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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

CICATRIZES PROFUNDAS

Pesquisa realizada com crianças abandonadas pelos pais biológicos na Romênia mostrou de forma contundente o impacto devastador que a experiência de passar os dois primeiros anos de vida dentro dos limites impessoais de uma instituição pode causar sobre a mente e o cérebro.

Cicatrizes profundas

Em 1966, o então líder da Romênia Nicolae Ceausescu decretou que o país deveria incrementar a produtividade econômica e desenvolver o seu “capital humano”. Para isso, era preciso aumentar a população ativa do país. Ceausescu, no poder entre 1965 e 1989, proibiu os contraceptivos e o aborto e aplicou um “imposto sobre o celibato” para famílias com menos de cinco filhos. Médicos do Estado – a chamada “polícia menstrual” – conduziam exames ginecológicos de mulheres em idade fértil em seu local de trabalho. Obviamente, a taxa de natalidade disparou, mas, como as famílias eram pobres demais para manter os filhos, abandonaram muitos em enormes instituições estatais. Em 1989, quando foi deposto durante a revolução, havia mais de 170 mil crianças nesses locais. E, nos dez anos seguintes, seus sucessores fizeram várias tentativas hesitantes de reparar o dano que ele legou.

O “problema dos órfãos”, entretanto, permaneceu por muitos anos. Uma década após Ceausescu ter sido retirado do poder, alguns funcionários do governo ainda diziam que o Estado era melhor que famílias na criação de crianças abandonadas e que aqueles confinados em instituições eram, por definição, “defeituosos” – uma visão ancorada no sistema inspirado pela União Soviética de educar incapacitados, apelidado de “defeitologia”.

Mesmo após a revolução de 1989, famílias ainda se sentiam autorizadas a abandonar crianças não desejadas em instituições estatais. Há muito, cientistas sociais suspeitam que o início de vida em um orfanato pode levar a consequências negativas. Vários estudos, notadamente pequenos e descritivos, sem grupos de controle, foram conduzidos entre as décadas de 40 e 60 no Ocidente, comparando crianças de instituições com as acolhidas pelas famílias e mostraram que a vida em uma instituição não chegou nem perto de igualar o cuidado de um pai ou uma mãe – mesmo que não fossem biológicos. Um problema desses estudos foi a possibilidade do “viés de seleção”, uma vez que crianças retiradas de instituições e acolhidas por famílias costumam ser menos comprometidas. O único modo de evitar qualquer viés exigiria o passo inédito de colocar aleatoriamente um grupo de crianças abandonadas em uma instituição ou acolhimento familiar.

Compreender os efeitos da institucionalização no desenvolvimento infantil é importante devido à imensidão do problema mundial de órfãos (define-se um órfão aqui como uma criança abandonada ou cujos pais morreram). Só nos últimos anos, guerras, doenças, pobreza e, por vezes, políticas governamentais levaram pelo menos 8 milhões de crianças em todo o mundo a instalações controladas pelo governo. Não raro, esses meninos e meninas vivem em ambientes altamente estruturados, mas irremediavelmente sombrios, onde é normal um adulto supervisionar de 12 a 15 crianças.

Em 1999, quando nos aproximamos de Cristian Tabacaru, na época secretário de Estado da Autoridade Nacional para a Proteção da Criança, da Romênia, ele nos incentivou a realizar um estudo sobre crianças institucionalizadas, pois queria informações para lidar com a questão de saber se desenvolveria formas alternativas de cuidados para as 100 mil crianças romenas que viviam em instituições estatais. No entanto, Tabacaru enfrentava forte resistência de alguns funcionários do governo que, por décadas, acreditaram que a educação de crianças nas instituições era melhor que em acolhimento familiar. O problema foi agravado porque os orçamentos de algumas agências de governo eram muitas vezes garantidos pelo seu papel de prover cuidados institucionais. Diante desses desafios, Tabacaru acreditava que evidências científicas sobre as supostas vantagens de acolhimento familiar forneceriam dados convincentes para a reforma, e assim nos convidou a ir adiante com um estudo.

Cicatrizes profundas. 2

IMPACTOS SOBRE A INTELIGÊNCIA

Com a ajuda de alguns funcionários do governo romeno e especialmente de trabalhadores da ONG Sera Romênia desenvolvemos um estudo para determinar os efeitos da vida em uma instituição do Estado sobre o cérebro da criança e seu comportamento, e se a adoção poderia amenizar os efeitos dessa educação em condições que vão contra o que sabemos sobre as necessidades nos primeiros anos de vida. O projeto de intervenção precoce de Bucareste foi lançado em 2000, em cooperação com o governo romeno, em parte para permitir respostas que pudessem amenizar os efeitos colaterais de políticas anteriores. O legado infeliz do governo de Ceausescu ofereceu a oportunidade de examinar, com maior rigor científico do que em qualquer pesquisa anterior, os efeitos da assistência institucionalizada no desenvolvimento neurológico e emocional de lactentes e crianças pequenas. O estudo foi o primeiro randomizado e controlado que comparou um grupo de bebês colocados em lares de acolhimento com outro formado por crianças educadas em instituições, o que possibilitou um nível de precisão experimental até então indisponível.

Das seis instituições para bebês e crianças até os 3 anos em Bucareste, recrutamos um grupo de 136, consideradas saudáveis, sem problemas neurológicos, genéticos e congênitos. A escolha foi feita com base em exames pediátricos realizados por um membro da equipe de estudo. Todos os pequenos “voluntários” haviam sido abandonados nas primeiras semanas ou meses de vida. No início do estudo, tinham em média 22 meses, e a faixa etária variava de 6 a 31 meses.

Após avaliações físicas e psicológicas básicas, metade das crianças foi aleatoriamente destinada a uma intervenção de acolhimento familiar desenvolvida, mantida e financiada por nossa equipe. A outra metade – a que chamamos de grupo com “cuidados usuais” – permaneceu em instituições. Recrutamos também um terceiro grupo em desenvolvimento típico que nunca foi institucionalizado e vivia com suas famílias em Bucareste. Esses três grupos foram acompanhados por mais de dez anos. Como as crianças foram aleatoriamente designadas para acolhimento familiar ou para a instituição, diferentemente de estudos anteriores, foi possível mostrar que as eventuais diferenças de desenvolvimento ou de comportamento entre os dois grupos poderiam ser atribuídas ao local onde foram criadas.

Como, ao começarmos, não havia praticamente nenhum lar de acolhimento disponível para os pequenos rejeitados em Bucareste, ficamos na posição privilegiada de ter de construir nossa própria rede. Após ampla publicidade e verificação de antecedentes, recrutamos 53 famílias para criar 68 crianças (mantivemos irmãos juntos).

É claro que havia muitas questões éticas envolvidas em um experimento científico com crianças no qual apenas metade dos participantes foi inicialmente retirada de instituições. O projeto comparou a intervenção-padrão com o acolhimento familiar, uma intervenção que nunca fora disponível para essas crianças. Proteções éticas postas em prática incluíam a supervisão por várias instituições romenas e americanas, medidas de “risco mínimo” (rotineiramente usadas para proteger crianças) e a não interferência em decisões do governo sobre mudanças de local (casos em que crianças foram adotadas, devolvidas a pais biológicos ou mais tarde colocadas em lares de acolhimento governa­ mentais ausentes no início).

Além disso, nenhuma criança foi transferida do acolhimento familiar para uma instituição no final do estudo. Assim que os primeiros resultados se tornaram disponíveis, comunicamos as descobertas ao governo romeno em uma entrevista coletiva. Para garantir a boa qualidade dos cuidados que os pequenos receberiam nas famílias, criamos um programa para incorporar a participação regular de uma equipe de serviço social e fornecemos subsídios modestos às famílias para despesas da criança, além de um pequeno salário. Todos os pais adotivos foram treinados e incentivados a ter compromisso psicológico total para seus filhos adotivos.

O estudo se propõe a explorar a premissa de que a experiência precoce muitas vezes exerce uma influência muito forte na formação do cérebro imaturo. Para certos comportamentos, conexões neurais se formam nos primeiros anos em resposta a influências ambientais durante os chamados “períodos críticos”. Uma criança que ouve a língua falada ou simplesmente olha ao redor recebe estímulos sonoros e visuais que formam conexões neurais em momentos específicos de desenvolvimento. Os resultados do estudo apoiam essa premissa inicial de um período especialmente crítico: a diferença entre uma vida precoce passada em uma instituição em comparação com o acolhimento familiar foi dramática.

Aos 30, 40 e 52 meses, o quociente intelectual (QI) médio do grupo institucionalizado apresentou pontuação entre 70 e 75, enquanto crianças adotadas mostraram cerca de 10 pontos a mais. Não foi surpresa que o QI de cerca de 100 foi o padrão médio para o grupo que nunca ficou em instituições. Descobrimos também um período crítico para uma criança obter ganho máximo em QI: as que foram acolhidas em um lar por volta dos 2 anos tiveram um índice significativamente maior que alguém que passou a viver com uma família após essa idade.

PARA MEDIR O VÍNCULO

As descobertas demonstram claramente o impacto devastado r sobre a mente e o cérebro da experiência de passar os dois primeiros anos de vida dentro dos limites impessoais de uma instituição. As crianças romenas são a melhor evidência até agora de que os dois anos iniciais da vida constituem período crítico em que o contato emocional e físico é imprescindível para o bom desenvolvimento.

Os bebês que têm cuidadores constantes e afetivamente significativos – sejam eles pais biológicos ou adotivos – aprendem a buscar apoio, conforto e proteção. Observamos essa dinâmica, decidimos mensurar esse vínculo. Apenas condições extremas que limitem oportunidades de uma criança para formar ligações afetivas podem interferir no processo que é a base para o desenvolvimento social normal. Quando medimos essa variável em bebês institucionalizados, descobrimos que a maioria exibia relações frágeis com seus cuidadores.

Quando tinham 42 meses, fizemos outra avaliação e descobrimos que meninos e meninas que viviam em uma família apresentaram melhorias drásticas na criação de vínculos emocionais. Quase metade estabeleceu conexões seguras com outra pessoa, enquanto isso ocorreu com apenas 18% dos bebês que viviam em instituições. Entre as crianças que nunca foram institucionalizadas, 65% tinham vínculos seguros. E as que viviam com famílias antes do fim do período crítico de 24 meses eram mais propensas a formar vínculos seguros, em comparação a crianças acolhidas após esse período.

Esses números são muito mais que meras disparidades estatísticas que separam os grupos de institucionalizados e de acolhi­ mento. São experiências bem reais tanto de angústia quanto de esperança. Sebastian (*), de 12 anos, passou praticamente a vida toda em um orfanato e teve uma diminuição de 20 pontos em seu QI (medido inicialmente quando tinha 5 anos), para o nível ínfimo de 64. Tornou-se um adolescente instável e afeito a comportamentos de risco. Durante uma entrevista conosco, ficou irritado e teve explosões de raiva.

