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O ESCÂNDALO ALÉM DO ESCÂNDALO

Um esquema de compra de vagas em universidades de elite nos Estados Unidos põe em evidência um problema ainda maior, lá como aqui: uma meritocracia falha, que favorece as classes mais ricas.

O escândalo além do escândalo

Se existe matéria na qual o Brasil se tornou autossuficiente é a produção de escândalos. Neste quesito, não houve nos últimos anos nem mesmo uma leve estiagem no país. Por que deveríamos, então, nós, que somos tão pródigos em surrupias e conchavos, prestar atenção no escândalo que eclodiu no dia 11 de março nos Estados Unidos, da compra de vagas em universidades de elite? O número de envolvidos – cerca de 50, até agora – é baixo, embora haja entre eles duas atrizes razoavelmente célebres e um punhado de respeitados empresários do ramo dos investimentos e do direito. O montante embolsado, cerca de 25 milhões de dólares entre 2011e o início deste ano, também não faz frente às falcatruas nacionais.

Mesmo assim, é um caso que não se pode subestimar. O que define um escândalo é o desvio de conduta em relação às convenções sociais; a indignação é o mecanismo pelo qual as convenções são reafirmadas. Algumas vezes, porém, a má conduta coloca a própria norma na berlinda. Isso é mais comum na área dos costumes – o biquíni, escandaloso nos anos 50, virou trivial, por vezes quase invisível; o divórcio, um pecado, tornou-se uma probabilidade. Em casos de roubo, o fenômeno é mais raro. Mas acontece. E este é um desses casos: a fraude chamou a atenção para os vícios do próprio sistema de admissão às universidades e para as falhas de um dos valores mais caros à sociedade ocidental: a meritocracia.

Em linhas gerais, o esquema funcionava assim: William Singer, dono de um colégio especializado em preparar alunos para ser admitidos em universidades de ponta, descobriu um método, digamos, mais eficiente de garantir o sucesso de seus clientes. Ou melhor, dois métodos. O primeiro consistia em burlar as provas de SAT e ACT, testes padronizados que as universidades usam como elemento de avaliação; um especialista fazia a prova pelo aluno ou alterava suas respostas depois que ele a entregava (para isso, alegava-se que o aluno estava impossibilitado de comparecer ao local da prova e tinha de fazê-la em um centro separado, onde Singer subornava os bedéis).

O segundo método era inventar um talento esportivo para que o jovem fosse admitido pela via olímpica, um dos atalhos para as melhores universidades. Nesse caso, era preciso subornar os técnicos responsáveis pelas seleções. Nas documentações, recorria-se à manipulação de imagens para submeter aos comitês de avaliação fotos dos candidatos em ação. Assim uma adolescente sem nenhuma intimidade com a bola foi recrutada por Yale como uma estrela do futebol e uma jovem que não remava entrou para a Universidade do Sul da Califórnia (USC) graças a suas fictícias habilidades no barco. Para apimentar o escândalo, algumas ironias: Singer recebia o dinheiro através de sua fundação de caridade, a Key Worldwide Foundation, cuja meta declarada era ajudar estudantes pobres. Ele confessou a culpa e, após o pagamento da fiança, vai esperar o julgamento em liberdade. Não foi o único envolvido que pregava a filantropia em público, a trapaça em conversas privadas. O executivo financeiro William McGlashan, um dos clientes da fraude, foi o criador de um fundo de investimento focado em empresas e causas éticas. Perdeu o cargo na firma de private equity TPG.

A atriz Lori Loughlin, famosa por ter participado da série Três É Demais (Full House, no original), também perdeu dois trabalhos por seu envolvimento no escândalo: foi tirada da continuação da série Full House, pela Netflix, e o canal Hallmark cortou-a de sua programação de shows e filmes. Sua filha, Olivia Jade, uma celebridade com seu canal do YouTube, chegou a dizer que não dava muita importância à faculdade, mas lucrou com a admissão na USC: recebeu dinheiro de empresas de decoração para dar dicas de como enfeitar um dormitório de universidade em seu videoblog. Com o escândalo, ela perdeu contratos de patrocínio com três companhias de beleza.

Segundo a acusação, os jovens eram inocentes. A maioria deles acreditava ter feito as provas normalmente. Mesmo assim, correm o risco de perder a vagas na universidade. Para os pais, há ameaça de prisão. Lori foi solta sob uma fiança de 1 milhão de dólares; McGlashan pagou 500.000 dólares. Outra atriz, Felicity Huffman, da série Desperate Housewives, pagou 250.000 dólares de fiança. Nove técnicos esportivos de universidades envolvidos foram demitidos.

