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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

OUTROS OLHARES

DELÍCIAS DE LABORATÓRIO

Pratos com carne feita em impressora 3d, frango produzido com células cultivadas e laticínio animal free chegam ao mercado e dão uma ideia do que comeremos no futuro

A indústria alimentícia, em especial a de produtos de origem animal, deu outro passo na sua empreitada para aumentar as ofertas de produtos que têm cara de futuro e gosto de presente. Depois das carnes e laticínios com base em plantas, a onda agora são hambúrgueres, filés, nuggets e proteína do leite feitos em laboratório, tornando desnecessários a criação e o abate de animais. Em alguns lugares, pratos com esses ingredientes são realidade. No fim do ano passado. Singapura se tornou o primeiro país a autorizar a venda de carne cultivada e experimentar os nuggets de frango feitos pela empresa americana Eat Just. Em Israel , a SuperMeat abriu um restaurante onde oferece sanduíches de frango criado a partir de um punhado de células em troca de feedbacks sobre o produto. Nos Estados Unidos, estão à venda sorvetes produzidos com proteínas lácteas feitas por fungos geneticamente modificados da Perfect Day.

No Brasil, a carne cultivada pode estar disponível entre 2024 e 2025. No início do ano, a BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, anunciou investimentos na startup israelense Aleph Fanns, conhecida por fazer bifes de células animais. A Aleph foi a primeira a desenvolver um ribeye cultivado e bioimpresso em 3D. O então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu provou a iguaria e gostou. “É deliciosa e livre de culpa”, avaliou Netanyahu na ocasião. A fabricação dos ingredientes é fruto de processos tremendamente sofisticados. A carne é feita a partir de uma pequena quantidade de células-tronco extraídas dos animais por meio de uma biópsia. Células-tronco ainda não são especializadas. Ou seja, não são células musculares ou cerebrais, por exemplo. Por isso, podem ser transformadas em células que dão origem a uma grande variedade de tecidos. No caso das retiradas dos bois, são estimuladas a se especializarem em fibras de tecido muscular bovino. Em até trinta dias, elas estão no ponto. Os laticínios são produzidos por microrganismos geneticamente modificados para secretar proteína de leite idêntica à encontrada no alimento vindo das vacas.

Essa indústria tenta suprir a demanda por proteína animal com menos impacto ambiental. A pecuária é responsável por 14% das emissões mundiais de gases de efeito estufa a cada ano, e a produção de leite contribui com 4%. “Queremos construir uma cadeia da produção de alimentos mais sustentável, saudável e que seja capaz de nutrir um número crescente de pessoas”, diz Gustavo Guadagnini, presidente do The Good Food Institute (GFI) Brasil. Porém, um estudo da Universidade de Oxford alerta que, dependendo do tipo de energia utilizada nos laboratórios de carne, por exemplo, o ganho obtido com a redução de metano (gás associado ao efeito estufa produzido em quantidade expressiva por bois e vacas) pode ser superado a longo prazo pelas emissões de C0 2 que resultam do processo. Objeções a esse tipo de alimento incluem ainda o uso de organismos geneticamente modificados, no caso dos laticínios, e de células-tronco, nas carnes. Hoje, no entanto, os principais entraves à ampliação do acesso aos produtos são a regulamentação, o custo e a capacidade de produção em escala. Mas a indústria trabalha para superá-los. “Há dezoito meses, o quilo da carne cultivada custava 1.000 dólares. Agora está em torno de 150 dólares. Nossa ambição é que em dois a três anos, quando chegarmos ao mercado, esteja entre 35 e 40 dólares o quilo”, diz Marcel Sacco, vice-presidente de Inovação da BRF. A continuar o desgoverno na economia, os brasileiros daqui a pouco pagarão pela carne tradicional o mesmo que custará a cultivada.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE DEZEMBRO

UM PRESENTE ABRE PORTAS

O presente que se dá em segredo abate a ira, e a dádiva em sigilo, uma forte indignação (Provérbios 21.14).

O presente é um símbolo de generosidade e cortesia. É um gesto simpático que toca o coração das pessoas e as sensibiliza. Demonstra afeto e pavimenta o caminho da amizade. Mesmo quando o relacionamento fica estremecido, o presente abate a ira e aplaca a indignação. O presente prepara o ambiente para o abraço da reconciliação e para o beijo do perdão. Abraão Lincoln, 16º presidente norte-americano, disse que a melhor maneira de vencer um inimigo é fazer dele um amigo. O amor é uma força irresistível. Quebra as maiores barreiras. O amor constrói pontes onde o ódio cavou abismos. O presente não é o amor, mas uma demonstração do amor. Gary Chapman, autor do livro As cinco linguagens do amor, diz que dar presentes é uma das linguagens do amor. Muitas pessoas veem nesse gesto uma demonstração eloquente de afeto. O sábio está ensinando que o presente discreto esvazia o balão da ira, e a dádiva feita em sigilo apazigua a maior fúria. Dê um presente em segredo a quem estiver zangado com você, e a raiva dele acabará. Há uma estreita conexão entre o bolso e o coração, entre a mão aberta e a alma livre de mágoa. Não se resolvem conflitos com mais conflitos. Não se ganha uma briga com mais desaforos. Se quisermos triunfar na batalha, precisaremos entrar nessa peleja com amor no coração e presentes nas mãos.

GESTÃO E CARREIRA

A VIDA PROFISSIONAL DEPOIS DOS 50

Eles são resilientes, sabem os caminhos para sair de uma crise e dão mais equilíbrio às equipes. Mas ainda sofrem rejeição nos processos seletivos e têm até data de validade no emprego. Entenda como o preconceito contra os mais velhos afeta não só as carreiras, mas também a economia.

Diante da câmera do próprio celular, um senhor de 70 anos grava um vídeo para se candidatar a um emprego num e-commerce de moda. Ele explica por que, apesar de ter um padrão de vida confortável com a aposentadoria, quer voltar ao dia a dia do escritório. “Eu adoro fazer conexões, amo a excitação do trabalho. Quero ser desafiado e me sentir necessário. Também quero que saibam que vesti a camisa da empresa minha vida toda. Sou leal, confiável e bom, numa situação de crise.” A fala é de Ben, personagem de Robert De Niro no filme Um Senhor Estagiário (2015). Aproveitando uma ação de inclusão dessa startup – um programa de estágio para terceira idade – , ele assume um cargo para o qual tem excesso de qualificação. Tudo para conseguir voltar à ativa.

Essa cena do filme é uma síntese do que trabalhadores com mais de 50 anos podem trazer a um negócio. Há um consenso entre especialistas de carreira de que a experiência torna mulheres e homens mais resilientes e lhes dá maior inteligência emocional para aguentar o tranco nas crises. De quebra, eles têm o mapa de atalhos para encontrar soluções para os dilemas da empresa – afinal, já passaram por muitas mudanças, tanto da organização quanto da economia, e testemunharam o que deu certo e o que falhou. Além disso, ao contrário dos millennials, que gostam de mudar de ambiente com certa frequência, os 50+ seguem uma tradição do mercado de trabalho do século 20: a de criar raízes. Daí a lealdade e o vestir a camisa de que fala De Niro.

Mas não são tantas as companhias que valorizam essas qualidades. Uma pesquisa da Maturi, organização que atua na recolocação de profissionais maduros, ouviu 1.317 pessoas com mais de 50 anos em São Paulo, e descobriu que mais da metade foi demitida durante a pandemia. Para 67% dos entrevistados, o preconceito de idade piorou ao longo do último ano – muito porque as pessoas mais velhas são mais vulneráveis ao coronavírus.

Aliás, o preconceito contra o “velho” (chamado de etarismo) é talvez o único que resiste abertamente na sociedade. Num episódio recente, um escritório de agentes autônomos da XP publicou uma foto de sua equipe formada quase exclusivamente por jovens homens brancos – e recebeu uma enxurrada de críticas por isso. As queixas eram sobre a falta de diversidade de raça e gênero, mas não se viu problema algum na maioria jovem. De forma geral, não há registros de reação parecida contra empresas que anunciam seus times formados por profissionais nas faixas de 20 e 30 anos, inclusive no C- Level. Se a juventude é valorizada na hora da contratação, como fica a carreira de quem tem cabelo grisalho?

É exatamente o que está sentindo na pele o especialista em reestruturação organizacional Claudio Cardinali, de 60 anos. Seu último emprego foi de diretor administrativo-financeiro em uma grande empresa do ramo de embalagens, de onde foi dispensado no final de 2019. Claudio tem tentado uma recolocação, mas se vê esbarrando num muro invisível nos processos de admissão. “Sempre encontrava portas abertas nas minhas transições de trabalho, então tenho estranhado que, para posições com perfil que se encaixa perfeitamente no meu, não tenho sido mais chamado nem para uma primeira conversa. Nenhum headhunter me diz claramente que o motivo é este: eu estar acima de uma faixa etária desejada”, afirma o executivo.

Uma exclusão que talvez fizesse sentido em meados do século passado. Hoje, não mais. A evolução da medicina e das condições sanitárias nas cidades tornou a população mais longeva – e os mais velhos ficaram, não apenas figurativamente, mais jovens.

Segundo o IBGE, em 1940, um indivíduo de 50 anos tinha uma expectativa de viver mais 19 anos em média. Agora essa mesma pessoa tem pela frente cerca de 30 anos – com boa parte dessas décadas em ótima forma física e intelectual. Uma combinação perfeita para esticar a vida profissional.

Aliás, expulsar essa turma do mercado vai contra a economia em vários aspectos. Primeiro, a reforma da Previdência empurrou a aposentadoria pública de mulheres para os 62 anos, e de homens para os 65. Se a pessoa perde o emprego antes disso, precisa se recolocar no mercado –  ou vai começar a queimar muito antes a reserva financeira feita para a velhice de verdade. É o que acaba acontecendo hoje. A taxa de desemprego dos mais velhos é menor que a média do mercado, que está em 14,1%. Mas só porque, depois de muitos nãos, eles desistem de procurar uma vaga e são considerados “fora da força de trabalhou. No fundo, uma parte está desempregada, mas some da estatística do IBGE.

E um segundo problema é que logo mais não haverá  jovens o bastante para assumir as tarefas de quem foi excluído do mercado por ser considerado velho demais. Segundo dados do Ipea, 57% da população economicamente ativa no Brasil vai ter mais de 45 anos em 2050. Quer dizer, o país vai precisar que essa gente esteja empregada, atualizada e valorizada para continuar crescendo.

A boa notícia é que, na contramão da dispensa dos profissionais maduros, há mais e mais iniciativas de inclusão. E muitas são estratégicas, não servem só para dar um verniz de diversidade etária na equipe.

PARA O BEM DO NEGÓCIO

Especializada em seguro de vida e previdência, a MagSeguros lançou um programa para formação de novos corretores chamado 50+ Ativo. Ao longo de 12 meses, profissionais sem experiência na área ganham ajuda de custo, têm aulas teóricas e aprendem o que está por trás do sucesso desse mercado: saber vender não um produto, mas algo tão intangível quanto sensação de segurança. Eles já começam a trabalhar ao longo do programa e, terminado o ano, continuam como corretores parceiros da seguradora.

O investimento tem um porquê: “Percebemos a complexidade que é um profissional muito jovem falar de seguro de vida, de proteção para aposentadoria…”, diz Patrícia Campos, diretora de Gente e Gestão da companhia. Uma pessoa ainda sem parceiro, filhos e bens, como casa e carro, tem mais dificuldade de transmitir a importância de um seguro. “Ela não sente as necessidades do público que já se preocupa em deixar uma segurança para a família ou para si mesmo ao parar de trabalhar. Com corretores mais maduros, o discurso fica muito mis aderente.”

Na Bayer, por outro lado, a iniciativa foi voltada para melhorar a integração dos 50+ com o resto da equipe. A multinacional farmacêutica tem um programa de mentoria reversa. Profissionais mais maduros, que atuam em patamares de liderança, são mentorados – em diálogos quinzenais ou mensais – por colegas bem mais jovens. Foi o caso de Evandro Winter, de 58 anos, gerente administrativo em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Ele recebeu sessões de mentoria de um profissional 27 anos mais novo. ‘Eu, que tenho jovens na minha equipe, descobri a importância de escutar essa geração, de criar oportunidades para que eles exponham seus pontos de vista. Também entendi que feedback é fundamental para eles, algo que em sempre é bem recebido pelas pessoas da minha idade.”

Fora das empresas, também há iniciativas de qualificação de profissionais maduros. Um exemplo é o Hub40 +, uma comunidade que oferece atualização tecnológica, cursos para empregabilidade e empreendedorismo. Esse hub tende tanto companhias que querem fortalecer a diversidade etária em sua cultura quanto indivíduos maduros em busca de emprego. “Para o profissional, nossos parceiros oferecem mentorias e cursos”, diz o fundador, Mauro Wainstock. “Um exemplo: damos treinamento de como essa pessoa deve usar o LinkedIn para projetar sua marca pessoal, porque um bom networking é imprescindível para manter a empregabilidade nessa faixa de idade.”

E há demanda por esse tipo de formação. A pesquisa da Maturi apontou que 8o% dos profissionais com mais de 50 anos aproveitaram o isolamento da pandemia para fazer cursos online. Dentre os entrevistados, sete em cada dez se dizem, agora, mais preparados para o uso das redes sociais para o trabalho – um golpe na generalização simplista de que a evolução das tecnologias é um obstáculo para se ter 50+ na equipe.

NO ALVO

Tânia Schubert, de 57 anos, é um exemplo que corrige muitos dos erros crassos do etarismo. Especialista em treinamentos na área de Gestão do Conhecimento, ela abraçou a tecnologia há 30 anos em uma empresa que desenvolve softwares de administração empresarial, a VlK Sistemas, em Blumenau (SC). “Gosto da área de tecnologia porque vocênunca para de aprender. É um setor que muda muito, então eu sempre procuro estar atualizada. Hoje, por exemplo, administro a nossa ferramenta de ambiente de conhecimento, que é onde a gente posta os treinamentos gravados.” O preconceito de que maduros querem distância de novas tecnologias não é o único que Tânia Schubert desconstrói. Ela também é a antítese do profissional experiente que acha que já sabe tudo. “Descobri no LinkedIn um monte de cursos gratuitos. Fiz um de 40 horas de marketing. Isso me ajuda a vender a ideia dos treinamentos que a gente desenvolve. Também entrei em cursos de como organizar uma reunião, como conduzir um projeto, entre outros.”

E se você acha que profissionais maduros não têm mais energia para lidar com o ritmo dos escritórios do século 21, precisa bater um papo com a Tânia. Aproximando-se dos 60 anos, ela pratica arco e flecha. Não só pratica: ela compete a sério. Aliás, não só compete: ela é a segunda no ranking brasileiro no arco recurvo feminino master, que é a partir dos 50 anos. “Eu gosto de desafios e sou muito competitiva. Se estiver valendo medalha ou troféu, estou dentro!’

QUESTÃO DE CULTURA

A necessidade de programas de inclusão dos 50+ prova que a contratação desses profissionais não se dá de maneira orgânica. Parece uma cota – e às vezes é mesmo. Para funcionar como uma estratégia sustentável de formação de equipes, é preciso ter uma cultura amigável à diversidade etária.

O Institute for Employment Studies, de Londres, realizou uma pesquisa sobre o que ajuda na retenção de bons profissionais 50+. Descobriu que os mais maduros valorizam ter responsabilidade e autonomia no trabalho, manter relacionamentos sólidos na empresa e ter oportunidades de transmitir seus conhecimentos. Também são mais propensos a permanecer se tiverem sinalizações de seus líderes de que seu trabalho é importante. É nisso que mira a Bayer.

“Sabemos o quanto dependemos de aproveitar o que cada geração tem de melhor”, explica Francila Calica, líder de um grupo interno da multinacional dedicado às questões geracionais. “No caso dos 50+, o conhecimento de todo o processo com que se mantém uma empresa, que vem com a senioridade, e a resiliência que nos ajuda a atravessar períodos mais desafiadores; entre os mais jovens, o questionamento constante, a agilidade e o ímpeto de fazer diferente.”

E essa cultura organizacional receptiva precisa valer tanto para a companhia tradicional quanto para startups. O americano Chip Conley tinha 52 anos quando ingressou no Airbnb, onde se destacou ajudando os fundadores a transformar a então startup numa marca global de hospitalidade. Se deu tão certo, é porque ele também encontrou muito desse acolhimento no escritório. “Foi uma experiência fascinante ter o dobro da idade média dos funcionários do Airbnb”,ele afirmou num depoimento ao site da companhia. Falando em startup, um estudo de 2018 revelou que, apesar de associarmos esses negócios com empreendedores muito jovens, a faixa etária dos fundadores das mais bem-sucedidas está entre 40 e 49 anos. (Vale dizer que o empreendedorismo tem sido o caminho de muitos executivos maduros que não conseguem recolocação.)

SEM OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

Há grandes companhias que têm um teto de idade para seus CEOs. Quando batem nos 65 anos, por exemplo, recebem uma aposentadoria compulsória, abrindo espaço para executivos mais jovens. Essa regra fez o Itaú, o maior banco privado do país, trocar de presidente duas vezes em um período de apenas quatro anos. Não consta que o lucro bilionário ou o futuro da instituição financeira pudessem sofrer pela idade de seus executivos.

Criadora da startup WeAge, que oferece consultoria para a inclusão dos mais velhos em empresas, Márcia Tavares perguntou, em sua pesquisa de mestrado, a executivos “aposentáveis” – que poderiam estar curtindo o dolce far niente – porque continuavam trabalhando. A resposta mais frequente foi de que eles acreditavam, estar na sua fase de maior proficiência técnica e capacidade de relacionamento profissional. Então não viam sentido em se aposentar.

É como diz o “estagiário sênior” interpretado por Robert De Niro no filme do início deste texto: “Eu li que músicos não se aposentam. Eles param quando sentem que não há mais música dentro deles. Bom, eu tenho certeza de que ainda tenho muita música em mim.” Uma música que, contribuindo com um estilo vintage, é cada vez mais essencial para que empresas e sociedades sejam mais harmônicas e interessantes.

6 VANTAGENS DE TER 50+ NA EQUIPE

RESILIÊNCIA

Eles são duros na queda. Já passaram por diversas crises em empresas e na economia do país, então não entram em desespero e buscam saídas mais ponderadas.

LEALDADE

Diferentemente da ansiedade para mudanças de trabalho e de carreira das novas gerações, os 50+ vestem a camisa. Muitos adiam a aposentadoria por sentir que a empresa depende deles.

EXPERIÊNCIA COM SOLUÇÕES

Eles já testemunharam inúmeras tomadas de decisões, e viram de perto o que dá certo e o que é certeza de fracasso.

OUTRA PERSPECTIVA

Uma empresa com clientes de diversas faixas etárias não pode depender só de jovens para se comunicar com seu público. Os mais maduros entendem melhor as necessidades de quem tem sua idade.

MENTORIA

Profissionais 50+ têm muita experiência para transmitir, inclusive aos jovens que estão sendo preparados para caros de liderança. E melhor: eles gostam de compartilhar conhecimento

EQUILÍBRIO

Nenhuma empresa se torna longeva contando apenas com uma garotada ágil e questionadora. A inteligência emocional dos 50+ faz o contraponto a quem pisa demais no acelerador. Estudos mostram que a diversidade (não só etária) é uma alavanca de sucesso para o time.

EU ACHO …

COISAS PARA FAZER NUM VELÓRIO

Tire uma foto com o morto se ele for alguém que aumenta o engajamento

Imagine  abrir um jornal um dia qualquer e encontrar matérias como estas duas abaixo. A imaginação inicial aqui fica por conta de um amigo muito esquisito que eu tenho. Mas vamos expandir a partir daí.

Pesquisa aponta que 78% dos paulistanos ainda cedem o lugar para mulheres no transporte público. Analistas de relações de gênero apontam permanência de machismo estrutural nesse comportamento. A solução, segundo especialistas, seria alguma forma de punição a fim de chegarmos à perfeita igualdade de gênero.  Fiscais com essa missão – melhor se forem gêneros  – deveriam ser apontados pelas empresas de transporte público na capital.

Um caderno especial dedicado ao bem-estar lista cinco coisas que você pode fazer num velório a fim de se sentir bem e elevar  a energia do lugar. Olhemos de perto essa lista para aumentar seu bem estar.

Leve sempre consigo no celular uma foto que lembre a você de momentos felizes, de modo a não contaminar sua energia com a tristeza circundante.

Vista-se elegantemente para que as outras pessoas se sintam mais feias e mais pobres do que você, de forma a elevar sua autoestima . A inveja dos outros, indicam pesquisas da neurociência, pode fazer bem à nossa autoestima até certo ponto. Este “certo ponto” ninguém sabe ainda onde fica precisamente.

Se houver natureza por perto, fixe um ponto no tronco de uma árvore ou numa folha e permaneça olhando para esse ponto sempre que alguém por acaso chorar mais alto. Se não houver natureza por perto, busque na sua memória uma praia bem legal em que vocêesteve e repita a operação até fixar o olhar na imagem indicada.

Faça uma refeição leve antes de ir ao velório. Sem proteína animal, , acima de tudo. Proteína animal pode leva-lo a ter sonhos em que você está comendo o morto.

Se o morto for alguém que aumenta o engajamento das suas redes, não perca a oportunidade de tirar uma selfie ao lado dele. Se o morto for de alguma identidade oprimida, arrisque uma frase do tipo #amogordos.

Esses dois exemplos, um sobre noções básicas de educação – ceder lugares  para mulheres – tomados como maus hábitos machistas, e outro sobre bem-estar em velórios, indicam obsessões da mídia em geral, mesmo das grandes marcas de mídia.

Se uma nave espacial de outro planeta passasse em São Paulo, em paz e marcasse uma coletiva, a primeira pergunta que a imprensa faria ao ET seria: “o que o senhor tem a declarar sobre a transfobia?”

Mais variações o tema. Caso um serial killer de casais matasse um casal gay em meio a casais hetero poderíamos identificar algum traço de homofobia na inclusão de um casal gay na sua lista de vítimas? A imprensa escreveria sobre isso artigos longos e caudalosos.

São obsessões, sim. Se a direita tivesse nas mãos faculdades e grandes marcas de mídia, seguramente sua infantaria usaria expressões como “comunismo”, ”globalismo”, ”europeus querem roubar a Amazônia”, “vá tomar …” “imbrochável”, “seus bundões”.

Liberais idiotas discutem se está certa ou não a obrigatoriedade das vacinas. Discriminação é proibir alguém de entrar num lugar por causa de raça, religião ou sexo. Não tomar conhecimento de risco epidemiológico – e recusar vacinas – é irresponsabilidade social e merece demissão.

Somos obrigado a reconhecer que as obsessões da esquerda tem muito mais verniz: epistemicídio, feminicídio, gordofobia, machismo estrutural, branquitude e similares.

Especialistas de mercado dirão que essas obsessões, sejam ideológicas, sejam aquelas que buscam vender bem-estar, são explicáveis por causa da necessidade de atrair um público mais jovem.

Como grande parte dos jovens é cada vez mais chata e idiota, ou você fala de alguma forma de fobia social e similares ou dá dicas de como se sentir bem em velórios – demos as nossas acima.

Outra dica de bem estar é transformar plantas em suas filhas de criação – uma expressão claramente preconceituosa , “filhas de criação!” Claramente contra filhos adotivos, peço desculpais. Afinal de contas, a parentalidade – belo termo – nada tem a ver com a biologia, certo? Sim, os idiotas venceram.

*** LUÍZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

BEBÊS QUE DORMEM BEM TÊM MENOS RISCO DE ENGORDAR

Estudo mostra que duração e continuidade do sono afetam sobrepeso; cada hora a mais de descanso reduz chances em 26%

Pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, descobriram que recém-nascidos que dormem por mais tempo e com menos interrupções têm risco menor de sobrepeso. Os resultados do novo estudo foram publicados recentemente na revista SLEEP, publicação oficial da Sociedade de Pesquisa do Sono.

Os responsáveis pela pesquisa acompanharam 298 recém-nascidos durante os seis primeiros meses de vida e observaram que, para cada hora acrescentada ao sono noturno, os bebês passaram a ter um risco 26% inferior de engordar. Além disso, cada interrupção a menos durante o descanso diminuiu o risco de sobrepeso em 16%. A análise foi possível graças á uma parceria com mães que realizaram o parto no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, nos EUA, entre 2016 e 2018. Diferentemente de outros estudos sobre sono infantil, que normalmente se baseiam em informações fornecidas pelos pais, os pesquisadores utilizaram relógios específicos de tornozelo, que monitoram ciclos de atividade e descanso, para rastrear o comportamento dos bebês durante a noite.

Além disso, os pais mantiveram diários sobre o recém-nascido com observações sobre atividades que podem impactar o padrão de sono ou de peso, como a frequência com que amamentavam ou se o bebê havia comido alimentos sólidos antes dos quatro meses.

Ao final da análise, os pesquisadores descobriram que os bebês que progrediram para um sono noturno estável, de em média 8,8 horas por noite e com poucas interrupções, foram menos propensos ao sobrepeso durante os primeiros seis meses de vida. Para os responsáveis, as evidências sugerem que o sono suficiente e consolidado pode ser uma ferramenta poderosa na redução de obesidade no início da vida.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VICIADOS EM JOGOS ELETRÔNICOS

Tratamento para a dependência em videogames chega ao Brasil

Véspera de Natal de 2019, o professor A.B.P., aos 37 anos, era o responsável por uma série de tarefas familiares, que não conseguiu cumprir. Não era a primeira vez que ele se atrapalhava. Não conseguia mais se concentrar nas aulas de sua segunda graduação e já estava arrumando problema  para seu casamento. Mesmo sendo adulto, ele só pensava em videogame. E jogava, muito.

“Comecei com os jogos quando criança, com o Atari. Na adolescência ganhei um computador e comecei a jogar ali. Depois, no celular. Há algum tempo percebi que minha vontade era multo grande e estava saindo do meu controle. Chegava a me ocupar no trabalho”.

A confusão daquele Natal o levou a tomar uma decisão que mudou a vida dele e de todos em volta – decidiu experimentar um tratamento que havia visto em um site americano  onde as pessoas compartilhavam suas experiências com o vício em jogos eletrônicos. O bom resultado o fez trazer para o Brasil a experiência, com interações em português.  Detalhe: o anonimato é obrigatório nesse tipo de terapia.

“Quando descobri o CGAA, comecei a dividir tudo o que estava me incomodando e percebi que outras pessoas tinham uma história de vida muito parecida com a minha”, relata A.B.P., referindo-se à sigla relativa ao grupo Computer Gaming Addicts Anonymous (ou Adictos em Jogos Eletrônicos Anônimos, em português).

Ele passou a participar diariamente das reuniões em inglês e a falar sempre que podia. Nas conversas, os membros trocam dicas de como parar ou reduzir a frequência dos jogos, assim como manejar a ansiedade provocada pela abstinência e a controlar os gatilhos que geram a ânsia pelo jogo.

“Primeiro fiquei sem jogar por quatro meses, mas, por conta da pandemia e da necessidade de ficar dentro de casa, me desmotivei e acabei tendo uma recaída. Fiquei entre idas e vindas. Mas agora faz oito meses de intervalo, estou bem mais tranquilo e conseguindo lidar com as coisas de maneira muito melhor, controlar meu tempo e minhas emoções”, comemora.

DOENÇA RECONHECIDA

Chamada, “gaming disorder”, a dependência de jogos de eletrônicos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição entrou para o CID-11 – a 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças, que padroniza a caracterização e notificação de doenças em todo o mundo – em 2018 e será  formalizada a partir de 1º de janeiro de 2022.

Qualquer semelhança do grupo de apoio recém-formado no Brasil com o estilo da AA, os Alcoólicos Anônimos, não é mera coincidência. A terapia dos viciados em jogos contempla duas reuniões semanais que, por enquanto, ocorrem por Zoom. A expectativa é que até o final do ano ocorra o primeiro encontro presencial começando pelo Rio de Janeiro. O CGAA hoje conta até com um braço no país só para os familiares de pessoas com dependência, que também compartilham seus dramas. Esse formato de tratamento começou a ser desenhado em 2004, quando um grupo de jogadores eletrônicos americanos começou a compartilhar em um fórum online os prejuízos que os jogos estavam causando em suas vidas. Durante dez anos eles foram se organizando e percebendo que a ajuda mútua fazia bem para os participantes.

Em 2014, decidiram que adaptariam os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, que têm como base reconhecer a impotência diante do vício e observar os prejuízos causado por ele. Hoje, o grupo de jogadores conta com centenas de pessoas de várias partes do mundo, com reuniões online em inglês, espanhol, alemão e russo e, agora, em português. Por enquanto, os encontros presenciais estão limitados a algumas cidades americanas.

FRONTEIRA DO VÍCIO

A psicóloga Elizabeth Carneiro, que estuda o Perfil de Jogador Psicológico Brasileiro na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e dirige a Clínica Espaço Clif, considera que os grupos de ajuda mútua são uma boa alternativa para quem se percebe dependente dos jogos, assim como para suas famílias.

“Esses grupos mostram que as pessoas que sofrem de algum tipo de dependência não estão sozinhas, não são as únicas. E as reuniões voltadas para as famílias conseguem ainda orientar os parentes sobre quais tipos de comportamento são normais e quais são patológicos”, explica.

O tempo dispendido em frente ao computador ou celular não é o único sinalizador para se identificar um vício. O problema se estabelece quando o hábito atropela compromissos importantes e a convivência com amigos próximos. Ou então, quando interfere em questões de saúde, como o sono, as refeições e a higiene pessoal.

O problema é definido como um padrão de comportamento, e é caracterizado pela perda de controle sobre o tempo de jogo, sobre a prioridade dada à atividade em detrimento de outras tarefas importantes e a manutenção do vício mesmo quando surgem consequências negativas associadas a ele.

O diagnóstico se aplica quando os prejuízos afetam de forma significativa as áreas pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional e outras ao longo de cerca de 12 meses.

O número de pessoas que jogam games eletrônicos estimado pela Entertainment Software Association, associação comercial da indústria de videogames dos Estados Unidos, é gigante: cerca de 2,6 bilhões em todo mundo. Estudo feito pela Associação Americana de Psiquiatria mostra que cerca de 1% da população mundial sofre com vicio em jogos eletrônicos.

O contingente estimado de dependentes, portanto, é enorme: aproximadamente 80 milhões. Não há dados estatísticos oficiais no Brasil. A incidência maior de jogadores compulsivos está nos países asiáticos.

PERFIL MASCULINO

O perfil de quem sofre de dependência em jogos eletrônicos costuma ser de pessoas do sexo masculino e de classe média (por terem acesso a aparelhos eletrônicos). Normalmente, o interesse pelos games começa na adolescência. Pessoas que apresentam quadros de depressão e baixa autoestima, que tenham uma visão distorcida em relação a si mesmos, estão mais vulneráveis à dependência, já que enquanto jogam eles se sentem validados em alguma dimensão de suas vidas.

“ Os jogos são capazes de ativarem em nosso cérebro mecanismos de recompensa muito rápidos. Por exemplo, eles costumam ter fases. À medida que você consegue ter um brilhantismo em uma etapa e você a conclui, é como se o jogo dissesse que você é incrível, que é um campeão”, afirma Carneiro.

OUTROS OLHARES

PRECISÃO AUMENTADA

Ferramenta que mescla virtual e real é aliada na mesa de cirurgia

Conhecida ferramenta dos videogames, a realidade aumentada ganha cada vez mais espaço nos centros avançados de medicina. Usado para o diagnóstico e tratamento de doenças, esse recurso tecnológico de ponta também tem sido aplicado para dar mais precisão a cirurgias complexas. Agora, é a vez do Brasil começar a explorar o potencial desse novo tipo de aliado.

Basicamente, o que a realidade aumentada (RA) faz é aprimorar o ambiente do mundo real por meio de um software. Um exemplo popular é o Pokémon Go, o aplicativo de smartphone que virou febre há alguns anos. Quem não se lembra das pessoas andando em parques, na vizinhança, na escola e até mesmo no escritório “caçando” personagens que aparecem na tela como se estivessem bem na sua frente?

O que a torna especial e útil para a medicina é o fato de a tecnologia ser capaz de mesclar imagens virtuais com o mundo real, incluindo objetos e pessoas. Isso significa que um cirurgião pode ir para a sala de cirurgia e, em vez de olhar para baixo e ver apenas a perna inchada do paciente, ele consegue enxergar a localização exata da fratura antes de fazer uma única incisão.

Uma das mais recentes novidades no país é capitaneada pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. O centro desenvolveu um software que orienta os médicos antes de procedimentos cirúrgicos delicados. A ferramenta consiste em inserir a imagem gerada pela tomografia de um paciente no mundo virtual e transformá-la em um holograma 3D que pode ser navegado e manuseado pelo médico.

PASSEIO VIRTUAL

Para visualizar a imagem gerada virtualmente, o profissional precisa usar óculos especiais, que lembram a aparência daqueles utilizados no cinema 3D. Na prática, é como se ele “entrasse” no exame e visse o problema com o qual irá lidar no centro cirúrgico, como um nódulo ou um vaso, de forma hiper-realista. Essa informação visual impacta nas decisões que serão tomadas na cirurgia, já que permite ao médico ver a área que será operada de forma ampliada.

O recurso pode ser usado em várias áreas da medicina.

“Se o paciente, por exemplo, tem um câncer aderido ao fígado, com a ajuda dessa ferramenta, o cirurgião consegue “manusear” o tumor e observá-la de todos os ângulos ante, de abrir o paciente. Isso ajuda a ver onde o tumor está aderido, assim como as estruturas em volta. Isso ajuda a tornar o procedimento mais seguro, mais preciso e mais rápido”, diz o cirurgião cardiovascular Rafael Otto Schneidewind, um dos idealizadores da ferramenta.

A ideia é que o  procedimento passe em breve a ser usado durante a operação.

“Queremos colocar a realidade aumentada dentro do centro cirúrgico. Por exemplo, quando um paciente com trauma chegar na emergência, o cirurgião ortopédico não precisará perder tempo. Em vez de ir à tomografia ver a imagem no computador, ele já coloca os óculos, liga a imagem, vê onde está fraturado, rasgado e opera”, explica Schneidewind.

Quando estão com o software desligado, os óculos têm a lente transparente, como uma versão normal, o que permite a realização da operação sem distrações. A expectativa é que o recurso de RA já possa estar em uso no dia a dia do hospital no segundo semestre de 2022.

“Os óculos não interferem em nada na cirurgia, mas no jeito em que o cirurgião visualiza a imagem. É possível fazer uma analogia com a aviação. No começo da Lufthansa (empresa aérea alemã), eles voavam de Colônia a Frankfurt olhando o trilho do trem. Hoje o piloto aperta um botão e o avião pousa em Frankfurt. O computador (que mostra a imagem da tomografia) e a realidade aumentada podem fazer a mesma função, só que de maneira totalmente diferente. Com essas ferramentas, a informação chega com melhor qualidade ao cirurgião, deixa a cirurgia mais segura e mais rápida”, explica.

CIRURGIA PIONEIRA

Esse tipo de ferramenta já está disponível nos Estados Unidos. Em junho de 2020, neurocirurgiões da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, anunciaram a primeira cirurgia de realidade aumentada. Um médico usou a tecnologia para ajudar a colocar seis parafusos na coluna vertebral de um paciente com dores severas. Ela foi ainda utilizada em um segundo procedimento, para remover um tumor na coluna de outra pessoa. Tecnologias semelhantes foram testadas em uma parceria da Imperial College London com a Microsoft, na Universidade do Alabama com a Universidade Emory e o Google e na Universidade Stanford.

Há casos em que a realidade virtual se torna importante para o diagnóstico. Schneidewind conta o caso de uma paciente que chegou ao hospital com sangue em volta do coração, o que é chamado de tamponamento cardíaco. Foi feita uma tomografia, mas o exame, não mostrou nada estranho. Durante a cirurgia feita para drenar o líquido, os médicos também não encontraram a fonte do problema.

Quando eles decidiram utilizar a realidade aumentada, descobriram que havia um objeto de cerca de 10 centímetros, que parecia uma faca, no pulmão da paciente. Ao questioná-la, a equipe descobriu que era, na verdade, um pedaço de vidro que estava alojado no local há mais de 20 anos, quando ela sofreu um acidente. Com o tempo, o objeto se movimentou e furou a veia cava.

“Se não tivesse a realidade aumenta e a virtual, não seria possível identificar o objeto sem ter que abrir a paciente. Nesse caso, o recurso também ajudou a sabermos com precisão onde ele estava localizado e qual era o melhor lugar para a incisão. A cirurgia demorou 40 minutos, mas deveria ter levado muito mais tempo e ter sido multo mais complicada. Mais rápido significa menos dor, menos inflamação e por aí vai”, afirma Schneidewind.

A realidade aumentada tem sido usada há vários anos para treinar estudantes de medicina em cirurgias como a remoção de coágulos sanguíneos. Ou então no treinamento de profissionais e estudantes, chegando a substituir, em alguns casos, o método de dissecção de cadáveres nas aulas de anatomia das faculdades. Na cirurgia robótica, ela é fundamental. O cirurgião, que controla o braço de um robô em um console, depende da câmera posicionada dentro do corpo para fornecer uma ideia da área que está sendo operada.

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DIA 05 DE DEZEMBRO

OUÇA O POBRE, E DEUS O OUVIRÁ

“O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido” (Provérbios 21.13).

O amor não é um sentimento, mas uma ação. Amar apenas de palavras não passa de palavrório vazio. O amor é conhecido não pelo que diz, mas pelo que faz. Não podemos amar apenas de palavras. Nosso amor deve ser traduzido em gestos de bondade. A necessidade dos pobres é um grito contínuo aos nossos ouvidos. Quem socorre o pobre é feliz. A alma generosa prospera. Quem dá ao pobre a Deus empresta. A Bíblia diz que o que dá ao pobre não terá falta, mas o que dele esconde os olhos será cumulado de maldições (Provérbios 28.27). Jesus falou sobre o homem rico que se vestia de púrpura e todos os dias se regalava em banquetes finos. À sua porta jazia Lázaro, um mendigo cujo corpo estava coberto de feridas. Faminto, ele desejava fartar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, mas nem isso recebia. O rico estava tão ocupado com os seus convidados e com o próprio conforto que não tinha tempo nem disposição para ouvir o clamor do pobre. Quando acordou para a realidade, era tarde demais. No inferno, estando em tormentos, clamou por socorro, mas não foi atendido. Fez súplicas, mas elas não foram respondidas. O tempo de fazer o bem é agora. Amanhã pode ser tarde demais. O tempo de ajudar os necessitados é agora. Amanhã a oportunidade poderá ter passado. Aquele, porém, que abre o coração, as mãos e o bolso para ajudar o pobre clamará ao Senhor e será ouvido!

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – VI

ENGENHARIA – A HORA E A VEZ DA LOGÍSTICA

O último ano e meio marcou a grande virada do e-commerce. Mesmo quem ainda torcia o nariz para comprar pela internet já busca até sifão de pia nos marketplaces da vida em vez de sair na rua para procurar por um. A logística para fazer um sifão sair do Espírito Santo e chegar a São Paulo no dia seguinte é, obviamente, espetacular. E, enquanto não inventarem o teletransporte, ela vai demandar cada vez mais, e melhores, engenheiros especializados.

Trabalhar com logística no Brasil é algo particularmente desafiador. O país é do tamanho de metade da Lua (um pouco maior, na verdade), e a maior parte do transporte é por caminhão, em estradas sacolejantes.

Por essas, as empresas não querem só profissionais capazes de tocar competentemente o dia a dia da operação. Estão de olho em gente que busque melhorar os processos o tempo todo – tipo: “Vale fretar um avião para fazer tal rota e garantir a entrega para o dia seguinte? Talvez.

EU ACHO …

O PONTO SEM RETORNO

Depois do ocorrido, nada retornará ao lugar de partida; traduzindo: ‘Agora, ou vai ou racha’

É uma expressão forte. Existe em quase todas as línguas. Na narrativa de um romance, é o fato que marca a personagem para sempre. Ela nunca mais será a mesma depois daquele momento. Pode ser o incêndio de Troia para Eneias, o primeiro amante para Emma Bovary ou o assassinato realizado por Raskólnikov. É o ponto sem retorno… Você, querida leitora e estimado leitor, consegue nomear, de cabeça, lendo aqui, seus dois ou três pontos -chave, ou plot-points, da sua biografia?

o conceito virou álbum de Frank Sinatra. Em outro código, o Fantasma da Ópera anuncia que, dali por diante, ele e Christine tinham cruzado a linha do “point of no return”. A porta do Inferno, na Divina Comédia, diz que não há esperança de volta para quem a cruza. Pessoas amigas (e cultas) utilizavam a infração grave da lei por Júlio César para o mesmo significado. Atravessar o Rio Rubicão com tropas era interditado a um comandante latino. César o fez e ainda declarou que a sorte estava lançada. Quem se lembra do brocado em latim, certamente, tem pouco colágeno e muitos pontos de virada. Traduzindo tudo em linguagem coloquial a ideia: “Agora, ou vai ou racha”.

O que é o “ponto sem retorno”? Trata-se de um gesto que contém tanta energia que cria um efeito impossível de ser detido. É, irreversível. Pode ser uma infração, uma violência grave, ceder a um abuso, submeter-se a um risco grande ou experimentar uma felicidade nova e densa. Depois do ocorrido, nada poderá retornar ao lugar de partida. Funciona como certas rolhas de vinho que saem com grande facilidade e, meia hora depois, jamais cabem de novo no mesmo gargalo do qual foram extraídas sem esforço. Como estavam lá? No espaço de uma taça, o universo se dilatou e você teve de improvisar para lacrar a garrafa.

Tudo na sua vida tem um “ponto sem retorno”.  Citei César e Dante, descerei ao trivial. Eu imaginava, por exemplo, que era um número simbólico na balança: minha massa (ou peso com liberdade poética e não física) ultrapassar, em quilogramas, a barreira dos dois dígitos. Eu temia. Por quê? Achava que, se eu ganhasse dois quilos, perderia em duas semanas. Se eu ganhasse dez quilos, precisaria de uma intervenção maior. Porém, se passasse de cem, daí, a rolha nunca mais retornaria. Bem, uma vez, vi este número em uma balança de banheiro após um mês nas Ilhas Britânicas. Frio, comida, pouca atividade física… Era um fato: três dígitos! O grito foi ouvido até no canal da Mancha. Era o nefando valor, a temida cifra e, pior, já na marca de 101 quilogramas. Não bastasse atingir o décimo de tonelada, ambicioso, o ultrapassou! Meu cérebro buscou respostas rápidas: tenho forte estrutura óssea, pratico esportes e massa magra tem densidade maior, etc., etc. Subterfúgios… Consegui reduzir de novo para os aceitáveis e atuais 92 quilos. Era um habeas corpus. O ponto sem retorno, afinal, tinha tido retorno, mas demonstrou uma capacidade de expansão que passou a me rondar. Sim, querida tonelada, você está, fracionária, no meu horizonte… Meu peso assume o vulto fantasmagórico de um vírus de herpes: um dia, quando você menos espera e a resistência baixa…

Saindo do campo do meu diâmetro, acho que qualquer estudo precisa chegar a um ponto sem retrocesso. São patamares atingidos, pequena estabilidade e uma encruzilhada pela frente. Para sair dali, necessitamos de mais esforço. Explico-me: você começa a estudar piano e aprende, em um ou, no máximo, dois meses, uma valsinha simples. Foi uma vitória! Diferentemente dos estudantes de violino, os de piano tocarão coisas simples, mas afinadas, desde o começo. A nota está lá, pronta. Você chegou a um patamar inicial. Para ultrapassar, para aprender mais, necessita de muito mais esforço. De repente, não mais que de repente, você está tocando um minueto de Bach, do livro de Anna Magdalena. Outro salto! Novo patamar. O progresso implica mais horas, maior dedicação, mais paciência e alguma dor nas costas. Todo aprendizado (inglês, piano, ginástica olímpica) vai chegando a sucessivos e crescentes graus de dificuldade. O drama de aprender, processo permanente, é que todos os pontos têm retorno. No campo das habilidades, não pode retroceder.

Há um Rubicão em cada casamento. Uma amiga minha dizia, soberana e empoderada, ao marido (quando ambos eram jovens): ”Só fique comigo se realmente me amar, sou livre e independente”. Depois, repetiu a ideia na casa dos 35 anos, o ponto que Dante dizia ser o meio do caminho biográfico perdido em selva escura. Por fim, divisando a data em que poderia estacionar em vagas especiais em shoppings, anunciou, taxativa: ”Se você me deixar agora, eu lhe mato”.

É possível ser uma mudança de estratégia em função de demandas do mercado. Pode ser o adágio algo vulgar: “Comeu o filé, agora chupe o osso”! Na prática, todo homem e toda mulher podem ser abandonados ou amados em qualquer idade, algo que só aumenta nosso medo por alguma avaliação de oferta-procura. Não há segurança, apenas muitos rios a atravessar e, quiçá, o momento em que, vencidas as dificuldades ou cansados de questionar, passamos a aceitar que quem foi com Colombo de partida ao Novo Mundo retorna na mesma companhia. Prudente, o amor triunfa por razões muito complexas. Importante ter esperança no amor.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

CÁLCULO PARA DESCOBRIR O IMC SERIA UMA FARSA?

Fórmula que usa altura e peso para concluir se alguém apresenta obesidade está cada vez mais desatualizada, dizem especialistas. Medida pode ser útil para pesquisas, mas não informa composição corporal do indivíduo

A fórmula do IMC é simples, pegue seu peso (em quilogramas) e divida pelo quadrado de sua altura(em metros). O resultado, que aponta quatro categorias principais, destina-se a descrever seu corpo em uma ou duas palavras: baixo peso (IMC menor que 18,5), peso normal (18,5 a 24,9), sobrepeso (25,0 a 29,9) ou obeso (30 ou mais).

Muitos se sentem julgados por essas categorias, visto que apenas cerca de um quarto dos adultos nos Estados Unidos podem se considerar “normais” na escala de IMC. Mas depois de conversar com um epidemiologista, dois médicos especialistas em obesidade, um  psicólogo e um sociólogo, nenhum afirmou que o IMC era uma medida muito útil para a saúde de uma pessoa. Alguns falam até em fraude.

HISTÓRIA LONGA

Introduzido na década de 1830 por um estatístico, belga, o cálculo foi batizado “índice de massa corporal” e popularizado nos anos 1970 pelo fisiologista Ancel Keys. Na época, ele estava irritado com a forma como as seguradoras estavam estimando a gordura corporal das pessoas – e, portanto, seu risco de morte – comparando seus pesos com os pesos médios de outras pessoas da mesma altura, idade e gênero.

Em média, as pessoas com um índice de massa corporal mais alto têm mais gordura corporal, por isso pode ser útil para monitorar as taxas de obesidade, que quase triplicaram globalmente nas últimas décadas. Também guarda uma relação com a mortalidade: IMC muito baixo e IMC muito alto estão associados a maior risco de morrer mais cedo, enquanto as faixas “normal” e “sobrepeso” estão associadas a menor risco de mortalidade.

Como Keys concluiu, o IMC também é fácil e barato de se medir, razão pela qual ainda é usado em pesquisas.

Apesar disso, é “bastante inútil quando se olha para o indivíduo”, disse Yoni Freedhoff, professor de medicina na Universidade de Ottawa.

O IMC não pode dizer, por exemplo, qual porcentagem do peso de uma pessoa é proveniente da gordura, dos músculos ou dos ossos. Isso explica porque atletas podem ter IMC alto, apesar de pouca gordura corporal. E, à medida que envelhecemos, é comum perdermos massa muscular e óssea, mas ganhamos gordura abdominal, uma mudança na composição corporal que seria preocupante para a saúde, mas poderia passar despercebidas e não alterasse o IMC, disse Manson.

A medida também é falha ao prever a saúde metabólica. Em um estudo de 2016 com mais de 40 mil adultos nos EUA, os pesquisadores compararam o IMC das pessoas com medidas mais específicas, como resistência à insulina, inflamação e pressão arterial, triglicerídeos, colesterol e níveis de glicose. Quase metade dos classificados com sobrepeso e um quarto dos classificados como obesos eram metabolicamente saudáveis por essas medidas. Por outro lado, 31% das pessoas com IMC “normal” não eram metabolicamente saudáveis. O IMC pode “rotular uma grande faixa da população como de alguma forma aberrante por causa de seu peso, mesmo se eles forem perfeitamente saudáveis”, disse A. Janet Tomiyama, autora do estudo e professora de psicologia na Universidade da Califórnia.

QUANDO É PREJUDICIAL?

Outro problema com o IMC é que ele foi desenvolvido e validado principalmente em homens brancos, disse Sabrina Strings, professora associada de Sociologia na Universidade da Califórnia, Irvine. Mas a composição corporal e sua relação com a saúde podem variar dependendo do gênero, raça e etnia.

“Mulheres e negros não estão amplamente representados em muitos desses dados. No entanto, eles estão sendo usados para criar um padrão universal”, disse Strings.

O IMC pode ser prejudicial se um médico presumir que uma pessoa com um índice normal é saudável e não questionar sobre hábitos potencialmente prejudiciais à saúde, como uma dieta ruim ou atividade física insuficiente. E se os médicos de pacientes com IMC mais elevados se concentrarem apenas no peso como causa dos problemas que possam ter, eles podem perder diagnósticos importantes, além de estigmatizar os pacientes.

Há muitas evidências de que o estigma de peso é prejudicial, disse Tomiyama. Uma pesquisa mostra que o preconceito contra a gordura é comum entre os médicos, o que pode resultar em cuidados de qualidade inferior e fazer com que os pacientes evitem o atendimento médico.

Essa carga pode recair desproporcionalmente sobre os negros, disse Strings, que, como grupo, tendem a ter IMC mais altos do que os brancos – especialmente as mulheres. No entanto, as evidências obtidas de um IMC mais alto não estão tão relacionadas à morte. Se os médicos se concentram apenas no índice de massa corporal, disse Strings, é mais provável que eles culpem o IMC pelos problemas de saúde de seus pacientes ou aconselhem seus pacientes negros a perder peso.

MEDIDA DA CINTURA

Se você está preocupado com o peso, uma maneira mais direta e relevante de medir a gordura corporal potencialmente prejudicial à saúde é medir a circunferência da cintura, disse Manson. Isso estima a gordura abdominal, que se encontra nas profundezas do abdômen e se acumula ao redor dos órgãos vitais. Em excesso, pode aumentar o risco de certas condições relacionadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e doença arterial coronariana.

Mas na clínica de controle de peso de Freedhoff, ele e sua equipe não definem metas do paciente em relação a IMC, peso nem circunferência da cintura.

“Discutimos algo que chamamos de “melhor peso”, que é qualquer peso que uma pessoa atinge quando está vivendo a vida mais saudável que pode realmente desfrutar”, disse.

Se o peso de um paciente estiver afetando negativamente a saúde ou qualidade de vida, eles explorarão estratégias de perda de peso, incluindo mudanças no estilo de vida, medicamentos ou até cirurgia.

Em vez de focar no tamanho do corpo como um indicador de saúde, Tomiyama disse que os resultados da glicose no sangue, dos triglicerídeos e da pressão arterial podem ser os melhores índices do bem-estar. Como você se sente em seu corpo também é importante.

Se você está buscando uma saúde melhor, deve priorizar um comportamento que segue mais em direção ao controle da dieta e hábitos de vida do que o índice de massa corporal, finaliza Tomiyama, como dormir melhor, mais exercícios, controlar o estresse e comer mais frutas e vegetais”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANVISA DÁ STATUS DE SUPLEMENTO A SUBSTÂNCIA PARA TRATAR INSÔNIA

Versão sintética de um hormônio, melatonina terá venda sem receita

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou ontem o uso da melatonina como suplementação alimentar. Com a mudança, a substância usada para auxiliar o sono poderá ser comercializada sem receita para pessoas a partir de 19 anos, com consumo de até 0,21mg por dia. Antes, a venda só era permitida em farmácias de manipulação, com indicação médica. A decisão da Diretoria Colegiada foi unânime.

Hormônio produzido na glândula pineal, no cérebro, a melatonina ajuda na regulação do  relógio biológico do corpo humano. A produção da substância é desencadeada pela escuridão e interrompida pela luz. O problema é que, na vida moderna, marcada pela iluminação artificial e pelo uso de dispositivos como smartphone, tablet, computador e televisão, esse ciclo é constantemente prejudicado.

Estudos sugerem que a ingestão da versão sintética do hormônio, por meio de suplementos, pode ser útil no tratamento de curto prazo de distúrbios do sono, como o alívio da insônia e do jet lag. Com o aumento de problemas nessa área, seu uso se popularizou como uma forma “natural” de conseguir dormir melhor.

Pela decisão da Anvisa, grávidas, mulheres que amamentam crianças e pessoas em atividades que requerem atenção não devem utilizar a substância.

Segundo a agência, quem tem doenças ou toma medicamentos deve consultar o médico. Classificada como suplemento, a melatonina poderá ser comercializada sem receita médica.

A consulta pública em torno da aprovação da substância como suplemento alimentar começou em abril deste ano. Em 2017, a Anvisa aprovou a venda em farmácias de manipulação. A nova classificação, como a agência explicou em nota, é “destinada à complementação da dieta de pessoas saudáveis com substâncias presentes nos alimentos, incluindo nutrientes e substâncias bioativas, onde se enquadra a melatonina”.

Com a decisão, a substância passa a ter um enquadramento semelhante de países como os Estados Unidos, onde sua autorização pela FDA (responsável pela regulação de medicamentos) permite a venda “over the counter”, ou seja, no comércio comum, sem receita.

“Existe um certo problema (em ser aprovado como suplemento), porque medicamentos têm um controle mais rigoroso de qualidade em termos de pureza do produto, em termos de dosagem, padrão nos lotes”, avalia o endocrinologista Felipe Henning Gaia, membro da Associação Paulista de Medicina (APM).

O Centro Nacional para Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCQH, na sigla em inglês) ressalta que os efeitos colaterais da melatonina podem incluir dor de cabeça, tontura, náusea e sonolência. Também é importante salientar que os suplementos podem interagir com vários medicamentos, incluindo: anticoagulantes e antiplaquetários, anticonvulsivantes, anticoncepcionais, medicamentos para diabetes e imunossupressores. Por isso, embora não seja necessária, é recomendado que seu uso seja feito com orientação médica.

OUTROS OLHARES

LICENÇA “CÃOTERNIDADE” LEVA LONGE DEMAIS O BOOM DOS PETS DA PANDEMIA

Solicitações de tempo para cuidar de animais de estimação adquiridos no lockdown chocam quando milhões ainda não têm licença parental

Um terço dos trabalhadores do Reino Unido pensaria em trocar de emprego a dividir o espaço de trabalho com um colega não vacinado, segundo uma pesquisa de opinião pública que saiu nesta semana.

Mas e se o colega tivesse garras? E uma tendência a babar, rosnar e roubar almoços que fiquem desprotegidos?

Se você achava que as regras que permitiam levar cachorros ao escritório já eram irritantes antes da Covid-19, prepare-se. A explosão na propriedade de animais de estimação causada pela pandemia deve afetar os locais de trabalho de maneiras que antes pareceriam inimagináveis.

Permita-me afirmar que eu não tenho bichos de estimação, mas sou profundamente pró-animais. Se minha casa em Londres fosse maior, eu seria um dos 3,2 milhões de britânicos que adquiriram um bicho de estimação desde que os lockdowns começaram, de preferência um cachorro ou gato – ou, idealmente, um de cada.

Antes da pandemia, eu encarava de maneira muito positiva as regras para animais adotadas por empresas como a Ben & Jeny’s e a Amazon, em cuja sede, em Seattle, 7.000 trabalhadores vão ao escritório acompanhados por seus bichos de estimação.

Nos últimos 18 meses, assisti com inveja a vídeos de colegas expulsando os gatos de perto dos teclados de seus computadores, em reuniões via Zoom. Agora que os escritórios estão começando a reabrir, é perfeitamente compreensível que as hordas de novos proprietários de animais de estimação estejam sofrendo alguma ansiedade diante da perspectiva de abandonar seus companheiros peludos.

Considerando a escassez de mão de obra que existe em muitos lugares, é igualmente compreensível que multidões de empregadores estejam planejando uma reabertura de escritórios à “au- altura.”

Pelos menos metade dos 500 gestores americanos pesquisados por um grupo de hospitais veterinários planeja permitir a presença de animais de estimação nos escritórios, quando estes reabrirem. A maioria deles disse que a decisão tinha sido tomada para atender a pedidos dos subordinados, e em boa parte para ajudar a convencer os trabalhadores a voltar ao escritório.

Para pessoas como eu, essa é uma notícia excelente. Mas e se você não gosta de bichos, é alérgico a eles ou rejeita o conceito de dividir seu espaço com criaturas que não são brilhantes na conversação, têm mau hálito e não são famosas pela disciplina sanitária?

