EU ACHO …

UMA NOVA ÉTICA DA VIDA NA TERRA PARA O PÓS-PANDEMIA

A crise da Covid-19 forçou o mundo a parar e refletir sobre o caminho que vinha tomando. De um dia para o outro, ficamos retidos em casa, mudamos radicalmente nossos hábitos e reinventamos nossa forma de viver e trabalhar.

Após o choque inicial, começaram os clamores por um “novo normal”. E passamos a ver autoridades, dirigentes de empresas e consultores a invocar a necessidade de redefinirmos o mundo que queremos depois desta crise planetária.

Passados 70 dias de isolamento, tenho me questionado como pode o mundo ter sido surpreendido com uma pandemia dessa dimensão. Como os países mais ricos não se prepararam para um evento dessa magnitude? Como podem os sistemas de saúde mundiais serem totalmente ineficazes para atender a população enferma? Tudo isto numa era de big data, da Inteligência Artificial, da robótica, da biogenética, e da nanotecnologia. Interrogo-me se as empresas não poderiam ter uma atuação mais proativa e diligente, com seus investimentos sociais, para prevenir esse cenário. Só em São Paulo, o governador João Dória arrecadou mais de meio bilhão de reais em doações privadas, das quais a EDP fez parte. Fica a pergunta: se esses recursos existiam, não poderiam ter sido usados em projetos estruturantes de saúde pública que nos preparassem para enfrentar a pandemia?

Meu olhar recai inevitavelmente sobre a “sustentabilidade”, que, segundo uma de muitas definições, “é a busca pelo equilíbrio entre o suprimento das necessidades humanas e a preservação dos recursos naturais, não comprometendo as próximas gerações”. Hoje, vemos que há uma lacuna fundamental nesse conceito, que incentiva políticas de perenidade econômica, de preservação do meio ambiente, de bom relacionamento com a sociedade e até uma perspectiva intergeracional, mas não carrega um foco explícito na preservação da vida humana. Falta-lhe a visão sistêmica necessária para encarar desafios de escala global. E esta, em particular, é uma crise que se revelará, a seu tempo, um fenômeno correlato das mudanças climáticas. David Wallace-Wells, no best-seller A Terra Inabitável, discorre sobre as “pragas do aquecimento”, estimando que o planeta deve abrigar mais de 1 milhão de vírus que o homem ainda desconhece.

Nas empresas, a sustentabilidade costuma se inserir no campo do marketing ou como extensão de uma área de meio ambiente. Não é comum ser uma área autônoma, forte, com participação diária na tomada de decisão. Pior: suas políticas são vistas como recomendações de boas práticas, não como imperativos. No entanto, a pandemia mostrou-nos que a sustentabilidade é sim uma questão “de vida ou de morte”. Por isso, é preciso fazer evoluir o conceito de sustentabilidade para o de uma nova ética da vida na Terra.

A ética, contrariamente à sustentabilidade, tornou-se um tema estratégico, que mobiliza os Conselhos de Administração e as lideranças das empresas, com a criação de diretorias, programas de compliance e códigos de conduta. Da ética emanam imperativos que as companhias cumprem rigorosamente. E este é o momento para escolhermos um novo modelo de vida na Terra para a era pós-Covid, com os princípios e valores que nortearão nossa vivência futura.

**MIGUEL SETAS é presidente da EDP no Brasil

OUTROS OLHARES

UM PROBLEMA DE COR

Vidas negras importam? Não no brasil, mostram os números e a realidade

No último país do continente a abolir a escravidão, o desbalanço entre as raças começa cedo. A depender da cor de sua pele, uma mulher grávida pode ter duas vezes mais risco de morrer no parto. Nascidos, os bebês correm o dobro de risco de perecer antes do primeiro ano de vida. Também se reflete na morte. Os dados mais recentes sobre a diferença entre a expectativa de vida entre negros e brancos, de 2011, sugerem que os primeiros vivem, em média, cinco anos a menos. Estão mais sujeitos a mortes evitáveis, aquelas que se pode prevenir por ações efetivas dos serviços de saúde. Reflete-se também nas novíssimas doenças: a morte pelo coronavírus, indicam os dados preliminares, cresce desproporcionalmente conforme a tez do paciente. E também aos assassinatos. Apesar da tendência de queda nos números globais do morticínio brasileiro, pretos e pardos são as grandes vítimas das duas modalidades que seguem em alta: o feminicídio e a morte por intervenção policial. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública do ano passado, negros somam 75,4% dos mortos em decorrência de intervenções da polícia em 2018. Também compunham mais da metade dos policiais mortos em confronto. Das mulheres assassinadas pelo machismo,6 em cada 10 são negras. A dolorosa realidade reflete-se ainda nos números do IBGE: entre 2012 e 2017, a taxa de homicídios manteve-se estável na população branca, mas cresceu entre pretos e pardos, de 37,2 para 43,4 homicídios por 100mil habitantes.

Entre o berço e o caixão, os que não carregam a insígnia da brancura estão sujeitos a uma vida de violações e privação aos direitos causadas por uma estrutura que, embora não esteja escancarada na letra da lei, se impõe sobre 55% da população por uma complexa engenharia de cores. Mais negros vivem em domicílios sem coleta de lixo (12% contra 6% dos brancos), sem abastecimento de água por rede geral (20% contra 11%,) e sem esgoto sanitário por rede coletora ou pluvial (43% contra 26%), vulnerabilidade sanitária que aumenta a exposição a vetores de doenças. São minoria entre os cargos gerenciais, e maioria entre desempregados e trabalhadores informais. Mesmo com o diploma na mão, recebem menos que os colegas brancos. Entre a safra de parlamentares eleita em 2018 para a Câmara dos Deputados, apenas 125 dos 513 se declararam pretos ou pardos. Quando se fala negro, fala-se conjuntamente das populações preta e parda no Brasil. Trata-se de uma conquista histórica do movimento negro que terminou incorporada oficialmente pelo IBGE. E se justifica por duas razões. Estatisticamente, pela uniformidade de características socioeconômicas dos dois grupos. E, do ponto de vista teórico, porque as discriminações sofridas por ambos são da mesma natureza. Ou seja, é pelo quanto são pretos que os pardos são discriminados. Em tempos nos quais o mundo pergunta se as vidas negras importam, os números brasileiros mostram, infelizmente, que aqui não. Não por falta de esforços para lidar com essa realidade. “É verdade que, para uma parte minoritária da sociedade, vidas negras não só não importam, como precisam ser ceifadas. Uma outra camada continua em silêncio, entre as muitas razões, para manter sua condição de privilégio. Mas, para nós, as vidas negras importam muito. Lutamos há séculos para mudar esse quadro”, avalia Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil. Nascida no Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro, Werneck formou-se em Medicina pela Universidade Federal Fluminense. Foi, durante anos, a única estudante negra do curso. “Se o racismo espolia e exclui muita gente, é natural que ele seja vantajoso à outra parte”, analisa. A chance de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é, em média, 2,5 vezes superior àquela de um jovem branco, segundo dados do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial de 2018. Além do sofrimento físico e psicológico, o morticínio mina a confiança nas instituições, amplia os gastos com saúde e implica perda de produtividade econômica, especial quando essas taxas atingem com mais intensidade a população jovem. A média de idade dos assassinados no Brasil gira em torno dos 29 anos. A face mais explícita dessa realidade dá-se nas relações com a polícia. Quando a morte vem pelas mãos do Estado, o sarrafo etário é ainda mais baixo. Um terço das vítimas tem entre 20 e 24 anos. O ápice das mortes em decorrência de intervenções policiais no Brasil dá-se aos 20 anos de idade. Em São Paulo, estado mais populoso do País, a polícia matou um negro a cada 16 horas no primeiro trimestre deste ano, segundo dados oficiais do governo paulista. Não se trata de um fenômeno isolado. Uma pesquisa da própria corporação, concluiu que, nos últimos 20 anos, o número de mortes de civis pela PM cresceu 46%. Elizeu Lopes, ouvidor das polícias do estado, minimiza: “É importante fazer uma distinção entre o agente policial e a polícia. O racismo no Brasil é estrutural, não está restrito a uma instituição. Tudo isso é consequência dos sintomas da realidade brasileira, de um processo de uma mudança estrutural que não foi concretizada”.

Na outra ponta do processo há a Justiça. Pretos e pardos são mais condenados, compõem 65% da massa carcerária brasileira, hoje calculada em mais de 800 mil detentos. O fenômeno é atribuído, em grande parte, a uma distorção trazida pela Lei de Drogas, aprovada em 2006. Ao não estabelecer parâmetros objetivos para diferenciar traficante de usuário, costuma prevalecer na hora do julgamento o entendimento da tríade formada por polícia, Ministério Público e magistrados. Um levantamento da Agência Pública mostrou que os negros são mais condenados por tráfico e com menor quantidade de drogas. A agência analisou 4 mil sentenças de tráfico em 2017. E concluiu que a maioria das apreensões é inferior a 100 gramas e que 8 em cada 10 processos com até 10 gramas tiveram testemunho exclusivo de policiais. O debate final sobre um dos artigos da lei, que trata da descriminalização do porte para uso pessoal aguarda decisão do STF. Presa em junho passado após uma controversa ofensiva do Ministério Público paulista contra movimentos de moradia popular, a cantora e ativista cultural Preta Ferreira passou 109 dias na cadeia. “Quando cheguei na prisão, vi muitas pessoas negras como eu muitas vezes condenadas sem julgamento”, relata. A experiência aproximou-a das teses do abolicionismo penal. “Só pediam pela Preta Livre, Preta Livre. Por que têm que direcionar a mim? Todos são presos políticos, quando o País não oferece educação e acesso igualitário, todos os presos são políticos”.

A onda global de protestos antirracismo provocada pela morte do norte-americano George Floyd ressuscitou um antigo debate sobre o enfrentamento à violência racista. Diante das imagens de confronto aberto entre policiais e manifestantes, levantou-se uma suposta “passividade” dos negros brasileiros em relação a uma realidade tão (ou até mais) violenta quanto à dos Estados Unidos. Por lá, o risco de um homem negro ser atingido pela polícia, segundo uma pesquisa do ano passado, é de 96 em 100 mil – mais de 2,5 vezes o risco de um homem branco. A diferença é a mesma no Brasil. Mas a corporação brasileira é bem mais letal. No ano passado, a PM teve envolvimento na morte de 5.804 cidadãos negros. Entre os norte-americanos, no mesmo período, foram pouco mais de mil. Só no estado do Rio de Janeiro, um terço desse total morreu nos últimos dois meses pelas mãos da PM, apesar da diminuição do crime durante a pandemia. O caso mais emblemático foi a morte de João Pedro Pinto, morto dentro de casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Em mais uma ofensiva sem nenhum planejamento ou apoio de inteligência, agentes da Polícia Civil e da Polícia Federal entraram em uma das residências da comunidade atirando e jogando granadas. Um dos tiros atingiu o menino. No Complexo da Maré, onde o coronavírus matou até agora ao menos oito moradores, o temor pela doença coexiste com o medo dos fuzis. “A juventude preta da favela deixou de viver para sobreviver”, afirma o estudante Breno Laerte, morador do complexo. Entre as táticas para evitar o pior, o jovem jamais sai sem um documento de identidade em mãos e evita reagir a abordagens policiais. Embora lamente o desdém da sociedade às mortes, ele rejeita a tese de que não se luta contra a violência policial no Brasil. “Todas as ações que estão ocorrendo nas favelas, distribuição de cestas básicas, distribuição de itens de higiene pessoal, estão acontecendo por nossa conta. Muita gente diz que o que ocorre nos EUA deve ser feito no Brasil. Está sendo feito. Tem uma galera lutando há muito tempo, mas parece que a ‘branquitude’ só enxerga isso agora.”

O caminho para o fim da impunidade é longo. Embora seja obrigatório instalar inquéritos para todos os casos, quase nunca o desfecho é a punição. “Muitas vezes não há investigação diligente da morte, fica-se restrito às palavras dos policiais envolvidos”, lamenta Daniel Lozoya, defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Há alguns anos, a CPI dos Autos de Resistência, de autoria do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) apurou inquéritos sobre mortes cometidas por policiais fluminenses. Concluiu, em 2016, que 98% dos casos eram arquivados. A realidade mudou pouco. “O sistema de Justiça criminal é marcado pelo racismo. Um policial que dispara contra um jovem negro tem na retaguarda um comandante da tropa, o secretário de Segurança, o governador. Ao lado, como dever de fazer o controle, tem o Ministério Público. Todo mundo sabe. Homicídios por policiais são homicídios cujo autor tem nome, endereço conhecido, local de trabalho conhecido, é sabido qual arma usou. Todos os elementos estão ali. O homicídio da polícia é fácil de resolver”, pontua Jurema Werneck. E não apenas no Brasil. “Na Jamaica e nos Estados Unidos é a mesma coisa.”

As diferenças entre norte­ americanos e brasileiros passam também por questões históricas. Todos os motins, revoltas e conjurações que contaram com a participação de negros, como a Balaiada e a Revolta dos Malês, foram brutalmente reprimidos, com direito a enforcamentos e corpos esquartejados expostos pela cidade. Uma reação contrária ao chamado “haitianismo”: o temor de que os negros brasileiros formassem maioria e se insurgissem como os moradores da ilha da América Central. Ao longo dos séculos, esse pavor ganhou diferentes contornos. De pavor direto passou aos intelectuais eugenistas da República, entre eles Renato Kehl, Vital Brazil e Monteiro Lobato. “Houve um movimento da psicologia que nasceu com teorias de que violência, agressão, alcoolismo, perversão sexual, todos eram problemas congênitos do negro”, explica Ale Santos, pesquisador da história da cultura negra e autor do livro Rastros de Resistência. Esse ideário, além de permear até hoje as relações raciais brasileiras, se traduziu em diversas tentativas de desarticular a formação de uma intelectualidade negra brasileira. Durante a ditadura, o regime acabou com a Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento. Agora, o artífice dessa empreitada é Sérgio Camargo, um negacionista do racismo empossado presidente da Fundação Palmares que considera o movimento negro “escória”. “Nunca houve um rompimento direto com o racismo científico no Brasil”, pontua Santos. O trecho que previa “a emancipação lenta dos negros” desapareceu da Constituição de 1824, que não fez nenhuma menção à escravidão, cujo fim só se daria dali a 64 anos. Nos Estados Unidos, onde a abolição da escravatura veio mais cedo e por meio de uma guerra civil com a participação dos negros, os libertos puderam pensar em como se integrariam àquela sociedade. Não sem tensões. O presidente Abraham Lincoln achava que os negros não tinham lugar na América branca, e que aproveitariam a liberdade para empreender uma jornada de retorno à África. Como efeito colateral, as leis segregacionistas e o pendor separatista deram liberdade à intelectualidade negra dos EUA. No Brasil, isso só ocorreria com mais amplitude no fim dos anos 1980. Diante dessas diferenças, Santos questiona as loas brasileiras aos protestos aos moldes norte-americanos. “O Brasil tem uma tradição de chacina, de genocídios, de todas as revoltas populares. Se um negro é identificado, podem ele e os amigos ser assassinados num bar, dentro de uma favela. As chacinas da Candelária e do Carandiru são partes da história recente brasileira, é preciso se proteger de várias formas.”

Essa efervescência global nas ruas, em meio à maior crise sanitária do século, cujo impacto na economia não mostrou sua pior face, abre oportunidades únicas. Se as revoltas não duram para sempre, é fato que sempre projetam um futuro. Segundo Sílvio Almeida, presidente e advogado do Instituto Luiz Gama e atualmente professor convidado da Duke University, na Carolina do Norte, a urgência ultrapassa as tensões raciais. “É claro que essa adesão global tem a ver como poder econômico e cultural dos Estados Unidos. Mas a raiz é uma crise ampla e global, é a crise do capitalismo, é uma crise civilizatória. O gatilho é o racismo para que a insatisfação exploda”, pontua. É importante evitar, avalia, uma visão “moralizante” do racismo e atacar sua estrutura. “Não se pode aceitar o trabalho uberizado. Lutar contra ele é parte da luta antirracista, não podemos cair no papo de que não podemos ter renda mínima. As vítimas dessas mudanças têm cor, não têm? Os filtros da meritocracia são racializados”. Jurema Werneck, de sua parte, prefere não fazer apostas, mas um convite: “É preciso que mais gente se mova. Essa não é a primeira crise, e se não avançarmos, vamos entrar em outra. Corremos hoje muito mais risco do que em 2013. Todos deveriam aproveitar essa satisfação e transformá-la em luta. Ou não vai sobrar nada para ninguém”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE JULHO

A PODEROSA VOZ DE DEUS

A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade (Salmos 29.4).

Deus faz ouvir sua voz através das obras da criação, dos lampejos da consciência, das verdades que emanam das Escrituras. Mas sobretudo Deus faz ouvir sua voz poderosa por intermédio de Cristo, seu Filho bendito. A voz de Deus é poderosa. Despede chamas de fogo, faz tremer o deserto e despedaça os cedros do Líbano. Quando Deus troveja das alturas e faz ouvir sua voz, o universo inteiro se dobra a essa poderosa manifestação. Deus falou, e tudo veio a existir. Deus criou todas as coisas pela palavra do seu poder. O poder criador está em sua voz. A voz de Deus se faz ouvir também em nossa consciência. A consciência é um tribunal interior de acusação e defesa. Deus colocou em nós a noção de certo e errado. Sempre que praticamos o pecado, uma luz vermelha acende em nosso interior. Embora o pecado tenha afetado diretamente essa noção, a ponto de uma pessoa ter uma má consciência ou mesmo uma consciência cauterizada, ainda podemos ouvir a voz de Deus através da consciência. A voz de Deus está clara nas Escrituras. A Palavra de Deus é a vontade expressa de Deus para nossa vida. Quando lemos e interpretamos corretamente a Palavra, ouvimos a própria voz de Deus. A carta aos Hebreus nos diz: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho… (Hebreus 1.1,2a).

GESTÃO E CARREIRA

ONDE NASCE A VITÓRIA

O que há em comum entre técnicos multicampeões que forjaram times vencedores em diferentes esportes

A derrota do Brasil para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014, por um humilhante placar que não vem ao caso, foi o ponto de partida para o livro O Algoritmo da Vitória (Planeta Estratégia, 320 págs.), escrito por José Salibi Neto, um dos fundadores da empresa de educação executiva HSM, e pela jornalista Adriana Salles Gomes. O que faltou para a vitória brasileira? Em busca de respostas, os autores pesquisaram o tema por cinco anos, com a premissa de que um dos segredos do sucesso está no técnico, o líder capaz de, por si só, aumentar as chances de vitória.

Os autores se debruçaram sobre a trajetória de 20 técnicos multicampeões em diferentes esportes e acreditam ter encontrado entre eles oito pontos em comum. Um deles é sintetizado pelo brasileiro Bernardinho Rezende, que ganhou 30 títulos no vôlei, incluindo seis medalhas olímpicas. Ao ressaltar a importância do trabalho em equipe, Bernardinho diz que ”todos os esportes são coletivos, até os individuais”. A russa Larisa Preobrazhenskaya, que transformou seu país em potência do tênis feminino, sabia identificar talentos (ela foi técnica, entre outras, de Anna Kournikova). O escocês Alex Ferguson, que comandou o Manchester United por 27 anos e conquistou 30 títulos, é exemplo de líder que sabia criar um ambiente favorável para formar um time vencedor. O americano John Wooden, o mais vitorioso técnico de basquete universitário de todos os tempos, mostra o valor do ”kaizen mental”: fazer com que os atletas controlem suas emoções e tenham equilíbrio mental.

São lições que podem ser úteis não somente nos esportes mas também para a carreira, os negócios e a vida pessoal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O GRANDE DESAFIO

Dados sobre o crescimento de suicídio e automutilação entre adolescentes reacenderam o debate acerca da atenção dada a essa difícil fase da vida em que o processo de desenvolvimento de recursos, inclusive psicológicos, está longe de estar consolidado

A adolescência é marcada por contradições entre independência e dependência, autonomia e submissão, onipotência e impotência. Enfrentar essa fase da vida é ao mesmo tempo contagiante e aterrorizador. Os jovens passam por uma inconstância de sentimentos que variam de graus altos e baixos e é exatamente nesse ponto que devemos ter os olhos atentos. Essa variação de humor e comportamento pode levar o jovem a ter atitudes impulsivas por segundos, mas de uma gravidade extrema.

Os últimos acontecimentos nos levaram a noticiários alarmantes acerca de uma crescente onda de suicídios no mundo. Alguns especialistas apontam esse dado para uma nova febre na internet conhecida como o jogo Baleia azul. Esse é o fenômeno do momento, mas há tantos outros que podemos descrever que atraem jovens e os colocam em risco. Porém, nessa primeira análise, vou me concentrar em entender o jogo, ou melhor dizendo, sua repercussão contagiante, aterrorizando famílias com a ideia do suicídio juvenil, e para isso é preciso lançar alguma luz sobre o que significa ser adolescente nos dias de hoje.

Baleia azul, até onde podemos conhecê-lo, é um jogo de desafios crescentes. De certa maneira lembra uma gincana, estimula os participantes a ultrapassar obstáculos com progressiva dificuldade – sendo que a última prova exige maior coragem, pois é literalmente a prova de que é possível superar o medo da morte.

RITUAIS PASSADOS

Podemos considerar que o principal desafio dessa fase da vida é tornar-se adulto. Um desafio repleto de peripécias e reviravoltas, um desafio bastante exigente e de longa duração.

Em culturas diferentes das nossas, nas quais as sociedades permaneceram estáveis, o jovem é submetido a rituais de iniciação para ingressar no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos. Os jovens adentram na vida adulta à medida que se mostram capazes de vencer os desafios e ultrapassar os obstáculos propostos pelos rituais de passagem, que funcionam como provas a garantir força, competência, integridade, aptidões e competências necessárias à sobrevivência. Os rituais de passagem têm duração determinada e espaço apropriado; findo o ritual o jovem se torna, imediatamente, adulto.

Em nossa cultura não há rituais dessa ordem, não temos provas preestabelecidas, no entanto nossos jovens repetem esse padrão. No passado mais remoto eram as competições em armas da cavalaria, a pressa em servir o exército e ir para a guerra; os jogos tipo roleta-russa foram frequentes na era vitoriana como também os desafios em defesa da honra e os duelos. A juventude sempre flertou com a morte, afinal, para nos tornarmos adultos é preciso matar, simbolicamente, a criança que um dia fomos.

A adolescência, em nossa sociedade e nos dias de hoje, tende a durar muito tempo. Pode, inclusive, não terminar, pois nem todos os adolescentes tornam-se adultos no sentido de falar em nome próprio, responsabilizar-se por si, assumir e respeitar compromissos. Muitos se retiram para a “terra do nunca”, recusam-se a perder a infância, procuram retê-la, eterna e fantasiosamente. Assim, é possível entender que os videogames funcionam para os jovens como refúgios – o jogador acredita controlar o mundo. Também há os que estacionam na adolescência e não a ultrapassam, desejando viver com liberdade sem responsabilidade.

Vejamos algumas dificuldades em se tornar adulto para compreender o universo de questões que o jovem precisa enfrentar para se desenvolver.

