israel, ou, como vem sendo mais frequente sistemas de companhias privadas. “Monitoramos criminosos virtuais pelo mundo afora e trocamos informações com governos e multinacionais em um momento no qual tem sido determinante defender-se de assaltos digitais”, resumiu o engenheiro.

Na sede do departamento, onde só se pode ingressar sem dispositivos eletrônicos – nem mesmo celular -, funcionam um pioneiro número de emergência, disponível para qualquer israelense pedir socorro quando acredita ter sido hackeado e programas de defesa cibernética focados em setores específicos, como o de telecomunicações e o financeiro. A rede de proteção serve tanto a companhias nacionais e estrangeiras quanto a uma coligação de 36 países, incluindo o Brasil. “Há poucos meses detectamos e repetimos uma tentativa de desativar todo o fornecimento energético de nossa nação”, revelou o Ministro de Energia de Israel, Yuval Steinitz, em apresentação na conferência de cibersegurança Cybertech, que ocorreu na última semana de janeiro em Tel-Aviv.

Asede do Cert está localizada em uma cidade que é exemplo máximo da transformação pela qual passou Israel para se tornar referência tecnológica. Até novembro de 2011, Be’er Sheva era mais célebre por ter sido apontada como palco de diversas cenas bíblicas, servindo de lar a patriarcas das religiões abraâmicas, como Isaac e o próprio Abraão. Escavações arqueológicas no local revelam que as primeiras ocupações humanas datam do século IV a.C. Na última década, o governo de Israel investiu em Be’er Sheva mais de 10 bilhões de dólares, e outros 400  milhões vieram do setor privado para construir uma série de prédios e centros de pesquisas, com foco, principalmente em ações de cibersegurança. Pelos corredores dos edifícios, rodeados de canteiros de obrais em andamento observam-se quadros que exaltam inovações realizadas no território israelense. “Grande parte das empreitadas tem início em projetos governamentais, que, depois, acabam por fornecer componentes de produtos do setor privado”, observou Shtokhamer enquanto apontava uma tela com descrições do Domo de Ferro o avançadíssimo sistema de defesa antiaérea desenvolvido pela empresa local Rafael, cujo faturamento supera os 2,3 bilhões de dólares por ano.

“Como a Startup Nation”, viramos especialistas em criar negócios novíssimos para depois vendê-los a multinacionais, sobretudo as americanas. Agora é o momento de progredirmos para uma “Scale-up Nation”, afirmou Udi Mokady, fundador e CEO da Cyber Ark, que desenvolve softwares de segurança digital para 5.000 clientes, incluindo 30% das 200 marcas mais valiosas em âmbito planetário. Scale-up – do inglês “ampliação” – é o termo usado na área para indicar quando uma startup em vez de ser adquirida por uma companhia maior, opta pelo crescimento por conta própria. Em Israel, um exemplo famoso do modelo mais vigente até agora é a Waze, fundada em 2008 e adquirida cinco anos mais tarde pela americana Google por 1,15 bilhão de dólares.

Para Mokady está na hora de as novatas pararem de se vender aos gigantes estrangeiros. Ele fala com propriedade. Criada em1999, a CyberArk recebeu uma série de ofertas contudo recusou todas e decidiu ingressar na bolsa de valores nova-iorquina Nasdaq. Hoje, vale cerca de 5,5 bilhões de dólares. “Por sermos algo como uma pequena ilha, de população reduzida no meio do deserto, nossas startups já nascem com foco no mercado global. O segredo aqui é pensar grande”, conclui Mokaday, os olhos mirando longe, através da janela de uma sala voltada para Petah Tikva, perto de Tel­Aviv, no prédio em que está seu escritório. A empresa já conta com um Q.G. em Massachusetts (EUA) e em breve estreará suas operações em Be’er Sheva – um vale de fertilidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A GENÉTICA DO AMOR

Pesquisadores identificam variação no DNA que está associada à capacidade de demonstrar afeto. A descoberta abre caminho para a ciência decifrar a vida a dois

“Apaixonar-se por alguém está longe de ser a maior bobagem que as pessoas podem fazer – mas a força da gravidade não pode ser responsabilizada por isso.” A frase, do físico alemão Albert Einstein (1879-1955), mostra como o amor, e as relações que fazem com que o sentimento floresça entre os apaixonados, permeia todos os campos, desde o trabalho do mais famoso dos cientistas até o subjetivo mundo das artes, como longas-metragens açucarados, extensos capítulos de romances e a composição de canções que se tornam trilhas sonoras de uma vida a dois. O beijo emoldurado pelo pôr do sol que ilustra esta reportagem pode ser apenas uma cena piegas para alguns, mas para os enamorados ela surge como uma lembrança de suas próprias paixões. Na vida real, o que explica aquela sensação de frio na barriga quando realmente gostamos de alguém? O que está por trás dos corações apaixonados? Por mais que as respostas para essas perguntas sejam na maioria dos casos inconclusivas, a ciência traz algumas pistas. Além de particularidades emocionais e psicológicas de cada um, como resultado do acúmulo de experiências ao longo da vida, a facilidade ou a dificuldade para se relacionar afetivamente com outra pessoa podem estar associadas ao DNA.

Pela primeira vez, pesquisadores canadenses identificaram a presença de uma variável genética no gene CD38 como fator que torna mais natural a habilidade de demonstrar afeto e apoio ao parceiro, assim como ter uma percepção mais positiva sobre as ações dele. Em contrapartida os voluntários com outras variante genéticas tiveram mais dificuldade para demonstrar afeto de forma natural e espontânea.

A explicação pode estar relacionada a traços evolutivos que garantiram a própria continuidade da espécie “Relações próximas são decisivas par a sobrevivência humana”, diz a psicóloga canadense Jenifer Bartz, da Universidade McGill. “Os mecanismos biológicos podem ter se desenvolvido em humanos para favorecer a criação de vínculos.” É sabido que o bem-estar proporcionado por relações amorosas contribui para a saúde e até para o aumento da expectativa de vida dos indivíduos. Em outros animais, como roedores, estudos já haviam comprovado que a ocitocina, liberada pelo CD38, tem um papel relevante na conexão entre aqueles animais. Agora, os pesquisadores mostraram a mesma relação entre humanos.

Para coletar os dados, 111 casais participaram do estudo. Cada pessoa completou um formulário separadamente, com a orientação de não discutir as respostas com o parceiro. Os casais selecionados estavam juntos há no mínimo seis meses, não tinham crianças morando no mesmo lar e possuíam emprego fixo. Durante o período da pesquisa, os participantes descreveram até três interações diárias de ao menos cinco minutos com o parceiro. Para identificarem as nuances, os cientistas indicaram alguns comportamentos, como “sorri e dei risada”, “fiz um comentário sarcástico”, “pedi que o outro fizesse algo”, ou “eu cedi”. A noção de afeto foi medida de acordo com sentimentos negativos, como frustração, raiva e tristeza, e positivos, como felicidade, satisfação e diversão. Todos os participantes fizeram testes de DNA, e assim as informações foram cruzadas para identificar a predominância de determinada variação genética em certos tipos de comportamento.

Outros estudos também encontraram evidências entre características genéticas e o amor. Pesquisadores da Universidade de Pequim elucidaram a relação entre variantes do gene 5-HTLA e o estado matrimonial de seus portadores, concluindo que há uma relação significativa entre portar a forma genética CC e estar em um relacionamento duradouro. Ou seja: existem evidências científicas entre características biológicas e a probabilidade de ter um parceiro amoroso sério. Para a ciência, está muito claro que as variáveis genéticas são pequenas peças dentro de um enorme quebra-cabeça sobre a complexidade das relações interpessoais. O estudo canadense, por exemplo, mostrou que, além da maior facilidade para se conectar com outras pessoas, indivíduos com a variação CC se sentiram mais satisfeitos com a própria relação. Já aqueles com as características AA ou AC podem agir da mesma maneira, mas o processo não é tão espontâneo.

Além do risco de buscar uma explicação única para aquilo que atormenta as pessoas que tiveram o coração partido (afinal, por que meu romance não deu certo?), há uma discussão ética sobre a possibilidade de fazer testes genéticos em indivíduos que queiram encontrar sua cara-metade. No futuro, será que os aplicativos de encontros amorosos vão incluir informações genéticas ao lado dedados como profissão, preferência musical e hobbies? É improvável. O histórico das pessoas e as condições de vida interferem nas relações, inquestionavelmente. De forma prática, ter a informação sobre uma característica genética que traz efeitos positivos pode ser um norte para auxiliar os apaixonados. Mas isso não é tudo. Com ou sem os resultados sobre o DNA, o companheirismo e a parceria são elementos definidores para o sucesso no amor. E que seja infinito enquanto dure.

EU ACHO …

A IDADE SEM NOME

O velho conceito de velhice já não se aplica nos dias de hoje

Quando eu era criança, alguém de 60 anos era considerado “velho”. Minha avó só vestia roupas escuras, meu avô sentava-se numa cadeira o tempo todo, simplesmente esperando a vida passar. Aposentadoria era a regra: os chamados velhos dedicavam-se aos netos, filhos. A velhice era vista como um tempo amorfo, entre o fim da vida profissional, a doença e a morte. Tudo mudou. Outro dia, vi uma referência a uma clínica para idosos. Espantei-me. Eu já seria candidato a uma vaga! Essa possibilidade nunca havia passado pela minha cabeça – e continua não passando. Assim como para a maioria dos meus amigos. Caso de Analívia, que desde os 15 anos faz um trabalho de dança inovador e dedica-se a dar palestras nas principais cidades do mundo. Outro amigo dos tempos da escola, Raul, dá aulas de pilates! Minha vizinha, aos 70, oferece aulas de meditação, caminha todos os dias, e tem um namorado boa-pinta. Outro vizinho fala seis línguas e se dedica ao comércio exterior. Todos acima dos 60. Nenhum, eu inclusive, quer deixar de trabalhar.

Por sinal, é uma pergunta que parentes mais jovens fazem frequentemente: “Você não quer descansar?” Acho até divertida. Parar, eu? Se fosse descansar, escreveria, o que já faço como atividade principal.

São pessoas que se recusam a “envelhecer”. Estão em uma nova fase da vida, que vai dos 60 aos 80 e mais. Graças também aos avanços médicos. As etapas da existência só foram diferenciadas pela humanidade ao longo do tempo. O entendimento da adolescência só seria consolidado no século XX.

Ainda vai surgir um nome para essa nova fase que vivemos hoje, que não é nem velhice nem terceira idade. Os sessentões e oitentões da atualidade eram adolescentes e jovens na década de 60, tiveram contato com a contracultura e também com os movimentos de esquerda não tradicionais. Não enxergam a idade como seus pais e avós enxergavam. Cuidam do corpo, entram em cursos. Namoram. Boa parte possui uma vida profissional de que gosta – portanto, nem pensar em aposentadoria. Quem se aposentou trata de desfrutar a vida. Quando passeiam ou viajam com os filhos, estão na condição de amigos, companheiros. Muitos querem iniciar algo novo. O precursor dessa tendência talvez tenha sido o próprio Roberto Marinho, que botou a Rede Globo no ar quando tinha 60 anos – idade em que muitos empresários de seu tempo já estavam pendurando as chuteiras.

Falo de pessoas que nasceram antes do advento do computador pessoal, do celular… Mas que hoje sabem o suficiente para trocar e-mails, WhatsApps, assistir a filmes no streaming… Ou seja, estão incorporadas ao universo tecnológico. Talvez as pessoas só se considerem idosas quando os outros as veem como idosas. Não vou falar de plásticas e outros procedimentos – elas fazem também, é claro. E daí?

Em algum momento, essa nova etapa da vida após os 60 e sei lá, além dos 80, vai receber um nome, como a adolescência recebeu um dia. Por enquanto, apenas sabemos que a palavra “velho” não serve mais para definir essas pessoas. Eu digo por mim: os 60 são os novos 40.

***WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

QUANDO A GRAVIDEZ É UMA TRAGÉDIA

O caso da menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio traz de volta o debate sobre o aborto — um tema em que o Brasil avançou pouco nas últimas duas décadas

Em meio ao enfrentamento de duas enormes crises, a sanitária e a econômica, ficou um pouco fora de cena outro drama nacional da atualidade, o do retrocesso civilizatório. De combate não menos urgente, essa onda obscurantista que vem avançando nos últimos anos tem múltiplas facetas, começando no nível folclórico do terraplanismo e adquirindo um nível perigoso quando ajuda a insuflar temas como a nostalgia do autoritarismo. No campo comportamental, não é diferente. Nos últimos dias, o país viu com estupefação outro exemplo desse fenômeno preocupante e que mostra como o Brasil está parado no tempo no debate sobre um tema crucial: a descriminalização do aborto. Para ter direito a um dos poucos casos em que a lei permite a interrupção da gravidez, uma garota de 10 anos, abusada em casa pelo próprio tio, enfrentou uma autêntica via-crúcis. Não bastasse o ataque violento e repugnante, a menina e a avó paterna, que a acompanhava, como se fossem elas as criminosas, tiveram de agir na clandestinidade para driblar as pressões de grupos religiosos e as dificuldades encontradas na rede de saúde pública de seu estado, o que as obrigou a viajar 1.630 quilômetros em busca de atendimento. Para entrar com segurança no hospital, a criança foi colocada dentro do porta-malas de um carro. Saiu de lá também escondida. O horror, o horror.

O abusador acabou sendo preso em 18 de agosto, e uma corrente de solidariedade vem se fortalecendo para ajudar a garota a superar o trauma. Nada disso, no entanto, apaga o fato de o caso mostrar com clareza quanto o Brasil segue nas trevas no que diz respeito a esse tema. Na verdade, flerta até com um retrocesso. Mesmo cientes de que a vida da menina de 10 anos corria risco, vozes continuaram se levantando para condenar a vítima após o procedimento. “Crime hediondo”, classificou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Walmor Oliveira de Azevedo, ao se referir ao aborto legal realizado no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, no Recife.

Questões éticas, morais e religiosas emperram um debate racional e maduro. O avanço na discussão não implica em banalizar esse procedimento – nem mesmo referências nacionais mais progressistas e liberais defendem isso, caso do ministro Luís Roberto Barroso, do STF. “O Estado e a sociedade devem procurar evitar que ele aconteça”, disse ele, em nota enviada por sua assessoria à reportagem. “Mas criminalização é uma má política pública e que penaliza, sobretudo, as mulheres mais pobres, que não podem utilizar o sistema público de saúde”, completou. Em outros termos, ninguém quer o aborto, mas ele é um mal necessário para debelar um flagelo de saúde pública. Estima-se que 1 milhão de interrupções de gravidez sejam feitas no país por ano, dessas, apenas 1. 700 pelas vias legais. Em consequência disso, ocorrem quase trinta hospitalizações por hora provocadas por complicações de abortos clandestinos, como as infecções. Negras, menores de 14 anos e de família de baixa renda compõem a maior parte do grupo das mulheres que mais precisam recorrer ao aborto realizado de forma insegura. A falta de condições mínimas de higiene ou de cuidados, muito comuns nessas circunstâncias, pode deixar sequelas permanentes e até levar à morte. Entre os danos mais frequentes, estão sangramentos, esterilidade, perfurações no útero e lesões no intestino. “A realidade é que muitas mulheres já interrompem suas gestações todos os anos, nas piores condições”, diz o ginecologista Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos sobre o Aborto.

O drama que colocou esse tema novamente no centro do debate nacional é a soma de uma série de tragédias. Assim como milhares de adolescentes no país, a garota capixaba de 10 anos é fruto de uma família desestruturada – a mãe moradora de rua e usuária de drogas não apareceu nem na sua certidão de nascimento. Não se sabe sequer se está morta ou se continua desaparecida. O pai encontra-se preso desde 2014, condenado a dezesseis anos por homicídio. Dessa forma, a criança foi criada pela avó – uma senhora que labuta de domingo a domingo puxando o carrinho de coco e bebidas numa praia ao norte do Espírito Santo.

Nos últimos meses, ela notou que a neta, uma garota estudiosa, andava mais quieta que o normal. Achou que podia ser por causa da falta da escola, fechada na quarentena. Quando constatou o atraso na menstruação da garota, a avó tentou agendar uma consulta, mas os hospitais só estavam atendendo emergências por causa da Covid-19. No dia 7 de agosto, no entanto, a menina começou a sentir fortes dores abdominais e foi levada a um pronto-socorro. A equipe médica estranhou a barriga protuberante, fez um exame e descobriu a gravidez de cinco meses. Foi um choque para todos. Virou uma barbaridade quando em um depoimento a um assistente social e uma psicóloga ela contou que vinha sendo estuprada e “ameaçada de morte” pelo tio fazia anos. Segundo as investigações policiais, ele ajudava a avó da garota na barraca da praia e sempre arrumava um pretexto para ir à casa dela recarregar as mercadorias – nesses momentos, aconteciam os abusos.

Informada da ocorrência, a polícia entrou em ação, mas, quando chegou à casa do suspeito, ele já havia sumido. Viajando de ônibus, o abusador passou por Bahia e Minas Gerais. Ali, em Betim, no interior do estado, sem dinheiro e temendo ser linchado, decidiu se entregar. Ele já havia sido preso, em 2011, vendendo maconha. Estava em liberdade desde 2018. “No caso do estupro da menor, não temos dúvidas sobre sua culpa”, diz o delegado Icaro Ruginski. A própria família ajudou com informações para capturá-lo e se disse “aliviada” pela prisão. A sua mulher, com quem tem dois filhos pequenos, que custeou os honorários dos advogados do seu processo por tráfico, recusou-se a fazer o mesmo com o de estupro. À polícia, ele confessou sem remorsos que mantinha um relacionamento com a menina desde 2019 – segundo o abusador, de forma “consentida” e frequente”, o que, mesmo se fosse verdade, já seria considerado estupro pela lei.

Como se a catástrofe do episódio em si já não fosse suficiente, houve em paralelo uma outra calamidade: a exploração política do caso. A casa da avó da menina virou ponto de romaria de religiosos. A idosa chegou a desmaiar por mais de uma vez. Um pré-candidato a vereador da cidade gravou a si próprio rezando dentro da residência como forma de criar material para sua campanha. Conhecida por ser uma ferrenha militante antiaborto, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, despachou dois assessores para lá, segundo ela, com o objetivo de “conhecer detalhes das investigações”. Ex-assessora da ministra, a extremista Sara Winter divulgou criminosamente o nome da menina e do hospital onde ela faria a operação. Apesar de todas as pressões, a avó manteve a posição de apoiar a interrupção da gestação. “Era também o desejo da neta e do pai”, afirma Elida Joana, advogada do pai e próxima da família. O tratamento ocorreu em meio a um grande tumulto. Cerca de 200 pessoas apareceram na porta do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, muitas delas com terços nas mãos e camisetas com frases antiaborto. Não se ouviram protestos contra o estuprador.

Não por acaso, a influência religiosa é certamente o maior entrave para que o aborto seja descriminalizado no país. No governo de Jair Bolsonaro, que se elegeu presidente com apoio dos principais líderes evangélicos, a oposição a toda e qualquer forma de aborto ganhou força em termos institucionais. No Congresso, onde fanatismos ideológicos assumem muitas vezes o lugar da razoabilidade, senadores desengavetaram uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), de autoria do ex-senador e cantor evangélico Magno Malta, para explicitar na Carta Magna que o direito à vida é inviolável desde a concepção. A proposta, se aprovada, poderia proibir o aborto até nos casos de estupro e de risco à vida da mãe, que já são autorizados hoje. Antes mesmo de a PEC ser debatida, houve uma forte reação da sociedade, com destaque para manifestações feministas nas ruas de algumas capitais. Há tempos, aliás, as mulheres têm assumido posições públicas importantes sobre o assunto, na defesa do direito ao próprio corpo. Publicada em 1997, uma reportagem trazia depoimentos corajosos de mais de uma dezena de personagens, entre famosas e anônimas, assumindo que haviam feito o aborto. Uma delas, a atriz Cissa Guimarães, hoje com 63 anos, lamenta que nada tenha mudado desde então. “Obviamente, demos passos para trás”, afirma. “O número de estupros aumentou, o feminicídio aumentou… Voltamos para a Idade Média.”

Na direção contrária à de alguns setores retrógrados do Congresso, o STF tem se destacado como um farol da razão nesse debate, iluminando avanços. Em abril de 2012, a Corte determinou por 8 votos a 2 que o aborto também deve ser autorizado em caso de anencefalia do feto. Quatro anos mais tarde, a Primeira Turma concedeu um habeas-corpus contra a prisão preventiva de médicos e funcionários de uma clínica de aborto, considerando que o procedimento realizado até o terceiro mês de gestação não configurava crime. Neste ano, o STF analisou uma ação que pedia a concessão do direito à interrupção da gravidez nos casos em que a mãe contraía o zika vírus, doença que pode provocar a microcefalia no feto. Relatora do caso, a ministra Carmen Lúcia decidiu que não deveria haver julgamento por questões processuais e rejeitou a ação sem entrar no mérito. Ela foi acompanhada pela maioria dos colegas, incluindo Luís Roberto Barroso, que fez ressalvas ao concordar. “Deve-se ter profundo respeito pelo sentimento religioso das pessoas, o que torna plenamente legítimo ter posição contrária ao aborto, não o praticar e pregar contra a sua prática. Mas é perfeitamente possível ser simultaneamente contra o aborto e contra a criminalização”, escreveu ele em seu voto.

