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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

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Humanização e suporte às mães elevam aleitamento de prematuros

Todo dia, por mais de dois meses, a servidora pública Stephanie Molina Diener, de 32 anos, fez 1udo sempre igual. Saia de manhã para o Hospital e Maternidade Santa Joana, na região Centro-Sul de São Paulo ia até a UTI Neonatal, recebia o boletim médico da filha recém-nascida e seguia para o lactário da unidade.

Era ali que tirava o leite que depois seria oferecido por sonda para a prematura Manuella, que veio ao mundo em agosto, após 29 semanas e um dia de gestação, pesando apenas 725 gramas.

“Vida de UTI é de altos e baixos. É duro. Ao longo do dia, ia mais duas vezes. E quando chegava em Casa também tirava leite, congelava e levava para o hospital”, conta Stephanie. “Sempre soube da importância do leite materno, e mesmo com ela prematura não passava pela minha cabeça que ela não teria isso.

Entre 10% e 15% dos bebês nascidos vivos no pais são prematuros – nascem antes das 37 semanas de gestação. Essa condição impõe uma série de desafios, inclusive na amamentação. Em incubadoras, cercados de aparelhos, muitos bebês sequer desenvolveram ainda o reflexo de sucção e deglutição. A lista de dificuldades se soma a falta de apoio e estrutura para as mães que querem amamentar. Nos últimos anos, porém, o investimento em ações de humanização e cuidados com os bebês e as famílias nos hospitais têm levado a altas taxas de aleitamento em UTIs neonatais do pais.

“Desde o dia em que Manuella nasceu, me orientaram sobre o lactário, um espaço organizado, esterilizado, com bombas para extração de leite. Deram um curso, recebi instruções”, lembra Stephanie. “Eu tirava o leite e davam a ela pela sondinha. Fomos ml por ml. Depois, quando ela ganhou peso, passou a mamar no peito. A equipe me ajudou”. Hoje, Manuella está em casa e com quase 3kg.

Os prematuros começam com doses muito pequenas de leite, às vezes 1 ml. Mas são cruciais para manter a microbiota intestinal dos bebês. Os componentes presentes no leite materno ajudam no desenvolvimento cerebral, pulmonar e dos demais órgãos, ainda muito imaturos, e por isso os médicos defendem que os recém-nascidos recebam o leite materno o quanto antes. A viabilidade varia caso a caso.

“Há uma gama muito grande de situações e não dá para generalizar. Mas, desde que o bebê esteja saudável, a boa prática mundial hoje é oferecer o leite o mais precocemente possível, em pequenos volumes”, explica a pediatra e neonatologista Clery Bernardi Gallacci, do Hospital e Maternidade Santa Joana. “Mesmo o bebê em suporte de ventilação mecânica, dentro de uma UTI, se estiver estável, pode receber o leite através de uma sondinha passada pela narina até o estômago”.

A tecnologia desses materiais, ressalta, também avançou:

“Hoje eles são menos agressivos e mais flexíveis”. No Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, de janeiro ao começo de novembro quase 300 bebês nasceram antes de completar 38 semanas de gestação. Junto a técnicas avançadas da Medicina para os prematuros, a aposta no suporte às mães para que conseguissem tirar o leite mesmo sem o estimulo direto do bebê permitiu que elas mantivessem a produção e que o hospital chegasse a uma taxa de amamentação de 98% no momento de alta”

“Nem sempre é um aleitamento exclusivo (há complementação com fórmula infantil), mas a maioria dos bebês sai mamando na mãe, mesmo tendo passado por terapia intensiva com ventiladores, tantas medicações, procedimentos invasivos. E saem mamando porque há estímulo, buscamos que essas mães estejam presentes, amamentando seus bebês”, conta Desirée Volkmer, chefe do Serviço de Neonatologia do Hospital Moinhos de Vento.

REDE DE APOIO

A máxima “cada gota conta” é uma constante nas UTIs neonatais. A designer de projetos Julia Pozzi, de 26 anos, viveu 141 dias de internação com Alice, nascida há cinco meses, com 685 gramas e 25 semanas. Até os três meses, ela tomou leite materno por uma sonda. Julia tirava todos os dias no Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, no Rio.

“Ficava no hospital de manhã até a noite para dar a ela todos os horários possíveis de leite. As fonos me ajudavam”, lembra Julia. “Fiz o máximo que podia, e com certeza meu leite ajudou a salvar a vida dela, principalmente em momentos mais críticos, que ela estava frágil e não podia tomar fórmula. Não é fácil alimentar bebê de UTI. Não dá para pegar toda hora, tem a ansiedade, a vivência das dores de outras famílias.”

A pressão extra sobre as mães, em um contexto já delicado, só reforça a necessidade de uma rede de apoio que envolva toda a família”, diz a psicóloga perinatal AIlana Pezzi, do Centro de Medicina Integrativa do Hospital e Maternidade Pro Matre, em São Paulo:

“Existe o provérbio de que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Com a amamentação não é diferente. Mesmo que a mãe seja protagonista dessa cena, ter uma rede de apoio é fundamental para que ela se sinta segura para vivenciar os desafios da maternidade. Amamentação é partilha.”

GESTÃO E CARREIRA

BRASIL JÁ RESPONDE POR 10% DOS ‘EMPREGOS VERDES’ NO MUNDO

Só no setor solar, previsão é fechar o ano com 200 mil novas vagas; para especialistas, energia renovável pode alavancar crescimento do País

A qualidade da matriz energética, com quase 50% de energia renovável, e o potencial da economia verde podem alavancar o desenvolvimento do Brasil nos próximos anos, com uma geração de emprego mais sustentável. Para se ter ideia, hoje o País já responde por 10% de todos os empregos verdes no mundo, ocupando a segunda colocação entre os maiores empregadores da indústria de biocombustíveis, solar, hidrelétrica e eólica.

O mercado brasileiro perde apenas para a China, que tem 42% dos 12,7 milhões de postos de trabalho do planeta, segundo dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), compilados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A expectativa é de que, até 2030, as energias renováveis criem 38,2 milhões de empregos no mundo.

Os cálculos consideram uma transição energética ambiciosa e a aceleração de novos investimentos para reduzir o aquecimento global do planeta. No Brasil, além da eólica e da solar, há a aposta no hidrogênio verde – área em que o País pode se tornar líder mundial – e no comércio do crédito de carbono. “O potencial do trabalho verde no Brasil é enorme, seja pelo tamanho da economia ou pelo fato de ser o lar de ecossistemas dos mais relevantes do planeta, rico em recursos naturais e biodiversidade”, diz o economista sênior da Divisão de Mercados de Trabalho e Seguridade Social do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Oliver Azuara.

Para ele, o benefício de “enverdecer” a economia no Brasil será maior do que em qualquer parte do mundo. Isso porque o potencial de crescimento das fontes renováveis, ao contrário de outras partes do mundo, ainda é muito alto no País. No setor eólico, por exemplo, a energia offshore (em alto-mar) nem começou a ser explorada ainda, mas tem potencial de 700 mil MW no País. Cada MW de energia offshore gera 17 postos de trabalho ao longo de 25 anos de vida útil de um projeto.

Na eólica convencional, em terra, esse número é um pouco menor: 11,7 empregos por MW instalado. A expectativa é de que, nos próximos dez anos, o setor acrescente no mínimo 3 mil novos MW por ano (em 2022, serão 5 mil MW), diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum. Isso significa cerca de 35 mil novos postos de trabalho anuais. No setor solar, hoje o que mais cresce no Brasil e no mundo, a geração de empregos em toda cadeia ultrapassou os 170 mil postos em 2021, e pode superar os 200 mil neste ano, segundo o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sanaia. Segundo ele, 60% dos empregos do setor vêm da instalação de sistemas – empregos de nível técnico, com renda média de dois salários mínimos e carteira assinada.

Outros 40% vêm da fabricação de componentes, projetos, engenharia, administração, comercial, vendas e marketing.

MAIORES EMPREGADORES

Apesar de as novas fontes serem as que mais acrescentam postos de trabalho hoje, em termos consolidados são os biocombustíveis e as hidrelétricas que empregam mais no Brasil, segundo a Irena. De 1,27 milhão de empregos verdes, 68% vêm da indústria de combustíveis sustentáveis e 14%, das usinas hídricas – duas áreas tradicionais no setor energético desde os anos 60 e 70.

“O País já se encontra em posição de vanguarda nesse tema em relação às demais nações, e segue uma trajetória sustentável, ampliando cada vez mais o uso de fontes limpas, como eólica e solar, além de apostar em novas tecnologias, como o hidrogênio verde”, diz o gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo.

O potencial de investimento do produto é de US$ 200 bilhões até 2040 no Brasil. Só em Pecém (CE), três empresas anunciaram investimentos de US$ 14 bilhões em planta de hidrogênio verde. Outro destaque é o crédito de carbono. A consultoria McKinsey estima que, para cada dólar proveniente dos benefícios da ação climática, a comunidade local recebe um retorno socioambiental líquido de US$1 a US$4 em termos de criação de empregos, desenvolvimento local e serviços de ecossistema.

“Esse impacto se traduz na geração de 550 mil a 880 mil empregos líquidos por ano através de projetos de restauração, agroflorestas e REDD+ (incentivo para compensar países em desenvolvimento por medidas de redução de emissões)”, diz o sócio e líder da prática de sustentabilidade da  McKinsey, Henrique Ceotto. Segundo ele, 57% desses empregos são diretos e concentrados no local de implementação dos projetos. O executivo afirma ainda que profissionais com experiência no mercado de carbono voluntário estão com demanda alta.

EU ACHO …

COPA DO MUNDO E LÂMPADA DE ALADIM

Conforme notei, o campeonato mundial de futebol ocorre nas Arábias – a terra das mil e uma noites, dos camelos e desertos, das burcas, do puritanismo islâmico, dos tapetes voadores e da lâmpada de Aladim. Futebol entre árabes era inimaginável para a minha paroquiana geração. Gente que descobriu o futebol nos anos quarenta e – depois de roubá-lo dos branquelos ingleses (chamados de “pernas de pau”) – tornaram-se mestres na arte do pé-na-bola. Curioso que ninguém tenha observado essa contrariedade da teoria clássica da colonização, já que o futebol a inverte, provando como o colonizado pode ser melhor do que o colonizador.

A Copa de 1950 foi a primeira depois da Segunda Guerra Mundial. Foi a Copa que hospedamos e para ela construímos o maior estádio do mundo: o Maracanã. Uma arena futebolística rival do Coliseu, com a capacidade de abrigar 200 mil espectadores! No caso, alucinados “torcedores” pelo selecionado brasileiro que, naquela edição, não jogava bola, mas a devorava e “comia”, carregando a terrível e maravilhosa responsabilidade de nos livrar da inferioridade de “povo mestiço e inferior”, essa praga que a todo momento atribuímos a nós mesmos.

Mas como o futebol (e os esportes em geral) faz parte da vida e, em certos momentos, com ela competem e até mesmo conseguem superá-la, foi justo nessa Copa de 50 que perdemos no último jogo para o Uruguai, deixando de ficar com a taça Jules Rimet que, depois veio a ser definitivamente nossa e em seguida foi devidamente afanada, tornando-se um troféu – como tantos outros – apaixonadamente conquistado e paradoxalmente perdido.

Coisas brasileiras que remetem à Arábia e ao Aladim, cujo gênio aprisionado na lâmpada maravilhosa contraria expectativas e promove milagres — isso que é o traço essencial das disputas e dos jogos, dos concursos, eleições, aplicações financeiras e do esporte. Essa dimensão das contradições dos costumes que consegue reunir com mais consistência e rara objetividade, desejo e vontade numa combinação, cujo ponto culminante é o que ninguém esperava, o súbito sublime ou mortal das loterias e surpresas (esses espíritos do inesperado) que o gênio da lâmpada mágica simboliza ou encarna. E que tem vontade própria, independente do Aladim que, dono apenas da lâmpada, o liberta por acaso.

Nada, pois, melhor do que esse emparelhamento entre a Copa e a lâmpada de Aladim – esse personagem que tão bem representa o nosso desejo e a nossa esperança de vitória – de sermos, mais uma vez, donos da taça gloriosa da vitória e favoritos dos gênios e deuses.

ROBERTO DAMATTA – É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, Malandros e Heróis’

ESTAR BEM

É POSSÍVEL TORNAR OS EXERCÍCIOS MAIS PRAZEROSOS?

Definir metas possíveis de serem alcançadas ou encontrar companhia agradável podem ajudar a mudar a forma como os resistentes enxergam a prática

Vinte e um minutos. Esse é o tempo mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a prática diária de atividades físicas. Pode ser uma caminhada, uma partida de futebol ou um treino de musculação. Qualquer coisa que acelere seus batimentos cardíacos e faça o corpo transpirar. Ainda assim, enxergar a atividade física como algo prazeroso pode ser desafiador para aqueles que não encontram uma modalidade com a qual se identificam ou que desperte sua motivação.

Foi assim com a empreendedora Mikie Okumura, de 38 anos, que abandonava toda atividade que começava. E ela tentou de tudo: natação, ginástica, vôlei, handebol e musculação. Tudo mudou quando ela conheceu a corrida. O esporte apareceu na sua vida na época da faculdade, como uma forma de aliviar o estresse. “Eu comecei a caminhar para distrair a cabeça e depois fui me desafiando a correr.”

As caminhadas evoluíram para as corridas na mesma velocidade com que Mikie se apaixonava pelo esporte. Em 2018, ela encarou seu maior desafio ao correr 42 km, que não ficaram muito para trás dos 25 km percorridos em maio de 2022. “Eu me sinto empoderada por fazer algo que nunca imaginei que poderia fazer”, afirma.

Estabelecer a relação que Mikie passou a ter com a atividade física é a vontade de muitos. Alcides Scaglia, professor de Pedagogia do Esporte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), garante que a melhor maneira para isso é mudar como enxergamos a prática. “A atividade física não precisa ser vista como algo ruim, cansativo e que só traz desgaste”, diz. Para ele, é preciso vê-la como necessidade humana, que aumenta seu condicionamento físico, fortalece sua musculatura e evita o aparecimento de doenças.

“A tomada de consciência de que a atividade física é uma necessidade e não uma obrigação é indispensável para torná-la mais prazerosa”, afirma. A seguir, algumas recomendações para associar prazer e motivação à prática das atividades físicas.

CRIE METAS PESSOAIS

Comece definindo seus objetivos. Pode ser estabelecendo quantos quilômetros vai correr em uma semana, quanto tempo vai dedicar à prática esportiva ou até mesmo metas relacionadas a sua alimentação. O que importa é que sejam metas coerentes com suas vontades pessoais. “É mais difícil desistir da atividade quando a motivação é intrínseca, que parte de você.”

Fique atento à dimensão delas. “Metas colocadas como desafios podem ser interessantes, desde que não sejam metas impossíveis de alcançar”, alerta Scaglia. Definir objetivos reais e acessíveis é importante para não causar frustrações e impedir que a prática seja prazerosa. Por isso, comece com pequenas metas e aumente progressivamente.

DEFINA UMA FREQUÊNCIA

Estipular uma frequência semanal é fundamental para que essa seja uma prática regular.

Os benefícios só serão percebi- dos e a prática só se tornará parte da rotina se houver dedicação constante. A recomendação da OMS é que entre 150 e 300 minutos da sua semana sejam dedicados à atividade física. Se você definir uma frequência diária, cada treino deve levar entre 21 e 42 minutos. Se você preferir treinar três vezes na semana, dedique entre 50 e 100 minutos. O importante é definir uma frequência que se adapte a sua realidade.

“A atividade física não deve acontecer só quando sobra tempo. Não precisa determinar um horário fixo, mas entender que ela precisa acontecer pelo menos três vezes na semana”, explica Scaglia.

PROCURE COMPANHIA

Compartilhar o momento da atividade física com outras pessoas pode tornar a experiência mais prazerosa, além de despertar uma motivação maior para realizá-la com frequência. “Mas é bom lembrar de fazer a atividade com a pessoa e não contra ela”, alerta. Isso porque fazer a atividade usando outras pessoas como referência pode ser um problema, uma vez que cada indivíduo tem ritmos, limites, vontades e habilidades diferentes. “É preciso tomar cuidado para que a outra pessoa não desmotive em vez de motivar”, lembra.

CRIE UMA ROTINA

A rotina pode auxiliar na constância dos treinos e há várias formas de criá-la. Você pode adaptar sua noite de sono para acordar bem no dia seguinte ou deixar roupa e tênis já separados para ganhar tempo antes do treino. Scaglia alerta, contudo, que esse caminho não pode ser entendido como uma regra. “Há pessoas que gostam de rotina, mas para outras ela pode atrapalhar.”

CONCILIE A ATIVIDADE COM COISAS QUE VOCÊ GOSTA

Associar elementos que sejam do seu interesse pode ser um caminho para despertar a vontade de fazer das atividades físicas parte da rotina. Se optar pela caminhada, tente fazer isso escutando uma música que goste, um podcast interessante ou um audiobook. Até uma roupa com que se sinta confortável pode ajudar. “Você pode agregar aquilo que gosta de fazer com aquilo que tem necessidade de fazer, é unir o útil ao necessário”, conta Scaglia.

ACADEMIA NÃO É A ÚNICA OPÇÃO

Scaglia explica que tudo que fazemos para ativar nosso corpo e para tirá-lo de uma condição de equilíbrio pode ser considerado atividade física. “Não precisa colocar uma roupa, tênis ou levantar peso na academia para fazer atividade física.”

Quando você entender que existem opções para além das academias, o segundo passo é conhecer outros tipos de atividades. Você pode experimentar as práticas circenses, como o trapézio, que trazem benefícios físicos e mentais. Ou então, se preferir, tente as artes marciais, que ajudam na coordenação motora e no autocontrole. Há ainda uma infinidade de possibilidades na dança, como o balé, a zumba e a dança de salão. “O caminho é ir testando”, conclui Scaglia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS SINAIS DE QUE O RELACIONAMENTO É SAUDÁVEL

Conhecer as “bandeiras verdes” ou as “bandeiras vermelhas” pode ser útil em um relacionamento que está começando. Os termos se referem a comportamentos positivos e negativos ou tóxicos, respectivamente. São indicadores para saber com antecedência se vale ou não a pena investir naquela relação, alertam especialistas ouvidos em reportagem do La Nacion.

Passada a paixão do início, a realidade prevalece, e muitas vezes começam a aparecer aspectos até então desconhecidos, como ciúmes excessivos, exigências de acesso ao celular do outro ou demonstração de desconfiança quando o casal se encontra com outras pessoas.

“Acho pertinente definir um relacionamento saudável como aquele vínculo do qual você não precisa, mas que, por algum motivo, te faz sentir melhor e você consensualmente escolhe mantê-lo, sem nenhum tipo de coerção”, diz a psicóloga Florencia Berrade.

O QUE É PRECISO PARA TER UM RELACIONAMENTO BEM-SUCEDIDO E SAUDÁVEL?

 Segundo Berrade, cada pessoa dá importância a características diferentes, o que impossibilita a generalização. No entanto, existem “bandeiras verdes” ou indícios positivos que caracterizam aquelas pessoas que cuidam de seus relacionamentos afetivos.

Se você perceber que está numa relação tóxica, por outro lado, a orientação é pedir ajuda. A psicóloga Bárbara Ayub sugere trazer o assunto para uma conversa entre familiares e amigos para que possam tornar as “bandeiras vermelhas” mais fáceis de serem identificadas caso apareçam em nosso relacionamento.

Ayub enfatiza que para trabalhar os relacionamentos é preciso pensá-los como algo carente de cuidado, atenção, carinho. E, sobretudo, ser revisto com frequência por meio do diálogo.

“Acordos são essenciais e sugiro revisá-los em cada etapa do ciclo de vida”, conclui.

SEIS INDICADORES

BOA COMUNICAÇÃO

A boa comunicação é baseada na expressão clara e assertiva e na escuta ativa. Para Berrade, a primeira característica inclui ser capaz de falar sobre suas emoções em primeira pessoa. Ela garante que isso evita criticar o outro e, em vez disso, abre caminho para uma conversa que deixe claro seus próprios desejos.

Por exemplo, em vez de reclamar que o parceiro não sai do celular, vale trocar a crítica por um pedido como: “Quando jantamos juntos, gostaria que você usasse menos o celular para compartilhar um momento mais íntimo comigo”, exemplifica. Em relação à escuta ativa, demonstre interesse pela opinião de seu par e valide-a.

ACORDOS CLAROS

“A chave para um relacionamento bem-sucedido é chegar a um acordo”, diz a psicoterapeuta de relacionamento Kate Moyle:

“Sempre haverá uma luta entre as necessidades individuais de cada um, e não devemos esperar estar de acordo em tudo.”

A psicóloga clínica Bárbara Ayub explica que se às vezes não há discussões ou desentendimentos é porque uma das partes está cedendo muito ou não tem interesse na relação.

RESPEITO À INDIVIDUALIDADE

Ninguém deve se sentir obrigada a estar disponível 24 horas por dia uma para a outra pessoa. A cultura do imediatismo, impulsionada pela tecnologia, mostra que, se uma mensagem não é respondida com rapidez suficiente, é porque não há interesse. “A verdade é que além dos vínculos afetivo-sexuais, o casal deve poder ter outras atividades: profissionais, sociais, de lazer, momentos de solidão, etc.”, afirma Ayub.

INDEPENDÊNCIA

A independência emocional baseia-se no fato de que os membros do vínculo amoroso sabem que são capazes de gerar felicidade, satisfação ou emoções positivas para si mesmos— individualmente — e sem a necessidade de se sentirem obrigados a isso pelo(a) parceiro(a).

EMPODERAMENTO

“Um relacionamento deve nos fortalecer e nos levar ao engrandecimento pessoal. E não limitar nossas habilidades, projetos ou objetivos pessoais”, diz a Berrade.

Os casais devem procurar promover todos os aspectos positivos do outro e até colaborar com a melhoria das características negativas que o outro possa ter.

ATENÇÃO A ‘BANDEIRAS VERMELHAS’

Por outro lado, as “bandeiras vermelhas” ou sinais de alarme também são muito visíveis.

Esses poderiam ser pensados como o contraponto aos bons indicadores (já mencionados) que geram um vínculo saudável. Geralmente são aspectos negativos que se repetem constantemente e dão origem a padrões de comportamento difíceis de mudar. Alguns perguntas ajudam a avaliar se a relação não está totalmente saudável: existem situações de desrespeito? Há dependência do parceiro de alguma forma (emocional/econômica)? Essa relação gera danos ou emoções negativas?

OUTROS OLHARES

EXPLANTE – LIBERDADE OU OPRESSÃO?

Retirada de próteses de silicone se torna centro do debate sobre surgimento de novo padrão de beleza e especialistas chamam a atenção para banalização da cirurgia plástica

A história nos mostra que o conceito de beleza segue padrões que não duram por muitas gerações. Quilinhos a mais ou a menos, silhuetas ora curvilíneas, ora esguias, do bumbum volumoso ao busto na proporção inversa. Nos últimos anos, o explante de silicone nos seios parece ter se tornado a bola da vez entre famosas (como Giovanna Antonelli, Carolina Dieckmann e Fiorella Mattheis), com a justificativa de evitar e interromper problemas de saúde relacionados ao material e desconstruir a imposição do que é belo às mulheres. O debate que é aquecido nas redes, no entanto, segue – um viés que trata esse movimento não como redenção, mas rendição a um novo tipo estético visto como ideal que emerge em cena.

Mayra Cardoso, advogada que pesquisa sobre gênero, analisa que a moda do explante de silicone é resultado do culto à magreza extrema, biotipo ditado pelas supermodelos nos anos 1990 e 2000. “Tirar o silicone, nesse caso, faz parte de uma tendência que tem perspectiva de oprimir os corpos femininos de objetificá-los”, observa. “É a manutenção de um ciclo que sempre submete a mulher à insatisfação sobre o seu próprio corpo. Ela, agora, tem um peito. Mas peito já não está mais sendo tão bem visto pela sociedade, porque o hit do momento é estar magra e, portanto, ter o colo menor.”

Símbolo de beleza da última década com seu tipo físico “corpulento”, Kim Kardashian se tornou a personificação da transição de padrões. Durante aparição no badalado programa norte-americano “The late show com James Corden”, há dois meses, a socialite surpreendeu fãs ao surgir magérrima esbanjando um busto bem menos volumoso.

O volume “excessivo” dos seios foi o principal motivo que fez Denize Bazzei, de 24 anos, optar pelo explante em fevereiro deste ano – 23 meses após colocar as próteses. Apesar de afirmar ter tomado essa decisão pensando primeiramente em seu bem-estar, ela, que trabalha como gerente de um restaurante em Londres, no Reino Unido, entende que seu tipo físico se tornou o mais atrativo aos olhos da sociedade. “Fui influenciada a colocar o silicone para atender a um padrão de beleza que valorizavam mulheres com seios maiores. Depois de um tempo, passei a ficar incomodada, não me reconhecia, e as pessoas miravam o olhar muito mais para os meus seios do que para o meu rosto”, diz. “Optei por me sentir melhor comigo mesma. Mas, sim, noto que agora o meu biotipo, magra, com peito pequeno, está sendo visto como o bonito”, declara.

Doutora em Comunicação e pesquisadora de socialização feminina, Maria Carolina Medeiros afirma que “é importante haver um movimento de contracorrente ao silicone”, mas pondera sobre o que chama de banalização da cirurgia plástica. “Consciência e motivação são as chaves para compreender a questão do explante. Agora, me preocupa o procedimento se tornar algo tão banal a ponto de a mulher colocar e tirar o silicone sem demandar tanta informação, porque no Brasil, principalmente, existe essa característica”, avalia.

O implante de silicone está em segundo lugar no ranking de cirurgias plásticas feitas no Brasil, só atrás da lipoaspiração. No entanto, as operações para a retirada de próteses quase dobraram entre 2015 e 2021, passando de 12.705 para 25.475 intervenções, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética(ISAPS). Saúde ainda é o principal motivo apontado pelas usuárias que optam pelo explante, levando em consideração sintomas como enxaqueca, problema de visão, dores nas mamas e no corpo.

A cirurgiã plástica Sabrina Mêne afirma perceber um movimento ascendente de pacientes que desejam ter o colo mais magro e assumir o biotipo de seios menores. “De fato, há essa tendência. As mulheres tem priorizado mais o estilo Victoria Beckham do que Pamela Andersonn, compara. O também cirurgião plástico Antônio Pitanguy, por sua vez, chama a atenção para as intercorrências da operação. “Qualquer cirurgia tem risco. A paciente precisa estar com os exames todos em dia, a operação tem de ser feita no hospital, com uma equipe apta e responsável”, orienta “É importante controlar a impulsividade, porque haverá consequências. Mesmo sem complicações, uma cirurgia não pode ser feita de maneira banal. É um corpo não é moda para ser trocado a cada estação.”

GESTÃO E CARREIRA

FALTA O BÁSICO

Empresas têm dificuldade de contratar até para posições de menor qualificação

Apesar do desemprego ainda alto no país, as empresas estão enfrentando dificuldades para preencher até mesmo vagas que demandam menor qualificação, que são geralmente as portas de entrada dos jovens no mercado de trabalho. É uma contra dição que se aprofundou após a pandemia com a combinação de perda no aprendizado escolar, principalmente no ensino médio, e a menor chance de ganhar competências com experiências profissionais.

Sem formação e experiência adequadas, os candidatos chegam às seleções com agravantes, apontam os recrutadores. A falta de interação social limitou o desenvolvimento de habilidades de relacionamento, o que dificulta a atuação em serviços de atendimento ao público, por exemplo. E muita gente tem limitações de lidar com dispositivos tecnológicos, cada vez mais presentes em negócios de todos os tipos.

Dessa forma, apesar dos muitos currículos e filas nas portas das seleções, comércio e serviços em geral, como restaurantes, hotéis e supermercados, têm mais dificuldades para contratar e experimentam alta rotatividade. Já empresas de eventos não conseguem encontrar jovens profissionais para receber convidados. No terceiro trimestre, a taxa de desemprego ficou em 8,7% no país. Na faixa etária de 18 a 24 anos, alcançou 18%. Entre os que têm ensino médio incompleto, foi de 15,3%.

100 DIAS PARA SELECIONAR

Para o economista Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco e professor associado da Fundação Dom Cabral, é esperado que essa geração entrando no mercado de trabalho agora, e desde 2021, tenha dois agravantes na assimetria entre a formação e o que esperam as empresas:

“O primeiro é (um prejuízo) cognitivo, e passa pelas disciplinas, pelo ensino. A aprendizagem ficou ainda aquém daquilo que a gente tinha. O segundo, que se sobrepõe e agrava o primeiro, é a redução da interação desses jovens com seus pares e professores. Isso fragilizou ainda mais a capacidade de serem formados para entrarem no mercado de trabalho, inclusive em competências comportamentais.

A Gupy, plataforma de recrutamento via inteligência artificial, recebe dez milhões de aplicações para vagas de trabalho por mês. No mesmo período, gera 70 mil contratações. Dez mil vagas, porém, permanecem abertas, por falta de pessoas qualificadas, mesmo com o grande contingente em busca de uma chance. Há postos que levam mais de cem dias para serem preenchidos, como os de operadores de produção e de máquinas ou consultores de qualidade.

Guilherme Dias, cofundador da Gupy, lembra que pesa nessa situação uma transformação no perfil de pessoas buscado pelo mercado de trabalho em todas as faixas de qualificação:

“Não faltam pessoas, faltam as habilidades técnicas e emocionais. O vendedor que o mercado quer não é o mesmo de antes. Ele tem de saber analisar dados, ser versátil, interagir, dialogar. As companhias exigem requisitos que temos menos em nosso mercado. É uma questão global, mas aqui é pior.”

Márcio Delgado, gerente-geral do Hotel Nacional, na Zona Sul do Rio, não tem dúvidas ao afirmar que “há uma escassez geral de mão de obra”, incluindo as vagas que exigem menor qualificação, mesmo diante das estatísticas de desemprego. Antes da pandemia, conseguia preencher vagas como as de garçom e camareira em uma semana. Agora, a média subiu para três, sendo que, às vezes, as vagas ficam em aberto por mais tempo.

SOLUÇÃO É TREINAR

O número de frequentadores do empreendimento triplicou este ano em comparação com 2021, mas a ampliação do quadro é mais lenta. Subiu de 150 para 213 empregados, e Delgado segue  contratando.

“É difícil conseguir pessoas para alguns cargos, principalmente cozinheiro e garçom. Então, abrimos mão da experiência para contratar porque precisamos dessas pessoas para ajudar nos atendimentos. Depois, treinamos continuamente. Quem tem mais experiência atua como tutor dos novos”, conta.

É o que acontece com Fabiana Fontenele, 29 anos, há seis meses contratada como camareira pelo Hotel Nacional.

“Parei de trabalhar na pandemia, após mais de seis anos em outra rede hoteleira. Essa experiência facilitou meu retorno, agora ajudo outros mais novos”, diz ela.

EU ACHO …

PEQUENO BREVIÁRIO DO DESEJO

Como pernas poderiam ser tão essenciais no mundo?

Encantadoras. O que elas pensam? Quando moleques, assistindo-as pular corda, o sonho era que o vento levantasse suas saias e pudéssemos contemplar o segredo das suas calcinhas. Desde cedo, o lento caminho da maturidade estaria marcado pela descoberta que muito do mistério da vida residia entre as pernas das mulheres.

Suas conversas. Tanta conversa, tudo parecia interessante quando comparado a nossa maior vocação ao silêncio. Como ficavam lindas de uniforme escolar. Seus cadernos coloridos, arrumadinhos – poder carregá-los era uma forma de eleição.

A vergonha de olhar no olho delas. De trair o medo da recusa. Um “não” público seria um trauma a resolver na solidão dos intervalos de aula. A inveja do colega que sabia falar com elas sem medo. Que as fazia rir. Logo, descobriríamos que fazê-las rir era uma chave para o sucesso. Antes que o mundo fosse arrastado pelas angústias dos ganhos materiais como suspeita de condição necessária para a sedução, fazê-las rir era, seguramente, o caminho para seus corações.

As brigas entre nós moleques, como forma de galinhos se mostrarem. A vontade ruidosa de que capturássemos um olhar escondido delas em nossa direção.

À medida que os anos se passavam, toda essa dança tomou, cada vez mais, a forma de arte. Demorava um tempo para que um moleque deixasse de ser um orangotango e conseguisse articular duas palavras diante de uma colega linda sem gaguejar.

Agora a coisa ficaria mais séria. Chegava o momento em que elas queriam ser beijadas, mas escolhiam a dedo o felizardo que receberia o troféu. E, ainda que existam muitas teorias sobre como funciona o desejo feminino, fato é que ser escolhido por uma delas sempre pareceu um tanto obra da contingência.

Com o passar do tempo, quase tudo parecia ser devorado por essa dança que as meninas executavam. Seus desejos, modo de falar e de agir como centro das nossas expectativas. A descoberta do que a palavra “gostosa” queria dizer era como a descoberta de todo um continente.

De fato, tínhamos vontade de pôr a boca nelas, seja onde fosse. Parecia haver um gosto delicioso e incógnito a ser descoberto. Por isso tantas músicas eram dedicadas ao que chamavam de amor.

Mas o grande desafio era quando as festas aconteciam, porque elas se preparavam como se aquela noite fosse a primeira noite do mundo, ou a última. Qualquer erro de abordagem poderia determinar sua humilhação. A festa estaria acabada para você, a menos que alguma outra mais generosa levasse em conta sua miséria e mau jeito na lida com esses seres, que, naquela época, pareciam ser o centro do mundo.

Cheirosas. Quando começavam a usar batom, então, atingiam o grau máximo de letalidade para os mais fracos, ou mais apaixonados.

Suas pernas. Como pernas poderiam ser tão essenciais no mundo? Mas eram. Seus seios. Misteriosamente, pareciam nos pedir beijos. Mas todo e qualquer beijo seria fruto de algum tipo de competência no modo de aproximação. Uma arte: estudar seus gestos, o modo de mexer no cabelo, de como olhar obliquamente para o mundo a sua volta. O mundo estava dividido entre aqueles que dominavam essa arte e os que permaneciam no mundo dos incapazes.

Hoje todo esse mundo passou a ser domínio de camadas hermenêuticas superpostas. Essa palavra difícil, técnica, figura o terreno pantanoso em que esse mundo, aparentemente ingênuo e espontâneo, se tornou. São muitas as camadas interpretativas – portanto, hermenêuticas – que tomaram de assalto esse território do desejo entre meninos e meninas.

A percepção da fragilidade feminina e o desejo de cuidar delas passou a ser signo do pequeno patriarcado instalado ali nos hormônios do futuro predador sexual tóxico que seria esse menino. Se antes ele enxergava encanto ali, agora enxergava risco de algum tipo de comportamento suspeito de sua parte.

A partir do momento em que todo esse universo passou a ser lido pela chave das teorias da opressão entre os sexos, fundou-se um outro universo, no qual a indiferença passou a ser um modo de sobrevivência.

LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP

ESTAR BEM

CONSELHO DE MEDICINA PODE REVER CRITÉRIOS PARA INDICAR CIRURGIA BARIÁTRICA

Novas diretrizes propostas por entidade internacional ampliam critérios de indicação do procedimento para pacientes com IMC a partir de 30

O Conselho Federal de Medicina (CFM) estuda alterações nas regras de indicação de cirurgia bariátrica, a operação para perda de peso. Propostas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, as novas diretrizes ampliam os critérios de indicação do procedimento para pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) a partir de 30 – considerado o limite inicial da obesidade.

As novas diretrizes foram adotadas em outubro pela Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade e Distúrbios Metabólicos (IFSO), que representa 72 associações e sociedades nacionais em todo o mundo, e pela Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica. Mas a mudança divide opiniões entre os médicos.

Especialistas que defendem a alteração argumentam que a cirurgia é o tratamento mais eficaz contra a obesidade e a síndrome metabólica. Dizem também que a tecnologia envolvida na intervenção avançou, enquanto os riscos caíram muito. Além disso, apontam que a operação previne outras complicações em médio e longo prazo

Já especialistas contrários à mudança dizem que redução de risco não é risco zero; argumentam que há uma nova geração de medicamentos muito eficazes e lembram que, hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a rede privada não dão conta nem sequer de operar todas as pessoas com IMC acima de 40, os obesos mórbidos. Então, questionam, por que ampliar os critérios se já não conseguimos tratar os casos mais graves? Atualmente, as cirurgias bariátricas só podem ser feitas em pacientes com IMC de 30 a 34 e apenas se todos os demais tratamentos disponíveis falharem. É recomendada para pessoas com IMC acima de 35, desde que apresentem doenças associadas ao excesso de peso como a diabete tipo 2, hipertensão, apneia do sono, esteatose hepática (gordura no fígado), entre outras. Já os pacientes com IMC acima de 40 podem ser operados mesmo que não tenham doenças relacionadas.

“O consenso sobre cirurgia bariátrica de 1991 foi fundamental, mas após 30 anos e centenas de estudos publicados de alta qualidade, incluindo ensaios clínicos randomizados, não reflete mais as melhores práticas, especialmente com a evolução das tecnologias e avanço da obesidade”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Fábio Viegas.

Dados mais recentes da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que 20% da população brasileira é obesa e pouco mais da metade tem sobrepeso. E esses números têm aumentado, sobretudo após a pandemia da covid-19. Um estudo americano recente, o Diet & Health Under Covid-19, apontou que os brasileiros foram os que mais ganharam peso na pandemia. Por aqui, 52% dos entrevistados disseram ter engordado 6,5 quilos, em média.

FILA

Paralelamente ao aumento da obesidade, houve também queda no número de cirurgias bariátricas no Brasil. Por causa da suspensão dos procedimentos, muitos Estados viram as filas de espera aumentarem.

Nos últimos cinco anos, foram 311.850 mil cirurgias bariátricas no País. Dessas, segundo a Agência Nacional de Saúde (ANS), 252.929 foram feitas por meio de planos, 14.850 de forma particular e 44.093 pelo SUS. Para especialistas, os números são a ponta de um iceberg. Estima-se que apenas 1% dos obesos façam a cirurgia. “Há cerca de 600 milhões de obesos no mundo e são feitas aproximadamente 600 mil cirurgias bariátricas. Ou seja, apenas um em cada mil tem acesso ao procedimento. Não conseguimos atender os que realmente precisam e vamos ampliar os critérios? Para quê? Do ponto de vista da saúde pública isso é um absurdo”, diz Bruno Geloneze, do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Unicamp.

Além disso, segundo ele, há toda uma nova linha de remédios chegando ao mercado que são capazes de reduzir de 18% a 23% do peso, o que poderia atender bem pessoas com IMC de 30 a 34. “O tratamento mais eficaz e potente contra a obesidade é a cirurgia. É também o único tratamento que provoca mortes”, afirma o especialista da Unicamp. “Ou seja, devo reservá-lo para as formas mais agressivas da doença, que são aquelas em que o paciente tem o IMC acima de 40.”

A obesidade é considerada a doença que mais mata no mundo. É fator de risco para outras 25 doenças, a principal causa do câncer de mama e responsável por outros 13 tipos de câncer. As doenças relacionadas à obesidade são responsáveis por mais de 4,7 milhões de mortes em todo o mundo a cada ano, metade das quais ocorrem entre pessoas com menos de 70 anos. “Você se lembra de já ter visto algum obeso mórbido velhinho andando pela rua? Não, né? Sabe por quê? Porque 70% deles morrem muito cedo, antes dos 50 anos”, diz Fábio Viegas. “Não é uma questão de ampliar os critérios para ganhar mais dinheiro, mas para salvar vidas.”

Coordenador do Serviço de Obesidade da Uerj, Luiz Guilherme Kraemer de Aguiar concorda com o colega. “A obesidade é uma doença pouco reconhecida por outros profissionais de saúde, que tendem a apenas mandar o paciente fazer dieta e exercício. Sabemos que as coisas não funcionam assim para a maioria”, admite.

PRÓXIMOS PASSOS

Após a deliberação pelo CFM, os novos parâmetros ainda precisam ser debatidos, posteriormente, pelo Ministério da Saúde e pela ANS. Os órgãos devem avaliar se eles serão incorporados ao SUS e aos planos de saúde.

“Precisamos agora conseguir colocar isso (a ampliação dos critérios) no rol da ANS”, defende o médico Fernando de Barros, do serviço de cirurgia bariátrica do Hospital São Francisco na Providência de Deus, que atende pacientes do SUS. “Os planos deveriam entender que em médio e longo prazo é mais barato para eles ampliarem os critérios para cirurgia. A obesidade é a maior responsável por casos de amputação, diálise, transplante de fígado, enfarte, AVC, trombose, todos esses problemas muito comuns que demandam procedimentos caros e internações prolongadas”, continua. “As pessoas acham que o obeso é um gordo safado e preguiçoso, que precisa fechar a boca e ir à academia. Há muito preconceito e uma visão muito errada dessa população.”

Antônio Oscar Constantino Ferreira, de 52 anos, fez a cirurgia há três meses, quando pesava 140 quilos. Desses, já perdeu 40. Ainda está muito acima do peso para seu 1,70 metro de altura, mas muitos dos problemas de saúde já começam a regredir. “A diabete não existe mais, estou conseguindo me locomover melhor, sinto menos cansaço e não tenho mais dores nos pés e nos joelhos”, conta. “Já tinha tentado fazer dieta várias vezes, mas é muito difícil, nunca dava certo. Desinchava, perdia líquido, mas não conseguia perder muito peso. Ficava aquele efeito sanfona.”

Vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Síndrome Metabólica e Obesidade (Abeso), Fábio Trujilho diz que a entidade ainda não fechou posição oficial sobre o tema. Ele acredita que, na prática, as alterações não terão um impacto muito grande. “No caso das pessoas com IMC acima de 35, as comorbidades previstas hoje para permitir a cirurgia são tantas, são mais de cem, que, na prática, não vai fazer diferença”, afirma. “No caso de IMC de 30 a 35 já é um procedimento previsto também.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMPULSÃO ALIMENTAR

Segundo a OMS, Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) afeta 4,7% da população brasileira

Comer compulsivamente e pensar em comida o tempo todo são sintomas do Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAPJ – problema que afeta 4,7% da população brasileira, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O distúrbio, que atinge especialmente mulheres jovens, é caracterizado por uma necessidade incontrolável de consumir uma grande quantidade de alimentos em um curto espaço de tempo. Essa ingestão ocorre mesmo sem a presença de fome ou necessidade física do alimento. Além disso, o problema pode ser associado ao hábito de comer escondido, mesmo quando há ausência de fome, ou comer excessivamente e sentir culpa após a alimentação.

Sérgio Pistarino, médico especialista em compulsão alimentar, da Clínica High Five Health, em Sorocaba explica que geralmente as pessoas confundem o termo “gula”  com compulsão. “‘Pode acontecer de, em alguns momentos, existirem exageros alimentares de forma descontrolada, mas que por si só não apresentam um diagnóstico. É comum exagerar em ocasiões especiais, como uma noite de churrasco ou de pizza com amigos, porém são situações pontuais”, destaca.

Segundo o médico, geralmente os quadros de transtornos compulsivos estão relacionados à repercussão emocional e acabam tendo a comida como válvula de escape.

“Para ser caracterizado como compulsão, tem que ter uma frequência de três a quatro episódios por mês. Isso pode acontecer em um estado de ansiedade, depressão, ou síndrome de burnout”, diz.

“O diagnóstico é feito por um médico especialista, pois cada paciente tem um perfil e uma rotina diferente.”

As estratégias alimentares são um complemento e os tratamentos devem ser analisados por uma equipe médica multidisciplinar, com a colaboração de psiquiatras, psicólogos e nutricionistas”, explica.

SINTOMAS

QUANTIDADE DE COMIDA

Observe a quantidade de comida que você coloca no prato

DESCONTROLE

Observe o que você está comendo e avalie se tem uma briga interna com o que deve ou não comer.

CULPA

Observe se existe sentimento de culpa por comer de forma exagerada

OUTROS OLHARES

REFÉNS NA PRÓPRIA CASA

Crescem no Rio casos de sequestro e cárcere privado de mulheres e crianças

Edna Alves Rodrigues, de 40 anos, viveu trancada com dois filhos por longos 17 anos em uma casa de quatro cômodos, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. No dia 29 de julho, os três foram libertados após denúncia. O local onde estavam foi descrito pela polícia como um ambiente escuro e multo sujo, com poucos móveis e um único eletrodoméstico: uma geladeira. Três meses depois, foi a vez de outra mulher, de 48 anos, e suas duas filhas. As três foram resgatadas de uma casa na cidade de Valença, no interior do estado, onde, há 22 anos, eram mantidas aprisionadas pelo chefe da família. São duas histórias impressionantes, mas menos incomuns do que pode parecer: de janeiro de 2017 a junho de 2022 foram registrados 3.158 casos de sequestro e cárcere privado no Estado do Rio, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Em 1.223 desses casos, o autor tinha relacionamento amoroso com a vítima, que, em 94% dos registros, era mulher.

‘ANSIEDADE E DEPRESSÃO’

O número de ocorrências em que o parceiro é o agressor foi 7% maior no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2021. De acordo com o levantamento, mulheres na faixa de 20 a 40 anos (61,89%) são a maioria das vítimas, mas há também 115 menores de idade, entre os quais 38 crianças de até 11 anos. A ocupação mais informada aos policiais foi “do lar”, seguida por “estudante”.

“ A vulnerabilidade econômica e o isolamento são fatores que facilitam a ação do agressor. O fato de não ter uma renda deixa a mulher numa situação de grande dependência. Da mesma forma, por não ter contatos no trabalho ou em outras atividades, fica mais difícil alguém notar a ausência daquela pessoa no convívio diário”, diz a delegada Mônica Areal, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Nova Iguaçu.

Cláudia Regina Aguiar Bentes, de 48 anos, é moradora de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. Por oito anos ela foi obrigada a viver sob vigilância implacável em uma rotina que classifica como de “perseguição e tortura psicológica”. Suas ligações telefônicas e trocas de mensagem eram monitoradas, seus passos vigiados de perto pelo companheiro. Em carta escrita de próprio punho e enviada por parentes à Polícia Civil, em julho de 2020, Cláudia pediu socorro: ”Não tenho como sair, estou sendo completamente torturada e passando por constrangimentos horríveis”, escreveu. Libertada, a mulher deixou para trás o tempo de medo e violência.

“ Minha vida mudou muito. Sou outra pessoa, renasci de verdade. Ainda tenho que me tratar de síndrome do pânico, ansiedade e depressão, mas hoje as coisas estão muito melhores. O que vivi foi um verdadeiro inferno. Antes não podia passar batom, nem pintar as unhas. Ele não me deixava nem levar o lixo na lixeira do condomínio”, lembra Cláudia, que há um ano e dois meses encontrou um novo companheiro com quem afirma viver um relacionamento saudável. O ex­ companheiro está em liberdade, mas, por conta de uma medida protetiva, não pode se aproximar dela.

Em maio deste ano, um homem foi preso pelos crimes de cárcere privado, além de tentativa de feminicídio, estupro e tortura, contra a namorada. Os delitos teriam acontecido no apartamento dele, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, Zona Sul do Rio. A vítima foi a jornalista Luka Dias, de 37 anos, que estava num relacionamento de oito meses com o agressor. Nesse período, o rapaz demonstrou perfil violento e manipulador. Primeiro vieram as acusações de infidelidade e em seguida os episódios de violência, que incluíram golpes de cassetete na cabeça e em outras partes do corpo. As imagens do rosto da mulher após a agressão chocaram. Ela tentava sair do apartamento mas era impedida pelo companheiro.

“A principal motivação é o ciúme, o controle sobre a vítima. Com o cárcere privado geralmente estão outros crimes, como violência doméstica, ameaça, lesão corporal e violência psicológica. As vítimas sempre relatam que eles batem nelas e as ameaçam, o temor é grande porque elas não veem como fugir”, disse a de legada Márcia Noeli Barreto, titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) do centro do Rio.

Outro fator que pesa, tanto no comportamento do agressor quanto no da vítima, é cultural. Os homens aprendem muito cedo que supostamente têm uma condição de superioridade em relação às mulheres, e algumas mulheres assumem uma posição de submissão.

“Multas dessas mulheres viveram em situação de abandono, privação emocional, ficaram desamparadas, tiveram cuidadores hostis. O ambiente familiar onde essas mulheres se desenvolvem comumente é um ambiente abusivo fisicamente, sexualmente, psicologicamente, com ameaças de explosão de raiva e de violência. Isso as leva a entrar nessas emboscadas. Como se fosse uma forma de amor, o homem vai inibindo a mulher até assumir o controle. Ele reclama da cor do batom, do tamanho da roupa, daqui a pouco fala que os amigos não são legais, reclama das pessoas da família…” explica Elaine Chagas, psicóloga e sócia-diretora do Instituto de Ensino, Pesquisa e Atendimento em Saúde Mental. “Com isso, a mulher acaba abrindo mão de si para agradá-lo e manter o relacionamento.”

O Código Penal Brasileiro prevê pena de um a três anos para o crime de sequestro e cárcere privado – não confundir com extorsão mediante sequestro, que é quando o agressor exige resgate para libertar a vítima. Se houver grau de parentesco ou relacionamento entre o agressor e a vítima, a pena passa, a ser de dois a cinco anos de reclusão. O mesmo vale para casos em que o crime e praticado contra menor; quando a privação da liberdade dura mais de 15 dias ou se o crime for praticado mediante internação da vítima em casa de saúde ou hospital. Quando a vítima sofre maus-tratos que levem à ”grave sofrimento físico ou moral”, a pena pode ser de dois a oito anos de reclusão.

UM GRITO DE LIBERDADE

Para quem passa pela experiência de ser mantida em cárcere privado, a vontade é de ajudar outras vítimas.

“Mulheres devem ser respeitadas e amadas. A partir do momento que falta respeito e amor, isso deve ser denunciado. Se nos unirmos, seremos mais fortes nessa luta. Mexeu com uma, mexeu com todas”,  disse Luka Dias.

“Antes eu tinha medo de me expor, mas agora estou tão liberta que quero falar e fazer com que a mulherada acorde, tem muitas mulheres sofrendo caladas. Eu quero gritar um grita de liberdade!”, empolga-se Cláudia Bentes.

Em caso de suspeita de cárcere privado, o primeiro passo para denunciar é procurar uma delegacia ou a ouvidoria do Ministério Público pelos telefones 127 (ligação gratuita dentro do Estado do Rio) ou (21) 3883 – 4600 (demais localidades). Outra opção é o WhatsApp do Ministério Público do Rio: (21) 99366-3100.

GESTÃO E CARREIRA

QUAIS SÃO AS HABILIDADES MAIS PROCURADAS PELAS EMPRESAS?

Atualmente, com a globalização e o avanço da tecnologia, as habilidades exigidas no mercado de trabalho mudaram.

De acordo com um estudo realizado pelo Fórum Econômico Mundial, nos próximos cinco anos 75% das habilidades que serão necessárias diferirão daquelas que são necessárias atualmente.

As habilidades mais solicitadas no futuro serão aquelas relacionadas com criatividade, pensamento crítico e resolução de problemas. Da mesma forma, serão necessárias habilidades digitais e de comunicação. Os trabalhos que desaparecerão são aqueles que podem ser automatizados, tais como trabalhos manuais repetitivos.

Por isso o portal de emprego Jobatus realizou um estudo online através de um inquérito aos seus usuários, determinando dez habilidades chave para encontrar emprego num futuro. Confira:

COMUNICAÇÃO

A habilidade de se comunicar eficazmente é uma das mais importantes soft skills que uma pessoa pode ter. A habilidade de se comunicar de forma clara, concisa e eficaz é essencial para o sucesso em qualquer carreira.

HABILIDADES INTERPESSOAIS

As habilidades interpessoais também são muito importantes para o sucesso em qualquer carreira. As habilidades interpessoais incluem a habilidade de trabalhar em equipe, a habilidade de resolver conflitos e a habilidade de interagir efetivamente com os outros.

LIDERANÇA

A liderança é outra das habilidades transversais mais importantes. Liderança não é somente a habilidade de liderar outros, mas também a habilidade de motivar, inspirar e trabalhar em equipe.

TOMADA DE DECISÕES

A capacidade de tomar decisões rápidas e eficazes é essencial para o sucesso em qualquer carreira. A capacidade de avaliar situações e tomar decisões em conformidade é a chave para o sucesso a longo prazo.

FLEXIBILIDADE

A flexibilidade também é muito importante para o sucesso em qualquer carreira. A capacidade de adaptar-se às mudanças e ser flexível em um ambiente de trabalho em mudança é essencial para o sucesso a longo prazo.

CRIATIVIDADE

A criatividade também é uma habilidade suave muito importante. A capacidade de pensar fora da caixa e encontrar soluções criativas para os problemas é inestimável para qualquer empregador.

PENSAMENTO CRÍTICO

A capacidade de analisar e avaliar criticamente as informações é também muito importante para o sucesso em qualquer carreira. A capacidade de pensar criticamente e tomar decisões baseadas na análise de dados é essencial para o sucesso a longo prazo.

HABILIDADES ORGANIZACIONAIS

As habilidades organizacionais também são muito importantes para o sucesso em qualquer carreira. A capacidade de organizar tempo e espaço eficazmente é essencial para O SUCESSO A LONGO PRAZO.

HABILIDADES DE PLANEJAMENTO

A capacidade de planejar e executar projetos com eficácia também é muito importante para o sucesso em qualquer carreira. A habilidade de planejar tempo e recursos eficazmente é essencial para o sucesso a longo prazo.

HABILIDADES PARA PROBLEMAS

A capacidade de identificar e resolver problemas eficazmente é também muito importante para o sucesso em qualquer carreira. A habilidade de identificar problemas e encontrar soluções criativas é essencial para o sucesso a longo prazo.

Para obter as seguintes conclusões, a equipe do portal de empregos Jobatus realizou uma pesquisa (CAWI) que foi enviada a 4500 empresas registradas em seu site.

A taxa de resposta foi de 78%, ou seja, a pesquisa foi respondida por 3510 empresas.

Ao realizar uma pesquisa online, o portal de empregos Jobatus conseguiu coletar uma grande quantidade de dados de forma rápida e eficaz. A pesquisa foi realizada durante o mês de setembro e outubro de 2022.

FONTE E OUTRAS INFORMAÇÕES, ACESSE: (https://www.jobatus.com.br/).

EU ACHO …

A FRAGILIDADE NOSSA DE CADA DIA

Foi-se o tempo que falar em saúde mental era tabu. Hoje ela se tornou uma discussão que deve extrapolar o ambiente familiar e chegar às empresas.

A pauta de saúde emocional nos espaços corporativos não é nova, é um processo que vem antes da pandemia, mas que foi acelerado em decorrência dela. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já discutia saúde mental no trabalho como tema principal no Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro. Em 2022, o órgão incluiu a síndrome de burnout na lista de doenças ligadas ao trabalho.

Com o início dos casos do Covid e lockdowns, as fragilidades de muitos de nós ficaram mais expostas e as instituições ganharam a oportunidade de desmistificar o tema e estar mais próximo dos colaboradores, ajudando-os a superar este momento e oferecendo artifícios para nutrir sua segurança emocional.

O trabalho tem uma grande proporção de horas na vida das pessoas e pode ser um dos pontos de vulnerabilidade dentro de todo um contexto do dia a dia dos funcionários. Para entendê-los de uma forma mais aprofundada e auxiliá-los, é preciso estar atendo a toda jornada deles na empresa, do processo seletivo ao desligamento. Uma prática que vai além do employer branding e pode auxiliar a identificar condutas que podem ser desenvolvidas.

Um dos bons caminhos é promover segurança psicológica para que os colaboradores se sintam confortáveis em aprender, errar, contribuir e desafiar-se em busca dos maiores resultados. Os gestores podem usar comunicação empática, estimular a cooperação, abrir espaço para escuta e feedbacks.

Além de normalizar discussões sobre saúde mental e criar um ambiente de confiança, é interessante oferecer benefícios corporativos que promovam a qualidade de vida, como serviços de atendimento psicológico, e flexibilidade de horários e locais de trabalho para que as rotinas sejam adaptadas da melhor forma.

Uma pesquisa Talkspace’s Employee Stress Check, feita em abril por uma consultoria de saúde mental, apontou que 57% dos entrevistados têm mais probabilidade de permanecer em um emprego que ofereça serviços de saúde mental. Esse é um processo que pode ser feito em etapas.

Para a Stefanini, por exemplo, ele iniciou com soluções e atendimentos feitos pelos especialistas da própria multinacional. Com o tempo e análise do cenário interno, um parceiro foi trazido para dar suporte aos colaboradores – que posteriormente foi estendido para os dependentes. A partir das experiências e realidade da própria instituição, cada empresa irá construir sua trilha.

Usar rankings e projetos de outras companhias como base pode não gerar os resultados necessários por não es- tarem pautados nas vivências internas. As lideranças também têm um papel importante. Experiências positivas no trabalho podem reverberar no desempenho interno, gerar confiança e retenção de quadro.

Um bom líder precisa encontrar um equilíbrio entre hard skills e soft skills, somando a entrega de resultados com um interesse genuíno pelas pessoas para ajudá-las quando preciso. Isso manterá o time saudável e engajado com a jornada da empresa. Cabe às instituições estarem prontas para lidar com um mundo mais dinâmico, cheio de desafios e valorizarem o capital humano da melhor forma possível.

RODRIGO PÁDUA  – É VP Global de Gente e Cultura da Stefanini.

ESTAR BEM

CEIA É ARMADILHA PARA QUEM ENFRENTA PROBLEMA DIGESTIVO

Comilança de fim de ano agrava sintomas; especialistas dão dicas para evitá-los

Harrison Kefford está finalmente ansioso pelas festas de fim de ano. Depois de ter seu cólon removido em fevereiro, ele mal pode esperar para comer o pudim de sua avó e encher o prato com todas as delícias das ceias de fim de ano.

Kefford, 28, entregador de pizzas e influenciador no TikTok, mora em Melbourne, na Austrália e tem a doença de Crohn, condição que muitas vezes lhe causava fortes dores intestinais, náuseas e perda de apetite durante dias a fio. Ele é uma das mais de 6 milhões de pessoas em todo o mundo diagnosticadas com doença inflamatória intestinal (DII), que inclui doença de Crohn e colite ulcerativa.

Cerca de 11% da população global enfrenta uma condição gastrointestinal de definição mais ampla, chamada síndrome do intestino irritável (SII), que tem uma ampla gama de causas e inclui sintomas como gases, inchaço, constipação e diarreia.

SII e DII são doenças distintas com tratamentos distintos, mas os desafios diários podem ser semelhantes. Alimentos processados ou com alto teor de gordura – e, entre outras coisas, nozes, laticínios e bebidas alcoólicas frequentemente servidas nas festas – são gatilhos comuns para ambas as condições.

Antes de Kefford passar por uma colostomia, as festas eram cheias de armadilhas. Um ano, ele se lembra de ter tomado esteroides para ajudar a aliviar os sintomas antes do jantar de Natal com sua família. Tudo parecia ir bem até que acordou às 3h com dor de estômago. Ele acabou internado no hospital por sete dias.

Sneha Dave, 24, de Greenfield, nos EUA, foi diagnosticada com colite ulcerosa quando tinha seis anos e vive com uma bolsa interna que permite que as fezes passem pelo intestino delgado.

Dave, que fundou uma organização dedicada a jovens com doenças crônicas, chamada Generation Patient, está ciente de seus gatilhos culinários, mas quando ela celebra o Diwali com sua família, todo mês de outubro, ainda é tentada por alguns de seus pratos indianos favoritos, aromatizados com especiarias que agravam sua condição.

Ao aproveitar a alegria de estar com a família, uma indulgência “não parece tão séria”, afirma ela. “Até que você esteja sozinho e sofrendo as consequências dessas decisões.”

As condições gastrointestinais podem exigir atenção constante. E embora os planos de festas sejam perturbadores para a maioria – com noitadas, comida à vontade, longas viagens e convívio social intenso -, as consequências costumam ser maiores para pessoas com DII e SII.

Especialistas compartilham estratégias para ajudar a sobreviver às festas.

PREPARE-SE

Muitos pacientes com doenças crônicas apresentam piora dos sintomas durante as férias porque houve uma mudança na rotina, explica a doutora Fola May, gastroenterologista e professora assistente de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

“Novembro e dezembro são as épocas em que tendemos a nos desviar de nossos hábitos, como alimentação saudável e exercícios”, afirma ela. Mesmo viajar pode estar associado a um aumento dos sintomas.

Para começar, May recomenda que os pacientes se certifiquem de viajar com medicação suficiente e saibam como contatar seus médicos, caso seja necessário.

CRIE UM PLANO ANTIESTRESSE

Há evidências de que o estresse pode agravar os sintomas da DII e da SII, segundo May. E as férias estão cheias de fatores estressantes.

Agendar o tempo de inatividade antes e depois de festas ou viagens pode ajudar a evitar possíveis sintomas. May recomenda atividades de atenção plena, como meditação, ioga e massagem com aromaterapia.

RECRUTE AJUDANTES

Shay Habestroh, 25, criadora de conteúdo de Rochester, nos EUA, conta que experimentou surtos de DII nas festas ao tentar participar de todas as atividades familiares. Para combater isso, ela conta ao marido quando não se sente bem, e ele repassa a mensagem para a família.

“É bom porque eles ouvem isso de outra pessoa saudável, então ouvem um pouco melhor”, afirma ela.

Pedir ajuda é uma parte importante para se sentir preparado para as festas, afirma Catalina Lawsin, terapeuta de Los Angeles que dirige grupos de apoio para pessoas com DII e SII.

“Você não precisa contar tudo a eles. Só precisa ter alguém a quem possa recorrer quando precisar de espaço ou de reforço. É identificar alguém em quem você realmente pode confiar.”

ESTEJA ATENTO AOS GATILHOS

Habestroh aprendeu a evitar qualquer coisa com milho e leite, o que pode eliminar muitos pratos festivos. Seus alimentos seguros para o Dia de Ação de Graças, por exemplo, são peru simples, purê de batatas e abóbora.

Beth Morton, 43, de Vermont (EUA), administra sua SII levando seus próprios pratos para as reuniões de fim de ano. Trabalhando com nutricionistas, ela descobriu que alho e cebola são seus maiores gatilhos e aprendeu a cozinhar sem eles. “Encontrei substitutos que acho que têm o mesmo sabor”, afirma.

Estar ciente de seus gatilhos, no entanto, não significa que você sempre será capaz ou estará disposto a evitá-los. Às vezes, entrar no espírito festivo inclui comer algo que cause desconforto.

May sugere que qualquer pessoa que desvie de sua dieta normal o faça com moderação e saiba que pode resultar em alguns dias difíceis.

CRIE UM ROTEIRO DE JANTAR

Habestroh afirma que evitar certos alimentos pode deixá-la aberta a comentários não solicitados – especialmente nas festas de fim de ano, que giram em torno da comida.