Não admira que uma empresa britânica de serviços para animais de estimação tenha lançado o Petiquette, um serviço cujo objetivo é ajudar os empregadores a adotar regras que facilitem a presença de cachorros sem irritar demais as pessoas que prefeririam não tê-los por perto.

Francamente, não estou convencida de que uma empresa precise de assessoria sobre “estabelecer horários para alimentação e brincadeiras que não interrompam os outros”. Mas a ideia é sensata, em termos gerais.

No entanto, enquanto lia as bobagens de relações públicas da Petiquette, percebi uma coisa: a Pets at Home, a empresa que desenvolveu o serviço, também oferece aos seus empregados uma “licença cãoternidade”. Os empregados ganham um dia de folga quando adotam um novo animal de estimação, para ajudar a criatura a se acomodar.

Benefícios como esse não são novidade. A BrewDog, uma fabricante escocesa de cerveja artesanal, desde o começo de 2017 permite que seu pessoal tire uma semana de licença toda remunerada se o empregado adotar um animal ou um cão de resgate. Isso não impediu que dezenas de empregados da BrewDog assinassem uma carta aberta este ano na qual acusam a empresa de ter “uma cultura podre” e “atitudes tóxicas”.

Empresas demais, especialmente nos Estados Unidos, não oferecem licença maternidade ou licença paternidade pagas.

Mas a ideia de licença cãoternidade decolou durante a pandemia, à medida que a posse de animais de estimação disparava.

Algumas semanas atrás, Roger Wade, presidente executivo da Boxpark, uma empresa britânica de restaurantes “pop­ up” e venda de alimentos, postou uma pesquisa em mídias sociais perguntando o que seus leitores achavam de um trabalhador que tinha lhe pedido licença cãoternidade para cuidar de um cachorro adotado. Meu dedo hesitou sobre o teclado, quando chegou a hora de votar. Quanto mais homens tiverem licença -paternidade, melhor. O enrosco surgido nos Estados Unidos este mês quando Pete But tigieg, secretário federal do Transporte, tirou uma licença para cuidar de seus gêmeos recém-nascidos foi tão desagradável quanto previsível. Também compreendo por que qualquer pessoa que tenha um cachorro novo queira uma licença, e por que pode fazer sentido que uma empresa ofereça grandes benefícios e, crucialmente, licenças maternidade e paternidade generosas para seus empregados. Mas um número excessivo de companhias não o faz, especialmente nos Estados Unidos, o único país rico que não garante licenças remuneradas para as pessoas que acabam de ter filhos. No final do ano passado, só 21% dos trabalhadores americanos tinham acesso a licenças renumeradas quando se tornam pais.

Foi pensando em estatísticas como essa que fiz como 61% dos respondentes da pesquisa e votei contra a concessão de uma licença cãoternidade ao empregado de Wade. Em um mundo mais justo, concedê-la poderia ser razoável, mas por enquanto é um passo grande demais para qualquer pata.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE DEZEMBRO

A CASA DO ÍMPIO É DESTINADA À RUÍNA

O Justo considera a casa dos perversos e os arrasta para o mal (Provérbios 21.12).

A casa do perverso será destruída, e o justo verá isso acontecer. Vem a tempestade e acaba com os maus, porém os honestos continuam firmes no exato momento em que os maus são desamparados. Os perversos se comparam à palha que o vento dispersa. Não têm raízes profundas nem sólido fundamento. Não permanecerão na congregação dos justos nem prevalecerão no juízo. Quando a tempestade chegar, serão arrastados para a ruína. Serão levados pela enxurrada das circunstâncias e não permanecerão de pé. O justo, porém, observa a casa dos perversos e vê os ímpios caminhando rumo à ruína. O justo não apenas vê a ruína do perverso, mas é levantado por Deus como agente do juízo sobre ele. A própria justiça do justo condena a iniquidade do perverso. A própria luz do justo cega os olhos doentes do perverso. A própria santidade do justo denuncia a iniquidade do perverso. As virtudes do justo são a expressão do juízo divino sobre a vida do perverso. O justo, na verdade, é levantado por Deus para ser o instrumento da condenação do perverso. É por intermédio do justo que os perversos são arrastados para o mal. A ruína do perverso será grande, pois sua casa desabará sobre sua cabeça e, nesse dia, ele ficará completamente desamparado.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – V

TECNOLOGIA – GUERRA POR TALENTOS

O mercado de trabalho para tecnologia está aquecido desde a invenção da roda, e segue se provando indestrutível. “Mesmo dentro de um cenário de pandemia, a busca por profissionais de TI não cessou. Muito pelo contrário. Todos os setores econômicos estão em processo de transformação digital e demandam por pessoas para trabalhar com tecnologia”, diz Wagner Sanchez, diretor acadêmico do Centro Universitário FIAP.

O interesse pelos melhores profissionais é tanto que, não raro, quem dita as regras do jogo são os candidatos. Muitas vezes, uma mesma pessoa está participando de mais de um processo seletivo ao mesmo tempo, e ela não vai ter medo de recusar uma proposta pouco interessante. Isso causa guerras entre companhias para atrair e reter os melhores da área.

Muitas vezes, a briga é entre empresas de países diferentes. A pandemia quebrou de vez as poucas barreiras geográficas que ainda haviam no mercado de tecnologia. “Agora, as disputas por talentos são com empresas de fora, principalmente por causa da alta do dólar. As companhias do exterior perceberam que elas conseguem contratar mão de obra brasileira de alta qualidade por um custo bem mais baixo”, afirma Mariana Horno, da Robert Half.

HACKER DO BEM

Quando começou a faculdade de Direito, Daniel Zaia Manzano (33 anos) nem imaginava cair na área de TI. “No meio do curso, percebi que gostava de informática e decidi mudar de carreira”, relembra o paulistano. Daniel é um pent ester – também conhecido como “hacker do bem”. O seu trabalho é simular ataques a sistemas de segurança de empresas e bancos para encontrar vulnerabilidades. O desafio, ele diz, é estar atualizado com tudo que envolve ferramentas-antifraude e tentativas de golpes (porque o que não falta aí é novidade). E Daniel lembra que não tem mais essa de o profissional aprender tudo sozinho. “A formação acadêmica é importante para dar uma base teórica e também existem certificações importantes para a área [como o CSSP, destinado para quem trabalha com segurança de rede; e o OSCP, sobre ética de hacking]. Ser autodidata hoje significa ser curioso e buscar novos conhecimentos, mas sem pular a educação tradicional”.

EU ACHO …

TANTO TUDO

Você sabe que os anos estão passando quando não identifica mais quem são as pessoas que a maioria da população admira. Há um sem-número de ídolos populares que, se entrassem num elevador comigo, eu não faria ideia de quem seriam, enquanto, para seus fãs, compartilhar com eles os poucos segundos entre o térreo e o décimo andar ressignificaria a vida. Muitos artistas estão neste exato instante quebrando recordes no Spotify e fazendo lives acompanhadas por milhões de seguidores, e ao ouvir seus nomes pela primeira vez, eu talvez os confundisse com algum ex-colega de faculdade.

Parece absurdo que alguém nunca tenha escutado a respeito de Anitta, por exemplo, mas há pouco tempo, um advogado me perguntou quem era. Fiquei chocada. De que planeta você veio?  Pode-se gostar ou não gostar, mas jamais ter ouvido falar de Anitta? Só então me dei conta de que eu estava caindo na armadilha comum de achar que, se alguém ignora a existência de uma celebridade, não passa de um esnobe.

O showbiz mudou. Antigamente, as capas de revista consagravam carreiras. A televisão era o eletrodoméstico mais importante da casa. Todo mundo conhecia o rei do iê iê iê, o galã da novela, a miss de cetro e coroa. Eram intocáveis, distantes, quase sobrenaturais – pois raros.

Hoje você grava um vídeo caseiro, posta na internet, cai na graça de uns, viraliza e dentro de um ano pode estar morando numa mansão, e quem vai dizer que o valor passou ao largo?

Quase sempre o êxito vem do talento artístico, mas pode vir também do faro para tendências, para criar conteúdo motivacional, para fazer dinheiro nas redes – algum talento toda pessoa tem, é só descobrir qual e como usá-lo, manejando as ferramentas que dispõe. A frase célebre de Andy Warhol não caducou pelo sentido, e sim pela duração: 15 minutos, hoje, é uma eternidade, mas uns poucos segundos de visibilidade estão garantidos a todos.

Nós, os sobreviventes da era analógica, não conseguimos acompanhar tanta novidade circulando pelo palco digital. Eu, ao menos, admito a lentidão que me domina: cultivo paixões antigas e algumas atuais, e já me perdoei por, mesmo trabalhando num veículo de comunicação, não conseguir estar informada sobre tudo e sobre todos. Não conhecia Marília Mendonça. De que planeta eu vim?

De outro século e deste aqui, vim lá de trás e de hoje cedo, administro como posso o meu passado e este presente intenso, me espanto com a oferta atordoante de eventos e existências, tantas que nem todas são por mim assimiladas. Ainda assim, junto-me aos lamentos. Toda morte é trágica, ainda mais de jovens que deixam órfãos uma família, amigos, fãs e um futuro. Não é esnobismo, não, é esse tempo agora, voraz.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br  

ESTAR BEM

ENTENDA COMO OS HORMÔNIOS INFLUENCIAM A ATIVIDADE FÍSICA

Pesquisadores descobriram que o estrogênio é responsável por ativar genes ligados ao ato de se movimentar

O estrogênio tem o poder de alterar a atividade cerebral de maneiras que podem afetar o quão fisicamente ativos nós somos, aponta novo estudo realizado com camundongos que analisou o DNA, os hormônios e as células cerebrais. Por meio de tecnologias avançadas para localizar e reprogramar genes específicos e neurônios em animais vivos, o estudo,  publicado recentemente na revista cientifica Nature, descobriu que doses de estrogênio   desencadearam processos no cérebro dos animais – até mesmo machos ­ que os tornaram mais ativos.

Embora os humanos compartilhem muitos dos mesmos hormônios, genes e neurônios com os camundongos, nós não somos roedores e não podemos ainda dizer se nossos cérebros e sistemas fisiológicos funcionam da mesma maneira. Mas as descobertas abrem  caminhos de pesquisa sobre porque muitas mulheres se tornam menos ativas após a menopausa, quando o estrogênio desaparece.

Os resultados também destacam como o cérebro e processos biológicos internos trabalham juntos para desempenhar um papel inesperado e substancial na ação do corpo em se levantar e se mover, ou em permanecer quase imóvel. Por quase um século, desde um famoso estudo de 1924 envolvendo ratos, cientistas sabem que as fêmeas dos mamíferos tendem a estar fisicamente mais ativas logo antes da ovulação, quando também estão mais sexualmente ativas. Esse comportamento faz sentido do ponto de vista evolutivo, uma vez que as fêmeas estariam à caça de um parceiro. Nas décadas seguintes, pesquisadores começaram a especular que o estrogênio deveria ter um papel motor nesse comportamento, com estudos subsequentes indicando que as oscilações diárias de fêmeas de animais criados em laboratórios normalmente aumentavam e diminuíam junto com seus níveis de estrogênio.

Mas como poderia o estrogênio, cuja função primária é controlar a ovulação e outros aspectos da reprodução, influenciar a atividade física? Esse quebra-cabeça chamou a atenção de Holly Ingraham, professora de fisiologia da Universidade da Califórnia, em São Francisco, nos EUA, que há anos pesquisa fisiologia e metabolismo das mulheres. Ela e seus colaboradores se perguntaram se o estrogênio poderia, de alguma forma, moldar a atividade genética no cérebro, o que não ativaria as células cerebrais de uma maneira que acionaria o próprio ato de se mover.

Para investigar essa possibilidade, os cientistas primeiro reuniram um grupo de ratos fêmeas adultas e saudáveis e então bloquearam quimicamente a absorção de estrogênio em alguns deles, enquanto rastreavam o quanto os animais se moviam. Quase imediatamente, os animais sem estrogênio tornaram-se visivelmente mais sedentários do que os demais, confirmando que o estrogênio de alguma forma afeta a atividade física.

ATRÁS DAS CÉLULAS

Em seguida, os pesquisadores examinaram a atividade de uma série de genes  nos cérebros dos animais e perceberam que um específico bombeava proteínas extras na presença de estrogênio, mas ficavam quase inertes quando ele estava ausente. Esse gene, o melanocortina-4, ou Mc4r, já era associado, em pessoas, à ingestão de alimentos e à regulação do peso corporal. Mas os cientistas agora indicam que ele também pode ser a ponte entre o estrogênio e o impulso para ser fisicamente ativo, uma ideia que eles fundamentaram utilizando técnicas de mapeamento genético de alta tecnologia por uma das autoras do estudo, Jéssica Tollkuhn, professora do Laboratório da Escola de Ciências Biológicas Cold Spring  Harbo em Nova York, nos EUA.

Essas técnicas mostraram, em tempo real, o estrogênio se ligando aos genes Mc4r em  certos neurônios, especialmente aqueles em uma parte do cérebro do camundongo envolvido no gasto de energia. No final, o experimento mostrou o estrogênio disparando um gene especifico, que, por sua vez, ativa certas células cerebrais que, então, são esperadas que estimulam o animal a se mover.

Mas os cientistas ainda não haviam observado esses genes e neurônios em ação. Então utilizaram uma técnica chamada quimiogenética para galvanizar diretamente os neurônios relevantes nas fêmeas de camundongos criados para não produzir estrogênio. Antes fisicamente lentos, esses ratos agora exploravam, levantavam-se, brincavam e corriam muito mais que antes.

De forma semelhante, quando os cientistas utilizaram uma forma da tecnologia de edição de genes para estimular a atividade do gene Mc4r nos cérebros das fêmeas, os ratos tornaram-se quase duas vezes mais ativos do que antes, um surto físico que persistiu por semanas. Até camundongos machos se moveram mais quando sua atividade do gene Mc4r era aumentada, embora não tanto quanto as fêmeas.

O estudo também levantou a intrigante possibilidade de que o “momento do exercício, para ter seu impacto mais benéfico para as mulheres, pode ser ajustado considerando as mudanças no ambiente hormonal” incluindo as alterações da menopausa, disse Tomas Horvath, professor de neurociência, obstetrícia e ginecologia na Escola de Medicina da Universidade de Yale.

“É claro que todas essas observações em camundongos precisam ser confirmadas se operam em nós, humanos. No entanto, o fato de que esse mecanismo é encontrado em uma parte antiga do cérebro sugere que ele deve ser aplicável à maioria dos mamíferos, incluindo os humanos”, disse Horvath, que não estava envolvido na pesquisa.

SIMULAÇÃO DE ESTROGÊNIO

Ingraham concordou. “Nós presumimos que esse circuito funcione em humanos também”, disse, e, se for o caso, o novo estudo pode ajudar a explicar, em parte, porque a inatividade tão comum em mulheres depois da menopausa, e, também oferecer algumas possíveis estratégias para superar esse cansaço. Aumentar os níveis de estrogênio em mulheres mais velhas, por exemplo, pode, em teoria, estimular mais movimento, embora a terapia de reposição de estrogênio continue um assunto complicado por causa dos riscos elevados de câncer e outros problemas.

O estudo sugere, no entanto, que poderia, eventualmente, ser possível contornar o estrogênio e recriar seus efeitos com novas terapias que visariam diretamente o gene Mc4r, ou neurônios relevantes, e simular os efeitos do estrogênio sem o hormônio em si. Qualquer avanço médico, porém, está no futuro, diz Ingrahm

“Sabemos a importância de se exercitar mais tarde na vida para promover e manter a saúde, então o desafio para nós agora e entender as melhores maneiras de permanecer   ativo durante a grande transição hormonal que é a menopausa”, disse Paul Ansdel, professor de fisiologia do exercício na Universidade de Northumbria, na Inglaterra. “Conhecimento é poder”, concluiu lngraham. Ela observou que, como muitos de nós estamos vivendo mais agora, entender melhor porque – e se –  escolhemos nos mover pode ajudar a tornar esses anos mais saudáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO E ANSIEDADE AFETAM O CORPO DE MODO GRAVE

Organismo humano não reconhece a separação que os médicos fazem entre as doenças mentais e as físicas

Não causa surpresa quando uma pessoa fica ansiosa ou deprimida ao ser diagnosticada com doença cardíaca, câncer ou outro problema físico que limite ou ameace sua vida. Mas o contrário também pode ser verdade: a ansiedade ou a depressão em excesso podem contribuir para o desenvolvimento de uma doença física séria e até impedir a capacidade de suportá-la ou de se recuperar.

As potenciais consequências são especialmente oportunas, porque o estresse atual e as disrupções da pandemia continuam impondo um peso à saúde mental.

O organismo humano não reconhece a separação feita pelos médicos entre doenças mentais e físicas. Ao contrário, a mente e o corpo formam uma via de mão dupla. O que acontece dentro da cabeça de uma pessoa pode ter efeitos nocivos por todo o corpo, assim como o inverso. Uma doença mental não tratada pode aumentar de maneira significativa o risco de a pessoa adoecer fisicamente. e problemas físicos podem resultar em comportamentos que agravam as condições mentais.

Em estudos que acompanharam pacientes com câncer de seio, por exemplo, o doutor David Spiegel e seus colegas na escola de medicina da Universidade Stanford mostraram, décadas atrás, que as mulheres cuja depressão estava diminuindo viviam mais que aquelas cuja depressão estava se agravando.

Sua pesquisa e outros estudos mostraram claramente que “o cérebro está intimamente conectado ao corpo, e o corpo ao cérebro”, disse Spiegel. “O corpo tende a reagir ao estresse mental como se fosse um estresse físico”.

Apesar dessa evidência, ele e outros especialistas dizem que o transtorno emocional crônico muitas vezes é desprezado pelos médicos. É comum um profissional prescrever  uma terapia para problemas físicos, como doença cardíaca ou diabetes, mas não entender porque alguns pacientes pioram em vez de melhorar.

Muitas pessoas relutam em buscar tratamento para problemas emocionais. Algumas podem ter medo de ser estigmatizadas e tentam tratar o transtorno emocional adotando comportamentos como beber demais ou usar drogas.

E as vezes parentes e amigos inadvertidamente reforçam a negação de transtorno mental de uma pessoa rotulando-o como “é apenas o jeito dela”, e não fazem nada para incentivá-la a buscar ajuda.

Os transtornos de ansiedade afetam quase 20% dos adultos nos EUA. Isso significa que milhões de pessoas são alvo de uma abundância de reações de “lutar ou fugir”, que preparam o corpo para agir.

Quando você está estressado, o cérebro responde provocando a liberação do hormônio cortisol, o sistema de alarme da natureza. Ele evoluiu para ajudar os animais a enfrentarem ameaças, aumentando o ritmo da respiração e dos batimentos cardíacos e redirecionando o fluxo de sangue dos órgãos abdominais para os músculos que ajudam a enfrentar ou escapar do perigo.

Essas ações protetoras derivam dos neurotransmissores epinefrina e norepinefrina, que estimulam o sistema nervoso simpático e colocam o corpo em alerta. Mas, quando eles são invocados com demasiada frequência e de maneira indiscriminada, o superestímulo crônico pode resultar em todos os tipos de males físicos, incluindo indigestão, caibras, diarreia ou constipação, e um risco maior de ataque cardíaco ou derrame.

É normal se sentir deprimido de vez em quando, porém mais de 6% dos adultos têm sentimentos tão persistentes de depressão que eles perturbam os relacionamentos pessoais, interferem no trabalho e na diversão e prejudicam a capacidade de enfrentar os desafios do dia a dia.

Para potencialmente agravar as coisas, o excesso de ansiedade e a depressão muitas vezes coexistem, deixando as pessoas vulneráveis a uma série de problemas físicos e incapazes de adotar e manter a terapia necessária. A ansiedade persistente e a depressão são altamente tratáveis com medicamentos e terapia, mas sem tratamento essas condições tendem a se agravar.

Segundo o doutor John Frownfelter, o tratamento de qualquer condição funciona melhor quando o médico entende “as pressões que o paciente enfrenta que afetam seu comportamento e resultam em danos clínicos”.

Frownfelter é diretor médico de uma startup chamada Jvion, que usa inteligência artificial para identificar não somente fatores médicos, mas psicológicos, sociais e comportamentais que podem impactar a eficácia do tratamento para a saúde do paciente. Seu objetivo é promover abordagens mais holísticas do tratamento, que lidam com o paciente inteiro, corpo e mente combinados.

As análises usadas por Jvion podem alertar um médico quando a depressão subjacente talvez esteja prejudicando a eficácia do tratamento prescrito para outra condição. Por exemplo, pacientes que são tratados de diabetes e se sentem desanimados podem deixar de melhorar porque tomam a medicação prescrita apenas esporadicamente e não seguem a dieta adequada, disse Frownfelter.

“O que não falamos o suficiente é que a depressão pode levar a doenças crônicas. Pacientes com depressão podem não ter motivação para se exercitar regularmente ou cozinhar refeições saudáveis. Muitos têm dificuldade para dormir adequadamente”, escreveu  Frownfelter em julho na revista Medpage Today

Algumas mudanças no atendimento médico durante a pandemia permitiram o acesso a psicoterapeutas que podem estar em outro país. Os pacientes também podem conseguir se tratar sem a ajuda direta de um profissional.

Spiegel  e seus colegas criaram um aplicativo chamado Reveri, que ensina as pessoas técnicas destinadas a melhorar o sono, reduzir a dor e a suprimir ou abandonar o fumo.

OUTROS OLHARES

AUMENTA PROPORÇÃO DE CRIANÇAS COM ATÉ 13 ANOS VÍTIMAS DE ESTUPROS NO BRASIL

Com denúncias em queda na pandemia, faixa etária chegou a 60,6% dos casos

“Eu tinha um ódio tão grande”, lembra Nair, 41, ao relatar os abusos sexuais de seu tio, que começaram quando ela tinha 12 anos. “Virei a filha rebelde e comecei a me prostituir.”

Carolina , 31, e um ano mais nova do que Nair quando seu padrasto começou os abusos, que só pararam quando ela tinha 15 e fugiu de casa. Com um filho de 3 anos, ela voltou a dividir o teto com o abusador, que continua casado com sua mãe. “É complicado”.

Nair e Carolina (que pediram para ter sua identidade protegida) se somam a dezenas de milhares de vítimas de estupro no Brasil – as mulheres são 86,9% de todos os casos registrados no país. Assim como as duas, 85,2% delas conheciam o autor do abuso e 60% foram agredidas dentro de casa, com menos de 19 anos.

Entre as crianças de até quatro anos, vai a 70% o total dos crimes cometidos na própria residência. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, feito com e nos boletins de ocorrência registrados nos estados em 2020.

De acordo com o Código Penal Brasileiro, o crime de estupro é definido como “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.”

Se a vítima for menor de 14 anos ou se, “por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato”, fica tipificado o estupro de vulnerável. E esses são 73,7% dos casos, de acordo com os números mais recentes.

Os levantamentos mostram que o crime vem ocorrendo com vítimas cada vez mais jovens: o percentual de crianças de até 13 anos entre os registros passou de 57,9% em 2019 para 60,6% em 2020. Isso apesar de uma queda no total de denúncias durante a pandemia – foram 60.460 casos no ano passado, contra 69.886 no período anterior.

Para os especialistas, no entanto, a diminuição tende a estar relacionada mais à dificuldade de procurar uma delegacia devido ao isolamento social do que à redução no número de crimes.

“Para além dos efeitos mais visíveis e imediatos desta violência”, descreve o anuário, “vítimas da violência sexual com frequência sofrem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade, transtornos alimentares, distúrbios sexuais edo humor, maior uso ou abuso de álcool e drogas, comprometimento da satisfação com a vida, com o corpo, com a atividade sexual e com relacionamentos interpessoais.”

Na Paraíba, por exemplo, uma adolescente de 15 anos tentou matar o filho de 4 anos, fruto do abuso sexual cometido pelo padrasto. “É uma pessoa com conflitos enormes no seu psiquê”, contou a promotora da Infância Ivete Arruda à mídia local. “Ela enxergava o agressor quando via o menino. Quando olhou para ele, veio à mente tudo o que ela tinha vivido em relação ao padrasto, as agressões, os estupros, o que ela ouvia da mãe.”

De acordo com Arruda, a situação foi um pedido de socorro. “É uma bandeira de SOS que ela levanta, por tudo que passou. Ela ama o filho. Já externou isso diversas vezes, mas o sentimento era de tirar tudo da vida dela para que a dor sumisse.”

O caso reitera a avaliação de que os efeitos dos abusos de crianças deixam “marcas por toda a vida”, como afirma o anuário. “Trata-se de uma geração de crianças e adolescentes marcada de forma definitiva e que tem as suas oportunidades, que nesse período deveriam ser maximizadas, profundamente prejudicadas.”

No caso de Nair, o abuso significou, além da dificuldade de se relacionar com outras pessoas, dez anos na prostituição. Carolina, por sua vez, relata ter ficado desestabilizada por muito tempo, tanto financeira quanto emocionalmente. Hoje, com um filho de 3 anos com deficiência intelectual, ela está desempregada e vive do auxílio pago ao menino pelo governo.

Líder na incidência de estupro de vulnerável no Brasil, Mato Grosso do Sul, onde vivem Carolina e Nair destoou da tendência nacional de queda vista em 202 com uma taxa de 57,5 casos por 100 mil habitantes (alta de 4,5% mesmo em ano de pandemia).

Umas das vítimas desse tipo de crime no estado neste ano foi Raissa da Silva Cabreira, 11, moradora da aldeia Bororó, em Dourados, a 130 km da capital, Campo Grande. Ela sofreu um estupro coletivo e foi morta ao ser jogada de uma pedreira. Um dos autores foi seu tio, Elinho Arévalo, que abusava sexualmente de Raissa desde que ela tinha 5 anos – ele foi morto na cadeia.

O caso na aldeia Bororó expõe a dificuldade de lidar com os abusos de indígenas em Mato Grosso do Sul, que tem grande quantidade de assentamentos e aldeias.

“A gente tem a segunda maior população indígena do Brasil em Mato Grosso do Sul, e os índices de violência e vulnerabilidade de meninas e mulheres  indígenas são muito altos”, explica a subsecretária Estadual de Políticas Públicas para Mulheres, Luciana Azambuja. “É muito delicado ter uma política pública que atenda a todos os grupos, precisa ter especificidades. A gente precisa falar em guarani, em espanhol na fronteira,”

Para tentar enfrentar o problema, o estado trabalha com uma estrutura de acolhimento das vítimas em diferentes órgãos públicos. Entre as iniciativas, está a chamada sala lilás, implantada no Instituto Médico Legal desde 2017.

O modelo foi importado do Rio Grande do Sul e visa dar um atendimento mais humanizado às vítimas de violência sexual, com espaço exclusivo para crianças. Além do IML, a sala tem sido replicada em delegacias de cidades de pequeno e médio porte. Em Sidrolândia, a 70 km da capital, houve aumento de 40% na procura pela delegacia com o atendimento especializado.

“Quando tem um órgão especializado, encoraja as mulheres, e o número de denúncias cresce”, explica a subsecretária. Até agora, foram sete salas instaladas pelo estado e outras 10 estão para serem inauguradas. Além disso, há 12 Delegacias de Atendimento Especializado à Mulher (Deam), que atendem quase metade dos municípios. Dentro dessas delegacias, explica a delegada Joilce Ramos, que atua em Campo Grande, a preocupação é não revitimizar os menores de idade, que são atendidos nos horários em que a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente não está aberta. Por isso, é ouvido apenas o acompanhante para um relatório preliminar e a criança ou o adolescente dá seu depoimento a um psicólogo em outro momento.

Um profissional da área também faz a avaliação de mulheres vítimas de estupro. “Geralmente, não tem testemunha, e a palavra da vítima tem preponderância”, explica Joice sobre o trabalho do psicólogo para descobrir se o crime aconteceu. Integram essa rede de acolhimento iniciativas como a Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande, a primeira a ser instalada no país, e o Núcleo da Infância e Juventude dentro do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que trabalha para auxiliar o trabalho dos promotores ao lidar com casos como o do abuso sexual de menores. Ainda assim, a promotora Fabrícia Lima, que coordena o núcleo, destaca que um dos desafios é a integração dessa rede.

Além de impactar as denúncias, as restrições impostas pela pandemia tiveram reflexos nos trabalhos de prevenção. Algumas ações foram mantidas de forma virtual, como o site Não se Cale, que reúne campanhas de informação e links para denúncias. “Seria ótimo se todas tivessem internet, mas não é a realidade da maio parte das mulheres mais vulneráveis”, diz a subsecretária. O retorno das crianças às aulas presenciais também veio acompanhado pelo aumento no número de relatos – as escolas têm papel decisivo na identificação de casos de violência. “Nesse momento em que as crianças possivelmente estiveram mais expostas a situações mais delicadas e que mais precisavam de ajuda, algumas das possíveis portas de entrada das denúncias, como as escolas, estavam fechadas”, diz o anuário.

Na escola Manoel Bonifácio Nunes da Cunha, de ensino integral em Campo Grande, a diretora Lusimeire Gonçalves já registrou duas situações de violência em casa desde o retorno das crianças às aulas. “O grande desafio é quando descobre quem é, e muitas vezes é alguém tão próximo”, diz.

Essa proximidade dos abusadores com as vítimas foi destacada no Anuário de Segurança Pública. “Quando tratamos de violência contra crianças e adolescentes, os dados são preocupantes, pois indicam que são familiares e outras pessoas do círculo íntimo destas os principais autores de abusos e violações de caráter sexual.”

Soma-se a isso a falta de acolhimento de quem deveria proteger e acreditar na vítima, como no caso de Carolina. “O maior desconforto é em relação aos cuidadores, quem não acreditou (no abuso)”, explica a psicóloga Roseneia Martines, que atua no Projeto Nova, de atendimento a vítimas de violência sexual, onde Carolina e Nair receberam acompanhamento. “Normalmente é a figura materna que não foi o suporte necessário. E a parte mais difícil, mais do que falar do próprio abuso, é a dor do abandono:· “Eu convivo com a pessoa, a minha mãe não se separou dele e está casada até hoje”, conta Carolina. “Então não foi difícil, ainda é.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE DEZEMBRO

O CAMINHO DO APRENDIZADO

Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio; e, quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento (Provérbios 21.11).

O processo de ensino-aprendizado não é assimilado por todos da mesma maneira. O escarnecedor é castigado e nada aprende. O simples só aprende com a experiência amarga dos outros. Já o sábio, por intermédio da instrução, encontra o conhecimento e alcança a sabedoria. É triste quando um indivíduo chega a um ponto tal de embrutecimento que, mesmo sendo castigado, não aprende nada. A vara da disciplina já não molda mais seu caráter. Essas pessoas serão quebradas repentinamente sem chance de cura. Quem age assim torna-se pior do que o cavalo e a mula, que, embora irracionais, obedecem ao freio. As pessoas sem experiência aprendem uma lição quando o zombador é afligido e castigado. Esse é o aprendizado de segunda mão. Palavras não bastam; uma ação radical ou um revés na vida de alguém é necessário para fazê-lo aprender uma lição de sabedoria. Atitude completamente diferente tem o sábio. Ao ser instruído, ele tem a mente aberta para aprender, o coração disposto a obedecer e a vontade ágil para ensinar o que aprendeu. O néscio nada aprende. O simples depende dos outros para aprender. O sábio tem pressa para ouvir a instrução e receber o conhecimento.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – IV

MERCADO FINANCEIRO – MAIS TRABALHO PELA FRENTE

Só neste ano, 40 empresas já engrossaram a lista de companhias com capital aberto no Ibovespa. Bom para elas, que estão captando mais dinheiro, e ainda melhor para os profissionais que trabalham com equity research. Essa é uma área comum dentro dos bancos e corretoras, e desempenha um papel essencial: estudar os fundamentos de uma empresa para determinar se ela é ou não uma boa opção de investimento, e analisar a flutuação do preço das ações, para saber se vale ou não vale comprar tal papel. Hoje, com cada vez mais empresas para acompanhar e cada vez mais pessoas físicas investindo em ações, cresce também o número de casas de análise – que não são bancos nem corretoras, apenas instituições que fornecem relatórios sobre o mercado. Algumas delas contam com dezenas de analistas.

Mesmo porque escarafunchar balanços e formular análises sobre o desempenho de um setor ou de uma empresa para o futuro não é um trabalho simples – nem uma ciência exata. Chovem erros. E isso é bom: torna os melhores analistas um ativo particularmente valioso. Vale destacar que, para atuar no mercado financeiro, é obrigatório que o profissional tenha algumas certificações. Elas variam de acordo com a atividade exercida. Para quem quer ser analista, por exemplo, o CNPI é indispensável. Mas também tem o CPA, que é destinado para funcionários de bancos e corretoras que lidam diretamente com clientes; e até certificados internacionais, que não são obrigatórios, mas dão um gás na carreira, como CIIA (Certificado Internacional de Analista de Investimentos).

“MEU TRABALHO É ESTUDAR”

Eduardo da Rocha Lopes, de 27 anos, se formou em engenharia mecânica em Niterói (RJ). Como a região abriga empresas de óleo e gás, o mineiro começou a carreira nesse setor, mas sempre com vontade de aprender economia. “Eu gostava de mercado financeiro, mas não tinha ideia de como atuar na área. Até que, em 2019, soube que o Santander estava contratando engenheiros e vi uma oportunidade de mudar minha carreira.” Lá no banco, ele atuava como analista de produtos, mas o seu sonho era entrar na área de equity research. Para Isso, começou a estudar sobre o mercado e a tirar os certificados necessários. E, no ano seguinte, foi contratado como analista de equity research na Santa Fé Investimentos. “Meu trabalho é estudar. Eu passo o dia todo pesquisando sobre empresas e os setores em que elas atuam. Para quem quer trabalhar com isso, é essencial que seja curioso e tenha vontade de aprender.”

EU ACHO …

MATAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

Pode acontecer com qualquer um nesse dia a dia urbano de todos os dias. Andando pela rua, presenciamos situações de agressão moral ou física que podem surgir de episódios banais. Um esbarrão involuntário, por exemplo. O esbarrador ofende o esbarrante, empurra, ameaça escalar a agressão. Imagine agora que um esteja armado, e o outro seja um policial. O que eles farão depende do cérebro: inicialmente, uma série de reflexos corporais é ativada. Um assume a postura de defesa, outro de ataque, o coração de ambos dispara e a respiração acelera. O cérebro tenta oferecer ao corpo mais energia e melhores condições para o confronto. Depois é preciso também focar a atenção, avaliar a situação. E decidir o que fazer. Automaticamente. Rapidamente.

Há redes cerebrais que realizam todas essas operações, escolhendo e contendo os comportamentos até que seja o momento de liberar os mais adequados. O tempo é mínimo porque vidas podem estar em jogo. O desfecho depende também do contexto social, educação, treinamento e leis. Supõe-se que o policial terá sido treinado para controlar-se e modular sua reação. E que as normas e leis do país possam ajudá-lo (ou não…) a avaliar as consequências. No final da história, podem resultar mortos e feridos…

Os psicólogos e neurocientista utilizam testes de comportamento e instrumentos de medida cerebral para estudar como esses acontecimentos se desenvolvem. Geralmente os testes empregados são chamados “go/no go”: após tomar uma decisão, a pessoa aperta um botão (go), ou permanece como está (no go). É um teste muito simplificado em relação à complexidade da vida real. Mas recentemente uma dupla de psicólogos americanos aprimorou os estudos. Publicou um trabalho sobre a tomada de decisão de disparar uma arma, usando um jogo digital que adiciona à decisão go/ no go uma série de variáveis sociais. Uma delas: a cor da pele de um “suspeito”.  Outra: o contexto do ambiente em que a situação se dá, facilitando ou não uma retirada estratégica (um parque versus um shopping). A terceira: a legislação que regula essas situações, que pode criminalizá-las ou não. E, finalmente, o registro da atividade cerebral pelo eletroencefalograma.

Os pesquisadores recrutaram centenas de voluntários, homens e mulheres, a quem relatavam “leis” mais ou menos lenientes à violência, e apresentavam um cenário urbano aberto ou fechado, uma pessoa “alvo” que se aproximava em atitude ameaçadora, e um botão representando uma arma, para disparar ou não. Os resultados foram claros. Viés racial, o fator mais forte. A probabilidade de “atirar” foi sempre maior quando o indivíduo-alvo era negro. Se estivesse armado, maior ainda. Os tiros diminuíram se o ambiente fosse aberto e abrisse possibilidade a uma retirada estratégica. E o mais importante: quando os voluntários eram avisados de que a “legislação” era permissiva, atirar tornava-se a decisão predominante. Finalmente, a conectividade cerebral nas regiões atencionais era maior e a de controle inibitório era menor quando o “alvo” era negro, quando estava armado, quando o ambiente não facilitava a retirada e, mais que tudo, quando a legislação era leniente. Significa que nessas circunstâncias as regiões atencionais do cérebro comunicam-se mais, e as regiões de controle inibitória, menos. Identificado o alvo negro, com a legislação a favor, ocorria imediata liberação do disparo.

O trabalho dos pesquisadores é rigoroso e neutro, mas a meu juízo representa um libelo contra o viés racial das agressões cotidianas, e salienta a necessidade de leis que protejam a vida e não facilitem a morte. O cérebro nos oferece os instrumentos para agir pela vida ou pela morte. Mas na maioria dos casos é o ambiente que regula tudo. Leis permissivas para o porte de armas, treinamento de policiais para o ataque, racismo estrutural dominante: esses são os ingredientes e autorizam o cérebro das pessoas a matar.

ROBERTO LENT – é neurocientista e professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto D’Or.

ESTAR BEM

MÃOS MÁGICAS

Ciência descobre como massagem é capaz de tratar inflamação muscular

Ninguém nega que a massagem ajuda a aliviar dores musculares causadas por exercícios, contusões e torções menores. Mas os benefícios da estimulação mecânica dos músculos proporcionada pela massagem vão bem além de apenas bem-estar, mostra uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Harvard, nos EUA.

Num estudo publicado na revista cientifica Science Translational Medicine, eles propõem que, na dose certa a massagem pode ajudar a tratar uma série de lesões musculares, tanto decorrentes de acidentes, sobrecarga, torções ou mesmo coágulos sanguíneos. Ela realmente trata a inflamação muscular. A massagem ajuda a acelerar a recuperação muscular, dizem os cientistas americanos, porque contribui para remover células do sistema imunológico que podem atrapalhar processos regenerativos e prolongam a inflamação. São os neutrófilos, os primeiros soldados que o sistema imunológico envia para a batalha quando o corpo é agredido, seja por uma lesão ou pela invasão de um vírus ou bactéria.

Essas células agem depressa e liberam substâncias para atacar o problema. Mas isso gera inflamação e a dor e o desconforto que costumam acompanhá-la. Os neutrófilos são fundamentai, mas nem sempre têm noção de quando devem se retirar. O estímulo mecânico promovido pela massagem lhes envia a mensagem que é hora de tirar o time de campo e permitir que outras células entrem em ação.

DÚVIDAS ANTIGAS

Costuma se pensar que a massagem funciona porque melhora a circulação sanguínea e dispersa o acúmulo de substâncias tóxicas nos músculos. Porém, os mecanismos celulares ativados por essa estimulação eram pouco conhecidos, até hoje.

Foi então que a principal autora do estudo, a cientista sul-coreana Bo Ri Seo, que faz pós-doutorado em Harvard, resolveu investigar como de fato a massagem funciona e seus efeitos terapêuticos. Ela e seus colegas viram que sua ação é mais profunda e prolongada  do que se pensava.

Seoé especialista no uso de mecanoterapia, o que inclui a massagem, na regeneração dos músculos. Ela e seus colegas focaram nas células do sistema imunológico porque é sabido que desempenham papel fundamental na resposta muscular a lesões, ajudando, por exemplo, a evitar infecções. A pesquisa foi realizada com camundongos pelo óbvio motivo de que seria difícil e antiético encontrar voluntários para sofrer lesões cuidadosamente programadas e permitir que se observasse por meio de biópsias o que acontece à medida que a massagem é  aplicada.

No caso, os cientistas desenvolveram uma espécie de robozinho que massageava com precisão os músculos lesionados dos roedores.

“A pesquisa é interessante porque mostrou como funciona o que se sabe empiricamente”,  observa, ao comentar o estudo, o especialista em fisiologia dos músculos José Cesar Rosa Neto, do Laboratório de Imunometabolismo do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

Os cientistas de Harvard afirmam que a compressão aplicada pelo robô facilitou a remoção de neutrófilos, reduziu citocinas e quimiocinas (ambas produzidas pelo sistema imunológico) e melhorou a composição e a função das fibras musculares”. Eles afirmam que esses resultados mostram a viabilidade de desenvolver métodos de estimulação mecânica para acelerar a regeneração dos músculos.

Roso Neto explica que a maior dificuldade de empregar a massagem como terapia para uma gama maior de lesões musculares é manter um padrão de estimulação adequado a cada caso. A intensidade da estimulação, por exemplo, varia de um terapeuta para outro e não é uniforme, como no caso do robozinho usado pelos cientistas de Harvard para massagear seus camundongos.

O robozinho, na verdade, não é muito diferente dos aparelhos elétricos comuns de massagem. A diferença foi o padrão uniforme de estímulo mecânico. Os roedores foram tratados com mecanoterapia durante duas semanas, com duas sessões por dia. Depois desse período, foram extraídas amostras de tecido muscular. A análise destas indicou que os neutrófilos estavam sendo removidos mais depressa, na dose certa.

Seo explica que, de início, os neutrófilos ajudam as células musculares a crescer, mas se ficam muito tempo, acabam causando danos. Rosa Neto acrescenta que a massagem ajuda o corpo a receber a dose certa de inflamação. Se a fase inflamatória é eliminada, não há boa recuperação muscular. No caso das microlesões causadas pela musculação, o processo também é necessário para que aconteça hipertrofia.

‘DEFESA BURRA’

O ideal é que os neutrófilos fiquem de 24 horas a 48 horas, às vezes até 72horas, depois disso a inflamação tem que passar ou vira um problema. E os neutrófilos muitas vezes não sabem quando é a hora de partir. Eles são células mais primitivas, “não aprendem nada”. Chegam e apenas atacam.

“Nas minhas aulas digo aos alunos que os neutrófilos são uma defesa importante, mas burrinha. São trogloditas do sistema de defesa”, diz o cientista da USP.

Numa inflamação asséptica – que não foi provocada por invasão de patógenos,  como vírus e bactérias – como é o caso de muitas lesões musculares, o papel desses neutrófilos é mover a limpeza inicial.

Eles chegam, detectam o lixo deixado pela lesão, como restos de células, e chamam os macrófagos, células do sistema imunológico que engolem a sujeira. Quando entendem que está tudo limpo, recrutam um tipo especial de macrófago, que produz fatores de crescimento, para a regeneração do músculo.

“Eles precisam conferir a sujeira, convocar outras células e sair. Mas às vezes demoram mais tempo e prolongam a inflamação, pois continuam a enviar sinais químicos. E aí a pessoa passa a sofrer. Além disso, outras células não conseguem entrar em ação. Os estímulos da massagem funcionam como uma mensagem de que chegou a hora de partir”, explica Rosa Neto.

O estudo deixa claro que massagem de fato ajuda e que a porta está aberta para o desenvolvimento de métodos terapêuticos mais aperfeiçoados. Com o robozinho massagista, os cientistas abriram uma janela para compreender melhor os mecanismos complexos pelos quais o corpo se regenera. Para atletas amadores, massagem pode ser melhor do que suplemento e remédio, sugerem os cientistas. Mãos de fada realmente existem.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDOS COMPROVAM RELAÇÃO DA DIETA COM A SAÚDE CEREBRAL

Alimentos de origem vegetal como os cogumelos e legumes decores fortes ajudam a reduzir inflamações e substâncias que alteram padrões cognitivos

Não é segredo para ninguém que a base da boa saúde é uma dieta saudável. Mas evidências recentes mostram que determinados alimentos podem impactar diretamente na saúde do cérebro e no bem-estar mental. A mais recente delas, de um estudo que será publicado na edição de novembro da revista científica Journal of Affective Disorders, revelou que a ingestão de cogumelos, por exemplo, como champignon e o shitake, está associada à redução do risco de depressão.

Trabalhos anteriores já haviam associado o consumo do fungo à diminuição do risco de câncer e morte prematura. Agora, pesquisadores da Penn State College of Medicine, nos Estados Unidos, descobriram mais um benefício dos cogumelos, após analisarem dados do regime e da saúde mental de mais de 24 mil adultos americanos, coletados entre 2005 e 2016. Os resultados mostraram que aqueles que comiam esses alimentos tinham menor probabilidade de desenvolver o transtorno, em comparação com as pessoas que não tinham esse hábito.

Os cogumelos contêm vários compostos, incluindo vitamina B12, fator de crescimento nervoso (chamado BDNF), além de antioxidantes e agentes anti-inflamatórios. Entre essas substâncias, a ergotioneína, um poderoso antioxidante que pode proteger contra danos às células e tecidos do corpo, presente em grande quantidade nesses fungos, seria o principal responsável pelo efeito protetivo na saúde mental.

“Esse estudo reforça a importância de o brasileiro incluir o cogumelo na sua alimentação diária, o que ainda não é uma prática muito comum”, diz o nutrólogo e médico do esporte Eduardo Costa Rauen, professor da pós-graduação de nutrologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Os pesquisadores não observaram uma relação entre a quantidade e os benefícios. Eles identificaram que quem consumiu cogumelos teve menos riscos em relação aos que excluíram o alimento da dieta.

Um segundo estudo, publicado na Clinical Nutrition, chegou a conclusões semelhantes, mas desta vez, com frutas e vegetais, e em porções quantificadas. Pessoas que comeram pelo menos 470 gramas diários desses alimentos apresentaram níveis de ansiedade 10% mais baixos do que aqueles que consumiram menos de 230 gramas desses itens.

Acredita-se que os nutrientes presentes nesses alimentos, como vitaminas, minerais, flavonoides e  carotenoides, são um fator de influência positiva. Essas substâncias, em especial os flavonoides, responsáveis pelas cores vibrantes de alimentos de origem vegetal, têm efeito anti-inflamatório e antioxidante.  

Outras evidências mostram o papel ainda maior dos flavonoides. Uma equipe da Universidade Harvard confirmou em setembro o poder na redução do declínio cognitivo associado ao envelhecimento. A análise, uma das maiores realizadas até hoje, descobriu que o consumo de alimentos ricos nesses compostos ajuda a conter o esquecimento e à confusão mental apresentadas por idosos e que, muitas vezes, precedem um diagnóstico de demência.

PROTEÇÃO COGNITIVA

Os cientistas avaliaram dados de saúde e dieta de mais de 77 mil homens e mulheres de meia idade coletados ao longo de 20 anos. As informações incluíam a frequência com que os participantes comeram alimentos ricos em flavonoides ao longo desse período e relatos sobre possíveis alterações de cognição, como dificuldade de lembrar eventos recentes ou uma pequena lista de itens, problema para compreender instruções, acompanhar uma conversa em grupo ou para encontrar o caminho ao se locomover por ruas familiares, quando estavam na faixa etária dos 70 anos de idade.

As substâncias encontradas principalmente nas especiarias, no morango, no espinafre cru, além de frutas e vegetais amarelos e alaranjados, como a abóbora, tiveram o efeito protetor mais forte: elas foram associadas a uma redução de 38% no risco de declínio cognitivo.

Há ainda mais uma explicação para essas ações. Esses antioxidantes poderosos podem combater a inflamação no cérebro e o acúmulo de beta-amiloide, uma das marcas registradas do Alzheimer. Além disso, essas substâncias também desempenham um papel importante na manutenção de vasos sanguíneos saudáveis, o que ajuda a manter o sangue fluindo para o cérebro, fortalecendo conexões, promovendo o crescimento de novas células cerebrais e aumentando o tamanho do hipocampo, uma parte do cérebro envolvida no armazenamento e recuperação de memórias.

Enquanto a ciência não crava a porção ideal para o efeito no cérebro, os especialistas recomendam “colorir o prato o máximo possível”.

“O benefício está no equilíbrio do que comemos e não em um alimento especifico”, diz Rauen.

OUTROS OLHARES

ÁLCOOL DEMAIS ENTRE IDOSOS JÁ DESAFIA A SAÚDE PÚBLICA

São 2 milhões de pessoas entre 60 e 70 anos, no País, bebendo várias doses de uma vez e expostas a sérios perigos, diz estudo da Unifesp

Um em cada dez brasileiros com mais de 60 anos faz uso abusivo de bebidas alcoólicas, indica estudo conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na conta dos pesquisadores, são cerca de 2 milhões de idosos (6,7%) que consomem várias doses em uma única ocasião – padrão de consumo abusivo, conhecido como binge drinking. Cerca de 1,16 milhão, 3,8%, bebe de 7 a 14 doses por semana, quantidade que pode pôr em risco a saúde. No total, um em cada quatro idosos (23,7%) admite consumir álcool eventualmente.

Para chegar a esses padrões, pesquisadores da Escola Paulista de Medicina (da Unifesp) analisaram os dados de um estudo com 5.432 brasileiros acima de 60 anos. E recorreram também a informações de 503 idosos atendidos em Unidades Básicas de Saúde de São José dos Campos. O trabalho, que virou tese de doutorado da pesquisadora Tassiane Cristine de Paula, é inédito no País e aponta que o consumo de álcool entre idosos já é problema de saúde pública.

A bebida em excesso entre os mais velhos não é exclusividade dos brasileiros. Aos 95 anos e perto de completar 70 de reinado, a rainha Elizabeth II foi aconselhada por médicos do  Reino Unido a parar com seus drinques diários. Fontes próximas à família real britânica falaram do caso à revista Vanity Fair.

O estudo brasileiro indicou que os homens idosos bebem mais que as mulheres, embora essas sejam mais vulneráveis aos efeitos da bebida. Mostrou também que a frequência e a quantidade diminuem com a idade – o consumo de risco é maior entre homens de 60 a 70 anos, sobretudo os que têm maior escolaridade (acima de 9 anos de estudo). A partir dos 70 anos, o consumo cai, principalmente entre as mulheres. O fenômeno é mais comum na Região Sudeste do País.

DIA SIM, OUTRO TAMBÉM

Dono de uma empresa de turismo de pesca em Sorocaba, Carlos Alberto Dias, o Charles, de 68 anos, toma de uma a duas taças de vinho “dia sim, outro também”, como afirma. É uma rotina de 20 anos, iniciada por influência da mulher, de origem espanhola, apreciadora da bebida. “Antes eu tomava cerveja. Agora, uma garrafa de vinho dura três dias depois de aberra, pois cuidamos para que não oxide”, disse. Charles acredita que a idade não deve impedir o cultivo de um hábito “gostoso”, que ele não considera prejudicial. “Se tirarem os drinques da rainha (referência à monarca britânica), ela morre”, comparou.

O empresário diz que só vai ao médico para os exames periódicos. “Não tenho pressão alta nem hipertensão e passo longe das farmácias. Faço atividade física regular. Tenho clientes médicos e eles desaconselham os destilados, não o vinho”, disse. Sua mulher, Maria Josefa, de 65 anos, o acompanha nas taças bem servidas. “Somos um casal que bebe unido”, avisa.

A dupla está no limiar do consumo de alto risco, já que o estudo considera de baixo risco menos que uma dose por dia para a mulher e menos que duas doses para o homem. Acima de uma dose diária para a mulher (ou 7 na semana) e duas para o homem (14 na semana) passa a ser consumo de alto risco. Mais que quatro doses para a mulher e cinco para o homem, em duas horas, caracteriza o consumo abusivo.

COMO REDUZIR

Segundo a pesquisadora Tassiane, é fundamental entender esse problema para propor estratégias visando a redução do consumo entre os idosos, de modo a evitar que se torne um problema de saúde pública mais grave. ”É um fato preocupante, pois, com o aumento da expectativa de vida, a proporção de idosos na população é maior.”

Os estudos indicam, segundo Tassiane, que o consumo prejudicial de álcool em adultos e idosos pode estar relacionado não só a problemas graves de saúde – doenças cardiovasculares, hipertensão, câncer e demência. ”Aumenta também o risco de quedas e acidentes com fraturas”, alerta a cientista, que foi orientada pela professora Cleusa Ferri. Financiada pela Fapesp, a pesquisa foi publicada recentemente em revistas internacionais.

Como parte do estudo, a pesquisadora e seu grupo entrevistaram 503 idosos atendidos pelas UBSs de São José dos Campos. Desses, 242 foram identificados como consumidores de álcool e 80 foram acompanhados até em sua rotina domiciliar. Esse trabalho, iniciado em janeiro de 2020, foi interrompido em março, pela pandemia. ”Após três meses, verificamos que a metade reduziu o consumo e 25% pararam de beber. É claro que pode haver um efeito da pandemia, pois muitos idosos sequer puderam comprar bebidas e pararam as festas familiares. Mas o resultado nos anima a continuar esse trabalho logo que possível.”

PROTOCOLO

A expectativa da pesquisadora é desenvolver para o sistema público de saúde um protocolo de intervenção em relação aos idosos que bebem. Conforme a ONG Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) ,os dados sobre o consumo de álcool por idosos ainda são escassos e subestimados no País, mas já se sabe que de 1% a 3% apresentam morbidade física e psiquiátrica relacionada ao uso de bebidas alcoólicas. Entre as consequências do álcool nessa população estão o déficit no funcionamento cognitivo e intelectual, prejuízos no comportamento social e aumento das comorbidades.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE DEZEMBRO

UM HOMEM SEM COMPAIXÃO

A alma do perverso deseja o mal; nem o seu vizinho recebe dele compaixão (Provérbios 21.10).

O mal não está apenas fora do homem, mas em seu interior. Não vem de fora, mas de dentro. Não está somente nas estruturas à sua volta, mas dentro dele. É do coração que procedem os maus desígnios. O perverso, porém, dá um passo a mais. Além de estar presente em seu coração, o mal é ali cultivado. O perverso não é apenas potencialmente maldoso; ele desenvolve essa maldade até sua consumação. A alma do perverso deseja o mal, e esse desejo se transforma em ação. O perverso não apenas lança um olhar de cobiça sobre o próximo, mas procura desenfreadamente a consumação dessa cobiça. Seus olhos são lascivos, seu coração é ganancioso, e suas mãos, violentas. Um exemplo clássico dessa dramática realidade foi o que o rei Davi fez quando adulterou com Bate-Seba. Davi a viu, a desejou, a atraiu e se deitou com ela. Depois, tentou evadir-se de sua responsabilidade e acabou matando Urias, o marido. Davi agiu perversamente, pois não teve piedade de Urias, um soldado de confiança. O perverso não tem compaixão nem mesmo de seu vizinho. Para satisfazer seus caprichos e alimentar sua cobiça, passa por cima das pessoas, mentindo, roubando, ferindo e matando. Os maus têm fome do mal; não sentem pena de ninguém. Os maus se abastecem da maldade e não têm dó nem mesmo de seu vizinho.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – III

JURÍDICO – NA ONDA DAS REESTRUTURAÇÕES

Se o governo, o vírus e São Pedro não atrapalharem mais, a tendência é de uma recuperação econômica. O que significa mais trabalho para o pessoal do jurídico. “Num cenário assim, as empresas voltam a alavancar os negócios e investimentos que estavam parados. O mercado do direito societário e de contratos, então, será um dos mais  aquecidos”, diz Mariana Horno, gerente de recrutamento da Robert Half.

A alta histórica nas opeirações de M&A também criou um universo de necessidades na área jurídica. As contratações estão focadas em pessoas com experiência em fusões e aquisições, compliance e reestruturações societárias.

