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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

EU ACHO …

O OUTRO DO OUTRO

A violência contra a mulher negra não começou na pandemia

Desde que o Brasil tropeçou com força na pandemia de Covid-19, muita gente começou a dizer que a grave crise sanitária escancarou a violência social e as desigualdades no país. É uma constatação legítima, mas que costuma ser apenas sintoma da autoindulgência com que certas pessoas reagem, em dadas ocasiões, aos problemas que não afetam diretamente as suas vidas. Pois o fato é que as desigualdades e a violência remontam a muito antes – e já estavam bastante visíveis para quem quisesse ver.

Como vivemos num tempo de narcisismo e falta de empatia, a mera constatação do agravamento das desigualdades, frequentemente formulada dentro das bolhas em que as pessoas se refugiaram para escapar do vírus, tem pouco alcance como prática social. Para quem desfruta de segurança econômica e proteção pessoal, é complicado entender que certos problemas são antigos e requerem mais que palavras: pedem um esforço coletivo.

A negligência em relação ao outro caracteriza esse mórbido privilégio social que é poder “pular os corpos” como se salta, num cenário de guerra, por cima dos que foram abatidos numa batalha. A pandemia deveria ser uma oportunidade para furar essas bolhas de convergência e convivência, e tentar acionar algum resquício de sensibilidade em cada pessoa, soterrada entre selfies, reality shows e likes em redes sociais.

Para uma mulher negra, pobre e periférica como eu, essa negligência é impossível, pois o grupo social a que pertenço está entre os que precisam lidar todo dia e constantemente, com perigos concretos, como o feminicídio – e bem antes de qualquer ameaça da Covid-19.

A violência contra as mulheres não é um fato apenas brasileiro. Em todo o mundo, verifica-se que ela cresce sem parar, há bastante tempo. Mas, aqui, tem impacto extra, pois a esse problema acrescentam-se os derivados da violência racial, da enorme desigualdade econômica e de outros tantos, como a favelização, o desemprego e os abusos cometidos contra os empregados. Se a situação de pandemia nos revelou algo, foi a indiferença com que muitos reagem a essa série de violências, a começar pelo chefe de Estado, que tem tratado de maneira tão indigna os mortos e seus familiares, e com tanta irresponsabilidade os cidadãos que precisam de proteção.

Para se ter ideia do impacto do feminicídio no país, basta lembrar alguns dados do Atlas da Violência divulgados em 2019. Segundo a pesquisa, houve um aumento de 30,7% no número de mulheres assassinadas de 2007 a 2017, ano em que foram mortas 4.936 mulheres (a maior quantidade desde 2007), ou seja, cerca de catorze por dia.

As mulheres negras foram as mais atingidas, representando 66% de todas essas vítimas. No mesmo período, o feminicídio de negras teve um crescimento de 30% (5,6 para cada grupo de 100 mil mulheres), ao passo que o de não negras cresceu 1,6% (3,2 para cada grupo de 100 mil). O aumento bastante superior da violência letal contra mulheres negras evidencia a inabilidade do Estado brasileiro para desenvolver políticas públicas específicas e necessárias ao grupo racial mais atingido.

As denúncias de violência doméstica aumentaram 35% em abril último, em relação ao mesmo mês no ano passado, conforme apurou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos por meio do disque-denúncia, o Ligue 180. É certo que o isolamento social aumenta a vulnerabilidade das vítimas, por causa de sua convivência mais constante com homens agressores. Mas é uma visão limitada atribuir ao isolamento e aos problemas psicológicos e familiares decorrentes da quarentena a responsabilidade por algo que já vinha acontecendo em número cada vez maior mesmo antes, e que tem raízes na própria formação da sociedade.

Há tempos se estuda a violência de gênero e as questões que a tangenciam, como o racismo, o elitismo, as violações físicas e simbólicas, bem como as agressões virtuais. O passo inicial para entender tudo isso é desmistificar explicações simplistas que foram naturalizadas com o tempo.

As pesquisas sociais constatam que é por meio da classificação em gêneros que as diferenças biológicas entre seres humanos tendem a ser organizadas. Também explicam que a tipificação heteronormativa homem/mulher consolidou no senso comum – distorcido pelas opressões estruturais – a ideia de oposição entre os gêneros, o que serviu aos homens para estabelecer uma hierarquia e concentrar poder em suas mãos, explorando as mulheres.

A escritora francesa Simone de Beauvoir, com a sua famosa frase “Não se nasce mulher, torna-se”, buscou sintetizar esse modo de produção da feminilidade, que é também uma forma de hierarquização e de dominação, com os homens instalados num posto superior.

Ao nascerem, as mulheres – bem como os homens – já encontram definidos os lugares que ocuparão e os papéis que deverão encarnar ao longo da vida, um amontoado de estereótipos fixados século após século. Aos olhos da sociedade, elas não devem fazer mais do que se conformar com o que foi prefixado para sua existência subalterna e submissa, não importa em que esfera da vida social.

A mulher negra nasce com dupla carga de inferioridade em relação ao mundo masculino, que é também hegemonicamente controlado por brancos. Se ela for pobre, então, essa mulher será carregada para o fundo da hierarquia social, pois, no sistema capitalista, como se sabe, o poder se institui não só pela opressão racial e de gênero, mas sobretudo pelo controle da riqueza.

As relações entre mulheres e homens é estabelecida na forma de antagonismo, em que a mulher é não apenas considerada um ente inferior, mas está sempre relegada à categoria de outro, ou seja, do que é diferente, com conotação negativa. E a violência que garante a fixidez dos papéis e comunica que não há lugar para divergência na organização patriarcal, masculina, colonial, racial e classista. Nesse contexto, a mulher negra é o outro do outro, como definiu a escritora portuguesa Grada Kilomba, e a violência exercida sobre ela para assegurar sua submissão é ainda maior. Essa situação não é vivida sem resistência, seja das mulheres em geral, seja da mulher negra ou não branca, o que acaba por desencadear mais violência, como reafirmação do poder masculino.

As reflexões de duas grandes pensadoras feministas, a norte-americana bell hooks – que prefere grafar seu nome em minúsculas – e a argentina Rita Segato, ajudam a pensar a violência contra a mulher (e a mulher negra) no momento presente.

Em seu livro Teoria Feminista: Da Margem ao Centro, hooks trata da percepção de pessoas negras norte-americanas sobre o “ciclo de violência”, que começa nas relações trabalhistas desiguais e chega ao ambiente doméstico. Segundo ela, homens negros tendem a manifestar no ambiente doméstico o fardo da violência e da exploração que suportam em seus locais de trabalho e na sociedade em geral. Tratados como inferiores (o homem negro é o outro do homem branco), eles têm sua própria representação da masculinidade como exercício de poder posta em xeque continuadamente. Nesse “ciclo de violência”, com o diz hooks, a mulher negra estará sempre em desvantagem.

Segato, por sua vez, alerta para a precarização da vida como elemento catalisador e transmissor da violência, por meio da aniquilação da empatia – o que é útil à manutenção do uso predatório do poder. A isso a autora dá o nome de “pedagogia da crueldade”, que naturaliza a violência e serve a todas as instituições para fazer crer que atos violentos não causam impacto na sociedade, pois são problemas restritos à esfera privada – a agressão doméstica, por exemplo, é encarada como no ditado “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

A violência contra as mulheres, contudo, é um problema de saúde pública, segurança pública e educação. Ao tratar esse problema de maneira tão reducionista, como questão privada, isenta-se o poder público da sua responsabilidade de garantir equilíbrio e igualdade nas relações sociais. O fundamento político da violência doméstica não pode ser negligenciado e requer mais do que ações paliativas de denúncia e prevenção: exige um trabalho social mais amplo.

O necessário período de isolamento social por que passam os brasileiros não é a causa da violência doméstica, insisto. Relacionar uma coisa à outra é um modo, inclusive, de mascarar um problema estrutural e histórico que sempre foi tratado com negligência proposital. É urgente ampliar o entendimento das questões de gênero para criar um conjunto de  práticas em várias frentes –  sociais, políticas e culturais – que tenha resultado concreto e seja capaz de influir no nervo do problema: a produção da masculinidade como gestação de um poder opressivo contra o outro antagônico, a mulher, e o outro do outro, a mulher negra. Como disse a socióloga holandesa Saskia Sassen, é preciso desestabilizar conceitos estáveis para que possamos avançar de maneira efetiva e responsável rumo à erradicação desse problema que, direta ou indiretamente, atinge toda a sociedade.

***JOICE BERTH – É urbanista, escritora e pesquisadora de questões raciais e de gênero

OUTROS OLHARES

MASKNE – A NOVA ACNE

O uso necessário da máscara pode causar espinhas e outros problemas na pele

É normal notar mudanças na pele em tempos de crise como a que se vive numa pandemia. Stress, sono desregulado e alteração de hábitos podem causar inflamações no rosto, mas, na prática, um novo item inserido no cotidiano às vezes traz, por si só, problemas. O uso da máscara facial, obrigatório desde maio no País como forma de proteção contra o coronavírus, propicia o aparecimento da acne. ”Maskne”, junção das palavras ”máscara” e ”acne”, pode até parecer só um termo inventado, mas o incômodo criado em muitas pessoas é real. ”Não é uma invenção. A máscara abafa o local, aumenta a temperatura e provoca maior sudorese e produção de sebo, entupindo os poros e gerando acne”, explica a médica Denise Steiner, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. ”Ela também é considerada acne mecânica, ou seja, causada pelo atrito da peça no rosto. No caso de peles secas, o abafamento da máscara pode alterar o microbioma da pele (microrganismos protetores) e provocar dermatite atópica (irritação)”, completa a dermatologista Paola Pomerantzeff.

Como a máscara é a melhor forma de defesa fora de casa, as dermatologistas ressaltam que a condição da pele não pode ser desculpa para deixar de usar o acessório necessário.

”A proteção contra o coronavírus é mais importante do que a questão estética da pele, e a maskne é mais fácil de ser curada do que a acne comum porque não é determinada por predisposição genética ou fatores hormonais, não sendo necessária medicação”, esclarece Paola. O tratamento da acne mecânica está no cuidado básico da pele: lavar o rosto duas vezes ao dia, de manhã e à noite, usar hidratante e protetor solar específicos para peles acneicas. No mercado, há fotoprotetores com ação hidratante com toque seco, que não melecam a pele. A médica sugere testar na mão e sentir a consistência antes de comprar.

“Pessoas com tendência a espinhas precisam de sabonetes com agentes como ácido salicílico ou alfa-hidroxiácidos, que secam mais a pele e diminuem o sebo. Devem sempre ser recomendados por um especialista”, afirma Denise. Paola também indica a aplicação de um tônico adstringente para peles oleosas ou água micelar para peles mais secas depois da lavagem para remover impurezas, além de evitar maquiagem antes de usar a proteção. ”Make estimula a oleosidade, obstrui os poros e mancha a máscara. Como ninguém vê o que está embaixo do pano, use só nos olhos.”

A maskne não era tão conhecida porque a utilização da proteção era exclusiva de profissionais da saúde e por tempo limitado. ”Uso máscara desde o começo da faculdade de odontologia e não tive problemas, mas agora trabalho com ela por até dez horas por dia e também coloco na rua e na academia. Minha pele está mais oleosa e sempre nasce espinha perto da boca”, diz a dentista Thais Galbieri. Mas a condição pode aparecer até para quem não usa o item com frequência. ”Duas horas com a máscara já são suficientes para irritar meu nariz e meu lábio superior, além de aparecer acne no queixo, pescoço e bochechas. Uso lenços de papel por baixo para conter o suor”, relata Cristine Lore Cavalheiro, que põe a proteção apenas para ir ao mercado.

O material da peça também influencia na gravidade da condição. As médicas optam por máscaras feitas de algodão porque permitem que a pele ”respire”. Ela deve ser trocada de duas a quatro horas ou quando ficar úmida. “A umidade no tecido faz com que o vírus ‘grude’ e o mantém vivo por mais tempo”, diz Paola, que também explica que o pano deve ser lavado com detergente neutro ou sabão de coco e ser bem enxuto para não dar alergias na pele. As dermatologistas lembram que a proteção não deve ficar apertada a ponto de machucar o rosto, mas deve ficar justa e cobrir queixo, boca e nariz por completo.

Há outras condições na pele produzidas pelo contato de tecidos com o rosto que são confundidas com acne, como a dermatite perioral, pequenas bolinhas inflamadas na face. As máscaras também podem causar rosáceas, equimoses e dermatites de contato em peles sensíveis. Por isso, o diagnóstico médico correto é imprescindível para o tratamento certo.

MASCARA SÓ PARA BARBUDOS

A encorpada barba do noivo de Lara Luiza Oliveira, 31, foi um problema no início da pandemia. As máscaras convencionais eram pequenas demais para conter os longos fios ruivos do influenciador digital Alessandro Delarissa, 35. Dono da página no YouTube Canal do Barba Ruiva, negava a todo custo abrir mão do que é a sua marca registrada.

A empreendedora, com um pequeno ateliê em casa e experiência no mercado da moda, decidiu criar uma proteção facial sob medida, que cobre até o pescoço. Alessandro postou a novidade no Instagram e recebeu uma chuva de pedidos de outros barbudos angustiados. Com demanda alta, Lara criou a SoulNord em junho deste ano com a ajuda do irmão, designer e também barbudo, Leandro Oliveira, 38. O nome, “Alma Nórdica”, em português, remete às barbas vikings e também à palavra “norte”, por causa da localização da empresa na Zona Norte de São Paulo. “Foi na brincadeira.

Não achei que viraria negócio”, conta Lara. Os modelos básicos custam 27 reais e os estampados, 32 reais. Em um mês e meio, o trio faturou 24.000 reais e está criando bonés e camisetas para consolidar a marca masculina no mercado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE AGOSTO

A IMPORTÂNCIA DO AUTOEXAME

Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los e voltemos para o SENHOR (Lamentações 3.40).

O profeta Jeremias, como um homem de lágrimas, exorta-nos a tomarmos três atitudes decisivas na vida. A primeira é sondarmos nossa vida. Uma vida sem reflexão é uma insensatez. Não podemos ser como um cavalo e uma mula, sem entendimento. Permanecer no erro é uma loucura. Por isso, precisamos esquadrinhar nossos caminhos, colocar o prumo de Deus em nossa vida. A segunda coisa que precisamos fazer é provar nossos caminhos. São caminhos retos? São veredas de justiça? Andamos na verdade? Amamos a Deus de toda a nossa alma, de todo o nosso entendimento e de todo o nosso coração? Amamos os irmãos como a nós mesmos? Desviamos nossos pés do mal, nossa língua da maldade e nosso coração da soberba? Precisamos provar nossos caminhos, para saber se estamos no caminho estreito que conduz à vida ou no caminho largo que leva à perdição. A terceira coisa que precisamos fazer é voltar-nos para o Senhor. Precisamos dar as costas para o pecado e voltar nosso rosto para Deus. Precisamos romper com o pecado e correr para os braços do Pai. Apenas ter consciência do nosso pecado sem uma volta para Deus é remorso, e não arrependimento. O remorso produz morte, mas o arrependimento gera vida. O autoexame traz convicção de pecado, e o arrependimento nos toma pela mão e nos leva ao Senhor, a fonte da vida.

GESTÃO E CARREIRA

ANJOS DE ASAS CAÍDAS

Exemplo de empresa incapaz de se adaptar às mudanças da sociedade, a Victoria’s Secret, famosa pelos desfiles de apelo sexual. enfrenta longa crise

A grife californiana de acessórios e roupas intimas femininas Victoria’s Secret alcançou nas últimas décadas alguns dos feitos mais notáveis da história da indústria da moda. Em 1997, transformou uma ideia casual – pendurar asas nas costas das modelos – em um símbolo inquestionável de beleza. Em 2000, assombrou o mundo com um sutiã de 15 milhões de dólares cravejado de 1.300 pedras preciosas. A peça, exibida nas passarelas pela modelo Gisele Bündchen, foi parar no Guinness Book: é a lingerie mais cara de todos os tempos. Em 2001, surpreendeu novamente ao ter os seus desfiles transmitidos ao vivo pela TV americana. Mais inesperada ainda foi a audiência desses eventos, que chegaram a cativar 12,4 milhões de telespectadores. Nos anos seguintes, ela se tornaria não apenas uma das principais referências da moda, sinônimo ao mesmo tempo de beleza e sofisticação, mas também uma máquina de fazer dinheiro. “A Victoria’s Secret foi, sob diversos aspectos, um dos mitos empresariais de nosso tempo”, diz Eduardo Tancinsky, consultor especializado em marcas.

O encanto parece ter ficado para trás. Há alguns dias, o braço britânico da empresa anunciou o pedido de proteção contra credores. No Reino Unido, esse é o passo anterior à falência. Não se trata de um problema isolado ou pontual. A marca informou ainda que fechará permanentemente 250 lojas nos Estados Unidos e Canadá e as operações na China começaram a ser revistas. Segundo o consultor Eduardo Tancinsky, estima-se que, somente em território americano, sua participação no mercado de lingerie tenha caído de 34% uma década atrás para 15% atualmente. Com vendas em queda desde 2016 – a previsão é um recuo de 3% em 2020 -, a grife amarga uma série de prejuízos. No terceiro trimestre de 2019, de acordo com os mais recentes dados disponíveis, as perdas chegaram a 252 milhões de dólares, e já há quem questione a capacidade de a companhia sobreviver em um cenário marcado pela pandemia do coronavírus, por consumidores receosos e pelas incertezas sobre a velocidade de recuperação da economia.

O que teria levado a Victoria’s Secret a ser hoje apenas uma sombra do que foi no passado? Diversas razões explicam o declínio, mas uma em especial chama atenção. De certa forma, ela tem sido vítima daquilo que a consagrou. Agrife que encantou homens e mulheres e conquistou admiradores em diversas partes do planeta pela estética notadamente sexualizada – modelos lindas e esguias – parece fora de contexto em um mundo marcado pelo ativismo feminino. “Isso funcionava nos anos 1990, especialmente quando homens compravam lingerie para as mulheres”, diz Jean-Pierre Dubé, professor de marketing na University of Chicago Booth School of Business”. Agora as mulheres querem influenciar a forma como são percebidas, e a imagem de supermodelo da Victoria’s Secret não parece mais natural ou consistente. “Em outras palavras: a empresa não foi capaz de entender as mudanças da sociedade ou o próprio espírito do tempo.

Um episódio exemplifica a desconexão da Victoria’s Secret com a realidade. No a no passado, Ed Razek, diretor de marketing da grife, disse em entrevista à revista Vogue que a marca não deveria lançar modelos plus size. Como era de esperar, a declaração revelou-se desastrosa. Em meio a uma onda de protestos, mulheres de corpo curvilíneo vestindo apenas lingerie se posicionaram diante das lojas para gritar palavras de ordem – Razek foi obrigado a se desculpar, mas isso não acalmou as manifestantes. Ele acabou pedindo demissão, mas os estragos na reputação da empresa já estavam feitos. “A Victoria’s Secret teve dificuldade para entender as novas perspectivas da sociedade sobre os papéis dos gêneros humanos e a sua importância no mercado da moda”, afirma Rodrigo Leão, publicitário e professor de gestão de marcas na Fundação Instituto de Administração (Fia).”Ela manteve as consumidoras no papel de objetos quando elas próprias já não reconheciam essa postura como socialmente apropriada.”

O ano de 2020 da grife tem sido marcado pela tentativa de se reinventar. Modelos menos esguias foram contratadas, campanhas de publicidade em defesa da diversidade ganharam as TVs dos Estados Unidos e Canadá e até um remanejamento societário, com o ingresso de novos acionistas, foi planejado na esperança desesperada de virar o jogo. Até agora, nada funcionou e há um enorme ponto de interrogação posto diante do futuro da marca. “A grande questão é que estamos vivendo em um mundo de grandes rupturas, onde não existem verdades absolutas”, diz Cláudio Tomanini, ex-professor de gestão de vendas e marketing da Fundação Getúlio Vargas. “Por isso, a empresa deve estar preparada para destruir mitos, defender novas ideias e desafiar as crenças que a levaram ao topo, mas que não a manterão mais lá.”

Não são raras as companhias que, fustigadas pelo tempo ou incapazes de entender o novo mundo, deixaram de ser relevantes. Aamericana Blockbuster levou vinte anos para se tornar um império global com bilhões de dólares em faturamento, mas desabou em pouco tempo ao não perceber que o caminho seria o streaming – e sumiu por completo depois de a Netflix tomar a dianteira nesse mercado. Se a Victoria’s Secret é um caso clássico de empresa colocada contra a parede graças a mudanças profundas na sociedade, há inúmeras corporações que foram açoitadas pela inovação tecnológica. Um dos exemplos mais visíveis é a americana Kodak, que foi incapaz de perceber que os filmes fotográficos seriam peça de museu diante do avanço avassalador das imagens digitais. Nos últimos anos, a Kodak tem vivido uma agonia sem fim, tentando enveredar por áreas pouco afeitas ao seu negócio original, como a fabricação de impressoras comerciais e domésticas.

Mudar a trajetória de uma empresa pode ser um processo longo e doloroso. Aamericana IBM dominou o mundo dos computadores durante décadas, mas quase desapareceu quando concorrentes como Apple e Dell começaram a ocupar esse espaço. Por um bom tempo, a IBM investiu em serviços de tecnologia e, agora, invade o mundo da inteligência artificial, em constante processo de reinvenção. A própria Microsoft experimentou o veneno que a fez destroçar rivais. Criada em 1975 por Bill Gates e Paul Allen, levou menos de dez anos para se tornar um predador internacional, graças principalmente ao Windows, o sistema operacional que mudaria para sempre a história da computação.

A Microsoft cresceu produzindo softwares para computadores, mas sofreu com o advento de tablets e smartphones, que derrubaram consideravelmente os seus lucros. Ágil como uma empresa de tecnologia deve ser, percebeu que deveria buscar novas frentes de negócios e acabou por entrar no universo de hardwares. Além disso, revigorou o seu serviço de e-mail, substituindo o insosso Hotmail pelo ágil Outlook. Em pouco tempo, voltou a lançar tendências, em vez de correr atrás das rivais.

Em 1942, o economista austríaco Joseph Schumpeter criou a expressão “destruição criativa” para definir a necessidade de grandes empresas se reinventarem permanentemente. De tempos em tempos, diz ele, é preciso “derrubar os pilares do passado para construir as pontes do futuro”. Isso nem sempre é fácil, mas em geral vai estabelecer as chances de sobrevivência de uma corporação. A Victoria’s Secret não fez a lição de casa – longe disso. Cega pelo sucesso estonteante alcançado nos primeiros anos do século XXI, nem sequer percebeu que deveria investir em iniciativas corriqueiras hoje em dia, como serviços digitais (foi apenas há pouco tempo que entrou no comércio eletrônico) e ambientes mais despojados nas lojas – elas, ao contrário, continuaram exatamente como nos anos 1990, com suas madeiras pesadas, cortinas de seda e tapetes orientais, um glamour artificial distante das novas gerações, que valorizam especialmente a autenticidade. Para piorar, enfrenta agora a concorrência de marcas de lingerie mais inclusivas e que carregam a vantagem adicional de ter nascido em plena era digital. Enquanto não espantarem seus demônios, os anjos da Victoria’s Secret estarão em sério risco de extinção, de asas quebradas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEXO E TECNOLOGIA

As inovações tecnológicas têm transformado o modo como as pessoas compreendem e vivenciam o sexo

A relação entre sexualidade e tecnologia está cada vez mais próxima, formando um par polêmico. As inovações tecnológicas têm transformado o modo como as pessoas compreendem e vivenciam o sexo, pois a internet criou um novo espaço de interação (inclusive sexual) revolucionando os vínculos afetivos. Tal interação está criando relacionamentos ou pseudo-relacionamentos, em que os estágios são pulados com muita facilidade, tornando o sexo e o amor objetos de consumo independente do outro. O compartilhamento de conteúdo sexual pessoal explícito, os chamados “nudes”, é uma prática cada vez mais comum, principalmente entre os jovens, em um mundo onde as aparências físicas ganham um protagonismo cada vez maior. Apesar da prática fazer parte do jogo erótico, quando o material cai em mãos indesejadas pode se tornar um sério problema. Outra oportunidade criada pela internet é o sexo virtual ou cibersexo, que consiste em brincadeiras entre casais, que por meio de uma webcam se exibem um para o outro, criando um jogo erótico com fantasias culminando em prazer mútuo. Dependendo da forma como as pessoas vivenciam o relacionamento virtual, ele pode ser saudável se realizado de forma eventual e com clareza de que é parcial. Entretanto, quase sempre as pessoas permanecem no mundo virtual e criam personagens que não existem, enganando ao outro e, sobretudo, a si mesmos. A outra faceta disto é quando esses relacionamentos, por vezes idealizados, partem para o mundo real e não correspondem às expectativas criadas no mundo virtual, gerando assim frustrações ou ainda se envolvendo em armadilhas com pessoas mal intencionadas. O sexo, aliado à tecnologia de forma saudável, pode: aproximar as pessoas, proporcionando prazer rápido, fácil, sigiloso e seguro (tomando as devidas precauções), auxiliar principalmente os mais tímidos a se relacionarem mais facilmente, contribuir para o treino de fantasias sexuais e no processo de autoconhecimento. Portanto, a aplicação da tecnologia ao sexo não é algo ruim, o que determina os benefícios para cada um é a forma como ela é utilizada.

THAÍS FRANÇA DE ARAÚJO – é médica ginecologista pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com especialização em Sexualidade Humana pela Universidade de São Paulo (USP).

EU ACHO …

POR QUE DERRUBAR ESTÁTUAS

Nos Estados Unidos, estátuas de generais derrubadas e quadros de políticos depositados no lixo. Na Bélgica, monumentos ao Rei Leopoldo II desfigurados com golpes de martelo e tinta vermelha. Na Inglaterra, esculturas de homens de negócios do século XVIII desmanteladas e jogadas em rios. Em Praga, uma imagem gigante de Winston Churchill pichada com a frase “Era racista” e, em Paris, a estátua em frente ao Parlamento de Jean-Baptiste Colbert, autor do “Código Noir”, que governava a vida dos escravos nas colônias francesas, também danificada.

Em quase todo o ocidente, os protestos liderados pelo movimento Vidas Negras Importam têm fomentado toda uma campanha de acerto de contas com a história. As heranças de escravismo, colonialismo e racismo são todas alvos da reavaliação exigida pelos manifestantes, um processo abrangente que inclui não apenas a demolição de símbolos do passado mas principalmente uma nova visão do decorrido.

E no Brasil? Parece que os desdobramentos têm sido lentos e hesitantes. Não vejo ainda no país o mesmo fervor, apesar de uma população enorme de negros e pardos discriminados e a mais longa história de escravidão do ocidente. Por que essa relutância? Tem a ver com a extraordinária complexidade da história brasileira? Ou será que um autoexame seria tão dilacerante que o país não aguentaria? No exemplo americano, alguns casos são fáceis de resolver. Os generais sulistas secessionistas que lutaram para defender a escravidão na Guerra Civil, como Robert E. Lee e Stonewall Jackson? Traíram nosso país e não mereciam nenhum monumento. E os ideólogos da escravidão, como o senador John Calboun, e líderes do governo rebelde, como Jefferson Davis? Também não são dignos de homenagens. A Alemanha, por acaso, ainda tem estátuas enaltecendo Hitler? Mas também precisamos perguntar qual o objetivo desse movimento. Sua finalidade é uma reavaliação do passado fiel aos fatos, para que possamos entender melhor o que aconteceu e por quê? Ou ele prefere borrar da história personagens e incidentes considerados vergonhosos ou funestos, como Stálin fez com Trótski quando mandou apagar o rival de todas as fotos e pinturas da Revolução Bolchevique?

Tenho acompanhado o debate incipiente no Brasil sobre a estátua do bandeirante Borba Gato, e confesso que fico perplexo. Por que ele e só ele? Não foi o maior nem o pior dos bandeirantes que escravizaram indígenas e atacaram quilombos. Sim, a estátua é feia para caramba. Mas por que ninguém está reclamando o fim de homenagens a Raposo Tavares, por exemplo, ou Domingos Jorge Velho ou Miguel Sutil?

A esse respeito, li com grande interesse os comentários de Laurentino Gomes sobre a questão Borba Gato e concordo com ele – até certo ponto. Sim, “estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico” e “devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”. Mas como? Basta colocar uma breve placa explicativa? Ou as estátuas devem ser consignadas aos cantinhos empoeirados dos museus, com explicações mais detalhadas?

E como vai lidar o Brasil com os vários duques, marqueses, condes e barões que compraram, venderam ou herdaram escravos durante o Império?

E é mais complicado ainda o caso do Barão de Guaraciaba, rico fazendeiro negro, amigo da Princesa Isabel – e dono de mil escravos, também negros. É por essa mistura complicada de fatos que os positivistas, abolicionistas todos, criaram o culto a Tiradentes quando nasceu a República, numa tentativa de encontrar um herói não manchado pelo escravismo.

Nos Estados Unidos, já estamos presenciando alguns excessos de zelo. Monumentos enaltecendo o general Ulysses Grant, comandante das tropas que derrotaram os escravocratas, e líderes do movimento abolicionista foram derrubados na Califórnia e em Wisconsin. Tem até um jovem ativista negro que exige demolir todas as estátuas que retratam Jesus Cristo como “um branco europeu”. Claro que Donald Trump, grande defensor dos generais escravocratas, pegou a “ameaça” como bandeira de campanha.

Vejo que faço uma grande quantidade de perguntas e ofereço poucas respostas. Isso reflete minhas próprias dúvidas e incertezas. Como cidadão, quero fazer justiça a uma causa justa e, como jornalista e escritor, quero respeitar todos os fatos da história. Duas perguntas finais: os pecados de nossos próceres sempre pesam mais do que seus feitos? E quem tem o direito de decidir?

**LARRY ROHTER – é jornalista e escritor, ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

A MALDIÇÃO DO TOQUE

Onipresente há mais de uma década, a tecnologia “touch” se tornou um risco a mais com a explosão do novo coronavírus. Num futuro não tão distante, ela também deverá virar parte do passado.

Há quase uma década, um vídeo em que um bebê brincava com uma revista – como essa que você tem agora em suas mãos como se fosse um tablet, “tocando” nas páginas à espera de uma resposta, serviu como a prova definitiva da revolução da tecnologia “touch”. Era algo tão natural que ficou difícil imaginar como era mesmo o mundo dos aparelhos eletrônicos antes disso. Parece história antiga, mas foi apenas em 2007 que a Apple lançou o primeiro iPhone, o qual se definiu naquele ano como “o ícone de um novo modo de interação entre humanos e máquinas”. Agora, uma nova revolução, a do novo coronavírus, acabou por transformar esse avanço em uma espécie de inimigo íntimo.

Um estudo feito pelo Google em 2015 mostrou que os usuários desbloqueavam seus celulares, em média, 100 vezes por dia e nada indica que esse número tenha diminuído de lá para cá. Some-se a isso o fato de que os celulares atuais possuem superfícies altamente favoráveis à permanência do vírus e tem-se uma máquina de contágio.

“As pessoas ficam o dia inteiro com o celular na mão. Por esse motivo, ele não deixa de ser um possível veículo de transmissão do vírus”, afirmou o infectologista Leonardo Weissmann. Segundo ele, estudos realizados com outros tipos de coronavírus apontam que eles sobrevivem por até quatro dias em uma superfície do mesmo material da tela do celular – ainda não se sabe como o Sars-CoV-2, causador da atual pandemia, se comporta. Por isso, o especialista recomenda a higienização do aparelho pelo menos duas vezes ao dia. O mais indicado, segundo os fabricantes, é usar álcool 70% ou lenços umedecidos com a substância.

A boa notícia é que, depois de mais de uma década de dominância, a tecnologia touch começa a virar passado. Ou, ao menos, a ser superada. “Essas tecnologias não morrem de uma vez. O touchscreen está muito maduro. Usa sensores em que a indústria de consumo investiu literalmente milhões de dólares para chegar a esse estágio”, avaliou Marcelo Knõrich Zuffo, engenheiro coordenador do Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas da Universidade de São Paulo (Citi-USP).

“Cada geração de celulares (2G, 3G e 4G) teve uma tecnologia dominante. No 2G era usado stylus pen. As pessoas podem lembrar do palmtop. Depois, na época do 3G, começou-se a usar o botão. E, no 4G, as telas supersofisticadas com os touchscreens”, explicou Zuffo, que também foi ouvido em 2007, naquela primeira revolução. “Para o 5G a gente acha que vai ser voz. A gente vai falar com os dispositivos. E isso inclui o ventilador, a lâmpada, a porta, a geladeira”, afirmou. “Mas isso pode mudar a qualquer momento.”

Essa tecnologia de comando de voz já aparece há algum tempo em certas funções. É possível enviar uma mensagem de texto de WhatsApp ou encontrar rotas pelo Waze, por exemplo. Mas a maioria dos aparelhos ainda pede o desbloqueio do telefone com a digital do dono.

Nos modelos mais modernos, o reconhecimento facial e interação com a voz já são mais sofisticados, mas ainda estão distantes de uma fluidez como a do touch. Os bebês daquele vídeo de 2011, ainda que já falassem, teriam alguma dificuldade em dar ordens à revista.

“Atualmente, o que temos de comando de voz ainda não está bem resolvido. Usuários têm dificuldade de fazer seus comandos serem compreendidos pela inteligência artificial”, avaliou Edilberto Strauss, coordenador do Laboratório de Tecnologia da Informação da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mas o espaço para avanço no comando de voz é gigantesco e rápido. No ano passado, a Consumer Electronics Show, a CES, maior feira de eletroeletrônicos do mundo, exibiu em Las Vegas uma janela para essas tendências tecno lógicas. Assistentes virtuais e reais movidos pela inteligência artificial, e por uma simples ordem de voz, deverão estar espalhados pelos lares em poucos anos, dos robôs para aspirar a casa a geladeiras que fazem muito mais do que manter a temperatura. No centro disso estão os assistentes pessoais como a Alexa, da Amazon, e o Google’s Assistant, dois dos mais populares até agora.

“O touch ainda deverá ser preservado por algum tempo, mesmo já sentindo o desgaste dos anos”, projetou Strauss. “Agora, quanto tempo, não sei. Já fiz previsões de coisas que sumiriam em 20 anos e elas levaram dois, três. E já pensei que outras tecnologias emergiriam, mas foram abortadas no meiodo desenvolvimento”, completou.

Para ter uma ideia da distância entre o surgimento de uma tecnologia e a chegada a um público mais amplo, o primeiro aparelho com touchscreen surgiu em 1967, segundo um artigo do pesquisador da Microsoft Bill Buxton, quatro décadas antes do iPhone. Era um equipamento para uso em radares de controle de tráfego aéreo, que ficou em ação até a década de 1990, criado pelo inglês Eric Johnson, no Royal Radar Establishment, em Malvern, Inglaterra.

A geração seguinte aos produtos de comando de voz também já está sendo desenhada. Nem tocar, muito menos falar, apenas gestos. O Google, por exemplo, está realizando o Projeto Soli. Nele, há a criação de chips que captam o movimento das mãos. O dono do dispositivo aperta o polegar contra o indicador – como se existisse um botão ali – para ativar alguma função ou desliza a ponta dos dedos – como se girasse uma manivela – para aumentar ou diminuir o som.

Não que o objetivo seja esse, mas os mecanismos dos dispositivos do futuro serão 100% seguros contra o coronavirus. Isso se até lá não surgirem novos e mais terríveis problemas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE AGOSTO

CORPO FRACO, ESPÍRITO RENOVADO

Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia (2Corpintios 4.16).

O apóstolo Paulo nos ensina a viver na dimensão da eternidade. Nossos pés estão na terra, mas nosso coração está no céu. Vivemos neste mundo como peregrinos, mas estamos a caminho da nossa pátria permanente. Três verdades saltam aos nossos olhos. Em primeiro lugar, temos um corpo fraco, mas um espírito renovado. Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia Nossa fraqueza física é notória e indisfarçável. O tempo esculpe em nossa face rugas profundas. Nossas pernas ficam bambas; nossos joelhos, trôpegos; e nossas mãos, descaídas. Cada fio de cabelo branco que surge em nossa cabeça é a morte chamando-nos para um duelo. Nosso homem exterior, ou seja, nosso corpo, enfraquece-se progressivamente. Ao mesmo tempo, porém, nosso homem interior, ou seja, nosso espírito, renova-se dia após dia, transformado de glória em glória na imagem de Cristo. Na mesma medida em que nosso corpo se enfraquece, nosso espírito se fortalece. Na mesma proporção que o exterior se corrompe, o interior se renova. Temos um corpo fraco, mas um espírito forte.

GESTÃO E CARREIRA

A ERA LINKEDIN

A maior rede social corporativa do mundo, comprada pela Microsoft por US$ 26,2 bilhões, se torna obrigatória e dispara em meio à pandemia. O networking, em tempos de desemprego, nunca esteve tão valorizado.

A transição da adolescência para a fase adulta é marcada por um turbilhão de mudanças. Dói. O que é parte inescapável do processo de crescimento. Vale para as pessoas, vale para as empresas. O LinkedIn, maior rede social de identidade profissional e negócios do mundo, que neste mês completa 17 anos, vive essa fase. E se aproxima da maioridade justamente em um período turbulento. No epicentro da pandemia do novo coronavírus. Mas é exatamente nesse vórtice da economia mundial que a plataforma se consolida como obrigatória para trabalhadores e empregadores acompanharem as tendências corporativas. A vocação inicial de ser apenas um espaço de recrutamento está definitivamente para trás. “Nossa missão é conectar profissionais do mundo para torná-los mais competitivos e bem-sucedidos”, afirma Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para o Brasil e a América Latina. “É uma rede de muita abrangência, tanto para proposições dos usuários quanto de empresas.” Ter seu perfil nela tornou-se inevitável a qualquer pessoa, física ou jurídica.

O LinkedIn instalou seu escritório em território brasileiro em 2011, quando tinha 6 milhões de usuários na rede por aqui. Hoje tem 43 milhões – o País é o quarto maior da plataforma, superado apenas por Estados Unidos (onde nasceu), China e Índia (com seus bilhões de habitantes). A média é de 100 mil novos perfis criados por semana. “Atingimos muita gente, mas gostaríamos de atingir mais. É a visão que nos norteia”, afirma Beck, funcionário com o crachá de número 2 do LinkedIn no Brasil. O número 1 foi de Osvaldo Barbosa de Oliveira, que o contratou no início de 2012 e deixou a empresa em 2016.

Nesses anos tanto usuários quanto a própria plataforma entenderam que mais que expor currículos o LinkedIn é um ambiente de exposição de marcas – as corporativas e as pessoais – e, consequentemente, um espaço de negócios. Terra fértil. Vale desde o empregado que aplica energia na ampliação do networking publicando conteúdos originais por meio de artigos, postagens de documentos e vídeos, até para a empresa que se posiciona compartilhando dados e informações e, de quebra, divulgando serviços ou produtos. Uma verdadeira vitrine para ver e ser visto. Flavia Gamonar, da divisão de Learning do LinkedIn, diz que é preciso transmitir a mensagem por meio de uso constante e postura. “Sempre levando junto a marca pessoal”, afirma.

CURSOS

Há aplicações mais robustas que permitem usar a rede de forma mais proveitosa. Para saber detalhadamente quem visualizou um perfil ou obter contato e conversar com líderes das corporações, a opção do usuário é assinar o Premium. O meio é igualmente importante às corporações, para fazer publicidade mais assertiva, recrutar talentos ou treinar equipes por meio do LinkedIn Learning, que oferece 15 mil cursos em vários idiomas – desde ensinar a usar Excel até como se relacionar com um chefe difícil –, sendo 200 em português.

Também há o LinkedIn Sales Navigator, lançado em 2014, que conecta compradores e vendedores. Tudo isso gera monetização para a rede social. São planos disponíveis tanto para profissionais quanto para empresas, divididos em quatro modelos com pagamentos mensais. Para carreira, com foco na recolocação profissional, R$ 49,99. Para ampliar e desenvolver redes de contatos para negócios, R$ 69,99. Em vendas, para profissionais que buscam potenciais compradores, R$239,99 (com acesso ao Sales Navigator). E contratação, para recrutadores e profissionais de Recursos Humanos em busca de talentos, R$ 439,17 (acesso ao software Recruiter). Dando suporte necessário a essa estrutura, são 255 funcionários no escritório do LinkedIn no Brasil.

A gigante não revela seus resultados. Nem a fatia que cada linha de solução traz. Um estudo divulgado no início do ano – antes da pandemia, portanto – pela eMarketer, especializada em mercado de marketing digital, mídia e comércio com base em assinaturas, apontou que globalmente o LinkedIn atrairá US$ 1,59 bilhão apenas com publicidade em 2020. Em 2021, US$ 1,77 bilhão. Segundo analistas, em seu último ano fiscal a rede social faturou, no geral, US$ 6,75 bilhões. Os resultados oficiais do trimestre encerrado em março de 2020 pelo grupo Microsoft, proprietário da marca, diz apenas que a performance foi 21% superior à do mesmo período de 2019. Mas com um sinal de alerta. “Nas últimas semanas do trimestre, porém, houve desaceleração, principalmente em pequenas e médias empresas, e uma redução nos gastos com publicidade no LinkedIn.” Hoje, a rede social possui 690 milhões de usuários. Em 2019, 4 milhões de profissionais de todo o mundo usaram a plataforma para mudar de emprego.

ENGAJAMENTO

Essa massa de usuários não para de crescer. E interagir. Com as pessoas em casa, de quarentena, em home office, o engajamento na plataforma aumentou em todo o mundo. E muito. Houve crescimento de 26% na criação de sessões e grupos. As conversas entre os usuários saltaram 55%. Os treinamentos on-line tiveram procura 50% maior. Foram 4 milhões de horas de cursos oferecidos pela rede social aos usuários.

Da mesma forma que o LinkedIn oferece oportunidades, ele também as aproveita. Duas ferramentas foram recentemente lançadas. Uma delas, o Stories, começou pelo Brasil e tem gerado resultados expressivos. A divulgação de conteúdo que permanece 24 horas para visualização já é bastante usada pelos brasileiros em outras redes e também caiu na graça no LinkedIn, para uso mais profissional. Esses tipos de posts mostram em tempo real como está sendo o home office das pessoas, as rotinas, as situações inusitadas encaradas nesta pandemia que alterou os processos tradicionais das corporações. “Brasileiro adora isso”, diz Milton Beck. “Registramos nas nossas métricas uma utilização acima do esperado”, afirma o executivo.

As transmissões ao vivo são outra novidade. Ainda estão em testes, liberadas para poucos produtores de conteúdo e empresas que solicitam acesso especial. “As lives atraem muita atenção. Cada postagem desse tipo tem 23 vezes mais comentários e seis vezes mais reações do que vídeos normais”, diz Beck. De acordo com Madalena Feliciano, gestora de carreira e CEO da Outliers Careers e IPCoaching, o engajamento é fator multiplicador. Para cada pessoa conectada, outras 400 podem ser alcançadas. “Para se dar bem na rede, é preciso montar seu perfil de acordo com a imagem que você deseja mostrar, estabelecer sua marca profissional e publicar conteúdo útil”, afirma. “Além de atualizar suas informações regularmente e manter sua participação ativa.”

A plataforma também estimula a participação dos usuários –, mas é território quase blindado para o chamado Fla-Flu político, tão presente em redes sociais como Facebook e WhatsApp. Beck diz que o fato de a plataforma estar associada a um ambiente profissional, com a pessoa identificada e vinculada a uma organização, com cargo, faz as vezes de filtro. “Isso já inibe, impõe certo limite a possíveis haters”, afirma. “Atitudes de ódio e desprezo pelo outro não acontecem.” O executivo diz que há regras de políticas de uso do LinkedIn, monitoradas por Inteligência Artificial e por curadores. Mas se isso funcionasse por si só o Facebook e o Twitter não seriam campos de batalha. O papel de um ambiente profissional parece cuidar de boa parte desse cenário menos belicoso.

MENOS VAGAS

Se por um lado o engajamento está em alta, por outro a crise provocada pelo novo coronavírus deixa seus estragos. A plataforma registra queda de 28% nas vagas anunciadas pelas companhias. Antes da pandemia, eram 200 mil oportunidades abertas em média. Hoje, são 144 mil. “Há insegurança no mercado”, afirma Beck. Mas é preciso olhar nos detalhes, porque existe um desbalanceamento nas ofertas. Muitas vagas foram extintas, principalmente nas áreas de turismo, entretenimento e academias, que têm sofrido mais com a paralisação de serviços. Porém, há oportunidades criadas nos setores ligados ao combate direto à Covid-19, como postos de enfermeiros, médicos, backoffice de hospitais, além de serviços essenciais como o de alimentação, com demandas que vão de caixas de supermercado a entregadores de mercadorias e refeições por delivery. Também houve crescimento de vagas para área de tecnologia.

Diante desse cenário de descompasso, o LinkedIn imprime algumas ações de apoio. A primeira iniciativa foi oferecer gratuitamente algumas funcionalidades a empresas que visam contratar profissionais da linha de frente, em especial hospitais e supermercados, para minimizar os efeitos da crise. Funcionários da plataforma com experiência em recrutamento iniciaram trabalho voluntário para buscar profissionais a essas companhias. O LinkedIn também abriu sua ferramenta Sales Navigator a ONGs que precisam captar recursos financeiros e doações. Para usuários desempregados, a rede social liberou 275 cursos gratuitamente, em sete idiomas, sendo duas séries de 24 cursos em português. “Os empregos diminuíram, mas vão voltar. Ajudamos nessa retomada”, diz Beck.

TRAJETÓRIA

O currículo do próprio LinkedIn começou a ser formulado em 2002, quando Reid Hoffman, Allen Blue, Jean-Luc Vaillant, Eric Ly e Konstantin Guericke iniciaram o esboço do conceito de uma rede profissional on-line, ainda que de forma simples. A ferramenta foi colocada no ar em 5 de maio de 2003, antes dos primos mais populares Facebook (2004), Twitter (2006) e Instagram (2010). Começou com apenas 350 contatos dos próprios colegas dos criadores. E cresceu organicamente pelo potencial para troca de conhecimentos, novidades e oportunidades do mercado de trabalho. Tamanho foi o sucesso da rede que, em 2016, atraiu o interesse da gigante Microsoft, que naquele ano comprou o LinkedIn por US$ 26,2 bilhões.

Até chegar a esse patamar, a rede registrou alguns percalços. Um dos principais foi um certo preconceito por parte de profissionais que ocupavam postos de alto escalão. Isso ocorria porque era vista apenas como uma plataforma de recrutamento. Ou seja, a pessoa estava cadastrada nela para procurar emprego. CEO, presidente, chairman ou diretor evitavam a rede. “Acreditavam que poderia ser negativo para a imagem”, diz o diretor-geral. Mais do que isso, passariam a impressão de que a empresa que representavam não estaria bem.

Por isso, o LinkedIn funcionava como um anúncio de jornal ou um panfleto colocado na porta de uma loja. Ainda que de forma mais sofisticada, pois estava alocada em uma rede social, com algumas funções de busca. Nas companhias, era comum haver apenas um headhunter – ou a contratação dos serviços desse profissional em empresas especializadas – para caçar talentos no mercado, e só para as áreas de chefia. Aos poucos, o LinkedIn começou a ser observado de forma diferente. “Foi um trabalho de formiguinha”, diz Beck. “Nas visitas que fazíamos, explicávamos para as empresas que elas poderiam fazer uma busca direcionada e selecionar os melhores profissionais para todas as posições.” Mas as companhias não estavam acostumadas com esse modelo. “Devagar, mostramos que era uma rede funcional. Isso não existia dez anos atrás. Foi revolucionário.”

A roda começou a girar a favor, de forma natural. Quanto mais as empresas contratavam pelo LinkedIn, mais os profissionais compreendiam a importância de estar na plataforma. Era uma oportunidade para desenvolvimento de carreira das pessoas. E formou-se um ciclo virtuoso. Os recrutadores passaram, então, a fazer uma busca ativa, não apenas passiva entre os que se interessavam pelas vagas anunciadas.

MESMO NÍVEL

A mudança de mentalidade das corporações foi rápida e radical. Recente pesquisa da Jobvite, especializada em recrutamento, mostra que 93% dos entrevistadores buscam o perfil de seus possíveis candidatos no LinkedIn. Mais do que isso, se antes havia receio e preconceito, hoje há necessidade de expor posicionamentos, visões e missões na plataforma, muito em razão dos planos e estratégias de comunicação terem evoluído e a presença e popularidade de outras redes terem colaborado para isso. Organizações e líderes usam o espaço para mostrar a cara da corporação. E nesse sentido não há diferença cultural corporativa entre o Brasil e outros países. “Grande parte das empresas brasileiras está no mesmo nível de sofisticação das europeias, por exemplo, na compreensão do potencial da rede”, afirma Beck.

E não são apenas assuntos pertinentes à própria companhia que caem no gosto dos usuários. Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, posta artigos que vão desde educação até sobre violência contra mulher. “É um assunto muito sério neste período de quarentena. O Magazine Luiza vai meter a colher sim. A cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil. Chega!”, escreveu a empresária, que lidera o ranking do LinkedIn entre os maiores influenciadores da plataforma. Entre as companhias, o Itaú está na primeira posição do ranking que mostra as empresas mais desejadas para se trabalhar. E também toca em assuntos que fogem de seu métier, mas que posicionam o banco perante a sociedade, para agregar valor à marca. No dia 17 de maio, a instituição financeira abordou o Dia Internacional contra a Homofobia, de conscientização sobre os direitos LGBT. “É um dia para refletir sobre as dores e conquistas do passado, mas também para celebrar o respeito, a diversidade e a liberdade de todas as pessoas serem quem elas realmente são”, pontuou na publicação. O LinkedIn começa a escalar a idade adulta com a maturidade de um veterano. E como plataforma inevitável e cada vez mais desejável quando se trata de mundo do trabalho. O seu, o da sua empresa ou o do futuro.

A CARTILHA DO LINKEDIN

Um perfil completo e atualizado pode transmitir confiança e credibilidade. Dentre as principais dicas para usar a rede de forma adequada e em seu máximo potencial, estão:

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIVERSIDADE SEXUAL

O que leva muitos brasileiros à resistência e a não democrática aceitação de gêneros que saiam da padronizada definição de homem e mulher

Homem é homem e mulher é mulher. Certo? Errado. Se muitos brasileiros ainda pensam dentro desse rígido dualismo, é porque são, segundo sociólogos e psicólogos sociais, desprovidos de empatia. Dessa forma, resistem àquilo que não lhes é igual. Pior: tal comportamento implica reacionarismo. Pior ainda: se a falta de empatia e as atitudes reacionárias levam alguém a opinar sobre a vida do outro, ultrapassou-se todos os limites éticos. É mais do que falta do que fazer: é possuir um temperamento autoritário, falso moralista e antidemocrático. Esse fenômeno, que leva a radicalismos, atinge os planos econômico, racial, étnico, político, ideológico e, principalmente, o de gênero. Explica-se, assim, o ódio gratuito que ainda é comum ver-se pelos casais LGBTs. E, também se explica, a violenta reação nas redes sociais contra o ator e homem trans Thammy Miranda, pelo fato de ele ter integrado uma campanha publicitária destinada ao Dia dos Pais para a marca de cosméticos Natura. Thammy foi um dos assuntos mais comentados no Twitter. Muita gente mostrou-se inconformada e revoltada porque ele tem um filho fruto de inseminação. “Ninguém precisa me agredir porque é diferente de mim”, disse Thammy. “É tão surreal não existir respeito que eu fico sem palavras para explicar o que deveria ser natural”.

Houve um tempo em que corpos eram queimados em fogueiras e em praças públicas quando não se coadunavam ao padrão que a sociedade impunha — no qual só entravam famílias formadas por homens e mulheres que psicologicamente e emocionalmente se identificam com o gênero com o qual nasceram e que hoje ganharam a denominação de cis. Para bem da democracia social, o tempo foi andando e algumas conquistas nesse campo dos direitos civis estão sendo consolidadas. “A orientação sexual já foi vista como pecado, crime e doença”, diz Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+. Em 2005, ele e o marido, David Harrad, resolveram aumentar a família. Iniciaram o que seria a “gravidez” mais longa da história: adotar filho sendo um casal homoafetivo. Ao longo de uma década sonharam com a família ao mesmo tempo que lidaram com a burocracia da Justiça: “Queria que os preconceituosos ficassem um mês na nossa pele para entender o que sentimos”. Situação similar ocorreu com Ricardo Reis e Léu Vieira. “Nossa sociedade é marcada pelo preconceito: machismo, racismo e intolerância em diversos aspectos. Isso é medo do novo”, diz Ricardo. “Desde pequeno somos educados a ter medo e esse fato liga-se a tabus”.

A cada momento a falta de empatia com a vida do outro é reafirmada por muita gente no Brasil — fenômeno que, felizmente, tende cada vez mais a deixar de existir. Impõe-se que o outro seja como eu sou, e, quando o avanço e as discussões plurais ganham força, reacionários resistem para que a sociedade seja um aglomerado de iguais — homogênea e arcaica. “Do ponto de vista psicológico, falta empatia a muitos brasileiros. Falta pensar nas consequências que um comentário maldoso pode ter na vida de alguém”, diz Sheila Queiróz, psicóloga da conceituada Clínica Maia e especializada em saúde mental. “As crianças precisam ser educadas para o diferente não ser visto como ruim”. É assim que a plena existência poderá ser alcançada, uma vez que sociedades igualitárias somente são possíveis quando as liberdades e garantias individuais forem respeitadas. “Apesar do ditado de que não há pecado abaixo da linha do equador, temos fortes estruturas de violência contra as minorias”, diz Renan Quinalha, professor de Direito da Unifesp. “E a democracia pressupõe garantia de direitos individuais”.

GENITOR NÃO É PAI

A transexualidade significa o gênero com o qual uma pessoa se identifica, não importando os seus órgãos reprodutores. No caso de Thammy os ataques, ainda que absurdos, não saíram das redes sociais. Mas, na chamada vida real, a coisa é tristemente bem diversa e o Brasil tem pouco de positivo. O nosso País lidera de maneira trágica e vergonhosa o ranking das nações nas quais mais se matam transexuais em todo o mundo. Aqui, alguém assumir a sua vontade sexual, saindo do padrão, implica risco de morte e violência. “O órgão sexual não define gênero. E ser pai é diferente de ser genitor”, diz Lorenzo Vincenzo, homem trans casado com uma mulher cis, que, antes de conhecê-lo, cuidava sozinha dos filhos – cada criança é biologicamente fruto de diferentes relações. A democracia, na mais ampla dimensão humana, pressupõe a não resistência às escolhas da outra pessoa. A melhor forma de caminhar para isso é seguir o que nos ensinou a escritora e poeta americana Maya Angelou: “Nenhum de nós pode ser livre até que todos sejam livres”.

EU ACHO …

A ETIQUETA DIGITAL

Regras para você não se tornar um inconveniente no celular

Falta de educação no celular e nas redes sociais é o que há. Novos tempos exigem novas regras. Eis algumas, mas não todas. Tornou-se importante aprender a não ser invasivo, chato ou simplesmente mal-educado!

MENSAGEM DE ÁUDIO – Odeio mensagem de áudio. Aviso a todos da minha lista: não ouço. Mandam assim mesmo. Há quem insista: “Quando puder você ouve”. O que eu faço, bloqueio? Entretanto, as mensagens de áudio curtas são válidas, para informação. Se quiser falar sobre o sentido da vida ou de seu último romance, faça uma ligação.

VÁCUO – Horrendo é deixar o interlocutor no vácuo. Alguém me diz que vai viajar no fim de semana. “Para onde?” A pessoa some. Dali a três, quatro dias, reaparece. “Tudo bem?” Não se fala mais na conversa anterior. É péssimo.

ÁUDIOS ALTOS – Com o celular na orelha, ninguém ouve a mensagem. Tem gente que bota o áudio em volume elevado no mercado, no banco… Pura poluição sonora.

VÍDEOS – Sou soterrado por vídeos, diariamente. Uns têm piadas, outros são ecológicos, ou de atores declamando textos. O ruim não é o vídeo em si. É a pessoa cobrar: “E aí, viu? Gostou?”. E depois: “Não viu ainda? Mas você tem de ver!”. Final: mágoa e crise na amizade.

MARCAÇÕES E CORRENTES – Sou marcado nas mensagens mais doídas. Ninguém pergunta se quero ser incluído em tantos pedidos, ações! Pior que isso, só as correntes. “Distribua essa reza a cinquenta pessoas. Um rapaz de Vitória não fez isso e quebrou a perna… etc., etc.” Socorro!

KKKKKKK – E quem responde tudo com “kkkkk”? É uma risada ou um relincho? A conversa não avança. “Como você está?” Resposta: “De quarentena kkkkkk”. E por aí vai. Um kkk de leve, tudo bem. Mas o excesso é ridículo.

FIM DE PAPO – Tem gente que não quer terminar a conversa. Eu trabalho de noite, todo mundo sabe. Se vem mensagem, me despeço rapidinho: “Tudo bem então, bjs”. A pessoa continua como se não tivesse lido. Eu me despeço de novo: “Ótimo, bjão”. Imediatamente desaba sobre mim uma conversa do tipo: “Estou triste hoje”. É o momento de iniciar confidência? Antes eu me preocupava. “Está triste, o que houve?…” Hoje sou rápido: “Espero que fique bem. Bjs”. E desligo.

INCLUIR ALGUÉM EM UM GRUPO SEM PERGUNTARAbro meu celular. Há cinquenta mensagens de um grupo que não conheço. Piadas, papos… Alguém me botou na roda! Saio imediatamente. Mas meu número particular já se espalhou por nem sei quantas pessoas. É muito deselegante. Antes de incluir alguém, pergunte se a pessoa concorda!

PEDIR CURTIDAS – Não tem coisa mais brega que mendigar curtidas. Muitas vezes, se elogio um post, no direct, por amizade, vem o pedido: “Curte lá”. Se não curto, a pessoa fica ofendidíssima! Inacreditável. Curtida virou prova de amizade?

