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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

OUTROS OLHARES

FACADA É PRINCIPAL CAUSA DE MORTE DE LGBT+

Levantamento mostra que, com retorno da vida presencial em 2021, assassinatos no grupo voltaram a crescer

O ativista LGBTQIA+ Lindolfo Kosmaski recebeu dois tiros e teve o corpo carbonizado dentro do próprio carro, em maio de 2021. Roberto Silva, mulher trans que vivia em situação de rua, teve 40% do corpo queimado por um adolescente em junho; Já Leila Débora Barbosa, uma mulher lésbica, foi levada para o mato, estuprada e assassinada com 16 tiros, seu corpo foi encontrado enterrada com a cabeça exposta em março.

As tragédias descritas acima são algumas das 316 mortes violentas contra a população LGBTQIA+, que aconteceram no ano de 2021 e foram registradas em um levantamento realizado pelo Observatório de Mortes e Violências contra LGBT no Brasil, divulgado nesta primeira quinzena de maio.

Após uma queda em 2020, a taxa de mortes violentas da população LGBTQIA+ voltou a crescer em 2021 – foram 237 há dois anos, contra 316 no ano passado. A principal causa de morte foi esfaqueamento, responsável por 28,8% dos óbitos – em segundo lugar estão armas de fogo (26,27%) e espancamento (6,33%),

Em números absolutos, o estado de São Paulo é o que mais mata, com 42 assassinatos – só na capital foram 13. Quando o relatório analisa o número de mortes por milhão de habitantes, o estado que lidera o ranking é Alagoas (4,75 por milhão) e São Paulo vai para 0,90 mortes por milhão.

Um dos coordenadores do estudo, Alexandre Bogas diz que, em 2020, quando começou a crise sanitária, eventos foram cancelados e assim muitas pessoas não puderam se expor com saídas à noite ou a boates. “Isso deixava elas mais afastadas do perigo, mas, claro, nunca é a vítima a culpada”, afirma.

“O mais intrigante é que os assassinos não simplesmente matam. Tem requintes de maldade, pedrada, eles expressam o sentimento do ódio, de um preconceito enraizado”, analisa ele. Gays lideram o ranking e representam 45,9% das mortes violentas, valor semelhante ao de travestis e mulheres transexuais (44,62%).

O número está de acordo com um relatório da TGEU (Transgender Europe), que monitora dados levantados por instituições trans e LGBTQIA+, e mostrou que, entre outubro de 2020 e setembro de 2021, o Brasil estava na liderança das mortes de pessoas trans, com 125 óbitos.

Já a Antra levantou 175 casos de assassinatos de pessoas trans no Brasil em 2020 – uma alta de 41% em relação ao ano anterior.

O levantamento mostra ainda que 30,38% das vítimas tem entre 20 e 29 anos e que quase a metade das mortes (48,1%) aconteceram no período noturno, o que equivale a 152 casos.

“Isso demanda maior atenção do poder público na garantia da segurança desse grupo em situação de vulnerabilidade”, diz o relatório. Sobre esta questão, Bogas afirma ainda que é necessário que políticas educativas sejam implementadas para evitar esse tipo de ocorrência.

A principal ocupação das pessoas LGBTQA+ que foram vítimas de violência é a prostituição. Esta é a ocupação da qual os travestis e transexuais são em sua grande maioria, aponta Bogas.

Em segundo lugar, aparecem os professores. “Se conseguimos discutir questões de gêneros, direitos reais e reprodutivos, com grandes liberdades nas escolas isso se naturalizaria e as pessoas entenderiam que não devem fazer isso”, argumenta ele.

O estudo também buscou mapear a tipificação dessas mortes violentas e apontou que a maioria delas é classificada como homicídio (82,91%). Na sequência, aparece o suicídio (8,23%), o que o relatório aponta como um reflexo dos danos causados pela discriminação contra a comunidade LGHTQIA+. “[Isso] impacta significativamente a saúde mental das pessoas, podendo levar ao intenso sofrimento ou mesmo à retirada da própria vida por pessoas em situação de vulnerabilidade”, diz o texto.

Bogas alerta ainda que é importante que levantamentos como este continuem sendo realizados, pois existe uma subnotificação das mortes violentas que atingem esse grupo. “Os governos não têm esse olhar”, afirma.

De acordo com o último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2021, o apagão de dados sobre violência contra LGBTQIA+ atingiu ao menos sete estados.

O ativista afirma ainda que o ano de 2022 tende a ser ainda pior. Isso porque, de acordo com os dados colhidos até abril, já foram registrados cerca de 100 mortes violentas no Brasil. “Normalmente, trabalhamos com 15 a 20 portes por mês e já estamos vendo que está muito maior”, calcula ele.

GESTÃO E CARREIRA

COMO O ACESSO AO ABORTO MOLDOU A FORÇA DE TRABALHO

Julgamento de 1973 estabeleceu o direito legal ao aborto nos EUA; lei que dá acesso ao procedimento está em xeque

Quando Barbara Schwartz lembra de quando era jovem e trabalhava como assistente de palco na Broadway, o alvoroço da experiência vem à mente: dançarinos estressados vestindo figurinos nos bastidores. Segundo Barbara, ela foi capaz de se jogar nessa carreira por causa de uma escolha feita em 1976: fez um aborto em uma clínica que encontrou na lista telefônica. Isso aconteceu três anos após a decisão do caso Roe versus Vade estabelecer o direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos.

Para Barbara, o mundo parecia cheio de novas oportunidades profissionais para as mulheres. Ela conseguiu um cartão de crédito com seu próprio nome, tornou-se uma das primeiras mulheres a entrar no sindicato local de contrarregras e se juntou àquele bando de gente de espetáculos.

Barbara, de 69 anos, agora está aposentada e usa seu tempo livre para acompanhar mulheres até as portas de uma clínica de aborto na fronteira entre a Virgínia e o Tennessee. Ela decidiu se tornar voluntária porque, em sua opinião, a promessa de seus 20 anos está perdendo força – consequência de leis que reduziram o acesso ao aborto, com um projeto de lei vazado da Suprema Corte revelando que o veredicto do caso Roe provavelmente será anulado. “Esta é a minha maneira de retribuir”.

É assim que Ginny Jeltis, de 67 anos, pensa também. Ela estava no último ano do ensino médio quando foi decidido o caso Roe, e começou a atuar como acompanhante na clínica após se aposentar como professora de história, em 2016.

Para mulheres como Ginny, que entraram na vida adulta no início dos anos 1970, o mundo do trabalho estava mudando rapidamente. A participação das mulheres na força de trabalho passou de cerca de 43%, em 1970, para 57,4% em 2019. Muitos fatores levaram as mulheres a entrar em maior número no mercado nas últimas décadas: novas tecnologias criaram novas funções administrativas, muitas exercidas por mulheres; o estigma associado às mulheres casadas no trabalho diminuiu. Mas sociólogos defendem que o aborto legal foi decisivo.

“Não há dúvida de que o aborto legal possibilita que mulheres de todas as classes e raças tenham algum controle sobre suas vidas econômicas e a capacidade de trabalhar fora de casa”, disse Rosalind Petchesky, professora aposentada cuja pesquisa foi citada em decisão da Suprema Corte de 1992, que reafirmou o veredicto do caso Roe.

APOSENTADORIA

As mulheres que iniciaram a vida profissional logo após o caso Roe estão atingindo a idade de aposentadoria. Algumas delas, como Carolyn McLarty, veterinária aposentada, estão mais empenhadas do que nunca em sua defesa contra o aborto. Outras, como Barbara, olham para trás e sentem que suas carreiras estão em dívida com a decisão de 1973. Por isso, elas usam o tempo livre para serem acompanhantes em clínicas de aborto. Essa experiência demonstra o que o caso Roe significou para mulheres que lutaram pelo acesso ao aborto, e cuja vida profissional foi influenciada pelas oportunidades que o veredicto lhes proporcionou. “Eu simplesmente não posso acreditar que as mulheres jovens não serão capazes de ter acesso ao que tivemos”, disse Debra Knox Deiermann, de 67 anos, acompanhante em uma clínica na área de Sr. Louis.

Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew de 2021 descobriu que 59% dos americanos disseram acreditar que o aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos, e 39% disseram que deveria ser ilegal em todos ou na maioria.

Hoje, a revogação do veredicto do caso Roe significaria que as mulheres nos Estados Unidos enfrentariam um emaranhado de leis estaduais sobre o acesso ao aborto, com 13 estados prontos para proibir a prática imediatamente.

EU ACHO …

AVALANCHE DE EXISTÊNCIA

Ninguém nasce para uma vidinha besta. Sonhamos em ter pensamentos que nos façam crescer, conversas que nos inspirem a evoluir. Em ser abertos às novidades, em escutar os outros com interesse verdadeiro. Gostaríamos de acessar os sentimentos secretos de desconhecidos, não para fazer julgamento moral, mas para identificar nossas próprias loucuras. Saber de onde viemos e por que as coisas são como são, a fim de mudar o mundo.

Redes sociais nos distraem e, dependendo de quem seguimos, nos informam, mas é pela leitura que começa a revolução de nos transformarmos em alguém que valha a pena.

Aí surge o intrigado: mas ler não seria o contrário de socializar? Um isolamento improdutivo, enquanto a correnteza da vida passa lá fora, por trás da janela? Leio de cinco a sete livros por mês e acho graça de quem se compadece da minha sina: “coitada, não vive”.

Como toda cidadã mundana, vivo regularmente. Trabalho, namoro, viajo, frequento bares, faço exercícios e gasto um bom tempo xeretando no celular, mas ao menos por 30 minutos diários eu grudo em algum livro, e em vez de perder a correnteza que passa por trás da janela, derrubo a parede e inundo a casa toda, meu universo inteiro. Fico encharcada de existência

Aos 11 anos, perdi pai e mãe num acidente de avião. Depois de me aposentar, fundei uma companhia de dança. Sou negra, criada pela minha avó. Tantos anos de batina e nunca havia escutado a confissão de um assassinato. Fui adotado por uma dona de bordel. Passei quatro anos sonhando todas as noites com Leila Diniz, minha ex-mulher. Morei dois anos na Índia e voltei reconciliado com a solidão.

Chego todo dia exausto do trabalho e meu vizinho faz tanto barulho que um dia ainda vou matá-lo. Atravessei sozinha os Estados Unidos de carona. Ninguém foi tão pirada quanto minha mãe, nem tão poética. Estou ficando cega. Até os 19, eu nunca tinha comido um bife. Morei três meses dentro de um aeroporto. Fui estuprada uma manhã, ao sair de casa para correr. Ganhei o Nobel da Paz depois de ficar 27 anos preso. Minha cidade começou a ser bombardeada no instante em que minha família se sentou para jantar. Estávamos em lua de mel quando meu marido revelou que era bissexual. Meu filho mais velho é trans. Fiquei milionário fazendo jingles para um fascista. Me apaixonei por uma mulher casada.

Cada um de nós tem sua própria história, bonita e sofrida, mas insuficiente para que haja uma compreensão vasta do mundo. Para se ter a consciência realmente expandida e empática do que acontece lá fora, para embrenhar-se nos corações e mentes dos estranhos que adoramos condenar à distância, só derrubando paredes. Não há ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

O QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE COLOCAR UM DIU

Dispositivo é muito eficaz para prevenir a gravidez, mas algumas mulheres dizem sentir dor; veja o que pode ser feito

Nos Estados Unidos, 10% das mulheres entre 15 e 49 anos usam atualmente alguma forma de contracepção reversível de longa duração, uma categoria que inclui dispositivos intrauterinos, ou DIUs. No Brasil, apenas 8% usam o modelo de cobre.

Pesquisas indicam que a grande maioria das mulheres com DIU está satisfeita, mas algumas acham o processo de inserção doloroso.

“Foi a coisa mais dolorosa que já vi”, diz Amy Halldin, de 40 ano•, que colocou um DIU na semana passada.

“Comecei a suar e vomitei”. Ela não está sozinha. Muitas pacientes e profissionais de saúde vêm usando redes sociais como o Tik Tok para chamar a atenção sobre a colocação do DIU – e defender formas mais efetivas para o controle da dor.

O DIU é um tipo de contraceptivo de ação prolongada reversível. O pequeno dispositivo em forma de T é colocado no útero e deixado no local para evitar a gravidez entre três e 12 anos, dependendo cio tipo. É uma das formas mais eficazes de controle de natalidade, em parte porque diminui as chances de erro humana – ao contrário, por exemplo, da pílula anticoncepcional, que deve ser tomada diariamente.

“Os DIUs são realmente seguros e altamente eficazes”, garante Sarita Sonalkar, professora de obstetrícia e ginecologia da Universidade da Pensilvânia.

Existem tipos hormonais e não hormonais. Os hormonais (Mirena, Kyleena, Liletta eSkyla são as marcas disponíveis nos EUA) usam o hormônio progesterona para prevenir a gravidez e funcionam espessando o muco no colo do útero para impedir que o esperma chegue ao óvulo. Eles também podem suprimir a ovulação. Já o DIU de cobre, que não depende de hormônios, é envolto em um pequeno pedaço de cobre que é tóxico tanto para o esperma quanto para os óvulos.

O DIU também pode ser uma formae6cazde contracepção de emergência caso o dispositivo seja colocado em até cinco dias após o sexo.

Para inseri-lo, um médico coloca um espéculo na vagina, e, em seguida, usa um tubo de inserção especial para passar o dispositivo através da abertura do colo do útero até o útero. O processo normalmente leva alguns minutos. Alguma dor é mesmo esperada.

“A maioria das mulheres tolera muito bem a inserção, embora possam surgir cólicas moderadas. Portanto, tomar Ibuprofeno ou paracetamol uma hora antes da inserção pode ajudar”, explica Margaret Boozer, professora do departamento de obstetrícia e ginecologia da Universidade do Alabama.

As mulheres que consideram colocar um DIU devem ter uma conversa franca com um profissional de saúde, incluindo possíveis benefícios e efeitos colaterais, assim como seu histórico pessoal e objetivos de planejamento familiar.

Mas também é importante saber sobre o procedimento em si. Por isso conversamos com ginecologistas obstetras sobre como elas podem se preparar.

QUAIS AS MINHAS OPÇÕES DE CONTROLE DA DOR?

“A inserção do DIU pode ser dolorosa para algumas pessoas, mas existem intervenções”, diz Sonalkar. “Acho muito importante saber que os médicos podem oferece anestésicos locais no momento da inserção. E isso mostrou diminuir significativamente a dor.

Pergunte ao seu médico quais opções de gerenciamento de dor ele oferece. Não há como prever com certeza qual será sua experiência pessoal, mas existem fatores que os profissionais de saúde podem usar para fazer um palpite. A professora de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Oregon, Maria Rodriguez, por exemplo, diz que geralmente pergunta a suas pacientes como são seus ciclos menstruais e como lidam com fortes cólicas.

Ela também avalia se já passou por parto normal antes. Alguns especialistas acreditam que as inserções do DIU são mais fáceis e menos dolorosas entre as mulheres que o fizeram, porque o colo do útero está dilatado.

Há médicos que prescrevem um medicamento por via oral antes da colocação, para ajudar a dilatar o colo do útero; mas as pesquisas que analisam segurança e eficácia da técnica não foram conclusivas.

E SE EU ESTIVER ANSIOSA?

“Para as mulheres que tiveram um histórico de trauma, gosto de conversar sobre o que precisam para se sentirem confortáveis e seguras enquanto estou fazendo qualquer tipo de exame, e isso inclui a colocação de DIU”, afirma Rodriguez. Ela acrescenta que é importante que as mulheres saibam que sempre podem pedir ao médico que pare.

Jonas Swartz, professor de obstetrícia e ginecologia da Duke University, na Carolina do Norte, disse que às vezes oferece às pacientes que “estão realmente ansiosas” medicamentos orais que possam ajudar no controle da ansiedade, mas apenas se há algum acompanhante.

“Também atendemos pacientes que realmente se sentem desconfortáveis com a ideia, ou com a dor, ou que tem histórico de trauma e não querem um procedimento clínico. Podemos oferecer a elas um procedimento com sedação moderada na sala de cirurgia”, diz.

VOCÊ REALIZA INSERÇÕES DE DIU REGULARMENTE?

Rodriguez defende que as mulheres devem se sentir empoderadas para perguntar ao médico se é algo que fazem regularmente:

“Pela minha experiência, se você vir um profissional que já colocou muitos DIUs, o processo tende a ser mais rápido e suave.

CONSIGO FACILMENTE FAZER A REMOÇÃO?

Pode ser útil avaliar a disponibilidade para a remoção do DIU, seja por não se adaptar ou por querer engravidar. Pesquisas mostram que a maioria das mulheres que usa está satisfeita um ano depois, mas pode ser “frustrante não ter acesso à remoção”, diz Sonalkar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A PANDEMIA FEZ MUITOS CASAIS DESISTIREM DA SEGUNDA GESTAÇÃO

Para algumas famílias, as mudanças dos últimos dois anos evidenciaram limitações e reduziram a vontade de ter mais filhos

Dois filhos sempre foram o plano de Anna Carey e, no início de 2020, ela estava se preparando para engravidar. Sua filha tinha acabado de fazer dois anos e ela e o marido viviam felizes, embora longe da família, em Toronto, onde Carey trabalhava meio período em uma empresa de marketing.

Mas, claro, todos sabemos o que aconteceu a seguir. Sem escola ou ajuda durante a pandemia, Carey foi forçada a deixar o emprego em agosto de 2020 para cuidar da filha. O que era um desejo quase certo alguns meses antes começou a parecer impensável.

“Não poderíamos imaginar passar por gravidez, parto e cuidado com um recém-nascido com tão poucas opções de apoio”, disse.

Por algum tempo, ela ainda tinha esperança de que a situação melhorasse antes de completar 35 anos, o que, por questões genéticas, Carey e o marido sempre consideraram um limite.

A gota d’água, porém, foi ver como a pandemia revelou uma gritante falta de apoio estrutural para as famílias. Segundo Carey, ela ficou triste, mas resoluta com a sua decisão.

Passei a perceber o quão pouco a sociedade valoriza as crianças e os pais, especialmente as mães. Isso passou a ser um grande impedimento”, afirmou.

CONTROLE DE NATALIDADE

Certamente, muitas pessoas tiveram bebês durante a pandemia. No entanto, para alguns millenials mais velhos e que já tiveram um ou mais filhos antes da pandemia dos riscos reais de ser pai e mãe em alguns dos piores momentos da história recente provaram ser uma forma potente de controle de natalidade.

Encarar a vida pandêmica, com todos os seus contratempos e consequências imprevisíveis – isso sem falar nas próprias questões existenciais – provocou sensação semelhante à vida pós-parto, mas sem o lado bom de um adorável bebé. Adicionar um recém-nascido real à mistura? Para alguns, isso se tornou impensável – seja por um certo tempo ou para sempre. Além disso, há outro aspecto mais objetivo do controle de natalidade pandêmico: a fertilidade em declínio. Embora muitos aspectos da vida pareçam ter estado em compasso de espera por dois anos, o tempo continuou a passar, uma consideração significativa para pessoas que viram o final dos seus 30 anos escorrendo pelo ralo enquanto ganhavam habilidades questionáveis no Zoom e um conjunto assustador de obstáculos financeiros e fisiológicos a serem superados.

“Para outros pais mais velhos, as mudanças provocadas pela pandemia ajudaram a esclarecer suas limitações de maneiras dolorosas, mesmo que tenham trazido algo semelhante à sabedoria.

Sarah Balcomb, escritora que tem uma filha de 9 anos e mora no estado americano da Virgínia, percebeu que estava encerrando permanentemente a vida reprodutiva da maneira que Hemingway descreveu uma vez; gradualmente e, depois, de uma vez só.

Aos 47 anos, Balcomb havia tentando vários tratamentos de fertilidade há anos. No início de 2020, estava contemplando uma rodada de fertilização in vitro, que seu seguro cobriria. Mas ela e o marido adotaram um cachorrinho no final de março, e o trabalho com o    filhote trouxe flashbacks viscerais dos primeiros meses de vida com um recém-nascido humano. Na segunda noite, ela conta, a privação de sono produziu uma revelação.

“O peso de tudo isso desabou sobre mim”, contou, listando a pandemia, a política polarizada, as mudanças climáticas, a desigualdade econômica e o racismo sistêmico entre os motivos.

“Eu sabia que naquela noite tinha acabado”.

Segundo ela, apesar de se ressentir por sua filha não ter um irmão, não há nada que a faça mudar de ideia sobre engravidar novamente, a não ser uma utopia repentina.

“Mesmo se fôssemos super ricos e pudéssemos contratar ajuda em tempo integral, eu não teria outro filho. Se o planeta fosse milagrosamente consertado e não houvessem mais guerra e fôssemos ricos, então eu poderia pensar a respeito”.

SEPARAÇÕES

E há a questão dos divórcios na pandemia. Astaxas subiram após o primeiro ano e, para os pais de crianças pequenas que não mantiveram os relacionamentos, a perspectiva de ter mais filhos no futuro parece muito menos provável do que antes. É o caso de Tully Mills, de 40 anos, um ilustrador que mora no Colorado, com a filha de 2 anos e meio.

“A realidade de não ter um segundo filho se instalou gradualmente após o primeiro ano de Covid-19”, lembrou ele, que não imagina ter mais filhos, mesmo com uma futura parceira.

“Tudo era tão incerto e o modo de sobrevivência estava entrando em ação”.

Ainda existe uma epidemia sombria de esgotamento entre os pais que viveram em 2020 e 2021 com crianças muito pequenas em casa. A perspectiva de ter mais filhos pode parecer especialmente desagradável para aqueles pais que ainda estão se recuperando de assumir tarefas inesperadas sem reconhecimento ou apoio social.

Durante os primeiros meses, quando tudo começou, em 2020, antes que os dados sobre a relativa segurança das atividades ao ar livre fossem disponibilizadas, a maioria dos parquinhos pelo mundo foi fechado, juntamente com escolas e creches para todos, exceto para os trabalhadores essenciais. Nas áreas urbanas, as crianças podiam brincar em parques públicos e na calçada, mas na maioria das vezes ficavam presas em pequenos espaços com seus pais e irmãos por meses a fio. O impacto desse período sobre os pais de crianças pequenas ainda está se revelando.

QUEDA NA NATALIDADE

No Brasil, as taxas de natalidade vêm caindo há seis anos e a diminuição foi intensificada com a crise sanitária. Também houve queda nos EUA. Os motivos variam do extremamente óbvio, como gastos com estudos, desemprego, pobreza, violência, ao puramente especulativo.

É incontestável, porém, que a pandemia causou uma queda imediata nos nascimentos: em dezembro de 2020, cerca de nove meses após o início da pandemia, os nascimentos diminuíram cercade 8% – o maior declínio de qualquer mês naquele ano tão desafiador – em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Se a instabilidade e a falta catastrófica de cuidados infantis que muitas famílias experimentaram desde então reduziram a fertilidade geral, isso não será quantificável por mais alguns anos.

Ainda assim, entre alguns pais, é fácil encontrar pessoas que ao menos pensariam em ter mais filhos se os últimos anos tivessem sido diferentes. “Eu mesma faço parte deste grupo. Antes de março de 2020. enquanto me preparava para a publicação de um segundo romance, tinha certeza de que teria um avanço na carreira, e também esperava engravidar de um terceiro filho. Na verdade, retirei o DIU”.

Ainda sinto saudades da sensação de esperança e de possibilidades infinitas que sentia quando contemplava meu sonho secreto de ter um terceiro filho, mas cheguei a um acordo com a realidade da situação: é uma perda que merece ser reconhecida e lamentada, em vez de manter uma ambição frustrada que ainda pode se concretizar. Mas, para além disso, eu definitivamente vou pegar outro gato.

OUTROS OLHARES

CRISE LEVA MÃES A DEIXAREM BEBÊS COM 2 MESES NA CRECHE

Matrículas nessa faixa etária são 22 vezes o número anterior à pandemia

Oito semanas depois de ter tido a quinta filha, Mikaelle Araújo, 34, deixou a menina em uma creche municipal de São Paulo para poder trabalhar. Ela é babá em casas na região do Morumbi.

Principal responsável pelo sustento dos cinco filhos, ela não pôde esperar a caçula, Eloá chegar aos quatro meses para voltar ao trabalho. Assim como Mikaelle, milhares de mães da capital paulista têm sido forçadas a se separar cada vez mais cedo de seus bebês devido à crise econômica no país.

O aumento do mercado de trabalho informal afasta essas mães do direito ao período legal de licença-maternidade no país, de 120 dias. Sem renda, e na maioria das vezes, sem o apoio financeiro dos pais das crianças, elas têm a creche como único apoio para continuar sustentando a família.

Na última semana de abril, havia 3.741 bebês com menos de quatro meses matriculados nas creches da rede municipal da cidade. Desses, 63 têm menos de 30 dias de vida e 539 menos de 60 dias, etapa que os especialistas descrevem como “gestação externa”, ainda na transição para o mundo fora do corpo da mãe.

O número de bebês de até dois meses nas creches neste ano é quase o dobro do registrado no mesmo mês do ano passado, quando havia 325 matrículas dessa faixa etária. É ainda 22 vezes o registrado em abril de 2019, antes da pandemia, quando havia 26 bebês dessa idade.

“De todos os meus filhos, ela é a que foi mais novinha para a creche. Fiquei com o coração na mão de deixa-la, parecia que estava deixando um pedacinho de mim ali. Mas não tem jeito, a situação está muito difícil com cinco crianças em casa”, conta a mãe. Ela recebe a pensão apenas do pai dos filhos mais velhos, mas não a do pai de Eloá,

“Está tudo cada vez mais caro, de mercado já cortei quase tudo, carne, frutas, legumes até o leite dos maiores. Meu leite do peito já nem estava dando conta para a Eloá. Na creche, é até bom porque lá eles dão a fórmula”, afirma.

As matrículas de bebês com menos de quatro meses já aumentavam na rede municipal antes da pandemia. Desde então, esse crescimento se intensificou.

Os dados da Secretaria Municipal da Educação mostram que nos anos anteriores, o número de bebês com menos de quatro meses matriculados na rede tinha um pico no início do ano letivo e, depois caía conforme as crianças iam ficando mais velhas.

Em 2020, por exemplo, 3.238 bebês nessa situação estavam matriculados em janeiro. Já em abril, eram apenas 435. O cenário é semelhante em todos os anos de 2018 a 2021.

 Agora em 2022, porém, a situação mudou e o número de bebês com menos de quatro meses matriculados em abril (3.741) é maior do que o registrado em janeiro (3.528). Ou seja, mais crianças nessa faixa etária entraram em creches de fevereiro a abril deste ano do que no mesmo período nos anos anteriores. Isso indica que a demanda por essas vagas está mais contínua do que antes.

Com apenas 19 dias, Helena é uma das mais novas matriculadas na rede. Ela passou a frequentar o CEI Carolina Maria de Jesus, no Parque Novo Mundo, zona norte, no último dia, porque a mãe dela, Pamela Alves de Sousa, 23, precisou voltar a trabalhar como diarista.

“Eu trabalho sem carteira, então sabia que não teria direito à licença-maternidade. Trabalhei até os oito meses da gravidez e depois não consegui mais. Agora preciso voltar porque a situação em casa está apertada”, diz.

Além da bebê, Pamela mora com o marido, que é lavador de carros, e o filho mais velho de 5 anos. “Está difícil só com o que o meu marido ganha, porque metade vai para o aluguel. Foi difícil paga mercado nesses últimos dois meses que fiquei sem trabalhar”.

“É difícil ter que deixar uma bebê tão pequena na creche, mas ela vai se adaptar e vai ser melhor para nós. É para poder dar uma condição melhor para ela também”, disse.

Para o secretário de Educação do município, Fernando Padula, o aumento de bebês pequenos matriculados nas creches é um reflexo da crise financeira do país. “É a realidade que enfrentamos, 53% dos alunos da educação infantil do município estão no CadÚnico, ou seja, vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza”, afirmou.

Segundo ele, as vagas para bebês em qualquer momento do ano só são possíveis porque a Prefeitura de São Paulo conseguiu zerar a fila de espera por vaga em creche.

No CEI (Centro de Educação Infantil) Bela Vista, na região central, Brenno, de três meses é o mais novo de uma sala com outros 11 bebês de até um ano. “As professoras chamam ele de pacotinho, porque é o menor da turma”, conta a mãe Tatiana da Conceição, 34.

Enquanto alguns bebês engatinham e outros ensaiam os primeiros passos, Brenno se reveza no colo das três professoras da sala ou fica deitado.

Antes de entrar para a creche, Brenno só recebia leite materno, mas agora está só com uma fórmula láctea. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a amamentação exclusiva até os seis meses.

“Eu até tentei continuar amamentando em casa, mas meu peito doía muito durante o dia quando estava longe dele. O leite ia acumulando, vazava e até empedrou. Como eu ia conseguir trabalhar desse jeito?”, questiona Tatiana.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, todas as creches da cidade são orientadas a incentivar o aleitamento materno e devem ter um ambiente preparado para que as mães possam amamentar os bebês.

A arquiteta Mônica Alves, 28, pôs a filha Clarice de três meses no CEI Benedito Bueno, no Jardim Paulistano, na zona norte para poder voltar ao trabalho. Como está em home office, ela consegue ir à unidade no meio da manhã para amamentar a menina.

“Ela não aceitou a mamadeira de jeito nenhum. As professoras me ligam no meio da manhã e eu vou até lá para amamenta-la. Tem sido melhor assim, porque consigo trabalhar e sei que ela está sendo bem cuidada”, diz.

Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, organização que atua por melhores políticas para a primeira infância, diz que é importante a garantia de vaga em creche para crianças tão pequenas diante do contexto em que as famílias vivem. Para ela, parte do trabalho precisa ser dar apoio e condições para que as mães continuem com o aleitamento materno mesmo depois de as crianças estarem na creche

GESTÃO E CARREIRA

A DIVERSIDADE ALÉM DO RH

Como a inclusão começa a se tornar um tema de negócios – que envolve de maneira estratégica as diversas áreas da companhia

O princípio básico da diversidade e inclusão nasce na gestão de pessoas. Por definição, sem profissionais com perfis diferentes não existe diversidade. Ponto. À medida que as empresas avançam nessa jornada, no entanto, torna-se claro que a construção de uma cultura verdadeiramente inclusiva permeia todo o negócio. Assim, itens como a inovação de produtos, vendas e marketing começam a se conectar de maneira mais intima com o tema.

Mesmo para as empresas que sequer iniciaram um esforço interno para ampliar a diversidade da porta para dentro, a pressão para que isso aconteça vem de fora. E direto dos consumidores, em especial os mais jovens. Segundo um estudo realizado globalmente pela consultoria Deloitte, no ano passado, quase metade dos integrantes da geração Z, que possuem entre 18 e 25 anos, afirmou levar em conta a diversidade da propaganda em suas decisões de compra – mais do que o dobro do que se observa em integrantes da geração anterior, os millennials.

A reportagem mergulhou em três frentes que mostram como a diversidade e inclusão avançam além da área de recursos humanos.

A correlação mais direta entre diversidade e inovação está no simples fato de que pessoas diferentes tendem a trazer perspectivas novas para o processo de criação e execução. Poucoslevantamentos evidenciam de maneira mais clara essa causalidade como o publicado em 2019 pela escola de negócios da Universidade Harvard. Coordenado pelo professor Rembrandt Koning, um grupo de pesquisadores levantou todas as patentes sobre tratamentos de saúde nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. Asmulheres representam apenas 13% dos detentores de registros nessa área nos Estados Unidos – e a principal razão é a escassez delas nos laboratórios. A descoberta: uma consequência é a defasagem de novos tratamentos para problemas de saúde típicos das mulheres em contraposição aos que se referem ao universo masculino. Deacordo com o estudo, mulheres têm uma chance 35% maior do que os homens de inventar medicamentos para endometriose, câncer cervical e outras condições femininas. A ausência delas nos laboratórios. portanto, limita o potencial dessas inovações. “A demografia dos investidores importa não apenas para sabermos quem cria e sim para entendermos o que é criado, dizem os autores no documento.

A americana Sonsoles Gonzales conta que sentiu na própria pele, literalmente, o efeito da ausência de mulheres maduras no mercado de beleza. E ela só se deu conta disso ao se tornar uma delas. Em 2018, Sonsoles já somava mais de 25 anos de trabalho como diretora executiva em empresas como Procter & Gamble e L’Oréal. quando entrou na Peri menopausa – um período que varia entre poucos meses e até 14 anos antes do fim do período menstrual para as mulheres. Os primeiros efeitos das variações hormonais, segundo ela, foram sentidos no cabelo. Foi aí que ela percebeu algo que nunca tinha chamado sua atenção: não havia produtos específicos para aquele momento particular da vida das mulheres, evitado como um tabu. Sua resposta foi pedir demissão e criar a marca de produtos de beleza para mulheres maduras Better Not Younger, uma das startups com crescimento mais acelerado nesse segmento, e perspectiva de faturar US$ 20 milhões por ano. A empresa possui produtos para cabelos, pele e nutrição, muitos dos quais com o termo menopausa na embalagem.

Mais de 6 mil mulheres entram nessa fase por dia no mundo. Em 2021, mais de 50 milhões de mulheres possuíam 51 anos, idade média da menopausa, somente nos Estados Unidos, de acordo com o New England Journal of Medicine. O mesmo órgão informa que 13 milhões de mulheres estão peri ou pós-menopáusicas no Reino Unido hoje. Trata-se de um crescente grupo de consumidoras que gasta mais de US$ 22 bilhões por ano em produtos de beleza, mesmo diante de tantas evidências do tamanho e da relevância do mercado, segundo ela, há uma série de razões simples pelas quais não existem muitos produtos para mulheres com mais de 40 anos. ”Todos sabemos que a maioria das empresas que comercializam produtos de beleza emprega mulheres e homens na faixa dos 20 e 30 anos e, em geral. eles têm dificuldade em se relacionar com uma faixa etária com o dobro de sua idade e com quem não compartilham muito, afirmou Sonsoles.

Um estudo da agência de mídia e publicidade Universal McCann realizado no Reino Unido mostra que as mulheres estão ansiosas para ver mudança nessa conversa. Nessa pesquisa, 74% das mulheres dizem que os anúncios não as retratam na menopausa com sensibilidade. Outra descoberta: 61% das mulheres na menopausa concordaram que existe uma expectativa social velada de que elas desapareçam da vida pública à medida que envelhecem. Na esteira de empreendedores como Sonsoles, grandes empresas despertaram para esse nicho. A americana Procter & Gamble lançou a Kindra, uma marca voltada para mulheres na menopausa que ganhou mercado em 2019. Os produtos incluem loções sem estrogênio feitas para diferentes partes do corpo e suplementos alimentares à base de plantas destinados a aliviar sintomas como suores noturnos e baixa libido. A marca, que optou por falar sem rodeios com a consumidora sobre menopausa, é a primeira a surgir da parceria formada pelo estúdio de startups P&GVentures e Ml3, uma empresa de desenvolvimento e investimento de marca em Los Angeles. Os produtos são vendidos online pelo OurKindra.com, onde uma comunidade de mulheres 45+ foi criada e estimulada a interagir e conversar com outras na mesma fase.

Victoria Buchanan, pesquisadora estratégica sênior do The Future Laboratory, de Londres, afirma que “esta sub categoria tem longevidade porque não é uma moda passageira”. “É parte de um movimento mais amplo, em que as marcas de cuidados com a pele estão realmente se preocupando em entender as necessidades específicas das mulheres em diferentes estágios, em vez de apenas adotar uma abordagem de tamanho único”, afirmou.

Não é apenas a indústria de bens de consumo que tem se empenhado em olhar para os clientes buscando atender a necessidades de grupos específicos. Na mesma linha, a seguradora MetLife passou a oferecer opções de seguros pessoais desenvolvidos especialmente para as mulheres. Nos últimos anos, a companhia lançou produtos novos, com apólices que permitem indenização em caso de diagnóstico de câncer de mama, ovário e útero, além de serviços adicionais como assistência nutricional. “Esse direcionamento só foi possível porque o tema de diversidade não está subordinado à área de recursos humanos, globalmente”, afirma Daniela Da Ll’acqua, diretora de recursos humanos da Metlife no Brasil. “Existe um cargo de vice-presidência exclusivamente dedicado ao tema com reporte direto ao CEO da companhia.” No Brasil, o presidente também acompanha os esforços de ampliar a diversidade e inclusão entre os funcionários.

No ltaú, para atender online os clientes com deficiência, foi criada unia equipe para, por exemplo, adaptar funções nos aplicativos do banco e também no site, a pessoas com deficiência. Do trabalho desse time com mais de cem pessoas. algumas delas com deficiência visual, um dos resultados é um cartão que, além de impressão em braile, possui um detalhe perceptível pelo tato que indica onde está o lado certo para inserir nas maquininhas que processam as transações. “Elas atuam na criação e também nos testes para essas funções de acessibilidade”, afirma Maria Julia Kurth de Azambuja, superintendente do ltaú Unibanco e responsável pelas áreas de aquisição de talentos e diversidade e inclusão.

EU ACHO …

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi à consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a lidar com tecnologia, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua te amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama e, ainda assim, doer.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CÓLICA MENSTRUAL EM EXCESSO PODE INDICAR ENDOMETRIOSE

Pouco estudada, doença leva até dez anos para ser diagnosticada nas mulheres

A cólica menstrual que as mulheres tanto naturalizam como algo que faz parte da vida não deveria ser vista assim, sobretudo se for intensa e frequente.

A menstruação é uma função fisiológica da mulher, assim como urinar ou respirar. Quando qualquer uma dessas últimas situações gera algum incômodo sério logo se desconfia de algo, e um tratamento é baseado. O mesmo comportamento teria que ocorrer ao menstruar e sentir muita dor.

Mas a normalização da dor da mulher faz com que doenças como a endometriose fossem negligenciadas pela ciência, pela medicina e por várias pacientes por muitos anos.

“Ter algum tipo de cólica é comum: durante a menstruação há uma diminuição de sangue na parede do útero, e isso em geral causa alguma dor, que tende a melhorar com medidas de conforto ou analgésicos. Mas aquelas dores que pioram progressivamente a cada ciclo e às vezes chegam a ser incapacitantes não podem ser naturalizadas. É justamente essa banalização que faz com que muitas mulheres e pessoas com útero levem até dez anos, conforme estudo científicos internacionais, para diagnosticar a endometriose e iniciar um tratamento adequado.

O endométrio é o nome que damos ao músculo que cobre a parede interna do útero. Ele é expelido na menstruação em forma de sangramento, mas, se parte desse tecido cai nos ovários ou no abdómen, causa uma inflamação, a tal da endometriose.

É uma doença complexa sobre a qual a ciência começa a entender um pouco melhor só agora, com mais pesquisas sendo desenvolvidas. Ou seja, uma doença que afasta as mulheres do trabalho e as meninas da escola não foi, por muito tempo, uma questão de saúde pública importante.

Além das pesquisas, somente na última década também os exames de imagem começaram a ser capazes de detectar os focos da endometriose. Antes, era preciso fazer uma biópsia, através de videolaparoscopia, que é uma cirurgia menos invasiva, mas ainda assim uma cirurgia.

Com a maior visibilidade da doença e mais disponibilidade de exames, o número de diagnósticos naturalmente cresceu. A doença afeta cerca de 10% da população feminina brasileira, segundo a Anvisa (Agência Nocional de Vigilância Sanitária), e é mais frequente entre pessoas de 15 a 35 anos de idade.

Mas também não é assim tão mais fácil hoje. Mesmo se os exames específicos de ultrassom e ressonância estão disponíveis precisam ser realizados por profissionais treinados, porque a maioria das lesões de endometriose se apresenta de forma sutil, de difícil visualização.

Além de haver poucos radiologistas especializados, nem sempre os exames estão disponíveis na rede pública de saúde, o SIJS (Sistema Único de Saúde).

O profissional precisa de uma boa experiência, ser obsessivo e meticuloso na busca de lesões, explica o médico Marcelo Pedrossani, especialista em gineco-obstetrícia e

diagnóstico por imagem. E é fundamental ter um equipamento mais avançado, que forneça uma excelente resolução de imagem.

“Muitas vezes as pacientes apresentam somente lesões entre 0,5 cm e 1 cm”, destacou. Mas esse tamanho não tem relação direta com a gravidade dos sintomas.

A empresária Flávia Tonani, 43, descobriu que tinha endometriose em 2000, pouco antes de completar 21 anos. Ela já menstruava havia dez anos, com muito sangue, cólicas intensas, muita fraqueza. “Algumas vezes precisava até ir ao hospital para ser medicada.” O diagnóstico final se deu com a videolaparoscopia. O cisto que ela tinha no ovário esquerdo estava grande (do tamanho de uma laranja), comprimindo o intestino e causando fortes dores.

O tratamento recomendado no caso dela foi tomar anticoncepcional direto, sem intervalo, para não menstruar e reduzir as dores. E assim Flávia fez por muitos anos.

Depois dos 30 anos de idade, já cansada, procurou uma ginecologista, pois queria engravidar. Retomou o ciclo menstrual sem hormônios e, com isso, voltou o sofrimento.

“Não saía da cama de tanta dor”, conta. Em 2020, fez a segunda videolaparoscopia, e o cisto agora era no ovário esquerdo. Interromper a menstruação não estacionou a doença dela, apenas mascarou um avanço comprometedor. Dessa vez, Flávia precisou retirar o ovário esquerdo. “Ele estava todo comprometido e, se eu não tivesse descoberto esse cisto, ele podia se romper e a cirurgia seria mais complicada”, lembra.

Flávia ficou grata pela descoberta, mas também triste e frustrada por não conseguir realizar o sonho de gerar uma vida, afirma.

No ano passado, os exames de acompanhamento indicaram que a endometriose tinha atingido o intestino. Foi então que ela começou um tratamento diferente com uma nutróloga. “Eu vi a doença por um ângulo nunca visto antes: a alimentação saudável, a atividade física, o autoconhecimento, cuidar de mim e fazer algo que me desse prazer, tudo isso faz parte do tratamento”.

Entender o que tinha e o que se passava no próprio corpo foi uma virada de chave na vida de Flávia, que hoje não tem mais a maternidade nos planos. “É uma dor superada”, nas palavras dela.

Hoje já se sabe que o tratamento deve ser individualizado, pois cada mulher é uma, e isso traz questionamentos à máxima que se vendeu por décadas: de que “viver sem menstruação é o melhor dos mundos, ou de que o sangramento menstrual é algo inútil. Afinal, para isso, a pessoa precisa usar hormônios artificiais durante a vida inteira.

“Se existissem mais mulheres cientista pesquisando ou até se a gente estivesse ouvindo mais o que as pessoas com útero têm a dizer sobre essa situação, não estávamos utilizando a pílula anticoncepcional, mas uma panaceia”, destacou a ginecologista Halana Faria, do perfil Ginecologia Feminista.

Hoje, estudos já apontam que cortar o ciclo menstrual pode gerar outros problemas e doenças além de não resolver a endometriose.

Ainda nos dias atuais, quando uma mulher fala que está tendo muita acne, sentindo dores no período menstrual e até quando recebe o diagnóstico de endometriose, é provável que ela escute da maioria dos ginecologistas que o anticoncepcional ou o bloqueio do ciclo resolverá a situação.

“Esta afirmação nem sequer tem respaldo científico e parte de uma ideia de que a menstruação é um problema que um grande favor que você faz é ajudar a mulher a se livrar daquilo”, afirmou a ginecologista Bel Saide, do perfil Ginecologia Natural, reforçando que os remédios hormonais não tratam a doença em si.

Outro mito que a médica combate é o de que a menstruação alimenta a endometriose e, por isso, teria que ser totalmente suprimida.

De fato, não existe um consenso na literatura médica em relação ao benefício de parar de menstruar. Para a ginecologista Faria, isso pode ser algo justificável se a pessoa sente tanta cólica a ponto de prejudicar sua qualidade de vida, mas nem sempre esse vai ser o tratamento proposto.

“O que as pacientes me dizem é que se sentem bem quando menstruam, pois parece natural, fisiológico, por mais que tenham efeitos”.

Todos os dias mulheres me procuram ou porque não desejam fazer uso de hormônios ou já fizeram e perceberam que não resolveram o problema”, afirma Bel Saide.

Por ser uma doença que envolve muitos fatores, além de estilo de vida, uma visão integral da mulher e multidisciplinar é importante. Alguns especialistas defendem, por exemplo, um olhar especial para a alimentação, restringindo alimentos que geram uma inflamação.

Há pacientes muito sintomáticas que fazem os exames e quase não têm foco de endometriose. Outras tem cavidades abdominais tomadas de focos de endometriose, sem apresentar nenhum sintoma. Algumas mulheres podem ter o diagnóstico e ficar sem medicação, acompanhando a endometriose com terapias complementares possíveis – só um terço delas, segundo Faria, vai ter uma exacerbação dos sintomas.

A preocupação ocorre se a doença progredir e atingir outros órgãos adjacentes ao útero: trompas, ovários, bexiga, ureter e intestino. “Mas em 70% dos casos ela vai estacionar ou regredir espontaneamente”, ressalta.

O mais urgente é ter bons profissionais da saúde, médicos da família, clínicos gerais que investiguem e entendam a doença. Que ginecologistas em geral façam a escuta verdadeira, adequada das mulheres e pessoas com útero, das queixas de pacientes.

Faria alerta que a identificação das dores menstruais pode ter dois extremos ruins: nunca investigar o que há por trás das dores ou chegar a um diagnóstico tardio; ou começar a  fazer muitos exames, suspeitar demais e descobrir focos que, na verdade, vão regredir ou estacionar e não se tomarão problemas.

Também é preciso estar atenta à medicalização fantasiada de naturopatia, pondera a médica, com cursos e conceitos religiosos.

O tratamento muitas vezes dispensado a pessoas com endometriose reflete um aspecto da oferta da saúde – o fato de que, como frisa Halana Faria, os padrões de base são heteronormativos, excluindo a existência de mulheres trans e de relações homossexuais, vendo o corpo feminino como voltado apenas para a reprodução.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODERES ESPECIAIS

Adultos autistas usam diferenças como aliadas para uma vida plena

A americana Zhara Astra, mãe de dois filhos, é roteirista, produtora e professora na Universidade do Arizona. Já Scott Steindorff é um premiado produtor americano de cinema e televisão responsável por filmes como “O amor nos tempos do cólera” e pela série “Station Eleven”. Ele tem três filhos.

Por trás dos currículos impressionantes, há coisas que ninguém vê. Ela tem uma tenda no quarto, onde busca refúgio para seu meltdown ou seja, as crises explosivas que enfrenta eventualmente. Ela sofreu bullying na escola, chorava todas as noites e tinha dificuldade em fazer contato visual. Quando ela termina uma refeição ou conversa, levanta e vai embora subitamente. Às veze ele fala num tom que parece que está bravo. Ambos, pessoas realizadas profissional e pessoalmente, estão no espectro autista.

O casal veio ao Brasil para dar palestras no evento Rio2 C, que realizou centenas de encontros de criatividade no fim de abril. Astra e Steindorff são exemplos, assim como muitos brasileiros, de que grande parte das pessoas autistas pode te uma vida plena, bem-sucedida em todos os aspectos.

Ambos só foram diagnosticados com autismo já adultos. Antes firam identificados com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e pessoas altamente sensíveis (PAS).

“A parte mais difícil do autismo foi ser uma criança socialmente estranha e sofrer bullying. Aos 10 anos fui levado à diretoria da escola porque achavam que eu tinha usado drogas. Até os anos 1980 não havia o diagnóstico de autismo”, conta Steindorff. “O lado positivo é que tive uma imaginação vivida e criatividade. Acho conforto lendo ou aprendendo, por isso, leio três livros por semana.

PONTOS FORTES

O produtor criou ferramentas para lidar com o autismo. Mantém um diário em que processa e expressa seus sentimentos e conta que a meditação tem sido fundamental em sua vida. A voracidade com que lê e guarda as informações foi, certamente, um talento a mais na sua profissão:

“Tive que aprender a me tornar mais sociável, fazer contato visual, focar e identificar eexpressar os sentimentos. Mas você nunca vai transformar um pato num ganso. Então, entendo minhas forças e aceito minhas fraquezas. Posso lembrar o que diz tal página de tal livro. E é por isso que eu tenho sucesso nesse ramo. Achei meus pontos fortes. Mas por muito tempo fiquei isolado porque não queria interagir. A roteirista e professora Zhara Astra explica que o autismo se manifesta de forma bem diferente nas mulheres.

“Com as garotas é mais interno, está dentro de nós, então sofremos em silêncio. Eu não tinha esses traços visíveis de autismo, não sofri bullying, mas tinha TOC severo e conflitos causados por ver o mundo de forma totalmente diferente das meninas da minha idade. Estava interessada em filosofia, no sentido da vida e as garotas queriam saber de bonecas e bandas. Essas diferenças eram fonte de sofrimento. Passei a vida sentindo que havia algo errado comigo, me sentindo um alienígena neste planeta, e ter o diagnóstico aos 30 anos foi uma grande mudança para mim.

Da mesma forma que ocorreu com Steindorff, Astra acredita que as pessoas no espectro autista podem usar suas diferenças a seu favor:

“No curso, eu ensino os superpoderes que vem junto com o autismo. É ver quais as forças que acompanham as suas discrepâncias.

Eu, por exemplo, tenho filmes passando na minha cabeça o tempo todo. É exaustivo e fiquei chocada quando descobri que isso não acontece com todo mundo. Então, como roteirista eu leio o roteiro e vejo o filme inteiro na minha cabeça, ouço os diálogos, percebo o que funciona. Descobri que esse é meu poder e posso usar isso a meu favor.

O professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da USP Guilherme V. Polanczyk explica que é exatamente essa a estratégia que adota com os pacientes para sua inserção na sociedade: trabalhar os interesses e habilidades que, no autista, costumam ser mais pronunciados e não mudam muito ao longo da vida.

“A ideia não é que os autistas se tornem como os não autistas, não é esse o objetivo, mas que, conhecendo suas capacidades e suas habilidades, possam encontrar o lugar em que contribuem e se tornem pessoas plenas”, afirma Polanczyk.

Assim, o garoto com interesse fixo por dinossauros, cresce e estuda paleontologia. A menina de ouvido absoluto, tão sensível os sons, pode se tornar música.

SOCIEDADE INCLUSIVA

É preciso dizer, porém, que nem todas as pessoas no espectro autista têm as mesmas potencialidades.

“Há, sim, uma parcela significativa que não vai desenvolver linguagem, não vai ter uma vida funcional, independente. Tem a ver com a gravidade do quadro. Algumas crianças recebem tratamento muito cedo, mas ainda assim não vão ser autônomas.

Outra parcela vai depender muito do tratamento. E outras que independentemente do tratamento vão conseguir se desenvolver e ter uma vida funcional e feliz”, afirma o psiquiatra.

A prevalência de autismo em crianças e adolescentes é de 1%; de maneira global ­ não existem dados específicos do Brasil. Também não há estudos consistentes em adultos e idosos, mas o médico imagina que a prevalência seja semelhante.

Assim, um dos primeiros passos para uma sociedade mais inclusiva é a melhora no diagnóstico, que ainda está no começo, em adultos. Nem mesmo os psiquiatras na residência têm esse treinamento especifico.

Zhara Astra faz outro alerta: todos os dados e pesquisas são baseados em homens brancos, com pouca informação sobre mulheres ou outras etnias. Segundo ela, por exemplo, um dos grupos menos diagnosticados no mundo são as mulheres latinas.

“O conhecimento é o primeiro passo, fundamental para que a gente entenda que existem diferenças com que precisamos lidar, e que essas mesmas diferenças podem levar as pessoas a contribuir muito para a sociedade. É uma mudança de cultura, de perspectiva, em que as diferenças agregam e não são ameaças”, reforça Guilherme V. Polanckzyk.

Scott Steindorff se diz muito “grato pelas oportunidades que teve e que muitas pessoas não têm” e, por isso, hoje tenta trazer mais conhecimento para a sociedade e ferramentas para os autistas.

“Eu não mudaria nada na minha percepção da realidade com o autismo, sou muito feliz, que vejo e sinto as coisas do meu jeito, sou muito grato. É só questão de entender como levar a pessoa ao seu mais alto nível”, afirma Steindorff.

EU ACHO …

DO MÊS QUE VEM NÃO PASSA

Juntos chegaram à conclusão de que o casamento estava um tédio, que o amor havia sumido e que a presença um do outro incomodava mais do que estimulava: nem mesmo a amizade e a ternura haviam sobrevivido. Depois de algumas cobranças inevitáveis, muita DR e lágrimas à beça, optaram por seguir cada um para seu lado. Quando? Logo depois das férias de julho: a gente viaja com as crianças e depois você sai de casa. Perfeito.

Voltaram de viagem mais duros do que nunca foram, o saldo completamente no vermelho. Não era uma boa hora para comprometer o orçamento com um novo aluguel. Ela compreendeu e disse para ele ficar em casa até as finanças se estabilizarem de novo, quando ele então poderia procurar um apartamentozinho.

O casamento seguia um tédio, mas o clima estava mais ameno, sabiam que dali a pouco estariam separados para sempre, então calhava uma harmonização, eles até passaram a sorrir com mais frequência e, olhando assim, de longe, qualquer um diria que aqueles dois se entendiam bem.

As dívidas da viagem foram pagas e, depois de mais uma entre tantas discussões bestas, resolveram agendar de vez a separação: logo de­ pois do aniversário do pequeno Bruninho, que dali a um mês faria r9 anos e media rm87.

Bruninho não quis festa e o saldo do casal voltou a ficar positivo, mas não por muito tempo: a tevê já veiculava comerciais com a presença do Papai Noel. Natal era sempre uma despesa, e os sogros viriam do interior pra comemorar com a família reunida, melhor deixar passar o Natal e o Ano-novo. É melhor, também acho.

Em fevereiro a Bia, filha mais velha, inventou de ir para a praia com as amigas e ficou o mês inteiro lá, assim que ela voltasse os dois dariam o xeque-mate na relação. Bia voltou e já era quase Páscoa, e Páscoa sem ir pra fazenda da tia Sorria não era Páscoa. Depois da Páscoa receberam o convite para serem padrinhos de casamento de um afilhado, melhor não criar constrangimento na igreja. Em seguida foi o aniversário dele, que sempre fica meio caído nessa data, melhor deixar passar o inferno astral. E quando passou, aí foi ela que aniversariou.

Estão casados até hoje. Mas do mês que vem não passa.

*** MARTHA MEDEIROS

OUTROS OLHARES

OBESIDADE DEVE ATINGIR 30% DOS ADULTOS DO PAÍS EM 2030

Número de crianças e adolescentes com excesso de peso também deve aumentar, segundo projeção

O Brasil deverá ter, em 2030, quase 30% de sua população adulta com obesidade. A projeção foi feita pela World Obesity Federation, organização internacional voltada para redução, prevenção e tratamento da obesidade.

Atualmente, dados da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) de 2021 uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, indicam que 22% da população brasileira adulta apresenta obesidade.

A condição é calculada por meio do IMC (índice de massa corporal), que consiste na divisão do peso pela altura ao quadrado. Quando o resultado fica entre 25 e 30, considera-se que há sobrepeso – condição que atinge 57% da população adulta no país, segundo os dados da Vigitel. Se o IMC for maior que 30, o caso é categorizado como obesidade.

Os números da World Obesity Federation também apontaram que a condição pode ser uma realidade para mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo até 2030. Para efeito de comparação, em 2010 o número era aproximadamente a metade.

“Alguns fatores relativamente conhecidos para obesidade estão impactando países que anteriormente não tinham altas taxas, como um largo acesso a comidas muito industrializadas e de alimentos refinados”, diz Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e coordenador da ONG Obesidade Brasil.

A federação utilizou dados já consolidados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Banco Mundial, além de realizar as estimativas por meio do histórico de obesidade dos países.

No Brasil, casos, conforme a projeção para 2030, o país vai se tornar a quarta nação em maior número absoluto de pessoas com excesso de peso no mundo, atrás somente dos Estados Unidos, da China e da Itália.

A possível prevalência de 30% da condição em toda a população adulta brasileira foi categorizada como alta pela federação. Mas outras regiões chegam a percentuais muito maiores, como a Samoa Americana, que, em oito anos, poderá ter quase 72% da sua população com obesidade.

“O índice no Brasil é muito alto. Comparativamente, está um pouco melhor, mas continua sendo muito alto”, diz Schiavon.

As estimativas também conseguiram identificar a diferença em relação a gênero. No total, conforme a projeção, a maior parcela de pessoas com obesidade no país seriam as mulheres, algo já reconhecido pela literatura médica.

“Se formos ver o número de cirurgias bariátricas, são três mulheres operadas para cada homem. Então, realmente há uma incidência e prevalência maior em mulheres, comparada a homens”, afirma Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.

Segundo o coordenador, o quadro pode ter relação com aspectos genéticos. Isso ainda está sendo investigado e pode ser de extrema importância para prevenção e tratamento da condição, já que, de acordo com o médico “sabemos que o grande fundamento da obesidade é genético”.

Os problemas de ter um maior número de pessoas obesas impactam diferentes facetas da sociedade, como no desenvolvimento de diabetes, hipertensão e colesterol alto. Esse cenário reflete diretamente na situação econômico dos países, tanto em relação aos gastos no tratamento das diversas doenças como na perda de capacidade produtiva.

A projeção realizada pela organização também se debruçou sobre esse ponto. Para entender esses efeitos, os pesquisadores observaram os custos diretos e os indiretos que o excesso de peso acarreta.

Aqueles chamados diretos dizem respeito às despesas tidas no tratamento da obesidade e das doenças decorrentes dela, como diabetes, mas também às relacionadas ao processo de busca de serviço de saúde, como viagens para atendimento médico.

Os casos indiretos referem-se à perda de capacidade produtiva das pessoas obesas e às mortes prematuras relacionadas à condição de excesso de peso.

Com esses pontos definidos foi mensurado que o Brasil iria mais do que quadruplicar seus custos envolvendo sobrepeso e obesidade. Estima-se que o custo total alcançou US$ 39 bilhões em 2019.  A projeção é que subiria para US$181 bilhões em 2060.

Além dos adultos, a projeção observou a obesidade em crianças e adolescentes, que deve ter um incremento de quase 100 milhões entre 2020 e 2030 em todo o planeta.

Para o Brasil, o estudo encontrou que o aumento de crianças e adolescentes obesas entre 2020 e 2030 deve ser de 3,8% a cada ano. Esse quadro, diz a federação, é categorizado como muito alto e deve ocasionar mais de 7 milhões de jovens obesos em oito anos.

“Um problema é que essas crianças e adolescentes com obesidade têm uma grande chance de também serem adultos obesos. Isso é muito preocupante porque o futuro já estaria comprometido, ou seja, já teríamos números ruins”, afirma Schiavon.

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES FUNDADORAS DE STARTUPS AJUDAM A TRAZER EQUIDADE PARA CARGOS EXECUTIVOS

CEOs usam a própria experiencia para criar equipes de liderança mais equilibradas em relação ao gênero e incentivar a inovação

Basta olhar para as startups e constatar: as mulheres são minoria, especialmente em cargos executivos (C-level) e de liderança. Os números comprovam: de acordo com pesquisa da Associação Brasileira de Startups, em 2021, apenas 16,9% dos fundadores de startups eram mulheres. Os índices que analisam as equipes também não são muito animadores em relação à equidade de gênero. Apenas 20,8% das startups têm um número de mulheres mais expressivo no time – de 26% a 49% do total das equipes.