Ao enquadrar no Código Penal uma decisão de foro íntimo de cada mulher, o Brasil segue na contramão dos países desenvolvidos. Na maior parte deles, o aborto é legalizado. Na América Latina, o Uruguai liberou o procedimento em 2012 e a Argentina começou a discutir no começo do ano um projeto nessa linha, mesmo sendo uma nação sob forte influência católica e terra do papa Francisco. O Brasil só não tem legislação mais restritiva que um grupo de 26 países nos quais a interrupção da gestação é proibida sob qualquer aspecto, sem exceção. Haiti, Jamaica e Madagascar, entre outros, fazem parte desse bloco. Para chamar a atenção para esses casos e oferecer atendimento, a ONG holandesa Women on Waves fazia abortos em uma embarcação próximo à costa de nações onde a prática é criminalizada.

Como mostra o caso da garota capixaba, nem a garantia legal para abortar em determinadas situações assegura o respeito e o pronto atendimento às mulheres no Brasil. O Hospital Pérola Byington, em São Paulo, uma das maiores referências no grupo das cerca de sessenta instituições de saúde que fazem o procedimento, realizou 560 interrupções de gestação apenas no ano passado. A taxa é 30% maior em relação ao ano anterior, para se ter uma ideia. O Pérola recebe pacientes de todas as partes do estado e do país, muitas delas combalidas depois de terem tentado soluções caseiras para interromper a gravidez, como o uso de instrumentos perfurantes. Outras haviam encarado sucessivas respostas negativas para abortar (inclusive de médicos de centros autorizados). “A situação é alarmante. A primeira violência que essas vítimas sofrem é o estupro, a segunda é a falta de auxílio de um profissional”, diz André Luiz Malavasi, coordenador da área da saúde da mulher da instituição. “Chegam aqui mulheres que passaram por cinco, seis endereços. E não receberam atendimento.”

Mesmo com uma decisão judicial favorável à interrupção de sua gravidez, a garota capixaba cujo drama comoveu o país foi recusada no Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), ligado à Universidade Federal do Espírito Santo. A diretoria do local alegou não ter estrutura para fazer o procedimento. No Recife, o aborto legal acabou sendo coordenado pelo obstetra Olímpio Moraes Filho. “Ela voltou a sorrir no dia seguinte à cirurgia”, conta o médico. Antes de sair de lá, a menina recebeu inúmeros presentes: roupas, sapatos, livros, brinquedos, flores, chocolates e tablets. Também começaram a aparecer pessoas dispostas a financiar os seus estudos. Ela e a avó devem entrar num programa de apoio e proteção a testemunhas, vítimas e familiares. Custeado pelos governos federal e estadual, ele possibilita a troca de identidade, mudança de endereço e apoio financeiro por quatro anos. Com o sonho maior de ser jogadora de futebol, a garota já realizou o primeiro desejo no trajeto de volta do hospital à sua casa: comer um McLanche Feliz. Ela tem toda a vida pela frente – e o Brasil, um longo caminho a percorrer para que outros casos de gravidez como esse não terminem em tragédia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE SETEMBRO

LUZ NA ESCURIDÃO

Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença (João 9.1).

Um cego é visto, ou passará despercebido. Enquanto caminhava, Jesus viu um homem cego de nascença. Nascera num berço de trevas e durante toda a sua vida estava cercado de escuridão. O colorido das flores, a exuberância das matas, a beleza do sorriso de uma criança eram realidades desconhecidas por aquele pobre homem. Seu mundo era sombrio, e sua vida era desprovida de esperança. Os discípulos especularam sobre as causas de sua cegueira, perguntando a Jesus quem havia pecado, o cego ou seus pais. Jesus esvaziou a curiosidade dos discípulos, afirmando: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus (v. 3). Jesus curou esse cego de forma estranha. Cuspiu na terra, fez lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego e ordenou-lhe: Vai e lava-te no tanque de Siloé (v. 7). O homem foi, lavou e voltou enxergando. Jesus ainda hoje abre os olhos aos cegos. Ele é a luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem. Seus milagres apontam para a obra da redenção e ainda são pedagógicos. Jesus acabara de afirmar: Eu sou a luz do mundo (João 8.12). Agora, ele arranca um homem das trevas. Assim como há trevas físicas, também há escuridão moral e espiritual. Mas Jesus agora mesmo pode abrir os olhos da sua alma e inundar o seu coração de luz.

GESTÃO E CARREIRA

BRINCADEIRA DE SUCESSO

Após conquistar o público infantil no YouTube, o Totoykids, lançado em 2014por um casal de mineiros, expande os negócios e desponta como um dos gigantes do segmento

Com 7 bilhões de views só em sua versão na língua portuguesa e um público estimado em 27 milhões de fãs, distribuídos por 48 países, o canal brasileiro no YouTube Totoykids, voltado para o entretenimento infantil já vinha sendo considerado um dos negócios mais bem sucedidos do site de vídeos de propriedade do Google – vale dizer, do mundo virtual. Na virada de 2019 para 2020, no entanto, o empreendimento anunciou que começaria a se expandir também para o, vá lá, mundo real”. O modelo é semelhante ao que foi adotado por gigantes do porte da Galinha Pintadinha. A ideia, ambiciosa, é montar um império baseado não só nos vídeos, mas também em roupas, bonecos, livros – enfim, tudo o que possa atrair a garotada pela força da marca.

Criado no ano de 2014, em Nova York, pelo casal de mineiros Isa Vaal, de 38 anos e André Vaz, de 40, o Totoykids que conta com 27 milhões de inscritos, conquistou os pequenos espectadores levando ao ar histórias protagonizadas por brinquedos e personagens autorais interpretados pela dupla. “À primeira vista; a fórmula pode parecer comum”, admite Vaz.

“Nosso diferencial é que decidimos tomar cuidado redobrado com o conteúdo em si escapando do vício frequente de querer apenas divertir as crianças. Nosso trabalho inclui uma pegada educativa”, diz ele. Resultado financeiro da estratégia: rendimento mensal em torno de 100.000 reais, tão somente com os anúncios vinculados aos vídeos do canal em português (há versões das produções também em inglês e espanhol). Os lucros devem dar um salto considerável com o lançamento, nos próximos meses, de uma linha de itens licenciados que abarcará cinco áreas: além de investirem na editorial, na de brinquedos e na de vestuário, Isa e Vaz apostam no setor alimentício e no de material escolar.

A origem do Totoykids remonta a uma fase de descontentamento do casal. Em 2013, desmotivados com suas respectivas profissões, Vaz, que é advogado, e Isa, psicóloga, decidiram mudar de ares e foram para os EUA.  Aintenção era investir na carreira de ator, no caso dele, e de roteirista no dela. Enquanto fazia um curso na atividade em que procurava se firmar, Isa resolveu trabalhar como babá. Na rotina com as crianças, notou quanto elas, mesmo ainda muito pequenas, se entretinham com smartphones e tablets – comportamento, aliás, que parece estar em todos os lares. “Mas a maioria das produções era de qualidade duvidosa, com a única intenção de viciar os olhinhos, satisfazendo aqueles pais que adotaram o hábito de colocar os filhos em frente às telas para ganhar uns minutinhos de tranquilidade”, conta Isa. “Faltavam vídeos que realmente estimulassem o público infantil, exercitando habilidades que são construídas nessa fase da vida.

Foi assim que, no ano seguinte, o casal decidiu montar o Totoykids. Para tanto, apoiou-se justamente na habilidade dela para o roteiro e na dele para a interpretação (Vaz estava cursando artes cênicas). Em seis meses de operação, com publicações semanais, alcançaram 500.000 inscritos no YouTube. A guinada de crescimento foi tamanha que um representante do próprio site de vídeos entrou em contato para saber quem estava por trás do empreendimento. Ao descobrir que não se tratava de uma companhia especializada e sim de um casal de amadores, a empresa americana listou o Totoykids como uma iniciativa a servir de exemplo a outros youtubers – a empreitada da dupla brasileira passaria a ser mencionada em treinamentos promovidos pelo Google.

Mais seis meses e o Totoykids chegaria a 1 milhão de fãs. Seu primeiro megassucesso, entretanto, surgiria em 2016: o vídeo no qual uma boneca brinca em uma piscina de bolinhas ultrapassou a marca de 180 milhões de views. A partir dalí, o negócio só cresceu. Hoje, o Totoykids está entre os dez canais infantis mais vistos do planeta, concorrendo com marcas como Peppa Pig. O casal de amadores de poucos anos atrás se transformou em uma dupla de empreendedores de peso. O que fez acentuar a atenção com tudo o que é produzido. Atualmente todo vídeo publicado passa antes pelo crivo de oito especialistas dos ramos de pedagogia, neurociência, psicologia e educação. ”Sempre pensamos que em cada clique há uma criança em formação” afirma Vaz.

Até há dois meses, o trabalho de produção de vídeos do Totoykids, que envolve uma equipe de dez profissionais, era realizado em um estúdio em Nova York e na própria residência do casal, que continua morando nessa cidade americana. Em dezembro, Isa e Vaz abriram um escritório em São Paulo. Com isso foram criadas vagas para quarenta funcionários. Aqui, o foco será a promoção dos produtos licenciados. Uma dessas linhas girará em torno do personagem mais célebre do canal, o José Comilão, que incentiva a alimentação saudável. ”Alguns pais podem, com razão ter receio de expor os filhos ao consumismo exacerbado”, diz Vaz. “No nosso caso, fiquem tranquilos. Só apostaremos naquilo que faz bem às crianças. Afinal, entre a audiência fiel estão também nossos dois filhos (de 2 e 5 anos).”Trata-se de um belo exemplo de como encontrar uma maneira de unir interesses, aptidões, conveniências e dinheiro.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PANDEMIA E RESILIÊNCIA

O impacto da covld-19 na saúde física dos cidadãos do mundo é extraordinário. Em meados de maio, havia mais de quatro milhões de casos em mais de 180 países. Os efeitos sobre a saúde mental podem ser ainda maiores. A certa altura, quase um terço da população do planeta tinha ordens para ficar em casa. Cerca de 2,6 bilhões de indivíduos – mais do que o total de pessoas vivas durante a Segunda Guerra Mundial – viviam os efeitos emocionais e financeiros do coronavírus. “O isolamento é talvez o maior experimento psicológico já conduzido”, escreveu a psicóloga Elke Van Hoof, da Universidade Livre de Bruxelas ­ VUB. Ainda estamos começando a avaliar os resultados deste experimento involuntário.

A ciência da resiliência, que investiga como as pessoas suportam e resistem às adversidades, oferece algumas pistas. Um indivíduo resiliente, escreveu o psiquiatra George Vaillant, da Universidade Harvard, parece um tenro ramo de árvore, com um cerne verde e vivo. “Quando torcido e retorcido, o galhinho enverga, mas não quebra; em vez disso, reverte à sua forma original   e continua crescendo.” A metáfora descreve um número surpreendente de pessoas: até dois terços dos indivíduos se recuperam de experiências difíceis sem apresentar efeitos psicológicos duradouros, mesmo quando passam por eventos traumáticos como um crime violento ou ser prisioneiro de guerra. Mas o outro terço sofre um estresse real, alguns durante meses, outros, por anos.

Mesmo se a maioria dos indivíduos se mostrar resiliente, o ônus dos transtornos causados pela covid-19 e o número de pessoas envolvidas estão levando os especialistas a alertar para um “tsunami” de doenças mentais. São múltiplos os impactos: ameaça de contrair a doença, solidão, perda de entes queridos, consequências de uma perda de emprego e incerteza sobre o fim da pandemia. Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático sem dúvida alguma se seguirão para alguns. Linhas diretas ele ajuda para saúde mental relatam um salto nas chamadas, e pesquisas iniciais constataram elevados níveis de preocupação. “Essa pandemia abrange todos os tipos de estressores difíceis”, diz a psicóloga Anita DeLongis, da Universidade da Colúmbia Britânica, que estuda respostas psicossociais a doenças. Os suicídios de profissionais da saúde que estiverem na linha de frente de combate à doença são fortes lembretes dos riscos.

Para complicar ainda mais a resiliência individual, a pandemia não afetou igualmente a todos. Embora haja muitos elementos em comum na experiência – o coronavírus atingiu todos os níveis da sociedade e deixou poucas vidas inalteradas – há muita diferença nos transtornos e na devastação experienciados. Pense no Brooklyn, bairro da cidade de Nova York. Moradores que começaram o ano vivendo ou trabalhando a poucos quilômetros uns dos outros têm histórias muito distintas, de perdas e superação, e de adaptação aos desafios do distanciamento social. A rapidez com que indivíduos, empresas e organizações se recuperarão, e a qualidade da recuperação, vai depender dos empregos, do plano de saúde e da saúde que tinham quando tudo isso começou; das dificuldades psicológicas que enfrentaram; e do acesso a recursos financeiros e a apoio social.

A pandemia escancarou as desigualdades no sistema de saúde dos EUA e em sua rede de segurança econômica. Negros e latinos morrem a taxas muito mais altas do que brancos. “Quando falamos sobre condições preexistentes, não se trata apenas de ser obeso ou não, trata-se da condição preexistente da nossa sociedade”; diz a antropóloga médica Carol Worthman, da Universidade Emory, especialista em saúde mental global.

Felizmente, a pandemia inesperada está gerando um conhecimento sem precedentes, não só em virologia, mas também sobre saúde mental e resiliência. Cientistas comportamentais estão medindo o dano psicológico em tempo real e se esforçando para identificar o que ajuda as pessoas a enfrentar e superar seus problemas. Ao contrário, digamos, dos ataques terroristas de 11 de setembro ou do furacão Katrina, que ocorreram ao longo de um intervalo de tempo finito e delimitado, apesar de seus efeitos terem sido prolongados, a duração indefinida da covid-19 permite a condução de novos tipos de estudos longitudinais e novas direções de pesquisa. A mudança súbita e maciça para modos virtuais de trabalho e sociabilidade deve impulsionar investigações mais sutis sobre o que torna a interação social satisfatória – ou embotada e enfadonha. Se os pesquisadores encararem o desafio da covid-19, diz o psiquiatra Dennis Charney, da Escola Icaho de Medicina, “haverá toda uma nova ciência da resiliência. Poderíamos aprender como ajudar as pessoas a se tornarem mais resistentes e adaptáveis antes que essas coisas aconteçam”.

CURVE-SE, MAS NÃO QUEBRE

Rafael Hasid, natural de Israel, chegou a Nova York no ano 2000 para frequentar o então Instituto Culinário Francês. Em 2005, ele abriu um restaurante chamado Miriam, no Brooklyn, que se tornou famoso no bairro. Nas primeiras semanas de março, Hasid percebeu o que estava por vir. “Eu seguia as notícias em Israel”, diz ele. “Estávamos duas semanas atrás em todos os aspectos. Eu dizia, “vai acontecer aqui”. Quando o popular brunch de fim de semana do Miriam atraiu só um terço do público, Hasid doou todos os alimentos perecíveis aos vizinhos. Quando a cidade exigia que todos os restaurantes fechassem, o Miriam já fechara.

Ao se depararem com eventos potencialmente traumáticos, “cerca de 65%das pessoas apresentarão sintomas psicológicos mínimos”, diz o psicólogo George Bonanno, da Universidade Columbia. Especialista em resiliência, ele estuda os efeitos póstumos de furacões, ataques terroristas, lesões que ameaçam a vida e epidemias, tais como o surto da SARS em 2003. Sua pesquisa e as de outros mostram três respostas psicológicas comuns à adversidade. Cerca de 60%das pessoas seguem uma trajetória de resiliência e mantêm uma saúde psicológica e física relativamente estável. Em torno de 25% enfrentam, por um tempo, psicopatologias como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depois se recuperam, um padrão conhecido como trajetória de recuperação. E 10% sofrem transtornos psicológicos duradouros.

Mesmo entre populações diferentes e com diversos status socioeconômicos, esse padrão se mantém. “Isto vale para todo mundo”, diz Bonanno. Por outro lado, o risco de distúrbios psiquiátricos é duas vezes maior para pessoas que se encontram nos patamares mais baixos da escala econômica.

Mas os efeitos de uma crise tão generalizada na saúde mental podem não seguir esse modelo. Estudos mostram que uma quarentena rigorosa pode levar a efeitos psicológicos negativos, tais como o TEPT, embora poucos de nós tenham estado numa quarentena real, que consistiria como isolamento total após uma possível exposição a uma infecção.

Em vez disso, grande parte do mundo vive com restrições, que Bonanno suspeita, equivalem a algo mais parecido com um gerenciamento constante de estresse. “É a primeira vez na história recente que temos um lockdown global tão longo”, diz a epidemiologista Daisy Fancourt, da University College de Londres. “Não sabemos como as pessoas reagirão.”

O potencial escopo do impacto é considerável. “Esta situação difere de outras formas de estresse, porque não afeta apenas uma área da vida”, diz a psicóloga da saúde Nancy Sin, da Universidade da Columbia Britânica. “As pessoas estão lidando com desafios familiais ou de relacionamento com desafios financeiros e de trabalho, com a saúde”.

Relatórios iniciais já estão mostrando efeitos claros. A primeira pesquisa nacional em larga escala, feita na China, o primeiro lugar atingido pela crise, verificou que quase 35% das pessoas relataram aflição psicológica. Nos EUA, um medo e inquietação crescentes em relação à covid-19 foram constatados em pessoas que já sofrem de ansiedade. Outro estudo registrou resultados preocupantes em adultos mais velhos. Isso surpreende porque pesquisas anteriores mostram que, em sua maioria, pessoas mais idosas têm um bem-estar emocional melhor. “Durante esta pandemia, adultos mais velhos não têm aquela força emocional associada à idade que esperaríamos”, diz Sin, que estuda o envelhecimento e colabora com DeLongis em um estudo em andamento da covid-19 envolvendo 64 mil indivíduos globalmente. “Eles relatam tanto estresse quanto pessoas de meia-idade e outras mais jovens”.

Sin ainda está analisando as causas do estresse, mas suspeita que ele seja causado pela maior probabilidade de adultos mais velhos ficarem doentes e perderem entes queridos. Porém, pessoas mais idosas estão lidando melhor com seu estresse do que as mais jovens, e relatando menos depressão ou ansiedade. “Elas podem estar se beneficiando da perspectiva que acompanha o fato de elas terem vivenciado mais coisas do que indivíduos mais jovens”, diz Sin. Adultos com mais de 65 anos também tiveram mais tempo para desenvolver meios para lidar com o estresse e muitos são aposentados e têm menos chances de se preocuparem com o trabalho.

Fancourt começou um estudo em meados de março que se expandiu para incluir mais de 85 mil residentes do Reino Unido. A pesquisa monitora depressão, ansiedade, estresse e solidão semanalmente. “Precisamos saber em tempo real o que está acontecendo”, diz Fancourt. Com seis semanas de estudo, os cientistas constataram que os níveis de depressão estavam mais altos do que antes da pandemia.

De modo geral, as pessoas com doenças de saúde mental já diagnosticadas, as que vivem sozinhas e as pessoas mais jovens relatam os níveis mais altos de depressão e ansiedade. No lado positivo, houve uma ligeira diminuição nos níveis de ansiedade depois que o lockdown foi declarado. “A incerteza tende a piorar as coisas”, diz Fancourt. Alguns ficam paralisados por não saber o que está por vir, enquanto outros acham meios para tocar a vida.

Após três semanas com o restaurante fechado, Hasid ainda não recebera nenhum financiamento do governo destinado a proteger pequenas empresas. Embora sua situação fosse incerta, “eu pensava que precisávamos continuar criando negócios para nós mesmos”, diz ele. Quando alguns clientes lhe mandaram e-mails para perguntar se ele consideraria fornecer jantares de Páscoa, Hasid criou um cardápio comemorativo para entrega em domicílio. Antes da pandemia, ele planejava abrir uma delicatéssen num lugar próximo. Em vez de um novo espaço, Hasid abriu a deli dentro do próprio restaurante. Sua maior preocupação é a segurança dos funcionários. Para tranquilizá-los, além do distanciamento social, ele exige o uso de máscaras e luvas, e o restaurante é desinfetado diariamente de manhã e à noite com alvejante.

Hasid reconhece que sua capacidade de se adaptar não é algo que todo empreendimento comercial possa fazer, em especial muitos restaurantes que funcionam com margens apertadas. A nova operação está usando uma equipe mínima, mas Hasid continua pagando – do próprio bolso – todo empregado que não foi capaz de s cadastrar para receber o auxílio-desemprego. O serviço de delivery gerou uma renda 30% menor para o Miriam, mas ele diz que isso é melhor do que nada. O restaurante também está preparando uma refeição semanal para um hospital local. “Não é uma máquina de fazer dinheiro, mas é o mínimo que podemos fazer.” Hasid está satisfeito com a reinvenção do Miriam e otimista com sua sobrevivência. “Estamos numa situação muito melhor do que um monte de outros lugares em Nova York”, diz ele.

