EU ACHO …

O MITO DA COBIÇA NA AMAZÔNIA

Essa visão pertence aos tempos imperiais, que já passaram

Muitos ainda acreditam que a Amazônia é cobiçada por grandes potências. Trata-se, na verdade, de mito do qual se tem ocupado o presidente Jair Bolsonaro, enquanto os exportadores brasileiros são prejudicados pela péssima imagem da política ambiental do governo.

O mito alcançara o auge no início dos anos 1970, quando o matemático e futurólogo americano Herman Kahn propôs construir um gigantesco lago na bacia amazônica. Ele dizia que isso facilitaria o sistema de transporte e desenvolveria o comércio com outros países, mas imaginou-se que seu objetivo era internacionalizar a região.

Tal cobiça poderia até ter existido muitos séculos atrás, nos tempos imperiais do hard power (poder armado). Nesse período, o progresso era associado à capacidade de mobilizar recursos humanos e materiais para invadir, ocupar e explorar outros territórios. O Egito, feito colônia pela Roma antiga, passou a assegurar o seu suprimento de trigo.

Na era colonialista – do século XVI aos anos 1960 -, potências europeias e o Japão buscaram tanto a expansão territorial quanto criar mercados para suas manufaturas. Impuseram seus regimes legais com vistas a garantir segurança jurídica para as atividades de suas empresas em terras estrangeiras. Adolf Hitler, o último líder a guiar-se por essa estratégia, reivindicava um “espaço vital” para a Alemanha.

No século XX, mostrou-se que a produtividade – não a conquista – era a fonte da prosperidade. Segundo o historiador escocês Niall Ferguson, as colônias pouco contribuíram para o Império Britânico. A descolonização, iniciada no pós-guerra, se intensificou com o comitê criado pelas Nações Unidas (1962). A anexação recente da Crimeia pela Rússia (2014) – que antes lhe pertencera – não visou à expansão geopolítica.

Hoje, com as mudanças globais e a obsolescência do hard power como instrumento de dominação, surgiu o soft power (poder brando), conceito desenvolvido pelo cientista político americano Joseph Nye. Em vez de força, recorre-se a ações para influenciar indiretamente comportamentos ou interesses por meios culturais ou ideológicos.

Para o cientista político Sérgio Abranches, os recursos de poder mais importantes passaram a ser ciência, tecnologia, conhecimento, influência cultural e habilidade diplomática. O soft power, diz, é uma forma mais sutil de poder baseada na reputação construída mediante ascendência intelectual em um mundo globalizado.

As invasões como instrumento de poder e dominação ficaram para trás. Guerras de que atualmente participam grandes potências visam a derrubar ditadores que apoiam grupos terroristas capazes de ameaçar sua segurança interna – caso das guerras do Iraque, do Afeganistão e da Síria – ou por razões humanitárias, como ocorreu no conflito dos Bálcãs. Se houver cobiça sobre a Amazônia, estará presente em grupos que agem à margem da lei: madeireiros, grileiros e garimpeiros. O governo precisa atualizar-se.

*** MAILSON DA NÓBREGA

OUTROS OLHARES

UMA PROVA DE FOGO

Parte das universidades decidiu adotar o vestibular eletrônico, mas risco de fraudes preocupa os candidatos que enfrentarão o processo seletivo

Se em 2021 as universidades brasileiras terão um ano normal, é uma pergunta ainda a ser respondida. O certo é que elas não podem – ou pelo menos não deveriam – cancelar seus processos seletivos, pois o ano letivo não vai simplesmente desaparecer do calendário e, havendo consenso, as aulas serão retomadas em todo o pais, seja na forma presencial, seja a distância ou no modelo misto. Até chegar a esse ponto, entretanto, instituições públicas e privadas precisam decidir como avaliar os estudantes que pretendem ingressar no ensino superior. O vestibular eletrônico (ou e-vestibular) poderá ser, para muitos, a única opção.

Como aglomerar é desaconselhável, algumas faculdades optaram por realizar provas no modo on-line, de forma que cada vestibulando possa fazê-las sem sair de casa. A Escola Superior de Propaganda e Marketing, por exemplo, exigirá do candidato apenas uma entrevista virtual, seguida de redação. Nesse caso, a ESPM acredita ser melhor condensar todo o processo. Outras instituições, porém, não quiseram abrir mão de questões objetivas e até mesmo dissertativas.

Diante de tal cenário, a grande questão que se coloca é como manter a lisura em uma prova a distância. É possível garantir que o indivíduo não lançará mão do Google para responder às questões? Pensando nisso, algumas faculdades investiram na tecnologia para assegurar um exame justo. Devem seguir com o e-vestibular, entre outras, a Universidade Positivo, a Fundação Getúlio Vargas, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Unifacs da Bahia. Segundo o diretor da Associação Brasileira de Educação, Pedro Flexa Ribeiro, a prática de atividades on-line vai se delineando como tendência universal. Na realidade brasileira, o maior desafio é a equidade das condições de acesso”, afirma ele.