“A atenção é difícil. Todo mundo quer saber de tudo, e você fica quase com vergonha de falar sobre isso.”

Criar uma resposta que você ensaia com antecedência pode aliviar o desconforto, segundo Lawsin.

Morton, que tem SII e às vezes leva suas próprias refeições para reuniões sociais, responde às perguntas dizendo: “Tenho que evitar certos alimentos para controlar os sintomas, então preparei algo diferente”.

Sua família imediata está acostumada com suas substituições, segundo ela, mas às vezes ela ouve perguntas.

SEJA GENTIL CONSIGO MESMO

Mesmo se você aderir à sua dieta e rotina, ainda poderá ter surtos durante as festas. Essa é a natureza da doença crônica. Para combater qualquer vergonha ou desapontamento, Lawsin sugere praticar empatia e bondade.

“Reconheça seu corpo como ele é. Ter compaixão antes, durante e depois é a melhor coisa que você pode fazer.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FAMÍLIA QUE COME UNIDA PERMANECE SAUDÁVEL

Refeições compartilhadas reduzem o estresse e melhoram a alimentação

As refeições em família são um hábito cada vez mais difícil de manter na vida moderna. A correria do dia a dia, o excesso de trabalho dos pais e de lição de casa ou atividades extra- curriculares dos filhos fazem com que reunir todos à mesa seja algo feito apenas em ocasiões especiais. Para piorar, até mesmo nestes casos, as pessoas raramente estão totalmente presentes. Há o celular, o tablet, a televisão, entre outras distrações tecnológicas.

Entretanto, um número crescente de estudos confirma a importância das refeições não só para crianças, mas também para os adultos.

Uma pesquisa feita pela American Heart Association (AHA) com mil adultos nos Estados Unidos revelou que fazer refeições regulares em família pode ajudar a diminuir o estresse. Para 91% dos pais, sua família fica menos estressada quando compartilha refeições. Além disso, 65% disseram estar pelo menos um pouco estressados e 27%, muito ou extremamente estressados.

O estresse constante está entre os grandes inimigos da saúde. No longo prazo, há aumento do risco de doenças cardíacas e acidente vascular cerebral.

“O estresse crônico favorece a elevação da pressão arterial, a aceleração da frequência cardíaca e o aumento dos níveis de gorduras e açúcar no sangue, contribuindo para hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. Além disso, o estresse crônico provoca a excreção de fosfato em níveis fora do padrão, o que prejudica a função renal, além de levar a fraqueza muscular e alterações na composição óssea”, diz a médica Caroline Reigada, especialista em nefrologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A AHA não detalha os mecanismos que explicam essa associação benéfica entre as refeições em família e a redução do estresse, mas estudos anteriores e especialistas afirmam que o principal “culpado” desses benefícios é o fortalecimento da conexão e dos laços familiares que esse momento propicia.

“Quando se fala em reduzir o estresse, geralmente as atividades como meditação, ioga e lazer são lembradas. Mas as refeições, desde o momento do preparo até o momento do consumo alimentar, particularmente se forem compartilhadas com pessoas com laços afetivos, como os familiares, podem reduzir o estresse. O ato de cozinhar e fazer refeições em família pode representar conforto emocional, diversão e ao mesmo tempo leva a uma dieta mais equilibrada, crucial para a saúde mental”, avalia a nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

OUTROS OLHARES

CONSTRANGIMENTOS DIÁRIOS EXPÕEM DESAFIOS DA LUTA CONTRA O RACISMO

O problema é visível nas abordagens policiais, nos comentários sobre o cabelo e cor da pele e em situações cotidianas, quando muitos são vistos de forma ainda subalterna

O que você faria se um policial, aos gritos, apontasse uma arma para você quase em frente à sua casa? Alexandre Marcondes levantou as mãos e perguntou o que acontecia. Segundo o advogado de 45 anos, o PM afirmou que ele estava “em atitude suspeita” por usar máscara contra a covid e por causa de um adolescente que andava na mesma rua do Alto da Lapa, na zona oeste. Os dois estariam planejando assaltar um casal de idosos, segundo o policial. O advogado denunciou atitude racista. A PM nega e afirma que “toda abordagem é realizada com base em critérios objetivos e legais”. Experiências como a de Alexandre ilustram o preconceito velado ou camuflado. Ele não é explícito, como chamar alguém de “macaco”, mas é comum. Está nos comentários sobre o cabelo e a cor da pele, no medo ao cruzar com um homem preto na rua ou quando uma funcionária suspeita que a cliente está furtando uma blusa, como aconteceu em uma loja Renner no Shopping Madureira, no Rio, na semana passada.

O OLHAR

Depois da abordagem, Alexandre sentiu as pernas bambas, sentou na calçada e chorou. Olhou para se certificar de que sua filha, de 6 anos, não tivesse visto a cena da sacada da casa onde moram na região nobre. O episódio, registrado pelas câmeras de TV no dia 2 de outubro, foi denunciado na Ouvidoria da Polícia Militar. A OAB-SP afirmou que enviou um ofício ao comandante-geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo e outro ao procurador-geral de Justiça.

Pesquisa qualitativa nacional realizada pelo Instituto Locomotiva no ano passado aponta que 84% das pessoas reconhecem que há racismo no País em relação aos negros, mas apenas 4% se consideram preconceituosos. “O racismo brasileiro não é o pior nem o melhor, mas ele tem suas peculiaridades, entre as quais o silêncio e o não dito, que confunde vítimas e não vítimas”, afirma o antropólogo Kabengele Munanga, da USP.

Para o casal Ana Paula Inácio Pereira e Gilmar Dias Inácio Pereira, o motivo da preocupação também é a frequência das abordagens policiais. Eles têm um Jeep Compass branco na garagem do condomínio localizado no Lausanne, zona norte da cidade. “Para a sociedade, a gente não deveria ter esse carro. Normalmente os outros carros passam e o nosso fica.” O problema não acontece só em São Paulo. A pesquisa “Elemento suspeito: racismo e abordagem policial no Rio de Janeiro”, realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania do Rio de Janeiro (Cesec), mostra que 63% das abordagens na cidade tiveram como alvo pessoas negras em 2021. As abordagens policiais ilustram o racismo velado na opinião de Rafael Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Este é um caso exemplar do racismo estrutural no Brasil.”

PATROA

A enfermeira aposentada Renilda Aparecida estava preparando o almoço quando tocou a campainha de sua casa em Tremembé, região do Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Quando chegou ao portão, a senhora de 68 anos ouviu. “A senhora pode chamar a patroa?”. Cida, como é conhecida, era a dona da casa. “Eu fechei a cara e disse ‘A patroa sou eu’. Nem perguntei o que eles queriam”, conta.

Essa “confusão” acontece também com José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares. Ele conta que dificilmente é recebido como professor nos eventos. Situação semelhante foi vivida pelo ex-ministro da Igualdade Racial, Eloi Araújo. Durante um passeio com a família em Petrópolis (RJ), ele estacionou o carro e ficou esperando o retorno da filha e da mulher. Aí, ele ouviu: “Você pode estacionar meu carro”.

Mulheres negras sofrem ainda com a objetificação do corpo, que gera violência. Destaque da escola de samba Rosas de Ouro, Alessandra Vania conta que seu cabelo virou um símbolo de afirmação. “Os olhares não me diminuem. Quanto mais eles me olham, mais minha autoestima se eleva. Mas é uma afirmação e uma luta a cada dia”, afirma ela.

COMBATE AO PRECONCEITO ENVOLVE INFÂNCIA, TRABALHO, AMIGOS E LEITURAS

Diante do racismo velado, pretos e pretas buscam estratégias pessoais de proteção, como o estagiário de TI Lucas Oliveira, de 21 anos, que não usa capuz ou touca nas compras e sempre vai direto à prateleira onde está o produto desejado. “Se eu ficar circulando pela loja, tenho certeza de que um segurança vai aparecer”, diz o morador da Penha, zona leste. Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que sete em cada dez negros já passaram pelo drama dele. Os rituais particulares protegem, mas não atacam frontalmente o problema, alertam especialistas, que destacam alguns pontos contra o racismo velado.

FILHOS

Para Michelle Levy, CEO e cofundadora da consultoria Filhos no Currículo, especializada na criação de políticas parentais, é importante criar filhos com uma visão antirracista desde cedo. “Tratar o assunto com eles, principalmente até os 6 anos”, defende Michelle. Humberto Baltar, do coletivo Pais Pretos Presentes, rede de apoio para educar pessoas pretas, frisa a relevância de criar filhos “na diversidade” e não “para a diversidade”.

ESCOLA

Então, verifique se a escola do seu filho possui temáticas étnico-raciais e de diversidade na grade escolar e na proposta pedagógica, sobretudo sobre a história e a cultura afro-brasileira e africana que não sejam apenas a escravidão. É importante também mostrar pessoas pretas em posição de protagonismo. A Lei 10.639/03, de 2003, torna obrigatório o ensino de “história e cultura afro-brasileira” nas escolas oficiais e particulares.

TRABALHO

Procure conteúdos antirracistas no trabalho. Pesquise se a empresa tem comitê de diversidade e cartilhas de inclusão. Se a posição é de direção, pense na proporção de negros e brancos entre os seus colaboradores.

AMIGOS

Converse com amigos pretos sobre as diferenças na forma com que brancos e pretos são tratados – e compartilhe experiências com os negros, defende Leizer Pereira, CEO da Empodera, que prepara as empresas para inclusão.

DENUNCIE

Denuncie se achar necessário, aconselha ainda Dennis Oliveira, da USP. Cuide do vocabulário e leia obras de autores negros, como Racismo Estrutural, de Silvio de Almeida, e Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

GESTÃO E CARREIRA

O TRABALHO REMOTO E AS NOVAS EXIGÊNCIAS DE GESTÃO

No mundo pós-pandemia, ninguém mais se surpreende quando alguém se revela como um trabalhador100% remoto – algo impensável há três anos.

Lembro-me de assistir uma live com presidentes de bancos, no início do isolamento social, em 2020, e um deles contou em detalhes o imenso desafio de colocar cerca de 100 mil colaboradores para trabalhar de casa. Segundo ele, isso nunca havia sido cogitado nem de longe. Passada a crise sanitária, o cenário é outro.

Principalmente porque, ao longo de dois anos, as empresas investiram maciçamente em tecnologias que facilitaram a comunicação no trabalho remoto. Um levantamento realizado pela FGV/EAESP, chamado de Pesquisa Anual sobre o Mercado Brasileiro de TI e Uso nas Empresas, revelou que durante a pandemia houve um avanço notável no uso de dispositivos digitais, no Brasil.

Computadores, notebooks, tablets e smartphones somados já superam a marca de 447 milhões de unidades – mais de dois por habitante. A pesquisa também aborda a participação no mercado dos fabricantes de 26 categorias de software. A Microsoft dominou várias categorias no usuário final, algumas com mais de 90% do uso. Já os sistemas integrados de gestão (ERP) da TOTVS e da SAP têm 33% do mercado cada, Oracle 11% e outros 23%.

Isso mostra o empenho das companhias em contar com ferramentas capazes de integrar o físico ao virtual, transformando-se digitalmente. Por um lado isso foi bom, uma vez que as inovações durante a pandemia encurtaram distâncias e viabilizaram trabalhos que antes acreditava-se só serem possíveis presencialmente.

Mas por outro, passada a pandemia, vemos que ainda temos muito o que aprender sobre gestão. Isso porque os desafios são muitos: lidar com a produtividade das equipes, manter o foco do time e garantir a qualidade das entregas estão entre elas. Um levantamento realizado pela Runrun. It com objetivo de mapear esses desafios mostrou que apenas 36% dos gestores respondentes disseram atuar em empresas com uma política voltada para o trabalho remoto, ou seja, 64% não tinha um planejamento para este modelo.

Apenas 56% dos gestores afirmaram que se sentiam preparados para o trabalho remoto, e 55% disseram que suas empresas estavam minimamente preparadas para a operação a distância. Para 47% dos gestores entrevistados, o principal desafio tem sido monitorar a produtividade do time. Em seguida, manter o foco e o ânimo do time e, em terceiro, monitorar as tarefas que estão sendo realizadas pelos colaboradores.

Quatro em cada dez entrevistados apontaram que identificar as dificuldades de cada pessoa do time a distância tem sido um desafio, e 37% disseram que identificar e resolver problemas de infraestrutura, como qualidade da internet e adequação mínima das estações de trabalho.

Tudo isso mostra o quanto tem sido difícil estar à frente das equipes em tempos de trabalho híbrido. Em tempos de transformação digital, depois de tantos investimentos, as cobranças se mantêm em alto nível, mas a falta de habilidade e também de capacitação estão tirando o sono dos gestores.

Embora o trabalho remoto seja positivo para manter o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e consequentemente traga benefícios imensuráveis para o colaborador, o modelo precisa ser muito nem pensado para que haja um equilíbrio também nos resultados gerados. Na minha opinião, para lidar com todos esses desafios, é necessário rever processos, atualizar práticas e adotar novas ferramentas de trabalho que ajudem a minimizar as dores tanto para os gestores quanto para o resto do time. Já investimos o suficiente em comunicação, agora, é hora de investir em conhecimentos que nos permitam guiar da melhor maneira esse barco.

O trabalho remoto é uma tendência que deve se consolidar, mas como tudo que se inicia, ainda estamos na fase dos aprendizados. Ainda vamos chegar lá.

MARCO POLI – É CIO (Chief Innovation Officer) da Closedgap

https://closedgap.com.

EU ACHO …

CHEIRO DE VIDA

Foi de repente. Fui tomar um café e ele não estava mais ali. Porque café sem cheiro de e gosto de café não é café. E assim sigo há duas semanas sem sentir cheiros nem gostos, reflexo de efeitos colaterais da covid. Uma vida sem cheiros e sem gostos tem sido, então, uma meia vida. O cheiro do sabonete que confortava o corpo e a alma no banho no final do dia agora dá lugar a um objeto inanimado em minhas mãos que praticam um ato higiênico racional sem nenhuma relação com o ritual que nele depositei minhas expectativas e fui atendida por uma vida. O banho que relaxa e que limpa descobri só agora que tem relação com os cheiros e essa constatação desencadeou dezenas de outras, um efeito cascata de consciência sobre os sentidos tão usados diariamente com quase nenhum louvor.

A pipoca coberta de chocolate da premiada Chocolat du Jour, uma iguaria reservada em casa para momentos especiais e aberta no primeiro jogo do Brasil na Copa, foi a prova final de que sem paladar e aroma o ato de comer seria de pura sobrevivência. Olhando o copo meio cheio, pensei que poderia talvez nesse momento perder os quilos extras acumulados nos últimos dois anos. A positividade, no entanto, deu lugar à falta que cada prazer ocupava no meu dia a dia. No encontro com o filho, a falta da delícia de encostar os lábios na cabeça e sentir o delicado perfume da mistura de shampoo com o cheiro dele. Vi-me sentindo falta do cheiro da minha mãe, do cheiro das árvores de uma determinada rua no caminho de casa, do esmalte importando que semanalmente me lembrava minha avó, do lençol da cama. A noite deitada ao lado do Fernando, de olhos fechados, me senti distante, precisando tocá-lo para saber que ele estava ali ao lado, quando antes respirar levemente era suficiente para notar sua presença. Meu médico diz que vai passar, li casos na internet de quem ainda sofre esses efeitos. Entre apavorada por imaginar minha vida pela metade e grata por ter a oportunidade de valorizar algo que me parecia uma obrigação nata dos sentidos, sigo esperando a manhã do meu reencontro matinal com o melhor café do mundo, aquele que me acordava com seu aroma forte por mais um dia.

ALICE FERRAZ  – é especialista em marketing de influência e escritora, autora de ‘Moda à Brasileira’

alice@fhits.com.br

ESTAR BEM

CONSUMO DE NOZES REDUZ RISCO CARDIOVASCULAR

Ingestão diária de 3 unidades do fruto é o suficiente para diminuir a mortalidade em 9% e o desenvolvimento de doenças cardíacas em 25%. A oleaginosa é rica em substâncias antioxidantes, que previnem o envelhecimento

As nozes são famosas em dietas prescritas por nutricionistas por conta de seus benefícios para a saúde. Além de promover saciedade, deve-se levar em consideração que são fáceis de conservar e transportar para qualquer lugar. Um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e publicado na revista Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases descobriu que ela é capaz de reduzir o risco de doenças cardiovasculares em 25%.

Pesquisas realizadas com 3 mil pessoas ao longo de 20 anos – nas quais foram revistos o histórico alimentar e o quadro clínico de cada uma delas com o objetivo de investigar o desenvolvimento de possíveis fatores de risco para doenças cardíacas ao longo do tempo – revelaram que as nozes são a estrela da família dos frutos secos, pois as suas propriedades são aliadas do coração, protegendo e ajudando a prevenir lesões ou patologias. Paralelamente, descobriu-se que forneciam uma parcela de energia, que impedem o ganho de peso, que colaboram na redução dos níveis de açúcar e LDL, ou seja, do colesterol considerado “ruim”.

“É um alimento que se destaca pelo tipo de gorduras que fornece, principalmente saudáveis e por fornecer Ômega 3, essencial para tudo relacionado à prevenção cardiovascular e inflamação no organismo”, afirma Mariana Patrón Farias, nutricionista e diretora da Nutrim, uma consultoria argentina especializada em alimentação saudável.

Já para Silvina Tasat, graduada em nutrição e membro titular da Associação Argentina de Nutrição, a noz está repleta de componentes benéficos para a saúde.

“Por ter uma alta proporção de gorduras poli-insaturadas, é um alimento altamente calórico”, explica Tasat.

Assim, a especialista sugere que o ideal é que o seu consumo se faça no contexto de uma alimentação saudável, adaptando as porções de acordo com o seu objetivo.

Estima-se que a noz tenha surgido no continente asiático onde tinha grande preponderância. Com o tempo, seu cultivo se espalhou por outras zonas úmidas da Europa e da América, e seu sucesso foi tanto que, segundo mitos, durante a época romana, era considerada um símbolo da união matrimonial. Atualmente, registra uma produção mundial anual de aproximadamente 1,2 toneladas, sendo a China seu principal produtor.

COMO CONSUMIR

De acordo com a Mayo Clinic, as nozes são compostas por entre 50% e 70% de gorduras saudáveis e 100 gramas têm uma densidade energética de 160 a 180 calorias. Mas isso não é tudo. Tasat comenta que elas também contêm proteínas vegetais, gorduras poli-insaturadas de alta qualidade, especialmente ômega 3, fibras naturais, vitaminas do grupo B1 e B6, “que são benéficas para a função muscular e tudo o que tem a ver com as conexões nervosas para o desenvolvimento adequado do cérebro e vitamina E, um antioxidante natural que previne o envelhecimento celular”.

Por sua vez, esta lista é completada por minerais como: o potássio, fundamental para tudo o que tem a ver com os impulsos nervosos e o desenvolvimento muscular; o zinco, que protege o sistema nervoso; e o magnésio, que reforça os processos enzimáticos.

Por todos esses benefícios, Patrón Farias, diz que se seu consumo for diário – pelo menos 14 gramas, o equivalente a três ou quatro nozes – o alimento reduz a mortalidade em homens e mulheres em  9%, e se seu consumo for aproximadamente cinco vezes por semana, reduz o risco de doenças cardiovasculares em 25%. Segundo Tasat, o ideal é comê-los sozinhos ou combinados com algum outro alimento, como uma salada. E sobre a crença que diz que é preciso hidratar as nozes para potencializar seus benefícios, a nutricionista esclarece que não é necessário. Por sua vez, alerta para os riscos da geração de possíveis alergias que este produto pode desencadear.

Por conter ômega 3, sendo este nutriente um antioxidante, ao entrar em contato com luz artificial ou rajadas de ar, as nozes correm o risco de oxidar. Por isso, devem ser protegidas e armazenadas em local fechado e escuro, aconselha Patrón Farias.

COMPONENTES E BENEFÍCIOS

ÔMEGA 3: protege o sistema cardiovascular.

FIBRAS NATURAIS: colaboram na eficiência do sistema digestivo.

VITAMINAS B1, B6 E E: melhoram a função muscular e tudo o que tema ver com as conexões nervosas para o bom desenvolvimento do cérebro, também atuam como antioxidante natural, que previne o envelhecimento celular.

MINERAIS (ZINCO, POTÁSSIO E MAGNÉSIO): favorecem o desenvolvimento muscular, protegem o sistema nervoso e potencializam os processos enzimáticos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO DE IDOSO É DESAFIO CRESCENTE NO ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO

Transtorno mental que mais acomete pessoas com idade acima de 60 anos exige medicina especializada; IBGE estima que o número de idosos do País vai triplicar até 2050

A população brasileira está cada vez mais idosa – e é necessário olhar para a saúde mental dela. A depressão é o transtorno mental que mais acomete as pessoas com idade acima dos 60 anos – e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que a população idosa vai triplicar no Brasil até 2050.

Antes da pandemia, isso já era um problema. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 (IBGE), brasileiros entre 60 e 64 anos tinham o maior índice de depressão – 13% dessa população apresentou diagnóstico da doença. Dois anos após o início da pandemia, que impôs um período longo de isolamento, seus efeitos ainda são sentidos e trazem consequências.

“Quem estava na corda bamba, com a pandemia, caiu. Ou seja, quem já apresentava sintomas depressivos e cognitivos, ao se isolar e deixar de fazer atividades, aí que ficou deprimido mesmo. As crianças e os adolescentes sofreram o impacto, mas para os idosos foi muito devastador”, afirma a psicóloga e doutora em gerontologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Denise Ribeiro Stort.

Foi o que aconteceu com Rosa Maria do Prado Oliveira, de 67 anos, que já estava passando por um momento difícil em 2019, e na pandemia desabou. Há mais de três anos, Rosa lida com a doença de seu marido, Marcelino do Prado Oliveira, de 57 anos, que vive com as sequelas de um aneurisma que o deixou tetraplégico em 2019. Ele passou sete meses internado e dona Rosa o acompanhou todos os dias durante esse período. “Ele chegou ao hospital falando e andando normalmente, mas saiu de lá sem poder falar, sem conseguir comer, sem caminhar. Foi muito difícil”, lamenta a psicóloga, que vive em São Paulo com o marido e a filha de 25 anos.

Depois disso, suas vidas tive ram de ser adaptadas – ela passou a ser cuidadora do marido, contando com uma equipe de profissionais da saúde em casa para auxiliar diariamente na recuperação de Marcelino. Quando começou a pandemia, poucos meses depois, foi tudo mais complicado, por conta do isolamento social e do medo do vírus que estava circulando amplamente. Além disso, ela e a filha tiveram de abraçar algumas tarefas que antes eram realizadas pela equipe de profissionais, porque seria arriscado trazer outras pessoas para dentro de casa. “A minha carga de trabalho já era alta, mas durante a pandemia aumentou assustadoramente. Passei dois anos sem sair para nada.”

AJUDA

No final de 2020, veio o diagnóstico. Depois de meses com sintomas da depressão, Rosa decidiu buscar ajuda, após insistência de amigas e da filha. “Eu perdi completamente a paz. Estava triste e estressada. Eu não dormia e não tinha vontade de fazer nada, só sentia um cansaço extremo. Teve dias que eu não queria mais viver, foi muito pesado”, conta.

Com o tratamento, aos poucos, ela foi melhorando. Passou a se consultar com uma psiquiatra e a tomar medicamentos para a depressão. O apoio da médica foi muito importante para Rosa. “O fato de você saber que tem para quem ligar já ajuda. Ela me deu a acolhida que eu precisava, isso me fez muito bem.”

Os cursos online também ajudaram. Rosa começou a assistir aulas pelo computador, de temas relacionados à psicologia, sua área de atuação, além de fazer aulas de canto por vídeo. Até hoje a psicóloga tem receio de pegar covid, mas não deixa de sair, para ter respiros em meio à rotina cansativa e encontrar os amigos.

Segundo o geriatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Marco Túlio Gualberto Cintra, a socialização é muito importante para evitar o envelhecimento precoce.

“Há muitas pessoas idosas que estavam bem em 2019, e agora, em 2022, tiveram um agravamento na saúde. Observamos um declínio da cognição, aumentaram os problemas motores, os transtornos de humor. Era uma urgência sanitária, não havia opção a não ser o isolamento, mas o preço sendo pago não é pequeno. O cérebro precisa de estímulos, se a pessoa fica dentro de casa o envelhecimento acelera.”

DIAGNÓSTICO

No caso dos idosos, a falta de socialização e de contato com pessoas próximas pode também dificultar o diagnóstico de transtornos físicos e mentais. Muitas pessoas têm resistência em buscar ajuda, como no caso de Rosa.

“O idoso vai entrando em um sofrimento mais solitário, pelo perfil social do envelhecimento, ou seja, a diminuição dos laços afetivos e de atividades cotidianas que preenchem os espaços. A partir desse momento da vida a pessoa vai se fechando, o que traz mais dificuldade para outros terem a percepção de que a pessoa não está bem”, argumenta a psiquiatra Ana Paula W. Lange, que atua como diretora técnica no Hospital Francisca Júlia, instituição do Centro de Valorização da Vida (CVV).

Muitas vezes, o idoso tem receio de incomodar a família, mesmo quando há suporte, explica a médica. Assim, ocorre frequentemente o diagnóstico tardio, com as doenças já em um estado mais avançado. Quando se trata de problemas de saúde mental, isso pode ter consequências graves, porque a depressão pode evoluir e gerar transtornos cognitivos, por exemplo.

“A depressão, quando não é cuidada, pode levar ao Alzheimer. O risco de os transtornos virem de uma forma mais acentuada nos idosos é grande”, complementa a psicóloga Denise, que estuda sobre saúde mental e qualidade de vida na terceira idade. De acordo com a pesquisa Vigitel de 2021, do Ministério da Saúde, 12,8% dos adultos acima dos 65 anos referiram diagnóstico de depressão. Outras doenças e morbidades comuns nessa faixa etária também podem ser fator de risco para a depressão, como a dor crônica.

OUTROS OLHARES

SEXO, MENTIRAS E EXTORSÕES

No ‘golpe dos nudes’, fotos eram usadas para chantagem

Há cerca de um ano, um homem entrou desesperado na 16ª Delegacia Policial, em Planaltina, no Distrito Federal. Ele implorava para que não fosse preso injustamente e alegava que não tinha mais dinheiro, porque já havia depositado R$ 1 milhão –  quantia acumulada durante toda a vida – na conta de policiais de outros estados, que exigiam mais para não prendê-lo por pedofilia.

O morador de Planaltina foi a primeira vítima de uma quadrilha que se especializou em aplicar o chamado “golpe dos nudes”, em que homens que recebiam fotos em trocas de mensagem por redes sociais eram depois chantageados e extorquidos, com medo de serem denunciados às autoridades por falsas acusações. Uma ação fruto deste primeiro inquérito com policiais do Distrito Federal, de Goiás e do Rio Grande do Sul prendeu ontem três homens e uma mulher suspeitos de fazer parte do grupo.

Na Operação Falso Nude, foram apreendidos carros, inclusive um Chevrolet Camaro avaliado em pelo menos R$ 200 mil, e bloqueados mais de R$ 1 milhão. De acordo com a polícia, a quadrilha movimentou mais de R$ 5 milhões em apenas três meses, fazendo vítimas em todo o país.

Os investigadores ainda procuram por outros três integrantes, que atuam como laranjas. Os presos foram indiciados por 19 extorsões, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

No golpe, uma mulher, por um perfil falso, procurava a vítima nas redes sociais e a convidava para trocar mensagens. Na conversa, ele recebia uma foto nua do falso perfil. Logo em seguida, um outro falso perfil entrava em contato com a vítima. Ele dizia ser pai de uma adolescente de 13 anos que havia mandado a foto.

FALSO PAI, FALSA FILHA

O falso pai passava a exigir dinheiro para não levar o caso à polícia. A extorsão prosseguia de outras formas. Os golpistas exigiam o pagamento de um tratamento psiquiátrico para a adolescente que não existia. Depois, diziam que ela havia cometido suicídio, apresentando uma certidão de óbito falsa, e pediam para o homem pagar o sepultamento. A chantagem continuava com mais cobranças para um acordo por danos morais e materiais. Depois, ganhava um novo cenário: integrantes do grupo fingiam estar em uma delegacia e ameaçavam prender a vítima por pedofilia, se ela não fizesse novos pagamentos.

A quadrilha ainda usava um falso delegado para entrar em contato com as vítimas, exigindo novas quantias. Foi quando o golpe chegou a essa etapa que o morador de Planaltina procurou a Polícia Civil real e a investigação começou.

“O golpista falava que conhecia policiais. Posteriormente, ligavam falsos policiais, que mostravam armas, simulavam uma falsa unidade de polícia, mostravam símbolos da polícia, e exigiam grandes quantias para que a vítima não fosse presa”,  conta o delegado Diogo Cavalcante, da 16ª DP. “Eles simulavam até mandados de prisão com dados da vítima e encaminhavam, para que ela se sentisse ameaçada. No Distrito Federal, quando a investigação começou, a vítima já havia feito 19 transferências.

Em um vídeo enviado a um dos extorquidos, um golpista exibiu o falso mandado de prisão por pedofilia em um cenário onde o fundo era coberto com papel de parede com a logomarca da Polícia Civil do DF. O golpista falou diante de uma mesa que também tinha a logomarca. Com sotaque gaúcho, o falso policial reclamou porque o homem, identificado como Carlos, não estaria atendendo mais às ligações.

“Eu estou te ligando e tu não tá me atendendo, tá? Eu estou com o telefone do doutor Walter, ele está internado, com Covid, no hospital, e eu estou tomando conta dos processos dele. Eu estou com um papel aqui para o senhor, uma prisão preventiva, e se o senhor me atender a gente pode conversar. Senão, eu vou ter que assinar ela aqui. Só estou esperando você me atender na (inaudível) para a gente conversar e se acertar certinho”, afirma o integrante da quadrilha.

O inquérito será compartilhado com outros estados. A tendência, diz o delegado, é que outras extorsões sejam descobertas.

“Esse grupo tinha base no Rio Grande do Sul, mas atuava fazendo vítimas por todo país. As provas serão compartilhadas com outras polícias judiciárias para que os criminosos possam responder por todos os crimes, afirmou Cavalcante.

GESTÃO E CARREIRA

CHANCES PARA INICIANTES E PESSOAS EXPERIENTES  

Como jovem aprendiz ou geração acima de 50 pode conquistar uma vaga

Que tal começar 2023 com o pé direito em relação ao trabalho? Empresas dos mais diversos segmentos oferecem oportunidades para quem está no início da carreira ou para quem já faz parte da chamada geração prateada: profissionais que já passaram dos 50 anos. Mesmo que não haja vagas de imediato, todas elas oferecem a possibilidade de os interessados se cadastrarem em bancos de talentos. Para ajudar os interessados no primeiro emprego ou no retorno ao mercado, explicamos abaixo como se inscrever em grandes companhias.

O programa de jovem aprendiz funciona assim: todas as empresas de médio e grande portes devem, por lei, separar parte de suas vagas para pessoas em idade escolar (no mínimo, 5% das vagas; no máximo, 15%). O contrato tem duração máxima de dois anos. Ao fim do período, o jovem pode ser contratado por prazo indeterminado.

A legislação determina que esses jovens devem ter sua carga de trabalho reduzida e receber benefícios como outros trabalhadores. As exigências são: não ter registro atual em carteira de trabalho, ter disponibilidade de horário para trabalhar até seis horas por dia e estar devidamente matriculado na educação básica. Algumas empresas recebem candidatos que já concluíram o ensino médio. Esse jovem devem ter ainda de 14 a 24 anos. Se for uma pessoa com deficiência, a idade máxima não se limita a 24 anos.

Cada empresa tem uma forma diferente de recrutar esses jovens. Para fazer a inscrição no Bradesco, por exemplo, é preciso acessar o site do banco no link encurtado https:// bit.ly/3VtxqHN, escolher a vaga que faça parte do programa e, depois, cadastrar o currículo. Não importa se há poucas informações sobre o candidato, já que é sabido que ele não tem experiência.

“Essa vaga de jovem aprendiz é para isso mesmo: aprender. Depois de se inscrever, basta aguardar um contato do responsável pelo recrutamento, que vai marcar uma entrevista para conhecer o candidato melhor”, explica Sabrina Salles, consultora de Recursos Humanos.

VEJA QUEM CONTRATA E SAIBA COMO SE APRESENTAR AO EMPREGADOR

DHL EXPRESS

A empresa contrata jovens aprendizes. A seleção é feita por meio de um banco de currículos mantido pela Espro. Basta acessar https://www.espro.org.br/.

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

A instituição financeira contrata jovens aprendizes. Os candidatos podem se inscrever por meio do endereço eletrônico https://bit.ly/3FlIvoB.

VALE

A mineradora tem 700 vagas para jovens aprendizes abertas no momento. As inscrições podem ser feitas em https://vale.com/pt/jovem-aprendiz.    

BRADESCO

O banco mantém um cadastro aberto para o caso de surgirem oportunidades para jovens aprendizes.

Confira no endereço https://bit.ly/3VtxqHN

NORSUL

A empresa tem vagas para jovens aprendizes. Para se candidatar no Rio, é preciso se inscrever no Camp Mangueira (Rua Santos Mello 73, São Francisco Xavier).

ITAÚ UNIBANCO

O banco tem oportunidades para jovem aprendiz ao longo do ano. As inscrições podem ser feitas na página  https://carreiras.itau.com.br/programas.     

AMERICANAS

A empresa tem oportunidades abertas para jovens aprendizes. As vagas são para atuar nas mais de 1.800 lojas em todo o Brasil. O candidato precisa ter idade a partir de 14 anos, estar matriculado e frequentar a escola, caso ainda não tenha concluído o ensino médio,  e ter disponibilidade para trabalhar quatro horas   por dia. Inscrições em https://bit.ly/3VqzfVP

CENTRO DE INTEGRAÇÃO EMPRESA-ESCOLA

Para os iniciantes, além de procurar uma grande empresa, é possível se inscrever no CIEE, que tem 914 chances para jovens. Basta acessar o site www.ciee.org.br.

FUNDAÇÃO MUDES

Outra possibilidade de conquistar uma vaga de jovem aprendiz é se inscrever na Fundação Mudes. O site é https://mudes.org.br/.

NESTLÉ

A Nestlé mantém um banco de talentos para profissionais com mais de 50 anos de idade. Para saber mais, basta acessar o site https://bit.ly/3FnFNzh.  

A empresa também oferece oportunidades para jovens aprendizes. Neste caso, o cadastro podem ser feito em https://bit.ly/3VHHPA1.

VIVO

A operadora oferece vagas exclusivas do programa de diversidade, que inclui oportunidades para 50+ e jovem aprendiz com alguma deficiência. Neste caso, é preciso se cadastrar em https://vivodiversidade. gupy.io/. Para vagas de jovem aprendiz (ampla concorrência), o site é https://vivo.gupy.io/.

TIM

A empresa tem programas para ambos os públicos (jovens aprendizes e profissionais acima de 50 anos. O caminho para se candidatar é o endereço https://bit.ly/3EZ2iJ8.

DANONE

No endereço eletrônico https://bit.ly/3B329mM, os candidatos podem verificar as vagas disponíveis para jovens aprendizes e maiores de 50 anos e se candidatar.

MRV

A construtora tem um programa chamado Corretores 60+, de incentivo à contratação de corretores de imóveis autônomos acima dessa faixa etária.

Basta se cadastrar em mrv.com.br/quero-vender.  

BMG

O banco contrata pessoas com mais de 50 anos para as centrais de atendimento on-line. O link para informações e inscrições é https://bmg.gupy.io/.

AVANADE

A empresa contrata profissionais com mais   de 50 anos. Todas as vagas oferecidas pela companhia podem ser conferidas no link https://www.avanade.com/pt-br/career.

COMO OS JOVENS DEVEM PREENCHER UM CURRÍCULO

O foco inicial quando não se tem experiência de trabalho é mostrar no currículo suas áreas de conhecimento e seus interesses, diz Sabrina Salles, consultora de Recursos Humanos.

Isso é feito de maneira simples. Inicialmente, deve-se citar as informações pessoais (nome completo, estado civil, telefone e e-mail para contato, idade e CEP). Posteriormente, escreva um pouco sobre o que espera do mercado de trabalho.

Logo abaixo de suas qualificações, mencione cursos extracurriculares, podendo citar alguma língua estrangeira que esteja aprendendo ou já conheça, assim como conhecimento de Pacote Office e outras ferramentas. Ensinos técnicos, por exemplo, são bem vistos. Podem ser de curta duração, workshops, oficinas e até cursos on-line. É importante mencionar o nome da instituição, o mês, o ano de início e de término e a carga horária. Seja claro e objetivo na descrição.

COMO AS PESSOAS MAIS EXPERIENTES DEVEM SE APRESENTAR

O currículo deve ser objetivo e verdadeiro. Pode ter uma página. Mas se você é um profissional que passou por várias empresas, elabore no máximo três páginas. Não é preciso fazer carta de apresentação de próprio punho nem colocar capa no currículo. Segundo especialistas, este deve conter dados pessoais básicos (nome completo, estado civil, e-mail e telefone de contato); objetivo profissional e informações sucintas sobre trabalhos anteriores (atividades mais recentes devem aparecer primeiro). Pode-se citar conhecimento de outros idiomas (com nível de proficiência), além de breve trajetória escolar e cursos complementares. É possível ainda destacar habilidades pessoais (boa comunicação, engajamento, foco, facilidade de adaptação e competências trabalhadas em cargos voluntários).

Reative também sua rede de relacionamentos profissionais. Essas pessoas podem ser fontes de informação a seu respeito.

EU ACHO …

NÃO SOMOS PESSOAS QUE MENSTRUAM

Me perturba o fato de sermos restringidas às nossas funções biológicas

Recentemente tenho visto publicações e posts em redes sociais que utilizam a expressão “pessoas que menstruam” para se referir a mulheres e homens trans. Também já vi coisas como “pessoa gestante”, “pessoas com mamas” com o mesmo objetivo. Confesso que me senti profundamente incomodada, tanto como mulher quanto como teórica feminista. Como mulher, me perturba o fato de sermos restringidas às nossas funções biológicas, como se não fôssemos seres humanos completos, seres sociais e sujeitos políticos.

Uma mulher não é uma pessoa que gesta, até porque existem mulheres que não podem ou não querem engravidar. Nesse caso, como vamos nos referir a elas? “Pessoas que não gestam?” Mulheres que precisaram retirar as mamas por motivo de doença ou qualquer outro serão chamadas de que forma? Isso remete ao sexismo biológico tão bem explicado por Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”. É interessante que a categoria homem segue intocável – não há publicações se referindo a eles como “pessoas que ejaculam”, por exemplo.

Como feminista negra, vejo essas atitudes como um retrocesso. Historicamente, as feministas negras refutam a universalidade da categoria mulher trazendo a reflexão da necessidade de nomear as diferentes possibilidades de ser mulher. Mulheres negras, por exemplo, interseccionam as opressões de sexo, classe e raça, sendo necessário nomear essa realidade para que seja possível compreendê-la e, a partir daí, pensar em saídas emancipatórias. Como afirma a teórica Kimberlé Crenshaw, pensar as avenidas das identidades e nomeá-las.

Eu sistematizei o conceito de lugar de fala em um livro, o qual trata justamente de pensar “locussocial”, de entender como os diferentes grupos estão posicionados dentro da matriz de dominação. O lugar social deter- mina as condições de determinados grupos e nos faz compreender quais são as experiências que esses grupos compartilham por partir desse lugar social. Por exemplo, para se compreender qual é a realidade das mulheres negras como grupo, é necessário entender quais são as experiências que essas mulheres compartilham. No Brasil, compartilham alta taxa de feminicídio, grande parte do trabalho doméstico e funções precarizadas, falta de acesso à moradia digna, entre outras.

Sem esses dados não se geram demandas por políticas públicas. Justamente por isso, o feminismo negro foi e é tão importante ao pensar a interseccionalidade como ferramenta analítica. Se essa realidade é apagada com a afirmação de que somos todas mulheres, negando as opressões de raça e classe, ou de que somos “pessoas que menstruam”, o grupo social mulher negra não se torna visível como sujeito de direitos.

Sojourner Truth, importante ativista abolicionista, em 1841, em Ohio, na Conferência dos Direitos das Mulheres, fez um discurso histórico chamado “E Eu Não Sou uma Mulher?”, enfatizando a necessidade de se pensar nas mulheres negras como categoria e refutar uma ideia universal de mulher.

Truth fala da realidade dela como mulher negra confrontada com a realidade apresentada sobre as mulheres brancas e termina perguntando “e eu não sou uma mulher?”, mostrando o quanto a realidade das mulheres negras nem sequer era mencionada. A feminista negra bell hooks nomeou com esse discurso seu primeiro livro publicado em 1981. Audre Lorde, Grada Kilomba, Patricia Hill Collins – e no Brasil, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro – são alguns nomes que vêm há tempos refletindo criticamente e produzindo obras sobre a importância de se refutar essa tentação de universalidade que apaga diferentes formas de ser mulher.

Sendo assim, o termo “pessoas que menstruam”, mesmo com a pretensa ideia de querer incluir, apaga a realidade concreta das mulheres, pois se está criando uma nova categoria universal que não nomeia a materialidade delas. Essa realidade ficará implícita dentro dessa nova norma que se pretende hegemônica, assim como apaga a realidade de homens trans. Homens trans não são pessoas que gestam e menstruam, são sujeitos políticos.

Trata-se de um backlash e de violência porque, mais uma vez, decidem invisibilizar a realidade material de mulheres no quinto país do mundo em número de feminicídios, de alta taxa de violência física e sexual e onde a pobreza menstrual é uma realidade que as atinge majoritariamente. Não faz o menor sentido ter medo de usar a categoria mulher ou de mantê-la implícita. É necessário estudar as teóricas e ativistas que se dedicaram a refletir de maneira honesta sobre a condição feminina.

Sim, eu sou uma mulher.

DJAMILA RIBEIRO – É mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

ESTAR BEM

FORA DE ÉPOCA

Doenças respiratórias estão em alta entre crianças; veja como agir

Em meio à alta fora de época de infecções respiratórias em crianças, muitos pais compartilham dúvidas semelhantes em relação à quando é preciso levar o filho à emergência e como cuidar do pequeno em casa. Especialistas ouvidos esclarecem que a maioria dos quadros costuma ser leve e se resolver apenas com estratégias como repouso e hidratação, porém destacam que o crescimento de internações e a nova onda do coronavírus demandam atenção redobrada.

Segundo informações do sistema InfoGripe da Fiocruz, até novembro o Brasil registrou cerca de 92 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em crianças de O a 11 anos, um aumento de 31,7% em relação ao mesmo período de 2021, quando esse total era de aproximadamente 70 mil – tendência que vai na contramão de faixas etárias mais elevadas, que vivem queda em comparação ao ano passado.

As SRAGs são síndromes respiratórias associadas a uma série de vírus, conto o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), que causa bronquiolite em crianças, o Influenza (gripe) e o novo coronavírus (Covld-19). A subida simultânea dos três patógenos tem sido chamada inclusive de “tripledemia”, e foi motivo de um alerta recente da Organização Pan-Americana de Saúde.

Isso porque, embora o pais esteja caminhando para o verão, temporada que não costumava ser favorável para disseminação de vírus respiratórios, especialistas têm relatado um aumento de casos nos consultórios e hospitais, movimento semelhante ao registrado ano passado e apontado também pelo InfoGripe.

“Esse ano foi totalmente extraordinário. Houve um embaralhamento da sazonalidade desses vírus que normalmente acontecem no primeiro semestre. Teve uma melhora no início da primavera, mas agora piorou de novo. Estamos vendo a Covid voltar mas também o VSR e Influenza, surtos totalmente atípicos. Então é muito importante estarmos em alerta para as complicações”, afirma o pediatra e médico sanitarista do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniel Becker.

Essa incidência de SRAG nas crianças é significativamente maior entre as de 0 a 4 anos, que representam 81,5% de todos os casos até 11 anos. Um dos receios dos especialistas é justamente pela vacina para Covid-19 estar elegível nesta faixa etária apenas para aqueles com comorbidades. Eles reforçam a importância dos imunizantes para prevenir esses agravamentos.

“Nós temos vacinas para a gripe e a Covid-19. Embora estejamos extremamente atrasados em relação à Covid, é preciso cobrar que a vacinação avance o quanto antes para todos os grupos. E quem não tomou a vacina da gripe, precisa tomar o quanto antes também. Com ou sem surtos, é preciso sempre estar em dia com a vacinação”, orienta o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Os especialistas avaliam que este crescimento das SRAGs exclusivo em crianças acontece porque pessoas mais velhas não sofrem um impacto tão significativo pelo VSR mas principalmente por já estarem vacinados há cerca de um ano para a Covld-19, principal infecção respiratória no país hoje.

Especialistas explicam como lidar com as infecções respiratórias nas crianças:

EMERGÊNCIA

O pediatra e infectologista do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, Daniel Jarovsky, assessor médico de imunizações do Grupo Fleury, explica que os sintomas para todos os vírus são semelhantes, envolvendo tosse, nariz escorrendo, espirro e febre. Ele diz que, no geral, os casos podem ser tratados em casa, mas a duração da febre eas queixas respiratórias devem ser sinais de alerta.

“É sempre importante compartilhar o quadro com o pediatra. Quando a febre extrapola três dias, especialmente se ela não cessa.. não tem uma indicação de diminuição ou de um aumento do intervalo entre os episódios, é o momento de procurar o médico ou a emergência. Qualquer sinal de desconforto respiratório, como dificuldade em respirar, ou se a criança ficar prostrada na ausência da febre, também é o caso de procurar o atendimento“, orienta.

Daniel Becker reforça ainda que, para as crianças com doenças crônicas ou quadros de imunossupressão, a atenção tem que ser redobrada e essa procura pode ser ainda nos primeiros dias de febre. Ele explica que o agravamento das infecções é causado por complicações da infecção viral, e que mesmo se o pequeno apresentar uma melhora é importante monitorar os dias seguintes.

“Pode acontecer de a criança melhorar e dois dias depois a febre voltar alta, ela ficar mais abatida, e o catarro ficar mais espesso. Esse pode ser um caso de otite ou sinusite, que são complicações bacterianas das infecções virais e devem ser acompanhadas pelo médico”, afirma o pediatra.

EM CASA

Independentemente do vírus, as infecções são tratadas da mesma forma e, na maioria dos casos. se resolvem em casa apenas com alguns cuidados a mais. O primeiro deles é garantir a hidratação da criança, lembrando que é papel dos responsáveis oferecer regularmente líquidos.

“A criança precisa estar muito bem hidratada. Os pais esquecem que criança não pede água, quando pede já está desidratada. Então tem que oferecer água, de meia em meia hora. Isso vai melhorar a capacidade dela de combater o vírus e ajudar a dissolver o catarro, que quando acumulado é o que causa as complicações”, orienta Becker.

Os pediatras afirmam que outras estratégias para dissolver o catarro e liberar as vias respiratórias também são muito importantes. É o caso da lavagem nasal, que deve ser feita com soro fisiológico morno com seringas, garrafinhas de alto volume ou outros itens destinados ao procedimento.

Além disso, a nebulização e a vaporização também ajudam a diminuir a secreção das crianças. Embora a nebulização com soro fisiológico demande o aparelho especifico para isso, a vaporização pode ser feita apenas ao deixar o pequeno respirando o vapor da água quente no banheiro.

A alimentação natural, especialmente com sopas que também emitem um vapor e dissolvem o catarro, é outro ponto apontado pelos pediatras para reforçar a imunidade frente à infecção. Eles também recomendam que as janelas sejam mantidas abertas e o ambiente ventilado.

Há algumas formas de prevenir uma infecção viral em meio a uma alta. A mais importante dela, ressaltam os pediatras, é manter a vacinação para a gripe e a Covid -19 em dia. O imunizante contra o Influenza é oferecido para crianças de até 5 anos nos postos de saúde, porém com o fim da campanha nacional há unidades que estendem as doses remanescentes para faixas etárias mais elevadas. Além disso, se possível e não houver oferta na rede pública, Kfouri indica que os pais vacinem as crianças mais velhas na rede privada.

Já proteção para a Covid-19 está disponível no Brasil para todas as crianças a partir de 3 anos, e para as acima de 6 meses que tenham comorbidades.

Jarovsky destaca ainda que, em caso de a criança estar com uma infecção respiratória, é importante que os pais avisem à escola e a mantenham em casa, de modo a evitar a transmissão para os outros alunos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRIANÇAS E ADOLESCENTES PRECISAM DE TEMPO LIVRE

Estudos mostram que os jovens reclamam da agenda lotada de atividades extracurriculares; para especialistas, não brincar livremente causa impactos na saúde mental a curto e longo prazo e gera

Futebol, inglês, balé, jiu-jítsu. natação e  reforço escolar são algumas das infinitas atividades que multas crianças e adolescentes participam por escolha dos pais. A agenda cheia, somada às obrigações das escolas, acaba por limitar ou extinguir o tempo livre desses jovens, realidade que, além de violar direitos fundamentais, pode gerar problemas psicológicos e emocionais nos menores, como, irritabilidade, ansiedade, depressão e dependência familiar, apontam pesquisadores.

Na Espanha, uma pesquisa intitulada “Falam as crianças, o bem-estar subjetivo da infância em Barcelona”, coordenado pelo Instituto Infância e Adolescência da área de Direitos Sociais do Ajuntamento em Barcelona, ouviu 4 mil crianças, entre 10 e 12 anos, da cidade, e elaborou um documento que lista 11 demandas e 115 propostas de atuação importantes. As duas primeiras demandas votadas pelos participantes foram “ter mais tempo para desfrutar com a família” e “menos tempo de estudos e mais tempo livre para brincar e estar com amigos”.

Outra pesquisa desenvolvida no pais analisou crianças e adolescentes do distrito Fuencarral – EI Pardo. Idealizado pelo Grupo de Sociologia da Infância e Adolescência (GSIA), o estudo mostra que 46% das crianças entrevistadas disseram não concordar com a afirmação de que tinham tempo livre suficiente, índice que subia para 75% entre os adolescentes.

Para Beatriz Migues Pouy, da equipe do GSIA, as crianças deveriam ser questionadas sobre quantas e quais atividades gostariam de escolher, reforçando que a limitação do tempo livre também viola direitos.

“A Convenção sobre os Direitos das Crianças, criada pelas Nações Unidas, defende o direito de brincar e, portanto, de ter tempo livre. Esse tipo de comportamento também não atende aos interesses das crianças se elas não podem participar das decisões com os adultos para gerir o seu tempo pessoal ou o tempo que passam com os pais”, diz.

IMPACTO PSICOLÓGICO

O impacto da falta de tempo vai além da violação de direitos, reflete-se também a nível psicológico.

De acordo com a psicóloga Sara Tarrés, do Colégio Oficiai de Psicologia da Catalunha, brincar de forma livre, de preferência em ambiente aberto, deveria ser a principal atividade da infância porque isso “permite aprender com os erros, com as quedas, as pancadas, o grupo de amigos, rir, brigar, ir e vir, fazer e desfazer, se divertir e se entediar em letras maiúsculas”.

Porém, ao não dispor de tempo para brincar livremente e investindo-o em atividades estruturadas, organizadas, dirigidas e sempre supervisionadas por um adulto, “o desenvolvimento de certas aptidões e capacidades físicas, intelectuais e emocionais é afetado”.

Tarrés aponta duas consequências da falta de tempo na infância. A curto prazo, ela se traduz no aumento da irritabilidade por cansaço, falta de iniciativa e dificuldade para a organização do tempo de forma autônoma.

“Pouco a pouco vamos vendo como as crianças se tornam mais dependentes, inseguras, com dificuldades para saber do que gostam e quais são seus reais interesses para além do que os pais as forçam a se dedicar, porque sempre tem um adulto que as organiza, gerencia e resolve qualquer problema”, reflete a psicóloga.

A longo prazo, ela acrescenta, a ausência de tempo livre se reflete no desenvolvimento de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão:

“Nós estamos diante de crianças e adolescentes que não desenvolveram nem suas habilidades sociais nem emocionais porque tinham quem os fizesse por eles.”

O psicopedagogo italiano Francesco Tonucci explica que a falta de tempo livre das crianças se justifica pela obsessão dos pais em prepara-las para o futuro, desejando, excessivamente, que sejam as melhores, principalmente para o mercado de trabalho:

“Hoje as crianças não têm tempo livre entre a escola, os deveres – que para mim deveriam ser ilegais – e as múltiplas atividades extracurriculares escolhidas pelos pais com a obsessão de que elas devem estar preparadas para o futuro.”

Além disso, o psicopedagogo considera que a concepção errônea a respeito do tempo livre é outro fator que lota a agenda dos filhos, pois os pais têm dificuldade de enxergar esse tempo, aparentemente não produtivo, como importante para o desenvolvimento dos pequenos.

Outro aspecto diz respeito a falta de espaço em casa para as crianças, especialmente nas grandes cidades.

“Antes, quando crianças, passávamos o dia na escola imaginando o que faríamos à tarde. Agora são os pais que se perguntam o que vão fazer com os filhos à tarde”, afirma Tonucci.

SUPER FORMAÇÃO

Kepa Paul Larranaga, sociólogo da Universidade Complutense de Madri, apresenta um novo fator: a obsessão adulta pela “super formação” das crianças, realidade presente com mais intensidade nos extratos sociais mais favorecidos, onde as crianças passam mais tempo fazendo deveres e atividades fora da sala de aula.

“As atividades extracurriculares, em muitos casos, buscam preencher as lacunas da educação formal, além de canalizar os temores dos adultos de que seus filhos e filhas, não estejam adequadamente preparados para as necessidades futuras do mercado de trabalho.”

Para Larranaga, a educação não deve ser uma corrida de longa distância para ver quem está mais bem preparado para o mercado de trabalho:

“Pelo menos os meninos e as meninas não teriam que viver assim, nem seus pais passar isso para eles.”

Ele destaca a Finlândia como “um excelente exemplo de um sistema educacional bem-sucedido” que parte de um objetivo: que todas as crianças encontrem no centro educacional perto de casa o suficiente e necessário para atender às suas necessidades e às expectativas de seus pais, sem fazer atividades extracurriculares.

OUTROS OLHARES

DALTÔNICOS SOFREM PARA VER OS JOGOS NA COPA

OMS diz que 350 milhões têm o distúrbio; óculos e lentes especiais podem ajudar

Enquanto assistia à partida entre Suíça e Camarões, na primeira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, o influenciador Pedro Certezas se manifestou em suas redes sociais sobre a dificuldade que pessoas daltônicas enfrentam ao assistir aos jogos do Mundial. Ele está entre as 350 milhões de pessoas do mundo que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sofrem com o daltonismo, um distúrbio da visão que altera a percepção das cores.

Nessa partida, em especial, as cores dos uniformes dos jogadores foram um obstáculo para os daltônicos: a Suíça jogou com o uniforme vermelho e Camarões com o verde, cores que costumam ser percebidas com mais dificuldade por quem tem essa condição. Cláudia Del Claro, médica oftalmologista da Comissão de Inovação da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), explica que, nessa situação, a pessoa daltônica não consegue diferenciar de qual seleção cada jogador faz parte.

O daltonismo é uma doença relacionada com fatores hereditários. Por uma alteração genética no cromossomo X, os fotorreceptores da retina são afetados e impedem a percepção das cores por portadores da doença que, em sua maioria, são homens. Como as mulheres possuem dois cromossomos X, a mutação genética que causa o daltonismo acaba sendo compensada pelo outro cromossomo sem alteração. “É provável que a doença não se manifeste na mãe, que herdou do pai, mas ela pode transmitir aos filhos homens.”

Há diversas formas de diagnosticar o daltonismo. Algumas crianças, ainda na escola, costumam identificar que percebem as cores de forma diferente dos seus colegas. Mas há casos de pessoas que só descobrem na vida adulta.

Existe um teste bem comum que facilita a identificação da condição, chamado Teste de Ishihara. “O teste é feito com uma imagem formada de vários círculos coloridos e um número no centro”, detalha. “Quem não tem daltonismo, enxerga o número bem nítido. Quem tem, não consegue distinguir, é como se a imagem fosse tudo uma coisa só”, diz. O daltonismo pode se manifestar de três formas principais. O tipo protanopia é aquele em que a pessoa enxerga a coloração vermelha em tons de bege, marrom, verde ou cinza. “A característica desse tipo é a dificuldade em perceber o pigmento vermelho”, explica. Outra manifestação, chamada de deuteranopia, envolve a dificuldade em perceber a cor verde. “Esse indivíduo vai enxergar o verde como se fosse marrom”, observa.

Há, ainda, a tritanopia – dificuldade de perceber o azul e o amarelo. “Ela enxerga essas cores como se fosse uma coisa só, tudo em tons de rosa”, conta. Existe também uma manifestação mais rara do daltonismo, chamada de acromatopsia. A pessoa enxerga tudo em tons de preto, branco e cinza.

Cada um desses diferentes tipos pode aparecer em níveis diferentes, conforme explica a oftalmologista. “Há pessoas que possuem um nível leve de daltonismo, então ela consegue perceber a diferença entre algumas cores. Outras já têm um nível mais avançado.”

Cláudia explica que o daltonismo é uma doença que não tem cura, nem tratamento específico. Porém, existem recursos que podem melhorar a qualidade de vida de quem possui a condição, como os óculos e as lentes de contato, utilizados pelo influenciador Pedro Certezas para minimizar a dificuldade em acompanhar os jogos da Copa do Mundo. “Estou levemente emocionado. Agora dá para assistir ao jogo tranquilo”, desabafou.

Segundo a oftalmologista, as lentes desses óculos possuem coloração específica para os diferentes tipos de daltonismo, que pode ser vermelha, laranja ou amarela. É por meio dessas cores que os óculos são capazes de normalizar a visão das pessoas daltônicas.

GESTÃO E CARREIRA

PARA RETER TALENTOS, EMPRESAS CRIAM BENEFÍCIOS COMO LICENÇA-PET E PRESERVAÇÃO DE ÓVULOS

Em tempos de ‘grande renúncia’ e ‘quiet quitting’, companhias apostam em pacotes para engajar equipes

Em tempos de comportamentos como da “grande renúncia” (demissão voluntária) e do “quiet quitting” (demissão silenciosa), as empresas estão tendo de se desdobrar para engajar e reter seus talentos. Nesse contexto, uma das saídas tem sido apostar em pacotes de benefícios amplos e inusitados, que incluem desde plano de saúde para cães e gatos e licença-pet até a preservação de óvulos e descontos em lojas.

Segundo a diretora de conteúdo e relações institucionais da consultoria Great Place to Work (GPTW), Daniela Diniz, a qualidade do pacote de benefícios tem influência na permanência do funcionário. Ela ressalva que compreender as demandas de cada empregado é o que realmente faz a diferença. “Quando a empresa conhece melhor o profissional, ela consegue proporcionar aquilo que realmente vai fazê-lo feliz no trabalho.”

Uma pesquisa realizada pela GPTW, com 1.053 profissionais de diferentes áreas, mostrou que o plano de saúde ainda é o principal benefício (82,5%) das empresas, seguido por plano odontológico (72,9%), participação nos lucros (50,5%) e convênios e parcerias com academias de ginástica (44,9%). Mas outros produtos, menos tradicionais, já ganham espaço dentro das companhias, como o day off (42,6%), programas de desconto em loja (26,5%) e benefícios estéticos (10,6%).

Além disso, começam a surgir benefícios como licença-pet, “stock options” (direito de adquirir ações da empresa) e salário sob demanda, em que o funcionário recebe sua remuneração a qualquer momento, de forma proporcional. As empresas também estão de olho na saúde mental e financeira dos empregados. De acordo com a pesquisa, 32,8% das companhias têm apoio na educação e gestão financeira, com palestras, webinars e conteúdos sobre o tema.

Segundo pesquisa citada pela Quansa, empresa parceira do GPTW, 96% dos profissionais de RH acreditam que funcionários com mais dificuldades financeiras são menos produtivos. Por isso, a expectativa é de que o assunto ganhe cada vez mais relevância na agenda das corporações.

CONHECER OS FUNCIONÁRIOS.

Para criar pacotes de acordo com as necessidades, uma saída é fazer pesquisas periódicas para conhecer melhor os funcionários. A Petlove, por exemplo, empresa com cerca de 1,5 mil funcionários, observou que a maioria dos seus empregados são tutores de animais de estimação. A partir dessa análise, a empresa incluiu em seu combo de benefícios itens voltados ao universo pet, como descontos em produtos, plano de saúde para cães e gatos e uma licença remunerada de dois dias para quem adotar ou comprar um animal.

Coordenador de CRM na Petlove, Felipe Intasqui conta que os benefícios oferecidos pela empresa fizeram a diferença no processo de adaptação e tratamento de seus dois cães, da raça golden retriever. Ao se mudar para um apartamento maior, Instasqui diz que optou por ter um animal de estimação e que a licença-pet permitiu que ele cuidasse do filhote. “Primeiro pegamos o Apolo, e foi muito bom poder ficar com ele nos primeiros dias, já que ele chegou assustado, mas, para a Chanel, que resgatamos de outra casa, foi fundamental. Ela chegou muito maltratada, com doença do carrapato, e todo tratamento foi pela Petlove, gastei muito menos do que esperava, e hoje minha cachorra está saudável e feliz.”

EQUILÍBRIO

Para a gerente de benefícios do Mercado Livre, Monica Rosenburg, a pandemia de covid-19 reforçou a necessidade de as empresas buscarem o equilíbrio entre aquilo que é bom para a companhia e o que é bom para o profissional. “Olhar o indivíduo e respeitar as necessidades de cada um é o que gera a conexão entre a pessoa e a empresa”, afirma.

No caso do Mercado Livre, que ocupa a sétima posição no ranking das melhores empresas para trabalhar da Great Place to Work, os benefícios oferecidos para os funcionários vão desde os mais tradicionais passando por ações específicas, como a preservação de óvulos para as mulheres que precisam ou decidem prolongar seu ciclo de fertilidade, sendo que a empresa cobre até 75% do custo do procedimento, com teto de até US$ 5 mil. A diretora da Great Place to Work Daniela Diniz esclarece que não é necessariamente o segmento de atuação da empresa que vai definir o quão inusitado será o pacote de benefícios, mas, sim, a cultura da companhia.

A sócia da 99Hunters, Gabriela Brasil, afirma que hoje os benefícios que destacam as empresas melhores avaliadas por seus profissionais são a licença parental, modelos híbridos de trabalho, estratégias de ESG (sigla para melhores práticas ambientais, sociais e de governança), gestão honesta e ética e ambiente fisicamente seguro e diverso. Na opinião dela, no entanto, o melhor jeito de reter talentos é fazendo contratações assertivas. “Pessoas que tenham aderência às necessidades da posição, mas que também tenham ‘match’ com a cultura da empresa.”

EU ACHO …

UNSTOPPABLE

O termo unstoppable refere-se a algo que não pode ser parado, incontrolável, irrefreável, indestrutível ou até imparável.

