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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 47–56

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Cristo é traído por Judas.

O Servo do Sacerdote é Agredido por Pedro. Cristo E Abandonado pelos seus Discípulos

 Somos informados aqui de como o bendito Senhor Jesus foi apanhado e levado preso. Isto se seguiu imediatamente à sua agonia, enquanto Ele ainda falava; porque desde o início até o fim de sua paixão, Ele não teve a mínima interrupção ou pausa, mas a situação só se agravou. Sua dificuldade, até este ponto, havia sido em seu interior; mas agora o cenário está mudado, agora os filisteus estão sobre ti, bendito Sansão. “O respiro das nossas narinas, o Ungido do Senhor, foi preso nas suas covas” (Lamentações 4.20).

Agora, com respeito à prisão do Senhor Jesus, observe:

I – Quem eram as pessoas que foram empregadas nessa situação.

1. Aqui estava “Judas, um dos doze”, na frente de sua guarda infame; ele foi o guia para aqueles que prenderam Jesus (Atos 1.16); sem a sua ajuda, eles não poderiam tê-lo encontrado em seu retiro. Observe e se admire; o primeiro que aparece com os seus inimigos é um dos seus próprios discípulos, que, uma ou duas horas antes, estava comendo pão com ele!

2. Aqui estava, com Judas, uma grande multidão, para que a Escritura pudesse ser cumprida: “Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!” (Salmos 3.1). Essa multidão era composta, em parte, por um destacamento dos guardas que foi colocado na torre de Antonia pelo governador romano; esses eram gentios, pecadores, como Cristo os chama (v. 45). Os demais eram servos e oficiais do sumo sacerdote, e eram judeus; aqueles que divergiam uns dos outros, puseram-se de acordo contra Cristo.

II – Como eles estavam armados para esta empreitada.

1. Com que armas eles estavam armados: eles vieram “com espadas e porretes”. Os soldados romanos, sem dúvida alguma, tinham espadas; os servos dos sacerdotes, aqueles que não possuíam espadas, levaram porretes e varas. Furor arma ministra Sua fúria fornecia as suas armas. Eles não eram tropas regulares, mas uma turba agitada. Mas para que todo esse trabalho? Se eles fossem dez vezes mais em quantidade, não poderiam tê-lo prendido se Ele não tivesse permitido; e, tendo chegado a sua hora de renunciar a si mesmo, toda essa força foi desnecessária. Quando um açougueiro entra no campo par a pegar um cordeiro para matar, ele levanta uma milícia e vem armado? Não, ele não precisa disso; no entanto, toda essa força foi usada para apanhar o Cordeiro de Deus.

2. Com que mandado eles estavam armados. “Eles vinham dos príncipes dos sacerdotes, e anciãos do povo”; essa multidão armada foi enviada por eles para essa missão. Ele foi preso por ordem do grande sinédrio, como uma pessoa que lhes era odiosa. Pilatos, o governador romano, não lhes deu nenhum mandato de busca, porque não tinha inveja de Jesus; mas os homens que fingiam agir em nome da religião, e presidiam os assuntos da sinagoga, é que estavam ativos nessa perseguição, e eram os inimigos mais vingativos que Cristo tinha. Esse era um sinal de que Ele era apoiado por um poder divino, porque Ele não só foi desertado por todos os poderes terrenos, mas foi atacado por eles. Pilatos lançou lhe isto em rosto: ”A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim” (João 18.35).

III – O modo como isso foi feito, e o que se passou nesse período.

1. Como Judas o traiu; ele fez esse acordo de forma eficiente, e a sua resolução nessa maldade pode envergonhar a todos nós que falhamos naquilo que é bom. Considere:

 

(1)  As instruções que ele deu aos soldados (v. 48): “Ele lhes deu um sinal”; como o comandante do grupo nessa ação, ele dá a palavra ou o sinal. Ele lhes deu um sinal, para que não prendessem por engano um dos discípulos em vez dele, tendo os discípulos recentemente dito, aos ouvidos de Judas, que estariam dispostos a morrer por Ele. Que abundância de cuidados, aqui, para não deixar de prendê-lo: “O que eu beijar é esse”; e quando eles o prenderam, para não deixá-lo fugir: “Prendei-o”; porque Ele algumas vezes tinha escapado daqueles que pensavam tê-lo segurado (Lucas 4.29,30). Embora os judeus que frequentavam o templo o conhecessem, os soldados romanos talvez nunca o tivessem visto, e o sinal tinha a finalidade de orientá-los. E Judas, através de seu beijo, tinha não só a intenção de identificá-lo, mas de detê-lo, enquanto eles viriam por trás, e colocariam as suas mãos sobre Ele.

(2)  A saudação hipócrita que ele fez ao seu Mestre. “Ele se aproximou de Jesus”. Se alguma vez o coração mau de Judas pensou em voltar atrás, isso certamente aconteceu naquele momento. Quando veio olhá-lo no rosto, ele deve ter ficado admirado com a sua majestade, ou encantado pela sua beleza. Judas ousa colocar-se diante de sua presença e traí-lo? Pedro negou a Cristo, mas quando o Senhor virou-se e fitou-o, ele vacilou imediatamente. Porém, Judas se coloca diante da face de seu Mestre, e o trai. Ele disse: “Eu te saúdo, Rabi”. E beijou-o. Parece que o nosso Senhor Jesus tinha por hábito permitir um certo grau de familiaridade consigo, dando-lhes a sua face para beijar depois de eles terem estado ausentes por algum tempo, o que Judas maldosamente usou para facilitar essa traição. Um beijo é um sinal de lealda­ de e amizade (Salmos 2.12). Mas Judas, quando violou todas as leis do amor e do dever, profanou esse sinal sagrado para servir ao seu propósito. Note que há muitos que traem a Cristo com um beijo, e o saúdam, dizendo Rabi. Sob o pretexto de honrá-lo, traem e desprezam os interesses de seu reino. Abraçar é uma coisa, amar é outra. O beijo de Joabe e o beijo de Judas foram muito parecidos.

(3)  Como o seu Mestre o recebeu (v. 50).

[1] Ele o chama de amigo. Se Jesus o tivesse chamado de canalha, traidor, maldito, louco, e filho do diabo, não teria dito nada errado; mas Ele nos ensinou, sob a maior provocação, a suportar a amargura e a calúnia, e a mostrar toda mansidão. ”Amigo”, porque Judas tinha sido um amigo, e deveria ter sido, e até parecia ser. Assim o Senhor Jesus o repreende, como Abraão, quando chamou de filho o homem rico que estava no inferno. Jesus o chama de amigo, porque Judas promoveu os seus sofrimentos, e assim agiu como seu amigo; ao passo que Jesus chamou a Pedro de Satanás, por tentar impedir os seus sofrimentos.

[2] Ele lhe pergunta: “‘A que vieste?’ É paz, Judas? Explica-te; se tu vens como um inimigo, o que significa este beijo? Se como um amigo, o que significam estas espadas e porretes? A que vieste? Que dano fiz a ti? Em que te desgastei? Qual é a razão da tua presença? Por que não tens tanta vergonha, quanto a manter-se fora da vista, o que poderias ter feito, mesmo comunicando ao oficial onde eu estava?” Este foi um exemplo de grande insolência, através do qual Judas se mostra atrevido e descarado nessa transação iníqua. Mas é habitual que os apóstatas da religião sejam os seus inimigos mais amargos. Juliano é prova disso. Portanto, Judas fez a sua parte.

2. Como os oficiais e os soldados o prenderam: ”Aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus e o prenderam”; eles o fizeram seu prisioneiro. Como não estavam com medo de estender as suas mãos contra o Ungido do Senhor? Podemos muito bem imaginar que mãos rudes e cruéis elas eram, as mãos que essa multidão bárbara colocou sobre Cristo; e como certamente o trataram de modo tosco, por terem tão frequentemente ficado desapontados quando procuraram colocar as suas mãos sobre Ele. Eles não poderiam tê-lo prendido, se Ele não tivesse se entregado, e sido entregue “pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2.23). Aquele que disse a respeito de seus servos ungidos: “Não toqueis nos meus ungidos” (Salmos 105.14,15), não poupou a seu Filho ungido, mas o entregou por todos nós; e outra vez, “deu a sua força ao cativeiro, e a sua glória à mão do inimigo” (Salmos 78.61). Veja qual foi a queixa de Jó (cap. 16.11): “Entrega-me [ou entregou-me] Deus ao perverso”. Esta e outras passagens no livro de Jó tipificam a Cristo.

O nosso Senhor Jesus foi feito prisioneiro, porque Ele seria tratado, em todas as coisas, como um criminoso, punido pelo nosso crime; e como um penhor Ele seria confiscado pela nossa dívida. O jugo das nossas transgressões estava ligado pela mão do Pai ao pescoço do Senhor Jesus (Lamentações 1.14). O Senhor Jesus se tornou um prisioneiro, para que pudesse nos colocar em liberdade. Ele disse: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes” (João 18.8); e aqueles que Ele liberta certamente estão livres.

3. Como Pedro lutou por Cristo, e sentiu as suas dores. Aqui ele é mencionado apenas como um dos que estavam com Jesus no jardim; mas em João 18.10, somos informados de que foi Pedro quem se distinguiu nessa ocasião. Observe:

(1)  A precipitação de Pedro (v. 51). Ele “puxou a espada”. Entre todos eles, só haviam duas espadas (Lucas 22.38), e parece que uma delas foi deixada com Pedro; e agora ele achou que seria a hora de puxá-la, e deu golpes impetuosos à sua volta como se tivesse feito algo muito importante; mas tudo o que ele fez foi cortar uma orelha de um servo do sumo sacerdote. Ê provável que Pedro desejasse arrancar-lhe a cabeça, pelo fato de tê-lo visto mais à frente do que os demais que colocavam as mãos em Cristo; mas ele deve ter errado o golpe, decepando então a orelha daquele homem. Porém, se Pedro estivesse lutando, em meu pensamento ele deveria ter antes mirado Judas, e tê-lo marcado como um trapaceiro. Pedro havia falado muito do que faria pelo seu Mestre, e disse que até mesmo sacrificaria a sua vida por Ele; sim, ele faria isso. E agora ele seria tão bom quanto a sua palavra, e arriscaria a sua vida para resgatar o seu Mestre. Até este ponto, ele era louvável por demonstrar um grande zelo por Cristo, por sua honra e segurança. Mas Pedro não agiu de acordo com o conhecimento, nem foi guiado pela discrição, porque:

[1] Ele fez isso sem autorização; alguns dos discípulos realmente perguntaram: “Senhor, feriremos à espada?” (Lucas 22.49). Mas Pedro golpeou antes que tivesse uma resposta. Devemos ver não só a nossa boa causa, mas o nosso chamado claro, antes de puxarmos a espada; devemos mostrar com que autoridade fazemos aquilo que fazemos, e quem nos deu esta autoridade.

[2] Ele indiscretamente expôs a si mesmo e aos seus companheiros discípulos à fúria da multidão. Porque, o que eles poderiam fazer com apenas duas espadas, contra um bando de homens?

(2)  A repreensão que o nosso Senhor Jesus lhe fez (v. 52): “Mete no seu lugar a tua espada”. O Senhor não ordenou aos oficiais e soldados que guardassem as suas espadas, que foram puxadas contra Ele; o Senhor os deixou a critério de Deus Pai, que julga aquele s que estão fora; mas Ele ordena a Pedro que guarde a sua espada, não o censurando, na verdade, pelo que fez, porque foi feito com boa intenção, mas interrompendo a sua ação, estabelecendo que não haja um precedente. A missão de Cristo no mundo é fazer a paz. Note que “as armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais”; e os ministros de Cristo, embora sejam seus soldados, não guerreiam com a carne (2 Coríntios 10.3,4). Isso não significa que a lei de Cristo derrube a lei da natureza ou a lei das nações, na medida que esses códigos se colo­ quem em defesa de seus direitos e liberdades civis, e de sua religião de uma forma legal; mas ela sustenta a preservação da paz e da ordem pública, proibindo que qualquer pessoa resista aos poderes estabelecidos. Não, temos um preceito geral para que não resistamos ao mal (cap. 5.39), nem Cristo mandará que os seus ministros propaguem a sua religião pela força das armas: A religião não pode ser forçada; e deve ser defendida, não matando, mas morrendo. Assim como Cristo proibiu os seus discípulos de tentarem dominar o mundo através da espada (cap. 20.25,26), aqui Ele proíbe a espada da guerra. Cristo ordenou que Pedro guardasse a sua espada, e nunca lhe ordenou que fizesse uso dela novamente.  No entanto, Pedro é culpado, aqui, de fazer isso intempestivamente; havia chegado a hora de Cristo sofrer e morrer. O Senhor sabia que Pedro conhecia isso, e a espada do Pai foi levantada contra Ele (Zacarias 13.7). Ao puxar a sua espada, Pedro estava dizendo: “Mestre, poupe a ti mesmo”.

Três razões que Cristo dá a Pedro para essa repreensão:

[1] Puxar a espada seria uma atitude perigosa tanto para Pedro como para os seus companheiros discípulos. “Todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Aqueles que usam a violência, cairão pela violência; e os homens apressam e aumentam os seus próprios problemas proferindo ameaças de métodos sangrentos de defesa pessoal. Aqueles que pegam a espada antes de lhes ser dadas, que a usam sem um mandato ou autorização, expõem a si mesmos à espada de guerra, ou à justiça pública. Se não tivesse sido pelo cuidado e providência especiais do Senhor Jesus, Pedro e o restante deles, pelo que sei, teriam sido feitos em pedaços imediatamente. Grotius dá um outro sentido provável à expressão do Senhor, como se os oficiais e os soldados que vêm com espadas para prender a Cristo é que fossem morrer pela espada, e não Pedro. “Pedro, você não precisa puxar a espada para puni-los. Deus Pai certamente, em breve, ajustará contas com eles de uma forma severa”. Eles pegaram a espada romana para prender a Cristo, e pela espada romana, não muito tempo depois, eles, o seu lugar, e a sua nação foram destruídos. Portanto, não devemos nos vingar, porque Deus Pai retribuirá (Romanos 12.19); portanto, devemos sofrer com fé e paciência, porque os perseguidores serão pagos com a sua própria moeda. Veja Apocalipse 13.10.

[2] Era desnecessário alguém puxar a sua espada em defesa de seu Mestre, pois Ele, agora, se quisesse, poderia convocar a seu serviço todas as hostes celestiais (v. 53). “‘Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?’ Pedro, se Eu fosse desviar estes sofrimentos, poderia fazê-lo facilmente, sem a tua ajuda e sem a tua espada”. Note que Deus não precisa de nós, dos nossos serviços, muito menos dos nossos pecados, para executar os seus propósitos; a nossa falta de confiança e a nossa falta de fé no poder de Cristo é evidenciada quando saímos do caminho da nossa obediência para servir aos seus interesses. Deus pode fazer a sua obra sem nós; se olharmos para os céus, e virmos como Ele é servido ali, poderemos facilmente inferir que, mesmo que sejamos justos, Ele não nos deve nada (Jó 35.5,7). Embora Cristo tenha sido crucificado em fraqueza, essa foi uma fraqueza voluntária. Ele se sujeitou à morte, não porque não pudesse lutar contra ela, mas porque não desejou fazê-lo. Isto remove a ofensa da cruz, e prova que o Cristo crucificado é o poder de Deus. Mesmo agora, na profundidade de seus sofrimentos, o Senhor Jesus poderia convocar a ajuda de legiões de anjos. “Agora”. “Embora a história já tenha passado, eu ainda poderia, com uma palavra, reverter todas as coisas”. Cristo aqui nos faz saber:

Em primeiro lugar, que grande interesse o Senhor Jesus demonstrou por seu Pai. Eu posso orar a meu Pai, e Ele enviará ajuda do santuário. Eu posso solicitar de meu Pai esses reforços. A oração de Cristo tem autoridade. Note que é uma grande consolação para o povo de Deus, quando está cercado de inimigos por todos os lados, ter um caminho aberto em direção ao céu. Se o povo de Deus não puder fazer mais nada, ele pode orar àquele que pode fazer todas as coisas. E aqueles que oram muito em outros momentos, têm uma grande consolação ao orar quando surgem os tempos turbulentos. Observe que Cristo disse não só que Deus poderia lhe enviar tal número de anjos, mas que, se Ele o pedis­ se, Deus o faria. Embora o Senhor tenha realizado a obra da nossa redenção, parece que se Ele tivesse desejado ser livre, o Pai não o teria impedido. Ele poderia ter se retirado, evitando tamanho sofrimento. Mas o Senhor Jesus amou a sua obra salvadora, e por essa razão Ele não se retiraria; assim, foi apenas com as cordas de seu próprio amor que Ele foi atado ao altar.

Em segundo lugar, que grande interesse Ele tinha pelas hostes celestiais. O Pai “lhe daria agora mais de doze legiões de anjos”, perfazendo mais de setenta e dois mil seres celestiais. Observe aqui:

1. Existe uma companhia inumerável de anjos (Hebreus 12.2). Um destaca­ mento de mais de doze legiões poderia ser cedido para o nosso serviço, e não haveria falta ao redor do trono. Veja Daniel 7.10. Eles são dispostos em ordem exata, como as legiões bem disciplinadas; não são uma multidão confusa, mas tropas regulares; todos conhecem o se u posto, e observam a palavra de comando.

2. Essa companhia inumerável de anjos está toda à disposição do nosso Pai celestial, e executa o seu beneplácito (Salmos 103.20,21).

3. Essas hostes angelicais estavam prontas para vir em auxílio do nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos, se Ele tivesse precisado ou desejado isso. Veja Hebreus 1.6,14. Eles teriam estado com Ele como estiveram com Eliseu, em carros de fogo e cavalos de fogo, não só para protegê-lo, mas para consumir aqueles que procurassem atentar contra Ele.

4. O nosso Pai celestial deve ser visto e reconhecido em todos os ser viços das hostes celestiais: “Ele me daria”; portanto, não devemos orar aos anjos, mas ao Senhor dos anjos (Salmos 91.11).

5. É uma questão de conforto para todos os que desejam o bem do reino de Cristo, que haja um mundo de anjos sempre a serviço do Senhor Jesus, e que podem fazer maravilhas. Aquele que possui os exércitos do céu às suas ordens, pode fazer o que lhe agrada entre os habitantes da terra: “Ele me daria agora”. Veja como o Pai estava pronto a ouvir a oração do Senhor Jesus, e como os anjos estavam prontos a obedecer às suas ordens; eles são servos dispostos, mensageiros alados, eles voam rapidamente. Isto é muito animador para aqueles que desejam intimamente que Cristo seja honrado, e o bem-estar de sua igreja. Será que alguém pensa que tem mais cuidado e preocupação por Cristo e sua igreja, do que o próprio Deus e os seus santos anjos?

[3] Não era hora de fazer qualquer defesa, ou se oferecer para desviar o golpe: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (v. 54). Foi escrito que Cristo deveria “ser levado como um cordeiro para o matadouro” (Isaias 53.7). Se o Senhor Jesus chamasse os anjos para lhe auxiliarem, Ele não seria de modo algum levado para o matadouro; se Ele permitisse que os seus discípulos lutassem, Ele não seria levado silenciosamente e sem resistência; portanto, Ele e os seus discípulos deveriam se submeter ao cumprimento das profecias. Note que, em todos os casos difíceis, a Palavra de Deus deve ser conclusiva contra os nossos próprios conselhos, e nada deve ser feito, nada tentado, contra o cumprimento das Escrituras. Se o alívio das nossas dores, a quebra das nossas amarras, a salvação das nossas vidas, não coincidirem com o cumprimento das Escrituras, devemos dizer: “Que seja feita a vontade de Deus, que a sua Palavra seja cumprida, que a sua lei seja louvada e respeitada, a despeito daquilo que nos aconteça”. Assim Cristo deteve a Pedro, quando este quis se colocar como seu defensor, e capitão salva-vidas.

4. Em seguida, somos informados sobre como Cristo resolveu o caso com aqueles que foram buscá-lo (v. 55). Embora não tenha resistido a eles, o Senhor argumentou com eles. Note que condiz com a paciência cristã debater calmamente com os nossos inimigos e perseguido­ res quando estamos sob os nossos sofrimentos, como aconteceu no caso de Davi e Saul (1 Samuel 24.14; 26.18). “Saístes”:

(1)  Com fúria e hostilidade, como contra um ladrão, como se Eu fosse um inimigo para a segurança pública, e como se sofresse isso merecidamente? Os ladrões atraem para si mesmos o ódio comum; todos ajudarão a deter um ladrão; e então eles caíram sobre Cristo como a escória de todas as coisas. Se Ele tivesse sido a praga de sua nação, não poderia ter sido perseguido com mais empenho e violência.

(2)  Com todo esse poder e força, como contra o pior dos ladrões, que desafia a lei e a justiça pública, e acrescenta a rebelião ao seu pecado? Saístes, como para prender um salteador, com espadas e porretes, como se houvesse perigo de resistência; considerando que “matastes o justo; “ele não vos resistiu” (Tiago 5.6). Se ele não estivesse disposto a sofrer, seria loucura sair com espadas e porretes, porque eles não poderiam vencê-lo; se Jesus desejasse resistir, teria considerado o ferro como palha, e as suas espadas e porretes teriam sido como a sarça diante do fogo consumidor; mas, estando disposto a sofrer, foi tolice irem assim armados, porque Ele não iria discutir com eles.

Ele posteriormente debate com eles, lembrando-os de como havia se comportado com eles até aquele momento, e eles em relação a Ele.

[1] De sua presença pública: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo”. E:

[2] Da conivência pública deles: “E não me prendestes”. Qual o motivo dessa mudança? Eles foram muito irracionais, ao agirem com Ele como o fizeram. Em primeiro lugar, Ele não lhes havia dado motivo para considerá-lo como um ladrão, pois havia ensinado no Templo. E o assunto e a maneira de seu ensino era tal, que o Senhor Jesus foi manifestado na consciência de todos os que o ouviram como sendo um homem bom. As palavras bondosas que saíram de sua boca não foram palavras de um ladrão, nem de alguém que tinha um demônio. Em segundo lugar, Ele não lhes havia dado motivos para que o considerassem como um foragido da lei e da justiça, para que viessem à noite para capturá-lo; se eles tivessem alguma coisa para lhe dizer, poderiam encontrá-lo todos os dias no Templo, pronto para responder a todos os desafios, a todas as acusações, e ali poderiam fazer o que bem entendessem com Ele; porque os príncipes dos sacerdotes tinham a custódia do Templo, e o comando dos guardas que estavam em torno do Templo. Mas vir até Ele assim, clandestinamente, no local de seu retiro, era uma atitude vil e covarde. Desse modo, o maior herói pode ser perversamente assassinado em uma esquina, por alguém que, em campo aberto, tremeria só por encará-lo.

Mas tudo isso aconteceu (vê-se em seguida, v. 56) para que as Escrituras dos profetas pudessem ser cumpridas. Ê difícil dizer se essas foram as palavras do sagrado historiador, como um comentário sobre essa história, e uma instrução ao leitor cristão, para compará-lo com as Escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para esse fato. Ou ainda se foram as palavras do próprio Cristo, como se estivesse expressando o motivo de tudo aquilo estar ocorrendo. Mesmo assim, Ele não poderia deixar de se ressentir por esse tratamento tão vil. Ele precisou se sujeitar à situação para que as Escrituras dos profetas pudessem se cumprir. O Senhor Jesus havia acabado de fazer uma referência a essa necessidade (v. 54). Note que as Escrituras se cumprem todos os dias; e todas as Escrituras que falam do Messias tiveram o seu pleno cumprimento em nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Como Ele foi, em meio a essa aflição, vergonhosa­ mente desertado pelos seus discípulos: “Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram” (v. 56).

(1)  Esse foi o pecado deles; e foi um grande pecado para aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo, agora deixá-lo por algo que nem sabiam o que era. Houve crueldade nisso, considerando a relação que havia entre eles, os favores que eles haviam recebido da parte dele, e as circunstâncias melancólicas que agora se apresentavam. Houve infidelidade nisso, porque eles haviam prometido solenemente se unir a Ele, e nunca abandoná-lo. Ele havia reivindicado o salvo-conduto deles (João 18.8); no entanto, eles não puderam confiar nisso, e fugiram vergonhosamente. Que coisa insensata foi essa; por medo da morte, fugiram daquele a quem conheciam e haviam reconhecido como a Fonte da vida? (João 6.67,68). “Senhor, que é o homem”!

(2)  Foi parte do sofrimento de Cristo, e acrescentou aflição às suas cadeias, ser dessa maneira desertado, como aconteceu com Jó (cap.19.13): “Pôs longe de mim a meus irmãos”. E também com Davi (Salmos 38.11): “Os meus amigos e os meus propínquos [ou companheiros] afastam-se da minha chaga”. Eles deveriam ter permaneci­ do com o Senhor, para servi-lo e apoiá-lo; e, se fosse necessário, deveriam ser testemunhas favoráveis a Ele em seu julgamento no tribunal. Mas eles traiçoeiramente o desertaram. Algo parecido aconteceu com o apóstolo Paulo, pois, em sua primeira defesa, nenhum homem ficou do lado dele. Porém, havia um mistério nisso.

[1] Cristo, como um sacrifício pelos pecados, foi assim abandonado. O cervo que, pela flecha do seu dono, é marcado para ser caçado e abatido é imediatamente abandonado por todo o rebanho. Nisso, Ele foi feito uma maldição por nós, pois foi deixado como alguém que é separado para o mal.

[2] Cristo, como o Salvador de almas, ficou assim sozinho. Ele não precisava, e não teve a ajuda de nenhum outro ao operar a nossa salvação. Tudo Ele suportou, e fez tudo sozinho. Ele pisou o lagar sozinho, e como não havia ninguém que o apoiasse, então o seu próprio braço trouxe a salvação (Isaias 63.3,5). Assim o Senhor, sozinho, conduziu o seu Israel; eles só precisaram “contemplar esta grande salvação” (Deuteronômio 32.12).

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POR QUÊ CRIAR O BLOG? POR QUÊ O TÍTULO?

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Nos dias atuais gastamos mais tempo conectados  que o diálogo e a leitura de livros de papel tornaram-se absoletos.  Em contrapartida, a leitura visual através de mídias vem crescendo e ocupando o tempo das pessoas que, imperceptíveis aderem aos novos hábitos. Assim, faz-se necessário que nós, os que ainda prezam pelos bons e velhos hábitos ajustarmos às novas necessidades e assim, servir de leme aos que naufragam  ante a ignorância não somente de conhecimento mas até mesmo de conhecimento de verdades que consolidam suas opiniões.

A igreja é ainda o principal elo de ligação entre a sociedade e as necessidades do homem para a aproximação do Criador e sua criatura. Àqueles que entendem que precisam se preparar melhor e que não encontram tempo para a leitura e seminários cuja presença física se faz  necessária, ofereço a oportunidade de compartilhar conhecimento e aprendizado acumulados ao longo de mais de vinte anos de caminhada e serviço cristão como uma forma de auxiliar na capacitação para transformar pessoas comuns em líderes extraordinários.

Fazendo assim, não só cresceremos na graça e conhecimento como glorificaremos o nome do Senhor entre povos e nações.

 

EU ACHO …

NÃO ENTENDER

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PASSARELA COM CAUSA

Empenhadas em alcançar os consumidores jovens, marcas de luxo contratam ativistas para ocupar o lugar de modelos em suas campanhas

Foi-se o tempo em que a moda fugia da política, preferindo manter-se em um patamar acima das rixas ideológicas. Hoje em dia, com os millenials e suas questões sociais assumindo o timão do consumo no mundo, as grifes deram meia volta e puseram o ativismo na passarela. O movimento, que envolve marcas de luxo, agências de modelo e figuras engajadas em causas variadas, aparece retratado em campanhas, desfiles e tapetes vermelhos com o propósito de fazer barulho. “Há algum tempo a moda procura personalidades que não sejam modelos profissionais para endossar seus produtos”, diz Kátia Lamarca, especialista em pedagogia empresarial e professora do Instituto Europeo di Design (IED). “Agora, essa busca se estende a pessoas conhecidas por seu comportamento político e seu posicionamento”. Atenta ao mercado, a agência IMG, a maior e a mais disputada do setor, que representa estrelas como as irmãs Bella e Gigi Hadid e teve Gisele Bundchen em seus quadros até o fim do ano passado, saiu na frente e, em menos de um mês, fechou contrato com duas jovens que viraram expoentes da juventude engajada: a poetisa Amanda Gorman e a influencer Ella Emhoff. Feministas e superativas nasredes, elas chamaram atenção na cerimônia de posse do presidente americano Joe Biden, em janeiro. Amanda, de 23 anos, ativista da luta antirracismo, leu um poema de sua autoria – vestida de Prada dos pés à cabeça envolvida em uma chamativa tiara vermelha. De lá para cá, apresentou-se em um intervalo do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, foi capa da revista semanal Time e recebeu uma avalanche de ofertas de marcas que desejam associar produtos ao seu rosto.

Ella, de 21 anos, estudante de design e empenhada divulgadora da moda sustentável e de campanhas em prol da comunidade transexual, que, ainda por cima, esbanja atitude com axilas não depiladas, é enteada da vice-presidente democrata Kamala Harris e, na posse em Washington, destacou-se pelo visual moderno em um mar de vestidos comportados. Desde então desfilou para a Proenza Schouler na New York Fashion Weck em fevereiro, saiu na capa da revista moderninha Dust e vai assinar uma coleção pura a marca nova-iorquina Batsheva. O alvo das novas campanhas é a chamada geração Z, nascida entre 1995 e 2010. que representa 40%dos consumidores globais e tem poder de compra estimado em 140 bilhões de dólares. De olho nela, a Dior Perfumes lançou em outubro a campanha Dior Stands with Women (Dior Apoia as Mulheres), puxada pelas atrizes Charlize Theron e Natalie Portman – ambas porta-vozes da causa feminista – e composta de vídeos curtos com cientistas, arquitetas, coreógrafas e até uma florista.

Outra marca francesa, a Louis Vuitton, contratou-a como “embaixadora”, posto que nasceu do encontro da moda com o ativismo, a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, de pai haitiano, apoiadora de causas sociais – usou máscara do movimemo Black Lives Matter em seus jogos do US Open em 2020. Ainda do mundo do esporte, o jogador Marcus Rashford, do Manchester United, foi contratado pela Burberry em novembro para vestir as roupas da grife e associar seu nome a uma campanha de investimento em jovens empreendedores.

“Atrelar marcas a militantes traz visibilidade e, como consequência, uma melhor relação com seu público”, diz Kátia Lamarca. Mais vendas também: em 2018, a Nike cooptou o jogador de futebol americano Colin Kaepernick, inventor do gesto de se ajoelhar na hora do hino dos Estados Unidos em protesto contra a violência policial dirigida aos negros, e, apesar da enorme controvérsia, as vendas subiram 31% logo na primeira semana da campanha. Como todos os ativistas-modelo costumam ter multidões de seguidores, as grifes marcam as contas pessoais deles nas postagens no Instagram e assim se associam não só à pessoa, mas também a seus posicionamentos e suas escolhas de vida. A moda entrou no ativismo, o ativismo entrou na moda e todo mundo sai ganhando com isso – na conta bancária. Os tempos estão mudando.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE ABRIL

O ENSINO SÁBIO NOS LIVRA DA MORTE

O ensino do sábio é fonte de vida, para que se evitem os laços da morte (Provérbios 13.14).

As cadeias estão lotadas de homens e mulheres que taparam os ouvidos aos sábios ensinos de seus pais. Os cemitérios estão repletos de vítimas da desobediência. O ensino do sábio é fonte de vida, pois livra os seus pés dos laços da morte. Quem o segue caminha em segurança e usufrui o melhor da vida. Há muitas armadilhas perigosas e mortais espalhadas ao longo do nosso caminho. São laços de morte que nos cercam. São atrativos que apelam ao nosso coração. São prazeres que gritam aos impulsos da nossa carne. São vantagens imediatas que acendem os faróis e nos incitam a buscá-las. O pecado, porém, é um embuste. Embora venha embalado de forma tão elegante e atraente, é um veneno mortal. Não obstante seja agradável aos olhos e desejável ao paladar, é maligníssimo. Quem coloca o pé nesse laço cai na cova da morte. O pecado é enganador. Promete mundos e fundos, mas não tem nada a oferecer a não ser dor, sofrimento e morte. O ensino do sábio, contudo, é árvore de vida. Alimenta e deleita, fortalece e alegra, enriquece e abençoa. Os sábios fogem das trilhas escorregadias, afastam-se do caminho dos pecadores e andam pelas veredas da justiça.

GESTÃO E CARREIRA

GRANDES LÍDERES, GRANDES EDUCADORES

Hoje as empresas buscam muito mais que uma liderança situacional. Com uma liderança educadora, os colaboradores apresentam mais motivação para o desenvolvimento e entrega de resultados

Muito se sabe sobre o papel do líder, aquele indivíduo que precisa mobilizar pessoas na busca de resultados constantes e cada vez maiores. Abraham Lincoln deu uma definição muito sábia para esse papel: ”A maior habilidade de um líder é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas comuns”.

Atualmente, as organizações buscam mais do que alguém que saiba exercer a “liderança situacional”, importante modelo de Hersey e Ken Blanchard no qual o líder se adapta ao perfil de cada profissional. Hoje, o estilo mais procurado pelas empresas é a liderança educadora, um plus da liderança situacional que tem por essência acreditar no potencial da equipe e preparar um ambiente corporativo que estimule a aprendizagem, o desenvolvimento e a adaptação às mudanças.

O líder educador não só ensina, mas também aprende com os liderados. Ele não apenas delega, mas também realiza junto à equipe em busca dos melhores resultados. Isto é, ele não se coloca em uma posição de superior idade que o limita de participar da execução de tarefas, mas conquista o respeito da equipe com as lições diárias de ética, companheirismo, paciência e educação.

Estamos vivendo em um mundo muito mais complexo, em que os líderes atuais precisam ser capazes de atuar de forma mais consistente no desenvolvimento das pessoas no trabalho. É um caminho para que as pessoas estejam mais capacitadas para enfrentar os desafios, possivelmente as soluções que tínhamos para resolver problemas e adversidades já não são as mesmas de hoje.

Para que o processo de aprendizagem seja mais fácil é necessário escolher o treinamento eficaz para sua equipe, considerando as experiências e demandas tanto do grupo como as individuais e exercendo com sabedoria o papel do líder. É importante considerar que o ambiente organizacional está em constante transformação e o clima é mutável e as adaptações contínuas. A concorrência é globalizada e o foco está totalmente nos resultados e inovação.

A liderança educadora verifica constantemente se as pessoas estão motivadas para o desenvolvimento e entrega de resultados no trabalho. Ela consiste em dar apoio e desenvolver as pessoas em suas atividades, fornecendo suporte e orientação, além de motivar para novos desafios, objetivos e situações como o aprendizado de novas competências e tarefas e auxílio nos problemas de relacionamento no trabalho ou queda de desempenho.

Os líderes educadores têm forte empatia pelas pessoas e se interessam pelo trabalho de sua equipe. Investir na capacidade dos liderados significa investir nas organizações, e é por isso que devemos sempre construir novos paradigmas de liderança. Dessa forma, o gestor educador passa a ser uma referência, um modelo.

Existem algumas atividades que estão relacionadas ao dia a dia do líder educador como integração, desenvolvimento da comunicação, gestão do tempo e o desenvolvimento do potencial profissional de sua equipe. Já no contexto pessoal, essa liderança tem algumas características peculiares como postura reflexiva, capacidade de observação, inovação e facilidade em aprender com os outros e com suas próprias experiências.

O líder que possui a essência educativa gerencia sua equipe por meio do diálogo. Ele define sua gestão como um espaço de aprendizagem para o desenvolvimento de novas competências e estimula o compromisso com a equipe e demais pessoas, criando um ambiente melhor de trabalho e possibilitando mais qualidade e inovação.

Um líder educador possui algumas habilidades essenciais. Ele descobre e estimula novos talentos, desenvolve a atenção e o foco, estimula a autoconfiança, tem flexibilidade, cria um ambiente de trabalho em que o reconhecimento e o bem-estar estão sempre presentes. Incentiva o relacionamento interpessoal, a motivação, o desenvolvimento da competência emocional e tolerância às diferenças.

O líder educador está envolvido em um mundo em que o trabalho possui alguns fatores como a competitividade, ênfase em qualidade e mudanças rápidas nas áreas tecnológicas, de responsabilidade social e globalização. Ele busca o desenvolvimento de uma organização que aprende, que define objetivos e cria os resultados que deseja.

Independentemente do contexto em que o líder educador esteja inserido, ele é a pessoa – chave para a integração e o desenvolvimento dos recursos humanos. Ele desenvolve novas habilidades para a construção de uma liderança que é eficaz e transformadora.

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade CreSer Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros Viva Como Você Quer VM:Y; A Vida é um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente). Para mais informações: www.edushin.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INCLUSÃO NO ENSINO SUPERIOR … É POSSÍVEL?

Pessoas com deficiência cognitiva ainda têm dificuldades em encontrar estratégias desenvolvidas em universidades que possam viabilizar a verdadeira inclusão, principalmente no sentido de absorver conteúdos acadêmicos

Pedro é um rapaz de 20 anos de idade. Sempre fora esportista e há dois anos prestou vestibular e foi inserido em uma renomada universidade. Entretanto, há cerca de um ano, um grave acidente automobilístico mudou totalmente sua vida. Pedro teve um traumatismo cranioencefálico. O traumatismo cranioencefálico é uma lesão no cérebro, não de natureza genética ou degenerativa, mas causada por uma agressão externa. Constitui um grande problema na sociedade atual, uma vez que, em sua maioria, atinge jovens em idade produtiva, e como poderemos ver devido, também, aos comprometimentos cognitivos, sociais e emocionais na vida do paciente que sofre tal dano.

Os estudos divulgados em 2010 e 2013 pela Organização Mundial da Saúde são assustadores, indicativos de uma situação mundial muito crítica no trânsito. No ano de 2010, aconteceram 1,24 milhão de mortes por acidente de trânsito em 182 países do mundo.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Prevenção a Acidentes de Trânsito, em São Paulo, de cada dez vítimas de paralisia quatro se envolveram em acidentes de trânsito. As batidas de motos, de carros e atropelamentos agora são a principal causa de lesões na medula.

No caso de Pedro, o trauma ocorreu na parte lateral esquerda da cabeça e parcialmente frontal, afetando importantes áreas cerebrais. O rapaz permaneceu em coma por dois meses, teve comprometimentos na saúde, fraturas diversas e, neurologicamente, lesão axional difusa.

A lesão axional difusa ocorre quando um axônio, ou vários, é destruído ou lesionado. O axônio é uma parte do neurônio prolongada, responsável por passar informações a outro neurônio. Esse processo neural é chamado de sinapse.

O funcionamento sináptico pode ser associado, para efeito de ilustração, àquela antiga brincadeira de telefone sem fio, em que cada neurônio vai passando a informação que recebeu de um outro, para o próximo, sucessivamente, até que essa informação chegue ao seu destino e seja totalmente processada para que haja uma resposta ou para que qualquer outra função cerebral seja acionada.

Quando um axônio é destruído ou lesado significativamente o neurônio inteiro morre. Outros, que dele dependem para receber estímulo, podem morrer também. Nesses casos, a comunicação intraneural fica bastante comprometida, sabendo-se que todas as informações que chegam ao cérebro e requerem uma resposta devem passar por esse processo de comunicação neural.

Houve grave lesão cerebelar, que comprometeu áreas motoras e de equilíbrio, além de comprometimentos neurológicos, muitos deles causados pela lesão axional difusa: fala, leitura e escrita, memória, atenção, funções executivas, velocidade no processamento da informação, abstração foram alguns.

Geralmente, nesses casos de TCE (traumatismo cranioencefálico), o paciente também é afetado na área emocional, podendo apresentar sintomas de estresse pós-traumático, depressão, embora este não tenha sido o caso de Pedro, apesar dele passar a apresentar uma labilidade emocional e excitabilidade.

Apesar de todo o drama pessoal pelo qual passava, o rapaz decidiu lutar, encarando seus novos desafios, passando a frequentar sessões semanais de fisioterapia, musculação, pilates, equoterapia e acompanhamento psicopedagógico, que, desde o início, o ajudaram muito nos processos de reabilitação.

Assim, decidiu continuar seus estudos universitários, mas o grande problema enfrentado agora era justamente manter o curso, com todas as limitações que passara a ter. A universidade, por sua vez, diante do ocorrido, deveria, então, passar a avaliar e lidar com Pedro no regime de inclusão, mas surgia a grande questão: como praticar a inclusão pedagógica na universidade? Quais as estratégias que viabilizariam essa inclusão, na prática? E não só no caso de Pedro, mas nos demais casos que envolvem defasagens em processos cognitivos, como atuar frente ao conteúdo acadêmico?

MUDANÇA DE PERFIL

Quando se fala em inclusão, em instâncias como o ensino superior, logo se pensa em pessoas com deficiência física e acessibilidade, ou em pessoas com deficiência auditiva e visual e a inclusão acontece de uma forma menos complexa, passando-se à tradução do conteúdo didático usando-se o sistema braile ou o de Libras, utilização de recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência física e outros recursos próprios para essas situações. Mas e nesse caso, em que um aluno que sofreu um TCE ou por algum outro motivo repentino muda seu perfil cognitivo como estudante, como praticar a inclusão pedagógica? Como incluir no ensino superior alunos com deficiências intelectuais?

No Brasil, pouco se discute esse tipo de inclusão no ensino superior e praticamente inexiste literatura que oriente educadores e gestores nesse sentido, indicando, ainda, uma carência de debates, estudos e criação de estratégias voltadas a esse assunto tão relevante e que merece mais atenção das políticas educacionais e da sociedade.

Quem tem deficiência intelectual ou comprometimentos cognitivos foi sempre visto de forma estigmatizada, como incapaz, diferente, e, portanto, sem condições de frequentar um curso superior, uma vez que o mesmo exige um alto grau de complexidade intelectual para o acompanhamento do currículo acadêmico.

É grande a preocupação e responsabilidade por parte da universidade em preparar seus alunos para o mercado de trabalho. Assim, existe a dúvida a respeito de quais seriam os recursos que deveriam ser utilizados nesse caso. Infelizmente, por falta de preparo, de estratégias, ou mesmo diante da preocupação em formar profissionais de excelência para o mercado, muitas universidades acabam desistindo desses alunos, ao tratarem os casos apenas como uma inclusão social, acolhendo-os, porém sem saber elaborar novas estratégias para promover, de forma individualizada e real, a aprendizagem de cada aluno diante de suas necessidades. Como consequência, o aluno não evolui em seu potencial de aprendizagem, não acompanha o processo e acaba desistindo do seu curso e de seu sonho.

De acordo com estatísticas da Organização Mundial da Saúde, 10% da população têm algum tipo de deficiência, sendo que desse percentual 50% têm deficiência intelectual. Existe uma demanda muito grande de alunos com deficiências intelectuais em todas as etapas da educação, além dos casos como o de Pedro, que exigem do sujeito uma readaptação escolar frente a sua nova situação cognitiva.

A Constituição Federal garante, em seu artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, em seu 2° artigo, cita a inclusão no ensino superior, além de outros pareceres e decretos referentes à inclusão no ensino básico, que deixam clara a intenção de apoiar esses alunos na continuidade de seus estudos em outras instâncias.

Segundo a nota técnica n° 4 de 2014, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), promulgada no Brasil, estabelece o compromisso de assegurar às pessoas com deficiência um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino.

Em termos de legislação, as pessoas com deficiências físicas, assim como aquelas que sofrem com deficiências na área cognitiva, ou ainda as que apresentam problemas de aprendizagem e que podem ser beneficiadas no Regime de Inclusão, estão respaldadas em seus direitos a um processo de educação e escolarização, em todos os níveis que lhes garantam tais necessidades. Porém, na realidade, nem sempre isso ocorre, pois tanto as instituições como os educadores possuem muitas dúvidas ainda a respeito de como praticar essa inclusão, principalmente quando a demanda exige uma flexibilização de conteúdos e de recursos didáticos e metodológicos.

Se na educação básica este se configura um dos maiores problemas para que a inclusão ocorra verdadeiramente, na educação superior o processo é ainda mais difícil, uma vez que a complexidade do conteúdo acadêmico é muito maior e a flexibilidade desse conteúdo exige um trabalho muito minucioso, pois trata-se de um material bastante importante para o futuro profissional do aluno. Sendo assim, qualquer perda nesse conteúdo poderá ocasionar futuramente uma lacuna em sua prática profissional.

DIRECIONAMENTO

As políticas de inclusão preveem alunos no ensino superior, mas falta direcionamento, nesse sentido, aos gestores, coordenadores, pedagogos e professores universitários a fim de prepará-los para essa inclusão, para o trabalho a ser realizado com a metodologia que envolve esta flexibilização, enfim, em relação à criação de novos recursos pedagógicos e didáticos para esta demanda de alunos.

Os recursos e as estratégias deverão, ainda, ser escolhidos de acordo com as necessidades dos alunos mediante casos diferentes de inclusão. Sendo assim, eles sempre serão individualizados, direcionados a cada caso e necessidade em particular.

Um aluno que dentro desse contexto possui áreas como a atenção e memória debilitadas em grau leve poderia, por exemplo, fazer uso de aparelho gravador em sala de aula, recorrendo a outro tipo de estratégia para a recepção e o processamento da informação, que lhe garanta posteriormente a repetição das aulas, para estudo. Já outro aluno, que tenha esse quadro de forma mais severa, precisará de outro recurso, pois apenas essa mudança didática não suprirá suas necessidades.

Pedro, por exemplo, necessita de alguém que leia e medie sua interpretação, direcionando sua inferência sobre o conteúdo a ser aprendido. Dessa forma, para os estudos, necessita de um tutor que o auxilie no processo de aquisição de novos conhecimentos, uma vez que as habilidades necessárias para esse processo foram comprometidas.

As avaliações e o próprio conteúdo disciplinar podem ser adaptados, de acordo com a necessidade individual do aluno, diante de seu problema. Dessa forma, para que esse atendimento seja realizado, faz-se necessária a presença de um psicopedagogo ou outro profissional capacitado, que, estudando caso a caso, consiga criar estratégias didáticas e metodológicas para garantir a esses alunos acessibilidade ao ensino em condições de igualdade com os demais alunos, como a lei prevê.

Cabe aqui salientar ainda, segundo Werneck (1997), que, de acordo com a ONU, alguns fatores que interferem na inclusão são a ignorância, a negligência e o medo. Esses fatores, diz o estudioso, são mantidos certamente pela desinformação a respeito das deficiências e inclusão.

DIFERENÇA

Há uma grande diferença entre integração social e inclusão escolar. Na primeira opção, o aluno é acolhido, tratado com respeito e carinho, mas precisa se adaptar ao ensino, procurando estratégias, mediadores fora da instituição, para acompanhar o ritmo de sua série escolar. Já a segunda funciona de forma contrária, ou seja, é a instituição escolar que se adapta ao aluno, em todos os sentidos e não apenas no aspecto físico.

Não é o fato de estar dentro da sala de aula, matriculado, acolhido pelos grupos discente e docente que fará com que esse aluno, que tem necessidades diferenciadas, esteja incluído.

E não se pode falar em inclusão se houver ainda escolhas diante de quais alunos poderiam estar mais preparados para serem incluídos pedagogicamente, ou quais seriam aqueles que responderiam melhor a essa inclusão.

Os professores nesse processo julgam-se despreparados e impotentes frente a essa realidade. Reclamam, sentem-se sozinhos, dizem não terem estudado para enfrentarem tais situações, sentem-se receosos ao que podem, devem ou não fazer diante desses alunos, ou seja, como mudar e adaptar sua prática pedagógica às diferentes situações de inclusão que lhes são impostas. E, então, muitas vezes desistem, até mesmo receosos em pedir ajuda, ou, ainda pior, sem saberem a quem recorrer.

Assim, antes de qualquer atitude frente à inclusão, o primeiro passo para se chegar a ela é a capacitação do professor nessa área. Obviamente, ele não precisa, necessariamente, nem obrigatoriamente, de uma especialização em educação especial, mas sim de estratégias para saber lidar com o aluno com deficiência, assim como, juntamente com um profissional especializado (aí, sim, um especialista em educação especial ou um psicopedagogo), ser capacitado a adaptar seu conteúdo disciplinar, seu processo avaliativo e sua didática a fim de alcançar esse aluno com dificuldades, possibilitando ao mesmo o acesso a esse material, no sentido de promover, ao máximo, seu potencial frente ao processo de aprendizagem.

De acordo com Pires (2006), “é o reconhecimento das desigualdades que nos constroem enquanto humanos e sociais, através da valorização das diferenças que dão sentido à complexidade dinâmica do ser humano”.

Nesse sentido, um olhar sensível e aguçado, criatividade, conhecimento do assunto e ousadia são habilidades indispensáveis ao professor em sua práxis frente ao desafio da inclusão, que já faz parte da realidade educacional.

AVALIAÇÃO

Tratando-se de inclusão de aluno com comprometimentos cognitivos, este deveria, previamente à matrícula, passar por avaliação neuropsicológica, para que, ao chegar à instituição escolar, os profissionais que o recebessem conseguissem, mediante seu laudo, elaborar os processos necessários de adaptação, que vão diferir, como dito antes, dependendo de cada caso.

Para que esse processo ocorra há necessidade da presença desse profissional capacitado na área, seja como consultor, coaching ou mesmo parte da equipe pedagógica, que dará esse suporte necessário ao corpo docente no processo de mediação entre o aluno de inclusão e seu processo de aprendizagem. É certo que não existem receitas prontas e muito menos aquelas que se aplicam de maneira generalizada. Cada caso é individual e exige um olhar também individualizado, criativo e humanitário e estimulado, enquanto aluno acadêmico.

Pedro continua otimista e não quer desistir de seu curso. Porém, sabe o quanto essa etapa de sua vida lhe será mais difícil. Espera ser realmente compreendido por sua universidade em suas necessidades.

Falar em inclusão exige uma quebra de paradigmas educacionais e sociais. A ideia de uma escola e de uma sociedade inclusiva baseia-se na aceitação da diversidade em todos os sentidos e vemos que o nosso país está, apenas, engatinhando nessa nova filosofia de vida. A jornada está só começando!

A NOVA LEI BRASILEIRA DE INCLUSÃO

A lei Brasileira de Inclusão, recentemente aprovada no Senado Federal e sancionadas pelo Executivo com vetos, apresenta uma série de avanços em relação aos direitos das pessoas com deficiência. Entre os muitos artigos, alguns se relacionam especificamente às pessoas com deficiência cognitiva. O artigo 6°, por exemplo, diz que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para se casar ou constituir união estável: exercer direitos sexuais e reprodutivos: exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar: conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária, exercer o direito à guarda. à tutela, à curatela e à adoção. em igualdade de oportunidades em relação aos demais. Dentro do tema, as pessoas com deficiência intelectual só poderão receber curatelas protetivas e não restritivas, aquelas que tiravam direitos básicos, como casar, votar, ser votado e até mesmo retirar a Carteira Nacional de Habilitação, salvo exceções.

Estão contemplados benefícios que dizem respeito à inclusão na sociedade em seus amplos aspectos, como trabalho, educação, moradia, entre outros.

ORIGEM DA LIBRAS

A língua Brasileira de Sinais teve sua origem a partir do Alfabeto Manual Francês. que chegou ao Brasil no ano de 1856. Um surdo natural daquele país, Ernest Huet, veio ao Rio de Janeiro a passeio e observou um grupo de surdos perdidos e mendigando na praia. Preocupado com a falta de comunicação dessas pessoas, passou a se dedicar voluntariamente ao ensino dessa língua. Os brasileiros logo aprenderam e divulgaram por todo o país. A Libras é formada pelos componentes pertinentes às línguas orais, como semântica, pragmática, sintaxe e outros elementos, preenchendo os requisitos científicos para ser considerada instrumento linguístico de poder e força. Embora possua todos os elementos classificatórios identificáveis de uma língua e demande prática para seu aprendizado, como qualquer outra língua, a Libras se distingue do Português, como língua oral. A diferença básica entre as duas modalidades de língua não está no uso de aparelho fonador ou na utilização das mãos no espaço, mas em certas características da organização fonológica das duas modalidades: a linearidade, mais explorada nas línguas orais, e a simultaneidade, que é marca básica das línguas de sinais. Todos os sinais que se incorporam ao léxico usam os parâmetros considerados gramaticais.

AVANÇO

Segundo o Ministério da Educação, o Brasil quadruplicou o número de pessoas com deficiências matriculadas no ensino superior nos últimos anos. Esse número passou de 145 mil em 2003 para 698 mil em 2014. Na rede federal de educação superior, esse índice quintuplicou, passando de 3.705 alunos para 19.812 no mesmo ano.

Esse índice é o resultado de avanços em políticas públicas inclusivas, que, através da legislação, asseguram o direito à educação aos portadores de necessidades especiais, sejam elas físicas, sensoriais, intelectuais, ou outras, no sentido de se vencer o desafio da universalização do acesso à educação, como um direito de todos.

EU ACHO …

CONDIÇÃO HUMANA

Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida. A ponto de que seria inútil ter mais liberdade: minha condição pequena não me deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto que a condição do universo é tão grande que não se chama de condição. O meu descompasso com o mundo chega a ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e ficou apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição. Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é um mal porque é de minha condição. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS

 O grande avanço das técnicas de reprodução humana e o aumento das gestações entre as mulheres mais velhas levaram ao recorde de nascimentos de gêmeos

Desde 1978, quando nasceu a americana Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, a medicina de reprodução humana se desenvolveu extraordinariamente. Técnicas antes só imaginadas no cinema e na literatura de ficção futurista, como o congelamento de células extremamente delicadas que formam embriões em laboratórios e procedimentos que permitem a uma mulher engravidar já não mais em plena idade fértil, são hoje corriqueiras. Uma relevante implicação desse novo cenário, porém, só agora começa a chamar atenção com mais profundidade – a profusão do nascimento de gêmeos. Um estudo conduzido pelas universidades de Oxford, na Inglaterra, e de Radboud, na Holanda, mostrou que nunca vieram ao mundo tantos pares como agora. No tempo de Louise, a cada 1.000 partos, nove entregavam gêmeos. Hoje a taxa subiu para doze em 1.000. A cada ano, portanto, há 1,6 milhão de novos gêmeos sorrindo por aí.

Gêmeos nascem naturalmente quando um óvulo fertilizado se divide espontaneamente ao meio, levando a dois bebês idênticos, ou quando a mãe libera dois óvulos de uma vez que são fertilizados, produzindo gêmeos não idênticos. A interferência da medicina estimulou o segundo processo. Nos métodos de fertilização artificial, faz-se uso de hormônios para estimular o ovário, o que aumenta a probabilidade de liberação de dois óvulos de uma vez. Além disso, é comum (e permitido) as clínicas transferirem mais de um embrião para o útero simultaneamente, para aumentar as chances de que pelo menos um sobreviva.

Convém, ainda, considerar o papel de um aspecto de cunho comportamental ocorrido nos últimos anos: as mulheres estão engravidando naturalmente mais tarde, o que sob o ponto de vista biológico estimula o nascimento de gêmeos. Dados do IBGE mostram que entre 2008 e 2018 diminuiu em 16,1% o número de mulheres que tiveram filho com menos de 30 anos, enquanto aumentou em 36% entre aquelas que se tornaram mães após essa idade. A explicação para o fato de o organismo com mais idade ter mais chance de engravidar de gêmeos é fascinante: a proteção da espécie. Ao contrário dos homens, elas nascem com um número determinado de óvulos de células sexuais, que são dispensadas ao longo da vida, a cada ciclo menstrual. Com o passar dos anos, a quantidade e a qualidade dessas células diminui. Uma criança nasce com 1 milhão a 2 milhões de óvulos. Aos 40 anos, essa reserva praticamente já se esgotou. Só que, à medida que a idade avança, também aumenta a probabilidade de a mulher liberar dois óvulos ao mesmo tempo, como uma forma do corpo tentar compensar o aumento do risco de aborto pela queda na fertilidade.

Toda essa grande mudança cientifica tem, no entanto, um efeito colateral preocupante. Diz o especialista em reprodução assistida Rodrigo Rosa, diretor clínico da Mater Prime, em São Paulo: “A incidência de problemas na gestação de gêmeos, originada em laboratório ou não, é maior”. Gêmeos têm cerca de quatro vezes mais risco de morrer no fim da gestação ou na primeira semana de vida – com trigêmeos esse risco é sele vezes maior. Nos últimos anos, a medicina conseguiu minimizar uma das situações mais dramáticas decorrentes de uma gestação de gêmeos, as sequelas ou morte de bebês prematuros.” Hoje, as UTIs neonatais conseguem sustentar e fazer ganhar peso crianças que nascem com apenas 500 gramas, o equivalente a um feto de seis meses, ainda sem os pulmões formados”, diz Edson Borges, diretor médico da clínica Fertility, em São Paulo. Há dez anos, muito raramente um bebê com menos de oito meses sobrevivia sem sequelas. “Sede fecundos, crescei e multiplicai-vos e enchei a terra.” A máxima de mais de 2.000 anos descrita no Gênesis da Bíblia ganha agora ares de modernidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE ABRIL

“QUEM NÃO ESCUTA CONSELHO ESCUTA ‘COITADO’”

O que despreza a palavra a ela se apenhora, mas o que teme o mandamento será galardoado (Provérbios 13.13).

Há um ditado que diz: “Quem não escuta conselho escuta ‘coitado’”. Quem zomba da instrução pagará por ela e pagará caro. Quem despreza conselhos traz sobre si destruição, pois é na multidão de conselhos que está a sabedoria. Quem não aprende com amor em casa talvez aprenda com dor na rua. Quem não escuta a voz da sabedoria receberá a chibata da disciplina. Quem não abre os ouvidos para escutar conselhos oferece as costas para o chicote do juízo. A obediência é o caminho da bem-aventurança. Traz doçura para a alma, descanso para o coração e sucesso para a vida. Somos livres quando seguimos, e não quando transgredimos os mandamentos. Somos livres para dirigir nosso carro quando obedecemos às leis de trânsito. Somos livres como cidadãos quando cumprimos os preceitos da lei. Um trem é livre para transportar em segurança os passageiros quando corre sobre os trilhos. Assim, também, somos livres para viver uma vida feliz e vitoriosa quando cumprimos os mandamentos. Os que guardam os mandamentos serão galardoados.

GESTÃO E CARREIRA

MÃOS À OBRA

Reformas domésticas, bricolagem e decoração entram na lista de prioridades de muitos brasileiros que tratam de tornar suas casas mais agradáveis e adaptá-las à realidade do home office. Vendas de materiais de construção disparam durante a pandemia

Reformar e decorar a própria casa virou uma das atividades preferidas dos brasileiros nestes tempos de pandemia. Há uma verdadeira febre de consumo de tintas, pisos laminados e azulejos, além de móveis e acessórios de todos os tipos. Sem gastos de viagens de férias e economizando com lazer, muitas pessoas trataram de destinar seu dinheiro para melhorar o lugar onde vivem. Nesse embalo, a bricolagem, a execução de reparos e trabalhos caseiros, também ganhou mercado. Como todos passaram a ficar mais tempo dentro de casa por causa das restrições de deslocamento, surgiu a necessidade de tornar mais confortável o espaço interior onde se vive e também onde muitos passaram a trabalhar, com a escalada do home office. Existe uma explosão de demanda nas grandes capitais por serviços de reparos, organização e decoração das residências. O fenômeno beneficiou fortemente a indústria e o comércio de materiais de construção no País, que cresceram muito mais do que a economia nos últimos 12 meses.