Bogdan, também de 12 anos, ilustra bem a diferença de receber atenção individual de um adulto. Abandonado ao nascer, viveu em uma maternidade até os 2 meses, depois foi para uma instituição por nove meses. Foi então recrutado para o projeto e entrou no grupo de acolhimento, sendo encaminhado para a família de uma mãe solteira e sua filha adolescente. Bogdan começou a se recuperar rapidamente e superou leves atrasos de desenvolvimento em poucos meses. Embora tenha apresentado alguns problemas de comportamento, os membros da equipe do projeto trabalharam com a família, e no seu quinto aniversário a mãe adotiva decidiu adotá-lo. Aos 12 anos, o QI de Bogdan continua a marcar um nível acima da média, ele frequenta uma das melhores escolas públicas de Bucareste e obtém ótimas notas.

Como crianças criadas em instituições não parecem receber muita atenção individual, estávamos interessados em saber se escassez de exposição à língua teria algum efeito sobre elas. Observamos atrasos no desenvolvimento da linguagem, mas, se os pequenos chegavam a um lar de acolhimento antes de atingir 15 ou 16 meses, essa capacidade parecia preservada. Porém, quanto mais tardia a inserção, maior o atraso.

Comparamos também a prevalência de problemas de saúde mental entre todos que já haviam sido institucionalizados com os que não tinham essa experiência. Descobrimos que 53% das crianças que já viveram em instituição receberam um diagnóstico psiquiátrico até os 4 anos e meio, em comparação com 20% em grupos das que nunca foram institucionalizadas. De fato, 62% das crianças com idade por volta dos 5 anos que viveram sob a custódia do governo foram diagnosticadas principalmente com distúrbios de ansiedade, 23%, com transtorno de atenção e hiperatividade (TDAH).

PALAVRA E AFETO

Os cuidados em um lar de acolhimento exerceram grande influência sobre níveis de ansiedade e depressão, reduzindo a incidência à metade, mas não afetaram diagnósticos comportamentais (TDAH e transtornos de conduta). Não foi possível detectar nenhum período sensível para a saúde mental, mas o relacionamento foi importante para garantir um bom desenvolvimento psicológico. Quando exploramos o mecanismo para explicar a redução de distúrbios emocionais, como a depressão, descobrimos que, quanto mais firme a ligação entre uma criança e a mãe e/ou pai adotivos, maior a probabilidade de amenização dos sintomas da criança. Ou seja: do ponto de vista científico, o afeto tem amplos efeitos terapêuticos.

Queríamos saber também se os primeiros anos em acolhimento familiar afetavam o desenvolvimento do cérebro de modo diferente da vida em um abrigo. Uma avaliação da atividade cerebral com eletroencefalografia (EEG), que registra sinais elétricos, mostrou que bebês que viviam em instituições tiveram reduções significativas em um componente da atividade na EEG e nível elevado em outra (menos ondas alfa e mais teta), padrão que pode refletir atraso da maturidade neurológica. Ao avaliarmos as mesmas crianças aos 8 anos, voltamos a registrar exames de EEG. Constatamos que o padrão de atividade elétrica em crianças colocadas em lares adotivos antes de 2 anos não era diferente do daquelas que nunca haviam passado por uma instituição. Tanto as que foram retiradas de abrigos após os 2 anos quanto as que nunca deixaram o local mostraram um padrão menos maduro de atividade cerebral.

A diminuição perceptível na atividade de EEG entre crianças dos abrigos foi desconcertante. Para interpretar esse resultado, usamos imagens de ressonância magnética, capazes de revelar estruturas cerebrais, e observamos que as crianças institucionalizadas mostraram uma grande redução no volume de massa cinzenta (corpos celulares de neurônios e outras células) e de massa branca (coloração devida à mielina, substância isolante que recobre as extensões de neurônios). Em geral, todos os meninos e meninas abrigados apresentaram volume cerebral reduzido. Porém, inserir crianças de qualquer idade em núcleos familiares não exerceu efeito sobre o aumento da massa cinzenta – o grupo em lares apresentou níveis de massa cinzenta comparáveis aos de crianças institucionalizadas. No entanto, crianças em lares de acolhimento demonstraram maior volume de massa branca, o que pode explicar as mudanças na atividade de EEG.

Para examinar melhor o prejuízo biológico da institucionalização precoce, concentramos a atenção em uma área crucial do genoma, os telômeros. Essas áreas, localizadas nas extremidades dos cromossomos, oferecem proteção contra as tensões da divisão celular. São mais curtas em adultos que sofrem extremos estresses psicológicos e podem ser uma marca de envelhecimento celular acelerado. Quando examinamos o comprimento dos telômeros nas crianças de nosso estudo, observamos que, em geral, as que haviam passado algum tempo em uma instituição tinham telômeros mais curtos do que os das outras.

LIÇÕES PARA TODOS

O projeto de intervenção precoce de Bucareste demonstra os efeitos profundos que a experiência exerce sobre o desenvolvimento do cérebro. Cuidados em acolhimento familiar não remediaram totalmente as anomalias profundas de desenvolvimento ligadas à criação institucional, mas principalmente mudaram o desenvolvimento de crianças, possibilitando uma trajetória mais saudável.

A identificação dos períodos críticos – momentos mais propícios para superar a privação – pode ser uma das descobertas mais significativas de nosso projeto. Essa observação tem implicações que vão além dos milhões de crianças em instituições, estendendo-se a milhões de outras crianças maltratadas. Cabe, porém, um alerta: é fundamental não concluir que 2 anos podem ser rigidamente definidos como período crítico para o desenvolvimento. O mais importante parece ser levar em conta a evidência de que, quanto antes crianças forem cuidadas por pais dedicados e estáveis emocionalmente, melhores suas chances de um desenvolvimento mais equilibrado.

Atualmente continuamos a acompanhar essas crianças até a adolescência para observar se há “efeito retardado”, isto é, diferenças comportamentais ou neurológicas significativas que surgem apenas mais tarde, na juventude ou até na idade adulta. Além disso, a proposta é determinar se os efeitos de um período crítico foram observados em idades mais precoces ainda, a serem vistos assim que as crianças entram na adolescência. Se forem, reforçarão uma crescente corrente que fala sobre o papel das experiências iniciais de vida na formação de desenvolvimento em toda a vida.

Nossa esperança é que esses conhecimentos exerçam pressão sobre governos do mundo todo para que prestem mais atenção ao preço que a adversidade e a institucionalização precoces assumem na capacidade de uma criança para atravessar os perigos emocionais da adolescência e adquirir a resiliência necessária para lidar com os desafios da vida adulta.

Cicatrizes profundas. 3

ALGUÉM PARA CUIDAR DE VOCÊ

A tragédia da política do líder comunista Nicolae Ceausescu de aumentar a taxa de natalidade nacional levou a mais de 100 mil crianças abandonadas na Romênia em 1999 – e a uma oportunidade sem precedentes para avaliar o impacto psicológico e neurológico do início da vida em uma instituição estatal. Um experimento, conduzido sob supervisão ética, acompanhou o destino das crianças de uma instituição em relação às colocadas em acolhimento familiar e outras que nunca foram institucionalizadas. As crianças encaminhadas a acolhimento familiar antes do fim do período crítico de dois anos se saíram muito melhor que as que permaneceram em uma instituição quando testadas mais tarde (aos 42 meses) em quociente de desenvolvimento (QD), medida de inteligência equivalente ao QI, e na atividade elétrica cerebral, conforme avaliação por eletroencefalogramas (EEGs). Entrar em acolhimento familiar após os dois anos produziu EEGs que lembravam os de crianças institucionalizadas.

OUTROS OLHARES

A BATALHA DAS MAQUININHAS

A guerra no segmento de pagamentos se acirra, gerando inovação e oportunidades profissionais.

A batalha das maquininhas

Do taxista ao pipoqueiro, da manicure ao flanelinha, é raro encontrar um prestador de serviço ou comerciante que não dê ao cliente o conforto de pagar no débito ou no crédito. As máquinas de pagamento se espalharam pelo país.

O movimento começou em 2010, quando a legislação decretou o fim da exclusividade entre bandeiras e credenciadoras de cartão, donas dos aparelhos. Antes, cartão Visa só rodava na Cielo e Mastercard só na Rede. Isso obrigava o vendedor a alugar mais de uma máquina, pagando taxas mensais nada convidativas. Como se não bastasse, o estabelecimento ainda precisava comprovar uma renda mínima, entre outros pré-requisitos. Resultado: autônomos ou quem tivesse um pequeno comércio raramente ofereciam essa vantagem ao consumidor. Mas o jogo virou. E o que se viu, de lá para cá, foi uma guerra comercial para ganhar espaço nesse mercado. As armas? Isenções, barateamento de taxas e propaganda no horário nobre. Em 2018, no ápice da batalha, apelou-se até para Michel Teló e Wesley Safadão cantando juntos para vender a Minizinha, produto da PagSeguro oferecido a 12 parcelas de 9,90 reais.

Para entender a dimensão dessa disputa, é preciso olhar os números. Em 2010, as credenciadoras Cielo (controlada por Banco do Brasil e Bradesco) e Rede (do Itaú) concentravam 90% das transações em débito ou crédito. Oito anos depois, com a entrada de concorrentes de peso, como PagSeguro, GetNet (do Santander), Stone e Mercado Pago (do Mercado Livre), a fatia caiu para 73%. De acordo com o Banco Central, hoje existem 16 empresas de maquininhas no país.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), há 5,1 milhões de pontos de venda com máquinas de cartão ou terminais eletrônicos espalhados pelo país. Juntos, eles movimentaram, só em 2017, 1,36 trilhão de reais. Projeções da instituição mostram que 60% dos pagamentos realizados no Brasil serão efetuados dessa forma nos próximos cinco anos — o percentual atual é de 33%.

Não é sem razão que o mundo voltou os olhos para o filão no país. Prova disso é o sucesso da PagSeguro e da Stone na Bolsa de Valores de Nova York. Um ano atrás, quando abriu o capital nos Estados Unidos, a PagSeguro bateu o recorde de valor arrecadado por uma brasileira: 2,27 bilhões de dólares. A Stone teve o mesmo destino em outubro, quando lançou oferta de ações. Com receita de 414,1 milhões de reais no terceiro trimestre de 2018 (avanço de 121,4% em comparação ao mesmo período de 2017), a companhia, fundada em 2013, captou nada menos que 1,5 bilhão de dólares na bolsa nova-iorquina. Uma fatia substanciosa das ações foi adquirida pelo Ant Financial, braço de pagamentos da chinesa Alibaba.

Para os especialistas, a aproximação da gigante com a brasileira movimentará ainda mais o setor. Hoje, a Ant Financial é considerada uma das startups mais valiosas do mundo e tem, entre outras tecnologias, a de pagamento por reconhecimento facial.

“Esses movimentos mostram o aquecimento desse setor, que é muito lucrativo”, diz Bruno Diniz, sócio da Spiralem, consultoria focada em inovação no mercado financeiro e professor do curso de fintech na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Hoje, quem atua no segmento ganha dinheiro não só com tarifas de cerca de 1% cobradas a cada transação mas também com a chamada taxa de antecipação, em que a credenciadora adianta a transferência de dinheiro ao comerciante, que paga entre 8% e 19% do valor a ser recebido.

Ninguém quer ficar de fora. Em 2018, a Cielo, líder no setor com cerca de 40% do mercado, lançou três novos produtos, entre eles a LIO+, primeira máquina de pagamentos que vem com smartphone, algo considerado uma inovação mundial. A empresa também tem investido em marketing (no terceiro trimestre foram 67,2 milhões de reais ante 55,2 milhões no mesmo período de 2017) e aumentado exponencialmente o número de vendedores. Segundo Sérgio Saraiva, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional da Cielo, foram contratadas 1.100 pessoas de vendas nos últimos três meses para expandir os negócios.

