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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES III

Obsessões e compulsões III

INFÂNCIA ATORMENTADA

Até a década de 80, os relatos de casos de TOC na infância e na adolescência eram poucos. Apesar das dificuldades de diagnóstico nessa faixa etária, estima-se hoje que aproximadamente um terço dos pacientes que apresentam sintomas obsessivo-compulsivos sejam crianças e adolescentes. Foi apenas em 1989 que o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), nos Estados Unidos, publicou o  primeiro estudo populacional sobre crianças e adolescentes com TOC, utilizando critérios padronizados para diagnóstico. Foram entrevistados todos os 5.596 estudantes de primeiro grau das oito escolas de uma cidade próxima de Nova York, e foi constatado que 20 deles apresentaram diagnóstico de TOC. Provavelmente esses dados foram subestimados, pois os pacientes com quadros mais graves poderiam não estar na escola – e 557 estudantes não preencheram todos os dados. Outro estudo americano detectou taxas ainda mais altas de prevalência, com 3% para TOC   e 19 % para sintomas obsessivo-compulsivos. Em Israel, os pesquisadores encontraram entre os  adolescentes uma prevalência de 3,5% para TOC. No Brasil, porém, não existem dados oficiais.

Uma das dificuldades para diagnosticar o problema é que nem sempre crianças reconhecem que seus sintomas são excessivos, ou sem sentido. E muitas vezes os escondem por vergonha ou medo, mais que entre os adultos.

Em geral, os sintomas são percebidos de forma indireta. Geralmente, as crianças são caladas, tímidas, perfeccionistas, com tendência a se isolar, evitando contato com outras pessoas. São comuns alterações de comportamento, como aumento do tempo gasto no banheiro, tanto em banhos prolongados quanto em lavagens repetidas das mãos; o desempenho escolar pode piorar, geralmente pelo tempo gasto em checar ou refazer as lições e, em algumas crianças, pela dificuldade em manter a concentração; os rituais para dormir ou comer passam a consumir tempo excessivo e a apresentar detalhes minuciosos e excêntricos. Um paciente de 8 anos não conseguia comer com talheres, pois não podia encostá-los nos lábios; outro de 13 anos só conseguia sair de casa após tocar 100 vezes em todos os móveis da sala de sua casa. Em crianças com TOC, quanto menor a idade, maior a prevalência de meninos. Já em pacientes mais velhos, essa diferença diminui, chegando a uma ocorrência igual ou até discretamente superior em mulheres adultas. Pesquisas têm demonstrado que, quanto mais precoce é o início dos pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos, maior a possibilidade de encontrarmos pessoas da família que também apresentem tais sintomas ou que tenham tiques.

Em relação ao quadro clínico, pensamentos obsessivos, só relatados após insistentes questionamentos, podem ser menos encontrados em crianças do que em adultos. Talvez por essa razão, pacientes predominantemente compulsivos sejam encontrados mais facilmente na infância  Assim, é comum na infância que as compulsões sejam realizadas apenas para aliviar sensações de mal-estar, ansiedade, incompletude ou imperfeição, sem relato de medo específico relacionado a elas.

O quadro de TOC comumente inicia-se com apenas uma obsessão e/ou compulsão, havendo,  posteriormente, sobreposição de sintomas. O início pode ser agudo ou gradual e os sintomas tendem a modificar-se bastante durante o curso do TOC, que geralmente é crônico e flutuante, sem um padrão determinado de evolução.

Como produtos mentais, as obsessões podem ser criadas a partir de qualquer substrato psíquico, tais como palavras, pensamentos, medos, preocupações, memórias, imagens, músicas ou cenas. Em relação ao conteúdo, também não existe limite para a variedade possível de obsessões e das com pulsões.

Outra dificuldade para o diagnóstico do TOC na infância é a semelhança entre os sintomas e comportamentos repetitivos característicos de determinadas fases do desenvolvimento.

Muitas vezes, o limite entre o que é parte esperada do desenvolvimento e patologia se confundem O maior desafio para os profissionais e para a família é reconhecer quando ações repetitivas, se tornam preocupantes e a criança precisa realmente de ajuda. Os comportamentos ritualísticos não excessivos auxiliam na socialização e no controle da ansiedade em fases de transição e são, habitualmente, fontes de prazer. Além disso, não interferem no desempenho saudável e não têm a frequência ou a intensidade dos sintomas. Para o diagnóstico do TOC é extremamente importante levar em consideração a frequência, a intensidade e as características dos comportamentos repetitivos. Os sintomas costumam ocupar ao menos uma hora por dia e causar interferências nos relacionamentos e na rotina.

Os rituais podem iniciar-se precocemente e persistir até a idade adulta. Aos 2 anos as crianças começam a apresentar intensificação de comportamentos compulsivos. Os ritos mais comuns na fase pré-escolar acontecem principalmente nos horários de dormir, comer e tomar banho, e os pais se veem obrigados a realizaras atividades de acordo com uma sequência fixa. É esperado que nessa etapa do desenvolvimento a criança peça para ouvir as mesmas histórias repetidamente; assista aos filmes várias vezes; queira que durante as refeições os alimentos estejam dispostos no prato da maneira que julgam adequada; ou insistam para tomar banho com seus brinquedos. Após os 4 anos, a quantidade de rituais tende a diminuir. A partir dos 6 anos os rituais se manifestam mais em brincadeiras grupais. Durante a fase escolar, os jogos passam a ter regras rígidas, muitas vezes tomando mais tempo para serem determinados do que a própria brincadeira. Nessa fase, desenvolvem-se os hobbies e iniciam-se as coleções dos mais variados objetos. Chaveiros, papéis de carta, revistas, álbuns de figurinhas, bonés e caixas de fósforos, entre outros, passam a ter extrema importância.

Na adolescência, os rituais passam a ser um fenômeno grupal. Comportamentos predeterminados são exigidos para que se possa pertencer a uma “turma”, que tem roupas, locais e atividades que seguem padrões repetitivos. Pensamentos intrusivos, sobre um ídolo ou um hobby, são frequentes nessa fase.

Na idade adulta, pode ocorrer acentuação das características compulsivas durante os períodos pré, peri e pós-natais. Segundo alguns autores, ao final da gestação e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê, os pais, em especial a mãe, passam por um período de alteração do estado mental, com exacerbação de algumas características obsessivo-compulsivas. Pensamentos sobre o bem-estar do bebê ocupam muito do tempo da mãe e dificultam sua concentração em qualquer outra atividade que não seja a maternagem. Preocupações excessivas com a saúde, a aparência e com a possibilidade de algo ruim acontecer ao filho levam a verificações repetidas. Apesar de saber que o bebê está bem, essas mães checam várias vezes se ele está respirando, se continua no berço ou se a fralda não está molhada.

