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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

AS BRUXAS E AS FACES DO FEMINISMO

Na Europa do século 15 circulavam mitos sobre belas jovens solteiras que se reuniam nos campos para adorar o diabo – e até hoje essas crenças persistem. A autonomia e a sexualidade da mulher foram, por muito tempo, condenadas e relacionadas às práticas pagãs – associação carregada de fantasia e erotismo.

As bruxas e as faces do feminismo

“Por que as mulheres são as principais adeptas das superstições malignas?” “Seriam elas conduzidas pelo demônio ao pecado ou seriam, por sua própria vontade, as responsáveis por seduzir, fazer o mal e pecar?” Essas são duas das dezenas de questões levantadas pelos inquisidores Heinrich Kramer e Jacobus Sprenger no século 15, no livro Malleus maleficarum, uma espécie de manual prático sobre como reconhecer uma bruxa e se proteger contra ela. Organizado em perguntas e respostas, o documento escrito sob encomenda do papa Inocêncio VIII apontava como fortes suspeitas de praticar feitiçaria mulheres solteiras, sem filhos e com função de destaque em suas comunidades, como parteiras ou conhecedoras das faculdades medicinais das ervas.

Nesse mesmo período, as índias das Américas recém­ descobertas fascinavam e confundiam os europeus. Em uma xilogravura de 1509 que ilustra as narrativas do explorador italiano Américo Vespúcio, três mulheres tupinambás seduzem um branco enquanto outra prepara o golpe mortal em sua cabeça com um tacape – ação que tradicionalmente caberia a outro homem. Essa imagem é emblemática, pois elege a figura feminina como representante dos vícios do Novo Mundo e de valores que os cristãos europeus deveriam repudiar e combater. Não por acaso, após o descobrimento, nota-se um aumento das produções artísticas que retratam as feiticeiras europeias como adeptas de danças circulares, de rituais antropofágicos e do uso de caldeirões para fabricar poções destinadas a provocar doenças e abortos, o que indica contaminação com o estereótipo das tupinambás, descritas como protagonistas das cerimônias em que es­ quartejavam e cozinhavam o corpo do inimigo , usando suas vísceras na preparação do cauim, uma bebida ritual.

DESEJO REPRIMIDO

Dissimulação, luxúria, ambição e infidelidade são características atribuídas às bruxas europeias e às índias. Sua beleza é tratada como armadilha. Um imaginário temido que repercute o medo original de Eva e do pecado, a “costela torta” de Adão. Sua ambição e curiosidade estariam implícitas na conduta de suas descendentes. Em uma passagem do Malleus, os inquisidores alertam: “Os homens são capturados quando veem e ouvem as mulheres. Como diz São Bernardo, “seu rosto é um vento quente, a sua voz, um apito das serpentes”.

A razão do aparecimento da tipologia social das feiticeiras é, sem argumentação mais aprofundada, relacionada pelos autores do manual de caça às bruxas ao incontrolável desejo sexual feminino. Havia um forte componente erótico nas confissões. Na ata de uma das primeiras execuções de que se tem registro – a da francesa Angéle de la Barthe, em 1275 -, a acusada dizia haver conhecido o “pênis do diabo”, descrito como gigantesco (por vezes se dividia em dois órgãos), capaz de ejacular de uma só vez quantidade de esperma que excedia a de mil homens. Algumas afirmavam que o membro pendia do traseiro do demônio – imagem corriqueira nas obras que retratam rituais sabáticos, nas quais mulheres beijam o ânus de um ser metamorfoseado em homem e bode.

Os supostos relatos de experiências em êxtase das “bruxas” poderiam ser fruto de alucinações influenciadas por lendas sobre a busca do prazer e o desprezo das convenções sociais pelas praticantes de magia. Os depoimentos denotam não só fantasias femininas, mas também masculinas, especialmente em relação ao órgão sexual. Como ressalta o historiador David Friedman, autor de Uma mente própria A história cultural do pênis, “cinco séculos antes da caça às bruxas as mulheres eram consideradas insaciáveis; acreditava-se que eram capazes de tornar um homem impotente e até mesmo de fazer seu pênis desaparecer”. Essa noção se traduziu em práticas sociais curiosas no período – alguns homens exibiam por cima da calça falos feitos de tecidos de cores chamativas, moldados em forma de ereção. “A primeira peça na armadura de um guerreiro”, ironizou o escritor francês François Rabelais.

O imaginário da bruxaria evidencia a transmissão inconsciente de construções populares – como as histórias de mulheres que se reuniam para praticar orgias e oferecer crianças ao demônio nos campos (na verdade nunca comprovadas, mas circulavam em locais distintos da Europa) – e de mitos clássicos, como o da deusa pagã Diana, guerreira que não se submetia aos homens e montava altiva em seu cavalo, imagem que remete ao domínio da mulher na relação sexual, por cima do parceiro. A própria vassoura, aliás, é um símbolo fálico.

“São as bruxas culpadas ou vítimas do demônio?”, perguntam os autores do Malleus.

A questão retoma a ambígua relação entre Eva e a serpente, na qual a mulher de Adão, ao mesmo tempo que é seduzida, também induz o companheiro a pecar. As bruxas, igualmente, eram retratadas tanto como donzelas ludibriadas pelo diabo quanto como as próprias protagonistas do mal, responsáveis pela impotência masculina e pela infertilidade das outras mulheres. Ainda, a nudez das ameríndias remetia simultaneamente ao paraíso, um novo Éden, e ao inferno, terreno fértil para os ritos diabólicos.

A ligação com a víbora na passagem bíblica foi habilmente associada à perfídia, falha de caráter “mais frequente nas mulheres que nos homens”, como atesta o manual de caça às bruxas. Estas, por sua vez, são frequentemente representadas junto de animais peçonhentos ou de hábito noturno, como as corujas. O historiador italiano Cario Ginzburg atenta para a figura do sapo – em várias línguas de raiz germânica, essa palavra designa, além do anfíbio, cogumelos alucinógenos. O consumo de infusões que causavam alucinações chegou a ser cogitado por cientistas do século 16 como explicação para as descrições de voos, visões do demônio e reuniões sabáticas relatadas pelas acusadas de bruxaria. Essa hipótese é, no entanto, desconsiderada por Ginzburg. Para ele, “a chave dessa repetição codificada só pode ser cultural”.

CONSTRUÇÃO PSÍQUICA

A pergunta é inevitável: as bruxas existiram? Sim, se considerarmos que elas foram construção social de uma época na qual realidade e ficção se fundiram não apenas entre o povo, – mas entre as instituições. As perseguições contra qualquer manifestação feminina de diversidade resultaram em prisões, torturas e cerca de 100 mil mortes nas fogueiras da Inquisição medieval.

As bruxas personificavam os medos da sociedade, como pestes e infertilidade, e toda sorte de pecado. Temidas representações do feminismo, elas são produto de um “caldeirão cultural” que une poderosamente o exótico e o macabro, e de uma estrutura mental e discursiva que associou o protagonismo feminino às práticas consideradas diabólicas e mágicas.

As bruxas e as faces do feminismo.2

VÍTIMAS PERFEITAS DA INQUISIÇÃO

Em um documento de 1233, o papa Gregório IX admitiu a existência do sabá – uma festa noturna na qual homens e mulheres prestavam homenagem a divindades femininas pagãs, com sacrifícios de animais, uso de bebidas alcoólicas e orgias sexuais. Essas reuniões nunca foram comprovadas, mas possivelmente os boatos surgiram de histórias sobre costumes antigos, presentes em muitas culturas. As deusas representavam fertilidade, boas colheitas e equilíbrio da natureza. No entanto, a Europa vivia um período histórico e político delicado: havia a ameaça das invasões dos bárbaros, temidos tanto pela violência quanto pelas religiões que propagavam. Obviamente a Igreja enxergava essas crenças como ameaça à sua hegemonia, por isso decidiu combatê-las com violência.

A alta cúpula da Igreja, com apoio de várias monarquias europeias, criou uma instituição para tentar suprimir a heresia, a Inquisição, que adquiriu plena autonomia para decidir o que era suspeito e qual pena devia ser aplicada. Era preciso, antes de tudo, eleger um alvo para as perseguições – e a primeira edição do Malleus maleficarum não deixou a menor dúvida: “Mentirosa por natureza, ela o é em sua linguagem; excita com seus encantos. (…) Matam, efetivamente, porque esvaziam a bolsa, tiram a força, obrigam a perder a Deus”, destilaram os autores do manual sobre a figura feminina. Prevalecia o senso comum de que a mulher se sentia mais atraída pela bruxaria. Segundo o Malleus, por ser “mais crédula, menos experiente, mais maldosa e predisposta à vingança”.