A cantora australiana Sia somou esforços com Christopher Braide e surgiu a música Unstoppable (2016). As redes sociais fizeram o hit estourar.

A letra é uma afirmação de valore de autoestima. Funciona no código atual de reforçar o positivo ao dizer que hoje a cantora está confiante, poderosa e invencível. Em metáfora mais ambígua, Sia afirma que é um Porsche sem freios (I’m a Porsche with no brakes). A rigor, um carro potente sem freios é inútil e perigoso. É uma descrição mais de risco do que de afirmação positiva: “Saiam da frente porque estou sem freios!”.

Não devemos ser tão ranhetas. A música é boa. A cantora, tendo passado por experiências de depressão, faz um hino de empoderamento bem construído.

Sabemos que tudo pode ser parado. Algo muito forte pode encontrar forças contrárias maiores, pode sofrer inércia pode quebrar e, claro, vir a envelhecer. Pessoas e suas criações sempre param. Nada pode ser imparável para sempre Hunos, mongóis, marinha britânica, gênios do vale do Silício: tudo para um dia, tudo diminui o ritmo, tudo passa, tudo quebra, tudo cansa. De novo, a música é boa e deve ser ouvida. Letras são poéticas, mas não um tratado físico sobre a dissipação da energia.

Como quase toda pessoa madura, olho para os com menos de 30 anos e sinto que lidam mal com a frustração. Eu nunca sei se esse sentimento (que existe em mim) é uma análise da atual geração dos anos 1990 em diante ou vem a ser apenas a tentativa de fazer um muro de boa vontade e elogio ao meu momento antes dos 30. Falar mal de jovens é, quase sempre, sinal de que não sou mais um e, escasseando colágeno e beleza, insisto no julgamento moral. Ataque, no caso, é defesa: “Não posso ser mais jovem e, assim, meu consolo é supor que, quando fui, eu teria sido melhor”.

Com essa pitada psicanalítica de crítica, volto ao que pode ser parado: tudo. Nada é unstoppable, tudo encontra seu muro de contenção. Independentemente da idade, precisamos de incentivo. Ouvir Sai pode ajudar. Trabalhar com o fracasso é fundamental. Avaliar o erro é bom conselho. Manter os esforços com a experiência do fracasso é algo sábio. Sigamos fracassando em qualquer idade. Na ressaca do erro, vamos ouvir músicas que jogam nosso astral lá em cima, bem alto. Com esperança, subindo até que a gravidade nos pare de novo. Todos somos imparáveis… por algum tempo.

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, Membro da Academia Paulista de Letras. Autor de “A Coragem da Esperança”, entre outros

ESTAR BEM

RELAX PELA COMIDA

Os nove alimentos que ajudam a ter uma boa noite de sono

O descanso é um dos momentos mais preciosos e agrados que as pessoas têm. Um momento perfeito para recarregar as baterias e se acalmar. No entanto. quem não dorme o número de horas necessárias ou tem insônia acaba frustrado porque não consegue alcançar o sono profundo e descansar. Diante dessas situações, é inevitável sentir mau humor e irritabilidade, emoções que afetam no desempenho do dia a dia.

Existem vários fatores que contribuem para ter problemas para dormir, e a dieta é um deles. O que é consumido antes de adormecer faz diferença. O segredo é que alguns alimentos contêm propriedades que ajudam a relaxar, ao contrário de outros que ativam o sistema de alerta ou podem causar desconfortos, como azia.

A nutricionista especializada em nutrigenética Maria Cecília Ponce explica que, para gerar uma situação agradável e relaxante, os alimentos devem conter principalmente triptofano – um aminoácido que promove a formação de serotonina – e melatonina, dois neurotransmissores que regulam o sono.

“Os tipos de nutrientes que consumimos durante o dia vão gerar maiores níveis de neurotransmissores, que são responsáveis por equilibrar o descanso. Por isso, é importante adotar bons hábitos alimentares”, afirma. As pessoas sempre encontram uma boa desculpa para se reunir em volta da mesa, cozinhar e conversar. Mariana Patrón Farias, diretora de uma empresa dedicada à nutrição, diz que as pessoas costumam ter grandes jantares e longos fins de tarde.

“Como se não bastasse, também consomem uma grande quantidade de carne vermelha que leva muito tempo para ser digerida e pode desequilibrar o organismo”,  afirma Farias.

Os fãs de cafeína devem ter atenção: seu consumo não vem apenas em formato de café, existem diversas bebidas, como refrigerantes e chás, que contêm a substância estimulante e podem alterar o sono. A nutricionista Mariana Farias esclarece que nem todas as pessoas respondem da mesma forma à ingestão, mas que uma boa opção éevitar o seu consumo à tarde e à noite.

É normal que a adrenalina e as preocupações do dia afetem no momento de dormir. Não é novidade, as emoções e a comida se retroalimentam entre si. A CEO da consultoria Trendsity, Mariela Mociusky, diz que a incerteza econômica, problemas familiares e o turbilhão do dia podem causar insônia.

“Por isso é fundamental consumir alimentos que tragam calma e serenidade”, defende a especialista.

Em muitos casos eles atuam como insumos energéticos, ajudam a concentração e geram vitalidade, em outros, promovem a temperança. Para Mociusky, o ser humano está cada vez mais atento aos cuidados com sua saúde e bem-estar, e busca consumir produtos nutritivos e saudáveis.

Um relatório da Trendsity indica que 72,6% dos consumidores em todo o mundo são afetados pelo estrese e ansiedade e mostram um grande interesse em adquirir comidas que a ajudem a equilibrar suas emoções e melhorar o descanso.

Embora seja um desafio, existem alguns alimentos que podem ajudar a adormecer e tornar o sono melhor. Nessa linha, a nutricionista Ponce recomenda focar em três pilares complementares: jantar entre duas e três horas antes de dormir para permitir a digestão; escolher porções moderadas e leves e ser consciente em relação à ingestão de alimentos durante o dia. Ela enumera nove alimentos que favorecem um descanso profundo e regenerador:

OLEAGINOSAS

Asoleaginosas, como nozes, pistaches e amêndoas, são fonte de magnésio, um mineral essencial para melhorar a qualidade do sono e evitar a insônia. Recomenda-se comer um punhado e ativá-los na água para melhorar suas propriedades.

BANANAS

As bananas fornecem magnésio e potássio. dois minerais essenciais para gerar um bom descanso, relaxar e recuperar os músculos a pós a atividade física. É recomendado para atletas, pois ajuda a prevenir cãibras.

OVOS

Os ovos são fonte de proteínas essenciais que ajudam a fabricar e sintetizar neurotransmissores, como a serotonina e a melatonina, e que contribuem para adormecer e melhorar a qualidade do descanso.

PEIXES GORDOS

Truta, salmão e atum são a principal fonte de triptofano, o aminoácido que promove a formação de serotonina e melatonina – neurotransmissores que ajudam a melhorar o descanso – e ômega3 – que regula o ciclo circadiano. Entre suas vantagens, destaca-se também a prevenção de doenças cardíacas. Sua ingestão é recomendada pelo menos duas vezes por semana.

IOGURTE

Rico, fresco e prático. O iogurte é fácil de digerir e é um aliado perfeito para manter a saúde digestiva e estomacal em equilíbrio e regular o microbioma intestinal. Também fornece cálcio, necessário para fortalecer os ossos.

VEGETAIS DE FOLHAS VERDES

Rúcula, acelga e espinafre fornecem magnésio, antioxidantes para estimular o sistema imunológico. Recomenda-se comê-los cozidos para obter ferro e cálcio.

KIWI

Uma fruta cheia de antioxidantes naturais que ajudam a manter as células do corpo saudáveis e vitamina C, que promove a síntese de hormônios e fortalece o sistema imunológico. O kiwi teve origem na China e chegou à Nova Zelândia no início do século 20, país que o adotou como seu e deu o nome de sua ave nacional.

FRUTAS VERMELHAS

Ricas em antioxidantes e polifenóis, que ajudam a microbioma intestinal a funcionar adequadamente e também auxiliam na melhora do ciclo circadiano.

CHOCOLATE AMARGO

O requisito é que contenha o mínimo de açúcar possível. Nesse caso, possui um alto nível de triptofano e consumi-lo na medida certa também ajuda a reduzir o estresse e a depressão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS 7 CAMINHOS PARA ENCONTRAR A FELICIDADE, NA VISÃO DE HARVARD

Cientistas ensinam como manter uma vida plena. Manter relações frutíferas com amigos e família está na lista de recomendações

Há quem repita com frequência a frase “a felicidade não é um estado prolongado, são momentos”. Mas após décadas de pesquisas, cientistas da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, parecem ter encontrado os caminhos para quem quer ser feliz. Segundo Stephanie Collie, médica e professora de psiquiatria da Escola de Saúde de Harvard, existem certos hábitos que podem ser incorporados ou levados em consideração na vida diária para atingir esse estado de realização e alegria.

Para George Vaillant, psiquiatra de Harvard que liderou um estudo por 75 anos para identificar o que faz uma pessoa feliz, afirma que a chave está nas conexões.

Veja abaixo as dicas para ter uma vida mais feliz.

EXERCÍCIO AERÓBICO

A atividade física é como um banho de espuma de neurotransmissores, e seus efeitos duram muito além do término da atividade.

ESPIRITUALIDADE

Quando nos juntamos a algo maior que nós mesmos, desenvolvemos sentimentos de gratidão, compaixão e paz. A meditação é uma maneira poderosa de modificar os caminhos do cérebro para aumentar a alegria.

CONTATO COM O NOVO

Somos programados para sentir alegria quando experimentamos coisas novas. Desenvolver uma nova pesquisa pode nos ajudar a reorientar nossa energia.

DEDICAÇÃO AO OUTRO

Atividades como o voluntariado ou ajudar/colaborar com os outros produzem maior felicidade do que aquelas que nos fazem focar em nós próprios.

NEGATIVIDADE LONGE

Seja por colegas de trabalho fofoqueiros, um relacionamento tóxico com um membro da família ou um amigo que reclama, passar o tempo com uma mentalidade negativa nos influencia. Nesses casos, não há problema em impor limites.

CONEXÃO COM AS PESSOAS

Os relacionamentos humanos são a chave para a felicidade. É o que concluiu uma pesquisa, chamada de Harvard Study of Adult Development, que acompanhou de perto 700 estudantes universitários do sexo masculino da universidade americana por 75 anos. O trabalho mediu uma ampla gama de traços psicológicos, antropológicos e físicos, desde tipos de personalidade até QI, hábitos de bebida e relações familiares, em um esforço para apontar que fatores contribuem para o florescimento humano. Valliant concluiu que a única coisa que importa na vida são os relacionamentos humanos. O psiquiatra disse ao portal Huffington Post que “um homem pode ter uma carreira de sucesso, dinheiro e boa saúde física, mas sem relacionamentos amorosos e de apoio, ele não seria feliz”. No entanto, o especialista explicou que a conclusão do estudo não é dada no sentido médico, mas psicológico.

Como os pesquisadores observaram de perto os ex-alunos, eles descobriram que as relações com os amigos, e especialmente com os cônjuges, eram muito importantes para o bem-estar geral. As pessoas em relacionamentos mais estáveis foram protegidas contra doenças crônicas, mentais e problemas de memória, mesmo que esses relacionamentos tivessem momentos de altos e baixos.

Segundo a pesquisa, relacionamentos sólidos são o indicador mais forte de satisfação com a vida. Somado a isso, os pesquisadores detectaram que poder “estar conectado” consigo mesmo e com os outros também leva à satisfação pessoal e profissional, porque sentir-se conectado ao trabalho que se faz era mais importante para os participantes do que ganhar dinheiro ou ter sucesso.

“Felicidade é poder se conectar”, disse Vaillant. “Quanto mais áreas da sua vida você puder conectar, melhor.”

A ideia de que ter mais dinheiro e poder traz maior felicidade é totalmente falsa segundo Harvard.

“Não é que isso não importa, é que é uma pequena parte de um quadro muito maior e, embora possa ser de grande importância para nós em um determinado momento, diminui quando vistos no contexto de uma vida plena”, disse o psiquiatra.

Um bom relacionamento com a mãe é importante mesmo na idade adulta. Homens que tiveram relacionamentos “calorosos” com suas mães na infância ganharam uma média de US$ 87 mil (aproximadamente R$ 460 mil) a mais por ano do que homens cujas mães não se importavam com eles; e aqueles que tiveram relacionamentos ruins com suas mães durante a infância eram muito mais propensos a desenvolver demência na velhice.

ÁLCOOL SEM EXAGERO

Outro achado importante do estudo aponta que o consumo de álcool foi a principal causa de divórcio na vida dos homens que participaram da análise. O abuso dessa substância foi fortemente correlacionado com neurose e depressão (que tendiam a seguir o abuso de álcool, em vez de precedê-lo) e, juntamente com o tabagismo associado, foi o maior fator contribuinte para a morte precoce em pacientes observados pela pesquisa.

OUTROS OLHARES

PRETAS E PARDAS SÃO AS PRINCIPAIS VÍTIMAS DE MORTALIDADE MATERNA

Para especialistas, racismo e falta de acesso a tratamentos estão entre as causas

Uma pesquisa realizada pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e pelo Instituto Çarê mostra que mulheres pretas e pardas são as que mais sofrem com pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia. As mulheres pretas também são as maiores vítimas das principais causas de mortalidade materna no Brasil.

De janeiro de 2014 a dezembro de 2021, a cada 1.000 mulheres em trabalho de parto no país, 28,4 tiveram eclâmpsia ou pré-eclâmpsia. Para as mulheres brancas, essa taxa foi de 24,9, enquanto para as pardas foi de 27,5 e, para as pretas, de 32,8.

Em 2014, a taxa dessas duas intercorrências obstétricas para todas as gestantes foi de 25,2, contra 33,3 em 2021. Para as mulheres pretas, porém, passou de 30,5 para 41,3.

As duas outras principais intercorrências – hemorragia grave e sepse grave – também foram analisadas, mas não apresentaram diferenciação tão expressiva. No caso da hemorragia, a média no período foi de 9,1 para as mulheres pretas, 9,5 para as brancas e 10,6 para as pardas. Em relação à sepse, a média foi de 6,6 entre puérperas brancas, 7,6 entre pretas e 9,0 considerando as pardas.

Pesquisador de economia da saúde e autor do trabalho ao lado de Gisele Campos, Rony Coelho ressalta que, em grande medida, essas intercorrências são evitáveis por meio do pré-natal adequado e do atendimento de qualidade. Não é isso, porém, que se observa, de acordo com a epidemiologista Emanuelle Góes, autora de um estudo que mostra as disparidades nos cuidados das mulheres.

Publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva, a pesquisa de Góes sinaliza que a letalidade por Covid-19 entre gestantes e puérperas pretas e pardas foi maior do que a observada entre as brancas. Indica ainda que as gestantes negras tiveram menos acesso à UTI e que a chance de óbito materno no puerpério para as mulheres pretas foi 62% maior em comparação às brancas.

“Temos uma questão que precisa ser reconhecida que é o racismo institucional. Ele interfere no processo de cuidado, na tomada de decisão dos profissionais e até mesmo das próprias mulheres. Elas vivenciam diversas violências institucionais, seja de forma individual ou coletiva, sabendo que sua mãe, sua irmã e sua vizinha têm uma história de violência para contar, e isso retarda a procura pelo serviço”, analisa.

Góes menciona estudos anteriores que apontam, por exemplo, que as mulheres negras são menos tocadas por profissionais de saúde e que sua pressão arterial é aferida com menos frequência, o que impacta o controle da hipertensão e a prevenção à pré-eclâmpsia. A altura uterina das mulheres negras também é medida menos vezes, as consultas de pré-natal são mais curtas e o tempo para serem atendidas é maior, segundo a pesquisadora, que integra o grupo temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Somado a isso, muitas mulheres negras e indígenas moram em locais distantes dos serviços de média e alta complexidade, sem acesso a UTIs. “Temos um conjunto de fatores permeado pelo racismo que leva ao desfecho da mortalidade materna. São pessoas negras e indígenas que vivem nesses locais segregados, sem acesso aos serviços. O racismo gera essa segregação”, afirma Góes.

O estudo do IEPS e do Instituto Çarê, realizado a partir de dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, indica que as mulheres pretas apresentam os piores indicadores quando consideradas as causas de mortalidade materna mais frequentes no país entre 2014 e 2021.

Elas são as principais vítimas de complicações relacionadas ao parto e puerpério, assim como de afecções obstétricas como doenças virais, doenças infecciosas e parasitárias, anemia, doenças do sistema nervoso e do aparelho circulatório que complicam a gravidez, o parto e o pós-parto.

“A literatura agrega as intercorrências mais graves e as causas de mortalidade, enquanto no nosso trabalho destrinchamos os vários tipos”, compara Coelho.

“Os estudos também apontam que existe é uma diferenciação entre brancas e negras na mortalidade materna, mas não esperávamos que fosse tão gritante e tão consistente ao longo do tempo”, diz o pesquisador, para quem a persistência da desigualdade reafirma o discurso de ativistas que há anos alertam para o racismo na saúde.

Para Góes, o enfrentamento ao racismo institucional passa pelo respeito à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que preconiza a luta contra as altas taxas de mortalidade dessa população. “Precisamos que a política seja implementada nas três esferas, nacional, estadual e municipal para contemplar desde a atenção básica, onde as mulheres fazem o pré-natal, até os hospitais de média e alta complexidade”.

“Tanto a política da população negra quanto a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher são fortes, concretas e bem elaboradas. O que precisamos é que sejam implementadas”, avalia a cientista.

Por outro lado, ela defende ser necessário investir no treinamento antirracista do profissional de saúde, seja ele já formado ou ainda em início de formação.

“As cotas permitem não apenas trazer jovens negros para a área da saúde, mas incentivam a reformulação de referências bibliográficas, de narrativas. Vivemos muito tempo em um modelo que subjuga os corpos negros, que acha que devem ser usados como cobaias, e agora estamos tentando construir algo diferente. É desse lugar que é preciso construir uma nova medicina, uma nova enfermagem, uma nova forma de lidar com as pessoas na prática, no cuidado e na ciência”.

GESTÃO E CARREIRA

HÁ FALTA DE CANDIDATOS QUALIFICADOS VOLTADOS À SUSTENTABILIDADE

As organizações encaram uma grande escassez de talentos em sustentabilidade para cumprir seus cada vez mais ambiciosos compromissos climáticos

A Salesforce, líder mundial em soluções de gestão de relacionamento com clientes (CRM), publicou o estudo global ‘Sustainability Talent Gap Research’, que analisa a lacuna existente entre a conscientização e o treinamento de colaboradores nas habilidades necessárias para assumir funções de sustentabilidade e ajudar suas respectivas empresas a cumprirem seus compromissos climáticos.

A partir da conversa com executivos de sustentabilidade, a Salesforce conduziu o estudo em 11 países – incluindo o Brasil – com 1.297 funcionários. O resultado revela que as empresas estão enfrentando enorme pressão para cumprir suas metas climáticas que vêm de agências reguladoras, conselhos e de seus próprios funcionários.

Apesar dessa pressão, as organizações encaram uma grande escassez de talentos em sustentabilidade para cumprir seus cada vez mais ambiciosos compromissos climáticos.

O cenário de dificuldade é percebido pelos funcionários. Segundo o estudo, a confiabilidade dos trabalhadores na efetividade das ações das empresas é baixa.

Três em cada cinco respondentes afirmaram duvidar que suas empresas atinjam as metas em tempo e quatro em cada cinco têm ainda menos fé ao analisar sua confiança nos esforços de outras empresas. Apesar disso, oito em cada dez trabalhadores globais querem ajudar sua companhia a operar de forma sustentável. Já três em cada cinco colaboradores afirmaram ansiar por incorporar temas sustentáveis à sua função atual.

O desconhecimento também apareceu como fator relevante. Os funcionários demonstraram pouca consciência sobre os esforços climáticos de suas empresas, com 53% deles desconhecendo se a empresa já zerou as emissões líquidas de gases do efeito estufa ou não.

Treinamento aparece como solução interna para época de escassez de talentos no mercado de trabalho. 67% dos trabalhadores gostariam de ter mais qualificações relacionadas à prática ESG e 94% deles disseram que o treinamento nessas habilidades ajudaria na construção de confiança nos compromissos de sustentabilidade das empresas.

“Com uma força de trabalho emergente esperando para ajudar, as empresas devem voltar sua atenção para o treinamento. Ao capacitar os trabalhadores que desejam dar o salto para carreiras de sustentabilidade, as organizações podem obter talentos para funções difíceis de preencher, enquanto ajudam os funcionários a trabalhar em algo pelo qual são apaixonados”, ressalta Thatiana Papaiz, diretora de desenvolvimento do ecossistema de parceiros na Salesforce.

De acordo com a pesquisa, a vacina para o ceticismo dos funcionários é um plano de investimento em treinamentos de sustentabilidade. 95% dos entrevistados acreditam que relatórios de sustentabilidade mais fáceis de entender ajudariam a criar confiança nos compromissos das companhias. Entretanto, 88% dos entrevistados veem pouco investimento em treinamento voltados para a sustentabilidade.

“As empresas têm a responsabilidade de capacitar seus talentos com educação em sustentabilidade, e a Salesforce trabalha para atingir esse objetivo. No primeiro semestre de 2022, tivemos quase 7.000 conclusões a mais em programas de educação relacionados à sustentabilidade por meio da plataforma gratuita Trailhead em comparação com todo o ano anterior”, finaliza a executiva.

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EU ACHO …

‘HOMESCHOOLING’

Sou contra a ‘escola em casa’ porque as famílias não estão com essa bola toda

Sou contra. “Homeschooling”, ou “escola em casa”, é uma daquelas modinhas que a direita brasileira importou da direita americana, como arma para todos e fake news como liberdade de expressão. O maior argumento contra os bobocas da direita hoje é eles terem vícios semelhantes aos inteligentinhos da esquerda: importar todo tipo de lixo americano. Os EUA são o maior produtor de lixo cultural do mundo.

Sou contra a “escola em casa” porque não acho que as famílias estão com essa bola toda. Assim como desconfio de gente que quer ficar falando de sexo – ou similares – com crianças, desconfio de pais que querem educar seus filhos em casa.

O argumento máximo a favor da escola formal é a pluralidade de ambientes que ela oferece. Claro que nessa pluralidade vai todo tipo de risco, mas quem disse que as famílias não são um risco também? Principalmente aquelas que querem ter o monopólio dos “valores” – eita expressão brega essa “valores” – na formação dos filhos. Acho gente muito esquisita esse povo que defende a “escola em casa”.

Evidente que há uma parte da escola que acontece em casa. Pais que se importam tanto com a escola deveriam tirar dez em toda tarefa para casa dos filhos. Mas não. Quem defende a “escola em casa” o faz por uma forma peculiar de arrogância. Entende a si mesmo como especialista em tudo.

No lado diametralmente oposto aos pais que correm atrás de especialistas de forma paranoica para fazer diagnósticos psicopatológicos dos filhos, os defensores da “escola em casa” são também uma forma teratológica – não sabe o que é, olhe no Google – da paternidade e maternidade loucas do mundo contemporâneo.

Não duvido que existam países que pratiquem essa forma de escola. O que, por si, não prova nada. Mas a realidade do Brasil é que a “escola em casa” é capricho de classe média obcecada com ser a única fonte de mundo dos filhos – o que, por si só, já deve levantar suspeitas. Quem defende a “escola em casa” acaba pedindo a Deus ou a extraterrestres para dar um golpe de Estado no Brasil.

A realidade do Brasil é “escola em lugar nenhum” porque grande parte das crianças não vai à escola nenhuma. Grande parte das famílias não tem estrutura para garantir nem a ida das crianças para a escola formal, quanto mais “escola em casa”. Por isso, toda essa discussão é jogar no lixo tempo de resolução para os problemas sérios da educação no Brasil.

Não entremos aqui num debate profundo sobre educação porque ela simplesmente não comporta profundidade nenhuma. A questão é urgente demais para as complexas combinações da inteligência. A questão é puro desespero. É necessário botar as crianças na escola porque, do contrário, o país vai para o saco, mais do que já está. E escola aqui é escola formal, onde elas deviam passar o dia todo.

Sim, a educação é rasgada por modas ideológicas, professores pregadores, infraestrutura lixo. As escolas privadas são empresas submetidas ao mercado e à queda na natalidade. As universidades são instituições em que burocratas, marqueteiros e politiqueiros dominam o território. Aluno importa como renda. A gente sabe disso tudo. Não há nenhuma grande teoria na educação afora muita idealização da própria atividade ou modas de autoajuda e motivacional. Ou ela é política, ou é psicologia ou é vendas. Por isso mesmo não cabe nenhuma profundidade no assunto.

O problema é mais de engenharia do que de ciências humanas. Quando uma situação fica tão miserável quanto a educação no Brasil, a única atitude possível é a busca do razoável. No caso, instalações descentes, professores treinados, crianças com dentes na boca, ambiente seguro, comida sem veneno, carga horária completa, ler, escrever, fazer conta, aprender a conviver com outras crianças que serão os adultos do futuro.

Vale acrescentar que a família brasileira é, em grande parte, tão miserável quanto as outras instituições brasileiras. Portanto, esse fetiche com uma educação em que a família é responsável pelos “valores” – de novo essa expressão brega – a serem passados para os filhos é papo furado. Arrogância e blá-blá-blá.

LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP

ESTAR BEM

O QUE SABER ANTES DE FAZER DEPILAÇÃO A LASER

Nem todas as pessoas podem fazer o procedimento, que reduz o tempo do crescimento dos pelos

Os pelos estão presentes por todo o corpo e existem motivos para isso. Seja nos pés ou na cabeça, os pelos têm a função de regular a temperatura corporal, oferecer proteção e facilitar a eliminação do suor. Só que para algumas pessoas são verdadeiros incômodos. É por isso que muitos buscam, por meio da depilação a laser, eliminá-los pela raiz.

Não à toa, o procedimento tem se tornado um dos mercados com maior potencial de crescimento dentro do segmento nacional de saúde, beleza e bem-estar. A avaliação é de Danyelle Van Straten, diretora da Comissão de Saúde e Beleza da Associação Brasileira de Franchising (ABF), que representa o sistema brasileiro de franquias. Os números evidenciam essa ascensão: são quase 3 mil lojas que atualmente estão associadas à ABF e que realizam depilação a laser em todo o País. Isso representa um aumento de 79% em comparação a 2020 e de 30% com relação a 2021. “É um mercado em crescimento que, apesar de parecer saturado, não está. E pode ser multiplicado por dez nos próximos anos”, avalia Danyelle.

Com o tratamento se tornando cada vez mais comum entre os brasileiros, é necessário ficar atento aos cuidados necessários antes e depois do procedimento. Realizar a depilação a laser de forma segura é o melhor caminho para garantir os resultados esperados.

DIFERENCIAL

O que é, afinal, a depilação a laser? É um procedimento estético adotado para se eliminar ou reduzir a quantidade de pelos em qualquer área do corpo. Só que ele tem um diferencial: o tempo para o aparecimento de novos fios costuma ser maior do que em outras formas de depilação.

Isso acontece porque o laser atinge diretamente a área onde ficam as células germinativas do pelo e a melanina – uma proteína presente no corpo que dá coloração aos fios – tem papel fundamental nisso. “A luz do equipamento de laser é absorvida pela melanina e, através dela, alcança a raiz do pelo”, explica Maria Luiza Pires, médica dermatologista do Departamento de Laser da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). A redução ou eliminação dos pelos é resultado dessa interação entre a luz e a região do corpo tratada.

“O objetivo da depilação a laser não é zerar o número de pelos. Conseguimos eliminar em torno de 20% deles”, explica a médica. Por isso, para um resultado satisfatório, é necessário realizar em média 5 sessões – às vezes, um pouco mais ou menos. O tempo de cada sessão também é bastante específico e pode variar de acordo com a região tratada. “O tratamento na axila vai durar em torno de 20 minutos. Já na perna pode durar em torno de uma hora.”

Mas não são todas as pessoas que podem realizar esse tratamento e essa decisão, conforme explica a dermatologista, só pode ser adotada por um médico. Um caso concreto: é certo que mulheres grávidas não devem optar pela depilação a laser, uma vez que o procedimento pode favorecer o aparecimento de manchas na pele e ocasionar prejuízos à saúde do bebê.

RISCO DE MANCHAS

Já pessoas de pele negra ou bronzeada não estão proibidas de realizar o procedimento, mas exigem atenção especial. Dependendo do laser utilizado, podem ocorrer manchas e queimaduras na pele. “Nesses casos, existem aparelhos com comprimento de onda maior e que atendem melhor esses pacientes, mas só o dermatologista poderá dizer qual o melhor equipamento para esse tipo de pele.”

Há ainda outros casos de contraindicações, como pessoas com tendência para cicatrizes do tipo queloide; portadores de doenças autoimunes, como o vitiligo; pessoas com lesões na pele causadas pela psoríase; pacientes com distúrbio hormonal que gere pelos em excesso; e pessoas com histórico de câncer na família – mesmo que o procedimento não tenha potencial cancerígeno. “A avaliação médica é importante para que o paciente não invista tempo e dinheiro e não tenha um bom resultado.” Para os mais sensíveis à dor, existem soluções. “Fazer a aplicação de um creme anestésico ou usar uma fonte de ar gelado sobre a pele durante o procedimento já minimiza bem o desconforto”, diz a médica. Antes do tratamento, no entanto, é importante não tomar sol por pelo menos quatro semanas e não usar nenhum método de depilação no mês anterior.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HUMOR E LEVEZA PODEM AJUDAR A ENCARAR AQUELES DIAS DIFÍCEIS

Especialistas dão dicas para cultivar atitude mais positiva em meio à rotina

Wendi Aarons estava escrevendo em uma biblioteca pública quando o som de uma voz irritada fez todos olharem para cima. Uma frequentadora, indignada com uma regra sobre livros, prometeu levar seu filho para outra biblioteca e saiu furiosa depois de repreender os funcionários. A sala inteira ficou “muito incomodada”, lembrou Aarons, uma humorista em Austin, no Texas, nos Estados Unidos. “Foi um silêncio simplesmente horrível e desconfortável.”

Mas Aarons, uma profissional em equilibrar humor e desconforto, viu uma brecha. Ela se levantou e disse: “Ei, alguém tem o telefone dessa outra biblioteca? Porque eu quero ligar lá e avisá-los”.

O riso tomou conta e o humor melhorou. As coisas voltaram ao normal. Esse é o poder sutil de “aliviar o clima”.

“A leveza de espírito é uma mentalidade”, disse Naomi Bagdonas, professora da Escola de Administração de Stanford nos EUA que aconselha executivos a liderar com humor e humanidade. “É procurar razões para ficar encantado, em vez de decepcionado, com o mundo ao seu redor.”

Bagdonas se soma a um coro de especialistas que dizem que cultivar a leveza de espírito é essencial para o bem-estar. Tentar relaxar pode parecer desafiador diante da situação mundial. Uma prática mais contida – como mindfulness, que certamente tem suas vantagens – pode parecer mais apropriada para “estes tempos sem precedentes”. Levar as coisas menos a sério nos permite “viajar com mais leveza” e “salva o organismo e a alma de uma estrada muito esburacada”, afirmou Willibald Ruch, professor e pesquisador de psicologia positiva na Universidade de Zurique (Suíça).

Quando você está estressado, seu sistema nervoso inicia a reação de “lutar ou fugir”, causando uma cascata de efeitos fisiológicos: o corpo libera hormônios do estresse, que fazem sua frequência cardíaca e pressão arterial aumentarem. Sua respiração torna-se curta e superficial, e seus músculos ficam tensos. Às vezes isso é útil, como quando você está em perigo imediato. Mas muitas vezes – como quando você está atrasado e preso no trânsito – a reação ao estresse adiciona um desconforto desnecessário a uma situação já desagradável. Com o tempo, o estresse crônico pode afetar negativamente a saúde.

“A leveza de espírito é nosso principal veículo para restaurar um estado de relaxamento”, afirmou Emiliana Simon-Thomas, diretora científica do Centro de Ciência para o Bem Maior da Universidade da Califórnia em Berkeley. E isso ajuda a criar um amortecedor e escapar do estresse mental e físico que é a origem de grande parte do nosso sofrimento, disse ela.

Humor e leveza de espírito estão relacionados, mas os termos não são intercambiáveis. Há mais estudos sobre humor e outros fenômenos como riso, brincadeira, diversão e alegria, declarou Ruch. Mas grande parte da pesquisa relacionada está sob o guarda-chuva da leveza de espírito, explicou ele. O elemento central subjacente a essas experiências que se sobrepõem é uma sensação de leveza, bem como uma postura de não levar tudo tão a sério.

Embora declarar que “rir é o melhor remédio” possa ser um alvo muito distante, uma risada tem efeitos poderosos. Existem estudos que ligam o riso a mudanças positivas na frequência cardíaca, pressão arterial e tensão muscular.

E muitas outras evidências apoiam a ideia de que viver com leveza pode ajudar as pessoas a se sentirem melhor. Existem pequenos estudos que relacionam o riso, o humor e a diversão a um maior otimismo, sensação de controle e satisfação com a vida, assim como diminuição da depressão, do estresse e da ansiedade.

A pesquisa também sugere que o humor nos ajuda a construir laços mais fortes uns com os outros, com elos para maior satisfação em relacionamentos românticos e no trabalho.

A ideia de “trabalhar a leveza de espírito” pode parecer um pouco forçada. Mas, assim como para formar qualquer hábito, a prática ajuda, e há evidências de que criar experiências divertidas propositalmente traz os mesmos benefícios que a diversão espontânea.

“A capacidade de experimentar diversão e leveza é uma das maneiras pelas quais as pessoas podem mudar”, afirmou Caleb Warren, codiretor do Laboratório de Pesquisa do Humor da Universidade do Colorado e professor de marketing da Universidade do Arizona.

Ruch e seus colegas deram aos participantes um treinamento de humor de oito semanas, no qual eles completavam as seguintes tarefas em nome da ciência: assistiam a programas de TV mais engraçados, riam mais alto ou por mais tempo do que normalmente fariam, identificavam trocadilhos na mídia e nas conversas e faziam piadas autodepreciativas. Os estudantes relataram aumento da alegria e diminuição da seriedade como resultado.

Então, como tentar isso em casa, sem a ajuda de um treinamento oficial de humor? Aqui estão algumas maneiras de começar.

PROCURE COISAS QUE SÃO SÓ UM POUQUINHO DIVERTIDAS

Procurar coisas que são “engraçadas” pode transformar a leveza em uma tarefa árdua. Em vez disso, tente perceber “o que é verdade, e um pouquinho divertido”, aconselhou Bagdonas. Quando sua filha irritada entra na sala, ela se parece um pouco com um pequeno ditador bêbado? Quando você passa por um parque de cães, pode perceber como tudo aquilo parece um bar de pegação canino?

Sensibilizar-se para esses momentos prepara você para percebê-los e saboreá-los, afirmou Heather Walker, psicóloga organizacional que se descreve como uma “pessoa séria em recuperação” e dirige uma consultoria no local de trabalho chamada Leadwith Levity (Liderar com leveza).

CRIE UM DIÁRIO DE LEVEZA

Encontre tempo para registrar suas experiências divertidas. Talvez em sua corrida matinal um homem passe por você vestindo um traje de Papai Noel. Durante seu trajeto para o trabalho, talvez o condutor do trem faça um anúncio completamente ininteligível e você faça contato visual com outro passageiro e ria. Esses pequenos momentos são os principais candidatos para o seu diário.

Estudos de intervenção baseados em humor descobriram que simplesmente escrever três coisas engraçadas do seu dia (ou contá-las e revisar o total à noite) durante uma semana pode reduzir os sintomas de depressão e melhorar o bem-estar por até seis meses.

Leia seu diário periodicamente para repetir os bons sentimentos e talvez até rir. “Quando você está relendo isso, você está revivendo essa experiência. Seu corpo vai se beneficiar”, afirmou Walker.

QUANDO ALGO DER ERRADO, TENTE LEVAR NA BRINCADEIRA

A teoria do humor da “violação benigna” diz que impropriedades inofensivas têm muito potencial para serem engraçadas se você as olhar da maneira certa, pontuou Warren. Portanto, sempre que você cometer ou testemunhar uma gafe inócua – digamos, esquecer de desligar o microfone durante uma reunião no Zoom e deixar todos ouvirem uma conversa entre você e seu gato – é uma excelente oportunidade para se divertir.

Pequenos contratempos são fáceis de reformular na hora, mas deixe o material mais desafiador para mais tarde. Reestruturar violações maiores é mais fácil em retrospecto porque o tempo fornece a distância psicológica necessária para reduzir a percepção de uma ameaça, disse Warren.

Uma briga com seu parceiro sobre quem deve esvaziar a máquina de lavar louça, por exemplo, pode parecer mais divertida um ou dois dias após a conflagração inicial.

PASSE TEMPO COM AS PESSOAS QUE TE FAÇAM RIR

Se a ideia de manter um diário de leveza ou rir de seus próprios infortúnios faz você querer chorar, deixe a leveza de espírito borbulhar na companhia de seus entes queridos.

Humor e leveza vêm muito naturalmente quando estamos com as pessoas que nos colocam em estado de alegria, disse Bagdonas. É “uma melodia fundamental da conversa humana”.

CONHEÇA SEU SENSO DE HUMOR

Se você tem certeza de que não tem um único osso engraçado em seu corpo, talvez não conheça seu senso de humor. Todo mundo tem um, disse Jennifer Aaker, cientista comportamental e professora de marketing na Escola de Administração de Stanford. E colocar uma ponta mais fina no seu permite que você ouse. Ela e Bagdonas identificaram quatro estilos de humor: aqueles que são ousados e irreverentes; os que são mais sérios e muitas vezes autodepreciativos; aqueles que usam o sarcasmo – mestres da piada inesperada; e os que são comediantes expressivos e carismáticos. Compreender seu estilo permite que você o perceba e aprecie, e o prepara para estar mais consciente para as tentativas de humor alheias, inclinando-o a ser mais generoso com seu riso, segundo a cientista comportamental.

HUMOR COMO INGREDIENTE DA SUA DIETA DE MÍDIA

Além de promover a leveza de espírito, aproveite o fruto fácil da boa comédia. Há um número infinito de vídeos do TikTok, programas de TV, escritores e podcasts por aí. Por que não trocar alguns dos terríveis dramas criminais por conteúdo que o faz se divertir?

“Mesmo em dias muito sombrios, tento encontrar algo que me faça rir ou sorrir, mesmo que seja um meme bobo de gato”, disse Aarons.

OUTROS OLHARES

SOB A PELE

O aborto, antes assunto raro na produção cultural, passa de tabu a tema do momento e ganha mais espaço em filmes, livros e nas artes

Uma mulher com o rosto embriagado de dor, se apoiando de cócoras e já sem forças, repousa a cabeça na cama de um quarto virado do avesso – uma poltrona está tombada de lado, uma jarra d’água parece fora de lugar apoiada no chão. Ela tenta resistir a dores que parecem invadir todo o seu corpo, enquanto levanta as saias e encaixa o quadril numa tigela.

O que Paula Rego pintou no fim da década de 1990 era o retrato de um aborto caseiro – um caso raro nas artes visuais. Apesar de ser prática comum no mundo, e que traz uma série de discussões políticas, a interrupção da gravidez ficou por muitos anos invisível em galerias, museus, cinemas, na TV, nos palcos e nos romances.

Nos últimos tempos, porém, as nuances que a artista portuguesa explorou em sua série “Aborto” ganharam mais contornos na cultura pop.

Na semana passada, por exemplo, a cantora americana Phoebe Bridgers defendeu a legalização da prática em seu show no festival Primavera Sound, em São Paulo. Ela disse que as mulheres deveriam ter acesso à interrupção da gravidez e dedicou sua canção “Chinese Satellite” à causa.

Não é exagero dizer que, cada vez mais, há novas obras sobre o tema – e com análises de como ele pode ser registrado.

O museu Whitney, em Nova York, expôs pela primeira vez em 90 anos uma obra explicitamente relacionada ao aborto. “Is It Real? Yes, It Is”, de Juanita McNeely, apresentou nove cenas de angústia causada pela interrupção da gravidez neste ano. Outras exposições que abordam o tema pipocam nos Estados Unidos, sobretudo após a Suprema Corte do país suspender o direito constitucional ao aborto.

Foi no mesmo mês da decisão que estreou “O Acontecimento”. Dirigido por Audrey Diwan, o filme vencedor do Festival de Veneza traz um relato autobiográfico – mesclado com ficção – de Annie Ernaux, premiada com o Nobel de Literatura neste ano.

Isso não significa que qualquer retrato do aborto seja bem recebido. Recentemente, o filme sobre a atriz Marilyn Monroe, “Blonde”, gerou rebuliço por uma cena com um feto falante. No meio de um aborto não consensual, ele faz uma pergunta à protagonista traumatizada. “Você não vai me machucar desta vez, vai?”

Caren Spruch, diretora de artes e entretenimento da Federação de Planejamento Familiar da América, disse ao site The Hollywood Reporter que o filme falhou ao igualar fetos a bebês, o que foi apontado por ela e ativistas feministas como desinformação. Mas porque esse tema, ainda que sob críticas, tem aparecido por aí depois de décadas de silêncio? Uma jornalista de artes visuais do New York Times afirma que esse movimento é resultado de uma mudança geracional em museus e galerias e de uma onda de jovens artistas que investigam uma identidade pessoal que passou das margens da cultura para o mainstream.

Pesquisadoras que acompanham o tema, no entanto, apontam que isso tem a ver com a forma como o assunto é tratado socialmente – e isso muda de país para país.

Historicamente, o aborto nas artes oscila entre autorretratos dramáticos – com frequência embalados em trauma e culpa, caso de “Frida e o Aborto”, pintura de Frida Kahlo – e imagens sobre a precarização da prática clandestina, como a própria série de Paula Rego. É um assunto, sobretudo, tratado aos sussurros.

O New York Times contabilizou que nenhum artefato do 1,5 milhão de itens mostrados no Metropolitan fala do tema. O mesmo ocorre com os 150 mil objetos do Museu do Brooklyn.

Segundo a artista Maria Antônia, que retrata a prática em uma de suas obras, o pouco destaque que o assunto tem na história das artes se relaciona com o debate ideológico dos grupos pró-aborto e pró- vida – contrários à legalização.

Em “Aborto”, a pintora ilustra com cores frias uma mulher sangrando pela vagina ao interromper sua gravidez. O quadro faz parte de sua série “Carne e Corpo”, em que ela se volta à sexualidade humana. “Não é um assunto de fácil digestão”, diz ela. “Nós vivemos num mundo patriarcal, com ideais da Igreja Católica, da fertilidade e da família.”

A artista Aleta Valente diz que sua obra “Marque um X para Cada Aborto que Você Já Fez”, que é composta de um mural e um canetão que convidam o público a interagir, já foi barrada algumas vezes em galerias que diziam temer repercussão negativa.

“Já disseram que era assunto de foro íntimo e não tinha nada a ver com exposições”, afirma Valente, ressaltando, porém, que as vezes em que expôs o mural mostraram o contrário. Segundo ela, só na primeira exposição, mais de 260 mulheres marcaram a obra.

Todo o sistema de representações sobre sexualidade, gravidez e maternidade também reforça discursos sobre o que é o aborto – ainda que ele nunca seja mencionado. É o que afirma Marília Moschkovich, pesquisadora de pós-doutorado no departamento de antropologia da Universidade de São Paulo. Por isso ela avalia que o tema é, sim, retratado há muito tempo. Mas nunca como uma possibilidade real diante de uma gravidez indesejada.

“As produções de mídia são muito eloquentes sobre o aborto na maneira que elas tratam da gestão, de como representam a maternidade, por exemplo”, diz ela. “São muito comuns representações na televisão de alguém que engravidou por acidente e a única opção dela é ter a criança. Isso também é um discurso sobre o aborto.”

O segundo tipo usual de representação da interrupção da gravidez, para Marília Moschkovich, é que ele sempre é um procedimento ruim, que envolve sofrimento.

“O aborto muda completamente a maneira com que, principalmente, as mulheres,

mas também homens transexuais, se relacionam com a sexualidade. No Brasil, a gente sabe que a gravidez indesejada é um medo gigantesco, por você passar por processos horrorosos por causa da criminalização”, diz ela.

Esse cenário é agravado com ataques não só ao avanço da legislação pró-aborto, mas na tentativa de coibir casos em que o tema já é legal no país, segundo a pesquisadora.

Como a política institucional lida com o assunto não é lateral para as artes. Uma obra importante do americano Ed Kienholz, “A Operação Ilegal”, reconstrói a violência e o desamparo presentes no procedimento feito de maneira clandestina. São ferramentas enferrujadas, um carrinho de compras que se torna uma mesa de operação e uma iluminação mal direcionada que compõem o retrato do aborto feito por sua mulher.

Isso também incide na própria possibilidade de criar as obras. Annie Ernaux, no livro “O Acontecimento”, narra com sobriedade cortante a dor de ter o útero perfurado por cateteres quando era uma estudante universitária. Ou de como um médico arrogante disse, depois de descobrir seu grau de instrução, que só a tratou mal quando teve de ir às pressas ao hospital porque achou que ela era uma cidadã pobre. E, para a autora, isso só se tornou um livro porque o aborto foi legalizado na França.

“É justamente porque nenhuma interdição pesa mais sobre o aborto que posso, deixando de lado o senso coletivo e as fórmulas necessariamente simplificadas, impostas pela luta das mulheres dos anos 1970, enfrentar, na sua realidade, esse acontecimento inesquecível”, escreve ela.

GESTÃO E CARREIRA

COMO STARTUPS AJUDAM GRANDES EMPRESAS A CORTAR BUROCRACIA

Demanda por colaboração cresce, mas empresas resistem a mudar práticas e a abraçar novas formas de trabalho

Incrementar negócios com a ajuda de startups é um movimento que tem crescido entre grandes corporações no Brasil. Segundo a 100 Open Startups, foram fechados 4.5 mil contratos do tipo em 2022, alta de 30% em relação a 2021 – o montante total chegou a R$ 2,7 bilhões, ou R$ 260 mil por contrato. Mas a relação entre empresas e startups nem sempre é fácil, o que vem forçando nomes tradicionais a ajustar processos internos para lidar com novatas tecnológicas.

A Globo, que interagiu com mais de 2 mil startups no Brasil e no Vale do Silício, enfrentou desafios no processo, como o alinhamento de suas próprias prioridades com a das startups. Segundo Carlos Octavio Queiroz, diretor de estratégia corporativa e arquitetura da Globo, foi preciso balancear suas metas imediatas com o horizonte de exploração das inovações e a execução da estratégia de longo prazo.

“Criamos um fluxo de experimentação e de processos internos para avaliação mais ágil das startups. Também tivemos de adequar processos jurídicos e de suprimentos, criamos documentos mais leves e bilaterais para gerar agilidade nos processos de maneira geral”, acrescenta o executivo.

 A burocracia é um dos grandes entraves enfrentados por startups, diz Amanda Graciano, sócia da Fisher Venture Builder. “Isso pode tornar as coisas mais lentas, mas também reduz riscos”, diz.

Mudanças nesse sentido ocorreram na Nestlé, que se relacionou com mais de 500 startups nos últimos dois anos em áreas desde automatização de limpeza de tubulações de máquinas de café até logística. “Durante processos de compras que envolvem startups ficamos mais próximos. Pagamentos são feitos em prazos menores, pois sabemos que muitas destas empresas não têm caixa para sustentar grandes investimentos”, diz Roberto Boiani, gerente de transformação digital da Nestlé, que investe entre R$50 mil e R$100 mil por prova de conceito conduzida com startups.

A questão dos pagamentos é complexa, diz Jhonata Emerick, CEO da startup de análise de dados Datarisk. “Algumas empresas pagam em mais de 90 dias após o início da prestação de serviço, e isso pode ser difícil para startups no começo da jornada.”

As adaptações são fundamentais para as novatas. Fechar um grande contrato é um dos fatores que podem determinar a sobrevivência de uma startup. Segundo a Associação Brasileira de Startups, sete em cada dez startups fecham as portas antes de completar cinco anos, por motivos como acesso a capital e dificuldades para entrar no mercado.

MENTALIDADE

Processos de transformação mais profundos costumam anteceder o sucesso de empresas que avançaram com startups, um processo conhecido como inovação aberta. Na Ambev – onde 20% da receita vem de novos negócios -, as conquistas vieram na esteira de uma transformação interna iniciada em 2018.

Entre os aprendizados da gigante está envolver “o quanto antes” áreas como as de compliance e jurídico nos projetos com startups, bem como a participação do alto escalão. Bruno Stefani, diretor de inovação da Ambev; diz que usa startups em frentes como experiência do consumidor, logística e sustentabilidade. “Reconhecer as áreas transversais envolvidas, com a presença das lideranças, é fundamental para mantermos o engajamento e o trabalho colaborativo”, frisa.

A Gerdau também tem colhido frutos: a Gerdau Next:, área criada em 2020 que inclui um braço de investimento e uma aceleradora, gerou mais de R$ 1 bilhão em novas receitas só na estreia da operação. Cerca de 50 startups trabalham com a companhia  no Brasil e nas Américas em áreas como construção civil, mobilidade, sustentabilidade e logística. Além disso, criou suas próprias startups em áreas como grafeno.

Graças à transformação digital promovida desde 2012, a Gerdau automatiza processos como homologação e pagamentos, diz Juliano Prado, vice-presidente da companhia e responsável pela Gerdau Next. “Hoje, as coisas acontecem de forma fluida, porque nos adaptamos dentro de casa. Abraçamos a velocidade, a experimentação e a mentalidade da inovação e colaboração com as startups”, diz.

SOBREVIVÊNCIA

Apesar de casos de sucesso, as corporações ainda precisam evoluir suas abordagens em inovação aberta de forma geral tanto do ponto de vista digital quanto cultural, avalia Hugo Tadeu, professor da Fundação Dom Cabral (FDC). “Ainda há um descompasso entre a quantidade de dinheiro que está na mesa e os resultados. Deveríamos buscar mais profundidade e técnica na relação com startups.”

“Muitas empresas se esforçam para mostrar que estão se relacionando com startups, mas nunca terminam um projeto”, diz Arthur Rufino, CEO da Octa, startup que conecta frotistas a centros de desmontagem veicular e atende Gerdau, EDP, Audi e Basf. “Ainda vamos ver isso por um tempo, mas precisamos focar na prática e menos no hype.”

EU ACHO …

PÁGINA DOIS

Você já ouviu a expressão “até a página dois”? Quem usa bastante é minha avó. Lembro que, na adolescência, quando ela me dizia, por exemplo, que alguém estava comprometido com alguma coisa “até a página dois”, eu ficava me perguntando o que aquela tal “página dois” significava.

Aos poucos, fui entendendo que tinha a ver com algo que estava incompleto. Tipo um livro que está com páginas faltando. Hoje percebo nuances destas páginas faltantes na vida. Como nas vezes que me matriculei na academia para voltara fazer exercícios com frequência, mas literalmente só fui duas vezes.

Os paralelos são muitos. Sinto, por exemplo, uma correlação imediata com as empresas que falam sobre diversidade e inclusão e colocam somente uma mulher negra ou indígena, uma pessoa LGBTQIAP+ ou uma com deficiência no quadro de colaboradores e acham que já fizeram o bastante. Ou seja, na cabeça delas já completaram o livro da diversidade, mas, na realidade, foram apenas até a página dois.

No mundo editorial, percebo a mesma coisa. É notório, por exemplo, que existe um sentimento de uma maior proatividade de editoras que procuram diversificar seu portfólio e incluir vozes e escritas antes invisibilizadas, o que é positivo. Mas poucos destes autores negros ou indígenas sentem que são vistos como apostas.

A verba de marketing e as ações estruturadas para que se tornem conhecidos do grande público ainda deixam a desejar. O famoso “chamar para a festa, mas não chamar para dançar”.

O pior é que depois usam da justificativa “mas negros e indígenas não vendem”. Não se compra aquilo que não se conhece. E o que não se divulga massivamente. Há ainda a perpetuação de um ciclo de invisibilidade que pode ser quebrado com intencionalidade para além da “página dois”.

O que vemos em muitos casos quando falamos de grupos subrepresentados é basicamente a repetição de nomes já hipermidiáticos. Cito fácil 10 autoras brancas que são best sellers, já entre negros e indígenas teria mais dificuldades de elencar pessoas que podem hoje viver da literatura.

Na internet, é a mesma dinâmica: poucos influenciadores negros e indígenas têm mais de 1 milhão de seguidores.

Nas agências das quais alguns fazem parte, poucos são vistos como apostas, pelas quais se investe tempo e dinheiro para que aquele nome desponte. E, consequentemente, recebem menos convites para fazer publicidade.

Na TV e em mídias mais tradicionais, já temos a impressão de ver mais rostos não brancos, mas ainda percebo que os horários onde passam ainda não são os mais nobres.

Celebramos os pequenos passos, mas queremos ver mais avanços nas páginas quatro, cinco e seis e demais. A tal página dois me lembra também de uma conversa que tive certa vez com uma amiga branca com quem interagia mais virtualmente. Além de curtirmos as fotos uma da outra, entendemos que se quiséssemos ser mais intencionais em nossa amizade antirracista e com tanto potencial para furar nossas bolhas, precisávamos arranjar tempo na agenda com frequência para passarmos mais tempo juntas na vida real. Colocar nossas filhas para brincar e conviver. E intencionalmente apresentar mais amigos em comum para criarmos um movimento de networking.

Ir até a página dois pode ser um bom começo, mas precisamos e podemos ir além e ter mais profundidade sobre os próximos capítulos das histórias, especialmente daquelas que ainda não ousamos conhecer por não termos familiaridade. Que a curiosidade, a empatia, a autocrítica e a intencionalidade nos motive a ir para além das “páginas dois” dos muitos livros que a vida pode nos dar a oportunidade de ler, mas que ainda deixamos incompletos.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

HÁBITOS DE SUCESSO

Conheça as cinco atitudes diárias de quem conquistou seus objetivos

O anseio por uma vida bem­ sucedida é um desejo compartilhado por todos.  Nesse sentido, sabe-se que a vida é um processo de “altos e baixos” e que, antes do sucesso, algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo vivenciaram um fracasso épico outras deixaram claro que o sucesso não é apenas ter dinheiro ou fama, mas, sim sentir-se realizado em todos os aspectos. Como consequência, o caminho que os levou a ela é muitas vezes esquecido. Um percurso que quase nunca é linear, tem curvas, obstáculos e, claro, aprendizado.

A citação “O sucesso não é definitivo e o fracasso não é fatal: é a coragem de continuar que conta”, dita por Winston Churchill, põe em perspectiva o ciclo da vida de quem se considera bem sucedido. Experimentar o fracasso em alguns momentos pode até ser proveitoso para tomar mais coragem e tentar novamente o que não deu certo.

Para a psicóloga Sol Buscio, o sucesso nem sempre está relacionado ao material, trabalho ou pessoal. Para a maioria é sinônimo de ser capaz de atingir metas ou até a felicidade. Ela acrescenta que as pessoas bem-sucedidas costumam trabalhar diariamente para alcançar os objetivos e se concentrar para conseguir superar os obstáculos.

“Ninguém nasce bem sucedido, são coisas que precisam ser trabalhadas constantemente e se baseiam em disciplina e perseverança”, diz Buscio.

Segundo ela, há casos de pessoas que têm talentos ou habilidades desde novos. No entanto, eles ficam adormecidos porque não são treinados ou são deixados de lado diante de adversidades.

Um caso concreto e inspirador é o de Walt Disney. Quando começou a carreira, um antigo chefe, em um jornal disse que lhe faltava imaginação e boas ideias. Implacável, Disney decidiu ignorá-lo e criou o núcleo cultural que leva seu nome.

“Acho importante ter um bom fracasso quando se é jovem, porque isso o torna consciente do que pode acontecer com você. Por esse motivo, nunca tive medo em toda a minha vida quando estive perto de crises”, refletiu o empresário de sucesso.

Outro exemplo de superação é o empresário Elon Musk, criador da Tesla Motors, SpaceX e atual dono do Twitter. Musk disse uma vez que durante a infância não tinha amigos e que eles o intimidavam. Essa experiência o fez se fortalecer, ter aulas de karaté, judô, luta livre e aprender a se defender de quem o maltratava. Longe de se atormentar com aquela experiência, Musk percebeu o potencial que tinha e começou a ponderar teorias que pudessem mudar o rumo da humanidade, gerando grandes impactos no futuro.

Quem consegue alcançar seus objetivos de vida garante que a organização é fundamental. Veja a seguir os hábitos que Walt Disney, Elon Musk e outras pessoas bem-sucedidas adotaram e praticam diariamente. São pequenas atitudes que podem ser incorporadas no dia a dia da maioria das pessoas.

TER UMA ROTINA

Ter uma agenda e mantê-la ao longo do tempo é essencial, porque organiza e permite cumprir os objetivos passo a passo. Uma das personalidades que divulga sua rotina é a escritora e jornalista Anna Wintour, editora chefe da revista Vogue. Ela começa cedo, geralmente entre 4h e 5h30, lendo os jornais britânicos e americanos. Depois, joga tênis e segue seu dia de trabalho. Suas tardes costumam ser reservadas para reuniões fora do escritório, almoços com designers e planejamento de eventos. Então, às 17h, ela volta para casa.

“À noite, mergulho novamente no trabalho e cumpro minhas tarefas diárias para que ninguém fique esperando meus retornos”, disse a editora de moda.

Sobre a organização da rotina, Musk revelou como ele mantém o foco no que faz: direcionando sua atenção a apenas uma coisa por vez.

“Quando estou jantando com amigos ou familiares, gosto de focar no que estou fazendo. Eu não gosto de multitarefa. Se estou lendo meu e-mail, eu escolho me dedicar àquele momento”, afirmou.

ACORDAR CEDO

No livro best-seller “Change Your Habits, Change Your Life” (“Mude seus hábítos, mude sua vida”‘, em tradução livre do inglês). Thomas Corley explica que as pessoas bem-sucedidas se diferenciam por levantarem da cama logo de manhã. Quase 50% das personalidades pesquisadas por Corley disseram que acordar pelo menos três horas antes de começar o dia de trabalho é fundamental. Muitos deles usam o tempo livre para realizar projetos pessoais, planejar seu dia ou se exercitar.

ESCREVER

Quando questionado sobre as coisas que leva por onde passa, Richard Branson, o empresário britânico que criou a marca Virgin e dono do grupo homônimo com mais de 300 empresas, salientou que embora possa parecer ridículo, o mais importante é levar sempre um pequeno caderno.

“Eu nunca poderia ter criado o Virgin Group sem aqueles poucos pedaços de papel”, confessou.

Adquirir um hábito diário de escrita tem vários benefícios. Por um lado, colocar os objetivos por escrito aumenta as chances de alcançá-los e, par outro, melhora a clareza e o foco das ideias.

CONECTAR-SE COM PESSOAS INSPIRADORAS

“Você é tão bem-sucedido quanto aqueles com quem frequentemente se associa”, diz Corley em seu livro. Conectar-se com empreendedores de sucesso, pessoas que têm histórias de vida fortes e alcançaram os objetivos, familiares e amigos que inspiram, é essencial. “Junte-se a grupos de pessoas que compartilham sua mesma carreira ou interesses pessoais”, sugere o autor, embora esclareça que as pessoas de sucesso também se esforçam para limitar sua exposição a pessoas tóxicas e negativas.

MEDITAR

O estresse é normal e, em alguns casos, até saudável. Mas aquele que é crônico e sobrecarrega o corpo físico, mental e emocional, afeta a criatividade e a geração de novas ideias. Na verdade, está provado que as pessoas que meditam com frequência  e aprenderam a valiosa habilidade de mergulhar no momento presente são mais bem-sucedidas financeiramente e nos relacionamentos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR DE MÃE (DRASTA)

Com fama de más graças à ficção e aos contos de fada, as madrastas da vida real fazem parte das novas famílias e criam relações de afeto, carinho e apoio com enteados

O relacionamento entre Manu, de 21 anos, e a psicóloga Adriana Manzano, de 42, ressignificou toda a história de vida do jovem. Identificado com o gênero não-binário (quando a pessoa não se reconhece como um homem ou uma mulher), o estudante de Psicologia viu na madrasta alguém que ofereceu não apenas todo o apoio necessário para um momento tão delicado e cheio de questionamentos, mas também colo, diálogo e conforto. E nada disso, conta ele, que prefere ser tratado no masculino, veio por parte de sua mãe biológica.

“No ensino médio eu mudei muito, entendi que gostava de mulheres e, talvez, não fosse mulher. Todo esse processo veio acompanhado, também, de entender que eu não estava em um bom lugar”, conta Manu.

À época, ele morava com quem chama de “genitora” e o namorado dela, no litoral de São Paulo. A relação entre eles, explica, passou sempre por um lugar de agressividade, com sucessivas brigas e discussões. “Assistia um vídeo na internet sobre mães narcisistas e aquilo ficou na minha cabeça.

Conversando com a tia Dri, entendi que talvez a minha genitora fosse assim”, explica. Tia Dri é a maneira carinhosa com que ele trata Adriana, a quem se refere como mãe diversas vezes. Ela e o jornalista Fernando Tecchio, 41, pai de Manu, estão juntos há 14 anos e também têm uma filha, Valentina, de 8. “Ainda estamos nesse processo de ela me chamar de filho, e eu, de mãe. Está acontecendo”, comemora.

Perante a lei, Adriana e Manu também já são mãe e filho. Quando o estudante retificou seus documentos, renasceu.

E, com ele, nasceu uma nova mãe: Adriana. “Quando fomos resolver essa questão juridicamente, ele não quis mudar apenas o nome e o gênero, colocando algo não especificado. Ele me convidou formalmente perguntando se eu queria ser a mãe dele. Fiquei extremamente comovida com esse convite e aceitei imediatamente. Não é uma adoção, porque ele tem mãe biológica, mas eu estou lá, ele agora tem meu sobrenome”, diz, emocionada.

As novas configurações familiares, cada vez mais comuns e diversas, abrem espaço para a discussão sobre o lugar que a figura da madrasta ocupa não só na vida dos enteados, mas também  no imaginário popular. Vista historicamente, graças à ficção e aos contos de fada, como bruxa má ou ameaça ao lugar da mãe, ela também é definida no dicionário, acredite, como “mulher má, incapaz de sentimentos afetuosos e amigáveis”. No entanto, essa percepção vem mudando, e uma das responsáveis pela transformação é a educadora parental Mariana Camardelli, de 35 anos. Ela criou, em 2019, um perfil para a comunidade Somos Madrastas, com pouco mais de 60 mil seguidores no Instagram, após ocupar esse papel e sentir a necessidade de pertencimento.