 

DEDOS CRUZADOS

Outros exemplos de comportamentos ritualísticos normais são as superstições. Comuns em várias culturas, estão geralmente divididas entre comporta­ mentos que podem trazer má sorte ou proteção contra acontecimentos ruins. Encontradas em todas as faixas etárias, parece haver uma  mudança qualitativa com a idade. Em crianças, os temas dos comportamentos supersticiosos são repletos de fantasia, característica do pensamento pré-lógico ou mágico (dos 2 aos 6 anos) e do pensamento lógico ou concreto (dos 7 aos 11). Por exemplo: não deixar as portas dos armários abertas para que nada de ruim aconteça, ou cruzar os dedos para não serem punidas quando mentem. Apesar das semelhanças com as superstições dos adultos, são poucos os estudos que abordam diretamente essa questão e não existe evidência de continuidade entre comportamentos ritualizados ou supersticiosos e TOC.

O objetivo principal do tratamento é sempre ajudar a criança ou o adolescente a ter um desenvolvimento sem prejuízos psíquicos. É preciso, porém, ter em mente que o TOC é um transtorno crônico, o que fará com que o paciente precise de tratamento por um longo período. O primeiro passo para tratar o TOC é a realização de uma avaliação abrangente do paciente e de sua família. Após a determinação dos sintomas , estabelece-se o programa de acompanhamento, que pode ser realizado por meio de orientação e apoio, psicoterapia e medicamentos.

Apesar de a maioria das pesquisas ter sido realizada com pacientes adultos, já existem dados comprovando que as mesmas medicações utilizadas em pacientes adultos, ou seja, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), são eficazes para crianças e adolescentes. É importante iniciar o tratamento com doses baixas e realizar aumentos gradativos de drogas como a clomipramina, sertralina, paroxetina e auoxetina.

Pacientes com TOC associado a tiques parecem beneficiar-se da associação de doses baixas de neurolépticos (tais como a risperidona e o pimozide) com os ISRS. As psicoterapias cognitivo-comportamentais também têm apresentado bons resultados no controle dos sintomas.

Uma parte importante do tratamento se refere à orientação do paciente e da família sobre os sintomas e qual a melhor forma de lidar com eles. No Brasil, foi criada em 1996 a Associação de Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Astoc) Desde então, a entidade vem desenvolvendo um trabalho pioneiro no sentido de dar apoio familiar a pacientes, estimular a pesquisa, promover encontros e principalmente divulgar informações atualizadas sobre esses transtornos.

OUTROS OLHARES

GÊMEOS ENTRE O CÉU E A TERRA

A NASA fez uma experiência com dois irmãos idênticos: um foi para o espaço, o outro ficou na Terra. Depois de quase um ano, observaram-se diferenças surpreendentes entre eles.

Gêmeos entre o céu e a terra

“A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo.” A máxima do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) pode ser aplicada, sem esforço, para descrevera própria genialidade. Afinal, suas teorias eram de tal modo criativas, inusitadas, desconcertantes que, na impossibilidade de então comprová-las na prática, ele recorria a alegorias para torná-las compreensíveis – os famosos Gedankenexperiment. Tome-se o caso da Teoria da Relatividade, que, entre outras conclusões, trouxe a ideia de que tempo e espaço fazem parte da mesma equação, são flexíveis e também – com o perdão da redundância – relativos. Uma das formas utilizadas por Einstein para ilustrar o conceito foi o Paradoxo dos Gêmeos. Nele, imaginam­se gêmeos idênticos na seguinte situação: um é enviado ao cosmo, viajando próximo da velocidade da luz, enquanto o outro fica na Terra. O que aconteceria a ambos? Pela distorção do espaço­ tempo, o gêmeo cosmonauta envelheceria bem menos. Pois bem: no último dia 11, a Nasa divulgou, na revista científica americana Science, um estudo que lembra o Paradoxo dos Gêmeos.

Os personagens, agora reais, do experimento foram os americanos Mark e Scott Kelly, gêmeos idênticos nascidos em 21 de fevereiro de 1964, cinco anos antes de Neil Armstrong tornar-se o primeiro homem a pisar na Lua. Os irmãos cresceram no Estado de Nova Jérsey, ambos com o sonho de aventurar-se no espaço – como Armstrong. Formaram-se em engenharia, ingressaram na Aeronáutica e, após missões militares, candidataram-se ao trabalho na Nasa, sendo aprovados no mesmo ano, 1996, para a carreira de astronauta. Mark, porém, aposentou-se precocemente, em 2011, devido a uma tragédia: sua mulher, a deputada democrata Gabrielle Giffords, foi alvo de um atentado sórdido, e ele largou tudo para se dedicar ao seu restabelecimento. Scott, entretanto, continuou na profissão. Os caminhos diferentes seguidos por eles a partir daí deram abertura para uma experiência inédita, realizada entre 2015 e 2016: enviar ao cosmo um gêmeo (Scott) enquanto seu irmão (Mark) ficava por aqui, na Terra. Assim, Scott foi para a Estação Espacial Internacional e permaneceu lá durante 340 dias (um recorde para um astronauta da Nasa) enquanto Mark continuou sua vida normal no planeta. Cientistas de doze universidades americanas debruçaram-se sobre os resultados do estudo Em comparação com o corpo de Mark, o de Scott experimentou um grande número de mudanças em razão de sua permanência no espaço. Seu sistema imunológico produziu novos mecanismos de defesa e ele ganhou 5 centímetros de altura. No entanto, seu desempenho físico decaiu – mesmo com a exigência de duas horas de exercícios diários na estação espacial, enquanto Mark não seguia uma rotina similar e tinha uma dieta irregular. Em decorrência da falta de gravidade na estação espacial, Scott teve o organismo fragilizado: partes do globo ocular inflamaram-se, os ossos se tornaram 10% mais finos e músculos se atrofiaram. Já seu cérebro demonstrou boa performance: Scott levou vantagem em testes de atenção em relação a Mark.

Na pesquisa, detectaram-se ainda alterações nos genes. Uma delas, de teor surpreendente: houve um prolongamento dos telômeros, partes do DNA que protegem o organismo do envelhecimento. No espaço, esses trechos se alongaram, o que retardou a deterioração do corpo. Diferentemente do que prevê o Paradoxo dos Gêmeos na hipótese criada por Einstein, isso não ocorreu por causa de alguma distorção no espaço-tempo – Scott, claro, não viajou à velocidade da luz -, e sim por prováveis efeitos da radiação dos raios cósmicos. “Mesmo depois de estar aqui por quase um ano, não me sinto normal”, declarou Scott em 2017, após seu retorno ao solo terrestre. O corpo do astronauta começou a se adaptar ao planeta cerca de um mês depois do regresso – lentamente. Durante algum tempo, Scott relatou, por exemplo, que sentia as “pernas bambas, as juntas doendo e a pele queimando”. “O fato de que Scott e Mark são gêmeos idênticos realmente eliminou alternativas do motivo de terem surgido diferenças entre os organismos deles no período da experiência”, afirma a bióloga Susan Bailey, da Universidade do Colorado, que participou do estudo. ”Podemos dizer que as alterações em Scott se deram em razão do voo espacial, “completa ela.