A deselegância impera. Tudo o que a pessoa não faz na vida real apronta na internet. Por exemplo, mandar um nude sem que seja pedido. Nude está tão facinho! Diz aí: quando é apresentado a alguém, você tira a roupa imediatamente?

***WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

CEGONHA COM ESCALAS

Com o relaxamento das restrições a viagens, pais de bebês gerados em barrigas de aluguel na Europa comemoram, com eles no colo, o fim de meses de desespero

Como se não bastassem todos os perrengues que a quarentena impôs à humanidade, um grupo de pais ao redor do mundo teve de enfrentar um drama extra: o de não poder acompanhar o parto do filho e, depois de nascido, não ter como levá-lo para casa. Bebês gerados em barriga de aluguel – o processo em que uma mulher é contratada para ceder o útero aos progenitores de embriões por meio de inseminação artificial – vieram ao mundo na Ucrânia, Geórgia, Estados Unidose outros países onde a prática é permitida em plena disseminação da pandemia, quando fronteiras se fecharam e aviões deixaram de voar. De um lado, berçários e até hotéis tiveram de acomodar um número incomum de recém-nascidos. De outro, pais angustiados buscavam meios de cruzar o mundo para pegar seus rebentos no colo. “Os últimos meses foram uma espera sem fim”, diz a advogada Renata Mofsovich, de São Paulo, orgulhosa mamãe de gêmeas nascidas em Kiev, capital da Ucrânia.

Renata e o marido, o engenheiro Leandro Mofsovich, passaram por sete anos de tratamentos frustrados antes de optar pela barriga de aluguel na Ucrânia, atualmente o país mais requisitado para o procedimento. “Um médico disse que minha chance de ser mãe era igual à de alcançar o topo do Everest. Aquilo me destruiu, foi um soco no estômago”, conta Renata. No fim de 2019, a implantação dos embriões no útero de uma mulher ucraniana deu certo e começou então a espera e os preparativos para a chegada das gêmeas. Passagens compradas para 20 de junho, bem antes do parto, previsto para 5 de julho, vieram a quarentena e a ansiedade. Renata e o marido levaram 22 horas para chegar a Kiev e entraram em isolamento obrigatório de quatorze dias. “Tivemos de baixar um aplicativo, todo em ucraniano, que monitorava nossos passos.

Um dia subi no terraço do prédio para tirar uma foto e o aparelho não parava de apitar”, conta Renata. As pequenas Esther e Joana nasceram com três dias de antecedência, ainda na quarentena. Para poder sair, o casal passou por uma bateria de exames. O de Renata deu uma alteração e só o pai pôde ver o parto. “Fiquei chorando sozinha no apartamento, inconsolável, por dois dias. Enfim pude abraça-las na porta do hospital e foi uma emoção indescritível”, diz Renata.

Emprestar o útero para gestar bebês de desconhecidos em troca de compensação financeira é proibido na maioria dos países, por questões morais e denúncias de exploração de mulheres. No Brasil, o empréstimo só pode ser gratuito e por parentas ou amigas próximas do casal. Desde que as indianas foram proibidas de ceder o útero a estrangeiros, em 2019, o Leste Europeu se tornou a meca das barrigas de aluguel. Lá o custo do procedimento fica na faixa de 40.000 euros (240.000 reais), três vezes menos do que nos Estados Unidos. O casal Mofsovich diz que gastou 1 milhão de reais desde o início do tratamento.

No início de maio, a clínica BioTexCom, de Kiev, divulgou um vídeo no qual dezenas de bebês apareciam alojados em um hotel – falou-se em até 100 recém-nascidos nessa situação. O objetivo era mostrar que os pequenos estavam bem cuidados e, principalmente, chamar a atenção das autoridades para que facilitassem o acesso dos pais. “Ter um filho foi a maior realização de nossas vidas, mas o que se seguiu foi um pesadelo”, conta o espanhol Sergio Aznar, que entrou na Ucrânia com a mulher, Maria Luz Marin, ainda em março, dias antes do fechamento das fronteiras, e só conseguiu voltar para casa, em Murcia, dois meses depois. Os americanos Darlene e Chris Straub passaram por uma epopeia: voaram para Holanda, Suécia e, por fim, Minsk, capital da Bielorrússia. Lá alugaram um carro e percorreram 530 quilômetros até a fronteira ucraniana, que atravessaram a pé, com malas e carrinho de bebê, antes de dirigir outro tanto até Kiev.

A embaixada brasileira na Ucrânia informou que o governo agora dispensa a quarentena para pessoas que, ao chegar, testem negativo para o novo coronavírus. A pandemia está controlada no país, com mais de 60.000 casos e 1.500 mortes. A BioTexCom garantiu que todos os seus bebês já foram entregues aos pais, mas os voos seguem reduzidos e a pandemia atrasa horrores os processos burocráticos. Renata e a família ainda passarão algumas semanas em Kiev – serão dois meses ao todo. “Aquele médico estava certo: ser mãe foi, de fato, como alcançar o topo do Everest”, diz Renata, aliviada e feliz. Quem já passou pela experiência sabe: isso é só o começo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE AGOSTO

VAI E NÃO PEQUES MAIS

… Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais (João 8.1 a).

Na calada da noite, os escribas e fariseus capturaram uma mulher em flagrante adultério. Não fica claro se o homem adúltero escapou ou se os líderes religiosos propositadamente o deixaram fugir. Com a intenção de apanhar Jesus em algum deslize, lançaram a adúltera a seus pés, perguntando: E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? (v. 5) Esses xerifes da vida alheia e fiscais da moralidade pública não estavam interessados na lei nem na situação daquela mulher. Usavam-na como arma para atingirem Jesus. O silêncio de Jesus foi estrondoso. Em vez de responder positiva ou negativamente, Jesus abaixou a cabeça e começou a escrever no chão. Depois, levantou a cabeça e disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra (v. 7). Jesus era a única pessoa ali que poderia acusar a mulher e condená-la. Os acusadores escondiam os mesmos pecados sob uma capa de religiosidade. Acusados pela própria consciência, os acusadores foram saindo um a um, deixando a mulher aos pés de Jesus. O Senhor, então, perguntou a ela: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?… Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais (v. 10,11). Jesus não fez vistas grossas ao pecado, mas tratou com misericórdia a pecadora. Ele não veio para condenar, mas para salvar. Não veio para esmagar a cana quebrada, mas para restaurar o caído. Ele é misericordioso e tem prazer em perdoar. A ordem de Jesus ainda é a mesma: Vai e não peques mais!

GESTÃO E CARREIRA

BÁSICO REAL OFICIAL

O confinamento transforma a camiseta no novo normal. Como será no futuro próximo?

O projeto de qualquer grife é tornar-se essencial na vida das pessoas. Investimentos em previsões de tendências, desfiles e lançamentos de coleções sempre orbitaram em torno dessa lógica. Mas desde março, quando o mundo precisou se recolher pela própria saúde, parando fábricas e fechando lojas, uma verdade inconveniente veio à superfície: a moda, pelo menos essa que vem e vai ao sabor das estações, não é tão essencial assim.

Para sobreviver à pausa forçada e ao consequente maior baque da história recente em suas vendas, o mercado passou a não mais prever o que as pessoas gostariam de usar, mas a aceitar o que elas de fato precisam usar. A camiseta, o básico de qualquer guarda-roupa, o pijama e a moda íntima tornaram-se a força motriz do consumo de moda e passaram a definir, por ora, quanto o mundo está disposto a gastar.

Ao longo dos últimos dois meses, quando a pandemia desceu do Hemisfério Norte e passou a afetar o dia a dia do país, ouvimos empresários e executivos do mercado nacional e internacional para traçar um recorte factível dos humores dos clientes. Dados e análises de compra e busca nos sites indicam que a simplicidade agora move as autoindulgências de todas as classes sociais. A empresa de inteligência em mercado Compre & Confie estima que, entre o fim de fevereiro e o último dia de março, o segmento de moda tenha sido o que mais registrou perdas em vendas de todo o e-commerce brasileiro, com retração de 18,5%.

O CEO da Compre & Confie, André Dias, calculou o percentual de queda: 77,3°/o em camisetas do tipo polo, 48% em calças, 53,7% em saias, 53,3% em vestidos e 40,5% em ternos. Ao mesmo tempo, as vendas de outras peças dispararam: houve aumento de 52,2$ em cuecas, 22% em calçados masculinos e, surpreendentemente, 35,3% em espartilhos. Ao que parece, os casais apimentaram a vida em cativeiro comprando aquele velho acessório que prende a cintura e afina a silhueta, cuja estética havia sido jogada na fogueira do tempo no início do século 20.

No mundo, o pendor pelo básico é sentido desde fevereiro. O CEO do marketplace inglês Farfetch, José Neves, afirma que, mesmo sem números fechados, há uma mudança em curso na postura dos clientes que compram pela plataforma, que tem entre seus concorrentes gigantes como Net-A-Porter, Yoox e Lyst. ”É cedo para fazer previsões sobre categorias, mas já sabemos que os itens que agregam um pouco de elegância dentro de casa têm se mostrado mais populares”, afirma.

O CEO do grupo Icomm, Eduardo Kyrillos, responsável pelos sites OQVestir e Shop2Gether, vai na mesma linha ao analisar que, desde 16 de março, as vendas de peças íntimas e as mais relaxadas, chamadas pela indústria do luxo de loungewear, dobraram nas plataformas do grupo. Segundo ele, a busca por esse tipo de produto fez a Shop2Gether passar de 10.000 para 20.000 novos clientes por mês.

Como os preços dessas peças são geralmente mais baixos e a maioria das marcas abrigadas no site passou a fazer promoções para alavancar as vendas, o tíquete médio de compra baixou de 500 para 350 reais durante a pandemia. O essencial, parece óbvio, custa menos. ”É uma crise que nunca vi em 30 anos de profissão. Estamos acompanhando o comportamento de compra para definir novas estratégias e, por ora, o que estamos fazendo é montar vitrines mais direcionadas a esse segmento de roupas mais práticas e confortáveis”, diz Kyrillos.

É uma estratégia semelhante à adotada pela Amaro, do empresário suíço Dominique Olivier. A aba chamada Em Casa na página principal do e-commerce tornou-se a mais clicada da plataforma. A empresa calcula que as buscas por itens de lingerie aumentaram 70% no site, e a procura por pijamas cresceu 13vezes desde o início da quarentena no Brasil. Em contrapartida, a tendência animal print teve uma queda de 55%, um baque tão expressivo quanto o do couro, com buscas 35% menores no mesmo período.

Olivier não acredita que esse tipo de compra será perene. ”As pessoas ainda vão querer comemorar e comprar roupas para se divertir”, diz. A pandemia, no entanto, teria consolidado uma busca maior por valores embutidos na compra. ”As pessoas passaram a querer boa qualidade e preço justo. Digo isso há tempos, mas acho que, com a perda de renda e com um foco maior no que importa, os consumidores vão parar de pagar um valor elevado por peças que não valem a pena.”

É possível que esse comportamento tenha impulsionado as vendas da Oriba. A marca paulistana focada em itens básicos do guarda-roupa masculino tem preço médio de 250 reais e reportou um crescimento de 80% no fluxo de seu canal digital em abril. Camisetas e moletons foram os carros-chefes das vendas da grife. ”A mudança de comportamento que prevíamos que aconteceria em cinco anos foi acelerada pela pandemia”, afirma Rodrigo Ootani, estilista e diretor da marca. ”Essencial não é mais apenas uma questão estética, nem só relacionada ao preço que se paga, mas também às possibilidades de uso daquela roupa e quanto tempo ela vai durar. Nesse sentido, uma camiseta de bom corte e bom tecido pode ser, sim, o novo luxo.”

Isso não significa que vamos entupir o armário de itens básicos para sempre. Uma das maiores provas disso são as vendas estratosféricas da grife carioca Farm nas últimas semanas. Especializada em moda feminina estampada com todo tipo de florais, folhagens e grafismos que você possa imaginar, a marca do grupo Soma chegou a vender 1 milhão de reais por dia em seu e-commerce no mês passado. Em maio, estabilizou as vendas em 800.000 reais diários. A média anterior era de 420.000 reais.

”São vários fatores envolvidos nesse número. Primeiro, tivemos um aumento de estoque vindo das multimarcas que não tiveram condições de continuar recebendo produtos e, por isso, fizemos promoções agressivas de quase 50% de desconto para escoar tanta roupa. Além disso, temos uma audiência gigante e, modéstia à parte, a marca é uma das mais desejadas”, afirma o sócio fundador Marcello Bastos.

E não foi só no Brasil que a marca registrou esse pico de vendas. Em Nova York, o maior mercado da Farm fora do país, o e-commerce registrou, entre março e abril, um faturamento de 1,2 milhão de dólares – possivelmente, um recorde para uma grife nacional em solo estrangeiro. Em se tratando de moda, o que é essencial para um é diferente para outro. Ainda bem.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS “LIKES” E A MENTE

As ações cerebrais diante da troca de mensagens, podem aumentar os níveis de ocitocina, conhecida como “hormônio do amor”

Em tempos de redes sociais, um clic “gostei” promove uma ação positiva e motivacional no cérebro de quem curte e recebe a curtida. Mas todo cuidado é pouco com essa dinâmica de relacionamento em momentos contemporâneos, vulneráveis ao esvaziamento dos sentimentos humanos. O fato é que as pessoas possuem muitos “amigos” nas redes sociais e continuam solitárias esperando que alguém “curta” o que foi postado.

O estudo da neurobiologia do comportamento revela que o cérebro e a mente humana precisam de determinados estímulos que influenciam a autoestima, autoconfiança e a aceitação num determinado grupo de pessoas. O humano é um “animal social” que precisa intencionalmente de elogios como fator estimulante para ativar o sistema de recompensa emocional.

O cérebro humano “odora” novidades. O efeito das redes sociais nas estruturas cerebrais e mentais se dá por meio da estimulação neurobiológica do cérebro, da motivação, do desejo, do prazer, dos afetos, e essa está relacionada à produção da ocitocina, um hormônio produzido e estimulado pelo hipotálamo e armazenado na neuro-hipófise, de onde ela é liberada sob a influência de certos estímulos. A ocitocina é responsável por promover a criação de vínculos, a doação, a socialização.

A produção desse hormônio acontece quando se está na presença de bons amigos, nos relacionamentos saudáveis, quando se comemoram realizações e conquistas positivas, em situação de confraternização, empatia ou em algo que nos promova prazer, incluindo as redes sociais.

No cérebro humano, os núcleos accumbens promovem ações de recompensa e prazer, pois são responsáveis por receber estímulos, produzir sensações agradáveis devido a produção de substâncias químicas que promovem satisfação e bem-estar, estimulando a produção de dopamina.

De fato, as redes sociais provocam modificabilidade cerebral. Esse fenômeno é incontestável, pois evidências científicas demonstram que conexões neuronais são estimuladas por determinados fatores neurotróficos que estabelecem novas rotas alternativas nas células neuronais do córtex cerebral.

A neurobiologia explica que as ações cerebrais diante das redes sociais ou de uma simples troca de mensagens, em que um amigo curte o status na rede social, podem aumentar os níveis de ocitocina, conhecida como “hormônio do amor” (estimula sentimentos como empatia, generosidade e confiança e tem alta quando o indivíduo está apaixonado).

Estudos neurocientíficos revelam, quando o indivíduo compartilha informações pessoais na internet, que as regiões do cérebro envolvidas na conectividade são o córtex pré-frontal medial, amígdalas cerebrais e precuneus – regiões do cérebro envolvidas na autorreflexão e em determinados aspectos da consciência emocional.

Na verdade, o ser humano quer se sentir querido, produtivo e aceito nas suas relações, sejam elas reais ou virtuais. Mas todo cuidado é pouco quando o envolvimento emocional fica por conta das redes sociais. Se gostou dê um like.

MARTA RELVAS – é membro da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento. Docente da AVM Educacional/UCAM e da Universidade Estácio de Sá. Docente colaboradora da UFRJ/pub. Docente convidada do Instituto de Neurociências Aplicadas (INA). Livros publicados pela Wak e Editora Qualconsoante de Portugal.

EU ACHO …

UMA NOVA LIDERANÇA PARA UM NOVO MUNDO

De repente, vimos nossa rotina ser alterada por conta da pandemia do novo coronavírus. As relações pessoais ganharam novos vieses e as profissionais, dinâmicas até então impensáveis.

Nossa geração não se preparou para uma pandemia, muito menos na proporção como a da Covid-19. Então tivemos que nos adaptar. A crise nos revelou lacunas — e os grandes líderes foram desafiados pela necessidade de inovar e se adiantar ao que estava por vir.

Os primeiros grandes desafios, logo que os casos começaram a surgir pelo mundo, foram analisar a pandemia de forma preditiva e medir os seus impactos no dia a dia.

A criatividade e agilidade foram fundamentais para as ações iniciais. Era hora de assumir riscos. As ações tiveram que ser ágeis (afinal, o vírus tomou o mundo de sobressalto), o home office começou a fazer parte do cotidiano das corporações e as lideranças tiveram que se desapegar de práticas tradicionais para apostar em novas estratégias e conceitos, buscando sempre suportar a adaptação das (novas) realidades dos funcionários. Uma equipe conectada e integrada é fundamental nesse momento.

A pandemia mostrou que a famosa “zona de conforto” não existiria mais. Ela provou também que nossa capacidade de se adaptar ainda está longe do limite. Resiliência virou palavra de ordem dentro e fora das empresas, novos conhecimentos precisaram ser adquiridos e outros, reaprendidos. Isso é primordial para análise e tomada de decisões.

Reconhecer a importância de sentimentos para o momento, como empatia e pertencimento, é essencial para a valorização e segurança dos membros de uma corporação, e fazem a diferença em situações de crise. Isso é parte das “seis inteligências” listadas recentemente pelo Fórum Econômico Mundial: contextual; moral; social e emocional; generativa; tecnológica; e transformadora. Cada uma delas é imprescindível e a sua combinação gera o verdadeiro poder da liderança inteligente.

Vale ainda citar os papéis exitosos desempenhados por lideranças de países como Alemanha, Islândia e Nova Zelândia, com mulheres como chefes de Estado e que já se tornaram exemplo de sucesso na nova economia. Algumas características foram indispensáveis para isso como a capacidade de tomar iniciativas, resiliência, investimento no autodesenvolvimento, foco nos resultados e demonstrações abertas de integridade e honestidade, como aponta um estudo realizado pela consultoria de desenvolvimento e líderes Zenger|Folkman.

Diante de um cenário sem precedentes como o que vivemos, não há como ignorar as habilidades dos líderes e esquecer as inovações tecnológicas que desempenham papel urgente para que as atividades sejam realizadas remotamente, conforme recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), e também responsáveis por serviços, ferramentas e infraestruturas importantes para o combate ao novo coronavírus.

Sem a tecnologia não teríamos mecanismos para manter a saúde dos colaboradores e das corporações. É em momentos altamente dinâmicos que precisamos inovar de forma ágil e colocar à prova nosso potencial de adaptação. É assim que traremos novas soluções para um mundo completamente novo.

GISSELLE RUIZ – é diretora geral da Intel Brasil

OUTROS OLHARES

A DIETA DO JEJUM

Famosos e anônimos são adeptos do novo regime, que prevê longos períodos sem nenhuma alimentação. A estratégia funciona, mas é preciso ter cuidado

A modelo Gisele Bündchen, as atrizes Jennifer Aniston e Deborah Secco, a apresentadora Sabrina Sato e muitas outras celebridades garantem ter uma estratégia infalível para cuidar da boa forma. Elas ficam muitas horas, às vezes um dia inteiro – ou, nos casos radicais, até mais tempo -, sem comer. Por mais banal que possa parecer, a dieta do jejum prolongado tem conquistado adeptos por uma simples razão: a possibilidade de perder peso rapidamente. Gisele, que tem como objetivo principal não ganhar nem um quilo a mais, costuma fazer refeições completas apenas cinco dias na semana. Nos outros dois, ingere míseras 500 calorias, ou um quarto do que um adulto precisa. Certas vertentes permitem o consumo de alimentos leves durante a pausa, como frutas, café preto e chás. Outras defendem fechar a boca por 24 horas de uma a três vezes por semana. Antes do jejum, a última alimentação deve ser pobre em carboidratos, o que faz com que as taxas de insulina caiam e o corpo se prepare para queimar gordura. Depois dessa janela, os adeptos do jejum fazem uma refeição normal, de preferência rica em nutrientes e com pouca gordura. Laticínios e alimentos com muito glúten, portanto, devem ficar de fora.

Funciona? A curto prazo, sim. Sem comida, o organismo passa a usar suas reservas de glicose, frequentemente guardadas como gordura. Mas é preciso ter cuidado. Isso porque o jejum interfere na ação natural de sentir fome na hora certa – quando falta glicose. Há o risco considerável de, pouco depois de o indivíduo parar de jejuar, o peso rapidamente voltar ao que era antes. Queda de cabelo, constipação, anemia, irritabilidade e falta de concentração são outras consequências possíveis de privar o corpo de alimentos. Por outro lado, os apoiadores da dieta afirmam que a prática reduz, por exemplo, o risco de doenças cardiovasculares. “Alguns estudos mostram que a dieta é promissora para gerenciar a obesidade e comorbidades associadas, desde que feita sob recomendação e com acompanhamento”, explica a nutricionista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Cristiane Hanashiro. Para a jornalista Layal Antanios, 34 anos, o novo regime a ajudou a perder 20 quilos em apenas dois meses. “Hoje em dia, faço jejuns de doze horas em média”, diz. “Estou mais disposta e feliz. O jejum virou meu estilo devida.”

De tempos em tempos, alguma dieta que promete resultados milagrosos conquista legiões de adeptos para depois desaparecer por completo. Na década de 70, uma delas, ancorada em supostos estudos científicos, anunciava que bastava comer uma toranja em cada refeição (veja no quadro abaixo) que o problema de excesso de peso estaria resolvido. Dizia-se que a fruta possuía uma enzima que digeria gorduras de forma veloz, mas a tal propriedade nunca foi comprovada. Há alguns anos, uma ideia bizarra virou moda: trocar as refeições normais por papinhas de bebê. Quem aderiu à maluquice não perdeu muito peso e acabou apresentando quadros de deficiência de fibras e proteínas no organismo. A nova dieta do jejum virou febre na pandemia do coronavírus porque pessoas engordaram com a inatividade forçada do home office. Agora, elas estão desesperadas para eliminar os quilos extras. Nesse caso, ficar sem comer obviamente ajudará, mas é preciso fazer isso respeitando uma velha máxima: procure antes um especialista. Até que surja uma nova onda de dieta.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 08 DE AGOSTO

O BRADO DE TRIUNFO

Está consumado! (João 19.30).

A cruz não é um símbolo de fracasso, mas de vitória. Foi na cruz que Cristo triunfou sobre os principados e potestades. Foi na cruz que Cristo conquistou para nós eterna redenção. Jesus não foi para a cruz como um prisioneiro impotente, mas como um rei que caminha para a sua coroação. A penúltima palavra proferida por Jesus na cruz foi um brado de triunfo. Na língua grega, a expressão Está consumado! contém apenas um termo: Tetélestai. Essa palavra tem três significados: Primeiro, era usada para a conclusão de uma tarefa. Quando um filho terminava um trabalho, dizia ao pai: Tetélestai, ou seja, está concluído o trabalho a mim confiado. Segundo, era usada para quitação de uma dívida. Quando alguém ia ao banco pagar uma promissória, batia-se o carimbo no documento com a inscrição: Tetélestai, ou seja, a dívida foi paga. Terceiro, era usada para posse definitiva de uma escritura. Quando alguém comprava um imóvel e o quitava, recebia a escritura definitiva com a inscrição: Tetélestai, ou seja, agora você tem direito de posse definitiva. Quando Jesus foi levantado na cruz, ele concluiu o trabalho que o Pai lhe havia confiado, ou seja, de ser o nosso substituto. Além disso, na cruz Jesus pagou a nossa dívida e concedeu-nos o dom da vida eterna. Agora, temos perdão e salvação. Por causa da morte de Cristo, podemos tomar posse da vida eterna. O sacrifício de Cristo foi plenamente suficiente para nos oferecer eterna redenção!

GESTÃO E CARREIRA

DE OLHO NA SAÚDE (DO BOLSO)

Os efeitos devastadores da contaminação pelo coronavírus se alastram e afetam também a conta bancária dos brasileiros. Veja como minimizar o impacto da crise e proteger as finanças

No começo de abril, o Fundo Monetário Internacional divulgou um relatório indicando que os efeitos do coronavírus na economia mundial causariam uma crise comparável à da Grande Depressão, em 1929. Segundo o FMI, o isolamento social, medida que tem sido defendida por especialistas e autoridades em saúde como a mais eficaz contra a disseminação da doença, e a consequente paralisação de diversas atividades econômicas irão gerar uma retração de 3% na economia global em 2020. O momento atual, batizado pelo órgão como Grande Paralisação, será pior do que a crise de 2008 e, pela primeira vez desde os anos 30, fará tanto economias avançadas quanto emergentes entrar em recessão.

Com o Brasil não será diferente. O país será, inclusive, uma das nações em desenvolvimento mais afetadas. Isso porque antes mesmo do início da adoção de medidas de isolamento social a taxa de desemprego por aqui estava alta. No primeiro trimestre deste ano o índice subiu de 11,2% para 11,6%, o que representava 12,3 milhões de cidadãos sem trabalho. E as previsões são pessimistas. De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), por causa da pandemia, nos próximos três meses essa taxa pode decolar ainda mais, atingindo 16,1% da população e fazendo com que mais 5 milhões de trabalhadores entrem na fila do desemprego.

Soma-se a esse cenário a publicação da Medida Provisória 936 no início de abril, que autoriza às empresas reduzirem até 70% do salário e da jornada dos trabalhadores, visando evitar demissões. Ou seja, num futuro próximo, parte das pessoas estará sem emprego, dependendo do auxílio emergencial de 600 reais fornecido pelo governo, e outros tantos estarão com o orçamento reduzido em mais da metade. Nesse contexto, torna-se urgente criar estratégias para proteger também a saúde do bolso durante a pandemia.

Na ponta do lápis Independentemente de estar com a conta bancária saudável antes do coronavírus, o período de instabilidade pede uma revisão geral do orçamento. “Tanto os trabalhadores com carteira assinada quanto os autônomos e empresários precisarão conhecer sua situação financeira. E a verdade é que a maioria das pessoas não sabe quanto gasta e quanto recebe por mês”, afirma Ricardo Hiraki, sócio fundador da consultoria financeira Plano. Um exemplo disso é que, segundo um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) divulgado em janeiro, 48% dos brasileiros não monitoravam o orçamento. Outros 20% também não faziam nenhum registro de gastos ou recebimentos mensais.

Para aqueles que conseguiram poupar nos últimos anos, ter ciência do orçamento mensal é importante para mensurar por quanto tempo a reserva financeira irá durar enquanto a economia não voltar ao normal. “É lógico que será necessário fazer algumas mudanças de hábitos. Mas se você tem menos de seis meses garantidos é preciso realizar uma verdadeira operação de guerra”, diz Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin). A dica de ouro é mexer nas economias apenas quando não existir mais nenhuma outra fonte de renda. Se o contexto for de redução de salário ou de existência de seguro-desemprego, o mais aconselhável é adaptar o orçamento para a nova realidade.

CORTANDO NA CARNE

Na hora de reajustar as contas, priorize três frentes: alimentação, saúde e educação. As duas primeiras estão relacionadas à manutenção da vida, logo, não devem ser reduzidas; já a última é importante para garantir capacitação profissional, algo imprescindível para se manter no mercado após a crise. “Nos próximos meses nós vamos ver uma concorrência maior no mundo do trabalho. Por isso, mesmo quem não perdeu o emprego precisa pensar em se atualizar. Isso sem contar que aprender algo novo pode ser uma boa oportunidade de obter renda extra”, afirma Reinaldo. Então, aproveite para garimpar descontos e cursos gratuitos que estão sendo oferecidos por diversas instituições durante o isolamento.

Gastos com roupas, carros e lazer podem ser cortados ou reduzidos ao máximo. E, embora seja preciso economizar nas contas de aluguel, luz e energia, estas últimas podem ser negociadas, uma vez que as concessionárias estão mais flexíveis com a cobrança dos serviços. O Senado, por exemplo, aprovou um projeto de lei que proíbe decisões de despejo por falta de pagamento de aluguel até o dia 30 de outubro. Por sua vez, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) suspendeu por 90 dias os cortes no fornecimento de energia para os inadimplentes.

ESCOLHAS INTELIGENTES

Mas o não pagamento de despesas básicas deve ser adotado apenas em último caso. Isso porque as medidas citadas acima não impedem que o consumidor fique com restrições no nome, por exemplo. Sem contar que, após o período de crise, os serviços poderão ser interrompidos; e os valores devidos, cobrados normalmente. Uma opção melhor é aproveitar a prorrogação de pagamento de tributos federais, incluindo imposto de renda, simples nacional, PIS/Pasep e Cofins. Para os empreendedores, existe ainda a possibilidade de adiar ou parcelar a contribuição do FGTS dos funcionários. “Aproveite e verifique junto aos bancos e serviços contratados o pagamento de taxas e assinaturas desnecessárias. O ideal era já ter cortado esses gastos antes mesmo da crise”, afirma Ricardo, da consultoria Plano.

NO AZUL OU NO VERMELHO

A pandemia aumentou ainda mais o número de famílias brasileiras endividadas. Em janeiro, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) registrou recorde no número de lares com contas atrasadas (67%). Em dezembro do ano passado, o índice se encontrava em 65%, por exemplo. A orientação para quem está no vermelho é a mesma de sempre: renegociação.

E a boa notícia é que, diante do iminente aumento da inadimplência, cinco grandes instituições financeiras nacionais (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander) passaram a oferecer condições especiais para aqueles que desejam rever os pagamentos. É possível, por exemplo, suspender parcelas de financiamento por períodos que variam de 60 a 180 dias ou então encontrar novas linhas de crédito.

Contudo, o cartão de crédito e o cheque especial, grandes vilões do orçamento, devem continuar sendo evitados. Ainda que projetos de redução das taxas de juro dos dois produtos estejam tramitando no Congresso, apenas a Caixa Econômica Federal anunciou, de fato, a diminuição do cheque especial de 4,9% para 2,9% ao mês. A taxa de juro do crédito rotativo da instituição também caiu, de 7,7% para 2,9% mensais. “O cenário ideal é pagar à vista e, de preferência, com desconto”, afirma Reinaldo, da Abefin.

Você pode estar se perguntando: “Minha renda reduziu, então não preciso separar uma quantia para investimentos, certo?”. Errado. Os especialistas são unânimes em dizer que, para aqueles que estão no azul, agora também é hora de pensar nas aplicações, seja para aproveitar a baixa da bolsa de valores, seja para melhorar a reserva financeira. “Existem oportunidades em títulos de renda fixa prefixada e ativos atrelados à inflação, por exemplo”, afirma Ricardo, da Plano.

Para quem deseja investir em renda fixa em meio à economia instável, a dica é escolher títulos com liquidez diária, como o Tesouro Direto. Dessa forma, é possível resgatar o dinheiro a qualquer momento. Além disso, os investimentos prefixados são aqueles que você sabe quanto irão render desde o momento da aplicação até a data de vencimento dos títulos. Por isso, são mais seguros e menos influenciados pelas oscilações do mercado.

Já o investimento em renda variável requer cuidados maiores, principalmente porque são aplicações de longo prazo, mais suscetíveis ao sobe e desce da bolsa e que exigem sangue-frio para resistir à tentação de resgatar os valores em meio a uma queda. Para quem deseja arriscar, alguns setores prometem crescer, mesmo durante a pandemia, e podem ser mais seguros. É o caso dos títulos atrelados às empresas de varejo, em especial as que já atuam com e-commerce, e de bancos – já os ativos de companhias aéreas e petroleiras devem ser evitados.

Alguns fundos de investimentos e ações também tiveram uma diminuição no valor da aplicação e se tornaram mais vantajosos, principalmente aqueles de ramos tradicionais, como saúde e energia, que não costumam oscilar muito. É o caso das ações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3) e da administradora de saúde Qualicorp (QUAL3), que caíram de 15,68 reais para 7,17 reais e de 44,99 reais para 25,75 reais, respectivamente (conforme cotação feita em 27 de abril). “Quem investiu em dólar também pode se preparar para resgatar, uma vez que a moeda não deve subir mais do que o patamar atual”, finaliza Ricardo.

LUZ NO FIM DO TÚNEL

Confira as opções para complementar a renda durante a crise do coronavírus

AUXÍLIO EMERGENCIAL:

O governo liberou o pagamento do auxílio emergencial, que varia de 600 a 1.200 reais, para trabalhadores autônomos e mulheres que são responsáveis por chefiar a família, respectivamente

FGTS:

Foi liberado o saque de até 1.045 reais de contas ativas e inativas do fundo de garantia do tempo de serviço desde 15 de junho. além disso, está disponível o saque­ aniversário, que permite resgatar parte do dinheiro disponível na conta

SEGURO-DESEMPREGO:

Os trabalhadores que tiveram jornada de trabalho ou salário reduzidos vão receber um adiantamento de 25% do que teriam direito mensalmente caso solicitassem o seguro-desemprego

PIS/PASEP:

Todos os pagamentos do abono salarial do PIS/Pasep foram adiantados até junho. Têm direito os trabalhadores inscritos no sistema há pelo menos cinco anos, que receberam até dois salários mínimos mensais com carteira assinada e exerceram atividade remunerada durante, pelo menos, 30 dias em 2019

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM GRITO QUE RESSOA

Diversos são os danos que relacionamentos abusivos causam às vítimas, porém ainda há intervenções a serem feitas. Muitas são afetadas direta e indiretamente por comportamentos destrutivos do companheiro

Relacionamentos amorosos são estruturas complexas e dinâmicas. Espera-se, minimamente, que para a manutenção de uma relação saudável deva existir um cenário de harmonia, sintonia de valores, respeito, companheirismo, lealdade, dentre outras características funcionais. Porém essa instigante estrutura de relação humana pode apresentar disfunções altamente danosas para uma ou ambas as partes: a manifestação da violência, de forma visceral ou subjetiva.

De acordo com Bittar e Nakano (2017), a violência na relação afetiva pode produzir impacto significativo para a vítima, resultando em danos diversos. em curto e em longo prazo, tais como: perturbações emocionais, baixa autoestima, depressão, raiva, ansiedade, ideação suicida, insucesso escolar, consumo de substâncias, disfunções de comportamento alimentar, estresse pós-traumático e comportamentos sexuais de risco. Muitas vezes, o problema se inicia ainda no começo da relação – e a esperança de que o cenário mude é um dos pontos mais difíceis para que o relaciona mento seja finalizado. A expectativa irreal, as ideias irracionais de que o problema está na vítima e as eternas promessas de mudança do agressor perpetuam as cenas de terror.

Segundo Beserri et ai (2016), a violência nas relações de intimidade (VRI) ocorre a partir da adolescência e durante a vida adulta, frequentemente no âmbito do casamento ou da coabitação. A começar no namoro, essa forma de violência é na maioria perpetrada pelo sexo masculino contra o sexo feminino, podendo ainda ocorrer no âmbito de relações de intimidade de pessoas do mesmo sexo, ressaltando que esse tipo de violência é uma pandemia que afeta essencialmente as mulheres e perpassa todos os grupos étnicos, culturais, níveis socioeconômicos ou educativos e tem raízes históricas e culturais. Certamente, as mulheres são afetadas direta e indiretamente por comportamentos destrutivos advindos do(a) companheiro (a) – e a percepção dos sintomas no início pode ser a grande válvula de escape para que outros problemas, ainda mais graves, possam ser manifestados. Os gritos de socorro ocorrem, mas será que sempre são ouvidos?

Além dos fatores objetivos que sustentam a relação amorosa problemática, Dias et ai. (2012) citam que existem duas narrativas românticas:

a) o conto de fadas do príncipe encantado que “venera” a princesa, sustentando crenças que legitimam a violência (e. g., que o melhor da relação supera o pior, que a mulher pode parar a violência se se aproximar do estereótipo da mulher ideal ); e

b) o romance negro, que retrata o homem como naturalmente controlado, e descreve as relações como tipicamente dolorosas para a mulher, naturalizando o seu sofrimento. Indubitavelmente esses dois modelos são manifestações frequentes do imaginário social – crenças disfuncionais de que “pelo amor tudo vale”, “o amor tudo vence”, “não podemos abandonar aquilo que Deus uniu”, todos pensamentos automáticos que relevam profundas feridas cognitivas no indivíduo. Necessitam-se intervenções apropriadas para essas vítimas, tanto de apoio de redes de proteção como do auxílio da justiça e do campo psicológico.

Silva, Coelho e Caponi (2007) debatem que, atualmente, as vítimas de agressores e outras formas de violência podem contar com programas de apoio na resolução de seus problemas familiares, tanto governamentais quanto não governamentais. Pela prática, nesses programas de atendimento à vítima percebe-se que a maioria das queixas (98%) parte de mulheres que são vítimas de alguma forma de violência no interior do espaço doméstico. Fica evidente que a violência doméstica tem se transformado numa forma cada vez mais brutal de agressão contra a mulher, mesmo que esta já possa contar com atendimento especializado. Infelizmente, assim como em outros fenômenos humanos, o tempo é fator essencial para resolução desta problemática, ou seja, não devemos esperar pelo pior para que a intervenção ocorra. Nesse cenário, ninguém deve ser espectador de brutalidades, sejam elas das mais sutis até as mais letais – violência é violência. E atenção, pois ela pode ser silenciosa, sutil, sem marcas físicas. Mas tão perigosa quanto qualquer outro tipo de violência, pois deixa marcas emocionais profundas. A identificação precoce e o tratamento são muito importantes.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento (UFPE), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada (UPE), terapeuta certificado pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e psicoterapeuta cognitivo-comportamental. Contato pelo Instagram @igorterapia

EU ACHO …

O BRASIL E O MUNDO PÓS-PANDEMIA

A deterioração dos órgãos internacionais precisa ser contida

Apontei em meu e-book Ano Zero que a ordem global, tal como a conhecemos desde o fim da II Guerra Mundial, estava em crise antes mesmo da Covid-19. A pandemia apenas agravou as tendências existentes e nos impôs novos desafios. Pelo menos três fatos associados à governança global durante a pandemia evidenciam a necessidade de um novo padrão, que seja eficaz, de relações entre as comunidades.

O primeiro é a dificuldade de a Organização Mundial da Saúde se posicionar com clareza. A OMS foi lenta e ainda é confusa em suas recomendações. Os Estados Unidos atribuem o problema a um predomínio chinês na entidade. A OMS vive uma crise de credibilidade.

O segundo fato reside na omissão da Organização das Nações Unidas durante a pandemia. A ponto de muitos questionarem a própria utilidade da organização, deixando patente a urgência de ela se reinventar. Não houve, até agora, por exemplo, nenhuma reunião do seu Conselho de Segurança para tratar do tema. O terceiro fato é constatado na demora (e na insuficiência) de as instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, se mobilizarem para produzir um pacote de iniciativas que possam mitigar os trágicos efeitos econômicos da doença no mundo.

OMS, ONU, instituições financeiras: os principais pontos de apoio da governança global – haveria outros exemplos – dão flagrantes demonstrações de ineficácia. Diante de uma crise sanitária de escala planetária, nenhum desses órgãos foi capaz de articular uma ação conjunta em nível planetário. A crise profunda em que se encontram os organismos internacionais lembra o naufrágio da Liga das Nações, criada com as melhores intenções no pós- I Guerra Mundial. A organização morreu pelo desinteresse dos EUA, pela agressiva política de Adolf Hitler e por uma estrutura decisória paralisante. Não esteve à altura do imperativo de mediar as tensões dos anos 1930 e seu fracasso deu lugar à II Guerra Mundial.

O modelo criado no pós-II Guerra experimentou amplo sucesso nos últimos 75 anos. Tendo a ONU como centro, impediu novas grandes guerras, conteve a proliferação nuclear e liderou ações humanitárias. Mas perdeu a dinâmica. Alguns choques internacionais produzem um sentimento de abandono e isolamento. Em 2020, quando essa ordem dava sinais de esgarçamento, veio a pandemia e, por falta de lideranças, nossa reação ao novo coronavírus só fez acentuar essa deterioração.

O Brasil deve observar os acontecimentos e avaliar que prioridade dará ao resgate e ao aprimoramento das estruturas de governança global. Deve ponderar a relevância que lhe convém atribuir ao fortalecimento dos mecanismos de ação multilateral num mundo marcado por problemas que não respeitam fronteiras e pela disputa hegemônica entre Estados Unidos e China. Deve refletir, ainda, à luz de interesses concretos, acerca de seu relacionamento com essas potências. Como nação, devemos olhar o passado, entender o presente e, com sentido de realidade, dar nossa contribuição para a construção de um futuro com maior segurança. Em todos os sentidos.

**MURILLO DE ARAGÃO

OUTROS OLHARES

BALANÇA, MAS NÃO CAI

Os restaurantes por quilo, uma preferência nacional, estão mudando seu bem-sucedido sistema para se adaptar às novas regras de higiene e de distanciamento social

Nascido e criado no Brasil (pelo menos em grande escala), o restaurante por quilo se tornou o ponto de encontro por excelência dos funcionários de escritórios no intervalo para o almoço, sempre cheio de gente, de fila e de comida razoável a bom preço. Escolhendo bem o horário, dava para em cinco minutos a pessoa pegar o prato, se servir, pesar e se sentar à mesa, muitas vezes com desconhecidos, para fazer sua refeição. Até, claro, o novo coronavírus chegar e tirar de cena funcionários, escritórios e saídas no meio do dia para comer fora. Agora que se ensaia uma volta à vida mais ou menos normal, os restaurantes em geral estão no paredão dos cuidados para prevenir contágio, sob a mira de uma bateria de regras de distanciamento, de higiene e de etiqueta. Neste contexto, qual será o futuro do quilo – categoria que enquadra 60% das casas de pequeno porte -,   geralmente um local simples, de bufê aberto, todo mundo manipulando os mesmos talheres para se servir, um atrás do outro na fila que vai da entrada à balança, com mesas compartilhadas e poucos funcionários a postos? A resposta ainda está em fase de preparação, visto que as reaberturas têm sido lentas e graduais, mas uma coisa, é certa: o restaurante por quilo não será igual ao que era antes.

Todos os estabelecimentos do setor de refeições vão ter de passar por adequações, mas o quilo é um alvo preferencial, por ter várias de suas características afetadas. Primeiro, as filas têm de respeitar o distanciamento social (entre 1 metro e 2 metros), conforme marcação fixada no chão. As mesas também precisam ficar distantes entre si e só podem acomodar duas pessoas, separadas por uma divisória de acrílico. Mais impactante ainda será a forma de servir: todos os pratos do bufê têm de estar cobertos, com uma pequena abertura para o pegador. Em muitas cidades e estados, é obrigatório que seja manipulado por um funcionário conforme a orientação do cliente – o que deve resultar em serviço mais demorado. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei) lançou uma cartilha que estabelece, além do uso de máscara por todos os que trabalham nesses locais, a oferta de recipientes de álcool em gel e temperos em sachês. Ela não faz da presença de alguém para servir os pratos uma imposição, alegando que tanto a Anvisa quanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentam esse procedimento em caráter de recomendação. “Nós orientamos o dono do estabelecimento a considerar essa alternativa. Vivemos aqui sob um excesso de regulamentações”, reclama Paulo Solmucci, presidente da Abrasei.

Poder se servir é justamente um dos atrativos dos restaurantes por quilo. Pesquisa da consultoria Galunion mostra que, neles, só 20% dos fregueses gostariam de ter o prato abastecido por alguém. “Observamos que isso gera um mal-estar ao cliente, que preza a autonomia de colocar quanto quiser sem dar satisfação de suas escolhas”, diz Eutímio Brandão, dono de dois restaurantes em Maceió, onde está autorizado o self-service com uso de luvas. No Rio de Janeiro, onde isso é proibido, o Fazendola ainda mantém um bufê com pratos embalados em plástico, mas só no almoço, e ainda implantou um cardápio à la carte. “Precisei achar alternativas para poder sobreviver. No sistema por quilo, os clientes comem com os olhos. Quando são servidos, o valor médio da refeição cai”, explica o sócio Alex Carvalho. No Fazendola, como na maioria dos restaurantes, o serviço de delivery é outra arma essencial para equilibrar as contas.

O bufê self-service com balança no fim foi inventado por acaso em 1984, em Belo Horizonte, pelo chef Fred Mata Machado: ele tinha um restaurante à la carte, resolveu criar uma entrega de quentinhas cobradas por quilo, os clientes pediram para poder comer ali mesmo… e voilà.“Com essas mudanças agora, o conceito fica meio desfigurado. Mas tanto o restaurante quanto o cliente vão se adaptar, porque comida caseira é quase uma exigência dos brasileiros”, aposta Machado, que chegou a ter doze restaurantes e, aos 73 anos, ainda mantém um em funcionamento. “Há uma tradição brasileira de comer diretamente das panelas em cima do fogão. O quilo remete exatamente a essa imagem familiar”, concorda a historiadora Mary Dei Priore. Fica a previsão: passado o pior, clientes e restaurantes por quilo voltarão a se encontrar e serão felizes por muitos e muitos almoços.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 07 DE AGOSTO

CUIDADO COM A INVEJA!

… Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou… (Genesis 4.4b,5a).

A inveja é uma enorme tragédia. Tem provocado guerras, separado pessoas, destruído famílias, arruinado casamentos e levado muita gente ao fundo do poço. A inveja é um sentimento medíocre. É filha da ingratidão e mãe da infelicidade. O invejoso, em vez de alegrar-se com o que tem, entristece-se com o que os outros têm. Isso aconteceu na família de Adão e Eva. Seus filhos Caim e Abel receberam as mesmas instruções. Aprenderam a adorar a Deus. Caim era lavrador, e Abel, pastor de ovelhas. Ambos ofertaram ao Senhor. Caim ofertou os produtos da terra, e Abel, as primícias do rebanho. Deus se agradou de Abel e de sua oferta, mas não se agradou de Caim e de sua oferta. Antes de receber a oferta, Deus precisa receber o ofertante. Antes de colocarmos nossa oferta no altar, precisamos apresentar a Deus a nossa vida. Deus não se agradou de Caim. Por conseguinte, não se agradou de sua oferta. Em vez de Caim reconhecer seu pecado e imitar o irmão Abel, encheu-se de inveja e resolveu matá-lo. Seu ódio velado transformou-se em criminosa dissimulação. Caim chamou o irmão para uma armadilha e, depois de matá-lo, ainda tentou amordaçar sua consciência, fugindo da responsabilidade. Cuidado com a inveja, que ronda sua alma para escravizá-la.

GESTÃO E CARREIRA

ALTA PROCURA

A covid-19 mexeu com o mercado de trabalho e provou que os profissionais precisam estar preparados para demandas inesperadas

“O empregado não saiu pro seu trabalho, pois sabia que o patrão também não tava lá.” A música O Dia em que a Terra Parou, de Raul Seixas, representa muito bem a rotina da maioria dos trabalhadores brasileiros durante o isolamento social causado pelo coronavírus. Mas, enquanto muitos estão em casa e outros inclusive perderam o emprego, alguns setores viram um aumento repentino na demanda por profissionais. A área da saúde, por causa da natureza da crise, é uma das que mais cresceram em ofertas de emprego. Um levantamento da plataforma de recrutamento Catho, que comparou as vagas abertas nos meses de março de 2019 e março de 2020, indica que profissões relacionadas a esse setor chegaram a abrir quase 4.000 oportunidades em apenas uma semana – outra pesquisa, esta do site Glassdoor, realizada no início de abril, revelou haver mais de 12.000 vagas para médicos e 2.000 para enfermeiros.

Além da saúde, há outros segmentos com o mercado aquecido – é o caso de TI, logística e varejo. Uma das explicações vem do aumento das compras online. Um estudo da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com o Movimento Compre & Confie, identificou que as compras via e-commerce cresceram 30% entre os dias 25 de fevereiro e 20 de março, quando comparadas com o mesmo período do ano passado. Além disso, dados da Ebit, em parceria com a Nielsen, mostram que o número de novos consumidores, ou seja, aqueles que estão adquirindo itens pela internet pela primeira vez, subiu 32% entre os dias 11 e 25 de março. O segmento dos supermercados também está em alta. A Catho revela que esse setor tem mais de 6.000 oportunidades de emprego. E o Glassdoor indica também um aumento para o setor de atendimento ao cliente (com cerca de 10.000 vagas) e logística (mais de 3.000). “Em um primeiro momento, a gente viu um rápido congelamento das vagas. Mas agora alguns setores estão indo na contramão e já se organizaram para voltar a contratar em cargos de diversos níveis”, diz Carolina Cabral, gerente sênior de recrutamento da consultoria Robert Half. Esse é o caso das varejistas que estavam se preparando para uma transformação digital. ”Isso não é coisa do momento. É um movimento que já estava acontecendo, tanto que as empresas que estão se destacando já tinham uma plataforma de e-commerce pronta”, afirma Carolina.

PARA VER E SER VISTO

Essa explosão de procura por profissionais de alguns setores em decorrência da crise era difícil de ser prevista. Por isso, fica a dúvida: como se preparar para uma explosão repentina no setor no qual trabalha? O segredo está na capacitação constante. Quanto mais apto e atualizado estiver, maiores serão as chances de conseguir se posicionar melhor no mercado durante uma alta. Segundo Carolina, o ritmo do profissional tem de ser guiado pelo movimento do setor, e mesmo quem não se preparou com antecedência pode aproveitar. “Agora é o momento de tirar os projetos da gaveta. E não podemos pensar apenas na capacitação técnica da área. Nós ainda temos um problema grande com idiomas, então aprender inglês é algo que todos nós precisamos, por exemplo.”

Além disso, não basta estar pronto, é preciso que as empresas saibam disso – logo, manter o currículo atualizado e ser ativo em redes sociais profissionais, como o LinkedIn, são atitudes importantes. “Esse é o momento de se preocupar com a imagem e a visibilidade, porque os headhunters estão olhando”, diz Carolina. E isso é uma tendência global. Segundo um estudo do site americano Career Builder, 70% dos empregadores olham as redes sociais dos candidatos.

Para se destacar na multidão, o currículo precisa ser atrativo e customizado para a vaga em questão: vale ajustar suas experiências para mostrar como elas são relevantes para aquele emprego – sem mentir, é claro. No CV, a experiência profissional é o que mais pesa: 80% dos recrutadores valorizam mais essa informação, de acordo com outro estudo da Catho, feito com 400 profissionais de recrutamento em 2019.

COMPORTAMENTO VALE MUITO

Nos últimos anos, tem se falado bastante sobre a importância das competências comportamentais para manter a empregabilidade. E os números provam isso: um estudo da Universidade de Michigan mostra que quem possui habilidades sociais de controle emocional e comunicação é 12% mais produtivo. “Muitas empresas vêm buscando trabalhar a transformação digital, o que, por si só, já pede uma mudança de mindset. E agora com o coronavírus se mostrou cada vez mais importante a capacidade de se reinventar e ser flexível”, afirma Susanne Andrade, coach e autora do livro O Segredo do Sucesso É Ser Humano. Para a especialista, o pós-crise vai demandar profissionais com inteligência emocional, empatia e criatividade, além de aptidão para comunicação e cooperação – independentemente da área. “O mundo não será mais o mesmo, e para conseguir espaço no mercado será preciso desenvolver novas habilidades de relacionamento.”

SAIRÃO GANHANDO

Confira os segmentos que devem crescer nos próximos meses

SAÚDE:

É a mais demandada hoje, com oportunidades para médicos, enfermeiros e farmacêuticos. as vagas devem reduzir após o surto de contaminação, mesmo porque parte dos profissionais está trabalhando em contratos temporários. No entanto, o coronavírus fortaleceu a telemedicina, que deve se expandir pelo país.

LOGÍSTICA:

O aumento das compras online criou um efeito cascata e exigiu mais entregas nas cidades. e não basta fazer o produto chegar, é preciso garantir uma boa experiência de compra. Além disso, segundo a empresa de marketing digital Semrush, as buscas de clientes nos serviços de delivery aumentaram, em média, 80% em todo o mundo entre fevereiro e março, abrindo espaço para profissionais que trabalham em startups de entregas, comoRappi E IFood.

TECNOLOGIA:

Assim como a logística, a área de tecnologia da informação também se beneficiou com a alta do e-commerce. Um levantamento da Revelo, empresa de tecnologia para recursos humanos, mostrou um crescimento de 15% na procura de profissionais do setor. As principais funções são: Desenvolvedor, Cientista de Dados e Inteligência de Mercado.

VAREJO:

Com o isolamento social, o e-commerce se mostrou uma plataforma importante de compras. as grandes lojas intensificaram seus sites, enquanto as que ainda não ofereciam essa modalidade precisaram se adaptar rapidamente para não perder clientes. Para os supermercadistas, houve um aumento de vagas também nos setores de apoio, como limpeza e controle de estoque.

ATENDIMENTO AO CLIENTE:

Uma plataforma de e-commerce pede uma equipe de atendimento ao consumidor para manter a relação em caso de dúvidas, trocas e reclamações. Embora seja um setor tradicional, deve passar por mudanças. muitas empresas transferiram, por exemplo, toda a equipe de Call Center para o modelo de trabalho remoto, e essa é uma tendência que deve se manter após o isolamento social.

CARGOS AQUECIDOS

Os profissionais que estão ganhando destaque durante a pandemia

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRABALHANDO AS DEFICIÊNCIAS

Embora a Psicologia Positiva enfoque as forças e recursos pessoais, é ingênuo pensar que não devemos olhar o que falta

Ao receberem o resultado do VIA (inventário que mede as forças pessoais de um indivíduo), muitas pessoas, vítimas que são da famosa cultura do GAP, me perguntam: “Como é que eu faço para desenvolver a minha 24ª (e legítima) força? Eu consigo trazer a minha última força para algum lugar dentre as 5 primeiras? A esta última pergunta respondo: “Depende. Você acredita em reencarnação?” e diante de uma resposta negativa respondo: “Então não”. As pessoas ficam aturdidas e acham graça na minha resposta, embora raramente a compreendam. Explico que de fato, graças à neuroplasticidade e à neurogênese, temos um cérebro plástico, capaz de desenvolver novas redes neurais o que, pelo menos em tese, nos permite mudar qualquer tipo de comportamento: de tocar piano a ver a vida de forma mais otimista. Tudo depende de duas coisas: do esforço que empregamos no desenvolvimento desse novo comportamento e do tempo com que o fazemos. Falando de uma forma mais clara, ainda que me dedique a isso, não viverei o suficiente para ver o meu autocontrole pular da 24ª para a 1ª posição no ranking das minhas forças pessoais. Pelo menos não em uma única vida, daí a brincadeira com a reencarnação.

Por outro lado, isso não significa que não deva estar atenta para o meu autocontrole, muito menos que deva deixar de me esforçar para desenvolvê-lo. Até porque um autocontrole “desgovernado”, como costumo chamar as últimas forças pessoais que são esquecidas pelas pessoas, poderia, facilmente, colocar tudo o mais a perder. Porém a verdade é uma só: Definitivamente não conseguirei mudar o mundo por meio do meu autocontrole. E por mais que me pareça estranha a ideia de alguém mudar o mundo por meio do autocontrole, não posso esquecer do exemplo de Gandhi, que muito provavelmente o fez.

Quero com isso mostrar que, embora evidencie o uso das forças e dos recursos pessoais, a Psicologia Positiva não nega a importância de que as deficiências sejam devidamente tratadas.

Feita esta introdução, gostaria de dizer que além do desenvolvimento e aprimoramento das minhas forças pessoais, costumo também manter um olhar atento para as minhas deficiências e, mais do que isso, desenvolver um pouco mais ali forças que no VIA aparecem, digamos, no “segundo pelotão”.

Recentemente fiz isso com a força pessoal da cidadania. Puxa, assumir que preciso desenvolver a cidadania em uma época do (enjoativo) politicamente correto não é tarefa fácil. Felizmente como com a coragem que, ao lado da autenticidade, me fazem ir em freme e assumir que nunca gostei muito de trabalhar em grupo (uma das características dessa força). Foi assim na escola e continuou sendo durante toda a minha carreira que, coincidentemente ou não, tanto na clínica quanto em sala de aula, sempre me levaram a uma atuação “solo”.

Dessa vez fiz diferente. Passei meses desenvolvendo um projeto que me obrigaria a não apenas utilizar as minhas forças pessoais, mas também a cidadania.

O resultado disso, que muitos de vocês já conhecem, foi o lançamento da Make it Positive, a primeira revista brasileira de Psicologia Positiva! Uma revista eletrônica trimestral, bilíngue e gratuita.

É possível que oferecer uma publicação dessa forma ao público em geral tenha algo a ver com cidadania. Mas para mim foi muito mais do que isso. Este foi um projeto feito a muitas mãos. Mãos generosas que genuinamente deram o seu melhor para que tivéssemos um trabalho de qualidade. Mãos parceiras que imediatamente abraçaram o projeto com o coração e que vibraram comigo pelo sucesso coletivo. Este projeto me fez ver que há coisas que somente o trabalho em equipe é capaz de fazer. Além disso, pude sentir na pele que, por nos tornar seres humanos melhores, trabalhar nossas deficiências também pode nos levar à felicidade.   

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professoras universitária e diretora do Instituto de Psicologia e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

EU ACHO …

ABERRAÇÕES

Sempre escolhi acreditar que a preferência pela ignorância fosse um traço de baixa expressividade, ainda que de penetração elevada. Explico: a expressividade é a capacidade de expressão de um fenótipo associado a determinado genótipo, enquanto a penetração é a fração da população com determinado genótipo que exibe o fenótipo a ele associado. Fosse a preferência pela ignorância um traço de baixa expressividade, ainda que de penetração elevada, teríamos uma grande variabilidade da preferência pela ignorância na população. Nessas circunstâncias, teríamos de conviver com alguma preferência pela ignorância, mas ao menos teríamos o alento de que, enquanto alguns com o genótipo associado expressariam o fenótipo em sua plenitude, outros o fariam de forma quase imperceptível. Em outras palavras, seriam, mas pouco pareceriam.