Elas se tornaram vítimas perfeitas de uma sociedade tomada pelo medo da guerra e da fome – uma neurose coletiva que transformou juízes e cidadãos comuns em torturadores, fiéis seguidores das hoje absurdas instruções do Santo Ofício, que encontrou na credulidade do povo uma forte aliada para as repressões. Um dos critérios para reconhecer uma feiticeira, por exemplo, era amarrar pés e mãos da suspeita e atirá-la na água. Se fosse culpada, deveria flutuar; inocente, afundaria. A prova era repetida três vezes, de forma que a ré terminava se afogando. Se continuasse viva, era levada para a fogueira. Critério semelhante era aplicado às lágrimas derramadas durante rituais de tortura: se a vítima chorasse, era uma confissão, sinal da astúcia feminina, uma tentativa de comover os inquisidores. Caso contrário, significava que estava tomada por um endurecimento diabólico.

Dentre os sentenciados à fogueira, estima-se que mais de 80% eram do sexo feminino. Paradoxalmente às descrições do Malleus, que apontava as mulheres jovens e bonitas como principais emissárias do demônio, a maioria das executadas na forca ou na fogueira tinha mais de 60 anos.

Eram, em geral, viúvas, sem chances de se casar, ter filhos, ou seja, um peso para parentes ou vizinhos – que muitas vezes eram os autores das denúncias. Não raro, quando surgia uma suspeita de bruxaria em um vilarejo ou cidade, surgiam várias outras acusações no mesmo lugar. Quase sempre as suspeitas eram presas e a comunidade aguardava ansiosa pelo julgamento, descrito por historiadores como um grande evento.

 As bruxas e as faces do feminismo.3

HISTERIA: OS DEMÔNIOS REPENSADOS

Em 1676, na França, uma mulher de 46 anos foi queimada em praça pública, acusada de bruxaria. No entanto, ela se assemelhava muito pouco à imagem da feiticeira libertina que chegava aos sabás montada em um cabo de vassoura. Segundo os depoimentos de testemunhas, Marie d’Aubray, marquesa de Brinvilliers, apresentava contrações nervosas frequentes na face e, não raro, convulsões. Tinha um histórico de violência sexual e confessou que planejou envenenar o pai pois ele era contra seu relacionamento com um jovem oficial.

Condenada à fogueira, a marquesa de Brinvilliers, se fosse examinada dois séculos depois pelo médico Jean-Martin Charcot (1825-1893), no hospital francês La Salpêtriêre, teria seus sintomas exibidos em uma aula para médicos recém-formados, entre eles Sigmund Freud (1856-1939).

No século 19, os casos de bruxaria e possessões demoníacas migraram dos domínios da religião e da lei para o da medicina. As visões de Satanás e os sintomas físicos de uma atuação maligna passaram a ser, aos poucos, cogitados como alucinações e sintomas de patologias que mal começavam a ser identificadas, como epilepsia e histeria. Charcot, aliás, analisava registros de antigos processos de bruxaria em suas aulas sobre doenças do sistema nervoso, apontando sinais de possíveis distúrbios nas acusadas.

Freud se interessou especialmente pelos casos de histeria – um desafiador conjunto de sintomas, sem causa orgânica aparente, que envolvia desde alucinações até a paralisia de algumas partes do corpo, mais frequente em mulheres. Sob a influência de Charcot, o médico austríaco usou a hipnose para tentar descobrir vivências dolorosas do passado de suas pacientes, muitas vezes esquecidas, o que ele chamava de “trauma”. Segundo Freud, ao se lembrarem do evento, elas reviveriam as emoções que não puderam expressar de forma adequada no passado. Surgiam assim a noção de recalque e o tratamento centrado na fala, fundamentais na psicanálise. Diante de desejos intensos e repressões igualmente fortes, a organização psíquica da histérica elabora fantasias e se manifesta em somatizações. Uma “teatralização” que, segundo sugerem documentos históricos sobre os grandes julgamentos de feitiçaria, encontrou um público sedento pelo bizarro e o espetacular. E, nesse sentido, nada mais sedutor que a bruxaria.

“A histeria é uma forma específica de se relacionar com o outro. O sintoma explicitado no corpo pode ser considerado como instrumento a mais para tentar estabelecer vínculos”, define o psicólogo Fábio Riemenschneider, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor de Histeria, para além dos sonhos. Segundo o psicólogo, essa complexa engrenagem tem uma peça fundamental: o intenso – e recalcado – desejo pela figura parental do sexo oposto durante a infância, o que Freud definiu como “complexo de Édipo”. Esse conflito psíquico se manifesta principalmente na sexualidade. É uma queixa pela falta do objeto amado e desejado, que se reflete na criação de fantasias, nos atos (falhos ou não) e na busca por formas alternativas de satisfação da fantasia edípica. “Certamente, muitas das ‘bruxas’ foram queimadas por seus sintomas e não por seus supostos poderes mágicos”, diz Riemenschneider.

OUTROS OLHARES

COCA-COLA RENOVA O GÁS

A maior fabricante de bebidas do mundo investe em novas frentes de negócios para compensar a queda nas vendas de seu principal mercado.

Coca-cola renova o gás

A fórmula da Coca-Cola é um dos segredos mais bem guardados da indústria mundial. Desde 1892, poucas pessoas tiveram acesso à mistura de ingredientes que deu origem ao refrigerante mais vendido do planeta e que ajudou o centenário grupo americano a se tornar o maior fabricante mundial de bebidas. Com as mudanças no padrão de consumo e a busca crescente por saúde e bem-estar, o tradicional produto de rótulo vermelho e branco começa a perder espaço nos carrinhos de compras, assim como toda a categoria. O desempenho global da companhia reforça esse cenário. O seu faturamento caiu de US$ 48 bilhões, em 2012, para US$ 35,4 bilhões, no ano passado. Sob esse contexto, a Coca-Cola começa a investir na abertura de diferentes frentes de negócios, em busca de um novo gás para voltar a crescer e sustentar a sua operação.

O mercado brasileiro tem bons exemplos do que a empresa tem feito para diversificar o seu portfólio. Dois meses depois do lançamento local de uma versão que mistura o refrigerante com café expresso, a Coca-Cola investiu na entrada em um novo segmento, por meio da marca Del Valle: a categoria de água de coco. “Nossas bebidas não competem entre si e há potencial de evolução em muitos segmentos. Estamos nos renovando bastante”, diz Pedro Abondanza, gerente de marketing da Coca-Cola Brasil para a Del Valle. A expectativa inicial da companhia é alcançar 10 milhões de litros em vendas em um ano, o que representa quase 6% do volume total do que é consumido hoje pelos brasileiros. No país, o consumo da categoria cresceu 41% nos últimos cinco anos, segundo a consultoria Euromonitor. O mercado de refrigerantes enfrenta outra realidade: o consumo desse tipo de bebida caiu 20% no mesmo período no País. Essa queda está associada ao aumento de renda dos brasileiros, na avaliação da Concept, consultoria especializada em alimentos e bebidas. “Isso ampliou a possibilidade de compra de produtos mais saudáveis”, diz Adalberto Viviani, presidente da consultoria.

Para a Euromonitor, a retomada da economia brasileira pode impulsionar novamente o consumo de refrigerante nos próximos anos. Até 2022, a consultoria prevê crescimento de 1,2% no mercado brasileiro. Globalmente, a projeção é de um avanço de 5% no período. “Apesar de a categoria ser vista como vilã por conta do nível de açúcar, a Coca-Cola tem uma estratégia muito assertiva em momentos de crise, como diversificar embalagens e até mesmo o tamanho dos produtos”, afirma Angelica Salado, analista sênior de bebidas da Euromonitor

À parte dessas projeções, a empresa se movimenta para investir em novos mercados. E essa busca não se limita ao Brasil. Em 2016, a Coca-Cola entrou na categoria de sucos à base de soja na América Latina com a aquisição da Ades, que era da Unilever, por US$ 575 milhões. Já em agosto deste ano, a companhia desembolsou mais US$ 5,1 bilhões para comprar a rede de cafés Costa, que opera cerca de 4 mil cafeterias em 32 países e pertencia ao grupo britânico Whitbread. “A bebida quente é um dos poucos segmentos em que a Coca-Cola não possui uma marca global. Costa nos dá acesso a este mercado com uma forte plataforma de café”, afirmou, na época, James Quincey, presidente global da Coca-Cola. A sede de diversificação não foi saciada com a aquisição. Em uma ofensiva contra a concorrente PepsiCo, dona do Gatorade, a Coca-Cola comprou uma fatia minoritária na BodyArmor, uma startup americana de bebidas energéticas apoiada por atletas de peso, como Kobe Bryant, um dos maiores nomes da história do basquete americano.