“Antes da Covid-19 as pessoas ficavam fora de casa na maior parte do dia, mas com as quarentenas e o trabalho remoto, a realidade mudou, porque agora elas ficam muito tempo em casa”, diz o arquiteto Maykon Fogliene, que tem escritório na capital paulista. “As reformas não são feitas só para receber os amigos, mas também para adaptar ambientes para o home office.” Segundo ele, a procura por reformas não para e existe, inclusive, uma ansiedade dos clientes para transformar suas residências. O arquiteto vê esta tendência gerada pela pandemia como um investimento na melhoria da qualidade de vida. No seu caso, o número de projetos executados mensalmente praticamente dobrou. Entre outros serviços, o escritório de Fogliene reformou o apartamento da empresária Francine Prado, e também os dois centros de reabilitação para crianças com necessidades especiais que ela administra em São Paulo. “Como nosso negócio está em expansão precisamos fazer adaptações para receber mais alunos”, disse.

OTIMIZAÇÃO DO ESPAÇO

Além das reformas, houve um forte aumento pelos serviços dos “personal organizers”, profissionais que trabalham na melhora e organização dos cômodos em casas e apartamentos. “Como as pessoas estão em casa, a bagunça aumenta muito. Nós ajudamos o cliente na reorganização residencial, este é o nosso foco, e também preparamos o espaço para o home office”, diz Sheila Soares, empresária da Possível prá Você (@possivelpravoce). “Nem todo mundo tem dinheiro para comprar um imóvel grande e nosso trabalho é ajudar o cliente a otimizar o espaço que ele tem disponível.” Segundo ela, por causa do aumento da demanda, a empresa expandirá sua atuação do Rio de Janeiro para São Paulo.

Esse é o caso também da empreendedora Cida Nogueira, paulistana que atua no mercado de pinturas e papel de paredes há mais de 15 anos. “No começo da pandemia, as pessoas ficaram com medo e houve queda nos serviços”, comenta Cida, que está finalizando a pintura de um apartamento de três dormitórios no Morumbi, em São Paulo. “Mas isto passou quando as medidas de segurança e higiene foram adotadas. Hoje, faço um serviço e começo outro, sempre tem trabalho, a demanda é forte.” Segundo ela, o orçamento varia conforme a metragem da área a ser pintada, as cores ou o papel de parede que o cliente escolhe. Seu trabalho, hoje, envolve uma espécie de consultoria para entender a vontade do cliente. “Após finalizar este apartamento, vou pintar outro com 120 m2”, conta.

O que os profissionais da construção e da decoração percebem na prática é captado nas pesquisas. Em janeiro, a venda de materiais de construção cresceu 0,3%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo mês, as vendas do comércio em geral tiveram retração de -0,2%. No fechamento de 2020, o volume de vendas desses materiais teve expansão de 10,8%, enquanto o comércio varejista cresceu 1,2%. Em dezembro do ano passado, houve aumento de 18,8% sobre dezembro de 2019 nas lojas de construção. E o crescimento nas vendas durante a pandemia foi observado em duas etapas, afirma Rodrigo Pothin, diretor comercial da Telhanorte. “Na primeira, as pessoas compram mais tintas e artigos de decoração”, diz. “E na segunda, notamos um crescimento nas vendas de pisos, porcelanatos (azulejos), louças sanitárias e revestimentos.” Ele diz que a Telhanorte teve um crescimento superior a 18%, no volume de vendas no primeiro bimestre de 2021. Em 2020, a empresa começou as vendas diretas pelo Whatsapp, também com bons resultados. O mercado vai de vento em popa e, pelo jeito, a febre das reformas ainda vai demorar para passar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EDUCAÇÃO POSITIVA

Se fosse implementada, a educação positiva traria profundas mudanças nos papéis tanto da escola quanto do professor

Símbolo de status, sacerdócio, missão. Muito já se falou sobre a profissão do professor que, ao longo dos últimos cinquenta anos, tem sofrido grandes transformações. Filha de professora, consegui testemunhar um pouco do prestígio que cercava a profissão quando eu, ainda criança, ouvia meu pai dizer como se sentiu importante ao namorar uma então “normalista”. Sim, esse era o nome que se dava às mocinhas que na época de mamãe faziam o curso Normal, que lhes conferia o cobiçado título de professoras. Papai também brincava que sua intenção teria sido a de “dar o golpe do baú”. Isso porque naquela época professores ganhavam bem. Além disso – e talvez justamente por isso -, eram também respeitados. Ou seria o contrário, em que a remuneração seria a consequência do respeito? Creio que ambos. O fato é que a própria educação foi se transformando. Seus meios, seus objetivos, sua importância. Quando aos 17 anos tornei-me, também eu, professora, cabia a esse profissional formar o caráter do aluno. Não em detrimento da família, é claro, mas como um importante agente formador. Sempre me espanto quando vejo a reação de meus alunos de MBA diante de uma cena de filme que utilizo como recurso didático para ilustrar um determinado tema. Nela um professor idealista se dirige ao pai de um aluno problemático e diz ser sua função “moldar o caráter do menino”. Na cena o pai fica revoltado, dizendo ser apenas dele (pai) essa função. Fico perplexa ao observar que nessa cena a grande maioria de meus alunos se identifica com o pai, achando que, de fato, a formação do caráter não seria papel da escola.

Quando vi essa cena pela primeira vez, imediatamente me identifiquei com o professor, na medida em que penso exatamente como ele. Mas não podemos ser ingênuos. Com o passar dos anos, no entanto, o papel do professor foi se tornando cada vez mais conteudista. Valores e caráter foram sendo esquecidos no caminho tortuoso do vestibular e de um processo educacional cada vez mais voltado para o ter. E cada vez mais distante do ser.

Passamos a educar nossas crianças para que entrem em boas faculdades pura e simplesmente porque, ao cursá-las, elas teriam mais chances de conseguir um bom emprego (leia-se um bom salário) num processo educacional completo e exclusivamente voltado para que se tenha mais, se compre mais e se distancie mais do que poderíamos chamar de nossa essência humana.

Hoje percebo, com tristeza, que o ofício de ensinar tem formado indivíduos desconhecidos de si mesmos. O que me leva a refletir sobre qual seria o papel do professor no que poderíamos chamar de Educação Positiva, ou seja, numa educação que se fundamentasse exclusivamente nos preceitos da Psicologia Positiva.

Em primeiro lugar, seria uma educação para a felicidade, na qual a educação das emoções seria tão importante quanto o estudo das letras. Contudo, a coisa não seria tão simples. Urna educação baseada na Psicologia Positiva deveria promover o florescimento humano, ou seja, o desenvolvimento da criança em todo o seu potencial. E é aí que a mágica aconteceria. A promoção de uma educação voltada ao florescimento exige autoconsciência. Uma autoconsciência que permitisse, antes de tudo, o conhecimento da criança em relação a tudo o que de melhor ela teria a oferecer ao mundo. Nesse cenário, o papel do professor, mero depositante numa educação bancária, se transformaria radicalmente, passando a ser o de um provocador que, por fazer as perguntas certas, por olhar para o fundo da alma de cada criança, seria capaz de reconduzi-la em direção à sua própria essência.

A Educação Positiva promoveria também as virtudes, ocupando-se da capital importância da formação do caráter. Nesse mundo talvez o professor recuperasse seu valor, seu status e talvez, até, quem sabe, seu verdadeiro propósito.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clinico. consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapostiiva.com.br

EU ACHO …

O RITUAL

Enfeitar-se é um ritual tão grave. A fazenda não é um mero tecido, é matéria de coisa. É a esse estofo que com meu corpo eu dou corpo. Ah, como pode um simples pano ganhar tanta vida? Meus cabelos, hoje lavados e secados ao sol do terraço, estão da seda mais antiga. Bonita? Nem um pouco, mas mulher. Meu segredo ignorado por todos e até pelo espelho: mulher. Brincos? Hesito. Não. Quero a orelha apenas delicada e simples – alguma coisa modestamente nua. Hesito mais: riqueza ainda maior seria esconder com os cabelos as orelhas. Mas não resisto: descubro-as, esticando os cabelos para trás. E fica de um feio hierático como o de uma rainha egípcia, com o pescoço alongado e as orelhas incongruentes. Rainha egípcia? Não, sou eu, eu toda ornada como as mulheres bíblicas.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

UMA VIDA COM MAIS CORES

Com o incremento de nanopartículas de ouro em lentes de contato, pessoas que têm dificuldade em distinguir os tons vão poder compensar a deficiência

O daltonismo é um distúrbio ocular hereditário, genético, que impede o olho humano de diferenciar colorações vermelho-verde e que não tem cura. Quem é daltônico vê as imagens com uma tonalidade acinzentada. No momento, a ciência pesquisa algumas alternativas para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas como óculos com objetiva de vidro colorido e lentes de contato impregnadas de corantes orgânicos capazes de contrabalancear a anomalia. No entanto, a mais promissora tentativa de reverter o daltonismo é um estudo da Sociedade Americana de Química: lentes de contato equipadas com nanopartículas de ouro que se mostraram eficazes para melhorar a percepção de cores. Essas lentes foram constituídas a partir da junção de ínfimas partes do metal incorporadas ao material hidrogel das lentes. E por que se mostraram mais eficientes? Lentes com nanocompósitos de ouro demonstraram maior capacidade de retenção de água e isso melhorara a filtragem das cores.

Essa forma da deficiência, o daltonismo vermelho-verde, acomete 95% dos portadores da doença, na maioria das vezes, homens, 98% dos casos. De acordo com a OMS, o daltonismo atinge 350 milhões de pessoas no mundo, sendo oito milhões no Brasil. “Ao se confirmar, a nova lente vai representar uma mudança de paradigmas para essas pessoas”, afirma Leon Grupenmacher, oftalmologista e professor da Escola de Medicina da PUC do Paraná. O especialista diz isso porque pessoas daltônicas adultas podem ser impedidas de exercer algumas profissões devido à anomalia. A utilização das lentes com nanopartículas de ouro ainda não está disponível no mercado, pois há etapas desafiadoras para ultrapassar. “Daltônicos podem ter alguma deficiência de grau a ser corrigida”, diz o professor. Dessa forma, figuras públicas como a jornalista Ana Furtado, o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton e o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, vão ter que continuar usando dispositivos paliativos para equilibrar os tons.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE ABRIL

A ESPERANÇA ADIADA ADOECE O CORAÇÃO

A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida (Provérbios 13.12).

A esperança é o oxigênio da vida. Se ela falta, perecemos. Se ela se adia, o coração adoece. O anseio satisfeito, porém, é árvore de vida. A vida é feita de decisões. Não somos aquilo que falamos, mas o que fazemos. Não é sábio deixar para depois aquilo que podemos fazer hoje. Não é sensato empurrar com a barriga decisões que precisam ser tomadas com presteza. Não é prudente jogar para debaixo do tapete aquilo que precisamos resolver com agilidade. A esperança adiada entristece o coração. Talvez você tenha deixado para depois aquela conversa que precisaria ter com seu cônjuge, com seus filhos ou com seus pais. Talvez você venha fugindo da responsabilidade de tomar algumas decisões na sua vida. É melhor o desconforto do confronto do que a posição confortável da omissão. Não espere mais para falar, agir e posicionar-se. Levante-se e seja forte. Ninguém pode assumir o seu lugar e tomar as decisões que são de sua exclusiva responsabilidade. Rompa esse ciclo vicioso. Sacuda a poeira. Ponha o pé na estrada. Mantenha a visão do farol alto. Suba nos ombros dos gigantes e comece uma marcha vitoriosa na vida. Não deixe para amanhã o que você precisa fazer hoje!

GESTÃO E CARREIRA

TESTE – COMO ANDA SEU NETWORKING?

O networking é uma poderosa ferramenta estratégica de marketing para a sua empresa, independentemente do segmento que você ocupe, pois possibilita melhor visibilidade do seu negócio no mercado, aumentando, assim, as chances de melhorar seus resultados. Por isso, é fundamental fortalecer a sua rede de contatos na vida profissional.

O networking acontece em muitos momentos, desde aquela conversa em um bar até um encontro em uma reunião de negócios. Pode ocorrer também por meio de networking profissional, o que possibilita ainda maior resultado.

Há muito tempo fazer networking está além de trocar cartões de visitas e esperar até que um dia você seja contatado. O networking profissional tem sido utilizado de maneira inteligente, pois ele traz propósito para o relacionamento, por meio da confiança que se estabelece entre as partes, assim, gerar mais negócios e uma consequência.

Vamos verificar como está a sua construção de relacionamento, pelo teste a seguir, e depois validar quais pontos você precisa olhar com mais cuidado e desenvolvê-los de maneira significativa. Isso diz muito sobre pessoas e networking.

O propósito para essa construção é justamente entender e possibilitar amadurecimento, pois há mais significado quando isso acontece “de dentro para fora”, por isso essas perguntas trazem grandes reflexões sobre o perfil comportamental das pessoas.

1. A sua rede de contatos atual está formada por:

A. Parceiros de negócios, fornecedores e empresários de outros segmentos.

B. Ex-colegas de trabalho, empresários do meu setor.

C. Apenas amigos com os quais troco experiências de temas atuais.

2. Como tem sido a construção do seu relacionamento com seus colaboradores?

A. Tenho realizado treinamentos constantes com os meus colaboradores, reafirmando a cultura da empresa, assim como os valores implícitos e explícitos por meio dos meus produtos e serviços.

B. Tenho atuado pontualmente, mediante as demandas que aparecem em dificuldades apontadas pelos meus colaboradores ou pelos clientes.

C. Não tenho dado a devida importância para a questão da cultura organizacional, assim como não treino as pessoas para estarem por dentro dos valores apresentados da empresa.

3. Como tem sido o seu relacionamento com os clientes?

A.  Tenho feito follow-up com meus clientes e validado a boa experiência no meu processo de vendas.

B. Quando acontece alguma situação a gerenciar, tenho me empenhado para resolver os problemas do meu cliente.

C. Não tenho dado a importância devida ao follow-up para os meus clientes.

4. Como você tem se relacionado com os seus concorrentes?

A.  Tenho estudado constantemente o mercado e buscado me relacionar de maneira saudável com os meus concorrentes locais e mais distantes.

B. Tenho observado o que meu concorrente faz como diferencial de mercado e avalio a importância de fazer algo parecido.

C. Não tenho notado quais as estratégias que meus concorrentes têm utilizado para melhorar a comunicação com os clientes do nosso segmento.

5. Como você tem se posicionado em seu mercado?

A. A comunicação da minha empresa está bem alinhada, por meio de site, mídias sociais, interação com clientes e colaboradores, e sempre estou aberto a novas ideias.

B. A comunicação da minha empresa inclui site e mídias sociais, mas essas ferramentas precisam ser atualizadas.

C. Não tenho conseguido dar a importância necessária para a construção e comunicação da identidade da minha empresa.

6. Você tem construído relações significativas e duradoras?

A. Sim, tenho fidelizado boa parte dos meus clientes e mantido relações de longa data com meus parceiros de negócios e fornecedores.

B. Tenho conseguido manter relacionamentos que foram construídos de 3 a 5 anos atrás.

C. Não tenho conseguido manter relacionamentos duradouros e preciso dedicar mais tempo para iniciar processos de relações mais significativas.

7. Como você se sente quando um amigo, parceiro de negócio ou colaborador prospera financeiramente por meio da sua contribuição ou influência?

A. Me sinto feliz e motivado a ajudar ainda mais os meus colegas.

B. Me sinto bem e penso que também poderia estar comemorando.

C. Eu não tenho conseguido ajudar os meus parceiros de maneira assídua, talvez tenha que pensar em melhorar a minha interação em conectar pessoas.

8. Como você tem ampliado a sua rede de relacionamentos?

A. Por meio de reuniões de negócios, contato com clientes e parceiros.

B. Sempre que tenho oportunidade, busco ampliar a minha rede de relacionamentos.

C. Não tenho conseguido me organizar para essa construção de relacionamentos.

9. Com que frequência você tem investido tempo para participar de eventos/reuniões de networking?

A. Tenho feito encontros semanalmente.

B. Tenho me esforçado para fazer sempre que posso.

C. Não tenho participado de nenhum movimento de networking.

10. Antes de participar de algum evento de networking, você:

A. Pesquisa sobre o evento de que participará e busca entender que tipo de pessoas encontrará no evento.

B. Dedica tempo para pesquisar sobre os eventos, mas não consegue saber mais informações.

C. Precisa dedicar mais tempo para saber sobre os eventos, mas não se esquece de levar cartões de visita.

11. Quando conhece um contato em potencial, como você se comporta?

A. Busco me conectar com o contexto no qual aquela pessoa atua e elenco sim ilar idades entre nossa vida e nossas atividades profissionais.

B. Faço uma apresentação profunda e busco destacar três fatores importantes dos quais não gostaria que essa pessoa se esquecesse.

C. Faço uma breve apresentação, falo sobre o meu negócio e entrego meu cartão de visita.

12. Após participar dos eventos, como você mantém contato com essas pessoas?

A. Envio uma mensagem por celular e ligo em momento oportuno.

B. Envio uma apresentação da minha empresa por e-mail.

C. Preciso melhorar a minha interação pós-encontro com as pessoas que tenho conhecido.

13. Em qual ordem você estabelece maior contato/ comunicação com outras pessoas?

A. Encontro pessoal, telefone e contato virtual.

B. Telefone, contato virtual e encontro pessoal.

C. Contato virtual, telefone e encontro pessoal.

14. Você teve crescimento no seu faturamento com a prática do networking?

A. Sim, obtive retornos financeiros significativos.

B. Tive retorno financeiro, mas bem longe do que esperava.

C. Não tive retorno, mas sei que devo melhorar meu relacionamento.

RESULTADOS

MAIORIA DE RESPOSTAS A

EXCELENTE – Você tem investido positivamente para o desenvolvimento do networking em seu negócio e compreende que, por meio de relacionamentos duradouros, você melhora a sua visibilidade no mercado e os resultados da sua empresa. Continue assim e fortaleça ainda mais a relação de confiança com os seus amigos e parceiros de negócios. Ampliar a sua rede de contatos é o que você precisa continuar fazendo.

MAIORIA DE RESPOSTAS B

ATENÇÃO – Você está no caminho certo; compreende a importância do networking para o seu negócio e o significado dele para melhorar o seu relacionamento empresarial, mas não pode perder o foco de que precisa melhorar o seu posicionamento e construir uma relação significativa com as pessoas com quem se relaciona. Networking está muito além de fazer novos contatos, networking significa compreender a importância em fideliza-los e mantê-los sempre perto de você. Busque alguém que faça isso com excelência e melhore o seu posicionamento a fim de continuar investindo tempo para melhorar seu relacionamento.

MAIORIA DE RESPOSTAS C

RISCO – Muitos segmentos do mercado têm mais efetividade quando são indicados por amigos, parceiros e clientes. É importante construir essa relação com as pessoas e melhorar a sua visibilidade e posicionamento de mercado. Busque investir tempo para desenvolver essa potente ferramenta de relacionamentos com significado para o seu negócio, pois ela pode auxiliar você de maneira a encontrar resultados, inclusive financeiros, positivos. Aprender a fazer networking é importante e essa é uma competência que você pode desenvolver.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BENEFÍCIOS COGNITIVOS DO ESPORTE

As vantagens das atividades físicas vão muito além de queimar calorias: na infância, ajudam a desenvolver as funções executivas, cruciais para o sucesso do aprendizado

Se quisermos alcançar melhores resultados acadêmicos devemos investir mais tempo em atividades intelectuais, certo? Essa é a lógica que molda o sistema educacional atual, provocando o redirecionamento para a sala de aula do tempo – ou ao menos uma parte dele – que antes era dedicado a atividades lúdicas, artísticas e esportivas. Mas não está funcionando. Prova disso está na quantidade cada vez maior de alunos desatentos, impulsivos e ansiosos. O problema é que esse modelo está desconsiderando o fato de que o intelecto não se desenvolve sozinho: ele se forma juntamente – e de maneira interconectada – aos aspectos físico, social e emocional da criança.

Desenvolver essas outras dimensões do ser humano não apenas garante a formação de indivíduos felizes e saudáveis: é fundamental para o sucesso da própria capacidade intelectual. Mais que receber informações, crianças precisam aprender a controlar seus impulsos e sua atenção. Precisam dividir e esperar a vez do outro; resolver conflitos sociais; lidar com frustrações e derrotas; sentir-se valorizadas e parte de uma equipe; praticar o equilíbrio, coordenação motora e agilidade física. Não é na carteira escolar que essas habilidades se desenvolvem. É na quadra esportiva, na sala de dança ou no tatame.

Muito se fala da importância do esporte para a saúde e vigor físico da criança e como forma de combate à obesidade. Uma função relevante, mas que não ganha em importância dos tantos outros benefícios trazidos pelo esporte. A prática esportiva – especialmente das modalidades que exigem mais disciplina e estratégia, como dança, artes marciais e jogos em equipe – trabalha várias habilidades que formam as chamadas funções executivas, essenciais para a formação de um indivíduo bem-sucedido em todos os aspectos possíveis. São as últimas habilidades a amadurecer nas pessoas e também as primeiras a enfraquecer quando envelhecemos.

Entre as funções executivas fundamentais estão a memória de trabalho, que é a capacidade de manter as informações na mente para poder manipulá-las ou reproduzi-las, e a

flexibilidade cognitiva, que envolve a maneira criativa de pensar e de solucionar problemas. Outra função executiva é o controle inibitório, que é a autodisciplina, a capacidade de controlar as próprias emoções e ações; de selecionar o foco, a atenção, de não ceder a tentações e não agir impulsivamente. Quem convive com crianças hiperativas e desatentas sabe o quanto essas habilidades são cruciais no desempenho social e acadêmico da criança.

Aumentar o número de atividades intelectuais e forçar o aluno a se concentrar no conteúdo acadêmico são táticas que vêm se mostrando bastante falhas – basta observar o salto no número de crianças que acabam recebendo estimulantes para conseguir prestar atenção. Pouco é falado, infelizmente, do papel transformador que o esporte pode exercer na vida dessas crianças, exercitando a autodisciplina de forma intensa e divertida, como nenhuma outra atividade exercita.

A falta de autocontrole na infância é um preditor maior de problemas no futuro que fatores como histórico familiar, coeficiente de inteligência (QI) e situação socioeconômica. Essa constatação foi feita em um estudo realizado ao longo de 30 anos por pesquisadores de diversas universidades americanas e canadenses. Segundo o estudo, que avaliou mil indivíduos, aqueles que na infância apresentavam menos impulsividade e mais controle sobre suas ações se transformaram em adultos mais saudáveis e bem-sucedidos profissionalmente, com menor chance de sofrer com abuso de substâncias e obesidade ou de se envolver em crimes.

Para comprovar a relação do esporte com o desenvolvimento das funções executivas, pesquisadores da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, testaram 171 crianças sedentárias antes e depois de um programa de 13 semanas de exercício físico. Foi confirmado um aumento de atividade no córtex frontal bilateral, associado às funções executivas, e uma melhora nos testes de inteligência, especialmente de raciocínio lógico.

Diversas pesquisas já haviam demonstrado o papel do esporte no desempenho cognitivo de adultos e crianças. Uma das explicações é o maior fluxo sanguíneo no córtex cerebral, favorecendo o aumento de sinapses e também o nascimento de novas células nervosas. A neurogênese – surgimento de novos neurônios – ocorre especificamente no hipocampo, região responsável pela memória. Níveis excessivos e prolongados de estresse afetam essa estrutura, que geralmente se apresenta alterada em pessoas com depressão. Assim, além dos ganhos cognitivos e físicos, as atividades esportivas reduzem a chance de crianças e adultos sofrerem as consequências do estresse, como ansiedade e depressão.

O esporte, a dança, o circo e as brincadeiras existem há milênios, em todas as culturas, por um bom motivo: cumprem uma importante função no desenvolvimento de diferentes habilidades que são inter-relacionadas e que suportam a formação intelectual. Assim, práticas que exercitam a desenvoltura física, promovem a interatividade e exigem disciplina podem ser mais significativas no desempenho acadêmico que o aumento de atividades voltadas para a aprendizagem de conteúdo.

MICHELE MULLER – é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br

EU ACHO …

BANHOS DE MAR

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos de pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade.”

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco do mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

Nunca mais. Nunca.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

BARBA E MAQUIAGEM

Grifes essencialmente femininas começam a investir no promissor mercado de cosméticos para os homens – e mais um tabu ensaia perder terreno

Até muito recentemente, eram dois clubes ostensivamente separados – o das “luluzinhas” e o dos “bolinhas”, e não haveria como aproximá-los. Para elas, saias e salto alto, em tons vibrantes. Para eles, camisas e blazers, sempre discretos. As fronteiras, porém, começaram a ser abertas com a aparição de ídolos jovens, como o cantor britânico Harry Styles e o rapper americano ASAP Rocky, colados a um modo de vestir, digamos, até então sobejamente feminino. E então as placas tectônicas começaram a se mexer – tanto e tão ruidosamente que aceleraram um novo fenômeno, o da maquiagem masculina. Nos últimos meses, uma seleção de produtos pensada para atrair os homens despontou nas lojas eletrônicas. São corretivos, bases para a face, protetores para os lábios e géis de barba e sobrancelha. Tudo quase sempre em embalagens de cores sóbrias e design minimalista. Não se trata, naturalmente, de replicar o aspecto vibrante popularizado pelas dragqueens, e sim de conquistar uma aparência natural, com cobertura das imperfeições do rosto. “Eles querem a pele corrigida, mas não gostam de parecer que usaram maquiagem”, diz o celebrado maquiador Rodrigo Costa, de São Paulo. “A naturalidade é essencial.” Para ajudar os iniciantes, brotam na internet tutoriais didáticos sobre o que fazer e como. Há evidente interesse. Estima-se que o mercado global de produtos afeitos aos cuidados da pele tenha chegado, em 2020, a 145 bilhões de dólares – e o universo masculino respondeu por 45 bilhões de dólares desse montante. É bastante. Uma pesquisa da empresa de inteligência de dados americana Morning Consult mostrou que um em cada quatro homens está disposto a incluir a maquiagem em seu cotidiano.

Dá-se, realmente, o encontro de mundos avessos. Uma das pioneiras foi a francesa Chanel, eterno ícone feminino, com uma linha de cosméticos de olho neles. A americana Tribe Cosmetics lançou um hidratante pré-maquiagem. A britânica Shakeup pôs nas prateleiras virtuais um bálsamo labial. A multinacional Avon e a brasileira Simple Organic apostaram em produtos sem distinção de gêneros. ”Os homens já representam 40% das vendas dos nossos corretivos, mas para conquistá-los é preciso oferecer praticidade e multifunções”, diz Patrícia Lima, CEO da Simple Organic. Por favor, sem brigas no banheiro porque uma (ou um) usou o produto do outro.

LÁBIOS QUE BEIJEI

O bálsamo labial da britânica Shakeup concede brilho e aumenta o volume, além de ter fator protetor contra os raios ultravioleta

À FLOR DA IDADE

Hidratantes como o da americana Tribe Cosmetics, ajudam no combate aos efeitos nocivos provocados pela exposição ao sol

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE ABRIL

O PERIGO DA RIQUEZA FÁCIL

Os bens que facilmente se ganham, esses diminuem, mas o que ajunta à força do trabalho terá aumento (Provérbios 13.11).

Uma recente pesquisa afirmou que a maioria dos artistas e esportistas que ganham muito dinheiro ainda jovens demais gasta seus bens sem critério e acaba seus dias na pobreza. Da mesma forma, o dinheiro adquirido com desonestidade diminuirá, seja pelo esbanjamento irresponsável, seja pela exigência da lei de devolver publicamente aos verdadeiros donos os bens que foram roubados furtivamente. Os bens mal adquiridos tornam-se maldição, e não bênção para aqueles que os ajuntam. As casas construídas com sangue jamais podem ser refúgios de paz. O dinheiro retido com fraude ergue sua voz ao céu e clama por justiça. Os bens roubados tornam-se combustível para a destruição daqueles que os roubam. Porém, as riquezas adquiridas com o trabalho honesto são a expressão da bênção de Deus. Essas riquezas geram progresso e bem-estar. Tornam-se instrumentos de bênção para aqueles que as ajuntam e fonte de bênção para todos os que delas usufruem. O trabalho muitas vezes pode ser penoso, mas o seu fruto é deleitoso. O trabalho pode ser árduo, mas o seu resultado pode trazer descanso à sua alma.

GESTÃO E CARREIRA

REDE DE APOIO

Organização brasileira com presença até no Vale do Silício, nos Estados Unidos, une forças para estimular as melhores práticas de gestão, bem como acelerar e potencializar negócios de diversos perfis

Foi em uma conversa informal que surgiu a ideia de desenvolver um grupo para discutir os desafios de empreender e como essa experiência, muitas vezes, é solitária. O grupo ganhou volume e do primeiro encontro, com dez pessoas, passou a reunir, em pouco tempo, eventos com até 100 empresários. Hoje são mais de 900 empresas e mais de 1.000 empreendedores.

A Confraria de Empreendedores é um hub virtual e conta com mais de 900 membros que estimulam a conexão genuína entre empreendedores de perfis diversificados. É uma organização que nasceu com o propósito de ser uma rede de apoio, estimular melhores práticas de gestão, acelerar e potencializar negócios de diversos perfis.

Fundada em 2016 por André Mainart, Diogo Garcia e Natalia Lazarini, a Confra, como é chamada por seus membros, atua em todo o Brasil e tem presença até no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Os fundadores, que já tinham vivência sólida em tecnologia, inovação, vendas e negócios, decidiram se unir. Os encontros acontecem em diversos formatos, como happy hour promovido em restaurantes, encontro de grupos de corrida, o ConfraCorre, ConfraChef, com experiências gastronômicas, e o ConfraSocial, que idealiza uma série de ações voluntárias, neste momento disponível digitalmente pela plataforma do próprio ConfraSocial. “Na Confra o empreendedor nunca estará sozinho. Nosso olhar sempre se direciona para ajudá-lo a crescer e, de fato, acreditamos que uma rede de relacionamento bem construída e consolidada, que gere bom conteúdo, bons aprendizados e que fomenta aprender com os erros, desperta um grande impacto social no mundo e nos negócios”, afirma Mainart.

“Nasceram dentro da organização projetos como o Beleza de Mãos Dadas, que ajuda manicures periféricas, o Vevee, plataforma de consultas gratuitas via telemedicina, além do GlOFavelas, que combate a redução dos efeitos da Covid-19”, conta outro fundador, Diogo Garcia.

A cofundadora da Confra, Natalia Lazarini, acre dita que a criatividade, a inovação e o digital são ferramentas essenciais para transformar o universo empreendedor. “Nosso papel vai além de ser empreendedor. É isso que pregamos. Devemos ser melhores como pessoas e compreender o tamanho da importância de olhar para o outro com humanidade dentro do ecossistema econômico e social”.

COMO FUNCIONA

Os empreendedores que querem fazer parte da Confraria do Empreendedor passam por um processo seletivo no qual o perfil do empreendedor e o nível de maturidade do negócio são avaliados. No site da organização há um formulário pelo qual se inicia o processo de participação. “O objetivo da seleção é manter a diversidade dos perfis dos confrades (nome dado aos membros) para gerar negócios entre eles e estimular a colaboração de forma mais rica e diversificada”, explica Natália Lazarini.

O empreendedor não paga para participar da Confraria e não há intenção dehaver cobranças no futuro. ”A forma como monetizamos é por meio deeventos, plataformas digitais (projeto em que estamos trabalhando para ser disponibilizado até o final do ano), programas deparceiros eo ConfraLabs, que apoia grandes emédias empresas a criar suas comunidades e a trabalhar seus programas de Open Innovation”, mostra Natália.

E o objetivo é claro: Conectar empreendedores cujo propósito é compartilhar desafios de negócio. A Confra tem três pilares que são a base para seu crescimento e relevância: gestão de comunidade, curadoria de conhecimento e conexão com ecossistemas. Esses pilares, de acordo com a cofundadora, são concretizados nos grupos que se conectam diariamente, assim como nos encontros focados em compartilhar conhecimento e networking em diversos formatos, que vão do virtual ao presencial, nos principais locais e empresas que movimentam estetema no Brasil.

Existem também grupos segmentados por temas de interesse que fomentam conexões mais fortes e promovem o bem-estar de profissionais que tendem a ter uma rotina de trabalho bem intensa. Alguns exemplos são: o ConfraSocial, queestimula a conexão e a criação de organizações sociais, o Confraüm, que conta com práticas de mindfulness, yoga, meditação e dicas para o bem-estar, o ConfraChef, que, além deboa gastronomia e experiência com o jantar, traz pitch às cegas, entre outras subcomunidades criadas com diferentes temas.

TRANSFORMAÇÕES

Segundo a cofundadora, quando criaram a Confraria do Empreendedor, jamais pensaram que ela teria o impacto que tem hoje na vida dos Confrades. “Nunca imaginamos que um grupo de WhatsApp com o simples propósito de trocar experiências e desafios entre empreendedores fosse um dia virar uma das comunidades mais relevantes do Brasil. E tenho certeza de que isso só foi possível pelo envolvimento e engajamento de todos que fazem parte da Confraria do Empreendedor. O empreendedor vive uma jornada solitária, assim como eu no início dos meus empreendimentos. Tudo que eu queria na época, pois acredito que é um ciclo contínuo, era compartilhar meus desafios de negócio, desde ter indicação de contabilidade até contratar ou não um diretor para a empresa e ter indicação”, revela.

E essa troca, de acordo com ela, é genuína na rede deles. Inclusive existe um “help” em poucos minutos e de empreendedores de diferentes setores e maturidade. ”Além disso, é muito gratificante e emocionante quando recebemos mensagens de empreendedores dizendo que, depois que entraram na Confra, sua jornada não foi a mesma, que na Confraria do Empreendedor eles têm uma família com quem podem contar. Isso é o que inspira a mim e meus sócios, André Mainart e Diogo Garcia, além dos Community Manager que nos ajudam fazendo acontecer”, emociona-se.

Bruno Guerra foi um dos primeiros Confrades, e o primeiro encontro, que contava com apenas dez empreendedores, foi realizado em 2017 na sua empresa, em São Paulo. Eles perceberam como é prazeroso e valioso trocar experiências de negócio.

O primeiro encontro foi com dez; o segundo, com vinte; e no terceiro eles já alcançaram cinquenta empreendedores. “Não sabíamos nem como sugiram tantos empreendedores até hoje (risos). Mas foi muito legal e ao mesmo tempo desafiador, pois tivemos que pegar cadeiras emprestadas da empresa vizinha para atender todos, e o resultado foi o caminho para a construção da Confraria do Empreendedor de hoje”, destaca.

TODOS JUNTOS

Na visão de Natália, a inovação para reinventar modelo de negócio e a colaboração são essenciais para transformar o universo empreendedor. “Por esse motivo o nosso papel vai além de ser empreendedor. Muito tem se falado, nos últimos tempos, sobre juntos sermos mais fortes. O empreendedor que empreende sozinho constrói uma jornada mais dolorosa, e a Confra veio para quebrar isso. Quando encontramos empreendedores compartilhando desafios e trocando experiências é muito gratificante”, afirma.

Segundo ela, há, inclusive, casos de Confrades que se tornaram sócios e outros que, de uma ideia, fizeram parcerias e negócios fantásticos. “O empreendedorismo criativo, muitas vezes, está na capacidade que temos de olhar para o outro, para o mercado e juntos cocriar soluções transformadoras, seja para remodelar e inovar a sua proposta de valor, seja para criar algo que contribuirá para o ecossistema econômico e social”.

Compartilhar e ajudar no crescimento do outro faz com que você também receba ajuda. Essa colaboração está no propósito da Confraria do Empreendedor, e eles perceberam que cada vez mais os empreendedores compartilham seus erros, acertos e conquistas, independentemente de saberem que na Confraria do Empreendedor exista ou não outro empreendedor que seja concorrente. Pelo contrário, eles se envolvem nessa cultura e trocam figurinhas entre eles. Natália conta que, no decorrer dos anos, perceberam a necessidade de engajar ainda mais os relacionamentos dos empreendedores. Assim, criaram o ConfraHobbies, grupo de Confrades que conecta negócios a lazer, como ConfraCorre (empreendedores que correm), ConfraChef (culinária), Confralnvest, ConfraSocial e outros.

SERVIÇO

A Confraria de Empreendedores conta com mais de mil empreendedores que são agentes de transformação. Juntos colaboram com o propósito Confra de conectar empresários e colaborar com o crescimento um do outro, além de estimular a conexão genuína entre empreendedores de perfis diversificados. Mais informações podem ser acessadas no site https://confra.cc

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANSIEDADE POTENCIALIZADA

Várias patologias relacionadas ao estresse, fobia e ansiedade tornam-se perigosamente comuns ao nosso cotidiano. O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) afeta pessoas de todas as idades e pode passar despercebido por décadas

Há uma crescente demanda de pacientes que sofrem de sintomas de estresse, ansiedade e fobias, que são diagnosticados com transtorno de ansiedade generalizada, uma patologia ainda recente e que começou a ser difundida há pouco tempo. Existe dificuldade em fazer o seu diagnóstico, até porque pode estar associado a outras síndromes como a do pânico e gerar interferência na qualidade de vida e no comportamento.

O fato é que a ansiedade e o medo são elementos emocionais muito atribuídos à vida moderna e são de grande valor adaptativo, mesmo sendo experimentados como desconfortáveis na maior parte das vezes. Estas são condições que podem ser interpretadas como benéficas e necessárias no dia a dia, pois existe uma relação direta entre seus níveis de manifestação e os resultados, desempenho e eficiência das atividades que executamos em nossas vidas normais. Porém, quando esses níveis ultrapassam um determinado limiar, ocorrem prejuízos no funcionamento social, o que caracteriza um transtorno.

A novidade nesse campo são os estudos sobre o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) em que sua principal característica é a preocupação excessiva. É normal nos sentirmos preocupados em determinados momentos, porém, nesses casos, a ansiedade funciona como um sinal que prepara a pessoa para enfrentar o desafio e, mesmo que ele não seja superado, favorece sua adaptação às novas condições devida.

MODELOS BIOLÓGICOS

Os principais modelos biológicos para o TAG são baseados na hipótese de que a ansiedade faz parte de um conjunto de comportamentos de defesa ligados à reação a ameaças externas e internas, mecanismos os quais estão presentes em outras espécies animais e preservados ao longo do processo evolutivo. Dessa forma, quando a ansiedade é intensa, persistente e desproporcional às possíveis causas aparentes, interferindo de maneira bem significativa no funcionamento do indivíduo, ela passa a ser considerada como uma patologia e deverá ser alvo de intervenção terapêutica.

A preocupação sentida pelas pessoas que sofrem de transtorno de ansiedade generalizada encontra-se claramente fora de proporção em relação à probabilidade real ou impacto do evento temido. Independentemente do foco da preocupação, esse sentimento temeroso muitas vezes é acompanhado por sintomas, tais como: inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular, dores de cabeça, micção frequente, dificuldade em deglutir, sensação de “nó na garganta” e distúrbios do sono. Pessoas que apresentam diagnóstico de TAG procuram, como consequência, esquivar-se das situações.

TRATAMENTO

O tratamento do TAG inclui o uso de medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos, sempre com orientação médica, e a terapia comportamental cognitiva. O tratamento farmacológico geralmente precisa ser mantido por pelo menos 24 semanas após o desaparecimento dos sintomas e deve ser descontinuado em doses decrescentes, quando necessário. Costumam-se obter bons resultados com os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) – escitalopram, fluvoxamina, sertralina, paroxetina – e os inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina ou duais (IRSN) – venlafaxina, duloxetina – na abordagem da remissão dos sintomas do TAG. Benzodiazepínicos – bromazepam, alprazolam, lorazepam, clonazepam, diazepam – são frequentemente utilizados no tratamento dos transtornos ansiosos, e estudos demonstram melhora dos sintomas do TAG, principalmente em situações de desempenho, porém o risco de abuso e dependência, bem como os efeitos colaterais dos BZD, impede seu uso prolongado (fase de manutenção).

ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS

A síndrome do pânico pode ser uma das consequências do TAG, pois essa síndrome é um tipo de transtorno de ansiedade, na qual ocorrem episódios inesperados de desespero e medo intenso de que algo ruim possa vir a acontecer, mesmo que não haja motivo algum para isso ou sinais de perigo iminente. Ocorre uma desregulação química na transmissão de receptores químicos neuronais, havendo falha na interpretação das sensações do próprio corpo, quando são percebidos erroneamente como sinais de grande perigo.

Os ataques de pânico são períodos de medo, apreensão ou desconforto intensos que surgem inesperadamente, característicos da síndrome, e geralmente ocorrem de repente, sem aviso prévio, em qualquer período do dia ou em qualquer situação, como enquanto a pessoa está dirigindo, fazendo compras no shopping, em meio a uma reunião de trabalho ou até mesmo dormindo. Por apresentar muitos sintomas somáticos, a maioria dos pacientes que sofrem da síndrome do pânico acaba passando por atendimentos médicos de diversas especialidades antes de chegar ao psiquiatra.

O transtorno do pânico constitui problema de saúde pública. É incapacitante, levando ao comprometimento da capacidade laborativa e à redução da qualidade de vida. Pacientes portadores da síndrome, devido ao desespero extremo, correm grande risco de cometerem suicídio.

SÍNDROMES ASSOCIADAS

Com o TAG instaurado no paciente, muitos sintomas são apresentados e um deles pode estar relacionado à síndrome do pânico, mas para que ela seja caracterizada, é necessário que os ataques sejam frequentes ao indivíduo e não ocorram apenas de forma isolada. O pico das crises de pânico geralmente dura cerca de 10 a 20 minutos, mas pode variar, dependendo da pessoa e da intensidade do ataque. Além disso, alguns sintomas podem continuar por uma hora ou mais. Diversas vezes um ataque de pânico pode ser confundido com um ataque cardíaco pelas pessoas que apresentam tais sensações. Sensação de sufocamento e dificuldade de respirar que surgem sem motivo aparente também são características típicas da síndrome, assim como náuseas, parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).

O tratamento da síndrome do pânico consiste em reduzir o número de crises, bem como sua intensidade. As duas principais formas de tratamento envolvem psicoterapia e medicamentos. Ambas têm se mostrado bastante eficientes, sendo que a combinação dos dois tipos de tratamento parece ser ainda mais eficaz do que um ou outro operando isoladamente. O tratamento à base de medicamentos inclui antidepressivos, como os inibido res seletivos da recaptação da serotonina, como a paroxetina, sertralina, fluvoxamina, escitalopram ou citalopram. Benzodiazepínicos também podem ser prescritos pelos médicos, por um período limitado, devido ao risco de desenvolver sintomas de dependência. Com essa classe medicamentosa, o efeito ansiolítico começa quase imediatamente após a ingestão oral. A terapia cognitivo-comportamental para o transtorno do pânico engloba componentes de psico-educação, reestruturação cognitiva e intervenções comportamentais.

COMPLEXO PROGNÓSTICO

É notória a dificuldade de distinção entre um possível cansaço e uma patologia instalada. Por conta da falta de informação e conhecimento por parte da população a respeito do TAG, a maioria dos pacientes chega ao tratamento sem conseguir identificar o momento em que os sintomas começaram e acredita conviver com eles durante toda a vida. A grande preocupação é que a ansiedade é comum para a maioria das pessoas que lida com estresses e fadiga todos os dias. O acúmulo de informações, tarefas e atividades é potencial causador de ansiedade, mas ela só é considerada como um distúrbio patológico quando tem extrema intensidade e duração, diminuindo a qualidade de vida e interferindo nas atividades diárias. A complexidade do prognóstico deve-se ao fato de que, geralmente, os sintomas só são percebidos quando já estão em estado patológico e trazendo sérios prejuízos sociais ao sujeito. A relação com outras patologias associadas também dificulta o diagnóstico claro. Este artigo teve como objetivo esclarecer alguns fatores e alertar para a necessidade de um olhar humanista para a qualidade de vida da sociedade moderna para que não sejamos representantes de uma população doente.

ATINGE A TODOS

Em relação à frequência do TAG na população, estudos apontam que parece não existir prevalência entre os gêneros, diferentemente de outros transtornos de ansiedade, como fobias específicas, mais frequentes em mulheres. Sobre as características, ambos os sexos se preocupam excessivamente com circunstâncias cotidianas e rotineiras, tais como responsabilidades no trabalho, finanças, saúde e segurança dos membros da família ou questões menores, como tarefas domésticas, consertos no automóvel ou atrasos a compromissos. Também podem apresentar medo acentuado e persistente de situações sociais nas quais possam ser expostos a possíveis avaliações por parte de outras pessoas. Essas situações incluem comer, falar ou escrever na frente dos outros e conversar com estranhos ou autoridades. Crianças com TAG tendem a exibir preocupação excessiva com sua competência, a qualidade de seu desempenho ou possibilidade de sofrerem bullying (podendo ser verbal ou físico) e julgamento de colegas de seu convívio diário.

COMO IDENTIFICAR?

A principal diferença entre uma simples ansiedade (normal) e uma ansiedade patológica encontra- se nos seguintes fatores:

  • Intensidade e duração das manifestações;
  • Grau de limitação provocado;
  • Proporcionalidade entre o evento desencadeante e a reação do indivíduo.

CARACTERÍSTICAS DO ATAQUE DE PÂNICO

  • Falta de ar e/ou sensação de asfixia e sufocamento;
  • Vertigem. sensação de desmaio ou instabilidade em manter-se numa mesma posição;
  • Palpitações/taquicardia;
  • Tremores musculares. suor excessivo. ondas de calor ou frio;
  • Medo de morrer;
  • Medo de enlouquecer e perder o controle;
  • Desrealização (sensação de que o ambiente familiar está estranho);
  • Despersonalização (sensação de estranheza quanto a si mesmo).

EU ACHO …

A TRAMA

Quando ele diz que está perdendo tempo, os outros compreendem o que ele diz. Mas às vezes sucede-lhe sentir que está perdendo tempo – e então ele nada dirá porque os outros não compreenderão. O dia de hoje passou, por exemplo. Sua surpresa é como se não tivesse pensado no dia de hoje o pensamento que só no dia de hoje viria. O que ele teria pensado ou feito hoje não poderia ter pensado ou feito nem ontem nem amanhã, pois há um tempo de rosas, outro de melões, e não comereis morangos senão na época de morangos. Sentia que havia um tempo inadiável correspondente a cada momento. Todo o seu esforço era o de conseguir que essa espécie de hora correspondesse à própria hora que não se perca.

Aliás, percebendo que a expressão perder tempo não explicava, escolheu outra que por um instante correspondeu à verdade: aproveitar a mocidade. Mas só por um instante correspondeu à verdade. Depois aproveitar a mocidade começou a encher-se de um sentido próprio – e ele começou a aproveitar a mocidade, a modo dele, que não era seu. E ele nunca conseguiu explicar como se perdera em tal trama, a mocidade. A mocidade é mulheres? Não sei.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

OBJETOS DO DESEJO

Interesse em artigos raros e exóticos movimenta o mercado de leilões virtuais durante a pandemia. Abertos para qualquer pessoa com saldo bancário positivo e conexão com a internet, são a distração ideal para os endinheirados

São muitos os objetos que podem despertar o olhar de um comprador. Fãs de bebidas, carros, moedas e celebridades sempre foram os tradicionais participantes de leilões que não envolvem as tradicionais obras de arte, mas isso está mudando. Sem a necessidade de frequentar presencialmente um leilão, peças como autógrafos, garrafas centenárias de uísque e até uma das primeiras antologias do escritor William Shakespeare podem receber lances por parte de qualquer indivíduo cadastrado nas principais casas de leilões do mundo. A americana “Julien’s Auctions” vai homenagear a cantora e compositora britânica Amy Winehouse com um leilão repleto de itens pessoais da artista, morta em 2011, aos 27 anos.

Vestidos, sapatos, joias e acessórios que eram sinônimos de sua personalidade serão apresentados pela primeira vez com o objetivo de arrecadar dinheiro para a Fundação Amy Winehouse, que atua em diversas causas sociais. O evento ocorrerá entre os dias 6 e 7 de novembro e até lá as peças serão expostas em diversos países, como Estados Unidos, Chile e Inglaterra. Mas já é possível dar uma espiada no catálogo que contém uma das bolsas favoritas de Amy. Em formato de coração e criada exclusivamente para ela pela grife Moschino, terá como lance inicial a bagatela de U$ 20 mil (R$ 100 mil).

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE ABRIL

O ORGULHO NÃO COMPENSA

Da soberba só resulta a contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria (Provérbios 13.10).

O orgulho só gera discussões; a arrogância só produz conflitos. Da soberba só resulta a contenda. O orgulho é uma atitude execrável. É a tendência de querer ser maior e melhor do que os outros. O orgulhoso é aquele que se coloca no pedestal e olha a todos de cima para baixo, do alto de sua tola prepotência. Sente-se superior, mais sábio e mais forte do que os outros. E não apenas isso: o orgulhoso é aquele que busca ocasiões para humilhar os outros e desprezá-los. Sempre faz comparações para exaltar suas pretensas virtudes e diminuir o valor dos outros. A soberba, porém, precede a ruína, pavimenta a estrada do fracasso e conduz à queda. Onde a soberba entra, chega com ela a contenda. Onde o orgulho desfila, provoca discussões. Onde a arrogância mostra sua cara, produz conflitos. Totalmente diferente é a postura dos humildes. Eles não se julgam donos da verdade. Têm a mente aberta para aprender e o coração receptivo à instrução. Os humildes buscam conselhos e sabem que na multidão dos conselheiros está a sabedoria. O humilde é aquele que abre mão de suas ideias para abraçar a ideia do outro, quando convencido de que encontrou melhor entendimento. O soberbo, mesmo estando errado, mantém-se irredutível, preferindo o vexame do fracasso a abrir mão de suas posições inflexíveis.

GESTÃO E CARREIRA

EU SEI DO QUE VOCÊ PRECISA

Inteligência Artificial não é papo futurista. Ela está acontecendo agora e pode ajudar a sua empresa a alavancar no mercado

Mesmo já sendo tão diluída em nosso cotidiano, a Inteligência Artificial ainda chega ao imaginário como robôs dominando o planeta e acabando com a humanidade. A boa notícia é que ela já vem dominando as comunicações, mas aliada à comunidade. Com o apelido simpático de IA, além de ser uma temática de infinitos roteiros de cinema, permite que os algoritmos aprendam sozinhos sobre o comportamento humano e possam se adaptar com certa rapidez na hora de responder a ele, tornando as entregas mais assertivas e otimizando processos. Mas isso tudo não vem de hoje. A IBM começou a desenvolver a tecnologia nos anos 1990, tendo sucesso com o robô Watson, que acabou encaminhando pesquisas que viriam depois.

Na prática, como funciona? Um dia, você seleciona filmes na Netflix e, no dia seguinte, ela oferece coisas como se pudesse ler seu pensamento. Quanto mais você clica ou consome as opções, melhor ela fica em “adivinhar” o que você quer. Isso é IA básica – algoritmos que aprendem com seu comportamento e deixam seu perfil cada vez mais personalizado.

Estudos apontam que a IA vai somar US$ 15,7 trilhões à economia global em 2030. Ficou assustado com o número? Pois basta olhar para o mercado para perceber que estamos mais perto disso do que imaginamos. Se a tecnologia já era mais do que tendência antes da pandemia, números mostram que a Covid-19 acelerou os processos de digitalização dos negócios e tornou o on-line praticamente uma nova forma de estar no mundo. Separados pelo confinamento, os cidadãos estão mais interativos do que nunca. Para se ter uma ideia, um estudo da consultoria Kantar mostrou que, em um período de dez dias de março deste ano, Facebook, WhatsApp e Instagram cresceram seu uso em 40%.

NA PRÁTICA

O que isso tem a ver com a pequena e média empresa? Absolutamente tudo! As vendas, o atendimento, a captação de fãs da marca, o pós-venda… Todos os processos podem passar pelo on-line de alguma maneira e, quanto mais o empreendedor entende seu público, maior a conversão e a qualidade de entrega. ”A proposta da Inteligência Artificial é se aliar à inteligência humana e facilitar cada vez mais a nossa vida. Aqui na Olho no Carro, aplicamos a Inteligência Artificial para gerar nosso banco de dados e fazer com que, em poucos cliques, os clientes possam levantar todas as informações de que precisam sobre determinado veículo. Também é possível aplicar a IA em programas de gestão, onde serão concentradas todas as informações de sua PME, de forma centralizada e organizada, gerando aumento no controle de todos os processos e melhora na produtividade”, conta o diretor comercial da Olho no Carro, Yago Almeida.

O CEO da B4A, que atua no segmento de beleza, Daniel Barzilay, diz que fazem uso de diversas ferramentas de IA – algumas são proprietárias, desenvolvidas por nós, e outras são soluções abertas. ”Utilizam os essa tecnologia para customizar a vivência das clientes, garantindo a melhor experiência a elas. Além disso, enviamos mensalmente para nossas consumidoras produtos exclusivos, levando em conta suas necessidades e preferências, tudo feito por meio da IA”, conta acrescentando ainda que também a empregam na seleção de produtos do portfólio do e-commerce men’s market e glam shop, dando um match com os clientes. “Isso beneficia igualmente as marcas parceiras com aumento de vendas e fidelidade do cliente à marca”, completa.

Cruzando o oceano, o head de Atuarial e Data Science da Cleer, startup de seguro de automóveis localizada na Espanha, Alejandro Schwartz, conta como a IA auxilia a rotina da empresa, já que são utilizados algoritmos de classificação e predição para entender melhor os clientes e as suas necessidades. “Graças a técnicas de machine learning e bigdata, podemos processar uma grande quantidade de dados e obter insights que nos ajudam a melhorar a precisão e a qualidade de nossa proposta de valor”, mostra.

Na indústria de seguros, segundo ele, interpretar melhor o cliente significa poder criar coberturas adaptadas aos riscos reais que cada um tem no dia a dia. Isso quer dizer: novas categorias de produtos (ou melhores combinações entre as existentes), preços mais personalizados e uma prestação de serviços cada vez melhor em tempo real. “Por último, graças a nossa estrutura e algoritmos, podemos tabelar uma melhor relação com os clientes, oferecendo feedbacks relevantes para que possam ter condutas com benefícios não somente para eles mesmos, como para a comunidade e o meio ambiente. Nossa visão é poder predizer e prevenir”, explica.

Uma vez que a proposta da empresa é mais assertiva, maior a chance de o consumidor contratar aquele seguro. Schwartz ressalta ainda que, quanto menor a empresa, torna-se mais importante reservar recursos e tempo para agregar valor, melhorar produtos e inovar.

POR FALAR EM INOVAÇÃO…

Inovação é também palavra de ordem para o CEO da Eniwine, Marcelo Abrileri. Com o Digital Sommelier, a Inteligência Artificial cria o Enoperfil, que compreende, por meio de avaliações e notas, o estilo de vinho de que aquela pessoa mais gosta, oferecendo ao usuário os produtos que devem estar mais ao seu gosto.

As possibilidades não param por aí. Marcelo Jientara é CEO da Afana AI, uma criadora de Inteligência Artificial desenhada para marketing e customer experience. ”A Alana nasceu para escalar e humanizar o relacionamento entre marcas e clientes. Apesar de parecer, ela não é um bot, URA ou Atendente de Call Center, pois estes interagem com seus clientes sempre com a mesma comunicação. Ela consegue interagir com milhares – ou milhões – de consumidores de forma rápida, personalizada, humanizada e sem ser repetitiva, efetuando interações únicas com todos os contatos realizados”, explica. 

Mas como ela funciona? Jientara diz que ela identifica o perfil dos contatos e analisa o relacionamento, histórico com a marca e concorrentes, criando um mapa de comportamento e atributos sobre cada pessoa; realiza análises contextuais por meio de análises descritivas, preditivas e prescritivas das interações para coletar a intenção, o sentimento, o contexto e possíveis oportunidades; gera interações criativas e únicas, 100% personalizadas, com o tom de voz, persona, cognição e histórico da marca”, explica.

COMO FAZER ISSO?

Nossos entrevistados ajudaram a montar um tutorial prático de como iniciar a Inteligência Artificial na sua empresa. Confira abaixo.

CUIDADOS DO EMPREENDEDOR

>> Não deixe a máquina fazer tudo sozinha sem supervisão.

>> Entenda o que o sistema está fazendo e por que ele está realizando aquela ação.

>> Tenha em mente que a máquina não está certa 100% do tempo e faça análise humana dos dados apresentados e decisões tomadas pelo algoritmo.

>> Uma IA só funciona corretamente se for bem estruturada, programada, parametrizada. Então, é muito importante investir um bom tempo nessas configurações.

>> Faça testes até estar tudo pronto para deixar a solução de IA funcionar sozinha.

>> Tenha um profissional na sua equipe capaz de se comunicar com a empresa fornecedora de IA para que ele siga as recomendações da ferramenta e esteja preparado para transbordar para outros humanos aquilo que não foi resolvido pela inteligência artificial.

>> Tenha foco estratégico. Sem planejar e entender a motivação para o uso da ferramenta, você pode perder tempo e dinheiro.

>> Verifique se a solução contratada está fornecendo dados reais e precisos.

>> Fique de olho! Existem diversas soluções que não são IA, mas estão sendo vendidas como se fossem.

POLÍTICA DE PROTEÇÃO DE DADOS. O QUE TER EM MENTE?

>> Além de olhar os dados em geral, fique atento aos dados sensíveis, como informações bancárias e senhas.

>> Prefira armazenamentos de forma criptografada para dados sensíveis.

>> Esteja atualizado a respeito da nova LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados, que foi sancionada recentemente.

>> Para utilizar os dados dos clientes, você precisa pedir a permissão de maneira clara, inclusive se quiser fornecer informações a empresas terceiras.

>> Pergunte-se se guardar aqueles dados será realmente útil para o seu objetivo e filtre a informação de que realmente precisa.

>> Seja transparente com o cliente a todo momento a respeito do uso dessas informações.

DICAS INFALÍVEIS

>> É importante alinhar todas as áreas da empresa para facilitar o processo de aprendizado da máquina e evitar futuras dores de cabeça.

>> Responda honestamente às perguntas: eu preciso de uma IA? Se sim, onde?

>> Elabore projetos que incrementem o trabalho, pequenas interações que melhorem os processos continuamente.

>> As soluções mudam com certa frequência, então é fundamental estar sempre atento a essas alterações e novidades do mercado.

ERROS COMUNS

>> Deixar tudo na mão da máquina, sem supervisão.

>> Desejar que a IA faça mais do que é capaz de fazer – trabalhe suas expectativas.

>> Baixa compreensão na hora da programação/parametrização.

>> Poucos testes antes de pôr em funcionamento.

>> Não ter uma equipe qualificada para lidar com a tecnologia.

ALGUNS USOS DE IA NA ROTINA

>> Auxílio na escolha de produtos.

>> Na agricultura, ajudando na quantidade de água de irrigação e de compostos de adubo, conforme leituras do meio ambiente e do solo.

>> Nos hospitais, para descobrir se aquele paciente que acabou de chegar precisa ou não de internação, antes mesmo de passar por um clínico geral, de acordo com as respostas que deu e as medições que nele foram feitas, bem como seu perfil pessoal.

>> Para precificação de mercadoria.

>> Para compreender comportamentos em mídias sociais.

>> Em jogos on-line, como xadrez.

>> No trajeto recomendado pelos apps de GPS.

>> Recomendações de música do Spotify.

>> Operações de investimento na bolsa.

>> Câmeras de vigilância que observam e reportam movimentos suspeitos.

O QUE MAIS POSSO FAZER?

>> Gerar insights a partir de relatórios de métricas que possam guiar passos em relação aos clientes.

>> Criar campanhas que mostrem exatamente o que o cliente quer comprar, captando novos

consumidores.

>> Aplicar IA no recrutamento de colaboradores para sua empresa.

>> Otimizar o SEO (maneira como sua empresa pode ser encontrada em mecanismos de busca).

>> Automatizar rotinas repetitivas que demandam multo tempo dos funcionários.

>> Atendimento diferenciado por chat Chatbots de atendimento com IA vêm proporcionando interações cada vez mais orgânicas entre marcas e clientes.

>> Automatizar o departamento de marketing.

>> Melhorar o engajamento da marca com seus clientes nas redes sociais.