Nem todos pensam dessa forma, incluindo aqueles que fazem a prova. Nicoli Boaretto, paulista de 18 anos, fez a prova virtual para a faculdade de direito da Fundação Getúlio Vargas. Ela aguarda o resultado e diz preferir o modelo presencial: “Acho que evita que um concorrente tenha vantagem sobre o outro em relação ao computador, à estabilidade de conexão ou ao ambiente da prova”. Entretanto, Nicoli faz questão de destacar que, no seu caso específico, a instituição explicou bem o funcionamento do vestibular, cumpriu o que prometeu e ofereceu plataforma de qualidade.

De forma geral, o e-vestibular é simples de ser descrito: a faculdade cria um browser próprio, capaz de impedir que sejam abertas outras abas para a consulta de sites durante a prova. Além disso, a imagem do candidato é monitorada , como forma de assegurar que ele não acesse outros dispositivos e que esteja ele mesmo, sem ajuda alheia, respondendo às perguntas. Para participar, o estudante precisa de um computador com webcam.

Na tentativa de garantir mais transparência ao processo, algumas universidades implementarão mecanismos adicionais. A PUC do Paraná conta com um software que grava não apenas as imagens, mas também os sons emitidos ao redor do candidato. Ele tem como detectar vozes e olhares desviados da tela do computador. “O algoritmo marcará os casos suspeitos e essas gravações serão revistas pelos fiscais”, explica Vidal Martins, vice-reitor da universidade paranaense. Martins afirma ainda que as gravações serão apagadas eventualmente, mas não especifica data.

O e-vestibular, evidentemente, não é unanimidade. O risco de fraude fez com que o Ministério Público Federal entrasse com pedido para anular o processo seletivo da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. O exame, constituído de etapa única de redação, seria passível de falsificação, e a Justiça, por esse motivo, acolheu o pedido. Fraudes, entretanto, não constituem a única preocupação. Paira ainda a dúvida de como tratar de forma justa o candidato que perder a prova por falha na conexão, algo corriqueiro em um país com deficiências de infraestrutura tecnológica como o Brasil.

Apesar das eventuais desvantagens, os benefícios existem. Aqueles que residem fora do município onde fariam a prova presencial teriam a vida facilitada. Além disso, há sempre os ganhos residuais para a universidade, como a redução de custos operacionais, incluindo logística, segurança e até mesmo consumo de papel. Aos candidatos que não aprovam a ideia, restará se conformar com o novo formato, se for a única opção para entrar na faculdade desejada. Ao vivo ou pelo computador, o vestibular continuará a ser uma prova de fogo para milhões de brasileiros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE NOVEMBRO

CONTINUIDADE E DESCONTINUIDADE

E, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser… (1Coríntios 15.37a).

O apóstolo Paulo diz que na ressurreição haverá continuidade e descontinuidade. Continuidade porque a pessoa que morre é a mesma que ressuscitará; descontinuidade porque o corpo que será semeado no túmulo não é o mesmo ressuscitado. Paulo acrescenta que o corpo é semeado na corrupção e ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita-se em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita-se em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita-se corpo espiritual. O corpo da ressurreição será belo, perfeito e poderoso, semelhante ao corpo da glória de Cristo. O profeta Daniel diz que os que forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça serão como as estrelas, sempre e eternamente. O corpo é pó e ao pó voltará. Voltará ao pó como uma semente. O que semeia não nasce se primeiro não morrer. E, quando se semeia, não se semeia o corpo que há de ser. Quando Jesus voltar em sua majestade e glória, os mortos ressuscitarão: uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo.  Naquele grande dia, o corpo corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o corpo mortal se revestirá de imortalidade. A morte, o último inimigo a ser vencido, cobrirá sua cara de vergonha e será lançada no lago de fogo; e nós, triunfantes, estaremos para sempre com o Senhor, desfrutando da bem-aventurança eterna que ele preparou para aqueles que o amam.

GESTÃO E CARREIRA

START DA CANNABIS

Um inédito evento em São Paulo revela projetos de 13 novas empresas que pretendem oferecer produtos e serviços medicinais a partir da maconha. O mercado é estimado em RS 4,7 bilhões no país

Aos poucos o mercado da Cannabis medicinal sai do obscurantismo e ganha espaço no Brasil. Bem aos poucos. Apenas em dezembro a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a venda de produtos à base da planta em farmácias, mas veta seu cultivo, inclusive a empresas interessadas em desenvolver medicamentos. No Canadá, o uso medicinal existe há 19 anos. Esse tipo de gap pode significar ao País dois dramas. Postergar e encarecer os remédios para que pacientes crônicos sejam melhor tratados é o primeiro. O outro é deixar de injetar alguns bilhões à economia. Relatório da empresa internacional de consultoria New Frontier Data aponta que o mercado brasileiro pode movimentar R$ 4,7 bilhões ao ano com a liberação para fins medicinais. Nos Estados Unidos, ele girou USS13,6 bilhões em 2019 (cerca de R$ 68 bilhões), de acordo com dados do National Institute for Cannabis Investors.