Por mais chamativo que tenha sido o caso, porém, a reação mais notável entre especialistas e analistas é de crítica ao próprio sistema que foi burlado. O grande argumento dessas críticas foi amplamente explicitado por um ato falho do promotor Andrew Lelling ao anunciar as acusações, como notou Matt Levine, articulista financeiro da Bloomberg. Primeiro, Lelling disse: “Não pode haver um sistema de admissão em faculdades diferente para os ricos, e eu acrescento que também não haverá um sistema judicial diferente para eles”. Menos de um minuto depois, porém, ele afirmou: “Não estamos falando de doar um prédio à universidade de forma que ela fique mais propensa a aceitar seu filho ou filha. Estamos falando de trapaça e fraude”.

Quer dizer: não está certo uma pessoa rica comprar a entrada de seus filhos na universidade… A não ser que ela seja muuuito rica. Algo assim como Jared Kushner, genro e conselheiro do presidente americano, Donald Trump. Em 1998, seu pai, o empresário do ramo imobiliário Charles Kushner, prometeu doar 2,5 milhões de dólares à Universidade Harvard (a qual ele não havia cursado). Um ano depois, Jared foi admitido. Segundo Daniel Golden, que escreveu um livro sobre os mecanismos de admissão nas escolas de elite americanas, os professores de Jared ficaram surpresos, uma vez que suas notas e seu histórico acadêmico não pareciam indicar essa possibilidade.

Pode haver aí uma prática condenável, especialmente por aqueles que não gostam do governo Trump nem dos conselhos que Kushner fornece ao sogro. Mas nova ela não é. As universidades de elite dos Estados Unidos gostam de ser conhecidas como formadoras da elite intelectual, mas na realidade estão mais para agregadoras da elite econômica. Mais do que a educação, são as ligações sociais que elas fornecem, o networking, a base mais sólida para a futura criação de riqueza.

Essa mentalidade de clube dos privilegiados já foi bem mais explícita. Até algumas décadas atrás, as faculdades de elite recrutavam seus alunos pelo puro critério da riqueza e do “berço”. Com o tempo, porém, a sociedade mudou, e o mérito começou a contar. Vem daí a criação dos testes padronizados, com especial foco no raciocínio lógico.

A evolução seguinte foi a ênfase na diversidade e no empreendedorismo, com a percepção de que notas altas em testes padronizados não garantem o sucesso nos caminhos não padronizados da vida. O sistema de admissão atual mistura um tanto de ação afirmativa (o relativo favorecimento de representantes das minorias), um bocado de resultados acadêmicos, capacidade lógica (medidos pelo currículo escolar e pelas notas nos testes padronizados) mais uma série de variantes que compõem uma avaliação “holística” dos candidatos.

Em tese, isso levaria a uma distribuição mais justa das vagas. Na prática, não é bem assim. Ao longo do tempo, formou-se um mercado de escolas que preparam os filhos de famílias mais afluentes para os testes. Um bom tutor em Nova York cobra algo de 300 a 450 dólares por hora, o que pode atingir dezenas de milhares de dólares. A preparação, segundo algumas escolas, resulta em uma nota média 11% mais elevada no SAT ou no ACT. Isso não é tudo. A avaliação “holística” também incentiva um mercado de preparadores de currículos, gente que ensina o que escrever na carta de apresentação, como se mostrar uma pessoa auto motivada e empreendedora, socialmente responsável, culturalmente aberta, naturalmente líder, espiritualmente rica e intensamente curiosa. Esse serviço pode sair até mais caro do que o dos tutores.

Para completar o quadro, as escolas de elite mantêm uma lista secreta de candidatos que são parentes de grandes doadores, conforme revelou um processo contra Harvard movido no ano passado por uma associação de alunos de origem asiática que se sentem prejudicados pelos critérios subjetivos de admissão. Não é que as doações vultosas garantam as admissões, mas quem está na lista tem uma taxa de aceitação de 42%, quase dez vezes mais alta do que a chance geral. Não à toa. As universidades de elite têm custos altíssimos e suas fontes de renda (pequenas doações de ex-alunos e grandes verbas federais para pesquisa, por exemplo) declinaram ao longo dos anos. Para funcionar, dependem cada vez mais das grandes doações.

Isso explica por que em 38 universidades de ponta dos Estados Unidos há mais alunos provenientes das famílias do 1% mais rico do que dos 60% mais pobres, de acordo com uma análise feita pelo jornal The New York Times em 2017. Mesmo após décadas de políticas de ação afirmativa, há proporcionalmente menos alunos negros e hispânicos nas faculdades de elite do que 35 anos atrás.

Para ter condições de competir com as famílias mais abastadas, pais de classe média, sem condições de pagar tutores e escolas privadas, investem suas economias na compra de casas na vizinhança certa, onde seus filhos possam cursar escolas públicas mais gabaritadas e ter mais chance de ser admitidos em uma universidade de ponta.