Para enfrentar esses números, CEOs mulheres usam a própria experiência e a empatia -um sentimento mais acolhedor – como combustível para a mudança e para conseguir nomear mais mulheres para cargos com poder de decisão. Tatiana Pimenta, CEO da Virtude, startup de telemedicina, é uma dessas mulheres que usam seu passado profissional como incentivo. Formada em engenharia civil, trabalhou em quatro multinacionais, e só respondia a diretores homens. “Perdi as contas das vezes em que comecei a falar e fui interrompida por um homem. Eu não tinha lugar de fala”, conta. Ao fundar a Virtude em 2016, ao lado do sócio Everton Hopner, Tatiana decidiu que teria uma equipe heterogênea. “Quando você tem mais diversidade na empresa, você tem olhares diversos. E homens e mulheres têm visões diferentes de mundo. Isso é fato. Ao equilibrar o time, você traz riqueza de pensamento”.

A Virtude é uma plataforma que se dedica a sessões de terapia online, tanto para pacientes quanto para empresas. Em 2020, com a pandemia, houve um enorme aumento de pacientes, e a empresa recebeu investimentos. No ano seguinte, tiveram um crescimento de 12 vezes em receita e começaram a contratar mais pessoas. Com isso, vieram mais mulheres ao C-level. Hoje, ao lado de Tatiana e Everton, estão Maíra Gracini, diretora de receita (chief revenue officer), e lzabela Yumi, diretora financeira (chief financial officer), entre as seis vagas de executivas na Virtude. Há outras mulheres em cargos de liderança, em uma empresa que hoje tem em torno de 40 funcionários – fazendo, assim, a pluralidade de visões.

Além da Virtude, outras startups fazem o mesmo movimento, com lideranças femininas. É o caso de Nilo Saúde, Chiligum, Be Beleza Tech, Woof, AuroForce e da Gupy ­ essa última atingiu o nível de 50 % de mulheres no time, em todos os níveis de liderança.

DIVERSIDADE

Mariana Dias, cofundadora e CEO da plataforma de recrutamento e seleção Gupy, defende que a equidade de gênero traz mais inovação. Por meio de seu serviço de seleção, a startup incentiva a diversidade nos times de outras empresas. A própria Gupy foi fundada com um time executivo diverso: ao lado de Mariana, estão Bruna Guimarães, diretora de operações, Guilherme Dias, diretor de marketing e produto, e Robson Ventura, diretor de tecnologia.

Mariana também sentiu na pele a desigualdade de gênero desde o início de sua trajetória profissional. “Comecei a me perguntar se nós, mulheres, conseguimos ter uma carreira corporativa com a mesma competitividade que a dos homens. Foi aí que nasceu a ideia da Gupy.” Além do C-level, composto por duas mulheres entre quatro pessoas, a Gupy tem 50% de mulheres em seu quadro, incluindo cargos de liderança nos setores de vendas, diversidade, jurídico, sucesso de cliente e marketing.

Isaiane Mendonça, cofundadora da startup AutoForce, também sentiu essa desigualdade, talvez com maior intensidade por atuar em duas áreas muito dominadas por homens: tecnologia e setor automotivo. Fundada ao lado de Tiago Fernandes e Clênio Cunha, a empresa oferece tecnologias para impulsionar a venda de veículos. A plataforma foi desenvolvida por Isaiane, formada em ciência da computação. ”No começo do projeto, os meus sócios queriam que eu continuasse sendo só web designer”, conta. “Pela frente, concordei com eles. Por trás, desenvolvi uma plataforma e a entreguei pronta. Acho que as mulheres são sempre subestimadas; é até uma questão cultural”

Isaiane conclui que mulheres na liderança só trazem benefícios para a empresa. Tanto é assim que, hoje, a líder de pessoas da AutoForce (e braço direito dos fundadores) é Thaiani Godoy. Outras duas mulheres compõem a liderança da startup, representando 40% dos cargos de chefia.

Mariana Dias concorda que mulheres na liderança trazem mais inovação. “Muitas empresas chegam até a Gupy com a meta de ter 30 % de mulheres em seu quadro de funcionários. Mas a questão é mais profunda do que isso: é preciso ter mulheres em todos os níveis, em todos os times”, diz.

ESTAR BEM

BEBER ÁGUA AO SENTIR SEDE É O SUFICIENTE PARA FICAR HIDRATADO

Pessoas com condições médicas como pedras nos rins e idosos, porém, devem considerar ingerir maior quantidade

Você passou algum tempo nas redes sociais ou visitou um evento esportivo ultimamente, com certeza foi bombardeado com incentivos para beber mais água. Influenciadores e celebridades arrastam garrafas de água como se fosse o novo acessório da moda.

No Twitter, robôs constantemente nos lembram de ter mais tempo para nos hidratar. Os supostos benefícios do amplo consumo de água são aparentemente infinitos, desde melhora da memória e da saúde mental, aumento da energia e pele mais bonita. “Mantenha-se hidratado” tornou-se uma nova versão da velha saudação “fique bem”.

Mas o que significa exatamente “manter-se hidratado”? “Quando leigos discutem desidratação, eles querem dizer a perda de qualquer líquido”, diz Joel Topf, nefrologista e professor clínico assistente de medicina na Universidade de Oakland, em Michigan (Estados Unidos).

Mas essa interpretação “está sendo completamente exagerada”, diz Kelly Anne Hyndman, pesquisadora da função renal na Universidade do Alabama em Birmingham. Manter-se hidratado é definitivamente importante, disse ela, mas a ideia de que o simples ato de beber mais água tornará as pessoas mais não é verdade. Também não é correto que a maioria das pessoas estejam cronicamente desidratada ou que devamos beber água o dia todo.

Do ponto de vista médico, acrescenta Topf, a medida mais importante de hidratação é o equilíbrio entre eletrólitos como sódio e água no corpo. E você não precisa beber copos e copos de água ao longo do dia para mantê-lo.

QUANTA ÁGUA DEVO BEBER?

Todos nós fomos ensinados que oito copos de água por dia é o número mágico para todos, mas essa ideia é um mito, diz Tamara Hew-Butler, cientista de exercícios e esportes na Universidade Estadual Wayne.

Fatores únicos, como o tamanho do corpo, a temperatura externa e o quanto você respira e sua determinarão quanto liquido você precisa ingerir, disse ela. Uma pessoa de 90 kg que acabou de caminhar 16 quilômetros no calor obviamente precisará beber mais água do que uma gerente de escritório de 55kg que passou o dia em um prédio com temperatura controlada.

A quantidade de água de que você precisa em um dia também dependerá da sua saúde. Alguém com uma condição médica como insuficiência cardíaca ou pedras nos rins pode exigir uma quantidade diferente de alguém que toma medicamentos diuréticos, por exemplo. Ou você pode precisar alterar a ingestão se estiver doente, com vômitos ou diarreia.

Para a maioria das pessoas jovens e saudáveis, a melhor maneira de se manter hidratado é simplesmente beber quando sentir sede, disse Topf. As pessoas idosas, na faixa dos 70 e 80 anos, podem precisar prestar mais atenção na ingestão suficiente de líquidos, porque a sensação de sede pode diminuir com a idade.

Apesar da crença popular, não confie na cor da urina para indicar com precisão o seu estado de hidratação, disse Hew-Butler. Sim, é possível que a urina amarelo-escura ou âmbar possa significar que você está desidratado, mas não há ciência sólida que sugira que a cor, por si só, exige uma bebida.

TENHO QUE BEBER ÁGUA PARA ME MANTER HIDRATADO?

Não necessariamente. Do ponto de vista puramente nutricional, a água é uma escolha melhor do que opções menos saudáveis, como refrigerantes açucarados ou sucos de frutas. Mas quando se trata de hidratação qualquer bebida pode adicionar água ao seu sistema, diz Hew-Butler. Uma noção popular é que tomar bebidas com cafeína ou álcool irá desidratá-lo, mas se isso for verdade o efeito é insignificante, disse Topf (Um ensaio controlado randomizado de 2016 com 72 homens, por exemplo, concluiu que os efeitos hidratantes da água, cerveja, café e chá eram quase idênticos.

Você também pode obter água do que você come. Alimentos e refeições ricos em líquidos, como frutas, legumes, sopas e molhos, contribuem para a ingestão de água. Além disso, o processo químico de metabolização dos alimentos produz água como subproduto, o que também aumenta sua ingestão, afirma Topf.

PRECISO ME PREOCUPAR COM OS ELETRÓLITOS?

Alguns anúncios de bebidas esportivas podem fazê-lo pensar que precisa estar constantemente reabastecendo eletrólitos para manter seus níveis de controle, mas não há razão científica para a maioria das pessoas saudáveis tomarem bebidas com eletrólitos adicionados, afirma Hew-Butler.

Eletrólitos como sódio, potássio, cloreto e magnésio são minerais eletricamente carregados que estão presentes nos fluidos do corpo (como sangue e urina) e são importantes para equilibrar a água em seu corpo. Eles também são essenciais para o bom funcionamento dos nervos, músculos, cérebro e coração.

Quando você fica desidratado, a concentração de eletrólitos no sangue aumenta e o corpo sinaliza a liberação do hormônio vasopressina, que reduz a quantidade de água liberada na urina para que você possa reabsorvê-la de volta no corpo e recuperar o equilíbrio.

A menos que você esteja em uma circunstância incomum – fazendo exercícios muito intensos no calor ou perdendo muito líquido por vômito ou diarreia -, não precisa reabastecer os eletrólitos com bebidas esportivas ou outros produtos carregados deles. A maioria das pessoas obtém eletrólitos suficientes nos alimentos.

BEBER MAIS ÁGUA, MESMO SEM SEDE, MELHORA A SAÚDE?

 Não. É claro que pessoas com certas condições, como cálculos renais ou a doença renal policística autossômica dominante, mais rara, podem se beneficiar fazendo um esforço para beber um pouco mais de água do que a sede lhes diria, diz Topf.

Mas, na realidade, a maioria das pessoas saudáveis que culpam o mal-estar por estarem desidratadas podem estar se sentindo mal porque estão bebendo água demais, especula Hyndman. “Talvez elas fiquem com dor de cabeça ou se sintam mal, e pensem: ‘Ah, estou desidratada, preciso beber mais’, e continuam bebendo mais e mais água, e acabam se sentindo cada vez pior.

Se você beber mais do que seus rins podem excretar, os eletrólitos no sangue podem ficar muito diluídos e, no caso mais leve, podem fazê-lo se sentir “desligado No caso mais extremo, beber uma quantidade excessiva de água em um curto período de tempo pode  levar a uma condição chamada hiponatremia ou “intoxicação por água”.

“É muito assustador e ruim”, diz Hyndman. Se os níveis de sódio ficarem muito baixos, isso pode causar inchaço cerebral e problemas neurológicos, como convulsões, coma ou até morte.

Em 2007, uma mulher de 28 anos morreu de hiponatremia após supostamente beber quase 8 litros de água em três horas enquanto participava de um concurso de uma estação de rádio que desafiava os participantes a beber água e depois, passar o maior tempo possível sem urinar.

COMO SABER SE ESTOU BEM HIDRATADO?

Seu corpo lhe dirá. A ideia de que manter-se hidratado requer cálculos complexos e ajustes instantâneos para evitar consequências terríveis para a saúde é simplesmente bobagem, dizem especialistas. E uma das melhores coisas que você pode fazer é parar de pensar demais.

O melhor conselho para se manter hidratado, segundo Topf, é o mais simples: beba água quando sentir sede.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIBA COMO IDENTIFICAR E TRATAR O TRANSTORNO DE IMAGEM

O principal sinal é o ‘divórcio’ entre a autopercepção e a percepção dos outros; diagnóstico deve ser feito por especialista em saúde mental

Você abre a rede social e dá de cara com aquela pessoa que tem uma imagem escultural. Vai ao espelho e, imediatamente, se compara com ela. Algumas situações ocorrem na sua mente: entende que esse é um corpo inatingível, que pode até ser que tenha filtro na fotografia e que cada pessoa é de um jeito. Para pessoas que sofrem com transtorno de imagem, não é tão simples assim.

“Ele também é conhecido tecnicamente como transtorno dismórfico corporal e envolve pessoas que acreditam serem portadoras de algum ‘defeito’ que lhes confere feiura ou as fazem ser o centro negativo das atenções. O caso pode ocorrer por uma crença no que chamam de um nariz torto, um cabelo sem valor, um rosto quadrado, pernas tortas, etc.”, explica o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.

Para a coordenadora do curso de Nutrição do Centro Universitário Braz Cubas, Daniela Cotrim, mesmo que indiretamente, as redes sociais podem estimular o enquadramento a um padrão de beleza estigmatizado. “A mídia social pode desencadear comparações sociais negativas que levam os usuários a acreditar que os outros são mais felizes ou têm uma vida melhor, levando a expectativas irrealistas e feedbacks negativos”, avalia.

Na opinião de Ramos, as redes sociais não interferem necessariamente na causa da doença. “O transtorno de imagem é hoje considerado como parte integrante do espectro obsessivo-compulsivo. Mas as redes sociais são uma arma perigosíssima na mão dos pacientes. Podem trazer a ideia de que uma cirurgia plástica ou uma humanização facial resolveria o problema. Mas não resolveria. Porque não se soluciona problema de mundo interno atuando no mundo externo”, considera

TRANSTORNO DE IMAGEM X TRANSTORNO ALIMENTAR

O transtorno de imagem não está necessariamente ligado ao comportamento alimentar, como explica Rodrigo de Almeida Ramos. “Por outro lado, o transtorno alimentar corresponde a um conjunto de doenças que alteram o padrão de consumo de alimentos do indivíduo, fazendo com que a saúde fique globalmente prejudicada”, diz. São exemplos de transtorno alimentar a anorexia, a bulimia e a compulsão alimentar.

“Nem todos esses transtornos têm como efeito o emagrecimento, mas também, podem levar à obesidade, uma vez que fazem com que os indivíduos nunca se sintam satisfeitos. A prática de atividades físicas são de extrema relevância para manter uma boa qualidade de vida”, acrescenta a professora de Nutrição Daniela Cotrim.

Para a nutricionista, nesse culto ao corpo, as pessoas têm uma preocupação exacerbada com a parte física. “Elas buscam aproximar sua forma aos padrões de beleza que são exibidos pela mídia, envolvendo a prática de atividades físicas, dietas e cirurgias plásticas”, observa. Como nem sempre é possível alcançar os padrões exibidos, cria-se uma insatisfação nas pessoas que tentam alcançar esse ideal de beleza.” Esse fator está contribuindo para o aumento dos casos de distúrbios alimentares, associados a motivos psicológicos”, ensina.

QUAIS OS SINAIS?

O transtorno de imagem é um diagnóstico complexo que precisa ser feito por um especialista em saúde mental. “O grande segredo está no “divórcio” entre a autopercepção e a percepção dos outros. Ou seja, o que a pessoa considera um defeito ou um problema pode nem ser observável pelos outros ou ser algo muito discreto”, esclarece Ramos.

Além disso, de acordo com o psiquiatra, a pessoa costuma se ver frequentemente no espelho, se arruma excessivamente, troca de roupas diversas vezes para um evento e nunca se sente satisfeita.

“Com muita frequência, ela se compara com os outros e na sua opinião sai perdendo. Essas preocupações costumam ser tão intensas que trazem prejuízos na vida do indivíduo tanto socialmente como no trabalho e escola”, afirma. “A apreensão com a auto imagem não está relacionada ao peso e às formas de perdê-lo, porque nesse caso estamos falando de um transtorno alimentar.

CONHEÇA OS TRANSTORNOS MAIS COMUNS

As perturbações dos comportamentos alimentares são mais comuns do que se imagina. E elas podem causar um prejuízo emocional e na qualidade de vida dos pacientes. “Esses indivíduos se sentem motivados a comer menos ou mais do que a quantidade habitual, levando a um comportamento fora do controle que pode trazer diversas consequências nocivas à saúde”, destaca Daniela.

Os transtornos alimentares, em geral, são tratados com acompanhamento médico, por intermédio do atendimento de um psiquiatra, e psicológico, com psicoterapia, que vai entender os “gatilhos” emocionais e tentar ressignificá-los em busca de maior qualidade de vida.

Daniela apontou algumas dicas de como identificar transtornos alimentares e auxiliar alguém que esteja sofrendo com eles.

A anorexia nervosa, por exemplo, caracteriza-se pela perda voluntária de peso, motivada pelo desejo de emagrecer e o medo de engordar. Os comportamentos mais comuns da doença são a redução da alimentação, excesso de exercícios físicos, utilização de redutores de apetite, laxantes e os vômitos provocados. Assim, quem tem anorexia apresenta como resultado a desnutrição progressiva e transtornos físicos e mentais. Entre os sinais de alerta estão peso muito abaixo do normal, preocupação em não aumentar o peso, distorção da imagem corporal, inibição do ciclo menstrual, gastrite e anemia.

Na bulimia, há um consumo excessivo de alimentos em uma única refeição, seguidos de episódios que buscam contar ou amenizar os efeitos da compulsão – vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, excesso de exercícios. Geralmente, quem tem bulimia oculta suas ações, pois se envergonha de seus atos. Os problemas mais comuns são a perda de potássio, inflamação do esôfago, desequilíbrio eletrolítico e danos no esmalte dos dentes. Fique atento a dor de garganta, problemas nas glândulas salivares, erosão do esmalte dentário, irritação intestinal (uso abusivo de laxantes) e desequilíbrio de eletrólitos.

Caracterizado por episódios sequenciais de compulsão, o transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) difere da bulimia, pois não é seguido de métodos purgativos e não apresenta preocupação irracional com a forma corporal. Quem tem o transtorno só consegue parar de comer ao sentir desconforto físico. Entre os sinais de alerta estão comer de forma exagerada (mesmo sem fome), dificuldade para parar de comer, consumo de alimentos estranhos (macarrão cru, feijão gelado) e comer muito rapidamente e escondido.

OUTROS OLHARES

EM MEIO A BUROCRACIA, TRISAIS ‘GRÁVIDOS’ TÊM APOIO ONLINE

Divórcio foi a opção de um casal para garantir amparo legal à companheira

Pierre Gabarra Mira nasceu no dia 16 de abril, filho de uma família poli afetiva, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Os pais, um trisal formado por um homem e duas mulheres, esperam registrar o bebê com o nome das duas mães.

No Brasil, isso só é possível com pedido judicial de multiparentalidade, o que envolve vínculo afetivo com a criança.

“Ela inclui os trisais e até as famílias multiespécies, com os animais. O direito legislado, no entanto, não prevê essas famílias. É uma novidade que a legislação não acompanhou ainda”, diz Frederico Glitz, advogado e doutor em direito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Ele observa que é necessário compreender as relações muito mais pela afetividade e pelo laço não genético. “É preciso entender como uma relação familiar legitima, que merece também tutela jurídica.”

Segundo a Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), em 2021 houve 558 registros de multiparentalidade (inclusive de trisais). Em 2022, foram 64 registros até o início de abril.  “A única possibilidade de inclusão de um terceiro genitor no registro de nascimento se dá por meio das regras relativas ao registro de nascimento se dá por meio das regras relativas ao registro de filiação socioafetiva “, afirma a diretora da Arpen/SP, Andreia Gagliardi.

“Somos uma família, mas hoje, se eu precisar que ela responda pelas minhas filhas, ela não pode. Elas a reconhecem como mãe, mas perante a lei não é nada”, diz Priscila Mira, ao lado de Regiane Gabarra, com quem mantém relacionamento amoroso há três anos.

O trisal é completado por Marcel Mira, que se casou há 13 anos com Priscila. Ambos se divorciaram para que Marcel pudesse casar legalmente com Regiane e assegurar direitos à filha biológica de Pierre, com o plano de saúde e herança. A história do trisal é contada no perfil @trisalamoraocubo, que com a chegada do bebê ganhou mais 3.000 seguidores, somando quase 42 mil.

“São pessoas que vêm para somar. Eles entram para saber como é, e descobrem que somos uma família”, diz Priscila.

Sobre o registro no nome dos três, ela diz que tentarão um pedido prévio no cartório. Caso haja negativa, vamos entrar com pedido no jurídico.

“A união entre três pessoas não é prevista na legislação brasileira, havendo vedação imposta pelo Conselho Nacional de Justiça para sua declaração extrajudicial em cartório”, diz a advogada Luciana Xavier, presidente da Comissão de Direito da Família da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), do Paraná.

“A existência de vínculo socioafetivo tem sido aceita para fins de reconhecimento de maternidade, paternidade e situações de multiparentalidade”, diz Xavier.

Este será também o caminho escolhido por um trisal de Londrina, no Paraná. “Desde que descobrimos a gravidez, é fato que Kah também é mãe do Henrique, que ele é dos três”, diz Carolina Queiroz, grávida de sete meses do marido, Douglas Queiroz, com quem é casada há dez anos.

Há sete meses eles se uniram à Kah Marquez. “Não penso que não serei mãe do Henrique só pelo fato dele não ser meu filho biológico. Meu pai é adotado, então sei que o sangue não quer dizer nada”, diz Kah.

Tudo é contado no perfil @meutrisal, que hoje tem quase 20 mil seguidores.

Em Palmas, no Tocantins, outro trisal aguarda seu bebê. “Minha família não aceitou”, diz Kadja Oliveira, grávida de quatro meses de Dionatan Lima.

Ele é casado há 11 anos com a gerente automotiva Denise Beiral. Há dois anos e meio, o casal se uniu a Kadja. “Éramos da igreja, então perdemos muitos amigos”, diz Denise.

Na internet, ao contrário, desde que abriram o perfil @trilov3, recebem carinho e apoio. “Eles têm interesse em saber como vivemos. O preconceito vem das pessoas que não entendem nossa forma de amar”, afirma Denise.

“‘Quando contamos, minha família ficou em choque, mas hoje já aceitaram, estão ansiosos pela chegada do bebê e eu me sinto muito feliz”, diz Dionatan.

GESTÃO E CARREIRA

MUITOS PAIS QUE TRABALHAM SOFREM BURNOUT, DIZ ESTUDO

Pesquisa nos EUA abordou período de confinamentos devidos à pandemia

Faz dois anos que os pais que vivem e trabalham nos Estados Unidos estão esgotados, quase no limite de suas forças – castigados pelo estresse do ensino escolar à distância, do fechamento de creches, instabilidade econômica e isolamento social.

Um estudo que acaba de ser lançado diz que 66% dos pais que trabalham satisfazem os critérios de síndrome de Burnout parental, um termo não clínico que significa que eles estão tão exaustos com a pressão de cuidar dos filhos que sentem que não têm mais nada para dar.

Publicado por pesquisadores da Ohio State University, o estudo é baseado numa pesquisa online feita entre janeiro e abril de 2021 com 1.285 pais e mães que trabalham.

A pesquisa seguiu um curto cenário de um tempo diferente, quando os EUA estavam mergulhados em confinamentos devido a pandemia.

Mas seus autores acreditam que o Burnout parental se perpetue, isso porque os pais que trabalham não contam com apoio estrutural prático suficiente para superar o implacável estresse, que não está diminuindo. Qualquer mãe ou pai pode sofrer Burnout, mas o estudo enfoca os pais que trabalham e que, para os pesquisadores, correm risco especial de esgotamento.

“O Burnout parental não vai simplesmente acabar num toque de mágica quando a pandemia terminar, disse Bernadette Melnyk, diretora da Faculdade de Enfermagem da Ohio State University e autora do estudo. “A cronicidade da pandemia cobrou seu preço e esgotou as reservas de força de muitos pais, que vão demandar tempo e paciência para voltar a crescer”.

O Burnout parental não é um diagnóstico clínico que possa figurar na ficha médica de qualquer pessoa, mas muitos psicólogos o reconhecem como um subtipo do Burnout, um fenômeno relacionado ao trabalho hoje reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como uma síndrome.

“Como é o caso com o Burnout, o Burnout parental é definido como esgotamento físico e emocional e mental devido às demandas contínuas de cuidar dos filhos”, disse Jennifer Yen, psiquiatra da UTHealth Houston.

É claro que criar filhos é algo que demanda muito dos pais de todas essas maneiras e dificulta a diferenciação clara entre períodos normais de estresse e Burnout

Yen disse que os pais devem ficar atentos para sinais como fadiga, irritabilidade, mudanças no sono, apetite e humor, além de dores corporais diversas. O que diferencia o Burnout parental é a gravidade desses sintomas e até que ponto eles estão afetando o dia a dia da pessoa.

“É um estado em que você fica dando, dando, dando, dando, até se esvaziar completamente”, comentou a assistente social clínica Kate Kripke, fundadora do Postpartum Wellness Center, em Houlder, Colorado.

Yen também chamou a atenção para outros indícios reveladores que são específicos do Burnout parental, como sentir raiva ou ressentimento por ter de cuidar dos filhos e começar a distanciar-se física ou emocionalmente deles.

Os pais com Burnout também podem se sentir presos numa armadilha ou tecer fantasias sobre abandonar tudo, ela acrescentou.

 O novo estudo pode ser útil para profissionais de saúde, mas os pesquisadores o escreveram diretamente para os pais que trabalham

O estudo inclui uma nova escala que os autores esperam que pais possam usar para avaliar como estão. Inclui dez afirmações como “acordo exausto ao pensar em passar mais um dia com meus filhos” ou sinto que mal estou sobrevivendo como mãe (pai): Os pais podem concordar ou discordar de cada afirmação numa escala que vai desde “discordo totalmente” até “concordo plenamente”. Eles então recebem uma pontuação final que ajudará a indicar se tem ou não algo que os pesquisadores interpretariam como um Burnout leve, moderado ou grave.

Independentemente de onde eles se situam nesse espectro, pode ser útil aos pais começar por reconhecer que muitos dos desafios que enfrentam estão fora de seu controle. É impossível ser ao mesmo tempo um profissional dedicado e cuidador dedicado, a não ser que você conte com o apoio necessário. A autocompaixão é importante, disse Melnyk.

Mas os pais que enfrentam Burnout talvez possam fazer modificações imediatas que os impeçam de sofrer esgotamento mais grave.

Procure alguma maneira de pedir ajuda, recomendaram os pesquisadores. Peça a uma pessoa da família ou um vizinho para cuidar de seu filho de vez em quando, nem que seja apenas para te dar uma folga breve. Se você é responsável por levar seu filho à escola e outras atividades, procure outras pessoas com quem dividir essa tarefa para não ficar exausto.

O estudo constatou que 68% das mães que trabalham disseram estar com Burnout contra 42% dos pais que trabalham. Logo, talvez seja especialmente importante para as mulheres ter intervalos para descansar e pedir ajuda (mesmo que isso não seja nem simples, nem fácil).

Outra coisa que pode ajudar pais estressados é buscar um senso de calma e tranquilidade, praticando mindfulness. Pesquisas revelam que o mindfulness pode ajudar a reduzir o estresse parental e isso, por sua vez, pode ajudar a melhorar o estado psicológico dos filhos. Para Kripke, pode ser algo tão simples, quanto você intencionalmente sentir a sola dos pés apoiada sobre o chão e respirar fundo.

Mas somente respirar fundo não resolverá o problema. Os diagnosticados com a síndrome mais grave devem buscar imediatamente um clínico geral ou profissional de saúde mental, que poderia identificar as questões como ansiedade e depressão. Também é bom saber que alguns profissionais de saúde mental têm dúvidas em relação à noção de Burnout parental.

“É a primeira vez que ouço esse termo”, disse Catherine Birndorf, CEO e diretora médica do Motherhood Center, em Nova York.

Ela afirma que gosta do conceito e da ideia da escala de Burnout parental se isso pode ajudar pais que de outro modo não reconhecerão que estão tendo dificuldades.

Mas ela também receia que alguns pais possam descartar o que estão sentindo, atribuindo-o ao Burnout, em vez de buscar tratamento para uma condição subjacente como ansiedade ou depressão.

EU ACHO …

PREGOS

Foi de repente. Dois quadros que tenho na parede da sala despencaram juntos. Ninguém os havia tocado, nenhuma ventania naquele dia, nenhuma obra no prédio, nenhuma rachadura. Simplesmente caíram, depois de terem permanecido seis anos inertes. Não consegui admitir essa gratuidade, fiquei procurando uma razão para a queda, haveria de ter uma. Poucos dias depois, numa dessas coincidências que não se explica, estava lendo um livro do italiano Alessandro Baricco, chamado Novecentos, em que ele descrevia exatamente a mesma situação. “No silêncio mais absoluto, com tudo imóvel ao seu redor, nem sequer uma mosca se movendo, eles, zas. Não há uma causa. Por que precisamente neste instante? Não se sabe. Zas. O que ocorre a um prego para que decida que já não pode mais?”.

Não há como desvendar esse mistério, assim é. Um belo dia a gente se olha no espelho e descobre que está velho. A gente acorda de manhã e descobre que não ama mais uma pessoa. Um avião passa no céu e a gente descobre que não pode ficar parado onde está nem mais

um minuto. Zas. Nossos pregos já não nos seguram.

Costumamos chamar essa sensação de “cair a ficha”, mas acho bem mais poético e avassalador a analogia com os quadros na parede. Cair a ficha é se dar conta. Deixar cair os quadros é um pouco mais que isso, é perder a resistência, é reconhecer que há algo que já não podemos suportar. Não precisa ser necessariamente uma carga negativa, pode ser uma carga positiva, mas que nos obriga a solicitar mais força dentro de nós.

Nascemos, ficamos em pé, crescemos e a partir daí começamos a sustentar nossas inquietações, nossos desejos inconfessos, algum sofrimento silencioso e a enormidade da nossa paciência. Nossos pregos são feitos de material maciço, mas nunca se sabe quanto peso eles podem aguentar. O quanto podemos conosco? Uma boa definição para felicidade: ser leve para si mesmo.

Sobre o livro que li: é um monólogo para teatro sobre um homem

que um dia foi abandonado, ainda bebê, num navio, e ali ele cresce sem jamais desembarcar nos cais em que o navio atraca, passa a vida inteira sem colocar os pés em terra firme, tocando piano em alto-mar. Virou filme do Giuseppe Tornatore, chama-se A lenda do pianista do mar.

Sobre os meus quadros: foram recolocados na parede. Estão novamente fixos no mesmo lugar. Até que eles, ou eu, sejamos definitivamente vencidos pelo cansaço.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

AO LIMPAR OS OUVIDOS, COTONETE DEVE DAR LUGAR A OUTROS MÉTODOS

Especialistas indicam soluções para higiene caseira sem risco de lesões

O excesso de cera nos ouvidos pode provocar a sensação de obstrução e atrapalhar a audição. Por isso, para quem produz muita cera, é interessante fazer limpezas regulares na região. Mas, por incrível que pareça, o cotonete não é a ferramenta mais indicada pelos especialistas.

Por seu formato fino e sua capacidade de entrar profundamente na cavidade dos ouvidos, o cotonete pode empurrar ainda mais para dentro a cera que o próprio ouvido está “expulsando” por seu sistema auto-limpante. E isso pode não só provocar a sensação de ouvido tapado, mas causar ferimento de alguma estrutura interna. É por conta do risco de lesão, também, que não se deve introduzir nada nos ouvidos (como tampas de caneta, etc.) seja para tirar cera ou para coçar.

Se o uso do cotonete não é recomendado, como devemos limpar os ouvidos então? Veja abaixo três maneiras fáceis e seguras:

PANO ÚMIDO

Uma das maneiras mais corretas de limpar os ouvidos é passar neles um pano umedecido com água morna. A temperatura ajuda a cera a desgrudar e sair com mais facilidade. O ideal é usar o dedo mesmo para passar. Essa é uma forma de garantir que o pano não atingirá áreas sensíveis e que correm grande chance de serem lesionadas.

GOTINHAS DE AZEITE

Pingar de duas a três gotas de azeite ou outro tipo de óleo vegetal nos ouvidos ajuda a soltar as ceras que possam estar prejudicando a audição. A consistência do azeite ajuda a amolecer a cera, facilitando a sua retirada e diminuindo a sensação de ouvido tapado. A indicação é inclinar a cabeça e pingar o óleo levemente. Pode-se fazer isso por até três dias.

IRRIGAÇÃO

Outra forma de limpar os ouvidos é por meio da técnica de irrigação. Ela consiste em aplicar água morna utilizando uma seringa específica, conhecida como seringa de bulbo.

Nesse procedimento, a pessoa deve virar o ouvido para cima, injetar a água de forma delicada e ficar com o líquido por cerca de um minuto. Completado o tempo, a pessoa deve virar e deixar a água escorrer dos ouvidos. É preciso tomar cuidado com a temperatura da água, evitando o calor excessivo, pois a cavidade interna é muito sensível.

Em caso de dor de ouvido, febre e tontura associados a incômodos na região auricular, um otorrinolaringologista deve ser consultado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE QUANTOS AMIGOS VOCÊ REALMENTE PRECISA?

Estudos mostram que um círculo social com duas a três amizades íntimas é um bom começo, mas mesmo uma relação profunda já beneficia a saúde mental

Uma discussão contínua e que se tornou mais controversa durante a pandemia é sobre quantos amigos devemos ter. Eu e meu marido temos um ou dois amigos próximos, além dos irmãos com quem gostamos de passar o tempo ­ e nossos dois filhos, que consomem a maior parte da nossa energia. Como boa introvertida, isso me parece o suficiente, quase excessivo. Mas o meu marido é um extrovertido e, à medida que reconstruímos lentamente a nossa vida social, consigo sentir que ele anseia por mais contatos.

A amizade nos Estados Unidos está em declínio, uma tendência que se acelerou durante a pandemia. Três décadas atrás, 3% dos americanos afirmaram aos pesquisadores da Gallup que não tinham amigos próximos; em 2021, uma pesquisa online mostrou que este número subiu para 12%. Cerca de um ano após o início da pandemia, 13% das mulheres e 8% dos homens de 30 a 49 anos declararam que perderam contato com a maioria de seus amigos.

E tudo isso tem implicações na saúde. A amizade pode ser um fator importante no bem-estar, enquanto a solidão e o isolamento social – condições distintas, mas relacionadas -podem estar associados a um risco aumentado de doenças como depressão e ansiedade ou problemas cardíacos e derrames. Uma metanálise de 2010, liderada por Julianne Holt Lunstad, professor de psicologia e neurociência da Universidade Brigham Young, em Utah, concluiu que a solidão é tão prejudicial à saúde física quanto fumar 15 cigarros por dia.

NÚMERO IDEAL

Embora ela e outros pesquisadores admitam que não há muitos estudos que abordem especificamente a questão de quantos amigos as pessoas devem buscar, aqueles que foram feitos indicam que algo entre três e seis amigos próximos pode ser o ideal.

Se o objetivo é simplesmente mitigar o impacto prejudicial que a solidão pode ter na saúde, o mais importante é ter ao menos uma pessoa importante na vida ­ seja um parceiro, um pai, um amigo ou outra pessoa, diz Jeffrey Hall, professor da Universidade de Kansas.

“Ir de zero a um é onde obtemos mais retorno. Mas se quer ter uma vida mais significativa, em que se sinta conectado aos outros, ter mais amigos é ainda melhor”.

A teoria mais conhecida sobre quantos amigos as pessoas podem ter (embora não necessariamente devam) vem do psicólogo e antropólogo britânico Robin Dunbar. O que veio a ser conhecido como o número de Dunbar afirma que os humanos são cognitivamente capazes de manter apenas cerca de 150 conexões de uma só vez (pesquisas subsequentes aumentaram o número). Isso inclui um círculo interno de cerca de cinco amigos próximos, seguido por círculos concêntricos maiores de amizades mais casuais.

Outras estimativas são semelhantes. Um estudo de 2016 sugeriu que pessoas que têm seis ou mais amigos, melhoraram a saúde ao longo de suas vidas, enquanto outro estudo de 2020, de Suzanne Degges-White, professora da Northern Illinois University, descobriu que mulheres de meia-idade que tinham três ou mais amigos tendiam a ter níveis mais altos de satisfação geral com a vida.

Essas estimativas parecem acompanhar a percepção das pessoas de quantos amigos elas deveriam ter. Degges-White realizou recentemente uma pesquisa com 297 adultos, que ainda não foi publicada ou submetida a revisão por pares, mas descobriu que 55% dos participantes acreditavam que dois ou três amigos íntimos eram o ideal, enquanto 31% achavam que quatro a seis era o objetivo.

Mas tudo isso pode ser realmente desafiador para estudar, porque amizade e intimidade são subjetivas.

FAZENDO AMIZADE

Também não está claro como as mídias sociais influenciam tudo isso, pois pesquisas sugerem que o tamanho da rede online de uma pessoa pode não ter nenhum impacto significativo em seu bem-estar. Por outro lado, embora muitas amizades tenham desaparecido durante a pandemia, muitas pessoas encontraram conexão online.

Apesar das pesquisas oferecerem alguns pontos de referência, pode ser mais útil para a maioria de nós simplesmente fazer um pouco de autoanálise. A psicóloga Marisa Franco recomenda, começar com uma pergunta óbvia, mas poderosa: me sinto solitário?

“A solidão é uma espécie de sinal ou sistema de alarme”, disse Franco. Todo mundo se sente solitário de vez em quando, mas é uma questão mais profunda se você se sente regularmente excluído ou isolado”.

Também ajuda perguntar a si mesmo se há partes de sua identidade que se sentem restritas, disse Franco.

“Pessoas diferentes trazem à tona partes diferentes de nós. Se você sente que sua identidade encolheu, ou não está se sentindo bem, isso pode indicar que você precisa de diferentes tipos de amigos”.

Claro, fazer amizades na vida adulta nem sempre é fácil. Pesquisas mostram que as pessoas lutam com isso porque acham difícil confiar em novas pessoas e porque estão simplesmente sem tempo. Por essas razões, muitas vezes é mais fácil começar por reacender velhos relacionamentos.

Tome a iniciativa e não assuma que as amizades acontecem organicamente, diz Franco. Mas seja criterioso. Passar tempo com amigos sobre os quais você se sente ambivalente – porque eles não são confiáveis, críticos, competitivos ou qualquer uma das muitas razões pelas quais as pessoas nos irritam – pode ser pior para sua saúde.

OUTROS OLHARES

MAIS EM CONTA

Alta de alimentos estimula trocas e estratégias para manter teor de nutrientes

Não há quem tenha passado ileso pela alta de preços dos alimentos dos últimos meses no país. Muitos brasileiros têm sido obrigados a fazer malabarismos para manter o padrão à mesa sem estourar o orçamento. Mas a questão-está além de manter ou não a dieta que mais agrada ao paladar. A comida tem como função fornecer os nutrientes necessários para o bom funcionamento do corpo, e nesse aspecto é possível seguir um cardápio com substituições de ingredientes equivalentes sob o ponto de vista nutricional – e com gastos reduzidos.

Na horada troca, o ideal é manter os produtos na mesma categoria de alimentos, orienta a nutricionista Priscilla Primi. Substituir, por exemplo, uma fonte de proteína por outra, um carboidrato por um equivalente, legume por legume, e assim por diante. Isso garante que nutrientes não sejam deixados de lado, e ainda possibilita uma maior oferta deles.

Um prato considerado equilibrado por especialistas é composto por 25% de proteínas, 25% de carboidratos e 50% por alimentos que ofertem uma variedade de vitaminas e minerais, como legumes, hortaliças e frutas. No entanto, essa não é uma realidade na mesa da maioria dos brasileiros.

A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, feita em 2021 pelo grupo de pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, mostrou que durante a crise sanitária causada pelo Corona vírus, a população reduziu o consumo de alimentos saudáveis, principalmente carne (44%), frutas (41,8%), queijos (40,4%), hortaliças e legumes (36,8%). O ovo foi o alimento que sofreu a menor redução (18%) e o maior aumento no consumo (17,8%) durante a pandemia. Entre os entrevistados em situação de insegurança alimentar, essa redução chegou a ser de mais de 85% dos alimentos saudáveis.

Primi afirma que, diante do aumento de preços de itens básicos da alimentação, a tendência é que a população migre para os alimentos ultra processados, que são mais baratos:

“Em vez de comprar um quilo de carne, as pessoas acabam optando pela salsicha. O suco de laranja natural é substituído pelo refresco em pó. O lanche deixa de ser uma fruta e passa a ser um biscoito recheado. Diante das dificuldades, a população opta por alimentos mais baratos e que dão uma maior sensação de saciedade. Mas eles normalmente são os que têm mais açúcar, gordura, corantes e conservantes. Se levarmos em consideração apenas o curto prazo, ser saudável está cada vez mais caro”, afirma a especialista.

Um trabalho da Universidade Federal de Minas Gerais estima que os alimentos ultra processados se tornariam mais baratos do que os in natura em 2026. No entanto, a inflação e os eventos climáticos frequentes – como geadas, secas e chuvas em excesso – dos últimos dois anos aceleraram o processo. A previsão é que a inversão ocorra já no segundo semestre de 2022.

Para driblar as dificuldades de manter uma alimentação saudável e barata, Primi dá algumas orientações.

Ir à feira próximo à hora da xepa, por exemplo, é uma estratégia bem conhecida dos brasileiros. Nessescasos, o indicado é comprar apenas o que será consumido nos próximos dias, para evitar o desperdício de deixar a comida estragar.

“Se você abriu a geladeira e já olhou um legume ou verdura por mais de dois dias seguidos, é a hora de fazer algo com ele. Faz um refogado, coloca no arroz ou faz o branqueamento e congela. Sempre que você muda o estado do legume, aumenta sua validade”, orienta.

TÉCNICA DE PRESERVAÇÃO

O branqueamento consiste em provocar um choque térmico no alimento: ele deve ser cozido por pouco tempo na água fervente e resfriado logo em seguida na água com gelo. Depois, ele pode ser congelado sem perder nutrientes.

Comprar legumes e verduras já congelados em supermercados pode ser uma alternativa valiosa, indica a nutricionista. Às vezes. esses produtos saem mais barato, pois quando foram preparados estavam com um preço mais em conta e não sofreram os reajustes recentes.

Para quem faz um esforço a mais para manter no cardápio os mesmos alimentos, apesar dos aumentos, a dica é não desperdiçar. Se na gaveta de legume sobrou uma cenoura ou se você não sabe o que fazer com o talo dos brócolis, a saída é picar e colocar tudo no arroz. O hábito ainda aumenta a oferta nutritiva, associando o carboidrato a vitaminas e minerais.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL VAI DA FAXINA À FELICIDADE NAS EMPRESAS

Tecnologia analisa dados para otimizar processos feitos há décadas da mesma forma

Ao abrir a porta do banheiro da academia, a pessoa que vai tomar banho dispara um alerta para a equipe de limpeza – é hora da faxina. Os dados gerados, por sua vez, alimentam um algoritmo, que usa inteligência artificial para organizar a rotina dos trabalhadores e medir a sua satisfação.

Essa racionalização do dia a dia do cotidiano de empresas, que parecia uma realidade distante há pouco tempo, é a aposta de startups brasileiras, aproveitando-se da disseminação do 5G e do barateamento de sensores.

“Há décadas a limpeza é feita do mesmo jeito”, afirma Leandro Simões, presidente-executivo da Evolv, que oferece soluções para o mercado de manutenção predial.

De acordo com ele, a limpeza é “um processo muito importante, mas que é tão negligenciado que ninguém monitora direito”. Por isso, a startup atua com os clientes para definir quais são as métricas certas para acompanhar.

“É um mercado que no Brasil gira mais ou menos R$100 bilhões por ano”, diz. “Tem muito dinheiro na mesa para ganhar e muita água desperdiçada para economizar”.

O executivo viu a oportunidade após mais de uma década no setor de telecomunicações, quando atuou na aquisição da Telefônica pela Vivo e em uma startup de antenas, onde teve contato com investidores como a GP Investiments e o fundo Blackstone.

Na Tractian a oportunidade de negócio foi percebido por uma equipe jovem e recém-saída da faculdade.

“A maioria dos primeiros funcionários se conheceu lá na Escola de Engenharia de São Carlos da USP”, conta João Vítor Granzotti, responsável pela área de dados da startup – ele concluiu o curso no ano passado.

A Tractian criou um hardware e um software capazes de prever, com alto índice de precisão, quando uma máquina industrial está prestes a quebrar, antecipando processos de manutenção e evitando que a linha de produção seja interrompida.

“A ideia da Tractian é dar poder às equipes de manutenção nos processos industriais”, diz Granzotti.

Ao monitorar e registrar em tempo real informações como frequência de vibração, temperatura e parâmetros da rede de energia elétrica, o algoritmo da startup detecta mudanças sensíveis, identifica padrões e alerta os clientes sobre possíveis problemas em uma interface amigável.

Os sensores são capazes de monitorar até 60 tipos de máquinas. Os clientes vão desde indústrias automobilísticas até uma fazenda de camarão, afirma Granzotti.

Fundada durante a pandemia, a startup já atende clientes em países como Argentina, Chile, Estados Unidos e México.

No caso da Fiter, o alvo de otimização não é um processo ou uma máquina, mas os próprios funcionários, por meio de um “índice de felicidade”.

A metodologia foi desenvolvida pelo presidente-executivo Sergio Amado, executivo e professor com mais de dez anos de experiência em recursos humanos e neuropsicologia.

O cálculo é feito a partir das respostas a oito perguntas, que em parte se repetem e em parte se renova, uma vez por mês. Os trabalhadores respondem às questões se quiserem.

As questões são de múltipla escolha, e partem das afirmações como “sinto satisfação com o meu desempenho” e “vejo que o meu perfil é compatível com a função”, com as quais o funcionário pode concordar, discordar ou ser neutro.

Com as respostas de boa parte dos funcionários de uma empresa, o algoritmo é capaz de identificar padrões e perceber quando alguém mudou de humor em relação ao trabalho.

De acordo com Amad, os principais resultados são redução de rotatividade e uma medida objetiva para saber se algum funcionário está próximo de ter Burnout (esgotamento), situação que se tornou mais frequente durante a pandemia.

“Essa medição de felicidade dá a oportunidade de a gente prestar atenção naquelas pessoas para as quais estávamos um pouquinho distraídos”, afirma Toni Gandra, fundador da academia EcoFil, que é cliente da Fiter.

Ele diz já ter revertido duas demissões em potencial graças à análise que o serviço oferece. Weverson Alves, supervisor de capacitação da Live One Trade, afirma que o sistema serve não só para entender a felicidade dos funcionários mas “também o que a empresa pode oferecer para ele”.

A eficiência de empresas SaaS (sigla do inglês “software a as service”, ou software como serviço”) que utilizam inteligência artificial para melhorar processos de outras companhias vem chamando a atenção de investidores.

No mês passado, o Goldman Sachs liderou um aporte de R$ 625 milhões na unico, unicórnio brasileiro de identificação digital que hoje é avaliado em USS 6 bilhões. Com mais dinheiro em caixa, a empresa tem investido na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias proprietárias.

Uma das frentes, em parceria com a Universidade Federal do Paraná, investe em biometria periocular (análise de dados da região dos olhos), com o objetivo de melhorar o reconhecimento e mitigar vieses algorítmicos.

“Muitas das tecnologias de reconhecimento facial hoje no mercado foram desenvolvidas em países do norte, baseadas em faces caucasianas e asiáticas”, diz a empresa.

“Nosso time investe no aprimoramento contínuo dessa tecnologia proprietária, justamente com foco em melhoria da experiência e do acesso de todas as pessoas”.

EU ACHO …

VICIADOS EM COMPANHIA

Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho.

Nunca foi ao cinema sozinho, nunca viajou sozinho, perambula pela rua feito um cão que se perdeu do dono. Sentar na lanchonete de uma livraria para tomar um cafezinho assemelha-se a uma catástrofe. Sua solidão lhe parece vergonhosa e indigesta, é evitada com o mesmo afinco com que evitaria a morte.

Para ele, qualquer parceria é melhor que nenhuma. Uma conversa enfadonha é melhor que o silêncio. Um chato é melhor que ninguém. É praticamente um viciado em companhia. E como todo viciado, critério não é o seu forte.

Não confio no amor de quem não suporta a própria presença.

De quem telefona afim de papo-furado, de quem envia mensagens só para ouvir o sinal da chegada da resposta, de quem precisa se iludir de que não está só. Quem de nós não está só?

Uma manhã de frente para o mar, uma tarde com um livro, uma noite com um filme, três dias inteiros numa cidade estranha, uma rua que nunca foi atravessada, um museu com tempo livre à vontade, uma cama vazia – para ele, simulacros do inferno.

Não confio no amor de quem não se entretém.

De quem se desespera em frente ao espelho, de quem  não consegue se maravilhar num jardim, de quem não se comove ao ouvir uma música, de quem não gosta de andar de ônibus enquanto aprecia a paisagem, de quem não se sente inteiro num trem.

Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com, solitário é sem.

Eu sozinha sou muitas. Sozinha, tem mais sabor minha comida, tem mais foco o meu olhar, tem mais profundezas o meu ser. Sozinha tem mais espaço minha liberdade, tem mais imaginação a minha fantasia, tem mais beleza a minha individualidade. Sozinha tem mais força o meu pensamento, mais inteireza a minha vontade.

Não confio no amor de quem negocia sua autenticidade.

Como amar de verdade outro alguém, se não sabe de onde esse amor vem? Onde foi gerado, por que necessário, que atributos ele contém? Amar é doar, não vem do doer. Amar é saber que aquele que a gente ama, se faltar, vai deixar saudade, mas não nos transformará num cadáver vagando ao léu. Não confio em quem ama para ser um par, não confio em quem quer apenas se enquadrar, não confio em quem ama por não se tolerar.

Amar tem que ser extraordinário. Além do que já se tem.

Se sozinho você não se tem, amar vira tubo de oxigênio, ânsia, invenção e enredo barato, perde a dignidade, o amor vira muleta e trucagem. Confio, sim, no amor de quem não precisa amar por sobrevivência, de quem se basta e mesmo assim é impelido a se dar, porque dar-se é excelência, não é mendicância.

Não confio no amor de quem não se ama em primeira instância.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DORMIR MAL PODE REVERTER GANHOS DE DIETA E EXERCÍCIOS

Es1udo mostra que pessoas com menos de 6 horas de descanso por dia são mais propensas a engordar de novo um ano após emagrecimento

Dormir pouco pode estragar o esforço para perder peso após uma temporada de exercícios e alimentação regrada, mostram pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Os resultados foram apresentados no Congresso Europeu sobre Obesidade, neste ano realizado em Mastricht, na Holanda.

Na pesquisa, ainda não publicada em um periódico científico, foi utilizada uma escala para avaliar o sono dos participantes, medida entre O e 21 – sendo o número mais alto um indicativo de que o descanso é o “pior passivei”. A partir daí, os especialistas dividiram os grupos, tendo em vista um recorte de tempo: osque dormiam mais de seis horas e os que não chegavam a esse tempo de descanso.

Munidos da divisão dos participantes como bons e maus dormidores, os especialistas encontraram indicativos de que as pessoas que dormiam menos de 6 horas por noite aumentaram seu IMC (Índice de Massa Corporal) em 1,3 ponto a mais do que a média dos que descansavam mais que seis horas. Quem alegou ter má qualidade do sono, por sua vez, também teve ganho de 1,2 pontos do IMC, após um ano da perda de peso, quando comparado com os que não relataram problema para dormir.

O índice utilizado para avaliar a qualidade de sono dos participantes é o desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Nesta metodologia, os pacientes são induzidos a avaliar diversos aspectos de seu período de descanso. Entre eles: a duração do sono, uso de medicação para adormecer, sonolência diurna e uma classificação genética de sua condição. O resultado se dá por meio da pontuação. Quem marca mais de 5 pontos tem a qualidade das “dormidas” consideradas como ruins.

OBESIDADE

Inicialmente, na mesma pesquisa, foram formados dois grupos de pessoas, como obesidade, que passaram por dietas para emagrecimento – de baixíssimo nível calórico, com apenas 800 kcal por dia – ao longo de oito semanas. Após a temporada, em média, os participantes do estudo perderam 12% de seu peso inicial.

A pesquisa contou com 195 adultos, entre 18 e 65 anos, com IMC variando entre 32 e 43 pontos – o que engloba graus de I a III de obesidade, acompanhados por 52 semanas.

No estudo houve o uso de um medicamento (liraglutida) versus grupo placebo, mas não foi observada diferença entre os que tomaram, ou não, o fármaco. Em outra iniciativa, ambos os grupos foram submetidos a baterias de exercícios, com séries de spinning e treino funcional de 45 minutos. Embora o estudo não determine qual o funcionamento corporal específico, que relacione a pouca qualidade do sono e o ganho de peso após uma temporada de emagrecimento, a pesquisadora Signe Torekov, professora da Universidade de Copenhague deu algumas pistas do que pode estar por trás da correlação.

“É possível que as pessoas que têm uma rotina ruim de sono sintam mais fome ao longo do dia. Outra análise possível é que essas pessoas, pela falta de descanso, tenham menos disposição para fazer exercícios”, explicou.

Torekov ainda diz que a perda de peso colabora com a melhora global do sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO BOM DA ANSIEDADE

Apesar de ser considerada uma sensação negativa, a ansiedade pode ser muito mais benéfica do que se imagina

A ansiedade, apesar de produzir e provocar sensações geralmente desagradáveis, não possui apenas características negativas. As pessoas nem sempre conseguem perceber que sem ela não conseguiríamos nos sentir satisfeitos com a realização de uma atividade, um trabalho ou com a conquista de um objetivo. Isto porque ela é capaz de produzir resultados benéficos, porque nos “pressiona”, impulsiona e estimula para a ação. Por meio dela, aprimoramos a atenção, a concentração, a criatividade e até mesmo a memória. Ela nos ajuda a criar um foco maior sobre situações que estamos ou estaremos vivendo. Assim, além de nos ajudar a resolver problemas, ela nos auxilia a estarmos alertas e nos estimula a agir.

Neste contexto, a ansiedade em um nível normal e adequado nos motiva a fazer coisas boas por nós mesmos.

“A ansiedade positiva é o olhar sobre diversas possibilidades, afora o que se nomeou no passado como ícone sagrado de um suposto prazer. É a prova máxima da eternidade do recomeço, capacidade e criatividade do indivíduo”, diz Irineu Francisco Barreto Junior, em Ansiedade Aspectos Positivos e Negativos (psicologosaopaulo.tripod.com). “Seja aquele ‘frio na barriga’, ou até um nervosismo, o importante é que tais elementos nos impulsionem para um patamar de esforço pessoal que traga uma evolução global de nossa personalidade. É totalmente um mito a tese do equilíbrio pleno. A evolução do ser humano, seja na caça, agricultura ou outro elemento qualquer se deu por meio de uma boa soma de ansiedade. O núcleo moderno do desejo de estabilidade é extremamente contrário à natureza humana, pois, se fosse pela segurança citada, o homem estaria ainda nas cavernas. A ansiedade é o catalisador mais puro e cristalino para a aferição de como o sujeito irá lidar com sua dificuldade ou momento de pânico”.

Inúmeros estudos revelam que a maneira como regulamos nossas emoções, em tempos bons ou ruins, pode influenciar o quanto se sofre de ansiedade. Pesquisadores da Universidade de Illinois constataram que as pessoas que conseguem estabelecer uma estratégia para o equilíbrio emocional (reavaliação) tendem a ter menos ansiedade do que aqueles que evitam expressar seus sentimentos. Reavaliação envolve olhar para um problema de uma nova maneira. Assim, quando algo acontece à pessoa, ela pensa sobre o assunto de uma forma mais positiva. Quem consegue agir desta forma possui uma ansiedade menos marcante do que aqueles que reprimem suas emoções.

OUTROS OLHARES

TRANSIÇÃO MATERNA

Mães de transexuais contam como compartilharam os desafios das mudanças nos corpos dos filhos e encontraram segurança no elo familiar

Assim que terminou de ler a tese de mestrado da filha, a aposentada Maria do Carmo, de 69 anos, passou a mão no celular e enviou a ela um áudio pelo WhatsApp. “Isso significa que você é uma mulher trans?”, perguntou, com a voz preocupada, após devorar as páginas que falavam sobre teoria de gênero e cena drag no Rio, com passagens autobiográficas. Ao responder que sim, a moça recebeu uma novamensagem de voz: “Estou aqui para entender. Não vou te largar, você é minha filha”.

Era o que faltava para a atriz e escritora, de 33 anos, sentir-se segura para levar adiante a transição de gênero, concluída com uma homenagem a quem lhe deu à luz. Na hora de retificar os documentos, escolheu o mesmo nome da mãe, sem abandonar aquele que recebeu ao nascer. Passou a se chamar Maria Lucas. “Enfrentei um quadro depressivo provocado pela forma como a sociedade trata os nossos corpos. Só não me matei porque escrevi um livro (‘Esse sangue não é de menstruação, mas de transfobia: editora Urutau) e por causa da relação com a minha mãe. É quando você entende que realmente importa para alguém”, conta a jovem, dizendo-se privilegiada. ”Entre as minhas amigas travestis, talvez nenhuma tenha o mesmo apoio.”

Um amparo cujo valor é reconhecido por profissionais da saúde que atendem a essa população. Segundo o endocrinologista Daniel Gilban, à frente de um projeto para tratar da hormonização e da saúde mental de jovens transgênero no Hospital Universitário Pedro Ernesto, atitudes como a de Maria do Carmo incidem sobre a qualidade de vida dos pacientes. “Essas pessoas já sofrem muito, e não ter o apoio da família e dos amigos é grande parte disso”, afirma. “É uma população com altos riscos de depressão e até suicídio. Portanto, o acolhimento familiar salva vidas.”

Maria do Carmo, ou Carminha, como é mais conhecida, nem consegue se imaginar agindo de outra maneira. Para apoiar a filha da melhor forma possível, buscou ajuda no grupo Diversidade Católica, voltado à população LGBTQJAP+, desde que a moça saiu do armário pela primeira vez, inicialmente como um homem gay. ”Quando a Maria tinha uns 17 anos e falou que era viado, quase morri. Mas logo depois aceitei, e ela virou um viado lindo, que agora foi-se embora…Passou a ser uma mulher linda”, diz, aos risos.

Enquanto os debates sobre gênero e identidade avançam, algumas mães tentam decifrar os sinais emitidos ainda na infância. É o caso de Thamirys Nunes, autora do livro “Minha criança trans?” e mãe de Agatha, de 7 anos. Ela conta ter percebido o desconforto da garota com o gênero que lhe fora atribuído ao nascer desde os 2 anos. Aos 4, a compreensão ficou ainda mais clara diante de frases como “se eu morrer, posso nascer menina?” ou “me chama de filha só hoje para eu ficar feliz?”. “Entendemos que era algo profundo e buscamos ajuda”, narra a mãe, que acionou psicólogos e, embora seja moradora de Curitiba, encontrou no ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o caminho a ser percorrido.

Segundo ela, desde que a filha assumiu a identidade desejada e teve a certidão de nascimento retificada, deixou de ser uma criança com sinais de tristeza profunda para se tornar alegre e extrovertida. “Ela ainda é pequena para fazer qualquer tratamento hormonal. Agora, o que podemos oferecer é o nome social, os brinquedos, as roupas e os acessórios de que gosta. Aprimeira coisa que pediu foi uma camisola, depois, os brincos”, diz a mãe, que criou o perfil @minhacriancatrans, onde tem 78,6 mil seguidores, para mostrar os avanços da menina e ampliar o debate sobre o assunto.

Tornar essa história pública, porém, requer determinação. Thamirys é frequentemente atacada nas redes e move cinco ações na Justiça contra pessoas que considera terem passado dos limites. “Resolvi tomar a nossa história pública justamente por perceber como se falava pouco sobre o assunto e havia mais famílias precisando de ajuda. Em meio aos ataques, doeram mais as agressões feitas por pessoas próximas, que me acusam de ser disfuncional ou de influenciar minha filha. Fora isso, simplesmente apago os comentários e sigo em frente. Não bato boca. Não dá para colher rosas sem tocar nos espinhos.”