Ainda que lentas, as engrenagens começam a se mover. A aceleradora de startups The Green Hub reuniu, em um evento em São Paulo, uma centena de pessoas, entre especialistas, investidores e curiosos, além de 13 startups. A importância do encontro não se limita ao surgimento de novas empresas. Trata-se também do bem­ estar e da saúde de cerca de 3 milhões de brasileiros que sofrem com dor crônica, transtornos de ansiedade, câncer, autismo, Alzheimer, Parkinson, artrite e epilepsia, por exemplo. Nessas situações há farta literatura médica que recomenda tratamento à base de canabidiol (CBD) para aliviar os piores sintomas. A substância, extraída da maconha, não tem propriedades psicoativas.

Pelo fato de a maconha não ser legalizada no Brasil, os eventos anteriores se limitavam a palestras informativas, pois não havia muito o que mostrar. Desta vez foi diferente porque funcionou como uma verdadeira rede de contatos. No primeiro dia assistiram a palestras sobre o setor durante o Cannabis Thinking. A continuação recebeu o nome de Demo Day, cujo objetivo foi reunir as startups. Seus representantes fizeram rápida explanação sobre produtos e serviços que desenvolveram para operar no promissor mercado de Cannabis. A abertura teve o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, considerado um ator importante na luta para liberação mais ampla da maconha no País.

“Temos de acabar com a ideia equivocada de que estamos disseminando o mal”, disse Fernando Henrique. “É preciso educar as pessoas e convencer o governo de que a regulamentação tornará melhor a vida de muita gente com doenças crônicas, tratáveis a partir de substâncias extraídas da Cannabis.”

Talvez não seja exagero lembrar que todo medicamento é uma droga e saber olhar para seus benefícios fez já cerca de 50 países legalizarem a Cannabis medicinal. Em quatro deles, o uso recreativo é permitido: Canadá, Uruguai (proibida a estrangeiros), África do Sul e Geórgia (nos dois últimos a venda é proibida, o usuário pode cultivar e consumir). Nos Estados Unidos, cada um dos 50 estados goza de autonomia para decidir. Em 11 deles o uso medicinal e recreativo é permitido. O maior de todos, a Califórnia, com 39 milhões de habitantes, é um. Em outros 22 somente o uso medicinal é legal – Nova York está nesse grupo. Outros nove estados decidirão neste ano sobrea legalização.

US$30 BILHÕES

O mercado investidor vê 2020 como ano chave. Segundo a New Frontier Data, nos estados americanos onde a maconha está legalizada foram movimentados US$6 bilhões com produtos medicinais e outros US$7,6 bilhões com outras linhas de produtos relacionadas ao segmento, em 2019. A expectativa é de que este valor chegue, respectivamente, a US$13,1 bilhões e US$16,6 bilhões em 2025 – perto de US$30 bilhões, no total. Por isso estados pressionam para a aprovação de legislação sobre o tema.

Os resultados para a saúde pública também são altamente positivos. No estado do Colorado, 93% dos pacientes com dor crônica em tratamento e que usam medicamento com princípios ativos da Cannabis aprovaram os resultados obtidos. No Oregon a aprovação é de 89% e em Nevada 88%. Na média, envolvendo outros entes da federação, a aprovação é de 73%. No Brasil as discussões foram acaloradas. Há quem tema que a autorização para uso medicinal sirva como porta de entrada para a legalização do plantio, como dizia o então ministro da Cidadania, Osmar Terra. Do outro lado, o medo era de que o governo atuava de acordo com os interesses da grande indústria farmacêutica. O fato é que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou duas resoluções (a 327, de dezembro de 2019, e a 335, de janeiro de 2020) que deram um norte ao segmento. A RDC de 2019 criou a categoria de “produtos à base de Cannabis”, o que facilita o registro. A de 2020 torna o processo de importação mais ágil e começou a valer neste mês. Antes, a importação só podia ser feita pelo paciente. Agora, empresas também podem trazer e as farmácias (menos as de manipulação) poderão oferecer os remédios em suas prateleiras.

“Essas resoluções definem as substâncias autorizadas e suas proporções, além de abrir o mercado às empresas que vão trazer medicamentos em maior volume. Isso tornará o produto mais acessível”, afirma Marcelo de Vita Grecco, cofundador e CEO do The Green Hub. Antes das resoluções, apenas 7,8 mil pacientes tinham autorização para importar tais medicamentos e no País todo cerca de 11 mil médicos (psiquiatras, neurologistas e neurocirurgiões) estavam autorizados a prescrever receitas.