Desde o início da exploração espacial o próprio cosmo serve de principal laboratório para a preparação das missões. Em 1967, os soviéticos puseram em órbita a primeira nave Soyuz tripulada, na tentativa de descobrir se seria possível realizar o que hoje é um feito corriqueiro: acoplar a nave a outro módulo em pleno espaço. O experimento culminou em tragédia: ao entrar na atmosfera, o paraquedas da nave não se abriu e ela se chocou contra o solo, matando o cosmonauta Vladimir Komarov. Contudo, somente porque houve tentativas como essa – e outras, bem-sucedidas – é que hoje se tem o conhecimento necessário para realizar missões regulares em direção à estação espacial.

Um dos principais objetivos da pesquisa com os gêmeos foi fornecer informações que possam ajudar outros astronautas. Para combater, por exemplo, a deterioração de ossos e músculos, podem ser desenvolvidos exercícios físicos e até mesmo medicamentos capazes de reduzir tais efeitos provocados por uma eventual longa estada fora de órbita. Já as transformações genéticas e do sistema imunológico podem vir a orientar quais tipos de vacina devem ser tomados antes do embarque para uma jornada nas estrelas.

Para além dessa proposta de buscar mitigar efeitos físicos da permanência no cosmo, será     preciso atentar ainda para as consequências psíquicas decorrentes de viagens dessa natureza. No fim do primeiro dia de exploração da Lua, o astronauta americano James Irwin (1930 – 1991), por exemplo, integrante da Apollo 15, avisou no rádio de comunicações que estaria tendo visões epifânicas enquanto caminhava no satélite (ele foi o oitavo homem a realizar tal proeza). Ao retornar à Terra, em 1971, Irwin pôs de lado a ciência e se dedicou a fundar uma seita, que tentou encontrar destroços da Arca de Noé. Preparar os astronautas, física e psiquicamente, para longas estadas sem gravidade será fundamental para o êxito de um dos mais ambiciosos projetos humanos: enviar uma primeira missão tripulada a Marte, algo que a Nasa planeja fazer até os anos 2030.

Gêmeos entre o céu e a terra. 2 

SEM O PESO DO MUNDO

Enquanto Mark Kelly permaneceu na Terra, seu irmão Scott passou 340 dias na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Leia as principais consequências da vivência em órbita.

Gêmeos entre o céu e a terra. 3

GESTÃO E CARREIRA

UBER CHAMANDO

Empresa que reinventou o conceito de mobilidade fará seu IPO no próximo mês e deve valer (muito) mais que a Ford.

Uber chamando

Há um poderoso dilema pairando sobre o IPO da Uber, que acontecerá no próximo mês. Comprar uma ação significa apostar suas economias em uma empresa que faz receitas de US$ 21,5 mil a cada 60 segundos. Ao mesmo tempo, representa a aposta numa companhia que perdeu o equivalente a US$ 3,4 mil por minuto ao longo de 2018. A startup americana que mudou a definição a respeito de mobilidade no mundo fará a abertura de capital e a projeção é de que levante US$ 10 bilhões, o que será um dos 15 maiores IPOs da história — Alibaba, que fez US$ 21,8 bilhões em 2014, lidera o ranking.

De acordo com a história oficial da Uber, seus dois fundadores , Garrett Camp e Travis Kalanick, não conseguiam um táxi numa manhã de neve em dezembro de 2008, em Paris. Ali decidiram pensar um aplicativo, o UberCab, que seria lançado em São Francisco, EUA, quatro meses depois. De início, era para chamar carros de luxo. A primeira corrida foi feita em julho de 2009. Em dezembro de 2011, ao internacionalizar a operação e estrear em Paris, mudou o modo como pensamos a mobilidade.

O IPO da Uber contém esse componente inescapável. Uma empresa disruptiva de um lado, mas deficitária do outro. Espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde da tecnologia. Seu faturamento anual foi de US$ 11,3 bilhões em 2018, 43% acima do ano anterior. Suas despesas, porém, somaram US$ 14,3 bilhões, 19% mais que em 2017. O prejuízo no ano passado bateu US$ 1,8 bilhão (a conta exclui outras despesas com aquisições e/ou vendas de ativos), bem abaixo dos US$ 4 bilhões de 2017. Receita ascendente com despesas e prejuízos descendentes são bom sinal. Mas não no curto prazo. Em carta a investidores, o CEO, Dana Khosrowshahi, não esconde isso. “Não vamos deixar de fazer sacrifícios financeiros de curto prazo quando vemos benefícios claros a longo prazo.”

O paradoxismo também se dá em terreno que envergonha a empresa. Por um lado, ela se tornou uma máquina de empregabilidade a pessoas de diferentes formações. Por outro, vive às voltas com casos de agressão sexual por parte de motoristas, relatos de assédio internamente, práticas de espionagem da concorrência e outros penduricalhos que culminaram, em 2017, com a saída de Kalanick do cargo de CEO.

Para adensar o cenário, a concorrência aumentou. Tanto a local (Lyft) quanto a global (Didi, que no Brasil opera como 99). Esta, aliás, é a maior no segmento, com 550 milhões de usuários e 30 milhões de corridas diárias — a Uber tem 75 milhões de usuários (22 milhões no Brasil, seu segundo maior mercado) e faz 15 milhões de corridas por dia. Concorrentes de peso exigem recursos contínuos. Além disso, os serviços são cada vez mais diversificados. Scooters, aluguel de bikes, carros autônomos, delivery de comida, tudo entra no radar. O que pede mais dinheiro.