A situação não é muito diferente no Brasil. Embora aqui não tenhamos a avaliação “holística”, uma porta para a subjetividade, a diferença de oportunidades durante todos os anos pré-universidade (boas escolas, contatos com gente bem-sucedida, professores particulares de atividades extracurriculares, além da ausência do estresse proveniente de situações de pobreza, da carência emocional à necessidade de trabalhar) faz com que 18% dos alunos da USP, universidade brasileira mais bem cotada em rankings internacionais, venham do 1% de famílias mais ricas, que ganham acima de 15 salários mínimos, de acordo com um estudo realizado em 2015. Nas carreiras de maior procura, o índice sobe bastante: 42% dos calouros de medicina, 37% dos de engenharia, 39% dos de direito pertencem à camada da população que ganha acima de 15 salários mínimos. O problema da meritocracia é saber como defini-la de forma que não se preste a justificar (e reforçar) privilégios. Não é que os processos de admissão não tenham avançado – a própria necessidade de criar um sistema de avaliações é sinal de como o mundo mudou, e ter uma pequena chance de ingressar nos clubes de elite é infinitamente melhor do que não ter chance nenhuma. Mas há um longo caminho a percorrer, e aqui talvez mais do que nos Estados Unidos. Essa fraude é um grito de alerta.

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BRASIL CAMINHA PARA SER UM DOS MAIORES EM ENERGIA LIMPA

Brasil caminha para ser um dos maiores em energia limpa

O Brasil entrou para o mapa global das energias renováveis. Segundo números divulgados pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), com base nos anos de 2017 e 2018, o País já faz parte para o clube das 10 maiores nações em termos de aumento de capacidade instalada. Já são mais de 2,5 GW em funcionamento, quase 2 GW em plantas de grande porte e 0,5 GW em placas distribuídas pelos telhados e estacionamentos do país. De acordo com projetos já contratados em leilões no mercado regulado de energia elétrica, pelo menos R$ 21,3 bilhões serão investidos pela iniciativa privada até 2022, o que adicionará mais 3,7 GW de potência instalada às usinas solares brasileiras. Um sinal de que o Brasil será possivelmente um dos maiores propulsores de energias limpas no mundo.

Brasil caminha para ser um dos maiores em energia limpa. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 28: 5-8

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 5 – Observe:

I – Da mesma maneira como a predominância dos desejos dos homens se deve às trevas do seu entendimento, também as trevas do seu entendimento se devem, em grande parte, ao domínio de seus desejos: os homens não entendem o juízo, não discernem entre a verdade e a falsidade, entre o certo e o errado; eles não entendem a lei de Deus como aquilo que deve governar o seu dever ou o seu destino; e:

1. Por isto, são homens maus; a sua iniquidade é o resultado da sua ignorância e do seu erro (Efésios 4.18).

2. Por isto, não entendem o juízo, porque são homens maus; as suas corrupções cegam os seus olhos, e os enchem de preconceitos, e, como fazem o mal, odeiam a luz. É justo que Deus os entregue a fortes ilusões.

 

II – Da mesma maneira como o fato dos homens buscarem ao Senhor é um bom sinal de que entendem tudo, também é um bom meio para que entendam mais, todas as coisas necessárias para eles. Os que colocam a glória de Deus diante de si, como seu objetivo, a sua benevolência como sua felicidade, e a sua Palavra como sua lei, e recorrem a Ele, em todas as ocasiões, por meio da oração, estes buscam o Senhor, e Ele lhes dará o espirito de sabedoria. Se um homem fizer a sua vontade, conhecerá a sua doutrina (João 7.17). Um bom entendimento eles têm, e um entendimento melhor terão, os que obedecem aos mandamentos do Senhor (Salmos 111.10; 1 Co 2.12,15).

 

V. 6 – Aqui:

1. Supõe-se que um homem possa andar na sua sinceridade e ainda assim ser pobre neste mundo, o que é uma tentação para a desonestidade, e ainda assim possa resistir à tentação e continuar a andar na sua sinceridade – e também que um homem possa ser perverso, em seus caminhos, ofensivo a Deus e ao homem, e ser rico, e prosperar no mundo durante algum tempo, e estar sob grandes obrigações e ter grandes oportunidades para fazer o bem, mas ser perverso em seus caminhos e fazer uma grande quantidade de mal.

2. Considera-se um paradoxo para um mundo cego que um homem pobre, honesto e piedoso seja melhor do que um homem rico, ímpio e profano, que tenha melhor caráter, esteja em melhor condição, tenha mais consolação em si mesmo, seja uma maior bênção para o mundo, e seja muito mais merecedor de honra e respeito. Não somente é certo que o seu caso será melhor na morte, mas é melhor na vida.