Ele pode e deve realizar muitas ações fora do âmbito familiar, está sendo progressivamente capacitado para ter independência, muito embora não seja independente financeiramente nem responsável legal por seus atos. Algumas vezes regride, pede e exige a proteção dos pais e familiares, não se sente capaz de enfrentar as tarefas diárias e se torna novamente dependente. Outras vezes, acredita ser livre e se responsabiliza por seus atos; flerta abertamente com a independência, pode ir e vir, pode ajudar os pais nas tarefas diárias, não precisa de supervisão permanente, pois adquiriu condições para se cuidar. Quando era criança não experimentava esse tipo de liberdade, pois dependia de adultos para os cuidados pessoais e para a circulação social. O adolescente oscila entre esses polos.

Ele também vive a contradição entre submissão e autonomia. Autonomia se apresenta na capacidade de falar no próprio nome, ter ideias e sentimentos que reconhece como pertencentes ao eu, não procedentes do âmbito familiar. Estão em jogo emancipação e soberania. Implica em se responsabilizar por ações, pensamentos e sentimentos; desprender-se da família e de seus códigos. Convenhamos: muitos adultos não conseguem adquirir esse grau de autonomia. Adolescentes experimentam movimentos em direções opostas, sujeitam-se à família e clamam por liberdade.

Na infância a onipotência do pensamento é soberana. Fantasia e magia, formas de pensamento peculiares da criança, cedem lentamente espaço ao pensamento mais realista. A onipotência pode perdurar por muitos anos e está associada à necessidade heroica, revolucionária, de transformação do mundo. Jovens querem deixar sua marca no mundo, desejam ser autores de proezas, pois no âmbito familiar são realmente importantes e foram pequenas majestades, enquanto no âmbito social têm pouca importância, quando não são desprezados e/ou desvalorizados. A onipotência é mortífera, a impotência é deprimente demais. Para o adolescente é difícil perceber potência possível, ele oscila entre o tudo e o nada.

CRISE PERMANENTE

Quando somos jovens, temos a sensação de estarmos protegidos, como se nenhum mal pudesse nos acontecer. Nunca ficaremos doentes. Não vamos morrer e muito menos perder o controle. É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acre- dita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou, mas, se não cuidar de si, pode ter sérios problemas, a morte, com certeza, é um desses problemas. O oposto dessa forma de pensamento é a impotência completa e o desespero. Também é nessa fase da vida que grande parte dos jovens descobre a morte e, para negá-la, pretende fama e reconhecimento. Pensar em suicídio como forma de escapar do sofrimento e das inúmeras impossibilidades da vida, fugir das responsabilidades, esquivar-se da vergonha e da desonra são muito frequentes nessa etapa e em todas as crises que enfrentamos. A adolescência é uma crise permanente. O jovem possui uma característica peculiar de ser “do contra”, e é assim que ele se constitui; até que possa ganhar um contorno próprio e se sentir alguém singular, único, ele marcará posições pela negatividade. Ser “do contra” é muito diferente de ser algo ou ser por alguma coisa afirmativa. Apenas a conquista da autonomia confere singularidade e um lugar próprio, marcado pela afirmação e positividade. Além da negatividade que funciona como uma espécie de desobediência permanente, há também a competição como ato positivo, as questões dessa forma de pensamento são: quem tem mais, quem é melhor ou maior. O inverso é: o pior, o mais fraco, o que nada tem.

Embora o jovem tenha conquistado grande dose de independência e seja capaz de lidar com situações fora do âmbito familiar, ele ainda não conquistou a autonomia. Ele procura negar a dependência dos pais e cuidadores, quer se sentir mais autônomo e mais independente do que realmente é. Assim, transgride as regras, se revolta contra a família, a ordem estabelecida e a lei. A lei deve ser entendida como um representante dos pais, que foram os primeiros a lhe impor princípios morais. O jovem questiona e não se submete. Ele quer experiências novas, intensas, experimenta drogas, bebe; grande número de acidentes de carro acontece com jovens alcoolizados. Muitos jovens nessas condições esquecem de usar proteção nas relações sexuais e se contaminam com doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus da Aids e o HPV, ou correm o risco de engravidar.

Outra questão importante desse período é a sexualidade. Há um incremento hormonal considerável, pressão dos impulsos sexuais (medo desses mesmos impulsos), transformações físicas, mudança na aparência dos corpos; jovens podem ter relações sexuais, têm condições biológicas e certa independência, embora, muitas vezes, não tenham autonomia suficiente. Longo processo de experiência pode levá-los a desenvolver conhecimento sobre sua sexualidade e corpo; processo é acompanhado de fortes angústias, medos inomináveis e desejo incontrolável. Também pode ser seguido por explosões violentas, acessos de raiva e crueldade. Há pressão por relacionamentos amorosos, não apenas por sexo, e amor, como sabemos, é arte difícil e fugidia.

Além da sexualidade e do amor, o jovem enfrenta o “grande” mundo; está fora do âmbito protetor da família e deve se provar capaz de sobreviver sem ajuda dos pais e cuidadores. Como está em processo de desenvolvimento de recursos, que nem de longe estão consolidados, ele se utiliza, muitas vezes, mais de movimentos de fuga do que de enfrentamento de problemas. Pensamento mágico e incapacidade de compreender os perigos de certas situações andam junto com a onipotência juvenil. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e nova moda. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, mas dizem sim e se submetem ao grupo de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares – trocam a dependência familiar pela fraterna. O jovem é bastante suscetível a ser influenciado e, muitas vezes, imita os outros procurando dar contorno para sua própria identidade em formação.

Convenhamos, é muito difícil ser adolescente, tão difícil que muitos adultos esquecem boa parte desse período da vida.

ABSTRATO E ETÉREO

Hoje vivemos numa sociedade baseada na informação e virtualidade, cada vez mais dominada pela técnica e distante do saber singular. Nessa forma de organização a experiência vem sendo substituída pela ciência, pela imagem, pela comunicação. Virtualidade e tecnologia levaram a realidade a perder substância que, cada vez mais abstrata, entrou em crise. Nada é o que parece ser. Somos encharcados de informações diárias, nos sentimos perdidos e impotentes ao não discernir a verdade. Vivemos num mundo mais abstrato e etéreo onde o homem tem cada vez menos importância e acesso aos fatos. Duvidamos de tudo, não confiamos nas informações, suspeitamos da realidade. Nessas condições o homem se sente frequentemente impotente e incapaz. Surge então um novo regime em que atos substituem o pensamento. Atos intensos, violentos, como gritos de desespero frente ao estranhamento do mundo.

Ações violentas tomam o lugar do pensamento, a intensidade se transforma em prova de realidade, posto que nos afastamos da esfera da experiência. Se o mundo nos chega pela informação, e não temos como julgar qual informação é mais verdadeira, o que é real, adotamos o excesso como parâmetro de verdade. Real e verdadeiro é “o que causa”, como diriam nossos jovens. Para existir tem que “causar”.

Quando pensamento e ação trocam de lugar surge nova maneira de ser do homem e do mundo. Antigamente era assim: me sinto tenso, vou beber um cálice de vinho para relaxar. A ação era consequência do pensamento. Hoje a ação substitui o pensamento, então pegamos uma taça e nos vemos imediatamente relaxados. Dessa maneira realizamos ações e mais ações, ininterruptamente. Estamos constantemente em busca de alívio sem termos noção do que queremos aliviar e para que servem essas ações, mas são elas que nos dão a prova de que existimos, conferindo alguma substância para homem/ mundo cada vez mais rarefeito.

ATO VIOLENTO

Em Psicanálise denominamos como regime do atentado ou ato puro essa nova organização nascida na modernidade e enraizada na pós-modernidade. Nesse mundo o ato sem pensamento, o ato violento por si só é prova de realidade. É nesse mundo que jovens se inserem progressivamente.

Um mundo em que causar é existir. Que boatos não se distinguem de verdade e onde tudo pode ser real ou nada pode ser real ao mesmo tempo.

Um jogo como o Baleia azul revela o regime do atentado, um jogo que nunca foi jogado por ninguém conhecido, nem sabemos se o jogo é boato ou se existe, no entanto apavora pais e educadores. Revela a distância que temos dos fatos e das pessoas, revela que não sabemos identificar os problemas ou procuramos causas mágicas para os mesmos, causas fora da esfera de ação possível. Estamos preocupados com o suicídio juvenil porque a mídia revelou haver um suposto jogo suicida/assassino?

Os profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas sabem que o suicídio é um risco constante em momentos de crise.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o suicídio mata 800 mil pessoas por ano. 1,4% das mortes no mundo são por suicídio, fora os que tentam e não conseguem – acredita-se que para cada suicídio realizado há 20 tentativas frustradas, ou seja, 16 milhões de tentativas por ano.

O suicídio é a segunda causa de morte entre as idades de 15 e 29 anos. É a terceira causa de morte na adolescência. A primeira são os acidentes de trânsito; os meninos são as principais vítimas. Segundo a OMS, se não abordarmos os problemas de consumo de drogas e álcool, se não desenvolvermos projetos de prevenção, se não adotarmos políticas de redução de velocidade e de controle de consumo de álcool para quem dirige e se não melhorarmos o transporte público continuaremos com esses trágicos índices.

Ainda segundo a OMS, a depressão é a principal causa de incapacidade e doença entre adolescentes. Diversos estudos demonstram que metade das pessoas com alguma doença psicológica a desenvolveu antes dos 14 anos. Tratamento adequado e abordagem precoce podem evitar sofrimentos estéreis e mortes.

No Brasil o homicídio é a principal causa de mortes de adolescentes entre 16 e 17 anos. Morrem quase três vezes mais negros que brancos, 93% das vítimas são do sexo masculino. Esses números mostram haver uma espécie de genocídio dessa população, as causas sociais se confundem com as condições psicológicas já descritas.

Vimos que a adolescência é uma fase extremamente delicada e cheia de riscos. Inúmeros jovens pensam em morrer e ou em se matar, proporcionalmente pouquíssimos atuam com eficiência nesse sentido. Muitos deprimem e se isolam. Alguns se cortam e se mutilam e também se drogam e se arriscam. Meninas desenvolvem anorexia e transtornos alimentares com a mesma facilidade que meninos partem para ações impulsivas. As compulsões retratam a atualidade. O bulling dá a forma dos relacionamentos: humilhação e dominação imperam. Estranhamente tememos o jogo Baleia azul, enquanto deveríamos estar assustados com a realidade dos jovens a nossa volta, com os sofrimentos que continuamente negamos, porque não sabemos como ou não queremos abordá-los. Suicídio e morte não podem ser encarados como tabu. Precisamos desenvolver políticas de prevenção em saúde mental. Investir na formação de profissionais para o atendimento de jovens, famílias e escolas. Precisamos falar sobre sofrimentos psíquicos. Sobre a vontade de morrer e de se matar. Quem nunca pensou em escapar do mundo, cessar a dor? A Psicanálise criou uma forma de tratamento para acolher sofrimentos e restos inauditos. A busca por tratamento deve ser estimulada para que muitos desses jovens possam ter não apenas um futuro, mas outro futuro, futuro menos turbulento talvez, mais criativo se possível, em que prevaleçam a autonomia, a responsabilidade por si e o reconhecimento dos outros; para que se sintam sujeitos do próprio destino.

EU ACHO …

UM GUIA CONTRA CONSPIRAÇÕES

Como castelos de cartas, elas caem se houver permanente vigília

WASHINGTON, DC – JUNE 24: Microsoft principle founder Bill Gates participates in a discussion during a luncheon of the Economic Club of Washington June 24, 2019 in Washington, DC. Gates discussed various topics including climate change. (Photo by Alex Wong/Getty Images)

O tempo de hoje é esplêndido para inventar conspirações. Mas não é difícil pô-las a descoberto. Para ilustrar, tomemos o exemplo do suposto complô para desacreditar a cloroquina, por ser muito barata. Isso abriria o mercado para novas drogas, bem mais caras. No entanto, perguntemos:

1.A biografia dos supostos conspiradores é congruente com as maquinações sinistras a eles imputadas? Bill Gates, por bons anos, é um dos homens mais ricos do mundo. Mas cansou-se de ganhar. Agora só pensa em gastar. Bandeou-se para a filantropia, enterrando fortunas em programas de saúde pública. Que motivação real teria para enredar-se em uma trama com farmacêuticas, militando contra o seu sonho de salvar vidas? O epidemiologista americano Anthony Fauci exibe uma belíssima e longa carreira de pesquisador. É o 12º cientista americano mais citado em estudos. Tem trinta doutorados honoris causa. Pesquisar é sua paixão, está no sangue. Se dinheiro fosse sua prioridade, estaria clinicando, regiamente pago. É inverossímil que se mova por dinheiro.

2. Como os enganadores agiriam para pôr em prática as suas velhacarias? Supostamente, estariam corrompendo governos. E, também, promovendo pesquisas voltadas para desacreditar a cloroquina. Das centenas de periódicos respeitados na área, cada um convoca dúzias de pesquisadores consagrados para recomendar ou não cada publicação. Então, Gates ou Fauci estão indo atrás de contraventores nesse exército de cientistas, para referendar estudos duvidosos, a troco de subornos? Ou para encomendar trapaças científicas?

3. Como manter secreta a conspiração? Trata-se de uma operação com muitos parceiros e que exige amplos fundos para distribuir. Como superar as desconfianças entre as próprias farmacêuticas, comprometendo-se todas elas a acordos sinistros e a irrigar múltiplos bolsos? E isso tudo em uma velocidade estonteante, pois já saíram mais de 7.000 pesquisas sobre o novo coronavírus desde janeiro. Arruína todo o esforço um candidato a suborno que ponha a boca no mundo. Aliás, o próprio Trump adoraria ficar sabendo dessas maquinações, para desvencilhar-se de Fauci. Na prática, com tantos conspiradores, como manter segredos?

No meio das confusões e perplexidades, as pesquisas borbulham, deveras desencontradas. Como domar essa cacofonia em benefício próprio? Duas cabeças brilhantes embarcariam nesse castelo de cartas? Se endossarem tolices científicas, correm sério risco de arranhar a reputação. De fato, inexoravelmente, a ciência vai se desvencilhando dos ruídos e falsos caminhos.

No fundo, a receita para desmascarar uma conspiração é simples. Basta colocar-se no papel de conspirador e planejar o passo a passo requerido da trama. Aplicando as três perguntas que abrem este texto, é possível encontrar caminhos plausíveis para vencer cada etapa? Nessa teoria conspiratória em torno da cloroquina e em muitas outras, não há como soletrar um plano viável. Mas, acima de tudo, cumpre exercitar permanente vigília antes de circular como correta a mensagem recebida. A conspiração só vive enquanto há patetas contaminando uns aos outros.

** CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

O ESPAÇO DAS MULHERES

A histórica missão que juntou a Nasa e a iniciativa privada ilumina uma excelente novidade: a crescente participação feminina em viagens ao cosmo

Não houve, naturalmente, a comoção da pomposa e ensaiada frase de Neil Armstrong, ao anunciar que dera “um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade”, ao pisar em solo lunar naquele eterno 20 de julho de 1969. Mas no domingo 31 de maio de 2020, às 11h16, horário de Brasília, quando os astronautas americanos Douglas Hurley e Robert Behnken deixaram a cápsula Crew Dragon e entraram na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), a 400 quilômetros da Terra, houve ondas de entusiasmo. Foi a primeira e histórica parceria entre a Nasa e a iniciativa privada, por meio da SpaceX, do biIionário sul-africano Elon Musk, atalho para a inauguração de uma nova era de expioração espacial. Nas redes sociais brotaram brincadeiras em torno do sorriso dos dois cosmonautas, que estariam dando adeus à pandemia de Covid-19, ao surto de racismo e de protestos nos Estados Unidos, adeus a tanta coisa de ruim que anda acontecendo aqui embaixo. “O acoplamento está completo”, o aviso de Hurley, transmitido pela internet, soou como senha de alivio.

Sim, as coisas não andam nada bem no planeta (redondo, sim!) que se vê das escotilhas da ISS, mas há extraordinárias mudanças que precisam ser celebradas – e, sobretudo uma revolução dentro da própria Nasa, afeita a mostrar como o mundo mudou, para melhor, desde que Armstrong caminhou em câmera lenta. A novidade: o programa espacial, que sempre foi maciçamente masculino, agora também é das mulheres.

Douglas e Robert, os dois tripulantes da Crew Dragon, entraram em órbita porque estavam na fila, era a vez deles. Mas a missão poderia ter sido realizada pela engenheira mecânica Karen Nyberge pela oceanógrafa Megan McArthur, ambas astronautas da Nasa – embora Karen tenha se aposentado neste ano. Karen é casada com Douglas e Megan, com Robert. O quarteto se conheceu nos corredores da agência americana, terreno cada vez mais igualitário, menos machista. A estatística ajuda a entender a virada: de 1959 a 1969, 100% das pessoas formadas pelo curso para astronautas da Nasa eram homens. Em 2017, o índice caiu para 55%. Vai longe, portanto, o tempo em que uma personagem popular como Jeannie, do seriado Jeannie É um Gênio, de 1965, se insinuava para o patrão astronauta, o major Nelson, chamando-o insistentemente de “meu amo”. Ficou para trás a figura clássica, hoje deslocada, da mulher de astronauta, a quem bastava estar ao lado do marido em eventos sociais, em paradas militares, em visita à Casa Branca. Não teria espaço o comentário de Buzz Aldrin, um dos três heróis da Apolo 11, a respeito de sua companheira, Joan, morta em 2015: “O futuro lembrará de Joan Archer Aldrin como uma mãe e mulher de fala mansa, que criou três filhos bem-comportados”.

São mães, têm filhos – mas fala mansa, não. No ano passado, a americana Christina Koch bateu o recorde feminino de permanência na ISS, e só retornou depois de 328 dias (a título de comparação, a turma de Musk deve ficar no máximo 120 dias em órbita). O governo americano aposta parte de suas fichas no programa Artemis, que promete pôr a primeira mulher na Lua até 2024. Do ponto de vista da igualdade de gêneros não é, ressalve-se, a vitória final e definitiva, longe disso. Somados todos os cosmonautas que foram ao espaço, apenas 11,5% são mulheres. Na Nasa, somente um terço dos funcionários é do sexo feminino. Há, portanto, uma estrada a percorrer – e são muitas as pedras no meio do caminho, algumas insólitas, quase inacreditáveis.

Os engenheiros da Nasa descobriram, apenas muito recentemente, que todos os estudos de uniformes espaciais tinham sido feitos com base em altura, musculatura e metabolismo de homens, em mais de setenta anos de pesquisas. As mulheres nunca foram incluídas, e corre-se, agora, atrás do tempo perdido. Dentro dos trajes espaciais, os astronautas usam roupa de refrigeração e ventilação líquida. São metros e mais metros de tubos que bombeiam água, de modo a resfriar o organismo. Problema: homens suam mais do que as mulheres e em partes diferentes do corpo. E a Nasa descobriu, talvez tardiamente, mas sempre em tempo, que seria preciso inaugurar uma nova linha de investigação que contemplasse, além da preparação em terra, os efeitos da falta de gravidade na dinâmica feminina – a régua foi sempre masculina. Convém, portanto, prestar atenção em Karen e Megan, e não apenas em Douglas e Robert, os terráqueos que se afastaram um tempinho da pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE JUNHO

O ABRIGO DA CASA DE DEUS

Uma coisa peço ao SENHOR e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo (Salmos 27.4).

O rei Davi viveu dias de grande aperto. Seus inimigos não lhe deram descanso. As circunstâncias eram medonhas. O medo tentou assentar-se no trono de seu coração. Nessas horas, Davi reafirmava a confiança em Deus como sua fortaleza. Não temia os malfeitores que se levantavam contra ele, nem mesmo os exércitos que declaravam guerra contra seu povo. Nessa turbulência externa, Davi orava a Deus e pedia e buscava uma única coisa: o privilégio de morar na casa de Deus para meditar e contemplar a beleza do Altíssimo. Ele sabia que, no dia da adversidade, Deus era poderoso para ocultá-lo em seu pavilhão. Sabia que Deus é quem o exaltava sobre seus inimigos. Sabia que Deus ouvia seu clamor e respondia às suas orações nas horas mais escuras de provação. Sabia que, mesmo que seu pai e sua mãe viessem a desampará-lo, Deus o acolheria. Sabia que Deus não o entregaria nas mãos de seus inimigos, que astuciosamente levantavam contra ele falsas testemunhas e cruelmente o atacavam. Davi termina o Salmo 27 fazendo uma confissão pessoal: Eu creio que verei a bondade do SENHOR na terra dos viventes (v. 13) e também uma exortação pública: Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR (v. 14).

GESTÃO E CARREIRA

A NOVA CORRIDA DO OURO

A crise econômica gerada pela pandemia fez com que o metal atingisse valor recorde. O efeito colateral é sentido na Amazônia

Com a crise econômica mundial deflagrada pelo coronavírus, mais do que nunca os investidores olham para o ouro como um ativo seguro e estável. Em abril, a cotação da onça troy, medida utilizada na negociação da commodity, equivalente a 31 gramas, atingiu mais de 1.750 dólares. E o maior valor desde o final de 2012. A tendência é que o ouro continue valorizado, em razão dos distúrbios financeiros causados pela pandemia. O Brasil já vem sentindo os efeitos da disparada do preço do ouro – para o bem e para o mal.

Entre janeiro e abril deste ano, as exportações da commodity somaram 597 milhões de reais, 80% do total obtido em 2019. Só em abril as empresas do setor pagaram 353 milhões de reais em impostos ao governo, 66% mais do que no mesmo mês do ano passado. Até agora, o Pará, rico em ouro e outros minérios, é o líder absoluto na corrida pelo metal no país, agravando velhos problemas. ”Muitos garimpeiros atuam de forma ilegal na região, desmatando a floresta e poluindo os rios”, diz Sérgio Leitão, diretor do Instituto Escolhas, que desenvolve estudos econômicos sobre questões ligadas ao meio ambiente.

Mais de 30 milhões de toneladas de ouro por ano são comercializadas ilegalmente apenas na região do Rio Tapajós, em Mato Grosso e no Pará, de acordo com o Ministério Público Federal (MPF). São mais de 4,5 bilhões de reais em recursos não declarados. Neste ano, com a valorização do ouro, o garimpo desordenado está aumentando na Amazônia, assim como a sonegação fiscal. ”Milhares de garimpeiros chegaram recentemente a áreas de mata densa”, afirma Leitão.

A exploração do ouro geralmente é feita na beira dos rios, onde há mais depósito do metal. Não escapam nem áreas protegidas, como unidades de conservação natural e terras indígenas. Em algumas delas, como a reserva indígena Kayapó, no Pará, já foi observado um aumento de mais de 10% na área de garimpo em março deste ano, em comparação a fevereiro, de acordo com o MPF e a Polícia Federal, que tem feito operações na região. ”A preocupação é que haja um desmatamento ainda maior na Amazônia, não só no Brasil, mas também em outros países da região”, diz o peruano Pedro Tipula, coordenador do Instituto do Bem Comum, organização voltada para a conservação do meio ambiente. ”Precisamos melhorar a fiscalização da atividade mineradora para que isso não aconteça.” É mais um efeito inesperado da pandemia.