“Qual o lugar da madrasta? Socialmente, muitos acham que a gente não pertence à família. Eu precisava falar sobre isso, procurar pessoas que sentissem da mesma forma, sabe? Nunca tinha visto nada parecido e comecei por acaso a escrever meus textos”, diz Mariana. Além de oferecer acolhimento, ela produz conteúdo educativo e cursos imersivos para quem deseja entender melhor esse universo.

A fama de má das madrastas tem origem, conta, na época em que os casamentos ainda eram feitos para durar para sempre. “E em caso de viuvez do homem, ele teria todo o direito de trazer para a família uma nova mulher que cuidasse dos seus filhos, já que essa função não estava em seu ‘papel’.

Assim, essa madrasta chega ocupando o lugar da mãe e causa sensação de competição, incentivada pela sociedade patriarcal e machista”. Para Mariana, a cena de duas mulheres brigando pelo amor de um príncipe encantado é uma narrativa ultrapassada que precisa ser combatida “com amor, altas doses de generosidade e zero rivalidade”.

A rivalidade, aliás, passa bem longe da grande família de Mariana. Com o marido, o empresário Rodrigo Cunha, a educadora parental cria os enteados Augusto, de 18 anos e Vicente, de 14, e os filhos Flora, de 5, e Martim, 1 ano. “A melhor forma de administrar é ter a certeza absoluta de que você não vai dar conta de tudo. O equilíbrio não é o de uma balança. E conflitos e desentendimentos fazem parte de todas as relações. Fugir de conversas necessárias jamais resultou em pacificação quando falamos em sistemas familiares”, afirma.

Na outra ponta e completando essa turma, há também a mãe de Augusto e Vicente, a especialista em transição de carreira Juliana de Mari. O relacionamento entre ela e Mariana começou com um encontro amigável, e atualmente elas mantêm uma relação cordial em prol do melhor para os filhos. “Temos um contato respeitoso e uma boa parceria na maternagem. É uma relação que precisa de cuidados, como qualquer outra”, diz Juliana.

Pelos olhos da lei, apesar da madrasta não ter poder familiar ou responsabilidade legal direta sobre crianças e menores de 18 anos, hoje já existe o instituto da multiparentalidade. Isso significa que é possível haver o registro de duas mães e um pai ou dois pais e uma mãe em documentos, sem exclusão. Foi o caso de Manu e Adriana. “O que vai definir se há ou não parentesco é esse vínculo de afetividade, a relação de cuidado e carinho que se tem com alguém querido”, explica a advogada Ana Borela, do escritório Borela e Caminha Advocacia, do Rio de Janeiro.

Ela explica ainda que, caso haja algum impedimento para que os pais biológicos responsabilizem-se pela criança, a madrasta pode, sim, substituí-los. “Nesses casos, o juiz avalia se existe um vínculo entre o menor e a madrasta.

O que importa, sempre, é o melhor interesse da criança. Assim, a madrasta pode, de acordo com a avaliação do juiz, ter preferência sobre os avós paternos e maternos”, diz Ana. Em um trâmite que corre na Justiça há mais de um ano para conseguir a guarda total do pequeno Lucas, de 7 anos, o pai dele, o músico João e a mulher, a professora Clarice (nomes fictícios), madrasta de Lucas, perceberam que, a cada

volta para casa após 15 dias com a mãe biológica, o menino apresentava com hematomas pelo corpo. “Perguntávamos o que tinha acontecido e ele dizia que não era nada, mas já sabíamos do histórico de violência que a mãe dele sofria com o marido. Em um momento que o João estava longe, Lucas me procurou e contou que tinha sido agredido pelo padrasto”, relata Clarice.

Com a ajuda de uma advogada, o casal levou o menino ao Instituto Médico Legal (IML) para fazer os exames de corpo de delito, e, em pouco tempo, conseguiu a guarda provisória de Lucas. “Sempre disse que iria protegê-lo e ele me cobra isso. Nossa história tem muita dor, mas com o tempo, Lucas foi percebendo que eu era sua família. Não consigo mais imaginar minha vida sem ele”, diz a professora.

Desconstruir estereótipos e entender que as madrastas têm um papel parental relevante é o que pode trazer harmonia para as novas famílias, acredita o psicólogo Rossandro Klinjey. “Para ocupar bem o seu lugar, a mulher precisa, antes de tudo, de apoio do marido, dos familiares e amigos, sem ser tratada com hostilidade. Entender que uma nova realidade faz parte destas famílias é tornar mais amorosa a chegada de madrastas e padrastos”, afirma ele.

OUTROS OLHARES

MAIS DE UM BILHÃO DE JOVENS PODEM TER PERDA AUDITIVA DEVIDO A FONES

Volume do som emitido pelos aparelhos costuma ser muito maior do que o máximo recomendado, alertam especialistas

Mais de um bilhão de jovens entre 12 e 34 anos estão em risco de perda auditiva devido ao uso inadequado de fones de ouvido e por frequentarem locais com música em volume além do orientado. A conclusão é de uma revisão de 33 estudos sobre o tema envolvendo quase 20 mil participantes, publicada ontem na revista científica BMJ Global Health.

Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho escrevem que os resultados são um alerta sobrea “urgente necessidade de governos, indústria e sociedade civil priorizarem a prevenção global da perda auditiva, promovendo práticas de escuta”, e destacam que há diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) disponíveis para ajudar a garantir esse objetivo.

Liderada pela pesquisadora da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, Lauren Dillard, a revisão é parte de um esforço internacional de especialistas da própria OMS e de instituições de países como Suíça, Suécia e México.                                                                                                                                                                                                                                                                    

Eles explicam que trabalhos anteriores já haviam mostrado que, embora o limite orientado para o volume seja de 80 decibéis (dB) para adultos e 75 dB para crianças, usuários de fones de ouvido costumam aumentar o som para até 105 dB, e a média em locais com música para entretenimento, como boates e shows, varia entre 104 dB e 112 dB.

“A exposição exagerada ao barulho de alta intensidade é potencialmente lesiva para a audição e um dos fatores mais importantes conhecidos que causa a perda auditiva irreversível. De fato temos visto com muita frequência o uso dos fones de ouvido, mas é importante termos em mente que o fone não é o vilão, ele traz muitas facilidades e funcionalidades. O problema é o volume, porque sabemos que a partir de 85 dB o nosso ouvido começa a estar em risco”, destaca o otorrinolaringologista Luciano Moreira, especialista em surdez e médico do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro.

Considerando a adesão significativa de jovens tanto ao uso de fones, como a locais com som alto, os cientistas decidiram avaliar a prevalência de pessoas na faixa etária que estaria exposta às frequências prejudiciais ao ouvido – e, portanto, estaria em risco elevado de perda auditiva.

Para isso, selecionaram 33 estudos, em idiomas como inglês, francês, espanhol e russo, que compilaram 35 registros de audição entre jovens de 12 a 34 anos, 17 registros focados nos fones de ouvido e 18 nos locais de entretenimento musical.

Eles descobriram que a exposição recorrente a frequências sonoras danosas é uma prática comum de forma global. Em relação aos fones de ouvido, a prevalência foi de 24% entre os adolescentes e jovens, enquanto para estabelecimentos com música alta foi de 48%. Baseado na estimativa de que a população mundial é composta por 2,8 bilhões de indivíduos na faixa etária, os pesquisadores concluíram que até 1,35 bilhões de jovens estão com um potencial risco para perda auditiva.

“Por natureza, crianças, adolescentes e jovens podem conhecer menos e por isso estarem menos atentos aos riscos. Então é preciso que essa parcela da população entenda a mensagem de que o exagero traz uma perda auditiva irreversível. As escolas, as famílias, nós profissionais da saúde precisamos fazer esse alerta voltado para a educação desses indivíduos sobre esse problema”, defende Moreira.

IMPACTOS NO OUVIDO

Os cientistas explicam que, embora mais estudos epidemiológicos sejam necessários para compreender os efeitos da exposição recreativa ao som elevado na audição, já há evidências consistentes para os danos que levam à perda da capacidade de ouvir.

Além disso, destacam que a exposição já foi associada a um diagnóstico chamado sinaptopatia coclear, “que pode ser definida como dano ou perda de contatos sinápticos entre as células ciliadas da cóclea e fibras nervosas do sistema auditivo”. As células são chamadas de receptoras auditivas por serem responsáveis em grande parte pela audição. “As práticas auditivas inseguras são reconhecidas como um importante problema de saúde pública global”, dizem os autores do estudo.

GESTÃO E CARREIRA

OS MAIORES ERROS DE QUEM ESTÁ COMEÇANDO O PRÓPRIO NEGÓCIO

É comum ver quem está começando empreender agora caminhando mais devagar e, quando esta caminhada engatilha, é normal que fique perdido durante o crescimento da empresa. Por isso, desenvolver aprendizados é essencial para te ajudar a ter sucesso e adquirir experiências na carreira. Sem o conhecimento ideal, o novo empreendedor acaba gastando mais tempo e dinheiro para resolver situações comuns da rotina e que colocam em risco seu negócio.

Uma pesquisa do IBGE mostrou que 48% das empresas brasileiras fecham em até três anos. O motivo que leva a isso? A falta de gestão eficiente. Os dados ainda mostraram que 25% dos empreendedores apontaram este como um dos principais motivos para a falência. Logo atrás vem os altos impostos com 31%, pouca demanda e alta competitividade em 29%. A dificuldade para arrecadar linhas de crédito aparece em 25%.

O empreendedor não é apenas a pessoa que gerencia o próprio negócio, ele é a pessoa que realiza os projetos e produz ideias, por isso, é importante que ele tenha abertura a novos olhares. Um dos principais especialistas em negócios do Brasil, o empreendedor em série Jonathas Freitas aponta que um bom empreendedor precisa conhecer de diversos assuntos: É preciso estar atento ao mercado que atua, aos concorrentes, a legislação e saber um pouco de tudo. Marketing, finanças, operação e etc.”, aponta o empresário com mais de 40 empresas no portfólio.

Para prevenir os erros, é necessário conhecê-los. Por isso, Freitas nos ajudou a definir os 4 principais erros de quem está começando um negócio. Veja:

NÃO FORMALIZAR O NEGÓCIO

Quando se começa uma nova atividade, é muito comum empreendedores pensar que a formalização do negócio não seja importante, muitos acreditam que não     pagar imposto é uma forma correta de começar, mas se você pensa assim, sua  empresa nunca irá crescer, pois a formalização do seu negócio, estruturação, contábil, jurídico, processos é o que irá deixar sua empresa profissional e quando chegar no momento que você for vender seu negócio ou mesmo, pegar investimento, se você fez o trabalho de casa certo desde o dia 1, tudo será mais fácil, além de ter uma boa reputação perante aos investidores. Quando você está começando, você precisa ter um foco no cliente, mas também é importante crescer de forma estruturada.

NÃO CONHECER O SEU SETOR

Começar um negócio sem entender nada do assunto, não saber sobre o mercado de atuação, quem são seus principais concorrentes, quem é seu público principal e qual a regulamentação desse mercado é um erro grave na hora de empreender. É necessário entender todos os pontos do mercado para ter sucesso, desde os fortes até os fracos, esse conjunto de conhecimento o fará sair na frente dos seus concorrentes e te dará clareza do que precisa ser feito para se destacar e se diferenciar dos demais. Ter afinidade com o setor também é importante, pois você estará envolvido intensamente nesse processo e precisará se automotivar todos os dias para não parar no meio do caminho.

AUSÊNCIA DO PLANO DE NEGÓCIOS

Essa ferramenta é fundamental para o sucesso de qualquer empresa. Ela define o planejamento, ações e metas a serem cumpridas em curto, médio e longo prazos. Nele, também precisa ser considerada as possíveis crises e como fazer para solucioná-las, pois empreender é resolver problemas dos clientes e da sua própria empresa. Se não tiver um bom plano de negócios estruturado que faça sentido, quando as vendas aumentarem, você pode ter problemas com o gerenciamento e organização da empresa, levando a mesma até a quebrar, mesmo que as vendas estejam aumentando.

NÃO ESTUDAR E SE CAPACITAR

O mercado está mudando muito rápido, e é preciso estar atento a todo momento e entender as necessidades que o seu setor está passando, acompanhar as referências e o que os seus concorrentes estão fazendo. Além disso, um bom empreendedor     precisa estudar o tempo todo sobre os diferenciais do mercado, participar de eventos e cursos de atualização, sabendo que o conhecimento agora é dinâmico. Hoje não basta só querer empreender, você precisa estar constantemente aprendendo sobre todos os setores que compõem um negócio para dar certo, desde entender como funciona a parte financeira, contratual, operacional e marketing. Você não precisa ser especialista em tudo, mas deve entender o que precisa ser feito para não perder o controle do seu negócio.

EU ACHO …

NAMORO ONLINE NÃO QUER DIZER QUE VOCÊ FALHOU NO OFFLINE

Se cadastrar em um site de relacionamento online não quer dizer que você falhou em encontrar um par ou muito menos que você está desesperado para encontrar alguém. Mas sim que você está em constante evolução e livre para viver as novas oportunidades e modalidades de namoro que surgiram ao longo do caminho. Renata Dias, de 26 anos é usuária do MeuPatrocínio, site e de relacionamentos para pessoas bem-sucedidas (ou que desejam ser bem-sucedidas) e ela diz que ‘É muito fácil conhecer novas pessoas na internet! Eu (não costumo sair muito, por conta dos estudos e trabalho e (eu gosto muito de homens que já tenham uma vivência, sejam estáveis. Eles não são o tipo de cara que estão na mesa de bar, não fazem parte do meu ciclo, por conta da idade e não estão onde meus amigos frequentam. Mas eles estão na internet.”

O especialista em relacionamentos online, Caio Bittencourt, afirma que ”conhecer alguém online é a evolução do offline. Com a vida corrida, as pessoas preferem ir a um date com alguém que já conversam em um ambiente online, que já criaram algum tipo de conexão. Nos dias de hoje precisamos de novas opções para conhecer alguém além do que vivemos no nosso dia a dia. Em um ambiente offline dificilmente se conhece alguém novo que valha a pena, a não ser que seja amigo de amigos. E quando conhecem, não sabem nada sobre eles.” diz Caio.

”Com a facilidade do mundo virtual, hoje você consegue filtrar tudo o que você está buscando apenas em alguns cliques. Gênero, idade, graduação, profissão, e em alguns sites, como no Meu Patrocínio até mesmo a renda, etc. E isso tudo já economiza demais o nosso tempo. Por que se relacionar com alguém se essa pessoa e não te agrada ou não tem os mesmos objetivos que você?

Desconhecidos na rua realmente podem te agradar?” Questiona, Caio Bittencourt. A internet hoje proporciona as pessoas a economia de tempo, dinheiro e também, do desgaste emocional. Conforme conhecemos alguém virtualmente, conseguimos ter mais certeza se é alguém que realmente gostaríamos de criar um futuro ou não, ou apenas curtir aquele momento, sem nada sério. Dá a oportunidade de pensarmos, refletirmos e termos uma visão geral mais consciente.

ESTAR BEM

CONHEÇA RECEITAS QUE PODEM AJUDAR A CONVIVER BEM COM A DIABETE

Há caminhos para diabéticos levarem uma vida praticamente normal. Alimentação balanceada, medicação adequada e atividades físicas são algumas das formas de controle

A diabete é uma doença que afeta 9% da população brasileira com mais de 18 anos, segundo a Pesquisa Vigitel, feita pelo Ministério da Saúde em 2021. São pessoas que, em razão de problemas na produção ou uso da insulina pelo próprio organismo, precisam estar sempre atentas às taxas de açúcar no sangue. Do contrário, podem ter complicações como doenças cardiovasculares, cegueira e danos a órgãos do corpo.

Mas existem caminhos para conviver bem com a doença. Adotar uma alimentação balanceada, fazer uso de medicamentos quando necessário e praticar atividades físicas são algumas das formas de controle.

Alberto Ribeiro conhece bem todas elas, pois a diabete está presente na sua vida há duas décadas. Ele descobriu o tipo 1 da doença aos 5 anos. “Meu irmão tinha sido diagnosticado oito meses antes”, afirma. E seus pais o levaram ao médico por segurança.

O diagnóstico na infância permitiu que ele crescesse praticando hábitos saudáveis. “Talvez eu seja um dos únicos brasileiros que não gostam de brigadeiro, porque nunca comi e não aprendi a gostar”, brinca. O esporte também entrou cedo na sua vida. “Sempre fui fissurado por atividade física.”

Hoje, aos 26 anos e recém-formado em Medicina, Alberto lembra que há caminhos para viver bem com a doença. E para provar isso ele criou o movimento 100 Diabetes. Seu objetivo era ousado: correr 100 quilômetros, de uma vez só, em uma esteira.

INSULINA

A distância escolhida não foi por acaso. Em 2022, celebram-se 100 anos da primeira aplicação bem-sucedida de insulina. Além da homenagem, foi a maneira que Alberto encontrou para mostrar que a doença não é um fator limitante para nada – tanto que não o impossibilitou de se tornar um atleta saudável. “As pessoas não precisam correr 100 quilômetros como eu fiz. O meu objetivo é fazer com que o ‘Seu Zé’ e a ‘Dona Maria’ levantem e façam 21 minutos de atividade física diárias e, assim, consigam controlar melhor a doença.”

COMO ELA SURGE?

Toda vez que fazemos uma refeição, os carboidratos ingeridos são transformados em glicose na digestão. Essa glicose vai para o sangue e precisa da ajuda da insulina – hormônio produzido pelo pâncreas – para entrar na célula e, assim, ser transformada em energia. “Um carro não anda sem gasolina, a gente não anda sem glicose”, explica Levimar Araújo, endocrinologista presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Esse é o processo ideal. Só que, nos diabéticos, o pâncreas não produz mais a insulina ou a produz em quantidades insuficientes para levar o açúcar do sangue para dentro da célula. Há também os casos em que a produção da insulina continua, mas as células são resistentes à ação desse hormônio e ele não exerce corretamente sua função.

São essas diferenças que categorizam a diabete em dois tipos. “É como se você tivesse uma chave e uma fechadura”, exemplifica Levimar. Nos portadores do tipo 1, o pâncreas produz pouca ou nenhuma insulina. Já naqueles que têm a diabete tipo 2, a insulina é produzida, mas o organismo resiste à sua ação. “É como se a fechadura estivesse entupida.”

A diabete tipo 1 costuma ser identificada na infância ou adolescência, exige insulina todo dia e está associada a fatores hereditários. A do tipo 2 não exige insulina, sua identificação ocorre após os 40 anos e ela está ligada a hábitos comportamentais – alimentação, sedentarismo e hipertensão. Há diferenças na incidência também: enquanto o tipo 1 aparece em entre 5% e 10% dos pacientes no Brasil, casos do tipo 2 ocorrem em 90% deles.

Esse aumento da glicose é chamado de hiperglicemia e, se não controlado, as altas taxas podem levar a complicações no coração – incluindo as artérias –, olhos e outros órgãos. Casos mais graves podem levar à morte. Só em 2021, segundo a Federação Internacional de Diabetes, foram 214 mil mortes de brasileiros entre 20 e 79 anos pela doença. Em números globais, a doença matou 6,7 milhões de pessoas no ano.

DIAGNÓSTICO E ROTINA

O primeiro passo para fugir dessas estatísticas é identificar a doença. O endocrinologista estima que pelo menos metade dos diabéticos não sabe que possui a doença. Isso se deve ao fato de que ela pode não apresentar sintomas – ou apresentar sintomas associados a outras doenças.

O cuidado com a alimentação é um dos caminhos para viver bem com a diabete. Marciane Milanski, nutricionista e docente da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas, diz que os alimentos que um diabético deve evitar são os ricos em sódio, açúcares e gorduras saturadas – os mesmos que devem ser evitados por qualquer pessoa.

Quanto ao consumo de açúcar, a orientação é menos restritiva do que há alguns anos. “Hoje sabemos que o consumo de qualquer carboidrato tem o mesmo efeito no aumento da glicemia. O açúcar sempre foi um vilão, hoje não é mais”, esclarece. O consumo de alimentos lights e diets também não é necessário no tratamento: na base da alimentação devem estar os alimentos naturais e minimamente processados. “Precisamos desmistificar a necessidade deles, até porque são alimentos caros”, alerta. De forma geral, a recomendação é a ingestão de carboidratos a partir dos vegetais, frutas, legumes, grãos integrais e produtos lácteos.

A atividade física deve andar de mãos dadas com a alimentação balanceada. Isso porque ela desempenha um importante papel na redução da glicose no sangue, conforme avalia Edilamar Menezes, da Escola de Educação Física e Esporte da USP.

A prática do exercício permite ao corpo liberar uma maior quantidade de fatores vasorelaxantes, que aumentam os vasos sanguíneos e levam mais sangue aos tecidos, à musculatura e ao coração. “Isso possibilita uma maior captação da glicose do sangue para dentro das células”, explica ela.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FICAR SEM CELULAR PERMITE NOVO ESTILO DE VIDA E A RETOMADA DE HÁBITOS

Sem telefone desde que teve de cortar despesas ao deixar a casa paterna, jovem teve de se livrar do vício do aparelho e conta que recuperou atividades saudáveis

Em um mundo cada vez mais conectado, Josielle Soares vai na contramão: ela vive há quase dois anos sem celular. “É importante estar conectado, mas não de uma forma em que você se perde para dar conta de tudo”, explica. A decisão veio depois que o antigo smartphone quebrou. Sem dinheiro para comprar outro, ela optou por um novo estilo de vida.

Desde que saiu da casa dos pais e passou a pagar as contas com o próprio salário, Josielle, de 28 anos, aprendeu que seria necessário controlar os gastos. “Eu já queria ficar sem celular e, quando quebrou, a questão financeira foi um ponto importante para mim”, conta ela, que trabalha na rádio universitária da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A pressão e o estresse do trabalho remoto também foram decisivos. “Os horários ficaram muito bagunçados. Eu recebia demandas às 20h e não conseguia aproveitar o momento de descanso porque estava pensando em trabalho”, diz. A saída foi abandonar o smartphone.

Mesmo que já quisesse levar uma vida menos conectada, Josielle reconhece as dificuldades dos primeiros momentos sem o celular. “Você não sabe exatamente o que é, mas fica com a sensação de que está perdendo algo”, relata. Ela continuou acompanhando as notícias pela televisão e pelo computador, mas isso não era suficiente para suprir a falta do smartphone. “Será que está acontecendo alguma coisa com alguém?”, indagava.

VÍCIO

“Isso acontece porque seu cérebro está sentindo falta do que ele estava acostumado a ter. Ele sente falta do que alimentava o vício”, alerta a neurocientista Claudia Feitosa Santana. De acordo com ela, há uma série de mecanismos e neurotransmissores envolvidos nesse processo de dependência do celular. “É por isso que muitas pessoas não conseguem ter uma vida normal se não tiverem acesso a um smartphone, mesmo que elas queiram”, afirma.

Um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela que no Brasil há mais smartphones em uso do que pessoas. São 242 milhões de celulares, enquanto, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população é de 215,1 milhões de pessoas. “Isso é reflexo de um fenômeno de digitalização da moeda, do trabalho e da educação”, explica Fernando Meirelles, coordenador da pesquisa. Essa digitalização também aparece nos dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (PNAD Contínua TIC), realizada no quarto trimestre de 2021.

O levantamento mostra que a internet está presente em 90% dos domicílios do País e que o celular é o principal dispositivo de acesso em casa, sendo utilizado em 99,5% dos domicílios com internet.

Vivendo desde dezembro de 2020 sem smartphone, Josielle relata que hoje a vida mudou. “Eu voltei para atividades que eu gostava muito e que tinha deixado de lado, como tocar violão. Era a minha terapia”, lembra. “Acho que eu reduzi bastante minha ansiedade e até a possibilidade de depressão”, afirma.

DICAS DE ‘DETOX DIGITAL’ VÃO DO AUTOCONTROLE A DESATIVAR NOTIFICAÇÕES

Os smartphones ganham cada vez mais importância entre as atividades cotidianas. O problema acontece quando seu uso é em excesso. Segundo Felipe Botelho, psicólogo do Grupo de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), essa sobrecarga física e mental causada pelo uso desequilibrado do smartphone pode afetar a vida offline. “As pessoas passam a sentir uma necessidade frequente de checar o celular e ver as redes sociais”, explica. Para evitar isso, alguns cuidados precisam ser tomados.

RECONHEÇA SEUS COMPORTAMENTOS

“É o primeiro passo”, explica Botelho. Ele garante que é importante observar a forma como nos relacionamos com os smartphones e tentar identificar se essa relação acontece em desequilíbrio. Entre os caminhos para isso, é importante verificar a quantidade de horas dedicadas às redes sociais, se existe alguma dificuldade em deixar o celular longe e em quais momentos o uso do celular é mais intenso.

LIMITE SEU USO

Se identificar excesso, tente definir momentos para usar e não usar o aparelho. Felipe Botelho pondera que esse limite deve acontecer nos momentos livres, visto que as atividades de trabalho e estudo de muitas pessoas dependem muitas vezes dos smartphones.

BUSQUE ALTERNATIVAS

Muitas vezes recorremos ao smartphone quando estamos entediados. Porém, encontrar outras atividades para esses momentos pode ajudar. “É importante que a pessoa avalie o que ela gosta de fazer sem o celular”, sugere o especialista.

DESATIVE NOTIFICAÇÕES

“As notificações são um gerador de ansiedade”, avalia Botelho. De acordo com ele, desativar vai reduzir os estímulos ao uso do smartphone a todo momento. É preciso entender que nem tudo é urgente.

TENTE OUTROS DISPOSITIVOS

Usar o computador, por exemplo, em vez do celular, pode ser uma prática bastante saudável. Ou então optar por assistir a um filme pela televisão. Felipe Botelho explica que essas são mídias consideradas passivas, porque não exigem interações diretas, como o smartphone.

OUTROS OLHARES

MUNDO COM 8 BI ESCONDE DESIGUALDADES DE GÊNERO

Autonomia de mulheres depende de políticas públicas e pode ditar futuro

Num mundo repleto de desigualdades, o ritmo de crescimento da população está, ao mesmo tempo, explodindo em alguns territórios e encolhendo em outros, mostram as projeções da ONU.

O dado por trás dessas diferenças é a taxa de fecundidade, a quantidade média de filhos que as mulheres têm em uma localidade. No Níger, na África Ocidental, esse índice é de 6,6 filhos, o maior do mundo. No outro extremo está a Coreia do Sul, com taxa de 0,9.

Esse dado, porém, não é necessariamente um reflexo do desejo das mulheres de ter muitos filhos ou de não ter filho nenhum. É, antes, um espelho do desenvolvimento do país e do grau de autonomia e de autodeterminação das mulheres em relação a sua vida sexual e reprodutiva.

“Há locais onde a mulher ainda não pode exercer o direito de controlar sua vida reprodutiva. E fatores como violência sexual e limitação de acesso ao aborto influenciam nesse resultado”, explica a demógrafa Márcia Castro, chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Segundo o Fundo de População das Nações Unidas(UNFPA), o mundo tem uma taxa de gravidez indesejada de 64 casos para cada mil mulheres de 15 a 49 anos. Entre gestantes adolescentes, de 15 a 19 anos, o índice é de 40 a cada mil.

Na demografia, a taxa de fecundidade necessária para repor a população é de 2,1 filhos por mulher. O cálculo, explica o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, é esse: um filho é para repor a mulher, o outro é para repor o homem, e o 0,1 é um excedente necessário porque nem todas as pessoas vão sobreviver até a idade fértil para potencialmente dar continuidade a esse ciclo.

Alves explica que países com alta fecundidade são, em geral, pobres e muito rurais, onde o custo de ter muitos filhos é menor que o benefício. “Neles, a desigualdade de gênero é muito grande, o que retira o poder de decisão das mulheres e também o acesso tanto a saúde e métodos contraceptivos quanto a educação formal e mercado de trabalho, num ciclo vicioso de pobreza”, diz.

Historicamente, o trabalho reprodutivo cabe às mulheres. E, segundo Sonia Corrêa, codiretora do Observatório de Sexualidade e Política, a redução das taxas de fecundidade indica que, de alguma maneira, as mulheres hoje têm maiores opções. “É um movimento de ciclo longo, iniciado nos anos 1950, mas que vem se acelerando desde os anos 1990”, explica.

Corrêa chama a atenção para recentes mudanças nas políticas de incentivo à natalidade de potências globais, que alternam o jogo de forças sobre autonomia e autodeterminação das mulheres na sua vida reprodutiva. Nos EUA, forças conservadoras impulsionaram a decisão da Suprema Corte de suspender o acesso ao aborto como um direito constitucional. O anúncio foi acompanhado pela proliferação de leis contrárias ao procedimento em muitos estados, o que pode impactar na fecundidade americana.

Já a China, depois de 30 anos da chamada “lei do filho único”, que restringiu o planejamento familiar e gerou uma série de violações de direitos, passou a admitir e a incentivar que casais tenham três filhos —até agora com poucos resultados. A Rússia de Vladimir Putin copia decreto de Josef Stálin e premia com medalhas e dinheiro as “mães heroínas”, com dez filhos ou mais.

Na França, existem políticas de incentivo da fecundidade desde o século 19. Elas se dão por meio da consolidação e da ampliação de licença-maternidade e paternidade, prêmios em dinheiro e políticas de garantia de creches gratuitas.

Completam o quadro de condições para o exercício dos chamados direitos sexuais e reprodutivos a educação sexual, o acesso a meios contraceptivos e ao aborto, quando necessário, explica Giulliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, organização voltada ao debate de gênero.

Estudo do UNFPA em 57 países aponta que nem todas as mulheres têm o poder de decidir sobre suas relações sexuais, sobre seu acesso a saúde e a métodos contraceptivos. Na África Central, menos da metade (49%) afirma poder decidir sobre suas relações sexuais. No Níger, o índice é de 35%. No Senegal, 19%.

“São fatores que estão longe de serem garantidos em escala global”, aponta Bianconi. “Se as mulheres sem direitos vão parir, quem é que, depois, vai cuidar dessas crianças?”

A falta de autonomia e de autodeterminação tem implicação direta sobre o chamado dividendo demográfico —ou janela de oportunidade demográfica. É quando a fatia da população em idade economicamente ativa é maior, proporcionalmente, que a das pessoas na base da pirâmide etária (crianças e adolescentes) e no topo (idosos). Isso indica o potencial de um país de gerar riquezas.

Aproveitar o bônus demográfico é pré-requisito para melhoria do padrão de vida, defende Alves. “Todo país que perdeu o bônus demográfico ficou pobre ou preso na armadilha da renda média, sem o salto necessário para melhor desenvolvimento.”

Para Castro, o Brasil é um dos países que podem aproveitar o dividendo demográfico. “Essa população jovem vai entrar no mercado produtivo e vai ajudar no crescimento do país no momento em que há menor quantidade de crianças nascendo. A questão é se isso vai ocorrer em direção a igualdade de gênero ou não.”

“É preciso empoderar as meninas para que elas participem, estudem e trabalhem, já que são metade da população economicamente ativa do país. Quando elas não participam, o país joga fora metade do seu capital humano”, afirma a demógrafa.

GESTÃO E CARREIRA

SONHO DO PRÓPRIO NEGÓCIO CRESCE NA PERIFERIA

Programas de incentivo ajudam no difícil caminho para conseguir tirar uma ideia do papel

O potencial econômico das periferias tem incentivado o empreendedorismo entre os moradores das comunidades e ampliado o sonho de ter um negócio próprio. Segundo dados da pesquisa “Um país chamado favela”, do Data Favela, dos 17 milhões de brasileiros que vivem em comunidades, cerca de 35% (ou 6 milhões) sonham em ter o negócio próprio. Além disso, 50% dos moradores se consideram empreendedores e 41% têm o próprio negócio.

Para o morador da periferia, empreender surge como oportunidade de mudar de vida e crescer socialmente. Para isso, não é preciso sair do bairro em que nasceu. A capacidade produtiva das favelas é superior à de muitas cidades do interior do País. A pesquisa do Data Favela apontou que moradores de comunidade movimentam cerca de R$ 180,9 bilhões em renda própria por ano.

No entanto, o caminho que esses empreendedores percorrem é diferente do habitual. Eles têm de enfrentar mais barreiras que atrasam o desenvolvimento do negócio, como a falta de acesso a crédito e limitação de conhecimento para expandir o negócio.

O que surge como um facilitador para quem sonha empreender são os programas de incentivo. A gestora em inovação social empreendedora Josiane Santos faz parte do grupo Semente Negócios, que desenvolve projetos voltados à inovação. Em parceria com a ADE Sampa, o grupo desenvolve o Vai Tec, que ajuda jovens de comunidades a criar, expandir e validar empreendimentos. O objetivo é promover o desenvolvimento dentro das comunidades e gerar emprego e renda. A iniciativa já chegou a aumentar em 70% o faturamento dos participantes do projeto.

Diogo Bezerra, de 29 anos, é o fundador dos projetos PLT4Way, uma escola de idiomas de impacto social, e da Mais1Code, uma escola de programação para jovens da periferia. Ele começou a empreender aos 16 anos, mas, devido à falta de estímulo, os negócios não prosperavam. “Tive dois negócios, só que nenhum deu certo. Isso por causa do pouco conhecimento que eu tinha sobre empreendedorismo e gestão de fluxo de caixa.”

Ao decidir empreender pela terceira vez, ele buscou apoio para construir um negócio saudável. “Fui atrás de ajuda, porque eu não podia errar de novo, já estava com 21 anos e, na quebrada, você não pode ficar errando.” Diogo afirma que, com os programas de incentivos, adquiriu conhecimento e base financeira para crescer e competir de igual para igual com outros negócios.

Inspiração para quem quer ser empreendedor, a marca de roupas Az Marias, voltada ao street style, foi criada em 2015 e aposta no apelo sustentável. A empresa usa como matéria-prima o resíduo têxtil de grandes empresas do setor para fazer suas peças.

A criadora da marca, Cíntia Felix, conta que o início de sua carreira como empresária foi intenso e que teve que empreender na escassez. Para ela, os incentivos são de grande importância, pois sem investimento é impossível tocar um negócio.

Outro exemplo é o Todas Por Uma, aplicativo contra a violência doméstica, que conta com a Nice, inteligência artificial capaz de encontrar uma pessoa sequestrada. Desenvolvido pelo estudante Mateus Lima, de 23 anos, a equipe por trás do app conta com apenas duas pessoas. “Somos dois meninos lutando contra milhões de agressores.” Ele diz que é difícil empreender dentro da favela e que os projetos foram essenciais para fomentar o negócio e alimentar seu sonho.

EU ACHO …

PARENTESCO

Tenho um irmão. Adoraria ter quatro, cinco, mas só tive o Fernando. Pra compensar, ele vale por mil, é o cara mais boa gente que conheço. Nosso retrospecto é cristalino: sem brigas, competições, distâncias, nem mesmo as eventuais, comuns em qualquer família.

Nossa infância foi compartilhada com primos maternos em primeiro grau. Entre as meninas, eu era a mais moça, e me encantava com as de mais idade e suas histórias de namorados, um universo que eu ainda não tinha acesso. Estudei na mesma aula com uma delas e nos tornamos melhores amigas por anos. Entre os homens, nenhum era menos que lindo, e sabemos o fascínio que exerce um primo lindo. Éramos treze no total, todos portando o mesmo sobrenome Mattos, uns por parte de mãe, outros por parte de pai.

Então a infância terminou, minha melhor amiga trocou de colégio, os mais velhos se casaram e aos poucos cada um seguiu sua vida, mas o afeto permaneceu. Três já faleceram, e são lacunas que jamais serão preenchidas, vazios que ainda nos custam aceitar. Alguns se veem com frequência, eu os vejo menos, mas nunca, em nenhum momento, o orgulho d pertencer a essa família arrefeceu. Partimos do mesmo lugar Essa é a potência máxima do laço sanguíneo: partimos do mesmo lugar. Arrancamos juntos rumo à vida adulta. Até que surgiu Bolsonaro.

Sei de casos em que irmãos não conseguem mais almoçar na mesma mesa, primos nem se cumprimentam. Laços foram desfeitos enquanto a extrema direita esteve no poder, e agora que a centro-esquerda vem aí, tudo indica que a briga continuará. Poderia tentar defender um lado, mas estou em missão de paz: quero defender o parentesco.

Quem me conhece, sabe o quanto sou crítica às obrigatoriedades, ao carinho encomendado para datas festivas, à hipocrisia instituída a fim de manter as aparências. Não há quem não tenha algum desencaixe com pai, mãe, irmãos. Às vezes acontece de não gostarmos de alguém a quem deveríamos amar. Mas volto à frase mais importante deste texto: partimos do mesmo lugar. Como seres solitários que essencialmente somos, esse pertencimento tem valor. Houve um dia em que dividimos refeições, compartilhamos quartos, brincamos juntos. Choramos pelos mesmos avós, cultivamos as mesmas memórias. Viemos do mesmo núcleo fundador da vida. Bifurcações são naturais.

Uns têm um conhecimento que outros não têm, uns se apegam a preceitos que a outros não importam tanto. Mas, mesmo considerando as mágoas que as diferenças provocam, e excluindo casos extremos, sou a favor da manutenção do vínculo. Ninguém precisa tirar férias sob o mesmo teto. Basta um WhatsApp no aniversário, um abraço durante um encontro inesperado, um sinal qualquer de que a descendência está acima do rés do chão. Não viemos do nada.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

É POSSÍVEL PREVENIR A SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL?

Especialista avisa que sim, se forem focados os fatores que a causam, o que inclui desde hábitos alimentares ou infecções a casos de depressão ou estresse

Dores abdominais são comuns e podem ser apenas resultado de uma má digestão ou excesso de gases. Porém, quando são recorrentes e atreladas a outros sintomas, é um provável alerta para a síndrome do intestino irritável. Nesses casos, junto com o desconforto podem surgir sintomas como diarreia ou prisão de ventre, com alívio da dor após a defecação e alteração do formato das fezes.

O diagnóstico é feito quando há pelo menos dois desses três sintomas atrelados à dor abdominal, conforme explica Thaísa Barbosa, médica da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP). A frequência com que os sintomas aparecem também é levada em consideração. “A síndrome se caracteriza por ser uma dor recorrente. Por isso, para o diagnóstico é preciso ocorrer ao menos uma vez na semana durante três meses”, adverte.

Por afetar a função e não a estrutura do intestino, não existe a possibilidade de danos permanentes nem o risco do desenvolvimento de doenças mais graves, como câncer. Mas, para aqueles que buscam conviver com a síndrome com qualidade de vida, alguns cuidados são necessários. “É uma condição de fácil controle se respeitarmos os fatores que a precipitam.”

QUAIS AS CAUSAS DA SÍNDROME?

Não existe uma causa exata para o aparecimento da síndrome, mas uma combinação de aspectos que aceleram sua manifestação. A ansiedade e o estresse estão entre esses fatores. “Pacientes com ansiedade patológica, que passaram por alguma situação de estresse grave ou com depressão tendem a ter a síndrome com mais frequência”, diz Thaísa.

Ela explica que alterações psicossociais têm efeito na motilidade dos músculos que revestem as paredes internas do intestino. Isso significa que essas situações podem afetar a capacidade do intestino de realizar movimentos autônomos de forma coordenada e uniforme. “A alteração da motilidade do intestino, seja com aumento ou redução dos movimentos, pode causar diarreia ou constipação.”

Nas situações em que o peristaltismo – nome desse movimento da parede intestinal diminui, as contrações intestinais ficam mais fracas que o normal e o processo de passagem dos alimentos fica mais lento. É por isso que surgem a prisão de ventre e as fezes mais endurecidas. Nos casos em que a motilidade aumenta e as contrações ficam mais frequentes e fortes, a diarreia pode aparecer. Isso porque essa contração acelerada impede a correta absorção de líquidos do bolo fecal e deixa as fezes com excesso de água.

É POSSÍVEL SE PREVENIR?

Aspectos como hábitos alimentares, possíveis intolerâncias alimentares, infecções ou inflamações intestinais, alteração na microbiota do intestino, entre outras razões, podem deflagrar a síndrome. A combinação desses aspectos pode provocar desconforto abdominal e outros sintomas.

“Às vezes o paciente fica frustrado porque não há uma causa específica, ou ele não adere ao tratamento e continua tendo crises. Por isso é importante que ele entenda que a melhor forma de controle é adotando um estilo de vida saudável”, relata Thaísa.

COMO FUNCIONA O TRATAMENTO?

“A síndrome não tem cura, tem controle”, explica a médica. Ajustar a alimentação pode ser o primeiro passo. Diminuir o consumo de alimentos fermentáveis e bebidas alcoólicas pode reduzir a formação de gases e melhorar o desconforto abdominal. O exercício físico também é um importante aliado, uma vez que estimula o funcionamento intestinal e pode, assim, reduzir o desconforto. Atrelado a isso, o acompanhamento com psicólogo é essencial. A Organização Mundial de Gastroenterologia recomenda, como uma alternativa, a prática da hipnoterapia para relaxamento. “Essas medidas comportamentais costumam ser suficientes para controle dos casos leves.”

COMO ALIVIAR A PRISÃO DE VENTRE?

A síndrome pode causar duas alterações funcionais no intestino: diarreia e prisão de ventre. “O paciente pode ter as duas alterações em um período de três meses e intercalar diarreia com constipação ou pode ter só uma delas, que é o mais comum”, conta.

A recomendação para aqueles que sofrem com o intestino preso é aumentar a ingestão de líquidos e o consumo de fibras, como leguminosas, grãos e cereais. “Essa mudança na alimentação costuma ser suficiente. Quando não é, a gente prescreve um medicamento laxativo.”

O QUE FAZER EM CASO DE DIARREIA?

Em pacientes com a síndrome associada à diarreia, o foco é evitar o consumo dos alimentos que podem estar causando essa condição. “Dependendo da intensidade, também podemos indicar medicamentos antidiarreicos”, acrescenta.

Em casos em que os sintomas são mais intensos, pode ser necessário o uso de medicamentos próprios para a síndrome do intestino irritável, além daqueles para diarreia e prisão de ventre. “Esses medicamentos são específicos para regularizar a parede intestinal”, diz Thaísa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOCÊ SE SENTE NERVOSO OU ANSIOSO? EXPERIMENTE DANÇAR

Pesquisa sugere que a atividade pode fornecer mais benefícios para o humor e a saúde do que outros tipos de exercícios aeróbicos

Não sei se teria conseguido passar os últimos dois anos sem dançar – dançar com muita vontade e energia. Todo mundo enfrentou desafios pandêmicos. Entre os meus se encontraram: passar duas semanas de quarentena no hotel para chegar ao meu pai doente na Austrália, morar com ele pela primeira vez como adulta e, depois de voltar aos Estados Unidos, pegar covid-19, com meses de recuperação. Ao longo desse processo, eu punha meus fones de ouvido e dançava.

Não era uma coisa bonita de se ver: muitas vezes eu começava em silêncio, com calma, depois ficava doida, batendo os punhos com raiva, até meus ombros ficarem doloridos. Também ficava girando até ficar tonta, me jogava de um lado para outro, tremia o corpo todo, chorava e batia os pés no chão.

Mesmo que tivesse certeza de que tudo parecia meio estranho, eu tinha de botar os meus sentimentos para fora – e funcionou. Dançar me fez sentir aliviada, relaxada e até mesmo contente de um jeito que não conseguia nadando ou correndo. Essas atividades só esgotavam meu corpo, mas a dança limpava meu coração e aquietava minha mente também.

Não sou só eu: um pequeno, mas crescente corpo de pesquisa sugere que a dança pode fornecer mais benefícios para o humor do que outros tipos de exercícios aeróbicos. Embora 30 minutos de atividade de bombeamento cardíaco por dia sejam uma maneira bem conhecida de tonificar os músculos, fortalecer o cérebro envelhecido e melhorar o humor, estudos sugerem que a dança – de quase qualquer tipo – pode ajudar a reduzir a dor crônica e a ansiedade (mais do que exercícios aeróbicos genéricos). Um estudo revelou que a dança diminuiu a depressão em universitários. E mesmo que a pesquisa sobre terapia de dança e demência ainda seja limitada, vários estudos apontam que ela pode melhorar ou estabilizar a qualidade de vida em pessoas com Alzheimer e ter um efeito positivo no “desempenho cognitivo, físico, emocional e social” dos que têm demência.

Mas por que a dança funciona além dos benefícios de qualquer bom exercício aeróbico? Especialistas em dançaterapia dizem que ela pode fornecer um espaço para expressar aspectos de nossa personalidade que podem estar enterrados ou desencorajados por motivos pessoais ou culturais (como raiva, para as mulheres).

“Nós guardamos todas as experiências que já tivemos no nosso corpo, então conseguir se mover pode liberar algo que estávamos escondendo em algum músculo”, conta Ângela Grayson, psicóloga clínica e presidente da Associação Americana de Dançaterapia. “O músculo tem memória e, quando nos mexemos, podemos liberar essa memória.”

A terapia de dança e movimento (DMT, na sigla em inglês) se baseia na ideia de que a dança pode fazer parte do processo terapêutico como uma forma de comunicação não verbal. Ela combina alguns dos efeitos positivos e bem conhecidos que o exercício oferece à saúde mental com algo mais profundo, que pode ser útil quando a terapia falada não está funcionando. A dança é conexão e expressão, lembra Jacelyn Biondo, pesquisadora do Departamento de Terapias de Artes Criativas da Drexel University. “Se cinco pessoas andarem de bicicleta, vai parecer meio igual. Mas, se cinco pessoas diferentes dançarem, vai ter muita variação, porque elas estão se expressando”, afirma.

SAÚDE MENTAL

Biondo, que também é terapeuta de dança e movimento, garante que viu a terapia de dança ajudar pessoas que lutavam contra depressão e ansiedade. Mas sua experiência vem do trabalho com pacientes com sintomas agudos de esquizofrenia em hospitais psiquiátricos. Nesse contexto, ela observa que a dança pode ser uma boa ferramenta terapêutica.

Em estudo de 2021, Biondo e colegas descobriram que esquizofrênicos que faziam terapia de dança tiveram diminuição nos sintomas (incluindo alucinações auditivas, paranoia e pensamento delirante), quando comparadas com um grupo controle de pacientes que faziam apenas terapia falada. Essas pessoas também mostraram melhora na expressão emocional e redução do sofrimento psíquico.

Grayson acredita que a dançaterapia pode funcionar para muitas condições de saúde mental. Ela recomenda terapia de dança e movimento para pessoas que tiveram partos traumáticos e crianças com dificuldade em expressar sentimentos. A terapia também pode beneficiar pessoas em lares de idosos, prisões e centros de tratamento de dependências.

“Trabalhando com um terapeuta de dança e movimento formado, você ganha apoio para processar o que está sendo expresso na dança e estabelecer um tratamento.”

Assim como eu, muitas pessoas descobriram os efeitos da dança para o bem-estar fora do ambiente terapêutico. Prefiro dançar sozinha, com o simples objetivo de botar meus sentimentos para fora, mas surgiram opções sociais em todo o país. A Ecstatic Dance organiza danças em grupo em cidades de todo o mundo, com eventos em lugares fechados ou ao ar livre. É uma prática especificamente não verbal, então os dançarinos se expressam com batida, movimento e respiração. Em Venice Beach, Los Angeles, dançarinos descalços usam fones de ouvido para ouvir música tocada por DJs em evento semanal.

A 5Rhythms guia os praticantes por cinco estágios de movimento. A prática pode ser uma maneira de lidar com a dor, a raiva e o estresse. Lucia Horan dá aulas online e presenciais de 5Rhythms no Esalen Institute em Big Sur, Califórnia, e prepara professores. Embora tenha lecionado por mais de duas décadas, Horan descobriu que dançar a ajudou a lidar com os problemas e se curar do próprio conjunto de estresses pandêmicos: fugas de incêndios florestais devastadores na Califórnia e dois abortos espontâneos.

A CURA

Ela também fez terapia falada, meditação e trabalho de trauma, mas avalia que “a beleza da dança é que ela aborda todos os quadrantes de cura – o físico, o emocional, o mental e o espiritual”. Horan fala que este é um dos motivos pelos quais a dança funciona para muita gente – mas também porque força as pessoas a se concentrarem no momento presente, o que pode trazer alívio de preocupação, tristeza e dor emocional.

“Muito do sofrimento acontece quando estamos pensando no passado ou no futuro, repassando as coisas na cabeça”, narra Horan. “Mas a dança é uma prática baseada na presença, então nossa atenção é atraída para o momento presente.”

Especialistas dizem que, se você não quer participar de um programa terapêutico, e só tentar a dança em casa, não precisa de equipamento especial e pode vestir o que quiser. Basta abrir um espaço grande o suficiente para permitir um movimento expansivo, colocar uma música que você adora e começar a se mexer. Não há regras sobre o que ouvir ou como dançar.

E qualquer pessoa pode participar: segundo Horan, em suas aulas online já apareceram pessoas acamadas em tratamento contra o câncer, e todos os especialistas ressaltam que cadeirantes, pessoas incapazes de andar, cegas ou doentes também podem participar – porque a dança é para todo mundo, mesmo que for para mover apenas as mãos ou os braços.

“É só ficar no momento presente e começar a se mexer”, ensina Horan. “Dance até que o corpo desapareça e fique apenas a dança.” Depois, sente-se um pouco e fique com o corpo quieto. O movimento exterioriza e libera o estresse. A meditação abre espaço para a integração.

A pandemia tem sido um momento emocionalmente difícil, e muitos de nós ainda estão sofrendo. Horan conclui que a dança é uma maneira de “ouvir a verdade do corpo e permitir que ela seja explorada em todos os seus opostos – ela nos dá liberdade, nos dá permissão, nos dá um caminho”.

OUTROS OLHARES

JÁ OUVIU FALAR EM FUMAR COTONETE?

Desafio viral do TikTok pode afetar pulmão de crianças e adolescentes

Depois de países da Europa, o desafio perigoso de “fumar cotonete” também está circulando em redes sociais de usuários do Brasil. A nova moda entre crianças e adolescentes tem preocupado pais e especialistas, que alertam para os riscos à saúde provocados pela liberação de substâncias tóxicas a partir da queima do produto. Além de causar doenças respiratórias – com necessidade de internação em casos mais graves -, o uso prolongado pode causar o surgimento de câncer. Em vídeos publicados em redes sociais, jovens aparecem acendendo a haste flexível, que é conhecida popularmente como “cotonete” e utilizada para a higienização de ouvidos, nariz e umbigo. Em seguida, eles inalam a fumaça provocada pela queima do algodão (que fica nas pontas) e do plástico da haste flexível.

“O cotonete tem uma haste de plástico e as duas pontas de algodão. A queima desses materiais vai liberar substâncias que são tóxicas para o pulmão e para a saúde, de um modo geral. Estudos científicos ainda vão se aprofundar sobre os riscos, mas, em princípio, o plástico quando submetido à combustão libera substâncias comprovadamente cancerígenas. Ou seja, a exposição por um longo prazo pode aumentar, inclusive, o risco de câncer”, alerta Cláudio Luiz Ferraz, pneumologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Já o algodão tem fibras orgânicas que, quando são submetidas à queima, liberam substâncias tóxicas que causam inflamação e irritação. “Podendo ocasionar um estreitamento das vias aéreas, que pode provocar tosse, falta de ar, chiado no peito, broncoespasmos e internações”, acrescenta o pneumologista.

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

“Além de intoxicação pela fumaça do plástico e do algodão, a ação pode ainda provocar queimadura nos lábios e face (pelo plástico que pode pegar fogo e se alastrar), além de induzir o hábito de fumar”, acrescenta Caroline Peev, pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro do Sabará Hospital Infantil.

“Os pacientes asmáticos ou com bronquite têm maior ‘hiperreatividade brônquica’, que significa maior chance de ter uma crise grave induzida por qualquer apercebo externo, incluindo o algodão e substâncias liberadas pelo plástico aquecido”, reforça Caroline.

O pneumologista Cláudio Luiz Ferraz concorda que o risco é ainda maior para pessoas que já sofrem com doenças respiratórias. “O risco de fumar cotonete é mais acentuado em pacientes com rinite alérgica e asma, doenças mais prevalentes em pessoas mais jovens, assim como em casos de enfisema pulmonar, como é popularmente conhecida a Dpoc (doença pulmonar obstrutiva crônica), em pessoas acima de 40 anos, principalmente com o risco de aumento de crises e de internações, como observamos em pacientes quando expostos durante período de queimadas pelo País”, afirma ele.

Ninguém deve fumar. Mas, caso a pessoa faça uso e tenha falta de ar, após inalar a fumaça, é importante que procure auxílio médico o quanto antes. “De falta de ar e chiado no peito até sinais de intoxicação por monóxido de carbono, como dor de cabeça, náusea, sonolência e cianose (lábios e extremidades roxas), que apontam para o risco de parada cardiorrespiratória”, ressalta Ferraz.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SUPERAR UMA DEMISSÃO E RETORNAR AO MERCADO DE TRABALHO

Especialistas dão dicas de providências após o desligamento de uma empresa; uma das saídas é se abrir para o mercado e experimentar novas alternativas

Relatos de trabalhadores insatisfeitos com o tratamento dado pelos empregadores no processo de demissão têm viralizado nas redes sociais. Muitos deles se queixam da falta de justificativa para o desligamento e da insensibilidade para tratar do assunto. É o caso de Caroline Marci, de 33 anos, que decidiu compartilhar sua história de demissão na rede.

Após três anos como analista socioeconômico-ambiental em uma fundação instalada em Belo Horizonte, Caroline foi demitida, sem poder dar adeus aos colegas de trabalho ou até mesmo acessar o computador que usava. “Como profissional, não fiquei tão chateada porque sei que é o movimento do mercado. Mas, como pessoa, eu fiquei envergonhada, constrangida.”

Esse é um dos sentimentos citados pela psicóloga Ana Paula Nunes, de 33 anos, doutora em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia e especialista em terapias comportamentais, como mais suscetíveis a surgir após a demissão. Mas, para ela, a melhor forma de lidar com esse trauma é, justamente, não se fechar no seu círculo.

“A pessoa precisa primeiro buscar uma rede de apoio (família, amigos) e aceitar que a demissão é um processo que faz parte quando se está vinculado a uma empresa.” Ana Paula também sugere que, tendo esse apoio, o trabalhador passe para a próxima fase: partir em busca de novas oportunidades.

“A demissão muitas vezes não caracteriza algo pessoal ou que a pessoa não é competente para aquele cargo. Simplesmente não houve compatibilidade entre os interesses da empresa e do trabalhador”, considera a psicóloga, que ressalta que a demissão pode servir como um impulsionador para que a pessoa busque um ambiente de trabalho com maior identificação.

A psicóloga Thais Knittel, que trabalha há oito anos na área de recursos humanos, afirma que o trabalhador fica vulnerável após uma demissão, mas esse momento também pode ser aproveitado para refletir. “É um bom momento para entender quais os pontos positivos e o que ela agregou à empresa; conversar com colegas para entender quais são suas fortalezas e o que ela pode oferecer em futuros empregos.”

Além disso, Thais ressalta a importância de considerar outros meios e não ficar preso apenas na busca por um emprego com carteira assinada. “Será que o melhor não seria migrar para uma carreira acadêmica ou até mesmo empreender? Há outras possibilidades no mercado que podem ser exploradas.”

Assim como Ana Paula, Thais acredita que o próximo passo natural é sair em busca de novas oportunidades. Para isso, a psicóloga recomenda o uso do LinkedIn, já que é a plataforma de negócios mais usada no mundo. “É muito importante mantê-lo atualizado, com dados da sua carreira, experiências anteriores, falar sobre suas realizações”, afirma.

Nas próximas entrevistas de emprego, seja sincero sobre os motivos da saída. “Muitas vezes os empregadores podem conversar, pedir referências aos antigos”, diz Thais Knittel.

EU ACHO …

ÚTERO E O OUTRO

Nada humano é mais metafórico que o útero. Em baixa desde a revolução de costumes dos anos 1960 e também por conta da explosão demográfica e da questão social do aborto, o útero se tornou desprestigiado, conservador e até um transtorno. Útero é a Métra, grego derivado do indo-europeu mater, a mãe, a fonte e origem de toda vida. Um órgão com design e função de formar um novo ser dentro de um ser. Um órgão com a misteriosa chave capaz de descortinar sentido e propósito.

É, portanto, um órgão umbilical com o projeto da vida já que é uma peça do corpo que não atende a si próprio; um elemento implantado em si para servir a um futuro corpo estranho e exterior ao seu. Seu prodígio maior é convencer o resto do organismo a não tratar o hospedado como um antagonista competidor e, mais incrível ainda, acolhê-lo organicamente. Repartir nutrientes, desconjuntar a anatomia para abrir espaço e atrelar sua programação sistêmica para servir por nove meses é transcendente. Daí, com certeza, a hospitalidade feminina.

A propriedade do útero de alterar o  sistema imunológico para não tratar o novo corpo como um vírus afeta o alicerce básico da vida de autoproteção. Vírus deriva do latim “veneno”, coisa ruim, que é organicamente atrelado ao “outro”. A entrada de um material genético estranho inicia uma batalha para que o outro não se aposse do corpo e o próprio estado de doença é uma metáfora de que nos tornamos um outro a nós mesmos. Seja qual for o hormônio ou enzima capaz de catalisar esse processo uterino, estamos necessitando, urgentemente, que seja sintetizado e aplicado à sociedade.

O processo eleitoral, refletindo a tendência mundial, instaurou uma hipersensibilidade a qualquer dissensão ou diferença, tratando-as como uma ameaça de um outro antagônico. O outro para além de violento se tornou virulento ‒ um outro desejoso e capaz de nos despersonalizar e exterminar. Precisamos de líderes mulheres, de participação feminina em todas as áreas da vida e da sociedade para que o elixir uterino possa irrigar e orvalhar os nossos tempos. Por trás das políticas e das insustentabilidades, estão o alongamento e a indiferença ao útero. Único órgão capaz de nos tirar do ensimesmado e dar espaço ao outro e ao futuro.

NILTON BONDER  – É rabino, escritor, dramaturgo e acadêmico da ACL

ESTAR BEM

CONHEÇA OS BENEFÍCIOS DA AVEIA PARA SUA SAÚDE

De origem asiática, superalimento ajuda a regular o funcionamento do intestino e aumentar a sensação de saciedade. O cereal não contém glúten em sua composição e pode ser ingrediente de várias receitas

A alimentação saudável e a prática de atividade física, juntamente com um bom descanso, soma-se à lista de bons hábitos para quem deseja seguir um estilo de vida consciente em seu dia a dia e para quem necessita de mudanças por razões de saúde. A lista de opções de alimentos naturais que estão disponíveis para uso em receitas simples e rápidas e os benefícios que esse tipo de ingestão traz para o corpo a médio e longo prazo são imensas.

Desse enorme universo de alternativas culinárias, existe um produto considerado essencial. Trata-se da aveia, um cereal bem completo devido aos seus componentes e propriedades que se caracteriza por não conter glúten.

Silvina Tasat, nutricionista e membro da Sociedade Argentina de Nutrição, explica que sua principal característica é ser um grão integral que mantém suas três partes intactas e também sua composição nutricional.

“O floco é dividido em: endosperma, onde se encontram os carboidratos conhecidos    como beta- glucano; germe, onde crescem e se localizam as gorduras poli-insaturadas, óleos, antioxidantes, vitaminas dos grupos E e B e zinco; e farelo, que corresponde ao exterior e contém fibras prebióticas”, comenta a nutricionista.

Ela explica que a particularidade dessas fibras é que são solúveis, ou seja, que o organismo consegue absorvê-las e digeri-las facilmente.

Diante dessas infinitas qualidades que posicionam a aveia como um superalimento de grande valor nutricional, uma publicação da Universidade de Harvard em sua revista Harvard Health Publishing menciona que os principais benefícios têm a ver com seu impacto no sistema gastrointestinal, pois as fibras regulam o sistema digestivo e dão saciedade.

“Sua função mais importante é estabilizar a saúde do cólon e do intestino porque permite que os carboidratos sejam digeridos lentamente. Por sua vez, seus componentes ajudam a regular a glicose e o colesterol no sangue e, como é um alimento que sacia e tira a sensação de fome, a pessoa não tem necessidade de continuar comendo”, explica Tasat.

COMO CONSUMIR

É possível encontrar o alimento em diferentes formatos e com diversas utilizações: por um lado, a aveia tradicional, que necessita ser cozida, e por outro, a aveia instantânea, que possui grãos maiores que já vêm com um processo de pré-cozimento. Aveia e farelo de aveia são usados em produtos de panificação.

Por sua vez, Tasat recomenda comer uma porção diária entre 20 e 30 gramas da maneira que cada um preferir.

“Pode ser usado em pudins, em panquecas e até mesmo junto com frutas”, destaca a profissional.

A aveia vem de uma planta da família das gramíneas e sua história é um tanto desconhecida e incerta. Estima-se que corresponda a uma cultura muito antiga e que tenha origem na zona da Ásia Central. Na época, foi apelidada de “erva daninha ruim”, pois seu consumo era desaprovado, pois nasceu como uma variante do trigo e da cevada. No entanto, ao longo dos anos, desembarcou na Europa e foi o principal alimento na Irlanda e na Escócia.

Ao incorporar este cereal na dieta, deve-se levar em conta uma série de cuidados. A nutricionista esclarece que, embora seja um alimento isento de glúten, durante o processo de industrialização, pode apresentar risco de contaminação cruzada. Portanto, não é seguro para todos os celíacos ou intolerantes trigo, aveia, cevada e centeio.

“Em alguns países europeus, foi adotada uma modalidade para que todos possam usufruir: há campos certificados apenas para o seu cultivo. Dessa forma, o consumidor fica tranquilo que isso não afetará sua saúde”, afirma a nutricionista.

Por outro lado, explica que para além de ser um produto saudável e biológico, deve ser consumido no contexto de uma alimentação saudável e equilibrada, “onde se incorpora a maior quantidade de minerais, vitaminas e nutrientes”. A especialista conclui que degustar um alimento saudável e depois uma dieta rica em ultraprocessados não vai garantir benefícios ao organismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVOS DELÍRIOS

Jovens buscam drogas sintéticas na euforia do fim do isolamento

Não há dúvida de que os jovens penaram muito durante a pandemia. Meninos e meninas em pleno vigor físico e mental tiveram que aprender rapidamente a guardar e remoer sentimentos e angústias com a suspensão de suas vidas fora de casa. Quando finalmente as regras de saúde contra o coronavírus foram flexibilizadas, eles acreditaram então que reencontrariam a sensação de liberdade e a vontade de ser quem eles queriam ser, sem amarras. Mas ninguém saiu desse período de enclausuramento da mesma forma que entrou.

Parte deles passou a recorrer a substâncias ilegais na tentativa de fugir da realidade que se apresentava e tentar aproveitar o momento ao lado dos amigos sem se preocupar com os problemas do mundo real. Nesse cenário, novas drogas se encaixaram perigosamente pelos efeitos proporcionados (alucinógeno e estimulante) e local de consumo (baladas).