>> Fazer a oferta certa na hora certa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERÍCIAS E FIRMAS FALSAS

O perito pode observar a assinatura a fim de surpreender anormalidades gráficas, as chamadas grafopatologias, mas esse não deve ser o único critério

Não é raro pessoas acharem que por meio da observação da assinatura é possível reconhecer traços da personalidade do assinante. Será verdade? Não e sim. Não porque a assinatura, isoladamente, costuma ter poucos elementos de análise, e a maioria das firmas normalmente é estabelecida na adolescência e pouco se modifica ao longo da vida, automatizando-se, ou seja, a pessoa assina automaticamente.

Por outro lado, o exame atento da assinatura e da escrita pode revelar aspectos interessantíssimos para o perito, normalmente quando se trata de perícias póstumas retrospectivas, por exemplo em casos de anulação de testamento, quando o testador falece e os herdeiros descontentes alegam, em juízo, insanidade mental do testador.

O perito deve, nessas horas – além de examinar vários elementos, como o conteúdo do testamento, as causas da morte do testador, possíveis tratamentos psiquiátricos pregressos (quais remédios foram ingeridos etc.) –, observar a assinatura aposta na ata das últimas vontades, a fim de surpreender anormalidades gráficas, as chamadas grafopatologias.

Lembremos que a escrita manual é a impressão de pequenos movimentos psicomotores do indivíduo no papel, o que vale dizer, são gestos gráficos, os quais podem ser devidamente analisados.

Entre os dados que se observam é preciso atentar para o traço, se é forte ou fraco, vigoroso ou trêmulo, hesitante ou resoluto, rápido ou lento, alinhado ou desalinhado, indeciso, oscilante, se apresenta retoques e, o que é muito importante, se é falso ou verdadeiro.

Nesse ponto, os falsários estão cada vez mais aprimorados. Hoje usa-se o computador para a falsificação de firmas, e os métodos são deveras variados. Porém, ainda se veem falsificações manuais, algumas bem-feitas. Existem vários tipos de ardil. Todos exigem uma matriz, ou seja, uma assinatura que tenha sido feita pela vítima. Uma forma simples de copiá-la é colocando essa matriz sobre o documento a ser produzido, inserindo, entre as duas peças, folha de papel carbono, calcando sobre a matriz uma ponta dura e deslizante, a fim de marcar o documento falso. Após, cobre-se o debuxo (papel marcado pelo carbono) com tinta e apagam-se as marcas do carbono com uma borracha macia. Outro método é usar a ponta dura e deslizante sobre a matriz, pressionando-a fortemente. Terminando esse ato, no papel suporte ficará o sulco da firma transferida, que será coberto por tinta.

Há ainda outro tipo, que consiste em colocar a matriz e o papel suporte sobre um vidro e, por baixo do conjunto, uma luz forte. Dessa forma a imagem da firma verdadeira será vista por transparência, permitindo a sua recobertura direta com caneta. E tem a dita imitação livre, ou exercitada, quando o falsário reproduz muitas vezes a firma da vítima, a fim de automatizá-la até ficar satisfeito com o resultado.

Porém, se o perito for experiente e tiver outras assinaturas verdadeiras para analisar e comparar, a farsa sempre vai aparecer. Hoje em dia, com os recursos digitais, em que se tem variadas ferramentas de análise caligráfica, é fácil descobrir a fraude.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

EU ACHO …

O MILAGRE DAS FOLHAS

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

COMO SE TORNAR UM LORD

Pela lei da Escócia, qualquer pessoa que possuir terras no país recebe os títulos de Lord ou Lady. Uma reserva ambiental decidiu vender pequenos terrenos e garantir um lugar na elite para quem preservar a natureza

Esqueça o fraque e a cartola ou ainda a ideia de visitar a rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham. Conseguir um título de nobreza não hereditário é possível aos meros mortais que adquirirem pelo menos um metro quadrado de terreno na Escócia, país ao norte da Inglaterra e membro do Reino Unido. Isso acontece porque a lei local permite que quem possuir terras no país possa ser chamado de Lord, Laird ou Lady, em vez dos populares senhor ou senhora. Mas, além de não garantir a classe social, o título também não dá o direito comercial sobre o local ou ainda cidadania no país, apesar de ser possível visitar o seu terreno e até deixá-lo como herança aos seus descendentes.

Parece pouco, mas há um lado positivo: vale para todas as nacionalidades, inclusive a brasileira, e ainda garante a troca do pronome de tratamento em alguns documentos, como formulários, cartões de crédito e passagens aéreas – algo que pode até render benefícios como embarque preferencial e quem sabe até um upgrade para a primeira classe. Fora o certificado oficial de propriedade que você, futuro proprietário ou proprietária das terras altas, ganhará e poderá colocar na parede, de preferência ao lado da coleção de uísque, e assim impressionar os amigos.

A brincadeira por trás de transformar as pessoas em nobres é, para ser redundante, nobilíssima: cuidar da fauna e da flora do norte da Escócia. A ideia era que o cidadão comum comprasse um metro quadrado de terra e com esse dinheiro a reserva ambiental “Highland Titles” protegesse a região adquirida. Peter Bevis, fundador da área de preservação e idealizador do projeto, diz que os objetivos são o de conservar as florestas, promover a introdução de animais extintos das Terras Altas e também o de cuidar dos animais ameaçados de extinção que ainda estão por lá. No entanto, a terra é sua, você apenas a concede para que seja preservada.

“Sou um apaixonado pelo filme ‘Coração Valente’ e pela Escócia e, quando chegou o meu aniversário, a minha esposa viu que essa reserva existia e que eu poderia virar um Lord”, diz o economista Gustavo Prestes, que hoje mora nos Estados Unidos. Ele e a mulher, Suelen Girotto, acabaram comprando o “pacote casal” e ambos agora são Lord Gustavo Prestes e Lady Suelen Girotto. Os dois gostaram tanto da ideia que compraram o mesmo pacote para um casal de amigos. Agora os quatro possuem 40 metros quadrados nas famosas “Highlands”, ou terras altas, na região de Glencoe. “Temos o plano de ir lá visitar, quem sabe até montar uma barraca e fazer um piquenique”, diz Prestes. Ele explica que a empresa fornece um aplicativo dizendo a quantos quilômetros de distância você está da sua propriedade e até ver o que acontece por lá via satélite.

PARA TODOS OS BOLSOS

Um brasileiro pode permanecer sem visto no país, apenas como turista, por seis meses, ao contrário dos países europeus onde o tempo de permanência é de três meses. A reserva tem uma vasta estrutura e garante uma centena de serviços, usando sempre a mão de obra e a agricultura locais. Ou seja, pousadas para estadia, visitas guiadas e contato com diversos animais da região, dentre outros serviços. As redes sociais da “Highland Titles”, aliás, são repletas de fantásticas imagens da região, tanto que a área de Glencoe é frequentemente cenário de filmes e séries como Outlander, James Bond, Harry Potter e, claro, “Coração Valente”, de Mel Gibson.

No site oficial da reserva, é possível escolher o seu pacote e tirar todas as dúvidas, como questões de nacionalidade e o que pode ou não ser feito com o seu terreno. O que impressiona? Você pode comprar o lote básico de um metro quadrado por meros US$ 49, ou R$ 275, e você receberá um certificado virtual. O preço aumenta conforme a quantidade de metros e se o comprador prefere receber o certificado assinado em caneta e enquadrado, por exemplo.

E para quem achou tudo isso pouco, há outra novidade: se for rápido, você poderá ter sua própria ilha no meio de um dos mais belos lagos da Escócia. A “Deer Island” acaba ser posta no mercado imobiliário por 80 mil libras, cerca de R$ 600 mil, o preço de um apartamento de três quartos em um bairro de classe média em São Paulo. Situada no meio do tranquilo Lago Moodart, na costa oeste da Escócia, a ilha remota oferece nada menos que 4,5 hectares a serem desfrutados. E, embora não tenha casas e seja coberta por florestas, é um local privilegiado, ao lado da ilha de Eilean Shona, propriedade da família do magnata britânico Richard Branson. A vizinhança, pelo menos, está aprovada.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE ABRIL

O JUSTO BRILHA ESPLENDIDAMENTE

A luz dos justos brilha intensamente, mas a lâmpada dos perversos se apagará (Provérbios 13.9).

Os perversos têm uma lâmpada, e essa lâmpada brilha. No entanto, esse brilho se apagará, pois na hora da crise faltará aos perversos o combustível necessário. Então, a vida deles será como a escuridão. Caminharão às cegas para um abismo trevoso. Totalmente diferente é a vida dos justos: eles seguem a Jesus, a luz do mundo. Ele é a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem. Quem segue a Jesus não anda em trevas; pelo contrário, verá a luz da vida. A luz dos justos brilha com grande fulgor. A vida dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. O justo anda na luz, pois não há engano em seu coração nem falsidade em seus lábios. O justo vive na luz porque se aparta de seus pecados, confessando-os a Deus e recebendo a purificação do sangue de Jesus. O justo deleita-se na luz porque ama a santidade, tem prazer na misericórdia e exercita o amor. O justo, além de ser filho da luz, de ser luz do mundo e de viver na luz de Cristo, também caminha para a cidade santa, a nova Jerusalém, onde não precisará mais da luz do sol nem da lua, pois o Cordeiro de Deus será a sua lâmpada.

GESTÃO E CARREIRA

PLATAFORMAS QUE INCENTIVAM O EMPREENDEDORISMO

Confira um guia prático de canais que podem ajudar você a ter um negócio próprio sem sair de casa ou do seu emprego

A criação de conteúdo digital é o fenômeno do momento e deve seguir evoluindo. Independentemente de o trabalho se referir a posts de redes sociais, vídeos de YouTube, textos para sites e blogs, o criador de conteúdo nunca para, tem um leque gigante de opções e um desafio: engajar. Ou seja, o “negócio do momento” exige tempo e planejamento mais a longo prazo. Por isso, na maioria das vezes, ele tem se tornado não o produto final, mas sim um complemento ao negócio ou de pessoas que querem começar um negócio. Se você vende artesanato, por exemplo, o Instagram pode ser uma ótima ferramenta de divulgação, enquanto que o YouTube pode agregar valor com pequenos tutoriais e outros conteúdos relevantes no segmento em que atua. Mas qual o melhor lugar para você fazer a sua venda direta?

Muito antes da Covid-19, a atriz Kaká Degaspari encontrou no aplicativo Wallapop uma maneira de aumentar a renda em casa. “Abri minha lojinha virtual faz uns quatro anos, quando me mudei para Barcelona. Primeiro, me interessei por comprar coisas de segunda mão e, depois, comecei a vender. A princípio, foi uma questão econômica mesmo, porque tinha móveis que não me serviam mais e ainda estavam em bom estado. Hoje, continuo com a lojinha, mas com outra concepção, a de reutilizar tudo e assim produzir menos lixo. Tento ao máximo comprar tudo de segunda mão, por uma questão política/ ecológica – por isso, faz sentido, para mim, vender também. Entre os produtos, estão móveis, eletrônicos, livros e roupas de adulto”, conta.

Ela não está sozinha. No terceiro trimestre de 2020, o Mercado Livre recebeu dois milhões de novos vendedores. Antes da pandemia, a plataforma ajudava a formalizar uma média de 600 empresas por mês – de março até setembro, o número cresceu para 5.500. Ou seja, no final das contas, são 36 mil empresas novas usando a ferramenta no Brasil até o momento. Importante observar esse tópico da formalização. Isso porque ter um CNPJ regulamentado e que deixe você em dia com as declarações de imposto de renda, podendo comprovar o que entra e sai de sua conta, é extremamente importante.

O próprio Mercado Livre tem trabalhado duro nesse assunto, uma vez que apenas quem possui empresa aberta consegue hoje utilizar seu serviço de entrega, por exemplo. Por que isso é bom? Porque a logística final garante qualidade do serviço, otimiza seu tempo, ajuda na economia de dinheiro, mostra seu produto a mais gente e diminui o tempo de recebimento do produto.

Cada plataforma possui suas regras e termos de uso. O programa de formalização do Mercado Livre está dando tão certo, que recentemente a empresa anunciou a criação de cinco novos centros de distribuição no País até 2021, além de investimentos na casa dos quatro bilhões de reais ainda para 2020.

No geral, a OLX também é uma plataforma de classificados on-line, para divulgação de produtos, com foco maior em produtos usados, não só de lojistas, mas também de consumidores que gostariam de vender algum móvel, aparelho, entre outros bens que já não utilizam mais. “Nessas duas plataformas, existem dois tipos de pessoas físicas, uma que está empreendendo ainda de forma informal e outra que apenas gostaria de vender algum produto pessoal usado. Por isso, como mencionado anteriormente, o ML busca formalizar essas pessoas para no mínimo um MEI”, completa o gestor de marcas (branding) e sócio da DMK GROUP, Ricardo Monteiro.

ESTÍMULO

Existem maneiras diferentes de comercializar on-line – desde se desfazer daquelas peças do guarda-roupa que já não quer mais até, de fato, criar um negócio. Além disso, há cuidados simples que devem ser tomados. O Instagram, por exemplo, tem se mostrado cada vez mais uma ferramenta boa de vendas. Tanto ele quanto o Facebook (por meio de Fanpages) oferecem maneiras de criar lojinhas on-line que facilitam o comércio. Porém, uma prática comum como de “mando preço por direct’ é ilegal. Isso porque o Código de Defesa do Consumidor exige que os valores sejam sempre visíveis e de fácil acesso. Para evitar problemas, você deve colocar o máximo de detalhes possível na sua postagem, incluindo informações do produto, formas de pagamento e entrega, por exemplo.

Hoje, você tem não só Mercado Livre e OLX, mas todo um ecossistema de marketplace. “Para você ter noção, quem tem empresa pode vender no Mercado Livre – que hoje considero ser o maior, até porque a experiência deles é essa -, na OLX, além de Magazine Luíza, Ponto Frio, Extra… Ou seja, eu posso vender onde eu quiser. Até no site do Carrefour, por exemplo, vai aparecer minha empresa. Então, o ecossistema cresceu demais e é muito amplo”, esclarece o vendedor de brinquedos no marketplace do Mercado Livre, Pedro Nunes.

Agora com o e-comrnerce estourando na pandemia, ele diz ainda que a galera está vendendo bastante. Surgiu também o Shopee, no estilo do Mercado Livre. ”O pessoal tem falado muito bem, porque é um público acostumado com o Ali Express e acha coisa que está aqui e vende por aqui. O Mercado Livre e o Shopee aceitam pessoa física e jurídica. Os outros – Carrefour, Extra, Magazine Luiza – só aceitam pessoa jurídica. Tem a Amazon também, pela qual eu vendia na Europa. Sobre a questão de fiscalização, é mais desafiador para quem é PJ. O Mercado Livre, por exemplo, cresceu com uma multidão de pessoas físicas vendendo tanto coisa usada quanto em escala mais comercial. Mas acredito que hoje 50% do que é vendido em e-commerce é realizado por PJ”, aponta.

Segundo Nunes, o sistema da Nota Fiscal do Brasil é muito mais avançado, por exemplo, que na Espanha – onde você tem uma fatura de papel preenchida e entregue ao governo. Aqui é tudo digitalizado. Usado ou não, todo mundo tem que seguir o Código de Defesa do Consumidor, que possui inúmeras regras. Ele permite, por exemplo, ao cliente desistir do produto em até sete dias e repassa o valor do frete para o vendedor – se a caixa foi aberta, a pessoa não pode colocar novamente no mercado como produto novo. Há empresas que compram esses produtos abertos, que saem por um custo menor, para trabalhar com eles.

Levando todos esses bons fatores em consideração, selecionamos a seguir algumas plataformas que você pode utilizar sem sair de casa ou do emprego.

MERCADO LIVRE

RESUMO:

Uma plataforma que conecta perfis de vendedores com perfis de consumidores. Presente em mais de 19 países, também oferece opções de pagamento facilitado e entrega.

PARA QUEM SERVE?

Qualquer pessoa que queira vender, seja pessoa física, seja jurídica. Não são permitidos os seguintes produtos: Pneus; Medicamentos, tanto de venda livre quanto com receita médica; Produtos inflamáveis ou explosivos, como aerossóis ou combustíveis; Produtos remanufaturados, não originais ou não autorizados para venda pelo fabricante; Produtos sem certificação ou autorização na Anvisa; Baterias e pilhas de lítio; Produtos com data de validade inferior a 90 dias.

COMO APROVEITAR MELHOR?

É importante que o título do anúncio seja claro e sem pontuação, como exclamação, por exemplo. Tenha em mente quais palavras uma pessoa que busca seu produto vai usar na pesquisa. Descreva detalhadamente o que está vendendo e use boas imagens. Preste atenção aos preços da concorrência, para não destoar muito daquilo que é oferecido e acabar ficando para trás. Atenda bem os clientes e fique sempre de olho na reputação, no feedback que eles dão a você dentro do site.

DIFERENCIAL:

Uma das plataformas mais antigas nesse setor, o Mercado Livre possui boa experiência de uso tanto por parte dos compradores como dos vendedores.

ENJOEI

RESUMO:

Aplicativo com layout bastante moderno e focado principalmente em moda, acessórios e dispositivos de tecnologia.

PARA QUEM SERVE?

Qualquer pessoa física pode ter sua lojinha dentro da plataforma, que também é utilizada por celebridades.

COMO APROVEITAR MELHOR?

A ferramenta oferece espaços para colocar as tags que descrevem melhor seu produto. Tente ser o mais assertivo possível neste momento, para que a busca seja otimizada. Também há possibilidade de criar campanhas dentro da plataforma, para melhor publicidade de seu produto. Quem busca o enjoei gosta de boas fotos – essa dica vale para qualquer venda e faz toda a diferença.

DIFERENCIAL:

O que torna o Enjoei único é a maneira descontraída e moderna de se comunicar, atraindo um público muito forte no setor que mais se compromete, que é o da moda. Com jeito de estar à frente do tempo, a ferramenta tem a cara de influenciadores digitais e pessoas mais descoladas.

PREÇO:

Para produtos de até R$100,00, há 18,5% de comissão + tarifa de anúncio. Para produtos a partir de R$101,0 0, são 20% de comissão + tarifa de anúncio. As tarifas estão detalhadas em uma tabela da política de serviços do site.

VIZINHANÇA

RESUMO:

O aplicativo foi desenvolvido para ajudar microempreendedores a vender mais e de forma organizada suas comidas e bebidas artesanais. Ainda restrito ao Rio de Janeiro, a plataforma auxilia os pequenos negócios da chamada comfort food.

PARA QUEM SERVE?

Pequenos empreendedores de comida e bebida caseira no Rio de Janeiro.

COMO APROVEITAR MELHOR? Por ser novo, o aplicativo está em constante evolução e disposto a auxiliar de perto seus usuários.

DIFERENCIAL:

A receita da empresa vem de uma tarifa de serviço sobre a venda, que é cobrada dos lojistas que aderem à plataforma. Não há mensalidades ou taxas de cadastro para os usuários, e a entrega é acertada entre o cliente final e o lojista.

I FOOD

RESUMO:

É um marketplace que disponibiliza site e aplicativo para fazer pedidos de comida on-line. Nele, os restaurantes poderão receber e confirmar os pedidos e avisar os clientes quando saírem para a entrega. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), pesquisas apontam que o iFood marca 4 milhões de pedidos por mês e tem mais de 20 mil restaurantes cadastrados, distribuídos em mais de 100 cidades do Brasil, tornando-se o aplicativo mais famoso de delivery on-line do País.

PARA QUEM SERVE?

Para vender no iFood, é preciso ter CNPJ, computador com Windows e acesso à internet, além de um serviço de entrega – ou fazer uso da entrega da própria plataforma.

COMO APROVEITAR MELHOR?

É importante que as refeições sejam prontas para consumo. Além disso, o plano de entregas assinado junto ao iFood tira da sua responsabilidade essa parte. Dentro da ferramenta, é possível também criar promoções que ajudem a potencializar suas vendas.

DIFERENCIAL:

De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o iFood pode aumentar sua clientela e o faturamento do seu restaurante em até 50% por mês. Além da visibilidade, possui um atendimento fácil ao cliente e a possibilidade de pagamento on-line.

PREÇO: Não há qualquer taxa mensal para os colaboradores, mas sim comissão por venda. O valor é de 12% por pedido.

OLX

RESUMO:

Plataforma parecida com o Mercado Livre, mas que possui grande público para imóveis, carros e celulares, apesar de abranger outros produtos também e até vagas de emprego.

PARA QUEM SERVE?

Para pessoa física ou jurídica. Porém, os vendedores profissionais podem escolher planos de valores fixos de anúncio.

COMO APROVEITAR MELHOR?

Entender o mercado e comparar preços é um bom ponto de partida, além de garantir condições seguras para que o cliente conclua sua negociação e não esquecer a boa comunicação – com os já consumidores ou com os compradores em potencial.

DIFERENCIAL:

A plataforma oferece comunicação por chat com seus consumidores, o que otimiza o tempo. Ela também possui ferramentas de acessibilidade e inclusão para portadores de deficiências.

PREÇO:

A OLX lucra com a venda de anúncios no site e não com as vendas individuais. Os preços de pacotes variam de acordo com o tempo e o negócio.

EL07

RESUMO:

Plataforma de venda de produtos artesanais. Criada em 2018, tem como valor transformar a vida das pessoas com um ambiente humanizado e de conexão.

PARA QUEM SERVE?

Pessoas físicas ou jurídicas que tenham um negócio de artesanatos.

COMO APROVEITAR MELHOR?

A Elo7 oferece diversos manuais para o vendedor aprender desde como tirar a melhor foto do produto até fazer uma bela embalagem. O frete possui desconto nos Correios, e um suporte humano auxilia o vendedor sempre que necessário.

DIFERENCIAL:

Hoje, a ferramenta conta com 24 buscas por segundo e, mais do que focar a venda, ela dá todo o suporte para que o vendedor otimize seus processos.

PREÇO:

Não há mensalidade. Será descontado sobre o produto 12% ou 18% de comissão, de acordo com o anúncio em que está cadastrado, além de 12% de comissão em cima do valor do frete (cobrado do comprador). Há variações relacionadas a tipo de anúncio e logística de compra.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÚDE MENTAL NO CONVÍVIO FAMILIAR

A família é um sistema em que se espera que todos estejam aptos a desenvolver suas funções. Como lidar com a ruptura dessa engrenagem quando há alguma disfunção?

O que significa ter saúde mental? O que significa “ser normal”? Quando essa questão foi feita a Sigmund Freud ainda no século XIX, ele respondeu: “normal é a pessoa capaz de amar e trabalhar”.

A partir dessa resposta de Freud podemos imaginar o quanto a doença mental pode impactar o ciclo familiar. A família é um sistema como se fosse uma engrenagem, na qual os membros possuem funções, missões e expectativas de futuro, ou seja, se espera que todos estejam aptos a desenvolver suas funções esperadas para cada idade e que amem não só os seus parentes, como tenham empatia pelas pessoas que não fazem parte da família, mas que ocupam um lugar de importância em nossas vidas. São os colegas de escola, amigos, vizinhos e até parentes distantes. Pode não haver amor, mas há afeto e empatia.

Pensemos agora em uma família que possui algum membro com uma questão que interfere e atrapalha a homeostase da casa. São inúmeros os casos. Parentes com depressão, ideação suicida, bipolaridade, distimia, psicose, esquizofrenia, dependência química de qualquer ordem, transtornos de personalidade e tantas outras questões que tensionam e atingem diretamente as famílias, especialmente quando o grau de gravidade da doença mental torna o indivíduo incapacitado para amar e trabalhar. Vamos utilizar o conceito de Freud para comentar essa matéria, pois, apesar de parecer reducionista e simplório, resume muito bem o que acontece com o indivíduo e seus familiares.

Sendo a família um sistema, também é um ciclo hierárquico. Vamos refletir sobre alguns exemplos. Se a pessoa com doença mental é uma criança, ela precisa de duplo cuidado. Além dos cuidados naturais do ser criança, o tempo da família é dedicado às visitas médicas, terapias, m medicação. Em geral um membro paralisa suas atividades laborais para cuidar, sem nenhum prazo objetivo de quando essa situação vai terminar.

Na adolescência não é muito diferente, pois o adolescente tende a querer a sua independência e liberdade para ir à rua sem companhia, frequentar festas e eventos, mas nem sempre isso é possível. A decorrência é a revolta do adolescente e mais tensão dentro de casa.

Na fase adulta, quando a medicação não faz o efeito desejado do sujeito poder ter autonomia e empatia, a vida incapacitante permanece imobilizando um ou vários membros da família para cuidar sempre. Temos uma situação de congelamento do tempo, pois parece que aquela criança trabalhosa agora é um adulto com pais mais envelhecidos e frágeis.

Os principais impactos que podemos citar podem ser financeiros, uma vez que os tratamentos e medicamentos têm alto custo, somado a uma queda de receita, pois alguém que poderia estar no merca- do de trabalho é escolhido pela família para cuidar do membro que necessita de atenção e vigilância.

As famílias que não possuem recursos buscam apoio na rede pública, e a maior queixa que recebemos é que nem sempre há eficácia, porque as consultas possuem intervalos grandes entre uma e outra, e a impossibilidade de arcar com o custo dos remédios.

A inversão da hierarquia familiar também é algo muito comum, pois, quando são os filhos que cuidam dos pais, esse filho fica descoberto da proteção familiar e muitas vezes, mesmo sem maturidade e condições adequadas, cuida de quem deveria cuidar dele.

O estresse familiar acontece pelos comportamentos antissociais, impulsos, precisar vigiar por quase 24 horas a pessoa com ideação suicida, vigiar os remédios para evitar abusos e cumprir os papéis familiares que pertenceriam a quem está doente.

Em famílias com mais de quatro membros, encontramos também a descrença e a falta de colaboração a partir das expressões de opiniões como: “eu não quero saber dele”, “é falta de vergonha, pois deve ser ótimo ficar na cama todo o tempo enquanto é sustentado pelos outros!”. É fato que a revolta nasce do cansaço de cuidar ou do ambiente estressante, e exatamente por isso que a psicoeducação da família é indispensável. Por psicoeducação entendemos a orientação sem interrupção que será dada aos membros familiares para estimular a solidariedade e a divisão de tarefas. Assim ninguém fica sobrecarregado. Orientar sobre a evolução do quadro e o que se pode esperar do futuro. Orientar quando novos quadros surgem e sobre os riscos que todos correm e, principalmente, orientar sobre como podemos vislumbrar a melhora e a vida produtiva do parente.

A Organização Mundial da Saúde possui dados alarmantes, tais como: a cada três pessoas, uma apresenta doença mental. Mostra também que em 2020 a depressão, o mal do século, poderá matar mais que o câncer e as complicações do HIV. Não são dados animadores, mas é preciso exercer a nossa cidadania para a formulação de políticas públicas para a saúde mental.

Somos conhecedores do colapso da saúde no Brasil, mas na saúde mental o quadro é muito pior.

Finalizamos perguntando: quem cuida de quem cuida? Sem dúvida que os cuidadores precisam de apoio terapêutico, descanso e lazer. Só cuida bem quem está bem, e viver em alerta todo o tempo adoece o cuidador, interfere na conjugalidade e na relação com os demais filhos, quando o filho que apresenta o quadro mental rouba toda a cena e os demais precisam exercer o autocuidado.

Ações preventivas sempre são o melhor remédio. Como prevenir? As ações cotidianas e aparentemente comuns nos protegem do adoecimento, a construção da resiliência: estudar, trabalhar, ter oportunidade de lazer e ter um amigo. O outro fraterno. Pessoas que têm amigos adoecem menos, sem dúvida. É fato que o amor cura.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC-Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

EU ACHO …

LIBERDADE

Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.

Mamãe, tire esse cabelo da testa.

É um pouco da franja ainda.

Mas você fica feia assim.

Tenho o direito de ser feia.

Não tem!

Tenho!

Eu disse que não tem!

E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando – o quê, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O FUTURO JÁ CHEGOU

Através da realidade virtual, o ‘Microsoft Mesh’ permite enxergar hologramas de pessoas presentes em outros ambientes. Recurso pode mudar o mercado de trabalho

Imagine que você está na sua casa e precisa participar de uma reunião de trabalho, só que ao invés de um bate papo via telefone, liga seus óculos tecnológicos e consegue visualizar e interagir com seus colegas como se estivesse no mesmo ambiente que eles. Pensou? Acredite ou não, esse cenário já é possível.

Recentemente a Microsoft deu um passo rumo ao futuro ao anunciar os avanços com o Mesh, plataforma de realidade mista que promete revolucionar as relações humanas, sobretudo o mercado de trabalho. Por meio da tecnologia de “holoportação”, qualquer usuário presente na rede poderá interagir com colegas utilizando hologramas, esteja presente fisicamente ou não. Comum em filmes de ficção cientifica, como o badalado Star Wars, a ferramenta já está funcionando.

“Você pode realmente sentir que está no mesmo lugar com alguém compartilhando conteúdo ou se teletransportar de diferentes dispositivos de realidade virtual, mesmo sem estar junto fisicamente”, disse o brasileiro Alex Kipman, um dos desenvolvedores. “Essa é a ideia desde o início”, ressalta. Especialistas da área afirmam que a pandemia causada pela COVID-19 estimulou o setor a encontrar maneiras de “encurtar” o distanciamento social. Foi assim que plataformas de videoconferências ficaram tão populares. O Zoom, por exemplo, teve uma alta acima de 300% em 2020 — e foi de 10 milhões de usuários para mais de 200 milhões. Concorrente direta, a empresa de Bill Gates viu sua plataforma Microsoft Teams mais do que triplicar o número de usuários. O salto foi de 13 milhões para mais de 115 milhões, fato que estimulou o Mesh.

Emerson Cardoso Ferreira, diretor de Tecnologia na FC Nuvem, parte do grupo FCamara, especializado em transformação digital, conta que sua equipe é adepta do Teams, mas destaca que o Mesh pode modernizar sua forma de trabalhar. “Isso surge no momento certo por conta da pandemia”, diz. “É algo que irá funcionar em diversos dispositivos moveis e também vai unir as pessoas num ambiente virtual. É o futuro”, afirma.

TRABALHO REMOTO

Considerada uma das cinco empresas mais valiosas do mundo, segundo a revista Forbes, a Microsoft quer voltar ao topo do segmento tecnológico, e está utilizando seus maiores recursos para isso, como a plataforma Azure (nuvem), que hospeda ferramentas para trabalhos colaborativos à distância e o HoloLens, óculos de realidade virtual. Isso os coloca em uma posição privilegiada na corrida digital. “Nessas experiências colaborativas, o conteúdo que não está dentro do meu dispositivo ou aplicativo, está na nuvem”, conta Kipman. “Você só precisa das lentes especiais para ver”, ressalta. Para adquirir o equipamento é preciso abrir bem a carteira: o HoloLeans custa mais de R$ 50 mil.

A ferramenta tem uma viseira que cobre a região dos olhos, câmeras, microfones e sensores que reconhecem gestos e comandos de voz. Além disso, as imagens geradas nas lentes do HoloLens respondem aos movimentos da cabeça e do olhar. Alex Kipman afirma que o dispositivo trará autonomia para os usuários, seja em uma simples reunião ou para empresas que atuem com trabalhos manuais. Como o criador foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Kinect, tecnologia interativa integrada ao Xbox, videogame de sucesso da Microsoft, a nova solução de holograma possui credibilidade no mercado. A empresa de Bill Gates ainda não disponibilizaram a versão completa, contudo, é possível testar o Mesh. Basta pesquisar “Microsoft Mesh na internet” e fazer login. Há quem já seja fã. “Já usei e gostei. Daqui uns anos pode ser nossa realidade”, pontua Emerson Cardoso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE ABRIL

A SEGURANÇA DA POBREZA

Com as suas riquezas se resgata o homem, mas ao pobre não ocorre ameaça (Provérbios 13.8).

O homem rico vive inseguro apesar de sua riqueza. Anda com segurança particular, viaja em carros blindados e mora em palacetes com cercas elétricas e detalhado sistema de alarmes. Mesmo assim, vive com medo de assalto e sequestro. Sua riqueza, embora lhe proporcione conforto, não lhe oferece paz. No caso de um rapto, os criminosos exigem recompensa, e sua riqueza serve de resgate para sua vida. O pobre, contudo, nunca recebe ameaças. Não precisa andar blindado por fortes esquemas de segurança. Anda de peito aberto e com irrestrita liberdade. Sua pobreza, longe de colocá-lo na passarela da insegurança, é seu escudo protetor. Ele caminha sem preocupações de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Seus filhos vão e voltam da escola em segurança. Sua pobreza não lhe permite requintes e confortos, mas lhe oferece segurança. Ao pobre não ocorre ameaça. O pobre dorme tranquilo depois de um dia longo e árduo de trabalho. Seus músculos latejam de cansaço, e o sono reparador restaura-lhe as forças para um novo dia de jornada. O rico, com suas muitas preocupações, deita-se em lençóis de cetim, mas lhe foge o sono, porque, mesmo rico, ele quer mais; mesmo blindado, ainda se sente inseguro; mesmo cheio de bens, ainda se sente vazio.

GESTÃO E CARREIRA

NA CORDA BAMBA

Especialistas alertam empresas sobre como não cair na inadimplência em virtude da crise

A lenta retomada das atividades e a possível necessidade de uma nova suspensão em breve acendem novamente o alerta: muitas empresas deverão fechar nos próximos meses e o risco de mais demissões é iminente. Desemprego e inadimplência podem atingir níveis assustadores e é preciso estar atento para não quebrar nem entrar no vermelho.

Sem dinheiro, o acúmulo de dívidas torna-se inevitável e a economia passa a andar na corda bamba. Segundo o advogado e líder da área cível do escritório Marcos Martins Advogados, Mário Conforti, entre as pessoas mais afetadas pela crise, está a parcela da população que recebe até dois salários mínimos. ”A reabertura do comércio permitiu que as pessoas voltassem às ruas, visitassem salões de beleza, bares e restaurantes. Porém, além do medo provocado pelo vírus ainda em circulação, também é necessário considerar a redução da renda de boa parte das famílias. Mais de um milhão de brasileiros perderam o emprego como consequência da pandemia. Com menos posses e a incerteza do amanhã, a tendência é consumir cada vez menos e, assim, sobrevir uma retração na economia, dificultando ainda mais a saída da crise”.

Os efeitos da pandemia da Covid-19 e o isolamento social derrubaram o PIB (Produto Interno Bruto) em 5,9% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período em 2019. No segundo trimestre, a queda foi de 9,7% em relação ao primeiro trimestre, a maior já registrada desde 1996, segundo o CEO da Deep Center, empresa de gestão da Informação para escritórios de cobrança, Gabriel Camargo. “Isso faz com que as estimativas do PIB fechem o ano em queda de aproximadamente -5,11% a -5,3%. Essa queda foi puxada pelos setores econômicos da indústria, que caiu 6,5% no primeiro trimestre (transformação, construção, eletricidade). O desempenho no setor de serviços também foi negativo em 5,9% (transporte, comercio, saúde) e na agropecuária houve alta de 1,6%”.

Além da queda no PIB, números alarmantes foram registrados no desemprego e na inadimplência este ano. ”Antes da crise da Covid-19 havia um aumento gradativo no número de inadimplentes causado pelo reflexo da recessão de 2015. Entre 2018 e 2019 esse número saltou de 62,5 milhões de pessoas com dívidas em atraso para quase 64 milhões no final de 2019. Antes da crise, o número de famílias endividadas era de quase 63%. Durante a crise, esse número passou rapidamente para 68%”, comenta Camargo.

Ele explica que isso acontece porque, se uma papelaria fecha, por exemplo, deixa de remunerar toda uma cadeia de fornecimento, desde o locador do imóvel (se não for próprio) até os fornecedores de papel, canetas e tintas para impressão, que, por sua vez, com cenário de baixa demanda, terão de demitir e reduzir a renda de seus colaboradores. “À medida que as coisas ficam escassas em razão da crise, as taxas de juros são influenciadas”.

O principal sinal de melhora desse cenário, ressalta Camargo, dependerá da recuperação econômica nos próximos meses, dado que boa parte da população deixou. para pagar suas dívidas no futuro, ainda incerto. ”A inadimplência provoca uma desorganização muito grande nas finanças pessoais, e é preciso muito tempo para retomar patamares anteriores.

A expectativa dos bancos é que chegue a patamares de 4,7% em 2021, ou seja, ainda não entramos na tendência de piora da inadimplência, vivemos os efeitos dos benefícios emergenciais. O impacto dessa crise não tem precedentes”.

Com estimativas tão baixas, é preciso se organizar para não cair no buraco. Via de regra, as recomendações para empresários e consumidores são bem parecidas, conforme explica o CEO da ConsigaMais+, fintech de crédito consignado, Victor Loyola. “No seu negócio, o microempresário precisa de disciplina, ter certeza de que se faça cortes em despesas desnecessárias e que não sejam geradoras de receita. Em momentos de crises e situações de incerteza econômica é extremamente importante ter uma operação enxuta e eficiente”.

Loyola ainda aponta para a necessidade de o empresário certificar-se de que todas as despesas estão em seu nível mínimo e que, de fato, são despesas geradoras de negócio. “Feito isso, você precisa olhar o fluxo de caixa e ter o entendimento de que a despesa financeira que você tem não ultrapasse o valor do seu recebimento mensal, seu fluxo de caixa mensal. O microempresário não se diferencia muito da pessoa física, então é recomendado que ele não tenha mais de 30% da sua receita comprometida com despesas financeiras. Se ultrapassar esse valor, a situação fica mais complicada e seria o caso de fazer uma renegociação da dívida para alongar o prazo e permitir maior fôlego financeiro no dia a dia”.

ONDE ESTÁ O ERRO

Gabriel Camargo conta que é possível elencar o que empresários costumam fazer de errado, resultando em dívidas impagáveis. Não definir metas financeiras é, provavelmente, o erro mais comum, mas muitas empresas também não têm cuidado na hora de investir, não negociam antes de comprar, não renegociam as dívidas que fazem e ainda contraem novas dívidas. Outro erro grave, segundo ele, é que habitualmente empresários procuram pagar dívidas menores primeiro, o que pode ser bem perigoso. “Quanto maior a dívida, maiores os juros”, destaca. Completam a lista de erros que podem levar uma empresa à inadimplência: gastar mais do que tem e só perceber que as finanças saíram do controle quando estão endividadas.

O presidente da Omni Soluções Financeiras, Tadeu Silva, ainda aponta a falta de conhecimento financeiro como mais um erro clássico, capaz de tornar uma dívida impagável. “Os brasileiros não estavam preparados para o boom de crédito que tivemos nos últimos anos, contraindo empréstimos e financiamentos sem o devido planejamento de seu fluxo de renda e da real necessidade do consumo de determinados produtos e serviços, muitas vezes dispensáveis. Infelizmente a educação financeira ainda está distante da realidade da maioria”.

SAINDO DO BURACO

A solução, Tadeu Silva explica, é sempre ter uma reserva financeira e evitar linhas de crédito com alto custo (taxas de juros), como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. “E sempre priorizar o pagamento de suas dívidas, pois não existe nenhum investimento que compense o custo do crédito no mercado brasileiro. A melhor saída é buscar linhas de crédito com taxas de juros menores, como o crédito consignado e o refinanciamento de veículos ou imóveis e, assim, quitar o máximo possível de suas dívidas antigas de maior custo”.

Camargo ainda pontua algumas atitudes importantes que ajudam o microempresário a passar longe da inadimplência: antecipação de pagamentos que ofereçam desconto, organização, fluxo de caixa, pagamento das contas em dia, criação de um plano de ação, realização de projeções e utilização de softwares dedicados.

BOM SENSO E RAZOABILIDADE

O coordenador jurídico do escritório Marcos Martins Advogados, Jayme Petra de Mello Neto, afirma que controlar o orçamento é o primeiro passo para não entrar em uma bolha de inadimplência. E isso vale tanto para empresas quanto para consumidores endividados. “Acredito que na relação entre as empresas e os consumidores deve sempre prevalecer o bom senso. Sobretudo agora que ainda estamos passando e sofrendo os efeitos da pandemia. É preciso pensar que a mesma empresa que cobra dos seus clientes pode estar em dívida com fornecedores. É um ciclo e a situação não está fácil para ninguém. Do lado dos consumidores, a dica é priorizar o essencial e, sobrando dinheiro, pagar as contas com os encargos da mora mais pesados (multas, juros de mora, correção monetária). O custo do crédito no Brasil ainda é muito elevado se comparado com outros países. Essa situação decorre de diversos fatores, mas é certo que determinadas dívidas são muito mais “caras” do que outras, por exemplo, os juros do cheque especial e o crédito rotativo dos cartões de crédito. O consumidor deve, se tiver capacidade, priorizar a liquidação dessas dívidas mais caras”.

Mello Neto ainda ressalta que o custo da inadimplência pode ser mitigado pelas empresas com o oferecimento de descontos e parcelamento das dívidas em aberto. “Com isso, pode-se viabilizar a continuidade dos negócios e, consequentemente, a circulação de riqueza. Uma negociação eficiente evitará os riscos de uma disputa judicial, que envolve custos e tempo, e fortalecerá a relação entre consumidor e empresa. É preciso ter paciência e compreender o momento de dificuldade que todos estamos passando. Negociação é a palavra-chave para consumidores e empresas”.

Se o empresário sente que está em vias de perder o controle, a saída é pedir ajuda. Mello Neto sugere a procura de um advogado. “Em algumas situações, é possível revisar determinados contratos e afastar cobranças indevidas, o que pode levar à diminuição de uma dívida. No entanto, para não se ‘afogar’ em dívidas, é preciso ter consciência e responsabilidade. Sem isso, não haverá advogado que o salve”.

Outro caminho é apostar em créditos consignados. “É um produto bastante conveniente, porque não demanda maiores burocracias para se obter, é muito fácil. Não demanda preocupação em ter de pagar, já que é debitado direto da sua conta. Então você toma empréstimo e não tem de se preocupar com ele até o final do financiamento. Qualquer hora é hora de procurar crédito, desde que você tenha uma finalidade específica para utilizá-lo, que pode ser quitar dívidas mais caras ou fazer o refinanciamento da sua despesa financeira. O importante é que você tenha ciência de que poderá arcar com as prestações, com o financiamento da dívida”, comenta Victor Loyola.

FIQUE ATENTO

DICAS PARA O INADIMPLENTE:

•   Se há uma dívida em atraso que não poderá ser quitada no curto prazo, entre em contato com o credor e renegocie o débito. Isso evitará que o título seja protestado e o nome enviado para negativação.

•   Pague primeiro as dívidas de juros mais altos, como cartões de crédito e cheque especial.

•   Mapeie todos os gastos, registre em uma planilha ou em algum controle. Também registre os consumos e hábitos diários.

•   Defina quais gastos deverão ser cortados do orçamento.

•   Evite compras de impulso.

•   Faça pesquisas antes de novas compras e opte pelo melhor custo-benefício.

DICAS PARA O CREDOR:

•   Realize o controle de números e trabalho com dados e números.

•   Busque conhecer pelo que o seu cliente está passando no momento com tecnologias e soluções de análise de dados e speech analytics.

•   Proponha alternativas e flexibilização para bons pagadores que estão em momentos difíceis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A REALIDADE DO TDAH

É um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado, pois, inclusive, não existem exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade está classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (2014), como um transtorno do neurodesenvolvimento. Tem como principais características: desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Trata-se de um transtorno complexo e difícil de ser diagnosticado. O neurologista José S. Schwartzman chama atenção para o comportamento dissimulado que o indivíduo com TDAH pode apresentar dentro de um consultório, frente a um profissional desconhecido. Além disso, não há exames físicos que o detectem, sendo o mesmo identificado por rica observação clínica. Por isso, a necessidade de um profissional experiente (neuropediatra ou psiquiatra infantil).

Ao longo dos anos, foram desenvolvidos alguns testes específicos que podem rastrear o transtorno; dentre eles destacamos: Child Behavior Cheklist (CBCL); Escala Conners (Brasil, validada por Barbosa, 1997); SNAP-IV; Escala de TDAH (Benczik, 2000); Escala Comportamental para Pré-Escola e Jardim de Infância; Escala Conners de Avaliação para Pais; Inventário para Crianças Pequenas – 4; versão de Lista de Conferência de Comportamentos para Crianças.

Existem três tipos do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade: predominantemente desatento; predominantemente hiperativo-impulsivo; tipo combinado (desatento e hiperativo-impulsivo).

Dessa forma, percebemos que não é regra todas as características se apresentarem juntas em um mesmo indivíduo. Normalmente, nas meninas, a desatenção prevalece. Enquanto que nos meninos a hiperatividade (agitação motora, fala alta e em demasia) é acentuada.

Diversos estudos afirmam que indivíduos com TDAH sofrem com alterações na região frontal do cérebro, em seus neurotransmissores. Portanto, suas conexões cerebrais funcionam de forma diferenciada, havendo menor controle sobre as funções superiores – pensamento, organização, comparação, classificação, análise. Dessa forma, controlar a fala, a agitação motora e a impulsividade torna-se tarefa extremamente difícil para quem tem TDAH. É o que diversos estudiosos chamam de prejuízo no “mecanismo de inibição do comportamento”. Importante ressaltar que não se trata de falta de educação ou falta de limites, mas, sim, de um descontrole ocasionado por um processamento cerebral diferente do dos demais indivíduos.

A herança genética é apontada como maior probabilidade do transtorno. O baixo peso à época do nascimento (menos de 1.500 gramas) pode ser um risco para a criança desenvolvê-lo. Fatores ambientais, como abuso infantil, colocação em diversos lares adotivos e negligência, também são vistos como riscos, conforme notificações do DSM-V.

Deficiências nutricionais e sensoriais (visão e audição), epilepsia, transtorno do sono e anormalidades no metabolismo podem ser considerados gatilhos para o TDAH.

RÓTULO

Dentro das instituições escolares, ouvimos muito falar em crianças agitadas e sem limites, que, equivocadamente, acabam recebendo o “rótulo” de hiperativas, fazendo referência ao transtorno. Nos últimos anos, parece haver uma “epidemia” de TDAH.

Por isso, devemos aproveitar o espaço e comentar que nem todas as crianças mais agitadas ou desatentas possuem o transtorno. Esses indivíduos podem estar sofrendo com outros problemas (como perda de um ente querido; separação dos pais; falta de atenção de algum de seus responsáveis; ausência de papéis parentais; mudança de casa ou de escola; inadequação à metodologia utilizada pela escola; pedagogia extremamente tradicional; recebimento de conteúdos inadequados ao seu potencial de desenvolvimento real) e apresentarem algumas características parecidas em uma determinada época de sua vida, dentro das instituições escolares principalmente.

É importante salientar que para ser caracterizado como TDAH é preciso que o indivíduo apresente os sintomas há mais de seis meses ininterruptos e em diversos ambientes, como casa, escola, trabalho. Também devemos ressaltar que se algumas questões se apresentam depois dos 12 anos de idade, não se trata de TDAH, visto que este começa a se manifestar desde a primeira infância, sendo mais notável quando a criança inicia a escolarização. Além disso, indivíduos com TDAH apresentam inteligência mediana a superior.

Alguns sinais neurológicos leves, como atrasos motores brandos, podem ocorrer ao indivíduo com o mesmo transtorno. Déficits na linguagem expressiva, na coordenação motora ampla e fina, na solução de problemas e habilidades quanto às organizações também podem ser encontrados.

Dificuldades em se concentrar em um assunto específico, em organizar seu material e seu tempo, em seguir instruções complexas, além da fácil distração e dos esquecimentos são particularidades da desatenção. Não permanecer sentado, parado ou calado quando preciso, dedicar-se a mais de uma atividade e não terminá-las ou executá-las sem qualidade, apresentar agitação motora, falar em demasia e em volume alto constituem a hiperatividade. Responder perguntas antes que as mesmas sejam completadas e se intrometer em assuntos paralelos caracterizam a impulsividade. Todos são sintomas que refletem no processo ensino-aprendizagem, prejudicando não só a apreensão e o domínio do conhecimento como, também, o relacionamento com seus pares.

FRUSTRAÇÃO

indivíduos com TDAH são crianças, jovens ou adultos que sofrem ao serem frustrados, “sonham” acordados, trocam diversas vezes de atividade e possuem dificuldades significativas quanto à organização de seus pertences, afazeres e de seu tempo.

Lembramos que esse transtorno afeta cerca de 5% da população em idade escolar e 2,5% em idade adulta. Cerca de até 80% desses indivíduos sofrem com problemas de aprendizagem durante sua vida acadêmica, sendo repetência e evasão escolar acontecimentos frequentes.

Após os transtornos visuais, o TDAH é o fator mais prejudicial à escolarização de crianças e adolescentes.

O acometimento do transtorno existe na proporção de 2 meninos para 1 menina, na infância, e 1,6 homem para 1 mulher, quando adultos.

Já afirmamos que a genética é apontada como maior probabilidade do transtorno e devemos chamar atenção para pesquisas que apontam haver maior ocorrência de TDAH entre parentes (biológicos) de primeiro grau e entre gêmeos monozigóticos.

Interessante afirmar que o primeiro estudo divulgado sobre TDAH data de 1798, pelo médico escocês Alexander Crichton, analisando características de desatenção em algumas crianças. Crichton observava doenças mentais quando percebeu que algumas crianças apresentavam o sintoma da desatenção de forma significativa, o que chamou de “desatenção patológica”.

Em 1902, o pediatra inglês George Still foi um dos primeiros especialistas a realizar conferências sobre o mesmo transtorno, intituladas “Algumas Condições Psíquicas Anormais em Crianças”. Still comentava se tratar de uma condição resultante de: um “defeito da função inibitória da vontade” – sendo somente a punição um “tratamento” ineficaz à repetição de tais comportamentos –, havendo agressividade e desafio comumente associados, desatenção, hiperatividade, com o intelecto preservado.

A hiperatividade mental é pouco comentada dentre os estudiosos do transtorno. No entanto, trata-se de uma frequente agitação mental que ocasiona abstrações variadas, pensamentos rápidos, concorrendo a impulsividade e a mudança de assuntos sem que estes tenham sido findados. Essa agitação cerebral, muitas vezes, causa o cansaço mental, a exaustão, uma grande fadiga, o que para muitos pode ser visto e entendido como pura preguiça. Consequentemente, ocorre a insônia, dentre outras situações não desejadas.

Depressão, síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de conduta podem ocorrer simultaneamente ao TDAH – identificados como comorbidades.

O transtorno de oposição desafiante prevalece em metade das crianças com o subtipo combinado, enquanto que nas com subtipo predominantemente desatenta, em cerca de um quarto. Transtorno obsessivo-compulsivo, da personalidade antissocial, de tique e de espectro autístico também são co-mórbidos ao TDAH. Graef e Vaz afirmam que até 65% dos casos de TDAH estão associados a outros distúrbios.

Indivíduos com TDAH, não tratados, podem apresentar grande sofrimento devido à baixa autoestima que desenvolvem ao longo de sua jornada acadêmica, profissional e relacional. O nível de escolaridade cai e transtornos de conduta podem ser adquiridos, dificultando ainda mais a vida de quem tem o problema. Relacionamentos instáveis e de curta duração “acompanham” os adultos. E acidentes, brigas, discussões, delitos tornam-se mais comuns para essas pessoas que não se trataram na infância ou na juventude.

A medicação pode ser um grande aliado na luta contra os sintomas indesejados do TDAH. No entanto, é de grande relevância que a criança ou o adolescente sejam acompanhados por terapias que os façam refletir sobre seu comportamento, melhorando dia a dia seu entendimento sobre si mesmos e suas ações. Os esportes também são excelentes, principalmente para as crianças. Natação, futebol, judô, dentre outros, gastam a energia excessiva e ajudam a melhorar a socialização, visto que exigem disciplina dos participantes. Além disso, trabalham regras que devem ser compreendidas e obedecidas.

AVANÇO

No estado do Rio de Janeiro, houve um avanço para os indivíduos com TDAH e dislexia em idade escolar. A Lei no 8.192, de 4/12/18, obriga escolas públicas e privadas a cumprirem determinadas regras que visam beneficiar o processo ensino-aprendizagem dos alunos com os transtornos mencionados. São:

– Assentos disponíveis na primeira fileira e longe de possíveis distrações;

– Realizar avaliações e provas em local e tempo diferenciados, com auxílio de um profissional de educação especial;

– Organização de classes, flexibilizações e adaptações curriculares, metodologias, recursos e avaliações adequados às necessidades educacionais especiais.

Para que essas normas sejam executadas, é necessário que os responsáveis apresentem ao corpo docente, à instituição escolar laudo com diagnóstico de TDAH ou dislexia.

Pouco a pouco percebemos que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade supera a descrença dos leigos, provando se tratar de um pro- cessamento cerebral diferenciado que afeta crianças, adolescentes e adultos de forma significativa. Infelizmente, por muitas vezes, incapacitante. Enfim, uma realidade que precisa ser estudada, discutida e normatizada para ajudarmos aqueles que têm o transtorno a alcançar méritos com dignidade e igualdade de oportunidades.

QUEM APRESENTA TDAH TEM CAPACIDADE DE FOCO

A psiquiatra Ana Beatriz Silva ressalta que todo indivíduo com TDAH jamais deixará de apresentar a desatenção. No entanto, quando se trata de algo de seu extremo interesse, ou uma novidade estimulante, esse mesmo indivíduo com TDAH tem capacidade de foco, de concentração altíssima, gerando, logo, a compreensão do assunto e de novas ideias – uma ironia ao nome déficit de atenção. Verificamos, portanto, que tal fator deve ser levado em conta por professores, pedagogos, profissionais da área educacional durante o processo ensino-aprendizagem. Partir do interesse do aluno pode trazer excelentes resultados.

EU ACHO …

A NÃO ACEITAÇÃO

Desde que começou a envelhecer realmente começou a querer ficar em casa. Parece-me que achava feio passear quando não se era mais jovem: o ar tão limpo, o corpo sujo de gordura e rugas. Sobretudo a claridade do mar como desnuda. Não era para os outros que era feio ela passear, todos admitem que os outros sejam velhos. Mas para si mesma. Que ânsia, que cuidado com o corpo perdido, o espírito aflito nos olhos, ah, mas as pupilas essas límpidas.

Outra coisa: antigamente no seu rosto não se via o que ela pensava, era só aquela face destacada, em oferta. Agora, quando se vê sem querer ao espelho, quase grita horrorizada: mas eu não estava pensando nisso! Embora fosse impossível e inútil dizer em que o rosto parecia pensar, e também impossível e inútil dizer no que ela mesma pensava.

Ao redor as coisas frescas, uma história para a frente, e o vento, o vento… Enquanto seu ventre crescia e as pernas engrossavam, e os cabelos se haviam acomodado num penteado natural e modesto que se formara sozinho.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

O ENIGMA DOS SUPER-RESISTENTES

Cientistas do Centro do Genoma Humano da USP analisam os genes de cem casais. Querem descobrir porque há indivíduos imunes à Covid-19

Pesquisadores em todo o mundo tentam compreender porque algumas pessoas são simplesmente imunes ao coronavírus ou têm um descomunal poder de defesa. Elas estão entre nós e decifrar esse enigma pode ser o caminho mais curto para encontrar a cura da Covid-19 ou torná-la inócua. Sabe-se já que um número expressivo de indivíduos passa ao largo da doença, embora sofra constantes bombardeios infecciosos no convívio diário com contaminados. Na semana passada, foi revelado o caso do escritor afro-americano John Hollis, de 54 anos. Hollis foi altamente exposto, mas tem anticorpos poderosos, capazes de aniquilar o coronavírus e impedir que chegue perto de suas células. Segundo o estudo de caso, desenvolvido na Universidade George Mason, nos EUA, se diluíssem os anticorpos de Hollis em uma parte para mil, eles ainda matariam 99% dos vírus. Seus recursos imunológicos podem, num futuro não muito distante, ser reproduzidos em laboratório e usados na produção de soro ou de uma nova geração de vacinas — além de permitir um melhor entendimento dos mecanismos da doença.

No Brasil, os esforços para confirmar o fenômeno da super- resistência passam pela genética e visam a descobrir sua incidência na população. O Centro do Genoma Humano, do Instituto de Biociências da USP, desenvolve, desde junho, uma pesquisa com cem casais, nos quais um dos cônjuges pegou a doença, desenvolvendo sintomas, e o outro não teve nada — ou testou PCR positivo, mas não houve manifestações ou até negativando. Foi feito o sequenciamento genético das 200 pessoas do grupo, tanto dos vulneráveis quanto dos resistentes, e a interpretação dos dados está em andamento. Um dos objetivos é entender o que os genes de defesa fazem para impedir a ação do vírus ou, pelo menos, torná-la imperceptível. Também se pretende mostrar se há algum componente étnico na imunidade. “A primeira coisa importante que a gente não sabe é a frequência dessas pessoas super resistentes na população”, diz a bióloga e geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro do Genoma Humano. “Pode ser que um único gene defina a resistência ou pode ser um conjunto, no que se chama herança complexa.”

GENES DE PROTEÇÃO

Na mesma frente de pesquisa, que conta com o suporte da Fapesp e recebe verbas da JBS, o Centro do Genoma Humano estuda um grupo de 13 pessoas centenárias que não desenvolveram a doença ou tiveram sintomas muito leves. A mais velha é uma mulher de 114 anos. “Queremos saber o que torna esses centenários resistentes”, diz Mayana. “E identificar quais os genes de risco e os de proteção.” Nessa faixa etária, o índice de letalidade da Covid-19 está entre 15% e 20%, o que significa que um a cada cinco infectados morre. Além da idade, outra razão da alta letalidade é a existência de doenças pré-existentes, como hipertensão e diabetes. O estudo vai analisar a produção de anticorpos e descobrir se algum dos indivíduos testados têm uma genética especial de proteção. No laboratório, as células adultas desses pacientes, assim como do grupo de casais, serão reprogramadas para voltar ao estágio de células-tronco pluripotentes, capazes de se diferenciar em diferentes linhagens de células. Essas linhagens são expostas ao coronavírus e os cientistas verificam se estão sendo infectadas ou não.

Indivíduos super resistentes a qualquer doença sempre despertam grande interesse científico pelas perspectivas que oferecem. No caso do HIV, os cientistas descobriram que os portadores de uma mutação genética rara, a delta-32, relacionada à produção de uma proteína específica no gene CCR5, torna o indivíduo naturalmente resistente ao vírus. A descoberta foi fundamental para o sucesso de terapias posteriores que curaram pelo menos três pessoas da doença. Ficaram conhecidos os casos do americano Timothy Brown e do venezuelano Adam Castillejo. Eles foram submetidos a transplantes de medulas óssea doadas por portadores da mutação delta-32 e se livraram do vírus. Esse caso demonstra que o segredo da imunidade pode estar num gene raro ou numa mutação, mas existe a possibilidade da causa da super resistência estar associada a um gene mais comum. Seja qual for a solução, a genética abre mais uma porta de esperança para que o coronavírus seja controlado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE ABRIL

RICOS POBRES E POBRES RICOS

Uns se dizem ricos sem terem nada; outros se dizem pobres, sendo mui ricos (Provérbios 13.7).

John Rockefeller, o primeiro bilionário do mundo, disse que o homem mais pobre que ele conhecia era aquele que só possuía dinheiro. Na verdade, o problema não é possuir dinheiro, mas ser possuído por ele. Não é carregar dinheiro no bolso, mas no coração. O dinheiro em si mesmo é bom, pois nos permite desfrutar de coisas boas e promover o bem. O problema é amar o dinheiro. O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Indivíduos se casam e se divorciam por causa de dinheiro. Pessoas corrompem e são corrompidas por causa do dinheiro. Há quem mate e morra pelo dinheiro. Mas o dinheiro não oferece felicidade nem segurança. Logo, há ricos que são pobres. No entanto, há pobres que são ricos, pois aprenderam a viver contentes em toda e qualquer situação. O contentamento é uma atitude de plena satisfação em Deus. A vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. Podemos ser pobres e ao mesmo tempo ricos. Podemos dizer como o apóstolo Paulo: entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo (2Coríntios 6.10).

