OUTROS OLHARES

A MATERNIDADE ADIADA

O poder de decisão da mulher sobre a hora de ter um filho e o aprimoramento da ciência fizeram crescer a procura pelo congelamento de óvulos.

A maternidade adiada

“Congele seus óvulos aos 30 anos e eles não envelhecerão com você”. “Congelamento de óvulos pelo preço de um lanche” – frases como essas viajam pelas redes sociais nos Estados Unidos. Elas vendem um negócio que nos últimos anos tem conquistado milhares de adeptas: o congelamento de células sexuais femininas, procedimento feito em clínicas de fertilização. No Brasil, o movimento dá sinais de decolar. Não existem estatísticas oficiais, mas clínicas ouvidas calculam que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de cerca de 200%. “As mulheres estão cada vez mais no controle da hora de ter filhos, tenham ou não um parceiro”, diz Edson Borges, diretor médico da Fertility Medical Group, em São Paulo.

Seja qual for o motivo, profissional ou sentimental, as mulheres têm preferido adiar a maternidade. De acordo com o IBGE, o porcentual de mães que dão à luz pela primeira vez aos 30 anos passou de 22.5%, em 2000, para 30,2 %, em 2012, segundo os dados mais recentes disponíveis. A intenção de virar mãe mais tarde se choca com uma realidade: a chance de engravidar naturalmente diminui muito cedo, de 25% a possibilidade de uma mulher de 25 anos, no auge da fertilidade, engravidar ao longo de cada ciclo menstrual. Cai para 8% no caso de uma mulher de 40 anos, ainda em pleno vigor físico. Diz Márcio Coslovsky, diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro. “A queda da fecundidade é causada, sobretudo, pelo envelhecimento dos óvulos”. As mulheres já nascem com o total de células sexuais que o organismo terá a vida inteira. Com o passar dos anos, o ovário libera óvulos em menor quantidade e de menor qualidade.

Em cada ciclo menstrual, na faixa em que a mulher tem entre 18 e 35 anos, sob estimulo da medicina o ovário libera mais facilmente a quantidade de óvulos considerada adequada pelos médicos: dezesseis. “O grande volume é crucial porque nem todo óvulo saudável consegue ter bons resultados na hora de formar um embrião”, diz Cláudia Gomes Padilla, diretora-médica do Grupo Huntington, em São Paulo. O valor médio de um procedimento de congelamento gira em torno de 15.000 reais. Para manter os óvulos armazenados, pagam-se 1.000 reais anuais. Eles duram para sempre.

Além da mudança de comportamento, o avanço científico ajudou a aumentar o interesse em conservar óvulos. A técnica tradicional que usava mecanismos de congelamento lento, com duração de mais uma hora, danificava muitas células. Essa demora deflagrava a formação de cristais de gelo que agrediam os óvulos. Agora, trabalha-se com outro recurso, a vitrificação. Por meio dela, o óvulo é congelado em segundos, o que impede a formação dos cristais. A vitrificação faz com que nove em cada dez óvulos fiquem ilesos. Antes, apenas seis em cada dez prosperavam. Pesquisadores de Brigham and Women’s Hospital, em Boston, desenvolveram uma tabela que calcula a taxa de sucesso na gestação de um bebê a partir do congelamento de óvulos. Até os 35 anos, chega a espantosos 85%. Em tese, a mulher que armazenar suas células sexuais nessa etapa da vida, quando for implantá-las de volta, para engravidar, terá essa mesmíssima probabilidade de fecundação em qualquer idade posterior. É a ciência a serviço das mudanças de comportamento. A paulista Andréa de Carvalho Knabe, uma anestesista de 36 anos, decidiu congelar seus óvulos aos 32anos. “Achei que não era hora de ter um bebê, apesar da vontade do meu marido. Não hesitei. Hoje tenho dezesseis óvulos guardados, saudáveis, à espera do melhor momento”.

A maternidade adiada. 2

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GESTÃO E CARREIRA

AS REGRAS VÊM AÍ

Até aqui, as empresas de tecnologia têm vivido uma espécie de paraíso libertário: não há regulamentação que limite suas ações. Mas esse tempo já está acabando.

As regras vêm aí

É comum elogiar as novas empresas de tecnologia chamando-as de “disruptoras”, no sentido de que ameaçam as concorrentes estabelecidas não por combatê-las de frente, mas por mudar as regras do jogo. A ideia da ruptura é, mais do que vencer os competidores, torná-los irrelevantes –   como aconteceu com as companhias de iluminação a gás quando surgiu a luz elétrica, ou com as carruagens quando apareceu o automóvel. Essa imagem, porém, é incompleta: as rupturas não se limitam ao mercado em disputa. Em seu conjunto, elas têm afetado a própria compreensão de como funciona (ou deveria funcionar) nossa sociedade. Um dos primeiros pontos de transformação é o mercado de trabalho. Quando as empresas se definem como plataformas, que em vez de empregar diretamente as pessoas dão a elas a oportunidade de prestar serviços a outros clientes, chacoalham-se as normas estabelecidas para um ambiente de dicotomia entre capital e trabalho. O novo profissional não está em nenhum dos campos. É um misto de empreendedor e empregado, de autônomo e funcionário, de subordinado e cliente. Como regular o horário de trabalho de um motorista de aplicativo, para impedir que ele cumpra jornadas exaustivas, se é ele mesmo quem liga ou desliga a máquina que o torna disponível? De um lado, os trabalhadores dessa nova economia são completamente independentes, na escolha dos clientes a quem servir e dos horários a cumprir. De outro lado, porém, a empresa não é uma plataforma neutra de encontro entre um prestador e um tomador de serviço: ela controla o preço, manipula incentivos para obter os comportamentos que deseja e, principalmente, pode “demitir” seus operários sem nem ao menos o desgaste psicológico de ter de chamá-los a uma sala e dar-lhes a notícia – faz isso bloqueando­ lhes o acesso ao aplicativo, no momento que lhe aprouver.

De certa forma, a realidade se adiantou à reforma trabalhista aprovada durante o governo Michel Temer. As normas rígidas de relação entre empregados e empresas têm sido curvadas pelo aumento do número dessa nova classe que poderíamos chamar de “empreendegados”, empreendedores – empregados. Como assegurar-lhes direitos sem eliminar a oportunidade de trabalho? Nos Estados Unidos, Alan Krueger, professor de economia na Universidade Princeton, e Seth Harris, ex-secretário do Trabalho no governo Obama. propõem que a legislação se adapte para contemplar esses trabalhadores autônomos, concedendo-lhes muitas das garantias, mas não todas, de um trabalhador usual – como o direito de organizar-se coletivamente em sindicatos para negociar taxas e condições de trabalho ou permitir que as empresas contribuam para sua aposentadoria sem caracterizar um vínculo empregatício que as leve a arcar com onerosas obrigações.

Como se as complicações trabalhistas já não fossem o bastante, as novas empresas digitais impõem um desafio crescente para diversas normas civis. As inovações representam um desafio regulatório em quatro casos diferentes, de acordo com uma pesquisa de Sarah Light, professora de estudos legais e ética na Escola de Negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, em colaboração com outros três acadêmicos. A primeira forma de impacto é quando uma empresa presta um serviço semelhante ao de uma companhia existente, mas alega que as regras não se aplicam a ela. É o caso da Uber e de seus congêneres, que argumentam não ser empresas de táxi e dizem que, portanto, seus motoristas não precisam de licenças municipais.