Coca-cola renova o gás.2

Na toada de expansão em novos conceitos de bebida, outra iniciativa surpreendeu o mercado. No início deste mês, o site canadense BNN Bloomberg divulgou que a Coca-Cola tem interesse na indústria de bebidas com canabidiol (CBD) – ingrediente não-psicoativo da maconha – e que a gigante estaria em negociação com a produtora Aurora Cannabis Inc para desenvolver um novo rótulo. “Juntamente com muitos outros na indústria de bebidas, estamos acompanhando de perto o crescimento da CBD como ingrediente em bebidas funcionais de bem-estar em todo o mundo. O espaço está evoluindo rapidamente”, informou a companhia, em nota. Até agora, nenhuma decisão oficial foi tomada.

A tentativa de diversificar as atividades não é um caso isolado da Coca-Cola. Em agosto, a PepsiCo comprou a empresa israelense SodaStream, fabricante de máquinas caseiras que produzem bebidas gaseificadas saudáveis, por US$ 3,2 bilhões, e a americana Bare Foods, fabricante de lanches feitos com frutas e vegetais assados. À medida que as vendas dos negócios tradicionais continuem a cair, todos estarão de olho em ampliar o próprio nicho de atuação. “Com as novas apostas de mercado, vamos ver um dinamismo de produtos muito grande nos próximos anos”, afirma Salado, da Euromonitor. Com todas as novidades, fica a dúvida: será o suficiente para a Coca-Cola ganhar um novo gás?

Coca-cola renova o gás.3

 

 

 

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANÇA POSITIVA:

UM NOVO MODELO DE LIDERANÇA PARA ESSES NOVOS TEMPOS

Os conceitos de uma Liderança Positiva derivam do desenvolvimento da Psicologia Positiva e de uma vasta gama de análises e avaliações de pessoas em empresas.

Liderança Positiva - um novo modelo de liderança para esses novos tempos

O momento é de grandes mudanças. O que dava certo antes já não funciona mais. As empresas estão obrigadas a mudar. A necessidade de criar e oferecer novos produtos e serviços provoca mudanças e reorganizações que acabam demandando novas formas de trabalho, novos negócios, novas competências e, finalmente um novo modelo de liderança.

A mudança mais significativa está no conceito de liderança, provocada pelo surgimento deste novo capitalismo sem capital. Aos fatores clássicos de produção foi acrescentado um novo fator, o conhecimento, que criou as novas empresas e a nova sociedade que Peter Drucker chamou de “Sociedade do Conhecimento”. Nesta “Sociedade do Conhecimento”, a inovação, a informação e o conhecimento passam a ser mais tão ou mais importantes que o capital financeiro.

As novas grandes corporações, as famosas empresas do Vale do Silício foram constituídas com muito pouco ou quase nada de dinheiro. Nesta nova sociedade o “Trabalhador do Conhecimento” é, finalmente, dono dos meios de produção e do produto do seu trabalho. O trabalhador do conhecimento faz seus horários e controla sua produção, cuida do autodesenvolvimento, estabelece prioridades e não precisa estar subordinado a alguém que fiscalize seus horários e seu trabalho.

Isso tudo é radicalmente novo e muda completamente a forma de organizar e liderar pessoas. Não se consegue mais impor a antiga forma de gestão por presença, números, métricas, valores e prazos, através de estruturas hierárquicas, pré-definidas, departamentalizadas. Esta dificuldade acarreta uma inadequação dos sistemas clássicos de liderança, avaliação, recompensa e remuneração.

Esses novos tempos pedem uma nova organização das pessoas, e, portanto, novos líderes, novos profissionais. A nova estrutura organizacional precisa incorporar essa flexibilidade e especialização. A organização das pessoas mais adequada é a de uma orquestra sinfônica, na qual o líder se torna mais um maestro que lidera especialistas. Um líder que define e transmite sua visão, fixa metas, mobiliza e incentiva. Mandar, impor, nunca mais.

O desafio da nova Liderança é influenciar e mobilizar as pessoas, para que desenvolvam motivação para fazer o que “deve” ser feito. O desafio do novo líder é ajudar a criar o novo e mobilizar as pessoas para implantarem as mudanças. Pessoas flexíveis, adaptáveis, confiantes e otimistas vão superar outras, mais rígidas, medrosas e pessimistas, difíceis de mudar.

Para responder a essa demanda das organizações surge um novo conceito e modelo de liderança, a “Liderança Positiva”. Os conceitos de uma Liderança Positiva derivam do desenvolvimento da Psicologia Positiva e de uma vasta gama de análises e avaliações de pessoas em empresas que apresentaram resultados extraordinários. “Liderança Positiva” é um conjunto de práticas e de estratégias que podem ajudar aos líderes a fazer com que suas equipes possam alcançar resultados espetaculares e desempenho muito além do esperado.

A liderança positiva mostra que, para obter resultados excepcionais, os líderes devem aprender a criar um ambiente extremamente positivo no trabalho. Eles devem aproveitar os pontos fortes de cada um em vez de simplesmente concentrar-se sobre os pontos fracos. Líderes devem aprender a elogiar e promover emoções positivas como a compreensão, compaixão, otimismo, gratidão e o perdão. Devem desenvolver e incentivar as relações de apoio mútuo em todos os níveis, e fornecer aos liderados um senso profundo de significado e propósito do trabalho.

Exercer uma liderança positiva, ser um líder positivo, significa cultivar um clima positivo, desenvolver relacionamentos positivos, manter uma comunicação positiva e finalmente criar, em cada um dos liderados uma percepção de sentido e significado positivos de seu trabalho.

Pesquisas comprovam que a existência de Clima Positivo onde prevalecem emoções positivas conduz a otimização da atuação dos indivíduos e dos grupos e ao atingimento de desempenhos positivos acima do normal. Líderes afetam o clima organizacional pela forma como induzem, desenvolvem e demonstram emoções positivas. Induzir e fomentar emoções positivas (alegria, confiança, amor, apreciação, etc.) e reduzir emoções negativas (medo, raiva, ansiedade, etc) provoca um aumento significativo da capacidade cognitiva, da retenção de informações, da criatividade, e da produtividade, das pessoas.

Pessoas, em grupo com relacionamentos positivos, que dão e recebem apoio, compreensão, suporte, encorajamento e têm as suas necessidades psicológicas e emocionais atendidas reciprocamente, se sentem mais seguras e têm desempenho e produtividade aumentadas.

A busca de um sentido na vida é uma necessidade humana universal e a relação entre esse sentido e o significado do trabalho é fator fundamental. Os que consideram seu trabalho apenas como um emprego buscam ganhos financeiros e materiais e tem desempenhos apenas normais.

Por outro lado, os indivíduos que fazem o que gostam e para quem seu trabalho é a sua vocação, buscam recompensas muito além dos benefícios pessoais ou financeiros e possuem desempenho muito acima do normal. Cabe ao líder ajudar a cada um dos liderados a encontrar sua vocação e desenvolver um sentido e significado positivo de seu trabalho. O comportamento do líder é contagioso e tem um efeito exponencialmente multiplicador no grupo e na organização.

Para conseguir implantar os novos conceitos da Liderança Positiva tem-se que ir além da mudança de comportamentos e atitudes. Tem-se que desenvolver novas crenças e valores. Tem-se que ter a coragem de acreditar que se pode ir além do normal, confiar na capacidade e na boa vontade das pessoas, nas possibilidades do virtuosismo e da excelência acima do limite.

Liderança Positiva - um novo modelo de liderança para esses novos tempos.2

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 18: 1-12 – PARTE I

Alimento diário - Comendo a Bíblia

Cristo no jardim. A traição de Judas. A orelha de Malco é cortada. Cristo se entrega como prisioneiro

 

Agora era chegada a hora em que o Príncipe da nossa salvação, que se consagraria pelas aflições, iria envolver-se com o inimigo. Aqui temos sua entrada no confronto. O dia da recompensa está no seu coração, e o ano dos seus redimidos é chegado, e seu próprio braço traz a salvação, pois Ele não tem auxiliar. Viremo-nos para lá, e vejamos esta grande visão.

 

I – Nosso Senhor Jesus, como um herói corajoso, entra na batalha primeiro (vv. 1,2). Depois de ter proferido estas palavras, pregado o sermão, feito sua oração, concluindo, desta maneira, seu testemunho, Ele não desejou perder tempo, mas saiu imediatamente da casa, saiu da cidade, à luz do luar, pois a Páscoa era celebrada na lua cheia, “com seus discípulos” (os onze, pois Judas estava ocupado com outros assuntos), e dirigiu-se “para além do ribeiro de Cedrom”, que corre entre Jerusalém e o monte das Oliveiras, “onde havia um horto”, não de sua propriedade, mas de algum amigo, que lhe dava a liberdade de usá-lo. Observe:

1. Que nosso Senhor Jesus, “tendo dito isso”, iniciou seus sofrimentos, como em Mateus 26.1: “Quando Jesus concluiu todos esses discursos”. Aqui se sugere:

(1) Que nosso Senhor Jesus aceitava o trabalho que se apresentava diante dele. A função do sacerdote era a de ensinar, e orar, e oferecer sacrifício. Cristo, depois de ensinar e orar, dá sua alma como oferta pelo pecado. Cristo tinha dito tudo o que tinha a dizer como profeta, e agora Ele se dedica à realização do seu trabalho como sacerdote, para fazer da sua alma uma oferta pelo pecado. E quando tivesse concluído isto, Ele iniciaria sua função de rei.