Então, por que o IPO da Uber deve se tornar um dos maiores da história? Porque, entre outros motivos, estima-se que seu valor de mercado atinja US$ 100 bilhões. A Ford Motor Company vale um terço disso (US$ 37,1 bilhões), o que não deixa de ser irônico. Fundada em 1903, ela revolucionou a mobilidade ao introduzir, para a produção da série Ford T, a linha de montagem. Aí aparece uma startup 106 anos mais nova, que nem dá dinheiro, e é percebida como três vezes mais valiosa.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 1-6

Alimento diário

AS PALAVRAS DE AGUR

 

V. 1 a 6 – Alguns afirmam que Agur não é o nome deste autor, mas a sua descrição; ele era um coletor (este é o significado da palavra), alguém que juntava, que não compunha pessoalmente as coisas, mas coletava os dizeres sábios e as observações de outras pessoas, resumia os textos de outras pessoas, e alguns pensam que esta é a razão pela qual ele diz (v. 3 ): “Eu mesmo não aprendi a sabedoria, mas tenho sido um escriba, ou amanuense, de outros homens, sábios e instruídos”. Observe que não devemos enterrar o nosso talento, ainda que possa ser apenas um, mas, da mesma maneira como recebemos a dádiva, devemos usá-la, mesmo que seja apenas para coletar o que outros escreveram. Mas nós preferimos pensar que Agur é o nome do autor, que, sem dúvida, era bastante conhecido na época, ainda que não seja mencionado em nenhuma outra passagem das Escrituras. Itiel e Ucal são mencionados, seja:

1. Como os nomes de seus alunos, a quem ele instruía, ou que o consultavam como um oráculo, tendo uma opinião excelente de sua sabedoria e bondade. Provavelmente eles escreviam o que ele ditava, como Baruque escrevia o que Jeremias ditava, e por intermédio deles o texto foi preservado, uma vez que eles estavam prontos a atestar que o texto era dele, pois foi dito a eles; eles foram duas testemunhas. Ou:

2. Como o assunto do seu discurso. Itiel significa Deus comigo, a aplicação de Emanuel, Deus conosco. A palavra o denomina Deus conosco; a fé apropria isto, e o chama “Deus comigo, que me amou e se entregou por mim, e a cuja união e comunhão eu sou aceito”. Ucal significa o Poderoso, pois é de alguém que é poderoso que a ajuda nos é estendida. Muitos bons intérpretes, portanto, aplicam isto ao Messias, pois todas as profecias dão testemunho sobre Ele, e por que não esta também? É o que Agur disse a respeito de Ucal, e também a respeito de Itiel (este é o nome em que está a ênfase) conosco (Isaias 7.14). Três coisas o profeta tem em mente aqui:

 

I – Humilhar-se. Antes de fazer a confissão da sua fé, ele faz a confissão da sua tolice e da sua razão fraca e deficiente, deixando-nos evidente que é necessário que sejamos guiados e governados pela fé. Antes de falar sobre o Salvador, ele fala sobre si mesmo, como alguém que precisa do Salvador, e não sendo nada sem Ele; nós devemos deixar de lado o nosso “eu” antes de nos aprofundarmos em nosso relacionamento com o precioso e bendito Senhor Jesus Cristo.

1. Ele fala de si mesmo como não tendo justiça, e como tendo agido de maneira tola, muito tola. Quando reflete sobre si mesmo. ele reconhece: “Na verdade, que eu sou mais bruto do que ninguém”. “Todo homem se embruteceu” (Jeemiasr 10.1-1). Mas aquele que conhece o seu próprio coração conhece muito mais maldade em si mesmo do que em qualquer outra pessoa, quando clama: na verdade, eu não posso deixar de pensar que sou mais bruto do que ninguém: na verdade, nenhum homem tem um coração tão corrupto e enganador como o meu. Eu agi como alguém que não tem o entendimento de Adão, como alguém que degenerou miseravelmente do conhecimento e da justiça em que o homem foi criado no princípio; ou melhor, eu não tenho o bom senso e a razão de um homem, pois se tivesse, não teria agido como agi. Agur, quando considerado pelos outros como sendo mais sábio que muitos, reconhecia ser mais tolo do que alguns. Qualquer que seja o bom conceito que os outros possam ter de nós, é apropriado que tenhamos pensamentos humildes sobre nós mesmos.

2. Ele fala sobre si mesmo, como alguém a quem falta uma revelação que o guie pelos caminhos da verdade e da sabedoria, e reconhece (v.3): “Não aprendi a sabedoria pelo meu próprio poder (as profundezas da sabedoria não podem ser compreendidas pelo meu papel e pela minha pena) nem tenho o conhecimento do Santo, dos anjos, dos nossos pais em inocência, nem das santas coisas de Deus; eu não tenho conhecimento delas, nem faço nenhum juízo delas, além do que Deus se alegra em me dar a conhecer”. O homem natural, com as forças naturais, não percebe, ou melhor, não compreende as coisas do Espírito de Deus. Alguns supõem que tivessem perguntado a Agur, como ao oráculo de Apolo, anteriormente: Quem é o homem mais sábio? A resposta é: aquele que tem conhecimento da sua própria ignorância, especialmente nas coisas divinas.

 

II – Promover Jesus Cristo, e o Pai, nele (v. 4): Quem subiu ao céu, etc.

1. Alguns entendem que isto se refere a Deus e às suas obras, que são incomparáveis e insondáveis. Ele desafia toda a humanidade a explicar os céus nas alturas, os ventos, as águas, a terra: “Quem subiu ao céu, para examinar os astros nas alturas, e então desceu, para nos dar uma descrição deles? Quem encerrou os ventos nos seus punhos e os dominou, como Deus? Quem amarrou as águas do mar na sua roupa, como Deus? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra, ou pode descrever a resistência de suas fundações, ou a extensão dos seus limites? Digam-me: qual é o seu nome, o nome do homem que poderia argumentar com Deus ou ser um membro do seu gabinete, do seu conselho, ou, se estiver morto, qual é o nome daquele a quem deixou como legado este grande segredo?”

2. Outros entendem que isto se refere a Cristo, a Itiel e a Ucal, o Filho de Deus, pois é o nome do Deus, bem como o do Pai, que é examinado aqui, e um desafio é feito a quem desejar competir com Ele. Agora, devemos exaltar a Cristo como alguém revelado; eles, então, o exaltavam como alguém oculto, como alguém de quem tinham ouvido falar alguma coisa, mas de quem tinham ideias muito obscuras e insuficientes. Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama, mas não podemos descrevê-lo (Jó 28.22); certamente, é Deus que encerrou os ventos nos seus punhos e amarrou as águas na sua roupa. mas qual é o seu nome? “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3.14), um nome a ser adorado, e não entendido. Qual é o nome do seu Filho, por quem Ele faz todas estas coisas? Os santos do Antigo Testamento esperavam que o Messias fosse o Filho do Deus Bendito, e Ele é aqui citado como uma pessoa distinta do Pai, mas o seu nome ainda é secreto. Observe que o grande Redentor, nas glórias da sua providência e graça, não pode ser comparável ou igualado a ninguém, nem considerado menos que perfeito.