Essa nova geração de substâncias inclui os compostos sintéticos poppers, cocaína rosa e K2, que já começam a provocar estragos na nova geração, dizem especialistas. São inúmeros os relatos de usuários na internet. Inaláveis, os poppers, por exemplo, dão um prazer aos usuários descrito como “indescritível”. Entre os principais efeitos estão a desinibição, aumento da libido, crescimento do prazer sexual, euforia, e relaxamento muscular. A substância age em segundos, e funciona como uma névoa, fazendo a pessoa esquecer dos problemas da vida real.

Essa droga era prescrita pelos médicos na década de 1860 como medicamento para tratar angina, dor no peito causada pela diminuição do fluxo de sangue no coração. Era vendida em cápsulas, que deveriam ser quebradas – ou “popped”, por isso a origem do nome da droga – para o paciente inalar o conteúdo e, então, obter o alívio da dor.

Entretanto, pode ser viciante e ter consequências nocivas, como queda súbita da pressão sanguínea, tontura, elevação da frequência cardíaca, e até riscos mais graves, como pressão nos olhos, deflagrando para o glaucoma – a substância faz os vasos sanguíneos do corpo se alargarem. Além de reações respiratórias mais severas, como sinusite e chiados no peito.

VERSÕES SINTÉTICAS

A droga chamada K2 (ou maconha sintética) é a que mais cresce entre os jovens. Fabricada em laboratório em forma líquida, foi desenvolvida para simular os efeitos da droga orgânica, mas age de forma muito mais intensa no organismo. Ela atua no mesmo receptor que o THC (tetrahidrocanabinol) – responsável pelo efeito da erva – e proporciona uma onda mais imprevisível.

A K2 é liquida e sem cheiro, e costuma ser vendida borrifada em material vegetal seco, como flores ou orégano. O usuário fuma esses “temperinhos” apertados como um baseado ou em versão líquida, nos cigarros eletrônicos. Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, o aumento de apreensões da droga foi de quase 2.000% desde 2018. Já a cocaína rosa, também chamada de “erox”, em alusão a Eros, o deus grego do amor, tem forte efeito afrodisíaco. Com elevado custo de produção em laboratório, é praticamente restrita a usuários com alto poder aquisitivo. No fim do ano passado, houve uma grande apreensão dessa droga em Brasília, pela polícia civil do Distrito Federal.

“O que esses compostos têm em comum é serem estimulantes e amplificarem a realidade. Eles atraem jovens angustiados pela pressão de estudar e produzir mais. Isso os deixa ansiosos e depressivos. E a pandemia não ajudou em nada esse cenário. Atualmente, procuram cada vez mais algo para se sentirem anestesiados, ou uma fuga da realidade e do sofrimento. Eles precisam ter uma sensação positiva da vida, e só conseguem através dessas substâncias”, explica a psiquiatra Camila Magalhães, fundadora do centro Caliandra Saúde Mental.

A psiquiatra afirma ainda que grande parte dos efeitos nocivos da K2 e suas variações são desconhecidos.

“Muitas das ações da droga ainda são imprevisíveis. Para se ter uma ideia, os traficantes proíbem que os usuários consumam a substância nos pontos onde ela é vendida por causa disso”, afirma a médica.

Entre essas novas substâncias, há uma avassaladora. Com o nome de krokodil, a droga injetável é um dos entorpecentes mais perigosos do mundo. Ela começou a ser produzida clandestinamente na Rússia por volta dos anos 1990. Tendo como base a desomorfina, um derivado da morfina, pode causar insônia, depressão, ataques de pânico e pensamentos suicidas. O estrago não para por aí. Na região da aplicação, a pele costuma ficar com uma coloração escura e escamas, como a de um crocodilo – daí seu nome. Estima-se que ela tenha chegado ao Brasil nos últimos cinco anos.

OUTROS OLHARES

MAIS UMA IDEIA BIZARRA TRAZIDA VIA TIKTOK

Com o inverno europeu se aproximando e os custos da energia elétrica disparando como uma das consequências da guerra na Ucrânia, começam a circular receitas bizarras para aquecer ambientes residenciais e de trabalho.

O TikTok é uma fonte dessas receitas, algumas das quais muito perigosas para os que tentam usá-las; uma delas é acender velas e cobri-las com vasos de barro.

O Corpo de Bombeiros de Londres tem desaconselhado o uso desse método, por várias razões, que vão da possibilidade de queimaduras causadas por vasos superaquecidos até explosões, que podem acontecer em função de geração de gases produzidos pelo aquecimento do barro.

Vídeos mostrando como construir esses aquecedores começaram a circular no TikTok no início de 2021, mas em função da elevação dos custos de energia tem se tornado populares, já tendo gerado mais de dois milhões de visualizações.

Mas o assunto não é inteiramente novo: já em 2013, os bombeiros londrinos haviam emitido um alerta acerca de um vídeo postado no YouTube, que mostrava uma receita similar.

Ideias que além de bizarras são perigosas, tendem a se espalhar rapidamente, especialmente quando divulgadas via TikTok, o aplicativo mais baixado em todo o mundo.

VIVALDO JOSÉ BRETERNITZ – É Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas

GESTÃO E CARREIRA

FORA DA SALA DE AULA, CURSOS PARA EXECUTIVOS EXPLORAM EVENTOS COMO F1 E ROCK IN RIO

Experiência imersiva vira tendência de educação executiva para CEOs e diretores de vários setores da economia

Mais do que uma competição esportiva, o Grande Prêmio de São Paulo (GPSP) de Fórmula 1 é uma verdadeira plataforma de negócios. “Envolve uma força de trabalho de mais de 10 mil pessoas, 300 marcas, cerca de 200 mil espectadores em três dias e R$ 1 bilhão em impacto econômico para São Paulo. O mundo corporativo se encontra no GP”, afirma o CEO do GPSP, Alan Adler.

Desde a realização do evento de estreia na capital paulista há 50 anos, pela primeira vez, profissionais de várias áreas tiveram a oportunidade de conhecer os bastidores e entender como funciona a organização de uma corrida de Fórmula 1, num curso realizado no autódromo de Interlagos.

A iniciativa segue uma tendência de educação corporativa, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. Cada vez mais, a sala de aula de líderes e executivos tem se transformado em experiências imersivas que colocam empresas e negócios de sucesso como protagonistas do ensino.

O objetivo é aumentar o engajamento e melhorar a absorção do conteúdo a partir de vivências práticas de acordo com o que demanda o mercado atualmente. Os formatos das capacitações imersivas são diversos e costumam incluir experiência de casos reais, experiências com tecnologias, viagens internacionais e metodologias interativas, como edutainment (junção entre educação e entretenimento) e fishbowl (método aquário).

“A nossa estrutura tem muitas áreas: operação, logística, engenharia, comercial, financeira, jurídica e um grande trabalho de planejamento e execução o ano inteiro. Temos metas, colaboradores, preocupações com o meio ambiente e com o social, ou seja, tudo o que se emprega nos negócios”, justifica o CEO do GPSP.

A etapa brasileira do campeonato automobilístico ocorreu entre os dias 11 e 13 de novembro. Pouco antes, no dia 7, cerca de 450 pessoas participaram do GPSP Academy, iniciativa promovida em parceria com a plataforma de educação HSM.

“A sala de aula hoje está em todo lugar. Falávamos muito de universidades corporativas e, agora, estamos chamando as organizações de empresas universitárias. Esse é o conceito. Toda companhia, de alguma forma, vai virar uma empresa de educação”, destaca o CEO da HSM, Reynaldo Gama.

Além de acompanhar a montagem do circuito em Interlagos, com direito à visita aos boxes e à pista da corrida, os profissionais participaram de palestras e painéis sobre temas ligados a negócios, como gestão, inovação, liderança, marketing e experiência do cliente. Ao todo, foram cerca de 10 horas de conteúdo em um dia, e a sala de aula era o próprio autódromo.

“Os executivos têm buscado por experiências mais imersivas, que saiam de seus ambientes de trabalho e core business. Eles querem aprender e levar essa experiência de excelência, como é o caso do GP, para o seu negócio. Vemos uma procura muito grande”, garante o CEO da HSM.

CUSTOS

A inscrição no GP Academy ainda dava acesso aos treinos, à Sprint (corrida de classificação) e à competição oficial na arquibancada “R”. O custo total era de R$ 4 mil por profissional. Essa é a primeira edição do curso em Interlagos, mas a HSM tem outros programas imersivos no portfólio em que o valor pode chegar à casa dos R$ 40 mil.

“Esse é o caso do Executive Program, em parceria com a Singularity University, que reuniu cerca de 80 CEOs em Campos do Jordão, interior de São Paulo”, lembra Gama. Outro curso promovido pela plataforma é o Rock in Rio Academy, que leva profissionais para uma vivência na cidade do rock, durante o festival.

Segundo o CEO da HSM, a absorção do conteúdo tende a ser maior quando a experiência acontece fora de uma sala de aula convencional. “Os próprios executivos relatam que conseguem se concentrar mais quando saem de um local formal e vão para um ambiente de aprendizado imersivo.”

Foi o que levou Eduardo Dallastra, CEO da Agro-Sol, empresa de sementes de soja, a participar do GPSP Academy. Ele sempre gostou do esporte e se interessou ainda mais pela história do negócio. Quatro colaboradores da companhia o acompanharam na imersão, como uma forma de premiação pelo bom desempenho.

O executivo afirma que foi interessante ouvir depoimentos de outros CEOs. “Vamos fazer conexões com a nossa realidade. O que aprendemos vai ficar bem registrado pela emoção que foi estar no GP Brasil.”

VIVÊNCIA PRÁTICA

Segundo o CEO da Startse, Junior Borneli, esse conceito do aprendizado por experimentação vem de uma mudança cultural global. “Antigamente, a gente era assistente das coisas, hoje, somos protagonistas. Por isso, o conhecimento, quando vai para o caminho da experimentação e de botar a mão na massa, é muito mais efetivo”, explica. A Startse, escola internacional de negócios que também aposta na educação experiencial, prevê crescer 120% este ano em relação a 2021. A empresa fornece capacitação para líderes, executivos e empresas, e realiza frequentemente imersões internacionais para locais onde a inovação se destaca, como Vale do Silício, Miami, Israel, Estônia e Portugal. Recentemente, a empresa realizou o Portugal Experience. Durante cinco dias, 50 executivos de companhias consolidadas participaram do Web Summit Lisboa 2022, evento global de tecnologia e empreendedorismo, e conhecer 10 cases diferentes do ecossistema português e mundial. O custo do programa foi de R$ 21 mil, por profissional.

ALTA LIDERANÇA ENGAJADA

A Startse já promoveu experiências imersivas para executivos de empresas diversas, como Bayer, Itaú, Volvo, Bradesco, Totvs, Zup, Nestlé e Disney. Na visão do CEO, as organizações precisam ser provedoras de conhecimento, com estratégia de crescimento.

O grande desafio, no entanto, quando se fala em criar cultura de aprendizagem nas organizações, segundo Glaucia Ghirardini, especialista em desenvolvimento de lideranças da Zup, é o engajamento das pessoas. “Não existe mais a ideia de obrigar a participar de um treinamento”, ressalta a executiva da empresa de tecnologia, que conta com 3 mil funcionários em 10 países.

Recentemente, a Zup promoveu um programa de desenvolvimento para a alta liderança, que contou com workshops presenciais e virtuais e uma imersão em 18 empresas e organizações em Israel. “Aproveitamos para conhecer a cultura e a história do país. Isso foi fundamental para entendermos o mindset que encontramos nas startups que visitamos. Esse foi um dos aprendizados mais relevantes”, diz Ghirardini.

EU ACHO …

A POSSUÍDA

Sentada em uma cadeira de plástico, Shirley agitava-se com força. Havia gritos de ‘Fora, Satanás!’

Ana viu o vídeo várias vezes. Observou detalhes com a atenção que seu treinamento de psicóloga pedia. Shirley estava sentada em uma cadeira de plástico. Agitava-se com força. O pastor a segurava e outros membros da igreja reforçavam os gestos e as falas do dirigente. Havia gritos de “Fora, Satanás!” e “Saia em nome de Jesus!”

Após um tempo longo, Shirley se acalmou e, finamente, abriu os olhos. O oficiante anunciou que ela estava livre do inimigo. Eram ouvidos coros de “aleluia” e de “amém”. O exorcismo estava terminado.

Religião era a área de pesquisa de Ana. Ela tentava não julgar seu objeto. Buscava os melhores conceitos freudianos e lacanianos para lidar com a situação que acompanhava. Estava escrevendo sobre possessões. “Julgar atrapalha a análise e mostra apenas você, não o paciente” – ela aprendera o princípio em Antropologia Religiosa, durante um curso na USP.

Havia uma luta interna. A pesquisadora não acreditava em entidades metafísicas divinas ou infernais. Ao mesmo tempo, sentia que a tradição psicanalítica era dura com a fé religiosa e bastante permissiva com crenças irracionais dos próprios psicanalistas. Sorriu, ao pensar em tantos colegas de trabalho para os quais uma boa sessão de exorcismo teria, pelo menos, o efeito de serem tocados por muitas mãos. Crítica, Ana pensava no seu lugar de fala (urbano, branco, acadêmico) e em seu olhar sobre a pessoa naquela cadeira de plástico. Tentaria entrar na gramática da possuída mais do que na de um teórico austríaco ou francês.

Havia uma questão narcísica, claro. Shirley, a ex- endemoniada, tinha sido libertada de uma entidade que, afinal de contas, tentara gente ilustre como Adão, Eva e, acima de tudo, Jesus. Ter Satanás no seu corpo era um upgrade imenso. Ela era alguém em uma disputa cósmica. Impossível não notar os efeitos hipnóticos da Bíblia que o pastor agitava em movimento pendular. Os gritos da comunidade funcionavam de forma tribal para derrubar uma barreira de racionalidade ou de intimidade. Shirley era o prêmio que dois grupos disputavam com força: o team Jesus e o team capeta. Tudo ali a elevava. O poder das mãos sobre o corpo dela tinha até certo caráter sexual.

Ana tomava notas para preparar o artigo sobre aquele exorcismo. Esbarrou na ideia de sentimento oceânico: o termo de Romain Roland incorporado por Freud. Era a sensação de eternidade no instante, o mundo sem limites perceptíveis. Ali estava o prazer absoluto do bebê ou da memória de um ego primitivo e forte.

Naquele instante, a renomada pesquisadora percebeu que sentia tristeza pela intensidade da entrega de Shirley. Era uma inveja sofisticada que envolvia o sentimento oceânico, porém, era inveja. Sem julgamentos, empoderada, Shirley reinava na situação cercada de atenções da sua comunidade em um jogo que envolvia o Céu e o Inferno. Mãos humanas e planos divinos cercavam-na em um mar de atenções, no líquido quente do protagonismo. Entregue a todos, a possuída flutuava, majestosa, com a certeza de que a fé lhe dava a vitória final. Shirley estava possuída de si (no sentido positivo do termo). O grupo ao seu redor lutava contra o sintoma secundário: um espírito imundo.

Ana invejou a entrega no silêncio da sua sala naquele fim de tarde. Sentada em uma sofisticada poltrona de design dinamarquês, a psicóloga invejou a cadeira de plástico da igreja. Ela, Ana, passava anos analisando pessoas lentamente, minuciosamente, criteriosamente. Ali, em 15 minutos, em um ritual teatralizado, as coisas tinham ocorrido diretamente.

Parece que o demônio tinha fugido do corpo vasto de Shirley e se alojado em Ana. Um espírito ardiloso tinha colocado a dúvida na profissional da mente. A psicóloga não tinha sido informada de que nunca se deve discutir com o Príncipe das Trevas: ele é mais astuto e tem mais argumentos. A vida dela pareceu racional e vazia. Ana experimentou uma profunda tristeza que contrastava com o entusiasmo de Shirley, ao final do vídeo. Lembrando-se de um conceito de Rudolf Otto, Shirley tinha entrado em estado “numinoso”, a maré suave que invade o fiel diante do “mysterium tremendum”. Havia um vasto e direto mistério ali… Shirley tinha sido capaz de alcançá-lo. Ana não.

Perturbada, a psicóloga saiu do consultório para buscar seu supervisor. Queria compartilhar com outro intelectual sua inquietação, talvez seu medo. Seria o caso de um remédio, talvez? Ana não conseguiu distinguir se estava possuída de algo novo ou se, finalmente, tinha sido abandonada pelo espírito seco e insistente da racionalidade. O corpo, sempre o corpo, tomou sua própria decisão. Ela evitou os Jardins e dirigiu-se à Radial Leste, em São Paulo. Deu as costas ao endereço do seu supervisor-doutor e foi direto para uma pequena igreja com cadeiras de plástico. Lá, diante do pastor que ela reconheceu pelo vídeo, pediu, entre lágrimas, que ele a exorcizasse. O homem, gentil, atendeu ao desejo dela.

Depois de meia hora, ela se sentia diferente. O que tinha ocorrido? No céu dos psicanalistas, Lacan e Freud sorriam. Ana estava em paz no vasto oceano de uma nova vida. Agora, ela tinha esperança.

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

O PODER DA RISADA

Rir melhora o humor e combate o estresse, além de fortalecer o sistema imunológico e beneficiar a saúde do coração

Quando se trata de saúde e bem-estar, o riso é um poderoso aliado e suas virtudes vão muito além do mero entretenimento. Cientificamente comprovados, os beneficias são inúmeros e ajudam a equilibrar a mente e o corpo. É um ato terapêutico, que não apenas melhora o humor e combate o estresse e a ansiedade, diminuindo a tristeza e mantendo as emoções negativas afastadas, como também facilita o sono, a digestão, fortalece o sistema imunológico, aumentando as defesas do organismo e prevenindo doenças.

Além disso, dissipa tensões e é uma arma de sedução que fortalece laços e a relação com as pessoas. Traz diversão, relaxamento e leveza para encarar os desafios da vida, às próprias falhas e as dos outros. Ele melhora a autoconfiança e eleva a autoestima. Tem efeito analgésico e antidepressivo, produz endorfinas, hormônios associados ao prazer. Oxigena o cérebro, promove relaxamento, melhora a memória e as capacidades intelectuais. A lista é extensa e, de acordo com a psicóloga Débora Benfatti, o riso também está associado a um aumento da longevidade.

”O ato de dar risada libera substâncias químicas como a serotonina e a endorfina, neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar, que ajudam a combater os efeitos da adrenalina e do cortisol, que são hormônios ligados ao estresse e  ao desgaste do organismo, reduzindo o risco de doenças psicossomáticas, de­ pressão e ansiedade. O riso também é eficaz para diminuir a tensão física, aliviando dores no corpo, em especial em casos de dores crônicas, visto que a percepção da dor está vinculada aos estados emocionais de estresse e relaxamento”, explica Débora.

FERRAMENTA DE SOBREVIVÊNCIA

Outro fator benéfico associado ao riso e à prática da gargalhada é a melhora nos relacionamentos. “Acredita-se que nos primórdios das organizações de grupos humanos, o riso era o que mantinha o grupo unido e funcionava como alerta para situações de perigo ou segurança. É um comportamento que evoluiu como uma forma de vínculo social e comunicação, necessários à sobrevivência da espécie “, destaca a psicóloga Débora Benfatti.

“É muito  mais fácil se identificar ou se sentir seguro para uma aproximação com uma pessoa que se apresente com um sorriso, que faz parte da nossa linguagem corporal e comunicação cotidiana”, diz Débora. A especialista cita ainda que um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, que avaliou mais de 150 relacionamentos de longo prazo, concluiu que o riso é a cola que mantém os casais unidos. Aqueles que se consideram satisfeitos riem mais do que os que estão insatisfeitos com a relação.

“Com isso, é possível concluir que no âmbito das relações sociais o riso auxilia na resolução de conflitos em situações que antes se apresentavam como rígidas e pesadas, seja no ambiente familiar, no trabalho, na escola ou entre amigos. E como bem disse William Shakespeare, ‘é mais difícil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada”‘, destaca Débora.

COMPORTAMENTOS POSITIVOS

A psicóloga Débora Benfatti destaca que o estresse provoca uma aceleração da mente, que pode favorecer quadros de ansiedade e uma visão pessimista das situações. No entanto, o ato de sorrir contribui para inspirar comportamentos positivos na própria pessoa e nas que estão ao redor.

“Para um efeito de melhora do otimismo ou automotivação, basta o sorriso interno para aliviar as questões da mente e propiciar uma visão mais clara da situação vivida e alternativas de enfrentamento”, afirma.

RIR POR OPÇÃO

A Yoga do Riso é uma prática terapêutica criada nos anos 90 por um médico indiano chamado Madan Kataria, que consiste em risadas auto-induzidas, até que o riso simulado se torne espontâneo.

A professora de yoga e terapeuta corporal de abordagem holística, Lilian Cruz, que trabalha com o método Vinyasa Yoga, afirma que a técnica é muito bem-vinda e pode ser praticada dentro de qualquer modalidade de yoga. “Ela foi desenvolvida baseada na alegria, na gratidão, na felicidade, nas emoções positivas e tem um poder muito grande sobre a questão do sistema imunológico, pois uma pessoa alegre e feliz vai repercutir o efeito nos seus órgãos internos, nas suas células, em todos os seus sistemas”, diz.

Diferente da yoga feita no tapetinho, Lilian explica que a Yoga do Riso é uma prática que às vezes utiliza todo o espaço da sala, onde as pessoas caminham e se relacionam umas com as outras, seja em duplas ou trios, estimulando de alguma forma o riso.

“É tão interessante que os praticantes saem da aula como se tivessem feito uma hora de exercício. A impressão que dá é que a pessoa fez abdominais, porque a ideia é rir com o abdômen, rir na barriga, e isso mobiliza muito a energia, que chamamos de 2 e 3 chakras, a energia mais baixa do corpo, e isso traz um pouco de força muscular nessa região, além de liberar hormônios, neurotransmissores da alegria, que trazem bem-estar e leveza, combatendo a depressão e até mesmo curando ou prevenindo doenças”, afirma.

RECEITA PARA UM CORAÇÃO SAUDÁVEL

O riso tem efeitos benéficos no sistema cardiovascular, promove a boa circulação sanguínea, melhora a oxigenação do coração e reduz a pressão arterial e o risco de coágulos. “Um remédio altamente eficaz e sem efeitos colaterais, que pode ser o melhor tratamento em muitas situações”, afirma o cardiologista Victor Rodrigues Ribeiro Ferreira. De acordo com o médico, pesquisadores de Maryland, nos Estados Unidos, relataram que a risada pode auxiliar na dilatação das artérias melhorando a circulação de sangue pelo corpo, além de reduzir marcadores sanguíneos relacionados a doenças com o infarto do miocárdio.

Ferreira afirma ainda que rir estimula vários músculos pelo corpo e auxilia na capacidade de funcionamento dos pulmões. “A musculatura relacionada à respiração é tonificada e a troca de gases sanguíneos torna-se mais abundante, melhorando a oxigenação do corpo”, diz.

Além disso, o ato de sorrir libera uma série de substâncias benéficas ao organismo, como a serotonina e a endorfina, responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer, contribuindo para a diminuição dos hormônios relacionados ao estresse, melhorando a saúde cardiovascular. “Portanto, indico doses generosas de boas gargalhadas, sem moderação”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RELAXAR, DEIXAR PREOCUPAÇÕES DE LADO E MANTER ROTINA AJUDAM A COMBATER ANSIEDADE NOTURNA

A ansiedade é uma reação normal do corpo a um acontecimento futuro. Pode ocorrer, inclusive, por algo bom que está para acontecer. Estudo conduzido pelo psiquiatra Luc Staner, do Rouffach Hospital, na França, mostrou que 36% das pessoas que costumam se sentir ansiosas percebem que os sintomas se intensificam à noite.

“De dia, quando estamos mais atarefados, o pensamento se estrutura no córtex pré- frontal do cérebro, onde estão as áreas de julgamento, planejamento e razão. Quando o córtex relaxa, ele se direciona às emoções. Consequentemente, os pensamentos ansiosos que estavam dormentes durante o dia surgem à noite”, explica Monica Machado, psicóloga e fundadora da Clínica Ame. C.

A ansiedade é caracterizada por sensações físicas de agitação, alerta, inquietação e pensamentos focados em ameaças. “Já o transtorno de ansiedade, ou seja, a ansiedade patológica, tem o cérebro ‘enganado’. Ele percebe o perigo onde não existe e não reconhece nossa capacidade de enfrentamento”, afirma o psiquiatra Marco Abud.

“Nesses casos, a ansiedade torna-se um padrão, um hábito tóxico de sensações, pensamentos negativos e comportamentos de fuga que causam muito sofrimento, não permitindo que a pessoa faça suas escolhas. Além disso, faz com que ela se torne refém da ansiedade com prejuízos no trabalho, nos relacionamentos e na saúde”, afirma o médico.

O tratamento para o transtorno de ansiedade é feito com sessões de psicoterapia com psicólogos, e, se necessário, medicamentos receitados por psiquiatra. Atividades como meditação, ioga e mindfulness também podem ajudar.

A seguir, a psicóloga Monica Machado dá dicas para enfrentar o problema.

DEIXE SUAS PREOCUPAÇÕES LONGE DA SUA CAMA

“Se você for deitar remoendo suas preocupações, será impossível pegar no sono, mesmo que esteja exausto. Pior: você acaba se forçando a dormir, vira de um lado, vira de outro, vê a hora passar, e o único resultado será mais ansiedade.

Antes de dormir, aposte em livros, uma música calma ou um filme leve. “O importante é distrair a mente e afastar os pensamentos negativos”, explica Machado.

APRENDA A RELAXAR

Se o sono não vem, procure relaxar, não dormir. Relaxando, o sono virá com mais facilidade. Uma dica é fazer exercícios de respiração. Respire profundamente, direcionando a atenção para o movimento do ar que entra e sai dos pulmões. Solte o ar lentamente pela boca e, a cada inspiração, imagine uma paisagem ou uma imagem mental que transmita calma e serenidade.

MANTENHA A ROTINA DO SONO

Segundo a psicóloga, não ter hora certa para dormir é forte gatilho para ansiedade e insônia. “Deite todos os dias no mesmo horário, com uma diferença de, no máximo, 30 minutos. O hábito regula o relógio biológico e o ritmo circadiano, fundamentais para o organismo ajustar o sono”, conta.

EVITE EXERCÍCIOS FÍSICOS À NOITE

Atividade física é essencial no combate à ansiedade, pois libera substâncias como dopamina e endorfina, que geram a sensação de bem-estar. Mas praticá-la nas últimas horas do dia pode fazer com que seu sistema nervoso fique muito ativo, inviabilizando o sono.

“Para muitos, o treino à noite gera tanto relaxamento que até ajuda a dormir melhor. Já para outros, causa agitação. Se você faz parte deste último grupo, prefira treinar na parte da manhã”, aconselha.

EVITE AS TELAS

Ao ir deitar para dormir, evite usar celular, tablet, notebook e televisão. As luzes fortes desses aparelhos comprometem a liberação da melatonina, o hormônio do sono.

Redes sociais e sites de notícias podem desencadear estímulos mentais negativos, aumentando a ansiedade e, consequentemente, dificultando que o cérebro se desligue.

ESQUEÇA OS BOLETOS

Se o dinheiro é uma preocupação, não se deite e pegue o celular para checar o extrato bancário ou a fatura do cartão de crédito. Você não vai solucionar nada a essa hora e só vai alimentar a ansiedade.

Se precisa organizar as finanças, deixe para fazer contas e rever o orçamento mensal durante o dia.

DEIXE O QUARTO ACONCHEGANTE

Quanto mais agradável for o quarto e a cama, mais fácil será dormir. Travesseiro confortável, temperatura ideal, e ambiente sem luzes e ruídos podem ditar a qualidade do sono.

OUTROS OLHARES

EU QUERO SOSSEGO

Existe o turismo gastronômico, o de aventura, o romântico e, agora, o do sono, em que destinos e hotéis investem em cuidados e programas pensados para quem busca, acima de tudo, noites bem dormidas

Quanto vale uma boa noite de sono? Para a publicitária Fernanda Chaves, muito. Quando foi planejar as suas férias, depois de mais de dois anos trancada em casa, não foi nos destinos de aventura ou de cultura, seus preferidos até então. Ela só queria dormir bem. “Vivi situações de muito estresse por causa da pandemia. Juntei o trabalho, com as aulas on-line do meu filho, a louça acumulada e, principalmente, o medo e as incertezas. Quando fui decidir as minhas férias, eu só pensava em um lugar que me permitisse dormir, coisa que fiz pouco nos últimos tempos”, conta.

Fernanda não é um caso isolado. No embalo dos traumas pandêmicos (período em que nasceu até a síndrome “coronasomnia”), criou-se o turismo do sono, em que spas e hotéis focam em oferecer noites muito bem dormidas. De acordo com o neurologista e médico do sono Paulo Mei, a insônia deu um boom. “Fizemos um estudo amplo durante o início da pandemia, e os resultados estavam em linha com várias outras pesquisas mundiais: praticamente metade da população tinha sintomas de ansiedade e sono de má qualidade. A minha percepção é que, mesmo após a melhora dos índices de infecção, as sequelas estão demorando a esmorecer”, afirma. Ele frisa ainda que noites mal dormidas geram um impacto negativo no funcionamento diurno, como dificuldade de concentração e memória, irritabilidade, falta de energia e dores. “O tratamento do sono está cada vez mais no centro de discussões sobre a saúde e é natural que negócios focados em promover  restauração comecem a se proliferar.”

O grupo Rosewood Hotels & Resorts lançou, em janeiro, o projeto global Alquimia do Sono, com retiros pensados para promover o descanso através de tratamentos indutores do descanso, com meditações, cardápios especiais e exercícios. E ainda tem a Curated Sleep Box, recheada de produtos que equilibram, como misturas de óleos essenciais, chás, aromaterapia e máscaras de seda para os olhos. “Buscamos fornecer aos hóspedes as ferramentas necessárias para desacelerar e estabelecer hábitos duradouros de higiene do sono, e assim alcançar um maior bem-estar geral”, comenta Emmanuel Arroyo, diretor regional de meditação no Rosewood Hotels & Resorts.

A tendência é forte mundo afora. E teve até fabricante de camas de luxo lançando hotel com tal bandeira. É o caso da marca sueca Hastens que inaugurou o Hästens Sleep Spa Hotel, um boutique com apenas 15 quartos, em Coimbra.

Tudo para as pessoas dormirem em suas camas (que podem custar 60 mil euros e demoram até 200 horas para serem produzidas) feitas com crina de cavalo, lã, algodão e linho. Ou ainda o projeto ainda não inaugurado Shleep Sanctuary, na Inglaterra, em que ovelhas numeradas pastam ao redor da suíte de vidro para fazer com que o hóspede adormeça. “Estamos lançando uma experiência de fuga única para oferecer a melhor noite de descanso por meio de uma experiência de sono com contagem de ovelhas, apoiada pela ciência e pioneira no mundo”, explicam no site sobre o futuro projeto. Melhor estilo de contar carneirinhos não há.

“Passamos praticamente um terço de nossas vidas dormindo. Dormir bem pode parecer evidente quando se fala em hotéis e turismo de luxo. Mas uma das tendências recentes do mercado de viagens é reforçar esse pilar de bem-estar através de experiências e infraestruturas voltadas para esse tema. Kit do sono, camas e travesseiros especiais, quarto com acústica impecável, lugares remotos silenciosos, chás e tratamentos específicos em spas são algumas das ofertas pensadas pelos hotéis para garantir uma melhor qualidade do sono a seus hóspedes. Um turismo cada vez mais voltado à natureza e reconexão com si mesmo está a caminho”, afirma Charles Piriou, consultor expert em hospitalidade.

Quem chega ao Lapinha, no Paraná, já entra automaticamente em um ritmo mais calmo. No primeiro spa médico do Brasil, estar com corpo e mente funcionando bem sempre foi o foco. Por isso, uma agenda de caminhadas matinais com exposição à luz natural do sol, regularidade de horários para refeições e jejum um pouquinho mais prolongado, hábitos que favorecem o repouso. Mas, este ano, houve necessidade de se criar um programa especial focado nas sagradas oito horas, o “Bem dormir” (a partir de R$ 5.128), criado pela médica especialista na área Simone Prezotti. Além de avaliações, ainda entram em cena playlist de músicas indutoras do sono, aromatizador com óleo essencial e um sleep journal, uma técnica em que a pessoa faz um diário do sono. “O objetivo principal deste programa é ajudá-lo a ter noites saudáveis e repousantes, melhorar seus padrões de sono e combater os desequilíbrios de saúde que causam cansaço”, comenta.

A nova hospedaria Bons Ventos, em Sebollas, colocou suítes (diárias a partir de R$ 1.350) no alto de uma colina para o silêncio ser maior e o mergulho na natureza mais profundo. Entre os cuidados para um sono reparador estão os chás calmantes com ervas da horta, sauna para relaxamento muscular e ainda blends relaxantes para aromaterapia.

Uma sleep box é uma das surpresas do Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (diárias a partir de R$ 2.414). Dentro da caixa estão guias com posições de ioga que ajudam a dormir melhor, bloquinho de notas para escrever um pouquinho do seu dia e suas intenções, sais de banho para um momento bem relaxante na banheira, QR code para uma seleção de músicas que induz ao relaxamento, sachê com chá especial, óleo essencial e a máscara de dormir.

GESTÃO E CARREIRA

GREAT RESIGNATION: COMO EVITAR DEMISSÕES VOLUNTÁRIAS NAS EMPRESAS

As relações de trabalho vêm sendo intensamente ressignificadas

Muito mais do que salários atrativos e um plano de carreira bem desenhado, fatores como o match entre o propósito da empresa e o perfil dos candidatos se tornaram pontos decisivos para a retenção de talentos nas companhias.

Infelizmente, este vem sendo um cenário difícil de ser encontrado em diversos negócios – desencadeando índices preocupantes de demissões voluntárias que, se não forem revertidas com urgência, podem trazer danos drásticos para o mercado. Existem diversos fatores responsáveis por elevar o great resignation, como ficou conhecido este fenômeno de demissões por parte dos profissionais.

Em uma análise global, além da falta de identificação com os valores e propósitos da empresa, a insegurança dos trabalhadores frente a momentos de crise como a pandemia, o excesso de pressão rotineiramente ou em determinados projetos, e o descuido com o reconhecimento de suas contribuições, sempre se destacaram dentre os motivos mais frequentes para os desligamentos.

Contudo, ao longo da pandemia, novos critérios emergiram dentre as justificativas com- partilhadas. Dentre eles, o retorno ao trabalho presencial foi um dos mais polêmicos, visto que os benefícios proporcionados pelo home office atraíram cada vez mais adeptos para a procura de oportunidades que ofereçam essa modalidade.

De maneira relacionada, a busca por uma maior qualidade de vida também se mostrou mandatória, em vagas que possibilitem uma verdadeira conciliação entre o trabalho e a vida pessoal para maior tempo de lazer e entretenimento com amigos e familiares.

Em âmbito financeiro, a extrema preocupação causada diante dos altos números de desempregos, principalmente na pandemia, fez com que grande parte dos profissionais optassem por permanecer em seus empregos – mesmo sem estarem satisfeitos – como segurança de terem uma renda em meio à crise.

Porém, com o início da volta à normalidade, muitos já começaram a procurar por melhores oportunidades que se encaixem em seus perfis. Estamos presenciando um cenário alarmante. Segundo dados divulgados pelo Caged, o Brasil bateu o recorde de demissões voluntárias em agosto deste ano, representando 37,5% do total de desligamentos registrados ao longo do mês.

Diante de um fenômeno visto internacionalmente, reverter esta “grande renúncia” deve ser uma das maiores prioridades das companhias de todos os portes e segmentos, por meio de estratégias que alinhem os valores organizacionais aos dos candidatos e, assim, os mantenham felizes em seus ambientes de trabalho.

Após tantas mudanças sentidas ao longo do isolamento social, uma das ações mais importantes para este objetivo é viabilizar vagas que possam ser desempenhadas a distância – afinal, esta se tornou uma modalidade de trabalho com imensa aceitação global. Em um estudo realizado pela Frameable, comprovadamente, cerca de 73% dos profissionais são mais satisfeitos trabalhando em home office, junto com 81% que se sentem mais produtivos trabalhando a distância.

Muito além de permitir que realizem suas funções de qualquer lugar, esta liberdade geográfica também contribui para o balanço entre o trabalho e a vida pessoal. Afinal, a dispensa de se locomoverem até a sede da empresa permite um maior tempo em casa, menos estresse com trânsito e melhor aproveitamento de suas tarefas.

Por fim, a missão e propósito do negócio precisam ser repensadas, de modo que tragam uma significância social e ambiental defendidas, especialmente, pela nova geração de profissionais. As prioridades de retenção mudaram nitidamente. No lugar de remunerações elevadas, a flexibilidade, autonomia e liberdade conquistaram o pódio de critérios dos profissionais. Independente da área de atuação, não há como escapar desta realidade do mercado.

Por isso, é dever das empresas se adapta- rem a essas demandas e oferecer aquilo que estão valorizando. Em um mercado dinâmico, aquelas que se mantiverem atentas a tais transformações, certamente conseguirão impedir o avanço destas demissões voluntárias e reter seus talentos para um crescimento próspero.

JORDANO RISCHTER – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção – https://wide.works/

EU ACHO …

PESSOAS NEGRAS NÃO SÃO UMA MASSA

Não se pode combater o racismo reforçando lógicas coloniais ultrapassadas

É muito comum ouvir coisas como “tal pessoa é negra e não sabe sambar”, com ar de surpresa, às vezes até de indignação, como se existisse um destino determinado. É negado o direito à individualidade, como reflete a pesquisadora Joan Scott quando diz que, muitas vezes, os próprios movimentos podem reproduzir essa lógica ao impor um modo de ser para ativistas. Ou quando ela argumenta que um indivíduo branco é responsabilizado por um erro como indivíduo e o grupo negro é responsabilizado quando um indivíduo negro erra.

Muitas pessoas já me escreveram cobrando que eu desse respostas por comportamentos equivocados de pessoas negras, mas elas nunca se veem no lugar de fazer o mesmo quando pessoas brancas se equivocam.

Alia-se a tudo isso o apagamento das contribuições da população negra e a legitimação do epistemicídio, conceito cunhado pelo intelectual português Boaventura Souza Santos e difundido pela filósofa Sueli Carneiro no Brasil. Esse conceito refere-se ao assassinato das produções intelectuais das pessoas negras que “fere de morte a racionalidade delas”, citando Carneiro.

Dia 20 de novembro foi o Dia da Consciência Negra, uma data importante que celebra Zumbi dos Palmares e a luta do povo negro. Fundamental louvar o trabalho de Oliveira Silveira, responsável por pesquisar a data e seus significados.

Justamente por causa desse histórico de apagamento das pessoas negras é comum que pessoas brancas queiram evidenciar o trabalho e contribuições de muitas delas. Perdi as contas das citações e marcações que recebi em uma rede social. É louvável que muitas pessoas façam isso. Porém, em alguns casos, essas ações se mostram problemáticas justamente por legitimar a lógica colonial de homogeneização.

As pessoas postam coisas como: “pessoas negras para seguir”, misturando escritores, blogueiras, juristas, políticos, influenciadoras, julgando que todas as pessoas negras citadas, porque são negras, são naturalmente ativistas, quando muitas não são. Nem toda pessoa negra é ativista e muitas pessoas deveriam ser seguidas não porque são negras, mas porque seus trabalhos são inspiradores e relevantes. Muitas vezes essas pessoas negras só têm em comum o fato de serem negras. O post poderia ser “escritoras negras de não ficção para conhecer” ou “ativistas negros com trabalhos importantes” e explicar o trabalho de cada um, ou ainda “blogueiras que falam de beleza negra”. Dava para respeitar as diferenças entre as pessoas negras em vez de reforçar esse lugar de massa homogênea.

Muitos não se dão ao trabalho de esmiuçar porque estão indicando a obra daquelas pessoas. Há quem me indique assim:

“Djamila Ribeiro, conhecida por seu trabalho na internet”. Eu venho de uma família de ativistas, formada pelos movimentos sociais, tenho cinco livros publicados, traduções para cinco idiomas, um Jabuti, um mestrado em filosofia, sou membro da Academia Paulista de Letras, coordeno um selo editorial que publica autores negros, tenho diversos reconhecimentos internacionais —e sou resumida a um vago trabalho na internet.

A pessoa que me indica nem sequer conhece a profundidade do que represento, poderia citar meu trabalho e dizer que também tenho uma forte atuação nas redes sociais, mas escolhe me reduzir e em seguida já postar uma selfie. E é perceptível que esse tipo de redução a comete mais mulheres negras.

Seria inimaginável um post com “pessoas brancas para seguir”, certo? Geralmente, as pessoas brancas são tratadas em suas diversidades. As pessoas brancas não misturam em um mesmo post indicações de pessoas brancas professoras, blogueiras, ativistas, youtubers ou fazem uma lista de “políticos brancos para seguir” e incluem Lula e Bolsonaro ou Trump e Biden.

Um escritor branco não estará num post com um influenciador, a branquitude não os homogeneíza; ao contrário, são tratados em suas individualidades. Que haja a reflexão de que não se pode combater racismo reforçando lógicas coloniais. Essa visão essencialista é racista, ou, citando James Baldwin, “I am not your negro”.

DJAMILA RIBEIRO – É mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

ESTAR BEM

CASOS DE PORTIOLLI E JUSTUS DÃO ALERTA SOBRE CÂNCER DE BEXIGA

Esse carcinoma é a 4.ª causa de morte oncológica mais comum em homens e só é menos tratado por urologistas que o tumor de próstata

Nas últimas semanas, dois famosos utilizaram das suas redes sociais para falar sobre seus tratamentos contra o câncer da bexiga. O apresentador do SBT Celso Portiolli justificou na sexta sua ausência no Teleton por causa de uma inflamação na bexiga, em meio ao tratamento do câncer, e o também apresentador e empresário Roberto Justus anunciou domingo a descoberta do tumor na região e a realização de uma “quimioterapia preventiva”, após retirada do carcinoma. Vítima da doença, morreu na sexta, 4, aos 72 anos, o músico e arranjador Paulo Jobim, filho de Tom Jobim. Ele tinha recebido o diagnóstico um mês antes.

Segundo o Instituto da Próstata e a Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo, o carcinoma da bexiga é a quarta causa de morte oncológica mais comum em homens e o segundo mais tratado por urologistas, só perdendo para o câncer de próstata. O chefe da oncologia clínica do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), Alexandre Palladino, destaca que a estimativa no Brasil é de que a cada ano do triênio 2020-2022 haja cerca de 7,5 mil novos casos em homens. “É uma doença mais comum em homens do que em mulheres. A faixa etária varia, pode acontecer em qualquer idade, porém é mais frequente entre pessoas em torno de 60 e 70 anos”, explica. Apesar de mais frequente em homens, mulheres também podem ser afetadas, visto que o tabagismo ainda é o fator de risco mais predominante, segundo o urologista e presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Alfredo Canalini.

Ele diz não acreditar que haja um grupo de risco e, sim, fator de risco. “Você tem grupo de mulheres também. Antigamente, você não via tanto tumor de bexiga nelas, porque elas não fumavam.”

Os tipos mais comuns de tumores neste órgão são os de células de transição, que começam no tecido interno da bexiga; os de células escamosas, que podem surgir na bexiga depois de infecção ou irritação prolongadas; e o adenocarcinoma que se inicia nas células de secreção e podem se formar na bexiga depois de um longo tempo de irritação ou inflamação.

Palladino explica ainda que o tratamento para esse câncer se divide em dois tipos. “No tumor superficial, tem como recurso fazer (a cirurgia) dentro da bexiga, como uma maneira de diminuir a recorrência local da doença. O paciente com tumor invasivo, ou seja, que se aprofundou mais, tem o risco de recorrência local, mas também de recorrência em outros órgãos”, diz.

FATORES DE RISCO

O tabagismo é conhecido como o principal fator de risco, sendo responsável por 50% dos casos no sexo masculino e em 35% entre o feminino. Segundo a SBU, a possibilidade de fumantes desenvolverem câncer na bexiga é de quatro a sete vezes maior do que entre não tabagistas. Ao deixar o cigarro, as probabilidades de apresentar a doença diminuem, embora a ação dos fatores cancerígenos possa perdurar por mais de dez anos.

Uma pesquisa do Inca mostra que o tabagismo não é o único fator relacionado ao desenvolvimento desse tipo de tumor. Existem pelo menos 28 profissões que têm presente nas suas atividades os agentes cancerígenos responsáveis pelo câncer de bexiga. Os trabalhadores mais expostos a produtos químicos são metalúrgicos, do setor de pneus, profissionais de radiologia, confecção de vidros, produção de tinta e salão de beleza.

O Projeto Diretrizes, da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, mostra que cerca de 20% dos casos de câncer de bexiga estão associados à exposição ocupacional. Para Canalini, fatores relacionados ao trabalho já são evitáveis. “Você tem equipamentos que realmente protegem o paciente desse tipo de contato”, conclui.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTÍMULOS PRECOCES PRODUZEM MENTE SADIA

Pesquisas mostram que conexões dos primeiros anos de vida são cruciais para desenvolvimento cognitivo do adulto

Diversas pesquisas têm mostrado que, durante os primeiros anos de vida, são estabelecidos os alicerces da saúde mental, do bem-estar e da aprendizagem das crianças. Nesta fase, os mais novos têm a capacidade de aprender com mais facilidade diferentes tipos de competências, sendo fundamental o papel dos pais, familiares ou responsáveis pela educação.

As experiências científicas de diferentes comunidades mostram que populações nas quais a ênfase não tem sido colocada na comunicação, no desenvolvimento da linguagem, na capacidade de expressar afeto, ou no estabelecimento de padrões lúdicos adequados para cada idade – ou seja, onde não há investimento de tempo e energia no desenvolvimento dos primeiros anos de vida – o potencial cognitivo futuro dessas pessoas pode ser afetado.

Os pais são muito importantes na promoção de experiências iniciais com potencial de enriquecer as habilidades cognitivas, afetivas e linguísticas das crianças. Na primeira fase da vida, principalmente até os 3 anos de idade, o cérebro da criança é como uma massa moldável. E neste momento que se deve gerar todas as conexões necessárias para um crescimento saudável da mente desde a infância até a idade adulta.

Tanto é assim que o desenvolvimento dos primeiros anos de vida terá impacto, por exemplo, no rendimento escolar ou mesmo nas possibilidades de trabalho no futuro. Por esta razão, diferentes tipos-chave de desenvolvimento são distinguidos nesta fase:

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

Inclui a consolidação de várias capacidades de percepção, movimento, pensamento, organização, planejamento e tomada de decisão. Evidências científicas mostram que, para que essas habilidades se desenvolvam adequadamente, as crianças precisam conviver com pessoas que conversem com elas, cantem para elas, olhem para elas, respondam suas indagações, acolham quando choram e brinquem com elas.

Além disso, os mais novos precisam de rotinas organizadas para as principais atividades de cada dia, receber instruções breves, claras e precisas, bem como ser elogiados sempre que fizerem algo corretamente ou pela primeira vez.

DESENVOLVIMENTO AFETIVO E SOCIAL

Esse processo está relacionado com a forma como a criança aprende a expressar e controlar suas emoções, entender as manifestações dos colegas e se relacionar com outras pessoas.

Pesquisas mostram que, para potencializar essas habilidades, as crianças precisam receber amor, atenção, compreensão e aceitação dos adultos, desenvolvendo assim a confiança em seus pontos fortes.

DESENVOLVIMENTO LINGUÍSTICO E COMUNICATIVO

Abrange a aquisição das habilidades para reconhecer e produzir sons da fala, compreender palavras e produzir gestos significativos. Nesse sentido, a pesquisa mostra que conversar com a criança para que ela nomeie objetos e pessoas dentro e fora de casa, aproveite as situações cotidianas para dizer palavras novas e familiares, além de motivar e parabenizar quando ela usa corretamente uma palavra, estimula o desenvolvimento da linguagem com intenção comunicativa.

Pesquisas realizadas em diferentes países do mundo mostraram que o apoio dos responsáveis pela criação dos filhos com práticas e ferramentas facilitadoras é muito eficaz para favorecer o desenvolvimento das crianças, principalmente daquelas com menos recursos ou que crescem em contextos de pobreza.

OUTROS OLHARES

1 A CADA 3 MULHERES AGREDIDAS COM ARMA SOFREU VIOLÊNCIA ANTES

Estudo inédito aponta para falhas nos sistemas de prevenção e proteção

Uma a cada três mulheres que sofreram agressões com o uso de arma de fogo já havia sido vítima de violência em episódios anteriores. O dado é de um relatório inédito do Instituto Sou da Paz sobre o papel da arma de fogo na violência de gênero no Brasil e aponta para falhas nos mecanismos de prevenção e de proteção à mulher vítima de agressões que podem estar  perpetuando e agravando a vitimização de mulheres no país.

O levantamento usa os dados consolidados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) e do Sinan (Sistema Nacional de Vigilância de Agravos de Notificação) entre 2012 e 2020, ano mais recente disponibilizado pelo Ministério da Saúde. Enquanto o SIM registra mortes violentas, o Sinan computa casos de agressão e outros tipos de violência que chegam à rede de atendimento em saúde.

A violência de repetição foi detectada em 31% dos casos de agressões por armas de fogo atendidos e registrados pela Saúde em 2020. Essa tipologia indica mulheres vítimas de violência armada que reportam violências anteriores quando recebem atendimento médico ou ambulatorial.

Em 2012, esse percentual era de 23%, e o aumento dessa proporção foi mais expressivo a partir de 2018, quando chegou a 26% para, dois anos depois, bater a marca de 31%. O cenário da grande maioria dessas agressões é a própria casa das vítimas: 72% dos casos de violência armada associados à violência de repetição ocorreram dentro da residência da mulher.

“O mais emblemático desse dado é que ele indica que a violência contra a mulher pode se apresentar como um ato contínuo”, avalia a advogada Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.

“O nosso sistema de proteção falha ao não endereçar nem contribuir para o fim dessa violência de repetição. E cessar esse ciclo é muito importante para que os casos de violência armada não terminem em feminicídio.”

Ela aponta que a proliferação de armas no Brasil, promovida por decretos do governo Jair Bolsonaro (PL), tem potencial de agravar esse quadro. Estudos internacionais já associaram o aumento de posse de armas com o aumento da violência doméstica armada e de mortes de mulheres por parceiros e ex- parceiros, num contexto que se intensificou durante a pandemia da Covid-19.

Foi esse o desfecho trágico ocorrido em setembro deste ano após outras agressões e ameaças perpetradas contra Michelli Nicolich, 37, por seu ex-marido, Ezequiel Lemos Ramos, 38. Ela e o filho mais novo do casal, de dois anos de idade, foram mortos dentro do carro por tiros disparados por Ezequiel. Outra criança que estava no carro, também filha do casal, não se feriu no ataque.

Em maio, ela havia deixado a cidade de Ponta Porã (MT) para viver escondida com os filhos na capital paulista depois de sofrer ameaças por parte de Ezequiel, que tinha registro CAC (sigla para caçadores, atiradores e colecionadores) e mantinha armas em casa. Na época, Michelli denunciou Ezequiel à polícia por tentar expulsá-la de casa e ameaçá-la de morte “engatilhando uma arma em sua cabeça”. Ezequiel chegou a ser preso, e foram aplicadas medidas protetivas que o proibiam de chegar a menos de 200 metros de Michelli, e de manter contato com a vítima por qualquer meio de comunicação, entre outras medidas. Duas armas de Ezequiel também foram apreendidas pela polícia, mas elas não eram as únicas.

Para Cristina Neme, Coordenadora de projetos do Sou da Paz e coautora do estudo, “a violência doméstica tem dinâmicas próprias e a repetição é uma delas”. “Quando tem uma arma de fogo neste contexto, ela se torna um fator de risco importante para a violência e para a violência letal”, afirma. Neme destaca que, enquanto os homicídios de mulheres por arma de fogo caíram quando o contexto são as ruas, elespermaneceram em patamar semelhante ou até aumentaram um pouco quando o contexto é a residência da vítima.

Na violência não letal com arma de fogo, 42% dos casos acontecem também dentro de casa. No caso das mortes, a desigualdade de gênero fica evidente: 27% das mortes de mulheres com arma de fogo ocorrem em casa enquanto, entre homens, são 11% .

Para a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero, o fato de 31% das mulheres vítimas de violência  armada terem sido alvo de outras agressões levanta questões importantes sobre a implementação da Lei Maria da Penha (11-340/2006) e de protocolos de prevenção e proteção criados pelo poder público.

“É importante que o Poder Judiciário observe os dados deste estudo e os considere para implementar dispositivos contidos na lei, como os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher previstos no artigo 14. São juizados com competência civil e criminal, o que permite ao juiz uma avaliação integral do caso para a aplicação de medidas protetivas de maneira mais rápida e eficiente”, aponta.

Segundo Pasinato, ainda hoje há apenas quatro unidades desses juizados, implementadas em Mato Grosso do Sul.

“Outro instrumento importante é o formulário de avaliação de risco, desenvolvido em 2018, e que permite uma melhor gestão de medidas preventivas para que essa repetição da violência não aconteça nem seja agravada pelo uso de armas de fogo”, completa.

Além de perguntas a serem colhidas junto às mulheres, o formulário propunha uma classificação de riscos, entre baixo, médio e alto, para diferentes propostas de encaminhamento do caso.

Pasinato explica que o formulário, desenvolvido em parceria com especialistas no  tema, como ela, sofreu uma revisão no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) por um grupo de trabalho formado sem a participação da sociedade civil.

“Fizeram várias alterações com perguntas que nunca foram testadas, e retiraram a parte de classificação e de gestão do risco”, relata. “Uma série de deturpações num instrumento que é importantíssimo”.

O CNJ, por meio de nota, diz que a mudança “para construção de um modelo único para o CNJ e o Conselho Nacional do Ministério Público foram necessárias para atender às múltiplas realidades brasileiras, nas quais nem sempre será possível a existência de uma equipe multidisciplinar”.

A nota afirma ainda que o formulário é uma “ferramenta extremamente importante para auxiliar magistrados na decisão da medida protetiva de urgência mais adequada e eficaz”, mas que se optou pela não inclusão de campos específicos destinados à quantificação e qualificação de fatores de risco.

“Não adianta a gente só aprovar leis se isso não for acompanhado por procedimentos junto a quem tem que aplicar essas leis”, critica Pasinato.

De acordo com o relatório do Sou da Paz, a arma de fogo é o instrumento mais utilizado nos assassinatos de mulheres no Brasil. Entre 2012 e 2020, em média seis mulheres foram assassinadas por dia com arma de fogo no país.

Armas de fogo estiveram presentes em metade dos homicídios femininos no período, um tipo de violência que atinge negras de maneira desproporcional: 7 a cada 10 mortas por armas de fogo em 2020 eram negras.

Mulheres negras são mortas 2,3 vezes mais em espaços públicos do que dentro de casa, enquanto, entre brancas, a diferença é menor (1,5 vezes maior nas ruas do que na residência). O dado sugere maior vulnerabilidade da mulher negra também fora de casa.

GESTÃO E CARREIRA

DEMISSÕES DERRUBAM MITO DA ‘DITADURA GENTIL’ NAS BIG TECHS

Até tentativas de sindicalização foram atacadas com argumento de que trabalhadores eram ‘privilegiados’

Era uma vez jovens graduados que achavam que tinham uma escolha a fazer: podiam ficar ricos mas infelizes, em um banco de investimentos ou escritório de advocacia, ou podiam viver sem um ótimo salário, mas fazendo algo divertido.

Depois, então, vieram as grandes empresas de tecnologia. De repente, era possível para uma pessoa comum certo conjunto de habilidades se divertir e ficar rico ao mesmo tempo.

As empresas de tecnologia pareciam representar um mundo de trabalho menos hierárquico, onde todos usavam jeans e camiseta e o mérito era o mais importante. Os salários eram altos e as opções de ações, abundantes. Se você tivesse sorte, seu patrão também cuidaria das partes chatas da vida, lavando suas roupas, preparando suas refeições e levando você para casa à noite.

Neste ano, as empresas de tecnologia representaram cinco dos dez melhores lugares para se trabalhar nos Estados Unidos, segundo avaliações de funcionários no site Glassdoor.

Formuladores de políticas e economistas logo passaram a ver os trabalhadores de tecnologia como os vencedores arquetípicos da economia do século21: firmemente na ponta “adorável” da crescente lacuna entre os empregos “adoráveis” e os “péssimos”. Quando alguns funcionários do setor tentaram se sindicalizar, a resposta de empresas e investidores foi, muitas vezes, argumentar que esses já eram empregos dos sonhos – então, qual o sentido de fazer isso?

Como afirmou um investidor, os trabalhadores de tecnologia que tentavam se sindicalizar estavam “se apropriando da linguagem dos mineiros de carvão explorados enquanto desfrutavam da experiência de trabalho em escritório mais privilegiada da história da humanidade”.

Essa conversa chegou ao fim com uma série de demissões em massa em empresas de tecnologia nas últimas semanas.

A Meta demitiu 11 mil trabalhadores, ou 13% de sua força de trabalho. Elon Musk, o bilionário que é o novo dono do Twitter, reduziu o número de funcionários do grupo pela metade.

A Amazon anunciou um corte de aproximadamente 10 mil empregos, enquanto a empresa privada de pagamentos Stripe abateu 14% dos trabalhadores.

Foi uma experiência brutal para os funcionários do ramo da tecnologia.

Na maioria dos casos, os cortes de empregos são a reversão de uma recente onda de contratações. Apenas no Twitter a história é um pouco diferente.

As empresas de tecnologia apostaram na continuidade de um ambiente macroeconômico incomumente benéfico que, na verdade, estava prestes a acabar.

Os consumidores não estão mais confinados em casa pela pandemia, tendo apenas o comércio eletrônico para gastar seu dinheiro. As taxas de juros das maiores economias do mundo não estão mais no fundo do poço.

Este não é o fim dessas empresas. A Meta ainda tem mais funcionários do que no  ano passado. Mas as demissões em massa oferecem algumas lições.

A primeira é que, estejam todos de jeans ou não, muitas empresas de tecnologia são altamente autocráticas. Foi impressionante – e revigorante – ver os presidentes executivos assumirem a responsabilidade pessoal pelas demissões. Mas também foi um lembrete de quanto poder eles têm.

Na Meta, por exemplo, os investidores estão cada vez mais frustrados com a quantidade de dinheiro que o executivo-chefe, Mark Zuckerberg, estava “afundando” no metaverso. Mas a estrutura de ações duplas da Meta permite que ele, com 13% do patrimônio, controle mais da metade dos votos.

“Tomei a decisão de aumentar significativamente nossos investimentos”, escreveu Zuckerberg em um memorando para a equipe há cerca de duas semanas. “Eu entendi errado e assumo a responsabilidade por isso.”

A velocidade das demissões nessas empresas globais também se chocou com o espírito das leis trabalhistas no Reino Unido e na Europa.

“Em muitos países europeus, é preciso alertar as administrações públicas ou conselhos de trabalhadores ou sindicatos, mesmo que a empresa não seja sindicalizada. É preciso ter um plano que atenue o impacto social de suas decisões”, disse Valério De Stefano, professor da Escola de Direito Osgoode Hall, em Toronto (Canadá).

A ideia dessas leis não é impedir que as empresas façam demissões, diz ele, mas garantir que ocorram de forma justa e com o devido aviso. “Temos um despertar muito duro agora, está acontecendo sem nenhum controle ou consulta, apenas alguém que diz: ‘Desculpem, a culpa é minha’”.

Para os funcionários, a experiência destaca o fato de que ditaduras benevolentes podem parecer boas até que não sejam mais tão benevolentes. Mesmo as pessoas que mantiveram os empregos estão vendo alguns benefícios mudarem. No Twitter, Musk anunciou que todos devem trabalhar longas horas em ritmo intenso no escritório, modificando a vida de pessoas que planejavam trabalhar remotamente.

Os sindicatos esperam que as demissões os ajudem a argumentar que os sindicatos não tratam apenas de tentar melhorar as condições precárias de trabalho, mas também de ter uma voz real e um lugar à mesa.

Mike Clancy, secretário-geral do sindicato britânico Prospect, diz que a entidade tem alguns membros no Twitter e espera recrutar mais no setor tecnológico. “Muitas vezes há um verniz progressista – somos todos técnicos juntos”, diz ele. “[O] clima todo é do tipo ‘nós oferecemos uma proposta de emprego diferente’. Não, você não oferece quando se trata de dispensar mão de obra, não é?”

A outra lição é não se deixar levar pela linguagem auto elogiosa sobre a “guerra por talentos”, que era onipresente no setor de tecnologia até recentemente.

Existem pessoas talentosas em todas as esferas da vida. O que importa para o salário é oferta e demanda. Trabalhadores mal pagos nos EUA vêm recebendo grandes aumentos salariais em termos nominais este ano. Ninguém está chamando isso de “guerra por talentos”; eles estão chamando de “falta de mão de obra”. As empresas de tecnologia podem ter oferecido vantagens incríveis, mas as pessoas não precisam tanto de empregos dos sonhos e sim de empregos que as tratem com decência. O problema dos sonhos é que eles desaparecem quando você acorda.

*** SARAH O’CONNOR – Colunista do Financial Times

EU ACHO …

GENTIL DEMAIS

Recebi um livro chamado A arte de ser gentil, com o dispensável subtítulo A bondade como chave para o sucesso, que, a meu ver, descredibiliza um pouco o autor, o sueco Stefan Einhorn, já que ser gentil deveria ser uma atitude para facilitar as relações humanas, e não uma meta para o sucesso. Que sucesso, o quê. Agora tudo o que a gente faz tem que visar o sucesso?

O texto da contracapa diz que uma pessoa gentil terá mais oportunidades de se tornar feliz, rica, bem-sucedida e realizada, e que o livro fornecerá soluções imediatas e de longo prazo para os interessados em se tornarem seres humanos melhores. Foi  tudo que li  até agora, a contracapa, e não vou adiante. Primeiro, porque tenho uma pilha de outros livros me aguardando, e em segundo lugar, porque já sou gentil. Nem sabia que sendo gentil eu poderia ficar rica, feliz, bem-sucedida e essa coisa toda. Sou gentil simplesmente porque acho mais fácil do que ser grosseira. Despende menos energia. E também porque não vejo graça em magoar as pessoas. Até aí, estou no padrão. O que ninguém nos ensina é que gentileza demais pode, por incrível que pareça, também ser um defeito, e dos graves.

Óbvio que não se deve ser rude com amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, comerciários, mas ser exageradamente gentil com todo mundo pode colocar a nossa vida em risco. Por exemplo: o que você faz se, ao chamar o elevador de um prédio estranho, à noite, a porta se abrir e lá dentro estiver um sósia do Curinga, com uma cicatriz perturbadora na face e vestindo um sobretudo enorme que poderia muito bem esconder duas pistolas, três granadas e um rifle? Você certamente teria uma vontade súbita de descer pela escada e sumiria de vista. Pois eu entraria no elevador toda faceira, daria boa noite e faria comentários sobre o clima, pois deus que me livre de ele achar que eu sou preconceituosa e que sua aparência me fez pensar que ele pudesse ser um esquartejador de mulheres. Por que ele não pode ser um pai de família como outro qualquer?