O fato de o plantio da maconha ainda ser proibido no Brasil dificulta um pouco a formatação dos empreendimentos. A estratégia é pensar em serviços e produtos que possam se disseminar globalmente. Um exemplo é a Tria, do Rio de Janeiro, que desenvolveu uma plataforma para auxiliar pacientes com doenças crônicas a organizar e acompanhar todo o tratamento de forma a não depender única e exclusivamente das informações constantes na ficha que fica em poder do médico ou da clínica. A diretora executiva da Tria, Annalídia de Moraes, explica que o software pode ser comercializado para clínicas e pacientes, e possibilita compartilhar as informações do prontuário automaticamente. Para clinicas o programa instalado custa R$ 51 mil, mais R$0,70 por arquivo inserido e R$700 de mensalidade. Para os pacientes não há custo inicial. Eles terão espaço de 100 Mb gratuitamente. Se for necessário mais espaço na nuvem, há dois planos: um ao custo de R$9,15 por mês e outro familiar, a R$14,65. “Temos quatro clínicas como clientes, mas queremos focar nos pacientes. Nossa meta é obter 50 mil downloads até o final de 2020”, afirma Annalídia.

O Centro de Excelência Canabinoide (CEC) tem tanto a finalidade de atendimento clínico de pacientes como a de funcionar também como centro de informação e treinamento. Tem uma clínica, em São Paulo, equipe médica especializada e plataforma com cursos on­line para médicos e pessoas em tratamento. O CEC também oferece serviços gratuitos a entidades parceiras. O diretor de marketing da empresa, Marcelo Sarro, disse que o empreendimento iniciou com investimento de R$300 mil e mais recentemente recebeu aporte de R$2milhões.”Nossa agenda está lotada. Para se ter ideia, temos vaga só para maio”. Sarro falou que o custo do tratamento ainda é alto no Brasil pelo fato de tudo ser importado. “A medicação fica em torno de RS1,5 mil para três meses de uso, mas ainda há custos com consultas, deslocamentos.”

CIÊNCIA A FRENTE

A medicina tem sido a maior fomentadora do mercado da maconha. Isso porque saúde e qualidade de vidadas pessoas têm o apelo necessário para que a sociedade deixe de ver a Cannabis apenas como uma planta narcótica e passe a enxergar toda a sua utilidade e versatilidade. Com isso, surgem oportunidades em outros segmentos, não só da área de saúde. “A maconha oferece oportunidades multisetoriais. Com ela é possível fabricar roupas, xampus, cosméticos, medicamentos”, afirma Marcelo Vita Grecco. A austríaca Hempions, representada no evento pelo sócio brasileiro, Jeferson Araújo Rodrigues, foi criada há três anos, tem dez funcionários e atua no ramo têxtil. Os planos para o Brasil são obter cerca de US$100 mil por meio de crowdfunding e vender camisetas (R$180) e relógios (R$ 350) feitos com fibra de cânhamo, uma espécie de cannabis. “As camisetas e os relógios já estão sendo fabricados no Brasil por trabalhadores da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que estavam desempregados”, diz Rodrigues. Parte da receita será usada para ampliar a produção, hoje artesanal e investir em marketing para ganhar espaço no mercado nacional a partir de 2021. Anote para não esquecer: Cannabis é o negócio da vez.

MERCADO POTENCIAL

Segmento bomba a economia e dá um tapa na saúde pública

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NECESSIDADES PSICOLÓGICAS E EMOCIONAIS NA GESTAÇÃO

A mãe, ao conceber um filho, é totalmente arrebatada por uma série de sentimentos; eles têm início já durante o planejamento da gravidez e vão até meses depois do parto

PROJETO MAMÃE

Antes da concepção do bebê, normalmente uma série de dúvidas e questionamentos toma conta da mente e da vida não só das futuras mães como do casal. Por isso é preciso muita tranquilidade na gestação.

Antes mesmo da concepção do bebê, as dúvidas e incertezas já começam. Será que é o momento certo? Será que poderei proporcionar tudo o que sonhei para o meu filho? Será que preciso me capitalizar mais para a sua chegada? Vou dar conta de abrir mão de tantas coisas que gosto em função dele? Não seria melhor trocar o carro antes de engravidar? Afinal, não temos ideia de quando poderemos trocar novamente. A casa não está pequena para a chegada da criança e todos os apetrechos necessários? Essas e muitas outras dúvidas permeiam a mente e a vida do casal.

Talvez, se esperarmos satisfazer todas as exigências imaginadas para alcançar a perfeita condição para trazer um filho ao mundo, esse filho nunca venha. Sempre precisaremos de mais alguma coisa para que o futuro bebê chegue ao “ambiente ideal” imaginado pela futura mamãe como fundamental para proporcionar uma infância feliz, segura e tranquila. Poucas são as vezes em que a vida oferece todos esses requisitos e as futuras mamães precisam rearranjar esse planejamento e aceitar, às vezes com algum sofrimento, fazer o melhor possível para a chegada do seu filho.