(2) Que, tendo preparado, com seu sermão, os discípulos para esta hora de provação, e tendo preparado, com sua oração, a si mesmo para ela, Ele dirigiu-se corajosamente para encontrá-la. Depois de vestido com sua armadura, Ele entrou na arena, e não antes disto. Que aqueles que sofrem, em conformidade com a vontade de Deus, por uma boa causa, com uma boa consciência, e tendo uma boa vocação para isto, se consolem com o fato de que Cristo não envolverá nenhum dos seus em nenhum conflito, mas Ele irá primeiro fazer por eles aquilo que for necessário para prepará-los para isto. E se recebermos as instruções e os consolos de Cristo, e nos interessarmos pela sua intercessão, nós poderemos, com uma resolução inabalável, nos arriscar em meio às maiores dificuldades no caminho do dever.

2. Que Ele “saiu com os seus discípulos”. Judas sabia qual era a casa em que Ele estava na cidade, e Ele podia ter permanecido e ali encontrado seus sofrimentos, mas:

(1) Ele desejava agir como estava acostumado, e não desejava alterar seus métodos, fosse para encontrar a cruz, fosse para evitá-la, quando fosse chegada sua hora. Quando Ele estava em Jerusalém, era seu costume, depois de passar o dia no serviço público, retirar-se para o monte das Oliveiras. Ali era sua base, na periferia da cidade, pois eles não lhe davam lugar nos palácios, no coração da cidade. Sendo este seu costume, Ele não pode­ ria ser arrancado dos seus métodos, pela previsão dos seus sofrimentos, mas, como Daniel, fez exatamente “como também antes costumava fazer”, Daniel 6.10.

(2) Ele não estava disposto a favorecer o surgimento de um “alvoroço entre o povo”, como estavam seus inimigos, pois sua maneira de agir não consistia em contender ou clamar. Se Ele tivesse sido preso na cidade, e um tumulto tivesse nascido por causa disto, teria havido prejuízos e uma grande quantidade de sangue teria sido derramada, e por isto Ele se retirou. Observe que, quando nos encontramos envolvidos em problemas, nós devemos recear envolver outras pessoas conosco. Não é nenhuma desgraça para os seguidores de Cristo cair docilmente. Aqueles que desejam a honra dos homens, se valorizam e estão sempre determinados a vender suas vidas o mais caro que puderem. Mas aqueles que sabem que seu sangue é precioso para Cristo, e nenhuma gota dele deverá ser derramado, exceto com uma valiosa consideração, não precisam agir em tais termos.

(3) Ele desejava nos dar um exemplo no início da sua paixão, como fez no final dela, de afastamento do mundo. “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério”, Hebreus 13.13. Devemos deixar de lado, e deixar para trás, as multidões, e as preocupações, e os consolos das cidades, até mesmo das cidades santas, se desejarmos alegremente tomar nossa cruz, mantendo assim nossa comunhão com Deus.

3. Que Ele foi “para além do ribeiro de Cedrom”. Ele precisava cruzá-lo, para chegar ao monte das Oliveiras, mas o fato de que o evangelista chama a atenção para isto sugere que havia nele algo importante, e aponta para:

(1) A profecia de Davi a respeito do Messias (Salmos 110.7): “Pelo caminho, dessedentar-se-á no ribeiro”, o ribeiro do sofrimento no caminho para sua glória e nossa salvação, representado pelo ribeiro de Cedrom, o ribeiro escuro, assim chamado pela escuridão do vale pelo qual ele corria, ou pela cor da água, maculada pela sujeira da cidade. De tal ribeiro, Cristo bebeu, quando estava no caminho da nossa redenção, e por isto Ele “prosseguirá de cabeça erguida”, e nós poderemos fazer o mesmo.

(2) O padrão de Davi, como um tipo de Messias. Na sua fuga de Absalão, chama-se a atenção particularmente para o fato de que ele passou pelo ribeiro de Cedrom, e subiu “pela subida das Oliveiras”, chorando, e todo o povo que ia com ele chorando sem cessar, 2 Samuel 15.23,30. O Filho de Davi, sendo expulso pelos judeus rebeldes, que não desejavam que Ele reinasse sobre eles (e Judas, como Aitofel, participando do complô contra Ele), passou pelo rio em miséria e humilhação, acompanhado por um grupo de fiéis pranteadores. Os reis de Judá que temiam ao Senhor tinham queimado e destruído os ídolos que encontraram no ribeiro de Cedrom; Asa, 2 Crônicas 15.16; Ezequias, 2 Crônicas 30.14; Josias, 2 Reis 23.4,6. Neste ribeiro, foram lançadas as coisas abomináveis, a imundícia (2 Crônicas 29.16). Cristo, tendo-se feito agora pecado por nós, para que pudesse aboli-lo e removê-lo, iniciava sua paixão no mesmo ribeiro. O monte das Oliveiras, onde Cristo iniciou seus sofrimentos, fica a leste de Jerusalém. O monte Calvário, onde Ele os concluiu, a oeste. Com isto, Ele visava àqueles que viriam “do Oriente e do Ocidente”.

4. Que Ele entrou em um jardim. O fato de que os sofrimentos de Cristo tiveram início em um jardim é observado somente por este evangelista. No jardim do Éden, o pecado teve início. Ali foi proferida a maldição, ali foi prometido o Redentor, e por isto em um jardim aquela semente prometida entrou na arena com a antiga serpente. Cristo foi sepultado também em um jardim.

(1) Quando caminhamos nos nossos jardins, devemos aproveitar para meditar sobre os sofrimentos de Cristo em um jardim, aos quais nós devemos todo o prazer que temos nos nossos jardins, pois, por estes sofrimentos, a maldição sobre o solo, por causa do homem, foi removida.

(2) Quando estamos em meio às nossas posses e aos nossos deleites, devemos manter uma expectativa de problemas, pois nossos jardins de prazeres estão em um vale de lágrimas.

5.Que Ele tinha consigo seus discípulos:

(1) Porque Ele estava acostumado a levá-los consigo quando se retirava em oração.

(2) Eles deviam ser testemunhas dos seus sofrimentos, e da sua paciência ao suportá-los, para que pudessem, com mais segurança e afeto, pregá-los ao mundo (Lucas 24.48), e se prepararem, eles mesmos, para sofrer.

(3) Ele os levaria ao perigo, para mostrar-lhes sua fraqueza, apesar das promessas de fidelidade que eles tinham feito. Às vezes, Cristo traz seu povo a dificuldades, para que Ele possa se enaltecer com sua libertação.

6.Que Judas, o traidor, conhecia o lugar, sabia que era o lugar do retiro usual de Jesus, e, provavelmente, por alguma palavra que Cristo tivesse deixado escapar, sabia que Ele pretendia estar ali naquela noite, por falta de um lugar melhor. Um jardim solitário é um lugar adequado para meditação e oração, e a ocasião depois da Páscoa é uma ocasião apropriada para retirar-se para uma devoção particular, para que possamos orar sobre as impressões criadas e os votos renovados, e nos agarrarmos a eles. Aqui se menciona que Judas conhecia o lugar:

(1) Para agravar o pecado de Judas, pois ele trairia seu Mestre, apesar do íntimo relacionamento que tinha com Ele. Ou melhor, pois ele faria uso da sua familiaridade com Cristo, como dando-lhe uma oportunidade de traí-lo. Uma mente generosa teria repudiado fazer uma coisa tão vil. Desta maneira, a santa religião de Cristo tem sido ferida na casa de seus amigos como não tem sido ferida em nenhuma outra parte. Muitos apóstatas poderiam não ter sido tão profanos, se não tivessem sido professores. Poderiam não ter ridicularizado as Escrituras e as ordenanças, se não as tivessem conhecido.