GESTÃO E CARREIRA

DOIS EM UM

Cada vez mais as redes de franquias têm permitido que franqueados operem lojas virtuais exclusivas da unidade. Especialistas defendem que isso é perfeitamente possível, desde que padrões e critérios sejam seguidos também no mundo virtual

Tudo está dentro dos “conformes”: ponto de venda escolhido após pesquisas de campo; padrão da unidade seguindo todos os manuais da rede; equipe de colaboradores treinada para atender os clientes; metas lançadas para buscar o crescimento da empresa… Características comuns da maioria das franquias que operam lojas físicas.

Até aí todo mundo sabe como funciona. E agora como operar uma loja virtual dentro de uma rede de franquias? As dúvidas sempre surgem, visto que é preciso compreender como controlar a área de cada franqueado.

Para o sócio-diretor do Grupo Soares Pereira & Papera, Umberto Papera Filho, migrar para o ambiente virtual não prejudica a operação física, pelo contrário. “O varejista não está deixando de ter foco na operação física, mas passa a usar o virtual como promovedor, ou seja, uma ferramenta para promover a imagem e a marca dele como um todo, o que pode levar os clientes a experiências nas lojas físicas”, pontua o especialista.

Por mais que as redes com modelo de loja física priorizem o atendimento “corpo a corpo”, está se tornando rotineiro que as grandes marcas disponibilizem o universo on-line para os franqueados, desde que isso seja feito com muito critério e cuidado para não se tornar algo desorganizado.

Além da loja virtual, existem outras possibilidades: ”Algumas redes estão abrindo redes sociais por loja, sempre com a aprovação da franqueadora. Agora temos lojas abrindo o WhatsApp para vendas diretas, mas com o conteúdo fornecido pela matriz”, complementa Papera Filho.

EM PERFEITA HARMONIA

Na SuperSeg Brasil, franquia especializada em segurança eletrônica, lojas físicas e virtuais operam em perfeita harmonia. Cada unidade da rede possui um e-commerce próprio, com plataforma simples de operar e que possa ser administrada pelo franqueado. Ele consegue controlar o estoque disponível, cadastrar produtos e administrar os pedidos.

De acordo com o sócio- fundador da SuperSeg Brasil, Evandro Machado, a maior estratégia com esse recurso é uma otimização de buscas locais. “Com essa ferramenta conseguimos bons resultados nos sites de busca, como o Google, por exemplo. Com esse resultado nas pesquisas, o perfil de consumo de nossos clientes é pesquisar, encontrar nosso e-commerce, descobrir que temos uma loja em sua região e, como comportamento mais comum, fazer contato ou ir até a loja, além, claro, da possibilidade de comprar por meio da própria loja virtual”, detalha o executivo.

Atualmente, a marca conta com 32 franqueados, com plano de expansão de novas 14 unidades em 2021, tendo como objetivo 150 lojas nos próximos cinco anos. Todas são físicas, mas contam com o complemento do e-commerce. “Assim, tomamos a experiência de compra do consumidor muito mais simples e interessante, dando a opção de compra para receber em seu endereço, compra no balcão da loja, solicitação de visita para comprar instalado direto em seu imóvel e muitas outras possibilidades”, analisa Machado.

O executivo avalia que, dessa forma, a integração entre físico e on-line beneficia, principalmente, o cliente da rede, que tem opção de uma experiência mais ampla. Por outro lado, o franqueado incrementa o faturamento. “O e-commerce de cada franquia é otimizado para sua região específica. Com isso, conseguimos aprimorar o direcionamento da procura e dos acessos, centralizando a grande demanda já para a região do franqueado”, explica o fundador da SuperSeg Brasil.

ANÁLISE DOS GANHOS

Hoje se observa uma grande mudança no perfil de consumo de compras que se iniciam on-line. O cliente já não quer mais esperar longos prazos. Diante disso, os e-commerces vêm observando maior procura pelos fretes full, com entregas no dia seguinte, bem como integração entre e-commerce e loja física para retiradas no local. Por esses e por outros motivos que Machado entende que o modelo on-line é o divisor de águas entre as empresas que têm resultado e as demais. “O modelo híbrido adotado pela rede traz o benefício de branding local para a marca, proximidade com o cliente e maior volume de negócios, graças à possibilidade de falar com esse consumidor”, afirma.

UMA DELÍCIA DE NEGÓCIO

Na rede Casa Bauducco, além das unidades físicas que vendem deliciosos panetones o ano inteiro (deu até vontade de comer uma fatia, não?), os clientes podem usar o mundo virtual para decidir a compra.

A rede desenvolveu um app web cujo funcionamento é automático. Quando o cliente entra e coloca a geolocalização, é direcionado para a loja mais próxima dele. Se existir mais de uma loja por perto, são apresentadas as opções e ele escolhe em qual vai fazer o pedido ou a compra. “Ao navegar pelo aplicativo, ele é direcionado para uma loja específica. Esse franqueado recebe um aviso na tela e o pedido então é feito pelo app, no qual é realizado o pagamento via cartão, tudo como um aplicativo de vendas digitais. A finalização desse processo já é com aquele franqueado específico da loja escolhida pela geolocalização”, explica o diretor da Casa Bauducco, Paulo Cardamone.

O franqueado faz contato com esse cliente e combina a entrega, além de organizar a logística em torno disso. Essa é uma maneira de fazer uma venda 100% digital, mas atrelada ao franqueado e a sua própria loja. Ou seja, o franqueado tem a loja física e o canal virtual.

A rede tem, atualmente, 85 lojas. O executivo da marca diz que, mesmo durante a pandemia, tem notado procura bastante interessante de pessoas que querem abrir uma Casa Bauducco. “Existem muitos franqueados, da própria rede ou novos (e não estavam necessariamente no setor de cafeteria), que perceberam como uma marca forte e uma empresa como a Bauducco – com respaldo financeiro, estrutura e apoio ao franqueado – fez diferença no período de pandemia e faz todo o possível para continuar a operar dentro do setor de varejo”, comenta Cardamone.

Ele acredita que o modelo de negócio se torna atrativo por vários fatores, entre eles, duas datas sazonais fortes, uma linha de empório para levar para casa e eventualmente pedir via digital para receber em casa (modalidade que foi extremamente importante durante a quarentena mais aguda). ”A projeção do Natal, por exemplo, é crescer 15% acima do ano anterior. Isso nos coloca em uma situação bastante interessante. A gente fala que quer vender 15%. da campanha em digital, então esses 15% são totalmente adicionais ao que vendemos nas lojas físicas”, revela.

FIM DE PAPO…

O ambiente virtual oferece a possibilidade de acelerar o negócio, pois permite que o produto chegue mais rápido e em número maior de pessoas. Muitas vezes, são consumidores que não conheciam a marca e que depois buscam a experiência no ponto de venda. “O maior erro é tentar migrar sem a ajuda de uma empresa profissional, ou do setor, para fazer um trabalho mais estruturado e focado em resultado. As marcas acabam se perdendo, gastando muito capital e tempo sem obter êxito por ainda não conhecerem bem esse ambiente”, finaliza Umberto Papera Filho, do GSPP.

9 DIFERENÇAS ENTRE LOJA FÍSICA E LOJA VIRTUAL

RAIO X DA FRANQUIA

CASA BAUDUCCO

• Investimento inicial: a partir de R$500 mil

• Taxa de franquia: R$60 mil

• Capital de giro: não informado pela rede

Royalties: 6%

• Faturamento médio mensal: não informado pela rede

• Lucro médio mensal: não informado pela rede

• Retorno de investimento: 36 meses

SUPERSEG BRASIL

• Investimento inicial: de R$70 mil a R$80 mil

• Taxa de franquia: R$35 mil

• Capital de giro: R$22 mil

Royalties: 3 salários mínimos

• Faturamento médio mensal: R$45 mil

• Lucro médio mensal: de 20% a 25%

• Retorno de investimento: de 14 a 18 meses

DADOS QUE FARÃO DIFERENÇA NO SEU MODELO DE NEGÓCIO

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PREFIRO NÃO FAZER

Uma frase que afirma e nega ao mesmo tempo é o mote do livro Bartleby, o Escriturário: uma História de Wall Street, que traz elementos de antinomias que compõem a nossa psique

A existência pode ser um “prefiro não existir”, quando estamos limitados por um “muro” que nos separa de uma vida criativa, para nos transformar em um instrumento mecânico e assim atender as ambições de outros homens.

Bartleby, o Escriturário: uma História de Wall Street, publicado em 1853, é uma novela do escritor americano Herman Melville, que ficou conhecido pela sua obra Moby Dick. A história é narrada por um advogado, que relata as suas memórias sobre o estranho caso de um dos seus funcionários, chamado Bartleby, uma pessoa do tipo que parece oferecer sua vida em sacrifício para levar o outro a compreender sua própria humanidade. Em seu escritório, localizado na Wall Street, o advogado mantinha dois funcionários encarregados de copiar documentos, além de um office boy de 12 anos. Enquanto um dos seus funcionários era produtivo pela manhã e à tarde se tornava histriônico, com resultados pífios em suas atividades, o outro só conseguia produzir à tarde e também reagia de forma neurótica. Com o aumento da produtividade, o patrão contrata um novo funcionário, o Bartleby, para ser o terceiro copista.

Bartleby deixa seu chefe contente, uma vez que é o primeiro a chegar e o último a sair. Cumpre, de forma metódica e eficiente, o seu trabalho monótono de copiador. Instalado próximo ao patrão, para servi-lo em situações emergenciais, tinha, à sua frente, uma janela que lhe permitia enxergar apenas um muro.

Um dia, Bartleby nega-se a fazer qualquer outra atividade diferente de apenas copiar. E, tempos depois, nem essa tarefa ele quer fazer, mas não abandona o escritório. Sempre questionado pelo patrão sobre a razão desse seu comportamento, apenas repete a frase: “Prefiro não fazer”. A falta de um motivo que atenda a alguma lógica deixa o narrador encabulado, tentando entender o que está oculto. Esse oculto, por sua vez, é a alma de outro ser algo que só se revela por meio da linguagem enigmática das metáforas, ou por meio daquilo que nos afeta. Sobre esse rapaz, o que obteve como informação foi que antes ele trabalhava nos correios, in- cinerando as cartas que não chegavam ao seu destino.

O psiquiatra C. G. Jung, um cientista empírico, aprendeu e nos ensinou sobre a natureza humana observando as manifestações da loucura. Foi assim que ele descreveu de que é feita a matéria dos nossos sonhos. Reduzir a rica história de Bartleby a um diagnóstico psiquiátrico empobreceria a compreensão desse retrato de nós mesmos, pois essa história é uma metáfora sobre a vida.

“Prefiro não fazer”: uma frase que afirma e nega ao mesmo tempo. Ela contém a antinomia que compõe a nossa psique. Essa dimensão em que toda unidade é separada pela consciência, em opostos irreconciliáveis. O muro é um não. Um não à formação tribal dos humanos, que ainda imaginam muros para separar países, ideologias, orientação sexual e outras diferenças dentro de uma só raça. Um muro que separa um homem extraviado da vida, de outro, criativo, capaz de encantar-se com a existência e transcender qualquer limite. “Prefiro não fazer”. Afinal, o que é a vontade livre? Uma personalidade, em seus diversos aspectos, não age sem a intervenção do que lhe é inconsciente. Experiências esquecidas, mas guardadas pelos afetos, funcionam como um cimento, que vai unindo os elementos que se associam por suas similaridades e contiguidades, como um verdadeiro complexo de registro de nossas experiências e suas emoções. Podemos dizer que a vontade humana pode interferir, até certo ponto, no comportamento final das pessoas, mas Jung põe em dúvida a existência dessa vontade livre que pensamos ter.

Bartleby, antes de ser copista, incinerava as cartas que não chegavam ao seu destino. Assim como essas correspondências, também podemos não chegar ao destino que nascemos para cumprir. Nem sempre compreendemos o muro que separa as expressões subjetivas da alma das que são tidas como objetivas pelo nosso eu. Daí a dificuldade em conhecer a si mesmo, testar a realidade e censurar a consciência.

No princípio da humanidade, nenhum muro separava o público do privado. Os deuses estavam por toda parte e tudo o que permanecia em mim se animava lá fora. Com a evolução, o Eu precisou desse muro, que separa o que escondemos do outro, o privado, e criamos uma outra personalidade para ser mostrada do outro lado do muro, o que pode ser público. No lado público, inventamos uma máscara para ocultar, muitas vezes, o que não compreendemos em nós mesmos, como um modo de ser que precisa do nosso respeito, pois talvez seja o que há de melhor em nossa alma. É uma máscara que, como um muro, separa a imagem que temos de nós mesmos daquela que usamos para impressionar até quem não conhecemos. Queremos ser aceitos, alimentamo-nos de likes e não percebemos quando estamos perdendo a noção de nossa singularidade e respeito pelo que verdadeiramente somos.

O “Bartleby” que carregamos pode nos levar a uma vida de insatisfação, pela repetição incessante em transferir mensagens falsas e verdadeiras, sem saber distinguir uma da outra, tornar a realidade subjetiva em realidade objetiva. Nada vai adiantar se apenas o corpo e as aparências são levados em conta. Precisamos olhar mais para nossas imagens internas, em lugar daquelas que olhamos e transferimos aos outros por meio dos nossos celulares. Estes, sim, um muro que, como Bartleby, habituamo-nos a olhar sem perceber que estamos envelhecendo, deixando de enxergar o sorriso dos nossos entes queridos, antes que se tornem fotos de recordação nesses mesmos instrumentos de separação.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br

EU ACHO …

CHARLATÕES

Um amigo meu diz que em todos nós existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior – até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o mau gosto em matéria de escrever, é um certo tipo horrível de bom gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando sobre linha bamba.

Como é que eu seria charlatã? Eu fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros. Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu era sincera: fui estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias no Brasil.

O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força. Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.

Disseram-me que um crítico teria escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale dizer charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando de algo muito profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco tristemente brincando com o assunto.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A EXPANSÃO DO SABER

A mais do que centenária Academia Brasileira de Letras faz um movimento louvável ao divulgar semanalmente vocábulos que brotam das ruas (e dos celulares)

Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), o lexicógrafo cujo nome virou sinônimo de dicionário no Brasil, tinha uma bela definição de seu ofício: “um caçador de borboletas a correr com uma rede em busca das palavras que voavam”. Pouco lhe importava pegar borboletas multicoloridas, como se tivessem sido desenhadas a mão, referenda das por especialistas, ou disformes, irregulares, nascidas da boca do povo. Palavras são palavras, tenham o carimbo da academia ou o apreço do público. É sempre inglória a briga para afastar dos dicionários, dos registros oficiais, as expressões populares, as invencionices, os anglicismos, como se fossem areia movediça afeita a fazer ruir o edifício oficial. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) deu o exato tom da prosa, em um verso que Aurélio usou como epígrafe no Aurélio: “Lutar com as palavras / é a luta mais vã/. Entanto lutamos / mal rompe a manhã.”

Numa demonstração evidente de que a luta continua, a venerada e por vezes engessada Academia Brasileira de Letras (ABL) acaba de lançar um projeto virtual para compartilhar novas palavras garimpadas semanalmente por especialistas da casa. Esses tempos farão parte da sexta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), a ser lançado no segundo semestre de 2021.

A publicação funciona como um catálogo de vocábulos e de sua respectiva ortografia. Na atualização, haverá a inclusão de pelo menos 1.000 novos verbetes em comparação ao volume lançado em 2009, que tem 381.000 termos (veja o quadro abaixo). “É um trabalho de formiguinha que não acaba nunca, o de encontrar novas palavras”, diz o acadêmico e professor Evanildo Bechara, responsável pela coordenação do projeto de desbravar novas expressões para o Volp.

O Volp é uma das bases dos dicionários, que dele bebem, para então ir longe, bem longe – e é extraordinário que os “imortais” abracem a voz das ruas. Os dicionários se ancoram na catalogação da ABL, o da grafia exata, e fazem desse apoio uma mola de propulsão. E, para além do modo correto de escrever, estabelecem os significados, os sinônimos, a etimologia e ouso em frases cotidianas, além, é claro, da descoberta de novas expressões. O Grande Dicionário Houaiss, que completa vinte anos em 2021, tem em sua versão digital (o volume em papel não é mais lançado) mais de 236.000 palavras. “Antes, algumas expressões ficavam anos na geladeira, até ser escolhidas”, diz o filólogo Mauro Villar, coautor do livrão desde a primeira edição e sobrinho de Antônio Houaiss (1915-1999). Hoje, não há limites e alguns brotam da noite para o dia. Exemplo: lockdown, em inglês mesmo.

O processo de enriquecimento vocabular tem uma mãozinha de programas de computador que detectam a frequência em que novas palavras foram usadas em publicações disponíveis on-line e cruzam informações com bancos de dados de outros dicionários já existentes. Ressalte-se, porém, que apesar da aceleração imposta pela tecnologia, a fila de espera para entrar nos dicionários ainda existe. O Oxford English Dictionary, com 600.00 palavras catalogadas, utiliza uma sofisticada rede – que inclui grupos de leitores e colaboração de voluntários – para avaliar as novidades do idioma inglês. Muitas vezes há demora para que o simples calão dê as mãos para a norma culta.

É uma bela aventura. Desde a antiga Mesopotâmia, em 2600 a.C., a civilização achou preciso catalogar vocábulos, registrados, naquele tempo, em uma pequena lasca de pedra. A primeira publicação em português de um dicionário é do século XVIII e comprova a boa ginástica que a língua faz com o passar dos anos – e a grandiosidade histórica do conhecimento registrado. Naquela publicação, o substantivo açúcar é também escrito como “assucar”.”Muitas das palavras disponíveis num dicionário antigo já não são mais usadas, e, no entanto, foram perpetuadas por esse registro na história da língua portuguesa”, diz Sérgio Rodrigues, autor do livro Viva a Língua Brasileira.

Acompanhar a movimentação de um idioma, e entendê-lo como um ser vivo, em eterna mutação, portanto, talvez seja o modo mais fascinante de acompanhar a crônica das sociedades. Em 1906, o filólogo francês Antoine Meillet (1866-1936), o mais celebrado de sua geração, escreveu um pequeno ensaio que serviria de guia incontornável para os amantes da relação entre o que se vive e o que se fala. “Salvo algum acidente histórico, os limites das diversas línguas tendem a coincidir com os limites dos agrupamentos sociais a que chamamos nações”, afirmou Meillet.”A ausência da unidade da língua é o sinal de um Estado recente, como na Bélgica, ou artificialmente construído, como na Áustria. A linguagem é, portanto, eminentemente um fato social”.

NA PONTA DA LINGUA

Uma pequena seleção de novos vocábulos listados pela Academia Brasileira de Letras

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE ABRIL

VALE A PENA SER ÍNTEGRO

A justiça guarda ao que anda em integridade, mas a malícia subverte ao pecador (Provérbios 13.6).

O maior seguro que podemos fazer contra as tragédias da vida é viver de forma íntegra. A honestidade nos protege mais do que carros blindados e coletes à prova de bala. A justiça guarda quem é correto em seu caminho. A retidão protege o homem íntegro. Mesmo que os íntegros sejam injustiçados nos tribunais e lançados nas prisões, eles têm a proteção da consciência e a proteção divina. É melhor sofrer como justo do que ser promovido como culpado. José do Egito preferiu ir para a cadeia como inocente a viver em liberdade, mas prisioneiro do pecado. João Batista preferiu a prisão e a morte a ser conivente com o pecado do rei Herodes. Daniel preferiu ir para a cova dos leões a pecar contra o seu Deus. Mesmo que Deus não nos livre da morte por causa de nossa integridade, ele nos livrará na morte. É melhor morrer como justo do que viver como ímpio. Quando o justo morre, entra imediatamente no gozo eterno; mas a perversidade transtorna o pecador, e sua condenação é eterna. A integridade em si mesma já é uma grande recompensa. Os íntegros têm paz de consciência aqui e bem-aventurança por toda a eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

SALVE-SE QUEM PUDER

A perda de receitas e o aperto orçamentário imposto pela Covid-19 têm estimulado empresas a procurar serviços especializados em recuperação de créditos previdenciários

Na teoria, toda empresa que possui folha salarial e não está enquadrada no Simples Nacional é candidata em potencial a solicitar a recuperação de créditos por meio da compensação de pagamento futuro de tributos relacionados à previdência.

As empresas com alto índice de turnover, especialmente, tendem a ter mais verbas passíveis de recuperação, como avalia o diretor do Grupo Atai – especializado em soluções contábeis completas e inovadoras-, Edmilson Ataíde. “Muitas vezes, estes créditos são valores pagos indevidamente para compensação de contribuições à previdência. Essa não é uma prática pioneira, mas pode receber maior atenção das empresas neste momento, em que o reforço de caixa é a palavra de ordem”, explica.

O diretor avalia também que empresas com postos de trabalho ocupados majoritariamente por mulheres podem ter potencial de recuperação dessas verbas, em função do salário-maternidade pago às colaboradoras. “O ideal é identificar créditos que possibilitam a recuperação na esfera administrativa. Uma vez apurado e validado o crédito, podemos lançar mão da compensação imediata ou solicitar a restituição e aguardar”, diz Ataíde.

Na luta pela sobrevivência dos negócios, os empresários precisam ganhar fôlego – e essas revisões trazem um fluxo positivo de caixa neste cenário crítico -, conforme alerta a sócia da BMS Projetos & Consultoria e especialista na Área Previdenciária, Compliance de folha de pagamento e e-Social, Luciana Vasconcellos. Segundo ela, a BMS atendeu mais de 500 empresas em 2019 e conseguiu recuperar R$1,1 bilhão de créditos previdenciários.

Para este ano, a BMS prevê crescimento de 110% na demanda pelos serviços de recuperação de créditos previdenciários. “As empresas têm essa ferramenta em mãos, que pode gerar ótimos resultados. Elas estão fazendo o possível para ajustar o seu fluxo de caixa a essa inesperada realidade”, acrescenta Luciana.

MUDANÇAS

Além do cenário de incertezas, há um clima de apreensão causado pelas Portarias 139 e 150/2020, do Ministério da Economia, que adiaram o prazo para recolhimento das obrigações tributárias de 20% sobre a folha de salários e de outras incidências. As contribuições previdenciárias relativas às competências de março, abril e junho tiveram o prazo de pagamento postergado para julho, setembro e outubro, respectivamente. Como se não bastasse, há o pagamento da parcela do 13° salário em novembro.

Segundo Luciana, o ideal é que as empresas auditem seus recolhimentos com frequência. “Desde o levantamento até o efetivo aproveitamento do crédito no âmbito administrativo, o prazo de trabalho gira em torno de 30 dias. Como ainda não sabemos os desdobramentos da crise econômica, quem começar a avaliar esse fluxo mais cedo certamente sairá ganhando”, conclui.

Primeiramente é preciso realizar um levantamento de tudo aquilo que foi recolhido pela empresa nos últimos cinco anos, prazo limite da prescrição. “Nesse levantamento são analisados os registros das folhas de pagamento e o cadastro de funcionários (ativos, afastados e desligados) dos últimos 60 meses”, explica a gestora contábil da Contábil Bandeirantes, bacharela em Ciências Econômicas pela Fundação Santo André e bacharela em Ciências Contábeis pela USCS com MBA em gestão de pessoas pela Fundação Getúlio Vargas, autora do livro Processos de administração de pessoal SENAC, Juliana Gomes.

PASSO A PASSO PARA SOLICITAR

O processo administrativo da empresa deve relacionar de forma minuciosa as verbas trabalhistas, seus respectivos valores e quais anos serão compensados, realizando a compensação diretamente na GFIP mensal ou através de PER/ DCOMP, procedimento simples realizado por qualquer assessoria contábil.

O objetivo desse processo de recuperação é ajudar no aumento do fluxo de caixa do negócio, o que beneficia a empresa pequena, que na maioria das vezes não tem fluxo de caixa nem auxílio contábil.

Segundo Juliana Gomes, o auxílio contábil e o jurídico devem andar juntos nesse processo para garantir que o procedimento seja feito dentro das determinações legais e para que ao mesmo tempo esse “retorno financeiro” seja orientado por meio da gestão contábil e direcionado para a decisão mais assertiva, pensando não só no pequeno, mas principalmente no médio e longo prazo. Dessa forma você garante o direito, mas não cria outro problema para resolver futuramente.

LINHAS DE ATUAÇÃO

O diretor do Grupo Atai explica que são três as principais linhas de atuação para recuperação de créditos sobre verbas previdenciárias, de forma administrativa, com recuperação imediata:

CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SOBRE VERBAS INDENIZATÓRIAS: a contribuição deve incidir sobre a renda do trabalhador, sendo afastada de verbas de caráter indenizatório. “Neste contexto, estamos avaliando as contribuições previdenciárias pagas sobre verbas indenizatórias cuja incidência não se encontra pacificada, como férias e aviso prévio, que são indenizados em rescisões de forma administrativa. Já outras têm ganhado força nos tribunais, como adicionais e salário-maternidade, por exemplo”, afuma.

LIMITE DE 20 SALÁRIOS PARA AS CONTRIBUIÇÕES CONHECIDAS COMO “TERCEIROS”: o diretor também explica que está sendo pacificado o entendimento de que as contribuições cobradas na folha salarial e repassadas para o conhecido Sistema S (Senai, Sesc, Sebrae, Sest etc.) têm teto de incidência de até 20 salários mínimos. “O que se tributou a maior pode ser objeto de contestação”, analisa Ataíde.

RAT / FAT: é possível buscar a avaliação e o reenquadramento para o RAT (Risco de Acidente de Trabalho) e o FAP (Fator Acidentário de Prevenção). Em muitos casos, está sendo demonstrado que as empresas estavam utilizando taxas acima do devido. “De maneira geral, as alíquotas são mais elevadas para atividades com alto risco e podem ter o percentual da atividade majorado ou reduzido, dependendo de a empresa se situar acima ou abaixo da média do setor. Um exemplo: uma indústria de material inflamável provavelmente contribui pela alíquota máxima. Porém, se tiver um escritório administrativo em outro local, deve reenquadrar seu RAT para essa unidade. É muito comum os percentuais serem unificados e a recuperação neste caso é imediata e feita administrativamente”, explica Edmilson Ataíde.

Além dessas opções requeridas de forma administrativa, há outras possibilidades envolvendo a esfera judicial, como verbas de insalubridade e periculosidade, por exemplo. “Nesta questão, que envolve a atuação par­ ceira de advogados, alguns temas já têm jurisprudência formada, o que facilita o julgamento”, conclui.

O QUE PODE SER RESTITUÍDO

•   Salário-maternidade e paternidade

•   1/3 das férias utilizadas

•   1/12 de 13Q salário indenizado sobre o aviso prévio

•   15 dias que antecedem o auxílio doença

•   Aviso prévio, quando indenizado

•   Salário-família

•   Auxílio-alimentação

•   Auxílio-creche

QUEM PODE SOLICITAR

•   Qualquer empresa tributada pelos regimes de lucro real ou presumido, exceto as empresas optantes pelo Simples Nacional e MEI podem ter direito à recuperação dos créditos previdenciários.

COMO SOLICITAR

•   Por meio de medidas judiciais ou administrativas. O processo depende de quais verbas serão recuperadas.

•   No caso de verbas solicitadas de forma administrativa cabem aqui as de caráter indenizatório.

•   Já no caso de solicitações através de medidas judiciais temos as verbas que estão sub judice.

•   Para solicitar você deve por meio de sua assessoria jurídica identificar as verbas passíveis de compensação administrativa ou judicial respeitando a regra da prescrição quinquenal.

DICAS E CUIDADOS

•   A Recuperação de Créditos Previdenciários, através da compensação administrativa, constitui uma alternativa segura e rápida de gerar receita, evitando a morosidade do Judiciário.

•   No entanto, é importante ter cautela ao contratar os serviços de uma consultoria. Deve-se atentar à expertise necessária para executar o trabalho de forma assertiva, observando os cuidados que o procedimento exige.

•    Uma consultoria eficiente deverá conciliar a aplicação das diversas leis vigentes, além das consultas relacionadas à Coordenação-Geral de Tributação da Receita Federal (COSIT) e às Instruções Normativas e Dispensas da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

•   Também são necessários o correto procedimento de cálculo e o cumprimento das obrigações acessórias, de modo a fornecer à empresa toda a documentação probatória e book de cálculos que comprovem a tomada dos créditos apurados.

•    A compensação administrativa de tributos pagos indevidamente, a maior ou em período decaído está prevista no Artigo 74, caput da Lei 9.430/ 1996:

“O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão”.

•   Com o advento do eSocial, existe a possibilidade de compensação cruzada entre todos os impostos administrados pela Receita, sejam eles fazendários (PIS, Cofins, Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, CSLL) ou previdenciários (INSS, SAT, Outras Entidades etc.).

•   As empresas que recorrem a este serviço devem buscar consultorias sólidas, observando o benchmark já atendido. A compensação de tributos feita sem a perícia necessária gera diversos riscos.

•   Entre os maiores riscos para o contribuinte estão a complexidade no preenchimento do PER/DCOMP (Pedido Eletrônico de Restituição, Ressarcimento ou Reembolso e Declaração de Compensação), os riscos de glosa, multas, autuações e até mesmo a imputação de crimes contra a ordem tributária, sonegação e fraude.

•   Portanto, é ideal que, entre os serviços oferecidos pela consultoria, estejam previstas em contrato as eventuais defesas administrativas ou judiciais decorrentes do crédito compensado, por até cinco anos. Esse é o período de que a Receita dispõe para homologar a compensação.

•   A depender do tema objeto da compensação administrativa, os valores recuperados poderão ainda ser incluídos no ativo circulante das empresas de capital aberto, frequentemente auditadas. Isso porque um ativo – conjunto de bens, direitos e outros recursos que gerem caixa – é reconhecido quando o seu custo é confiável e existe a convicção dos benefícios econômicos, estruturados em ordem crescente de liquidez.

•   A rapidez será transformada em moeda corrente. Nesse caso, a liquidez é imediata, visto que a compensação administrativa resulta na emissão de uma DARF a menor.

FIQUE ATENTO!

PRÓS

Oxigenação do fluxo de caixa, economia futura, mapeamento e regulamentação dos processos internos, apontamentos e acompanhamento dos pontos de melhorias no processo interno para atendimento da legislação em vigor.

CONTRAS

Resistência na mudança da cultura interna, esforço por parte da empresa e de seus pares para realização dos ajustes em um prazo curto, possibilidade de recebimento de intimações para ajustes/ esclarecimentos e até mesmo um processo de fiscalização.

CUIDADOS

Buscar especialistas para que a empresa passe por todo o processo com a maior segurança possível, manter um histórico completo do trabalho realizado, contendo todos os dados e obrigações acessórias que originaram os créditos, com notas explicativas e pontos importantes detectados durante o trabalho, para apresentação ao Fisco, a qualquer tempo, caso seja questionado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESCOLA: ESCOLHA FUNDAMENTAL

Da pré-escola à universidade, para alcançar o sucesso profissional não basta um diploma na parede como nos tempos de nossos avós. Hoje é preciso renovar constantemente conhecimentos e práticas

Em meio ao segundo semestre do ano, são abertas as matrículas para o próximo ano letivo em praticamente todas as escolas. Seja porque procuram uma nova opção educacional, ou porque está na hora da sua criança ingressar na pré-escola, muitos pais buscam, nesta época do ano, orientações para fazer a opção de escola que melhor se adapte à educação acadêmica que desejam para seus filhos.

Nos dias de hoje, frente a um mundo globalizado e dependente da tecnologia, a formação acadêmica de qualidade é um fator decisivo para o acesso bem-sucedido às oportunidades profissionais, pessoais e sociais das crianças e jovens adultos. Como a constante atualização também é indispensável para atender as exigências do mercado de trabalho, uma boa formação acadêmica desde o início da escolarização torna-se indispensável para iniciar e fundamentar todo esse importante percurso.

Inegavelmente há um valor enorme colocado na educação e que não é apenas financeiro. Envolvendo essa questão, pesam as aspirações paternas, a pressão social, a responsabilidade na formação das crianças, que influenciam na hora de tomar uma decisão de tal porte. Uma seleção como essa exige muita reflexão da família antes da tomada de uma decisão que certamente terá sérios reflexos no futuro da criança e na dinâmica familiar.

A escolha em geral se inicia pelas indicações de parentes, de outros pais e de amigos que já passaram por essa fase tão importante para as famílias, mas nada substitui uma visita – e até mais de uma – a algumas boas opções, seja se tratando de ensino infantil ou de escolas de ensino médio. Afinal, a escola é onde as crianças e os jovens vão viver boa parte de seu dia e, além da formação pedagógica de qualidade, é lá que a educação de valores será continuada em consonância com a que a família iniciou. E nesse ambiente a criança conquistará seu primeiro grupo de amigos, e as experiências do dia a dia terão grande influência na sua personalidade em formação. Ao visitarem as escolas, muitas informações serão passadas aos pais, mas é importante que estes já tenham em mente alguns pontos a investigar, que consideramos importantes, até a para poderem posteriormente comparar e escolher mais adequadamente. As informações devem ser inicialmente voltadas para a formação exigida dos profissionais, como professores, coordenadores, entre outros.

É importante saber que tipo de apoio e incentivo cada escola oferece para incrementar a modernização do corpo docente e dos demais funcionários. Perguntar sobre as normas disciplinares e o tipo de avaliação que será usada ao longo do ano letivo pode evitar grandes e desagradáveis surpresas, pois escola e casa devem ter muitos pontos em comum no quesito disciplina.

Uma escola situada em um local iluminado, arejado, arborizado e silencioso pode ser um aspecto muito favorável na hora da seleção, mas não é o mais importante, pois, com o passar dos anos, essas características frequentemente se modificam e também há influência relativa no aproveitamento pedagógico.

Essas visitas à nova escola devem preferencialmente ser feitas em horários diferentes para se poder observar os alunos na entrada e na saída: essa é uma forma de saber como se sentem naquele ambiente.

Conversar com outros pais, com alguns funcionários e procurar conhecer pessoalmente as professoras tranquiliza a maioria dos familiares ansiosos, especialmente no caso de crianças pequenas, pois nesse contato poderão estabelecer um vínculo com os adultos que olharão pelas crianças enquanto estiverem longe delas.

Uma vez feita a primeira seleção, é importante que as crianças visitem o local, também, não para decidir onde vão estudar, pois essa é uma responsabilidade que está longe de ser delas, mas para que seus pais observem como se sentem no novo ambiente e depois possam trocar ideias com os filhos sobre isso.

Outra ordem prática deve ser levada em conta: o valor das mensalidades e a distância de casa. Pode parecer pouco para quem nunca manteve um filho na escola, mas o custo mensal total ultrapassa o da mensalidade, pois há o uniforme, os livros, as despesas com passeios, entre outras coisas. Nem sempre as famílias conseguem dar conta de tantas despesas, e mudar a criança de escola em meio ao ano letivo pode ser um desgaste muito grande, em vários aspectos.

Para finalizar, é fundamental que os pais procurem conversar entre si sobre essa importante opção, de modo que seja do agrado de ambos, ou ao menos muito próximo daquilo que desejam para seu filho.

Uma postura de segurança e firmeza em relação a essa escolha fará com que a criança se sinta muito mais confiante e se adapte melhor à escola. Vale ainda lembrar que é o aluno que deve se adaptar à escola, pois, como na sociedade e no trabalho, há normas que todos precisam aprender a respeitar e que, diferentemente do que ocorre na família, não se permitem exceções.

Assim, educar ganha a perspectiva de formação de cidadãos que, usufruindo de boa educação acadêmica, se preparam permanentemente para ser profissionais de sucesso em qualquer área que venham a escolher.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

EU ACHO …

GERAÇÃO BIOTÔNICO

Estamos tentando desprogramar a antiga relação com a comida

Outro dia, conversando num grupo de WhatsApp, uma amiga contou que, quando criança, tomava um coquetel de Biotônico Fontoura, leite condensado e ovos de pata. Encorajada pela “confissão”, outra amiga revelou que também não escapou da “vitamina”, com a agravante de que, no seu caso, os ovos eram inteiros, com casca e tudo. Alguém lembrou que tomava gemada com um pouquinho de vinho do Porto. “E eu, que encarava Emulsão Scott”, escreveu outra amiga, em referência àquele complemento alimentar conhecido pelo rótulo com o desenho de um pescador trazendo nas costas um enorme bacalhau. “Meu medo do Papai Noel vinha daí”, digitou.

Cada geração acaba ganhando um nome. Temos as gerações X, Y, a dos millennials. Tivemos a Geração Coca­ Cola cantada pela Legião Urbana, os hippies desencanados, os yuppies consumistas. A minha geração, do pós-guerra, é chamada de baby boomer, mas bem que poderia se chamar Geração Biotônico. Quem dessa faixa etária nunca foi obrigado a engolir algum elixir tradicional para obter energia extra e estimular o apetite? Havia na fórmula original até álcool, retirado por força de lei em 2001.

Monteiro Lobato, com seu talento para inventar histórias infantis, tem culpa no cartório. Gostou tanto do tônico criado pelo seu amigo Cândido Fontoura que não só a batizou como criou um personagem. Jeca Tatuzinho, que o popularizou. Na verdade, o nosso escritor apenas refletia o espírito do tempo – um tempo em que certa gordurinha era sinônimo de saúde. Naquela conversa em rede social, lembrei que, sempre que minha mãe elogiava minha silhueta, sabia que precisava perder uns quilos.

Com a melhor das intenções, é claro, nossos pais e avós nos transmitiram alguns hábitos alimentares que o tempo e as pesquisas médicas se encarregaram de demonstrar que não estavam entre os mais saudáveis. Aprendemos a servir porções maiores do que o necessário, a montar pratos pouco balanceados. E, talvez, o mais importante: incutiram-nos a noção de que a fartura da mesa é uma forma de expressar carinho.

Padrões estéticos mudam, da mesma maneira que o conceito do que seja uma boa alimentação. Estamos até hoje tentando desprogramar aquela antiga relação com a comida. Para nos livrarmos desses hábitos, haja esforço. É preciso recorrer a dietas e exercícios físicos. Para muitos de nós, é também um desafio psicológico, uma tentativa de desfazer associações cravadas na mente desde muito cedo.

Nada contra os produtos, ainda comercializados. A questão é cultural. Isso significa que comida não pode estar associada a carinho e afeto? Claro que não! Aliás, não há maneira mais gostosa de demonstrar estima por alguém do que lhe preparar uma refeição especial. Mas isso não tem a ver com quantidade. Se quisermos construir um estilo de vida saudável, é preciso abandonar a ideia de que comer em abundância é sinônimo de saúde e cuidado.

Que as novas gerações, quando conversarem no futuro sobre comilanças da infância, possam também contar casos divertidos, mas referentes a um tempo que terá ficado definitivamente para trás.

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA TEM AS RESPOSTAS

A experiência na luta contra a pandemia autoriza, depois de um ano da eclosão do primeiro caso de Covid-19, a isolar os achismos e ter certezas. A principal: venceremos

Numa era de tantos questionamentos de fatos inequívocos, como o formato da Terra ou resultados de eleições, o surgimento de uma pandemia de proporções históricas se transformou em terreno fértil para a disseminação de informações falsas e mitos. Impulsionado pela falta de filtros das redes sociais e pela ignorância de quem prefere espalhar tolices sem leitura e conhecimento, todo tipo de preconceito prospera. Contribui – e muito – para esse constrangedor comportamento a postura negacionista de algumas autoridades que, com objetivos egoístas e eleitoreiros, manipulam os cidadãos pendurados na internet, provocando ora o desleixo, ora pânico desnecessário.

Felizmente, a ciência vem fazendo de forma brilhante a sua parte neste combate. Oito meses depois da primeira morte em decorrência do novo coronavírus no Brasil, e quase um ano após o caso inaugural em Wuhan, na China, já é possível determinar, com alguma clareza, o que realmente funciona do ponto de vista da prevenção, dos cuidados iniciais e dos tratamentos – e, agora mais do que nunca, em relação à luta pelo desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde. Há boas notícias, aliás, nessa batalha. Na quarta-feira 18, a farmacêutica americana Pfizer divulgou resultados de eficácia acima de 95% em um imunizante produzido em parceria com a empresa de biotecnologia BioNTech. Uma outra companhia dos Estados Unidos, a Moderna, também anunciou sucesso com taxa de 94,5%. A Sinovac, fabricante da chinesa Corona­Vac, que trabalha de mãos dadas com o Instituto Butantan, de São Paulo, celebrou uma excepcional conquista: a produção de anticorpos em 97% dos voluntários testados nas fases 1 e 2.

Os excelentes resultados dos laboratórios, por sinal, vieram em boa hora. Nas últimas semanas, houve uma acelerada leva de casos na Europa, nos Estados Unidos e inclusive no Brasil (embora em ritmo menos agressivo por aqui). É um momento preocupante, sem dúvida. Pede atenção, exige informação de qualidade, mas não medo. Por essa razão, a partir da vasta experiência recente acumulada por cientistas e profissionais de saúde, elaboramos uma lista de respostas às perguntas que andam nas cabeças em momento tão difícil da humanidade. O critério foi simples: separar falsidades de verdades, isolar os achismos e mostrar em que ponto estamos desta longa jornada. Com 1,4 milhão de mortes em todo o mundo, mais de 167.000 no Brasil, a Covid-19 demanda uma nítida compreensão do que ainda teremos pela frente. E a conclusão, como mostram as estatísticas a seguir, é uma só: graças a ciência, venceremos.

O QUE SIGNIFICA, NA PRÁTICA, O ANÚNCIO DE EFICÁCIA DE 95% DA VACINA PRODUZIDA PELA FARMACÊUTICA AMERICANA PFIZER E DE 94,5% DO IMUNIZANTE DO LABORATÓRIO MODERNA, TAMBÉM DOS ESTADOS UNIDOS?

São as primeiras evidências convincentes de que uma vacina pode ser realmente capaz de prevenir a Covid-19. Ambas as taxas são bem superiores aos 50% de sucesso exigidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os índices de eficácia da vacina da gripe, por exemplo, ficam em torno de 60% – menores, portanto.

POR QUE O ANÚNCIO DA PFIZER, ESPECIALMENTE, FOI TÃO CELEBRADO?

Em virtude da riqueza de detalhes e de ter sido divulgado depois da fase 3 (e derradeira) de estudos clínicos. Houve registro de eficácia de 95% a partir do 28º dia de aplicação. Os resultados foram obtidos após a análise inicial de 170 casos confirmados, 162 deles no grupo que recebeu medicamento placebo e os outros oito que receberam a vacina. Foram detectados dez casos severos de Covid-19 no estudo, nove deles no grupo de placebo e apenas um no que efetivamente recebeu o imunizante.

ALÉM DE EFICAZ, A VACINA DA PFIZER É SEGURA?

Sim. Ela foi bem tolerada, sem efeitos adversos graves entre os 43.000 voluntários que receberam as doses. O maior efeito colateral aferido foi fadiga, com 3,8% de ocorrência, e dor de cabeça, com 12% de ocorrência.

UMA VACINA PODE SER APROVADA, DISTRIBUÍDA E APLICADA ANTES MESMO DE SER TOTALMENTE TESTADA?

Não. Para aprovar o registro de uma vacina e liberá-la para uso, agências renomadas de controle, inclusive a brasileira Anvisa, exigem resultados robustos da fase 3 de estudos clínicos.

SERÁ POSSÍVEL SABER O PERÍODO DE VALIDADE DE IMUNIZAÇÃO DE UMA VACINA – OU SEJA, ESTABELECER QUANDO SERIA PRECISO RENOVÁ-LA?

Ainda não. Esse tipo de conclusão só poderá ser anunciada depois de alguns meses da aprovação, porque exige mais tempo de acompanhamento dos voluntários. Diante de uma pandemia, porém, a celeridade se impôs – mas, insista-se, a velocidade dos laboratórios não é sinônimo de risco.

A CORONAVAC, DESENVOLVIDA NA CHINA, SE APROVADA, TERÁ BENEFÍCIOS SEMELHANTES AOS DE VACINAS DESENVOLVIDAS NOS EUA E EUROPA?

Sim. Os chineses seguem os padrões internacionais. Resultados divulgados na terça-feira 17, demonstraram produção de anticorpos em 97% dos voluntários examinados nas fases 1 e 2. Há certeza de controle de qualidade no Brasil, porque a CoronaVac será produzida pelo Instituto Butantan, de vitoriosa história na preparação de vacinas. O Butantan já oferece seis substâncias para o Programa Nacional de Imunização: contra gripe, HPV, hepatite B, hepatite A, DTPa (contra difteria, tétano e coqueluche) e raiva. Condená-la, portanto, é tolice.

PELO MENOS QUATRO VACINAS ESTÃO EM FASE FINAL DE DESENVOLVIMENTO. BASTARÁ UMA DELAS PARA IMUNIZAR CONTRA A DOENÇA?

Em termos. Uma vacina é suficiente para conferir proteção individual. Entretanto, dada a demanda global, imensa, será preciso mais de uma opção de modo a atender a procura.

A VACINA SERÁ DADA PRIMEIRO A GRUPOS DE RISCO, COMO O DE IDOSOS. A PARTIR DAS PRIMEIRAS DOSES ADMINISTRADAS JÁ SERÁ MAIS SEGURO SAIR À RUA PARA TODA A POPULAÇÃO, INDISCRIMINADAMENTE?

Há uma regra: quanto mais pessoas forem vacinadas, maior será a proteção coletiva, a chamada imunidade de rebanho – com 70% da população vacinada, chega-se a esse ponto. Contudo, uma única dose não basta – a maioria dos fabricantes desenvolve imunizantes em duas doses, com pelo menos um mês de intervalo de aplicação. Há que levar em consideração, também, as vacinas que serão oferecidas – as que apresentarem eficácia de apenas 50% poderão prevenir somente casos graves de Covid-19. As eficazes em 70% autorizarão mais segurança de movimentação.

EM QUANTO TEMPO A VACINA DEVERÁ ESTAR DISPONÍVEL NO BRASIL?

A estimativa do Ministério da Saúde é que a vacinação de grupos prioritários tenha início no primeiro ou segundo trimestre de 2021. Antes, porém, briga-se para pôr em pé o esquema de armazenamento e distribuição. O Ministério da Saúde já começou a conversar com representantes da Pfizer para a distribuição em território brasileiro. Já foram fechados contratos com a CoronaVac e a vacina de Oxford em parceria com a AstraZeneca.

AS VACINAS CUSTARÃO CARO?

No Brasil, elas serão oferecidas gratuitamente, dentro do Plano Nacional de Vacinação. Haverá, contudo e evidentemente custos para as instituições públicas. A da Pfizer é cara – 39 dólares por duas doses, preço baseado na compra antecipada feita pelo governo americano. Ela usa uma tecnologia nova, afeita a estimular o corpo a produzir a proteína do vírus, e precisa ser mantida a 70 graus abaixo de zero, complicador para a imunização em massa exigida contra a Covid-19. Ela também não pode ser tirada várias vezes da temperatura baixíssima, na viagem desde a linha de produção até o braço dos pacientes. A CoronaVac é mais barata. Em ofício assinado (e depois suspenso) pelo Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o preço previsto para cada uma das 46 milhões de doses orçadas era de 10,30 dólares.

UMA PESSOA QUE JÁ FOI INFECTADA PODE SE REINFECTADA NOVAMENTE?

Casos de reinfeção foram documentados em alguns estudos, mas são muito raros. São 25 reinfecções em 56 milhões de casos em todo o mundo.

QUAIS SÃO OS AFEITOS DE LONGO PRAZO DO CORANAVÍRUS?

Alista de sintomas persistentes da Covid-19 é mais variada do que a maioria dos especialistas poderia prever: Os danos incluem fadiga, batimento cardíaco acelerado, falta de ar, dores nas articulações e músculos, confusão mental, perda persistente do olfato e paladar e problemas de coagulação sanguínea.

OS GRUPOS DE RISCO MUDARAM AO LONGO DA PANDEMIA?

Não. Idosos e pessoas com condições médicas preexistentes, incluindo hipertensão, doenças cardíacas, doenças pulmonares, câncer ou diabetes estão mais suscetíveis, a desenvolver casos mais severos de Covid-19. A obesidade também aumenta consideravelmente a probabilidade de complicações da doença.

É POSSÍVEL SE CONTAMINAR PELO AR, MESMO DISTANTE DE PESSOAS SUPOSTAMENTE CONTAMINADAS?

Sim. A contaminação pelo ar é possível quando uma pessoa infectada tosse, espirra, canta, fala ou respira, deixando partículas minúsculas e leves, suspensas no ar. O risco dessa forma de contágio é maior em ambientes internos, com pouca ventilação.

SE UMA MULHER GRÁVIDA PEGAR COVID-19, SEU BEBÊ SERÁ INFECTADO?

Existem relatos de transmissão da Covid-19 da mãe para o bebê durante a gravidez. Até o momento, todos os bebês se recuperaram bem e ainda não há consenso sobre o risco e a frequência desse tipo de transmissão. Já a transmissão do coronavírus durante a amamentação é considerada pouco provável. Os benefícios da amamentação superariam quaisquer riscos potenciais de transmissão do vírus.

É SEGURO VOLTAR PARA A ACADEMIA DE GINÁSTICA?

O vírus se espalha mais facilmente em ambientes fechados. Há riscos, mas eles podem ser minimizados com a adoção de medidas de prevenção como uso de máscara, o distanciamento e a higienização das mãos. É recomendado limpar os equipamentos antes e depois do uso.

CRIANÇAS TRANSMITEM A DOENÇA?

 Sabe-se que as crianças de até 12 anos têm maior probabilidade de ser assintomáticas, risco baixo de ficar gravemente doentes e provavelmente são menos propensas a se contaminar. Elas podem transmitir a doença, mas ainda não há informações sobre o seu nível de contagiosidade. Ou seja, se elas têm alta ou baixa capacidade de transmissão. Já as crianças mais velhas, a partir de 12 anos, têm maiores chances de apresentar sintomas e de transmitir a doença. Tudo somado, o retorno às escolas, respeitado o leque de protocolos, é administrável. Não houve aumento de casos desde o retorno parcial no Brasil.

É SEGURO ANDAR DE ELEVADOR COM OUTRAS PESSOAS?

Sim, desde que seja mantido o distanciamento e o uso de máscara. Recomenda-se higienizar as mãos depois de apertar os botões.

É POSSÍVEL PEGAR O NOVO CORONAVÍRUS EM RELAÇÕES SEXUAIS?

 Não há relatos de que o vírus seja transmitido pelo sêmen ou por fluidos vaginais. Entretanto o contato próximo e o beijo, por exemplo, aumentam o risco de transmissão. Para reduzir o risco de contaminação entre parceiros que não vivem juntos, a recomendação de médicos de Harvard que analisaram o assunto são: usar máscara, evitar beijos, tomar banho antes e depois das relações e evitar atos sexuais que envolvam a transfusão oral de fluidos corporais

O NOVO CORONAVÍRUS PODE GRUDAR NAS ROUPAS?

Já se sabe que a transmissão pelo contato com superfícies contaminadas desempenha papel baixo na transmissão. Ressalve-se porém, que as roupas são como qualquer outra superfície – podem estar contaminadas. Para reduzir totalmente o risco, a recomendação é trocar de roupa ao chegar em casa e pôr para lavar as roupas usadas na rua. Se achar exagero, uma opção é troca-las ao chegar em casa e deixá-las ao ar livre por pelo menos um dia, antes de usá-las novamente.

QUAL É O MELHOR MOMENTO PARA PROCURAR O MÉDICO CASO EXISTA A SUSPEITA DE COVID-19?

O ideal é procurar um médico assim que surgir a suspeita da doença. O profissional solicitará o exame para diagnóstico e, em caso positivo, fará o acompanhamento. A Covid-19 é uma doença nova, com evolução imprevisível e sem tratamento específico. O ideal é que todos, mesmo pessoas com sintomas leves, tenham orientação médica continuada. Pessoas contaminadas devem permanecer isoladas durante dez dias após o início dos sintomas. No caso das assintomáticas, a contagem começa a valer a partir da realização do teste de diagnóstico.

QUAL É O TESTE DE DIAGNÓSTICO DO CORONAVÍRUS MAIS ADEQUADO?

O RT-PCR é o teste indicado para diagnosticar a Covid-19. O exame, feito a partir da coleta de material dentro das vias respiratórias e saliva, identifica partículas do vírus no organismo e detecta uma infecção aguda. Já os testes de sorologia, oferecidos em farmácias, com pequenas picadas para coleta de sangue, identificam anticorpos e apontam para infecção passada. São menos precisos.

EM QUE MOMENTO SE DEVE FAZER O TESTE?

A recomendação é que o teste seja realizado entre o segundo e o sexto dia de sintomas. Pessoas assintomáticas só devem realizar o RT-PCR em caso de contato evidente com alguém que foi diagnosticado com a doença. Nesse caso, o teste deve ser feito de quatro a cinco dias após o contato.

QUAL É A INDICAÇÃO TERAPÊUTICA AO INÍCIO DOS SINTOMAS DA DOENÇA?

O correto é recorrer a um médico ou a um hospital tão logo surjam os primeiros sintomas. Confirmada a doença, o tratamento é feito com analgésicos e antitérmicos, como dipirona e paracetamol. Nos primeiros meses da pandemia, a indicação oficial era que somente pessoas com sintomas mais graves, como falta de ar, procurassem o atendimento especializado. Desse modo, seria evitada a lotação das unidades de saúde. A mudança de conduta ocorreu quando se verificou que a infecção evolui muito rapidamente. A demora a procurar ajuda pode comprometer o quadro clínico.

QUAL É O MOMENTO CORRETO PARA INTUBAR UM PACIENTE?

No início da pandemia, acreditava-se que o melhor procedimento para o prognóstico do paciente era a intubação precoce, assim que fosse detectada uma baixa oxigenação no sangue, independentemente do quadro clínico. Agora, em muitos casos, a intubação precoce pode até mesmo piorar o caso. Por isso medidas não invasivas, como o uso de cateter nasal de alto fluxo, ventilação não invasiva, fisioterapia, prona (virar o paciente de bruços) e a administração de medicamentos, como corticoides, são prioridade. Caso o paciente não responda a essas medidas e tenha outros pontos comprometidos, como alteração no padrão respiratório, no nível de consciência e na oxigenação do sangue, a intubação pode ser indicada. Mas não há uma indicação ou métrica específica. Cada paciente deve ser analisado individualmente.

QUAIS SÃO OS REMÉDIOS MAIS EFICAZES PARA A INFECÇÃO NA FASE LEVE E MODERADA DA DOENÇA E QUANDO ELES DEVEM SER TOMADOS?

Ainda não há tratamento específico para a Covid-19. Para pacientes leves, que estão em casa, o tratamento inicial é apenas sintomático, com o uso de antitérmicos, analgésicos e descongestionantes, quando necessário. Hidratação, boa alimentação e repouso são fundamentais. Se o paciente realizar tomografia e exame de sangue, dependendo do resultado, alguns medicamentos podem ser recomendados. Mas não se deve, em hipótese alguma, tomar medicamento sem indicação médica. Em pacientes hospitalizados, que precisam de oxigênio, a droga que mais modifica a história natural da doença é o corticoide.

A CLOROQUINA, A DROGA DA IDEOLOGIA, FUNCIONA?

Não. Mais de uma dezena de estudos, incluindo alguns feitos no Brasil, já mostraram que a cloroquina e a hidroxi-cloroquina não modificam em nada a evolução da doença em casos leves, moderados e muito menos graves. Ela também não é eficaz para prevenir a infecção.

O ANTIVIRAL REMDESIVIR, APROVADO PELA FDA, É ÚTIL?

Um antiviral de relevância seria capaz de conter a doença antes de uma resposta imunológica exagerada do corpo, como acontece em relação à aids. O Remdesivir traz uma resposta positiva, embora fraca. O melhor estudo sobre o assunto provou que o medicamento chega a reduzir em cerca de cinco dias o tempo de internação hospitalar, mas não tem efeito na redução da mortalidade, por exemplo. O remédio ainda não está disponível no Brasil.

A REDUÇÃO PROPORCIONAL DO NÚMERO DE MORTES EM DECORRÊNCIA DA COVLD-19 É RESULTADO DO ENFRAQUECIMENTO DO VÍRUS?

Não há evidências de que o Sars-CoV-2 tenha se enfraquecido desde que foi identificado, em dezembro do ano passado, em Wuhan, na China. No entanto, em nenhuma das novas cepas registradas na Europa houve indício de mais agressividade do vírus. É boa notícia.

HÁ UMA SEGUNDA ONDA NA EUROPA E NOS ESTADOS UNIDOS?

Em termos. A redução do número de casos e de óbitos no fim do primeiro semestre não significou a eliminação do vírus. Mesmo em menor prevalência, ele se manteve presente. Quando as medidas de distanciamento social foram relaxadas, houve uma nova oportunidade de infecção. A atual alta de registros provoca número menor de mortes – na Itália, por exemplo, a taxa de letalidade está 75% menor em relação ao pico anterior da epidemia. A redução das mortes pode estar associada à melhora no tratamentoou a uma queda na carga viral dos infectados – o que contribui para a evolução da doença com menos gravidade.

O CORONAVÍRUS SOFRE MUTAÇÕES?

Sim, mas de modo pouco relevante. Embora a mutação a 20A.EUl, identificada na Espanha esteja presente em catorze países e seja responsável por uma grande porcentagem dos casos registrados recentemente na Europa, ela apenas pegou carona no relaxamento das medidas de prevenção.

A MUTAÇÃO PODE ATRAPALHAR O DESENVOLVIMENTO DAS VACINAS?

Provavelmente não. Dada a pequena taxa de mutações, é muito provável que uma vacina consiga garantir proteção a todas as cepas do Sars-CoV-2.

QUE LIÇÕES O BRASIL PODE TIRAR DO ATUAL MOMENTO DA PANDEMIA NOS PAÍSES EUROPEUS E NOS EUA, SUPONDO QUE ELES ESTEJAM NA “FRENTE”?

É fundamental que utilizemos essa vantagem, a de poder olhar para o ‘histórico’ de outras partes do mundo de modo a aprender com os erros e acertos. Na Europa e nos EUA, as regiões mais afetadas hoje são as que foram poupadas no início do ano. É provável que o Brasil siga o mesmo padrão. A recomendação é que os locais que tiveram poucos casos de coronavírus redobrem a atenção, com testagem em massa e rastreamento de contatos.

O DISTANCIAMENTO ENTRE DUAS PESSOAS TEM DE SER DE QUANTOS METROS?

O distanciamento mínimo recomendado é 1,5 a 2 metros de distância. A adoção dessa medida é capaz de reduzir o risco de transmissão de 18%, para 2%,

QUAL MÁSCARA É A MAIS SEGURA?

A N95 é a máscara mais eficaz para filtrar gotículas e aerossol, a suspensão de partículas no ar. Em seguida, está a máscara cirúrgica descartável de três camadas. Mas a recomendação é que o uso desses produtos seja exclusivo para profissionais de saúde. No dia a dia, a máscara híbrida composta de duas camadas de tecido de algodão grosso, uma de um tecido sintético, ou a máscara feita com no mínimo duas camadas de algodão são as mais eficazes. É fundamental trocar a máscara periodicamente. Quando ela fica úmida a proteção é reduzida

A VITAMINA D PROTEGE CONTRA A INFECÇÃO?

Diversos estudos apontaram uma associação entre a deficiência de vitamina D e quadros mais graves de Covid-19.

ZINCO E VERMÍFUGOS PREVINEM A DOENÇA?

Não há trabalhos científicos que indiquem o sucesso desses medicamentos. Direto ao ponto: a única forma de se proteger contra a infecção é manter a higiene constante das mãos, usar máscara e manter distância de outras pessoas. Já soa um tanto óbvio, mas a insistência é necessária.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE ABRIL

A MENTIRA PRECISA SER ODIADA

O justo aborrece a palavra de mentira, mas o perverso faz vergonha e se desonra (Provérbios 13.5).