(1) As glórias do reino da sua graça são insondáveis e incomparáveis: pois quem, além dele. subiu ao céu e desceu? Quem. além dele. está perfeitamente familiarizado com ambos os mundos. e tem uma livre correspondência com ambos, e, portanto, é capacitado para estabelecer uma correspondência entre eles, como Mediador, como a escada de Jacó? Ele estava no céu, no seio do Pai (João 1.1,18); de lá, Ele desceu. para assumir a nossa natureza: e nunca houve uma condescendência semelhante a esta. Naquela natureza. novamente subiu (Efésios 4.9), para receber as glórias prometidas e o seu estado exaltado; e quem, além dele, fez isto (Romanos 10.6).

(2) As glórias do reino da sua providência são, igualmente, insondáveis e incomparáveis. Aquele que reconcilia os céus e a terra foi o Criador de ambos, e governa e dispõe de tudo. O seu governo dos três elementos inferiores – o ar, a água e a terra – é aqui particularizado.

[1] Os movimentos do ar são comandados por Ele. Satanás tem pretensões de ser o príncipe das potestades do ar, mas mesmo ali Cristo tem todo o poder; Ele repreendeu os ventos, e eles obedeceram a Ele.

[2] Os limites das águas são definidos por Ele: Ele amarra as águas como em uma roupa: “Até aqui virás, e não mais adiante” (Jó 38.9-11).

[3] Os alicerces da terra foram estabelecidos por Ele. Ele a fundou, no princípio; e Ele ainda a sustenta. Se Cristo não tivesse se interposto. os alicerces da terra teriam afundado sob o peso da maldição que estava sobre o solo, devido ao pecado do homem. Quem é Aquele Todo-Poderoso que faz tudo isto? Não podemos encontrar Deus, nem o Filho de Deus, senão na perfeição. Ó profundidade desse conhecimento!

 

III – Assegurar-nos a verdade da Palavra de Deus, e recomendá-la a nós (vv. 5,6). Os alunos de Agur esperam que ele os instrua nas coisas de Deus. “Ai!”, diz ele, “não posso instruir vocês; recorram à Palavra de Deus; vejam o que Ele revelou ali sobre si mesmo, e sobre a sua vontade: vocês não precisam saber nada além do que aquilo lhes ensinará, e nisto poderão confiar, como algo certo e suficiente. Toda Palavra de Deus é pura; não há a menor falsidade e impureza nela”. As palavras dos homens devem ser ouvidas e lidas com cuidados e reservas, mas não há o menor motivo para suspeitar de qualquer deficiência na Palavra de Deus; ela é como a prata purificada sete vezes (Salmos 12.6), sem a menor mistura ou impureza. A tua palavra é muito pura (Salmos 119.140).

1. É certa e segura, e por isto devemos confiar nela e arriscar nossas almas por ela. Deus na sua Palavra, Deus na sua promessa, é um escudo, uma proteção segura, a todos os que se colocam sob a sua proteção e depositam nele a sua confiança. A Palavra de Deus. aplicada pela fé, nos será socorro bem presente na angústia (Salmos 46.1,2).

2, É suficiente, e por isto não devemos acrescentar nada a ela (v. 6): nada acrescentes às suas palavras, porque são puras e perfeitas. Isto proíbe a promoção de qualquer coisa, não somente que contradiga a Palavra de Deus, como também que rivalize com ela; ainda que seja sob o plausível pretexto de explicá-la, se tiver pretensões de ter a mesma autoridade que ela, será um acréscimo às suas palavras, o que não somente é uma censura a elas, como se fossem insuficientes, como abre uma porta para todo tipo de erros e corrupções; pois, se permitirmos que um absurdo, uma palavra de qualquer homem ou grupo de homens seja recebido com a mesma fé e veneração que a Palavra de Deus, mil se seguirão. Devemos nos satisfazer com o que Deus julgou adequado nos dar a conhecer da sua vontade, e não cobiçar ter sabedoria acima do que está escrito; pois:

(1) Deus considerará isto como uma afronta odiosa: ele te repreenderá, e te considerará traidor à sua coroa e dignidade, e te colocará sob o pesado destino dos que acrescentam às suas palavras ou diminuem delas (Deuteronômio 4.2; 12.32).

(2) Nós mesmos incorreremos em incontáveis enganos: serás considerado um mentiroso, que corrompe a Palavra da verdade, e espalha heresias, e é culpado da pior das falsificações, a do selo do céu, alegando ter uma missão e uma inspiração divina, quando é tudo uma fraude. Os homens podem ser enganados. mas Deus não se deixa escarnecer.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES II

Obsessões e Compulsões II

TRANSTORNO COMPARTILHADO

É como uma pedrinha que se atira num lago e faz as águas se movimentarem: os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) costumam ter forte impacto sobre todos os membros da família. Interferem nos relacionamentos, nos compromissos sociais e profissionais e na vida econômica. Para evitarem conflitos, parentes acabam se adaptando aos sintomas e às exigências do paciente, e a família muitas vezes termina por se isolar, já que há grandes dificuldades até mesmo para convidar pessoas para visitar a casa. As acomodações, porém, se dão de forma dolorosa, atravessadas pela raiva e pela frustração, frequentemente exteriorizadas sob a forma de discussões e até agressões físicas. É muito comum que, nessas condições, conflitos conjugais evoluam para separações. Levantamentos indicam que mais de 40% de pessoas próximas de quem tem TOC modificam sua rotina em razão do transtorno. No caso de o paciente ser o marido, 88% das mulheres se adaptam aos rituais.

Por todos esses motivos, muitos consideram o TOC uma doença familiar, tal o impacto que exerce sobre todo o grupo. Estudos mostram que a ocorrência do distúrbio é quatro ou cinco vezes mais comum entre parentes do que na população em geral, o que evidencia a existência do fator familiar em sua origem, que pode ser ambiental ou hereditário ou resultado da combinação dos dois aspectos. Em gêmeos idênticos, observou-se que os tiques e a concordância de sintomas podem chegar a mais de 80%.

Embora deva ser levado em conta o componente genético na etiologia da doença, há controvérsias a respeito da transmissão e das possíveis formas de ocorrência.  É importante considerar também  que o TOC é um transtorno bastante heterogêneo, e é possível que a herança seja distinta para suas diversas formas de manifestação. O fato de haver mais de uma pessoa do grupo familiar comprometida, especialmente quando se trata de alguém que está em posição de grande influência sobre os demais membros, como pai, mãe ou avós, além de sugerir possível fator de ordem genética, indica influências ambientais: os rituais do TOC e as crenças distorcidas que o caracterizam podem ter sido adquiridos por aprendizagem. Certos sintomas, em particular, influem de forma mais acentuada na dinâmica da família. Por exemplo, os armazenadores em geral se sentem bem ao lado das coisas que juntam, mesmo que a casa esteja atravancada de objetos sem utilidade. Enfrentam extremo desconforto ou raiva, como se sua privacidade tivesse sido violada porque alguém pegou ou trocou seus objetos de lugar, e são comuns também os conflitos quando alguém põe algo no lixo sem o seu consentimento. Os pacientes têm enorme necessidade de ter o controle de tudo ao seu redor, protegendo o que lhe pertence de eventuais danos, uso indevido e, principalmente, de extravio. Da mesma forma, os que apresentam obsessões de contaminação e lavagem com muita frequência impõem aos demais seus rituais de limpeza, aos quais a família se submete como forma de evitar conflitos, embora a maioria das pessoas não acredite que a atitude contribua para a melhora do paciente.