(2) Para enaltecer o amor de Cristo, pois, embora Ele soubesse onde o traidor iria procurá-lo, para lá Ele foi, para ser encontrado por ele, agora que Ele sabia que sua hora já era chegada. Desta maneira, Ele se mostrou disposto a sofrer e a morrer por nós. O que Ele fez, não foi por coerção, mas por consentimento. Embora, como homem, Ele dissesse: “Passa de mim este cálice”, como Mediador, Ele disse: “Eis que venho”, venho com boa vontade. Era tarde da noite (podemos supor que fossem oito ou nove horas), quando Cristo saiu para ir ao jardim, pois realizar a vontade daquele que o tinha enviado não era somente sua comida e sua bebida, mas também seu descanso e seu sono. Quando os outros estavam indo para a cama, Ele estava indo à oração, e ao sofrimento.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

FACEBOOK, O NOVO ESPELHO DE “NARCISA”

As mulheres estão se tornando maioria nas redes interativas; a vaidade e a necessidade de afirmação da identidade podem explicar o interesse feminino por esse recurso tecnológico – afinal, do ponto de vista social e histórico elas passaram de consumidoras de imagens que lhes eram impostas a “autoras” virtuais.

Facenook - o novo espelho de narcisa.

As mulheres gastam mais do que o dobro do tempo dos homens no Facebook: três horas por dia, enquanto eles gastam uma hora, em média. Entrar na rede social é a primeira ação diária de muitas delas, antes mesmo de irem ao banheiro ou escovarem os dentes. Uma atividade cumprida como um ritual todos os dias e noites. Em um estudo, 21% admitiram que se levantam durante a noite para verificar se receberam mensagens. Dependência? Cerca de 40% delas já se declaram, sim, dependentes da rede. Elas são a maioria não só no Facebook (onde representam 57% dos usuários); também têm mais contas do que os homens em 84% dos 19 principais sites de relacionamentos.

Essas são algumas revelações da pesquisa feita pelas empresas Oxygen Media e Lightspeed Research, que analisou os hábitos on-line de 1.605 adultos ao longo de 2016. Mas cabe ainda perguntar: que motivos levam as mulheres a ficar tanto tempo na frente do computador? Vaidade? Necessidade de reconhecimento? Seria esse fenômeno uma nova forma de autoafirmação? Uma maneira de desenvolver sua individualidade aliada ao reconhecimento do outro? Será essa uma nova forma de buscar sociabilização?

Mais do que procurar uma resposta fácil, cabe, antes, compreender porque a autorrepresentação é mais importante para as mulheres que para os homens. Historicamente as representações femininas foram fabricadas por motivações sociais diversas: míticas, religiosas, políticas, patriarcais, estéticas, sexuais e econômicas. E, há mais de 20 séculos, essa fabricação esteve sob o poder masculino. As mulheres não produziam suas próprias imagens, eram retratadas.

Em obras de arte célebres vemos inúmeras Vênus adormecidas (como as de Giorgione, 1509; Ticiano, 1538; e Manet, 1863); Madonas castas (nas imagens religiosas das catedrais católicas como as pintadas por Giotto, no século 13, e Botticelli, no 15) ou mulheres burguesas no espaço doméstico cuidando da cozinha e da educação dos filhos (como as pintadas por Rapine Backer no século 19). Eram cenas “pedagógicas”, que ensinavam o valor da maternidade, da castidade, da beleza e da passividade. O pano de fundo dessas produções artísticas era uma tentativa masculina de “gerenciar” o imaginário feminino, transmitindo sugestões sobre a conduta social desejada até uma estética sexual e familiar. Como enfatiza a historiadora Anna Higonnet, “os arquétipos femininos eram muito mais do que o reflexo dos ideais de beleza; eles constituíam modelos de comportamento”. Sua capacidade de persuasão era ativada pelo contexto cultural. Um exemplo pontual, mas significativo, pode ilustrar essa hipótese. O nu é quase sinônimo do “nu feminino”. Do Império Romano, passando pelo Renascimento, pela era moderna e até os dias de hoje, o corpo da mulher reflete os ideais estéticos predominantes.

A historiadora francesa Michelle Perrot chegou a afirmar que “a mulher é, antes de tudo, uma imagem”. Aqui sua ênfase é irônica. Refere-se a uma forma de retratar que associava os cuidados com o corpo, os adornos, as vestimentas e a beleza em geral à atividade, ou melhor, à ociosidade tipicamente feminina”, enquanto os homens deveriam se ocupar de tarefas consideradas sérias: política, economia e trabalho.

Quando a era moderna pareceu, enfim, trazer a emancipação da mulher, a conquista revelou-se contraditória. Estar na moda, ser magra, bem-sucedida e boa mãe tornou-se uma exigência. Com a ajuda do photoshop, top models, estrelas de televisão e cantoras exibem nos meios de comunicação o êxito que conquistaram em todos os aspectos do sucesso -o que, na prática, nem sempre é verdade. Elas, em geral, são tão “irreais” quanto a Vênus grega. A verdade é que a mídia veicula uma série de estereótipos sobre como agir que se tornam um peso para a mulher. Não devemos nos esquecer de que quem assume o comando é o mercado interessado em vender roupas, revistas e produtos destinados ao público feminino – e não propriamente a mulher. Assim, mesmo no século 20, quando pareciam ganhar “autonomia”, elas passaram a ser atormentadas por padrões estabelecidos por outra base imaginária: a do consumo.

O que muda no século 21 para as mulheres que usam as redes sociais? Quanto à importância da imagem, nada. Ela continua a ter papel central para a identidade social feminina, confundindo­ se com ela. Por outro lado, vivemos, sim, uma revolução: pela primeira vez a mulher passa a se autorrepresentar, a produzir representações de si publicamente. Essa produção não está mais sob o domínio exclusivo dos homens, nem restrita a um grupo de mulheres como as artistas (atrizes, fotógrafas, cineastas, pintoras, escultoras etc.) ou as modelos. As mulheres comuns tornam-se protagonistas de sua vida. Chegam a dispensar a ajuda de outra pessoa para tirar a própria foto: estendem o braço e miram em sua própria direção. Algumas marcas de câmeras fotográficas desenvolveram até um visor frontal para que a pessoa possa ajustar o foco caso use o equipamento para se fotografar.

A mulher “hipermoderna” reivindica algo novo: o seu protagonismo público e sua “autenticidade”. O que se soma, agora, à revolução tecnológica da sociedade capitalista. Com acesso facilitado a câmeras digitais, a telefones móveis que dispõem desse equipamento e à rede, além da existência de uma plataforma que dá suporte ao armazenamento e oferece possibilidades ao usuário para compartilhar essas imagens pela internet, a mulher passa a se autofotografar nas mais diversas ocasiões, de situações corriqueiras a viagens. Nas palavras do filósofo Gilles Lipovetsky: “O retrato do indivíduo hipermoderno não é construído sob uma visão excepcional. Ele afirma um estilo de vida cada vez mais comum, ‘com a compulsão de comunicação e conexão’, mas também como marketing de si, cada um lutando para ganhar novos ‘amigos’ para destacar seu ‘perfil’ por meio de seus gostos, fotos e viagens. Uma espécie de auto estética, um espelho de Narciso na nova tela global”.

DITADURA DA ESPONTANEIDADE

Nesse novo ambiente o artificialismo e a mistificação da imagem passam a ser “out”. Deusas etéreas cedem espaço a mulheres que querem ser vistas como “reais”: escovam os dentes, fazem caretas para a câmera, dirigem seu carro e não se importam em ser fotografadas em momentos que antes estariam à margem da esfera pública. Tanto que 42% das usuárias do Facebook admitem a publicação de fotos em que estejam embriagadas, e 79% delas não veem problema em expor fotos em que apareçam beijando outra pessoa. A regra é: quanto mais caseiro, “mais natural”; melhor. O que não significa que essa imagem seja, efetivamente, “natural”, mas que há agora um “gerenciamento da espontaneidade”.

O imperativo da representação feminina nas redes sociais é: “seja espontâneo”. Uma norma paradoxal, assim como a afirmação “seja desobediente, é uma ordem”, escreve o sociólogo Régis Debray. Ele faz uma interessante leitura do que poderíamos chamar de “ditadura da espontaneidade”. Segundo o autor, abandonamos o culto da morte, vivido pelas sociedades tradicionais e religiosas, para vivermos o “culto da vida pela vida”- uma espécie de “divinização do que é vivo” que se apoia no eterno presente e não mais em uma crença no além.

Vemos emergir mulheres que cultuam o que veem no espelho e postam, “religiosamente”, novas imagens de seu cotidiano – sem que tal culto resulte em algum tipo de censura externa ou de autocensura moral. Em outro contexto, como durante o período em que a religião católica era dominante, esse “culto de si” e do corpo seria considerado um dos sete pecados capitais: a vaidade. Esse imaginário, aliás, é muito bem representado por um quadro do século 15, de Hieronymus Bosch, no qual o demônio segura um espelho para que uma jovem se penteie.

Hoje o novo espelho global não é marcado pela vigilância moral. Ao contrário, há um contínuo incentivo da cultura para que as mulheres “se valorizem”, busquem sua singularidade e não mais se baseiem em modelos inalcançáveis (como as top models e outras famosas). E para que percebam em si mesmas uma possibilidade legítima e singular de ser no mundo.