OS COMPONENTES DO ENFRENTAMENTO

Quando o morador do Brooklyn Toni Inck desenvolveu uma ‘febre persistente e uma tosse seca, em março, temeu que estivesse com covid-19. Devido à escassez de testes à época, seu médico primeiro o examinou para todos os outros vírus conhecidos. Depois, médico e paciente se encontraram nas ruas de Manhattan. De pé na Avenida Madison, trajando todo o equipamento de proteção individual, o médico lhe ministrou o teste, que veio positivo após seis dias.

Ser bem-sucedido no enfrentamento de uma crise significa seguir ativo e se envolver em atividades cotidianas. É preciso resolver problemas, regular emoções e gerenciar relacionamentos. Existem fatores que predizem resiliência, tais como o otimismo, a capacidade de manter a perspectiva, forte apoio social e ponderação flexível. Pessoas que acreditam poder superar tendem de fato a enfrentar melhor.

Durante nove dias de isolamento em um quarto de visita, Inck preencheu seu tempo com meditação e leitura. Sob alguns aspectos, as coisas foram mais difíceis para sua esposa, Wendy Blattner, que gerenciava os cuidados do marido, a transição de sua agência de marketing para o trabalho a distância, e as emoções das duas filhas do casal. Blattner deixava refeições do lado de fora da porta do quarto do marido e acordava à noite para medir sua temperatura e nível de oxigênio sanguíneo. Ela estava assustada, porém determinada. “Eu estava convencida de que ele tinha excelentes cuidados, mesmo que fosse a distância, e que eu tinha dentro de mim os recursos e o apoio de que precisava”, diz ela.

As competências de enfrentamento da maioria das pessoas podem ser fortalecidas. Vários dos novos estudos são projetados para identificar estratégias bem-sucedidas que atenuam os efeitos do estresse. Até agora, diz Fancourt, as pessoas são encorajadas a seguir estratégias clássicas de saúde mental: dormir o suficiente, seguir uma rotina, fazer exercícios físicos, comer bem e manter conexões sociais fortes. Investir tempo em projetos que proporcionam uma sensação de propósito, mesmo que despretensiosos, também ajuda.

Em trabalhos anteriores, DeLongis mostrou que indivíduos com alta capacidade empática têm mais chance de se envolverem em comportamentos de saúde adequados, como o distanciamento social, e de apresentar melhores resultados em saúde mental do que os que têm baixo nível de empatia. Mas seus estudos anteriores de doenças como a SARS e a febre do Nilo Ocidental foram transversais e só registraram um certo período. Seu estudo sobre a covid-19 acompanhará comportamentos e atitudes por meses a fio, para monitorar mudanças em empatia e enfrentamento ao longo do tempo. “isso não se limita a um traço de empatia”, diz DeLongis. Respostas empáticas podem ser aprendidas e estimuladas por mensagens apropriadas: seu palpite é que aumentos ou diminuições nas respostas empáticas, ao longo do tempo, estarão associados a mudanças nos comportamentos ligados à saúde e nos mecanismos de enfrentamento.

Como parte do estudo de DeLongis, Sin está fazendo com que as pessoas registrem suas atividades e emoções diárias por uma semana. “Até agora, os resultados indicam que a vida é realmente desafiadora, mas que as pessoas estão encontrando jeitos de enfrentar o desafio”, diz ela. Muitas relatam grande quantidade de interações sociais positivas, muitas à distância. Adultos mais velhos estão reportando os mais altos níveis de experiências positivas em suas vidas cotidianas, muitas vezes por darem apoio a outros.

É notável que conexões remotas se mostrem satisfatórias. Pesquisas anteriores sobre os efeitos da tecnologia digital e da mídia se concentram na associação entre o tempo passado diante de telas e o bem-estar psicológico, mas revelaram pouco sobre o valor dos diferentes tipos de interação on-line. Agora que o mundo depende da internet para socializar, é crucial investigar essas nuances. As mídias sociais deveriam emular uma interação cara a cara, ou formas menos intensas de comunicação podem fazer as pessoas se sentirem conectadas? Ainda não sabemos, mas é provável que esses estudos agora sejam financiados, o que não ocorria antes.

A mídia social é um fator em outros tipos de pesquisa, também. A psicóloga Roxane Cohen Silver da Universidade da Califórnia, avalia o impacto da exposição à mídia sobre o bem-estar. “Quem consome muitas notícias sobre uma crise que atinge toda a comunidade está mais aflito e ansioso”, diz ela. O cientista social computacional Johannes Eichstaedt, da Universidade Stanford, está combinando análises em larga escala do Twitter com aprendizado de máquina para registrar níveis de depressão, solidão e alegria durante a pandemia.

Como temia Blattner, as coisas de fato ficaram difíceis para sua família. Na sétima e oitava noites, quando a febre de Inck pairava em torno de 39,5 ºC e seus níveis de oxigênio sanguíneo caíam para 93,seu médico (via Zoom) disse que se os níveis permanecessem ali ou piorassem, Inck deveria ir ao hospital. “Não quero ter um paciente que morra em casa”, disse ele, uma declaração que alarmou as filhas. “A pior coisa para nós foi o medo”, diz Inck. Mas o antitérmico Tylenol manteve sua febre sob controle, e uma respiração curta e rasa sustentou o nível de oxigênio em seu sangue na zona de segurança. Depois de 10 dias, ele começou a se sentir melhor.

A experiência deixou Inck agradecido e energizado. Ele se lançou de novo ao trabalho e se inscreveu para ser um doador de plasma para pacientes críticos.

AS CONDIÇÕES PREEXISTENTES DA SOCIEDADE

Mesmo pessoas muito resilientes precisam de ajuda externa se enfrentarem desafios em múltiplas frentes. Como diretora executiva da lMPACCT Brooklyn, uma ONG de desenvolvimento comunitário que atende a vizinhança negra pelo Brooklyn, Bernell K. Grier vê como a pandemia atingiu duramente a comunidade afro-americana. “Todo dia ouço falar de pessoas que estão positivas para a covid, se recuperando dela ou que morreram da doença”, diz ela. Três óbitos aconteceram em apartamentos que Grier gerencia e exigiram que ela organizasse serviços de limpeza e desinfecção profunda. Ainda assim, ela seguiu adiante.

A pandemia, diz Fancourt, “vai exacerbar o gradiente social que estamos acostumados a ver através da sociedade. É crucial que haja programas de nível nacional para apoiar as pessoas”. No Reino Unido, tais intervenções incluem o Serviço Nacional de Saúde e um programa de licença temporária que paga até 80% dos salários de milhões de britânicos que não puderam trabalhar. Nos EUA, existem programas de empréstimos e auxílio-desemprego emergencial, mas eles se mostraram difíceis de acessar rapidamente.

A organização de Grier oferece diversos serviços ligados a moradia, advocacia para pequenas empresas e interação com instituições financeiras e governamentais. Assim que a pandemia começou, sua equipe distribuiu informações sobre saúde pública e recursos econômicos. Eles iniciaram video­conferências para ajudar empresas a solicitar empréstimos. Desde o final de abril, “nenhuma das que ajudamos recebeu qualquer coisa”, diz Grier. “[O auxílio) não está chegando aos nossos negócios”. Apenas 70% dos inquilinos de Grier foram capazes de pagar aluguel em abril. “Ainda temos que pagar os zeladores, o aquecimento e a eletricidade, os impostos e tudo o mais”, diz ela. “É um efeito dominó. Se os residentes não podem pagar, nós não podemos pagar.”

Worthman, a antropóloga da Emory, diz que a capacidade de enfrentamento das reverberações da pandemia não é apenas uma questão individual, mas uma questão social. também é uma oportunidade. “Muitos têm apontado para períodos de desastre na história americana, depois da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão, que conduziram a reais mudanças estruturais que beneficiaram as pessoas”. Cultivar a resiliência através do apoio comunitário parece mais importante do que nunca. Como enfermeira numa escola no Brooklyn, Marilyn Howard, que emigrou da Guiana para os EUA quando adolescente, trabalhou durante as primeiras semanas de março até que as escolas públicas fecharam. Ela ficou doente um dia depois de deixar o trabalho. Levou 10 dias para que ela recebesse os resultados do teste que confirmaram que tinha covid-19. A essa altura, Howard achava estar a caminho da recuperação. Mas em 4 de abril ela acordou com uma dificuldade para respirar que se agravou rapidamente. Seu irmão, Nigel Howard, chamou uma ambulância. Mas o dia 4 de abril foi perto do pico da pandemia no Brooklyn e não havia ambulância disponível. Nigel pegou seu carro e a levou ao hospital mais próximo, mas a respiração de Marilyn deteriorou no caminho. Menos de um minuto antes de chegarem seu coração parou. Ela tinha 53 anos.

“Coisas simples poderiam ter salvado a vida de minha irmã”, diz Howard, o caçula dos cinco irmãos de Marilyn. Se as escolas tivessem fechado mais cedo ou se sua colega pudesse ter tirado um dia de licença, por não se sentir bem, ela talvez não tivesse ficado doente. Se alguém tivesse recomendado o uso de um oxímetro de pulso, ela teria sabido que precisava ir ao hospital mais cedo. Se uma ambulância estivesse disponível. Os irmãos de Howard organizaram um velório numa casa funerária para dizer adeus a ela. Haslyn só permitiu a presença de três pessoas de cada vez no recinto, mas um velório virtual simultâneo permitiu que mais de 250 pessoas celebrassem a vida de Marilyn.

“Meus irmãos e eu começamos a planejar uma organização que ajude as comunidades negra e parda, ambas pobres, a lidar com algumas dessas questões em um nível local e tangível”, diz Haslyn. Isso é algo que eles podem fazer em memória de sua irmã e que a teria deixado orgulhosa. “Esta é uma das formas como estamos lidando com a perda”, diz ele. “Como transformamos tragédia em triunfo?”

EU ACHO …

FAKE NEWS E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

As redes de desinformação ameaçam a democracia há décadas

Ainda que as contas bolsonaristas tiradas do ar por Alexandre de Moraes não fossem, em geral, usadas para expressar opinião, mas para cometer fraude, a decisão do ministro cerceia a liberdade de expressão e abre perigoso precedente – não se combate crime ao arrepio da Constituição.

É preciso frisar, no entanto, que se trata de crime fora do comum e extraordinariamente difícil de combater. A liberdade de expressão não está na Constituição apenas porque alguém tem o direito de dizer o que pensa (afinal, os outros têm o direito de não ser ofendidos), mas porque a livre exposição de ideias é de interesse da sociedade: quando ela ocorre, os argumentos falsos são desmascarados, as boas ideias prosperam, as ruins são descartadas, a chance de alcançar a verdade cresce.

Nas redes sociais, entretanto, informações verdadeiras e falsas não têm chances iguais: as falsas são mais interessantes, geram mais likes e compartilhamentos, viajam muito mais rápido. E, como viajam dentro de bolhas, fora da vista de todos, não são desmascaradas.

É um campo fértil para redes de desinformação, que – explorando big data, estatística, psicologia e fragilidades nas redes sociais – impedem o contraditório, monopolizam o discurso e manipulam opiniões. A liberdade da falsa expressão das redes sociais com frequência leva ao estabelecimento da mentira como “fato”, a ponto de o célebre aforismo de Daniel Moynihan (“todos têm direito à própria opinião, mas não a seus próprios fatos”) deixar de valer. A desinformação leva à crença de que existe kit gay, de que a cloroquina funciona, de que o establishment não deixa Bolsonaro governar.

A rede de desinformação bolsonarista demonstrou o problema logo após a decisão de Alexandre de Moraes, ao caluniar Felipe Neto: em menos de 24 horas, a equipe do youtuber derrubou mais de 1.000 vídeos falsos que o acusavam de pedófilo. Esses vídeos – e outros, que não foram derrubados (no WhatsApp é impossível derrubar o que quer que seja) – alcançaram milhões de pessoas, grande parte das quais jamais saberá que são falsos. Bolsonaro usou um órgão público, a AGU, para defender o interesse privado de seus apoiadores (e o seu próprio): é um ato inconstitucional como o de Alexandre de Moraes, mas, enquanto o ministro fere a Constituição para coibir crimes, o presidente o faz para dar impunidade aos criminosos. Bolsonaro afirma defender a liberdade de expressão, o que, dado seu cacoete de atacar a livre imprensa e recorrer à Lei de Segurança Nacional para tentar calar adversários, seria divertido se não fosse ultrajante.

As redes de desinformação são a maior ameaça à democracia há muitas décadas, mas a solução para o problema não implica a suspensão de garantias constitucionais – medida, de resto, pouco eficaz e até contraproducente, pois alimenta o discurso vitimista e anti-establishment de Bolsonaro. Implica, sim, a criação de lei específica – aliás, já em discussão no Congresso -, que, diferentemente do que quer fazer crer a rede de desinformação bolsonarista, não é (nem pode ser) sinônimo de censura.

***RICARDO RANGEL

OUTROS OLHARES

O EFEITO BATOM

Com o uso obrigatório de máscaras para cobrir os lábios e o distanciamento social, o mais popular item de maquiagem deixa de interessar às mulheres do mundo todo (mas é só por enquanto)

“Há certos tons de destaque que podem prejudicar a aparência de uma garota”, disse Holly Golightly, personagem vivida por Audrey Hepburn no adorável Bonequinha de Luxo (1961). Na cena, Holly contorna os lábios com um batom vermelho-alaranjado, sem errar, delicadamente, ainda que estivesse no banco de trás de um táxi em fuga. Com tudo caminhando para o caos, Holly manteve seus rituais de beleza. Conseguiu, portanto, algum tipo de normalidade no conflito, sentindo-se bela. A relação da personagem com o cosmético não tem nada de cosmético: historicamente, a barrinha de tinta sempre foi muito mais do que enfeite para o rosto. O batom já foi símbolo para marcar mulheres que se prostituíam na Grécia antiga. Foi usado em discursos feministas por meio de campanhas que pediam às jovens que não tirassem o vermelho dos lábios diante de súplicas de namorados machistas.

E há o batom como medidor econômico. Por ser item de preço relativamente baixo e resultado imediato, ele se tornou aliado feminino em tempos de crise, dose extra e barata de autoestima. O primeiro a entender essa lógica foi Leonard Lauder, herdeiro do grupo de estética Estée Lauder. Em 2001, depois do pandemônio deflagrado pelos ataques terroristas de 11 de setembro, ele percebeu inusitado crescimento de vendas. O fenômeno sugeriu a ele a ideia do “efeito batom” – a busca feminina pela beleza contra a dureza do cotidiano, e um olhar para o crash da bolsa de 1929 entregou reação parecida. Enquanto setores industriais patinavam, os produtos de maquiagem vendiam como pão quente.

E, no entanto, agora tem sido diferente. “O isolamento social restringiu quase todas as ocasiões nas quais seria possível utilizar o produto de beleza”, diz Elton Morimjtsu, analista da provedora de pesquisas de mercado Euromonitor International. A orientação de uso constante das máscaras faciais para barrar o contágio da Covid-19 também colaborou para o consumo modesto. Com os lábios cobertos por tecidos, é basicamente inútil ocupar-se desse ritual secular. No Brasil, por exemplo, a busca no Google pelo termo “batom” atingiu o pior patamar dos últimos seis anos, desde o início da quarentena. Mas não será assim para sempre, evidentemente. A gradual retomada da normalidade possível permitirá despontar, em casa, na rua, em todo o mundo, mulheres unidas e empoderadas que farão do batom, mais uma vez, uma arma pacífica.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE SETEMBRO

UMA MÃE QUE NÃO DESISTE DOS FILHOS

Não podendo, porém, escondê-lo por mais tempo, tomou um cesto de junco, calafetou-o com betume piche e, pondo nele o menino, largou-o no carriçal à beira do rio (Êxodo 2.3).

Joquebede foi uma mulher de coragem. Ela desafiou a própria morte. Seu filho Moisés nasceu para morrer, mas ela não o entregou à morte. Não desistiu do filho mesmo quando seu destino já estava lavrado pelo homem mais poderoso da terra, o Faraó do Egito. A ordem era matar toda criança do sexo masculino ou jogá-lo aos crocodilos do rio Nilo. Joquebede fez provisão para a vida, e não para a morte. Ela preparou um cesto bem calafetado e colocou o bebê nas águas do Nilo. Para ela, o Nilo não era a sepultura do filho, mas o caminho da sua libertação. Deus honrou a fé de Joquebede, e o menino foi parar nas mãos da filha de Faraó. Moisés não nasceu para morrer nas mãos dos egípcios, mas para libertar seu povo da escravidão egípcia. Os homens tinham um plano de morte para ele, Deus tinha uma agenda de vida. Faraó pleiteava sua morte; a mãe lutou por sua vida. Deus honrou Joquebede, e Moisés cresceu no palácio, viveu no deserto e libertou seu povo da escravidão. Mãe, não desista dos seus filhos. Aqueles que hoje podem ser o motivo das suas lágrimas amanhã poderão ser a razão da sua alegria! Nunca desista dos seus filhos. Nunca deixe de crer na salvação dos seus filhos! Nunca deixe de lutar e aguardar o tempo em que os seus filhos serão levantados na terra como reparadores de brechas.

GESTÃO E CARREIRA

ENTRE O HOME OFFICE E O ESCRITÓRIO

Enquanto as pessoas se adaptam ao trabalho em casa devido à pandemia, as empresas preparam as instalações para a volta ao expediente

Como tantas e tantas companhias, a Boehringer Ingelheim tem meditado sobre os prós e os contras de suspender o regime de home office imposto pela quarentena. Em São Paulo, onde fica a sede brasileira da farmacêutica alemã, a volta ao esquema tradicional foi autorizada pela prefeitura no começo de junho. Com ressalvas: por enquanto, os escritórios só podem funcionar 4 horas por dia e o início e o fim do expediente não podem calhar com os horários de pico do trânsito, das 7 às 10 horas e das 17 às 20 horas. ”Não temos urgência para voltar à rotina de antes porque a experiência do trabalho remoto tem sido um sucesso”, diz Esteban Ziegler, diretor de recursos humanos da farmacêutica no Brasil. ”Agora é hora de refletir sobre quais funções precisam de fato ser desempenhadas presencialmente e como deve ser o escritório de amanhã.”

A bem da verdade, não é de hoje que a companhia se opõe à velha rotina corporativa. Ou pelo menos em sua sede brasileira, que se espalha por quase dois andares em uma das duas torres do complexo Rochaverá Corporate Towers, no bairro do Brooklin, na zona sul paulistana – os medicamentos são produzidos nos municípios de Paulínia e Itapecerica da Serra, em São Paulo. Um dos diferenciais do escritório é o número de estações de trabalho, nenhuma delas com dono. São 312, ou 68 a menos do que o total de funcionários alocados no endereço. A desproporção, instituída em 2009, tem como objetivo impor a todos pelo menos um dia de home office por semana. Alguns trabalham de casa até 12 dias por mês – com a bênção do RH e dos chefes, e bem antes da covid-19. ”A relação de confiança que estabelecemos na última década explica a naturalidade e a eficácia com que nos adaptamos ao home office compulsório”, avalia Ziegler.

Até segunda ordem, os funcionários só vão pisar novamente no Rochaverá se convencerem seus gestores de que determinadas tarefas não podem ser bem desempenhadas à distância – para os que pertencem ao grupo de risco para a covid-19 não há conversa. Enquanto a lista de empregados com sinal verde não é definida – nem a data de regresso deles -, a diretoria se debruça sobre as mudanças indispensáveis para a volta da rotina tradicional com menos risco de contágio. Alguns atributos do escritório, que ostenta o selo Gold da Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), concedido pela ONG americana U.S. Green Building Council, favorecem a retomada em segurança. É o caso do sistema de acendimento automático das luzes do teto, implantado, originalmente, para aumentar o aproveitamento da iluminação natural e diminuir o consumo energético. No contexto atual, o dispositivo se destaca pela ausência de interruptores, potenciais focos de contaminação. Outras características bem-vindas em tempos de pandemia: os vistosos jardins verticais, que oxigenam o ambiente, e a falta de paredes ao redor de muitas das mesas de reuniões, o que impede o aprisionamento do ar e facilita o distanciamento.

Eis as feições dos escritórios do futuro, de acordo com os especialistas ouvidos para esta reportagem. Para o estúdio de arquitetura e engenharia It’s Informov, eles terão portas automatizadas, para evitar o contato com barras e maçanetas, e setas indicativas no chão determinando um trajeto único, circular. O objetivo delas é evitar o cruzamento de funcionários – porventura sem máscaras, espalhando perdigotos adiante – em direções diferentes. Responsável pela sede do iFood e do Bradesco, o estúdio também prevê cabines individuais para facilitar reuniões online mesmo com colegas presentes na empresa e a instalação de totens nas entradas para acelerar a medição da temperatura de quem chega – mais de 37,8 graus Celsius atestam febre, um dos sintomas da covid-19. ”Os escritórios não vão deixar de existir, mas servirão mais como pontos de apoio ao trabalho remoto”, acredita Murilo Toporcov, diretor executivo da It’s Informov. Às voltas com 24 obras de novos escritórios – as companhias são mantidas em sigilo -, o estúdio vai implementar em parte deles algumas das novidades.