Mas não é só isso. Empresas de tecnologia estão fortalecendo os seus departamentos Jurídicos, porque existe uma carência de legislações e órgãos reguladores. Na saúde tem a ANS para regular os convênios; o Banco Central fica de olho nas instituições financeiras. Mas não tem ninguém para orientar as companhias de tecnologia. Por isso, o advogado que atua com tech precisa estar atualizado em tempo real sobre as discussões que envolvem o setor. Está rolando na Câmara, por exemplo, um Marco Legal para debater o uso ético do aprendizado de máquinas – imagine o monte de regras novas que deve sair desse mato…

EU ACHO …

A ROTINA OBSOLETA

Como lidar com a realidade deliciosamente instável de hoje

Ser do tempo da máquina de escrever não me assusta mais. Já é objeto de museu. De colecionador. Até seu sucessor, o computador de mesa, está com os dias contados. Tão mais prático o laptop! Mas também existe o tablet, e quem sabe o que logo mais. É surpreendente a velocidade com que meu cotidiano se transforma. Objetos essenciais até  um tempinho atrás desapareceram. Eu tinha uma fantástica coleção de DVDs. Fui parando de ver, parando… Acabei pendurando  uma parte da coleção na horta para espantar passarinhos comilões. O sol reflete no metálico, é uma beleza. Tenho filmes incríveis. Mas o aparelho de DVD também não funciona bem por falta de uso. Apelo para o streaming. Pen drives vão para o mesmo caminho. Pra que, se existe a nuvem? Fax, secretária eletrônica… Ai, ai, ai…

Orelhão. A própria linha telefônica fixa vai desaparecer, questão de tempo. Eu não uso mais. Ainda me lembro (idade, idade…) do tempo em que era difícil ligar pra outra cidade. A ligação interurbana não é mais um bicho de sete cabeças. Scanner? Resolvo no meu celular. Cinzeiro para carro? Obsoleto. Mapa em papel, bip… Discos de vinil só sobrevivem entre colecionadores. Fios, não sei, não. Cada vez mais a tecnologia abre mão deles. Agenda eletrônica? Adeus! Por mais que todo mundo goste, os livros em papel terão o mesmo caminho dos LPs. Os textos eletrônicos não ocupam espaço em apartamentos cada vez menores, são simples de carregar. Qualquer um vai dar risada se alguém falar em despertador. Antigo! O celular resolve. Assim como resolve outras centenas de atividades.

Inventa-se um dispositivo, todo mundo tem, e, dali a pouco, ele é trocado por outro, mais avançado. A velocidade da mudança supera as eras anteriores. O próprio papel está perdendo a razão de ser. Documentos on-line são aceitos. Posso assinar um contrato por e-mail. Houve um tempo em que ter xerox de RG com firma reconhecida era um avanço. Hoje… Quem faz xerox? imagine, eu sou do tempo em que na escola se faziam apostilas em xerox! Hoje, a gente recebe on-line.

Já estou preparado para o desaparecimento de tudo o que me cerca. E até de tudo o que vai me cercar daqui a cinco, dez anos. O mundo em que eu nasci era estável. O de hoje se transforma o tempo todo. Inclusive o que parece imutável mudará. Transferências bancárias tradicionais perderam lugar para o Pix. Quem poderia prever que até a transferência estaria ameaçada? Principalmente, está acontecendo o fim do dinheiro em papel. Eu, você, quantas vezes, no passado, saímos de casa com a “carteira recheada!? Até essa expressão, “carteira recheada”, se tornou anacrônica. Usamos cartões de crédito – que em breve desaparecerão também, substituídos por outras formas de pagamento, como a aproximação. Não uso dinheiro físico já faz um bom tempo. É apenas um número, um símbolo que se utiliza em transações comerciais, bancárias…

Parece estável? Vai sumir. A vida se torna obsoleta a cada segundo. Mas o novo vai surgir. Isso torna a vida fascinante. A realidade é deliciosamente instável.

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

A FORÇA DA MEDITAÇÃO

Com apenas cinco minutos diários de prática, a estrutura do cérebro se transforma

No começo da década de 90, o neurocientista americano Richard J. Davidson começou a estudar as diferenças entre cérebros de monges budistas e pessoas que não meditavam. Os resultados o assombraram e foi o início de uma pesquisa que derrubou o mito de que a meditação e seus benefícios são para quem pode se isolar numa caverna no Tibete, ou é o que popularmente se chama de uma pessoa zen.

Nada disso. Meditar, explicou Davidson em entrevista, está ao alcance de todos e produz, com apenas cinco minutos diários de prática, transformações na estrutura do cérebro que ajudam a ter foco, regular emoções e ter compaixão. Se tudo isso já era importante antes da pandemia, frisou o diretor do Laboratório de Neurociência Afetiva da Universidade de Wisconsin, nos EUA, na fase de gradual retorno à normalidade tornou-se uma realidade.

“Durante a pandemia trabalhamos com mais de 600 professores de escolas públicas que estavam dando aula online, submetidos a situações extremas. Com cinco minutos de meditação por dia essas pessoas reduziram em 25% seu nível de estresse em pouco tempo”, conta Davidson, que semana passada foi o convidado estrela do foro sobre “Neurociência e bem-estar. Habilidades da futuro, conhecimento e bem-estar para a comunidade” organizado pelo Instituto de Neurologia Cognitiva (Ineco), de Buenos Aires.

Em seu laboratório, o neurocientista americano tem algumas das tecnologias mais avançadas para obter imagens cerebrais, como tomo grafia por emissão de positrões e ressonância magnética. Com mais de 20 anos de estudos, Davidson não tem dúvidas de que meditar é um hábito que qualquer ser humano pode incorporar à rotina, da mesma forma que todos aprendemos, um dia, a escovar os dentes.

“Além da crise sanitária, a pandemia disseminou ansiedade e depressão. Os índices, em alguns países, duplicaram. Nossa mensagem é de que toda pessoa tem em suas mãos o potencial para melhorar seu bem-estar”, enfatiza Davidson, que também trabalhou recentemente com mulheres colombianas vítimas de abusos. Nesse caso, ampliou, foram necessários mais do que cinco minutos diários, dado o estado de deterioração mental em que estavam as pacientes.

FORA DO PILOTO AUTOMÁTICO

Mas o mais importante para quem decide iniciar esse caminho, concordam outros especialistas, é entender que se trata, simplesmente, de desligar o piloto automático e perceber nossos pensamentos. Muitas vezes, profundamente negativos sobre nós mesmos e que causam mal estar.

Aos 54 anos, a professora de ioga e instrutora de meditação brasileira Maria Araújo dedica sua vida a transmitir às pessoas como ela conseguiu passar do pânico à paz graças a práticas que existem há mais de cinco mil anos. Em seu estúdio no bairro carioca do Catete, ela dá aulas presenciais e virtuais  e todas as noites ofereceaos alunos uma meditação.

“Meditar é muito simples, mas eu mesma demorei a entender isso. A primeira vez que tentei meu corpo coçava inteiro e desisti. Demorei alguns anos para tentar de novo e hoje sei que todos podemos meditar, e que não existe pessoa zen, existem pessoas, como eu, que conseguimos sair mais rápido de momentos de estresse”, explica a instrutora.

Maria lembra até hoje como as pessoas comentavam como ela tinha mudado sua expressão depois que começou a meditar. Antes, vivia com o rosto enrugado e  raramente sorria.

Meditar é tudo o que fazemos no presente. Podemos meditar olhando a chuva, uma planta, uma vela. É uma pausa que fazemos e na qual nos observamos. Tem gente que tem dificuldade, não quer nem fechar os olhos, não quer se ver. Ela convida seus alunos a romper resistências e tirar o pé do acelerador todos os dias, o tempo que for possível.

Os principais benefícios da meditação são a tranquilidade, a superação de pânicos, o desfrute das pequenas coisas, organização da mente e dos pensamentos e criatividade.

“É como se tivéssemos uma gaveta toda bagunçada, com todos os tipos de roupas. Você organiza essas peças em gavetas diferentes. Eu vivia com medo, pânico, e, com a meditação, organizei a gaveta e criei espaço mental.

Em Buenos Aires, a psicóloga clínica e coordenadora do programa de Mindfulness do lneco Mercedes Mendez também prega o hábito de deixar a mente descansar, perceber como estamos, o que estamos pensando, sem qualquer tipo de julgamento. Essa última recomendação é fundamental, aponta Mercedes, porque muitas pessoas têm dificuldade de se sentir e não se criticar.

O Mindfulness é uma prática terapêutica que surgiu em 1979, quando o médico Jon Kabat-Zinn combinou a meditação budista com elementos da ciência médica ocidental e fundou o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR).

A psicóloga comanda um programa que segue à risca o MBSR e usa a expressão “sair do piloto automático” para dizer, em poucas palavras, qual é o objetivo de fazer uma pausa diariamente.

“Na academia as pessoas exercitam os músculos, em nosso programa exercitamos a atenção plena. E isso é uma coisa que podemos fazer a qualquer momento e em qualquer lugar, basta dar uma parada, ver como estamos nos sentindo, o que estamos pensando”, afirma Mercedes.

Ela também acredita que é possível começar com breves minutos diários, mas defende que para obter os melhores benefícios é preciso adquirir o hábito de pausar entre 15 e 20 minutos.

“Se não conseguiram encontrar esse momento, façam a pausa enquanto comem, brincam com seus filhos ou conversam com seus pais. Isso já é muito potente, é perceber o momento presente, voltar a  você e não deixar que os pensamentos te arrastem.”

Os especialistas da mente humana têm uma premissa básica: a dispersão é da natureza da mente, e o desafio, acessível a quem estiver disposto a dedicar alguns minutos do dia, é trazê-la de volta ao presente. Quem medita, insistem todos em coro, conhece um estado de plenitude e felicidade que ajuda a reverter quadros de ansiedade e depressão, entre outros. Não se trata de viver como um monge budista, ou ser uma pessoa zen o tempo inteiro. Isso, destacam, é ilusão.

Segundo Davidson, “todos podemos fazer melhor”. O cérebro humano tem plasticidade e pode ser modificado em pouco tempo, adotando a prática da meditação. O neurocientista americano já trabalhou até mesmo com crianças de cinco anos. O segredo do sucesso, conclui, é o engajamento. Podem ser poucos minutos, mas a frequência é chave para sentir o impacto positivo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÚDE MENTAL: ATENDIMENTO FOI O MAIS IMPACTADO

Ao mesmo tempo, desde o início da pandemia, países das Américas relataram um aumento preocupante no número de novos casos de problemas psicológicos, bem como o agravamento de condições preexistentes

Há um ano, Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), emitiu uma mensagem forte: a pandemia da Covid-19 estava causando uma crise de saúde mental nas Américas em uma escala nunca vista antes.

Hoje, quando se comemora a luta global contra esses tipos de doença, as perspectivas continuam preocupantes. Nó entanto, não é tarde para tomar as medidas necessárias e evitar que a pandemia deixe uma marca indelével na saúde mental da população.

IMPACTO SICNIFICATIVO

Estudos nacionais da Argentina, Brasil, Canadá , México, Peru e Estados Unidos documentaram altas taxas de transtornos psicológicos, ansiedade e depressão na população em geral. Da mesma forma, uma pesquisa realizada pela empresa Ipsos nesses países mencionados, assim como na Colômbia e no Chile, revelou que, em média, 12% dos adultos sofreram uma deterioração significativa de sua saúde emocional e mental.

Em relação aos menores de idade, a ansiedade e a depressão representam quase 50% dos transtornos mentais em crianças e jovens entre 10 e 19 anos na América Latina e no Caribe, segundo o levantamento “Situação Mundial da Infância 2021” da Unicef (Fundo  das Nações Unidas para a Infância). Deve-se notar que, antes da pandemia, mais de uma em cada sete crianças e adolescentes no mundo sofria de transtorno mental e 46 mil  cometiam suicídio anualmente. Hoje, a situação se agravou, indica o relatório.

Aumentos no uso de álcool e de substâncias também foram relatados. Da mesma forma, registros de telefonemas para linhas diretas, relatórios policiais e outros prestadores de serviços indicam um aumento dos casos relatados de violência doméstica, particularmente abuso infantil e agressões a mulheres.

“As condições de saúde mental causam grandes deficiências nas Américas. Um terço de todas as deficiências por doença na região se deve a problemas de saúde mental”, afirma Renato Oliveira e Souza, chefe da Unidade de Saúde Mental da região na Opas.

Mas, apesar desses números, o investimento dos governos continua insuficiente. Segundo o especialista, estima-se que os países das Américas destinem a penas 2% de seus orçamentos totais de saúde pública à saúde mental, e quase 61% desse montante é direcionado a hospitais psiquiátricos, que multas vetes são locais de desrespeito aos direitos humanos.

A isso devem ser adicionados dois outros grandes problemas, que ocorrem desde antes da pandemia. O primeiro é a lacuna de tratamento (a porcentagem de pessoas que precisam de cuidados, mas não recebem auxílio): para algumas condições de saúde mental e de uso de substâncias, essa lacuna chega a quase 80%. O segundo é a carência de pessoal especializado: estima-se que haja 10,3 trabalhadores em saúde mental para cada 100 mil habitantes.

“Aconselhamos que o orçamento para saúde mental seja de no mínimo 5% ou 6%, mas depende das necessidades de cada país. O importante não é apenas aumentar o investimento, mas também que os recursos cheguem à comunidade, ou seja, integrar os serviços de saúde mental à atenção básica, que é o primeiro contato da pessoa com os serviços gerais de saúde”, explica Oliveira e Souza.

SERVIÇOS INTERROMPIDOS

Não há dúvida de que a pandemia aumentou o número de pessoas com novas doenças mentais ou agravou condições preexistentes, como esquizofrenia, tendências suicidas ou vicias. No entanto, também fez com que os serviços de saúde mental e apoio psicossocial parassem de funcionar temporariamente ou tivessem seu pessoal reduzido. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), esses tipos de serviços sofreram interrupções em 60% dos países das Américas em 2021.

“Quando analisamos o estado dos diferentes serviços de saúde durante a pandemia, os atendimentos de saúde mental são os que receberam o maior impacto. Eles foram encerrados, como parte de medidas de proteção pública, ou muitas vezes os profissionais que ali trabalhavam foram transferidos em resposta rápida à emergência da Covid-19. A realidade é que, quando os serviços de saúde mental são mais necessários, eles têm o pior desempenho. É verdade que existem boas iniciativas para combater esse problema, como grande expansão dos serviços por meio da Internet ou do telefone, mas também sabemos que não atingem a todos”, diz Oliveira e Souza.

É provável que a pandemia da Covid-19 tenha efeitos adversos duradouros sobre a saúde mental e o bem-estar das pessoas e que continue a exercer pressão prolongada sobre os serviços especializados. Para o especialista da Opas, é essencial que os países priorizem a saúde mental agora, não apenas para responder aos problemas atuais, mas também para evitar que continuem ou piorem.

“É necessário que os países mudem seus sistemas de saúde mental, que muitas vezes são baseados em hospitais psiquiátricos. Os serviços precisam ser voltados para a comunidade. A situação melhorou, existem mais serviços comunitários de saúde mental, mas a cobertura ainda é baixa. Há um trabalho muito grande que temos em andamento com os países para garantir uma grande expansão dos serviços de saúde mental à comunidade”, declara Oliveira e Souza.

Alcançar essa meta também Implicaria na adoção de quatro eixos principais: liderança política de alto nível e investimento adequado (cada dólar investido em saúde mental produz um retorno de quatro dólares); uma abordagem intersetorial (incluindo estados, sociedade civil, instituições acadêmicas etc.); avanços na integração da saúde mental em todos os serviços de saúde, promoção e prevenção nas demais áreas da saúde e sociais; e o uso das lições aprendidas na pandemia para servir ao investimento em novas tecnologias.

SUICÍDIOS NAS AMÉRICAS

Quando a Opas avaliou seu Plano de Ação de Saúde Mental 2015-2020, observou um progresso notável em áreas como a redução da função dos hospitais psiquiátricos e o desenvolvimento de programas de prevenção. No entanto, a taxa regional apresentou números muito negativos.

Na região, quase 100 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Entre 2000 e 2019, a taxa de suicídio por idade nas Américas aumentou 17%, enquanto a taxa global e as taxas para todas as outras regiões da OMS diminuíram.

“O aumento da taxa regional de suicídio é um fator importante que nos fará dar maior ênfase à colaboração técnica com os Estados – membros, no sentido de aumentar o apoio aos seus planos nacionais de prevenção do suicídio. A redução dos casos de suicídio é realmente uma área em que estamos piorando como região e temos que nos esforçar mais”, afirma Oliveira e Souza.

A Opas destaca que entre as principais medidas de prevenção do suicídio estão a limitação do acesso a meios para cometer o ato (como a armas de fogo), identificação precoce, manejo e monitoramento das pessoas afetadas por pensamentos e comportamentos suicidas, bem como promoção de habilidades socioemocionais.

Embora seja verdade que ainda há muito trabalho a ser feito e pouco a comemorar no Dia Mundial da Saúde Mental, é de extrema importância fazer um apelo à união e à eliminação das desigualdades. Saúde mental de qualidade é um direito humano.

OUTROS OLHARES

PANDEMIA LEVA CANDOMBLÉ E UMBANDA A ENCRUZILHADA DIGITAL

Religiosos adotam videochamada enquanto debatem limites do axé nas rede

Umbandista desde 2018, o professor de ioga Wagner Lanzelotti Filho, 32, procurava um pai de santo do candomblé a fim de receber orientações pessoais e também uma experiência diferente do jogo de búzios. A busca se resolveu por videochamada, a uma distância de 25 km entre sua casa em Duque de Caxias (Baixada Fluminense) e o bairro carioca da Tijuca, onde estava o sacerdote.

“Não achei tão estranha a ideia, muito embora ache que não teve exatamente toda a energia possível”, diz Lanzelotti. “Não teve a entrada no lugar, o olho no olho, mas para mim foi tranquilo. Virou uma forma de matar uma curiosidade que eu tinha”.

Bem menos visíveis nas mídias, as tradições de matriz africana – que abrangem cerca de 5 milhões de brasileiros, segundo o Datafolha – acabaram por abrir caminhos digitais na pandemia, mesmo que ainda timidamente e longe da unanimidade.

Lives de cerimônias de umbanda já eram cogitadas por pai Denisson d’Angiles, 45, antes mesmo da pandemia. Quando o governo Dória fechou os templos na quarentena, o sacerdote decidiu que era hora de ir à prática no CEU Estrela Guia, que recebia 300 a 400 pessoas na Saúde, zona sul de São Paulo. Hoje, suas giras ao vivo têm média de 15 mil visualizações por transmissão.

“Antes eu tinha certo medo porque, de alguma maneira ia estar expondo mina própria vida familiar”, afirma Denisson, que conduz o terreiro ao lado de sua mulher, Kelly. “Mas em março de 2020 a gente instalou câmeras, reforçamos a rede wi-fi e levamos a ideia à frente, via Facebook. Tudo isso para levar um axé às pessoas, e a repercussão foi ótima”.

Logo na primeira transmissão, porém, o religioso conheceu o lado virtual de um velho problema. Surgiram ofensas de pessoas que denunciavam algo “demoníaco”, enquanto invocavam Jesus eDeus. Ao mesmo tempo, a live caiu por três vezes. O pai de santo se queixou na Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância) e no Facebook, sem sucesso. “Tudo isso que estamos fazendo é muito novo, e esse pioneirismo acaba pagando um alto preço. Hoje melhorou, mas ainda tem (intolerância)”.

De qualquer forma, Denisson criou uma defesa: durante as lives, seus filhos de santo “patrulham” a transmissão, respondendo quem chega causando distúrbio digital. Ainda assim, esse tipo de situação faz muitos terreiros hesitarem na vida digital, ou subirem apenas gravações em seus canais.

“Os cultos de matriz africana viveram duas pandemias nesses dois anos: a da Covid e a da perseguição religiosa”, afirma o babalaô e doutor em história comparada pela UFRJ, Ivanir dos Santos, 67, que afirma não crer que lives de rituais sejam possíveis: Trata-se de uma religião do segredo; não faz sentido expor rituais que têm um fundamento no mistério.”

Ivanir reconhece, porém, que muitos babalorixás e ialorixás passaram a oferecer a leitura de oráculos , como os búzios, de forma não presencial. Para ele, trata-se de rara atividade que o candomblé pôde adaptar. “Abrir o oráculo sem a pessoa presente é algo que pode ser feito tranquilamente com base na relação da pessoa com o orixá. Mas há pessoas mais tradicionais que não abriram essa exceção.”

Líder do terreiro Ilê Asé Oyábécy L’Arô, na zona oeste do Rio, mãe Ana Maria OmilL’Arô, 50, não se considera tradicionalista. “A realidade muda. Antigamente, os candomblés eram liderados por mulheres que não tinham outra ocupação a não ser trabalhar em casa. Hoje uma mulher lidera um culto e depois vai dar expediente no Fórum”, diz, com entusiasmo e sotaque carioca.

Sobre a eficácia da videochamada, Ana usa uma lógica irresistível. “Se uma pessoa não precisa estar presente para que lhe façam um feitiço, para o mal, tampouco precisa estar presente para que Ihe façam o bem e lhe abram caminhos, você concorda?”

No entanto, ela afirma não se sentir “nesse patamar” digital. Diz que oraria por pessoas que já frequentassem sua casa e que estivessem sem condições de ir até o terreiro, por exemplo. “Só não me sinto preparada para jogar os búzios, fazer uma oração e entrar numa egrégora(campo energético) com uma pessoa que não conheço, ao mesmo tempo em que ligo o celular.”

Bem mais à vontade está o pai Rodney William, 47, do terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, em Mairiporã, na Grande São Paulo. Para ele, muitas coisas na pandemia vieram para ficar e será normal se os paulistanos que lidam com distâncias, riscos e o preço da gasolina preferirem continuar na videochamada. “Eu vou confessar a você: eu também prefiro”, conta o babalorixá, que é doutor em antropologia pela PUC-SP e diz ter cinco redes wi-fi em seu terreiro. Para Rodney, a pandemia apenas massificou práticas que já tinham algum histórico. Recorda que Pérsio de Xangô – influente líder do candomblé paulista, que morreu em 2010 – se consultava nos búzios com a célebre mãe Menininha do Gantois (1894-1986), que morava em Salvador. Tudo se dava por meio de ligação interurbana: a pessoa levava suas questões, desligava e recebia a resposta depois.

“Era assim porque era caro. Mas hoje a tecnologia superou esses limites”, diz Rodney.  “Eu que tenho filhos em outros países e continentes, já utilizava a videochamada para o oráculo. O que acontece é que isso agora explodiu, porque as pessoas tiveram mais preocupações e incertezas. Costumo dizer que ninguém trabalhou mais nesse período que os psicanalistas e os pais e mães de santo.”

Pai Rodney afirma que sofreu críticas de seus pares por começar a jogar búzios e fazer ebós (trabalhos) à distância – recebendo pagamentos e doações por Pix. Dessa forma, Rodney diz ter gerado o sustento para os trabalhadores do terreiro, mas também muito debate com líderes de cultos nos grupos de WhatsApp.

Para preservar o mistério ritual, Rodney opta por mostrar fotos nas transmissões, que explicam o que vai acontecer – faz isso para não dar instrumentos aos inimigos virtuais , que podem, por exemplo, descontextualizar uma cena de sacrifício animal para demonizar a fé. E segue acreditando no trabalho digital, citando a mesma lógica de mãe Ana sobre asa bençãos à distância, enquanto ecoa o sociólogo Reginaldo Prandi sobre a tendência paulistana de trazer vanguarda para a crença.

“Se Ogum é o orixá da tecnologia e Exu, o da comunicação, não vejo limites para esse alcance. A tradição que não se adapta, morre na sua pretensão de que as coisas hoje são exatamente como eram há cem, 200 anos. O candomblé muda porque as circunstâncias mudam.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE DEZEMBRO

CUIDADO COM A MULHER RIXOSA

Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa (Provérbios 21.9).

A mulher rixosa é aquela que fala sem parar e briga por qualquer motivo. Trata-se daquela mulher que está de mal com a vida e deixa constrangidos todos à sua volta. Essa mulher é para o marido um tormento, em vez de ser uma aliviadora de tensões. Ela lhe faz mal, e não bem, todos os dias da sua vida. Por ser insensata, destrói sua própria casa, em vez de edificá-la. Longe de ser auxiliadora idônea, é uma rival que compete com o marido. É um peso na vida dele, em vez de um auxílio. Longe de ser uma confidente confiável, tem a língua solta e gosta de espalhar contendas. Longe de ser uma amiga compreensiva, é como vinagre na ferida, que gera mais sofrimento do que alívio. A solidão é melhor do que a companhia da mulher rixosa. É melhor morar no fundo do quintal do que dentro de casa com uma mulher briguenta. É melhor viver sozinho, num canto, no sótão da casa, do que dormindo na mesma cama com uma mulher amarga com a vida, cuja língua só profere palavras de animosidade. O casamento, que foi criado por Deus para ser uma fonte de prazer, torna-se um tormento. O casamento, que foi planejado para ser um jardim engrinaldado de flores, converte-se num deserto árido e inóspito.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – II

VENDAS E MARKETING – NA COLA DA TECNOLOGIA

A alta no número de lojas online aumentou também a concorrência dentro do e-commerce e a necessidade de investir pesado nas equipes de marketing. Afinal, as empresas não concorrem mais com a loja do outro lado da rua, ou do outro andar do shopping, mas no terreno digital. “Quem estava olhando para essa área um ano atrás, vê outro setor hoje. A demanda por esses profissionais cresceu em empresas de todos os segmentos e já estamos lidando com funções novas, como analista de marketplace”, diz Carolina Cabral, gerente de recrutamento da Robert Half.

O setor não só se espelha na expansão do TI. Ele também está mais próximo da tecnologia. Alexandre Marquesi, professor da pós-graduação da ESPM, lembra que a principal habilidade exigida hoje dos profissionais de marketing é trabalhar bem com dados. “O mercado quer um profissional que saiba olhar para os dados e encontrar oportunidades ali, que saiba montar uma estratégia a partir disso.” É o famoso business intelligence (BI). Você se baseia nos dados para saber quais produtos podem ser retirados do portfólio ou quais canais de venda precisam de mais investimento para alcançar seu potencial verdadeiro.

Também é fundamental que o novo profissional desse setor entenda de marketing digital – as atividades online, para conquistar mais consumidores, melhorar o relacionamento com os clientes recorrentes e tornar a marca da empresa mais sólida.

“ME COLOCO NO LUGAR DO CLIENTE”

Entender o cliente é tarefa de Uribe Teófilo, 38 anos. Hoje, o paulistano é gerente de produtos da seguradora Youse lnsurance. Mas sua carreira começou em 2007, quando foi trabalhar no Buscapé. Foi lá que ele passou a atuar com comportamento dos consumidores na internet. De seus 14 anos de experiência, ele tira uma lição: é preciso empatia para se dar bem no setor. “Quando estou oferecendo um produto, estou resolvendo um problema do cliente. Mas só consigo fazer isso quando me coloco no lugar da pessoa e escuto o que ela quer.” Nem tudo é na base da habilidade comportamental. De novo: você precisa tratar com carinho as análises de dados – como criar bons testes A/B (metodologia que compara diferentes abordagens de marketing com diferentes consumidores) e saber atuar com a chamada metodologia ágil, ou seja, fracionar as entregas de um projeto, para permitir correções mais precisas ao longo do caminho – uma filosofia que contrapõe o método tradicional, de entregar o pacote completo e só depois ver se funciona.

EU ACHO …

DECLÍNIO E QUEDA DO BANHEIRO MASCULINO

A diversidade sexual e o simples bom gosto impõem o fim do urinol

Apesar dos exageros, o “politicamente correto” melhora muitas coisas na vida cotidiana. Tenho total simpatia pelas inovações no campo dos banheiros públicos, por exemplo.

Coisa mais chata essa divisão entre banheiro masculino e feminino. Minha implicância é profunda e vem de  longe.

Não sei se isso acontece com as crianças de hoje em dia, mas no meu tempo eram comuns os sangramentos de nariz. Interrompe-se a aula: o menino é conduzido à enfermaria.  Não. Nem sempre o caso inspira tais alarmes.

Uma vez, a ajudante da professora achou que o banheiro feminino estava mais perto. Afinal eu precisava só de um algodãozinho. Entramos. Talvez fosse um lugar reservado apenas às mestras e funcionárias: que surpresa!

Sobre uma mesinha, via-se um vaso de flores. Tudo limpo, discreto, organizado, cheiroso.

Era outra situação do banheiro dos meninos — antiquíssimas baias, como banheiros verticais, perfilavam-se com cavidades mortíferas. A memória de muita urina antiga desenhava um mapa amarelo e preto, como uma América do Sul de cabeça para baixo, esvaindo-se num ralo férvido de fungos e miasmas.

Mais tarde, conheci os urinóis brancos, do ripo Marcel Duchamp, lembrando cuecões sem nada dentro.

Nada? Já vi naftalinas, bitucas de cigarro, chicletes, cubos de gelo, piscinas de xixi diluídas pelo entupimento …

Invenção lamentável e bizarra, pornográfica. Ninguém que eu saiba, instala um mictório desses na própria casa. Toda família civilizada  recorre à mesma privada, tranca-se a porta do lado de dentro, e nada mais há a ser dito.

Qual a razão do urinol? Passei boa parte da juventude evitando me aproximar desse receptáculo troglodita. Tinha vergonha. Pior: a vergonha era tanta que o xixi não saía.

Um amigo, tendente à observação intensa e silenciosa da nossa humildade foi certa vez repreendido num banheiro. Esperava a sua vez, atrás de um cidadão que já havia se postado, pernas em 45 graus, diante da louça indiferente. Talvez esse meu amigo tenha se aproximado demais da nuca do urinador desconhecido. Ficou olhando.

Ele se voltou, com cara de poucos amigos. “Se você ficar por perto, meu xixi não sai”. O que responder diante de confissão tão íntima? “Ah: disse apenas o meu amigo.

Meu caso era parecido. Mesmos sem nenhum curioso por perto , meu inconsciente (ou talvez meu superego) recusava-se à atividade tão pura, de micção.

Eu preferia entrar no cubículo da privada. Não é o mais certo? Não é o que fazemos em casa?

Verdade que, muito mais tarde, aprendi um segredinho que, como serviço ao leitor,  compartilho aqui. Para que o xixi saísse nessa situação envergonhante, bastava imaginar que tu eu estava urinando através do dedão do pé. Qualquer um dos dois, não importa.

Mas deixo de lado essa inconfidência para insistir na ideia inversa, a da reserva, da decência. Coisa mais feia, com efeito, essa parede de homens de pé, em colóquio solitário num mictório duro, bruto, fabril!

Claro que é a festa do machão. Ele chacoalha o chocalho como a menina de Angola do Chico. Findo o exercício, celebra o único momento em que lhe é permitido dar uma rebolada.

Nunca foi tão homem: reproduz, com seus iguais, o privilégio ancestral do pipi do papai bípede.

Para ele, o pudor já é sinal de feminilidade. Vestiários, chuveiros, espalhamento de toalhas, encravamento de unha, assoadas de nariz; esta a sua ecologia.

O Brasil é até melhor que outros países. A França é famosa pelos cercadinhos que, com objetividade naturalista, escode só a parte central do corpo urinador. Às vezes, uma portinhola dupla, como nos saloons do faroeste , é a única barreira de privacidade estabelecida pelo poder republicano.

Não; chega desses balangandódromos diluvianos. O banheiro unissex, ou neutro, é o mais racional e correto.

Problemas: alguns homens, com relação à privada, comportam-se como se estivessem no urinol. Há quem, falando ao mesmo tempo no celular, descuide da mira. Justifica-sae a recusa de uma mulher a entrar nesse “sanctum sanitarium” do estabanamento peniano.

E muitas mulheres, depois de tolerar maridos e namorados numa mesa de restaurante, podem desejar um espaço próprio para a conversa e a confidência.

Soluções arquitetônicas e sanitárias já vão surgindo, tenho certeza. Insisto apenas no essencial: o fim do banheiro machão, passo importante, a meu ver, para extinguir o próprio.

*** MARCELO COELHO – é mestre em sociologia pela USP.

ESTAR BEM

TUBERCULOSE PODE SER TRANSMITIDA PELA RESPIRAÇÃO

Nova descoberta muda uma percepção antiga na medicina de que a tosse, seu sintoma mais característico seria a principal forma de contágio da doença, relatam cientistas sul-africanos

Depois de séculos de preceitos médicos estabelecidos sobre a tuberculose, uma equipe de pesquisadores da África do Sul descobriu que a respiração pode contribuir mais para a disseminação da doença do que a tosse, seu sintoma mais característico.

Até 90% das bactérias responsáveis pela tuberculose liberadas por uma pessoa infectada podem ser transportadas em pequenas gotículas chamadas aerossóis, que são expelidas quando a pessoa expira profundamente, estimam os pesquisadores. As descobertas foram apresentadas nesta semana na Conferência Mundial da União sobre Saúde Pulmonar.

O relatório ecoa uma importante descoberta durante a pandemia de Covid-19: o Sars-CoV-2 (novo coronavírus) também se espalha em aerossóis carregados pelo ar, especialmente em lugares fechados – um modo de transmissão que foi amplamente subestimado no início da pandemia.

A tuberculose é causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis, que normalmente ataca o pulmão. É a doença infecciosa mais letal do mundo depois da Covid-19, provocando mais de 1,5 milhão de óbitos no último ano – o primeiro aumento  em uma década, de acordo com relatório publicado na última semana pela Organização Mundial  de Saúde (OMS).

Enquanto a pandemia de Covid interrompia o acesso aos serviços de saúde e cadeias de abastecimento ao redor do mundo, 5,8 milhões de pessoas foram diagnosticadas com tuberculose em 2020. Mas a OMS estima que, na verdade, cerca de 10 milhões de pessoas tenham sido infectadas. Muitos podem inconscientemente estar transmitindo a doença para outras.

“Nosso modelo sugere que, na verdade, a geração de aerossol e a geração de tuberculose podem acontecer independentemente dos sintomas”, explica Ryan Dinkele, o estudante de pós graduação da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, que apresentou os resultados.

O ESTUDO

A descoberta ajuda a explicar por que lugares fechados e apertados, como presídios, frequentemente funcionam como criadores de tuberculose, assim como de Covid-19. E a pesquisa sugere que alguns métodos usados para restringir a transmissão do coronavírus – como máscaras, janelas e portas abertas, além de permanecer o máximo possível ao ar livre  – também são importantes para reduzir a tuberculose.

“Aqueles de nós que têm tuberculose olhamos para a Covid e dizemos: “Nossa, é apenas como uma versão acelerada da tuberculose”, disse o epidemiologista da Universidade de Boston, que não estava envolvido na pesquisa, Robert Horsburgh.

Os pesquisadores anteriormente acreditavam que a maior parte da transmissão da tuberculose acontecia quando uma pessoa infectada tossia, espalhando gotículas carregando a bactéria pelo ar.  Até acreditava-se que algumas bactérias eram liberadas quando uma pessoa respirava, mas muito menos do que pela tosse.

COMO É A TRANSMISSÃO

A nova descoberta não muda esse entendimento. Uma única tosse pode expelir mais bactérias que uma única respiração. Mas, se uma pessoa infectada respira 22 mil vezes por dia e tosse cerca de 500 vezes, então a tosse significa apenas 7% do total de bactérias emitidas pelo paciente infectado, explica Dinkele.

Em um ônibus lotado, na escola ou no trabalho, onde pessoas ficam sentadas em espaços confinados por horas, “simplesmente respirar contribuirá com mais aerossóis infeciosos do que a tosse”, diz Dinkele.

Na respiração , a inalação abre pequenos sacos de ar nos pulmões e, em seguida, a exalação carrega as bactérias dos pulmões por meio de aerossóis. Devido ao seu tamanho menor, os aerossóis liberados pela respiração podem permanecer flutuando no ar por mais tempo e viajar mais longe do que aas gotículas emitidas pela tosse. Assim como com a Covid-19, alguns pacientes com tuberculose espalham a doença para muitas pessoas – e podem liberar muitas bactérias – enquanto outros infectam poucas pessoas ao seu redor.

Mas, mesmo que 90% das bactérias expelidas por uma  pessoa infectada fossem transportadas em aerossóis, essa via de transmissão não seria necessariamente responsável por 90% dos novos casos, advertiu a médica, que estuda a doença na Universidade Brown, Silvia S. Chiang.

Ainda assim, dizem especialistas, as descobertas de fato sugerem que os médicos não devem esperar que pacientes com tuberculose cheguem às clínicas com tosse forte e perda de peso, os sintomas considerados reveladores.

“Nós precisamos apenas rastrear toda a população, assim como você faria se estivesse procurando por muita Covid-19”, disse Horsburgh.

TECNOLOGIA NOVA

A descoberta aconteceu em grande parte por causa da tecnologia desenvolvida pelo professor emérito de medicina da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, Robin Wood.

O aparelho pode coletar aerossóis de pessoas infectadas e identificar bactérias dentro deles. O diagnóstico e o tratamento da tuberculose mudaram muito pouco nas últimas décadas:

“Era hora de começar a usar tecnologia moderna e de ponta para abordar uma doença antiga”, disse Wood. Com alguns ajustes, o sistema também pode ser usado para estudar outras doenças, incluindo a Covid, acrescentou.

A tuberculose existe há milênios e sua causa é conhecida há quase 150 anos:

“E, ainda assim estamos descobrindo coisas novas sobre uma parte tão fundamental de sua biologia. Nos torna mais humildes perceber que precisamos  ser tão cuidadosos quando se trata de uma abordagem dogmática  em um campo”, disse Dinkele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANTES SÓ QUE MAL ACOMPANHADA

Uso de acessórios eróticos deixa de ser tabu entre as mulheres – e a saúde agradece

O corpo todo se contrai e o fluxo de sangue no cérebro aumenta velozmente. Uma enxurrada de hormônios de prazer, afeto e bem­ estar entram em ação em cadeia. Vem a dopamina, depois a ocitocina, a prolactina. O mecanismo todo, com duração de cerca de 15 segundos, se configura como o orgasmo, uma  das sensações mais fortes e prazerosas do ser humano – e que faz bem à saúde.

Na busca por esses sentimentos, a pandemia evidenciou uma corrida maior das mulheres por acessórios eróticos: levantamento do portal Mercado Erótico mostra aumento de 50% na venda de vibradores no período de isolamento social. Mais de um milhão destes apetrechos foram comercializados durante essa fase no Brasil,  para se ter uma ideia.

MASTURBAÇÃO ERA DOENÇA

Não se trata apenas de um fenômeno de vendas provocado pelo distanciamento social. Há uma questão de aceitação maior da sexualidade feminina, da masturbação e do direito da mulher sobre seu corpo. Assim, famosas como a apresentadora Angélica, asatrizes Ana Paula Tabalipa, Bruna Marquezine e Fernanda Paes Leme, a influencer Gabriela Pugliesi ou a Cantora Anitta falaram em público sobre seus vibradores.

Para a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg, o que ocorre hoje é uma libertação feminina que foi plantada lá na década de 1970, por Leila Diniz.

“Não é um modismo passageiro. É o espírito do nosso tempo. Que bom que essas personalidades podem falar sem vergonha, culpa e constrangimento. Estamos vivendo um momento que a pandemia acelerou, em que as mulheres podem ser elas mesmas, do jeito que querem ser. Quem quer fazer sexo faz, quem quer ter pelo na axila tem, quem quer cabelo branco usa. O maior desejo feminino hoje é a liberdade de ser eu mesma”, afirma.

Não que os brinquedos sexuais sejam uma novidade. Mas as mulheres tinham vergonha de entrar numa loja e comprar. Vieram filmes e séries, como “Sex and the city” e a trilogia “De pernas pro ar”, para tornar o prazer, sozinha em um tabu menor e, por fim, o impulso do comércio online, que traz mais discrição à compra.

Mas não faz tanto tempo assim que as coisas são tratadas com naturalidade. De acordo com a professora da faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, Carmita Abdo, até a década de 1970 a masturbação era uma atividade considerada patológica pela Organização Mundial da Saúde (OMS), listada na classificação das doenças na área da sexualidade.

“Quem se masturbasse tinha um transtorno sexual. A partir da décima edição, em 1975, a OMS retirou como atividade doentia, sendo considerada, portanto, um comportamento que fazia parte do desenvolvimento. De lá para cá as coisas mudaram tanto que, com a pandemia, a organização chegou a recomendar que a masturbação fosse uma atividade sexual que pudesse substituir outras prejudicadas pela pandemia, além do sexo virtual. Em 50 anos, ela deixou de ser patologia para ser uma atividade recomendada”, conta Abdo.

CASADAS E CASAIS

Mas a verdade é que nem a masturbação nem o uso de brinquedos eróticos foram adotados, necessariamente, só por pessoas solteiras. Mulheres casadas e casais também têm usufruído muito dessas práticas.

A ginecologista Carolina Ambrogini, uma das fundadoras do Projeto Afrodite, centro de sexualidade feminina da Unifesp, afirma que a masturbação traz benefícios que, muitas vezes, se assemelham a uma boa prática de atividade física, com liberação de endorfina e substâncias relaxantes.

“A masturbação faz bem para o corpo e traz ainda um benefício importante para a sexualidade que é o autoconhecimento. Mais do que conhecer a genitália, possibilita entender o que move seu desejo, o que te atrai. Esse conhecimento, especialmente para a mulher, que não foi educada para consumir o mundo erótico, é muito importante”, explica.

Os vibradores, segundo Ambrogini, podem ser facilitadores porque produzem sensações mais potentes, ajudam aquelas que não sabem friccionar no ritmo certo e, para as que não se sentem confortáveis em se tocar, faz a ponte do contato, servindo como porta de entrada.

Pode parecer surpreendente para algumas pessoas, mas a pesquisa Mosaico 2.0 do Programa de Estudos em Sexualidade, de 2016; mostra que 40% das mulheres não se masturbavam com frequência e, dessas, 19,5% nunca experimentaram a prática.

Para Ambrogini, os acessórios sexuais podem, ainda, ser instrumento de erotização para o casal:

“Tem casais que começam com um lubrificante diferente, com gosto, um anel peniano que vibra e aos poucos vai introduzindo o vibrador, mas hoje já estão mais abertos para isso. Quando a mulher tem parceiro, ela acha que não precisa sozinha. E não tem nada a ver porque você pode ter um desejo só seu, de intimidade só com o seu corpo”.

DESAFIOS

Se, por um lado, a mulher ganhou mais liberdade para se masturbar ou usar um vibrador, por outro, isso não pode ser uma imposição. Em suas pesquisas, Mirian Goldenberg ouviu muitos relatos de mulheres que não têm tido desejo sexual e, ou não estão praticando, ou ainda se sentem impelidas a ter relações sem vontade e fingindo orgasmo.

“Na pandemia, outras coisas passaram a ser mais fundamentais para o bem-estar e a vida entre os casais do que o sexo. Muita gente não está fazendo sexo porque está preocupada, ocupada, doente. Estava sem tesão nesse momento particular, nessa circunstância. Cadê o tesão para transar com alguém ou sozinha, no meio de um drama. Para algumas foi complicado.”

A pandemia ainda trouxe outros desafios relacionados à sexualidade. Homens e mulheres que aderiram muito ao sexo virtual e à masturbação começam a relatar dificuldades de interagir presencialmente outra vez, obtendo a mesma satisfação ou tendo o mesmo desempenho.

“Ao se masturbar, a relação da mão com o cérebro é tão precisa, numa sintonia muito maior do que conseguiria com alguém, especialmente no primeiro encontro. Não precisa se produzir, ir para a balada, tentar alguém, se arriscar a não dar em nada. Você tem certeza que de uma forma econômica, prática e privativa, faz o que quer e ninguém fica sabendo”, diz Carmita Abdo.

OUTROS OLHARES

PESSOAS COM NANISMO REFUTAM RÓTULO DE ANÃS E BUSCAM VISIBILIDADE

Grupo quer inclusão no mercado de trabalho e na moda e se sentir parte da sociedade com voz e reconhecimento

As pessoas com nanismo não admitem mais serem tratadas como anãs ou anãzinhas. O termo, dizem, é ridicularizado, estereotipado e não condiz com quem busca mais inclusão, ser ouvido e reconhecido pela sociedade. “A informação é a melhor arma contra o preconceito. Anão é um termo muito antigo e usado em histórias da mitologia, em filmes que mexem de fantasia cheios de estereótipos. Essa palavra carrega aspectos negativos para nossa visibilidade como seres humanos”, diz Fernando Vigui, educador e presidente da Associação Nanismo Brasil.

E é imbuída de valores mais atuais que a família de Enzo da Silva Farias, 7, que nasceu com nanismo, tenta ensinar o menino a se reconhecer e se afirmar diante de sua realidade.

“Jogamos aberto com o Enzo e procuramos que ele tenha o máximo de contato com outras pessoas com nanismo para que saiba que tem suas diferenças, mas não tem limites para nada. Explicamos a realidade e falamos sempre que ele tem direitos a serem respeitados”, diz a mãe, Juliana da Silva Siqueira Farias, 40.

Para ampliar o sentimento de pertencimento social dele, a família promoveu acessibilidade na casa, no mobiliário e procurou uma escola que acolhesse suas necessidades.

“Isso fortalece no sentido de autonomia e dá independência. Ele sabe que tem nanismo, mas também que é capaz de fazer tudo o que quiser se houver condições”, conta Juliana.

Outra frente em que pessoas com nanismo têm atuado para demonstrar suas necessidades e reforçar suas identidades é a busca por roupas e acessórios que atendam adequadamente suas medidas.

Uma iniciativa encabeçada pela Nanismo Brasil fez um estudo com centenas de pessoas pequenas até chegar a padrões de medidas (PP, P. M,G e GG) específicas para o grupo.

Atualmente, segundo Fernando Vigui, o ajuste de uma peça convencional para uma pessoa com nanismo pode ser mais dispendioso que a própria roupa e tem resultado nem sempre satisfatório.

A marca Via Voice For Fashion se atentou a esse mercado e tem investido em coleções. Neste mês, em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Preconceito contra as Pessoas com Nanismo (celebrado em 25 de outubro), a marca lançou novas peças.

“Há uma frustração das pessoas com nanismo em não se identificarem com nenhuma peça de roupa. A moda diz muito sobre nossa expressão e personalidade. Quando há dificuldade de encontrar algo que seja ideal para você, isso impacta a autoimagem”, diz Josi Zurdo, da Via Voice For Fashion. Segundo ela, se acumulam relatos de pessoas com nanismo que acabam deixando de lado a vaidade por falta de opções. “A roupa é fator primordial na construção da autoestima. A moda é ferramenta de empoderamento e comunicação e não ter acesso a isso te limita.”

Também em ambientes corporativos as pessoas com nanismo têm atuado em busca de conhecimento e visibilidade. A Lei de Cotas, que amparam trabalhadores com deficiência no mercado de trabalho, abarca a condição.

Patrícia Costa Byrro, 31, é advogada em uma multinacional e procura ampliar a consciência dos colegas e de gestores de que o nanismo não a limita profissionalmente e como parte atuante da empresa.

“Tento trabalhar o pertencimento mostrando que não fui contratada só para cumprir uma cota e sim para contribuir com meu trabalho e agregar valor à equipe”, diz. “Mostro a Patrícia que quer contribuir e crescer na profissão. Pertencimento é se sentir parte do todo. Quando vamos além da capacidade limitada, mostramos que somos maior do que uma imposição física.”

Tornar o local de trabalho acessível incorporando necessidades do trabalhador com nanismo, nas palavras da advogada, também é essencial para o avanço do “fazer parte”, mote levantado pelo grupo.

“O ambiente faz com que o colaborador sinta-se parte ativa daquela construção. Ele não se sente deslocado ou pensa que aquele ambiente não é para ele, pelo contrário, se sente mais motivado”.

Segundo a Nanismo Brasil, os avanços por mais qualidade de vida e fortalecimento social também se dão em áreas como a nutrição, que estuda a melhor forma de alimentação para essa condição, uma vez que o IMC (índice de Massa Corporal) tradicional costuma indicar obesidade mórbida para pessoas com nanismo; a medicina, com pesquisa relativa à estrutura óssea e cuidados corporais; e condicionamento físico, com o desenvolvimento de práticas esportivas mais adequadas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE NOVEMBRO

O CAMINHO DO HOMEM CULPADO

Tortuoso é o caminho do homem carregado de culpa, mas reto, o proceder do honesto (Provérbios 21.8).

Há dois tipos de culpa: a real e a irreal; a verdadeira e a fictícia. Há pessoas que não têm culpa, mas por ela são assoladas; há outras que têm culpa, mas não a sentem. Algumas pessoas têm a consciência fraca e se sentem culpadas mesmo sendo inocentes; outras têm a consciência cauterizada e, mesmo transgredindo, não sentem nenhuma culpa. Não estamos falando aqui da culpa irreal, mas da verdadeira. Uma pessoa que vive em pecado não tem paz. Seu coração é um mar revolto que lança de si lodo e lama. A solução não é amordaçar a voz da consciência e eliminar a culpa. É arrepender-se, confessar o pecado e mudar a conduta. O culpado segue caminhos errados. Para justificar um erro, comete outros erros. Para se livrar de uma mentira, precisa articular outras tantas. O culpado enrola-se num cipoal e não consegue livrar-se de suas próprias armadilhas. Um abismo chama outro abismo, e a pessoa se perde nesse caminho tortuoso e cheio de bifurcações. Diferente é a vida do homem honesto. Ele anda na luz. Sua conduta é irrepreensível, seu proceder é honrado, e seu caminho é reto. O homem honesto tem consciência limpa, coração puro e mãos incontaminadas. Seu passado é limpo, sua vida é um legado, e seu futuro é um exemplo a ser imitado.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – I

A crise segue, mas alguns setores já aceleram as contratações. O Guia Salaria da consultoria de recrutamento Robert Half, mostra quais são os cargos que estarão em alta em 2022, e como andam as remunerações nessas áreas.

O noticiário bate numa só tecla: o desemprego. De fato. Nunca vimos índices acima dos 14%. Mas há um outro lado nessa moeda: mesmo com recessão, pandemia e desgoverno, o Brasil ainda é a 12ª maior economia entre as 207 nações monitoradas pelo Banco Mundial. Nossa indústria, comércio e serviços garantem um PIB que coloca o Brasil bem à frente de outras nações. O bolo segue pessimamente dividido, claro, mas é grande.

Nisso, os donos do bolo se deparam com um problema: a má formação dos brasileiros. Trata-se do legado mais podre dessa má divisão: um país que não encontrou um jeito de melhorar a educação e capacitação profissional da maioria de seus cidadãos. O resultado é que, mesmo com 14 milhões de pessoas em busca de trabalho, 69% dos empregadores se queixam da falta de profissionais qualificados. É o que mostra o Guia Salarial da empresa de recrutamento Robert Half – que traz as expectativas das carreiras com mais demanda para 2022.

Nessa realidade, quem está mais bem preparado vira ouro. Os mais disputados ainda são os trabalhadores de tecnologia. Todos os segmentos da economia precisaram abraçar a” transformação digital” e a TI, que já era essencial, ganha ainda mais destaque.

Outra área em evidência é o marketing. O celular se tornou o novo shopping. Isso virou de ponta-cabeça as estratégias de divulgação, e precisa-se de gente nova para tocar essa revolução dentro das empresas.

Um fator que está movimentando o mercado é o aumento de fusões e aquisições. Entre as mais célebres, estão a da varejista Grupo Soma, que comprou a Hering por RS 5,1 bilhões; e a junção entre a Hapvida e a Notre Dame Intermédica. Mas dados da consultoria KPMG mostram que, em dez anos, nunca houve tantas operações desse tipo. Só no primeiro semestre, foram 1.804.

Isso joga luz nos profissionais de M&A – mergers and acquisitions, ou fusões & aquisições, no bom e cada vez menos utilizado português. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar todo o processo de compra, venda ou fusão das companhias. A crise, porém, bate na parte salarial. “Para o ano de 2020, a gente não deve ver mudanças gritantes.

As empresas ainda estão preocupadas como impacto da Covid-19 na economia e isso afeta a remuneração”, afirma Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half para a América do Sul.

Veja a seguir, quais são as expectativas para o mercado de acordo com a Robert Half, além dos cargos e salários para as sete áreas de atuação que devem bombar em 2022.

COMO LER AS TABELAS

Os salários listados aqui não incluem bônus, benefícios e outras formas de remuneração. O valor de cada cargo é dividido em três perfis nos quais cada faixa é determinada pelo nível de qualificação, experiência do candidato e complexidade do cargo. Os comparativos salariais entre os anos de 2021 e 2022 foram feitos com base no perfil e, no qual a maior parte dos profissionais se encontra.

FINANÇAS E CONTABILIDADE – O FILÉ MIGNON FINANCEIRO

Se no começo da pandemia  a área de finanças foi essencial para controlar os custos das companhias, agora é ela quem lidera a expansão das empresas para uma eventual retomada.

E surgem cargos mais especializados. ”Antes, a gente sentia uma demanda maior para áreas de contabilidade, controle fiscal e tesouraria. Agora, saímos desse arroz com feijão e estamos no filé mignon da área. A tendência é de aumento dos profissionais de planejamento financeiro, fusões & aquisições, relações com investidores e captação de recursos”, afirma Marcela Esteves, gerente de recrutamento da Robert Half.

O setor cada vez mais exige profissionais que lidem com grandes quantidades de dados. Logo, conhecimento avançado de ferramentas de business intelligence e ERP (sistema integrado de gestão empresarial) e, claro, Excel, são essenciais. A vantagem da transformação digital é a diminuição de atividades operacionais – já que vários processos se tornam automatizados. Isso abre espaço para profissionais com maior capacidade analítica e visão estratégica

NO OLHO 00 FURACÃO

Maria Isabel Antonini, de 35 anos, lida com M&A há dez anos. Passou pelo Itaú, Grupo Pão de Açúcar e Via. Mas ela afirma que um dos seus maiores desafios profissionais foi ano passado, como CFO da startup de beleza Singu. A belo-horizontina liderou as negociações de investimento entre a Singu e a Natura. “Um processo de fusão entre uma startup e uma grande empresa é como se fosse uma operação entre Davi e Golias. É mais difícil de precificar, alinhar a parte burocrática e conseguir se impor nas negociações.” Claro que conhecimento técnico, como o de modelagem financeira (conjunto de técnicas para atribuir o preço justo de uma empresa no mercado), conta (e muito) para exercer o cargo. Mas ela destaca que a habilidade mais importante para o profissional de fusões e aquisições é o jogo de cintura. “Quando você senta em uma mesa de negociação, tem vários interesses no meio e agendas diferentes. Saber ouvir e ser flexível é fundamental.”

EU ACHO …

COMO ‘RECRIAR OS FILHOS’ PÓS-PANDEMIA

Será prioridade ensinar o valor do cuidado de si – que se estende ao cuidado com o outro

Será que teremos de mudar algumas direções em nossas atitudes educativas com os filhos após esse longo período – que ainda não terminou – de pandemia? Tenho refletido a esse respeito, estimulada pela questão que uma mãe me trouxe: “Como recriar os filhos depois de tanto tempo sem escola”·

Temos muito no que pensar sobre esse tema, mas já dá para colocar em prática o que muitos adultos, principalmente, aprenderam durante esse período. Daqui para a frente, será prioridade ensinar aos filhos a importância do autocuidado – que leva ao cuidado com o outro. Uma discussão atual – tomar ou não vacinas – nos lembra que não vivemos sozinhos.

Da família à escola, ao trabalho, à vida social em todos os seus aspectos, estamos sempre em grupos, o que requer cuidados. Como colaborar com a proteção coletiva?

Tomemos dois exemplos: o sarampo e a poliomielite. O sarampo já havia sido declarado erradicado no Brasil; porém, voltou a circular, acompanhando o baixo índice de vacinação. A poliomielite está considerada erradicada, mas o momento é preocupante: em 2019, uma pesquisa mostrou que só metade da população se vacinou contra essa doença.

Percebe que podemos, com o autocuidado, promover o cuidado com o outro? E o cuidado tema ver não só com a saúde e o bem-estar, mas também com a vida boa e respeitosa. Sempre é bom lembrar que, quando o grupo (familiar, social) vive bem, nossa vida pessoal fica melhor.

Os pais, quando cuidam das crianças pequenas, estão, indiretamente, ensinando o cuidado de si. Mas, a partir dos 6, 7 anos, é importante ensinar diretamente. Mostrar ao filho que ele arca com alguma consequência ruim por não ter avaliado os riscos de determinada atitude antes de tomá-la é um bom exemplo. Quanto aos adolescentes, é mais importante que eles já saibam o básico, mas continuem aprendendo como cuidar bem de si. Nessa fase da vida, há muitas tentações, e eles têm de pensar que, antes de ceder a essas iscas, precisam saber dos riscos que elas podem conter.

Outro tema que deverá nortear de agora em diante a educação dos filhos é a construção do processo de autonomia. Após quase dois anos apegados aos pais, será necessário incentivar o caminhar com as próprias pernas, sempre conforme a etapa vivida no momento. Como fazer? De início, tomando uma atitude simples: não fazer nada pelo filho que ele já possa fazer por si  mesmo. Aliás, você se deu conta de quantas coisas faz por ele que deveriam ser da conta dele? Por que fazemos isso? Porquê?

*** ROSELY SAYÃO – psicóloga, consultora educacional e autora do livro “Educação sem blá- blá- blá”

ESTAR BEM

VEGANISMO EM ALTA

As vantagens e os perigos de se aderir à dieta sem carne

“Para mim, o veganismo não é uma linha reta. Hoje em dia me sinto feliz por não ter mais recaídas, mas elas aconteceram no começo”, confessa Luísa Motta, de 22 anos, uma das influenciadoras veganas mais conhecidas do país. Dona do canal de receitas Larica Vegana, ela tem cerca de meio milhão de seguidores no Youtube, onde prepara de bacalhoadas sem peixe a fondue.