As medidas são uma resposta da Cielo ao baque provocado pela concorrência. No terceiro trimestre de 2018, o lucro líquido ajustado foi de 812,8 milhões de reais, 20% menor do que no mesmo período de 2017.

AINDA MAIS COMPETIÇÃO

Segundo analistas do BTG Pactual, a Cielo também está reduzindo os preços em 20% a 30% para enfrentar o duelo, que está longe do fim. De acordo com relatório recente do Bradesco BBI, a tendência é que grandes varejistas (sobretudo supermercados) virem credenciadoras, livrando-se das taxas cobradas nas transações. Em setembro, o Grupo Pão de Açúcar lançou a maquininha Passaí. O produto começou a ser usado em lojas da rede Assaí e é oferecido também a comerciantes e prestadores de serviço sem cobrança de aluguel, sem taxa de adesão e com conexão via chip e Wi-Fi. Dez por cento da taxa cobrada por transação (a depender do faturamento do cliente) vira pontos que podem ser trocados por produtos no supermercado.

Mas nem todos são concorrentes ferozes. As emissoras de cartões de débito e crédito, por exemplo, enxergam nessa briga uma boa oportunidade. Fernando Pantaleão, vice-presidente da Visa, diz que a empresa vem mapeando os estabelecimentos que ainda não trabalham com máquinas de cartão. “Repassamos semanalmente esses dados às credenciadoras. Conversamos até com os bancos regionais, pois não adianta levar as máquinas a uma localidade se poucas pessoas ali têm acesso aos cartões”, afirma o executivo.

Já a Mastercard aposta nas parcerias estratégicas. É o caso do trabalho em conjunto feito com a credenciadora GetNet para atender leilões de gado. João Pedro Neto, CEO da Mastercard para Brasil e Cone Sul, explica que nesse tipo de negócio as opções de parcelamento são diferentes das praticadas no mercado em geral. “Trabalhamos juntos e agora oferecemos uma máquina com mecanismo diferenciado. Nossa ideia é somar forças e levar máquinas para setores inexplorados, como pagamento de mensalidades de escola e de condomínio”, diz o executivo.

Quem também ganha no avanço da cadeia são as fabricantes dos cartões. Neste ano, a chinesa PAX teve de ampliar os turnos no Brasil, aumentar o maquinário e contratar serviços de terceiros para atender a pedidos de Cielo e PagSeguro. A produção cresceu 60% em 2018.

 OPORTUNIDADE PROFISSIONAL

Com tanta competição, as companhias voltaram a atenção para os profissionais. Há uma disputa por talentos. Em 2017, antes de virar CEO da Adiq, empresa de maquininhas, o engenheiro Marcos Cavagnoli, de 46 anos, recusou o convite de duas concorrentes e de um gigante do Vale do Silício na área de meio de pagamento. “Escolhi pela empresa na qual senti que teria mais espaço para liderar estratégias que fariam a diferença nesse mercado.”

Marcos, que foi presidente de uma unidade do J. P. Morgan da América Latina, um dos maiores bancos do mundo, está animado. Seu principal direcionamento à frente da Adiq é investir em tecnologia e customização, com soluções específicas para cada mercado. “Hoje, possuímos ferramentas que aumentam a taxa de aprovação da transação, impedindo que o cartão não ‘passe’ por algum erro do sistema, por exemplo. Também temos um software integrado à maquininha em que o comerciante pode oferecer pontos ou dinheiro de volta ao cliente de acordo com suas compras.”

Segundo Marcos, a competência mais importante para vencer num setor bélico como o de meios de pagamento é ter experiências diversas (ele também passou por Citibank e Alstom, e ajudou a criar startups do zero, como a Koin, que atua em pagamentos via boleto para lojas virtuais) e um olhar bastante atento às movimentações de mercado para não perder de vista novos produtos e transformações no comportamento do consumidor. “Trabalhamos num segmento sensível, em que as mudanças ocorrem muito rápido, então o profissional dessa área precisa estudar tendências, reconhecer as oportunidades e colocar as soluções em prática em pouco tempo”, diz. Quando contrata, Marcos busca exatamente esse tipo de característica no candidato.

Sérgio Saraiva, da Cielo, concorda com Marcos sobre os talentos precisarem estar preparados para viver uma experiência intensa. “Antigamente, falava-se muito da importância do coeficiente de inteligência para a contratação. Depois, o coeficiente emocional ganhou importância. Em nossa área, damos atenção especial ao QA, coeficiente de adaptação. O profissional — oriundo geralmente das áreas de tecnologia, engenharia, estatística, matemática, vendas, marketing, entre outras —, além de entender amplamente do negócio, precisa ser rápido na execução de projetos. Dizemos que somos uma empresa grande com alma de startup.”

Se no mundo corporativo há em- presas contratando, os caminhos estão abertos também para os empreendedores. Carolina Mendes, de 22 anos, que o diga. Formada em administração, ela resolveu fundar a startup LaPag quando, frequentando um salão de beleza, percebeu que ali havia grandes oportunidades. “A área de beleza ainda é pouco estruturada. Senti que havia espaço para oferecer algo direcionado às suas necessidades, com ferramentas de gestão agregadas”, afirma.

A maquininha da LaPag, utilizada em estabelecimentos de beleza e estética, divide automaticamente a comissão entre o prestador de serviço e o dono do estabelecimento, pagando separadamente o proprietário do salão, a manicure e o cabeleireiro. “Além disso, a máquina é conectada a um sistema que controla o estoque de produtos e a agenda, e até se comunica com o cliente, mandando SMS para confirmar o horário”, diz Carolina.

Fundada em outubro de 2016, a startup levantou 1,5 milhão de reais de aporte em seu primeiro ano de operação. Atraiu, entre outros investidores, Renato Freitas, um dos fundadores do aplicativo 99.

Com 100 clientes na carteira, a expectativa é avançar ainda mais. A LaPag cresce 20% ao mês. A startup estima que existam hoje no Brasil cerca de 750.000 salões de beleza. “Nosso maior desafio é ter destaque entre os meios de pagamento desse setor”, diz Carolina. Que a luta por relevância siga gerando serviços melhores, com benefícios para comerciantes, clientes e profissionais.

GESTÃO E CARREIRA

À CAÇA DAS VAGAS

A expectativa do mercado para 2019 é de recuperação econômica, o que deve gerar um aumento na oferta de emprego. Quer aproveitar uma dessas oportunidades? Nós criamos um passo a passo para ajudá-lo em todas as etapas da busca por novos desafios.

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O país inicia 2019 com certo otimismo. O empresariado brasileiro aposta numa recuperação econômica já no primeiro ano do novo governo e, por isso, tende a liberar os investimentos para projetos e expansões, o que deve representar um aumento das oportunidades de emprego. Segundo a pesquisa Agenda 2019, realizada pela consultoria Deloitte com 826 empresas de todo o país, as quais, juntas, faturam o equivalente a 43% do PIB nacional, o otimismo está atrelado às reformas tributária e previdenciária, apontadas pela maioria como prioridades. “Além disso, endereçar temas estruturais, que gerem empregos e façam com que a sociedade se movimente, é de suma importância para 80% dos entrevistados. Esses são fatores condicionantes para o destravamento da economia”, afirma Othon Almeida, sócio- líder das áreas de desenvolvimento de mercado e talentos da Deloitte.

Ainda segundo a pesquisa, 97% dos empresários pretendem investir ou implementar ações que desenvolvam os seus negócios neste ano. E, para melhorar, quase metade (47%) manifestou a intenção de aumentar o quadro. Outros 32% planejam manter o número de funcionários no patamar atual, mas realizando substituições. “À medida que os empresários tomam a decisão de investir e ampliar as linhas de produção, sentimos o efeito direto sobre a criação de posições de trabalho”, diz Sergio Firpo, professor de economia no Insper. Outra informação positiva vem da plataforma de recrutamento Vagas, que espera um aumento de 6% a 10% no número de postos oferecidos no site durante o ano que está começando. Isso representa, em média, 1.400 novos empregos por dia.

Essas são boas notícias para quem quer se recolocar em 2019. E, para ajudar nessa jornada, criamos um guia para melhorar o currículo, ampliar a presença digital, ficar na mira dos recrutadores, encontrar a empresa ideal e se sair bem na entrevista de seleção. Confira as dicas dos especialistas nas páginas a seguir e feliz emprego novo!

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CURRÍCULO

FOCO É TUDO

Por mais conectado que o mercado esteja, tudo ainda começa com um bom currículo. E, por mais simples que esta tarefa pareça, ela exige atenção e cuidado. “Se estiver muito fácil montar seu currículo, vale a pena revê-lo”, afirma Sérgio Margosian, gerente da consultoria Michael Page e especialista em recrutamento para área de recursos humanos. Lembre-se de incluir seu objetivo profissional. E, quanto mais focado, melhor. “Quando é muito abrangente, fico em dúvida sobre onde o profissional se encaixa”, diz Sérgio.

O documento deve ir direto ao ponto, mas destacar, de forma sucinta, os resultados alcançados. “Assim como todo mundo, recrutadores também têm pouco tempo para administrar tanta informação. Para chamar a atenção, é preciso mostrar uma trajetória de constante evolução e entregas de forma coesa”, diz Sergio. A sugestão é pontuar os cargos dos últimos cinco anos e embaixo de cada um deles as principais entregas, como a redução de uma despesa, a conquista de uma premiação ou um feedback positivo por determinado resultado. “Se você tem 25 anos, pode colocar a experiência desde o estágio. Se é um diretor, coloque a partir de sua posição como gerente, por exemplo”, diz Rebeca Mayan, gerente da divisão de vendas da consultoria Talenses, especializada no recrutamento de executivos. Organizar em tópicos transmite mais objetividade, mas, se precisa descrever em texto corrido, cuide para que não ultrapasse três linhas.

Quando analisam esse documento, os recrutadores olham, além do objetivo e da experiência com resultados, as competências técnicas e as ferramentas ou os sistemas que o profissional domina. “Se sua posição exige Excel, por exemplo, é bom incluir. Mas, se você é um programador e domina sistemas mais avançados, coloque esses, e não o Excel”, completa Rebeca.

LAYOUT-PADRÃO

A aparência do currículo pode variar conforme sua preferência, indo desde um documento profissionalmente diagramado até um simples Word. Mas alguns cuidados devem ser tomados. Um deles é colocar as informações de contato em um local de fácil de visualização, de preferência próximo ao seu nome.

Outro ponto importante é manter um padrão de formatação. Coloque o nome das empresas por onde passou com o mesmo negrito ou sublinhado. Se quiser adicionar a data ao lado do cargo, padronize em todas as posições. “Quando tenho dois currículos de pessoas igualmente qualificadas, priorizo para entrevista a que tem mais cuidado ao apresentar sua trajetória. É a primeira impressão que o candidato passa”, diz Sérgio. Por isso, cuidado com erros de português ou de digitação. O documento deve ter de duas a três páginas.