O segundo desafio é quando cidadãos são isentos de seguir normas exigidas para as empresas – mas um app torna possível reunir esses cidadãos num conjunto que se comporta como uma companhia. Assim como a luz pode ser tratada como uma onda ou como um feixe de partículas, é difícil definir se a regulação a ser aplicada é a das pessoas físicas ou a das jurídicas. O exemplo mais claro é do Airbnb: hotéis não podem discriminar que tipo de hóspedes aceitam, mas em sua casa você pode convidar ou não deixar entrar quem você quiser. Se uma pessoa manifesta intenção de alugar uma casa maravilhosa, mas o dono da casa a recusa, seja por alguma reclamação postada no site, seja pela cor de sua pele, a quem ela vai apelar?

Um terceiro desafio regulatório, de acordo com Sarah, é quando um serviço inovador não está previsto nas normas. É o caso das entregas com drones ou dos carros sem motorista. Há que se decidir de quem é o espaço aéreo ou de quem é a responsabilidade em caso de acidente. Finalmente, um quarto desafio é o das tecnologias que resolvem algum grave problema, mas esbarram em normas feitas para outras situações. É o caso das placas solares, que já permitiriam às casas não apenas dispensar o uso da energia da rede, mas também agir como fornecedoras da rede…se houvesse um mercado regulamentado.

A esses quatro desafios é preciso acrescentar a questão das externalidades: os efeitos que um contrato entre duas partes provocam em terceiros, alheios ao negócio. Uma externalidade negativa do serviço de entregas de comida é o aumento de custos para ambulâncias e hospitais, devido aos acidentes com motociclistas. Uma segunda é o excesso de patinetes estacionadas na rua, em alguns casos atrapalhando o tráfego de pedestres. Outra externalidade negativa é para os vizinhos de um apartamento transformado por seu dono em hospedaria. Fica claro que o empreendedor que quiser de antemão resolver todas as pendengas que sua inovação possa provocar não criará coisa alguma. É daí que se explica um dos ditados preferidos do Vale do Silício, o berço da cultura digital. “É melhor pedir desculpas do que pedir licença”. Ou seja, pecados de comissão são mais leves do que os de omissão. No cômputo geral, as inovações têm saldo positivo não apenas na conta bancária dos empreendedores, mas também na vida das pessoas.

As regras vêm aí. 2

NICHO LIBERTÁRIO

Uma consequência dessa postura é o posicionamento ideológico radicalmente contra a regulação. O Estado é comumente definido, para quem está imerso nesse ambiente, como um incômodo e um freio ao progresso. Não à toa, durante décadas o Vale do Silício foi identificado como um nicho libertário dentro dos Estados Unidos. Libertarianismo é, em essência, a crença de que o mercado pode até não ser perfeito, mas é melhor do que qualquer alternativa: o controle estatal, até mesmo em áreas como saúde e segurança pública, provoca ineficiências e abre espaço para a corrupção ou o fortalecimento de uma casta parasitária (os controladores da máquina estatal), que, além de não produzir riqueza, absorve a de quem criou.

Nas décadas de 70 e 80, a propaganda libertária era intensa. O slogan de John Kennedy (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”) era comumente reinterpretado como “Não pergunte o que o país pode fazer por você, faça você mesmo”. Até a virada do milênio, o libertarianismo reinava. Mas, embora ainda haja libertários famosos, como o empreendedor serial Peter Thiel cofundador do PayPal, essa já não é a ideologia reinante no Vale do Silício.

Um estudo conduzido em 2017 pelos professores de economia política David Broockman e Neil Malhotra, da Universidade Stanford, e pelo jornalista Greg Ferenstein, com 600 fundadores e executivos ­chefes de empresas de tecnologia, revelou que seus valores são quase totalmente identificados com o ideal progressista do Partido Democrata. Não é de espantar, visto que 97% das doações para campanhas políticas na região vão para candidatos democratas. Há, porém, duas divergências cruciais em relação ao credo progressista. Eles compreensivelmente atribuem muito mais valor à atividade empreendedora (em vez da ênfase no dirigismo estatal) e são muito desconfiados em relação a sindicatos e à regulação estatal.

 O termo que melhor os define, de acordo com os acadêmicos Brink Lindsey e StevenTeles, é “liberaltarianismo”, um amálgama do credo liberal (no sentido que os americanos lhe dão, de progressista com preocupações sociais) como credo libertário. Isso explica outra expressão cara à cultura empreendedora do Vale do Silício, com ecos aqui no Brasil: todos querem como defendeu Steve Jobs num célebre discurso à universitários, colocar sua marca no universo, fazer algo que tenha impacto positivo na vida das pessoas. A tendência. porém, é que a elite tecnológica perca a briga contra a regulação. Em grande parte, porque a classe se desgastou com tantos conflitos e, quando teve de pedir desculpas e reparar algumas de suas ações ousadas, ficou devendo. Eles ainda são vistos como heróis, mas também como gente mimada, ciosa de seus privilégios.

Em segundo lugar, e não menos importante, os governos estão ficando mais espertos em relação à regulação. São Francisco, por exemplo, proibiu o uso de patinetes elétricas nas ruas, mas desde meado do ano passado a prefeitura está conduzindo um programa-piloto para averiguar que limites pode dar ao serviço de forma que ele funcione como auxiliar do trânsito sem provocar externalidades insuportáveis. Da mesma forma, a cidade de Nova York estabeleceu limites ao número de motoristas de Uber que podem circular pela cidade, mas as regras estão sujeitas a reavaliação daqui a um ano, quando houver mais dados para decidir a intensidade e a direção das regras.

Não é mera coincidência que o cofundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, tenha se tomado um defensor da regulação. No dia 30 de março, ele publicou no jornal The Washington Post um artigo em que defende intervenção em quatro áreas: conteúdo malicioso, integridade das eleições, privacidade e o direito de portabilidade dos dados entregues a uma empresa. Não é que ele tenha se convertido. É que entendeu que a regulação – como mostra o avanço das regras e punições a empresas de tecnologia na Europa – é inevitável e quer pelo menos influenciar o modo como ela será definida.

As regras vêm aí. 3

GESTÃO E CARREIRA

CRIE A FAMA E EVITE A LAMA

A lista das empresas com melhor reputação no Brasil está se tornando mais estável. Para subir aos primeiros postos, é preciso fazer um baita esforço. Quem cai muito, normalmente, é porque cometeu muitos erros.

Crie a fama e evite a lama

Construir a reputação de uma empresa não é tarefa simples. Exige um esforço constante e coerente para cativar todos os públicos com os quais a companhia se relaciona. Mas perdê-la também não é fácil. “Se a empresa é sólida em todas as frentes, dificilmente perderá a reputação”, afirma Lylian Brandão, diretora-geral da Merco, empresa dedicada a avaliar a imagem corporativa. Somente uma grave crise pode pôr tudo a perder”. Publicado com exclusividade, o ranking da Merco sobre reputação está em sua quinta edição no Brasil.