Esta é uma situação bem comum na preparação para a primeira gravidez. E, no caso, a inexperiência, as crenças e as inseguranças da futura mamãe podem tumultuar ainda mais esse momento, causando sofrimento, “fantasmas” e estresse desnecessários. Issofaz com que a mamãe de primeira viagem precise de aconselhamento de alguém mais experiente e maduro e de um apoio mais próximo, a fim de ajudá-la a distinguir o que será, realmente, necessário para que o bebê possa chegar e ter seus primeiros anos de vida felizes e tranquilos. Será que um bebê feliz é aquele que tem o carrinho de última geração, o quarto bem decorado e cheio de apetrechos caros, iluminados e sonoros, um lindo e gigantesco apartamento de frente para o mar? Ou um bebê feliz é aquele que tem uma mãe tranquila e presente, dando o que ele necessita para se sentir satisfeito e confortável (leite, banho, agasalho, afeto) num ambiente tranquilo e calmo? E quando falo em ambiente tranquilo e calmo, refiro-me a uma mãe tranquila, que se cuide se alimentando, tomando seu banho e deitando para descansar sempre que possível. Mas isso envolverá muitas vezes uma casa bagunçada, as roupas do bebê acumuladas para lavar e até mesmo o choro dele nos momentos em que a mãe necessita ir ao banheiro ou tomar o seu banho. Não é fácil saber, a princípio, o que de fato é ser uma boa mãe.

Se a mãe não se policiar, acaba se auto exigindo para dar conta e ser “boa”‘ em tudo. É humanamente impossível, nessa fase, dar conta de tudo como fazia antes do bebê e estar linda, cheirosa, bem-humorada e descansada quando o marido chega em casa.

A mãe precisa saber que, passados os primeiros dias em que ela, geralmente, tem a ajuda do marido e/ ou de mais algum familiar, precisará se cuidar, se nutrir e se amar, também, porque o bebê precisa de uma mãe tranquila e abastecida. Ele não precisa de uma casa arrumada, de comidas elaboradas para o jantar, das suas roupas engomadas e impecáveis. Precisa sim de uma mãe que tenha inteligência emocional e se dê a si mesma e ao bebê. Deitando e descansando sempre que ele dorme, abrindo mão de ser “perfeita” em todos os outros quesitos, ela se permitirá ser mãe durante aquele período.

É natural que a mãe de primeira viagem sinta-se só ou se queixe de sua vida paralisada. Essa pode ser a sensação da mãe nos primeiros meses de vida do bebê, já que passadas algumas semanas todos retornam à sua rotina e ela fica realmente sozinha com todos os afazeres relacionados ao bebê. Os cuidados pessoais como banho, roupa, alimentação, consultas médicas, tentativas de adivinhar o motivo do choro ininterrupto e resolver o problema, sem tempo para falar com amigas, parentes e às vezes até com o marido. A privação do sono costuma deixar a mãe mais irritada, sensível e pode ocasionar ataques de choro, discussões, tristeza e/ou estresse.

MUDANDO OS PAPÉIS

Essa fase de preparação de uma mulher, que, até então, foi habituada a desempenhar vários outros papéis (como o papel de filha, neta, sobrinha, esposa, irmã etc.) e, finalmente, começa a se preparar para um papel totalmente novo e desconhecido em sua vida, que é o papel de mãe, nem sempre é uma fase tranquila e feliz.

Realmente, essa pode ser uma fase bastante delicada, na qual a mulher passa por um processo de despersonalização, deixando de ser vista como sempre foi para se tornar a mãe da fulaninha ou do fulaninho. Em muitos casos, devido à sensibilidade em que se encontram nesse período, futuras mães sentem-se reduzidas a uma barriga ou à mãe do astro principal. Podem apresentar sinais de menos-valia e depressão e sofrerem com isso. Algumas sofrem, inclusive por isso, uma culpabilização, julgando-se péssimas mães por não estarem felizes e radiantes com a gestação, como a sociedade espera que seja, e por toda a atenção recebida por sua barriga.

Essa transição envolve questões complexas, como a mudança total do foco de atenção para o bebê e a desconsideração da mãe em função dele. Além dos circundantes, até mesmo as futuras mães deixam de se preocupar com gostos, interesses e necessidades próprias e passam a priorizar as necessidades e interesses do bebê que está a caminho.

Algumas dessas mães costumam se queixar dos familiares, que passam a cobrar delas novos hábitos alimentares, que por vezes lhes são desagradáveis, porém necessários para o desenvolvimento sadio e/ ou seguro do bebê que ela está gerando.