O interesse pelo veganismo mais que dobrou online entre 2015 e 2021, segundo o Google. E a tendência se reflete à mesa: pesquisa do lpec (antigo Ibope) divulgada em agosto mostrou que 46% dos brasileiros não comem carne por opção ao menos uma vez na semana e 32% preferem a alternativa vegana, em restaurantes em que é ofertada.

A redução ou eliminação do consumo de produtos animais tem sido apontada como um caminho para garantir a sobrevivência do planeta, reduzir o sofrimento dos animais e melhorar a saúde.

“Eu nunca afirmaria que todas as pessoas se adaptam à dieta vegetariana estrita. Não falaria isso a respeito de nenhuma dieta. Existem pessoas que não se adaptam a uma dieta com carne também”, afirma Luísa.

Mas nem tudo são flores – ou folhas de couve ricas em antioxidantes: influencers que ganharam milhares de seguidores e muito dinheiro com feeds coloridos cheios de frutas, legumes e receitas veganas protagonizaram polêmicas e expuseram os riscos de se aderir ao estilo de vida só pelo hype e pelos likes.

O caso mais emblemático é o da californiana Yovana Ayres, a Rawvana (ou Cruvana, em português), que pregava a dieta vegana crudívora até 2019. Ostentava três milhões de seguidores – até ser flagrada em Bali comendo peixe e alegar motivos de saúde. Estava anémica, não menstruava há meses e enfrentava problemas intestinais. Em um pedido de desculpas em meio ao cancelamento que sofreu, revelou que há pelo menos três anos não seguia a dieta que pregava.

A australiana Bonny Rebecca, outra influencer que abandonou o veganismo em 2019 após alegar problemas digestivos e foi prontamente cancelada, hoje se diz traumatizada com as críticas que recebeu da comunidade. Em seu canal no Youtube, passou a defender que nem todo corpo se adapta ao veganismo.

“A ciência mostra que não há justificativa fisiológica, bioquímica ou nutricional que obrigue um ser humano a comer produtos animais. É escolha, não necessidade”, rebate Alessandra Luglio, nutricionista especializada em veganismo e referência na área.

“Pessoas como elas fazem escolhas alimentares equivocadas, com dietas com poucas calorias e deficiências nutricionais. Tudo pelo padrão de beleza das redes. Depois desistem e culpam o veganismo”.

Presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, o médico Durval Ribas discorda que a dieta seja para todos. Segundo ele, todo fenômeno biológico está inserido na curva gaussiana, que prevê que 16% das pessoas respondem bem a terapias médicas, incluídas as intervenções nutricionais – a porcentagem aproxima-se dos 14% de brasileiros que declararam ser vegetarianos em pesquisado IBOPE de 2018. Outros 16% respondem muito mal a esses tipos de mudanças. São, segundo Ribas, aqueles que não conseguiriam levar o cardápio sem carne adiante. As chances são menores quanto mais restrita a dieta, diz.

Em comum, os especialistas concordam que uma alimentação equilibrada, com verduras e frutas em abundância, melhora a saúde. E quem optar pela transição deve fazê-la com calma e muita informação sobre como fazer boas substituições. A supervisora em um banco digital Ana Quintero, 27, trilhou esse caminho e, em janeiro, fez a transição do vegetarianismo para o veganismo. Diz que a mudança despertou o amor pela culinária e, com auxílio de um psiquiatra nutrólogo, passou a lidar com a compulsão alimentar e intolerância à lactose.

“Talvez não seja a salvação para todo mundo, mas me ajudou muito a ter outra relação com a comida”, diz.

Já a publicitária Andrea Oliveira, 33, não teve a mesma sorte. Foi ovolactovegetariana por 7 anos mas, sem acompanhamento profissional, só substituiu as carnes por uma dieta de massas e carboidratos ricos em glúten. Passou a ter crises alérgicas severas e ouviu dos médicos que o período a fez desenvolver doença celíaca. Então adotou o flexitarianismo (em que se reduz alimentos de origem animal).

“Sem glúten e sem carne, ficou inviável. Quem é mais engajado acha que sempre tem uma solução. E tem mesmo. Mas com filho, trabalho, restrições alimentares e os preços menos acessíveis, nem penso em voltar”.

FOCO NOS GANHOS

Ricardo Laurindo, presidente da Sociedade Brasileira Vegetariana, sugere focar naquilo que se ganha.

“O cérebro não gosta da sensação de perda, então ao invés de pensar que nunca mais vai comer carne, foque nos ganhos de saúde, na diferença na vida dos animais e meio ambiente e nas comidas novas que vai provar”.

Estudos científicos indicam que veganos teriam menor nível de colesterol, 15% menos chances de câncer e risco menor de infarto e diabetes do tipo 2. Os impactos sobre o planeta também são atenuados: juntas, as indústrias de carne e laticínios são responsáveis por 14,5% das emissões de gases estufa.

Mas alguns dos riscos de quem decide fazer a transição pelos modismos, sem acompanhamento médico e informação, são piora na saúde, desequilíbrios nutricionais (como carência de vitamina B.12) e autoconfiança.

Para a nutricionista vegana Alessandra Luglio, calma é a chave. Ela recomenda reduzir aos poucas os produtos animais e atentar para as mudanças na disposição e no apetite. Muito cansaço, fome ou sono podem ser alertas para ajustes nas porções ou seus macronutrientes (como proteínas e carboidratos). O bife que era a estrela do prato pode dar a vez a mais verduras, leguminosas e grãos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELAS NÃO AGUENTAM MAIS

Sobrecarregadas ao extremo durante a pandemia, as mulheres são as principais vítimas da síndrome de burnout. De acordo com pesquisas, elas chegaram ao colapso

Há algo de paradoxal na situação atual das mulheres. Nunca foi tão intensa a mobilização por equidade com os homens, pelo direito de decidir o que fazer com o próprio corpo e contra a violência de gênero. Ao mesmo tempo, poucas vezes na história elas estiveram tão exaustas pelo acúmulo de funções como mães, parceiras e profissionais e tão pressionadas por uma cultura que exalta a perfeição. Embora as bandeiras estejam aí e um movimento real de mudança ganhe força, ainda permanece uma distância imensa separando o gênero feminino de uma realidade menos pesada e punitiva. A pandemia de Covid-19, claro, contribui para fazer com que a vida delas – ou da maior parte – tenha se transformado em um caos. Ou em um inferno, dependendo do momento. O trabalho em casa, as aulas on-line dos filhos, a louça na pia, o cuidado com os pais e nem um segundo para si próprias levaram as mulheres ao esgotamento.

O retrato da situação está exposto na crueza dos resultados da pesquisa Women in the Workplace 2021, feita pela consultoria McKinsey & Company e pela organização Leanln. Depois de entrevistarem mais de 65.000 pessoas de 423 empresas nos Estados Unidos e Canadá, os pesquisadores concluíram que 42% das mulheres sofrem com sintomas da síndrome de burnout. Entre os homens, a taxa foi de 35%. Em 2020 e 2019, os índices eram de 32% e 28%, respectivamente. A síndrome de burnout é uma doença dos nossos tempos. Primeiramente observada pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger em 1974, foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como síndrome em 2019. Caracteriza-se pelo cansaço extremo e esgotamento físico e mental resultantes de situações desgastantes ligadas ao trabalho ou relacionadas a altas cargas de stress. Entre os sintomas estão os sentimentos de fracasso e insegurança, insônia, mudanças no apetite e dores de cabeça frequentes. No levantamento realizado pelas consultorias, nada menos do que 50% das mulheres que ocupavam cargos de gerência manifestaram sintomas de forma persistente. Quanto mais elevada a posição na carreira profissional, maiores as responsabilidades, as cobranças e, em milhares de casos, os problemas domésticos.

Aqui a situação não é diferente. Considerado pela International Stress Management Association o segundo país com maior número de pessoas afetadas pela síndrome em 2019, atrás somente do Japão, o Brasil viu subir suas taxas na pandemia. Segundo o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, houve um acréscimo de 21% nos casos de exaustão ligada ao trabalho em comparação com os meses que antecederam a crise sanitária. Outro estudo, executado pela Locked Down, Burned Out e publicado pela editora De Gruyter, na Alemanha em 2020, mostrou que a interrupção de relações importantes para a saúde mental, como a convivência social, e a desigualdade no mercado de trabalho também influem nesses índices. Mesmo com as diferenças diminuindo, as discrepâncias de salário e de tipo de emprego entre os gêneros continuam graves. O mercado brasileiro é um dos mais aviltantes nesse sentido. No relatório Global Gender Gap de 2020, do Fórum Econômico Mundial, o país ocupa a 931 posição em um ranking que classifica as nações de acordo com a igualdade salarial entre homens e mulheres. A lista tem 153 países.

No seminal livro O Segundo Sexo, lançado em 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) já intuía que as atribuições sociais dadas ao corpo feminino estariam na raiz da desigualdade de tratamento entre homens e mulheres. “Cuidar de sua beleza, arranjar-se, é uma espécie de trabalho que lhe permite apropriar-se de sua pessoa como se apropria do lar pelo seu trabalho caseiro; seu eu parece-lhe, então, escolhido e recriado por si mesma. Os costumes incitam-na a alienar-se assim em sua imagem.” As palavras de Simone explicam a discriminação persistente à passagem do tempo, com a mulher até hoje submetida a estereótipos que a aprisionam. Os dados trazidos pelas pesquisas sugerem, no entanto, que elas podem estar chegando a um ponto de inflexão. A exaustão de ser quem a filósofa tão bem descreveu está insuportável. Elas não aguentam mais.

OUTROS OLHARES

OS CANDIDATOS A SER A ‘NOVA NICOTINA’

Um debate que começa a esquentar no Brasil é sobre quais produtos devem virar alvo dos impostos do pecado fazendo companhia a cigarros e bebidas alcoólicas. Por motivos óbvios, um dos preferidos dos especialistas são as bebidas açucaradas

Atire a primeira pedra quem nunca caiu ou cai em tentação. São aquelas situações em que, mesmo sabendo que uma ação no presente poderá provocar problemas no futuro, a gratificação imediata fala mais alto. E lá sevai mais um maço de cigarros, um pote de sorvete numa sentada ou alguns drinques para aliviar o estresse. Há também o peso da preguiça. E, de repente, fazemos aquela saída de carro para rodar apenas dois quarteirões, a falta de paciência para separar o lixo reciclável ou levar sacolas reutilizadas para carregar as compras. A lista pode ser bem longa.

Governos de todas as partes do mundo descobriram há muito tempo que podem dar um empurrão para incentivar comportamentos mais saudáveis e mais voltados para o bem comum aumentando tributos. O caso clássico é o do cigarro, com vários exemplos documentados. No Brasil, entre 2006 e 2013, o preço subiu 116%, e as vendas caíram 32%.

Essas medidas costumam funcionar por dois motivos. Primeiro porque a elevação do valor pesa no bolso, principalmente para os mais pobres e jovens. Segundo porque são “educativas”, ao sinalizar desaprovação da sociedade como um todo.

NA MIRA

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 110, em tramitação no Senado, tem muita coisa técnica, mas há, pelo menos um ponto de amplo entendimento: propõe uma discussão nacional sobre quais produtos, que podem afetar a saúde e o meio ambiente, devem ter uma tributação mais elevada, na toada dos “impostos do pecado”. As bebidas açucaradas aparecem no topo da lista dos candidatos a alvo da vez.

De acordo com levantamento do The Global Food Research Program, ligado à. Universidade da Carolina do Norte em Chapei Hill, nos Estados Unidos, por volta de 50 nações já adotaram medidas nesse sentido, sendo que 25 delas aplicam essas ações desde 2017.

Tome o exemplo do Chile. Após a implementação de um pacote de políticas públicas em 2014 – que incluíram aumento de tributos sobre bebidas açucaradas (em 5%), a adoção de uma lei sobre rotulagem de alimentos e de restrição à publicidade -, os chilenos passaram a comprar menos refrigerantes e bebidas de fruta industrializadas com grande quantidade de açúcar. Foi o que mostrou um estudo feito em 2016, que reuniu cientistas do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile, ente outras entidades.

No México, três anos após a adoção da taxa, também houve queda na venda de refrigerantes. Uma pesquisa que avaliou a recorrência do consumo mostrou que o grupo que não consumia esse tipo de bebida passou de 7% da população antes do imposto, para 13.6% depois da taxa.

HORA CERTA

Na cidade da Filadélfia, nos EIJA, a régua passou entre os adolescentes. Após a implementação do Imposto das bebidas açucaradas, o consumo de refrigerantes por semana caiu 27,7% entre os mais jovens. A mudança de hábitos nesta faixa etária é especialmente importante, explicam os médicos, porque a obesidade nessa época tende a aumentar as chances de uma condição de saúde bem parecida na vida adulta.

“É comum que esses impostos tenham maior impacto sobre os grupos que mais consomem bebidas açucaradas. Nos Estados Unidos, por exemplo, são os adolescentes. Além disso, os impostos também têm um resultado maior sobre os grupos que são mais sensíveis aos aumentos de preços”, afirma Anna Grummon, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

Apesar dos resultados conhecidos – a maioria deles dedicados a avaliar a redução do consumo desses produtos – , ainda é difícil mensurar o efeito na queda de casos de diabetes e de mortes em decorrência de complicações de saúde. É o que explica a pesquisadora do The Global Food Research Program, Shu Wen Ng.

“Vamos levar um tempo até observar os resultados de saúde dessas políticas. A epidemia de obesidade não aconteceu do dia para a noite, foram décadas acumulando mudanças na cadeia de alimentação e distribuição para chegar até aqui. Como podemos esperar que uma única política seja capaz de resolver isso? – pergunta a pesquisadora, que defende uma “harmonização” de outras medidas para, de fato, impactar a obesidade em massa e outras doenças.

Especialistas brasileiros, por sua vez, apoiam amplamente a medida de taxar as bebidas açucaradas. Em setembro, quase duas dezenas de entidades de saúde do país, incluindo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), defenderam, em um posicionamento conjunto, a taxação extra desses refrescos açucarados no país.

A taxa do imposto proposta pelos especialistas está de acordo com o que sugere a organização  Mundial  de Saúde (OMS), de ao menos 20%. Cintia Cercato, presidente da Abeso e uma das médicas que assinam o documento, faz coro à ideia de que a medida deve estar unida a outras estratégias de proteção à saúde, como a proibição da publicidade de alimentos ultra processados e bebidas para o público infantil.

RISCOS ENVOLVIDOS

Eduardo Leão, diretor executivo da Unica, associação que representa a agroindústria canavieira no Brasil, diz que medidas como essas elevam o risco de que o consumo migre para produtos alternativos. O perigo existe mesmo, argumentam especialistas, e as autoridades devem ficar atentas à necessidade de também aumentar os impostos que incidem sobre esses produtos.

As escolhas, lembra Paulo Henrique Pêgas, professor de contabilidade tributária do Ibmec, no Rio, devem se apoiar em avaliações técnicas.

“O que o congresso está fazendo não é ruim, tanto do ponto de vista tributário como de saúde. Mas a forma apressada de criar esse imposto não é ideal”, diz.

Outro ponto que merece atenção é a eficácia. Não é porque o aumento dos impostos para o cigarro tiveram efeito que o mesmo vai acontecer com todos os produtos. Há experiências infrutíferas pelo mundo.

A Dinamarca decidiu taxar, em 2011, produtos que continham gordura saturada. Subiu em quase 5% a tributação na manteiga e no sorvete. Um ano depois, a medida foi revogada.

O imposto sobre a gordura não diminuiu de forma significativa o consumo porque a demanda foi considerada inelástica. Ou seja, mesmo com preços mais altos, os dinamarqueses continuaram com grande apetite por esses itens.

Há casos em que a medida funciona e isso causa uma enorme gritaria. O governo britânico introduziu em 2018 impostos sobre sacolas plásticas. Um estudo publicado em 2020 mostrou uma queda ao número dessas sacolas, encontradas nas regiões costeiras. O excesso de impostos, porém, gerou uma saraivada de críticas.

Irlanda e Austrália adotaram iniciativas semelhantes. No Brasil, prefeituras tentaram seguir o mesmo caminho, mas nem sempre com um final feliz para o meio ambiente.  Diante da  gritaria, muitas voltaram atrás.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE NOVEMBRO

O VIOLENTO DESTRÓI A SI MESMO

A violência dos perversos os arrebata, porque recusam praticar a justiça (Provérbios 21.7).

A violência é uma flecha venenosa que se volta contra a própria pessoa que a lança. Aquele que fere o próximo destrói a si mesmo. O mal praticado contra os outros retorna contra o próprio malfeitor. Os maus são destruídos pela sua própria violência porque se negam a fazer o que é direito. A violência dos ímpios os arrastará, pois eles se recusam a agir corretamente. Quem à espada fere à espada será ferido. Quem planta violência colhe violência. Quem semeia guerra ceifa contendas. O perverso é aquele que maquina o mal em seu leito e se levanta para praticá-lo. Sua vida é uma torrente de maldade, uma espécie de avalanche que desce com fúria, arrastando tudo à sua volta e causando grande destruição. O perverso, porém, não fica impune nem sai ileso desse caudal de violência. Todo o mal concebido pelo perverso e praticado contra o próximo cai sobre sua própria cabeça. O perverso não escuta conselhos nem emenda sua vida. Contumaz no seu erro, é um indivíduo cuja cerviz jamais se dobra. O perverso se recusa a praticar a justiça, pois está acostumado a fazer o mal. Toda a inclinação do seu coração é para desviar-se de Deus e atentar contra a vida do próximo. A violência que mora no seu coração, entretanto, recai sobre sua própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – REGENTE DE CORAIS

Sim, é uma profissão de nicho, e sem um mercado de trabalho propriamente dito. Justamente por isso, o regente de corais não é apenas um artista. É um empreendedor, que precisa idealizar projetos e oferecê-los a empresas e programas sociais.

Quando olhou para as fotos nas paredes daquele camarim estrangeiro, Vladimir Silva, presidente da Nova Associação Brasileira de Regentes de Coros (Nova ABRC­ -Abraco), começou a chorar. Eram imagens de alguns dos maiores maestros do século 20 – Arturo Toscanini, Leonard Bernstein… -, presenças que foram frequentes naquela sala de concertos: o Carnegie Hall, em Nova York.

Por lá passaram estrelas da música erudita, mas também da popular, como Frank Sinatra e os Beatles. No mesmo cômodo onde esses astros fizeram seus rituais de concentração e contaram piadas para aliviar a ansiedade, em 2017 estava Vladimir, que levou seu coro paraibano de Campina Grande para cantar a Missa de AIcaçuz – composição original, brasileira. Ao todo, regeu 80 cantores naquele templo da música. Uma experiência para contar aos netos. Ser o protagonista em alguns dos palcos mais tradicionais do planeta é, naturalmente, um Olimpo para poucos. O mais normal na profissão de regente de corais é acumular trabalhos, que tanto pode ser o de comandar diversos grupos de coro quanto o de dar aula de música – geralmente os dois. Por isso, o profissional não pode se esconder de algumas competências que vão além da boa técnica de regência: dominar um vasto conhecimento musical (familiaridade com múltiplos gêneros aumenta seu mercado) e ter desenvoltura em áreas raramente associadas ao dia a dia do músico, como gestão e empreendedorismo. A vastidão desse conhecimento justifica a importância de uma graduação. Para ser regente, você não precisa de diploma. Mas a faculdade vai lhe proporcionar multiplicidade de repertório, técnicas específicas de regência… Muita coisa que você poderia conseguir em cursos livres, mas na graduação esse conhecimento é condensado –  e direcionado para a profissão. E é lá que você fará contatos imprescindíveis para conseguir trabalho no futuro. A Unesp se destaca entre as instituições de Ensino Superior no campo musical e oferece um “bacharelado em música com habilitação em regência coral”.

O mercado de trabalho é exíguo, claro. Para dar uma ideia: em São Paulo, onde há uma galáxia de corais em comparação com cidades médias e pequenas, só três são profissionais (nos quais tanto o regente quanto os cantores ganham um salário fixo): o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), o Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano Mário de Andrade.

No meio-termo entre esses e o coral de amigos da escola, há semiprofissionais, conjuntos bancados pelo governo e uma profusão de grupos amadores. É aí que o dinheiro está mais à mão. “Quando falo da experiência que tive no Carnegie Hall para meus alunos, deixo claro que a realidade que eles vão encontrar é bem diferente”, alerta Vladimir Silva. “Você vai trabalhar com coro de igreja, de programa social…”

Outro caminho é montar projetos e oferecer para empresas. Votorantim, grandes bancos, seguradoras… muitas têm ou já tiveram grupos corais para promover ações de qualidade de vida aos funcionários, mas também para estimular uma atividade que envolve trabalho em equipe e que aumenta o senso de pertencimento do colaborador.

Ou seja: para potencializar sua carreira, o regente tem de encontrar a harmonia perfeita entre o lado artista e o lado executivo. Precisa ter habilidades de gestão, porque administrar um grupo heterogêneo de pessoas demanda uma capacidade enorme de fazer acontecer. E deve saber prospectar: convencer empresas, órgãos de governo e os próprios cantores a pagar por seu trabalho. O maestro Ricardo Carvalho, de São Paulo, que se especializou em regência de corais, iniciou a carreira nessa área graças a um desses projetos para grandes companhias.

REGENDO PARA O GOVERNO DE SP

Aluno de Naomi Munakata, a maestrina titular do Coral Paulistano – e uma das primeiras artistas renomadas a morrer de Covid no Brasil -, Ricardo começou a ganhar dinheiro como regente assistente num coro do Itaú. Um assistente pode, por exemplo, preparar as vozes só do naipe feminino, para que o regente principal já pegue o grupo todo mais sintonizado.

“A gente tem uma visão do maestro lá na frente balançando o braço, mas a maior parte do trabalho é anterior a isso. É garantir que as pessoas estejam entregando suas partes corretamente, fazer os ajustes necessários nas vozes e criar um filtro de interpretação”, explica Ricardo. Depois da experiência no banco, o maestro passou dois anos como assistente de um coral da farmacêutica Roche.

Apesar do currículo no mundo corporativo, sua primeira vez como regente principal foi para uma casa de shows. O finado The Clock, em São Paulo, era especializado em rock dos anos 1950, e o proprietário contratou o maestro para montar um grupo que cantasse doowop, técnica vocal baseada no rhythm and blues. Nesse mesmo período, Carvalho virou regente de um coral feminino de música sacra e de outro, mais eclético, de terceira idade.

Mas seu salto na carreira veio mesmo quando se candidatou a dar aulas de canto coral no Projeto Guri, do governo de São Paulo (no concurso, ficou em primeiro lugar). Eram os idos de 2010, e isso lhe rendeu um emprego de fato. Lá dentro foi regente de 16 corais de menores carentes e chegou a ter 700 alunos ao mesmo tempo. “Na época, a Lu Alckmin, então primeira-dama do Estado, era a patrona de um dos polos onde o Guri atuava, então sempre ia assistir nossas apresentações, o que chamava imprensa, e meu trabalho acabava tendo repercussão.”

PANDEMIA DESAFINOU O NEGÓCIO

Ricardo sempre conciliou suas atividades de regente com as de professor: além de canto, ensina piano, baixo, teoria musical e prepara alunos para vestibular de música. Mas, até o começo da pandemia, a regência era mesmo seu principal ofício. Mantinha o grupo de terceira idade, regia o coral da Geap Saúde – plano de assistência médica de servidores públicos – e outro da AGU, em sua sede paulistana. Sim, os funcionários da Advocacia Geral da União também cantam em conjunto.

O coronavírus, no entanto, foi um meteoro na terra dos regentes. Primeiro porque a máscara é incompatível com o canto – atrapalha o controle da respiração que é essencial para soltar a voz. E, diferente das aulas individuais de instrumentos ou mesmo de canto, o coro não funciona no Zoom. E não adianta tentar: há um delay entre uma conexão e outra, e aí fica impossível ter a sincronia da qual o coral depende. Segundo Vladimir Silva, da associação de regentes, muitos profissionais tiveram de recorrer ao auxílio emergencial por falta de trabalho – a expectativa é de que as atividades sejam retomadas com o avanço da vacinação.

Para Ricardo, graças a um bom networking, não foi o fim do mundo. O que perdeu nos corais, ele aumentou nas aulas particulares online. Ah, e ainda conseguiu manter um dos coros. Justamente o da terceira idade.

Trata-se do Piacere, um grupo organizado por Elisa Campos, professora livre docente do Departamento de Psicologia Clínica da USP. O conjunto é amador (só os regentes são pagos), mas o esquema é profissional. Eles têm uma organização que faria inveja a muita empresa, planejam o repertório do ano e negociam para conseguir locais atraentes para se apresentar.

Assim, já cantaram no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (Mube) e na Catedral da Sé.

Agora, por videoconferência, se dedicam ao que é possível: estudar as peças e cantar individualmente para as orientações do regente. O lado positivo é que estão há um ano e meio montando repertório. A volta promete ser triunfal. Ricardo Carvalho está certo disso. “Tem sido uma das experiências emocionantes que reafirmam minha convicção de ter escolhido a profissão certa.”

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADES-CHAVE

Ensaiar grupos de cantores ao longo de períodos que podem se estender por até um ano, geralmente visando a uma apresentação ao vivo. Montar projetos de canto coral para empresas ou governos. Organizar as apresentações. Reger o grupo diante do público.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ter um vasto conhecimento musical, excelência em técnicas de regência, facilidade de lidar com pessoas, habilidades de gestão, empreendedorismo e liderança. O regente é o CEO do coro.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Estudar música, e especializar em regência. Fazer networking (músicos amigos podem indicá-lo para grupos). E de novo: criar projetos para oferecer a empresas, órgãos de governo, igrejas e outros grupo, amadores.

PONTOS POSITIVOS

Uma sessão de ensaio costuma durar entre uma e duas horas, então você pode encaixar diversos grupos na sua agenda, aumentando o faturamento. O horário é flexível.

PONTOS NEGATIVOS

Você tem de ir atrás. Não há um mercado de trabalho com vagas a serem preenchidas. Iniciantes, com pouco networking, penam até conseguir fazer dinheiro com regência.

QIEM CONTRATA

Há pouquíssimos grupos profissionais no Brasil. Mas o trabalho pode ser feito para grandes companhias; governos, faculdades e principalmente grupos amadores.

SALÁRIO MÉDIO**

R$ 100 A R$ 250 POR HORA

**Fonte: Nova ABRC- Abraco

EU ACHO …

FARTO DE NÃO OLHAR PARA A SUA CARA

Parte da comunicação depende dos movimentos que a boca faz

Eu já devia ter desconfiado, porque tenho tido bastante dificuldade em entender as pessoas. Desde que a pandemia começou, passei a ter consciência de que parte da comunicação depende do som das palavras massa outra parte se deve aos movimentos que a boca faz, e a máscara impede que eu os veja.

Às vezes, quando o meu interlocutor se encontra num balcão de atendimento, atrás de um vidro, tenho de fazer suposições, muitos vezes tragicamente erradas, sobre o que está a ser dito.

Do ponto de vista da higiene, está tudo ótimo: o vidro e a máscara, em princípio, impedem ao transmissão de qualquer vírus. Infelizmente, impedem também a transmissão de mensagens. O resultado é uma conversa de bobos. Somos bobos muito saudáveis, mas não há dúvida de que somos bobos. Eu, pelo menos, sou.

Por isso, foi sem surpresa que li os estudos sobre a dificuldade que as crianças do ensino  pré-escolar estão tendo para aprender português. Na verdade, elas não estão aprendendo português, estão adivinhando português.

Como é evidente, tudo tem as suas vantagens. Em princípio – pelo menos, assim o espero -os alunos mais velhos estarão a aproveitar a oportunidade de terem máscaras a cobrir parte da cara para fazer barulhinhos irritantes que exasperam o professor, incapacitado de localizar os idiotas responsáveis pelo ruído. No meu tempo, era muito mais difícil e arriscado perturbar o normal funcionamento de uma aula. Espero que estes jovens tenham ao menos consciência da sorte que têm.

Claro que o professor também é apenas um par de olhos, pelo que é mais difícil perceber o momento em que ele fica verdadeiramente enfurecido, mas é melhor do que nada.

No entanto, este fenômeno, juntamente com a experiência do ensino a distância, que se revelou incomparavelmente pior do que o ensino presencial, indica que nós, enquanto espécie, temos absoluta necessidade de estarmos juntos e de olharmos para a cara uns dos outros. Quem diria. Imagino que se estejam a criar novos desabafos idiomáticos tais como: já estou farto de não olhar para a sua cara. Ainda bem.

*** RICARDO ARAÚJO PEREIRA – Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É editor de ‘Boca do Inferno’.

ESTAR BEM

FAZER EXERCÍCIO AERÓBICO E DE FORÇA PODE REDUZIR MORTALIDADE PELO CÂNCER

Estudo indica que atividades como prancha, agachamento e remada diminuem em 14% a mortalidade pela doença

A prática regular de exercícios de força muscular associados a atividades aeróbicas pode reduzir significativamente a mortalidade por câncer, indica estudo publicado no lnternational Journal of Behavioral Nutritionand Physical Activity. Os autores fizeram uma revisão sistemática de estudos epidemiológicos sobre o tema e concluíram que fazer exercícios como prancha, agachamento e remada diminui em14% a mortalidade pela doença. Já quando esses exercícios são combinados com outros do tipo aeróbico, o benefício é ainda maior: 28% menos mortes.

“A atividade física tem sido relacionada à redução do risco de vários tipos de câncer. No entanto, ainda não estava muito claro qual tipo de exercício teria melhor resultado. Neste estudo, encontramos evidências de que atividades de fortalecimento muscular não só podem reduzir a incidência e a mortalidade por câncer como têm um efeito ainda melhor quando associadas a atividades aeróbicas, como corrida. caminhada, natação ou ciclismo”, diz Leandro Rezende, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM ­ Unifesp).

O trabalho é fruto de uma Bolsa de Iniciação científica concedida a Wilson Nascimento e contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Harvard (Estados Unidos), Universidade Internacional de Valência (Espanha), Universidade Pública de Navarra (Espanha) e Universidade de Santiago (Chile).

Estudos epidemiológicos baseados em dados populacionais têm mostrado que a atividade física em geral reduz o risco de sete tipos de câncer: mama, cólon, endométrio, estômago, esôfago, rim e bexiga. A análise da Unifesp identificou que a prática de exercício de força muscular também pode reduzir em 2.6% o risco de câncer de rim. Já a associação entre exercício de força muscular e os demais tipos de câncer  (cólon, próstata, pulmão, linfoma, pâncreas, mieloma múltiplo, bexiga, esôfago, reto, melanoma, leucemia e do sistema digestivo) foi inconclusiva, por causado número limitado de estudos.

A pesquisa da Unifesp corrobora a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que propõe para adultos a prática de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica moderada por semana, ou de 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica vigorosa (ou uma combinação equivalente de intensidades). Também são recomendados exercícios de fortalecimento duas vezes por semana. “A OMS se baseia em benefícios proporcionados pela atividade física. E nós vimos que a redução do risco de câncer é mais um benefício”, diz Rezende à Agência Fapesp. A análise mostrou a existência de um efeito protetor contra o câncer por meio da realização de exercícios de força duas vezes por semana.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BARBUDOS E GRÁVIDOS

Em um mundo mais aberto à diversidade, homens trans engravidam e dão à luz, cravando na sociedade a marca de um novo e surpreendente arranjo familiar

Fruto de uma gestação muito desejada, Alex veio ao mundo com 3,5 quilos e 49 centímetros em uma maternidade carioca. O parto foi acompanhado por uma doula e a cesariana ocorreu sem intercorrências, ao som da música Anunciação, de Alceu Valença. A chegada da bebê Alex, hoje com 6 meses, não chamaria atenção entre os 2,6 milhões de nascimentos que ocorrem por ano no país, não fosse por um detalhe: o pai, Cleyton Cruz Bitencourt, 26 anos, foi quem a gestou e deu à luz. Não se trata de algum avanço extraordinário da ciência ou milagre da natureza, mas de uma reviravolta nos costumes e na composição da sociedade: com barba, voz grave e feições masculinas, Bitencourt é um homem trans que nasceu biologicamente mulher e optou por fazer a transição sem retirar os órgãos sexuais femininos – capaz, portanto, de ter filhos. “Mesmo me reconhecendo como homem, sempre sonhei gerar uma vida”, diz o auxiliar administrativo, casado com Fabiana Santos, 28 anos – ela, uma mulher trans com órgãos masculinos. “Vivemos a era do ‘eu posso ser o que quiser’, e a discussão já atingiu outro estágio no universo trans. A tendência é que essas gravidezes sejam cada vez mais comuns”, afirma o antropólogo Bernardo Conde, da PUC-RJ.

Embora um barbudo com bebê no ventre ainda seja raridade nas ruas, a internet está apinhada de fotos e vídeos de papais exibindo suas barrigonas.

O Unicode Consortium, ONG do Vale do Silício encarregada de aprovar novos emojis –   figurinha que traduz hábitos e mudanças da sociedade – , anunciou o lançamento, no início de 2022, de um ícone com um homem grávido. Ainda não há registro do número de crianças nascidas nessa nova configuração, que vem chacoalhando tabus ao ampliar limites antes restritos à ala feminina da humanidade, mas alguns indicadores confirmam que se trata de um universo em expansão. O Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (lbrat), presente em vários estados, teve contato com cerca de trinta casos nos últimos dois anos. No mesmo período, a Santa Casa de São Paulo realizou três partos de pessoas transgênero – aquelas que não se identificam com o gênero atribuído ao nascer. “A possibilidade de uma gravidez assim não é nenhuma novidade, mas ela vem ganhando visibilidade à medida que a transexualidade é mais discutida e aceita”, avalia o psicólogo Ricardo Martins, do ambulatório para saúde integral de travestis e transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo.

Por mais que traga à lembrança o filme Júnior, de 1994, no qual Arnold Schwarzenegger engravida ao servir de cobaia para uma nova droga, na vida real a gestação de um transexual masculino é igual à tradicional. Desde que, claro, no processo de masculinização ele não opte pela cirurgia de redesignação de sexo, que envolve a retirada de ovários e útero, e se disponha a interromper a terapia com testosterona para reativar a ovulação. “Se antes, para muitos trans, a reprodução era assunto encerrado, agora há o entendimento de que a gravidez não os faz menos homens”, ressalta Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Bitencourt, o pai de Alex, sem alterar em nada seu jeito de ser, fez questão de amamentar a filha. Não esconde, porém, o desconforto em público na gestação. “Desisti de ir à praia com medo de retaliação, após olhares e comentários maldosos”, lembra.

Como ele, o pizzaiolo e influenciador Rodrigo Bryan da Silva, 34 anos, batizado Bárbara ao nascer e que aos 27 iniciou a transição e removeu os seios, decidiu tornar pública sua história nas redes sociais como forma de combater a transfobia. Morador de Montes Claros, em Minas Gerais, e casado com Ellen Carine, mulher trans de 26 anos, Silva deu à luz Isabella há seis meses. “O mundo seria melhor se as pessoas, em vez de julgar, nos respeitassem. Temos o direito de ter filhos como qualquer um”, defende. No fim de julho, desta vez sem planejar, descobriu que estava grávido outra vez. “Viramos sensação na cidade”, conta, bem-humorado.

O americano trans Thomas Beatie foi o desbravador desse caminho em 2008, quando soube que a mulher (não trans) era estéril, resolveu engravidar recorrendo a um banco de sêmem e, revoltado com a demora e a dificuldade para ser atendido dignamente, tornou pública a sua saga. “Nove médicos se recusaram a nos ajudar. A sociedade da época foi cruel. Os comentários on-line me tratavam como se não fosse humano e alguns até desejaram a morte do bebê”, contou. Ele teve três filhos com a primeira  mulher e mais um com a atual, este gestado por ela. Passada mais de uma década, o tema segue causando polêmica. Em julho, a professora de biologia Carole Hooven, da Universidade Harvard, manifestou em um programa de TV sua indignação com a orientação para usar o termo “pessoa grávida” no lugar de “mulher grávida”, e recebeu uma enxurrada de críticas. “É vital ensinar uma linguagem inclusiva de gênero, demonstrando respeito por todos que podem engravidar”, contra-atacou Laura Lewis, diretora da força-tarefa de diversidade e inclusão do departamento de biologia.

Goste-se ou não de juntar homem e gravidez na mesma expressão, as pesquisas mostram que, em pouco tempo, a estranheza dará lugar ao fato consumado. Estudo realizado em 2019 pela ONG Family Equality mostrou que 63% das pessoas queer – que não se enquadram no padrão de binarismo homem e mulher – e trans entre 18 e 35 anos nos Estados Unidos pensam em ter uma prole. O sistema de saúde segue sendo problema em    toda parte. “Fui a um posto fazer o pré-natal e ninguém entendia como um homem podia estar grávido, “lembra o músico trans Lourenzo Duvale Lima, 23 anos, conhecido como Aqualien, que está no sétimo mês e é casado com a cantora Isis Broken, travesti de 27. Visando a combater estigmas e a reduzir a burocracia, em junho o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o cadastro do Sistema Único de Saúde (SUS) permita que cada paciente declare o gênero que quiser na marcação de consultas e exames. Além disso, na declaração de nascido vivo, o primeiro documento do bebê, em lugar de “mãe” se escreva “parturiente”. Tanto Bitencourt quanto Rodrigo Bryan constam na certidão de nascimento das filhas como “pai” e, como é de praxe nas famílias trans, não ligam a mínima para o gênero lá anotado para seu rebento. “Escolhi o nome Apolo para o meu bebê, que tem pênis, mas só vamos saber sua identidade de gênero quando ele escolher”, afirma o músico Aqualien. Opções não faltarão.

OUTROS OLHARES

DOR DE CABEÇA, FEBRE, TOSSE, MAS NÃO É COVID

Surto de gripe provoca corrida aos postos

Woman sneezing behind a window, using a tissue.

Com sintomas parecidos com os da Covld-19, a gripe tem provocado uma corrida às unidades públicas de saúde e aos consultórios do Rio. A Secretada municipal de Saúde confirmou ontem que há uma semana a capital enfrenta um surto de Influenza A e fez um apelo para que as pessoas – exceto crianças com menos de 6 meses – procurem se vacinar contra a doença nos postos. Agora, o imunizante pode ser aplicado no mesmo dia da vacina contra o coronavírus.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, apenas 57% do público­ alvo participaram da campanha de vacinação da gripe, que terminou em agosto. No entanto, como ainda há doses, a aplicação continua.

“Temos cerca de 400 mil doses, o que é suficiente para vacinarmos por um longo período e, provavelmente suprir toda a demanda reprimida. Por ser um vírus predominante no inverno, agente ainda espera que tenha surto de gripe nessa época do ano, mas também era de se esperar que, quando houvesse uma baixa nos casos de Covid, outra doença respiratória poderia ressurgir: tivemos pouquíssimos casos de Influenza nos últimos dois anos, o que indica que temos muitas pessoas suscetíveis à doença ainda”, explicou.

Soranz disseque não foram encontradas evidências de efeitos colaterais quando as vacinas contra Covid-19 e Influenza A são conjugadas e que, por isso, o protocolo de dar um intervalo de 15 dias entre os dois imunizantes foi abolido.

“Estamos trabalhando com amostragens, por isso ainda não temos dados consolidados sobre quantos testes deram positivo para a Influenza na última semana. Mas menos de 3% dos testes feitos nesse período deram positivo para Covid-19. A principal estratégia para conter a disseminação é vacinar contra a gripe, apesar de ser menos letal do que a Covid, merece toda a atenção, principalmente para grupos que costumam ter sintomas mais graves, como crianças de até seis anos, gestantes e idosos” concluiu o secretário.

CORRIDA POR ASSISTÊNCIA

Moradora de Copacabana, Miriam Cavalcante foi ontem ao posto de saúde da Rua Siqueira Campos para se vacinar após ficar sabendo do aumento de casos de gripe.

“Soube que tem um surta de Influenza na Rocinha e em outros locais, que as UPAs já estão cheias também. Eu estava cumprindo o cronograma da imunização  contra a Covid, então acabei não tomando a vacina contra a gripe. A minha filha e a minha neta tiveram gripe recentemente e ficaram bem mal, com mais de 40 graus de febre, e 15 dias de cama. Se elas, que são mais jovens, ficaram mal, preciso me prevenir”, disse a mulher de 65 anos.

Depois de longas filas na segunda-feira, a UPA da Rocinha teve ontem um dia de menos movimento, mas ainda acima do esperado. Do lado de fora, as queixas se repetiam: dor de cabeça, dor no corpo, calafrios, febre, mal-estar e tosse, sintomas muito parecidos com os da Covid. Pâmela de Melo se sentia mal havia uma semana

“A falta de ar foi o primeiro sintoma, mas segunda-feira tive febre de 39 graus. Na minha família todo mundo pegou essa gripe, fizemos os testes para Covid, mas deram negativos. Agora, vou tentar fazer o teste para gripe”, contou a doméstica.

Enquanto Pâmela aguardava atendimento na UPA, a comerciante Marilene Costa recebia seu resultado negativo para Covid. Ela contou que estava com dores no corpo, de cabeça e de garganta:

“Os sintomas começaram domingo. Minha garganta está muito inflamada, e a médica disse que é gripe.

REMÉDIOS E TESTES

Com sinais de um forte resfriado, Gustavo de Melo, morador da Tijuca, foi ontem até um posto de saúde do bairro para fazer teste da Covid. O resultado deu negativo, e o médico que o atendeu disse que a suspeita era de Influenza. Ele fez o exame, mas a confirmação do diagnóstico só sai em três dias.

“Quando acordei na segunda-feira, perecia que tinha perdido o apetite, o que me deixou preocupado. Achava que estava com Covid. Ao longo do dia, mais sintomas foram aparecendo e fui piorando: sinto até agora dor de cabeça, enjoo, dor de barriga, coriza e calafrios. Passei a madrugada muito mal. Fui ao posto e o médico me receitou um expectorante, um analgésico e um spray nasal. Agora, aguardo o resultado do teste para Influenza”, contou o analista de sistemas de 28 anos.

A prefeitura afirmou que, na última semana, os resultados positivos para Influenza A tem sido mais frequentes.

Diante do aumento da procura, a Rede de Vigilância em Saúde, do município, esteve ontem em unidades de saúde, para avaliar o cenário epidemiológico. Foram colhidos 300 exames que serão enviados aos laboratórios do Lacen e da Fiocruz.

MÁSCARA E TESTE

A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que quem estiver com sintomas gripais deve procurar uma unidade de saúde para fazer os testes da Covid e da Influenza, e receber orientações médicas. Presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio, Tânia Vergara explica que, nesses casos, apenas a testagem é capaz de definir a doença.

“O correto é adotarmos o que já acontece em países asiáticos, por exemplo. Em casos de sintomas, prefira ficar em casa, e, caso saia, utilize a máscara. Os sintomas são muito parecidos, então procure uma unidade de saúde pública para fazer o teste da Covid-19”, alerta Vergara.

Para o epidemiologista Paulo Perry, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é importante a população estar com a vacinação de gripe em dia para evitar esse tipo de confusão sobre os sintomas.

“A campanha aplicou a vacina que protege contra os três vírus sazonais de Influenza em circulação na temporada, mas em clínicas privadas ainda há a opção da tetravalente, que tem cobertura para uma cepa a mais”, explicou o especialista.

A principal forma de contaminação da gripe ocorre ao ter contato com secreções das vias respiratórias de alguém que está com a doença. Também há transmissão ao tocar em superfícies contaminadas e levar as mãos aos olhos, boca e nariz.

Apesar do surto na capital, nos dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), o vírus da Influenza A ainda não apareceu, segundo o pesquisador Marcelo Gomes, coordenador do Info Gripe, da Fiocruz.

“Os casos de Influenza detectados no Rio foram em síndromes gripais, que são casos leves, e fora surtos localizados, nada ainda muito expressivo”, afirma Gomes.

A expectativa do epidemiologista, porém, é que o vírus causador da gripe volte a circular nacionalmente em breve.

“Já temos o reaparecimento de outros vírus respiratórios, alguns desde o começo do ano, outros a partir de agosto, causando SRAG principalmente em crianças. Era uma questão de tempo par o Influenza também voltar a aparecer, em consequência do relaxamento em relação às medidas de proteção contra a transmissão da Covid-19. A volta do Influenza em particular gera maior preocupação por ser mais grave que os demais. É mais uma doença gerando internações, ocupando leitos”, afirmou.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE NOVEMBRO

O PERIGO DA RIQUEZA ILÍCITA

Trabalhar por adquirir tesouro com língua falsa é vaidade e laço mortal (Provérbios 21.6).

A riqueza é uma bênção quando vem de Deus como resultado do trabalho honesto. Contudo, a riqueza acumulada com desonestidade é pura ilusão e uma armadilha mortal. Aqueles que mentem, corrompem, roubam, oprimem e até matam o próximo para ajuntar tesouros e mais tesouros em sua casa, esses descobrem que tal riqueza maldita não traz paz ao coração, não dá descanso à alma nem promove a verdadeira felicidade. Aqueles que seguem por esse caminho da ganância, da avareza idolátrica e da língua falsa para enriquecer não usufruirão as benesses dessa riqueza. Vestirão, mas não se aquecerão. Beberão, mas não se saciarão. Comerão, mas não se fartarão. Não vale a pena adquirir tesouro com língua falsa. A fortuna obtida com língua mentirosa é ilusão fugidia e laço mortal. De que adianta ser rico e não ter paz? De que adianta viver com o corpo cercado de luxo e a alma mergulhada no lixo? De que adianta ser honrado diante dos homens e ser reprovado por Deus? De que adianta adquirir muitos bens, mas para isso ter de vender a alma ao diabo? De que adianta ter todo conforto na terra e perecer eternamente no inferno? Melhor do que a riqueza ilícita é a pobreza com integridade, é a paz de consciência, é a certeza do sorriso aprovador de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

MAIS DE 30% DOS EMPREENDEDORES BRASILEIROS INICIARAM TRATAMENTO PSICOLÓGICO NA PANDEMIA

Pesquisa mostra que 53,5% dos empreendedores disseram ter sido diagnosticados com ansiedade

Desde o primeiro semestre de 2020, a pandemia da Covid- 19 tem impactado trabalhadores de diferentes setores com demissões, mudanças de local de trabalho e reduções salariais.

Para mapear os efeitos desse cenário entre os empreendedores brasileiros, a Troposlab, empresa especializada em inovação, em parceria coma UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), realizou pelo segundo ano consecutivo um estudo sobre a saúde mental das pessoas que atuam nesse setor.

A pesquisa revela que 30,13% dos entrevistados iniciaram acompanhamento psicológico durante a crise sanitária. Além disso, 53,5% dos participantes disseram ter sido diagnosticados com ansiedade, e 11,22% com depressão – as avaliações foram realizadas por profissionais especializados. O levantamento contou com a participação de 312 empreendedores de vários estado país.

Quando comparado ao estudo realizado no ano passado, foi possível perceber que houve uma maior quantidade de pessoas que começaram a utilizar medicamentos psiquiátricos em 2021- 26% neste ano; enquanto 16% alegaram tornar esse tipo de medicação em 2020. A atual edição da pesquisa mostra também que o início do uso de ansiolíticos entre empreendedores saltou de 6% para 12%, e de antidepressivos de 3%para 8%, em relação ao ano anterior.

De acordo com Marina Mendonça, sócia e diretora de cultura da Troposlab, existe uma conexão significativa entre o sofrimento psicológico e a queda da renda dos empreendedores. “No geral, é possível observar que empreendedores que reportam queda na renda também estão classificados com mais frequência com sintomas moderados e severos de ansiedade ou depressão”, afirma.

O estudo observou ainda que, no ano passado, 51,1% dos empreendedores tiveram a vida afetada pela pandemia, mas que se sentiam bem a maior parte do tempo, enquanto 24,9% dos empreendedores afirmaram que foram muito afetado. Já em 2021, 53,31%  dos respondentes sentem que foram afetados e 21,49% muito afetados. Isso demonstra que não há diferenças significativas entre os períodos.

Quanto à percepção geral dos participantes sobre a pandemia, a maioria diz considerar o ambiente mais incerto (73,72%), mas os índices de 2021 são um pouco menores do que os de 2020. Por outro lado, 77,89% afirmam possuir habilidades para lidar com os desafios impostos pela crise sanitária, afirmação que se mantém semelhante aos dados do ano passado

Os resultados continuam a apontar que as mulheres apresentam maior intensidade de sintomas para ansiedade (12,50%), quando comparadas aos homens (2,84%), estresse (7,35% contra 1,13%) e também maior prevalência de depressão (6,61% contra 2,84% ).

“Percebemos lacunas e conhecimento sobre como ele se desenvolve, sua personalidade, saúde mental e outros elementos que impactam suas escolhas e desempenho nos projetos empreendidos. Em nossa visão, gerar conhecimento sobre esses elementos pode nos ajudar a construir um ambiente de negócios mais sustentável”, diz Mendonça.

Essa pesquisa é um de nossos esforços e entregas para esse ecossistema. Para que ele nos aproxime de parceiros e provoque novas iniciativas que gerem frutos para a ciência no Brasil e para o desenvolvimento saudável de nosso ambiente de negócios e inovação”.

EU ACHO …

MAIS FORTE

Muitas vezes nos ensinam que temos que ser mais fortes. E acabamos entubando isso como se precisássemos ser assim 24 horas por dia. Como se tivesse que ser uma norma. O que pode ser muito cansativo.

Na prática, isso significa um constante desconforto. É o injusto estado de não repouso. É o “você precisa dar sempre mais”, mesmo tendo as mesmas 24 horas que todas as pessoas. É necessário ficar na retaguarda e na defensiva para sobreviver. Deixar que outras pessoas cuidem de você pode parecer um luxo ou até considerado como frescura.

Quando fui descobrindo que essa necessidade de ser mais forte era imposta, confesso que, aos poucos, fui pegando ranço desta expressão.

Na verdade, posso dizer que tenho vivido uma relação de amor e ódio com essa expressão e o significado prático disso. Tanta que escrevi um novo livro sobre esse tema chamado “Mais Forte – Entre lutas e conquistas”.

Tenho entendido que é preciso colocar na balança onde o “ser mais forte”, além de sugar energias, pode nos favorecer, ou melhor, fortalecer-nos.

Sei que essa relação paradoxal encontra ressonância em tantas outras pessoas. Em especial, naquelas que acumulam uma série de identidades não consideradas como “normativas”.

Como, por exemplo. ser mulher numa sociedade patriarcal e machista. “Força mulher! Lute contra o machismo”, dizem-nos equivocadamente. Afinal, isso não deveria ser normalizado. Quando se é uma pessoa negra ou indígena numa sociedade em que o que impera é a branquitude que coloca pessoas brancas no centro das referências, dizem-nos para termos força para lutar contra o racismo.

Quando se é lésbica, gay ou bissexual, numa sociedade heteronormativa e em que há quem defenda o orgulho hétero, dizem para não heteronormativos: “Força”.

Quando se é trans numa sociedade nos dizem: “Força”. Afinal, só por estar viva já é forte, por driblar as estatísticas e sobreviver no país que mais mata pessoas trans.

Quando se é uma pessoa com deficiência numa sociedade capacitista, dizem: “Força” e fazem com que barreiras que não deveriam existir transformem histórias do dia a dia em narrativas de exceção e superação.

Força até quando? Até quando ostentar uma força individual para lutar contra uma estrutura inteira? Até quando bancar o mais forte para garantir aquilo que deveria ser um direito? Às vezes, dá mesmo é preguiça.

A questão é que, ao longo da vida, muitos dos episódios que passamos, além de nos cansar, também nos fortalecem.

Quando penso na minha trajetória, vejo-me de um lado cansada por ter aprendido a ter que ser mais forte para lutar especialmente contra o racismo e o machismo. Com isso tudo, também fiquei mais sensível a todas as demais lutas contra opressões estruturais. Nessa jornada, também fui me tornando mais resiliente diante de forças opressoras.

A partir daí, eu pergunto: o que te faz mais forte? Ou melhor, quais episódios da vida que vêm te fortalecendo? Já parou para pensar?

O segredo da vida, como bem diz a minha avó, mora na forma como a encaramos e no que aprendemos com o que passamos.

Cada episódio nos ensina algo. Cada detalhe pode nos encorajar. Entre lutas e conquistas, aprendi a olhar de outra maneira apesar do cansaço, essa questão de “ser mais forte” e me sinto fortalecida pelas minhas vivências com mais amor.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

CAMINHO DA VIDA LONGA

Receita para a saúde: 7 mil passos ao dia

Aos 90 anos, o médico americano Kenneth Cooper conquistou rios de dinheiro ao longo da vida ao defender a corrida como principal aliado da longevidade e do condicionamento físico. Criado no fim da década de 1960 para ser usado pelas forças armadas, o chamado “método Cooper” consiste na prática de corridas de 12 minutos diários para avaliar o desempenho. O hábito logo conquistou pessoas comuns que passaram a correr por todos os cantos do planeta em busca da boa forma e saúde.

Só muito recentemente o cenário começou a mudar com estudos revelando a força dos passos mais lentos – a caminhada. Viu-se que os benefícios podem ser tão bons ou melhores que o ritmo ligeiro. Pois agora um trabalho quantifica com exatidão o quanto se deve caminhar para que o corpo sinta os efeitos dela. Pessoas que andam mais de 7 mil passos diários têm de 50% a70% menos risco de mortalidade. Esse é o resultado de um trabalho conduzido por pesquisadores da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, e publicado na prestigiosa revista Jama Network.

Os cientistas americanos acompanharam por cerca de dez anos um grupo de 2.110 adultos, com idades entre 38 e 50 anos, sendo 57,1% de mulheres e 42,1% de negros. Os voluntários foram divididos em três perfis: os que davam menos de 7 mil passos por dia; os que andavam de 7 mil a 9.999 passos; e aqueles davam mais de 10 mil passos. O objetivo do trabalho era observar a associação do ritmo diário com a mortalidade prematura, quando o óbito acontece antes dos 65 anos.

Os pesquisadores descobriram que, independentemente de gênero ou etnia, pessoas que davam pelo menos7 mil passos diariamente tinham de 50% a 70% menos risco de morrer prematuramente do que aqueles que não alcançaram essa marca.

“A atividade física regular é elemento fundamental para manter boa saúde. Ela reduz a incidência das doenças cardiovasculares, diabetes, auxilia no controle da pressão arterial e níveis de colesterol. Previne e contribui para tratamento de vários tipos de câncer, osteoporose, problemas digestivos, redução do estresse e aumento do sono, com isso melhorando a qualidade de vida, e o trabalho confirma isso”, afirma o cardiologista Bruno Bandeira, coordenador da Cardiologia do Hospital Caxias D’Or.

SEM EXAGERO

E não é preciso se esfalfar. Os pesquisadores perceberam que ultrapassar 10 mil passos diariamente não apresentou uma redução adicional de risco de mortalidade em comparação com quem percorreu os7 mil passos.

O trabalho não levou em consideração a intensidade da caminhada feita pelos voluntários. Apesar de outros estudos mostrarem que quanto mais intensa é a atividade – desde que respeite o limite do corpo – melhor a ação na saúde cardiovascular -, a pesquisa mostrou que a regularidade é o essencial.

“Esse trabalho traz uma importante mensagem para as pessoas que não conseguem correr ou andar tão rápido, ou fazer uma outra atividade física mais estruturada (como ir à academia ou fazer um esporte). Mesmo pequenas atividades durante o dia reduzem o risco de mortalidade e de desenvolvimento de doenças cardiovasculares”, comenta o cardiologista Daniel Setta, presidente do Departamento de Doença Coronária da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj).

Para aumentar o nível de passos diários, os especialistas recomendam incluir pequenas alterações no dia a dia, por exemplo, passar a fazer mais atividades a pé, como ir à padaria ou ao mercado, e usar a escada no lugar de elevadores. Nos últimos anos uma profusão de aparelhos portáteis têm sido cada vez mais usados com esse objetivo, o de contabilizar os passos, até mesmo nas atividades corriqueiras. Os modelos vão de aplicativos para celular a smartwatches e pulseiras inteligentes. Alguns registram batimentos cardíacos e queima calórica.

Um dos primeiros grandes estudos a valorizar os efeitos das caminhadas é de 2015. Conduzido pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, detalhou o papel dos passos leves na saúde. Grande parte dos benefícios é igual, tanto na corrida quando no caminhar. Ambos diminuem a taxa de colesterol, assim como o risco de diabete, hipertensão e infarto. Andar, porém, parece ser a melhor para a saúde óssea. A atividade estimula a reciclagem adequada dos ossos, com a vantagem de causar menos fraturas por estresse. A caminhada também aperfeiçoa a função das células de defesa.