Uma crise grave é o caso da mineradora Vale. Do segundo lugar no ranking de 2013, e sexto no ano seguinte, a Vale caiu para o 70° em 2016. logo após o rompimento da barragem de Mariana. O ranking deste ano ainda não reflete a catástrofe de Brumadinho, ocorrida no fim de janeiro – a Vale está no 46° lugar. “Isso mostra que, depois de uma crise, a queda é rápida; e a recuperação, demorada”, diz Lylian. “Com Brumadinho, ela deve despencar novamente”.

É também o caso do setor de construção. Os escândalos de corrupção derrubaram a Odebrecht de 2015 em diante. E a crise do setor imobiliário escanteou a Gafisa, que esteve na lista em 2017 e 2018. Outra empresa que vem sofrendo desgaste é o Facebook, atingida por escândalos de fake news e falta de segurança nos dados dos usuários: tudo isso a fez cair da 20ª para a 44ª posição na lista.

Poderia ser considerado um escândalo também o fato de que não há, no ranking nacional, nenhuma empresa do setor da educação. Na Colômbia existem 14. No Peru, sete. Na Espanha são cinco. É um alerta de como o Brasil está longe de ter a educação como prioridade. E um sinal das enormes oportunidades nesse setor.

Tirando esses casos extremos, a lista da Merco está se tomando mais estável. Há apenas 16 novas empresas entre as 100 primeiras – no ano passado foram 20; e no ano anterior, 30. As ascensões e quedas também estão mais discretas. Em 2018 havia ganhos de mais de 50 posições e perdas de mais de 70 posições. Neste ano, as oscilações máximas ficaram entre 20 e 31 posições. “É uma tendência internacional. As empresas brasileiras estão fazendo trabalhos sólidos para melhorar a reputação”, diz Lylian.

Nesse contexto de estabilidade, entrar no clube das dez melhores reputações é um feito. Foi o que se deu com a Toyota, no ano em que comemorou 60 anos no Brasil. A montadora japonesa subiu nove posições, para o décimo lugar. Em boa medida, a melhora no ranking tem a ver com os ótimos resultados da Toyota no país e seu trabalho de aproximação e transparência com os consumidores.

Crie a fama e evite a lama. 2

A Merco investiga uma série de quesitos, com base em 3.164 entrevistas realizadas com três grandes grupos: executivos de grandes empresas, especialistas de vários setores (analistas financeiros, membros do governo, acadêmicos e representantes de ONGs, entre outros) e consumidores. O resultado é auditado pela consultoria KPMG. De todas as variáveis, no entanto, duas são cruciais. Entre os empresários os resultados comerciais e financeiros foram os mais citados como essenciais à reputação. Entre os consumidores as questões de ética e de transparência foram os fatores positivos mais mencionados.

E isso explica a ascensão da Toyota. A empresa terminou o ano com recorde histórico de 200.000 carros vendidos, 5.3 % mais do que em 2017. Também exportou para a América Latina 65.000 unidades. Em 2019, ela espera elevar as vendas em 9.5 %. No ano passado, começou a testar, no modelo Prius, a tecnologia híbrido­ flex, que une o motor elétrico ao motor a combustão (tanto a gasolina quanto a álcool). Neste ano, o sistema será aplicado a um modelo ainda não divulgado. “O Brasil será o primeiro país a produzir carros com essa tecnologia”, diz Rafael Chang, presidente local da Toyota. A empresa também fortaleceu o debate sobre mobilidade urbana e energias limpas nos comitês internos de governança. E intensifica a comunicação com consumidores. “O pessoal quer que eu fale diretamente com nossos clientes nas redes sociais. Ainda prefiro papel e caneta, mas topei o desafio”, afirma Chang.

O Bradesco também entrou no clube das dez primeiras. Recuperando-se de uma queda abrupta em 2018, o banco subiu 23 posições, para o oitavo lugar. Novamente, a ascensão pode ser explicada por resultados financeiros, inovação e atenção ao consumidor. No balanço mais recente, bateu recorde de lucro (21.6 bilhões de reais, 13.4% mais do que em 2017), embora tenha sido ultrapassado em rentabilidade pelo Santander. A carteira expandida de crédito cresceu 7.8 %, para 351 bilhões. O Bradesco investiu 6 bilhões de reais em tecnologia, com a assistente virtual Bia, o banco digital Next e a atualização do sistema de informações. “A Bia já tem 90% de acurácia e completou 100 milhões de transações com 8,3 milhões de clientes”, diz Leandro Miranda, diretor executivo do Bradesco. O banco também criou um novo logo, de inspiração mais inclusiva. “Agora há um degradê que passa pelo vermelho. mas vai do roxo ao rosa. É a maneira de mostrar nossa diversidade de colaboradores e clientes”, afirma. Hoje, 51% dos funcionários são mulheres e 26% são negros.

A Merco também produz um ranking dos 100 líderes com melhor reputação, com as opiniões de diretores de empresas. Essa lista mudou pouco. Luiza Trajano, do Magazine Luiza, manteve a liderança. Roberto Setúbal, do Itaú Unibanco, assumiu o segundo lugar. Só um nome saiu da lista dos dez primeiros: Silvio Santos, que caiu da oitava para a 11ª posição. Em seu lugar entrou Bernardo Pinto Paiva, da Ambev, em nono. Apesar de Luiza estar no topo, a lista é dominada por homens. A segunda mulher, Paula Bellízia, da Microsoft, aparece em 14º lugar. A porcentagem de mulheres é baixíssima, mas reflete a proporção delas em cargos de liderança, segundo Sofia Esteves, fundadora da consultoria de carreira Cia de Talentos. É uma ascensão ainda a ser construída.

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GESTÃO E CARREIRA

A VEZ DA REALIDADE AUMENTADA

A tecnologia que permite ver imagens virtuais sobre objetos reais ganha cada vez mais espaço nos setores industrial e de serviços, impulsionando um mercado que deve superar 60 bilhões de dólares em cinco anos.

A vez da realidade aumentada

Toda vez que uma fábrica detecta um defeito num equipamento, um diagnóstico precisa ser feito e um componente substituído. É um processo que pode levar horas ou dias, e, dependendo do problema, a produção precisa ser interrompida até que o conserto seja realizado. Para acelerar o tempo de reparo e melhorar a manutenção das máquinas, indústrias de todo o mundo começam a ver na tecnologia de realidade aumentada uma solução para esse problema. A tecnologia funciona em óculos especiais que contam com câmeras para filmar o ambiente diante do usuário. Na tela dos óculos, a pessoa enxerga uma imagem digital sobreposta aos objetos físicos – daí o nome de realidade “aumentada”. É possível ver vídeos, acessar documentos, consultar dados na internet ou assistir a transmissões ao vivo com outras pessoas. Quando o Google começou a apostar nessa tecnologia, em 2013, esperava-se que, um dia, esses óculos se tornassem tão populares quanto os smartphones. O sonho não vingou. Mas a realidade aumentada encontrou seu espaço no mercado corporativo – e, especialmente, no chão de fábrica.

Com essa tecnologia, trabalhadores braçais têm um computador completo diante dos olhos e podem seguir instruções supervisionadas por especialistas. Uma das empresas que apostam nessa tendência é a Microsoft, que oferece desde 2015 os óculos HoloLens. Para David Epp, diretor global de parcerias da Microsoft, a empresa finalmente entendeu para que o HoloLens serve. “Primeiro, acreditamos que ele seria usado para games ou para assistir a jogos de futebol. Tudo isso é interessante, mas começamos a receber pedidos de aplicação na indústria e na construção. Agora, temos um dispositivo relevante, que permite tocar em objetos digitais e isso oferece muito valor para os profissionais”. afirma Epp.