E é isso mesmo! Por estar gerando esse bebê tão esperado por todos, cai sobre a mãe toda a responsabilidade de se alimentar adequadamente, cuidar para que nenhum excesso ou esforço físico ocorram, evitar traumas e choques para o bebê, além de ter que continuar dando conta de seus afazeres diários e de todo o planejamento para a chegada dele, como mudanças necessárias na casa, para a recepção do mais novo membro da família, compra do enxoval, realização de exames e do acompanhamento da gestação e, muitas vezes, das necessidades adicionais do(s) filho(s) mais velho(s) e marido, diante da expectativa da chegada de mais um membro da família.

Isso,se pensarmos numa gravidez sadia, sem qualquer tipo de problema ou trauma envolvido. Pois se pensarmos no caso de uma primeira gravidez, na qual os pais estão cheios de medo, ânsia e expectativas, ou no caso de uma gravidez de risco, uma gravidez indesejada ou até mesmo no acompanhamento da gestação para o processo de adoção de uma criança, essa fase pode se tornar ainda mais delicada e sofrida.

VIAJANTES NO TEMPO

Um movimento natural da futura mãe é dificilmente se manter no momento presente. Talvez por isso muitas mães se queixem de uma dificuldade de memória e concentração desde o início da gestação.

Elas se tornam grandes viajantes do tempo durante a gravidez. E, nessas viagens, é comum notá-las regressando a sua infância, avaliando o tipo de criação em que foi pautada e toda a base da educação dada por seuspais. E, então, começam a avaliar e decidir o que, a princípio, elas irão “copiar” do seu modelo de criação e o que vão procurar modificar. Começam a separar o que julgam servir ou não para a criação de um “bom filho”. E nos meses de gestação se pegam relembrando e repassando momentos bons e ruins pelos quais passaram até ali.

Isso pode causar alguns transtornos ou perturbações emocionais, já que a futura mamãe está fragilizada e sensível, devido a toda alteração hormonal a que está submetida, e devido, também, a essa alternância de papéis. Pois agora ela não relembra esses fatos do lugar de filha e sim do lugar de futura mamãe, julgando e avaliando tudo que, a seu ver, pode afetar ou ajudar o desenvolvimento sadio de seu bebê.

E já começa a busca por estudos e leitura sobre todos os assuntos! Desde tipos de parto e os prós e contras de cada um, a possibilidade de congelar um pedaço do cordão umbilical a fim de combater doenças futuras, decoração do quarto, modelos de ensino e por aí vai. Muitos são os blogs, artigos e livros escritos por e para as futuras mamães. E neles elas se apoiam, se orientam e deles se utilizam para decidir o que julgam ser o melhor caminho para seu filho. E enquanto a futura mamãe se distrai com tantas coisas aqui fora, lá dentro de sua barriga um verdadeiro milagre acontece diariamente na formação e nutrição do bebê, sem que ela se dê conta disso, muitas vezes.

Nos momentos em que o bebê já está bem crescido e chuta e se movimenta na barriga da mãe, como nos exames de imagem durante a gestação, ela pode estar realmente presente. Conectada a ele. Sentindo-o, comunicando-se com ele e estando grávida naquele momento, habitada por um novo ser que já, já dará o ar da graça.

Outra maneira que a futura mamãe pode buscar para se manter no momento presente, aproveitando-o, é buscar a prática de atividades destinadas a gestantes. Temos, por exemplo, grupos de meditação, yoga, pilates, hidroginástica. E se as mães se percebem em sofrimento, ou de alguma forma não conseguem curtir e aproveitar com alegria e tranquilidade esse momento, devem procurar algum tipo de ajuda terapêutica. Pois esses são momentos preciosos, que marcarão para sempre a vida da família, e merecem ser aproveitados.

CRIAÇÃO DE FANTASMAS

Paralelamente a tudo isso, a gestação é um período em que a mãe tende a enfrentar diversos medos e dúvidas. E isso envolve muitas questões. Tipo de parto mais indicado, anestesia, amamentação, sua capacidade de cuidar daquele bebê e até o medo da morte costumam rondar a futura mamãe, que se vê agora gerando alguém que passará a depender dela para crescer e se desenvolver.

Muitos podem ser os fantasmas presentes nesse momento. E a existência de familiares que se disponham a acompanhar, ajudar e, principalmente, ouvir a gestante nesse momento ajuda a tranquilizá-la e dá segurança. Em muitos casos, ela precisa apenas se sentir acompanhada e ser ouvida!

Emitir muitas opiniões, conselhos e contar casos em que ocorreram desgraças em relação à maternidade acaba atrapalhando. Mesmo que a intenção seja a melhor possível, o resultado disso costuma ser desastroso para os envolvidos. Esse excesso de informação pode gerar ou intensificar inseguranças, dúvidas e ansiedade na mãe, que já está num momento de pressão grande e muito fragilizada e sensível devido às alterações hormonais do período.