Quando Aristides foi censurado por um homem rico pela sua pobreza, respondeu: as tuas riquezas te fazem mais mal do que a minha pobreza, a mim.

 

V. 7 – Observe:

1. A religião é a verdadeira sabedoria, e torna os homens sábios. Aquele que guarda a lei conscienciosamente é sábio, e será particular mente um filho sábio, isto é, agirá com prudência com seus pais. pois a lei de Deus o ensina a fazer isto.

2. As más companhias são um grande obstáculo à religião. Os que são companheiros de homens desordenados. que os escolhem como seus companheiros e se alegram com o seu convívio, certamente serão impedidos de guardar a lei de Deus, e levados a transgredi-la (Salmos 119.115).

3. A iniquidade não somente é uma vergonha para o próprio pecador, mas para todos os que se relacionam com ele. Aquele que tem companheiros devassos. e gasta o seu tempo e dinheiro com eles, não somente entristece seus pais, mas os envergonha; será uma vergonha para eles, como se eles não tivessem cumprido a sua obrigação com ele. Eles se envergonham com o fato de que um filho seu escandalize e maltrate os seus vizinhos.

 

V. 8 – Observe:

1. Aquilo que é obtido ilicitamente, ainda que possa crescer, não durará muito tempo. Um homem pode, talvez, aumentar a sua fazenda com usura e onzena, fraude e opressão aos pobres, e tudo isto em pouco tempo, mas isto não continuará: ele ajunta para si mesmo, mas verá que reuniu para outra pessoa pela qual não sente bondade. A sua propriedade decairá, e a de outro homem surgirá, das ruínas da sua.

2. Às vezes, Deus, na sua providência, ordena que aquilo que alguém obteve injustamente, seja utilizado por outra pessoa de uma forma caridosa; estranhamente, os bens vão parar nas mãos de alguém que terá piedade dos pobres. e fará o bem com eles, transformando em bênçãos a maldição que foi trazida por aquele que conseguiu os bens por meio de fraude e violência. A mesma Providência, então. que pune os cruéis, e os incapacita a fazer mais males, recompensa os misericordiosos, e os capacita a fazer uma quantidade ainda maior de bem. Ao que tem dez minas daí a mina que o mau servo escondeu no lenço, pois a qualquer que tiver, e usar bem, ser-lhe-á dado (Lucas 19.24). Assim os pobres são recompensados, a caridade é encorajada, e Deus é glorificado.

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MIL E UMA UTILIDADES

Inaugurada na China, a era dos superaplicativos – assim chamados os apps que realizam uma vasta gama de funções – ganha força no mercado brasileiro.

Mil e uma utilidades

A popularização dos aplicativos para smartphones é um fenômeno relativamente recente. Nasceu com a App Store, lançada em 2008, com apenas 500 opções. Hoje, são mais de 6,3 milhões de aplicativos em todo o mundo, que funcionam em qualquer marca de celular. O crescimento assombroso do mercado criou um problema para os desenvolvedores de apps (termo em inglês que acabou adotado entre nós): o excesso de concorrência. Pesquisas mostram que as pessoas têm até 100 programas baixados em seus smartphones, mas raramente usam mais do que dez deles por dia. Uma solução encontrada na China – país muito acostumado a lidar com excessos de todo tipo – tem se espalhado pelo mundo: os superaplicativos. É como são chamados os aplicativos para celulares e tablets capazes de realizar várias funções, como, por exemplo, fazer compras, pedir pizza, agendar um táxi, transferir dinheiro, gerenciar uma conta digital – tudo na mesma plataforma. A disputa para ser o primeiro grande superapp brasileiro e, assim, criar no consumidor local o hábito de usar os seus serviços começou e já envolve empresas graúdas.

O mais novo competidor é a Dotz. Fundada, em 2000, pelos irmãos Roberto e Alexandre Chade como um programa de fidelidade voltado para a internet, ela não só se transformou na maior empresa do ramo no país como montou uma rede abrangente de parceiros com cerca de 300 varejistas no mundo físico e virtual. O DotzPay (nome ainda provisório) chegará ao público em maio para enfrentar concorrentes como o Mercado Pago, o superaplicativo do Mercado Livre (o maior site de compra e venda de produtos do país), e estrelas ascendentes como a colombiana Rappi.