TRADUÇÃO SIMULTÂNEA

Se você busca uma posição em uma multinacional, é importante ter um currículo em inglês. “Não é necessário preparar uma versão especial, apenas a mesma versão do documento traduzido para o inglês”, explica Sérgio. Um bom currículo e uma apresentação simpática no corpo do e-mail com um resumo sobre você e suas intenções já são suficientes. Cartas de apresentação são dispensáveis hoje em dia. “Elas podem se tornar repetitivas quando se tem um currículo bem-feito. Como buscamos assertividade, uma apresentação bacana no próprio e-mail já faz esse papel”, afirma Sérgio.

HACKEANDO O VAGAS.COM

Especialista da plataforma de recrutamento dá três dicas para fazer seu currículo aparecer

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PRESENÇA DIGITAL

ONDE SE CADASTRAR

Currículo pronto, é hora de aumentar sua presença no mundo virtual. Se você quer se destacar como profissional, o primeiro passo é ter um perfil no LinkedIn. O Brasil é o quarto país no ranking de utilização da rede social, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Índia. São 35 milhões de usuários no mundo e 100.000 novos perfis por semana. Haja networking. Além disso, as empresas postam suas vagas e recrutam pela ferramenta, e quem está em uma busca ativa por emprego pode filtrar as oportunidades. Só no Brasil estão disponíveis 350.000 vagas e, no dia do fechamento desta reportagem, haviam sido criadas 6.000 novas posições nas últimas 24 horas.

O segundo passo é cadastrar seu currículo no Vagas, que oferece 14.000 empregos por dia, tem mais de 3.000 clientes cadastrados — 70 das 100 maiores empresas do Brasil compõem esta lista — e uma base cadastral de 17 milhões de currículos. Todos os serviços oferecidos pelo site são gratuitos. Já o LinkedIn tem também a conta Premium, que é paga e indicada para quem está ativamente atrás de um emprego. Entre outros serviços, a versão top da rede social permite que os candidatos mandem um número determinado de mensagens diretas às pessoas mesmo sem estar conectados a elas, mostra estatísticas de uma vaga e como você está posicionado em relação a outros postulantes. Se quiser ter mais evidência em relação aos concorrentes, pode ativar o recurso Candidatura em Destaque. “Para ser encontrado não faz tanta diferença. Os recrutadores, em geral, têm as contas Premium, com mais filtros para buscar os profissionais”, diz Rebeca.

SIGA AS EMPRESAS

Embora muita gente esqueça, as companhias também possuem banco de currículos. E ele pode ser bastante útil. Nem sempre a oportunidade para seu perfil está aberta naquele momento, mas empresas sérias checam frequentemente os postulantes. “O RH faz a devida triagem e coloca os candidatos em um banco de talentos”, diz Sérgio, da Michael Page. O mesmo acontece quando você registra suas experiências em sites de consultorias de recrutamento, que estão constantemente atrás de bons profissionais. “O currículo é sempre encaminhado ao recrutador da área de atuação do trabalhador”, afirma Rebeca, da Talenses.

POR DENTRO DO LINKEDIN

Aproximadamente 26 milhões de empresas mundo afora ofertam vagas no LinkedIn e mais de 4 milhões de pessoas já encontraram um emprego por meio da ferramenta desde sua criação, em 2012. Portanto, não tem como estar fora dessa plataforma. “Cerca de 70% das pessoas que participam da rede não estão procurando emprego, mas estão dispostas a ouvir propostas e ampliar seu networking”, diz Milton Beck, presidente do LinkedIn no Brasil. Para que seu perfil atraia olhares e seja admirado por suas conexões, seguem algumas dicas valiosas.

 COLOQUE UMA FOTO QUE REFLITA SUA IMAGEM NO TRABALHOPerfil com foto é 21 vezes mais visto e recebe nove vezes mais pedidos de conexão. “É necessário porque humaniza o profissional, afinal, estamos à frente de um computador”, afirma Milton.

ATUALIZE SEU CARGO e terá oito vezes mais visitas ao seu perfil.

PREENCHA CORRETAMENTE A INSTITUIÇÃO DE ENSINO QUE FREQUENTOU e amplie em 17 vezes a chance de receber mensagens de recrutadores.

INSIRA SUA LOCALIZAÇÃO. Isso aumenta 23 vezes sua chance de ser encontrado.

TENHA PALAVRAS-CHAVE sobre sua expertise e entregas ao longo de seu perfil. As empresas buscam por esses termos. “É muito importante ter o resumo de quem você é com detalhes, características que fazem de você um profissional especial”, diz Milton.

MANTENHA o perfil em vários idiomas.

ANEXE CONTEÚDO QUE SEJA RELEVANTE À SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL e poste artigos e informações que o exponham positivamente.

AJA NO MUNDO VIRTUAL DO MODO COMO VOCÊ É NO MUNDO OFFLINE. “Imagine p LinkedIn como uma reunião. Se você fala com a pessoa e ela não te responde, você tende a perder o interesse. O comportamento tem de ser parecido com o real”, diz Milton.

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NETWORKING

NA MIRA DOS HEADHUNTERS

Os recrutadores utilizam suas redes de contatos para conseguir indicações. “Temos muitas conexões com pessoas que atuam na área para a qual selecionamos e eles sempre nos indicam profissionais com quem já trabalharam. O networking é muito importante. E a melhor forma de desenvolvê-lo é enquanto se está empregado”, diz Sérgio, da Michael Page. Por isso, é preciso entrar no radar desse pessoal. Descubra qual é o headhunter que atua em sua área e escreva para ele no LinkedIn. Pode fazer o convite para tomar um café e conversar sobre carreira ou iniciar a conversa indicando um artigo ou pesquisa que possa ser aproveitado pelo hunter.

Outra maneira de aparecer é adicioná-los à sua rede — desde que ela seja positivamente movimentada. Publicar artigos e compartilhar conhecimento pode atrair os olhares desses profissionais. “Buscamos pessoas que tenham visão positiva e construtiva para os problemas. Já cheguei a convidar um executivo para um café depois que li um texto dele no LinkedIn”, afirma Sérgio.

Estar próximo dos caçadores de talentos é importante porque algumas vagas são sigilosas e são trabalhadas no boca a boca — e só serão divulgadas para quem tem algum contato com o recrutador.

APROXIMAÇÃO INTELIGENTE

Além de acompanhar sites e conhecer os headhunters, outra maneira de encontrar emprego é ficar atento às movimentações de cargo que acontecem entre suas conexões nas redes sociais. Por exemplo: se você é gerente de marketing e viu que um colega na mesma posição mudou de empresa, já sabe que existe uma vaga disponível ali. Nesse caso, a dica é conversar com seus contatos naquela companhia para se colocar à disposição e entender se o RH vai procurar alguém no mercado.

Aproximar-se de colegas é importante não só quando há uma vaga disponível. Vale ter essa atitude para sinalizar que você está aberto a de- safios. “Seja transparente sobre suas intenções. Diga: ‘Estou entrando em contato porque busco uma nova oportunidade e gostaria de agendar um café para a gente se conhecer melhor’”, orienta Sérgio. Segundo ele, a conversa deve ser feita diretamente com o gestor da posição que você almeja ou com o responsável pelo RH. Mas seja cauteloso com a quantidade de vezes que aciona a mesma pessoa. “Não se torne impertinente insistindo em ter uma resposta em curto espaço de tempo. Não pega bem”, diz Sérgio. Além disso, se você estiver empregado, mantenha a discrição para não prejudicar as relações com os atuais chefes e colegas. Nesse caso, o volume de contatos tem de ser pequeno e assertivo.

EM ALTA

Com a retomada do crescimento econômico, as consultorias Deloitte e Michael Page apostam no desenvolvimento de alguns setores que vão precisar de mão de obra em 2019. São eles:

SERVIÇOS – TECNOLOGIA – COMÉRCIO – VAREJO – CONSTRUÇÃO CIVIL – AUTOMOBILÍSTICO – SEGURANÇA PÚBLICA – SAÚDE.

 Já a plataforma Vagas espera um aumento de 6% a 10% no número de oportunidades ofertadas pelas empresas, principalmente nos setores abaixo:

Caça às vagas. 6

 

Caça às vagas. 7 

ENTREVISTAS

FACE A FACE

Chegar à fase de entrevistas é sinal de que a chance de conquistar uma vaga é grande. Por isso, é importante se preparar. Estude o próprio currículo, sinta-se seguro para falar sobre datas e principais metas atingidas e tenha na manga detalhes de como as entregas foram feitas. Não se esqueça, também, de pesquisar sobre a possível empregadora: olhe relatórios de sustentabilidade da empresa, busque notícias sobre a companhia e sobre o setor no qual ela atua. Além disso, tente descobrir um pouco sobre a trajetória do entrevistador. “Se você conta algo com o que a pessoa se identifica já quebra um gelo e cria a empatia”, diz Sérgio, da Michael Page. Mas a questão mais importante é ser sincero — para falar, inclusive, sobre assuntos complicados. “Todo mundo passa por momentos que saíram do planejado. Eles devem ser abordados na entrevista, assim como as lições que ensinaram”, diz Sérgio.

Atente-se também a ser verdadeiro ao declarar o nível de fluência em uma segunda língua porque os entrevistadores podem mudar o idioma, de repente, no meio da conversa.

E lembre-se de que, dependendo do interlocutor, o objetivo do bate-papo muda. O gestor direto precisa entender se o profissional se encaixa na equipe e se aprofundar em questões técnicas. A conversa com o RH gira em torno de valores e competências. O trabalho do headhunter é compreender de forma macro quem é esse profissional e entrar em detalhes para direcioná-lo para a vaga certa.

ETIQUETA BÁSICA

O básico para não errar na roupa é o bom e velho “menos é mais”. Vá de forma coerente com a posição que você pretende ocupar e com a cultura da empresa. “Mais importante do que estar de camisa ou camiseta é o cuidado que se tem. Se você vai a uma festa, você se arruma, então, mostre que teve esse cuidado para estar na entrevista também”, afirma Sérgio, da Michael Page.

Em termos de postura, sempre olhe no olho do entrevistador e não exagere supervalorizando as entregas. “Não é elegante perguntar sobre remuneração no momento da entrevista. No entanto, se for questionado sobre pretensão salarial, responda”, diz Rebeca, da Talenses. Ao final da conversa, vale a pena acordar uma data para o feedback, seja ele positivo ou negativo. E, no caso de o recrutador não retornar na data combinada, pode ligar. Mas é educado insistir no retorno apenas por três tentativas. Se for necessário mais que isso, melhor desistir.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 11: 15 – 19

Pensando biblicamente

 AS RECOMPENSAS DA JUSTIÇA

 

V15 – Aqui nos é ensinado:

1. De modo geral, que não podemos usar os nossos bens como quisermos (Aquele que nos deu esses bens se reserva um poder de nos orientar sobre como devemos usá-los, pois eles não nos pertencem; nós somos apenas administradores), e também que Deus, na sua lei, busca os nossos interesses e nos ensina aquela caridade que começa em casa, bem como aquela que não deve terminar ali. Existe uma boa administração que é uma qualidade piedosa, e um discernimento para ordenarmos os nossos assuntos, que é parte do caráter de um homem bom (Salmos 112.5). Cada homem deve ser justo com a sua família, caso contrário não será fiel à sua administração.