VIL METAL

As seis regiões onde houve mais aumento do garimpo ilegal na Amazônia. O tamanho da bola vermelha equivale ao tamanho de cada área destacada, em km2

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE BEM COM O LUTO

Bloqueios psíquicos e depressões explicam-se muitas vezes, pelas perdas não vivenciadas. Deixar fluir a tristeza é permitir-se um processo saudável de elaboração dos fatos

A vida é uma sucessão de batalhas. Em algumas obtemos sucesso. Já em outras ocasiões, a perda é inevitável. Perder faz parte da nossa rotina. O problema é lidar com isso. Como aceitar a falta de um ente querido, de uma condição financeira anterior ou da cidade na qual crescemos? Infelizmente, não foi descoberta uma fórmula mágica para a felicidade eterna. Não há truques ou ensinamentos capazes de nos prevenir contra o sofrimento. A única opção válida e eficiente é superar a dor, aceitar perder e seguir em frente. É um processo longo e pungente… inevitável. Viver, dar-se conta do que se perdeu e, apesar de tudo, sobreviver.

Por mais difícil que aparente ser, esse processo é de extrema importância à continuidade da vida. Bloquear a dor, “esconder o problema embaixo do tapete” ou camuflar esses sentimentos pode parecer válido enquanto sofremos. Mas o perigo está justamente aí. Ao não elaborar a perda no momento em que ela acontece, estamos apenas adiando a dor. Ao fingir que não existe o problema, nos prendemos à falta, e ficamos com o sofrimento para sempre.

Em meio a tantas perdas diárias, as pessoas tendem a entrar em processo de luto. “No senso comum, utilizamos a expressão em relação à perda de um ente querido. No entanto, em termos psicológicos, o luto vai muito além da morte física, embora, evidentemente, também a inclua” esclarece a psicóloga e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Lilian Graziano.

Professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, Lilian explica que o luto é um processo de tristeza que ocorre em resposta a uma perda significativa, seja ela no âmbito emocional, financeiro ou físico. Considerando que as perdas são rotineiras em nossas vidas, o processo de luto é intrínseco ao desenvolvimento psíquico saudável, pois com ele enfrentamos a perda e, consequentemente, evoluímos emocionalmente.

Mas nem todos conseguem enxergar a perda com olhos positivos. Há aqueles que não se permitem sofrer, “o que invariavelmente acaba lhes gerando problemas emocionais, dentre os quais a depressão” completa a psicóloga ressaltando que o erro está em acreditar que ao evitar a dor tudo será mais fácil. “Ao fugir do sofrimento gerado pela perda, a pessoa acaba sofrendo muito mais e, o pior, por muito mais tempo”.

Mas como realmente enxergar a importância da elaboração do luto? Um exemplo podeajudar. Lílian conta que teve um paciente que aos nove anos perdeu seu pai, vítima de uma doença grave que praticamente mutilou seu corpo, uma vez, que gradativamente vários de seus membros foram amputados. Um dia após o falecimento do pai, sua mãe, com a intenção de poupar o sofrimento do filho, perguntou se o garoto preferia ter o pai vivo, mas sofrendo em um leito de hospital, ou longe, porém descansando.

Sem muito entender o porquê da pergunta, o garoto optou pela segunda opção, pois não queria o sofrimento do pai. A mãe então disse que ele não deveria chorar, pois seu pai estava “descansando”. E a criança ouviu a mãe e não chorou a morte do pai. Os anos passaram, o menino cresceu, se casou e formou sua própria família. Um dia sua esposa quis saber o motivo da morte do sogro. Sem obter resposta do marido, foi verificar com a sogra.

Por intermédio da esposa, o garoto, agora já um homem, ficou sabendo a real história sobre a morte do seu pai. Todos os sentimentos de perda e culpa vieram à tona. “Esse paciente foi elaborar o luto da perda do pai na terapia, já com quarenta anos de idade” comenta a psicóloga. Passaram décadas até ele conseguir viver a perda do pai, chorar a morte. “Uma curiosidade é que o paciente foi procurar auxílio com a mesma idade que o pai veio a falecer”. Guardar este luto atrapalhou o serviço de paternidade do paciente, que devido ao conteúdo emocional mal elaborado, não conseguia ter um relacionamento mais íntimo com seu próprio filho.

SAÍDA PARA A DOR

Uma alternativa para elaborar o luto é vivenciar não apenas a tristeza, mas também demais sentimentos que possam estar presentes na perda, entre eles a culpa, o arrependimento, a saudade, o remorso etc. “Costumo dizer a meus pacientes que em certos momentos da vida precisamos chegar ao fundo do poço, porque é apenas no fundo dele que conseguiremosapoiar as mãos para nos impulsionarmos em direção à saída’ afirma Lilian. A elaboração do luto é mais complexa do que aparenta ser. A fim de explicar este processo o psicólogo Luís Antônio Pereira cita a psiquiatra norte americana Elisabeth Kubler­ Ross, a qual afirma que existem sete estágios de agonia do luto. “O primeiro é o choque da notícia; o segundo é o estágio da negação; o terceiro é a revolta ou raiva pelo que aconteceu; o quarto é o estágio da tristeza ou depressão; o quinto é o estágio dos regateios/barganhas; o sexto é à aceitação e, por último, vem a reorganização/adaptação/esperança” completando que nem rodos os enlutados passam por todos os estágios.

Devido à particularidade de cada ser humano, há diferentes formas de se lidar com a perda. Alguns gostam de falar com amigos sobre o sofrimento, outros procuram consolo em remédios e bebidas, há ainda os que preenchem qualquer espaço de tempo com atividades distintas a fim de não pensar no que perderam, ou substituem o que foi perdido por algo novo.

Em contrapartida, há pessoas que não tem necessidade de falar sobre o ocorrido, mas nem por isso deixam de lidar com os sentimentos, comportamento descrito por Jung como o tipo introvertido. Conforme explica o psicólogo clínico e professor de Psicologia da UniversidadeCatólica de Santos, também Mestre em Educação pela mesma universidade, Luiz Antônio Cancello, este comportamento não é totalmente compreendido nos tempos atuais. “O problema é que essa configuração de personalidade parece não ter lugar na sociedade atual, onde precisamos ser alegres, agressivos e comunicativos”.

Hoje, a sociedade impõe um ritmo brutal de vida. Não se pode parar por um segundo. “Vivemos na era do ‘Prozac’ (antidepressivo). Temos a obrigação de estar sempre felizes”, ironiza Cancello enfatizando que não há tempo para ficar de luto. “Se você ficar dois dias em casa, já aparecem vinte pessoas te ligando querendo te chamar pra sair, pra se distrair”.

APRENDENDO COM A MORTE

Basta estar vivo para morrer. A morte é a única certeza da vida. Viver é, enfim, morrer. Eis algumas das muitas frases prontas que utilizamos para se conformar com a ideia de que, um dia, tudo chegará ao fim. As pessoas não mais serão. “Eu não mais se­ rei este corpo”. Mesmo assim, com toda a certeza de que a morre existe para todos, as pessoas a temem e tentam burlar esta etapa final da evolução humana.

A morte é vista na sociedade contemporânea como a maior perda emocional a ser enfrentada. A vilã, aquela que arranca de nós toda possibilidade de vida. Impulsionadas pelo pavor de chegar ao término de tudo, as pessoas buscam por caminhos rumo à eternidade. Todos querem viver para sempre, ou ao menos, se prender a ideia de que não morrer é algo viável.

O avanço tecnológico que presenciamos confirma a cultura de negação à morte. Até 1950, a média de vida não passava de 50 anos. Hoje em alguns países, principalmente as mulheres, chegam a 80 anos de vida. “Os cientistas negam, mas a ciência no imaginário popular tem nos fornecido uma certa aproximação à ideia de imortalidade”, afirma Cancello. Esta falsa noção de que poderemos viver eternamente dificulta a aceitação da morte e elaboração do luto quando alguém próximo vem a falecer.

“Podemos falar que a morte tem uma vantagem evolutiva para os evolucionistas, que faz parte da existência dentro do existencialismo, e podemos citar a elaboração do luto dentro da Psicanálise. Você pode falar em que linha for. Mas acho que todos vão concordar que o fim faz parte da vida, e que hoje a gente recusa a tristeza”, pontua o psicólogo existencialista.

Também em relação à morte, Lilian Graziano afirma que “embora todos estejamos sujeitosà morte e saibamos disso num nível racional, são muitos os que conduzem suas vidas sem trazer essa verdade para o nível emocional”. Um dos motivos é que a morte é encarada como sinônimo de dor, e sofrer é uma heresia dentro da cultura ocidental, que supervaloriza o prazer a qualquer custo. “A consequência disso é que ‘deixamos esse assunto pra lá’ e vamos ‘tocando nossa vidinha’ da mesma forma medíocre de sempre”, completa.

Ao negar a morte, começamos a agir como se fôssemos eternos, e deixamos de aproveitar chances únicas nos enganando de que, devido à imortalidade, teremos novas oportunidades para alcançar nossas metas. Esquecemos que a vida é única e imprevista, e que cada segundo é de extrema importância para nossa história. Lilian faz um alerta referente à negação da morte. “Preste a atenção na próxima vez que disser: ‘Serei feliz quando ganhar na megasena’, ‘Serei mais dedicado à família quando me aposentar’. Afirmações como estas partem do pressuposto de que o futuro nos pertence. É assim que nossa vida, no presente, se torna medíocre”.

A perda em si é o sofrimento, mas a negação é um complicador e pode aflorar um luto mal elaborado. Perder alguém, seja a razão morte, separação conjugal ou qualquer outro motivo, é um acontecimento triste, mas dependendo do relacionamento entre os envolvidos, esse processo pode vir a ser tranquilo ou não. Ao perder um parente que se tem certeza de que o relacionamento foi bom, a pessoa que sofre a perda naturalmente entristece, mas acaba aceitando o fato e passando por cima do luto.

Por outro lado, quando a convivência com o outro não é harmônica, quando uma das partes acredita que poderia ter feito muito além do que fez, a aceitação da perda é conturbada, pois envolve o sentimento de culpa por não ter aproveitado tanto quanto poderia ao lado daquele alguém. “A pessoa cria um diálogo interior interminável e, em certos casos, procura por apoio psicológico na tentativa de calar este diálogo” esclarece Cancello. “Nessa situação, talvez valesse mesmo uma intervenção psicoterápica” completa o psicólogo. Após o tratamento, o paciente pode reconhecer que, na realidade, poderia ter feito poucas coisas além do que havia sido feito.

Em caso de doentes terminais, que são obrigados a viver na iminência da morte, o processo de luto tende a ser complicado. Quando a pessoa sabe que vai morrer e fica revoltada com a situação, a morte é mal resolvida e a passagem muito mais sofrida. Já quando o paciente sabe que vai morrer e passa a aproveitar cada segundo de vida, a morte é muito mais tranquila e fácil de ser aceita. Tendo a consciência de que cada instante deve ser bem aproveitado, a vida ganha uma nova importância. Para a psicóloga Lilian, “ao viver bem a vida, perder algo é mais fácil, pois sabemos que cada momento foi muito bem aproveitado. Isso significa viver o presente sem pensar no que vai ser ou no que já foi”.

Enquanto para uns a morte significa o fim de tudo, o sofrimento maior, para outros da pode ser um alívio. “Isso costuma acontecer com a pessoa que tem muito trabalho ao cuidar de um idoso ou doente desenganado”, exemplifica Cancello. Quando a pessoa que cuida tem claro que a morte trará a paz para o doente, o processo de aceitação é muito mais fácil. No entanto, conforme explica o psicólogo, “certas personalidades exigem de si uma ‘coerência’ sobre-humana, não suportando a coexistência desses dois sentimentos (alívio e tristeza), sentindo-se culpadas”.

Mesmo com toda a complexidade da questão dos cuidadores, cada vez mais eles são necessários, face ao aumento da média de vida. Já aparece, na literatura científica, o termo “stress

dos cuidadores”. “E não podemos esquecer que alguns dos primeiros casos de histeria relatados por Freud referiam-se a mulheres que cuidaram por longo tempo de pessoas doentes. Possivelmente essa era, na época, a manifestação do que hoje chamamos de stress dos cuidadores”.

TIPOS DE PERDA

Quando falamos de luto ou perdas, o primeiro pensamento que nos vem à mente é em relação à morte. Mas o processo de luto vai muito além disso, como já dito na reportagem. Lidamos diariamente com perdas, em diferentes escalas e magnitudes. Perder o emprego, um carro, uma oportunidade de mudança. Tudo isso pode desencadear o luto e levar a pessoa a um grande stress emocional.

Luiz Cancello enumera que entre os principais fatores causadores de stress emocional, em primeiro vem a perda de um ente querido, seguida da separação conjugal. “No processo de separação sentimos a perda de um ambiente familiar e não necessariamente do parceiro”. Em ambos os casos, a dificuldade em lidar com a falta é porque aquela pessoa estava inserida em um projeto de vida, e com a perda, torna-se necessário reconstituir os planos. “Temos que ressignificar nossas vidas por completo, sem aquela presença. Este processo que torna a perda tão difícil e intragável”, concluiu o psicólogo.

A perda da referência cultural também pode gerar o luto. Cada vez mais pessoas migram de suas cidades natal para ganhar a vida nas metrópoles. A mudança pode acarretar na perda da referência cultural daquele lugar e com isso, a pessoa passa a se sentir isolada, não pertencente à nova realidade. “O processo de mudança requer uma serie de readaptações que levem um tempo grande da maturação para você se situar em um novo lugar, com novas pessoas”, justifica Cancello.

Há também uma série de pequenas perdas que muitas vezes passam despercebidas em meio à agitada rotina. ”Ao nos levantarmos, toda manhã, acabamos de contabilizar um dia a menos na nossa existência. Deixamos pra trás o dia de ontem que morreu e que se perdeu de nós; não há como acessá-lo, senãoatravés de lembranças”, ressalta Lilian Graziano.

Perdemos ainda com cada escolha que fazemos. Para comprar um carro tive que abrir mão da tão sonhada viagem. Se somarmos, ao longo do dia vivenciamos inúmeras perdas. Conforme destaca a psicóloga: “É claro que nem todas elas geram um processo de luto clássico, mas nem por isso deixam de nos angustiar, ainda que não tenhamos consciência disso”.

Além da perda de algo concreto, que veio a existir, o ser humano também sofre com a falta do fantasioso. ”Afinal, nós não nos emocionamos em função da chamada realidade objetiva, mas sim em função da nossa percepção acerca dessa realidade”, esclarece Lilian. Levando em consideração que há uma tendência em sofrer com uma perda de algo que nunca foi nosso, Cancello complementa que “na Fenomenologia, você é aquilo que você foi e aquilo que você não foi. O teu hoje é resultado do que foi feito ontem e também daquilo que você não fez”.

O RENASCER

Para Lilian Graziano todas as perdas são necessárias pois trazem em si a possibilidade de que venhamos a aprender com elas. “Se o sofrimento faz parte da vida, fugir dele seria o mesmo que fugir da própria vida, faro que boa parte das pessoas não se dá conta” completa.

Jonathas Martins Cardamone é um exemplo de superação da perda. Em 2001, ao retornar do seu horário de almoço sofreu um acidente de trânsito. Ele estava voltando da casa de sua sogra localizada no Morro do São Bento, em Santos. Na descida do morro, em uma curva, um carro guiado por um motorista embriagado atingiu sua moto ocasionando o acidente

“No hospital, após o exame radiológico, fui direto para a cirurgia. Como tinha acabado de almoçar, o médico anestesista não pode me ‘dopar’, ou seja, fiquei acordado todo o tempo. Cheguei a escutar o barulho deles cortando minha perna. Quando saí da recuperação fiquei procurando o resto da minha perna, e numa tentativa frustrada de me enganar, queria acreditar que não a sentia devido ao efeito dos remédios” relata.

Não aceitando à perda, Jonathas chorou por dois dias seguidos, pois sua esposa estava grávida de quatro meses e ele sentia-se na obrigação de trabalhar para sustentar a família. Durante a recuperação, ele sentiu medo do que iria enfrentar, “mas minha meta era me recuperar pois tinha um bebê para criar”. Em 2003, Jonathas começou a usar a prótese e após um ano já estava caminhando perfeitamente.

Atualmente, ele exerce a função de Auxiliar Administrativo na unidade de Cubatão da Petrobrás, contratado pela empresa AVAPE – Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais. Com o emprego, descobriu também sua aptidão para tirar fotos. “Às vezes agradeço a Deus por ter perdido a perna, pois como não tive condições de fazer uma faculdade, dificilmente teria a chance que tenho dentro da empresa”, enfatiza Jonathas.

São relatos como esseque nos mostram que superar desafios é necessário. Jonathas teve que perder parte de sua perna para “ganhar” uma nova vida. Mas nem todos têm que passar por isso.  O importante é reconhecer que a vida é feita de perdas. Em certos momentos é normal sentir medo de seguir em frente. Em outras ocasiões,a perda trará alívio imediato. A certeza é que apesar da grandeza da perda, aceitar é essencial e, às vezes, inevitável.

Por mais que o luto possa parecer um processo infindável, somos seres capazes de passar por cima, de enfrentar e aceitar a falta do que não mais nos pertence. “É por isso que a saída não está em evitar o sofrimento, mas sim em fortalecer nossos recursos emocionais, para enfrentá-lo”, completa Lilian. Viver é uma dádiva. Que sejamos, então, dignos deste presente.

O PAPEL DA FÉ

Em busca de auxílio para a aceitação da perda, há quem recorra à religião para conseguir se sustentar e seguir a diante. “A religião é um recurso absolutamente legítimo. Se você se sente bem, certamente fará bem”, comenta Cancello. Acontece que, com frequência, apesar de buscar a ajuda da fé, “a pessoa não se sente pertencente a uma religião. É justamente esta pertinência ao grupo é que fornece explicações e consolo. O apoio do grupo ajuda a driblar as perdas”, afirma.

Nada mais atual do que as redes sociais para oferecer uma percepção disso. Nelas, você classifica sua personalidade e crenças. Muitos de seus usuários escolhem a opção “Espiritual, mas não religioso” para denominar a fé. De acordo com o psicólogo esse fato mostra que a pessoa tem a vaga sensação da existência de um algo a mais, no entanto, não se filia a nenhuma religião. “Não se perde a noção da transcendência, mas ao mesmo tempo tem um número significativo de pessoas que não se filiam a nenhuma crença”.

Os que se enquadram neste perfil lidam com o fato bruto em caso de perda, com aquela sensação de que existe algum lugar, sem saber ao certo se é o céu ou não. A única certeza é que após a morte não estamos mais aqui. Para Cancello “vivemos em uma época muito singular desta questão, pois estamos entre algo materialista e tradicionalmente religioso. Você fica num limbo entre essas duas coisas”.

OUTROS OLHARES

PAIS CONTRA O CAOS

Com isolamento, ficou mais difícil — em alguns casos até impossível — controlar o tempo das crianças diante das telas e substituir a tecnologia por atividades não virtuais

Se a pandemia do novo coronavírus transformou os dilemas das famílias da porta para fora, trazendo distanciamento social e isolamento, as transformações dentro de casa não foram menos dramáticas, já que os lares passaram a ocupar o espaço de todo um mundo exterior. Para pais que têm de lidar com o home office ao mesmo tempo que mantêm os filhos trancafiados, educando-os e os entretendo, o desafio ganha ares hercúleos. Sobretudo porque, para muitas dessas atividades, a tecnologia é a única saída possível — o que impõe novos questionamentos ao ato de educar. Existe um limite ideal entre utilizar a tecnologia como aliada para entreter as crianças e abdicar do controle das telas para mitigar as dores do isolamento? Tudo bem liberar o desenho favorito do fim de semana às 9 horas de uma terça-feira ou aumentar o tempo destinado para os games?

As dúvidas e inquietações deixaram o ambiente doméstico e passaram a aparecer em sessões virtuais e consultas informais com psicólogos, pediatras e pedagogos, que identificam uma sensação generalizada de aumento de demandas e tarefas aliada à culpa de não dar atenção suficiente para os filhos ou de relaxar regras preestabelecidas na rotina da casa. Levando-se em conta as especificidades de cada família, do número de filhos à idade de cada um deles, os especialistas coincidem no entendimento de que é necessário entender a excepcionalidade da pandemia e que o momento requer menos cobranças e mais diálogo. “É preciso ter a noção de que estamos vivendo um tempo historicamente marcante, até para que possamos nos adaptar. Não dá para agir como se não fosse um momento excepcional. Tentar manter de pé estruturas que não existem agora demanda um esforço e um tempo enorme, que podem ser melhor utilizados para construir essa adaptabilidade”, ressaltou o pediatra, palestrante e escritor Daniel Becker.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até 1 ano e meio de idade não tenham nenhum contato com telas e que aquelas entre essa idade e 5 anos estejam expostas menos de uma hora ao dia a aparelhos eletrônicos. Mas tudo isso leva em consideração o contexto normal de atividades de uma família. Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Pediatria divulgou um comunicado no início da pandemia reconhecendo que o tempo em frente às telas aumentaria, mas recomendou que pais, mesmo diante da nova rotina, mantivessem algum limite. Canais infantis de TV e no YouTube já mostram esse aumento do uso. Segundo uma pesquisa feita pela Kantar Ibope, canais infantis da TV a cabo tiveram aumento de 9% de audiência em março. Na internet, o canal da Galinha Pintadinha, favorito das crianças na primeira infância, teve um salto de 34% nas visualizações diárias desde que a pandemia começou.

Na prática, o cotidiano da quarentena ainda traz desafios diários às famílias, mesmo após mais de dois meses de suspensão das aulas presenciais e da adoção de conteúdos on-line, em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Alunos da ECO — Escola de Educação Comunitária, no bairro do Grajaú, Zona Norte do Rio, os gêmeos Isadora e Igor Tavares, de 11 anos, se revezam no laptop e no celular para acompanhar as aulas e fazer as avaliações do sexto ano do ensino fundamental. “Em casa, a concentração fica mais dispersa, tanto a deles quanto a nossa. A gente tenta manter uma rotina, mas não dá para fazer tudo como era antes. Eles acabam passando mais um pouco de tempo no celular ou comendo uma besteira a mais. Essa folga é necessária”, disse a servidora Agláia Tavares, que está em quarentena com os filhos e o marido.

O fato de o filho ainda não ter atividades escolares não diminui a carga da advogada Luciana Nahid Pacca, mãe de Henrique, de 1 ano e 4 meses. Tendo de sair semanalmente para reuniões externas com clientes, ela se reveza com o marido, o empresário Bruno Pacca, nos cuidados com o filho. O apoio da mãe, que, como ela, mora na Barra da Tijuca, foi suspenso em razão do risco de contaminação. A solução foi buscar bons conteúdos na TV e na internet para conseguir entreter Henrique durante o home office e o tempo dedicado às tarefas domésticas. “São coisas que o mantêm entretido por uma hora e meia, duas horas. No tempo que passo com ele, fico 100% dedicada, sem celular ou computador. Mas não dá para dar conta da demanda dele e das necessidades da casa e do trabalho”, disse a advogada. “A creche também ofereceu uma programação on-line, mas seria mais um tempo de tela. Consegui fazer um bom esquema de revezamento com meu marido, mas ainda assim tem horas que recorremos ao eletrônico”, afirmou.