Não sei bem por que escolhi acreditar nessa tese. Talvez porque o Brasil de outros tempos me parecesse mais pensante; quiçá porque algumas das pessoas mais interessantes com as quais convivi não me permitissem enxergá-lo de outro modo. Uma delas, a mais importante, foi-se há quase exatos 30 anos.

O que terá sido? Um erro de reparo no DNA? Uma deleção do gene que regulava a expressividade do fenótipo? Um rearranjo que removeu determinada sequência genética e a reacoplou de modo invertido? Difícil saber. Afinal, as aberrações genéticas não são tão facilmente mapeáveis apesar dos avanços da medicina diagnóstica.

O fato é que a vemos todos os dias. Desde comentários nas redes sociais de que a língua portuguesa é binária – só há, então, a forma certa e a errada, para o desespero de Guimarães Rosa – até a negação da gravidade da crise de saúde pública e da crise econômica. A preferência pela ignorância está nas receitas médicas para hidroxicloroquina e prednisona nos pacientes assintomáticos ou com apresentação leve de Covid-19. Está nos textos anônimos e infundados, sem referência a qualquer literatura científica, que circulam no WhatsApp e são lidos como inquestionáveis qualquer que seja o assunto. Está todos os dias na boca do presidente da República. Aparece ao menos uma vez por semana nas declarações do ministro da Economia. Está no hábito mental de repetir clichês sem parar para refletir sobre o que significam. Cito alguns deles: “a Constituição não cabe no Orçamento”, “é preciso retomar a agenda de reformas para a volta da confiança”, “a renda básica é impagável” e, “se mexermos no teto de gastos a inflação volta”.

Houve tempo em que clichês eram menos recorrentes na economia. Falo sério, e sei que é difícil acreditar. Houve tempo em que economistas questionavam. “Tem sentido?” “Por que é assim?” “Será que dá para pensar melhor nessa tese se a olharmos de outro modo?” Falo porque tive o privilégio de conviver com dois grandes economistas que não aceitavam nada acriticamente, tampouco se contentavam em sacar um volume da prateleira em que se escorar, ainda que ambos houvessem lido muito mais do que oito livros. Com um deles aprendi a ser “do contra” para além das relações pessoais. Pensar, afinal, passa pela elaboração de contrapontos. “É assim mesmo? Então vou testar se realmente é.” Com o outro aprendi a sempre confiar em outras abordagens. “E se tentasse entender esse problema a partir das ciências naturais?” Essas posturas são complementares, e, não à toa, as pessoas sobre as quais escrevo eram grandes amigos. Como já disse, um deles se foi há 30 anos. O outro se foi há 10.  Um sucumbiu a uma doença no dia 5 de julho de 1990. O outro foi operado da mesma doença 20 anos mais tarde, no dia 5 de julho de 2010, falecendo pouco depois.

Se estivessem aqui, hoje, estariam assustados com o estado de aberração permanente que se tornou o Brasil. Mas também desconfiariam que clichês escondem a falta de pensamento e saberiam se divertir com a elevadíssima expressividade da preferência pela ignorância. O humor e a ironia são não apenas formas saudáveis de extravasar frustrações. São, sobretudo, um modo de resgatar formas de genes perdidos que modulam aberrações.

MONICA DE BOLLE – é pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

QUASE LÁ

Não há aventura mais extraordinária, hoje, do que a corrida pela descoberta de uma vacina contra o novo coronavírus. É possível que até o fim do ano desponte algum imunizante eficaz – e o Brasil, com milhares de voluntários nos estudos, está na ponta de lança desse movimento

Um tema, não o único, mas primordial, tem ocupado o tempo de uma série de encontros remotos, por meio de videoconferência entre campeões da filantropia e do capitalismo mundial: a busca de uma vacina contra o novo coronavírus. Há cerca de dois meses, o fundador da Microsoft, Bill Gates, o megainvestidor Warren Buffett e o empresário brasileiro Jorge Paulo Lemann trocavam impressões sobre a pandemia e, num momento em que o mundo estava extremamente abalado pelo surto, demonstravam algum otimismo. Lemann estava particularmente animado porque havia sido procurado pelos diretores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, para ajudar na busca por um imunizante. Um pedaço relevante da pesquisa, realizada em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, poderia ser feito no Brasil. Disse sim no mesmíssimo dia, e se comprometeu a bancar os custos de aplicação da substância experimental em 2.000 voluntários paulistas – 1.000 deles de modo direto e a outra metade com a assistência de um  par de apoiadores, a Fundação Brava e a Fundação Telles. Nascia ali uma das maiores apostas da humanidade na luta contra o novo coronavírus. “Estamos esperançosos, animados, e tentando ajudar os profissionais que mais entendem do assunto no mundo”, disse Lemann. Por força de atávica discrição, ele não confirma, mas sabe-se que, ao anúncio de uma vacina, estaria disposto a desembolsar algo em torno de 30 milhões de reais para apoiar algum fabricante de modo a incentivar rápida produção por aqui.

Nunca antes, como agora, gastou­ se tanto (estima-se que o valor global chegue a mais de 20 bilhões de dólares) com a procura de uma vacina que proteja o mundo doSars-CoV-2, o vetor da Covid-19. Afinal, até a quinta­ feira 9, o vírus já atingiu em números oficiais mais de 12 milhões de pessoas, com cerca de 550.000 mortes – quase 70.000 no Brasil. Na corrida para interromper uma tragédia ainda maior, existem hoje em todo o planeta em torno de 160 projetos de imunizantes. Destes, 21 já estão em fase de testes clínicos em humanos – e dois chegaram à derradeira etapa exigida pelas agências regulatórias para aprovação. Ambos estão no Brasil: o de Oxford e o da chinesa Sinovac Biotech, que também desembarcou para testagem, por meio do Instituto Butantan, de São Paulo, ancorado pelo governo do estado. Especialistas ouvidos acreditam que, com a aceleração de etapas, uma vacina possa ser posta em circulação ainda entre novembro e dezembro deste ano. A gigante Pfizer, por exemplo, já começou a fabricá-la, mesmo sem certezas, em procedimento raro, mas justificável, de modo a ganhar tempo. Evidentemente, só a distribuirá depois de confirmações absolutas, com total segurança. Trata-se de uma corrida em que o vencedor (tomara que assim seja) ganhará em tempo recorde. No caso do sarampo, por exemplo, passaram-se quatro anos entre a eclosão da doença e a proteção química.

A participação brasileira nesta busca pelo santo graal é mundialmente relevante, e precisa ser celebrada. O país foi procurado em virtude da explosão de casos, e não há como negar essa constatação (testam-se vacinas onde elas são necessárias), mas também como resultado de um histórico de reputação internacional na área. O programa de vacinação brasileiro, apesar de recentes recuos durante a Presidência de Jair Bolsonaro, é invejável. Diz a pesquisadora brasileira Sue Ann Costa Clemens, diretora do Instituto de Saúde Global da Universidade de Siena, a interlocutora inaugural entre Oxford e Lemann: “No início de maio, muitos outros países tinham curva ascendente como ado Brasil. O país foi escolhido pela excelente estrutura dos centros de pesquisa, capacidade dos pesquisadores e por ter conseguido, em pouquíssimo tempo, grande quantidade de voluntários. “Foram dois dias para encontrar instituições aptas, uma semana para a confirmação de patrocinadores e apenas 44 dias entre o primeiro contato e o início dos trabalhos. “Estou no comitê científico de outras duas vacinas e não vi essa agilidade em lugar algum”, diz Sue, coordenadora do estudo no Brasil.

Louve-se, em particular, a estrutura da Fiocruz, no Rio de Janeiro, que anualmente tira da linha de montagem 120 milhões de doses de imunobiológicos contra febre amarela, pólio, sarampo, caxumba e rubéola, entre outros. A Fiocruz está se preparando para, dado o sinal verde tão esperado, produzir mensalmente até 40 milhões de doses contra a Covid-19. Isso significa que em pouquíssimo tempo, pouco mais de cinco meses após a comprovação da eficácia da vacina, toda a população brasileira estará imunizada. Para isso, a instituição receberá investimento do Ministério da Saúde, comprará biorreatores de última geração e aperfeiçoará sistemas de purificação e filtragem, além de ter direito a ampla transferência de tecnologia importada do Reino Unido. “Ainda que a vacina não demonstre ser 100% efetiva, o que é uma possibilidade, teremos extraordinários ganhos de conhecimento que nos permitirá fortalecer nossa capacidade de produzir outras substâncias”, diz a pesquisadora Nísia Trindade, presidente da Fiocruz.

Tudo somado, com os dois procedimentos mais relevantes do planeta, haverá cerca de 14.000 voluntários brasileiros entre 18 e 55 anos nos testes da vacina – 1.000 deles financiados pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro. Em todo o mundo, apenas no pacote de Oxford, serão 50.000 doses distribuídas entre Brasil, Estados Unidos e África do Sul, além do Reino Unido. As inscrições são abertas apenas a pessoas altamente expostas ao vírus, em especial profissionais da área de saúde e afins, como motoristas de ambulância e agentes de limpeza em hospitais que ainda não foram infectados. O estudo é do tipo “simples-cego randomizado”. Ou seja, as pessoas são sorteadas aleatoriamente e podem cair em dois grupos distintos: o da vacina propriamente dita (ChAdOxlnCoV-19, a sigla que pode fazer história) e o de “controle”, no caso um imunizante para meningite (MenACWY), sem que saibam em qual estão.

Há, nessa turma de heróis, embora eles rejeitem a alcunha, um misto de coragem e altruísmo – com controle, evidentemente, daí a seleção de pessoas com boa saúde e fora das faixas etárias que representem risco. Mais de 1.100 homens e mulheres já passaram por triagens no Brasil, e 667 receberam a agulhada. No termo de consentimento entregue aos profissionais de Oxford e da AstraZeneca, o cidadão lê alguns alertas que só não soam assustadores por ser capítulos protocolares e impositivos. Num dos trechos está escrito: “há o risco de eventos adversos graves, como reações alérgicas, reações no sistema nervoso e possibilidade de um efeito inesperado”. Para participar dos estudos clínicos, o candidato não pode ter nenhuma comorbidade, como hipertensão, doença gastrointestinal, renal ou respiratória, e, no caso de mulheres, dispostas a manter o uso de contraceptivos durante pelo menos um ano. Depois da entrevista de triagem, feita diante de uma bancada de médicos, o voluntário é encaminhado para a realização de um teste sorológico e um de PCR – o primeiro verifica se há anticorpos no organismo para o vírus, indicando contaminação anterior, e o segundo atesta infecção naquele momento, o que inviabilizaria a participação. Com resultados negativos, dá-se a convocação em três ou quatro dias para a aplicação da vacina no músculo deltoide do braço. Feita a picada, são entregues um termômetro e uma pequena régua.

Nos 28 dias subsequentes, será preciso medir a temperatura e eventuais reações cutâneas (daí a régua). Os sintomas esperados são semelhantes aos da gripe, com dores musculares, incômodo nas articulações, febre e náusea. No período de um ano, haverá outras três visitas aos coordenadores do estudo.

Até que se chegue a algum veredicto confiável, é natural que paire no ar, de modo quase palpável, uma nuvem de ansiedade traduzida em uma questão central: com tantas candidatas em desenvolvimento, como saberemos quando uma vacina é boa e firme o suficiente para ser aprovada e utilizada na população em geral? O ideal seria alcançar a eficácia contra a febre amarela (de 99%) ou contra o sarampo (96%). Entretanto, uma vacina com índice de sucesso mais baixo não é necessariamente ruim, principalmente diante de uma pandemia. Segundo a OMS, uma vacina que consiga proteger pelo menos 70% da população, incluindo idosos, já seria um grande sucesso. Segundo especialistas, no pior dos cenários, um imunizante que não previna a infecção, mas evite casos graves, como é o caso da vacina contra a tuberculose, já representaria um grande avanço no combate à Covid-19 e um passo em direção à volta à normalidade. Diz o embaixador britânico no Brasil, Vijay Rangarajan, de mãos dadas com a Oxford e o braço tropical: “A única maneira de ajudar nossos povos a sair dessa crise o mais rápido possível é desenvolver, testar, financiar, produzir e distribuir uma vacina, tudo ao mesmo tempo. Isso não é normal e tem um risco enorme, mas é preciso arriscar”.

As ponderações feitas por pessoas próximas aos projetos não devem ser desprezadas. Existe, sim uma possibilidade de que nenhum imunizante seja eficiente contra o novo coronavírus em pouco tempo – nem os que estão sendo estudados por aqui nem os de fora. É provável, aliás, que a maior parte deles não dê certo. “Imagino que meia dúzia das vacinas trabalhadas possa dar certo, embora não possamos descartar o fracasso”, alerta a microbiologista Nathalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência. E então será preciso um pouco mais de tempo e paciência para vencermos esse desafio. “Em um primeiro momento, é possível que tenhamos apenas um paliativo”, diz Carlos Murillo, CEO da Pfizer no Brasil. Mas qualquer avanço que se faça pode significar mais vidas poupadas, o que já valeria toda a energia e investimentos nessa busca. E, insista-se, essas são de fato boas apostas, com excepcionais chances de sucesso.

Eis aí a beleza da ciência, em movimentos de sístoles e diástoles, sem a qual a civilização não existiria. E as vacinas, na construção da inteligência humana, no embate contra as doenças, são personagem indissociável do progresso, apesar da insistente pressão de grupos avessos à sensatez. No início do século XIX, quando a pioneira vacina contra a varíola criada por Edward Jenner (1749- 1823) começou a ser aplicada em grande número, houve imensa grita. A ideia de injetar uma preparação biológica em humanos para criar imunidade “artificial” despertou objeções sanitárias, políticas e até religiosas. Cem anos depois, em 1904, o Brasil se viu em meio ao movimento conhecido como a Revolta da Vacina, em que a população foi às ruas na então capital, o Rio de Janeiro, protestar contra a obrigatoriedade da vacinação que visava a erradicar, entre outros males, a febre amarela. Hoje, há a tolice do movimento antivacina, ancorado em argumentos religiosos e em um suposto direito individual que se sobreporia ao coletivo – e males como o sarampo, que pareciam vencidos, cresceram 300% no mundo só nos primeiros meses de 2019. A ignorância, assim como o Sars-CoV-2, é de complicada erradicação. Mas nenhum desafio é intransponível para a poderosa combinação de ciência, trabalho sério e inteligência.

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DAS VACINAS

Não há ainda uma data exata, mas prevê-se que alguma das 158 vacinas em estudo possam ser oferecidas até o fim de 2020

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE AGOSTO

TRANSFORMANDO VALES EM MANANCIAIS

O qual passando pelo vale árido, faz dele um manancial… (Salmos 84.6a).

O Salmo 84 foi escrito pelos filhos de Coré. Retrata o anseio da alma por Deus e a saudade do templo. Aqueles que habitam na casa de Deus são muito felizes porque podem ter um louvor perene nos lábios. Aqueles que encontram abrigo nos átrios da casa de Deus recebem força do Altíssimo. Três experiências são vivenciadas por aqueles que habitam a casa de Deus. Em primeiro lugar, uma postura de confiança em Deus mesmo na adversidade. O v. 5 diz que os pés estão no vale, mas no coração os caminhos são aplanados. As circunstâncias são medonhas, mas a serenidade do coração é inabalável. Em segundo lugar, uma experiência da libertação divina em meio à adversidade. O v. 6 diz que Deus nem sempre nos livra do vale árido e o transforma num manancial. Não somos poupados dos problemas, mas poupados apesar deles e no meio deles. Deus nem sempre nos livra da fornalha, mas na fornalha. A vida cristã não é uma estufa espiritual ou uma redoma de vidro, mas um campo de batalha. No mundo teremos aflições, pois nos importa entrar no reino de Deus por meio de muitas aflições. Em último lugar, uma certeza de que nunca faltarão recursos de Deus para prosseguirmos vitoriosamente até o dia final. O v. 7 diz que vamos indo de força em força até o destino final. A força para essa caminhada vitoriosa não vem de dentro, mas do alto; não do homem, mas de Deus; não da terra, mas do céu!

GESTÃO E CARREIRA

CONECTADOS, ECONÔMICOS E CASEIROS

O comportamento dos brasileiros com a crise do coronavírus mudou radicalmente, mostra pesquisa exclusiva da consultoria McKinsey

Consciência na hora de comprar, fortalecimento de uma cultura de ”faça você mesmo” e uma vida mais dentro de casa. Esses são alguns comportamentos que cresceram no dia a dia dos brasileiros durante a pandemia do coronavírus. E eles devem durar. De olho nessas mudanças, a consultoria McKinsey aposta que os novos hábitos causados pelo isolamento social mostram uma mudança de mindset e de valores, que têm a ver com mais planejamento, consumo consciente e valorização do bem-estar. Na hora de comprar, alguns hábitos se destacam. As pessoas estão valorizando mais a segurança e a limpeza das lojas, e têm experimentado novas marcas. Além disso, consomem com foco no propósito.

Tudo isso também deve levar a menos consumismo. De acordo com a pesquisa, 75% das pessoas estão repensando seus hábitos de compra e sua necessidade de novas compras. ”Ao fazer compras, o consumidor está e continuará mais preocupado com a ética e a responsabilidade”, diz Fernanda Hoefel, sócia e autora do estudo. ”Algumas mudanças vieram para ficar. A desurbanização também é uma delas, e já vem acontecendo nos Estados Unidos há dez anos”, diz Tracy Francis, sócia sênior da McKinsey.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TUDO A SEU TEMPO

Pesquisas indicam que para manter a saúde em dia não bastam apenas boas escolhas à mesa – é preciso comer nos horários determinados por nosso relógio biológico. Saiba como ajustar a dieta ao ritmo de seu corpo

“Tome café da manhã como um rei, almoce como um príncipe e jante como um miserável.” Esse velho ditado continua fazendo sentido – e não estamos falando apenas da quantidade de comida no prato. De acordo com estudos recentes, tão importante quanto a escolha dos alimentos é o horário em que eles são consumidos. Alinhar as refeições ao nosso relógio biológico (ciclo de 24 horas que avisa o corpo qual é o momento adequado para acordar, comer e dormir) garante a boa forma e a saúde em alta por mais tempo.

Essa é uma das ideias centrais do recém-lançado The Circadian Code (“O código circadiano”, numa tradução livre), escrito por Satchin Panda, professor do Salk Institute for Biological Studies e fundador do Centro de Biologia Circadiana da Universidade da Califórnia, ambos nos Estados Unidos. Na obra, o especialista diz que, para que o metabolismo funcione a pleno vapor, o ideal é criar uma “janela de alimentação”, ou seja, fazer todas as refeições do dia em um período de 8 a 12 horas – independentemente da sua rotina.  De acordo com ele, esse hábito, além de reduzir a pressão arterial, favorece o controle e a perda de peso, seja qual for a dieta que a pessoa adote. “O timming da janela é flexível. Se você trabalhar de madrugada, seu período de alimentação deve ser da meia-noite às 10 horas ou das 3 às 13 horas, por exemplo. O horário em si não é tão importante quanto o intervalo de 8 a 12 horas para se alimentar”, diz Satchin.

A teoria passou a ser investigada após um estudo que o professor concluiu em 2012 com ratos geneticamente idênticos. Os animais foram divididos em dois grupos: o primeiro teve acesso a alimentos ricos em gordura e açúcar durante todo o dia; o segundo ingeriu a mesma comida, só que em um período de apenas 8 horas. Apesar de os dois times consumirem um número igual de calorias, os ratos do primeiro engordaram e ficaram doentes, enquanto os do segundo se mantiveram magros e saudáveis. Atualmente, Satchin Panda e sua equipe estão dando continuidade aos estudos sobre o papel do relógio biológico na saúde humana por meio do aplicativo My Circadian Clock (mycircadianclock.org), disponível gratuitamente para iOS e Android. A versão em português que é orientada por Fabiano Serfaty, endocrinologista do Rio de Janeiro que trabalha em parceria com o time do pesquisador indiano, deve ser lançada no fim do ano. “Ao inserir seus dados no programa, você contribui para a pesquisa e entende melhor como seu corpo funciona”, diz Fabiano.

RITMO PERFEITO

A ciência sabe, e não é de hoje, que nosso organismo trabalha sob a orientação de um “relógio” localizado no cérebro, mais precisamente no hipotálamo, que determina o período diário de sono e de vigília. No entanto, além de ser influenciado pela alternância entre luz e escuridão, o chamado ciclo circadiano (do latim circadiem, ou “cerca de um dia”) também varia conforme outros fatores ambientais. Se você já sentiu na pele os efeitos de um jet lag, por exemplo, sabe bem do que estamos falando: ao ser submetido a um fuso horário diferente, nosso relógio biológico fica bagunçado e demora um tempo para se reorganizar. Como se não bastasse a complexidade desse sistema, pesquisadores descobriram, décadas atrás, que cada órgão do corpo humano tem uma programação própria, capaz de regular o ciclo de atividades diárias dele. ·”É como se fossem vários departamentos que precisam atuar em sintonia para que a empresa, cujo comando está no cérebro, conquiste bons resultados”, explica Roberto Debski, clínico-geral, acupunturista e psicólogo.

No que diz respeito ao aparelho digestivo, uma coisa é certa: os órgãos que o compõem foram projetados para trabalhar de forma mais eficiente de manhã e à tarde do que à noite. Em outras palavras, digerimos melhor os alimentos – e queimamos mais calorias – nesses períodos. “O primeiro órgão a despertar, graças à presença da luminosidade, é o fígado”, diz Natália Marques, nutricionista especializada em fitoterapia e nutrição esportiva funcional. “Uma de suas principais funções é organizar, logo cedo, a distribuição do estoque de nutrientes disponíveis no organismo”. Já o pâncreas fabrica uma quantidade maior do hormônio insulina, que gerencia os níveis de açúcar no sangue durante o dia – à noite o controle se torna menos eficaz. O intestino, além de iniciar o processo digestivo, coordena a absorção dos nutrientes e a eliminação das fezes, ou seja, do material que não tem utilidade para o corpo. Diante desse cenário, é possível concluir que, em cada órgão, existem milhares de genes que ligam e desligam mais ou menos no mesmo período, todos os dias. Essa informação já vem armazenada no DNA das células.

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA

O problema é que, por causa da vida social e profissional intensa, sobretudo nas grandes cidades, a maioria das pessoas não se alimenta nos horários favoráveis ao ciclo circadiano. Há quem “esqueça” o café da manhã para sair de casa cedo ou jante pouco antes de ir para a cama. “Quando comemos tarde da noite, por exemplo, obrigamos os órgãos a trabalhar no momento em que eles já estão começando a descansar, o que provoca um conflito no sistema”, afirma Roberto. Se esse comportamento alimentar vira um hábito, ou seja, se contrariamos nosso ritmo biológico   de maneira constante, o perigo está instalado. De acordo com um dos estudos de Satchin Panda, muita gente chega a comer em um intervalo de 15 horas ou mais, o que colabora para o desenvolvimento da obesidade e de outras doenças metabólicas, como diabete tipo 2, câncer e problemas cardiovasculares. “Isso prova que nosso organismo precisa descansar mais do que trabalhar”, afirma Fabiano. Pessoas que atuam no turno da noite, cm um horário que vai totalmente de encontro ao nosso relógio biológico, também correm mais risco de ter os males já citados.

Quando a saúde está em jogo, o ideal é adotar novos hábitos o mais rápido possível. Foi o que fez João Pedro Muniz de Aguiar, de 25 anos, analista de comunicação na Youse, plataforma de venda de seguros. O profissional integrava a turma dos que vivem dispensando o café da manhã e exageram no tamanho das refeições seguintes. Em setembro do ano passado, quando a balança marcou 141 quilos, procurou ajuda médica. À beira de diabetes e hipertensão, resolveu que era hora de virar a mesa. Incentivado por um programa de qualidade de vida implantado pela empresa, ele se matriculou em uma academia, começou uma dieta de emagrecimento e estabeleceu horários fixos para comer. Tanto esforço deu resultado: atualmente, João Pedro pesa 94 quilos e diz que se transformou em outra pessoa. “Antes eu dormia mal e já acordava cansado, com dor nas costas. Subia alguns degraus e ficava ofegante. Hoje sou muito mais disposto, produtivo e focado. Até recebi um feedback positivo do meu chefe nesse sentido.”

Embora seja difícil para a maioria comer em um período de no máximo 12 horas, a nutricionista Natália Marques garante que criar a própria rotina alimentar, de preferência ingerindo itens que colaborem para a manutenção do ciclo circadiano, só traz benefícios à saúde.  “Não existe uma dieta que sirva para todo mundo. Antes de elaborar um cardápio, o nutricionista precisa levar em conta o estilo de vida da pessoa, se ela pratica ou não uma atividade física e o nível de estresse ao qual está submetida”, diz. “Devemos respeitar o ritmo do próprio corpo, afinal, cada ser humano é único e tem necessidades individualizadas”, afirma o endocrinologista Fabiano Serfaty. O importante é que, independentemente da idade, dá para colher bons frutos mudando os hábitos à mesa. Prova disso é André Luís Lisboa da Silva, de 52 anos, administrador de empresas. Antes de consultar um nutricionista, seis anos atrás, ele sofria de refluxo e gastrite e não se sentia muito disposto. Além disso, embora comesse pouco, não emagrecia. Desde então ele pratica exercícios   regularmente, consome alimentos mais saudáveis e tem horário certo para as refeições – a última, por exemplo, acontece entre 20h30 e 21 horas. Os benefícios da nova rotina? ”Tenho mais energia no trabalho, me sinto mais atraente e bem humorado e parei de tomar remédios”, conta. E, por falar no jantar, ele é fundamental porque influencia a qualidade do sono. Embora comer mais cedo seja o ideal para nosso metabolismo, todo mundo deve se alimentar de forma leve e moderada à noite. Lembra do ditado?

COMO UM RELOGINHO

Além de estabelecer uma rotina alimentar alinhada às necessidades fisiológicas, é preciso adotar outros cuidados para que os ritmos circadianos do organismo se mantenham sincronizados. O primeiro deles é acordar e dormir todos os dias no mesmo horário – inclusive nos fins de semana – e garantir um sono de boa qualidade. “O ideal é passar a noite completamente no escuro e longe de estímulos eletrônicos, como televisão e celular”, afirma Natália. “A ausência da luz comunica ao corpo que chegou o momento de funcionar em carga mínima, para que os órgãos possam descansar e se recuperar de todo o desgaste sofrido ao longo do dia que passou”, diz Roberto Debski. Outra medida importante é controlar o estresse, atualmente o maior responsável pela dessincronização do ciclo circadiano. Isso porque, quando o corpo fica sob tensão durante muito tempo, o hormônio cortisol, que faz subir a taxa de glicose no sangue, se mantém em alta, dificultando o relaxamento e facilitando o aparecimento de várias doenças, como diabete tipo 2. Para acalmar os nervos, a recomendação é investir na prática regular de exercícios físicos, o que também ajuda a segurar os ponteiros da balança. Meditar diariamente pelo menos 10 minutos e fazer uma atividade prazerosa – aprender a tocar um instrumento, por exemplo – também deixam a rotina mais leve e nosso relógio biológico andando no ritmo certo.

MENU DO DIA

Veja o que comer (e o que evitar) para ficar de bem com o ciclo circadiano, de acordo com a nutrição funcional

CAFÉ DA MANHÃ

Invista em frutas com casca, pães integrais, café (sem açúcar ou adoçante) e vegetais amargos (que ajudam a acordar o fígado e os demais órgãos digestivos). Evite pães e bolachas com farinha branca e alimentos açucarados, inclusive sucos industrializados.

ALMOÇO

Aposte em salada com vegetais e folhas (de preferência, verde-escuras, como acelga, agrião, rúcula e radicchio) e proteína animal (frango, peixe ou carne bovina com pouca gordura. Deixe de lado frituras e doces.

LANCHE

Vá de castanhas (sem sal e sem açúcar) e vegetais como cenoura, pepino e rabanete. Não coma bolo, bolacha e pão de queijo.

JANTAR

Prefira feijões, grãos (como arroz integral), alface e legumes, que favorecem o sono, chás de camomila, erva-doce e melissa são bem-vindos, desde que sejam consumidos sem açúcar ou adoçante. Evite carboidratos, doces, álcool e bebidas estimulantes, como café e chá-preto.

EU ACHO …

A GUILHOTINA MONTADA NA PORTA

Ameaça chega à entrada da casa do maior bilionário do mundo

Do alto de seus inacreditáveis 160 bilhões de dólares, Jeff Bezos achou que conseguiria se safar. O dono da Amazon – e do campeão de antitrumpismo na grande imprensa, o Washington Post – pôs a bandeira do Black Lives Matter no site da megaempresa, usou todos os clichês da linguagem engajada e soltou o dinheiro. Foram 10 milhões de dólares para diferentes organizações de defesa da minoria negra. Está bom? De jeito nenhum. No último domingo, um grupo de jovens montou uma guilhotina de papelão na porta de sua casa em Washington, uma das múltiplas mansões do homem mais rico do mundo. “Quando não temos voz, é hora de pegar as facas”, disse uma das duas branquíssimas jovens com o figurino Antifa que se colocaram à frente do grupo. Reivindicação: extinguir a Amazon.

Quem começa propondo a abolição da polícia, como virou moda entre as múltiplas manifestações desencadeadas pela morte de George Floyd, chega rapidamente ao capitalismo. E aos capitalistas. Grandes empresas americanas captaram o espírito do tempo e enfiaram a mão no bolso. A inundação de dinheiro é de deixar Bezos no chinelo: 100 milhões de dólares da Walmart, a maior rede de varejo do mundo; mais 100 milhões da Apple. A Target foi mais modesta, apenas 10 milhões, como Bezos. Levou uma invasão numa loja em Washington.

Nada se compara ao que fez o dono de uma grande rede de lanchonetes, a Chick-fil-A (a pronúncia em inglês equivale a filé de frango, a estrela do delicioso sanduiche da rede). Durante um programa de televisão, Dan Cathy, com fortuna de 6,7 bilhões de dólares, ajoelhou-se e “engraxou” os sapatos do rapper Le­crae, como ato de contrição pela discriminação racial do passado. Engraxou entre aspas, porque o cantor estava de tênis, como todos os outros da sua categoria. Em 2017, a empresa foi ameaçada de boicote por contribuir para organizações evangélicas que são contra o casamento de homossexuais. Em apoio à rede, formaram-se longas filas nas portas das lanchonetes, geralmente de evangélicos identificados com seus valores. O casamento gay não sofreu o menor abalo, mas a empresa deu uma guinada em suas obras filantrópicas, culminando com o momento em que Dan Cathy acabou de joelhos.

O ato tem um grade valor simbólico porque coincide com os protestos em que diferentes personalidades se ajoelham “contra o racismo”. Isso quando não fazem declarações públicas de pecados de antecessores distantes, ligados à escravidão ou à segregação racial. Tudo lembra cada vez mais os autos de fé, a penitência ritualística dos acusados pela Inquisição espanhola, em geral judeus cuja conversão compulsória ao cristianismo era contestada. E cada vez menos a revolta legítima e necessária para combater a discriminação racial. Alguns espíritos cínicos achariam também que batidas no peito e contribuições generosas são notavelmente parecidas com pagamentos preventivos para evitar, digamos, problemas. Mas Bezos já viu como é difícil escapar da guilhotina. Segundo o delicioso pagode do Grupo Revelação: “Quando o bicho pegar/ Não vai dar nem pra correr/ E não adiantará/ Ajoelhou, tem de rezar”.

***VILMA GRYZINSKI                  

OUTROS OLHARES

A NOVA FORMA DE VIAJAR

Cidades em diversas partes do mundo planejam a reabertura para turistas e métodos seguros para receber visitantes em meio à pandemia de coronavírus

Enquanto a vacina para a Covid-19 não chega, cidades em processo de reabertura começam a se preparar para a volta do turismo. No fim de semana de 11 e 12 de julho, o parque temático da Disney na Flórida, o epicentro da pandemia nos Estados Unidos, reabriu – ação que foi alvo de polêmicas. Em outros lugares onde medidas de flexibilização para receber estrangeiros entraram em vigor, há avanços que podem definir como será o turismo no pós-pandemia. Na Espanha, as Ilhas Canárias lançaram um projeto piloto, apoiado pela Organização Mundial do Turismo, para testar a eficácia de um aplicativo que contém informações médicas dos turistas. Ao chegar e sair do destino paradisíaco, as pessoas serão testadas para a Covid-19. Em Portugal, o governo criou o selo Clean and Safe para estabelecimentos que se adequarem aos novos protocolos de higienização e segurança. Praias na Itália, antigo epicentro da crise na Europa, voltaram a receber visitantes, mas a regra é que o distanciamento de mais de 1,5 metro entre guarda-sóis seja respeitado. Mesmo sem a cura ou imunização, há soluções que permitem retomar a vida fora de casa. No Brasil, algumas regiões – é o caso de São Paulo – registram mais de 120 dias de quarentena. A necessidade de um escape, dentro de todas as recomendações de segurança, é mais do que natural.

A ambição é aperfeiçoar o setor para o que virá depois da pandemia. “Com a preferência por viagens de até 500 quilômetros, o chamado turismo de proximidade poderá se expandir nos próximos anos e ser uma das apostas para a retomada econômica”, diz o secretário estadual de Turismo de São Paulo, Vinicius Lummertz. Em Trancoso, uma das principais praias de Porto Seguro, na Bahia, os proprietários da Pousada Mata N’Ativa vão além das exigências locais para a reabertura. “O check-in será virtual, o hóspede nos avisará sobre as preferências para o café da manhã e a mala passará por uma esterilização antes de ser levada ao quarto”, diz um dos sócios da pousada, Daniel Victor Santos. “As pessoas estão carentes de viagens. É o que falam quando ligam para perguntar se voltamos a funcionar.” A expectativa é que Trancoso retome as atividades turísticas a partir de 31 de julho. Para a professora e pesquisadora em lazer e turismo da Universidade de São Paulo Mariana Aldrigui, o sucesso dependerá do comportamento dos próprios turistas. “As pessoas precisam seguir as orientações e protocolos de segurança”, afirma. Se todos colaborarem, a retomada será para valer, o que é ótimo para a economia e melhor ainda para os viajantes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE AGOSTO

A FELICIDADE É NOSSA HERANÇA ETERNA

Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações (1Pedro 1.6).

Os existencialistas dizem que a história não tem sentido. Os pessimistas dizem que a história caminha como um caminhão desenfreado rumo ao desastre. Os gregos diziam que a história é cíclica e que está apenas dando voltas sem chegar a lugar nenhum. O livro de Apocalipse, porém, anuncia que a história caminha para uma consumação. O triunfo final será de Deus e do seu povo. Quando as cortinas da história se fecharem, haverá novos céus e nova terra. Então, Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima. O pranto, o luto e a dor não mais existirão. Estaremos para sempre com o Senhor desfrutando de venturas que nenhum olho viu e nenhum ouvido ouviu. Receberemos a posse de nossa herança gloriosa. Teremos um corpo de glória e reinaremos eternamente com Cristo. O pecado não mais estará presente em nossa vida, pois no céu nada contaminado entrará. No céu, não haverá despedida nem adeus; não haverá doença nem cortejo fúnebre; não haverá injustiça nem disputas. Todos os remidos entrarão no paraíso não pelo caminho do mérito, mas pelo portal da graça. Jesus é a única porta de acesso que nos leva a Deus. E é na presença de Deus que há plenitude de alegria e delícias perpetuamente. O céu é lugar de felicidade eterna porque lá estaremos para sempre com o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

CRESCIMENTO ACELERADO

Com seis escritórios pelo país, o objetivo da Sympla é terminar o ano com nove locais de trabalho e contratar mais 180 funcionários

Se você é adepto das compras online provavelmente já adquiriu ingressos na plataforma Sympla. Com um portfólio de mais de 30.000 atrações à venda simultaneamente por mês, a startup cobre todo o mercado de shows, cursos, palestras, festivais, peças de teatro e outros. Presente em cinco estados (Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, e Rio Grande do Sul), a empresa vai abrir mais três escritórios em 2020 (o primeiro na Bahia e os outros dois a decidir) e aumentar em 40% seu quadro de funcionários, de 460 para 640. Esse crescimento é resultado do aporte recebido, em 2016 e 2017, do Grupo Movile, ecossistema brasileiro de empresas de tecnologia. A plataforma ganhou 13 milhões e 15 milhões de reais, respectivamente, o que permitiu a compra da concorrente Eventick e a liderança nesse segmento de negócio, com o acúmulo de 45 milhões de ingressos vendidos.

1 – FESTA DENTRO E FORA

Os escritórios realizam a festa dos aniversariantes do mês, com direito a decoração, comidas, bebidas e tema. Já teve o mês do boteco (com petiscos e muita cerveja) e a noite da pizza (com massas voadoras preparadas por um pizzaiolo). Em fevereiro, o tema não poderia ser outro: carnaval, com direito a marchinhas e competição de fantasias.

2 – LOOK DO DIA

Nada de roupas sociais ou uniforme. Na Sympla o dress code é regido pelo calendário: às terças-feiras todos usam listras, às quartas é hora de tirar a roupa rosa do armário, e às quintas é dia de chinelo. sem obrigação, claro, mas a brincadeira é incentivada.

3 – DEU MATCH

Mais do que experiências e capacidades técnicas, o requisito principal para ser um “sympler” é combinar com a cultura da empresa. E isso é checado no processo de recrutamento, com questionário sobre valores e entrevista com um funcionário.

4 – MOMENTO ZEN

Além do Gympass, que dá acesso a academias conveniadas por todo o país, há aulas de ioga e meditação uma vez por semana nos escritórios de belo horizonte e são paulo (e há planos de expansão para outras regionais). Essa foi uma iniciativa dos próprios funcionários, que ganharam da empresa uma sala para praticar os exercícios.

5 – NA CORDA BAMBA

A Sympla ainda precisa trabalhar mais na igualdade de gênero. o equilíbrio ainda não foi alcançado e não há políticas específicas para o recrutamento de mulheres. Hoje, o quadro tem 46% de mulheres e 54% de homens. Na liderança, os índices são de 60% de gestores e 40% de gestoras.

6 – CONVERSAS FRANCAS

Mesmo sem equidade, a diversidade é debatida. Questões como gênero, cor e sexualidade são temas em bate-papos mensais com líderes. Também existe um grupo de conversas que recebe convidados para falar sobre o assunto. No recrutamento, porém, não há vagas voltadas especificamente para minorias.

7 – MELHORES QUE A LEI

Desde fevereiro, pais e mães de filhos biológicos ou adotados, de relações homo ou heteroafetivas, têm a licença ampliada. As mães com direito a seis meses de afastamento e os pais a 20 dias. “Nosso foco não é só o trabalho. Também queremos melhorar a qualidade de vida, e isso começa com a relação familiar”, diz Rodrigo.

8 – PONTE AÉREA

Como a startup está presente em diversos estados, os funcionários podem trabalhar em outras cidades. A transferência depende da sinalização do empregado e da disponibilidade interna.

9 – FALTA OFICIALIZAR

Embora ofereçam home office e horários flexíveis, a prática não é estruturada e fica por conta da autorização da liderança – o que pode gerar disparidades.

10 – TREINANDO OS NOVATOS

Para complementar o aprendizado dos estagiários, existe o First Years, um programa de desenvolvimento realizado a cada três meses. No projeto, os jovens passam um dia inteiro numa imersão. Os próprios estudantes escolhem os temas que querem aprender – já foram discutidos projeto de carreira e oratória.

COMPETÊNCIAS:

Conhecimento de tecnologia da informação é importante, assim como organização e proatividade

SITE PARA ENVIO DE CURRÍCULO:

www.sympla.com.br/trabalhe-conosco

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MELHOR ANTIDEPRESSIVO QUE EXISTE

De Hemingway a Lena Dunham, muitas das mentes inquietas e criativas descobriram no movimento do corpo a forma mais eficaz de combater a ansiedade e depressão e de deixar fluir suas ideias

A atriz, roteirista de Girl (HBO) e escritora Lena Dunham não esconde de ninguém sua luta contra transtornos da mente. A ansiedade e o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) da autora são abordados tanto na série como em seu livro Não Sou uma Dessas, recém-lançado no Brasil (Editora Intrínseca). Foi apenas este ano, depois de muitos anos convivendo com os problemas diagnosticados ainda na infância que Lena se surpreendeu com uma das formas mais eficazes que encontrou para combater a ansiedade. Postou em seu Instagram, embaixo de uma selfie em trajes de ginástica, um incentivo aos seguidores que vivem os mesmos problemas.

Segundo a escritora, o exercício físico a ajudou de uma forma que ela nunca havia sonhado – e frisou que não estava se referindo ao corpo, mas à sua mente. “Para aqueles com ansiedade, TOC, depressão: sei que é irritante quando lhe dizem para se exercitar, e precisei de 16 anos de medicação para ouvir o conselho. E que bom que fiz isso”, revelou.

Assim, Lena é o mais novo nome do rol de escritores que descobriram que corpo e cérebro funcionam de forma interligada e, assim, encontraram no movimento uma fórmula imbatível de manter a mente sã e produtiva. Muitos outros buscaram no exercício físico o desbloqueio criativo: o filósofo Henry Thoreau dizia que seus pensamentos fluíam ao mesmo tempo em que suas pernas começavam a se mover; a escritora Joyce Carol Oates já escreveu que correr a ajuda a expandir a consciência e a encontrar ideias que jamais teria sentada em uma sala; o japonês Haruki Murakami e o americano Don De Lillo enxergam a prática da corrida como um a espécie de “encubação de ideias”, responsável pelo estado mental mais propício para o trabalho intelectual.

Já Hemingway, assim como Lena Dunham, encontrou no exercício uma tática para superar os tormentos da mente. Em 1936, o autor de O Velho e o Mar escreveu para o seu sogro, Paul Pfeiffer, que havia descoberto que cérebro e corpo precisam de exercício para o bom funcionamento “tanto quanto um motor precisa de óleo”.

Todas essas mentes repletas de tormentos, medos, angústias e muitas ideias confirmaram na prática aquilo que a Neurociência apenas recentemente está mostrando em laboratório: a atividade física é um a das formas mais eficazes de promover a plasticidade cerebral e reverter a toxidade causada por altos e constantes níveis de estresse. Ao liberar uma cascata de neurotransmissores e fatores de crescimento, o exercício – especialmente o aeróbico – ativa intensamente o córtex frontal, inibindo as funções inferiores e, assim, controlando a impulsividade. O aumento imediato de níveis de neuroquímicos como norepinefrina, serotonina, dopamina e canabinoides promove melhora na atenção, memória, humor e na auto estima, além de reduzir os níveis de estresse, ansiedade e raiva.

De acordo com o professor de Neuropsiquiatria da Escola de Medicina de Harvard John Ratey, autor de diversos livros sobre saúde mental, nenhuma outra maneira de tratar problemas como ansiedade e depressão atua de forma tão holística e sem efeitos colaterais. Ele destaca que a resposta positiva ao exercício físico é muito próxima à dos antidepressivos, mas sem as reações adversas e com um bônus: foi você o agente da mudança.

Um dos mais reveladores estudos sobre o efeito antidepressivo do esporte, realizado por pesquisadores da Duke University há alguns anos, comprovou que a prática de 30 minutos de exercício físico em dias alternados alcança a mesma eficácia que as pílulas no combate à depressão em curto prazo. O estudo, que envolveu 158 pacientes diagnosticados com depressão severa, concluiu que, depois de seis meses, apenas 8% das pessoas comprometidas em se exercitar experienciaram relapso, contra 38 % das pessoas tratadas com antidepressivos.

Aqueles que desejam desbloquear a criatividade e deixar fluir os pensamentos de forma mais lúcida, como muitos escritores e pensadores costumam fazer, também encontram respaldo na ciência. Um novo estudo da Universidade de Stanford publicado no ano passado, comprovou que caminhadas aumentam a criatividade. Nos três testes de “pensamento divergente” aplicados entre 176 universitários, os resultados foram até 60% melhores depois ou durante as caminhadas.

Uma das razões para isso está no aumento de células nervosas no hipocampo. Recentemente, descobriu-se que algumas deficiências nessa estrutura, essencial para a memória, leva a uma incapacidade não apenas de recordar, como de imaginar.  Assim, foi constatado que está também   envolvia a capacidade de fazermos associações e criarmos conceito de diferentes formas – ou seja, de sermos criativos.

Não é preciso nem de muito tempo nem de uma academia ou professor: basta inspirar-se em muitas das grandes mentes que há tempos já descobriram que suas habilidades mais notáveis se desenvolvem e se mantêm a partir dos movimentos mais naturais do corpo – como andar e correr.  É de graça, não tem contraindicações e traz um pacote de benefícios que remédio algum jamais conseguiu oferecer.

MICHELE MULLER – é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br

EU ACHO …

É PRECISO PLANEJAR A RETOMADA

Em períodos de crise, deve-se adotar uma atitude pragmática. Por isso, agora mais do que nunca, não há vantagem em se prender a conceitos absolutos de liberalismo ou estatismo

Está mais do que na hora de setores públicos e privados se unirem para elaborar um planejamento estratégico, com vistas a viabilizar uma retomada gradual das atividades produtivas, a partir do momento em que as autoridades sanitárias considerarem mais adequado e seguro. As medidas que têm sido implementadas pelo governo – várias delas sugeridas pela Indústria -, vem ajudando as empresas a suportar o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, incluindo a preservação de grande parte dos empregos. Entretanto, não podemos esperar de braços cruzados a hora da reativação da produção, sob pena de a volta às atividades ocorrer de maneira improvisada.

É necessário que seja elaborado, urgentemente, um plano consistente, que projete cenários e preveja a realização de ações efetivas no pós-pandemia. Como os recursos privados serão limitados, em razão da brusca interrupção de empreendimentos comerciais e industriais, o Estado terá papel fundamental para uma retomada sustentável na economia. Nesse sentido, é urgente facilitar o acesso ao crédito, poisos recursos liberados pelo governo não estão chegando no caixa das empresas. O governo precisa, ainda, sinalizar como pretende criar as condições necessárias para aumentar a produção industrial, que, de acordo com o IBGE, acumulou uma queda de 26% em março e abril. Recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que apenas 13% das empresas do setor não sentiram efeitos econômicos negativos da pandemia, enquanto 84% foram prejudicadas.

Para fazer frente a esse desafio, consideramos que as iniciativas governamentais deverão priorizar o reaquecimento do setor de construção civil; a atração de investimentos em infraestrutura, em especial com concessões na área de transportes; a implementação do novo marco legal do saneamento básico, aprovado recentemente pelo Congresso Nacional; e a expansão do setor elétrico. A mobilização das cadeias produtivas desses e de outros setores, no cenário da severa recessão que se anuncia, será essencial para a sobrevivência das empresas e, por consequência, para a preservação de empregos.

Em todas as épocas, sobretudo em períodos de crise, deve-se adotar uma atitude pragmática. Por isso, agora mais do que nunca, não há vantagem em se prender a conceitos absolutos de liberalismo ou estatismo. Sem a participação ativa do Estado, o Brasil e o mundo não conseguirão superar essa grave crise. Em grandes turbulências anteriores, instrumentos e recursos disponibilizados pelos governos foram imprescindíveis para que os países resgatassem o caminho da expansão. Foi assim na Grande Depressão de 1929, quando o governo do presidente americano Franklin Delano Roosevelt implementou o New Deal, ambicioso programa de medidas econômicas e sociais que viabilizou a recuperação da economia dos Estados Unidos e de outras nações afetadas.

Processo semelhante ocorreu durante o caos financeiro iniciado em 2008, que levou bancos centrais dos principais países a injetar trilhões de dólares na economia global para minimizar o tamanho da queda das atividades econômicas. Naquela ocasião, mesmo o governo americano, acostumado a práticas mais liberais, deixou de lado vários tabus econômicos. Com aporte de recursos públicos, salvou da falência diversas instituições financeiras, seguradoras, companhias aéreas e mesmo segmentos da indústria, como o automotivo.

No Brasil, para ajudar o país a enfrentar as consequências econômicas da atual pandemia, governo e Congresso já tomaram duas medidas relevantes. A primeira foi o auxílio de 600 reais mensais para trabalhadores informais ou que perderam o emprego – o que está permitindo que as famílias mais pobres se sustentem. A outra foi o programa que autoriza empresas a fechar acordo com empregados para reduzir a jornada de trabalho, com diminuição proporcional no salário. A iniciativa preserva empregos e dá um alívio temporário ao caixa das empresas.

No atual estágio, a indústria considera que, além da facilitação do acesso ao crédito, é necessário que o governo aja para melhorar as condições de financiamento emergencial para o capital de giro das empresas. Obrigadas a suspender suas atividades em decorrência da pandemia e das restrições ao comércio, as indústrias tiveram uma queda drástica de receitas, que se mostram insuficientes para pagar despesas fixas, elevando a possibilidade de inadimplência. Essas medidas são essenciais para que os recursos cheguem a tempo de evitar a desestruturação maciça do setor produtivo nacional.

O planejamento estratégico para a superação da crise deve prever ainda a retomada da agenda de reformas estruturais, especialmente a tributária, interrompida devido à eclosão da pandemia. Outras prioridades são a reestruturação do setor elétrico, a atualização de normas para o licenciamento ambiental e o aumento de investimentos em tecnologia e inovação. O combate à insegurança jurídica também é crucial para a recuperação dos investimentos, em particular os estrangeiros; a formação de um ambiente mais propício para negócios; e o aumento da competitividade do país com relação a outras economias. Caso não tome essas providências, o Brasil poderá ficar a reboque na nova ordem mundial que, certamente, emergirá no pós-pandemia.

***ROBSON BRAGA DE ANDRADE – empresário, é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

OUTROS OLHARES

CORAÇÕES PARTIDOS

O fechamento de fronteiras impede casais que vivem em países diferentes de se encontrar e dá origem a movimento   pede às autoridades o fim das restrições

A gerente de novos negócios Sabrina Nunes e o engenheiro da tecnologia da informação Pierre-Etienne Gerbet imaginavam que 2020 seria o período mais feliz da vida deles. Depois de quase dois anos de relacionamento a distância – ela vive no Brasil e ele, na França -, decidiram assinar a papelada para, enfim, sacramentar a união. Os novos planos incluíam morar juntos em Paris e iniciar uma jornada repleta de amor e esperança. Tudo mudou com a pandemia do coronavírus, que não só interrompeu o sonho de Sabrina e Pierre como despedaçou os corações de milhares de casais apaixonados. Com as restrições de circulação e o fechamento das fronteiras de diversos países, amantes binacionais que não são oficialmente casados estão impossibilitados de se reencontrar. Dizem que o amor não tem limites, mas, nesse caso, eles se tornaram concretos diante da intransigência das autoridades.

Os relatos de desencontros passaram a ser tão comuns que estimularam a criação de grupos que clamam pela solução do problema. Eles não pedem muito: querem apenas o direito de rever a pessoa amada. No Facebook, 7.300 pessoas fazem parte do movimento Love Is Not Tourism (Amor Não É Turismo), criado em 27 de junho por casais separados pela pandemia e que busca pressionar os governos para liberar as fronteiras. Na União Europeia, quase 17.000 pessoas assinaram um abaixo-assinado on-line. Na Alemanha, são 27.300 apaixonados que querem se reencontrar com a cara-metade.

O país é um dos poucos que demonstraram alguma sensibilidade com o drama dos casais. Em entrevista recente, o ministro do Interior, Horst Seehofer, afirmou ser favorável ao movimento em prol do amor, mas as barreiras ainda não foram eliminadas. Como os impedimentos persistem, o desenvolvedor de games alemão Felix Urbasik resolveu criar o site love is not touirsm.org, que reúne informações sobre a situação em diferentes regiões. A namorada dele mora na Austrália e não consegue viajar para encontrá-lo. “Na visão dos europeus, a Austrália está entre os países mais seguros”, diz Felix. “Mesmo assim, descobrimos que os moradores não podem sair da ilha.”

O movimento ganhou força no início de julho, quando países europeus começaram a abrir fronteiras e divulgar quais residentes de outras nações seriam bem-vindos. Para os brasileiros barrados nas listas por causa do número elevado de contágios pela Covid-19, a situação é obviamente pior. Se uma australiana sofre para embarcar para a Alemanha, uma brasileira que deseja fazer o mesmo encontra obstáculos ainda mais intransponíveis. A campanha em defesa dos casais é incipiente no Brasil – foram colhidas mais de 800 assinaturas até a quarta-feira 15 -, mas não menos relevante para cada coração que está distante de sua grande paixão. “O que estamos passando é uma dor solitária”, diz Sabrina. “Nosso único desejo é estar ao lado da pessoa que amamos.” Há alguns dias, homens e mulheres mobilizados nas redes sociais resolverem endereçar uma carta ao governo brasileiro. “Estamos simplesmente pedindo o direito de estar juntos”, diz um trecho do texto. “Vivemos em um mundo globalizado, com milhares de casais binacionais que são uma família, mas sem ter algo oficial no papel. Nosso pedido é para as fronteiras se abrirem para o amor.”

Gabriela Rodrigues, uma das participantes mais ativas em um grupo no Facebook, compartilhou os telefones dos ministérios da Justiça, Casa Civil, Infraestrutura e do Departamento de Imigração. Em outra postagem, mostrou o passo a passo para criar uma conta no canal do governo federal e explicou como enviar uma mensagem à ouvidoria, além de destacar os principais órgãos que precisam ser acionados: Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Justiça e Polícia Federal. Gabriela recebeu o aviso automático de prorrogação de prazo para a resposta das autoridades, sendo a data final até 10 de agosto. “Não há posicionamento”, diz ela.” Não sabemos quando isso vai acabar”. Em comum, todos os amantes demonstram o mesmo desespero pela situação. Eles argumentam que testes poderiam confirmar se estão infectados e até aceitam a ideia de, se preciso, permanecer alguns dias em quarentena no país de destino antes de reverem o parceiro. O que não admitem é ficar apartados em decorrência de entraves burocráticos.

“Para muitas pessoas, a vida de casado começará a distância”, diz o professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas Marcelo Santos. Para ele, a pandemia desencadeará grandes transformações. “A partir de agora, o virtual estará agregado às relações”, resume. Segundo o psicólogo Thiago de Almeida, especializado em relacionamentos afetivos, há o risco de o distanciamento deixar sequelas. “O amor ocupa um lugar de destaque na vida humana”, afirma. “Por isso mesmo, a separação pode causar ansiedade, depressão e até doenças psicossomáticas.” Enquanto os governos não oferecem uma solução, os amantes fazem o que podem. Sabrina e Pierre avaliam viajar para países que permitiriam que ficassem juntos. “As informações não são claras e já tentamos de tudo”, diz Sabrina. “A ideia é que ele vá para um lugar em que eu possa entrar, pois os brasileiros têm mais restrições que os europeus.” Os dois apaixonados estão dispostos a fazer qualquer tipo de loucura. Que o amor, no fim, vença.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PATA A ALMA

DIA 04 DE AGOSTO

O CORDEIRO ETERNO

Conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo… (1Pedro 1.20a).

Jesus é o Cordeiro santo de Deus. O cordeiro que tira o pecado do mundo. Ele veio ao mundo para morrer, e morrer pelos nossos pecados. Sua morte não foi um acidente, mas uma agenda estabelecida na eternidade. Embora o Calvário tenha ocorrido há mais de dois mil anos, na mente de Deus e nos decretos de Deus aconteceu desde a fundação do mundo. Nossa salvação foi uma iniciativa divina cuja origem recua aos tempos eternos. Quando Deus planejou nossa salvação, não havia ainda céu nem terra. As estrelas ainda não brilhavam no firmamento e o sol ainda não dava a sua claridade. Antes mesmo do princípio, no recôndito da eternidade, Deus já havia colocado o coração em você e determinado que Jesus, o Cordeiro eterno, seria morto em seu lugar, em seu favor. A cruz de Cristo não foi um sinal de derrota, mas de triunfo. Jesus não morreu como mártir, mas como Redentor. Não foi à cruz como uma vítima indefesa nas mãos de seus algozes. Morreu voluntariamente. Entregou-se por você e por mim, desde a eternidade. Glorificou o Pai em sua morte e conquistou para nós eterna redenção. A sua salvação não foi uma decisão de última hora. Já estava planejada na eternidade, foi executada na história e será consumada no último dia. Com amor eterno, Deus amou você e com benignidade ele o atrai.

GESTÃO E CARREIRA

CLUBE DO SONO

Por que acordar às 5 da manhã, nova mania do mundo corporativo, pode trazer frustrações e prejuízos à saúde

Se até pouco tempo atrás era raro conhecer quem adorasse pular da cama às 5 da manhã, o jogo virou depois que madrugadores de plantão proliferaram no mundo corporativo. Entre eles estão o fundador da XP, Guilherme Benchimol, o empresário Abílio Diniz e o fundador da Cacau Show, Alexandre Costa. Chamado de “clube das 5”, esse grupo ganha força no Brasil. Tanto que a ideia de levantar cedo, antes do sol nascer, espalhou-se pelas redes sociais, virou hashtag (#5amclub) e ganhou influenciadores digitais como adeptos. Thiago Nigro, do canal de finanças Primo Rico, Caio Carneiro, autor do livro de negócios Seja Foda! e o ex- nadador Joel Moraes são alguns dos que fazem até lives cedinho.

Mas por que 5 da manhã? Segundo especialistas, esse é um horário intermediário entre 4, cedo demais para descansar o suficiente, e 6, uma hora menos efetiva, pelo fato de que o dia já amanheceu e muita gente está de pé, o que atrapalharia o foco. No livro Clube das 5 da Manhã, o autor e expert em desempenho Robin Sharma afirma que esse é o melhor horário para criar um “estado de fluxo”, sem interrupções de ruídos do ambiente ou da tecnologia. Em outra obra importante para a disseminação dessa ideia, O Milagre da Manhã, o empreendedor e palestrante Hal Elrod defende que acordar cedo faz diferença para quem deseja ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Isso porque, afirma ele, as primeiras horas da manhã proporcionam um momento de solidão e silêncio propício para cuidar da mente e do corpo.