PIOR EM CASA

Em aproximadamente um terço dos casos os parentes com frequência apoiam os pacientes,  participando dos rituais e assumindo responsabilidades por eles, por não tolerar a impotência sentida ao assistir a um ente querido se debatendo, prisioneiro de rituais exaustivos e intermináveis, uma vez que essa atitude proporciona alívio imediato. Entretanto, com esse procedimento, reforçam os sintomas.

Se, por um lado, o paciente muitas vezes induz aqueles que estão a seu redor a alterar seus hábitos (mesmo sem percebê-lo), por outro, conflitos domésticos costumam agravar as expressões do TOC. É comum que os sintomas sejam mais intensos em casa e diminuam em outras situações, como durante viagens. Uma paciente que tinha relação conflituosa com sua mãe, pessoa muito exigente e crítica, apresentava o transtorno apenas quando estava na casa dos pais: acendia e apagava a luz várias vezes , ligava e desligava a televisão e outros eletrodomésticos. Sempre que ocorria discussão, os sintomas se exacerbavam. Quando estava em outra cidade, porém, as manifestações praticamente desapareciam.

Acredita-se que as atitudes da família em relação aos sintomas (hostilidade, crítica exagerada, rejeição, ou apoio e tolerância) interfiram nos resultados do tratamento. Parentes tanto encorajam a busca por ajuda como a desestimulam por não acreditar em possíveis mudanças; podem influenciar na adesão ao tratamento ou contribuir para seu abandono, que com frequência ocorre depois de uma briga em casa.

É por isso que muitos terapeutas costumam incluir os familiares no tratamento do TOC, ainda que nem todos participem de todas as sessões. Particularmente quando há participação evidente no reforço dos rituais, hostilidade em relação ao paciente e, sobretudo, quando os sintomas são muito graves e a pessoa está dominada por suas obsessões, não oferecendo nenhuma resistência aos atos compulsivos, é fundamental a inclusão do grupo. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), bastante utilizada para controlar sintomas do distúrbio, é comum a participação da família, principalmente no caso de pacientes adolescentes, no início da puberdade, sendo indispensável quando o paciente é criança. Também é vantajosa a inclusão do cônjuge (ou mesmo do namorado ou namorada), que pode oferecer ajuda valiosa na identificação dos sintomas, na avaliação dos progressos e em eventuais dificuldades ou recaídas – particularmente se o casal tiver relacionamento de boa qualidade.

O fato de a maioria das pessoas, incluindo o próprio paciente, desconhecer as características do transtorno psiquiátrico, as perspectivas terapêuticas e as atitudes mais adequadas a serem adotadas costuma dificultar a busca por tratamento. Esclarecer tanto aquele que manifesta o TOC quanto as pessoas com quem convive é um passo fundamental para lidar com o distúrbio, eliminar preconceitos e auxiliar os envolvidos a desenvolver atitudes mais realistas e objetivas, além de tolerância e cooperação. Desde que seja respeitada a intimidade da pessoa em tratamento, a família pode contribuir com informações – já que, na maioria das vezes, os pacientes têm vergonha dos seus comportamentos, rituais e restrições, que podem ser ocultados do psicólogo ou do médico que os acompanha.

Nesse sentido, a entrevista conjunta facilita a coleta de dados e o esclarecimento dos sintomas. Os fundamentos e as características da terapia cognitivo-comportamental devem ser esclarecidos também para a família: em que pressupostos ela se baseia; que estudos embasaram sua aplicação e comprovaram sua efetividade. É indispensável que as pessoas sejam informadas sobre o que acontece durante a terapia: o aumento inicial da ansiedade em razão dos exercícios, o fenômeno da habituação e o desaparecimento gradual dos sintomas.

Obsessões e Compulsões II. 2

O QUE PODE AJUDAR O PACIENTE

  • Encorajá-lo a enfrentar as situações que o incomodam e a encontrar outras formas de abster-se de executar rituais.
  • Lembrá-lo que, especialmente no início, isso é muito difícil e pode provocar medo e aflição, mas que o mal-estar é passageiro.
  • Responder às suas perguntas uma única vez. Ser honesto nas respostas, explicando o que é TOC e enfatizando que é impossível ter certeza absoluta sobre tudo o tempo todo.
  • De forma gentil, apontar o excesso de verificações.
  • Manter as combinações feitas com o terapeuta. Ser firme, sem ser autoritário.
  • Tentar garantir os compromissos profissionais, as horas de lazer e a vida social.
  • Participar de grupos de auto- ajuda: parentes de outros pacientes podem oferecer dicas valiosas a respeito de como lidar com diferentes situações.
  • Realizar os exercícios prescritos pelo terapeuta junto com o paciente e permanecer ao seu lado durante as atividades que possam causar medo ou ansiedade.
  • Pedir à pessoa com o distúrbio que avise quando estiver na iminência de seguir rituais. Ficar ao seu lado e estimulá-la a resistir.
  • Auxiliá-la a reconhecer seus sintomas, assinalando aqueles que talvez não tenha percebido.
  • Ficar atento aos sinais de recaída e informar o paciente sobre eles de maneira delicada.

Obsessões e Compulsões II. 3

MANIFESTAÇÕES MAIS COMUNS

Formas obsessivas de pensar desencadeiam modos compulsivas de agir – ou evitar a ação

OBSESSOES

  • Preocupação excessiva com sujeira, germes ou contaminação
  • Dúvidas recorrentes
  • Preocupação com simetria, exatidão, ordem, sequência ou alinhamento
  • Impulsos de ferir, insultar ou agredir pessoas
  • Ideias indesejáveis relacionadas a comportamento sexual violento e abuso sexual de crianças
  • Desejo intenso de armazenar, poupar, guardar coisas inúteis
  • Preocupações com doenças ou com o corpo
  • Culpa, receio de pecar ou blasfemar
  • Superstições, receio de que certos números, datas, horários e cores atraiam tragédias
  • Rememoração de palavras, cenas ou músicas intrusivas

 

COMPULSÕES

  • Lavagem ou limpeza
  • Verificações ou controle
  • Repetições de gestos ou confirmação de informações
  • Contagem de objetos
  • Ordem, simetria, sequência ou alinhamento
  • Acúmulo de coisas inúteis (colecionismo), economia excessiva
  • Rezas, repetições de palavras, frases ou números
  • Impulso de tocar, olhar, bater de leve, confessar. Estalar os dedos

 

ALGUMAS EVITAÇÕES

  • Não tocar em trincos, corrimãos, válvulas de descargas ou torneiras de banheiro.
  • Isolar cômodos da casa, impedindo o acesso a eles.
  • Obrigar parentes a tirar os sapatos, trocar de roupa ou tomar banho ao chegarem da rua.
  • Não sentar em bancos ou cadeiras de lugares públicos.
  • Não encostar roupas “contaminadas” nas que estão dentro do guarda-roupa.
  • Não usar objetos utilizados por outras pessoas como talheres e telefones públicos.
  • Evitar pisar no tapete do banheiro em casa ou no escritório ou só pisar em ladrilhos de determinadas cores.