Também com uma criança em idade pré-escolar, o fotógrafo Thiago Facina teve crises de ansiedade, com falta de ar e insônia, que acabaram por inspirá-lo a criar uma série de fotos no Instagram chamada “Confinamento”. Nela, Facina se veste com equipamentos de proteção individual (EPI). Sem poder lutar contra as telas, incorporou a vivência a seu cotidiano. Tanto a mulher, a atriz Lola Borges, quanto o filho, Antônio, de 2 anos e 10 meses, participam da atividade, que é feita diariamente. “Nos primeiros 15 dias ainda havia uma novidade, nós viemos para a casa da minha sogra, que tem mais espaço aberto para ele poder brincar. Nosso repertório de criatividade é colocado à prova o tempo todo, fica impossível não se render mais à TV do que a gente gostaria”, relatou Facina. “A série de fotos veio como uma ideia de ocupar este tempo que a ansiedade estava consumindo. A roupa traz uma sensação de ficção científica, reforça essa distopia que passamos a viver.”

A aflição de muitos pais levou a psicóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Juliana Lopes a criar a série de vídeos curtos, Ju, me tira uma dúvida?, em seu canal no YouTube. Neles, a psicóloga, que é especializada em autismo e dificuldades de aprendizagem, dá dicas para os pais conciliarem o trabalho em casa com as demandas dos filhos ou ideias de atividades para que eles se entretenham sozinhos. Para ela, uma boa forma de lidar com o natural aumento do tempo diante das telas é distribuí-lo ao longo do dia. Caso não seja possível, o melhor é combinar com os filhos o tempo exato a ser dedicado aos eletrônicos, para manter a noção de limite. “A gente precisa entender que isso vai acontecer neste momento e que está tudo bem. O pior é impor que a criança troque a tela por outra atividade, como a leitura, que para ela vai ser entendida como um castigo, e não um prazer”, destacou Lopes. “Até para ter um momento de qualidade com os filhos, os pais também têm de ter um tempo para si. Que muitas vezes era o tempo do deslocamento para o trabalho, do cafezinho na empresa, de buscar os filhos na escola, e que agora não existe mais. É preciso que eles entendam que os adultos não só precisam desse tempo, mas que eles também o querem. Que é importante ver um filme que não seja infantil, entrar num chat com os amigos, fazer uma atividade que não envolva os filhos.”

Criadora do site “Papo de Mãe” com Roberta Manreza, que, desde 2009, virou programa na TV Cultura apresentado pelas duas, Mariana Kotscho viu as questões da quarentena se acumular no trabalho e em casa. Mãe de Laura (17 anos), Isabel (14 anos) e André (13 anos), a jornalista entrevista remotamente especialistas na área, com dúvidas enviadas pelo público para as redes sociais do programa. Muitas dessas inquietações também vêm de amigos pais e da própria vivência da quarentena. “No início tentei estabelecer uma rotina, colei uma lista de tarefas na geladeira, mas durou só umas duas semanas. Vi que teríamos de afrouxar um pouco as regras da casa, não tem como dar conta de tudo neste período”, contou Kotscho. “O mais importante foi evitar um esquema de férias. Mesmo que eles não precisem acordar tão cedo, dou uma controlada nos horários de sono. Também fazemos um rodízio na arrumação da casa, para que ninguém fique sobrecarregado. É preciso entender os altos e baixos de cada um nesse processo, que é natural ficar um dia mais quieto ou passar um pouco de tempo a mais no celular.”

Para Daniel Becker, mais importante que a atenção ao tempo dedicado às telas é a qualidade do conteúdo visto: “A internet tem um cardápio gigante, com muita coisa ótima, mas também muita porcaria. É bom acompanhar o que as crianças veem, para não deixá-las só com youtubers sem conteúdo ou submetê-las a um excesso de propaganda infantil. Programas de qualidade ou filmes que transmitam bons valores viram bons aliados dos pais neste momento”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOILO PARA A ALMA

DIA 29 DE JUNHO

O CORDEIRO MUDO

Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca… (Isaias 53.7a).

O profeta Isaías anunciou Jesus, de forma incomparável, setecentos anos antes de seu nascimento, como o cordeiro mudo que foi levado ao matadouro e não abriu a sua boca. O Filho de Deus foi traspassado pelas nossas iniquidades e moído pelas nossas transgressões. Ele foi ferido, mas pelas suas pisaduras nós fomos sarados. Ele foi ultrajado, mas não revidou ultraje com ultraje. Ele foi levado para a cruz debaixo das vaias de uma multidão sedenta de sangue, mas não proferiu nenhuma palavra de maldição. Tal qual um cordeiro mudo, ofereceu-se como sacrifício pelo nosso pecado. Pacientemente suportou zombaria, escárnio e açoites. Foi humilhado até a morte, e morte de cruz. Bravamente marchou sob a algazarra de uma multidão tresloucada, rumo às agruras do Calvário. Mesmo padecendo sofrimento atroz, não levou em conta a vergonha da cruz, pela alegria que lhe estava proposta. Mesmo sendo obediente até o fim, suportou o duro golpe da lei que violamos. Mesmo sendo bendito eternamente, foi feito maldição por nós, ao assumir o nosso lugar. Carregou em seu corpo os nossos pecados e verteu seu sangue para nos redimir do cativeiro e da morte. Seu padecimento nos trouxe alívio. Sua morte nos trouxe vida. Ali no Calvário, Jesus abriu para nós a fonte inesgotável da salvação.

GESTÃO E CARREIRA

NÃO PARE NA PISTA

O crescimento do comércio eletrônico no Brasil devido à pandemia do novo coronavírus criou novas soluções em transportes

A covid-19 está forçando o setor de logística a se tornar mais ágil, eficiente e digital. Com lojas fechadas e várias indústrias paralisadas, a demanda por frete rodoviário caiu 17,5°/o em abril em relação a março, segundo a Repom, que oferece soluções de gestão e pagamento de despesas para frota própria e terceirizada. O setor vem buscando mais segurança e eficiência. No lugar de ficar aguardando uma chamada no centro de distribuição, o caminhoneiro está usando plataformas que conectam a carga ao motorista. ”É muito mais conveniente”, diz Bruno Hacad, diretor de operações da FreteBras, plataforma de transporte de cargas que viu o número de cadastros crescer 118°/o entre janeiro e abril em comparação ao mesmo período do ano passado, chegando a 400.000 motoristas. O comércio eletrônico ajudou a mitigar parte dessa queda, impulsionando empresas de logística voltadas para a entrega de última milha, por exemplo. As lojas físicas de grandes redes, como Magazine Luiza, transformaram-se em centros de distribuição para o comércio eletrônico. Esse avanço não tem volta.

NOVOS CAMINHOS

Com o crescimento do comércio eletrônico nos últimos meses, as empresas precisaram ajustar sua logística. Varejistas, transportadoras e plataformas para entregadores estão mais digitais para dar conta do aumento da demanda:

EU ACHO …

UM RENOVAR-SE DE ESPERANÇAS

Para viver um grande amor, inspirem-se em Vinicius

Os amores líquidos de que nos fala Zygmunt Bauman estão de quarentena. O filósofo polonês fez sucesso com a defesa da ideia de que os tempos modernos favorecem relações pessoais menos duradouras. O amor contemporâneo, na sua observação, estaria mais para o acúmulo de experiências do que para a profundidade de um relacionamento, mais para descompromisso casual do que para vínculo afetivo. O barco dos encontros eventuais, no entanto, está fazendo água, para usar uma imagem próxima ao universo do pensador mais citado do momento, morto há dois anos.

O distanciamento social para combater o coronavírus nos põe cara a cara com nós mesmos. É uma oportunidade de experimentarmos novas possibilidades de trocas de sentimentos com pessoas que, mesmo a distância, talvez estejam vivendo um momento parecido, também com desejo de construir algo que vá além da superficialidade.

O impulso de viver um grande amor é contrabalançado quando se é responsável, pelo receio de contrair a Covid-19. Antes da pandemia, feliz de quem tinha um companheiro com quem pudesse passar o Dia dos Namorados. Hoje, ter um companheiro não garante um jantar romântico (e, para os que puderem desfrutar esse momento, recomendo frugalidade – não vamos perder o foco).

Nem todos estarão de mãos entrelaçadas, mas isso não é decisivo. Ouço muitos relatos de casais que estão passando a quarentena cada um em seu canto porque um dos dois trabalha com serviços essenciais ou está na linha de frente do combate à doença. Ainda assim, eles se fazem presentes, por meio de mensagens carinhosas, conversas em vídeo ou um buquê de flores por delivery. O que estão fazendo, na realidade, é transformar a ausência física em prova de amor.

Dificuldade maior enfrentam aqueles que a nova ordem mundial pegou num momento em que não dividiam as delicias do amor com ninguém em particular. Mas acredito que obstáculos existem para ser superados. É bonito ver casais se conhecendo por mensagens, construindo confiança mútua e estabelecendo pactos antes de se encontrarem pessoalmente. Começar um namoro virtual não é possibilidade que deva ser descartada. Quando menos, a postergação do contato físico traz uma carga de emoção que pode ser recompensadora tanto no encontro próximo como no futuro mais longínquo, quando a lembrança do platonismo imposto pelas circunstâncias ajudar a alimentar o amor de uma vida inteira.

Gosto de pensar que a ausência temporária pode esfriar as paixões pequenas, mas esquenta os grandes amores. Faz com os sentimentos o que o vento faz com o fogo: se apaga um fosforo, alimenta uma fogueira. No Dia dos Namorados, é bom podermos contar com Vinicius de Moraes. Hoje estamos preocupados com nossa saúde. Sem uma vacina, ainda em desenvolvimento, qual será o impacto no futuro das relações afetivas? O poeta tem a resposta: “Amai, porque nada melhor para a saúde do que um amor correspondido”. E, em meio a tatas agruras descritas em O Dia da Criação, ele registra uma confiança no porvir – “Há um renovar-se de esperanças” – que nos reconforta.

**LUCILIA DINIZ

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IDENTIDADE E SENTIDO PARA A ALMA

O arquétipo trickster pode ser definido como um elemento que integra o inconsciente coletivo, representado por personagens da mitologia, do folclore, da literatura, da poesia, do teatro e do cinema

“O que nos reserva o futuro?” É com essa indagação que Carl Gustav Jung inaugura as linhas de Presente e Futuro (Jung, O. C., Vol. X/I§488). O pensador de Zurique lembra que, em momentos de profundas interrogações políticas e incertezas econômicas e espirituais, como o atual, o ser humano volta seus olhos para o futuro. Como Zaratustra, com seu “desejo de eternidade”, vive-se o impulso, resgatado pela poesia de Rimbaud, de “atravessar o limiar de uma consciência ordinária, a fim de atingirmos o tesouro cuja existência pressentimos no fundo”.

A importância de se trazer a contribuição do arquétipo do trickster para, a partir dele, falar sobre subversão não violenta, mediação de opostos, identidade e sentido no âmbito da cura da alma brasileira diz respeito ao diálogo que esse arquétipo propõe com todas as estruturas narrativas, as formas de socialização e os modos de subjetivar que, mesmo esgotados e reduzidos a estereótipos, ainda guardam, em sua essência, o gérmen do novo e a possibilidade do recomeço.

O trickster é uma das “pessoas psicológicas” que compõem o inconsciente coletivo, encarnado por personagens de inúmeras histórias da mitologia, do folclore, da literatura, presente na poesia, no teatro, no cinema e nas produções da cultura criativa em geral. A essas imagens pode-se chamar arquetípicas, posto que elas remetem às “representações simbólicas da psique total, entidade maior e mais ampla que supre o ego da força que lhe falta”. É importante salientar que, para Jung, toda afirmação sobre o arquétipo deve ser feita a partir da riqueza polissêmica das metáforas e dos símbolos, já que os arquétipos “pertencem à autocontradição interna e à duplicidade das metáforas míticas […]; são incognoscíveis econhecíveis através de imagens”. Assim, o que se conhece do arquétipo é o seu numen, isto é, a energia emanada do arquétipo que o atravessa e a consequente modificação fruto de seu impacto sobre a consciência.

Nesse ponto depara-se com uma importante sensibilidade poética e um giro epistemológico notável por parte de Jung. É importante lembrar que o pensador suíço lida com as fantasias arquetípicas do inconsciente coletivo já em seu cotidiano psiquiátrico no hospital de Burghölzli, na Suíça, validando assim seu percurso teórico com pacientes esquizofrênicos e, desse modo, evidenciando uma de suas maiores contribuições à chamada Psicologia Analítica, qual sejam, o caráter e a concepção estética e criadora de imagens que caracterizam a atividade da psique. A possibilidade de socialização dos pacientes psiquiátricos, na visão de Jung, estava baseada em uma ética do cuidado que favorecesse a comunicação e o acolhimento dessas fantasias e delírios, em relação com a cultura e sociedade.

Ao desenvolver a noção de arquétipo, inspirada nessas possibilidades “poiéticas” e mitológicas percebidas em seus pacientes de Burghölzli, Jung definiu o termo como um substrato psicológico comum a toda humanidade, procurando assim confrontar e ressignificar o já estabelecido literalismo e o consequente estigma da loucura que ele ativa. Suas premissas teóricas estão fundamentadas na experiência empírica e inspiradas em consistentes categorias filosóficas, mas ganham profundidade e potência quando sentidas a partir da realidade poética, simbólica e metafórica da psique.

Além dessa concepção mitopoética, prospectiva e homeostática da psique, também é importante frisar que, para a Psicologia Analítica, os arquétipos pertencem à esfera da psique objetiva (inconsciente coletivo), enquanto os complexos são representações mentais unidas por experiências afetivas de intensa carga emocional para o indivíduo, fazendo parte da psique subjetiva, isto é, do inconsciente pessoal.

INTERSECÇÃO

Há aqui um ponto de encontro interessante, entre o complexo e a possibilidade de análise de características culturais e intersubjetivas de um grupo ou país, já que “a origem do complexo é frequentemente o que se chama de trauma, um choque emocional ou algo parecido, através do que uma parcela da psique é ‘encapsulada’ ou se cinde”. Abre-se então a possibilidade hermenêutica de pensar acerca de alguns fenômenos em termos de complexos culturais, estando sua gênese relacionada a traumas coletivos e situações que ainda não foram reparadas socialmente ou psicologicamente elaboradas. No caso, no Brasil, podemos falar dos miasmas gerados pela colonização, a escravidão e os traumas impostos à formação da identidade cultural brasileira, constituída a partir do preconceito tomado como norma, do etnocentrismo como imposição da verdade do colonizador, do jeitinho do colonizado como resposta que improvisa saídas tanto quanto perpetua a corrupção como modus vivendi e operandi. Alguns exemplos dos traumas persistem constelados, atuando como poderosos complexos culturais na psique coletiva brasileira.

Dessa forma, deve-se evocar uma leitura simbólica do arquétipo do trickster baseada fundamentalmente nas contribuições de Carl Gustav Jung e seus continuadores, propondo assim um movimento subversivo-criativo, uma reflexão construtivo-destrutiva, necessários para reparar o tecido da relação europeu/índio/negro cristalizada e verticalizada no Brasil, e também para que afirme uma identidade cultural e uma cidadania plena e responsável, para além do “jeitinho brasileiro”. A essência da subversão aqui proposta, figurada pelo arquétipo do trickster, relaciona-se com a necessidade de amadurecer uma consciência comunitária, baseada na preservação -inovação criativa de nossas qualidades mestiças. Desse modo, seriam ressignificados os aspectos seculares de nossa psique coletiva, por meio de uma proposição que equilibre os aspectos polares, desde sempre dissociados pelos dualismos reducionistas da realidade. O pragmático em diálogo com o lúdico, o místico com o heroico, o lógico com o mágico, o cômico com o trágico instaurariam uma trajetividade que poria em movimento o cotidiano, o qual seria assim inseminado com uma visão de mundo muito própria dos ritos, tradições festivas e folclóricas do Brasil, na busca de um imaginário de superação e reparação.

O trickster é um personagem que, no contexto das narrativas em que irrompe como elemento de mediação, não aceita submissão, tampouco o culto ao cinismo convencional, muito menos investe na manutenção das personas sociais, do indivíduo entregue ao dissimular-se em aparências ou discursos puramente retóricos. Falar desse arquétipo é estar alinhado com o seu numen de mudança, baseado em autenticidade, autonomia, integridade e liberdade. As características muito próprias do trickster são sistematicamente banidas das sociedades totalitárias em geral, por serem elementos de forte questionamento da sujeição do indivíduo ao coletivo, da homogeneização dos discursos e práticas. O humor, característica essencial do trickster, é sumamente malvisto nesse modelo de sociedade rigorosa, séria, unilateral, paranoica e produtiva. Como escreve Todorov, “uma das tarefas mais difíceis (nesse modelo social) é manter o senso de humor – sinal de distância com relação à autoridade e, portanto, de autonomia”. 

ROMPIMENTO

O trickster é retratado, nas histórias tradicionais, como um personagem capaz de romper automatismos alienantes e de promover insights profundos que conduzem à mudança significativa. Em muitas narrativas da mitologia universal, ele é representado por personagens zoomórficos, tais como corvo, coiote, lebre ou hiena, isto é, animais cujas qualidades não são a força ou a ferocidade ou violência, mas a mobilidade, a astúcia e a leveza. No Brasil, ele aparece representado por personagens bem conhecidos, como os folclóricos Saci Pererê e Pedro Malasartes. O trickster é essencialmente um questionador, um outsider que, dotado de muita energia e dinamismo, sempre convida os personagens mais convencionais à desnaturalização de suas condutas e à sensibilização quanto a temas estabelecidos a priori. Mesmo a incoerência de um momento histórico é explicitada por tricksters sumamente famosos, como o Carlitos, de Charles Chaplin, o Macunaíma, de Mário de Andrade, e a dupla João Grilo e Chicó, de Ariano Suassuna. Sua função psicológica na narrativa também é a de conscientizar egos inflados e fixados na pobreza do literalismo conceitual, a exemplo da personagem do conto dos Irmãos Grimm, que se sente livre para afirmar, contra todo o senso comum, que “o rei está nu”. As trapalhadas e confusões que emergem desse personagem marginal e questionador são derivadas de seu caráter mediador e, por isso, seu movimento é filho da revelação imaginativa e do erro propositivo, sendo, em última instância, de caráter restaurador. Como linha de força desse arquétipo, movendo-se para além das percepções racionais do ego heroico, pode-se dizer que seu maior compromisso seja o de revelar o sentido real das coisas, para além das representações, oportunismos, dualismos e estratégias de manipulação.

O alívio que esse personagem promove nas narrativas que descortinam contextos emocionalmente engessados ou estéreis relaciona-se com sua habilidade de oferecer, pela via do lúdico, do inusual e do cômico, uma resposta de transformação adequada, porém, muitas vezes imprevista e brusca, embora raramente violenta, já que esse anti-herói sombrio está intimamente ligado ao discurso desviante e anti-hegemônico, com o flanar de asas que nos leva para longe de conexões esgotadas e das verdades consagradas.

A importância do estudo dos mitos, artes, religiões, filosofia e disciplinas ascéticas para a Psicologia Analítica é que, além de configurarem linguagens próprias da totalidade psíquica, estes são instrumentos que ajudam o “indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento”. Ao resgatar a função primária da mitologia e dos símbolos, a Psicologia Analítica oferece a plataforma para atingir o tesouro mencionado, enquanto auxílio arquetípico efetivo e impulso para tirar da potência os atos que ainda aprisionam em estruturas titânicas de dominação, repressão, unilateralismo, literalismo e poder. É preciso liberar o presente para ser vivido aqui e agora e, somente a partir da experiência, imaginar outros futuros. Assim como também é preciso trazer à tona os tensionamentos, de modo a gerar revisões e subversões criativas a temas cristalizados, permitindo assim que o cotidiano seja renovado a partir de energias ainda não experimentadas e de motivações mais profundas e coesivas.

A poesia do trickster é sua destruição. Como Shiva, o terceiro deus de trimurte hindu, ele está sempre se dissolvendo, recomeçando e fluindo. No trickster, nada engessa ou cristaliza, tudo se movimenta e se revela num continuum que é a própria vida. Em resposta ao saber fálico e hierárquico das compreensões unilaterais, o arquétipo do trickster convida para outras, nem sempre novas, mas sempre renovadoras, perspectivas e olhares: eis a autorização de um saber que experimenta, inova, articula e regride, quando necessário, superando a insistência num saber que analisa, abstrai e teoriza e num pensar compulsivo e autorreferente, que atrofia as demais funções psíquicas da consciência. Cabe lembrar do “samurai malandro”, o poeta Paulo Leminski, que encarnou um trickster pulsante, na roupagem mista, mestiça e não polarizada de sua “tropicalidade-zen”. Ele que não excluiu nenhum dos opostos, muito menos fixou a consciência nos extremos radicalizantes que o ego impõe como visão de mundo. Esse poeta soube seguir “sem demagogia, com amor e humor, talento e lucidez […], abrindo caminhos na selva selvagem da linguagem, no repertório caótico de nossas cabeças cortadas […]”.

Captando o empobrecimento da vida interior do homem contemporâneo, Jung assevera que a readaptação da existência humana a novas demandas éticas e existenciais deve ser baseada em uma cosmovisão que restaure os símbolos genuínos do desenvolvimento humano, além de integrar e direcionar os fluxos da energia instintiva, superando os pressupostos teóricos que impõem uma compreensão unilateral do homem.

Sugere Leon Bonaventure, na introdução de As Conferências de Tavistock, que Carl Gustav Jung estava assentado sobre uma sólida tradição filosófica e mística, subvertendo o caminho da Psiquiatria convencional da explicação do normal pelo patológico e por outro lado afirmando uma Psicologia fundamentada pelo arquétipo do centro, baseada numa atitude fenomenológica de descrição das realidades fundamentais da alma humana e na experiência viva e empírica do processo de individuação. Bonaventure destaca ainda que Jung pode ser facilmente considerado como um continuador da tradição humanista de pensamento, aquela que é comprometida com o Mysterium Animae, o mistério da alma.

TRADIÇÃO SÓLIDA

Deve-se a inúmeros continuadores do pensamento de Jung a articulação da abordagem junguiana com os acontecimentos históricos e culturais do Brasil. Entre eles estão Roberto Gambini e Eliana Atihé, ambos em busca de compreender e afirmar que o cerne vivo de uma nação é seu manancial imaginário e o acervo simbólico ativo e dinâmico de sua cultura. Disso emerge a compreensão de que a consciência mítica não é um epifenômeno de representações sociais, mas sim a pedra angular de qualquer grupo social ou país. Resguardada como possibilidade de encontro com essa “alma do mundo” revitalizadora, a ressonância poética dos nossos símbolos genuínos e das imagens arquetípicas que eles figuram serve como fator de equilibração psicossocial e também como forças de reparação da alma de um povo, de um país, de um mundo.

Esses e outros pensadores ajudam na difícil missão de ressignificar a história para, ao colocar o “Brasil no divã” ou subverter as narrativas, despertar a alma individual para a reemergência de um modo mais integrado de conhecimento e experiência, em que razão e intuição dialoguem em favor da totalidade. Desse modo, buscando compreender os movimentos da alma brasileira em seus sofrimentos, conflitos e dificuldades, bem como suas alegrias e prazeres, com a sombra e a luz sempre entrelaçadas, espera-se ativar algumas das possibilidades criativas e prospectivas que encaminhem para a superação das contradições que imobilizam, no sentido de viver o paradoxo que verdadeiramente todos somos.