2. E m particular; que não devemos nos envolver impensadamente com fianças ou garantias,

(1) porque existe o perigo de nos causarmos problemas com isto, e às nossas famílias também, depois da nossa morte: ”Aquele que fica por fiador do estranho”, de qualquer pessoa que lhe peça e prometa que será sua fiadora em outra ocasião, de alguma pessoa que talvez conheça, e cuja situação pensa conhecer, mas está enganado, “decerto sofrerá severamente”. ele será, certamente e tristemente, enganado e quebrantado por isto, e talvez vá à falência. O nosso Senhor Jesus foi fiador por nós, quando éramos estranhos, ou melhor, inimigos, e foi ferido por isto; agradou ao Senhor feri-lo.

(2) Porque aquele que se decide contra as fianças conserva a sua firmeza. Aquele que assim decide deve tomar cuidado para não gastar em seus negócios mais do que o seu próprio crédito lhe permitir; de modo que não precise pedir aos outros que sejam fiadores por ele.

 

V .16 – Aqui:

1. É admitido que os fortes adquirem riquezas, que aqueles que trabalham com grande afã e apressadamente no mundo, que são homens de espírito vivaz e interesse e são capazes de prosperar contra todos os que se colocam em seu caminho, geralmente guardam o que têm e conseguirão mais, ao passo que aqueles que são fracos se tornam presas fáceis de todos ao seu redor.

2. Admite-se como certo que uma mulher piedosa é tão preocupada em preservar a sua reputação de sabedoria e modéstia, humildade e cortesia, e todas aquelas outras graças que são os verdadeiros ornamentos do seu sexo, quanto os homens fortes se preocupam em proteger os seus bens; e aquelas mulheres que são verdadeiramente piedosas, de igual maneira, protegerão a sua honra com toda sua prudência e bom comportamento. Uma mulher piedosa é tão honrosa quanto um homem valente, e a sua honra é igualmente segura.

 

V17 – É um princípio comum, cada um por si. Ninguém é tão próximo a mim, como eu mesmo. Se isto for interpretado corretamente, será uma razão para a apreciação de disposições piedosas em nós mesmos e na crucificação das disposições corruptas. Nós somos nossos amigos ou nossos inimigos, mesmo com respeito a consolação atual. conforme sejamos ou não governados por princípios religiosos.

1. Um homem misericordioso, terno, bem-humorado, faz bem à sua própria alma, e se mantém tranquilo. Ele tem o prazer de cumprir o seu dever, e contribuir com a consolação daqueles que são, para ele, como a sua própria alma; pois nós somos membros, uns dos outros. Aquele que transmite aos outros as boas coisas temporais que tem, descobrirá que Deus lhe transmitirá suas bênçãos espirituais, que farão o melhor bem para a sua própria alma (veja Isaias 58.7, e versículos seguintes). Se não escondes os teus olhos da tua própria carne. mas fazes o bem aos outros, como a ti mesmo, se fazes o bem com a tua própria alma e o estendes aos que têm fome. farás o bem à tua própria alma; pois o Senhor satisfará a tua alma e fortificará os teus ossos. Alguns entendem que é parte do caráter de um homem misericordioso, o fato de que ele faça o bem por si mesmo; a disposição que o inclina a ser caridoso com os outros o obrigará a se permitir, também, aquilo que é conveniente, e a desfrutar do bem de todo o seu esforço. Podemos interpretar a alma como o homem interior, como o apóstolo a chama, e então isto nos ensina que o primeiro e grande ato de misericórdia é fornecer às nossas almas os esteios necessários para a vida espiritual.

2. Um homem cruel, rebelde, de má índole, perturba a sua própria carne, e assim o seu pecado se torna a sua punição; ele passa fome, e morre, por falta de algo que ele tem, porque não tem um coração disposto para usar os seus recursos (de qualquer espécie) para o bem dos outros, ou mesmo para o seu próprio bem. Ele atormenta os seus parentes mais próximos, que são, e que devem ser. para ele, como a sua própria carne (Efésios 5.29). A inveja, e a maldade, e a avareza do mundo, são a podridão dos ossos e a destruição da carne.

 

V.18 – Observe:

1. Os pecadores se enganam, fatalmente: O ímpio realiza uma obra enganosa, e edifica para si mesmo uma casa sobre a areia, que o enganará, quando vier a tempestade, e promete a si mesmo, por este pecado, aquilo que ele nunca ganhará; na verdade, esta obra corta a sua garganta quando sorri para ele. O pecado me enganou, e me matou.

2. Os santos guardam as melhores garantias para si mesmos: aquele que semeia justiça, que é bom e se empenha em fazer o bem, visando uma recompensa futura, tem uma recompensa assegurada; ela é tão assegurada para ele como a verdade eterna pode torná-la. Se a semeadura não falhar, a colheita também não falhará (Gálatas 6.8).

 

V. 19 – Aqui é demonstrado que a justiça, não somente pelo juízo divino, terminará em vida, e a impiedade, em morte, mas que a justiça, na sua própria natureza, tem uma tendência direta à vida, e a impiedade, à morte.

1. A verdadeira santidade é a verdadeira felicidade; é um preparativo para ela, um prenúncio e um penhor dela. A justiça inclina, predispõe e encaminha a alma para a vida.

2. De igual maneira, os que se permitem pecar estão se adequando para a destruição. Quanto mais violento é o homem em suas buscas pecaminosas, mais resoluta mente ele se predispõe à sua própria destruição; ele a desperta, quando ela parecia adormecer, e a apressa, quando ela parecia tardar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O ENIGMA DA FIBROMIALGIA

Novas pistas sobre as origens dessa síndrome de dor crônica sem causa aparente, que atinge principalmente as articulações e os músculos, podem ajudar a desvendar o desconforto que em 90% dos casos afeta mulheres de 35 a 50 anos.

O enigma da fibromialgia

A professora Débora R., de 39 anos, mãe de dois meninos, desenvolveu dor e fadiga muscular profunda, aparentemente do nada. “Eu me lembro do momento em que subia as escadas de madeira para o meu quarto no segundo andar, angustiante”, recorda. Ela chegou a passar dias inteiros na cama, levantando-se apenas para ir ao banheiro. Numa das piores crises, ficou dez dias sem sair do quarto.

O médico suspeitava de depressão e dizia que, em alguns casos, o incômodo poderia ser explicado pelo distúrbio de humor. Mas isso não convencia a paciente nem seu marido. Além do desconforto muscular generalizado, Débora sentia formigamento e queimação nas mãos e nos pés, dores de cabeça e sensibilidade à temperatura e a toques leves. Especialistas procuraram sem sucesso sinais de esclerose múltipla, artrite, câncer, lúpus, doença de Lyme e diversas patologias autoimunes. Após dois anos de avaliação, um reumatologista finalmente deu um diagnóstico: fibromialgia.

Isso, porém, a deixou muitas perguntas sem resposta. Estima-se que possivelmente mais de 4 milhões de brasileiros sofram de fibromialgia, a grande maioria mulheres. A síndrome é diagnosticada quando os especialistas deparam com diversos sintomas de dor que excluem todas as outras causas potenciais. Na maioria dos casos, as sensações incluem fadiga, desconforto crônico e profundo incômodo muscular que afeta todo o corpo, semelhante ao que sentimos quando temos gripe.

Os médicos identificaram esse conjunto de sinais pela primeira vez há mais de um século, mas pouco se pesquisou sobre o problema até 1977. Nessa época, cientistas da Universidade de Toronto descreveram esses dolorosos sintomas mais formalmente, o que reacendeu o interesse científico. Em 1990, o Colégio Americano de Reumatologia definiu o termo “fibromialgia” e desenvolveu orientações para um diagnóstico consistente.

A partir daí, reumatologistas começaram a buscar indícios de inflamação ou lesões nas articulações e nos músculos. Afinal, a dor da  A fibromialgia parecia se originar nessas áreas. No entanto, não encontraram nada sólido. Nos últimos dez anos, os cientistas se concentraram basicamente no cérebro. Hoje em dia, porém, alguns pesquisadores começam a suspeitar que a busca de sinais de lesão no corpo foi abandonada muito cedo. Novos estudos feitos por neurologistas de várias partes do mundo sugerem que a inexplicável sensação dolorosa pode ser explicada, pelo menos em parte, pela deterioração de nervos. Se for possível interromper os danos e curar as feridas, também será possível cessar a dor.

O enigma da fibromialgia. 2 COMO ANDAR DE BICICLETA

Apesar de milhares de estudos acumulados em mais de 30 anos, a fibromialgia permanece notavelmente misteriosa, mesmo para os profissionais da saúde. A variação de intensidade de sintomas de uma pessoa para outra – sem motivo aparente – parece delinear a síndrome: enquanto alguns experimentam apenas leve desconforto ou fadiga, outros se tornam incapacitados.

A fibromialgia é uma das muitas formas reconhecidas de dor persistente. A maioria é considerada inflamatória, como alguns tipos de artrite, ou neuropática, que frequentemente é provocada por lesão do nervo. No caso da fibromialgia, porém, até agora os cientistas não encontraram evidências consistentes de inflamação ou dano.

Pesquisadores cogitam que o quadro esteja associado a aspectos hereditários. Há indícios de que os genes são responsáveis por até 50% do risco de desenvolver a síndrome. Hoje, os especialistas concordam que algumas pessoas apresentam predisposição à dor crônica, que surge de alterações em genes que codificam moléculas-chave de sinalização de incômodo. No entanto, neste caso, os fatores de risco genéticos não estão limitados a um circuito associado à dor. Algumas dessas mesmas peculiaridades do código genético também podem ser verificadas na depressão e nos transtornos de ansiedade.

O histórico de dificuldades psicológicas dos pacientes com a síndrome lança ainda mais dúvidas. Muitos a desenvolvem após um trauma físico ou emocional. Pesquisadores suspeitam que a fibromialgia seja deflagrada quando um indivíduo com propensão genética é exposto a um gatilho fisiológico, como doença, lesão ou crise emocional. “É possível pensar numa combinação de pré-determinantes hereditários”, afirma a neurologista Claudia Sommer, da Universidade de Würzburg, na Alemanha. “Quem vive os desafios da vida de forma equilibrada costuma ter mais chances de tolerar o desconforto; mas quando um trauma, uma doença ou perda não são elaborados psiquicamente, esse excesso pode se manifestar no corpo, em forma de dor crônica.”

Alguns especialistas suspeitam que o fenômeno fibromiálgico resulte da junção de diversas doenças distintas, mas semelhantes. E apesar das incógnitas que ainda prevalecem, o diagnóstico traz algum conforto para pacientes que acham extremamente útil nomear sua dor, descobrir pessoas com sintomas parecidos e ser levados a sério por seu médico.

Para compreenderem com base no sistema nervoso central alguns dos sintomas frequentes, como fadiga, problemas de memória e distúrbios do sono, cientistas utilizaram exames de imagem com o intuito de observar se pacientes com a síndrome processavam a dor de maneira diferente das outras pessoas. Os pesquisadores descobriram que indivíduos com essa condição parecem ter menos volume cerebral no córtex cingulado e no córtex frontal medial – áreas consideradas essenciais para a experiência global da dor. Outro estudo aponta para a alteração da atividade cerebral em áreas relacionadas à atenção e ao processamento da entrada sensorial, como o som. Alguns cientistas levantam a hipótese de um desequilíbrio no “controle do volume” do cérebro para essas sensações, o que poderia ampliar o desconforto.