Se Agatha é muito pequena para iniciar os tratamentos hormonais, algo que começa a ser discutido somente com a chegada da puberdade, o cineasta Vicente Bem Medeiros, de 34 anos, tem a hormonização religiosamente acompanhada pela mãe, a empreendedora Mônica Vieira, de 61. “Sempre falo com ele sobre a importância de estar em dia com a saúde. Digo: ‘Você precisa pensar no homem que deseja ser quando chegar aos 60 anos”‘, salienta a mãe. que também passou a comprar cuecas para o rapaz, desde que ele saiu do armário pela terceira vez. Primeiro, como mulher bissexual; depois, como ”sapatão”; e, por fim, como trans masculino. “Quando conversamos sobre isso, falei: ‘Vamos para a parte técnica para eu não errar”‘, recorda-se Mónica, sobre o interesse em saber como o filho gostaria de ser tratado. “Pedi pelo menos um ano e disse para não ficar triste se eu errasse o nome, já que estava treinando.

Não posso dizer que é fácil, mas amo tanto o meu filho, que não conseguiria agir de outra maneira que não fosse acolhê-lo.”

Diante do empenho da mãe em se inteirar das mudanças, Vicente a pediu que o ajudasse na escolha de seu novo nome, experiência que os aproximou ainda mais durante o processo. “Foi muito simbólico, já que considero um renascimento”, afirma o cineasta. “Sempre tive o apoio dela, e isso é encorajador. Afinal, por mais difíceis que as coisas fiquem, você tem um lugar para onde voltar.”

Histórias do tipo corroboram um comportamento observado pelo psicólogo João Henrique de Sousa Santos no trabalho como coordenador do Ambulatório de Saúde Mental de Atendimento às Pessoas Trans do Centro Universitário de Belo Horizonte. Segundo ele, as mães transicionam junto com os filhos, de certa forma. Isso porque a maternidade é cercada por idealizações ligadas aos padrões impostos pela sociedade, como a velha história do quarto azul para meninos, e rosa para meninas. “Uma pessoa trans é alguém que cruza essas idealizações e vai produzir outros modelos de existência”, afirma. “Para muitas mães, isso é difícil justamente porque elas se sentem feridas nessas expectativas. Mas aquela que acolhe passa a se posicionar com outra perspectiva diante da própria maternidade, que transcende a dimensão biológica e passa a ser algo “político.”

João diz que isso acontece porque elas também são questionadas sobreas mudanças por pessoas próximas. Não é de se estranhar, portanto, que muita busquem unir forças e criem mecanismos como a ONG Mães pela Diversidade. Fundada há oito anos em São Paulo por apenas uma mãe, a iniciativa reúne atualmente cerca de duas mil participantes em todo o Brasil, dispostas a dialogar com mulheres que tenham filhos LGBTQIAP+ e precisem de ajuda. Estimo que, a cada cinco mães que nos procuram, três têm filhos e filhas trans”, comenta a coordenadora da ONG em São Paulo, Clarice Cruz Pires. “Por isso, criamos um grupo exclusivo para elas.”

Segundo a coordenadora, a transfobia e a violência são as maiores fontes de medo e insegurança para essas mães. Boa parte teme, ainda, a rejeição pelo restante da família. Por isso, Clarice costuma reiterar que precisam de tempo para conseguir lidar com a situação. “Não podemos achar que, ao chegarem até nós, estarão na Parada LGBTQIAP+ no mês seguinte”, ilustra, dizendo que o trabalho já fez com que algumas desistissem de abandonar os filhos. “Entendemos a origem do sofrimento, vamos conversando e indicamos ajuda psicológica, se necessário. Quando elasse mostram aptas a avançar, permitimos que entrem num grupo de WhatsApp com 190 participantes, onde podem tirar dúvidas sobre como ajudar os filhos na transição.”

O medo da violência, de fato, fui citado por todas as mães entrevistadas nesta reportagem, assim como a felicidade dos filhos foi invariavelmente mencionada como combustível para seguirem em frente. VeraLúcia, de 67anos, é mãe da professora Dani Balbi, de 33, e foi ela mesma quem cuidou da moça, após a cirurgia de confirmação de gênero, feita há cinco anos, graças aos anos de atuação como técnica em enfermagem. Uma história que enche ambas de orgulho. “É um procedimento muito delicado, e minha mãe ficou o tempo todo ao meu lado, fazendo os curativos, ajudando na minha recuperação”, recorda-se a professora.

Vera lembra que, na época, não foi avisada sobre a cirurgia na véspera. “A Dani não queria que eu ficasse preocupada, pois sou hipertensa”, narra. A filha só telefonou para relatar a novidade quando já estava no quarto e havia acordado da anestesia. O diálogo travado naquele instante jamais será esquecido. “Quando atendi, ela disseque havia dado tudo certo e completou: ‘Sou a mulher m ais feliz do mundo’. Na mesma hora, pensei: ‘Então, sou a mãe mais feliz do mundo’.”

GESTÃO E CARREIRA

JORNADA DE SUCESSO NÃO IMPEDE DE TER A SÍNDROME DA IMPOSTORA

Jornalista que se recuperou 6 anos de transtornos alimentares e abusos de substâncias compartilha informações e reflexões sobre saúde mental

“E se eu não for capaz?” Começo me fazendo essa pergunta enquanto respiro fundo como se tentasse segurar no lugar o estômago que parece querer subir pela garganta. O convite para escrever em um dos maiores jornais do país me encontrou distraída numa segunda-feira pós-almoço e me catapultou para um estado emocional que, para os mais chegados aos memes internéticos, poderia ser retratado pelo famoso “como eu vim parar aqui, eu só tenho seis anos”.

Na realidade tenho 35, mas a mistura de medo e vulnerabilidade ao topar esse desafio chega mesmo a me remeter à angústia de perceber que havia seguido a pessoa errada e me perdido dos meus pais numa praia cheia ou numa loja em liquidação na antevéspera de natal. Como é que pode a ideia de oportunidade e reconhecimento causar tanto desamparo?

Para além da minha experiência particular, a verdade é que esse não é um sentimento incomum entre mulheres. Principalmente quando o assunto é trabalho, não é difícil encontrar uma amiga ou conhecida que nunca se acha boa o suficiente no que faz mesmo que os fatos indiquem o absoluto contrário.

“Em algum lugar lá no fundo, você não acredita no que eles dizem. Você acha que é uma questão de tempo ali que tropece e ‘eles’ descubram a verdade. Você não deveria estar aqui. Nós sabíamos que não poderia fazer. Nunca deveríamos ter arriscado com você”. Poderia ter sido dito por mim ou por muitas mulheres que conheço, mas são palavras de Joyce Roché, ex vice-presidente de Marketing Global da Avon, apenas uma das inúmeras mulheres cuja competência e sucesso inquestionáveis não foram o suficiente para evitar uma longa batalha interna contra a síndrome da impostora.

Você já deve ter ouvido falar do termo, cujo conceito surgiu em 1978 a partir de uma pesquisa das psicólogas norte-americanas Pauline Rose Clance e Suzanne lmes. Trabalhando na Universidade Estadual da Georgia, elas observaram que muitas alunas que se destacavam academicamente admitiam durante o aconselhamento não se sentirem merecedoras de seu sucesso.

Esse fenômeno poderia ser explicado pela diferença da dinâmica de gênero da época, onde uma vida cercada de preconceitos minava a confiança das mulheres. Apesar de a pesquisa de Clance ter avançado nas décadas seguintes, mostrando que homens também se sentiam impostores, observações atuais seguem apontando diferenças entre os gêneros quando o assunto é autoestima e autoconfiança.

Em 2019, a revista Harvard Business Review publicou o resultado de uma pesquisa que analisou milhares de avaliações sobre líderes executivos e apesar de as mulheres terem sido consideradas mais eficazes em 84% das competências medidas, quando foi pedido que avaliassem a si mesmas os resultados mudavam, com as notas nas classificações de confiança sendo mais baixas do que as dos homens, principalmente quando as participantes eram mais jovens.

De acordo com os dados da pesquisa, o nível de confiança de homens e mulheres em si mesmos só se equipara aos 40 anos de idade.

A maturidade é o peso que equilibra essa balança, mas até lá, falta de oportunidade, dificuldade de encontrar modelos de sucesso que compartilhem nossas experiências de vida, assim como uma trajetória em um contexto de opressão sistêmica são alguns fatores que podem levar um indivíduo a demorar para reconhecer seu próprio valor.

Não sei quantos pontos na tabela da confiança ainda faltam para que eu me sinta merecedora de ocupar espaços que nunca imaginei. Mas se é pra cima que esse gráfico vai e a oportunidade me foi dada ­ por uma mulher competente desenhando sua própria trajetória de sucesso, vale dizer – respiro fundo e me dou a chance de ao menos tentar.

E se você estiver lendo esse texto, quer dizer que fui capaz, independente do que venha depois. Qualquer erro será um aprendizado que só foi possível porque venci a barreira do meu próprio julgamento. Espero que essa ideia possa te ajudar a vencer o seu.

EU ACHO …

O AMOR E TUDO QUE ELE É

O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades.

O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida.

Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados.

Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos  os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não retorna para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que  nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo, pois cremos que Ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós.

Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito do que está sentindo, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica.

Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hétero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante desse sentimento, ter alguma certeza?

O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ATAQUE CARDÍACO AINDA É SUBESTIMADO NAS MULHERES; ENTENDA

Elas são mais propensas a ignorar os sintomas, que vão além da dor no peito; atendimento também é falho

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entro homens e mulheres nos Estados Unidos e no Brasil. Ainda assim, estudos mostram que elas são mais propensas a ignorar os sinais de alerta de um ataque cardíaco, às vezes esperando horas ou mais para procurar socorro.

Agora, os pesquisadores estão tentando descobrir o porquê. Eles constataram que as mulheres muitas vezes hesitam em buscar ajuda porque tendem a ter sintomas mais sutis do que os homens. E mesmo quando vão ao hospital, os profissionais de saúde são mais propensos a minimizar essas manifestações físicas ou atrasar o tratamento. Autoridades de saúde dizem que as doenças cardíacas nas mulheres continuam amplamente subdiagnosticadas, e que isso contribui para piores resultados e aumento das taxas de morte.

A maioria dos estudos sugere que uma das principais razões pelas quais as mulheres demoram a procurar atendimento – e muitas vezes são diagnosticadas incorretamente – é que, embora a dor ou desconforto no peito seja o sinal mais comum de infarto em ambos os sexos elas muitas vezes não sentem este alerta. Em vez disso, têm sintomas como falta de ar, suores frios, mal-estar, fadiga e dores na mandíbula e nas costas.

Um grupo de cientistas investigou os fatores que levam as mulheres a postergar a procura por atendimento. Eles descobriram que a ausência de dor ou desconforto no peito foi um dos principais motivos. O estudo, publicado na revista Therapeutics and Clinical Risk Management, analisou 218 homens e mulheres que sofreram infartos e foram tratados em quatro hospitais em Nova York antes da pandemia. Descobriu-se que 62% das mulheres não tinham dor ou desconforto no peito, em comparação com apenas 36% dos homens. Muitas relataram falta de ar, bem como sintomas gastrointestinais, como náusea e indigestão. Cerca de um quarto dos homens também relataram esses mesmos sintomas.

A pesquisa mostra que 72% das mulheres que tiveram um infarto esperaram mais de 90 minutos para ir ao hospital ou ligar para a emergência, em comparação com 54% dos homens. Pouco mais da metade das mulheres ligou para um parente ou amigo antes de ir a hospital, em comparação com 36% dos homens.

PROBLEMA NO ATEDIMENTO

Um relatório da American Heart Association descobriu que os ataques cardíacos são mais mortais em mulheres que não apresentam dor no peito, em parte porque isso significa que pacientes e médicos levam mais tempo para identificar o problema.

Mas mesmo quando elas suspeitam que estão tendo um ataque cardíaco, ainda têm mais dificuldade em serem tratadas. Pesquisas mostram que as mulheres são mais propensas a serem informadas de que seus sintomas não estão relacionados a doenças cardiovasculares. Muitas delas ouvem que esses sinais estão todos em sua cabeça. Um estudo descobriu que mulheres que se queixavam de indícios consistentes de doenças cardíacas – incluindo dor no peito – tinham duas vezes mais chances de serem diagnosticadas com uma doença mental em comparação com homens com a mesma queixa.

Em um estudo publicado no Journal of the American Heart Association, pesquisadores analisaram dados de milhões de atendimentos de emergência antes da pandemia e descobriram que mulheres – especialmente as negras – que se queixaram de dor no peito tiveram que esperar em média 11 minutos a mais por atendimento do que homens. Elas também eram menos propensas a serem internadas, recebiam avaliações menos completas e tinham menos chances de fazer exames como eletrocardiograma, que pode detectar problemas cardíacos.

Alexandra Lansky, cardiologista do Hospital Yale -New Haven, lembrou de uma paciente que havia procurado vários médicos reclamando de dor na mandíbula foi encaminhada a um dentista, que extraiu dois molares. Quando a dor não desapareceu, a mulher foi ver Lansky, que descobriu que o problema estava relacionado ao coração. A paciente precisou de uma ponte de safena.

MAIS JOVENS

Há uma falta de compreensão de que um ataque cardíaco não precisa causar dor no peito ou esses sintomas de filmes – disse Jacqueline Tamis-Holland, autora do estudo e cardiologista do Mount Sinai Morning Side em Nova York.

Tamis-Holland disse que havia outras razões para os atrasos. Uma delas é que as mulheres não se consideram tão vulneráveis a doenças cardíacas e costumam achar que os sintomas são de estresse ou ansiedade. Elas também tendem a desenvolver problemas cardíacos em idades mais avançadas do que os homens. No estudo de Tamis-Holland, as mulheres que tiveram ataques cardíacos tinham, em média, 69 anos, enquanto a idade média dos homens era de 61.

Mas as mulheres mais jovens não são imunes. Estudos recentes descobriram que ataques cardíacos e mortes por doenças cardíacas estão aumentando entre as mulheres entre 35 e 54 anos, em parte devido ao aumento de fatores de risco cardiometabólicos, como pressão alta e obesidade.

“Muitas mulheres jovens não acreditam que têm doenças cardíacas porque estas nunca foram rotuladas como doenças de mulheres jovens”, disse Lansky. “Segundo, os sintomas nelas são ainda menos típicos. Há menos sensação de aperto no peito e mais indigestão, falta de ar, mal-estar, fadiga e náusea.

Especialistas pedem mais divulgação e educação sobre as doenças e seus sintomas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRESSE

Diversos estudos e pesquisas realizados nos últimos anos consideram o estresse como um fator importante em uma série de sintomas físicos e processos de doenças

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o estresse como a maior epidemia do século 20 e que se estende aos dias atuais. Segundo a organização, a variedade de sintomas e doenças desencadeados pelo estresse é responsável, por praticamente 50 % das mortes no mundo.

O estresse é definido como um conjunto de alterações que ocorrem em um organismo, em resposta a determinados estímulos, agradáveis ou não, capazes de colocá-lo em estado de tensão. Do ponto de vista psíquico, traduz-se na ansiedade, uma atitude fisiológica normal, responsável pela adaptação do organismo às situações de perigo. É fácil compreender esse processo quando, de frente para o perigo (incêndio, assalto ataque de cão, etc.), nossa performance física é capa de realizar coisas extraordinárias que seríamos inca pazes de fazer em situações mais calmas.

Quando o organismo se depara com um estímulo estressar, interno ou externo, desenvolve um processo fisiológico, conhecido como Síndrome da Adaptação Geral (SAG) ou Estresse, que consiste na soma de todas as reações sistêmicas. Hans Selye, em seu estudo sobre o tema, realizado em 1936, descreveu que a síndrome se apresentava em três estágios: 1. reação de alarme; 2. o estágio de resistência e 3. estágio de exaustão.

Segundo José Maria Martins, em Estresse e Síndrome de Adaptação Geral (www.josemariamartins.com.br), “as observações básicas, subjacentes a conceito de Selye sobre a SAG têm sido confirmadas mas pesquisas recentes levaram a um novo entendimento e a uma reinterpretação ampla dos três estágios. Mesmo após décadas de pesquisas, nem sempre era possível predizer se os vários choques psicológicos e experiências estressantes iriam se somar para aumentar a resposta ao estresse, ou se ocorreria algum tipo de adaptação e inibição em uma situação particular. Tornou-se evidente que as relações entre significado psicológico e as modificações fisiológica são complexas e não lineares”.

O estresse pode ser provocado por situações externas ligadas à família, amigos, trabalho ou escola, assim como por fatores internos relacionados com situações em que questionamos nossas capacidades. Qualquer acontecimento que exige uma mudança ou adaptação; positivo, como o início de um novo curso ou negativo, como a perda de um ente querido ou a separação dos pais, podem gerar expectativa, ansiedade e consequentemente o estresse.

Considerado um mecanismo normal, o estresse é necessário e benéfico ao organismo, pois faz com que o ser humano fique mais atento e reaja diante de situações de perigo ou de dificuldade. Mesmo situações consideradas positivas como é o caso, por exemplo, das promoções profissionais, dos casamentos desejados, do nascimento de filhos, etc., podem produzir estresse.

“Os efeitos da Síndrome Geral de Adaptação sobre o indivíduo cronicamente ao longo do tempo compõem o substrato fisiopatológico das doenças psicossomáticas”, explica G. J. Ballone, em Fisiologia do estresse (PsiqWeb). “Cada órgão ou sistema são envolvidos e apenados pelas alterações fisiológicas continuadas do Estresse, de início apenas com alterações funcionais e depois com lesões também anatômicas. Por causa disso, podemos dizer que as Doenças Psicossomáticas são aquelas determinadas ou agravadas por motivos emocionais, já que é sempre a emoção quem detecta a ameaça e o perigo, sejam eles reais, imaginários ou fantasiosos”.

TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS­TRAUMÁTICO

O Transtorno de Estresse Pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia. De acordo com o artigo Estresse pós traumático (www.psicosite.comom.br ), “o trans torno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência, além de recordar as imagens, o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais”.

Segundo o Dr. Drauzio Varella (drauziovarella.com.br), os sintomas podem manifestar-se em qual­ quer faixa de idade e leva r meses ou anos para aparecer. “Eles costumam ser agrupados em três categorias: Reexperiência traumática (pensamentos recorrentes e intrusivos que reme tem à lembrança do trauma, flashbacks, pesadelos); esquiva e isolamento social (a pessoa foge de situações, contatos e atividades que possam reavivar as lembranças dolorosas do trauma); Hiperexcitabilidade psíquica e psicomotora: taquicardia, sudorese, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, hipervigilância”.

TRANSTORNO DE ESTRESSE AGUDO

O Transtorno de Estresse Agudo é causado pela exposição a uma situação traumática avassaladora, semelhante ao estresse pós-traumático, exceto por ocorrer durante o primeiro mês após o evento traumático. O portador foi exposto a um acontecimento impactante e terrível, e revive mentalmente o evento traumático, evitando coisas que possam lembrá-lo, apresentando também um alto grau de ansiedade. Os sintomas mais comuns são: sensação de embotamento, distanciamento ou ausência de resposta emocional; percepção reduzida do meio ambiente; sensação de que as coisas não são reais; sensação de que ele mesmo não é real; incapacidade de lembrar-se de uma parte importante do evento traumático (www.galenoalvarenga.com.br).

Dessa forma, os sintomas de Transtorno de Estresse Agudo são experimentados durante ou imediatamente após o trauma. Duram por volta de dois dias e se resolvem dentro de 4 semanas, após a conclusão do evento traumático.

De outra forma, o diagnóstico é mudado. Quando os sintomas persistem além de 1 mês, um diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático pode ser mais apropriado.

De acordo com o DSM-IV, a gravidade, duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao evento traumático são os fatores mais importantes para a de­ terminação da probabilidade do desenvolvimento de um Transtorno de Estresse Agudo. Existem algumas evidências de que suportes sociais, história familiar, experiências da infância, variáveis de personalidade e transtornos mentais preexistentes podem influenciar o desenvolvimento deste transtorno.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O diagnóstico de qualquer distúrbio relacionado ao estresse deve ser feito por um profissional da saúde, geralmente um psiquiatra, capaz de avaliar o paciente de forma correta. O tratamento pode ser feito por meio de medicamentos (ansiolíticos) e terapia.

OUTROS OLHARES

PARECE, MAS NÃO É: TEM CARA, GOSTO, CHEIRO, MAS NÃO TEM O INGREDIENTE

Além dos hambúrgueres, há mais produtos com nomes e embalagens que induzem o consumidor ao erro

Chocolate que nem é chocolate, molho sabor queijo cheddar sem o cheddar, biscoito com recheio sabor de morango sem morango, bebida pronta de Alpino sem o dito cujo … Há muitos outros produtos que parecem, mas não são além dos famosos  McPicanha e Whopper Costela, que viralizaram nas redes sociais e acabaram sendo alvo do Ministério da Justiça e Procons por, apesar do nome, não terem os cortes das carnes na composição dos seus hamburgueres.

A informação pode até estar na embalagem, na maioria das vezes em letras miúdas, e dentro das normas brasileiras. Mas para o consumidor é difícil entender que pode não ter o ingrediente do sabor do produto na sua receita, ainda mais quando aparece em destaque no rótulo, como é o caso do Club do molho sabor cheddar, da Pollenghi, da bebida pronta Alpino, da Nestlé, ou do biscoito Trakinas sabor morango, da Mondélez Brasil.

No caso do popular BIS, também da Mondélez, por exemplo, apesar da informação destacada de que se trata de wafer “sabor” chocolate, é difícil encontrar quem saiba que é um biscoito e não um chocolate. Até porque, é junto dos chocolates que ele pode ser encontrado no mercado.

“Às vezes, diz que tem uma coisa e é só a essência, fala que é suco de uva, mas tem mesmo é corante. A informação deveria ser mais destacada, senão a gente acaba sendo enganado”, diz a estudante Tárcia Pereira Abrantes, de 20 anos.

De acordo com o Ministério da Agricultura, não basta informar, as embalagens não podem induzir a erro ou engano.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que a apresentação da imagem, por exemplo, de uma fruta, em produto que não contenha este ingrediente pode contrariar as regras sanitárias. Mas a caracterização das irregularidades, destaca a agência, requer “avaliação do conjunto de informações contidas no rótulo, já que podem estar presentes alertas que permitam ao consumidor entender que a imagem apresentada não remete diretamente à composição do alimento”.

A nutricionista do programa de Alimentação Saudável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Laís Amaral, ressalta que embora muitos produtos sigam as regras de rotulagem brasileira, em muitos casos, pela ótica do Código de Defesa do Consumidor seriam enquadrados como propaganda enganosa:

“Entendemos que colocar no rótulo a imagem de um ingrediente que não esteja na composição é uma ilegalidade que está levando o consumidor ao erro”.

Na avaliação do professor de marketing da fundação Getúlio Vargas (FGV), Ulysses Reis, o consumidor está à frente da legislação e já toma os seus posicionamentos:

“Sob o ponto de vista legal, a empresa pode até estar correta, mas no que tange ao valor da marca é perigoso”.

Roberta Ribeiro, coordenadora do Laboratório Municipal de Saúde Pública da Vigilância Sanitária do Rio, orienta o consumidor a ficar atento ao rótulo, especialmente à denominação de venda do produto e à lista de ingredientes, lembrando que o primeiro item é o que tem maior quantidade na composição. A relação segue em ordem decrescente.

Não só o rótulo, mas a forma como o produto está disposto na prateleira do mercado ou classificado no e-commerce ajuda a aumentar a confusão. Por exemplo, lado a lado, é difícil distinguir a lata do leite Ninho da do Ninho que é composto lácteo.

Alice Amigo, coordenadora do Curso de Capacitação Estratégica em Trade Marketing da PUC-Rio, explica que a organização de produtos similares – seja no ponto físico ou nas plataformas on-line – é comum e que não costuma haver má-fé nessa apresentação.

“A proposta é sempre dar opções a quem procura uma categoria de produto reunindo os que estão a ele relacionados. Um produto pode ser encarado como sobremesa, pode estar próximo aos chocolates, mas, se, de fato, é biscoito, não pode deixar de estar na prateleira da categoria originária.

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

A Mondélez Brasil ressalta que a classificação do BIS, de wafer sabor chocolate, é clara. Sobre o Trakinas, diz que o rótulo segue as regras da Anvisa, sendo uma delas o produto ter aroma idêntico ao natural.

A Polenghi pontua que é visível a informação de que Clube do molho é feito com queijo e aroma natural de queijo cheddar”.

Já a Nestlé enfatiza seguir as normas brasileiras em relação à bebida pronta Alpino.

O McDonald’s explica que batizou o McPicanha por causa do sabor do molho, mas, após a polêmica, suspendeu a venda do sanduíche e diz analisar os próximos passos.

Na mesma linha, o Burguer King vai substituir o nome do Whopper Costela, por Whopper Paleta Suína, corte de carne usado no hambúrguer que tem aroma de costela.

GESTÃO E CARREIRA

50 TONS DE AZUL

Alimentos coloridos atraem crianças e adultos, ainda mais em tempos de Instagram – mas não a qualquer custo. É crescente a preocupação dos consumidores com a origem saudável e sustentável dos ingredientes – Comidas ebebidas azuis, além de raras, sempre pareceram artificiais demais. ”O azul natural era considerado o cálice sagrado da indústria de bebidas”, nota Itai Cohen, cofundador e CEO da Gavan, uma foodtech israelense. A startup desenvolveu um processo de extração da coloração azul de uma fonte 100% natural, a espirulina. O pigmento se mantém estável mesmo após passar por processos de altas temperaturas e baixo pH, como acontece na pasteurização. O mercado potencial para o produto é considerável: o segmento de corantes alimentícios espera alcançar USS 5,4, bilhões em 2026.

EU ACHO …

NEM TODO MUNDO

A gente acredita que existe um senso comum regendo nossos gostos e opiniões, porém somos 7 bilhões pensando e vivendo de forma muito distinta uns dos outros.

Nem todo mundo é regido pelo dinheiro, por exemplo. Dinheiro é bom, é necessário, e quanto mais, melhor – mas esse “mais” não obceca a todos. Há quem troque o “mais dinheiro” por “mais sossego” e “mais tempo ocioso”. Qual o sentido de trabalhar insanamente se já se tem o suficiente para viver com dignidade?

Nem todo mundo gostaria de morar numa mansão com uma dezena de quartos e espaço de sobra para se perder: tenho uma amiga que desistiu do apartamento cinematográfico onde morava, pois ela não conseguia enxergar os filhos nem conversar com eles – eram longos os corredores e muitas as portas. Parecia que a família vivia num hotel, e não num lar. Trocou por um apartamento menor e aproximaram-se todos.

Nem todo mundo prefere mulheres com cara de boneca e corpo de modelo, ou homens com rosto de galã e corpo de fisiculturista. Imperfeições, exotismo, autenticidade, um look de verdade, natural, sem render-se a uma busca sacrificada pela beleza, ah, o valor que isso ainda tem.

Nem todo mundo gosta de bicho, de doce, de praia, de ler, de criança, de festa, de esportes, e nem por isso merece ser expulso do planeta por inadequação crônica. Seus prazeres estão fora do catálogo da normalidade e ainda  assim são criaturas especiais a seu modo, enquanto outras pessoas podem cumprir todas as obviedades consagradas e isso não adiantar nada na hora da convivência: são ruins no trato, fracas de humor e voltadas para o próprio umbigo, apesar de seu exemplar enquadramento social.

Nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para se vingar, para atrapalhar – hábitos de muitos, até arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar a atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos.

Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade. Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar para a torcida, há quem queira somente estar bem consigo mesmo.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

QUANDO A QUEDA DE CABELO PODE SER CONSIDERADA UMA DOENÇA?

Eventos estressantes, físicos ou psicológicos, podem provocar perda assustadora de tufos: entenda a vida dos fios e o que pode ser feito

Uma mulher do meu grupo de tricô recentemente perguntou se alguma de nós sabia onde poderia comprar uma peruca grisalha. Embora ela parecesse ter uma grande quantidade de cabelo, ela relatou que estava perdendo punhados toda vez que a escovava ou lavava. Obviamente muito chateada com o que estava acontecendo, disse que não queria esperar até ficar careca para encontrar um substituto para seus cabelos.

Ela também se perguntava porque, de repente, isso estava acontecendo e como poderia ser interrompido. O dermatologista que consultou fez algumas perguntas reveladoras e sugeriu a causa provável. Três meses antes, minha amiga havia se submetido a uma cirurgia de câncer de cólon e, como se isso não bastasse, desenvolveu uma infecção grave no pós-operatório.

O resultado tardio, uma forma difusa de perda de cabelo chamada eflúvio telógeno, estava fazendo com que seu cabelo caísse em tufos assustadores. A boa notícia é que, na ausência de outro fator físico ou psicológico, dentro de um ano ela provavelmente terá recuperado sua cabeleira normal e poderá doar a nova peruca.

TRAJETÓRIA DO FIO

Em circunstâncias normais, as pessoas têm entre 100 mil e 150 mil fios de cabelo na cabeça. Cada folículo piloso atravessa um ciclo de crescimento independente.

Cerca de 90% do seu cabelo está no estágio anágeno, ou de crescimento que pode durar anos e resultar em mechas longas, a menos que cortadas. Os 10% restantes estão na fase catágena, com duração de quatro a seis semanas e durante a qual os pelos param de crescer e os folículos começam a se preparar para soltá-los, ou na fase telógena, de dois a três meses, quando os pelos estão prontos para cair, seja na escova, na roupa ou no ralo do chuveiro.

É normal perder cerca de 100 a 150 fios de cabelo por dia na fase telógena. Mas a perda de 100 ou mais fios em uma única lavagem ou escovação não é normal e pode causar alarme. Isso pode acontecer quando os folículos capilares na fase anágena progridem prematuramente para a fase telógena e resultam em perda de cabelo anormal de dois a três meses depois.

De acordo com Lindsey Bordone, professora de dermatologia na Universidade de Columbia, “o intenso estresse associado à cirurgia, perda de peso, parto e qualquer outra experiência emocional pode forçar a maior parte do seu cabelo para a fase telógena. Como esse estágio dura em média três meses, a maioria dos seus cabelos começa a cair depois que você supera o estressor”, levando você a se perguntar porque isso está acontecendo e o que pode ser feito para reverter.

Felizmente, há uma resposta simples para esta última pergunta. Supondo que o evento estressante tenha terminado, considere comprar uma peruca, lenço de cabeça, turbante, boné ou chapéu e espere até que seu cabelo volte a crescer. Fique tranquilo, se a queda de cabelo foi causada por um estresse temporário, ele voltará a crescer, mas é altamente recomendável ter paciência. O crescimento geralmente não é aparente por quatro a seis meses e pode levar de 12 a 18 meses antes de ser cosmeticamente aceitável. Não há realmente nada que possa acelerar o processo, segundo os médicos, então não desperdice seu dinheiro em suplementos e outros remédios.

OUTROS MOTIVOS

Outras possíveis causas de perda de cabelo telógena difusa incluem uma tireoide hiperativa ou hipoativa, com o crescimento normal do cabelo restaurado assim que a anormalidade hormonal for corrigida. Vários distúrbios crônicos ou inflamatórios, doenças autoimunes ou infecções crônicas também podem causar perda de cabelo.

Deficiências nutricionais, especialmente de ferro ou zinco, proteínas, ácidos graxos ou vitamina D, são outras causas possíveis, assim como restrição calórica extrema e dietas radicais. Independentemente do que você possa suspeitar, é altamente recomendável fazer um check-up médico completo para determinar uma causa especifica e muitas vezes corrigível, insistiu Bordone.

A perda de cabelo na fase anágena nunca é normal e mais comumente resulta de uma exposição tóxica como o tratamento com drogas anti­cancerígenas. A perda de cabelo anormal geralmente é notada uma ou duas semanas após o início da quimioterapia e é mais aparente em dois meses. O cabelo é mais provável de ser afetado, mas todos os pelos faciais e corporais também podem ser perdidos. No entanto, as madeixas começarão a crescer novamente dentro de semanas após o término da quimioterapia.

Outras causas de perda de cabelo anágena que podem ser permanentes incluem radiação e envenenamento por metais pesados. Além dos medicamentos quimioterápicos, os medicamentos que às vezes podem causar queda de cabelo incluem varfarina, esteroides, pílulas anticoncepcionais, lítio, anfetaminas e suplementos de vitamina A, embora o cabelo volte a crescer quando o medicamento agressor for interrompido.

A forma mais comum de queda de cabelo está relacionada à idade e não está associada a nenhuma doença subjacente, deficiência ou situação angustiante. É a alopecia androgenética, mais comumente chamada de calvície de padrão masculino ou calvície de padrão feminino quando afeta mulheres. Este tipo de queda de cabelo é mais comum em homens brancos, afetando cerca de metade deles aos 50 anos.

Vários medicamentos podem combater a alopecia androgenética, pelo menos até certo ponto, por isso é importante ver um especialista.

No entanto, algumas mulheres contribuem para a perda de cabelo, adotando penteados apertados como rabo de cavalo ou trancinhas que puxam o cabelo, práticas que levam os médicos de Columbia a recomendarem deixar o cabelo solto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA

As delícias e percalços de uma fase de indefinição

Quando se trata de desenvolvimento humano, é muito difícil definir exatamente quando começam e quando terminam suas “fases”, “etapas” ou “estágios”. Quando uma pessoa se torna adulta, de fato? O marco legal estabelece que, a partir dos 18 anos, a pessoa responde legalmente pelos seus atos. Mas isso significa que ela seja adulta? O mesmo se dá em outros momentos do desenvolvimento. Não podemos definir com exatidão quando uma pessoa se torna idosa, de fato, nem quando deixa de ser criança e “vira” adolescente. Os marcos legais são necessários para que se desenvolvam políticas públicas voltadas à população de determinada idade (que, espera-se, estejam vivenciando determinado momento do desenvolvimento que é comum à maioria das pessoas daquela idade), porém, no nível individual, muitas diferenças podem existir entre duas pessoas que tenham a mesma idade.

Vamos refletir, neste texto, sobre as questões próprias da adolescência e a pré-adolescência. Como dito antes, não há como se definir exatamente quando se passa de uma etapa do desenvolvimento para outra, quando se deixa de ser criança e se torna adolescente, ou pré-adolescente. Para compreendermos melhor esta questão, penso ser necessária uma diferenciação de dois conceitos que muitas vezes são utilizados como sinônimos, porém representam fenômenos diferentes. Estes conceitos são: a puberdade e a adolescência.

Como são utilizados muitas vezes como sinônimos, o leitor poderá se indagar: “mas puberdade e adolescência não são a mesma coisa?” Apesar de dizerem respeito a um mesmo período etário que compreende diversas mudanças, é necessário diferenciar o que seja a puberdade e o que seja a adolescência, para podermos compreender melhor a assim chamada pré-adolescência.

Por puberdade, compreende-se todas as mudanças corporais que a pessoa começa a vivenciar quando seu corpo começa a deixar de ser um corpo “de criança” e avança cada vez mais para se tornar um corpo “de adulto”. Essas mudanças são as aparições dos denominados caracteres sexuais secundários, ou seja: as meninas começam a menstruar, os seios começam a crescer, os meninos começam a apresentar mudanças na voz, uma penugem no rosto prenuncia o que será um dia a barba e tanto meninos como meninas veem proliferar por seus corpos os pelos, o aumento de estatura, espinhas, assim como seus aparelhos reprodutivos vão se tornando aptos a procriar. Claro que estas mudanças variam muito de pessoa para pessoa, podendo apresentarem-se de maneira mais acentuada para uns e menos para outros, assim como podem se iniciar mais cedo para uma pessoa e mais tarde para outra. Uma garota de 11 anos com corpo “de criança”, que ainda não menstruou nem tem indícios de crescimento dos seios pode conviver na sua sala de aula com outra que já tenha menstruado e cujos seios começam a se desenvolver. E isso é normal. As pessoas possuem ritmo diferentes de desenvolvimento.

A essas mudanças corporais, chama-se puberdade. A menos que haja algum problema sério de desenvolvimento, todos vão passar por ela. O que seria então a adolescência?

O conceito de adolescência como nós conhecemos, ou seja: um período de tempo entre a infância e a vida adulta, com características próprias, é algo próprio de nossa civilização ocidental industrializada. Isso significa que o que conhecemos por adolescência só faz sentido na nossa cultura. Em outras culturas consideradas “primitivas”, não há um período entre infância e a vida adulta. Nessas culturas há rituais geralmente dolorosos, pelos quais o jovem e/ou a jovem passam e, uma vez superadas as provações, assumem o papel de adultos perante a comunidade.

A adolescência enquanto etapa do desenvolvimento, portanto, é o que se costuma chamar de uma construção social. E o que significa exatamente uma construção social? Uma construção social é algo que tem uma história e um desenvolvimento dentro da nossa sociedade, é algo que não é natural por si só mas que possui características que são significadas pela sociedade e dentro dela. Como afirmado no parágrafo anterior, há culturas em que a adolescência como conhecemos “não existe”, por assim dizer, passa-se da infância à idade adulta através de um ritual estabelecido pela tradição daquela sociedade. Nossa sociedade, apesar de também apresentar rituais próprios, desenvolveu ao longo do tempo a noção de um período da vida de preparação para a vida adulta que ficou conhecido como “adolescência” e que possui características próprias. As ciências, como também fazem parte da sociedade, são chamadas a oferecer explicações sobre os fenômenos que ocorrem em sociedade, assim como oferecer soluções a problemas que advém destes fenômenos. Com a adolescência não é diferente.

Conforme apontado por Bock (2007). no que diz respeito especificamente à psicologia, o primeiro autor a realizar estudos sobre a adolescência foi Stanley Hall, no início do século XX. A partir de então, a adolescência tem sido considerada como uma fase difícil da vida: repleta de crises e turbulências. Autores psicanalistas viriam reforçar este aspecto tormentoso dessa etapa da vida, porém, segundo a autora deixaram de lado a concepção fundamental para se entender o desenvolvimento do ser humano: que este desenvolvimento se dá em sociedade. Desenvolver-se em sociedade significa que o indivíduo, ou sujeito, está em contínua interação com os meios e grupos dos quais faz parte e aprende com eles e neles a ser de uma determinada maneira ou outra. Como exemplo, podemos pensar nas diferenças culturais que as pessoas apresentam de um país para outro, ou mesmo de uma região geográfica para outra. As pessoas que apresentam essas características ou diferenças culturais não a apresentam por um motivo natural, biológico ou genético (ainda que esses fatores possam influenciar), mas sim porque aprenderam a ser assim no meio em que se desenvolveram.

Bock (2007) e outros pesquisadores da psicologia que adotam uma abordagem sócio-histórica dos fenômenos humanos chamam de visão naturalizante a tendência de enxergar etapas do desenvolvimento como algo “natural”, ou seja, algo que irá acontecer irremediavelmente, quer queira, quer não. Segundo a visão naturalizante, não há o que se fazer quanto à adolescência: uma hora ela vai chegar, vai ser turbulenta, mas uma hora vai passar. Essa visão nega, portanto, qualquer possibilidade de intervenção para um desenvolvimento menos conflituoso da adolescência.

Apesar de seus problemas, a visão naturalizante ainda predomina nas pesquisas em psicologia. Conforme demonstrado por nós, os assuntos relacionados à pesquisa da adolescência pela psicologia, em sua maioria, dizem respeito à violência, situações de risco, doenças físicas, psíquicas, uso e abuso de drogas e à sexualidade. Será que só podemos olhar o adolescente por estes pontos de vista? Ele será sempre um “aborrecente”, envolvido com violência e situações de risco, uso de drogas e seus interesses resumem-se à sexualidade?

Conforme exposto acima, compreendemos a adolescência como uma construção social. Ora, quem faz a sociedade são todos os sujeitos que fazem parte dela, portanto cabe a nós, pais, educadores e profissionais que convivem com os adolescentes quebrarmos e reconstruirmos essas representações negativas atribuídas à adolescência.

Portanto, esperamos ter esclarecido a diferença básica entre puberdade e adolescência. A puberdade refere-se às mudanças corporais que a pessoa vai vivenciar entre os 10, 11 anos ou um pouco mais, até os seus 17 ou 18 anos, mais ou menos. Enquanto a adolescência refere-se às características psicológicas e sociais que a pessoa assume nesta mesma faixa etária. Ou seja: ambos fenômenos coexistem, pois na nossa cultura a mudança corporal própria da puberdade é compreendida como sinal de que a pessoa “entrou” ou “está” na adolescência. A partir disso, as pessoas que convivem com o sujeito em desenvolvimento passam a enxergá-lo de outra maneira e a exigir deste uma outra postura perante as situações que vivencia. Não se espera de um adolescente que este venha a ter os mesmos comportamentos, pensamentos, afetividade e interesses que uma criança, por exemplo.

E como isso se passa para a pessoa que está se desenvolvendo? Como afirmado anteriormente, o nosso desenvolvimento é em sociedade, portanto, respondemos às demandas que a cultura nos impõe. Uma garota ou um garoto, ao serem apontados como “não sendo mais crianças”, deverão elaborar novos modos de se comportar nos meios e grupos dos quais fazem parte. Por meios e grupos entende-se: família, escola, igreja, clube, cursos, vizinhança, etc.

Esse processo não se dá automaticamente e nem de uma hora para outra. Ao contrário das mudanças corporais que, chegada a hora, se impõem, as mudanças psicológicas acontecem de maneira mais cadenciada e complexa. Acredito que agora chegamos ao ponto específico relacionado à pré-adolescência.

Se já há uma dificuldade (compartilhada inclusive pelos pesquisadores que estudam o assunto) de definir exatamente o que seja a adolescência, ou o que seja próprio dela, o que não dizer sobre a pré-adolescência, ainda mais para quem a está vivenciando. Ou seja, muito rapidamente a pessoa “passa” de criança a pré-adolescente, sendo que o próprio termo “pré-adolescente” já prenuncia que em breve já não se será mais isso, mas outra coisa: o adolescente propriamente dito.

Quando e como acontece a pré-adolescência? Aos dez, 11, 12 anos? Antes disso? É possível um pré-adolescente mais velho, ou a partir de um certo momento o sujeito é adolescente, querendo ou não?

Essas perguntas permanecem sem resposta porque além dos ritmos individuais de desenvolvimento, tanto corporais como psicológicos, serem muito diferentes, há uma indefinição do que seja um pré-adolescente, indefinição ainda maior do que seja um adolescente.

Levando isso em consideração, vamos nos ater ao que seja próprio da infância e ao que seja próprio da adolescência, do ponto de vista psicológico, almejando elucidar os processos desenvolvimentais e auxiliar a compreensão destas etapas da vida. Para isso, adotaremos uma abordagem que considera a adolescência, assim como a infância, como construções sociais.  Esperamos, com nossa exposição. auxiliar aqueles que tenham dúvidas sobre estes processos e que estejam convivendo de alguma forma com as mudanças enfrentadas pela criança que aos poucos vai deixando de sê-Ia e tornando-se um adolescente (ou pré-adolescente).

A criança, desde o início da vida, vai passando por situações que podem ser vistas como desafios desenvolvimentais. Inicialmente tem que reconhecer e aprender a usar o próprio corpo, além de perceber que seu corpo e seu ser é um e o de sua mãe é outro, visto que os bebês não têm essa compreensão , vivenciam a relação com sua mãe como se fossem um só e aos poucos vão aprendendo que são duas pessoas diferentes, com dois corpos diferentes. A partir disso, vêm os desafios de se locomover e explorar o espaço. A criança aprende a engatinhar e depois a andar. Há o desafio de se comunicar com as pessoas ao seu redor e a criança tem de aprender a falar.

Todos estes processos acontecem inseridos numa determinada época e sociedade que vão significar e ditar como os pais deverão auxiliar seus filhos no desenvolvimento. Isso vai depender muito do nível de desenvolvimento científico do meio em que os pais estão inseridos, além das tradições que envolvem o ato de criar filhos.

A criança, por sua vez, conforme vai conquistando os ganhos desenvolvimentais (aprende a andar, falar, etc.), tem à sua disposição novas ferramentas para agir no meio em que vive. A criança mais velha entra na escola e, neste espaço, além de ter de li­ dar com a sociabilidade, ou seja, conviver com outras crianças e adultos que não aqueles com as quais convive em sua casa, começará a entrar em contato com os conhecimentos desenvolvidos pela humanidade: irá se alfabetizar, aprender operações matemáticas, noções de geografia, etc.

Todo este longo processo desenvolvimental que dura anos, vai agregando aos poucos e cada vez mais ferramentas para a criança compreender o mundo em que vive e agir neste mesmo mundo com as ferramentas adquiridas. Por ferramentas, entende-se: os conhecimentos e habilidades que vai adquirindo conforme se desenvolve.

Os ganhos desenvolvimentais vão transformando a criança e esta vai ficando cada vez mais apta a agir nos meios em que vive. Há vários estudiosos que postularam os ganhos que a criança vai conquistando no seu desenvolvimento: Freud se debruçou sobre as características afetivas de cada momento desenvolvimental, Piaget estudou e postulou os ganhos cognitivos, ou seja, como a criança pensa e aprende em cada etapa, assim como o que é capaz de fazer. Vigotski e Wallon estudaram o desenvolvimento integral da criança e como cada conquista desenvolvimental transforma toda a estrutura psíquica da criança e permite a esta interferir no seu meio.

Para os objetivos deste texto, basta que tenhamos em mente que o modo da criança se desenvolver é brincando. É através da brincadeira que a criança pode experimentar seu corpo e os objetos com os quais tem contato. Nas brincadeiras em grupo, está treinando sua sociabilidade com outras crianças, nas brincadeiras de faz de conta está aprendendo a testar papéis sociais (por exemplo: quando brinca de professora, de médico, de motorista, etc.). É através dos jogos com regras (e castigos para quem desobecê-las) que vai aprendendo que na nossa sociedade há leis que devem ser cumpridas, assim como vai percebendo, aos poucos, que há uma lógica que guia nosso mundo.

É nesse ínterim que, de repente, a puberdade se impõe: o corpo começa a mudar. E a mudança ocorre bem no momento em que a criança (ou pré-adolescente) está absorta no mundo do conhecimento: aprendendo cada vez mais sobre o mundo e sociedade em que vive. É o momento em que, psicologicamente, o intelecto está em evidência, se desenvolvendo a todo vapor e assumindo prioridade em relação a outros processos psíquicos. É então que o corpo muda. Com o corpo, mudam-se aos poucos os interesses, vem a curiosidade sobre o que está acontecendo. “Será que com meus /minhas colegas está acontecendo também?”. E é por volta dos 11 aos 13 anos, o começo da puberdade, que o adolescente vai se interessar abertamente por conteúdos relacionados ao sexo e ao sexual, se referindo a estes assuntos muitas vezes de maneira despudorada.

Estes comportamentos são mal vistos, em geral, por pais e professores que lidam cotidianamente com pré-adolescentes (são crianças ou já adolescentes?), que acabam repreendendo-os pelo “mal comportamento”. Yygotski (2006) nos chama a atenção para o fato de que este interesse aberto e despudorado por assuntos relativos ao sexo e ao sexual se deve justamente ao fato de a criança (pré-adolescente?) estar vivenciando essas mudanças em seu corpo e não ter uma base para compreendê-las. Ou seja: trata-se de uma falha pedagógica de nossa sociedade que não prepara o pré-adolescente (ou criança) para as mudanças que em breve irá sofrer e nem as auxilia a compreender o significado dessas mudanças.

Ainda que já estejamos avançando mais de 20 anos no século XXI. propostas de educação que tratem do tema da sexualidade ainda são vistas como afronta a tradições religiosas e barradas por políticos ligados setores mais conservadores. Exemplos do tipo podem ser verificados na história recente de nossa política. O resultado são crianças. adolescentes e pré-adolescentes completamente desorientados quanto às mudanças pelas quais estão passando em seus corpos e em seu psiquismo.

Numa era globalizada com acesso quase irrestrito à internet, o risco de um pré-adolescente sanar sua curiosidade sobre o sexo e sexualidade em sites pornográficos é muito alto. O conteúdo dessas páginas não educa sobre o sexo, pois as situações ali registradas, embora exibam sexo explícito, são simulações que nada ou muito pouco tem a ver com o sexo real. O interesse e o sucesso estrondoso que músicas funk com conteúdo sexual explícito fazem entre os jovens pode ser explicado também como uma falha na educação sexual de nossos pré-adolescentes.

Portanto, é extremamente necessário orientar àqueles que vivenciam as mudanças corporais, psicológicas e de interesses (ou que em breve irão vivenciá-las) sobre os significados do sexo e da sexualidade: que na nossa sociedade não servem apenas a fins reprodutivos (como seria de se esperar do sexo entre animais), mas são maneiras de vivenciar e demonstrar afeto, prazer e carinho. Que é necessário prevenir-se de gravidezes indesejadas e também de doenças sexualmente transmissíveis não menos indesejadas, que é necessário haver respeito e cumplicidade entre as pessoas envolvidas no ato sexual. Que é necessário haver acima de tudo responsabilidade com o próprio corpo e sentimentos, assim como com o corpo e sentimentos do (a) parceiro(a).

Concluindo: também quando o assunto é desenvolvimento, o melhor caminho é sempre a educação.

OUTROS OLHARES

GÊNERO PRÓPRIO

Pessoas intersexo defendem direito de escolha sobre cirurgia genital

Quando Rosa (nome fictício) foi procurar documentos pessoais para o mestrado, aos 33 anos, não imaginava que encontraria um relatório, destinado à sua mãe, que mudaria tudo o que ela conhecia sobre si. O texto, de 1996, dizia que ela era portadora de uma condição genética conhecida como “insensibilidade aos andrógenos, e que, aos sete meses, foi submetida a uma cirurgia de reconstrução genital para o feminino.

“Durante 33 anos, eu vivi uma farsa. Eu sempre desconfiei de que havia uma história que não era contada sobre mim. Quando achei o relatório, comecei a investigar e, junto a uma amiga, chegamos à palavra ‘intersexualidade’”, relembra.

Segundo a Anistia Internacional, “intersexo” é o termo usado para descrever pessoas cujos órgãos genitais, características cromossômicas ou hormonais não correspondem ao padrão para categorias masculinas ou femininas de anatomia sexual ou reprodutiva.

O prontuário médico de Rosa indicava que, na verdade, ela era portadora de cromossomo XY e que, ao nascer, tinha testículos palpáveis, saco escrotal e todo o aparelho sexual masculino. São nada menos que 130 milhões de pessoas nessa condição no mundo.

“Eu tinha um pênis que, até os sete meses, media 1 cm. Aquele prontuário contou que fui operado para o feminino. A descoberta, para mim, foi como se fosse um quebra-cabeças que, agora, estava montado”.

GUINADA DE VIDA

A descoberta da intersexualidade foi um marco para a transição de Rosa, que, em 2016, passou a se identificar como uma pessoa transmasculina: Amiel Modesto Vieira. O sociólogo, hoje com 39 anos, diz que, junto do nome, nasceu também o compromisso de falar sobre o assunto. Um dos fundadores da Associação Brasileira de Pessoas Intersexo (ABRAI), ele dedicou os últimos anos a pesquisas e debates sobre o tema.

“Quando descobri a intersexualidade, acabei saindo da igreja e dei vazão a algo que estava   reprimido em mim. Na época, me entendia como uma pessoa lésbica. Conversei sobre isso com meus pais e eles disseram que era uma situação complicada, porque não estava de acordo com a Bíblia”, conta. Segundo Amiel, antes do seu nascimento, sua família esperava por um menino. E, quando veio ao mundo, o registro dele foi feito: Luiz Henrique Modesto Vieira. Os médicos, porém, de acordo com seu relato, foram contra. Então, seus pais fizeram um novo documento. Aos sete meses, renascia como menina – a certidão possui, inclusive, a data da cirurgia: 14 de março de 1983.

“O que [meus pais] sabiam é que deveriam criar uma menina, e tiveram que mudar de bairro, construir uma nova vida para mim, no sentido de que aquela menina acabara de nascer. Tudo era forçado para criar um ambiente onde o feminino que foi criado na operação fosse uma realidade. Só que o problema é que eu nunca me adaptei a esse feminino. Hoje, Amiel se posiciona de forma contrária às cirurgias feitas em bebês intersexuais. Para ele, o procedimento deve ser adiado para quando o próprio individuo tiver autonomia para decidir. A visão é a mesma da ONU, que critica a intervenção médica na primeira infância. Irreversível, a cirurgia pode ocasionar dores crônicas, infertilidade, incontinência urinária, perda da sensibilidade sexual e sofrimento mental.

Em abril, uma publicação do sociólogo sobre o assunto viralizou no Twitter. Meu dia acabou depois de ler um relato intersexo para a tese: médicos diziam que o bebê precisava de uma cirurgia no tímpano e os pais autorizaram. Na realidade, a pessoa nasceu com um clitóris grande, os médicos operaram e nunca contaram”, escreveu. “Só depois a pessoa descobriu que a cicatriz no clitóris era uma cirurgia para encaixar a pessoa na norma.”

A abordagem médica em pessoas intersexo ainda é um tema que divide especialistas. Segundo o endocrinologista Magnus Regios, a intersexualidade é compreendida como a condição de um indivíduo que nasceu com uma genitália atípica. Para ele, há uma corrente “antiga” da medicina que recomenda a cirurgia na primeira infância, e outra abordagem mais contemporânea, com foco na autonomia do sujeito.

“É necessária uma conduta focada na pessoa intersexo, e não em uma normativa que ‘corrige’ os corpos como masculino e feminino compulsoriamente”, diz o endocrinologista, que é professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.

“Do contrário, nunca vamos reconhecer essa pessoa como um indivíduo.”

EM SOFRIMENTO

Para quem defende a atuação cirúrgica em crianças, o argumento é o de que a medida contribui para que as pessoas intersexo se sintam pertencentes à sociedade. É a opinião da professora Berenice Bilharinho, diretora da unidade de endocrinologia do desenvolvimento do Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com ela, a vida com uma genitália atípica traz “sofrimento aos pacientes”.

“A recomendação e a correção da genital na primeira infância para adequá-las ao sexo social da criança. Consideramos a plástica dos genitais da mesma forma que corrigimos as diferenças do desenvolvimento da face, por exemplo, como o lábio leporino. Todos os especialistas que tratam esses pacientes têm a mesma opinião” sustenta. No Brasil, as intervenções são respaldadas pelo Conselho Federal de Medicina, que, em uma resolução de 2003, afirma que os médicos devem chegar a uma definição adequada do gênero e tratamento em tempo hábil. Como parte de uma “decisão racional”, o entendimento é o de que profissionais devem definir o gênero da criança, e agir rapidamente.

Para Regios, a intervenção só deve ser feita na primeira infância, em condições em que a variação imponha risco de saúde ou morte do indivíduo. Ele explica, porém, que esses casos são raros e, em geral, não há necessidade de cirurgia precoce, já que “o aparelho reprodutor no macho e na fêmea, não têm função de estreia na infância”.

Segundo ele, o termo “hermafrodita” tem sido ressignificado nos últimos anos. Antes entendido como depreciativo e carregado de estigma, o conceito passou a ser usado por ativistas na Argentina e em países da Europa como um retorno à tradição grega, onde corpos assim eram reconhecidos como divindades. Na mitologia, hermafrodito seria filho dos deuses Hermes eAfrodite.

Para Amiel, a indignação que percebeu depois de seu viral na internet não deve ficar restrita às redes.

“Daqui uns dias, as pessoas vão esquecer e não vão mais falar da intersexualidade. Meu sonho é que, um dia, gritem o meu grito de seis anos, pelas vidas de bebês intersexo que, como eu, todos os dias passam por mutilações genitais.”

GESTÃO E CARREIRA

AO ALCANCE

Com base em escaneamento e impressão em 3D, a startup Unlimited Tomorrow está conseguindo produzir braços mecânicos superleves e de uso intuitivo, nas medidas exatas para perfeita compatibilidade com membros residuais. Melhor ainda: consegue reduzir a até um décimo o preço para os clientes. Easton LaChappelle, de 25 anos, teve a ideia de fundar a empresa quando encontrou uma garota com uma prótese sem nada de especial, que havia custado US$ 80 mi1. Com noções de robótica e engenharia protética adquiridas em vídeos do YouTube, o jovem empreendedor desenvolveu o braço robótico TrueLimb, com 36 sensores de alta precisão alimentados por baterias de longa duração e que podem ser recarregadas por meio de uma simples entrada USB. A prótese inovadora pode ser confeccionada eu 450 tons diferentes de pele e – detalhe mais importante – sai por US$ 8 mil.

EU ACHO …

ADÚLTEROS

Todo adulto é um adúltero. Não precisa ser fiel a mais nada.

Se ele continua apegado a antigas convicções, antigas preferências e antigas manias, é um preguiçoso que se acomodou, escolheu viver de forma repetitiva, no piloto automático, cansado para novos entusiasmos. Está aguardando a morte sem aproveitar a liberdade que a maturidade lhe daria, caso tivesse amadurecido. Se ainda está agarrado ao que lhe definia aos 18 anos, então não saiu mesmo dos 18.

Um adulto de verdade, bem acabado, trai a si próprio sem um pingo de culpa. Festeja a alforria que o acúmulo de vivência lhe trouxe de bônus. Tornou-se um condenado à morte com direito a centenas de últimos desejos.

Um adulto é um adúltero que um dia jurou fidelidade eterna aos Beatles e aos Rolling Stones, mas que um belo dia cansou de conservá-los com naftalina e resolveu confessar que já não consegue escutar “Yesterday” sem enfrentar náuseas e que se sente ridículo dançando “I can’t get no satisfaction”. Trocou o rock pelo neo soul, seja lá o que for isso. Escuta coisas que despertam sua atenção aqui e ali, estilos que gosta num dia e dispensa no outro, e segue em busca de novidades sem querer aterrissar em mais nenhuma “banda preferida” que o enclausure num perfil. Só não rasga a carteira de identidade porque o juízo se mantém.

Um adulto é um adúltero que adorava o verão quando era um frangote, mas que ao abandonar as pranchas e ao se aproximar dos livros acabou criando uma predileção pelo inverno, até que o tempo passou mais um pouco e ele entendeu que a primavera e o outono é que eram cativantes pela ausência de extremismo, e agora, neste instante, voltou a preferir o verão, mas não assina embaixo, não tem mais firma reconhecida em cartório algum.

Um adulto é um adúltero que deixou de ser fiel aos próprios gostos. Deu-se conta disso quando, ao frequentar a casa de amigos, reparava que serviam a ele sempre o mesmo prato: como explicar que virou um cafajeste gastronômico chegado a outros sabores?  As conversas igualmente passaram a se repetir e ele se flagrou aceitando convites de estranhos – hoje é chegado a outros amigos também.

Don Juan de si mesmo, já não tem cor que lhe assente, autor que o represente, estilo de vestir que o catalogue, pensamento que o antecipe, sonho que o enquadre, viagem que o carimbe. Só não muda de time de futebol porque restou algum caráter.

Quanto ao amor, não é tolo. Sabe que quanto mais ele se abre para o mundo, quanto mais areja e celebra a própria vida, mais seguro estará nos braços de uma única pessoa, preservando a intimidade conquistada. Amor não é cor, música, esporte, estação do ano, ponto no mapa. Ele varia a si mesmo justamente para não precisar se procurar em mais ninguém.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ATENÇÃO AOS SINAIS

Manchas e Melasma são comuns durante a gravidez e processos de reposição hormonal. Saiba como prevenir tais marcas e tratá-las para que sua estadia no rosto seja curta

Nosso rosto tem poderes. Além de ser o melhor cartão de visitas, ele é capaz de refletir o cansaço, as dores emocionais e físicas, a alegria e a alteração hormonal que, literalmente, surge à flor da pele, causada pela gravidez, uso de anticoncepcionais e terapias de reposição. Fica difícil imaginar como lidar com o surgimento de uma situação crônica sem ter a sensação de impotência. Assim acontece com o Melasma, hiper­pigmentação que causa as indesejáveis manchas escuras que aparecem na maior parte das vezes em mulheres e por conta do excesso de exposição ao sol. Passado o susto é hora de agir.