A própria familiaridade e aproximação da mulher com o universo da produção de autorrepresentações pode levá-la a questioná-las. As mulheres já estão, como escreve Lipovetsky em seu livro A tela global, “cultivadas” pela mídia. Educadas em sua gramática, sabem que o photoshop, a produção e a edição das imagens criam uma mulher irreal e passam a ver essas representações entre aspas, distanciando-se criticamente delas. Elas aprendem com recursos autoexplicativos a modelar sua iconografia, a alterá-la, brincar com ela ou melhorá-la (possibilidades, antes, restritas aos profissionais).

Mas a consagração do “culto de si” não significou um isolamento da mulher. Os álbuns publicados nas redes sociais conciliam, contra todas as expectativas, o individualismo e as trocas. Um se alimenta do outro. Há um ciclo: exponho minha individualidade, acompanho a do outro e ele a minha e, assim, somos incentivados a produzir e expor, cada vez mais, as nossas imagens. Trata-se do nascimento de uma “identidade coletiva”, em que a individualidade não elimina a interação, mas é seu motor. Nesse sentido, a identidade coletiva não é produto apenas de uma adesão grupal e sim uma forma de negociação de posições subjetivas – esse é o paradoxo identitário a ser considerado.

Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano, mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem é “próximo”, “real”. Há, na base desse fenômeno, uma democratização dos desejos de expressão individual na medida em que as mulheres buscam conquistar espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar à simples condição de consumidoras daquilo que outros produzem. Elas querem colocar seu rosto no mundo. Aparecer ou não na “tela global” passa a ser uma questão de existência. Por essa razão, ter visibilidade e oferecer sua identidade publicamente é conferir importância à própria existência. O que é, também, uma forma de poder. Nesse ponto a mídia – como campo de visibilidade – passa a ter papel central para entendermos a luta simbólica pelo reconhecimento.

No entanto, essa “democratização” da autorrepresentação feminina não deve ser tomada como sinônimo do fim da competição estética e ética entre as mulheres. Ao que tudo indica, o que presenciamos não é a instauração de uma igualdade, mas a ampliação do número de mulheres na disputa por visibilidade e poder. Amplia-se, assim, a arena para buscar um poder que não está dado de antemão, mas que deve ser conquistado e manejado pela apresentação e representação de suas singularidades, de suas diferenças. Um agir que se manifesta na criação, no controle e no poder simbólico de sua própria imagem no espaço público, que só se realiza com o reconhecimento do outro nas interações sociais, associativas, e na ampliação dos círculos de reconhecimento que estão dentro e fora do espaço de produção da imagem.

OUTROS OLHARES

A REDE SOCIAL DOS BICHOS

Em muitas espécies, amizades influenciam fortemente a vida dos individuas e do grupo. Vemos desde associações simples entre alguns peixes que formam um cardume para viajar juntos até configurações muito complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que ocorrem múltiplas relações de hierarquia e afeto.

A rede social dos bichos

Boa parte de nossa vida é influenciada por quem está em nossas redes sociais: dependemos de famílias estendidas, amigos de amigos de amigos, colegas de trabalho e suas conexões para obter informações sobretudo, de indicações de leitura a como votar e que carreiras seguir. Mas não estamos sozinhos nessa dependência: redes sociais afetam também as experiências diárias e, de fato, a sobrevivência de indivíduos em muitas espécies animais. Há décadas se sabe que chimpanzés e outros primatas têm complexas vidas sociais. Estudos mais recentes revelaram que atividades de aves, golfinhos e outras criaturas isoladas só fazem pleno sentido em seus contextos sociais. Essas descobertas poderiam afetar desde esforços para conservação a entendimento de nossas próprias redes sociais.

Investigações sobre animais, muitas vezes empregando técnicas desenvolvidas para conhecer melhor o comportamento grupal humano, podem retroalimentar estudos futuros feitos por nós e sobre nós. Etólogos, estudiosos do comportamento animal, precisaram de tempo e de novas maneiras de pensar para reconhecer a importância das redes sociais no reino animal.

Na década de 30, o pesquisador Konrad Lorenz, futuro ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, publicou seus famosos trabalhos em que descreveu como induzir em gansos o instintivo apego emocional de um recém-nascido aos primeiros cuidadores que encontra durante um período crítico no desenvolvimento. A ideia de que a maioria das criaturas são, basicamente, autômatos que se engajam em um comportamento instintivo, programado (ou seja, geneticamente controlado), logo se tornou dogma.

Pesquisadores perceberam rapidamente, porém, que fatores externos interagiam com a programação gênica subjacente. O inato (natureza, genes) mais o adquirido (ambiente) impulsionavam o comportamento animal. Embora essa afirmação possa parecer abrangente, ela na realidade não é muito útil, porque o inato mais o adquirido incluem praticamente toda influência que se possa imaginar.

SINAIS DE INTELIGÊNCIA

Por essa razão, pesquisadores passaram a avaliar como o aprendizado por tentativa e erro também moldava o comportamento. Junto com as observações de campo, esses estudos resultaram, forçosamente, no reconhecimento de que animais eram muito mais espertos e inteligentes do que imaginávamos: chimpanzés e corvos produzem e usam ferramentas; papagaios resolvem problemas usando lógica; elefantes desativam cercas elétricas com grandes pedras que deixam cair sobre elas. Enquanto estudavam esses sinais óbvios de inteligência, pesquisadores notaram também que alguns animais em grupos aprendiam comportamentos copiando seus companheiros mais próximos. E um membro do grupo em particular talvez notasse que estava sendo observado por outros que tentavam obter informações sobre ele.

É claro que, como físicos bem sabem, uma vez que você transpõe questões (de interação entre) entre dois corpos, as coisas podem ficar excessivamente complicadas. Por isso, as primeiras tentativas de estudar formas de interação entre indivíduos em um grupo social frequentemente envolviam dois ou três animais. Dezenas de estudos analisaram o modo como um animal imitava outro na escolha de um par, ou se concentraram em um membro do grupo espionando as habilidades de luta física de potencial concorrente, ou em um aproveitador que roubava alimento de componentes mais produtivos do grupo. Mas, quanto mais os etólogos estudavam esses comportamentos, mais eles percebiam que essas interações entre alguns poucos indivíduos eram apenas uma indicação do intrincado conjunto de relacionamentos entre todos os membros de um grupo.

O que era necessário para uma compreensão mais profunda e completa da vida social de animais era o reconhecimento de que muitos deles, assim como nós, humanos estão inseridos em complexas redes sociais relações que conectam cada indivíduo aos demais.

A aplicação moderna dessa abordagem passou a ser consistente há uns 15 anos, quando etólogos começaram a adotar livremente métodos consagrados por cientistas sociais para o estudo de redes sociais humanas; primeiro, em locais de trabalho ou bairros e, mais tarde, em comunidades virtuais como o Facebook e o Twitter.

Em animais, redes sociais vão desde simples associações que envolvem não apenas alguns  indivíduos, como um cardume descontraído de peixes que viajam juntos, a configurações muito  mais complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que indivíduos são inseridos em múltiplas relações sobrepostas (como redes de acasalamento, dominância ou higienização capazes de influenciar o grupo direta e indiretamente. Redes podem mudar com frequência: membros podem ir e vir, e os indivíduos podem mudar suas posições e conexões em resposta a doença, aquisição de conhecimentos e interações anteriores.

Tanto em sociedades animais simples como em complexas, interações da rede têm implicações importantes para sobrevivência e reprodução. A precisão de informações sobre alimentos, predadores e pares, assim como a velocidade com que essas informações são transmitidas em um grupo, dependem da estrutura de uma rede social. Está relacionada a escolhas para brincar, desavenças e solidariedade. Além disso, doenças e parasitas podem ser transmitidos de um indivíduo a outro sem contato direto ao repassarem o patógeno através de intermediários.

Como parte de suas avaliações gerais, pesquisadores identificam várias características de redes animais: os indivíduos-base (que têm muitas conexões e cujo afastamento/eliminação interrompe a rede social); os “nodos” (qualquer indivíduo incluído na rede); a densidade da rede (uma proporção entre o número de vínculos reais e o número de todos os elos possíveis); o grau (o número de vínculos entre cada indivíduo e todos os outros); o alcance (o número de amigos dos amigos de um indivíduo); e a centralidade (a porcentagem de todas as conexões entre indivíduos que incluem determinado animal). A maioria das pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, tem baixa centralidade à escala do país, mas quase todas sabem quem é o presidente e estão conectadas a ele por meio de suas autoridades locais; a centralidade dele chega perto de 100%.

A rede social dos bichos.2

PAPEL DE POLÍCIA

Para ter uma ideia de como redes sociais operam na natureza, e de que maneira podem ser o principal impulsionador de todos no grupo se comportam em última análise, vamos tratar das vidas não tão privadas de três espécies não humanas.