A palavra mentirosa precisa ser odiada. Precisamos repudiá-la com todas as forças da nossa alma. A mentira é um câncer nos relacionamentos. Quebra a confiança, desfaz laços, promove conflitos e protagoniza grandes tragédias. A mentira é maligna. Ela procede do diabo, está a serviço do diabo, e os mentirosos serão lançados no lago de fogo junto com o maligno. Não podemos sustentar nem promover a causa da mentira. Não podemos aplaudir os mentirosos nem nos calar diante de sua ação perversa. O justo odeia a palavra mentirosa. O justo odeia o que é falso. Os ímpios que promovem a mentira são motivo de vergonha e trazem sobre si grande desonra. A mentira pode desfilar na passarela do tempo, pode subir ao palco e apresentar-se garbosamente para o delírio dos insensatos, mas ao final será desmascarada. Ficará desnuda e mostrará suas vergonhas. Todos verão sua horrenda carranca. E os mentirosos, cheios de desonra, serão expostos à vergonha pública e à condenação eterna. Ainda é tempo de mudança. A Palavra de Deus nos exorta: Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo (Efésios 4.25).

GESTÃO E CARREIRA

FAÇA DO SEU CLIENTE UM VENDEDOR

Engajamento e envolvimento são palavras de ordem quando se pensa em marketing, afinal, quanto mais apaixonados pela marca e pela empresa, mais consomem, recomendam e indicam para conhecidos!

Tal como tantas expressões do mundo dos negócios, uma frequentemente ouvida é que “a propaganda é a alma do negócio”. Concordando ou não, é inegável que o marketing e a comunicação com clientes são essenciais para manter a marca na mente de quem consome e consumirá seus produtos ou serviços, seja pessoa física, seja jurídica. Investir nesse setor interno é importante para não só conquistar novos públicos, mas para manter o cativo, que, por sua vez, manterá o caixa no azul e, muitas vezes, em crescimento.

Independentemente de ser a dona Maria que vende marmita para trabalhadores do bairro ou para grandes companhias inovadoras e internacionais, o boca a boca é o pote de ouro no que tange à propaganda institucional e de produtos. É a divulgação espontânea feita pelo próprio cliente gratuitamente e que traz consigo autoridade e credibilidade.

No entanto, diferentemente desse (bem-vindo) marketing orgânico e sem controle, hoje, os profissionais do setor desenvolveram o marketing de defensores. Ele estabelece um processo que torna as recomendações da sua empresa algo previsível, mensurável e escalável, não dependendo apenas da sorte. Em princípio, é preciso, basicamente, entregar uma experiência incrível com boas lembranças em momentos descontraídos do consumidor com amigos e familiares – como tomar um café, passear com o cachorro -, o que o estimulará a compartilhar o sentimento positivo a pessoas queridas, formando uma comunidade em torno dessa paixão.

“O marketing de defensores é uma metodologia desenvolvida para as empresas engajarem os clientes satisfeitos e motivá-los a serem propagadores da marca em suas redes (sociais e pessoais), transformando-os em um poderoso canal de marketing e vendas”, explica o fundador da Peepi, empresa pioneira nessa metodologia no Brasil, Felipe Thomé.

Essa estratégica tem ganhado espaço justamente porque o perfil dos consumidores mudou – eles não confiam mais em propaganda como antigamente e, por isso, querem informações sobre as empresas vindas de fontes confiáveis. “Estamos vivendo um cenário de alta competitividade com novas empresas surgindo todos os dias. E, com a internet cada vez mais acessível, essa competição tomou-se ainda mais forte, pois as barreiras geográficas já não existem mais para muitos setores. Hoje os consumidores têm acesso a produtos de todo o planeta a poucos cliques de distância. Por isso, mais do que nunca as empresas precisam construir relacionamentos sólidos com seus clientes para que continuem comprando da sua empresa, sempre lembrando que manter um cliente custa cinco vezes menos do que conquistar um novo. Com produtos e ofertas em abundância, o principal diferencial de uma empresa é a experiência que gera ao seu cliente durante todo o relacionamento dele com a marca”, pontua Thomé.

E esse fenômeno é comprovado: de acordo com estudo realizado pela empresa global de informação, dados e medição Nielsen, 88% das pessoas na América Latina confiam na recomendação de um amigo ou conhecido sobre empresas, ou seja, essa é disparada a fonte de maior confiança. Trocando em miúdos, os clientes devem ser considerados, em qualquer empresa, os seus melhores vendedores e, por isso, é importante investir em manter um bom relacionamento com eles e utilizar estratégias para criar esse exército que vai recomendar e indicar seus produtos.

E lembre-se: quando um cliente pro­ cura uma empresa, marca ou produto, ele o faz buscando solução para uma dor ou necessidade. Atendê-lo tão somente pode não ser o bastante para torna-lo embaixador – é preciso ir além e entender o que o motivou a buscar a marca ou produto, mapeando o processo de vendas (cada detalhe), até a experiência que o cliente teve com outras soluções parecidas no passado que não o engajaram. E nesse ponto separa-se o bom do excepcional – quando o foco é resolver por completo a necessidade/ desejo que o motivou a buscar a marca, naturalmente constroem-se soluções melhores do que o esperado, indo além.

E como bem pontua o cofundador e COO da Accountfy, João Mano, esse tema não abre espaço para opiniões muito diferentes. “Eu gosto muito de uma expressão que ouvi, que ‘quanto maior o vínculo, maior a tolerância’, uma verdade muito importante. Grandes marcas tornaram-se grandes exatamente por terem conseguido criar um vínculo suficientemente estreito com seus clientes que lhes permite tolerar alguns erros da marca e contribuir com a construção de algo maior”, alerta o especialista.

POR QUE INVESTIR?

Porque clientes engajados são 23% mais lucrativos, segundo levantamento da companhia americana de pesquisa de opinião Gallup. Ainda de acordo com essa pesquisa, 86% dos clientes estão dispostos a pagar mais por um produto se a experiência for boa; e, quando um amigo recomenda um produto, a chance de comprar outras vezes aumenta. Além disso, empresas que envolvem com sucesso seus clientes B2B obtêm 63% menos atrito com o cliente, 55% mais participação na carteira e 50% mais produtividade.

E, nas redes sociais – um dos principais catalisadores de opiniões da atualidade -, o impacto dessa defesa é enorme: postagens de pessoas comuns recebem até oito vezes mais engajamento (comentários, curtidas e compartilhamentos) do que os posts realizados pelas empresas. No LinkedIn, por exemplo, clientes e colaboradores possuem dez vezes mais conexões de primeiro grau do que a média das companhias, levando em conta o total de seguidores.

O próprio manual de boas práticas das redes sociais e diversos relatórios de ferramentas de análises de dados indicam que quanto mais engajamento uma marca tem com seus consumidores, mais ela aparece nas timelines. Ou seja, este algoritmo de engajamento e relevância, muito sugerido pelas plataformas, faz os computadores de sites de buscas ou das próprias redes sociais entenderem que se uma marca tem interação com seu consumidor é porque ele quer se relacionar com ela. “Portanto, quanto mais interação, mais engajamento; quanto mais engajamento, mais relevância; quanto mais relevância para as pessoas, mais a empresa aparece, e quanto mais a empresa aparece, maiores são as chances de seu conteúdo influenciar positivamente em seus negócios”, pontua o especialista em marketing de Influência e CEO da IWM Agency, Murilo Oliveira.

Além disso, a menos que sua empresa possua um exército de brandlovers (ou apaixonados pela marca), tal como a Coca-Cola, o Nubank ou a grande Apple, as publicações nas redes sociais de uma empresa são consideradas anúncios, enquanto as postagens de clientes e funcionários são convicções defendidas por pessoas reais. Assim, na maioria das vezes, as opiniões ou comentários de pessoas comuns vão superar os de marcas, por mais bem elaborados que sejam. ”As redes proporcionam algo quase nunca vivido na sociedade: um lugar no qual podemos falar e ser ouvidos constantemente. Dito isso, as empresas se viram em um ambiente onde precisam estar próximo de seus consumidores e sempre ofertar os melhores produtos/serviços, caso contrário, este mesmo consumidor pode ir para as redes ‘gritar’ contra a empresa. A partir daí, torna-se quase que obrigatório as marcas estarem presentes nesses ambientes para ouvir e conversar com seus clientes. E as respostas precisam ser transparentes”, sugere Oliveira.

E essas conversas diretamente com os clientes levam empresas e marcas a entender melhor e mais profundamente suas percepções: comentários em redes sociais, avaliações da empresa em sites especializados, mensagens nos canais de atendimento são ótimas formas de avaliar a percepção dos consumidores. Existem também metodologias que ajudam a entender a percepção e satisfação dos clientes, a exemplo do Net Promoter Score (NPS), a mais utilizada, que com apenas uma pergunta consegue mensurar a satisfação dos clientes.

Para que um cliente recomende uma marca e seja realmente um embaixador, é preciso que ele esteja satisfeito e confie na empresa. “Ninguém recomendará uma marca na qual não confie. Quando os clientes recomendam uma empresa, eles estão emprestando sua credibilidade pessoal para a marca. Para chegar a esse nível, as empresas precisam oferecer uma ótima experiência que vai desde a qualidade do produto e/ ou serviço, o atendimento oferecido, o suporte pós-venda e todo o relacionamento durante a jornada de compra”, recomenda o diretor da Peepi.

Vale lembrar que ações não geram retorno sem constância. “Entendemos que um mecanismo complexo é invariavelmente cercado de várias pequenas coisas mais simples que já funcionam. Por isso, é indispensável pensar, agir e manter a ação”, recomenda o CEO e fundador da consultoria em contabilidade, compliance e intelecto humano Grupo Epicus, Sérvulo Mendonça.

COMECE POR DENTRO

Entretanto, antes de pensar em transformar os clientes em vendedores ou ter embaixadores nas redes sociais, é preciso fazer de seus colaboradores o seu principal time de defensores e propagadores da marca, entendendo que os profissionais que compõem as empresas serão um fator muito importante para a busca de engajamento e relevância nas redes. Só com tal conscientização é que se parte para embaixadores externos.

Um colaborador só conseguirá oferecer um ótimo atendimento e serviço se estiver engajado e comprometido com a empresa. Além disso, não existe empresa com clientes engajados se os colaboradores não estiverem engajados. A diferença é que os colaboradores conhecem os objetivos da empresa e estão totalmente inseridos nos processos de entrega dos produtos ou serviços. Nesse caso, o marketing atua oferecendo um guia para incentivar o engajamento e estabelecer alguns parâmetros.

Para conquistar esse envolvimento do público interno, é essencial ter plena certeza de que o propósito da marca está alinhado com a necessidade do cliente e está amplamente absorvido e entendido pelos colaboradores. Para isso, primeiro é necessário investir muito em treinamento do time para que todos saibam as melhores práticas com intuito de ajudar o cliente e colocá-lo em primeiro lugar. E ninguém cresce assim sem método e disciplina. Neste ponto, Sérvulo Mendonça, do Grupo Epicus, lembra que engajamento é o direcionamento da equipe para o foco na retenção, o que maximiza a gestão interna, aumenta o investimento em “double check”, compliance (programas de integridade), controladoria e governança. “Em nossa última pesquisa de NPS/CSAT, tivemos uma média de 86% de satisfação e possibilidade de indicação do Grupo Epicus”, conta o empreendedor.

É importante trazer o cliente para dentro. “Na área de produtos, por exemplo, sempre envolvemos clientes no processo de desenvolvimento de novas funcionalidades. Queremos entender se o que estamos projetando muda avida dele na prática. Óbvio que isso gera certa expectativa no cliente por algo novo que pode demorar um pouco para ser lançado e ele começa a cobrar um prazo. Mas, se isso acontecer, quer dizer que estamos no caminho certo”, compartilha, por sua vez, João Mano, do Accountfy.

Com isso em mente, o time interno deve ter a mentalidade voltada para ouvir os clientes e entender suas queixas ou considerações, afinal, poucos são os que vão abandoná-lo da noite para o dia (principalmente no cenário B2B) e, para evitar essa derrocada, é importante estar próximo para monitorar esses sinais e corrigir a rota enquanto tem tempo – depois da decisão tomada, dificilmente há como reverter. Os canais de comunicação com os clientes, internos e externos, devem ser, portanto, um dos principais investimentos nesse quesito, aliados a pesquisas cíclicas de satisfação, a exemplo das metodologias NPS (Net Promotion Score) & CSAT (Customer Satisfaction Score).

ALÉM DO PAPEL

Com essa lição de casa feita, o próximo passo é saber o que se busca com esses programas de engajamento. “Parece óbvio dizer isso, mas muitos ainda desafiam o óbvio e, como diz Pâmela Ponce, ‘o óbvio precisa ser dito’. Definir missão, visão e propósito pode ser algo que influencia e ajuda nessa busca futura de ações de marketing. A experiência não está em saber ou não saber marketing, e sim em saber ou não saber para onde se quer ir. Sabendo o caminho a percorrer, a trajetória das ações de marketing pode ser iniciada com empresas especializadas por meio de várias modelagens, tal como marketing off-line, marketing digital, outbound marketing, inbound marketing, marketing de conteúdo. A ferramenta vai depender de saber o que se quer”, reforça Sérvulo Mendonça.

Em seguida, o empreendedor deve identificar quem são os clientes satisfeitos e comunicar-lhes como são importantes para a marca e quanto os valoriza; isso pode ser feito convidando-os para eventos da empresa, oferecendo benefícios exclusivos, convidando-os a fazer parte de um grupo exclusivo como um grupo de WhatsApp, Telegram, Facebook ou outra ferramenta.

A partir daí, será possível pedir-lhes que ajudem a empresa com algumas atividades, como: compartilhar conteúdo sobre a marca em suas redes sociais pessoais, fazer depoimentos de como é a experiência com a empresa, escrever reviews em sites de avaliação e indicar novos clientes. “As pessoas que realizarem essas atividades devem ser reconhecidas, oferecendo algum tipo de recompensa, como descontos, brindes personalizados, serviços exclusivos ou até mesmo um simples muito obrigado vindo de alguém importante dentro da empresa. Isso as incentivará a realizar as ações mais vezes”, indica Thomé. Há a possibilidade também de contratar influencers que tenham público-alvo semelhante ao da marca para ações pontuais ou duradouras – nesses casos, o investimento é maior e deve ser levado em conta.

CASOS DE SUCESSO

Ainda que pareçam medidas simples, a aproximação com os consumidores é bem relevante. Na Accountfy, por exemplo, os clientes têm nome e sobrenome. “Apesar de nossos contratos serem com outras empresas, sabemos que a necessidade e a decisão de nos contratar partiram de um time interno que confiou e nos escolheu. Isso para nós tem muita relevância. Assim, nosso time de costumer experience não mede esforços para encantar os clientes e criar vínculos longos”, exemplifica Mano.

Já na rede de limpeza automotiva Acquazero Eco Wash, o diretor-executivo Henrique Mal compartilha que os clientes ganham pequenos mimos, que fazem toda a diferença. “São ações de baixo custo que repercutem muito bem”, evidencia o porta-voz. Entre os incentivos estão entregar o veículo ao consumidor com tapete vermelho, balas, lixo car, aromatizante e outros procedimentos pequenos que são padronizados entre todas as unidades. ”Acreditamos que o relacionamento entre marcas e clientes é uma das principais estratégias a tomar nos negócios para ter um empreendimento de sucesso. A partir dele é possível criar uma conexão de confiança, que nos permite explorar nossas soluções comerciais, transformando-as em vendas. A consequência é termos também um cliente recorrente em compras, tornando mais rentável a operação”, ressalta Mol.

Independentemente de ser um embaixador contratado ou por meio da clientela, o engajamento faz a diferença no marketing. Murilo Oliveira, da IWM Agency, exemplifica que, para o lançamento de um aplicativo de carona compartilhada, escolheram e comtrataram o músico Seu Jorge como embaixador, que, em vídeo, utilizou o app para viagem, mostrando quão rápido, fácil e conveniente era o serviço. “Em um mês de ação, conseguimos ultrapassar mais de 100 mil downloads do app. Foi um sucesso!”, lembra o especialista.

O fundador da Peepi, por sua vez, compartilha três cases de sucesso de marketing de defensores articulados pela agência: a Resultados Digitais teve 40% dos seus ingressos do RDSummit 2019 vendidos por conta do seu programa de embaixadores; a editora Sanar aumentou em 50% o seu faturamento em um ano; e a empresa voltada para a gestão de negócios Sankhya, por sua vez, conquistou 30 mil compartilhamentos orgânicos em suas redes sociais.

Porém, mais do que tudo, é importante entender que não há uma fórmula mágica de obter clientes satisfeitos – o processo requer disciplina, atenção constante, foco no propósito e no crescimento.

APROXIME-SE DOS SEUS EMBAIXADORES

“IDENTIFIQUE OS SEUS ‘SUPERFÃS”

Identifique quem são os verdadeiros clientes, fãs e defensores da marca e não os confunda. Um cliente ou um fã poderá gostar da marca (quiçá apenas à procura de descontos ou ofertas?) e até comprá-la, mas podem não ser acérrimos defensores dela, partilhando o que esta tem a oferecer.

“SEJA UM BOM OUVINTE”

Na era digital, é extremamente fácil ouvir o que os seus clientes têm a dizer, por isso faça-o. Ouça conversas sobre a sua marca, produto ou serviço. Faça monitorização das menções no Twitter, Facebook e blogs. Depois, responda, envolva-se e use a informação que recolheu.

“INCLUA-OS E MIME-OS”

As pessoas gostam de se sentir diferentes e especiais, e quando o sentem falam nisso. Uma forma fácil de criar embaixadores é trazê-los para o behind the scenes e fazê-los sentir que são efetivamente parte da marca – dê-lhes previews dos produtos, peça dicas, convide-os para visitas especiais, dê-lhes prêmios, agradeça-lhes individualmente. Trate os seus embaixadores como verdadeiros membros da equipe.

TORNE AS COISAS “COMPARTILHÁVEIS”

Os embaixadores gostam de partilhar o que sabem com os outros, portanto, facilite-lhes a tarefa produzindo conteúdos facilmente partilháveis. Por outro lado, convide-os também a partilhar os seus pontos de vista por meio de testemunhos, fotografias, diálogos etc.

“CRIE COMUNIDADES”

Assuma a criação de uma comunidade da marca, onde não só reúne os vários embaixadores da marca como os aproxima ainda mais dela mesma e de si. Esses defensores apaixonados não só partilharão o amor pela marca como também se disponibilizarão a dar ideias e conselhos de melhoria.

10 DICAS PARA INICIAR UM PROGRAMA DE MARKETING DE INCENTIVO

1. Estude o assunto – na internet tem diversos materiais gratuitos que podem ajudar muito na tomada de decisões.

2. Se for internalizar este processo, tenha um profissional dedicado a este tema, pois ele precisará mergulhar e se concentrar nisso.

3. Se preferir, contrate uma empresa especializada – ela abrevia certo tempo, além de já possuir experiência.

4. Construa um conteúdo leve e que seja de fácil aceitação.

5. Evite ao máximo entrar em polêmicas e politização.

6. Use ferramentas de apoio e de social listening.

7.  Nunca desanime! Nenhum negócio parte do zero ao cem em curto espaço de tempo.

8.  Seja obstinado em seu cliente e procure, ao máximo, ouvi-lo e se relacionar com ele de forma natural.

9.  Use as redes sociais que seus clientes mais utilizam e não perca tempo com redes sociais onde seu público-alvo não está.

10. A marca precisa estar diariamente nas redes sociais produzindo conteúdo e se relacionando com os clientes, afinal, quem não é visto não é lembrado!

VANTAGENS DO MARKETING DE DEFENSORES

•  Melhora da reputação e presença digital

•  Aumento da retenção de clientes e colaboradores

•  Conquista de indicações

•  Impulso do alcance de marca

•  Relação mais próxima entre público e empresa

•  Conhecimento de público

COMO TRANSFORMAR CLIENTES EM VERDADEIROS EMBAIXADORES DA MARCA?

1.  Tenha um bom produto/ serviço.

2.  Tenha presença nas redes sociais.

3.  Relacione-se com seus clientes.

4.  Traga seus clientes para próximo da marca e converse diretamente com eles.

5.  Entenda o que ele quer falar e sempre tenha respostas plausíveis.

6.  Use as redes sociais para comunicar-se – cerca de 50% do seu conteúdo deve ser voltado para

vender seu produto/serviço.

7. Redes sociais são lugares para as pessoas consumirem conteúdos relevantes.

8. Quando possível, contrate embaixadores de marca (influencers), para ajudar a aumentar a relevância e o engajamento da marca.

9. Esses embaixadores são fundamentais para o crescimento sustentável.

10. Os embaixadores podem ser porta-vozes da sua marca, assim, sua aceitação será mais orgânica.

ENGAJE SEUS CLIENTES INTERNOS

1. APRESENTE OS CONTEÚDOS – Para serem embaixadores da empresa, os colaboradores precisam conhecer quais são os canais oficiais de divulgação e quais conteúdos têm sido disponibilizados. Que tal enviar uma comunicação interna com algumas sugestões de compartilhamento? Assim, eles vão entendendo quais são os artigos que mais despertam interesse nos clientes.

2. MOSTRE A CULTURA DA EMPRESA – Outra ação para despertar o lado defensor dos funcionários é criar esquemas que mostram quem compartilhou mais ou quem teve mais curtidas. A brincadeira pode render certa espontaneidade e revelar aos clientes o clima descontraído entre a equipe. Mas todo cuidado é pouco para evitar que a descontração vire uma competição desmedida.

3. RECOMPENSE COM STATUS – Falar em recompensas ou premiar os melhores embaixadores da marca pode parecer forçado. Mas, na realidade, oferecer status ao colaborador é uma forma simples de demonstrar sua satisfação com o engajamento dele. Convidá-lo para escrever sobre seu dia a dia no trabalho para o blog da empresa é um bom exemplo.

4. OFEREÇA TREINAMENTO – Uma prática que tem sido adotada em diversos negócios é o treinamento de mídias sociais. Por fim, preparar os funcionários para usar canais como Facebook, Instagram e Twitter pode ser uma forma de expandir a comunicação e a divulgação. Por isso, as orientações a respeito de como a empresa espera ser vista pelos clientes devem ser bastante claras. Nesse momento, o papel do marketing é oferecer os caminhos e simplesmente confiar na atuação dos embaixadores.

AVALIANDO A SATISFAÇÃO DO CLIENTE

O Net Promote Score (NPS) é uma métrica criada por Fred Reichheld das mais conhecidas e utilizadas para fazer avaliações de satisfação. Nela, pergunta­ se, de O a 10, qual a probabilidade de o respondente recomendar a sua marca para um amigo ou conhecido.

Quem responder entre 9 e 10 é considerado um PROMOTOR, uma vez que ninguém recomenda algo para um amigo que não o tenha deixado satisfeito. Nas notas 7 e 8, são os clientes NEUTROS, que usam seus produtos ou serviços quando necessário; enquanto os DETRATORES, que dão notas de O a 6, têm o potencial de criticar abertamente a empresa/marca.

Para calcular o NPS, basta fazer a diferença entre a porcentagem de clientes Promotores e Detratores. Se a sua pesquisa coletou 100 depoimentos, sendo 85 promotores e 15 detratores, seu NPS é de 70.

AÇÕES DE MOTIVAÇÃO E DE ENGAJAMENTO

STATUS – Ofereça botons, logos, pins, assinaturas, badges, entre outras coisas, para que um defensor identifique o status do outro dentro do exército de defensores da marca.

ACESSO – Permita acesso a algo que eles não teriam caso não fossem defensores, como bastidores da empresa, área de produção, convites para eventos etc.

PODER – Dê um pouco mais de poder aos defensores da marca dentro do ambiente corporativo. Exemplo: ele pode representar a marca em eventos regionais ou fazer parte do focus group qualitativo, dando feedback sobre o produto ou o serviço que a marca oferece ou sobre a campanha que lançou.

COISAS – Os defensores da marca falam bem da empresa devido à experiência positiva como cliente e por nunca terem a impressão de que estão sendo comprados ou enganados. Ofereça presentes apenas em momentos bem definidos e de forma clara.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALTA EXIGÊNCIA SOBRE UM IDEAL

A principal característica da síndrome de burnout é o alto estresse provocado por condições de trabalho que exigem envolvimento interpessoal intenso e atividades laborais

A síndrome de burnout é um estado emocional e de estresse crônico que vem acometendo muitos profissionais, principalmente das áreas da saúde, educação, assistência social, policiais e agentes carcerários, mulheres que enfrentam jornadas duplas, entre outras profissões que lidam com altas cobranças e pressões constantes de produção. Estudos realizados apontam que existem atualmente comportamentos que se caracterizam por uma certa exaustão emocional, um afastamento das relações pessoais, baixa autoestima relacionada com a diminuição de sentimento de realização pessoal no trabalho. Existe um processo de alta insatisfação e desilusão com o futuro profissional, que vem sendo denomina- da de síndrome de burnout.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição (DSM- 5) não reconhece a síndrome como uma doença, e ela não consta em sua classificação.

O termo psicológico refere-se à exaustão prolongada e à diminuição de interesse em trabalhar. O termo vem do idioma inglês, burn (queimar) e out (inteiro), e foi utilizado para relacionar com o esgotamento mediante uma atividade laboral.

Os sintomas apontados pela classificação da CID-10 são: esgotamento causando estresse físico e psicológico, com apresentação de dores, cansaço, desânimo, apatia, irritabilidade, alteração no sono e tristeza profunda. Ainda apresenta um desgaste no empenho e na qualidade do trabalho, afetando a autoconfiança, abalo na perserveração e dedicação. Se relaciona também com a falta de repouso e de lazer, habilidades sociais inadequadas e conflitos sociais.

Os três componentes principais apontados pelas CID-10 e 11 são: esgotamento físico e mental, sensação de impotência e falta de expectativa. Pode-se dizer que é um colapso físico e emocional e em muitas vezes é necessária atenção médica imediata devido ao risco de suicídio.

Geralmente o diagnóstico é realizado por profissional de saúde mental, que pode ser o psicólogo e/ou psiquiatra. É feito a partir dos sintomas apresentados, a história pessoal e a contextualização atual. O tratamento é por via medicamentosa e psicoterapia. Mesmo para os pesquisadores da área da saúde que tratam a síndrome, a sua etiologia é incerta, e não se tem ao certo dados suficientes para se fechar um diagnóstico e nem dados estatísticos que mostram o quanto de pessoas são acometidas pela síndrome. Alguns dados sugerem que aproximadamente 40% dos profissionais atualmente apresentam muito estresse, mas não se pode afirmar que passaram a ter a síndrome ou não.

O alto grau de estresse pode ser compreendido pelo movimento inefável da pós-modernidade preconizado pelo capitalismo contemporâneo. Hoje tudo é muito rápido, volátil, a sociedade se liquidifica a cada instante, espalhando seu piche que objetaliza as relações pessoais. As pessoas estão inseguras, angustiadas, individualistas, competitivas até consigo mesmas, as ideias de produção desenfreada tomam conta do sujeito que trava verdadeiras lutas internas e externas para dar conta das exigências capitalistas. Hoje, se vale o que se tem, e aquele que não tem vai tentar conseguir de qualquer forma, vale até tirar a vida humana por causa de um celular. O ser humano está se desumanizando, está no processo de coisificação, se transformando em um robô de trabalho para não ser descartado como um mero objeto inútil.

Esse sinal de desumanização deixa o sujeito longe das relações humanas, ele não sabe mais como lidar com o outro nem suportar as frustações mínimas que fazem parte do humano.

Como exemplo, pode-se tomar a rede pública de trabalho no Brasil, como a saúde e a educação, e nem precisamos falar de outros setores, vamos compreender perfeitamente o universo incerto em que os profissionais vivem Trabalha-se muito, sem condições materiais e humanas, paga-se pouco, profissional precisa trabalhar em dois ou três empregos, a ética impõe que faça um trabalho decente, mas o Estado não dá as condições mínimas; a expectativas e cobranças sociais sã enormes, deixando o profissional em uma sinuca de bico. Os profissionais deparam com suas próprias necessidades, e com as péssimas condições para o trabalho e a impossibilidade de exercer dignamente sua profissão, isso leva o sujeito ao mais alto grau de estresse, e acaba no adoecimento.

Considerando as perspectivas do mundo pós-moderno e o sujeito visto pela Psicanálise, entende-se que os sintomas evoluem de acordo com a cultura. Pode-se dizer que a síndrome de burnout é um desses sintomas modernos.

O olhar da Psicanálise se volta para um ego decepcionado, por sua alta exigência sobre um ideal que busca realizações constantes e se decepciona consigo mesmo, provocando sintomas como uma defesa depressiva do narcisismo despedaçado.

Ego é uma forma de funcionamento em decorrência de um conjunto de representações inconscientes, é uma parte do psiquismo que lida com a realidade e tenta de alguma forma neutralizar os impulsos incessantes do id, que é uma outra instância movida somente pelo princípio do prazer, é o lugar que aloja o inconsciente humano. É um campo de força constante que exige do ego um enorme esforço para não o deixar tomar conta das nossas emoções, e uma das maneiras encontradas de defesa contra essa pulsão são os mecanismos de defesa psíquica, sendo os sintomas uma delas.

No caso da síndrome de burnout, pela perspectiva psicanalítica é uma ferida narcísica, uma das piores dores psíquicas, que resulta da distância entre os projetos ideais (ego ideal) e a realidade. Uma experiência de fracasso, mesmo sendo algo impossível, leva o sujeito a uma frustação visceral, a um processo de autodepreciação, como se ele perdesse uma parte de si próprio. Ele se sente o pior dos seres vivos, os fatos não são observados, as faltas não são sentidas como uma contingência da condição humana, mas uma derrota pessoal.

Tem casos que podem chegar até a uma despersonalização, na qual o ego cinde para não lidar com a realidade, é uma defesa para lidar com o outro de uma maneira saudável.

Voltando ao texto freudiano, O Mal-Estar na Civilização (1930), ele diz que o convívio humano impõe sacrifícios e renúncias que geram mal-estar e infelicidade. E no caso especificado neste texto, a síndrome seria uma forma de sobreviver ao mal-estar inerente às relações humanas.

No caso de tratamento pelo viés psicanalítico, teria que se trabalhar o sujeito em seus mais profundos sentimentos relacionados com a imagem de si, imagem do corpo, com o desejo dos outros (figuras parentais), que permearam a sua vida. Trabalhar a onipotência, a impotência, onisciência, onipresença, que são as formas primitivas do inconsciente, para que esse sujeito possa lidar minimamente com a realidade. Somente um processo analítico que permita que esse sujeito se veja e faça suas res- significações é que pode levá-lo a uma estrutura egoica melhor. Há casos que precisam de ajuda médica e medicamentosa para poder preservar a saúde física e psíquica do sujeito que está mergulhado em um sofrimento profundo. Mas também é necessário um acompanhamento psíquico para ajudá-lo a se reconhecer e promover mudanças na sua vida pessoal e interpessoal.

A Psicanálise não vê o sujeito como uma doença, mas uma maneira de se conduzir na vida mediante a história de cada um, é a novela familiar vivida na primeira infância que norteará a maneira de existirmos no mundo. E às vezes essa história vivida leva às profundidades das dores. Mas tem saída, uma aná- lise ajuda o sujeito a viver melhor.

A Psicanálise é um processo terapêutico que trabalha os conteúdos inconscientes que são as causas do sofrimento; isso faz com que o sujeito sustente o seu desejo, que lide com a realidade de uma forma possível, que conheça os seus sentimentos, que reconheça suas potencialidades e impossibilidades, que estabeleça laços sociais, que conheça principalmente as causas do seu sofrimento e assim possa eliminá-las para ter melhor qualidade de vida.

ARACELI ALBINO – é doutora em Psicologia pela Universidad del Salvador (Buenos Aires, Argentina). Presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – Sinpesp. Psicóloga e psicanalista, pós-graduada na PUC. Possui especializações em: Psicoterapia/Psicodinâmica de adultos e adolescentes; Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea; professora e coordenadora do Curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas.

EU ACHO …

O IMPULSO

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. Há um perigo: se reflito demais, deixo de agir. E muitas vezes prova-se depois que eu deveria ter agido. Estou num impasse. Quero melhorar e não sei como. Sob o impacto de um impulso, já fiz bem a algumas pessoas. E, às vezes, ter sido impulsiva me machuca muito. E mais: nem sempre meus impulsos são de boa origem. Vêm, por exemplo, da cólera. Essa cólera às vezes deveria ser desprezada; outras, como me disse uma amiga a meu respeito, são cólera sagrada. Às vezes minha bondade é fraqueza, às vezes ela é benéfica a alguém ou a mim mesma. Às vezes restringir o impulso me anula e me deprime; às vezes restringi-lo dá-me uma sensação de força interna.

Que farei então? Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PASSAPORTE DA IMUNIDADE

O mundo tenta retomar as condições de vida normais e, para alcançar essa situação, sistemas de controle de saúde estão sendo implantados nos aeroportos de vários países. A partir de agora, quem não fizer testes e não tomar vacina terá dificuldades para viajar

Viajar pelo mundo começa a ficar mais complicado e novas barreiras estão sendo criadas para impedir a circulação do coronavírus e identificar os movimentos de pessoas infectadas. Além de simples proibições, como a Alemanha fez agora com cidadãos do Reino Unido, da Irlanda, de Portugal, do Brasil e da África do Sul, impedidos de entrar no país, começa a haver um controle duplicado dos cidadãos que cruzarem qualquer fronteira. Eles só poderão entrar no país desde que estejam imunizados ou devidamente testados e, mesmo assim, serão monitorados à distância. Com o crescimento do nível de agressividade da Covid-19, essas medidas de controle se tornaram mais rigorosas e tendem a ser padronizadas. Na prática, um novo documento sanitário está sendo criado: uma espécie de passaporte da imunidade exigida para turistas. É certo que a pandemia ameaça a intimidade das pessoas com o controle em tempo real e a apresentação de atestados eletrônicos, mas não há outra saída. A partir de agora, quem não fizer testes e tomar vacinas será “persona non grata”.

Desde o início da pandemia há um esforço para o desenvolvimento de planos que possam contribuir para a contenção das contaminações e, consequentemente, a retomada da vida normal em vários países. Por isso, a União Europeia propôs, na quarta, 17, um projeto que pretende organizar as especificidades de cada região do bloco, oferecer segurança à população e, aos poucos, trazer de volta os turistas. O documento está sendo chamado de “Certificado Verde Digital”, que reunirá informações dos viajantes, como comprovante de vacinação, resultado de teste contra a Covid-19 ou um atestado de recuperação da doença. Além disso, no documento deve constar o nome do imunizante tomado, o número de doses aplicadas, a data e o local onde ocorreu a vacinação. Nesse caso, quem tomou doses de vacina da BioNTech/Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen terá total liberdade de circulação. No caso de imunizados com vacinas não reconhecidas pela Agência Europeia de Medicamento (EMA), caberá ao país que está recebendo o viajante aceitar ou não a sua estadia. A intenção de limitar a circulação com a quarentena não é à proposta de Israel. No Oriente Médio, destaca-se o compromisso do governo com o arrefecimento da pandemia por meio da vacinação em massa.

USO DE RASTREADORES

Mesmo assim foi estabelecido o uso da tecnologia para ajudar na batalha contra a Covid-19. O país distribuiu um sistema de rastreamento composto de celular, dispositivo rastreador e uma pulseira eletrônica aos turistas que desembarcam no aeroporto da capital, Tel Aviv. O turista apresenta o resultado negativo do teste, tipo PCR, e coloca a pulseira. O sistema emite um alerta caso a pessoa retire o dispositivo do braço, mas com isso o viajante pode ir direto para casa em vez de ficar confinado em um hotel. O turista deve usar a pulseira durante os 14 dias equivalentes ao período da quarentena.

A implantação de sistemas tecnológicos de análise da saúde de turistas também é a forma preferencial de controle adotada pela China. O país colocou em prática a utilização do teste por QR Code. Assim que chega, o turista passa suas informações pessoais de viagem, especificamente se teve alguns dos sintomas principais relacionados com a Covid-19. Depois, ele recebe um código QR, que aponta se o viajante está ou esteve doente, ou ainda se é apenas uma suspeita de infecção. O dispositivo contempla os últimos 14 dias a partir da chegada. O aplicativo já funciona em mais de cem cidades da China e outros países, como Rússia e Japão, manifestaram interesse em adotar um sistema semelhante. A exigência de um passaporte de imunidade representa uma intromissão por parte do Estado na vida particular dos turistas, mas não tem jeito. A Covid-19 exige esse tipo de estratégia, pois o comportamento de cada pessoa e o controle de seus movimentos são importantes para debelar a contaminação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE ABRIL

O TRABALHO PRODUZ RIQUEZA

O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta (Provérbios 13.4).

A preguiça é a mãe da pobreza e a irmã gêmea da fome. O preguiçoso alimenta o coração com devaneios e o estômago, com escassez de pão. Ele fala de grandes projetos, mas não realiza nem mesmo pequenas coisas. Anuncia aos quatro cantos que está edificando um arranha-céus, mas lança as bases apenas de um galinheiro. O preguiçoso deseja muitas coisas, mas nada tem. Anseia pelos frutos do trabalho, mas não ama o trabalho. Prefere o sono e o conforto à fadiga da luta. O trabalho é uma bênção. Foi Deus quem o instituiu, e isso antes mesmo de o pecado entrar no mundo. O trabalho continuará na eternidade, mesmo depois que o pecado for banido da criação. O trabalho não apenas tonifica os músculos do nosso corpo, mas também fortalece a musculatura da nossa alma. O trabalho farta a alma dos diligentes, produz riquezas, promove progresso, multiplica os recursos naturais. Torna a vida mais deleitosa, a família mais segura e a sociedade mais justa. O trabalho engrandece a nação e traz glória ao nome de Deus. Fomos criados por Deus para o trabalho. Aquele que nos criou é nosso maior exemplo, pois ele trabalha até agora. Não se renda à preguiça; trabalhe com diligência!

GESTÃO E CARREIRA

RESILIÊNCIA E FOCO NO PROPÓSITO

Fundadora da marca de mobiliário infantil Ameise Design, a arquiteta Luciana Raunaimer atribui o sucesso da empresa à transparência e ao bom atendimento

Que 2020 foi um ano difícil e desafiador, não há dúvidas. Mas, além de encarar a pandemia da Covid-19 e suas consequências econômicas, imagine lidar com um incêndio na fábrica de seu principal fornecedor seguido por um alagamento no depósito em que estavam 80% do seu estoque.

Foi assim que a arquiteta e empresária Luciana Raunaimer e seu marido e sócio, Diego Verli, começaram o ano. No entanto, o que para muitos poderia ser o momento decisivo para abandonar o projeto ou mudar os planos, para eles foi mais um desafio a ser enfrentado com a Ameise Design, marca de móveis e decoração infantil.

A oportunidade de empreendedorismo foi desenhada e almejada pela Luciana logo após desligar-se de um emprego formal em arquitetura em obras de alto padrão, em fevereiro de 2012. Coincidentemente, na mesma época, resolveu presentear um amigo com um berço para o filho que iria nascer, mas, por não encontrar nada no mercado que lhe agradasse, decidiu revisitar um projeto com inspiração nostálgica da época da faculdade, pondo-o em prática. Luciana aproveitou o projeto para garantir espaço na feira Baby Boom, com objetivo de expor protótipos de mobiliário infantil. “Na graduação, eu já via no nicho de mobiliário infantil uma carência em alternativas diferenciadas e com capricho no design – era tudo ‘mais do mesmo’. Meu foco, nos desenhos, foi oferecer beleza e funcionalidade e, até por isso, parti daí para desenhar as primeiras peças, sem olhar ou me basear no que já tinha no mercado. E foi assim que acertamos”, conta a empreendedora.

Apesar de levar apenas dez projetos 3D de quartos infantis destinados ao público de O a 12 anos e um protótipo feito de última hora por um marceneiro, pai de um amigo, conseguiram fechar negócios com seus primeiros dez clientes, os quais buscavam itens diferenciados para seus pequenos. Isso impulsionou o casal a oficializar a abertura da Ameise Design, em 2012, que contou com um investimento inicial de R$3 mil.

A despeito do pontapé inicial dado sem grandes pretensões, o primeiro desafio da marca aconteceu logo em seguida: encontrar fornecedores e mão de obra especializada para tirar aqueles projetos do papel e transformá-los em realidade. “Fui para a feira com a cara, a coragem e a paixão por aquilo que estava ofertando. E nossos primeiros clientes enxergaram isso! Por sermos bem transparentes e honestos a respeito dos nossos problemas com fornecedores, foram extremamente pacientes e compreensíveis e, em junho e julho, conseguimos, enfim, entregar os primeiros projetos, feitos por um fornecedor que encontrei a quase 400 quilômetros de São Paulo, onde é a nossa sede, e que é, até hoje, nosso principal fornecedor”, pontua a fundadora da Ameise.

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

Por oferecer projetos inéditos e customizados, feitos em madeira maciça em design de alto padrão, em janeiro de 2013, a empresa já faturava de R$80 mil a R$100 mil por mês, ofertando produtos que não só propiciassem qualidade estética a quartos infantis, mas que oferecessem também caráter lúdico às peças.

Apesar do alto giro no caixa, a empresa ainda era comandada de maneira improvisada, na casa do casal. Com a contratação de uma secretária para ajudar no atendimento a clientes, Luciana sentiu a necessidade de buscar um local mais formal, em que pudessem estabelecer a loja/showroom e atender pessoalmente. Encontraram um lugar no tradicional bairro da Vila Olímpia, zona sul da capital paulista, local em que, pouco tempo depois, recebeu a artista plástica Adriana Varejão e o produtor Pedro Buarque de Hollanda para fazer o design do quarto da filha do casal. Na época, o estúdio buscou novas parcerias com fabricantes que produzissem seus projetos prezando alta qualidade, responsabilidade técnica e respeito ao meio ambiente, recheando sua cartela com novos itens, propostas de mobiliário, novos materiais e acessórios.

Em agosto de 2013, Luciana entendeu que precisava se dedicar à direção criativa, ao desenvolvimento de produtos e aos atendimentos a clientes, então formalizou a contratação do marido para dedicar-se fulltime à empresa, à frente da execução dos projetos (medição, marcenaria e montagem). Pouco mais de dois anos depois, chegaram a empregar mais de 30 profissionais diretamente para atender à demanda e ao aumento substancial que veio com a parceria com a Fast Shop. “Foi uma época bem intensa, de muitas entregas e crescimento alto. Mas, com a correria, entendemos que estávamos nos distanciado da nossa proposta de entregar design e qualidade em cada projeto; a demanda era tanta que não conhecíamos cada cliente com a intensidade que julgávamos necessária. Decidimos então, em 2016, focar e manter o formato de studio, deixando de lado o negócio de varejo para assumir o papel de empresa de design”, conta Luciana.

FUTURO PROMISSOR

Com a criação de mais de 1O mil quartos nessa trajetória de oito anos, a arquiteta tem orgulho de elaborar cenários para as mais doces lembranças, atualmente oferecidos no showroom próprio em São Paulo e em mais 30 revendedores especializados em todo o Brasil, com perfil semelhante que oferece atendimento e assistência padrão Ameise. “Nos dedicamos constantemente à busca de novos fornecedores e à criação de novas linhas de mobiliário, decoração e acessórios, sempre com o objetivo de oferecer atendimento mais humanizado e individualizado a fim de proporcionar uma experiência completa ao cliente, com cuidado e carinho em todas as etapas da construção do quarto de crianças”, lembra Luciana.

Hoje, com menos de urna década de história, a marca se prepara para a demanda que virá com a parceria de cobranding de design acessível recentemente firmada com a rede varejista de móveis infantis Abra Cadabra. “Com a retração econômica de 2020, aproveitamos para revisitar nossos processos internos para conseguirmos aprimorar nossa excelência e aumentar, ainda mais, nossos padrões. E, mais do que vender milhões, queremos ser sempre reconhecidos corno produto de design que faz parte de um desejo e de um sonho em um momento/período tão especial para nossos clientes”, pontua a fundadora da Ameise, que se define como “arquiteta que brinca de design e rala como empresária”.

AMEISE EM NÚMEROS

• Entregas de seis quartos por dia, em média 100 quartos por mês

• Produtos entre R$50 e R$7 mil

• Tíquete médio de R$3 mil

• Cerca de 3 mil SKUs, entre poltronas, camas, cômodas, acessórios e outros

• 1 showroom em São Paulo e mais 30 revendedores especializados por todo o Brasil

• Faturamento de R$6 milhões em 2019

• Crescimento previsto em 2020 é de aproximadamente 80% do equivalente a 2019

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APRENDIZAGEM INFLUENCIADA

Abordar a questão da personalidade dos professores é algo delicado, pois lida com dois temas que são controversos e polêmicos, além de serem áreas distintas: a Psicologia e a Educação

Eu acredito que todos nos lembramos de algum professor (ou alguns professores, se você puder falar no plural) que tivemos em nossa trajetória. Mas pelo menos um foi especialmente memorável? A resposta para esta pergunta nunca é simples e, como ocorre com a maioria das coisas, requer uma análise multifatorial.

Eu entendo que uma das possíveis respostas está na personalidade do professor. No entanto, falar sobre personalidade e sobre professor é algo delicado, pois abordamos dois temas que são controversos e também que são de áreas distintas, a Psicologia e a Educação, muito embora estas áreas sejam intercambiáveis. Para dar conta da árdua tarefa, em parte, a análise que farei será realizada com base em alguns autores selecionados e, em outra parte, a partir de minha experiência pessoal, tanto na figura de professor quanto na figura de gestor escolar, cuja tarefa é, entre outras tantas, analisar o trabalho de colegas professores e sugerir mudanças em prol da aprendizagem do aluno.

SITUAÇÃO COMUM

Estamos em uma escola pública hipotética, no centro de uma grande metrópole, aqui no Brasil. Nesta escola, que enfrenta os típicos problemas de qualquer instituição de ensino, há uma questão intrigante. Há uma turma de 8º ano do ensino fundamental, entre outras duas turmas de mesma escolaridade, que apresenta uma grande dificuldade para seus professores. É uma turma dispersa, com grande número de faltas de alunos; estes, em sua quase totalidade, são bastante indisciplinados e normalmente causam muitos problemas para os professores ministrarem suas aulas, em certos casos até impedindo; o rendimento da turma é baixo, com raras exceções, e há uma grande probabilidade de um alto índice de reprovação. A direção já tentou várias estratégias junto aos alunos e aos professores, mas as respostas não são satisfatórias.

Nesse quadro pouco animador para os professores da escola pública hipotética, há uma exceção. Uma professora. Ela consegue ministrar suas aulas nesta turma, e bem. Nos dias em que ela ministra suas aulas, há poucas faltas. O rendimento, com ela, é bem melhor do que a média dos demais professores nas respectivas disciplinas. Os alunos a adoram, e não reclamam nem mesmo quando ela solicita um tempo vago (pela falta de outro professor) para reforçar algum conteúdo que vê necessário. Essa professora se preocupa com a turma como um todo e com problemas em particular de alguns alunos, que são com ela divididos. A direção, ocasionalmente, ao passar pelo corredor de um andar da escola, tem a sua atenção chamada para duas situações possíveis: ou a sala da professora está em completo silêncio – e ao abrir a porta o diretor se depara com todos quietos, fazendo deveres, copiando do quadro ou ouvindo uma explicação – ou a sala está uma completa algazarra, com a professora rindo com os alunos, contando piadas ou fazendo alguma atividade divertida.

Por que será que essa professora consegue ministrar suas aulas, é querida pelos alunos, tem bom rendimento com a turma e os demais não? Qual será o segredo? Bem, vamos tentar responder isso ao final deste artigo.

Antes, vamos fazer outro exercício imaginativo. Vamos supor que você fez um curso de formação de professores juntamente com seu melhor amigo. Vocês tiveram a mesma formação, compartilharam estudos, se graduaram com notas semelhantes, possuem basicamente o mesmo conhecimento. Ministram a mesma disciplina. Porém, atuarão da mesma forma em sala de aula? Podemos supor que vocês atuarão de forma diferenciada perante suas turmas. E igualmente podemos supor que o que faz com que haja tal diferença reside, em grande parte, na sua personalidade.

SUBJETIVIDADE

Lígia Martins é uma das principais pesquisadoras na área da personalidade docente no Brasil. Ela aborda a questão da subjetividade do professor no sentido de reconhecer que não há como dissociar a personalidade do professor da tarefa docente. Por outro lado, a autora considera também, em uma abordagem socio- cultural de influência claramente vygotskyana, que o trabalho docente está inserido em um contexto político-econômico-ideológico, de forma que não há como dissociar a questão docente das demais questões que influenciam o contexto da escola. E este é, claramente, um fator importante a ser considerado.

Ao tratar da questão da personalidade, a autora a reconhece como sendo um termo de difícil definição pelo seu caráter polissêmico. Embora reconheçam-se a necessidade e a validade da análise desenvolvida para se poder conceituar tal termo, consideramos como suficiente para os propósitos aqui estabelecidos ponderar que a personalidade se refere ao sistema subjetivo de referências construídas pelo indivíduo para se relacionar com o mundo, mas que é condicionada a partir das suas atividades objetivas. Assim, define-se como “uma formação psicológica que se institui como resultado das transformações das atividades que pautam a relação do indivíduo com o meio físico e social”.

Tal inferência sobre a questão da personalidade do professor também está presente no trabalho de António Nóvoa sobre formação de professores, no qual este ressalta que o professor é, antes de mais nada, pessoa, e que parte importante da pessoa é professor, além de que o trabalho de formação docente é um “trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal”, indo muito além dos cursos, do conhecimento ou das técnicas acumuladas. Além disso, ressalta que as vivências e experiências de vida – pessoais – são fundamentais na formação docente.

VALORIZAÇÃO

Uma questão fundamental que discutimos no início deste artigo é que todos nós tivemos professores. E talvez ainda tenhamos. O que exatamente faz com que eles sejam marcantes e memoráveis para nós? Talvez seja a forma carinhosa, ou dura, ou genial, ou qualquer outro atributo que nos marcou de tal forma que tornaram esses professores importantes, ou mesmo modelos para quem se aventurou pela carreira docente (seja em relação ao aspecto positivo ou do que fazer, ou negativo, do que não fazer). Mas em se tratando de professores, normalmente são memoráveis para nós aqueles que, por características ou dimensões de sua personalidade que são facilmente distinguíveis, se fazem lembrar.

David Fontana escreveu, há pouco mais de duas décadas, um livro intitulado Psicologia para Professores. Na obra, ele faz uma pergunta importante: como deter- minar o que é um “bom” professor, que características ele deveria ter? Mas mais importante ainda é seu entendimento de que não é possível reconhecer o comporta- mento do professor sem reconhecer igualmente o comportamento de seus alunos. É uma interação. E podemos, ainda, tornar a tarefa mais difícil, ao determinarmos que é necessário incluir outros aspectos neste contexto, como a cultura da sociedade na qual trabalha esse professor, a microcultura local da escola, incluindo o professor, seus alunos, outros professores, direção, funcionários, responsáveis (enfim, a comunidade escolar) e até falar de outros aspectos, como o projeto político-pedagógico, a coordenação pedagógica e por aí vai.

Inobstante isso tudo, Fontana cita outro autor para estabelecer alguns traços que definem o professor bem-sucedido na forma de tendências: afetuoso, compreensivo, amistoso, responsável, sistemático, imaginativo e entusiástico, o que ele descreve como “um assustador catálogo de excelência”! Jésus Guillén também relata em seu livro algumas características, a partir da pergunta “o que você espera de um bom professor?” a alunos de bacharelado. Os maiores índices de resposta foram concentrados em cinco quesitos: “se preocupa com o aluno”, “mostra entusiasmo”, “conhece sua matéria”, “é compreensivo” e “é simpático”. Estes resultados podem evidenciar que as características socioemocionais positivas possuem importância dentro da questão do professor que é valorizado por seus alunos. Mas será que isso é suficiente para designarmos um bom professor a partir de suas características de personalidade?

BIG FIVE E O PROFESSOR

Sendo a personalidade uma formação psicológica que pauta nossa relação com tudo o que nos cerca, ela acaba sendo algo que nos define por meio de nossas ações. E é uma característica que, embora mutável, é igualmente relativamente estável. Wayne Weinten, Dana Dunn e Elisabeth Hammer definem a personalidade nestes termos, ao considerarem que “personalidade se refere à constelação única de traços comportamentais de um indivíduo” que, basicamente, dependem de dois fatores: a consistência, ou estabilidade do comportamento do indivíduo ao longo do tempo, e a distintividade, ou diferenças de reação individuais a situações idênticas.

Em termos das dimensões de personalidade que podem ser distinguíveis, os autores citam o trabalho de Robert McCrae e Paul Costa, que elencaram cinco componentes da personalidade em sua teoria dos cinco fatores: extroversão, neuroticismo, socialização, conscienciosidade (ou capacidade de realização) e abertura a experiências. Resumidamente, o primeiro componente, extroversão, se refere a um indivíduo otimista, amistoso, assertivo e gregário, ou seja, emocionalmente positivo. O neuroticismo, ao contrário, se refere a um indivíduo emocionalmente negativo, ou seja, ansioso, hostil e vulnerável. A socialização se refere aos vários tipos de interação social do indivíduo, em especial a altruísta. Na conscienciosidade, pessoas tendem a ser disciplinadas, bem organizadas, pontuais e confiáveis. Abertura a experiências se refere a curiosidade, flexibilidade, fantasia vívida, imaginação, sensibilidade artística e atitudes não convencionais.

No que diz respeito à questão da importância dos traços de personalidade na escolha de carreira por alunos de cursos de formação de professores, Robert Tomšik e Victor Gatial asseveram que os traços de personalidade socialização, conscienciosidade, abertura a experiências e neuroticismo são preditores da escolha entre estagiários de cursos de formação de professores. Porém, não da mesma forma. Naqueles que escolhem ser professor como principal motivo, altos traços de socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e baixos traços de neuroticismo estão presentes, enquanto que em outros que escolhem ser professor como segunda opção encontra-se exatamente o oposto: altos traços de neuroticismo e baixos traços dos demais. Como características importantes, consideram, entre outros, autoconfiança, paciência, flexibilidade, persuasão, conscienciosidade, sociabilidade, tolerância e altruísmo.

Em outro estudo com 416 professores de Istambul, Hasan Bozgeyikli relatou que traços de personalidade como extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências e as subdimensões otimismo, esperança, resiliência e autoeficácia estão presentes em alto grau, porém não com o traço de personalidade de neuroticismo.

ALGUMAS APROXIMAÇÕES

Neste ponto do artigo já parece bem estabelecido que há influências da personalidade do professor na aprendizagem em sala de aula, seja em termos de seu comportamento, seja pela escolha da metodologia ou de outros procedimentos em sala de aula. As escolhas parecem ser determinadas, parcialmente, por sua personalidade.

Que fique claro, não se trata aqui de culpabilizar o professor que tem determinada personalidade por um suposto fracasso escolar, ou ainda dizer que o professor que tem outra determinada personalidade terá garantia de sucesso. Já foi mencionado que há uma multiplicidade de fatores que influenciam o trabalho docente. O que se pretendeu neste artigo foi determinar até que ponto a personalidade do professor influencia na aprendizagem em sala de aula. E como podemos usar nossos traços de personalidade a nosso favor. E em relação à prática docente, podemos inferir de forma bastante segura que aqueles professores que possuem características de personalidade relacionadas à estabilidade emocional costumam apresentar melhor interação com os alunos, melhor controle de turma e melhor rendimento. Ao analisarmos os traços do Big Five apresentados como relacionados a um bom trabalho docente, extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura a experiências aparecem como importantes. Vimos que foram identificados subdimensões como otimismo, esperança, tolerância, flexibilidade, persuasão, resiliência, altruísmo e autoeficácia como também importantes.

Considerando que os principais traços e subdimensões entendidos como importantes elementos de personalidade do professor bem-sucedido na escola nos remetem a um indivíduo organizado, emocionalmente estável e proativo, podemos supor que tais características podem ter profundas implicações no trabalho docente. Quando temos dificuldades para escutar os alunos, para dialogar, para termos sensibilidade emocional em lidar com os (inúmeros) problemas que surgem em sala de aula, estamos também permitindo que nossa personalidade influencie negativamente nossa ação docente?

Voltando à nossa professora hipotética do início deste artigo – e creio que você deva ter desconfiado que não seja tão hipotética assim –, vários destes traços foram identificados em sua personalidade: extroversão, conscienciosidade, abertura a experiências e socialização certamente estiveram presentes em altos níveis, bem como neuroticismo em baixos níveis. Em nosso contato pessoal, podemos dizer, tais traços e as características deles decorrentes fizeram uma grande diferença no trabalho docente em sala de aula. E talvez aqui esteja nossa resposta, pelo menos parcialmente, às perguntas feitas no início do artigo.

Mas a grande questão que se impõe agora é: temos então que mu- dar nossa personalidade para termos sucesso na ação docente? Não creio que se trate disso, até porque vimos que a personalidade envolve características relativamente permanentes, embora também sejam possivelmente mutáveis. De fato, você não é a mesma pessoa que há cinco anos. Mesmo que sutilmente, seus interesses provavelmente mudaram, e a forma como você lida com as pessoas também.

A reflexão sobre nós mesmos transformadas em ações, e sobre como podemos equalizar nossas questões pessoais e nossa personalidade com as ações docentes parece ser um bom caminho para o sucesso no ambiente escolar, em nosso próprio benefício. Muitas vezes, uma mudança de estratégia no lidar com determinados problemas inerentes ao ambiente escolar pode impactar na forma como enxergamos nossas atitudes e provocar aquelas sutis mudanças em nossa personalidade.

O que talvez possa ser menos discutível é que determinadas características que estão associadas à personalidade, como bom humor, tolerância a frustrações, flexibilidade, paciência/resiliência e persuasão auxiliam muito no trabalho docente, especialmente em um momento sócio-histórico em que a baixa tolerância, o enfrentamento e a violência, em suas várias manifestações, parecem ser lugar-comum dentro das escolas.

EU ACHO …

FACILIDADE REPENTINA

O bem-estar. É uma coisa muito estranha: a comida é boa, o coração é simples, encontro um menino na rua jogando bola, eu lhe digo: não quero que você brinque de bola em cima de mim, ele responde: vou tomar cuidado. Fui ver um filme, não entendi nada, mas senti tudo. Vou vê-lo de novo? Não sei, posso dessa vez não estar em bem-estar, não quero arriscar, posso de repente entender e não sentir.

E houve a amiga. Ela estava com ciúmes. E não suportei bem: o ciúme dela exigia. Então falei claro: disse-lhe que ela podia estar estragando uma amizade que poderia durar a vida inteira. Ela sofreu e, por amizade pura, resolveu desistir de mim. Depois me disse que a amizade verdadeira sabe desistir. Mas eu não desistira. E houve um dia que telefonei de novo para ela. Enquanto isso, nós “trabalhávamos” no perigo da amizade desfeita. Nós nos vimos. E agora está muito, muito melhor. Estamos simples. Ela diz que eu sou engraçada. Suporto bem: parece que às vezes sou espontânea demais e isso me torna engraçada. Em casa a cozinheira fez canjica. Minha amiga é doida por canjica. Ela veio em casa, achou a canjica boa, e simplesmente repetiu.

E há os filhos. Bem-estar com os filhos. Franqueza, amor natural. E houve uma grande amiga que passou o fim de semana fora. Senti falta dela, mas com bem-estar: agradava-me que ela descansasse.

E houve um velho amigo a quem pretendi pedir emprego. Ele estava em Brasília. Quando telefonei-lhe, falei com quem devia ser o seu pai. Disse meu nome. E o pai teve alegria ao ouvir meu nome. Também eu estou aceitando meu nome, nessa onda de alegria calma, eu que achava meu nome estranho e gaguejava ao pronunciá-lo. E estou aceitando acordar de madrugada e esquentar café para mim. O café quase queimou minha boca. Aceitei.