Mas talvez uma das maiores qualidades do hábito de caminhar seja a facilidade de incluí-lo no cotidiano e o fato de ser adaptável a todas as idades. Para os idosos, em especial, essas são características vitais. Homens e mulheres com mais de 80 anos que incorporam a prática apresentam mais massa cinzenta no cérebro do que as sedentárias. Essa quantidade maior significa o risco de distúrbios de memória, por exemplo. Ou seja, esse tipo de exercício físico ajuda a proteger contra o Alzheimer e outros tipos de demência.

AMBIENTE INFLUENCIA

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, sugere que caminhar em ambiente confortável oferece os mesmos benefícios que praticar a atividade na natureza. Os cientistas já haviam demonstrado que caminhar por ambientes cercados de verde melhorava a atenção, concentração e bem-estar, o que se traduzia em passos mais rápidos e constantes. No trabalho, eles descobriram que quem anda em um ambiente no qual não se sente confortável apresenta passos mais lentos e variáveis, o que não acontece em cenários considerados agradáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTES NÃO TÃO BRILHANTES

Depois de décadas de avanço, a inteligência, tão maltratada nos debates rasos da atualidade, está retrocedendo. E o excesso de tempo na frente das telas tem tudo a ver com isso

Objeto de análise desde os primórdios da civilização, a inteligência humana é um mistério tão intrigante quanto a origem do universo. Na cultura ocidental, sua primeira definição remonta à Ilíada, o poema do século VIII a.c. em que Homero narra a história do herói Aquiles e da Guerra de Troia e faz referência à psuche; origem do termo psique, no clássico grego uma força superior àquela que dá vida ao restante dos seres. As dúvidas sobre o que faz os indivíduos serem mais ou menos inteligentes permanecem, mas, ao longo de milênios, o conceito foi sendo destrinchado em estudos científicos sobre os mecanismos que movem o intelecto até se chegar a uma forma de medição padronizada – o teste de Q.I. (quociente de inteligência) – amplamente reconhecida e aceita.

Entra década, sai década, em boa parte do século XX os países mais avançados, principalmente, puderam bater no peito e anunciar com orgulho que o Q.I médio de seus habitantes subia consistentemente – até a curva começar a cair e a inteligência engatar marcha a ré a partir dos anos 2000. Em sólidos levantamentos, descobriu-se algo constrangedor para a civilização: pela primeira vez, os filhos passaram a ter mentes menos afiadas do que a de seus pais. E como fugir da lembrança de movimentos da atualidade desprovidos de massa cinzenta, como os antivacina, os anti-instituições democráticas e os anticiência que compõem o lado escuro da polarização ideológica que varre o planeta?

O esforço de tentar entender e reverter esse quadro tem sido tema de uma série de estudos e publicações recentes capitaneados por pesos-pesados da área, intrigados com o fenômeno. No livro A Fábrica de Cretinos Digitais, que acaba de ser lançado no Brasil, o renomado neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Saúde da França, aponta as baterias de combate ao estado atual de estagnação intelectual para o que afirma ser sua maior causa: o excesso de tempo passado diante da tela dos mais variados aparelhos digitais. “A tela; em si, não representa um mal, mas o número de horas despendidas na sua frente é assustador”, ressaltou Desmurget. “O uso de computadores e celulares por pré-adolescentes é três vezes maior para se divertir do que para fazer trabalhos escolares. No caso dos adolescentes, o número sobe para oito”.

No trecho em que se debruça sobre o desenvolvimento de crianças pequenas, o especialista adverte que internet e aplicativos de redes sociais em demasia afetam negativamente as interações, a linguagem e a concentração, os três pilares básicos do progresso cognitivo em qualquer idade, mas de excepcional importância nos cinco primeiros anos da existência. É justamente nesse período-chave que se observa o auge da plasticidade – nome dado à frenética formação de sinapses que nunca mais se repetirá e que resulta na evolução ultra acelerada do potencial do cérebro. “Até o humor do meu filho piorou com o tempo excessivo na frente do celular”, reconhece a assistente administrativa Hanna Ueda, 27 anos, de São Paulo. Ela restringiu o uso e, junto com o marido, Giovanni, passou a sentar todo dia com Pedro, 4 anos, para ler um livro e assim motivar sua curiosidade. “No caso das crianças pequenas, celular é um entretenimento passivo, sem reflexão ou desafios. Não passa de uma diversão viciante”, alerta Claudio Serfaty, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências na Universidade Federal Fluminense.

Colocada dessa maneira, parece que a tecnologia é um mal. Longe disso. O foguete do progresso tecnológico transportou a humanidade para um novo patamar de conhecimento, criatividade, bem-estar e longevidade, com nítidos e incontáveis benefícios em todas as áreas – inclusive no estudo da inteligência. O ruim é o exagero. Esse ramo da ciência, de afeição cognitiva, ganhou impulso no século XIX, quando o antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911) esmiuçou a teoria da evolução formulada por seu primo, Charles Darwin (1809-1882). Galton concluiu que a inteligência é uma característica hereditária e desenvolveu, em 1884, o primeiro método de medida do intelecto humano – um conjunto rudimentar de testes físicos e psicológicos. Três décadas depois, foi a vez de o psicólogo alemão Wilhelm Stern elaborar o quociente de inteligência, só que em uma fórmula muito complexa. Coube a Lewis Terman, especialista em psicologia educacional da Universidade Stanford, simplificar o teste e popularizar a sigla Q.I. Foi Terman quem sedimentou o padrão médio de Q.I. no número 100, criando a escala Stantord-Binet, usada até hoje.

À medida que a ciência evolui, escorada pelos avanços da computação, o componente hereditário da inteligência identificado por Galton vai ganhando a companhia de outros fatores. Em pesquisa publicada em 1984, o educador americano James Flynn (1934-2020), tomando por base o avanço constante do Q.I. médio nos países mais prósperos – que atingiu seu ápice na década de 1970, com altas anuais de três pontos -, demonstrou que as melhorias alcançadas na medicina, na educação e no pensamento crítico haviam contribuído decisivamente para tornar a população mais inteligente, um fenômeno que ganhou o nome de “efeito Flynn”. Problema: passado o apogeu, as conquistas no Q.l. foram sendo cada vez menores até estacionarem e, na entrada do século XXI, começarem a deslizar ladeira abaixo, devagar e sempre, acendendo o sinal amarelo. E a trajetória segue em queda na capacidade cognitiva.

Um dos estudos mais incisivos sobre esse refluxo intelectual, realizado por pesquisadores da Noruega, analisou 730.000 testes de Q.I. aplicados em jovens convocados para o serviço militar obrigatório nos últimos quarenta anos. Sua conclusão: os aumentos anuais do Q.I. dos noruegueses baixaram para 2 pontos nos anos 1980, para 1,3 ponto nos 1990 e se transmutaram em recuo de 0,2 ponto neste século. Processo semelhante foi detectado no Reino Unido e na Dinamarca. Pesquisas como essas reforçam o alerta dos especialistas para mudanças no estilo de vida que, segundo eles, estão por trás do retrocesso – aí incluída, em lugar de destaque, a imersão constante e indiscriminada nos eletrônicos. As plataformas de vídeos, as redes sociais e os aplicativos de mensagens alimentam as discussões embotadoras, nas quais crenças se sobrepõem à razão e a ideologia impede o confronto de ideias enriquecido pelo saber científico – aquele que não se atém às primeiras linhas de um texto, mas se ampara nele inteiro. “As pessoas entram nas chamadas bolhas de filtragem, onde são expostas a olhares condizentes com seu perfil e blindadas de pontos de vista destoantes”, afirma Philip Boucher, pesquisador do Scientific Foresight Unit, instituto ligado ao Parlamento Europeu.

A turma mais nova, como bem aponta o francês Desmurget, é presa fácil dos efeitos deletérios do excesso digital. Estudo da Universidade de Alberta, no Canadá, mostrou que crianças de 5 anos ou menos que passam mais de duas horas por dia on-line têm chance cinco vezes maior de apresentar dificuldade de concentração e sete vezes mais risco de exibir sintomas de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). “Até 2 anos, o tempo de tela recomendado é zero, a não ser em bate-papos virtuais com a família”, decreta a psicóloga Sheri Madigan, da também canadense Universidade de Calgary. Entre 2 e 5 anos, a janela de conexão não deve passar de uma hora diária, com foco em programas educacionais e jogos. “E os pais precisam estar do lado, para ajudar na compreensão do que está acontecendo”, diz.

Fatores comportamentais, sabe-se agora, também são determinantes na evolução da inteligência. O pleno desenvolvimento intelectual na infância exige interação social, engajamento em brincadeiras e, conforme a idade, também o enfrentamento de problemas e discussões que transcorrem fora das telas. “Há evidências crescentes de que investir na prática de disciplina e autocontrole tem efeito positivo tanto no nível acadêmico quanto no Q.I. dos pequenos”, diz Adriana Melibeu, especialista em neurobiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Uma boa formação escolar é imprescindível, bem como atividades extra­curriculares que puxem o cérebro e sirvam de desafio – o que vale também para os adultos, já que instigar a curiosidade é terreno fértil para o crescimento intelectual de qualquer pessoa.

Conta pontos positivos apaixonar-se por algum assunto, especialmente se ele exige conhecimento profundo, como astronomia ou grego antigo, proporcionando um mergulho no tipo de exercício que afia a atenção, estimula a perseverança e aprimora habilidades como processamento de informações e análise. “Inteligência não é só a bagagem que adquirimos, mas a capacidade de interpretar e de se lançar rumo ao novo, ao desconhecido”, ensina Chris Frith, psicólogo da University College London. A prática de esportes é outra atividade relacionada à expansão do intelecto porque aumenta a oxigenação do cérebro, o que por sua vez incrementa a conectividade neuronal – processo que se repete na alimentação equilibrada. Consumir ovos, peixes, legumes e verduras potencializa a produção de neurotransmissores e ajuda no desempenho cognitivo.

De tanto investigar os segredos da mente, pesquisadores e cientistas não param de identificar novas ramificações para a inteligência: espacial, lógica, linguística e mais uma infinidade de variações. Há uma reflexão, inclusive, quanto à escala de valor das habilidades. “As mais importantes são relacionadas à inteligência adaptativa, como a criatividade, o bom senso, a empatia e a destreza analítica”, afirma o psicólogo Robert Sternberg, da Universidade Cornell. Outra variante, a inteligência emocional, definida como a capacidade de entender e lidar com sentimentos próprios e alheios, fincou pé no glossário do intelecto graças à publicação do best­seller de mesmo nome, do jornalista Daniel Goleman, em 1995. Nessa sopa de designações, até a mente privilegiada dos gênios pode escorregar. Albert Einstein (1879-1955), que nunca fez teste, mas teve seu Q.I. avaliado postumamente em extraordinários 140 a 145 pontos, seria reprovado no exame de inteligência emocional: o primeiro casamento, com Mileva Maric, foi desastroso e o segundo, com Elsa Lõwenthal, ficou marcado pelas infidelidades. Seja qual for a medida utilizada para definir a inteligência, o essencial é que ela seja cultivada, porque só assim a humanidade caminhará para a frente, sem as radicalizações comportamentais que alimentam atualmente a estupidez dos cabeças-ocas.

OUTROS OLHARES

TECNOLOGIA REVOLUCIONA CIRURGIAS DE JOELHO E QUADRIL

Hospital Alvorada, em Moema, é o primeiro de São Paulo a realizar uma cirurgia robótica ortopédica com equipamento inovador, que auxilia médicos nos procedimentos de implantação de próteses com menor tempo de recuperação

O hospital paulista, localizado no bairro de Moema, realizou recentemente e, com êxito, a primeira cirurgia para substituição de prótese total de quadril assistida por Braço Robótico Mako, obtendo um resultado satisfatório para um paciente diagnosticado com osteoartrose de quadril. Trata-se do primeiro hospital do estado de São Paulo a adquirir a tecnologia. “Nestes casos, a cirurgia assistida por braço robótico traz inúmeras vantagens tanto para o paciente como para a ortopedia. As cirurgias são minimamente invasivas, contribuindo para a redução de complicações e tempo de internação, custos para o sistema de saúde, além de proporcionar uma rápida recuperação após o procedimento, com melhor resultado para o paciente “, comemora o Dr. Marcelo Sartori, diretor da instituição.

A partir de agora, o Hospital Alvorada Moema, da Rede Americas, passará a contar com a tecnologia robótica Mako em procedimentos para a substituição de articulações parciais ou totais de quadril e joelho. Sua utilização na cirurgia de substituição total de articulação transforma de maneira significativa o modo como o procedimento convencional sempre foi feito. De acordo com o Dr. Osvaldo Pires, diretor do Sistema de Excelência em Cuidados em Ortopedia e Bucomaxilofacial da Rede Americas, a prótese total de quadril é uma opção de tratamento para o paciente portador de doença articular degenerativa e a utilização do sistema para cirurgia assistida por braço robótico traz um avanço tecnológico que pode ser considerado um marco para a ortopedia, pelos benefícios que proporciona ao paciente, maior precisão e reprodutibilidade para o cirurgião e traz, de forma revolucionária, excelência para as cirurgias de artroplastia do quadril e do joelho.

Entre os recursos do Sistema Mako, o especialista destaca a modelagem 3D da anatomia óssea, que permite a criação de um plano cirúrgico personalizado com base na anatomia de cada paciente e tipo de prótese, contribuindo para a assertividade da cirurgia. “A aplicação de implantes e próteses por meio do sistema robótico nos coloca em um lugar de maior precisão nos procedimentos, redução de cirurgias de revisão e readmissões, e claro, maior conforto e segurança para o paciente”. Alguns benefícios podem ser elencados, como, menos dor e uso de analgésicos opioides no pós-operatório, menor tempo de hospitalização e a redução do tempo de fisioterapia, ou seja, agiliza todo o processo de recuperação do paciente.

Adicionalmente, o sistema robótico Mako desenvolve um modelo da articulação, o qual permite que o cirurgião avalie a estrutura óssea, o alinhamento da articulação e o tecido circundante, fornecendo dados de amplitude de movimento em tempo real. Desta forma, o braço robótico auxilia na remoção da cartilagem e do osso doente para colocação dos implantes com precisão milimétrica.

O Hospital Alvorada Moema já certificou cinco profissionais da equipe, habilitando-os a utilizar o Sistema Mako por meio de uma certificação internacional para a realização destes procedimentos. “A robótica revoluciona de forma decisiva a ortopedia para um melhor desfecho clínico, garantindo maior eficiência, segurança e a reabilitação do paciente mais adequada”, destaca. O investimento constante em inovação e capacitação de seus profissionais, faz parte do compromisso da instituição de manter o Sistema de Excelência em Cuidados para alta complexidade. Atualmente, existem mais de mil sistemas desse tipo sendo utilizados com êxito em 29 países ao redor do mundo, com mais de 500 mil procedimentos realizados.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE NOVEMBRO

CUIDADO COM A PRESSA

Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza (Provérbios 21.5).

Há um ditado popular que diz: “A pressa é inimiga da perfeição”. Quem não planeja com diligência planeja fracassar. Ninguém começa a construir uma casa sem antes ter uma planta. Ninguém vai à guerra sem antes calcular os custos. Ninguém semeia seus campos sem antes preparar a terra. Antes de iniciar um projeto, precisamos ter um planejamento detalhado dos passos a seguir. Quem planeja com diligência realiza com eficácia. Quem investe tempo pensando em como fazer a obra gastará menos tempo na etapa de execução. Estão cobertos de razão aqueles que dizem que o tempo gasto em amolar o machado não é perdido. Por isso, quem planeja com cuidado tem fartura, mas o apressado acaba passando necessidade. Há, porém, uma pressa positiva e necessária. Não podemos ser lerdos em nossas ações. Não podemos cruzar os braços e acomodar-nos numa mórbida letargia. Existe a hora certa de agir. Protelar uma ação pode ser tão danoso quanto não a planejar. O que a Palavra de Deus reprova é a pressa excessiva, o descuido e a falta de reflexão e planejamento. Essa atitude leva à pobreza, mas os planos do diligente tendem à abundância.

GESTÃO E CARREIRA

JOVENS APRENDEM ‘SOFT SKILLS’ FORA DA ESCOLA

 Iniciativas ajudam na escolha da carreira a partir de habilidades comportamentais exigidas pelo mercado; em workshop de autoestima, adolescentes têm acesso a mentora

Se para quem está no mercado já é difícil acompanhar as mudanças, para quem está começando é ainda mais desafiador. Para preparar os futuros profissionais além das ementas escolares, projetos sociais capacitam jovens com habilidades técnicas e comportamentais.

“A gente tem uma mentalidade de escola de que tem de escolher uma carreira, mas o foco tem de ser nas possibilidades do que o jovem pode fazer. Tem gente que gosta de exatas e, por isso, vai fazer Engenharia. Pergunto: ‘Será que gostando de exatas você só pode fazer Engenharia?’. É preciso considerar habilidades, aptidões e estilo de vida”, explica Eduardo Valladares, designer de experiências de aprendizagem.

Segundo o professor, que deu aula por 16 anos, alunos de ensino médio e universitários costumam chegar ao mercado apenas com os conteúdos técnicos mais tradicionais e com uma lacuna em habilidades comportamentais, as softs skills,por ele consideradas as mais necessárias.

”Tem de se mudar a mentalidade de querer ir para a escola apenas para escolher uma carreira, mas ir para aprender a ter mais ousadia, resiliência, senso crítico, capacidade de colaboração. Aí, sim, dá para aprender a escolher um futuro melhor”, diz.

NOVIDADE

Valladares lançou neste ano um novo projeto para ajudar na capacitação e na empregabilidade dos jovens. A iniciativa “Criaway: não é sobre seguir caminhos, é sobre criar futuros” é um playbook (livro com tarefas) para provocar reflexões em quem está começando e até mesmo para os que estão questionando a sua trajetória de carreira.

No Instituto Plano de Menina – com foco em conectar meninas de comunidades com mentoras e, depois, com o mercado -, as alunas têm aulas com coaches de carreira e criam um mapa de planos para ajudá-las a ter uma direção profissional. Trabalhar a autoestima foi o ponto mais importante do curso para Erika Lucy, de 20 anos, que participou do projeto quando estava no último ano do ensino médio, há três anos. Na época, ela lidava com episódios de fobia social, ansiedade e timidez.

“Eu pude conversar com outras pessoas que tinham os mesmos problemas, e isso fez com que eu me sentisse mais confortável. Eu comecei a pensar que eu ia chegar a algum lugar um dia”, conta Érika, que já participou de duas edições do projeto (saiu de ambas empregada) e começou a cursar Artes Visuais na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

EU ACHO …

A PEQUENA-GRANDE LIA

Quando ela chegou, não sabíamos nada sobre as diferenças. Na verdade, não sabíamos  nem o que não sabíamos e essa é a grande loucura da consciência e da falta dela. Até ela dar as caras em determinado assunto, estamos às cegas, ignorantes do que ignoramos.

Mas ela estava determinada a vir e abrir o véu para iluminar parte do caminho de uma família. Lia poderia ter se mostrado por inteiro no primeiro olhar, no primeiro dia ou mês de vida.

Só que ela esperou para se revelar, porque sabia antes mesmo de nós que precisávamos primeiro conhecê-la sem nenhuma comprovação, sem colocá-la em uma caixinha qualquer.

Assim, suas diferenças eram só características pessoais, seus abraços e sorrisos intensos eram só o de uma pessoa profundamente amorosa, seu foco absoluto em canções eram talento nato para música. Lia se apresentava ao mundo livremente e éramos envolvidos pelo amor que crescia sem julgamentos, como deve ser.

Mas Lia queria mais de nós. Queria que entendêssemos a fundo como ela enxergava o mundo através de seus amendoados olhos verdes. Lia fez-se vista por inteiro quando fomos apresentados especificamente ao seu cromossomo 7. Naquele momento, um novo universo se abriu e nos tornamos abruptamente diferentes dela. Diferentes de seu sorriso constante e de sua memória auditiva. Nós fomos colocados em caixinhas distintas. Nós e Lia, separados por uma barreira intransponível estabelecida pela ciência. E isso era só mais uma prova da nossa profunda incompetência para compreender o longo caminho a percorrer para chegar à lucidez.

Por que queremos ser todos iguais? Por que acreditamos que ser igual é bom e positivo? Por que o diferente é visto com desconfiança e medo? De mãos dadas com a pequena­ grande Lia entro em uma jornada de aprendizado pessoal e coletivo.

Lia ainda não percebe os olhares desconfiados de adultos ignorantes e nos conduz suavemente com suas mãos pequeninas e passinhos cheios de curiosidade. Lia, pequenina em corpo e enorme em presença, desafia o igual mostrando a graça do diferente.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

SOB AR POLUÍDO, CRIANÇAS TÊM RISCO MAIOR DE SOBREPESO

Trabalho que analisou 3.000 meninas e meninos na Índia mostra que a poluição pode interferir no mecanismo da saciedade

A exposição prolongada à poluição causa problemas que vão além das doenças respiratórias e pouco imaginadas. Ela contribui para a obesidade. Foi o que mostrou um trabalho conduzido pela Fundação Lung Care e pela Fundação Pulmocare de Pesquisa e Educação (Pure, na sigla em inglês), em Nova Déli, na Índia, que estabeleceu a relação entre a qualidade do ar e o metabolismo humano.

O estudo analisou cerca de 3.000 crianças de 12 escolas indianas localizadas em Nova Déli, uma das cidades mais poluídas do mundo, e também em Kottayam e Mysore.

As duas últimas possuem qualidade de ar melhor. Em Déli, que atinge níveis alarmantes de poluição todos os anos 39,8% das crianças estavam acima do peso; já nas outras cidades mais afastadas, 16,4% eram consideradas obesas. As crianças são mais sensíveis à ação da poluição. A pesquisa também isolou outros fatores de risco para o ganho de peso entre elas.

Segundo o diretor da Pure, Sundeep Salvi, os poluentes do ar contêm os chamados obesogênicos. Criado pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o termo refere-se a substâncias responsáveis por contribuir no ganho de pesos em que a pessoa tenha consciência de que está engordando. Embalagens de alimentos, remédios, tubos de PVC, por exemplo, contêm esses compostos. A ingestão crônica desregula regiões do cérebro que controlam a saciedade e  preferências alimentares.

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Havia uma suspeita dessa associação, mas agora o trabalho comprova. Estudos anteriores, como da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, apontavam para uma relação entre a poluição nas cidades e problemas de resistência à insulina e hipertensão.

Conforme também observado no estudo, a interferência na insulina, o hormônio que atua no controle do nível de glicose no sangue, pode provocar uma série de distúrbios no metabolismo, levando a diabetes, problemas cardiovasculares e obesidade. O motivo disso são as partículas poluentes que, quando inaladas, são capazes de causar irritações nos tecidos, gerando reações em cadeia que alteram o funcionamento normal do organismo.

As doenças respiratórias também foram analisadas no estudo da Fundação Pulmocare de Pesquisa e Educação. A pesquisa mostrou que as crianças têm um risco 79% maior de ter asma, em decorrência dos poluentes presentes no ar, além de estarem mais propensas a desenvolver outros sintomas de alergia respiratória.

Ao  menos 29,3% da meninas e meninos de Nova Déli apresentaram algum problema nos testes de respiração, contra 22,6% daquelas que moram em Kottayam e Mysore.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ANO DA COMILANÇA

As preocupações, o isolamento e o trabalho em casa, com comida sempre por perto, fizeram o brasileiro ganhar peso e uma parcela cruzar a perigosa linha da compulsão alimentar

A combinação de rotina alterada, ansiedade, reclusão e finanças incertas, aliada ao trabalho em casa (com lanchinhos ao alcance da mão o tempo todo), resultou em mais um fenômeno a ser cravado na vasta conta dos efeitos pandêmicos: o aumento dos distúrbios de alimentação. Pesquisa do Instituto lpsos mostrou que 52% dos brasileiros engordaram ao longo do último ano e meio, e não foi pouca coisa – a média de aumento de peso é de 6,5 quilos. Amostra inequívoca da subida do ponteiro da balança é o fato de vídeos nas redes sociais com a hashtag # transtornoalimentar estarem na casa dos 60 milhões de visualizações. A título de vago consolo, note-se que quase todo o planeta ficou mais rechonchudo nos meses passados entre quatro paredes. Mais grave ainda, muita gente ultrapassou o limite do eventual ataque à geladeira no meio da noite e ingressou no território minado de distúrbios graves como anorexia, bulimia e, campeão disparado, compulsão alimentar.

Válvula de escape das mais conhecidas quando a vida fica difícil, a comida sempre por perto, seja na própria despensa, seja via aplicativos, contribuiu para desestabilizar pacientes sob controle e aumentar a triste estatística das vítimas dos distúrbios ligados à mesa. Estudo realizado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, constatou que o número de internações de jovens sofrendo desse tipo de mal mais que dobrou nos primeiros doze meses de quarentena. Na Alemanha, levantamento da Clínica Schoen Roseneck, um centro de referência do país, revelou que 41% dos que tiveram alta em 2019 registraram piora dos sintomas no período em que a humanidade se isolou.

Uma nítida manifestação do crescimento dos transtornos alimentares no Brasil está na procura por tratamento nas seis principais clínicas do Rio de Janeiro e de São Paulo, que subiu até 50% (veja no quadro abaixo). Sem poder sair para trabalhar e preocupada com as despesas, a maquiadora Tamiris Sindice, 25 anos, de São Paulo, relata que começou a comprar guloseimas aos montes todos os dias. Saiu da quarentena com 32 quilos a mais, diagnóstico de compulsão e a ponto de desenvolver diabetes e obesidade. “No ápice da doença, deixei de pagar conta para comprar doces”, diz Tamiris, que está com a compulsão sob controle através de antidepressivos e muita terapia. De acordo com o psiquiatra José Carlos Appolinário, da comissão de transtornos alimentares da Associação Brasileira de Psiquiatria, os excessos, se não são tratados a tempo, vão acarretar outros problemas de saúde. “Quase 70% dos diagnosticados com compulsão evoluem para a obesidade”, afirma.

Mesmo antes de a Terra parar, o Brasil já padecia de uma epidemia de excesso de peso – que não decorre, necessariamente, de transtornos como a compulsão alimentar. Segundo o IBGE, entre a população acima de 20 anos, 26,8% são obesos, um índice que mais do que dobrou em comparação com a pesquisa anterior, de 2003. Praga universal, a obesidade, que afeta mais de 40% dos adultos americanos e é por si só um risco para a saúde, também eleva as chances de aparecimento de uma série de doenças de alto risco, como hipertensão, diabetes, hipertrofia cardíaca, câncer de bexiga, acidente vascular cerebral, infarto e apneia de sono.

A linha divisória entre um ou outro episódio de comilança exagerada e o quadro de compulsão é tênue e pode passar despercebida até ser tarde demais e o transtorno estar estabelecido. Considera-se comportamento compulsivo a ingestão exagerada de alimentos em curto espaço de tempo – em geral, menos de duas horas a cada episódio – , mesmo sem nenhum sinal de fome. A pessoa passa a comer de forma acelerada e, em muitos casos, escondida, por vergonha de seu descontrole. No auge da crise, o compulsivo chega a ingerir 20.000 calorias por dia, dez vezes mais do que uma pessoa normal. “Compulsão alimentar não é comer duas fatias de bolo de uma vez. É engolir três bolos inteiros”, compara a nutricionista Marcela Kotait, do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas (Ambulim), de São Paulo.

Nos casos mais graves, ingere-se tudo o que se encontra pela frente, inclusive alimentos crus e congelados. “Essa relação de dependência com a comida aprisiona e limita. Não representa prazer de comer, mas, sim, medo e frustração”, diz a psicóloga Fernanda Sader, 23 anos, de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, que engordou 20 quilos no fatídico ano pandêmico. Para a influenciadora Juliana da Motta, 27 anos, de Itaboraí, no estado do Rio, o pior momento foi o dia em que pediu vários pratos de doces e salgados ao mesmo tempo em aplicativos de delivery e acabou passando mal de tanto comer. “Lembro que, enquanto eu me fartava, achava normal e prazeroso. Mas depois me senti muito infeliz, frustrada com o dano que estava causado à minha saúde”, relata.

Os especialistas destacam a necessidade de os familiares estarem sempre de olhos abertos para os sinais de distúrbios alimentares nas pessoas à sua volta, que incluem alterações bruscas de peso, dietas restritivas e estoques de comida escondidos pela casa. “Elas mesmas dificilmente percebem que estão doentes”, alerta a psicóloga Patrícia Xavier, da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral). A influenciadora digital Camila Monteiro, 30 anos, de São Paulo, começou a ganhar peso ainda na adolescência, mas só em 2019 foi diagnosticada com compulsão alimentar. Tratou-se, controlou o distúrbio, mas, no isolamento da pandemia, sofreu um aborto espontâneo e os episódios recomeçaram. “A causa da minha recaída foi um conjunto de fatores. Não podia visitar amigos, nem sair de casa para arejar a cabeça. Até minha psicóloga só me atendia remotamente, e passar por tudo o que passei on-line é muito diferente de estar cara a cara com quem pode te confortar”, explica. Com tratamento e terapia, Camila voltou a se estabilizar e está grávida de gêmeos. Sabe, no entanto, que precisa estar sempre alerta para conseguir vencer uma doença insidiosa que, em épocas de crise, ataca com mais vigor ainda.

OUTROS OLHARES

O INIMIGO OCULTO

Ainda pouco debatida no brasil, a remoção de camisinha sem o consentimento de uma das partes é crime e pode levar à prisão

Medo, angústia, nojo. As palavras usadas por uma estudante de 22 anos ao descrever o que sentiu quando um parceiro tirou a camisinha sem o consentimento dela durante o sexo, revelam as marcas que a violação lhe deixou.

“Só percebi quando ele se levantou para urinar e a camisinha não estava mais lá. No início, fiquei em dúvidas e eu não tinha reparado que ele havia tirado após o ato. Depois, entrei em completo choque, principalmente, sabendo que havia gozado dentro de mim”, recorda-se.

A jovem, que prefere não ter o nome identificado, assim como os demais entrevistados desta reportagem, foi vítima de um crime que só agora começa a ganhar espaço no debate nacional, impulsionado pelas redes sociais e por programas de TV. Além disso, a prática, que em países de língua inglesa é nomeada stealthing (ocultação, dissimulação), já foi tipificada como crime em alguns locais, como aconteceu recentemente na Califórnia, nos Estados Unidos, evidenciando ainda mais a sua gravidade.

Apesar de não ter tradução para o português, esse tipo de violação não passa incólume pela nossa legislação. Segundo a advogada Thais Pinhatá, mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo, a prática é contemplada pelo artigo 215 do Código Penal, que estabelece como crime ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. Quando isso acontece, ela lembra, a pena prevista é de dois a seis anos de prisão.

Thais reconhece que ainda são poucos os casos levados à Justiça e, quando isso acontece, correm em segredo. Mesmo assim, ela observa que a chamada persecução penal já é uma realidade. “A polícia recebe a denúncia e encaminha para o Judiciário, que tem se posicionado contra essa atitude.”

Outro ponto salientado pela advogada é como o SUS demonstra eficiência em acolher as vítimas. O sistema oferece atendimento psicológico, além de medidas preventivas de saúde, como a disponibilização de medicamentos voltados a doenças sexualmente transmissíveis e da pílula do dia seguinte. O quadro muda, porém, quanto ao direito ao aborto legal, já que alguns hospitais se recusam a compreender a prática como violência sexual.

Isso aconteceu com uma enfermeira, de 31 anos, que, além do anonimato, pediu que o estado onde vive não fosse revelado. “Tive um relacionamento de cinco meses com um homem que demonstrava querer estabelecer um vínculo emocional mais forte comigo. Ele falava em termos um filho, e sempre deixei claro que não queria”, conta. “Na última vez em que fizemos sexo, notei que fez um movimento com a mão, e perguntei se havia tirado a camisinha. Ele me respondeu que saiu ‘sem querer’, mas que gozou dentro do preservativo. Quando fui ao banheiro, vi que não era verdade.”

A enfermeira chegou a tomar a pílula do dia seguinte, mas o medicamento não funcionou, e ela se viu grávida poucas semanas depois.

Buscou ajuda de um hospital, onde recebeu atendimento psicológico, mas, ao reivindicar o direito ao aborto, teve o pedido enviado para análise pelo setor jurídico. “Eu sabia que tinha sofrido um crime sexual, mas eles não”, lamenta. “Só conseguem entender isso em casos de estupro como aqueles em que o criminoso agarra a mulher e a violenta. Foi constrangedor passar por isso.”

O tempo corria, e a enfermeira decidiu encontrar soluções alternativas, com medo de que ficasse tarde demais para que pudesse interromper a gravidez em segurança. Foi quando chegou até o grupo Milhas Pela Vida da Mulheres, por meio do qual recebeu orientação sobre o caso e apoio financeiro para buscar atendimento num estado vizinho. “O que mais me indigna nessa história é a falta de respeito pela minha palavra. Eu dizia a ele que não queria um filho, mas era como se o que eu falasse não tivesse peso algum”, desabafa.

Idealizadora da campanha que auxiliou a jovem, a diretora e roteirista Juliana Reis afirma que, pelo fato de a violência contra a mulher ser tão naturalizada, muitas vítimas ainda têm dificuldade de compreender a gravidade de uma violação como essa. “Ainda chegam até nós dizendo que estão grávidas porque ‘vacilaram’. Mas, quando a conversa avança, entendemos que tem um boa noite Cinderela por trás, por exemplo”, diz. “O que fazemos no Milhas é mostrar a lei para que as próprias mulheres entendam pelo o que passaram.”

Embora a comprovação de crimes sexuais envolva certa complexidade, a advogada Thais Pinhatá afirma que, nos últimos anos, os depoimentos das vítimas ganharam mais peso nos processos. Ainda assim, ela salienta a importância de se cercar de provas nessas situações. ”O ideal é buscar imediatamente a delegacia e o Instituto Médico Legal para a coleta de material biológico”, aconselha.

Thais lembra também que não são apenas as mulheres que estão suscetíveis a esse tipo de violação. Afinal, menciona, além das relações heterossexuais, o preservativo também é usado no sexo entre homens, por exemplo.

Foi através da série ”I may destroy you”, lançada no ano passado pela HBO, em que a protagonista é vítima de stealthing, que um estudante de administração, de 28 anos, entendeu a gravidade do que viveu três anos antes. Fiz sexo com um parceiro e, cinco meses depois, ele me telefonou bêbado, dizendo que havia tirado a camisinha”, conta. “Na época, ainda não era um tema debatido, e fiquei sem reação. Quando vi a série, a ficha caiu sobre como a atitude dele poderia ter me causado um mal muito maior.”

O rapaz descobriu, posteriormente, não ter contraído nenhuma DST, o que lhe trouxe alívio.

Mas o impacto psicológico já havia sido causado. “Nunca mais consegui me deixar penetrar, porque tenho medo de que voltem a fazer isso comigo”, afirma.

Desconforto semelhante é relatado pela estudante de 22 anos citada no início da reportagem. Ela conta ter levado um bom tempo até conseguir se relacionar sexualmente com outra pessoa. Ainda assim, quando acontece, sente dificuldade. “Desde então, fico de olho durante todo o ato para ver se a camisinha ainda está ali, o que atrapalha meu prazer.”

Segundo Paula Rita Bacellar Gonzaga, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, muitas vítimas sofrem com consequências como essa justamente por ser uma violência relativizada e tratada com descaso pelo poder público. “Isso dificulta que o sujeito possa se sentir seguro novamente”, afirma. Exatamente por isso, o debate se faz tão urgente. “Não há nada que a vítima poderia ter feito para evitar a violência sexual, mas podemos, enquanto sociedade, mudar as lentes pelas quais lemos e analisamos essas histórias.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE NOVEMBRO

OLHAR ORGULHOSO E CORAÇÃO SOBERBO

Olhar altivo e coração orgulhoso, a lâmpada dos perversos, são pecado (Provérbios 21.4).

O orgulho foi o pecado que levou Deus a expulsar do céu o querubim da guarda. Quando esse anjo de luz, sinete de perfeição, intentou no seu coração ser igual a Deus, desejando colocar seu trono acima dos outros anjos, Deus o arrojou para fora do céu. O orgulho foi o primeiro pecado, que abriu a porta para todos os outros. Deus não tolera a soberba. Ele declara guerra contra os altivos de coração. Humilha aqueles que se exaltam. Tanto o olhar arrogante quanto o coração orgulhoso são pecados abomináveis aos olhos de Deus, embora esses pecados sejam invisíveis à percepção humana. Esses pecados não podem ser apanhados pelas lentes da terra. Não temos conhecimento suficiente para detectá-los. Não conseguimos penetrar nas profundezas da alma para investigar as motivações. Nossos tribunais não são competentes para julgar foro íntimo. Deus, porém, não apenas vê nossas obras e ouve nossas palavras, mas também sonda nossas motivações. Nada escapa de sua peneira fina. Nada pode ser ocultado de seus olhos. Ele tudo vê e tudo sonda. O reto e justo Juiz, diante de quem teremos de comparecer para prestar contas da nossa vida, conhece-nos por dentro e por fora, conhece nossas palavras antes que cheguem à boca e conhece nossos pensamentos antes mesmo que eles povoem nossa cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

NEGROS LUTAM PARA OCUPAR POSTOS DE LIDERANÇA

Questão de gênero, com mulheres brancas, avança mais rapidamente em conselhos de administração; 77% das empresas não têm metas para inclusão racial no alto escalão

A inclusão de pessoas negras nos boards das empresas deixa a desejar, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) publicada neste ano. Feita com 86 companhias, mostra que 77%delas não têm metas para ampliar a participação de negros na liderança. E, na interseccionalidade entre raça e gênero, sequer há menção a mulheres negras nesses espaços.

Outro levantamento deste ano, da consultoria Spencer Stuart, mapeou 211 empresas brasileiras listadas na B3, a Bolsa de São Paulo. Na amostra, as mulheres ocupam 14,3% das posições em conselhos, sem especificação de raça. Em 2020, esse porcentual era de 11,5%.

“Estamos tendo um avanço, principalmente em gênero, mas os números não refletem o que se vê no discurso. Na nova onda de IPO (abertura de capital), 40% das empresas não tinham nenhuma mulher no conselho”, observa Jandaraci Araújo, conselheira do CIEE São Paulo e cofundadora do Conselheira 101, programa voltado a ampliar a presença de mulheres negras em conselhos.

Executiva de sustentabilidade e ex- subsecretária de Empreendedorismo, Pequenas e Médias Empresas do Estado de São Paulo, Jandaraci pontua que não olhar para a interseccionalidade é um problema estrutural. “Somos 27% da população, mas nos conselhos de administração, na alta liderança, o número é muito baixo, nem de longe corresponde”, diz ela, que é conselheira emérita do instituto Capitalismo Consciente Brasil.

COMO MUDAR?

Iniciativas como o Conselheira 101, que ainda tem entre as fundadoras a executiva de tecnologia Lisiane Lemos (Google) e a executiva de finanças Elisangela Almeida, têm surtido efeito. O programa leva às lideranças femininas negras conhecimentos sobre o papel de um membro de conselho, responsabilidades, formação, desafios e incentiva o networking. Das 18 participantes da primeira turma, em 2020, sete (38%) já ocupam posições em conselhos de administração, fiscal, consultivo ou comitê.

Apesar de o networking ser importante, a diversidade nos conselhos só será viável quando a indicação deixar de ser o único critério. Processos seletivos nas empresas e busca ativa por profissionais diversos podem ajudar a equilibrar o perfil dos boards. Na Exec, consultoria de RH especializada em alta gestão, a demanda por diversidade tem se intensificado, conta o sócio Sergio Simões, que acredita que a mudança está vindo. “Todas as avaliações que estamos fazendo estão culminando com troca de conselheiros. As empresas que ainda estão nessa história de ser indicado, estão se prejudicando. Aquelas que manejam de verdade o propósito, têm conhecimento, encaram isso bem. As que não querem ter debates mais quentes que vão levar a mudanças não querem que façam diagnóstico”, observa.

EU ACHO …

NÃO  DEIXE PASSAR EM BRANCO

Em busca de um novo terninho para dar uma atualizada no guarda roupa, entro sozinha numa loja. Experimento uns três ou quatro, mas o caimento não me convence. Sou meio chata emrelação a cortes e ao ajuste deles no corpo.

Apesar de cliente assídua, desta vez saio com minha bolsa a tiracolo, mas de mãos vazias do estabelecimento, em busca de outras opções.

Se esta jornada se parece com a sua num dia qualquer de compras, estamos na mesma página. Mas a partir daqui, se você não tem a pele negra, há muito menos chances de ter vivido algo parecido com os próximos capítulos desta história. Mas saiba, desde já, que, vivendo ou não situação semelhante, tem igual responsabilidade em fazer com que eles não se repitam.

Ao sair da loja, o alarme soa. Minhas mãos ficam suadas e trêmulas. Sei que não fiz nada de errado, mas já sentia que poderia ser alvo de uma revista indesejada. Ao meu lado, saindo da loja ao mesmo tempo que eu, duas moças brancas.

O segurança veio atrás somente de mim e pediu para que eu abrisse a bolsa. Fez uma revista e me deixou sair. Perguntei por que não tinha revistado as outras moças. Ele alegou que o alarme tocou na minha hora. Virou as costas e entrou novamente na loja.

O episódio aconteceu anos atrás, mas esta humilhação não sai da memória tão facilmente. É um marco psicológico tamanho que me faz ainda temer alarmes de lojas. Além de sempre ter o cuidado ao abrir a bolsa no ângulo certo para que a câmera de segurança possa visualizar que não estou roubando nada. Mas isso não pode ser normalizado.

Na época deste episódio, eu ainda não conseguia verbalizar minha dor e nomear este tipo de racismo. Ainda não tinha tanta consciência sobre os meus direitos como tenho hoje e sei que ainda há muito a aprender. Mas também sei que, mediante a episódios como este, não há fórmula mágica da nossa reação. E que não é preciso nem ser seguido numa loja para saber que pessoas negras e indígenas no Brasil são vistas como suspeitas.

Difícil estar sempre pronto para enfrentar uma das diversas manifestações do racismo. A mais cruel é a que pode levar à morte de quem é visto com a cara de suspeito. Humilhações são infelizmente muito mais recorrentes do que as que vemos em casos midiáticos, como a da loja que usava um código para identificar “suspeitos”.

Na mesma semana, uma rede de supermercados vendia bandejas vazias de carne em regiões periféricas com predominância negra para evitar que as carnes fossem roubadas.

Sei que muitos de nós desacreditamos na punição, mas ainda assim precisamos não deixar passar em branco casos como estes. É necessário desbanalizar e denunciar todos os casos de racismo e de qualquer tipo de discriminação.

Precisamos aprender a verbalizar e dar nome àquilo que passamos. E entender que, se você já viveu algo parecido, não é coisa da sua cabeça ou caso isolado. É parte do racismo estrutural. Um dos passos para romper com a estrutura é dar nome a ela.

E se você não viveu, não viu ou não sabe se o que você viveu é um caso criminalizável de racismo, ainda assim é importante entender que ele existe e que você também faz parte dessa estrutura E, portanto, é corresponsável para a construção de uma sociedade antirracista e menos discriminatória.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

MUITO ALÉM DA FORÇA

Novos estudos apontam a ação benéfica de substâncias produzidas pelos músculos

Os benefícios dos exercícios superam em muito a ultrapassada visão de que proporcionam apenas emagrecimento e condicionamento cardiovascular. Eles ajudam, a prevenir e controlar de doenças tão variadas quanto câncer, diabetes, demências, fragilidade óssea e inflamação. E por trás desse poder todo estão pelo menos 650 substâncias produzidas pelos músculos esqueléticos, quando exercitados. Elas são tão potentes que podem até mesmo melhorar a resposta do sistema imunológico à vacinação contra a Covid-19.

Algumas dessas substâncias são recém-descobertas e a função de somente 5% delas é conhecida, revela uma revisão de estudos publicada pela revista científica Frontiers in Physiology. Chamada “The role of the muscles secreto me in bealth and disease” (“O papel do secretoma dos músculos em saúde e doença”, em tradução livre), ela mostra o estado da arte sobre o conhecimento da complexa bioquímica dos músculos. O secretoma muscular é o conjunto das substâncias produzidas pelos músculos.

O pouco que já se descobriu maravilha cientistas e abre caminho para um uso ainda mais  eficiente da atividade física na prevenção e combate das doenças, além de retardar o envelhecimento. Os músculos ativos ajudam até mesmo a tornar a pele mais saudável.

Mais do que força e sustentação, os músculos são fábricas de bálsamos para a boa vida. Estes são hormônios, fatores de crescimento, substâncias do sistema imune, toda uma gama de proteínas poderosas.

Essa fábrica funciona movida pela contração muscular feita toda vez que os músculos são exercitados. Ela produz substâncias chamadas coletivamente de miocinas, que fazem a comunicação dos músculos com outros órgãos, como sistema imunológico, cérebro, fígado, pâncreas, ossos, intestinos, pele, tecido adiposo (gordura) e vasos sanguíneos. Também são fundamentais para a hipertrofia, regeneração e funcionamento dos próprios músculos. Não à toa, cientistas recomendam exercícios para pessoas com câncer,  diabetes e doenças neurodegenerativas.

ÓRGÃO ENDÓCRINO

Combinados, os cerca de 700 músculos esqueléticos (o número varia entre 650 e 840, não há consenso na literatura científica) são maior órgão endócrino do corpo, afirma o especialista em medicina do esporte, Claudio Gil  Araújo, diretor da Clínica de Medicina   do Exercício (Clinimex).

Os músculos são o órgão mais pesado do corpo, correspondem a cerca de 40% do nosso peso. Mas suas funções bioquímicas são ainda mais significativas. Eles produzem miocinas exclusivas, mas também fazem e liberam substâncias comuns a outros órgãos.

Um exemplo dos efeitos benéficos dos músculos exercitados vem de uma recém­ publicada pesquisa de cientistas brasileiros, ainda em preprint (não revisada pelos pares) . Realizada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de outras instituições, ela mostrou que a atividade física melhora a resposta à vacinação contra a Covid-19, mesmo em pessoas com comprometimento do sistema imunológico.

Os cientistas analisaram a diferença da resposta à CoronaVac em pessoas com doenças reumáticas autoimunes. As que eram fisicamente ativas produziram mais anticorpos do que as sedentárias, explica um dos autores do estudo, Hamilton Roschel, coordenador do Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da Escola de Educação Física e da Faculdade de Medicina da USP.

“Tudo funciona melhor em quem faz exercício regular: o sistema imunológico, o cardiovascular, o metabolismo, o cérebro”, frisa Roschel.

Quando nos exercitamos, uma orquestra começa a tocar. O maestro é a contração muscular e os músicos, as miocinas. Elas tocam em resposta de umas às outras. Compõem uma melodia. Quanto mais atividade física e, portanto, contração muscular, mais os músicos tocam, liberando outras substâncias, notas musicais que dão o ritmo do organismo. Já o sedentarismo é silêncio e desarmonia, isto é, doença.

Algumas miocinas, por exemplo, captam a glicose no sangue e reduzem a glicemia. São um tratamento natural para o diabetes. Outras respondem à vasodilatação, remodelam ao endotélio (o revestimento do interior dos vasos sanguíneos) e, com isso, reduzem a hipertensão.

O exercício atua sobre a morfologia cerebral. A ação é tão profunda que eles atuam sobre os micro RNAs e, com isso, ajudam a regular a síntese de proteínas. E a prática regular de exercícios reduz a inflamação, um dos grandes males da vida moderna, afirma o estudioso da fisiologia dos músculos, José Cesar Rosa Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Estimulados por exercícios, os músculos liberam substâncias com ação anti- inflamatória. São as interleucinas 4, 6, 10 e 13. Só há relativamente pouco tempo, a ciência descobriu que os músculos e não apenas as células do sistema imunológico produzem essas substâncias.

A interleucina 6 (lL-6) ganhou destaque na pandemia, por sua associação com o agravamento da Covld-19. Quando elevada, é gatilho para temida tempestade de citocinas (ela própria é uma delas), desequilíbrio inflamatório que pode matar.

Muita IL-6 quase sempre é sinal de problemas para Covid -19 e outras doenças inflamatórias. Mas não quando o exercício entra em campo. Rosa Neto diz que durante o exercício o nível de lL-6 chega a aumentar cem vezes. Mas decai tão depressa quanto aumenta. E nesse meio tempo, combate inflamações. É como se a IL-6 sofresse de bipolaridade. Se persistentemente elevada, caso da Covid-19 e outras doenças, ela gera inflamação grave. Já doses altas e breves têm efeito oposto e benéfico.

A relação com a IL-6 exemplifica toda a complexidade envolvida na ligação entre músculos e o resto do organismo. Nessa orquestra, intensidade e duração do exercício dão o tom, diz Rosa Neto. Às vezes, preciso mais tempo, provável caso da maioria das miocinas de  ação anti-inflamatória. Mas em outros é a intensidade que dá a nota certa.

Um  exemplo é a interleucina 15, que tem ação anti­tumoral. Os músculos a secretam quando submetidos a exercícios intensos. A IL-15 ativa a produção dos linfócitos T killers . Essas células do sistema imunológico patrulham o organismo em busca de células infectadas ou defeituosas (caso das cancerígenas) e as matam.

Para algumas substâncias, é preciso mais do que tempo e intensidade. É o caso do BDNF, envolvido no bom funcionamento dos neurônios. Para que seja liberado, é preciso que os músculos das pernas sejam exercitados. Os dos braços não têm influência, observa Rosa Neto.

Se fazer atividade física faz tão bem, a ausência de movimento faz mal. Se mexer em qualquer nível é fundamental. A atividade física é imprescindível para manter o organismo funcionando em equilíbrio, afirma a ciência.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO IDENTIFICAR UM ‘VICIADO EM AMOR’

A definição inclui aquelas pessoas que se mantêm em relacionamentos tóxicos, e cerca de 10% dos jovens se encaixam nesse perfil, com características semelhantes às dos dependentes em jogos de azar ou álcool. Saiba como sair de situações ruins

Tara Blair Bali, uma coach de relacionamentos americana, conheceu seu ex no site Match. com. Eles se conectaram imediatamente. Na primeira ligação, conversaram durante oito horas – tanto tempo que Tara chegou tarde no trabalho e foi demitida:

“Eu interpretei como um sinal de que eu deveria estar conectada a ele”, disse rindo.

Quando os sinais de alerta começaram a aparecer, Tara não prestou atenção:

“Ele começou a agir com ciúmes e queria saber onde eu estava, o que estava fazendo, com quem eu estava falando…

Ela via isso como afeto:

“Rapidamente estávamos falando sobre casamento. Eu sentia como se não pudesse ficar longe dele por muito tempo, eu ficava em abstinência”.

Se a situação parecia trazer algumas marcas de um vício, é porque ela trazia mesmo. E, como muitos viciados, Tara levou um longo tempo para reconhecer que ela estava vivendo um “vício em amor”.

A definição do “vicio em amor” é difícil de entender. O grupo Sex and Love Addicts Anonymous (“viciados em sexo e amor anônimos”) o descreve como uma dependência extrema em uma pessoa por meio da qual “relacionamentos ou atividades sexuais se tornam cada vez mais destrutivos para a carreira, família e senso de respeito próprio”.

Para Helen Fisher, pesquisadora sênior da Universidade de Indiana e uma das principais especialistas no assunto, a definição inclui qualquer relacionamento que leve a um ”desejo obsessivo e pensamento intrusivo”

Uma análise sobre 83 estudos estimou que cerca de 3% da população já teve um problema sério com “vício em amor”. Esse número é de cerca de 10% entre jovens adultos. Olhando no TikTok, rede social em que Tara começou a compartilhar suas experiências, o número de viciados em amor talvez seja até maior.

A hashtag #ToxicRelationship (‘relacionamento tóxico’) tem mais de 1,7 bilhão de visualizações, e termos como ‘love addiction” (vício em amor),”love addict” (viciado em amor) e “codependency” (codependência), chegam a 320 milhões de menções.

Seja contando suas histórias ou reagindo às dos outros, as pessoas estão encontrando cura e comunidade no aplicativo, postando os sinais do “vício em amor’ ‘com memes e dicas.

Onde quer que você decida compartilhar suas experiências, é importante ser capaz de reconhecer quando um romance dos sonhos se transforma no “vício em amor”.

Mas o vício é mesmo real?

“(Para) qualquer pessoa que diga não ser um vício, tudo que eu posso lhe dizer é que nós olhamos dentro do cérebro”, disse Helen Fisher.

Por meio de uma ressonância magnética funcional, a pesquisadora e seus colegas estudaram amor romântico e encontraram atividade cerebral aumentada em uma região chamada de núcleo accumbens, “que se torna ativa quando qualquer coisa vira um vício – álcool, nicotina, cocaína, heroína, anfetaminas ou qualquer uma dessas coisas”, explicou Fisher.

Mas algumas pessoas na própria comunidade científica não aceitam o “vício em

amor’ como diagnóstico.

“Vício em amor é um conceito contestado”, diz Brian D. Earp, diretor associado do Programa de Ética e Política de Saúde de Yale-Hastings, da Universidade de Yale, que estudou o fenômeno.

Ele observou que algumas das discordâncias se resumem à própria definição de amor.

“Alguns filósofos feministas argumentam que, se um relacionamento é tóxico ou abusivo, ele não deveria nem ser chamado de amor”, diz Earp, que acrescenta que algumas pessoas preferem o rótulo “vício em comportamentos de relacionamentos tóxicos”.

Para deixar ainda mais complicado, especialistas também não concordam na definição de vício. Earp afirma que alguns neurocientistas acreditam que algo chamado de vício precisa ser ruim para você.

Portanto, “se você depende de uma atividade que pode ser classificada como prejudicial para sua saúde, mas é totalmente compatível com uma vida próspera, alguns especialistas diriam que não há razão para chamar isto de vício”, concluiu.

Quer você acredite ou não no “vício de amor”, pensar em um relacionamento tóxico como um vício pode ser útil para alguém que esteja lidando com as consequências de uma parceria doentia.

“Em resumo, um relacionamento doentio tende a envolver a procura por uma onda de dopamina e envolve poder e controle”, diz Steven Stussman, professor de medicina preventiva, psicologia e assistência social na Universidade do Sul da Califórnia.

Aqueles que estão passando por uma experiência de vício em amor “têm o padrão de comportamento de um viciado”, acrescenta Steven, incluindo mudanças de humor, do desespero à euforia, e uma disposição em tolerar o abuso. Além disso, a personalidade pode mudar, levando a alterações no estilo de vida ou a uma tendência em distorcer a realidade.

Especialista em alfabetização, Synthia Smith, disse que sucumbiu a esses sentimentos com seu agora ex-namorado:

“A perspectiva de viver sem ele era insuportável, eu estaria emocionalmente morta”, lembrou Synthia.

Esse medo era tão grande que ela permaneceu no relacionamento por anos apesar dos sinais de alerta, como a vez em que descobriu o perfil dele em um site de namoro. Ao ser confrontado, ele alegou que estava lá para fazer contatos profissionais e a envergonhou por tocar no assunto.

Envolver-se com alguém que compromete sua saúde mental pode ser uma experiência assustadora e solitária. Quer você acredite ser um “viciado em amor” ou apenas alguém que precisa de ajuda para sair de uma situação ruim, existem atitudes saudáveis a serem tomadas.

TENHA UMA COMUNIDADE

Katlynn Rowland, empresária da Flórida, estava envolvida com um homem que abusava emocionalmente dela quando encontrou os TikToks de Synthia Smith sobre gaslighting.

“Pela primeira vez, parecia que estava sendo validada e que não estava louca”, disse.

Os vídeos de Synthia deram a Katlynn a coragem para deixar seu ex-namorado – e para postar sobre isso no TikTok.

“No começo, estava com medo de postar porque sabia que ele iria enlouquecer. Mas desde que Synthia disse que ela não ligava para o que seu ex pensava mais, fui capaz de me livrar daquele medo”.

Brian D. Earp diz que essa é uma experiência comum:

“Pode ser reconfortante para as pessoas dar um sentido público à sua experiência em vez de apenas considera-la um fenômeno privado.

EDUQUE-SE

“É importante educar a si mesmo sobre como o “vício em amor” funciona para você, para entender as camadas e nuances de como ele atua na sua vida”, explica Kerry Cohen, terapeuta e escritora. Isso pode incluir encontrar um grupo de apoio – como o Sex and love Addicts Anonymous – e conversar com um terapeuta ou um psiquiatra especializado em “vicio em amor”. É importante consultar um profissional, e não fazer um autodiagnóstico.

USE AS MENSAGENS DE TEXTO DE FORMA SAUDÁVEL

Conversar por mensagens de texto pode ser um potencial campo minado para os viciados no amor, pois muitas vezes há espaço para falhas de comunicação, levando à ansiedade. Kery Cohen afirma que essas pessoas devem evitar falar sobre sentimentos por mensagem de texto com o parceiro, sobretudo emoções negativas:

“Esta será uma boa prática para você controlar seus sentimentos até poder falar pessoalmente, e pode lhe dar a pausa necessária para saber como responder sem reagir.