A irreverência do arquétipo do trickster revela um modo de evidenciar aquilo que poucos observam, criticando os valores, os radicalismos e excessos que impedem o estabelecimento de uma ordem moral, cultural e política que sirva, de fato, à união dos opostos com vista à totalidade e não à dissociação, ao conflito crônico e à desintegração, por outro lado propiciando a “libertação da consciência do fascínio do mal, não sendo mais obrigada a vivê-lo compulsivamente”.

Eis afinal o trickster como o arcano sem número do Tarot, inspirando dissoluções sem retorno, destruindo para possibilitar a reconstrução a partir de outras soluções e alternativas, apagando velhos caminhos e abrindo novos. O arquétipo da delação premiada, da indignação política, da reunião dos opostos aparentemente inconciliáveis, aquele que convoca, com sua astúcia, com sua inteligência não racional, com sua visão bilateral e com os esculachos que ridicularizam os poderosos de todas as lateralidades possíveis, a força para transformar e as oportunidades para ampliar a consciência, no sentido de integrar a sombra excluída que parasita a todos. Afinal, para o trickster, a mudança é só uma grande brincadeira.

EU ACHO …

O AJUSTE NO PROTOCOLO

A falta de capacidade em adaptar descobertas científicas às políticas públicas tem sido fatal, mas ainda há tempo de mudar a abordagem no tratamento da Covid-19 e salvar vidas

O combate à pandemia causada pelo coronavírus vai entrar para a história como um dos grandes fracassos da sociedade moderna. Quando olharmos para trás para enxergar este período, veremos o enfrentamento de outras duas doenças tão graves quanto a infecção: a irracionalidade que vem da psicologia de massas das mídias sociais e o vácuo de lideranças que dominou as ações no planeta, com raras exceções. A radicalização que vem de uma e a politização que vem de outra impediram o enfrentamento eficaz da Covid-19. Faltaram análises pragmáticas, ações que permitissem o contraditório, provas e contraprovas, teses e antíteses. Com um outro tipo de abordagem, milhares de pessoas que estão morrendo em casa ou chegando virtualmente mortos aos hospitais poderiam sobreviver à doença. No Brasil, não é diferente, exceto por parte da sociedade civil em campanhas de solidariedade para conter a fome e iniciativas heroicas dos profissionais de saúde e líderes das comunidades vulneráveis.

Falta uma aliança entre os governos federal, estaduais e municipais que mobilize esforços para, de forma coordenada, suprir as carências do sistema de saúde. Falta a elaboração de uma estratégia consolidada, considerando o aspecto continental do país e suas diferenças regionais. Falta um plano de ação que ataque a carência na infraestrutura, com investimento em pesquisa para adaptação das políticas públicas aos achados científicos mais recentes, uma vez que a literatura está sendo escrita “ao vivo”, à medida que a pandemia se desenrola. Mas o que, de fato, angustia quem acompanha a evolução da pandemia no front é que, a rigor, medidas simples poderiam ter impacto significativo no destino de muitas pessoas. Desde abril o Instituto Estáter identificou uma tendência alarmante e que teimava em ser ignorada pelo noticiário e por autoridades. Interpretando dados da Itália e dos EUA, constatamos que um número superior a 70% das mortes aconteceu sem que os pacientes passassem pelas UTIs. Com ajuda de Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, acessamos hospitais e médicos nos EUA, Reino Unido e Itália. Para nossa surpresa, nenhum deles conseguiu explicar esse fenômeno. Levamos os dados para um grupo de especialistas que apoia o Instituto. Esper Kallás, infectologista do Hospital das Clínicas, e Carlos Carvalho, pneumologista do Incor, identificaram vários pacientes que chegavam ao hospital com o nível de saturação de oxigênio muito baixo. Alguns morriam na ambulância enquanto outros chegavam colapsados à beira da morte. Estes, ou morriam rapidamente ou levavam de duas a três semanas para se recuperar nas UTIs. A hipóxia silenciosa (mecanismo que leva à perda do nível de saturação do oxigênio sem que o paciente perceba) matou mais gente nos asilos, em casa ou a caminho do hospital, do que aqueles internados nas UTIs. Isso porque, de acordo com o consenso de protocolo, os infectados só deveriam procurar um hospital no caso de falta de ar. Hoje vemos que foi um erro.

O Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, atua como uma bomba-relógio. Os especialistas constataram que a perda da saturação de oxigênio começa entre o quinto e o sétimo dia, período em que o paciente ainda está acamado e prostrado e não percebe essa queda na oximetria. Quando sente falta de ar, em muitos casos é tarde demais. A saída para evitar essas mortes trágicas desassistidas é acompanhar a saturação de oxigênio e ir ao hospital no primeiro indício de queda abaixo do limite. Mas se os hospitais estão lotados, qual a alternativa? Há aqui o paradoxo das hospitalizações. O protocolo atual faz com que uma parcela relevante dos pacientes seja internada diretamente nas UTIs. Enquanto isso, as enfermarias estão com ociosidade entre 35% e 45%. Por outro lado, a experiência tem mostrado que pacientes com a perda de oximetria constatada precocemente podem ser submetidos a métodos alternativos de oxigenação simples, como cateteres e outros que serão ministrados nos leitos comuns. Parte deles pode se recuperar depois de alguns dias com esse tratamento. O outro estágio é a ventilação mecânica não invasiva. Somente aqueles que não se recuperarem seriam submetidos à intubação – a experiência das equipes de frente também tem mostrado uma recuperação mais rápida desses pacientes do que dos submetidos à intubação em estágio avançado de baixa saturação. A conclusão é que o acompanhamento da oximetria, principalmente de pessoas do grupo de risco, pode permitir um alívio no uso de UTIs, além de salvar vidas.

Há iniciativas sendo testadas para criar controle do nível de oxigênio nas populações mais vulneráveis. Uma delas, em Paraisópolis, conta com oxímetros conectados a um aplicativo no celular que registra na nuvem o nível de saturação do oxigênio e dispara sinal de alerta quando atinge níveis de atenção. Outra, desenvolvida por uma ONG, treina motociclistas, paramentados com EPIs, para medir a oximetria de moradores do grupo de risco que não possuem condições de ter o aparelho. O acompanhamento é feito por mapas de controles e por aplicativos de telemedicina. A sociedade e as lideranças comunitárias têm se organizado, porém é necessário ampliar a divulgação para conscientizar grande parte da população mais vulnerável. O combate da Covid-19 é um fracasso global. Mas ainda há tempo para salvar muitas vidas. Para isso, o protocolo precisa ser ajustado.

**PÉRCIO DE SOUZA, engenheiro, é um dos fundadores do Instituto Estáter

OUTROS OLHARES

A CONTRAOFENSIVA DA VERDADE

Após anos de inação e tibieza, democracias centram fogo na responsabilidade das redes sociais para conter o poder corrosivo das Fake News

Antes da pandemia, antes de Donald Trump e Jair Bolsonaro serem presidentes, antes de o Reino Unido cogitar sair da União Europeia, antes da avalanche a abalar os alicerces da política planetária, antes de tudo houve Mandalai. Era julho de 2014 quando a violência irrompeu na cidade de Mianmar, imortalizada no Ocidente como lugar onde “o melhor é igual ao pior, não há Dez Mandamentos e um homem pode aguçar a sede”, versos de Rudyard Kipling que ganhavam sabor de exotismo quando cantados por Frank Sinatra ou recendiam a racismo quando recitados nos clubes fechados da elite britânica. Quanto aos eventos daquela noite de julho, nem o lorde Mountbatten que declama o poema na última temporada da série The crown nem o Boris Johnson que cometeu a gafe de arriscar algumas estrofes em visita oficial a Mianmar podem ser considerados culpados de nada. Foram centenas de birmaneses que invadiram a casa de chá de um muçulmano, acusado de ter estuprado uma funcionária budista. A mentira publicada num blog, compartilhada por ultranacionalistas que queriam se ver livres dos muçulmanos, se alastrou pelo Facebook. Não era a primeira vez. Não seria a última. Daquela, a polícia foi incapaz de conter a revolta popular, os saques, as gangues armadas com paus e facões que aterrorizaram a cidade por dias e deixaram um saldo de dois mortos e 20 feridos, num prenúncio do que aconteceria nos meses seguintes aos muçulmanos da minoria rohingya dos estados vizinhos.

Em 2018, depois de pelo menos 10 mil mortos e mais de 650 mil forçados ao exílio, os investigadores das Nações Unidas afirmaram que os eventos em Mianmar “carregam as marcas de genocídio”. Constataram o óbvio: as redes sociais “contribuíram substantivamente para o nível de ressentimento”. O genocídio em Mianmar demonstra que os riscos da desinformação não se restringem aos trolls da ultradireita, às invasões de hackers russos, à alquimia psicográfica dos marqueteiros da Cambridge Analytica, aos grupos de tiozões do WhatsApp ou ao inquérito que investiga, no Supremo Tribunal Federal (STF), a disseminação de “fake news” pelas milícias digitais bolsonaristas. Há algo de mais profundo e insidioso em ação. Uma força corrosiva ameaça a própria essência da democracia: a resolução pacífica dos conflitos humanos. DeMianmar ao estado indiano de Tamil Nadu, de Hong Kong às Filipinas, da Catalunha à Catânia, da Turíngia alemã à Charlottesville americana, de Santiago a Minneapolis, das charnecas inglesas aos cercadinhos no Palácio da Alvorada, “a dança é a mesma aonde quer que você vá”, na descrição certeira de Ryan Broderick, jornalista que, ao longo da última década, cobriu a radicalização on-line em pelo menos 22 países dos seis continentes.

Os últimos passos dessa “dança” se assemelham ao cerco a aves rebeldes num galinheiro. Enquanto os governos têm tentado mudar as leis, as redes sociais se esgueiram e batem asas desesperadamente, tentando escapar. As iniciativas de autorregulação geram algazarra, mas têm sido inúteispara fazê-las alçar voo para longe das garras do Estado. O Twitter passou a incluir mais advertências em tuítes depolíticos – eatingiu o próprio Trump. O Facebook instaurou um conselho externo para disciplinar seu próprio conteúdo. Nos Estados Unidos, a reação foi imediata: Trump baixou um decreto que torna as redes responsáveis pelo conteúdo que fazem circular. No Brasil, depois que a Polícia federal desbaratou o esquema de desinformação bolsonarista, o Senado está prestes a votar um projeto de lei semelhante. Aqui como lá – e por todo o planeta -, dois fatos já se tornaram cristalinos. Primeiro, a primazia das redes sociais na disseminação de qualquer discurso e na mobilização política. Segundo, a ameaça que a balbúrdia digital tem representado aos caminhos institucionais de toda democracia que se preze.

” Em campanhas recentes mundo afora, o candidato com a maior e mais engajada comunidade no Facebook emgeral venceu”, escreveu o historiador americano Siva Vaidhyanathan, da Universidade da Virgínia, em Antisocial media (Mídia antissocial), livro essencial para entender a música e os passos da “dança” das redes sociais – animada, nas palavras dele, por “boas intenções, espírito missionário e uma ideologia que vê o código de computador como solução universal para todos os problemas humanos”. Elas se tornaram o principal meio de comunicação e propaganda neste início de século, papel antes ocupado pelo rádio e pela televisão. “Se você quisesse construir uma máquina para distribuir propaganda a bilhões de pessoas, distraí-las das questões importantes, insuflar o ódio e o fanatismo, erodir a confiança social, solapar o jornalismo, instigar dúvidas sobre a ciência e promover vigilância em massa, tudo ao mesmo tempo, criaria algo muito parecido com o Facebook”, afirmou. “Quer chamemos o fenômeno de ‘fake news’, ‘propaganda’, ‘lixo’ ou ‘desinformação’, o resultado é o mesmo: o enfraquecimento constante e alarmante da confiança pública na especialização, na possibilidade de deliberação racional e de debate.”

A maior evidência é a profusão de curandeirices travestidas de ciência que tomaram conta da internet na pandemia. Mentiras sobre isolamento social, cloroquina e até detergente ganharam apoio político nos mais altos escalões. Um sentimento comum une autocratas, terroristas, trapaceiros, charlatães e milícias digitais: todos desprezam a verdade. Ninguém resumiu os riscos diante da humanidade tão bem quanto o humorista britânico Sacha Baron Cohen, falando a sério em novembro passado. “É chocante como é fácil transformar teorias da conspiração em violência”, disse. “Imaginem o que Joseph Goebbels, o ministro de Adolf Hitler responsável pela propaganda nazista, poderia ter feito com o Facebook”

Dez anos atrás, nos tempos da Primavera Árabe, as redes sociais eram saudadas como força que traria liberdade edemocracia a países sob o tacão de regimes autoritários. Hoje já ficou evidente não apenas o fracasso daquela promessa, mas o risco de que elas sirvam, ao contrário, de veículo para o retrocesso. para que o autoritarismo tome conta até mesmo de democracias consolidadas. “O mais duro para mim foi enxergar que a mesma ferramenta que nos uniu acabou servindo para nos separar”, disse numa conferência um desiludido Wael Ghonim, dono da página do Facebook que serviu de semente aos protestos no Egito em 2011. O plebiscito do Brexit e a eleição de Trump, em 2016, desmascararam a hipocrisia da pregação messiânica do Vale do Silício.

Em vez de promover um salto incomparável de produtividade na economia, a tecnologia digital serviu, sob o álibi da “disrupção”, de pretexto para os bancos centrais inflarem duas bolhas financeiras, cujo estouro lançou o planeta na maior depressão desde a crise de 1929 até a emergência do novo coronavírus. No lugar da aurora da liberdade e da apoteose da democracia, renasceu o nativismo chauvinista, sumiram os freios contra todo tipo de idiotice tacanha ou pseudociência – do negacionismo climático ao charlatanismo médico, da falsificação da História ao terraplanismo epidemiológico. Instaurou-se no meio digital uma espécie de vale-tudo da informação. A expressão “fake news”, usada pelo jornalista Craig Silverman numa reportagem para descrever o que acontecia na campanha de 2016 nos Estados Unidos, depois adotada por Trump e seus êmulos para atacar a imprensa profissional, se tornou um rótulo conveniente para encerrar qualquer debate.

Nas eleições deste ano no Brasil e nos Estados Unidos, a desinformação traz riscos evidentes. Para os americanos, os principais desafios, na análise de Paul Barrett, da Universidade de Nova York, são: vídeos capazes de representar candidatos dizendo ou fazendo o que jamais disseram ou fizeram, conhecidos como “deepfake” (a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, já foi vítima de uma fraude do tipo); uso do Instagram e do WhatsApp, mais que do Facebook, para disseminar conteúdos falsos e provocar radicalização; interferência digital não apenas da Rússia, mas de Irã, China e, principalmente, empresas americanas contratadas para gerar desinformação; novas tentativas de mobilização para protestos falsos e de evitar o comparecimento às urnas de minorias (tática conhecida como “supressão de voto”).

No Brasil, a preocupação se multiplica pelos 5.570 municípios, cada um com panorama político próprio, todos sujeitos a campanhas de manipulação. “A Justiça Eleitoral vê as eleições municipais como de execução mais complexa, porque preponderam circunstâncias locais”, dizia meses atrás o juiz Ricardo Fioreze, coordenador do programa de enfrentamento à desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Isso nos permite prever que será mais difícil enfrentar a desinformação.” O TSE já cassou o mandato de senadora da juíza Selma Arruda (Podemos-MT), cuja campanha foi condenada, entre outros motivos, por não declarar gastos com publicidade digital. Acusação idêntica pesa sobre a campanha de Bolsonaro, em processo que deverá ganhar novo fôlego nas próximas semanas a partir do inquérito das fake news.

A maior fonte de inquietação por aqui, como em 2018, é o WhatsApp. Basta lembrar o caso recente da jornalista Patrícia Campos Mello. Responsável por reportagens sobre a rede de desinformação bolsonarista pelo WhatsApp nas últimas eleições, ela própria foi vítima de uma campanha difamatória. Inicialmente disseminados também no WhatsApp, memes agressivos e calúnias ganharam repercussão no Twitter, sem que a rede social tirasse do ar as contas responsáveis por difamá-la e ofendê-la. Oficialmente, a resposta do Twitter foi de dever cumprido. “Foram tomadas medidas sobre tuítes e contas que violaram as regras”, afirmou em comunicado. “O Twitter condena comportamentos que intimidem ou tentem silenciar vozes, e o trabalho para evitar que isso ocorra está em constante aprimoramento.” É verdade que a empresa não está parada. Tanto que incluiu, nos tuítes recentes sobre os protestos em Minneapolis contra o racismo da polícia, uma advertência afirmando que Trump violou regras sobre “enaltecimento à violência”.

Mesmo assim, as medidas têm sido tímidas e hesitantes. O WhatsApp informa que, depois das denúncias em 2018, limitou o tamanho de grupos, as listas de transmissão e o reencaminhamento das mensagens. A despeito da tecnologia de comunicação segura para preservar a privacidade, passou a usar dados de localização e o número de telefone dos usuários para tentar coibir abusos (no Brasil, com mais de 120 milhões de aplicativos instalados, o reenvio caiu 30% e, na campanha de 2018, 400 mil contas foram suspensas). A eficácia dessas medidas foi, contudo, posta em xeque por um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com grupos no Brasil, na Índia e na Indonésia durante o período eleitoral (aqui, também durante a greve dos caminhoneiros). Nas mensagens com imagens, eles constataram que a desinformação alcança mais grupos e é distribuída mais rápido – em 60% dos casos, menos de duas horas depois da primeira aparição. Mensagens falsas de texto também circulam por mais tempo, metade delas mais de dez dias. É, portanto, crítico o tempo de reação, tanto das autoridades quanto das redes sociais. “No calor da eleição, precisamos intensificar a checagem para monitorar o que circula da forma mais ágil possível”, disse Fioreze. Ele não descartou a possibilidade de que, mais perto da eleição, o próprio WhatsApp impusesse mais restrições ao repasse de mensagens. No final do ano passado, o pesquisador brasileiro Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP), dizia que havia pouquíssimo tempo para agir a tempo das eleições. Não há mais. “Somos o segundo maior mercado depois da Índia em uso do WhatsApp. Se alguém pode regular o uso de modo sensato, é o Brasil.” O Facebook, dono do WhatsApp, vê na comunicação privada a vocação da plataforma e defende a tecnologia usada para manter as mensagens secretas. Isso não impede, porém a implantação de sistemas de monitoramento capazes de detectar violações nas imagens ou vídeos compartilhados, armazenados em servidores para facilitar o carregamento. Também não impede o uso de técnicas de inteligência artificial para disparar alarmes sobre usos suspeitos.

Seria injusto deixar de reconhecer os esforços do Facebook para tentar controlar a desinformação em suas redes. É fato que algo mudou depois das declarações desastradas do criador da rede social, Mark Zuckerberg, quando vieram à tona as primeiras evidências da interferência de russos na campanha americana em 2016. Além das mudanças implementadas no WhatsApp, a empresa fez parcerias com agências de checagem de fatos para rotular conteúdos falsos, passou a banir o que pudesse gerar violência ou representar risco à saúde pública, estabeleceu forças- tarefas para combater a desinformação em tempo real durante períodos eleitorais, adotou normas de transparência nos anúncios políticos, instaurou um conselho externo para supervisão do conteúdo e afirma contar hoje com 35 mil funcionários destinados a manter a “integridade da plataforma” (15 mil deles, moderadores com o poder de tirar do ar conteúdos mediante um dique).

Um jornalista que visita os escritórios do Facebook num prédio envidraçado da região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, parece embarcar numa espaçonave rumo a outro planeta. Recebe um crachá de cor diferente dos demais (vermelho) e, entre a comida gratuita, os estofados coloridos e o ambiente descontraído das empresas digitais, encontra funcionários articulados e engajados, capazes de debater a fundo a tensão entre a liberdade de expressão e a qualidade da informação, até mesmo de defender a insistência ridícula de Zuckerberg em garantir aos políticos o direito de mentir em seus anúncios, repetindo o mantra “não podemos ser árbitros da verdade”. Ouve histórias épicas sobre como o Facebook desbaratou redes subterrâneas de desinformação, ocultas atrás de perfis anônimos (uma delas, ligada ao Movimento Brasil Livre). Descobre que a televisão e a imprensa profissional continuam imbatíveis em influência (o pico de posts sobre Bolsonaro na campanha eleitoral foi durante a entrevista ao Jornal Nacional). Espanta-se que o Facebook tenha contratado um professor de ciência política para lidar com o uso de suas plataformas no Brasil e na América Latina (só nas últimas eleições argentinas, mais de 80 funcionários se envolveram no combate à informação falsa). Admira-se com a constatação de que, desde a vitória de Trump, houve eleições nas duas maiores democracias do planeta (Índia e União Europeia) sem registro de abusos graves. Confirma que há urna disposição genuína em colaborar com autoridades eleitorais locais (o próprio TSE corrobora tal fato). E, ainda assim, não sai convencido de que as mudanças tenham lá muito valor.

“Não há dúvida de que estão promovendo mudanças, mas é o mínimo suficiente para afastar a ameaça de regulação”, afirmou o acadêmico Dipayan Ghosh, que pesquisa a interação entre tecnologia e política no Shorenstein Center da Universidade Harvard. “Não acho que a mentalidade deles tenha mudado. Não tenho evidência direta disso e, qualquer que seja a abordagem adotada, no final a bola vai parar em Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook e braço direito de Zuckerberg).” Ghosh sabe bem do que fala. Ex­ conselheiro da Casa Branca para assuntos digitais no governo Barack Obama, ele trabalhou no Facebook até pouco depois da campanha de 2016. Chocado com a manipulação, decidiu trocá-lo pela academia. Tornou-se, nos últimos três anos, um dos maisrespeitados dissidentes do Vale do Silício, coautor de estudos que esmiúçam o desafio das redes sociais no universo político, intitulados Digital deceit (Logro digital).

Ficam a cada dia mais evidentes os riscos da apatia e da indiferença diante da desinformação – atitudes que parecem definir cada nova entrevista ou depoimento de Zuckerberg. Em contrapartida, aquilo que não passava de um movimento incipiente de refuseniks digitais como Ghosh passou a contar com adesões de maior relevo no mundo dos negócios, maior consistência acadêmica e maior apoio político. Dez dias antes da eleição de 2016, diante do que passava por sua frente no Facebook, o investidor Roger McNamce, um dos entusiastas da rede social desde o início, escreveu num e-mail a Zuckerberg: “Estou decepcionado. Estou envergonhado. Estou sem jeito. O Facebook fez recentemente coisas horríveis, e não posso mais desculpar seu comportamento. Está ajudando pessoas a fazer o mal. Tem o poder de parar esse mal. O que falta é incentivo”. Com o conhecimento de causa de quem foi um insider, McNamee se tornou outra voz eloquente nas críticas às gigantes digitais, elaboradas na forma de memórias em Zucked, publicado em 2019. Seu livro nem foi a maior bomba disparada por uma celebridade do Vale do Silício contra o Facebook. Em maio, Chris Hughes, cofundador da empresa e ex-colega de quarto de Zuckerberg na faculdade, assino uma revista do jornal The New York Times um artigo sem meias-palavras. “A influência de Mark é impressionante, muito além de qualquer um no setor privado ou no governo”, escreveu. “Ele controla as três plataformas de comunicação – Facebook, Instagram e WhatsApp – que bilhões usam todo dia. Estou decepcionado comigo mesmo e com a equipe pioneira do Facebook.” Hughes concluía com um alerta: “O governo deve disciplinar Mark”.