E eu, que raramente faço visitas, resolvi de surpresa visitar uma amiga. Só que antes fui tomar num bar uma batida de caju, eu que não bebo e quando bebo, bebo mal: bebo depressa demais, sobe à cabeça, me dá sono. Encontrei várias pessoas na casa que visitei. A mãe de minha amiga estava muito bonita. Vocês veem como estou escrevendo à vontade? Sem muito sentido, mas à vontade. Que importa o sentido? O sentido sou eu.

E meu menino menor está indo a festinhas. Não quer me contar o que acontece nas festinhas. E eu aceito.

Tenho falado muito em dinheiro porque estou precisando dele. Mas táxi eu tomo de qualquer jeito. E converso com o chofer. Ele gosta também. Encontrei um que tinha nove filhos: achei demais.

E depois ando meio bonita, sem o menor pudor: vem do bem-estar.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

ENTRE O MEDO E A ESPERANÇA

Pesquisa mostra que o brasileiro subestimou a pandemia, culpa Bolsonaro pela crise, acha que sua situação financeira vai piorar e teme morrer – embora ainda acredite em uma melhora nos próximos meses

Riobaldo acordava assustado em meio à madrugada, pressentindo que algum perigo se avizinhava. “A vida é ingrata no macio de si”, reflete ele. “Mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.” Tal passagem de Grande Sertão: Veredas transcende o universo mágico de Guimarães Rosa e serve para resumir a quase inquebrantável capacidade de resiliência do povo brasileiro. Nos tempos atuais, a terrível agrura que tira o sono de todos é o vírus invisível. Ele se espalha cada vez mais rápido e sufoca até matar, provocando uma tragédia sem precedente. O Brasil ultrapassou nesta semana o número de 300.000 mortos pela Covid-19 e, pela primeira vez, a pandemia vitimou mais de 3.000 pessoas em um só dia. O sistema de saúde nacional entrou em colapso e praticamente não há vagas em UTIs. Apesar disso, mesmo à beira de um ataque de nervos por terem subestimado o potencial de estrago do inimigo e diante de autoridades que custam a se entender na tomada de medidas urgentes, as pessoas não perderam o otimismo e a fé.

É essa mistura de medo e de esperança que aparece com nitidez em um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas feito com exclusividade sobre os sentimentos da população neste momento. Realizado entre os dias 12 e 16 de março, com 2.334 entrevistas no país, o trabalho mostra que a desolação com a situação atual do Brasil nunca foi tão flagrante. Mas, ainda assim, existe uma certa esperança que leva a crer que o futuro poderá ser diferente. Há um empate técnico entre aqueles que acreditam na melhora da situação sanitária nos próximos meses (39,5%) e os que creem na piora do desastre (41,5%).”Esse é o estilo brasileiro de dizer que “a vida continua”, diz o antropólogo Roberto DaMatta.

Há, de fato, motivos para a sensação deque nem tudo está perdido. Apesar de atrasado, o cronograma da vacinação deverá ganhar tração a partir de abril, quando o Ministério da Saúde receberá pelo menos 47 milhões de doses. Enquanto o cenário não muda, o brasileiro passa os dias remoendo seus medos e inseguranças com o presente. No levantamento, 80,4% das pessoas dizem que a pandemia dura mais do que imaginavam e 73,4% afirmam que o número de mortos é maior do que o esperado. Os dados mostram que o brasileiro claramente subestimou os perigos da Covid-19. Tanto é assim que o medo de perder alguém querido para a doença atinge 48% das pessoas, temor muito maior do que o de ficar sem emprego (7,8%). “Ficamos sem a noção de tempo, a possibilidade de fazer planos, de ter projetos. O maior valor é estar vivo”, afirma a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, coordenadora de um laboratório de estudo e atendimento ao luto da PUC-SP.

O resultado não se traduz apenas em desamparo, mas em revolta contra os gestores encarregados da condução da crise. Pela primeira vez, 20% dos brasileiros atribuem o cenário crítico da pandemia a todos os políticos com cargos eletivos (o índice era de 6% em maio de 2020, obtido em pesquisa equivalente). Também cresceu a responsabilização de Jair Bolsonaro pelo descontrole da doença. O porcentual atingiu 29,4% contra o presidente, muito superior aos 11,2% que culpam os governadores pelo caos sanitário. “Bolsonaro conseguiu num primeiro momento passar a culpa aos governadores, mas agora isso não ocorre de forma tão óbvia. O quesito da recuperação econômica vai na conta do presidente. O responsável por emprego e renda no Brasil é ele, não o governador e o prefeito”, diz Matias Spektor, professor de relações internacionais da FGV.

A mesma pandemia que fez da economia um cenário de terra arrasada mexeu com os dois extremos da linha do tempo da vida: o nascimento e a morte. Houve queda considerável no primeiro e aumento brusco no segundo. Nove meses depois que a pandemia já estava instalada no Brasil, foi possível constatar: casais optaram por não ter filhos neste período conturbado. Em janeiro, o número de registros de nascimentos atingiu o menor patamar desde 2002, quando começou a série histórica da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). Foram computados 207.901 nascimentos, um número 15% menor que o registrado no mesmo mês do ano passado. “Vai demorar para que seja retomado o ritmo de antes da pandemia. Até lá, essa queda representará uma ruptura na pirâmide etária e impactará o mercado de trabalho e a população economicamente ativa”, afirma Gustavo Fiscarelli, presidente da Arpen-Brasil. Por outro lado, nunca tantas mortes foram contabilizadas – quase 1,5 milhão entre março do ano passado e fevereiro de 2021, um triste crescimento de 31% de óbitos em relação à média histórica para esse mesmo período.

Os cartórios também detectaram outro reflexo da pandemia na configuração das famílias. Ficaram em lados opostos na gangorra as uniões e os divórcios. Enquanto o primeiro cai, o segundo cresce. De março a dezembro de 2019, 816.226 casamentos foram registrados. No mesmo período do ano passado, o número caiu cerca de 30%. Na outra direção, o total de divórcios tem crescido – passou de 62.969 entre março e dezembro de 2019 para 64.071 no mesmo período do ano passado. É um desafio manter um relacionamento em meio a um ambiente altamente estressante. Retrato das preocupações que tiram o sono dos brasileiros (aliás, houve um aumento de 55% nos casos de insônia de um ano para cá, segundo o Instituto do Sono), as buscas no Google por termos como “UTIs” explodiram nas últimas semanas.

Enquanto o Brasil cresce de forma descontrolada nas curvas da pandemia, descolando-se do resto do mundo, despencou no ranking internacional que mede o bem-estar mental de uma nação. O instituto Gallup, em parceria com a ONU, elaborou recentemente uma nova versão do Relatório Mundial da Felicidade, que leva em conta questões subjetivas, como o PIB per capita, apoio social, expectativa de vida e ausência de corrupção. A infelicidade subiu em todo o mundo, mas a queda do Brasil foi drástica. O país perdeu doze posições e agora está na 411 colocação. Paira sobre as pessoas um estado de “crise crônica” que acarreta sintomas físicos, segundo levantamento da NOZ Pesquisa e Inteligência, em parceria com o Instituto Bem do Estar. Cerca de 40% têm mais enxaquecas, 31% têm problemas gastrointestinais e 19% sentem falta de ar. “A pandemia tirou os véus da sociedade, que já vivia uma pandemia de saúde mental”, declara a fundadora do Instituto Bem do Estar, Isabel Marçal. A fé acaba sendo o refúgio natural diante da sensação de desamparo (quase 60% dos entrevistados do Paraná Pesquisas relataram que começaram a rezar mais nos últimos tempos).

Não há mesmo como escapar indiferente ao impacto da doença na sociedade. Ela já se refletiu em alterações na rotina (82,4% das pessoas do levantamento dizem que mudaram de hábitos), e uma parte disso pode ser creditada ao aspecto positivo do chamado “novo normal”, a exemplo dos esquemas de trabalho híbridos e da migração de pessoas das grandes cidades para o interior, o que produz não apenas melhora de qualidade de vida nas famílias, mas também abre uma perspectiva de desafogamento das maiores metrópoles. Para o Brasil, o saldo da crise vai exigir grandes esforços de retomada das atividades e superação de estatísticas como a do índice recorde de desemprego, que pode chegar a quase 15%, de acordo com estimativa recente da Confederação Nacional da Indústria.

Tamanho mal-estar social foi registrado na epidemia de gripe espanhola que o Brasil enfrentou entre 1918 e 1920. Somente São Paulo perdeu 1% da população da época em um período de aproximadamente seis semanas. A partir de reportagens da imprensa é possível ter uma noção de como aquela epidemia afetou diretamente a vida dos brasileiros. “Há um recorte muito ilustrativo em que o médico Plácido Barbosa pede às pessoas para controlarem o medo, porque aquilo poderia afetar a imunidade contra a gripe”, diz a historiadora Christiane Maria Cruz de Souza, do Instituto Federal da Bahia (IFBA). A pesquisadora Gisele Sanglard, da Fundação Oswaldo Cruz, acrescenta que as charges dos periódicos também apresentavam situações em que a morte rondava o cotidiano das pessoas. “Uma das mais representativas é a de uma dançarina espanhola cujo parceiro é a morte, vestida de preto e com um cajado em punho. Assim como ocorreu agora, os bailes tiveram de ser suspensos porque a morte estava ali”, afirma. Uma vez vencida a crise sanitária, os relatos mostram que o Rio de Janeiro sediou “o maior Carnaval de todos” em 1919, com marchinhas e carros alegóricos que faziam alusão ao fim da epidemia que tanto tinha castigado a cidade. Por enquanto, resta aos brasileiros respeitar as medidas de segurança e aguardar que o Ministério da Saúde acelere o programa de vacinação contra a Covid-19. De volta a Guimarães Rosa, ficam as palavras de consolo da personagem Diadorim ao protagonista da trama: “Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora, estamos acuados em buraco”.

A VIDA NO CONFINAMENTO

Entre os brasileiros, 82% mudaram seus hábitos na pandemia

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE ABRIL

A LÍNGUA PODE SER UM LAÇO

O que guarda a boca conserva a sua alma, mas o que muito abre os lábios a si mesmo se arruína (Provérbios 13.3).

Há muitas pessoas que tropeçam na própria língua. Caem na armadilha das próprias palavras. A língua solta é uma prisão ameaçadora. Quem fala sem pensar é açoitado por sua própria língua. Quem fala sem refletir acaba prisioneiro de sua própria estultícia. O que controla a boca preserva a sua vida, mas quem fala demais traz sobre si grande ruína. A Bíblia cita Doegue, o homem que delatou Davi ao insano rei Saul. Como resultado de sua inconsequente maledicência, houve uma chacina na cidade de Nobe, onde 85 sacerdotes foram mortos, assim como homens, mulheres e crianças. O próprio Doegue, o fofoqueiro, precisou acionar a espada assassina contra inocentes. Doegue arruinou não apenas sua própria vida, mas se tornou instrumento de morte para dezenas de outras pessoas. A discrição é uma virtude fundamental. Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio. Quem muito fala muito erra. Palavras são como o vento: uma vez proferidas, não se podem mais administrar. É como soltar um saco de penas do alto de uma montanha. Não se pode mais recolhê-las. Cuidado com sua língua!

GESTÃO E CARREIRA

BELEZA, SAÚDE E MODERNIDADE

A Pandemia motivou empresa de beleza a adotar a tecnologia para enfrentar a crise. Aplicativos que auxiliam no contato com clientes ou na gestão do negócio não são passageiros. Veja o que empresários do setor já fizeram e que pode servir de exemplo para você.

O Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo. E a preocupação com o bem-estar e até com a saúde de cabelos, pele e unhas foi prejudicada por causa da pandemia de coronavírus. A pandemia e a quarentena, rígidas em grande parte do País no segundo trimestre de 2020, derrubaram investimentos e fizeram com que muitos enfrentassem dificuldades. Mas muitas empresas passaram a desenvolver aplicativos, e a possibilidade de atendimento em casa acabou por “salvar” o ano do mercado, que adotou de vez a tecnologia para manter os negócios.

O levantamento que coloca o Brasil no top cinco do mercado de beleza foi feito pelo provedor de pesquisa de mercado Euromonitor International. Nosso país perde apenas para Estados Unidos, China e Japão. Cosméticos, perfumes, higiene bucal, busca pelos serviços de cabeleireiro, manicure e pedicure. Tudo isso é levado em consideração.

Cinco empresas concentram 47,8% do mercado brasileiro, de acordo com o mesmo relatório. Já no quesito digitalização, multinacionais começaram a investir em redes sociais e em inteligência artificial. Cerca de 39% dos usuários globais. usam esses serviços hoje.

CHEGOU A HORA

Foi essa busca por inovação e tecnologia que estimulou muitos empreendedores a partir para a adoção de meios virtuais a fim de se manter de pé durante a pandemia de coronavírus. “Com a pandemia, o setor de beleza como um todo teve que se reinventar. Esses aplicativos melhoram a rotina de qualquer empresa. Afinal, são soluções para gerenciamento de agenda, gestão de caixas e, muitas vezes, operações com antecipação de recebíveis”, afirma o fundador da Certus, fintech que utiliza dados do software de gestão para conceder empréstimo e capital de giro para o empresário que necessita de socorro, Fábio Leger.

A própria Certus lançou uma plataforma que ajuda o pequeno empresário a gerir a sua empresa e também possibilita antecipar receitas da máquina de cartão a juros bem mais baixos. ”A adoção dessas ferramentas auxilia em muito a profissionalizar os estabelecimentos. São soluções que permitem ter um dinheirinho extra, afinal, em momentos de crise, quanto menos juros pagarmos, mais sobra”, explica Leger.

PERSONALIZAÇÃO DO PRODUTO

Com consumidor brasileiro procurando cada vez mais produtos de beleza, o movimento naturalmente seguiria para a personalização das experiências dos clientes. Em 2018, a JustForYou foi a primeira beauty tech brasileira a usar inteligência artificial com o intuito de desenvolver fórmulas personalizadas para shampoos e condicionadores.

Com um questionário completo, que traz perguntas sobre o tipo de alimentação, prática de atividade física e até mesmo o estado emocional, as informações são cruzadas pela JulIA, inteligência artificial da JustForYou, que encaminha um e-mail para o cliente com um resumo da fórmula que será desenvolvida.

Localizada em Vinhedo, interior de São Paulo, a marca já analisou mais de 360 mil fórmulas desde o início da operação. Mesmo durante o período da pandemia, a startup registrou crescimento de mais de 35%.

O CEO da JustForYou, Caio de Santi, revela que a empresa já estava preparada para uma vida digital mais ativa, mas o coronavírus acabou por acelerar esse processo. “Tivemos, por exemplo, a necessidade de realizar o onboarding remoto de muitos colaboradores que chegaram por causa da alta demanda do período, aumentando nosso time de bem-estar do cliente”, explicou.

De Santi conta que, dentro da empresa, os funcionários passaram a usar ferramentas de comunicação para conversar com outros departamentos – e que o atendimento ao cliente é prioridade, em qualquer circunstância. “Usamos uma tecnologia que nos permite oferecer atendimento omnichannel, ou seja, nosso cliente é atendido em absolutamente todos os pontos de contato que tem com a marca. Usamos a tecnologia para humanizar. O atendimento é quase 100% feito por humanos”, complementa o executivo. Por isso, o CEO acredita que a pandemia trouxe mais pontos positivos do que negativos para o negócio. Uma vez que o comércio é todo on-line e as entregas acontecem com distanciamento, não houve necessidade de parar a operação – mesmo como home office. “Nós já usávamos ferramentas de trabalho na nuvem, e o próprio crescimento dessa área já era programado, mas entendemos que era preciso antecipar a ampliação desse setor e pudemos colocar à prova toda a nossa organização para cercar nosso consumidor de todo o suporte de que ele poderia precisar”, finaliza.

E-COMMERCE É A SOLUÇÃO

O setor de beleza e estética foi um dos que mais sofreram para a flexibilização da retomada econômica. E quem conseguiu adotar novas formas de atendimento, conseguiu superar a crise. Foi o caso da Não+Pelo, rede que inovou o mercado de estética e depilação sendo a pioneira nesse serviço, com tecnologia avançada para eliminar os pelos indesejados de forma eficaz.

Mesmo já tendo que lidar com regras rígidas de biossegurança e higienização – por causa da atividade -, a empresa também adotou algumas medidas para auxiliar os franqueados, como a suspensão da cobrança de taxa de royalties e publicidade durante o tempo em que as unidades ficaram fechadas.

O próprio CEO da Não+Pelo no Brasil, José Rocco, veio da Europa neste ano. Ele conta que as adaptações mais importantes aconteceram no segmento digital. Muitos franqueados utilizaram a parceria que a rede tem com uma empresa de máquinas de cartões para geração de links de compras que eram enviados aos clientes enquanto a maioria das lojas permaneceu fechada.

“Assim, os franqueados mantiveram comunicação com seus clientes pelo aplicativo WhatsApp e por envio de e-mail marketing. Além disso, houve reestruturação do site para o e-commerce, que passou a ser uma alternativa, tendência que a pandemia evidenciou: a necessidade da vida e relacionamento digital e on-line”, explica Rocco.

Internamente, para atender os franqueados, a Não+Pelo criou mecanismos por meio de plataformas para manter o treinamento e a atualização das informações de caráter sanitário e econômico para as 265 unidades no País. A reciclagem dos profissionais também acontece, por meio da criação da Universidade Não+Pelo usando a plataforma BenkYou.

Um novo software será implantado nas unidades para cada uma acompanhar o desempenho de todos os franqueados. “A pandemia vai colocar as empresas diante de uma situação cada vez mais digital para a comunicação e o aumento de vendas e faturamento. Essa solução não chegou ao fim e continua em andamento. A pandemia está em curso, e as comunicações on-line serão fundamentais”, reafirmou.

O site da empresa foi reformulado para permitir o e-commerce, e isso ajudou a renovar as expectativas da marca. A Não+Pelo Brasil espera aumentar o faturamento em 2021 em 40%, depois de uma redução em tomo de 60% em 2020. Rocco também considera que a pandemia foi ”positiva” para o negócio, já que foi possível “pôr ordem na casa”. A pandemia criou uma empatia mais apurada entre a rede e os clientes da base e os novos.

ACELERAR O PROCESSO

A Pello Medos aproveitou o momento de isolamento social e quarentena para pôr em prática planos de assinatura. O instituto de depilação, que surgiu em 1996 com uma cera exclusiva criada por Regina Jordão, oferece os serviços Vip Gold e Vip Silver, com benefícios exclusivos. As clientes que compraram os pacotes antes da quarentena foram atendidas remotamente, por telefone, e-mail e WhatsApp e tiveram os agendamentos transformados em créditos para usar no futuro.

Segundo a CEO, quando as atividades foram retomadas, em junho, muitos dos créditos já foram reaproveitados. E é graças a essa presença nas redes sociais que foi possível manter alguns atendimentos. “Usamos bastante telefone, e-mail e WhatsApp no auge da crise para falar com as nossas clientes. Pelas redes sociais, mostramos a nossa preocupação. Fizemos inclusive vídeos para mostrar nossos cuidados, medição de temperatura na entrada da loja, tapetes sanitizantes, protetores de acrílico para isolar nossas caixas e recepcionistas, higiene, uso de equipamentos de proteção”, contou.

Para Regina, a relevância dos serviços digitais hoje faz com que os empresários pensem melhor em como abordar os clientes (e potenciais) e garantir personalização, para fechar um negócio. Na Pello Menos, novas alternativas também estão sendo pensadas. “Intensificamos a nossa participação no mundo digital, lançamos dois vouchers e estamos em fase final de preparação do nosso e-commerce. Estreitamos o relacionamento com nossos franqueados e ainda apresentamos e dividimos soluções para atravessar todo o período de crise”, afirma Regina.

NOVO NORMAL

A Doctor Feet, pioneira no segmento de serviços de cuidados e saúde para os pés e venda de produtos médicos e ortopédicos, considera o “novo normal” algo que já acontece há algum tempo.

A rede foi criada em 1998. Os serviços têm um grande diferencial de atendimento e a maioria das pessoas fica surpresa em seu primeiro contato. São mais de 20 opções de tratamento para os pés e mãos, além de produtos médico-ortopédicos e estéticos. ”A Doctor Feet sempre se preocupou com questões de higiene nas lojas e o que fizemos foi intensificar ainda mais a sanitização de nossas cabines de atendimento e lojas. Também fornecemos equipamentos de proteção individual para as nossas profissionais, como máscaras e viseiras de acrílico”, explicou o presidente da Doctor Feet, Jonas Bechelli.

Mesmo com as lojas em shoppings fechadas, as de rua puderam permanecer abertas em grande parte do País, já que o serviço era considerado essencial. Para ajudar no combate ao coronavírus houve reforço das medidas de segurança sanitária.

Com 20 anos de mercado, a rede já utilizava aplicativos para agendamento de procedimentos e controle de caixa, e a pandemia veio apenas para reforçar a relação de preocupação com a saúde dos clientes e dos colaboradores. ”A Doctor Feet sempre esteve na vanguarda e já disponibilizava o recurso de agendamento, bem como ferramenta para receber feedbacks de clientes, pelo app da rede mesmo antes da pandemia”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FOFOCA, TÃO ANTIGA QUANTO FAZER FOGO

O que o hábito de falar sobre os outros diz sobre nós mesmos. Compartilhar e falar da vida alheia podem trazer grandes prejuízos para a vida de alguém

Imagine a seguinte cena: ainda é hora do expediente, você faz uma pausa para tomar um café. Aparece um colega e vocês logo começam a comentar amenidades e, quando percebem, estão falando sobre alguém. Imaginou? Se você teve facilidade para formar essa imagem mental é porque, com certeza, você já passou por isso e nem se deu conta que estava fazendo fofoca. Afinal, é normal comentar sobre a vida dos outros, não é? Na verdade, pode ser comum, mas normal não deveria ser.

Por mais que pareça uma atitude inofensiva, falar dos outros é uma prática extremamente prejudicial em todos os âmbitos de nossa vida. Uma das teorias sobre o surgimento da fofoca diz que ela apareceu juntamente com a capacidade do homem de controlar o fogo. Tal teoria justifica que, ao afastar o perigo e a escuridão, o ser humano passou a ter mais tempo para socializar, conversar e compartilhar histórias. Os comentários sobre os outros já não são mais compartilhados ao redor de fogueiras, nem mesmo a janela ou o telefone são tão comuns. Nosso problema está, literalmente, em nossas mãos. Basta um celular e um aplicativo de conversas que já temos a possibilidade de falar o que e com quem quisermos. É a fofoca ao alcance de todos. Aliás, muitas vezes ilustrada, com direito a foto e captura de tela. É a fofoca com provas, com riqueza de detalhes e pobreza de conteúdo.

Compartilhar e falar da vida alheia pode trazer grandes prejuízos para a vida de alguém. Recentemente, uma produção da Netflix, intitulada 13 Reasons Why, mostrou a história de uma adolescente que se suicida após uma sucessão de desventuras e abordou, também, como o fato de ela ter virado assunto entre as rodas de amigos da escola colaborou para a decisão de tirar a própria vida. Obviamente, a produção tem suas porções de exagero, que são peculiares às obras de entretenimento, mas é inegável como há uma inspiração de vida real para o roteiro.

De fato, não precisamos ir tão longe para avaliar o quão negativo é esse hábito que é comum e presente no nosso cotidiano. Basta olharmos para o lado e observar com atenção: quantos de nossos colegas já perderam uma promoção por terem sido alvo de fofocas? Quantos relacionamentos você conhece que foram destruídos por algo que alguém disse e nunca se comprovou verdade? Com certeza você responderá não só positivamente a pelo menos uma dessas perguntas, como também vai saber um ou dois exemplos de histórias reais.

Mas de onde vem essa necessidade de falar sobre alguém? Por que fazemos fofocas? As respostas são muitas, embora cada situação exija uma interpretação única. Ao observarmos a interação humana, podemos perceber que esse hábito está ligado à necessidade de aceitação. A fofoca gera curiosidade, que por sua vez aproxima as pessoas, cria uma conexão e faz do fofoqueiro o centro das atenções. O medo do sucesso alheio (que acontece por conta de uma crença oculta de escassez, como se o sucesso do outro impedisse o nosso ou significasse nosso fracasso) é outra maneira de dar espaço à fofoca. Nesse caso, além de diminuir o mérito do outro, ainda podemos, deliberadamente, prejudicá-lo.

CARÊNCIAS

A verdade nua e crua é que todos nós, seres humanos, sem exceções, temos nossas carências, dores e medos e é fundamental que conheçamos nossas partes mais sombrias ou não conseguiremos evoluir. Assumir que diminuímos outras pessoas por inveja pode parecer assustador, mas é um exercício para compreendermos que, por alguma razão, acreditamos que não somos capazes de alcançar nossos objetivos e acabamos colocando o foco no lugar errado, ao invés de virarmos todas as atenções a nós mesmos e dedicar esse tempo e energia em conquistarmos os nossos anseios.

No ambiente de trabalho, a fofoca pode ser explicada (não justificada) pela busca por conexões entre os membros da equipe que acabam formando as famosas “panelinhas”, grupos que se unem para falar mal daqueles que não são enturmados, ou de seus superiores e até mesmo das regras da empresa. Até a falta de assunto é gatilho para a fofoca. Quando não há o que falar, mas há a necessidade de se comunicar com o outro, mesmo que sem um assunto, é comum proferirmos aquela frase que quebra o gelo: “Você não sabe o que aconteceu com fulana…”.

Mas que a verdade seja dita, a fofoca não prejudica só quem é vítima. O feitiço também pode virar contra o feiticeiro e o fofoqueiro, por diversas vezes, pode acabar em saias justas quando confrontado ou quando é pego no flagra com uma mentira. Também é fato que tendemos a não confiar naqueles que sabemos que não conseguem guardar segredo e, principalmente, em quem percebemos ter um comportamento tóxico. Assim, no fim das contas, é um hábito que se inicia por carência, necessidade de atenção e traz ao indivíduo consequências como a solidão e falta de confiança, afinal nenhum vínculo sólido e verdadeiro é formado por meio da fofoca.

Uma vez consciente de que não quer mais fazer parte do ciclo vicioso que a fofoca pode gerar na sua vida, é hora de, então, aprender a construir vínculos sólidos com quem nos cerca, a interagir, sem falar de pessoas. Substituir o assunto “quem fez o que” por “vamos fazer tal coisa?”, “vamos colocar tal projeto em prática”. Compartilhar ideias, planos e projetos não só vai tirar a fofoca do radar como também abrir horizontes para que novas situações e oportunidades apareçam.

ACEITAÇÃO

Cabe-nos a percepção de que não precisamos ser aceitos por todos em todos os lugares, principalmente se a única conexão encontrada é falar mal de outras pessoas. Afastar-se de situações como essas (fazer fofoca) é abrir a porta para se aproximar de outros grupos que terão como foco discutir ideias e ideais. Uma das frases mais célebres relacionadas ao filósofo Platão (450 a.C.) e que traduz perfeitamente a fofoca é: “Pessoas normais falam

sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias, pessoas mesquinhas falam sobre pessoas”.

A frase de Platão pode até acender um alerta vermelho em nossa mente e logo começarmos a escanear toda a nossa vida até encontrarmos os momentos em que acreditamos ter feito uma fofoca. Mas é importante ressaltar que nem todo comentário sobre alguém é ruim. Aliás, pelo contrário, muitos podem ser baseados em admiração e inspiração e, quando falamos bem da vida alheia, aumentamos nossas emoções positivas e autoestima.

Expressar nossas opiniões, sem julgamentos, ressaltando apenas nossos pensamentos e linha de raciocínio, não é atitude condenável.

Inclusive, utilizar situações cotidianas para debater opiniões pode ser bastante interessante. Basta apenas lembrar que, por mais que o assunto seja uma pessoa, nosso foco são as ideias.

OS TRÊS FILTROS DE SÓCRATES

Um dia, veio ao encontro do filósofo um homem, seu conhecido, que lhe disse:

– Sabes o que me disseram de um teu amigo?

– Espera um pouco – respondeu Sócrates.

– Antes de me dizeres alguma coisa, queria que passasses por um pequeno exame. Chamo-lhe o exame do triplo filtro.

– Triplo filtro?

– Isso mesmo – continuou Sócrates.

– Antes de me falares sobre o meu amigo, pode ser uma boa ideia filtrares três vezes o que me vais dizer. É por isso que lhe chamo o exame de triplo filtro. O primeiro filtro é a verdade. Estás bem seguro de que aquilo que me vais dizer é verdade?

– Não – disse o homem.

– Realmente só ouvi falar sobre isso e…

– Bem! – disse Sócrates. – Então, na realidade, não sabes se é verdadeiro ou falso. Agora, deixa-me aplicar o segundo filtro, o filtro da bondade. O que me vais dizer sobre o meu amigo é uma coisa boa?

– Não. Pelo contrário…

– Então, queres dizer-me uma coisa má e que não estás seguro de que seja verdadeira. Mas posso ainda ouvir-te, porque falta um filtro, o da utilidade. Vai servir-me para alguma coisa saber aquilo que me vais dizer sobre o meu amigo?

– Não. De verdade, não…

– Bem – concluiu Sócrates.

– Se o que me queres dizer pode nem sequer ser verdadeiro, nem bom e nem me é útil, por que haveria eu de querer saber?

OUTROS OLHARES

FORA DA VITRINE

A pandemia reduz o movimento dos shoppings, provoca o fechamento de lojas e obriga o setor a se reinventar, com aposta no comércio eletrônico

Mesmo com controle de temperatura, álcool em gel e limitação de acesso, o brasileiro está longe de retomar o velho hábito das compras em shopping. Uma combinação de temor de contágio após a quarentena prolongada, renda mais curta em razão da crise e mudança de cultura com o consumo on-line no período de isolamento social reduziu o apelo destes templos de comércio, segundo especialistas.

No início da reabertura, não parecia ser esse o cenário. Um shopping em Botucatu, São Paulo, chegou a fazer drive-thru nos corredores para atender quem ainda se sentia desconfortável em sair do carro, mas não perdia o afã pelas compras. A multiplicação de regras produziu outra cena curiosa no interior de São Paulo. Um shopping localizado entre Sorocaba e Votorantim teve autorização para abrir só parte das lojas: as outras permaneceram fechadas em razão das regras de isolamento vigentes em cada município.

Mas, passado um mês, lojistas não veem motivo para comemorar. As vendas em junho ficaram até 80% menores do que em igual período do ano passado, segundo a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop). De outro lado, a pandemia teve efeito mais brando sobre o comércio de rua, que registrou queda de 42% no mês passado do movimento de clientes, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “Há clara preocupação das pessoas em evitar shoppings, pelo medo da contaminação em lugar fechado”, disse Fabio Bentes, economista sénior da CNC. “Na rua, com custos menores, é mais fácil dar descontos, o que atrai os consumidores.”

O comportamento do consumidor levanta a dúvida sobre qual será o futuro dos shoppings e de seu modelo de negócios. Ao fim da quarentena, pelo menos 13 mil lojas instaladas nesses centros comerciais não deverão reabrir as portas, previu Nabil Sahyoun, presidente da Alshop. É como se, dos 577 centros de compras no país, entre 45 e 65 deles encerrassem as atividades.

Mesmo com medidas de alívio na pandemia, como suspensão de aluguéis ou redução de taxas das administradoras, alguns lojistas começam a rever a estratégia e centram esforços nas vendas on-line, por meio de sites ou redes sociais. “A indústria do shopping se expandiu numa época em que vendíamos muito e a conta fechava. Os aluguéis são indexados ao IGP-M, e as vendas não acompanham. E ainda tem as taxas. A gente não aguenta mais esse custo”, afirmou Sergio Zeitunlian, dono da rede de roupas Handbook, com 41 lojas em sete shoppings do país. “Para fechar uma loja, a multa varia de dez a 20 aluguéis, o que representa algo que pode chegar a R$ 400 mil.”

Já em 2019, a Handbook passou a investir em comércio eletrônico, com vendas pelo site e pelas redes sociais. De março a junho, com o isolamento social, o e-commerce da marca cresceu 200%. De lá para cá, Zeitunlian demitiu 218 dos 698empregados, entre vendedores e funcionários da fábrica, que fica no interior de São Paulo. Sete lojas foram fechadas em shoppings de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. “As pessoas gostam de sair, de serem vistas. Isso não acaba. A loja presencial continua, mas o modelo de negócio dos shoppings tem de evoluir”, disse Zeitunlian.

Antonio Yezeguielian, dono da rede Tennis Station, com 47 lojas, afirmou que o custo de manter lojas em shopping se tornou proibitivo com a queda de vendas na pandemia. “Há dias em que acordo com vontade de fechar a metade delas. Estou esperando para não tomar uma atitude precipitada”, disse o empresário, que, por enquanto, fechou apenas duas unidades e se queixa da estrutura cara dos centros comerciais. “Tem shopping em que minha loja paga R$ 3 mil de ar condicionado por mês, é o valor do condomínio do apartamento onde moro.”

O professor Samuel Barros, coordenador do curso de administração do Ibmec- RJ, acredita que a pandemia acelerou o processo do consumidor rumo ao digital. “O que ia levar dez anos, vai ocorrer agora. O consumidor descobriu a comodidade da compra digital. Ele tem possibilidade maior de escolha, de verificar o preço entre lojas e até de customização de cor e desenho. Na loja física, só tem o que está na arara”, disse Barros.

Com a sacola em dois cliques, Barros avaliou que alguns segmentos vão migrar para o digital mais rapidamente, como ocorre no resto do mundo. Eletrônicos e celulares já são exemplo dessa migração. No mercado de vestuário, a tendência é que roupas do dia a dia sejam compradas pela internet, e as mais elegantes e de festa em lojas físicas. “O shopping não acabou nem vai acabar. O brasileiro gosta de tocar, é sinestésico por essência. Mas as lojas vão ter de se acostumar a vender digitalmente o mesmo volume ou até mais do que nas lojas físicas”, afirmou.

Barros lembrou que, até 2010, os shoppings eram ambientes exclusivamente de compras. Depois disso, passaram a oferecer outros chamarizes, como cinemas, teatros e lazer infantil. Na prática, tomaram-se um ponto de encontro. O professor acredita que o novo cenário obriga os shoppings a se reinventar novamente, oferecendo mais entretenimento e novas experiências de consumo. Uma delas será a realidade aumentada, em que o consumidor experimenta roupas e acessórios virtualmente, como os aplicativos que hoje permitem testar vários cortes de cabelo. “Varejo por varejo, o shopping vai ser um elefante branco na mão de muitas administradoras”, resumiu.

Em meio à pandemia, a rede brMalls, com 32 shoppings espalhados por 12 estados e 23 cidades, criou uma diretoria de Estratégia, Tecnologia e Novos Negócios. Leonardo Cid Ferreira, que fez carreira com negócios digitais, ocupa o posto. “A briga não é entre o físico e o digital. A briga é pela multicanalidade”, disse o executivo. Ferreira afirmou que o modelo de negócios dos shoppings é muito resiliente e,com a reabertura, muitos deles registraram até mesmo aumento no tempo de permanência de pessoas em seus corredores. Segundo ele, as pessoas vão aos shoppings para se entreter, almoçar, comparar preços e também comprar. O passo agora é incorporá­los na vida desses consumidores do lado de fora. “Temos de levar o shopping para a casa das pessoas”, afirmou.

Shoppings como Tijuca, no Rio de Janeiro, e Villa Lobos, em São Paulo, que fazem parte da rede brMalls, já estão na palma das mãos dos clientes, em aplicativos. A novidade é que, quando ele faz a compra, o produto chega no mesmo dia. No e-commerce tradicional, dificilmente a entrega é tão rápida. A maior parte das grandes redes, campeãs em negócios digitais, têm centros de distribuição no interior de São Paulo, o que faz a mercadoria demorar mais tempo e chegar mais cara ao cliente. “Vamos servir o comércio eletrônico com o estoque que está nas lojas, com custo muito mais baixo. Uma caixa com três pares de tênis pode custar até R$ 50 para ser enviada, mas, se o produto está no shopping mais próximo, sairá mais barato”, afirmou.

Tornar as lojas de shoppings distribuidoras de produtos para o e-commerce é também o modelo de negócio do Delivery Center, que tem três administradoras de shoppings entre seus acionistas – a própria brMalls, a Multiplan (Barra e Morumbi shoppings) e a CPP (Metropolitano Barra e Cidade de São Paulo, entre outros). A startup conecta lojistas de shoppings aos pedidos do comércio eletrônico. O volume de entregas triplicou depois da escalada da pandemia de Covid-19 no país. Até o fim do ano, a plataforma planeja ter centros de distribuição em 35 cidades de 20 estados.

Mas engana-se quem pensa que o maior rival dos shoppings é a vitrine virtual. O Brasil é grande, e cada canto do país tem suas peculiaridades. Marcelo de Souza e Silva, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte, estima que 30% dos lojistas poderão sair dos centros de compra em direção a pontos de venda de rua. Em sua avaliação, num momento em que o preço dos aluguéis comerciais está mais baixo, é mais fácil negociar esse valor direto com o proprietário de uma loja de rua que com uma rede de shoppings. E esse movimento, se for bem aproveitado, poderá ajudar na revitalização de bairros e vias comerciais por parte das prefeituras. “Há uma revalorização da rua. Antes as pessoas iam para os shoppings por medo da violência. Agora, vão para a rua por medo do vírus”, disse o executivo.

Ainda assim, Silva reconhece nos shoppings brasileiros alguns atrativos que não se repetem, por exemplo, em shoppings americanos, estes sim experimentando já um profundo esvaziamento. Se nos Estados Unidos eles são majoritariamente instalados em locais isolados, aqui viraram centros de referência das cidades. E, em muitos casos, único local de lazer e de vida social dos municípios. “Há até fatores climáticos: em muitas cidades do interior do país, em regiões quentes, o shopping é o único lugar climatizado ao alcance das pessoas”, afirmou Theo Keiserman de Abreu, sócio do Campos Mello Advogados, especialista em varejo.

A pandemia do novo coronavírus fez o consumidor que ainda não tinha entrado na onda do consumo digital perder o medo de se aventurar nesse novo mundo. Se a crise sanitária se arrastar por mais tempo e o brasileiro chegar até as proximidades do Natal ainda em reclusão, o clique é certo. Nas contas do professor Barros, cinco meses é o prazo máximo que as pessoas comuns conseguem ficar sem comprar nada. Depois disso, seja na rua, no shopping ou pelo computador, as vendas vão voltar.

EU ACHO …

LEMBRANÇA DE FILHO PEQUENO

Mas que sentir de filho? Se de algum modo fico toda sem um único sentimento reconhecível. Que sentir? Vejo sua cara queimada de sol, cara inteiramente inconsciente da expressão que tem, toda concentrada que está como um bicho bonito, delicado e feroz – nas lambidas de seu sorvete.

O sorvete é de chocolate. O filho lambe-o. Às vezes se torna lento demais para o seu prazer, e ele então morde-o, e faz uma careta que é inteiramente inconsciente da felicidade incômoda que dá o pedaço gelado enchendo a boca quente. Essa, a boca, é muito bonita. Olho o filho toda compacta, mas ele está habituado à burrice de meu olhar concentrado de amor. Ele não me olha, e não se incomoda de ser observado nesse seu ato íntimo, vital e delicado: e continua a lamber o sorvete com a língua vermelha e atenta. Não sinto nada, senão que sou inteira, pesada de material de primeira, boa madeira. Como mãe, não tenho finura. Sou grossa e silenciosa. Olho com a rudeza de meu silêncio, com meu olho vazio aquela cara que também é rude, filho meu. Não sinto nada porque isso deve ser amor pesado e indivisível. Ali estou, recuada. Recuada diante de tanto. O indevassável me deixa com uma espécie de obstinação áspera; impenetrabilidade é o meu nome; estou ali, endomingada pela natureza. Minha cara deve estar com um ar teimoso, com olho de estrangeira que não fala a língua do país. Parece um torpor. Não me comunico com pessoa alguma. Meu coração é pesado, obstinado, inexpressivo, fechado a sugestões.

Estou ali, e vejo: o rosto do menino tornou-se por um instante ávido – é que deve ter encontrado algum pedaço de sorvete com mais chocolate que o resto, e que a língua esperta captou. Ninguém diria que sou magra: estou gorda, pesada, grande, com as mãos calejadas não por mim mas pelos meus ancestrais. Sou uma desconfiada que está em trégua. O filho come agora a casca do sorvete. Sou uma imigrante que se enraizou em terra nova. Meu olho é vazio, áspero, olha bem. E vê: um filho de cara concentrada que come.

*** CLARICE LISPECTOR

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE ABRIL

LUCRO CERTO DAS BOAS PALAVRAS

Do fruto da boca o homem comerá o bem, mas o desejo dos pérfidos é a violência (Provérbios 13.2).

Nossas palavras nunca são neutras. São bênção ou maldição. Produzem frutos doces ou amargos. São canais de vida ou instrumentos de morte. Balsamizam ou ferem. Curam ou matam. Aqueles que cultivam uma comunicação saudável dentro de casa semeiam amizade, fortalecem o companheirismo e colhem os abundantes frutos do amor. Porém, aqueles que semeiam contendas, desandam a boca para espalhar boatarias e se entregam à maledicência cultivam espinheiros que vão ferir seus pés e amargar sua alma. As palavras boas têm lucro certo. Produzem dividendos benditos, promovem causas nobres, encorajam os fracos, levantam os abatidos e curam os enfermos. O apetite dos infiéis, contudo, alimenta-se da violência. Os pérfidos cultivam o mal no coração e o destilam com a boca. O homem mau corre pelas ruas, percorre os campos e destrói vidas por onde passa. Mas os lábios daqueles cujo coração foi transformado pela graça de Deus destilam mel, mel que alimenta e deleita. Que tipo de fruto você tem colhido com a semeadura de suas palavras? Do fruto da sua boca você tem comido o bem?

GESTÃO E CARREIRA

E SE O CLIENTE NÃO QUISER OBEDECER?

Clientes que se recusam a seguir os novos protocolos impostos pela pandemia podem ter atendimento negado, e estabelecimentos apostam em treinamento de colaboradores para lidar com quem desrespeita as regras

Com a flexibilização da quarentena e o avanço de diversas cidades brasileiras à fase verde (que permite, entre outras medidas, a extensão do horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais para até 12 horas e aumento da capacidade de ocupação para 60%), novas regras de atendimento precisaram ser adotadas.

O uso de máscaras, a disponibilização de álcool em gel e o distanciamento social de, pelo menos, um metro e meio tornaram-se obrigatórios, e tanto consumidores quanto estabelecimentos tiveram de se adaptar. No entanto, casos de clientes que se recusam a cumprir os novos protocolos foram registrados em supermercados, sorveterias e hotéis Brasil afora nos últimos meses. Além da troca de ofensas, em algumas situações, clientes partiram para violência física contra recepcionistas e atendentes. Contudo, a regra para a maioria dos estabelecimentos é uma só: evitar ao máximo qualquer desentendimento e sempre conceder o benefício da dúvida. E se o cliente realmente esqueceu alguma das recomendações?

O diretor de marketing da rede Casa de Bolos, Rafael Ramos, conta que é assim que tem orientado seus franqueados desde que a pandemia começou. “Pelo nosso enquadramento ser de serviço essencial, não ficamos fechados, então nossa preparação foi rápida e constante, conforme as medidas de segurança iam sendo adotadas pelas determinações dos estados e municípios. Ao longo dos primeiros meses tivemos comunicados diários à nossa rede, visando orientar como proceder e quais medidas seriam necessárias, como distanciamento social, uso de máscaras e álcool em gel. Não tivemos nenhum caso específico que tenha gerado atrito. Por vezes, pode ocorrer que na correria do dia a dia o cliente esqueça a máscara no carro, mas ele é orientado sempre, concedendo-lhe o benefício da dúvida, ou seja, se de fato esqueceu de colocá-la, para que se lembre da importância da utilização para sua própria segurança e dos nossos colaboradores”.

Em casos em que se nota o uso incorreto da máscara, Ramos afirma que os colaboradores são orientados a corrigir o cliente educadamente e podem se recusar a fazer o atendimento. “Não disponibilizamos máscaras, uma vez que o uso já tem sido amplamente difundido em todos os estados do Brasil. Reforçamos a obrigatoriedade do uso em diversos materiais de comunicação dispostos pela loja. Não tivemos, até o momento, clientes que foram à loja sem máscaras por livre vontade, mas visando ao respeito às legislações estaduais e à segurança de nossos funcionários, o atendimento somente é feito respeitando todas as normas”.

MEDIDAS PREVENTIVAS

O sócio e diretor de novos negócios do Grupo São Benedito – que atua em diversos setores, incluindo rede de academias e restaurantes -, Amir Maluf, revela que entre as regras adotadas para a reabertura está a disponibilização de máscaras caso os clientes não a estejam utilizando. ”São poucos os casos em que isso acontece, mas existe essa reserva. Se o cliente estiver usando a máscara de forma errada, ele é advertido sem problema nenhum. É muito raro ter a recusa de utilização de máscara, mas quando isso acontece, o cliente é convidado a não adentrar o estabelecimento”. Durante todo o tempo de atendimento, segundo Maluf, os colaboradores também devem estar usando máscara e, em alguns casos, capacete de proteção e luvas. “Na cozinha, todos usam máscara de proteção com acrílico na frente. No restaurante foi necessário adesivar toda a parte da entrada para que, quando haja fila, tenha espaçamento entre as pessoas. Na parte interna do salão houve redução de 50% das mesas e cadeiras para não manter a proximidade de pessoas. Colocamos álcool em gel por toda parte dos restaurantes e começamos a utilizar cardápio somente com QR Code, e algumas máquinas de cartão funcionam por proximidade, para se ter o menor contato possível entre colaborador e cliente”, explica.

Nas academias, houve ainda a criação de regras para manter o distanciamento social e foram colocados adesivos no chão para as pessoas manterem distância enquanto estão se exercitando, além de agendamento prévio, com média de quatro alunos por metro quadrado. Ele ressalta que situações de recusa em seguir os protocolos são raras de acontecer, mas confessa que o grupo chegou a registrar casos pontuais. “Quando ocorreu, foi tranquilo, um caso ou outro. Não houve problema de precisar ser duro com o cliente, ter de chamar a força policial ou qualquer coisa do tipo”.

Acionar a polícia, segundo os estabelecimentos ouvidos pela reportagem, sempre será a última opção. Mas, de acordo com o advogado Marcello Badaró, o funcionário pode, sim, recorrer a esse caminho. “Se a situação não se resolver de forma amigável e permanecer o impasse, é possível acionar a polícia militar ou a guarda municipal, que devem, por prerrogativa legal, impor a ordem, inclusive em defesa dos cidadãos, que, obviamente, incluem tanto empregadores quanto seus colaboradores e clientes em geral”.

O EXTREMO É NECESSÁRIO?

Na rede de hotéis Accor Brasil, colaboradores são orientados a acionar as autoridades sempre que considerarem necessário. Mas antes disso, no entanto, um profissional mais experiente é enviado para falar com o cliente em caso de insistência em não seguir o protocolo, principalmente quando o assunto é o uso correto de máscaras. “Os hotéis estão preparados para disponibilizar máscaras para clientes que não a usam. Este é um item obrigatório por lei e a população deve usar a máscara sempre que transitar em locais públicos, como corredores, lobbies, restaurantes, eventos e bares. Caso os hóspedes não estejam utilizando a máscara adequadamente, nossos colaboradores são orientados a contatá-los solicitando que ela seja colocada. Não se trata de uma advertência, mas sim de recomendação”, explica o diretor regional de Operações Midscale e Econômico Accor Brasil, Carlos Bernardo.

No tempo que ficou fechada por causa da pandemia, a rede criou um guia de recomendações de Biossegurança, levando em consideração as recomendações da própria Accor, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de órgãos Municipais, Estaduais e Federais, além de 20 módulos de treinamentos on-line por meio de vídeos direcionados aos setores operacionais dos hotéis, para que pudessem responder às demandas dos hóspedes em todo o País. O período foi suficiente para preparar os colaboradores para situações adversas. “O processo de reabertura foi feito acompanhando o retorno do mercado para ver a viabilidade financeira e, principalmente, garantir as condições de segurança a fim de receber os hóspedes. Hoje, temos cerca de 90% dos nossos hotéis abertos na América do Sul. Nossa recomendação é que os hotéis utilizem 60% dos apartamentos disponíveis para venda, assim conseguimos fazer uma higienização mais segura para colaboradores e hóspedes, além de garantir certo tempo de quarentena no uso do apartamento entre um cliente e outro”, revela Bernardo.

Para Badaró, as empresas acertam em oferecer treinamento às equipes, principalmente quando o beneficiado não é apenas o cliente. “Os colaboradores têm de ser orientados sob a ótica de obrigações previstas na legislação vigente (CLT e normas regulamentadoras) para preservação da higiene, segurança e medicina do trabalho, pois, além de colaboradores, são cidadãos que podem sofrer contaminação. Por isso, a precaução e as medidas de proteção são importantíssimas sob todos os aspectos. Treinamento e orientação específica são bem-vindos, devem ser sempre estimulados e, também, fiscalizados”.

O especialista em gestão de negócios da SIS Consultoria, Eber Feltrim, concorda: “A empresa deve oferecer treinamento e, se porventura um cliente ou outro recusar o protocolo, a equipe tem de estar treinada a dizer que isso é uma regulamentação do poder público, de órgãos competentes, que a empresa precisa se enquadrar nisso, que tanto cliente quanto empresa têm responsabilidade social e o objetivo de todo mundo é minimizar os impactos da pandemia, da transmissão”.

Em casos de recusa a seguir as normas do estabelecimento, colaboradores têm direito de barrar ou impedir o acesso do cliente, pontua Badaró. “É sempre recomendável posição de equilíbrio para que se evite o confronto. A questão toda, além da saúde, envolve o bom senso dos cidadãos, uma vez que ninguém quer ser contaminado ou difundir a Covid-19. Ainda é muito cedo para sabermos, de forma conclusiva, o alcance e as consequências da doença”.

DENTRO DA LEI

Do mesmo jeito que estabelecimentos podem sofrer punições ao não seguir as regras impostas para a reabertura, clientes também precisam andar dentro da lei. De acordo com a Lei n° 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, todo cidadão é obrigado a manter boca e nariz cobertos por máscara de proteção individual. E isso vale para veículos de transporte remunerado privado individual (Uber ou táxi), ônibus, aeronaves ou embarcações de uso coletivo fretados, estabelecimentos comerciais e industriais, templos religiosos, estabelecimentos de ensino e demais locais fechados em que haja reunião de pessoas. O descumprimento da obrigação, segundo Marcello Badaró, pode acabar em multa.

VAI RECUSAR?

O advogado Marcello Badaró listou cinco dicas de como os estabelecimentos devem lidar com clientes que se recusam a respeitar as normas preestabelecidas. Confira!

O diálogo é o melhor caminho. Vale sempre conversar e pedir para que os clientes sigam as orientações sanitárias para prevenção à Covid -19.

As regras impostas pela legislação federal, estadual e municipal devem ser observadas, inclusive com avisos em letras e registros visuais suficientes para orientar o consumidor/ cliente.

Uma dica é deixar algumas máscaras descartáveis no estabelecimento e orientar seus funcionários para que, se identificarem alguém sem máscara, ofereçam uma gentilmente e peçam para que ela seja colocada.

Seja o bom exemplo. Sempre oriente todos que trabalham no estabelecimento para que usem máscara e álcool em gel na frente dos clientes, a fim de que notem a conduta do estabelecimento. Vale atenção também para que não façam o uso errado da máscara, deixando-a no queixo ou retirando-a toda hora.

Caso a pessoa se recuse a utilizar a máscara, vale pedir-lhe que se retire do estabelecimento para preservar os demais que estão seguindo as normas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

É POSSÍVEL NÃO TER EXPECTATIVAS?

Criar altas expectativas sem levar em conta outros cenários possíveis proporcionados pela vida ajudaria as pessoas a modificar mais rapidamente estratégias de ação e a superar frustração e desilusão

Não criar expectativas é um conselho comumente oferecido, sobretudo para quem está começando um relacionamento afetivo ou iniciando a vida profissional

Isso é possível? Não! Mas é possível tomar consciência dessas expectativas e ajustá-las, observando o que a vida e os outros na realidade podem nos oferecer.

As expectativas brotam de nossos desejos e necessidades e colocam nosso olhar no futuro. A imaginação dá corpo às expectativas: há pessoas que mergulham em devaneios, imaginando em detalhes o futuro sonhado, compartilhando a vida com uma pessoa maravilhosa ou tendo uma carreira de grande sucesso profissional. Nossos desejos criam um roteiro de “como a vida deveria ser” ou “o que os outros deveriam fazer”. Mas nem sempre a vida e as outras pessoas seguem esse roteiro sonhado.

Quanto mais altas as expectativas, maior o risco de tudo terminar em frustração, desilusão, decepção, raiva e revolta. Há pessoas que brigam com a vida e até com Deus: “Eu não mereço isso”, “Por que nada dá certo comigo?”, “Nada do que eu espero acontece”. As altas expectativas são inatingíveis, são construídas com uma nuvem de esperança e de ilusão, de pensamentos mágicos, sem raízes na realidade prática.

Ouvi de uma mulher amargurada com o fim do relacionamento: “Eu esperava que ele fosse tudo para mim: marido, irmão, amigo, companheiro de todas as horas”. Dá para algum ser humano preencher tantos buracos de carência afetiva? Querer que os outros ajam como gostaríamos é esperar mais dos outros do que de nós mesmos. Frustração na certa!

A REALIDADE

Já conheci pessoas que viveram o chamado “amor à primeira vista”, que, na verdade, é a paixão. Tipicamente, a paixão nos invade por completo: mal conseguimos nos concentrar no trabalho ou no estudo. Lembranças dos encontros recentes, imaginação vívida de cenas futuras, mergulho no estado de total encantamento, tudo gira ao redor do desejo de estar juntos. Há pessoas que se viciam na paixão, sem conseguir sair dessa etapa, que não costuma durar muito tempo, pois não resiste aos testes da realidade. No entra e sai dos relacionamentos apaixonados, sucedem-se ciclos de entusiasmo e decepção, e um grande vazio de amor.

Há casos de “amor à primeira vista” que resultam em relacionamentos duradouros e felizes. Mas, para isso, é preciso evoluir do estado de paixão para construir o amor. Muitos relacionamentos não se sustentam porque, ao vestir o outro com as nossas fantasias, mal conseguimos percebê-lo como realmente é. Ao projetar no outro a esperança de que vá satisfazer nossas necessidades de amor e proteção, não percebemos quando a pessoa não pode ou não está disposta a oferecer tudo o que desejamos. Como diz a letra de Coração Leviano, de Paulinho da Viola: “Ah, coração, teu engano foi esperar por um bem de um coração leviano que nunca será de ninguém”.

As expectativas irreais nutrem o autoengano e podem resultar em caminhos perigosos, como acontece nos casos de relacionamentos abusivos, em que a pessoa se agarra à crença de que seu amor e dedicação poderão mudar o outro. “Ele tem um temperamento forte, mas é ótima pessoa”, “quando a gente se casar ele vai ficar mais calmo”. Com isso, os comportamentos violentos nos momentos de destempero emocional são tolerados e perdoados, na esperança de que haja uma mudança no futuro próximo. No entanto, é preciso ter muito cuidado com nossas escolhas: é fácil a gente se iludir, achando que podemos transformar quem não quer se modificar.

E quando a desilusão é muito intensa ou as decepções se sucedem, o sofrimento é profundo e até desalentador. Em Modinha, Tom Jobim confessa: “Ai, não pode mais meu coração viver assim dilacerado, acorrentado a uma ilusão que é só desilusão”. Desse modo, há quem se feche na solidão, descrente da possibilidade de construir uma boa parceria.

Mas a vida flui e, muitas vezes, nos surpreende. Como descreve Johnny Alf em Céu e Mar: “Minha vida é uma ilha pequenina flutuando no oceano na aventura de viver”. Modulando as expectativas e abrindo os canais da intuição e da percepção sutil podemos acolher melhor o que a vida nos apresenta e deixar, ainda nas palavras desse compositor, “que o inesperado faça uma surpresa”.

HISTÓRIAS VIVIDAS

Tiago, 8 anos, esperava ansiosamente a visita de Miguel. Queria propor uma brincadeira nova que ele havia criado e imaginou que o amigo ficaria entusiasmado. Porém, Miguel não se interessou. Frustrado e aborrecido, Tiago cruzou os braços, sentou-se no canto do sofá e anunciou que não queria brincar de coisa alguma.

Na gravidez do primeiro filho, Ana desejava muito ter um parto normal. Para isso, preparou-se com cuidado, buscou informações, frequentou um grupo de gestantes, treinou respiração e relaxamento, escolheu um obstetra adepto do parto humanizado, contratou uma doula para acompanhá-la no processo. No entanto, o trabalho de parto não evoluiu bem e foi preciso fazer uma cesárea. O bebê nasceu bem, mas Ana ficou desapontada e desabafou com a melhor amiga: “Saiu tudo errado, começou mal”.

Tensa com a expectativa do primeiro encontro com Renato, com quem trocava mensagens por um aplicativo de relacionamentos, Inês experimentou vários vestidos antes de se decidir pelo azul. Havia terminado um longo namoro há quatro meses e ansiava por encontrar um homem carinhoso, atencioso e trabalhador com quem pudesse construir um relacionamento sério. Pelas conversas on-line, Renato parecia preencher todos os requisitos. Inês estava empolgada, descobrindo várias afinidades entre eles. O primeiro encontro foi maravilhoso, mas não houve uma segunda vez. Renato não voltou a ligar para Inês nem respondeu as mensagens que ela enviou.

Pedro enviou seu currículo para mais de dez empresas, na expectativa de conseguir um novo emprego, após o fechamento do escritório de contabilidade no qual trabalhava. Como era muito apreciado por seu chefe, criou a expectativa de que conseguiria se recolocar no mercado de trabalho facilmente. A cada nova recusa, sentia-se frustrado e desencorajado de continuar tentando.

O que há de comum entre Tiago, Ana, Inês e Pedro?

Eles criaram altas expectativas sem levar em conta outros cenários possíveis, o que os ajudaria a modificar mais rapidamente suas estratégias de ação e a superar a frustração e a desilusão.

OBSERVAÇÕES REALISTAS

O que eles podem fazer para equilibrar as expectativas com observações realistas e planejamento eficaz de suas ações?

Tiago: ao aprender a lidar melhor com a frustração, não ficará estacionado no sofrimento, que torna difícil pensar em alternativas. Mesmo desapontado, pensará: “E agora, o que posso fazer de melhor?”. Ficará aberto às sugestões de Miguel, aceitará suas ideias de brincadeiras, o que, provavelmente, tornará o amigo mais receptivo às suas sugestões. Com mais “jogo de cintura”, aproveitará melhor as oportunidades dos encontros com os amigos.

Ana: o sonho que alimentou a expectativa de ter um parto normal a ajudou a se preparar para concretizar seu desejo. Fez uma boa preparação, escolheu os profissionais que poderiam lhe prestar uma ótima assistência. Porém, não deu a devida importância à realidade de que o trabalho de parto, como muitas coisas que acontecem na vida de todos nós, é imprevisível. Não há como saber ao certo como irá se desenrolar. O mais importante é que o bebê nasça bem e que a mãe se recupere da melhor forma possível. Se valorizasse o parto possível como o melhor que poderia acontecer, celebraria o nascimento sem a sensação de que “deu tudo errado”.

Inês: ao renovar a esperança de encontrar um novo amor, em vez de mergulhar fundo nos devaneios românticos, procurará observar com mais cuidado o comportamento dos pretendentes para avaliar melhor os sinais de interesse ou desinteresse, e as contradições entre o que é dito e o que é feito. Afinal, de que adianta ouvir coisas do tipo “você é uma mulher especial” se ele não liga, não marca um novo encontro e ignora as mensagens enviadas? Prestará atenção aos pilares básicos da comunicação: palavra, expressão facial/corporal e ação. Quando esses pilares se desencontram, a palavra perde o valor.