PARE DE GUARDAR SEGREDOS

Muitas pessoas viciadas em amor mantêm partes de suas vidas em segredo de seu parceiro para obter o que Cohen chamou de “senso artificial de autonomia”, uma maneira de evitar conflitos. Embora privacidade seja apropriada em um relacionamento, guardar segredos não é.

Viciados em amor muitas vezes, “mentem sobre seu passado e tentam ser alguém que eles acreditam ser quem o parceiro queria que eles fossem” escreveu Cohen em seu livro. Ela aconselha os parceiros a compartilharem honestamente um com o outro, especialmente sobre suas lutas com vício em sexo ou amor.

CORTE OS CONTATOS

Depois de construir uma rede de apoio você pode decidir se, quando e como deve acabar um relacionamento tóxico. Com seu terapeuta, considere evitar qualquer forma de comunicação com o ex­ parceiro que possa desencadear sentimentos renovados de desejo e retardar a cura.

Os programas de 12 passos geralmente aconselham os viciados a remover tudo que pode relembrar o vício, incluindo todos os contatos nas redes sociais, fotos, músicas ou lembranças.

TENTE UM PLANO DE NAMORO

Pode ajudar desenvolver um plano de namoro com seu terapeuta, que pode ser um guia útil para encontrar um relacionamento novo e saudável. Comece identificando uma ação que trouxe consequências negativas em seu passado.

Alguns viciados em amor podem fazer sexo muito rapidamente com um parceiro e, com isso, ficarem muito apegados. Assim, pode ser útil estabelecer uma regra para apenas fazer sexo depois de entrar em um relacionamento sério.

“Ninguém sai do amor com vida. As pessoasvivem por amor, matam por amor e morrerão pela pessoa amada. É um dos sistemas mais poderosos do cérebro que desenvolvemos”, diz Fisher.

Depende de você se essa energia será aproveitada para uma experiência romântica positiva ou negativa.

OUTROS OLHARES

TERRENO INFÉRTIL

Novas regras e projeto em tramitação limitam reprodução assistida no país

A professora de inglês e assistente virtual Vivian Cerqueira Sampaio, de 40 anos, sonhava ser mãe. Aos 36, começou a tentar engravidar, mas o processo se mostrou mais difícil do que imaginava. Depois de um aborto espontâneo e mais de um ano de tentativas, ela e o marido resolveram buscar um especialista. Após muitos exames e a notícia de que a endometriose poderia estar atrapalhando, eles partiram para a fertilização in vitro (FIV). Mas o tão desejado bebê não chegou. Ao menos não imediatamente. Foi só na terceira tentativa que isso aconteceu, e hoje, grávida de cinco meses, ela espera radiante a chegada do pequeno Cadu.

Nesse processo. Vivian pensou em desistir em diversosmomentos. Mas logo a vontade falava mais alto.

“Para mim, ser mãe é um sonho. O problema é que eu tinha medo de muitas coisas e isso aumentou depois da primeira perda. Acredito que precisamos usar os recursos da medicina a nosso favor e estou superfeliz que deu certo”, comemora.

O caso dela está longe de ser isolado. A reprodução assistida vem ajudando a realizar o sonho de um número cada vez maior de pessoas. O último levantamento disponível, feito pela Anvisa, revela que em 2019 foram 44.663 procedimentos. O número é 3,6% maior que no ano anterior e mais que o dobro da quantidade de ciclos realizada e, 2012. Além da  FIV, existem outras opções de tratamento para infertilidade, incluindo indução da ovulação com sexo em dia programado e inseminação intrauterina – a famosa inseminação artificial. Mas, em muitos casos, a fertilização in vitro, quando o embrião é formado em laboratório, é a única indicação possível.

RESOLUÇÃO RESTRITIVA

Nas últimas décadas, o procedimento evoluiu muito, com a incorporação de novas tecnologias que aumentaram a taxa de sucesso, ao mesmo tempo em que o tornaram o  procedimento mais seguro. Entretanto, alguns acontecimentos recentes no Brasil colocam o futuro da prática em risco. Por exemplo, a nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), válida desde 15 de junho, restringe a oito o número de embriões que podem ser gerados em laboratório em tratamentos do gênero.

Em tratamentos de fertilização, ocorre o chamado funil da fertilidade. Da fecundação ao desenvolvimento dos embriões, as perdas são grandes. Para se ter ideia, um estudo feito pelo Brigham Women’s Hospital, ligado à Universidade Harvard, nos EUA, indica no mínimo o dobro – 16 óvulos – para obter bons resultados. Para o ginecologista Maurício Chehin, especialista em reprodução assistida e coordenador científico do Grupo Huntington, é difícil entender os motivos que levaram à decisão.

“Do ponto de vista científico, é um retrocesso técnico, porque à medida que eu limito o número de embriões, limito as chances de gestação e o custo do tratamento. Cada país tem regras próprias, mas a enorme maioria tem regras menos restritivas”, diz.

Outro fato recente que pode impactar o futuro do acesso ao procedimento é a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que desobrigou os planos de saúde a custear a fertilização in vitro, “salvo disposição contratual expressa”. Na prática, a maioria dos planos não cobria os tratamentos, mas o que aconteceu nos últimos anos é que muitos pacientes passaram a judicializar a questão e ganhar.

A decisão foi dada em recurso repetitivo, ou seja, deverá ser seguida por todos os juízes e tribunais do país. Ela também é relevante por tratar de um procedimento caro, com preço médio de R$ 20 mil. Alguns centros do Sistema Único de Saúde (SUS) oferecem o serviço, mas a oferta é baixa pela demanda e a fila de espera pode chegar a três anos.

“A decisão não é uma novidade, mas ela enterra qualquer esperança de que os planos de saúde pudessem vir a cobrir os procedimentos. A infertilidade é uma doença como qualquer outra e quem a enfrenta deveria ter acesso a tratamento. Além disso, o direito ao planejamento familiar está previsto na Constituição” – ressalta o especialista em medicina reprodutiva Matheus Roque, da Clínica Mater Prime, em São Paulo.

Segundo o especialista, a infertilidade é uma das cinco doenças mais comuns em todos o mundo, afetando de 15 a 20% dos casais. Ela vem associada a diversas outras condições, como aumento de depressão, ansiedade e problemas no relacionamento.

PROJETO DE LEI

Outro movimento com potencial prejudicial aos tratamentos é um projeto de lei sobre reprodução assistida proposto em 2003 que tramita na Câmara dos Deputados. Criado pelo então senador Lucio Alcantara (PSDB-CE), o PL.1184/2003 prevê a limitação da fertilização de apenas dois óvulos, a proibição da biópsia embrionária, do congelamento de embriões e da doação de óvulos, e ainda retira a anonimidade dos doadores de sêmen e da ovodoações já realizadas. A PL ainda prevê a proibição da gestação de substituição, popularmente conhecida como barriga solidária, na qual uma mulher cede o útero para gestar o feto de outra pessoa sem participação genética.

“Caso seja aprovado, isso poderia acabar com a reprodução assistida no Brasil. Esse projeto contraria tudo o que está acontecendo no mundo. Em 2003, quando foi criado ele já era retrógrado, imagina 18 anos depois. A técnica evoluiu muito nesse período”, alerta Edson Borges, especialista em reprodução humana e diretor científico do Fertility Medical Group, em São Paulo.

A infertilidade, definida pelo fracasso em engravidar após um ano ou mais de sexo frequente sem proteção, vem crescendo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta entre 48 milhões de casais e 186 milhões de indivíduos. No Brasil, são cerca de 8 milhões. As causas do problema são diversas. Estima-se que cerca de 35% dos casos estão relacionados à mulher, outros 35% ao homem, 20% a ambos e  10% são provocados por causas desconhecidas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE NOVEMBRO

O CULTO QUE AGRADA A DEUS

Exercitar justiça e juízo é mais aceitável ao Senhor do que sacrifício (Provérbios 21.3).

Os homens sempre pensaram que poderiam agradar a Deus com a abundância de seus sacrifícios. Sempre levaram suas ofertas ao altar imaginando que aquilo que impressiona os homens também impressiona Deus. O Senhor, porém, não se deixa enganar. Ele se agrada mais de obediência do que de sacrifícios. Exercitar justiça e juízo é mais aceitável aos seus olhos do que lhe apresentar milhares de oferendas. Fazer o que é direito e justo é mais agradável a Deus do que lhe oferecer sacrifícios. Antes de receber a oferta, Deus precisa aceitar o ofertante. Não pode existir um abismo entre a vida do ofertante e a sua oferta. A Palavra de Deus diz que Deus rejeitou Caim e sua oferta. Uma vez que a vida de Caim não era correta, sua oferta não foi aceita. Quando o ofertante está com a vida errada, seu sacrifício se torna abominável para Deus. Muitas vezes, o povo de Israel tentou comprar Deus com suas ofertas. A vida estava toda errada, mas queriam impressionar Deus com a abundância de seus sacrifícios. Pela boca do profeta Miqueias, Deus disse ao povo: Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus (Miquéias 6.8).

GESTÃO E CARREIRA

AS LIÇÕES DE QUEM PEDIU DEMISSÃO PARA BUSCAR MAIS ALEGRIA NO TRABALHO

De falta de compaixão da chefia a jornadas excessivas, motivos não faltam para repensar a carreira no pós-pandemia

Há uma  tendência nos Estados Unidos de se acreditar que, quando as pessoas estão passando por dificuldades, é porque elas não seguiram “as regras”: estudar com afinco, trabalhar duro, conseguir um diploma, continuar no caminho, aposentar-se na idade prevista e não reclamar. Mas os trabalhadores que estão pedindo demissão voluntariamente estão descobrindo que as regras habituais não se aplicam a todos os casos. E que, em alguns deles, não há nada de errado em tentar algo novo.

MUDANÇAS EM SÉRIE

Anthony Fuscellaro, de Biddleford, Maine, pulou de emprego em emprego na maior parte de sua vida profissional desde que largou a faculdade. Em março de 2020, Fuscelllaro, 30 anos, foi contratado como operador de empilhadeira em um armazém. Durante o primeiro ano, ele disse, em um e-mail, “gostava de trabalhar e acreditava que, se continuasse dando o meu melhor para a empresa, a recíproca seria verdadeira”.

Mas, no último verão, uma onda de calor fez comque as temperaturas do armarem ficassem em 54ºC. Ele foi hospitalizado devido à insolação e suspenso por ter deixado de trabalhar nesse período. “Estávamos trabalhando entre 60 e 72 horas por semana e sendo obrigados a fazer hora extra”, lembra.

Depois de prometer contratar mais gente, a empresa demitiu 25 funcionários, sobrecarregando quem havia ficado. “Foi a gota d’água para mim. Pedi demissão. Foi a melhor decisão para minha saúde física e mental”, disse Fuscellaro. Desde então, ele tem trabalhado em empregos temporários.

“Todo mundo é perdoado por pular de um emprego para o outro entre 2020 e 2021”, disse, por e-mail, a coach de carreira Lauren Milligan, CEO da ResuMAYDAY,  lembrando  que hoje muita gente está em busca de uma transição de carreira.

CURSOS: VALE A PENA?

Vários leitores disseram que estão fazendo cursos de programação e treinamentos intensivos em software. Doug, gerente de contratação de uma startup de São Francisco, cujo nome não pode ser revelado, disse receber uma enxurrada de currículos de gente que acabou de sair desse tipo de treinamento.

Portanto, a menos que você saiba que um curso é o melhor meio para um objetivo especifico, invista em conjuntos de habilidades amplo, que poderão ser usados em várias áreas.

TENHA VOZ

Os trabalhadores estão mais propensos a deixar seus empregos quando não é dada atenção às suas preocupações. Ellen Goldlust queixou-se inúmeras vezes da sobrecarga de trabalho em uma editora na Carolina do Norte. Por isso, quando recebeu uma oferta de uma editora da Virgínia, Ellen deixou de lado a angústia com a mudança. “Estou muito feliz por ter tomado essa decisão”, disse Ellen. ”Meus novos colegas me tratam com respeito e fazem eu me sentir valorizada.”

EXIJA LEALDADE

Uma das principais razões para os trabalhadores deixarem seus empregos são os gestores que colocam a hierarquia acima da gentileza. Para James, veterano da guerra do Iraque e estudante de MBA no Texas, a decisão de pedir demissão de seu emprego de gerenciamento de projetos foi desencadeada pelas demandas excessivas e pela falta de compaixão da chefia.

Embora sua equipe estivesse entregando bons produtos, dentro do prazo, enquanto trabalhava remotamente, James disse que os gestores “surtavam” quando o status do Microsoft Teams indicava que os funcionários estavam longe do teclado. A gota d’água, disse James, foi quando seus filhos contraíram covid-19. O chefe de James insistiu que ele fosse para o escritório. Em vez disso, James pediu demissão.

APRENDIZADOS

DE GALHO EM GALHO

Em períodos como o atual, trocar de emprego de forma constante não é mal visto, segundo gestores de RH. No pós-pandemia, muita gente  está buscando redefinir a própria carreira.

ALÉM DO ESPECÍFICO

Embora alguns tipos de curso – como os de programação – estejam muito ‘na moda’ atualmente, especialistas em RH dizem que eles só são uma boa ideia para vagas específicas.

RESPEITO É TUDO

Avalie se a sua chefia está entregando o que exige: a ordem é fugir de cargas de trabalho abusivas e de ambientes tóxicos.

EU ACHO …

O AVIÃO E O MEDO

Às cinco da manhã, já estava com a mala pronta a caminho do aeroporto. É bem verdade que não tinha dormido nada, nadinha mesmo, e passou a semana tentando esquecer que entraria em um avião naquele dia. O avião, seu aliado e maior tormento. Conhecer o mundo, as pessoas e suas vidas tão particulares em cada região a conectava com seu propósito, mas enfrentar o caminho, pelo ar, sempre foi sua maior fraqueza. A situação toda se tornava mais constrangedora tendo sido o pai um piloto reconhecido na 2ª Guerra Mundial e um apaixonado por aviação. Conviver com a própria covardia tendo como exemplo um pai herói, colocava mais “caldo” nas horas gastas em análise para tentar resolver o assunto.

Nesse dia, o avião partiria às 8 da manhã, excelente horário segundo suas “pesquisas”: pilotos despertos? Menor tráfico aéreo? Aeromoças mais prestativas em caso de pânico? Tinha uma lista de checagem a cada viagem. O maior vilão, no entanto, não era algo controlado: era o mau tempo. A chuva torrencial dos dias anteriores já lhe causava taquicardia. “Está chovendo tanto esses dias, quinta-feira deve parar”, era o assunto que puxava aleatoriamente na semana. Não parou. A chuva noturna de quarta-feira anunciava a imagem da próxima manhã e, na madrugada insone, ela usou todos os métodos para se certificar de que entraria no avião no horário previsto.

Lembrar  nomes que admirava e que como ela tinham o mesmo pânico, mas seguiram suas carreiras e conseguiram administrar o terror a acalmava, então passou as horas pré-embarque em companhia de Oscar Niemeyer, um dos fundadores da arquitetura  moderna, que deixou de assistir a abertura de uma obra em Londres pelo seu conhecido medo de voar. O gênio, escritor e poeta Ariano Suassuna, que não assumia seu medo em público, afinal, ”um sertanejo não tem medo de nada”, dizia, também era constante em suas tentativas de solucionar a questão. Para ele, assim como para ela, assumir o medo era tão grave como senti-lo.

Às 7 da manhã lá estava ela no portão de embarque: mãos suando, pernas tremendo, chuva caindo sobre a potente máquina. Como seria bom e encorajador, para uma leitura de sábado, se ela tivesse entrado e seguido para a solar Paraíba e suas possíveis descobertas. Só que, dessa vez, ela não entrou.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

BEBIDAS AÇUCARADAS ELEVAM RISCO DE TER CÂNCER

Estudo associa alta ingestão de refrigerantes e chás adoçados com tumores de intestino em jovens. Mecanismo pode estar relacionado a fatores como ganho de peso e desníveis de glicose, que também influem na doença

Os cânceres de cólon e retal estão aumentando entre jovens adultos, embora os pesquisadores não saibam exatamente por quê. Um novo estudo que analisou mulheres e suas dietas sugere que as bebidas adoçadas com açúcar podem ter algum papel nesses números.

As taxas de câncer color retal em pessoas com menos de 50 anos aumentaram acentuadamente nos últimos anos. Em comparação com pessoas nascidas por volta de 1950, aquelas nascidas na década de 1990 têm o dobro do risco de desenvolver câncer de cólon e quatro vezes o risco de ter câncer retal.

Embora as vendas de bebidas adoçadas com açúcar tenham diminuído nos últimos anos, a porcentagem de calorias consumidas em bebidas açucaradas aumentou drasticamente entre 1977 e 2001. Nesse intervalo, o número subiu de 5,1% do total de calorias consumidas para 12,3% na faixa entre 19 e 39 anos e de 4,8% a 10,3% entre crianças e jovens menores de 18 anos. Em 2014, esses números haviam caído, mas 7% das calorias consumidas pelos americanos em geral ainda provinham de bebidas açucaradas.

O novo trabalho, publicado na revista médica Gut, examinou a ligação entre câncer colorretal e bebidas doces em 94.464 enfermeiras que se inscreveram em um estudo prospectivo de saúde de longo prazo entre 1991 e 2015, quando tinham de 25 a 42 anos de idade.

Eles também analisaram um subconjunto de 41.272 enfermeiras que relataram o consumo de bebidas açucaradas quanto tinham idades entre 13 e 18 anos.

O estudo incluiu a ingestão de refrigerantes, bebidas esportivas e chás adoçados. Os pesquisadores também registraram o consumo de suco de frutas – maçã, laranja, toranja, ameixa, entre outros.

RISCO DOBRADO

Ao longo de quase 24 anos de acompanhamento no estudo, eles encontraram 109 casos de câncer colorretal entre as enfermeiras, enquanto que o risco total de câncer de cólon em pessoas mais jovens ainda é pequeno. Mas, em comparação com as mulheres que consumiam em média menos de uma porção de 240 ml de bebidas adoçadas com açúcar por semana, aquelas que bebiam dois ou mais porções tinham mais do que o dobro do risco relativo de contrair a doença. Cada porção adicional de bebidas doces aumentou o risco em 16%. Uma porção diária durante a adolescência foi associada a um risco 32% maior, e a substituição de bebidas açucaradas por café ou leite com baixo teor de gordura levou a uma redução de risco relativo de 17 a 36%. (Eles não tinham acesso a dados sobre café adoçado com açúcar).

“Fiquei muito interessada em ver que o estudo era com mulheres” – , disse Caroline H. Johnson, epidemiologista da Escola de Saúde Pública de Yale, autora de inúmeros estudos sobre os riscos ambientais do câncer de cólon, mas que não esteve envolvida neste trabalho.

“O foco tem sido principalmente os homens. Será interessante ver se isso se confirma neles”, concluiu. Não houve associação do consumo de sucos de frutas ou bebidas adoçadas artificialmente com o câncer colorretal de início precoce. A análise controlou vários fatores que podem afetar o risco de câncer de cólon, incluindo raça, índice de massa corporal, uso de hormônio da menopausa, tabagismo, consumo de álcool e atividade física.

O estudo mostrou apenas uma associação, portanto não conseguiu provar causa e efeito. Mas Nour Makarem, professor assistente de epidemiologia da Escola de Saúde Pública Mailamn, em Columbia, que não esteve envolvido na pesquisa, disse:

“Esta é uma evidência robusta, uma nova evidência de que a maior ingestão de refrigerante está envolvida em um risco maior de câncer colorretal. Sabemos que bebidas adoçadas com açúcar têm sido associadas ao ganho de peso, desregulação da glicose e assim por diante, que também são fatores de risco. Portanto, há um mecanismo plausível que fundamenta essas relações.

OUTROS FATORES

O principal autor do estudo, Yin Cao, professor associado de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis , disse que problemas metabólicos, como resistência à insulina, colesterol alto, bem como a inflamação no intestino, podem desempenhar um papel maior entre as causas de câncer na população mais jovem do que em pessoas mais velhas, mas os potenciais mecanismos ainda não foram identificados com precisão.

“Uma hipótese é que o aumento do ganho de peso está causando o aumento do risco”, disse ela – , antes de concluir: ”Mas controlamos a obesidade. Ainda assim, pode ser uma das coisas que contribuem. Em estudos com camundongos, o xarope de milho com alto teor de frutose contribuiu para o risco de câncer, independentemente da ocorrência de obesidade.

Esta é a primeira vez que bebidas adoçadas com açúcar foram associadas ao câncer colorretal de início precoce” -, ela continuou:

“E este estudo ainda precisa ser replicado. Mas os pesquisadores e médicos devem estar cientes desse fator de risco amplamente ignorado para o câncer em idades mais jovens. Esta é uma oportunidade de rever as políticas sobre como as bebidas adoçadas com açúcar são comercializadas e como podemos ajudar a reduzir o consumo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DIFÍCIL CAÇADA AOS DOADORES DE MEDULA

Após transplante, pacientes usam páginas nas redes sociais para mobilizar mais voluntários

Trista Parson, natural da Virgínia (EUA), foi a heroína da família do consultor comercial André Tôrres, cearense de Maranguape, na Grande Fortaleza. Eles vivem a aproximadamente 6.100 quilômetros de distância e jamais imaginariam se aproximar por um episódio tão particular que salvou a vida de um deles.

É que em junho de 2018 André foi diagnosticado com leucemia aguda indiferenciada – quando não é possível identificar o tipo da doença. Foi descoberta ainda uma mutação genética, chamada de cromossomo Philadelphia. “Comecei a sentir pequenas dores de cabeça durante o dia, e na piora de uma dessas dores, vi o meu chão se abrir. Era a leucemia”, recorda Tôrres.

O tratamento para leucemia se dá por meio de quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e, por fim, o transplante de medula óssea. Tôrres se viu diante de mais uma batalha, a de encontrar uma medula nova e compatível. E foi após viralizar na internet uma foto de seu filho Davi, na época com apenas um ano, que surgiu o projeto Caçadores de Medula.

“Tenho dois irmãos e achava que meu problema seria resolvido dentro de casa. Mas meus irmãos não foram compatíveis o suficiente. Começamos uma verdadeira caçada para encontrar um doador”, conta Tôrres.

Durante uma campanha de doação de sangue que ocorria na cidade, a mulher de André fez a foto de Davi carregando uma plaquinha que dizia “caçador de medula”. Em uma outra placa, pendurada na sua moto de brinquedo, Davi pedia: “Procuro uma medula para o meu papai e conto com você”. A foto sensibilizou muita gente.

“Eu estava internado quando a recebi e me emocionei. Meu filho, sem saber, lutava para salvar a vida do pai. Eu não era mais o herói dele. Naquele momento, ele se tornou o meu herói”, diz o consultor comercial. Ainda no hospital, André também iniciou uma  campanha de incentivo pelo cadastro para doação de medula. “Levamos a campanha para a internet e estamos como ‘Caçadores de Medula’ até hoje. É o meu propósito”, declara Tôrres. O perfil no Instagram tem mais de 17 mil seguidores. Na página, Tôrres compartilha histórias bem sucedidas sobre doações, além de quebrar preconceitos e receios sobre o transplante.

Foi por meio do Redome, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, que ele encontrou a medula certa, cinco meses após descobrir a doença. O Redome, coordenado pelo Instituto Nacional do Câncer, é o terceiro maior banco de cadastros do tipo no País e representa, para pacientes brasileiros, a maior chance de encontrar um doador que não seja da família. A instituição se comunica com órgãos de outros países para encontrar um doador compatível. “Somente um ano e meio após o transplante o paciente pode pedir ao Redome a quebra de sigilo da identidade do doador e vice-versa, mas as duas partes precisam estar de acordo”, explica Tôrres. Foi então que ele e Trista se conheceram por videochamada. “Eu ganhei na loteria de vida”, vibra.

DUAS LOTERIAS

Se encontrar um doador compatível é acertar na loteria, a publicitária Ou da Dornela de 31 anos, vê um prêmio duplo. Ela, de Belo Horizonte, descobriu que tinha leucemia mieloide crónica em janeiro de 2015, quatro meses antes de se casar. “Foi um baque”, relata ela. “Será que vou morrer? Será que vou casar careca? Ou nem vou casar?”

Começou o tratamento e respondeu bem à medicação. Ela se casou como sempre sonhou, de cabelão. Mas, na volta da lua de mel, teve recaída. Os médicos decidiram, então, pelo transplante de medula. O doador foi o Thiago, de São José do Rio Preto (SP), e os dois também se conheceram.

“Ele tem a mesma idade do meu irmão, que não pôde me ajudar, porque não era compatível. Ganhei uma medula nova e mais: um irmão”, comemora. No Instagram, a publicitária também criou o perfil Valorizar a Vida, com mais de 5,1 mil seguidores, em que tira dúvidas e fala sobre a importância da doação.

Já Amanda Oliveira, do Rio, descobriu a doença seis meses após o casamento quando começou a sentir dores entre os seios. O diagnóstico não foi fácil. Um ano e meio depois ela descobriu que todos os problemas de saúde eram causados por uma infecção na medula óssea. Após refazer os exames, descobriu metástase no pulmão. A resposta era de tuberculose óssea

“A batalha foi grande até descobrir o câncer, mas eu estava tão saturada que só queria descobrir o que eu tinha. Os médicos disseram que eu poderia ficar infértil, que ia perder meu cabelo. Passei por mais de um protocolo de quimioterapia. Foram cinco meses internada, sem saber o que iria acontecer,” conta.

Em dezembro de 2018, Amanda fez o transplante, mas em um mês e meio o câncer voltou em outros órgãos e ela precisou de novo transplante.  No Redome, encontraram um  doador 100% compatível, mas o contato não foi em frente. O pai de Amanda era 50% compatível, mas tinha um problema no fígado, o que impossibilitou a cirurgia. O doador de Amanda estava na Inglaterra. “O dia do transplante foi muito emocionante. Fiz uma cartinha para ele. Depois de dois anos, pedi a quebra de sigilo, ele aceitou me conhecer epude ler a cartinha pra ele”, conta, emocionada.

É POSSÍVEL ENTRAR EM CADASTRO NACIONAL

A doação de medula óssea pode ser feita por qualquer pessoa entre 18 e 35 anos. Basta se cadastrar no Registro Nacional de Doadores de Medula (Redome), preencher uma ficha, incluindo o contato de duas pessoas próximas, e fazer a coleta de 5 ml de sangue. É preciso não ter doença Infecciosa ou incapacitante, não ter câncer, doenças do sangue ou do sistema imunológico. É importante que os dados sejam atualizados, caso haja mudança de endereço ou telefone.

OUTROS OLHARES

A VIOLÊNCIA DE TER A INTIMIDADE EXPOSTA EM FOTOS NA INTERNET

Dossiê Mulher do ISP divulga, pela primeira vez, estatísticas de ‘nudes’

Em julho de 2014, Tifani Cristini Suppo da Silva, de 22 anos, teve o celular roubado ao sair de uma festa em Cachoeira de Macacu, cidade com menos de 60 mil habitantes a 110 quilômetros da capital. Quatro meses depois, ela recebeu de um amigo, em seu novo aparelho, cinco fotos sensuais de nudez que havia tirado com o ex-namorado, com quem teve um relacionamento de oito anos. Asimagens armazenadas na época pelo casal foram vazadas, a jovem se desesperou e precisou do apoio da família.

Em 2020, 43 queixas de registros não autorizados de intimidade sexual chegaram às delegacias do Rio.

“Me senti exposta, violada, invadida. Na hora, fiquei desesperada, não entendia por que, depois de tanto tempo, isso foi acontecer. Precisei escutar os conselhos dos meus amigos e parentes para tentar não me importar tanto, para que aquilo não causasse ainda mais transtornos à minha vida. Foi um momento muito difícil”, relata Tifani.

Pela primeira vez, o Dossiê Mulher do Instituto de Segurança Pública (ISP) analisou o chamado registro não autorizado da intimidade sexual. Este é um crime recente, previsto na lei 13. 772, de 19 de dezembro de 2018, que reconheceu a violação da intimidade da mulher como violência doméstica e familiar e criminalizou o registro não autorizado de cenas de nudez ou ato sexual – qualquer produção, verdadeira ou não, com conteúdo sexual de caráter privado e íntimo sem autorização dos participantes.

O relatório mostra que 91% dos registros desse crime em 2020 têm mulheres como vítimas, sendo que dois terços desse percentual são solteiras. Em sua maioria, jovens brancas de 18 a 29 anos. Como grande parte dos crimes cometidos contra as mulheres, mais da metade aconteceu dentro de uma residência, e cerca de 30% dos autores eram companheiros ou ex-companheiros.

MEDO E VERGONHA

Titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Duque de Caxias, a delegada Fernanda Fernandes explica que as vítimas chegam à unidade com medo e vergonha. Muitas delas perdem os empregos, são repreendidas pelas famílias e até expulsas da igreja que frequentam. Algumas também passam a ser achacadas virtualmente por pessoas que prometem não divulgar o conteúdo das imagens, mediante pagamento de valores.

“Esse tipo de crime sempre acontece, mas, não tendo uma tipificação legal, fazemos uma ginástica jurídica para indiciar quem o cometia por injúria ou difamação. Com a nova lei, vimos uma enxurrada de casos, também pelo aumento significativo da chamada pornografia da vingança, quando a vítima manda a foto para alguém durante um relacionamento, mas não consente que ele divulgue. Com o término, ele acaba por compartilhar a imagem nas redes sociais e por aplicativos de mensagem”, explica a delegada. “Então, é preciso que fique claro que, a partir do momento que se registra um nude, não há mais controle sobre esse arquivo e a pessoa precisa ter consciência dos riscos de exposição que corre. Embora a pena hoje seja maior para o criminoso, para a vítima ela pode ser pequena.”

Por causa das suas características, o registro não autorizado é reconhecido como uma violência psicológica, classificação que abrange qualquer conduta que cause dano emocional ou perturbe o pleno desenvolvimento da mulher. No geral, esse tipo de violência se dá através de ameaça, constrangimento, humilhação, isolamento, manipulação, vigilâncias constantes, perseguição e violação de intimidade. E pode estar associado à diminuição da autoestima e a prejuízos à saúde mental, gerando problemas de ansiedade e depressão que podem perdurar por toda a vida.

“A inclusão no registro não autorizado da intimidade sexual no Dossiê Mulher é muitíssimo importante e mostra que o Rio está acompanhando atentamente a evolução das diversas formas como as mulheres podem ser vitimadas e como esses crimes são praticados”, enfatiza a também delegada Marcela Ortiz, diretora – presidente do ISP.

AGRESSÃO PSICOLÓGICA

De acordo com o dossiê, a proporção de mulheres que sofrem violência psicológica em relação às outras formas de violência no estado foi de 31,6% em 2020, estando atrás apenas da violência física. No ano, a média mensal foi de 2.595 vítimas – cerca de 86 por dia ou três por hora. Os registros apresentaram um declínio acentuado entre março e maio, meses em que as restrições sociais devido à pandemia de Covld-19 aumentaram. Nos meses seguintes, eles tiveram um crescimento, chegando a 2.936 em agosto.

O documento mostra ainda que a progressão entre as formas de violência ocorre de forma gradual. O autor do crime tende a começar com o cerceamento da liberdade individual da vítima, impedindo que saia e isolando-a do contato com familiares e amigos, depois a constrange e a humilha. Com a autoestima abalada, a mulher passa a se sentir diminuída e, mais facilmente, passa a “tolerar” cada vez mais agressões verbais até ser agredida fisicamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE NOVEMBRO

DEUS CONHECE AS MOTIVAÇÕES

Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações (Provérbios 21.2).

A sinceridade não é uma prova infalível para conhecer a verdade. Há muitas pessoas sinceramente enganadas. Há caminhos que aos homens parecem ser certos, mas são absolutamente tortuosos. Há comportamentos adotados pelos homens que recebem aplausos nas praças e incentivos da mídia, mas essas práticas não passam no crivo da ética divina. Há palavras que são bonitas aos ouvidos dos observadores, mas soam como barulho estranho aos ouvidos de Deus. Há ações que arrancam elogios na terra, mas são reprovadas no céu. Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações. Se você pensa que tudo o que faz é certo, lembre-se de que o Senhor julga as suas intenções. O tribunal dos homens só consegue julgar suas palavras e ações, mas o tribunal de Deus julga o foro íntimo. Os homens veem as obras; Deus vê a motivação. Os homens se impressionam com o exterior; Deus vê o interior. O homem se olha no espelho e dá nota máxima a si mesmo pelo seu desempenho, mas Deus sonda seu coração e exige verdade no íntimo. O homem se contenta apenas com a aparência, mas Deus o pesa na balança e o encontra em falta. Não basta ser aplaudido pelos homens nem dar nota máxima a si mesmo. É necessário ser aprovado por Deus.

GESTÃO E CARREIRA

COM MÃO DE OBRA RESTRITA, MERCADO DISPUTA PROFISSIONAIS

Como as faculdades não dão conta da demanda, empresas têm ‘adotado’ funcionários para atuar em novas áreas

Enquanto algumas profissões estão desaparecendo, as carreiras do futuro são disputadas por empresas nacionais e internacionais. A escassez de mão de obra ligada à tecnologia é um problema que aflige não só o Brasil como todo o mundo. Exemplo disso é que tem sido uma tendência as multinacionais buscarem profissionais de tecnologia no Brasil. Tudo isso ajuda a elevar o salário desses trabalhadores.

Nas profissões mais recentes, a oferta de mão de obra é ainda mais restrita e, em alguns casos, o nível de qualificação abaixo dos requisitos das empresas, diz Leonardo Berto, gerente da operação da Robert Half. “A agenda de decisões baseada em dados, no nível de hoje, é relativamente nova no País”, completa ele, explicando a escassez de mão de obra. Além disso, as faculdades não estão preparadas para formar esses profissionais do futuro. Muitas vezes o conhecimento é adquirido em cursos de curto e médio prazos ou quando as empresas praticamente “adotam” o profissional para formá-lo. “Cada vez mais, há uma desconexão com a graduação tradicional. Currículo e formação não vão vir mais em primeiro lugar numa contratação”, afirma Diogo Forghieri, diretor da empresa de recursos humanos Randstad do Brasil.

Essa tendência tem incentivado os profissionais a se reposicionar, como foi o caso de Thabata Dornelas. Ela fez Direito, influenciada pela família, mas durante o curso já entendeu que não era exatamente naquilo que gostaria de trabalhar. Apesar disso, concluiu a faculdade e entregou o diploma para a mãe.

Foi numa startup que descobriu o gosto pela tecnologia. Durante algum tempo, transitou por várias áreas até começar a notar o trabalho de um colega desenvolvedor. “Fiquei muito interessada no trabalho dele e resolvi fazer um curso de um ano, bem  puxado. Com oito meses, consegui um emprego na área”, diz ela, que mora em Belo Horizonte e trabalha em home office.

Para Wagner Delbaje, a mudança representou a recolocação no mercado de trabalho. Piloto comercial e instrutor de voos, ele  ficou praticamente sem emprego durante a pandemia. Mas a notícia de que a agência reguladora havia autorizado testes para delivery por drones o fez se movimentar.

Procurou uma empresa de drones, apresentou-se e conseguiu um emprego. “Trouxe a experiência da aviação tripulada para a aviação não tripulada”, disse ele, que se mudou de Piracicaba para Franca para seguir essa nova profissão.

EU ACHO …

AS DORES DA CONQUISTA

O segredo é saber diferenciá-las do sofrimento

A dor é o denominador comum a todo tipo de sucesso. Sem aquele esforço extra que a provoca, pouco ou nada se conquista. Pode reparar: sem muito trabalho não se obtêm resultados excelentes – uma regra de ouro que vale para atletas profissionais e amadores, concertistas, chefs, executivos, empresários ou qualquer pessoa que se imponha um desafio. Não importam o tamanho e a natureza do obstáculo a ser contornado. Pode ser a complexidade da burocracia para dar início a um novo empreendimento, a disposição de acordar mais cedo, a determinação de emagrecer. Em qualquer caso, a labuta resulta em superação, em excelência, em aperfeiçoamento.

Ah, Lucília, então vai dizer que é bom sentir dor’? Claro que não. Como diz Shakespeare numa comédia, “todo mundo é capaz de dominar uma dor, com exceção de quem a sente”.

Mas a questão não é se é bom ou ruim sentir dor. A questão é: se a dor é inevitável para progredir na vida, então como lidar com ela? Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de que toda dor sempre é localizada. Ela emana a partir de um determinado ponto de nosso organismo. O cérebro é que se encarrega de transmitir a sensação da dor generalizada, como se uma torção no tornozelo, por exemplo, tivesse reflexo no corpo inteiro. Aprendi isso por experiência própria. Anos atrás, depois que emagreci –  perdendo metade dos 120 quilos que cheguei a pesar  – , estava feliz da vida, sentindo-me estimulada a me exercitar todos os dias, e é provável que, em momento de maior animação, eu tenha passado do ponto. Resultado: fiz uma tremenda hérnia na coluna cervical. Até hoje meu pescoço dói muito. Esse episódio me deu oportunidade de perceber que a dor, por mais aguda, está restrita a um lugar – e nós não somos apenas esse lugar. A dor é no meu pescoço, mas eu não sou o meu pescoço. Não deixo que o restante do meu corpo se contamine por aquela dor pontual. Não nego que ela exista, mas não lhe dou atenção excessiva e convivo com ela – nós nos entendemos muito bem, obrigada.

O segredo para suportar uma dor qualquer é estabelecer a diferença que ela guarda com o sofrimento. Dor é algo concreto, aquela sensação desagradável produzida pela excitação de terminações nervosas sensíveis ou por lesões de algum tecido do organismo. Já o sofrimento tem a ver com a expectativa da dor futura ou a lembrança da dor passada. Ela existe, sim, mas na nossa imaginação. Assim, se é fruto de um processo mental, pode ser amplificado ou aliviado, dependendo de nossa atitude. Até certo ponto, temos controle sobre isso. O corpo humano parece ter sido projetado para aguentar trancos de diversas intensidades. Basta, para tanto, preparar o espírito para enfrentá-los. Quando as estruturas mentais estão voltadas para a obtenção de determinado resultado, o corpo reage segundo esse comando, impedindo que a dor embace o êxito final. Qualquer dor é chata, claro, e não quis aqui dourar a pílula. Mas ganhamos quando conseguimos coloca-la em seu devido lugar –  o lugar onde ela deveria ficar circunscrita. Não é impossível. Para ajudar, pense nela como aquele ingrediente amargo sem o qual não calibramos a doçura de um coquetel.

*** LUCIÍIA DINIZ

ESTAR BEM

DE FERRO E OSSO

Exoesqueletos ligados ao corpo turbinam a corrida e a caminhada

Dentro de alguns anos, vestir um exoesqueleto poderá se tornar parte da preparação para a corrida ou caminhada matinal, assim como colocamos roupas confortáveis, meias e tênis. Isso porque grandes centros de pesquisa, como a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e a Universidade Queen’s, em Kingston, no Canadá, estão desenvolvendo dispositivos robóticos capazes de aumentar a velocidade e a facilidade do exercício.

Eles não lembram em nada as armaduras dos heróis de filmes de ação. São formados por estruturas pequenas, que ficam presas nas pernas ou na parte superior do corpo. Alguns incluem motores, outros molas e há também os elaborados com materiais macios e flexíveis que parecem roupas. Em casos específicos, como aqueles com o objetivo de ajudar pessoas paralisadas a ficar de pé e andar, são mais robustos. Mas a finalidade de todos é a mesma: fornecer assistência aos músculos e articulações para o corpo se mover muito mais rápido ou ir até mais longe.

O grande impacto dos exoesqueletos está no potencial em melhorar a mobilidade de pessoas com dificuldades para caminhar.

“Queremos desenvolver exoesqueletos que ajudem as pessoas com deficiência devido ao envelhecimento, acidente vascular cerebral ou amputação”, afirma Steve Collins, chefe do Laboratório de Biomecatrônica da Universidade Stanford.

Mas a ideia é também que eles sejam projetados com pessoas saudáveis em mente.

“Estamos interessados em fazer dispositivos para pessoas sem deficiência, por exemplo, para tornar atividades recreativas, como a corrida, mais divertidas”, revela Collins.

AUXILIO AO ANDAR

Em alguns laboratórios e hospitais de reabilitação, exoesqueletos já estão sendo usados para melhorar a capacidade de locomoção em pacientes que sofreram acidente vascular cerebral, idosos e jovens com paralisia cerebral ou outras deficiências. Em um estudo publicado na revista Nature Medicine, engenheiros da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, descrevem um experimento com um dispositivo motorizado desenvolvido para ajudar amputados a andar melhor.

A amputação acima do joelho reduz gravemente a mobilidade e a qualidade de vida de milhões de indivíduos, porque muitos dos músculos das pernas são removidos durante a cirurgia. O exoesqueleto, que envolve a cintura e a perna do usuário, usa motores elétricos e microprocessadores embutidos para reduzir em 15,6% o esforço feito pelos voluntários ao caminhar.

“O estudo mostrou que, para pessoas com amputação acima do joelho, o exoesqueleto deixa a marcha mais econômica, mais estável e com menos oscilação. Ou seja, ela se movimenta com menos dificuldade e de forma mais eficiente”, explica o educador físico Gustavo Cardozo, diretor técnico e científico do Centro de Medicina do Exercício Decordis, em São Paulo.

PROTÓTIPO NACIONAL

No Brasil, pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos da USP desenvolveram um protótipo de exoesqueleto robótico capaz de auxiliar o movimento dos membros inferiores de vítimas de doenças como acidente vascular cerebral, Parkinson e lesão da medula espinhal. O aparelho utiliza algoritmos para identificar a dificuldade especifica do paciente em cada articulação da perna, e complementa automaticamente o esforço necessário para a conclusão do movimento.

Em 2020, o Hybrid Assistive Limb (HAL), desenvolvido pela Universidade Tsucuba e a companhia Cyberdyne, ambas no Japão, tornou-se o primeiro exoesqueleto vestível a obter aprovação de um órgão de vigilância sanitária – no caso, o da Tailândia – para uso médico. O produto oferece suporte para a locomoção de idosos e outras pessoas com limitações físicas.

Mas talvez a ciência mais tentadora e perturbadora envolva exoesqueletos feitos para pessoas jovens e saudáveis. Nesta área de pesquisa, os modelos buscam reduzir os custos de energia para correr e caminhar, tornando essas atividades menos fatigantes e mais eficientes fisiologicamente. Os resultados iniciais são promissores.

Estudos do laboratório de Biomecatrônica da Universidade de Stanford mostraram que estudantes universitários conseguiam correr com cerca de 15% mais eficiência do que o normal quando usavam um protótipo de exoesqueleto.

Esses dispositivos contam com uma estrutura leve movida a motor, amarrada em torno das canelas e tornozelos, e uma barra de fibra de carbono inserida nas solas dos sapatos. Juntos, esses elementos reduzem a quantidade de força que os músculos das pernas precisam produzir para impulsionar o corpo. A estimativa é que em ruas ou trilhas, eles aumentem a velocidade da corrida em menos 10%.

Outro aparelho, desenvolvido pela Universidade Queen’s, no Canadá, vai além. Publicado na revista Science, o experimento inclui uma mochila com um gerador. Assim, além de reduzir em mais de 3% o esforço necessário para caminhar, parte da energia mecânica criada na atividade é convertida em energia elétrica. A quantidade ainda é insuficiente para carregar um smartphone, mas os pesquisadores pretendem chegar lá.

Harvard também não ficou de fora da disputa. Pesquisadores da universidade americana criaram um par de shorts com um motor acoplado às costas que ajuda a reduzir a energia gasta pelo corpo para caminhar ou correr, com potencial de beneficiar qualquer um que tenha que cobrir grandes distâncias a pé, como militares e equipes de resgate.

Existe a preocupação de que, ao diminuir o esforço do exercício, também se perca parte dos seus benefícios. Entretanto, os pesquisadores acreditam que o aumento na quantidade de atividade compense a queda no dispêndio energético.

Por enquanto, nenhuma dessas inovações está disponível ao consumidor. Mas é provável que isso mude em breve devido ao grande interesse. A Nike, por exemplo, é uma das financiadoras dos estudos de Stanford. A consultoria Prescient & Strategic lnteligence (P&S) estima que o mercado global de exoesqueletos deve passar de USS 290 milhões em 2019 para US$7 bilhões em 2030.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PAIS PAGAM CARO E VIAJAM POR AVALIAÇÃO MÉDICA DE TRANSTORNO DE APRENDIZAGEM

Estimativa é de 10 milhões de brasileiros com essa condição, mas escassez de conhecimento e profissionais especializados prejudica identificação do quadro. Estudo revela procura por diagnóstico até em outro Estado e jornada com mais de cinco especialistas

Luiz, de 11 anos, sempre perguntou à mãe, Angelica, assuntos complexos para a idade dele. Apesar disso, na escola, a criança desde cedo não desenvolvia a leitura e a escrita. Professores adaptaram as tarefas, médicos foram consultados, mas ninguém conseguia explicar o porquê ou reverter o quadro. Há três anos, o garoto recebeu um diagnóstico. Mãe e filho saíram de Mato Grosso para São Paulo para descobrir que a criança tem dislexia, um dos tipos de Transtorno Específico de Aprendizagem (TEAp).

Pesquisa sobre o perfil do TEAp no Brasil mostra que, 35% das famílias viajam, até para outros Estados, em busca do diagnóstico. Esse mapeamento, ao qual tivemos acesso, foi realizado pelo Instituto ABCD em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia.

O trabalho indica ainda que um terço das crianças consultaram mais de cinco especialistas até obter o laudo. Asfamílias gastam, em média, R$800 mensais em acompanhamento especializado. A análise envolve respostas de 304 questionários aplicados, de 17 Estados.

Após gastos em Cuiabá, os custos de consultas e estadia em São Paulo foram altos para Angelica Simioni, de 46 anos. Luiz passou por novas avaliações médicas e baterias de exames por mais de uma semana na capital paulista até o diagnóstico tardio. E essa peregrinação não é um caso isolado.

O instituto estima 10 milhões de brasileiros com algum transtorno de aprendizagem. No entanto, a falta de conhecimento e de profissionais especializados na rede pública prejudica o diagnóstico, conforme Ana Márcia Guimarães Alves, pediatra especialista em desenvolvimento infantil.

As famílias ouvidas pelo Instituto ABCD ainda sinalizaram impactos emocionais negativos do TEAp nas crianças e nos jovens, tais como tristeza, ansiedade e baixa autoestima. Angelica conseguiu orientação após encontrar um grupo de parentes de disléxicos que discutia o assunto em Mato Grosso.

“Foram essas famílias que me falaram qual caminho seguir para entender o que o meu filho tinha”. A fundadora do grupo é a bióloga Gabrielle Coury, mãe de Maria Lúcia, de 18 anos, que também fez em 2014 o mesmo trajeto de Angelica, para saber o porquê de a filha não se adaptar à escola.

Gabrielle conta que passou seis meses até conseguir revelar para a filha o diagnóstico. “Coloquei uns vídeos de umas crianças falando no YouTube, e ela se reconheceu. Ela olhou para mim e disse: “Então não sou burra, mamãe? Eu sou disléxica”, lembra emocionada a presidente de honra  da Associação Mato-grossense de Dislexia, fundada em 2016 e que hoje tem mais de 200 associados.

O longo período de salas de aula fechadas por causa da pandemia no Brasil também traz prejuízos para esse grupo, diante das dificuldades para a adaptação ao ensino remoto. Além das mudanças na escola, de acordo com a pesquisa, muitas crianças e jovens tiveram mudanças no acompanhamento terapêutico personalizado.

INVESTIMENTO E SOLUÇÕES

A administradora de empresa Fabiola de La Lastra Helou, é mãe de Layla, de 14 anos, eTayo, de 12. A filha cem discalculia, transtorno relacionado aos números, que precisa de intervenções pontuais. Já o filho tem dificuldade na aprendizagem por causa da dislexia. Além deles, o marido de Fabiola também é disléxico – esses transtornos são hereditários.

Atenta à literatura internacional do TEAp, Fabiola matriculou o filho por oito meses em uma escola americana com metodologia especifica, que custou cerca de R$50 mil por mês.

No fim do período, Tayo saiu do nível de leitura de uma criança na pré-escola para o de uma criança no 3º ano do ensino fundamental. O gasto da família inclui os quase R$ 15 mil mensais com a escola brasileira e intervenções da psicologia. Ela lamenta que muitas mães não consigam sequer acesso ao diagnóstico e defende mais atenção do poder público ao assunto. “É mais fácil manter do jeito que está porque é menos oneroso”, diz Fabiola.

Entre as soluções propostas para melhorar o cenário de atenção aos transtornos no País, destaca Juliana Amorina, fonoaudióloga e diretora-presidente do Instituto ARCO, está a aprovação do projeto de lei 3.51/72019, que tramita há quase 12 anos no Congresso.

O texto prevê acompanhamento integral dos alunos das redes pública e privada de ensino em parceria com os profissionais da rede de saúde. Na consulta aos profissionais especializados feita também pela ABCD, apenas 8% trabalham com serviços gratuitos.

O projeto estabelece ainda capacitação continuada de professores para que reconheçam mais precocemente sinais persistentes das crianças com resultados mais lentos na aprendizagem. “(A ideia é) implementar um sistema de triagem e monitoramento para que o encaminhamento seja mais preciso”, reitera Juliana. Isso também evita desperdício de recursos antes da descrição adequada do transtorno. Campanhas com informações sobre o tema também ajudam as famílias.

TIPOS

DISLEXIA

Maior prejuízo relacionado à leitura – em precisão, velocidade, fluência e compreensão leitora.

DISCALCULIA

Maior comprometimento em matemática com prejuízos no senso numérico, na memorização de fatos aritméticos, na precisão em cálculos e no raciocínio lógico.

DISORTOGRAFIA

Prejuízo acentuado na expressão escrita: ortografia, gramática, pontuação e organização textual.

OUTROS OLHARES

BRASIL TEM 7 MIL ASSASSINATOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES POR ANO

 Estudo também revela que, anualmente, 45 mil sofrem abuso sexual; mortes violentas atingem majoritariamente meninos negros

Por ano, 7 mil crianças e adolescentes no Brasil são mortos de forma violenta e ao menos 45 mil sofrem violência sexual. Os dados são do Panorama da Violência Letal e Sexual Contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado pela Unicef, braço das Nações Unidas para a infância, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ( FBSP).

O estudo diz que a violência ocorre de formas variadas, conforme a faixa etária da vítima. Crianças morrem na maior parte das vezes em decorrência de violência doméstica, cujo autor é conhecido, como um pai ou um padrasto.

Em 2020, 300 menores de até 9 anos foram mortos de forma violenta no País. Praticamente um caso por dia, grande parte em casa. O mesmo vale para a violência sexual, em geral cometida no lar por pessoas próximas. Já os adolescentes, a maioria das vítimas, são mortos majoritariamente na rua. O estudo ainda revela a alta proporção de mortos em ações policiais.

“A violência doméstica é um crime contra a infância. A violência urbana é um crime contra a adolescência, que atinge principalmente meninos negros”, diferencia Florence Bauer,   representante no Brasil da Unicef. “Embora sejam fenômenos complementares e simultâneos, é crucial entende-los também em suas diferenças para desenhar políticas públicas de prevenção e resposta às violências”, acrescenta ela.

MORTES E ABUSOS

O trabalho é uma análise inédita de boletins de ocorrência feitos nos últimos cinco anos nas 27 unidades da federação. Abrange mortes violentas intencionais (homicídio, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, morte decorrente de intervenção policial e violência sexual contra crianças e adolescentes. Entre 2016 e o ano passado, foram identificados 35.626 assassinatos de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no Brasil. Uma média de 7 mil mortes violentas por ano. São cerca de 20 por dia.

A maioria das vítimas de homicídio no período era de adolescentes, 3 mil deles na faixa de 15 a 19 anos. No mesmo período, foram identificadas pelo menos 1.449 homicídios de crianças de até 9 anos. O número dessas mortes vem subindo desde 2016, chegando a 300 crianças em 2020.

Olhando apenas para a primeira infância (até 4 anos), os dados são ainda mais preocupantes. Nos 18 Estados que dispunham de informações completas para o período, os assassinatos de crianças nessa faixa etária aumentaram 89% de 2016 a 2020, indo de  121 para 229. O crescimento foi puxado pela alta de mortes na primeira infância por arma de fogo, que triplicaram nesse período: de 28 para 85.

MENINOS NEGROS

Em todas as idades, as principais vítimas de morte violenta são os meninos negros. A faixa etária dos 10 aos 14 anos marca a transição da violência doméstica para a urbana. Quando o adolescente chega à faixa de 15 a 19 anos, essa violência letal está consolidada. Mais de  90% das vítimas são meninos e 80% são negros.

Em 2020, nos 24 Estados em que há dados (exceções são Bahia, Distrito Federal e Goiás), um total de 787 óbitos de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos foram identificados como mortes decorrentes de intervenção policial, o que representa 15% do total nessa faixa e indica uma média de mais de duas mortes por dia.

Por causa de problemas com os dados de 2016, a análise dos registros de violência sexual refere-se ao período entre 2017 e 2020. Nesses quatro anos, foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos. Uma média de quase 45 mil por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil vítimas – um terço do total.

Meninas são a maioria dos que sofrem abuso sexual – quase 80%. Entre elas, um número muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos, sendo 13 anos a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância, especialmente na faixa etária entre 3 e 9 anos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE NOVEMBRO

O REI ESTÁ NAS MÃOS DE DEUS

Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina (Provérbios 21.1).

Aqueles que estão assentados no trono e dirigem as nações são governados por Deus. Aqueles que estão investidos de autoridade e dominam sobre seus súditos estão nas mãos de Deus. O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor; ele o dirige para onde quer. Para o Senhor Deus, controlar a mente de um rei é tão fácil quanto dirigir a correnteza de um rio. Aquele que está assentado na sala de comando do universo governa o coração dos reis que governam o mundo. Deus inclina o coração dos líderes segundo o seu querer. Eles podem até se sentir inabaláveis, mas Deus os move conforme o seu propósito. Isso significa que, antes de ir aos reis, devemos ir ao Rei dos reis. Quando falamos, por intermédio da oração, com aquele que está assentado no alto e sublime trono e reina sobranceiro sobre todo o universo, vemos mudanças profundas no curso da história. Deus é poderoso para intervir no rumo dos acontecimentos. Ele é quem opera em nós, inclusive no coração dos reis, tanto o querer como o realizar. A vontade de Deus é soberana, e ninguém pode frustrar os seus desígnios. O mesmo Deus que dá um leito a cada rio também inclina o coração do rei segundo o seu querer.

GESTÃO E CARREIRA

COMO O MERCADO DE TRABALHO (NÃO) LIDA COM O HIV

Cartilha auxilia profissionais com o vírus a saber seus direitos constitucionais; especialistas pedem mais atenção ao tema

Pensar em diversidade e inclusão também é pensar em pessoas com HIV e aids que estão no mercado de trabalho, ainda que muitas vezes esse grupo seja “invisível” às pautas. O mais recente boletim de HIV e aids, do Ministério da Saúde, indica que 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil – um contingente que, por conta do preconceito, é alvo da omissão do mundo corporativo.

”É uma doença que precisa dessa atenção e, por isso, vem um pouco para o mundo da diversidade e inclusão – ou deveria vir. É raro ter programas de diversidade e ações nas empresas que lidam com isso”, diz Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

O Fórum é um dos responsáveis, ao lado de Unaids, AHP Brasil e Tauil & Chequer Advogados, pela cartilha Direito de Profissionais que vivem com HIV/AIDS. Lançada neste ano, orienta pessoas que vivem com HIV sobre direitos garantidos pela Constituição.

Reinaldo diz que nos anos 1990 e 2000 havia maior articulação das empresas com relação a HIV e AIDS, mas isso se perdeu – e por isso é preciso voltar a focar no tema. “Há empresas que estão lidando com isso, mas a grande maioria deixou ou abandonou”.

Para Lua Mansano, mulher travesti que vive com HIV, graduada em comércio exterior e atualmente trabalhando com arte e produção cultural, ser soropositiva desperta menos compaixão do que outras doenças. “Todo mundo tem dó de quem tem câncer. Com o HIV, as pessoas têm nojo.”

Reinaldo explica que, ao trabalhar a temática no meio corporativo por meio do Fórum, sente que é preciso envolver a área da medicina do trabalho, pois, para pessoas com HIV, o exame médico admissional pode ser um momento doloroso. “Eu sempre me senti coagida quando me perguntam (na admissão) se tenho alguma doença. Tenho medo de falar que sou positiva e o recrutador falar que não sou capaz de completar a vaga. Isso  tudo é por causa do estigma”, relata Lua. Segundo o Índice de Estigma 2019 Brasil, 64,1% dos entrevistados disseram já ter sofrido discriminação pelo fato de viver com HIV ou aids. Outras formas de discriminação também foram mapeadas, como assédio verbal (25,3%) e perda de fonte de renda ou emprego (19,6%).