A pergunta mais recorrente é se podemos prevenir o surgimento do Melasma, principalmente durante a gravidez. Segundo a dermatologista Fabíolla Sih Moriya, da clínica Adriana Vilarinho, “mesmo com todos os cuidados que precisamos tomar, como o uso frequente de protetor solar – inclusive em ambientes fechados -, por se tratar de uma alteração hormonal as mulheres grávidas têm maior predisposição ao surgimento do Melasma”. Como prevenção, Fabíolla é a favor da aplicação de clareadores, desde que sejam prescritos por médicos, levando em consideração caso a caso. O uso diário da vitamina C também é um ótimo aliado ao combate do surgimento de manchas, segundo ela. “Assim como as grávidas, as mulheres que fazem reposição hormonal precisam estar atentas ao surgimento de manchas na pele”, completa. Entre os lasers com alto grau de eficácia para tratamento, ela sugere o ”Pico Seguidos”.

Uma rotina que inclui um peeling suave à base de ácido glicólico é essencial para remover  células mortas e preparar a pele para produtos específicos que suavizam as manchas, segundo Tatiane Rocha, farmacêutica e P&D sênior da Simple Organic, marca de clean beauty brasileira, que tem em seu DNA o uso de ativos veganos e sustentáveis. Dentre a linha de séruns lançada pela marca, Tatiane aposta no Oxy Resveratrol para a redução de manchas causadas pela exposição solar ou Melasma. Trata-se de um antioxidante formulado pela Romulus Mari (Amoreira) que tem efeito clareador. “Os resultados dos testes foram visíveis”, afirma.

Para o dr. Otavio Macedo, da clínica que leva seu nome, existe uma predisposição genética para o surgimento do Melasma. “Por baixo das manchas existe vasos vasculares”, explica o dermatologista, que sugere a combinação de lasers no tratamento associado de ambos, como o Fotona Stalwalker. “É importante que sejam colocadas altas doses de antioxidantes depois da aplicação para que o efeito seja potencializado”, completa. Quanto à reposição hormonal, ele frisa a importância de levar em conta o custo-benefício, já que grande parte pode ser tratada dermatologicamente. “A reposição hormonal não é capaz de causar mancha em quem não tem predisposição para tal”, enfatiza. O que podemos concluir, no entanto, é que a poderosa dupla prevenção mais proteção solar é a nossa grande aliada para o cuidado da pele, especialmente para as manchas provenientes do Melasma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE É O TRANSTORNO DO PÂNICO

Conheça as principais características, os sintomas e o tratamento para esse problema.

O transtorno do pânico (TP) e considerado um transtorno de ansiedade que pode trazer prejuízos para a vida pessoal, social ou familiar do indivíduo. Algumas pessoas conhecem como Síndrome do Pânico, mas a nomenclatura oficial na literatura médica é transtorno do pânico. A palavra “síndrome” significa um conjunto de sintomas e sinais e é usada frequentemente na medicina para descrever características de várias doenças. Os prejuízos na vida pessoal do indivíduo com transtorno do pânico são relativos aos limites que o medo impõe a quem recebe esse diagnóstico. Alguns comportamentos mais frequentes observados nesses casos são: medo de sair para longe de casa e passar mal na rua, deixar de frequentar determinados locais que podem ser fechados, abertos demais ou com grande número de pessoas, temer ônibus lotado, metrô e avião, entre outros. Sendo assim, todos esses comportamentos desproporcionais, muitas vezes infundados e restritivos, acabam comprometendo também os relacionamentos sociais e familiares.

No transtorno do pânico a ansiedade e o medo costumam ser os principais sintomas, quase sempre acompanhados por outras manifestações físicas, como: angústia, desconforto, tremor, suor, palpitação e nervosismo. Todos os seres humanos sentem medo e ansiedade em determinadas situações, mas, quando esses sentimentos adquirem uma proporção muito elevada trazendo sintomas desagradáveis, sofrimento e prejuízos para a qualidade de vida, o indicado é uma avaliação médica e psicológica para a realização de um tratamento.

A ansiedade vem antes do medo e é um estado desconfortável que provoca uma inquietação interna que surge quando estamos perto de viver novamente uma situação que queremos evitar ou quando nos deparamos com um objeto ou animal que nos causa medo (elevador, andar de avião, baratas, etc.). A ansiedade e o medo são necessários para nos proteger e salvar as nossas vidas, caso contrário, atravessaríamos a rua sem olhar para os lados e poderíamos morrer, ou ainda, frequentaríamos sem temer locais perigosos.

Uma coisa é sentirmos ansiedade e medo frente a um perigo real (um assaltante, um penhasco ou uma rua escura à noite), outra é sentirmos um medo inexplicável em locais onde não deveríamos normalmente sentir (num shopping, no cinema, num parque). Nesses casos, podemos dizer que o sujeito desenvolveu o Transtorno do Pânico que precisa ser investigado para receber o tratamento adequado. Nesse caso, o indivíduo faz uma interpretação errada da realidade, por exemplo: quando o coração dispara, ele começa a achar indevidamente que vai ter um ataque cardíaco, ou, quando tem uma alteração da respiração significativa, costuma interpretar como “vou sufocar e morrer”. Esses pensamentos distorcidos carregados de crenças negativas e de resultados catastróficos são característicos do transtorno do pânico. Em outras palavras, o transtorno acontece quando o sujeito passa a pensar de modo equivocado as próprias sensações físicas (coração disparado, suor, tremores, entre outros) relacionando com algo grave ou com a possibilidade de morrer. Todo o paciente com o diagnóstico de transtorno do pânico deve descartar sempre as possibilidades clínicas reais, deve procurar um médico, fazer exames e avaliações periódicas para que possa ficar certo de que as sensações físicas e os sintomas presentes são provenientes de um quadro emocional.

ATAQUES DE PÂNICO E MECANISMO DE “FUGA E LUTA”

Nos casos de transtorno do pânico, é comum que ocorram os ataques de pânico que são crises súbitas e momentâneas com uma ansiedade altíssima onde o sujeito não consegue explicar por que aquilo está acontecendo, nem como começou ou de onde veio. O início do ataque de pânico é de repente e a duração é de cerca de 10 a 30 minutos. As crises podem ser frequentes, inclusive diárias, em qualquer lugar ou situação e sem motivo aparente. Essa imprevisibilidade traz bastante preocupação quanto ao próximo ataque, sendo assim, a pessoa sofre por antecipação (ansiedade antecipatória) na expectativa de passar mal e novamente vivenciar os sintomas indesejáveis. Nesses casos, os que saírem tal problema começam a ter o “medo de sentir medo”, essas reações exageradas e desproporcionais são características frequentes e sempre presentes no transtorno do pânico.

Nos ataques de pânico surgem sintomas físicos como: alterações da respiração falta de ar, nó na garganta, o coração dispara, vem o medo de morrer, de perder o controle e de “enlouquecer”. Algumas pessoas acham que os sintomas e sensações vieram “do nada”, e como não sabem explicar, entram em pânico achando que estão passando mal devido a algo mais grave. Não percebem que os sintomas e sensações emergentes não são resultado de nenhuma doença grave, e sim, do mecanismo biológico conhecido como “luta e fuga”. Esse mecanismo nasce com todos nós e é responsável por nos preparar para enfrentar os perigos. Por exemplo, se um leão surgisse na nossa frente, o mecanismo de luta e fuga nos prepararia para enfrentarmos ou fugirmos da fera com o objetivo de preservar nossa vida. Seria uma reação automática do corpo independentemente da nossa vontade e que viria para nos salvar. Neste momento recebemos uma descarga de adrenalina, as pupilas dilatam, o coração bate mais rápido, os músculos se ativam, entre outros, para favorecer a fuga ou a luta. Quando essas reações físicas naturais surgem de modo inesperado e não são reconhecidas como normais provenientes deste mecanismo, são confundidas com os sintomas que também são parecidos com os de alguma doença e o sujeito entra em pânico.

No transtorno do pânico, é comum o indivíduo começar a evitar locais ou situações onde se sentiu mal por temer sentir novamente aquelas mesmas sensações desagradáveis. Acaba associando e condicionando o medo a um objeto, local ou situação específica mesmo que não representem ameaça alguma.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O diagnóstico deve ser sempre realizado por um psiquiatra cuja conduta pode consistir na prescrição de medicamentos e encaminhamento para uma avaliação psicológica. De acordo com a literatura científica, o tratamento bem indicado para o Transtorno do Pânico é o uso de medicamentos associados à terapia cognitivo-comportamental (TCC). Trata-se de uma terapia breve que além de esclarecer os conceitos e mecanismos da doença, também trabalha com técnicas especificas que auxiliam na redução dos sintomas e no entendimento e modificação das crenças negativas que levam as interpretações equivocadas. Nesse tipo de psicoterapia, são frequentes os exercícios de respiração, relaxamento, exposições às próprias sensações e exposições a locais ou situações temidas. O tratamento farmacológico tem como objetivo principal a eliminação dos ataques de pânico e o controle da ansiedade e do medo. Diferentes classes de medicamentos podem ser utilizadas no tratamento do transtorno do pânico, entre elas, os benzodiazepínicos e os antidepressivos.

O importante é que o indivíduo procure o tratamento adequado para o transtorno do pânico ao menor sintoma. Lembrem-se: “O medo atribui a pequenas coisas grandes sombras” (provérbio sueco).

OUTROS OLHARES

BRASIL OBESO

Rotulagem de alimentos é próxima arma para deter sobrepeso no país

Tempo demais no transporte público, menor disponibilidade de produtos in natura e ausência de locais públicos e seguros para prática de atividades físicas têm criado no Brasil o “ambiente obesogênico” (que contribui para o aumento de peso) perfeito, afirmam especialistas. E o resultado pode ser constatado em números como os da mais recente pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, que aponta sobrepeso em mais da metade da população brasileira adulta.

Os dados consolidados do levantamento esquadrinham o perfil dos habitantes das 26 capitais e do Distrito Federal em 2021. Nesse grupo, 57,2% das pessoas apresentaram excesso de peso sendo 22,4% com obesidade. Asmaiores taxas de sobrepeso foram registradas em Porto Velho (64,4%), Manaus (63;1%), Porto Alegre (62,1%), Belém (61,2%) e Rio Branco (60,35%).

Mais que um retrato momentâneo, os dados reforçam uma tendência. Desde 2006, em média 360 mil pessoas acima de 18 anos engrossaram as taxas de excesso de peso a cada ano. Dessas, 234 mil tornaram-se obesas – com índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30.

Rafael Claro, especialista em nutrição em saúde pública e consultor do Ministério da Saúde para o projeto Vigitel, ressalta que em 13 dos 16 anos da pesquisa houve aumento das taxas da população adulta com excesso de peso. Em três, estabilidade.

Uma das chaves para a reversão desse quadro, segundo os especialistas, é estimular uma alimentação à base de frutas, verduras e vegetais. Para a pesquisadora Letícia Cardoso, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, são necessárias políticas que facilitem a escolha de itens saudáveis e desestimulem o consumo de produtos inadequados.

“É possível aumentar a taxação dos produtos ultra- processados e dar publicidade aos malefícios que causam, como ocorreu com o cigarro”, diz ela.

RÓTULOS CLAROS

Chega às prateleiras em outubro a iniciativa mais concreta nessa direção. Com a nova rotulagem aprovada no país, as embalagens de alimentos passarão a ter, na parte frontal, alertas claros sobre altos teores de açúcar, sódio ou gordura saturada – ou uma combinação deles. Os três são os principais vilões da dieta saudável.

Para os especialistas, a medida, aprovada em 2020 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ajuda a retirar a obesidade da lista de dilemas individuais.

“Não são razões individuais que explicam o aumento da obesidade. O sistema alimentar é adoecedor”, afirma Inês Rugani, do Grupo Temático Alimentação e Nutrição da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Segundo Claro, há ainda um novo complicador no incentivo à dieta saudável. No Brasil, os alimentos ultra­ processados estão cada vez mais baratos, enquanto os in natura encarecem.

Desde os anos 2000, os preços dos alimentos ultra- processados caíram sucessivamente. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, com a participação de Claro, mostrou que a cesta de alimentos saudáveis custava em 1995, o equivalente a 53,08% do preço do grupo de ultra processados. Em 2017, o percentual subiu para 70%.

A previsão era que os ultra processados se tornassem mais baratos do que os in natura em 2026. Nos últimos dois anos, a inflação e sucessivos eventos climáticos – geada, seca e chuvas em excesso – aceleraram o processo. Enquanto a indústria alimentícia barateia custos, médios e pequenos produtores de verduras, frutas, legumes, arroz e feijão – alimentos saudáveis da dieta brasileira – são impactados pelas mudanças climáticas e pelo aumento de preços, como combustível e frete.

Enquanto a preço de um pacote de macarrão instantâneo varia de R$ 1 a R$ 2,50, em São Paulo, um pé de alface custa hoje entre R$ 3 e R$ 10 em feiras da capital.

Quatro das cinco capitais com maior excesso de peso estão na região Norte, onde o consumo de frutas e hortaliças fica bem abaixo da média brasileira. Segundo o IBGE, enquanto o consumo per capita de hortaliças no país é de 23,7 kg por ano, na Região Norte, é de apenas 1,6 kg. O consumo de frutas é de 13,8 kg, metade da média nacional.

EXEMPLO DO MÉXICO

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lista a obesidade entre os cinco maiores riscos para a mortalidade no mundo. A doença, crônica, costuma vir acompanhada de outras, como diabetes tipo 2 e hipertensão, aumentando o risco para doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e quadros de depressão e ansiedade.

Daniela Canella, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo, diz que a mudança nos rótulos é positiva, mas insuficiente. Ela cita como exemplo o México. Segundo dados publicados pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em 2013, o país passou a taxar alimentos e bebidas com alto teor de açúcar. O preço das bebidas subiu 10%. No primeiro ano, a venda diminuiu 5,5%. No segundo, 9.7%. O consumo de água cresceu 15% no período. Estudos estimam que 18.900 mortes serão evitadas até 2022.

GESTÃO E CARREIRA

PLATAFORMAS CRIAM SITES PARA CASAMENTOS E FATURAM ALTO

Casais em busca de registro digital de matrimônio tornam-se clientes potenciais de empresas que cuidam da lista de presentes à viagem de lua de mel

Plataformas responsáveis pela criação de sites personalizados para casais que curtem registrar os melhores momentos de seus casamentos estão se sofisticando e buscando nova modelagem de negócio. Em vez de só faturar com a postagem, as empresas vêm percebendo oportunidades de lucrar com outros serviços prestados aos noivos. A diversidade é enorme, e o faturamento também costuma acompanhar a gama de atividades envolvidas nos matrimônios.

A viagem de lua de mel sempre foi um dos filões da agência Clube Turismo, uma das maiores do país, e esse produto ganhou uma maior atenção por parte da empresa. A ideia no início era disponibilizar um site personalizado para os casais que compravam os pacotes, mas, com o tempo, o serviço se sofisticou e foi criado o Clube dos Noivos, em que os clientes registram suas histórias, informam sobre a cerimônia e divulgam a lista de presentes.

“No formato original, os noivos apenas inseriam no convite de casamento a informação de que a lista de presentes estava na Clube Turismo. Com a modernização do produto, o convidado pode presentear os noivos sem precisar sair de casa”, explica a CEO Ana Virgínia Falcão.

A empresa cobra uma taxa de R$ 45pela hospedagem do site do casal, e os amigos e parentes podem bancar a viagem de lua de mel, o que acaba alavancando as vendas de pacotes para a agência. O foco são clientes que não priorizam a montagem do novo lar, mas, os momentos que viverão após o matrimônio.

A FestaLab também mirou na tradicional festa de casamento para criar serviços inovadores. A startup é especializada em organização de listas de festas e acabou encontrando grande demanda para casamentos. Hoje, já faz cerca de dez mil convites para uniões matrimoniais por mês. Entre as novidades está a possibilidade de confirmação de presença via WhatsApp, o que é facilita em muito a organização da festa.

A startup é responsável pela plataforma Joliz, que consolida em um só lugar lista de presentes, site de casamento, convite e conteúdo para a organização da festa. Atualmente, disponibiliza para os clientes a possibilidade de receberpresentes em produtos e em dinheiro. Os casais também podem montar sites personalizados, sem taxa mensal de manutenção, e fazer o convite com a mesma identidade visual.

Grande parte do faturamento vem da taxa cobrada, entre 2,49% e 3,69% do que é presenteado aos noivos, mas os responsáveis afirmam que a facilidade para convidados e a transparência de todo o negócio compensam o pagamento. Pedidos especiais também podem ser atendidos mediante a cobrança de uma taxa proporcional, que pode chegar a R$ 2 mil.

“Depois de muito esforço, estamos conseguindo ser uma solução 100% transparente para convidados e noivos, e não uma enganação para os convidados que querem presentear a casa dos noivos com produtos que trarão lembranças quando usados. Trabalhamos fortemente isso no último ano, e o desafio era ter um portfólio de produtos que possibilitasse fazer essa mudança”, afirma Erik Santana, fundador e CEO da FestLab.

ASSISTENTE VIRTUAL

A Zankyou nasceu na Espanha da ideia de um casal que apenas queria organizar a lista de presentes para selar sua união. Hoje, já atua em 23 países, e tem esse serviço como carro­ chefe, mas oferece opções de vários atendimentos que intermedeia. A taxa cobrada é de 3,75% sobre o que é contratado de fornecedores selecionados.

A empresa tem um aplicativo que ajuda os noivos a organizar todas as etapas do casamento, até o controle de gastos. Há também uma assistente virtual para ajudar na organização da festa e da cerimônia, além da montagem do site do casal, com histórias, fotos e tudo mais que for relevante.

Os assinantes de um pacote premium têm direito também a domínio próprio e personalizado, temas e layouts exclusivos, galeria de fotos PRO (organização inteligente), privacidade avançada e música de fundo, entre outros. Apesar da tecnologia empregada, a empresa garante que busca sempre dar atendimento personalizado e atender aos desejos dos clientes.

“Os mais de cem mil noivos cadastrados na plataforma fazem mais de 120 mil orçamentos por mês, usando nosso guia de fornecedores. E temos um sistema próprio que mede acessos, leads efechamentos e apresenta os resultados ao fornecedor que nos contratou e ao time que cuida do atendimento e do comercial da empresa”, conta Ana Luiza Mori, gerente de Marketing da Zankyou Brasil.

EU ACHO …

A VARIÁVEL NATUREZA HUMANA

A sua imperfectibilidade permanece como uma suspeita constante

Natureza humana é um daqueles conceitos de que todo mundo fala mal, mas que sempre acaba sendo operacional quando se quer refletir acerca de temas constantes na humanidade. Mesmo que a natureza humana seja histórica, a história parece se repetir ao seu bel-prazer.

Nó começo da pandemia de Covid, era comum ouvir jornalistas – os menos capazes – e marqueteiros – cegos pelo próprio exercício da profissão – levantarem a questão de se a humanidade não sairia melhor desse período. Agora já podemos ver o quão ridículo era essa hipótese. Dois neurônios são o suficiente para jamais considera-la a sério.

Na história dos movimentos revolucionários do século 19, a natureza humana funcionou como uma barreira para qualquer tentativa de negar sua existência.

Sei bem que a teoria marxista encontra no seu elegante conceito de práxis a hipótese segundo a qual a ação social transforma o homem. Aliás, o novo homem no qual os marxistas e soviéticos diziam crer vem daí. Não me parece que isso tenha ocorrido, pelo menos no espaço de quase 200 anos de prática social.

Claro que tais crentes podem argumentar que a verdadeira práxis jamais existiu de fato. Este argumento seria da mesma ordem da afirmação de certos cristãos de que o reino de Deus nunca veio a se concretizar porque o verdadeiro amor cristão nunca teve lugar no mundo.

Guardo comigo a suspeita de que movimentos como o anarquismo, pelo qual sempre alimentei uma secreta simpatia, fracassaram justamente pelo equívoco em relação à natureza humana. Esta nunca foi capaz de viver sem alguma tutela política que a resguardasse de sua própria vocação para a violência, a inveja, o rancor e o amor à burocracia

Mesmo que renunciemos ao conceito de natureza humana enquanto tal, autores como Tocqueville reconheciam que os diferentes e contraditórios fins que buscam os diferentes homens e grupos implicam um alto grau de persistência de uma inércia comportamental no homem que não parece ter mudado nas democracias até hoje – ou em qualquer outro sistema político.

A barreira à qual fiz referência acima é exatamente esta inércia da variável “natureza humana”. Esta variável, que tende a ser invariante – por incrível que pareça – , se manifesta por baixo e por cima de qualquer tese que pressuponha a eliminação deles.

Autores como Hegel (1870-1831) acreditavam que com o tempo a racionalidade do real acomodaria as imperfeições dessa natureza humana e que ao final, tudo daria certo – Marx (1818-1883) era filho dileto do Hegel.

A tese de Hegel, em que pesa a sofisticação alemã nela presente, acaba por parecer aquelas máximas de sabedoria otimista que afirmam que, se a coisas ainda não está bem, é porque ainda não chegamos ao fim da história.

Incrível como palestrantes motivacionais ainda não cooptaram o elegante filósofo para o seu menu de afirmações falsas, mas simpáticas – além de venderem muito bem, é claro.

Jó no século 21, John Kekes afirma que um grande impeditivo para a eliminação da natureza humana – ele prefere “condição humana” – como obstáculo à sua negação como fato dado é sermos atravessados por elementos contingentes, tais como herança genética, contexto histórico e geográfico, limites econômicos – ou a ausência deles – componentes psicológicos e cognitivos, que impactam nossa racionalidade limitada. Atravessamos a vida lidando com esses elementos que nos constituem e nos ultrapassam.

Enfim, parece haver uma forte dúvida cética com relação à capacidade humana de se aperfeiçoar no que tange ao seu horizonte moral. A imperfectibilidade da natureza humana permanece como uma suspeita que paira sobre todas as propostas de utopias ou de grandes transformações sociais.

O filósofo australiano John Passmore (1924-2004) escreveu uma brilhante obra histórico-filosófica, “A Perfectibilidade do Homem”, publicada no Brasil pela Topbooks, na coleção Liberty Classics, na qual ele persegue as várias teorias acerca da perfectibilidade humana.

Paro o autor, o embate entre as teorias que afirmam a perfectibilidade do homem ou seu contrário representam uma luta pela consciência da alma humana.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

COMO O MAU USO DO CELULAR PODE DANIFICAR O CORPO

Dores são sinais de excessos e postura ruim. Especialistas dão dicas de como lidar com os smartphones de maneira adequada

Alguns anos atrás, minha melhor amiga escreveu para confessar que estava preocupada com o efeito das suas mensagens. Suas mãos e dedos doíam ao longo do dia, e a dor piorava quando ela usava o smartphone. Nossas mensagens de texto incessantes sobre paternidade e política poderiam ser a causa? Ainda não há muitas respostas sobre os efeitos que o uso de celulares pode ter no corpo.

“Não sabemos muito”, disse Jessica B. Schwartz, fisioterapeuta de Nova York e porta-voz da Associação Americana de Fisioterapia. Mas ela e os médicos com quem conversei disseram que estavam atendendo mais pacientes do que o comum com dor, além de doenças nas articulações e tecidos moles, como tendinite nos dedos, polegares, pulsos, cotovelos, pescoço, ombros e parte superior das costas… E os telefones celulares provavelmente estavam desempenhando um papel nisso.

Quando enviamos mensagens de texto para amigos ou navegamos na internet em nossos telefones, geralmente usamos nossos músculos e articulações de uma maneira que os sobrecarrega, disse Schwartz. Olhar para baixo em nossos celulares, assim como segurá-los em nossas mãos com os pulsos flexionados enquanto rolamos a barra ou enviamos mensagens de texto, exige que nossas articulações e músculo façam coisas para as quais não evoluíram: ficar na mesma posição por muito tempo, segurar muito peso e se mover repetidamente em uma pequena amplitude de movimento.

Essas posições e movimentos podem colocar “forças indevidas” nas articulações, músculos, tendões e ligamentos “que simplesmente não estão acostumados a serem mantidos nessa posição por tanto tempo”, explica Renee Enriquez, especialista em medicina física e reabilitação. Com o tempo, essas ações podem causar inflamação, levando à dor e outros problemas.

Nem todos os médicos estão cientes desses riscos. Quando minha amiga consultou seu clínico geral por causa da dor na mão, ela fez radiografia e exames de sangue, e foi informada de que não tinha artrite. Quando ela perguntou se seu smartphone poderia estar causando a dor, seu médico disse que era improvável. Ela então consultou outro médico, que descartou a síndrome do túnel do carpo e, finalmente, um ortopedista especialista em mãos, que riu e disse não quando ela perguntou – novamente – se seu telefone poderia estar incitando sua dor.

DORES SUSPEITAS

No entanto, Schwartz disse que os sintomas eram consistentes com tendinite – inflamação dos cordões grossos chamados tendões que unem o músculo ao osso – ou tenossinovite, inflamação do revestimento da bainha que envolve os tendões. Estudos associaram a tenossinovite do polegar, chamada tenossinovite de De Quervain, ao uso frequente ele smartphones. O uso do telefone também pode piorar os sintomas entre pessoas que já têm artrite.

Além de dores que podem resultar de inflamação em ligamentos, articulações, músculos e tendões, as pessoas podem sofrer lesões agudas usando smartphones. Jennifer Moriatis Wolf, cirurgiã-ortopédica de mãos da Universidade de Medicina de Chicago, disse ter visto pacientes que torceram os polegares porquê seguravam seus telefones com muita força.

O uso frequente do telefone também pode afetar nossos nervos. Quando seguramos nossos telefones a nossa frente com os cotovelos dobrados, comprimimos o nervo ulnar; que vai do pescoço à mão, essa constrição pode causar dormência e fraqueza nos dedos mindinho e anelar.

De maneira mais geral, quando qualquer músculo, tendão ou ligamento fica inflamado pelo uso do smartphone, ele pode inchar comprimindo os nervos que a atravessa e causa dor ou dormência, disse Enriquez. O uso de celulares também pode exacerbar problemas nervosos pré-existentes, como a síndrome do túnel do carpo. Depois, há a tensão que os smartphones podem causar em nossos olhos e a interrupção que a luz azul pode provocar em nossos ciclos de sono.

Além disso, considere o que acontece quando você se curva para olhar para o telefone: em comparação com manter a cabeça ereta, essa posição curvada aumenta a força nos músculos do pescoço e na coluna cervical, disse Jason M. Cuéllar, especialista em coluna ortopédica do Cedars-Sina, MedicaI Center em Los Angeles. Esse excesso de força, disse ele, pode enfraquecer os ligamentos da coluna vertebral ao longo do tempo e causar dor. Um estudo de 2017 encontrou uma ligação entre mensagens de texto e dores no pescoço, ombros e parte superior das costas embora outros estudos não tenham encontrado uma conexão.

As espinhas cervicais de alguns pacientes jovens que Cuéllar atende também estão dobradas de forma anormal. Isso também pode estar relacionado ao uso frequente de smartphones, disse ele, e pode aumentar o risco de problemas nas costas.

“Achamos que isso leva à degeneração acelerada do disco – alertou, referindo-se à deterioração dos discos espinhais, pequenos amortecedores que ficam entre as vértebras para nos ajudar a nos mover confortavelmente. “Estamos vendo mais pessoas mais jovens, na faixa dos 20 anos, geralmente 30 anos, com problemas na coluna cervical.

COMO DIMINUIR A TENSÃO

O que você deve fazer se o seu telefone estiver causando dor- ou se você estiver preocupado que isso possa eventualmente acontecer? Embora os médicos da minha amiga tenham desprezado a ideia de que seu telefone tivesse algo a ver com suas mãos doloridas, ela acabou se livrando de seu smartphone grande e comprou um menor para ver se isso ajudaria. Também começou a usar a opção de mensagem de voz para reduzir a tensão nos dedos. A dor logo se dissipou.

Schwartz concorda que reduzir o tamanho e peso do aparelho pode ser uma boa ideia se você tiver mãos pequenas, e que substituir a mensagem de texto por voz pode aliviar a dor reduzindo a tensão nos dedos. Ela e Enriquez recomendam suportes de telefone, que podem aliviar o esforçode segurar com dedos e polegares. Já Cuéllar disse que pode ser útil usar um suporte que mantenha o telefone na altura dos olhos, para que você não estique o pescoço para vê-lo.

Se você está sentindo muita dor, é uma boa ideia consultar um fisioterapeuta ou um médico, como um ortopedista ou um especialista em medicina física, pois eles podem recomendar tratamentos e alongamentos, disse Schwartz. Mas é claro que, se há dor, a solução mais simples é não usar tanto. Em outras palavras, disse Wolf, “o melhor conselho seria: desligue o telefone”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNO DE ANSIEDADE DE SEPARACÃO

Com o medo de se afastar dos familiares, crianças e adolescentes acabam perdendo oportunidades de contato social, como excursões, viagens e reuniões em casas de amigos. Isso pode prejudicar sua socialização, além de muitas vezes fazer com que se tornem alvos de gozação e até bullying.

Quem não sentiu medo ou aperto o coração quando se despediu da mãe ou do pai no primeiro dia de aula levante a mão! O medo que as crianças sentem ante a separação de figuras a que são muito ligadas afetivamente é extremamente comum no desenvolvimento infantil e geralmente passa quando elas começam a entender que os afastamentos dos pais não são definitivos e quando começam a ter mais autonomia. Alguns exemplos desse medo são “clássicos da paúra infantil”: bebê que chora ao ser retirado do colo da mãe ou crianças pré-escolares que choram no primeiro dia de aula. A professora do Colégio Miguel de Cervantes, no Morumbi, zona sul de São Paulo -SP, Gisele Damasceno, conta que nos seus mais de 20 anos de experiência com educação infantil, os primeiros dias de aula sempre são “marcados por muito ‘chororô’ de mães e filhos que sofrem com a dor da separação”.

A professora diz que apesar de estar acostumada com esse “sofrimento”, sabe que as mães (principalmente as de primeira viagem), precisam mostrar tranquilidade e firmeza para ter coragem de “delegar” as crias a mãos alheias. Quando as mães estão tranquilas transmitem este sentimento para os filhos. Gisele afirma ainda, que nos últimos dez anos sentiu que houve um aumento da ansiedade da separação, tanto nas mães como nos filhos, e acredita que isso se deve ao clima de violência e insegurança que vivemos.

“NÃO ME ABANDONES JAMAIS”

Seja como for, a ansiedade diante de fatos novos da vida de uma criança é inevitável e precisa ser incorporada à rotina familiar e enfrentada para ser superada. Mas, quando esse sentimento atinge níveis exacerbados, que perturbam a rotina da criança – ao ponto de ela apresentar sintomas físicos sem constatação clínica – e altera a dinâmica da família, pode se tratar de um Transtorno de Ansiedade de Separação.

Este transtorno, segundo o artigo Transtornos de ansiedade,de Ana Regina GL Castillo, Rogéria Recondo, Fernando R. Asbahr e Gisele G. Manfro, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, “é caracterizado por ansiedade excessiva em relação ao afastamento dos pais ou seus substitutos, não adequada ao nível de desenvolvimento, que persiste por, no mínimo, quatro semanas, causando sofrimento intenso e prejuízos significativos em diferentes áreas da vida da criança ou do adolescente. (…) Estudos retrospectivos sugerem que a presença de ansiedade de separação na infância é um fator de risco para o desenvolvimento de diversos transtornos de ansiedade, entre eles, o transtorno de pânico e de humor na vida adulta”.

Quando estão sozinhos, crianças ou adolescentes temem que algo possa acontecer com eles ou seus cuidadores, “como acidentes, sequestro, assaltos ou doenças, que os afastem definitivamente destes”, explicam os autores. O resultado é um comportamento “de apego excessivo aos seus cuidadores, não permitindo o afastamento deles ou telefonando repetidamente para eles a fim de tranquilizar-se a respeito de suas fantasias”, acrescentam. Para dormir necessitam de companhia e resistem ao sono, que para eles representa separação ou perda de controle. Pesadelos relacionados aos seus temores de separação são frequentes e recusa escolar também é comum nesses pacientes. “A criança deseja frequentar a escola, demonstra boa adaptação prévia, mas apresenta intenso sofrimento quando necessita afastar-se de casa.”

Quando a criança percebe que seus pais vão se ausentar ou o afastamento realmente ocorre, manifestações somáticas de ansiedade, tais como dor abdominal, dor de cabeça, náusea e vômitos são comuns. Crianças maiores e adolescentes podem manifestar sintomas cardiovasculares como palpitações, tontura e sensação de desmaio. A propósito, embora os adolescentes com este transtorno, principalmente os do sexo masculino, muitas vezes neguem que sua ansiedade se deve ao temor da separação, esta pode se refletir por sua limitada atividade independente e relutância em sair de casa. Em indivíduos mais velhos, o transtorno pode limitar-se a capacidade de lidar com alterações nas circunstancias de vida, como mudança de domicilio e casamento.

Especialistas afirmam que a causa dos transtornos ansiosos infantis é muitas vezes desconhecida e provavelmente multifatorial, incluindo fatores hereditários e ambientais diversos. De uma maneira geral, segundo os autores, “os transtornos ansiosos na infância e na adolescência apresentam um curso crônico, embora flutuante ou episódico, se não tratados”. Por isso, orientam que “na avaliação e no planejamento terapêutico desses transtornos, é fundamental obter uma história detalhada sobre o início dos sintomas, possíveis fatores desencadeantes (por exemplo: crise conjugal, perda por morte ou separação, doença na família e nascimento de irmãos) e o desenvolvimento da criança”. É importante também, conforme sugerem, levar em conta o temperamento da criança, o tipo de apego que ela tem com seus pais, o estilo de cuidados paternos, e se há presença de comorbidades.

De modo geral, o tratamento é multimodal, ou seja, constituído por várias abordagens simultâneas como orientação aos pais e à criança, terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia dinâmica e uso de medicação específica, se necessário.

ENCONTRANDO SAÍDAS

Segundo a psicóloga Juliana Brito Lima no artigo Mãe fique comigo Ansiedade de separação na infância (www.inpaonline.com.br), “Com o medo de afastar-se dos familiares, crianças e adolescentes muitas vezes perdem oportunidades de contato social, como excursões, viagens e reuniões em casas de amigos. Tal comportamento, pode prejudicar a socialização com o grupo”, além de muitas vezes fazer com que se tornem alvos de gozação e até bullying. Além disso, a ansiedade também pode perturbar a rotina de trabalho dos pais, que costumam receber inúmeros telefonemas dos filhos para saber onde estão e solicitando que estes corram para “salvá-los”.

A professora de Educação Física aposentada e dona de casa Anamaria conta que nunca levou a filha para fazer qualquer avaliação, mas teve vários problemas com a ansiedade de separação dela: “quando entrou na escola, eu era chamada todos os dias para buscá-la; um dia era dor de barriga, outro dia, dor de cabeça… Chegando em casa, ela ficava ótima. Resolvemos mudar a escola, e a colocamos na mesma escola do meu filho, onde acreditamos que se sentiria mais segura com a proximidade do irmão. Aos poucos, entre umas “choradas”, umas “duras” minhas e do pai, ela engrenou. Mas quase nunca participava de passeios da escola e raramente ia à casa de amigas. E se ia, ligava para eu buscar mais cedo. As amigas deviam ficar bem decepcionadas e sem entender nada. Geralmente não repetiam o convite. Em uma viagem da escola tivemos que buscá-la no dia seguinte. Não sei se fomos pais descuidados ou pouco sensíveis por não procurar ajuda profissional – meu marido era médico e super refratário a tratamentos psicológicos -, mas, apesar de ficarmos preocupados, fomos como se diz “levando”.

Anamaria acredita que o esporte foi decisivo para ajudar a filha a conquistar autonomia ao contar que, “apesar de super apegada a mim, ela fazia aulas de vôlei (eu tinha que ficar assistindo à maioria das vezes). Como ela tinha muita aptidão técnica, acabou se saindo bem na modalidade e conseguiu lugar no time do clube que disputa torneios. Isso contribuiu muito para sua autoestima e conquista de autonomia. Acho que o foco em treinar, dar conta da escola, competir, crescer enfim, foi ‘roubando’ espaços que o medo e a insegurança preenchiam antes. Acredito que o esporte foi um grande ‘terapeuta’ para minha filha. Hoje ainda somos ‘super grudadas’, mas a relação agora é de companheirismo e interdependência; ela casou, tem o filho dela… ainda bem!”

Com efeito, segundo Lima, no artigo já citado comportamentos, por mais disfuncionais que pareçam, podem ser alimentados ou fortalecidos pela família. No caso da ansiedade, tendemos a fugir ou evitar o contato com os estímulos que causam temor. É muito comum os pais serem “contagiados” pelos medos dos filhos ansiosos e desejarem ficar com eles para protegê-los e acalentá-los, deixando de fazer suas coisas e permitindo aos filhos se esquivar de responsabilidades como a escola ou de se exporem a situações sociais.

Por isso, Lima dá uma série de recomendações para os pais (e cuidadores) prevenirem esse transtorno, como: dizer para onde irão e quando devem retornar, mas com uma certa “margem de erro para mais”, a fim de evitar os atrasos em virtude dos imprevistos; jamais sair sem avisar; fazer da despedida algo natural valorizando o que vai acontecer de bom nesse meio-tempo e evitar o drástico “não me ligue!”; em momentos (não raros) de irritação, jamais fazer ameaças como “essa sua atitude me dá vontade de sumir!”; eliminar estímulos ambientais que possam remeter aos perigos sociais, como assistir a jornais diante dos filhos, supervisionar o que estes estão vendo na internet e os assuntos das rodas de antigos; cuidar da segurança, mas sem apavorar os filhos. Em vez de “ligue a cerca elétrica, pois bandidos não escolhem a hora de assaltar as casas”, o melhor é dizer um simples “ligue a cerca elétrica”; incentivar o brincar, o contato com os colegas e o lazer. Segundo Lima, quando estão em um contexto com estímulos satisfatórios, essas situações concorrem com as preocupações, fazendo com que o medo fique em segundo plano. A psicóloga também destaca que é importante jamais afirmar, diante do medo da criança ou adolescente, a sua invulnerabilidade (doença, morte ou acidentes), mas mudar o foco, apontando as evidências que não favorecem o perigo. “O risco é inerente à vida. O ser humano é vulnerável e a vida é finita. Mas tais preocupações na infância ou na adolescência acabam reduzindo o brilho da vida que se vê com mais clareza apenas nesta fase da vida.” Para evitar que essa ansiedade prejudique a adaptação da criança no ambiente ou evolua para outro transtorno de ansiedade (como transtorno de pânico ou de ansiedade generalizada), “procure um profissional de sua confiança”, orienta a psicóloga Juliana Brito Lima.

OUTROS OLHARES

O QUE É MAIS BARATO, COZINHAR USANDO GÁS OU ELETRICIDADE?

Especialistas dizem que, boa parte das vezes, preparar comida com aparelhos elétricos proporciona economia

Não bastasse o preço de alimentos nas alturas – em abril, a alta acumulada em 12 meses do IPCA-15 é de 12,85% –  o salto no preço do gás e da energia fizeram o brasileiro perder o parâmetro de como é mais barato preparar a comida: no fogão ou lançando mão de eletrodomésticos, como as panelas de arroz e pressão elétrica ou as populares air fryers.

Com a variação de preço do gás de botijão de 32,45%, do gás encanado de 35,10% e da energia elétrica de 30,16%, em 12 meses, especialistas em eficiência energética convidados para fazer essa análise concluíram que, muitas vezes, usar eletricidade pode sair mais em conta do que o fogão tradicional, seja para fazer um simples arroz ou até mesmo pão de queijo. Para preparar bife ou batata frita, no entanto, ainda vale mais a pena usar a boa e velha frigideira. E a alta do gás anunciada no final de abril, de 19%, em média, pode tornar o uso dos aparelhos elétricos ainda mais vantajoso.

“De maneira geral, o que percebi ao realizar esses cálculos é que, quando se fala de cocções no forno, o elétrico acaba sendo mais eficiente. Até por ser menor, ele geralmente concentra mais calor em menos espaço. Já quando comparamos a chama do fogão com esses aparelhos de cocção elétrica, a diferença é muito pequena”, diz Paula Borges, pesquisadora do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.

A pesquisadora destaca ainda que aparelhos elétricos que trabalham com potências maiores gastam menos tempo de cozimento e proporcionam mais economia:

“Com panelas, fornos e fritadeiras elétricas, acontece como no preparo da pipoca no micro-ondas: o tempo vai depender da potência do aparelho”.

Os cálculos mostram ainda que o gás de botijão émais econômico que o encanado. Os especialistas ponderam, no entanto, que o uso adequado dos equipamentos e os hábitos de preparo de cada família podem fazer diferença na conta.

Rodolfo Gomes, diretor executivo do lnternational Energy Initiative (IEI) Brasil, ressalta que algumas táticas podem reduzir o consumo de gás:

“Se for uma comida que usa água fervendo, por exemplo, quando começa a ferver, pode se passar para o fogo baixo, que consome menos gás, pois a fervura será mantida”.

SURPRESA NO CHUVEIRO

Outro bom hábito é tampar as panelas para reter calor, aconselha Paulo Cunha, consultor da FGV Energia. Ele pondera que, apesar de os cálculos mostrarem que cozinhar na air fryer é mais econômico que no forno a gás, o resultado pode ser diferente se forem observadas algumas práticas:

“O forno propicia o preparo de mais de uma receita simultaneamente, e ainda pode-se aproveitar o calor para um preparo seguido, reduzindo o consumo de gás, e usar o calor do forno após desligado, para manter a comida aquecida. Nada disso entra na conta.

Para quem pensa em comprar algum produto que ajude a economizar nas contas mensais, Gomes, do IBI Brasil aconselha investir em uma boa panela de pressão, seja elétrica ou convencional. Segundo ele, a principal vantagem é o cozimento mais rápido, o que permite economizar energia ou gás, de acordo com a escolha do consumidor.

Um resultado do levantamento que pode surpreender é o fato de o chuveiro a gás sair mais caro que o elétrico.

“A troca por um chuveiro eletrônico, por exemplo, pode significar uma economia ainda maior”, destaca Marco Souto, diretor de operações da Max Eficiência Energética.

Pela conta de Paula, da Coppe, no Rio, um banho de 15 minutos em um chuveiro eletrônico custa quase um terço do valor de um aquecido a gás: R$0,89, contra R$2,40.

GESTÃO E CARREIRA

NOVAS REGRAS DO VALE-ALIMENTAÇÃO GERAM CRÍTICAS

Mudanças tentam disciplinar uso de benefícios para gasto apenas com comida, mas mercado vê valores ‘engessados’

As novas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), instituídas no final de 2021 por um decreto do governo federal e incluídas numa medida provisória editada em março deste ano, geraram um corre-corre em toda a cadeia de benefícios. Das empresas fornecedoras de vale-alimentação (VA) e vale-refeição (VR) àquelas que incluem esses vales no pacote de benefícios de seus funcionários, todas terão até maio de 2023 para se adaptar às mudanças.

Entre as principais alterações estão o fim dos prazos de pagamento parcelados ou estendidos – que descaracterizam a natureza pré-paga desses benefícios – e a proibição do rebate, uma espécie de desconto dado pelas fornecedoras de vales ao RH das organizações e que acaba sendo compensado com a cobrança de taxas mais altas dos estabelecimentos credenciados. Esse custo é repassado para os trabalhadores, que pagam mais caro para se alimentar.

Segundo Fernanda Zanetti, VP de digital banking da Creditas, que centraliza oito modalidades de benefícios corporativos em um único cartão, a prática acabava redistribuindo parte do benefício do colaborador para a própria empresa.

“Era um incentivo meio estranho porque, além de reduzir a concorrência no mercado, era mais interessante para a empresa do que para os funcionários.” Outra alteração importante é que bandeiras mais amplas, como Mastercard e Visa, passarão a ser aceitas.

Para Jessica Srour, diretora-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), a MP trouxe rédeas para uma figura jurídica criada na reforma trabalhista de 20J7, que é o auxílio-alimentação. Esse novo benefício não tinha definições claras e abriu brechas para que os valores fossem usados para outras finalidades. “Novas operadoras passaram a oferecer vouchers e cartões em tudo que é possível. Agora, com a MP, o gasto tem de ser com alimento”, diz ela.

MAIS FLEXIBILIDADE

A chefe de inovação da 99Jobs, Viviane Elias Moreira, acredita que o engessamento da transferência de valores não considera o contexto individual dos colaboradores. No cargo há seis meses, ela fez a estruturação e implantação de uma série de benefícios de engajamento, como plano de saúde sem coparticipação e folga no aniversário. “Foram benefícios mais direcionados às demandas dos próprios funcionários”, diz Viviane.

Viviane diz que a 99Jobs já fez as adequações às regras sobre os vales refeição e alimentos. Ela reconhece que as mudanças ajudam a mitigar riscos de desvios dos benefícios, mas alerta para as restrições na atual conjuntura. “Para nós foi muito mais dolorido no sentido do entendimento das necessidades do colaborador. Em um momento de apagão de mão de obra e pessoas com novas necessidades, é um retrocesso porque está tirando poder econômico deles.”

A executiva cita exemplos como o de quem usa o valor do VR para ‘juntar ao VA e fazer a compra do mês. “A pessoa está abrindo mão de comer em restaurantes para colocar comida em casa. Se o benefício é flexível, ele pode somar e garantir o mês inteiro de abastecimento em casa”, explica. Para Viviane, embora a lei seja benéfica, ignora essa parte pessoal do empregado”. As empresas realmente vão ter de pensar em inovar na forma de conceder outros benefícios.”

EU ACHO …

RE-SENTIR

O espaço de ouro do ressentido é o mundo agressivo das redes, onde a covardia pode vir do anonimato

Alguns “ismos” colaboraram: Cristianismo, Islamismo, Socialismos… As redes sociais e a própria evolução da ideia de Democracia também ajudaram a ladrilhar este chão. Do que estou falando? Da construção de uma ordem simbólica baseada na ideia de igualdade. Se existe diferença social, ela teria sido baseada no pecado ou na construção de mecanismos injustos de exclusão econômica. Porém, no fundo, todos seríamos ou deveríamos ser iguais. A igualdade é concebida como a realidade e a desigualdade como uma anomalia produzida pelo desvio de um plano natural ou divino. Para Rousseau, temos uma perfectibilidade que, juntamente com a liberdade, permite nossa distinção dos animais. Claro, o homem de Genebra também percebe que essa característica é fonte de quase toda infelicidade. Criamos um contrato social e, ao mesmo tempo, a desigualdade. Alguém se apropriou de uma parte da terra comum e ninguém o contestou. Em Rousseau, em Marx ou em Jesus, a igualdade era o plano original e feliz. Houve um desvio ou uma queda do homem natural para o que vemos agora.

Proposta por filósofos, defendida por profetas e estimulada por brechas abertas a partir da Revolução Francesa, paira sempre a ordem simbólica ideal da igualdade. O que mudou? O mundo é desigual há milênios, porém, agora, há redes sociais.

Há mais de 200 anos, se o povo quisesse ver Versalhes, teria de invadir o palácio em gesto com sangue e ousadia. Hoje, Maria Antonieta posta seus looks nas redes todos os dias: “Eu no Salão dos Espelhos com meus sapatos novos kkkkk”; “Sextei com brioches”…A vaidade, o interesse, a dor e toda espécie de novas formas de imaginário social elaboraram a explosão do ressentimento.

Ressentido é quem sente duas vezes. Sente pelo que não possui e tem nova dor pela alegria que identifica naquele que tem. Freud falou sobre a “covardia moral do neurótico”. O neurótico se considera superior, moralmente acima da vulgaridade do mundo, todavia, incapaz de mudá-lo. Não perdoa, não age, apenas sente e, ressente. O espaço de ouro para o ressentido é o mundo agressivo das redes. Lá, a covardia pode vir com anonimato, destilar veneno, atacar, agredir e mostrar como o meu inimigo é inferior e imbecil. O que deriva disso? Nada, é uma impotência reconhecida, diluída na incapacidade de o ressentido assumir seu próprio desejo e de agir.

Veja uma distinção importante: existe desigualdade no mundo. Há pessoas que se revoltam contra ela e agem para mudá-la. Caridade, política, revolução: são três caminhos comuns de reação à carência de muitos. Há outros. Penso em quem não age, reflito sobre o ressentido. Ele interpreta a felicidade alheia como retirada dele. Aquele que sorri, no fundo, retirou do meu rosto a alegria. O bom corpo dela/dele estragou o meu. A viagem bonita foi feita em detrimento da minha. A vida que vejo na internet foi roubada de mim. Posso perdoar você por tudo, menos por ser mais feliz do que eu.

De novo: existe desigualdade social e algumas pessoas agem contra. O ressentido não está preocupado com ela, ele está irritado com o gozo material ou emocional que vê nas redes. Todavia, ele disfarça sua dor em julgamentos sociais. Alguém postou a compra de um celular de dois mil dólares? O ressentido grita: daria muitas cestas básicas para uma comunidade. Ele tem razão, e, o celular que o ressentido usa para isso também poderia virar feijão para muita gente. Essa é a diferença entre consciência social e ressentimento, entre ação e pura dor, entre sentimento e ressentimento.

A pessoa que luta por justiça social, por motivos filosóficos ou religiosos, fica perturbada pelo fato de que alguns possam ter um tênis ‘Caríssimo e tantos não tenham comida mínima. O ressentido quer o tênis para ele e, não conseguindo, nega-o a qualquer pessoa. Muitos movimentos políticos foram feitos assim: substituir uma forma de dominação que não me beneficiava por uma que me traga vantagens. Claro: tudo em nome do bem…

Separar Freud de Marx pode ser necessário. A dor pessoal pode ser um ponto de partida para qualquer envolvimento político, nunca deveria ser o de chegada. Muitas vezes, Maria Antonieta nos irrita porque gostaríamos de comer brioches no ambiente luxuoso. Como isso é feio como sentimento, melhor afirmar que buscamos a justiça social e a igualdade. O ressentido é um invejoso fracassado tingido com o verniz de Madre Teresa de Calcutá. A busca de uma genuína melhoria da dor alheia por empatia pura é tão rara na luta política como a vocação da freira albanesa na Índia no campo religioso.

Ampliemos. Fui uma criança em uma geração limitada com regras severas e punições diretas. Por que será que crianças mimadas me irritam hoje? Vivem o deleite que me foi negado?

Conhecer a si é o desafio que o Templo de Apolo em Delfos nos envia sempre. Pelo menos saberíamos que estamos lutando com moinhos reais e não gigantes alimentados pela minha dor quixotesca. Essa tem sido a minha esperança: lutar com a minha dor de forma consciente e não ser dominado pelo que me incomoda.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

QUANTO TEMPO DURAM OS SINTOMAS DA MENOPAUSA?

A maior parte dos sinais diminui após uma média de 7 a 9 anos, mas cerca de um terço das mulheres sente por uma década ou mais

A palavra “pausa'” no termo “menopausa” pode sugerir que esta fase da vida é breve ou temporária, pouco mais do que uma interrupção irritante. Mas, na realidade, os sintomas associados a ela podem durar uma década ou mais, e há chances de que um sintoma ou outro nunca melhore.

Segundo Stephanie Faubion, diretora da Mayo Clinic Women’s Health, a menopausa teoricamente começa após o último período menstrual. Mas, como não há sinais claros de que o momento chegou e os ciclos menstruais geralmente são irregulares durante essa fase, os profissionais de saúde geralmente não diagnosticam a menopausa até que a pessoa tenha passado um ano Inteiro sem menstruar.

Nos EUA, a idade média para se ter o último período menstrual é de 52 anos, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país. Mas acima de 45 anos já é considerado normal, e cerca de 95% das mulheres atingem esse marco aos 55 anos. No entanto, os sintomas podem começar vários anos antes e continuar por anos depois. A intensidade e duração deles também pode variar muito; algumas mulheres    experimentam pouco incômodo e outras acham que os sintomas interferem significativamente em suas vidas e trabalho.

O primeiro sinal de que você está entrando na transição da menopausa geralmente é uma mudança em seus ciclos menstruais. Os períodos podem ficar mais próximos ou mais distantes, e o sangramento pode ser mais leve ou mais pesado, explica Siobán Harlow, diretora do Centro de Ciências da Meia-idade da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan. Essas mudanças podem ser imprevisíveis e enervantes, e em mulheres que experimentam períodos mais intensos, é possível ter uma quantidade perigosa de perda de sangue, exigindo cuidados médicos.

Ao mesmo tempo, as alterações no estrogênio podem fazer com que elas “comecem a ter ondas de calor e suores noturnos, ou tenham enxaqueca, ou não durmam bem, ou se sintam super irritáveis”, diz Faubion. Então, elas podem ter alguns ciclos normais e uma pausa nos sintomas, seguido do ressurgimento deles. Uma série de outros sintomas também pode ocorrer com a transição da menopausa, incluindo depressão, ansiedade, confusão mental, alterações na pele e no cabelo, dor nas articulações e secura vaginal.

Uma vez que você passa 60 dias sem sangramento, você está no que é conhecido como a transição da menopausa tardia. A partir desse ponto, a maioria das mulheres terá seu período final dentro de dois anos, disse Nanette Santoro, professora de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado. Nesse estágio, os sintomas tendem a aumentar.

SINTOMAS MAIS COMUNS

Ondas de calor, às vezesacompanhadas de suores noturnos, estão entre os sintomas mais comuns da menopausa, experimentados por até 80% das mulheres. Em um estudo de 2015 com cerca de 1.500 americanas que experimentaram ondas de calor frequentes ou suores noturnos, esses sintomas duraram em média, 7,4 anos no total, geralmente começando vários anos antes do período final e continuando por uma média de 4,5 anos depois.

As mulheres que começaram a sentir ondas de calor no início da transição da menopausa – antes de atingirem o marco de 60 dias sem menstruação – tiveram que suportar esses sintomas por mais tempo, um total de 11,8 anos em média.

“Se começar cedo, pode ser uma menopausa muito longa e irritante. E, considerando isso, você pode procurar ajuda mais cedo ou mais tarde”, afirma Santoro.

Dos vários grupos raciais e étnicos incluídos no estudo de 2015, as mulheres de ascendência japonesa e chinesa tiveram a duração mais curta dos sintomas de ondas de calor (média de 4,8 e 5,4 anos, respectivamente), e as mulheres negras tiveram a mais longa, com média de 10,1 anos.

Em um estudo publicado em fevereiro, Harlow e seus colegas revisaram evidências de que mulheres negras nos EUA também tiveram, em média, menopausa precoce e maior incidência de depressão e distúrbios do sono associados à menopausa quando comparadas com mulheres brancas. Os autores propuseram que essas disparidades poderiam estar ligadas, pelo menos em parte, a uma maior tensão financeira e estresse na vida, experiências com discriminação e menos atividade física – todos esses fatores, observaram os autores no estudo, “têm raízes no racismo sistêmico”.

MELHORA DO QUADRO

De acordo com Faubion, a maioria dos sintomas da menopausa diminuirá após uma média de 7 a 9 anos, mas cerca de um terço das mulheres terão sintomas por uma década ou mais. Um profissional de saúde especializado em menopausa pode ajudar a buscar opções de tratamento, incluindo terapia hormonal, que pode tornar os sintomas muito mais gerenciáveis, acrescentou.

Um sintoma que normalmente não melhora a secura vaginal, que também pode ser acompanhada por dor ou incômodo na hora do sexo, maior urgência urinária e, às vezes, infecções do trato urinário mais frequentes, explica Faubion. Ainda segundo a especialista, esses sintomas só pioram com o tempo, por isso vale a pena procurar tratamento imediatamente. Isso pode incluir lubrificantes ou hidratantes vendidos sem receita ou tratamentos de estrogênio vaginal prescritos.

Uma vez que a mulher atinge a menopausa, ela tecnicamente está nela para a vida toda. Mas ela saberá que terminaram as mudanças da menopausa quando os outros sintomas melhorarem. As flutuações hormonais se acalmam e, quando chegam aos 65 ou 70 anos, as mulheres estão lidando mais com as mudanças do envelhecimento do que com as mudanças nos hormônios reprodutivos.

“(Os sintomas) simplesmente desaparecem, e algumas mulheres descrevem uma sensação de alegria pós-menopausa neste estágio”, afirma Santoro.

E há várias vantagens em passar pela menopausa. Condições dolorosas como miomas e endometriose geralmente melhoram, por exemplo, e você não precisa mais se preocupar com menstruação ou gravidez, diz Faubion. Embora tenha enfatizado que as infecções sexualmente transmissíveis continuam sendo um risco e uma razão para continuar usando preservativo durante o sexo.

Nesse sentido, a menopausa é realmente uma passagem da meia-idade e, embora possa ser mais longa e tempestuosa do que o esperado, épossível se sentir aliviada no final.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÃES TAMBÉM PODEM TER TRAUMAS PSICOLÓGICOS

Especialista explica como evitar essas experiências e o que fazer quando isso ocorre

Os traumas psicológicos são respostas emocionais a eventos que causaram feridas na memória e acabam tornando a vida ainda mais difícil, visto que pessoas podem ter uma série de emoções negativas após o ocorrido. Infelizmente, nem os cães estão livres disso. Segundo Jade Petronilho, médica veterinária e coordenadora de conteúdo da Petlove, diversos episódios podem causar traumas nos pets e, por isso, é importante ficar atento e tomar alguns cuidados.

Ela explica que o período mais delicado é quando os cães são filhotes. “Nessa fase, eles absorvem informações, boas e ruins, e podem levar esses aprendizados para toda a vida”, afirma. “Quando falamos de traumas, estamos falando também de algo que pode ser individual, ou seja, nem sempre o que traumatiza um pode ser um problema para outro”, observa.

Contudo, a especialista pontua que existem casos óbvios que podem gerar traumas, como maus-tratos e certos métodos de punição, mas também há coisas que podem passar despercebidas. “O que, para nós, parece sem importância, para alguns pets pode ser motivo de trauma como, por exemplo, um objeto que cai próximo a ele e o deixa com medo de passar naquele local, a abordagem mais intensa de outro cão ou ainda uma pessoa gritando no telefone”, avisa ela.

Os animais também podem ter medos comuns, como de chuva ou trovão. “Precisamos transmitir segurança aos nossos pets, mas, ao mesmo tempo, lembrar que proteção demais pode ser um problema.”

CONSEQUÊNCIAS

Cada trauma pode ter consequências no modo de agir do animal. Se, por exemplo, um cachorro for punido por fazer as necessidades no local errado, ele pode passar a segura-las ao máximo. Além disso, ele pode não conseguir mais defecar em casa e precisar sair diversas vezes por dia para isso ou até mesmo passar a comer fezes como forma de “esconder” o que fez. Nesse caso, a especialista reforça que o caminho é educar, não punir.

Outro exemplo é quando os pets ficam sozinhos em casa durante uma tempestade ou queima de fogos. No futuro, eles podem ter fobia de sons parecidos. “Vale lembrar que cães que latem para os fogos são os que têm medo, ou seja eles entendem que latindo podem fazer com que o som pare mais rapidamente, o que os acaba estimulando a latir sempre que o som é emitido.”

Jade também conta que animais que se envolveram em brigas com outros cães ou sofreram maus-tratos de humano podem demonstrar medo ou agressividade sempre que encontrarem um animal/pessoa com perfil similar.

COMO IDENTIFICAR

Os pets costumam dar sinais claros quando algo está errado. “Se ele tentar se esconder ou se esquivar de algo, o ideal é que não forcemos a situação e que seja consultado um médico veterinário comportamentalista ou um profissional especialista em comportamento animal para lidar com a questão.”

Ela frisa que trauma é algo sério e, portanto, não deve ser banalizado. “Assim como ocorre com os seres humanos, os pets podem sofrer impactos profundos por conta deles e é nosso dever protegê-los e minimizar seus danos.”