Macacos-rabo-de-porco (Macaca nemestrina), por exemplo, estabelecem múltiplas ligações, como as formadas por amigos de brincadeiras ou parceiros de higienização. Redes diferem em tamanho, e um macaco pode ter parceiros favoritos em diferentes redes. Um animal também pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra.

Mas as várias redes compartilham um aspecto comum: elas operam sob o olhar vigilante de algumas figuras de autoridade que mantêm a paz. Esses “policiais”, alguns dos machos da mais alta hierarquia do grupo, investem tempo e energia apartando brigas entre outros indivíduos de suas redes sociais. A cientista Jessica Flack, do Instituto Santa Fe, no Novo México, e seus colegas (inclusive o renomado primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia) estudaram o papel desses animais policialescos em um bando de 84 macacos no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, em Emory, do início a meados da década de 2000.

Geneticistas frequentemente decifram o papel de um único gene em uma célula ou um organismo ao desligá-lo e observar as consequências de sua ausência. A equipe de Flack adaptou essa abordagem de “neutralização” aos Macaca removendo três animais machos com função de policiamento. Em seguida, observaram e esperaram.

A ausência de um membro de baixo escalão do grupo praticamente não afetou as redes sociais. Mas, como era de esperar, a ausência de “policiais” resultou em um aumento de agressões e menos reconciliações após brigas na população. O que foi menos previsível é que, sem a presença dos “policiais”, as redes de colegas de brincadeiras e higienização também sofreram uma complexa reestruturação.

Sem os policiais, diminuiu o número de parceiros de brincadeiras e higienização dos integrantes do grupo. Ou seja, o “grau” de suas redes de diversão e higiene diminuiu. E o “alcance” dos animais remanescentes – número de amigos de amigos de dado indivíduo – também decresceu nessas redes. Ao mesmo tempo, a coesão de toda a sociedade enfraqueceu; a população passou por uma espécie de ” balcanização”, dividindo-se em grupos menores e mais homogêneos que raramente interagiam com estranhos. Essas observações levaram Flack e seus colegas a teorizar que a presença de animais “policiais” possibilitava uma rede mais saudável e densa, em que os membros tinham contatos mais amigáveis e mais frequentes com um número maior de seus companheiros.

Esse tipo de experimento de “neutralização”, sugerindo que alguns indivíduos em uma rede são especialmente valiosos para sua estrutura, mostra que a compreensão de redes sociais animais pode ser importante para a biologia conservacionista. Considere o caso de “baleias assassinas” (Orcinus orca), conhecidas como orcas. Fêmeas, tanto jovens individuais como agrupamentos de aparentadas, parecem ser polos importantes de transmissão de informações sobre oportunidades de forrageio e outros aspectos da vida no mar. Qualquer interferência humana que perturbe essas “centrais ” de informações isoladas ou em grupo, da caça à poluição oceânica, à construção de barreiras que as impeçam de nadar livremente em seu ambiente, pode interromper severamente a rede social das orcas e enfraquecer as perspectivas de sobrevivência do grupo inteiro. Essa compreensão poderia, no mínimo, servir para esclarecer a formulação de políticas, a fim de minimizar o impacto de nossas ações sobre essas criaturas maravilhosas.

A rede social dos bichos.3

PARCEIROS DE CANTO E DANÇA

As redes sociais de populações selvagens de aves em seus hábitats naturais também têm sido objetos de análise. Uma dessas espécies é o manakin-de-cauda-longa (Chixiphia linearis) da América Central. Os machos são extraordinariamente bonitos, diferenciados por suas penas de cor índigo, “capacetes” vermelhos e, como o nome indica, caudas longas e finas. Encontre o par certo de machos empoleirados em um galho, e um observador de pássaros pode testemunhar um comovente e encantador show de canto e dança. Manakins fêmeas também assistem a essas exibições e as avaliam quando escolhem companheiros. Para os machos, a chance de pode se apresentar é muito importante. Mas, infelizmente para eles, a competição pela oportunidade de participar de um desses duetos é altamente concorrida e muitas vezes bastante agressiva.

O pesquisador David McDonald da Universidade do Wyoming, observou essas aves na Costa Rica por mais de dez anos, totalizando 9.288 horas. Com técnicas de análise de redes sociais, ele descobriu que os machos com um alto grau de conectividade no início de sua vida conquistam o privilégio de se exibir nessa “noite de microfone ao vivo” aviária.

Como em qualquer competição de dança, tudo é bastante complicado, mas é algo mais ou menos assim: conjuntos de oito a 15 machos passam seu tempo em “zonas de poleiros”, áreas que contêm um ou vários galhos onde as aves se apresentarão. Qualquer macho em um agrupamento pode praticar seu canto e dança em um poleiro fora do período de reprodução (do final de fevereiro ao início de setembro) ou até durante a época de acasalamento, desde que não haja fêmeas por perto. Mas na época reprodutiva, quando elas estiverem presentes, só os dois machos mais destacados, denominados alfa e beta, podem cantar e dançar em poleiros. De fato, os artistas concorrentes formam uma equipe para enxotar agressivamente todos os outros machos da área.

O macho alfa conquista quase todas as oportunidades de acasalamento em uma zona de poleiro. A recompensa para o macho beta é a sucessão à cobiçada posição no topo quando o alfa reinante morre. Esse sistema cria um enorme benefício para o alfa e o beta, vantagem que todos os machos querem, mas poucos conseguem.

À medida que jovens machos amadurecem, entre um e seis anos, eles frequentemente transitam   entre zonas de poleiros, estabelecendo relações com muitos outros machos. A idade média de um macho reprodutor bem-sucedido é de 10 anos, o que significa que, à medida que amadurece, qualquer macho tem muitos outros companheiros em sua rede social. Em suas quase 10 mil horas de trabalho de campo, McDonald monitorou quais machos interagiam uns com os outros todos os anos durante mais de dez anos. Com seus dados, ele construiu um mapa de redes sociais para verificar se a estrutura da rede revelaria quais animais acabavam sendo “vencedores”, exibindo-se como bem-sucedidos cantores de dueto.

Suas análises de rede levaram em conta tanto os caminhos curtos, que conectavam um exemplar diretamente a outro, como caminhos indiretos, que podiam incluir interações entre aves a vários elos de distância do primeiro indivíduo. (“Não conheço Bert pessoalmente, mas conheço Caco, o Sapo, que conhece Ernie, que conhece Bert” – referência a personagens de Vila Sésamo.) Por fim, McDonald determinou que o segredo de tudo era a “centralidade”: machos “centrais” eram muito mais propensos que animais menos bem relacionados a ascender na hierarquia reprodutiva, ocasionalmente atingindo os status de alfa e beta que lhes permitiriam subir ao palco para conquistar os corações de fêmeas com seus cantos e danças.

Esse tipo de pesquisa identifica estruturas de rede e as associa a comportamentos observados. Nesse caso, uma conexão direta entre estrutura e comportamento é presumida, não provada. É possível que, em vez de conquistarem poder graças às suas muitas conexões, machos alfa e beta tivessem estabelecido muitas ligações por características que os tornavam populares entre seus pares.

Pelo fato de muitas ferramentas da teoria de redes terem sido importadas das ciências sociais, não é surpresa que alguns dos primeiros objetos de estudo de detalhadas análises de redes sociais não humanas tenham sido golfinhos-nariz-de-garrafa, já reconhecidos como animais inteligentes, de cérebro grande e altamente sociais.

No final da década de 90, o então pós-graduando David Lusseau se apaixonou pelos golfinhos-roaz (Tursiops truncatus) do estreito Doubtful, um magnífico fiorde no sul da Nova Zelândia, a mais de 320 km a oeste da Universidade de Otago, onde fazia sua dissertação de doutorado. Hoje na Universidade de Aberdeen, na Escócia, Lusseau monitorou os belos animais por sete anos. Uma de suas ferramentas foi a fotografia, que o ajudou a sistematizar marcas naturais de todos os 64 golfinhos no estreito Doubtful e monitorá-los.

Depois de ter observado mais de mil grupos de vários tamanhos, que incluíam subconjuntos desses 64 animais, Lusseau verificou que os golfinhos eram parte de uma grande rede social que vinculava quase todos eles. Além disso, constatou que golfinhos individuais preferiam a companhia de apenas alguns membros específicos do grupo. Mas ele não conseguiu identificar a razão disso. O que a conectividade em rede de golfinhos alcançava e que tipo de informações ou benefícios eram compartilhados entre seus associados.

Para investigar essas questões mais a fundo, Lusseau se uniu a Paulo C. Simões-Lopes, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles estudaram uma população de 55 golfinhos ­ nariz – de – garrafa que se engajava em um comportamento singular que Simões-Lopes identificara alguns anos antes: uma interação mutuamente benéfica com os pescadores artesanais catarinenses.