Mil e uma utilidades. 2

A inspiração de todos é o mercado chinês, no qual os superapps AliPay e WeChat já ultrapassaram a impressionante marca de 200 milhões de usuários diários. É como se a população brasileira inteira, hoje em 209 milhões de pessoas, entrasse no mesmo aplicativo todos os dias. O AliPay, que pertence ao grupo Alibaba, é a carteira digital mais utilizada do mundo. Ela oferece uma série de serviços financeiros, do pagamento de contas a transferências. O WeChat, por sua vez, pertence ao gigante de tecnologia Tencent e nasceu como uma plataforma de mensagens instantâneas, mas hoje permite os mais variados tipos de serviço – entre eles, reservas em restaurantes e salões de beleza, aluguel de bicicletas e, claro, pagamentos e transferências.

Toda essa atividade dentro do programa de uma só empresa gera uma avalanche de informações sobre os hábitos dos consumidores. Não demora para o usuário começar a receber propagandas e ofertas de serviço customizadas, que devem ser usadas e pagas dentro do próprio superapp. O AliPay e o WeChat tiraram proveito de uma característica da China que se assemelha com a realidade brasileira: uma parcela considerável da população não tinha conta em banco nem cartão de crédito. Metade das operações no Brasil ainda é realizada com dinheiro, o que dá a dimensão do potencial desse mercado. São brasileiros que fazem compras regularmente, mas não passam pelos bancos. E, se o plano dessas empresas der certo, nunca vão passar.

O superaplicativo da Dotz pretende repetir o sucesso de suas inspirações chinesas, e já nasce com uma vantagem: dispõe de uma base ampla de consumidores que fazem uso recorrente dos seus serviços. A Dotz conta com mais de 40 milhões de usuários, dos quais 11milhões de maneira regular, mensalmente. São consumidores atraídos pela moeda virtual que, desde a sua criação, batiza a empresa e funciona como pontos de fidelidade: compras realizadas nas redes parceiras dão direito a um certo número de dotz, que, por sua vez, podem ser utilizados para novas aquisições com descontos. Trata-se de um ciclo que se auto alimenta, servindo de impulso para a moeda virtual. E este é mais um ingrediente fundamental para o sucesso: o estímulo à frequência de uso do aplicativo. Com dezenove anos de experiência e presença em todos os estados, a Dotz desenvolveu uma rara capacidade de coletar e analisar informações detalhadas dos hábitos de consumo dos brasileiros. Houve mais de 650 milhões de transações nos últimos dois anos, em cerca de 10.000 pontos de venda. Como já ensinaram Facebook, Amazon e Google, não há nada mais valioso nos dias de hoje do que os dados dos internautas, e a Dotz vai começar a fazer uso desse manancial de informações. “Cada vez mais, o consumidor concentra as suas compras no celular. O superapp permite gerar valor para ele, por meio dos descontos, além de conveniência”, diz Roberto Chade, CEO da empresa.

Como o mercado digital tem escala global, é natural que estrangeiros também tentem conquistar público no Brasil. A startup colombiana Rappi estreou por aqui em julho de 2017 como um serviço de entrega tradicional de comida. Hoje oferece desde massagem e manicure até test drive em carro novo. E transações financeiras, naturalmente. Seus números são invejáveis. Ela tem crescido 30% ao mês, o que significa que a cada três meses dobra de tamanho. “Estamos sempre mapeando novas oportunidades e parcerias. O grande segredo desse negócio é desenvolvê-las rapidamente e colocar no aplicativo”, explica Fernando Vilela, executivo-chefe de crescimento da Rappi no Brasil. A empresa não divulga os seus números separados por país, mas, nos sete mercados da América Latina em que atua, o aplicativo teve mais de13milhões de downloads. Como se trata de uma novata, a Rappi tem sido agressiva em oferecer descontos para atrair usuários e aumentar a frequência de utilização daqueles que já estão na sua base. Um exemplo é o seu serviço Rappi Prime, em que o consumidor paga uma mensalidade de 19 reais e tem direito a um número ilimitado de fretes grátis. A empresa opera no vermelho, mas isso não é um problema no atual estágio porque conta com capital à disposição – sua última rodada de captação a elevou ao status de unicórnio, com avaliação de pelo menos 1 bilhão de dólares.

O Mercado Livre, a maior plataforma de compra e venda de produtos do país, adotou uma estratégia diferente: optou por oferecer a sua conta digital em um braço à parte, o Mercado Pago. Nele, disponibiliza ao consumidor opções como deixar o dinheiro rendendo, fazer transferências, pedir crédito, obter descontos com redes parceiras e, claro, pagar ou receber por compras no Mercado Livre. Ele já conta com 2,4 milhões de usuários, e esse número não para de crescer. O volume de transações subiu quase 70% no ano passado. “Nosso objetivo é que o aplicativo seja um substituto natural do banco para o público que não tem acesso aos serviços financeiros tradicionais”, diz Túlio Oliveira, diretor do Mercado Pago.