Se eu pego um táxi e o motorista demonstra não ter o menor senso de direção, arranha marchas, não usa o pisca-pisca e tira um fino dos outros carros, eu é que não vou mandá-lo de volta para a autoescola. Se ele correr a 200km/h, tampouco solto os cachorros, vá saber o dia horroroso que ele está descontando no acelerador, coitado. Neste caso eu simplesmente “me lembro” de que o endereço onde pretendo ir fica na próxima esquina, e não três bairros adiante, e saio pedindo desculpas pelo meu equívoco.

Se um garçom se aproximar perigosamente de mim com uma panela cheia de óleo fervente, eu não dou um pio, imagina se vou pedir para ele se afastar. Ele vai me considerar uma elitista estúpida – não basta ter pedido um fondue caríssimo, ainda vou ser grossa? Nada disso, uma queimadura no braço não mata ninguém. E se eu estou caminhando por uma rua escura e, na direção contrária, vem um adolescente com um gorro enterrado até o nariz e as duas mãos enfiadas numa jaqueta, eu começo a rezar, mas não troco de calçada, imagina o trauma que posso causar no menino: vai ver é até um amigo da minha filha.

Se você tem mais de nove anos de idade, já sabe reconhecer uma ironia e entendeu meu recado: seja gentil, mas não a ponto de perder o tino. Se tiver que ferir suscetibilidades para salvar sua pele, paciência. Atravesse a rua. Desça pela escada. Dê no pé. Sucesso é chegar em casa com vida.

ESTAR BEM

COMO AS TELAS PODEM MUDAR NOSSOS CORPOS?

Uso do smartphone em excesso pode prejudicar a cervical e é preciso estar atento a ações simples, como piscar, ter atividades físicas e moderar uso à noite

Você provavelmente viu a reprodução 3D que simula os impactos da tecnologia na aparência dos seres humanos. A imagem é resultado de uma projeção da empresa de telecomunicações Toll Free Forwarding e foi feita com base nas expectativas para o ano 3000.

Chamada de Mindy, o ser humano do futuro teria as costas curvadas e o pescoço mais largo como resultado do uso excessivo dos aparelhos digitais. As mãos seriam em formato de garra, em referência ao hábito de digitar no celular. Até uma segunda pálpebra apareceria como proteção à iluminação dos dispositivos eletrônicos. Não à toa, a simulação reverberou nas redes sociais. Porém, especialistas ouvidos apontam ressalvas nessa representação.

“Acredito que o estudo foi feito mais como uma forma de alerta do que como uma previsão do que vai acontecer”, defende Ricardo Paletta, médico oftalmologista e presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Ele explica que o surgimento de uma segunda pálpebra em menos de 800 anos de evolução humana – período estipulado pela projeção – é quase impossível.

As costas curvadas e o pescoço mais largo também são possibilidades descartadas por Ivan Rocha, médico ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP. Segundo ele, ainda que a projeção use como base questões já identificadas e conhecidas – como os problemas de postura e a mão de garra –, ela desconsidera os avanços científicos a respeito da evolução humana. “Essa estimativa pressupõe que problemas na postura podem passar para os nossos descendentes como características mais adaptáveis. A projeção pode ter um fundo de verdade, mas não é assim que aconteceria.”

Ainda que essa representação esteja distante de se tornar realidade, não significa que cuidados durante o uso de aparelhos eletrônicos não sejam necessários. Veja as dicas.

CUIDADOS COM A CERVICAL

O uso do smartphone em excesso pode trazer problemas para a coluna cervical, conforme alerta Alexandre Fogaça, médico ortopedista e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). Ele explica que a posição comum ao usar o celular – aquela com o pescoço curvado para baixo – submete a musculatura cervical a um estresse prolongado. Isso pode trazer dores, torcicolo, hérnias de disco e doenças crônicas, como a artrose. “Por isso, o uso desses dispositivos tem de ser com moderação”, reforça.

ATENÇÃO AOS BRAÇOS

A digitação no aparelho também exige atenção. “Ficar digitando por muito tempo sobrecarrega a musculatura dos braços e pode causar lesões nos tendões”, explica. Por isso, ele recomenda o uso do smartphone com cautela e, quando necessário utilizar o aparelho, fazer isso com a tela mais próxima da altura dos olhos.

LEMBRE-SE DE PISCAR

Toda vez que olhamos para uma tela entramos em um estado de concentração visual. “Quando entramos nesse estado, diminuímos nossa frequência de piscadas e o olho fica ressecado”, alerta o oftalmologista. Esse ressecamento pode ocasionar ardência, coceira, e embaçamento visual. Por isso, lembrar de piscar os olhos enquanto usa aparelhos eletrônicos é essencial para garantir sua correta lubrificação. “Quando necessário, também pode ser receitado por um oftalmologista o uso de um colírio para repor a lágrima.”

PRATIQUE ATIVIDADES FÍSICAS

“É importante fazer atividade física condizente com a idade e com as comorbidades pelo menos três vezes na semana com supervisão de um educador físico”, recomenda Fogaça. Ele explica que a prática garante maior resistência na musculatura para suportar o estresse diário.

OBJETOS DE TRABALHO

Adotar um ambiente de trabalho ergonômico também é importante, em especial para quem continua em trabalho remoto. Uma boa cadeira pode fazer a diferença. A recomendação do ortopedista é utilizar uma com encosto, que permita apoiar os pés no chão e que mantenha quadril e joelhos curvados em 90 graus.

Fique atento também à posição do computador. Busque utilizá-lo na altura dos olhos, com mouse e teclado na altura do cotovelo dobrado. Evitar trabalhar no sofá ou na cama também ajuda a manter uma postura mais ergonômica.

EVITE TELAS ANTES DE DORMIR

As telas dos aparelhos eletrônicos emitem uma luz que afeta uma glândula do nosso cérebro chamada glândula pineal. “A glândula pineal controla o nosso estado de vigília e de sono”, alerta o oftalmologista. Ele explica que é ela que comanda os momentos de despertar e de dormir. “Ao usar telas próximo da hora de dormir é como se a iluminação das telas dissesse para a glândula pineal que ainda é dia e que precisamos estar em estado de vigília.” Por isso, ele aconselha suspender o uso de telas duas horas antes de dormir.

FAÇA PAUSAS

Estimular intervalos entre os usos dos equipamentos eletrônicos pode evitar problemas na coluna e na musculatura. No caso do trabalho – seja no computador ou no smartphone –, Fogaça recomenda pausas a cada duas horas. “É importante levantar, andar um pouco e alongar a musculatura. Isso favorece tanto a parte músculo-esquelética como a parte vascular”, explica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PESQUISADORES CRIAM APLICATIVO NA TENTATIVA DE PREVENIR SUICÍDIO

Sensor no celular coleta dados sobre estado de espírito e interações sociais dos pacientes e dá alarme se preciso

Em março, Katelin Cruz deixou sua última internação psiquiátrica com uma já conhecida mistura de sentimentos. Estava aliviada por sair da enfermaria, na qual os funcionários escondiam os cadarços de seus sapatos e às vezes a seguiam até o chuveiro para garantir que ela não tentasse se ferir.

Mas ela contou que sua vida lá fora estava instável como sempre, com uma pilha de contas não pagas e sem um lar permanente. Foi fácil voltar para os pensamentos suicidas. Para o paciente frágil, as semanas depois da alta de uma instituição psiquiátrica são um período notoriamente difícil, com uma taxa de suicídio 15 vezes superior à média dos Estados Unidos. Contudo, dessa vez, Cruz, de 29 anos, deixou o hospital como parte de um projeto de pesquisa que tenta usar avanços na inteligência artificial para fazer algo que os psiquiatras procuram resolver há tempos: prever quem é suscetível à tentativa de suicídio e quando essa pessoa vai fazê-lo, para que uma intervenção seja possível.

No pulso, ela usava um Fit-bit programado para acompanhar seu sono e sua atividade física. Em seu smartphone, um aplicativo coletava dados sobre seu estado  de espírito, seus movimentos e suas interações sociais. Cada dispositivo fornecia um fluxo de informações a uma equipe de pesquisadores da Universidade Harvard.

No campo da saúde mental, poucas novas áreas geram tanta empolgação quanto o aprendizado de máquina, que usa algoritmos para prever melhor o comportamento humano. Ao mesmo tempo, há grande interesse em biossensores que acompanham o humor de uma pessoa em tempo real, analisando escolhas musicais, postagens nas redes sociais e expressão facial e vocal.

Matthew K. Nock, psicólogo de Harvard que é um dos maiores pesquisadores do suicídio no país, espera unir essas tecnologias em uma espécie de sistema de alerta precoce que poderia ser usado quando um paciente em risco recebe alta do hospital.

Ele deu um exemplo de como poderia funcionar: o sensor relata que um paciente tem o sono perturbado, relata o mau humor em questionários e o GPS mostra que ele não está saindo de casa.

E um acelerômetro no telefone mostra que a pessoa está se movimentando muito, o que sugere agitação. O algoritmo sinaliza o paciente. Um alarme soa em um painel. E, na hora certa, um médico oferece ajuda com um telefonema ou uma mensagem.

Há muitas razões para duvidar que um algoritmo possa chegar a esse nível de precisão. O suicídio é um evento raro, mesmo entre aqueles que correm maior risco, que qualquer esforço de previsão certamente resultará em falsos positivos, forçando a intervenção em pessoas que podem não precisar dela. Os falsos negativos  poderiam colocar a responsabilidade legal nos médicos.

Os algoritmos precisam de dados granulares de longo prazo de um grande número de pessoas, e é quase impossível observar um grande número de suicidas. Por fim, os dados necessários para esse tipo de monitoramento levantam a questão de invasão de privacidade.

Nock está ciente de todos esses argumentos, mas persiste, em parte por frustração. “Com todo o respeito àqueles que fazem esse trabalho há décadas, há um século, não aprendemos muito a identificar pessoas em risco e a intervir. A taxa de suicídio agora é a mesma de cem anos atrás.” Em uma tarde de agosto em Harvard, o cientista de dados Adam Bear estava diante de um monitor no laboratório de Nock, olhando para os gráficos em ziguezague dos níveis de estresse de um sujeito ao longo de uma semana. Quando os estados de ânimo são mapeados como dados, surgem padrões, e procurá-los é o trabalho de Bear. Ele passou alguns meses em meados deste ano analisando dias e horas de 571 participantes que, depois de procurar atendimento médico em decorrência de pensamentos suicidas, concordaram em ser rastreados por seis meses. Enquanto estavam sendo rastreados, dois se suicidaram e entre 50 e 100 fizeram tentativas. A equipe está mais interessada nos dias anteriores às tentativas de suicídio. Já surgiram sinais: embora os impulsos suicidas muitas vezes não se alterem no período anterior a uma tentativa, a capacidade de resistir a esses impulsos parece diminuir. A privação do sono parece contribuir para isso.

Nock procura maneiras de estudar esses pacientes desde 1994, quando teve uma experiência que o chocou.

Durante um estágio de graduação no Reino Unido, foi designado para uma unidade fechada, destinada a pacientes violentos e com tendência à autoagressão. Lá, viu coisas inéditas para ele: pacientes com cortes nos braços.

Um deles arrancou o próprio globo ocular. Um jovem com quem fez amizade, que parecia estar melhorando, foi encontrado mais tarde no rio Tâmisa.

Ele teve outro choque quando começou a fazer perguntas sobre o tratamento desses pacientes aos médicos e percebeu que estes sabiam muito pouco. Lembra-se de que um deles respondeu: “Receitamos alguns remédios, falamos com eles e esperamos que melhorem”.

Nock concluiu que uma das razões foi que nunca foi possível estudar um grande número de pessoas com ideias suicidas da mesma forma que somos capazes de observar pacientes com doenças cardíacas ou tuberculose.

“A psicologia não avançou tanto quanto outras ciências porque temos feito isso de maneira errada. Não encontramos algum comportamento importante e o observamos. Mas, com o advento de aplicativos baseados no smartphone e nos sensores de vestir, temos dados de muitos canais diferentes e, cada vez mais, a capacidade de analisá-los e observar as pessoas enquanto levam a vida.”

Foi por volta das 21h, algumas semanas depois do estudo de seis meses, que a pergunta apareceu no telefone de Cruz: “Quão forte é seu desejo de se matar?”. Sem pensar, ela arrastou o dedo até o fim da barra: 10. Alguns segundos depois, pediram-lhe que escolhesse entre duas declarações: “Certamente não vou me matar hoje” e “Certamente vou me matar hoje”. Ela optou pela segunda.

Quinze minutos depois, seu telefone tocou. Era uma integrante da equipe de pesquisa, que ligara para o 911 e manteve Cruz na linha até a polícia chegar; em seguida, ela desmaiou. Mais tarde, quando recuperou a consciência, uma equipe médica massageava- lhe o esterno, procedimento doloroso usado para reanimar quem sofreu overdose. Cruz tem o rosto pálido e angélico e usa uma franja de cachos escuros. Estava estudando para um curso de enfermagem quando uma série de crises mentais fez sua vida mudar de direção. Mantém o interesse nerd pela ciência, brincando que a caixa torácica desenhada em sua camiseta é “anatomicamente correta”.

Ela logo se interessou pelo experimento e respondia às questões obedientemente seis vezes por dia, quando os aplicativos do telefone perguntavam sobre pensamentos suicidas. As notificações eram intrusivas, mas reconfortantes: “Parecia que eu não estava sendo ignorada. Ter alguém que sabe como me sinto tira um pouco do peso”.

Na noite de sua tentativa, ela estava sozinha em um quarto de hotel em Concord, Massachusetts. Não tinha dinheiro suficiente para outra noite lá, e seus pertences estavam em sacos de lixo no chão.

Confessou que estava cansada “de sentir que não tinha ninguém e nada”. Comentou que achava que a tecnologia – seu anonimato e a ausência de julgamento – facilitava o pedido de ajuda: “Acho que é mais fácil dizer a verdade a um computador”.

Recentemente, quando o ensaio clínico de seis meses chegou ao fim, Cruz preencheu seu questionário final com uma pontada de tristeza. Perderia o dólar que recebia por cada resposta. E sentiria falta da sensação de que alguém a observava, mesmo que fosse alguém sem rosto, a distância, por intermédio de um dispositivo.

“Honestamente, me sinto um pouco mais segura ao saber que alguém se importa o suficiente para ler esses dados todo dia, sabe? Vou ficar meio triste quando acabar.”

OUTROS OLHARES

SAIBA COMO CONVENCER ANTIVACINAS A RECONSIDERAR

Caminho é ouvir sem julgar, para entender preocupações e oferecer dados científicos. Confronto deve ser evitado

No começo do ano, o então líder antivacina italiano Pasquale Bacco revelou ter mudado de ideia, para choque de seus seguidores. O médico disse que “tinha muitas perguntas e ninguém respondia” e por isso passou a criticar os antígenos contra o coronavírus. Decidiu, porém, parar com os discursos contra os imunizantes quando soube que um rapaz de 29 anos, fã de seus vídeos, morreu em decorrência da Covid-19. Especialistas em saúde alertam que, em muitos casos, os antivacinas são – assim como Bacco – pessoas com dúvidas ou receios sobreo funcionamento dos imunizantes. E não pessoas irracionais. O antídoto para ajudar os hesitantes, dizem psicólogos e outros especialistas de saúde, é ouvir com atenção as dúvidas de quem é contra os imunizantes, responder com paciência e evitar o conflito inflamado.

“Num diálogo com alguém que pensa diferente de nós, se simplesmente criticamos o outro ou falamos nosso ponto de vista, sem considerar quem ouve, corremos o risco de aumentar a resistência”, explica o mestre em psicologia clínica Artur Scarpato.

O diálogo, dizem os médicos, é a chave para conseguir colocar “pulgas atrás da orelha” de quem tem certeza de que não deve se vacinar – embora, reafirme-se, a ciência tenha oferecido inúmeras confirmações de que as vacinas em uso (seja qual for sua finalidade) são sim seguras e efetivas contra diversos tipos de doença.

É importante entender a fonte da resistência: se há um medo dos efeitos colaterais, se há desconhecimento sobre o processo de desenvolvimento e aprovação das vacinas. A informação de qualidade ajuda a diminuir esses receios.

Exemplo de como as dúvidas sem respostas podem ser danosas é a história da norte- americana Heather Simpson, cuja presença em grupos antivacina foi justificada pelo medo de fazer mal à filha com os imunizantes. Após anos de recusa, começou a reconsiderar sua posição após conversas com a médica da menina e por medo que a pequena contraísse tétano. Após ser convencida sobrea eficiência das vacinas, ela criou grupos de apoio a pessoas como ela, o “Back to de Vax” (do inglês: de volta à vacina). Ela aposta na informação com lastro na ciência para ajudar a convencer mais pessoas.

LINGUAGEM

O professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Marcelo Alves dos Santos faz uma orientação prática: evitar dizer um sonoro “não” quando alguém relata seus receios. Ao contrário, é mais proveitoso ouvir o que a pessoa tem a dizer e, em caso de fake news, oferecer a informação correta de maneira a estimular a reflexão.

“O outro não pode entrar em estado de alerta, de defesa. Ser mais amigável ajuda a quebrar a barreira da pessoa, o não querer ouvir. O confronto nunca é a melhor opção”, explica o professor.

Em geral, é preciso estar disposto a retomar à conversa em outras ocasiões e entender que a outra pessoa não quer sentir-se desrespeitada nem diminuída por conta de suas opiniões.

“Para se ter uma conversa difícil é preciso deixar as emoções de lado, focando na racionalidade e sem tanto confronto. E, claro, é preciso ter algum tipo de embasamento sobre o assunto. Ao final da conversa, você tem que ter deixado para a pessoa a informação fundamental de que vacinar é importante”, diz Santos.

SEM JULGAMENTOS

No livro “Pense de novo” (editora Sextante), o psicólogo americano Adam Grant, relata a história de um médico que convenceu uma mãe antivacina a imunizar os filhos:

“Essa canadense teve um bebê prematuro em meio a um surto de sarampo. Chamaram um médico conhecido como “encantador de vacinas”. Ele falou com a mulher para entender a perspectiva dela, que dividiu suas preocupações, contou que vinha de uma comunidade em que poucos eram vacinados. Ele escutou sem julgamentos. Depois disse que, como médico, o objetivo dele também era proteger o bebê e que, se ela permitisse, gostaria de compartilhar algumas informações. Trouxe evidências dos benefícios, deu o entendimento dele como cientista e, no final, disse que a decisão era dela e que estava certo que ela faria o melhor. A mãe não só vacinou o bebê, como os outros filhos e os sobrinhos.

Segundo Grant, a estratégia seria julgar menos, praticar a escuta e reconhecer que não se pode obrigar as pessoas a mudar de ideia.

“Se encontram motivo que faça sentido e decidem por elas mesmas, se sentem mais livres e no controle.

O entendimento coletivo também contribui para a adesão, ou não, da imunização, afirma Sérgio Zanetta, professor de Saúde Pública e Epidemiologia do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo. Daí a importância de campanhas nacionais robustas incentivando as famílias a buscar postos de saúde.

“A construção da opinião também passa por fatores externos, políticos e identidades em grupo. Em alguns casos, isso contribui para desinformação. Em outra mão, a relação entre médico e paciente torna-se ainda mais fundamental para reforçar o funcionamento das vacinas. Estamos em um momento de reconstrução”, explica.

“Assim como se faz no marketing, é preciso associar-se ao universo da pessoa. É preciso compreender onde a pessoa se informou e entender o que ela teme, para depois vender a ideia de que a ciência e a vacina são necessárias.

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE NAS EMPRESAS TRAZ BEM-ESTAR E DINHEIRO

Combate ao preconceito resulta em produtividade, engajamento e valorização da marca

Empresas que procuram manter um quadro funcionários que reflita a diversidade da sociedade estão descobrindo vantagens econômicas na adoção dessa política. Uma delas é o ganho de produtividade, que vem sendo conquistado com o maior engajamento geral dos colaboradores. As equipes mais heterogêneas também se mostram mais criativas, o que contribui para a inserção de soluções inovadoras nos negócios, e a imagem da marca fica mais valorizada junto ao cliente.

De modo geral, a diferença de gênero, etnia, orientação sexual e idade, entre outros fatores, enriquecem o cabedal de experiências dos times das empresas. As habilidades diversificadas também proporcionam ganhos qualitativos, pois os grupos revelam-se mais capacitados a reagir às mudanças necessárias em mercados cada vez mais disruptivos e competitivos.

Estudos apontam que o sentimento de pertencimento ao grupo gera mais assiduidade, aumento de desempenho, tomadas de decisão mais assertivas e desenvolvimento de comportamentos mais colaborativos.

No entanto, uma pesquisa da consultoria Deloitte, feita entre agosto e setembro de 2021, com 215 empresas, mostra o grande desafio na busca por diversidade. A questão é mais delicada quando se trata de cargos de chefia. O levantamento apontou que em apenas 23% das organizações ouvidas as mulheres ocupam mais da metade dos cargos de liderança, enquanto em 24% delas sequer há pessoas do sexo feminino nos conselhos. Segundo o estudo, 41% das empresas entrevistadas estavam procurando adotar indicadores de inclusão.

Mas há casos em que a diversidade é um pilar natural. A fábrica de portas Rayflex, do interior de São Paulo, nunca estabeleceu cotas em 30 anos de mercado, mas, por adotar um modelo de seleção sem discriminação, tem em seu quadro pessoas de todas as faixas etárias e de diversas religiões e trabalhadores LGBTQIA+. A partir de um levantamento, foi constatado que 9,23% dos colaboradores têm mais de 50anos, o que foi alcançado sem que houvesse um programa específico para isso.

Para a CEO Giordania Tavares, fez diferença o exemplo vir de cima, pois a família escolheu uma mulher para a direção da empresa e destravou o caminho para a diversidade. A fábrica ainda estimula a apresentação de sugestões por parte dos integrantes das equipes, concilia diferentes bagagens no currículo e provoca maior engajamento.

“Não toleramos qualquer tipo de discriminação, mas, quando ocorre algum problema, tomamos as medidas necessárias. Hoje reforçamos a importância da diversidade por meio de palestras e comunicados, mas esse padrão foi alcançado porque não se trata apenas de marketing”, afirma Giordania.

ACOLHIMENTO

A empresa de gestão de tecnologia da informação Finch também acredita no processo top down – de cima para baixo – para que a cultura da diversidade seja efetivada, foi criado um comitê de diversidade e inclusão que passou a discutir medidas para garantir um clima de acolhimento.

O processo de conscientização começou pelas lideranças que assistiram a palestras sobre o tema. Apesar de não estabelecer cotas para os diferentes grupos, foi feito um censo para se conhecer a realidade do corpo de funcionários:

“As empresas que adotam os princípios do respeito à diversidade com certeza têm mais engajamento. Nossa preocupação é manter um ambiente p:sicologicamente seguro para que os colaboradores possam se dedicar ao trabalho e trazer o melhor resultado. E, se cliente perceber, valoriza”, explica Karina de Almeida Batistuci, diretora da Finch.

A busca pelo respeito à diversidade faz muitas empresas buscarem ajuda externa para implementar políticas corretas. A consultoria Fábrica de Criatividade apoia e dá treinamentos sobre o tema. Preparou até um workshop, que dura cerca de três horas, para uma conscientização mais rápida. A Ideia é mostrar para a equipe que o preconceito está no dia a dia e que premissas preconcebidas influenciam o comportamento e a atitude das pessoas. O workshop apresenta situações comuns de discriminação e ajuda as pessoas a combater os vieses preconceituosos.

“Quando presenciamos alguma atitude preconceituosa, temos que nos manifestar. Não podemos ficar calados ou dar risada. Muitas vezes o preconceito é fruto de crenças da criação, mas é preciso aprender a pedir desculpas quando alguém se sente ofendido. Essas questões são debatidas nos workshops”, explica Tita Legarra, sócia da ´Fábrica de Criatividade.

EU ACHO …

DEU CERTO! E AGORA? NÃO DEU CERTO! E AGORA?

“Vida, minha vida/ Olha o que é que eu fiz” (Chico Buarque, “Vida”)

Achei que dava e realmente deu certo. Consegui o meu intento. E agora?

Existem pessoas que, passada a euforia de uma conquista, experimentam uma sensação de vazio. Especialmente após terem êxito em uma empreitada que demandou esforço intenso ou que carregava o risco de não se realizar. Elas não veem mais graça em desafios menores ou em voltar a uma condição mais cotidiana.

Um  sentimento  semelhante  ao  que  expressa  o  compositor  baiano  Raul Seixas (1945-1989), na sua música “Ouro de tolo”: “Eu devia estar contente/ Por ter conseguido tudo o que quis/ Mas eu confesso, abestalhado/ Que estou decepcionado”.

A forma de se relacionar com aquilo que é considerado sucesso pelo senso comum carrega uma série de nuances. Em alguns casos, é mais complexa do que assimilar um fracasso. Se o insucesso for visto como oportunidade de aprendizado e aperfeiçoamento, a atitude mais saudável é reerguer-se e seguir em frente.

Mas essa relação depende muito da visão que se tenha de sucesso. Há pessoas que confundem sucesso com notoriedade. A busca é mais por serem famosas do que relevantes ou contributivas. Outras se importam menos com visibilidade, pois têm consciência do valor daquilo que fazem. Sucesso, por esse ponto de vista, vem da satisfação de ter feito algo com maestria, mesmo que não apareça tanto. Já outro tipo de pessoa se orienta apenas pelo resultado, menosprezando o processo. A seleção brasileira que jogou a Copa do Mundo de 1982 fracassou? Para quem é resultadista, sim. Para quem aprecia o futebol bem jogado, aquele é um time memorável.

Entre as ciladas que o sucesso pode trazer está a acomodação. Atingir o objetivo leva muitas pessoas a repousarem sobre a conquista. Em ambientes competitivos, essa atitude pode cobrar um preço alto, pois os concorrentes continuam mobilizados e desenvolvendo competências. Outra cilada é a da mediocridade. A pessoa consegue seu intento e depois passa a fazer mais do mesmo ou a achar que tudo o que faz está ótimo, porque teve aceitação anteriormente. Esse é um grande passo para cair na mediocridade.

O sucesso deve ser celebrado, especialmente quando resulta de um esforço honroso em tê-lo conseguido. Vale curtir a glória, mas sem perder a perspectiva de que ela é momentânea. Nada indica que o êxito vai se repetir na empreitada seguinte. O livro mais desafiador para um escritor costuma ser o segundo. Porque, mesmo que o primeiro tenha virado best-seller, pode ter resultado de uma conjunção de acasos favoráveis. Esse é um fenômeno relativamente comum na indústria da música. Há até a expressão em inglês “one hit wonder” para artistas que explodem na parada e depois não conseguem emplacar outro sucesso.

As pessoas que se sentem desmotivadas após conquistarem grandes feitos talvez devessem refletir sobre qual a razão de se fazer algo. Nos anos 1980, no auge do modelo yuppie (corruptela de young urban professional, que designava jovens executivos ambiciosos), o parâmetro de sucesso era o primeiro milhão de dólares amealhado. O que vem depois? Dois milhões, três milhões? Essa elevação da barra é uma possibilidade. Outra é atingir um milhão e estabelecer como próxima meta a fundação de uma associação de apoio a crianças em situação de vulnerabilidade social. Não há uma única maneira nem uma única coisa a fazer na sequência de uma conquista.

O criador da Microsoft, Bill Gates, é frequentador das listas de homens mais ricos do mundo. Em 2000, com a esposa Melinda, ergueu uma fundação que leva o nome do casal e se dedica a melhorar a condição de vida de pessoas, com ênfase no combate à pobreza e no incentivo para avanços na área da saúde. A entidade já destinou cerca de 4,5 bilhões de dólares para o combate de doenças como tuberculose, malária e Aids. Alguns poderiam dizer: “Doou porque tem”. Temos de lembrar: mas doou! Tem gente que tem de sobra e não doa.

A pessoa que consegue chegar ao ponto máximo em sua trajetória tem um desafio que é, se desejar, construir um outro ponto máximo, que não pode ser o mesmo ou um ponto acima, porque, a depender da situação, não há mais. Se ela insistir nessa perspectiva, é enorme a chance de cair no vazio.

Eu, Cortella, fiz carreira acadêmica, cheguei a professor-titular de uma universidade. O que tem depois de professor-titular? Não tem. Significa que encerrei a minha trajetória profissional? Não. A minha carreira não era só verticalizada. A minha noção de carreira também é horizontalizada. É como uma árvore, com galhos que crescem em várias direções. Ao chegar à condição de professor-titular, eu procurei oportunidades de publicar outros livros, de ter uma participação mais ativa na mídia, de fazer palestras. Então, eu não cheguei ao fim, cheguei ao topo de um dos modos da carreira. Havia toda uma ramificação de projetos possíveis não atrelados diretamente ao mundo acadêmico. Ser professor-titular de uma universidade foi honroso, resultado de dedicação, de concurso, de produção de material, de ser avaliado por bancas. Mas não era o último lugar, era o último passo num dos caminhos possíveis.

Isso vale para outras situações. Como a “síndrome do ninho vazio”, quando os filhos vão embora de casa. Muitos casais se questionam: “O que vamos fazer só nós dois aqui?”. Podem ficar em modo enfadonho ou melancólico, olhando os cômodos vazios. Mas podem também, liberados das responsabilidades em relação aos filhos, se matricular em um curso de dança de salão, dedicar-se a alguma forma de arte, destinar algum tempo a trabalhos voluntários, participar mais ativamente de ações para melhorar a região em que vivem.

Com imaginação e disposição, ainda dá para fazer muito em um mundo onde há muito por fazer.

Porém, temos que nos lembrar de um necessário “ainda dá”, que é também usarmos a nossa energia e inteligência individuais para a obra coletiva mais relevante: o cuidado com a Vida!

Lucrécio  (ca.  94  a.C.-50  a.C.),  pensador  latino,  escreveu:  “A  ninguém  foi dada a posse da vida, a todos foi dado o usufruto”. Sabemos: esse usufruto é comum  e  temos  de  participar  ativa  e  conscientemente  do  “ainda  não  deu, mas dará” coletivo.

Como dissemos desde o começo, o “ainda dá” é uma força intrínseca de cada indivíduo. Entretanto, existem muitos desafios que requerem uma conjunção de vários “ainda dá” em relação a este condomínio que habitamos.

Falamos em diversas situações que é preciso olhar para a frente, pois é no futuro que está a meta a ser conquistada, a linha de chegada do que projetamos. Porém, é no futuro também que se anunciam desafios de vulto, com os quais devemos nos preocupar e agir desde agora, porque envolvem as futuras gerações.

Atualmente somos cerca de 7,2 bilhões de habitantes na Terra. No início da Revolução Industrial, no século XIX, nossa espécie tinha por volta de 1 bilhão de indivíduos. As estimativas dão conta de que fecharemos o século XXI com uma população entre 9 bilhões e 10 bilhões, embora algumas projeções cheguem a apontar 12 bilhões em 2100.

Mais gente demanda mais recursos. Estima-se que de 3 bilhões a 4 bilhões de pessoas sejam inseridas no mercado de consumo nos próximos vinte anos. O fato de mais pessoas no mundo terem acesso a bens é, em si, uma boa notícia. A questão é que diversos estudos apontam que não haverá recursos suficientes para atender as necessidades humanas.

Por isso, será preciso, cada vez mais, consumirmos de modo consciente. Significa consumir menos? Em relação a alguns itens, sim. Mas, no âmbito geral, implica consumir de modo diferente. Estudos dão conta de que serão necessários de quatro e meio a seis planetas Terra para atender um contingente com esses novos consumidores em duas décadas.

Esses números gigantescos parecem minimizar a importância do impacto que cada indivíduo produz no quadro geral. “Ah, eu sou só um em meio a bilhões de pessoas.” Mas o raciocínio deve ser feito justamente pela via inversa, pois é a soma das ações individuais que afeta o coletivo. Imagine o impacto se cada um dos 12 milhões de habitantes da cidade de São Paulo, por exemplo, jogar um papel na rua por dia. Ou se cada paulistano resolver ficar diariamente uma hora debaixo do chuveiro.

Contribuir para a solução, portanto, se faz também pelos pequenos gestos. De que modo? Preferir o uso de energias renováveis, economizar água e energia elétrica, fazer pequenos percursos a pé, reduzir o desperdício de alimentos. E, sobretudo, se questionar a respeito de hábitos de consumo. Será que é preciso trocar de celular só porque outro modelo foi lançado e o seu colega de trabalho já o adquiriu? Você realmente se sente inferiorizado pelo fato de o seu vizinho ter um carro mais novo que o seu?

A nossa espécie, além de usar os recursos como se não houvesse amanhã (e, pelo andar da carruagem, pode ser que não haja mesmo), ainda os utiliza mal. Só para dar um exemplo, um estudo das Nações Unidas aponta 2 bilhões de pessoas adultas com excesso de peso ou obesas, ao passo que outros 2 bilhões de seres humanos têm deficiências nutricionais, e 815 milhões passam fome. Esse é um fracasso sobretudo no campo ético. Nós esquecemos um princípio básico de convivência: ser humano é ser junto.

Em relação à utilização de recursos, não podemos ser arrogantes a ponto de supor que o planeta é nossa propriedade e, portanto, podemos fazer o que bem entendermos. Somos usuários compartilhantes tanto em relação aos da nossa espécie quanto no que diz respeito aos outros 8,7 bilhões de espécies de seres vivos. Cada vez que alteramos o equilíbrio ecológico do nosso planeta, nós somos afetados. Pode não ser de imediato, mas uma hora o efeito desse desequilíbrio se fará notar de modo mais contundente.

A interdependência entre os seres é um princípio básico da existência. Não podemos pensar somente na nossa demanda mais premente e, para isso, exaurir solos, queimar florestas, extinguir outros animais, poluir a atmosfera e contaminar as águas.

O planeta é a nossa casa. O fato de termos as nossas necessidades individuais não implica, de modo algum, agir de modo egoísta. Vale ressalvar que individualidade não é sinônimo de egoísmo. Individualidade tem a ver com a proteção da nossa identidade e da nossa autonomia. Egoísta é aquele que considera que tudo gira em torno de si e que as suas necessidades são prioritárias em detrimento das outras pessoas. É nesse tipo de mentalidade que se origina a atitude predatória.

Se quisermos ir em frente na luta pela sustentabilidade, precisamos mudar esse tipo de orientação. Só assim será possível assegurar um nível de bem-estar coletivo para as próximas gerações.

No nosso cotidiano, alguns comportamentos já indicam uma interpretação do mundo mais coletivista, mais gregária. Na economia do dia a dia, é possível notar sintomas da mudança de mentalidade. Os espaços de coworking, por exemplo. O modelo de crowd-sourcing, que se baseia em conhecimentos coletivos agregados com a finalidade de desenvolver soluções, as quais podem gerar novos produtos e serviços. Atividades artísticas são viabilizadas por financiamento coletivo, o chamado crowdfunding. Aliás, essas obras podem ser de coletivos artísticos.

Assim como o uso das coisas vai sendo gradualmente alterado. Por exemplo, pessoas que passaram a utilizar um sistema de compartilhamento de veículos ou mesmo os aplicativos de mobilidade e abriram mão da posse exclusiva de um automóvel. Em alguns condomínios e edifícios existem as bicicletas de uso compartilhado, as lavanderias coletivas, entre outros itens de uso comunitário.

A junção de coletividades é algo cada vez mais frequente. Em São Paulo, por exemplo, há grupos de consumo responsável que operam de maneiras variadas. Dentre eles, moradores de condomínios diferentes que se reúnem para receber alimentos orgânicos cultivados por cooperativas agrícolas ou por associações de produtores adeptos da agricultura ecológica. Esses grupos se formam para organizar a logística e a distribuição dos produtos, da lavoura até os apartamentos e casas.

Se quisermos que ainda dê pé para as futuras gerações, será fundamental nos pautarmos por ações coletivas que busquem a equidade.

Os desafios são consideráveis. Sofremos reveses, enfrentamos contratempos, amargamos frustrações. Se algo não saiu como imaginávamos, nos sentimos derrotados. Faz parte. Só não podemos sofrer uma segunda derrota na sequência, que é a de achar que “não dá mais”.

A derrota pela circunstância é algo que acontece na vida. Mas a derrota da esperança nós não podemos admitir.

Ainda dá!

ESTAR BEM

COMO USAR O ELÁSTICO PARA FORTALECER OS MÚSCULOS

Antes restrito a tratamentos de reabilitação, acessório se popularizou nas casas e academias depois da pandemia

Ele chegou para revolucionar o uso de pesos e, sem pedir permissão, se infiltrou em academias e diferentes tipos de treinos. Trata-se do elástico, um acessório simples, mas que promete diversos benefícios.

Nos últimos tempos, passou a ganhar cada vez mais seguidores: de atletas profissionais a pessoas que precisam se reabilitar de uma lesão. É comum ver jogadores, como o atacante argentino Lionel Messi, se exercitarem com um elástico durante os treinos, fazerem agachamentos ou colocá-los na cintura para correr enquanto o treinador o segura por trás.

O produto é simples, mas versátil, sendo empregado em exercícios variados, com o objetivo de se tirar o máximo proveito, independentemente do nível de treinamento que você tenha. Por meio do uso dos elásticos, propõe-se uma prática intensa e eficaz.

“Cada músculo do corpo é trabalhado de forma localizada e em uma única sessão através de um processo de resistência gradual e progressiva a partir do próprio peso corporal”, diz o personal trainer argentino Francisco Piperatta.

Esse elemento elástico possui diferentes intensidades e espessuras: macio, intermediário e forte, o que lhe permite esticar mais ou menos, de acordo com a necessidade de esforço de cada pessoa, mas com a vantagem de que, ao não levantar carga extra, o corpo fica protegido de possíveis lesões.

Apesar dos benefícios, não requer muito conhecimento e não é difícil de usar: é colocado entre as extremidades, seja nas pernas, logo acima dos joelhos ou calcanhares, e nos braços, na altura dos pulsos ou acima dos cotovelos, e abre e fecha para os lados aplicando pressão.

“À medida que as faixas são esticadas, a tensão aumenta na área que está sendo exercitada”, diz a médica esportiva e membro do conselho de administração da Associação Argentina de Médicos do Esporte, Alejandra Hintze.

TODOS PODEM USAR

O item é considerado multidisciplinar, porque os tipos de usos que lhe são dados são os mais diversos. Nesse sentido, Hintze comenta que, por um lado, auxilia e facilita a prática de exercícios que envolvem o peso do corpo. Por outro, é um complemento para os treinos, pois pode aumentar sua dificuldade. Pode-se incluir o elástico em agachamentos, elevações pélvicas, polichinelos e pranchas.

“É gerado um treinamento conhecido como concêntrico e excêntrico, que é muito benéfico para o músculo, pois, ao abrir e fechar os braços ou pernas com o elástico, produzimos um efeito de relaxamento e contração que aumenta a força do músculo”, explica Hintze.

Graças a esses benefícios, o preparador físico Alejandro Mezzarapa reforça que as faixas são uma ótima opção para todas as idades. Além disso são aliadas para pessoas que estão perdendo músculo; para quem não tem tempo para ira uma aula de ginástica e quer treinar em casa, e para todos aqueles que estão deixando para trás o sedentarismo e iniciando atividade física.

Segundo Hintze, o sucesso dos elásticos começou durante a pandemia, como uma opção para todos que queriam continuar a treinar, mas não tinham os elementos necessários para se exercitar em casa. Anteriormente, seu uso era reservado a trabalhos de reabilitação e atletas de elite que precisavam manter e melhorar a força.

OS TRÊS EXERCÍCIOS ESSENCIAIS PARA FAZER COM OS ELÁSTICOS

Mezzarapa compartilha algumas atividades dinâmicas para fazer com os elásticos, na intensidade que cada um considerar adequada. Ele sugere fazer dez repetições por série durante três a cinco ciclos de exercícios, com uma pequena pausa de um a dois minutos.

DESLOCAMENTO LATERAL:

• Coloque a faixa apenas alguns centímetros acima dos joelhos;

• Fique na posição de agachamento e tome cuidado para que o joelho não ultrapasse a linha dos pés;

• Dê passos para a direita e depois para a esquerda.

ESTOCADAS:

• Coloque a faixa alguns centímetros acima dos joelhos;

• Fique em pé com os pés afastados na largura do quadril;

• Dê um passo à frente e dobre as pernas;

• Alterne.

OMBROS:

• Ponha a faixa no meio das mãos;

• Coloque os braços em forma de “V”, contraindo as escapulas;

• Abra o máximo possível e segure;

• Repita o movimento

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MUDANÇAS NO CLIMA IMPACTAM SAÚDE MENTAL

Ondas de calor fazem crescer admissões em emergências por quadros psiquiátricos graves, enquanto temperaturas extremamente baixas parecem aumentar risco para o desenvolvimento de depressão

As alterações climáticas e as suas consequências nas nossas vidas ena sociedade voltaram a ser assunto com a 27ª Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 27. O principal indicador dessas mudanças é o aumento das temperaturas médias nos últimos tempos, que é medido por eventos extremos que ocorrem ano a ano. Como consequência, a sociedade vivencia momentos de seca prolongadas, tempestades e ciclones, ondas de calor e frio.

Esses indicadores de mudanças climáticas afetam a saúde mental de forma duradoura, se estendendo para além de eventos específicos como os citados acima e podendo, eventualmente, alterar as dinâmicas que pensávamos controladas.

Um exemplo é o impacto do aumento das temperaturas e a frequência das ondas de calor que são constantemente discutidos em relação às colheitas, desempenho econômico, mercados internacionais e escassez de alimentos. Em termos de saúde, a maior preocupação é como as ondas de calor afetam os idosos e os que têm empregos vulneráveis. No entanto, é menos conhecido que as visitas a serviços de emergência por problemas de saúde mental aumentam quando as temperaturas sobem e o mesmo se aplica às admissões hospitalares de pacientes com diagnósticos psiquiátricos graves.

Não é necessário que as temperaturas atinjam limites extremos para que ocorram essas mudanças nas consultas e internações. A relação entre as altas temperaturas e o aumento das consultas de saúde mental é observada quando o calor ultrapassa os limites da região geográfica. Esse é um dado que causa preocupação porque, na lógica do aumento gradual das temperaturas médias em relação às mudanças climáticas, pode-se esperar um aumento progressivo das demandas de saúde mental nos próximos anos, à medida que as cidades se tornarem cada vez mais quentes.

Alguns estudos propõem que os níveis de umidade, e não apenas a temperatura, estão envolvidos na maneira como a saúde mental é afetada, uma vez que altos níveis de umidade parecem aumentar significativamente o impacto que as altas temperaturas têm na percepção de desconforto e estresse. Nos casos de pessoas que já possuem histórico de diagnóstico e tratamento de problemas de saúde mental, esses aumentos implicam em maior vulnerabilidade.

DEPRESSÃO

Um estudo feito em Taiwan examinou dados de registros de diagnóstico de depressão entre 2003 e 2013 em associação com dados meteorológicos, como temperatura, duração do dia e precipitação. O risco de ter um diagnóstico de depressão era menor entre as pessoas que viviam em regiões onde as temperaturas médias giravam em torno de 20-23ºC, enquanto o risco aumentou cerca de 7º à medida que a diferença de temperatura média entre as zonas aumentou 1º C. Esteestudo destaca outra consequência das alterações climáticas associadas às mudanças de temperatura: as pessoas que residem em áreas de frio extremo também apresentam malar risco de depressão. Nesse sentido, não apenas o aumento das temperaturas médias mas também as condições climáticas extremas parecem ser capazes de produzir alterações negativas na saúde mental das populações.

Osresultados de um estudo feito nos Estados Unidos mostraram que um aumento da temperatura de 25ºC para médias acima de 30ºC durante um período de um mês representou quase 2 milhões de pessoas a mais com a percepção de alteração mental.

Uma série de estudos realizados com dados históricos desde 1950 gerou grande polêmica ao apresentar a ideia de que as mudanças do clima em escala planetária estão diretamente relacionadas ao aumento do comportamento violento no mundo todo.

OUTROS OLHARES

INGESTÃO DE PILHAS E BATERIAS VIRA RISCO DE MORTE PARA CRIANÇAS, ALERTA ESTUDO

Pesquisa americana estima que entre 2010 e 2019 dobrou número de crianças com ferimentos – e até mortes – por engolir os objetos

As pilhas de botão estão por toda parte: controles remotos, chaveiros, relógios, brinquedos. E, cada vez mais, elas estão entrando nos corpos das crianças, causando ferimentos e, em alguns casos, morte. De acordo com um artigo publicado na edição de setembro da revista Pediatrics, os atendimentos emergenciais de crianças que ingeriram pilhas e baterias entre 2010 e 2019 mais que dobraram os números de 1990 a 2009. As pilhas de botão estiveram presentes em 85% dos casos.

Quando essas baterias se alojam no esôfago, podem causar sérios danos em menos de 2 horas. Embora as células de lítio sejam mais preocupantes porque são maiores e mais propensas a parar no esôfago das crianças, pilhas-botão também podem causar ferimentos graves, especialmente em crianças menores de 1 ano.

Usando dados do Sistema Nacional de Vigilância de Lesões Eletrônicas da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo, nos Estados Unidos, os pesquisadores estimaram que houve 70.322 atendimentos emergenciais de crianças relacionados a pilhas e baterias entre 2010 e 2019. E 90% dos atendimentos tiveram crianças que as engoliram (outras lesões envolveram inserções em nariz, ouvido e boca). A maioria dos casos ocorreu entre crianças de 5 anos ou menos, com o maior número envolvendo as de 1 ano.

O aumento nesses atendimentos de emergência provavelmente pode ser atribuído à maior prevalência das pilhas de botão nas residências, de acordo com Mark Chandler, pesquisador da Safe Kids Worldwide, que conduziu o estudo em cooperação com o Nationwide Children’s Hospital e o Global Injury Research Collaborative, ambos localizados em Columbus, Ohio. Chandler observou que pais e mães muitas vezes não sabem quantos dispositivos em sua casa são alimentados por pilhas-botão e o risco que podem representar para as crianças.

Os pesquisadores concluíram que os esforços de prevenção es- tão sendo insuficientes para reduzir os atendimentos de pronto-socorro e pediram “esforços regulatórios e adoção de designs mais seguros para reduzir ou eliminar lesões por ingestão em crianças”. Em 16 de agosto, o presidente Joe Biden assinou a Lei de Reese (em homenagem a uma criança que morreu após ingerir uma pilha-botão) A lei colocará esses esforços regulatórios em marcha nos EUA.

A legislação orienta o órgão responsável a desenvolver padrões de segurança para pilhas-botão, com embalagens mais seguras, etiquetas de advertência mais visíveis – nas próprias baterias – e compartimentos mais seguros nos dispositivos, para impedir o acesso de crianças de até 6 anos. A agência tem um ano para emitir as normas.

No estudo da Pediatrics, 12% de todos os casos de ingestão de pilhas e baterias resultaram em hospitalização; as ingestões envolvendo especificamente pilhas-botão foram duas vezes mais propensas a resultar em hospitalização. De acordo com o Sistema Nacional de Dados de Envenenamento dos EUA, 3.467 ingestões de pilhas-botão foram relatadas em 2019; dessas, 207 resultaram em efeitos moderados, 51 em efeitos mais graves e 3 em morte. Mais da metade dos casos envolvia crianças de 6 anos ou menos.

Varun Vohra, toxicologista clínico e diretor do Centro de Informações sobre Drogas e Venenos da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Wayne, informou que a maioria dos casos não resulta em danos graves e as pilhas de botão podem passar pelo sistema gastrointestinal da criança. Mas quando fica alojada no esôfago da criança, as consequências podem ser graves. A umidade das mucosas pode desencadear uma corrente elétrica que provoca uma reação química, ferindo o tecido adjacente (a corrente cria hidróxido, que causa queimaduras alcalinas). “Isso pode causar lesões graves, até mesmo perfuração esofágica, que pode resultar em complicações significativas.” Se o raio X revelar uma bateria no esôfago, ela precisará ser removida imediatamente, por endoscopia ou cirurgia, pois lesões graves no esôfago podem ocorrer em menos de duas horas. Mas a lesão pode progredir mesmo após a remoção da pilha, levando a complicações relativamente raras, como paralisia das cordas vocais ou fístula traqueoesofágica, uma conexão anormal entre a traqueia e o esôfago.

LEI REESE

Foi o que aconteceu com a criança que dá nome à Lei de Reese. Reese Hamsmith, de 18 meses, estava com dificuldades respiratórias em outubro de 2020 que foram inicialmente diagnosticadas como inflamação na laringe. Depois que a família percebeu que estava faltando uma pilha de botão em um controle remoto quebrado e que Reese a havia ingerido, ela passou por uma cirurgia para remover a bateria, mas desenvolveu uma fístula difícil de tratar entre o esôfago e a traqueia. Após semanas de hospitalização e complicações, ela morreu em 17 de dezembro de 2020.

Embora agradecida pela aprovação do projeto, Trista Hamsmith, mãe de Reese, disse que é necessário fazer mais para proteger as crianças. “Precisamos de baterias mais seguras.” Hamsmith, que fundou a organização Reese’s Purpose para defender crianças contra perigos como pilhas-botão, pede aos pais que “sejam muito conscientes de onde as pilhas e baterias estão em suas casas – se optarem por tê-las em casa”. Ela e Chandler deram algumas dicas de segurança para as famílias.

SE CRIANÇA ENGOLIU, PROCURE O SERVIÇO DE EMERGÊNCIA

*** Faça uma varredura em sua casa: você pode encontrar esse tipo de pilha em lugares surpreendentes, como algumas escovas de dentes elétricas para crianças. “Elas são projetadas para entrar na boca de nossos filhos e são alimentadas por pilhas de botão”, contou Trista Hamsmith.

*** Mantenha quaisquer dispositivos movidos a baterias de botão e pilhas soltas fora do alcance de crianças.

*** Compre baterias de botão embaladas, para reduzir a possibilidade de uma criança abrir a embalagem e ingeri-las. Por exemplo, disse Trista Hamsmith, alguns pacotes de baterias precisam ser abertos. Também observou que a Duracell vende baterias de botão com um revestimento amargo, projetado para desencorajar as crianças a engoli-las.

*** Examine seus dispositivos movidos a baterias de botão para se certificar de que o compartimento da bateria esteja protegido com a maior segurança possível. Dispositivos que prendem a tampa com um parafuso são considerados mais seguros para crianças, afirmou Mark Chandler.

*** Não tente fazer seu filho vomitar. Anote sintomas como chiado, salivação, vômito, sangramento, dor abdominal, dificuldade para engolir, desconforto no peito, tosse, asfixia ou engasgos, febre, diminuição do apetite ou recusa a comer.

*** Não dê nada para seu filho comer ou beber.

*** Se um ímã for engolido juntamente com a bateria, isso pode causar ferimentos mais graves. Ligue para a emergência ou vá até o pronto-socorro.

*** Se passaram menos de 12 horas desde que a bateria foi engolida e seu filho tem mais de 12 meses, você pode lhe dar mel – duas colheres de chá a cada 10 minutos até completar seis doses – a caminho do pronto-socorro. Isso vai revestir a bateria e evitar a geração de hidróxido, retardando as queimaduras nos tecidos adjacentes. No entanto, não substitui a remoção da bateria, pois ajuda a desacelerar, mas não elimina o risco de danos.

*** Em casos de criança com bateria alojada no nariz ou no ouvido, fique atento a sintomas de dor ou à remoção. Não administre gotas nasais ou auriculares antes de um exame completo por um médico; esses fluidos podem agravar os danos ao corpo da criança.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS APOSTAM EM JOGOS DE VIDEOGAME PARA MELHORAR A PRODUTIVIDADE DOS FUNCIONÁRIOS

Microsoft oferece o aplicativo Games for Work no serviço de comunicações Teams para aprimorar a produtividade e elevar o moral dos funcionários

A Microsoft tem uma nova solução para tornar os trabalhadores mais produtivos: deixá-los jogar videogames. A empresa acaba de anunciar o aplicativo Games for Work para seu serviço de comunicações e espaço de trabalho, o Microsoft Teams.

Gratuito, o app está disponível hoje no campo de aplicativos do Teams e permite aos usuários jogar quatro games de múltiplos jogadores com seus colegas durante reuniões. O objetivo é ajudar os funcionários a criar laços de confiança, melhorar a maneira com que trabalham juntos e impulsionar o moral – o equivalente à mesa de pebolim na lanchonete da firma.

O anúncio ocorre num momento em que várias empresas se voltam para forças de trabalho em regimes remotos ou híbridos, nos quais os funcionários vão ao escritório com menor frequência. Alguns gerentes afirmam que ter trabalhadores remotos dificulta construir e manter a cultura da empresa, assim como relações pessoais. Outros se preocupam que a produtividade pode cair – como resultado, um número crescente de empresas tem optado por monitorar os funcionários.

Especialistas afirmam que videogames, jogados com moderação, podem melhorar o ambiente de trabalho e a produtividade – ajudando a construir um capital social que pode estar se esvaindo, à medida que os trabalhadores deixam de se conectar com tanta frequência.

Mas os games podem criar problemas se os empregadores os tornam obrigatórios ou os usam como muleta para estabelecer a cultura. Também poderiam ser problemáticos se os funcionários gastam tempo demais jogando em vez de trabalhar.

O novo aplicativo de games da Microsoft é exemplo de uma empresa propondo uma solução digital para resolver um problema analógico do pós-pandemia, diz Matt Cain, analista da empresa de pesquisas Gartner.

“Estamos testemunhando o início de um novo capítulo, em que se pede ao pessoal de TI que aborde questões como cultura e saúde da equipe. Acho que isso veio para ficar.”

Jennifer Chatman, professora da Faculdade de Administração Berkeley Haas, afirma que fazer funcionários se reunirem em atividades não relacionadas às tarefas de trabalho pode gerar novas ideias e ajudar a deixar as pessoas mais à vontade para desafiar o status quo. Permitir que os funcionários se conectem nos games pode valer o investimento de tempo, afirma ela. Jogar videogames pode ser útil especificamente para funcionários novos na empresa, equipes que tiveram conflitos recentes ou empregados que se sobressaem no trabalho. “Você tem de se dar conta de que está apostando no longo prazo”, diz ela. “Não permitir tempo para as pessoas se conectarem poderia prejudicar você no longo pra- zo. As pessoas podem nunca se sentir confiantes o suficiente para falar em reuniões.”

Cain diz, porém, que empregadores não deveriam depender dos games como única forma de promover cultura e produtividade.

EU ACHO …

ATÉ ONDE DÁ? TEMPO, VIDA E FINITUDES…

“Além da própria força, mesmo que a vontade seja abundante, ninguém é forte.”

(Homero, Ilíada)

A expressão “ainda dá” é uma forma de assinalar a existência de uma força intrínseca na busca de um objetivo. Esse mote, contudo, precisa ter conexão com o rol de competências. Não pode ser uma forma de estímulo que, repetido tal como um mantra, crie uma ilusão de energia, de uma habilidade, que a pessoa passará a ter apenas pela disposição de fazer um esforço a mais.

O “ainda dá” pode ser um brado para seguir em frente, mas é bastante recomendável usar outra formulação mais questionadora: “ainda dá?”. Não como pretexto para desistir, mas como exercício de autoconhecimento. Eu realmente disponho de recursos para seguir nessa jornada? É comum, quando estamos empolgados com alguma ideia, fazermos avaliações imprecisas, apressadas, minimizando riscos ou superdimensionando virtudes.

Um post engraçado que circula pelas redes sociais (cuja autoria, portanto, é difícil de apontar) diz, com algumas variações, que “a trilha para o Everest está cheia de cadáveres de pessoas proativas, automotivadas e que queriam sair da zona de conforto”.

Esse é um modo bem-humorado de dizer “não vou”. Sucede que o fato de haver  pessoas que perecem (de qualquer modo, físico ou não) na trajetória não retira a   qualidade do esforço de quem ali pereceu. Ao contrário. O dramaturgo espanhol   Calderón de la Barca (1600-1681) escreveu que “a queda não cancela a glória de ter subido”.

De 1924 a 2018, foram 295 mortes na escalada da montanha mais alta do mundo (8.848 metros). O ano mais letal foi 2015, quando uma avalanche provocada por um terremoto no Nepal vitimou 22 pessoas. Afora os acidentes naturais, o cansaço é apontado entre as principais causas de mortes. Assim como em outras circunstâncias da vida, muitas vezes a pessoa assimila o desafio, mas não reúne todas as condições para enfrentá-lo. Esse meme, com seu modo de humor, não desqualifica o esforço, mas pode servir de alerta.

Não é porque eu quero ser fora da curva, não é porque eu estou muito motivado, não é porque eu gosto de desafio que tudo dará certo. A possibilidade de desastre está sempre me rondando. A própria palavra “desastre” significa “quando os deuses se afastam”. A circunstância desastrosa não depende exclusivamente das minhas ações. Não há nada que, em algum momento, não possa provocar um efeito indesejado.

Evidentemente, eu preciso fazer todo o esforço de inteligência para cercar as ações que farei, de modo a minimizar os riscos de um desastre. Mas essa conduta preventiva não zera o risco, apenas reduz a probabilidade de ocorrência. Reduzir a margem de erro não significa a extinção do erro!

São muito raras as situações em que podemos controlar todas as variáveis.

Nem no nível individual nem no coletivo. Uma empresa não domina todas as forças de interação do mercado em que ela atua. Não por acaso, as organizações trabalham com a noção de diminuição do risco ou minimização do risco. Não se vê a ideia de extinção do risco circulando no mundo corporativo.

Muitas pessoas devem se lembrar daquela cena que entrou para a antologia do esporte, da suíça Gabriele Andersen, cambaleante ao final da maratona feminina na Olimpíada de Los Angeles, em 1984. É muito emocionante imaginar o empenho daquela atleta que não quis desistir, embora ela tenha chegado a um limite muito perigoso, a ponto de colocar a própria vida em risco. Se ela tivesse um colapso vital, o motivo daquele esforço seria questionado. Nenhum de nós, no entanto, diria que ela não tem o direito de fazê-lo. Era a razão dela, ela queria chegar, nem que fosse daquele modo. Cabe contextualizar que aquela foi a primeira prova da maratona feminina na história dos Jogos Olímpicos. Entre as cinquenta competidoras, Gabriele chegou na 37a colocação.

Podem ser variadas as razões que fazem com que as pessoas forcem seus limites. Algumas se negam a desistir por considerar que seria um atestado de derrota, após tanto esforço feito. Aliás, há relacionamentos que continuam porque uma das partes (ou ambas) acha que separação é sinal de fracasso. “Por que separar agora, depois de tanto tempo?” Outras pessoas vão até o limite das forças por pensarem “se eu desistir disto, pode ser que eu comece a desistir de outras coisas também”. No âmbito da psicologia humana, o caráter simbólico dos eventos influencia as nossas decisões.

A piada no meme do Everest lotado de cadáveres é boa, porque a ideia nela contida tem de ser considerada. Ele não é uma sentença de realização, não é uma determinação que faz com que lá só estejam aqueles que tinham a perspectiva de sair da zona de conforto e se deram mal. Aquela é uma possibilidade, portanto, algo a ser levado em conta como reflexão. Uma pessoa que queira sucesso não pode afastar a possibilidade do fracasso. E também não se deve confundir coragem com insensatez, que é o ímpeto sem o devido preparo. É provável que os acomodados, ao lerem o meme, tenham o impulso de dizer: “Tá vendo? Eu, aqui, tô de boa”, quase que para justificar o imobilismo.

Há um desenho relativamente conhecido de um sapo sendo engolido pela garça. O anfíbio está com a cabeça já para dentro, mas, ainda assim, tenta esganar a garça. Essa é a imagem da não desistência. O sapo vai ser engolido, mas vai dar mais trabalho, vai “vender caro a derrota”. Qual é a ideia? Não é que aquele esforço do sapo vai evitar o final, mas vai honrar o sapo. Um sapo desistente é só um sapo. Um sapo que tenta até o último momento sobreviver é um sapo que faz com que a vida não seja tão banal.

O risco mais premente é o da banalização da vida, o apequenamento dos propósitos e o entristecimento evitável. São recorrentes as pesquisas que apontam percentuais altos de pessoas infelizes no trabalho que executam. Falta de reconhecimento, sobrecarga de tarefas, problemas de relacionamento com colegas e chefes são motivos que costumam aparecer no topo da lista dessas apurações.

Pessoas dedicam grande parte de seu tempo de vida à atividade laboral. Ademais, os limites entre casa e trabalho foram pulverizados. A qualquer momento, demandas aparecem. A percepção de que o tempo é despendido em um lugar que infelicita esvazia o propósito de se fazer o que se faz. Essa frustração fica ainda mais realçada pela impressão de que o tempo passa cada vez mais rápido à medida que envelhecemos.

Existem pessoas que passam a semana torcendo para a sexta-feira chegar. O que é absolutamente tranquilo. Basta permanecer vivo, que a sexta-feira chegará. Assim como a segunda… E assim a vida passa. Tempo é vida, e ambos finitos nessa relação.

“E quando eu tiver saído/ para fora do teu círculo/ não serei, nem terás sido/ tempo, tempo, tempo, tempo”, canta o compositor baiano Caetano Veloso, na sua monumental “Oração ao Tempo”.

É sempre conveniente fazer algumas reflexões a fim de evitar decisões precipitadas. Uma pergunta fundamental é se a insatisfação é realmente com o trabalho ou com aquele momento da carreira. Porque é bastante comum se deixar desanimar por alguma circunstância momentânea, como um projeto desgastante, uma equipe que não tem sinergia ou um job que se mostra muito mais complicado do que parecia inicialmente. O modo aborrecido pode ser despertado também por uma injustiça pontual, por um período de baixa performance pessoal ou da companhia, por um fornecedor ou por um cliente problemático.

Quando se avalia o momento profissional, é preciso distinguir o que é estratégico e o que é circunstancial antes de empreender uma mudança de rota. Uma pessoa que está infeliz no local de trabalho não precisa necessariamente mudar de carreira. Ela pode revigorar a vitalidade no local em que se encontra.

Vale lembrar que a vida se assemelha muito mais a uma maratona do que a uma prova de 100 metros rasos. A carreira também é assim. Na maratona, você às vezes acelera, às vezes guarda energia para os momentos mais críticos. A noção de uma perspectiva maratonista na carreira implica compreender que haverá trechos de maior dificuldade, assim como aqueles em que a passada será mais fluida.

Em alguns momentos, portanto, é necessário analisar aquilo que é circunstancial na insatisfação e aquilo que é estrutural. Há queixas em relação à carreira que são estruturais, não têm a ver com o momento, mas com aquela prática, com o tipo de negócio. Se aquilo que é estrutural me infelicita, seja porque eu não me enxergo como pertencente àquele meio, não me realizo, não tenho alegria naquilo que faço, então, eu não devo persistir.