Mas, embora pesquisas apontem vantagens na rotina matutina, nenhuma delas é específica quanto à necessidade de levantar às 5 horas. Um estudo realizado pelo professor Christoph Randler, da Universidade de Educação em Heidelberg, na Alemanha, com 367 estudantes universitários, mostrou que os alunos matutinos são mais proativos, têm notas mais altas e conseguem melhores oportunidades de trabalho. “Quando se trata de sucesso profissional, as pessoas matutinas têm vantagens”, afirmou o pesquisador à publicação Harvard Business Review. Asanálises não levaram em consideração o momento exato em que os participantes acordavam – o questionário investigou apenas quais eram as horas do dia preferidas deles para realizar suas tarefas e verificou quais deles levantavam sempre no mesmo horário nos dias úteis e nos de descanso. Outra pesquisa, realizada na Universidade Complutense de Madri, com 509 adultos, mostrou que pessoas que fazem suas atividades pela manhã são menos procrastinadoras.

NÃO É REGRA

Embora os fãs da alvorada digam que qualquer um consegue se adaptar à rotina de despertar às 5, especialistas em sono alertam que o hábito não é para todo mundo – e, justamente por isso, traz riscos à saúde. “Se para entrar para o tal clube das 5 da manhã você tiver de sacrificar algumas horas de sono, então simplesmente não valerá a pena”, diz Geraldo Lorenzi, diretor do Laboratório do Sono da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a Fundação Nacional de Sono dos Estados Unidos, adultos precisam dormir, em média, de sete a nove horas por dia. A quantidade varia de pessoa para pessoa, sendo que existem aquelas que se satisfazem com seis e outras que precisam de dez para descansar de verdade.

Quem não respeita seu relógio biológico pode enfrentar cansaço, ansiedade, depressão, doenças gastrointestinais, perda de concentração, lapsos de memória e redução do tempo de reação. “É consenso no meio acadêmico que as características individuais acerca dos horários de dormir e acordar não são uma mera escolha do indivíduo”, alerta a bióloga Cláudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono e professora de fundamentos biológicos da saúde humana e de cronobiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Assim como existe quem produza melhor pela manhã, há quem seja vespertino e se adapte melhor dormindo e acordando mais tarde. E, de acordo com pesquisadores do sono, isso não é uma opção, e sim uma determinação genética. Ou seja, forçar a barra pode ser um grande erro estratégico que, em vez de elevar, derrubará a produtividade. “Se uma pessoa vespertina acordar às 5, vai virar uma fábrica de restrição de sono, porque provavelmente terá dificuldade de dormir mais cedo”, alerta Geraldo, do Laboratório do Sono.

Isso significa que, se você é uma pessoa vespertina se esmerando para madrugar, em tese você está sabotando seu horário mais frutífero. Foi isso que levou a empreendedora Juliana Mazurkievicz, de 37 anos, a abandonar a ideia de se levantar às 5. Formada em agronomia, ela leu o livro O Milagre da Manhã no início de 2019 e decidiu seguir as sugestões do autor para ser mais produtiva. Na época, estava estruturando um negócio próprio de absorventes femininos de tecido e achou que a dinâmica a ajudaria a se organizar melhor. Por dois meses, Juliana tentou acordar antes do sol nascer e seguir o ritual sugerido por Hal Elrod: meditar, visualizar objetivos, fazer exercícios, escrever algo e demonstrar gratidão. No primeiro mês, com muito esforço, ela conseguiu, mas no segundo mês enfrentou dificuldade para manter o ritmo, pois se sentia cansada por abrir mão do sono reparador do início da manhã. “A rigidez não funcionava. Era algo obrigatório, que não trazia leveza ou inspiração para o dia a dia”, diz ela, que vive em Florianópolis (SC). Após constatar isso, a empreendedora decidiu voltar para o horário mais natural, que é acordar às 6h30. Conseguiu manter os hábitos de escrever e agradecer, mas prefere realizar essas atividades antes de dormir, por volta das 22 horas, quando a filha de 5 anos já está dormindo. ”A experiência foi útil, pois me ajudou a aceitar limitações e a encontrar uma rotina adequada.”

Um estudo feito nos Estados Unidos pelos pesquisadores Dorothee Fischer, David Lombardi, Helen Marucci-Wellman e Till Roenneberg analisou os cronotipos, ou seja, a predisposição natural para ser mais ativo durante o dia ou a noite, de mais de 50.000 pessoas. E chegou à conclusão de que não há regras para horários de energia ou de fadiga: a fatia de pessoas vespertinas na população é de um quarto; o outro quarto é composto de indivíduos matutinos; e a metade restante fica no meio-termo, ou seja, não se enquadra nesses extremos e desperta em horários intermediários. A pesquisa também apontou que as pessoas tendem a ficar mais matutinas ao longo da vida. E é aí que mora outro perigo.

Líderes mais velhos do que os demais terão mais facilidade para acordar cedo. “Se não ficar atento, um chefe pode fazer um bando de gente infeliz, porque para ele é fácil pegar no sono às 21 e acordar às 5, mas para outros membros do time, mais jovens, não”, diz Geraldo.

Esse é um dos pontos de alerta do livro O Milagre da Manhã. Embora afirme que cada pessoa deve saber sua quantidade ideal de sono, o autor Hal Elrod diz que o mais importante não é o total de horas dormidas, mas se o repouso é energizante. Já Robin Sharma é categórico sobre a importância de dormir no mínimo 7h30 por dia. Para isso, ele sugere um ritual do sono, que deve começar pontualmente às 19, com o indivíduo desligando aparelhos eletrônicos e fazendo a última refeição do dia, e terminar às 22, direto na cama.

O ex-nadador Joel Moraes, de 39 anos, é um exemplo de que só consegue madrugar quem leva a rotina a sério – muito a sério.

Morador de Santos (SP), ele levanta pontualmente às 5, assim que o despertador toca. Seu primeiro destino é a praia, onde corre por uma hora. De volta à sua casa, Joel toma um banho gelado, faz uma série de afirmações positivas diante do espelho (tais como “manifeste seu talento hoje” e “impacte pessoas”), medita por cinco minutos e faz urna visualização dos objetivos de curto, médio e longo prazo. Depois, toma café da manhã e escreve a lista de tarefas do dia. Às 8, está pronto para começar. Ex-atleta, Joel acordou cedo dos 13 aos 26 anos por causa dos treinos na piscina. Ao encerrar a carreira na natação, no entanto, adotou hábitos noturnos, abandonou os exercícios e passou a acordar cada vez mais tarde. Ganhou 20 quilos e viu a produtividade despencar. Foi quando decidiu dar uma virada e retomar os hábitos da época em que nadava. “Isso ajudou a melhorar meu desempenho, me deu clareza mental e agilidade”, afirma.

Desde 2016, o ex-atleta realiza apresentações ao vivo nas redes sociais às 5 para inspirar os outros a fazer o mesmo. Em uma delas, reuniu mais de 10.000 espectadores que queriam ouvir sobre alta performance.

OUTRO LADO

Para Geraldo, do Laboratório do Sono, um dos aspectos negativos do clube das 5 é que ele valoriza o estado de vigília e reflete o desprezo que a sociedade atual tem pelo descanso. “Dormir, muitas vezes, é visto como perda de tempo, quando na realidade é tão importante para a saúde quanto o alimento e os exercícios físicos”, diz. E não é só isso. O pesquisador Christopher M. Barnes, da Universidade de Washington, que se dedica a estudar os efeitos da falta de sono sobre o trabalho, descobriu que pessoas que dormem pouco são menos éticas no ambiente corporativo e menos hábeis nas relações interpessoais. Em uma das pesquisas, Christopher acompanhou o sono de 40 líderes e 120 trabalhadores por três meses e avaliou a qualidade do relacionamento entre eles. A conclusão? Gestores que dormem pouco são mais impacientes, irritáveis e hostis. “Quando o chefe não está descansado, a equipe paga o preço”, escreveu o estudioso em um artigo de 2018.

Por essas e outras, os profissionais devem avaliar se faz sentido despertar tão cedo. “Um consultor pode incentivar você a acordar nesse horário, contribuindo ou criando um problema para sua vida. Não é algo que se encaixe para todo mundo”, destaca Sigmar Malvezzi, professor de psicologia do trabalho no Instituto de Psicologia da USP. Para ele, se a pessoa não tiver clareza dos objetivos de vida, saltar da cama antes do sol nascer não será garantia de sucesso. “Saber o motivo para levantar nesse horário é fundamental.”

Leni Nunes, professora de liderança e gestão de pessoas na Fundação Dom Cabral, defende que ter uma receita igual para todas as pessoas é algo ultrapassado. Em sua avaliação, o clube das 5 é uma tentativa de destruir a individualidade e vai na contramão do que o mundo do trabalho está vivendo atualmente, com a valorização da autonomia e da diversidade nas empresas. “Hoje, as ações de desenvolvimento pessoal buscam aproveitar pontos fortes em vez de focar os fracos. Não faz sentido dizer que todos os profissionais podem se beneficiar dessa rotina. Quem tentar funcionar contra sua natureza vai fazer um esforço grande para obter um resultado pífio”, diz.

E, para quem não consegue acordar cedo, a boa notícia é que nem todas as personalidades de sucesso são madrugadoras. O cientista Albert Einstein, por exemplo, gostava de dormir dez horas por dia. Jeff Bezos, fundador da Amazon e um dos homens mais ricos do mundo, declarou publicamente que prioriza dormir oito horas por dia para tomar melhores decisões. Uma prova de que mais importante do que acordar supercedo é organizar o dia com sabedoria, realizando atividades no horário em que se sente mais ativo. Afinal, o que vai trazer sucesso é isso – e não o fato de o despertador tocar às 5.

SONO REPARADOR

Estudo da Gallup mostra que o bem-estar aumenta conforme o número de horas dormidas

PÉ NO CHÃO

Confira cinco dicas para acordar (e dormir) mais cedo

1. DEFINA OBJETIVOS

Procure ter clareza de qual é sua motivação para adotar uma nova rotina. Avalie se acordar mais cedo faz sentido para sua vida, deixando de lado a comparação com outras pessoas.

2. RESPEITE AS HORAS DE SONO

Se vai acordar às 5, durma mais cedo também, por volta das 22. Se tem dificuldade de dormir e acordar cedo, talvez esse não seja o melhor caminho para você.

3. ENTENDA SEU RELÓGIO BIOLÓGICO

Para saber de quantas horas diárias de sono você precisa, observe quanto dorme nos dias de descanso. Se seu tempo de sono é mais longo aos fins de semana, isso significa que você está dormindo pouco durante a semana.

4. CRIE UMA ROTINA PARA AS MANHÃS

Hal Elrod, de O Milagre da manhã, propõe as seguintes atividades logo ao acordar: meditar, fazer afirmações positivas, escrever um diário, visualizar objetivos, ler e praticar exercícios físicos. O livro de Robin Sharma sugere uma fórmula chamada de 20/20/20, dividindo uma hora em três partes iguais de movimento, reflexão e atividades de estudo e leitura.

5. PREPARE-SE PARA DORMIR

Tente jantar cedo e estabelecer uma atividade que o ajude a relaxar antes de dormir. Pode ser assistir a uma série, ler um livro ou até mesmo brincar com o filho antes de fazê-lo adormecer. Também é importante desligar eletrônicos no mínimo uma hora antes de dormir.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO BALANÇO DAS HORAS

Estudos realizados durante a quarentena mostram que a sensação de passagem do tempo foi completamente alterada durante a pandemia

A ordenação dos segundos, minutos e horas dos dias é uma das grandes invenções da história da humanidade, talvez a mais perene de todas. O primeiro registro de povo que marcou a passagem do tempo é dos babilônios, que viveram na Mesopotâmia entre 1895 a.C. e 539 A.C. Eles construíram o relógio de sol, dividiram o dia em doze partes e depois em 24, constituindo o mesmo sistema utilizado até os dias de hoje. Na primeira concepção de um relógio, o momento em que o Sol ficava na exata posição em que não produzia sombra foi marcado como meio-dia, e então deu-se o restante da distribuição das horas entre manhã, tarde e noite. De volta para o século XXI: a forma de vida existente até o início da pandemia do coronavírus colocava outros elementos do dia a dia para auxiliar nos marcos temporais do cotidiano. Havia a hora de ir à academia, de fazer aula de inglês, a pausa garantida por feriados e fins de semana, a rotina do escritório. Com a paralisação das atividades e pouca diferenciação entre o que pode ser feito em um dia útil e numa folga – situação que se agravou ainda mais para quem perdeu o emprego durante a pandemia -, a percepção sobre a passagem do tempo mudou.

Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Universidade Liverpool John Moores, na Inglaterra, que constatou que 80% dos voluntários sentiram alguma distorção na passagem das horas durante a quarentena no Reino Unido, seja a sensação de os minutos escorrerem pelos dedos, seja a de um dia duro e interminável. De acordo com a principal autora do estudo, Ruth Ogden, “a sensação de a quarentena passar mais devagar do que o normal foi associada a idades mais elevadas e à insatisfação com interações sociais”.  Uma pesquisa semelhante está sendo conduzida no Brasil pela Universidade Federal do ABC. De acordo com o neurocientista e coordenador do Laboratório de Cognição Humana da instituição, André Cravo, a análise teve início em 6 de maio e a ideia é mantê-la após o fim da quarentena, para comparar os períodos. “O que chamamos de percepção do tempo envolve uma série de fenômenos diferentes, como ritmo, emoções e a memória”, afirma. “Não há outros estudos do tipo para termos como base de comparação. Pela primeira vez, vários grupos distintos estão vivenciando a mesma experiência.”

Por mais que a percepção individual sobrea passagem das horas pareça palpável, há obviamente o elemento físico e imutável que rege o mundo, havendo pandemia ou não. Para o professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Frota Junior é essencial lembrar da diferença entre os fenômenos. “O tempo físico transcorre de uma maneira independente das pessoas”, diz. “O subjetivo é a construção, aquele que sentimos pelas nossas experiências.” De acordo com a escritora e ensaísta Rosiska Darcy de Oliveira, autor a do livro Reegenharia do Tempo, a mudança brusca impôs a reorganização da vida, que exigiu, por exemplo, a conciliação das atividades do lar, com o cuidar dos filhos e da casa, com o trabalho. “Cada segundo é um recurso não renovável”, afirma. “As pessoas estão expostas à dolorosa convivência com a finitude e isso pode estimular que se valorize o que realmente importa.” Para o neurocientista Cravo, um exemplo é o paradoxo das férias. “Quando elas chegam, passam rápido, porque dá prazer”, diz. “Contudo, na memória, a sensação é que muita coisa aconteceu.” A quarentena não é férias, muito pelo contrário. Mas o tempo em casa durante a pandemia certamente deixará lembranças eternas.

O RELÓGIO NÃO PARA

Confira as principais conclusões do estudo feito pela Universidade Liverpool John Moores

EU ACHO …

POR QUE FALHA O ENSINO A DISTÂNCIA?

Reproduzimos nas aulas em vídeo os erros das aulas presenciais

Por que parece tão fraquinho o ensino a distância, para onde foi obrigada a migrar a escola básica? Resposta: porque é filhote de um ensino presencial péssimo. Sem entender isso, não se dá um passo à frente. A migração trouxe, pelo menos, três problemas. O primeiro resulta da implantação atabalhoada, inevitável pelas circunstâncias, mas curável com a experiência adquirida. O segundo são as dificuldades intrínsecas de operar aulas por meio de videoconferências no ciclo básico. O terceiro é por reproduzir os equívocos e as fragilidades do nosso ensino dentro dos estabelecimentos escolares.

O que mais distanciou o Homo sapiens dos outros primatas talvez tenha sido sua capacidade de pensamento abstrato. Outro salto veio com a escrita. Sendo assim, lidar com palavras, abstrair e pensar são da essência de uma boa educação. E essas faculdades não se desenvolvem na estratosfera, mas no vai e vem entre palavras e realidade. Por isso, espera-se uma educação para aprender a pensar, e não para decorar pensamentos, fatos, datas ou definições. Infelizmente, gasta-se tempo demais memorizando. Com isso, falta tempo para exercitar o pensamento. E, como dizia Alfred Whitebead (1861-1947), a boa educação ensina a descobrir a beleza e o poder das ideias.

Sem aplicar o que aprendem, os alunos não chegam realmente a aprender. O ensino ativo, hoje redescoberto, não é muito diferente disso. Mas, com os currículos cronicamente abarrotados, não há como frear a corrida desabalada para cobrir as ementas. E, por faltar tempo para atividades práticas, não aprendemos.

Na mesma linha, o aluno aprende quando as ideias novas – sobretudo as abstratas – são rebatidas para um mundo conhecido por ele. É a chamada contextualização. Fácil concordar, mas requer encontrar os bons exemplos, aplicações, metáforas e analogias. As grandes teorias da pedagogia só funcionam quando se materializam em procedimentos concretos, para cada capítulo de cada disciplina. Isso tudo exige um enorme investimento de tempo para cuidar antecipadamente de cada detalhe. Improvisação é receita para o desastre que temos. Ensino bom é ensino minuciosamente planejado. Felizmente, esse pode ser um esforço conjunto dos autores com equipes pedagógicas.

Com amplo tempo e dinheiro, podemos passar a limpo o ensino convencional e transcrevê-lo para aulas remotas. Por exemplo, é o que fez o Telecurso 2000. O que não dá é empurrar para o ensino a distância, do dia para a noite, todos os entulhos e equívocos que sobrevivem nas nossas escolas. Digitalizando o errado, não há como sair certo. Não se condenem as novas tecnologias, mas sim o presencial de onde foi importado. Se o presencial não fosse pródigo em pecados, estaríamos melhor. Em contraste, para quem tem um presencial de qualidade e professores adequados, mais eficaz será a migração. A conclusão é clara. Podemos repensar a nossa escola presencial – e há bons exemplos no Brasil. Ou começamos do zero na sua versão em vídeo, lembrando que estar longe do aluno traz um sério desafio tecnológico. Mas, no fundo, avanços em um modelo podem migrar para o outro. Ademais, ambos os sistemas estão aí para ficar. Nada disso é fácil, mas as alternativas não parecem promissoras.

***CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

AS BOLSAS ESTÃO EM BAIXA

O acessório sofre com mudança de estilo da nova geração, que aposta em looks mais despojados e prefere gastar dinheiro com produtos tecnológicos

Consagradas no cinema e transformadas em peças de culto por marcas como Chanel, Louis Vuitton e Prada, as bolsas de mão viraram, ao longo das décadas, quase uma segunda pele feminina. Célebres, pareciam destinadas a acompanhar para sempre os looks das mulheres. Pois essa lógica pode estar com os dias contados. Segundo estudo realizado pela consultoria McKinsey, as vendas de itens de luxo, liderados principalmente pelas bolsas, deverão cair até 39% em 2020. Uma análise superficial poderia associar a queda à pandemia do coronavírus. De fato, a Covid-19 afetou negócios de diversos setores, mas as bolsas de mão já estavam ameaçadas há um bom tempo. Nos Estados Unidos, o comércio desses itens caiu 20% entre 2016 e 2019, e dados preliminares de 2020 apontam para uma curva descendente. No mesmo período, a venda de mochilas para mulheres cresceu 12%, o que faz supor que elas estão trocando acessórios formais por artigos despojados.

Uma das explicações para o fenômeno é a mudança geracional. Mulheres jovens incorporaram à rotina atividades improváveis até pouco tempo atrás, como ir ao trabalho de bicicleta, além de adotarem para o dia a dia peças básicas como jeans e camiseta, o que as desobriga a usar bolsas elegantes. “Essas roupas dialogam mais com seu estilo de vida, que prioriza a mobilidade”, diz Ana Vaz, consultora de estilo e professora de imagem pessoal do Senac de São Paulo. “No Brasil, também percebemos a substituição da bolsa de mão. Nas lojas de departamentos, as áreas voltadas para jovens apresentam uma predominância de mochilas e pochetes.” A verdade é que a prioridade das consumidoras mudou. Hoje em dia, o status está mais concentrado em gadgets e smartphones do que em bolsas ou sapatos, e a velocidade da inovação tecnológica desperta nas pessoas o desejo permanente de trocar seus a parelhos. Para as jovens, que preferem investir em um celular de última geração do que em sapatos ou bolsas de luxo, essa tendência é ainda mais marcante.

Outro fator negativo é o encolhimento do mercado de luxo. Estima-se que, no mundo, o faturamento do setor possa ser entre 20% e 35% menor em 2020, segundo projeção feita pela consultoria Bain & Company. Para um grupo imenso de mulheres, no entanto, as bolsas continuarão indispensáveis como sempre foram. Segundo a consultora de moda Gloria Kalil, abandonar o acessório pode significar esquecer alguns itens na hora de sair de casa.” Uma bolsa completa, cheia de tudo de que se precisa, pode ser muito útil”, diz a especialista. “É um lugar seguro, onde se sabe que estarão a chave, o cartão de crédito, o vidrinho de álcool em gel e muito mais.” Ou seja: a moda muda, mas a eficiência da bolsa continua a mesma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE AGOSTO

APENAS UM TOQUE, E BASTA!

E logo se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no corpo estar curada do seu flagelo (Marcos 5.29).

A pior doença é aquela que nos isola das pessoas que amamos. Foi isso o que aconteceu a uma mulher em Israel que se aproximou de Jesus para ser curada. Essa anônima estava sofrendo havia doze anos. Uma hemorragia crônica a deixava anêmica e impura. Gastara todos os bens com os médicos, mas seu estado de saúde se agravava cada vez mais. A doença lhe trazia desconforto e segregação. Tudo em que ela tocava ficava impuro. Se solteira, não poderia casar-se. Se casada, não poderia relacionar-se com o marido. Nem mesmo a sinagoga a mulher podia frequentar. Então, ela ouviu falar de Jesus. Nutriu em seu coração a esperança de ser curada. Uma fé inabalável acendeu- se em sua alma: Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada (v. 28). Então ela se esgueirou no meio da multidão, tocou a orla das vestes de Jesus e imediatamente a hemorragia foi estancada. Jesus disse: Alguém me tocou, pois senti que de mim saiu poder (Lucas 8.46). A mulher prostrou-se aos pés do Mestre e confessou-lhe toda verdade: Jesus lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal (Marcos 5.35). Aquela mulher foi curada e perdoada. Foi liberta e salva. Jesus ainda hoje cura os enfermos, consola os aflitos e salva todos os que se achegam a ele pela fé.

GESTÃO E CARREIRA

BEM-VINDO À ERA DO CLIENTE

Experiência do consumidor se torna estratégica para os negócios e aumenta em 183% a demanda por profissionais que atuam na área

Oferecer bons produtos já não é mais suficiente para deixar o consumidor feliz. Num mercado altamente competitivo e dinâmico, as empresas precisam melhorar cada vez mais o relacionamento com clientes. É dessa necessidade que surge o conceito de customer experience (CX) ou, no bom português, experiência do consumidor.

“CX é o conjunto de sensações e percepções que alguém tem ao fazer qualquer tipo de interação com uma marca”, afirma Claudia Vale, consultora e palestrante de customer experience. “É isso que determina se um cliente se manterá ou não fiel a ela.” Amadurecidas em países como Estados Unidos, Japão e Inglaterra, as estratégias de customer experience ganharam grande relevância no Brasil nos últimos cinco anos, com a consolidação de serviços como os da Netflix, o surgimento de instituições financeiras como o Nubank e a chegada de aplicativos como os da Uber, fenômenos que mudaram a mentalidade dos clientes.

Hoje, se não estão satisfeitos, eles cancelam assinaturas ou migram para outro fornecedor, visto que o mercado diversificou. “As empresas perceberam que precisavam ter um vínculo maior com os clientes e passaram a tratar o tema como estratégico para os negócios”, diz Claudia.

Em outras palavras, puseram o cliente no centro de seus planejamentos, envolvendo na causa marketing, atendimento, vendas e logística. “Customer experience só traz resultado quando a companhia adota, de fato, uma cultura centrada no consumidor. Não é um projeto com prazo para terminar, e sim uma visão comercial trabalhada de forma contínua e permanente”, afirma Claudia. Nesse quesito, empresas 100% digitais, que já nascem orientadas para seus usuários, saem na frente. Fundado em 2018 por executivos do BTG Pactual, o C6 Bank possui 25 empregados no time chamado de HX (human experience). A equipe, que fica sob o guarda-chuva da área de inovação, é dividida em três frentes. De acordo com Gustavo Torres, líder da área, a primeira frente é composta pelos service designers, profissionais de psicologia, marketing e ciências sociais que realizam pesquisas para investigar o comportamento, as expectativas e as exigências do consumidor; a segunda é a dos product designers, que constroem as jornadas do usuário; e a terceira equipe é a de UX writers, que redigem os diálogos dos chats e elaboram os textos que apresentam produtos do banco. Esses últimos cargos são ocupados por pessoas de comunicação, principalmente jornalistas. “Nosso time de HX tem uma importância estratégica, pois é ele que facilita processos para os clientes e garante uma comunicação clara e fluida com eles”, diz Gustavo. Taxa de acesso, índices de satisfação e tempo de permanência do usuário no aplicativo são algumas das métricas utilizadas pelas companhias para avaliar o resultado de ações de CX e embasar melhorias. No C6 Bank, por exemplo, o aplicativo é atualizado a cada 15 dias. Reconhecido pela facilidade na abertura de conta, o app do banco possui um chat automatizado que conduz etapas burocráticas. O processo, sem interação humana, leva cerca de cinco minutos. Em um ano de operação, a instituição conquistou 1 milhão de clientes.

MERCADO AQUECIDO

Corno trazem resultados rápidos, as equipes voltadas para a experiência de usuários e consumidores só crescem. Uma pesquisa feita pela Gartner, consultoria americana, revelou que 74% dos gestores da área de CX esperam ter um orçamento maior em 2020. Em 2017, esse índice era de 47%. Ou seja, mais dinheiro, mais contratações. Prova disso é que a procura por UX designers no Brasil subiu 323% de janeiro de 2017 a janeiro de 2020, segundo dados do Indeed, site de empregos que opera em mais de 70 países. Já a busca de candidatos por vagas de CX como um todo cresceu 183% no período. Não à toa, um levantamento do LinkedIn apontou a carreira em experiência do cliente como a sexta mais promissora do ano passado. Entre as funções desses profissionais estão desvendar o perfil do consumidor, interpretar dados sobre o público-alvo e propor itens alinhados às expectativas de quem os consome. Segundo Clarissa Gaiatto, diretora de transformação digital da consultoria de negócios Deloitte, as equipes de trabalho na área costumam ser multidisciplinares, com diferentes formações e habilidades. Por ser uma novidade dentro das empresas, os recrutadores dão grande importância às soft skills na hora de contratar. Criatividade, capacidade de analisar cenários, empatia para se colocar no lugar do cliente, pensamento estratégico, boa comunicação e habilidade para influenciar os demais setores da organização são características levadas em conta.

Mesmo assim, é essencial conhecer (e estudar) as principais metodologias usadas na área, como CSAT (sigla para customer satisfaction score) e o NPS (sigla para net promoter score). A primeira mensura o nível de satisfação dos consumidores; e a segunda, o grau de lealdade deles. Altas pontuações significam que a marca tem clientes fiéis, que indicam seus produtos e serviços a terceiros e até fazem elogios em redes sociais, algo que vale ouro hoje em dia.

Na visão de Patrícia Carvalho, diretora de marketing da Revelo, startup de recrutamento, as empresas digitais são as que mais concentram oportunidades. “Boa parte delas busca pessoas que saibam mensurar e interpretar dados em parceria com o time de Analytics”, diz. Os salários começam em 3.000 reais para quem está iniciando na carreira e passam de 10.000 para cargos de liderança.

Ana Cristina Oliveira, de 51 anos, gerente de caring models & processes da Tim, lidera um time de 90 pessoas e é responsável pelas análises de processos e por toda a interface com o cliente em canais digitais, como chat e atendimento eletrônico. Formada em administração de empresas e em processamento de dados, ela está há 22 anos na empresa de telefonia e acredita que reforçar a área de atendimento ao cliente foi fundamental. “É preciso enxergar com os olhos do cliente. Metodologias são fáceis de aprender, por isso valorizo as habilidades emocionais. Quem quer trabalhar com CX tem de gostar de gente.” Desde 2015, a experiência do cliente se tornou um dos pilares estratégicos da Tim. Segundo Renato Ciuchini, líder da área de estratégia e transformação e responsável pela gestão de CX, toda a empresa está envolvida na missão de entregar a melhor experiência aos consumidores. “As metas dos nossos funcionários têm indicadores relacionados a esse pilar”, diz o executivo. Para isso, nos últimos três anos, a companhia disponibilizou mais de 11.000 horas de capacitação para disseminar o conhecimento em experiência do cliente.

Entre outras ações, inseriu o tema na grade de formação de consultores de venda; criou dois treinamentos online sobre CX voltados para 100% dos empregados; realizou palestras, uma delas intitulada “O Jeito Disney de Encantar o Cliente”; e criou uma semana dedicada ao conceito. Em 2019, o aplicativo Meu Tim teve aumento de 18% de usuários únicos, o que impulsionou a queda nas interações de call center em 17%. As vendas online cresceram 36% no pós-pago e 28% no plano Controle. E o conceito de PDV (ponto de venda) foi transformado em PDX (ponto de experiência). “Nossa ideia é oferecer vivências relacionadas às inovações que a empresa vem fazendo. No ano passado, disponibilizamos em lojas de São Paulo a tecnologia 5G para as pessoas testarem”, diz Renato.

Embora os canais digitais assumam uma importância cada vez maior, é importante investir na qualidade da interação com o cliente em todos os pontos de contato, incluindo as lojas físicas. Assim, vendedores, gerentes e todos que atuam cara a cara com o público são cada vez mais impactados pela ideia de melhorar a experiência dos compradores. Afinal, se a pessoa for maltratada, dificilmente dará uma segunda chance à marca – o que é um tiro no pé, uma vez que conquistar um novo cliente custa, em média, cinco vezes mais do que manter um atual.

“Antes, os clientes tinham uma atitude passiva. Agora eles ditam as regras de como devemos trabalhar”, afirma Marcos Bogo, gerente de relacionamento com o consumidor da Nespresso, multinacional de cápsulas de café que pertence à suíça Nestlé. Nessa nova lógica, a área liderada por Marcos assumiu o papel fundamental de captar impressões e feedbacks do público e alimentar outros departamentos da companhia, como o de marketing, para que as sugestões de melhoria sejam postas em prática.

Um dos projetos reformulados com base nos anseios dos clientes foi o Nespresso & You. Renovado, o programa de fidelidade da marca passou a dividir os consumidores em três categorias: connoisseur (apreciador), expert (especialista) e ambassador (embaixador). Os benefícios para esse pessoal exigente vão de frete gratuito a aulas especiais sobre tipos de grãos ou drinks com café.

Para isso, a empresa mudou o nome de vendedores para especialistas em café e passou a treiná-los para que conheçam a fundo os produtos. É o caso de Neander Dornelles, de 29 anos, coordenador da boutique Nespresso de Curitiba (PR). Há sete anos na companhia, ele foi promovido três vezes, recebeu quatro aumentos de salário e venceu um campeonato interno de degustação às cegas, na Suíça. “Minha missão é atender cada cliente individualmente e dar informações personalizadas. É a qualidade desse relacionamento que irá fidelizá-lo”, diz ele, que também oferece até masterclasses (a mais recente foi sobre cafés gelados) a seus consumidores.

EM ALTA

Veja quem são e o que fazem os profissionais mais demandados pelas áreas que cuidam da experiência do cliente

UX RESEARCHER

Em um projeto de User Experience, é ele quem faz pesquisas relacionadas ao comportamento do consumidor. Com base nas informações coletadas, ele direciona o trabalho do Ux Designer.

UX DESIGNER

Responsável por executar o planejamento realizado pelo Ux Researcher. Ele cria protótipos, detecta falhas e faz testes para verificar se o produto ou serviço atende às necessidades do consumidor. Num negócio digital, cuida das interações em telas e do desenho da interface.

UX WRITER

É quem escreve o texto de sites, aplicativos e chats, entre outros produtos, garantindo uma comunicação clara e objetiva com os consumidores.

ANALISTA DE CX

Pode atuar na análise dos dados dos clientes, no planejamento das ações da empresa e no acompanhamento das métricas que avaliam se a experiência desenhada está sendo bem-sucedida com o público.

CX MANAGER

Coordena o trabalho dos profissionais envolvidos em CX e atua junto à liderança para implementar as melhorias necessárias.

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZÃO

Os números da experiência do consumidor

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU QUERO MUDAR

A pandemia pôs as pessoas dentro de casa, em quarentena – na retomada, é natural que se busquem uma nova toada, novos sonhos para a família e no trabalho. E um dos movimentos mais interessantes de toda uma geração

Só quem veio de Marte, e de lá chegou agora mesmo, e que não viu a profusão de memes, camisetas e cartões com a expressão imperativa Keep Caim e…, depois da conjunção, um conselho qualquer metido a engraçadinho: “chute o balde”, “foca nos estudos”, “estou de férias” etc. Keep Caim and Carry On, mantenha a calma e siga em frente, foi uma frase motivacional criada (e não utilizada na ocasião) pelas autoridades britânicas durante a II Guerra Mundial para manter elevado o moral da população civil debaixo de bombardeio alemão. Não seria exagero dizer que o slogan, em sua versão original, poderia ser aplicado ao nosso tempo, o da pandemia, do isolamento social, de vidas partidas ao meio, de avós afastados de netos, em decorrência do novo coronavírus. É ter paciência e caminhar ou, como lembrou o ex­ ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, um pouco antes de deixar o governo, numa citação que será para sempre recuperada, extraída do lirismo de Paulinho da Viola, “faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar”. A prudência não exclui uma das mais evidentes vontades do aqui e agora em todo o mundo: o desejo de mudar de vida, se não radicalmente, ao menos de modo a encaixá-la no que vem por aí. É percepção que anda na cabeça, anda nas bocas, entrou nas sessões de terapia on-line e, recentemente, também nas presenciais, que aos poucos vão sendo retomadas. “O longo tempo em casa foi um impulso para que caísse a ficha sobre o que precisava ser mudado, com urgência, de modo a encontrar mais satisfação e bem-estar”, diz Alfredo Maluf, psiquiatra do Hospital Albert Einstein.

Não há, ainda, levantamento estatístico que ampare a mudança de comportamento, mas existem indícios palpáveis de que algo trincou e precisa ser colado. Houve, por exemplo, inédito aumento de buscas no Google pelo termo “meditação” – 43% em abril em comparação com dezembro de 2019, o maior índice em dezesseis anos de levantamento. Uma das maiores imobiliárias de São Paulo, a Lello, que atende as classes média e alta, identificou salto de 40% de interesse por casas amplas com cômodos para home office.

Apartamentos em bairros badalados, próximos a lugares repletos de serviços, bares e supermercados, tornaram-se desinteressantes. Endereços mais amplos e perto de áreas verdes são os preferidos agora. “As residências se transformaram em santuários protegidos”, afirma Stefano Arpassy, da consultoria de tendências WGSN Management. Há, portanto, uma guinada como não se via fazia décadas, desde que a falta de segurança e a criminalidade empurraram a sociedade para condomínios de apartamentos e shopping centers. Diz a psicóloga Patrícia Bader, da Rede D’Or: ”Muitas vezes estamos em um modo automático tão profundo que esquecemos o que é de fato relevante para nossa existência”. Olha-se ao redor, veem-se as estatísticas, com esperança de melhora depois dos momentos mais dramáticos do surto, apesar do vai- vem, e um caminho parece inevitável: o da adaptação, em todos os movimentos diários.

Poucos aspectos do cotidiano sofreram uma ruptura tão decisiva quanto o mundo do trabalho, de mãos dadas com o das escolas, de crianças em casa. Pais e mães trabalhando, filhos tentando estudar, tudo junto e misturado, o inevitável frenesi caseiro – e, como eventual subproduto dessa nova dinâmica, um aumento de 18,7% no número de divórcios no Brasil em junho, na comparação com o mês anterior. Fazer o quê? O home office ganhou tração, é compulsório, em seus diversos modelos, e dele sairemos diferentes. O que se ensaia nas empresas é uma movimentação quase tão estrondosa quanto a da Revolução Industrial, mas às avessas, com milhões de trabalhadores voltando para seus lares. Uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo, com quase 140 empresas brasileiras em abril deste ano mostrou que 46% delas adotaram o sistema de atividades domésticas durante a pandemia. E, claro, brotaram dificuldades que, se não são intransponíveis, podem ser bem chatas. Um estudo feito pela rede social LinkedIn com 2.000 profissionais relata aumento do stress e da ansiedade (62% dos entrevistados) e sensação de solidão, que atinge 39% do grupo. “Em relação ao trabalho, tornou-se comum entre meus pacientes a reclamação da ausência do bate-papo com os colegas, do café no meio da tarde e de toda interação social que envolve e enriquece a vida no escritório”, diz o psicólogo clínico Artur Scarpato. A saudade do que se perdeu, porém, não é sinônimo de retomar tudo como dantes. A nova vida profissional, enfim, virá de outro modo. Segundo levanta mento feito pela recrutadora Talenses, de São Paulo, 60% dos homens e 52% das mulheres afirmam que o mais desejável para o home office é poder praticá-lo de duas a três vezes na semana. Um estudo interno e global da Microsoft entrega resultados mais evidentes: 82% dos gerentes relataram a vontade dever implementadas políticas de trabalho remoto mais maleáveis.

Maleabilidade, eis a nova e inescapável regra do jogo. Em tempos difíceis, é natural que se busque algum conforto em boas lembranças do passado, berço da sensação de segurança. Os grandes traumas, do ponto de vista neurológico, afetam as chamadas áreas cinzentas do cérebro, responsáveis pela visão, audição, fala, emoções e memória. Como resultado do corte abrupto, como acontece agora com a pandemia, há uma divisão natural entre o que veio antes e o que virá depois – é percepção que pode ser compreendida pela psicologia, no divã, em sessões por videoconferência, sem dúvida, mas também por imagens bioquímicas, nos casos mais drásticos. Na procura pela compensação, por algo tranquilizador, os adultos fazem como as crianças e caçam nos vãos mais recônditos algum objeto transacional, ponte para o bem-estar: pode ser um filme, um livro, uma roupa, um prato de comida. A nostalgia ajuda, serve como uma espécie de chupeta emocional, levando-nos ao convívio com uma realidade estressante. É como se fosse necessário dar uma olhadinha lá para trás para seguir em frente. Não por acaso, a recente proliferação de drive-ins em todo o mundo, inclusive no Brasil, foi recebida com dupla satisfação: por segurança, dado o distanciamento entre os carros, e pelo agradável aceno à vida como ela era no tempo de nossos pais e avós. “E como se enxergássemos a vida em câmera lenta para poder analisar bem antes de engatar os próximos passos”, afirma Ilana Pinsky, psicóloga clínica e pesquisadora visitante na Universidade da Cidade de Nova York.

No entanto, como há sempre um porém, a boia da nostalgia não resolve tudo, e pode ser incômoda. Para a grande maioria das pessoas, na maior parte dos lugares, a pandemia não reflete o drama e a morte na linha de frente, nos hospitais, mas o tédio e as dificuldades comezinhas do cotidiano doméstico. Havia o sonho de retomada da simplicidade dentro de casa, sem o exagero do consumo, sem a loucura do trânsito das metrópoles, uma vida menos agressiva ao ambiente. Sim, e é ambição que parece saltar das conversas entre pacientes e terapeutas. Contudo, as pequenas tarefas do dia a dia, para prosseguir na metáfora bélica, são como uma guerra de guerrilha – aborrecida, decepcionante -, e não é fácil lidar com esse inimigo silencioso, devorador de humores. A simples vontade de pôr os pés na rua, natural, vai colidir com o tal do novo normal, a expressão já comuníssima que ajuda a resumir o mundo como ficou e ficará. Nos restaurantes, haverá pouca gente nos salões, mesas afastadas, horários rigorosos e, surpresa!, em alguns endereços da Europa há bonecos que, confortável e elegantemente sentados diante dos pratos, colaboram para desanuviar o ambiente. Nas academias de ginástica brotam casulos de plástico para isolar as pessoas, em imagem que soa futurista mas tem os pés no presente de modo indelével, ao menos até que surja a tão sonhada vacina contra o vírus. Malhar é preciso e manter a saúde também. “Períodos de grandes rupturas têm caráter de reorientação, levam-nos a pensar no que realmente é prioridade”, diz Rodrigo Alencar, professor na pós-graduação de sociopsicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Vale o conselho que não para de ecoar e que os personagens ouvidos, evidenciam: mantenha a calma e siga em frente na trilha de uma outra vida, melhor, agradavelmente melhor.

EU ACHO …

SÍNDICO OU REITOR?

Os professores não são como donos de apartamentos

Os proprietários dos apartamentos se reúnem para eleger o síndico. Ganha o mais votado. Democrático e simples. Os professores votam para escolher o reitor. Pode-se dizer o mesmo? Enfaticamente, não. Vejamos o assunto de duas perspectivas. A primeira é como se passa nos países democráticos e bem­ sucedidos. A segunda analisa a legitimidade e os resultados de tal eleição.

Nas sociedades mais avançadas, nada de eleição. Os reitores são escolhidos pelos seus governantes ou por conselhos compostos de figuras respeitadas na sociedade. Quem sabe o mundo todo está errado e apenas o Brasil acertou·? Na segunda perspectiva, consideremos que nas democracias os governantes são escolhidos pelo voto popular. Mas há um probleminha: quem escolhe os demais membros da equipe de governo? Outras eleições? Quantas? Vai daí a adoção da democracia representativa. Nela, o eleitor não apenas escolhe quem manda, mas delega a ele a tarefa de apontar seus auxiliares. É o sistema vigente. Precisa ser trocado?

Na universidade federal, se os professores fossem escolhidos pelo voto popular, teriam legitimidade para escolher o reitor (o mesmo com alunos e funcionários). Mas, não sendo assim, não representam o povo. Ademais, seus interesses podem discrepar do que é melhor para a sociedade. Ou seja, isso contraria a ideia magna do governo pelo povo. Os donos elegem o síndico. O povo é dono da universidade. Não são os professores, que, ademais, têm agenda própria.

É bem verdade, os professores apenas elegem uma lista tríplice. Cabe ao governante eleito a escolha final. Porém, se nenhum dos três satisfaz, o incumbente está de mãos atadas. E, por uma infeliz tradição, se não escolher o primeiro da lista, cria-se um conflito barulhento, gerando greves e manifestações. Nada mais antidemocrático.

No seu funcionamento, a eleição intramuros mostra seus vícios. Há um conflito quando a coisa pública é governada por quem pode ter benefício direto em decisões que não correspondem ao interesse social. Fechar cursos? Despedir gente? Ajustar pagamentos? Nada de contrariar os “professores-eleitores” ou pisar nos calos daqueles que não se alinham com o que seria melhor para a sociedade. Escolher gente de fora? Jamais!

Por outro lado, compromissos de campanha (“se eu for eleito…”) reduzem a autonomia do reitor. Isso para não falar da politização do processo. A lealdade a partidos toma o lugar da avaliação desapaixonada das ideias e pessoas. Sendo assim, a governança da universidade converte-se em uma extensão da vida partidária da nação e reforça a tendência de perpetuação das dinastias de reitores.

Não estamos julgando quem está hoje no poder. Discutimos princípios. Se reitores são escolhidos por governantes fracos, o sistema é forte na teoria democrática e frágil na prática, pois erra-se mais nos nomes. Em contraste, o sistema presente, além de equivocado na teoria, peca também na prática. Um caminho promissor seria a criação de conselhos compostos de pessoas independentes e qualificadas para a tarefa. Seriam assistidos por “comitês de busca” que selecionariam os candidatos. Ao governo caberia referendar a escolha.

**CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

BRINCADEIRA DE ALTO RISCO

Desafiando as regras acerca de aglomerações, jovens do mundo todo participam de festas organizadas em segredo, sem máscara nem medidas de distanciamento

Há cerca de um mês, o celular de A.V., 19 anos, morador de Porto Alegre, vibrou com uma notificação do WhatsApp. Eram 20 horas de sábado, e a mensagem continha a revelação de um segredo muito aguardado: o endereço de uma chácara nos arredores da capital gaúcha. Poucas horas depois, o jovem chacoalhava o corpo, embalado por música eletrônica, em uma pista de dança improvisada no jardim da casa alugada para a festa com 300 pessoas. Em plena pandemia, raves clandestinas, que reúnem muito mais gente do que o permitido no relaxamento da quarentena – entre vinte e cinquenta pessoas na maioria dos países – , sem máscara nem distanciamento, vêm sendo realizadas mundo afora por festeiros exaustos do confinamento, em um comportamento de risco que pode levar ao contágio pelo novo coronavírus. “Fui a três festas na quarentena. Sei que é errado, mas faz muita gente feliz”, relata A:v., que prefere não divulgar o nome completo.

As baladas para pequenas multidões, organizadas por produtores profissionais, foram suspensas junto com toda e qualquer forma de entretenimento em grupo por causa da pandemia. Mas não desapareceram, longe disso – simplesmente caíram na clandestinidade das redes sociais. “Nesse tipo de ambiente, é impossível manter o distanciamento social, a melhor forma de proteção contra o vírus”, diz Maria Paula Zanatto, médica infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. A mobilização e o planejamento transcorrem sigilosamente, em grupos de WhatsApp e nos perfis no Instagram, conduzidos por pessoas de quem poucos sabem o nome. Para não correr o risco de ter a festa interrompida pela polícia, elas só divulgam o local em cima da hora, da mesma forma que a senha para entrar. No Brasil, o ingresso oscila entre 10 e 15 reais, já que o objetivo não é ganhar dinheiro e sim fritar (no jargão da noite) durante horas ao som de tecno, trance e outros ritmos alucinantes. Em algumas festas, a bebida está incluída no preço. Em outras, cada um leva o que vai consumir. A duração varia, mas pode se estender pelo fim de semana. Alguns promotores oferecem máscaras e álcool em gel, mas seu uso vai minguando à medida que o consumo de bebida e outras substâncias aumenta. “A paquera rola solta e pouca gente pensa em contaminação”, diz A.V.

Mesmo clandestinas, há baladas que acabam saindo do anonimato. Uma mansão luxuosa às margens da Represa de Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo, foi alvo de denúncias por vizinhos devido às farras frequentes, no início de julho. Em outra ocasião, a polícia impediu que o sertanejo Bruno, da dupla com Marrone, se apresentasse em uma festinha vip em Caldas Novas, Goiás. Na madrugada de sábado 18, a Polícia Militar interrompeu uma festa com mais de 150 pessoas em Jaguaruna, no sul de Santa Catarina. Irresponsabilidade pura, mas que não surpreende ao fim de um período de privação. “A transgressão e o perigo são excitantes. A negação da morte traz prazer tanto pela adrenalina quanto pela sensação de estar acima de tudo o que está acontecendo”, explica a psicanalista Luciana Saddi.

Também na Europa e nos Estados Unidos os planos de abertura controlada vêm sendo atropelados pelos convescotes proibidos. Portugal, um dos países que tiveram sucesso no controle da pandemia, precisou intensificar a fiscalização e até fechar áreas no litoral de Lisboa por causa da multiplicação das festas. “Vamos nos reunir para compartilhar amor, vibes e música”, dizia um convite em terras lusitanas, sem mencionar o compartilhamento do vírus.

No Reino Unido, são tantas as denúncias de free parties que se fala em um novo “verão do amor”, alusão aos encontros movidos a sexo, drogas e rock’n’roll notabilizados pelo movimento hippie nos anos 1960. “Cumpri treze semanas de autoisolamento e estava ficando louco”, disse Robert Milner, DJ britânico que aplacou a ansiedade e a depressão organizando uma festa clandestina em Leeds, no norte da Inglaterra. Por meio do aplicativo Snapchat, ele e amigos reuniram cerca de 3.000 pessoas de baixo de uma ponte, no meio de uma floresta. Milner planeja uma segunda rave, ainda maior. “No começo, tinha medo de pegar o vírus, mas vi que as pessoas se aglomeravam em praias e protestos de rua sem haver pico de casos e passei a duvidar do potencial de infecção”, justifica, sem amparo na ciência. O ceticismo em torno da gravidade da pandemia elevou a imprudência a um novo patamar, com a divulgação das corona parties, feitas exatamente para os participantes se contaminarem. O primeiro a testar positivo ganha um prêmio – e, supostamente, imunidade. Pelo menos uma pessoa morreu no Hospital Metodista de San Antônio, no Texas, depois de se infectar em uma roleta-russa dessas. “Festas de grande porte só serão seguras depois que uma vacina contra a Covid-19 for desenvolvida e amplamente aplicada”, decreta Eliseu Waldman, professor de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Antes disso, dançar na pista apinhada como se não houvesse amanhã pode resultar exatamente nisso: o amanhã não chegar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 02 DE AGOSTO

À PROCURA DA OVELHA PERDIDA

Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas… (Lucas 15.4a).

Jesus, o bom pastor, contou uma parábola imortal sobre o pastor que foi buscar a centésima ovelha e, depois de achá-la, festejou o resgate e alegrou-se com seus amigos. A ovelha perdeu-se porque se afastou do rebanho. A ovelha é um animal míope, inseguro, indefeso e também rebelde. Não consegue proteger-se dos predadores. Não tem um bom senso de direção. Sua segurança está em ficar perto do pastor e junto do rebanho. Sempre que se desgarra e se afasta da companhia das outras ovelhas, está sujeita a cair e ferir-se. A figura da ovelha é sugestiva. Não por acaso Jesus viu os homens aflitos como ovelhas sem pastor. O homem não consegue proteger a si mesmo. A inclinação do seu coração o leva a afastar-se de Deus, em vez de buscar abrigo nos braços onipotentes do Pai. Nenhuma religião é capaz de nos proteger. Nenhum recurso humano pode dar- nos segurança. Somos vulneráveis como ovelhas. Não podemos caminhar seguros confiando em nossa própria força. Dependemos de Deus e uns dos outros. Não podemos afastar-nos da congregação. Não é seguro vivermos isolados do rebanho. Precisamos da proteção do Pastor e da companhia uns dos outros. À nossa volta há muitos perigos. Há terrenos escorregadios. Há despenhadeiros e declives cheios de ameaças. Águas tormentosas podem levar-nos ao naufrágio. Lobos vorazes nos espreitam. Precisamos acautelar-nos. Precisamos buscar o abrigo do aprisco e os braços do Pastor.

GESTÃO E CARREIRA

A VEZ DAS HEALTH TECHS

Empresas iniciantes da área da saúde ganham impulso inédito com a pandemia, atraem investimentos e lançam novos serviços e produtos

A imposição da quarentena em decorrência da pandemia de coronavírus foi dura para a gastroenterologista Sílvia Calichman. As restrições estabelecidas pela prefeitura de São Paulo e o medo de contaminação fizeram os pacientes desaparecer de seu consultório. A solução veio da tecnologia, com a ajuda de plataformas de teleatendimento lançadas recentemente e que permitiram a ela e a seus pacientes continuarem tratamentos na segurança de suas casas. Esse é um dos exemplos de ferramentas e serviços para o setor médico-hospitalar que surgiram nos últimos meses, um movimento já grande o suficiente para ser chamado de uma onda de health techs, startups voltadas para o segmento da saúde. Esse movimento pode ser traduzido em números. Pelas contas da consultoria Distrito, as health techs brasileiras receberam até junho deste ano o equivalente a USS 66,5 milhões em 25 aportes. O valor representa cerca de dois terços de tudo que foi registrado ao longo de todo o ano passado – US$ 94,5 milhões, em 45 contratos. ”Está acontecendo um ‘boom’. Muitas dessas startups tiveram suas soluções requisitadas e serviços relacionados com diagnóstico, logística e telemedicina foram catapultados pela crise”, avaliou Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups.

Como costuma acontecer, os investidores foram rápidos. Em fevereiro, os aportes somaram US$ 5,2 milhões. Em março, mês que marcou o início das medidas de isolamento no país, esse valor saltou para USS 15,5 milhões e se manteve em um patamar alto de lá para cá. “A pandemia certamente acelerou o processo de desenvolvimento e exploração de soluções para a área da saúde, algo que já vinha ocorrendo”, afirmou Gustavo Gierun, cofundador da Distrito. “O mercado de saúde no Brasil é enorme. Acreditamos que este é apenas o começo do movimento”, completou.

Renato Valente, sócio da gestora de fundos Iporanga Ventures, ainda não investiu no setor, mas avalia oportunidades. Em sua opinião, a pandemia forçou órgãos regula­ dores a abrir as portas para a inovação e, por isso, o número de startups de saúde deverá se multiplicar daqui para a frente. “A indústria de saúde é muito conservadora, tanto do lado dos médicos, dos hospitais e até dos pacientes. Quando se abre uma brecha, como o que aconteceu agora, tem muita gente capacitada pronta para inovar.”

A expansão da telemedicina já era uma demanda antiga dos planos de saúde, especialmente para os casos de menor complexidade. O tema estava em debate no país desde 2002, quando o Conselho Federal de Medicina editou resolução abrindo espaço para o uso de tecnologias para o atendimento médico remoto, mas limitado a orientações e à chamada “teleinterconsulta”, para troca de opiniões entre médicos. Em meados de março, o Ministério da Saúde, na gestão de Luiz Henrique Mandetta, liberou o uso da telemedicina no país, inclusive para consultas, diagnóstico e prescrição de medicamentos “em caráter de excepcionalidade e enquanto durar a batalha de combate ao contágio da Covid-19”. Em seguida, o Congresso aprovou uma nova lei.

A Conexa Saúde, startup que explora o ramo da telemedicina, foi uma das que atraíram a atenção de investidores. No mês passado, ela recebeu aporte de RS 40 milhões em uma segunda rodada de investimentos, que poderá aumentar para R$ 140 milhões nos próximos três anos. Fundada em 2017, a empresa já oferecia a telemedicina, nos moldes que eram permitidos, a clientes corporativos. Com a nova resolução, acelerou o desenvolvimento de uma plataforma aberta para médicos lidarem diretamente com os pacientes. “Somando os clientes corporativos e o atendimento direto aos pacientes, fizemos mais de meio milhão de consultas em dois meses”, contou Guilherme Weigert, presidente da startup. “Hoje, a gente faz em média 15 mil consultas por dia. Antes da pandemia eram 2 mil”.

Outras empresas seguiram pelo mesmo caminho. O BoaConsulta, que oferecia uma plataforma para agendamento e gestão, viu as marcações de consultas despencarem 70 % em abril. Numa espécie de contra-ataque, um projeto de uma plataforma de telemedicina foi acelerado e lançado em seguida. O mesmo movimento aconteceu na Dandelin, que com um modelo de economia compartilhada oferece teleconsultas por mensalidade fixa de RS 100. “O segmento de health techs foi pego de surpresa, por um problema urgente, e teve de acelerar. Algo que aconteceria em cinco, dez anos aconteceu em meses. No ecossistema de startups, vimos ondas de fintechs, de mobilidade urbana, mas nunca as health techs tiveram tanto apelo quanto agora”, disse Adriano Fontana, fundador e presidente do BoaConsulta. “Por conservadorismo, também pela exigência de segurança por tratar da vida de pessoas, essa indústria se move de forma mais lenta. A pandemia veio para quebrar certos paradigmas.”

A telemedicina é o serviço mais visível das health techs, mas não o único. Empresas que atuam diretamente no combate à Covid-19 também ganharam destaque. A Varstation, por exemplo, gestada dentro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, desenvolveu o primeiro teste genético para detecção do coronavírus em larga escala, com custo menor e precisão equivalente à do método RT-PCR, o padrão ouro no diagnóstico. A Radsquare e a Hoobox, ambas incubadas no Einstein, criaram uma ferramenta que detecta pessoas com febre em imagens de câmeras de vídeo. O sistema foi instalado em todas as entradas do hospital. Já a Portal Telemedicina desenvolveu um sistema de inteligência artificial, em parceria com o Google, capaz de diagnosticar a doença analisando imagens de raios X ou tomografias do tórax.

Para Marcone Siqueira, cofundador da filial brasileira da empresa de inovação britânica The Bakery, as health techs “são a bola da vez”, e quando ele diz isso não está pensando apenas em startups voltadas especificamente ao tema do coronavírus. Siqueira acredita que a pandemia mudou o comportamento das pessoas em relação à saúde, que agora estaria mais focado na prevenção. “Isso abre espaço para startups que lidem com saúde mental, bem-estar do corpo e até da qualidade do sono”, disse.

O direcionamento imposto pela Covid-19 no ambiente de startups deu origem a vencedores, mas também deixou uma sombra sobre vários segmentos. “Nem todas as empresas de saúde se beneficiaram com a pandemia”, ponderou Cláudio Terra, diretor de Inovação e Transformação Digital da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, que trabalha com mais de 60 startups na área. Empresas de serviços para hospitais não relacionados com a Covid-19 e várias dedicadas à biotecnologia perderam um pouco do brilho – pelo menos, momentaneamente.

Com diferentes ênfases, o movimento de fortalecimento de parte das startups da área da saúde aconteceu em outras grandes economias. No ano passado, o governo britânico lançou, com pompa, um órgão para acelerar a digitalização do Serviço Nacional de Saúde, conhecido pela sigla em inglês NHS. O objetivo era unificar iniciativas que aconteciam de forma independente em várias esferas do sistema. Nos primeiros meses, o NHSX, sigla com a qual foi batizada a nova iniciativa, teve um desempenho considerado lento. Com o estouro da pandemia neste ano, o NHSX engatou uma nova marcha, e os projetos ganharam em velocidade. Em março, o governo lançou um fundo de 500 mil libras para financiar soluções para a crise sanitária, o que também ajudou.