Evidentemente, não é um jogo para todos. Que o diga a startup espanhola Glovo, que deixou o Brasil em março alegando que precisaria de mais recursos para ser competitiva em um mercado tão disputado. “É muito difícil sair do zero e se tornar relevante”, diz Caio Camargo, sócio-diretor da consultoria GS&UP. Em paralelo, empresas de grande porte, como o Magazine Luiza e o Grupo Pão de Açúcar, já anunciaram que estão desenvolvendo os próprios superapps. Trata-se de uma disputa que está apenas começando.

Mil e uma utilidades. 3

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SABE A APPLE? ESQUEÇA. MUDOU TUDO

Empresa construiu fama e glória criando dispositivos icônicos, inovadores e invejados. Hoje quer se posicionar como prestadora de serviços – inclusive financeiros.

Sabe a Apple. Esqueça, Mudou tudo

Imagine se duas tradicionais fabricantes de automóveis — a BMW e a Daimler, por exemplo — se unissem para atuar no segmento de mobilidade urbana porque acreditam que seus produtos perderão espaço enquanto os serviços ganharão relevância. Bem, não precisa mais imaginar, pois foi exatamente isso que a BMW e a dona da Mercedes-Benz fizeram, há um mês. Agora, a Apple faz o mesmo: tirou o pé do portfólio de produtos para acelerar a oferta de serviços. A tech giant comandada por Tim Cook parece ter entendido que num mundo em que toda empresa será de tecnologia, empresas de tecnologia precisam ser outra coisa. Por esse motivo apresentou seu cartão de crédito, serviço de streaming de vídeos, um de assinatura de notícias e uma plataforma de games.

CARTÃO DE CRÉDITO 

Para entender o anúncio de um cartão de crédito é preciso olhar para o Apple Pay, o sistema de pagamentos da empresa, lançado em outubro de 2014 — e disponível no Brasil desde o ano passado, depois de similares de Google e Samsung. Apesar de crescente, o número de usuários da carteira virtual não deslumbra: 252 milhões de pessoas no mundo. É fato que esse mercado deve dar um salto. Projeções apontam que 80% dos usuários globais de smartphones acabarão usando seus aparelhos como carteiras, em comparação com menos de 20% agora. Mas esse futuro ainda não chegou. Hoje, o Apple Pay representa menos de 2% do volume de redes como Mastercard e Visa. Muitos comerciantes ainda não aceitam esse modelo de pagamento.

Começar pelo cartão de crédito é uma maneira de a Apple contornar um hábito que ainda não se alterou por parte de consumidores do mundo inteiro. Para lançar o Apple Card, a empresa se uniu ao banco Goldman Sachs e à operadora Mastercard. É claro que o cartão não viria sem novidades. Não trará número estampado, nem código de segurança, data de expiração ou espaço para a assinatura. Não haverá também taxas, anuidades ou mensalidades e permitirá um programa de recompensas de devolução de dinheiro conforme for utilizado. E um dos pontos altos, e mais bacanas, resvalando naquela Apple de produtos disruptivos, é a ferramenta de educação financeira para os usuários do cartão controlarem seus gastos. Ele terá mapa interativo para melhor visualização de onde as compras foram efetuadas, ampliando o controle das movimentações e a segurança.

STREAMING DE VÍDEOS

A Netflix não quer saber da Apple, então a Apple está tratando de ser um pouco Netflix. O aguardado anúncio do serviço de streaming da empresa de tecnologia é uma reformulação da Apple TV, que vai virar um agregador de 100% do que for conteúdo audiovisual — produção própria ou de parceiros. Haverá de tudo no balaio. Canais de TV por assinatura, conteúdos de outras plataformas de streaming (como Amazon Prime, ESPN Watch, Hulu, já que a Netflix se recusou a fazer parceria) e programação original. O serviço de streaming com conteúdos originais, que se chamará Apple TV+, reúne produções comandadas por pesos pesados, como M. Night Shyamalan, Oprah Winfrey, Steve Carrel e Steven Spielberg. Deve ser lançado no segundo semestre em mais de 100 países, mas os preços das assinaturas não foram divulgados.

Ele funcionará nos dispositivos da marca (iPhones, iPads e Macs), mas também em TVs inteligentes (LG, Samsung e Sony). Não ficou claro se estará disponível para Android, sistema operacional que domina 74% do mercado global de smartphones (dados de fevereiro de 2019). A Netflix, líder em streaming de vídeo, talvez tenha fornecido uma pista caso o sistema Android não seja mesmo contemplado: 70% de seus assinantes assistem ao conteúdo em uma TV, 15% em PCs, 5% em tablets e 10% em celulares. A Apple provavelmente decidiu que valeria a pena o risco de ignorar o Android como opção de canal de distribuição.