A ideia de quebrar empresas como Google, Amazon ou Facebook entrou na campanha eleitoral americana – e, naturalmente, gerou reação. Em outubro, Zuckerberg compareceu a um jantar reservado com Trump na Casa Branca, acompanhado do investidor Peter Thiel, integrante do conselho de administração do Facebook, defensor dos monopólios digitais e, exceção no Vale do Silício, trumpista de primeira hora. Além de ter mantido dois encontros com o presidente, Zuck abriu a agenda a personalidades da direita americana, fez acenos ao público conservador e tentou dissociar sua imagem dos democratas, majoritários no Vale e em toda a Califórnia. “Acredito que deva haver regulação de conteúdo nocivo, a questão é o tipo de modelo a adotar”, afirmou no início do ano. Citou dois modelos como referência: o dos jornais, responsáveis por tudo que publicam, e o das empresas de telecomunicações, que não respondem pelo que alguém diz nas linhas telefônicas. “Deveríamos estar num lugar intermediário”, afirmou Zuckerberg. Apesar da operação de relações públicas, foi atingido em cheio pelo decreto de Trump, que põe as redes no mesmo papel dos jornais. O estopim foi o Twitter, mas o alvo era o Facebook. Principal beneficiário do statu quo, que lhe permite mentir quanto quiser sem sanção, Trump está incomodado com os movimentos das redes para regular o discurso. Baixar um decreto que vai contra seu próprio interesse é uma forma de forçar Zuckerberg a voltar a repetir que “o Facebook não pode ser árbitro da verdade” e a recuar em qualquer movimento para tolhê-lo. Quando irromperam os protestos contra o assassinato de George Floyd, Zuck falou ao telefone com Trump e, ao contrário do Twitter, decidiu não intervir nos posts dele. A decisão chocou lideranças do movimento pelos direitos civis e até funcionários do Facebook. Na academia, o debate sobre a regulação reuniu polos antes antagônicos. A divergência está mais na natureza do que na necessidade de mais rigor. A solução radical seria quebrar as gigantes digitais em empresas menores, como os americanos fizeram com a Standard Oil em 2011 ou com a AT&T em 1982. O Facebook naturalmente é contra. “Cindir as empresas não resolverá temas como privacidade, interferência em eleições e conteúdo nocivo”, afirmou a empresa. “Separar diferentes serviços reduziria nossa habilidade e escala para lidar com desafios que enfrentamos.” Partidários da cisão, como o jurista Tim Wu, da Universidade Columbia, contestam o entendimento jurídico formulado por Richard Posner, da Universidade de Chicago, adotado em tribunais americanos desde os anos 1970. A essência da visão de Chicago é preservar a integridade de corporações monopolistas, desde que não haja dano comprovado ao consumidor, em particular aumento de preços (serviços digitais costumam ser grátis). Como Wu explica em The curse of bigness (A maldição do tamanho), a falta de competição gera outro dano: inibe inovações que trariam benefícios ainda desconhecidos. Voltar a separar Instagram e WhatsApp do Facebook permitiria aos usuários escolher entre serviços rivais.

Do outro lado, há quem, como Ghosh, discorde de Wu. No entender dele, as redes sociais podem representar aquilo que os economistas classificam como “monopólio natural”. Assim como não faz sentido construir outra rede de distribuição de água ou de eletricidade numa cidade, não faria sentido econômico ter dois fornecedores do serviço de rede social. Para evitar a concentração de poder, Ghosh afirmou que o recomendado não é necessariamente quebrar as empresas, mas antes submetê-las a normas rígidas de regulação e fiscalização.

É esse o espírito da nova lei que entrou em vigor no início do ano na Califórnia, baseada num princípio já adotado no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da União Europeia (RGPD) e no Marco Civil da Internet do Brasil: a garantia da privacidade e transparência na coleta e no acesso a dados pessoais. Impor restrições às corporações digitais em defesa dos cidadãos é hoje uma exigência até mesmo de liberais da Universidade de Chicago, como o economista Luigi Zingales. A extensão das restrições, contudo, ainda desperta controvérsia. Ghosh defende regular três áreas:

1) TRANSPARÊNCIA – acesso em tempo real e armazenamento de informações sobre anúncios políticos (como no rádio e televisão); identificação de robôs e contas ciborgues (medida apelidada “Lei Blade Runner”); atribuição de responsabilidade por decisões tomadas por sistemas automáticos de inteligência artificial;

2) PRIVACIDADE – controle de acesso e remoção dos próprios dados nas mãos dos consumidores; transparência sobre o uso de tais dados; estabelecimento de uma autoridade reguladora com recursos para criar regras e fiscalizar;

3) CONCORRÊNCIA – supervisão robusta de fusões e aquisições das empresas digitais; reforma na legislação antitruste para garantir a regulação ágil para inovações digitais; garantia de portabilidade e interoperabilidade de dados entre serviços.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE JUNHO

O MILAGRE DA ENCARNAÇÃO DO VERBO

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1.14).

A palavra “Trindade” não aparece na Bíblia, mas sua realidade sim. Deus é uno e trino ao mesmo tempo. Há um só Deus que subsiste em três Pessoas da mesma substância: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Jesus é Deus. Ele não passou a existir quando se fez carne. Ele existe desde os tempos eternos; é o Pai da eternidade. O apóstolo João diz: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (v. 1). Jesus é o Verbo de Deus, e o Verbo é pessoal, eterno e divino. Esse mesmo Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Aquele que nem os céus dos céus pode conter, esse se esvaziou e foi concebido pelo Espírito Santo no ventre de Maria. Nasceu numa manjedoura, foi enfaixado em panos e cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. O eterno entrou no tempo, o infinito tornou-se finito e o Deus transcendente vestiu-se de pele humana e desceu até nós, para nos resgatar da escravidão do pecado. Jesus desceu da glória, nasceu numa manjedoura, andou por toda a parte fazendo o bem, morreu numa cruz, mas ressuscitou e está assentado à direita de Deus Pai, de onde há de vir para julgar o mundo com justiça.

GESTÃO E CARREIRA

MAIS ESPAÇO E MAIS LAZER

Depois da quarentena, o perfil dos imóveis buscados não será o mesmo com o aumento da demanda por espaços maiores e home office

A experiência de trabalhar em casa e passar mais tempo na própria residência durante o período de quarentena já tem provocado mudanças no mercado imobiliário. Nos últimos meses, os clientes que buscam apartamentos para morar começaram a procurar outro perfil de imóvel na capital paulista e no Rio de Janeiro. Em vez de estúdios compactos, as pessoas passaram a dar preferência a imóveis com uma metragem maior e que tenham um quarto extra ou um espaço que possa ser transformado em home office. Além disso, cozinhas amplas – de preferência abertas para a sala, no estilo cozinha americana – também estão sendo mais buscadas do que antes.

É o que identificou uma pesquisa inédita da startup Loft feita com pouco mais de 1.300 clientes de sua plataforma online de vendas de imóveis. Segundo Mate Pencz, copresidente e fundador da Loft, a mudança nas preferências dos compradores faz parte de uma tendência de valorizar mais o lar e o bairro onde se vive, algo que tende a continuar depois da quarentena. ”Da mesma forma que houve um certo boom de apartamentos muito pequenos e de estúdios, haverá uma tendência na contramão, com apartamentos mais flexíveis, com home office, cozinhas abertas. A mudança vai ser relativamente rápida”, diz Pencz, que nasceu na Hungria, cresceu na Alemanha e se mudou para o Brasil em 2011 para empreender junto com o sócio Florian Hagenbuch.

De acordo com a pesquisa da empresa, 45% dos clientes entrevistados agora têm interesse em morar em um apartamento maior e 70% notaram a importância de ter espaço para um home office em casa. Praças e espaços de lazer no entorno dos prédios também estão sendo mais valorizados. Outro movimento, de acordo com Pencz, é a tendência de as pessoas terem mais liberdade para procurar um lugar para morar nos bairros de sua preferência, ainda que sejam mais afastados. Nesse sentido, a distância até o local de trabalho deixa de ser um fator determinante e outras características passam a pesar mais na decisão de compra. ”Depois da pandemia, vejo que as pessoas vão procurar os bairros que proporcionam uma qualidade de vida que faça sentido para elas naquele momento. Porque simplesmente o trajeto até o trabalho vai ser menos relevante”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS (DOIS) CAMIMHOS PARA O BEM-ESTAR

Conhecer mais de uma direção melhora nossas chances de êxito quanto ao destino. Para a busca do bem-estar existem dois caminhos. Você os conhece?

Talvez seja um efeito desta época do ano, mas tenho pensando bastante nas transformações da maturidade. As ruins, sempre aos berros por atenção, obrigam-me ao olhar apreciativo na busca pelos benefícios, por aquilo que se conquista com o passar dos anos e que se situa para muito além dos espelhos. É como se a cada ano um novo aspecto positivo da maturidade me fosse revelado, despertando ainda mais meu interesse pela vida e, sobretudo, pelo que ela me reserva.

Foi nessa atmosfera que comecei a refletir sobre caminhos. Caminhos que se cruzam, se fecham, se abrem, se revelam e que, acima de tudo, se sobrepõem. Houve um tempo em que eu acreditei que os caminhos eram únicos. Quanto sofrimento vivido na tentativa de descobrir o “correto, o exato, o que me protegeria dos percalços, dos enganos, o que me conduziria num atalho rumo à verdade”.

Acreditar na existência de um caminho único é condenar-se a um mundo preto e branco no qual o erro se esconde à espreita de cada acerto descuidado que nos leva à ilusão do conhecimento.

Minha vida profissional foi repleta de escolhas por caminhos que julguei únicos e que, ao longo dos anos, revelaram-se a mim como meras possibilidades em direção a um mesmo fim: psicanálise ou terapia cognitiva? Situação clínica ou organizacional? E, mais recentemente, emoções positivas ou negativas?

É comum, por exemplo, que, a partir do discurso da Psicologia Positiva, acreditemos na promoção das coisas boas (emoções, atitudes etc.) como forma de melhorar o bem-estar. Mas se esse é um   caminho verdadeiro, vale dizer que ele não é o único. Talvez no início da Psicologia Positiva o fato de enfatizar esse caminho tenha sido apenas uma estratégia de marketing ou uma forma eficaz de se contrapor a uma então chamada “psicologia convencional” que promovia a eliminação da dor como forma de promover esse mesmo bem-estar. Mas, afinal, quando o assunto é a promoção do bem-estar, qual dos dois é o melhor caminho? A eliminação daquilo que não queremos em nossas   vidas ou a busca por aquilo que desejamos? Ambos. Ainda que sob a ótica da Psicologia Positiva, não é possível negarmos a necessidade de combatermos aquilo que nos faz mal: uma emoção, uma dor, um comportamento, um velho hábito, todos eles são uma espécie de “furo no casco” do barco que é a nossa própria vida. Nesse sentido, a metáfora do barco me parece bastante interessante.  Afinal, se a nossa vida fosse um barco, colocar uma jacuzzi nesse barco a fim de torná-lo mais agradável não teria sentido se, ao mesmo tempo, ignorássemos aquele furo no casco por meio do qual litros e litros d’água nos deixassem molhados até as canelas.

Não, não existe um caminho único. E quando o assunto é a promoção do bem-estar, podemos tanto combater aquilo que nos incomoda quanto promover aquilo que desejamos, de uma simples emoção positiva a uma nova atitude perante a vida.

A maturidade tem me ensinado sobre a multiplicidade dos caminhos. Ainda assim nem todos eles    são iguais: alguns são floridos, outros, cheios de espinhos. Alguns mais curtos, outros mais longos.  Mas se é bem verdade que os dois caminhos que aqui apresentei podem levá-lo à melhoria de seu bem-estar, recomendo que tome o mais curto – e florido – que é o da positividade.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

EU ACHO …

O CONTÁGIO DA COVID-19

Numa igreja de Washington, dos 61 participantes do coro, 53 foram infectados por um único cantor com sintomas da Covid-19. Em Cingapura, ocorreu um surto que infectou cerca de 800 trabalhadores migrantes, num dormitório. Surtos epidêmicos semelhantes foram descritos em shows musicais, frigoríficos, restaurantes, hospitais, prisões e em instituições de longa permanência para idosos, estabelecimentos que contribuíram com mais da metade das mortes nos países europeus e ao menos 30% das que aconteceram nos Estados Unidos.

Em artigo para a revista Science, Kai Kupferschmidt, analisou as epidemias dos coronavírus causadores da SARS e da MERS, que também se disseminaram principalmente entre os contatuantes. Entender as circunstâncias em que ocorrem essas infecções em grupo é crucial para reduzir seu impacto na disseminação do novo coronavírus. A discussão tem se concentrado no número médio de novas infecções que cada paciente é capaz de causar (R). Sem medidas de isolamento social, o R é, aproximadamente, igual a 3, isto é, cada infectado trans mite o vírus para mais 3.

O problema é que esse número traduz a média das novas infecções, mas na prática algumas pessoas transmitem mais, enquanto outras simplesmente não o fazem. O virologista Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, afirma: “O padrão mais consistente é aquele em que o valor de R é igual a zero. A maioria das pessoas não transmite”.

Por essa razão, os epidemiologistas calculam o fator de dispersão (índice k), que caracteriza como a doença forma grupos (clusters) de infectados. Quanto mais baixo o k, menor é o número de transmissores do vírus. Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong, defende que o novo coronavírus provoca uma concentração de clusters sugestiva de que um pequeno número de “supertransmissores” seja responsável por grande parte das infecções. Há estimativas de que apenas 10% dos infectados sejam responsáveis por 80% das transmissões. Essa heterogeneidade explicaria por que a doença não se espalhou pelo mundo imediatamente depois dos primeiros casos na China.

Não está clara a razão pela qual os coronavírus formam esses clusters de infectados. É possível que esteja ligada não só à concentração viral nas gotículas eliminadas ao falar, tossir ou espirrar, mas à capacidade de formar aerossóis que podem permanecer dispersos no ar o tempo suficiente para provocar infecções múltiplas. Em vários dos clusters descritos, as transmissões parecem estar ligadas a esses aerossóis.

Caraterísticas individuais ajudam a explicar a existência de supertransmissores. Um estudo de 2019, conduzido entre pessoas saudáveis, mostrou que algumas eliminam mais gotículas enquanto falam (provavelmente, por falar mais alto), e que cantar libera mais gotículas. O comportamento também influencia, na medida em que a falta de higiene das mãos, lugares fechados e os contatos sociais aumentam a probabilidade de transmissão.

**DRAUZIO VARELLA

OUTROS OLHARES

A PROLIFERAÇÃO DOS TESTES

Depois de semanas em que era quase impossível conseguir agendar um exame, agora há uma profusão deles – nem todos confiáveis

À medida que crescem os casos de contágio de coronavírus e de mortes pela Covid-19, aumenta também a oferta de testes para detectar a doença. No estágio atual da pandemia no Brasil, quando muitas cidades apresentam planos de flexibilização da quarentena, essa alta da capacidade de testagem é uma ótima notícia. Até o começo de junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tinha concedido registro a 134 testes — 106 deles importados, a maioria de países asiáticos, onde a pandemia começou. Há um mês e meio, o número era um terço disso. Se somados os pedidos em análise e os negados, a Anvisa já recebeu cerca de 450 solicitações.

A expansão da oferta por várias empresas é bem-vinda porque nenhuma sozinha teria condições de abastecer totalmente o mercado. “Essa é uma doença nova, não existia um diagnóstico e até hoje não há um medicamento específico ou vacina. Então é natural que a indústria tenha se mobilizado para desenvolver os testes e natural que fosse aumentar a concorrência”, explicou Priscilla Franklin Martins, diretora executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

A questão é que, como em todo mercado, no de testes há diferentes produtos com distintos níveis de qualidade e eficácia. A Abramed já recebeu denúncias de quiosques para testagem duvidosa em postos de gasolina, de testes piratas e até de farmácia que vendia exame para a pessoa levar para fazer em casa, como se fosse teste de gravidez (a leitura para o chamado sars-CoV-2, designação do novo coronavírus, é bem mais complexa do que um ou dois tracinhos). Além disso, não raro o público leigo, que já lida com medo e desinformação sobre o novo coronavírus, se vê perdido em meio à variedade de testes possíveis e às diferentes indicações, que variam de acordo com o tempo de sintomas ou de contato com uma pessoa infectada.

Especialistas são unânimes em dizer que é preciso testar a população. Mas com o teste certo. “Mais importante do que ter muitos testes é ter aqueles que forneçam informação adequada. A aplicação indiscriminada de testes sem qualidade deve ser uma preocupação”, alertou José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM).

Os exames oferecidos comercialmente hoje no Brasil para Covid-19 se dividem em dois universos. O primeiro são os chamados testes moleculares, que detectam a presença direta do vírus no organismo. O principal é o chamado teste RT-PCR, ou PCR em tempo real, que usa amostras colhidas das vias respiratórias do paciente com uma espécie de cotonete. Foi com essa técnica, por exemplo, que médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, depois de pesquisar em laboratório métodos de teste para identificar o novo coronavírus, chegaram ao diagnóstico do primeiro paciente confirmado com Covid-19 no país, noticiado em 26 de fevereiro. É um exame apurado e preciso, mas que também exige estrutura física e tecnológica específica, além de reagentes importados — o que gerou limitações de expansão no momento em que havia uma corrida mundial pela compra desses insumos de testagem.

Com a disseminação dos casos no Brasil, e considerando que o PCR não seria aplicado em massa por causa de complexidade, custo da tecnologia e necessidade de insumos específicos, abriu-se espaço para outro grupo de testes, os chamados testes de anticorpos. São exames sorológicos, isto é, por meio de um exame de sangue, o laboratório analisa se o paciente teve contato com o novo coronavírus não pela presença do vírus, mas de anticorpos produzidos pelo organismo a partir do contato com ele. É um método mais barato e acessível, embora considerado de menor sensibilidade e especificidade. Entram também nesse grupo os chamados testes rápidos. A análise de anticorpos é feita com o sangue de uma “furadinha” na ponta do dedo. São ainda mais velozes — os resultados podem ser lidos em 15 minutos —, mas também mais imprecisos: a quantidade de falsos negativos é maior em comparação aos testes moleculares e exigem profissionais treinados para a interpretação dos resultados.

A questão-chave para entender a diferença entre os testes disponíveis para Covid-19, porém, é compreender que as indicações são distintas. Os testes moleculares são indicados para identificar infecção ativa. Se a pessoa teve contato com o vírus há poucos dias e começou a apresentar sintomas, faz o teste molecular. Os testes sorológicos são mais indicados para apontar se a pessoa já teve contato com o vírus e se desenvolveu anticorpos. Por isso, precisam ser feitos passado mais tempo do surgimento de sintomas, com 14 dias ou mais de intervalo.

No caso dos testes rápidos, a janela para testagem costuma ser entre o sétimo e o décimo dia. São os testes que podem orientar as autoridades, por exemplo, no entendimento do alcance e da disseminação da doença entre a população. Desde o início da epidemia no país, o governo federal comprou milhares desses testes, importados, com prioridade para testagem de profissionais de saúde e agentes de segurança. Antes de serem distribuídos, os testes passaram por análise pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), da Fiocruz.

Por um lado, ganha força o desenvolvimento de novos testes moleculares, que analisam a presença do vírus, mas com métodos diferentes do PCR. Na segunda quinzena de junho, o Einstein começará a aplicar um método de sequenciamento genético de nova geração do novo coronavírus. A tecnologia foi desenvolvida em dois meses dentro do próprio hospital, que aproveitou a ociosidade de máquinas de diagnóstico de outras doenças — sua utilização havia caído pela metade com a atual pandemia. “Nessa necessidade de aumentar a capacidade de testagem, começamos a buscar métodos alternativos que não os tradicionais em testes moleculares. Nosso olhar se voltou para máquinas de medicina de precisão, usadas normalmente para testes de genoma, prevenção de risco de câncer, testes farmacogenéticos etc., que estavam ociosas no laboratório. E resolvemos aplicar essa tecnologia para sequenciar pedaços do genoma do novo coronavírus”, explicou Cristóvão Mangueira, diretor do Departamento de Patologia Clínica do Einstein.

O teste sequencia fragmentos do RNA do novo coronavírus, em um método parecido com o do PCR, mas com outros equipamentos. Segundo os responsáveis, é ainda mais ágil no processamento das amostras. “Como ele processa até 1.500 amostras simultaneamente, com especificidade de 100%, consegue baixar muito o custo do exame”, acrescentou. Já no campo dos testes sorológicos, a corrida tem sido por aumentar a especificidade dos exames para identificar o novo coronavírus, detectar a carga viral e evitar falsos negativos. A sensibilidade para diagnóstico de sars-CoV-2 varia muito entre os testes disponíveis no mercado. A expansão dos sorológicos também coincide com o fato de que, por serem uma tecnologia mais acessível, são considerados os de maior custo-benefício para autoridades e empresas quando se fala em testar milhares de pessoas na discussão de retomada de atividades no país. O exame pode ajudar a identificar quem já desenvolveu certo nível de imunidade e poderia retornar ao trabalho — embora não seja consenso entre especialistas a discussão sobre um “passaporte de imunidade” em uma doença nova e com estudos sobre relatos de reinfecção.

“O Brasil ainda está atrás na testagem em comparação a outros países. E é fundamental, para uma volta à vida normal, ter um raio X de como estamos em termos de contaminação e geração de anticorpos. Isso passa por aumentar a testagem, educar sobre protocolos”, disse o presidente da Roche Diagnóstica no Brasil, Antônio Vergara. A empresa é uma das que acabam de conseguir aprovação da Anvisa para comercializar um novo teste sorológico para Covid-19. Realizado por coleta de sangue, o exame detecta a presença de anticorpos (os chamados IgM e IgG) para o novo coronavírus.

Os testes sorológicos são os que mais demandam pedidos de regulação atualmente na Anvisa. A agência diz que tem priorizado a agilidade na análise das solicitações. Mas nem todas passam por ela. É possível encontrar hoje, no país, produtos que tenham sido importados e adquiridos de acordo com uma lei surgida à luz da pandemia que autorizou a importação de produtos sujeitos à vigilância sanitária de forma excepcional e temporária — e desde que tenham sido registrados por uma autoridade sanitária estrangeira e estejam previstos em ato do Ministério da Saúde.

É apenas o primeiro passo para uma utilização segura. Depois do registro, cabe a laboratórios comprovar a validação e eficácia do teste. O Grupo Fleury, por exemplo, testou mais de dez marcas registradas de testes sorológicos até se decidir por qual usaria. E, recentemente, desenvolveu com tecnologia própria um método de teste molecular, que usa reagentes diferentes do PCR, e com foco em testagem em áreas remotas do país. “O RNA é uma molécula frágil, delicada. Temos de pegar o material do paciente, manter em temperatura baixa até chegar ao laboratório e realizar o teste. Se demorar muito, o material pode se danificar e testar falso negativo, ou ser inconclusivo. O que fizemos então foi desenvolver um teste que detecta outra parte do vírus, mais estável, que aguenta melhor variações de temperatura e tempo”, explicou o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury. A ideia é que o teste seja aplicado fora de grandes centros como Rio de Janeiro ou São Paulo, onde as facilidades para testagem estão acima da média da realidade brasileira. “Não é um exame criado para competir com o PCR. É para viabilizar que determinadas áreas do Brasil possam testar suas populações”, completou.