DICAS E CUIDADOS PARA EVITAR TRAUMAS

É importante ficar atento a seu animal de estimação, especialmente quando ele ainda é um filhote. Sempre que introduzir elementos novos na vida do pet é interessante fazer isso de forma atrativa. “No caso de um guarda-chuva, o pet não tem como entender que, mesmo abrindo de forma abrupta e com barulho, não é algo a ser temido”, pontua a veterinária. Ela ainda reforça que alguns traumas podem ser difíceis de esquecer e outros até impossíveis. “o ideal é evitar que os pets passem por situações desagradáveis, mas como isso é praticamente impossível, cabe a nós tentarmos ao menos minimizar os efeitos delas.”

OUTROS OLHARES

PAUSA PARA O CAFÉ

O aumento do preço e a produtividade menor em razão das mudanças climáticas preocupam consumidores e produtores, mas é possível reverter o quadro

É difícil ir ao supermercado e conter o assombro com o aumento do preço de bebidas e alimentos. No caso específico do café, a disparada inflacionária é ainda mais impressionante. Para a indústria torrefadora, o aumento chegou a 155% no período de um ano. No bolso do consumidor, o impacto foi menor, mas ainda assim espantoso: o pacote do café torrado e moído ficou em média 52% mais caro nos últimos doze meses. Aarrancada chama atenção diante da posição de destaque do café na economia brasileira. O Brasil é o maior produtor e o principal exportador do planeta, e o brasileiro é o segundo maior consumidor da bebida. Por essas razões, qualquer entrave na produção nacional afeta a cotação global de preços. Mas, afinal, o que há de errado com o prazeroso cafezinho brasileiro?

Primeiro, as más notícias: o preço não deve baixar tão cedo. A expectativa do setor é que se mantenha em patamares elevados por um bom período. Há vários motivos para o aumento desproporcional, mesmo se comparado com a escalada inflacionária brasileira. Para começar, a safra do ano passado foi a pior dos últimos quatro anos. A produção ficou em 47,7 milhões de sacas, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em 2020, foram 63 milhões de sacas. Para 2022, a expectativa é alcançar algum nível de recuperação, mas que será modesta.

Apesar da redução na oferta, não faltou café no mercado interno e externo. “Encontramos formas de usar a tecnologia para aproveitar melhor o frete, acomodando o café no porão de navios, por exemplo”, diz Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), organização que exportou 40,4 milhões de sacas para 122 países em 2021. No mercado interno, os blends receberam maior quantidade de conilon, grão resistente mas mais amargo. Ninguém sentiu a diferença na qualidade, tanto que o consumo não foi reduzido. Pelo contrário. Segundo a Associação Brasileira da Indústria. de Café (Abic), houve crescimento de 1,7% no ano passado.

A valorização de outros tipos de grãos pode aliviar uma dificuldade que se desenha no horizonte dos produtores: a inevitável queda da produtividade em um cenário dramático de mudanças climáticas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique, na Suíça, e divulgado na publicação científica Plos One diz que é muito provável que áreas no Brasil e na Colômbia, países de enorme tradição cafeeira, deixem de ser adequadas ao cultivo do grão arábica, associado a uma bebida de maior qualidade, até 2050.Trabalhar para que outros cultivares, mais adaptados e resistentes, sejam reconhecidos também por sua qualidade é importante. Mas é apenas parte da solução.

A agricultura, embora seja uma das grandes responsáveis pela emissão de C02, tem a vantagem de capturar carbono da atmosfera quando boas práticas regenerativas são adotadas. E a indústria tem acelerado os planos não apenas para conservar as valiosas áreas de produção, mas também para recuperar aquelas degradadas. “O recado principal é que não estamos em uma situação irreversível, diz Taissara Martins, gerente de sustentabilidade da Nestlé. “Ainda há solução, se agirmos rápido.” A empresa assumiu o compromisso de tornar a linha Nescafé Origens do Brasil a primeira reconhecida como carbono neutro já em 2022. Isso é feito por meio de um pacote de medidas, entre sistemas agro­florestais, uso da tecnologia para aplicação precisa de fertilizantes e adoção de energia solar. Essas ações não somente zeram as emissões da produção mas, em conjunto, podem diminuir os impactos ambientais de outras etapas da cadeia, como a logística, ainda muito dependente de combustíveis fósseis. “Quando falamos em café sustentável, o Brasil deve liderar esse movimento,” diz a executiva. O bom e velho cafezinho agradece.

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES CRIAM STARTUPS FOCADAS EM RETER MÃES NO MERCADO

Iniciativas são lideradas por profissionais que perderam o emprego após a maternidade; baixa escolaridade é situação comum entre desempregadas

A permanência no mercado de trabalho se tornou incerta para Dani Junco, de 41 anos, quando ela descobriu que estava grávida, em 2015. Acostumada a atuar na área de marketing em multinacionais farmacêuticas, a dificuldade de prosseguir na carreira sendo mãe a fez conversar com quase 100 mulheres na mesma situação e perceber que sua dor era coletiva. A conclusão foi que, de fato, o ambiente corporativo descartava com mais facilidade as mulheres comfilhos. Mas sua experiência profissional poderia oferecer àquelas mães duas soluções: promover recolocação em empregos formais ou orientar as que precisavam empreender para recomeçar.

Pensando nisso, Dani criou a B2Mamy, espaço de inovação e aceleração, sediado em São Paulo, com foco em formar mães e mulheres em geral para a autonomia financeira. Movimentando mais de R$16 milhões desde 2016, cerca de 50 mil pessoas já participaram dos programas de capacitação da empresa. Para chegar a esse ponto, porém, a gestora precisou driblar o descrédito inicial de investidores que não apostavam na startup. “Me disseram que entre ser mãe e CEO, eu tinha de escolher uma coisa ou outra”, lembra.

Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 41% das mulheres empregadas com carteira assinada no País ficam fora do mercado 12 meses depois de se tornarem mães. Após 4 anos, o índice sobe para 50%. Dentre as desempregadas, são predominantes as que têm nível educacional mais baixo, pois, conforme Cecília Machado, coautora da pesquisa, são consideradas facilmente substituíveis pelo mercado. Para muitas mulheres, resta a interrupção da carreira ou a migração para o trabalho informal, diz a pesquisadora.

Já para profissionais homens, a chegada de um filho não tem o mesmo peso negativo.  ”Normas sociais e culturais delegam às mulheres atividades relacionadas ao cuidado da família. Por isso, há ampla evidência de que as trajetórias profissionais de homens e mulheres começam a divergir de forma evidente com a maternidade”, diz Cecília.

INSTABILIDADE

Empresa de impacto social, a Maternativa também nasceu da dor de suas fundadoras, Ana Castro e Camila Conti, que perderam os trabalhos durante a gravidez. O que era, há 7 anos, um grupo de apoio numa comunidade no Facebook virou uma rede com 28 mil mães, de 60 países, focada no universo da maternidade e do trabalho. Vivian Abukater, de 42 anos, sócia-diretora do negócio, diz que a atuação da empresa abarca apoio para mães nas diversas modalidades de trabalho, formações para empresas e atividades em prol da divisão justa do trabalho doméstico.

Dentre as iniciativas, o site Compre das Mães é destaque. A plataforma de produtos e serviços foi lançada em 2020 e reúne 3,5 mil mulheres cadastradas gratuitamente. Com mais de 3,5 milhões de acessos, o portal permite ao usuário localizar a mãe empreendedora mais próxima de sua residência. Já no mundo corporativo, o trabalho é lidar com os obstáculos para a retenção de mães nas corporações. “Encontramos facilidade de entrar em grandes empresas, com políticas de diversidade e inclusão, mas a economia brasileira está pautada nas pequenas e médias. Nelas, ainda é preciso fazer um grande trabalho de conscientização” afirma Vivian.

Com dois filhos, Michelle Terni, de 36 anos, passou por um período de inquietação sobre como conciliar maternidade e carreira, e acabou entrando para as estatísticas ao sair do mercado após ser mãe. Ao pesquisar sobre as motivações por trás disso, percebeu na situação uma oportunidade de negócio e resolveu, junto com sua sócia Camila Antunes, criar a consultoria Filhos no Currículo. O foco é ajudar as organizações a formatar um ambiente que atraia, acolha e impulsione a carreira de profissionais com filhos. Mais de 300 empresas já foram orientadas com estratégias voltadas para a parentalidade.

Para Michelle, o grande desafio das corporações é fazer com que o trabalho de conscientização seja sustentável no tempo e resulte em políticas concretas. Além disso, filhos devem ser encarados pelas empresas como impulso para o desenvolvimento de carreiras, e não o contrário. ” É no exercício diário da criação de uma criança que nós somos convidados a desenvolver uma série de habilidades. A diferença é encontrar um ambiente de trabalho que impulsione essa transformação”, diz.

MUDANÇA

Uma alteração profunda no cenário exige um conjunto de iniciativas, diz Margareth Goldenberg, gestora executiva do Movimento Mulher 360. Ela lista como fundamentais a inclusão de jornada de trabalho flexível, licença-maternidade estendida, auxílio-creche, sala de amamentação, além de iniciativas de cuidado para as mães.

Estas ações, diz Margareth, exigem uma mudança de cultura. Para que as empresas não dispensem ou deixem escapar profissionais por causa da maternidade, é essencial que elas estejam abertas para soluções de mercado especializadas, defende a especialista. Nesse sentido, negócios voltados para promover a retenção de mães nos empregos podem auxiliar nas ações internas do ambiente corporativo. “O que a gente observa é uma correlação direta entre empresas que têm um trabalho estruturado, com apoio de uma consultoria externa, e melhores resultados de retenção e desenvolvimento de mulheres nas empresas. É um fato que acaba mostrando como éimportante o apoio dessas soluções de mercado”, afirma a gestora.

QUEM BUSCA A MUDANÇA

B2MAMY

O espaço de inovação criado por Dani Junco tem foco em formar mulheres em geral para a autonomia financeira. Cerca de 50 mil pessoas já participaram dos programas de capacitação da startup.

MATERNATIVA

Fundada por Ana Castro e Camila Conti após ambas perderem os empregos ao se tornarem mães, atua no apoio a mães no mercado de trabalho e em consultorias às empresas por um ambiente mais justo para as mulheres.

FILHOS NO CURRÍCULO

A consultoria criada por Michelle Terni e Camila Antunes ajuda empresas a formatar um ambiente que atraia, acolha e impulsione a carreira de profissionais com filhos. Mais de 300 empresas já foram orientadas com estratégias voltadas para a parentalidade.

MOVIMENTO MULHER 360

A iniciativa nasceu em 2011, a partir de uma experiência do Walmart. Em 2015, o movimento ganhou força ao se tornar uma associação independente e, desde então, se tornou referência no engajamento de empresas na promoção da equidade de gênero.

EU ACHO …

CORAGEM

“A pior coisa do mundo é a pessoa não ter coragem na vida.” Pincei essa frase do relato de uma moça nascida no Ceará e que passou (e vem passando) poucas e boas: a morte da mãe quando tinha dois anos, uma madrasta cruel, uma gravidez prematura, a perda do único homem que amou, uma vida sem porto fixo, sem emprego fixo, mas sonhos diversos, que lhe servem de sustentação. Ela segue em frente porque tem o combustível de que necessitamos para trilhar o longo caminho desde o nascimento até a morte. Coragem.

Quando eu era pequena, achava que coragem era o sentimento que designava o ímpeto de fazer coisas perigosas, e por perigoso eu entendia, por exemplo, andar de tobogã, aquela rampa alta e ondulada em que a gente descia sentada sobre um saco de algodão ou coisa parecida. Por volta dos nove anos, decidi descer o tobogã, mas na hora H, estando já lá em cima, amarelei. Faltou coragem. Assim como faltou também no dia em que meus pais resolveram ir até a Ilha dos Lobos, em Torres, no Rio Grande do Sul, num barco de pescador. No momento de subir no barco, desisti. Foram meu pai, minha mãe, meu irmão, e eu retornei sozinha, caminhando pela praia, até a casa da vó.

Muita coragem me faltou na infância: até para colar durante as provas eu ficava nervosa. Mentir para pai e mãe, nem pensar. Ir de bicicleta até ruas muito distantes de casa, não me atrevia. Travada desse jeito, desconfiava que meu futuro seria bem diferente do das minhas amigas audaciosas.

Até que cresci e segui medrosa para andar de helicóptero, escalar vulcões, descer corredeiras d’água. No entanto, aos poucos fui descobrindo que mais importante do que ter coragem para aventuras de fim de semana era ter coragem para aventuras mais definitivas, como a de mudar o rumo da minha vida se preciso fosse.

Enfrentar helicópteros, vulcões, corredeiras e tobogãs exige apenas que tenhamos um bom relacionamento com a adrenalina. Coragem, mesmo, é preciso para viajar sozinha, terminar um casamento, trocar de profissão, abandonar um país que não atende nossos anseios, dizer não para propostas vampirescas, optar por um caminho diferente, confiar mais na intuição do que em estatísticas, arriscar-se a decepções para conhecer o que existe do outro lado da vida convencional. E, principalmente, coragem para enfrentar a própria solidão e descobrir o quanto ela fortalece o ser humano.

Não subi no barco quando criança – e não gosto de barcos até hoje. Vi minha família sair em expedição pelo mar e voltei sozinha pela praia, uma criança ainda, caminhando em meio ao povo, acreditando que era medrosa. Mas o que parecia medo era a coragem me dando as boas-vindas, me acompanhando naquele recuo solitário, quando aprendi que toda escolha requer ousadia.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

‘BEBER CONSCIENTE’, A NOVA POSTURA EM RELAÇÃO AO CONSUMO DE ÁLCOOL

Especialistas dão dicas de como deixar de fazer das bebidas alcoólicas uma muleta e tornar o hábito prazeroso e ponderado

A redução do consumo de álcool para viver o momento presente pode e deve ocorrer durante todo o ano. Mas, em vez de cortar totalmente a bebida, um número crescente de pessoas tem se tornado “sóbrias curiosas” e aproveitam para explorar elementos de um estilo de vida sem álcool sem precisar se abster totalmente.

“Beber consciente”, uma frase e filosofia que traz a autorreflexão para um copo de vinho ou cerveja, tornou-se cada vez mais comum nos últimos anos, disse Rosamund Dean, jornalista em Londres que publicou um livro baseado no termo em 2017. Ela queria se tornar mais racional sobre seu relacionamento com a bebida, em vez de ver o álcool como um hábito ou uma muleta.

“Situações como o evento de trabalho onde o vinho é ruim e barato emesmo assim você bebe ou colocar as crianças na cama depois de um dia agitado e abrir uma garrafa… É a bebida que você bebe sem pensar.

O consumo consciente, por outro lado, significa “racionalizar seus comportamentos em termos de sua decisão de beber álcool”: por exemplo, registrar quantos coquetéis você consome em uma noite ou prestar muita atenção ao porquê, onde e quando você sente vontade de beber.

Essa mentalidade de moderação pode atrair particularmente as pessoas que procuram maneiras de reduzir os hábitos preocupantes que desenvolveram durante a pandemia. Estudos mostraram um aumento dramático no consumo de álcool em 2021, especialmente entre as mulheres.

Ruby Warrington, uma escritora de Nova York, começou a usar o termo “sóbrio curioso” há cinco anos. Na época, ela disse em uma entrevista, seus hábitos de bebida pareciam estar sob controle: ela nunca desmaiou, ou mesmo bebeu mais de duas noites seguidas. Mas bebia mais do que queria, não se sentia capaz de dizer não.

Warrington ansiava por uma abordagem intermediária para a bebida: questionar sua relação com o álcool sem parar completamente. Ela diz que questionar os hábitos de consumo de uma pessoa muitas vezes a leva a adotar estratégias de consumo mais conscientes.

“Coletivamente, herdamos essa ideia sobre o álcool de que a única maneira de mudar é chegar ao fundo do poço”, afirma Dru Jaeger, cofundador e diretor de programas do Club Soda, uma comunidade online que surgiu há quase sete anos no Reino Unido. Cerca de metade dos mais de 70 mil membros estão interessados em moderar a bebida, em vez de ficar totalmente sóbrios. O grupo tem visto um crescimento consistente nos últimos anos, bem como mais interesse de pessoas na faixa dos 20 anos preocupadas com o impacto que o consumo de álcool tem na saúde mental.

A abordagem do consumo consciente também se baseia em estratégias semelhantes à terapia cognitivo comportamental, uma intervenção psicológica usada para tratar a depressão e a ansiedade, disse Kenneth Stoller, professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins. Ao incentivar as pessoas a identificar o impacto que o álcool tem em seus pensamentos, sentimentos e comportamentos, o consumo consciente pode ser uma ferramenta eficaz para pessoas interessadas em reduzir o consumo de álcool, mas não para qualquer pessoa com um problema grave de bebida ou transtorno por uso de álcool. 

Dicas para se tornar mais ponderado com o álcool:

PARE E REFLITA

Warrington recomenda que as pessoas interessadas em reduzir o álcool o retirem de suas vidas por um longo período, normalmente entre 30 e 100 dias. Esse hiato é uma oportunidade para reflexão, diz. Pergunte a si mesmo sobre o papel que a bebida desempenha em sua vida e os momentos ao longo de sua rotina diária – o jantar de fim de  semana com amigos, o episódio de TV antes de dormir – que mais o fazem ansiar por isso e encontre outras maneiras de preencher as lacunas.

Pense sobre o que gosta e não gosta de beber. É o sabor do álcool que atrai? A sensação corporal? Identifique a quantidade que normalmente consome para induzir um certo efeito e, em seguida, considere as facetas de beber que você menos gosta, como ressaca ou a sensação de perder o controle. Articular esses aspectos pode ajudá-lo a criar diretrizes realistas para reduzir o consumo.

FAÇA UM PLANO

Beber estreita nosso foco no mundo, disse Stoller, criando o que alguns psicólogos chamam de “miopia alcoólica” – focamos apenas no momento presente, é por isso que é crucial estabelecer um plano de consumo consciente com antecedência. Isso pode incluir beber com um amigo que também está praticando o consumo consciente, certificando-se de comer enquanto bebe e pedindo ao barman para usar metade da quantidade de álcool em um drinque. Esses truques diminuirão a taxa de entrada de álcool em seu sistema, disse ele, o que pode ajudá-lo a ser mais racional sobre as bebidas que você escolhe consumir.

Já Dean segue o que ela chama de regra de três: três drinques ou menos, não mais que três noites par semana. Muitas vezes ela acaba bebendo menos do que isso, e o limite rígido a leva a saborear cada bebida.

QUESTIONE

Não tome a bebida como automática. Se você for beber, faça disso uma escolha consciente e deliberada. Pense se o álcool agrega valor à sua experiencia – que diferença a bebida fara no seu tempo em uma festa, ou em sua noite no bar? E se você estiver bebendo para tentar curtir um evento em que não está se divertindo, considere ir para casa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POUCAS CRIANÇAS TRANSGÊNERO MUDAM DE IDEIA APÓS 5 ANOS

Estudo diz que a descoberta da transexualidade no começo da infância não é motivo para descartá-la em razão da imaturidade

Crianças pequenas que fazem a transição para um novo gênero e assumem mudanças sociais – como novos nomes, pronomes, cortes de cabelo e roupas por exemplo –    provavelmente continuarão a se identificar com esse gênero cinco anos depois. É o que afirma um relatório publicado este mês pela Trans Youth Project, que realizou o primeiro estudo do tipo. Os pesquisadores acompanharam 317 crianças nos Estados Unidos e Canadá que passaram pela transição social entre os 3 e 12 ano. Em média, os participantes fizeram a transição de gênero entre os 5 e 6 anos e, cinco anos mais tarde, a maioria do grupo ainda se identificava com o novo gênero.

Além disso, muitos começaram a tomar medicamentos hormonais na adolescência – na busca para provocar mudanças biológica que os alinhem com as identidades de gênero. Mas, do outro lado, cerca de 2,5% do grupo voltou a se identificar com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento.

O novo estudo fornece um dos primeiros grandes conjuntos de dados sobre crianças transgênero. Os pesquisadores planejam continuar acompanhando essas pessoas por 20 anos após o início das transições sociais.

“Existe esse pensamento de que as crianças vão começar essas coisas e depois vão mudar de ideia”, disse Kristina Olson, psicóloga da Universidade de Princeton que liderou o estudo. “E, pelo menos em nossa amostra, não encontramos isso.

APOIO FAMILIAR

O novo estudo, publicado na revista Pediatrics, acompanhou esse grupo quando eles atingiram o marco de cinco anos de suas transições sociais iniciais. O estudo descobriu que 94% ainda se identificavam como transgêneros, e outros 3,5% se identificaram como não binários, o que significa que não se veem como meninos ou meninas. Esse rótulo não era tão amplamente usado quando os pesquisadores começaram o estudo.

Oito crianças, ou 2,5% voltaram para o gênero que lhes foi atribuído no nascimento. Sete delas fizeram a transição social antes dos 6 anos e voltaram antes dos 9 anos. A oitava criança, aos 11 anos, voltou atrás após iniciar o uso de drogas bloqueadoras da puberdade.

Olson e outros pesquisadores apontaram, porém, que o estudo pode não contemplar todas as crianças transgênero. Dois terços dos participantes eram brancos, por exemplo, e os pais tendiam a ter renda mais alta e mais escolaridade do que a população geral. Todos os pais deram apoio para facilitar a transições sociais completas.

Crianças trans têm uma alta taxa de problemas de saúde mental, incluindo autismo e TDAH, observou Laura Edwards Leeper, psicóloga clínica do Oregon especializada no atendimento de crianças transgênero.

Mas trabalho publicado anteriormente pelo mesmo grupo mostrou que crianças que foram apoiadas por seus pais durante as transições sociais eram aproximadamente iguais às crianças não transgêneros em termos de taxas de depressão, com taxas ligeiramente elevadas de ansiedade.

NOVOS TEMPOS

E, como o estudo começou há quase uma década, não está claro se ele reflete os padrões de hoje, quando muito mais crianças estão se identificando como trans. Dois terços dos participantes eram meninos trans, ou seja, designadas meninos no nascimento.

Nos últimos anos, porém, clinicas de gênero para jovens em todo o mundo relataram um aumento de pacientes adolescentes designadas meninas no nascimento que haviam sido identificadas recentemente como meninos trans ou não-binários.

Pesquisas das décadas de 1990 e 2000 sugeriram que muitas crianças diagnosticadas com transtorno de identidade de gênero (um diagnóstico psicológico que não existe mais) resolveriam suas dificuldades de gênero após a puberdade, geralmente entre 10 e 13 anos. Alguns desses estudos anteriores foram criticados porque os médicos das crianças aconselharam seus pais a afastá-los de uma identidade transgênero.

Desde que esse trabalho foi feito, a aceitação social da diversidade de gênero cresceu, a prática médica mudou e o número de crianças trans aumentou significativamente. Por essas razões, não faz sentido comparar o novo estudo com pesquisas mais antigas, diz Russ Toomey, professor da Universidade do Arizona:

“Muitas das crianças dos estudos anteriores eram meninos com características atribuídas ao feminino, cujos pais estavam incomodados. Elas nunca se rotularam ou foram identificadas como transgêneros.

O novo estudo pode sugerir que crianças transgênero, quando apoiadas por seus pais, prosperam em suas identidades. Mas também é possível que, algumas das que ainda se identificavam como transgêneros no final do estudo – ou seus pais – sentissem pressão para continuar no caminho que começaram.

“Algumas pessoas podem dizer que as crianças entram nessa trajetória de desenvolvimento e não podem sair e que as intervenções médicas podem ser irreversíveis e podem se arrepender”, disse Amy Tishelman, psicóloga clínica do Boston College. “Outros dirão que as crianças conhecem seu gênero e, quando são apoiadas ficam felizes.

Embora a maioria dos médicos concorde que as transições sociais podem ser úteis para algumas crianças que estão questionando seu gênero atribuído, disse Tishelman, também é importante dar apoio àqueles que mudam de ideia.

OUTROS OLHARES

UMA CORTINA DE PÓ

Alunos simulam uso de droga com corretivo e preocupam pais e especialistas em drogas

A vida, às vezes, imita a arte de forma desastrosa. Vídeos apelidados de “Desafio Euphoria”, em alusão à série sobre comportamento adolescente na HBO, circulam nas redes sociais e têm levado alunos de escolas públicas e privadas a se drogarem com substâncias até então inofensivas, como corretivo, giz e cola. A preocupação cresce entre pais e especialistas que já veem no fenômeno mais uma porta de entrada para o consumo de drogas ilícitas. Casos de estudantes flagrados se drogando soaram o alerta de escolas, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste de secretarias de Educação pelo país.

Manipulado pelos estudantes, o corretivo foi usado como pó em pelo menos oito escolas estaduais do Paraná. Em Cascavel, o Colégio Estadual Padre Carmello Perrone chegou a proibir o uso do produto, conhecido como “branquinho”, para evitar que fosse cheira do pelos alunos. O fato foi informado ao Núcleo Regional de Educação. A direção de uma escola estadual de Camaquã, no Rio Grande do Sul, chamou atenção para a disseminação de “cocaína de errores”, outra forma de identificar a substancia, após flagrar alunos consumindo o pó.

ALARME EM CASA

Localizada, a estudante K., de 18 anos, que está no terceiro ano do Ensino Médio, preparou pó de corretivo dentro de sala de aula e publicou o vídeo em suas redes sociais. No rastro da popularização do consumo dentro do ambiente escolar, ela teria feito, em suas palavras, uma “brincadeira”.

“Foi zoação, porque muita gente estava fazendo no Tik Tok”, disse a aluna, que estuda em um colégio da rede estadual da Bahia e pincelou o produto na mesa e, após secar, o esfarelou com uma régua. “Sei que é errado cheirar e nunca faria isso.

Um aluno de 12 anos, que faz o 7º ano do Ensino Fundamental, contou ter realizado o que está sendo chamado na internet de “mundo corretivo”. Sem querer informar o estado em que mora, o menino, que não será identificado em cumprimento ao que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), confirmou que preparou o “pó” com dois colegas de turma, mas que só um deles teve coragem de inalar:

“A gente sabe que faz mal. Meu amigo disse que o nariz ardeu e ficou espirrando, mas não contamos para os nossos pais”.

O “Desafio Euphoria” é facilmente encontrado em vídeos gravados nos intervalos das aulas, nos banheiros ou nas salas das escolas. A exibição das cenas de consumo de drogas, ainda que não ilícitas, deve ser levada a sério. A doutora em saúde mental Janaína Soares, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem em Adições, afirma que há uma tendência de crescimento do uso de ingredientes, cujos efeitos narcóticos são pouco conhecidos em razão de problemas psicossociais, inclusive agravados pela pandemia.

“Quando inaladas, as substâncias são rapidamente absorvidas pelo pulmão e vão para o sistema nervoso central, gerando alucinações, lentidão no pensamento e alterações da memória. Esses prejuízos podem levar a déficits escolares, além de intensificar sintomas de ansiedade e depressão”, explica Janaina.

Segundo Renato Roithman, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, os solventes utilizados em certas substâncias podem não só irritar as mucosas nasais como, se ingeridos em maior quantidade, afetar o funcionamento de rins, fígado, medula óssea e sistema nervoso central por toda a vida. Além do corretivo, há relatos de consumo de esmalte, acetona, thinner, giz e cola.

“Esses produtos podem gerar reações locais como crise de espirros, congestão nasal e, nos casos mais extremos, sangramento nasal e alteração do olfato. Pode haver piora da rinite e de infecções, como sinusite. A chegada aos brônquios e pulmão pode resultar em crise de asma e pneumonia. O uso continuado pode gerar danos irreversíveis, como perda motora”, diz o especialista.

Um outro alerta é para a possibilidade de o usuário eventual evoluir para o consumo de drogas ilícitas. Após o longo período de isolamento devido ao avanço da Covid-19, a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), do IBGE, prevê agravamento dos dados sobre consumo de drogas. O último levantamento de 2019 apontava que 13% dos alunos entre 13 e 17 anos já tinham usado maconha, cocaína, crack e ecstasy.

E por isso um colégio de São Paulo convocou os pais depois do caso de uma criança de 11 anos cheirando “pó de corretivo” dentro da instituição.

Uma das mães convocadas foi a blogueira Ana Paula Porfirio, de 41 anos, que ficou assustada porque o aluno era colega de sala de um de seus filhos – um menino de 11 e uma adolescente de 14 anos, que sofre de transtorno de ansiedade. Ela relata que a mãe do aluno pego com corretivo em pó ficou muito abalada:

“Fomos avisados de que o menino fingia usar cocaína. A diretora alertou que era uma situação delicada e que tínhamos que prestar atenção ao comportamento dos nossos filhos nas redes sociais. A droga acaba sendo inserida na vida deles de uma forma ou de outra. Precisamos estar atentos para orientar e esclarecer sobre o assunto.

“TONTURA E BRISA”

Nas Diretrizes da Comunidade do Tik Tok – onde a maior parte dos vídeos é postada -, é observado que conteúdos com menção explícita, apologia ou imitação ao uso de drogas não são permitidos. Contudo, imagens da trend do corretivo” seguem disponíveis no aplicativo, compartilhados por perfis de estudantes e menores de idade. Procurado, o Tik Tok disse apenas que está comprometido com a segurança da comunidade e que trabalha para identificar e remover conteúdos e contas que violem as regras.

Enquanto isso, a jovem S., de 14 anos, busca satisfazer sua curiosidade e amenizar as dores de problemas familiares no torpor provocado pelo pó de corretivo. Ela disse que já inalou a substância três vezes na escola, após ter visto o vídeo de uma amiga. Em uma das experiências, ela lembra de ter sentido tontura, além de ardência no nariz. A estudante conta que experimentou a substancia junto de um colega.

“Achei boa a tontura, só achei ruim o nariz arder. Na primeira vez, eu fiquei com o nariz coçando muito, mas passou em dez minutos”, relata a estudante, definindo a sensação toda como “brisa”.

No campo jurídico, a advogada Taís Pagy de Amorim, do Núcleo de Praticas Jurídicas do Curso de Direito da Unigranrio, aponta que tanto as escolas quanto os próprios pais podem ser responsabilizados por danos morais e patrimoniais, inclusive arcando com despesas de eventual tratamento de saúde.

GESTÃO E CARREIRA

COM FOCO EM OUTRAS PRIORIDADES, FUNCIONÁRIO EVITA CARGO DE LÍDER Estudo aponta que rejeição por liderança vem do medo de perda do equilíbrio entre as exigências do trabalho e a vida pessoal

Aos 56 anos, Anderson de Castro é servidor público do Judiciário em Minas Gerais. Concursado e com oito anos na função, ele não deseja ocupar um cargo de chefia. O pensamento da psicóloga Thiara Lima, de 35 anos, não é diferente. Há oito anos ela trabalha em uma empresa privada, hoje como analista de recursos humanos. Também não se vê construindo carreira rumo à liderança.

Para Anderson, os principais empecilhos são acreditar não ter perfil de liderança e achar que um cargo como líder prejudicaria o seu tempo para ficar com a família e se dedicar aos estudos de cinema. No caso de Thiara, a preocupação é não sobrar tempo livre para lidar com questões pessoais.

Não almejar uma posição de liderança não é exclusividade desses profissionais, embora a questão ainda possa ser um tabu. Por isso, esse foi o tema de um estudo realizado entre o Insper e a consultoria Robert Half, para entender as preocupações das pessoas em relação à ascensão profissional.

A pesquisa partiu de um dado obtido em 2014 pela plataforma de empregos norte­ americana Career Builder, que mostrou que, entre 3.625 profissionais, apenas 34% buscavam posições de liderança e só 7% queriam chegar a um cargo no C-level (executivo sênior). “A discussão é geralmente sobre o que é preciso fazer para ascender, mas pouco se fala do que está impedindo as pessoas de quererem essa ascensão”, diz Tatiana Iwai, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Insper.

Os pesquisadores fizeram perguntas a 587 empregados de empresas privadas, com idades a partir de 20 anos e que ocupam cargos de funcionária líder de negócio. Eles constataram que, ao longo da carreira, os profissionais enfrentam duas grandes preocupações em relação aos cargos de liderança: uma sobre competência (relacionada à dúvida sobre estar pronto e o medo de falhar) e outra sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “Essas duas dimensões afetam a motivação para ascender e variam de acordo com o ponto em que o profissional se encontra na hierarquia. Em níveis mais baixos, ambas as preocupações são altas. Mas quando vai subindo na hierarquia, a preocupação com a competência diminui, provavelmente motivada pela alta eficácia, mas o receio de desequilibrar a vida pessoal segue alto”, explica Gustavo Tavares, pesquisador do Insper.

A vontade de equilibrar os dois lados da vida não é algo novo, mas, de acordo com dados levantados pelo LinkedIn na última semana, a pandemia a intensificou. Entre 1.160 entrevistados, o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal apareceu como a principal razão pela qual 49% dos profissionais buscam vagas flexíveis.

COMPETÊNCIAS

O estudo do Insper mostrou também que a intensidade dessas preocupações varia de acordo com os recursos psicológicos que o profissional possui, entre eles: habilidades humanas (comunicação, empatia); cognitivas (inteligência geral, capacidade de resolver problemas); e resistência psicológica (resiliência e estabilidade emocional).

“As competências humanas e a resistência psicológica ajudam a reduzir as preocupações que as pessoas têm sobre competência e também ajudam a reduzir os receios de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. É como se a resistência psicológica fosse a ‘casca dura’ da pessoa para conseguir lidar com desafios”, conta Tatiana. Essa carência é uma preocupação que atinge tanto profissionais que não querem ser líderes como quem já ocupa postos de liderança. Ao longo de anos como mentora de líderes, Marcia Gonçalves percebeu que a carência dessas habilidades, geralmente, leva à angústia e à vontade de desistir do cargo. “Para liderar e entregar resultado, você tem que ter expertise para lidar com relações humanas. Há muitos que ascendem de forma ingênua e sem experiência de gestão de pessoas então falham e vem a angústia.

A especialista acredita que qualquer profissional pode desenvolver o tão falado perfil de liderança, mas isso não significa que todo mundo que é promovido a líder já possui essas habilidades. “Quando a pessoa é promovida sem ter um preparo, ela acaba não desenvolvendo essas habilidades, o que faz com que ela se questione e pode até desistir de ser líder”.

VISÃO DISTORCIDA

 Falar sobre não querer alcançar um posto de liderança ainda é um tabu porque, no geral, o mercado entende a ascensão à liderança como a constatação de que uma carreira é bem-sucedida. “Existe o profissional que pode até ter o desejo de ser líder, mas ele tem a ideia de que, se não for líder, não está crescendo na carreira, está estagnado. A consequência é uma visão distorcida do posto de liderança”, explica Mário Custódio, diretor da área de recrutamento da Robert Half.

Para o profissional que não quer esse cargo, o primeiro passo, segundo os especialistas, é buscar o autoconhecimento por meio de mentorias, capacitação e pelo processo terapêutico. Para quem passou por esse processo e tem certeza de que não quer liderar uma equipe, os especialistas aconselham a ser honesto com a empresa.

Do ponto de vista das empresas, há um leque de possibilidades, que começa por oferecer a oportunidade de carreira em Y – modelo de plano de carreira em que o funcionário, além de ter a opção de crescer para cargos de gestão, também pode ascender para cargos técnicos.

Com isso em mente, a MAG Seguros, empresa em que Thiara (do início desta reportagem) trabalha, criou dois programas de desenvolvimento. O primeiro é focado nas pessoas que têm vontade de liderar, mas ainda não tiveram essa experiência. O outro é focado na carreira em Y, para quem quer crescer como especialista. “O especialista precisa saber que ele também é vital para a empresa. Imagina se todo mundo nas empresas fosse liderança?”, diz Vanessa Joannou, gerente de atração de talentos e carreira da MAG.

EU ACHO …

A DESAGRADÁVEL TAREFA DE FAZER-SE ODIAR

Pais de família estão cada vez mais participativos, atuantes, necessários, afetivos, fundamentais na criação dos filhos, ao contrário do que acontecia nas gerações anteriores, quando o pai era uma figura cerimoniosa, o provedor que detinha a última palavra nas questões graves e terceirizava o resto. Hoje não. Hoje os pais deitam, rolam, se embolam, se envolvem nas pequenezas cotidianas, são quase mães.

Quase. Porque tem uma coisa que a maioria deles ainda não consegue assumir: a desagradável tarefa de fazer-se odiar.

Li essa frase num livro (em outro contexto) e achei que fechava perfeitamente com a maternidade. O que é ser mãe, senão tomar para si o papel de chata da família)

As cobranças do dia a dia são especialidade nossa: o que comeu, o que vestiu, se tomou banho, a toalha no chão, os garranchos, o blusão amarfanhado, a luz que ficou acesa, liga pra tua vó, o estado deplorável do tênis, a hora em que foi dormir, segura direito esse talher, deixa de preguiça, cuidado ao atravessar, não durma de cabelo molhado, largue esse computador, menos palavrão, hora de acordar, a consulta no dentista, quem é o amigo mal-encarado, convida os teus primos, não tranca a porta à chave, fecha a janela, abre a janela, não corre pela casa, me avisa assim que chegar, tu anda bebendo?

Não que o pai seja relapso, mas se ele ainda vive com a mãe das crianças, a patrulha cotidiana possivelmente ficará a cargo do sargento de saias. Nós, tão femininas, tão doces, tão sensíveis, tão amorosas, não pensamos duas vezes em abrir mão desses suaves atributos caricaturais a fim de manter a casa de pé, a roda girando, a vida funcionando, todo mundo no eixo. Se tivermos que ser antipáticas, seremos. Se tivermos que ser repetitivas, que jeito. Controladoras? Pois é. Alguém tem que se encarregar do trabalho sujo.

É uma generalização, eu sei, mas amparada no senso comum. Os pais mandam, ralham, brigam, mas raramente perdem a cabeça, quase nunca gritam e se estressam. Eles têm essa irritante capacidade de manter a boa reputação com os filhos. Se forem obrigados a escolher um lado durante o barraco, dirão que estão do lado da mãe, que estão de acordo com tudo o que ela disse, mas irão piscar para o filho quando ela não estiver olhando.

Ao fim e ao cabo, mães dão conta de todas as crianças da casa.

Todas.

É o nosso papel: reger a orquestra familiar ofertando nosso melhor, mesmo que ele seja confundido com nosso pior. É o risco que corremos, mas não há outra maneira de educar. O excesso de zelo pode ser estafante, mas é preciso segurar o tranco de ser odiada um pouquinho a cada dia a fim de garantir um amor pra sempre.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL ATRASA O SURGIMENTO DE DEMÊNCIA EM IDOSOS

Estudo indica que mulheres ganham seis anos de expectativa de vida, e os homens, três anos, muitos deles livres do Alzheimer

Um estilo de vida saudável pode permitir que pessoas mais velhas vivam mais, sugere pesquisa publicada na revista médica BMJ. As mulheres ganham seis anos de expectativa de vida, e os homens, três anos. Um estudo indica que muitos desses anos extras podem ser livres de demência. Cerca de 6 milhões de americanos com 65 anos ou mais tem a doença de Alzheimer, uma demência que não tem cura.

A pesquisa descobriu que, aos 65 anos, as mulheres com o estilo de vida mais saudável tinham expectativa média de vida de mais 24 anos, em comparação com 21 anos para aquelas que eram consideradas menos saudáveis. Aos homens saudáveis, a expectativa de vida era de 23 anos. Para os menos saudáveis, de 17 anos. O estudo envolveu 2.449 pessoas com 65 anos ou mais.

Os pesquisadores desenvolveram um sistema de pontuação para estilo de vida saudável que abrange dieta, atividade cognitiva, atividade física, tabagismo e consumo de álcool. As pessoas recebiam um ponto para cada área se atendessem aos padrões saudáveis, resultando em uma pontuação final de zero até cinco – sendo cinco para o estilo de vida mais saudável.

Quanto a viver com demência, aqueles com pontuação de 4 ou 5, aos 65 anos, viveram com Alzheimer por uma proporção menor de anos restantes do que aqueles com pontuação de 0 ou 1. Para as mulheres, a diferença para as mais saudáveis era ter Alzheimer em 11% de seus últimos anos, ante 19% das menos saudáveis. Para os homens, essas taxas eram de 6% a 12%, respectivamente.

O estudo concluiu que “a expectativa de vida prolongada por um estilo de vida saudável não é acompanhada por um aumento do número de anos vivendo com demência do Alzheimer”, mas sim por “uma proporção maior de anos restantes vividos sem demência do Alzheimer”.

SAIBA MAIS

Há evidências crescentes de que a microbiota intestinal pode influenciar no desenvolvimento e na progressão de distúrbios neurodegenerativos. Dois estudos recentemente publicados por pesquisadores brasileiros não só reforçam essa hipótese como descrevem o mecanismo pelo qual a disbiose – como é chamado o desequilíbrio entre espécies bacterianas patogênicas e benéficas no intestino ­ pode favorecer o surgimento da doença de Parkinson.

A investigação foi conduzida por pesquisadores ligados ao Laboratório Nacional de Biociência. (LNBio), que integra o complexo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, apoiados pela Fapesp. Parte dos resultados foi publicada em fevereiro, no periódico iScience. O segundo artigo foi divulgado na revista Scientific Reports.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRISES DE ANSIEDADE EM ADOLESCENTES E CRIANÇAS DESAFIAM FAMÍLIAS E ESCOLAS

Diminuição do convívio social e prolongado uso de telas são pano de fundo das dificuldades

Esses primeiros meses de aulas presenciais têm sido difíceis para o menino Rafael, de 7 anos, no 2° ano do ensino fundamental de uma escola estadual do Itaim, zona leste de São Paulo. Ele reclama de falta de ar e coração disparado. Pergunta sempre à professora quando a aula vai terminar. Às vezes, morde o dedo indicador; não sangra, mas ficam marcas dos dentinhos na pele.

Surgiram problemas gastrointestinais, com traços de sangue no cocô. Quando a mãe, Paula, chega para buscá-lo, percebe o filho segurando as lágrimas. Ele só chora com a mãe. Em casa, fica quieto no sofá. Já foram três atestados médicos, de uma semana cada, por crise de ansiedade identificada no pronto-socorro. Rafael começou a visitar um psicólogo.

O sofrimento de Rafael e Paula (os nomes de pais e alunos usados na reportagem são fictícios) ilustra as dificuldades emocionais que pais e educadores estão percebendo nos estudantes das redes pública e privada, após praticamente dois anos de aulas remotas ou híbridas por causa da pandemia. O mesmo fenômeno também é observado fora do Brasil – nos Estados Unidos, o novo cenário tem chamado a atenção de autoridades.

O Brasil foi um dos países que passaram mais tempo com as escolas fechadas e muitos gestores foram criticados por priorizar bares e shows na reabertura do comércio edos serviços em fases de redução de contágio do coronavírus. Especialistas afirmam que a diminuição do convívio social, a não ser de forma virtual, e o prolongado uso de telas são o pano de fundo dessas dificuldades. Parte das crianças desenvolveu fobia ou insegurança sobre a imprevisibilidade de interações face a face. Para os mais novos, o contato direto tem sido quase uma novidade.

As circunstâncias vividas em casa – como adoecimento de parentes, desemprego, dificuldades financeiras e até a violência doméstica – também estão entre as hipóteses para explicar os prejuízos à saúde mental. Além disso, estudantes e professores voltam aos colégios com a missão de recuperar o tempo perdido e superar os prejuízos de aprendizagem no período de classes remotas. Por outro lado, a maioria dos especialistas aponta que esse é um período de transição.

SOFRIMENTO COLETIVO

Em Pernambuco, a angústia virou um drama coletivo no início de abril. Com falta de ar, tremor e crise de choro, 26 alunos da Escola de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, zona norte do Recife, foram atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Uma estudante teria passado mal e desmaiado e os outros começaram a chorar. Conforme os médicos, os jovens foram atendidos no local após crise de ansiedade generalizada com “sudorese, saturação baixa e taquicardia”. Não houve hospitalização.

Neuza Pontes, gestora da Gerência Regional de Educação Recife Norte, conta que nunca havia presenciado um episódio assim em seus 29 anos de experiência. “Especialistas disseram que é possível uma histeria e uma crise de ansiedade coletiva. Foi um efeito dominó, como um contágio”, compara. As aulas foram retomadas no dia 11, mas nem todos os estudantes voltaram.

Os problemas dos alunos já aparecem nas estatísticas. A Secretaria da Educação de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna divulgaram neste ano uma pesquisa em que sete de dez estudantes da rede pública relataram sintomas de ansiedade e depressão em níveis altos durante a crise da covid-19. O dado não aponta um diagnóstico médico fechado, mas sinais que exigem maior atenção.

De 642 mil alunos do 5º e 9º ano do fundamental e da 3º do médio que participaram do estudo, mais de 440 mil relataram problemas de saúde mental. “Há inúmeras variáveis envolvidas, pois se trata de um contexto multifatorial. Mas, a partir desse diagnóstico, a gente compreende que os estudantes estão precisando de ajuda”, disse Catarina Sette, especialista em educação integral do Instituto Ayrton Senna.

O problema também se revela em amostras menores. No Centro Educacional Pioneiro, na Vila Clementino, zona sul paulistana, os educadores já realizaram este ano 210 atendimentos socioemocionais para os alunos do fundamental II (10 a 14 anos). A quantidade já se aproxima dos 250 apoios – total do ano passado. “São questões que já existiam, mas percebemos que elas estão aparecendo em número maior”, afirma o coordenador pedagógico, Mario Fioranelli Neto, que atribui o aumento a “uma desconexão do aluno com a escola no retorno das atividades presenciais”.

O psiquiatra Rodrigo Bressan, professor de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vai além. ”Não voltamos para os mesmos lugares após a pandemia. Para os estudantes, é uma outra escola”, afirma. “O desafio é parecido com o do início da pandemia, de sair da zona de conforto. Da mesma forma que foi ansiogênico (capaz de produzir ansiedade)entrar na pandemia, sair também é”, diz o autor do livro Saúde Mental na Escola – o que os educadores precisam saber.

Mariana, aluna de 12 anos de um colégio particular de São Paulo, já havia demonstrado algumas crises de ansiedade em casa na pandemia. No primeiro dia das provas trimestrais, no mês passado, ela começou a chorar e a professora percebeu que ela não parava de tremer. A menina saiu da sala. A mãe foi chamada às pressas e a aluna do 7º ano do fundamental foi para casa. Durante toda a semana de provas, ela não foi mais à escola.

Os educadores entraram em contato com a família. Depois de muita conversa, em que tentaram tirar o peso emocional da avaliação, a jovem fez as provas na segunda chamada. O desempenho da garota foi ruim, mas fez as provas, o que foi um avanço na visão dos professores.

Depois dessa crise, ela ficou ansiosa mais duas vezes e pediu para ir embora mais cedo. Foi atendida. Hoje, a menina continua o acompanhamento psicológico que fazia durante a pandemia.

Já Tiago ficou mais triste e isolado. O aluno de 11 anos de uma escola privada na zona leste tinha muitos amigos, com a casa cheia no fim de semana. No isolamento, tudo ficou vazio. A mãe, uma professora de 38 anos, tentou amenizar o problema comprando um videogame. Até funcionou por um tempo, mas hoje ele só quer jogar e concentrou todo o vínculo com amigos nas disputas online. Quando volta do fim de semana ou feriado, ele fica com coração acelerado e sente dor de cabeça. “Ele diz que a pandemia roubou a infância dele”, conta a mãe.

A educadora e colunista Rosely Sayao avalia que as dificuldades socioemocionais envolvem a sociedade toda, com a retomada das atividades presenciais, mas crianças e adolescentes têm menos filtros do que os adultos e, por isso, expressam mais suas dificuldades. Tem opinião semelhante a educadora Luciene Tognetta, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que já esperava uma “pandemia emocional”. Ela comparou a pressão sobre as escolas e professores pela rápida adaptação pós-quarentena ao drama dos hospitais e médicos que sofreram no início da crise sanitária.

NOVAS ROTINAS

Diante do cenário de desafios, que os educadores classificam como “fase de acomodação” ou “readaptação”, alguns colégios criam novas rotinas e aprimoram os programas já existentes nessas áreas. O Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, região central de São Paulo, fez uma semana de integração para acolher os alunos que só se conheciam pelas telas e também os novatos. Contratou ainda um educador físico e um recreador para mobilizar alunos na hora do intervalo em torno das brincadeiras em grupo e em espaços livres. “É uma maneira para que eles se desvinculem das telas dos celulares. A ideia é que as crianças recuperem as habilidades de brincar em grupos maiores”, explica a educadora Miriam Guimarães, coordenadora de Orientação Educacional do colégio.

Algumas escolas adotam mudanças para o período de provas, momento de maior tensão para os alunos – afinal, foram quase dois anos com testes virtuais. O colégio Carandá, de Mirandópolis, interior paulista, passou a intercalar com as provas atividades que estão fora do currículo tradicional, como oficinas de dança e jogos de capoeira. “São momentos de respiro, com assuntos que eles próprios sugerem e que os professores oferecem. Não são assuntos curriculares clássicos”, diz a diretora Ana Cristina Dunker.

Nas escolasestaduais, os educadores pretendem aproximar alunos e professores dos profissionais de saúde mental. Ana Zuanazzi, especialista em educação integral do Ayrton Senna, destaca a necessidade de um trabalho intersetorial, entre os campos de saúde, educação e assistência social.

Secretária da Educação paulista, Renilda Peres afirma que cerca de 100 psicólogos vão atuar presencialmente nas Diretorias Regionais de Ensino a partir de junho. O Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva) prevê o atendimento nas escolas dos alunos e, em alguns casos, dos professores.

Em Pernambuco, a Secretaria da Educação promoverá encontros regulares dos alunos e suas famílias com psicólogos. A medida deve ser adotada em toda a rede estadual, não só na unidade onde houve o surto coletivo. Além disso, estuda-se incorporar a disciplina Educação Socioemocional ao currículo do ensino médio. “Sentimos a necessidade de uma ação forte com os professores para trabalhar as habilidades socioemocionais dos alunos”, justifica Neuza, a gestora regional de educação. Os alunos que já têm histórico de ansiedade foram encaminhados para acompanhamento médico.

OLHO NO OLHO

Para as famílias, saber como agir também é tarefa difícil. “Mesmo com a ligação afetiva, os pais devem tentar se distanciar para entender o desafio”, orienta Bressan, coordenador do programa Cuca Legal, com foco na saúde mental nas escolas. “Não ajuda muito reclamar da escola, por exemplo, e olhar só as dificuldades”, continua.

A psicóloga Adriana Severine afirma que é importante conversar com os filhos – sem interrompê-los ou ficar olhando mensagens no celular durante o papo. “Uma conversa olho no olho vai mostrar como os pais podem interferir, seja no medo do vírus ou na dificuldade de se relacionar”, diz.

OUTROS OLHARES

ARMADILHAS POR TRÁS DE ‘POSTS’ COM BELAS FOTOS E PROMOÇÕES

Consumidores se queixam de ofertas enganosas e golpes aplicados por perfis falsos que se multiplicam nas redes

Com um bilhão de usuários ativos em todo o mundo, o Instagram, se transformou numa grande vitrine para venda de produtos e serviços, principalmente depois que boa parte da resistência às compras virtuais foi derrubada pela pandemia. O crescimento do uso da plataforma para impulsionar negócios trouxe a reboque uma enxurrada de problemas para consumidores que, encantados por perfis bem produzidos e promoções tentadoras, acabam caindo em ofertas enganosas e até em golpes.

A história que atraiu centenas de usuários da plataforma – sobre a suposta morte da fundadora da loja on-line Netbags para divulgar uma promoção de bolsas de luxo com desconto de até 80% – acabou indo parar no Procon-SP. A mentira, justificada pela companhia como apenas um storytelling, foi alvo de notificação da fundação à Tríade Empreendimentos em Vendas Digitais, responsável pela loja. Segundo Guilherme Farid, diretor executivo do Procon-SP, trata-se de oferta enganosa.

Além da mentira, acumulam-se nas redes e em sites especializados centenas de reclamações de clientes da Netbags que não receberam as encomendas e outros que se queixam da qualidade das bolsas.

“Vi o anúncio várias vezes no Instagram sobre as bolsas e os pêsames para a suposta fundadora da marca. Havia muitos comentários, isso me passou confiança e decidi comprar. Só após já ter pago, pesquisei e vi que há uma enxurrada de reclamações contra a Netbags. Tentei cancelar, mas a loja não dá essa opção”, diz a analista da Receita paulista, Ana Paula Fernandes, que recorreu ao Procon-SP para tentar obter o ressarcimento.

SEM OS ÓCULOS

André Lacerda advogado da Tríade, diz não ter recebido a notificação do Procon-SP. Sobre acusações de demora na entrega e baixa qualidade, afirma que as condições de venda estão no site e alega que a Netbags faz só a intermediação.

“Nessa intermediação que a Netbags faz tem bolsas mais simples e mais bem elaboradas. Ela não tem acesso ao material antes de ir para a página de vendas. Caso o cliente não esteja satisfeito com a compra, é feito o estorno. Nenhum produto intermediado até hoje deixou de ser entregue”, diz.

A funcionária pública piauiense Valéria Fontenele está perdendo a esperança de receber os dois óculos comprados na LBA Sunglasses Boutique, que tem mais de um milhão de seguidores no Instagram. Com mais de 900 queixas registradas de janeiro a março no Procon-SP, a loja entrou na lista de sites a serem evitados elaborada pela entidade.

“Eles não entregam e continuam vendendo e fazendo promoções. No Instagram, bloquearam comentários. Não consegui contato por e-mail e nem por telefone”, conta Valéria, que diz ter buscado ajuda do Instagram, sem ter obtido resposta.

Bloqueados no Instagram, consumidores da marca que recorreram ao perfil da empresa no Facebook para cobrar explicação relatam nas redes sociais que foram hackea dos. O suposto serviço de atendimento pede informações, como telefone e e-mail, em seguida envia um link por SMS. Quem clica tem o perfil das redes sociais hackeado”, afirmam.

Procurada, a LBA Sunglasses Boutique não respondeu.

Segundo Priscilla Azevedo, especialista em marketing digital, é para desconfiar de perfis que bloqueiam comentários ou interagem pouco com a audiência, que tem muitas publicações em curto espaço de tempo e não seguem ninguém na rede. Ela admite, no entanto, que, mesmo quem tem experiência, não está livre de cair em armadilhas:

“Tinha uma reserva num restaurante e dias antes recebi um direct avisando de um bônus de R$ 300. Quase cai, o que me chamou a atenção foi a grafia errada do nome do local.

Uma estratégia desses perfis fakes, diz Priscila, é justamente ir atrás de seguidores dos negócios oficiais. Com apresentação quase idêntica e diferenças no perfil de um ponto ou uma letra, ofertam descontos ou sorteios. A representante comercial Marília Loures teve seu perfil hackeado logo após clicar no perfil fake da pousada que acabara de recomendar: Levei 20 dias para recuperar o perfil e ressarci uma amiga, que fez depósitos.

RESPONSABILIZAR AS REDES

Farid, do Procon-SP, defende atualização na lei para que as redes sociais sejam responsabilizadas quando há problemas:

“As redes sociais precisam fazer uma curadoria mais adequada dos perfis comerciais. O Código de Defesa do Consumidor fala em responsabilização de toda a cadeia e, na minha avaliação, elas funcionam de forma multo semelhante aos marketplaces e, como eles, devem ser responsabilizadas.

Leila Toledo, professora da Escola de Negócios da PUC­ Rio e consultora do Sebrae, concorda. Ela diz que pequenos e médios negócios, com a marca em construção, são os que mais sofrem com os ataques diretos de perfis fakes, assim como a proliferação de golpes que abala todo o mercado. Leila defende que eles se organizem para cobrar da plataforma maior diligência e recomenda:

“É preciso não só monitorar, mas alertar a clientela sobre os perfis fakes. As empresas erram ao não fazer isso.

Fabio Menartowicz, gestor de Marketing do Grupo BZ, que administra perfis nas redes sociais de quase duas dezenas de negócios em Búzios, adota estratégia de monitoramento e alerta semanais:

“Esses golpes afetam a reputação e entendemos que a melhor postura é mostrar ao cliente que nos preocupamos com ele, destacando sempre os nossos canais oficiais e alertando sobre os perfisfalsos.

Procurado, o Instagram diz que manter a sua “comunidade segura éuma prioridade” e destaca ter recursos capazes de barrar a invasão de contas, além da recuperação. A plataforma recomenda que se faça uso das ferramentas de segurança e denuncie publicações e contas suspeitas.

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Antes de comprar pesquise a reputação da loja, confira se presta informações como endereço, CNPJ, canais de atendimento e verifique se há queixas e comentários nas redes.

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Desconfie de negócios cujas contas não são púbicas ou que não permitam comentários em publicações, orienta o Instagram. Também fique alerta a contas que direcionam a um site externo, fora da rede social, ou que pedem que compartilhe dados pessoais, bancários ou compartilhamentos para obter um prêmio ou ofereça uma promoção.

SOBRE O PERFIL

Confira atentamente o nome do perfil, verifique os comentários nas publicações. Especialista recomenda desconfiar de perfis com muitas publicações em curto espaço de tempo, dos que não interagem e não seguem ninguém na rede. Para informações sobre a conta, orienta o Instagram, clique em “..” no canto superior direito do perfil e depois em “Sobre esta conta” para ver a data de criação do perfil, anúncios ativos, nomes de usuário anteriores e outras contas com seguidores compartilhados. Perfis que representam grandes empresas, organizações ou figuras púbicas normalmente são verificados e têm o selo azul ao lado do nome.

PARA DENUNCIAR UM PERFIL

Se encontrar uma conta que está se passando por outra empresa ou está cometendo práticas abusivas, denuncie ao Instagram. Para isso, clique em “….” na parte superior direita do perfil, toque em “Denunciar”, selecione “o conteúdo é inadequado” e, depois, “Denunciar conta” opção “Está fingindo ser outra pessoa”.

A QUEM RECLAMAR

Além de denunciar o perfil ao Instagram imediatamente, o consumidor deve registrar reclamação no Procon da sua região.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAL SIM, HUMANO SEMPRE!

Se você é daqueles que acredita naquela máxima de que “problemas pessoais só da porta para fora da empresa”, este artigo é para você! Você acha mesmo que é possível separar sua vida pessoal da profissional? Eu sei que você sabe controlar suas emoções e faz de tudo para não demonstrá-las na empresa, mas o que fazer quando o fator de desequilíbrio emocional está envolvido no seu expediente? Eu sei que você é um bom profissional e não deixa a peteca cair no trabalho mesmo com suas emoções abaladas, mas quando estamos em uma situação pessoal complicada é natural que respingue um pouco na sua performance. Ninguém é de ferro.

Há muito tempo falava-se em equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O fato de equilibrar as áreas nos remete à ideia de separação. Hoje não falamos mais em equilibrar, e sim em integrar todas as áreas de sua vida. Se estamos felizes em casa, provavelmente essa boa emoção se refletirá no trabalho, e quando estamos tristes com o trabalho, sem dúvida que levamos nossas preocupações para nosso lar. Por isso que precisamos ter consciência de nossas responsabilidades para não prejudicar mais áreas de nossa vida, ou seja, para o problema não se tornar maior do que deveria.

Tais situações acontecem com quase todo mundo, porém esses problemas pessoais ainda não são aceitos na empresa, nem podemos dizer tais coisas no trabalho, pois “não pega bem” compartilhá-las. Vou citar alguns exemplos reais que já vivenciei no decorrer da minha trajetória profissional:

O diretor da empresa está vivendo uma crise no casamento. Casado há mais de 15 anos, foi traído por sua esposa e não sabe lidar com isso, afinal não é para todo mundo que se comenta esse tipo de situação delicada. Como fazer nesse caso? Você acredita que daria para ele comentar sobre esse problema na empresa? Provável que não! Pessoas não entenderiam a gravidade e o tamanho da sua dor. Você acha que esse diretor está em condições de tomar decisões acertadas no trabalho? Situação mega complicada.