Como aconteceu no Brasil, algumas empresas britânicas adaptaram serviços e produtos já existentes. Esse foi o caso da GoodSAM, uma plataforma que atrai voluntários para a área da saúde. Antes da pandemia, o foco eram doenças cardiovasculares. Agora a GoodSAM é uma das mais ativas na mobilização contra a Covid-19. Outras empresas viram um aumento de interesse repentino por seus produtos. O Hospify, uma plataforma de comunicação criada com o objetivo de substituir o WhatsApp no meio médico, tem atraído milhares de novos usuários a cada semana.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MERGULHO INTERIOR

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Com a pandemia e o distanciamento social, mais do que nunca ganha corpo a busca do ser humano pela reflexão e espiritualidade

O gênio René Descartes cunhou uma frase que entraria para a História: “Penso, logo existo”. Analisada à exaustão, a reflexão é simples: se tudo é incerto, a única verdade inquestionável é a existência humana e a sua capacidade de refletir, debater e escolher o seu próprio destino. Hoje, passados séculos dessas reflexões, e em meio a uma pandemia avassaladora, a espiritualidade volta a ganhar corpo em um País que contabiliza mais de 90 mil mortos.

“A mente humana não está preparada para algo incontrolável como uma pandemia. O sofrimento coletivo faz com que as pessoas se adaptem e busquem soluções convenientes”, afirma o psiquiatra Guilherme Messas, professor da Santa Casa de São Paulo e membro do St Catherine’s College, em Oxford, na Inglaterra. Especialista em comportamento humano, ele afirma que é natural, na situação em que estamos vivendo, que o ser humano realize um mergulho interior. É o que vem acontecendo: desde o início da pandemia, a busca por meditação aumentou 80% no centro budista Mahabodhi, em São Paulo. Com missas e cultos de todas as crenças acontecendo online, as religiões têm visto o crescimento no interesse até de uma audiência que sequer se interessava pelo assunto.

TRANSCENDÊNCIA

A designer catarinense Marina Rocha Damasceno foi a primeira a ler o diagnóstico de câncer da mãe, em dezembro do ano passado. Já em metástase, o médico da família foi categórico: não havia chances de cura. “Eu estava no mercado quando recebi o e-mail. Quando cheguei em casa, nem sabia onde estava a Bíblia”, lembra. A história de Marina com a religião está intimamente ligada à mãe, Rosy Benta da Silva. Quando Marina começou a namorar, aos 14 anos, Dona Rosy aceitou o fato, mas impôs uma condição: que o novo casal frequentasse a igreja. “A gente dizia que ia para o culto, mas acabávamos no cinema ou na lanchonete”. Hoje, com a pandemia, tudo mudou. A mãe morreu em março, e logo em seguida Marina perdeu a avó materna, vítima da Covid-19. O pai também está internado com o coronarívus, em estado grave. A pandemia levou Marina, aos 28 anos, a se inspirar na religiosidade da mãe. “Mesmo que eu perca toda a minha família, jamais abandonarei Deus”.

A baiana Gabriela Pereira cresceu em um ambiente de sincretismo religioso e gosta de afirmar que “é um pouco de tudo”. Sempre foi adepta do uso de ervas, florais e meditação. Quando seu filho de 24 anos cometeu suicídio, em abril, ficou em choque. Depois de um mês isolada, buscou ajuda no Espiritismo e na meditação, e conseguiu voltar a trabalhar. Desde então, a preparadora física incorporou em suas aulas o lado espiritual – e não apenas o físico. “Com a pandemia, a sociedade vive um momento delicado. Há muita ansiedade. Quero ajudar as pessoas a melhorarem, de corpo e alma”.

Armando Remacre tem graduação em Engenharia de Minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, e Doutorado na École Nationale Supérieure des Mines de Paris, na França. O ex-professor da Universidade de Campinas (Unicamp) jamais pensou que um dia se tornaria um monge budista. Hoje, com o nome Gen Kelsang Geden, diz que é preciso abandonar a ideia de transcendência como uma coisa antiquada e símbolo de ignorância. “As pessoas não digerem a palavra ‘espiritual’ com facilidade”. O monge explica ainda que a inteligência emocional, tão em voga nos dias de hoje é, na verdade, uma versão atualizada da mesma característica. “A espiritualidade é um conceito que nos ensina a estar preparados para qualquer situação, seja no trabalho, no cuidado com os filhos ou no enfrentamento do lado psicológico de uma pandemia.”

Em seus anos como psiquiatra, Messas vê a prática religiosa como algo positivo, ainda mais no cenário atual – principalmente em questões que envolvem luto e depressão. Ele conta que, após as pandemias do passado, as pessoas, num primeiro momento, adotam duas posturas: a solidariedade e o “salve-se quem puder”. “Depois da Peste Negra, veio o Iluminismo. Após a Gripe Espanhola, surgiram regimes totalitários, mas também importantes movimentos artísticos”. Se a humanidade é imprevisível em suas crenças, que a espiritualidade ajude a confortar quem precisa, independente da religião.

EU ACHO …

O QUE HÁ POR TRÁS DA MÁSCARA

Não espere o futuro chegar para construí-lo à sua maneira

Leio e ouço muitas especulações sobre o futuro que virá. Como será a vida nas cidades, no trabalho, nas escolas, nos restaurantes? Como será o convívio com as pessoas, com a família, amigos e colegas de trabalho?

Quem poderia imaginar que, um dia, em vez de pegarmos a bolsa ou o guarda-chuva para sair de casa, pegaríamos a máscara? Essa indumentária meio estranha, meio esquisita que, de repente, passou a ser essencial como um sapato. O curioso é que as máscaras, na minha opinião, estão fazendo com que as pessoas fiquem menos “mascaradas”. Porque o acessório encobre quase tudo no rosto; menos o olhar, que acaba ganhando destaque. Difícil se deixar enganar por um olhar mais triste, mais alegre, mais preocupado, apaixonado ou deprimido. Os olhos denunciam o amor e a dor, assim como o sofrimento e o medo.

E o maior medo neste momento é de não podermos mais conviver fisicamente com as pessoas: olhar no olho, abraçar, beijar e ficar bem perto de quem gostamos. E aí nos deprimimos: será que vai ser assim para sempre, ou ao menos até inventarem uma vacina contra o coronavírus?

Ainda que o país e o mundo comecem a ensaiar um retorno à normalidade, ninguém tem a resposta segura de como será esse novo tempo. Por outro lado, não acredito que seja hora de ficar imaginando o nosso futuro. É um exercício meio inútil, porque o futuro, tal como o passado, não existe de fato, a não ser em nossa cabeça: o passado na forma de memória, o futuro como projeção. Tudo o que temos, de verdade, é o presente.

Cada um de nós saberá o que fazer quando a vida voltar ao normal. Talvez o segredo para superar a angústia das incertezas seja estar aberto ao que vier, sem expectativas. Independentemente do que nos atinja, precisamos estar cada vez mais fortes, física e espiritualmente. Quando as circunstâncias se apresentam como incontornáveis, como é o caso desta pandemia, as mudanças mais profundas vêm de dentro para fora.

Tenho uma história pessoal de superação que me ensinou muito. Obesa de 120 quilos, fumante inveterada, pouco atenta à saúde, um dia resolvi mudar e comecei a botar em ordem o que me parecia mais visivelmente errado: meu corpo. Foi um tremendo esforço, mas, depois que cuidei da minha saúde, tudo começou a se encaixar e melhorar em todos os planos. Foi como se, combatendo a obesidade e o sedentarismo, eu tivesse criado anticorpos para outros males. O que perdi em peso ganhei em confiança em mim mesma. Emergi desse processo com a certeza de que cada minuto de batalha valeu a pena. Aos 40 anos, comecei a se ruma mulher saudável.

Portanto, não espere um futuro determinado pelos outros. Como cantou Geraldo Vandré – deixando o contexto histórico de lado, porque o que interessa agora é a dimensão pessoal da conclamação: “Quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”. Enquanto não conseguirmos alterar as circunstâncias que nos rodeiam, como a proliferação do vírus, inventemos nossas próprias vacinas. Fortalecer nossa imunidade contra outras doenças do corpo, do espírito, da carreira profissional e nas nossas relações de vida.

***LUCILIA DINIZ                     

OUTROS OLHARES

DORMIU, MAS ESTÁ ACORDANDO

O relaxamento da quarentena em Nova York levanta a questão: como conciliara incomparável efervescência da cidade que nunca para com a rotina cercada de cuidados imposta pelo mundo pós-pandemia?

Nenhuma metrópole sentiu tanto o efeito da pandemia quanto Nova York. Acidade que nunca dormia se trancou em casa dia e noite, o fervilhante metrô e os táxis e carros que atravancam as ruas se esvaziaram, os aviões que despejam turistas incessantemente pararam de pousar nos aeroportos, e Manhattan, centro financeiro do mundo, ficou às moscas. Enquanto isso, a epidemia grassava: houve registro de 22.000 mortes entre março e maio, um tétrico recorde mundial. Depois de tanto dissabor, é claro que o primeiro fim de semana de relaxamento da quarentena foi uma festa. Aliás, muitas festas, ao ar livre e com dez pessoas no máximo reunidas, usando máscaras e mantendo a distância posta pela cartilha de combate ao vírus. Ao longo do sábado e do domingo ensolarados, pequenos grupos celebravam aniversários e reencontros no Central Park, em Manhattan, ao som de músicos amadores nos gramados.

Ao entardecer, na frente dos bares (dentro ainda não pode), a animação baixou as máscaras na altura do queixo das pessoas, de modo a brindar o fim do isolamento. Na cidade de maior densidade populacional dos Estados Unidos, cerca de 50 quilômetros de ruas e avenidas foram transformados em calçadões para pedestres, dando um ar de festival à selva de pedras conhecida pelo trânsito frenético e o vaivém de gente apressada. Em alguns pontos, grupos se excederam nas comemorações e levaram um puxão de orelha do governador Andrew Cuomo. “Os casos estão aumentando em 22 estados. Não queremos passar por essa situação deplorável”, disse ele em uma de suas lives habituais, avisando que reimpor o isolamento social em áreas, digamos, rebeldes é “uma possibilidade muito séria”.

Na segunda-feira 8, entre 200.000 e 400.000 pessoas voltaram ao trabalho em Nova York. Os nova-iorquinos ainda estão testando a nova rotina, na qual restaurantes oferecem pratos para entrega na calçada, bares instalaram torneiras de chope e serviços de coquetelaria em um balcão na fachada e as sapatarias colocaram cadeiras do lado de fora para clientes poderem experimentar seus produtos. Apesar das derrapadas – e dos protestos antirracismo, que não cessam e viraram um foco preocupante de possível contaminação -, a população está obedecendo às regras. “Os últimos meses foram muito angustiantes e ninguém quer passar por aquilo de novo”, disse a aniversariante Kelly Sandberg, que, de coroa e tudo, celebrava com amigas no Central Park.

O plano de reabertura de Nova York foi desenhado pelo governo estadual em quatro fases, e cada região progride ou regride no cronograma de acordo com uma série de parâmetros medidos diariamente. Acidade está na fase 1, que autoriza a volta ao trabalho na construção civil, nas fábricas e em toda a cadeia de suprimentos onde não há contato direto com o público. No varejo de rua, o atendimento restrito a balcões na porta de entrada levou muitas lojas a adiar a reabertura, e as vendas das que abriram refletem as limitações. “Poucos clientes querem comprar sem poder entrar, circular pelas araras e experimentar”, admite Mark Sullivan, dono de uma loja de roupas femininas em Manhattan.

Passados os primeiros quinze dias, o governo fará uma reavaliação do número de infecções. Mas, empolgado com o bom anda mento da reabertura, o prefeito Bill de Blasio afirmou na quinta-feira 18 que a cidade já pode avançar para a fase 2 na segunda 22, com a liberação do retorno aos escritórios, salões de beleza, áreas ao ar livre de restaurantes e reabertura de templos religiosos com no máximo 25% de lotação. Para as fases 3 e 4, as normas são menos específicas por enquanto. Prevê-se que na terceira etapa a chamada indústria de hospitalidade – hotéis, restaurantes, bares e academias de ginástica – volte à ativa, com bem menos gente. A última fase contempla os locais de maior concentração, aí incluídos os teatros e cinemas, as escolas e os shopping centers. Os produtores da Broadway estão reembolsando ingressos para espetáculos até 6 de setembro. É certo que muitos assentos terão de ficar vazios, o que deve inflacionar preços – como já acontece com as passagens de avião. Na mesma situação estão as casas de concerto e os museus, entre eles o Metropolitan, que precisou adiar o ano inteiro de festejos que planejara para seus 150 anos, completados em 13 de abril. Quando reabrir, o Met receberá um quinto da média diária de 20.000 visitantes.

Aos poucos, Nova York vai se adaptando à nova realidade. O centenário metrô, célebre pela população de ratos na casa dos milhões e pelo mau cheiro permanente, agora para de madrugada para ser desinfetado com um produto cheiroso à base de limão e cloro, para a agradável surpresa dos ainda poucos passageiros, aos quais funcionários oferecem máscaras descartáveis e frascos de álcool em gel. Difícil vai ser fazer valer o limite de 50% de ocupação nos vagões quando todos os negócios reabrirem. “Por enquanto, não precisamos intervir. Mas não sei como vamos barrar a entrada em trens cheios nas principais estações”, diz o agente John Garrido.

As incertezas sobreo futuro da metrópole são muitas e diversas, mas uma toca na alma da cidade: o que será dos escritórios que ocupam os arranha­ céus nova-iorquinos, em vista da bem­ sucedida experiência de home office em setores-chave, como o financeiro e o de tecnologia?  A Amazon adquiriu em março, por 1 bilhão de dólares, um prédio na Quinta Avenida que, já avisou, só abrirá as portas em 2021 – e para quem quiser sair de casa. O Facebook, locatário de 200.000 metros quadrados em Manhattan pouco antes da pandemia, também liberou a opção de trabalho a distância. A debandada significaria menos gente circulando diariamente pelo centro de Nova York, com um esperado e temido efeito cascata no faturamento dos teatros, restaurantes, casas de show e pequenos negócios que fazem a Grande Maçã brilhar. Seria o fim de Nova York tal qual a conhecemos?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE AGOSTO

SOLIDÃO, O VAZIO DA ALMA

Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus (Romanos 15.7).

A população do mundo ultrapassou a fronteira dos sete bilhões de habitantes. Multidões se acotovelam nos grandes centros urbanos, mas a maioria é formada por uma massa sem rosto e sem identidade. Caminham anônimas, blindadas pela solidão. Há muita gente solitária dentro das famílias e até dentro das igrejas. Há mulheres viúvas de maridos vivos, vivendo sozinhas, sem afeto e sem companheirismo. Há filhos abandonados pelos pais. Há idosos esquecidos pelos filhos, precisando de um beijo acalentador. Há pessoas curtindo a dor de viuvez, sentindo uma dolorosa saudade de quem partiu. Há muitos velhos abandonados nos asilos curtindo amarga solidão, assim como há muitos esquecidos nas prisões. O apóstolo Paulo sentiu na pele a dor da solidão. Em sua segunda prisão em Roma, escreveu a segunda carta a Timóteo e pediu que ele fosse vê-lo depressa. Mesmo revestido de forças por Deus a fim de cumprir o ministério e enfrentar o martírio, Paulo precisava de um ombro amigo a seu lado nessa hora dolorosa. Gente precisa de Deus, mas gente também precisa de gente. Nossa família precisa ser um oásis de vida no deserto, o remédio divino para o drama da solidão.

GESTÃO E CARREIRA

DE PATROCINADO A CEO DA MARCA

O ex-tenista Pedro Zannoni assume a operação da Lacoste na América Latina

Em dezembro de 1993, Pedro Zannoni, então um jovem tenista de 17 anos, venceu pelo Brasil o torneio Sunshine Cup, na Flórida, uma espécie de Copa Davis juvenil, disputada entre países. Márcio Carlsson e Gustavo Kuerten faziam parte da equipe. Carlsson não foi muito longe na carreira. Nunca ganhou um título e a posição máxima que alcançou foi a de 1.190 no ranking da Associação dos Tenistas Profissionais. Gustavo Kuerten fez história. Venceu 20 campeonatos, permaneceu 43 semanas como número 1 do mundo e amealhou 14 milhões de dólares em premiações. Zannoni foi o único dos três que não virou tenista profissional. Estudou direito, fez um programa para executivos em Wharton, na Pensilvânia, e seguiu carreira corporativa em marcas esportivas, como Wilson, Puma e Asics.

Na época do campeonato na Flórida, Zannoni tinha o patrocínio da Lacoste. Por voltas do destino, em maio deste ano, quase três décadas depois, ele assumiu o cargo de CEO para a América Latina da mesma Lacoste. Com um detalhe: o então companheiro de equipe Gustavo Kuerten, de quem ficou amigo e com quem disputou jogos de duplas, é embaixador global da marca. ”Ainda não nos falamos, mas está na minha agenda”, afirma Zannoni. Kuerten é peça-chave na comunicação da grife e um elo entre o Brasil e a matriz, a França. Tricampeão de Roland Garros, é uma figura adorada em Paris. Com suas vitórias, foi responsável por um aumento expressivo do interesse dos brasileiros pelo tênis – e consequentemente pelos produtos da Lacoste, que tem no esporte da raquete sua origem.

”O Brasil é o quarto mercado em importância estratégica para a Lacoste, depois da França, dos Estados Unidos e da China”, diz Zannoni. O que não significa share em faturamento, um dado não revelado pela empresa, controlada por um grupo familiar suíço. O executivo chega com a missão de integrar as subsidiárias do Brasil, hoje com Rachel Maia no comando, da Argentina, do Chile e do Uruguai. No ano que vem a região deve incorporar o escritório da Colômbia, que responde hoje ao bloco dos Estados Unidos, e abrir uma representação no Peru. Apesar de o carro-chefe da marca ser a clássica camisa polo, é no segmento de sneakers que está a aposta maior de crescimento local, principalmente entre o público mais jovem.

O desafio, como acontece com todos os segmentos, é a atual crise causada pela pandemia. Duas lojas em outlets devem ser inauguradas em breve, mas apenas porque já estavam previstas antes da propagação do coronavírus. Entre as recentes medidas estão o investimento na plataforma própria de e-commerce, inaugurada há um ano, e novas parcerias com marketplaces. No ano que vem, assim que as condições forem mais favoráveis, a ideia é ter mais lojas em outras capitais brasileiras, além de São Paulo e Rio de Janeiro, no novo conceito global chamado Le Cluh, com uma linguagem visual que simula um estádio de tênis, em que predominam a cor verde e o mobiliário clássico de madeira.

A herança da grife, fundada pelo tenista René Lacoste em 1933, é bastante presente. Basta lembrar que Novak Djokovic, número 1 do mundo, é patrocinado pela Lacoste. Apesar de ter uma linha de performance, a Lacoste quer cada vez mais ser reconhecida como uma marca de moda. Esse reposicionamento ficou marcante a partir de 2010, quando o estilista português Felipe Oliveira Baptista assumiu a direção criativa da maison. Ele sacudiu a poeira de cima do crocodilo, inovou em cores e modelagens e voltou a colocar a Lacoste para desfilar na conceitual Semana de Moda de Paris. Dois anos atrás, Baptista saiu, sendo substituído pela inglesa Louise Trotter, a primeira mulher no cargo de chefe de criação. Em entrevista recente, Trotter revelou o caminho que imagina para a grife: ”Quero fazer a roupa que as pessoas querem usar. Todos desejam viver mais, parecer jovens e transitar com naturalidade entre o trabalho e o dia a dia”.

ENTRE POLOS E SNEAKERS

A presença global da marca do crocodilo

FUNDAÇÃO: 1933

FATURAMENTO: 2,7 BILHÕES

PAÍSES COM OPERAÇÃO: 120

PONTOS DE VENDA PRÓPRIOS: 1.200

COLABORADORES: 10.000

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRESSE – POR QUE ELAS SOFREM MAIS?

Respostas de homens e mulheres ao esgotamento físico e emocional são biologicamente diferentes mesmo no nível celular mais básico. Além de levar em conta os aspectos sociais que as expõem frequentemente a situações de sobrecarga emocional, é preciso considerar as especificidades físicas quando se estudam possibilidades de tratamento dos sintomas de psicopatologias como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade e depressão

Pense na última vez que se sentiu estressado. Sua frequência cardíaca acelerou? A respiração ficou superficial e rápida? Talvez seus músculos tenham se tornado tensos e você, entrado em alerta. O cérebro provoca todas essas mudanças fisiológicas para nos ajudar a sobreviver diante de uma situação potencialmente perigosa. Mas, quando a resposta é ativada de forma contínua e equivocada, pode se tornar perigosa. De fato, inúmeras pesquisas relacionam o estresse constante e descontrolado a diversos problemas de saúde, desde doenças cardíacas e diabetes até depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Um dado que chama atenção é o fato de mulheres terem probabilidade duas vezes maior, em relação aos homens, de sofrer de distúrbios psiquiátricos relacionados com o estresse, de acordo com análises epidemiológicas. Cientistas têm se perguntado por que isso acontece. Alguns especialistas argumentam que fatores culturais são, em grande parte, responsáveis por esse quadro. As mulheres estão muito mais sujeitas a violências cotidianas das mais variadas ordens, fazem jornadas duplas ou triplas e ainda são subjugadas no ambiente profissional, com salários significativamente menores do que seus pares do sexo masculino. Outro fator a ser considerado nas estatísticas: as mulheres costumam ser mais dispostas do que os homens a procurar ajuda em relação a doenças mentais, o que aumenta as chances de esses casos serem contabilizados. Mas chamam atenção novas evidências surgidas com estudos de animais que sugerem que a biologia também pode desempenhar um papel importante para entendermos esse quadro. Pesquisadores começam a perceber notáveis diferenças na maneira como o cérebro de homens e mulheres reage e se adapta ao estresse.

Esse conhecimento, porém, vem se construindo a passos curtos. Historicamente, cientistas estudaram quase que exclusivamente animais machos – mesmo na hora de investigar distúrbios que pareciam ocorrer mais frequentemente em mulheres. Muitos pesquisadores diziam temer que os hormônios femininos pudessem trazer complicações para os estudos e confundir os dados, criando a necessidade de investigar mais participantes, por um tempo longo e com maior custo. Pesquisas recentes contestam essa linha de raciocínio (dados coletados de fêmeas não variam mais do que de machos), mas a propensão ao masculino na pesquisa com animais persiste. Para resolver a questão, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), que financia grande par- te dos estudos biomédicos do país, tem se empenhado numa nova empreitada. A partir deste ano, a agência exige que os cientistas que realizam pesquisas com animais incluam o gênero como uma variável biológica, estudando tanto os machos quanto as fêmeas. Como resultado, pesquisadores que investigam o estresse crônico têm possibilidade muito maior de entender como isso afeta a saúde de pessoas de ambos os gêneros – um trabalho que poderia levar a tratamentos mais eficazes e específicos (de acordo com o sexo) para os distúrbios psicológicos. De fato, algumas das mais promissoras terapias em fase de pesquisa – como a administração de ocitocina para ansiedade e de cetamina para depressão – parecem ter efeitos muito diferentes entre homens e mulheres.

CÉLULAS SUPERATIVADAS

Os modelos animais que os cientistas usam para explorar os efeitos do esgotamento físico e mental assumem muitas formas. Alguns pesquisadores expõem os roedores a algo estressante (talvez um som) e os condicionam a associar o estímulo a um choque leve por vários dias seguidos. Outros alteram os níveis de substâncias químicas relacionadas com o estresse, como os glicocorticoides ou o fator de liberação de corticotrofina (CRF), no cérebro dos animais por meio da manipulação genética. Independentemente do método, as intervenções parecem produzir reações mais rápidas e mais fortes em cobaias do sexo feminino.

Os processos celulares mais básicos envolvidos na resposta ao estresse diferem entre os gêneros. Por exemplo, a neurocientista Georgia E. Hodes, que trabalha no laboratório do neurocientista Scott Russo, da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, conduziu recentemente um estudo em que ela e seus colegas provocaram estresse em camundongos machos e fêmeas ao longo de várias semanas. Eles notaram que levou 21 dias para haver aumento nos comportamentos similares ao de depressão e ansiedade em ratos machos, mas apenas seis dias para observar a mesma reação nas fêmeas. Em busca de uma explicação, os pesquisadores investigaram o núcleo accumbens, uma região do cérebro envolvida na busca de atividades gratificantes e prazerosas. Os cientistas acreditam que a interrupção da sinalização neural normal nessa área pode contribuir com a anedonia, a incapacidade de experimentar o prazer, um sintoma comum na depressão e em vários outros transtornos relacionados com o estresse.

Dentro do núcleo accumbens, Hodes identificou diferenças de sexo na regulação de um gene chamado Dnmt3a (ADN metiltransferase 3a). Após um período estressor de seis dias, ele ficou mais pronunciado em ratas. Esse gene codifica uma enzima que altera o DNA de uma célula de tal forma que impede que outros genes sejam lidos e utilizados para produzir proteínas. Para determinar o papel do Dnmt3a no estresse crônico, Hodes removeu o gene do núcleo accumbens das fêmeas. Assim, elas se tornaram mais resistentes e responderam de forma similar aos machos. Os resultados sugerem que as ratas experimentam um aumento da expressão do Dnmt3a após apenas uma curta exposição a eventos estressores, o que então bloqueia outras proteínas que promovem a resistência ao estresse. Curiosamente, os pesquisadores estão desenvolvendo substâncias que inibem enzimas Dnmt para tratar certos tipos de câncer. Cientistas acreditam que drogas semelhantes podem ser úteis no tratamento de distúrbios relacionados com o estresse, particularmente em mulheres.

Alterações na expressão gênica não são as únicas diferenças cerebrais relacionadas com o gênero. Na época do pós-doutorado, minha orientadora, a neurocientista Rita Valentino, do Hospital da Criança da Filadélfia, e eu apontamos distinções associadas com o sexo nos receptores que respondem ao hormônio CRF, que ajuda a iniciar a resposta bioquímica do corpo ao estresse. Embora existam receptores de CRF em muitas áreas neurais, nos concentramos no locus coeruleus, uma estrutura responsável por mudar nossos níveis de excitação: de sonolentos a completamente acordados. Durante um evento estressante, o CRF inunda o locus coeruleus, onde se liga a receptores CRF para manter um animal em alerta máximo. Normalmente, esses recepto- res se acomodam na superfície externa das células do cérebro, à espera de um sinal CRF. Na medida em que os níveis de CRF aumentam, no entanto, os receptores migram da membrana celular para o seu interior, ficando literalmente off-line. Acreditamos que o pro- cesso ajuda a evitar que as células cerebrais fiquem superativadas.

Observamos que em roedores machos os receptores de CRF recuavam para dentro dos neurônios após exposição a um estressor padrão. E também agiam assim em camundongos geneticamente modificados para expressar CRF em excesso. Nas fêmeas, entretanto, os receptores permaneciam na membrana celular, onde ficavam sensíveis aos níveis elevados de CRF. Os resultados sugerem que o CRF pode aumentar a excitação e o estado de alerta de forma mais intensa nas mulheres do que nos homens. Em algumas situações, essa diferença pode ser, na verdade, adaptativa: permanecer totalmente ligado durante uma ocorrência estressante por ser algo positivo. Mas a superativação desse sistema também pode levar a hiperexcitação, um estado que, nos humanos, contribui com a insônia, o prejuízo da concentração e a sensação de sentir-se no limite.

Pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão podem apresentar altos níveis de CRF e sintomas de hiperexcitação. Cientistas acreditam que, se encontrarem diferenças relacionadas com o gênero como essas nos receptores CRF humanos, estarão um pouco mais perto de explicar por que as mulheres são mais propensas a sofrer de TEPT e depressão. No entanto, pode não ser fácil demonstrar essa variação, já que, na hora de visualizar o cérebro humano, as limitações técnicas dificultam a detecção de alterações moleculares, como a localização do receptor de CRF. Mas temos outras razões para acreditar que, assim como camundongos fêmeas, mulheres podem ter maior sensibilidade ao CRF: injetá-lo na corrente sanguínea aumenta mais a quantidade de hormônios do estresse em mulheres do que em homens.

EXPLOSÃO DE HORMÔNIOS

De onde vêm essas particularidades? Pesquisas recentes apontam para os diferentes complementos de genes com que nascem machos e fêmeas – bem como as explosões hormonais no útero e durante a puberdade, que podem alterar permanentemente o cérebro em desenvolvimento. Além disso, níveis flutuantes de testosterona, estrogênios e progesterona podem modular funções neurais em adultos. Em meu laboratório na Universidade Temple, começamos a estudar o papel que esses hormônios circulantes desempenham na regulação das respostas comportamentais dos roedores a altos níveis de CRF, avaliando o grooming compulsivo (ato de se coçar, lamber ou morder).

Quando um rato lambe a própria pele (grooming) de maneira compulsiva, às vezes a ponto de causar queda de pelos, acreditamos que isso reflita um estado de intensa ansiedade. O comportamento, porém, pode ser uma forma de se acalmar. Observamos que, quando injetávamos CRF em ratos para induzir estresse, as fêmeas se lambiam mais que os machos. Além disso, a intensidade desse comportamento mudava ao longo do cio, que tem um paralelo ao ciclo menstrual humano, mas que dura somente de quatro a cinco dias. Na fase em que os hormônios ovarianos (como estrogênios e progesterona) atingiam o pico, o CRF desencadeava ainda mais o grooming – sugerindo que, de alguma forma, os hormônios amplificam os efeitos do CRF.

Respostas comportamentais como o grooming dependem de muitas regiões neurais. Assim, ao tentar explicar as diferenças entre ratos machos e fêmeas, a pesquisadora Kimberly Wiersielis, que desenvolve estudos em meu laboratório, levantou a hipótese de que o CRF talvez ativasse circuitos diferentes no cérebro de cada indivíduo. Para testar a ideia, ela examinou os cFos em tecidos cerebrais, uma proteína expressa apenas quando as células neurais estão ativadas. Em seguida, comparamos estatisticamente os padrões de estímulo celular. A análise revelou que, independentemente do sexo, o CRF ativou diversas regiões do cérebro, embora com diferentes padrões – e principalmente entre machos e fêmeas durante o cio, quando elas tinham os níveis mais altos de estrogênio e progesterona.

ESPERTAS E SOBRECARREGADAS

Essas diferenças são importantes. Enquanto procuramos melhores medicamentos para tratar distúrbios psiquiátricos relacionadas com o estresse, é vital considerarmos esses aspectos. Até hoje, terapias potenciais são testadas em roedores machos com maior frequência. Mas os mesmos compostos podem ter efeitos muito diferentes nas fêmeas. Por exemplo, o neurocientista Brian Trainor e seu aluno de pós-graduação Michael Q. Steinman, da Universidade da Califórnia em Davis, testaram uma terapia com ocitocina em camundongos de ambos os sexos. O hormônio favorece a ligação social em mamíferos, por isso os cientistas levantaram a hipótese de que administrá-lo pelo nariz das pessoas, na forma de spray, poderia ajudar a reduzir a ansiedade social e a evitação de conflitos, bem como amenizar dificuldades no processamento de sinais sociais, um problema observado com alguma frequência em pacientes com distúrbios psiquiátricos relacionados com o estresse. O grupo de Trainor constatou que a ocitocina intranasal de fato ajudou a reduzir a inquietação em camundongos machos, mas em muitas situações estimulou a ansiedade nas fêmeas. Essa reação deve ser considerada e nos alerta para a necessidade de nos certificarmos de que os sprays de ocitocina não causam efeitos secundários adversos similares nas mulheres.

A cetamina oferece outro exemplo. O medicamento, geralmente utilizado como anestésico, bloqueia o receptor N-metil-D-aspartato (NMDA), uma proteína que pode regular diversos processos, como aspectos da resposta ao estresse. A droga criou muita empolgação como terapia potencial contra a depressão, porque, ao contrário de antidepressivos tradicionais que podem levar semanas para oferecer qualquer benefício, baixas doses de cetamina podem ajudar a reduzir os sintomas rapidamente, em alguns casos, após uma única infusão. Infelizmente, altas quantidades da substância podem induzir delírios, alucinações e uma experiência “fora do corpo” (razão pela qual é também uma droga recreativa bastante popular).

Pesquisadores têm estudado a cetamina em animais machos para desenvolver terapias mais direcionadas contra a depressão. Em 2013, porém, o neurocientista Mohamed Kabbaj e a estudante de pós-graduação Nicole Carrier, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida, também testaram a substância em ratas. Eles descobriram que foi necessária menor dose de cetamina para aliviar os sintomas de depressão nas fêmeas e que o motivo não estava relacionado apenas com uma questão de diferenças na massa corporal, mas sim que parecia haver um mecanismo biológico distinto em ação. Se essas mesmas diferenças existirem nos humanos, os cientistas que pesquisam novos fármacos com propriedades semelhantes à cetamina podem ter de desenvolver terapias distintas para homens e mulheres. Atualmente, os cientistas avaliam a segurança e eficácia em longo prazo da substância. Esses estudos podem revelar que, assim como as fêmeas, as mulheres devem receber uma dose menor. Não sabemos por que fêmeas e machos teriam evoluído com diferentes respostas biológicas ao estresse. Uma possibilidade é que uma fêmea que protege seus filhotes, ou mesmo outros indivíduos mais jovens e vulneráveis do grupo, precise manter um estado elevado de alerta e consciência em seu ambiente – ainda que à custa do desgaste físico e mental intenso. Essa “vantagem cognitiva” parece intimamente associada à maior sensibilidade ao estresse, como maior vulnerabilidade à depressão e a transtornos de ansiedade.

À medida que nos comprometemos a incluir fêmeas nas pesquisas, podemos aprender mais não apenas sobre distúrbios que são mais comuns em mulheres, mas também sobre aqueles que são mais frequentemente diagnosticados em homens, como autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Nesse caso, estudar as diferenças neurais do sexo feminino pode revelar fatores que conferem maior solidez. E isso levar ao desenvolvimento de tratamentos mais bem direcionados, de acordo com o sexo.

É cada vez mais evidente que a abordagem tradicional de realizar estudos apenas com animais machos é falha. De fato, nossa antiga confiança em pesquisas de desenvolvimento de drogas com essa premissa pode explicar, pelo menos em parte, por que as mulheres relatam mais reações adversas aos medicamentos do que os homens. Isso também pode ter barrado medicamentos que poderiam ser altamente eficazes para esse público, mas que nunca chegaram ao mercado. Essa situação reflete questões culturais mais amplas, embasadas na opressão, que precisam ser revistas e mudadas com urgência.

OS 12 SINAIS DE ALERTA

O estresse continuado se acumula, enredando a pessoa em uma espécie de círculo vicioso. É   importante ter em mente que a síndrome do esgotamento profissional se desenvolve devagar, à   medida que a relação com a atividade profissional se torna gradativamente marcada pela falta de entusiasmo. Diversos estudos reforçam a ideia de que a síndrome tem três componentes principais: esgotamento físico e mental, sensação de impotência e falta de expectativas (expressa como desânimo e pessimismo). As três características tendem a estar associadas, mas, em muitos casos, experimentar apenas uma delas já representa risco. Para fins didáticos, é possível agrupar os sintomas em estágios, que podem se suceder, se alternar ou ocorrer ao mesmo tempo, até que o quadro de fato se instale:

1. NECESSIDADE DE AUTOAFIRMAÇÃO

Anseio de fazer tudo de forma perfeita, medo excessivo de errar ou ambição exagerada na profissão levam à compulsão por desempenho

2. DEDICAÇÃO INTENSIFICADA

Para fazer jus às expectativas desmedidas, a pessoa intensifica a dedicação e passa a fazer tudo sozinha

3. DESCASO COM AS PRÓPRIAS NECESSIDADES

A vida profissional ocupa quase todo o tempo. A renúncia ao lazer e ao descanso é vista como ato de heroísmo

4. EVITAÇÃO DE CONFLITOS

A pessoa percebe algo errado, mas não enfrenta a situação temendo deflagrar uma crise. Surgem os primeiros problemas físicos

5. REINTERPRETAÇÃO DOS VALORES

Isolamento e negação das próprias necessidades modificam a percepção. Amigos e passatempos são desvalorizados. Autoestima é medida pelo trabalho

6. NEGAÇÃO DE PROBLEMAS

O profissional torna-se intolerante, julga os outros incapazes, exigentes demais ou indisciplinados

7. RECOLHIMENTO

A pessoa se afasta dos outros, parece irritada e sem ânimo

8. MUDANÇAS EVIDENTES DE COMPORTAMENTO

Quem era tão dedicado e ativo revela-se amedrontado, tímido e apático. Atribui a culpa ao mundo, mas sente-se cada vez mais inútil

9. DESPERSONALIZAÇÃO

Desvaloriza a todos e a si próprio, relega necessidades pessoais. Deixa de fazer planos, só pensa no presente e a vida limita-se ao funcionamento mecânico

10. VAZIO INTERIOR

Sensação de vazio interno é cada vez mais forte. Excede-se na vida sexual, na alimentação e no consumo de drogas e álcool

11. DEPRESSÃO

Indiferença, desesperança e exaustão. Sintomas dos estados depressivos podem se manifestar, desde a agitação até a apatia. A vida perde o sentido

12. SÍNDROME DO ESGOTAMENTO PROFISSIONAL

Total colapso físico e psíquico, pensamentos suicidas. É urgente recorrer à ajuda médica e psicológica

PEDÁGIO MAIS CARO PARA AS MULHERES

Elas têm maior probabilidade, em relação aos homens, de serem diagnosticadas com distúrbios psiquiátricos associados com o estresse, com exceção do abuso de substâncias. Essa discrepância pode estar, pelo menos em parte, relacionada com fatores sociais, como a relutância masculina em procurar ajuda, que faz com que homens sejam subdiagnosticados.

EU ACHO …

LIMPAR A CENA?

Remover estátuas não resolve o problema. É preciso mover as ideias

O assassinato de George Floyd, em 25 de maio, por um policial branco em Minneapolis provocou grande comoção. Além dos Estados Unidos, as manifestações de rua contra o racismo espalharam-se mundo afora, em particular em cidades europeias em que as tensões étnico-raciais também existem, herança do passado colonial e da pobreza e desigualdade contemporâneos. Em meio aos protestos, estátuas de personagens históricos que promoveram ou simbolizaram o racismo e o colonialismo foram alvo das ruas em revolta.

Em Richmond, capital da Virgínia, o governador anunciou que retiraria a estátua do general Robert E. Lee depois que ela foi pichada. Lee foi um dos principais comandantes das tropas confederadas durante a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), lutando pelo Sul escravista. A supressão dos símbolos confederados está na agenda pública dos EUA faz tempo.

Em 7 de junho, manifestantes derrubaram e jogaram no Rio Avon a estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século XVII e grande benemérito da cidade de Bristol, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, figuras de Cristóvão Colombo foram decapitadas ou pichadas. Em Antuérpia, Bélgica, a estátua de Leopoldo II, rei que liderou a exploração e massacres na África, em fins do século XIX, no chamado Congo Belga, foi alvo de ataques. Acabou recolhida pelo governo da cidade para ser restaurada, e não se pretende colocá-la de volta no lugar em que estava. À luz do conhecimento histórico e dos direitos humanos, e no contexto em que se deram, a supressão desses monumentos dos espaços públicos pode ser considerada um ato de justiça pleno de legitimidade. Mas nem sempre é assim tão pacífico o debate sobre memória, sociedade e patrimônio.

No Brasil, o assassinato de George Floyd e os protestos contra o racismo também repercutiram. Como as cidades brasileiras mantêm em suas ruas estátuas de personagens históricos que, como seus congêneres citados acima, representam sistemas de exploração humana e violência extrema, as discussões sobre a derrubada e ataques às estátuas ganhou espaço. Nas redes sociais, como sempre, encontrava-se de tudo, mas a reflexão de qualidade e respeitosa apareceu. Destaco as colocações de Laurentino Gomes e Cynara Menezes na web e, na televisão fechada, o debate na CNN Brasil entre o jornalista e escritor Oswaldo Faustino e o professor de Direito Constitucional e Internacional Ricardo Macau.

Um argumento defendido foi o de que as estátuas e monumentos controversos deveriam permanecer em exposição, pois registram uma história incômoda e podem ajudar a sociedade a repensá-la. Tirar as estátuas e manter antigas formas de pensar não seria muito transformador no fim das contas. Além disso, em alguns casos, há o valor artístico. E trata-se de patrimônio público. É possível dizer ainda que para alguns indivíduos e grupos o convívio com os monumentos faz com que surjam vínculos afetivos menos com as grandes narrativas e identidades que o monumento pretende expressar e mais com o cotidiano e a vida de cada um. Muita gente nem tem ideia de quem está sendo homenageado, inclusive. Em contraposição, ressaltou-se que a permanência de estátuas e monumentos que exaltam o racismo e a exploração reafirma uma versão da história que não mais se sustenta nem epistemológica nem eticamente. Por isso devem cair, como tem sido comum na história. Outro ponto importante foi a questão sobre a ação direta nas ruas. Ela tem legitimidade ou é preciso valer-se de outras formas para realizar a mudança cultural que parece demorar? E se as ruas forem tomadas por levas de ignorantes e intolerantes? No Brasil atual não tem sido algo raro. Parece que esse receio estava subjacente às análises que pediam uma certa prudência na ação.

As estátuas dos bandeirantes na cidade de São Paulo, em sua versão idealizada pelas classes dominantes no século XX, que colocam em posição subalterna, de uma só vez, indígenas, afrodescendentes e imigrantes, evidentemente foram lembradas. Faz tempo que essa representação foi demolida pela pesquisa histórica e pela crítica, mas as estátuas dos bandeirantes permanecem onde estão. Por que isso acontece? O que fazer com elas? O debate está aberto.

O professor Nabil Bonduki, em sua coluna na Folha de S. Paulo, lembrou que, quando exercia mandato de vereador, em 2001, apresentou um projeto de resolução para suprimir uma “referência ufanista aos bandeirantes e ultrajante aos índios”, que fica no mármore da parede externa da Câmara Municipal paulistana:”…São Paulo, a Vila de Anchieta e Nóbrega, (…) cresceu, expandiu-se à mercê dos aventurosos bandeirantes à busca do ouro, índios e diamantes, e dilatou as fronteiras da pátria”. O projeto foi vetado pela Comissão de Justiça do Legislativo sob o argumento de que uma homenagem do passado não podia ser revista a posteriori.

Em São Paulo, a relação da cidade com seus monumentos, estátuas e nomes de logradouros públicos que fazem referência a fatos e personagens históricos é tensa. A Rua do Rosário, onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no século XVIII, tornou-se a Rua da Imperatriz na época do Império e, depois, XV de Novembro com a República. A própria igreja foi transferida de lugar no início do século XX, quando a região central foi elitizada. O Elevado Costa e Silva, sobrenome de um dos generais-ditadores, teve o nome alterado em 2016 para João Goulart, ecoando as comissões da verdade que aconteceram em 2014.

O monumento “Heróis da Travessia do Atlântico”, como o próprio site da Prefeitura de São Paulo indica, causou muita polêmica ao longo do tempo. Instalado em 1929 nas margens da Represa de Guarapiranga, foi transferido para a Praça Nossa Senhora do Brasil, área rica da cidade, pelo prefeito Jânio Quadros, quando este voltou a governar São Paulo nos anos 1980. Um movimento de moradores da Zona Sul da capital lutou pelo seu retorno ao lugar original. Foram bem-sucedidos em 2010. O monumento foi alvo de protestos ao longo do tempo, bem como de depredação e furto de suas partes, como geralmente ocorre na cidade com as obras de arte públicas.

Vê-se, então, mais uma vez, como o passado importa para o presente, e como estátuas, monumentos e nomes de logradouros públicos são instrumentos para essa relação acontecer nas cidades. Daí o porquê de serem tão perigosas as propostas obscurantistas que pretendem suprimir o ensino de história ou depredar as instituições públicas que lidam com a memória e o patrimônio. Com as eleições para vereadores e prefeitos a se aproximarem, urge que os candidatos apresentem suas propostas para a área da cultura, da memória e do patrimônio. A crítica às versões falsificadas ou simplificadoras da história faz-se com pesquisa de qualidade e, para isso, arquivos públicos organizados são fundamentais. Bibliotecas, museus e centros culturais auxiliam grupos sociais a dialogar, promovendo os valores democráticos, abrindo espaço para vozes silenciadas, como é o caso da população negra ou indígena. Secretarias de Cultura e conselhos podem ajudar os municípios a tratar a questão da memória de maneira sistémica e transformadora. Para mudar estátuas e ideias que não têm lugar em um mundo justo é preciso que você se movimente. Todos nós.

**JANES JORGE – Professor do Departamento de História da Unifesp

OUTROS OLHARES

A FESTA DAS BICICLETAS

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, quer que os cidadãos possam trabalhar, ir às compras ou passear sem usar carros ou transporte público e sem perder mais do que 15 minutos no percurso. O plano ganhou força após a pandemia

A imagem da Champs-Elysees, a mais famosa avenida de Paris, cheia de bicicletas para lá e para cá — não só aos domingos, mas durante a semana inteira — vem se tornando cada vez mais real. Especialmente depois da reeleição da socialista Anne Hidalgo para o cargo de prefeita, no final de junho. Seu ousado plano, avalizado pelos eleitores, inclui transformar a capital francesa em uma cidade de apenas 15 minutos. É o tempo considerado necessário no deslocamento para ir às compras, trabalhar ou passear. E tudo em cima de uma bicicleta, claro. O que antes era apenas um plano de sustentabilidade para combater o efeito estufa, ganha força agora diante da reabertura econômica no pós-pandemia, com a necessidade de distanciamento social e redução de aglomeração no transporte público.

Em seu primeiro mandato, iniciado em 2014, Anne conseguiu ampliar o número de ciclovias em 1.000 quilômetros, o que já permite atravessar a cidade intercalando trechos às margens do rio Sena, faixas em avenidas largas e também percursos em ruas mais estreitas. Tudo isso, inclusive, se mostrou muito útil durante a greve dos transportes em dezembro, e ganhou ainda mais relevância como solução de mobilidade por causa da Covid-19. Neste período, foram instaladas até mesmo faixas temporárias para as bikes que agora devem se tornar permanentes. Além disso, foi criada uma linha de empréstimo no valor de 400 euros (R$ 2,5 mil) para incentivar a aquisição de bicicletas elétricas, que custam mais de 1.000 euros. Mas Anne quer ir além. Planeja abrir espaços por todas as ruas da cidade, aptas a receber bicicletas, retirando 72% das vagas de estacionamento. Está nos planos ainda a redução da velocidade dos automóveis, ampliando a segurança dos ciclistas. A meta é trocar ruas engarrafadas por uma cidade onde se consegue circular de forma rápida, fácil e segura.

Segundo a cicloativista Renata Falzoni, o que Paris está fazendo é pensar efetivamente na mobilidade de uma grande cidade, onde mais de 60% das pessoas se movimentam de forma ativa, ou seja, a pé, bicicleta ou transporte público. Com o forte compromisso de tornar-se cada vez mais sustentável, vários países da Europa já buscam soluções para o transporte, o que inclui o incentivo ao uso da bicicleta. Depois da disseminação da Covid-19, as bikes ganharam um novo apelo e vem se firmando como a grande alternativa à lotação do transporte público. “Talvez a pandemia traga isso de bom para toda a sociedade”, afirma Falzoni, frisando que São Paulo poderia também levar isso em consideração. “Aqui, toda vez que se pensa em transporte, se concentram no carro, que é usado por uma minoria”, acrescenta.

Ao que tudo indica, a própria sociedade já está começando a se mexer nesse sentido, mesmo sem decisão do poder público. Um site de compra e venda de bicicletas e acessórios para ciclistas, o Semexe, disse recentemente que viu seu faturamento surpreendentemente subir 223% entre março e maio deste ano. A pandemia teria levado muitas pessoas a buscar os produtos como forma de fugir do transporte público e, ao mesmo tempo, praticar exercícios físicos de forma mais segura. A Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), que reúne empresas e membros da sociedade, lançou até um manifesto pedindo que haja ampliação de ciclovias, redução de impostos sobre bicicletas, além de criar um programa de fortalecimento da economia verde. Talvez seja este o melhor momento, antes de uma eleição municipal, para que gestores percebam que está na hora de mudar o foco na questão da mobilidade, incluindo de vez as bicicletas nos planos de transporte e mobilidade urbana. Seguir o exemplo de Paris pode ser interessante para qualquer grande cidade do mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE JULHO

SUANDO SANGUE NO GETSÊMANI

… E aconteceu que seu suor se tornou como gotas de sangue… (Lucas 22.44b).

Jesus travou a mais sangrenta batalha da humanidade no jardim do Getsêmani. Os horrores do inferno bafejavam a alma do Filho de Deus. Prostrado com o rosto em terra, Jesus orou três vezes, enfrentando uma angústia de morte. Seus discípulos dormiam enquanto Jesus erguia aos céus seu clamor regado de lágrimas. Naquela fatídica noite, as autoridades judaicas tramavam contra Jesus, urdindo planos recheados de mentira e violência, enquanto ele suava sangue no Getsêmani. Capitaneados por Judas Iscariotes, soldados do templo armados até os dentes entraram no jardim para prender Jesus, mas este, consolado pelo anjo e fortalecido pelo Pai, se entregou nas mãos dos pecadores. Foi esbordoado, cuspido e ultrajado, mas caminhou para a cruz como um rei caminha para a coroação. A angústia de Jesus não era por temer o sofrimento físico, mas por saber que, na cruz, assumiria o nosso lugar, carregaria em seu corpo os nossos pecados e seria feito maldição para nos resgatar do pecado e da morte. Jesus não foi à cruz porque Judas o traiu gananciosamente, nem porque os judeus o entregaram invejosamente, nem mesmo porque Pilatos o sentenciou covardemente. Foi à cruz por amor, voluntariamente. A cruz não foi a causa do amor de Deus por nós, mas sua prova mais eloquente!

GESTÃO E CARREIRA

APPS EM XEQUE

A pandemia da covid-19 expõe a fragilidade da relação entre entregadores e plataformas de delivery. Manifestações pressionam por regulamentação

Há quatro anos, quando começou a prestar serviços para aplicativos de delivery, o moto frentista Rosalvo Brito de Fonte, de 42 anos, afirma que ganhava, em média, 1.300 reais por semana, trabalhando diariamente das 7 às 18 horas, com uma pausa no horário do almoço. Porém, desde o início da pandemia da covid-19, o entregador paulista teve de aumentar sua jornada de trabalho – mas passou a ganhar menos. Segundo ele, o motivo foi o bloqueio, sem justificativa, por parte da Loggi, uma das empresas com a qual trabalhava. “Era a que proporcionava a maior renda. Hoje, trabalho até as 23 horas e, mesmo assim, não consigo fazer mais de 800 reais por semana”, diz. Trabalhar mais e ganhar cada vez menos se tornou uma realidade para diversos entregadores de aplicativos durante o surto de coronavírus. Isso porque, embora as medidas de isolamento social tenham elevado a demanda por delivery – de acordo com declarações da Rappi, o número de pedidos aumentou 30% durante a quarentena -, isso não se traduziu em maior renda para os trabalhadores dessas plataformas.

Segundo uma pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizada com 298 entregadores das cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Curitiba, entre os dias 13 e 27 de abril, 59% deles tiveram queda nos ganhos durante a pandemia. O estudo ainda mostrou que 62% dos entregadores passaram a trabalhar mais de nove horas por dia – antes da crise sanitária esse percentual era de 57%.

A combinação dessas questões com o maior risco de contaminação pelo coronavírus – uma vez que as entregas foram classificadas como serviço essencial, mas há reclamações quanto à falta de kits de higiene, como máscaras e álcool em gel – expôs (mais uma vez) a fragilidade da relação entre os trabalhadores de plataformas digitais e as startups de delivery. Como resultado, diversas manifestações de ciclistas e motoqueiros começaram a acontecer país afora. Uma das maiores ocorreu no dia 1 de julho, quando os entregadores de aplicativos corno iFood, Rappi, Uber Eats, Loggi e James Delivery marcaram urna paralisação nacional reivindicando aumento no pagamento das corridas e maior distribuição de equipamentos de proteção individual (EPIs). Houve protestos em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador e Recife.

MAIS CORRIDAS E MAIS ACIDENTES

Entre as justificativas para a diminuição do valor pago aos motociclistas, mesmo fazendo mais entregas, está o aumento no número de pessoas desempregadas que recorreram às plataformas para sobreviver durante a crise.

Dados consolidados pela consultoria Análise Econômica mostram que, do total de trabalhadores informais no Brasil, os que prestam serviço para aplicativos de entrega de refeições saltaram de 250.000 pessoas em 2019 para mais de 645.000 em junho de 2020. Um crescimento de, aproximadamente, 158%. De acordo com Franklin Lacerda, diretor da consultoria Análise Econômica, existe um conjunto de fatores que explicam por que essas plataformas se tornaram uma alternativa em meio ao desemprego. “Porém, o principal é que se trata de uma opção que conta com um investimento inicial baixo e é acessível para um grupo cada vez maior”, afirma Franklin.

Embora não existam dados sobre a quantidade de entregadores contaminados e mortos pela covicl-19, uma das consequências do aumento no volume de pedidos e de moto frentistas circulando é visível: mais acidentes. Segundo informações do governo de São Paulo, entre abril e maio de 2020, 39 motoboys morreram durante o trabalho. O número é quase o dobro dos registrados no mesmo período de 2019 e de 2018, quando 21 e 22 vieram a óbito, respectivamente. “O aumento dos acidentes é reflexo da falta de capacitação dos entregadores”, diz Edgar Francisco da Silva, presidente da Associação Brasileira dos Moto frentistas (AMABR). Ele salienta que, embora algumas cidades, como São Paulo, tenham legislações que regulamentam a profissão de moto frentista, com uma série de exigências (como a realização de cursos, autorizações municipais e uso de equipamentos de segurança), os aplicativos vêm cadastrando há algum tempo profissionais que não são regulamentados.

A falta de legislação, seja quanto aos profissionais, seja quanto à relação entre os entregadores e as startups de entrega, é um problema que volta e meia vem à tona desde o surgimento das empresas da chamada gig economy, ou economia dos bicos. As primeiras startups do tipo surgiram com a crise de 2008, nos Estados Unidos e entraram com mais força no mercado brasileiro em 2014. “Os perigos relacionados à pandemia, como o risco de contágio e a falta de assistência por parte das empresas, são apenas problemas mais visíveis de uma relação trabalhista que já nasceu desigual. A lógica dessas plataformas é diminuir o custo da operação e, para isso, elas pressionam a empresa parceira e o entregador, que tem menor poder de negociação”, afirma o economista Wilson Aparecido Costa de Amorim, professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP).

E a falta de clareza começa na forma como os entregadores são remunerados pelas plataformas. “Não consigo precisar sequer quanto recebo de cada aplicativo, porque não existe transparência sobre nossos direitos e deveres. Quando os contratos são atualizados, muitos assinam sem sequer ler as regras, porque precisam continuar recebendo pedidos”, explica Edgar, da AMABR.

O OUTRO LADO

Procurada, a Rappi respondeu, em nota, que passou a oferecer seguro de vida e a distribuir, semanalmente, máscaras e álcool em gel para os entregadores. A empresa colombiana também afirmou que disponibilizou um botão para que os trabalhadores notifiquem sintomas da covid-19 e, em caso de confirmação do diagnóstico, recebam orientações. Segundo a nota, a Rappi criou um fundo que apoiará financeiramente os entregadores que tiverem de parar de trabalhar por causa do coronavírus. A startup afirmou também que, entre fevereiro e junho de 2020, a empresa identificou um aumento de 238% no valor médio das gorjetas e que as quantias pagas são integralmente repassadas aos trabalhadores.

Já o iFood, também em nota, afirmou que atendeu quase todas as reivindicações do movimento dos entregadores. Entre as ações, a startup citou que, desde o final de 2019, oferece aos trabalhadores o seguro de acidentes pessoais, cobrindo desde despesas médicas e odontológicas até uma garantia financeira para a família em caso de acidente. A companhia também disse que não houve alteração dos valores pagos pelas entregas durante a pandemia e que a startup se baseia em fatores como distância, cidade e modalidade da entrega para definir os preços. Hoje, segundo a empresa, toda rota tem uma taxa mínima de entrega de 5 reais, porém a média é de 8 ou 9 reais. No próprio aplicativo, ainda de acordo com o iFood, os entregadores podem conferir o valor de cada serviço antes de aceitar o chamado.

O iFood também explicou que destinou mais de 25 milhões de reais a iniciativas voltadas para os ciclistas e moto frentistas e que, desde o início da pandemia, distribuiu mais de 800.000 itens, como máscaras reutilizáveis e álcool em gel. A empresa reconheceu que poderia melhorar a distribuição dos kits de higiene e, por isso, desde o dia 1° de julho paga aos entregadores 30 reais para que adquiram materiais de proteção.

O iFood ainda salientou que disponibilizou gratuitamente um plano de benefícios em serviços de saúde da empresa Avus, aumentou o valor das gorjetas, repassadas integralmente aos entregadores, e, além disso, desenvolveu a modalidade de entrega sem contato.

A startup negou que tenha um sistema de pontuação dos entregadores, reafirmou que possui regras claras de desativação de cadastros e que os processos não são revisados de forma automática. A Loggi e o Uber Eats não quiseram falar com a reportagem.

FALTAM LEIS, SOBRAM EMBATES

As manifestações dos entregadores acontecerem justamente durante a pandemia do coronavírus não é sem razão. Isso porque a crise da covicl-19 evidenciou como nunca as desigualdades e a responsabilidade social das organizações e colocou a manutenção dos negócios em embate direto com a preocupação com as pessoas. “Certamente, ainda há muito o que se discutir sobre a atuação das empresas do setor de tecnologia no Brasil e no mundo. A pandemia da covid-19 apenas acelerou esse processo, por causa da adoção em massa dos aplicativos”, afirma Franklin, da Análise Econômica. É inegável que as plataformas como Uber, Rappi e iFood já mudaram totalmente os hábitos de consumo de milhares de pessoas e vieram para ficar – principalmente por atacarem nichos carentes em eficiência. Para que o setor seja sustentável, trabalhadores e startups terão que se acertar. E talvez só a demanda social ajude a fazer isso, como explica Fábio Mariano Borges, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Hoje em dia, a maior parte desses trabalhadores é entendida, juridicamente, como profissionais autônomos e está desassistida pela legislação”, explica. “A pressão da sociedade é fundamental para uma equiparação de direitos entre os entregadores e as empresas.”