GAMES

Talvez tenha sido a novidade menos reluzente no pacote. Não pela importância, mas por ser um modelo muito parecido com o recém-anunciado Stadia, do Google. O serviço de assinatura de jogos para iPad, iPhone e Mac, chamado Arcade, promete mais de 100 jogos no lançamento, no segundo semestre, em 150 países. O preço da assinatura também não foi divulgado. O dado para entrar de forma mais contundente nesse mercado veio da própria Apple Store: os 300 mil games disponíveis já foram baixados 1 bilhão de vezes.

NOTÍCIAS

De certa forma será um streaming de notícias, com material de mais de 300 publicações e disponível inicialmente nos Estados Unidos (US$ 9,99 ao mês) e no Canadá (US$ 12,99 ao mês). Tim Cook, CEO da Apple, diz que mais de 5 bilhões de reportagens já foram consumidas no Apple News. O novo serviço, News+, pretende ser uma espécie de Spotify do jornalismo. Mas há alguns poréns nessa promessa. Publicações bem-sucedidas vendem cada vez mais assinaturas digitais e não querem compartilhar receita e, especialmente, dados de assinantes. Assim como os consumidores encontram o conteúdo jornalístico com mecanismos de busca ou nas redes sociais. E, pelo menos inicialmente, só dispositivos Apple oferecerão o News+.

CORAÇÃO NO HARDWARE

 “A Apple, em seu coração, ainda é uma empresa de hardware relutante em dar aos consumidores mais razões para escolher um telefone Android”, afirma uma reportagem da Bloomberg. A questão é que a empresa precisa crescer em serviços. As receitas nessa linha aumentaram 24% entre 2018 e 2017 (ano fiscal encerrado em setembro) contra 18% de alta nas receitas com vendas de iPhones no mesmo período. De certa maneira a Apple começou a seguir os passos da Microsoft, que desde a ascensão de Satya Nadella ao posto de CEO, há cinco anos, se reorientou para vender serviços.

Quando virou CEO, Nadella liderava as frentes de serviço da empresa, incluindo a divisão Cloud. No ano fiscal de 2018, encerrado em junho, as receitas fora da linha de produtos já atingiram US$ 45,8 bilhões (41,5% do total de US$ 110,3 bilhões). No ano fiscal anterior elas representavam apenas 33,9%. “Imagine um futuro em que todos os seus aplicativos e suas experiências girem em torno de você e transcendem qualquer dispositivo”, disse Nadella em sua carta aos investidores do ano passado. Não deixa de ser muito irônico a Apple querer ser um pouco mais Microsoft. Afinal, Steve Jobs dizia que nos anos 80 Bill Gates havia surrupiado a ideia original do Mac para desenvolver o Windows

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CONTAMINAÇÃO “MATA” RIOS DA MATA ATLÂNTICA

Contaminação “mata” rios da Mata Atlântica

O dia 22 de março entrou para o calendário como Dia Mundial da Água. Apesar da importante celebração, a situação dos rios do País não é de se comemorar. A Fundação SOS Mata Atlântica publicou um retrato atualizado sobre os cursos d’água do bioma, que cortam 103 municípios em 17 estados. Dos 220 rios, 75,4% apresentam qualidade de água apenas regular e 16,9%, ruim. Três rios foram considerados péssimos e apenas 15 rios apresentaram boas condições e estado de conservação – nenhum deles, no entanto, foi considerado “ótimo”. Quando comparado ao levantamento de 2018, há uma esperança. O número de rios com qualidade boa subiu 1,7 ponto percentual (p. p). Por outro lado, também houve avanço dos rios considerados “mortos”. A quantidade de cursos com péssima qualidade subiu de 0 para 1,3% este ano. Um deles é o rio Paraopeba, atingido pela lama que jorrou da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). A expedição de campo da ONG encontrou, inclusive, vestígios dos rejeitos no reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias, no rio São Francisco (onde deságua o Paraopeba), a 331 km da barragem que se rompeu.

Contaminação “mata” rios da Mata Atlântica. 2

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A ARTE DE PREVER O FUTURO

Como funciona o design fiction, técnica que usa a narrativa de ficção científica para criar outras realidades e incentivar a inovação nas empresas.

A arte de prever o futuro

Um mundo povoado por carros voadores ainda precisaria de um fabricante de pneus? Essa pergunta vale US$ 4,1 bilhões para a Goodyear, o seu atual valor de mercado. Por isso, a empresa americana aperfeiçoa o Aero, protótipo de pneu equipado com uma hélice propulsora capaz de movimentar veículos em vias terrestres e no ar. Também de olho no amanhã, a montadora japonesa Toyota anunciou neste mês que trabalha na construção de um carro elétrico com potencial de rodar 10 mil quilômetros na superfície da lua e auxiliar os astronautas em missões espaciais. O veículo deve estar disponível em 2029. Dez anos.