Essa compreensão sobre o fenômeno ajuda a moldar a abordagem terapêutica para o tratamento da fibromialgia, que tem se concentrado principalmente no cérebro. Os três únicos medicamentos aprovados pela Administração de Drogas e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) para tratar a síndrome são um anticonvulsivo e dois medicamentos antidepressivos. Esses inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina, ou ISRSN, ajudam a atenuar no cérebro e na medula espinhal os sinais de incômodo.

O problema é que essas drogas não são efetivas para a maioria dos pacientes. Estudos de revisão publicados em 2012 e 2013 apontam que os medicamentos proporcionam certo alívio para alguns, mas não melhoram o sono ou a qualidade de vida global. Além disso, até agora, nenhuma pesquisa esclareceu se a fibromialgia altera o cérebro ou se o sistema nervoso central de alguns tem pré-disposição para a dor persistente. Embora os padrões neurais observados nos pacientes tenham sido inicialmente considerados características da síndrome, foi constatado posteriormente que eram comuns em qualquer problema de saúde relacionado à dor crônica. Os cientistas suspeitam que esse padrão remodele a arquitetura cerebral e os padrões de atividade neural da mesma maneira que aprender a andar de bicicleta ou falar uma nova língua.

O enigma da fibromialgia. 3

SENSÍVEIS DEMAIS

Enquanto isso, neurologistas alemães, americanos e espanhóis identificaram um padrão peculiar em pacientes com polineuropatia das pequenas fibras (PNPF), um distúrbio que provoca dores e danos nos nervos periféricos. Desses, muitos haviam sido diagnosticados com fibromialgia.

A neurologista Anne Louise Oaklander, do Hospital Geral de Massachusetts, convidou alguns especialistas para colaborar com suas investigações sobre essa relação, mas não encontrou nenhum reumatologista disposto a entrar em um projeto tão especulativo e inter­disciplinar. Ela, então, decidiu assumir o estudo. Para procurar sinais de danos nos nervos de pessoas com fibromialgia, a médica e sua equipe utilizaram vários testes, como biópsia da pele (em que minúsculas fibras nervosas de uma pequena amostra de tecido da mão ou da perna são examinadas no microscópio). “Optamos por esse método porque, até então, ninguém havia observado os nervos adequadamente”, diz a pesquisadora.

Os resultados publicados em 2013 revelaram que 41% dos 27 pacientes com a síndrome não apresentavam terminações nervosas. O mesmo pode ser observado nos casos de PNPF, em que há desgaste dos nervos até o ressecamento de suas extremidades. No mesmo ano, Claudia Sommer encontrou resultados semelhantes. As surpreendentes descobertas sugerem que, em alguns casos, a neuropatia periférica pode contribuir para a fibromialgia.

A síndrome é heterogênea. As cientistas, portanto, não esperavam encontrar prejuízos compatíveis nos nervos. Pelo contrário: os resultados sugerem que a neuropatia é uma variante da fibromialgia. Talvez os danos causados nos nervos da superfície deflagrem os sintomas da síndrome ou indique maior comprometimento das fibras nervosas que sustentam os músculos e tendões. Em 2014, outras duas publicações apontaram deterioração do nervo periférico em pacientes com fibromialgia – o que reforça a hipótese de que os danos poderiam desempenhar um papel importante.

Estudos com biópsia confirmaram indícios da neuropatia, mas não revelaram a atividade dos nervos. O neurologista Jordi Serra, da MC Mutua e da Tecnologias Neurocientíficas, ambas na Espanha, abordou a questão com uma complexa técnica chamada microneurografia, na qual um eletrodo em forma de agulha é inserido em um nervo da pele para gravar seus impulsos elétricos. A equipe de Serra comparou os resultados de indivíduos sadios com aqueles com PNPF ou fibromialgia e descobriu que os nervos sensíveis à dor de um terço dos pacientes mostraram atividade alterada espontaneamente, o que não foi observado em nenhum dos voluntários do grupo de controle.

Os resultados, publicados no ano passado na revista Annais of Neurology, sugerem que os nervos de alguns pacientes com PNPF ou fibromialgia disparam excessivamente. “Normalmente, essas fibras permanecem imóveis, esperando, por exemplo, um sinal de uma queimadura ou um beliscão”, diz Serra. Em pessoas com essas síndromes, porém, os detectores de dor parecem hiperativos ou extrassensíveis. É possível que o mesmo problema que afeta as terminações nervosas também altere a sensibilidade dos nervos. O excesso de atividade poderia explicar o desconforto. “A hiperexcitação dos nervos favorece a descarga espontânea de sinais que correm até o cérebro, o que sustenta a dor contínua”, explica o neurologista.

Os especialistas sabem que a PNPF pode ser causada por lesões, diabetes, mutações genéticas ou ataque do sistema imunitário. Portanto, acreditam que processos semelhantes poderiam estar na base da perda de nervos em alguns casos de fibromialgia. O sinal persistente de incômodo, então, reconectaria o sistema nervoso de forma gradual, preparando o corpo para a dor.

O enigma da fibromialgia. 4

O PERIGO DA CHUVA

A semelhança com a PNPF traz a esperança de que ao tratar o problema subjacente, como um distúrbio autoimune, os médicos possam amenizar ou até mesmo curar alguns casos de fibromialgia. A mudança climática costuma funcionar como um gatilho para o desconforto. Muitos pacientes com fibromialgia percebem claramente que quando a temperatura cai e os dias se tornam chuvosos a sensação dolorosa aumenta. Essa sensibilidade em relação ao clima também pode estar associada a anomalias nervosas. Em 2013, o neurocientista Frank Rice, então da Escola Médica Albany, e seus colegas estudaram minuciosamente nervos que terminam em pequenos vasos sanguíneos, os desvios arteríola-venule. Localizados próximos à superfície das palmas das mãos, aumentam e diminuem a quantidade de sangue para regular a temperatura corporal. Também controlam o fluxo para tecidos mais profundos, permitindo o funcionamento de músculos e órgãos durante exercícios físicos. Rice descobriu que, comparados com indivíduos sadios, aqueles com fibromialgia apresentavam significativamente mais terminações nervosas nos desvios que têm como função expandir os vasos sanguíneos.

Rice acredita que isso poderia alterar sua contração e expansão, dificultando a troca regular de calor, o que causaria interferência no fluxo sanguíneo de músculos profundos e de órgãos. Tecidos privados de sangue rico em oxigênio também poderiam contribuir para a fadiga, uma das principais características da fibromialgia. Por enquanto, o neurocientista admite que não é possível definir o papel dos desvios na síndrome, mas destaca a necessidade de investigação mais aprofundada.

As evidências apontadas por Rice e outros cientistas sugerem fortemente que a fibromialgia está relacionada a danos físicos ou alterações nos nervos num subconjunto substancial de pacientes. Os estudos recentes não invalidam a ideia de que o quadro envolva mudanças no sistema nervoso central (SNC). Pelo contrário, reforçam que os pesquisadores podem compreender melhor o problema (e oferecer tratamentos mais efetivos) considerando os elementos centrais e periféricos.

CAUSA OU CONSEQUÊNCIA?

Mas nem todos concordam com os resultados das novas pesquisas sobre os nervos periféricos. Alguns, como o reumatologista Daniel Clauw, da Universidade de Michigan, acreditam que as anormalidades nervosas recém-descritas são apenas subproduto de um sistema nervoso hiperativo. “Sabemos que há remodelação do SNC nos estados de dor”, diz. Ele destaca que, assim como o aprendizado, o incômodo persistente provoca alterações na arquitetura cerebral. “Então, por que não aconteceria o mesmo no sistema nervoso periférico?”, questiona.

Outros médicos e pesquisadores, no entanto, estão mais otimistas. Na opinião do reumatologista Roland Staud, especialista em fibromialgia e pesquisador da Universidade da Flórida, a estratégia mais eficaz é tratar o corpo e a mente. Para lidar com a dor, ele recomenda exercícios físicos, hábitos saudáveis de sono e alimentação, além do aprendizado de estratégias mentais práticas, como técnicas de respiração para diminuir o estresse. A meditação costuma trazer excelentes resulta­ dos e a psicoterapia tem extrema importância no sucesso terapêutico.

Staud acredita que é possível tratar as fibras nervosas para aliviar os sintomas mais amplos da fibromialgia. Em outras condições de dor neuropática, os pesquisadores constataram experimentalmente que o bloqueio com anestésicos da sinalização hiperativa aberrante do nervo pode diminuir até os sintomas enraizados no SNC. Além disso, o tratamento de possíveis fontes de lesão das fibras nervosas, como diabetes ou distúrbios imunitários, ajuda pacientes com PNPF. Abordagens semelhantes também podem funcionar para pessoas com fibromialgia.

Em última análise, a experiência da dor culmina no cérebro, mas pode ter origem em qualquer lugar, da pele do dedão do pé até o córtex. As chances de amenizar os sinais de desconforto em qualquer ponto ao longo do percurso traz alívio – e esperança para milhões de pessoas em todo o planeta.

PSICOTERAPIA É FUNDAMENTAL

Embora a síndrome não tenha cura, pode ser controlada de forma eficiente com uma combinação de cuidados. Na prática, é recomendado que a pessoa evite carregar peso, desenvolva rotinas para manter a qualidade de sono e procure preservar-se ao máximo de situações que aumentem o estresse. Mas, na base dessas providências, um dos maiores desafios do paciente com fibromialgia é aprender a cuidar de si mesmo, sem permitir que a síndrome se torne o centro de sua existência. O apoio de vários profissionais é importante, mas para que seja possível a articulação entre as várias experiências, terapêuticas e pessoais, é indispensável que a pessoa tenha um espaço seguro que lhe permita elaborações e construção de sentidos em relação ao que vive. No processo psicoterápico, deve haver espaço não apenas para tratar da dor, propriamente dita, mas também de conteúdos – medos, angústias, desejos e fantasias – que estão além e aquém dela.

OUTROS OLHARES

QUATRO MANEIRAS DE CONTROLAR A INSÔNIA

Livro do jornalista britânico Henry Nicholls — portador de distúrbio que desregula o ritmo do sono — aponta técnicas para dormir melhor.

Quatro maneiras de controlar a insônia

PERSEGUIR A ESTABILIDADE DO SONO

Portador de narcolepsia, um distúrbio que desregula o ritmo do sono, o jornalista britânico Henr y Nicholls passou os últimos anos pesquisando formas de dormir melhor. Em seu livro Sleepyhead: The Neuroscience of a Good Night’s Rest (Sonolento: a Neurociência de uma Boa Noite de Descanso), ele propõe novos hábitos a quem sofre para dormir.

O primeiro deles é estimular a estabilidade, o que Nicholls considera o traço fundamental de um sono restaurador. Para alcançá-la, é preciso treinar o cérebro para dormir e acordar diariamente nos mesmos horários, inclusive nos fins de semana.