EU ACHO …

A MÁ MEDICINA COMO ELA É

A carreira médica sempre foi o topo da aristocracia profissional burguesa

Qualquer família de classe média alta do Brasil que conseguir pagar de 10 a 15 mil reais por mês para uma faculdade de medicina pode ter seu filho médico à vontade.

Medicina ainda é a profissão de maior valor para as famílias, apesar de que o glamour associado a ela, quando olhado de perto, já é distante do cotidiano dos médicos.

Entrar em medicina, devido à gigantesca competição e ao difícil cotidiano da formação, sempre significou que os jovens na carreira eram acima da média em termos cognitivos e de resiliência.

Entrar no estresse da competição para se formar médico sempre foi um indicativo de um maior conjunto de skills profissionais, mesmo que, com o passar do tempo, o desgaste do cotidiano de trabalho muitas vezes acabasse por aniquilar as promessas de inteligência acima da média que havia na partida. A vida como ela é faz tudo ficar como ela é.

Claro que a medicina continua sendo uma grande carreira, cheia de profissionais grandiosos, responsáveis que salvam vidas, como vimos na pandemia – hoje, no mundo das redes sociais e da estupidez que assola a recepção dos conteúdos do pensamento público, fazem-se necessários sempre reparos óbvios como este.

Feito esse disclaimer, o que essas faculdades que custam de 10 a 15 mil reais mensais têm a ver com os escândalos recentes de operadoras de saúde de baixo custo?

De partida, elas indicam que a única seleção nessas faculdades de medicina de ocasião é quem pode pagar essa grana. Nem a qualidade do curso nem a qualidade de quem entra nele importa muito.

Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, a “democratização” das faculdades de  medicina inundou o mercado de formação na carreira.  Esse fato, por sua vez, inundou o mercado com profissionais medíocres e mal formados.

Hoje, há uma faculdade de medicina em toda esquina, quase na mesma quantidade de supermercados e quitandas. A intenção dos governos, supostamente, era aumentar a oferta de médicos – para ampliar o quadro do SUS, já que as boas oportunidades de emprego não assimilariam tamanha “democratização” na oferta de médicos, muitas vezes de qualidade bastante duvidosa. Mas nem tudo aconteceu como as “boas intenções” esperavam.

Pelas vias em que o mercado capta oportunidades, como sempre, investidores perceberam que aí estava uma grande oportunidade para abrir operadoras de baixo custo, empregando médicos jovens que mal conhecem medicina e que dificilmente conseguiriam espaço em instituições mais competitivas , identificadas com faculdades de medicina mais tradicionais e de maior qualidade histórica. A carreira médica sempre foi o topo da aristocracia profissional burguesa.

Resultado, uma massa de maus médicos correu para esse mercado que agora se faz objeto de escândalos.

Portanto, há uma “parceria” entre oportunistas nesse processo que vai além dos furos jornalísticos da CPI. Essa parceria reúne investidores no mercado da saúde, médicos mal formados em busca de carreiras e salários, agências reguladoras, associações de classe de comportamento duvidoso e muito marketing mentiroso – pura redundância. A saúde sempre foi uma área de exploração do grande capital e da grande corrupção, que costumam andar lado a lado.

O mercado de seguradoras sabe que ninguém quer segurados idosos com baixa renda, como é o caso da imensa maioria da população que precisa de segurança de saúde. Idosos custam muito caro para as seguradoras, daí o altíssimo custo da operação.

O nicho dos idosos tende a ser ocupado por operadoras e profissionais dispostos a manobras de baixo caráter ético na lida com o sofrimento e de teor técnico muito abaixo da média. Quanto mais medíocre o profissional mais chance ele terá de crescer na instituição, já que ele  aceitará as práticas mais absurdas.

O caso Covid tornou isso evidente, apesar de que nada mudará uma vez esquecida a pandemia. O fundo da estrutura que gerou os maus-tratos permanecerá em outros quadros que atrairão menos mídia. A vida não vale nada em quase nenhuma parte do mundo, apesar do heroísmo de alguns.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

ANTICONCEPCIONAL PARA HOMENS ‘BANHA’ OS TESTÍCULOS COM ULTRASSOM

Criado por alemã para ser usado em casa, aparelho que tira a mobilidade dos espermatozoides ainda está em estudo

Um aparelho projetado pela designer alemã Rebecca Weiss, em parceria com pesquisadores americanos, pode se tornar um dos poucos anticoncepcionais masculinos. Batizado de Coso, ele foi projetado para dar um ‘banho” de ultrassom nos testículos e, assim, impedir a mobilidade dos espermatozoides. O protótipo ganhou o prêmio nacional de design do James Dyson Awards.

O Coso funciona como uma pequena banheira para uso doméstico onde o homem coloca os testículos a cada dois meses para impedir a movimentação dos gametas masculinos responsáveis pela produção, e consequentemente, evitar que eles cheguem ao óvulo e o fertilizem. A ação é proporcionada por meio de um ultrassom.

“O princípio é muito interessante, ele faz com que a cauda do espermatozoide perca mobilidade. É uma ideia antiga, testada com sucesso em animais, e que, em tese, pode funcionar em humanos”, diz Edson Borges, especialista em reprodução humana e diretor científico do Fertility Medical Group, em São Paulo.

O estudo por trás do coso foi conduzido por pesquisadores dos EUA e publicado na revista cientifica Reproductive Biology and Endocrinology. O experimento feito com ratos foi bem-sucedido, mas os responsáveis destacaram que ainda são necessárias mais pesquisas para lançar a tecnologia para humanos.

Borges ressalta que não se sabe o quanto a redução da mobilidade será suficiente para evitar a fecundação.

A criadora da Coso espera que o prêmio do James Dyson, ajude a financiar testes clínicos para uma eventual confirmação da eficácia e aprovação pelas agências reguladoras.

Desde a invenção da pílula anticoncepcional na década de 1960, utilizada hoje por mais de 214 milhões de mulheres no mundo, cientistas buscam um método contraceptivo que funcione de forma parecida e possa ser direcionado aos homens. Porém existem dois principais motivos que tornam esse procedimento um desafio para a medicina, explica Borges.

O primeiro tem a ver com a produção dos óvulos, e os masculinos, os espermatozoides. A mulher, mesmo antes de nascer, na vigésima semana de gestação, já produziu todos os óvulos que serão liberados durante a sua vida. Assim, o processo de ovulação é responsável apenas pela liberação de um desses gametas por mês. Já os espermatozoides são produzidos pelo homem a cada 75 dias, e em quantidade suficiente para que, a cada ejaculação, sejam liberados até 200 milhões de gametas.

“Essa dinâmica de produção torna bastante difícil que um anticoncepcional atue, porque, a cada 75 dias, tem uma população nova dos gametas”, explica o especialista.

Além disso, uma segunda dificuldade é em relação aos principais hormônios responsáveis pelos ciclos reprodutivos: o estrogênio e a progesterona, no caso da mulher, e a testosterona, no caso do homem. Enquanto que a ingestão dos hormônios femininos não causa efeitos colaterais, o mecanismo de ação da testosterona é bem mais amplo no corpo, e sua inibição oferece uma série de efeitos considerados mais graves, como perda de libido, mudanças de humor e disfunção erétil.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIBA POR QUE IR AO PSICÓLOGO PODE SER UMA IDEIA BEM LEGAL

Christian Dunker conta como funciona a terapia e de que maneira ela é útil

Um dia, Leticia ouviu dos pais que talvez fosse a hora de começar a ir a um psicólogo. Ela tinha oito anos naquela época. A família explicou à menina que todo mundo precisa de alguém para conversar e desabafar, e que isso também podia ser bom para ela. Letícia aceitou a proposta e foi.

Ela já tinha uma ideia de como funciona o trabalho de um psicólogo, porque todos na sua casa em algum momento da vida frequentaram um consultório desse tipo. Acontece que nem todo mundo sabe o que um psicólogo faz na prática e, quando escuta que precisa começar a se encontrar com um, pode se sentir inseguro – afinal, será que eu estou ficando maluco para precisar desse tipo de ajuda?

Calma, que a resposta é “não”. Um psicólogo é, antes de tudo, um especialista em escutar pessoas. Quem explica isso é Christian Dunker, um cara bem importante na sua profissão (olha quanta coisa vem escrita no cartão de visitas dele: “psicanalista, professor titular em psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP”).

“A gente vai a um psicólogo para falar e descobrir coisas sobre nós e especialmente coisas que não estão indo muito bem com a gente. Ele é um amigo? Mais ou menos. Um médico? Mais ou menos, começa Christian.

“Ele ou ela é especializado em ouvir coisas estranhas da gente, do mundo, da vida. Coisas que às vezes a gente nem sabe dizer o nome delas, coisas que a gente está sentindo sem saber que está sentindo, coisas que a gente quer dizer, mas não encontra as palavras”.

Não importa qual seja a sua idade, você já deve ter percebido que a vida tem momentos alegres e tristes. E que é comum sentir medo de alguma coisa, ou tristeza, até raiva. “Acontece que, às vezes, a gente sente essas coisas muito mais forte do que deveria sentir”, continua Christian.

“Como se aquilo virasse um monstro dentro da gente, como se a gente começasse a brigar com aquilo. Às vezes, a gente perde o gosto por brincar, por dormir, comer, fazer coisas de que a gente gosta. Descobrir porque isso está acontecendo é o que a gente faz no psicólogo”.

Letícia, a menina do começo do texto, hoje tem 12 anos, então faz bastante tempo que ela visitou uma psicóloga pela primeira vez. Mesmo assim, ela se lembra bem de como foi essa consulta inicial.

“Meu pai entrou comigo, começou a conversar com a recepcionista, e ela me pediu para eu seguir no corredor porque, lá no fundo, ia ter a sala da psicóloga. Cheguei lá, ela se apresentou, sentei na cadeira e era tudo muito bem decorado, tinha vários jogos e várias plantas espalhadas, um tapete e um sofá também”, conta. Além de conversar e fazer algumas perguntas, a psicóloga da Letícia propôs uma brincadeira. “Era um jogo que tinha que empilhar algumas taças e tirar uma por uma sem deixar a do topo cair. Era muito legal. Quando sai, ela conversou com meu pai e ele veio me perguntar se eu queria continuar fazendo. Eu disse que sim”.

Christian explica que os consultórios dos psicólogos são muito diferentes uns dos outros, seja para atender adultos ou crianças. “Mas, em geral, eles têm lugares pra gente sentar, têm brinquedos de muitos tipos, uma mesa pra jogar. E eles são feitos pra gente se sentir à vontade, resume. E sabe aquela cama engraçada que às vezes aparece nos filmes e desenhos quando alguém vai ao psicólogo, e a pessoa se deita ali de costas para quem está atendendo? Pode ser que você encontre uma – ela se chama divã -, e, se quiser, vai poder se deitar nela também.

As consultas duram em média uma hora. É provável que vocês conversem e brinquem. Tem psicólogos que caminham com a criança pelo quarteirão, pela praça, andam até algum lugar. E a gente pode discutir filmes, TikToks, Youtchubes…” (sim, o Christian chama o Youtube  de Youtchube e é famoso por isso também).

Letícia faz terapia, que é o jeito que a gente chama esse tratamento com psicólogos, até hoje. Ela já parou por um tempo e depois voltou porque sentiu vontade. “Uma das coisas mais importantes que aprendi com a minha terapeuta é que a gente faz terapia para lidar com pessoas que não fazem terapia”, ensina.

“Por outro lado, é muito difícil falar sobre mim mesma, contar sobre os meus problemas para outra pessoa. Ainda me sinto um pouco desconfortável. Mas, a partir do momento que você começa a ir frequentemente, fica muito legal, você pega e ela vira sua amiga”.

Christian explica uma parte importante, da qual muita gente desconfia: será que o psicólogo conta para alguém o que a gente conta para ele? “Ele não vai contar; a não ser que ele te diga que vai ter que contar. Porque, às vezes, pra parar de doer; para atacar o problema, a gente vai precisar da ajuda da família, de outros médicos, dos irmãos, de professores, e até da escola. Mas você vai autorizar isso”, diz.

E os segredos da gente, será que ele vai descobrir? “você vai descobrir seus segredos!”, entusiasma-se Christian. “Essa é a ideia, se tudo der certo. E é bom que aconteça”, tranquiliza.

Letícia confirma que a terapia a ajuda muito. “Já consegui passar de vários episódios ruins da minha vida com a terapia porque eu sinto que lá ela vai me ajudar a achar os problemas e a solução pra eles”, relata.

“Já consegui parar de fazer muitas coisas ruins que eu fazia comigo mesma. E nem sempre você vai ter uma coisa ruim pra contar; e que bom se só tiver coisa boa. E, quando tiver coisa ruim pra contar; conta, desabafa e fala, porque isso vai te fazer bem”.

OUTROS OLHARES

DUPLAMENTE CRUEL

Um em cada cinco casos de feminicídio aconteceu diante de filhos das vítimas

Um dossiê divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) revela a face ainda mais cruel de um crime bárbaro: quase 20% dos 78 casos de feminicídio registrados ano passado no Rio de Janeiro foram presenciados pelos filhos das vítimas. Apesar de a pandemia da Covid-19 e o isolamento social terem contribuído para a subnotificação, a violência contra mulher manteve níveis alarmantes em 2020, com uma média de 270 registros – que incluem agressões, constrangimentos, ameaças, homicídios, estupros, entre outros – por dia no estado.

A cada cinco dias, uma mulher foi morta no ano passado. Das vítimas, 52 eram mães, e 34 tinham filhos menores de idade. A estatística mostra ainda que o maior risco está dentro de casa, onde ocorreram 75% dos feminicídios. Além disso, companheiros ou ex-companheiros são a maioria dos autores: 78,2%. Para a presidente do ISP, a delegada Marcela Ortiz, essa violência tem base no machismo estrutural da sociedade:

“A mulher parece não ter o direito de se manifestar dentro de casa ou de terminar um relacionamento”, afirmou a delegada, que destacou a importância de se romper com essa estrutura.

“Digo que é como uma escada. A cada degrau que sobe, a violência vai aumentando. São dados sinais, e então é importante interromper o relacionamento abusivo antes de chegarmos ao último degrau”.

SUBNOTIFICAÇÃO

Em 2019, foram registrados 85 feminicídios no estado, ou seja, sete casos a mais que em 2020. Mas essa estatística precisa ser interpretada de acordo com o contexto, frisou Marcela Ortiz.

“O monitoramento mostra que, nos meses com menor circulação de pessoas nas ruas, os  registros de ocorrência nas delegacias diminuíram. Por outro lado, as chamadas para o Disque-Denúncia e o 190 (da Polícia Militar) com informes sobre violência contra mulheres continuaram em número estável. Então, isso sugere subnotificação, além do fato de esse tipo de crime já ser mais sujeito à subnotificação, por todas as dificuldades que a vítima enfrenta”, disse a presidente do ISP.

“Dados mostram que algumas mulheres puderam denunciar, mas que outras sofreram em silêncio”.

Um dos casos que ainda não aparece nessa estatística é o da manicure Joyce Barcellos, de 24 anos, que foi internada com queimaduras graves na véspera do último Natal. Ela morreu no dia 3 de janeiro. Segundo a mãe dela, Jocelma Barcellos, vizinhos testemunharam uma discussão dela com o então companheiro, também testemunhado pelo filho caçula dela, então com 3 anos.

Mas o caso continua sendo investigado pela polícia, e ainda não há a classificação de feminicídio.

“O ex-marido alega que minha filha queria jogar fogo nas coisas dele, e acabou pegando fogo na roupa dela. Mas uma vizinha me contou que ouviu minha filha gritando que ele fez aquilo. Os vizinhos sabiam que havia uma rotina de violência e, naquele dia, ela havia pedido para ele deixar a casa, que era dela”, contou a mãe.

Na delegacia, Jocelma, que agora vive com os dois filhos de Joyce, diz ter descoberto que o então companheiro da filha tinha passagens por agressão, enquadradas na Lei Maria da Penha. Marisa Chaves, fundadora e gestora da ONG Movimento de Mulheres em São Gonçalo, uma associação de defesa de crianças, adolescentes e mulheres vítimas de violência, disse que a polícia encaminhou o filho da vítima, hoje com 4 anos, para a entidade a fim de tentar obter o testemunho do menino.

“O menino precisa de suporte, sofreu muito. Concluímos que ele vivia sob violência psicológica”, afirmou Marisa, que aguarda um aditivo do contrato da ONG com o governo estadual, a fim de dar continuidade aos atendimentos gratuitos que são oferecidos a 54 famílias.

“Crianças são muito impactadas nesses casos. Ficam marcadas para sempre, seja no processo de aprendizagem, na socialização ou até na repetição de comportamento violento, como se fosse natural. As crianças que crescem em lares violentos possuem quatro vezes mais chances de reproduzir um comportamento violento.”

INVESTIMENTOS

No lançamento do Dossiê Mulher 2020, o governador Cláudio Castro anunciou novos investimentos para dar mais apoio às vítimas: RS 14 milhões na reforma das 14 Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams) e RS 5 milhões em obras de três das nove unidades do Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam), que sofrem com o abandono.

“Sou a favor da liberdade total da mulher, de ter opinião em casa e de poder terminar um relacionamento ou ter uma briga sem que sua vida seja ceifada. Os números impressionam, e talvez a sociedade ainda não esteja sabendo dessa gravidade”, afirmou o governador.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE NOVEMBRO

AS FERIDAS DOEM, MAS ENSINAM

Os vergões das feridas purificam do mal, e os açoites, o mais íntimo do corpo (Provérbios 20.30).

Quem não aprende com a dor não aprende de forma nenhuma. As feridas não apenas rasgam nossa carne, mas também abrem sulcos em nossa alma. As mesmas feridas que doem também curam. Ao mesmo tempo que sangram em nosso corpo, também fazem uma assepsia em nosso íntimo. Os castigos curam nossa maldade e melhoram nosso caráter. Os açoites limpam as profundezas do nosso ser. A disciplina, no momento em que é aplicada, não é motivo de alegria, mas de pesar; depois, entretanto, produz fruto pacífico e promove a justiça. Ao mesmo tempo que essas feridas arrancam lágrimas de nossos olhos, lavam o nosso interior. Os vergões das feridas purificam do mal, e os açoites purificam o mais íntimo do corpo. Aprendemos mais no sofrimento do que nos dias de festa. É no vale da dor que somos matriculados na escola do quebrantamento. É na bigorna do sofrimento que somos moldados à imagem de Cristo. É na prensa de azeite, no Getsêmani da vida, onde suamos sangue e choramos copiosamente, que experimentamos o consolo que excede todo entendimento e nos levantamos para triunfar nas maiores batalhas da vida. Deus não nos fere sem causa. Deus não desperdiça sofrimento na vida de seus filhos. Nossa leve e momentânea tribulação produzirá para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação!

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – DESIGNER DE NARRATIVA DE GAMES

Conheça a trajetória de Mariana Brecht, que migrou dos roteiros de TV e cinema para especializar-se numa profissão do futuro – que cresce agora mesmo, no presente.

Há um estereótipo do profissional que atua na indústria de games, que em alguma medida perdura até hoje: jovens nerds mesmerizados por um pagamento no fim do mês pelo que fariam de graça – isso até que a vida adulta imponha um “emprego de verdade”.

Faz tempo que não é o caso. Games se tornaram produtos tão fundamentais para a economia quanto geladeiras ou sacas de cimento – ainda que mais interessantes. No Brasil especificamente, ainda houve outra transformação. O país passou de importador de games estrangeiros para produtor (e exportador) de jogos.

Contribuíram para essa revolução as chamadas engines (ou motores gráficos) – softwares com um pacote de funcionalidades para a criação de um jogo, acabando com a necessidade de programar tudo do zero. A universalização do smartphone também ajudou, colocando um console em cada bolso. Surgiram, então, produtoras de diversos portes, de estúdios gigantes à molecada que cria jogos no quarto de casa e os vende para players internacionais. “No Brasil, os grandes negócios incluem designers, programadores, roteiristas, artistas e até um pessoal que testa os jogos para conferir se tem algum bug”, explica Rodrigo Terra, presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (Abragames). “E cada vez mais temos empresas pensando só em B2B, produzindo games para educação corporativa e tendo os RHs das companhias como clientes.” Na América Latina, o Brasil lidera: a indústria de games teve um faturamento de USS 2,18 bilhões em 2020 (metade só com jogos feitos para celular), com um aumento de receita na casa dos 28%.

Tudo isso fez com que o mercado de trabalho se expandisse – e se especializasse também.

Atividades que antes eram centralizadas num mesmo faz-tudo – um programador que criava o jogo praticamente sozinho – foram repassadas a gente que entende de aspectos específicos do game, resultando num produto bem mais sofisticado.

Dessa busca por mão de obra expert, emergiu uma profissão que antes só se via no exterior: o designer de narrativa (fala-se também em inglês: narrative designer). É um tipo de roteirista, mas é bem mais que isso.

O designer de narrativa é multitarefas, tem diversas funções na criação do jogo. Primeiro quanto à história: ele cria o roteiro do game (às vezes em parceria com um roteirista raiz), desenvolve os personagens, os diálogos, os arcos narrativos, as curvas de emoção… Só que, no universo dos games, a narrativa vai muito além da história que o jogo contempla.

Esse profissional deve garantir que todos os elementos estejam contando a mesma história: cenário, interações, interfaces, efeitos sonoros, músicas e personagens. Ele precisa, então, estar no centro de um diálogo transversal com outras áreas do estúdio: dos artistas gráficos aos programadores mais hardcore. Ainda deve assegurar que tudo isso dê liga com a mecânica do produto. Se a direção encomendou um game em forma de quebra-cabeça, a narrativa deve combinar com a parte técnica criada para um puzzle. E aí saber pôr as mãos na tecnologia adianta o processo. Embora a experiência com roteiro baste para conseguir um emprego, será necessário mexer com os softwares de construção de jogo para sair de uma posição mais júnior.

TESTANDO… TESTANDO…

O designer de narrativa ainda tem de se preocupar com custos. Fazer jogo é caro. E é um investimento cercado de riscos. Um diretor de cinema como David Lynch pode fazer um longa-metragem em que ninguém compreende bulhufas – mas ainda assim o espectador vê o filme até o fim, e pode até gostar. Nos games não é assim. Se o jogador não entender o enredo, o que deve fazer, ele não consegue avançar. Desiste do jogo. Para que isso não aconteça, o designer de narrativa faz todo um trabalho de pré e pós-produção.

Por exemplo: antes de ter o game rodando de fato, ele pode construir protótipos de personagens e cenários em papelão ou massinha. Tudo para contar à equipe envolvida qual deve ser a experiência do jogador.

Aliás, como também precisa definir o ritmo do jogo, o designer de narrativa pode produzir live actions: filmagens com bonequinhos (ou com ele próprio) realizando as ações do game, de modo que o programador entenda que o andamento deve ser mais ágil ou mais lento.

Quando o jogo entra em versões preliminares, o designer de narrativa ainda tem o trabalho de acompanhar usuários externos testando o produto, para conferir se houve algo que eles não entenderam, se travaram em alguma fase… E propor mudanças antes que muito dinheiro seja investido na versão final. Nessa fase de testes, o próprio designer de narrativa pode fazer as vozes dos personagens – melhor que gastar os tubos com dubladores e só depois descobrir um problema.

Tantas funções exigem competências diversas – que muitas vezes só são desenvolvidas com a mão na massa mesmo. O que mais acontece é o profissional chegar com experiência de roteiro para TV e cinema. Embora existam faculdades de games, não há curso específico para designer de narrativa, profissão ainda restrita a estúdios maiores, que identificaram a necessidade de um especialista em conjugar roteiro com toda a dinâmica do jogo. Até porque os games não costumam seguir um caminho linear de história. São jornadas ramificadas, labirínticas. Parecidas com a carreira de Mariana Brecht, designer de narrativa do estúdio Arvore, de São Paulo.

DA DIPLOMACIA À REALIDADE VIRTUAL

Mariana passou de fase algumas vezes antes de se firmar na profissão, há cerca de dois anos. Formada em Audiovisual pela USP, com especialização em roteiro e produção, ela fez, em seu TCC, um roteiro de longa-metragem com narrativa ramificada. Tudo dava a entender que seu destino era mesmo o roteiro não convencional. Mas aí veio o plot twist: após trabalhar em algumas produtoras, Brecht foi fazer mestrado em Estratégias Culturais Internacionais na França, com foco em diplomacia cultural.

Assim, viajou o mundo representando o Institut Français (órgão de governo que promove a cultura francesa no exterior). Isso até voltar ao Brasil e se deparar com um anúncio de emprego num grupo de mulheres roteiristas. Era justamente para fazer roteiro não linear – na Arvore, a maior produtora de games do país no campo da realidade virtual.

Era o início de uma jornada heroica de aprendizado. Mariana chegou com sua experiência de roteirista, mas logo se interessou pelos outros conhecimentos para atuar de forma plena na área. “Rapidamente você percebe que precisa entender um pouco de desenvolvimento de jogos, um pouco de programação, para saber se suas decisões na construção da narrativa encaixam com a mecânica.”

Ela aprendeu rápido e ajudou o estúdio a se destacar internacionalmente. Respondeu pela narrativa interativa do game A Linha, que ganhou o Primetime Emmy por “Outstanding Inovation”, no ano passado, assim como a premiação de “Melhor Experiência em Realidade Virtual” no Festival de Veneza.

Com apenas 30 anos, Mariana Brecht já separa um pouco do seu tempo para fazer mentoria com colegas juniores. “Acho importante criar uma cultura de narrativa dos jogos. Pelo fato de a profissão ser quase uma novidade, muitas empresas não têm um designer de narrativa, e a gente precisa toda hora estar se provando. Lembrando executivos e produtoras que narrativa não é só texto. Ela tem de estar em todas as decisões e fases do jogo”, ela explica. “Por isso, em cada projeto novo, tenho a sensação de que estou contribuindo para o desenho do que será essa profissão no futuro.”

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADE-CHAVE

Criar o roteiro do game. Fazer alinhamentos com outras áreas da produtora para combinar cenário, interações, efeitos sonoros, música… Fazer protótipos. Acompanhar testes com usuários.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ser bom de roteiro, ter criatividade, facilidade de comunicação e trabalho em equipe. E vale muito aprender a usar software de construção de jogos. Entender de programação é desejável.

PONTOS POSITIVOS

É uma profissão nova, que vem ganhando cada vez mais destaque nas produtoras. E o mercado de games está crescendo. Como há necessidade de contato intenso com outras áreas, há aprendizado sobre diversas funções da produção de jogos.

PONTOS NEGATIVOS

É uma profissão nova. Isso faz com que as chances de trabalhar em produtoras pequenas sejam menores, limitando seu mercado de trabalho.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Não existe graduação específica; então a maioria dos designers de narrativa vem de faculdades de audiovisual. Mas ser roteirista é o básico. Há cursos livres de construção de jogos, programação e prototipagem, que ajudam a formar um profissional mais atraente.

QUEM CONTRATA

Produtoras de games, especialmente as maiores (nas pequenas, um game designer pode acumular essa função.) Mas é um profissional que também pode trabalha para TV e cinema.

SALÁRIO MÉDIO

JUNIOR –  R$ 3.000

SÊNIOR – R$12.000

Fonte: Abragames

EU ACHO …

EM QUE MUNDO TÚ VIVE?

Conheci José Falero através de seu livro “Os supridores”. Até então, nada sabia dele. Devorei o romance. Não era a primeira vez que lia uma história passada na periferia, mas dessa vez me senti levada pela mão até o miolo da vila, o epicentro da pobreza, o cenário real onde uma população de homens e mulheres trabalha em troca de uma miséria, sem perspectiva de futuro. Criminalidade? Temos, mas não apresentada como defeito de caráter, e sim como consequência de um estado de coisas, que ele descreve com originalidade, humor e algumas vísceras.

Logo no início, ali pela página 50, uma conversa entre os personagens Pedro e Marques funciona como uma aula sobre os diferentes sistemas socioeconômicos, narrada de um jeito que uma criança de sete anos consegue entender. Humm, Livro chato, então. Poderia ser, não fosse diabolicamente empolgante, inteligente e bem escrito, levando-se em conta que não existe apenas um modo de escrever e de falar.

Isso foi em março de 2021. De lá pra cá, li outros tantos livros e dei trato à vida. Pois Falero reaparece agora com uma coletânea de crônicas publicadas na revista digital Parêntese. Título: “Mas em que mundo tu vive? Abri com o mesmo ânimo com que fechei “Os supridores”.

E veio a bofetada.

Logo percebi que não seria tão palatável.

Se antes eu havia sido gentilmente conduzida pela mão até as entranhas do inferno, agora eu estava sendo empurrada pelas costas, sem ver direito para onde ia, quase um sequestro. Mas os livros deixam sempre a porta destrancada; se eu quisesse sair, saía. Não saí. Passei dois dias inteiros com Falero, sua família e seus amigos na Lomba do Pinheiro, apanhando sem tentar fugir. Agora não era mais a ficção de Pedro e Marques, e sim a voz do próprio autor, sua história, suas broncas, sua angústia. Revolta que só mesmo a literatura reverbera – e também a música, o cinema, a arte. Não é no Instagram que a vida real ganha forma e cor.

Condescendência – taí uma palavra que não faz parte do vocabulário de Falero. Ele coloca o dedo em todas as feridas e remexe até sangrar, ele expõe sem rodeios a dor de ser pobre e preto numa sociedade indiferente, descreve o que é se sentir um rato e o tamanho da desesperança.

Se Falero pudesse dizer alguma coisa pra mim, agora, seria “valeu, Martha, mas o que você está escrevendo aí não vai servir pra nada”. Eu sei.

Você não quer confete, Falero, e sim quebrar o ciclo das injustiças sociais, que é o que todos deveriam querer também. Mas permita que eu use a minha página, hoje, para atrair os que têm coragem de levar uma bofetada, duas, três, até acordarem do transe da conformidade. E avisá-los que você bate, sim, mas também consegue ser lírico e muito emocionante. Sei lá, vá que sirva para alguma coisa.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

CORRER: COMPETIR OU SE EXERCITAR?

Participar de provas e maratonas auxilia corredores amadores a manter a motivação e a rotina de treinos

Os corredores já estavam ansiosos. Para eles também se aplica, devidamente adaptada, uma velha máxima bem conhecida no meio do futebol: treino é treino, corrida é corrida. Ou seja, para quem curte correr, é muito bom treinar. Porém, participar de uma prova ou de uma maratona é melhor ainda

E, aos poucos, essas corridas ou provas voltam a entrar no calendário aqui no País e em diferentes partes do mundo. A Maratona do Rio de Janeiro, que tem provas de 5, 10, 21 e 42 quilômetros, está confirmada de 12 a 15 de novembro. A 21ª Meia Maratona de São Paulo, marcada para 5 de dezembro de 2021, está com as inscrições abertas. E até a São Silvestre, prova tradicional da capital paulista, também abriu as inscrições.

No exterior, uma das mais procuradas pelos brasileiros é a Maratona de Barcelona, em 7 de novembro. Para participar, é preciso estar vacinado – Coronavac, Pfizer, AstraZeneca e Janssen são aceitas para entrar no país. A Disney também voltou com suas corridas, dirigidas a diversos públicos (incluindo crianças). A Disney Run ocorre em 12 de janeiro de 2022 – a partir de 8 de novembro, brasileiros vacinados podem entrar nos Estados Unidos.

Provas são um estímulo para quem gosta de praticar corrida – é menos pela competição e mais pela meta. Evoluir nos treinos é quase sempre o objetivo dos atletas amadores. E, claro, muitos corredores não almejam participar de uma prova ou evoluir a ponto de participar de uma maratona. Mesmo assim, a rotina de preparação de quem aceita um desafio – que não inclui apenas treinos, mas ainda uma adaptação da dieta e o controle emocional – é um exemplo para quem quer continuar a dar suas passadas sem se preocupar com índices.

Para o treinador Roy Siqueira, a corrida é um excelente exercício para o controle do peso, em função do gasto calórico, além da sensação de bem-estar trazida pela endorfina. Entretanto, segundo ele, apenas correr, sem uma meta, pode, com o tempo, desestimular o corredor e comprometer o resultado. “Quem treina só por treinar ou gosta da atividade, em algum momento, vai se sentir desmotivado. Por que acordar cedo para correr? Um objetivo ajuda a entender o porquê daquela atividade”, explica. Uma prova, dentro da realidade de cada pessoa – de 5 km até uma maratona -, é um bom caminho para isso. ”A corrida é uma ferramenta de autoconhecimento. A cada ciclo que o corredor entra, ele aprende mais sobre seu corpo e sua mente. E a preparação para uma prova pode proporcionar isso”, conta Roy.

O treinador olímpico Claudio Castilho, que chefiou a equipe brasileira de atletismo na Olimpíada de Tóquio, diz que, tanto para atletas amadores quanto profissionais, o treino precisa ser constante e sistemático. O planejamento é um aliado para quem quer ter bons resultados.” Para um atleta amador o prazer na atividade tem um peso grande. Ele faz com que o indivíduo fique motivado a superar barreiras. Ele quer melhorar o tempo, bater uma marca pessoal. Há uma flexibilidade maior. A comparação é com ele mesmo ou com alguém do mesmo gênero ou idade. Já os profissionais estão sempre atrás de um índice ou recorde.”

Segundo Castilho, quem decide começar a correr precisa passar por unia avaliação para saber o ponto de partida. A pessoa pode estar acima do peso, a forma física pode não estar adequada para começar a corrida de imediato e, nesse caso, a caminhada pode ser uma primeira opção, ter alguma dor preexistente que precisa ser tratada ou passar por um processo de fortalecimento muscular.

Castilho cita o exemplo da prova de São Silvestre, daqui a quase 3 meses. Esse prazo seria suficiente para uma preparação? “Depende. Para alguns, sim. Para outros, seria melhor esperar a corrida de 2022. Minha dica é buscar um profissional que ajude nessa avaliação. Obviamente, a decisão é sempre da pessoa”, afirma. Outro fator a ser considerado é o hiato de provas de corrente da pandemia e a indefinição sobre a volta delas, que se arrastou por todo esse período. Segundo Castilho, isso fez com que os corredores ficassem numa espécie de “stand-by”. Em alguns casos, até positivo, como para quem precisava se tratar de alguma dor ou incômodo recorrentes.

Porém, quem se manteve ativo, agora, com o retorno das provas, larga na frente. “Estará  mais apto. Terá um tempo menor de preparação. Será preciso apenas dar uma virada de chave no tremo. Outro aspecto importante: você só desenvolve a sensibilidade competitiva competindo. O treino é indicador, mas o que determina a performance é a prova”, explica Castilho.

O arquiteto e urbanista Fernando Gomes, de 44 anos, treina desde 2008, sempre com a ajuda de uma consultoria. Para ele, acordar e ir correr sem uma planilha de treino é algo que, mesmo para uma pessoa disciplinada, pode ser difícil – além disso, estar dentro de um grupo ajuda na motivação.

Gomes correu sua última prova em 2019. Durante a pandemia, manteve a rotina de treinos em três dias da semana e, nos fins de semana, costuma fazer exercícios de forma mais livre. Agora, ele se prepara para a Meia Maratona de São Paulo.

Para ele, o principal ajuste na rotina. quando há um objetivo a ser alcançado, como o que ele traçou, é prestar atenção no ciclo do sono. “Preciso dormir 1 hora ou 1h30 a mais por dia para aguentar o aumento do volume de treino. Passo de 6 horas a 7 horas, 7h30   de sono. O cansaço aparece ao longo do dia e, sobretudo, à noite”, diz. Vegano há dois anos, Gomes, assim que tomou a decisão de não comer mais proteína animal, procurou o acompanhamento de uma nutricionista. “Me tornei vegano em meio à pandemia para ter uma performance melhor na corrida. Consegui me adaptar.”

NUTRIÇÃO É IMPORTANTE

A nutricionista Luiza Di Bonifácio, autora do livro Direcionamento Nutricional para o Triathlon: Da Ciência à Prática, explica que a alimentação, para a prática de qualquer atividade esportiva, precisa ser adaptada. Para a corrida, dependendo do tempo da prática, é preciso haver a reposição de nutrientes para que a performance seja mantida.

O principal deles é o carboidrato, que é armazenado no corpo na forma de glicogênio muscular. Ele é a fonte energética para o exercício. O corpo oxida 1 grama de carboidrato por minuto de treino. Para quem corre maratonas, a reposição da substância pode chegar até 120 gramas por hora – o que é feito no formato de gel.

Para os amadores, essa proporção, claro, não é recomendada – muita gente não consegue consumir essa quantidade ao longo do dia. Treinos ou provas de 5 km ou 10 km, que não deixam de ser uma atividade intensa, em geral, não precisam desse suporte durante a prática. Entretanto, uma nutrição adequada tem uma função específica – e muito importante. ”O papel da nutrição não é melhorar a performance. Para isso, você precisa treinar certo. A função dela é recuperar o corpo do corredor. Bem recuperado, ele treina melhor”, explica Luiza.

A má alimentação também pode facilitar o aparecimento de lesões. “A deficiência nutricional prejudica as funções vitais, como digestão e respiração, além do treino. Imagina o corpo precisar dar conta de uma carga alta de treinamento e não ter de onde tirar esse combustível. Além das lesões, isso pode ocasionar alterações de sono, queda de cabelo e unhas.”

Na outra ponta, a boa alimentação deve ser constante. Não adianta seguir uma dieta balanceada apenas um dia antes ou depois do treino. “Seu corpo pode demorar dois dias para se recuperar. Tem gente que me pergunta: ‘O que eu tomo no pós­treino?’. Eu respondo: ‘Vai tomar um banho’. Você precisa se preocupar o dia todo. Não adianta sair do treino e comer um monte de açúcar ou tomar álcool”, diz Luiza.

A reposição de carboidrato citada por Luiza pode ser feita com tubérculos, como batata ou mandioca, macarrão, com frutas, como a banana, com mel e açaí. Outra dica é investir nos flavonoides, como suco de uva, frutas vermelhas e cacau.

EMOCIONAL

A advogada Luciana Zanchetra Oliver, de 37 anos, sempre foi praticante de triatlo. Três meses antes do início da pandemia, ela se mudou para o Canadá e pretendia, por lá, iniciar o treinamento para seu primeiro meio Ironman 70.3. Entretanto, com os centros de treinamentos fechados e as provas canceladas, ela mudou de ideia.

Estimulada por seu treinador, Luciana decidiu encarar a primeira maratona. Vai correr os 42 km em Barcelona. De volta ao Brasil desde novembro, ela está na reta final de um ciclo de preparação de um ano. Se no triatlo ela precisava equalizar os treinos e ainda contava com a natação para um descanso ativo (ou soltura dos músculos), para a maratona ela treina de 4 a 5 vezes por semana, com distâncias que podem chegar a 60 km por semana.

Toda essa mudança – além de problemas pessoais enfrentados por Luciana, como a depressão e o divórcio em plena pandemia – fez com que ela visse a corrida de uma outra forma.

“Meu foco mesmo é mais o meu emocional do que trabalhar minha mente para a maratona. Além do esporte me trazer a sensação de bem-estar, ele tem “ao menos para mim” um mecanismo de meditação ativo. É um refúgio. Cada quilômetro que corro eu reflito sobre a minha vida”, observa. Para Roy Siqueira, que treina Luciana, o processo todo é “muito gostoso” e o dia de uma prova é de comemoração.” É para você correr feliz. Se você atingir sua meta, maravilha. Mesmo saindo dela, termine a prova, vá até o fim. Vá andando e correndo, mas vá. Você vai aprender algo.”

O arquiteto Fernando Gomes conta que treinar no dia a dia ou correr uma prova é muito diferente. “Uma semana antes você já está com a cabeça na prova. No dia, você pensa no que vai fazer. Depois, você vê que é uma bobagem. Quando termina, é um dia de cansaço físico, mas de uma euforia mental grande. Uma sensação de trabalho realizado.”

QUER AVANÇAR NA CORRIDA?

Os treinadores Claudio Castilho e Roy Siqueira dão conselhos para amadores e profissionais evoluírem nos treinos:

*** Correr todo dia é para quem tem um histórico esportivo muito bom. Uma boa opção é correr um dia e descansar outro. Ou, então, intercalar com outra atividade, como natação ou musculação.

*** Não coloque expectativa demais em uma prova ou treino. Pode não ser o momento de bater aquele recorde pessoal. Metas e objetivos devem ser acrescentados aos poucos.

*** Não aumente sua rotina de treino de forma repentina. Aumento de volume maior que 10% a 15% por semana é arriscado. É preciso conter a ansiedade antes de uma prova ou desafio. Ela pode ocasionar um gasto energético desnecessário e prejudicar o desempenho.

*** Desenhe a estratégia do seu treino ou prova. Entenda como é o percurso, se ele tem muitas curvas, subidas ou descidas.

*** O treinamento mental é tão importante quanto o físico. Lembre-se: será preciso conviver com a zona de desconforto o tempo todo.

*** Há fatores externos que podem prejudicar seu desempenho, como o vento ou um dia muito quente.

*** Procure um treinador ou uma consultoria para ajudar você a conquistar seus objetivos sem forçar demais o corpo. Respeite seus limites. Por outro lado, treinar com um grupo pode ser fundamental para você ter o estímulo necessário para ir além.

COMER BEM

Dicas da nutricionista Luiza di Bonifácio para os corredores:

*** A boa alimentação inclui alimentos “de verdade”, vindos da natureza, com variedade de frutas, verduras e legumes. Evite industrializados.

*** A hidratação é muito importante, sobretudo em cidades com o clima seco. O cálculo – em média – é de 150 a 200 ml a cada 15 ou 20 minutos.

*** Para provas longas ou treinos, é preciso realizar a reposição de carboidratos – existem opções em gel no mercado.

*** Evite ingerir bebidas alcoólicas próximo a treinos-chave ou no dia da corrida. As bebidas estão associadas ao aparecimento de lesões, além de prejudicar a recuperação do corpo após o exercício físico.

*** Se possível, em casos mais específicos, procure a ajuda de um nutricionista esportivo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POSITIVIDADE TÓXICA

Vida digital cria otimismo obrigatório que pode fazer mal, dizem especialistas

Pensar que o dia de amanhã será melhor que o de hoje é uma estratégia acertada para enfrentar os momentos mais difíceis. Mas ser positivo e otimista ao extremo – ou seja, quando não se dá espaço para perceber e sentir a tristeza após alguma situação ruim – pode ser (muito) prejudicial para a saúde mental. É o que os especialistas chamam de “positividade tóxica”.

O boom das redes sociais veio para reforçar esse cenário. Influencers expõem suas silhuetas e vidas “perfeitas” e atrelam a conquista ao pensamento positivo diário. A “fórmula mágica”, afirmam, é pensar em felicidade para atrair a felicidade, esquecer os sentimentos negativos para nada de ruim acontecer.

Impor, a nós e aos outros, uma felicidade plena todos os dias, uma atitude mais positiva diante das dificuldades é um otimismo irreal – como se tudo fosse ficar bem só porque você quer que fique bem, sem fazer mais nada – não ajuda em nada. Na verdade, só atrapalha, afirmam os especialistas. Mais ainda: faz mal para a saúde.

“Crescemos ouvindo que não podemos ficar com raiva ou nos sentir tristes. Quando a pessoa tenta ser positiva o tempo todo e se depara com a tristeza, ela acaba se culpando por achar que atraiu aquele sentimento”, afirma Thiago Guimarães, psicoterapeuta analítico e especialista em neurociência e comportamento, acrescentando que essa conduta estimula a ansiedade.

Foi o que aconteceu com o professor universitário Maurício Bonatto, de 38 anos. Ele afirma que se sentia culpado por experimentar sentimentos que ele achava que “não deveria sentir”.

“Nós nos programamos para acreditar que atraímos tudo o que pensamos, então nos esforçamos para pensar coisas boas. Só que isso em um determinado momento passou a causar uma tremenda frustração, porque o que eu esperava que acontecesse não acontecia e eu me culpava por me sentir frustrado e triste “, conta.

O psicanalista Murillo Campos, de 31 anos, conta que cresceu com a ideia de que era o otimismo que fazia as pessoas serem sempre melhores naquilo que elas gostariam de ser.

“É muito complicado você transmitir crenças que foram implantadas pela sua família e a sociedade de que o natural é estar bem o tempo todo e que normalizar uma situação   negativa é algo ruim, que não te trará nada de bom. Hoje consigo entender as minhas dores e como eu vou lidar com elas, sem negação e privação, apenas aceitando o que eu precisar sentir naturalmente”, diz.

Em suma, o excesso de positividade e otimismo pode fazer com que a pessoa desenvolva quadros de ansiedade e depressão, já que há uma negação da importância dos sentimentos ruins.

De acordo com Guimarães, a saída para a positividade tóxica é entender que é impossível ser feliz o tempo todo, que haverá dias felizes e outros tristes, e que isso faz parte da vida. A saída é acolher tanto a alegria quanto a tristeza, sabendo sentir cada emoção em seu momento oportuno. Para isto acontecer, é preciso investir em autoconhecimento, perceber como você reage diante de situações ruins e aceitar estes sentimentos, afirmam os especialistas.

Um estudo feito por pesquisadores da University College London e da Berlin of Mind and Brain sugere que o otimismo irreal pode ser resultado da falha da atividade dos lobos frontais, uma das áreas do cérebro responsável por processar informações.

Os pesquisadores pediram que os voluntários estimassem a probabilidade de alguns eventos negativos acontecerem em suas vidas no futuro, como doenças e roubo de seu carro. Enquanto isso, eles tinham sua atividade cerebral monitorada par um scanner de ressonância magnética funcional. Depois de um tempo, eles foram informados da probabilidade média daquelas situações ruins acontecerem em suas vidas e foram convidados a refazer suas estimativas e também preencher uma pesquisa sobre seu nível de otimismo.

Os participantes mudaram suas estimativas apenas quando os dados revelados no segundo momento era mais positivo do que eles imaginavam. E o exame de imagem mostrou que essas pessoas ativaram os lobos frontais cerebrais para reprocessar  a informação recebida e dar uma nova probabilidade de algo ruim no futuro.

Já os mais otimistas – aqueles que mantiveram suas previsões abaixo do que a estimativa mostrava como chance de algo ruim acontecer – tiveram menos atividade cerebral nesta região.

Na avaliação dos autores, os resultados sugerem que escolhemos as informações que queremos ouvir e alertam que uso pode ser perigoso, já que a crença de que tudo vai dar certo faz com que muitas pessoas não tomem medidas de segurança, como cuidar da saúde ou poupar dinheiro.

Desejar que coisas boas aconteçam não é necessariamente algo ruim, no entanto. Na verdade, é preciso que haja um equilíbrio. Por isso, o indicado é ter esperança em vez de otimismo. Mas, qual seria a diferença entre esses dois?

O otimismo é que tudo vai funcionar bem, sem chance de algo der errado. Já a esperança é a expectativa de que a coisa vá dar certo, sabendo que pode não dar.

Pessoas esperançosas desejam algo bom, mas se preparam para o caso de aquilo não sair como o planejado. Já os otimistas pensam que não há chance de erro – o que gera uma grande frustração quando algo de ruim acontece, já que não era esperado.

OUTROS OLHARES

VOCÊ PODE AJUDAR

A despeito do descaso do governo federal, jovens ativistas se engajam em iniciativas de combate a pobreza menstrual no brasil, onde mais de 4 milhões de meninas não têm acesso a cuidados durante o ciclo

No início de outubro, o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto de lei que previa distribuição gratuita de absorventes para mulheres em vulnerabilidade social acendeu nas redes (e fora delas) a discussão sobre pobreza menstrual. O termo, cunhado na França, se refere aos efeitos da falta de informação e de acesso a produtos básicos de higiene durante o período da menstruação. A decisão de Bolsonaro vai na contramão de outros lugares no mundo, como a Escócia, que no fim do ano passado se tornou o primeiro país a fornecer produtos menstruais gratuitos em todas as escolas e universidades. A Califórnia também acabou de adotar a medida, que entra em vigor no próximo ano letivo em toda a rede de educação (por lá, desde 2017, o material já é fornecido em escolas de baixa renda). Já aqui, 713 mil brasileiras, de 10 a19 anos, vivem sem banheiro ou chuveiro em casa, e mais de 4 milhões não têm acesso a recursos para cuidados durante o ciclo, segundo levantamento da Unicef. Enquanto o governo lava as mãos para o problema, agravado durante a pandemia, jovens mulheres resolveram arregaçar as manga e ajudar por conta própria. Após a polêmica, vários estados e municípios anunciaram programas de doação de absorventes, entre eles a Prefeitura do Rio.

“O acesso a esses itens é uma questão de saúde pública e deveria ser um direito, não um luxo ou privilégio”, argumenta a estudante carioca Constanza Del Posso, de 17 anos, idealizadora do projeto Absorvendo Amor, que já doou mais de 150 mil absorventes a cerca de 8 mil meninas. Aluna do colégio Eleva e moradora da Gávea, Constanza se deparou com a questão no livro “Eleanor & Park”, da escritora norte-americana Rainbow Rowell, que narra um episódio de bullying com uma personagem que fica menstruada na escola “Aquilo me marcou muito e fiquei chocada como ninguém falava sobre isso. Descobri que era um problema gigante”, conta. Em 2018, montou um grupo com 14 colegas e começou uma campanha local para arrecadação e distribuição de absorventes, principalmente em escolas públicas. “Uma em cada quatro meninas brasileiras da rede pública falta aula por não poder comprar absorvente, e pode perder em média 45 dias. É quase um quarto do ano letivo”, justifica.

Estudante do ensino médio e moradora de Granja Viana, na Grande São Paulo, Luana Escamilla, de 17 anos, foi apresentada ao termo pobreza menstrual no ano passado, quando assistiu ao documentário “Absorvendo Tabu”. O curta da americana Rayka Zehtabchi, vencedor do Oscar em 2019, aborda o estigma da menstruação na Índia por meio de um grupo de mulheres sem acesso a produtos de higiene que consegue a doação de uma máquina para fabricar absorventes biodegradáveis de baixo custo. “Fiquei muito tocada e resolvi pesquisar sobre o assunto no Brasil. Foi uma quebra da minha bolha pensar que alguém poderia passar por uma situação tão desumana”, conta a criadora do Fluxo Sem Tabu, que propõe democratizar o acesso ao conhecimento e à higiene íntima. Sozinha, ela aprendeu a fazer um site, criou unia campanha de conscientização e arrecadação e cuida  de toda a estratégia. Para a montagem e distribuição dos kits, conta com a ajuda de cerca de 700 voluntários. Já conseguiu doar 180 mil absorventes e ouviu relatos como o de uma moradora de rua que disse que ficar sangrando debaixo do viaduto com cólica era sua rotina “É importante falar também sobre como a pobreza menstrual tem relação com a evasão escolar. A falta de informação leva a vergonha, isolamento e ao uso de métodos inseguros, como jornal, papel higiênico, folhas, panos velhos e até miolo de pão, o que acaba acarretando em problemas de saúde.”

Com a doação de absorventes, calcinhas, sutiãs e outros itens de higiene no Rio e em Niterói, o projeto Tô de Chico surgiu há três anos a partir de uma conversa num domingo à tarde entre a engenheira de produção Talita Soares, de 24 anos, e a namorada, a geógrafa Carolina Chiarello, de 27. “Uma de nós estava menstruada, comentamos sobre o incômodo e percebemos como éramos privilegiadas”, diz Talita. Elas recolhem os donativos e distribuem cerca de 200 kits mensais a pessoas em situação de rua, ONGs parceiras e ao próprio SUS. “Nossa principal meta é quebrar o tabu em torno do assunto. Somos governados majoritariamente por homens que, por ser um ‘problema feminino’, não dão a devida atenção. A pobreza menstrual vai além da falta de absorvente, que é o mínimo que deveria ser garantido”, acredita Talita.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE NOVEMBRO

MÚSCULOS FORTES E CABELOS BRANCOS

O ornato dos jovens é a sua força, e a beleza dos velhos, as suas cãs (Provérbios 20.29).

A vida é feita de várias estações. Cada uma delas tem sua beleza peculiar. A infância, a juventude, a maturidade e a velhice são estações da vida e, nessa viagem rumo à eternidade, podemos celebrar em cada parada. Duas dessas estações são destacadas pelo sábio: a juventude e a velhice. A beleza dos jovens está na sua força, e o enfeite dos velhos são os seus cabelos brancos. Os jovens estão cheios de vigor e força; os velhos transbordam sabedoria e experiência. Os jovens prevalecem pela força dos músculos; os velhos, pelo discernimento da vida. Os jovens têm explosão em seus músculos; os velhos, tenacidade em sua experiência. Os jovens precisam adquirir sabedoria com os velhos, e estes precisam da proteção daqueles. Os jovens podem ter visões do futuro, e os velhos podem sonhar com novas oportunidades. Jovens e velhos não devem bater cabeça. Eles não estão competindo no jogo da vida. Não devem entrar numa queda de braço para ver quem prevalece. Devem ser parceiros e caminhar de mãos dadas. Os velhos precisam andar com a força dos jovens, e os jovens precisam olhar para a vida com a sabedoria dos velhos. Músculos fortes e cabelos brancos formam uma dupla forte, vigorosa e imbatível.

GESTÃO E CARREIRA

O FUTURO DO ANYWHERE OFFICE

A ideia de trabalhar de qualquer lugar do país, ou do mundo, é uma realidade que tem tudo para sobreviver à pandemia. Veja os atalhos para tirar esse sonho do papel – e entenda os riscos que essa decisão traz para sua carreira.

A essa altura, você provavelmente já tomou pelo menos a primeira dose da vacina contra a Covid. As empresas também estavam ansiosas por esse momento. Depois de um ano e meio de home office forçado, elas começam a organizar a volta aos escritórios (isso se a variante delta permitir, claro). Só que uma coisa é convidar funcionários confinados em apartamentos pequenos a sair de casa algumas vezes na semana, outra bem diferente é chamar aqueles que viram no modo remoto compulsório a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, de preferência em outra cidade ou outro país.

O anywhere office sempre pareceu uma utopia millennial. Aquele mundo possível apenas para influenciadores digitais ou empreendedores da economia criativa, cujo trabalho consistiria em abrir um Macbook em um café hipster às 10h da manhã, mandar meia dúzia de e-mails, programar algumas postagens em redes sociais e dar o expediente por encerrado antes da hora do almoço. O oposto disso são trabalhadores mortais, com oito horas por dia de planilhas e relatórios garantidos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Para esses, nunca houve qualquer possibilidade de anywhere office. Até março de 2020.

Nessa fenda que a pandemia abriu no tecido cósmico, os dois mundos se fundiram. Só não saiu exatamente como os mais otimistas imaginavam. Quem idealizava a liberdade dos moderninhos descobriu que a rotina fora do escritório é até mais puxada do que dentro. No modo normal de trabalho, não é comum estar no escritório às 23h, completamente focado. Em casa, o expediente tende a não ter hora para acabar. Como disse Satya Nadella, CEO da Microsoft: “Home office não é exatamente trabalhar em casa. É dormir no escritório”.

Por outro lado, percebeu-se que mesmo carreiras mais tradicionais podem se adaptar a uma rotina 100% remota. Dá para trabalhar de uma praia, de uma cidadezinha histórica no interior, de Amsterdã, da Lua.

Com isso, surgiram diversas teorias. A revista britânica The Economist proclamou no passado “a morte do escritório”. Mas a verdade é que o home ou o anywhere office não será necessariamente a regra. Trabalho, afinal, é muito mais do que cumprir um conjunto de tarefas para as quais o empregador paga o seu salário. A empresa também paga para que você crie inovações com seus colegas. Mais: muita gente tem o prazer de não trabalhar só por dinheiro. Mas também pelo prazer social, pelo privilégio de criar laços com gente interessante, como define Laura Castelhano, pesquisadora de trabalho e carreira da PUC-SP.

A consultoria Robert Half ouviu executivos e descobriu que 95% das empresas planejam um modelo híbrido para o mundo pós-pandêmico. Esse “híbrido” tem mais de um significado. Um é o mais convencional: você trabalha uma parte do tempo em casa e vaiao escritório algumas vezes por semana. O outro libera funcionários de certas áreas para o trabalho completamente remoto, e estipula que o restante deve ir ao escritório todos os dias.

A pesquisa não diz quem pretende adotar cada modelo – boa parte das empresas ainda está longe de decidir, na verdade. Mesmo assim, a intenção atende em parte ao que os próprios funcionários desejam. O mesmo estudo mostra que, se pudessem escolher, 62% dos trabalhadores não voltariam ao esquema anterior. Fariam home office de uma a três vezes por semana. E 22% disseram que prefeririam não voltar ao escritório nunca mais.