O marido da diretora de compras foi diagnosticado com câncer, teve que ser internado às pressas e está iniciando tratamento intensivo que durará alguns meses. Ela está abalada e assustada com a situação. Você acredita que essa diretora está 100% focada no trabalho? Até que ponto sua equipe entenderia quando a visse com olhos inchados de chorar saindo “escondida” da sala de reunião?

O cachorro do supervisor de vendas morreu. Era como um filho para ele. Está no final do mês, metas precisam ser batidas e ele simplesmente não pode faltar no trabalho por esse motivo de compromisso com sua equipe! Como fazer? Você já se deu conta de que se seu animal de estimação morrer você tem que trabalhar?

Está na hora de sermos mais humanos no trabalho. E aí? Como fazer para manter bom desempenho nesses momentos de coração partido? Nossa atrasada CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) não prevê licença para esse tipo de dor. E, confie em mim, penso que deveria!

Quando estamos passando por um grande problema, acredito que o mais difícil é aceitar que o mundo não pausa para que você se conserte. O dia seguinte amanhece, a rotina das pessoas não muda, tudo segue seu curso. E, infelizmente, não podemos apertar o botão de pause para nos ajustarmos.

O objetivo deste artigo é torná-lo ciente de que tem a força e a resiliência para superar essa dor com o tempo.

Que você reconheça sua fragilidade humana e utilize tudo o que acontece com vocêpara aprender, crescer e avançar na vida. Para poder manter as emoções em ordem e administrá-las, é preciso ter consciência sobre si mesmo, ou seja, e necessário que você saiba o que coloca e tira vocêdos trilhos do equilíbrio emocional.

Ao descobrir os limites do seu temperamento emocional, tenha sempre um plano de emergência em caso de situações extremas. Exemplo: Se por acaso uma conversa qualquer no trabalho for para um rumo que é capaz de tirar você do sério, que toca numa área sensível da dor de sua emoção, crie uma estratégia para refrescar a cabeça, como pedir licença e sair da sala para tomar água. Se o problema pessoal for sério, notifique seu chefe imediato ou o departamento de recursos humanos, mas não é necessário entrar em detalhes. Se conseguir e puder, tire alguns dias de folga (aproximadamente uns três dias}, isso lhe dará fôlego para poder continuar com suas responsabilidades no trabalho.

Se vocêé líder ou colega de alguém que esteja com o coração partido no trabalho, busque ter empatia e pare de julgar, o próximo poderá ser você, e só entende as dificuldades de dores emocionais quem já passou por situação semelhante.

DANIELA DO LAGO – É especialista em comportamento no trabalho, mestra em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas// www.danieladolago.com.br

EU ACHO …

DE ONDE VEM A NOSSA DOR

A dor nas costas vem das costas, a dor de estômago vem do estômago, a dor de cabeça vem da cabeça. E sua dor existencial, vem de onde?’

Ela vem da história que você meio que viveu, meio que criou – é sabido que contamos para nós mesmos uma narrativa que nem sempre bate com os fatos. Nossa memória da infância está repleta de fantasias e leituras distorcidas da realidade. Mesmo assim, é a história que decidimos oficializar e passar adiante, e dela resultam muitas de nossas fraturas emocionais.

Nossa dor existencial vem também do quanto levamos a sério o que dizem os outros, o que fazem os outros e o que pensam os outros – uma insanidade, pois quem é que realmente sabe o que pensam os outros? Pensamos no lugar deles e sofremos por esse pensamento imaginado. Nossa dor existencial vem dessa transferência descabida.

Nossa dor existencial, além disso, vem de modelos projetados como ideais, a saber: é melhor ser vegetariano do que comer carne, fazer faculdade de medicina do que hotelaria, namorar do que ficar sozinho, ter filhos do que não ter, e isso tudo vai gerando uma briga in­ terna entre quem você é e quem gostariam que você fosse, a ponto de confundi-lo: existe mesmo uma lógica nas escolhas?

Como se não bastasse, nossa dor existencial vem do que não é escolha, mas destino: quem é muito baixinho, ou é pobre de amargar, ou tem dificuldade de perder peso vai transformar isso em uma pergunta irrespondível – por que eu? – e a falta de resposta será uma cruz a ser carregada.

Nossa dor existencial vem da quantidade de nãos que recebemos, esquecidos de que o “não” é apenas isso, uma proposta negada, um beijo recusado, um adiamento dos nossos sonhos, uma conscientização das coisas como elas são, sem a obrigatoriedade de virarem traumas ou convites à desistência.

Nossa dor existencial vem do bebê bem tratado que fomos, nada nos faltava, éramos amamentados, tínhamos as fraldas trocadas, ninavam nosso sono, até que um dia crescemos e o mundo nos comunicou: agora se vire, meu bem. Injustiça fazer isso com uma criança – alguém aí por acaso deixou totalmente de ser criança?

Nossa dor existencial vem da incompreensão dos absurdos, da nossa revolta pelos menos favorecidos, da inveja pelos mais favorecidos, da raiva por não atenderem nossos chamados, por cada amanhecer cheio de promessas, pela precariedade das nossas melhores intenções e pela  invisibilidade que nos outorgamos: por que nunca ninguém nos enxerga como realmente somos?

Dor de dente vem do dente, dor no joelho vem do joelho, dor nas juntas vem das juntas. Nossa dor existencial vem da existência, que nenhum plano de saúde cobre, de tão difícil que é encontrar seu foco e sua cura.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SER OU NÃO SER MÃE

Escolher o caminho da maternidade nem sempre é algo natural. Veja como decidir

Ter ou não ter filhos? Se para uns a resposta para essa pergunta pode vir de forma clara e imediata, para outros, ela pode representar uma questão complexa. Escolher ter um filho é uma grande decisão – talvez uma das mais importantes da vida -, mas nem sempre é fácil tomá-la.

“Quando eu penso no futuro, me imagino com mais pessoas na minha família, provavelmente, filho(s), mas estou em um momento da vida tão gostoso, que gostaria de prolongá-lo”, diz a empresária Ana Emília. Greca Schmidt, de 36 anos, casada há 7 anos, ela conta que desde então a cobrança para ter filhos vem sendo cada vez maior. Entre as frases que mais escuta estão: “Quem vai cuidar de você quando ficar velha?”, “É um amor tão grande que você precisa conhecer”, “Nossa, como você é egoísta”, “Tem certeza de que não irá se arrepender?”, “Ah, mas você leva tanto jeito com criança…”, “Tá na hora de congelar seus óvulos, você já não é mais menina e a probabilidade de o bebê nascer com a síndrome x, y, z é maior”.

A mãe da empresária engravidou com 36 anos, o que era considerado tarde para os padrões da época, e isso sempre a tranquilizou. Mas agora que chegou à mesma idade, as dúvidas se intensificaram. “Vejo a convivência que minha mãe e meus sogros têm comigo e com meu marido e adoraria ter essa relação um dia. Ao mesmo tempo, convivo com diversas mães que reclamam sobre como suas rotinas mudaram, o quanto gostariam de voltar a ter a vida de antes e fico com muito medo de ter filhos e me sentir como elas. Aí penso, será que vale a pena?” Além disso, seu maior receio em ser mãe é deixar de ser ela mesma, de passar a ser a pessoa que só vive para o outro, que deixa de ser feliz para se doar.

“Sei que relações saudáveis envolvem doação dos dois lados, mas esse é um ponto que me incomoda”, relata.

A história de Ana Emília é apenas uma amostra das preocupações que afligem muitas mulheres que convivem com a dúvida sobre ter ou não filhos. A terapeuta Ann Davidman é especializada em auxiliar pessoas que estão nesse processo. Em seu livro Motherhood – Is lt For Me? (Maternidade – Isso É para mim?, em tradução livre), revela que muitos de seus clientes dizem se sentir como os únicos que não conseguem tomar uma decisão. “Eu os aviso imediatamente: vocês não estão sozinhos. Nossa sociedade permite pouco espaço para ambivalência em torno da questão.”

Ela avalia que isso acontece porque vivemos em um mundo pró-natalista, no qual a mensagem tácita é que todos deveriam querer ter filhos. “Embora o crescente número de mulheres que estão optando por não ter filhos rejeite essa noção, as vozes mais altas desse grupo tendem a articular uma decisão segura de não ter crianças. No entanto, para muitas pessoas é difícil saber o que elas realmente querem. E, às vezes pode parecer que todos os outros chegaram a uma resposta com facilidade. Muitos supõem que chegará um momento para cada um de nós quando “simplesmente saberemos”. Mesmo que seja o caso de algum é um mito pensar que é assim para todos”, enfatiza.

TRANSFORMAÇÃO

A indecisão também fez parte da vida de Mariana Dufloth, de 33 anos, terapeuta educacional e mãe da Helena, de 3 anos. “Por muito tempo eu acreditava que filhos eram sinônimo de desgaste, algoque apenas dava gasto e dor de cabeça, não conseguia ver que também tem um lado extremamente enriquecedor. A mudança veio com o amadurecimento. Além disso, ser pai era um desejo inegociável do meu marido, manifestado desde que nos conhecemos. Logo, se eu escolhesse me casar com ele, sabia que precisaria abrir essa porta.”

Mariana conta que a gravidez não foi algo pensado, “simplesmente permiti que acontecesse e fui vivendo, me entregando às etapas”, recorda. Hoje em dia, ela avalia que não tinha a menor ideia da transformação que um filho traria. “A maternidade é um portal, a gente nunca mais volta. Nem para o corpo, nem para a cabeça, nem para o estilo de vida, nada. É uma mudança definitiva, o que não significa que é ruim”, explica.

Segundo ela, a maternidade é uma transformação. “É uma outra vida, completamente diferente, você se transforma de maneiras que nunca cogitou, vê o mundo com outras lentes. Pode ser desesperador e maravilhoso”, admite Mariana.

Mas como saber se quero ter filhos? “Não há planilhas de prós e contras que vá dar conta de sustentar uma decisão como essa. Apenas o exame cuidadoso do desejo”, avalia Fernanda Lopes, psicanalista com formação em Psicanálise da Parentalidade e da Perinatalidade pelo Instituto Gerar. Para quem está em dúvida, ela sugere que se dê a oportunidade de refletir mais, lembrando que cada escolha traz uma renúncia, sempre com perdas e ganhos.

PRESSÕES

A premência do tempo pode deixar tudo mais dramático, uma vez que a fertilidade feminina começa a cair aos 35 anos, embora os avanços na ciência e a possibilidade de adoção reduza um pouco a angústia da dúvida. Já a pressão social pela procriação faz parte de uma herança patriarcal que restringe a mulher à função maternal. Da mulher é esperada a maternidade. E se ela não acontecer por limitações físicas, há compreensão, mas se ela não acontecer porque não há desejo, tem e sobra muito julgamento”, esclarece a educadora parental Lia Vasconcelos. Ou seja, para além de ter de lidar com sua própria dúvida, a mulher ainda se vê com medo do julgamento alheio.

Então, o quanto querer ser mãe é um desejo genuíno e o quanto é um cumprimento de uma expectativa? Para a especialista, a única maneira de descobrir é olhando para dentro e tentando entender o que éseu e o que é imposição da sociedade. “É um processo difícil e doloroso. As coisas se misturam e é complexo fazer uma dissociação de até onde vai meu desejo e o espaço que a pressão social ocupa dentro da gente”, observa.

Lua Barros, educadora parental, fundadora da Rede Amparo e especialista em inteligência emocional, ensina que nossos desejos são construções sociais. “Desejamos coisas a partir do nosso contexto, do que vemos, ouvimos, sentimos. É tolo pensar que ‘ser mãe’ escapa disso. O que precisamos entender éque ser mãe muda a maneira como a sociedade percebe e julga a mulher, então, essa decisão ganha contornos políticos sobreos quais não pensamos antes de termos filhos. Ou até pensamos, mas não dimensionamos”, afirma

Entre os muitos fatores que devem ser levados em consideração na hora de decidir, ela indica que vale pensar sobre rede de apoio e quem são as pessoas que podem cuidar da mãe, e não da criança, no primeiro momento da chegada. Outro ponto importante é dialogar com o parceiro ou parceira sobre o que cada um pensa a respeito da responsabilidade de ter filhos.

COMO SE PREPARAR

“Para a maternidade, prepara-se vivendo-a. Não há outra maneira”, enfatiza Lia Vasconcelos. A educadora não acredita que seja possível “se preparar” para a maternidade porque ela é “um portal”. “Cada mãe/família encontrará uma realidade diferente depois dessa travessia”, revela.

Mas é preciso ter em mente a necessidade de estar aberta ao novo, ao descontrole e à transformação, já que as vidas pré e pós-maternidade não são as mesmas. “Tem muita mulher que muda de carreira depois que vira mãe, por exemplo, e isso diz muito sobre como a maternidade mexe com as estruturas mais internas que temos. O que sai dessa vivência é próprio de cada processo”, assegura

Segundo ela, saber como será a gestação, o parto e a amamentação é a parte mais tranquila, já há muita informação e cursos disponíveis. “O desafio está em entender que a maternidade trará enorme desconforto porque é como um terremoto interno. E acho que as pessoas não têm a dimensão desse chacoalhão quando resolvem ter filhos. E esse processo não é bom nem ruim necessariamente, só é diferente para cada um”, destaca.

Lua Barros avalia que as mulheres contemporâneas sofrem justamente por essa premissa: é preciso estar pronta “Mas ser mãe é um constante processo de recomeço e isso é muito potente”, declara. Ainda assim, ela acha válido ler sobre feminismo, ancestralidade, entender porque o parto se tornou um evento tão medicalizado.

“Vale se conhecer com mais profundidade. Vale reafirmar e cuidar das amizades e das relações com a família de origem, se for possível, porque o retorno para esse ninho de onde viemos é quase inevitável. E, principalmente, vale entender como foi a nossa própria infância, porque é aí que estão os maiores gargalos quando nos tornamos pais e mães”, atesta.

Na opinião de Mariana Dufloth, é muito importante estudar sobre desenvolvimento humano, disciplina positiva, funcionamento do cérebro…”Até para fazer um bolo caseiro a gente procura receita, vê vídeo no YouTube, se prepara e acha que educar outra pessoa vai ser instintivo e natural. Não é”, adverte. “informação é valiosa demais na hora de tomar decisões, lidar com comportamentos difíceis, responder a cada pergunta. Foi procurando essas respostas que encontrei um caminho leve e que funciona de verdade.”

COMO CHEGAR A UMA CONCLUSÃO

Especialista em Terapia de Família pela UFRJ, a psicóloga Daniele Lopes sugere reflexões para ajudar na tomada de decisão.

FAÇA UM “ESTÁGIO”

Cuide de um bebê por algumas horas em diferentes momentos. Após viver a experiência e observar a dinâmica da família com a criança, refaça essa pergunta a si mesmo -imaginando que o estágio que você vivenciou por um curto período durará anos em sua vida.

OBJETIVOS

Antes de ter filhos, faça uma lista de tudo que deseja fazer sem eles, desde uma obra em casa até um mochilão pelo mundo. Visto que, após tê-los, alguns projetos terão de ser adiados.

USE O TEMPO A SEU FAVOR

Se tem dúvidas, espere até os 30 anos. “O tempo lhe trará maturidade para criar e lidar com a situação de uma forma melhor do que alguém muito jovem”.

FILHO NÃO SALVA RELAÇÃO

A chegada de um filho impacta na liberdade do casal. Não caia nessa armadilha.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SABER O SEXO DO BEBÊ ANTES DE NASCER PODE AJUDAR A CRIANÇA

Estudo mostra que feto masculino tem maior probabilidade de complicações

Uma pergunta que os pais ouvem muito: “menino ou menina? Alguns querem saber o sexo do bebe o mais rápido possível, enquanto outros preferem esperar até o nascimento.  Mas essa tradição de aguardar até o último momento pode estar com os dias contados. Novos estudos indicam que descobrir o sexo no início da gestação pode aumentar a chance de vida.

Não é novidade que algumas doenças, como problemas cardiovasculares e diabetes tipo 2 são mais comuns em homens, enquanto outros, são mais prevalentes em mulheres. O que os pesquisadores descobriram agora é que esses fatores de risco associados ao sexo podem começar ainda na barriga da mãe?.

Um estudo feito com animais publicado na revista Journal of Biology of Reproduction, indicou que quando o feto é do sexo masculino, há maior risco de complicações com risco de vida, como restrição de crescimento fetal e pré-eclâmpsia

“Não sabemos 100% por que isso acontece, mas pode estar relacionado ao fato de os bebês do sexo masculino crescerem mais rápido dentro do útero. Portanto, pode ser que suas demandas de nutrientes e oxigênio fornecidos pela mãe através da placenta possam facilmente se tornar limitadas, de modo que o bebê do sexo masculino pode não estar recebendo tudo o que realmente deseja e precisa para crescer até sua capacidade total Pode ser que sua resiliência contra estresses ou más condições na gravidez seja menor do que, digamos, para as fêmeas que têm menos exigências”, disse Amanda Sferruzzi-Perri, uma das autoras do artigo.

EVIDÊNCIAS ADICIONAIS

Um segundo estudo feito pelo mesmo grupo de pesquisadores, também com ratos apresentou o mesmo fator de risco masculino, juntamente com a obesidade materna induzida pela dieta como razão para mudanças na estrutura da placenta que podem afetar o crescimento dos bebês. O novo trabalho foi publicado na revista Acta Physiologica no início deste ano.

Segundo os pesquisadores, o trabalho fornece evidências adicionais do que deve ser avaliado na mãe durante a gravidez para evitar complicações.

“Agora estamos construindo cada vez mais evidências do que avaliar na mãe durante a gravidez, como seu índice de massa corporal inicial, seu crescimento, seu peso gestacional, mas também considerando o sexo fetal – afirmou Sferruzzi-Perri.

Muitas pesquisas precisam ser realizadas para incluir o sexo do bebê como um fator de risco para problemas placentários, mas esse trabalho pode ter a base para projetar terapias específicas para insuficiência placentária e possíveis anormalidades de crescimento fetal, de acordo com o sexo do feto, além de orientar outras intervenções ou terapias de estilo de vida para escolhas de dieta materna.

“Pode ser que uma mulher que tenha um bebê do sexo masculino precise adotar condições de estilo de vida diferentes das de uma mulher que está carregando um bebê do sexo feminino”, sugeriu a pesquisadora.

OUTROS OLHARES

AO PÉ DO OUVIDO

Podcasts eróticos produzidos por e para mulheres fazem sucesso nas plataformas de streaming

“A mulher não tem apenas um, mas pelo menos dois pontos Gs: um em cada ouvido”, costuma dizer a escritora chilena Isabel Allende sobre a capacidade feminina de se excitar com o que escuta. Isso explica o crescente sucesso de podcasts eróticos entre o público feminino e o impulso nas métricas de audiência de conteúdos de áudio como alternativa à pornografia tradicional. ” Narrativas e plataformas eróticas estão mudando, porque a pornografia tradicional funciona sob uma ótica machista, que objetificava a mulher.

Hoje, vemos muitas delas na direção de filmes pornográficos e outros formatos, apresentando-os de maneira muito mais sutil, sensual e excitante”, analisa a psicanalista Regina Navarro Lins; “Vivemos num momento de transição, a busca da individualidade caracteriza a nossa época, e vemos que há desejo de abrir as relações como um dos resultados. Além disso, as mulheres estão perdendo a vergonha de falar sobre sexo.

Vergonha essa que nunca alcançou Abhiyana Fernandes, de 46 anos. Pelo contrário. Falar abertamente sobre seus desejos, para a escritora, sempre foi “uma delícia”. Suas experiências sexuais viraram páginas de dois Livros eróticos, que ganharam projeção em áudio com a criação do podcast “Textos putos”, em 2020. Com uma média de 25 mil downloads por mês desde o lançamento, ela agora se prepara para soltar os episódios da terceira temporada, que fez sua estreia nas plataformas de streaming na última quinta-feira com a promessa de levar aos ouvintes histórias ainda mais quentes. “Uso o sexo para chamar atenção dos danos e abusos causados pelo patriarcado, além de desconstruir e desmistificar nossa sexualidade. Muitas mulheres se identificam, porque procuro ser uma pessoa real, não quero que elas me vejam como a que trepa todo dia: muitas coisas dão errado, tenho minhas questões, e deixo isso claro”, comenta. Ela também revela se excitar frequentemente durante as gravações: “É meu termômetro. A vontade que eu tenho é de sair e me masturbar, mas preservo essa energia para o podcast”.

Ouvinte assídua em momentos de masturbação, a tatuadora Júlia Montanarini, de 36 anos, descobriu os conteúdos eróticos em áudio por uma amiga ao desabafar sobre suas angústias diante dos filmes pornôs. “A impressão que me dá é que a mulher está sendo violada naquela situação. Não vejo isso no podcast. Tem poesia, humor, sensibilidade e, ao mesmo tempo, sacanagem. Cativa a nossa atenção e o nosso tesão”, diz.

Foi a promessa de uma “sexualidade mais vibrante” e com propósito que a Pantynova, marca de sex shop on-line, lançou mão, em 2018, de seu próprio podcast erótico, que já acumula mais de 733 mil starts (indicativo de quantas pessoas deram play)e 162 mil ouvintes. “Faltava muito conteúdo educacional na internet naquela época, e queríamos criar um ambiente que fosse confortável para os nossos clientes e para o público geral. Nunca focamos em aspectos físicos, porque isso é limitante, e a ideia é justamente deixar que o ouvinte erotize à sua maneira”, comenta Heloísa Etelvina, uma das fundadoras da empresa.

A narração sensual fica a cargo de Beth, persona criada pela marca e interpretada por Raphaela Luma: “Sempre tive um complexo com a minha voz por eu ser uma mulher trans, mas comecei a receber muito carinho e reconhecimento nas redes sociais pelo meu trabalho. É um verdadeiro prazer apresentar esse projeto”, conta ela.

Casada há 8 anos, a doula Paulina Riquelme, de 40, costumava assistir a filmes pornôs com o marido para esquentar o clima antes da transa. Após descobrir o erotismo em áudio da Pantynova, não quis mais saber de outra coisa. “A minha referência de pornografia era a pior possível, justamente por ser uma visão muito voltada ao prazer masculino.

E confesso que minha mente estava viciada nesse tipo de padrão”, afirma ela, que dispensa a presença do parceiro a cada play. “Sinto que os contos eróticos não me desrespeitam, são voltados para o meu prazer. É um momento que tiro para ficar comigo mesma, usar meus brinquedinhos. “

Já o “Textos putos” embalou o início do relacionamento da psiquiatra Clarice Paulon, de 35 anos, com o atual namorado.

O casal, que hoje mora junto, reunia-se para escutar o podcast a fim de apimentar a relação. “Ainda ouvimos, às vezes, para iniciar o sexo, mas também coloco para tocar independentemente da presença dele, em qualquer hora do dia, até mesmo quando estou cozinhando. Acho interessante a forma como ela pensa e narra a história, não só deixa o clima mais sexy, como também mostra o quão excitante é uma mulher excitada”.

E que fala por si.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAIS DE MARKETING E DE PUBLICIDADE GANHAM ESPAÇO EM CONSELHOS

Estratégia de grandes empresas busca maior pluralidade de conhecimento e um olhar para a experiência do usuário

Em meio às discussões sobrea diversidade nos conselhos de administração de empresas, um tema que começa a aparecer com mais força é a pluralidade de conhecimento. Assim como questões de gênero e raça, as companhias começam a valorizar cada vez mais a pluralidade de experiências para além do conhecimento de mercado financeiro.

Dentro dessa tendência, companhias como Grupo Boticário, Westwing, Petz e Lupo começam a abrir espaço para profissionais que têm o marketing e a publicidade como seu principal ramo de atuação na hora de definir estratégias.

Foi mais uma mudança trazida ao mundo corporativo pela pandemia de covid-19. Diretora de desenvolvimento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Adriane Almeida acredita que a presença de profissionais de comunicação e marketing nos colegiados se intensificou após o início da pandemia.

“Olhar para a experiência do usuário está cada vezmais relevante. Com isso, os conselheiros da área da comunicação têm um valor especial, pois entendem o que as pessoas querem”, afirma Adriane, lembrando que o perfil dos conselheiros varia de tempos em tempos, conforme a necessidade dos negócios.

Vinda da publicidade e com passagem pela agência VMLY& R, Renata Canto Porto foi convidada há pouco mais de um ano a integrar o conselho de administração da Westwing.  Única mulher no grupo, éa segunda pessoa com formação em comunicação. “Trazemos um olhar complementar com essa diversidade de pensamento, que enriquece as discussões”, afirma.

NOVAS VOZES

Para o pesquisador em governança empresarial da FGV, Marco Tulio Zanini, a busca por novas vozes é uma forma de olhar para as questões da empresa além das finanças. “Aumentar a diversidade dos conselhos consultivos é reduzir o risco das operações na organização”, diz.

O especialista alerta que grupos estritamente financeiros podem não privilegiar decisões ligadas à imagem, como as ações ESG – sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança.

Ex-vice-presidente de marketing da Ambev e fundador da Adventures. Inc, Ricardo Dias foi convidado para o conselho da varejista Petz, substituindo um nome ligado às finanças. “É um movimento que acontece no mundo todo. As empresas estão percebendo que a construção de marca é um grande ativo e que é necessário ter alguém no board com essa preocupação”, diz.

De olho em formas de inovação para o seu negócio, a gigante centenária do ramo de confecções Lupo é um dos nomes já consolidados que viram na diversidade uma forma de melhorar sua governança.

Após trabalhar com o publicitário Hugo Rodrigues, da WMcCaim, a presidente da Lupo, Liliana Aufiero, decidiu convidá-lo para o conselho. “Trago minha inquietação como publicitário para pensar junto com os outros conselheiros”, afirma Rodrigues.

EU ACHO …

DESEJO QUE DESEJES

Eu desejo que desejes ser feliz de um modo possível e rápido, desejo que desejes uma via expressa rumo a realizações não utópicas, mas viáveis, que desejes coisas simples como um suco gelado depois de correr ou um abraço ao chegar em casa, desejo que desejes com discernimento e com alvos bem mirados.

Mas desejo também que desejes com audácia, que desejes uns sonhos descabidos e que ao sabê-los impossíveis não os leve em grande consideração, mas os mantenha acesos, livres de frustração, que desejes com fantasia e atrevimento, estando alerta para as casualidades e os milagres, para o imponderável da vida, onde os desejos secretos são atendidos.

Desejo que desejes trabalhar melhor, que desejes amar com menos amarras, que desejes parar de fumar, que desejes viajar para bem longe e desejes voltar para teu canto, desejo que desejes crescer, que desejes o choro e o silêncio, através deles somos puxados para dentro, desejo que desejes ter a coragem de se enxergar mais nitidamente.

Mas desejo também que desejes uma alegria incontida, que desejes mais amigos, e que o desejo pelo encontro seja sincero, que desejes escutar as histórias dos outros, que desejes acreditar nelas e desacreditar também, faz parte este ir e vir de certezas e incertezas, que desejes não ter tantos desejos concretos, que o desejo maior seja a convivência pacífica com outros que desejam outras coisas.

Desejo que desejes alguma mudança, uma mudança que seja necessária e que ela não te pese na alma, mudanças são temidas, mas não há outro combustível para essa travessia. Desejo que desejes um ano inteiro de muitos meses bem fechados, que nada fique por fazer, e desejo, principalmente, que desejes desejar, que te permitas desejar, pois o desejo é vigoroso e gratuito, o desejo é inocente, não reprima teus pedidos ocultos, desejo que desejes vitórias, romances, diagnósticos favoráveis, aplausos, mais dinheiro e sentimentos vários, mas desejo antes de tudo que desejes, simplesmente.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SEUS PÉS ESTÃO MAIS DOLORIDOS ULTIMAMENTE? VEJA AS POSSÍVEIS CAUSAS

Passar muito tempo sem sapatos durante a pandemia e retomar o uso de calçados ou voltar às atividades prévias rapidamente estão entre os motivos que levam a lesões e inflamações

Em março de 2020, a vendedora Krista Fahs, de 53 anos, começou a trabalhar em casa e deixou de lado seus tênis habituais. Ela se viu lavando roupa, brincando com seu gato e até visitando os vizinhos sem calçar sapatos. “Eu estava descalça o tempo todo”, informa. Alguns meses depois, ela começou a sentir uma pontada de dor no calcanhar, mas a desconsiderou até o mês passado, quando a dor ficou intensa. Mesmo deitada, o latejar não parava.

O início da pandemia coincidiu com um declínio nos traumas nos pés, conta o dr. Robert K. Lee, chefe de cirurgia podológica de pé e tornozelo do Ucla Santa Monica Medical Center, mas seu consultório rapidamente se encheu com pacientes como Fahs, com queixas de dor nos pés. “Eu pensei, ‘Ah, então esse é o efeito da pandemia nos pés em todo o país”, afirma.

Não há dados concretos, mas o dr. James Christina, diretor executivo da American Podiatric Medical Association, diz que essa tem sido uma tendência clara para muitos de seus 12 mil membros, como o dr. Rock Positano, codiretor do Non-surgical Foot and Ankle Service do Hospital for Special Surgery em Nova York, que viu as dores nos pés aumentarem tanto (20% a 30%) que chamou o fenômeno de “pé pandêmico.”

Agora que as exigências em relação à covid ficaram mais leves e as pessoas estão ansiosas para recuperar seus corpos e hobbies pré-pandemia, todos estão indo para a rua, lembra o dr. James Hanna, quiropodista e presidente da Podiatric Medical Association do Estado de Nova York. Muitos estão agravando lesões existentes ou criando novas. “As pessoas pensavam que poderiam voltar de onde pararam ou tentar algo que não tentavam há anos, mas seus pés não estão preparados.” Algumas medidas simples garantem alívio e evitam dores nos pés.

USO EXCESSIVO

Algumas das doenças mais comuns ocorrem porque eles estavam sob maior tensão na pandemia. Talvez você tenha optado por caminhar longas distâncias em vez de usar o transporte público ou ficar descalço em casa.

Fahs foi diagnosticada com uma dessas lesões por uso excessivo, a fascite plantar, na qual o ligamento sob o pé que sustenta o arco fica inflamado provocando dor no calcanhar. “Eu sabia o que era porque meus irmãos e um dos meus melhores amigos também tiveram isso recentemente.” A metatarsalgia é outra lesão por uso excessivo, causada por inflamação nas articulações dos dedos dos pés, trazendo dor para a parte de apoio da frente dos pés.

Para aqueles que começaram rotinas de corrida logo após a pandemia, a tendinite de Aquiles tem sido um diagnóstico comum. O tendão conecta o músculo da panturrilha ao osso do calcanhar e, com um aumento repentino de uso pode ficar irritado e inchar. Se não forem tratadas, essas lesões podem causar dores no joelho, quadril e costas.

PÉS FRÁGEIS

As lesões por uso excessivo não são as únicas razões pelas quais as pessoas têm sentido dor nos pés. A dra. Priya Parthasarathy, cirurgiã quiropodista de Maryland, também viu um aumento nas fraturas dos dedos e do pé. Algumas são causadas por chutar móveis acidentalmente – resultado de estar em casa e descalço com mais frequência – ou tropeçar e cair em animais de estimação. “Você vê uma, depois duas, depois três e depois quatro e pensa: ‘Espere, há uma conexão aqui’.”

DEDOS DOS PÉS AFASTADOS

Enquanto isso, a dra. Judith F. Baumhauer, cirurgiã ortopédica do Centro Médico da Universidade de Rochester, vem removendo mais joanetes, saliências ósseas na base do dedão do pé. Sem sapatos com sustentação, o pé pode abrir­ se – alargar-se – e as estruturas anatômicas podem mudar. “As pessoas deixaram seus pés fazer o que quisessem e agora que precisam voltar ao trabalho, eles estão se rebelando”, avisa.

MAIS PESO NO PÉ

Para Baumhauer, o ganho de peso pandêmico também pode sero culpado pelo aumento do desconforto nos pés. Segundo ela, mesmo alguns quilos a mais causam impacto. Perder ou ganhar 2 quilos seria uma mudança de “8 quilos no tornozelo e no pé”, explica.

MUITA COISA E MUITO RÁPIDO

Jacqueline M. Dylla, professora associada de fisioterapia clínica da Universidade do Sul da Califórnia, garante que um dos maiores gatilhos são as pessoas fazendo muita coisa rápido demais. Muitos de nós sofreram atrofia e perda de densidade óssea por inatividade sem perceber, dificultando a estabilização em superfícies irregulares. “Lesões menores estão causando problemas mais catastróficos.” Mesmo crianças, depois de um ano ou dois fazendo aulas virtuais, estão enfrentando problemas ao praticarem esportes.

COMO AJUDAR SEUS PÉS

Os quiropodistas dizem que uma das soluções pode ser simples: calçados com bom suporte. Isso significa uma sola semirrígida, biqueira espaçosa e pequena elevação do calcanhar. Se usar sapatos mais velhos, certifique-se de que a sola não esteja muito gasta e não ofereça mais suporte substancial. Palmilhas também podem ser usadas para suporte adicional do arco.

Dylla observou que também é essencial preparar nossos corpos para uma atividade renovada, fortalecendo-os primeiro. Isso significa exercitar os pés movendo os dedos e alongando-os. ”Há um mastigar para preparar o estômago”, diz Dylla. “O pé também precisa estar preparado.” Hanna aconselha a começar devagar. “Se vai começar a andar, pratique um ritmo moderado a curta distância. Se tolerar bem, tente um ritmo mais rápido para distâncias maiores.”

Se estiver sentindo alguma dor persistente no pé, marque uma consulta com um quiropodista. Há muitas maneiras simples de os médicos aliviarem a dor e evitarem o desenvolvimento de problemas crônicos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BRINCAR FAZ BEM PARA O CÉREBRO

Ciência atesta o impacto de objetos lúdicos contra ansiedade

Brincar é coisa séria. Novos estudos comprovam que a prática alivia a ansiedade e ativa a memória em crianças e adultos. Conduzida pelo The National Institute for Play, organização americana sem fins lucrativos, uma pesquisa foi além e detalhou o papel de brinquedos específicos na saúde cerebral. Lidar com objetos tridimensionais, como o cubo mágico, por exemplo, age no lobo frontal, a área executiva do cérebro. Osmais lúdicos, como bonecas atuam no sistema límbico das emoções. Abraçar um ursinho de pelúcia, por sua vez, libera uma série de neurotransmissores, como a endorfina, que acalmam e relaxam.

A relação estreita dos brinquedos com o cérebro foi deflagada por um dos maiores sucessos mundiais durante a pandemia, os fidget toys. Inicialmente criados para motivar o desenvolvimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autismo, são brinquedos sensoriais que estimulam o bem-estar, a concentração e reduzem o estresse do usuário.

Apertar uma bolinha que se expande, usar os dedos para “estourar” uma bolha e ouvir o barulho que isso faz e ter uma pelúcia fofinha para abraçar sempre que sentir necessidade, são alguma das atividades que geram uma sensação de conforto e tranquilidade para pessoas ansiosas. Manter as mãos ocupadas executando uma tarefa repetitiva ajudam também a focar no presente e se desligar dos motivos que geram a ansiedade, afirmam os especialistas.

“Na verdade, qualquer atividade que envolva um trabalho manual faz com que a criança coloque o foco na brincadeira, minimizando os efeitos da ansiedade no organismo, pois ela transfere a tensão para o que está fazendo”, explica Ana Márcia Guimaraes, membro do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria(SBP).

O impacto é observado tanto em adultos quanto em crianças. Mas no organismo em formação dos pequenos ele é mais intenso, sobretudo no tratamento da ansiedade.

Os sintomas da ansiedade em crianças se dividem em dois grupos, de acordo com a medicina. O primeiro são os chamados sinais internalizastes. Ou seja, pensamentos ruminantes que ocupam as mentes das crianças o tempo todo, fazendo com que elas se preocupem em excesso com aquela questão. Há ainda os do tipo externante, que se traduzem em agitações motoras e verbais: se mexer ou falar sem parar, roer unhas, balançar pernas, suar frio nas mãos, sentir o coração batendo mais rápido, ter dificuldade para dormir, entre outras sensações.

Assim como adultos, crianças podem ficar ansiosas quando estão na expectativa de algum acontecimento muito esperado – como o retorno às aulas ou a tão desejada festa de aniversário – ou quando se deparam com algo que gere uma insegurança sobre o futuro -como a separação dos pais ou a ida ao médico. Apresentar os sintomas da ansiedade nesses contextos, e por um período compatível com a situação é normal. Diante desses cenários, os brinquedos podem ajudar a aliviar a tensão que a expectativa gera. No entanto, dar sinais por mais de seis meses pode significar um transtorno de ansiedade.

Segundo Rochele Paz Fonseca, professora de Psicologia da PUC do Rio Grande do Sul e presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, a ansiedade pode ter fatores genéticos e ambientais.

Há fatores estressores que aumentam a chance da ansiedade se manifestar em crianças, como pais ansiosos, cobranças sociais e escolares além do que conseguem corresponder, e autoestima reduzida”, detalha.

Recentemente, a Força Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA, apoiada pelo governo americano, recomendou que as crianças a partir de 8 anos sejam avaliadas para ansiedade mesmo que não apresentem sintomas. O objetivo ao diagnosticar o problema precocemente é prevenir consequências negativas futuras. No Brasil, ainda não há diretriz sobre o tema. A família deve ficar atenta a mudanças de comportamento das crianças, principalmente diante de situações que podem servir de gatilho. Ao notar que há algo de diferente, é preciso agir. O ideal é sempre procurar ajuda especializada, seja de um pediatra ou de um psicólogo, para avaliar os gatilhos que levaram a criança a ficar ansiosa.

Veja os melhores brinquedos para ansiedade:

POP-IT

O brinquedo de silicone ajuda a aliviar a ansiedade por causa dos movimentos repetitivos, do toque suave à superfície emborrachada e do barulho semelhante ao estouro de bolhas. Tudo isso produz uma sensação agradável, pois ativa áreas do cérebro ligadas à gratificação, ao alívio e conforto.

SQUISHMALLOWS

As pelúcias feitas de fibra de poliéster, (tecido com uma textura macia) e com forma arredondada proporcionam uma estimulação tátil calmante e satisfatória. A superfície agradável e o design fofo são um convite para um abraço apertado. Abraçar libera uma série de neurotransmissores, como a endorfina, que acalmam e relaxam.

SPINNER

O brinquedo giratório ajuda o cérebro a “desligar” do que acontece no entorno e a focar em uma ação. Isso ajuda a esquecer das questões que geram ansiedade, por exemplo.

CUBO INFINITO

São oito cubos pequenos que podem girar em qualquer direção e ângulo, sem restrições. Ajuda a manter o foco e estimula a criatividade.

MASSINHA

Apertar uma massinha de modelar deflagra sensação de alivio. O brinquedo ainda dá a possibilidade de exercer criatividade e concentração.

SLIME

Proporciona alívio da ansiedade pela utilização do sentido tátil. Esse tipo de gel mais consistente ajuda a criança a se concentrar no presente, sendo uma distração para os problemas. Os barulhos produzidos com o apertar do brinquedo também geram boas sensações.

AREIA CINÉTICA

A capacidade da areia cinética de se juntar ou se espalhar é encantadora. Essa característica traz curiosidade e ativa áreas do cérebro responsáveis pelo mecanismo de recompensa.

ESFERA DE HOBERMAN

O abrir e fechar da bola pode auxiliar quando é preciso se concentrar na respiração, acompanhando inspiração e expiração.

LIQUID MOTION TIMER

Bolhas coloridas que giram por um minuto dentro de um cilindro com água prendem a atenção e ajudam a esquecer do que acontece ao redor. O movimento e as cores têm efeitos “hipnotizantes” e acalmam o cérebro.

OUTROS OLHARES

FELINO, NÃO RECONHECERAS 

Os gatos híbridos causam problemas no mundo dos animais de estimação e podem até ser proibidos, pela braveza que herdam dos “pais” não domesticados

O fascínio dos seres humanos pelos gatos é mais do que conhecido e remonta aos primórdios da história – felinos começaram a ser domesticados há 10.000 anos e, no Egito Antigo, eram associados a deuses e reverenciados como tal. Sempre atrás de novidades, o pujante mercado de animais de estimação dedica-se nos últimos tempos a reverter séculos de docilização dos gatos, investindo com sucesso na divulgação de raças com traços da braveza original da espécie. Com nomes chamativos – bengal, savannah, chausie, cheetoh -, esses animais são fruto do cruzamento de gatos selvagens com gatas domésticas, resultando em filhotes de pelagem incomum pelas manchas e listras, olhos grandes e, sim, capacidade de machucar incautos desprevenidos. “Eles são maravilhosos, mas são uns psicopatas”, admite Hailey Bieber, mulher do cantor Bieber, a respeito de Tuna e Sushi, dois bichanos da raça savannah pelos quais o casal pagou 35.000 dólares.

O primeiro híbrido do gênero foi o bengal, filhote de gata domesticada com o gato-leopardo originário do Sudeste Asiático, que começou a ser reproduzido para venda em meados dos anos 1970. De pelos cintilantes, manchas redondas em duas cores (as rosetas) e listras nas pernas, o bengal, um gato que gosta de água, é atualmente o “doméstico selvagem” mais popular: a hashtag#bengalcat no TikTok passa de 670 milhões de visualizações.

Dona do bengal Max, a atriz Kristen Stewart se confessa apaixonada por felinos e brinca que ainda vai se tornar “aquela senhora esquisita cercada de gatos, com toda a certeza”. No Brasil, Grazi Massafera tem dois, Sol e Brownie, que vira e mexe expõe nas redes sociais. Em segundo lugar nas preferências vem o savannah, o maior de todos, um híbrido de serval, felino selvagem de porte avantajado nativo da África, com típicas orelhas pontudas. No Instagram, o savannah Stryker acumula mais de 850.000 seguidores, a quem diverte com a atração incontrolável por frangos inteiros.

Nos gatis especializados, o preço dos híbridos varia entre 3.500 e 8.000 reais. Em um ano, o Tigrinus, em Janaúba, Minas Gerais, um dos pioneiros no país, vende cerca de oitenta filhotes. “Nossas fêmeas acasalam uma vez por ano, geralmente perto do Natal”, diz o dono, Francisco Rodrigues. Alerta: não são animais de fino trato. “Eles têm genes selvagens em seu DNA e precisam extravasar esse instinto de alguma maneira, o que demanda maior atenção por parte do dono”, explica Kellen Oliveira, presidente da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Também é comum apresentarem problemas de saúde. “O processo de hibridização é muito delicado, podendo trazer uma série de complicações neurológicas, cardiológicas e ortopédicas”, diz Kellen.

As dificuldades não se limitam aos felinos e se reproduzem em quase todas as raças híbridas. Ficou famoso o desabafo do australiano Wally Conron, criador do cão labradoodle, a célebre mistura de labrador e poodle que ele antevia como um meigo cão­ guia pouco dado a soltar pelos e, portanto, sem risco de causar alergias. Segundo ele, os excessos de cruzamentos nos canis resultaram em cães “ou doidos, ou com problemas hereditários”. ”Abri uma caixa de Pandora e liberei um monstro do tipo Frankenstein”, disse. Outro caso conhecido é o do peixe-papagaio vermelho, dotado de uma bela combinação de cores, que segue sendo vendido (custa cerca de 200 reais), apesar da boca pequena demais, que dificulta a alimentação, e das nadadeiras imperfeitas. “O benefício dos humanos não pode falar mais alto que o sofrimento dos bichinhos”, afirma Elda Coelho, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética.

Em relação aos gatos híbridos, o Reino Unido estuda inclusive proibir a reprodução das raças devido ao alto número de bichanos abandonados por donos frustrados com a braveza. A empresária Patrícia Weiss Zimmermann, dona do bengal Tião, garante, no entanto, que é tudo uma questão de paciência. “Ele demorou a ter confiança nos humanos e é, de fato, um pouco arredio com desconhecidos. Mas, assim que se adaptou a nós, virou um gato muito carinhoso”, relata. A mesma recomendação se aplica a Brenda e Nino, os felinos da veterinária Jaqueline Muniz, de São Paulo, “Eles demandam bastante atenção e precisam brincar e gastar muita energia”, ensina ela. Sem isso, é melhor o dono ir se conformando com arranhões e reclamações das visitas.

GESTÃO E CARREIRA

CULTURA ORGANIZACIONAL: CUIDE BEM DA SUA

Dentro da minha trajetória de biógrafo de grandes empresários brasileiros, tenho conhecido e estudado não só as trajetórias deles, mas também cenários políticos e econômicos que compõem suas ações, além dos comportamentos das empresas que fundaram ou presidem.

Sendo assim, aqui vale um bom tema para refletirmos: o da Cultura Organizacional! Nessas organizações, a grande maioria dos fundadores pratica e finca seus hábitos, costumes, ações, doações e formas de se relacionar com os colaboradores e de remunera-los e recompensá-los, oferece garantias de empregos, sabe como comprometer a todos em busca dos melhores desempenhos e resultados… São estratégias e formas de gestão que foram, com o tempo, ganhando a terminologia de cultura organizacional’

Igualmente com o tempo, novas terminologias vieram para substituir aquilo que já acontecia naturalmente: reter talentos, reduzir o turnover, engajamento, sentimento de dono… e por aí vai.

A cultura organizacional ou empresarial é uma terminologia que define a postura das lideranças e dos colaboradores das companhias fundamentadas na sinergia entre as atitudes, os comportamentos, a missão, os valores e as expectativas. Representa um conjugado em constante desenvolvimento das crenças e atitudes coletivas, assim como dos valores.

Em síntese, define também as ligações e relações estruturais e intangíveis, a forma como os colaboradores e clientes avaliam uma organização, a relação com os acionistas (suas relações com stakeholders), entre outros pontos.

Certamente, empresas que possuem suas culturas empresariais enraizadas e fortalecidas são mais competitivas e apresentam melhores resultados. Mas o que tenho percebido nas conversas com tanta gente do mundo empresarial, e mesmo nas empresas dos meus biografados, é a dificuldade que as gerações de colaboradores, em especial os mais antigos, têm de:

1. Entender que com a chegada das novas gerações, mesmo que grande parte da cultura seja mantida, novos componentes passarão a ser agregados e, certamente, trarão, em alguns casos, corte de certos benefícios que o fundador fazia questão que fossem mantidos e uma elevação da carga de cobrança por redução de custos e aumento de resultados. Além disso, haverá um forte e constante procedimento de investimentos tecnológicos e da implantação de processos.

2.  Aceitar que o crescimento das empresas mantém certos pilares da cultura organizacional, mas transforma ou agrega outros, pois o número de funcionários cresceu tanto que não dá mais para conhecer todos que trabalham na empresa e chamá-los pelo nome, assim como manter certas iniciativas que antes faziam parte da rotina da organização; um dos motivos plausíveis para isso são os elevados custos.

Esses são alguns dos pontos mais sentidos por quem “carrega o piano” há mais tempo. Canso de ouvir deles: “Essa não é mais a mesma empresa em que eu estou há anos”. “Trabalho em um lugar que não conheço muitos dos colegas”; “Aqui só se pensa em resultados”; “Ah se o fulano – fundador – estivesse ainda aqui” e por aí vai.

É muito difícil para as pessoas aceitarem mudanças e transformações que mexam com comodidade, segurança, produtividade, concorrência interna e outros pontos que provoquem a obrigatoriedade de transformação de posturas e conceitos.

Esse tipo de situação, muitas vezes, gera: Descontentamento e acomodação de quem está há mais tempo na empresa; agressividade excessiva de quem está há pouco tempo na empresa; e até indiferença de quem está há alguns poucos anos na companhia.

Quando se fala em competividade e resultados, geralmente, os lucros e desempenhos das metas batidas revertem em melhores ganhos para as equipes. Isso então nos mostra a dificuldade que os gestores têm ao estarem à frente de uma empresa em franco desenvolvimento e crescimento.

Não há como negar que processos, metas, profissionalismo, crescimento e resultados fazem parte da nova realidade das empresas. Mas… não se pode esquecer que quem provoca e alcança tudo isso ainda tem sangue correndo pelas veias e um coração batendo do lado esquerdo do peito.

ELIAS AWAD – É escritor, jornalista e palestrante, apresentador e fundador do programa Biografias – Trajetórias dos principais empreendedores do Brasil no canal YouTube.com. eliasawad. e-mail: palestras@eliasawad.com.br.

ESTAR BEM

POR QUE OS CARBOIDRATOS ME DÃO DOR DE CABEÇA?

Pesquisas recentes sugerem que não são os alimentos que causam a enxaqueca, e sim a enxaqueca que faz com que as pessoas tenham vontade de comer certos tipos de refeições, geralmente ricas em açúcares

Não é incomum que pessoas relatem sentir dor de cabeça depois de comer certos alimentos como os ricos em açúcar ou carboidratos. Segundo Peter Gaadsby, professor de neurologia do King’s College de Londres e da Universidade da Califórnia, esses gatilhos alimentares são frequentemente relatados por pessoas que têm enxaquecas.

“Geralmente, a pessoa que se faz essa pergunta costuma ter enxaqueca”, disse ele, complementando que os casos ocorrem especialmente quando certos alimentos parecem ser gatilhos repetidos e quando as dores de cabeça são incômodas o suficiente para que as pessoas se questionem sobre o assunto. Ao contrário das dores de cabeça mais comuns, do tipo tensional, que a maioria das pessoas sente de vez em quando, as enxaquecas – que afetam cerca de 18% das mulheres e 6% dos homens a cada ano nos EUA – são muito mais debilitantes, segundo Rashmi Halker Singh, professora associada de neurologia e especialista em dores de cabeça na Clínica Mayo. Pessoas com enxaqueca têm episódios recorrentes, muitas vezes acompanhados de sintomas como náusea ou sensibilidade à luz, que podem interferir nas atividades normais.

Em uma revisão de estudos publicada em 2018, os pesquisadores concluíram que quase 30% dos pacientes relataram que certas comidas ou hábitos alimentares desencadeavam suas dores de cabeça. Mas pesquisas recentes sugerem que provavelmente não são os alimentos que causam enxaquecas, e sim as enxaquecas que fazem com que as pessoas comam certos alimentos. E a evidência para essa explicação contraintuitiva pode estar no cérebro.

Durante o estágio inicial de uma crise de enxaqueca – chamada de fase premonitória e que pode começar algumas horas ou dias antes da fase de dor de cabeça – as pessoas podem apresentar sintomas como fadiga, nevoeiro cerebral, alterações de humor, sensibilidade à luz, rigidez muscular, bocejos e aumento da micção (o ato de expelir urina, voluntariamente ou não),” explica Goadsby.

ATIVAÇÃO DO HIPOTÁLAMO

Durante esse período, estudos de imagens cerebrais mostraram que o hipotálamo, uma região do cérebro que regula a fome é ativado, fazendo com que as pessoas desejem – e comam – certos alimentos. O que uma pessoa busca é muitas vezes rico em carboidratos e altamente palatável, embora o alimento exato varie. Alguns desejam lanches salgados, enquanto outros querem doces e chocolate”, disse Goadsby.

Assim, depois de saciar o desejo e a fase de dor de cabeça da enxaqueca começar, é natural que as pessoas se perguntem se algo que comeram contribuiu para a dor”, comenta Halker Singh.

“Às vezes as pessoas chegam e me dizem: “eu comi um pouco de chocolate e, logo depois disso, minha crise de enxaqueca começou”. Elas acreditam que o próprio chocolate desencadeou a dor de cabeça, Mas podeser que o desejo por chocolate tenha sido o início da enxaqueca.

O chocolate está entre os gatilhos alimentares mais relatados para enxaquecas, mas em uma revisão de estudos publicados na revista Nutrient, em 2020, os pesquisadores concluíram que não havia evidências suficientes para dizer que ele pode causar as dores. Neste cenário, disse Goadsby, a pessoa provavelmente teria uma dor de cabeça se comer chocolate ou não. Então, se você deseja uma guloseima durante os estágios iniciais de uma dor de cabeça, não tem problema.

Se você costuma ter desejos por comida antes das enxaquecas, é uma boa ideia anotá-los, juntamente a outros sintomas, de modo que possa se preparar para o que está por vir.

“Se as pessoas entenderem melhor seu distúrbio, elaspodem ajustara que vão fazer para evitar um acidente – explicou.

‘INSULINA DESCOMUNAL’

Margaret Slavin, professora de nutrição e estudos alimentares da Universidade George Mason, afirma que alimentos ricos em açúcar ou carboidratos refinados também podem causar um aumento do açúcar no sangue, levando a uma resposta de insulina descomunal”. A insulina ajuda a normalizar o açúcar no sangue, mas muita insulina pode ultrapassar a meta, levando a um baixo nível de açúcar no sangue. Essa condição échamada de hipoglicemia reativa, e a dor de cabeça é um dos sintomas. além de fraqueza, cansaço e tontura.

Para as pessoas que sofrem de enxaqueca, também é possível que seguir regularmente uma dieta rica em açúcar refinado e carboidratos processados possa aumentar os níveis de inflamação no corpo, e torná-las mais suscetíveis a crises”, disse Slavin. Há algumas pesquisas limitadas para apoiar essa ideia, e pode valer a pena tentar reduzir o açúcar e apostar em alimentos anti inflamatórios como frutas, legumes, nozes, feijões, grãos integrais e peixes.

Pular refeições e jejuar também são gatilhos de enxaqueca comumente relatados, então Halker Singh aconselha seus pacientes a comer refeições regular e nutritivas, além de dormir o suficiente, exercitar-se regularmente e controlar o estresse.

“Há uma explosão de novos tratamentos”, comentou.  “Se você sente que está tendo problemas significativos de dor de cabeça relacionada ao açúcar ou não, deveria considerar uma avaliação.

EU ACHO …

FIDELIDADE

As pessoas sempre traem, de alguma forma, umas às outras. Os cães são fiéis para sempre. As pessoas mentem em algum momento; cachorros jamais. O olhar humano apresenta algum julgamento; um animal de estimação é pura entrega sem crítica.

Olhei um homem em situação de rua em São Paulo. A aparência era o fruto da exposição ao mundo cruel e sujo. Ao seu lado, um cachorro, igualmente exposto à podridão urbana. Seguia, fiel, o tutor. Sem veterinário, longe de boas rações, sem brinquedos, tosas, banhos ou roupinha de inverno, aquele animal era da mesma dedicação que o mais mimado do de raça em palacetes. O olhar e o coração, sob pelo sedoso ou cheio de impurezas, permanecem os mesmos.

Saio para trabalhar o dia todo. O cachorro permanece em casa. Não entende minha ausência. Não a julga. Não pede explicações. Ao voltar, sua alegria é absoluta. Nem um murmúrio, nenhuma reclamação. Nunca insinua: como vocêpassou o dia fora. Apenas pula, late, lambe e rola com a ideia: que bom que você voltou.

Você se esquece do aniversário de um amigo, da esposa, do marido, da sogra? Prepare-se para a tempestade e até a vingança no dia do seu. Viajou e não trouxe nada para quem ficou em sua casa? Haverá um silêncio constrangedor. Foi para a Europa e trouxe algo simples em função do euro nas alturas? Nem todos os familiares entenderão sua contenção. Seu gato nada espera: ele apenas quer você.

Animais dormem tranquilos ao seu lado. Entregam-se ao sono com uma confiança e um deleite quase tocantes.

No campo da etiqueta, os pets são extraordinários. Você não enrola o macarrão com o garfo? Toma sopa com estardalhaço? Nunca haverá uma nota de desaprovação do seu quadrupede. Não julgam sua flatulência. Eventualmente, inclusive, colaboram no festival de fogos.

Muitos se chocam com as demonstrações de carinho entre humanos e animais. Eu entendo perfeitamente. Nós humanos podemos ser até bons de quando em vez. Os animais de estimação trazem um dom permanente e forte a cada casa. Sua partida devasta uma família. São um presente de luz que ilumina uma parte da nossa existência. Eu luto pela sabedoria e sou derrotado com frequência. Os cachorros e gatos que eu tive nasceram profundamente sábios. Alguns foram estoicos, outros, hedonistas, todos filósofos com pelos e felicidade. A pergunta que faço a cada animal é a mesma: como você gosta tanto das pessoas? Ensine-me o segredo de redescobrir o valor da humanidade. Sei o motivo amá-los. Por que eles gostam da gente? Minha esperança é que, um dia, eles falem disso.

*** LEANDRO KARNAL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CIÊNCIA GARANTE: É POSSIVEL SE ‘DESAPAIXONAR’

Pesquisadores defendem controle parcial do processo após o fim de um relacionamento

Em maio de 2020, Omar Ruiz se viu desiludido. “Minha esposa me disse que não estava mais apaixonada por mim”. Pouco depois, o casal se separou, depois de 11 anos juntos. Não ficou apenas arrasado, mas, como terapeuta de casamento e família, “todo esse processo solapou minha identidade profissional”, disse ele, que tem 36 anos e mora em Boston, nos Estados Unidos. “Como posso ajudar os casais quando meu próprio casamento está desmoronando?” E, assim, concluiu que precisava se ”desapaixonar”.

“As pessoas dizem que ficar de coração partido é normal, então não devemos tentar consertá-lo”, disse Sandra Langeslag, professora associada de Ciências Psicológicas da Universidade de Missouri em St. Louis, que estudou os efeitos das separações nocérebro. Mas ela ressalta que existem muitas doenças comuns e até graves que tentamos curar, então ”por que não haveríamos de ajudar as pessoas que foram rejeitadas e estão tentando seguir em frente?”

Corações partidos inspiraram musicas, poesias, artes visuais, sessões de escuta cheias de sorvete com amigos e até um novo hotel. E independentemente do motivo – seja morte, deficiência cognitiva, divórcio ou outro – a maioria das pessoas que passam pela experiência espera se recuperar e talvez até se apaixonar de novo por outra pessoa.

Mas e se na verdade tivéssemos algum controle sobre o processo? Será que alguém consegue deliberadamente se desapaixonar? Parte da ciência diz que sim.

“Você pode trabalhar nisso”, disse Helen E. Fisher, antropóloga biológica e pesquisadora sênior do Instituto Kinsey, em Nova York. Ela estuda a anatomia do amor e, em 2005, analisou imagens cerebrais de cem pessoas usando ressonâncias magnéticas para identificar os circuitos do amor romântico.

Fisher disse que descobriu que a mesma área do cérebro associada à fome e à sede – conhecida como área tegmental ventral, ou VTA, na sigla em inglês – é ativada quando você se apaixona, fazendo desse processo ”um impulso, não uma emoção”. Essa função biológica faz com que se desapaixonar seja algo tão difícil quanto tentar não sentir sede. Em outras palavras, não é fácil.

Kisha Mays, 40 anos, que administra uma consultoria de negócios em Houston, continuou amando seu ex-namorado mesmo enquanto ele estava na prisão. Eles ficaram indo e voltando por anos, ela disse, e estiveram juntos por dois anos antes de ele ser libertado em outubro de 2011. Aí, dois meses depois, ele terminou com ela.

”Agora é curar, reconstruir e aprender a confiar de novo”, disse Mays, observando que ajudou muito fazer reiki e cura espiritual – além de jogar fora todos os pertences dele.

VÍCIO

Fisher concordaria com a técnica de Mays: ela sugere tratar o processo de recuperação como se fosse o de um vício e jogar fora os cartões, cartas e objetos que lembram a pessoa. Não mantenha contato nem pergunte a amigos em comum como a pessoa está. Não fique alimentando o fantasma”, disse ela. Helen, que colocou 17 pessoas que tinham acabado de passar por términos em scanners cerebrais, encontrou atividade na VTA e nas funções cerebrais ligadas ao apego e à dor física. “Não ansiedade ligada à dor física, mas dor física”, disse ela.

Sandra Langeslag também disse que há esperança para quem está desiludido amorosamente. Ela fez dois estudos para ver se as pessoas conseguiam se sentir menos apaixonadas. Que estratégias funcionaram? Primeiro, ajuda muito ter pensamentos negativos sobre a pessoa de quem você está tentando se desapaixonar. A desvantagem? “Pensar negativamente faz você se sentir menos apaixonado, mas não faz você se sentir melhor”, afirma. “Na verdade, faz você se sentir pior”.