A insistência, a persistência, a resiliência são necessárias quando você almeja algum resultado que te satisfaça. Não havendo essa perspectiva, torna-se um desperdício de tempo e, portanto, de vida. É um desgaste que não tem sentido. Afinal, uma vida com propósito é aquela em que eu tenho consciência das razões pelas quais faço o que faço, assim como dos motivos pelos quais deixo de fazer o que não faço.

Um indicador que contribui para esse diagnóstico é perceber se aquela atividade me cansa ou me estressa. Se for apenas cansaço, as pausas para o descanso me regeneram. Se a ideia do que faço me estressa, retira de mim a energia vital, me desanima só de pensar, então, trata-se de uma questão estrutural.

É bastante inapropriado, por exemplo, dizer “ainda dá” para uma pessoa com síndrome de burnout. Porque ela já atingiu um nível de esgotamento, está na iminência de um colapso. Mesmo que a intenção seja boa, de fortalecer o ânimo, pode-se incorrer num equívoco. Quando a pessoa chega a esse estágio, qualquer passo, por menor que pareça, é extremamente dificultoso. Além disso, proferir frases como “aguenta mais um pouco”, “você é forte”, é um modo de dizer que, se ela desistir, é fraca. E esse é um estigma que acompanha quem sofre dessa síndrome. A pessoa é vista como incapaz de suportar pressão, sem resiliência, emocionalmente desequilibrada.

Então, existem circunstâncias, entre elas a do burnout, em que a noção de “ainda dá” precisa ser mais bem balizada como recomendação, de maneira que não seja ofensiva. É possível usar o “ainda dá” para quem sofre com essa síndrome no sentido de “ainda dá para você recuperar a tua saúde”, “ainda dá para você restabelecer a tua harmonia”, “ainda dá para você repensar a tua trajetória daqui para a frente”. Se a pessoa foi consumida por uma determinada circunstância, cessada essa circunstância e feita a terapêutica adequada, decerto ainda dá para começar uma nova etapa na vida.

A partir dessa constatação, eu preciso procurar outro caminho, porque persistir naquilo que é equivocado não vai corrigir o equívoco. Não é o caso de mais um “ainda dá”, porque há momentos em que realmente não dá mais.

Esse é um dos modos de acreditar na máxima recebida pelo médium Francisco do Espírito Santo (de autoria muitas vezes atribuída a Chico Xavier), que diz que “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim”.

ESTAR BEM

SONO ATRASADO NÃO PODE SER REPOSTO NO FIM DE SEMANA

Deve-se dormir, pelo menos, sete horas todos os dias para evitar problemas de saúde associados à falta de descanso, como a obesidade

Costumamos chamar de sono atrasado aquela falta de sono que se acumula, ou seja, quando você tem menos descanso do que deveria. A quantidade de horas na cama depende da sua idade, mas o recomendado é dormir no mínimo sete horas por dia -os mais novos dormem mais, enquanto os mais velhos, menos.

Se você dorme menos do que isso durante a semana, não vai compensar dormindo mais horas no fim de semana. O que acontece é que se você dorme tempo suficiente, todos os dias, o fato de um dia você dormir menos não é muito relevante. O contrário não é válido: o sono atrasado não pode ser compensado em um único dia.

Se você acha que está dormindo menos de sete horas, tente descansar um pouco mais com o tempo. Se uma semana você trabalhou muito e dormiu um pouco menos, pode compensar na semana seguinte dormindo oito ou oito horas e meia. Você também não deve dormir mais do que isso, porque há chance de acordar mais cansado. Tentar compensar uma noite ruim de sono não funciona e também, a longo prazo, tem seu preço.

RISCOS

A falta de sono causa aumento do risco cardiovascular, uma alteração no metabolismo da glicose que causa aumento de chance de diabetes tipo 2 e aumento do risco de obesidade.

Há momentos em que adormecer é difícil, porque a pessoa está muito estressada, então a melatonina pode funcionar como indutor do sono se tomada uma hora antes de dormir. Mas isso não deve ser considerado uma solução para a falta de sono, somente se for um problema específico associado a picos de estresse, a melatonina pode ajudar. Em qualquer caso, recomendamos sempre consultar um médico antes de tomar qualquer tipo de medicação.

Há quem diga que dorme apenas três ou quatro horas por noite e fica bem. É possível que haja um caso, mas é difícil de acreditar. Eles também podem ser pessoas que certamente não dormem mais do que quatro ou cinco horas à noite, mas tiram uma soneca de duas horas durante o dia. No final, eles dormiram suas seis ou sete horas, ou seja, um tempo muito mais próximo do recomendado, pois o ciclo de sono é de 24 horas. Existem pessoas que sofrem de insônia crônica, mas até para elas a falta de sono acaba cobrando seu preço.

A primeira recomendação que se faz, de qualquer forma, à pessoas com esses problemas é não dormir durante o dia, pois assim, é mais fácil ter uma boa noite de sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SEGREDO DA FELICIDADE

Estar alegre 100% do tempo é impossível. Mas reconhecer os altos e baixos da vida pode ser a chave para alcançar a sensação de contentamento

Ao pensar na palavra felicidade, pode ser que você associe o pensamento a uma pessoa especial, uma imagem bonita, um acontecimento inesquecível ou simplesmente ao jeito como seu cachorro te recebe ao chegar em casa. Ao mesmo tempo, a busca pela felicidade é uma das maiores preocupações do ser humano – a Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive, divulga todos os anos um relatório com indicativos para eleger o país mais feliz do mundo. Mas se sempre buscamos algo que na verdade já temos, como responder, afinal, se somos ou não felizes?

Definir a felicidade não é algo simples. Mas, em poucas palavras, ela é um estado de contentamento. Nossa dificuldade em defini-la vem justamente por não sabermos para onde olhar em nossa vida para procurar o sentimento. “A felicidade é uma construção histórica, ela não existia antigamente. Mas foi construída pela capacidade do ser humano de abdicar do prazer imediato e projetá-la a longo prazo”, explica o neurocientista Álvaro Machado Dias. Ou seja, criamos algumas bases do que é preciso para ser feliz e buscamos, incansável e incessantemente, essas premissas como realizações de sonhos. Sejam viagens, dinheiro, amor ou família.

“Um papel importante na desmistificação do tema da felicidade é a compreensão de que esse aspecto de bem-estar emocional não tem a ver com estar alegre ou feliz 100% do tempo, o que seria humanamente impossível, mas com a compreensão de que todas as emoções são importantes e fazem parte da vida humana”, explica Gustavo Arns de Oliveira, professor de Psicologia Positiva, fundador do Centro de Estudos da Felicidade e idealizador do Congresso Internacional de Felicidade. “A construção do bem-estar emocional se dá pela forma como eu me relaciono com cada uma das minhas emoções. Quanto mais saudável é o meu relacionamento com o medo, com a raiva, com a tristeza, mais bem-estar eu vou colher.”

Assim, conforme ele explica, o segredo é o autoconhecimento e o reconhecimento de cada uma das emoções. “Os momentos felizes são ótimos; quanto mais melhor. Mas o fato é que não são momentos felizes que fazem a vida. Se eu restringir a minha compreensão de felicidade aos momentos felizes, tenho uma percepção muito pequena do tema”, diz o professor.

Pode ser, por exemplo, que algo desgastante seja muito satisfatório e dê um significado mais profundo à sua existência. Como foi, e está sendo, a maternidade para a produtora Cristine Marinho, de 36 anos.

“Eu estou há quatro meses sem dormir direito, com uma olheira que vai até o chão, não uso mais o meu cabelo solto, mas nada disso importa quando eu olho para o lado e a minha filha está dando risada. É um amor que ninguém nunca vai conseguir explicar porque é surreal”, declara ela, que nunca teve o desejo de ser mãe, mas descobriu essa felicidade quando Maria, hoje com 4 meses, apareceu de surpresa em sua vida e na do vendedor Leandro, de 34 anos. “Eu tinha certeza de que não podia engravidar e estava bem ok com isso, mas hoje nem sei mais quem sou sem ela. Agora sou Cris mãe, sou a mãe da Maria.” Conforme explica o neurocientista Álvaro, de um lado temos a felicidade hedônica, que associa o sentimento às atividades de recompensa do cérebro e à ausência de sofrimento imediato; a felicidade eudaimonia, que é baseada em princípios, ideais e conquistas. E um terceiro tipo que é a felicidade das experiências psíquicas. “Este último é um pouco daquela história do viver não é preciso, navegar é preciso. Então a pessoa precisa alimentar o espírito e o senso de estar vivo”, ensina ele.

A percepção de finitude trazida com a pandemia foi impulsor para que muitas pessoas se questionassem sobre suas escolhas de vida – seja em mudança de emprego, de país, de casamento ou de sentido de vida. “Na pandemia, entendi que não poderia ficar me prendendo à opinião dos outros, precisava confiar em mim”, conta o guia de turismo Renato Lima. Ele largou o emprego em uma multinacional da área de construção civil – depois de cursar Engenharia Civil na USP por cinco anos – para viver o sonho de trabalhar viajando. A ideia já era antiga. Surgiu em 2017 quando ele fez um intercâmbio de seis meses no Chile. “Na época, eu precisava procurar alguma coisa para me ajudar no sustento e conheci uma menina que trabalhava com turismo. Ela me ajudou a fazer uns trabalhos de freelancer e assim comecei”, diz. O negócio deu tão certo que, quando voltou para o Brasil, ele decidiu publicar seu conteúdo online. “Criei, com uma amiga, o Instagram @explora-chile_ e passei a divulgar informações sobre o país. Em poucos meses a minha remuneração estava quase o equivalente ao que eu ganhava no emprego. Porém com muito mais liberdade, novidade e qualidade de vida.”

DECISÃO

O pedido de demissão veio com o lockdown e o adeus de viajar tão cedo para conseguir mais conteúdos. “Com as restrições, voltei para Guaratinguetá, no interior de São Paulo, para ajudar o meu pai com o negócio dele. E dava para ver a expressão de tristeza dele e de alguns amigos com a minha decisão. E entendo, porque era uma segurança que eu tinha que estava trocando por uma coisa que era incerta”, conta. No entanto, ele diz que não se arrependeu da decisão e não aceitou outras opções de trabalho que surgiram. “Vi que eu tinha certeza do que eu quero.”

Apesar de uma reflexão de vida sempre ser válida, a busca pela obrigação de ser feliz pode ser algo negativo. “Essa obrigação de ser feliz é chamada, dentro da ciência da felicidade, como ditadura da felicidade, a qual nos impacta de acordo com o nosso nível de consciência sobre o que está acontecendo”, explica Gustavo Arns de Oliveira. “As pessoas imaginam que precisam estar felizes 100% do tempo e começam a forçar um estado irreal, mascaram tudo o que acontece de negativo ou qualquer outra emoção que não seja compreendida dentro de um aspecto positivo da vida. Isso é muito perigoso.”

Essa felicidade superficial passa a fazer com que os momentos felizes sejam cada vez mais efêmeros e pautados no prazer ou no “sentir-se bem”. Algo que a sociedade contemporânea nos lembra diariamente, seja por meio da publicidade (o produto que você precisa ter) ou das redes sociais (a vida que você precisa ter). “Essa busca pelo prazer faz com que a vida seja mais vazia”, declara Gustavo.

Isso não impede, porém, que o humor e o riso façam parte do dia a dia. “Essas são formas de a gente restaurar nosso bem-estar, assumindo que ele não é contínuo e trazendo a ideia de felicidade como uma possibilidade”, reflete o psiquiatra Daniel Martins de Barros, colunista do Bem-Estar e autor do livro Rir É Preciso: Descubra a Ciência por Trás do Humor e Aprenda a Usá-lo para Atravessar Períodos Difíceis e Criar Relações Mais Próximas.

O psicólogo Viktor Frankl (1905-1997) também deixa isso claro em seu livro Em Busca de Sentido. Ali, ele conta sobre sua experiência verídica em um campo de concentração e como encontrar uma razão para viver o ajudou em meio à tragédia. No entanto, no dia que essa razão não estava tão clara, o humor era algo que ajudava.

“O riso é uma estratégia de sobrevivência nesse sentido, pois ajuda a trazer alívio, mesmo que temporário. Então não negamos a dor, não negamos a tristeza, mas buscamos nos alegrar. E esse é um dos grandes poderes do humor, né? Porque quando você está rindo está olhando a vida de uma maneira que não era óbvia – porque se fosse óbvia não teria graça. A graça vem justamente de descortinar um aspecto que você não tinha visto e isso pode ser revelador”, afirma Daniel.

Encontrar um sentido foi algo que ajudou o empresário Mateus Guisasola, de 28 anos, a encontrar a sua felicidade. Ele nasceu com uma síndrome rara chamada artrogripose, e nem sempre lidou bem com a condição. “Houve um período em que eu usei muita droga, quase diariamente, mas quando entendi quem eu queria ser e o que queria da minha vida, não deixei me verem como um coitadinho que andava de muletas. Eu podia fazer tudo dentro das minhas limitações. Isso me deu muita força interna”, conta.

A síndrome fez com que Mateus tivesse má-formação nas articulações, o que o levou a encarar desafios como mais de 20 cirurgias, uma parada cardíaca e muito bullying. “Felicidade é como você se sente com você mesmo”, afirma. “Mesmo com muita coisa ruim acontecendo na minha vida, eu nunca achei que não iria melhorar. Quando eu olhava para as minhas conquistas, mesmo as pequenas, elas me traziam felicidade.”

Mateus conta que se encontrou quando começou a frequentar o candomblé. “Não importa o que falem, aquilo me faz bem”, diz ainda.

EXERCÍCIO

Claro que alguns aspectos externos e internos são essenciais para classificar essa felicidade. E daí surge o Relatório Mundial da Felicidade cria- do pela ONU, que se baseia em variáveis importantes para a vi- da humana, como o PIB per capita, a expectativa de vida e as percepções de corrupção. “A nossa felicidade individual deve ser cuidada, deve ser olhada, mas ela é logicamente impactada pelo meio onde eu habito. Por mais que esteja tudo bem comigo, se eu coloco o nariz para fora e me deparo com uma sociedade injusta, isso vai me impactar de alguma forma”, afirma Gustavo.

Para existir uma felicidade genuína, na qual seja possível lidar com as naturais ondas negativas de sentimento que surgem ao longo da vida, é preciso, além do já citado autoconhecimento, um sentido ou objetivo. A partir dessa premissa, a especialista em bem-estar e mentora em mudança de hábitos Carla Lubisco garante que a pessoa pode ser treinada.

“A felicidade é uma habilidade. A gente pode e deve aprimorar, desenvolver e qualificá-la por meio de hábitos saudáveis, pois a felicidade está intrinsecamente ligada à saúde”, garante. Como exemplos, ela traz terapia, exercício físico, cuidados com a alimentação, sono e amor-próprio. “Saber o seu valor, seus pontos fortes, é essencial para isso, assim como fazer coisas que você ama. Isso vai melhorar seu estresse e sua rotina.”

Uma maneira fácil de encontrar a felicidade como resultado de suas ações é por meio dos chamados “hormônios da felicidade”. A satisfação de fazer o que ama, por exemplo, traz a dopamina; já a atividade física pode liberar a endorfina ou a serotonina. Esses hormônios estimulam a sensação de bem-estar e inibem a irritação e o estresse. Seu estímulo pode afetar nossa frequência cardíaca, sono e apetite, mas seu desequilíbrio, por outro lado, traz consequências negativas para a saúde como insônia, estresse e mau humor.

POTE DE OURO

Todos os sentimentos são importantes para uma vida saudável – algo que rebate a ilusão utópica da felicidade plena como um pote de ouro no fim do arco-íris. Mas reconhecer a multiplicidade de emoções acumuladas que temos e aceitar os altos e baixos da vida seria uma felicidade possível. “Existe uma conexão entre autoconhecimento e a felicidade porque quando a gente não presta atenção na gente mesmo pode se tornar difícil discernir aquilo que estamos sentindo. E isso é funda- mental para a gente se livrar logo das emoções negativas e voltar a sentir as emoções positivas”, completa o psiquiatra Daniel.

São muitas as possibilidades de a gente engajar nossa atenção a essas emoções positivas – como, por exemplo, refletir qual foi o melhor momento do dia antes de dormir. “Esse estímulo neural faz com que a gente trabalhe uma sinapse, impactando a construção de um cérebro neuroquimicamente mais positivo. Então quando perguntarmos ‘como posso ser mais feliz amanhã’, isso vai colocar o meu cérebro no trabalho para encontrar essa resposta”, explica Gustavo, provando que, no final, a resposta da nossa felicidade está dentro de nós.

COMO SER MAIS FELIZ

AUTOAVALIAÇÃO

A felicidade é uma combinação de bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual. Olhar para esses cinco pontos pode ser um bom ponto de partida.

VEJA O LADO BOM

Apesar do nosso olhar estar voltado para os problemas e o que precisamos melhorar, é preciso não ignorar tudo aquilo que já está bom. Esse site pode ajudar: bit.ly/felicidadeteste.

NOVIDADE

Muito da felicidade em uma viagem ou um encontro é o fator desconhecido. Isso traz mistério e inovação, o que pode ser ótimo para os dias de mesmice. Que tal planejar algo inusitado?

ACEITAÇÃO

Dias ruins vão acontecer. Mas incluir atividades que possam te tirar desses momentos de dor pode ajudar.

OUTROS OLHARES

‘DIRIGI DORMINDO’

Sem controle, remédio para insônia provoca sonambulismo e dependência

“Dirigi por aí dormindo.” “Mandei áudios no grupo do trabalho.” “Esqueci como falar português.” Os relatos são muitos, e têm dominado as redes sociais. As experiências aconteceram durante a noite, mas foram descobertas apenas no dia seguinte. A causa é a mesma: o remédio hipnótico para insônia Zolpidem, cujas vendas explodiram no Brasil.

Especialistas explicam que o medicamento por si só não é um problema, mas o uso inadequado, o quadro de dependência e a busca para fins recreativos, que tem crescido entre os jovens, oferecem riscos graves que têm acendido o alerta em hospitais e consultórios.

A preocupação não é à toa. A compra do medicamento de fato cresce em ritmo alarmante entre os brasileiros: de 2017 até 2020, por exemplo, aumentou 121,5%, saltando de 10,5 para 23,4 milhões de caixas vendidas. Somente nos seis primeiros meses de 2022, já foram comercializadas 10,6 milhões.

“Esse crescimento ocorre em parte porque muitos médicos que prescreviam benzodiazepínicos, geração anterior de remédios para a insônia, passaram a indicar o Zolpidem. Mas também é pelo fácil acesso, que leva ao uso abusivo e inadequado, até mesmo de forma recreativa, o que é muito grave. E tem também essa característica de hoje as pessoas que querem ter tudo sob controle, até mesmo o adormecer, sendo que a realidade não é bem assim”, avalia a coordenadora do Ambulatório de Sono do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Rosa Hasan.

Alguns efeitos colaterais do remédio são bem conhecidos, como a amnésia, a agitação e os pesadelos, porém um que tem ganhado destaque é o sonambulismo. Segundo um estudo publicado no periódico European Neuropsychopharmacology, a consequência acomete cerca de 5,1% dos pacientes, mas especialistas alertam que entre aqueles que fazem uso de forma inadequada, como tomar fora da cama ou além do período recomendado, de no máximo quatro semanas, a probabilidade é bem maior.

O sonambulismo foi justamente o que levou a dona de casa Rica Gomes Todeschini, de 49 anos, de São Paulo, a interromper a medicação. Ela começou a tomar o Zolpidem por orientação médica, em 2019, logo depois de ter perdido a mãe e ter descoberto um nódulo no pâncreas, cenário que a deixou com dificuldades intensas para dormir.

Antes de começar a tomar o remédio, ela ia para o seu ateliê de costura ao perder o sono. Por isso, seu marido não estranhou a princípio quando, após cerca de quatro meses tomando o hipnótico, Rica passou a se levantar e sair do quarto no meio da noite.

“Mas ele ficou cismado porque estava começando a ser quase todo dia. Então um dia decidiu me procurar no ateliê, mas não encontrou. Ao abrir a porta de casa, viu que o carro não estava na garagem. Eram 3h da manhã”, conta.

Ele esperou Rica retornar, pensando se tratar de uma emergência, mas quando ela voltou, aproximadamente 45 minutos depois, conversou com ele como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, ele perguntou se ela lembrava que havia dirigido na noite anterior, o que a pegou de surpresa.

“Eu não sei para onde eu fui, não sei o que eu fiz, não sei se parei num boteco e bebi, não me lembro de nada. Fico com medo de ter feito algo errado, é muito perigoso. Liguei para o psiquiatra e ele mandou eu parar, mas aos poucos, porque pelo tempo que eu estava tomando não poderia interromper imediatamente. Nesse meio tempo, meu marido escondeu a chave do carro”, diz.

USO INADEQUADO

Neurologistas ouvidas explicam que o Zolpidem não é um vilão, mas acabou não sendo o medicamento perfeito para a insônia como foi prometido nos anos 1990. Ele foi criado para substituir os benzodiazepínicos, descobertos nos anos 1960, que eram amplamente utilizados porém provocam quadros graves de dependência e déficit cognitivo a longo prazo.

O Zolpidem faz parte das chamadas drogas Z, ou não benzodiazepínicos, que atuam também no sistema do cérebro chamado de GABA. Esse mecanismo promove uma redução da atividade no sistema nervoso.

“É um hipnótico muito mais específico [que os benzodiazepínicos], atua no subtipo de receptor GABA A. Quando ele se liga, vai especificamente para um local onde existe o efeito de fazer a pessoa dormir rapidamente. Outros remédios induzem o sono de uma maneira menos abrupta, por serem menos específicos”, explica a neurologista Dalva Poyares, professora de medicina do sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Instituto do Sono.

Para Rosa Hasan, ele não foi o que se esperava porque hoje sabe-se que o remédio também promove dependência e tolerância, e pode levar a efeitos colaterais preocupantes, como os vividos por Rica. Porém, destaca que é importante para os casos de insônia desde que haja a devida orientação médica:

“Se é uma pessoa que toma direito, indicado pelo médico, na cama, sem ultrapassar o limite de quatro semanas, nós não temos problemas com a medicação. É um bom remédio, o problema é esse uso indevido”, afirma ela.

Poyares concorda que não se trata de uma terapia de uso prolongado, e que exceder o prazo da bula de quatro semanas é uma das principais causas da dependência.

“Com o uso crônico, você pode desenvolver tolerância, ou seja, precisar de uma dose maior para ter o mesmo efeito, e ele começa a reduzir o tempo de ação. Então passa a acordar no meio da noite, por causa do medicamento, e toma outro”, diz a especialista.

Tanto ela, como Rosa Hasan, contam atender muitos pacientes com quadros de vício, uma quantidade que cresce em ritmo alarmante. Além dos riscos já conhecidos pelo comportamento inconsciente – como bater o carro, ter relações sexuais indesejadas e desprotegidas, passar por situações de constrangimento ou criar despesas financeiras -, a dependência a longo prazo pode levar a problemas neurológicos, como perda de memória ou um quadro ainda pior de insônia.

“No HC nós temos até internado com uma certa frequência casos gravíssimos de dependência, com números absurdos de comprimidos, pessoas que tomam mais de 100 por dia. Toda semana eu atendo dois, três casos novos”, conta Hasan.

FISCALIZAÇÃO

Uma das críticas das especialistas sobre o fácil acesso ao Zolpidem é em relação às regras para a prescrição no Brasil. O fármaco faz parte da categoria B1 de medicamentos, os psicotrópicos, e portanto deveria demandar uma receita do tipo azul para a compra nas farmácias. Nessa modalidade, cada receita é padronizada, tem uma numeração controlada, fica retida e exige mais informações do médico e do paciente. Portanto, a fiscalização é mais rígida.

No entanto, medicamentos à base de Zolpidem com menos de 10 mg podem ser prescritos com a receita de controle especial, uma forma mais branda.

“Gostaria que fosse uma medicação mais controlada, porque a facilidade dá a sensação de ser um remédio tranquilo, para qualquer um. Na França, por exemplo, restringiram o acesso e isso reduziu bastante o consumo”, defende a neurologista.

GESTÃO E CARREIRA

CEOS NEGROS TRABALHAM O DOBRO PARA CONSEGUIR CHEGAR AO TOPO, DIZ PESQUISA

Entre os 500 líderes da revista ‘Fortune’, só 4 são negros; no Brasil, não há CEO negro entre as 423 companhias da B3

Um profissional negro tem de trabalhar o dobro para chegar ao topo. É o que aponta pesquisa da Korn Ferry, consultoria de gestão de pessoas. Mesmo com as políticas de diversidade em alta nas organizações, o alto escalão parece se manter quase intocável. Apenas 4 dos 500 CEOs listados na revista Fortune são negros, representando menos de 1% do total.

De acordo com Milene Schiavo, diretora de Diversidade, Equidade e Inclusão da Korn Ferry, o dado é ainda mais alarmante quando comparado ao de 10 anos atrás, quando o número de lideranças negras nas empresas listadas, apesar de baixa, era de 7 executivos.

A queda, segundo ela, é resultado da falta de ações mais afirmativas, com metas e objetivos claramente estabelecidos. “Hoje, existe um foco muito forte na questão do progresso feminino, mas não há, de fato, o estabelecimento de indicadores de metas quando o assunto é a inclusão de pessoas negras nesses cargos mais altos, por exemplo”, ressalta Milene.

No Brasil, segundo a B3, 79% das empresas listadas afirmaram ter de 0 a 11% de líderes negros, enquanto 78% têm o mesmo porcentual em cargos C-level. Não há nenhum CEO negro entre as 423 companhias da Bolsa. Da mesma forma, o salário dos profissionais negros chega a ser 43% menor do que o dos brancos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo global “The Black P&L Leader”, realizado pela Korn Ferry, ouviu 28 executivos sêniores de P&L – função que, segundo os estudos, melhor prepara um líder para a função de CEO. Segundo o levantamento, 60% dos líderes negros relataram ter de trabalhar duas vezes mais e alcançar o dobro dos resultados em relação aos colegas brancos para ter o mesmo reconhecimento. Para efeitos de comparação, os líderes negros tiveram a maior pontuação em competências essenciais para o alto desempenho de executivos em relação aos demais líderes da base de dados.

De acordo com Yone Gonzaga, professora convidada da Fundação Dom Cabral, a ausência de pessoas negras em determinados postos de trabalho é resultado de uma série de condicionantes históricas que foram pensadas para que os negros estivessem na base e os brancos, no topo. Segundo ela, os dados só reforçam como o racismo estrutural impacta a vida dos negros no País.

Monalisa Gomes, CEO da Fronius entre 2016 e 2020, concorda. Segundo ela, enquanto as pessoas acharem que isso é uma questão de meritocracia, a discussão não vai avançar. Durante os anos em que esteve à frente da companhia no Brasil, sempre que participava de eventos ou encontros com os demais líderes na empresa, a executiva era recebida com surpresa pelos colegas.

“Quando eu estava acompanhada de uma das gerentes, era natural que as pessoas achassem que ela era eu. Porque ela era uma mulher loira e alta, e eu não me enquadrava nesse padrão de CEO de uma multinacional”, conta Monalisa, que trabalhou 12 anos antes de chegar ao topo.

Ser a única mulher negra da sala não era nenhuma novidade durante as reuniões com os clientes. Monalisa, que hoje trabalha numa empresa na Áustria, conta que as pessoas sempre tinham um pé atrás em relação a sua posição de liderança e que ela precisava se impor o tempo todo como autoridade máxima da empresa no País.

“As pessoas sempre perguntavam: ‘Você não precisa ligar para mais ninguém para fechar o negócio? Não tem de pedir mais nenhuma autorização?’”, afirma ela, também conselheira consultiva na Edmond Tech.

Para Yone Gonzaga, hoje há um discurso desconectado da prática. Quando a empresa assume a equidade como um valor, tem de não só garantir o acesso, mas também a ascensão funcional, afirma ela. “A oferta de oportunidades precisa ser igual para todos os grupos, mas sempre levando em consideração as diferenças, os pontos de partida e esses históricos sociais.”

O CEO da Amil, Edvaldo Vieira, membro do Grupo Mover, diz que o racismo é uma constante em sua vida pessoal e profissional. “Tive várias experiências, como quando um candidato a fornecedor, na sala de reunião, não dirigia a palavra a mim, só ao outro homem (branco) da sala – até se surpreender quando ele me chamou de chefe.”

Para mudar a realidade e dar espaço para que mais pessoas negras consigam progredir com autonomia na carreira, o CEO reitera a importância da propositividade das empresas para abrir portas e levar cada vez mais profissionais ao topo. “Não podemos só focar na diversidade pela diversidade. É preciso destinar orçamento e investir para incorporar o tema no dia a dia do negócio.”

TRANSFORMAR

Com a meta de ter 10 mil posições de lideranças ocupadas por negros até 2030, o grupo Mover é uma das principais iniciativas para transformar a alta liderança no País. Com 47 empresas associadas, como a Ambev, a Heineken e a Amil, o movimento promove ações e inclui o compartilhamento de boas práticas e a aceleração dos processos de diversidade, equidade e inclusão. O objetivo é potencializar o processo de aceleração de carreiras de negros e conscientizar líderes quanto ao racismo e os impactos positivos em ir além dos vieses inconscientes.

EQUIPES DIVERSAS GERAM 38% MAIS RECEITA

A questão da diversidade nas empresas, segundo especialistas, também passa pelas novas demandas de consumo da sociedade. Não por acaso, o relatório da Korn Ferry também mostra que as equipes executivas diversas são 70% mais propensas a conquistar novos mercados e geram 38% mais em receita com produtos e serviços inovadores.

Para a diretora de Diversidade, Equidade e Inclusão da Korn Ferry, Milene Schiavo, quando a empresa não traz diversidade, ela perde perspectiva. Também perde em diversidade de produto e em experiência para o consumidor.

“Estou falando de 56% da população brasileira. Ou seja, você está trazendo para dentro da sua empresa também grande parte de quem consome o seu produto ou seu serviço. Através disso, você consegue usar essa perspectiva na sua elaboração de portfólio, na sua experiência que você vai oferecer para o consumidor.”

Diretor financeiro e administrativo do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), Tom Mendes afirma que é preciso começar o letramento por quem tem o poder da caneta. “Estamos falando também sobre legado, como essas lideranças querem ser lembradas no futuro, como líderes omissos ou como lideranças que, através do poder que detêm, conseguiram fazer mudanças.”

EU ACHO …

COMEÇOS E RECOMEÇOS: CONSISTÊNCIA, PERSISTÊNCIA, RESISTÊNCIA

“Uma vontade, mesmo se é boa, deve ceder a uma melhor.” (Dante Alighieri, Purgatório)

Quando gravaram a música “Time is on my side”, em 1964, mais do que um hit, os Rolling Stones lançavam uma profecia. À época, a banda britânica tinha dois anos de carreira. Hoje é a mais longeva da história do rock. Os Stones começaram em 1962 (dois anos antes do The Who, a segunda mais longeva) e seguem eletrizando plateias em estádios lotados ao redor do planeta. Há quantos anos eles avaliam se ainda dá para fazer mais uma turnê mundial? Continua dando e as pedras rolando… O tempo segue do lado deles.

O tempo é finito, mas não representa necessariamente um impedimento. Há uma  série de empreitadas bem-sucedidas iniciadas por pessoas numa faixa etária em que tantas outras já estariam batendo em retirada. Em 1911, o norte-americano Charles   Flint fundou o grupo empresarial Computing-Tabulating-Recording Company, que daria origem à IBM. Flint tinha 61 anos na época (e ter 61 anos no começo do século  XX era bem diferente de ser sexagenário nos tempos atuais). Ele só se aposentou em 1930, quando deixou o conselho de administração aos 80 anos de idade.

A pesquisa Empreendedorismo no Brasil, do projeto Global Entrepreneurship Monitor (GEM), feita pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade com o Sebrae e a Universidade Federal do Paraná, mostra que 9,7% dos empreendedores que começaram um negócio em 2018 estavam na faixa de 55 a 64 anos. Esse percentual significa cerca de 2 milhões de novos negócios.

Além do aspecto etário, outros fatores determinam o começo de uma nova atividade  ou  uma  mudança  de  carreira.  Há  vários  exemplos  de  pessoas  que possuem   talentos   em   mais   de   uma   área.   O   compositor   carioca   Guinga, reconhecidamente   um   exímio   violonista,   por   muitos   anos   atuou   como dentista. O mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), além de ter se tornado um gênio da literatura, era médico e exerceu carreira diplomática.

Assim como existem casos de profissionais, muito bem-sucedidos em suas trajetórias, que experimentam outros caminhos para dar vazão às suas paixões. Considerado o melhor jogador de basquete de todos os tempos, o norte-americano Michael Jordan, depois de três títulos seguidos na NBA pelo Chicago Bulls, surpreendeu o mundo do esporte em 1994, ao anunciar que começaria uma carreira no beisebol. Era um sonho de infância e que contava com o apoio do pai, que havia morrido meses antes da decisão. Jordan jogou por pouco mais de um ano e seu desempenho em campo nem chegou perto do que havia apresentado em quadra. “Posso aceitar a derrota. Todos nós falhamos em alguma coisa. O que não posso aceitar é não tentar. É por isso que não tive medo de me arriscar no beisebol”, declara no livro Nunca deixe de tentar (Sextante, 2009). Depois da incursão no mundo dos tacos, bases e bolinhas, Jordan voltou ao Bulls e faturou outros três títulos na NBA.

Algumas mudanças de rota não ocorrem de maneira deliberada, mas por força das circunstâncias. Foi o que aconteceu com o craque Tostão, que teve de encerrar a carreira futebolística aos 26 anos. Campeão do mundo no México em 1970, o jogador se despediu dos gramados três anos depois, após dois episódios de descolamento de retina. Decidiu prestar vestibular para Medicina. Em 1974, ele se viu fazendo prova no Mineirão, local onde anos antes era aplaudido pela torcida. Mas, naquele momento, o ex-jogador era apenas um entre tantos outros candidatos a uma vaga na universidade. Tostão foi aprovado e tornou-se o doutor Eduardo Gonçalves. Foi professor universitário e fez formação em psicanálise. Em 1994, foi convidado a comentar os jogos na Copa do Mundo nos EUA. Foi uma volta ao futebol por outra via. Depois, tornou-se colunista em jornais, considerado também um craque nos textos. Na autobiografia Tempos vividos, sonhados e perdidos (Companhia das Letras, 2016), Tostão escreve: “Morremos e renascemos várias vezes na vida, até desistirmos, ou até que a vida desista de nós”.

Fato é que estamos vivendo mais. Avanços nas ciências indicam populações mais longevas. Essa tendência de mais tempo de vida abre a possibilidade de fruir mais experiências, de exercitar mais habilidades e paixões. No âmbito do trabalho, está cada vez mais distante a imagem do profissional que passava a carreira toda numa empresa e era homenageado com plaquinhas, relógios ou bandejas pelo “tempo de casa”.

Carreiras surgem e desaparecem. A tecnologia elimina funções e cria outras. Produtos ficam obsoletos, novos serviços aparecem. Trata-se de um mundo mais volátil, de mudanças mais velozes (mudanças sempre aconteceram, a velocidade com que elas se processam é que dão o tom da nossa contemporaneidade). Vivemos mais e convivemos com mudanças muito mais rápidas do que os nossos antepassados. Portanto, viver e mudar são verbos com significados cada vez mais próximos.

Embora alguns campos da ciência falem em imortalidade como uma possibilidade, a eternidade não é um referencial para a espécie humana. Nós somos finitos e isso, muitas vezes, soa aflitivo. Quando falamos “ainda dá”, é sinal de que ainda há tempo. Portanto, ainda é viável exercer aquilo que se deseja, aquilo que se procura. Quando não houver mais tempo, também não haverá mais aflição. Há uma frase antiga que diz que “a vida é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas”.

A perspectiva de não haver mais tempo é a anulação do “ainda dá”. A imagem do relógio em movimento é um recurso largamente utilizado em filmes, em cenas de prova em sala de aula ou mesmo nos programas televisivos de disputas culinárias. Os ponteiros avançando evidenciam a pressão presente naqueles ambientes. É a percepção do tempo como opressor.

Há uma frase forte, dita pelo goleiro Gianluigi Buffon, ao despedir-se da seleção italiana, em lágrimas, ainda no gramado: “O tempo é tirano”. Ele a pronunciou ao término da partida que alijou a Itália da Copa do Mundo de 2018. O empate sem gols com a Suécia colocava fim ao sonho de Buffon de disputar o seu sexto Mundial. Foi o jogador que mais vezes vestiu a camisa da Squadra Azzurra, 176 partidas até aquele momento. Depois, em 2018, ele aceitou a convocação para dois amistosos. De todo modo, a entrevista do goleiro mostra que até para os grandes o tempo é implacável. Chega uma hora em que não dá mais.

Remete  à  melancolia  do  célebre  “E  agora,  José?”,  do  magnífico  poeta mineiro  Carlos  Drummond  de  Andrade  (1902-1987):  “E  agora,  José?/  A  festa acabou,/ a luz apagou o povo sumiu E agora, José?”.

A nossa condição de finitude nos obriga a ter atenção a isso, porque sabemos que não temos todo o tempo do mundo para as coisas. E o mais paradoxal é que, mesmo que tenhamos essa consciência, às vezes fazemos de conta que não é com a gente. Algumas pessoas são indiferentes a essa condição de finitude e agem como se dispusessem de todo o tempo. Quando deparam com a areia da ampulheta escorrendo para o fim, entram em desespero. Há uma diferença entre desespero e aflição. Quando fico incomodado com algo e me ponho a tentar resolver, estou movido pela aflição. O desespero fica claro pela minha incapacidade de ação. Enquanto a aflição é mobilizadora, faz com que eu tome alguma providência, o desespero me paralisa, me coloca em expectativa aguardante, ao sabor dos acontecimentos.

A aflição me impele a fazer escolhas na vida, a fim de que eu preserve a minha saúde física e mental, a minha harmonia em relação à vida. Aflição é aquilo que me impulsiona para mais uma procura, mais um passo, mais uma tentativa. A aflição envolve o “ainda dá” no sentido anunciante de um movimento que farei para mudar a situação vigente. Claro que uma hora não dará mais, porque a finitude das coisas, sobretudo do nosso tempo de vida, é um fato e, como tal, inexorável.

Algumas religiões semeiam a crença em oportunidades em outras dimensões e, por essa perspectiva, o tempo vital seria episódico. Isto é, esta vida é só uma etapa de uma existência maior. Não é casual que religiões reencarnacionistas lidem com a perspectiva de um tempo que ultrapassa o modo meramente cronológico e, com isso, contemplam a possibilidade de outros “ainda dá”. A essência do indivíduo perdurará e poderá retornar de maneira que ele reinvente, corrija, retome, faça de outro modo.

Mas nem todas as perspectivas religiosas são marcadas por essa concepção. O catolicismo é ressurreicionista. Convém ressalvar que acreditar na ressurreição não é a mesma coisa que crer em reencarnação. Na concepção judaico-cristã, esta vida é única e é nela que você tem a tua chance. Um dia, segundo as crenças judaico-cristã e islâmica, no Juízo Final, a Divindade decidirá o teu destino. É uma continuidade de algo que se iniciou quando você de lá veio. Como a tua fonte é a tua alma imortal e ela de Deus veio – na crença de várias religiões – para Ele voltará. Poderá ficar na presença Dele, que é o paraíso, ou na ausência Dele, que é o inferno.

As religiões reencarnacionistas atribuem uma noção de tempo que é quase cíclico. Nesse tipo de percepção, a mensagem não carrega um tom conformista: “Poxa, não deu nesta vida, dará na outra”. Em algumas dessas religiões – como no budismo e no espiritismo kardecista –, a ausência de esforço para evoluir, a acomodação, a mediocridade desfavorecem a sua condição de retorno. A dificuldade que você terá numa outra vida poderá ser maior do que a enfrentada nesta atual. A própria noção de carma, dentro do budismo, não é a de um destino no qual você não intervém. O carma é composto a partir das tuas escolhas, daquilo que você decidiu fazer ou deixar de fazer. As concepções que na história religiosa lidam com a noção de reencarnação trabalham com a recusa da mediocridade. Você reencarna para ser melhor, não para fazer mais do mesmo.

As religiões, de maneira geral, trabalham com as nossas aflições, isto é, com a nossa procura pela paz interior, pela harmonia na vida, pelo afastamento do desespero. Mas todas elas lidam com a noção de tempo vital de algum modo.

Ao olhar a religião sob o ponto de vista do “ainda dá”, para ter esperança você precisa ter esforço, dedicação, atuação. Na crença reencarnacionista, o merecimento de uma vida melhor dependerá do esforço feito nesta passagem atual. Nas religiões ressurreicionistas, especialmente no cristianismo, você merecerá a salvação da tua alma, portanto, a eterna permanência dela ao lado do Criador, se você não tiver neste mundo aquilo que se chamava de acídia, que é o equivalente da preguiça.

Até Tomás de Aquino (1225-1274), que é o organizador de ideias circulantes na  teologia cristã, o pecado mortal mais insidioso era a preguiça. Foi ele o responsável  pelo ordenamento dos sete pecados capitais. Até o século XII, a ideia mais forte de  afastamento da fonte da vida era a preguiça ou a acídia. Não a preguiça no sentido  de não querer trabalhar, mas de não fazer esforço para salvar a própria alma. E esse  esforço de salvação da alma significa fazer o Bem. Se você for preguiçoso na feitura  do Bem, se não for piedoso, se não tiver percepção de fraternidade, se não praticar  a caridade, cometerá um pecado mortal. Na crença dos cristãos, especialmente na teologia católica, o pecado mais forte é a desesperança. Porque a perda da esperança significa impedir a manifestação da bondade divina.

A partir do momento que eu tenho a perspectiva de que não dá, a esperança fica demolida. Nessa hora, a aflição se transforma em desespero. É quando deixamos de acreditar que “ainda dá”.

Quando estamos com aflição em relação a alguma coisa, ou iniciamos um processo de demolição dessa aflição ou ela cresce de modo exponencial. Uma aflição só começa a se resolver quando tomamos a iniciativa de resolvê-la, isto é, quando vamos em busca da anulação da fonte daquela aflição. A mobilização surge da percepção de que algo precisa ser lidado para não sermos fustigados por um sofrimento maior.

Nessa hora, a ideia do “ainda dá” precisa de acolhimento. Não basta que “ainda dá” seja pronunciado por alguém como estímulo. É preciso acolhê-lo, introjetá-lo. Eu preciso crer que aquela movimentação que farei, que aquela energia que desprenderei trará, de fato, um benefício. Eu sei que não é garantia de que será, mas não mobilizar será a garantia de que não será.

Muitas vezes, a mudança acontece a partir das angústias que carregamos no dia a dia. A angústia não é sempre negativa, ela pode ser um fator a mais para nos mobilizar.

O único remédio contra angústia é a ação!

ESTAR BEM

SAIBA COMO ACELERAR O METABOLISMO APÓS OS 50 ANOS

O envelhecimento é um dos fatores que influenciam o processo de transformar o que se come e bebe em energia. Mas há formas de manter o corpo com um bom nível de gasto calórico e evitar o acúmulo de peso

O metabolismo é um dos processos mais completos e complexos do corpo. Pode funcionar em momentos diferentes dependendo da pessoa: alguns aceleram e outros desaceleram. São especialmente os adultos mais velhos que tendem a ter um funcionamento mais lento, por isso acham difícil perder peso.

De acordo com especialistas da Mayo Clinic, o metabolismo é o processo pelo qual o corpo converte o que você come e bebe em energia. Mesmo em repouso, ele continua a usar energia para funções básicas, como respiração, circulação sanguínea e reparo celular. A energia usada pelo corpo para essas funções básicas é chamada de taxa metabólica basal, um fator chave para manter a forma e também influencia no controle de peso.

“O metabolismo varia de acordo com diversos fatores, como genética, sexo, composição corporal e níveis hormonais, alterando-se em diferentes fases da vida”, diz a nutricionista Anabella Famiglietti.

Segundo a especialista, adultos após os 50 anos têm um metabolismo mais lento, pois existem vários fatores associados ao envelhecimento que influenciam o estado metabólico, como: diminuição da massa magra; aumento da gordura corporal associado à diminuição de atividade física, secreção de hormônios de crescimento e sexuais; e desregulação alimentar (como a diminuição da sede).

DE OLHO NO PRATO

Após os 50, a pessoa precisa de menos energia e acumula mais facilmente reservas na forma de gordura. Por esse motivo, existem métodos e hábitos que podem ajudar a acelerar o metabolismo.

De acordo com Chih-Hao Lee, professor de genética e doenças complexas da Escola de Saúde Pública de Harvard, o metabolismo aumenta cada vez que você come, digere e armazena alimentos: um processo chamado “efeito termogênico dos alimentos”. Segundo Lee, a proteína tem um efeito térmico maior em comparação com as gorduras e os carboidratos, porque leva mais tempo para o corpo queimá-la. Um estudo da Universidade de Cambridge descobriu que alimentos como cominho, canela, açafrão, pimentão e pimenta podem aumentar a taxa metabólica de repouso e diminuir o apetite.

O que você bebe também pode auxiliar no metabolismo. O consumo moderado de bebidas estimulantes e quentes, como café e chá, favorece a estimulação gástrica e a queima de energia, pois geram maior gasto de gordura do que outras bebidas. Por outro lado, um estudo publicado no Journal of Clinical and Diagnostic Research mostrou que a termogênese – o processo de produção de calor nos organismos – induzida pelo consumo de água gelada foi reconhecida como um componente importante do gasto energético diário. Dessa forma, beber água fria faz com que o corpo se sinta compelido a recuperar sua temperatura habitual (baixada pela ingestão do líquido) e, como consequência, mais energia é queimada.

MUDE SUA ROTINA

Dormir pouco provoca um aumento no consumo de calorias. A falta de sono gera mais cortisol, que é o hormônio que descontrola a sensação de fome e saciedade, causando a vontade de comer. Por isso, deve-se dormir mais de sete horas por dia.

Aumentar a massa muscular por meio da atividade física é outro fator que ajuda no metabolismo. Um estudo feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Diabetes e Digestão dos Estados Unidos apontou que esse tipo de treinamento ajuda a elevar a taxa metabólica basal ao aumentar quantidade de músculo magro no corpo. É por isso que atletas aposentados ganham peso: a perda de massa muscular desacelera o metabolismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRUZADINHA PODE RETARDAR O DECLÍNIO COGNITIVO?

Prática regular de jogos ajuda algumas pessoas que sofrem com comprometimento leve, diz estudo

Durante anos, os cientistas tentaram descobrir se os treinos cerebrais”, como quebra-cabeças e jogos cognitivos online, poderiam fortalecer nossas mentes e retardar o processo de envelhecimento. Agora, um estudo publicado no New England Journal of Medicine descobriu que a prática regular de palavras cruzadas pode ajudar a retardar o declínio em algumas pessoas com comprometimento cognitivo leve, um estágio inicial de memória vacilante, que às vezes pode progredir para demência. Embora o estudo não tenha investigado se as palavras cruzadas também beneficiam jovens adultos que não estão lidando com o declínio cognitivo, sugere que manter a mente ativa à medida que envelhecemos pode beneficiar o cérebro. E a pesquisa fornece esperanças para aqueles diagnosticados com comprometimento cognitivo leve, de que possam evitar mais declínios na memória, problemas de linguagem e tomada de decisões, que são a marca registrada da doença.

A Academia Americana de Neurologia estima que o comprometimento cognitivo leve afeta cerca de 8% das pessoas com idades entre 65 e 69 anos; 10% das pessoas com idades entre 70 e 74 anos; 15% das pessoas de 75 a 79 anos; 25% daqueles com idades entre 80 e 84 anos e cerca de 37% das pessoas com 85 anos ou mais. A pesquisa, que foi financiada pelo National Institute on Aging, recrutou 107 adultos, com idades entre 55 e 95 anos, com comprometimento cognitivo leve.

O ESTUDO

Durante 12 semanas, todos foram convidados a jogar um dos dois tipos de jogos, quatro vezes por semana – passando 30 minutos em Lumosity, uma plataforma popular de treinamento cognitivo, ou 30 minutos jogando palavras cruzadas digitais. Após as 12 semanas, os participantes foram reavaliados e receberam doses de “reforço” de jogos mais seis vezes durante o experimento, dando um total de 78 semanas. No fim do estudo, os participantes receberam avaliações-padrão usadas para medir o declínio cognitivo e amigos e familiares relataram seu funcionamento diário.

Os exames de ressonância magnética também foram usados para medir as alterações do volume cerebral. Os pesquisadores descobriram que em medições chaves de pontuações de declínio cognitivo, habilidades funcionais e mudanças no volume cerebral, os jogadores regulares de palavras cruzadas se saíram melhor do que os jogadores do outro jogo. A descoberta surpreendeu os cientistas por trás do estudo, que esperavam que os jogos cerebrais desafiadores da web, que foram projetados especificamente para aumentar a função cognitiva, oferecessem maior benefício. “Nosso estudo mostra de forma bastante conclusiva que, em pessoas com deficiência cognitiva leve, as palavras cruzadas superam os jogos computadorizados em várias métricas”, disse Murali Doraiswamy, professor da Duke University e coautor do estudo. “Então, se você tem comprometimento cognitivo leve, que é diferente do envelhecimento normal, a recomendação seria manter seu cérebro ativo com palavras cruzadas.” Pessoas com graus mais altos de comprometimento cognitivo pareciam se beneficiar mais ao jogarem palavras cruzadas que foram projetadas para ser um quebra-cabeça moderadamente mais difíceis comparadas ao jogo do The New York Times. O estudo tem limitações. Alguns dos participantes podem estar mais familiarizados com palavras cruzadas e é por isso que responderam melhor aos quebra-cabeças do que aos jogos de computador de Lumosity. Anos de acompanhamento também são necessários para determinar se intervenções como palavras cruzadas podem “verdadeiramente prevenir a demência”, disse Doraiswamy. “Sabemos há quase 30, 40 anos que manter-se mentalmente ativo é realmente importante”, disse Doraiswamy. “Mas não traduzimos isso em uma intervenção de nível médico.”

D.P. Devanand, professor da Universidade de Columbia e principal pesquisador do estudo, disse que a descoberta precisa ser replicada em um estudo maior, com mais participantes e um grupo de controle que não esteja jogando nenhum jogo. “Não podemos dizer exatamente porque as pessoas se saem melhor jogando palavras cruzadas, mas sugerimos que praticar palavras cruzadas ajuda na cognição”, disse Devanand. Doraiswamy disse que espera que estudos futuros possam contribuir com as descobertas atuais para investigar o nível ideal de dificuldade e o tempo necessário na resolução de quebra-cabeças para pessoas com comprometimento cognitivo leve.

CÉTICOS

Alguns pesquisadores permaneceram céticos. Zach Hambrick, professor de cognição e neurociência da Michigan State University, disse que o estudo não investiga porque as palavras cruzadas podem oferecer mais benefícios do que um jogo de computador. Em 1999, Hambrick foi coautor de um estudo que não encontrou evidências que sugerissem que pessoas que praticam palavras cruzadas mais de duas vezes por semana tenham menos declínio cognitivo. Hambrick disse que completar um jogo de palavras cruzadas, que requer a capacidade de lembrar palavras e conhecimento histórico adquirido por meio da experiência, testa as “habilidades cognitivas cristalizadas de uma pessoa”. Ele disse que pessoas com comprometimento cognitivo leve têm mais problemas com “habilidades cognitivas fluidas”, como lembrar uma lista de palavras ou resolver um problema de lógica. Palavras cruzadas não desafiam esses tipos de habilidades associadas ao comprometimento cognitivo leve, disse Hambrick.

A Lumos Labs, empresa por trás dos jogos de computador usados no experimento, forneceu acesso tanto às palavras cruzadas quanto ao conjunto de jogos, mas não esteve envolvida no projeto ou na publicação do estudo. Doraiswamy é consultor da Lumos Labs. Laurie Ryan, chefe de intervenções clínicas do Instituto Nacional do Envelhecimento, disse que a agência financiou a pesquisa porque é importante encontrar tratamentos que reduzam o risco de Doença de Alzheimer e outros tipos de demência. “Provavelmente precisaremos de várias intervenções para diferentes pessoas”, disse Ryan. “Estamos tentando financiar o máximo de estudos possíveis.”

ZONA DE CONFORTO

A maioria dos pesquisadores concorda que manter o corpo e a mente ativos à medida que envelhecemos provavelmente beneficia o cérebro. Ronald C. Petersen, diretor da Clínica Mayo Alzheimer’s Disease Research Center, disse que, além do exercício regular, recomenda que seus pacientes passem mais tempo realizando tarefas intelectuais desafiadoras, como assistir a um documentário ou a uma palestra. É necessário procurar por atividades que “tirem da zona de conforto”, disse Sylvie Belleville, professora de neuropsicologia da Universidade de Montreal. Como experimentar diferentes tarefas “estimulantes” ou aumentar a dificuldade de uma determinada tarefa ao longo do tempo. “Se é muito bom em palavras cruzadas e continua fazendo apenas isso, ainda está na zona de conforto e não adota novas estratégias, novas redes cerebrais”, disse Belleville.

PREVENÇÃO

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, revelaram no mês passado que é possível detectar sinais precoces de demência até nove anos antes de o paciente receber um diagnóstico específico, como Alzheimer. No trabalho publicado, o grupo de cientistas analisou informações do Biobank, o banco de dados biomédicos britânico. A equipe descobriu sinais de dificuldades em várias áreas específicas, como a solução de problemas e a lembrança de números específicos. As descobertas levantaram a possibilidade de, no futuro, pacientes com maior risco de desenvolver algum tipo de demência fossem mapeados para intervenções precoces ou para testes clínicos de novos medicamentos. Atualmente, existem poucos tratamentos eficazes para demências ou outras doenças degenerativas, como o Parkinson. Em parte, isso ocorre porque as doenças só são diagnosticadas depois que os sintomas aparecem, embora a degeneração propriamente dita comece muito anos (e até décadas) antes.

RISCO NA VIDA SEDENTÁRIA

Outra pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, aponta que a forma como os adultos acima de 60 anos gastam seu tempo sedentário – aquilo que fazem quando estão sentados, por exemplo – faz diferença até nas chances que eles têm de desenvolver demência. Aqueles cujo tempo sedentário é gasto majoritariamente assistindo à televisão têm um risco 24% maior de desenvolver demência, enquanto os que optam pelo computador têm 15% de risco reduzido. Os pesquisadores explicaram que assistir à televisão é uma atividade considerada cognitiva passiva, durante a qual é necessário pensar pouco.

OUTROS OLHARES

CROCANTE, MAS AINDA SAUDÁVEL

Air fryer se firma como boa opção às frituras

Atire a primeira pedra quem resiste a uma batata, mandioca ou polenta frita. Ou bife à milanesa? Enfim, qualquer alimento feito banhado no óleo. Entretanto, o sabor e a crocância característicos desses alimentos têm um alto custo para a saúde. Além de serem altamente calóricos, o excesso de gordura aumenta o risco de doenças que vão desde problemas cardiovasculares até obesidade e diabetes.

“A fritura de imersão é uma das técnicas culinárias mais prejudicais à saúde”, afirma a nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

Coma promessa de preparar alimentos crocantes de forma mais saudável do que a fritura de imersão, as air fryers ganharam popularidade. Nos últimos cinco anos, o volume de vendas desse produto cresceu 194,4%, segundo dados da Euromonitor, empresa de pesquisa de mercado. Apenas em 2020, as vendas do equipamento aumentaram 22%, segundo informações da consultoria para o varejo GFK.

Quem já tentou, sabe que preparar batata frita no forno convencional não chega nem perto, tanto em sabor quanto aspecto, da preparação em óleo. Nesse cenário, a air fryer ganhou popularidade por utilizar pouco ou nada de óleo para preparar alimentos com aspecto, textura e sabor muito semelhantes aos da fritura.

Mas, afinal, usar a air fryer para preparar um alimento é de fato saudável? De acordo com a nutricionista Priscilla Primi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), sim.

“A air fryer prepara um alimento com uma qualidade nutricional melhor que a fritura de imersão e com aspecto e crocância parecido. Não fica igual, por isso a fritura ainda tem preferência em termos de palatabilidade, mas é muito parecido”, pontua a nutricionista.

Esse tipo de fritadeira elétrica sem óleo cozinha os alimentos por meio da rápida circulação de ar extremamente quente.

“Funciona como se fosse um ventilador de ar quente”, explica Primi.

Segundo ela, o preparo na air fryer pode ser até mais saudável do que assar o alimento no forno convencional porque no forno, a gordura do alimento – ou o óleo adicional utilizado – escorre e fica depositada na assadeira, banhando a parte inferior da comida. Já o cestinho dos aparelhos impede que isso aconteça.

“A gordura escorre e não fica em contato com o alimento, o que garante uma preparação final sem ou com pouquíssima gordura e, portanto, mais saudável”, avalia Primi.

Um estudo recente analisou as diferenças entre batatas fritas preparadas no óleo e em fritadeira elétrica. Concluiu-se que a versão feita na air fryer tinha um “teor de gordura substancialmente menor”, mas mantinham teor de umidade e coloração semelhantes. No entanto, o produto feito por convecção de ar pode ter características sensoriais diferentes, como uma textura um pouco mais dura e seca. Alimentos com menos gordura são mais saudáveis porque o excesso da substância, até mesmo da insaturada, que é considerada menos nociva, leva a uma ingestão calórica maior. Alguns alimentos têm seu valor calórico triplicado quando são fritos, em comparação com outros tipos de preparo. O excesso de calorias, por sua vez, está associado ao aumento do risco de sobrepeso e obesidade, que também pode levar ao desenvolvimento de outras doenças.

“Cada grama de gordura tem nove calorias. Sempre que se faz uma mistura de imersão, por mais “sequinha” que ela esteja, haverá muita gordura e as calorias provenientes dela”, ressalta Marcella Garcez.

ACRILAMIDA

Por outro lado, nada é 100% saudável. A crosta dourada ou marrom característica de alimentos fritos é resultado de reações químicas entre um aminoácido ou proteína e um carboidrato redutor, na presença de calor. Esse processo, que leva a alterações na cor e no sabor dos alimentos, é conhecido como reação de Maillard. A air fryer consegue reproduzir essa mesma reação com pouquíssimo óleo.

No entanto, essa crosta crocante pode ser prejudicial à saúde, mesmo na ausência de óleo. Ao cozinhar alimentos ricos em amido em altas temperaturas, há a formação de acrilamida. Essa substância, responsável pela coloração dourada/marrom e pelo sabor delicioso dos produtos, pode contribuir para o câncer. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica a acrilamida como um “provável carcinógeno humano”.

A boa notícia é que nas fritadeiras elétricas, a quantidade de acrilamida é menor que a da fritura tradicional, por exemplo. Um estudo revelou que o preparo na air fryer produziu cerca de 90% menos acrilamida do que a fritura em óleo.

Além da acrilamida, outros compostos nocivos podem ser formados durante o processo de fritura ao ar em alta temperatura, como aldeídos, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Mais pesquisas são necessárias para determinar como a fritura ao ar pode afetar a formação desses compostos.

Dito isto, Primi recomenda maneirar no consumo de comidas preparadas em altas temperaturas, independentemente do método de cozimento.

VALOR NUTRICIONAL

As especialistas também ressaltam para a necessidade de parcimônia nos alimentos preparados na air fryer. Por exemplo, alimentos congelados como batata frita e nuggets são pré-fritos e a ausência de óleo na cocção final não os torna exatamente saudáveis.

“O ideal é ter uma alimentação equilibrada, com vegetais crus e preparações cozidas na água ou no vapor, onde não há a formação desse composto, mescladas com preparações assadas”, orienta a nutricionista.

Garcez ressalta que cozinhar vegetais na água pode tirar um pouco de seu valor nutricional, devido à perda de vitaminas hidrossolúveis, como as do complexo

B. Para esses alimentos, o preparo na air fryer, desde que sem “torrá-los”, pode ser até mais saudável.

“Se obedecer ao tempo recomendado, em termos nutricionais, os vegetais feitos na air fryer são mais parecidos com o cozimento a vapor do que na água, com a vantagem de ficar pronto mais rápido”, afirma a nutróloga.

GESTÃO E CARREIRA

STARTUPS ADAPTAM ESCRITÓRIOS E ABRAÇAM ‘MODELO HÍBRIDO’

Movimento vai na contramão da previsão feita no auge da pandemia de fim do uso de espaços corporativos

Até a pandemia, os escritórios das empresas ficavam lotados de segunda a sexta-feira, com funcionários marcando presença em todos os dias úteis da semana. Essa era uma realidade inclusive nas startups, companhias de tecnologia conhecidas por testarem novos métodos de trabalho, como o home office. Passados dois anos de covid, esses espaços deixaram de se tornar tão essenciais quanto antes, mas tampouco estão longe de ser acessórios para a cultura corporativa.

“O espaço físico corporativo se torna ainda mais relevante no mundo pós-pandemia”, diz Carolina Foley, diretora de real estate e soluções corporativas do Nubank. Se até 2020 era banal ir ao escritório diariamente, o ato ganha hoje ares especiais. Ir trabalhar presencialmente se torna algo muito mais proposital quando é uma ou duas vezes por semana”, completa ela.

Com prédio próprio em Pinheiros, o “roxinho” voltou às atividades presenciais em junho de 2022 com algumas novidades, como uma reforma na cafeteria do prédio, aberta ao público. Além disso, para os colaboradores foram criadas mais salas individuais (especialmente, para videochamadas) e adicionadas mesas colaborativas. Atualmente, os funcionários e equipes podem decidir quais dias da semana o trabalho deve ser presencial.

Além disso, o Nubank inaugurou no início de novembro um espaço de 10 mil metros quadrados no bairro da Vila Leopoldina. O local permite reuniões com equipes de mais de 200 pessoas, além da realização de grandes eventos e encontros com pessoas de fora.

O movimento vai na contramão daqueles que pregavam o fim dos espaços físicos há dois anos, auge da pandemia e do isolamento, por conta dos altos custos de se manter um escritório. “Na ponta do lápis, alugar um escritório é um gasto alto. Mas sabemos que vamos crescer muito, então buscamos um espaço diferente e totalmente eficiente para outros usos além da nossa torre corporativa”, conta Carolina.

Recentemente, outras companhias do setor de tecnologia também inauguraram escritórios, como 180º Seguros e a Alice, de planos de saúde.

TECNOLOGIA

Os escritórios do pós-pandemia estão mais equipados do que nunca: a infraestrutura precisa ser flexível para acender não só os funcionários que trabalham presencialmente, mas também aqueles que estão em casa

Isso significa que a conexão de internet deve ser de boa qualidade para as videochamadas. Além disso, salas colaborativas devem vir com televisores e monitores para a transmissão de reuniões “híbridas”.