E as negociações estão em andamento pelo mundo. O Google, que no começo disse que todos deveriam estar ao menos três vezes por semana no escritório, deve autorizar 20% da equipe a permanecer em modo remoto. Mais uma dezena de empresas americanas, especialmente ligadas à tecnologia, também foram por esse caminho.

No Brasil, a XP anunciou que passaria a um modelo de anywhere office no meio do ano passado. A corretora contratou 2.750 pessoas entre 2020 e 2021; dessas, 2.085 são de fora de São Paulo, onde fica a sede da empresa. Dos 4.816 funcionários da companhia, 44% aceitaram migrar para o regime de teletrabalho com possibilidade de viver em qualquer lugar. É a tendência global.

O The Conference Board, uma organização americana, calculou que só 8% dos postos de trabalho eram prioritariamente remotos nos EUA antes do coronavírus. Para o cenário pós-pandêmico, as estimativas variam de 20% a 50% das vagas. A pesquisa se debruçou sobre anúncios de emprego e detectou que vagas nas áreas de TI, finanças e seguros agora têm a opção de trabalho remoto com mais frequência.

TI era o esperado. Primeiro porque, no setor de tecnologia, é mais fácil trabalhar de forma assíncrona, em que basta entregar a tarefa, não importando como, quando ou onde você tenha executado a atividade.

Mas só isso não explica a maior flexibilidade nesse caso. Há também uma escassez global de mão de obra na área. Esses profissionais são tão disputados que as empresas simplesmente não encontram candidatos se forem convencionais demais. “Nos EUA, as vagas são para quatro dias em casa, um no escritório. Se for diferente disso, eles perdem o candidato”, diz Lucas Nogueira, da Robert Half. Claro que o desemprego em 5,4% nos Estados Unidos aumenta o poder de barganha do funcionário. Por aqui, a taxa está em 14,7%.

MEU ESCRITÓRIO É NA PRAIA

A boa notícia é que, para quem gostou da possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, as  chances de manter a nova vida são reais.

“Eu não vou conseguir trazer de volta para São Paulo os advogados que compraram casa na praia e nadam às 5h da manhã. Não se tira isso das pessoas”, diz Isabel Bueno, advogada e sócia do escritório Mattos Filho.

Aline Toretto também foi para a praia. Ela é gerente de RH numa startup financeira, a 180º Seguros. No ano passado, mudou com mala, cuia, namorado e cachorra para Trancoso.

A mudança começou a ser desenhada quando ficou inviável para Aline conciliar trabalho e um ruidoso apartamento de 50 metros quadrados. Em vez de simplesmente buscar uma casa maior, o casal tentou outro estilo de vida. No começo, a ideia era ficar só três meses no litoral baiano, e depois seguir viagem em busca de uma nova casa temporária. Acabaram ficando por lá mesmo. “Trancoso é uma cidade pequena, mas turística. Tem um centro desenvolvido, com restaurantes. A gente acaba estabelecendo uma vida social interessante aqui”, conta. Mas o destino só foi decidido depois que testaram a conexão com a internet. “É da responsabilidade de quem está fazendo esse movimento garantir a internet. Aqui, a fibra é ótima, e a gente testou antes.”

Essa é uma constante. Quem deixa a cidade, mas não o emprego, se sente ainda mais responsável por garantir boas condições de trabalho e a entrega de resultados. Uma espécie de compromisso a mais com a empresa que concedeu o benefício. O casal Camila Schmalz e Edson Feltrin passou a vida inteira em Joinville. Neste ano, venderam a casa e agora terminam a construção de um motorhome. Até janeiro do próximo ano, o escritório será na estrada, em viagens que podem ultrapassar as fronteiras do país. Antes, porém, eles pretendem fazer algumas viagens-teste para entender melhor a viabilidade da empreitada.

Os dois trabalham na Neogrid, uma empresa de tecnologia – ela é gerente de marketing; ele, analista de produtos. “Nossa van terá um pequeno escritório, que atende a nós dois. E vamos manter as nossas rotinas no trabalho e ter uma viagem mais tranquila. Parar durante a semana em um camping ou em uma estrutura um pouco mais estável, para garantir o desempenho profissional”, diz Camila.

“Nosso primeiro foco é o trabalho. Só que na sexta-feira, quando acabar o expediente, a gente vai estar na beira de algum penhasco com vista para o mar”, brinca Edson. Brinca não: fala sério mesmo. Outra vantagem para quem decide ir para algum lugar mais calmo, além dos eventuais penhascos com o mar batendo de tardezinha, é o custo de vida. O salário continua o mesmo. Nisso, há uma larga vantagem no Brasil. O pessoal do Google que sair do Vale do Silício, por exemplo, muito provavelmente terá algum corte de salário, já que a legislação americana permite adequar o pagamento ao custo de vida do lugar onde o funcionário vive.

O que as empresas daqui fazem quando oficializam o home office é converter o contrato do regime tradicional para teletrabalho. Isso garante a dispensa de bater ponto, e dá ao profissional mais autonomia sobre seu tempo. De resto, se ele não tem tarefas presenciais, o DDD do telefone é um detalhe.

Avisar o empregador dos planos de mudança também pode trazer outras vantagens, como adaptação de benefícios. Um exemplo: o plano de saúde pode ter um upgrade para cobertura nacional, por  exemplo. Só não conte com isso se seu plano for mudar de DDL

ALL AROUND THE WORLD

Se você tem o sonho de viver fora do país sem o incômodo de ter de largar o seu emprego, lembre-se do seguinte: a gente aqui do Brasil volta e meia sofre de síndrome de patinho feio, mas o nosso passaporte não é dos piores: abre a fronteira de 79 países sem a necessidade de visto. Outros 38 concedem visto na chegada, o que consiste basicamente em pagar uma taxa de acesso. É uma quantidade generosa de lugares com portas abertas, o que coloca o Brasil na 15ª posição de passaporte mais poderoso do mundo.

Há um porém. Esses lugares dão visto de turismo. Em tese, você não pode embarcar para Paris com o plano de passar três meses trabalhando por lá, mesmo que para um emprego no Brasil. Em tese, claro. Ninguém vai invadir a sua casa perguntando se você está trabalhando, e não turistando. Sem falar que visto de turista te deixa ficar só 90 dias em cada país, o que torna a logística de uma vida nômade internacional um pouco mais complexa.

O mineiro Renato Ribeiro tem feito isso. Ele deixou o Brasil em fevereiro deste ano sem planos de voltar. Head de conteúdo da equipe de marketing da Beer Or Coffee (uma empresa de coworking), Renato é um pioneiro do home office: trabalha nesse regime desde 2019. E agora conseguiu planejar uma vida que concilia trabalho com viagem – e com as restrições da pandemia.

“A princípio, eu estava planejando ir para a Argentina, mas as fronteiras foram fechadas. Por causa disso, eu decidi ir para a África, porque é uma região que está recebendo brasileiros.” Depois de 15 dias fora do Brasil, as fronteiras até reabrem para você, porque aí o mundo deixa de achar que a pessoa  é um vetor de Covid só por ser brasileira.

Desde o começo do ano, Renato passou pela África do Sul e pela Etiópia. Depois subiu para a Europa, buscando países com fronteiras mais abertas: Macedônia do Norte, Sérvia e Bósnia, onde está agora. Ele ficou pelo menos um mês em cada lugar, para dar tempo de virar a chave do “turismo” para “vida local”. “Ainda não tenho certeza do próximo destino, porque depende muito das questões da Covid e da vacinação. Mas estou pensando em ir para a Croácia e para a Hungria.”

A nova vida é bancada com o salário em reais, e ele procura países com custo de vida semelhante ao nosso. Renato recebe na conta de banco que tem no Brasil e transfere para uma conta digital que abriu na Europa – é mais simples abrir contas em fintechs por lá, igual aqui. Com o dinheiro em moeda estrangeira, faz pagamentos com cartão de débito ou saca, quando necessário. A ideia é seguir a vida assim e voltar para o Brasil apenas para visitar a família.

A Receita Federal pode ser uma pedra no sapato a quem pretende virar nômade global para sempre. Quem deixa o Brasil sem planos de voltar deve fazer a declaração definitiva de saída do país, um acerto de contas de Imposto de Renda por aqui. Só que, depois disso, as contas bancárias normais são fechadas e o CPF é suspenso. Você pode até não avisar a Receita, mas, pela regra, o Fisco assume que você deixou o país em definitivo depois de 183 dias fora.

Ou seja: quem pretende passar uma boa temporada no exterior sem largar o batente brasileiro precisa voltar para cá no mínimo duas vezes por ano. E isso é importante por outro motivo também. É que a maioria dos países passa a contar a pessoa como residente fiscal depois de 183 dias (aí você precisaria pagar impostos lá sem deixar de pagar no Brasil).

Antes da pandemia, multinacionais que desejassem ter funcionários fora do país cuidavam de todo o processo de expatriação: conseguir o visto, ajudar na instalação da família, nas questões fiscais e no pagamento na moeda local do país.

Para a empresa, é crucial que você mantenha residência fiscal no Brasil. É que não residentes têm outro regime de Imposto de Renda: pagam 25% direto na fonte. Quem recolhe é a empresa. E tudo que ela não quer é essa dor de cabeça extra.

No modo “mudança voluntária”, de qualquer forma, o contrato de trabalho continua brasileiro e esse é o tipo de imbróglio que precisa ser soluciona do por quem decide sair do país. Sem falar no salário, que continua a ser pago em reais, o que pode pesar na conta de quem quer viver em dólares ou euros.

NOMAD VISA

Alguns países viram no anywhere office uma oportunidade para atrair um turismo de longo prazo, e decidiram limar as barreiras burocráticas de visto e imposto. É o caso da Estônia, primeira nação a criar um visto para nômades digitais.

A ex- república soviética, conhecida por suas medidas arrojadas (como o voto via internet), concede prazo de permanência mais longo, geralmente um ano, e dá isenção tributária completa, como se você fosse turista mesmo. A condição é que você vá com um emprego no seu país de origem, já que esse tipo de visto não permite trabalho para empresas locais.

Depois da Estônia, outros países replicaram a ideia: Barbados, Dubai, Islândia, Ilhas Cayman e Croácia. A ideia é justamente fisgar profissionais esgotados pelo confinamento – e o dinheiro deles (bem-vindo num contexto de crise econômica). Só tem um detalhe. Todos pedem uma renda generosa para conceder o visto, uma espécie de garantia de que você vai levar mesmo dinheiro para lá, e não virar um trabalhador ilegal na primeira oportunidade – o visto de nômade não dá direito de trabalhar para empresas desses países. Sem falar que, em alguns casos, o custo de vida é brutal. Em Reikjavik, capital da Islândia, uma garrafa de cerveja sai por R$ 20 – e isso no supermercado. No bar custa RS 50. Ou seja: você tem de comprovar que consegue arcar com isso trabalhando para o Brasil mesmo.

Nos países da União Europeia, os vistos são escassos. Portugal e Alemanha têm vistos de trabalho para freelancers, só que aí é o contrário dos programas do tipo nomad: você precisa pagar impostos lá e, claro, está livre para atender clientes do país de destino.

Mas nem só de burocracia vive o estilo de vida errante. Portugal criou uma espécie de vila para andarilhos digitais na Ilha da Madeira. O programa, voltado para europeus que queiram sair das cidades grandes para as praias da terra natal de Cristiano Ronaldo, oferece internet, espaço de coworking e uma rede de contatos, para amenizar o isolamento de quem vive viajando. O Rio de Janeiro testa algo semelhante. Criou um site que lista opções de coworking e hospedagem para atrair gente que deseje passar um tempo na cidade mais fotogênica do país, sem ser nas férias.

TRABALHAR PARA A GRINGA, SEM SAIR DO BRASIL

Tem mais um jeito de tirar proveito do anywhere office. Lucila Dei Grande é diretora executiva de RH da Bridgestone para a América Latina desde março do ano passado. A promoção poderia ter acontecido em 2018, mas ela não aceitou. Naquele ano, um pré-requisito para assumir o cargo era a mudança para os Estados Unidos. “Eu recusei porque sou casada, tenho filhos e não tenho essa mobilidade.”

Demorou, mas, no fim, a pandemia garantiu o avanço na carreira. Quando todos os funcionários administrativos foram para o home office, a matriz da empresa descobriu que o cargo não precisava ser presencial. O plano da empresa é seguir com trabalho híbrido. “Então, quando tudo isso passar, a posição vai ficar situada no Brasil. E não sou a única na Bridgestone. Tem um diretor de planta que cuida da equipe da Argentina e também fica aqui no Brasil”, diz Lucila. Esse é só um dos exemplos de como empresas abertas ao anywhere office oferecem mais possibilidades de crescimento profissional. Dan Paranhos, 33, é de Goiânia e trabalha de modo 100% remoto desde 2016. A primeira experiência foi com a americana Cornerstone OnDemand, que até tinha um escritório em São Paulo. Ele, no entanto, nunca teve a obrigação de ir ao local. E aproveitou a flexibilidade para

trabalhar de qualquer lugar. “Tenho um amigo que mora na Polônia. Ele casou e me chamou para o casamento. E não tem como fazer um bate-volta para a Polônia de um final de semana. Aí aproveitei e passei um mês lá, tirei alguns dias de folga, mas fiquei trabalhando de lá mesmo”, conta.

UM FUSO MUITO LOUCO

Quem virou zumbi para acompanhar a Olimpíada teve uma boa amostra do que pode acontecer com quem trabalha em fuso horário maluco. É um desafio real para quem decide mudar seu home office de país ou topa trabalhar para uma empresa estrangeira. Uma reunião marcada para as 15h aqui no Brasil ocorrerá às 20h, se você estiver na Alemanha, e às 3h da manhã, se você se mudar para a Austrália.

De Sarajevo, Renato Ribeiro diz que tem liberdade para fazer o próprio horário. Ainda assim, bate um “sentimento de culpa” por não seguir a jornada dos colegas. “Minha liderança me dá toda a liberdade para fazer as coisas de forma assíncrona. Mas tem dias em que eu me sinto na obrigação de estar no mesmo horário com meus colegas. Então, vira e mexe, são 23h30 aqui e eu tô abrindo o Slack, porque é a hora que a galera está fervendo no Brasil”, conta.

Na OLX, uma empresa que abraçou o anywhere office com carinho, a presença em reuniões não é obrigatória, e as realmente importantes ficam gravadas. Isso ameniza o problema de diferença de horário. “Meu chefe está na Holanda. Ele se organizou, e estamos fazendo as reuniões de manhã [noBrasil], porque à tarde já é de noite para ele”, diz Sergio Povoa, diretor de Recursos Humanos da empresa. Mas dá para tirar partido da diferença de horários também. Ter uma equipe em vários fusos pode esticar o dia e diminuir o número de horas extras. É o que explica Ana Carolina Queiroz, advogada brasileira que vive na Bélgica e comanda uma equipe espalhada por escritórios em Amsterdã, Londres, Miami, Belo Horizonte e São Paulo.

“Se acaba o dia na Europa, eu tenho alguém de Miami que vai poder continuar o trabalho sem perturbar quem já terminou o expediente.”

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM

Suas chances de crescer profissionalmente não estão ligadas só à sua competência técnica. Tão fundamental quanto os resultados é a sua capacidade de se relacionar bem com colegas e chefes. É dessa boa conexão que surgem chances como a de entrar em um projeto de maior visibilidade – daqueles com potencial para render uma promoção.

Se você está longe dos olhos do seu gestor, porém, fica mais difícil de ser indicado para trabalhos de mais responsabilidade. Com todo mundo em home office, beleza. Ficam todos em pé de igualdade, fazendo a social pelo Zoom mesmo. Numa realidade em que alguns decidem trabalhar na sede da companhia e outros preferem penhascos mundo afora, o pessoal do penhasco tende a ficar para trás. E isso é uma dor de cabeça para as empresas também. Moralmente falando, as que adotaram o anywhere office não podem discriminar entre quem vai ao escritório e quem é apenas um quadradinho na tela da videoconferência. Mas empresas são feitas de pessoas. E pessoas gostam de contato ao vivo. Ponto. Um estudo da Universidade de Stanford acompanhou funcionários de call center de uma empresa de viagens de Xangai por nove meses. Aqueles que estavam em home office foram mais produtivos, porque fizeram mais ligações e menos intervalos entre as chamadas. Ainda assim, tiveram menos aumentos. Ou seja: se é assim em funções que não exigem uma baita interação interpessoal, imagina nas que exigem. “A gente tem essa sensação de que está perdendo algo quando não participa de uma reunião. Não é a mesma coisa de estar em vídeo”, diz Laura Castelhano, da PUC-SP.

Não só isso. Seres humanos aprendem também por imitação. A gente vê como um colega mais experiente resolve um problema ou interage com o chefe, e acaba incorporando uma parte desse comportamento. Observar é parte do amadurecimento profissional. Sem falar que nem tudo no trampo é trampo. “No espaço físico é onde tem a interação off-trabalho. E boa parte das coisas que a gente assimila profissionalmente é quando não está trabalhando. A questão da cultura da empresa vem do território. O espaço ajuda na conexão das pessoas”, acrescenta Castelhano. A XP, por exemplo, já planeja voltar a fazer a integração de funcionários presencialmente, mesmo que eles sejam de outros lugares do país. “Antes da pandemia, você estava no escritório, você via as cores da XP, as frases, a diretoria andando para lá e para cá. Você sentia o clima. No modelo remoto, isso é difícil de transmitir”, diz Dalal Ghosn, head do programa XP Anywhere.

A realidade do trabalho é uma força que puxa a vida para algo mais próximo da normalidade do que do sonho de viver de galho em galho. O antropólogo Dave Cook acompanhou 16 nômades digitais por quatro anos. E constatou que as pessoas passaram a viajar menos depois de algum tempo. Cada mudança de cidade ou de país pode ser excitante, mas consome um belo tempo de adaptação, o que gera estresse.

Eles também passaram a fugir de áreas mais turísticas das cidades, para evitar o clima de festa enquanto precisam trabalhar. Ou seja, você acaba num ambiente mais parecido com o da sua cidade original: as áreas não turísticas de Berlim, Amsterdã ou Cidade do Cabo são tão cinzentas quanto a de qualquer cidade chata.

O estudo de Dave Cook também mostrou que os nômades são uma espécie que tende a se reunir em coworkings quando se tromba pelo mundo. Nos depoimentos, eles disseram que precisavam de um ambiente mais ligado ao trabalho para que conseguissem se concentrar e ser produtivos. Pois é. No fim, até pode ser anywhere, desde que seja em um office.

EU ACHO …

CADA UM NO SEU LUGAR

Dia desses, liguei para uma grande amiga e fizemos um acordo. Estamos ambas com a vida corrida e pactuamos que aquele seria o momento de romper com nossas agendas ocupadas para passarmos momentos juntas botando o papo em dia. Saímos para almoçar ao ar livre. Ainda parece estranho retomar certas atividades presenciais, antes tão corriqueiras. Mas topamos o desafio.

Em parte do tempo que passamos, ela me contou sobre o quanto estava super apaixonada: “Ele é meu amor, meu amigo, meu terapeuta, meu tudo”, disse. Obviamente, fiquei feliz por vê-la amando e se sentindo amada e valorizada, mas achei que cabia compartilhar um conselho que recebi: temos que ter cuidado com o papel de terapeuta que, muitas vezes, atribuímos a namorados, mães, pais e irmãos. Aprendi que este papel não deve ser dado a quem não exerce esta profissão. E passei a reflexão adiante.

Eu mesma já me vi dando a pessoas próximas a função não pedida por eles de terapeutas, compartilhando questões que carregava. Uma terapeuta, felizmente, me avisou que não precisava atribuir aos outros o papel que cabia a ela.

Lembro-me de um amigo também ter me dito recentemente que sentia que seu pai o usava como terapeuta. Ele ainda não havia procurado apoio ou fazia atividades relacionadas à saúde mental. E meu amigo não aguentava roais ouvir tudo que ele tinha passado no casamento com a madrasta. Dizia não estar preparado para ter relatos tão pesados somados às próprias questões existenciais. E foi aí que começou a fazer terapia e retomou a prática de esportes para extravasar. Foi fundamental para não continuar com o ciclo de dar papel de terapeuta para quem não deve exercer essa função.

Ao olhar para eles, entendi que ao longo da vida, acabei guardando comigo diversas questões devido ao aprendizado de que deveria selecionar com quem dividisse meus anseios e angústias, o que muitas vezes me fez deixar de compartilhar coisas. Isso me dava um nó no peito. E fui entendendo um dos papéis da terapia.

Conversando coro terapeutas e profissionais que lidam com saúde mental, ao longo da minha caminhada, percebi que algumas das maiores confusões que cometemos na vida é justamente misturar os papéis de cada um. Mãe é mãe, namorado é namorado e terapeuta é terapeuta. Ou pelo menos deveria ser. A conversa com minha amiga me trouxe este lembrete.

Filho ou namorada não deveriam ser usados como único canal de escuta de problemas e questões. E não deveriam se sobrecarregar com questões que não lhe cabem, além das que eles mesmo carregam. Precisamos achar um equilíbrio que não é nada óbvio.

Para compartilhar coisas boas, avanços, segredos, expectativas, ter confidentes é importante, mas sobrecarregar uma pessoa (ou algumas) com toda esta carga que precisa dividir pode ser demais. E pode ameaçar a sanidade das relações.

O tempo passou e minha amiga está na terapia e fazendo uma série de atividades dedicadas à saúde mental. E por aqui eu dedico esta coluna a essa importante conversa que tivemos. Passar essa história adiante pode ser útil a alguém.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

TEMPO NÃO É MAIS DESCULPA

O snack fitness, novo modelo de treino físico, melhora a saúde e o condicionamento a partir de vinte segundos de exercícios intensos. Dois novos estudos mostram sua eficácia

Depois de anos vivendo sob a máxima de que os primeiros benefícios do exercício físico para o organismo só viriam após vinte minutos de atividade, a ciência apresenta um novo conjunto de informações mostrando que não precisa de tanto tempo assim. Na verdade, vinte segundos de movimentação intensa três vezes por dia já é o suficiente para melhorar o condicionamento físico e a saúde cardiovascular. É o que os estudiosos estão chamando de snack fitness, expressão em inglês que, em português, pode ser entendida como treino curto que pode ser repetido. Como um petisco saboreado aos poucos. A modalidade é uma evolução do HIIT (high intensity interval training, em inglês), sistema que intercala exercícios de alta intensidade com períodos de descanso. Ele começou a fazer sucesso nos anos 2010, por combinar redução de tempo – um circuito completo pode ser executado em vinte minutos – com resultados evidentes.

Aos poucos, porém, percebeu-se que o tempo total gasto não era assim tão menor do que o usado em um treino convencional, de sessenta minutos. Entre trocar de roupa, subir na esteira ergométrica ou na bicicleta, completar o aquecimento e, ao final, esperar o corpo voltar ao ritmo normal, lá se vai pelo menos meia hora. Evidentemente, gastar trinta, quarenta minutos no total, com os mesmos benefícios de uma hora, é vantajoso. Mas, para as pessoas resistentes aos exercícios, esse tempo ainda é insuficiente para motivar a sair da inércia.

Embora existam muitos atletas, um pedaço considerável da humanidade prefere gastar seu tempo com qualquer outra coisa que não sejam abdominais, flexões ou corridas. Por isso, dois centros de pesquisa resolveram investigar qual o mínimo de tempo necessário para obter os benefícios dos exercícios e, dessa maneira, tirar mais gente do sedentarismo. A pergunta não tinha resposta desde que a Organização Mundial da Saúde deixou a informação em branco quando atualizou as diretrizes para o assunto, em 2018.

Dois estudos, porém, trouxeram importantes – e muito positivas – novidades. O primeiro foi liderado por Martin Gibala, professor de cinesiologia da Universidade McMaster, no Canadá. Gibala estuda a relação entre tempo, intensidade e o impacto dos exercícios no corpo há cerca de vinte anos. Desta vez, ele resolveu testar em 24 adultos sedentários a eficácia do snack fitness com o seguinte treino: vinte segundos pedalando em intensidade máxima, intercalados com descanso entre uma a quatro horas, três vezes por dia, três vezes por semana. Como comparação, metade dos participantes executou outro modelo, quase igual, à exceção dos intervalos: eles tiveram dez minutos para cumprir os três ciclos de vinte segundos na bicicleta. Os resultados foram parecidos. No primeiro, a melhora no funcionamento do sistema cardiovascular foi de 9%. No segundo, 13%. “O mais importante é termos mostrado que cada movimento conta. Os ganhos para o organismo começam assim que o indivíduo inicia os exercícios”, disse Martin Gibala.

O segundo estudo também reforçou a certeza de que o esforço, por mais breve que seja, ajuda o organismo. Na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, os pesquisadores colocaram jovens adultos para pedalar em alta intensidade durante quatro segundos, seguidos por intervalos de quinze a trinta segundos. Cada ciclo foi repetido trinta vezes, somando dez minutos de trabalho físico. No final, todos apresentaram ótimo desempenho da atividade aeróbica. “A performance atlética e as condições cardiovasculares apresentaram boa evolução”, afirma Remzi Satiroglu, autor principal do trabalho.

A expectativa de Remzi e Gidala é que as evidências trazidas pelos seus trabalhos ajudem a tirar muita gente do sofá. Um dado é certo: não há dúvida de que essas pesquisas derrubam os argumentos de quem procura justificativa para não se mexer. Pelo menos daqueles que se dizem ocupados demais, sem tempo para ir a uma academia ou comprar roupa de ginástica. “A beleza do snack fitness é esta. Você pode praticá-lo em qualquer lugar, andando por dois minutos ou subindo três lances de escada de forma vigorosa, por exemplo”, diz Scott Lear, da Universidade British Columbia, parceiro de Gidala. “E nem precisa trocar de roupa porque não vai suar.”  De fato, só precisa mesmo é de vontade e, como afirmam os cientistas, da convicção de que alguns minutos de sacrifício podem fazer uma grande diferença.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMPLO ESPECTRO

Novos hábitos e ferramentas renovam visões sobre o autismo

Uma memória da infância da coordenadora de projetos sociais Laryssa Smith a fez determinar que a inclusão seria um ponto fundamental na criação do filho Pedro, de 8 anos, diagnosticado com autismo.

“Fui à casa de alguém conhecido e ouvi, de um quarto, uma criança que fazia barulhos diferentes. Os pais falaram que ela tinha uma deficiência”, explica. “Quando descobri o diagnóstico do meu filho, jurei pra mim que ele não seria mais uma criança escondida dentro de casa. Levando como mantra a ideia de que Pedro está inserido numa realidade partilhada por todos, e não em “seu, próprio mundinho”, – como é comum ouvir em relação às crianças que tenham o Transtorno do Espectro Autista (TEA) – , Laryssa compartilha o dia a dia do filho em uma página no Instagram. Por ali, o menino aparece fazendo terapia aquática, brincando com jogos eletrônicos ou simplesmente interagindo com a mãe.

Cenários como esse refletem o crescente conhecimento sobre o tema, graças, sobretudo, aos avanços científicos e sociais sobre o tema. E às tecnologias que vieram ao auxílio de pais e especialistas nos últimos anos.

O comportamento de Pedro, explica a mãe, é fruto de terapias e outras atividades de estímulo. Uma delas, para aprender a cantar, foi iniciada por meio de vídeos disponíveis na internet, que ensinaram à Laryssa como abordar o filho corretamente.

Há na atividade de Laryssa mais do que um simples registro da realidade e das trivialidades do dia a dia. Em sua página, e em outras semelhantes, os seguidores são muitas vezes mães e pais em situação parecida, reunidos para trocar experiência sobre os filhos que apresentam algum dos aspectos desse distúrbio do neurodesenvolvimento.

DIÁLOGO FRANCO

Essa ideia de conversar abertamente sobre o autismo dos filhos dentro e fora das redes é parte de um novo capítulo em relação à forma como se encara o transtorno dentro das famílias. Hoje, mães e pais se reúnem em fóruns on­line para falar sobre a rotina, partilhar dicas ou simplesmente apoiar-se em um dia difícil. A evolução de outra criança, dizem, é combustível para insistir nas terapias dos próprios filhos, buscando ajudá-los a desenvolver novas habilidades ou aprimorar as que eles já têm.

Os grupos e páginas on-line, embora ofereçam apoio emocional, não substituem o acompanhamento médico adequado. Fundamental para a evolução da criança, é importante dizer.

“Agora os avós sabem do que estamos falando, o que é (o autismo), e sabem o que fazer. Os tios também estão ligados. Antes, somente as mães buscavam por mais informações e os outros ficavam em negação”, diz a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, fundadora do Instituto Singular, em São Paulo.

A identificação do transtorno em crianças, mesmo quando elas exibem características consideradas clássicas – não verbalizar palavras típicas da  idade, e ignorar o chamado dos pais e evitar contato visual – ainda é um desafio para as famílias. Isso porque não existe nenhum tipo de exame que emita um laudo oficial. É preciso observá-las em diversos aspectos, conhecer seus hábitos, compreender o que as incomoda.

MÃO DA TECNOLOGIA

Em paralelo aos avanços comportamentais e clínicos, há os tecnológicos. Um estudo recente, publicado na revista JAMA por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido, mostrou que o início da terapia – mesmo antes do diagnóstico, preferencialmente feito a partir dos 18 meses de idade – levou à redução dos comportamentos do espectro autista na primeira infância.

As crianças avaliadas tinham entre 9 e 14 meses e mostravam indícios de que poderiam integrar o espectro, por conta de comportamentos iniciais. O grupo que não passou por terapia teve três vezes mais (21%) crianças diagnosticadas com autismo, por volta dos 3 anos, em comparação com os que fizeram as atividades (7%).

A tecnologia, aqui, surge para facilitar a conversa entre especialistas e a família do bebê. Após as orientações oferecidas em vídeo, pelo terapeuta, gravava-se a interação dos pais com os pequenos. Depois disso, os profissionais assistiam às sessões e podiam oferecer feedbacks.

“No estudo, são indicadas intervenções simples, como tentar observar como a criança brinca”, diz Polyana Lima, chefe da neuropediatria da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Outra ferramenta é o eye­tracking, que consegue identificar a atenção visual da criança. Uma das instituições onde o apetrecho está em estudos é o Instituto Pensi, ligado ao Hospital Sabará, em São Paulo.

“É uma câmera bem pequena que acoplamos a um monitor. Para crianças bem pequenas exibimos, por exemplo, uma bola e uma pessoa sorrindo. Geralmente, os autistas vão olhar mais para a bola”, explica Yasmine Martins, coordenadora científica do Instituto Pensi.

Outra inovação auxiliar ao diagnóstico foi aprovada em junho pela Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos Estados Unidos. O aplicativo Cognoa utiliza inteligência artificial e especialistas, em uma central remota, para analisar registros em vídeo.

OUTROS OLHARES

DEPOIS DO ISOLAMENTO, O COLORIDO: CONHEÇA O ‘DOPAMINE DRESSING’

Tendência de vestir o que traz felicidade, sem seguir regras, ganha força na pandemia e tem reflexos no humor

A maneira de nos vestirmos afeta o nosso humor. E muito do nosso humor é refletido na maneira como nos vestimos. A influência da roupa nas emoções humanas é tanta que vestir algo que nos deixa feliz gera uma adrenalina no corpo, que está ligada à dopamina, o hormônio do bem-estar. É daí que vem anova tendência da moda: dopamine dressing, ou  “vestir-se de dopamina”, em tradução livre.

Dopamina é um dos três hormônios da felicidade, ao lado da endorfina e da serotonina. “A dopamina é produzida pelo sistema nervoso central e pelas glândulas suprarrenais. Quanto mais embebido o nosso sistema nervoso está com esse neurotransmissor, maior nossa sensação de prazer. Isso melhora nosso estado de humor e nossa disposição. Quanto mais baixo está, menor a nossa disposição e maior nossos estados de humor negativo”, explica a neuropsicóloga Luciana Xavier.

Assim, quando nos sentimos bem com o que vestimos, o sistema nervoso tem a tendência de começar a produzir a dopamina. Com o avanço da vacinação e o clima de otimismo, veio a vontade de vestir liberdade. ”Tivemos um período de restrições e agora as pessoas querem se vestir de maneira que elas se sintam felizes”, conta a gerente de serviços do cliente da WGSN, empresa de previsão de tendências, Mariana Santiloni.

O  estilo não é necessariamente novo – afinal, o conceito existe desde os primeiros estudos sobre a psicologia das cores -, mas o termo, sim. “A gente começa a viver, agora, um arco­ íris depois da tempestade e por isso vemos as cores como parte de um momento muito importante, no qual vamos voltar a celebrar, a se reunir novamente. Dar um nome traz um certo pertencimento”, diz Mariana

A tendência veio forte especialmente durante a semana de moda de Copenhague, em agosto. Na mesma época, o verão norte-americano também apostava em peças neon, tons vibrantes e mistura de estampas como animal print, xadrez e floral. Até nos desfiles deste semestre de marcas como Dolce & Gabbana (para o inverno) e Moschino (para o verão) a tendência estava presente.

“A moda sempre foi ditada pelos adultos. Nos anos 1970, eles começam a olhar a rua, mas ainda as maisons decidiam tudo. Nos anos 2000, a moda estava tão desatualizada, tão quadrada, que ela vira, então, essa grande mistura democrática de hoje. Olhando mais para o jovem, para a rua”, diz a consultora de modal Manu Carvalho. Com isso, é possível ousar mais, se permitir e fazer misturas “loucas” – desde que elas tragam felicidade. “Sabe quando a Marie Kondo fala ‘Fique com aquilo que te traz alegria’? É totalmente  sobre isso”, brinca, usando como referência a organizadora que ganhou uma série na Netflix.

INTERNET

Com as redes sociais há uma multiplicidade de escolhas entre emoções e tendências. “Antes existiam os padrões da TV, das celebridades. Hoje, no Instagram, você tem todos os estilos ao seu alcance. Isso muda tudo. A geração de hoje tem muito mais informações de moda”, conta a influenciadora Amanda Pieroni.

A mesma regra serve para a nova moda. A ideia central não é ditar uma ou outra peça, cor ou acessório, mas sim vestir-se de modo que você se sinta bem. “Não tem peças-chave. É sobre usar as roupas para se sentir bem, porque elas têm um efeito em nosso comportamento, um significado pessoal para cada um. E o dopamine dressing nada mais é do que unir as cores com a sua personalidade”, diz Amanda. Claro que colorido, figuras divertidas, estampas, imagens de otimismo, palavras e frases positivas são mais óbvias ao associar o novo estilo. Porém, é importante situar que a dopamina de cada um está num lugar individual “Pode ser que alegria para alguém seja vestir preto”, exemplifica Manu.

A falta de regras é reflexo de um período em que, mais do que se preocupar se está na moda ou não, você passa a se vestir para si mesmo. Justamente um dos motivos pelos quais Amanda começou a se interessar por moda. “Desde criança, sempre sofri bullying e sempre usei a moda como refúgio e um jeito de me expressar – já que eu não podia me expressar com palavras, porque as pessoas não queriam conversar comigo. E as pessoas falam muito na internet sobre isso: a maneira de se expressar”, diz. “Por ficar preso em casa por causa da pandemia a gente quer ousar, a gente quer usar o que comprou na quarentena.”

E se o futuro nos perante a ousadia, o passado nos ensina que o conforto deve vir acima de tudo. “Quando se fala em conforto, isso vem desde 2010, quando a gente começa a falar de peças esportivas. São nesses momentos que as pessoas tendem a olhar para essas peças mais clean, que são fáceis de combinar”, diz Mariana.

Além de pensar numa explosão de cores, existe a questão de a  peça ser única e do trabalho manual. Por isso, houve um aumento no interesse por técnicas como crochê, tricô e tie dye durante os meses dentro de casa. “Isso tem uma relação direta com a pandemia porque, de certa forma, a gente se apertou de todas as maneiras. Então onde você pode ter conforto, é maravilhoso”, reflete Manu, citando malhas, moletons, modelagens esportivas, básicas, casuais e suéter e outros tecidos bem vistos na moda dopamine dressing.

Muito mais do que uma tendência de moda, o dopamine dressing traz uma mudança na indústria fashion ao trocar a pergunta “Isso está na moda?” por “Isso faz eu me sentir bem?”. E saber responder à questão pode garantir emoções positivas ao longo do dia – o que, convenhamos, é muito melhor do que andar com o pé dolorido por querer seguir os últimos lançamentos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE NOVEMBRO

O TRONO SE ESTABELECE COM BENIGNIDADE

Amor e fidelidade preservam o rei, e com benignidade sustém ele o seu trono (Provérbios 20.28).

Deus é quem levanta e abate reinos; coroa e destrona reis. Aqueles que governam com punhos de aço e esmagam seus súditos com truculência não permanecem no poder por muito tempo. Um governo continuará no poder enquanto for humano, justo e honesto. É por sua bondade que um governante dá firmeza ao seu trono. Os grandes impérios do mundo caíram porque agiram com crueldade. Reis e príncipes foram derrubados de seus tronos porque se vestiram de violência. Onde estão os faraós do Egito? Onde estão os sanguinários reis da Assíria? Onde estão os megalomaníacos reis da Babilônia? Onde está a glória de Alexandre, o Grande? Onde estão os césares de Roma? Onde foram parar as glórias de Napoleão Bonaparte e a fúria de Adolf Hitler? Todos aqueles que usaram a força para governar caíram pela força. Os conquistadores foram conquistados. Os dominadores foram dominados. Não se constrói um governo duradouro com violência e derramamento de sangue. Não se conquistam o respeito e a obediência de um povo com despotismo. Não se estabiliza um trono com tirania. Não se governa contra o povo, mas sim a favor do povo. O amor e a fidelidade preservam o rei. É com benignidade que o rei sustém seu trono (Provérbios 20.28).

GESTÃO E CARREIRA

CHEFE DE PRIMEIRA VIAGEM

Assumir o primeiro cargo de gestão é o momento mais desafiador da carreira. Você nunca vai estar 100% preparado, e terá mais dúvidas do que certezas. Veja histórias de líderes que penaram no início, e conheça as regras de ouro para fazer essa transição de forma mais suave

Virar chefe é como ter um filho. Na véspera do parto, você é alguém com O% de prática em cuidados parentais; no dia seguinte, já está no “emprego” de mãe ou pai – e precisa imediatamente fazer o que mães e pais fazem, mesmo sem saber exatamente como.

Não se trata de uma analogia qualquer. A criadora é a americana Linda Hill, professora da Harvard Business School, autoridade em liderança corporativa. De fato: virar chefe é uma transição complexa, que deixa cicatrizes, e trará consequências para o resto da vida. Da sua e da equipe que você comanda.

Há um risco considerável de acontecer o seguinte: você se abalar com a mudança de atividades (e prioridades) e ficar com medo de não conquistar o mesmo sucesso que tinha como colaborador individual; acabar apegado às antigas atribuições em vez de abraçar as novas. E, talvez, até um tanto envergonhado ao interagir com os ex-colegas, que agora viraram subordinados. (Poucas coisas são tão mortificantes na rotina do líder novato que dar um feedback severo para um companheiro de happy hour – ou, pior, ter de demiti-lo). Vocês costumavam falar mal da empresa no cafezinho da copa? Pois agora, aos olhos deles, você é a empresa.

A tão cobiçada cadeira vai parecer desconfortável no início. “Os executivos são formados irrevogavelmente por seus primeiros cargos de gestão”, apontou Linda Hill num artigo para a Harvard Business Review. “Décadas depois, eles se lembram daqueles primeiros meses como experiências transformadoras, que forjaram suas filosofias e estilos de liderança.”

Uma das maiores dificuldades é lidar com as expectativas. Os líderes superiores estarão de olho em você. Vão analisar quão rapidamente, e com quantos tropeços, o gestor novato se adapta à função. Do outro lado, sua nova equipe está aflita para ver que tipo de chefe você será – se vai ajudá-la ou infernizá-la. E mais: geralmente o time espera que o executivo já chegue com respostas para todas as questões – que você não terá, pois o momento de virar líder é marcado muito mais por dúvidas do que por certezas.

Os especialistas costumam falar num período de 90 dias para que a cadeira fique mais ajustada aos contornos do chefe de primeira viagem. “Esses três meses são importantes para o processo de aculturamento”, diz Cíntia Martins, pesquisadora e especialista em liderança e cultura corporativa. “É quando o profissional tem a oportunidade de se ver no novo contexto, entender os desafios da equipe, os pontos críticos, e começar a construir um plano de voo para sua liderança.”

As empresas mais maduras, de qualquer forma, costumam dar um período maior para avaliar se a promoção foi mesmo uma boa escolha. “Seus superiores só vão concluir se você está mesmo internalizando a nova identidade e trazendo resultados depois de seis meses.”

Melhor assim, dada a dimensão da mudança. No que diz respeito às habilidades, um colaborador individual precisa ter domínio técnico do seu trabalho e saber lidar com as ferramentas e processos da empresa. Isso é o que realmente conta. Já se ele for promovido a gestor, o domínio técnico dá lugar a uma lista muito maior de competências: saber delegar atividades, monitorar desempenhos, motivar o pessoal. A principal mudança, afinal, é parar de executar tarefas que você fazia muito bem (de outra forma não teria ganhado a promoção) e passar a gerir pessoas. E existe um paradoxo nessa transição: quanto melhor tiver sido o profissional em sua função técnica, maior a força invisível que o impede de tirar a mão da massa.

Até por isso, grande parte das empresas busca os novos chefes não entre os ases da parte técnica, mas entre aqueles que se comunicam melhor, demonstram empatia. Tenham, enfim, as habilidades comportamentais, as soft skills necessárias para ser o ponto de referência de uma equipe. E isso tem um outro lado: faz com que gente muito excepcional  na parte técnica se sinta frustrada por não conseguir uma chance na liderança.

POR QUE NÃO EU?

Foi o caso de Emerson Feliciano. Hoje ele é um executivo de mão cheia: gerente sênior de pesquisa e desenvolvimento da Solera, uma multinacional de tecnologias digitais para automóveis. Mas não se esquece dos desafios da primeira gestão, nem das dores de cabeça que teve na carreira por ter sido um exímio técnico antes.

Emerson era analista numa empresa do grupo segurador Mapfre, onde elaborava estudos na área de segurança viária. Era considerado um craque das planilhas mais rebuscadas, e responsável pelos melhores relatórios do seu setor. Ele acabou se destacando inclusive fora da empresa, quando desenvolveu um estudo sobre veículos blindados.

A pesquisa fez com que fosse chamado para dar palestras sobre o tema e para representar a Mapfre em congressos. Exatamente nessa época, o RH do grupo o convidou a participar de um programa de desenvolvimento de lideranças, do qual faziam parte outros colaboradores do seu mesmo nível hierárquico, analistas mais seniores e ainda executivos que já eram líderes em patamares diferentes na companhia. “Como eu vinha me destacando por causa do estudo de blindados, vi esse programa de desenvolvimento como uma oportunidade real de subir na carreira. Então, mergulhei de cabeça. Passava meus finais de semana estudando os temas do programa, me esforçava ao máximo, sabia todas as respostas. E os grupos em que eu estava sempre venciam nas dinâmicas do treinamento”, recorda.

Mas o resultado não foi o que ele esperava. Pelo contrário. “Naquele conjunto todo de profissionais, havia sete analistas, técnicos além de mim. Então, no final do treinamento, adivinha o que aconteceu… Desses oito que ainda não tinham posição de liderança, fui o único a não ganhar um cargo de gestão.” Emerson não achou justo. Ficou tão inconformado que, então prestes a completar 25 anos, foi reclamar na seguradora. “Aí tive um grande aprendizado: foi a primeira vez em que escutei a expressão soft skills na minha vida. Ouvi da coordenadora de Recursos Humanos que não é a performance técnica que faz alguém ser promovido, mas sim as habilidades comportamentais.”

E Emerson queria mais do que ser um técnico acima da média. Correu atrás de cursos fora da empresa ligados a soft skills e liderança. E então, dez meses depois, atingiu seu nirvana: foi promovido a coordenador de pesquisa e desenvolvimento na Mapfre. Sua primeira de muitas gestões.

Ele só não sabia que virar líder não é exatamente se tornar um líder de fato da noite para o dia.

“Meu primeiro desafio foi lidar com o ego. Porque você não quer perder aquele reconhecimento que tinha como técnico. E, já que está começando como gestor, não consegue fazer as entregas com a velocidade que costumava ter como analista. Cheguei a ter desentendimentos fortes com um colaborador porque eu rabiscava os trabalhos dele da primeira à última página. Queria tudo do meu jeito, como se fosse eu quem estivesse fazendo.”

Até que, por orientação de um diretor, Emerson Feliciano fez uma tentativa que, à época, ele achou temerosa: dar mais liberdade a seus liderados. E aí veio a (boa) surpresa. “Comecei a perceber que alguns executavam num caminho totalmente diferente do que eu faria e, mesmo assim, o cliente ficava satisfeito. Às vezes mais satisfeito do que com o meu jeito. Foi quando finalmente entendi que cada colaborador precisa ter sua individualidade respeitada. Um desafio enorme da primeira gestão é aprender a delegar. E delegar com convicção.”

POLIGLOTA

Compreendera individualidade de cada liderado foi uma luta também para o publicitário Felipe Masson. Seu primeiro cargo de gestor já veio numa agência grande, a AlmapBBDO, onde passou a chefiar uma estrutura voltada para produtos de inovação. O objetivo era encontrar fontes alternativas de receita, que não dependessem das campanhas de publicidade. Felipe, então, se viu diante de uma equipe pequena, mas de perfil multidisciplinar. Uma complexidade a mais para quem é chefe pela primeira vez.

“Eram só quatro pessoas abaixo de mim, mas, além de dois publicitários, havia um, analista de banco de dados e um estatístico, profissionais que estavam completamente fora do universo que eu conhecia.”  Isso lhe rendeu dificuldades de comunicação com, pelo menos, metade da equipe.

“Os publicitários eram extrovertidos, como eu, mas levei um tempo para perceber que um estatístico e um analista de dados tendem a ser mais introspectivos. Eles precisavam de solidão para trabalhar. Meu primeiro grande desafio como gestor foi aprender a me comunicar com essas pessoas. Isso exigiu uma adaptação do meu estilo de interagir e até um aprendizado técnico, para eu conseguir falar a língua deles e saber como demandar qualquer coisa.”

Esse aprendizado se mostrou primordial para a carreira toda de Felipe. Hoje ele é líder de líderes, chefia 15 profissionais como gestor sênior de experiência  do cliente na Azul Linhas Aéreas, e enfatiza a importância da boa comunicação a seus subordinados. “Quando você vira líder, precisa se empenhar para conhecer sua equipe. Deve entender exatamente como as pessoas gostam de ser tratadas, que tipo de conexão você pode ter com elas.”

A INTRUSA

Juliana Fujii também teve um início intenso. Precisou passar por sessões de coaching para aprender a dar feedback. E havia um agravamento em sua situação como primeira gestora: ela nunca tinha trabalhado antes na área em que estreou como líder.

Sempre atuando com crédito no Itaú, Juliana atendia pessoas jurídicas do setor de atacado antes de ganhar sua cadeira de chefe. De lá, foi promovida, mas para uma área bem diferente: tornou-se gerente de estruturação de crédito do private bank.

“Mudou o público com que eu lidava, os parceiros com quem eu interagia e, claro, as pessoas que eu comecei a liderar. Parecia uma mudança de banco. Eu estava chegando a uma equipe onde todo mundo já se conhecia, então a intrusa era eu. Tinha de conquistar as pessoas, mostrar que estava ali com um interesse genuíno de conhecê-las. E dar bons feedbacks é fundamental para transmitir confiança.”

Para isso, Juliana contou com as orientações de uma coach, que abriu seus olhos para a melhor maneira de ter essa conversa tão à flor da pele. “O feedback formal da empresa acontecia uma vez por ano. Um intervalo longo demais. Entendi, no coaching, que o processo precisava ser mais recorrente. E aprendi técnicas de elencar os pontos fortes, o que a pessoa precisa desenvolver. Entendi que o feedback não se baseia necessariamente no que a pessoa é de verdade, mas na minha impressão em relação a ela. Então é preciso descobrir onde esses dois pontos convergem.”

Contar com o apoio de um coach ou de mentores, de dentro ou fora da empresa, pode ser um caminho. “Ouvir a experiência de profissionais mais seniores, que já passaram por esse começo da estrada em que você está, agiliza a transição”, afirma a consultora de carreira Mariana Passos.

No exterior, é comum que profissionais em primeira gestão sejam acompanhados por um mentor assim que assumem o cargo. No Brasil, infelizmente, vale mais a regra do “se vira nos 30”.

CHEFE NA PANDEMIA

Juliana Fujii foi entrevistada para esta reportagem por videoconferência, de sua própria casa. Ela e sua equipe estão em home office desde março de 2020. Se o período de primeira gestão já não é um passeio de bicicleta com rodinhas, imagine trabalhando a distância…

Segundo Mariana Passos, os chefes de primeira viagem têm penado mais que o normal com a pandemia. “O líder mais experiente já conhece sua equipe, então tudo é menos difícil. Mas, entre os novos, perde-se o caminho natural de criar vínculos e consolidar a cultura da empresa nos liderados.”

Você sabe: não faltam gestores que tiveram de formar seus times entrevistando candidatos pela internet, sem nunca ter tido, até hoje, um encontro presencial. “O onboarding dos funcionários vira um desafio”, explica Mariana. “Porque a cultura organizacional caminha pelos corredores da empresa. Tudo o que o chefe de primeira viagem precisa fazer para se legitimar no início do novo cargo fica mais moroso se tem de ser via Zoom.”

NÃO É SÓ TRABALHO

Claro que dá para aprimorar uma gestão a distância. Talvez o melhor caminho seja fazer o máximo para emular o ambiente presencial. Isso significa manter conversas constantes e não falar só de assuntos da empresa nos encontros – trabalhar junto, afinal, não é apenas trabalhar junto. É atravessar um período da vida no qual sua companhia mais constante são os colegas. Se esse ambiente ficar pesado, a vida fica pesada – tanto para a equipe como para você.

Para construir um clima positivo, explore bem o terreno em que está pisando. Busque conhecer cada um de seus liderados, suas expectativas com a empresa – e suas frustrações também. Esteja sempre perto deles. É natural que sua nova posição o aproxime mais de outros gestores, mas não deixe para se conectar com sua equipe só quando precisar dela para cumprir uma meta.

Também não espere a empresa comunicar que você não tem sido um bom líder (seu primeiro feedback nessa linha pode ser o seu último). Cobre retornos periodicamente da sua diretoria para conhecer a impressão dos outros a respeito do seu desempenho como chefe.

E não menos importante: procure dar liberdade para que sua equipe também lhe dê feedback. (Ninguém disse que vai ser fácil). Afinal, é a vida dessas pessoas que você está melhorando ou tornando mais difícil. Como bem pontua a pesquisadora Cíntia Martins, “você é só um momento dentro da carreira delas, mas vai deixar uma marca profunda, que pode influenciar muito nos caminhos que elas vão seguir. Que tipo de imagem de liderança você quer deixar na memória desses profissionais?”

Em suma, seja o chefe que você gostaria de ter. É o grande passo para que, lá na frente, você se torne de fato o líder que gostaria de ser.

5 ERROS MAIS COMUNS

NÃO LARGAR O OSSO

Agarrar-se às antigas atividades como técnico adia sua evolução como líder. Desapega.

NÃO DELEGAR

Para garantir resultado, muito líder novo quer fazer o trabalho da equipe. Não tem como dar certo.

ACHAR QUE SABE TUDO

Querer que todos os trabalhos sejam feitos do seu jeito é um ótimo caminho para estressar e afastar o time.

FALAR MAL DA EMPRESA

Isso você fazia na happy hour com os colegas. Agora você representa a companhia.

AGIR (SÓ) COM O CORAÇÃO

A camaradagem dos velhos tempos não pode ser o guia da sua gestão de equipe. Reconheça quem merece.

7 DICAS PARA FACILITAR  A TRANSIÇÃO PARA LIDER

CONHEÇA SUA EQUIPE

É a primeira coisa a fazer. Apresente-se. Pergunte muito. Demonstre interesse genuíno nas expectativas e dissabores de seus liderados. Isso cria empatia.

RESPEITE A INDIVIDUALIDADE

As pessoas não são robôs. Depois que você conheceu cada indivíduo da equipe, busque se adaptar ao estilo e ritmo de cada um – desde que esse ritmo não atrapalhe o conjunto.

VIRE A CHAVE

Você pode ter sido o “funcionário do mês” todos os meses. Ótimo, mas isso não vai te ajudar agora. Deixe esse passado e foque na gestão da equipe.

TIRE A CAPA DE SUPERMAN

Sua equipe espera que você tenha todas as respostas e soluções, como se você acumulasse 20 anos de experiência em gestão. Mas você não tem – ainda. Diga a verdade.

SEJA PRESENTE

Mantenha-se próximo da equipe. Deixe as portas abertas. Dê apoio.; E vá almoçar com seus liderados. Se todo mundo tem um pouco de raiva do chefe, eles vão ter menos.

DÊ E PEÇA FEEDBACK

Diálogos francos e objetivos sobre desempenho e expectativas devem ser recorrentes. E peça para que a diretoria diga o que pensa da sua liderança. Será um aprendizado valioso.

BUSQUE UM MENTOR

A liderança não é um dom que você incorpora assim que vira chefe pela primeira vez. Ela é um caminho. E o aconselhamento de líderes mais experientes pode criar atalhos.

EU ACHO …

COMO PAREI DE FUMAR

Cada um tem uma força íntima, e alavancá-la depende de nós

Nas últimas décadas, todas as madrugadas acendia meu charuto. Durante umas duas horas contemplava o vazio, apreciando a fumaça. Se viajava, antes me certificava de que o hotel tinha varanda, terraço. Sempre comentava que fumar me ajudava a refletir sobre a vida. De fato, era viciado. Pirava sem charuto. Cheguei a comprar uns horrendos, em banca de revista, do fumo mais inferior, para não passar sem. Mas… a vida tem reviravoltas. Há meses um médico comentou que eu tinha risco de enfisema pulmonar. Raciocinei: “É só um risco e, afinal de contas, ele é gastro!”. E acendi um charuto. Detalhe: sempre os de bitola larga, para o prazer durar mais. Mas há duas semanas fui a Portugal. Aviões e aeroportos proíbem espirais de fumaça. Preparei-me psicologicamente, viajei a

noite inteira sem sentir falta. Eu realmente não andava bem de saúde, sempre cansado… Aquelas duas horas na madrugada às vezes eram cansativas. Ainda exausto da viagem, não fumei no dia seguinte. No terceiro, pensei: “Se suportei dois dias, mais um será fácil”. De um em um, não fumo há semanas.

Sei que estou apresentando uma versão açucarada. Como se fosse facílimo. Não é. Imagino inclusive que cigarros são mais difíceis de largar que charutos. Passei a infância com meu pai tentando largar os dois maços por dia. Só parou mesmo quando ficou muito doente. Vários amigos e amigas tentam parar, não conseguem. É um dia de sofrimento, depois acendem “só mais um…”.

Para mim, foi uma questão de determinação. É assim que tudo acontece na minha vida. Quando resolvo, voltar atrás seria uma espécie de derrota. Foi o que aconteceu com o charuto. Resolvi que não. Pronto, é não. Nem todo mundo é assim. Nunca tive talento para guru de autoajuda, não me transformarei em um agora. Mas garanto: cada um de nós tem uma força íntima. Alavancá-la é um processo que muda de pessoa para pessoa. A gente tem uma enorme capacidade de decisão, só às vezes não tem consciência disso. E não funciona para tudo. Há anos tento erguer as alavancas para gostar de malhar.

Meu sonho é perder a barriga. Está muito mais difícil que o charuto. Hoje mesmo me levantei cheio de energia. Vontade de cuidar do meu shape. Botei roupa leve e tênis. Quando fui para fora… estava chovendo! Adiei a decisão. (Tenho esteira em casa, mas nem olhei para ela.) A desculpa é que desejava caminhar ao ar livre. Preciso focar. Como agora, com o charuto.

Sinto falta? Obvio. .Mas ganhei duas horas no dia. Voltei a ler, tenho visto filmes. Esses dias assisti a um com o Anthony Hopkins de exorcista. Em certo momento, ele mesmo é possuído pelas feras infernais e passa boa parte do filme fazendo caretas, gritando e lançando olhares de horror. Garanto: o charuto seria mais agradável. Mas é a vida! Continuo em frente. Nem que seja pelo orgulho de dizer em alto e bom som: parei de fumar. Descobri: todo mundo admira quem se livra de um vício. Vale a pena. Não só pela saúde, mas pelos elogios, que fortalecem o ego.

*** WALCYR CARRASCO