QUEM SÃO OS ENTREGADORES

Conheça o perfil e o dia a dia dos trabalhadores que atuam junto às plataformas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRANHEZA E COMPAIXÃO

Border é um filme que une conteúdo e diversos gêneros ao mesmo tempo. Apresenta personagens estranhos com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofrem impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens? Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como sepropaga, mas não podemos negá-1o. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar -, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas”, e de detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela lentamente aspectos um pouco animal dos protagonistas que lembram os extintos neanderthais.

DOLOROSA CAMINHADA

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico -, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebés. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a   personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa mal cuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.

Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

POTENCIAL DE PRAZER

Border narra um o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo á leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades tem voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica. Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre suaorigem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ela causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

SEGUEIRA PULSIONAL

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no fim do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você/ O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir por amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos. O processo de familiarização, de aculturação a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício” dos outros. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem” irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à viela e o mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasias, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

CATEGORIA INQUALIFICÁVEL

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga ali o de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz. Como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E. dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como  vivem os que sofrem por preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros,  miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos. Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz.

O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam. Principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.

Vore: então, você quer ser humana?

Tina: eu não quero machucar ninguém.

É humano pensar assim?

Essa espécie cuja fragilidade e ignomínia “Border” lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade?  A personagem Tina tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

AUTOACUSAÇÕES

No ensaio O Mal-estar da Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causada destruição.

 O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

LUCIANA SADDI – é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, Coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, no Museu da Imagem e do Som (MIS), com apoio da Folha de S. Paulo.

EU ACHO …

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A pandemia tornou mais urgente se manter antenado na tecnologia

Imaginem. Eu sou da época da máquina de escrever. Datilografava página por página. Tec, tec, tec. Já não era novinho quando surgiu o computador doméstico. Foi fantástico – os vizinhos não reclamavam mais quando eu escrevia à noite. Eu sei. A vida sem internet parece inacreditável hoje. Juro: já existiu um mundo sem internet e nem faz tanto tempo assim. Os primeiros celulares pareciam tijolos. Se caíssem no pé, podiam machucar. Durante a maior parte do tempo, eles nem davam linha. Hoje, viver sem um celular parece impossível.

A pandemia tornou a tecnologia mais obrigatória que nunca. Tenho de aprender aquilo que nunca pensei em saber. Reunião por Zoom, por exemplo. Ou Google Meet. São programas de videoconferência. É assim que se realizam as reuniões de trabalho atualmente. Fui fazer uma por Zoom. Tudo parecia muito simples. Enviaram um link, que acessei. Em um instante, eu estava cercado por autores e diretores. Vi o rostinho de todos eles. Mas de mim só apareciam as orelhas. Tentei erguer a cadeira. Estava quebrada, é obvio. Cadeiras sempre quebram nessas horas. Corri pegar quatro almofadas e me equilibrei precariamente. Meu rosto apareceu na tela. Verde. Um diretor disse para eu apagar a luz atrás de mim. Apaguei, voltei ao normal e fiquei no escuro como uma coruja. Foi somente a primeira reunião. Tornou-se normal. Estou revendo meu inglês e francês, em aulas semanais por Zoom. Já tive sessão de terapia através de um programa médico, no qual o profissional armazena meus dados. Ainda me assusto com a inteligência artificial. Outro dia recebi dois anexos pelo meu Gmail. Respondi: “Obrigado pelos anexos”. Imediatamente, o computador reclamou: “Você esqueceu de adicionar os dois anexos”. Tive a impressão de que estava sendo espionado! Se quero enviar e-mail para alguém, a inteligência acrescenta dois ou três nomes, para quem já enviei mensagem antes. Se me distraio, vai um texto íntimo para a pessoa errada! Meu celular, de repente, liga para alguém. Às vezes, uma pessoa que não vejo há muito tempo. Tenho de explicar que foi erro, mas que bom voltar a se falar etc., etc.

Há peças de teatro apresentadas pelo Instagram. É uma outra linguagem! Todos os dias boto um aplicativo de meditação e relaxo, aprendendo a respirar, descansando… Já escolhi um aplicativo de ioga, para fazer pelo celular. Mas ainda estou ensaiando começar… E cada vez há mais um novo aplicativo para desvendar, uma plataforma para conhecer. Eu, que cheguei a ter aula de caligrafia com caneta tinteiro, vejam só! Tenho uma jaqueira no quintal. Esta semana vou preparar carne de jaca. É só procurar na internet. Tranquilo. Em outros tempos, onde aprenderia?

Às vezes, acho que não sou mais um indivíduo, e que me tornei um aplicativo. Estou em upload, em contínua transferência de dados. Vivo em modo de atualização. Aceitei esse novo jeito de viver. Este admirável mundo novo já se incorporou à minha rotina diária. As novidades de hoje serão passado amanhã. O mundo acelerou tecnologicamente. Eu e você também temos de seguir o ritmo.

** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

APERTEM OS CINTOS…O PILOTO SUMIU

O avanço tecnológico dos automóveis depende mais do que nunca dos gigantes da tecnologia – já não é o jogo das montadoras tradicionais

Em 2009, naquele outro mundo no qual vivíamos, o Google provocou espanto ao anunciar que estava desenvolvendo em seu quartel-general no Vale do Silício, na Califórnia, um veículo de passeio cuja principal característica seria a capacidade de percorrer “sozinho” ruas e avenidas bem sinalizadas.

Desde então, a corrida para saber quem apresentaria o primeiro carro autônomo de uso maciço ganhou mais participantes, vindos tanto da indústria automotiva tradicional, naturalmente, quanto do inovador setor de tecnologia. Um desses novos personagens, o histriônico sul-africano Elon Musk, dono da montadora de veículos elétricos Tesla, disse na semana passada ter tomado a dianteira da disputa. “Estou confiante, teremos a funcionalidade básica do nível 5 de autonomia ainda neste ano”, afirmou o visionário, também orgulhoso proprietário da SpaceX, empresa que há dois meses fez o primeiro voo privado com tripulação da história da exploração espacial. “Temos de solucionar apenas alguns problemas e, não são desafios fundamentais.”

O tal “nível 5 de autonomia” a que se refere Musk é quase uma senha, um abre-te sésamo para um portal de vastas possibilidades – é o estágio no qual o computador de bordo consegue conduzir o carro em todas as situações possíveis, dispensando a necessidade de um motorista “de plantão”. O padrão foi estabelecido por uma entidade internacional, a Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE), que criou um código de fácil compreensão para o público identificar o avanço tecnológico de cada automóvel, de zero a cinco. O nível zero seria aquele carro totalmente analógico, sem assistência computadorizada alguma, no qual o motorista deve manter o controle do veículo a todo o momento – atualmente, no mercado existem modelos mais sofisticados, caso dos sedãs de luxo Audi e Mercedes-Benz (e dos Tesla, claro), equipados com tecnologia de nível 3.

A aposta de Musk, portanto, é corajosa ao antecipar o futuro para hoje. As principais consultorias apontavam a chegada ao patamar máximo de automação apenas em 2050. Mesmo que tenha de fato a tecnologia a sua disposição, dificilmente a Tesla deve liberá­la em breve. Afinal, é necessária a homologação da novidade por parte das autoridades de trânsito de cada país. E, neste caso, no qual a inovação terá em mãos a segurança de vidas humanas, a burocracia é obrigatória.

Os projetos de carros sem motoristas pareciam fadados à gaveta das principais montadoras globais. A recessão e econômica provocada pela pandemia trouxe incerteza até mesmo para os grandes conglomerados do setor. Por essa razão, hoje, mais do que nunca, o avanço desse tipo de tecnologia, que soa supérflua entre tantas necessidades mais urgentes, depende das empresas que não tiveram de queimar (tanto) caixa para sobreviver. É o caso do pioneiro Google, sem dúvida, mas também da Amazon. A companhia de Jeff Bezos anunciou no fim de junho a compra da startup de mobilidade Zoox, cujo principal atrativo é seu protótipo de automóvel sem motorista –   a Amazon também se tornou sócia da Rivian, uma montadora de picapes movidas a bateria. Elon Musk, fanfarrão como sempre, fez uma provocação ao rival Bezos, chamando-o de “copycat” (algo como imitador, em tradução livre do inglês). Mas há algo que a maior varejista do mundo domina como ninguém, a logística, e por isso a compra da Zoox chamou atenção: ela pode significar atalho para a chamada “última milha”, o trajeto final de uma encomenda ao endereço do cliente.

Saber a hora de entrar em um novo negócio, mesmo quando parece ser prematuro, e um tantinho futurista demais, é segredo do sucesso de grandes companhias. Foi o que aconteceu com a IBM nos anos 1990 e com o próprio Google, o precursor dos automóveis sem motorista, depois do estouro da bolha da internet, em 2000. Não é à toa, portanto, que o valor de mercado da Tesla tenha subido tanto nos últimos tempos. As ações da fábtica de carros elétricos de Musk superaram a casa dos 1.200 dólares no mês passado – elas valiam cerca de 200 em maio de 2019. Tal valorização fez a companhia superar em valor de mercado a Toyota, a maior montadora do planeta, que põe todo ano nas ruas cerca de 10 milhões de novos carros, capacidade de produção 27 vezes superior à da Tesla. Muitas vezes a movimentação do mercado é exagerada, há recuos, mas o interesse pelos automóveis sem seres humanos ao volante parece ser irreversível.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE JULHO

UM PAI QUE ORA PELOS FILHOS

… chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles… (Jó 1.5b).

Jó era o homem mais rico do Oriente. Tinha uma agenda disputada, mas encontrava tempo para orar pelos filhos, que eram alvo de suas petições toda madrugada. Jó sabia que sucesso financeiro sem vida com Deus é fracasso consumado. Jó entendia que riqueza terrena sem salvação é pobreza. Os filhos de Jó eram ricos, mas isso não era tudo. Eles precisavam da graça de Deus. Ainda hoje nós precisamos de pais que encontrem tempo para orarem pelos filhos. Pais convertidos aos filhos. Pais que não provoquem os filhos à ira nem os deixem desanimados. Pais que criem seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor. Precisamos de pais que ensinem os filhos no caminho, e não apenas o caminho. Pais que amem a Deus e inculquem as verdades eternas na mente dos filhos. Precisamos de pais que sejam reparadores de brechas, intercessores fervorosos, e que não abram mão de seus filhos. Precisamos de pais parecidos com Jó, que orem pelos filhos e sejam exemplo para eles; pais que cultivem a amizade entre os filhos e os apresentem a Deus.

GESTÃO E CARREIRA

A TRANSFORMAÇÃO DOS ESCRITÓRIOS

À espera da volta dos funcionários, empresas mudam instalações para atender recomendações de saúde e se preparam para nova dinâmica de trabalho pós-pandemia

A chegada do coronavírus abalou não só a saúde das pessoas, mas chacoalhou todas as certezas econômicas e a rotina profissional. A pandemia acelerou mudanças que vinham sendo anunciadas, mas que nunca se concretizavam, especialmente sobre o trabalho remoto. Mas o que era impensável antes, agora se tornou realidade. Empresas gigantes que resistiam em colocar funcionários trabalhando à distância descobriram, na marra, que a solução emergencial se mostrou mais eficiente do que se pensava. Por isso, muitas companhias já anunciam que vão estender o home office até o final do ano ou indefinidamente. Uma decisão que já começa a ter impacto no mercado imobiliário, revertendo a tendência anterior de residências pequenas e escritórios grandes. Cada vez mais especialistas dizem que as pessoas vão optar por espaços mais confortáveis em casa e os escritórios se tornarão lugares mais colaborativos para troca de experiências e informações, em moldes parecidos aos dos coworkings popularizados pelas startups.

Há duas palavras-chave no mercado neste momento: flexibilidade e cautela. Assim, o funcionário, junto com o empregador, pode decidir ficar em casa ou no escritório, ou parcialmente em cada um desses locais, dependendo das demandas. “Estamos trabalhado com várias possibilidades e ouvimos os funcionários para estabelecer até mesmo idas ao escritório sem horário fixo, para evitar horários de pico”, explica o vice-presidente global de Gente e Cultura do Grupo Stefanini, Rodrigo Pádua. Segundo ele, 90% dos 14 mil funcionários estão trabalhando em casa e, ao contrário do que se imaginava, o serviço remoto não reduziu o engajamento do pessoal. Pelo contrário. A produtividade subiu até 10%, sem as perdas de tempo com deslocamentos. Por isso, a empresa se prepara para ter 50% do seu pessoal em home office.

NOVAS ROTINAS

O mesmo caminho é seguido por outras corporações. Nesta semana, a Petrobras anunciou que vai manter metade da equipe em casa permanentemente, mostrando que vai repensar o conceito de escritório. Desde março, a petroleira mandou para casa até 90% de seus 21 mil funcionários da área administrativa, diante da pandemia. Segundo a empresa, a experiência se mostrou bem sucedida em termos de produtividade e revelou oportunidade de economia com escritórios.

Com tantas corporações mudando seus planos, a demanda por reformas em escritórios cresceu na Athie Wohnrath. A empresa de arquitetura preparou até uma cartilha para organizar a volta, de forma gradual. Para isso, estão previstas modificações de layouts e até de mobiliários, com mesas mais distantes e até com rodinhas para permitir várias configurações. “Enquanto não surgir a vacina, o afastamento tem de ser respeitado. Por isso, muitos não cogitam ter mais do que 50% do pessoal de volta”, diz o CEO Ivo Wohnrath. A diretora de Projetos e Consultoria do Hospital Albert Einstein, Anarita Buffe, confirma que o distanciamento é mesmo um dos aspectos mais importantes em um plano de volta ao trabalho. Segundo ela, há muitas variáveis que precisam ser consideradas desde a natureza do negócio (se é uma indústria ou um escritório) até a estrutura. “A abordagem precisa ser ampla para garantir a segurança”, explica.

Diante de tantas exigências, a multinacional de seguros AON resolveu não só colocar seus 1,5 mil funcionários em home office como também rever seus espaços e chegou à conclusão de que, para garantir segurança e flexibilidade, a saída seria mudar de escritório. O objetivo foi chegar a um ambiente que ampliasse a cultura de colaboração sem deixar de lado as questões de saúde. “Buscamos um equilíbrio, sempre ouvindo o desejo do pessoal. Por isso, chegamos a um ambiente híbrido”, diz o presidente da AON no Brasil, Marcelo Homburguer. Para conseguir isso, a seguradora trocou um escritório de 600 m2 por um de 2,6 mil m2 para evitar aglomerações. “Vamos voltar em ondas, porque existe muita incerteza”, diz. Incerteza e insegurança são as marcas destes tempos de pandemia. E o desafio é entender como será o novo normal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FELICIDADE SOB HOLOFOTES

Como os estudos sobre felicidade têm ganhado relevância e oferecido novas perspectivas em tempos de crise e aumento da infelicidade global

Instabilidade e crises econômicas de efeitos nefastos têm sido uma constante em todo o mundo nos últimos anos. Paralelamente, contrariando o senso comum, tem ganhado destaque certa percepção de que nem tudo se resume a dinheiro e poder aquisitivo, e assim a felicidade tomou o centro do palco na comunidade global. Ao reconhecer a necessidade de mais ênfase nesse aspecto, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 20 de março o Dia Internacional da Felicidade. visando promover a ideia de que a felicidade é um direito humano universal a ser comemorado por milhões de pessoas em todo o mundo.

Toda essa preocupação também diz respeito, por outro lado, ao aumento da infelicidade em todo o mundo, impulsionado pela desconfiança em líderes políticos e pelo uso intenso das redes sociais. De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade 2019, elaborado pelo Instituto Gallup em parceria com a ONU, o Brasil, cuja fama internacional é de uma das nações mais felizes do mundo. caiu 16 posições no ranking global entre 2015 e 2019, ocupando a 32ª posição entre 156 nações.

De fato, celebrar e pesquisar a felicidade em tempos de infelicidade em alta parece ser uma tarefa urgente. A felicidade tem um papel muito importante e um enorme impacto na maneira como vivemos. Embora os pesquisadores ainda não tenham chegado a uma definição ou a uma estrutura acordada, muito tem sido estudado nesse campo.

Desde a Antiguidade a felicidade vem sendo objeto de estudos. Para Aristóteles, encontramos a felicidade quando usamos nossos talentos na potencialidade máxima e satisfazemos nossos valores. É por isso que a felicidade é tão diferente para cada pessoa. Todos nós temos talentos diferentes, valorizamos coisas diferentes e adotamos prioridades diversas.

No século XXI, a felicidade passou a ser assunto de pesquisadores que descobriram sua importância para um desenvolvimento humano positivo. O termo sempre teve muitos significados. Segundo Martin Seligman, um dos líderes da psicologia positiva, em um de seus livros mais célebres, Felicidade Autêntica, a felicidade está relacionada à compreensão dos sentimentos positivos e à busca pelo seu desenvolvimento.

Frequentemente a felicidade é referida por outro nome na pesquisa em psicologia positiva: bem-estar subjetivo, ou subjective well being (SWB). Alguns acreditam que a felicidade é um dos componentes principais do SWB, enquanto outros creem que a felicidade é o SWB. Independentemente disso, o SWB também tem sido usado como abreviação para a felicidade na literatura. Tudo isso faz parte de um campo que tem sido denominado como “ciência da felicidade”,

Nesse sentido, a psicologia positiva pode ser considerada um subconjunto dentro do campo mais amplo dessa ciência, que se estende tanto às ciências naturais quanto às sociais. Por exemplo, a psicologia positiva é amplamente focada no estudo de emoções positivas e das chamadas “forças de assinatura”, mas a ciência da felicidade se estende, por exemplo, a áreas como o impacto do exercício físico no bem-estar psicológico ou o efeito das mídias sociais na felicidade.

De forma geral, existem muitas teorias diferentes sobre a felicidade, mas elas geralmente se enquadram em uma de duas categorias, com base em como elas conceituam a felicidade (ou o bem-estar):

FELICIDADE / BEM-ESTAR HEDÔNICO é felicidade conceituada como a experiência de mais prazer e menos dor: composta por um componente afetivo (alto afeto positivo e baixo afeto negativo) e um componente cognitivo (satisfação com a vida). Já FELICIDADE / BEM-ESTAR EUDAIMÔNICO conceitua a felicidade como resultado da busca e realização do propósito de vida, significado, desafio e crescimento pessoal; aqui a felicidade se baseia em atingir o potencial total e operar em pleno funcionamento.

POR QUE A FELICIDADE É IMPORTANTE?

Nas últimas três décadas, psicólogos e pesquisadores desenvolveram centenas de estudos e muitos deles chegaram à mesma conclusão: nossos antepassados estavam certos. Vale a pena se preocupar com a felicidade.

De acordo com pesquisas, pessoas felizes e satisfeitas são menos suscetíveis a males como hipertensão, doença cardíaca, diabetes, resfriados e infecções respiratórias. Já as pessoas insatisfeitas podem ter depressão e aumentar o impacto de uma ampla gama de doenças.

No contexto do trabalho, trabalhadores felizes são mais produtivos. Thomas Wright, professor de comportamento organizacional na Universidade de Nevada, estima que o nível de felicidade dos funcionários leva à variação entre 10% e 15% do desempenho entre os trabalhadores. Em uma semana de 40 horas, isso pode significar até 75% de perda de produtividade.

Por fim, pessoas felizes são mais persistentes para resolver problemas e são mais solidárias. Elas trabalham em tarefas complicadas por mais tempo do que as pessoas que são infelizes e têm mais empatia com os necessitados, são mais generosas e menos focadas em si mesmas.

Qual é o segredo, afinal? De acordo com Seligman, são as variáveis voluntárias ou intencionais que fazem alguém afirmar que é feliz. Isto é, depende de você querer ser feliz, dar significado à sua vida e entrar em ação para que isso aconteça. Aproveite, então, o 20 de março e reflita: o que é felicidade para você?

FLORA VICTÓRIA – é presidente da SBCoachng Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.

EU ACHO …

POR QUE TANTA GENTE BOA INSISTE EM NEGAR OS FATOS

A comunidade científica ficou perplexa com a reabertura prematura das atividades econômicas em pleno avanço da pandemia. Não deveria. Asteorias estapafúrdias em torno do novo coronavírus, os poderes milagrosos da cloroquina, a defesa de uma certa “estratégia sueca” – cujos próprios autores reconhecem ter dado errado – seduzem não apenas Jair Bolsonaro, Donald Trump e acólitos, mas também prefeitos, governadores, empresários, banqueiros e gente de perfil intelectual bem mais sofisticado.

Do papel humano no aquecimento global às vacinas, da pandemia à economia, da política à religião, o negacionismo se espraia como uma praga a minar o conhecimento e a política. Entender suas raízes e mecanismos é um desafio essencial para preservar o planeta, a vida e a civilização.

Não se trata de problema novo. Em 1927, a revista médica britânica The Lancet já publicava editorial contra a crença de que “a vacinação é uma fraude gigantesca perpetuada apenas para garantir lucros”. Absurdos como o terraplanismo ou o criacionismo têm mais chance de prosperar em sociedades ignorantes. Caso do Brasil ou dos Estados Unidos, onde mais da metade da população ignora que a Terra leva um ano para orbitar o Sol e quase três quartos contestam a evolução das espécies pela seleção natural. Mas não é um problema restrito aos pouco cultivados. Os mais empedernidos negacionistas de que a atividade humana seja responsável pelas mudanças no clima são cientificamente letrados, têm acesso a informação de qualidade, entendem os mecanismos climáticos e defendem suas teses por meio de raciocínios embasados em gráficos precisos e conhecimentos avançados de astrofísica ou geofísica. São tudo, menos ignorantes. “A negação é um problema humano, não apenas um problema dos pouco instruídos ou pouco sofisticados”, escreve o filósofo Adrian Bardon em The truth about denial (A verdade sobre a negação). Trata-se, nas palavras dele, de uma “resolução emocionalmente satisfatória da dissonância entre como gostaríamos que o mundo fosse e a forma como ele de fato se apresenta”.

Bardon inventaria os debates contemporâneos sobre o tema não só na ciência. Navega pela política e pela economia (onde por vezes derrapa). Não se furta a explorar (com rara competência) o terreno minado da religião. Apresenta o significado preciso do negacionismo e ensina sua relação com parentes próximos, como dissonância cognitiva, raciocínio motivado, pensamento desiderativo, viés de confirmação ou ideologia. Negação não é mentira. É uma mentira com sabor de verdade, uma falsidade que satisfaz aos instintos – aquilo que o comediante Stephen Colbert definiu como “verdadice” (“truthiness”). “A negação envolve a rejeição (ou adoção) motivada emocionalmente de uma afirmação factual, mesmo diante de fortes evidências contrárias”, diz Bardon. “O negacionismo é um a expansão, uma intensificação da negação. Na raiz, ambos são apenas um subconjunto das formas como os humanos desenvolveram a linguagem para enganar os outros ou a si mesmos.” E pratos cheios para manipulação política e campanhas de desinformação.

Nem o conhecimento dos fatos nem a capacidade intelectual nos vacinam contra o negacionismo. “Nossa capacidade de raciocínio motivado diante de evidência contrária é impressionante”, diz Bardon. “É conveniente, reconfortante e ocasionalmente até útil, mas também solapa nossa capacidade de enfrentar questões urgentes de política pública, portanto obstrui o caminho de mudanças sociais, políticas e econômicas.” É o que vemos no enfrentamento do aquecimento global ou da pandemia. Nem as calotas polares nem o coronavírus dão a mínima para nós. Bardon tenta, no final, levantar estratégias para enfrentar o negacionismo científico. Discutíveis, é verdade, mas até por isso cientistas fariam bem em ouvi-lo.

**HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA PODE NOS SALVAR

A humanidade deseja se livrar do coronavírus, mas até agora não há um remédio que acabe com a doença. Dezenas de vacinas estão sendo testadas no mundo e todas só ficarão prontas no final do ano. Uma delas, porém, feita nos Estados Unidos, está mais avançada e pessoas já ficaram imunes à Covid-19.

O desafio global para a produção de uma vacina contra a Covid-19, se coloca como prioridade. A primeira notícia positiva nesse sentido vem dos EUA, onde a empresa de biotecnologia Moderna divulgou que está realizando testes preliminares em seres humanos de uma vacina que pode imunizar as pessoas contra a doença. A empresa recebeu US$ 580 milhões do governo do EUA porque Donald Trump, que quer assegurar que 300 milhões de doses sejam disponibilizadas para os americanos. O método da pesquisa consiste em levar informação de RNAm (RNA mensageiro) da Covid-19 para dentro das células e induzir o próprio organismo a produzir uma defesa. Oito dos quarenta e cinco voluntários que participaram do estudo, apresentaram anticorpos. Para Akira Homma, assessor científico da Bio-Manguinho/Fiocruz, a pesquisa é confiável, mas deve ser vista com cautela, pois está prevista a realização de estudos ainda nas fases dois e três, com maior número de voluntários. “Eles estão utilizando o processo de “fast track”, ou seja, processo acelerado de desenvolvimento tecnológico”. A possibilidade de termos uma arma segura e eficaz contra a pandemia pode reduzir o número de mortes pela pandemia.

TESTE GENÉTICO

No Brasil, também há estudos em desenvolvimento, alguns em parcerias com instituições do exterior. “Como os países desenvolvidos estão investindo mais teremos uma vacina pronta primeiramente lá fora”, afirma Homma. O País também enfrenta dificuldades para saber quem está de fato contaminado. O atual sistema demora 14 dias, após a infecção, para apresentar os resultados. Uma iniciativa positiva foi desenvolvida pelo Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Ele produziu o primeiro teste do mundo de diagnóstico para coronavírus, baseado em Sequenciamento de Nova Geração. Esse exame permite a realização simultânea de até 1536 amostras, volume 16 vezes maior do que o possível por processamento na análise pelo método RT-PCR convencional. Com esse novo teste, é possível identificar a presença do vírus desde o primeiro dia de infecção.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE JULHO

TEMPO DE RECOMEÇAR

Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o SENHOR se lembrara do seu povo, dando-lhe pão (Rute 1.6).

Rute, a moabita que se tornou bisavó do rei Davi e membro da linhagem do Messias, tem uma dramática, porém belíssima história. Casou-se com Malom, filho de Elimeleque e Noemi, para em seguida ficar viúva e sem filhos. Em vez de retornar a seu povo e seus deuses em Moabe, decidiu recomeçar sua vida, seguindo Noemi, sua sogra, para Belém. Não que Noemi tivesse alguma vantagem a lhe apresentar; ao contrário, Noemi era estrangeira, idosa, viúva, pobre e desamparada. Rute teve de aprender a lidar com as perdas. Agora, porém, aprenderá a lidar com o recomeço. Para isso, dispõe-se a amar sua sogra incondicionalmente. Também toma a decisão de confiar seu futuro às mãos do Deus de Israel. Rute agiu com coragem e humildade. Deus providenciou para ela um marido nobre, um lar feliz e um filho promissor. De sua descendência nasceram reis e o próprio Filho de Deus. O cenário cinzento das perdas foi transformado num horizonte multicolorido de conquistas maravilhosas. Tudo isso, porque Rute se dispôs a recomeçar. É tempo de você também deixar o passado no passado e colocar os pés na estrada da esperança. A crise não durará para sempre. A dor que assola sua alma passará, e um tempo de refrigério virá sobre sua vida. Não levante monumento à sua dor; olhe para frente, olhe para cima, olhe para Deus, e saiba que ele também pode conduzir sua vida em triunfo.

GESTÃO E CARREIRA

AS GERAÇÕES E O FUTURO DO TRABALHO

O aumento da expectativa de vida dos brasileiros e as mudanças no mercado tornam urgente o debate sobre a inclusão etária

À medida que o debate sobre diversidade e inclusão amadurece, novos temas surgem na lista de preocupações do meio empresarial. Em 2020, devemos testemunhar o avanço de algumas pautas diretamente relacionadas aos desafios enfrentados por nossa sociedade: a questão geracional e as discussões sobre o futuro do trabalho.

São ambos assuntos urgentes e que dialogam diretamente com as necessidades do país. Estão, porém, cada um a seu modo, cercados de desinformação e de um oba-oba pouco crítico, que dificulta o aprofundamento da conversa.

Vejamos o exemplo do tópico “gerações”. Durante muito tempo, o mercado dizia ter interesse pela temática, mas, na verdade, demonstrava quase uma obsessão apenas pelos millennials. A geração que cresceu nos anos 2000 foi o xodó das empresas, que só agora começam a perceber a extensão do desafio que temos pela frente.

Numa ponta da pirâmide etária, pensando nos jovens entre 18 e 24 anos, o desemprego passa dos 24% e a precarização do trabalho avança. No outro extremo, entre aqueles com mais de 50, predomina o preconceito contra quem tem mais experiência – sem falar no aumento da expectativa de vida e no impacto da reforma da Previdência sobre os planos dos mais velhos.

No meio disso tudo, está o ritmo acelerado de mudanças nos modelos de produção. Estudos apontam que um terço das ocupações poderá ser substituído por robôs até 2030. Otimistas dizem que, no lugar desses trabalhos, haverá outros mais qualificados – mas a realidade brasileira teima em confrontar essa visão.

Afinal, num país que patina nos rankings de educação e cujo governo parece incapaz de enfrentar os desafios estruturais nessa área, quem terá a qualificação necessária para os empregos que virão? Na prática, para ficar em apenas um exemplo, o que se observa é o aumento do desemprego entre pessoas que, por falta de opção, historicamente desempenharam funções operacionais e agora se veem substituídas pela automação. Futuro do trabalho para quem? Como se vê, são discussões importantes e que merecem mais atenção. Por isso, estamos lançando uma iniciativa institucional e sem fins lucrativos para endereçar esses e outros temas. Trata-se do Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho, que vem sendo gestado há quase um ano e que ganhou as ruas no início de maio.

A iniciativa, pioneira na América Latina, nasce com o apoio de Itaú, Grupo Boticário, EDP, PwC e Chubb, mas pretende articular todo o meio empresarial brasileiro em torno de uma agenda que contemple encaminhamentos para alguns dos dilemas mencionados anteriormente.

O Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho pretende ser um espaço de produção de conhecimento, troca de experiências e protagonismo das empresas para o debate sobre diversidade e inclusão. Quer trazer sua companhia para o grupo? Escreva para mim no e-mail abaixo e terei prazer em compartilhar mais informações.

RICARDO SALES – é sócio da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na Universidade de São Paulo

ricardo@maisdiversidade.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BARIÁTRICA – CIRURGIA ALTERA CÉREBRO, MAS NÃO APLACA ANGÚSTIA

Relação com o alimento pode sofrer mudanças no nível neurológico, mas, se conflito que leva à compulsão não for tratado, sintomas aparecem de outras maneiras. Muitas vezes, surgem ou se agravam quadros psiquiátricos como ansiedade, compulsão e depressão – apesar do corpo magro tão almejado

Muita gente deve ter se olhado no espelho hoje e pensado que emagrecer (ainda que à custa de uma cirurgia bariátrica) seria uma excelente solução para terminar de vez com a luta contra a balança – e, talvez, ajudasse a resolver problemas emocionais e de autoestima. De fato, existe uma cultura forte que associa padrões físicos de magreza considerados “ideais” a felicidade e sucesso. Em junho de 2016, várias organizações internacionais voltadas para o estudo da diabetes ratificaram novas orientações, bastante provocativas, sugerindo que os clínicos deveriam considerar a cirurgia bariátrica para um leque mais amplo de diabéticos, passando a incluir aqueles com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 – e não somente aqueles com IMC igual ou superior a 40. A base para essa argumentação está em pesquisas: estudos mostram que a cirurgia para perda de peso ajuda os pacientes a alcançar níveis de glicose no sangue melhores do que daqueles que emagrecem com mudança de dieta e exercícios físicos. Um estudo recente realizado com ratos sugere que a eficácia da cirurgia bariátrica pode estar associada, pelo menos em parte, às mudanças que provoca no cérebro.

Segundo artigo publicado no International Journal of Obesity, a cirurgia bariátrica deflagra a hiperativação de uma rota neural que parte dos neurônios sensitivos do estômago no tronco encefálico, passa pelo núcleo parabraquial lateral (uma área no mesencéfalo que recebe informações sensoriais do corpo) e então chega à amígdala, que funciona como o centro cerebral do processamento da emoção e medo. Os ratos obesos foram submetidos a um processo chamado derivação gástrica em Y-de-Roux, em que os cirurgiões removem a maior parte do estômago, deixando somente uma pequena bolsa conectada ao intestino delgado. Pouco depois da cirurgia, quando os ratos passaram a ingerir porções mais reduzidas, mostrando preferência por alimentos menos gordurosos, os cientistas detectaram uma ativação crescente nessa rota neural. Foi detectado também que os animais começaram a secretar níveis mais elevados de hormônios de saciedade. Padrões comportamentais e hormonais semelhantes são encontrados em seres humanos após a cirurgia bariátrica, sugerindo que as alterações no cérebro possam ser semelhantes. Os autores do estudo reconhecem, porém, que observar esse circuito por meio de imageamento cerebral é difícil e podem ocorrer distorções por causa da falta de resolução. Segundo o neurocientista Hans-Rudolf Berthoud, do Centro Pennington de Pesquisas Biomédicas da Universidade do Estado da Louisiana (LSU), principal autor do estudo, a alteração da atividade cerebral é provavelmente causada pelo contato inédito e repentino do alimento não digerido (em vez da mistura pré-digerida que costuma vir do estômago) ao atingir o intestino delgado. “Basicamente, esses pacientes têm de reaprender a se alimentar; estavam acostumados a ingerir grandes porções de alimento e isso proporcionava sensação que lhes parecia agradável, mas, se o fizerem após a cirurgia, isso vai causar desconforto”, diz Berthoud. As áreas cerebrais que se o tornaram hiperativas pela cirurgia provavelmente refletem esse feedback negativo, que é uma ferramenta poderosa de aprendizado.

“Em poucas semanas, a rota pela qual passava o alimento não era mais hiperativa nos ratos, talvez indicando que o cérebro havia recrutado outros processos para sustentar a ingestão reduzida”, diz Berthoud. Segundo ele, essa constatação provavelmente constitui somente uma peça do quebra-cabeça. Estudos passados sugerem que a cirurgia bariátrica afeta também o sistema de recompensas do cérebro, tornando os alimentos gordurosos menos agradáveis. Uma questão que permanece é por que pessoas que passaram pela cirurgia bariátrica têm o metabolismo mais acelerado, em comparação com as que fizeram mudança de hábitos e do estilo de vida com o objetivo de perder peso. Em um estudo divulgado no começo do ano passado, pesquisadores constataram que os competidores de um programa de televisão americano, The Biggest Loser, ainda apresentavam um metabolismo letárgico seis anos após a enorme perda de peso. Estudos semelhantes mostram que grande parte dos pacientes bariátricos alcança um metabolismo estável e normalizado no prazo de um ano – mas não todos. Além disso, especialistas alertam para os riscos e efeitos colaterais da cirurgia bariátrica.

Psicólogos e psiquiatras chamam atenção para uma questão complexa: mais que um quadro em si, muitas vezes a alimentação desregrada ou compulsiva – bem como a obesidade decorrente desses comportamentos – na realidade é um sintoma que pode estar vinculado a transtornos como depressão e ansiedade. O problema é que, quando se vê o excesso de peso como um fenômeno que se esgota em si mesmo, se deixa de lado o fato de que essa situação está intimamente associada a processos psíquicos que envolvem relações consigo mesmo e com os outros, afetos, experiências e até traumas. E o tratamento, obviamente, não pode se restringir a uma cirurgia tão delicada. E talvez o mais importante: se a angústia que está por trás do sintoma não for resolvida, ele tende a reaparecer, ainda que se manifeste de outra forma.

Várias pesquisas realizadas nos últimos dez anos revelam que grande parte dos pacientes que se submetem à cirurgia bariátrica apresenta comportamentos compulsivos, depressão e chegam mesmo a cometer suicídio, ainda que tenham alcançado o corpo magro que tanto almejaram.

Uma pesquisa desenvolvida com esses pacientes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que grande parte das pessoas apresentou melhora efetiva das condições clínicas e funcionais, como menos risco de morrer por doenças cardiovasculares (em 56% dos casos), câncer (60%) e diabetes (até 92%). Considerando que, segundo estimativas da literatura científica internacional, em 2030, de cada três pessoas de países ocidentais, uma será obesa, a importância da cirurgia bariátrica não pode ser desprezada. Apesar disso, as complicações psicológicas devem ser levadas em conta.

Hoje, médicos reconhecem que há grande risco de que quadros psiquiátricos que já existiam se agravem ou até mesmo apareçam novas patologias após a cirurgia. “Sabemos que muitas pessoas utilizam o alimento como forma de aliviar a tensão e quando não podem fazer isso recorrem a outros comportamentos de forma patológica, como sexo, consumo de álcool e drogas, jogo e compras”, diz o psiquiatra Paulo Sallet, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Segundo ele, em muitos casos, esses novos sintomas resultam de fatores como necessidade de adaptação psicossocial à nova condição e de alterações psíquicas decorrentes de déficit nutricional. Ele explica que alguns são mais susceptíveis a processos específicos deflagrados pela cirurgia, como a produção de neuropeptídios, que efeitos anoréxicos, por exemplo, e ao invés de comer de forma compulsiva, o paciente passa a evitar o alimento.

“Estimamos com base na literatura médica que mais de 90% das pessoas que se submetem à cirurgia bariátrica se beneficiem do procedimento, mas há um percentual de indivíduos, em geral pessoas que já apresentavam algum quadro psiquiátrico, que enfrentam problemas mais graves após a operação”, afirma Sallet. Segundo ele, nesse grupo o índice de suicídio pode ser de quatro a oito vezes maior que o da população em geral. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) orienta que as pessoas que desejam se submeter a cirurgia não apenas façam os exames pré-operatórios, que incluem avaliação nutricional, cardiológica e endocrinológica, mas também sejam submetidas a uma avaliação psicológica. Embora não seja obrigatório, o acompanhamento psicológico anterior e posterior é de grande importância.

ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO NO TRATAMENTO BARIÁTRICO*

Do ponto de vista orgânico, a obesidade pode ser definida como alteração de processos biológicos (envolvendo basicamente genética e metabolismo) em interação com fatores psíquicos e ambientais, cujo resultado é o aumento do peso sob a forma de acúmulo de gordura. A maioria dos pacientes obesos tem uma longa história de tratamentos anteriores, com reduções de peso seguidas de reaquisição. Tais resultados parecem decorrer do enfoque excessivo na consequência (o peso), em detrimento do tratamento e modificação de suas causas.

Outro aspecto característico é a interrupção precoce dos tratamentos. Em diversos países, as técnicas bariátricas e cirúrgicas têm apresentado bons resultados em termos de redução de peso, melhora da qualidade de vida e satisfação global dos pacientes.

Isso se deve não somente a que tais procedimentos reduzem a ingestão calórica sem o desconforto de uma privação alimentar excessiva por parte do paciente, mas também ao fato de que a maioria dos centros aborda o tratamento de uma forma multidisciplinar.

Grande parte dos pacientes obesos apresenta transtornos alimentares caracterizados pela compulsão alimentar relacionada à ansiedade e estados de humor depressivo. Sabe-se que tais pessoas tendem a “adaptar” seu padrão de alimentação compulsivo após os tratamentos bariátricos (por exemplo, “beliscando” carboidratos continuamente, ingerindo grandes quantidades de alimentos líquidos hipercalóricos etc.), o que acaba comprometendo os resultados. Sabe-se também que a (em geral drástica) mudança na forma e imagem corporais que se segue a tais procedimentos traz consigo a emergência de conflitos psicológicos e necessidades de adaptação à nova condição. Em linhas gerais, esses são os motivos pelos quais a avaliação e o acompanhamento psiquiátricos são importantes no tratamento da obesidade.

Na prática, o acompanhamento psiquiátrico ou psicológico do paciente obeso que se submete ao tratamento bariátrico segue uma abordagem multidisciplinar, um modelo que envolve profissionais de diferentes áreas e tem sido empregado nos diversos centros de referência para tratamento da obesidade em todo o mundo. A função do psiquiatra começa com uma avaliação inicial do paciente com indicações clínicas para o tratamento cirúrgico da obesidade. Nessa avaliação são explorados não só os aspectos relacionados com a história de vida (história da obesidade, o sofrimento físico e psíquico a ela relacionado, história de problemas psíquicos prévios etc.), como também uma série de aspectos pertinentes ao tratamento proposto, tais como:

1. Grau de motivação para cumprir os cuidados necessários

2. Tomada de consciência de estar se engajando em um projeto em longo prazo

3. Riscos envolvidos

4. Adesão do paciente a atividades físicas regulares e ao programa adequado de alimentação

5. Expectativas do paciente em termos de resultado estético e controle do peso etc.

São fundamentais a identificação e o tratamento de problemas que possam interferir de modo negativo no resultado do tratamento. Condições psiquiátricas como abuso de álcool ou outras drogas, transtornos psicóticos (doenças em que podem ocorrer crises que causem prejuízo grave na apreciação realista dos fatos), transtornos de humor (depressões e/ou euforia) ou ansiedade e, sobretudo, alterações do comportamento alimentar são particularmente importantes e necessitam de uma avaliação criteriosa, que por vezes pode até contraindicar a intervenção cirúrgica naquele momento.  A ideia não é “selecionar” pacientes que possam ou não ser operados, mas identificar e tratar problemas com potencial interferência negativa no processo.

É importante não passar a ideia de que o paciente tenha algum perfil psicológico ou clínico típico da obesidade e deva ser tratado de modo homogêneo. Entretanto, as pesquisas e a experiência clínica demonstram que as pessoas com obesidade apresentam diferentes graus de sofrimento psíquico decorrente do seu padecimento.

Em geral, sofrem discriminação e preconceito de diversos matizes, que por sua vez podem ser introjetados ao longo da vida, deixando marcas profundas.

Para uma avaliação mais objetiva e economia de tempo, podem ser utilizados questionários a que o paciente pode responder em casa. Esse material é um instrumento de avaliação diagnóstica, de grande ajuda no planejamento terapêutico para cada paciente, como de resto também fornece informações importantes para o tratamento desses problemas com base científica. O acompanhamento psiquiátrico ao longo do tratamento depende, em parte, dessa avaliação inicial. É compreensível que a presença de condições psiquiátricas que possam comprometer aspectos de ordem prática (atividade física e adequação à dieta) ou o bem-estar psicossocial requeiram acompanhamento com consultas mais constantes, eventualmente com o uso concomitante de medicamentos e de psicoterapia para o aprofundamento das questões psíquicas e comportamentais.

(*) Informações fornecidas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

REAPRENDENDO A VIVER

A psicóloga Marlene Monteiro da Silva, coordenadora do curso de transtornos alimentares e obesidade do Hospital das Clínicas (HC), compara o período pós-operatório dos pacientes às fases de desenvolvimento psicossexual na infância, segundo o modelo proposto por Sigmund Freud. “Nos três primeiros meses podemos fazer um paralelo com a fase oral: assim como acontece com o bebê, a maior preocupação da pessoa nesse momento é com a comida; o paciente só pode alimentar-se de sopas e papinhas, em geral fica emocionalmente regredido, alguns choram com muita frequência, e sente-se dependente.”

A partir do quarto mês há uma espécie de “retorno” à fase anal, a pessoa começa a descobrir novas maneiras de encarar o próprio corpo e se relacionar com ele. Nesse momento, alguns chegam a ter 20 quilos a menos e sentem-se mais expostos. O paciente depara-se com uma agressividade da qual nem sempre se dá conta, tem medo da mudança de identidade e já não há a possibilidade de recorrer à comida para aliviar as angústias.

“Por volta do sétimo mês, começa o que pode ser visto como um paralelo com a fase pré-genital, uma espécie de adolescência emocional”, compara. Com o corpo bastante modificado, 50 ou 70 quilos a menos, muitos desses pacientes passam a querer aproveitar tudo, muitas vezes de forma inconsequente. É nesse momento que correm o risco de se tornar alcoólatras, dependentes de drogas, viver relações promíscuas e se colocar em situações de risco. Em geral, os casos de bulimia e anorexia costumam aparecer depois de dez meses, segundo a psicóloga.

“Algo que agrava a situação é tentar ‘esquecer’ que ainda é preciso fazer cirurgias plásticas, negam cortes e cicatrizes tanto físicas quanto emocionais. Se as pessoas não derem atenção à “feridas emocionais” que precisam ser cuidadas, é possível que depois de dois ou três anos após a intervenção, estejam sujeitas ao aumento das compulsões, depressão ou ao risco de voltar a engordar, mesmo com o estômago reduzido. “Não se pode ignorar que, muitas vezes, é um desafio assumir o papel de adulto, retornar ao trabalho, se haver com os desejos (tanto os próprios quanto os dos outros) e mudanças na vida sexual e afetiva”, diz Silva. “Aí as pessoas se dão conta de que o problema não era só o excesso de peso, de que há sempre faltas e que é preciso conviver com elas.” Justamente pela complexidade dos fenômenos psíquicos envolvidos são tão importantes a avaliação psicológica antes da cirurgia e o acompanhamento depois dela.

EU ACHO …

O VÍRUS DO PRECONCEITO

O discurso do ódio e da intolerância, base para o sectarismo nas sociedades, se dissemina junto com a pandemia, distorcendo a própria história. É urgente criar mecanismos para coibir isso

Libelos de que a covid-19 seria causada por um “vírus chinês” ou que Israel e os judeus estariam espalhando o Sars-CoV-2 pelo mundo aparecem, com indesejável frequência, em posts e falsas notícias em vários países, muitas vezes associados a chavões clássicos, como “isso tudo está acontecendo por causa dos interesses dos Rothschild ou de George Soros”, que seriam donos de laboratórios, prontos para tirar proveito da crise, produzindo remédios e vacinas. A única reação que esses ataques não provocam é surpresa.

A intolerância de toda natureza e contra vários povos acompanha a história da humanidade. Nem seria preciso lembrar, por exemplo, das atrocidades cometidas contra os judeus ao longo dos tempos, quase sempre sem punição e que, justamente pela impunidade, culminaram na maior de todas elas – o Holocausto: 6 milhões de inocentes, ao lado de outras minorias, foram exterminados no coração da Europa, em pleno século XX. Pessoas que nada fizeram para ter esse destino, além de ter nascido em uma determinada família ou localidade. Em decorrência dessas circunstâncias, as comunidades judaicas ao redor do mundo tornaram-se especialistas em ser alvo do discurso do ódio e das fake news. Hoje, está bem claro que esse tipo de praga que grassa no ambiente virtual causa imensos danos, não raramente desaguando em violência física na vida real.

O principal condutor dessas correntes são as plataformas de comunicação digitais. Turbinadas por exércitos de robôs e protegidas pelo anonimato, as redes sociais aglutinaram, revigoraram e empoderaram os extremistas de forma inédita e com elevado grau de eficiência. O racismo e qualquer espécie de sectarismo encontraram na tecnologia um motor. Alguns ataques contra sinagogas e mesquitas, com dezenas de mortes, tiveram seu início com transmissões ao vivo, nas redes. Há anos se fala disso, sem que a intolerância tenha sido efetivamente freada. Em razão do curso dos acontecimentos, é necessário que as redes sociais sejam capazes de evitar a propagação do ódio, com suas terríveis consequências. É uma tarefa árdua, mas inescapável. Empresas como Twitter e Facebook, entre outras, já alcançaram capacidade financeira e grau de maturidade tecnológica suficientes para restringir, por meio de inteligência artificial, conteúdos discriminatórios, como faz o YouTube no combate à violência extrema e à pornografia infantil.

E que não se diga que coibir a intolerância, através dos mecanismos que a disseminam, seja censura. Não queremos combater a diversidade de ideias. Mas é preciso lembrar que a liberdade de expressão, conquista democrática inscrita na Constituição de 1988, não se confunde com o discurso do ódio ou com a pregação da violência, como já vem decidindo há anos o Supremo Tribunal Federal. O rádio e o cinema eram as novas tecnologias nos anos 1930, e os nazistas exploraram esses meios com eficiência letal. O poder das redes neste século XXI é muitas vezes maior que o daquelas plataformas. Atuam praticamente sem controle social, diferentemente do que ocorre com as mídias tradicionais.

Mesmo antes de o novo coronavírus se tornar o último pretexto para comportamentos racistas, ataques de ódio já vinham crescendo neste planeta polarizado. Lideranças judaicas e de outras religiões, em todo o mundo, têm se esforçado em denunciar e combater essa ressurgente onda de intolerância, em que a realidade se desenrola sob uma óptica maniqueísta e distorcida. Mas muitos não querem ver, não querem ouvir, ocupados que estão em estigmatizar adversários.

É frustrante observar como atores políticos, especialmente em nosso país, usam e abusam de comparações equivocadas com as perseguições da época do nazismo, apenas para conquistar posições em disputas, sem nenhuma relação com o que tragicamente ocorreu na Europa no século passado. Isso é feito por políticos de todo espectro, seja o ex-presidente Lula, que em 2014 comparou adversários políticos a nazistas, seja o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que viu absurdas semelhanças entre uma decisão do STF e as perseguições da chamada “Noite dos Cristais”. Não há relação possível. A começar pelo fato evidente deque vivemos em um estado democrático de direito, no qual as liberdades e garantias estão asseguradas, e prosseguindo pela evidência de que não há nada hoje entre nós daquela perseguição – étnica ou nacional – vigente no regime hitlerista. Assistimos à vulgarização de um evento único em suas características que, reforço, não deve se prestar a instrumento de luta política. Deixem os judeus fora disso.

Não cabe à Conib tomar partido no cenário político atual ou em qualquer outro momento, mas sim defender valores e princípios. Não temos partido, mas certamente temos lado. E o nosso lado é aquele onde prevalecem o respeito às diferenças, o pluralismo, a democracia e os direitos humanos. Fazer parte de uma minoria no século XXI não é fácil. E está ficando mais complicado. Da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo extremismo islâmico, intolerantes de todos os matizes sentem-se cada vez mais à vontade para atacar grupos minoritários. Essa luta contra a intolerância e a propagação do ódio não está circunscrita às religiões. O assassinato de George Floyd, em Minneapolis, mostra quanto o racismo contra os negros ainda está presente na sociedade americana. Como vítimas preferenciais também do preconceito e da violência racista, temos a obrigação de lutar pela promoção do entendimento e pelo firme combate ao ódio e à intolerância.

**FERNANDO LOTTENBERG é advogado e presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

OUTROS OLHARES

DE OLHOS BEM PUXADOS

A maquiagem chamada de foxy eyes (olhos de raposa), que alonga os olhos com traços fortes, faz sucesso, mas vira alvo de crítica nas redes sociais

Mesmo em tempo de rostos cobertos por máscaras, a maquiagem (fora o batom, claro) não perde espaço entre as mulheres. E, por razões evidentes, as mais criativas são as que destacam os olhos. Nenhuma tem feito mais sucesso nas redes sociais do que a chamada de Foxy eyes, ou olhos de raposa. Trata-se de alongar a expressão com a combinação elaborada de traços desenhados com sombra, delineador e cílios postiços.

O modismo é uma versão repaginada do antigo efeito “gatinho”, marca registrada da atriz francesa Brigitte Bardot na década de 60. Há pouco tempo, a americana Bella Hadid, eleita “modelo do ano” pela premiação Model of the Year Awards, ressurgiu com traços semelhantes, mas bem mais carregados e sensuais, e o estilo renasceu ruidosamente. Mas, como nada hoje é apenas prazeroso, veio junto uma acalorada discussão.                                                           

Nas últimas semanas, o efeito passou a ser alvo de críticas de grupos de mulheres orientais, que denunciaram uma suposta “apropriação cultural”. Ou seja: o foxy eyes estaria utilizando traços raciais, como os olhos puxados, para angariar likes em fotos. Polêmicas dessa ordem são comuns. Denúncias semelhantes foram direcionadas recentemente a mulheres brancas que usavam turbante ou tranças enraizadas, que remetem à cultura africana.

E, no entanto, nunca é tarde para lembrar, a aplicação de delineadores para alongar os olhos nasceu como uma prática absolutamente funcional nos tempos de Cleópatra, rainha do Egito, compartilhada por ambos os sexos, como modo de proteção dos raios solares. Diz o professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), João Braga: “Divulgar belezas diferentes, independentemente da raça, não deve ser discriminado, mas celebrado”. Viva a diversidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE JULHO

LAR, DOCE LAR

Tua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa (Salmos 128.3).

O lar foi planejado por Deus para ser um lugar de abrigo, uma fonte no ermo, um oásis no deserto, um pomar de frutos deliciosos para saciar nossa fome de afeto. No lar, encontramos intimidade e somos amados não por causa de nossas virtudes, mas apesar de nossos defeitos. No lar, nós nos despimos das nossas vaidades e, apesar das nossas cicatrizes emocionais, somos aceitos e perdoados. O lar é tanto um campo de treinamento como uma clínica de recuperação. É no território da família que travamos as maiores batalhas e é nessa arena que somos carregados nos braços quando tombamos por um golpe da vida. O lar é a nossa cidade de refúgio, para onde corremos quando somos acossados pelo inimigo de sangue. No lar, encontramos uma mesa posta, uma cama quentinha, um abraço carinhoso e um sorriso acolhedor. No lar, refazemos as nossas forças para a caminhada da vida e é ali também que levantamos nossa voz para chorar. No lar, celebramos a alegria do nascimento e choramos de saudade na hora da morte. No lar, nascemos, crescemos e morremos. O lar é nossa casa, nosso chão, nossa herança. O lar pode ser rico ou pobre, mas é o melhor lugar do mundo para viver, quando nele trescala o perfume do amor.

GESTÃO E CARREIRA

ESCOLHAS DIFÍCEIS

Com demissões e reduções salariais abruptas, brasileiros são obrigados a tomar decisões duras para lidar com a nova realidade financeira

Thais Gonçalves Galli, de 32 anos, trabalha como coordenadora de eventos em um hotel da capital paulista. Com o segmento completamente parado por causa do coronavírus, ela recebeu em abril a notícia de que teria o contrato suspenso por dois meses. O salário caiu pela metade. Seu noivo, Marcelo Nogueira Batista, de 37 anos, que trabalha como supervisor de banquetes em outro hotel, teve o mesmo destino. De uma hora para outra, o casal – que tem um financiamento imobiliário – se viu obrigado a baixar drasticamente o padrão de vida.

O revés vivido pelos dois profissionais ilustra a realidade de milhões de brasileiros. Nos últimos três meses, segundo o IBGE, 4,9 milhões de postos de trabalho formais e informais foram fechados no país. Além disso, só em abril, mais de 2,5 milhões de pessoas tiveram seus contratos suspensos ou salários diminuídos. A situação é crítica. De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas, 51% dos entrevistados já tiveram queda efetiva na renda desde que a doença se instalou no país, em meados de março. O estudo mostra também que 53% ainda esperam ter os rendimentos familiares prejudicados e que apenas 6% devem manter o mesmo patamar financeiro de antes da crise de covid-19.

Como ninguém consegue prever com exatidão quanto tempo a paralisia econômica vai durar, especialistas dizem que as decisões financeiras devem ser duras e enérgicas. “No desespero, é comum não querer enfrentar o problema para evitar angústia. Só que, neste momento, é muito importante levantar todos os gastos e dívidas imaginando o pior cenário”, diz Flávia Ávila, especialista em economia comportamental e fundadora da consultoria InBehavior Lab.

Ainda que a renda seja suficiente para pagar todas as contas, é primordial fazer um diagnóstico minucioso das finanças. O primeiro passo para isso é enumerar em uma planilha – ou no papel, se preferir – despesas fixas, variáveis e compromissos futuros. Com o mapeamento em mãos, comece a analisar o que pode ser excluído de sua vida sem prejuízo, priorizando as escolhas domésticas, mais fáceis.

Questione-se: será que preciso ligar a máquina de lavar roupas cinco vezes por semana? Meu banho pode ficar mais curto? As luzes estão sendo apagadas como deveriam nesta quarentena? “O supermercado é outro ponto de atenção. Pesquise por itens mais baratos e que tragam o mesmo benefício da marca líder. Faça todas as substituições possíveis”, diz Marco Harbich, planejador financeiro da Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros.

Depois passe para aquilo que não é essencial. Negocie descontos e carências, sobretudo em serviços interrompidos na quarentena, como academia e transporte escolar, e barganhe soluções em planos de internet, TV e celular. Foi o que fizeram os noivos Thais e Marcelo. Assim que soube que teria o contrato suspenso, ela entrou em contato com a TV por assinatura em busca de algum alívio. “Expliquei que tive uma redução de salário e precisava negociar. Consegui reduzir a mensalidade de 205 para 170 reais, sem sofrer alterações no pacote.” Outra iniciativa foi conversar com a operadora de telefonia celular em busca de um plano mais econômico. ”A empresa fez uma contraproposta para aumentar a velocidade da internet mantendo o valor. Aceitamos, porque precisávamos de uma conexão melhor.” O casal também dispensou a faxineira e eliminou a compra de itens supérfluos, como vinhos.

Complicado mesmo, segundo a coordenadora de eventos, foi decidir o que fazer com o financiamento imobiliário, a dívida mais alta que possuem. Após negociação, o banco acabou suspendendo o pagamento das parcelas por quatro meses, que será retomado só em agosto. Com as medidas, os dois reduziram os gastos mensais em 3.000 reais. Arthur Igreja, especialista em finanças e professor convidado na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, ressalta que, antes de cortar, vale buscar negociações para minimizar os impactos na qualidade de vida. As instituições, diz ele, estão abertas a isso. “Mudanças drásticas de padrão podem levar à depressão. Não saia cortando tudo desesperadamente logo de cara sem fazer uma avaliação de sua condição. Demonstre interesse em honrar a dívida e dialogue. O fornecedor tem interesse em receber.”

Agora, se você possui empréstimos e financiamentos, há dois caminhos: negociar uma pausa provisória no pagamento das parcelas – grandes bancos, como Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander passaram a oferecer essa opção a quem está com as contas em dia – ou barateá-las. Verifique se o contrato tem como indexador a taxa básica de juros, Selic, hoje no menor patamar: 3% ao ano. “Se a dívida foi contratada quando a Selic estava em 10%, por exemplo, você consegue um bom argumento para renegociar os juros. Mas isso o banco nunca irá fazer; é o cliente que precisa correr atrás”, afirma Arthur Igreja.