 DERRUBAR O MITO DAS OITO HORAS

É ponto pacífico na medicina que dormir oito horas diárias é fundamental para uma vida saudável. Mas, ao participar de sessões de terapia cognitiva e entrevistar neurologistas, Nicholls descobriu que esse parâmetro pode ser um impeditivo para combater a insônia. A necessidade de sono varia entre os indivíduos, e perseguir uma meta traz ainda mais ansiedade ao insone. Contra isso, ele sugere que cada um investigue sua necessidade de sono anotando diariamente, ao longo de duas semanas, sua duração média.

USAR A CAMA SOMENTE PARA DORMIR

O móvel deve ser, necessariamente, associado ao sono. Permanecer na cama lendo, assistindo à TV ou usando o celular pode ter efeito sonífero em quem não tem problemas para dormir. Mas causa ainda mais ansiedade nos insones. A sugestão é tolerar no máximo até quinze minutos na cama sem dormir.

PRIORIZAR A LUZ NATURAL

Nicholls cita o trabalho de três cientistas americanos laureados com o Nobel em 2017 para explicar a importância da exposição do corpo à luz natural ao nascer e ao pôr do sol. A pesquisa disseca a sincronia entre o corpo humano e a luminosidade solar e mostra que a luz artificial atrapalha o sono por confundir o cérebro, enquanto a exposição à luz natural ajuda a regulá-lo.

GESTÃO E CARREIRA

#PARTIU…NOVOS DESAFIOS

Como saber se chegou o momento de encerrar um ciclo na sua vida e virar a página.

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Anos desafiadores como os de crise, que estamos enfrentando neste agora, pedem coragem em vários sentidos. É preciso coragem para se manter produtivo e otimista, para continuar fazendo um bom trabalho apesar das diversidades e, também, para dar uma guinada na sua vida quando as coisas não estão seguindo o caminho que você imaginava. Mas essa coragem para mudar nem sempre é uma tarefa fácil. Afinal, é comum que os profissionais entrem em uma zona de conforto e se mantenham lá até serem obrigados a se reinventar. Só que quem percebe qual é o momento de partir para outra sai na frente: essa consciência é essencial para que a realidade de uma demissão, por exemplo, não pegue você de surpresa. É claro que mudar é assustador, mas, quando isso acontece, essa é a melhor decisão a ser tomada. “Se a pessoa não muda, fica esperando eternamente algo que não vem”, diz Telma Guido, especialista em transição de carreira da Right Management Brasil, consultoria de São Paulo. Ao longo desta reportagem, mostramos como virar a página da sua vida e como entender se está na hora de correr atrás de um novo emprego, abandonar um projeto que não vinga, fechar um empreendimento, aca- bar com um mau hábito, repensar os seus objetivos de carreira ou encerrar um ciclo. Os profissionais desta matéria vão inspirar você a respirar fundo e se jogar sem medo em um novo desafio.

#Partiu novos desafios. 2

#É HORA DE…MUDAR UM HÁBITO

Seja tomar café, colocar o cinto de segurança, roer as unhas ou fumar, de acordo com uma pesquisa da Universidade Duke, dos Estados Unidos, os hábitos estão presentes em 40% dos nossos dias – tanto os bons quanto os ruins. “Hábito é toda ação que não envolve um processo de decisão, quando entramos no piloto automático e não temos mais consciência de que estamos fazendo algo”, diz Sâmia Simurro vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, de São Paulo.

Assim como no dia a dia, os hábitos ruins no trabalho podem ter consequências na saúde e nos relacionamentos. “Quando a pessoa começa a ter prejuízos e negligencia tarefas, é sinal de que convive com um mau hábito”, diz Renata Maransaldi, psicóloga e coach, de São Paulo. Clarissa Soneghet, de 35 anos, só percebeu que o hábito de trabalhar demais era prejudicial quando teve um problema sério no quadril. Formada em turismo, ela assumiu uma posição como gerente de produção de eventos e chegava a passar dez, 12 horas no trabalho – inclusive aos finais de semana. “Mais que o tempo, o ritmo de trabalho era muito frenético, eu sou perfeccionista e queria acompanhar tudo de perto, nada podia dar errado”, afirma Clarissa.

Quando saiu da área de eventos, Clarissa migrou para marketing em uma agência e o cenário não mudou. “Eu era responsável pelos lançamentos dos produtos. Chegou uma hora que não tinha tempo de fazer mais nada, o trabalho consumia toda a minha dedicação”, afirma Clarissa. Mesmo sofrendo constantemente de enxaqueca crônica foi só em 2012, quando teve o problema no quadril, que ela repensou seu estilo de vida. “Comecei a questionar por que eu gastava tanta energia em projetos com os quais eu não me identificava. Os prazos sempre para ontem me incomodavam também. Daí eu decidi que era hora de construir algo para mim”, afirma Clarissa.

Ela queria mudar e, para isso, fez um exercício de autoconhecimento parecido com o descrito no best-seller O Poder do Hábito (Objetiva, 49,90 reais), lançado em 2012. No livro, o escritor Charles Duhigg afirma que os hábitos são compostos de três etapas e que precisamos compreendê-las para nos livrarmos deles. São elas: o sinal ou o gatilho que desencadeia aquela ação, a rotina ou a frequência com que o realizamos e aquilo que buscamos ao repetir o hábito. Para Clarissa, o impulso surgiu após um curso de empreendedorismo, no qual ampliou sua visão sobre outras formas de trabalho e conheceu sua atual sócia, Nathália Roberto. Juntas fundaram, em 2014, a Kind, uma empresa de consultoria voltada para o universo feminino. Hoje, com horários flexíveis e mais autonomia, Clarissa nem cogita voltar ao modelo antigo de trabalho. “Agora faço exercícios e tenho flexibilidade para escolher parceiros de negócios”, diz.

5 PERGUNTAS PARA MUDAR UM HÁBITO

1 – Esse hábito está prejudicando algum aspecto da minha vida?

2 – Qual o motivo pelo qual eu realizo essa ação?

3 – Eu estou motivado a mudar esse hábito?

4 – Qual o meu plano de ação para isso?

5 – Como eu vou me manter afastado desse hábito?

#Partiu novos desafios. 3

#É HORA DE…ENCERRAR UM CICLO!

Mesmo que os ciclos profissionais tenham encurtado, encerrar uma etapa ainda gera conflitos. “A maioria das pessoas não possui um plano para a carreira e, por isso, esse momento vem associado a uma crise”, diz Vera Vasconcelos, da Produtive, consultoria de carreira, de São Paulo. E, quando as causas desse desejo de mudança são originadas pelas emoções, o processo fica mais complicado. “Quando a pessoa tem uma visão clara do que quer, lê o cenário e encerra uma etapa porque não possui mais possibilidades de concretizar os objetivos. Isso acontece naturalmente”, diz Telma Guido, da Right Management.

Esse foi o caso do engenheiro Eduardo Lima, de 38 anos, CEO da eduK, plataforma de cursos online. Após anos trabalhando na área de mineração e siderurgia, Eduardo percebeu que seus objetivos haviam mudado: “Eu ia trabalhar todo dia e questionava o que eu estava fazendo ali, pensava que precisava encontrar outro caminho profissional”, diz. O sonho de empreender era uma inquietação. Então o mineiro fez um plano para dar uma guinada. “Pesquisei modelos de negócios, mas nunca tinha achado algo com que eu me identificasse, até que, em 2007, surgiu o convite de um amigo de Belo Horizonte que estava montando uma franquia de e-commerce, a Neomerkato.” No começo, ele trabalhava nas horas livres, mas depois começou a investir, o empreendimento cresceu e ele abandonou de vez a engenha- ria, passando a trabalhar de casa.

Embora a mudança de Eduardo tenha ocorrido em poucos meses, não existe um prazo correto para definir quando é exatamente a hora de encerrar um ciclo. Algumas pessoas precisam sempre de estímulos, de mudanças, de adrenalina e, para elas, os ciclos fecham mais rápido. Para outras, é necessário estabilidade e movimentos de carreira mais tranquilos. “Fazer algumas perguntas como: ‘O que eu ganho se eu continuar aqui? E o que perco?’ ajudam a analisar se o problema está no lugar em que você trabalha ou em você mesmo”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), de São Paulo. A motivação e a satisfação com o trabalho são alguns dos sinais mais claros que devem ser levados em conta na hora de decidir partir pra outra. “Todo ser humano busca felicidade, e isso está diretamente ligado com engajamento, com o sentimento de ter uma missão e contribuir para algo”, diz José Roberto.

Depois que encontrou seu caminho no empreendedorismo, Eduardo estava próximo desse estágio. Mas conseguiu conquistar de fato o tão desejado propósito quando montou, ao lado de um amigo, a eduK.

Criada em 2013, a empresa tem estúdios para gravação de aulas online dos mais diversos tipos – de empreendedorismo a moda – e hoje conta com mais de 100 mil assinantes. “Sinto que mudei pela minha qualidade de vida e porque queria mais satisfação. No começo, cheguei a ganhar menos. Mas agora eu trabalho com um propósito, que é a educação”, afirma Eduardo.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DESISTIR DE UM CICLO

1 – Quais foram os meus aprendizados?

2 – Eu entreguei todos os projetos com os quais me comprometi?

3 – A causa da minha insatisfação está em mim ou no meu trabalho?

4 – Onde estou não existe mais possibilidade de mudanças?

5 – O que eu faço deixou de fazer sentido?

#Partiu novos desafios. 4 #É HORA DE…MUDAR DE EMPREGO

Os motivos para querer deixar um emprego podem ser inúmeros. Na crise, costuma pesar a falta de reconhecimento, a remuneração baixa, a pressão, as equipes enxutas. E o fator chefe chato sempre é uma questão. Antes de pedir demissão, porém, é preciso identificar esses problemas, avaliar se existe uma solução e medir a temperatura do mercado. “Mesmo sendo um momento difícil, cada um precisa saber avaliar se vale a pena continuar em um lugar que não lhe faz bem”, diz Isabella Santoyo, coach de vida e carreira, de São Paulo. Essa foi a estratégia de Lara Hammoud, de 24 anos, gerente de finanças na Bidu, startup de seguros, de São Paulo. Formada em administração, ela trabalhava em uma consultoria onde aprendeu bastante, mas tinha medo de ficar presa em uma carreira mais consultiva e não conhecer a rotina de uma empresa. “Além disso, me incomodava o fato de ser prestadora de serviços e não desenvolver relações de longo prazo”, diz Lara.

Para encontrar qual caminho trilhar, a paulistana fez algo altamente recomendado pelos especialistas: conversar com amigos e colegas que já enfrentaram a situação. “Fazer um planejamento da mudança é fundamental para encontrar uma saída e entender aonde você quer chegar”, diz Isabella. Com isso em mente, Lara começou a entender que não queria uma carreira numa multinacional, por exemplo, e que desejava algo mais dinâmico. Um dos amigos sugeriu que, talvez, ela tivesse perfil para trabalhar em uma startup e a indicou para entrar na Bidu. “Foi tudo muito rápido, eles precisavam de alguém e, em menos de duas se- manas, eu já tinha sido contratada”, diz Lara. Mas, antes de dar a palavra final, ela voltou várias vezes na empresa, conversou com gestores e colegas com os quais trabalharia. “Expliquei que não possuía experiência em diversas atuações e que precisava de um tempo para aprender e de suporte”, afirma. As portas da empresa anterior continuaram abertas. Isso porque a administradora não saiu de supetão: indicou ao chefe que estava se sentindo estagnada – o que é fundamental. “Fazer uma análise detalhada de que a insatisfação continua mesmo depois de pensar em alternativas dentro do atual emprego é fundamental”, diz Isabella.