Obsessões e Compulsões II. 4

FIOS DE CABELO, FEIÚRA E DOENÇAS IMAGINÁRIAS

Existem transtornos que se assemelham ao TOC por suscitar comportamentos repetitivos, pensamentos intrusivos ou evitações. São os distúrbios do chamado espectro obsessivo­ compulsivo – como o jogo patológico e a síndrome de Tourette, que com frequência aparecem associados ao TOC. Esta última, por exemplo, atinge de uma a duas pessoas em cada 100. O distúrbio genético, de natureza neuropsiquiátrica, é caracterizado por fenômenos compulsivos que resultam em múltiplos tiques motores e/ou vocais. Há casos em que a pessoa faz caretas e pronuncia palavrões e expressões chulas sem que tenha intenção de fazê-lo.

Há ainda três condições muito comuns com as quais o TOC eventualmente se confunde, ou pode estar associado: tricotilomania (mania de arrancar os cabelos), transtorno dismórfico corporal e hipocondria, todos descritos no DSM-IV. Embora seja um impulso desencadeado por situações de stress ou de ansiedade, a tricotilomaniase manifesta também em momentos de relaxamento e distração (quando a pessoa assiste à TV ou lê um livro), em geral quando está isolada, sem a presença inibidora de parentes ou amigos. Não é precedida por obsessões, como usualmente ocorre no TOC, e sim por tensão crescente, seguida de sensação de prazer, satisfação e alívio.

Há pacientes que arrancam não só os cabelos, mas também sobrancelhas, cílios, pelos pubianos e axilares. Tricotilomaníacos podem arrancar os cabelos de outras pessoas e pelos de animais de estimação, bem como fios de tapetes e roupas. Outros comportamentos estão associados ao distúrbio, como examinar a raiz capilar, enfiar mechas entre os dentes ou comer cabelos (tricofagia). Os fios ingeridos se depositam no sistema digestivo, causando anemia, dor abdominal, náuseas, vômitos e obstrução ou perfuração intestinal.

Também é comum que as pessoas com tricotilomania tentem esconder as falhas no couro cabeludo que revelam o transtorno, utilizando chapéu ou rapando a cabeça. Na infância, o distúrbio acomete igualmente meninos e meninas, mas em adultos é mais comum em mulheres, associado a outros comportamentos, como roer unhas, beliscar-se ou coçar-se. De acordo com a abordagem terapêutica cognitivo-comportamental, a pessoa com tricotilomania deve seguir as seguintes recomendações:

  1. Identificar as situações críticas em que tem o impulso de arrancar cabelos e registrá-las;
  2. Identificar os movimentos que precedem o comportamento;
  3. Treinar a exposição e a prevenção do impulso;
  4. Desenvolver atividade com as mãos que seja incompatível com o gesto de arrancar cabelos;
  5. Juntar e guardar os fios arrancados;
  6. Adotar manobras reparatórias;
  7. Treinar o relaxamento muscular e a respiração abdominal;
  8. Planejar atividades agradáveis nos momentos críticos;
  9. Evitar situações de solidão, nas quais o impulso é mais acentuado;
  10. Reconhecer os progressos;
  11. Ficar atenta a recaídas.

Outro transtorno facilmente confundido com o TOC é a dismorfia corporal (TDC), uma espécie de “feiúra imaginária”. A característica principal é a preocupação excessiva com supostos defeitos na aparência ou o incômodo exagerado com alguma característica. Essas apreensões são embasadas na crença equivocada de que se sofre de deformações. As queixas mais comuns se referem à face, às orelhas e aos genitais, mas podem dizer respeito também a outras partes do corpo. Essas pessoas acreditam ser extremamente feias – e temem a rejeição. A preocupação, às vezes, assume características delirantes e psicóticas. O transtorno é crônico e causa sofrimento, em razão da baixa auto- estima e do isolamento, comprometendo a vida afetiva, social e profissional do paciente. Quando se torna delirante, podem surgir ideias ou tentativas de suicídio.

Geralmente, os pacientes não procuram ajuda médica por considerarem sua preocupação infundada. O transtorno começa, em geral, na adolescência, fase em que surgem os problemas de aceitação das mudanças físicas, mas deve-se distinguir o TDC das preocupações normais do jovem em formação. A hipocondria, por sua vez, é considerada um transtorno somatoforme (referente a sintomas físicos), caracterizado pela preocupação persistente (ao menos por seis meses) de ter uma doença grave, com base na interpretação errada da sintomatologia. Os hipocondríacos não se tranquilizam com os exames que não identificam nenhuma doença. O distúrbio pode aparecer como resposta ao stress, às vezes motivado pela morte inesperada de um ente querido. Nesses casos, o paciente relata sintomas parecidos com os da pessoa falecida. Curiosamente, em momentos em que a certeza ou o temor da doença são muito intensos, o hipocondríaco evita procurar um médico, mesmo diante de situações que necessitariam uma avaliação, com medo de que seja “confirmado o pior”.

OUTROS OLHARES

A CORRIDA PELO COMPUTADOR QUÂNTICO

Tecnologia que deve movimentar US$ 50 bilhões até 2030 traz a premissa de acelerar o avanço da Inteligência Artificial e revolucionar a economia, da agricultura à medicina.

A corrida pelo computador quântico

O padrão de computação com o qual estamos acostumados se baseia no sistema binário. ISSO Significa que em um arquivo de texto (o código base usado em todo tipo de arquivo), cada letra é representada por combinações dos números zero e um. Já na computação quântica, a métrica é infinitamente mais abrangente porque o modelo binário dá lugar a sobreposições sem limite. Assim, os bits quânticos, ou qubits, têm a capacidade de armazenar não só um único texto por arquivo, mas todos os textos possíveis para a mesma quantidade de caracteres — inclusive os textos que ainda nem foram escritos. Está confuso? Então pense na computação atual como a era anterior à invenção da prensa móvel por Gutenberg, no século 15. A computação quântica é tudo o que virá depois. Nela, os computadores serão expressivamente mais rápidos e irão consumir muito menos energia. Parece coisa de ficção científica, e por isso ela desperta uma corrida entre gigantes como IBM, Google, Intel e Microsoft, além de startups como Rigetti ou a canadense D-Wave.