A fabricante suíça ABB, conhecida por seus robôs industriais e pela ampla gama de serviços para a indústria, é uma das empresas que hoje usam dispositivos de realidade aumentada para agilizar reparos. A solução tem sido aplicada em fábricas na Austrália e nos Estados Unidos. Numa demonstração realizada em um evento em Houston, no Texas, representantes de diferentes setores da indústria paravam diante do estande da ABB para entender como aqueles óculos futurísticos poderiam ser úteis. Os óculos podem conectar especialistas e técnicos para poupar tempo e custo de deslocamento e, assim, aumentar a produtividade nas fábricas. Funcionários têm acesso às informações digitais sem precisar usar as mãos para segurar um celular, tablet ou computador – uma facilidade que pode evitar acidentes de trabalho. “Com a realidade aumentada, é possível ensinar as pessoas a realizar reparos com o auxílio de especialistas que podem estar em qualquer lugar”, diz Guido Jouret, chefe de soluções digitais da ABB. Além disso, os óculos permitem que o funcionário faça treinamentos usando réplicas digitais dos equipamentos que vão manusear.

A aposta nessa tecnologia é um fenômeno crescente. Segundo a estimativa da consultoria britânica PwC, 29% das empresas do setor industrial terão feito algum investimento em realidade aumentada até o fim do ano que vem, ampliando quatro vezes o número registrado em 2017. Outra previsão indica que o gasto das empresas com tecnologias imersivas de realidade aumentada deverá passar de 4.3 bilhões de dólares, em 2017, para 8 bilhões, em 2019.

Com a expansão dos investimentos, será cada vez mais comum encontrar exemplos de uso como o da montadora americana Ford, que percebeu os benefícios de conectar sua força de trabalho com a tecnologia. A empresa, com sede em Detroit, usa óculos de realidade aumentada em projetos piloto em São Paulo, na Bahia, em Brasília e em Santa Catarina. O objetivo é parecido com o da ABB: nas concessionárias da Ford, os mecânicos são orientados a distância por um time de engenharia na hora de fazer consertos em veículos. Joaquim Arruda, diretor de serviço ao cliente da Ford na América do Sul, conta que o projeto já foi levado a outros países e o Brasil deve ser o primeiro a usar amplamente a tecnologia na América Latina até 2020. “‘Se o engenheiro encontra uma falha, ele pode enviar um vídeo ou um documento para auxiliar no reparo”, afirma Arruda. A solução usada pela montadora é fornecida pela empresa de tecnologia brasileira Total Power. Com base na experiência realizada até agora, os gastos com viagens dos engenheiros diminuíram até 70 % e a produtividade das equipes aumentou até três vezes com o uso da solução. “Com a tecnologia, o trabalhador aprende na prática a realizar o serviço e minimiza o risco de cometer erros”, afirma Fabiano Freitas, diretor executivo da Total Power. Não são apenas as empresas que enxergam os benefícios. Nas universidades a tendência também é vista com bons olhos. William Uricchio, professor de mídia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, é um entusiasta da tecnologia. “A imagem do mundo ao nosso redor pode ser enriquecida com informações digitais para dar mais contexto. Com tecnologias assim podemos ser muito mais criativos”, diz Uricchio. Para ele, logo será comum usar a realidade aumentada em setores como turismo, marketing, saúde, serviços e jogos. Com esse farto conjunto de mercados, o faturamento com as vendas de hardware e software de realidade aumentada deverá ultrapassar 60 bilhões de dólares em 2023, de acordo com a consultoria americana Marketsand ­ Markets. Já o número de dispositivos vendidos poderá chegar a 68 milhões em quatro anos, segundo a consultoria americana IDC. No Brasil, as vendas projetadas são de 372.000 unidades.

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ALÉM DOS ÓCULOS

Graças a avanços trazidos pela Apple e pelo Google, que têm ferramentas para desenvolvedores criarem aplicativos de realidade aumentada, a tecnologia não ficará restrita aos óculos. Ela pode ser usada também no smartphone. Um componente indispensável é a câmera. Qualquer que seja o celular, é pela câmera que a pessoa vê a camada digital aplicada sobre os objetos físicos. Esse é um dos motivos pelos quais o mercado de sensores de imagem – um componente que mostra o ambiente à frente e é essencial para a tecnologia de realidade aumentada – deverá passar de 18 bilhões de dólares, em 2019, para 23 bilhões, em 2023, segundo a consultoria P&S lntelligence. É uma ótima notícia para empresas como a fabricante japonesa Sony, líder do ramo de sensores de imagem. Desde 2013, a Sony oferece recursos de realidade aumentada em seus smartphones, que são usados, principalmente, para enfeitar fotografias com imagens gráficas.

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O crescimento do mercado de realidade aumentada também está impulsionando o surgimento de uma nova variedade de empresas de tecnologia. Um levantamento da consultoria americana Pitch Book, mostra que os investimentos de capital de risco em startups de realidade aumentada subiram 175% de 2014 a 2018, passando de 1,2 bilhão de dólares para 3,3 bilhões nesse período. A empresa que mais recebeu aportes é a americana Magic Leap, fabricante de óculos de realidade aumentada para entretenimento, que arrecadou quase 2,3 bilhões de dólares. Porém, a startup que, até agora, levantou mais recursos em uma única rodada de investimentos é a Epic Games, produtora do jogo Fortuite (a maior febre no mundo dos games da atualidade), que recebeu 1,25 bilhão de dólares de investidores em 2018. O dinheiro está sendo usado para desenvolver a tecnologia gráfica da Epic Games, bem como recursos de realidade aumentada para seus jogos. O setor de games, que teve faturamento de 110 bilhões de dólares em 2018, é um dos que mais utilizam a realidade aumentada. Um exemplo é o jogo Pokémon Go, da americana Niantic, que fez sucesso em 2016 ao incorporar a tecnologia.

Enquanto as startups utilizam a realidade aumentada para fazer sucesso nos games ou para criar aplicativos que se aproveitem dessa ferramenta, a briga entre as grandes empresas de tecnologia é para saber qual delas vai se consolidar como a plataforma líder. “A Microsoft não quer que o HoloLens seja o melhor dispositivo. Seu objetivo é demonstrar como essa tecnologia será usada no futuro. Assim como o Windows hoje reina nos PCs a Microsoft quer que sua plataforma seja dominante no mercado de realidade aumentada”, diz Tyeng Nguyen, analista sênior da consultoria americana Gartner. Pode não ser da noite para o dia, mas a realidade aumentada será cada vez mais presente, seja na indústria, seja nos smartphones, seja nos games do momento.

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OUTROS OLHARES

A EXPLOSÃO VEGANA

Mais de sete milhões de brasileiros declaram-se adeptos do veganismo: não consomem qualquer produto proveniente ou testado em animais. E esse público — assim como o mercado formado em torno dele — só deve crescer.