Com filiais em 16 países e uma lista de clientes que inclui o Facebook e a Toyota, o estúdio de arquitetura Gensler propõe que os banheiros ganhem entradas similares às dos aeroportos, que dispensam os usuários de encostar em maçanetas. Sistemas automáticos de descarga e acionamento de água e sabão também são recomendados. Outra proposta da multinacional é montar áreas de isolamento para os funcionários que manifestarem durante o expediente algum dos sintomas do novo coronavírus – como o objetivo é impedir o contágio de outros empregados, é crucial que elas não estejam ligadas ao sistema de ar condicionado do restante do escritório. Mais uma recomendação: transformar terraços, rooftops e outras áreas ao ar livre em salas de reuniões, que também podem ser usadas para refeições.

Algumas mudanças, inevitáveis e exigidas pela prefeitura de São Paulo, estão ancoradas nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS.) Uma delas é o espaçamento das estações de trabalho, para garantir 1,8 metro de distância. O ideal é o formato cruzado, para que ninguém se sente na frente de ninguém – instalar placas de acrílico até a altura do rosto e limitar a quantidade de funcionários por turno são outras soluções. A disponibilização de álcool em gel na entrada, nas áreas de trânsito e em cada estação de trabalho também é inevitável, assim como a higienização redobrada, inclusive dos elevadores e dos filtros de ar-condicionado. A responsabilidade, portanto, também recai sobre as administradoras dos edifícios comerciais. A uma quadra da Avenida Paulista, o edifício Santos Augusta, que abriga os escritórios do Spotify e da Farfetch, está instalando lâmpadas ultravioleta, nocivas ao novo coronavírus, em todas as saídas de ar. Também reforçou os protocolos de limpeza e demarcou os pisos para incentivar o distanciamento, entre outras medidas desse tipo, bem-vindas mesmo quando a pandemia em curso tiver sido vencida.

Há alterações que vão além do espaço físico. O Hospital Albert Einstein, onde foi registrado o primeiro caso de covid-19 na América Latina, recomenda que as jornadas deixem de coincidir com a hora do almoço. ”Eliminam-se os riscos de contaminação nos restaurantes e de aglomeração na copa da empresa”, explica Anarita Buffe, diretora do setor de consultoria do Einstein. Desde o início da pandemia em curso, o hospital já foi contratado por cerca de 40 companhias, como Cinemark, BRF, Gol e Vigor, ávidas por permanecer na ativa em segurança. As consultorias do Einstein iniciam em 60.000 reais, no caso de escritórios mais simples, e podem passar de 1 milhão de reais, quando envolvem fábricas com complexas linhas de produção. Algumas recomendações dispensam explicações: uso de máscaras durante todo o expediente e nos trajetos de ida e volta; e nada de compartilhar canetas e canecas.

Enquanto algumas companhias correm para adaptar suas instalações, outras quebram a cabeça para assimilar o trabalho remoto em definitivo – várias fazem as duas coisas. A XP Investimentos, por exemplo, informou que os funcionários poderão escolher entre trabalhar ou não de casa após a quarentena e que pretende montar uma sede, menor, nos arredores de São Paulo, destinada mais a treinamentos, dinâmicas e recepção de clientes e parceiros. Em regime de home office até o fim do ano, o Google disponibilizou 1.000 dólares para cada empregado, ou o equivalente em moeda local. O dinheiro só pode ser gasto, mediante reembolso, com a compra de itens que facilitem o trabalho remoto, como cadeiras apropriadas. É bom ouvir o arquiteto Guto Requena, de cuja prancheta saiu a primeira configuração da sede do Google em São Paulo. ”Os escritórios que mais estimulam o trabalho são os que se preocupam com o bem-estar”, explica ele. ”Daí a importância de investir em plantas, em iluminação mais aconchegante e na melhora acústica. Tudo isso também vale para o home office.”

O HOME OFFICE DE HOJE…

Quem não tem um cômodo para transformar em escritório precisa eleger uma área protegida dos filhos e demais moradores.

***Quase quatro meses depois da quarentena, chega do sofá da sala e da mesa da cozinha. Uma cadeira ergonômica e uma escrivaninha são indispensáveis.

***A internet meia-boca de sua operadora pode bastar para a Netflix. Para o trabalho remoto, repleto de reuniões online, é preciso melhorar a velocidade da conexão.

***Se seu computador já deu o que tinha que dar, chegou a hora de fazer aquele upgrade. A compra de um mouse para quem usa notebook também é recomendada.

***Um bom fone de ouvido, de preferência com microfone, facilita reuniões online e pode salvar você quando os filhos ou os vizinhos não derem trégua.

***Uma iluminação aconchegante dá mais vontade de trabalhar, assim como um ambiente decorado com plantas.

***Está habituado a revisar relatórios e documentos impressos, mas não tem impressora? Chegou a hora de comprar uma para chamar de sua.

***Uma poltrona para leitura pode tornar o trabalho menos monótono. Uma máquina de café expresso vai estimular pausas no expediente.

… E O ESCRITÓRIO DO FUTURO

Até o surgimento de uma vacina para o novo coronavírus, a sugestão é que máscaras sejam usadas durante todo o expediente e nos trajetos de ida e voltaAs jornadas deverão ser mais curtas para que os funcionários possam almoçar em casa.

***Terraços, rooftops e áreas ao ar livre deverão virar salas de reunião e locais para eventuais refeições.

***Ao chegar, todos vão conferir a própria temperatura em totens automatizados ou com a ajuda de recepcionista.

***Haverá uma área de isolamento para funcionários que apresentarem sintomas de covid-19 durante o expediente.

***Dispensers com álcool em gel e toalhas descartáveis serão vistos nas áreas comuns e nas mesas.

***Plantas e jardins verticais internos vão oxigenar os ambientes.

***Os corredores serão mais largos e haverá setas indicativas no chão, determinando um único sentido.

***A higienização será redobrada. Isso vale para áreas comuns dos edifícios e filtros de ar-condicionado.

***Haverá distância de 1,8 metro entre as estações de trabalho, em menor número que o de funcionários para estimular o home office.

***Lâmpadas ultravioleta, nocivas ao novo coronavírus, serão instaladas em todas as saídas de ar.

***Os banheiros vão ter entradas que dispensam o toque em maçanetas. O acionamento de descarga, água e sabão será automático.

***Copas e cozinhas coletivas darão lugar a pontos de apoio com café e água, com copos descartáveis.

FONTES: Hospital Albert Einstein, Cushman & Wakefield, Glenser, lt’s lnformov e Guto Requena

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIBERDADE OU ILUSÃO?

Neurônios influem nos processos de escolha. Mas, considerando a ação neural, até que ponto temos autonomia para decidir?

Segunda-feira de manhã. Um homem sai de casa para tomar o ônibus que o levará ao trabalho. O calor do sol bate em seu rosto. A disposição que sente é tanta que resolve caminhar até o escritório, embora isso signifique 15 minutos a mais do que o trajeto do ônibus.

A situ ação é tão prosaica que, antes mesmo de atingir o próximo quarteirão, ele já está pensando em outras coisas. Os filósofos identificam aí problemas muito complexos que os têm mantido ocupados por mais de 200 anos. De alguma maneira os sentidos e os neurônios do personagem de nosso exemplo captaram o brilho do sol como uma sensação “agradável”, e foi isso que o fez tomar a súbita decisão de caminhar em vez de recorrer ao ônibus. Todo mundo já passou por situações desse tipo sem se dar conta da exata conexão entre uma simples atividade neuronal, a resposta subjetiva a ela e o livre exercício da vontade. Será que a atividade cerebral e a sensação “agradável” são, em última análise, a mesma coisa, ou essa sensação consciente surge como efeito secundário da ação dos neurônios?

Estamos diante do antigo dilema entre mente e corpo: qual é a relação entre os processos físicos do organismo e a consciência? Cérebro e mente são mesmo duas entidades diferentes? Já há algum tempo sabemos que a consciência está baseada principalmente no córtex cerebral, mas informações mais recentes e detalhadas indicam outros componentes processados em diferentes áreas do cérebro. Com o progresso das pesquisas, logo conheceremos a base neuropsicológica da consciência; neurocientistas e cientistas cognitivos poderão então oferecer novos dados para enriquecer os debates filosóficos e talvez torná-los mais objetivos. Ou talvez os pesquisadores acabem levantando novas questões filosóficas fundamentais. Vamos supor que os estudiosos descubram que chegamos a nossas crenças, julgamentos e decisões por meio de um processamento direto de informações pelos neurônios. Isso poderia significar que o homem que saiu de casa cedo para trabalhar não tomou a decisão de caminhar até o trabalho de livre e espontânea vontade, mas reagiu como fantoche absolutamente guiado pela particular conexão dos neurônios em seu cérebro.

O fato é que as atividades cerebrais estão ligadas de modo inextricável à concepção dos seres humanos acerca de si mesmos. Precisamos, portanto, recorrer à filosofia para avaliar os avanços biológicos na solução do quebra­ cabeça da relação mente-corpo. Como os processos cerebrais se relacionam à consciência? Será possível explicar cientificamente a consciência? E, nesse caso, como esses resultados influenciariam nossa auto imagem de seres dotados de livre-arbítrio e responsáveis pelas próprias ações?

DUELO FILOSÓFICO

Para muitos filósofos, durante séculos, a mente era uma entidade autônoma, frequentemente concebida como um “homúnculo”, ou ser humano em miniatura, capaz de observar o que ocorria no cérebro. Hoje a consciência é considerada uma representação de um grupo de processos mentais – tais como crenças, desejos ou temores – experimentados diretamente de uma perspectiva pessoal. “Diretamente” significa estarmos conscientes desses estados sem depender de informações de nossos sentidos.

Assim, enquanto o homem caminha até seu local de trabalho, formula diversas hipóteses sobre o que outras pessoas na rua estão pensando ou sentindo, baseando­ se em expressões faciais ou outras informações que ele experimenta indiretamente, por meio do filtro de seus sentidos. Mas tem acesso direto a seus próprios pensamentos e desejos; acesso, aliás, que só ele tem.

Isso nos conduz à primeira questão formulada acima: como os processos cerebrais se relacionam à consciência? Há dois pontos de vista dominantes na filosofia quanto à abordagem desse problema – os dualistas acreditam que o cérebro e a mente apoiam-se em dois diferentes tipos de processo; para os monistas, um único tipo de processo subjaz às atividades da mente e do cérebro.

Para os dualistas, as percepções são geradoras de impulsos nervosos que os fazem seguir por um caminho diferente do inicialmente planejado. A atividade neuronal também influencia a percepção dos processos mentais: quando nosso personagem vira a esquina e continua a caminhar, se vê em uma rua bastante sombria e arrepende-se da decisão de não tomar o ônibus.

Mas os dualistas também supõem que os processos físicos e mentais contrastem uns com os outros, algo problemático do ponto de vista científico. Tal hipótese torna muito difícil explicar como processos não-materiais podem influenciar atividades materiais. Os monistas de hoje não têm essa dificuldade, pois consideram o funcionamento da mente efeito de segunda ordem proveniente do mundo físico. Para eles, a consciência surge das atividades neuronais da mesma maneira que campos magnéticos advêm de correntes elétricas em um fio enrolado. Essa ideia está muito mais de acordo com a concepção científica, mas antes de a aceitarmos como verdadeira devemos ao menos verificar empiricamente a existência da interação – isto é, provar que um campo mental consciente pode ser encontrado e definido. Mas não dispomos, no presente, de pistas para explorar esse fenômeno.

De acordo com os monistas, um único tipo de processo ocorre na cabeça, independentemente de a atividade se desenrolar no domínio mental ou neuronal. A diferença entre cérebro e consciência reside simplesmente na maneira pela qual são acessadas as informações. Se esse acesso se dá por uma perspectiva pessoal interna – como ao perceber de maneira agradável o calor do sol na pele -, então os processos estão no âmbito da consciência. Mas se ocorrem a partir de uma perspectiva externa – como ao observarmos outras pessoas na rua sorrindo e olhando para o sol -, o processo é neuronal.

Embora essa teoria possa parecer um pouco artificial, a vida cotidiana mostra que fenômenos aparentemente distintos são muitas vezes duas faces da mesma moeda. Quando vamos a um concerto e vemos e ouvimos um violoncelo, usamos dois tipos de input pertencentes a um processo único de percepção. Mas enquanto eles estiverem de acordo espacial e temporalmente, jamais diferenciaremos um violoncelo “acústico” de um violoncelo “óptico”.

Se a diferença entre cérebro e consciência for atribuída ao fato de utilizarmos dois modos diferentes de acesso, então ninguém poderá alegar que a “realidade” está relacionada apenas a processos neuronais. Corpo e mente terão então a mesma importância: nenhum será mais real que o outro, e ambos serão dignos de estudo científico. Para os monistas, processos mentais são idênticos a processos cerebrais.

CORES E MORCEGOS

Resta, porém, um problema. Mesmo que possamos identificar os processos neuronais que formam a base de um tipo particular de atividade consciente, ainda não estaremos em condições de entender como a atividade dos neurônios se relaciona à experiência consciente. E essa é a pista para responder a nossa segunda questão, sobre se é realmente possível uma explicação científica da consciência.

Um filósofo procuraria formular essa tese de forma um pouco mais clara. O que importa é a diferença entre uma simples determinação de que a consciência está associada a certos eventos neuronais e nossa capacidade de explicar por que isso ocorre. Mesmo que seja possível descrever precisamente o que acontece nos neurônios durante um dado processo consciente, tudo o que essa descrição nos diz é que tais processos ocorrem sob certo conjunto de circunstâncias, mas não explica porque são especificamente essas as presentes e não outras.

Podemos entender melhor o que isso significa examinando dois famosos “experimentos mentais”. O primeiro deles se refere a Maria, uma neurobiologista extremamente talentosa que sabe tudo sobre como os seres humanos percebem as cores. Só que Maria é daltônica e nunca pôde ver nenhuma cor. Será que seu perfeito conhecimento da percepção das cores lhe permite saber como é a experiência de perceber uma cor? Não. Se um dia ela for capaz de ver uma cor, experimentará uma situação absolutamente nova. Aceitar isso, entretanto, significa que o conhecimento neurobiológico não nos pode fornecer nenhuma conclusão segura acerca dos processos ocorridos na consciência – o que nos leva a acreditar na extrema improbabilidade de em algum momento encontrar explicação para a relação entre cérebro e consciência.

Isso se torna ainda mais complexo com um segundo experimento mental, realizado nos anos 70 pelo filósofo Thomas Nagel, da Universidade de Nova York. Suponhamos mais uma vez que a consciência seja apenas um fenômeno cerebral. Imaginemos também conhecer absolutamente tudo sobre os processos físicos que se passam no cérebro dos morcegos. Teríamos nesse caso uma ideia clara da consciência dos morcegos? Saberíamos “como é” ser um morcego?

LIBERDADE E ILUSÃO

Em ambos os exemplos nos falta uma explicação. Podemos aceitar que alguns processos neuronais estejam ligados a processos mentais específicos, mas isso não é suficiente para entendermos por que são esses os processos presentes e não outros, e não sabemos o que ocorreria do ponto de vista subjetivo se os processos neuronais fossem modificados. Assim, não estamos certos se morcegos – lagartos ou minhocas – têm consciência. Essa percepção torna difícil responder a outras questões ainda mais perturbadoras: a partir de qual momento podemos afirmar que um feto possui consciência e, consequentemente, deve ser considerado indivíduo, capaz de sentir dor?

Alguns filósofos e cientistas argumentam que o conhecimento da atividade neuronal não é, em princípio, adequado para fornecer explicações sobre a consciência. Mas essa noção pode estar subestimando o progresso a ser alcançado por futuras descobertas científicas. Nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, era não plausível que a luz branca fosse composta de luzes de outras cores – um conceito estabelecido por Isaac Newton. Cientistas de ponta, como Robert Hooke, discordaram absolutamente da teoria newtoniana, mas hoje se aceita pacificamente o fato de a luz branca consistir num espectro colorido completo. Ao acolhermos essa descoberta, abrimos caminho para explicações científicas plausíveis para muitos outros fenômenos ópticos.

Para entender a consciência, precisamos de um maior número de características objetivas identificáveis externamente. Já conhecemos muitos aspectos dos vários estados de consciência, mas nosso saber ainda é insuficiente. É muito cedo para afirmar que um dia surgirá uma explicação abrangente a respeito, mas tampouco temos prova de que essa possibilidade esteja excluída.

À medida que aprendemos mais sobrea consciência, temos de igualmente considerar as implicações. Suponhamos por um momento ser possível provar que a consciência é realmente sinônimo de certa atividade nos neurônios do córtex cerebral. Teremos de lidar então com uma terceira grande questão: qual a consequência disso para a imagem que os seres humanos fazem de si mesmos?

Se a atividade mental se identifica a processos cerebrais, seguindo leis preditivas da Natureza, então não podemos mais afirmar que a vontade seja livre. Nosso comportamento não será determinado por nós, mas sim por leis que governam a atividade neuronal.

Por mais que esse argumento nos desagrade, é difícil discordar de sua lógica – até percebermos que a liberdade está vinculada a duas condições. Jamais descreveríamos um comportamento como livre se ele fosse de algum modo imposto por algo exterior a nós. E a liberdade também deve ser separada de coincidências fortuitas. Se for mera coincidência os neurônios do sr. P. provocarem sua decisão de ir a pé para o escritório, então ela não se originou em sua livre vontade, mas foi uma ocorrência aleatória. Ações livres devem ser atribuídas a uma pessoa, e essa liberdade surge, então, como uma espécie de ato de criação. Podemos atender aos dois critérios se traduzirmos “liberdade” por “autodeterminação”.  Essa tradução é muito mais que simples jogo de palavras, pois esclarece algo que comumente passa despercebido nas discussões sobre a liberdade da vontade: a liberdade requer uma pessoa, um self, que deve determinar-se a si próprio. A determinação do self distingue uma ação livre de outra, executada de maneira mecânica. O que é esse self? Certamente não se trata de uma alma interna ou um homúnculo pilotando o destino.

É, ao contrário, uma espécie de núcleo constituído pelos traços de personalidade e convicções mais fundamentais que definem o ser humano. Por exemplo, se eu acredito que roubar é um ato repreensível, então levarei ao caixa do supermercado todas as mercadorias que apanhei e pagarei por elas. Essa ação é produto de minha vontade espontânea, dirigida por minha própria determinação.

Que significa, então, para nosso livre-arbítrio, que as convicções e, consequentemente, o impulso inicial de nossas ações estejam baseados na atividade neuronal? Se uma convicção específica está na base de um ato motivado pela livre vontade, essa vontade não é ameaçada pelo fato de a convicção ter base neuronal.

PRIMEIRO A AÇÃO

De fato acontece o oposto: ao efetivar um traço fundamental da personalidade, o processo neuronal fornece a nossos desejos e convicções o poder de agir – ele provê condições para a ação autodeterminada. Nossa autodeterminação não é colocada em risco quando nossos conceitos e convicções morais efetivam-se em uma base neuronal.

De acordo com nossa definição de autodeterminação, traços centrais da personalidade devem estar conscientemente ativos o tempo todo. Mesmo quando as ações são desencadeadas por processos pré-conscientes, nosso comportamento deve ainda assim ser considerado autodeterminado. Por isso, os tão discutidos experimentos realizados nos anos 70 pelo neuropsicólogo Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia em São Francisco, não contradizem a tese de que há comportamentos autodeterminados. Libet descobriu que algumas ações simples, como caminhar ou mover a mão, são iniciadas por processos neuronais antes de a pessoa tomar a decisão consciente de produzir a ação. São discutíveis as consequências desse experimento, mas ele evidentemente não refuta a ideia de autodeterminação; o processamento das sensações físicas pelo cérebro, que o tornam consciente de que o corpo está caminhando, pode apenas ser mais lento do que o tempo necessário para processar as instruções para caminhar. É possível que tais experimentos modifiquem a concepção sobre o papel da consciência na tomada de decisões.

A consciência e a capacidade de determinar as próprias ações são centrais para nossa noção de ser humano. E nossas concepções desempenham papel crucial em alguns dos assuntos mais intensamente debatidos na atualidade. Quanto mais aprendermos sobre os mecanismos subjacentes à consciência e ao livre-arbítrio, mais fácil será resolvê-los.

EU ACHO …

DEPOIS DA PANDEMIA

“O mundo virtual precisará ser reconfigurado, pois teremos aprendido que, sem ele, não podemos sobreviver”

Como será o mundo após o coronavírus? É impossível prever o futuro. Mas podemos arriscar algumas hipóteses sobre o cenário logo após a pandemia.

A globalização vai derreter. Haverá um trauma com relação a doenças que podem vir de outros países. O comércio exterior sofrerá uma recessão profunda, causada pela perda de renda dos países. O receio de embarcar em um avião no qual um passageiro possa estar com um vírus incubado, não detectado por nenhum teste biométrico, deve afastar aspessoasde voos internacionais por longo tempo.

As viagens aéreas e o turismo voltarão gradualmente. Mas a escassez inicial de oferta fará com que elas sejam muito caras, com tarifas comparáveis às de 50 anos atrás, quando ir para a Europa custava o preço de um carro.