E, evidentemente, não se trata de uma corrida por vaidade pelo pioneirismo. Trata-se de muito dinheiro. É um mercado potencial que deve movimentar, somente nesta fase de testes, ao menos US$ 50 bilhões até 2030, de acordo a consultoria Boston Consulting Group (BCG). A capacidade computacional quântica irá revolucionar todos os setores. Agricultura, energia, finanças, saúde. Nada será como é. O setor farmacêutico, por exemplo, dará um salto, pois a nova tecnologia permite acelerar a criação e os testes de novos medicamentos, já que vai multiplicar a capacidade de prever efeitos que hoje a indústria leva anos para mapear. Tal avanço pode representar US$ 20 bilhões em negócios no setor nos próximos 10 anos.

Outra possível aplicação está no segmento dos algoritmos de busca e aprendizado das máquinas, o que tende a acelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas. E isso é só o começo. “Esperamos que a computação quântica se desenvolva em direção à maturidade nos próximos 25 anos”, escreve Massimo Russo, sócio do BCG, em relatório. Hoje as grandes empresas de tecnologia ainda testam suas soluções para fornecer ambiente confiável de testes para os clientes. A IBM está um passo à frente da concorrência ao apresentar ao mercado, em janeiro, o Q System One, um dos primeiros computadores quânticos comerciais, com capacidade de 20 qubits.

O Google deu um importante passo para a concepção do seu computador ao anunciar, no começo do mês passado, que desenvolveu em laboratório próprio um novo processador quântico. A Intel e a Microsoft também trabalham para apresentar seus protótipos. Para imaginar a forma dessas máquinas, esqueça toda a referência da imagem de um PC. O computador quântico ocupa o espaço de uma sala, e seu núcleo fica resguardado por uma câmara de vácuo que mantém o ambiente em temperaturas baixíssimas – a 273º Celsius negativos. A utilização dessa plataforma é feita por meio da nuvem. No entanto, as soluções são ainda muito embrionárias.

A capacidade do Q System One, de 20 qubits, é baixa e ainda não possibilita a simulação, por exemplo, do comportamento de moléculas. “Para modelar uma molécula simples de cafeína são necessários 50 qubits”, diz Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil. De acordo com BCG, a tecnologia se encontra hoje em um ponto equivalente ao estágio inicial do aparecimento de computadores binários. “A segunda geração da computação quântica, que vai se desenvolver entre 2028 e 2039, será o período no qual as máquinas alcançarão a capacidade de até 50 qubits”, escreve Russo no relatório da consultoria.

Para atingir esse nível de desenvolvimento, é preciso um esforço coletivo entre setor público, privado e academia. Um dos ambientes de testes mais populares é o IBM Q Experience, que desde 2016 disponibiliza à comunidade um computador quântico de testes com plataforma aberta para que desenvolvedores de universidades e empresas possam aprender a programar na nova linguagem.

“É uma fase importante de aprendizado”, diz Mello. Grandes empresas também usam a iniciativa para estudar soluções a seus negócios. O JP Morgan, maior banco dos Estados Unidos, tem dois grandes objetivos: buscar maneiras de aumentar a segurança de dados e proporcionar maior precisão nas estratégias de investimento. Para a coreana Samsung, interessa produzir chips mais potentes com componentes microeletrônicos e uma nova geração de isolantes de calor. A Exxon Mobil, por sua vez, pretende modelar elementos químicos para tornar os catalisadores mais eficientes e, assim, diminuir a emissão de CO2 na atmosfera. Cerca de 300 empresas e 2.500 universidades de todo o mundo promovem testes na plataforma.

Outras grandes corporações buscam meios alternativos para entender a aplicação da tecnologia nos seus negócios. A Bayer firmou, em novembro do ano passado, parceria com a empresa de tecnologia Atos e com a RWTH Aachen, a maior universidade da tecnologia da Alemanha, para avaliar o uso da computação quântica na pesquisa e análise de padrões de doenças humanas. O esforço não é à toa. Executivos da indústria farmacêutica estimam que a computação quântica pode acelerar o tempo de desenvolvimento de novas drogas em 15% a 20%.

A corrida pelo computador quântico. 2

FINANCIAMENTO PÚBLICO 

A corrida para estar na vanguarda dessa tecnologia não se limita ao setor privado. O governo dos Estados Unidos anunciou, em dezembro do ano passado, que vai disponibilizar US$ 1,2 bilhão para financiar pesquisa quântica no país. A Comissão Europeia desembolsou, em 2016, US$ 1,1 bilhão para o mesmo propósito. Mas a China lidera a corrida ao aportar US$ 10 bilhões para a construção de um laboratório de Ciência da Informação Quântica com previsão para ser inaugurado em 2020. O Brasil ainda não tem uma linha específica de financiamento. “Os países que dominarem antes essa tecnologia terão indústrias mais avançadas com a produção de materiais químicos melhores e maior quantidade de produtos inovadores”, diz Mello, da IBM. A vantagem competitiva será quântica.

GESTÃO E CARREIRA

AS CARÊNCIAS MAIS SENTIDAS PELOS MILENNIALS

Profissionais jovens percebem em si mesmo falta de habilidades relacionadas à inteligência emocional e pensamento crítico.

Carências mais sentidas pelos millenials

Brasileiros jovens entram no mercado de trabalho e se ressentem de um déficit de habilidades fundamentais para a vida profissional. Uma pesquisa recente da empresa de educação online Udemy colheu respostas de mais de mil profissionais com idade entre 21 e 35 anos. Para quase dois terços deles, o que mais faz falta não são conhecimentos técnicos, e sim capacidades que deveriam ser treinadas na escola e na universidade, relacionadas a inteligência emocional, comunicação, gestão do tempo e pensamento crítico – todas fundamentais para a produtividade e para os ambientes de trabalho mais competitivos de hoje. Além das deficiências óbvias em transmissão de conhecimento, o sistema educacional brasileiro falha também no desenvolvimento dessas habilidades, diz Sérgio Agudo, diretor da Udemy no Brasil. O executivo lembra que esse tipo de ponto fraco é hoje considerado problema grave num profissional e pode prejudicar carreiras seriamente. Um quarto dos jovens também se ressentiu de falta de habilidades de liderança, o que é facilmente compreensível em profissionais na primeira metade da carreira. Cerca de 95% dos respondentes consideram que existe uma lacuna de habilidades profissionais no país.

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