A explosão vegana

Virou uma febre nos restaurantes, em lojas de roupas modernas, de acessórios e até em fast foods. Propagandear que os produtos são veganos parece dizer ao cliente que ele está dentro do que há de mais contemporâneo em saúde e comportamento. Assim, a explosão vegana tomou conta do mundo. Só no Brasil são sete milhões de pessoas que se consideram adeptas do estilo de vida que deixa de fora o consumo de artigos provenientes ou testado em animais. Entre eles, alimentos, bolsas e produtos de beleza. Hoje são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos pelo país. A mais famosa cadeia de fast food do mundo, o Mc Donalds, entrou na onda e produz sanduíches para o nicho.

E há espaço para mais crescimento. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope, 55% dos 2 mil entrevistados afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se eles estivessem com rótulos bem informativos e 60% os comprariam se custassem o mesmo preço dos comuns. Em geral, eles são mais caros.

Ser vegano, na verdade, significa estar no alto de uma pirâmide que tem como base o vegetarianismo, a dieta que exclui o consumo de carne. No segundo patamar, estão os ovolactovegetarianos. Além de vegetais, eles se alimentam de ovos, leites e derivados. No terceiro ficam os chamados vegetarianos estritos, que não consomem nenhum alimento de origem animal incluindo mel, ovo e laticínios. Os veganos estão no topo e recusam, além da alimentação, todo produto que utiliza produtos feitos a partir de ou testados em animais

O que embala a escalada dos veganos é a disseminação da cultura que busca melhor qualidade de vida, incluindo no conceito o cuidado com a saúde de forma mais natural e o respeito ao meio ambiente e aos animais. “É uma mudança de dentro para fora”, diz a vegana Anna Karine Fukamizu. “Primeiro vem a informação e depois você muda seu comportamento”, completa. Barbara, filha de Anna, foi quem convenceu a mãe a adotar a filosofia de vida, há seis anos. Desde então, elas deixaram de comer produtos derivados ou testados de animais. Usam roupas de algodão e pasta de dente natural. A estudante Victoria Mayer foi outra que cortou ovos, leites e derivados e parou com carnes. “Não acho certo o maltrato aos animais.” Ela também só adquire produtos veganos.

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A explosão vegana. 3

MERCADO EM ASCENSÃO

O aumento dos adeptos faz crescer o mercado. A Curaprox, por exemplo, especializada em produtos de limpeza bucal, lançou uma linha de pastas de dente vegana. Na composição, nenhum produto químico ou de origem ou testados em animais. “Os veganos podem usar sem medo”, afirma Hugo Lewzoy, CEO da marca. De acordo com o executivo, o creme dental possui uma enzima chamada glicose oxidase. Ela potencializaria a ação protetora da própria saliva, evitando a necessidade de antibactericidas químicos. Além disso, ela conteria extratos de ervas com propriedades regenerativas dos tecidos. O produto custa R$ 79.

Outra empresa é a Biozenthi, presente no Brasil, na Austrália, na Colômbia, no Equador e preparando-se para entrar no mercado espanhol. Ela fabrica cosméticos, artigos para cabelo e de higiene pessoal veganos. “Usamos cera de carnaúba para fazer batom, por exemplo”, explica Márcio Accordi, proprietário da companhia.

Assim como em relação ao vegetarianismo, há polêmica envolvendo a exclusão de alimentos de origem animal na dieta vegana. Médicos, nutricionistas e adeptos sabem que falta ao organismo de um vegano a vitamina B12, necessária para o bom funcionamento do sistema nervoso. “Mas mesmo quem não é vegano tem deficiência da vitamina. Normalmente, ela falta em 60% dos veganos e em 40% dos não veganos”, afirma a nutricionista Astrid Pfeiffer. Vegetariana há 14 anos, ela entrou para o veganismo há 6 meses. O prato perfeito para um vegano consiste em uma base de carboidrato (cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada), leguminosas (feijões, lentinha, ervilha, grão de bico) e salada com muitas folhas verdes. “Conseguimos encontrar todos os nutrientes em uma refeição equilibrada”, diz Astrid. O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, discorda. “É importante respeitar a liberdade de escolha individual de cada pessoa. Entretanto, do ponto de vista médico e nutricional, o que recomendamos é que, ao fazer qualquer opção alimentar restritiva, o indivíduo cheque como está sua saúde e tenha um acompanhamento regular para que todos os nutrientes necessários para mantê-la sejam contemplados na alimentação”, afirma. Ao que tudo indica, a discussão, iniciada com o vegetarianismo, se prolongará

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GESTÃO E CARREIRA

TUDO NO APLICATIVO

Os brasileiros que ganham dinheiro com aplicativos já são 5,5 milhões. Por trás dos apps estão empresas bilionárias que mudam a forma como trabalhamos, compramos, nos locomovemos e nos divertimos. O que ganhamos, e o que perdemos, com essa revolução?

Tudo no aplicativo

Não é preciso ser viciado em tecnologia para sua rotina caber num aplicativo de smartphone. Uma carona de carro ou um aluguel de patinete pode levá-lo ao trabalho enquanto um passeador busca seu pet para uma volta pelo bairro. Na hora do almoço, um motoboy entrega a refeição para dar tempo de você cortar o cabelo antes de voltar ao escritório, serviço também agendado pelo aplicativo. À noite, uma aula de inglês contratada pelo aplicativo e, depois, um jantar entregue em casa, onde as compras do supermercado estão à sua espera. Estamos em 2019, e os apps estão por toda parte. Cerca de 125 milhões de brasileiros têm acesso a internet e há 220 milhões de smartphones em circulação no país. Se a onipresença das plataformas digitais na rotina de uma parcela cada vez mais relevante da população não é novidade, seu poderio econômico nunca foi tão significativo, e tão disseminado. Em 2018, só nas regiões metropolitanas, 18 milhões de brasileiros usaram regularmente aplicativos para ganhar algum dinheiro, segundo levantamento inédito realizado pelo instituto de pesquisas Locomotiva. No país, quase 45 milhões de pessoas já usaram aplicativos para obter renda. A conta inclui os 5.5 milhões cadastrados como prestadores de serviços em plataformas como Uber, 99, iFood e Rappi, mas também os milhões de pessoas que usam as redes sociais Facebook e Instagram ou o aplicativo de mensagens WhatsApp para a prestação de serviços.

Os aplicativos são, claro, um fenômeno global. No mundo, apps de transporte e de entrega de comida deverão passar dos 130 bilhões de dólares em faturamento em 2023, segundo estimativa do site de estatísticas Statista. Em ambos, a China é a líder do mercado, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos. No Brasil, as ferramentas de delivery de comida cresceram 20% em número de usuários no último ano, acima da média global, de 12%. O Brasil virou um dos terrenos mais férteis para a popularização dos apps por uma conjunção de fatores econômicos e sociais. A recessão que assola o país desde 2014 e a taxa de desemprego elevada levaram as pessoas a procurar serviços mais baratos e também a buscar novas formas de trabalho. Soma-se a esse cenário a ascensão das classes C, D e E, que passaram a consumir pela internet e, sobretudo, pelo celular. De 2010 a 2018, a penetração de smartphones na classe C passou de 42% para77%; entre as classes D e E, de 13% para 49%. É uma enorme fatia da população que vê no aparelho uma oportunidade de melhorar de vida, seja dirigindo um Uber, seja oferecendo doces e salgados pela internet. As operadoras, por sua vez, lançaram planos de internet cada vez mais baratos para fisgar esses consumidores/empreendedores – já é possível ter acesso à rede a 2 reais por dia. “É uma nova forma de conexão entre oferta e demanda, feita por meio dos aplicativos e com internautas nas duas pontas”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