O coronavírus é uma ameaça existencial devastadora, pois ela chega associada com a recessão econômica causada pelo isolamento social. O tipo de ameaça que ele representa é peculiar, talvez pior do que o holocausto nuclear durante a Guerra Fria. As armas nucleares eram vistas como uma ameaça que poderia levar à extinção da humanidade. Mas há uma diferença.  Armas nucleares são controláveis, até quando são comercializadas no mercado negro. Não é o que ocorre com a COVID-19, que é incontrolável e ainda não tem cura. O risco existencial, potencializado pela aleatoriedade de um contágio comunitário, deixará uma marca de insegurança que perdurará. Como um trauma, ela não desaparecerá logo após a invenção de uma vacina ou o arrefecimento da pandemia. Deus jogava dados, mas não sabíamos.

As sequelas psicológicas se multiplicarão. A angústia do homem diante de sua finitude e da morte não será mais um sentimento apenas individual. Ela é, agora, interpretada como o horizonte de uma inelutável desaparição da espécie humana cuja fragilidade e precariedade foram expostas. A COVlD-19 não produz apenas uma doença que pode ser letal. Ela é uma ameaça aos meios de subsistência e, por isso, ao pacto social implícito que regula as relações humanas em todas as sociedades. Quando esse pacto é implodido, atitudes unilaterais são tomadas e pode haver uma quebra de confiança que dificilmente poderá ser restaurada. Se a pandemia durar muito, chegaremos à guerra de todos contra todos.

O desamparo, consciente ou não, aumentará. Ele é um sentimento que já ocorre agora, durante a pandemia e tende a continuar, e ainda será agravado pela percepção de que nossa civilização não é sustentável e que nunca estivemos preparados para sobreviver em um planeta com 7,5 bilhões de habitantes. Um planeta no qual tudo foi dimensionado para as massas e, por isso, as aglomerações tornam o contágio inevitável. Um planeta no qual políticos e religiosos impedem a discussão do problema da superpopulação.

O desamparo aumenta com a batalha de informações, com a guerra on-line e as fake news. Elas causam a erosão de qualquer porto seguro, de qualquer referencial confiável. O mundo virtual precisará ser reconfigurado, pois teremos aprendido que, sem ele, não podemos sobreviver. Será que as atividades realizadas no mundo virtual voltarão a acontecer no mundo físico? A ciência, na sua luta contra a religião, enfrentará uma batalha decisiva. Será que os cientistas encontrarão uma vacina ou um tratamento seguros? Se a ciência tropeçar na sua burocracia e demorar muito para validá-los, as religiões ganharão ainda mais força. O espectro de uma nova pandemia em um futuro próximo pode reforçar ainda mais a opção por uma visão religiosa do mundo. Talvez ingressemos em uma estranha era de trevas, na qual fanatismo religioso e hipertecnologias disputarão nosso imaginário.

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é formado em Filosofia pela USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Lecionou na UNESP, na UFSCar e na PUC-SP. Estuda filosofia da mente e da tecnologia

OUTROS OLHARES

DE VOLTA PARA A COZINHA

O isolamento tem feito pessoas sem a menor experiência com as panelas sentir grande prazer em se aproximar do forno e fogão. O organismo agradece

A pandemia do novo coronavírus provocou uma revolução silenciosa, a portas fechadas, na vida dos brasileiros: a mudança na alimentação. O confinamento, que nos obrigou a ficar dentro de casa, em muitas situações sem a ajuda profissional para as tarefas domésticas, pôs a cozinha no lugar central na rotina das famílias. Levantamento feito pela empresa inglesa de mercado Global Web Index com dezessete países mostrou que um terço dos brasileiros passou a cozinhar desde o início da quarentena – e comida de verdade. As receitas prediletas são aquelas em que cada ingrediente é preparado artesanalmente. O prático e insosso caldo de carne em cubos, que pode ser diluído instantaneamente em água fervente, foi substituído por receitas caseiras com pedaços de bife e osso que demandam não menos de uma hora para ficar prontas. Os temperos desidratados, em pó, deram lugar a plantinhas frescas e cheirosas. A saúde agradece, com efeitos evidentemente positivos.O ícone dessa transformação é a ex- modelo Rita Lobo, dona da marca de sucesso Panelinha. Em seu programa de televisão pelo canal GNT, Cozinha Prática, e nas apresentações pelo YouTube ela valoriza a “comida de antigamente,” aquela preparada por nossos avós, com jeitinho caseiro, alimentos naturais e o mais decisivo: de forma simples, para quem não tem experiência. Ela mesma se interessou pelo forno e fogão apenas aos 18 anos. já crescida, quando desejou uma atividade paralela que durasse a vida toda – e que se transformou em ganha-pão. “Aprendi a cozinhar em escolas e livros”, diz nas redes sociais.

Pedir a comida pronta em um restaurante ou lanchonete tem ainda papel decisivo em tempos de quarentena, obviamente. Apenas em São Paulo, houve um aumento de 200% no uso dos aplicativos de delivery. Mas, com a reclusão durando mais do que o imaginado, deu-se a urgência de total dedicação às atividades domésticas – além da economia. “O atual movimento de volta para a cozinha é um dos mais significativos das últimas décadas”, diz o nutrólogo especialista em gastronomia Daniel Magnoni, do Hospital do Coração. Depois da II Guerra Mundial, grandes companhias começaram a produzir comida barata e pouco nutritiva. Preocupava-se mais com o barateamento dos produtos e dos processos de produção do que com a saúde dos consumidores. Mas isso não foi de todo ruim. A profusão de alimentos industrializados, alguns muito bons, e as várias formas de empacotamento permitiram o planejamento antecipado de um cardápio inteiro, dispensando a atenção de uma pessoa da casa para o preparo de uma refeição. Paralelamente, as redes de lanches rápidos, lançadas nos Estados Unidos, substituíram os talheres por embalagens. Foi um modo de adaptação à vida moderna, necessário, embora nem sempre saudável. Nos anos 1980, o movimento alimentar chamado slow-food surgiu na Itália como uma reação contrária à tentativa de construção de um McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma. O objetivo: defender as tradições gastronômicas regionais e as refeições de longa duração. A partir de então a sociedade passou a exigir produtos mais equilibrados, com informações transparentes nos rótulos. Gigantes da indústria alimentícia se adaptaram, lançando marcas com baixo teor de açúcar, sal e gorduras, sem lactose, sem glúten ou provenientes de fazendas orgânicas. Empresas e startups usam recursos tecnológicos para tornar os alimentos bons e adaptados às novas demandas, baseadas em rigorosos estudos científicos. “O que se vê agora é diferente”, diz Priscilla Primi, professora de nutrição da Universidade Paulista (Unip).”Não é apenas a procura por uma dieta equilibrada, mas a descoberta do prazer de cozinhar o próprio alimento.” Que a mudança tenha vindo para ficar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 04 DE SETEMBRO

A FESTA DA RECONCILIAÇÃO

… Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se (Lucas 15. 23b, 24).

Há quatro estágios na vida do filho pródigo: feliz e inconsciente (na casa do pai); infeliz e inconsciente (no país distante, cercado de amigos); infeliz e consciente (na pocilga, cuidando de porcos) e feliz consciente (de volta ao lar). O filho pródigo vivia insatisfeito na casa do pai. Pensou que a felicidade estava longe, fora dos portões. Decidiu pedir antecipadamente sua herança e partir para um país distante, a fim de curtir as aventuras da vida. No início, enquanto havia dinheiro no bolso, muitos amigos e muita diversão embalaram suas noites. Ele gastou tudo o que tinha em uma vida dissoluta. Chegou, porém, a fome, e os amigos foram embora. Ele começou a passar necessidades e, por fim, foi parar numa pocilga para cuidar de porcos. A felicidade que o jovem buscava longe do pai não passava de uma miragem enganosa. Ele era feliz na casa paterna e não sabia. Agora estava infeliz e sabia. Foi nesse momento que resolveu voltar para casa e pedir perdão ao pai. Estava disposto a ser apenas um trabalhador. Mas, para sua surpresa, quando voltou para casa, o pai o esperava e correu ao seu encontro para lhe abraçar, beijar e dar uma grande festa pela sua volta. Aquela foi a festa da reconciliação. Há festa no céu quando um pecador se arrepende. Os anjos celebram sua volta para Deus.

GESTÃO E CARREIRA

GURU DAS REDES

As marcas estão usando cada vez mais as mídias sociais para interagir com os consumidores. Por trás dessa estratégia está o Community Manager, profissional que age como um embaixador da empresa na internet

Mais da metade da população brasileira é usuária de redes sociais. Foi isso o que mostrou o relatório Digital in 2019, feito pela agência We Are Social em parceria com a empresa de gestão de mídias sociais Hootsuite, que revelou que 66% dos brasileiros estão conectados às mídias sociais, o que representa mais de 140 milhões de pessoas.

Com tanta gente conectada, as empresas encontraram a oportunidade de falar diretamente com os consumidores na internet. Isso fez surgir uma nova carreira: a de community manager, ou gerente de comunidade.

É ele quem monitora fóruns, blogs e perfis de redes sociais para identificar assuntos que estão em alta e encontrar maneiras de fazer com que a empresa participe das conversas com os internautas. “O community manager ajuda a marca a entender manifestações da sociedade, escutar o feedback de produtos e serviços, e identificar novos concorrentes. Isso faz com que os clientes criem afinidade com a marca”, diz Rodrigo Helcer, CEO da Stilingue, plataforma especializada no monitoramento de redes sociais. Além disso, esse profissional auxilia no posicionamento da companhia no mercado e pode contribuir com a equipe de pesquisa e desenvolvimento. Uma fabricante de cosméticos que está acompanhando discussões sobre questões raciais, por exemplo, se posiciona sobre o assunto, identifica as necessidades dos clientes e cria produtos.

Para atuar na área, é fundamental conhecer ferramentas de identificação de tendências, ser usuário de mídias sociais e conseguir analisar dados. No entanto, são as habilidades comportamentais (empatia, curiosidade, criatividade e proatividade) que impulsionam a carreira. “Esse é um cargo altamente humano, pois exerce o papel de troca com a comunidade. É importante ter escuta ativa e sensibilidade para saber a hora de entrar em uma conversa”, diz Isabela Ventura, CEO da plataforma de marketing Squid.

O paulistano Otávio Bautista, de 26 anos, se especializou no tema. Formado em publicidade, ele começou sua carreira como estagiário em uma agência responsável por gerenciar perfis de bares e restaurantes. “Seis anos atrás, as redes eram completamente diferentes. O Facebook estava em alta, o Instagram era pouco usado, e começava a aumentar o número de influenciadores no YouTube”, diz. Há dois anos, Otávio foi contratado para atuar como community manager na fintech Easynvest e há seis meses assumiu a liderança da equipe. Ele ainda tem canais pessoais sobre finanças no YouTube e no Instagram – hobby que o ajuda a testar estratégias que possam ser aplicadas no trabalho. “É preciso ser conectado e ativo para conhecer as novas ferramentas e pensar nas oportunidades de inclusão da marca nos assuntos que estão em alta”, diz.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

HORAS TRABALHADAS: 8 horas diárias

DIVISÃO DO TEMPO

50% – Pesquisa de referências e de assuntos em alta

30% – Interação com usuários e produção de conteúdo para as redes

20% – Análise de métricas

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ter a capacidade de agir sob pressão, manter-se atualizado sobre o que está acontecendo nas redes e conhecer as ferramentas disponíveis de métricas, edição e engajamento.

ATIVIDADES – CHAVE

•  Desenvolver a estratégia de comunicação da empresa nas redes sociais

•  Interagir com os seguidores e clientes da marca

•   Acompanhar métricas e resultados de campanhas

•  Gerenciar crises

•  Monitorar as discussões que surgem nas redes

PONTOS POSITIVOS

É uma área com muitas oportunidades e que está ligada diretamente com a estratégia de crescimento da companhia. A atuação dá experiência em atendimento ao cliente e em análise de tendências.

PONTOS NEGATIVOS

O trabalho demanda conexão constante para não perder o que acontece nas redes sociais, e isso pode ser exaustivo. O Community Manager é responsável pelo gerenciamento de crises nas redes sociais, o que torna a função estressante.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Graduações como publicidade e propaganda, marketing, jornalismo, relações públicas e comunicação social, além de cursos sobre as plataformas de mídia.

QUEM CONTRATA

Empresas de todos os tipos, tamanhos e segmentos, mas principalmente startups.

SALÁRIO: De 2.119 a 3.919 reais

VAGAS: 44

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LOUCOS DE RAIVA

Em algumas situações, as explosões de irritação são inevitáveis – mais importante que reprimi-las é lidar com elas

O que trânsito congestionado, políticos desonestos, computadores quebrados e sujeira de cachorro na rua têm em comum? Acertou: nos irritamos com tudo isso. Ficamos bastante incomodados sempre que não conseguimos atingir um objetivo, satisfazer um desejo ou quando nossa autoestima é atacada.

A irritação é uma reação hostil a determinado estímulo. Ainda que o primeiro impulso dure apenas poucos segundos, o estado pode perdurar por mais tempo e ser reavivado a qualquer momento. Embora a percebamos como desagradável, a irritação em si – sobretudo quando bem vivida – pode ser divertida também.

Essa emoção básica tem muitas facetas – em português, a palavra “irritação” provém do latim irritare, que significa “incitar, estimular, provocar”. Pode transformar-se em inveja, ciúme, quando se trata da – suposta – posse de outra pessoa. Também o desejo de vingança aparece quando a irritação é provocada por uma ofensa.

Por raiva entendemos uma emoção mais densa, explosiva, em que a irritação desencadeia reação imediata, e a energia represada descarrega-se no chamado acesso de raiva. Quando raiva e irritação se voltam para determinado alvo por um período de tempo maior, falamos em ódio. Por fim, a ira vincula irritação à confrontação e à justificação intelectuais, fazendo, então, da ”raiva dos injustiçados” a “ira dos justos”.

Toda s as culturas conhecem a irritação, a raiva e a ira. Mas o valor ou explicação que têm é algo que depende do contexto cultural. A chamada patologia dos humores, por exemplo, predominante desde a Antiguidade até a Idade Média, partia do princípio de que um desequilíbrio entre os “humores corporais” conduzia aos quatro principais temperamentos humanos. O excesso de bile (em grego, kholé) determinaria violentas e calamitosas explosões temperamentais e de raiva, isto é, o tipo colérico.

No final da Idade Média e durante o Renascimento, passou a predominar a concepção de que a irritação irrefreada não traria desgraça apenas àquele contra o qual o sentimento se dirige, mas também ao próprio enfurecido. A ira e a inveja foram até incluídas entre os sete pecados capitais.

Irritação e raiva são emoções bastante intensas, associadas a fortes reações corporais. Elas se manifestam sobretudo em três planos, todos sujeitos ao controle direto do cérebro: alterações somáticas típicas, aumento da pressão arterial e tensionamento dos músculos.

TRÊS PARTES

Universo cultural à parte, todos os seres humanos têm “posturas básicas” geneticamente determinadas frente à irritação e à raiva. Elas conduzem aos mesmos processos no sistema nervoso e, além disso, a expressões gestuais semelhantes. Contudo, isso pode ser alterado por influências culturais ancestrais.

Para melhor compreender como isto se dá, é possível pensar numa concepção simplificada do sistema cerebral em três partes:

1. O “cérebro reptiliano” compreende o tronco cerebral e porções do diencéfalo. “Moram” aí reflexos e instintos. Essa é a base instintiva sobre a qual se assentam nossos sentimentos. É aí que se funda nosso estado geral de excitação. Ele dá a medida do quanto vamos nos irritar.

2. No sistema límbico vivemos emoções como a irritação soba forma de estados de espírito inconscientes que exercem forte influência sobre nosso comportamento. De especial importância há aí uma estrutura chamada amígdala. Em cobaias, ao serem estimuladas certas regiões da amígdala, observa-se uma esperada reação agressiva, acompanhada de gestos “irritados”. O sistema límbico envia sinais ao cérebro reptiliano, em especial à porção chamada hipotálamo.

Essa estrutura cerebral possui íntima vinculação com a hipófise – nossa glândula hormonal suprema e controla o nível dos hormônios. Desse modo, ao experimentar a emoção da raiva, o corpo é de imediato “acionado para o ataque”. São liberados hormônios do stress, como a adrenalina, os folículos pilosos se eriçam (filogeneticamente, gesto primordial da sensação de ameaça, que, no homem, se manifesta por intermédio da pele arrepiada), aumentam a pressão arterial e os batimentos cardíacos, melhorando a irrigação dos órgãos.

Com isso, nosso metabolismo se adapta à situação causadora da irritação. Paralelamente, o sistema límbico cuida ainda para que nosso modo de expressão se conduza de acordo com a emoção vivida: o sentimento se manifesta tanto no tom de voz como na mímica e nos gestos.

3. No plano superior desse nosso modelo simplificado do cérebro está o córtex. Em termos gerais, essa parte governa os movimentos voluntários, processa conscientemente os estímulos sensoriais e é responsável por processos cognitivos complexos, tais como o pensamento ou a fala. Vivemos as emoções conscientes sobretudo por meio do lobo frontal – a porção anterior do córtex. Assim, em vez de relegá-las à periferia da consciência como sensações indistintas, podemos voltar nossa atenção para elas, analisá-las e nomeá-las. É isso que, de acordo com o contexto, transforma a irritação em inveja, vingança ou decepção.

O córtex modera e governa nossas reações emocionais. Se reagimos a uma ofensa, estamos, de início, à mercê da resposta do sistema límbico. Depois, com o auxílio do córtex cerebral, analisamos o custo-benefício e definimos como vamos lidar com essa raiva.

O caso da reação de irritação, no entanto, não tem a ver com circuitos neuronais fixos e definidos, operando nas já mencionadas regiões do cérebro. Tampouco existe um “centro da raiva” específico no cérebro, único responsável por esse sentimento. A irritação surge da interação de várias estruturas cerebrais bem diferentes que governam o nível geral de excitação no sistema nervoso e os processos somáticos automáticos; identificam e processam sentimentos; efetuam, com ajuda da memória, uma comparação da situação presente com situações irritantes do passado.

Além disso, pesquisas recentes revelaram que a própria conexão neuronal entre as células cerebrais pode se modificar quando fortes impressões emocionais se repetem de forma constante. Técnicas de diagnóstico por imagem mostraram tais modificações em vítimas de eventos traumáticos.

Assim como não existe um “centro da raiva”, tampouco há um hormônio específico que seja responsável pela irritação. Em vez disso, toda uma série de hormônios e neurotransmissores está relacionada a essa emoção, tais como a adrenalina, a noradrenalina, a dopamina e a testosterona.

A adrenalina, hormônio do stress, é liberada em caso de perigo e põe o corpo em estado de atenção máxima: as funções cardíaca e circulatória, a respiração, o processamento dos estímulos por parte do cérebro e outras funções passam a operar no máximo, a fim de possibilitar pronta reação. Nesse contexto, fala-se de uma reação de fuga ou luta, na qual todas as reservas de energia são postas a serviço de excitação e atividade corporal elevadas. Em linhas gerais, a noradrenalina atua de modo semelhante à adrenalina, acelerando os batimentos cardíacos. Assim como a dopamina, ela influencia sobretudo o grau de vigilância e de excitação.

O sistema límbico governa a expressão facial, capaz de denunciar involuntariamente nosso estado emocional. A expressão típica da irritação compõe-se de um franzir do rosto, de uma ruga de ira ou raiva na fronte e da contração do músculo da testa. Essa mímica faz com que os olhos se apertem, protegendo-se da incidência excessiva de luz. É assim que nos encapsulamos, isolando-nos da causa da ira. Também no plano mental usamos “proteção para os olhos”, tornando ­nos como cegos para uma possível solução do conflito.

MANTENDO DISTÂNCIA

Os gestos e a postura do corpo emitem outros sinais de nossa irritação – o punho cerrado, por exemplo, ou um tensionamento visível da musculatura. O tom da voz também se altera e ela pode passar a soar estridente ou abafada.

A expressão gestual, a postura do corpo e o tom de voz são, em princípio, resultado de nossos sentimentos. Ao mesmo tempo, comunicam algo. É muito importante para nós, bem como para todos os outros animais que vivem em sociedade, descobrirem que estado de espírito se encontram aqueles que nos circundam, a fim de nos prepararmos. Se um indivíduo demonstra irritação, os outros podem se manter a uma maior distância, até que a irritação “desapareça”, o que diminui a possibilidade e a ocorrência de agressão ou conflito. A irritação tem uma função de advertência e proteção.

Se estamos irritados e identificamos irritação nos outros, podemos enviar-lhes sinais apaziguadores. Um tom de voz mais dócil e conciliador, gestos tranquilizadores, uma postura corporal mais humilde ou um sorriso cordial são sinais que suavizam a irritação alheia. Se lidamos de forma apropriada com a irritação e a raiva, elas se tornam úteis na regulação dos relacionamentos sociais: por meio delas, é possível nos distanciar dos outros, discutir com eles ou nos proteger.

Mas torna-se difícil reagir de forma apropriada à irritação quando ela só se mostra velada, reprimida pelo desejo de se mostrar simpático, pelo medo da punição ou pelo sentimento de culpa. Isso conduz a comentários ácidos, do tipo: “Você já não parece tão gordo como antes!”.