Cabe ao futuro papai a tarefa de filtrar e proteger a futura mamãe do excesso de “invasão” sobre as decisões e cuidados a serem tomados com a criança, a fim de evitar o disparo de quadros psicopatológicos, inclusive, como transtornos de ansiedade e de humor, por exemplo, que ao surgirem tendem a prejudicar essa fase, que deveria ser aproveitada.

Não temos receita para lidar com uma gestante. Mas se soubermos observar e sentir o estado dela e tivermos bom senso, saberemos acompanhar e nutrir na medida certa, a fim de obter uma gestação tranquila e saudável para a mãe e o bebê.

EU ACHO …

DIVERSIDADE HUMANA

Valorizar as diferenças tem sido uma meta das organizações que reconhecem a importância de respeitar e promover a integração dos colaboradores

A diversidade entre as pessoas é intrínseca ao ser humano. Ser um indivíduo significa ser diferente de qualquer outro, na forma de pensar, agir ou de interpretar o mundo e a realidade. Além desses, há diversos pontos que nos diferem, como os limites individuais, as qualidades e talentos, os medos, as crenças, os objetivos de vida as gerações, a relação étnica-cultural, enfim, a própria história pessoal.

François-Marie Arouet, conhecido por seu pseudônimo Voltaire, disse uma vez: “os chineses são iguais a nós, têm paixões e choram”. Já o pensador alemão Johann Friedrich Herbart, afirmou: “Entre uma cultura e outra, não há comunicação. Os seres são diferentes”. De alguma forma, ambos tinham razão,mas a realidade é que essas duas verdades devem ser articuladas, compreendidas e integradas.

Pensamos o quanto a relação com as pessoas diferentes de nós – de outros países ou com outras opiniões – enriquece a nossa experiência, amplia os pontos de vista e expande a nossa flexibilidade, adaptabilidade e capacidade de inovar, além de permitir o nascimento de novas culturas. Conversar sobre a diversidade significa elaborar uma discussão atual, que se expressa nos mais variados aspectos, como igualdade, tolerância, aceitação e capacidade de considerar as próprias ideias, opiniões e visão da realidade não como um fator absoluto, mas como uma das possíveis maneiras de entender o mundo.

Mas como viver a igualdade sem prejudicar ou desqualificar as diferenças? O tema é vasto e complexo, porém bem sabemos que não é tão simples de aceitar, conhecer, lidar e integrar as diferenças de forma harmoniosa e eficaz, seja no contexto pessoal ou no profissional. Muitas vezes, os tãoesperados encontro e integração tornam-se desencontro e conflito.

Ao avaliar esses aspectos, as organizações reconhecem cada vez mais a importância de respeitar e promover a integração das diferenças dos colaboradores. Nos últimos 30 anos, podemos observar uma nova sensibilidade nas empresas, que corresponde aos novos cenários, às novas realidades e exigências de reconhecer e valorizar o fator humano, o potencial individual, a harmonia nos relacionamentos interpessoais e no trabalho em equipe.

Em síntese, respeitar as diversidades significa “fazer a diferença” no contexto e nos resultados. Assim, é possível promover o intercâmbio de ideias e a realização do trabalho em conjunto, aumentar o desempenho corporativo e a concretização dos objetivos.

Olhar para o indivíduo com as suas diversidades – como começo e fim de qualquer processo de evolução, como fator constitutivo de uma vantagem competitiva – e utilizar ao máximo a contribuição que cada um pode oferecer são atitudes que representam um diferencial estratégico para as empresas.

A integração da diversidade constitui uma abordagem necessária em todos os contextos, considerando as mudanças no mundo, as diversificações – dos mercados, dos clientes e dos trabalhadores, as novas modalidades de trabalho e as diferenças ligadas a idade, gênero, etnia, crenças, formação escolar, situação familiar, localização geográfica, experiência profissional, entre muitas outras.

A diversidade não é excludente, mas sim complementar. É liberdade e está diretamente ligada ao ato criativo, às ideias e aos pensamentos diferentes, que permitem o acender da centelha da inspiração, da inovação, da evolução e da descoberta. A diversidade não nos deixa ficar prisioneiros em armadilhas mentais e em padrões de pensamentos automáticos. O olhar diferente sobre o mundo, além de ser benéfico para o ambiente corporativo, também alimento a arte, a literatura, a música, a poesia e a ciência. A diversidade é generosidade, riqueza, representa as possibilidades, soluções, permite-nos não cair em uma uniformidade vaga, reduzida, simplista e unilateral.

Saber viver com as diferenças significa ter atitudes solidárias, competitivas e construtivas, integrando e respeitando as diversidades e desenvolvendo um pensamento mais flexível, criativo e inovador, que leva à realização pessoal e aos objetivos coletivos para um bem comum.

Cada indivíduo é diferente e único, não só em relação ao outro ser humano, mas também em relação a si mesmo, pois estamos em contínua evolução e transformação, no movimento do nosso caminhar pela vida. Não somos os mesmos de ontem. O que acreditamos sobre a vida se modifica no decorrer de nossas experiências – ou seja, os objetivos se alteram.