A economia dos aplicativos começou a tomar corpo no Brasil em 2014. Meses antes da Copa do Mundo, chegou ao país a americana Uber; que prometia viagens baratas com motoristas não profissionais. Hoje, cinco anos depois, usar apps de transporte é um ato rotineiro para mais de 20 milhões de brasileiros. O Brasil é o segundo maior mercado da Uber no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com cerca de 600.000 motoristas. A empresa adotou inovações para o país, como o pagamento em dinheiro, que atinge um público sem conta em banco. A democratização do serviço é um fenômeno global: dados mundiais da pesquisa da Statista, referentes a 2018, mostram que, entre os usuários de aplicativos de  transporte, cerca de 60% têm renda média e baixa. “Onde mais crescemos é na periferia dos grandes centros, regiões em que fica mais evidente a falta de transporte adequado”, diz Saulo Passos, diretor de comunicação da Uber para a América Latina. A Uber e sua concorrente, a 99, acabaram sofrendo as dores dos pioneiros ao mostrar as oportunidades de uma economia voltada para os apps. “Os motoristas mal estavam acostumados a usar o celular, e muito menos para trabalhar”, diz Davi Miyake, gerente de operações da 99.

Com os apps de transporte, os brasileiros passaram a conhecer uma nova organização econômica, que se vale de avaliações dos usuários para construir uma base de confiança entre quem oferece e quem usa o serviço. É uma organização que mostrou que o futuro poderia se inspirar aos ideais libertários para tirar o governo e o poder público de cena. A lógica vai sendo, pouco a pouco, replicada para dezenas de negócios, e deve continuar ganhando força. “Antes os usuários dependiam da regulação do governo para saber se um serviço era bom ou não”, afirma o professor Sunil Johal, especialista em regulação e políticas públicas para economia compartilhada na Universidade de Toronto, no Canadá. Para Eduardo Baer, presidente da startup DogHero, esse é o grande valor da economia compartilhada. “Nas grandes cidades, as pessoas se tornam anônimas e preferem confiar em grandes empresas. Mas, com a informação que esses aplicativos criam, voltamos a saber quem presta um bom serviço”, afirma. A DogHero oferece serviços de hospedagem e caminhada de cachorros. Criada em 2014, tem 18.500 anfitriões e passeadores cadastrados para servir 800.000 cachorros, em 750 cidades da Argentina, do Brasil e do México. Para que um passeador ou um anfitrião entrem na plataforma, devem passar por treinamentos on-line que mostram, por exemplo, sintomas que indicam que o pet deve ser levado ao veterinário. A revolução dos apps não deve parar em seu labrador de estimação. “O capitalismo de multidão só tende a crescer nos próximos 20 anos. Devemos ver mais progressos em áreas como saúde e até energia, com as pessoas podendo comprar eletricidade de seus vizinhos”, diz Arun Sundararajan, professor na Universidade de Nova York e autor do livro Economia Compartilhada: o Fim do Emprego e a Ascensão do Capitalismo de Multidão.

As dez maiores plataformas de produtos e serviços em atuação no Brasil já passaram faz tempo da fase de startup que cabe em meia dúzia de mesas de um coworking. O ano de 2019, aliás, tem sido visto como um marco da maturidade dessas companhias mundo afora. A empresa americana de mobilidade urbana Lyft abriu o capital no mês passado e está avaliada em cerca de 24 bilhões de dólares. A Uber planeja sua própria abertura, projetando um valor de mercado de 120 bilhões de dólares. Do outro lado do mundo, um aplicativo como o Meituan Dian ping, da China, realiza 178 serviços por segundo, como pedidos de comida, compra de ingressos e reserva em hotéis. Considerada a “Amazon dos serviços”, a chinesa acumula 400 milhões de usuários pagantes em 2018 e um valor de mercado de 297 bilhões de dólares (mais da metade do valor do Facebook). O interesse dos investidores se repete em aplicativos brasileiros. Em janeiro do ano passado, a 99 foi adquirida pelo gigante chinês de mobilidade Didi Chuxing numa transação estimada em 1 bilhão de dólares. Em novembro do mesmo ano, uma rodada de 500 milhões de dólares recebida pelo app de entregas iFood foi o maior investimento sem aquisição já visto na América Latina. Aplicativos que ligam produtos e serviços dominaram seis dos dez maiores investimentos na América Latina de 2012 a 2018. O aumento de liquidez permite que os aplicativos consigam investir em sua expansão e deixem a busca do lucro para o futuro – bem para o futuro, só pensaremos em oportunidades futuras de lucro depois de satisfazer consumidores, restaurantes e entregadores”, diz Jason Droege, diretor da Uber Everything, divisão de novos negócios da Uber. O mercado de aplicativos coloca frente a frente empresas brasileiras e estrangeiras. Entre os brasileiros, nenhuma companhia tem números tão impressionantes quanto a Movile, que já conta com 2.300 funcionários. A empresa foi criada na virada do milênio, com mensagens de texto. Seu ecossistema de aplicativos já atingiu mais de 350 milhões de usuários. Com taxa de crescimento anual de 60%, planeja chegar a 1 bilhão de usuários até o fim de 2020. Uma de suas maiores apostas para atingir a meta é o iFood, pioneiro na transformação de pedidos telefônicos em pedidos digitais. Criado em 2011, o app foi comprado pela Movile em 2014. O iFood faz 17,4 milhões de entregas mensais para 12,6 milhões de consumidores. Eles se conectam a 66.000 restaurantes em mais de 500 cidades brasileiras por meio de 120.000 entregadores. O iFood cresce no pique de 3 dígitos por ano. Sua maior concorrente é a colombiana Rappi, que tem 60.000 entregadores no mundo e cresce cerca de 30% ao mês no Brasil. Esse mercado ainda pode crescer muitas vezes e temos o potencial de estar entre as maiores empresas de delivery do mundo”, diz Carlos Moyses, presidente do iFood. A empresa está investindo até na entrega por drone, a ser implementada quando conversas regulatórias avançarem, o computador vai decidir sua próxima refeição”, diz Fabrício Biais, fundador da Movile. Talvez nenhum dos grandes aplicativos em atuação no país seja tão brasileiro quanto o GetNinjas, ferramenta que conecta prestadores de serviços a potenciais clientes. São mais de 200 tipos de serviço de mais de 500.000 prestadores – que incluem advogados, designers, churrasqueiros, chaveiros, encanadores, e por aí vai. O aplicativo nasceu no Brasil em 2011, para formalizar os bicos, e hoje opera também no México. O fundador, o engenheiro Eduardo Chatellier, criou o GetNinjas ao ter problemas para achar um pintor no mar de classificados da internet. Na plataforma, os próprios prestadores de serviços estabelecem um preço e negociam diretamente com o cliente, e o GetNinjas cobra uma taxa que vai de 1 a 8 reais. Em 2018, os serviços contratados pela plataforma movimentaram 300 milhões de reais. Parte desse montante veio do casal Tatiana Dias Moura e Felipe Rodrigues de Oliveira, que entraram no GetNinjas pouco depois de abrir seu negócio de conserto de celulares, a FixOnline, em 2017. A empresa que começou num quarto enquanto Oliveira estava desempregado, tem hoje 11 funcionários e fatura cerca de 110.000 reais por mês. O casal abriu uma loja física em Perdizes, em São Paulo, mas só 10% dos atendimentos vêm do balcão. “Ajudamos o profissional autônomo a se enxergar como realmente é: um microempreendedor”, diz Chatellier.