Pode-se identificar com nitidez a irritação velada pela comunicação não-verbal – em especial, pela expressão gestual ou pela entonação. Mal-entendidos e perturbações podem advir daí. E, a longo prazo, provocar ainda mais hostilidade.

Assim descreve a psicoterapeuta Verena Kast outra função importante da irritação: ela nos mostra que algo não vai bem e nos ajuda a modificar relações que julgamos insuportáveis, ou ao menos difíceis de suportar. “Quem se permite ficar irritado acredita que a vida ainda pode mudar.” A raiva e a irritação nos dão a energia necessária para efetuar essas modificações. Uma das formas de isso ocorrer é por meio da agressão.

Em princípio, porém, comportamento agressivo e irritação não são similares. Nos animais, uma certa confusão até se justifica: não podemos perguntar-lhes sobre seu estado de ânimo; só depreender de seu comportamento as emoções que porventura sentem. Nos seres humanos, entretanto, a situação é diferente, principalmente em virtude de sua capacidade de controlar os próprios sentimentos com o auxílio da razão: a irritação não conduz, portanto, necessariamente à agressão. E, por outro lado, tampouco se apresenta sempre associada a sentimentos de raiva. Ainda assim, há certa conexão entre agressão e irritação: um estado de ânimo irritadiço – raivoso há de conduzir a um comportamento agressivo.

PODER E VINGANÇA

Essa dissociação parcial entre raiva e irritação, por um lado, e agressão, por outro, não ocorre apenas no ser humano. Muitos animais limitam seu comportamento agressivo a gestos ameaçadores que não se fazem acompanhar de ações de luta efetiva. Todo aquele que só deseja demonstrar com credibilidade sua posição hierárquica e sua disposição para a defesa ou o ataque poupa energia e tem nas mãos as melhores cartas da evolução. Foi necessário desenvolver mecanismos para comunicar a disposição de lutar.

O desenvolvimento desses mecanismos pode, em última análise, ter conduzido à dissociação ao menos parcial entre nossos sentimentos de irritação e raiva e o comportamento agressivo. Também a fala auxilia os humanos a tomar o caminho da discussão irritada, em lugar do das vias de fato. Mas quando a irritação efetivamente conduz à agressão, ela pode estar a serviço da imposição da própria vontade, da aquisição de poder ou do restabelecimento da autoestima ferida, por vingança.

Por fim, uma forma particular da raiva serve à sondagem dos próprios limites. Crianças pequenas, na fase em que começam a querer impor a própria vontade, e jovens na puberdade tomam consciência da própria vitalidade em explosões de raiva, de que se valem para sondar os limites de sua ação agressiva. Se o mundo ao redor não reage de forma apropriada a esse comportamento, isso é com frequência interpretado como fraqueza ou falta de interesse. Raiva e agressão podem, então, se intensificar.

Pouco importa se nosso filho de 3 anos começa a espernear diante dos doces no supermercado ou se um jovem resolve adornar com grafite o muro de nossa casa – em ambos os casos é necessário que, no interesse deles próprios, mostremos os limites do comportamento aceitável. E podemos fazê-lo deixando clara a nossa irritação – posta aí a serviço da comunicação.

Em geral, somos capazes de conter a irritação, seja por medo de vingança, seja em decorrência de sentimentos de culpa, por exemplo. Se, porém, não conseguimos fazê-lo, uma reação raivosa exagerada pode facilmente conduzir à agressão destrutiva e ao emprego da violência – relacionamentos têm, então, seu fim precipitado, ou danos são causados a nosso semelhante. Explosões de violência surgem particularmente em situações de stress social – o encurralado acredita que somente o ataque pode salvar sua autoestima.

É frequente que crianças e jovens que apresentam reações agressivas impróprias e são incapazes de controlar a própria raiva tenham sofrido um longo período de carência afetiva e sido privados de carinho e proteção. Reiteradas experiências de violência também podem provocar o comportamento agressivo, o que, por sua vez, dificulta a construção de novas relações sociais. Nesse caso, é possível que, com tal comportamento, se busque inconscientemente evitar novas decepções e rompimentos.

Irritação e raiva, ambas ativam o sistema nervoso simpático e põem o corpo em estado de alerta. Se, em decorrência de stress prolongado no ambiente de trabalho, não logramos atenuá-las, medidas automáticas do sistema nervoso e processos hormonais são postos em curso, com graves consequências: passamos a sofrer de um estado de tensão e de distúrbios cardiovasculares crônicos – sobretudo hipertensão arterial -, e nosso sistema imunológico se enfraquece.

MODERAÇÃO, POR FAVOR

Esses sentimentos são parte do “equipamento emocional básico” dos seres humanos. Não podemos bani-los. Pelo contrário: sua presença indica um conflito ou um perigo a nos ameaçar, razão pela qual devemos dar atenção a essa presença e levá-la a sério. Graças a esses sentimentos, refletimos sobre nossos próprios limites, rechaçamos – se necessário – quem se aproxima deles e nos protegemos de intrusões indevidas. A energia que a irritação põe à disposição afasta o medo e a sensação de impotência. As emoções voltam nossa atenção para o problema a ser resolvido. Assim, em vez de “Ora, não se irrite!”, deveríamos dizer: “Trate de se irritar, sim – mas com moderação”.

Para lidar de forma apropriada com esses sentimentos é fundamental, antes de mais nada, tomar consciência de nossa irritação, com todos os seus indicadores físicos e emocionais. O passo seguinte é da expressão consciente ao sentimento: as palavras nos permitem manifestar a irritação sem ter de recorrer à violência física. Não podemos nos esquecer, porém, de que também as palavras e os gestos podem ferir muito, em particular quando manifestam irritação velada. Nesse sentido, seria salutar que todos aprendêssemos e exercitássemos desde pequenos como reconhecer e conviver com a irritação.

Por fim, é fundamental ainda ter clareza de que, com nosso comportamento, está em nossas mãos irritar ou não nossos semelhantes. Também somos responsáveis, portanto, pela irritação e pela raiva ao nosso redor, e devemos levá-las a sério. A irritação pode nos ajudar a impor respeito por nossos limites e a articular nossos próprios interesses. Ao mesmo tempo, porém, cabe-nos respeitar os limites e a integridade dos outros.

Da próxima vez que você se irritar porque alguém quer passar à sua frente na fila, basta que você expresse essa irritação. Mas sinalize também ao outro sua disposição conciliatória. Se fizer isso, terá boas chances de esclarecer de forma sensata o conflito e resolvê-lo. A irritação, é de supor, vai desaparecer – ela já terá cumprido sua função.

EU ACHO …

O PARADOXO DA ESTATÍSTICA

Os números contam boas histórias escondidas, mas podem mentir

A Mariquinha está em casa? Chove? Como alertou Bob Dylan, não é preciso ser meteorologista para saber a direção do vento. Mas se perguntarmos se choverá amanhã, se a Covid-19 foi controlada ou se aumenta a obesidade dos brasileiros, a resposta estará escondida dentro de uma montanha de números. Decifrá-los é a missão da estatística.

Proponho aqui uma indagação. Qual das duas afirmações a seguir está certa? (1) Com a estatística extraímos informações escondidas e (2) A estatística é a arte de mentir com números. Paradoxalmente, as duas. Na primeira, apenas batizamos um conjunto de técnicas. Na segunda, trata-se de uma real possibilidade, diante da ignorância ou vontade de enganar.

Há antídoto? Claro. Basta conhecer os meandros da estatística para não ser iludido. De fato, ela só engana a quem não decifrou as suas manhas. Infelizmente, como poucos a entendem, fica-se à mercê do que a imprensa revela. Alguns, muito corretos. Mas existem os ingênuos e os mentirosos. Ilustremos o tema com a pandemia. Comparar números absolutos de mortes é erro primário. Países como Andorra e Mônaco seriam os maiores sucessos de controle do surto. Brasil e Estados Unidos, grandalhões, seriam escabrosos líderes mundiais. Mas tomando óbitos per capita, muda tudo. Reino Unido, França, Itália e Chile têm maior letalidade per capita do que o Brasil.

Consideremos a Itália, Inglaterra ou França, países geograficamente circunscritos. Neles, a curva com a evolução da epidemia conta uma história. Pode mostrar aceleração, arrefecimento ou decréscimo. Ou até uma nova onda. Mas Brasil e Estados Unidos são continentes. Nova York desce, Arizona sobe. A curva agregando todos os estados é uma montoeira de dinâmicas superpostas. Nada diz. No Brasil, a cidade de São Paulo começou a se estabilizar, o interior cresce. Outros estados sobem ou descem. Juntar tudo é como tomar a média da temperatura de todos os pacientes de um hospital e desse controle tirar alguma conclusão interessante. Para quê?

Qual a letalidade do coronavírus? É simples, basta dividir os óbitos pelos infectados. Simples, mas errado. Se os testes são escassos, apenas quem aporta aos hospitais os fazem. Ou seja, o denominador são os casos sérios, e não a totalidade real de casos. Falecem 4% no Brasil? Não, pois esse número mede mais a disponibilidade de testes do que a mortalidade. Em um país que testa poucos, o denominador é pequeno, superestimando a letalidade. As únicas pesquisas brasileiras que medem a real incidência são as da Universidade Federal de Pelotas. Mostram que, para cada registro oficial, há seis infectados que não fizeram testes. Usando esses números, não discrepamos da média mundial. Mas isso não dá manchetes.

A identificação dos óbitos é politizada. Estados “de mal” com a Presidência registram como coronavírus os casos indefinidos. Quem está ”de bem” exclui os ambíguos. Mas há uma alternativa: estimar o acréscimo de mortes, comparadas com as do ano anterior. Se a sociedade fosse mais versada em estatística, estaria mais a salvo das interpretações – inocentes ou culposas – disseminadas pelo governo e redes sociais.

***CLAUDIO DE MOURA CASTRO           

OUTROS OLHARES

 A REVOLUÇÃO JÁ COMEÇOU

Nos países que adotaram o 5G, a polícia se tornou mais eficaz, a velocidade de transmissão de dados disparou e as máquinas ficaram mais inteligentes

Na coreia do Sul, em algumas cidades da China e em certas regiões da Suécia o download de filmes em alta resolução demora poucos segun­dos para ser finalizado. As vídeochamadas jamais travam. A polícia usa câmeras de altíssima qualidade conectadas à internet que captam imagens em tempo real, 24 horas por dia, sete dias da semana. Mães atarefadas vestem seus bebês com fralda dotada de sensores que avisam quando ela está suja. Testes com carros autônomos são bem-sucedidos.

Essa sucessão de bons resultados se tornou possível graças à rede de internet móvel 5G, pivô da atual Guerra Fria entre Estados Unidos e China, tecnologia que está prestes a transformar a vida de bilhões de pessoas em diversos países – até mesmo no Brasil. As mudanças se devem a um fator essencial: velocidade. Com o 5G, a internet é pelo menos 100 vezes mais rápida do que a da geração anterior, atalho para o mundo da inteligência artificial. A transmissão de dados será imediata. Os aparelhos vão se conectar entre si. A vida não será mais como antes, como provam as primeiras experiências nos países que já adotaram o sistema.

As aplicações do 5G são ilimitadas. “Ele vai tornar as cidades mais inteligentes”, diz Daniel Batista, cientista da computação e professor de programação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. O especialista dá um exemplo prático. Na maioria dos municípios, apenas algumas poucas avenidas, ruas ou ciclofaixas são monitoradas por câmeras. Com o 5G, praticamente todo o espaço urbano poderá ser esquadrinhado pelo olhar atento dos sistemas de vídeo. Outro potencial uso ajudará a salvar vidas. “Com o 5G, será possível, por exemplo, ter sistemas de GPS em ambulâncias conectados a um serviço de emergência que abriria os semáforos à medida que o veículo se aproximasse do local do acidente ou do hospital”, afirma o professor da USP. A mesma lógica vale para carros de polícia, que teriam prioridade na passagem por faróis ou outros reguladores de trânsito.

Os veículos autônomos, que têm consumido bilhões de dólares em investimentos das montadoras, terão um estímulo para virar realidade. Para funcionar sem oferecer riscos, eles dependem de uma rede complexa de sensores interligados por inteligência artificial. Antes do 5G, o carro autônomo poderia demorar alguns centésimos de segundos mais para tomar uma decisão, como desviar de um obstáculo ou frear bruscamente. Na era do 5G, a resposta do automóvel será imediata, e a probabilidade de alguma falha de conexão afetar o seu funcionamento será reduzida a quase zero.

Na Coreia do Sul, maior adepta do 5G no planeta, a produção desses veículos foi impulsionada pela instalação da nova rede, que se deu em abril de 2019. O país, o primeiro a adotar o 5G comercialmente (desde então foi seguido por Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e China), pretende investir 20 bilhões de dólares até 2022 para ampliar o uso da tecnologia. Atualmente, 6 milhões de sul-coreanos têm acesso ao 5G, mas os outros 45 milhões de habitantes esperam pela chance de adotar o sistema. Na Suécia, o 5G deu novo impulso à indústria de games. Desde o advento da tecnologia, no fim de 2019, o download de jogos on-line aumentou 200%.

O Brasil vê a tecnologia como um sonho distante. O leilão das frequências 5G, que serve para determinar quais empresas poderão operar a nova rede, está marcado para 2021 – isso se não houver, como é típico no país, atrasos ou adiamentos. No mês passado, a Claro anunciou a implementação, em algumas regiões e em caráter experimental, do 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), espécie de transição entre o 4G e o 5G, que é dez vezes mais veloz do que o primeiro.

Enquanto o 5G não chega, será preciso melhorar a segurança das redes de internet. “Com o aumento da taxa de transmissão de dados, criminosos vão conseguir vazar informações privadas em poucos segundos”, diz o professor Daniel Batista. O avanço da tecnologia suscita debates apaixonados sobre os limites da inteligência das máquinas. “Com equipamentos aprendendo diversas funções, passaremos a ser escravos da tecnologia”, afirmou o professor de comunicação wireless na King’s College London Mischa Dohler. O 5G, de fato, provocará grandes revoluções. Resta à humanidade saber usá-las.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE SETEMBRO

COMO ENVELHECER COM DOÇURA

Expirou Abraão; morreu em ditosa velhice, avançado em anos; e foi reunido a seu povo (Genesis 25.8).

A velhice é um caminho incontornável. Não há atalhos para fugir dessa realidade. O tempo é implacável e esculpe em nossa face rugas indisfarçáveis. Cada fio de cabelo branco que brota em nossa cabeça é a morte nos chamando para um duelo. Os anos pesam sobre nós como chumbo, deixando nossas pernas bambas, nossos braços fracos e nossos olhos embaçados. A velhice é uma realidade inescapável. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos estar frente a frente com ela, a não ser que a morte nos visite precocemente. A questão não é envelhecer, mas como envelhecer. A velhice pode ser uma bênção ou uma maldição; um campo de delícias ou um deserto de sofrimento; uma colheita farta ou uma frustração incurável. Muitas pessoas envelhecem com amargura. Tornam-se revoltadas com a vida e amargam na velhice uma dolorosa solidão. Outras, porém, tornam-se doces, sábias e fazem dessa fase outonal os anos mais extraordinários da caminhada. Os velhos podem ser cheios do Espírito e nutrir grandes sonhos na alma. Podem olhar para frente e ter projetos, em vez de apenas celebrar as conquistas do passado. Podem influenciar a nova geração em vez de apenas enaltecer o passado. A velhice é um privilégio, uma bênção, uma dádiva de Deus. Devemos desejá-la e recebê-la com gratidão!

GESTÃO E CARREIRA

O PAPEL DE DESTAQUE DA KLABIN

Maior produtora e exportadora de embalagens do Brasil amplia suas vendas e encontra um caminho no comércio eletrônico. A missão, agora, é manter o crescimento em um cenário de incertezas para a indústria.

Um bom termômetro para aferir a temperatura do varejo no Brasil, ainda mais no momento de crise provocado pela pandemia da Covid-19, é a produção de embalagens. A enorme procura em supermercados, somada ao crescimento do e-commerce no País após o início do isolamento social, criou um cenário positivo para a indústria de papel e celulose. Se há mais encomendas de embalagens, há aumento nas vendas. Nesse quesito, pode-se dizer que a Klabin ocupa papel de destaque. Nos primeiros três meses do ano, a companhia, que é a maior produtora e exportadora de papéis para embalagens do Brasil, cresceu 8% em volume em relação ao primeiro trimestre de 2019, com 849 mil toneladas comercializadas, performance pouco acima do observado para a toda a indústria do setor, que obteve alta de 7,5% no período. “Tanto no primeiro quanto no segundo trimestre, tivemos vendas maiores em todos os segmentos”, disse o CEO da Klabin, Cristiano Teixeira.

Foi no setor de bens não duráveis, como alimentação, bebidas e farmacêutico, que a utilização de embalagens de papel cresceu significativamente. No segundo bimestre de 2019, representava 79% do total comercializado. No mesmo período deste ano, pulou para 85%. No on-line, a alta foi impulsionada pelo acréscimo de cerca de 5,7 milhões de novos consumidores, segundo estudo da Neotrust/Compre&Confie, que foram às compras durante a pandemia. Mais consumo pelo computador reflete em mais embalagens.

Na plataforma virtual da companhia, o reflexo foi percebido desde o início da quarentena. Entre março e junho, o fluxo de visitas na rede da Klabin cresceu 60%. Nos últimos dois meses, a venda de embalagens personalizadas para food service delivery e take away quadruplicou, o que já representa 15% das vendas de embalagens do site. A Klabin registrou, nos primeiros três meses deste ano, R$ 2,6 bilhões de receita líquida, alta de 4% em relação ao primeiro trimestre de 2019. Metade do resultado vem da exportação dos produtos e a outra, do mercado interno. A empresa também está entre os maiores fornecedores do mundo de papel-cartão para a gigante sueca Tetra Pak, líder global de embalagens de alimentos e produtos líquidos.

Única da América do Sul a fornecer à companhia sueca, ampliou sua participação a partir da necessidade de mais insumos para atender à demanda mundial. “A Klabin foi a empresa mais preparada para reagir à demanda da Tetra Pak e conseguiu operar com 30% mais vendas do que o normal”, afirmou Teixeira. A perspectiva, no entanto, é de que haja acomodação no segundo semestre, devido à estabilidade de consumo, diferentemente do cenário percebido nas primeiras semanas após o início do confinamento.

E-COMMERCE

Segundo a presidente da Associação Brasileira do Papelão Ondulado, Gabriella Michelucci, o estoque inicial de suprimentos, feito no início da pandemia, e a corrida pelo computador explicam o crescimento inicial. “Antes da pandemia, o e-commerce representava de 4% a 5% das vendas do varejo. Hoje, chega perto de 7%, o que mostra o crescimento da demanda por papelão”, disse Gabriella. A perspectiva de crescimento em 2020 é bem mais tímida, na casa de 0,3% sobre os 3,6 milhões de toneladas de papelão ondulado expedidos pelas empresas do setor, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas encomendada pela ABPO. Levando-se em conta que o Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher 6,5% no ano, segundo o Boletim Focus, o saldo positivo do segmento, ainda que mínimo, pode ser visto como bom. “Esse resultado é de um cenário moderado, considerando a perspectiva para o segundo semestre. Depende, também, de como será o consumo daqui em diante”, afirmou ela.

Se, por um lado, houve acréscimo de vendas de papéis e embalagens a partir das vendas on-line, por outro, a pandemia trouxe diminuição no volume de sacos de cimento – setor do qual a Klabin tem 60% do mercado. É que, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Cimentos (SNIC), o mercado encolheu 5,8% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, em virtude da paralisação da construção civil por causa da crise do coronavírus. Com a retomada gradual, a expectativa é de que nos próximos meses o volume volte a patamares registrados antes da pandemia.

INVESTIMENTO

Foi em 2019, num cenário em que ainda se falava em crescimento da economia e não em recessão, que a companhia fez o maior anúncio de investimento de sua história: o projeto Puma II, pelo qual serão alocados, até 2023, R$ 9,1 bilhões para a construção da unidade onde serão instaladas duas máquinas de papéis para embalagens, com capacidade anual de 920 mil toneladas. Dos R$ 820 milhões de investimentos realizados no trimestre, R$ 527 milhões foram destinados ao Puma II. Mas nem tudo foi positivo para a Klabin em 2019. No início do ano passado, a companhia assistiu ao anúncio da fusão da concorrente Suzano com a Fibria, que resultou na maior empresa produtora de celulose de eucalipto do mundo, o que fez com o preço do papel atingisse preços abaixo do esperado, por causa do grande volume de material estocado pela empresa. “Os preços não se recuperaram até então, em virtude do aumento do estoque da Suzano”, afirmou Cristiano Teixeira.

Para aumentar sua participação no mercado, a Klabin concretizou, em março, a aquisição da unidade de negócios de embalagens da International Paper no Brasil, por R$ 330 milhões. Com a compra, que ainda aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a empresa aumentará o market share de 18% para 24%, além de alcançar capacidade instalada de 1 milhão de toneladas de papel ondulado ao ano. Com 18 unidades industriais no Brasil e uma na Argentina, a companhia é responsável por 498 mil hectares, dos quais 240 mil hectares são de mata nativa. Segundo a empresa, são preservadas 883 espécies de animais e quase 1,9 mil de plantas, além de 258 mil hectares de área plantada de eucalipto e pinus, de onde saem os seus produtos.