O que fazer, então? Distração. Pense em coisas que fazem você feliz, além da pessoa por quem você está tentando se desapaixonar. Isso deixou as pessoas mais felizes, mas não menos apaixonadas. A solução? O “um pouco dos dois”, como a pesquisadora descreveu. Ou seja: pensamentos negativos sobre a pessoa, seguidos por uma dose de distração.

Sua pesquisa descobriu que as pessoas foram capazes de diminuir deliberadamente seu amor, mas não o banir por completo. A quantidade média de tempo para curar sentimentos feridos, de acordo com dados de pesquisa coletados dos participantes do estudo, foi de seis meses, embora o tempo de cura dependesse de vários fatores, como a duração do relacionamento.

Rachelle Ramirez, escritora e editora em Portland, Oregon, ainda se lembra de uma época   em que as associações negativas funcionavam para ela. Quando tinha 15 anos, ela teve o que parecia ser uma paixão incurável por um colega de classe que estava muito menos interessado nela.

“Quando digo que o desinteresse dele era excruciante, muitas vezes as pessoas acham que é só melodrama adolescente”, disse Ramirez, que agora tem 47 anos. ”Essa suposição não chega nem perto de capturar a dor” que ela sentia ao pensar nele.

Mas, então, como Ramirez superou o amor não correspondido? ”Eu o imaginava coberto de vômito e segurando gatinhos mortos”, disse ela. “Eu sei que foi meio extremo e não sugeriria que todo mundo tentasse o mesmo, mas funcionou para mim”.

TALVEZ IMPOSSÍVEL

Algumas pessoas não compram a noção, seja apoiada pela ciência ou não, de que é possível se desapaixonar. Bethany Cook, psicóloga clínica de Chicago especializada em avaliação neuropsicológica, desconfia da ideia de que seja possível controlar a paixão.

“Amor e afeto são necessidades humanas básicas. Não podemos renegá-las deliberadamente. Seria como dizer que podemos escolher conscientemente parar de respirar”, disse Cook.  “Não temos esse poder. E fingir que temos é uma maneira de a psique se enganar pensando que tem controle. Trata-se de um mecanismo de enfrentamento pouco saudável.

“Os humanos podem se desapaixonar, mas não deliberadamente”, acrescentou ela. ”Sugerir que os humanos agem deliberadamente de uma maneira que pode esgotar uma necessidade básica vai contra a natureza do que nos torna humanos e do que a ciência nos diz sobre nossa espécie.”

Ruiz, o terapeuta matrimonial, levou mais de um ano para se desapaixonar com sucesso. Ele disse que foi preciso recorrer a um mediador de divórcios para se desapegar de sua mulher de forma mais completa, além de mergulhar em atividades com amigos e familiares. E contou também com a ajuda de um terapeuta.

“Agradeço ao meu terapeuta por me lembrar que o fim de um casamento é uma via de mão dupla”, disse ele. “Tanto minha ex-mulher quanto eu somos responsáveis pelo que aconteceu.” O terapeuta de Ruiz ”também me lembrou que sou humano e tão vulnerável a problemas de relacionamento quanto qualquer outra pessoa”, acrescentou.

Isso ajuda a reformular a noção de se apaixonar ou se desapaixonar, diz Damon L. Jacobs, terapeuta de casamento e família em Nova York. “Os relacionamentos são canais para maior energia, alegria e realização, mas não são a única fonte”, disse Jacobs. Ter essa mentalidade, disse ele, pode ajudar você a encarar a dor com mais graça e perspectiva. “Quando as coisas não dão certo”, afirma ele, “nós sabemos que ainda somos pessoas incríveis, poderosas, vibrantes e amorosas, e vamos continuar crescendo, amando e prosperando”.

PARA ‘DESAPAIXONAR’

***** Jogue fora os cartões, cartas e objetos que lembram a outra pessoa

***** Não mantenha contato nem pergunte a amigos em comum como essa pessoa está

***** Tenha pensamentos negativos sobre a pessoa por quem você está tentando se desapaixonar

***** Pense em coisas que fazem você feliz

***** Busque atividades com amigos e familiares

***** Procure ajuda de um terapeuta

OUTROS OLHARES

NA HORA CERTA

Nova geração de smartwatches faz eletrocardiogramas, monitora o sono e até avisa se a pessoa sofrer um acidente – mas, claro, os médicos continuam imprescindíveis

Antes da chegada do Apple Watch, em 2015, os relógios inteligentes eram bugigangas restritas a um nicho específico do mercado de aficionados de tecnologia. Com o passar do tempo, contudo, a promessa de ter acesso a algumas funções dos celulares e a possibilidade de o usuário receber notificações sobre diversos temas – condições climáticas e noticiário, por exemplo – fizeram com que os aparelhos ampliassem de maneira explosiva o seu alcance. Recentemente, os smartwatches aceleraram os ponteiros ao focar o universo da saúde e bem-estar. Foi uma estratégia certeira. Em 2015, a Apple vendeu 12 milhões de unidades. Em 2021, o número ultrapassou a marca de100 milhões. Como um todo, o mercado cresce ao ritmo de 35% ao ano, segundo estudo realizado pela consultoria International Data Corporation (IDC). E tudo graças à sua novíssima vocação como ferramenta de saúde.

Os smartwatches, também chamados wearables, se tornaram aliados importantes do autocuidado. Não à toa, o Colégio Americano de Medicina Esportiva apontou esse tipo de dispositivo como a principal tendência fitness em 2022. Não é para menos. Hoje em dia, até mesmo as opções mais simples e baratas oferecem monitoramento da frequência cardíaca, registro da qualidade do sono e do período menstrual e giroscópios para contabilizar passos e quilômetros. A maioria funciona com aplicativos populares de esporte, como o Strava, e dão maior precisão no acompanhamento das atividades físicas. Alguns são à prova d’água e tornaram-se valiosos companheiros nos exercícios da natação.

Como não poderia deixar de ser, os aparelhos com preços elevados costumam incorporar funções adicionais. A medição da oxigenação do sangue é uma delas, algo importante em tempos de Covid-19. O Apple Watch Series7, registre-se, faz eletrocardiogramas, liberando o resultado em questão de segundos. A contagem de calorias e a porcentagem de gordura do corpo são outras opções disponíveis entre os relógios que estão no topo de linha. E, claro, dá até para unir a preocupação fitness com estilo. Marcas de luxo, como a Montblanc, entraram na onda e lançaram versões inteligentes de seus relógios, com preços equivalentes a seus modelos tradicionais, na casa de milhares de reais.

O maior trunfo dos smartwatches é colocar nas mãos das pessoas formas práticas de monitorar a saúde. Os aparelhos e seus aplicativos embarcados usam recompensas fictícias, como medalhas para estimular os usuários a bater metas pessoais, e permitem que se acompanhe informações cardíacas 24 horas por dia, se o adepto assim desejar. “Com eles, de fato, o indivíduo passa a ter atitudes diferentes em relação à saúde”, afirma Antônio Carlos Endrigo, diretor de tecnologia da informação da Associação Paulista de Medicina. “A pessoa se educa, controla melhor os hábitos alimentares e se preocupa em realizar um número maior de atividades físicas.”

Ter fixado no pulso um aparelho que proporciona o acompanhamento constante, em qualquer lugar e situação, e durante 24 horas por dia pode em algum momento até salvar vidas. Há casos de pacientes que identificaram anomalias, como taquicardia e hipertensão, de forma precoce e buscaram ajuda médica antes que o problema ficasse mais sério. Não são a regra, é preciso destacar, mas a possibilidade existe. E aparelhos mais modernos contam com mecanismos de segurança que disparam alertas se o paciente cai e fica inconsciente, sofre acidente ou até mesmo infarto.

As vantagens são consideráveis, mas é preciso fazer uma ponderação: os smartwatches não são, em hipótese alguma, substitutos para os médicos. Devem, portanto, ser usados como complemento ao trabalho realizado por profissionais de saúde, e não adotados como alternativas a exames. “É certo que os smartwatches evoluirão a tal ponto que obrigatoriamente deverão passar pela homologação dos órgãos reguladores”, diz Endrigo. Enquanto isso não ocorre, recomenda-se usá-los com moderação – na hora e na dosagem certas. E, claro, consultar o médico sempre que for necessário.

GESTÃO E CARREIRA

O ESCRITÓRIO É MAIS IRRITANTE DO QUE VOCÊ LEMBRAVA? VEJA COMO LIDAR

Da fofoca ao cheiro forte da comida do colega, especialistas dão dicas de como enfrentar a volta ao ambiente de trabalho

Após dois anos trabalhando em casa durante a pandemia e com horários mais flexíveis, o retorno ao escritório está em pleno andamento. Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos trabalhadores que podiam trabalhar à distância permaneciam em um modelo remoto em janeiro, de acordo com pesquisa feita pela Pew Research Center. Entre as motivações estava a variante Omicrom, que atrasou os planos de retorno ao presencial.

Recentemente, porém, empresas têm insistido que os funcionários voltem ao escritório emhorários de trabalho híbridos. Ocorre que, para muitos trabalhadores, após a experiência de ter um ambiente controlado dentro de casa, retornar ao trabalho significa enfrentar comportamentos irritantes novamente.

Pessoas barulhentas, colegas intrometidos, copa compartilhada. Essas são algumas reclamações citadas por pessoas quando questionadas sobre a volta das atividades presenciais. Segundo Darian Lewis, este deve ser considerado um novo começo para todos. Junto com sua esposa, Monica, ele fundou a Monica Lewis School of Etiquett, em Houston, nos EUA.

“Sabe todas aquelas coisas que você queria mudar em seu local de trabalho antes da pandemia, mas simplesmente não conseguia descobrir como fazê-las?”, questiona. “Bem, aproveite a oportunidade agora.

Lindsey Pollak, especialista em ambiente de trabalho, disse que é preciso ter três coisas em mente quando você está voltando ao ritmo.

“Reconheça que estamos fora de forma para lidar com outras pessoas”, explica ela. “Abaixe suas expectativas e assuma que você vai ter alguns aborrecimentos. E realmente pense nos novos hábitos que você deseja criar desde o primeiro dia.

Para a professora de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia Jody J. Foster, é preciso escolher as batalhas que valem a pena:

“Pergunte a si mesmo: “é uma batalha que eu preciso travar porque está realmente atrapalhando meu trabalho, ou estou apenas incomodado porque fiquei acostumado a ficar sozinho durante a pandemia e ter tudo exatamente do jeito que eu queria?”, questiona.

Veja como lidar de forma rápida e eficaz com alguns dos hábitos mais irritantes do local de trabalho:

 O ALTO-FALANTE

Se sua atenção está sendo constantemente desviada pela tagarelice de um colega, aconselha Lewis, respire fundo e aproxime-se da pessoa, usando a estratégia de sorrir, fazer contato visual e manter a calma. Então, simplesmente diga:

“Com licença. Parece que o que você está falando é realmente interessante, no entanto, se você pudesse falar mais baixo, eu agradeceria. Muito obrigado.”

“É completamente razoável fazer uma intervenção e, como esta é uma situação nova para todos, você pode conduzi-la dessa maneira”, acrescenta Foster.

“Você pode dizer: “Fulano, você pode pensar que estou exagerando mas depois de um ano podendo criar meu próprio ambiente de trabalho, estou descobrindo que essas distrações estão realmente atrapalhando a minha capacidade de trabalhar”.

A FOFOCA

”A fofoca é o que chamaríamos de ‘discurso nocivo’; disse Miglioli, o sacerdote budista. Quando o intrometido do escritório chegar com uma informação quentinha, faça a si mesmo estas perguntas, a partir dos ensinamentos do budismo contidos no Nobre Caminho Óctuplo, antes de ouvi-lo ou transmiti-lo: Este é o momento certo para falar? É verdade? É gentil? É benéfico?

Foster sugeriu afastar o fofoqueiro com este roteiro: “Sabe, é tão tentador ouvir fofoca, mas no final das contas sempre me causa problemas. Então não, obrigado, eu não quero ouvir”.

O INTROMETIDO

Quando seu colega de trabalho excessivamente curioso começa a falar, “encontre um mantra”, sugere Pollak, especialista em local de trabalho:

“Como ‘Hmm, não tenho certeza se me sinto confortável falando sobre isso’. E então diga essa frase várias vezes, da mesma maneira todas as vezes. Ou dê uma resposta de uma palavra. Com pessoas intrometidas, trata-se realmente de ficar o mais quieto possível e não morder a isca e não se envolver.

O FALADOR CHATO

“Todos nós temos essa pessoa no escritório, em que estão falando e falando, e você está pensando: “termina logo essa história”, disse Lewis, da escola de etiqueta, que alerta: “Se você não tem essa pessoa, talvez você seja essa pessoa.

Monica aconselha a redirecionar a conversa:

“Você pode dizer: ‘uau, isso éinteressante: eu odeio mudar de assunto, mas eu queria te perguntar…” e depois mudar para algo neutro.

Sevocê quiser encerrar, sugere, diga ao seu colega que você precisa ir para a próxima reunião. As dicas corporais também são eficazes, como se levantar ou sair da sala com a pessoa

O INTERRUPTOR CRÔNICO

“Eles interrompem constantemente ou precisam pensar em voz alta, e você tem que testemunhar seuspensamentos”, explica Foster. “Você pode dizer:

“Eu quero ouvir todas essas coisas, é só que quando perco a linha de pensamento, demoro muito para voltar”.

Isso transmite a mensagem de que as interrupções são problemáticas, diz Foster, mas permite que saibam que têm acesso a você – “só precisam estruturar isso”.

A COMIDA

“Se você reclamar com um colega de trabalho sobre alimentos que podem ter odores fortes, isso pode ser uma questão delicada, porque as pessoas podem pensar que estão sendo atacadas com base em sua etnia e cultura”, alerta Monica Lewis. “Você definitivamente não deseja ir até a pessoa e dizer que a comida dela está cheirando mal dentro do escritório”.

Se for um problema crônico, acrescenta, converse reservadamente com a administração ou chefia.

“Este é um ótimo momento para a liderança intervir e criar uma nova norma para o escritório, como talvez horários e locais designados para comer. Tente exercitar a tolerância, acrescentou Lewis. “Às vezes, quando você embala seu almoço de manhã, você precisa adicionar um pouco de paciência.

Uma das conclusões da pandemia é que as comunidades sobrevivem melhor do que os indivíduos. À medida que todos voltamos ao local de trabalho, diz Miglioli, temos duas opções.

“Uma maneira é se desconectar o mais rápido possível de tudo o que aconteceu e voltar para sua vida”, afirma ele. “A outra é abraçar a pandemia como um grande professor.

Ao trazer o que aprendemos sobre solidariedade, compaixão e o que realmente importa de volta ao escritório, ele afirmou, “você pode permitir que esses ensinamentos o transformem em um serhumano melhor”.

EU ACHO …

ADORÁVEIS MALUCOS

A cena: o primeiro vinho da vida de vocês. Sentados frente a frente, cada um revela suas músicas favoritas, se prefere praia ou campo, se gosta de ler, se pratica esporte, se já morou em outra cidade. Sem esquecer o indefectível: qual o seu signo?

Ao fim da noite, haverá mesmo uma pista segura sobre as chances da relação? A gente pensa que sim, mas a vida mostra que nada disso interessa: nem o time que torce, nem se sabe cozinhar, nem se é de Áries ou Libra. Segundo o filósofo Alain de Botton, a gente deveria perguntar no primeiro encontro: qual é a sua loucura? Este seria um bom começo para avaliar se temos capacidade de segurar a onda do outro.

Não há como negar que somos todos meio esquisitos. Quem é que tem todos os parafusos no lugar? Combinado: ninguém. Então admitir isso seria um jeito mais honesto de iniciar uma história. O cara se abre: “Costumo fazer caminhadas durante a madrugada, preciso ficar totalmente sozinho no dia do meu aniversário, tenho um histórico de assédio moral que me perturba até hoje, fico meio enfurecido quando alguém insiste em saber sobre minha infância”.

Sua vez de alertá-lo: “Não consigo ficar sozinha nem por cinco minutos, não posso engordar 200 gramas que passo três dias sem comer, janelas abertas me causam pânico, desconfio que sou filha da minha tia”.

Achou que iria ser facinho? Praia ou campo?

O ser humano, qualquer um, é um depósito de angústias, carências, traumas, neuras. Não somos apenas o nosso gosto para cinema, o nosso jeito de vestir, o nosso prato favorito – se fôssemos apenas isso, amar seria como jogar dominó. Mas o jogo entre dois amantes é mais complexo. Aos poucos, vão aparecendo os medos secretos, a dificuldade em lidar com certas emoções, a fixação em ideias estapafúrdias, o complexo de inferioridade, a ansiedade incontrolável, as per­ das pelo caminho.

Nada disso é exatamente uma loucura, mas é um pacote existencial que é colocado no colo de quem deseja se relacionar conosco. A pessoa terá que amar não apenas nosso par de olhos verdes e nossa bicicleta na garagem, mas todas as estranhezas que cultivamos e a dor que tentamos subestimar.

O amor, em si, não é difícil. O amor é fácil. Difíceis somos nós. Somos uma simpática encrenca para quem se atreve a entrar na nossa vida e ficar conosco por mais de dez dias, prazo suficiente para lembrar que perfeição não existe.

Alguém vai desistir de amar por causa disso? Ao contrário: o desafio é estimulante. Quase competimos para ver quem é mais maníaco, quem tem mais problemas familiares, quem se irrita mais com a rotina, quem explode mais – pra tudo terminar em chamegos embaixo do lençol, onde é obrigatório se entender.

Taí a graça e a desgraça de quem resolve dividir o mesmo teto, taí a bagagem surpresa que cada um traz de casa. Qual é a sua loucura? A minha, só conto depois do segundo cálice.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CONHEÇA OS BENEFÍCIOS DA RESPIRAÇÃO CONTROLADA

Prática milenar relacionada a Buda ajuda a reduzir o estresse e a insônia, acalma e pode estimular o sistema imunológico

Respire fundo, expandindo a barriga. Faça uma pausa. Expire lentamente e conte até cinco. Repita quatro vezes. Parabéns, você acabou de acalmar o seu sistema nervoso. A respiração controlada, que você acabou de praticar, reduz o estresse, aumenta o estado de alerta e estimula o sistema imunológico. Durante séculos, praticantes de yoga usaram o controle da respiração para promover a concentração e melhorar a vitalidade. Buda, por exemplo, defendia a prática como uma forma de alcançar a iluminação.

A ciência está apenas começando a fornecer evidências de que os benefícios dessa prática antiga são reais. Estudos descobriram, por exemplo, as práticas de respiração podem ajudar a reduzir os sintomas associados à ansiedade, insônia, transtorno de estresse pós-traumático, depressão e transtorno de déficit de atenção.

“Respirar é extremamente prático”, diz Belisa Vranich, psicóloga americana e autora do livro “Breathe” (Respire, ainda sem tradução no Brasil). “É a meditação para pessoas que não podem meditar.

A cura, possível benefício da respiração controlada, ainda étema de estudos científicos. Uma teoria é a de que a prática pode alterar a resposta do sistema nervoso autônomo do corpo, que controla processos inconscientes, como a frequência cardíaca e a digestão, além da resposta ao estresse. É o que diz Richard Brown, professor de psiquiatria da Universidade de Columbia, nos EUA.

Mudar conscientemente a maneira como você respira parece enviar um sinal ao cérebro para ajustar o ramo parassimpático do sistema nervoso, que pode diminuir a frequência cardíaca e a digestão e promover sentimentos de calma bem como o sistema simpático, que controla a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol. Muitas doenças, como ansiedade e depressão, são agravadas ou desencadeadas pelo estresse.

“Vi pacientes transformados pela adoção de práticas respiratórias regulares”, diz Brown, que ministra workshops de respiração em todo o mundo.

Quando você respira devagar e com firmeza, seu cérebro recebe a mensagem de que tudo está bem e ativa a resposta parassimpática, segundo Brown. E, ao respirar rápido ou prender a respiração, a resposta simpática é ativada.

“Se você respirar corretamente, sua mente se acalmará”, garante Patrícia Gerbarg, professora clinica assistente de psiquiatria da New York Medical College e coautora de Brown.

Chris Streeter, professora de psiquiatria e neurologia da Universidade de Boston, realizou um pequeno estudo no qual mediu o efeito da prática de yoga diária e da respiração em pessoas com diagnóstico de depressão grave. Após 12 semanas, os sintomas depressivos dos participantes diminuíram significativamente e seus níveis de ácido gama-aminobutirico, um agente químico cerebral que tem efeitos calmantes e anti ansiedade, aumentaram.

A pesquisa foi apresentada no Congresso Internacional de Medicina Integrativa e Saúde   em Las Vegas. Embora o estudo tenha sido pequeno, Streeter celebra o resultado:

“As descobertas foram emocionantes”, disse ela.

“Eles mostram que uma intervenção comportamental pode ter efeitos de magnitude semelhante a um antidepressivo.

A respiração controlada também pode afetar o sistema imunológico. Pesquisadores da Universidade Médica da Carolina do Sul dividiram um grupo de 20 adultos saudáveis em dois grupos. Um grupo foi instruído a fazer duas séries de exercícios respiratórios de 10 minutos, enquanto o outro grupo foi instruído a ler um texto de sua escolha por 20 minutos.

A saliva dos voluntários foi testada em vários intervalos durante o exercício.  Os pesquisadores descobriram que a amostra do grupo de exercícios respiratórios tinha níveis significativamente mais baixos de três citocinas associadas à inflamação e ao estresse. Os resultados foram publicados na revista BMC Complementary and Alternative Medicine em 2016.

Aqui estão três exercícios básicos de respiração para tentar por conta própria:

RESPIRAÇÃO CONSISTENTE

Se você tiver tempo para aprender apenas uma técnica, esta é a principal. Na respiração consistente, o objetivo é respirar a uma taxa de cinco respirações por minuto, o que geralmente se traduz em inspirar e expirar contando até seis. Se você nunca praticou exercícios de respiração antes, pode ter que trabalhar essa prática lentamente, começando com inalar e exalar contando até três e indo até seis.

1. Sentado, ereto ou deitado, coloque as mãos na barriga;

2. Inspire lentamente, expandindo a barriga, contando até cinco;

3. Pausa;

4. Expire lentamente contando até seis;

5· Tente praticar esse ritmo por 10 a 20 minutos por dia.

ALÍVIO DE ESTRESSE

Quando sua mente estiver acelerada ou você se senti tenso, experimente a respiração “Rock and Roll”, que tem o benefício adicional de fortalecer seu core (constituído por músculos do abdómen, da lombar, da pelve e do quadril).

1. Sente-se ereto no chão ou na beira de uma cadeira;

2. Coloque as mãos na barriga;

3. Ao inspirar; incline-se para a frente e expanda a barriga;

4. Ao respirar, esprema o ar e curve-se para frente enquanto se inclina para trás. Expire até ficar completamente sem ar;

5. Repita 20 vezes.

RESPIRAÇÃO ENERGIZANTE

Quando o meio da tarde chegar e você se sentir cansado, levante-se e faça um rápido trabalho de respiração para acordar sua mente e corpo.

1. Fique de pé, cotovelos dobrados, palmas das mãos voltadas para cima;

2. Ao inspirar, puxe os cotovelos para trás, mantendo as palmas das mãos voltadas para cima;

3. Em seguida, expire rapidamente, empurrando as palmas das mãos para a frente e virando-as para baixo, enquanto diz “Haaa” em voz alta;

4. Repita rapidamente de 10 a 15 vezes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FILHOS DO CORAÇÃO

Quem decide adotar uma criança ou adolescente precisa evitar a idealização da pessoa que vai chegar, aceitar a sua vida pregressa e estar preparado emocionalmente para acolher o trauma do abandono

A chegada de um filho costuma transformar a rotina, as prioridades da família, além de ser um turbilhão emocional. Quando esse filho vem pela via da adoção, tudo fica ainda mais intenso, já que o tempo de espera, a idade e as características da criança são indefinidos. É comum surgir o medo de não conseguir estabelecer uma conexão, de não ser amado como pai ou mãe. O cenário desafiador não deve ser motivo pata recuar: com preparação, uma boa rede de apoio – além de amor e paciência -, é possível construir um vínculo sólido.

Olhar com franqueza para as motivações da adoção é a primeira recomendação da psicanalista Sandra Quintino. “Adotar um filho para fazer caridade, para salvar o casamento ou para ter companhia para o filho biológico não deve ser motivação.”

Segundo ela, a maioria dos casais que solicita a adoção tem problemas de infertilidade. “Muitas vezes, são pessoas que estão tentando ter um filho há anos e passam por muita frustração. Chegam para a adoção devastados e com muita expectativa. Aí, o tombo é grande”, explica. Nesses casos, Sandra recomenda primeiro tratar essa dor. “A adoção não pode ser vista como um plano B, mas aceita de forma completa.”

Uma vez que uma pessoa ou casal tenha decidido adotar e tenha iniciado os trâmites, é preciso se preparar. Se por um lado é difícil montar o enxoval e o quarto, há um vasto terreno de conhecimento e de emoções para ser explorado, com ajuda de grupos de apoio e até de “doulas de adoção”. “Quem se prepara tem mais chance de ter uma adoção bem-sucedida, pois sabe com o que está lidando, mesmo que tenha medo. Essa expectativa é necessária e pode ser gostosa”, recomenda Sandra.

Dúvida, medos e angústias de pais ou pretendentes encontram espaço no Adoção Brasil, grupo de apoio que reúne 900 pessoas no Telegram e mais de 50 mil seguidores no Instagram. “Um ajuda o outro e vibra quando a adoção dá certo”, diz Grazyelle Yamuto, cofundadora do grupo. O Adoção Brasil nasceu em 2007 como blog, quando ela e seu marido ‘Vlagner Yamuto estavam na fila de adoção, após vivenciarem o luto da infertilidade.

“A gente não sabia direito como ia ser o processo, pois não tinha muita informação na internet. Então abrimos o blog, para compartilhar a nossa experiência”, conta. O primeiro filho, Gabriel, de 12 anos, chegou em 2010, depois de 3 anos e 9 meses de espera. Agatha, de 4 anos, se uniu à família em 2019 após 2 anos de espera. Ambos “nasceram” para Vlagner e Grazyelle, aos 10 meses de vida. Mas nem tudo foram flores: nos primeiros dias, na etapa de acolhimento feita no abrigo, que durou 30 dias, Agatha só chorou.

“No início eles me viam como uma cuidadora, não como uma mãe. Quando caíam, choravam e não me procuravam”, conta Grazyelle. Para ela, a vinculação com bebês adotivos não é mais fácil do que de crianças mais velhas. “Isso éum mito. Todas precisam de um tempo para se adaptar a uma casa de estranhos, pois é preciso construir uma relação.”

ROTINA

Em 2016, quando recebeu Murilo pela via da adoção, a fotógrafo Annie Aline Bàracat, de 43 anos, foi rígida na rotina para reproduzir o cotidiano que o filho vivia no abrigo. “Copiei os horários em que ele mamava, acordava, ia ao banho, para que se sentisse seguro”, conta. Observar com atenção e buscar atender às preferências do filho, que chegou aos 6 meses, ajudou no vínculo entre os dois, segundo Annie, que mantém o perfil Vamos Falar de Adoção no Instagram. “Em dois meses ele já estava bem adaptado, seguro comigo.”

Annie sempre sonhou em ser mãe, não importava a via. No final de 2014, se viu solteira, mas achou que era hora de colocar em prática o seu projeto e iniciou o processo de adoção. Familiares e amigos aceitaram a ideia, mas alguns estranharam a opção pela maternidade solo. “Houve quem dissesse que estava errado eu adotar uma criança sozinha.”

Annie não deu ouvidos e, dois anos depois, recebeu a ligação da Vara da Infância e da Juventude (VIJ) para convidá-la a conhecer Murilo. “Chorava tanto que mal conseguia falar”, conta. Uma semana depois, no dia do seu aniversário de 38 anos, pôde comemorar a data entre fraldas e mamadeiras, com o filho já nos braços, em casa. “Murilo realmente é um presente para mim.”

Por indicação da VIJ, Annie participou do Gaasp – Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo, que existe desde 2005. Pelo WhatsApp, voluntários intermedeiam grupos segmentados, para pessoas em diferentes etapas do processo de adoção ou características, como famílias monoparentais ou LGBT+. Além disso, são oferecidos cursos preparatórios, previstos na Lei de Adoção 2010, de 2009. Porano, cerca de 900 pessoas participam. “Em quatro aulas, são abordados temas como os traumas da criança abandonada pelos pais biológicos, o impacto da devolução da criança que foi adotada, além de racismo e homo transfobia”, explica a psicoterapeuta Cecília Japiaçu Reis, presidente do Gaasp.

No trabalho de orientação, Cecília reforça a importância de aceitar a vida pregressa da criança. “É preciso entender que essa pessoa já tem a sua história de vida, mesmo que seja um bebê. Por mais que você receba um relatório sobre a criança, não é possível saber de todos os detalhes desse passado. Mas isso que ela passou pode refletir em seu comportamento com o tempo”.

UM NOVO ABANDONO

Evitar a romantização e a idealização ajudam a reduzir as possibilidades da devolução da criança, na experiência de Cecília. “No emocional da criança, a devolução é um novo abandono”, explica. Segundo ela, as devoluções são frequentes, com apresentação de motivos que vão dos mais pífios aos sérios. “Existem pais que devolvem a criança com argumentos de que ela chora demais ou tem medo de trovão, ao mesmo tempo que há devoluções bem embasadas”, conta. “Mas, se isso aconteceu, houve erro nas etapas do processo, não dá para jogar pedras nas famílias.” Ana lsabely de Amorim Santos, de 15 anos, passou por três devoluções antes de encontrar a família atual: a intérprete de libras Priscila dos Santos Amorim, de 38 anos, e o seu marido, Elias de Amorim Santos, de 41. Desde que começaram a namorar, em 2004, o casal conversava sobre a possibilidade da adoção. Depois que se casaram, em 2006, descobriram um problema de infertilidade, o que os levou a seguir por esse caminho. No questionário sobre o perfil desejado, eles informaram que aceitavam as crianças que tivessem até 8 anos, sem preferência por etnia ou sexo.

No primeiro encontro com Ana Isabely, o casal já sentiu uma empatia. “Foi um momento muito gostoso e bonito”, recorda-se Priscila. Apesar disso, Priscila não romantiza a adoção e fala também das dificuldades no perfil Escolha de Amar, no Instagram. ”A adaptação de uma criança mais velha não é fácil. Desacreditada do amor, Isa nos testou muito. Queria ver se íamos devolvê-la”, conta. Apesar das dificuldades, tudo foi se encaixando. “Com amor e paciência, criamos o vínculo. Mostramos que essa era a família dela, com a qual ela podia contar.”

Quando uma criança é aceita do jeito que é, ela fortalece a sua identidade, explica a psicóloga Viviane Namur Campagna. “Na medida em que se sente acolhida e vivencia novas experiências com a nova família, a criança vai ficando mais parecida com ela.” Viviane conta que há casos em que há o desejo dos pais de “zerar” a história do filho, como se fosse possível apagar o seu passado.

“Acompanhei famílias em que os pais reclamavam do nome da criança porque achavam cafona ou da música de sua preferência. Mas isso não pode ser desprezado, pois se trata da história dela”, diz.

GRATIDÃO TÓXICA

Quando criança, o publicitário Luiz Fernando Mota Melo, de 33 anos, costumava ouvir comentários como: “Que sorte a sua ter sido adotado pela sua família”. Na sequência, sua mãe Eliane Melo, de 68 anos, fazia a correção: “A sorte foi nossa de tê-lo encontrado”. Hoje, ele percebe que sua mãe fazia uma defesa do que chama de “gratidão tóxica”, que atinge especialmente os filhos adotivos.

“Esse tipo de comentário vem carregado de uma obrigação de sempre agradecer, o que gera angústia. Você cresce achando que não pode errar, que tem de ser o filho perfeito, enquanto um filho biológico não é cobrado para isso.”

Mota conta que a “gratidão tóxica” marcou sua infância e juventude, em que ele se empenhava para ser impecável, um estudante com ótimas notas, e o influencia até hoje. Buscando o autoconhecimento, ele tem refletido sobre as implicações da adoção em seu jeito de ser. “Na pandemia, passei a olhar para dentro e comecei a ver filmes e séries sobre o tema.” Em 2020, então, ele abriu no Instagram o perfil Eu, Adotado, para expor os seus sentimentos. Mas afirma que a intenção não é chegar aos pais biológicos. “Não guardo mágoas, mas não vejo motivo para procurá-los. Se eu os encontrasse, gostaria de dizer, deu tudo certo, eu estou bem e feliz.”

CONCEITO DE FAMÍLIA

Em geral, a sociedade ainda valoriza os laços sanguíneos nos núcleos familiares, o que reflete na aceitação de famílias interraciais, afirma a professora Silvia Leticia Fructuoso, de 38 anos. Ela e o marido Gilson Pereira da Silva, de 41, são brancos e adotaram Franciele, negra, hoje com 6 anos. ”Quando estamos juntos, as pessoas ficam olhando como se fôssemos um jogo dos 7 erros, procurando as nossas diferenças.” Franciele chegou em 2019, quase duas décadas depois de seus pais terem conversado pela primeira vez sobre a vontade de adotar uma criança, no início do namoro. “Adotar foi uma escolha. Filho é filho, independentemente de como ele chega. E família é um grupo de pessoas que escolhe estar junto e construir o amor”, define Sílvia. Vira e mexe, a própria Franciele esclarece a situação para as pessoas que a questionam sobre as diferenças. “Ela fala sobre a adoção com leveza e naturalidade.

Para normalizar a adoção, o casal Betho Fers, de 40 anos, e Erick Silva, de 37, dizem que Chapeuzinho Vermelho foi adotada. A história é uma das preferidas de Stephanie, de 4 anos, que se integrou à família aos 6 meses. Quando começaram o relacionamento, em 2008, conversaram sobre adoção, mas isso ainda não era possível. Somente em 2015 foi reconhecido o direito de casais homossexuais adotarem nas mesmas circunstâncias que casais heterossexuais. “Stephanie chegou em 2018, momento que foi o mais feliz das nossas vidas”, conta Fers.

Envolvido com a causa, Fers abriu o canal Papaipeando em 2019 e fez um curso de doula de adoção, profissional que dá suporte emocional e faz uma curadoria de informações para pretendentes à adoção. “A sociedade não nos prepara para sermos pai ou mãe por adoção. Quando esse enredo é exibido, ele é muito fantasioso. A doula ajuda a derrubar tabus e trabalhar questões práticas e emocionais.”

Com muita ginástica para conciliar vida profissional e os cuidados com a filha nos últimos anos, o casal considera que a família está vinculada. Mas os questionamentos sempre surgem. “As pessoas perguntam se a Stephanie não sente falta da figura da genitora. A gente responde que na nossa família valorizamos a abundância: sobra vontade, amor, disposição para acompanhar a nossa filha. É isso que importa”, afirma Pers.

EXPECTATIVAS

COMO ESTABELECER UM BOM VINCULO

•  Não romantize: a criança trará desafios como em qualquer família, com o agravante do trauma da separação dos pais biológicos.

•  Abuse do pele a pele: pegue no colo o bebê, abrace, assista a um filme colado no sofá.

•  Mantenha a rotina: tente reproduzir a rotina vivida anteriormente pela criança ou pelo adolescente.

•  Aceite a vida pregressa: mesmo que ele seja um bebê, não pense em “zerar” a história do seu filho. Sua origem está antes de ele ser adotado.

•  Respeite as suas expressões culturais: as preferências de música, dança, esporte e entretenimento não devem ser rejeitadas.

OUTROS OLHARES

A VEZ DOS HOMENS

A promessa da chegada de uma pílula anticoncepcional masculina traz à tona questões que cercam o exercício pleno da sexualidade deles e delas e faz indagar se estamos prontos para uma nova revolução

Em 2022, completam-se 65 anos do lançamento da pílula anticoncepcional feminina. Ressalve-se que, em 1957, ela não nasceu com esse apelo. A Enovid, nome que recebeu nos Estados Unidos, era indicada para tratar distúrbios da menstruação. Assim, vago mesmo, para evitar reações raivosas de uma sociedade contrária a novidades que implicasse em emancipação da mulher.

Lá na bula, entre os efeitos colaterais, estava o que realmente importava: a possibilidade de causar suspensão temporária da fertilidade. Três anos depois, o remédio passou a ser vendido como contraceptivo oral. Dali para a frente mudou a relação da mulher com seu corpo, a maternidade e o sexo. Seria possível exercer a sexualidade sem se preocupar com o risco de gravidez indesejada.

O que foi festejado como uma libertação – e realmente assim deve ser entendido – ao longo dos anos transformou-se também em fardo. As pílulas causam uma extensa lista de efeitos impróprios, que vão de náuseas e dor de cabeça à depressão e coágulos em mulheres com predisposição. Tudo isso, claro, considerando as histórias individuais de saúde. As versões atuais, em comparação às antigas, apresentam riscos menores, mas o fato é que eles continuam presentes. Esse aspecto, somado às demandas femininas por igualdade de gênero que se fortaleceram nas últimas décadas, tornou inevitável a pergunta que não quer calar: por que não oferecer também aos homens uma pílula, dividindo com eles a responsabilidade pela contracepção por meio de métodos além da camisinha e da vasectomia?

A ciência faz seu trabalho nesse sentido e, recentemente, apresentou uma das opções mais promissoras em anos de pesquisa. Trata-se do composto denominado YCT529, desenvolvido na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Nos testes em cobaias, a substância foi ministrada por via oral durante quatro semanas, demonstrando 99% de eficácia na prevenção de gestação. Depois de quatro a seis semanas sem receberem o composto, os camundongos recuperaram a fertilidade. Os responsáveis pelo estudo planejam iniciar os testes em seres humanos no próximo semestre.

O mecanismo de ação é relativamente simples. Em homens férteis, a ejaculação contém em média 15 milhões de espermatozoides por mililitro. Reduzir a quantidade a 1 milhão por mililitro seria suficiente para impedir a fecundação do óvulo pelo gameta masculino. A droga americana diminuiu drasticamente a concentração de células reprodutivas masculinas. Fez isso sem utilizar testosterona, o hormônio responsável por características másculas que, em altas quantidades, suprime a produção do gameta. Faz toda a diferença. Intervenções hormonais resultam em efeitos prejudiciais como ganho de peso, depressão e aumento do LDL, o colesterol que entope as artérias. “Procuramos uma saída que não provocasse tudo isso”, disse Abdullab AI Noman, pesquisador que conduz o experimento sob a supervisão de Gunda Georg, uma das maiores estudiosas da área. Os animais não manifestaram nenhum efeito adverso.

O anúncio da universidade trouxe de volta as questões que cercam o assunto historicamente envolto em preconceito de gênero. É culturalmente aceitável, embora misógino, que elas sofram impactos, tanto do ponto de vista psicológico quanto biológico. Afinal, sob o prisma convencional, evitar a gravidez é um ganho que supera perdas. Já eles nada têm a faturar ao tomar uma medicação contraceptiva que provoca efeitos colaterais. Só a perder. Foi com base nessa lógica que alguns trabalhos com resultados interessantes de contracepção masculina acabaram interrompidos. Um deles era conduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com 320 homens acompanhados entre 2008 e 2012. A droga em teste associava testosterona com a progesterona, hormônio feminino. Quase todos os participantes (96%) atingiram a redução de espermatozoides desejada, mas o registro de eventos como mudança de humor e dor associada à injeção levou à suspensão do experimento. Parcela dos cientistas defende uma tese de mãos dadas com os humores do nosso tempo: a análise do risco masculino não pode ser considerada apenas sob o viés biológico. O m1elhor caminho deveria ser o de compartilhamento de risco entre homens e mulheres, uma vez que a responsabilidade pela contracepção é dos dois.

Contudo, há um muro ainda muito alto, quase intransponível. Vencê-lo significa entender que a gravidez não pode ser uma tarefa exclusivamente feminina, mas de um casal, de um par, de uma dupla. Transformar esse pensamento levará tempo. Mas, a crer nos novos ventos soprados por pesquisas recentes, a mudança talvez seja mis rápida do que se imagina. Levantamento publicado na revista da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva mostrou que 92% dos entrevistados (132 homens e 165 mulheres) consideravam a anticoncepção tarefa de ambos e 81% dos participantes masculinos disseram que tomariam uma pílula. “A maioria dos homens sabe dos efeitos que pesam sobre elas e gostaria de ajudar”, disse Bethan Swift, pesquisadora de saúde reprodutiva feminina da Universidade de Oxford, na Inglaterra. “E muitos desejam ter o controle e saber que a relação sexual não acabará em gestação indesejada.”

Os homens experimentaram sensação semelhante em 1998 com a chegada do Viagra, a primeira droga contra a disfunção erétil. A pílula azul devolveu aos machos poder e autoestima, dando início a uma revolução que mudou as relações na cama. É bem animador saber que, agora, eles começam a entender que se houver um custo a pagar, para que o prazer seja de dois e não de um, que seja dividido. Só haverá conquistas, e não apenas no sexo. “A prevenção da gravidez pelas mulheres traz a elas benefícios profissionais, financeiros e educacionais”, disse Kevin Shane, diretor da Male Contraception Initiative, ONG que patrocina iniciativas na área da anticoncepção masculina. “Com opções para os homens, os proveitos serão de todos”, diz. Certamente. Essa é uma das belezas da igualdade.

GESTÃO E CARREIRA

NEUROARQUITETURA AJUDA A TRANSFORMAR ESPAÇOS DE TRABALHO

Cores, texturas e mobiliários são apostas de empresas como a PepsiCo para estimular integração

Com a volta ao trabalho presencial, algumas empresas recorrem à neuroarquitetura para criar ambientes instigantes, com o conforto e a segurança que o home office permitiu por tanto tempo. Formas, cores e texturas são usadas para estimular a criatividade, a integração entre as pessoas e o bem-estar do funcionário.

Aliar neurociência à arquitetura é incorporar e dar valor científico ao que, antes, os arquitetos faziam intuitivamente. “Agora, não só o comportamento das pessoas no espaço está sendo estudado, mas também como o espaço afeta o comportamento das pessoas ao longo do tempo”, diz Mainara Avelino, arquiteta do escritório Spaceplan há 25anos focado no mercado corporativo. Em qualquer ambiente, os elementos utilizados podem despertar gatilhos positivos ou negativos. “Uma das coisas que a neuroarquitetura ajuda a entender é que, de certa forma, temos algumas necessidades em relação ao ambiente, nem sempre conscientes”, explica Andréa de Paiva, arquiteta especialista em neuroarquitetura e idealizadora do projeto Neuro AU.

A ideia é que os projetos auxiliem também as atividades dos profissionais. “Um espaço menor com pé direito baixo ajuda na concentração. Um espaço amplo, sem forro, com bastante iluminação e cores auxiliam na socialização e na criatividade”, exemplifica Mainara. Ao mesmo tempo, esses componentes guiam o comportamento das pessoas: ficam mais silenciosas nos espaços menores e com poucas informações e mais expansivas em ambientes abertos e coloridos.

Na promoção do bem-estar destaca-se o uso de plantas madeira e texturas naturais para invocar a integração com a natureza. Ter uma vista do ambiente externo ao prédio também é indicado, diz ela.

A neuroarquitetura também permite comunicar a cultura da empresa e fortalecer a marca para os colaboradores. Um exemplo é o escritório da PepsiCo, em São Paulo, reformado e reaberto em março. A decoração remete a produtos da marca como cookies e coco verde, e traz linhas paralelas em cor amarelo que lembram uma batata ondulada – sugestão dos funcionários.

Os espaços de convivência são amplos, com muita iluminação natural, cores e assentos em formatos e materiais diversos, como tecido e madeira. “Nossa cultura é aberta com pouca hierarquia e isso está refletido nos ambientes que são dinâmicos”, diz Pablo Barbagli, vice-presidente de RH da companhia.

Ele percebe que os momentos de criação fluem melhor presencialmente no novo espaço, bem como a construção de projetos com clientes e parceiros. Andréa de Paiva, que prestou consultoria no projeto da PepsiCo pelo escritório Athié Wohnrath, cita algumas soluções. “Tem diferentes tipos de espaços: ambiente para reunião completa, encontro informal na copa, a possibilidade de encontrar uma pessoa no corredor e sentar ali perto para trocar uma ideia rápida”, diz.

NAVE ESPACIAL

Para inspirar criatividade e inovação, o banco digital para condomínios CondoConta inaugurou no começo do ano uma sala com cara de nave espacial na sede, em Florianópolis. A irreverência atraiu até funcionários que atuam remotamente em outro Estado. O projeto foi assinado pela designer de interiores Myrella Masseli, que investiu em cores e formatos que despertam alegria e descontração, como círculos, triângulos e ondas. Rodrigo Delta Rocca, CEO da startup, diz que a ideia veio da analogia entre a empresa e um foguete, pois avança rápido e tem desafios a transpor.

O ambiente comporta até 20 pessoas, tem uma grande tela projetando uma vista do espaço sideral, mesas e cadeiras semelhantes às dos filmes de ficção e iluminação em led azul. “O principal ponto que percebi do time todo foi engajamento entre as áreas, que é o maior desafio para empresas de tecnologia”, diz Rocca.

Tanto o CondoConta quanto a PepsiCo usam mesas triangulares com cantos arredondados. “Quando o escritório é muito ortogonal (com ângulos retos), dá sensação de maior rigidez. Formas orgânicas, diagonais, ajudam a trazer maior flexibilidade e integrar mais as pessoas”, explica Mainara. O formato também rompe a ideia de hierarquia e de lideranças que sentam nas pontas do móvel.

LOCAIS DE INSPIRAÇÃO

DEFINIÇÃO

A neuroarquitetura usa princípios da neurociência na construção de ambientes físicos e busca impactos positivos desses espaços no comportamento humano

APLICAÇÕES

Ambientes abertos e coloridos estimulam as pessoas a serem mais expansivas. Espaços menores ajudam na concentração, enquanto locais mais iluminados e com cores contribuem para a socialização e a criatividade.

EU ACHO …

A SEPARAÇÃO COMO UM ATO DE AMOR

É sabida a dor que advém de qualquer separação, ainda mais da separação de duas pessoas que se amaram muito e que acreditaram um dia na eternidade desse sentimento. A dor de cotovelo corrói milhares de corações de segunda a domingo – principalmente aos domingos, quando quase nada nos distrai de nós mesmos – e a maioria das lágrimas que escorrem é de saudade e de vontade de rebobinar os dias, viver de novo as alegrias perdidas.

Acostumada com essa visão dramática da ruptura, foi com surpresa e encantamento que li uma descrição de separação que veio ao encontro do que penso sobre o assunto, e que é uma avaliação mais confortante, ao menos para aqueles que não se contentam em reprisar comportamentos-padrão. Está no livro Nas tuas mãos, da portuguesa Inês Pedrosa:

“Provavelmente só se separam os que levam a infecção do outro até aos limites da autenticidade, os que têm coragem de se olhar nos olhos e descobrir que o amor de ontem merece mais do que o conforto dos hábitos e o conformismo da complementaridade”.

Ela continua:

“A separação pode ser o ato de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal”.

Calou fundo em mim essa declaração, porque sempre considerei que a separação de duas pessoas precisa acontecer antes do esfacelamento do amor, antes de iniciarem as brigas, antes de a falta de res­ peito assumir o comando. É tão difícil a decisão de separar que vamos protelando, protelando, e nessa passagem de tempo se perdem as recordações mais belas e intensas. A mágoa vai ganhando espaço, uma mágoa que nem é pelo outro, mas por si mesmo, a mágoa de reconhecer-se covarde. E então as discussões se intensificam e, quando a separação vem, não há mais onde se segurar, o casal não tem mais vontade de se ver, de conversar, querem distância absoluta, e aí se configura o desastre: a sensação de que nada valeu. Esquece-se o que houve de bom entre os dois.

Se o que foi bom ainda está fresquinho na memória afetiva, é mais fácil transformar o casamento numa outra relação de amor, numa relação de afastamento parcial, não total. Se o casal percebe que estão caminhando para o fim, mas ainda não chegaram ao momento crítico – o de tornarem-se insuportavelmente amargos -, talvez seja uma boa alternativa terminar antes de um confronto agressivo. Ganha-se tempo para reestruturar a vida e ainda preserva-se a amizade e o carinho daquele que foi tão importante. Foi, não. Ainda é.

“Só nós dois sabemos que não se trata de sucesso ou fracasso. Só nós dois sabemos que o que se sente não se trata – e é em nome desse intratável que um dia nos fez estremecer que agora nos separamos. Para lá da dilaceração dos dias, dos livros, discos e filmes que nos colo­ riram a vida, encontramo-nos agora juntos na violência do sofrimento, na ausência um do outro como já não nos lembrávamos de ter estado em presença. É uma forma de amor inviável, que, por isso mesmo, não tem fim.”

É um livro lindo que fala sobre o amor eterno em suas mais variadas formas. Um alento para aqueles – poucos – que respeitam muito mais os sentimentos do que as convenções.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

PEIXES, FOLHAS E CASTANHAS AJUDAM A PREVENIR DEMÊNCIA

Pesquisas mostram que algumas dietas podem trazer benefícios ao cérebro

Nozes beneficiam a função cognitiva. Mirtilos podem fortalecer a memória. Suplementos de óleo de peixe podem reduzir o risco de mal de Alzheimer.

Você talvez já tenha visto essas frases animadoras sobre “alimentos que turbinam o cérebro” espalhadas em artigos sobre saúde e feeds de redes sociais. Mas, será que certos alimentos ou regimes alimentares podem de fato prevenir ou adiar a demência?

Segundo especialistas, não éfácil conduzir estudos sobre nutrição, mas um conjunto persuasivo e sempre crescente de pesquisas sugere que determinados alimentos e planos alimentares podem de fato, trazer benefícios reais ao cérebro de pessoas mais velhas. Conversamos com mais de 30 cientistas e examinamos pesquisas para chegar a uma visão mais clara dos vínculos entre dieta e demência.

Os cientistas ainda desconhecem as causas do mal de Alzheimer, a forma mais comum de demência. E não existe atualmente nenhum medicamento que possa reverter a doença, diz Uma Naidoo, diretora de psiquiatria nutricional e metabólica do Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos, e autora de “This is Your Brain on Food” (Os efeitos da comida sobre o cérebro, em português).

“Mas podemos modificar nossa alimentação”, ela disse.

Pesquisas revelam que pessoas que apresentam certas condições como doença cardíaca, hipertensão, obesidade e diabetes são mais propensas do que pessoas sem essas condições a sofrer declínio cognitivo ligado à idade. E o risco de desenvolver essas condições pode ser agravado por uma dieta pobre e falta de exercício físico. Para Naidoo, isso sugere que há coisas que podemos fazer para reduzir nossas chances de desenvolver demência.

Estudos científicos demonstram que duas dietas em especial, a dieta mediterrânea e a Mind, oferecem forte proteção contra o declínio cognitivo. Ambas encorajam o consumo de verduras, frutas, leguminosas, oleaginosas, peixes, grãos integrais e azeite.

Um estudo publicado em 2017, analisou as dietas e o desempenho cognitivo de mais de 5,9 mil adultos idosos nos EUA. Os pesquisadores descobriram que aqueles que aderiam mais à dieta mediterrânea ou a dieta Mind tinham risco 30% a 35% mais baixos de comprometimento cognitivo, comparados aos que aderiam menos.

“Praticamente qualquer coisa que ajude a conservar as artérias saudáveis vai reduzir o risco de demência”, diz Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição na Escola de Saúde Pública Harvard T. H. Chan.

Ronald Petersen, neurologista e diretor do Centro de Pesquisas Sobre Doença de Alzheimer da Clínica Mayo, concordou: “O que faz bem ao coração faz bem ao cérebro”.

Para Naidoo, uma mudança que você pode efetuar em sua alimentação e “consumir mais plantas”. As folhas verdes têm nutrientes e fibras, e algumas evidências solidas as vinculam a um declínio cognitivo mais lento ligado à idade.

Por exemplo. em um estudo controlado randomizado conduzido em Israel e publicado neste ano, os pesquisadores fizeram exames de imagem no cérebro de mais de 200 pessoas que tinham sido divididas em grupos, definidos por suas dietas.

Eles descobriram que após 18 meses, as pessoas que seguiram uma dieta mediterrânea “verde” – rica em manicai (uma planta verde carregada de nutrientes), chá verde e nozes -apresentam o índice mais lento de atrofia cerebral ligada à idade.

Foram seguidas de perto pelas pessoas que consumiram uma dieta mediterrânea tradicional. As pessoas que seguiram diretrizes tradicionais de alimentação sadia – menos baseada em vegetais e que permite mais processados e carnes vermelhas que as duas outras dietas – apresentaram declínio maior do volume cerebral.

Esses efeitos neuro protetores eram especialmente pronunciados em pessoas a partir dos 50 anos de idade.

Em um estudo observacional de 2021, pesquisadores monitoraram mais de 77 mil pessoas por cerca de 20 anos.

Descobriram que as pessoas cuja dieta era rica em flavonoides – substancias naturais encontradas em frutos e vegetais coloridos, chocolate e vinho – eram muito menos propensas a queixar-se de sinais de envelhecimento cognitivo que as pessoas que consumiam menos flavonoides.

A dieta Mind aponta especificamente para os frutinhos vermelhos, boas fontes de fibras antioxidantes, como alimentos que promovem benefícios cognitivos. Um estudo publicado em 2012 acompanhou mais de 16 mil pessoa de 70 anos ou mais por mais de 12 anos. Concluiu que o declínio cognitivo das mulheres que comiam mais mirtilos e morangos era adiado em possivelmente até 2 ,5 anos.

“Não acredito que existam alimentos milagrosos, mas é claro que comer frutas e vegetais faz muito bem”, disse Alison Reiss, membro do conselho de assessoria médica, cientifica e de exames de memória dá Alzheimer’s Foundatíon of America.

Multos tipos de frutos do mar, em especial os peixes gordurosos, são boas fontes de ácidos graxos ômega 3.

“O pescado é um alimento que turbina o cérebro”, comentou o Mitchel Kling, diretor do programa de avaliação de memória do Instituto Nova Jersey de Envelhecimento Bem Sucedido da Escola de Medicina Osteopática da Universidade Rowman. Um ácido graxo ômega-3 especifico – o ácido docosa-exaenoico, ou DHA – encontrado em peixes gordurosos de águas frias como o salmão, ” éa gordura cerebral mais prevalente”, disse Lisa Mosconi, diretora do Programa de Prevenção de Alzheimer da Weill Cornell Medicine.

Nosso corpo não consegue produzir DHA suficiente sozinho, disse Mosconi. “precisamos obtê-lo de nossa dieta. Esse éum argumento forte em favor do consumo de peixes.  

Segundo Willett, duas ou três porções de peixe por semanas são o bastante.

Nozes e sementes já foram repetidamente vinculadas à desaceleração do declínio cognitivo. Em uma revisão feita em 2021 de 22 estudos sobre consumo de nozes e castanhas, envolvendo quase 44 mil pessoas, pesquisadores constataram que as pessoas com alto risco de declínio cognitivo tendiam a ter resultados melhores quando comiam mais oleaginosas, especificamente nozes. Mas os autores reconheceram inconsistências entre as pesquisas.

Outro estudo, este publicado em 2014, acompanhou entre 1995 e 2001 cerca de 16 mil mulheres com 70 anos ou mais. Os pesquisadores constataram que as mulheres que disseram consumir pelo menos cinco porções semanais de nozes tinham escores cognitivos melhores que aquelas que não tinham nozes como parte de sua alimentação.

Grãos integrais além de leguminosas como lentilhas e soja, também parecem beneficiar a saúde cardíaca e a função cognitiva. Em um estudo de 2017 feito com mais de 200 pessoas de 65 anos ou mais na Itália, os pesquisadores identificaram uma ligação entre o consumo de três porções semanais de leguminosas e uma performance cognitiva melhor.

E o azeite, um dos principais componentes das dietas mediterrânea e Mind, tem vínculos fortes com o envelhecimento cognitivo saudável. Um estudo de 2002 feito com mais de 92 mil adultos americanos descobriu que o consumo maior de azeite está ligado a um risco 29% mais baixo de morte por doença neurodegenerativa, além de um risco de mortalidade total entre 8% e 34% menor em comparação com pessoas que raramente ou nunca consumiam azeite.

Segundo os especialistas, há pouca ou nenhuma evidência de que suplementos alimentares – incluindo os suplementos de ácidos graxos, vitamina B ou vitamina E -possam reduzir o declínio cognitivo.

“Suplementos não substituem uma dieta saudável”, disse a Mosconi.

Por exemplo, um estudo importante realizado com 3.500 adultos mais velhos concluiu que tomar suplementos de ômega-3 frequentemente comercializados como produtos que beneficiam a saúde cerebral, não reduz o declínio cognitivo.

Para Willett, não é preciso devorar suplementos como os de óleo de peixe. Peterson, da Clínica Mayo, lembrou o seguinte ditado espirituoso: “Se vem de uma planta, coma. Se é feito numa planta (fábrica), evite.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EM BUSCA DO POST PERFEITO

Internet agrava distúrbios de dieta e imagem

Uma nova hashtag tem ganhado força nas redes sociais e apavorado os médicos. Em pouco tempo, #TudoQueEuComoEmUmDia e suas variações passaram a reunir milhões de vídeos de meninas filmando e narrando as refeições restritas que fazem em 24 horas. Disfarçada de brincadeira, a tendência opera sob uma lógica cruel de difusão e incentivo a dietas mirabolantes, que sem comprovação cientifica ou acompanhamento profissional podem desencadear transtorno alimentares sérios em troca do contorno “ideal”.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que cerca de, 47% da população brasileira sofre de transtornos alimentares. Entre os adolescentes, o índice chega a espantosos 10%. A incidência é maior entre o público feminino, com sete a oito mulheres para cada homem diagnosticado com quadros como os de bulimia, anorexia, transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE) e compulsão.

“As redes e a mídia têm um efeito muito danoso para algumas pessoas, especialmente adolescentes, que ainda estão em formação”, afirma o psiquiatra Fábio Salzano, vice coordenador do Ambulim, o programa de tratamento de transtornos alimentares do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP).

“Eles não têm maturidade para discernir que, às vezes, uma imagem no TikTok ou no Instagram é extremamente difícil de ser reproduzida de maneira natural e saudável.

INFLUENCIAS TÓXICAS

A influenciadora digital, atriz e apresentadora Dora Figueiredo, de 28 anos, é uma dessas pessoas. Com mais de 750 mil seguidores no Instagram (e outras centenas de milhares do Twitter e TikTok), ela internalizou, desde muito nova, que a magreza era um pré-requisito para ser bonita, elegante e bem-sucedida. As redes sociais, um namoro tóxico e até mesmo a relação com a família contribuíram para ativar diversos gatilhos que a levaram a desenvolver problemas como depressão, ansiedade, anorexia, bulimia e compulsão alimentar.

“Eu tinha por volta de 15 anos quando comecei a tomar anticoncepcional e engordei um pouquinho. Só que eu me via multo maior do que era de fato. Achava que estava gorda, que comia demais, sendo que pesava uns 48 kg e tinha 1,70 m de altura. Quando algum médico dizia que meu IMC (índice de massa corporal estava multo abaixo do mínimo saudável, eu me recusava aceitar. Falava para mim mesma que nunca vestiria mais que (manequim) 38 ou pesaria mais que 60 kg”, diz Figueiredo

Segundo especialistas, os transtornos mais comuns entre jovens são a anorexia, em que o paciente sente a necessidade de manter um peso abaixo do padrão e tem uma visão distorcida do próprio corpo; compulsão alimentar, quando ingere grandes quantidades de alimentos de uma só vez e com frequência; bulimia, que inclui quadros de compulsão, seguidos de medidas para perde peso, como vomitar ou ingerir laxantes e purgativos; e o TARE, que pode ser mais comum em crianças e se caracteriza pela não ingestão de certas comidas, causando restrições.