O estímulo ao empreendedorismo é um fator em comum entre as diversas grandes empresas de aplicativos do país. Os apps de entregas Uber Eats e Rappi, por exemplo, estão investindo em restaurantes que operam a portas fechadas e atendem apenas a pedidos por aplicativo. A ideia seduziu a empreendedora Matilde Arruda em outubro de 2018. quando ela ainda trabalhava com os pais em uma rede de temakerias. Com início em dezembro, os dois restaurantes do Sushi Plus em São Paulo atendem apenas pelo Uber Eats e recebem 16.000 pedidos por mês, com tíquete médio de 24 a 30 reais. Matilde diz ter investido cerca de 150.000 reais para iniciar o negócio, um terço do que gastaria montando um restaurante tradicional. Estabelecimentos com histórico também resolveram investir em parcerias com aplicativos. A rede de empanadas La Guapa, comandada pelos empreendedores Benny Goldenberg e Paola Carosella, planeja para o meio do ano a abertura de uma cozinha exclusiva para o Rappi. Ela se juntará a cinco lojas de rua em São Paulo, com 90 funcionários e 85.000 empanadas vendidas por mês. Entregas em domicílio representam de 25% a 30% dos pedidos no LaGuapa, proporção que deverá chegar a 50% com a nova unidade. “Hoje, damos prioridade aos clientes que estão no restaurante nos horários de pico e, às vezes, tenho de desligar o aplicativo. Isso não vai mais acontecer”, afirma Goldenberg. A plataforma de comércio eletrônico Mercado Livre tem 296.000 vendedores que utilizam o site como principal fonte de renda, segundo a empresa. “Criamos ferramentas para que o pequeno varejista brigue de igual para igual com as lojas oficiais”, diz Julia Rueff, diretora de marketplace do Mercado Livre. A economia puxada por aplicativos serve de ponto de partida para um ciclo virtuoso que acaba por transformar diversos setores. Um exemplo está no transporte. O país gasta o equivalente a 12.7% do produto interno bruto na cadeia de armazenamento e transporte de itens. A startup Loggi criada em 2013, mira esse gargalo. O aplicativo conecta empresas donas de cargas a uma frota de 17.000 moto- fretistas e motoristas de vans e cresceu 275% em um ano, para 3 milhões de entregas em fevereiro. A expectativa é fazer 5 milhões de entregas por dia até 2023. A vertical mais recente da Loggi é a de entregas para restaurantes e supermercados. “O futuro da logística está na integração entre os varejos físicos e on-line”, diz o fundador, o francês Fabien Mendez.

Assim como Mendez está ajudando a mudar o mercado de entregas, outros aplicativos atuam para transformar seus setores para além dos olhos do consumidor. É uma revolução silenciosa. O crescimento do site de hospedagens Airbnb, por exemplo, não mudou apenas o mercado de hotelaria, mas levou à criação de novas companhias. Elas realizam check-in, checkout e gerenciamento de chaves e podem ficar responsáveis por trocar as toalhas e as roupas de cama para os hóspedes. Um exemplo é a Luckey Homes, empresa francesa adquirida pela plataforma em dezembro por valor não revelado. Criada em 2015, a startup gerencia propriedades do Airbnb em mais de 20 cidades francesas. Segundo Leo Tristão, diretor-geral do Airbnb no Brasil, o próximo passo é mudar a forma como os empreendimentos são construí dos. “As incorporadoras já estão desenvolvendo imóveis pensado em compartilhamento”, afirma Tristão. O iFood criou há dois ano o iFoodShop, marketplace que une 150 fornecedores de 15.000 ingredientes e embalagens a 55.000 restaurantes cadastrados. Pelo volume agregado de compras, o uso do iFoodShop gera uma economia de 20% aos estabelecimentos. “Queremos revolucionar o mercado de alimentação, e isso não se restringe ao delivery para os consumidores” diz o presidente Carlos Moyses. A locadoras de veículos, que inicialmente viam Uber e 99 como inimigos, descobriram novas oportunidades. Os aplicativos trouxeram um novo perfil de cliente: os próprios motoristas. “Quando esse serviço chegou ao Brasil, havia muitos motoristas sem dinheiro para financiar um carro próprio. Foi aí que ganhamos”, diz Jamyl Jarris, diretor executivo da locadora Movida. Os motoristas de aplicativo representam cerca de 10% dos carros alugados na empresa. O setor de locação movimentou, em 2018, quase 14 bilhões de reais no Brasil. A Movida criou recentemente um cartão para que o motorista sem capital inicial possa pagar a locação depois de usar o carro, com o rendimento das próprias corridas, enquanto a mineira Localiza Hertz, líder do setor, criou um aplicativo exclusivamente para os motoristas, facilitando a locação dos carros da rede. Na Grande São Paulo, a Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp) estima que 60% da frota que serve os aplicativos seja alugada, sendo 85% vindos de locadoras. “Os outros 15% são, principalmente, motoristas que viram empresários e conseguem comprar uma frota própria e alugar para colegas”, diz Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp.

Uma das grandes perguntas em aberto é se estamos vivendo uma bolha de euforia que, no limite, vai estourar, deixando prestadores de serviços e consumidores na mão. O risco existe, e é mensurável. Há no planeta mais de 1 trilhão de dólares aplicados em negócios de altíssimo risco, que têm em comum o fato de não gerar um centavo de lucro. É o que acontece com quase todas as empresas citadas nesta reportagem, que dependem de aportes para continuar investindo em marketing e em promoções. Categorias mais organizadas, como a dos taxistas, alertam para o risco de, uma vez monopolistas, essas empresas aumentarem os preços.

Também há uma discussão crescente sobre as responsabilidades trabalhistas dos apps. Os empreendedores têm, até aqui, um histórico de bons resultados para apresentar. Criada em 2015, por exemplo, a Singu oferece agendamento com 3.000 manicures, pedicures, massagistas e esteticistas, um mercado eminentemente informal. Os salões de beleza não são obrigados a contratar profissionais pelo regime em carteira desde 2016, com a Lei do Salão Parceiro. “O trabalhador brasileiro já percebeu que ser empregado pela CLT não vale a pena, por causa do alto volume de impostos. Ele prefere atuar como autônomo em plataformas como Uber, Singu e Rappi”, afirma Tallis Gomes, fundador da Singu. Para ele, a vantagem da plataforma é ajudar o profissional a ganhar mais, já que fica com 35% da receita, enquanto há salões que embolsam até 70%.