Esse é o horizonte de tempo mínimo que as empresas consideram para montar um cenário futuro e entender os rumos do mercado em que atuam para se adiantarem às demandas. Até pouco tempo, esse exercício era feito por meio de relatórios nos quais as consultorias apontavam as tendências e guiavam a estratégia das companhias. Agora, esse treino está mais palatável, com a utilização do design fiction. Essa ferramenta da futurologia utiliza narrativa ficcional para dar vida a novas realidades e auxiliar as empresas a entender como podem ser úteis nesse potencial amanhã. “Isso engloba avaliações de aspectos geopolíticos e de mudança social”, diz Cesar Taurion, sócio e especialista em transformação digital da Kick Ventures.

A Embraer é uma das primeiras companhias brasileiras a adotar a técnica com intuito de incentivar uma visão de futuro entre seus colaboradores. Para isso, os engenheiros foram convidados a criar um roteiro de ficção no qual imaginaram o futuro da aviação a partir de notícias reais, que serviram de base para as especulações sobre o setor. “A imersão foi completa. Os colaboradores também representaram os personagens que criaram. A atividade deu origem a três curtas-metragens”, diz Lídia Zuin, diretora de inovação da Up Lab, laboratório de projetos transmídia que promoveu, com parceiros, a atividade.

A arte de contar histórias usando técnicas de roteiristas e escritores do universo ficcional começa a ser adotada pelas grandes empresas para suprir a necessidade de melhorar a comunicação com os funcionários. O método incentiva os colaboradores a criar empatia pelos conceitos de novos produtos. Mas não só. Não dá para esconder o fato de que as áreas de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) das empresas não conseguem mais dar conta, sozinhas, de tanta inovação em alta velocidade em todos os segmentos.

“Em 99% dos casos, a técnica é usada para incentivar a inovação entre os colaboradores”, diz Ari Popper, presidente da Scifutures, umas das empresas americanas pioneiras em prestar esse serviço. De acordo com Popper, as empresas começaram a adotar tais exercícios com mais frequência há cerca de cinco anos. Nesse período, a Scifutures coleciona grandes clientes em seu portfólio, como a Visa, cujo projeto foi a construção de um carro interativo pra demonstrar aos funcionários de que maneira os pagamentos móveis em transporte particular podem funcionar no futuro. A Pepsi quis recriar um mundo sem garrafas plásticas. A Ford, por sua vez, se apropriou da narrativa para vislumbrar uma sociedade que não compra, e sim compartilha carros. Esses exercícios podem resultar em um roteiro de ficção, filme, programa interativo ou protótipo. “À medida que os colaboradores conseguem suspender a descrença de potenciais fracassos, há mais espaço para a criatividade”, diz Zuin.

Os itens clássicos da ficção científica são imaginários. E justamente por essa característica incentivam a inventividade. Tanto que muitas das invenções que fazem parte da nossa rotina, como o smartphone, apareceram primeiro em livros ou no cinema. “Na ficção, os produtos não recebem feedback nem ações judiciais”, escreve em um manifesto o americano Bruce Sterling, um dos mais respeitados autores de ficção científica, que cunhou o termo “design fiction” em 2005. A Uber já pensa em cidades povoadas por carros voadores, por isso está criando uma narrativa para prospectar o potencial lançamento de sua frota, de acordo informações da Amy Gibbs, sócia da PwC, num relatório sobre o uso da técnica para explorar a inovação nos negócios. O investimento para a criação desses exercícios não é baixo. “Nos Estados Unidos, os workshops custam, em média, US$ 45 mil”, diz Popper, da Scifutures. “Mas isso depende, pois é um serviço altamente customizado”.

A arte de prever o futuro. 2

EXPERIÊNCIAS TAMBÉM NA ARTE

Técnicas do design fiction não são utilizadas apenas por empresas. Nas artes, a ideia é ser o oposto do uso corporativo. A pesquisadora e artista brasileira Luiza Prado, fundadora de A Parede”, consultoria de design em educação baseada em Berlim, lançou em 2014 um exercício sobre o futuro político do Brasil chamado “Brasil, julho de 2038”. Por meio dele, a artista imagina as consequências que a sociedade brasileira iria enfrentar na situação hipotética de o País ser governado por uma coalizão partidária altamente conservadora e neoliberal. A partir dessa suposição, ela simula a timeline de uma rede social com notícias fictícias. A ficção termina em2038, depois que um grupo de justiceiros invade um campus universitário e mata 33 pessoas. “No nosso trabalho, fazemos questão de distanciá-lo dos interesses do mercado”, diz Luiza Prado.