DEVO, NÃO NEGO, PAGO QUANDO PUDER

Se após tomar essas iniciativas ainda assim a receita familiar for insuficiente, contas essenciais, como água, luz, gás, internet e até mesmo o aluguel, podem ser deixadas em segundo plano. O corte de serviços e despejos estão proibidos durante a pandemia. Além disso, a Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), representante de Serasa, SPC Brasil e outros birôs de crédito, prorrogou de 10 para 45 dias o prazo para o devedor ter o nome negativado. Mas lembre-se de que as dívidas não serão extintas. Por isso, qualquer sobra deve ir para saná-las, priorizando as maiores.

Agora, se não há perspectiva de entrada de receita em breve, a opção é tomar dinheiro emprestado. Nesse caso, por mais difícil que seja, tente primeiro com familiares e amigos ­ apresentando, claro, um plano de pagamento com sugestão de taxa de juros. “Recomendo a busca por alguém próximo, porque se uma pessoa sem renda pedir uma linha de crédito mais barata precisará informar ao banco que está sem renda e, consequentemente, não terá o valor aprovado. E a tendência desse cliente será contratar o que já está disponível, como cheque especial e cartão de crédito [que registram taxas de juros anuais de 132% e 259%, respectivamente].”

A empreendedora Juliana Luiz, de 44 anos, proprietária da JLS, microempresa que organiza eventos culturais de dança e música na cidade de Cubatão (SP), sabe bem disso. Depois que a pandemia paralisou as atividades culturais, o faturamento de seu negócio caiu a zero. Para enfrentar o dilema, ela precisou recorrer aos parentes. Como mora com a mãe e dois irmãos, conversou com eles sobre o que poderia ser feito. Sua reserva financeira deve durar até agosto e não será suficiente para arcar com todos os custos. Hoje, ela paga internet, supermercado e a diarista. Paralelamente, arca com contas particulares, como plano de saúde, seguro do carro e cartão de crédito. “Até as coisas normalizarem, não vou ajudar nas despesas da casa. Como minha mãe é pensionista, decidiu arcar com minha parte por enquanto”, diz Juliana. “Só vou continuar honrando minhas contas pessoais porque tive esse respaldo. Mas sei que nem todos têm a mesma oportunidade.” Se não houver outra saída, Luciana Ikedo, assessora de investimentos, orienta buscar modalidades de crédito mais baratas. Se você perdeu o emprego, mas outro membro da família não, conversem para entender quem pode tomar o empréstimo mais vantajoso, como o consignado ou aqueles que solicitam garantias reais, como antecipação de décimo terceiro, restituição de imposto de renda ou bens como imóvel e carro. Se você possui alguma gordura financeira para queimar, não saia pagando todas as dívidas com esse dinheiro. “Existe a tendência de querer usar a reserva para liquidar todos os compromissos de uma vez. Mas essa não é uma boa escolha. Estamos dirigindo em uma estrada com neblina. Não está claro se daqui a dois ou três meses será preciso usar esse recurso”, alerta Luciana. A orientação é manter o valor que será usado no mês na conta- corrente e dividir a quantia restante entre aplicações com liquidez, como Tesouro Selic, título da dívida do governo indexado à taxa básica de juros, e Fundo DI, que tem a maior parte dos ativos atrelada aos títulos federais. “Mantenha o investimento e faça o resgate à medida que for necessário. E anote o valor que deve a si mesmo para repor a reserva de emergência quando possível.”

MENTE BLINDADA

Nesse processo, é preciso cuidar do psicológico. A neuropsicóloga Adriana Foz, autora do livro Frustração: Como Treinar Suas Competências Emocionais para Enfrentar os Desafios da Vida Pessoal e Profissional, explica que oscilações emocionais prejudicam – e muito – a tornada de decisão. Para enfrentar dificuldades e acalmar a mente diante da inviabilidade de pagar as contas e fazer novas compras, procure se reorganizar com aquilo que já tem. “Dar soluções diferentes para as mesmas situações é um exercício bacana para a mente e para a saúde mental. É uma forma de treinar o cérebro para deixá-lo mais fortalecido.” Outra dica para evitar que o desespero reine é forçar pensamentos positivos, relembrando as conquistas que teve e os desafios que superou. Pode parecer bobagem, mas esse tipo de atitude mental gera confiança, equilíbrio e a certeza de que, apesar de os tempos serem complexos, sobreviveremos a eles.

CUIDADO COM AS PROMOÇÕES

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o impacto na renda e o medo do desemprego levaram 77% dos consumidores a reduzir a compra de diversos itens durante a pandemia. Ou seja, de cada quatro brasileiros, três reduziram gastos. Isso tem levado marcas a fazer promoções online agressivas. Mesmo que sua renda não tenha sido afetada, especialistas recomendam fugir das tentações, que podem ser ainda maiores no isolamento. Quando estamos em casa, começamos a notar várias coisas que não temos e gostaríamos de ter: um liquidificador novo, uma batedeira mais potente. São necessidades que podem parecer urgentes, mas não são. “Administrar o desejo de consumo é essencial, porque não existe clareza sobre quando haverá retomada da atividade econômica”, diz a assessora de investimentos Luciana lkedo. Marco Harbich, da Planejar, recomenda a metodologia dos “Ps”: “Preciso? Posso?”. Primeiro, reflita se realmente necessita do produto e, depois, se o orçamento permite comprá-lo com tranquilidade. Essas duas indagações são essenciais para fazer escolhas de consumo.

PLANO DE CONTINGÊNCIA

1 – Se ficou sem salário e não possui reservas, busque maneiras rápidas de reduzir despesas do dia a dia e priorize itens básicos, como alimentos e medicamentos. Contas consideradas essenciais, como luz, água e gás, podem ser suspensas.

2 – Se tiver reservas financeiras, tente preservá-las ao máximo. Nada de sair por aí quitando todas as pendências (como as parcelas do financiamento do carro e do imóvel), porque você não sabe se precisará do dinheiro nos próximos meses.                                                                                            

3 -Antes de cortar serviços como internet, tv a cabo e celular, negocie com os fornecedores. você pode conseguir descontos sem optar pelo cancelamento. Por outro lado, se ficou sem renda, cancele supérfluos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SÍNDROME DO CORAÇÃO PARTIDO

A doença é causada sobretudo pelo estresse, potencializado atualmente pela Covid. Coloca em alto risco o funcionamento cardíaco e pode matar

que se vive sob o pavor e o estresse do novo coronavírus. “Grandes tragédias, como a Covid-19, causam estresse e dele decorre graves problemas no coração”, diz o cardiologista Sergio Timerman, do Instituto do Coração de São Paulo e integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nessa enfermidade os sintomas são os mesmos do infarto agudo — dores no peito e muita dificuldade para respirar —, só que acrescidos de uma inflamação do ventrículo esquerdo do coração, o que dá ao órgão o formato da armadilha citada no início desse texto. “A diferença é que essa síndrome não causa obstrução das artérias, mas, sim, uma alteração no músculo do coração”, diz Timerman.

A situação de exacerbado estresse induz a produção demasiada de substâncias estimulantes no organismo, sobretudo a adrenalina, que leva tal órgão a trabalhar mais rapidamente e com maior vigor. Até aí tudo bem, não fosse o fato de que tal rapidez e tal energia ocorrem em excesso. Esse é o mecanismo biológico que enquadra uma pessoa no diagnóstico de Síndrome do Coração Partido. “As cotecolaminas, hormônios que estão presentes em nosso organismo, são imprescindíveis para o funcionamento do mecanismo biológico que, diante de uma adversidade, nos leva a lutar ou a fugir”, diz Antônio Eduardo Pesadro, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

De volta ao estudo da americana Cleveland Clinic, foram analisados 1.914 pacientes por cinco momentos diferentes e durante dois meses. Desmontou-se um mito: aquele de que a enfermidade ocorria sobretudo em mulheres no período pós-menopausa. No Brasil, estima-se que quatorze milhões de pessoas sofram de males cardíacos, traduzindo-se em 30% de todas as mortes no País — são 30 mil óbitos por ano. Esse é o principal motivo que levou a Sociedade Brasileia de Cardiologia a iniciar um estudo de quantos episódios de Coração Partido estão incluídos nesses trágicos números.

EXAME ESPECÍFICO

O médico assistente do Instituto do Coração Roque Marcos Savioli, doutor em Cardiologia pela USP, conta que, em um de seus plantões, atendeu uma senhora de 80 anos em situação de emergência cardíaca. Ele só descobriu que se tratava de um caso de Síndrome do Coração Partido ao realizar um cateterismo: “Nos outros exames, a situação da paciente estava normal. Só depois do cateterismo vimos a imagem de Takotsubo”. Na verdade, há tantas doenças ao todo, que existe um esforço internacional para melhor compreendê-las. Tanto é assim, que o Centro Nacional de Pesquisa Médica em Cardiologia da Rússia juntou pesquisadores americanos e europeus e realizaram uma videoconferência sobre esse vasto universo médico. Um dos temas priorizados foi justamente a Síndrome do Coração Partido.

EU ACHO …

VOCÊ SENTE SAUDADE DE QUÊ?

Quero abraçar, pisar na areia, jogar vôlei. Mas ainda não é hora

Dia desses, eu caminhava pela Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, e entrava por uma porta, à esquerda. Diante de mim, prateleiras enormes de livros, pessoas folheando exemplares nas gôndolas principais. No ambiente, um burburinho de café no 2 piso. Comecei eu mesmo a folhear alguns lançamentos, conferindo a quarta capa e as orelhas para saber mais da história ou abrindo numa página aleatória para ler um trecho. Fiz isso por alguns minutos. Então, acordei. E logo me estapeou a realidade: estamos em junho e faz meses que não visito uma livraria.

Mesmo que eu esteja em casa, com minha biblioteca, nada substitui o prazer de visitar uma livraria e descobrir obras nas estantes, como um desbravador. Comecei minha vida de leitor – e, claro, de escritor- nos clubes do livro do sebo Baratos da Ribeiro, que ficava em Copacabana e agora está em Botafogo, a poucos quarteirões da loja com que acabei sonhando, a Travessa de Botafogo.

Outras tantas livrarias fazem parte da minha vida: a Saraiva do Shopping Riosul, onde lancei meu primeiro livro; as demais Travessas e Saraivas, a Blooks de Botafogo, a Argumento do Leblon e a Da Vinci no Centro. Aliás, nestes tempos difíceis, cabe a nós incentivar as livrarias locais, pequenas, que precisam de leitores apaixonados para atravessar a tempestade. A maioria delas tem feito entregas on-line, com anúncios e promoções nas redes sociais. Não deixe de buscar a sua favorita e realizar uma compra, livros são boas companhias na quarentena.

Sem dúvida, outra saudade enorme é ir ao cinema. Aúltima sessão em que estive foi em meados de março, no cine Roxy, o meu favorito, que agora tem sua existência ameaçada. O mesmo acontece com as salas do grupo Estação, que acaba de lançar uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria para seguir em funcionamento quando a pandemia terminar. Tenho visto filmes nos streamings, mas nada substitui o cheiro de pipoca, o apagar das luzes, o telão gigante diante de nossos olhos. Quando poderei ir ao cinema de novo? Ainexistência de uma data final é o pior de tudo.

Para os cariocas, a “banalização da violência” já faz parte da rotina: absurdamente, nós nos acostumamos a frases como “não vá pela Avenida Brasil que está tendo tiroteio”, ou “soube que ontem deram facadas num cara na esquina?”, ou “mataram dois bandidos aqui no bairro”.

Agora, existe uma espécie de “banalização do fim”. Quando o coronavírus começou, nos horrorizamos com os números de mortes que chegavam da Itália: 700, 800… Neste momento, no Brasil, os números estão por volta de 1.500 mortos por dia, com projeções de chegar a 3.000, 5.000, e parece que boa parte da população não despertou para a gravidade do que estamos vivendo: no Rio, os calçadões estão cheios; bares, restaurantes e comércios funcionam de vento em popa. Para essas pessoas, respaldadas no presidente lunático, a quarentena nunca começou. Enquanto isso, daqui, as saudades se avolumam: quero abraçar meus amigos, pisar na areia da praia, sair para um bar, fazer um churrasco, jogar vôlei. Mas ainda não é hora. Por enquanto, vou continuar sonhando.

**RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

DEU EM PIZZA, QUE BOM!

Nenhuma comida faz mais sucesso na quarentena do que a criação napolitana que virou símbolo paulistano e se espalhou pelo Brasil. O próximo passo: o delivery pelo ar

A pizza virou o prato forte dos brasileiros que moram nas grandes cidades e se protegem contra a pandemia, ficando em casa e pedindo comida fora. A popularidade do serviço de delivery já era enorme. Agora, alcançou êxito inesperado. Segundo a Associação Pizzarias Unidas do Brasil, desde o começo da pandemia, em abril, o faturamento de suas filiadas aumentou em até 30%, conforme a região do país. Iniciado o confinamento da população, as pizzarias com salão para receber clientes se voltaram 100% para a entrega em domicílio, associando-se às que a realizavam exclusivamente. Precisavam contornar os prejuízos. Afinal, suas portas foram cerradas. O sucesso foi tanto que, mesmo com a reabertura, pretendem continuar preparando comida para viagem.

Muitas pizzarias tiveram de se reinventar nos primeiros dias do fechamento. A Castelões, de São Paulo, é o maior exemplo. Aberta em 1924, no bairro do Brás, jamais apostou na entrega. Para não apagar o forno a lenha, a mais antiga pizzaria do país se rendeu ao serviço. Foi em abril, quando completou 96 anos de idade.

A pizza chegou ao Brasil entre o fim do século XIX e início de 1900. Veio com os 80.000 imigrantes de Nápoles e comunidades vizinhas da região da Campânia. Eles se instalaram em São Paulo, nos bairros do Brás, Mooca, Belenzinho e Bixiga. Acabou se tornando prato nosso. Há hoje 40.000 pizzarias no país. Só na cidade de São Paulo funcionam entre 4.500 e 6.000. Calcula-se que a metade seja exclusivamente delivery.

A operação de entregar a pizza no endereço do cliente requer eficiência. Para manter a qualidade, ela deve chegar rapidamente ao destino. Cerca de quarenta minutos depois de sair do forno, esfria e perde a crocância. “Daí adotarmos uma embalagem aluminizada e só fazermos entregas até uma distância de no máximo dez quilômetros”, diz Arri Coser, dono da rede Maremonti, de São Paulo, que pôs três restaurantes no delivery. A cadeia paulistana Ráscal fez outra opção em sete casas. Passou a despachar a pizza pré-assada e congelada; ou com a cobertura à parte, para a montagem. “O cliente termina de assá-la em casa e fica ótima”, garante Luísa Bielawski, sócia da Ráscal.

Os pedidos do delivery chegam por meio de aplicativos, de plataformas como iFood, Rappi e Uber Eats, de sites, WhatsApp e telefone. Hoje, como se sabe, a pizza é entregue por moto­boys. Profetiza-se que o serviço logo contará com drones, muito mais velozes. Testes com essas aeronaves pilotadas remotamente estão sendo feitos pela americana Domino’s, a maior rede de entregas de pizzas do mundo. Há duas semanas, ela atendeu a um cliente enviando um drone até a Praia de Zandvoort, na Holanda. No Brasil, a pizzaria Vero Verde de Santo André, na Grande São Paulo, realizou teste parecido em 2014, esbarrando na falta de licença das autoridades oficiais.

O namoro com a inovação enriquece uma bela história. No início da vida em São Paulo, os imigrantes italianos moravam mal, muitos em cortiços. Para reforçar o orçamento, os napolitanos e patrícios da Campânia começaram a fazer pizza em casa para vender. Os que não dispunham de forno a lenha levavam a redonda, como a chamavam, para assar em padarias de portugueses. A seguir, saíam oferecendo nas ruas, em pedaços.

Transportavam a pizza em um tambor de metal, em cuja parte inferior ardia carvão em brasa. Tinha massa grossa e borda alta; na cobertura, molho de tomate e mussarela; ou filezinhos de aliche com ou sem queijo; reunindo os dois ingredientes, virava mezzo a mezzo. Hoje, as variações são ilimitadas. Nos últimos dois anos, conforme a associação de pizzarias, as mais pedidas nos restaurantes e deliveries do país são, pela ordem, a pizza de linguiça calabresa, a portuguesa e a frango com catupiry. As três receitas nasceram em São Paulo. Campeã absoluta, a calabresa passou a ser preparada no fim da década de 30, depois que um açougue paulistano produziu a linguiça do mesmo nome, até então caseira. A portuguesa surgiu entre as décadas de 50 e 60, em homenagem aos padeiros que cediam o forno aos imigrantes. Já a frango com catupiry é da década de 70, quando um vendedor da fábrica de laticínios sugeriu a um pizzaiolo que testasse seu requeijão em uma redonda.

Acredita-se que a pizzaria número 1 do Brasil foi a Santa Genoveva, de São Paulo, aberta em 1910 e fechada em 1940, no Brás. O dono era D. Carmino Corvino, italiano de Salerno, perto de Nápoles. Começou vendendo pizza na rua. Juntando dinheiro, inaugurou a Santa Genoveva. Portanto, como instituição, a pizzaria brasileira faz aniversário: completa 110 anos em 2020. Pode-se imaginar a perplexidade de D. Carmino Corvino se ressuscitasse, fosse morar em um apartamento e aparecesse um drone com uma pizza quentinha na sacada. Mas talvez se sentisse aliviado ao desfrutar do conforto de não precisar descer até a portaria com uma máscara cobrindo a boca e o nariz, para enfrentar a pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE JULHO

PÁSCOA: CHOCOLATE OU SANGUE?

Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue… (Romanos 5.9a).

A sociedade secularizada trocou não apenas o cordeiro pelo coelho, mas também o sangue pelo chocolate. O sangue nos causa repulsa, mas o chocolate é doce ao paladar. O chocolate nos agrada e nos dá prazer, mas o sangue nos deixa constrangidos e atônitos. Porém, o que o chocolate tem que ver com a Páscoa? Absolutamente nada! Essa é a religião secularizada. Cria símbolos que agradam ao gosto do homem, mas afastam as pessoas do caminho de Deus. A redenção do cativeiro não aconteceu por causa do chocolate, mas por causa do sangue. Não o nosso próprio sangue, mas o sangue de um cordeiro substituto. Aquele cordeiro sem defeito, imolado em favor de cada família, era um tipo de Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não somos salvos pelas nossas obras; somos salvos pelo sangue de Cristo. Ele é o nosso Cordeiro pascal. É pela sua morte que temos vida. É pelo seu sangue que somos libertos e purificados de todo o pecado. O chocolate é bom e agradável, mas não como símbolo da Páscoa. As nossas obras podem ser úteis, mas não para a nossa redenção. Não são as nossas obras que nos justificam, mas a obra de Cristo na cruz por nós.

GESTÃO E CARREIRA

WHATSAPP QUER SER SEU NOVO BANCO

Aplicativo anuncia ferramenta de pagamentos e transferências para usuários do Brasil e gera empolgação para uns e desconfiança em outros.

O WhatsApp começou como um simples aplicativo de mensagens. Tornou-se um dos principais serviços de transmissão de notícias. Também é usado como ferramenta para divulgar produtos e serviços. E ganhou o mundo. São 2 bilhões de usuários em 180 países. E agora, 11 anos após ser criado, entra no mercado financeiro ao permitir pagamentos e transferências entre usuários. “Estamos facilitando o envio e o recebimento de dinheiro assim como o compartilhamento de fotos”, disse Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, dona do WhatsApp, na segunda-feira (15), em anúncio que gerou um misto de empolgação e desconfiança no Brasil, primeiro país a receber a atualização do sistema.

A novidade já começou a ser liberada para algumas pessoas, tanto para o sistema IOS quanto para o Android. O acesso ao recurso será aos poucos. A opção ‘pagamento’ será incluída no menu de ações. Inicialmente, a parceria prevê transações com cartões de débito ou crédito de Banco do Brasil, Nubank e Sicredi, das bandeiras Mastercard e Visa. A processadora é a Cielo.

O serviço pode ser usado por pessoas físicas e jurídicas. Usuários poderão transferir dinheiro para outras pessoas, como pagar a mensalidade do aluguel da quadra de futebol com amigos e passar valores a familiares, além de quitar compras sem cobranças adicionais. Já as pequenas e médias empresas, que utilizam o WhatsApp Business (versão corporativa do app), pagarão taxa fixa de 3,99% do valor de cada transação para receber os pagamentos de clientes. Assim, o WhatsApp incrementa sua monetização como provedor de receita do grupo Facebook – que também inclui o Instagram e outras redes –, que faturou globalmente US$ 70,7 bilhões em 2019.

CICLO DE VENDA

O lançamento do WhatsApp Pay mexeu com o mercado brasileiro. Afinal, são 130 milhões de usuários no País, sendo cada vez mais utilizado para divulgar e gerar negócios. A ferramenta completa o ciclo de venda dentro da plataforma, de maneira fácil e ágil, o que entusiasmou alguns setores. O principal deles relacionado a vendas diretas. Segundo pesquisa nacional de perfil desenvolvida por uma consultoria independente a pedido da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), o WhatsApp é o principal canal de vendas de 84,7% dos empreendedores independentes do setor, formado por 4 milhões de empreendedores, que comercializaram 2,5 bilhões de itens (produtos e serviços) em 2019 e geraram um volume de negócios de R$ 45 bilhões. Os dados foram coletados em janeiro e fevereiro e, portanto, não captam a aceleração digital ocasionada pela pandemia. O aplicativo, que já era uma das principais alternativas de vendas antes do isolamento social, tornou-se ainda mais importante e foi adotado, inclusive, por grandes redes varejistas.

“É um divisor de águas. Ajuda na recuperação da economia neste momento de crise causada pela Covid-19”, diz Renato Mendes, mentor da Endeavor Brasil, especialista em startups e empreendedorismo. “A nova função de pagamentos só ajudará os comerciantes a se adaptarem à economia digital, ao ‘novo normal’. Mais uma vez vemos na tecnologia uma saída para o crescimento e a recuperação financeira”, afirma Ricardo Zanlorenzi, CEO da Nexcore, especializada em soluções em atendimento e comunicação omnichannel para empresas otimizarem e personalizarem o relacionamento com clientes. “É uma experiência de uso interessante”, diz Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia voltada para o mercado financeiro, fintechs e gestão de risco.

CICLO DE VENDA

O lançamento do WhatsApp Pay mexeu com o mercado brasileiro. Afinal, são 130 milhões de usuários no País, sendo cada vez mais utilizado para divulgar e gerar negócios. A ferramenta completa o ciclo de venda dentro da plataforma, de maneira fácil e ágil, o que entusiasmou alguns setores. O principal deles relacionado a vendas diretas. Segundo pesquisa nacional de perfil desenvolvida por uma consultoria independente a pedido da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), o WhatsApp é o principal canal de vendas de 84,7% dos empreendedores independentes do setor, formado por 4 milhões de empreendedores, que comercializaram 2,5 bilhões de itens (produtos e serviços) em 2019 e geraram um volume de negócios de R$ 45 bilhões. Os dados foram coletados em janeiro e fevereiro e, portanto, não captam a aceleração digital ocasionada pela pandemia. O aplicativo, que já era uma das principais alternativas de vendas antes do isolamento social, tornou-se ainda mais importante e foi adotado, inclusive, por grandes redes varejistas.

“É um divisor de águas. Ajuda na recuperação da economia neste momento de crise causada pela Covid-19”, diz Renato Mendes, mentor da Endeavor Brasil, especialista em startups e empreendedorismo. “A nova função de pagamentos só ajudará os comerciantes a se adaptarem à economia digital, ao ‘novo normal’. Mais uma vez vemos na tecnologia uma saída para o crescimento e a recuperação financeira”, afirma Ricardo Zanlorenzi, CEO da Nexcore, especializada em soluções em atendimento e comunicação omnichannel para empresas otimizarem e personalizarem o relacionamento com clientes. “É uma experiência de uso interessante”, diz Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia voltada para o mercado financeiro, fintechs e gestão de risco.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEUS COLEGAS ESTÃO BEM?

Os problemas psicológicos estão crescendo durante a pandemia da covid-19, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Conversar abertamente com o pessoal do trabalho pode ajudar a aliviar o problema

Isolamento social, medo de contágio, perda de membros da família e insegurança em relação ao emprego são fatores que fizeram a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificar, em relatório publicado em maio, um impacto preocupante no bem-estar psíquico durante a pandemia da covid-19. Doenças mentais como depressão, ansiedade, burnout, entre outras, não são novidade. Em 2017, a OMS já havia avaliado que mais de 300 milhões de pessoas tinham depressão e 260 milhões enfrentavam transtorno de ansiedade, sendo que a maioria sofria de ambos. Mas a  pesquisa feita por causa da crise do coronavírus mostrou que pessoas que antes estavam com equilíbrio psicológico passaram a não estar tão bem; outras que haviam tido alguns episódios de ansiedade e estresse tiveram mais casos; e as que já possuíam efetivamente doenças mentais em estado contínuo tiveram uma piora no quadro e redução da funcionalidade.

PARTE DA SOLUÇÃO

É importante entender que nem sempre quem está com problemas desse tipo consegue identificá-los ou se sente encorajado a pedir ajuda. Por isso os colegas têm um papel tão importante: podem notar se pares, subordinados ou chefes estão sofrendo psicologicamente e oferecer ajuda.

De acordo com especialistas, os sinais podem ser identificados até na rotina do home office. Comportamentos como dificuldade para acompanhar reuniões, desorganização, problemas de memória, desânimo e apatia são indicativos de que algo não vai bem. Também é preciso ficar de olho em mudanças de atitude, como alguém que era calmo e se tornou mais agressivo ou alguém que vivia animado e perdeu toda a disposição.

A ajuda começa quando alguém se coloca à disposição para escutar os colegas. Assim, cria-se um espaço seguro para compreender como está a saúde mental deles. “Conte uma história de sua própria vida e fale o que fez para lidar com aquela situação. Assim você não está invadindo, não está impondo nada nem sendo autoritário. Está se colocando disponível, sem tentar resolver o problema do outro”, diz Cristiana Wadt, psicóloga analítica sistêmica. Foi o que fez o publicitário Dico Barbosa, de 33 anos, que, no começo do isolamento, teve crises de ansiedade. “Depois disso comecei a perguntar com mais frequência a meus colegas se eles estavam bem, e isso abriu espaço para começarem a me procurar e a desabafar sobre as ansiedades que também estavam sofrendo”, afirma. Com os bate-papos, ele notou que havia um alto nível de estresse, causado pela própria pressão no trabalho, somado com pressão em casa, tensão ao ler notícias, entre outras coisas. “Nessas conversas informais passei a tentar dar mais apoio a eles”, diz o publicitário.

CUIDADO COM AS PALAVRAS

No intuito de ajudar, muitos podem fazer afirmações que invalidam os sentimentos alheios – o que só atrapalha. “Não tente motivar alguém com frases de lugar-comum, como ‘você não tem motivos para se sentir assim’. Isso aumenta o sentimento de culpa de quem tem depressão. Prefira mostrar compreensão e encorajá-lo a buscar soluções médicas”, explica Wagner Gattaz, professor titular de psiquiatria na Universidade de São Paulo e CEO da Gattaz Health & Results.

Isso aconteceu com a consultora de restaurantes e bares Lívia Stefaneli, de 31 anos, no início de sua carreira, quando tinha apenas 18 anos. Na época, uma colega de trabalho notou uma mudança em seu comportamento e, na tentativa de ajudar, a abordou pontuando que ela estaria com depressão. Misturando a imaturidade e o tabu em torno da doença, Lívia entrou, de fato, em depressão. “Na verdade, eu estava com sintomas de burnout: fazia faculdade, estágio, exercícios e, quando ela disse isso, fiquei com a sensação de que havia falhado”, diz Lívia. “Foram três anos de terapia e tratamento para entender isso, mas que também foram bons para compreender muitas outras coisas.”

LÍDERES, ATENÇÃO!

O medo de perder o emprego, que acaba sendo potencializado pela crise econômica que todo o mundo vive, faz com que as pessoas se sintam inseguras para pedir ajuda ou mesmo precisar se afastar. Embora algumas empresas estigmatizem profissionais com problemas desse tipo, para Ricardo Basaglia, diretor-geral da empresa de recrutamento Page Group, o risco de demissão está mais relacionado, para além deste momento, com a história que foi construída na empresa.

“É muito improvável que alguém nessa situação não tenha nenhum tipo de problema. Mas cada um tem um perfil e reage de uma forma. Não há demérito nenhum em enfrentar problemas relacionados à saúde mental.”

O gestor precisa escutar e criar uma relação de empatia em que o funcionário se sinta à vontade para se expor – e, quando o próprio chefe demonstra vulnerabilidade, isso fica mais fácil. “A maior parte dos profissionais tem ‘síndrome do super-homem’, o que reforça o medo de expor suas fraquezas. Mas, quando falamos de seres humanos, é muito difícil ter controle e potência ao mesmo tempo”, diz Ricardo. A empatia foi importante para a bancária Denise Muramatsu, de 38 anos, retornar à empresa depois de um período de cinco meses de afastamento por causa de questões de saúde mental. Seu chefe havia passado por uma situação semelhante e a acolheu. “Ele era muito bom com gestão de pessoas e sabia o que estava acontecendo comigo. Recebi bastante suporte dele e da equipe, que preparou um café da manhã quando voltei.” Denise relata que o estopim para receber o diagnóstico foi uma crise de pânico no meio do ambiente de trabalho. “Eu senti que estava para ter uma crise, algo que já vinha sentindo em densidades menores, e pedi para uma colega me ajudar a ir ao ambulatório. Porém, no meio do caminho, eu desabei e passei muito mal. A área toda parou, preocupada com o que estava acontecendo”, recorda. A médica da empresa foi incisiva e falou que só iria liberá-la se ela tivesse uma consulta marcada com um psiquiatra ainda naquela tarde.

“Àquela altura, já não adiantaria mais o tratamento com um psicólogo. Eu tinha de iniciar o uso de medicamentos. “O que aconteceu com a bancária não foi de um dia para outro. Havia condições psicológicas preexistentes que, somadas ao estresse do trabalho, culminaram em um diagnóstico de síndrome do pânico, ansiedade e depressão. “Hoje, sinto-me muito segura quanto à minha saúde mental. Eu não faço mais o tratamento com remédios, continuo na terapia e sei que a qualquer sintoma posso recorrer a esse tipo de ajuda.” Para a surpresa de Denise, a experiência fez com que outros colegas a procurassem e se abrissem sobre estar passando ou ter passado por problemas semelhantes. “Até a minha crise, meus colegas não entendiam a saúde mental como um problema palpável. Nem eu”, diz a bancária.

HORA DE DESMISTIFICAR

Para o médico Wagner Gattaz, o tabu em torno das doenças psicológicas atrapalha o diagnóstico. Ele afirma que leva, em média, cinco anos entre os primeiros sintomas e o início do tratamento. E, em casos graves, a doença pode destruir famílias e carreiras. ”Tive um paciente que levou dez anos para ter o diagnóstico e encontrar o tratamento adequado. Nisso, ele acabou perdendo tudo: se separou, perdeu o escritório e se perguntava se àquela altura ainda fazia algum sentido se tratar”, diz Wagner. Por isso é importante entender que doenças mentais são como quaisquer outras – demandam tratamento e naturalidade para falar sobre o assunto. “É como diabetes, hipertireoidismo, pressão alta. As empresas devem compreender que, quando um profissional é afastado precocemente por tais problemas, o retorno costuma ser rápido com o tratamento, entre três e quatro semanas’, explica Wagner. E talvez este momento de pandemia, quando todo mundo está em contato com ansiedades e inseguranças, seja um divisor de águas para que as empresas compreendam a necessidade de disseminar noções de qualidade de vida mental. A psicóloga Desirée Cassado, que também é professora na The School of Life, explica: “É um momento único, em que o trabalho entra no ambiente doméstico. Conhecer a vulnerabilidade do outro pode gerar cumplicidade para cada um se abrir mais sobre esses assuntos”.

RESCALDO DA PANDEMIA

Relatório da Organização Mundial da Saúde mapeou quais são as principais consequências da crise do coronavírus para a saúde mental

1. Medo de se infectar, de morrer, de perder pessoas queridas e/ou de ficar desempregado

2. Ansiedade por estar há um longo tempo afastado do convívio com amigos e familiares

3. Alto estresse por causa da quantidade de informações erradas sobre o vírus e sobre as medidas de prevenção

4. Risco de haver alta no número de suicídios entre os jovens, assim como ocorreu durante a crise econômica americana de 2008

5. Crescimento de comportamentos viciantes, como abuso de álcool e de outras substâncias, compulsão alimentar e excesso de jogos online

EU ACHO …

QUANDO A PANDEMIA NOS DEIXA SOZINHOS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

Estamos em uma crise dupla, de saúde física e mental. Mas existem formas de evitar o colapso

Por quase 30 anos – a maior parte da minha vida adulta – eu lutei contra a depressão e a ansiedade. Apesar de nunca me sentir sozinho em tais aflições cotidianas – o segredo de família que todos compartilham -, agora eu descubro que tenho mais colegas de sofrimento do que jamais pude imaginar.

Em uma questão de semanas, os sintomas familiares da doença mental se tornaram uma realidade universal. Uma nova pesquisa da Kaiser Family Foundation observou que quase metade dos entrevistados disse que sua sanidade está sendo afetada pela pandemia do novo coronavírus. Praticamente todo mundo que eu conheço foi catapultado para diferentes graus de angústia, pânico, desesperança e medo paralisante. Se você disser “Estou tão aterrorizado que mal consigo dormir”, as pessoas podem responder “Quem, em sã consciência, não está?”.

Mas essa resposta pode nos levar a perder a dimensão da perigosa crise secundária que se desdobra ao lado daquela mais óbvia: uma escalada de doenças mentais, no curto e no longo prazo, que pode durar décadas depois do fim da pandemia. Enquanto todo mundo relata estar sentindo depressão e ansiedade, problemas mentais raros, de ordem médica, podem passar despercebidos.

Enquanto governos nacionais e locais (alguns preocupantemente mais lentos do que outros) reagiram à propagação do coronavírus de formas objetivas, o reconhecimento dos riscos à saúde mental tem sido superficial. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, que até agora recrutou mais de 8 mil profissionais de saúde mental para ajudar os nova-iorquinos em apuros, é uma honrosa exceção.

O governo da China mandou psicólogos e psiquiatras para a cidade de Wuhan, durante o primeiro estágio de quarentena. Nenhuma medida comparável foi tomada até agora pelo governo americano.

A diferença de postura em relação aos dois tipos de saúde – física e mental – é coerente com a atual falta de consideração da nossa sociedade com a estabilidade psicológica. Os convênios não oferecem a real paridade de cobertura, e o tratamento para desordens de comportamento é geralmente considerado um luxo. Mas estamos em uma dupla crise de saúde física e mental, e aqueles enfrentando desafios psiquiátricos merecem tanto reconhecimento quanto tratamento.

As ramificações da pandemia na saúde mental foram identificadas há muito tempo, mas sistematicamente ignoradas pelo governo. Um estudo após o surto de H1N1 em 2013 disse: “Porque as pandemias são tragédias singulares e não incluem locais de congregação para suporte e recuperação prolongados, elas exigem estratégias de resposta especificas para garantir as necessidades comportamentais de saúde de crianças e famílias. Os planos de combate a pandemias devem contemplar essas necessidades”. Outro estudo afirmou: “Embora as informações para os aspectos médicos das epidemias estejam cada vez mais disponíveis, há pouca orientação para os centros de saúde sobre como gerenciar os aspectos psicológicos de desastres em larga escala, que podem envolver um surto de vítimas psicológicas”.

Existem mais ou menos quatro respostas à crise do coronavírus e ao seu consequente isolamento social. Algumas pessoas aceitam tudo com tranquilidade e contam com uma base de inabalável estabilidade psíquica. Outros são os preocupados, que precisam apenas de um pouco de primeiros socorros psicológicos. Um terceiro grupo, que ainda não experimentou esses distúrbios, está sendo catapultado para eles. Por fim, muitos que já saíram de um transtorno depressivo maior tiveram sua condição exacerbada, desenvolvendo o que os médicos chamam de “depressão dupla”, na qual um transtorno depressivo persistente é sobreposto por um episódio de dor insuportável.

O isolamento social gera pelo menos tanto aumento de casos de doença mental quanto o medo do próprio vírus. Julianne Holt-Lunstad, psicóloga, descobriu que o isolamento social é duas vezes mais prejudicial à saúde física de uma pessoa do que a obesidade. O confinamento solitário nos sistemas prisionais causa ataques de pânico e alucinações, entre outros sintomas. O isolamento pode até tornar as pessoas mais vulneráveis à doença que se tenta prevenir: os pesquisadores determinaram que “o sistema imunológico de uma pessoa solitária responde diferentemente ao combate aos vírus, aumentando a probabilidade de desenvolver uma doença”.

A crença de que as coisas não estão bem é razoável; a crença de que nada voltará a ficar bem parece indicar uma condição clínica. Um ajuste gradual à nossa circunstância incomum é a trajetória apropriada; a sensação de que a cada dia isso se torna mais insuportável é patológica. Existe a mais fina das membranas entre a ansiedade sensível e a irracional, em uma espiral. Eu sei que tenho as duas, mas tentar separá-las é como desfazer o nó górdio.

Temos dois gatilhos para a doença mental na crise atual: tristeza, quando tememos por nossas vidas, e estresse, quando nossos apegos emocionais diminuem como resultado do isolamento social. Como país, não tomamos as medidas adequadas para lidar com nenhuma dessas crises, e falhamos especialmente na segunda.

A propagação do vírus não pode ser atenuada por enquanto, mas o medo antecipado que ele instiga pode ser atenuado pelas tradicionais formas de intensificar os medicamentos e o contato com os terapeutas. Buscar tais apoios não é uma fraqueza ou um fracasso. Faça o que for preciso para não ter um colapso. É muito mais fácil prevenir do que reparar, e temos boas ferramentas para evitar a sobrecarga psíquica.

O isolamento também tem remédios. As confraternizações com Zoom e FaceTime não servem adequadamente para muitas pessoas. Devemos observar caso a caso quando os benefícios para a saúde mental de ver alguém que você ama (mesmo fora e a um metro e meio de distância) são maiores que os perigos que um encontro pessoal pode trazer para a saúde.

O medo do contágio levou as pessoas a um comportamento que agrava a depressão e a ansiedade e, portanto, pode levar ao suicídio – aumentando a mortalidade da covid-19 entre as pessoas que nem a têm. Pessoas solitárias podem sucumbir à “privação de contato” e precisam ser abraçadas. Tiffany Field, diretora do Instituto de Pesquisa de Toque da Miller School of Medicine da Universidade de Miami, afirma que a privação de toque exacerba a depressão e enfraquece o sistema imunológico; o toque positivo estimula o nervo vago e reduz o cortisol, um hormônio do estresse que pode prejudicar a resposta imune. Deveríamos descobrir quando e como as pessoas privadas de contato podem obter o contato físico necessário, com a maior segurança possível. Não será completamente seguro – mas a privação também não o é. Se a pessoa está morrendo de vontade de tocar, toque, por mais regulamentado que seja. Torna-se um remédio necessário. Não é caro nem complicado.

Essas são as maneiras de transcender a patologia. Como alguém que já tinha depressão e ansiedade, eu não queria encarar um curso intensivo de empatia, mas já tive um. Sinto-me singularmente bem posicionado para confortar aqueles que estão em seu primeiro mergulho na depressão, e diariamente alcanço aqueles que precisam de contato, psicológico ou físico. Tornou-se um chamado para mim.

Eu posso ajudá-los a avaliar o que é patológico e remediável. Conheço esses becos indesejáveis – e os caminhos de saída deles – como a palma da minha mão. Não é que um antidepressivo vai deixar as pessoas sem medo desse vírus misterioso e terrível, nem que um único abraço vai atenuar a profunda solidão. Mas podem ajudar.

Outro dia, nosso filho, em idade de quinta série, disse trêmulo: “Quanto tempo vai levar para eu ver meus amigos novamente? O que vamos fazer se eles cancelarem o acampamento?”. E então ele perguntou, mais trêmulo: “E se você e papai morrerem? 0 que vai acontecer comigo?”. Ele estava mostrando algumas das minhas tendências depressivas ou estava apenas assustado e triste? Ele saiu rapidamente e não voltou ao assunto, embora eu tenha deixado claro que ele pode. É meu projeto de galvanização manter uma cara boa diante dele. Ser forçado a negar a depressão pode ser uma tirania social perigosa, mas a escolha de derrotar os sinais externos em alguém mais vulnerável me motiva. Em parte, por causa dele, ajustei meus remédios e estou em contato com meu terapeuta, e me empenho em abraçá-lo e abraçar meu marido, sabendo que nós três salvamos um ao outro.

Faço uma caminhada diária na natureza com meu filho e nosso cachorro. Às vezes, ele e eu pulamos num trampolim, que, apesar de dar um tranco nas costas, é imensamente reconfortante. Meu marido, meu filho e eu nos juntamos para assistir a um filme todas as noites; meu marido também está lendo obsessivamente livros sobre epidemias, da peste negra à pandemia de gripe espanhola, e aprendendo português pela internet. Todos nós encontramos conforto de maneira curiosa.

As autoridades continuam dizendo que a covid-19 passará como a gripe para a maioria das pessoas que a contraem, mas é mais provável que seja fatal para as pessoas mais velhas e para as pessoas com complicações prévias. O grupo de risco deve, no entanto, incluir a depressão gerada por medo, solidão ou tristeza. Devemos reconhecer que, para uma grande parte das pessoas, a medicação não é uma indulgência e o contato físico não é um luxo. Para muitos de nós, o protocolo de álcool em gel e máscaras inadequadas não é nada, comparados à tarefa diária de desinfetar a própria mente.

*Este artigo foi publicado originalmente no Jornal americano The New York Times

***ANDREW SOLOMON – Professor de psicologia clínica na Columbia University Medical Center e autor de Longe da Árvore, O Demônio do Meio-Dia e Lugares Distantes.

OUTROS OLHARES

ANTIVIRAL E FASHION

Fabricantes lançam roupas que seriam imunes à contaminação pelo coronavírus. A tendência ganhou tração e deve levar a uma nova era de inovação no setor

O tão esperado novo normal ganhou uma faceta mais estilosa. Como forma de oferecer proteção contra a Covid-19, algumas marcas de roupa lançaram nos últimos dias tecidos que, segundo garantem, são capazes de neutralizar o novo coronavírus. Por ser um dos países com maior incidência da doença, o Brasil tem recebido ampla oferta de peças supostamente imunes. Na maioria dos casos, o tecido é comprado da empresa suíça HeiQ, que alega que o material utilizado na confecção foi exaustivamente testado por cientistas. Entre as empresas brasileiras que fizeram negócio com a HeiQ está a multinacional Vicunha, que nos próximos dias apresentará ao mercado seus jeans antivirais e antibacterianos. “Nosso objetivo é atender aos anseios do novo consumidor em um mundo em transformação”, afirma German Alejandro, diretor de marketing e vendas da Vicunha. Outro caso é o da marca catarinense Malwee, que lançou há algumas semanas camisetas e máscaras também teoricamente à prova do coronavírus.

Desde que os primeiros casos surgiram na China, diversas empresas largaram em uma corrida para desenvolver produtos capazes de bloquear a ação do vírus. Criada em 2004 por estudantes de iniciação científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Nanox especializou-se em nanotecnologia e usou sua experiência na área para criar um tecido feito a partir de micropartículas de prata. Segundo a empresa, isso é suficiente para eliminar, em três minutos, quase 100% do vírus da Covid-19 que entrar em contato com a roupa. Uma das maiores indústrias químicas do mundo, a Rhodia desenvolveu no Brasil um fio de poliamida que, conforme assegura a companhia, possui propriedades antivirais e antibacterianas. A substância pode ser aplicada em vestimentas e bancos de veículos, na forma de capas protetoras. A Rhodia diz que a tecnologia é também uma forma de tornar o transporte público mais seguro, pelo menos enquanto não sair uma vacina. Fabricado no Brasil, o tecido já está sendo exportado para a Itália, além de ser vendido para algumas marcas nacionais. Entre os clientes da Rhodia está a Lupo, gigante nacional de moda íntima que produziu 2 milhões de máscaras feitas com o fio de poliamida.

Não foram apenas os fabricantes de jeans e camisetas convencionais – os chamados modelos básicos – que aderiram ao movimento. A marca brasileira fashion J. Boggo+ lançou uma coleção inteira de vestidos, túnicas, calças e blusas feita com tecidos antivirais. Nos Estados Unidos, a grife Vollebak confeccionou jaquetas revestidas com um tipo de cobre que, de acordo com pesquisas feitas pela empresa, mata vírus e bactérias. Grandes varejistas brasileiras como Riachuelo e Renner estão atentas a esse novo mercado e não descartam investir em linhas próprias de peças que seriam capazes de aniquilar a Covid-19 e outros vírus, embora não forneçam informações sobre o tema. Segundo especialistas, a tendência veio para ficar e a busca por inovações nessa área deverá ser uma obsessão das empresas a partir de agora. Diante da tecnologia necessária para a produção dessas peças, é de imaginar que o preço das roupas seja salgado. Não é ocaso. As camisetas vendidas pela Malwee custam 49,90 reais, o mesmo de um modelo convencional. Há uma explicação para isso. Os baixos valores se devem ao desgaste rápido das roupas. Em todas as peças antivirais, os componentes químicos presentes nas vestimentas, responsáveis por torná-las aparentemente imunes ao coronavírus, são enfraquecidos cada vez que a peça vai para a lavadora. Na maioria dos casos, a propriedade antiviral das roupas só é garantida até a trigésima lavagem, o que reduz bastante a vida útil das peças. Outro aspecto que merece atenção especial dos consumidores diz respeito à serventia das roupas no combate a doenças. Elas entregam o que prometem? “Tecidos antivirais são, sim, eficazes “, afirma João Prats, infectologista do Hospital Beneficência Portuguesa. “No entanto, não sabemos se esses modelos são realmente úteis no caso do coronavírus. De forma geral, a Covid-19 dura pouco tempo em tecidos e é raro que roupas sejam grandes fontes de contaminação.” Os consumidores parecem confiar nas alegações das empresas. Apenas 72 horas após o lançamento da linha antiviral, todas as 40.000 máscaras da Malwee desapareceram dos estoques. Pelo visto, não vai demorar muito para as peças antivirais entrarem definitivamente na moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE JULHO

TRIUNFO CONSTANTE

Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo… (2Coríntios 2.14a).

A vida cristã é uma carreira triunfante, mesmo constituindo-se em uma jornada por caminhos crivados de espinhos. Podemos ter um otimismo indestrutível não em virtude das facilidades da peregrinação, mas apesar das agruras da caminhada. Não porque pisamos em tapetes aveludados, mas apesar de cruzarmos desertos causticantes. Nosso entusiasmo não provém das circunstâncias, mas do Deus que controla as circunstâncias. Nosso sucesso não vem de nós mesmos, vem de Deus. Não vem de dentro, vem de cima. Não é fruto da autoajuda, mas da ajuda do alto. É Deus quem nos conduz em triunfo. E isso não por causa de nossos dons e talentos, mas pelo triunfo de Cristo. Todas as bênçãos que temos, nós as recebemos de Deus por meio de Cristo. Não é uma questão de mérito, mas uma expressão de graça. Triunfamos não porque somos fortes, mas apesar de sermos fracos. Não porque somos sábios, mas apesar de sermos limitados. Não porque somos ricos, mas apesar de sermos pobres. O triunfo não é conquista, é dádiva. Não o recebemos como prêmio, mas como presente imerecido. Na verdade, tudo provém de Deus, para que toda a glória seja dada a ele. Deus, e não o homem, é a origem de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o agente de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o fim de todas as coisas. Porque de Deus, por meio de Deus e para de Deus são todas as coisas. A Deus, pois, seja a glória pelos séculos dos séculos!

GESTÃO E CARREIRA

A FEBRE DAS MARMITAS

Para economizar ou se alimentar melhor, as pessoas estão consumindo comidas prontas saudáveis. Tocar um negócio nesse segmento exige mais do que que preparar uma refeição bem temperada

Os brasileiros que não têm oportunidade de cozinhar e que, ao mesmo tempo, estão em busca de pratos mais saudáveis a um preço acessível têm enxergado na compra de marmitas caseiras uma alternativa para o dia a dia. Esse mercado ganhou mais espaço nos últimos cinco anos. A explicação vem da crise econômica que deixou mais de 12 milhões de pessoas sem emprego. “Muita gente parou de consumir refeições em restaurantes e recorreu às tradicionais marmitas, que, em geral, são mais baratas. Foi quando vimos brotar vários negócios, principalmente de microempreendedores individuais, os MEIs”, explica Karyna Muniz, consultora do Sebrae São Paulo. Dados do Ministério da Economia apontam que o número de empresários do ramo de alimentação para consumo domiciliar (o que inclui os marmiteiros) cresceu muito nos últimos anos. Em 2014, eram 102.100. Em 2020, são 247.700 – um salto de 142%.

MAIS DO QUE BOM TEMPERO

Em geral, a necessidade de urna renda imediata é o que atrai empreendedores para esse ramo. Embora à primeira vista possa parecer um segmento fácil de atuar, já que muita gente começa a preparar as refeições na cozinha de casa, há diversas normas sanitárias a serem seguidas. A resolução federal da Anvisa RDC 216, de 1999, que trata sobre as Boas Práticas para Serviços de Alimentação, é uma das mais importantes. O documento recomenda, por exemplo, que a área onde serão produzidas as marmitas seja segregada do restante da residência – não é uma lei, mas uma sugestão para quem quer se profissionalizar no setor. “Qualquer um pode começar a empreender dentro de casa, mas, quando a gente fala de transformação de insumos que serão ingeridos por humanos, deve-se seguir mais à risca as legislações, mesmo que seja no ambiente doméstico”, diz Karyna. É fundamental saber, especialmente, a forma correta de manusear e armazenar os alimentos. A especialista do Sebrae explica, por exemplo, que para congelar um alimento de forma segura é preciso submetê-lo a uma temperatura de, no máximo, 12 graus negativos, o que não é garantido por um freezer doméstico. O que aparenta ser um mero detalhe pode tornar a refeição imprópria para o consumo e, como consequência, desencadear problemas de saúde entre os clientes – e sérios prejuízos para o empreendedor. “Ele pode responder legalmente e criminalmente se algum consumidor tiver urna intoxicação alimentar”, explica. Por isso a profissionalização do segmento é tão necessária. Para o empreendedor que tem uma verba disponível, vale a pena investir, desde já, na adequação de um espaço exclusivo para o preparo dos pratos. Será necessário desembolsar, em média, 30.000 reais. A adequação deve incluir colocação de piso antiderrapante; bancada de inox; pia exclusiva para lavar as mãos; instalação de telas nas janelas para evitar a entrada de insetos; lixeiras com pedal; além de aparelhos eletrodomésticos que  devem ser usados exclusivamente para o preparo dos pratos que serão comercializados  (como freezer, fogão, geladeira e forno). “Atendendo a esses requisitos, o empresário terá mais chances de evitar a incidência de contaminação cruzada e a proliferação de bactérias”, diz Karyna.

Se não tiver verba suficiente para montar uma estrutura conforme manda a lei, o empreendedor pode recorrer às cozinhas compartilhadas, como é o caso da Oficina na Mesa e do Hub Foodservice, localizados em São Paulo e que funcionam como uma espécie de coworking voltado para o ramo de alimentação. “O usuário paga por hora para usar equipamentos industriais próprios para a produção de pratos em maior escala”, diz Karyna. Depois de escolher o local é importante definir um cardápio semanal para comprar com inteligência os ingredientes que serão usados no preparo das marmitas.

CAMINHO DAS PEDRAS

Muitos se assustam com isso, mas formalizar o negócio traz vantagens. Quando se torna uma pessoa jurídica, o empreendedor tem acesso a benefícios como a possibilidade de barganhar preços menores na compra de ingredientes. “Sem CNPJ, ele vai ter de comprar insumos no varejo, que são mais caros do que os vendidos por distribuidores ou atacados, que só vendem para empresas”, diz a especialista do Sebrae. Para quem acabou de abrir o próprio negócio, a orientação é se cadastrar como Microempreendedor Individual no Portal do Empreendedor. A modalidade é indicada para empresas que faturam até 81.000 reais por ano e têm até um empregado.

Além disso, para quem es tá começando, a dica é receber os pedidos com pelo menos 24 horas de antecedência e, com isso, evitar entregar as marmitas com atraso. Quanto ao armazenamento, é imprescindível que as refeições sejam colocadas em embalagens certificadas. Outra orientação refere-se ao cadastro em aplicativos de entrega. O empreendedor que, logo de cara, opta pelo app para comercializar os pratos, pode acabar se enrolando com a demanda. “Não dá para saber a quantidade de pedidos que serão feitos, e ele poderá não dar conta. O ideal, portanto, é migrar para as plataformas só depois de ter uma produção estruturada”, acrescenta Karyna. No começo, a orientação é usar o próprio carro para fazer a entrega ou oferecer ao cliente a opção de retirar o pedido no local.

COMO SE DESTACAR

Quem quer empreender no ramo de marmitas deve encontrar um diferencial competitivo – só assim o negócio irá parar de pé. Para isso, é fundamental entender que existem dois grandes guarda-chuvas nesse mercado. O primeiro deles inclui a produção de pratos tradicionais. “Nesse caso, o principal apelo é oferecer uma refeição que tenha preço acessível e que contenha elementos de comfortfood, ou seja, com gosto de comida de casa, como a mãe da gente fazia”, explica Sérgio Molinari, sócio da Food Consulting, consultoria especializada em alimentação.

Foi justamente pensando em atender às necessidades dessas pessoas que o publicitário Nelson Andreatta, de 39 anos, fundou, em 2018, a Eats For You, plataforma que conecta pessoas que gostam de cozinhar a consumidores que estão à procura de uma refeição caseira para almoçar. A ideia surgiu em 2016 quando o empreendedor, que ainda administrava sua agência de publicidade e propaganda em Cuiabá, em Mato Grosso, se cansou das opções de refeições oferecidas ao redor do escritório. “Um dia tivemos uma reunião que terminou próximo ao horário do almoço e meu sócio perguntou onde iríamos comer. Me lembrei de todos os restaurantes da redondeza e não tive vontade de ir a nenhum deles. O que eu queria era uma comida caseira”, diz Nelson.

Ao olhar pela janela do escritório, imaginou quantas pessoas estavam em casa, naquele momento, preparando o próprio almoço. Assim, vislumbrou a oportunidade de lançar sua startup. O empreendedor e sua sócia, Ester Scheffer, investiram 150.000 reais de capital próprio para desenvolver a plataforma, que demorou cerca de um ano para ficar pronta. “O objetivo era formar uma rede de conexão de cozinheiros e cozinheiras, levando a produção de refeições a uma escala industrial, mas de forma artesanal, além de proporcionar geração de renda para essas pessoas”, explica Nelson. Porém, em vez de Cuiabá, o destino escolhido para operar o negócio foi São Paulo. “Quando chegamos à conclusão de que a ideia era original, precisávamos marcar território e ir para um grande mercado.”

Mas para driblar o atraso na entrega na hora do almoço, que é comum – seja pelo excesso de pedidos, seja pelo trânsito intenso dos centros urbanos -, o empresário optou por um novo modelo. Em vez do tradicional delivery, estabeleceu pontos para o cliente retirar pessoalmente sua comida: foodbikes que armazenam as refeições. Ao todo, são 17 espalhadas por bairros localizados nas cidades de São Paulo, Barueri (SP), e Curitiba (PR). Funciona assim: o consumidor compra as refeições por meio do aplicativo e retira seu pedido no ponto mais próximo. “Como as pessoas têm 1 hora de intervalo, se o motoboy atrasa, o cliente pode ficar sem tempo para fazer a refeição”, diz Nelson.

Mas esse modelo teve de ser revisto durante a pandemia de coronavírus, que fez com que as cidades implementassem o isolamento social e as empresas adotassem o home office. Sem os pontos de retirada, as vendas da Eats For You chegaram a zero, e a alternativa foi aderir ao delivery – algo que deve ser mantido quando a crise passar. A startup também está incentivando clientes e empresas a doar marmitas para instituições que atendem moradores de rua – mais uma forma de manter a renda dos cozinheiros da plataforma. “Muita gente depende do nosso trabalho. Era um compromisso moral manter a engrenagem funcionando”, diz Nelson. A empresa não quis revelar o faturamento, mas cresceu 205% em 2019 e emprega, atualmente, 20 funcionários diretos. Em 2019, a Eats For You anunciou uma rodada de investimentos no valor de 767.500 reais, com a participação dos fundos Bossa Nova Investimentos – que já havia investido na plataforma anteriormente – e GVAngels, grupo de investidores-anjo formado por ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A rodada de investimentos segue aberta e, até o fim do primeiro trimestre de 2020, a startup recebeu 1,5 milhão de reais.

A BUSCA POR UM NICHO

Além das comidas caseiras, outro nicho de atuação é o de pratos especializados, que se fortalece pela vontade dos clientes de consumir opções orgânicas e saudáveis. Nesse caso, de acordo com Sérgio, da Food Consulting, o chamariz é o benefício proporcionado pela comida. Em geral, o cliente que opta por esse tipo de cardápio está disposto a pagar mais. O especialista orienta o pequeno empreendedor a se abrigar nesse espaço e fugir da guerra de preços – uma vez que o mercado mais acessível já foi conquistado por grandes empresas, que conseguem produzir em larga escala e, portanto, reduzir o valor para o consumidor final. “Com o passar do tempo, se o pequeno empreendedor não tiver nenhum diferencial além do preço, como um produto bacana, uma embalagem bem tratada ou uma entrega especial, ele será esmagado por forças maiores”, explica. Por isso, a dica do especialista é ficar de olho em nichos para atuar.