Pedro: ao decidir analisar mais a fundo o cenário econômico e os elevados índices de desemprego no país, perceberá que precisa ampliar e diversificar suas estratégias para se recolocar no mercado de trabalho, incluindo a possibilidade de buscar emprego em outra cidade. Diante da dificuldade de conseguir emprego, poderá criar algum tipo de trabalho como, por exemplo, oferecer consultoria contábil presencial ou on-line para quem está abrindo uma micro- empresa. Se tiver outro tipo de habilidade como, por exemplo, recorrer às receitas da avó para fazer doces artesanais, poderá atuar como autônomo para gerar renda.

A partir de nossas experiências com nossos pais, construímos expectativas de como agiremos com nossos filhos: “Não quero ser tão rígido e autoritário como meu pai”; “Minha mãe não tinha a menor paciência com a gente, gritava e batia, não vou fazer isso com meus filhos!”. Na realidade: “Eu me pego gritando com eles do mesmo jeito que eu odiava em minha mãe!”.

NO CASO DOS FILHOS

No dia a dia com os filhos, muitas expectativas simplesmente se evaporam. O vínculo com cada filho é único, manejos que funcionam com um não dão certo com o outro. Criar a expectativa de que ler muitos textos, ver vídeos de profissionais e participar de grupos on-line sobre como criar filhos vão garantir que sempre saberemos o que fazer resulta, no mínimo, em profunda perplexidade. Na realidade, muitas vezes não saberemos como agir e nada garante que o modo como criamos nossos filhos vai “dar certo”. Até porque os pais não são as únicas influências importantes: outros adultos podem ser escolhidos como figuras de referência, há os amigos, o ambiente escolar e inúmeros “influenciadores digitais” que também contribuem (para o bem ou para o mal) para a formação de crianças e adolescentes. Como psicoterapeuta de famílias já vi muitas situações em que os pais fizeram “tudo certinho” e isso não impediu escolhas desastradas de adolescentes. Por exemplo, na família sempre houve uma conversa aberta sobre sexualidade, percepção de risco e autoproteção nas redes sociais, mas, apesar disso, a adolescente permitiu que o namorado filmasse a transa e, em seguida, compartilhasse nas redes sociais. Por outro lado, conheci crianças que se desenvolveram bem, apesar de manejos inadequados dos pais, como, por exemplo, críticas demolidoras, castigos pesados ou condutas de negligência.

Na gestação, o desejo de ter um “bebê perfeito” vem junto com o medo de que isso não aconteça. A quebra de expectativas quando a criança nasce antes do tempo previsto ou apresenta dificuldades especiais é enorme. O luto pela perda do bebê idealizado diante do filho real é um processo doloroso para muitas mães e pais. É preciso aceitar a realidade e buscar os recursos necessários para lidar com a situação de estimular o melhor desenvolvimento possível para a criança com síndrome de Down, microcefalia decorrente do vírus zika, paralisia cerebral, ou a que se encontra no espectro autista, entre outras questões.

Há pais que criam altas expectativas em relação à vida dos filhos adolescentes e jovens adultos e até tentam influenciar suas escolhas sobre profissão e namorados/as. A maioria dos filhos não toma suas decisões de acordo com as expectativas dos pais: “Meu pai queria que eu trabalhasse com ele no escritório de advocacia, mas isso não tem nada a ver comigo, quero trabalhar com produção de vídeos”; “O sonho da minha mãe é ser avó, mas eu não quero ter filhos”. Criar expectativas que não envolvem nossas próprias ações é caminho certo para a frustração: ter netos depende de decisões dos filhos quererem (ou não) ter filhos.

O PODER DA ESCOLHA

Quando a escolha da profissão, a orientação sexual e a decisão de continuar um relacionamento amoroso não correspondem às expectativas dos pais, o desapontamento e a decepção predominam e até culminam em rompimento: “Eu proibi minha filha de trazer o namorado aqui em casa. Nós não aceitamos essa relação de jeito nenhum, mas ela é adulta, não podemos obrigá-la a romper com esse sujeito. Ela ficou tão magoada que deixou de falar com a gente”.

Na medida em que os filhos crescem, os pais perdem progressivamente o poder de influenciar suas escolhas. Eles são responsáveis pelos caminhos que decidem trilhar e arcarão com as consequências de escolhas ruins. Os pais que aprendem a respeitar essas decisões e demonstram curiosidade para entender melhor o que motiva os filhos a fazerem suas escolhas poderão preservar um relacionamento de melhor qualidade, sem tanta construção de sofrimento por conta de terem “falhado” na criação dos filhos (sim, muitos pais se sentem culpados, além de decepcionados, quando os filhos escolhem caminhos de vida muito diferentes do que sonharam para eles).

ANSIEDADE NA VIDA

Faltavam três anos para Suzana se aposentar. Alfredo, seu marido, já estava aposentado, e eles haviam conseguido fazer uma reserva financeira confortável para concretizar seus planos de viajar pelo mundo. No entanto, Alfredo apresentou sinais da doença de Alzheimer, que evoluiu rapidamente. O futuro sonhado não se concretizou, e o planejamento da vida dos dois precisou ser refeito.

Após muitos anos trabalhando em horário integral e nem sempre em empregos satisfatórios, muitos contam os dias para se aposentar, sonhando em ter tempo livre de obrigações. Mas, para quem não construiu outro projeto de vida, a expectativa de se sentir feliz com o tempo livre pode resultar em tédio, por não saber o que fazer com tanta liberdade.

Ocasionalmente, somos surpreendidos quando acontece algo que “superou nossas expectativas”: “Depois de amargar três anos desempregada, nunca sonhei que eu pudesse ganhar tanto dinheiro trabalhando com produtos digitais!”. Isso nos mostra como é importante manter a mente aberta e alerta para acolher o que a vida oferece, prestar atenção às oportunidades que surgem e se dispor a aprender coisas novas que possam abrir caminhos promissores, mesmo quando, no início, seja preciso superar muitos.

Essencial também é aprimorar a capacidade de observar o contexto em que estamos e a realidade das outras pessoas. Além disso, é preciso cultivar a paciência para entender a lentidão de alguns processos para desenvolver habilidades que poderão nos conduzir a áreas atraentes de trabalho. Érico, um adolescente de 16 anos, queria montar um grupo musical de sucesso, e criou a expectativa de que poderia ser um ótimo guitarrista em pouco tempo. Esperar resultados rápidos é frustração na certa! Aprender a tocar um instrumento, falar fluentemente outros idiomas e muitas outras coisas dependem de tempo, dedicação e persistência para não desanimar diante das dificuldades que encontramos.

“O que posso fazer de melhor com o que a vida me apresenta?” é a pergunta-bússola que poderá nos guiar na construção do equilíbrio entre expectativas, observação do cenário e das pessoas, sonhos, metas e planos de ação.

EU ACHO …

UM CONTO SE FAZ AO LARGO

“… e essa história só não é rápida porque as palavras não são rápidas. Trata-se de uma pessoa. Morava num quarto alugado na casa de uma família. Era uma família ocupada, embaraçada em seus inúmeros deveres e pouco tomavam conhecimento da mulher do quarto alugado. Às vezes o pai ou um dos filhos passava para o banheiro e havia frases curtas trocadas. Depois de algum tempo nem mesmo essa conversa se fazia senão como um murmúrio, e depois incorporou-se ao silêncio. Quanto à pessoa, era uma mulher de meia-idade. Tratava-se de pessoa cuidadosa com os seus pertences, ciosa da própria limpeza. Seu quarto, aliás, a refletia bastante: era limpo e quase vazio. Pois foi essa mulher – inclassificável a menos que se descesse com interesse às profundezas de seu pensamento, o que não ocorreria a ninguém, tão desinteressante ela era –, pois foi essa mulher que viveu silenciosamente uma aventura. E, por mais estranho, uma aventura espiritual…”

Simplesmente não me lembro que história eu estava pretendendo contar, ao escrever essas linhas. Sei que era para ser um conto, mas que aventura espiritual seria? Não me lembro mais, e deixo aos leitores menos experientes, que escrevem ainda como exercício, o trabalho de continuar… Apenas enfunei uma vela e esta se fez ao mar. Mas e o rumo? Perdi a bússola.

***CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

PORNÔ PARA CEGOS E SURDOS

O Brasil ganha seus primeiros filmes de sexo explícito com acessibilidade para deficientes visuais e auditivos

”Ele senta na cama de frente para ela. Se beijam. Ele aperta a coxa dela. Ela passa a mão na barba dele. Ele passa a mão no rosto dela, depois pelos cabelos. Ele a abraça com uma das mãos. Com a outra faz carinho pelo corpo”, diz a narração do filme. A voz feminina, com sotaque carioca, é ouvida entremeada por estalos das bocas dos atores. “Ela beija o pescoço e desabo toa a camisa dele. Se beijam. Ele segura o rosto dela. O homem tem uma tatuagem preta na parte de trás do pescoço e na mão direita. Ele acaricia, aperta e beija os peitos dela por cima do vestido. A mulher olha, sorri. Se beijam.” Nenhuma dessas palavras está no roteiro original do vídeo. Nele, tudo que a voz conta não passa de ação entre os personagens.

Na primeira semana de agosto, os deficientes visuais brasileiros – 3,4% da população, segundo o último Censo – ganharam pela primeira vez a chance de compreender um filme pornográfico. O trecho que abre a reportagem é da audiodescrição de Sugar daddy (expressão usada para designar homens que bancam as despesas das mulheres com que se relacionam), uma das duas produções já disponíveis com esse recurso no streaming do canal Sexy Hot e em plataformas de vídeo sob demanda de operadoras de TV por assinatura. O outro título, com temática de época, é Desejo proibido. Os dois filmes ganharam também legendas descritivas para pessoas com deficiência auditiva – 1,1% dos habitantes do país -, outro recurso com que o gênero nunca tinha contado no Brasil.

A intenção é adaptar todos os filmes novos que saírem em 2020 pelo selo Sexy Hot Produções, contou Cinthia Fajardo, diretora-geral do Grupo Playboy do Brasil, que é detentor da marca. O projeto faz parte de um esforço para ter conteúdos com maior diversidade e inclusão. “Além do passo para a adaptação para cegos e surdos, está também nos planos a criação de roteiros que coloquem na trama em si pessoas com deficiência”, completou Fajardo, que assumiu o comando em janeiro, tornando-se a primeira mulher a ocupar essa posição no país.

Fora do Brasil, a iniciativa mais famosa de acessibilidade no pornô só começou em 2016 no site Pornhub, um dos gigantes do segmento em língua inglesa, com 130 milhões de visitantes por dia, segundo dados da empresa. Na época, ao anunciar recursos de audiodescrição para deficientes visuais, o vice-presidente, Corey Price, destacou que a medida atende a 285 milhões de pessoas pelo mundo.

Se para os vídeos na internet a adaptação foi tardia, em formas mais antigas de pornografia, como as revistas e os livros, ela nunca nem chegou para valer. Um dos raros trabalhos é o da fotógrafa Lisa Murphy, do Canadá. Desde 2007, ela já criou três livros no projeto Tactile mind, repletos de corpos em alto-relevo. Um quarto, ainda sem título, está a caminho. Seu processo, completamente artesanal, é tão incomum quanto trabalhoso. “Eu fotografo e então construo uma escultura. Sobre ela, derreto uma página de plástico em minha máquina de termoconformação (técnica que adapta o plástico a um molde, usando calor). Em seguida, levo essa folha a um revisor com deficiência visual, para feedback. Se necessário, faço ajustes na escultura e adiciono braille à página”, descreveu Murphy. Os livros, sob encomenda, saem entre RS 400 e RS 1 mil cada um.

“Nós, com deficiência, somos vistos como assexuados, como se não pudéssemos ter uma vida sexual ativa. Somos pessoas como as outras, com desejos e sonhos, mas, porque somos marginalizados, então surge esse tabu. Imaginam que as pessoas com deficiência são anjos, heróis, que se superam…Mas são pessoas como as demais, com qualidades, defeitos, que trabalham, estudam, xingam, ficam mal-humoradas”, disse Felipe Monteiro, consultor do trabalho de audiodescrição para o Sexy Hot. Em 42 anos de vida, ele passou a não enxergar nos últimos sete. De lá para cá, não consegue mais consumir filmes do segmento. “Ficou uma lacuna em minha vida. E ela ainda vai existir, porque esses filmes com que estamos começando a trabalhar são todos héteros, e eu sou gay.”

A percepção de que os deficientes estão excluídos do universo erótico ficou clara para Monteiro quando um dia se deparou com um audiolivro que dizia que os personagens colocavam a mão “na B”, “no C”, e aí por diante. O tema virou então objeto de estudo para ele. Em 2018, no trabalho de conclusão de sua especialização em audiodescrição na Universidade Estadual do Ceará, analisou parte do filme nacional A história da eternidade (2014), de Camilo Cavalcante, um drama que aborda sexo explícito em determinada cena. No cinema, explicou Monteiro, a audiodescrição foi coerente com as imagens, mas, quando o filme chegou à televisão, foi feita uma nova versão, com termos menos diretos. “Existiu uma censura. Por que a pessoa que enxerga pode ver uma cena de sexo, explícito, mas narrando não pode ser igual? Por que existe esse desequilíbrio?”

Apesar de ter estudado o assunto, a oportunidade para trabalhar com ele só veio mesmo agora, quando foi convidado a fazer parte da equipe com a missão de transformar as imagens dos filmes do Sexy Hot em palavras e legendas. O time é composto de sete pessoas, todas com experiência em adaptação de diversas produções culturais, mas, em matéria de pornô, todos eram virgens no assunto. A solução foi então ouvir quem mais aguardava pela novidade. “Chamamos 15 cegos consumidores de conteúdo pornô para uma pesquisa, para dizerem o que achavam do resultado. As respostas foram muito positivas, aí nos sentimos mais seguros, porque, como ninguém fez isso antes no Brasil, não tínhamos referência nenhuma… Queríamos entender se gostaram da voz, da velocidade, se entenderam a história”, contou Joana Peregrino, diretora da Conecta Acessibilidade, consultoria contratada pelo canal.

Acertar o tom da fala foi um ponto delicado. O padrão de diretrizes para uma boa audiodescrição pede uma voz “imparcial, que não concorra com o conteúdo. Assim, não importa quão quente seja a cena, a narradora não pode ser sexy. Por outro lado, não pode ser também tão mecânica a ponto de causar estranheza ou cortar a diversão. “Chegamos a algo ameno. A voz não pode entregar tudo”, disse Peregrino.

Nessa hora, a escolha das palavras também é estratégica. Não para evitar termos como “pau”, “buceta”, “cu”, muito pelo contrário, mas para encontrar sinônimos. Logo ficou claro que repetir a mesma palavra o tempo todo tornava a narrativa chata. A solução foi buscar sinônimos, como pênis e membro. Como os momentos sem diálogo entre os personagens costumam ser maioria no pornô, o trabalho de adaptação teve bastante liberdade para ocupar esses espaços. No caso de Sugar daddy, uma acelerada mais brusca no ritmo do filme só foi necessária no início da trama, quando a protagonista é apresentada em uma roda de amigos em um bar. Ali, tudo passa depressa, afinal, o foco é fazê-la chegar à casa do parceiro.

Por outro lado, em comparação a outros gêneros do audiovisual, faz falta os personagens geralmente não terem um nome próprio, disse Felipe Monteiro. “Outro dia pegamos um filme que tinha dois homens muito parecidos em cena com uma mulher, e com o rosto coberto. Tivemos de chamar de Mascarado 1 e Mascarado 2 para diferenciar”, disse. “Por isso, uma de nossas lutas é que a acessibilidade seja pensada na pré-produção, não só na pós-produção, mas já estamos evoluindo”, concluiu.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 31 DE MARÇO

FILHO, ESCUTE SEU PAI

O filho sábio ouve a instrução do pai, mas o escarnecedor não atende à repreensão (Provérbios 13.1).

A obediência aos pais é o caminho mais seguro para a felicidade e a rota mais certa para a prosperidade. É ordem de Deus: Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá (Êxodo 20.12). O apóstolo Paulo disse que este é o primeiro mandamento com promessa. A obediência aos pais é uma atitude justa, um princípio universal. Sua ausência é sinal de decadência da sociedade. O filho sábio ouve a instrução do pai, mas o escarnecedor não atende à repreensão. Aqueles, porém, que não escutam os conselhos sofrerão a chibata. Aqueles que fecham os ouvidos à repreensão, esses oferecerão as costas aos açoites. Muitas tragédias acontecem ainda hoje porque os filhos tapam os ouvidos aos conselhos dos pais. Muitos casamentos errados acontecem porque os filhos não escutam os pais. Muitos acidentes ocorrem porque os filhos são rebeldes aos ensinamentos dos pais. As cadeias e os hospitais estão cheios de filhos vitimados pela rebeldia, e os cemitérios estão salpicados de jovens que foram ceifados precocemente porque, rebeldes, não quiseram ouvir o conselho de seus pais. Permanece o alerta: Filhos, escutem seus pais. Esse é o caminho deleitoso da vida!

GESTÃO E CARREIRA

QUAL É A REFERENCIA?

Interpretações jurídicas diferentes geram insegurança sobre quais índices de correção monetária devem ser aplicados nos processos trabalhistas

Uma das questões que mais têm gerado insegurança jurídica às empresas é a correção monetária sobre os valores devidos nos processos trabalhistas. O imbróglio é antigo, já que existem diversas interpretações sobre qual taxa aplicar para que o valor devido ao trabalhador seja ajustado para a realidade atual do mercado. Mas, desde a aprovação da Reforma Trabalhista em 2017, a incerteza aumentou.

De acordo com o advogado trabalhista Fernando Cha Messias, da Chiarottino e Nicoletti Advogados, os tribunais estão tomando decisões diferentes em cada caso. Segundo eles três soluções são as mais comuns aplicar o IPCA-E (o acumulado do índice Nacional de Preços ao Consumidor, indicador do IBGE que mede o índice de preços no país em determinados períodos), que gera valores mais favoráveis ao trabalhador e era usado antes de 2017; aplicar a TR (taxa referencial, que tem por base o índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança), que é o que a Reforma Trabalhista parece indicar; e uma solução intermediária, que usa os dois índices. Neste último caso, os juízes afirmam que as duas taxas podem ser aplicadas no mesmo processo: entre 2015 e 2017 usa-se o IPCA–E e a partir de 2017 usa-se a TR.

Mas não existe um consenso sobre qual correção utilizar. “O cenário é de muita insegurança jurídica. Cada hora uma taxa diferente é aplicada nas sentenças. E a adoção de uma taxa ou de outra pode significar uma diferença de até 30% no valor total da dívida”, explica o advogado Domingos Fortunato, sócio do escritório Mattos Filho.

A controvérsia chegou aos tribunais superiores. Em junho deste ano, o pleno do TST se debruçou sobre o tema e formou maioria para julgar inconstitucional a utilização da TR na correção monetária, no sentido oposto ao do texto da Reforma Trabalhista. A relatora do caso, ministra Delaíde Miranda Arantes, afirmou que a TR afronta o direito à propriedade, afinal, reduziria o valor real da dívida trabalhista.

Paralelamente foi ajuizada uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo que a Suprema Corte declarasse a constitucionalidade da norma da Reforma Trabalhista que previa a utilização da TR. Na iminência do julgamento no TST, a Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif), autora da ação no STF, pediu a suspensão de todos os processos sobre o assunto na Justiça Trabalhista. O pedido liminar foi atendido e o ministro Gilmar Mendes suspendeu os processos em tramitação no país que discutam qual índice deve ser aplicado para a correção monetária de dívidas trabalhistas. “A decisão liminar suspende apenas os processos que dependem só da escolha de qual será a taxa indicada para a correção monetária. Os demais correm naturalmente”, explica Fernando.

O advogado Domingos, do escritório Mattos Filho, acredita que a Suprema Corte deve manter a aplicação da TR, validando o disposto na Reforma Trabalhista. “A expectativa é que o STF valide as alterações trazidas pela Reforma Trabalhista, como tem feito em decisões até aqui sobre outros temas alterados pela nova lei. Até porque trata-se de uma lei recente e deve- se respeitar a vontade do Legislador em consonância com o princípio da separação entre os poderes”, diz.

CORONAVÍRUS

Um dos argumentos usados por Gilmar Mendes para justificar sua decisão Liminar de suspensão dos processos foi a pandemia da covid-19. “Diante da magnitude da crise, a escolha do índice de correção de débitos trabalhistas ganha ainda mais importância”, afirmou o ministro.

Domingos concorda. “O que as empresas mais querem, ainda mais em um momento de incertezas como este da pandemia, é previsibilidade para planejar seus investimentos.  Os recursos em caixa nessa etapa da retomada serão poucos e sua aplicação deve ser muito bem calculada. Então, a decisão do STF para pacificar a questão é fundamental e urgente”, afirma.

A expectativa é que o número de processos trabalhistas aumente consideravelmente em 2021. Até o fechamento deste post já eram mais de 62.000 relacionados à pandemia, com valor total de 3,88 bilhões de reais. Os dados estão disponíveis no Termômetro Covid-19 na Justiça do Trabalho, plataforma online lançada em maio de 2020 que usa uma ferramenta para identificar todas as ações trabalhistas nas quais constem expressões como “pandemia”, “coronavírus” e “covid-19”.

Para as companhias, a saída é tentar negociar com os trabalhadores. “Já houve muitas dispensas e ainda teremos outras enquanto durar este cenário. Temos aconselhado nossos clientes no sentido de fazer acordos, que abreviam a resolução das questões e minimizam essa incerteza quanto à taxa a ser usada na correção monetária”, diz Domingos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS REDES SÃO SOCIÁVEIS?

Elas não agem por conta própria e sua manipulação fornece poder quanto à produção de subjetividades, portanto sua relação de causalidade é colocada em questão

No dicionário, o significado do adjetivo “sociável” é: “próprio para viver em sociedade; que tende para a vida em sociedade. De convívio agradável; civilizado, urbano, afável: caráter sociável e generoso. Que consegue viver socialmente, seguindo regras e práticas de convivência”.

Vendo esse conceito, pode-se dizer que as redes são mesmo sociáveis? A resposta obviamente é não.

Uma postagem recente no Twitter é útil e vale a pena reproduzi-la:

“…Leitor pergunta como seguir saudável nesta maré de obscurantismo. Sugiro a sabotagem: ler literatura, assistir a bons filmes, frequentar exposições de arte, ir à roda de samba, dançar forró, amar. Cultivar subversiva alegria. Contra a pulsão de morte, só a anarquia da felicidade…”

Mesmo não concordando que exista pulsão de morte, entendo o que ele propõe e quer dizer. Estaríamos vivendo tempos sombrios. E seguindo a narrativa, podemos inferir que o antídoto “alegria e felicidade” diga respeito também às formas de relação carregadas de desrespeito e ódio até inclusive (ou principalmente) nas redes.

É verdade que, do ponto de vista sociológico, as redes sociais retiraram dos grandes meios de comunicação a hegemonia da “informação” – colocada entre aspas – e isso não deixa de ter um aspecto meritório, benigno, na onda da valorização da organização espontânea da sociedade civil opondo-se à dependência exclusiva dos meios institucionais como gerenciadores das demandas e necessidades da sociedade.

Mas há também um ciclo pernicioso: posturas e manifestações esdrúxulas de entes públicos são toleradas e defendidas em redes sociais. Os defensores aprovam agressões e preconceitos na forma e conteúdo, e o fazem usando não somente linguagem virulenta, mas também favorecendo estigmatizações. Isso, por sua vez, legitima o ente público. As redes tornam-se assim “institutos de pesquisa” cotidianos.

Assim se forma o “novo normal”, em que o ódio e a intolerância tornam-se lugares-comuns. Não é “direita-esquerda”, “conservador-progressista” o elemento central, portanto.

Obviamente as redes sociais não agem por conta própria elas mesmas, e sua manipulação fornece poder quanto à produção de subjetividades só equiparado à propaganda na Alemanha nazista.

Mas é novamente a relação de causalidade que é colocada em questão. Seria raso e ingênuo pensar que a virulência manifesta nas redes é simplesmente consequência. Assim como seria raso e ingênuo adotar um conceito como o da pulsão de morte, que seria uma espécie de “pecado original” constituinte do psiquismo, como explicação para a espontaneidade das manifestações de virulência.

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/ UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com

EU ACHO …

EU SEI O QUE É PRIMAVERA

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.

Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.

Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

NA PONTA DOS DEDOS

A Covld-19 provocou uma corrida atrás dos oxímetros, aparelhos que medem a oxigenação do sangue. Atenção: eles devem ser usados com muita parcimônia

O medo causado pelo alastramento da Covid-19 provocou um novíssimo fenômeno de vendas: as dos oxímetros portáteis, pequenos dispositivos que medem a oxigenação sanguínea pela ponta dos dedos. Em pouco menos de dois meses, as dezenas de modelos do aparelho sumiram das farmácias, como se fossem frascos de álcool em gel. Em abril, o número de compras via e-commerce aumentou 171% em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com levantamento da consultoria Compre & Confie. Para ter um deles agora é preciso esperar por semanas e desembolsar 59% a mais do que se pagava no ano anterior: 202 reais, em média. Dados do Google no Brasil mostram que entre fevereiro e março houve um aumento de quase 10.000 % (isso mesmo) da busca pela palavra “oxímetro”.

A intensa procura começou a partir de um artigo do médico de emergência americano Richard Levitan no The New York Times. No texto, Levitan descreve um quadro que chamou de “hipóxia silenciosa”. É o que acontece com pacientes que estranhamente não sentem falta de ar mesmo com níveis extraordinariamente baixos de oxigênio no sangue, fenômeno ainda não explicado pela medicina. Essas pessoas chegam ao hospital em estado crítico. Segundo o médico, o uso de oxímetro por pessoas com sintomas compatíveis com o da Covid-19 poderia ajudar a antecipar a detecção precoce de quadros graves.

A sugestão de Levitan, contudo, é controversa. Diz o pneumologista Bruno Guedes Baldi, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Fisiologia: “É um grande risco fazer desses aparelhos o único método de diagnóstico precoce e de complicações da Covid-19″. Estima-se que em 25% dos doentes a medição da saturação seja inútil porque são pacientes assintomáticos. E mais: dificilmente o portador da doença apresenta falta de ar e oxigenação baixa no início. Em geral, esses problemas aparecem por volta do sétimo dia e são antecedidos por sintomas como febre, tosse seca e incômoda e falta de olfato e paladar. O benefício real do monitoramento da oxigenação é poder sinalizar a queda da saúde respiratória antes do stress fatal da doença para o enfermo que está se recuperando em casa e precisa ir para o hospital – não para o saudável. O uso doméstico do dispositivo pode ainda levar a erro de interpretação. O fluxo de oxigênio, por exemplo, sofre variações naturais ­ fica mais baixo quando acordamos ou praticamos exercícios. Também pode acontecer o oposto e o oxímetro transmitir uma falsa sensação de segurança. “Há ainda um efeito colateral indireto, o aumento da ansiedade causado pelas verificações frequentes”, diz o pneumologista Eliel Fiss, pesquisador sênior do Hospital Osvaldo Cruz. Conclusão: use com parcimônia e acompanhamento médico.

E, apesar de tudo, do mau hábito de se apegar a traquitanas da medicina em necessidade, deu-se a popularidade do dispositivo por um motivo simples: a facilidade de uso, semelhante a um  prendedor de roupas, o oxímetro é colocado na ponta do dedo (a maioria dos modelos exigem que a unha fique para cima e sem esmalte) e, em segundos. indica o nível de oxigenação do organismo e os batimentos cardíacos. O aparelho funciona como uma lanterna que joga luz sobre uma folha de papel e que em seguida mede quanto dessa luz chega ao outro lado. A folha de papel, no caso, é o dedo do paciente. Quando as hemoglobinas, proteínas que transportam o oxigênio no sangue, estão com mais oxigênio, elas absorvem mais luz infravermelha: quando estão menos oxigenadas, absorvem mais luz vermelha. A intensidade das luzes que chegam ao receptor do outro lado é traduzida em valores digitais. O nível normal é de pelo menos 95%. Em portadores de problemas pulmonares, como enfisema e obesos, o índice aceito é um pouco menor, em tomo de 92%. Medições abaixo dessas, portanto, pedem atenção e, insista-se, olhar profissional.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE MARÇO

JUSTIÇA, UM CAMINHO DE VIDA

Na vereda da justiça, está a vida, e no caminho da sua carreira não há morte (Provérbios 12.28)

Os homens são ávidos para encontrar o sentido da vida. Buscam esse sentido nas aventuras, nas riquezas, nos prazeres e no sucesso. Sorvem todas as taças dos prazeres e provam todas as iguarias do banquete do mundo. Embora entrem por largas avenidas e espaçosos caminhos na busca pela felicidade, muitos rumam para a perdição. Esse caminho parece direito, mas é caminho de morte. Oferece liberdade, mas escraviza; promete alegria, mas paga com a tristeza; proclama a vida, mas o que se vê ao longo dessa estrada é a carranca da morte. Na vereda da justiça, porém, está a vida, e no caminho da sua carreira não há morte. Jesus é o caminho e é também a vida. Quando andamos nele, saboreamos a verdadeira vida. Quando permanecemos nele, a morte não tem mais a última palavra sobre nós. A justiça é o caminho da vida. Esse caminho é estreito, mas seguro. É apertado, mas seu destino é a glória. Nesse caminho passamos pelo vale da sombra da morte, mas não precisamos temer mal nenhum. Não estamos sós. O bom pastor caminha conosco, oferecendo-nos segurança, refrigério e vitória. E, quando nossa jornada aqui terminar, habitaremos na casa do Pai, e isso por toda a eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

ACEITANDO AS DIFERENÇAS

A criação de um programa estruturado de diversidade está ajudando a Usiminas aumentar o número de mulheres em seu quadro.

Em 2016, a empresa do setor siderúrgico Usiminas estava enfrentando uma crise financeira, resultado da recessão econômica pela qual o país estava passando e da queda nos preços internacionais do minério de ferro, commodity primordial para a companhia. Na época, a organização registrou prejuízo líquido de 670 milhões de reais. Foi durante a recuperação ao longo do ano seguinte, que a Usiminas decidiu investir em um programa interno de diversidade e inclusão para impulsionar o engajamento dos funcionários e melhorar o aspecto financeiro.

“Além de garantir que as pessoas trabalhem mais felizes e se sintam respeitadas, o crescimento dos resultados é maior em ambientes diversos e inclusivos. Pesquisas de mercado mostram isso. A gente se baseou em um relatório da McKinsey que diz que empresas com diversidade de gênero são 21% mais lucrativas, enquanto a diversidade étnica melhora os resultados em 33%”, afirma Sergio Leite de Andrade, diretor presidente da Usiminas.

Por estar em um segmento altamente masculino, era um grande desafio criar uma cultura de aceitação para que o programa de diversidade fosse abraçado por todos. Por isso, a organização resolveu contratar uma consultoria para desenhar a estratégia e estruturar o projeto.

A SOLUÇÃO

Lançado em janeiro de 2019, o programa foi dividido em cinco pilares – gênero, étnico-racial, geração, PCDs e LGBTI+. Na primeira etapa, a tarefa era conscientizar a alta liderança e os gestores. Para isso, a companhia montou um comitê com o CEO e os cinco vice-presidentes. Os executivos tinham como objetivo acompanhar as métricas e os resultados das ações, reunir-se para discutir o tema a cada trimestre e apadrinhar um dos grupos de afinidade recém-criados.

“Desde o início, um ponto muito importante foi conquistar o comprometimento das lideranças. Todos os nossos 420 gestores passaram por três meses de capacitação, treinamentos, workshops e discussões sobre vieses inconscientes” explica Sergio, que é padrinho do grupo LGBTI+.

A segunda fase do processo foi marcada por duas ações paralelas: reforçar a comunicação interna para difundir o programa entre os funcionários e promover a reflexão sobre a diversidade; e lançar efetivamente as atividades dos grupos de afinidade. As equipes são formadas por até 30 empregados voluntários que se reúnem uma vez por mês para discutir o tema e propor ações. Durante a pandemia da covid-19 o pessoal continuou os trabalhos – a interação é feita de forma remota.

Paralelamente, a Usiminas começou a ampliar o recrutamento por meio de parcerias e participações em feiras, congressos e palestras de diferentes instituições e consultorias de recolocação profissional voltadas para minorias. Outro enfoque foi em ações de retenção que começaram a olhar mais para as necessidades dos grupos diversos com benefícios como licença maternidade estendida, instalação de salas de aleitamento, realização de um programa de capacitação de pessoas com deficiência e inclusão de cônjuges do mesmo sexo no plano de saúde.

E a companhia ainda assinou três pactos: a Carta-Compromisso de Coalisão Empresarial para equidade Racial e de Gênero; O Fórum Empresas e Direitos LGBTI+, e os Princípios de Empoderamento Feminino da ONU Mulher. Segundo Sergio, fazer parte dessas iniciativas permite que a empresa compartilhe sua experiência com outras companhias e conheça diferentes práticas.

O RESULTADO

Em um ano, os trabalhos de sensibilização e revisão dos processos seletivos permitiram aumentar a participação das mulheres em programas de entrada de 18% para 40%. Algumas atividades, como o programa de trainees, começaram antes do lançamento oficial do projeto de diversidade, mas já foram pensadas para ampliar a participação das minorias. A seleção de trainees feita em outubro de 2018, por exemplo, tinha 50% de mulheres entre os 34 contratados. “Esse é um programa de longo prazo. Os indicadores estão evoluindo e o aumento das mulheres no quadro de funcionários é um exemplo disso”, afirma Sergio.

Em junho deste ano, o foco da empresa tem sido o pilar LGBTI+. Por conta do Mês do Orgulho, a comunicação interna ganhou as cores da bandeira LGBTI+ e foi lançado um manifesto a favor da diversidade.

USIMINAS

NEGÓCIO

Produção e comercialização de aços laminados, bobinas, placas e revestidos, destinados principalmente para a produção de equipamentos, materiais de construção, instalações industriais, bens de consumo da linha branca, além da indústria automotiva.

ANO DE FUNDAÇÃO: 1956

UNIDADES: 12

NO BRASIL

Sede em Belo Horizonte (MG) e unidades em São Paulo (SP), Cubatão (SP), Taubaté (SP), Guarulhos (SP), Ipatinga (MG), Itatiaiuçu (MG), Santa Luzia (MG), Betim (MG), Porto Alegre (RS), Suape (PE) e Vitória (ES).

FUNCIONÁRIOS

27.700 – Sendo 15.800 – Próprios e 11.900 – Terceirizados

RECEITA LÍQUIDA TOTAL

14,9 bilhões de reais em 2019, resultado 8,8% superior ao exercício de 2018

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A IMPORTÂNCIA EM SER IMPORTANTE

Deixar marcas, ser notado, não passar em branco, ser alguém especial… por que isso é tão essencial e essa necessidade tem crescido tanto numa sociedade que valoriza até a ostentação da felicidade?

Amar e ser amado são necessidades inerentes à humanidade, somos seres sociáveis e, como tais, temos o desejo de pertencimento a um grupo e de compartilhar amor. Necessidade essa que nasce, fundamentalmente, na infância e nos acompanha no decorrer da vida.

O amor é o alimento da alma. Amor é preenchimento, transbordamento, alegria. Quando estamos cheios de amor genuíno e realmente conseguimos nos amar, esse amor transborda e atinge o outro, assim como preenche a vida e tudo que se faz! É o que dizem as escrituras sagradas em “amar o próximo como a ti mesmo”. Quando se pratica o amor, a vida se torna leve, colorida. Ele é o combustível da vida, o sentimento que dá sentido ao que somos e ao que fazemos. Quem é cheio de amor genuíno, amor-próprio, consegue amar o outro de forma incondicional. Ter amor ao que faz traz felicidade e uma sensação de paz e de completude na vida.

De acordo, porém, em como se dão as primeiras experiências em compartilhar amor, ainda na tenra infância, outros sentimentos podem nascer e comprometer fundamentalmente a forma como iremos ressignificar esse sentimento futuramente. Se essas experiências forem negativas, sentimentos como frustração e baixa autoestima surgirão, determinando os relacionamentos futuros e a visão sobre o amor.

Talvez esse seja um caminho para começarmos a entender, olhando para a atual sociedade, os motivos pelos quais as pessoas buscam incessantemente serem notadas e admiradas, para se sentirem valorizadas e amadas. É preciso voltar à infância para começar a entender esses processos.

Segundo Freud, a criança ao nascer se depara com uma sociedade neurótica e vai se moldando aos poucos, tornando-se mais e mais sensível a essa neurose.

A criança quer chorar, gritar, expressar livremente seus sentimentos e até sua agressividade, mas precocemente é reprimida em seus atos, para ser apreciada e amada. Ela deve se comportar para ser aceita e querida e assim pode ir aprendendo a ter a necessidade de aprovação externa sobre os seus comportamentos. Ela percebe, ou sente, que existe um padrão para “acessar o amor do outro” e, cada vez que ela não consegue alcançar esse padrão em suas experiências, se sente insegura e frustrada, dando início ao processo das neuroses.

O amor deixa de ser algo entendido como natural, inerente, incondicional, para ser visto como algo a ser conquistado, ou seja, surge a necessidade de “se fazer amado”.

Dessa forma, de acordo com essas primeiras experiências infantis e conforme as frustrações com estas vão crescendo, a autoestima vai diminuindo, criando-se uma lacuna entre o querer e o conseguir ser amado.

O amor-próprio diminui gradativa- mente frente às inseguranças surgidas. Sem amor-próprio o amor ao outro se torna um processo dificultoso, árduo.

Sem o amor-próprio não há como se valorizar e o conhecimento de si mesmo passa a ser um referencial no “reconhecimento externo”. Se alguém diz que você é bom, você se sente bom, e se diz que não é bom, sente-se deprimido. A necessidade de ser aprovado foi ensinada: se não há reconhecimento, não há valor. In- felizmente, esse sentimento pode acompanhar a pessoa no decorrer da sua vida. Nesse processo, passa a “valer tudo” para ganhar o olhar do outro, e a estratégia mais utilizada é a busca pela atenção. Chamar a atenção do outro passa a ser a tentativa de preencher a lacuna que surgiu lá trás. Quando amamos alguém prestamos atenção nesse alguém, naturalmente. Então, o raciocínio inverso passa a ser verdadeiro: quando alguém está atento a nós, nos sentimos amados.

A lacuna está preenchida!

Daí para frente, há alguns desdobramentos que irão resultar em outros: o amor verdadeiro e transcendental passa a ser substituído por um “amor banalizado”. Todos se amam, mesmo que tenham um relacionamento superficial, na vida, nas redes sociais, porque a palavra “amor” perdeu o significado primário.

A lacuna do verdadeiro sentimento é substituída pela busca infinita pela atenção do outro. E na ânsia por essa atenção usam-se as formas mais visíveis para a obtenção de olhares, holofotes e admiração: comportamento, fama, ostentação. Tudo para ser admirado e desejado.

Entende-se então, assim, que a necessidade de ser importante é o resultado da falta de autoestima, tornando-se uma busca de compensação para o vazio, a lacuna sentida na alma quando perdemos o amor-próprio e natural.

MUNDO DAS REDES

Nesse contexto em que chamar a atenção irá preencher um vazio e trazer o sentimento de “plenitude” e valorização, surge um cenário maravilhoso que serve para mostrar ao mundo “que eu existo” da forma como eu quiser ser visto: a internet.

As redes sociais proporcionam a vitrine para o mundo. Nela, qualquer pessoa pode se mostrar da forma como gostaria de ser e arrematar para si os tão importantes olhares de aprovação que darão a falsa impressão de ser importante, de ser amado.

Ao postar uma foto ostentando alegria, felicidade, sucesso, realização profissional e social e começar a receber likes e comentários, o ego vai sendo massageado e inicia-se um vicioso ciclo de prazer, que vai sendo realimentado, fazendo com que haja uma dependência e necessidade cada vez maior desse ciclo.

Dessa forma, as pessoas vão criando “máscaras de felicidade”, procurando transparecer, cada vez mais, algo que muitas vezes não condiz com a sua realidade, mas que serve para alcançar os olhares, as curtidas e a aprovação.

Dentro de um contexto social em que valores materiais são supervalorizados em detrimento aos valores morais e éticos, é cada vez maior a ostentação no plano material, principalmente por jovens e adolescentes, em busca de autoafirmação. Surgem os braggers, termo que em inglês significa “fanfarrão”, mas que se refere àquele que se autopromove, o exibicionista nas redes sociais. O verbo brag em inglês está ligado ao ato de se vangloriar.

Ser uma pessoa de sucesso financeiro, profissional e pessoal é o modelo de alguém bem-sucedido, perseguido por milhares de pessoas que almejam a valorização e “ser notadas”.

Assim nasce a “cultura do exibicionismo”, com uma superexposição virtual, fingindo-se, na maioria das vezes, ter um estilo de vida que não é o real. Cria-se o “mito” da felicidade em cem por cento do tempo, a necessidade de se mostrar exuberante em tempo integral, ostentando um relacionamento perfeito, uma vida social intensa, uma vida profissional de extremo sucesso, uma vida financeira abundante.

A CULTURA DO EXIBICIONISMO

Estudos atuais relacionam essa superexposição às redes sociais a distúrbios psicológicos.

A Universidade da Pensilvânia (EUA) analisou 143 estudantes de 18 a 22 anos em três plataformas mais populares (Facebook, Snapchat e Instagram) e chegou à conclusão de que quanto mais tempo esses jovens passavam junto às redes, mais probabilidade apresentavam em relação a manifesta- rem sentimentos e comportamentos de tristeza, depressão e solidão.

Parece um paradoxo, uma vez que, ao inventar o Facebook, Mark Zuckerberg propunha um espaço de liberdade e de conexão, um ponto de encontro para amigos. Hoje, com mais de dois bilhões de usuários ativos por mês, a plataforma, tal qual algumas outras, pode instigar sentimentos negativos e prejudiciais à saúde psíquica.

Chega a ser irônico, diz Melissa Hunt, líder da pesquisa. Porém, ao analisar de perto o comportamento dos usuários, percebe-se que tudo faz sentido: há muita comparação entre aquele usuário que está vendo a publicação e exposição do outro com a sua própria vida. A impressão que se tem é que a do outro é sempre muito melhor do que a sua, estimulando o aparecimento de sentimentos de menos valia, incompetência e baixa autoestima.

O psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, aponta em seus estudos que, quanto mais tempo conectadas, mais insatisfeitas as pessoas ficam com suas próprias vidas.

Uma outra pesquisa, realizada pela Universidade Humboldt, em Berlim, entrevistou 357 universitários e descobriu que o principal sentimento manifestado em relação à vida virtual é a inveja. Uma a cada cinco pessoas pesquisadas aponta o Facebook como origem do sentimento de inveja em sua vida.

Quase 30% dos jovens entrevistados relataram sentir inveja ao ver posts sobre viagens, atividades de lazer de amigos e postagens vinculadas ao sucesso.

Alguns usuários, mesmo se exibindo, se mostram chateados quando suas postagens de ostentação não são notadas como gostariam, aumentando ainda mais um ciclo de disputa por curtidas e por serem notados.

Recentemente, o caso de uma jovem consumida pela mídia social e necessidade de aprovação foi exposta, por ela mesma, na rede social.

Essena O’Neil, uma jovem australiana de 18 anos, consagrada como webcelebridade e com mais de 712.000 seguidores, abandonou as redes sociais, revelando que sua vida virtual era uma “fraude”, uma farsa. Antes de deixar as redes, a garota resolveu repostar suas fotos reeditando as legendas, mostrando que a realidade era muito diferente da postagem virtual. Ela conta, por exemplo, em seus depoimentos sobre uma foto que tirou como modelo e do sacrifício realizado para a barriga estar perfeita: ficou sem comer o dia todo e tirou mais de cem fotos para achar a posição perfeita para expor sua barriga e estômago.

Essena desabafa: “Nunca estive tão miserável. Likes, visualizações e seguidores não são amor”. A jovem ainda relata que passou a adolescência, desde os 12 anos, tentando se tornar alguém importante, bonita e cool e que chegou a pesquisar medidas ideais de coxa e cintura de celebridades para se ajustar ao perfil.

FALEM MAL, MAS FALEM DE MIM

Chamar atenção a qualquer custo pode significar, inclusive, ser notado através de comportamentos negativos.

Muitas vezes, a autoestima é tão baixa que a própria pessoa duvida que possa ser apreciada por algo positivo, que tenha algo bom a oferecer ao outro. Pessoas que foram muito depreciadas, machucadas, julgadas podem “incorporar” comportamentos negativos e rebeldes, que incluem quebra de regras, comportamentos destrutivos, que acabam virando um ciclo, baixando ainda mais a autoestima, até que a pessoa só se reconheça de forma negativa.

Num outro aspecto, para muitos, quebrar regras faz com que pessoas comuns pareçam poderosas. É o que diz um estudo publicado no periódico Psychological na Personality Science. Os entrevistados na pesquisa, diante de várias situações simuladas, demonstraram que consideravam pessoas que quebravam regras e pessoas rebeldes mais poderosas do que as outras.

Nesse sentido, na busca incessante pelo olhar do outro e por holofotes, vale chamar a atenção de todas as formas, incluindo pelo lado negativo. Assim, indisciplina, rebeldia, vandalismo são, na verdade, pedidos de atenção, de alguém que quer gritar: “estou aqui, eu existo, quero ser notado, mas não tenho nada de bom a oferecer”!

Esse fenômeno explica alguns casos de atos de indisciplina em sala de aula, vandalismo e rebeldia de crianças, adolescentes e adultos que se sentiram um dia vítimas de abandono e desamor, viveram um sentimento de rejeição, que perderam o amor-próprio, a capacidade de confiar no outro e que encontram, nessas atitudes, uma forma de pedir ajuda e alcançar a atenção do outro.

EXISTE UMA SAÍDA?

Sim! Estudiosos e filósofos acreditam nisso!

Um deles é a pesquisadora Brené Brown, autora do livro A Coragem de Ser Imperfeito.

Em seus estudos, Brown diz que nascemos para a conexão com o outro, mas no decorrer de nossos caminhos essa conexão é rompida e o responsável por essa ruptura é o sentimento de vergonha que carregamos em não nos sentirmos suficientes (suficientemente belos, suficientemente magros, suficientemente bem-sucedidos). Isso cria uma sensação de vulnerabilidade que sustenta a vergonha e produz um ciclo infinito de vulnerabilidade diante do outro, das situações da vida.

Estudando, porém, os depoimentos de seus entrevistados, para sua pesquisa e tese, Brené Brown reparou que havia um grupo diferenciado, que acreditava no seu senso de merecimento, no amor e no poder da conexão.

Brown percebeu, então, que, paradoxalmente, o que diferenciava esse grupo do outro era exatamente a aceitação dessa vulnerabilidade diante da vida, do outro e a aceitação também de suas imperfeições. Eles tinham coragem de ser vistos “nus” como realmente eram, aceitando-se acima de tudo, e isso lhes trazia de volta o sentimento de pertencimento. Assim, conseguiam ser felizes, plenos, aceitando suas falhas, imperfeições e principalmente sua vulnerabilidade.

Através não só dos estudos de Brown, mas de um olhar profundo sobre aquela “lacuna” do passado, da infância, sobre a autoestima perdida, sobre a busca incansável pela atenção do outro, na ânsia por valorização e necessidade de sermos amados, podemos aprender que somente a aceitação das nossas imperfeições e vulnerabilidades e o resgate do amor-próprio, nos amando do jeito que somos, nos trarão de volta aquele amor genuíno e transbordante.

O amor genuíno é um sentimento tão forte, capaz de renascer nos solos mais áridos das nossas vidas. Ele renasce na disponibilidade em ser o primeiro a dizer eu te amo verdadeiramente, e não da forma banalizada, a quem se ama real- mente, em se doar por completo e em investir tempo e qualidade nas relações.

Ele renasce também e principalmente na capacidade de enxergar e aceitar nossas próprias fraquezas e resgatar o amor-próprio. E é esse amor que vai nos preencher totalmente, preencher aquela lacuna e transbordar pela vida afora.

EU ACHO …

COMER, COMER

Não sei como são as outras casas de família. Na minha casa todos falam em comida. “Esse queijo é seu?” “Não, é de todos.” “A canjica está boa?” “Está ótima.” “Mamãe, pede à cozinheira para fazer coquetel de camarão, eu ensino.” “Como é que você sabe?” “Eu comi e aprendi pelo gosto.” “Quero hoje comer somente sopa de ervilhas e sardinha.” “Essa carne ficou salgada demais.” “Estou sem fome, mas se você comprar pimenta eu como.” “Não, mamãe, ir comer no restaurante sai muito caro, e eu prefiro comida de casa.” “Que é que tem no jantar para comer?”

Não, minha casa não é metafísica. Ninguém é gordo aqui, mas mal se perdoa uma comida malfeita. Quanto a mim, vou abrindo e fechando a bolsa para tirar dinheiro para compras. “Vou jantar fora, mamãe, mas guarde um pouco do jantar para mim.” E quanto a mim, acho certo que num lar se mantenha aceso o fogo para o que der e vier. Uma casa de família é aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, mantenham-se as panelas no fogo. O fato é simplesmente que nós gostamos de comer. E sou com orgulho a mãe da casa de comidas. Além de comer conversamos muito sobre o que acontece no Brasil e no mundo, conversamos sobre que roupa é adequada para determinadas ocasiões. Nós somos um lar.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

A COR DO PRECONCEITO

Asiáticas e asiáticos interpretados por ocidentais, latinos substituídos por europeus e norte-americanos, atrizes e atores brancos pintados de preto mostram que Whitewashing e Blackface são dois lados da mesma moeda da discriminação

Duras críticas a todas e quaisquer manifestações de preconceito étnico, racial e de gênero tornam-se, acertadamente, cada vez mais um marco civilizatório em todo o mundo. É bom que isso ocorra, também, como reforço à democracia social. Essa ficha parece não ter caído, no entanto, para uma parcela da indústria cultural, de entretenimento e produção artística. O assunto veio à baila nos últimos dias após o lançamento da série “Fate: A Saga Winx”, da Netflix. Os assinantes da plataforma começaram a acusar os produtores de discriminação pelo fato de eles privilegiarem atrizes e atores norte-americanos e britânicos, independentemente da etnia que alguns personagens têm de representar. “O que vemos nessa série é a afirmação de um padrão”, diz o sociólogo da Universidade Mackenzie, Rogério Baptistini. “Forma o imaginário de como deveria se constituir o ser humano perfeito”. Para quem não é familiarizado com o mundo das fadas, vale retomar a origem e inspiração da série. A “Saga Winx” chamava-se “Clube das Winx” e tratava-se de um desenho animado no qual oito meninas se matriculam em uma Escola de Fadas para lapidar os seus dons sobrenaturais. O enredo da história, obviamente, nada tem a ver com preconceito racial. Ele, o preconceito, começa quando o desenho ganha atrizes de carne e osso e vira uma live-action. É nesse momento, na escolha de quem vai atuar, que começa o processo de Whitewashing – leia-se embranquecimento, termo empregado para apontar produções culturais que substituem negros, pardos, asiáticos e latinos por pessoas brancas.

PERVERSO ESTEREÓTIPO

De volta à série, exemplo disso é a personagem Flora, que foi excluída e substituída pela fada Terra. Flora interpretava uma latina de Porto Rico. Terra é branca e de olhos extremamente claros. Outro exemplo é o da fada Musa, inspirada na atriz Lucy Liu, filha de chineses. Apesar dos traços orientais, ela é vivida na série por Elisha Applebaum: inglesa e branca. “Recentemente, Kamala Harris sofreu Whitewashing na capa de uma revista”, diz a professora da Unicamp e presidente da Comissão de Diversidade Étnico-Racial, Debora Jaffrey. Kamala, recém-eleita vice-presidente dos EUA, teve seu tom de pele esbranquiçado na capa da revista Vogue. Ela, escolhida por Biden justamente por ser uma mulher negra, tornou-se branca no ensaio fotográfico. “É uma ação racista e uma ligação direta com o racismo estrutural e institucional”, explica Debora. Equivoca-se quem julga que a saga das bruxas é exceção. No filme “A vigilante do amanhã”, de 2017, baseado em um mangá e passado no Japão, a protagonista, quem diria, é a atriz norte-americana Scarlett Johansson. E há até o absurdo do que se pode chamar de “Yellowface”: na novela Geração Brasil, o ator Rodrigo Pandolfo valeu-se de fitas transparentes e barbante para estereotipar olhos puxados.

A origem do embranquecimento, ou seja, dessa trucagem absurda e preconceituosa, está lá no início do século passado e, ironicamente, em um procedimento contrário, batizado de Blackface: atores negros eram banidos das produções, e brancos eram pintados de preto. Em 1927, é isso a que se assiste no primeiro registro sonoro do cinema: “O cantor de jazz”, protagonizado pelo ator branco Al Jolson. Nesse e em outros brancos pintados de preto, os traços da etnia negra são intencionalmente exagerados, em um perverso estereótipo. Quem ama cinema, viu Othelo, de William Shakespeare, vivido pelo britânico Laurence Olivier (1965). Othelo, na obra shakesperiana, é negro. A produção preferiu pintar Olivier. Cabe a pergunta: não havia nenhum ator negro capaz de fazer o papel? Claro que sim. Na televisão brasileira, e bem recentemente, essa mesma estereotipagem de traços forçados foi um padrão seguido no programa humorístico “Zorra Total”, com a personagem Adelaide. Quem a fazia não era uma mulher, mas, sim, um homem tingido de preto. Com todos os casos citados, fica claro, assim, que o Whitewashing e o Blackface são dois lados da mesma moeda da discriminação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE MARÇO

PREGUIÇA, CAUSA DE MUITAS PERDAS

O preguiçoso não assará a sua caça, mas o bem precioso do homem é ser ele diligente (Provérbios 12.27).

O preguiçoso dá alguns passos importantes na vida, mas cessa o seu trabalho antes de concluir seu propósito. Ele sai ao campo para caçar, mas quando apanha a sua caça, não tem disposição para assá-la. Ele passa fome e perde o resultado do seu trabalho porque a preguiça não o deixa concluir aquilo que começou. Quantas perdas na vida por causa da preguiça! Quantos casamentos acabados por causa da preguiça! Quanto dinheiro perdido por causa da preguiça! O preguiçoso não usufrui o fruto do seu trabalho. Não tem perseverança. É acomodado. Prefere a indolência, o conforto, o sono, a cama, e a pobreza ao trabalho. Porém, o bem precioso do homem é ser diligente. O homem diligente encontra um tesouro no trabalho, e não apenas no resultado do trabalho. Deleita-se no trabalho, e não apenas nos seus frutos. Para o diligente, a própria semeadura é uma tarefa encantadora, pois o trabalho em si é uma das mais preciosas recompensas do labor. Não ter nada para fazer ou não fazer nada é uma maldição, mas ocupar-se com o trabalho é uma recompensa que desemboca em muitos outros ganhos. Quem não trabalha dá trabalho; mas quem trabalha amealha riquezas e desfruta de grandes alegrias.

GESTÃO E CARREIRA

NA MIRA DO PÚBLICO

Cuidar da imagem digital se tornou uma questão delicada para as companhias que são cada vez mais pressionadas a se posicionar sobre causas polêmicas

Uma campanha para incentivar as empresas a parar de anunciar no Facebook nos Estados Unidos ganhou os holofotes no início de julho. Os organizadores fizeram isso para chamar a atenção para os discursos de ódio veiculados na rede por meio de textos ou de fake news que negam o holocausto e incitam a violência contra ativistas antirracistas. O apelo deu certo. Até o momento, já são mais de 200 empresas signatárias do movimento global batizado de Stop Hate for Profit, entre elas Colgate-Palmolive, Diageo, Ford, SAP e Unilever.

No Brasil, o perfil no Twitter Sleeping Giants, que atua anonimamente e pressiona companhias a retirar anúncios de sites que veiculam notícias falsas, surgiu em maio e já conta com mais de 378.000 seguidores. Inspirado em um perfil homônimo americano criado em 2016, o objetivo dos idealizadores é mostrar que, quando compram alguns tipos de publicidade no Google, as empresas podem acabar financiando páginas questionáveis – já que os anúncios são veiculados randomicamente de acordo com filtros preestabelecidos, mas sem muito controle. “Estamos aqui para tentar criar uma consciência do ‘monstro’ criado a partir da negligência de grandes plataformas, empresas e pessoas”, disse por e-mail o porta-voz do movimento, que não revela a identidade para não sofrer represálias. “Esperamos que as empresas repensem a responsabilidade que têm.” Para ele, a resposta das companhias brasileiras tem sido positiva: já foram mais de 400 que responderam ao apelo.

PRESSÃO DE TODOS OS LADOS

Essas iniciativas vêm na esteira ele uma pressão cada vez maior sobre as empresas em relação a como elas assumem sua responsabilidade frente a questões sociais – o que conta, e muito, para a reputação corporativa. “Estamos em uma verdadeira crise global e é nítido que o setor privado tem um papel predominante para dar conta dos problemas”, diz Victor Cremasco, sócio da Mandalah, consultoria de negócios e inovação. Por isso, a mentalidade predatória, de lucrar a qualquer custo, começa a perder forças: o público engole cada vez menos esse discurso. “Se compro um produto, quero que ele esteja alinhado com minha visão”, diz Fábio Milnitzky, CEO da iN, consultoria de gestão de marcas. Afinal, para muitos consumidores, usar determinado rótulo é uma forma de expressar a identidade. “E o ambiente das redes sociais pressiona para que pessoas e marcas assumam posições”, diz Fábio. As companhias que não tiverem capacidade de responder poderão ficar para trás, pois os cidadãos descobriram o poder de cobrar e vigiar as atitudes das empresas. E é bom lembrar que isso ocorre não só com o público externo. Os próprios funcionários estão de olhos abertos para essas questões – especialmente os mais jovens. “A nova geração que chega ao mercado de trabalho cobra muito mais das empresas a responsabilidade social”, diz Ana Paula Montanha, diretora da HW Human Capital, consultoria global de recrutamento. “Os talentos vão escolher as empresas na medida em que se identificarem ou não com os valores, com a forma como a organização age e se comporta.” Tudo isso coloca as empregadoras em uma posição delicada: precisam se posicionar e tomar frente em assuntos relevantes para a sociedade, mas devem fazer isso com cuidando da preservação da imagem. Para dar conta de acompanhar as conversas em sites, redes sociais e imprensa, as empresas são obrigadas a monitorar, de forma constante, sua presença online. Esse cuidado, aliás, é o que permite reagir a tempo.

PRONTAS PARA REAGIR

Para Ana Paula, da HW Human Capital, uma das primeiras ações na manutenção da reputação é a criação de um comitê de crise, formado por diretores (entre eles o de RH) e o presidente. “Mapeie os problemas e, uma vez identificados, veja se são causados por falta de alinhamento com os valores”, diz. É só a partir dai que um plano de ação pode ser desenhando. “Quando acontece um erro, o melhor é falar – e, em primeiro lugar, para os próprios funcionários.” Isso é importante porque são eles os embaixadores da marca. Ter esses valores alinhados também ajuda a nortear as auditorias internas e externas, a escolha de fornecedores e até mesmo o recrutamento.

Outro desafio são as questões de publicidade online. Muitos anúncios são feitos de forma automatizada por algoritmos, o que pode significar que não se sabe onde exatamente sua marca vai parar – e o risco de cair num site completamente desalinhado com a ética e os valores da companhia é grande. “Mesmo em se tratando ela publicidade automatizada, o ideal seria que as empresas alertassem seus departamentos de marketing para criar uma black list com sites suspeitos e/ou identificados como disseminadores de conteúdo falso ou de ódio”, orienta o porta-voz do Sleeping Giants.