A cada primavera, de abril a junho, pescadores na região brasileira de Laguna usam uma técnica introduzida na área por colonos portugueses dos Açores há mais de 00 ano s. Eles lançam longas redes na água para pegar cardumes de tainhas (Mugi/plataus) que migram das águas mais frias ao lar o da Argentina. Nos últimos anos, esses pescadores têm recebido ajuda: alguns, mas só alguns, dos golfinhos-nariz-de-garrafa nas lagunas de fato arrebanham os cardumes de tainhas “tocando-os” na direção dos pescadores. No momento exato, os golfinhos batem a cabeça ou a cauda na superfície da água. Essas batidas sinalizam aos seus parceiros humanos quando e onde lançar suas redes. O resultado dessa notável interação é que as duas espécies de mamíferos pegam mais peixes do que fariam sem essa colaboração.

A experiência anterior de Lusseau levou-o a considerar a análise de redes sociais como um meio de examinar os detalhes desse comportamento incrível. De setembro de 2007 a setembro de 2009, Lusseau, Simões-Lopes e alguns colegas saíram de barco pelo sistema lagunar, com fotografias de golfinhos, e reuniram dados sobre animais que estavam nadando juntos. A equipe conseguiu coletar informações confiáveis sobre 35 dos 55 golfinhos nessa população. Mesmo incompletos, os dados deixaram claro que esses mamíferos tinham estabelecido uma rede social altamente estruturada.

A análise estatística concluiu que os golfinhos de Laguna podiam ser subdivididos em três grupos nos quais os indivíduos passavam a maior parte do tempo. Embora todos tivessem algumas interações tênues, eles tendiam a nadar juntos e interagir mais com os outros da própria “turma”.  Associações tão estreitas como essas poderiam facilitar a transmissão de informações entre membros. O grupo 1 tinha 15 golfinhos, e todos cooperavam com os pescadores locais. Todos os integrantes dessa “turma” altamente interconectada se relacionavam com frequência na temporada outonal de pesca de tainha e no resto do ano. O fluxo de informação era fácil. Não foi surpresa, portanto, o grupo 1 se beneficiar de sua relação com os pescadores enquanto os outros dois perdiam essa oportunidade.

Os grupos 2 e 3 diferiam acentuadamente do primeiro. Nenhum dos 12 golfinhos da turma 2 colaborava com os pescadores. E, embora todos desse grupo estivessem juntos tanto durante como fora da temporada de pesca, suas relações sociais eram mais fracas que as observadas entre animais do grupo l. Dos oito golfinhos da turma 3, sete não cooperaram com os pescadores; mas um, apelidado “20”, colaborou. E de todos os golfinhos na população da região de Laguna, ele foi o que passou mais tempo interagindo com os integrantes de todos os grupos. Parece que o golfinho 20 agia como elo entre seu grupo e o grupo colaborador l. Determinar a influência de intermediários desse tipo em redes altamente complexas pode ser promissor para futuros estudos. De qualquer modo, os resultados atuais indicam que uma rede coesa, como no caso do grupo 1, pode ajudar animais a superar desafios que não conseguem resolver sozinhos; nesse caso, encontrar uma forma de se comunicar com eficiência com membros de outra espécie: pescadores humanos.

Os pesquisadores ainda não sabem se alguns indivíduos-chave, ou dominantes, do grupo l, talvez mais velhos e experientes, ensinam outros membros a cooperar com os pescadores. Mas, em vista do fato de que ensinar é algo já constatado para outros comportamentos alimentares complexos de golfinhos, não seria surpreendente encontrar uma instrução similar sendo repassada aqui. De fato, tradições socialmente aprendidas como essa formam a base da cultura animal e são fortemente facilitadas por redes sociais.

Atitudes em relação a animais evoluíram muito desde a concepção inicial de vê-los apenas como seres irracionais que executam programas genéticos. Etólogos agora sabem que muitos animais são bem mais espertos, têm comportamentos flexíveis e mais aptos a aprender que os pioneiros desse campo jamais poderiam ter sonhado. Prevemos que mais pesquisas sobre redes sociais e maior divulgação desses estudos mudarão de forma mais acentuada o modo como pensamos sobre animais. Ao contrário de autômatos pré-programados, muitas criaturas não humanas passam sua vida, como nós, inseridas num complexo meio social – redes em que interações diretas e indiretas com outros indivíduos determinam grande parte do que realmente é importante para a sobrevivência e o sucesso.

A rede social dos bichos.4

UNIDOS PARA PESCAR

Alguns membros de uma comunidade de golfinhos na região de Laguna, no Sul do Brasil, desenvolveram uma aliança única com pescadores artesanais locais, unindo-se nos esforços para capturar tainhas. Os golfinhos formaram três “equipes”. Todos os membros do grupo l (verde) colaboraram (indicado por círculos) com os pescadores e eram altamente interativos (linhas unindo os animais individuais) entre si. Integrantes da equipe 2 (violeta) interagiram menos uns com os outros que os animais do grupo l e não tiveram contato com pescadores (indicado por quadrados). Golfinhos o terceiro grupo (laranja) também não demonstraram interesse nos pescadores, com a notável exceção de um animal, conhecido como golfinho “20” (círculo laranja). Esse animal ajudou os humanos e agiu como intermediário entre sua equipe e o grupo cooperativo, e talvez ainda ensine o bando 3 a trabalhar com humanos. É sabido que a colaboração entre golfinhos e pescadores aumenta a disponibilidade de alimentos para os animais e o volume de captura dos humanos.

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GESTÃO E CARREIRA

CAUTELA E ANÁLISE CRITERIOSA

Os desafios para escolher um líder de sucesso na empresa.

Cautela e análise criteriosa

Liderar uma equipe é uma grande responsabilidade que impacta diretamente o sucesso da organização. Portanto, a escolha desse líder deve ser uma decisão tomada com cautela, paciência e análise baseada em critérios apropriados de seleção e em uma reflexão aprofundada sobre o futuro da empresa. Separei alguns itens importantes a se lembrar para escolher um líder que pode ser bem-sucedido:

1 – NÃO TER PRESSA PARA INDICAR:

Um erro muito comum é deixar para avaliar o perfil de possíveis lideranças somente na hora de substituí­ las quando outras saem da empresa. Quando os responsáveis por essa seleção precisam fazer essa escolha, fica complicado baseá-la nos critérios apropriados, uma vez que eles exigem um tempo de análise e reflexo aprofundada sobre o cenário atual da empresa e seus caminhos futuros.

2 – EVITAR A “JUNIORIZAÇÃO” DAS LIDERANÇAS.

É preciso ter cuidado ao indicar profissionais que nunca tiveram experiências em cargos dessa natureza, principalmente se o cenário futuro da empresa indicar desafios como o de crescimento ou expansão. O que se espera de um líder é vencer as adversidades com resiliência, otimismo e perseverança, motivando ele mesmo e a sua equipe. Não estou dizendo aqui que jovens não possam assumir essas funções, mas que, independentemente da idade, devem ser preparados para tal. Isso exige treinamentos constantes para prepara-los para o gerenciamento de pessoas e das crises que porventura enfrentarão.

3 – FIQUE ATENTO ÀS COMPETÊNCIAS DO NOVO LIDER:

Capacidade de liderança tem a ver com capacidade emocional de lidar com situações adversas e, claro, com pessoas. Um líder constrói uma imagem baseada na capacidade de comunicação, postura e no exemplo. Por isso, ele deve inspirar a equipe, formar novos líderes, delegar funções e oferecer feedbacks constantes. Assim colherá resultados cada vez mais positivos em curto, médio e longo prazo. Indicar profissionais baseando-se somente no seu conhecimento técnico pode ser um tiro no pé. Isso porque, quando eles assumem um cargo de liderança, quase sempre focam sua atenção em aprimorar seus conhecimentos na área em que atuam e podem se esquecer dos pontos citados anteriormente.

4 – AVALIAR A CULTURA ORGANIZACIONAL E OS PRINCÍPIOS DA LIDERANÇA:

O líder deve estar completamente alinhado aos valores e à cultura organizacional. Ele, impreterivelmente, deve assumir os propósitos da organização, além de ter uma capacidade apurada de aprendizagem e adaptação, isso sem falar nos quesitos perseverança e resiliência.

5 – ESCOLHER POR COMPETÊNCIAS SIGNIFICATIVAS PARA O CARGO:

A escolha do novo líder se relaciona com a capacidade de formação, motivação e inspiração de times, por um método que deve levar em conta a capacidade do profissional em analisar e tomar decisões, com foco na construção de confiança e busca por resultados consistentes.

E você, se considera preparado para escolher um líder de sucesso para a sua empresa?