Foi justamente o que fez a nutricionista Fernanda Casstillo Amparo, de 38 anos, que vende marmitas saudáveis para empresas e hospitais. A paulista, que é diabética, sempre levou para o hospital em que trabalhava a própria refeição, preparada pela mãe, Maria Margherita do Amparo. O cheiro da comida caseira aguçava a vontade dos colegas, o que fez Fernanda enxergar uma oportunidade. Como ela não queria abandonar o emprego estável, convenceu a mãe (até então dona de casa) a preparar refeições para ser vendidas aos colegas do hospital. Em 2016, nasceu a Naturale Marmitaria. “Ao ver meus pais envelhecendo, comecei a pensar em ter uma empresa familiar para complementar a renda, pois uma hora eles iriam depender somente de aposentadoria”, diz Fernanda.

Paralelamente ao trabalho no hospital, Fernanda se inscreveu como MEI e foi estudar finanças e marketing para aprender mais sobre a jornada empreendedora. Com o boca a boca e a distribuição de panfletos em estabelecimentos comerciais, as vendas se intensificaram. Um ano e meio depois, a cozinha da casa dos pais não era mais suficiente para atender aos pedidos. Em 2018, Fernanda usou parte do dinheiro da venda de um apartamento para reformar o salão de festas no fundo da residência e montou uma nova cozinha. A reforma, que custou cerca de 20.000 reais, incluiu a troca de pisos e azulejos, além da compra de utensílios como freezer, fogão industrial e coifa. Foi nessa época que Fernanda – que até então atuava com a venda de marmitas para pessoas físicas – decidiu ampliar seu foco de atuação. Além de atender o público em geral, a Naturale passou a oferecer refeições para o segmento corporativo. A estratégia ajudou a enfrentar a alta concorrência que o segmento ganhou nos últimos anos. O faturamento mensal saltou de 25.000 (em 2018) para 80.000 reais. Com seu negócio a pleno vapor, Fernanda pediu, em abril de 2019, um afastamento não remunerado do hospital em que era concursada. “Os últimos dois anos foram de crise, e muita gente começou a trabalhar com marmita. Foi quando decidimos nos reinventar e atender esse nicho de pessoas jurídicas.” A Naturale, que tem atualmente dez funcionários, vende, em média, 8.000 marmitas por mês. O preço varia de 16 a 23 reais. E a empresa tem contrato assinado com sete companhias, com prazos de prestação de serviço que variam entre um e três anos. Com a covid-19, que colocou muitos funcionários em home office, Fernanda inovou: disponibilizou vouchers para que os funcionários de seus clientes pudessem pedir as refeições de casa.

PEQUENOS PRODUTORES

A Liv Up, startup que vende pratos congelados, saladas, snacks e sucos, tenta se diferenciar pelo uso dos ingredientes: as matérias-primas das marmitinhas são orgânicas e fornecidas por pequenos produtores rurais. A plataforma, lançada em 2016, surgiu de uma insatisfação dos sócios Victor Santos e Henrique Castellani, ambos com 31 anos, que tinham dificuldade para encontrar alimentos saudáveis, práticos e com preços acessíveis no dia a dia de trabalho. Os dois atuavam no mercado financeiro e não tinham relação nenhuma com o universo da gastronomia. Porém, o fato de Henrique ser de uma família de pequenos produtores ajudou a dupla a dar o pontapé inicial no negócio. “Começamos a pesquisar sobre tecnologias que poderiam auxiliar a garantir essa entrega de comidas práticas, saudáveis e saborosas, até que conhecemos a técnica de ultracongelamento com a qual trabalhamos e que é um de nossos diferenciais hoje”, reitera Victor. Do planejamento à abertura das portas foram quatro meses. O investimento inicial no projeto foi de aproximadamente 1 milhão de reais (300.000 reais em economias próprias e o restante formado por aportes feitos por amigos e parentes). Atualmente, 25 produtores familiares de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina abastecem a Liv Up com alimentos orgânicos. “Os diferentes locais nos ajudam a contornar questões como sazonal idade e clima.” A empresa, que opera em 40 cidades e tem mais de 500 funcionários, chega a vender cerca de 300.000 refeições por mês. Embora não divulgue o faturamento, a startup estima triplicar de tamanho até o fim de 2020. O resultado deve ser impulsionado, principalmente, pelas novas unidades de negócios inauguradas no início do ano: o Liv Up station, para atender o mercado corporativo, e a cloud kitchen, um serviço de delivery especializado em saladas.

MARGEM APERTADA

Veja qual é a porcentagem do faturamento que deve ser reinvestida na empresa

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA DROGA CHAMADA PAIXÃO

Avanços das neurociências e da psicologia nos ajudam a compreender os mecanismos biológicos do amor

Quem já se apaixonou sabe: quando vivemos essa experiência nos transformamos. O amor é capaz de nos levar ao desespero ou ao êxtase. E talvez até à guerra, se considerarmos a história do rapto de Helena e à campanha contra Tróia. Hoje, graças aos progressos das neurociências e da psicologia comportamental, começamos a compreender as bases biológicas profundas e os mecanismos subjacentes ao que se passa em nós quando experimentamos sentimentos de paixão, afeto ou contentamento. As descobertas revelam algumas pequenas surpresas. Examinados do ponto de vista biológico, muitos dos véus românticos que recobrem o fenômeno do amor desprendem-se facilmente. No entanto, um permanece: o do desejo sexual. Quando buscam sua origem, os cientistas logo esbarram numa série de enigmas. Por que desejamos uma pessoa específica? A que se deve o fato de sentirmos paixão ou desejo?

Em primeiro lugar, há que se fazer uma observação. Existe uma diferença fundamental entre o prazer por alguma coisa e o prazer em alguma coisa – ou seja, entre as sensações que temos quando almejamos algo e o que sentimos ao obtê-lo. Especialistas diferenciam aqui o prazer ou desejo apetitivo (por algo) do consumado (em algo). Além disso, desejo e amor não constituem um fim em si mesmos: têm metas biológicas palpáveis e concretas.

O prazer sexual não se desenvolveu visando a satisfação pessoal, mas para encorajar a reprodução. Tampouco as sensações profundas comumente etiquetadas como “amor” podem negar seu pano de fundo biológico: auxiliam no estabelecimento e na manutenção de um vínculo entre parceiros. Esses mecanismos são comandados por estruturas cerebrais particulares e por neurotransmissores. Prazer e amor são, portanto, essencialmente produzidos no cérebro e determinam nosso comportamento em função de um objetivo.

Quando se trata de considerar quem nos desperta a libido, um aspecto fundamental se impõe: orientação sexual depende em primeiro lugar da nossa própria sexualidade. O interesse por uma pessoa não se define apenas pelas características do corpo do outro, mas principalmente por aspectos psíquicos e cerebrais de quem sente a atração. Fundamental importância têm aí os hormônios, e sobretudo os sexuais. Muito antes da puberdade, eles encaminham o desenvolvimento não apenas de nossos órgãos genitais, mas também de partes do cérebro rumo ao masculino ou feminino.

Antes mesmo do nascimento, começam a atuar. Num feto geneticamente masculino, pequenas quantidades do hormônio sexual testosterona chegam ao cérebro no último terço da gravidez, influenciando seu desenvolvimento. Receptores sensíveis a esses hormônios sexuais encontram-se em numerosas regiões cerebrais. Pela determinação do sexo respondem sobretudo receptores hormonais situados no hipotálamo. Quando a testosterona exerce sua influência durante a fase pré-natal crítica, o cérebro será masculino. Na ausência desse hormônio, feminino.

Curiosamente, porém, não é a testosterona em si que surte efeito nesse processo: antes, ela é transformada em estrogênio, em geral conhecido pelos leigos como o hormônio sexual feminino. Fetos geneticamente femininos se protegem dessa ação específica do estrogênio auxiliados pela alfafetoproteína. Durante o desenvolvimento do cérebro, a testosterona interfere num processo natural fazendo com que células nervosas supérfluas sejam descartadas. Graças a essa interferência, morrem menos neurônios, razão pela qual a área frontal do hipotálamo dos mamíferos de sexo masculino é bem maior e mais rica em neurônios. Nos humanos, porém, essa diferença é menor do que, por exemplo, nas ratazanas.

PREFERÊNCIA SEXUAL

O hipotálamo é de especial importância na orientação e no comportamento sexual. Isso se evidencia no fato de as células nervosas do hipotálamo anterior exibirem intensa atividade quando um animal macho se aproxima de um parceiro sexual ou quando copula. Se essa região estiver lesada, o comportamento sexual dos machos no tocante à cópula será prejudicado, ainda que mantenham o interesse em fêmeas.

Certas experiências durante a gravidez também podem influenciar a orientação sexual dos descendentes. Dentre elas, sobretudo o stress parece desempenhar papel importante. Se uma ratazana em gestação for exposta a stress, o cérebro de seus rebentos machos terá em média menos características masculinas.

Além disso, eles apresentarão com frequência orientação homossexual e exibirão comportamento mais maternal. O motivo é que, por causa do stress, a testosterona se apresentou cedo demais no cérebro. Os descendentes “feminilizados” nem sempre são homossexuais: se criados com fêmeas sexualmente ativas, em geral desenvolvem orientação heterossexual. Isso mostra de forma clara que o comportamento sexual não pode ser explicado apenas pelos hormônios. Ao contrário: fatores hereditários, influências hormonais e experiências individuais e a interação com os outros membros do grupo atuam aí em estreita vinculação.

Como pode, porém, o stress atuar sobre cérebros masculinos, preferência sexual e conservação da espécie? Para a sociobiologia, sob condições de vida difíceis, a feminilização dos cérebros reduziria a taxa de natalidade em uma comunidade, o que possibilitaria oferecer cuidado maior aos raros descendentes.

Essa explicação bem poderia se aplicar aos seres humanos, que têm comportamento sexual em parte desvinculado da meta da reprodução e voltado à obtenção do prazer. Pesquisas realizadas até agora com humanos confirmam as descobertas oriundas dos modelos animais. Também no nosso caso o hipotálamo anterior desempenha papel decisivo no tocante à preferência sexual. Os homossexuais do sexo masculino possuem menos neurônios nessa região do cérebro que os heterossexuais, exibindo, sob esse aspecto, uma estrutura cerebral mais aparentada à feminina. Além disso, também nos seres humanos o stress pré-natal parece conduzir com mais frequência descendentes do sexo masculino à orientação homossexual. Até o momento, no entanto, os conhecimentos adquiridos em relação ao ser humano são escassos e, em boa parte, indiretos. Não admira que suscitem controvérsia – ou mesmo completa rejeição, baseada no argumento de que, nesse âmbito, os resultados de experiências com animais não seriam transferíveis à esfera humana.

Entre tanto, admite-se cada vez mais que existem bases biológicas na preferência por um parceiro de mesmo sexo ou do sexo oposto. Está claro que a formação individual do cérebro desempenha papel tão importante quanto a educação ou a sociedade, e a definição do caminho a trilhar parece ocorrer nos primeiros estágios do desenvolvimento.

DO FLERTE À CÓPULA

Sexo e desejo decerto não são tudo na vida. Para a maioria dos seres humanos, a qualidade do relacionamento com o parceiro possui, no mínimo, importância equivalente. De resto, a atração sexual e o vínculo com o parceiro atendem ao mesmo propósito biológico: assegurar a reprodução da espécie. Um rápido exame de nossos parentes mais próximos nos mostra a multiplicidade de relacionamentos possíveis. Os orangotangos, por exemplo, só se unem para a fecundação e vivem o resto do tempo como eremitas, os gibões são monogâmicos, os gorilas formam haréns e os chimpanzés vivem trocando de parceiro. Entre humanos, encontramos todas essas variações, embora a tendência à monogamia seja predominante. A variedade de tipos de relacionamento aponta para o fato de que o vínculo com o parceiro está sujeito a fortes influências culturais e sociais.

Bases biológicas da monogamia foram encontradas em pequenos roedores que vivem nas pradarias dos Estados Unidos. Estritamente monogâmicos, esses animais preocupam-se bastante com seus descendentes. Mas seus vizinhos que habitam as Montanhas Rochosas, ao contrário, trocam de parceiro com frequência e logo abandonam a prole à própria sorte. A semelhança física e genética entre essas duas espécies é muito grande. Mas dois hormônios presentes no hipotálamo, a vasopressina e a oxitocina, revelam diferenças notáveis entre elas. O roedor monogâmico tem no cérebro um número bem maior de receptores para aqueles hormônios que seu parente promíscuo.

Em geral, a concentração sanguínea desses hormônios aumenta claramente durante a cópula, de acordo com o sexo do animal: nos machos, sobe o nível de vasopressina; nas fêmeas, o de oxitocina. Também nos humanos esses dois hormônios parecem importantes na estimulação sexual, na ereção e na capacidade de orgasmo. Nos homens, o nível de vasopressina no sangue aumenta durante a expectativa sexual, e o de oxitocina, durante o orgasmo. Na mulher, acreditam alguns pesquisadores, a vasopressina reduziria o desejo sexual, e a oxitocina desempenharia seu papel tanto durante a fase do flerte quanto da cópula. Contudo, essas são apenas transposições de resultados experimentais obtidos com animais. As normas sociais, a educação, as expectativas podem prevalecer sobre a influência exercida por um hormônio específico.

Mas e quanto ao vínculo entre os parceiros? De fato, no caso dos roedores, os dois hormônios desempenham papéis importantes também nesse âmbito. O macho das pradarias, de cérebro rico em vasopressina, apresenta vínculo mais forte com sua parceira e se preocupa mais com a prole, ao passo que, nas fêmeas, é antes a oxitocina que estimula o cuidado com a cria. É de supor que o nível hormonal elevado durante o acasalamento ajude a fortalecer o vínculo entre parceiros. Também entre humanos a vasopressina e a oxitocina parecem ter, ao menos em parte, as mesmas funções. Considerando-se o amor como vínculo entre parceiros, teríamos dado aí um primeiro passo para a compreensão biológica desse fenômeno.

Como se articulam, então, o amor e as funções cerebrais? Existem centros de prazer ou neurotransmissores da felicidade? Nesse contexto, o ano de 1954 representa um marco para a pesquisa. Nesse ano, os neurocientistas americanos James Olds e Peter Milner implantaram no cérebro de ratos pequenos eletrodos que transmitiam estímulos elétricos. Os animais gostaram tanto que se detinham constantemente nos lugares em que os cientistas realizavam a estimulação.

Além disso, aprenderam por conta própria a pressionar uma alavanca que lhes proporcionava tais estímulos. O resultado foi que passaram a se estimular milhares de vezes por hora, negligenciando até mesmo suas necessidades naturais – um comportamento que lembra a forte dependência de drogas ou, em certo sentido, o de um ser humano muito apaixonado. A suposição óbvia a que isso conduziu foi que o estímulo elétrico ativava no cérebro um centro de recompensa ou mesmo de prazer.

Muitas regiões do cérebro são sensíveis à estimulação elétrica, mas apenas em poucas áreas o estímulo conduziu os animais ao excesso, o que se verificou sobretudo na lateral do hipotálamo. Não se encontrou aí o suposto centro do prazer: na verdade, a estimulação instigava também feixes de nervos que percorriam toda a região estimulada. Logo um sistema de células nervosas ocupou o centro das atenções – um sistema que se origina no mesencéfalo, percorre a lateral do hipotálamo e abastece com o neurotransmissor dopamina grande parte do prosencéfalo.

Com isso, aumentou o interesse dos cientistas nas funções desempenhadas pela dopamina, que os pesquisadores viam, em parte, como uma espécie de sinal de prazer. Basearam essa conclusão na observação de que sua atividade aumenta quando da prática de todo tipo de ação vinculada a sensações agradáveis-seja quando os animais se autoestimulam com a eletricidade, quando ingerem comida saborosa, quando da copulação ou estão sob a influência de drogas, corno a cocaína, a anfetamina, a heroína ou a nicotina.

Assim como aprendem a se autoestimular, os animais descobrem corno administrar por conta própria essas substâncias, sobretudo quando são injetadas diretamente no sistema de células dopaminérgicas do cérebro. Se esse sistema é experimentalmente desativado, recompensas elétricas, químicas ou naturais deixam de surtir efeito – corno se não existissem sensações de prazer pelas quais os animais seguem repetindo determinada tarefa. Não está claro, porém, se os ratos são de fato capazes de experimentar o prazer na forma como nós o concebemos. Ainda que sejam, isso significaria dizer que os pesquisadores encontraram um centro do prazer, bem como neurotransmissores do prazer? Não é bem assim. Na verdade, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral conduz a uma continuada atividade das vias nervosas e simula, assim, antes o prazer – apetitivo – por alguma coisa do que o prazer – consumado – na obtenção do que se queria. Além disso, a dopamina faz com que, já durante as fases de expectativa e de preparação, o organismo oriente seu comportamento para as metas almejadas, aprendendo a utilizar novas informações que prenunciam a viabilidade de alcançá-las.

ORGASMO POR ELETRODOS?

A implantação de eletrodos no cérebro de humanos só é admitida quando da necessidade de intervenção médica, razão pela qual são poucas as pesquisas existentes nessa área. Pacientes que sofreram estimulação elétrica do hipotálamo lateral relatam “sensações difíceis de descrever, como se algo de interessante e excitante fosse acontecer”. Sensações agradáveis verificaram-se também na estimulação de outras regiões do cérebro, como, por exemplo, do septo lateral. As experiências vividas nesses casos foram descritas como um prazer semelhante ao orgasmo. Se um paciente podia se autoestimular nessa região, ele o fazia em grande medida, sem, contudo, atingir o orgasmo de fato.

ATÉ A LOUCURA

Nos últimos anos, com o auxílio dos métodos de diagnóstico por imagem, como a tomografia nuclear ou por emissão de pósitrons, cientistas puderam verificar reações em seres humanos e expandir muitos dos conhecimentos adquiridos em experiências com animais. O estudo dessas imagens identificou uma série de regiões cerebrais que, diante de emoções diversas, revelam intensa atividade. Uma mesma estrutura cerebral pode, no entanto, ser estimulada tanto por sensações agradáveis como por sentimentos indesejados, como o medo. A existência de centros específicos de prazer não pôde até o momento ser comprovada de modo inequívoco.

Experiências com pessoas sexualmente excitadas mediante a contemplação de imagens ou cenas eróticas ou pornográficas revelam fortes mudanças de atividade em diversos pontos do cérebro, especialmente em sua extremidade anterior. O padrão dessas mudanças de atividade é bastante semelhante em mulheres e homens. É de supor que os cérebros masculino e feminino processem sensações de prazer de forma parecida.

Os estímulos e situ ações capazes de provocar em nós sensações de prazer são bastante diversos e variados: um pôr-do-sol, a presença da pessoa amada, o prêmio da loteria, uma boa refeição, sexo ou drogas. Isso propõe tarefas difíceis a nosso cérebro: devemos reconhecer e avaliar as diversas situações, talvez associá-las a alguma lembrança e, então, reagir – com ações, por exemplo. As demandas ao cérebro podem ser, portanto, bastante diferenciadas. Seria de esperar, pois, que também as mudanças de atividade nas diversas áreas do cérebro apresentassem forte diferenciação de um caso a outro. Mas certas regiões cerebrais permanecem ativas durante as situações emocionais mais variadas, o que significa que respondem pelo processamento de sensações de todo tipo.

Aos olhos dos psiquiatras, os tormentos mentais experimentados pelos amantes se aproximam do transtorno obsessivo. Os pensamentos dos apaixonados costumam ser incessantemente dirigidos para o mesmo objeto, uma única preocupação – os amantes não sossegam enquanto o desejo não é saciado.

Interpretaremos aqui essa obsessão usando uma nova perspectiva, propiciada por estudos recentes: biólogos mediram a concentração de substâncias que refletem o funcionamento cerebral e concluíram que elas são alteradas da mesma forma nos amantes e nas pessoas que sofrem de transtornos obsessivos. Amar como um louco, portanto, não seria uma mera figura de linguagem.

A pesquisadora Donatella Marazziti e seus colegas da Universidade de Pisa, Itália, testaram a hipótese de que do amor à obsessão e ao delírio haveria apenas um passo medindo a concentração do chamado transportador de serotonina. Essa proteína está presente no sangue e também no cérebro, onde regula a concentração de serotonina, neurotransmissor que influi no humor e no comportamento. Três grupos de voluntários foram examinados: “normais”, apaixonados há pouco tempo e pessoas com transtornos compulsivos. A constatação: o transportador de serotonina variou de forma análoga nos apaixonados e nos pacientes obsessivo-compulsivos. Como interpretar essa constatação? A serotonina participa da regulação de funções instintivas, como apetite, sono, dor, temperatura corporal e sexualidade. A substância está ligada a transtornos, como dependência, impulsividade e ansiedade, e modula a atividade de conjuntos de neurônios no cérebro, agindo sobre o comportamento do indivíduo. Mediante uma modificação do sistema serotoninérgico a imagem do ser amado transforma-se em obsessão.

No transtorno obsessivo-compulsivo, há preocupação constante. Acreditando, por exemplo, que a porta está mal fechada, a pessoa verifica-a incessantemente. Em neurobiologia, a “crença na porta mal fechada” baseia-se na atividade de grupos de neurônios que são ativados de forma repetida e descontrolada. Suspeita-se que uma cadeia de retroação passando pelo córtex e tálamo reative permanentemente a atividade nervosa do mesmo grupo de neurônios. O papel da serotonina nessa atividade ainda não foi demonstrado, mas, se de fato existir, o caráter obsessivo da paixão seguiria a lógica do eterno retorno das imagens obsessivas.

Entretanto, os pensamentos lancinantes do apaixonado e os transtornos obsessivos se distinguem pelo “grau de certeza” experimentado e pela capa cidade da pessoa de aceder a seus próprios estados psíquicos. No transtorno obsessivo predominam a dúvida (o paciente não se convence de que a porta está fechada) e a introspecção (tem consciência do absurdo de suas ideias obsessivas e sabe que emanam de sua mente). Em certas formas de delírio prevalecem, ao contrário, a certeza (a pessoa está convencida de que alguém a quer mal) e a perturbação das capacidades de introspecção (prevalece a convicção de que tem razão e de que os outros estão errados).

A paixão evoluiria assim entre a obsessão e o delírio: o apaixonado está convencido do valor do ser amado e de seu sentimento, mas sabe que essa ideia é um produto de seu psiquismo. As ideias delirantes se distinguiriam das dos apaixonados pelo fato de que o amante tem consciência de seu tormento: escravo de seu desejo, está consciente disso. A biologia endossa a concepção de que o sentimento amoroso situa-se entre a obsessão livremente consentida e o delírio. 

A associação entre obsessão e paixão é confirmada por uma observação fisiológica: a atividade cerebral das pessoas que sofrem de transtornos obsessivo-compulsivos caracteriza-se pela hiperatividade de uma região chamada núcleo caudal, a mesma que é ativada quando os apaixonados pensam no ser amado. Trata-se, portanto, de um novo índice fornecido pelo imageamento cerebral em favor da semelhança entre os dois estados.

Sabemos que o amor também proporciona felicidade e intensa satisfação, ao passo que o transtorno obsessivo é um sofrimento. Onde situar a fronteira? Marazziti e seus colegas estudaram a fase precoce do amor, definida por Stendhal como uma paixão não consumada, restringindo a pesquisa a pessoas perdidamente apaixonadas, mas que ainda não tiveram relações sexuais com o ser amado.

ANTES DO SEXO

Nessa fase de expectativa, a concentração no transportador de serotonina sofre as modificações características dos pacientes obsessivos. Um ano depois (prazo considerado suficiente para a consumação do caso), a medição mostrou que as taxas de transportador de serotonina voltavam a seu nível inicial e a obsessão desaparecia. O amor insano seria uma “patologia” que curamos ao saciá-lo. O paciente obsessivo, ao contrário, jamais se tranquiliza quando a porta é fechada.

Do ponto de vista hormonal, na primeira fase do amor, a obsessiva, são acionados circuitos de neurônios que utilizam a serotonina. Estudos genéticos sugerem que estas redes têm papel inibidor do comportamento, suscitando nos apaixonados formas de amor duráveis e românticas, marcadas pela timidez e caracterizadas por preocupações quase obsessivas em relação ao parceiro, com um envolvimento e uma fidelidade mais acentuadas.

Quando o amado é conquistado, porém, a serotonina cede lugar à dopamina, o “hormônio do prazer”. Os grupos de neurônios que utilizam a dopamina intervêm nos componentes ligados ao prazer e até mesmo naqueles ligados à dependência. Pesquisas evidenciaram um sistema dopaminérgico particular em pessoas que buscam permanentemente aventuras sexuais. Elas têm frequentes variações cíclicas do humor, o que as torna versáteis. Assim um funcionamento que oscila entre esses dois sistemas cerebrais, o da serotonina e o da dopamina, teria o dom de tornar a pessoa intensamente apaixonada e, depois, calmamente satisfeita.

EU ACHO …

A EROSÃO DA VERDADE

A imprensa tradicional pode contribuir para reduzir a polarização e seu próprio declínio. E ajudar a democracia

As guerras e as pandemias mudam o mundo. As mudanças chegam em ritmo acelerado, trazendo enormes desafios, especialmente em um mundo polarizado e conectado. As medidas de resgate econômico tomadas pelo governo e os danos causados pela paralisação econômica nos colocaram em uma estrada árdua, ainda mais íngreme e que requer a colaboração de toda a sociedade. Mais do que nunca, o esforço conjunto é necessário e é importante uma autoavaliação crítica, para não repetirmos os erros e contribuirmos como deveríamos.

Nesse processo, a contribuição da imprensa é fundamental – amplificando e dando ressonância às pautas da nação, questionando políticas públicas, denunciando erros, apontando inconsistências de maneira isenta, ressaltando fatos e análises. Temo que, sem a devida atenção ao fenômeno da erosão da verdade, estudado pela pesquisadora Jennifer Kavanagh, da Rand Corporation, e autora do livro Truth Decay, será difícil para a imprensa cumprir o fundamental papel que lhe cabe.

Em meio a toda essa cacofonia cognitiva, é quase impossível identificar causas, estabelecer diagnósticos e remédios num ambiente de constante guerra de narrativas, em que opiniões e fatos têm fronteiras tênues ou inexistentes. Na guerra de narrativas, a imprensa tradicional foi pega no meio de uma aguda crise financeira, com seu modelo de negócios em xeque, suas receitas diminuindo, a migração para o modelo digital acontecendo e o pânico causado pelas incertezas.

Para lidar com o imenso fluxo de informações gerado pela internet, a solução encontrada pela imprensa tradicional foi se concentrar em interpretações e opiniões, afastando-se de seu papel de provedora de fatos e análises. À medida que perdia credibilidade, seus problemas financeiros se agravaram, e um círculo vicioso se criou. Na guerra de narrativas, a imprensa tradicional teve sua credibilidade abalada, e sem isso é difícil atrair clientes dispostos a pagar por um conteúdo de qualidade.

Em seu livro Davi e Golias, o jornalista Malcolm Gladwell aborda de maneira brilhante como adversários descomprometidos com o statu quo podem desenvolver estratégias e táticas de guerra criativas, que deixam o inimigo completamente impotente, por não perceber que as regras mudaram e que o jogo mudou.

Aconteceu em 2016 na eleição de Donald Trump. A imprensa tradicional foi pega de surpresa e não entendeu que o candidato Trump havia rasgado o manual das campanhas ao ir contra cada regra estabelecida e, ao contrário do que se esperava, aumentava sua visibilidade e seu apoio junto aos descontentes. Após incontáveis denúncias de todos os tipos, Trump chegou a dizer que poderia atirar em alguém na Sa Avenida e sua popularidade não seria abalada. A imprensa tradicional reagia com indignação, como se isso fosse suficiente para frear o candidato. Seria… sob as regras antigas, mas o jogo tinha mudado e Trump havia definido as novas regras.

Em seu livro, Gladwell cita como os ingleses ficavam indignados com o ataque a seus oficiais, algo proibido pelo acordo feito entre as grandes potências europeias e solenemente desconsiderado pelos revolucionários americanos, que os abatiam como patos num lago.

As regras mudaram e, a meu ver, a imprensa tradicional ainda não entendeu isso e tende a repetir seus erros na guerra de narrativas. Há 20 anos, uma autoridade ser pega em uma mentira seria embaraçoso e isso teria um alto custo. Hoje, com o exército de robôs a disseminar narrativas conflitantes, dúvidas são plantadas e, como há mais opiniões do que fatos e análises, é uma questão de tempo para o efeito da denúncia se diluir.

Como os revolucionários americanos, que simplesmente desconsideravam as regras do Velho Mundo, os políticos atuais se defendem com campanhas de contrainformação. A indignação da imprensa tradicional só aumenta a exposição deles e abre espaço para contra-ataques mais virulentos, aumentando o ruído.

É quase impossível extinguir esse círculo vicioso quando não existe um consenso sobre os fatos mais básicos. A imprensa tradicional pode (e deve) combater a erosão da verdade, comprometendo-se e promovendo fatos e análises, deixando claro quando sua posição reflete opinião e definindo claramente a fronteira entre uma coisa e outra. Ciente de que seus leitores são impactados pelo próprio viés de confirmação, ou seja, pela busca seletiva de informações que atestem a própria crença, não existe remédio além de fatos e análises, fatos e análises, repetidos como um mantra!

A guerra de narrativas cria um denominador comum muito baixo, empobrece as discussões, quase elimina a busca por soluções racionais, baseadas em dados e na ciência, provocando uma paralisia política que agrava nossos problemas. Não podemos esquecer que somos um país que lê pouco. E, sem leitura, educação e senso crítico, temos um ambiente fértil para a erosão da verdade.

O ressurgimento do Washington Post com foco no jornalismo investigativo e de qualidade, e com um apego ferrenho aos fatos e análises, mostra que é esse o caminho a seguir. Com ele, o populismo mostra os pés de barro, e a imprensa tradicional, além de atrair clientes que paguem por conteúdo de qualidade, cumpre seu papel como um dos pilares da democracia.

SÉRGIO CAVALCANTI – CEO e fundador da NationSoft Tecnologia

OUTROS OLHARES

BOICOTE AO FACEBOOK

Resistente a qualquer tipo de controle de conteúdos em sua plataforma, mesmo aqueles que incitam ao ódio e à violência, a rede social perdeu mais de US$ 70 bilhões em valor com a debandada de mais de 500 anunciantes mundiais

Pressionado desde a última eleição norte-americana, em 2016, o Facebook chega agora a uma encruzilhada difícil de escapar, com o crescimento do boicote de grandes anunciantes acertando em cheio o caixa da empresa. Mais de 500 companhias mundiais de peso como Unilever, Coca-Cola, Starbucks, Microsoft, entre outras, anunciaram nesta semana a retirada de propagandas enquanto a rede social não tomar medidas para coibir a disseminação de discurso de ódio pela plataforma. A discussão não é nova. Começou com a explosão do caso da Cambridge Analytica, após a vitória de Donald Trump, que analisava os dados pessoais dos usuários do Facebook para manipulação. Mas Mark Zuckerberg resistia a qualquer controle do conteúdo por não querer assumir o que chamava de “postura de árbitro da verdade”. No entanto, o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, em maio, trouxe o problema à tona de novo e os discursos racistas deixaram o nervo exposto, mostrando que o Facebook não mudou nada em quatro anos.

E a reação não demorou, surgindo com força através do movimento #stophateforprofit (Pare o ódio pelo lucro), que prevê o boicote em resposta à falta de compromisso da plataforma. E Zuckerberg sentiu no bolso o reflexo do movimento. A empresa chegou a perder até US$ 70 bilhões em valor na bolsa. Como os anúncios representam quase 90% do seu faturamento, ela se viu sem saída e decidiu rever sua posição. Diz que, agora, vai começar a fiscalizar mensagens violentas.

A preocupação com as redes sociais vem crescendo no mundo todo, especialmente nos EUA, com a aproximação de novas eleições. Em junho, o Twitter, a rede preferida de Trump, interferiu no conteúdo do presidente, que havia publicado a frase “quando os saques começam, os tiros começam”, repetindo uma afirmação racista dita por um policial segregacionista nos anos 1960. Enquanto o Twitter se posicionava, o Facebook continuava se negando em nome da liberdade de expressão. O fato é que o Facebook é hoje a segunda maior plataforma de anúncios do mundo, atrás apenas do Google, com receita anual de US$ 69,7 bilhões. Mas os anúncios são bem pulverizados, sendo que as grandes empresas representam 6% do faturamento. O boicote, porém, chega num momento crucial, em que muitas empresas reduziram campanhas devido à pandemia. Dona de marcas como Dove, Omo e Rexona, a Unilever diz que vai fazer mudanças para gerar transparência nas plataformas digitais. Já a Coca-Cola informa que vai parar os anúncios por 30 dias para rever as políticas digitais da empresa. O Facebook respondeu que investe bilhões para manter a segurança e que já baniu 250 organizações supremacistas brancas, tanto do Facebook, como do Instagram. Mas a resposta não convenceu.

Para especialistas, o impacto financeiro pode não ser tão grande, mas é impossível ignorar o efeito da perda da Unilever, segundo maior anunciante mundial, ou da Coca-Cola. A questão, no entanto, vai além do dinheiro, batendo na reputação, indicando que há problemas de controle e que o ponto central são os algorítmos, que usam inteligência artificial para manter o usuário por mais tempo na rede vendo anúncios. Estes sistemas aprendem o que o usuário gosta, passando a oferecer conteúdos relacionados. Eles também sabem que os conteúdos que provocam indignação são chaves para manter a atenção. Segundo Cris Camargo, CEO do Interactive Advertising Bureau (IAB) no Brasil, as redes sociais sempre apostaram na liberdade de expressão. Mas isso acabou trombando com princípios sociais básicos. Por isso, a entidade, presente em mais de 40 países e criada para parametrização da publicidade digital, treina há sete anos profissionais da área para que conheçam as ferramentas e, principalmente, usem filtros da chamada “brand safe”, que define critérios de onde o anúncio pode entrar. “Mas talvez seja bom essa parada para que a publicidade programática evolua”, diz. Ela cita a ferramenta de retargeting que permite ao anunciante “seguir” o internauta quando ele clica em um produto, por todas as páginas que ele abrir, mesmo que seja de violência ou pornografia. Apesar disso, Cris não acha que a publicidade digital vai perder espaço. “Será temporário, porque não se pode discriminar a tecnologia”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE JULHO

SALVO NA ÚLTIMA HORA

Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Isaias 55.6).

Era sexta-feira da Páscoa em Jerusalém. Às 9 horas da manhã, os soldados romanos ergueram três cruzes no topo do monte da Caveira, o conhecido Gólgota. Na cruz do centro estava Jesus, o Nazareno, e de cada lado seu, dois ladrões. No sopé da cruz, o vozerio da multidão proferindo palavras de blasfêmia tornava o quadro ainda mais sombrio. Em meio às agruras do sofrimento, o ladrão da direita foi tocado pela palavra de Jesus proferida na cruz e arrependeu-se de seus pecados. Reconheceu que era culpado e que Jesus era Salvador e Rei. Clamou por misericórdia e, a despeito de ter vivido até o portal da morte como um fora da lei, foi perdoado e salvo. O ladrão arrependido clamou: Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu reino. Jesus lhe assegurou: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23.42,43). Não há casos perdidos para Jesus. Não há vida irrecuperável para o Filho de Deus. Não há situação irremediável quando se recorre ao Salvador. O ladrão crucificado à direita de Jesus reconheceu seu pecado e o confessou. Reconheceu que só Jesus salva e a ele clamou. Encontrou perdão na última hora. Recebeu a garantia do céu nos instantes finais de sua vida. Sua salvação não foi fruto de merecimento, mas de graça. O paraíso de Deus lhe foi dado não porque ele o mereceu por suas obras, mas foi um presente imerecido. A graça é maior do que o pecado!

GESTÃO E CARREIRA

ADEUS ÀS IMOBILIARIAS?

O número de startups do setor imobiliário e de construção quase triplicou nos últimos três anos. Esse crescimento abre as portas para empreendedores e demanda novos profissionais

Há alguns anos, alugar ou comprar um imóvel poderia ser um verdadeiro teste de paciência. Horas pesquisando em anúncios com poucas informações e imagens de baixa qualidade (que quase nunca correspondiam à realidade) e idas e vindas a cartórios eram rotina, sem contar a busca por um fiador – drama à parte para os locatários.

Mas o avanço da tecnologia não tardou a chegar ao mercado imobiliário. Atualmente, potenciais compradores ou locatários conseguem avaliar dezenas de imóveis em alguns minutos, fazem tours virtuais e compram ou alugam casas ou apartamentos totalmente de forma digital. “O mercado imobiliário tinha de se adaptar a essa nova realidade. Não era uma questão de escolha, mas de sobrevivência”, afirma Claudio Hermolin, vice-presidente de intermediação imobiliária e marketing do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP).

UM NOVO MERCADO

Embora a experiência de comprar ou alugar imóveis tenha melhorado nos últimos anos, ainda há muito o que avançar. Um exemplo disso é que, segundo estimativas do setor, uma pessoa leva, em média, mais de um ano para fechar um negócio de compra ou venda de uma propriedade.

Diante de um mercado que movimenta cerca de 200 bilhões por ano e conta com tantas dores à espera de solução, para usar o jargão dos empreendedores, não é à toa que o setor imobiliário viu explodir o surgimento de startups especializadas no ramo. De acordo com dados da Terracotta Ventures, fundo de investimentos focado em startups de construção, venda e aluguel de imóveis, o número de novas empresas no segmento quase triplicou, passando de 250 para 700 de 2017 a 2020.

O crescimento é tanto que elas ganharam até nome: proptechs. O termo é usado para definir startups que oferecem soluções ou modelos de negócios inovadores para locatários, compradores e vendedores de propriedades. “O surgimento dessas companhias faz parte de um cenário maior, de transformação digital no setor, mas a crise financeira, que impactou duramente o mercado imobiliário entre 2014 e 2017, também contribuiu, já que obrigou empresas a inovar”, afirma Bruno Loreto, sócio diretor da Terracotta Ventures.

De olho no potencial desse mercado, os engenheiros cariocas Gustavo Vaz, de 31 anos, e Lucas Cardozo, de 37 anos, fundaram o marketplace de venda de imóveis EmCasa, em 2017. Filho de uma corretora de imóveis e com passagens por empresas do setor imobiliário, Gustavo percebeu que havia espaço para melhorar a experiência dos clientes. “Para muitas pessoas, comprar a casa própria é a transação mais importante da vida, porém, também era um dos processos mais burocráticos e complicados”, diz.

A startup tem tours virtuais em 3D e usa um algoritmo para avaliar o valor das propriedades. Com isso, a aquisição de um imóvel costuma ocorrer em cerca de 24 dias. “Também desempenhamos um papel ativo nas negociações para que ambas as partes [proprietário e comprador] tenham uma jornada mais eficiente”, diz Gustavo.

Com apenas dois anos de atuação, a EmCasa, que começou na cidade do Rio de Janeiro, já expandiu para São Paulo e aumentou de 15 para 90 o número de funcionários. Ao todo, mais de 300 imóveis foram vendidos por meio da plataforma.

Entre os próximos passos da startup está a ampliação dos serviços para outras capitais, além do lançamento de uma área de consórcios. Segundo Gustavo, a criação de soluções financeiras atreladas ao setor, inclusive, é um nicho promissor. “Esse tipo de serviço é pouco maduro no Brasil, se comparado a outros mercados, como Europa e Estados Unidos”, diz.

PARA NÃO FICAR ATRÁS

Com o avanço das startups, as imobiliárias e construtoras tradicionais são obrigadas a mudar. A mineira MRV, uma das maiores incorporadoras e construtoras da América Latina no segmento de empreendimentos residenciais e econômicos, é um exemplo. Somente nos últimos cinco anos, a empresa investiu mais de 250 milhões de reais em projetos de transformação digital.

Um deles é uma plataforma de vendas online, lançada no começo de 2020, que permite adquirir um imóvel pela internet. Todo o processo é digital: desde a simulação e a análise de crédito até visitas e a assinatura de contratos. Com a crise do coronavírus, a ferramenta, que estava disponível apenas para Belo Horizonte, foi ampliada e passou a operar em 160 cidades de 22 estados brasileiros. Por enquanto, o site não está disponível apenas em Rondônia, Pará, Roraima, Acre e Amapá.

E para competir no ramo de locação, que nos últimos anos viu fatias enormes ser abocanhadas pela startup unicórnio Quinto Andar, a MRV decidiu criar a própria proptech de aluguel de imóveis. A Luggo, lançada em 2018, loca imóveis de forma totalmente online, sem a exigência de fiador – assim como o Quinto Andar. O diferencial é que as habitações disponíveis são construídas e administradas pela própria MRV.

Atualmente, a Luggo está presente em Belo Horizonte e Curitiba e conta com três prédios residenciais, que somam 332 apartamentos. No primeiro trimestre do ano, a taxa de ocupação dos imóveis lançados foi de 95%. Até 2021, a empresa pretende expandir seus serviços para São Paulo, grande Salvador, Campinas e Porto Alegre.

“Com esses investimentos, nosso objetivo é nos consolidar como uma construtech [startup que oferece soluções tecnológicas para a cadeia produtiva da construção civil]”, afirma Rodrigo Resende, diretor de marketing da MRV. De acordo com ele, hoje a construtora aluga uma propriedade em apenas duas horas – há cinco anos, demorava, em média, uma semana. Além disso, atualmente 66% das vendas mensais da MRV são realizadas totalmente pela internet. O esforço da companhia para acompanhar os novos tempos já rendeu bons frutos. Em 2019, por exemplo, a empresa registrou o melhor primeiro trimestre de sua história, com lucro líquido de 189 milhões, um aumento de 18% se comparado ao mesmo período do ano anterior.

SERÁ O FIM DOS CORRETORES?

O movimento de modernização no mercado imobiliário não abre oportunidades apenas para empreendedores. A área de transformação digital da MRV, por exemplo, conta com 100 funcionários. “A maior parte é da área de tecnologia, mas também existem pessoas que atuam no comercial, marketing, jurídico, relacionamento com cliente e inteligência de mercado”, afirma Rodrigo.

Além de profissionais tradicionais da área de TI, como desenvolvedores de realidade virtual e de chatbots e especialistas em user experience (UX), a digitalização do ramo cria novas carreiras. Uma delas é a de gestor de propriedades urbanas, uma espécie de síndico profissional, que pode chegar a ganhar 6.000 reais por mês. Ele é responsável por melhorar a experiência de moradia dos clientes, auxiliando na utilização de serviços disponíveis nos prédios – hoje em dia, alguns condomínios mais modernos contam até com coworking, por exemplo -, além de intermediar eventuais problemas e reparos.

Porém, ao passo que surgem novas profissões e tecnologias no mercado imobiliário, muito se fala sobre a possibilidade de a carreira de corretor de imóveis desaparecer. Um levantamento da consultoria EY de 2016 chegou a cravar que a função sumiria até 2025. Entretanto, especialistas vão contra essa crença e são unânimes em afirmar que a profissão não está com os dias contados.

“As pessoas valorizam a ajuda de alguém que tenha mais experiência para tomar a decisão. O início da jornada de um locatário ou comprador pode até ser self-service, mas, na hora de bater o martelo, ter uma orientação profissional faz toda a diferença”, afirma Claudio, do Secovi-SP. Uma prova disso é que a EmCasa internalizou o time de vendas – ao contrário da maioria das startups do ramo, que utiliza corretores autônomos. Além disso, a empresa optou por recrutar funcionários de fora do mercado imobiliário. Hoje, por exemplo, o departamento comercial conta com 30 pessoas que vieram de setores como varejo e tecnologia ou de outras startups. “Estávamos em busca de profissionais que prestassem um excelente atendimento para nossos clientes, mais do que se fossem especialistas na área de imóveis”, afirma Gustavo.

A escolha da startup tem razão de ser. Por muitos anos, a profissão de corretor era vista como uma carreira que não exigia muita qualificação. Era comum, inclusive, aprender o oficio na prática, sem treinamentos formais. Porém, com o aumento da competitividade no setor, até mesmo corretores com anos de experiência no ramo estão se reinventando.

Esse é o caso do paulistano Walter Tito Bruno, de 50 anos, que trabalha como corretor há quase três décadas. Ciente de que teria de se adaptar, realizou cursos e aprendeu a usar ferramentas de marketing digital e redes sociais. Também mudou a abordagem de seu atendimento. “Hoje meu trabalho é prestar consultoria aos clientes e, de fato, entender quais são suas necessidades”, diz.

Além de usar sites como Loft, Quinto Andar e Viva Real, Walter recorre às plataformas Órulo e Tegra Parcerias, que disponibilizam tabelas de preços e promoções sobre lançamentos imobiliários. “As informações sobre os empreendimentos ficaram mais objetivas e fáceis de ser acessadas e, com isso, ficou mais rápido fechar os negócios”, afirma Walter.

E, embora a pandemia do coronavírus tenha minado as expectativas dos especialistas, que esperavam uma retomada do setor imobiliário, é certo que a tecnologia veio para ficar. A tendência é que a adoção de ferramentas digitais seja intensificada, uma vez que imobiliárias de todos os tamanhos têm recorrido ao online para continuar com os negócios durante o isolamento. Considerando que, mesmo após o surto, o novo normal será marcado por videochamadas, máscaras e distanciamento, o aperto de mãos para fechar a compra da casa nova também ficará para depois.

RAIO X DAS PROPTECHS E CONSTRUTECHS NO BRASIL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PSICOLOGIA NOS TRIBUNAIS

É muito comum em processos em Vara de Família ver filhos de pais em litígio ou divorciados sofrerem alienação parental por parte de um deles

Atualmente tem se discutido com regularidade sobre o fenómeno da alienação parental, que, longe de ser uma fantasia criada, é algo que surge no âmbito familiar em muitos casos de separação litigiosa e divórcios. Acontece quando um dos genitores, ou ainda quem tem a guarda ou a tutela da criança, faz pressão para que ela tome partido de um lado, destruindo a imagem do outro e causando angústia e insegurança.

Embora a alienação parental seja encontrada anteriormente ao divórcio ou separação litigiosa, ou até mesmo em crianças que não tiveram um par parental em matrimônio, o objetivo do texto é discutir sobre esse fenômeno quando existe disputa de guarda da criança ou do adolescente por um dos genitores ou família extensa.

Os efeitos psicológicos da alienação parental têm sido material de discussão e preocupação entre os saberes da Psicologia e do Direito, justamente porque os riscos são muitos. A criança que cresce sendo objeto de disputa e tendo que escolher emocionalmente seu cuidador pode apresentar uma série de dificuldades emocionais.

É importante mencionar que a alienação parental pode ser experimentada pela mãe ou pelo pai, e não somente pelo pai (homem), embora seja mais observável. Sabe-se que pai e mãe são o primeiro suporte emocional para toda criança, e como tal insubstituíveis. Sendo assim a família é considerada núcleo básico essencial e estruturante do sujeito. Como fica isso para a criança em meio a à disputa judicial?

BURACOS EMOCIONAIS

No Brasil, desde agosto de 2010, a alienação parental é definida por lei (n° 12.318, agosto/ 2010). No art.2° da lei, “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou o adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou a manutenção de vínculos”. Observamos tanto na experiência clinica quanto nas avaliações para o Judiciário uma série de buracos emocionais no mundo psíquico dessas crianças e jovens; em uma época de suas vidas em que a estabilidade emocional oferecida pelas funções parentais deveria estar presente como alicerce, mas não está.

A perícia psicológica é um exame delicado que se desenrola através da investigação clínica da personalidade associada à análise dos fatos concomitante à dos sujeitos com base nos aspectos psíquicos e subjetivos, iluminando pontos conscientes e inconscientes do funcionamento mental dentro da dinâmica emocional, experimentada nas relações entre as pessoas.

Atualmente, e cada vez mais, é uma realidade o fato de a equipe multidisciplinar trabalhar de forma cooperativa para o deslinde de um processo. Desse modo, os juízes, os psicólogos, os assistentes sociais, os promotores, compartilham, buscam entender e estudar, com o objetivo de esclarecer e encontrar novas alternativas ao sofrimento experimentado pelos envolvidos no processo. É um trabalho árduo, e o maior propósito é que se faça valer o melhor interesse da criança e do adolescente, isso significa preservá-los.

O psicólogo perito deverá exercer seu papel pautado fundamentalmente nas bases das distinções do seu trabalho, que é exercido na clínica com fins terapêuticos e na justiça com fins de contribuir efetivamente ao campo do Direito.

PROTEÇÃO À CRIANÇA

O que se observa em estudos periciais ou em atendimentos de crianças em processo de guarda é que na medida em que os pais conseguem diminuir as desavenças entre eles, e passam a respeitar a criança como tal, a própria criança começa a apresentar uma melhora emocional significativa. O que quero dizer é que o estado emocional da criança vai depender e muito do modo como os pais manejam a separação conjugal.

Em situações em que através de uma perícia a alienação parental fica comprovada, medidas deverão ser tomadas pelo magistrado a fim de proteger e fazer valer o melhor interesse da criança. Essas medidas podem ser variadas, desde o encaminhamento para atendimento psicológico, ao manejo da convivência com o alienado, até a perda da guarda da criança. Cada caso será avaliado individualmente e essa avaliação precisa ser criteriosa, cautelosa e muito séria para que os danos para a família não sejam ainda maiores.

ALIENAÇÃO ACONTECE TAMBÉM NO CASAMENTO

A título de esclarecimento, é relevante explicitar que a alienação parental pode ser observada também em situações em que o casal não está separado, mas nesse caso pode não ficar tão evidente ou pouco se falar a respeito. uma vez que todos ainda convivem sob o mesmo teto. Em situações como essa, a alienação parental não é deflagrada ou discutida porque a criança ainda não é objetivamente ou legalmente objeto de disputa entre os pais, ou seja, as brigas ainda estão no domínio doméstico do casal. Comalguma frequência se percebe ao analisar através dos estudos periciais os casos de separação litigiosa ou divórcio que aquela queixa atual de que um dos cônjuges promove alienação parental já poderia ter sido observada anteriormente, mas não havia na ocasião essa percepção. Ou seja, na reconstrução da história pregressa daquela família através da perícia se observa que a queixa é atual, mas o problema é antigo: o modo como a família convivia já demonstrava sinais disfuncionais. E que no momento da ruptura conjugal isso se deflagrou.

EU ACHO …

O PESADELO DA TECNOLOGIA

Sempre considerei o telefone celular um mal – necessário, mas um mal – e quando deixei o jornalismo diário há cinco anos e não era mais imprescindível usá-lo, simplesmente larguei meu celular, levando ao desespero minha mulher e meus filhos. Não quero ninguém me rastreando ou me monitorando – nem um governo e muito menos uma empresa gigante que pretende ou lucrar com os dados colhidos ou tentar insistentemente me vender bugigangas de que não preciso. Quero ser o dono do meu próprio nariz, e não um boneco manipulado. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, estamos lidando com múltiplas crises ao mesmo tempo, e pelo bem ou pelo mal – ou melhor dito, para o bem e para o mal – a tecnologia de ponta está intimamente envolvida nas soluções. Só que a tecnologia atua de uma maneira que deve deixa todo mundo preocupado sobre o futuro da privacidade. O que estamos vendo agora é mais um passo na direção do Panóptico, o pesadelo de controle total e vigilância onipresente que se originou no século XVIII.

Por exemplo, no combate à Covid-19. Fiquei atônito quando soube que os governos estaduais aqui nos Estado Unidos conseguem identificar os lugares onde as pessoas não estão obedecendo a quarentena ou o distanciamento social, tudo isso por meio de metadados obtidos de celulares. Com os mesmos dados, o New York Times consegui mostrar que 5% da população da cidade fugiu para outro lugar, com o maior número de desertores saindo dos bairros mais ricos para se refugiar em suas casas de veraneio. Tudo bem gerar essas informações durante uma pandemia, quando são de grande utilidade pública. Mas seria muito fácil empregar as mesmas técnicas para fins políticos nefastos, como observar a formação de multidões de opositores de um governo autocrático no Irã, Síria ou Egito, e mandar tropas ou agentes à paisana infiltrar ou dispersar a aglomeração. Tenho certeza de que alguns governos já tiraram a lição e estão planejando ações desse tipo para lidar com futuros protestos. Juntar isso com dado das câmeras já ubíquas em metrópoles como Londres, Nova York e Xangai é um perigo.

A pandemia também está fortalecendo ainda mais o oligopólio do Vale do Silício. Com as pessoas recolhidas em casa, surgiram novas oportunidades para as empresas dominantes. Ninguém quer ir ao mercado comprar alimentos ou ao shopping recém-reaberto buscar máscaras ou desinfetantes, mas é fácil achar tudo na Amazon. Com os escritórios ainda fechados, as únicas opções de comunicação entre funcionários (ou entre amigos) são do tipo FaceTime, WhatsApp, Google Meet, WeChat, Zoom. Temo que esses novos hábitos vão virar permanentes e acabar com a muralha entre casa e trabalho e também com o pequeno comércio.

Por questão de princípios, nunca chamei um Uber ou um de seus rivais. Acho o modelo empresarial deles conveniente, mas inerentemente vampírico, sugando dinheiro e vida de motoristas mal pagos. Com Uber Eats e seus muitos concorrentes, minha atitude é a mesma. Tenho duas sobrinhas que dirigem um restaurante, e antes da pandemia elas pagavam entre 25% e 33% de comissão aos aplicativos de entrega. Agora, a taxa subiu para 40%. O entregador não fica com isso, claro: a parte do leão fica com alguém que não faz parte da cadeia produtiva. Será que os restaurantes vão sobreviver?

Vejo a mesma faca de dois gumes na questão das manifestações contra o racismo que vêm crescendo aqui nos Estados Unidos. Os policiais sempre foram brutais, sempre maltrataram e até mataram cidadãos, especialmente negros e latinos. E sempre mentiam nos relatórios e julgamentos. Agora, porém, o público tem a capacidade de filmar os abusos em tempo real, e ninguém pode duvidar dos fatos. As provas estão visíveis e contundentes. Mas os policiais também estão filmando tudo, e acumulando dados sobre a população.

Tenho idade suficiente para lembrar nitidamente que nos anos 1990 visionários e idealistas como John Perry Barlow aqui nos Estados Unidos e Gilberto Gil no Brasil imaginavam que a internet, “a onda luminosa”, seria uma ferramenta para a liberação do ser humano, que não ia se converter em apenas mais um instrumento para estimular o consumo e dominar o povo. Gil, aliás, tentou implementar programas para estimular a imaginação e o pensamento quando era ministro da Cultura. Mas em 2020 acho que temos de reconhecer uma verdade preocupante: sim, a tecnologia é uma faca afiada dos dois lados. Mas cuidado. Podemos nos confundir e nos cortar.

LARRY ROHTER – é jornalista e escritor, ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

CAOS NA EDUCAÇÃO

O Brasil vive uma das situações mais críticas de sua história na área do ensino, com escolas fechando as portas, faculdades demitindo e alunos sem aulas — até mesmo as virtuais. Tudo isso coloca em risco não apenas as gerações do amanhã, mas o próprio desenvolvimento do País

No campo da educação, 2020 é um ano praticamente encerrado — e perdido no tempo. Uma combinação de fatores não lhe poderia ter sido mais nociva, alguns deles decorrentes uns dos outros, já os demais fixados pelas mais diversas razões: pandemia, caos econômico, crise política, desgoverno total do País. Junte-se a isso uma gestão federal que olha o setor educacional como inimigo e tenta ideologicamente o seu aparelhamento — estratégia típica de regimes autoritários. Ilustra a desimportância que o presidente Jair Bolsonaro dá à educação o fato de que o Brasil já vai para mais de duas semanas sem um ministro para esse setor — e, até agora, somando-se os três que passaram pela pasta (o último, o das mentiras, sequer tomou posse) o resultado é zero. O primeiro foi um pândego, o segundo trocava Franz Kafka por Kafta e o último sofre de mitomania. Não é apenas a educação que sai lesada, mas, também, o próprio desenvolvimento do País.

O apagão começa no ensino infantil particular. Sem conseguir refinanciar dívidas e com a perda de quase metade dos alunos, a única saída para muitas escolas de pequeno porte foi fechar as portas. A falta de aderência ao ensino à distância por parte de crianças (o que é mais que normal) e a desistência de muitos pais desempregados levaram a uma situação insustentável. Estima-se que até 10% dos alunos deixaram as escolas privadas de ensino fundamental em todo o País, mas a evasão em escolas que atendem crianças de zero a três anos pode chegar até 80%. A situação pode ser exemplificada pela carioca Ednalva Maria dos Santos, mãe da garotinha Alice, de três anos de idade. Ela retirou a menina da escolinha no bairro de Cavalcante, na zona Norte do Rio de Janeiro. Ednalva é a única que ainda tem emprego na família. “A escola até reduziu a mensalidade, mas a minha situação financeira está desesperadora”, diz ela. Além do monstro da miséria, há outro monstro, esse invisível e que se chama coronavírus. Juntamente à falta de dinheiro, aí vem o medo de morrer, esse generalizado em todo o mundo: “não vou ter coragem de levar minha filha quando as aulas voltarem porque o risco ainda é grande”.

Estima-se que até 300 mil docentes podem ter perdido seus empregos em todo o País. Em São Paulo, das 11 mil escolas que atendem desde o ensino infantil até o técnico, 80% possuem menos de 500 alunos, segundo o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp). A expectativa é de que essas instituições tenham perdido o equivalente a uma receita mensal completa, de acordo com o presidente da entidade, Benjamin Ribeiro da Silva. Com isso, cerca de 30% dos berçários, que atendem crianças de zero a três anos, não sobreviverão: alunos das primeiras séries do ensino fundamental deverão migrar para as escolas públicas, que poderão não absorver tanta demanda. No ensino médio, que historicamente tem dificuldade de evitar a evasão de jovens entre 15 e 17 anos, três em cada dez alunos já pensa em abandonar os estudos — aumento significativo, uma vez que anteriormente o nível de abandono era de 11,8%. Ou seja: lamentavelmente, de um patamar já alto passou-se a outro mais elevado ainda. Isso coloca em risco o futuro de gerações e o desenvolvimento da Nação.

No ensino superior particular, a inadimplência atingiu níveis recordes e, em maio, 23,9% dos estudantes não conseguiram pagar suas mensalidades. Cerca de 32,5% dos alunos acabaram trancando a matrícula ou desistiram do curso e