“Não podemos ter uma barreira de comunicação entre quem está dentro e fora da empresa”, diz Renata Feijó, diretora de recursos humanos da Loft; uma das maiores startups do Brasil e que adota o regime híbrido de trabalho desde novembro de 2021, quando reabriu as portas.

Outro aspecto comum a esses escritórios é o sistema de conferência de chantadas, que inclui câmeras e microfones conectados a TVs. A startup Gympass, de benefícios corporativos de bem-estar, adotou esses aparelhos em suas salas de reunião em Nova York e São Paulo.

Apesar da política de “trabalhe de qualquer lugar”, que permite que funcionários fiquem em outras cidades ou até países uma vez a cada trimestre, a Gympass incentiva encontros presenciais. “As troca construtivas em pessoa continuam sendo muito mais produtivas”, diz Renato Basso, vice­ presidente de pessoas da Gympass no Brasil “Reforçamos a flexibilidade das pessoas, ao mesmo tempo que provemos um ambiente em que todos possam construir laços mais próximos.”

EU ACHO …

FARÓIS

Quando a gente nasce, pai e mãe são nossos ídolos, lideram as paradas de sucesso dentro de casa. Avós e irmãos completam a banda. Só escutamos a família e por ela somos influenciados. Mais tarde, brincando na rua, indo ao colégio, a gente descobre a existência de outras pessoas – os primeiros amigos.

Tive sorte: antes do meu aniversário de 10 anos, já conhecia Caetano, Mutantes, Gil, Chico, Milton, Bethânia – e Gal, claro. Assim que seus discos eram lançados, aterrissavam na eletrola da sala. Que bom que meus pais não monopolizaram o sucesso que faziam com os filhos. Intuíram que aqueles desconhecidos também teriam muito a nos dizer.

Ainda nem tinha entrado na adolescência e eu já era estimulada a abrir a cabeça para diferentes jeitos de existir, para a pulsão da poesia, para as provocações naturais do pensamento – with a little help from The Beatles, que também frequentavam o nosso pequeno apartamento no período. Cabiam diversas vozes, rimas, guitarras, violões. Cabia o mundo.

Entraram todos para a família. Ajudaram a me formatar e fizeram parte do que veio depois: a faculdade, os namorados, os livros – até chegar aqui.

Foi um choque perder Lennon e Harrison, lembro bem. Assim como Cazuza e Cássia Eller, que agreguei na fase adulta. Mas a morte de Gal teve um significado mais profundo. Já não sou jovem, agora também aproximo da finitude, sem poder quantificar o tamanho do futuro em frente. Antes não pensava nisso, hoje penso. E me atordoo. A turma da MPB entrou na minha vida muito cedo e cresceu comigo, éramos quase da mesma geração, eles ligeiramente avançados. Nesta atual e derradeira etapa da nossa existência, estou ainda perto da porta de entrada, enquanto eles mais perto da porta de saída – hipoteticamente, claro, mas é como o coração sente.

Queria poder agarrar a mão de cada um, deixar ninguém sair. Como a um pai, uma mãe, os faróis da nossa existência, nossas iluminações. Mas nem Deus consegue esse milagre.

Não chamo ele dor a perda de uma cantora que não cheguei a conhecer fora do palco, e que teve uma trajetória tão rica que sua partida não soa trágica – tragédia é partir sem ter vivido. Não é dor, porque quem fez parte de mim, não se vai localmente, até que eu vá também. Seguimos vivos uns nos outros. Não é dor, então é o quê? Ainda procuro dar um nome a este sentimento novo que me atravessa. Parece outro tipo de parto: sem pai, nem mãe, nem faróis. É um renascimento tardio e solitário. Chegou o momento de aprender a viver em estado de orfandade.

Contar com si própria e com o repertório acumulado durante a vida de antes, que começa a desaparecer lentamente. Pode ser bonito também, eu sei. Não é dor. Acho que é espanto.

MARTHA MEDEIROS

  marthamedeiro@terra.com.br 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDO IDENTIFICA POSSÍVEL ELO ENTRE O CORONAVÍRUS E A DEPRESSÃO

Vírus atinge neurônios e pode desencadear efeito sobre o sistema nervoso central. País vive nova alta de casos da doença

Um estudo brasileiro identificou o mecanismo que pode estar por trás de quadros de depressão, ansiedade e perda de memória após infecção pelo coronavírus. A pesquisa fornece evidências de que o Sars- CoV-2 atinge não só os neurônios, como, principalmente, os astrócitos – que funcionam como uma espécie de bomba de combustível para o cérebro. O fenômeno produziria um efeito em cadeia no sistema nervoso central.

A covid longa afeta não só pacientes com quadros graves, mas também aqueles que tiveram poucos sintomas. Nas últimas semanas, o País entrou em uma nova onda de covid, associada a subvariantes da Ômicron. Com a alta de casos, médicos destacam a importância de atualizar a vacinação anticovid e orientam o uso de máscara em ambientes fechados e de aglomeração, sobretudo por pessoas mais vulneráveis.

ANÁLISE

“O grande problema que a gente vai vivenciar agora é a covid longa, tanto é que tem tanta gente querendo entender essa doença”, afirmou Thiago Mattar Cunha, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do estudo.

Ele conta que, em uma das frentes, os pesquisadores fizeram biópsias de 26 vítimas fatais da covid e coletaram, além de amostras de pulmão, material cerebral.

Foram detectadas alterações neuronais em cinco dos pacientes analisados, e o Sars- CoV-2 foi identificado no cérebro de todos eles. “Foi aí que nós identificamos os astrócitos como as principais células que abrigavam os vírus no sistema nervoso central”, relembra ele, que explica que os astrócitos não só dão suporte para a célula neuronal, como têm outras funções de apoio.

Qualquer distúrbio que aconteça nos astrócitos afeta, de alguma forma, os neurônios e, consequentemente, o sistema nervoso central.”

Após as observações iniciais, os pesquisadores infectaram astrócitos in vitro com o Sars-CoV-2 e observaram que eles podem produzir até substâncias neurotóxicas, que são capazes de matar os neurônios.

O grupo começou a observar, então, que podia haver uma correlação entre o pós- covid e quadros de perda de memória, depressão e ansiedade, por exemplo. “Pacientes com covid longa tinham uma redução de massa, ou de tamanho, de determinadas estruturas cerebrais, como córtex pré-frontal e hipocampo”, disse Cunha.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (P- NAS), foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de representantes da USP. As análises, que começaram no primeiro ano de pandemia, compreendem pacientes afetados de diferentes formas pela doença.

REINFECÇÃO AUMENTA RISCOS DE AGRAVAMENTO E SEQUELAS, DIZ ESTUDO

A reinfecção por covid-19 parece trazer riscos adicionais de complicações em diversos órgãos, além de incrementar a chance de morte e de hospitalização, sugeriu um estudo da Universidade de Washington, publicado na revista científica britânica Nature.

Segundo os pesquisadores, os riscos foram mais pronunciados na fase aguda da doença, mas persistiram na fase pós-aguda, aos seis meses subsequentes. Além disso, os ônus foram cumulativos, com os resultados podendo ser piores a cada nova contaminação.

OUTROS OLHARES

BARRACA DE LUXO

já conhece o glamping? Fusão de glamour com camping, conceito está em alta no turismo e conquista fãs pelo Brasil, com hospedagens cinco estrelas em clima de aventura

Quando abriram o zíper da cabana em que ficariam hospedados, os amigos Maria do Rosário, Daniel Gorin, Guga Dale e Karen Couto soltaram um sonoro “uau”. Ficaram encantados com o conforto e a decoração do glamping Cabanas do Vale, em Itaipava. São apenas duas cabanas, localizadas dentro de um vinhedo butique e com Mata Atlântica ao redor. No deque, há espaço para fogueira e banheira a céu aberto. O termo, que mistura as palavras glamorous (encantador) e camping (acampamento), ocupa o topo nos rankings de tendência de viagem — não à toa, “glamping perto de mim” foi a expressão mais buscada do Google este ano. “Olhando de fora tem cara de cabana, mas, quando você entra, o pé direito é alto, os móveis são lindos. Um lugar de luxo mesmo”, comenta Gorin.

E é exatamente esse o trunfo das hospedagens (que, em média, tem diárias entre R$ 900 e R$ 1.500): ter o charme do clima de acampamento, mas com pegada de hotel sofisticado. “Foi uma experiência única de alto luxo. Você se sente acampando, não tem serviços, mas em uma cama ótima, com um chuveiro maravilhoso. Cozinhamos, curtimos a fogueira à noite. Ainda não tinha experimentado algo assim”, destaca Maria.

No Brasil, este ano, a tendência vem se espalhando. Outro glamping que está bem “instagramizado” é o Hidden Treasure – Glamping Chapada dos Veadeiros. Formado por quatro domos geodésicos em pleno cerrado, a ideia é interferir o menos possível na natureza. A sustentabilidade, assim como estar integrado à natureza, é regra. Essas estruturas redondas e transparentes são muito usadas por serem mais sustentáveis. “Optamos pelo estilo por proteger a vegetação. Estamos dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e queremos, acima de tudo, preservar o cerrado. Fizemos tudo em palafitas para resguardar o solo. Os hóspedes chegam em busca de contato com a natureza e privacidade. Para se ter ideia, nosso endereço só é enviado depois da reserva, assim evitamos curiosos”, conta Ducan Egger, proprietário dali.

Os domos também aparecem no Esphera, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, que tem uma estrutura de campos de esporte, lago, espaço kids, parrilla externa e ofurô. “Já me hospedei no Esphera quatro vezes. O que mais me encanta é o contato com a natureza, isso para mim é luxo. Também adoro o charme dos ambientes, superconfortáveis. E sem deixar de ser, em essência, uma barraca de camping”, diz a stylist Roberta Ahrons.

A apresentadora Mel Fronckowiak também é adepta. “Devo admitir que virou uma das minhas formas preferidas de hospedagem no Brasil e no mundo. É uma maneira mais consciente de viajar, já que são estruturas que causam menos impacto”, observa Mel, que cobriu a rota dos glampings em seu programa no YouTube, “Mel na estrada”.

Perto dos cânions gaúchos, em Cambará do Sul, fica o Parador, o primeiro glamping brasileiro. Ele faz parte do grupo Casa Hotéis, focado em hospedagens de charme do Rio Grande do Sul. São 28 acomodações, entre barracas luxo, barracas suítes, bangalôs e casulos, construídos com estrutura de madeira de reflorestamento em forma de círculo. No décor, elementos naturais, como galhos de árvores, peças em madeira e palha e luminárias de lã de ovelha assinadas pela artista Inês Schertel. Ainda tem banheira com vista para o campo e spa by L’Occitane. “Colocamos toda a nossa criatividade neste projeto e ficamos felizes com a possibilidade de oferecer uma experiência diferente aos nossos visitantes”, comenta Rafael Peccin, diretor de marketing do Casa Hotéis. “Trabalhamos como conceito de unique stays, ou seja, tipos de hospedagem que só se encontra em lugares exclusivos, combinando sofisticação e imersão junto à natureza”, completa.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAL DE TI: ESCASSEZ DE TALENTOS X DEMANDA CRESCENTE

Apesar de ser um dos mercados que mais crescem, ele sofre com a falta de profissionais capacitados e, consequentemente, pela corrida das empresas atrás desses talentos.

Dados do relatório da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), divulgado em 2021, apontam que o Brasil forma 53 mil pessoas por ano dentro da área e que a demanda anual, entretanto, é de 159 mil profissionais. Em cinco anos, estima-se que o país vá precisar de 500 mil desses profissionais.

“O mercado de TI está mais aquecido do que nunca. A pandemia trouxe uma necessidade muito grande das empresas investirem em tecnologia por conta do trabalho remoto e das novas demandas de consumo e formas de se relacionar com o mundo. E esse é um caminho sem volta”, ressalta José Barbosa Sobrinho Neto, gerente de TIC na MV, multinacional especializada na Transformação Digital no setor de Saúde.

Para ele, hoje não há nenhuma barreira para quem quer entrar na área. “Há tantas oportunidades e caminhos, que é preciso apenas gostar de estudar e se atualizar sempre. Há diversos cursos tecnólogos, outros de curta duração e faculdades cada vez mais preparadas para formar jovens capacitados para o mercado de trabalho. Mas encontrar bons profissionais ainda é um grande desafio”. Por isso algumas empresas estão investindo em programas para qualificar os profissionais. A MV é uma das companhias que sentiu a escassez de profissionais e uniu a necessidade com ações de responsabilidade social. Um exemplo é o lançamento do Programa CUBO focado na capacitação de desenvolvedores, que neste ano, ganhou uma nova versão exclusiva para a capacitação do público feminino, que ainda é significativamente menor do que o masculino no mercado de TI. Além da formação, as novas profissionais têm a oportunidade de estar dentro da MV exercendo o que aprenderam.

Além do CUBO, a MV promove outras iniciativas para promover e incentivar a entrada nesse mercado como a parceria com a ONG Generation Brasil para recrutamento de novos talentos em tecnologia para atuar em oportunidades profissionais oferecidas pela MV. A Generation é um programa global, que promove a formação qualificada de jovens, de 18 a 30 anos, em situação de vulnerabilidade social, que estão desempregados ou que desejam migrar para a carreira profissional de tecnologia.

E ainda o Programa Jovem Técnico, direcionado para jovens de 18 a 25 anos, que concluíram o ensino médio ou estão cursando ensino superior na área de tecnologia e que desejam construir uma carreira na área. “É uma oportunidade incrível não só para achar novos talentos, mas para ajudar a transformar a realidade do setor no Brasil.

Sabemos que os homens ainda são a grande maioria, mas também é visível o crescimento do interesse feminino na área”, destaca Andrey Abreu, diretor Corporativo de Tecnologia da MV. Dados divulgados pelo Caged, apontam que a participação feminina no mercado de tecnologia cresceu 60% nos últimos cincos anos, o que reforça as oportunidades que elas podem encontrar no setor.

EU ACHO …

QUEM PINTA A NEGRA?

‘A arte tem feito o trabalho que as instituições brasileiras resistem a realizar’

“De que forma a mulher negra foi pintada ao longo da história brasileira? Essa pergunta tem instigado relevantes reflexões sobre a arte produzida em nosso País e sobre como as narrativas canônicas estão comprometidas com olhares racistas e misóginos.

Quando falamos de episódios de heroísmo ou feitos históricos, a mulher negra é pouco lembrada, como se sua história fosse breve, nascida anteontem. No entanto, esse apagamento misógino e racista em relação às mulheres negras encontra na arte um poderoso antagonista. Nesse campo, as mulheres negras têm sido narradas em abundância, mas são fartas também as violências encontradas neste encontro entre arte e o corpo da mulher negra. Em uma análise sobre os limites das representações das mulheres negras na cultura, a socióloga Lélia González percebeu a repetição neurótica das categorias da mulata, da mucama e da mãe preta. O item mais popular desse trio possivelmente seja a criação imagética da mulata, que emerge nas festas populares – e sobretudo no carnaval – como sinônimo da forma perfeita e símbolo de uma obsessão nacional pelo corpo.

Na história da arte brasileira, a mulher negra é musa recorrente. Ela aparece nos principais museus do País, seja coberta de roupas insinuantes, seja com o seio descoberto, como é flagrante na obra de Di Cavalcanti, reconhecido por retratar as mulatas, termo hoje amplamente rejeitado por suas implicações políticas, ainda que, ironicamente, imprescindível para a consolidação do agora centenário Modernismo brasileiro.

Na sua representação icônica do feminino negro, também Tarsila do Amaral optou pela exposição do seio negro, traço comum, aliás, às telas de Di Cavalcanti. Na melhor das hipóteses, o retrato de Tarsila propõe um diálogo com a Vênus de Willendorf e com a linguagem do classicismo; na pior, trata-se do velho olho do exotismo, operando a objetificação do corpo da mulher negra. A mama que se esvai nesse tipo de representação nos conduz à representação da mãe preta.

Figura servil, atada ao passado escravagista luso-brasileiro, essa construção é, talvez, a mais normalizada na vida social brasileira, sedimentada em camadas de trabalho árduo e mal remunerado. Eis a transformação de uma relação de exploração em elo maternal. E, assim como a mãe preta, a mucama é personificada no nosso imaginário por meio de imagens tão antigas quanto as pintadas por Debret, mas que são revividas por meio das telenovelas.

Se tais imagens foram sedimentadas por séculos de uma máquina produtiva que nos olhava de longe e falava conosco de cima, é o pensamento de teóricas como González que nos desperta para as armadilhas dessa confluência de significados. É nesse sentido também que Djamila Ribeiro posiciona o pensamento de Grada Kilomba. Esta investiga o peso fatigante da carga colonial em nossas costas.

Na produção intelectual de outras línguas, também é notável o esforço da norte- americana Saidiya Hartman, que tem desvelado imagens de rebeldia e elaborado narrativas genuínas sobre identidades conquistadas após o trauma da escravidão.

Ao lado dessas teóricas que se dedicam a construir novas formas de olhar a opressão sobre as mulheres negras também marcham nossas artistas, que ousam desafiar o ciclo de falseamento e achatamento de nossas identidades. A paulistana Rosana Paulino, por exemplo, se debruça sobre a busca do fio condutor da trajetória dos sujeitos apagados para edificar uma Parede da Memória. A família que se alastra em centenas de retratos apresentados em patuás é originada de indivíduos que produzem novos significados do ser na coletividade. Como em um mural de investigação policial, a artista, na obra, convida o público a pensar sobre os desdobramentos das relações que as imagens associadas sugerem.

Refazendo nosso caminho em direção ao passado, encontramos a pelotense Maria Lídia  Magliani. Sua Vênus aparece em relevo em pinturas como Ela, em que o corpo volumoso é revisitado, mas dessa vez com cicatrizes aparentes. Essa ousadia estética lembra a história de Maria Firmina dos Reis, uma escritora de São Luís, que – em pleno século 19 – publica um romance abolicionista que constitui um dos relatos mais devastadores da nossa literatura. Úrsula é a imagem do passado matriarca negro, com suas vulnerabilidades e sua força fundadora. Esse livro é, a um só tempo, memória e ruptura.

Artistas como Paulino, Magliani e Reis criam narrativas que adensam o panorama de imagens das mulheres negras, colocando-as no centro da construção do País. A arte tem feito o trabalho que as instituições brasileiras resistem a realizar. Por isso, ainda que as imagens produzidas a partir do olhar de mulheres negras não sejam tão pacíficas ou tão sedutoras para os homens e mulheres brancas quanto as que compõem o repertório do senso comum, serão elas que irão repovoar o imaginário brasileiro nas próximas décadas.”

*** FERNANDA BASTOS – É jornalista, editora e CEO da Figura de Linguagem.

ESTAR BEM

SEUS PÉS MERECEM UMA MASSAGEM

A automassagem pode ser feita diariamente na hora de ir para cama. De 5 a 10 minutos são suficientes para sentir os seus benefícios

Muitas vezes a gente só lembra deles quando se machuca e não pode contar com esta dupla 100% boa. Os pés. Partes fundamentais para o equilíbrio, e não só no sentido físico. Uma forma de manter mente e corpo em harmonia é simplesmente incorporar à rotina uma massagem nos pés antes de dormir.

Embora exista a reflexologia podal, prática terapêutica que prevê a pressão em certos pontos dos pés com a finalidade de melhorar a saúde dos órgãos, ninguém precisa se preocupar com teoria ou ser um expert para fazer uma automassagem. Segundo o terapeuta Pedro Saliba, o importante é prestar atenção nas respostas do próprio corpo e começar devagar.

“Massagem é uma coisa que todo mundo pode tentar fazer. O primeiro conselho que eu dou é usar um toque leve. Imagine que tem de ser uma sensação prazerosa”, afirma.  Tampouco há necessidade de temer por algum malefício resultante da pressão feita nos pés. “Não tem nenhum ponto que a pessoa vai apertar e que vai dar tilt”, brinca o especialista, que desenvolveu um método chamado de Full Relax and Heal.

Nele, o terapeuta junta diferentes técnicas, aromaterapia, reflexologia e liberação miofascial. “Eu faço mais movimentos, uso o toque firme, mas sem dor. Quando a gente está fazendo essa manipulação, o corpo começa a produzir hormônios que trazem prazer, cura e recuperação muscular.” Veja as dica s do terapeuta e os benefícios da automassagem nos pés:

DESCANSO NA ÁGUA MORNA

O terapeuta recomenda que se prepare a região para receber a automassagem “Eu gosto que a pessoa comece fazendo um escalda-pés. Ela vai pegar uma bacia, colocar água bem quente do chuveiro, numa temperatura que o corpo aguente. Aí vai botar sal e, se tiver óleos essenciais, pode pingar umas gotinhas na água”, explica o profissional. Gerânio ativa a feminilidade, hortelã-pimenta auxilia quem tem problemas para manter o foco, recomenda Saliba. Os pés devem ficar de molho na água quentinha, durante cerca de dez minutos. “É o tempo em que a água vai esfriar’”, diz.

DEDICAÇÃO AOS PÉS

Depois de enxugar os pés, com um pouco de creme hidratante nas mãos, comece tateando toda a área com as pontas dos dedos, para sentir se tem algum ponto mais sensível e evitar pressioná-lo demais. “A pessoa pode fazer movimentos circulares na sola do pé e na curva, acompanhando a anatomia. Pode fazer nas duas direções livremente”, ensina o terapeuta. “Depois, massageia o peito do pé e também entre os dedos!”. No total, entre 3 e 5 minutos são suficientes para sentir os efeitos.

FREQUÊNCIA POR SEMANA

O hidratante pode ficar ao lado da cama e a automassagem ser feita todo dia, antes de dormir. Afinal, sem contar o escalda-pés, a prática leva só alguns minutos. “Ajuda muito a relaxar, em casos de ansiedade e quando a pessoa chega do trabalho e não consegue desligar. Vai melhorar a saúde do sono, para ele ser reparador”, diz Saliba A automassagem completa nos pés pode ser realizada quando você tiver condições de tirar um tempo maior para si, de repente no fim de semana. “Se a pessoa conseguir fazer isso uma vez por semana, já vai ter vários benefícios.”

AUTODESCOBERTA

Saliba explica que se massagear serve também como exercício de autoconhecimento. “Entre as mulheres principalmente existe muito tabu no toque do corpo. A prática ajuda nisso”, afirma.

FOCO NA PANTURRILHA

”Após a estimulação do pé, é bacana fazer o mesmo na panturrilha. Ali tem o acúmulo de toxinas do sistema linfático, principalmente para quem trabalha em pé.” Nessa região, é importante que o movimento contínuo seja feito sempre de baixo para cima, por causa da circulação. Segundo o especialista, basta massagear de 2 a 3 minutos.

ATENÇÃO A CONTRAINDICAÇÕES

“A massagem é contraindicada para pacientes com diagnóstico de câncer porque ela acaba espalhando essas células. Outra contraindicação é em casos de trombose porque o trombo pode mover-se e se alojar em outra parte”, explica Saliba. Já para quem sofre com pressão alta, ele recomenda a prática. “Diminui a pressão nas artérias e relaxa o corpo.”

HIDRATAÇÃO DA PELE

Para a automassagem nos pés, serve qualquer creme hidratante, de preferência com uma fragrância suave ou a que você já esteja acostumado. Quem quiser pode comprar um neutro, sem perfume, e pingar umas gotas de óleos essenciais. “Uma boa combinação pode ser melaleuca, ação anti-inflamatória, com lavanda, que é calmante”, indica o terapeuta.

INTENSIDADE DO TOQUE

“É importante respeitar os sinais do corpo. Se há uma parte dolorida no pé, não quer dizer que é para você ficar apertando ali até melhorar”, afirma o especialista Não vá além do limite, nem na frequência nem na intensidade. “Só vai ser dolorido se você realmente usar muita força.” Uma pressão exagerada pode acabar machucando também as mãos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AUTOESTIMA AJUDA A DRIBLAR CRUELDADE DO RACISMO NA INFÂNCIA

Crianças falam de partes legais e difíceis de serem negras e empresária lembra por que criou sua marca de bonecas

“Ser negra é algo que vai muito além da cor da pele.” Essa frase é da Gabrielly. Ela tem 13 anos e já entende muito sobre como funciona o mundo em que vive – para o bem, e para o mal.

“Ser negra significa ter que aguentar comentários ofensivos e idiotas, aguentar a desigualdade social, o racismo. É uma coisa que nós negros temos que carregar para o resto da vida”, enumera Gabrielly.

“Mas, independentemente disso, temos que ter orgulho da nossa cor.”

Quando era criança, a empresária Joyce Venâncio tinha uma consciência tão profunda de si mesma quanto a que Gabrielly tem hoje. Ela lembra que, mesmo tendo crescido em uma família que conversava muito sobre preconceitos e crueldades, ainda assim viveu momentos ruins.

“Era difícil enfrentar vários tipos de xingamentos, piadas. O racismo dói demais.” Uma vez, Joyce questionou em casa porque não havia bonecas da mesma cor que a sua. A avó não teve dúvidas: comprou uma cabeça de boneca (branca), revestiu com uma meia-calça tingida, e fez para a neta uma boneca parecida com ela.

Muitos anos depois, Joyce abriu em São Paulo uma loja de bonecas como a que ganhou na infância. Na Preta Pretinha, há brinquedos de todas as cores, mas as bonecas negras são maioria.

Para Joyce, ser negra é maravilhoso. “Eu me amo, gosto de me olhar no espelho. Ser negra é força, coragem, sabedoria. É ter fé, é conquistar.” A Larissa, de 11 anos, acha que uma das coisas mais legais de ser negra é dar entrevistas. “Já fiz uma antes, e agora essa”, disse. “Ser negra para mim é ser uma pessoa muito forte, cheia de conquistas e amor para dar.”

Uma das coisas mais legais que já aconteceram à Barbara, de 11 anos, foi receber elogios sobre seu cabelo. “E a pior coisa foi me sentir excluída em algumas situações de pessoas brancas”, lembra.

“Em uma foto, se você é negra você se destaca mais que as outras pessoas porque você tem uma cor diferente, e às vezes é legal, às vezes não é. Aconteceu uma vez comigo e não gostei”, conta Maria Paula, 11 anos.

Maria Eduarda tem 13 anos e gosta muito de ser negra, mas sabe que há quem não compartilhe desse ponto de vista. “Como os racistas, que acham que nosso cabelo é feio”, explica.

“Tem argumentos horríveis que já falaram pra mim como ‘cabelo ruim’, ‘cabelo de bombril’, ‘cabelo duro’. Ser negra é ser seguida em todo lugar que você entra, se sentir inferior. Um segurança te seguir com medo de você roubar algo.”

Mas, mesmo com o mundo lá fora tão bruto, Maria Eduarda mantém a autoestima. “Minha pele é uma das coisas mais bonitas que existem. Tenho traços lindos que lembram minha cultura, e essa é uma marca que vou carregar até o final da vida”, fala.

Joyce, dona da Preta Pretinha, gosta de lembrar quando se candidatou a miss primavera na escola. Eram 29 meninas concorrendo, e só 3 delas eram negras – Joyce, sua irmã e uma terceira aluna.

“Eu estava muito segura. Ganhei e minha irmã ficou em terceiro lugar. Muitas famílias racistas não aceitaram e mesmo assim foi incrível”, lembra. “É importante você, criança negra, olhar esse cabelo maravilhoso e saber que podemos fazer vários tipos de penteado”, ensina. “É fundamental se gostar, se olhar no espelho, e se enxergar como uma pessoa linda, cheia de potencial.”

OUTROS OLHARES

TIKTOK VIRA A NOVA ‘CASA’ DE VÍDEOS E FOTOS MANIPULADOS, OS ‘DEEP FAKES’

Montagens são usadas como forma de diversão na rede social chinesa, mas o recurso também ajuda a propagar discursos falsos e teorias da conspiração

Os jacarés do TikTok não são o que parecem. Eles aparecem em postagens espalhadas pelo serviço de vídeo e são inofensivos, como grande parte da mídia na rede disso. Apesar disso, sua existência preocupa as pessoas que estudam a desinformação, porque as mesmas técnicas são aplicadas a estas postagens que semeiam a divisão política, propagam teorias da conspiração e ameaçam princípios da democracia. “Esse tipo de manipulação está se tornando cada vez mais difundido”, disse Henry Ajder, especialista em mídia manipulada e sintética.

O material editado ou sintetizado também aparece em outras plataformas online, como o Facebook. Mas especialistas disseram que é especialmente difícil fiscalizar o TikTok, que incentiva seus 1,6 bilhão de usuários a colocar sua própria marca no conteúdo de outra pessoa. Por lá realidade, sátira e mentira às vezes se misturam.

A disseminação de mídia manipulada é difícil de se quantificar, mas pesquisadores dizem que estão vendo mais exemplos surgirem à medida que as tecnologias que tornam isso possível ficam mais acessíveis. A preocupação é de que, com o tempo, as manipulações podem ficar mais difíceis de se identificar.

Nas últimas semanas, usuários do TikTok compartilharam uma captura de tela falsa da CNN, alegando que as mudanças climáticas são sazonais. Outro vídeo, de 2021, ressurgiu com o áudio alterado para que a vice-presidente Kamala Harris parecesse dizer que praticamente todas as pessoas hospitalizadas com covid-19 foram vacinadas (ela disse o contrário).

Os usuários do TikTok adotaram até as postagens alteradas mais absurdas, como as que retratavam o presidente Joe Biden cantando “Baby Shark” em vez do hino nacional ou que sugeriam que uma criança na Casa Branca disse um palavrão à primeira-dama, Jill Biden.

Os deep fakes, que geralmente são criados ao enxertar um rosto digital no corpo de outra pessoa, estão sendo usados como desculpa por aqueles que esperam desacreditar a realidade e se esquivar da responsabilidade. O consultor político Roger Stone afirmou no Telegram que as imagens verdadeiras que o mostravam pedindo violência antes das eleições de 2020, que a CNN transmitiu, eram “vídeos deep fake fraudulentos”.

Os advogados de pelo menos uma pessoa acusada no motim de 6 de janeiro no Capitólio dos EUA tentaram lançar dúvidas sobre as evidências em vídeo do dia citando a tecnologia de criação de deep fakes. “Quando entramos nesse tipo de mundo, podemos simplesmente descartar fatos inconvenientes”, disse Hany Farid, professor da Universidade de Berkeley, que faz parte do conselho de conteúdo do TikTok.

As empresas de tecnologia passaram anos testando novas ferramentas para detectar manipulações como deep fakes. Durante a temporada eleitoral de 2020, o TikTok, o Facebook, o Twitter e o YouTube prometeram remover ou rotular conteúdo manipulado nocivo.

Uma lei da Califórnia de 2019 tornou ilegal criar ou compartilhar vídeos enganosos de políticos a 60 dias de uma eleição.

O TikTok disse, em nota, que removeu vídeos que violavam suas políticas. Disse ainda proibir falsificações digitais “que enganam usuários ao distorcer a verdade dos eventos e causar danos significativos ao assunto do vídeo”. “O TikTok é um lugar para conteúdo autêntico e divertido; por isso proibimos e removemos desinformação, incluindo mídia sintética ou manipulada, projetada para enganar a comunidade”, disse Ben Rathe, porta-voz do TikTok.

GESTÃO E CARREIRA

IMPULSIVIDADE NÃO COMBINA COM TOMADA DE DECISÃO

Decidir é algo rotineiro no dia a dia de quem está à frente de uma empresa ou organização. É, também, uma das grandes responsabilidades e desafios dessas lideranças – seja para fechar um negócio, fazer uma parceria, contratar, demitir, ou resolver um grande problema. Ter a palavra final é o bônus e o ônus de quem conquista o poder de liderar. E, nesses momentos, é normal que haja estresse e dúvida, seja pela expectativa da consequência, ou pela preocupação com como as pessoas irão interpretar o que foi decidido e reagir a como foi anunciado.

Ser assertivo, justo e não perder o equilíbrio é um dilema, mas que é possível de ser superado com maturidade. São inúmeros os fatores a serem avaliados nessa hora, principalmente pelo fato de que a decisão do líder impacta na vida de todo um grupo. E é possível que nem toda a equipe consiga enxergar a situação da mesma forma de quem está decidindo por ela. De maneira geral, é importante levar alguns fatores em consideração. Como ser o mais cauteloso e preciso possível.

Além de saber controlar a impulsividade e deixar que a maturidade assuma o protagonismo. Manter o controle e decidir com cautela, por mais que não seja algo simples, é fundamental, principalmente em momentos delicados. Se necessário for, respire fundo mais do que uma vez, se afaste por um instante, ou até postergue sua decisão para o outro dia. Isso não é sinal de fraqueza, mas, sim, garantia de acerto. Todo e qualquer fator que não seja racional vai certamente afastar você da possibilidade de acertar na sua tomada de decisão.

Lembre-se de que decisões emocionais, na maioria das vezes, geram riscos maiores que decisões racionais. E que quanto menos impulsividade, maior a probabilidade de acerto. Por isso, tente ser o mais racional e prudente possível e esteja seguro na hora de decidir. Se estiver tranquilo nesse momento, sabendo que considerou todas as variáveis, vai conseguir ser assertivo e transmitir a mensagem da melhor forma, sem potencializar o problema.

ROBERTO VILELA – É consultor empresarial e mentor de negócios

www.orobertovilela.com.br

EU ACHO …

AINDA DÁ TEMPO? NEM OITO E NEM OITENTA…

“Há uma medida nas coisas; existem enfim limites precisos, além dos quais e antes dos quais o bem não pode subsistir.” (Horácio, Sátiras)

A relação entre aquilo que fazemos e o tempo de que dispomos é um fator chave para a sensação de realização. Há pessoas que encaram essa relação como uma troca do tempo dedicado a uma determinada atividade por uma remuneração. Essa é uma conduta legítima. Faz-se algo que é necessário ser feito  e recebe-se por ele. O questionamento é se esse é um modo compensador de se investir o tempo disponível, que é sempre o tempo de vida. A pessoa recebe por aquilo que faz, mas não se sente recompensada por ter feito, porque aquele fazer não a realiza.

Quando  a  pessoa  se  sente  gratificada  pelo  que  faz,  essa  lógica  se  inverte. Ela  se  sente  tão  realizada  que  o  tempo  não  é  gasto,  mas  investido  naquela atividade.   Alguns   exemplos   são   bem   ilustrativos.   O   empresário   Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014) tinha o hábito de trabalhar doze horas por dia e só aos 73 anos deixou a presidência do conselho de administração do grupo que comandava. Conciliava a atividade empresarial com a gestão de entidades sem fins lucrativos e ainda encontrou tempo para escrever peças de teatro.

Outro  exemplo  é  José  Mindlin  (1914-2010),  que,  ao  retirar-se  da  carreira empresarial aos 82 anos, dedicou-se ainda mais ao mundo das artes. Presidiu a   Sociedade   de   Cultura   Artística   e   deu   continuidade   à   sua   atividade   de bibliófilo, exercida desde os 13 anos de idade. Aos 95 anos, tinha cerca de 40 mil  livros,  acervo  que  doou  para  o  que  viria  a  ser  a  Biblioteca  Brasiliana,  na Universidade de São Paulo (USP).

São exemplos de pessoas que dedicaram muitos anos àquilo que faziam e ainda cultivavam outras paixões e afazeres. Por isso são exemplos. O mais comum é deixar paixões e sonhos engavetados em razão das demandas do cotidiano.

“Ah, mas eu me sentiria realizado mesmo, se estudasse piano clássico.” Consegue fazer isso, conciliando com o tempo para cuidar do emprego, dos filhos? “Não.”

Diante desse quadro, pode-se pensar em uma alternativa. Em vez de estudar piano clássico, que tal contar com um pequeno teclado para se exercitar, tocar umas peças, de modo a realizar, ainda que de forma aproximada, aquilo que deseja? Se a resposta for “assim eu não me contento, comigo é oito ou oitenta”, vale levantar algumas reflexões.

Primeira, aonde leva essa postura intransigente de “ou realizo por completo ou nem quero saber”? Segunda questão: essa é mesmo uma demanda da sua alma ou apenas uma quimera? Pode ser aquela forma de autoengano em que se sonha com algo, mas pouco se faz para concretizá-lo, porque esse percurso é árduo. Exige esforço, dedicação, renúncias. E, no íntimo, não se está disposto a despender os recursos necessários para seguir nesse caminho. Não é o sonho que realiza a possibilidade.

Aproximar-se    de    alguma    maneira    daquilo    de    que    se    gosta    é    um movimento   que   tem   força   vital.   No   mínimo,   a   pessoa   terá   um   trânsito naquele universo que a apaixona.

Sonhar com as estrelas não significa necessariamente alcançá-las de modo concreto. Eu posso sonhar com as estrelas e, na impossibilidade de alcançá- las, posso escrever sobre elas, posso fazer uma música, posso ler livros sobre astronomia, posso desenhá-las. São variações, outras maneiras de estabelecer um acordo de “ainda dá” comigo mesmo.

Se as condições tornarem-se mais favoráveis, eu posso investir mais na direção daquilo de que gosto. Não preciso ser radical: “Ou faço integralmente ou  não faço”, tampouco ser intempestivo: “Vou  jogar tudo para o alto e seguir meu sonho”. É possível encontrar soluções intermediárias até que seja possível equacionar a situação.

A trajetória do escritor italiano Luciano de Crescenzo (1928-2019) é um exemplo de  condução inteligente para conciliar desejos e necessidades. Até formar-se em  engenharia, Crescenzo havia desempenhado várias atividades, entre elas a de  cronometrista de provas de atletismo na Olimpíada de Roma, em 1960. Depois de   graduado, tornou-se executivo em uma empresa de tecnologia por mais de vinte anos. Perto dos 50 anos de idade, ele lançou seu primeiro livro. A obra deu sinais de  que seria bem-sucedida, mas Crescenzo permaneceu na empresa. Até que uma  participação em um programa de televisão alavancou consideravelmente as vendas  de seu livro. A partir dessa sinalização, Crescenzo decidiu enveredar de vez pela carreira artística. Não só literária, pois esse napolitano também foi ator, diretor e  dramaturgo. Pelos caminhos na arte, ele viveu dos 50 até quase os 90 anos de idade,  quando faleceu, em julho de 2019. O último papel que interpretou foi em 2017, e publicou obras até o ano de sua morte.

Além da versatilidade em atividades do mundo artístico, Crescenzo é um exemplo de “ainda dá” por começar uma nova atividade próximo de completar 50 anos. Mas é também uma referência de condução de carreira. Só deixou o cargo de executivo quando teve sinais consistentes de que a carreira artística seria viável. Ele não tomou nenhuma decisão intempestiva. Conciliou as atividades durante um tempo e optou por uma delas quando os ventos lhe sopraram favoráveis.

Faz pouco tempo, a linha da vida era simbolicamente dividida nos intervalos de 20-40-60 anos. Até os 20, a pessoa se formava. Daí até os 40, trabalhava de maneira mais intensa, em geral, constituía família e patrimônio. Dos 40 aos 60 anos, já ia se preparando para o final da atividade profissional.

Afortunadamente, nós estamos estendendo o tempo do “ainda”. Do “ainda” várias coisas: “ainda tenho tempo”, “ainda posso aprender”, “ainda tenho ambição”, “ainda tenho capacidades”.

Claro que uma pessoa que se aposente tem a perspectiva de que, a partir desse momento, ela nada pode fazer – desde que tenha reunido condições financeiras para tal. Como eu, Cortella, costumo alertar, aposentadoria não é sinônimo de desocupação, é sinônimo de diminuição da obrigatoriedade. É poder escolher ocupar-se de coisas que não são obrigatórias.

Mas o que parece, enfim, algo libertador, para muitos se revela um tormento. Com frequência, pessoas que podem fazer o que quiserem se veem perdidas.

É um fenômeno especialmente notado em executivos, profissionais que passaram anos em grandes corporações, em que seus sobrenomes eram quase que substituídos pelo nome da empresa. Fulano da (nome da empresa), Beltrano da (nome da empresa). Virada a página, se veem sem as referências que os guiaram por décadas. “Agora o que vamos fazer da vida?” A ocasião merece um “ainda dá”.

Ainda dá para buscar outros projetos, para ir atrás de desenvolver aptidões, de lidar com desejos que ficaram negligenciados. Ainda dá para fazer um trabalho de voluntariado. Ainda dá para formar gente. Ainda dá para transmitir conhecimento. Ainda dá para empreender.

Em certo sentido, a noção do “ainda” até se sobrepõe ao “dá”.  Porque o “dá” está  vinculado ao resultado e o “ainda” atesta a nossa esperança. Nós somos movidos a  esperança. Como diz o escritor e poeta italiano Cesare Pavese (1908-1950): “A única  alegria no mundo é começar. É bom viver porque viver é começar sempre, a cada instante”.

Estamos mais longevos. Se há três, quatro décadas, uma pessoa por volta dos 65 anos já estava quase que preparando a despedida da vida, hoje, alguém nessa faixa etária está plenamente capaz de realizar coisas.

A própria ideia de realização aponta para aquilo que nos torna reais. O que nos torna mais do que uma subjetividade? O que nos leva a ser mais do que uma mera vontade? Aquilo que realizamos.

E essa sensação de realização parece ser bastante íntima da longevidade. Fazer por mais tempo aquilo que nos realiza é estender a experiência de uma vida gratificante.

Em 2012, eu, Jebaili, estava na cobertura pela revista Placar da entrega da Bola de Prata, prêmio concedido aos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de Futebol. Ao final do evento, já na rua, passei por Zé Roberto, que carregava o troféu recebido pelo desempenho como meia no Grêmio. “Parabéns, Zé!”, o cumprimentei meio que me despedindo. Ele agradeceu e puxou um papo. Estava visivelmente feliz. Dali a pouco, perguntei se ele estava cogitando uma aposentadoria, pois já circulavam rumores sobre essa possibilidade. Aos 38 anos, ele respondeu: “Algumas pessoas têm falado nisso, mas eu mesmo não me vejo parando”. O aspecto atlético de Zé Roberto sempre falou alto em sua carreira, mas, naquele rápido bate-papo, tive convicção de estar diante de alguém que se sentia realizado naquilo que fazia.

Ele só viria a pendurar as chuteiras cinco anos depois, aos 43 anos. Não sem antes ganhar mais uma Bola de Prata, em 2014, pelo Palmeiras. Detalhe: dessa vez, como lateral-esquerdo, posição que exige ainda mais da condição física. Aos 40 anos, ele ganhava seu terceiro troféu (dezoito anos após o primeiro, em 1996, como lateral da Portuguesa). Ainda deu tempo de Zé Roberto sagrar-se campeão brasileiro pelo Palmeiras em 2016 e, no ano seguinte, de tornar-se o jogador com mais idade a marcar um gol na Libertadores, aos 42 anos, 10 meses e 18 dias.

Exemplo similar no futebol feminino é o da volante Formiga, que, aos 42 anos em 2019, seguia em atividade, carregando um currículo com seis Olimpíadas (de 1996 a 2016) e sete Copas do Mundo (de 1995 a 2019).

Os exemplos de longevidade no esporte vão se acumulando com o passar dos anos, graças a fatores como avanços na ciência e as metodologias utilizadas na preparação. Mas nos aspectos mental e anímico, há que se considerar uma parcela da atitude de “ainda dá” desses atletas na extensão de suas carreiras.

Desde os Jogos Olímpicos de 1992, a média de idade dos esportistas vem crescendo a cada edição. Segundo dados do Comitê Olímpico Internacional, em Barcelona, a faixa etária média era de 25,02 anos. Seis edições depois, no Rio de Janeiro, em 2016, a média havia subido para 26,97 anos entre os participantes de todas as modalidades.

Mas esse fenômeno notado no esporte, que claramente depende do desempenho do corpo, também pode ser observado em outros campos. Como no das ciências, por exemplo.

Em 2019, o norte-americano John B. Goode-nough foi premiado com o Nobel de Química, aos 97 anos (ao lado do britânico M. Stanley Whittingham e do japonês Akira Yoshino). Tornou-se o vencedor mais idoso da história do prêmio. No ano anterior, o também norte-americano Arthur Ashkin havia sido agraciado com o Nobel de Física, aos 96 anos (ao lado do francês Gerárd Mourou e da canadense Donna Strickland). Quando do anúncio do Nobel a Goode-nough, os relatos eram de que ele continuava em plena atividade, sendo visto cotidianamente nos laboratórios de pesquisa da Universidade do Texas.

No campo da estética, o espanhol Pablo Picasso, um dos mais influentes artistas plásticos do século XX, produziu mais de XX mil obras e, de acordo com depoimentos de quem viveu próximo a ele, trabalhou intensamente até o fim de sua vida. Mesmo com a visão já deficiente, seguiu criando até os 91 anos – um exemplo da arte de viver com arte.

ESTAR BEM

PEELING DE MILHÕES

Peeling de fenol promete rejuvenescer o paciente em até 10 anos, mas exige cuidados importantes, além de restrições

Recentemente viralizou na internet um vídeo publicado por uma clínica de dermatologia de Caxias do Sul (RS), com mais de 17 milhões de visualizações no Tik Tok, que mostra o resultado e as etapas de um procedimento estético chamado peeling de fenol, que promete o rejuvenescimento facial, promovendo a renovação celular. O tratamento é realizado com a aplicação de ácidos sobre a pele, que agem causando uma descamação das camadas danificadas, em diferentes graus.

“É indicado para pessoas com fotoenvelhecimento avançado, manchas, rugas profundas e cicatrizes de acnes. Se bem aplicado, o benefício é a troca cutânea do local, integralmente, de uma forma regular, resultando em uma pele com o aspecto totalmente novo. Com 30 dias os resultados já estão bem interessantes e após 3 meses a 6 meses, a pele estará mais saudável e praticamente sem vermelhidão”, explica o cirurgião plástico Rodrigo Mona, que realiza este procedimento há 13 anos.

A dermatologista Katia Reys afirma que os resultados costumam ser surpreendentes. “Um único procedimento pode rejuvenescer a aparência do paciente em até 10 anos, recuperando sua autoestima e características que foram perdidas com o envelhecimento ao longo do tempo. No entanto, sua indicação depende de uma criteriosa avaliação médica e somente para pessoas previamente saudáveis, acima de 40, 50 anos”, diz.

RECUPERAÇÃO

De acordo com a dermatologista Katia Reys, o paciente necessita de uma série de cuidados associados ao procedimento. “O paciente deve fazer uso de medicamentos analgésicos potentes, antibióticos e antivirais, e receber um curativo oclusivo impermeável, que deve ser mantido por pelo menos 48 horas. Após ser retirado o curativo, outros cuidados são reestabelecidos, como o uso de compressas úmidas, antibiótico tópico, antissépticos suaves, entre outros”, destaca.

Katia afirma ainda que é importante que o paciente fique aproximadamente um mês sem sair de casa, tempo necessário para pele possa se refazer. “É formada uma crosta bem intensa no rosto, e depois que cai a pele apresenta vermelhidão, ficando bastante sensível. Por essa razão, é preciso evitar totalmente o sol por pelo menos cerca de 30 a 40 dias, complementa a dermatologista Joana Tebar Figueira.

PROCEDIMENTO SURGIU NA DÉCADA DE 60

Segundo Rodrigo Motta, apesar de parecer ser uma novidade, a técnica é antiga e existe desde a década de 60. No entanto, devido aos avanços na medicina estética e o surgimento de novas tecnologias, procedimentos menos invasivos conquistaram o seu espaço. Além disso, devido à necessidade de contratação de uma equipe médica especializada e de uma estrutura hospitalar “o valor do procedimento é bastante alto e pode chegara custar deR$30 mil a R$ 40 mil”, diz.

CUIDADOS SÃO IMPORTANTES

De acordo com o cirurgião plástico Rodrigo Motta, é um procedimento doloroso, por isso precisa ser feito sob sedação e monitorização cardíaca e sinais vitais, ambulatorialmente ou no centro cirúrgico, com preparo para urgência e emergência, com equipamentos específicos. “Se a penetração do ácido ocorrer numa concentração elevada em grandes áreas poderá desencadear arritmias importantes no paciente, podendo desestabilizá-lo hemodinamicamente”, diz.

Ele  explica ser fundamental ter um profissional qualificado em tratamentos de urgência e emergência, como um cardiologista e um anestesista junto ao  profissional que estará executando o peeling, para diminuir as chances de complicações clínicas imediatas ao procedimento que possam pôr em risco a vida do paciente. Já os riscos pós-procedimentos incluem manchas na pele, cicatrizes inestéticas, queimaduras oculares graves e retrações cutâneas não desejadas, entre outros.

PROFISSIONAL QUALIFICADO

Segundo o cirurgião plástico Rodrigo Motta, a escolha de um profissional capacitado com conhecimentos técnicos sobre o peeling e de condução do pós-peeling são fundamentais para um resultado impactante e com menos chances de resultados desfavoráveis.

Além disso, ele ressalta que o procedimento é contraindicado para pessoas que possuem problemas cardíacos, como arritmias,  insuficiência hepática e renal ou que estejam usando ou feito recentemente o tratamento com o Roacutan, e também indivíduos com tendência para cicatrizes queloidianas.

Outro fator importante é com relação à cor da pele do paciente. De acordo com a dermatologista Joana Tebar Figueira, devido ao risco de complicações, o peeling de fenol é indicado  apenas para pessoas de pele mais clara. “Pessoas com um fototipo de 3 (escala de Fitzpatrick) para cima é contraindicado, porque existe um risco muito grande de alteração da coloração”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO EXAGERO E NA DIETA

Casais juntos há mais de 1 ano dobram o risco de engordar

Viver em casal traz muitas alegrias. Lucia sabe bem disso. Ela leva uma vida tranquila, saindo com o parceiro aos fins de semana, jantando mais em casa e comendo duas vezes mais sushi do que nos tempos de solteira. Ela não reclama, mas espera o momento ideal para começar uma dieta ou pelo menos retomar alguns de seus hábitos de solteira. Lucia ganhou alguns quilos e aumentou o tamanho das roupas, mas prefere não colocar um número na balança. Seu parceiro, Antônio, acha que não engordou e está igual.

Se as coisas vão bem, a vida a dois é como uma pizza: engorda, não importa a hora que se coma. Alguns estudos até indicam que quanto maior a felicidade mais ganho de peso. Se as coisas derem errado, parece que podemos perder aqueles quilos extras para “voltar ao mercado”.

Especialistas dizem que estudar o ganho de peso dos casais é particularmente difícil. Por um lado, geralmente há dados insuficientes sobreo consumo de alimentos a dois – nos ensaios apenas um deles costuma participar. Também não é fácil para os pesquisadores coletar informações sobre os hábitos que cada um tinha antes do relacionamento. Por fim, com a convivência e o tempo costumam vir outros eventos, como uma mudança de bairro, um novo emprego, outros amigos ou uma vida mais sedentária. Difícil calcular qual de todos esses fatores é aquele decisivo para o ganho de peso.

Mas é possível chegar bem perto. Um dos primeiros estudos que associou a vida de casal ao ganho de peso foi publicado na revista Obesity. De acordo com os resultados, quanto mais tempo uma mulher passa em um relacionamento estável, mais quilos ela ganha. Para os homens, esse risco disparou nos dois primeiros anos de convivência e depois se estabilizou. Mas as mulheres alguns anos após começarem a viver junto já dobravam o risco de obesidade em comparação com aquelas que ainda eram solteiras ou namoravam alguém.

A endocrinologista Ana de Hollanda, coordenadora da área de Obesidade da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição, avalia:

“O estudo mostrou que pessoas que começaram um relacionamento tinham tendência a ganhar peso, especialmente se a coabitação durou mais de um ano. É provável que uma situação mais estável facilite o ganho de peso, pois não estão procurando um parceiro. Provavelmente, o aumento da responsabilidade nos compromissos conjugais atrelado ao aumento da carga de trabalho, sedentarismo e estresse também podem explicar essas mudanças no peso.”

Para os autores, é impossível apontar um único culpado. Em vez disso, eles indicaram uma série de mudanças na vida: horários e logística mais complicados que impossibilitavam dedicar tempo aos esportes ou a um estilo de vida mais ativo, mais refeições em restaurantes com amigos e mais tempo no sofá assistindo TV. Acima de todos esses fatores paira uma característica do ser humano: comer em boa companhia nos deixa eufóricos, então se estamos com alguém que come mais do que nós, provavelmente nos servimos porções maiores do que quando estamos sozinhos.

“Casal pede mais comida em casa”, confirma a nutricionista especialista em transtornos do comportamento alimentar e obesidade, Azahara Nieto. “E costuma pedir coisas que não são feitas em casa: pizza, hambúrguer, comida chinesa, sushi… tudo muito calórico”, acrescenta.

O nutricionista Pablo Zumaquero, que acabou de publicar o livro “Na segunda-feira já começo a dieta” explica por que morar junto é capaz de modificar os hábitos de alimentação.

“Diga-me com quem você mora e eu lhe direi como você come”, brinca. “O junk food é mais agradável e, se há um no casal que quer se cuidar e o outro não, o mais comum é que os maus hábitos vençam. Por outro lado, quando as pessoas vão morar juntas, as preocupações estéticas diminuem.”

Para a especialista, o descontrole começa pelo lanche.

“Pegue uma cerveja com batatas fritas como aperitivo ou assista a um filme da Netflix com sorvete e biscoitos.”

FELICIDADE ENGORDA

Em 2016, outro teste mostrou que quanto mais feliz um casal era, mais gordo ficava. Quem estava chateado ou prestes a sair de um relacionamento começou a lutar contra o excesso de peso, antes mesmo de pronunciar o clássico “precisamos conversar”. A pesquisa confirmou que casais que viviam juntos há mais de quatro anos dobravam o risco de excesso de peso em comparação com aqueles que não se sentiam muito à vontade com o relacionamento. Ao longo de quatro anos, os felizes ganharam em média quatro quilos.

“É um indicador de que as pessoas estão confortáveis e priorizam o bem-estar sobre questões estéticas e físicas. Os menos felizes já estão motivados a voltar para o mercado e atrair um novo parceiro em potencial, então investem novamente na academia e cuidam mais da alimentação”, explica a professora de Psicologia da Hofstra University, e coautora do estudo, Sarah Novak.

Em casais é comum haver boicote. É assim que os nutricionistas entrevistados chamam alguém que vai ao supermercado e compra tudo o que o outro tenta evitar comer, ou alguém que insiste que faça mais acompanhamentos, porque não gosta de verduras, por exemplo.

“Na minha experiência, os boicotadores geralmente são homens. As mulheres são mais empáticas e facilitadoras, e estão mais acostumadas a cuidar da alimentação; é mais difícil para eles se adaptarem”, diz Nieto.

SEDENTARISMO

Em suas consultas, Pablo Zumaquero vê um padrão se repetir: homens que comem mal e são ativos e mulheres que comem melhor, mas são sedentárias.

“Elas estão acostumadas a fechar a boca e a estar sempre de dieta. Os homens acham que, se estão indo à academia, não tem problema.”

Zumaquero costuma iniciar suas consultas com uma pergunta: O que seu parceiro acha de você vir aqui? Segundo ele, as mudanças devem ser acordadas entre os três –  médico e o casal.

“Tenho que saber se estou pisando em terreno hostil. É muito difícil um casal fazer dieta”, diz o nutricionista, que prefere não recomendar mudanças muito radicais para evitar rejeição. Ana de Hollanda afirma que quando um na família faz dieta e emagrece há um “contágio” para os demais.

“Há dados que comprovam. Se temos amigos que praticam esportes ou são obesos, é mais provável que também pratiquemos esportes ou sejamos obesos. Por isso, as intervenções para todo o grupo familiar podem ter um alcance maior do que as individuais.”

“O bom e o ruim se espalham e os hábitos são reeducados”, resume Nieto e alerta que nada será alcançado se as mudanças no estilo de vida não forem mantidas por mais de seis meses ou um ano.

OUTROS OLHARES

INTIMIDADE VIOLADA

A cada dois dias, um caso de foto ou vídeo de nudez feito sem consentimento chega à polícia

No início da tarde de 19 de fevereiro deste ano, Rosileide Rodrigues do Nascimento, de 54 anos, escolhia uma calça jeans para comprar em uma loja de um shopping na Zona Norte do Rio. Como filho, de 11 anos, entrou no provador com uma das peças e começou a experimentá-la. Ao se olhar no espelho, notou a mão de uma pessoa, com aparelho de celular em punho, fazendo uma gravação. Ela se tornava alvo de uma violação de privacidade que tem se tornado mais frequente. Assim como a dona de casa, a cada dois dias, uma pessoa tem uma foto ou vídeo, com cena de nudez, de ato sexual ou libidinoso, de caráter íntimo e privado, produzida sem sua autorização.

Levantamento feito nos registros de ocorrência da Polícia Civil mostra que, entre 1º de janeiro e 15 de outubro deste ano, 136 pessoas procuraram delegacias (67 na capital, 53 no interior e 16 na Baixada Fluminense) para denunciar que foram vítimas do que o Código Penal prevê no artigo 216-B. Desde 2018,o dispositivo estabelece que é crime produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, esse tipo de conteúdo sem o devido consentimento. Ao longo de todo o ano passado, tinham sido 194 casos.

“Nunca vou me esquecer do constrangimento e da vergonha que senti quando percebi que um homem me filmava ao trocar de roupa, do lado do meu filho. Fiquei péssima, ainda mais por pensar o que ele poderia fazer com esse material, inclusive divulgar nas redes sociais. Também sofro só de pensar na quantidade de vítimas que ele já pode ter feito ou que deve continuar fazendo”, desabafa Rosileide.

Há três semanas, a dentista Laíris Aguiar, de 25 anos, foi vítima do mesmo crime. Quando deixava a Praia de Ipanema, na Zona Sul, parou em um posto de gasolina da Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa, para abastecer o carro. Antes de seguir com o marido e um casal de amigos para São João de Meriti, na Baixada, resolveu ir ao banheiro. Ao utilizar o vaso sanitário, viu que era filmada por um celular colocado em um vão na parede. Levado para 14ª DP (Leblon), um frentista do estabelecimento confessou ter colocado o aparelho no local.

“A pena prevista para esse tipo penal é baixa: detenção de seis meses a um ano, o que enquadra essa infração como de menor potencial ofensivo. Nestes casos, o autor assina um termo circunstanciado, e o inquérito passa a tramitar no Juizado Especial Criminal, que, em linhas gerais, busca, com rapidez e informalidade, a reparação do dano sofrido pela vítima, a transação penal, a suspensão condicional do processo e, em último caso, uma possível condenação’, explica a delegada Camila Lourenço, assistente da 14ª DP e responsável pelo flagrante.

Na mesma região, a estudante X., de 24 anos, procurou a 13ª DP (Ipanema) após terminar o namoro de quatro meses com um empresário, de 43 anos. Na delegacia, a jovem contou que, durante o relacionamento, o homem tinha comportamentos ciumentos, possessivos e fiscalizadores, controlando, inclusive, suas senhas do celular e de computador. Quando a jovem tentou se afastar, soube que o empresário tinha armazenado no telefone dele fotos íntimas e vídeos de sexo entre os dois feitos sem consentimento.

CRIMES INFORMÁTICOS

Em seu relatório de vida pregressa, o empresário, que acumula 15 anotações por crimes como dano, furto e constrangimento ilegal, ainda exibe registros por difamação, calúnia, injúria e lesão corporal contra outras mulheres. Em uma das ocorrências, feita na 16ª DP (Barra da Tijuca), em 9 de novembro de 2020, uma garota de programa, de 25 anos, afirma ter sido filmada com os seios desnudos em um motel da Estrada da Barra da Tijuca. Após agendar o serviço sexual por um site, ele teria se escondido atrás da porta do banheiro do quarto com o telefone celular.

“As vítimas dessa modalidade criminosa não devem ficar envergonhadas em denunciar os casos nas delegacias. Trata-se de uma séria violação à dignidade, à honra e à imagem da pessoa. Por isso, não pode ficar impune. A confecção do registro de ocorrência é necessária para o início das investigações. Impede ainda a prática reiterada, evitando novas vítimas. Entendemos que, além da produção dessas imagens sem o devido consentimento, há também o risco de divulgação delas na internet, representando um novo crime e, sem dúvidas, gera danos também irreparáveis”, diz o delegado Felipe Santoro, titular da 13ªDP, que indiciou o empresário pelo crime de registro não autorizado da intimidade sexual contra a estudante.

Ao explicar o outro crime da divulgação das fotos, o delegado se referiu à Lei 12.737, de 2012, que ficou conhecida como Lei Carolina Dickmann. Naquele ano, a atriz teve fotos íntimas que estavam em seu computador pessoal reproduzidas na internet por um homem que a chantageou. O caso tipificou os chamados crimes informáticos.

INSTRUMENTO DE AMEAÇAS

Em outro caso, também na Zona Sul do Rio, um servidor público, de 24 anos, registrou na 10ªDP (Botafogo) ter sido filmado enquanto tomava banho no vestiário de uma academia, na Rua Bambina. Já uma empresária, de 28, conta ter sido ser vítima desse crime por parte do ex- companheiro, com quem dividia, desde 2015, uma casa na Rocinha. Ao terminar o relacionamento, ela procurou a Delegacia de Atendimento a Mulher (Deam) do Centro para relatar que um amigo do empresário a procurou para contar que o homem havia feito imagens íntimas dela e as divulgaria para, segundo ele, “destruir sua reputação”.

“Fiquei bastante tempo do lado dessa pessoa, convivendo com uma rotina infernal de agressões, tentativas de homicídio, cárcere privado, além de chantagens emocionais. Demorei até decidir colocar um ponto final na relação. Mas, ainda assim, não estou tendo paz. Ele já me ameaçou diversas vezes, inclusive sobre os vídeos que fez sem o meu consentimento, alegando até que em alguns momentos das filmagens eu olho na direção da câmera”, conta a jovem.

Professor de Direito Penal da PUC-Rio, o advogado Sergio Chastinet explica que o artigo 216-B foi inserido no Código Penal após a publicação da Lei 13.772, que entrou em vigor em 19 de dezembro de 2018. Naquela ocasião, um casal alugou um apartamento no litoral de São Paulo e, após se instalar, percebeu uma pequena luz atrás do espelho em um dos quartos. Ao vistoriarem o local, eles encontraram uma câmera instalada e, logo em seguida, receberam uma ligação do proprietário do imóvel, indicando que as imagens estavam sendo transmitidas em tempo real.

“O sentido geral dessa reforma na disciplina dos crimes sexuais é adequá-la à nova realidade social, com acesso facilitado à rede de computadores e divulgação de imagens. Anteriormente, havia a possibilidade de punir essas condutas se configurassem crimes contra a honra ou pedofilia, mas não havia a incriminação direta à exposição não autorizada da intimidade sexual de uma pessoa maior de 18 anos. Agora, quem for vítima deste tipo de conduta, atualmente muito utilizada como instrumento de vingança entre ex-namorados rancorosos, poderá reportá-la às autoridades e dar início a uma investigação criminal”, afirma o advogado.