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Atuar como autônomo também tem suas desvantagens, evidentemente. De acordo com uma pesquisa que Renan Kalil, pesquisador da Universidade de São Paulo, realizou com motoristas da Uber na capital paulista, 53% deles trabalham mais de 10 horas por dia e 68% dirigem mais de cinco dias na semana. O objetivo é gerar renda para pagar suas despesas imediatas, ou seja, conseguir um mínimo para sobreviver. Nesse sentido, já que na maioria das vezes não se trata de um trabalho para obtenção de renda extra, será que essas pessoas podem ser consideradas funcionárias da Uber? A companhia, como as demais de mobilidade, diz que não. Contudo, autoridades ao redor do mundo têm visto o fenômeno de forma distinta. O Reino Unido decidiu que os motoristas da Uber compõem uma categoria intermediária entre empregado e autônomo. Em janeiro, a Uber e sua concorrente Cabify anunciaram o fim das operações em Barcelona, na Espanha, pelo que consideram regulações excessivas. Nos Estados Unidos, a Uber processou neste ano a prefeitura de Nova York por causa de regulações. Em 2017, a empresa chegou a ser proibida de operar em Londres. Assim como ocorre no exterior, o Brasil também se vê em meio a esse debate. Auditores fiscais do trabalho autuaram, em meados do ano passado, empresas como a Rappido, que pertence à Movile. No fim de 2017, a Loggi também foi autuada. Recentemente, o Ministério Público do Trabalho divulgou um estudo apontando a possibilidade de reconhecimento de vínculo entre trabalhadores e plataformas, criando uma nova categoria para classificar esses profissionais que atendem aos aplicativos.

Se há um ponto positivo nessa nova relação de trabalho é o fato de que motoristas e outros prestadores de serviços têm a chance de contribuir para a Previdência – seja pagando por conta própria, seja tornando-se um microempreendedor individual (MEI). Em 2018, o setor de entrega rápida (motoboys) ganhou 44.000 novos cadastros de pessoa jurídica, um crescimento de 148% em comparação com 2017.lsso é reflexo justamente do avanço dos aplicativos que passaram a exigir que os profissionais fossem formalizados. Também é possível notar o crescimento expressivo em atividades de transporte de passageiros, como taxistas e motoristas de aplicativos como Uber e 99. Foram18.000 novos taxistas que se tornaram microempreendedores individuais, representando um aumento de 42% em relação a 2017, de acordo com dados exclusivos da companhia MEI Fácil. Segundo o Instituto Locomotiva, sete entre dez trabalhadores que geram alguma renda com aplicativo nas regiões metropolitanas não têm emprego com carteira assinada, e 67% são das classes C, D e E (enquanto só 7% são da classe A). “Por um lado, os governos não devem inibir plataformas que empoderam as pessoas. Por outro lado, plataformas como Uber e Lyft não permitem que seus motoristas definam preços nem tomem decisões de marketing. É nessa fatia que os governos deveriam atuar para evitar um aumento das desigualdades”, diz Sundararajan, da Universidade de Nova York. É uma realidade nova, que colocará empresas, prestadores de serviços, consumidores e governos diante de questões novas. Como mostra a próxima reportagem, a realidade insiste em se adiantar às regulações. Em muito pouco tempo, separar a economia dos aplicativos do restante da sociedade será simplesmente impossível. Para um país com 13milhões de desempregados e com uma economia que insiste em não decolar, uma coisa é certa: quanto mais inovação, melhor.

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OUTROS OLHARES

JOGOS DE AZAR ON-LINE

A venda de “itens” em games do tipo loot box (caixa de recompensa) pede levar ao vício, o que já desperta preocupação mundo afora – em especial, por causa das crianças.

Jogos de azar on-line

Há cerca de um ano, o web-designer Diego Turco, de 32 anos, que vive em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, percebeu que tem problemas com jogo. Seu vicio consiste em abrir compulsivamente no smartphone o game finlandês de estratégia Clash Royale, e, entre as partidas, sacar várias vezes o cartão de crédito para comprar as chamadas loot boxes (caixas de recompensa) – baús virtuais que trazem, eventualmente, itens capazes de garantir vantagens na disputa. O problema: como em um jogo de azar, poucas vezes a caixa contém algo que realmente ajuda. Os valores são variados – 8 reais em média. Ao dedicar horas ao game, Turco já investiu 1.100 reais na brincadeira. “Os gastos que teria saindo de casa para me divertir eu converto em compras no jogo”, admite ele.

O Clash Royale não é o único nem foi o primeiro game do gênero loot box. A modalidade se popularizou no Ocidente em 2010 com o Trom Fortress. Sua estratégia: é possível baixá-lo gratuitamente no celular, mas o jogador gasta dinheiro para tentar adquirir “recompensas” nas “caixas”. O problema não está na compra, e sim no fato de não ser possível saber o que se ganhará com a despesa efetuada. Em uma tradução para o mundo real, esse tipo de game virtual funciona exatamente como os caça-níqueis. E, como eles, pode viciar. “Hoje tenho noção de que uma sensação incontrolável me coloca em um círculo vicioso com o objetivo de conquistar os prêmios”. diz Diogo Turco. “Sofro até ataques de arritmia cardíaca ao jogar. Preciso abrir baús em horas determinadas para ver se vem o item que quero”, relata. O vício de Turco – e de milhões de jogadores mundo afora – garante ao mercado de loot boxes um ganho extraordinário: avalia-se que gire em torno de 30 bilhões de dólares por ano.

A vocação viciante desse gênero de jogo está longe de ser mera impressão. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo governo australiano, que analisou o perfil psicológico de 7.000 praticantes, concluiu que as loot boxes têm as mesmas características das roletas, por exemplo. Segundo o estudo, o hábito de jogar tais games pode levar ao vício e ser “uma droga de entrada para o mundo das apostas“.

Há uma agravante. Enquanto nos cassinos só são permitidos adultos, o universo dos games é também povoado por crianças. Um caso emblemático ocorreu em 2018 no País de Gales – e disparou o alarme da comunidade europeia. O garotinho Jayden-Lee, de 10 anos, gastou o equivalente a 6.000 reais com extras do game americano Fortuite, que conta com 200 milhões de adeptos. Evidentemente, o dinheiro não era dele: saiu do cartão de crédito da mãe. Cleo Ducket, portadora de sequelas de poliomielite – ela anda de cadeira de rodas. Cleo zerou sua conta bancária para cobrir a fatura e precarizou seus cuidados com a saúde. A história de Jayden-Lee causou comoção e foi uma das motivações para que o Fórum Europeu dos Reguladores de Jogo publicasse, em outubro, uma declaração assinada por quinze países que exige análise urgente do problema. Duas nações europeias, a Bélgica e a Holanda, baniram tal tipo de jogo.

Em tese, pela classificação etária, crianças não poderiam comprar as loot boxes. Entretanto, é comum que elas mintam a idade – e assim mirem na jogatina. Por causa disso, em fevereiro passado, os Estados Unidos – onde o fortíssimo lobby da indústria de videogames atua desde 2017 pela não regulamentação dos jogos – decidiram, por meio do FTC, órgão dedicado à proteção ao consumidor, abrir uma investigação sobre a prática. Em uma decisão preliminar, definiu-se que caberá às desenvolvedoras a incumbência de checar – não se sabe ao certo como – a idade dos clientes. Se uma criança mentir e não for detectada, a responsabilidade será da empresa. No Brasil, ainda não há discussão avançada em torno do tema. Contudo, como grande parte dos games é produzida na Europa e nos EUA, espera­ se que as normas firmadas por lá sejam adotadas também aqui.

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