Além da ânsia por se demitir logo, outro erro que os profissionais cometem é de postergar demais a decisão da saída. Quando há muito desgaste emocional (e até físico) e os valores não estão mais alinhados, não tem jeito: é hora de partir para outra. “Quando há essa combinação, a pessoa não se sente mais engajada e sair faz todo o sentido”, diz Isabella. Ficar no em- prego apenas por receio do que os outros vão achar da sua decisão ou porque você prefere insistir em algo que está lhe fazendo mal em vez de encontrar outra solução é terrível. Isso só vai minar as suas energias e minguar sua força de vontade para tentar algo novo.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DEIXAR SEU EMPREGO

1 – Meus valores estão alinhados aos valores da empresa?

2 – Minhas habilidades estão sendo utilizadas?

3 – Sinto vontade para desempenhar o que esperam de mim?

4 – Vejo um futuro e desejo crescer junto com a empresa?

5 – Estou ficando doente por causa de aspectos do trabalho com os quais não consigo lidar?

#Partiu novos desafios. 5 #É HORA DE…DESAPEGAR DE UM PROJETO

Quem trabalha com projetos sabe como é grande a pressão para que as empreitadas deem certo rapidamente – ainda mais na crise, quando os investimentos minguam. “A principal habilidade para trabalhar bem com isso é decidir rápido”, diz Randes Enes, professor da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. É evidente que projetos precisam de um tempo hábil para dar certo, e muitas vezes a ansiedade acaba atrapalhando. Mas há um limite entre insistir em algo que vai parar em pé e em algo que está fadado a dar errado.

Alexandre da Silva, de 53 anos, líder da área de sistemas inteligentes do Centro de Pesquisas Global da GE no Brasil, lida com essas questões. Ele é responsável por coordenar um grupo de pesquisadores que trata de automação industrial avançada e atua em diferentes negócios da GE, em setores como óleo e gás, energia elétrica, transportes ferroviários e aviação. Todo ano, ele administra uma carteira de 12 projetos, mais ou menos. “A decisão entre perseverar ou interromper acontece em todos os projetos”, diz Alexandre. O passo a passo ideal para estruturar um projeto é avaliar o grau de risco, traçar um plano e definir parâmetros para avaliar se as coisas estão caminhando bem ou não. Segundo Randes, a experiência de realizar um projeto é semelhante à de ler um livro. A pessoa gosta da capa, começa a ler o livro, e no primeiro capítulo já não aprecia. Em vez de largar a leitura, muitos continuam lendo. “Isso é uma mentalidade cultural, ler um livro é um projeto. Mas, uma vez que não está gostando, vira uma perda de tempo”, afirma Randes. “Ela sabe que não vai dar certo, que não é lucrativo, mas, só porque já começou, acha que precisa terminar – mesmo que isso envolva recursos desnecessários e que não atinja o resultado desejado. Essa é uma decisão extremamente emocional e que envolve o ego”, diz o professor. E o mesmo raciocínio nos acomete quando nos dedicamos a um projeto que não vai render. Depois que se fez a análise de que é preciso mudar de rumo ou partir para outra, o mais importante é não se deixar consumir pela sensação de fracasso e incompetência nem encarar esses “erros” de maneira negativa. O melhor é abandonar o barco furado rapidamente – para não afundar junto.

Para tomar uma decisão desse tipo, Alexandre tenta alinhar sua visão e intuição ao julgamento técnico. “Interromper requer mais coragem do que insistir”, diz. O que o ajuda na análise, além de sua experiência prévia, é ouvir feedbacks dos clientes e colegas e fazer projetos com ciclos mais curtos. “Antigamente, a gente levava entre três e cinco anos para desenvolver um produto novo, hoje esses ciclos foram encurtados significativamente, para menos de um ano”, afirma Alexandre. Isso dá agilidade para abastecer o mercado de novidades e, também, para errar rápido.

5 PERGUNTAS ANTES DE ABANDONAR UM PROJETO

1 – A equipe que trabalha comigo está alinhada para atingir a meta estabelecida?

2 – Eu tenho indicadores objetivos que apontam que estou no caminho certo?

3 – O projeto está chegando ao final de seu prazo sem a maioria dos resultados esperados?

4 – Já tentei reajustar o plano para tentar salvar o projeto?

5 – Estou apegado demais ao plano e não consigo enxergar saídas?

# Partiu novos desafios. 6 #É HORA DE… TER UMA NOVA META

Ainda na época da faculdade, o publicitário Felipe Versati, de 29 anos, já tinha decidido qual caminho gostaria de seguir: iria trabalhar na área de criação de uma grande agência. “A gente acredita que vai encontrar um ambiente informal, onde você pode trabalhar de bermuda, ter liberdade para criar e ainda ganhar prêmios com seu trabalho”, diz Felipe. Mesmo passando por outras áreas, o desejo persistia e, em 2011, prestes a concluir a graduação, Felipe aceitou a proposta de trabalhar na Bilheteria.com, agência especializada em serviços culturais, em São Paulo. Chegando lá, o publicitário encontrou uma realidade totalmente diferente da que esperava. Trabalhando mais de 18 horas por dia, sem horário para comer e dormir e sem vida social, o paulista percebeu que, mesmo alcançando o seu sonho, ele se sentia insatisfeito. “Muitas pessoas criam expectativas irreais sobre algo porque olham apenas para as coisas boas e acreditam que isso representa o todo. Daí, quando se deparam com a realidade, acabam se frustrando”, diz Daniela do Lago, coach de São Paulo.

Um ano e uma úlcera depois, Felipe entendeu que era hora de mudar seu objetivo, mesmo com expectativas de crescimento na agência. “Eu já havia me tornado analista sênior e tinha a perspectiva de uma promoção em breve, mas isso não compensava a minha falta de adaptação ao modelo de trabalho e vi que tinha que almejar outra coisa”, diz Felipe. E essa mudança de ambição é normal. Muitos entram no mundo corporativo acreditando que sucesso é sinônimo de uma posição elevada, por exemplo, mas conforme o tempo passa as expetativas mudam e você precisa se ajustar.

Com um MBA que o auxiliou a ampliar seus horizontes, em 2013, Felipe quis resgatar um sonho antigo e começou a procurar oportunidades no terceiro setor, onde havia estagiado. Mesmo com ganhos menos agressivos, ele aceitou a proposta de estruturar a área de marketing da Associação Cruz Verde, organização filantrópica que atende pessoas com paralisia cerebral grave, em São Paulo. “Mudei as minhas expectativas”, diz.

Um dos pontos mais difíceis na hora de largar uma ambição é, por vezes, reconhecer que a definição de sucesso que cada um de nós possui pode ser diferente daquela que aprendemos ser a mais acertada. “Precisamos conhecer nossos objetivos e expectativas e compreender que nossa satisfação tem que estar relacionada com as nossas crenças”, diz Paulo Moraes, diretor da Talenses, empresa de recrutamento do Rio de Janeiro. Outro ponto é não olhar para essa mudança de ambição como um fracasso. “Quando você entende que aquele desejo não lhe pertencia, precisa encarar como uma alternância de caminho, e não um passo para trás”, diz Vera.

Hoje, quase três anos após a escolha, a associação é um dos empregos mais duradouros de Felipe. “Antes, com um ano eu queria mudar de trabalho, agora me sinto muito recompensado. Por mais que você seja premiado, nunca seus produtos vão te dar um abraço de agradeci- mento, como os que eu ganho dos pacientes diariamente”, conclui.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DESISTIR DE UMA META

1 – O que eu valorizo de verdade?

2 – Eu tenho condições reais de concretizar essa ambição onde estou?

3 – Eu fiz algo no sentido de concretizar esse objetivo?

4 – Essa meta está prejudicando outros aspectos da minha vida?

5 – Eu ainda quero me tornar aquilo que planejei há algum tempo?

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#É HORA DE…FECHAR SEU EMPREENDIMENTO

O advogado Francisco Pereira, de 35 anos, trilhou uma carreira na área de consultoria. Em 2008, era supervisor da multinacional Terco e queria se tornar gerente. Tudo mudou quando um amigo o chamou para empreender na área têxtil. “Sempre tive esse sonho e, quando fui convidado para ser responsável pela gestão da empresa, aceitei”, diz Francisco. Os dois montaram uma companhia que concebia e fabricava peças de vestuário. Em sete meses, o investimento havia sido quitado, eles fecharam contratos, tinham uma equipe de 12 pessoas e cada sócio lucrava 5 000 reais mensais.

Só que as coisas pioraram em 2009, quando sofreram um baque. Um cliente que já havia retirado 50% das peças desapareceu, o que gerou um rombo. Os sócios pegaram dinheiro emprestado, cobriram os gastos com funcionários e com a manutenção. Até que, seis meses depois, outro cliente deu calote. “Com a dívida anterior e sem dinheiro para brigar judicialmente, ficamos com um prejuízo de mais de 217.000 reais”, diz Francisco.

Nesse momento, o advogado sentiu o drama comum aos empreendedores: sabia que talvez fosse melhor voltar atrás, mas ainda se sentia muito ligado ao negócio para desistir. “É como uma bateria que está sempre no vermelho, chega uma hora que não vai aguentar mais”, diz Tiago Aguiar, mentor empresarial e sócio da QI Empreender Grandes Ideias, de São Paulo. Desistir é sempre difícil no mundo do empreendedorismo porque é fácil se iludir com histórias mirabolantes de perseverança que se assemelham aos “doze trabalhos de Hércules”. Claro que a persistência é boa – desde que o empreendedor tenha um olhar racional sobre suas metas e sobre seus erros e encontre saídas viáveis para continuar tentando até esgotar todas as possibilidades. Sem isso, é provável que a persistência se transforme em teimosia. “O teimoso passa anos e não sabe quais ações deram errado, não estabelece um plano e não se adapta à nova realidade”, diz Tiago.

Para não fazer parte desse grupo, Francisco e seus sócios analisaram tudo friamente. Notaram que, por causa das dívidas, pagariam juros sobre juros, o que não valeria a pena. A saída foi fazer um novo empréstimo para fechar o negócio em 2010. Além da tristeza com o fracasso, o advogado tinha que lidar com uma dívida de 12.000 reais, dividida entre os sócios, que demorou três anos para quitar. Desempregado, vendeu o carro e precisou de ajuda familiar para pagar as contas.

A solução foi começar tudo de novo – só que, desta vez, no mundo corporativo. Ele entrou em contato com seu antigo gerente da Terco, que o indicou para uma vaga em outra consultoria, a BDO, onde é, hoje, gerente sênior da área de tributos. “Voltar foi difícil porque eu não aceitei esse baque, tive que vir de cabeça baixa, ganhando menos”, diz. Mas essa humildade o ajudou a perceber que poderia aprender com os erros e que, pelo menos em médio prazo, o seu lugar é onde há uma carteira assinada.

5 PERGUNTAS ANTES DE DESISTIR DE UM EMPREENDIMENTO

1 – Acredito na ideia?

2 – A ideia está ligada ao meu propósito?

3 – Atingi o limite de tempo?

4 – Atingi o limite de dinheiro?

5 – Esgotei todos os caminhos?