Novos testes continuarão surgindo, à medida que a doença não arrefece. “Partindo do pressuposto de que são validados em relação à eficácia, nenhum teste é ruim, sejam PCR ou sorológicos. Mas é preciso cautela. E entender a indicação e o período em que os testes devem ser feitos”, concluiu Priscilla Martins, da Abramed. A associação lançou recentemente um programa próprio de validação de testes. Também recomenda, a empresas que optam pelos sorológicos para seus funcionários, que busquem parcerias com laboratórios e profissionais qualificados para uma utilização segura. O mesmo vale para o público em geral. “A melhor pessoa para definir o teste a fazer é o médico. É ele quem tem autonomia para prescrever o exame a partir da conversa com o paciente, do entendimento dos sintomas e do tempo de contato”, disse Martins.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE JUNHO

TEMPERAMENTO CONTROLADO PELO ESPÍRITO

Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira (Efésios 4.26).

O nosso maior problema não é com a ação, mas com a reação. Podemos conviver pacificamente com alguém quando somos respeitados. Mas como reagimos quando somos insultados? O rei Salomão adverte: A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1). Note que Salomão não diz que a palavra branda desvia o furor, mas que a resposta branda o faz. Nesse caso, a pessoa que dá a resposta já foi agredida e insultada. Uma lei da física determina: “Toda ação provoca uma reação igual e contrária”. Essa lei da física não pode governar nossa vida espiritual. Não somos seres automatizados. Não somos governados por nosso temperamento, prontos a reagir com a mesma veemência que a ação chegou até nós. Não podemos pagar o mal com o mal. Não podemos falar mal daqueles que falam mal de nós. Jesus nos ensinou que, se alguém nos ferir uma face, devemos voltar a outra face. Se alguém nos forçar a andar uma milha, devemos caminhar duas. Se alguém nos tomar a túnica, devemos dar também a capa. Jesus não está falando de ação, mas de reação. Quando nosso temperamento é controlado pelo Espírito, podemos ter reações transcendentais. Podemos ter o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Podemos dar respostas brandas àqueles que nos insultam com palavras rudes. Podemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam. Podemos orar por aqueles que nos perseguem. Podemos vencer o mal com o bem.

GESTÃO E CARREIRA

OS ABUTRES ESTÃO CHEGANDO

Com o aumento da inadimplência e das recuperações judiciais, fundos especializados em ativos estressados se preparam para atacar os ativos de empresas brasileiras

Crises costumam deixar os mercados de fusões e aquisições em polvorosa. No Brasil, a Covid-19 produz um efeito potencializado, uma vez que o desempenho econômico tem sido sofrível desde 2014. Em meio a esse cenário adverso, um grupo bem específico de investidores saiu à caça de empresas agonizantes, mas com condições de se recuperar. São os chamados fundos abutres, que compram participação em companhias ou ativos de dívidas a um valor irrisório, em troca de mantê-las de pé. A oferta é tão grande que até empresas desesperadas por liquidez têm buscado tais fundos. “Geralmente somos nós que vamos atrás de oportunidades de compra, mas nos últimos 100 dias o meu telefone não parou de tocar”, diz um funcionário da Canvas Capital, uma gestora especializada naquilo que costuma ser chamado de mercado de ativos estressados (ou distressed, em inglês).

A dinâmica desse tipo de investimento é regida por uma tese clássica desse setor, simbolizada pela letra “U”: em momentos de crise os preços dos ativos caem, tornando-se boas oportunidades de compra, e sobem no longo prazo, com a estabilização da economia. Esses fundos e investidores famintos se relacionam com bancos, governos, gestoras de crédito e principalmente com o sistema judiciário, por onde tramitam os processos de recuperações e falências. Em geral, buscam empresas que precisam de dinheiro rápido. Foi esse tipo de acesso que permitiu ao economista Guilherme Ferreira abrir a plataforma digital Jive, uma investidora em empresas claudicantes. Ferreira trabalhava no Lehman Brothers, em Nova York, até que a crise do subprime de 2008 levou o banco à falência. Com os recursos que tinha, a Jive comprou uma carteira com créditos podres de empresas brasileiras por cerca de 3,2% de seu valor original. A partir de 2011, com a retomada da economia, recuperou o valor da carteira.

A compra de dívidas, chamada de securitização, é a principal forma de atuação desses fundos. E, para eles, 2020 é um ano de abundância. Segundo cálculos da Jive, o total de dívida corporativa que deixará de ser paga neste ano dobrou desde junho de 2019. Com a pandemia do coronavírus, os fundos abutres têm demonstrado peculiar apetite na aquisição de nacos (ou a totalidade, se convier) de empresas em setores competitivos, mas fortemente impactados pela crise, como rodovias, aéreas, sucroalcooleiras, educação e turismo. A Serasa Experian estima que será registrado um número recorde de pedidos de recuperação judicial em 2020, acima dos 1.863 casos em 2016, criando o banquete perfeito para esses fundos. E, com a queda abissal da Selic, reduzida para 2,25% ao ano na quarta-feira 17 pelo Comitê de Política Monetária, os abutres estão recebendo grandes fluxos de recursos de investidores que não querem mais a baixa rentabilidade do Tesouro. “Os fundos estão com seus caixas reforçados e prontos para as oportunidades,” diz Carlos Priolli, sócio do escritório Alvarez & Marsal. Recentemente, o fundo Latache, comandado por Renato Azevedo, fez uma operação que chamou a atenção dos principais agentes desse mercado.

A gestora comprou, em maio, uma participação indireta de 50% da Concessionária Rodovias do Tietê, de propriedade dos grupos Bertin e Atlantia. De acordo com fontes ouvidas, não houve custo de aquisição para a Latache, porque o fundo assumiu os passivos e as obrigações de investimento. Após a crise de 2014, muitos fundos compraram participações em empresas brasileiras quebradas, como é o caso do americano Lone Star e da gestora Castlelake, que concederam um empréstimo milionário em 2017 para a Atvos, braço de etanol da Odebrecht. Hoje há uma grande briga na Justiça para assumir o controle da empresa. Um executivo envolvido na transação explica que experiências como essa traumatizaram os fundos internacionais porque a Justiça brasileira é vista como lenta e muito favorável aos devedores. A avaliação é que, enquanto o processo se desenrola, a empresa comprada se desvalorizou nos últimos três anos. “Hoje a posição da Lone Star, que opera 90 bilhões de dólares no mundo, é resolver esse problema e provavelmente nunca mais olhar para o Brasil”, diz o executivo. Evidentemente, é um negócio que tem seus riscos. Apesar dos sobressaltos, corra e olhe o céu: os abutres já despontam acima da nossa cabeça.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A QUÍMICA DA TEIMOSIA

Novo estudo identifica os processos neurais que dificultam mudanças de opinião depois que uma ideia se cristaliza no cérebro (e haja dificuldade para mudá-la)

Poucas rivalidades na história do capitalismo – e certamente nenhuma na indústria da tecnologia – foram tão intensas, divertidas e fecundas quanto a que marcou a trajetória de Bill Gates, fundador da Microsoft, e Steve Jobs (1955-2011), criador da Apple. Durante pelo menos três décadas, os dois gênios transitaram entre os campos do antagonismo profissional e da inveja pessoal pura e simples, disputando o domínio do mercado e a reverência da sociedade, enquanto a corrida tecnológica fervilhava. Eles não poderiam ser mais diferentes. Gates era um nerd tímido. Jobs, um hippie contestador. Cada um ao seu modo, influenciaram milhões de pessoas e acabaram, mesmo que sem a intenção, transferindo a oposição entre eles para os fãs. No decorrer dos anos 1990 e 2000, no auge da rivalidade, os applemaníacos torciam o nariz para qualquer lançamento da Microsoft. No outro lado do ringue, os admiradores de Gates desprezavam os produtos da empresa da maçã. Os dois grupos jamais mudariam de opinião, mesmo se estivessem diante de uma grande obra: na cabeça deles, estava nitidamente cristalizada a ideia de que, se a Apple era boa, a Microsoft deveria necessariamente ser ruim – e vice-versa. De maneira simplificada, essa visão de mundo poderia ser traduzida como uma típica teimosia.

Um estudo publicado pela revista científica britânica Nature e conduzido por pesquisadores da University College London apontou, pela primeira vez, os processos neurais que levam à dificuldade de mudança de opinião depois que um conceito se solidifica no cérebro. Não seria exagero afirmar, portanto, que os cientistas descobriam o que está por trás do cabeça-dura, aquele sujeito que jamais altera seu ponto de vista, mesmo se todas as evidências mostrarem o contrário do que ele pensa. No estudo, 75 voluntários precisavam decidir se uma nuvem de pontos pretos estava se movendo para a esquerda ou para a direita. Depois, eles indicaram até que ponto estavam seguros sobre aquela escolha. Na sequência, os participantes receberam mais informações sobre os pontos pretos, que deixaram mais claro qual era a direção correta. Contudo, aqueles que indicaram níveis mais altos de confiança sobre a primeira decisão não absorveram os dados adicionais que poderiam corrigir um erro de avaliação – reação conhecida como “viés de confirmação”. Com um scanner de magneto encefalografia, os pesquisadores acompanharam a atividade cerebral durante o processo de tomada de decisões. A explicação para o comportamento se tornou química: o cérebro apresentou “pontos cegos” quando recebeu informações contraditórias, mas continuou sensível àquelas que confirmavam a escolha inicial.

A pesquisa se diferencia por demonstrar que o viés de confirmação existe até mesmo no caso de uma atividade extremamente simples, como acompanhar pontos pretos na tela de um computador, de acordo com o psicólogo e neurocientista Max Rollwage, o principal autor do estudo. “A falta de elementos complexos, como ideologias e relações afetivas, mostra que o processo é central dentro de um mecanismo muito básico”, disse ele. Em situ ações mais abrangentes, como a maneira de as pessoas interpretarem informações sobre a pandemia da Covid-19, por exemplo, pode ser ainda mais difícil mudar de opinião. “Evidências científicas sobre o coronavírus evoluem rapidamente e é preciso absorver as atualizações e mudar comportamentos e crenças de acordo com as novas constatações”, afirma o especialista. Nesse caso, portanto, os conceitos preestabelecidos estão tão arraigados no cérebro que o indivíduo resiste a absorver percepções diferentes.

A psicologia do comportamento humano é descrita há muito tempo na literatura universal e desde os anos 1960 existem relevantes estudos científicos sobre o assunto. A novidade agora é que os pesquisadores conseguiram esclarecer de que forma a química da teimosia se manifesta na mente. ”Até o nosso estudo, uma das hipóteses era que as pessoas recebiam informações conflitantes, mas poderiam escolher desprezá-las”, diz Rollwage. “Com a avaliação dos mecanismos neurais, mostramos que, em determinado ponto de confiança sobre uma crença, o cérebro simplesmente não processa as novas informações.” Isso pode explicar por que os negacionistas do aquecimento global mantêm suas convicções apesar dos cada vez mais irrefutáveis argumentos científicos, ou por que os terraplanistas sustentam que a Terra não é redonda apesar das estonteantes imagens de satélites que confirmam, evidentemente, que o planeta é uma imensa bola azul. Lógica idêntica ajuda a entender, na política, os motivos para a polarização radical, que não cede espaço a visões mais moderadas. Mesmo se houver provas em contrário – denúncias de corrupção, flertes com o autoritarismo – os cabeças-duras não abandonam seus políticos de estimação, sejam eles de direita ou de esquerda.

Os conceitos estabelecidos por grupos sociais são ainda mais difíceis de mudar. “A característica fundamental do ser humano é formar coletivos”, diz Paulo Boggio, psicólogo e coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Dentro dos grupos, diz Boggio, a ideia de sobrevivência e a aproximação com aqueles similares a nós levam as pessoas a pensar de maneira parecida. Com o passar do tempo, as convicções semelhantes são reforçadas em conjunto e acabam se tornando pilares complicados de derrubar. É exatamente esse mecanismo que alimenta as torcidas de futebol, com o seu fanatismo que muitas vezes resulta no ódio ao rival (e, infelizmente, em cenas de violência). O mesmo conceito está por trás de grupos extremistas, radicais religiosos e facções de todos os tipos, incapazes de compreender ou ao menos escutar o outro. Com o cérebro programado por ideias preconcebidas, os integrantes dessas comunidades são impermeáveis a mudanças de comportamento.

Nem sempre, porém, é possível estabelecer uma resposta certa ou errada para muitas questões. Nas sociedades livres, a diversidade de opiniões e o debate entre pessoas que pensam de forma diferente são a maneira de chegar a um consenso e evoluirem pontos divergentes. Também é preciso dizer que, desde que uma ideia não provoque danos a princípios civilizatórios, ela pode ser defendida até o fim. Não são raras as ocasiões em que a teimosia demonstra seu valor. A inglesa J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, teve seus originais rejeitados por doze editoras antes de se tornar uma recordista em vendas de livros. Grandes gênios da inovação igualmente sofreram com o desdém de outros e, não fosse a irredutível obstinação, produtos como o iPhone, de Steve Jobs, ou o Windows, da Microsoft, talvez ficassem pelo caminho. Sem a insistência típica dos vencedores e a sequência de erros e acertos que constitui a construção do pensamento científico, o mundo certamente seria um lugar pior. A teimosia, porém, não faz sentido quando sustenta convicções comprovadamente equivocadas. Por mais que o cabeça-dura não acredite, a Terra é redonda, o planeta está aquecendo e Jobs e Gates produziram obras extraordinárias.

EXEMPLO BIZARRO DE CABEÇA-DURA

Protagonista de A Terra É Plana, documentário da Netflix, o americano Mark Sargent é um caso extremo (e equivocado) de pessoa que insiste em suas crenças e não muda de opinião. Apesar de todas as evidências, ele continua defendendo o terraplanismo.

A missão tripulada SpaceX transmitiu da órbita da Terra novas imagens do planeta – e ele é redondo. Como duvidar de uma evidência como essa? Você chama de evidência, eu chamo de péssimo teatro. Os Estados Unidos estão fazendo filmes há anos, inclusive vários ambientados no espaço, como 2001: uma Odisseia no Espaço, de 1968. Esse filme foi feito um ano antes de a Apollo 11 supostamente pousar na Lua. Nós não acreditamos na SpaceX. Nós nem a levamos a sério.

Também duvida que o foguete levantou voo em Cabo Canaveral? O lançamento do foguete é real, mas ele não sobe em linha reta.

Os terraplanistas dizem que “eles” querem esconder a verdade. Quem são eles? Se você perguntar para as pessoas que acreditam em conspirações quais são os dez grupos mais atuantes, elas dirão alguns nomes como a família Rothschlld, o Vaticano e a Maçonaria.

Como a Terra pode ser plana? A ciência diz que estamos nesta pequena rocha coberta com um pouco de água e fumaça, voando pelo espaço em diversas direções e velocidades. Não é diferente de um estúdio de Hollywood, só que muito maior. Algo parecido com aquele cenário do filme O Show de Truman. Tudo o que você vê no teto, em cima de nós, como as estrelas, os planetas, o Sol e a Lua, são apenas imagens no céu.

Ao questionar a ciência, não teme incentivar as pessoas a duvidar de coisas Importantes como a eficiência das vacinas? Essa pergunta é uma pegadinha. Sim, vacinas são importantes, mas as empresas que fazem as vacinas ganham muito dinheiro.

EU ACHO …

RACISMO À BRASILEIRA

Menos explícita, não menos perversa, a discriminação no país exibe a secular força dos senhores

O assassinato de George Floyd em Minneapolis serviu de gatilho para um a série de protestos em cidades dos EUA. Anos atrás, a morte do jovem negro Michael Brown, de apenas 18 anos, atingido em plena luz do dia por seis tiros disparados por um policial branco da cidade de Ferguson, no estado do Missouri, também tomou o país, transformando-o em um grande palco da luta racial.

Os protestos, na oportunidade, foram similares aos que acontecem agora, tendo início no local em que ocorreu a violência policial e ampliando-se para outras dezenas de cidades e estados dos Estados Unidos, causando grande repercussão internacional. Enquanto isso, no Brasil, um conjunto de outros casos semelhantes, como o do garoto João Pedro, de 14 anos, baleado no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro, não cria tamanha revolta popular, restringindo manifestações a grupos de ativistas e mantendo silenciosa a maioria absoluta da sociedade.

O que leva essas manifestações a acontecerem com tanta potência por lá e não alcançarem aqui a mesma comoção? Em princípio, é preciso pontuar as diferenças sociais entre os dois países, principalmente a forma de manifestação do racismo nas duas sociedades e a construção histórica desses formatos de discriminação.

Nos Estados Unidos, as violências raciais apresentam-se de formas muito mais diretas e contundentes – embora lá haja mais “permissões” do racismo sistêmico para que negros alcancem maiores níveis econômicos, marcadamente na música ou no esporte. Aqui, apesar de não ser menos violento o racismo, ele se apresenta de formas engenhosas, menos explícitas, adotando feições que o fazem ser escamoteado.

No geral, nas metrópoles brasileiras, o racismo dificilmente será manifestado com xingamentos violentos, como pode ocorrer em Nova York. Contudo, excluirá negros e negras da educação, do direito à saúde, à moradia, às terras e a uma série de instrumentos de bem-estar social. Fará com que sofram restrições, estejam em posições subalternizadas e os destinará à pobreza. Percurso inverso dos brancos brasileiros.

A abolição formal e inacabada do escravismo no Brasil fincou-se no abandono socioeconômico da população negra “liberta”. Parlamentares abolicionistas, entre eles o engenheiro negro André Rebouças, pautaram à época que, juntamente com a proibição do trabalho escravo, ocorresse reforma agrária em reparação à população negra, o que, como sabemos, não ocorreu até hoje, 132 anos após o “fim” da escravatura. A ausência de terra enquanto sinônimo de riqueza monetizada, apartou a população negra dos benefícios econômicos gerados pelo próprio trabalho.

Essa negação à ascensão econômica e social, que inclui todos os direitos aviltados dessa população, mitiga a capacidade do negro brasileiro em ecoar e comunicar o “racismo à brasileira”. Essa menor reverberação do racismo ocorrido no Brasil sinaliza que o capital branco-burguês opera de forma potente e perversa para silenciar os crimes por ele cometido – muito embora as estatísticas indiquem diferenças inversas em relação à dicotomia racista brasileira e estadunidense.

Os autores Frank Edwards, Hedwig Lee e Michael Esposito demonstram que a possibilidade de um homem negro ser atingido pela polícia, nos Estado Unidos, é 2,5 vezes maior daquela de um homem branco. No Brasil, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública informam que esse risco é cinco vezes maior. Esses números demonstram a importância de assinalar que o racismo é um conceito atrelado a uma relação de poder. Cria cenários sociais de constrangimentos e vulnerabilidades para os negros e de poder e segurança para os brancos. Ao passo que vivemos um processo de sistemática Negação do racismo, considerando que, por aqui, convencionou-se tratar as desigualdades raciais como uma questão social, estratégia que dá conta de ilustrar a fina sofisticação do racismo no Brasil. A disseminada ideia do racismo cordial e da miscigenação das raças dilacera a perspectiva identitária racial no País.

Do outro lado dessa dicotomia, nos Estados Unidos, devemos lembrar que, logo após a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, as tropas federais estacionaram nos estados do Sul para que a aristocracia branca não voltasse a escravizar os negros, até que se oficializasse a decisão de implantar o sistema de Apartheid, momento que fundou parte da identidade e da ideia de unidade nacional estadunidense, pois a oficialização da segregação racial permitiu unificar os brancos do Norte e do Sul.

Na sequência, em 1896, no caso Plessy vs. Ferguson, a Suprema Corte tomou uma decisão que originou a doutrina jurídica da lei constitucional dos Estados Unidos, denominada “Separados, mas “iguais”, que permitiu a segregação racial naquele país, desde que não se configurasse violação da 14ª Emenda, que garantia proteção e direitos civis iguais a todos os seus cidadãos.

No Brasil, os adventos da República e do “fim” da escravidão foram marcados por uma elite nacional usando de desfaçatez e ocultamento para tratar a questão dos libertos, manipulando a construção de conceitos de brasilidade, cordialidade e miscigenação, que ocultavam princípios de eugenia ancorados no que se viu elaborado, depois, como racismo científico. Tudo isso foi estratégia para mudar o regime de escravatura, mantendo a opressão sobre corpos negros. Além disso, o citado pós-abolicionismo sem garantias de direitos criou um abismo entre a população negra e a igualdade, que a democracia deveria garantir como básico.

A herança escravocrata vem se perpetuando pela história, sem reestruturação ou reparação. A fragilidade de nossas instituições tem raiz no período colonial, quando eram fortes apenas na metrópole. Nossa história foi sempre contada a partir das referências europeias. O Brasil nunca existiu enquanto nação. Somos apenas um esboço não terminado. A população negra, nesse contexto, é a base de exploração do capitalismo. Nossos corpos valem tanto quanto uma peça de máquina de fábrica. Se quebrar, o patrão repõe por outra, sem se importar em descartar a usada.

Por fim, o racismo em países do capitalismo periférico tem ainda mais força justamente pela forma cheia de desfaçatez que se apresenta. E aqui “a vida valerá sempre menos”. Logo, a morte de um brasileiro constitui-se como um “crime perfeito” e valerá sempre menos que a de um norte-americano ou europeu, mesmo que ele seja preto. Somos periferia, enquanto projeto de nação.

MARCOS REZENDE – é historiador, mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA e coordenador do Coletivo de Entidades Negras (CEN)

OUTROS OLHARES

FALÊNCIA DAS ESCOLAS

A redução nas receitas vira um desafio para as escolas públicas e privadas. Alunos e pais também são prejudicados com menos conteúdo e mensalidades que não diminuíram

O impacto da Covid-19 nas finanças de escolas privadas e públicas revela a fragilidade do sistema de ensino brasileiro, mostram diferentes pesquisas. Estudo da ONG Todos pela Educação e do Instituto Unibanco sobre despesas e receitas em 22 redes de educação estaduais — compreendendo 95% das unidades do País — revela perda estimada em até R$ 28 bilhões neste ano. O montante vai depender do resultado da arrecadação de tributos vinculados à manutenção e ao desenvolvimento da Educação, basicamente ICMS e ISS, além de fundos municipais e estaduais. Além disso, os gastos adicionais com adaptação das unidades ao ensino à distância já somam quase R$ 2 bilhões.