QUADROS ALTERADOS

Um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que quem sofre de anorexia pode manter um peso normal, embora o corpo esteja enfraquecido e mostre alterações de frequência cardíaca e pressão arterial. Havendo alguma desconfiança por parte da família, o recomendado ébuscar avaliação médica.

“Transtornos alimentares podem trazer complicações clínicas, como mudanças endócrinas, complicações metabólicas, alterações ósseas e hidroeletrolíticas (levando a risco de arritmias, por exemplo)”, explica.

Em casos extremos, também podem levar à morte, a taxa de mortalidade na anorexia gira em torno de 5% a 6%. Já a taxa de mortalidade da bulimia varia de 0,5% a 2%. Mas o índice de suicídios entre pacientes com o transtorno é maior, diz Dimitrov.

Segundo Salzano, o problema tem raízes multifatoriais, incluindo questões genéticas, familiares, socioculturais e também de personalidade. Ele explica que também existem consequências no cérebro, em neurotransmissores como adrenalina, dopamina e serotonina.

Para Dora, a busca por equilíbrio é um ato contínuo:

“Você precisa estar sempre atenta aos gatilhos que te deixam mal. Hoje entendo que perseguir padrões me toma tempo de vida e felicidade. E eu não posso deixar para ser feliz só quando estiver pesando tantos quilos. Quero ser feliz hoje.

OUTROS OLHARES

PAÍS DE DESCONFIADOS

Pesquisa mundial coloca os brasileiros no topo da lista dos povos que sempre partem do pressuposto de que vão ser enganados – só 11% dizem que confiam nas outras pessoas

Não faltam relatos de estrangeiros que sofreram golpes no Brasil simplesmente porque acreditaram em alguma informação falsa e confiaram na pessoa que a repassou. Na maioria dos casos, a reação dos brasileiros é criticar a ingenuidade e a falta de discernimento da pessoa engambelada. Mas, no plano mais amplo da convivência em sociedade, será que a insuspeição é um erro – ou errados estão aqueles que sempre desconfiam de tudo e de todos? A questão se impõe aqui, onde confiança é artigo de luxo. Em pesquisa inédita do Instituto Ipsos, que apresentou a pergunta “Você confia no próximo?” a 22.500 pessoas em trinta países, o Brasil aparece em último lugar – só 11% responderam “sim”, muito abaixo da média global, de 30 %. Não há dúvida de que, nestas praias, o mais prudente é manter o pé atrás até prova em contrário, mas essa atitude tem seu preço. “Quem desconfia sempre se fecha para os outros. Não se trata de confiar cegamente, mas compensa dar uma chance às pessoas”, pondera a psicóloga Lídia Aratangy.

São vários os motivos citados para a desconfiança atávica dos brasileiros e parte deles remonta à própria formação do Brasil colônia, na qual a ausência de um projeto comum entre os nativos e os portugueses desembocou na construção de uma sociedade sem harmonia, onde prevalecia o conflito. “A confiança se estabelece quando há uma relação comunitária e pessoas com objetivos semelhantes, algo impossível em uma época em que um lado temia ser escravizado, explorado pelo outro”, avalia o cientista político José Álvaro Moisés. A indiferença original da sociedade ao interesse coletivo resultou na criação de instituições vacilantes, sujeitas a manobras e interesses, e abriu espaço para a impunidade. Não por acaso, a pesquisa do Ipsos mostra que a profissão com menor prestigio no país é a de político – 63% dos entrevistados a consideram “não confiável”.

A desconfiança sempre patente se acirra ainda mais em consequência da polarização, que ruge com força em ano eleitoral. Nesse contexto, desconhecidos são inimigos em potencial e as barreiras emocionais se tornam ainda mais impenetráveis. “Existe uma crise global de ceticismo, mas a situação brasileira é especial mente preocupante”, afirma a cientista política Nara Pavão, da Universidade Federal de Pernambuco. “A ideia de ‘nós’ contra ‘eles’ separa as pessoas.” O bancário carioca Luiz Roberto Abreu, 56 anos, é um cético assumido, depois de ser alvo de seguidas manobras que o prejudicaram no trabalho e de se decepcionar com o poder público em sucessivos momentos. “Na primeira oportunidade, as pessoas agem para te lesar. E os políticos, que deveriam zelar pela população, só atuam em benefício próprio. Não tem para onde correr”, diz.

O célebre jeitinho, afirmam os especialistas, contribui para o alto índice de desconfiança. Sua origem está no “homem cordial” definido em Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. Segundo o historiador, trata-se de um artificio psicológico incrustado na formação dos brasileiros que faz com que ponham as relações afetivas acima das impessoais. “A tendência é favorecer aquele com quem se tem afinidade. Não existe urna cultura que ponha o correto acima de tudo”, diz Bernardo Conde, antropólogo da PUC-Rio. Com frequência, como todo mundo sabe, esse jeito torto de obter as coisas descamba para o suborno deslavado, inchando ainda mais a maré de desconfiança. Há, felizmente, quem nade contra ela, se dobrando com convicção às regras. A fisioterapeuta carioca Larissa Teixeira, 26 anos, fez a prova de direção quatro vezes e não conseguiu a habilitação. Preferiu desistir a pagar um fiscal e comprar a carteira, como muitos fazem. ”Senti que fui reprovada de propósito, para ganharem dinheiro. Mas acho que burlar as normas sempre prejudica alguém”, desabafa.

Apesquisa instala a China no primeiro lugar em confiança – lá, quase 60% da população põe a mão no fogo pelo próximo. Para o CEO do Ipsos, Marcos Calliari, isso se deve ao Estado forte e à ênfase na coletividade, ainda que os dois fatores se apoiem em um regime ditatorial. “A estabilidade econômica e política se reflete diretamente na forma como as pessoas constroem suas relações”, diz Calliari, observando que as democráticas Holanda, Suécia, Austrália, Irlanda e Suíça também estão entre os dez países com maior índice de confiança.

Entre os entrevistados pelo Ipsos, as mulheres e os jovens se mostraram mais desconfiados do que os homens adultos. “Os altos índices de violência de gênero e a cultura patriarcal explicam esse comportamento”, afirma Calliari. No caso dos jovens, a tendência está atrelada ao intenso fluxo de informação a que têm acesso, onde não faltam provas de cambalacho. O comerciante baiano lury Nunes, 20 anos, sentiu na pele o golpe aplicado por sua melhor amiga, que lhe arrancou 700 reais através de mentiras. Ele ameaçou denunciá-la à polícia e o dinheiro foi devolvido, mas a mágoa permaneceu. “Levei tempo para entender que estava sendo roubado. Hoje não empresto centavo para ninguém e não consigo confiar nem em amigos e familiares’,’ admite. Nem sempre, porém, desconfiar é o pior caminho. Há situações que justificam plenamente manter um pé atrás e outras em que duvidar abre horizontes inesperados. O cientista Albert Einstein (1879-1955), do alto de sua sabedoria, pontificava: “O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma”. Mas quem se fecha à possibilidade de acreditar nas outras pessoas pode acabar mais sozinho do que gostaria. “Sentir-se acolhido e confiar formam uma via de mão dupla”, observa Lídia Aratangy. No país dos desconfiados, um voto de confiança pode fazer toda a diferença.

GESTÃO E CARREIRA

VIGIAR EQUIPES É EFEITO COLATERAL DO TRABALHO HÍBRIDO

Na volta aos escritórios, empresas adotam formas de monitorar a frequência dos funcionários, o que causa desconforto

Os planos de trabalho hibrido costumam lembrar problemas de matemática. Três dias por semana no escritório, dois em casa; 50 pessoas se deslocando para o local de trabalho de quase 100 mil metros quadrados e dez pizzas. A tudo isso se somam 40 horas de trabalho e empresas tentando determinar se parte da solução é ficar de olho nos funcionários.

Enquanto decidem como administrar seus planos de retorno ao escritório, os executivos consideram se devem monitorar a frequência ou seguir confiando nas pessoas.

Quando milhões começaram a trabalhar de casa há dois anos por causa da pandemia, eles se beneficiaram de um novo grau de autonomia, enquanto gestores viam as tarefas concluídas. Agora, conforme as empresas chamam os funcionários de volta, elas estão decidindo se tomam medidas para garantir que todos estejam trabalhando em suas mesas.

MONITORAMENTO

 As dúvidas em relação à assiduidade podem ser preocupantes para o grande grupo de empresas que combinam trabalho presencial e remoto. Das 91 empresas com planos de voltar ao escritório que a Cushman & Wakefield está acompanhando, 86% adotaram políticas híbridas.

Alguns gerentes do Goldman Sachs – que tem aproximadamente 20 mil funcionários em Nova York e decidiu pela volta ao trabalho no escritório cinco dias por semana – estão mantendo planilhas para saber quais trabalhadores estão comparecendo. Na Smart Recruiters, empresa de software, os gestores usam dados do sistema de reservas de mesas para “vigiar” as pessoas. “Uma parte da nossa filosofia de RH é que gostaríamos de monitorar se as pessoas estão indo trabalhar”, diz Jenae Kaska, da Smart Recruiters.

Mas, depois de experimentar a flexibilidade e fortalecidos por um mercado de trabalho aquecido, alguns trabalhadores não ficaram contentes em serem monitorados. Eles se sentem pressionados a aparecer quando sabem que seus supervisores estão coletando dados de frequência. Cerca de um terço dos trabalhadores entrevistados pela CCS Insigh mencionou a pressão para ir ao escritório como uma das preocupações em relação ao modelo híbrido.

Muitos gestores ficam igualmente desmotivados com a perspectiva de terem de monitorar a assiduidade. “Também sou uma pessoa ocupada, e a ideia de ter de vigiar como se estivéssemos na escola outra vez é horrível”, disse Sara Baer-Sionott, presidente da Oldmys, em Boston.

Especialistas disseram que as empresas recorrendo a sistemas de monitoramento provavelmente já tinham problemas com a cultura do local de trabalho. “É como contratar um jogador de futebol e dizer: Não importa quantos gols você faça, só me importo com quantas horas você treina”, disse Nicholas Bloom, professor da Universidade Stanford e especialista em trabalho remoto.

Algumas empresas estão coletando dados sobre quando os funcionários vão ao local de trabalho, mas não analisam os padrões de assiduidade individuais. A DocuSign, que tem mais de 7 mil funcionários, examina informações relacionadas com reservas de mesas e salas de reunião, assim como apresentação de crachás nas instalações. No entanto, não verifica o que cada funcionário está fazendo, disse Joan Burke, chefe de RH. “Nossos funcionários provaram que podem trabalhar bem de qualquer lugar.”

Muitos trabalhadores, em todos os setores, resistem à perspectiva de monitoração da frequência. “Não tenho ninguém me vigiando. Se tivesse isso, me causaria muito estresse”, diz Rose Worden, que trabalha em Washington e deve ir ao escritório duas vezes por semana. “A confiança é importante em qualquer emprego”.

EU ACHO …

TUDO VIROU RECOMEÇO

Como lidar com a ansiedade amorosa na vida pós-pandemia

É um período propício para novos amores. O Carnaval está aí, e uma multidão parece disposta a se rasgar. Na pandemia houve um recesso, em que aplicativos como o Tinder tiveram sua glória. Mas nada melhor que carne e osso, não é? De um tempo para cá, mais seguras, muitas pessoas procuram um par, antes que surja uma nova cepa. O movimento já vem de tempos, mas tornou-se mais intenso que nunca. Até surpreendentemente. Uma amiga me procurou assustada: a mãe de 84 está namorando. Um safado, segundo diz. A mãe, no processo de conquista, mentiu para mais o valor da aposentadoria que ganha. Foi o suficiente para receber declarações apaixonadas. Minha amiga não sabe o que fazer. E eu pergunto: fazer o quê? Não é o primeiro caso. Urna idosa começou a se relacionar. Toda parentada achava lindo, porque era com um senhor mais velho, simpático. Até que começaram a receber ameaças de sequestro da netinha e pedidos de dinheiro. Investigaram. O ancião estava por trás do golpe. A vovó foi proibida de vê-lo. Passou a encontrá-lo às escondidas.

A panden1ia talvez tenha tornado as pessoas mais ingênuas. Um conhecido, de classe média, já passou por dois casamentos. Pensava que nunca mais… Mas conheceu uma moça. Ela já tinha um filho e ele se dispôs a ser um novo pai. Convidou a eleita para ir ao Rio de Janeiro. Comprou anel. Após um lindo jantar, fez o pedido. Aceito. Na manhã seguinte, ao vir embora, ela mudou de ideia. Separou-se. Arrasado, ele descobriu que o garoto não gostava dele, e a mãe foi na onda do filho. Ele acreditou que a paixão era para sempre. Também acho que a pandemia tornou parte de nós mais românticos. A outra parte, porém, foi bem mais prática, porque ela não devolveu o anel – que ele ainda paga em prestações.

A sensação de que a vida poderia ter acabado assim, de repente, cria urgência em resolver as mágoas do passado. Um amigo, de origem pobre, hoje rico, passou a adolescência apaixonado pela mais bela do colégio. Rica, também. Hoje, ela é uma intelectual, professora universitária. Mas continua linda. Quarenta anos depois, já separado duas vezes e com quatro filhos, ele resolveu superar o trauma da rejeição. E a convidou para jantar, algo perfeitamente comum no grupo de amigos… Mas a levou diretamente de São Paulo para o Rio, em um voo fretado de jatinho. Hotel cinco estrelas. Como nos filmes, havia um vestido de grife para ela se trocar. Um jantar fantástico, champanhe… Ela também divorciada, solitária no pós- pandemia… Se apaixonou. Voltaram em clima de sonho. Dois dias depois, ele sumiu. Logo veio a descoberta. Tinha outra, mais nova. A pandemia o fez querer livrar-se do trauma da rejeição, e conseguiu. Ela, que estava de bem com a vida, ficou péssima. Ser alvo do trauma alheio dói demais.

Não se falam mais.

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

SEIS PASSOS PARA QUEM QUER PARAR DE FUMAR

Malefícios do cigarro, que envolvem desde câncer até derrame, são compreendidos pelos fumantes, porém abandonar o vício não é uma tarefa fácil

Há não muito tempo atrás, fumar era considerado legal. Para ser visto como alguém descolado, que acompanhava as tendências, bastava andar com um cigarro entre os dedos. Ao menos era isso que mostravam as propagandas que somente foram proibidas nos anos 2000. Hoje, o tabagismo é entendido como uma doença causada pela dependência química da nicotina e, de cordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano.

No entanto, largar o cigarro não é fácil – ainda que a maioria dos fumantes saiba dos malefícios dele. Por ser um vício, é preciso uma série de medidas para o combate ser eficaz. Abaixo listamos algumas.

MUDE DE PERSPECTIVAS

“Para mim, o primeiro passo para você parar de fumar é ter certeza absoluta de que quer fazer isso. Quem mudou isso dentro de mim foi a chegada da minha primeira neta, Maria Clara”, conta Wal Marinho, de 58 anos, que fumava desde os 15. “Hoje, consigo ficar em qualquer lugar, mesmo com pessoas fumando. Mas isso não quer dizer que não dá vontade. Por isso, é legal ter certeza de que você quer parar.”

DESASSOCIE O PRAZER

A motivação é determinante, porém é preciso criar condições para que as pessoas consigam fazer isso. “Esse é o posto-chave”, explica Jaqueline Scholz, cardiologista, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração (InCor) e criadora do Programa de Assistência ao Fumante. Em seu método, ela põe o paciente “de castigo” para fumar. Ou seja, ele pode consumir cigarros quando tiver vontade, mas sob algumas condições: ele deve estar sozinho, olhando para uma parede, sem celular, alimentos ou bebidas.

“É sobre dissociar todo o cenário que o indivíduo bota nesse contexto e que o transforma em algo mais agradável ainda. Isso o prepara para um segundo momento de abandonar o cigarro”, diz a médica.

LIMPE O CAMINHO

Há quem consiga parar de fumar de uma vez só e aqueles que fazem uma parada gradual, especialmente quem tem um alto grau de dependência. Independentemente da maneira escolhida, é interessante evitar os gatilhos para diminuir a chance de uma recaída. Avise amigos e familiares, se livre dos maços e até considere largar por um tempo alimentos ou bebidas associadas ao cigarro, como o cafezinho ou a cerveja. “Essa rede de apoio é muito importante para quem quer parar. E, se você fala dessa sua vontade, todo mundo te ajuda. Eu até levo as pessoas a diminuírem o hábito de fumar, porque elas não fumam perto de mim”, relata ainda Wal.

UTILIZE SUBSTITUTOS

“O nosso cérebro é composto por bilhões de células nervosas, como os neurônios que se comunicam entre si, por meio dos elementos químicos que o próprio cérebro produz (hormônios, neurotransmissores). A nicotina estimula a produção da dopamina, neurotransmissor que afeta o nosso estado de ânimo e proporciona sensação de prazer e bem-estar”, explica a psicóloga e neuropsicóloga, Mariana Bertuani.

Assim, quando a pessoa para de fumar, sente abstinência eo cérebro, para compensar, produz noradrenalina, que aumenta a irritabilidade e nervosismo. Para diminuir essa crise, chicletes, adesivos de nicotina ou medicação antitabaco são muito indicadas para aliviar a vontade incontrolável de fumar. Para muitos, a primeira semana é a pior. Mas, de modo geral, essa fase dura de um mês e meio a três.

CUIDE DA SAÚDE MENTAL

Por mexer com o bem-estar, a nicotina pode exercer uma função antidepressiva ou desestressante. Assim, durante todo o processo de parar de fumar é indispensável a ajuda médica e psicoterapêutica.

Outros sintomas da crise de abstinência são: tontura, alteração do sono, dificuldade de concentração e dor de cabeça que afetam a saúde mental.

Além da ansiedade que pode ocasionar um aumento de peso e, consequentemente, alterar a autoestima. É possível encontrar ajuda em grupos privados e públicos na internet, programas especializados e até mesmo no Sistema Único de Saúde (SUS), com o Programa Nacional de Controle do Tabagismo e o Programa Saúde da Família.

CONSIDERE PEQUENAS VITÓRIAS

Lembre-se: reduzir já é uma vitória. “A gente precisa entender que são anos de um comportamento que a pessoa vai ter de mudar, vai reinventar sua rotina e criar hábitos. É uma quebra muito forte e a gente tem de valorizar”, incentiva a psicóloga. Aproveite a economia que vem com o dinheiro antes gasto no cigarro e use-a como incentivo para não fumar de novo comprando algo novo, fazendo uma viagem ou indo jantar com alguém querido para comemorar.

De acordo com os especialistas, há mudanças significativas na respiração e pressão sanguínea assim que alguém decide parar. Dois dias depois, por exemplo, o olfato já percebe mais os cheiros e o paladar degusta melhor a comida. ”Eu não sentia que minha casa cheirava a cigarro. É muito legal você se sentir cheirosa o dia todo e sentir os perfumes da casa também”, conclui Val.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BRASILEROS ESTÃO MAIS DEPRIMIDOS

Pesquisa do Ministério da Saúde mostra que porcentual é maior que média da OMS

Um porcentual cada vez maior de brasileiros sofre de depressão, e a pandemia de covid-19 pode ter contribuído para agravar o problema. De acordo com a Pesquisa Vigitel 2021, do Ministério da Saúde, divulgada na semana passada, em média 11,3% dos brasileiros relatam um diagnóstico médico de depressão. É um número bem acima da média apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o País, de 5,3%. O Vigitel é um levantamento anual sobre saúde nas capitais. E é a primeira vez que traz números da depressão.

O levantamento mostrou também que, em média, há mais pessoas no País com depressão do que com diabete (9,1%) – doença crônica considerada muito comum. O trabalho revelou ainda que a frequência de adultos com diagnóstico médico de depressão variou bastante entre as capitais. Foi de 7,2% em Belém, a 17,5% em Porto Alegre. Como já é sabido, a doença afeta mais mulheres (14,7%) do que homens (7,3%) e aparece com porcentuais semelhantes em todas as faixas etárias.

“Já tínhamos um indicativo de que o problema estava aumentando e, por isso, decidimos incluir a depressão no Vigitel, que é feito com maior periodicidade”, explicou o professor Rafael Moreira Claro, da Universidade Federal de Minas (UFMG), coordenador do trabalho. “A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 registrou que 10% da população tinha um diagnóstico médico de depressão, ante 7,6% na pesquisa anterior, de 2013; aumento de 5 milhões de pessoas.”

Os pesquisadores acreditam que o número expressivo de diagnósticos está agora relacionado à pandemia de covid-19. Um levantamento feito pela Universidade Estadual do Rio (UERJ), em 2020, sobre o impacto da pandemia, revelou que o porcentual de casos tinha passado de 4,2% para 8% nos primeiros meses da crise no País. “Sabemos que situações muito estressantes como a pandemia podem ser um estopim para a depressão”, afirmou Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da UERJ. “Embora o novo número seja muito alto, não chega a surpreender que dois anos depois a situação tenha piorado, até porque não temos política pública para a contenção de demandas patológicas.”

SUBNOTIFICAÇÃO

Como a depressão é uma doença “silenciosa” e cercada de tabus, os casos ainda tendem a ser subnotificados. “Asexigências dos tempos em que vivemos já são muito grandes, e agora estão somadas a um contexto de pandemia, de uma ameaça invisível, de risco de vida para você e os seus amados. Muita gente não deu conta mesmo”, constatou Teresa Cristina Kurimoto, da Escola de Enfermagem da UFMG, uma das responsáveis pelo Vigitel. “Alguns estudos mostram que em grupos específicos, sobretudo de profissionais da linha de frente, o aumento foi muito maior, chegando a 40%.”

Para os especialistas, não há uma explicação única para o fenômeno. As demandas da vida contemporânea têm um impacto, bem como o aperfeiçoamento do diagnóstico e o excesso de diagnósticos. “O tempo em que a gente vive é ansiogênico (gerador de ansiedade) e, ao mesmo tempo, de percebermos nossa impotência diante de tantas coisas”, afirmou Kurimoto. “Somos o tempo todo confrontados com a exigência de sermos excelentes gestores de nós mesmos; não serve ser bom, tem de ser excelente. A gestão do tempo, das emoções, tudo precisa acontecer de forma muito competente.” A redução dos preconceitos que cercam a doença e a melhoria nos diagnósticos certamente contribuíram para o aumento do número real de casos.

Mas, ressaltou a especialista, também não se pode descartar um excesso de diagnósticos errôneos, em que questões inerentes à existência humana são transformadas em doença. O Vigitel também mostrou um aumento no consumo exagerado de álcool e uma redução da prática de atividade física – duas variáveis ligadas à depressão. O trabalho mostra que praticamente a metade da população (48,2%) pratica menos atividades físicas do que o recomendado. E o consumo abusivo de bebida alcoólica chegou a 18,3%. A depressão resulta de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos, segundo a Organização Mundial de Saúde. Pessoas que passam por eventos adversos (como desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas.

Episódios de depressão podem ser leves, moderados ou graves. Alguns sintomas a serem notados são tristeza persistente, humor deprimido (desânimo, baixa autoestima, sentimentos de inutilidade), perda de interesse em atividades antes apreciadas, alterações no apetite, ganho ou perda de peso súbita, insônia, excesso de sono e fadiga acentuada. Dependendo da avaliação médica, os tratamentos podem ser por psicoterapia ou medicamentosos, ou uma combinação dos dois.

TRANSTORNO BIPOLAR

Preferindo o anonimato, a porto-alegrense I.R, de 50 anos, foi diagnosticada pelo psiquiatra com transtorno bipolar. A identificação surgiu há cerca de 20 anos, quando estava em seu segundo casamento. “Sempre lutei com relações de mudança de comportamento e aquela tristeza absurda. Sempre tive muitas dúvidas sobre esse diagnóstico de bipolaridade, pois meus episódios de depressão são muito mais persistentes do que qualquer outra coisa”, afirmou a comunicadora que trabalha em um canal de TV.

I.R relatou que no início da doença conseguia identificar suas crises de mania, como por exemplo, euforia exacerbada, descontrole nos gastos econômicos (em especial, supérfluos) e irritabilidade extrema.

Na época, fazia consultas particulares com o psiquiatra e tomava remédios. Entre os medicamentos receitados estavam divalproato de sódio, indicado para o tratamento de episódios de mania associados com transtornos bipolares e cloridrato de sertralina para sintomas de depressão e ansiedade.

“Tomei por algum tempo e depois parei por conta própria.” Após um período, a paciente retomou ao médico e começou a se tratar com topiramato, para estabilização do humor, e queriapina, para o tratamento de manutenção do transtorno afetivo. “Fiz o tratamento por um tempo e parei de novo. Eu vivo o presente. A depressão foi tão forte que até tomou conta da tentativa que o paciente bipolar pode ter, por exemplo: vou gastar dinheiro para quê? Vou discutir para que? Não tenho muitas expectativas com as coisas, não possuo mais aquela vontade, sabe….”, lamentou.

A paciente revelou que desistiu dos tratamentos convencionais, como psiquiátricos e psicológicos, pelos altos valores das consultas e remédios para combater a depressão e ansiedade. “A perda do emprego repentinamente em 2015 (justo às vésperas de seu aniversário), a morte de minha avó e o fim do segundo casamento foram fatores cruciais”, comentou I.R que já pensou em suicídio algumas vezes.

ANIMAIS

Muita gente ainda não acredita, mas ter um animal de estimação faz bem à saúde. Pode ser um cão, um gato, um hamster ou mesmo um coelhinho. O fato é que conviver com esses animais traz alegria e bem-estar, e o convívio é sempre muito agradável e recompensador. A gaúcha I.R, que também é mãe e avó, atribui sua vida a cuidar, especialmente, de gatos de estimação. “Vivo por eles, os gatos são a minha medicação e assim me mantenho estável, em pé, como lutadora, entende?”, explicou a gaúcha.

Já a idosa Zilma de Sousa, de 70 anos, residente em um apartamento na zona norte de Porto Alegre disse que foi diagnosticada com depressão após a morte do marido, em janeiro de 2014. Na época, ela sentia muita tristeza, um vazio e grande vontade de dormir, apenas dormir. Fez tratamento psiquiátrico por um ano e meio. Posteriormente seguiu apenas com os medicamentos. ”Larguei as consultas porque só falava, falava e nada do médico me dizer algo, apenas me dava medicamentos. Claro que os remédios ajudaram e ajudam até hoje”, admitiu Zilma.

Entre os medicamentos expostos em uma caixa, na mesa da sala estão o clonazepam – um ansiolítico bastante eficaz contra transtornos de ansiedade e o escitalopram, utilizado para tratamento ou prevenção da recorrência da depressão, tratamento do transtorno de pânico, de ansiedade e obsessivo compulsivo. “Tomo diariamente os dois comprimidos e me sinto bem, além disso tenho meu companheiro aqui, o Marenco (cãozinho da raça Shitzu), de 8 anos. Marenco foi um presente de sua filha, logo após o falecimento do pai. “Um amigo e tanto”, finalizou Zilma.

MULHERES

Conforme o médico psiquiatra do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) em Porto Alegre, Bruno Paz Mosqueiro, de 37 anos, cerca de 20% dos pacientes atendidos no Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) relatam sintomas de depressão e estes são encaminhados para atendimento ao Posto de Saúde ou, dependendo da gravidade do caso, direcionados aos ambulatórios especializados na área de psiquiatria. Outra observação feita pelo médico, durante os atendimentos, é de que a maioria são mulheres que buscam ajuda. “As mulheres possuem um risco quase duas vezes maior de desenvolver a depressão e isso se deve a vários fatores, desde biológicos até questões de gênero”, explicou.

OUTROS OLHARES

CAIU NA REDE

Estudo revela que o TikTok é o aplicativo que mais compartilha informações pessoais, o que põe em risco a segurança dos usuários

Em 1968, no catálogo de uma exposição em Estocolmo, na Suécia, o artista plástico americano Andy Warhol cunhou uma de suas mais conhecidas máximas: “Um dia, todos terão quinze minutos de fama”. O futuro chegou e a celebridade efêmera a que se referia Warhol já caiu para quinze segundos, se tanto. Em tempo de TikTok, não se autoriza muito mais do que isso na fabricação de famosos instantâneos, nascidos de pequenos vídeos, quase sempre atrelados a uma trilha sonora e invariavelmente tolos. A plataforma digital da empresa ByteDance, lançada na China em 2016, tem hoje uma média mensal de 1 bilhão de usuários, o que a instala na sexta posição entre as redes sociais mais populares. O Brasil, como sempre nesse âmbito, contribui com74,1 milhões de pessoas viciadas na ferramenta, em terceiro lugar no ranking planetário, atrás apenas de Estados Unidos e Indonésia. O modo impressionante como o aplicativo, aparentemente inocente, se espalhou, especialmente entre os mais jovens, acendeu um sinal de alerta internacional. Seria um cavalo de Troia chinês para coletar dados e usá-los a favor do regime de Pequim?

No recém-lançado TikTok Boom (Intrínseca), o jornalista britânico Chris Stokel-Walker conta a história dessa ascensão e navega sobre o medo de que os chineses estejam coletando informações pessoais como biometria facial, localização, conteúdo de mensagens e interação com propagandas. E pior: com intenções escusas. Embora representantes da ByteDance jurem não abrir a caixa de Pandora, há informações que os contradizem. Um levantamento da agência URL Genius mostra que o aplicativo compartilha arquivos com treze outras empresas em média. You Tube, Twitter e Telegram também aparecem na lista. “É crucial reconhecer que o debate sobre o uso de dados pelo TikTok se enquadra em um contexto mais amplo, de preocupações sobre a ascensão da China e, em particular, o uso de sua tecnologia no Ocidente”, escreve Stokel-Walker. “De acordo com o pensamento ocidental, se um único aplicativo pode ganhar tanta influência entre centenas e milhões de cidadãos, o que poderia vir em seguida?”

Já há reação. No fim do ano passado, o órgão regulador de comunicações da União Europeia começou a investigar como o TikTok faz a gestão de dados pessoais de crianças e os transferem à China. Mais recentemente, a corte britânica autorizou o prosseguimento de um processo iniciado por uma menina de 12 anos que busca indenização em nome de milhões de jovens pelo suposto mau uso de dados por parte da plataforma. Nos Estados Unidos, o aplicativo deu sinais de que fechará um acordo de 1,1 milhão de dólares por coletar dados de menores de idade sem a autorização dos pais.

Alguns especialistas, contudo, pedem cautela. “Acho precipitado rotular uma rede social como mais perigosa que as demais”, disse Bruno Bioni, pesquisador de proteção de dados e diretor-fundador da Data Privacy Brasil. “É preciso aprofundar as investigações.” E não se trata, reafirme-se, de apontar o dedo apenas para o TikTok. Outras empresas andam na mesma estrada. “Somos hipócritas, porque ninguém lê os termos de uso e política de privacidade, vamos aceitando e pronto”, diz Bruno Lima Fernandes, professor de marketing digital da Fundação Dom Cabral. Convém lembrar, contudo, que a distração ou leniência do cidadão não pode representar aval para crimes digitais.

Estima-se que vazamentos de dados causem prejuízos anuais de 1 trilhão de dólares à economia mundial. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). de 2018, tenta proteger o usuário em diversas situações. A lei assegura ao titular dos dados a anonimização ou eliminação de coletas desnecessárias ou excessivas. Por ser uma lei geral, tem aplicação extra­ territorial, ou seja, é válida para qualquer companhia que lide com dados coletados em território brasileiro. No entanto, ainda é preciso que surjam políticas públicas capazes de reforçar investimentos em áreas críticas. O caminho, dizem os especialistas, é forçar cada vez mais a transparência e alimentar uma rede global de proteção de dados. Caso contrário, estaremos todos em perigo. E aqueles quinze minutos de fama podem virar quinze anos de problemas.

GESTÃO E CARREIRA

GRANDES EMPRESAS ENTRAM NA DISPUTA POR ESPAÇOS DE COWORKING

Redução de custos fixos e maior autonomia de empregados explicam a alta da demanda, afirmam especialistas

Se antes da pandemia os espaços de coworking eram essencialmente utilizados porempresas de menor porte, a mudança para um modelo de trabalho mais flexível tem alterado o perfil dos interessados em usar escritórios compartilhados. Agora, esses locais também são disputados por grandes corporações.

“O caminho do compartilhamento de espaços, com menos custos fixos e flexibilidade de o empregado não precisar estar fisicamente todos os dias no local de trabalho, está em ascensão e tem sido uma alternativa atrativa no modelo de trabalho atual”, explica a diretora de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Newmark, Mariana Hanania.

A Petrobras está entre as empresas que fizeram esse movimento. A estatal reduziu o espaço de sua sede no Rio de Janeiro e passou a fazer licitações para alugar coworkings para comportar seus funcionários. “As empresas não querem mais investir em imobilizado”, acrescenta Mariana.

Na lWG no Brasil, que é dona das marcas de coworking Regus e Space, os números já refletem esse fenômeno. Antes da crise sanitária, as grandes empresas representavam 40% dos clientes, parcela que agora saltou para 65%. “O trabalho híbrido virou o novo normal. Temos oito mil clientes, e 90% deles voltaram no modelo híbrido”, diz o presidente do grupo no Brasil, Tiago Alves.

Segundo o executivo, na pandemia muitas empresas, assim como a Petrobras, reduziram seus escritórios e decidiram espalhar seus locais de trabalho com o apoio dos coworkings. A ideia dessas empresas, de acordo com Alves, é dar opções para seus funcionários trabalharem mais perto de casa. A IWG possui hoje no País 66 espaços e planeja encerrar 2022 com 100, o que marcará o melhor ano da empresa no Brasil.

Na WeWork, que possui 32 espaços no Brasil, a taxa de ocupação já atingiu 80% – maior do que em mercados como Canadá, França e Suécia e segunda maior ocupação na América Latina. “Seguimos animados com as possibilidades para 2022, e otimistas com a expectativa de que o crescimento acelere nos próximos meses”, diz o presidente da empresa no Brasil, Felipe Rizzo.

Na pandemia, a WeWork se viu obrigada a fechar espaços, mas o executivo diz que, sob o impulso da tendência do modelo de trabalho flexível, a empresa superou os seus números pré-pandemia, atingiu o maior número de clientes desde sua chegada no Brasil e está, há 18 meses seguidos, com o balanço de vendas líquidas positivo no Brasil.

Uma das empresas que migraram o escritório para a WeWork foi a Valid, que produz 80% das CNHs. Ocupa área na região da Avenida Paulista. “Ao todo, são 175 postos de trabalho revezados entre os cerca de 400 funcionários da empresa na capital paulista”, comenta Rizzo.

CUSTOMIZADO

Na GoWork, a demanda por parte das grandes empresas está crescente e movimentando um nicho de negócio da companhia batizado de build to go,na qual um prédio é customizado para o cliente. Não há, nesse formato, espaço de trabalho compartilhado com outras companhias e todo o restante dos serviços é fornecido exatamente como um coworking tradicional. Dentre os exemplos, estão o escritório de advocacia LBCA e o da companhia de seguros de saúde Qualicorp. “Trata-se de um contrato modular, com mais dinamismo do que a locação tradicional. Antes da pandemia, empresas mais tradicionais tinham reticências ao coworking”, comenta o presidente da GoWork, Fernando Bottura.

”Tivemos um momento no início da pandemia em que se colocou em xeque o modelo do negócio, mas hoje o trabalho hibrido é um caminho sem volta”, comenta o executivo. A GoWork, que possui 8,4 mil estações de trabalho, projeta dobrar de tamanho neste ano. No momento, três prédios estão em fase de implementação para novos escritórios.

EU ACHO …

A NOVA MINORIA

É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos.

A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos, netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem­ vinda diversidade cultural. mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.

Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Seriam pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.

O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para muita gente, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.

O sensato obedece a regras ancestrais, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.

O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompi­ mento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.

O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que a vida é muito curta para ser pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Não tem paciência para os que são regidos pela vaidade e que não falam nada que preste. Constrange-se de testemunhar o vazio da banalidade sendo passado de geração para geração.

Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.

Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

REGIME DE SONO

Dormir pouco aumenta gordura abdominal e visceral, diz estudo

Uma noite de sono mal dormida pode trazer prejuízos além do cansaço no dia seguinte. Pesquisadores da Mayo Clínic, nos Estados Unidos, descobriram que a falta de um sono adequado provoca um aumento de 9% na área total da gordura abdominal e de 11% na gordura visceral. Os resultados foram publicados na revista cientifica Journal of the American College of Cardiology.

As descobertas preocupam os pesquisadores, especialmente em relação ao aumento de gordura visceral. Isso porque esse acúmulo de gordura acontece entre os órgãos internos do abdómen e fígado diretamente a um aumento no desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas.

“Isso sugere que o sono inadequado é um gatilho previamente não reconhecido para a deposição de gordura visceral, e que o sono de recuperação, pelo menos a curto prazo, não reverte esse acúmulo da gordura. A longo prazo, essas descobertas sugerem que o sono inadequado contribui para as epidemias de obesidade, doenças cardiovasculares e metabólicas”, afirma o professor de medicina cardiovascular da Mayo Clínic Virend Somers, um dos autores principais da pesquisa, em comunicado.

Segundo os responsáveis pelo estudo, o costume de se dormir menos tem crescido especialmente, devido a turnos de trabalho, aparelhos eletrônicos e redes sociais terem passado a ocupar uma parte cada vez maior da rotina noturna. Além disso, eles destacam que há uma tendência em se alimentar mais durante um período muito longo em que o organismo permanece acordado, ao passo que não há um aumento proporcional nas atividades físicas.

“Nossos achados mostram que o sono encurtado, mesmo em indivíduos jovens, saudáveis e relativamente magros, está associado a um aumento na ingestão de calorias, um aumento muito pequeno no peso e um aumento significativo no acúmulo de gordura dentro da barriga”, explica Somers.

O estudo envolveu 12 pessoas saudáveis que passaram por dois períodos de análise de 21 dias cada. Em cada um, parte dos participantes dormiram de forma normal – em média nove horas – e o outro grupo teve o sono restringido a quatro horas diárias. Enquanto isso, os pesquisadores monitoraram indicadores como consumo de energia gasto, energético, peso corporal, composição do corpo, distribuição de gordura – incluindo gordura visceral – e biomarcadores de apetite.

Durante o período de sono reduzido, os pesquisadores também observaram que os participantes consumiram aproximadamente 13% mais proteína e 17% mais alimentos gordurosos.

QUANTIDADE E QUALIDADE

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Sono (ABS) em 2019 mostrou que 65% da população brasileira tinham problemas de qualidade no sono. A Fundação Nacional do Sono dos Estados Unidos recomenda que, em média, dos 18 aos 64 anos, o adulto durma de sete a nove horas por dia. Essa quantidade é maior para crianças e adolescentes.

“Porém existem pessoas que ficam satisfeitas com menos de sete horas e pessoas que precisam de mais de nove. O sono é um problema quando tem sintomas que mostram a sua má qualidade, como ronco, sonolência excessiva diurna, dores nas articulações da mandíbula e despertar a noite inteira. É mais importante se concentrar nesses pontos que na quantidade”, explica o doutor em psicobiologia e pesquisador do Instituto do Sono Gabriel Natan.

E não é de hoje que os especialistas ressaltam as consequências negativas de um sono de baixa qualidade. Além do aumento da gordura, outros malefícios são um risco elevado para problemas cardiovasculares, diabetes e doença coronariana, comprovado em estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Medicina Jichi, no Japão.

“Tem também as consequências na saúde mental, porque a pessoa privada de sono vai ter problemas de concentração, de atenção, de memória, além de a insônia aumentar as chances de desenvolvimento de ansiedade e depressão a longo prazo. Hoje sabemos também que pessoas que não dormem bem ao longo de anos tem risco elevado para doença de Alzheimer”, acrescenta Natan.

Isso acontece porque durante o sono existe um mecanismo do cérebro chamado de sistema glinfático que atua limpando substâncias tóxicas do Sistema Nervoso Central (SNC).

Um estudo de pesquisadores do laboratório de neuroimagem do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) mostrou que um desses elementos prejudiciais é uma proteína chamada beta-amiloide. Em excesso, ela se junta formando placas que já foram ligadas ao diagnóstico de doença de Alzheimer.

COMO MELHORAR

Natan explica que para se dormir melhor é preciso acostumar o corpo a isso porque o cérebro leva um tempo para desacelerar. Portanto, o sono não é algo instantâneo e dicas como afastar-se de fatores estressantes, dos excessos de luz e do celular ao menos uma hora antes do horário de dormir são uma boa estratégia.

O objetivo é que durante esse tempo o corpo vá entendendo que está chegando o momento de adormecer. Para isso, é preciso também que ele veja a cama como um ambiente destinado a isso. Logo, o pesquisador explica que trabalhar nela, atividade comum em tempos de home office é extremamente desaconselhado, pois leva o seu corpo a deixar de interpretar aquele local como um lugar de descanso.

Outras estratégias para melhorar a qualidade do sono são evitar o café depois das 17h e praticar exercícios físicos em horários mais afastados da hora de dormir. Além disso, Natan afirma que, se a pessoa estiver com problemas para adormecer, virando-se de um lado para o outro na cama, o ideal é levantar e fazer outra atividade, como ler um livro, e retornar apenas quando o sono aparecer.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO IR À ESCOLA SE TORNA UM PESADELO

Frequentemente confundida com preguiça e falta de vontade das crianças em ir ao colégio, a fobia escolar pode provocar angústia e estado de apreensão, acompanhados de reações físicas e mentais bem desconfortáveis

O que leva uma criança ou adolescente a não querer ir à escola? Muitas vezes, o “não ir a escola” é atribuído à preguiça, falta de vontade, negligência dos pais, ausência de estímulos por parte dos educadores. Não é de hoje que as dificuldades escolares são fontes constantes de estudos e discussões. Mas, muitas vezes, não é associada a problemática psíquica nessa recusa escolar. Os transtornos de ansiedade são apontados como os mais predominantes em crianças e adolescentes, com 28% de prevalência ao longo da vida. Estudos afirmam que 5% das crianças da educação infantil e 2% do ensino fundamental sofrem desse transtorno, que começa por volta dos quatro ou cinco anos, com sintomas mais agudos.

Dentre os transtornos de ansiedade, é possível destacar a fobia escolar, que pode ser uma das causas das dificuldades escolares nessa faixa etária. Ela é compreendida como um medo exagerado e injustificado que a criança ou o adolescente sentem em ir à escola. O simples fato de uma possível aproximação com o estímulo fóbico (escola) gera intensa reação de angústia e estado de apreensão, acompanhada de várias reações físicas e mentais desconfortáveis.

O medo é uma emoção inerente ao ser humano, uma reação instintiva de sobrevivência, e exerce de certa forma uma função protetiva, servindo de sinalizador frente aos perigos reais. Todavia, quando deixa de ser um alerta e imobiliza, passa a ser patológico. Esse medo patológico é denominado fobia.

A primeira descrição de ansiedade como uma desordem mental data do século XIX. Foi através dos trabalhos clínicos desenvolvidos por Sigmund Freud (1836-1939) que os transtornos de ansiedade começaram a ser classificados de forma mais sistemática.

Os primeiros relatos de casos clínicos de crianças com sintomas ansiosos datam do início do século XX. Em 1909, Freud publica o caso do pequeno Hans, um menino de cinco anos que apresentava um quadro clássico de fobia. Hans tinha um medo tão grande de cavalos que, às vezes, nem conseguia sair de casa. Para o garoto Hans, o objeto fóbico “cavalo” era o repositório de muitos medos.

A pessoa fóbica realmente não sabe por que tem medo, ao contrário daquela que sabe por que ri quando ouve uma piada. Entretanto, faz pouca diferença para a realidade psíquica de quem tem fobia reconhecer a “irracionalidade”. A criança acredita veementemente na realidade do símbolo fóbico, a despeito de sua análise intelectual.

A fobia escolar, portanto, não é exatamente ter medo da escola em si, mas sentir angústia de algo nela existente ou como se tivesse algo na iminência de acontecer, mas a pessoa não sabe identificar onde está o perigo. É de fundo inconsciente (em alemão, inconsciente é unbewusste, que quer dizer “não sabido”). Sugere que o indivíduo sabe que algo não vai bem, mas não sabe como evitar a ideia desorganizadora de angústia, nem pode controlar sua ansiedade e atos repetitivos do conflito interno.

Uma criança que não quer ir à escola por causa de ameaças de colegas está em situação diferente daquela que não quer ir à escola porque o terror a domina. No sentido descritivo, ambas têm “fobia de escola”, não querem ir à escola, porém só a segunda tem uma fobia real, no sentido que Freud descreve como a dinâmica fóbica em que o medo alimentado vem de dentro.

Os transtornos de ansiedade englobam: transtorno de pânico, agorafobia, fobia específica, fobia social, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo. A fobia escolar se enquadra na classificação de fobia específica (medo excessivo e persistente de objetos, situações identificáveis ou circunscritas).

Assim como os adultos, tanto a criança quanto o adolescente podem apresentar qualquer um desses transtornos. O DSM-5 não espera que pessoas com menos de 18 anos reconheçam seus medos como excessivos ou irracionais para o diagnóstico de transtorno de ansiedade. Em vez disso, a ansiedade deve ser desproporcional ao perigo real da situação.

O transtorno de ansiedade de separação é o único definido como exclusivo da infância e adolescência e se caracteriza pela experimentação de ansiedade excessiva decorrente do afastamento de casa ou de figuras significativas de vínculo, como pais, familiares, cuidadores. Esse afasta­ mento gera reações de apreensão, insegurança, expectativa de que algo ruim possa acontecer, medo de per­ dê-los. Preferem ficar em casa como se sua permanência estivesse garantindo a estabilidade familiar.

Alguns autores apontam que a fobia escolar pode ser confundida com a “ansiedade de separação”. Por outro lado, outros autores incluem essa dificuldade da criança lidar com a separação dos pais ou pessoas de vínculos importantes como uma das causas mais frequentes relacionadas à fobia escolar.

Algumas vezes, os pais são exageradamente protetores e a criança encontra dificuldade de separar-se deles. Muitas vezes, tendem a arrumar pretextos para manter os filhos sob sua tutela, impedindo qualquer situ­ ação que possa aumentar a independência entre eles e a criança, como ir à escola. Qualquer sinal de um sintoma físico ou mesmo uma mu­ dança no clima pode ser motivo para que seu filho não vá à escola. Desse modo, os próprios pais dificultam o processo de separação, mantendo um relacionamento caracterizado pela necessidade de proximidade física, provocando na criança a ansiedade de separação e o aumento na dificuldade de abandonar a casa.

É importante compreender que a ansiedade de separação é comum em algumas etapas do desenvolvimento. Crianças em idade pré-escolar ou no início da escolarização podem apresentar essas características. Porém, com a adaptação à escola, a criança vai reduzindo os sintomas e acaba por eliminá-los rapidamente. Em geral, após um mês não apresentará mais problemas em ir à escola.

Não existe causa específica. Os motivos que levam uma criança ou um adolescente a desenvolver fobia escolar podem ser vários ou uma conjunção deles: predisposição genética, estressares familiares, bullying, transtornos de aprendizagem, mau desempenho escolar, mudanças de escola.

PREJUÍZOS

A fobia escolar pode desencadear outros medos, como evasão escolar, repetências, ausência de socialização com os colegas, baixa autoestima. Enfim, se não percebida e tratada pode trazer danos para o decorrer de toda a vida. Pode evocar desamparo, separação, abandono, insegurança e perda de amor.

AJUDA PROFISSIONAL

Quando o medo racionalmente não faz sentido e está interferindo no desenvolvimento das atividades diárias da criança ou do adolescente, é hora de procurar um profissional especializado, principal­ mente se os sintomas persistirem por mais de dois meses. O profissional poderá especificar com mais propriedade o tipo de transtorno e também descartar outras possibilidades que estão gerando o quadro.

TRATAMENTO

A terapia cognitivo-comportamental é uma das formas de tratamento que trazem bons resultados nos casos de fobia escolar. Com as técnicas dessa abordagem, a criança aprenderá a mudar os pensamentos que geram essa intensa resposta emocional, agindo, assim, de forma mais realista frente as suas dificuldades. Cabe ressaltar que em alguns casos se faz necessário o tratamento medicamentoso. Por isso, o acompanhamento psiquiátrico também é de fundamental importância, pois esse profissional saberá prescrever a medicação mais adequada para cada caso. E a combinação terapia/ medicação poderá produzir maiores resolutividades.

Muitos pais, por não terem conhecimento da fobia escolar, ou por não saberem lidar com o que está acontecendo, acabam por forçar, castigar e impor sua ida à escola de qualquer jeito, fato que pode causar mais sofrimento e angústia. As intervenções junto aos familiares são no sentido de orientar, conscientizar sobre o transtorno, auxiliando-os para que a criança/adolescente sinta-se mais seguro e passe por esse processo de forma mais branda, fortalecendo, assim, sua autonomia e reforçando suas conquistas.

OUTROS OLHARES

AMIGOS PARA SEMPRE

A clonagem de animais de estimação ganha força e faz sucesso nas redes, mas quem espera uma cópia com o mesmo temperamento do original pode se decepcionar

Quem tem animais de estimação sofre só de pensar em perder o melhor amigo. Com o passar dos anos, a amizade construída entre o tutor e o pet passa a ser indissociável e não é raro que o animal ocupe o posto de companheiro número 1, sobrepondo-se até mesmo aos relacionamentos entre humanos. A dor da partida, portanto, pode ser dilacerante. A novidade é que, graças aos avanços tecnológicos dos últimos anos, passou a ser possível aliviar um pouco a angústia da morte de cães ou gatos. Conquistas sem precedentes na área da clonagem levaram empresas de genética a se especializar em criar cópias geneticamente idênticas dos bichinhos de estimação, dando origem a uma indústria tão inovadora quanto polêmica.

Uma das maiores expoentes do ramo é a americana ViaGen, que oferece o serviço de clonagem de cães, gatos e cavalos. Em linhas gerais, os cientistas coletam amostras do pet vivo e depois cultivam as células em laboratório por meio de processos artificiais até que se transformem em um embrião. Ele, então, é gestado para algum tempo depois resultar em uma cópia 100% fiel, pelo menos em termos genéticos, do pet original. Para clonar um cachorro, a ViaGen demora oito meses. Gatos – cuja sabedoria popular diz que são possuidores de sete vidas – dão mais trabalho, exigindo ao menos um ano para a conclusão do processo. O custo também é alto: 240.000 reais para caninos e167.000 reais para felinos. Não que os valores assustem. A empresa tem fila de espera de tutores dispostos a contratar o serviço. Embora a companhia não divulgue o número exato de animais clonados, os negócios dobraram nos últimos cinco anos.

O fenômeno não está restrito aos Estados Unidos. Empresas como a Sooam Biotech, da Coreia do Sul, e a Sinogene, da China, também atuam no ramo da clonagem doméstica. Em vídeos ao TikTok, diversos usuários mostram o dia a dia com os pets clonados. No Brasil, a prática ainda não é permitida. Mas em janeiro a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados aprovou um Projeto de Lei que regulamenta a pesquisa, produção e venda de animais domésticos clonados. Por enquanto, apenas bichos de interesse zootécnico – bois, ovelhas, cavalos, porcos, coelhos e aves, entre outros – podem ser copiados, mas já se discute a autorização para pets.

O tema é fascinante, mas é preciso fazer uma ressalva: embora os animais resultantes da clonagem sejam biologicamente idênticos, o clone não terá o mesmo temperamento do pet original. Se o objetivo do tutor for “ressuscitar” o bichinho que morreu, ele provavelmente ficará frustrado com o processo. A ciência sabe que o ambiente em que o animal for criado e experiências diferentes ao longo da vida moldam a sua personalidade. Ou seja, um pet com comportamento brincalhão pode, por exemplo, dar origem a uma cópia agressiva.

A mesma regra, ressalte-se, vale para os chamados gêmeos monozigóticos, os humanos geneticamente idênticos. “O clone é como se fosse um irmão gêmeo”, reforça Marcelo Demarchi Goissis, professor do Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.  “Irmãos gêmeos, mesmo expostos a condições de desenvolvimento muito similares, têm comportamentos diferentes, cada um com sua individualidade.” No caso de animais de raças específicas, há um espectro de comportamento esperado, mas não dá para obter uma cópia idêntica.

Devem-se acrescentar questões éticas ao debate. E se as famílias quiserem clonar seus parentes queridos?

Até que ponto isso é moralmente aceitável? Quais são os riscos envolvidos na produção em larga escala de clones? A ciência não tem respostas definitivas para tais dúvidas, e elas certamente ganharão volume nos próximos anos. Existem, contudo, possibilidades mais promissoras. Desde que o britânico John Gurdon descobriu um modo de clonar sapos africanos, na década de 50, e principalmente após o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero da história a ser clonado a partir de uma célula adulta, em 1996, os cientistas não param de se debruçar sobre o assunto. Um caminho que se desenha é a revitalização de espécies quase extintas por meio da clonagem dos escassos espécimes ainda vivos. É uma possibilidade real, embora assustadora, sinônimo da fascinante – e por vezes controversas – aventura da ciência.

GESTÃO E CARREIRA

SETOR DE COWORKING VOLTA A CRESCER COM FORMATO HÍBRIDO DE TRABALHO

Depois de ver a receita cair até 75% no início da quarentena, empresas registram aumento na procura por espaços compartilhados; SP lidera em unidades para locação

Os escritórios de trabalho compartilhados – no inglês, coworkings – voltaram a crescer no Brasil, superando as dúvidas sobre o fôlego do setor depois de dois anos de trabalho remoto em meio aos efeitos da pandemia de covid-19. Com espaços vazios da noite para o dia, algumas empresas tiveram de cortar na carne nos primeiros meses da quarentena. Um estudo da Newmark, consultoria especializada no setor imobiliário, mostra que esse corte chegou, na média, a 16% dos espaços no caso de quem precisou fechar áreas de escritórios. O faturamento no período desabou, na média, em 75%.

A boa notícia é que esses espaços já foram retomados, e a perspectiva é de mais crescimento. Agora, o impulso para a recuperação vem das companhias que passaram a retomar o trabalho presencial, mas buscaram, desta vez, modelos mais flexíveis para seus funcionários.

A mesma Newmark indica que, só no ano passado, os escritórios de coworking já somavam 1,6 mil unidades no País, com grande concentração no Estado de São Paulo (663). A menor disponibilidade de lugares atualmente éno Itaim, bairro onde fica a Avenida Faria Lima, coração do centro financeiro do País. O índice de espaço vago na região está hoje em apenas 2,8%.

Na média na cidade de São Paulo, a vacância (taxa de espaços vagos) é de 23,8%, conforme dados de abril, pouco maior do que os 21,9% observados em março.

Mesmo após forte expansão de negócios, o markerplace Inventa resolveu usar o espaço de um coworking na região da Avenida Paulista, em vez de ter sede própria. Segundo Ana Furtado, responsável pela área de recursos humanos da companhia, a decisão foi ancorada na flexibilidade oferecida por esse tipo de local.

“A localização também foi importante. E, se precisarmos de mais espaço, podemos reservar ainda o andar de baixo ou de cima. Temos essa possibilidade de aumentar o espaço.”

EU ACHO …

DENTRO DE UM ABRAÇO

Onde é que você gostaria de estar agora, neste exato momento? Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos,  em algum  vilarejo europeu, numa  estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito aguardado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic- tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém­ chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço. Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me per­ mita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DANÇAR DEIXA MENTE AFIADA E MANTÉM VIGOR FÍSICO PARA VIVER MAIS

Estudos apontam benefícios cognitivos e no equilíbrio de adultos mais velhos que praticam coreografias de salão

Em um salão de baile lotado, um homem elegante dança com uma jovem ao som de um clássico de jazz. Ele sorri lentamente e balança os quadris de brincadeira ao final da contagem de oito. É surpreendentemente ágil para um senhor de 94 anos.

A ocasião? Uma festa de aniversário de Frankie Manning, lenda do lindy hop. Dos 80 anos de sua morte em 2009, aos 94, ele comemorou todo ano dançando com uma quantidade de parceiras equivalente à sua idade.

“Ele sabia que as pessoas adoravam que um cara tão velho pudesse dançar com tantas pessoas”, disse Judy Pritchett, que foi namorada de Manning por 21 anos.

Ele dançava e dava aulas de dança, ao redor do mundo 40 fins de semana por ano. “Dançar é o que me mantém jovem”, disse, em uma entrevista de televisão com a afiliada da ABC em Seattle em 2007, pouco antes de seu aniversário de 93 anos. “Se não estivesse dançando, acho que não viveria até essa idade”, completou.

Para conferir outros exemplos das habilidades de dança que desafiaram a idade, busque Dick Van Dyke, de 93 anos, em movimentos vigorosos de sapateado sobre uma mesa em “O retomo de Mary Poppins”. Os ícones da dança moderna Martha Graham e Merce Cunningham também bailaram até mais de 80. Estudos mostram que a dança oferece múltiplos benefícios para a saúde cognitiva e física. Um hábito que poderia ser apelidado de “a couve dos exercícios”.

CÉREBRO BAILANTE

Um relatório alemão de 2017, da Frontiers in Human Neuroscience, analisou imagens do cérebro de indivíduos que tinham em média 68 anos e praticavam treinamento ou dança de salão. O estudo descobriu que embora ambas as atividades aumentassem o tamanho do hipocampo, uma região do cérebro crítica para o aprendizado, memória e equilíbrio, apenas dançar melhorou o equilíbrio.

Esses resultados ecoam os de um estudo de 2008 do Journal of Aging and Physical Activity, realizado por Patrícia McKinley, da Universidade McGill, no qual idosos participaram de um programa de aulas de tango. O relatório mostrou que a dança, a longo prazo, foi associada a um melhor equilíbrio e marcha em adultos mais velhos. Como as quedas são a principal causa de lesões e morte entre os idosos, a dança pode ser uma ferramenta poderosa para prolongar a vida.

Em um estudo de 2003 publicado no New England Journal of Medicine, os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que a dança pode ajudar a melhorar a função cognitiva, de forma semelhante a outros passatempos como resolver palavras cruzadas. O artigo examinou os benefícios relativos das atividades de lazer tanto intelectuais quanto físicas em adultos mais velhos.

“Dividimos amplamente as atividades entre aquelas cognitivamente estimulantes, como ler, e aquelas físicas, como andar de bicicleta”, disse Joe Verghese, principal autor do estudo e chefe de geriatria da Albert Einstein College of Medicine.

De sua clínica no Centro Montefiore Einstein para o Cérebro Envelhecido, com sede no Bronx, ele disse que, das 11 atividades físicas diferentes que sua equipe estudou, a dança de salão foi a única associada a menos risco de demência. Vetghese especulou que a dança funciona como uma atividade intelectual porque é complexa. Ao contrário de andar em uma esteira, a dança exige um esforço mental sustentado para dominar novos passos e requer coordenação com um parceiro e a música.

O médico advertiu que este era um estudo observacional, não um ensaio clinico.

“Não prova causa e efeito. Não podemos dizer que a dança preveniu a demência.  Só podemos dizer que foi associado a um risco reduzido de desenvolver demência.

A dançarina Deborah Riley é testemunha de como um programa de dança frequentepode ser crucial para os idosos combaterem uma fragilidade e a perda de memória.

“Se você não mover o pé, e as pernas, perderá sua capacidade”, disse Riley.

TRANSFORMAÇÕES

Por 15 anos, Riley ensinou dança para adultos de 50 anos ou mais. Atualmente, leciona em um programa chamado Arts for the Aging e no Hospital da Universidade Georgetown. Ela disse que a música e o movimento ajudam os idosos, desencadeando memorias positivas, as vezes transformando idosos retraídos em indivíduos falantes engajados.

Vale a pena notar que os benefícios mentais e físicos da dança não são apenas para os jovens d