De um lado preservação ambiental, de outro a aposta em inovação. Uma das mais recentes iniciativas surgiu no centro de tecnologia da companhia, no Paraná. Pesquisadores da empresa, em parceria com o Instituto Senai de Inovação, desenvolveram uma formulação inédita de álcool gel a partir de celulose microfibrilada, que substitui o carbopol, elemento químico essencial para a produção e que começou a faltar no mercado, por causa da grande demanda. Foram produzidas 4 toneladas para distribuição a 24 mil profissionais de Saúde no País. Não está nos planos da companhia produzir álcool gel, mas sim fornecer o insumo para empresas do segmento.

Os números da Klabin e do próprio segmento de papel e celulose poderiam ter sido bem diferentes no período de isolamento, não fosse por um detalhe: inicialmente, o setor de papel e celulose não foi considerado como essencial pelo governo federal, mesmo sendo fundamental para garantir a manutenção de boa parte da cadeia varejista brasileira. Foi necessário que o CEO da companhia avisasse a ministros, por carta, que para o varejo seguir vendendo seria necessário ter papel para embalar os produtos. “Não adianta ter o ovo se não tem a caixa do ovo”, disse Teixeira. Gabriella, da ABPO, endossa. “Se não houvesse a liberação da fabricação de embalagens, haveria uma ruptura total para a indústria.” Foi preciso alguém dizer isso para que o presidente da República e sua equipe chegassem à conclusão elementar que, sem papel, não tem entrega.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RAÍZES DA VIOLÊNCIA

Neurotransmissores e hormônios participam de um complexo mecanismo que constitui as bases biológicas da agressividade

Em Boston, há uma lanchonete onde, antes de comer, é preciso brigar. Trata-se de uma caixa transparente dentro da qual duas drosófilas disputam um pratinho de levedo em meio a golpes de patas e investidas furiosas. Os encontros deste bizarro clube de lutas, administrado por Edward Kravitz, neurobiólogo da Faculdade de Medicina de Harvard, são meticulosamente registrados em vídeo. O objetivo é estudar as bases biológicas da agressividade, uma das expressões mais antigas e comuns a todas as espécies, cujos mecanismos desencadeantes permanecem, porém, um enigma.

Os modelos animais ajudaram pesquisadores a compreender patologias como câncer e diabetes e são hoje indispensáveis no desenvolvimento de todos os tratamentos modernos. No entanto, só nos últimos anos adquiriram importância na pesquisa sobreo comportamento humano. Isso porque as novas tecnologias de análise molecular, trazendo à luz a complexa rede de circuitos bioquímicos por trás de cada pulsão, permitem identificar pontos comuns a várias espécies.

“À primeira vista, a drosófila é muito diferente do homem, mas é um ótimo ponto de partida para isolar as moléculas que suscitam comportamentos agressivos porque conhecemos todo o mapa do seu DNA e muitos dos seus genes encontram correspondência no “genoma humano”, observa Kravitz.

Fáceis e econômicas de criar, essas moscas-das-frutas têm também a vantagem de apresentar comportamentos diferentes conforme o sexo – machos e fêmeas combatem de maneiras distintas, com esquemas reconhecíveis com base nos movimentos de cada um.

Numa pesquisa publicada recentemente nos Proceedings of the National Academy of Sciences, Kravitz demonstrou que, modificando geneticamente os neurônios de um inseto macho, podiam ser atribuídas ao seu cérebro as características cerebrais de uma fêmea em idade adulta. Muitos dos comportamentos dessas moscas alteradas, desde os sexuais aos rituais de corte, mudavam para se assemelhar aos das fêmeas. Apesar disso, seu modo de combater permanecia o mesmo.

ORIGENS COMUNS

“É a primeira prova experimental de que, modificando um gene, se influi também sobre um comportamento”, observa Bruce Baker, biólogo da Universidade Stanford. Com o colega Kravitz, Baker estuda o papel da galanina, um dos principais neurotransmissores envolvidos no estímulo de agressividade e galanteio. “Significa também que a agressividade é um traço extremamente conservado ao longo do processo evolutivo, e depende de mecanismos que se desenvolvem muito cedo, antes mesmo da determinação do sexo.

Os comportamentos podem ser muito diferentes de uma espécie para outra, mas parece claro que as moléculas na base desses estímulos são as mesmas.”

Os pesquisadores empregam técnicas de engenharia genética para obter animais knock-out – privados de um gene de que se quer estudar a função -, ou knock-in, quando a sequência de DNA é aumentada. No entanto, a ideia de que existam “genes da violência” hoje está descartada. Mais atenção vem sendo dada a um grupo de neurotransmissores que têm como característica comum a presença, no interior da própria estrutura molecular, do aminoácido triptofano. No entanto, há muitas outras moléculas que contribuem na modulação da intensidade da resposta agressiva.

Klaus Miczek, da Universidade Tufts, e Craig C. Ferris, da Universidade de Massachusetts, concentraram a atenção em dois neurotransmissores: serotonina e vasopressina. Em muitas espécies, entre elas o ser humano, baixos níveis de serotonina correspondem a comportamentos agressivos. Os ratos, por exemplo, atacam muito mais facilmente outro animal depois de consumirem substâncias que estimulam os receptores serotonérgicos, impedindo o cérebro de metabolizar a molécula. Ao contrário, drogas como a feniluramina, que estimulam esses receptores, diminuem a frequência dos comportamentos agressivos.

MAIS FORÇA

Se saturar os receptores de serotonina reduz a agressividade, a vasopressina, ao contrário, a alimenta, agindo diretamente sobre o hipotálamo, região do cérebro onde têm origem muitos estímulos comportamentais. Na década de 90, estudos clínicos conduzidos por Emil F. Coccaro, da Universidade da Pensilvânia, mostraram que também no ser humano a escassa secreção de serotonina é acompanhada de agressividade.

Os instintos agressivos seriam, portanto, simplesmente provocados pela carência de uma molécula? A química da violência parece mais complexa.

“A serotonina desempenha papel central no controle da agressividade em todos os mamíferos, e conhecemos pelo menos 14 receptores diferentes no cérebro humano”, observa o neurobiólogo Robert Sapolsky, da Universidade Stanford. “Muitas outras moléculas potencializam o comportamento agressivo. Entre elas a dopamina, adrenalina e noradrenalina, que aumentam o metabolismo e a força. Também a testosterona contribui, mas não tanto quanto se pensa. Nas fêmeas, é muito importante a relação entre progesterona e estrogênio liberados no sangue.” Nos mamíferos de ambos os sexos, além disso, altos níveis de estrogênio podem alterar o equilíbrio d o “eixo do stress”, constituído por hipófise, hipotálamo e glândulas supra renais, estas responsáveis pela secreção de glicocorticoides, conhecidos como hormônios do stress.

Em 2004, estudos conduzidos com gatos pelo neurologista Alan Siegel, da Universidade de Nova Jersey, demonstraram que também algumas moléculas do sistema imunológico, como as citocinas, são capazes de potencializar o comportamento agressivo, da mesma forma que outros neurotransmissores como o ácido gama­ aminobutírico (CABA) e diversos neuropeptídeos. A serotonina permanece, de qualquer modo, o detonador principal de cada resposta agressiva, e por isso as pesquisas se concentram nos ratos, que têm receptores cerebrais extremamente semelhantes aos dos humanos.

Hoje é também possível criar roedores geneticamente modificados que apresentam traços típicos de problemas psiquiátricos complexos como a depressão e a esquizofrenia, mas os resultados destas pesquisas devem ser interpretados com cuidado. “Desenvolver modelos animais para estudar os distúrbios humanos é um instrumento muito importante para compreender as bases dos distúrbios psiquiátricos, mas os resultados obtidos devem ser interpretados com cautela”, explica o neurocientista Alessandro Bartolomucci, do Instituto de Neurociências do Conselho Nacional de Pesquisa de Roma. Segundo ele, “o estudo dos neurotransmissores e dos genes implicados em tais distúrbios podem dar apenas indicações sobre os mecanismos biológicos de base na espécie estudada. Dada a semelhança de estruturas e funções existentes entre os vertebrados, é provável que tais mecanismos sejam altamente conservados também no homem, mas isso deve ser verificado experimentalmente. No que diz respeito aos ratos transgênicos, por sua vez, modificar um ou mais genes produziria animais com características análogas às de um paciente psiquiátrico, mas quase nunca podemos reduzir uma síndrome complexa à disfunção de um só gene”.

A própria definição de agressividade ainda não foi estabelecida pela comunidade científica. “Nos animais, a agressividade é tipicamente medida pela frequência dos ataques dirigidos a um intruso que ultrapasse os limites do seu território. Mas é uma medida indireta, porque a agressão é um comportamento, enquanto a agressividade é o estado motivacional, um conjunto das alterações neuroquímicas e fisiológicas que estão na base da agressão”, diz Bartolomucci.

O limite conceitual é evidente também no Manual Diagnóstico e estatístico de Transtornos Mentais (DSM­IV), que cita os comportamentos agressivos como sintoma de vários distúrbios psiquiátricos, mas não dá uma definição convincente da agressividade, como acontece para a depressão. “Estamos diante de um fenômeno complexo, desencadeado por razões diversas, que evoluiu como resposta a pressões seletivas muito diferentes, da defesa do território à sexualidade, mas é também modulado e atenuado por fatores sociais. Felizmente, na maioria dos casos a agressividade pode ser inibida e não desembocar em comportamentos violentos”, observa Bartolomucci.

Nos países anglo-saxões, há uma grande atenção para o excesso de agressividade de crianças e adolescentes, muitas vezes descrito com a expressão inglesa bullying, que remete às atitudes agressivas a experiências sociais nos primeiros anos de vida do indivíduo (ver quadro abaixo). No entanto, estudos recentes indicam que também as relações sociais entre adultos contam muito. As pesquisas de Sapolsky e Share com macacos silvestres mostraram que, depois da morte por doença dos machos dominantes e mais violentos, as fêmeas preferiam aqueles menos agressivos. Além disso, os pesquisadores constataram que, depois de dois anos da ausência dos mais agressivos, o grupo repudiava novos indivíduos muito violentos.

Àmedida que as bases biológicas da agressividade se tornam mais claras, ganha força a hipótese de tratar e controlar os comportamentos muito violentos com uma nova classe de drogas que estimulam os receptores de serotonina, conhecidos como serenics. Hoje, a atenção é dirigida aos inibidores seletivos de recaptação da serotonina, usados como antidepressivos. O objetivo é modular os impulsos de maneira específica, sem induzir os pacientes a um estado de apatia. A fluoxetina já se demonstrou eficaz em alguns casos, assim como outras moléculas que agem sobre o receptor 1B da serotonina, mas ainda com muitos efeitos colaterais.

MAIS OTIMISMO

A possibilidade de expandir o emprego desses inibidores entrou, porém, em compasso de espera no fim do ano passado, quando a FDA, agência americana que regulamenta alimentos e medicamentos, verificou uma relação entre o uso de fluoxetina e a frequência dos suicídios em adolescentes tratados por síndromes depressivas.

O freio principal aos investimentos no desenvolvimento de drogas nesse campo deriva, porém, da impossibilidade de registrar novas moléculas para regular a agressividade. A FDA aprova, de fato, somente fármacos destinados ao tratamento de patologias específicas, mas, como já se disse, o DSM-IV não dá uma definição da agressividade como distúrbio patológico. O único estudo clínico específico iniciado por uma empresa farmacêutica é aquele sobre o uso da eltoprazina para controlar a agressividade de pacientes paranoicos e esquizofrênicos efetuado por uma empresa que, no entanto, arquivou o projeto em 1994.

Se os laboratórios não investem, os pesquisadores parecem, porém, mais otimistas. Sapolsky recentemente propôs uma terapia gênica voltada para modificar a secreção de CRH, hormônio que induz a hipófise a liberar cortisol e influencia o equilíbrio dos estrogênios. Segundo ele, seria tecnicamente possível inserir genes por meio de drogas em alguns neurônios, a fim de controlar a resposta ao stress e também à agressividade. Seja qual for o caminho tomado pela pesquisa para novos tratamentos, os cientistas são os primeiros a lembrar que o controle farmacológico da agressividade é um terreno delicado do ponto de vista ético. Quem sofre de agressividade patológica poderia se beneficiar, mas sempre há o risco de encorajar o tratamento de um grande número de pessoas cujo comportamento agressivo é determinado não por disfunções bioquímicas, mas por fatores sociais.

EU ACHO …

MARACUTAIA VIRTUAL

As lições sobre confiança e culpa no infame “golpe do WhatsApp”

Na semana passada, minha mãe foi mais uma das muitas vítimas do “golpe do WhatsApp.” A quem não sabe como funciona, é simples: por meio dos dados de um anúncio on-line, os criminosos entram em contato com o vendedor como se fossem do site de vendas, inventam alguma irregularidade e avisam que enviarão uma mensagem SMS com um código que deve ser digitado no WhatsApp para confirmação do anúncio na plataforma. Acontece que o código enviado é, na verdade, o PIN de autenticação do WhatsApp. Com o número de telefone e o PIN, os criminosos conseguem roubar sua conta de WhatsApp e usá-la em “Assim com outro aparelho, passando-se por você. A partir daí, enviam mensagens aos seus contatos pedindo empréstimos.

No caso da minha mãe, ela havia anunciado um produto na OLX dias antes e só foi saber o que estava ocorrendo quando uma amiga telefonou para dizer que tinha feito o depósito pedido. Foram horas de muita tensão. Com o WhatsApp bloqueado, ela fez postagens nas redes sociais alertando do golpe e enviou SMS aos amigos. Enquanto isso, eu e meu pai enviávamos mensagens por WhatsApp aos conhecidos dela, pedindo que não fizessem nenhum depósito. Apesar da “força-tarefa”, a cada dez minutos aparecia alguém para informar que havia sido contatado e/ou feito a transferência.

Um dos amigos chegou a responder: “Pra você, eu empresto quanto quiser!”, o que fez com que os criminosos telefonassem para combinar um empréstimo vultoso, disfarçando uma voz feminina ao telefone. Felizmente, a esposa desse amigo alertou-o sobre o golpe antes que fosse tarde. O mais curioso nesses crimes é que, quando ocorrem com outra pessoa, achamos tão óbvio que nos espantamos por alguém cair nele. Mas, quando acontecem com a gente, é como se ficássemos cegos diante da obviedade. Alguns anos atrás, eu mesmo fui vítima daquele que alguém ligava para sua casa como se fosse um parente e pedia resgate de um sequestro forjado.

O “golpe do WhatsApp” é um golpe moral. Os criminosos conseguem arrancar dinheiro dos seus contatos com base na consideração que eles têm por você. Passado o susto, e recuperada a conta, após doze horas, minha mãe ficou arrasada. Sentia-se culpada e trouxa por ter sido enganada. Quatro amigas “emprestaram” o dinheiro, em um total de quase 10.000 reais. Em crise, minha mãe se sentia na obrigação de recompensar o prejuízo, como se ela tivesse pedido os empréstimos. Era uma decisão complexa.

Por um lado, os amigos tinham emprestado por confiarem nela. Por outro, ela não podia ser responsabilizada pelo engano alheio – principalmente em um golpe tão divulgado.

Assim como aprendemos a evitar ruas perigosas à noite, não podemos esquecer que celular e redes sociais são ruas perigosas virtuais: temos sempre de andar atentos, evitando links suspeitos e contatos pouco confiáveis. Mais tarde, descobri que existe uma maneira simples de evitar o golpe, que leva menos de um minuto para programar no celular. Basta acessar as configurações do WhatsApp e ativar a identificação em duas etapas. Caso você ainda não tenha feito, vale fazer agora. Além disso, desconfie na próxima vez que algum amigo pedir empréstimo.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

A VITÓRIA DO GRANDE IRMÃO

Aplicativos de celular estão vigiando a trajetória do novo coronavírus por meio da movimentação dos usuários. A questão ética é: como proteger a privacidade das pessoas?

Quando o distanciamento social entra em vigor, a prioridade número 1 é conter a disseminação do novo coronavírus. Quando ele começa a ser relaxado, o foco muda: torna-se crucial a testagem em massa – 150 testes para cada 100.000 pessoas, segundo estudo da Universidade Harvard -, que permitirá rastrear a evolução da doença em tempo real. Para pôr em prática um monitoramento de tal dimensão, os países em fase de retomada de atividades estão usando em paralelo aplicativos instalados em smartphones capazes de identificar tanto quem esteve em alguma “zona vermelha”, como são chamados os focos de contágio, quanto quem esteve próximo de alguém que testou positivo para o vírus e alertar as autoridades. Ao redor do planeta, ao menos 29 países já oferecem aplicativos desse tipo, com comprovados bons resultados e um efeito colateral: as questões éticas em torno do possível acesso de governos e empresas a dados particulares dos cidadãos e a categorização – e eventual discriminação – das pessoas, separadas em imunizadas e em passíveis de contágio.

O projeto de maior amplitude une os concorrentes Google e Apple no desenvolvimento conjunto de uma ferramenta de rastreamento. Donos dos sistemas operacionais instalados em 99% dos celulares do mundo, os arquirrivais estão produzindo uma rede de troca de dados fornecidos voluntariamente pelos usuários que possibilite o envio de alertas sobre risco de contágio. Na primeira fase, neste mês, o processo será via aplicativo. No segundo semestre, uma plataforma vai integrar automaticamente os sistemas. Os desenvolvedores garantem que é o dono do celular quem ativa a tecnologia, que ele pode se registrar sob pseudônimo e que a ferramenta não usa dados de GPS, que seguem o deslocamento de pessoas. Mesmo assim, uma pesquisa mostrou que três em cada cinco americanos manifestam receio de aderir à novidade.

Mais arredios ainda às brechas na privacidade praticadas pelos gigantes da tecnologia, os governos da Europa estão optando por aplicativos em que cada etapa é decidida pelo usuário. Ele faz o download, e o celular passa a registrar e armazenar todos os contatos com quem mantiver proximidade inferior a 2 metros por pelo menos cinco minutos (padrão estabelecido pela OMS) e que tenha baixado o programa. Se o proprietário do celular ficar doente, ele mesmo notifica o aplicativo, que envia alertas a quem esteve perto dele. A mensagem pede que os afetados façam o teste e se isolem em casa. Noruega, República Checa e Áustria estão entre os que preteriram o serviço colaborativo também oferecido na Austrália. Ainda não há previsão de uso no Brasil.

O ponto mais sensível do monitoramento em massa é o destino das informações coletadas. Uma opção é reuni-las em um servidor central, como fará o Reino Unido, que em breve lançará nacionalmente seu aplicativo. Lá, o material captado ficará armazenado no sistema público de saúde, o NHS, e nenhum outro setor terá acesso ao banco de dados, que será inutilizado quando a crise acabar. “Seguiremos as mais rigorosas normas da ética e da segurança”, disse o ministro da Saúde, Matt Hancock – uma garantia encarada com ceticismo pelos britânicos. Alemanha, Itália, Suíça e Estônia adotaram a descentralização, ou seja, toda informação coletada permanecerá no celular do usuário, sem transferência para servidores –   método endossado em carta assinada por 300 acadêmicos de 26 nacionalidades, preocupados com qualquer possibilidade de governos ou empresas reaproveitarem dados acumulados em servidores externos para vigiar e discriminar sem justificativa aceitável. “Na luta contra a pandemia, os celulares passaram a transmitir informação delicada e pessoal”, observa Itziar de Lecuona, professora de bioética da Universidade de Barcelona. “Infelizmente, não existe um sistema totalmente seguro para impedir abusos.”

Pioneiros na utilização do rastreamento on-line, China, Coreia do Sul e Hong Kong impuseram pouca, ou nenhuma, trava ao controle estatal. O Partido Comunista chinês ordenou aos moradores de ao menos 200 cidades que instalassem no celular o que está sendo chamado de “passaporte da imunidade”: um QR code que armazena resultados de testes e acompanha interações e movimentos de pessoas, exibindo as cores verde (deslocamento livre), laranja (quarentena de sete dias) ou vermelha (quarentena de duas semanas). Se algum cidadão tiver contato com um infectado, seu movimento entre bairros ou no transporte público será automaticamente bloqueado por mais ou menos tempo, dependendo da data do encontro.

Em Hong Kong, quem chega do exterior é obrigado a usar um bracelete que define o prazo de seu confinamento. Na Coreia do Sul, até transações com cartão de crédito integram o banco que coleta dados do rastreamento. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu trava uma batalha com a Suprema Corte para permitir que os serviços de inteligência utilizem os dados que possuem para rastrear infectados. Na Polônia, quem testar positivo não só terá sua localização controlada, como precisará enviar selfies rotineiras para provar que de fato está em reclusão. “Abusos só serão contidos quando houver um protocolo internacional que proteja a privacidade pós-Covid-19”, diz Yves­ Alexandre de Montjoye, especialista em segurança digital do Imperial College, em Londres. Com a melhor das intenções, o fantasma do Grande Irmão passou a rondar a humanidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 02 DE SETEMBRO

PAZ DE ESPÍRITO, O MELHOR DO BANQUETE

Melhor é um bocado seco e tranquilidade do que a casa farta de carnes e contendas (Provérbios 17.1).