Outro estudo, feito pela startup de análise de dados Explora, mostra que 50% das famílias com filhos matriculados em instituições privadas de pequeno e médio porte não serão capazes de manter seus filhos na escola se a situação atual de pandemia permanecer. “Metade das crianças matriculadas deixarão de estudar em escolas privadas e buscarão uma vaga no ensino público”, avalia Tadeu da Ponte, professor do Insper e criador da Explora. “A escola pública não tem como absorver os novos alunos. Já seria uma situação incompatível mesmo sem a perda na arrecadação”, alerta. Alguns pais se queixam que precisam manter as despesas altas com educação mesmo que as aulas dos filhos tenham se tornado virtuais e com carga horária reduzida. Os alunos também vivem um momento de incerteza, já que precisam se adaptar e não sabem como se concluirá o ciclo escolar. E as escolas também vivem um desafio. Entre as 482 escolas privadas de pequeno e médio porte pesquisadas pela Explora, em 83 cidades do País, a receita média caiu 52% com a pandemia. “Estamos usando recursos próprios para sobreviver e mantendo uma relação aberta e clara com as famílias, negociando tudo que é possível”, disse Renata Leone, dona e diretora da Criar-Te, berçário e escola de educação infantil. Há 28 anos na capital paulista, a instituição perdeu apenas três alunos, mas luta contra as despesas que não diminuíram. “Famílias e escolas não são inimigas, ambas somos vítimas dessa situação”, avalia Renata.

SEM DIÁLOGO

No Rio, a ADM Máster, escola tradicional do Méier, já pediu empréstimo ao BNDES para honrar a folha de pagamento dos professores e funcionários. “Estamos todos com problemas, então seria um tiro no pé dizer ‘não’ aos pais que buscam descontos nas mensalidades”, disse a diretora pedagógica Adriana Leite Silveira. “Passamos 24 horas por dia renegociando.” Um consultor do setor imobiliário, que pediu para não ser identificado, entrou na Justiça contra a escola do filho, uma instituição tradicional em São Paulo. “Como perdi renda, solicitei um desconto, mas eles se recusam a conversar. Falta bom senso. Uma coisa é não querer pagar, outra é não poder pagar.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE JUNHO

O FULGOR DA NOVA JERUSALÉM

… Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro (Apocalipse 21.9b).

O apóstolo João foi chamado para ver a Noiva do Cordeiro, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém. A figura da noiva e da cidade se inter-relacionam. Essa cidade gloriosa tem características singulares. Primeiro, é bonita por fora, pois a glória de Deus esparge sua luz sobre ela. Segundo, é bonita por dentro, pois no seu fundamento há doze tipos de pedras preciosas. Terceiro, é edificada sobre o fundamento dos apóstolos, ou seja, sua estrutura repousa sobre a verdade de Deus. Quarto, sua praça é de ouro puro, como de cristal transparente, ou seja, nela não há nada poluído. Quinto, é uma cidade aberta a todos, pois há portas desobstruídas para o norte e para o sul, para o leste e para o oeste. Na cidade santa entrarão aqueles que procedem de toda a tribo, povo, língua e nação. Sexto, não é uma cidade aberta a tudo, pois nela não entrará nada contaminado. Os pecadores remidos pelo sangue do Cordeiro entrarão por suas portas, mas o pecado não terá acesso a ela. Mui frequentemente, as igrejas de hoje são abertas a tudo, mas não a todos. Franqueiam suas portas ao pecado e fecham-nas aos pecadores. Sétimo, é suficientemente espaçosa para abrigar todos os que creem. As dimensões dessa cidade são únicas. Ela mede 2.400 km tanto de comprimento, quanto de largura e de altura. Mesmo sendo essas medidas tomadas de forma simbólica, descrevem que na Casa do Pai há muitas moradas, suficientes para abrigar todos aqueles que creram em Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER DA LINGUAGEM

Não há dúvida nenhuma quanto à importância do processo comunicativo dentro das instituições. uma falha nesse processo pode gerar sérias consequências

Um ambiente que deveria ser totalmente à prova de erros na comunicação é o da saúde. Quando um profissional de saúde comete um erro de entendimento de alguma comunicação sobre procedimentos com os usuários, o resultado final pode ser fatal.

Clarificar a comunicação é a regra geral e deve ocorrer de duas formas:

1) DA PARTE DO RECEPTOR DA MENSAGEM: o que não foi entendido deve ser perguntado ao interlocutor;

2) DA PARTE DO EMISSOR DA MENSAGEM: se não tem certeza de que o outro entendeu, peça para ele repetir o que foi dito. Simples e fácil. O grande dilema é que as pessoas que não são habituadas à clarificação temem serem taxadas de burras ou incompetentes pelos seus companheiros de equipe. Para diminuir essa rejeição comportamental e ampliar a adesão aos protocolos de uma comunicação segura, é necessário um bom investimento em treinamentos com dinâmicas de impacto.

Alguns setores levam esses procedimentos bem a sério e, mesmo assim, falhas ocorrem. Os controladores de voo, por exemplo, possuem verdadeira obsessão por uma comunicação bem estruturada. Afinal, pior ainda que no ambiente da saúde, falhas desses profissionais podem resultar em catástrofes monumentais com centenas de vítimas fatais.

Nos diversos perfis de atendimento ao cliente, uma regra também é geral: todos querem ser bem atendidos em qualquer que seja o ramo de atuação ou tipo de relacionamento. Assim, usar de estratégias na condução das palavras faz toda diferença nas trocas que ocorrem entre as partes envolvidas no processo. Saber conduzir o outro com uma boa estrutura frasal é algo exigido de todo e qualquer elemento que deseje alcançar sucesso em sua atividade.

O dr. Milton Erickson, atuante na década de 1970, pai da hipnose ericksoniana, traz esse processo comunicacional a um nível capaz de moldar uma sessão psicoterápica tornando-a única para cada paciente. Na modernidade, várias personalidades elaboraram influentes textos sobre esse mecanismo fantástico que, quando incluído no cabedal linguístico, pode transformar as fortes emoções reinantes em conflitos numa tranquila conversa entre duas pessoas.

Steve Allen, autor de vários livros sobre persuasão, explora esse tema em seu livro Persuasão e Influência. A forma como o emissor estrutura o conteúdo, como conduz as palavras positivamente, pode auxiliar de maneira significativa a interpretação do receptor, tocando-o em nível subliminar e causando grande empatia. Muitas vezes conduzindo a pessoa a efetuar uma ação, indicada pelo emissor, sem que o mesmo se dê conta disso. A condução ao resultado esperado, de forma estrategicamente feita, não é um truque ou ato ilegal, trata-se de uma comunicação de excelência que sintetiza a real intenção da organização. Ninguém fará nada ou adotará posicionamentos contra sua vontade, mas, com uma conversação plena de conteúdos significativos para o receptor, o resultado sempre é melhor para os envolvidos.

Não são palavras mágicas ou encantamentos, apenas uma forma quase artística de colocar a argumentação em um tom mais aceitável para o outro em meio aos conflitos que podem existir quando ocorrem posicionamentos antagônicos. Vejamos alguns exemplos:

1- COMEÇAR A FRASE QUE SOLICITA UMA AÇÃO COM: “O senhor poderia…?”. Um pedido que, na verdade, indica o que deve ser feito. No entanto, a frase em tom respeitoso ainda deixa uma breve possibilidade para a negação, o que dá certa liberdade ao receptor.

2- CASO SEJA UMA NEGAÇÃO A UMA POSSÍVEL AÇÃO FUTURA DO OUTRO: “O senhor não deveria…”; “Não é necessário que…”. Sem impedir diretamente a possível ação futura do outro, esse início de argumentação não causa um conflito direto. O emissor deve sempre apresentar uma outra possibilidade alternativa para a possível atitude que o receptor deseja adotar.

3- CRIAR PROSPECÇÃO DE UM CENÁRIO POSSÍVEL: “Como seria se..?.”. Provocar a criação de um cenário imaginado com uma solução à demanda apresentada traz alívio imediato ao conflito em curso. Mesmo se essa solução ainda não for possível, trazer o outro a um nível mais confortável ajuda na elaboração de soluções reais e plausíveis.

4- DEVOLUÇÃO DA PERGUNTA EM NOVO TOM: “De que forma acha que deve ser feito…?”. Coloque a construção da solução para o conflito na responsabilidade do outro. Assim, por pior que possa se apresentar a finalização solicitada por ele, você ganha tempo para pensar ou, se for o caso, adequar a proposta apresentada por ele para uma realidade possível.

As empresas que investem nesse singular perfil de treinamento com seus atendentes possuem   uma forte aderência de seus usuários. Uma vez adquirida a capacidade de usar as palavras certas, direcionando o interlocutor para uma solução confiável, mesmo que em tempo incerto, elas   ganham respeito e confiança. Sempre colocando a ética em primeiro plano e respeitando as legislações vigentes – Código do Consumidor – qualquer perfil de empreendimento só tem a ganhar com uma comunicação estruturada.

JOÃO OLIVEIRA – é Doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM ALERTA SOBRE O ESTRESSE

Com o ritmo imposto pela vida moderna cada vez mais as pressões psicológicas geram desequilíbrio emocional e oferecem risco de doenças físicas que acabam afetando a saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está alertando há algum tempo sobre como o estresse dos tempos modernos tem alterado o bem-estar geral da população. Em dados atuais, a doença depressiva passou da quarta para a segunda posição entre os problemas que retiraram a capacidade de trabalho das pessoas no ano de 2016. Antes, ela vinha atrás das doenças cardíacas, câncer e acidentes. Contudo, a previsão é que seja a primeira da fila em 2030.

A depressão tem sido, assim, um grande fator que contribui para uma vida sem qualidade, de aumento de doenças autoimunes, bem como para o câncer. Infelizmente, é uma realidade dura.

O fato é que as pessoas lutam cada dia mais para ganhar seu dinheiro e sustentarem suas casas. Afinal, as mudanças no mundo têm gerado mais e mais insegurança financeira e, com ela, têm arrastado a população a um verdadeiro colapso de tanto trabalhar, estudar, cuidar de filhos e se desdobrar para ter sucesso nessa vida maluca e atribulada.

Foi-se o tempo em que as pessoas iam para casa almoçar e descansavam após o almoço, tirando uma soneca gostosa. O expediente terminava pontualmente às seis da tarde. Hoje, o que se vê? Uma correria desenfreada atrás de mais habilidades, mais trabalho, mais dinheiro e tantas outras coisas.

Já não se sabe por que se trabalha: porque é preciso pagar contas e ter o que comer? Ou porque o consumismo provoca o acúmulo de contas que faz com que se trabalhe mais? Essa pressão acaba gerando um desequilíbrio emocional muito grande. Um corpo sob pressão, sob estresse emocional, gera a produção de neurorreguladores prejudiciais: a noradrenalina e o cortisol. Sendo liberados em quantidades muito maiores do que deveriam, essas substâncias desencadeiam desgaste físico e pioram o estado emocional. Assim, cria-se uma bola de neve.

Vale a pena repetir: quanto mais as pessoas se esforçam e desenvolvem atividades além do possível, mais elas vão produzir noradrenalina, que diz ao cérebro e ao corpo que se está em perigo. O corpo, então, aumenta a produção do cortisol e aí começa o desgaste físico maior. As doenças aparecem, a imunidade diminui.

No cérebro, o aviso dado pela noradrenalina provoca mais estresse nas pessoas, desequilibrando a liberação dos outros neurotransmissores, o que deixa os indivíduos ainda mais nervosos, deprimidos ou tensos. Uns terão compulsão alimentar, ou vícios em drogas; outros ficarão mais irritados com os seus familiares ou no trabalho. A bagunça geral se instala.

Como alguém pode gerar uma vida equilibrada vivendo assim? Como alguém pode ganhar seu dia e seu dinheiro estando esgotado, tenso e perdendo a alegria de viver? O que fazer?

Aprender que o menos faz mais! Sim, essa é uma verdade. Uma cabeça descansada consegue aprender melhor, ter mais criatividade e até render mais no trabalho. Muitos estudos nessas áreas vêm sendo feitos pelos pesquisadores da Psicologia Positiva.

O mais interessante que descobriram é que aquele tempo que se gasta com uma distração ou interrupção desnecessária toma, em média, de cinco a sete minutos para se recuperar o tempo perdido e se engajar no mesmo ritmo anterior. Isso vale para o tempo gasto em navegar pela internet, ver e-mails toda hora, responder WhatsApp o tempo todo, olhar coisas no Instagram ou mesmo telefone, conversas fora de hora. Que horror, não é mesmo?

Será que a maioria das pessoas já pensou nisso? Quanto tempo se perde num dia por ficar olhando mídias sociais ou e-mails no celular ou no computador a toda hora? É muito! Com isso, perdem-se horas de lazer, de brincar com o filho, de ir ao cinema ou de bater um papo ao vivo, em tempo real, com um amigo. Essas são coisas que verdadeiramente agem em benefício da saúde física e mental.

LONGEVIDADE

Psicologia Positiva estudou as pessoas mais felizes e otimistas e viu que elas são, em média, oito anos mais longevas. Que têm relacionamentos mais duradouros, que são mais criativas e fazem mais sucesso em seu trabalho.

Nesse momento, cabe a pergunta: será que as pessoas não querem ter mais saúde, ser mais longevas, ter bons relacionamentos e fazer muito mais sucesso? A grande pegada está em fazer o que as pessoas mais felizes e positivas fazem. São premissas tão simples. Mas, geralmente, alguns as tomam como coisas tão triviais que não prestam atenção no quanto são importantes.

Um dos principais exemplos disso é ser grato. A gratidão tem sido um tema insistentemente incentivado na mídia e na autoajuda nos últimos tempos. Faz todo sentido, porque é uma verdade. As pessoas mais agradecidas têm a capacidade de focar no que funciona, no que é melhor, no belo.

Aqui vão duas dicas importantes. A primeira é seja grato por tudo o que acontecer em sua vida, mesmo que sejam obstáculos, sofrimentos e perdas. No sofrimento, a vida nos ensina a valorizar as mínimas coisas. Assim, após passar por situações dolorosas, as pessoas que são mais positivas saem mais fortalecidas e agradecem o fato de terem que lutar para ver exatamente o que havia de bom em suas vidas. Descobrem que são apreciadores das pequenas coisas, das maravilhas que o universo oferece.

A segunda dica é: fazer um diário de gratidão. Quando a pessoa começar a colocar no papel, todos os dias, algumas coisas boas que aconteceram naquele dia, certamente passará a olhar mais para os pontos positivos que rodeiam seu dia. A ideia é focar no que funciona e apreciar o belo nas pequenas coisas. Ficar mais generoso, mais feliz, mais calmo. Então, a ordem é se animar. Começar a ampliar o positivo que está em volta. Ver nos detalhes quantas coisas boas acontecem diariamente.

Outro fator importante é o exercício físico. Certamente, todos já tomaram contato com a informação de que quem faz exercício físico, além de ter mais longevidade e melhor saúde, torna-se uma pessoa mais alegre e mais calma. Além disso, exercitar-se previne demências, AVC, ataques cardíacos, osteoporose e doenças crônicas autoimunes. Então, não há desculpa para não se animar.

Em troca de todos esses ganhos, a pessoa só precisa se levantar do sofá e sair fazendo. E, claro, agradecer por ter saúde ainda para fazer isso, pois pode perdê-la em breve. Ao fazer o exercício físico, o indivíduo abre mais arteríolas por todo seu organismo. Com isso, melhora a irrigação de todos os tecidos.

É imprescindível pensar nisso. É um bom negócio: garantir a saúde por poucas horas de treinamento. Se não der conta, a pessoa deve apenas aprender a sair andando por aí, que sejam 20 minutos a pé, observando o bairro, observando a vida.

Rituais também são importantes. Se a pessoa quiser mesmo ter uma vida mais saudável, precisa se habituar com uma vida com regras. Comer bem e saudavelmente, ter hora para se exercitar ou caminhar. Nada como criar pequenos rituais. Aos poucos, o indivíduo se acostuma com eles e vai ganhando autonomia.

Adotando rituais, todos conseguem fazer o tempo render em muitas atividades saudáveis que passam a fazer parte do dia naturalmente. A dica aqui é começar devagar, um novo ritual por mês.

Que tal começar dormindo meia hora mais cedo? Ou comendo de três em três horas? E, depois, que tal colocar um exercício bem tranquilo duas a três vezes na semana? Tudo aos poucos.

Dormir mais cedo é muito simples de fazer. A pessoa deve tentar dormir meia hora antes por mês. Infelizmente, a cada dia, dorme-se mais tarde para ler um e-mail, ou para ver seu grupo numa rede social, ou para fazer mais um trabalho e ganhar um dinheiro extra. Será que vale a pena? O ser humano produz serotonina, importante neurorregulador cerebral, apenas durante o sono da noite, no escuro. Quem deixa para dormir de madrugada poderá se deprimir em breve, pois não vai fabricar a quantidade de serotonina necessária. Depressão, nervosismo, irritabilidade são consequências de noites mal dormidas. Depois virão consequências maiores, como doenças graves e crônicas.

Mais uma dica é trabalhar menos e produzir mais de forma bem focada, utilizando a regra 80/20: utilizar 20% do seu tempo, em sua hora mais produtiva do dia, para fazer 80% do seu trabalho. Ou seja: o seu melhor, na sua melhor hora, em menos tempo. Essa é famosa regra Pareto, derivada do estudo de que apenas 20% da população estudada concentravam 80% das riquezas.

Aplica-se essa regra, 80/20, por exemplo, à produtividade no trabalho. Muitas empresas vêm adotando um sistema em que seus funcionários podem escolher seu melhor horário de desempenho para ir trabalhar. Outras liberam os funcionários para que trabalhem em casa em seu melhor horário. E muitas já estão mandando seus funcionários trabalharem apenas em casa, de forma “remota”, pois ficam mais criativos e rendem muito mais. Estando felizes, criam melhor. Dividem melhor seu tempo, trabalham mais focados.

Aqui se encontra um ótimo remédio para males da mente e do corpo. A cada dia, mais pessoas se tornam adeptas da meditação e da yoga como práticas saudáveis que conduzem ao equilíbrio da razão e da emoção. Simples de entender! Pesquisas feitas com monges budistas que meditam diariamente e pessoas que fazem yoga mostraram que eles têm maior atividade cerebral no lobo pré-frontal esquerdo, área da razão e da calma, enquanto aquelas pessoas mais ansiosas ou deprimidas têm seu lado direito pré-frontal mais ativado.

PRÁTICAS QUE AJUDAM

Após um experimento fazendo meditações com pessoas depressivas ou ansiosas, viu-se que elas tiverem diminuída a atividade do lado direito (emocional) e aumentada a atividade do lobo pré-frontal esquerdo que comanda a razão e o equilíbrio emocional. Espero que todos queiram meditar a partir de agora. E, caso a pessoa seja do tipo que diz que não consegue meditar sozinha, é aconselhável procurar uma aula de yoga.

Seja qual for o jeito do indivíduo, é fundamental que ele medite. Buscar formas de meditar todos os dias. Pode começar aos poucos, cinco a dez minutos por dia. Há tantas maneiras de meditar. Não é preciso ficar em posição de yoga, com pernas cruzadas. Pode fazer apreciando a natureza, respirando fundo, deitado, assentado, vendo uma bela vista ou somente fechando olhos. Não é preciso repetir mantras que muitos acham monótonos. Apenas deve respirar, parar e apreciar o momento presente. Ficar parado, deixando a respiração levar a pessoa, observar cada detalhe e se deixar ficar.

Agora, vale lembrar sobre os questionamentos sobre o significado de vida. Se há um fator desencadeante de estresse e desequilíbrio mental é obrigar alguém a fazer aquilo de que não gosta ou para o qual não tem aptidão. É preciso descobrir o que se gosta de fazer, o que se tem a habilidade maior, o talento. Unindo essas duas forças – o que se faz bem-feito com o que se gosta de fazer – uma pessoa pode trabalhar por horas sem perceber, se deixando levar junto com o que faz, totalmente engajada. Isso se chama fluir.

Por isso, dar um propósito à vida seria trabalhar de forma a se sentir uno com o que faz. A pessoa se sente feliz e trabalha melhor. Traz alegria, criatividade e bem-estar. Então, o que é mesmo que faz alguém mais saudável? Ter paz, ter alegrias. O trabalho tem seus obstáculos e dificuldades. Mas se o indivíduo trabalhar com um significado de vida, se trabalhar com prazer usando o respectivo talento, terá mais chances de ter uma vida mais equilibrada e de lidar melhor com o estresse.

Depois disso, uma vez que a pessoa já tem um sentido para viver, precisa estabelecer metas que possam ser atingidas. Muitas pessoas se estressam porque querem dar conta de muito mais do que podem. Ou impõem para si metas inatingíveis. Por isso, sofrem e muito. O ideal é pensar na possibilidade de alcançar o sonho, atingindo pequenas metas e construindo o desejo aos poucos.

Um sonho pode ser realizado se for bem dimensionado e dividido em metas realizáveis. Isso retira da pessoa muito estresse e desequilíbrio. E, ainda, deve-se permitir fazer aos poucos. Melhor é estar feito do que muito bem feito! Começa aqui uma nova meta, fazer o que se dá conta. Nada de querer que tudo seja perfeito, isso só traz mais estresse e procrastinação, quando não mais frustração.

Outra dica relevante é a permissão para ser humano. É fundamental permitir-se ser humano e até mesmo fracassar algumas vezes. Isso é normal. Permitir-se sentir tudo, até raiva, tristeza e medo. Todos são seres humanos, sofrem também. Mas não é para cultivar sentimentos negativos! Simplesmente deve-se parar e observar. Se ficar só pensando no negativo, a pessoa está alimentando raiva, tristeza e medo. O importante é apenas sentir e deixe ir.

Relembrando, é preciso aprender a meditar, se limpando dos sentimentos com os quais não pode lidar agora. Raiva faz muito mal. Aumenta a produção de cortisol, que leva muitas horas para se desfazer. Cortisol ativado diminui a imunidade e acarreta mais doenças físicas.

Todos já devem ter ouvido falar que falhar faz parte de ser humano e faz parte do aprendizado da vida. Quem nunca errou, mas depois acertou, exatamente porque houve um erro e com ele aprendeu muito? Então, é preciso observar de perto os respectivos erros e analisar o que aprendeu com eles.

Fazer é o verbo da saúde e da alegria. Quem quiser ficar mais alegre deve fazer. Fazer tudo o que estiver programado. Esforçar-se para colocar a vida em dia. “Fazer” é o verbo que coloca a pessoa em ação. E quando, então, se começa a colocar a vida em dia, a tendência é ficar mais alegre e cheio de energia. A criatividade aumenta. Dessa forma, a pessoa observa que dá conta e cria mais energia a cada passo dado na direção do fazer. Um sonho realizado foi algo realmente feito.

PAUSA

Chega o momento em que a saúde pede pausa e alegria. Pois é!

Assim, depois do dever cumprido, todos precisam da pausa, do descanso, do brincar. Por isso é necessário gastar tempo em família e com as pessoas de quem se gosta. Rir juntos, viajar juntos, ter almoços de família, de amigos. Tudo isso faz parte de uma vida saudável.

Mas o que tem acontecido hoje em dia? Pais não têm tempo, pois trabalham até sábado e domingo ou até muito tarde. Quando chega o fim de semana, estão exaustos e se deitam no sofá. Triste! É preciso prestar atenção e ver se todos estão mesmo tendo tempo de descansar.

Pois bem. A conclusão é que é imprescindível ter uma vida mais equilibrada e saudável, pautada em fazer as coisas mais simples por mais tempo na vida. É preciso parar, pensar e se autoquestionar: Está muito cansado? Está dormindo mal? Está nervoso com as pessoas que mais ama? Cuidado! É fundamental dar-se tempo, diminuir a quantidade de horas de trabalho, divertir-se mais, fazer exercícios físicos e permitir-se realmente viver, não apenas sobreviver.