DISCURSO E ATITUDES ALINHADAS

“Crises de imagem nunca nascem da noite para o dia”, diz Emerson Couto, consultor de imagem e reputação da Curado & Associados, consultoria que presta serviços de monitoramento de reputação. Os problemas sempre têm origem na falta de alinhamento entre o discurso e as atitudes da empresa – o famoso ”faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Segundo Emerson, identificar os pequenos focos de fogo e eliminá-los rapidamente é o que salva as companhias de incêndios de grandes proporções. Para isso, a consultoria criou o Índice de Valor, Gestão e Relacionamento (IVGR), uma ferramenta que monitora a reputação de empresas com base em dados coletados automaticamente na internet. Ela faz uma varredura de tudo o que é publicado sobre a organização e checa a coerência entre os valores da empresa e sua imagem.

A convergência entre fala e ações é o que faz a diferença e dá tranquilidade para que as companhias adotem, inclusive, atitude corajosas e que podem parecer arriscadas à primeira vista. O Burger King, gigante de fast-food, é um desses que não têm medo de encarar posicionamentos complexos. “Entendemos que funcionamos como antena da sociedade, com um papel maior como marca, e buscamos entrar em assuntos que fazem parte do dia a dia”, diz Thais Nicolau, diretora de comunicação e inovação do BK Brasil. Um dos exemplos mais recentes é a campanha Quem Lacra não Lucra. A frase vem de uma hashtag usada por pessoas contrárias a manifestações em defesa de grupos minoritários e utilizada contra o Burger King quando a marca se posicionava em questões LGBT+. Com isso em mente, a companhia resolveu não lucrar em 28 de junho, o Dia do Orgulho LGBT+ , revertendo o lucro líquido das vendas de sanduíches para ONGs da comunidade LGBT+. “Pegamos o discurso de ódio e o transformamos numa mensagem de amor”, explica Thais. A ação foi bem recebida e teve mais de 15 milhões de comentários (81% positivos ou neutros) e mais de 5.000 menções espontâneas nas redes sociais.

O Burger King acompanha suas métricas em um painel on­line que registra diariamente as reações, as visualizações e os comentários negativos e positivos. Além disso, a empresa segue discussões nas redes para ver como sua participação pode ser relevante ou não. Para Thais, além do propósito claro, o fato de ter autonomia e um processo pouco burocrático ajuda a dar velocidade às respostas. Além de engajar os consumidores, a estratégia tem impacto internamente. Várias das campanhas contam com a participação dos próprios funcionários, que são convidados a dar depoimentos. “Em processos seletivos, nosso público-alvo menciona que tem vontade de trabalhar conosco por causa do posicionamento da marca”, explica a executiva.

QUANDO ENTRAR EM UMA CONVERSA

Com a pressão intensa para que as marcas se posicionem, o risco é participar de discussões de forma atropelada. ”Muitas querem tomar um atalho e gerar percepção positiva, sem ver se aquilo faz sentido”, diz Fábio, da iN. Por isso, um dos pontos cruciais para a boa gestão de reputação da empresa é entender por que ela quer ou não se pronunciar sobre um assunto que está sendo comentado. ”É preciso olhar para dentro e ver de que causa você vai participar”, diz. Nesse raciocínio, vale avaliar se existem ações internas para dar conta daquele problema, se o diálogo já foi aberto com os funcionários e quanto a empresa já avançou na questão. Aspalavras-chave para isso são consistência e transparência. “Não adianta fazer um post de ‘vidas negras importam’ e não ter as políticas necessárias nem assumir o que precisa ser feito”, diz Victor, da Mandalah.

Na Pfizer, farmacêutica de origem americana, uma das principais bandeiras é o combate às fake news que falem sobre vacinas ou doenças. “Uma de nossas estratégias alinhadas ao propósito é Liderar o diálogo: queremos estar à frente das discussões sobre saúde e cuidado ao paciente”, diz Cristiane Santos, diretora de comunicação e assuntos corporativos da Pfizer Brasil. “Também queremos ter os melhores profissionais, e para isso é importante termos essa imagem positiva e confiável.” A Pfizer mantém um processo rígido para aprovar qualquer informação divulgada em seus canais. “São aprovações periódicas de todo conteúdo que postamos, inclusive do que já publicamos no passado, para revisar se necessário”, diz. Para Cristiane, esse cuidado ajuda a manter a reputação e reforça a responsabilidade com as informações. Além disso, são avaliadas as reações do público para entender quais temas ele espera que a Pfizer aborde. “Esse trabalho nos guia no ambiente digital.” Foi por isso que, além do combate às desinformações sobre vacinação, a empresa decidiu falar sobre assuntos como suicídio e câncer. “Vimos a importância de trabalhar tabus e certos preconceitos”, diz.

Com a covid-19, a Pfizer tomou a frente ao tirar dúvidas do público, fazer lives com médicos e discutir questões de saúde mental. O desafio é conseguir reagir rapidamente e zelar para que a comunicação seja adaptada para cada canal – como Instagram, LinkedIn ou Facebook

– sem perder a coerência. “Apesar das linguagens diferentes, é preciso que seja a mesma persona, com os mesmos valores”, diz Cristiane.

CONSTRUÇÃO DE IMAGEM

Esse cuidado não vale só para empresas que já estão na mira do público. Um trabalho de posicionamento bem-feito pode ajudar a atrair o olhar para as novatas, como é o caso da BRK Ambiental, que presta serviços de saneamento básico. Com três anos de mercado, ela atende cerca de 15 milhões de habitantes em 13 cidades, e tem como desafio atrair mão de obra qualificada, como engenheiros e administradores. “Temos feito um trabalho intenso para reforçar a relevância dos nossos serviços e também entrar nas pautas relacionadas ao cuidado com a água”, diz Juliana Calsa, responsável pela comunicação da BRK Ambiental. A ideia é reforçar o propósito da companhia (transformar a vida das pessoas por meio da água) ao mesmo tempo em que conscientiza em relação ao tema.

Na pandemia, Juliana foi surpreendida por dúvidas sobre o uso da máscara de pano e os cuidados para a prevenção ao coronavírus. “Nesse momento, entendemos que precisávamos ter um olhar mais empático com as pessoas e com os clientes.” Isso a levou a criar novos canais de atendimento para facilitar o acesso no isolamento, além de não cortar água por inadimplência nos últimos três meses. “Não faria sentido falar coisas que não se conectam com o que fazemos. As pessoas percebem quando estamos forçando a barra”, diz Juliana.

Desde janeiro do ano passado, a BRK monitora o NGR e notou uma melhora de 34% de março a junho deste ano. E nos últimos três meses, a empresa aumentou em 25% o número de seguidores no LinkedIn. Para Juliana, isso é um reflexo do posicionamento ativo nesse período. “Como estamos em um mercado em expansão, ter talentos olhando para nós é fundamental”, diz. Outro índice que teve melhora no mesmo período foi o de atributo de empresa responsável – que subiu 162% no último ano.

O índice avalia quanto as pessoas entendem que a empresa assume sua responsabilidade para além daquilo que entrega como serviço essencial. “Sairemos da crise com as pessoas confiando mais em nós.”

5 PASSOS PARA CUIDAR DA IMAGEM

Entenda quais atitudes são fundamentais para manter a reputação protegida

1. TER TRANSPARÊNCIA

Ser claro sobre a condução dos negócios é importante para fortalecer a reputação. Para isso, é preciso conversar sobre os pontos de melhoria. Nenhuma empresa é perfeita, e é sempre melhor falar sobre o que ainda pode ser desenvolvido do que tentar passar uma imagem irretocável.

2. SER COERENTE

Uma pessoa que se comporta de maneiras diferentes dependendo da situação gera desconfiança. E o mesmo vale para as companhias. Embora exista a necessidade de adaptar o discurso para diferentes públicos, os posicionamentos adotados devem ser sempre os mesmos e convergir para os mesmos objetivos e valores. Isso envolve não cair no oportunismo: a escolha das pautas discutidas tem que ter a ver com o que já é feito pela companhia.

3. OUVIR O PÚBLICO

Os ajustes finos na forma de se expressar e se posicionar envolvem saber escutar o que o público – tanto interno quanto externo – está dizendo a respeito dos temas. Isso ajuda, inclusive, entender o que precisa ser trabalhado ainda dentro de casa. Avaliar os assuntos nas pesquisas de clima é uma ótima oportunidade para ter um feedback real e concreto.

4. CUIDAR DO ENGAJAMENTO

No processo de construção de marca, o primeiro público é sempre o interno. Se a empresa não tiver, por exemplo, uma boa política de diversidade e inclusão e abordar o assunto nas redes sociais, correrá o risco de que a dissonância entre o que fala e o que faz apareça. Funcionários ou ex­ funcionários poderão argumentar que a companhia só está pregando aquilo da boca para fora.

5. CONDUZIR PROCESSOS DE AUDITORIA

A preocupação ética deve estar presente em todos os processos de uma empresa desde a divulgação de conteúdo até a contratação de fornecedores e parceiros. Esse, aliás, é um ponto importante, pois em muitos casos os problemas de reputação acontecem devido ao mau comportamento de terceiros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MODELO MENTAL

Muito se questiona sobre qual o melhor perfil comportamental para gerar resultados positivos. O cuidado com o gerenciamento do que se pensa irá refletir em emoções mais adequadas à produtividade

Seja no ambiente profissional ou pessoal, todos desejam ter sucesso no que fazem, mas nem sempre é isso que ocorre. Falhas, erros e fracassos podem ser associados a uma imensa gama de variáveis, que vão desde o ambiente externo (mercado, condições econômicas, necessidades dos clientes) até a atmosfera psicológica que envolve os agentes que praticam as ações.

Sabemos que as palavras que ecoam em nossas cabeças, o famoso self talk, são responsáveis pelo estado de ânimo. O monólogo interno é resultado de muitos fatores, como: memórias marcantes, conteúdo absorvido, interpretação dos estímulos externos e reações a sintomas endógenos. Ou seja: também estamos à mercê de muitas possibilidades sobre as quais não temos, de fato, muito controle.

Podemos destacar alguns aspectos e como trabalhar – de dentro para fora – a busca pela excelência no nivelamento emocional. Não é fácil, mas pode se tornar natural com o passar do tempo. A experiência de vida, seja ela qual for, e como foi interpretada, é o maior provedor de estruturas frasais que ficam ricocheteando na mente de todos nós. As trocas que fazemos com o grupo com que nos comunicamos é a segunda variável mais importante: o que ouvimos e como respondemos. Com isso já podemos destacar dois perfis de pensamento recorrente e como isso pode refletir negativamente ou não no dia a dia: abundância e escassez.

Quem teve experiência de vida dentro de uma base econômica estável pode estabelecer com facilidade um pensamento voltado para a abundância. Os recursos e custos podem ser calculados com meses de antecedência sem muitas surpresas, o que gera uma maior tranquilidade para o planejamento a longo prazo e etapas para a realização dos projetos.

Quem está ou esteve submerso em uma economia instável com histórico de bruscas mudanças no cenário pode desenvolver um perfil voltado para a escassez, tornando difícil um planejamento sólido e tranquilo para longo prazo, criando o imediatismo nas ações em busca de retorno rápido.

O detalhe importante é que isso pode ser alterado de acordo com a vontade e esforço de cada um. No entanto, quem está dentro de um estado de ânimo por muito tempo – em qualquer perfil possível – muitas vezes pensa que “é assim” ao invés de ter a consciência de que “está assim”. Somos capazes de mudar e nos adaptar diante das demandas cotidianas e com o gerenciamento interno podemos ir além. Basta, inicialmente, reconhecer se existe essa necessidade.

Qualquer um que esteja no modelo da escassez pode pensar que isso é uma perda de tempo, afinal ele exige resultados rápidos. Já os que estão modelados na abundância podem aceitar com facilidade a inclusão de algumas práticas em sua vida, como investimento na lapidação e sua excelência.

Podemos apresentar algumas dicas de como direcionar o pensamento para o gerenciamento emocional. Qualquer modelo existente pode ser melhorado e, uma vez que se descubra como isso possibilita melhores resultados, provavelmente as práticas serão incorporadas no dia a dia como parte das atividades essenciais: Meditação: os melhores operadores do mercado financeiro possuem uma rotina quase religiosa de acordar muito cedo para meia hora de meditação. Trata-se de um alinhamento emocional antes de começar a atuar no ambiente de rápidas mudanças, onde a percepção deve ser muito apurada.  Mantra pessoal: método criado pelo psicólogo francês Émile Coué e aprimorado nos últimos anos. Absolutamente simples! Monte, de forma assertiva, um pequeno texto de incentivo. Grave no seu próprio celular e escute várias vezes ao dia. O mantra criado pelo Coué, para ter como exemplo, é esse: “Todos os dias, sob todos os aspectos, eu vou cada vez melhor!”. Palavras de controle: busque, todos os dias, novas palavras que possam estar ligadas ao seu propósito profissional ou pessoal. No mínimo dez novas palavras por dia, anote e incorpore em suas frases essas novas palavras. Vá juntando as palavras ao longo dos dias e no final de semana revise tudo, palavra a palavra, e o significado de cada uma para você. Caso tenha dificuldade, faça uma busca na internet pelo processo Vitatransformatio, pode ajudar. Neuróbica: exercícios de neuróbica já são mais do que conhecidos. Caso isso seja uma novidade para você basta fazer uma pequena busca na internet que, com certeza, irá encontrar uma centena de textos e livros com exemplos de atividades para o cérebro.

São apenas dicas para começar um trabalho que, com certeza, não terá fim. Não existe um modelo ou nível melhor que o outro, pois depende de cada momento na vida e do ambiente onde estamos inseridos. No entanto, todos os modelos podem ser aprimorados. Se está pensando em começar a se trabalhar, o momento é agora: não espere pelo próximo minuto. Descubra como a abundância e a escassez podem fazer toda a diferença nos resultados de vida profissional e também pessoal.

O PROF. DR. JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

EU ACHO …

PEQUENOS GRANDES HÁBITOS

A importância de singelos rituais diários para o bem-estar

Acordar às 5 horas. Entrar no banho, tomar café, ler jornais, planejar o dia. Às 8, trabalhar.  Pausa das 12 às 13horas para almoçar e checar mensagens pessoais. Voltar ao trabalho, até as 17.  À noite, organizar a casa, jantar e se dedicar a algo divertido, como ouvir música ou bater papo. Às 22 horas dormir.

Não, essa não é minha rotina. A lista foi registrada há mais de 200 anos por Benjamin Franklin, inventor, escritor, filósofo, pioneiro no estudo da eletricidade e um dos pais fundadores dos Estados Unidos, entre outras credenciais. Para não perder o foco entre tantas atividades, o multitalentoso Franklin valorizava os pequenos rituais diários que agregam qualidade à nossa vida.

Costumamos pensar que grandes transformações são provocadas apenas por grandes eventos, sejam alegres ou traumáticos. A verdade, no entanto, é que mudanças significativas podem resultar também de micro- hábitos que todos somos capazes de introduzir em nosso dia a dia. Uma rotina organizada, recheada de pequenos rituais saudáveis, impacta nossa saúde e bem-estar mais do que qualquer “terapia de choque”. Observar uma rotina, no entanto, não é ligar o piloto automático. A boa rotina deriva da reflexão sobre o que nos faz bem. Ela pode ser mantida anos a fio. Ou pode ser adaptada a novas circunstâncias. O próprio Franklin estava atento a essa necessidade. No tempo arrastado das carruagens já se perguntava: “Alguma coisa pode ser constante num mundo que está sempre mudando?”

Quer alguns exemplos de mudanças positivas na rotina? Experimente ficar em uma perna só na hora de escovar os dentes. Parece pegadinha? Calma, eu explico: esse exercício simples fortalece a musculatura dos membros inferiores e treina o equilíbrio. Tente se apoiar na perna direita quando escovar os dentes pela manhã ena esquerda à noite (ou vice-versa). Quanto mais tempo conseguir ficar apoiado em uma perna, melhor. Assim mesmo sem dedicar uma parte do dia a exercícios físicos, é possível combater perdas musculares.

Outra sugestão: antes de dormir, deite com os ombros e a cabeço para fora da cama e os deixe pendurados por alguns minutos. Assim você dará uma bela alongada no pescoço e na coluna, algo essencial para quem trabalha o dia todo curvado sobre um computador. Além disso, você aumentará o fluxo sanguíneo no coração e no cérebro.

Algumas dessas práticas singelas ajudam a lidar com a ansiedade. Experimente, por exemplo, colocar o celular em modo avião quando for dormir. Se possível, deixe-o até em outro cômodo, para evitar dar aquela ú1tirna olhada nas redes sociais antes de pegar no sono.

Quem está preocupado com o peso também pode adotar alguns hábitos simples, como tomar água antes das refeições, esperar alguns minutos para pedir uma sobremesa, evitar olhar para telas enquanto almoça ou janta e até, por incrível que pareça, alimenta-se antes de fazer compras. Todos esses hábitos ajudam a controlar a compulsão de comer, dando tempo para que o corpo registre a impressão de saciedade.

E quando começar as mudanças? Que tal já? O nosso Franklin, que não gostava de procrastinar, dizia: “Um hoje vale mais do que dois amanhãs”.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

O QUE NÃO MATA, DESEMPREGA

Incapaz de conter o avanço da pandemia, o governo se distancia também de programas que promovam a geração de vagas de trabalho. Além de já ser o segundo país com mais vítimas da Covid-19, o Brasil se tornou o recordista em demissões.

Marcado pela pandemia do novo coronavírus, 2020 entrou para a história do Brasil também como o ano em que os empregos desapareceram. Nenhuma das inúmeras crises econômicas que o País enfrentou teve tamanho impacto sobre a redução de vagas de trabalho. Pelo menos nos últimos 120 anos. Isso porque, desde 1900, as circunstâncias que impuseram restrições à atividade econômica sempre impactaram menos a empregabilidade se comparadas aos efeitos da crise atual. Até a década de 1950, o processo de urbanização das cidades garantia postos de trabalho para pessoas de todas as escolaridades, enquanto o campo provia o sustento dos que não se aventuravam nos grandes centros. Nas três décadas seguintes, o crescimento do emprego acompanhou a expansão industrial e a entrada do Brasil na rota do comércio globalizado. Ainda que houvesse um sensível atraso no desenvolvimento de certos setores industriais brasileiros em relação aos países mais ricos, foi a indústria que absorveu um imenso contingente de trabalhadores. Desde os anos 1990, a taxa de desemprego nunca superou 15%. Com estabilização da moeda, o controle do câmbio e a abertura comercial, novos perfis de vagas e demandas garantiram taxas de empregabilidade relativamente estáveis. Tudo isso parece estar prestes a sucumbir diante de um inimigo desconhecido. Um vírus que, se não mata, pode desempregar em massa.

A expectativa do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, é que, até o fim do ano, cerca de 40 milhões de pessoas estejam desempregadas ou subutilizadas. O número representaria quase 30% do contingente de trabalhadores ativos no País. Ele se somaria aos outros quase 8 milhões de pessoas com idade e capacidade profissional que desistiram de buscar emprego, os desalentados. Um retrato do que está por vir foi indicado em maio quando, segundo o IBGE, os pedidos de seguro desemprego saltaram 75%, somando mais de 500 mil. Até o fim do ano, segundo o Ministério da Economia, é possível que esse número dobre, podendo triplicar dependendo da extensão da crise. E poderia levar até cinco anos para voltarmos ao patamar de 2019, se mantido o ritmo de geração de vagas pré-pandemia.

Na avaliação de Cláudio Aragão, doutor em ciências econômicas e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) para mercado de trabalho, é possível que 40% dos jovens não tenham emprego no final de 2020. “Há um descompasso entre as políticas de emprego e os jovens, porque elas são voltadas ao estímulo do empresário e não do trabalhador”, afirma. O Brasil lida agora com uma situação que envolve boa parte dos trabalhadores capacitados. Para o historiador econômico Nilo Abreu, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a queda no rendimento do trabalhador será inevitável: “Haverá milhares de pessoas com diploma, experiência e currículo em busca de vagas”.

INVESTIMENTO PÚBLICO

Para evitar o pior seria necessário um grande esforço articulado entre os entes federativos, Três Poderes e iniciativa privada. Seria necessário investimento público massivo, programas emergenciais de transferência de renda, retomada de obras de infraestrutura, requalificação profissional e reforço escolar. Tudo isso para que as bases da pirâmide econômica consigam sustentar o topo.

Porém, com tantas demandas dependendo do poder público, as chances de se viabilizar algo desse porte é ínfima, não apenas porque o governo federal parece pouco disposto a realizar medidas dessa natureza, mas porque a necessidade de integração com os poderes estaduais e municipais torna difícil a coordenação de políticas públicas em um país continental e polarizado como o Brasil. A própria ineficácia demonstrada até agora no combate ao coronovírus expôs essa fragilidade.

RENDA BÁSICA SAI DO PLANO DAS IDEIAS

Se em um passado não muito distante a transferência de renda por meio do Bolsa Família parecia um atentado aos liberais por “dar o peixe e não ensinar a pescar”, em tempos de pandemia e na iminência de faltar mercado consumidor fez com que uma proposta conhecida por ser de esquerda ganhasse a simpatia até dos liberais mais ferrenhos. A renda básica de cidadania, que no Brasil é defendida por Eduardo Suplicy, um expoente da esquerda progressista, voltou a ganhar espaço nas discussões por ser uma das alternativas de manter a economia rodando minimamente enquanto a atividade está parada. “Tudo indica que vou viver para ver a Renda Básica ser implementada”, disse o atual vereador de São Paulo.

Por meio de um auxílio bancado pelo governo, as pessoas em situação de vulnerabilidade social teriam direito de receber uma ajuda que a manteria ativa no mercado consumidor. O sociólogo, filiado ao DEM e ex-deputado federal por Minas Gerais Emerson Moreira é um dos que defende o uso da renda. “A economia cresceu entre 2006 e 2014 com a inclusão de mais de 15 milhões de brasileiros que se bancarizaram e se tornaram economicamente ativos”, disse. Ele, que outrora foi crítico à medida de renda universal, hoje repensa o posicionamento. “É preciso pensar em um capitalismo mais moderno, em que o Estado não seja dono dos meios de produção, mas garanta que a população tenha acesso aos produtos”. A medida que também seria bem recebida por um empresariado cheio de incertezas sobre o futuro pode estar mais perto do que se imagina, uma vez que o Congresso Nacional, depois de estender o auxílio emergencial, estuda formas de garantir recursos para os brasileiros vulneráveis à crises de modo mais perene. Mesmo tendo no petista um notório defensor da medida, a primeira grande cidade do País a adotar um programa similar foi Campinas (SP), no começo dos anos 90, por decisão de José Roberto Magalhães Teixeira, então prefeito da cidade e um dos fundadores do PSDB.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE MARÇO

A VIDA DO JUSTO, UM GUIA CONFIÁVEL

O justo serve de guia para o seu companheiro, mas o caminho dos perversos os faz errar (Provérbios 12.26).

O justo é aquele que, embora não tenha justiça própria, foi justificado pela imputação da justiça do Senhor Jesus Cristo, o Justo. Deus é justo e o justificador daquele que crê. O justo é aquele que foi coberto com o manto da justiça de Cristo, recebido na família de Deus, está quite com a lei de Deus e com as demandas da sua justiça. O justo foi transferido do reino das trevas para o reino da luz, da potestade de Satanás para o senhorio de Cristo. A vida do justo é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. O justo serve de guia para o seu companheiro. Ele é confiável. O caminho dos perversos, porém, é uma estrada larga, convidativa e cheia de atrações, mas o seu destino final é a perdição eterna. O caminho dos perversos é cheio de encruzilhadas e bifurcações. Ao longo desse caminho muitas placas prometem prazeres, aventuras e sucesso, mas tudo isso não passa de engodo e consumada farsa. O caminho do perverso, embora pareça muito iluminado, é coberto de densa escuridão. Os ímpios nem sabem em que tropeçam. O caminho dos perversos faz os homens errarem, pois distancia as pessoas de Cristo, que é ele mesmo o Caminho!

GESTÃO E CARREIRA

CORTINA DE FUMAÇA

Estruturar uma política antitabagista passa pela preocupação com a qualidade de vidados funcionários, mas é preciso tomar cuidado para que a prática não seja discriminatória ou invasiva

A companhia de mudanças americana U-Haul anunciou a suspensão da contratação de usuários de nicotina – seja ela em forma de cigarros, vapings, adesivos ou gomas de mascar. Com uma equipe de 30.000 trabalhadores por todo o país, a empresa é um dos maiores empregadores dos Estados Unidos que adotaram uma prática antitabagista desse porte. A restrição, que começou em fevereiro de 2020, se aplica aos novos contratados, dentro dos 21 estados norte-americanos que permitem a iniciativa legalmente – os funcionários efetivos mantêm seu emprego. E a U-Haul não é a única a fazer isso no país. Em 2008, a Cleveland Clinic, rede de hospitais, começou a aplicar testes químicos em todos os candidatos a emprego: aqueles que apresentam traços de nicotina detectados pelos exames não são contratados.

Na terra da liberdade individual, essas práticas acenderam o alerta: quais são os limites da ética médica e trabalhista ao descartar os fumantes? A discussão é longa, mas uma das justificativas das empregadoras é a preocupação financeira. Uma pesquisa da Universidade de Ohio mostra que usuários de nicotina podem custar mais de 5.000 dólares anualmente para suas empregadoras. Entram na conta despesas com plano de saúde e absentismo, além de perdas financeiras por causa das pausas no expediente (mais recorrentes entre os fumantes do que entre os abstêmios).

E O BRASIL?

Assim como nos Estados Unidos, contratar fumantes também tem um custo para as empresas brasileiras. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, divulgados em 2017, o Brasil tem prejuízo anual de 56,9 bilhões de reais com o tabagismo – 39,4 bilhões de reais são gastos com despesas médicas; e 17,5 bilhões, com custos indiretos ligados à perda de produtividade dos trabalhadores por incapacitação ou à morte prematura por doenças relacionadas. Mas, diferentemente das normativas dos estados norte-americanos, em nossa lei, desconsiderar um fumante no processo seletivo é considerado discriminatório e sujeito a ações judiciais, segundo Priscila de Moura Lozano, advogada trabalhista da Gameiro Advogados. “A exclusão de candidatos por serem fumantes está sujeita a encargos judiciais, sim, desde que se prove que o motivo do corte foi esse”, diz Jaqueline Scholz, médica assessora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, salienta que é um problema ético fazer exames para a identificação de nicotina e condenável discriminar o profissional por ser fumante. “O tabagismo é uma doença como qualquer outra. Não contratar um fumante é o mesmo que não contratar um hipertenso”, afirma. Mesmo que não sejam pedidos exames prévios, o vício em cigarro pode, sim, impedir um candidato de entrar numa empresa. “Existe uma lógica de contratação em cada companhia, um perfil profissional que está relacionado ao cargo ocupado e à cultura da empregadora. Diante disso, o tabagismo pode ser um limitador”, diz Katia Ackermann, diretora executiva da Produtive, consultoria de carreira. Mas a especialista aponta que, para algumas funções, é difícil contratar fumantes por causa das atividades exercidas. “No ambiente industrial, por exemplo, há cargos que ficam em confinamento por horas, sem poder se ausentar da posição. Um profissional fumante nesse posto estaria sujeito a abstinência e ansiedade por não poder fumar. Considerar tais questões também é uma obrigação na hora da contratação.”

A cabine do avião e os aeroportos são locais em que fumar é impossível ou muito difícil. Por isso, a Gol criou, no ano passado, o programa Vida sem Tabaco. A companhia aérea realizou uma pesquisa interna com seus 16.000 funcionários pelo país e encontrou 503 fumantes, também perceberam que eles estavam perdendo quase uma hora do dia entre deslocar-se para a área em que é permitido fumar, tragar o cigarro e voltar ao posto de trabalho. Com o mapeamento feito, a empresa convidou os tabagistas a participar do projeto, que conta com acompanhamento psicológico, nutricional e médico – tudo virtual. ”Optamos por fazer online para que funcionários de todo o país pudessem participar”, diz Mário Mello Martins, médico do trabalho e gerente de gente e cultura da Gol. A primeira turma teve apenas 28 integrantes, mas 23 já conseguiram parar de fumar. “Empresas que contribuem para a saúde de seus funcionários estão trazendo ganhos para o negócio”, afirma o médico.

RESTRIÇÕES MAIS RÍGIDAS

Desde que entrou em vigor em 2014, a Lei Antifumo proibiu que pessoas fumem em ambientes fechados públicos e privados – o que acabou com os famosos “fumódromos” dentro dos anelares corporativos. Como não há indicação de que as companhias precisem criar espaços dedicados ao cigarro, cada empregador escolhe se os fumantes terão ou não local próprio para suas pausas.

“Com a lei antifumo, muitos trabalhadores tiveram que se adaptar a não fumar em locais fechados e outros tantos optaram por parar definitivamente, devido à limitação imposta”, diz Jaqueline. Talvez essa seja uma das explicações de por que o número de fumantes caiu 9% dentro das companhias, de acordo com levantamento feito pela RHMED, empresa de saúde e segurança no trabalho, com base nos resultados de 92.000 exames ocupacionais do Brasil entre janeiro de 2016 e junho de 2018.

Asrestrições acabam dificultando a vontade de satisfazer o vício. “As pessoas precisam encontrar espaços onde é possível fumar numa sociedade que está criando cada vez mais regras para o cigarro não estar presente. É um movimento que não parte apenas das empresas”, diz Katia, da Produtive. Mas, para a médica Jaqueline, a segregação não é a melhor forma de as companhias lidarem com o assunto. “É uma medida incompleta. Você impõe à pessoa a abstinência e ao isolamento sem nenhum apoio para que ela se cure. É importante dar alternativas.”

Até dezembro de 2019, na unidade Forged Technologies, que produz componentes automotivos e faz parte do conglomerado alemão Thyssenkrupp, era permitido fumar em áreas específicas localizadas em espaços da área externa. Porém, em janeiro deste ano, as duas fábricas da unidade em Campo Limpo Paulista (SP) e Santa Luzia (MG) declararam-se ambientes livres de tabaco. “Tiramos todos os fumódromos que existiam na empresa, e os funcionários que mantêm o hábito de fumar devem passar pelo portão até a área externa”, explica José Carlos Cappuccelli, CEO da unidade Forged Technologies.

A medida foi tomada depois de dois anos da implantação do programa Pare, iniciativa focada na recuperação do vício em nicotina. “Oferecemos a oportunidade e todos os meios disponíveis para que nossos funcionários façam uma transição saudável e menos traumática de recuperação do vício”, diz o executivo. Tudo começou em 2018 quando, ao aplicarem uma pesquisa interna para os 2.500 empregados, mapearam 150 fumantes.

Em seguida, a multinacional ofereceu palestras com um especialista cardiologista para falar sobre os riscos à saúde e o processo de cura. Só depois da conscientização, criou grupos de tratamento nos quais os 115 participantes passaram por acompanhamento médico, psicológico e nutricional. A empresa ainda custeia 70% dos valores de medicamentos aos pacientes que precisam. “Cada um define o seu dia D – aquele em que vai deixar de fumar. Comemoramos as conquistas nas reuniões de grupo e, no final do processo, há a entrega de um certificado e uma cerimônia em que os familiares são convidados”, diz José Carlos. Foi assim que 70 funcionários se tornaram ex-fumantes. Os demais continuam em acompanhamento para atingir o mesmo objetivo.

Mas e aqueles que não desejam parar de fumar? Uma pesquisa da consultoria Gallup, feita em 2017 com 1.021 respondentes, descobriu que 56% dos fumantes americanos sentem que são discriminados por seu hábito de usar nicotina, seja na vida pública, seja no emprego. Para o CEO, nenhum direito foi vedado com o programa, pois a empresa não proíbe que os funcionários saiam para fumar no ambiente externo e também não exclui candidatos na hora de contratar. “Informamos aos profissionais sobre nossa posição em relação ao fumo. Entendemos que é mais uma escolha deles do que nossa manter o interesse pela vaga”, diz Camila Macedo, gerente de RH da Thyssenkrupp.

SEM SEGUNDAS INTENÇÕES

Mesmo visando a saúde, essas medidas podem ser consideradas invasivas e fora do escopo das empresas, visto que fumar é uma questão individual. Mas Katia, da Produtive, pondera: “Seguindo por essa linha, programas de alimentação saudável, ergonomia e bem-estar também não estão no escopo da empresa, mas esses são elogiados”. Para a especialista, o contexto da saúde do funcionário compete, sim, às empresas. Ainda mais porque o tratamento para o fumo pode ajudar a lidar com sentimentos como ansiedade e estresse.

O importante é a maneira como a companhia endereça a temática. Lançar um programa antitabagismo com enfoque nos custos corporativos com a saúde dos fumantes ou nas perdas de produtividade pode gerar um efeito contrário e afastar os funcionários, em vez de engajá-los. “Eles sabem que fumar faz mal e o quanto prejudica diferentes momentos da vida. Se a empresa começa falando de resultados para o negócio, fica nítido que o dinheiro é mais importante do que o indivíduo. Isso é um erro”, explica Katia.

O cenário ideal, segundo a médica Jaqueline, é aquele em que a companhia cumpre com a lei antifumo, mas concede a alternativa aos dependentes de nicotina. “Quando a empresa dá a opção, a mensagem que passa é: ‘Você quer se tratar? Oferecemos essa possibilidade a você.” Às vezes, tudo o que falta ao fumante é o apoio para se livrar do vício.

FICHANDO O CERCO

Práticas antitabagistas estão ganhando força ao redor do mundo. Veja alguns exemplos:

ESTADOS UNIDOS

Companhia de mudanças americana U-Haul anunciou a suspensão da contratação de usuários de nicotina – como consumidores de cigarro, vapings, adesivos ou gomas de mascar – para seu quadro de funcionários.

ESPANHA

Tribunal espanhol permitiu que a empresa Galp Energia Espanha desconte do salário dos funcionários as paradas para cigarro. Foi instituído que eles marquem ponto em cada pausa e justifiquem o motivo.

JAPÃO

Piala Inc., empresa de marketing japonesa, concedeu aos funcionários não fumantes seis dias extras de férias para compensar o tempo que trabalham a mais, comparado às pausas de fumantes.

REINO UNIDO

Na inglesa KCJ Training & Employment Solutions os não fumantes são recompensados com quatro dias a mais de férias anualmente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ASSÉDIO MORAL

Esse comportamento é o escoamento da integridade psicológica do indivíduo e não pode ser considerado um fenômeno da atualidade, pois ele acontece desde que surgiram as primeiras relações de trabalho

O assédio moral não pode ser considerado um fenômeno da atualidade. Desde que surgiram as primeiras relações de trabalho já podia ser observado o assédio moral. O que pode ser chamado de atual é a forma como as pessoas passaram a reagir diante desse fenômeno; foi a partir da década de 1980 que passou a ser visto como problema social e ato ilícito a ser combatido justamente por suas consequências danosas. Isso mostra que buscar ajuda, informação e denunciar abusos indicam saúde mental e evitam maiores efeitos negativos.

Com todo avanço tecnológico, situações podem ser gravadas e/ou filmadas, e, ainda com a possibilidade de se poder falar a respeito, seja através das mídias ou no próprio ambiente de trabalho, as vítimas se sentem mais encorajadas a comunicar situações de crueldade no ambiente institucional.

Ainda se nota o medo de perder o emprego, ou de denunciar por receio de represálias, ou também que a situação possa ser invertida a favor do agressor, como, por exemplo, criando caminhos para a vítima ser demitida por justa causa.

Uma das situações que podem ocorrer é o desgaste emocional da vítima e, como consequência, a diminuição da capacidade laboral, caminhando assim para o rompimento da relação de trabalho. É fato que situações como essas, lamentavelmente, podem acontecer. E é exatamente por isso que os indivíduos precisam ser informados de que não se trata de algo normal, mas que é infelizmente comum, o fato de serem subjugados e agredidos psicologicamente no ambiente de trabalho.

O assédio moral afronta a dignidade e escoa a integridade psicológica da vítima deixando-a com alto grau de ansiedade e medo; a relação passa a ser permeada pela angústia, o rendimento tende a diminuir e a pessoa fica debilitada devido aos ataques a sua saúde mental. A autoestima é prejudicada e as sucessivas agressões psicológicas podem funcionar como gatilho para diversos distúrbios emocionais e psiquiátricos; aos poucos vai se destruindo sua capacidade de trabalho e resistência psicológica; afetam-se, além do ambiente de trabalho, também as relações sociais e familiares.

Os principais distúrbios emocionais encontrados em vítimas do assédio moral são a depressão, a ansiedade que pode levar a crises de pânico, burnout, distúrbios alimentares e do sono, alcoolismo, e até mesmo, em situações mais graves, o suicídio.

Na prática, o assédio moral se configura por terror psicológico que se manifesta através de sucessivas e frequentes ações de maus-tratos através de atos como humilhações, ofensas verbais, sabotagens, exposição ao constrangimento, hostilidade declarada ou encoberta, intimidação, chantagens e/ou ameaças veladas ou explícitas durante o exercício de sua função no ambiente laboral.

Como o assédio moral afeta o equilíbrio emocional da vítima, a forma de se relacionar com o seu entorno fica prejudicada. O sentimento de impotência, de frustração, de não aceitação, pode fazer emergir com mais facilidade a agressividade contra si próprio ou ao outro.

O agressor/assediador com seu narcisismo e egocentrismo preponderantes intimida, se sente mais forte e mais apto que o outro; e através de sua alta capacidade de observação sobre o comportamento alheio, identifica a vulnerabilidade; é nessas circunstâncias que sente que há espaço para destilar sua agressividade e transformar a vítima em sua presa.

O mais importante a fazer quando se identifica que se está sendo vítima de assédio é buscar criar mecanismos de auto- proteção, já que o agressor vai se utilizar da fragilidade e da vulnerabilidade emocional para se beneficiar.

Desvencilhar-se dessa teia perversa é difícil porque a dinâmica estabelecida aprisiona, mas é possível encontrar a melhor saída. O apoio psicológico é fundamental para que se possa fortalecer a autoestima e não se deixar abater pelos ataques.

Infelizmente, o que se verifica é que a legislação brasileira ainda se mostra insipiente quanto aos critérios que possam configurar o assédio e suas consequências. Alguns dispositivos de repressão podem ser encontrados no funcionalismo público, diferentemente de empresas privadas que ainda não possuem instrumentos claros para coibir o assédio. Em não havendo uma legislação unificada torna-se compreensível o receio das vítimas em denunciar.

É importante que as empresas adotem formas de coibir o assédio, seja por parte dos superiores hierárquicos ou de seus pares, seja por meio de políticas preventivas, campanhas educativas e informativas, a fim de promover bem-estar e saúde ao trabalhador através de um ambiente de trabalho saudável.

Diante das consequências desastrosas do assédio, que podem trazer adoecimento à vítima, a empresa será responsabilizada e poderá ter que arcar com o ônus de um processo judicial, com pagamento indenizatório por danos morais.

É importante lembrar que uma pessoa passa muito tempo em seu local de trabalho ou em função dele; isso significa que o trabalho é um ponto importante na vida de uma pessoa; mas não pode ser considerado o único. As sequelas emocionais causadas pelo assédio moral podem chegar a incapacitar parcialmente ou até plenamente uma pessoa.

Submeter o trabalhador a pressão psicológica não aumentará a produtividade, ao contrário, levará à estafa emocional, diminuindo sua capacidade criativa, funcional e psicológica. Proporcionar um ambiente saudável, com postura mais humana, contribuirá no aumento do bem-estar e poderá ajudar no crescimento da produtividade.

RENATA BENTO – é psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à IPA – International Psychoanalytical Association, à Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação Brasileira de Psicanálise. renatabento.psi@gmail.com

EU ACHO …

A PERFEIÇÃO

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

*** CLARICE LISPECTOR

OUTROS OLHARES

FEITOS EM CASA

Com medo de contágio pelo coronavírus em maternidades, um número maior de gestantes opta por partos domiciliares

Na manhã do dia 7 de abril, Mateus veio ao mundo. Chegou sob os olhares dosavós, do pai e até da irmãzinha, Malu, de 1 ano e meio. No lugar das luzes edo ar-condicionado do hospital, o quarto da mãe. A paulistana Camila Siqueira considerou o parto domiciliar uma opção mais segura em meio à pandemia do novo coronavírus. “Pesquisei os protocolos da maternidade. Mesmo com as medidas, não me sentia segura. Conversei muito com a equipe de parteiras, meu marido e família e decidimos embarcar no parto domiciliar”, contou Siqueira, que teve a primeira filha num hospital. “Tive medo, mas menos que no primeiro parto. Nunca achei que podia dar algo errado, estava muito tranquila de não ter de ir ao hospital e ter contato com outras pessoas. Aqui eu sabia que estava segura.”

Assim como Siqueira, um número maior de gestantes tem optado pelo parto domiciliar. Parteiras e doulas do Rio de Janeiro apontam um aumento de até 200% na procura. A enfermeira obstétrica Karina Trevisan, do Commadre, grupo paulista de apoio à gestação, parto e pós-parto, atua desde 2007 em partos hospitalares ou domiciliares e viu uma elevação na procura por partos em casa durante a pandemia. Antes, Trevisan fazia, em média, quatro atendimentos do tipo por mês, eagora são oito. “Percebi gente me procurando para parto domiciliar incentivada pela mãe ou sogra diante da situação que vivemos. Várias chegam sem uma visão real do que é o parto domiciliar, que não tem anestesia, por exemplo”, disse a enfermeira.

Muitas famílias estão adotando uma estratégia que pode ser descrita como um meio-termo. As mulheres fazem o acompanhamento da maior parte do trabalho de parto em casa e no momento da fase ativa e expulsiva vão para o hospital. Foi essa a opção da engenheira Gabriela Freitas, de 31 anos, que não se sentiu segura para ter seu primeiro filho sem ter todos os recursos médicos à disposição. “Achamos mais seguro contar com atendimento médico, mas reduzimos o tempo no hospital”, disse Freitas. Partos domiciliares não são indicados em qualquer circunstância. Dependem de uma gestação com baixo grau de risco e da existência de boa estrutura médica próxima ao local. Em resumo, precisam ser bem avaliados para minimizar eventuais problemas. “Complicações podem ocorrer no procedimento, como retenção placentária e uma ruptura uterina, além de condições específicas do recém-nascido que podem requerer condutas hospitalares”, disse a pediatra e nutróloga Aline Magnino, diretora médica do grupo Prontobaby.

A doula Maria de Lourdes “Fadynha” da Silva Teixeira, que dá apoio psicoemocional na hora do parto desde 1978 no Rio de Janeiro, também percebeu um aumento na demanda e tem preparado suas clientes para participar dos partos por meio de videochamadas. “O parto feito em casa não pode ser uma decisão de última hora”, contou. A enfermeira obstétrica Flávia Dantas, que integra a equipe Parto por Amor e realiza dois partos em casa por mês, faz questão de reforçar esse ponto.

“O parto domiciliar exige uma forte ligação entre enfermeira e gestante. Se a futura mamãe nos procura um a semana antes, qual será o vínculo que ela constrói com a equipe que vai entrar na casa dela nesse momento íntimo? Por isso não estamos aceitando essas demandas”, disse.

Ariana Santos, da equipe Sankofa Atendimento Gestacional, afirmou que não aceita mulheres com mais de 32 semanas de gestação. “Com menos de um mês para o parto não há tempo hábil para que a mulher conheça as evidências sobre o tema. No início, é feita uma consulta para avaliar os exames pré-natais e se é uma gestação de risco, o que impede o parto domiciliar. Além disso, traçamos o planejamento para uma eventual transferência a um hospital. Às vezes, após a primeira consulta, algumas mulheres optam pelo parto hospitalar”, disse.

Cientes dos temores das gestantes com a pandemia, as maternidades tentam se proteger contra a Covid-19. Na rede pública do Rio, caso a paciente tenha sintomas da doença, ela é isolada e tratada até o parto. Ao ser internada para ter o filho, é avaliada separadamente e orientada, após a alta, sobre o isolamento domiciliar.

As maternidades particulares têm reforçado protocolos para aumentar a segurança. A Perinatal. que tem duas unidades no Rio, estabeleceu novas medidas, como permissão para apenas um acompanhante, suspensão de visitas à maternidade, aferição da temperatura de pacientes e acompanhantes na entrada, fluxo diferenciado para pacientes com Covid-19 e máscaras face sbield nos recém-nascidos.

A obstetra Karina Tafner, da Santa Casa de São Paulo, disse que ainda não há informações sobre uma gestante com Covid-19 transmitir o vírus ao feto ou ao bebê durante a gravidez ou o parto. De toda forma, o Ministério da Saúde passou a incluir, no início de abril, as gestantes e as mães de recém-nascidos na lista do grupo de risco para o novo coronavírus.

“Até agora, o vírus não foi encontrado em amostras de líquido amniótico ou de leite materno. Relatórios atuais mostram que mulheres grávidas, de baixo risco, não têm sintomas mais graves do que o público em geral. Mas alterações no corpo e sistema imunológico podem ocasionar infecções respiratórias”, explicou Tafner.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE MARÇO

ANSIEDADE, O ABATIMENTO DO CORAÇÃO

A ansiedade no coração do homem o abate, mas a boa palavra o alegra (Provérbios 12.25)

A ansiedade é o mal do século, a doença mais democrática da nossa geração. Atinge crianças e velhos, doutores e analfabetos, religiosos e ateus. No grego, a palavra ansiedade significa “estrangulamento”. A ansiedade sufoca e tira o oxigênio. Ela não nos ajuda a resolver os problemas hoje, apenas nos enfraquece para enfrentá-los amanhã. Ansiedade é ocupar-se de um problema que ainda não existe, e 70% dos assuntos que nos deixam ansiosos nunca acontecerão. A ansiedade é inútil, já que, por mais ansiosos que estejamos, não poderemos acrescentar um único dia à nossa vida. A ansiedade é prejudicial porque drena as nossas energias, rouba nossas forças e superdimensiona nossas crises. É sinal evidente de incredulidade, porque só aqueles que não confiam na providência de Deus vivem ansiosos quanto a seu futuro. A ansiedade abate o espírito do homem, mas a boa palavra o alegra. Devemos alimentar nossa alma com as palavras que emanam da boca de Deus, em vez de abastecer nosso coração com o alarido da ansiedade. Devemos olhar não para o fragor da tempestade, mas para aquele que está no controle da tempestade para nos trazer bonança.

GESTÃO E CARREIRA

ADEUS AO ESCRITÓRIO?

Sete em cada dez empresas pretendem instituir o home office definitivamente. Embora a diminuição de custos seja sedutora, a decisão deve levar em conta muitos fatores para dar certo.

Quando o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte no Brasil causada pela covid-19, em 16 de março de 2020, a empresa de big data Neoway estava com 100% da equipe de 450 funcionários trabalhando em casa havia três dias.

Embora permitisse o home office, a companhia não possuía uma política estruturada. Tanto é que teve de realizar uma força-tarefa para garantir acesso aos sistemas de forma remota para todos. Feito isso, com os empregados seguros, a expectativa era aguardar alguns dias para voltar à rotina.

O que não se esperava era que após cinco meses do início das medidas de isolamento social, a contaminação pelo coronavírus fosse seguir forte no Brasil, sem sinal de melhora. Diante do cenário, o CEO da Neoway, Carlos Eduardo Monguilhott, tomou uma decisão: manter todo mundo em teletrabalho até o final do ano e reestruturar os escritórios, localizados em Florianópolis, São Paulo e Brasília. “Vamos aumentar os espaços de convivência e reduzir a quantidade de mesas”, diz. O plano é ter uma operação híbrida, que mescle pessoas trabalhando em casa e presencialmente.

A ideia veio após uma pesquisa interna revelar que 86% dos empregados estavam adaptados e não se importavam em prolongar o home office por mais tempo. Para que a aprovação continuasse em alta, os líderes foram orientados a aumentar a comunicação, a transparência e a proximidade com as equipes, e o CEO passou a realizar reuniões semanais com todos. “Sabemos que a interação física é insubstituível, então estamos ouvindo constantemente os empregados e criando ações para não perder a conexão”, afirma Michele Martins, vice-presidente de recursos humanos da Neoway que assumiu o cargo durante a pandemia. “Minha própria experiência serviu de laboratório”, diz. Para complementar, a companhia reviu benefícios, permitindo a substituição do vale-refeição pelo vale-alimentação, custeou as contas de internet e auxiliou na compra de móveis de escritório para usar emcasa. “Acredito que não vamos, necessariamente, ter uma economia financeira porque aumentamos alguns benefícios. M s será possível contratar além das regiões onde estão as sedes. Temos funcionários, inclusive, que já se mudaram para cidades do interior”, afirma o CEO Carlos Eduardo.

PRÁTICA PERMANENTE

Assim como a Neoway, muitas companhias estão adotando o teletrabalho definitivamente após o surto de covid-19. Um levantamento da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield, que ouviu 122 executivos de multinacionais brasileiras, revelou que 74% das empresas pretendem instituir o home office, mesmo com o fim da pandemia. O estudo ainda apontou que para 59% deles a experiência de manter a operação da casa dos funcionários teve mais pontos positivos do que negativos.

Com cada vez mais empresas tomando esse caminho, talvez a era das companhias com sedes grandiosas ocupando diversos andares tenha ficado para trás. Estimativas da consultoria imobiliária JLL, por exemplo, apontam que a taxa de vacância de imóveis comerciais de alto padrão em São Paulo pode chegar a 23% até o final do ano. No primeiro trimestre de 2020, o índice foi de 19%. Já a mesma pesquisa da Cushman & Wakefield mostra que 29,5% dos executivos pretendem reduzir de 10% a 30% o total de metros quadrados da empresa por causa do teletrabalho, e outros 16% dizem que podem cortar até 50%.

Esse é o caso da startup de serviços de moradia por assinatura Housi. Com os seus 110 funcionários trabalhando de casa desde março, a empresa optou por entregar definitivamente o escritório que ficava em um coworking em São Paulo. “Tínhamos uma cultura de trabalhar online, e a adaptação ao home office deu muito certo. Quase todo mundo já tinha notebook e cadeira apropriada, então logo no primeiro mês encerramos o aluguel do espaço”, explica o CEO, Alexandre Frankel.

Mas a estratégia da Housi não é acabar de vez com o ambiente corporativo. Como alternativa, a empresa vai disponibilizar os espaços de coworking, localizados em seus 200 empreendimentos espalhados por São Paulo, para aqueles funcionários que não quiserem ficar em casa. Além disso, o prédio conceito da startup, na região central da cidade, será o ponto focal para reuniões físicas, integração de novos empregados e atendimento presencial de parceiros e clientes.

EFEITO QUARENTENA

O comportamento de manada de companhias decretando home office a torto e a direito traz um alerta. “As empresas descobriram uma mina de ouro, porque os custos para manter o escritório caíram. Mas é preciso acompanhar produtividade, motivação e diminuição de despesas no longo prazo”, diz Marineide de Oliveira Aranha Neto, professora de gestão de pessoas na Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas. “Quando a rotina voltar ao normal, a relação com o ambiente de trabalho precisará ser redesenhada.”

Os primeiros pontos que devem ser considerados ao tomar uma decisão como essa é o estilo de liderança e a cultura da empresa. Isso porque no home office é fácil perder a sinergia com os colegas. “É um equívoco achar que apenas cobrar resultados garante produtividade. É preciso uma série de fatores, como equipe alinhada, líderes empáticos, comunicações claras e o mais horizontais possível e o mais importante: uma motivação”, explica Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora no lnsper.

Outra dica para aqueles que querem decretar o fim do escritório é preparar a casa dos funcionários. “Não sabemos qual é o contexto do profissional, então é responsabilidade da empresa se preocupar com a ergonomia e outros fatores que podem atrapalhar a produtividade, como internet e até possíveis quedas de energia. Se não houver essa corresponsabilidade, as equipes vão se frustrar”, afirma Marineide, do Mackenzie.

DENTRO DA LEI

As empresas também precisam atentar para a legislação. A Lei nº 13.467/2107, elaborada na Reforma Trabalhista de 2017, regulamentou o trabalho remoto e facilitou a transição para as organizações. Porém, a Medida Provisória nº 927, publicada em março, permitiu algumas alterações, como a possibilidade de ignorar acordos coletivos e regras que envolvam banco de horas e férias. “O prazo para avisar que uma pessoa vai trabalhar em home office, por exemplo, mudou de 15 dias para 48 horas”, explica Luiz Eduardo Amaral ele Mendonça, especialista em direito trabalhista e previdenciário e sócio do FAS Advogados. Como a MP expirou e, até o fechamento deste post não havia sido votada pelo Congresso Nacional, as empresas precisam tornar alguns cuidados. “O primeiro passo será negociar a adoção integral do home office com os funcionários”, diz Luiz Eduardo. Esse acordo, inclusive, deve ser registrado e formalizado. Ou seja, é preciso elaborar um aditivo aos contratos de trabalho esclarecendo as regras do novo formato. Entre elas, por exemplo, o fornecimento de equipamentos, o compartilhamento de despesas como internet e energia elétrica ou até mesmo se será estabelecida alguma forma de controle de expediente. Por mais que a CLT desobrigue as empresas de controlar a jornada dos funcionários que estão em home office, o que elimina o pagamento de horas extras, as regras sobre acidentes de trabalho ficaram obscuras. “Não temos precedentes jurídicos, mas a tendência é que a Justiça do Trabalho entenda que ocorrências em casa sejam responsabilidade do empregador”, explica Luiz.

Até se a empresa mudar de ideia e quiser voltar ao modelo tradicional será preciso respeitar algumas regras, como a comunicação ao funcionário com ao menos 15 dias de antecedência. Caso o empregado não more na mesma cidade em que o escritório está localizado, ele pode se negar a cumprir a alteração. “Mesmo com a empresa arcando com os custos da mudança, há o direito de resistência. E, se essa pessoa for demitida e conseguir provar que o motivo foi a recusa, é possível entrar com recurso judicial e ganhar a causa”, diz Luiz. O advogado orienta que as organizações criem um comitê de implementação de teletrabalho para identificar todos esses pontos antes de lançar a política.

Durante a quarentena, com a ansiedade em alta por causa do confinamento e a insegurança em relação ao futuro, teve gente que fez do trabalho uma válvula de escape. O que pode justificar, aliás, o aumento de produtividade sentido por muitos. “Estamos todos vivendo uma situação inusitada. Só o tempo dirá se os efeitos da transposição dos limites entre organização e casa permanecerão numa relação saudável”, alerta Marineide, da Universidade Mackenzie.

NOVA REALIDADE

Três tendências para os espaços corporativos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEIXA A VIDA ME LEVAR?

Como os novos tempos estão nos fazendo confundir expectativa com ansiedade patológica. Ambos os sintomas têm como principal comorbidade a depressão

Você já ouviu, leu ou falou para si mesma(o) algo desse tipo? Se já, eu preciso, por meio de comprovação científica, mostrar a você que essa vertente de pensamento (que está em voga com força total) vai contra a natureza humana. Afinal, somos seres desejantes e a ausência do desejo nos adoece.

E o que o desejo tem a ver com “expectativa”? Simples, são sinônimos. E por que “desejar, almejar, ansiar” são caraterísticas que passaram a ser vistas como “politicamente incorretas”?

E por que ambicionar algo ou criar grande expectativa ganharam essa conotação ruim? Será que isso se explica se observarmos as diferenças entre as gerações?

A geração X é provavelmente a que mais engloba o público que está lendo este artigo, que são adultos entre 39 e 58 anos. Somos a geração que teve que “absorver” o advento da internet e que tinha como principais características a ambição, o desejo por sucesso, independência financeira e crescimento pessoal. Somos a geração que misturou trabalho e prazer, que colocou de vez a mulher no mercado de trabalho de forma eficaz e competitiva. Infelizmente, também somos a geração que inaugurou o termo workaholic – viciado em trabalho.

Já a geração Y (entre 22 e 38 anos) se moldou com “outra pegada”, em que a individualidade dá lugar ao coletivo, com ideais pautados em diminuir cargas de estresse e deixar legados que contribuam para um mundo melhor, com o objetivo de não adoecer como sua geração anterior fez.

Pensar em si mesmo é visto como “egoísmo”, sucesso tem que ser coletivo e o bem-estar do todo vem antes do próprio bem-estar.

Para que ganhar tanto dinheiro se não tem tempo para seus filhos?

Como posso consumir algo que prejudica a camada de ozônio?

Por que toda minoria não pode ter a mesma voz da maioria?

Por que não podemos pensar da mesma forma, tendo como objetivo erradicar preconceitos, guerras, desigualdades?

Qualquer indivíduo que promova algo que afete o coletivo é um péssimo exemplar de ser humano e deve pagar por isso.

Por esse recorte podemos levantar a hipótese do porquê qualidades que eram vistas como virtudes caminham hoje para uma espécie de purgatório social.

CONSENSO?

Observando essas duas gerações podemos chegar a algum consenso de evolução entre uma e outra? Se pensarmos teoricamente, sim. As prioridades da geração Y são bem mais empáticas que as da geração X, mas se as ideologias dessa geração são tão fantásticas por que eles são os mais adoecidos desde os Baby Boomers, que eram a geração pós-guerra?

Apesar de toda liberdade de expressão, a ansiedade teve suas vertentes ampliadas na geração Y: vigorexia, ortorexia, lesões por repetição de exercícios, gordofobia, dismorfia corporal, além das boas e velhas ansiedades (agorafobia, pânico, ansiedade social generalizada, entre outras).

Por que as ideias da geração Y eram tão melhores que as nossas e seus resultados estão sendo tão negativos? Por que o objetivo de esvaziar a mente a ponto de não gerar expectativa alguma sobre nada fez desta a geração mais ansiosa de todos os tempos?

Uma outra hipótese não se relaciona com o duelo de gerações. Ela tem início ainda na década de 1940, quando Suzuki Daisetsu publica, em inglês, a primeira obra sobre zen budismo a ser difundida no Ocidente (Zen and Japonese Culture, 1938). Muitos foram os adeptos americanos a se mudarem para China, Tibete e Japão, em busca da “boa nova”, que prometia o sonho de se viver em paz, exterminando assim o estresse.

D. T. Suzuki (como era comumente chamado) foi um famoso autor japonês e o principal tradutor das obras orientais do zen budismo para o inglês. O mestre zen tinha como objetivo partilhar com os ocidentais a arte de não duelar, já que era sabido que nossa cultura era pautada na dicotomia e oposição (bem contra o mal, Deus cristão e Demônio, monoteísmo, certo e errado). Ele almejava propagar o zen budismo, descrevendo a paz que os indivíduos poderiam encontrar se não tivessem oposições em suas vidas, se não tivessem mais necessidade de se provarem “certos” ou “donos da verdade” e se conseguissem que o foco de sua existência fosse promover o bem-estar pessoal e comunitário, por meio de autoconhecimento, meditação e ampliação de consciência e atenção plena. Anos depois, o próprio Suzuki admitiu que o Ocidente absorveu o zen budismo não como sua visão de mundo, como os chineses, e sim como uma “filosofia alternativa de vida”.

Então, se misturarmos alguns itens da filosofia zen budista com nossa cultura opositiva, nos deparamos com um movimento no qual quem é zen está certo e quem não é zen ainda não evoluiu. Com isso, temos uma corrida em busca da paz, do relaxamento, da saúde e de tudo que nos deixe no controle de nossas emoções, pensamentos e comportamentos.

E será que viver bem está realmente relacionado a não gerar expectativas que possam nos frustrar, abalando, assim, nosso equilíbrio?

A Monja Coen (zen budista, brasileira, ordenada monja em 1983) afirma que todos sentimos ansiedade, que todos temos expectativas, e essas emoções geram reações corporais, ânsia e desejo. Será que não podemos sentir nenhuma dessas emoções? Será que toda alteração emocional é patológica? Será que “só” nos estressamos quando algo ruim ocorre?

A resposta é não! Nem toda desregulação emocional é ruim, mas todas as desregulações emocionais nos tiram do “eixo” e é por isso que, no início desse texto, citei que “zerar expectativas” não é algo saudável.

EQUILÍBRIO

Todos os animais, entre eles o Homo sapiens, possuem um sistema que trabalha o tempo todo para “conservar” o equilíbrio do seu organismo. O nome desse equilíbrio é “homeostase”. Esse sistema é poderoso e muitas vezes não recebe “ordens” conscientes e claras, afinal ele tem qu