A sociedade valoriza muito a riqueza e o requinte, mas investe pouco em relacionamentos. As pessoas conseguem aumentar suas posses, mas não conseguem melhorar sua comunicação no lar. Adquirem bens de consumo, mas não têm prazer de usufruí-los. Fazem banquetes colossais, mas não têm alegria para saboreá-los. É melhor comer um pedaço de pão seco, tendo paz de espírito, que ter um banquete numa casa cheia de brigas. A felicidade não é resultado da riqueza, mas da paz de espírito. As pessoas mais felizes não são aquelas que mais têm, nem aquelas que se assentam ao redor dos banquetes mais requintados, porém aquelas que celebram o amor, a amizade e o afeto, apesar da pobreza. Precisamos investir mais nas pessoas que nas coisas. Precisamos valorizar mais os relacionamentos que o conforto. Precisamos dar mais atenção aos sentimentos que nutrimos no coração que ao alimento que colocamos no estômago. A tranquilidade é um banquete mais saboroso que a mesa farta de carnes. É melhor ter paz no coração que dinheiro no bolso. É melhor ter tranquilidade na alma que carnes nobres no estômago. A paz de espírito não é apenas um componente da festa; é o melhor da festa.

GESTÃO E CARREIRA

JEJUM DE PRAZER

Em busca de produtividade, a última moda no Vale do Silício é ficar offline e abrir mão de atividades que gerem satisfação, como sexo e comida. Será que isso funciona?

Não é de hoje que os profissionais do Vale do Silício são lançadores de tendências de comportamento, principalmente quando elas prometem turbinar a capacidade do cérebro e aumentar a performance no trabalho. Tudo o que eles inventam por lá, mais cedo ou mais tarde, ganha o planeta. Às vezes, os modismos acabam restritos àquele universo; outras, se espalham com tanta força que viram febre mundial. Foi assim, por exemplo, com a meditação. Apesar de existir há milhares de anos e ter efeito comprovado em nossa capacidade de atenção, a prática deve bastante do crescente interesse por ela nos últimos anos ao fato de ter se tornado uma obsessão em Palo Alto.

A última moda no polo tecnológico americano é o chamado “jejum de dopamina”. O termo e a técnica foram adaptados por Cameron Sepah, médico e professor na Universidade da Califórnia, em São Francisco, que tem entre seus pacientes vários profissionais que trabalham no Vale do Silício. A prática consiste em se desconectar temporariamente – daí o jejum – de estímulos externos, principalmente tecnológicos, mas não só, a fim de conseguir mais concentração e produtividade durante e após o processo. E o que a dopamina tem a ver com isso? Ela é um neurotransmissor (substância química que estabelece a comunicação entre os neurônios) envolvido nos mecanismos de atenção, aprendizagem e motivação para conquistar objetivos. Quando você chega aonde quer, o cérebro libera mais da substância como resposta à ativação dos circuitos de prazer e recompensa. A dopamina também está por trás de comportamentos de vício – em internet, jogos, drogas, compras, sexo. Com a ativação recorrente do circuito da dopamina, o organismo cria uma espécie de tolerância, o que faz com que precisemos de cada vez mais do neurotransmissor para obter a mesma sensação de prazer.

“Quando recebemos urna curtida ou comentário em um post ou chega a notificação de um novo e- mail ou mensagem, ocorre uma descarga de dopamina no cérebro. Passamos a querer mais da sensação boa que isso causa, e é daí que nasce o vício digital. Embora não seja reconhecido oficialmente – afinal, é um fenômeno novo -, já é sabido que o mecanismo de dependência da tecnologia é semelhante ao de dependência em drogas”, diz Thaís Garneiro, neurocientista e cofundadora da Nêmesis Neurociência Organizacional.

A saber: a sigla Fomo (fear of missing out, ou medo de estar perdendo alguma coisa, em português), que passou a ser usada nos anos 2000 para descrever o estado de ansiedade, mau humor e até depressão em que algumas pessoas podem ficar quando não estão online, tem a ver com essa história. “É uma espécie de abstinência, como se a dopamina estivesse entrando em colapso”, diz Carla Tieppo, neurocientista e professora na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

UM POUCO DE MAL-ENTENDIDO

A proposta original do jejum de dopamina, segundo o próprio criador do conceito, é baseada na técnica de controle de estímulos usada na terapia cognitivo-comportamental para tratar comportamentos de vício. A prescrição é reduzir a exposição à tecnologia, mas também a outros comportamentos impulsivos para algumas pessoas, como comer, beber ou consumir pornografia, desconectando-se deles progressivamente – primeiro, algumas horas por dia, depois 24 horas, um fim de semana e até uma semana inteira.

Porém, como naquela brincadeira de telefone sem fio, a ideia foi sendo distorcida enquanto se popularizava, e hoje já existem coaches recomendando (e clientes obedecendo) ficar sem redes sociais, sexo e até música, atividade física, comida, bebida e contato com os amigos por dias inteiros para evitar distrações e atingir picos de performance cognitiva. “Não faz sentido abrir mão de coisas que trazem bem-estar, como contato com amigos, exercícios e comida, se a pessoa tem uma relação com elas”, explica Thaís.

FAZ SENTIDO?

Para as especialistas, a ideia do jejum de dopamina não só não faz muito sentido como pode deixar as pessoas ainda mais ansiosas, querendo obter resultados rápidos. “A ideia de conter o excesso de estímulos para aumentar a concentração é válida, mas não dá para dizer que deixar de se expor a determinados comportamentos vá interromper ou diminuir a liberação de dopamina; ela está em atividade o tempo inteiro”, afirma Carla. “Além disso, o neurotransmissor está diretamente ligado à produção de serotonina, que regula o humor e o bem-estar. Sem isso não conseguiríamos nem levantar da cama.” A neurocientista explica que depois de um dia inteiro ou de um fim de semana sem acesso à tecnologia é natural que você se sinta melhor, mas isso não tem relação com a dopamina. “Tem mais a ver com a redução de estímulos, que desestressa o cérebro e aumenta a capacidade de atenção. Porém, quando você retoma o comportamento nocivo, o mal-estar volta”, afirma.

Também é necessário entender a mensagem por trás da prática. “As pessoas estão buscando receitas estapafúrdias para produzir cada vez mais, o que por si só prejudica o bem­ estar e a saúde. Pensar na performance em vez de no equilíbrio mental é uma armadilha”, diz Franciele Maftum, psicóloga e mestre em neurociência cognitiva pela Universidade de Reading, no Reino Unido. ” Mais importante é rever a relação com a tecnologia e estar disposto a mudar hábitos. Existem outras formas de diminuir a frequência de estímulos externos, conseguir se concentrar e aumentar a capacidade produtiva, mas dependem de esforço próprio e paciência”, diz. No fundo, não existem dietas milagrosas – nem para o corpo, nem para o cérebro.

MENOS CONEXÃO, MAIS FOCO

Estratégias para fazer um detox digital eficiente sem prejudicar o bem-estar

DEFINA HORÁRIO E LIMITE DE TEMPO PARA NAVEGAR

Estabeleça um horário para se conectar pela manhã e desconectar à noite, garantindo assim algumas horas offline todo dia, que podem ser usadas para se exercitar, ler, ver um filme, estar com as pessoas. Aliás, prefira as interações presenciais as virtuais sempre que possível. escolha também dois ou três momentos no dia para checar redes sociais e sites de notícias ou outros que sejam de seu interesse, mas atenção para não ficar mais de 30 ou 40 minutos navegando.                                                                                             

SILENCIE O APARELHO ENQUANTO TRABALHA

Assim você evita distrações (para você e quem está em volta) e consegue focar por mais tempo o que está fazendo. Deixar o aparelho longe do alcance enquanto estiver envolvido em tarefas evita a tentação de checa-lo a toda hora.                                                                                                    

BLOQUEIE AS NOTIFICAÇÕES

O alarme ou sinal visual que avisa a chegada de nova mensagem, comentário ou curtida em alguns aplicativos dispara a liberação de dopamina…Por isso sentimos uma sensação boa de imediato e ficamos ansiosos à espera próximo.

OBSERVE O CORPO E A MENTE

Fique atento às sensações físicas (como insônia, dores no corpo e na cabeça, problemas de visão) e psicológicas (ansiedade, tristeza, angústia) depois de ficar muito tempo online. Note também se seu desempenho no trabalho ou estudo está sendo prejudicado nessas situações. Procure ajuda profissional se achar que tem dificuldade para fazer mudanças por conta própria no comportamento.

VALE TUDO PARA FAZER MAIS?

Conheça outros modismos que prometem melhorar a capacidade cerebral

TOMAR BANHO GELADO

Entrar embaixo da ducha fria, de preferência pela manhã, colocaria o corpo em um estado de estresse propício para despertar o cérebro e fazê-lo funcionar melhor por várias horas seguidas. A prática também teria impacto na imunidade e aumentaria a longevidade.

FUNCIONA?

Na maioria das situações, um banho frio não faz mal nenhum e pode dar um susto no corpo e no cérebro, o que ajuda a acordar e a se sentir mais bem-disposto. A água gelada também pode ser boa para a pele e para o cabelo, pois preserva a oleosidade natural que funciona como proteção, mas não há evidências de que turbine a capacidade cognitiva.

LEVANTAR MUITO CEDO

Mesmo com a vida ganha, Tim Cook, da Apple, Richard Branson, da Virgin, e outros executivos de grandes empresas pulam da cama antes das 5 da manhã e seguem um ritual que pode incluir meditação, exercícios físicos e envio de e-mails de trabalho. Alguns já declararam que consideram isso uma vantagem competitiva que os faz serem mais produtivos.

FUNCIONA?

Acordar cedo pode ser uma questão de hábito e até há estudos relacionando o comportamento a menos procrastinação e mais disposição. Mas adotar uma rotina madrugadora pede ajustes na alimentação e na quantidade de horas de repouso e, de preferência, exige que haja um propósito na prática. A privação de sono oferece riscos para a saúde física e emocional, além de diminuir a capacidade de concentração, memorização e raciocínio.

USAR MICRODOSES DE LSD

Uma geração de jovens profissionais do setor de tecnologia mais interessados em extrair o máximo de sua capacidade de atenção, criatividade e produtividade do que em experimentar uma viagem de ácido vem consumindo doses mínimas da droga (cerca de um décimo do necessário para provocar alucinações) uma ou duas vezes por semana, normalmente pela manhã, no lugar do café.

FUNCIONA?

Ainda não há evidências suficientes, embora o uso “consciente” do LSD e de outras drogas psicodélicas esteja sendo amplamente estudado pelos efeitos no tratamento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. O composto imitaria o efeito da serotonina (neurotransmissor que regula o humor) no cérebro. O LSD é proibido tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANGÚSTIAS DA DECISÃO

Considerações racionais são fundamentais num processo de escolha, embora não evitem arrependimentos e culpas

Imagine que você tenha de escolher entre dois empregos que igualmente lhe agradam. Ambos oferecem bom salário, mas um exige poucos deslocamentos, enquanto o outro impõe viagens frequentes. Você opta pelo primeiro e apesar de gostar do trabalho, descobre um dia que a pessoa admitida para a outra vaga ganha um salário bem maior que o seu. Decepcionado com sua opção, você se sente responsável por essa escolha. E se arrepende.

Numa outra situação, você tem de escolher entre viajar para a praia ou para o campo. Você fecha os olhos e imagina o vento do mar no rosto. Então pensa: “Será que, se for para a praia, vou ficar pensando no charme de um chalé com lareira e no clima ameno da montanha?”. Concluí que sim e escolhe viajar para o campo. Você não se arrepende.

Neste caso, foi possível antecipar as emoções que a outra escolha causaria. A manobra mental ajuda na decisão. Todos nós procedemos assim recorrendo às nossas experiências, de modo que os arrependimentos “fictícios”, aqueles que imaginamos como consequência eventual de nossas escolhas e os sentimentos que os acompanham, estão na essência de muitas decisões.

Todos os dias nos confrontamos com escolhas. Às vezes, essas decisões são difíceis, pois é preciso apostar na qualidade daquilo que vamos escolher e na satisfação que nos trará.

NO VERMELHO

Segundo as teorias clássicas da economia, os profissionais da decisão (corretores da bolsa de valores, por exemplo) aprimoram suas estratégias de escolha fundando-se sobre o “valor esperado”, isto é, a probabilidade de obter certo resultado multiplicado por esse resultado. Um jogador de cassino calcula a probabilidade de ganhar R$ 100 no vermelho e R$ 500 no verde. Se a chance de ganhar R$ 100 é de uma em dez e a de conseguir R$ 500 é de uma em 100, o “valor esperado” é de dez no primeiro caso e de cinco no segundo. Se for racional, ele preferirá apostar no vermelho.

Entretanto, sabe-se que as decisões humanas, na prática, são influenciadas por diversas considerações pouco racionais. Muita gente prefere uma soma menor (digamos, R$ 450) com probabilidade de ganho de 100 % (tem-se a certeza de ganhar a quantia) a um valor superior associado a uma probabilidade menor (R$ 1 mil, com chance de 50%), ainda que neste caso o lucro possível seja maior. Por que somos tão racionais?

É possível examinar esse mecanismo voltando-nos para algumas pessoas que, por causa de lesão cerebral no córtex órbito-frontal (na altura da testa, bem acima dos olhos), nunca se arrependem. Elas têm dificuldades consideráveis na vida cotidiana e, sem saber antecipar os arrependimentos a que estarão sujeitas, são incapazes de tornar decisões que possam satisfazê-las. Em nosso estudo, propusemos a esses pacientes – e a voluntários sãos – um jogo cujo princípio é análogo ao da roleta.

Na competição, os jogadores são colocados diante de um monitor de computador onde aparecem, a intervalos regulares, duas roletas. Eles escolhem uma delas para jogar depois de pensar bem, já que as possibilidades de ganho não são as mesmas. Pode-se escolher entre uma roleta que oferece 50% de oportunidade de ganhar R$ 40 e 50% de perder R$ 10 (figura 1a), por exemplo, e outra com 80% de chance de perder R$ 1º e 20% de ganhar R$ 40. Logicamente, os jogadores escolhem a primeira. Durante uma hora, diversos pares de roletas são apresentados, cada uma com apostas e probabilidades variáveis.

Na primeira parte do teste, os participantes desconhecem os resultados da roleta que não escolheram. Assim, é impossível haver arrependimento: no máximo, eles podem ficar satisfeitos ou decepcionados com o resultado da sua roleta, como a pessoa que escolheu o emprego sem viagens e ignora o destino de quem aceitou o outro.

Observamos as reações dos participantes de dois modos. No primeiro, colocamos eletrodos em seus dedos e constatamos que quanto mais forte a emoção, maior a corrente elétrica registrada, pois as mãos ficavam umedecidas de suor. No outro, pedimos que descrevessem como se sentiam naquele momento anotando, numa escala de -50 a +50, se estavam bem ou mal. Todos tiveram reações similares. Se o ponteiro parava, por exemplo, num ponto da roleta que representasse perda de R$ 10, quando poderia parar numa área que lhes faria ganhar R$ 40, todos eles se decepcionavam.

ANTECIPAÇÕES PREJUDICADAS

Além disso, os dois grupos não sentiram nenhuma emoção particular ao ganhar R$ 10 numa situação em que poderiam ganhar R$ 40: a alegria de ganhar menos é temperada pela decepção de não ter ganho mais. Do mesmo modo, eles expressaram pouca emoção ao perder R$ 10 numa situação em que poderiam ter perdido R$ 40: a decepção de perder R$ 10 é compensada pelo alívio de não ter perdido mais. Por outro lado, ficaram contentes em ganhar R$ 10 quando poderiam ter perdido mais: desta vez, eles realmente tiveram sorte. O fato de os participantes com ou sem lesão cerebral terem apresentado as mesmas reações mostra que a zona cerebral em questão não intervém na capacidade de ficar contente ou descontente com o resultado de uma experiência.

Num segundo momento, os participantes tiveram de optar entre as duas roletas, mas, depois de feita a escolha, foram informados sobre o resultado da outra roleta. Com isso, tinham chance de se arrepender quando o resultado da segunda roleta se mostrava melhor que o da escolhida. Eles estavam numa situação parecida à do trabalhador que fica sabendo dos ganhos do colega no emprego que recusou.

Neste caso, os participantes sãos mostraram-se muito decepcionados ao perder R$ 10 e ver que na outra roleta teriam ganho R$ 40. Eles haviam feito uma escolha e eram responsáveis pelas consequências, já que teriam ganho mais se tivessem escolhido o outro equipamento. Ficaram igualmente desapontados ao ganhar R$ 10 e ver que poderiam ter conseguido quatro vezes mais. Quando desconheciam os resultados da segunda roleta, ficavam contentes de embolsar os R$ 10. Mostraram-se, porém, mais satisfeitos de perder a quantia ao ver que na outra roleta teriam perdido R$ 40. Se ganhassem R$ 40, sabendo que na outra perderiam o mesmo valor, então ficariam muito satisfeitos.

PERDAS E GANHOS

A diferença mais evidente verificou-se nos jogadores cujo córtex órbita-frontal é lesado: eles ficam decepcionados se perdem R$ 1O, mas essa decepção não é reforçada por saber que na outra roleta seria possível faturar R$ 40; ela é a mesma de quando não sabem o outro resultado. Do mesmo modo, se ganham R$ 10, ficam contentes. Mas a satisfação não aumenta se contamos a eles que na outra roleta teriam perdido R$ 40.

A ausência de arrependimento parece invejável, mas, de fato, tem um lado prejudicial. Pessoas capazes de se arrepender antecipam no presente os arrependimentos que terão se fizerem uma ou outra escolha, graças a seu córtex orbito-frontal, e essa antecipação aprimora as escolhas: no fim do jogo, constatamos que os participantes normais ganharam em média R$ 60, enquanto aqueles com lesão no córtex orbito­ frontal terminaram devendo R$ 20.

O córtex orbito-frontal, que nos permite antecipar o arrependimento no momento de tomar uma decisão, é responsável pela capacidade de nos projetarmos emocionalmente no futuro, o que facilita decisões A diferença entre a decepção e o arrependimento está no sentimento de culpa, presente no segundo caso: pacientes com lesão cerebral se decepcionam quando a seta para num valor negativo, o que mostra que são capazes de antecipar um bom resultado e de sofrer uma emoção negativa se o objetivo não é alcançado.

CONQUISTA DA EVOLUÇÃO

Todavia, a decepção não aumenta se a outra roleta tem um bom resultado: eles não imaginam que teriam se dado melhor se tivessem feiro outra opção. A capa cidade de pensar em termos hipotéticos engendra o sentimento de responsabilidade diante da situação presente. Do ponto de vista neurobiológico, o arrependimento pode ser definido como a emoção ligada à capacidade de representar a si mesmo em situações hipotéticas. Sendo um sentimento desagradável associado à noção de responsabilidade, tiraríamos dele lições e, assim, diminuiríamos os riscos de decepção quando precisássemos decidir algo. Essas experiências esclarecem muito sobre a maneira como tomamos decisões e mostram que cada um se projeta inconscientemente no futuro quando se confronta com escolhas. Eis a origem do arrependimento: em tempos pré­ históricos, o cérebro humano teria desenvolvido essa capacidade, que lhe conferia uma condição superior na tomada de decisões.

Tal superioridade é tão clara que numerosos estudos mostram que pessoas com lesão no lobo orbito-frontal encontram grande dificuldade para tomar decisões no meio social. Por exemplo, tendem a perder o emprego, são incapazes de manter relações pessoais estáveis com as pessoas próximas e fazem repetidamente investimentos financeiros desastrosos. Curiosamente, essa anomalia não resulta de falta de conhecimento ou de inteligência.

Segundo o neurologista Antônio Damásio, ela seria consequência de um déficit emocional. Os pacientes seriam incapazes de produzir “marcadores somáticos”, isto é, reações emocionais manifestadas quando antecipamos uma decisão, as quais nos previnem dos resultados prováveis da escolha que nos preparamos para fazer (por exemplo, o desconforto que sentimos diante da ideia de repreender severamente um amigo).

Nossos estudos sugerem que o arrependimento constituiria um marcador somático controlado primeiramente pelo córtex orbito­ frontal. Essa região teria se tornado muito importante por conduzir todas as situações de escolha, notadamente pela produção de “arrependimentos antecipados”. Assim, o arrependimento seria um “efeito secundário” de nossa capacidade de tornar decisões. Inversamente, as pessoas incapazes de se arrepender tornam decisões que com frequência as colocam em dificuldade.

ANATOMIA CEREBRAL NO JOGO DA ROLETA

1. Os participantes devem escolher entre duas roletas e clicar naquela com que desejam jogar. Num primeiro caso (a), o participante escolhe jogar com a primeira roleta – que dá 50% de chance de perder RS 10 e 50% de ganhar R$ 40 -, em vez da outra – com a qual teria 80% de possibilidade de perder RS 10 e 20% de ganhar RS 40. O resultado da segunda roleta não é mostrado. Na roleta escolhida, ele perde RS 10 e fica decepcionado. Depois, nas outras três escolhas que faz, ele fica indiferente (b), e em seguida contente. As reações das pessoas sãs e daquelas com lesão no córtex orbito-frontal são idênticas neste caso.

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