Uma. vez que reconhecemos as nossas próprias diferenças e transformações, compreendemos o valor, a aceitação de nós mesmos, elevamos a autoestima e expandimos a dignidade. Além disso, desenvolvemos a empatia, a solidariedade e o respeito ao próximo.

EDUARDO SHINYASHIKI – é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal. Com mais de 30 anos de experiência no Brasil e na Europa, ereferência em ampliar o crescimento e a autoliderança das pessoas.

www.edushin.com.br

OUTROS OLHARES

ESPREMIDO É POUCO

O gargalo habitacional é um dos motores a empurrar uma parcela da população rumo à pobreza — e às ruas, contra o governo local e a China

Imagine espremer em um espaço equivalente ao de uma vaga de garagem cama, livros, objetos — tudo o que você acumulou na vida. A equação parece impossível de fechar, mas é desse jeito que mais de 200.000 pessoas vivem hoje em Hong Kong, lugar conhecido pela economia livre de amarras burocráticas e, mais recentemente, pela onda de protestos contra o governo que varre as ruas há cinco meses. As imagens de famílias amontoadas em cubículos cuja área é delimitada por grades (daí o nome casa-gaiola) têm rodado o mundo e levantado uma questão que não quer calar: como é habitar uma dessas unidades? Resposta consensual: um inferno, com consequências devastadoras sobre a saúde física e mental que estendem seus efeitos à demografia.

Segundo a ONG We Care, que acompanha o drama das moradias nesse território semiautônomo da China, 40% sofrem de depressão e mais da metade das mulheres abriu mão de ter filhos. “A linha entre viver nesses apartamentos e na rua é muito tênue”, diz Geerhardt Kornatowski, especialista em urbanismo da Osaka City University, no Japão. Em geral sem janelas, eles se convertem em verdadeiras estufas no verão, quando registram temperaturas de 40 graus. O ar fica irrespirável e germinam doenças. A noção de privacidade desaparece nessas colmeias humanas: como as casas são fruto da subdivisão de imóveis, compartilham-­se banheiro e cozinha e esbarra-se o tempo todo com o vizinho de gaiola. Existem casas assim em outras partes da Ásia, inclusive no Japão, mas em nenhum local elas são tão numerosas e precárias. “Nada se compara à tragédia habitacional de Hong Kong”, enfatiza Kornatowski.

Uma explicação fácil para a proliferação desses cortiços asiáticos é a geografia da ilha, povoada por 7,4 milhões de pessoas e emoldurada por montanhas que limitam o espaço para construir. O relevo de fato engole um naco do território, mas mesmo assim sobra muita área livre. Aí vem o problema real: todas as terras são de propriedade do governo, que as libera a conta-gotas para as empreiteiras justamente para poder cobrar caro por elas e ainda impõe taxas raras de ver nos demais setores. As empresas, por sua vez, transferem a conta para a população. Há seis anos Hong Kong possui o metro quadrado mais inflacionado do planeta, em seguida vem Singapura. Em nenhum outro canto é tão árduo concretizar o sonho da casa própria: um cidadão de renda média precisa juntar o que acumula em vinte anos de salário para poder arrematar um quarto e sala por lá (veja o quadro abaixo).

O gargalo habitacional é um dos grandes motores a empurrar os habitantes de Hong Kong rumo à pobreza, em que 20% hoje já estão — e às ruas, contra o governo local e a China. Na ponta abastada da pirâmide, encastela-se a maior concentração de pessoas com fortuna superior a 30 milhões de dólares do mundo (e muito mais espaço para morar). Adivinhe de onde elas emergem. Da construção civil, ramo lucrativo para alguns poucos felizardos que ganham em concorrências públicas o direito de fazer uso de tão disputadas terras. E assim vai se aprofundando a desigualdade — e, com ela, as insatisfações que fazem com que uma parcela da população não arrede pé das manifestações. Em meio a tanto sacolejo, na quinta-feira 31 Hong Kong entrou em recessão. “A revolta é disseminada e sem precedentes”, avalia Emily Lau, presidente do partido Democrata, o terceiro maior da ilha. Sem reação à altura, o governo liderado por Carrie Lam prometeu erguer um conjunto de ilhas artificiais que alojaria 1 milhão de pessoas no distante 2032. Se não houver uma reviravolta até lá, o destino de muitos será a vida subumana dentro de uma gaiola.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE NOVEMBRO

A BUSCA DESENFREADA DA FELICIDADE

Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso  era vaidade (Eclesiastes 2.1).

O homem foi criado para ser feliz. A felicidade é um anseio legítimo. O problema do homem é contentar-se com uma felicidade pequena demais, terrena demais, enquanto Deus o criou para a maior de todas as felicidades: amá-lo e glorificá-lo para sempre! Salomão estava à procura da felicidade. Embora fosse o homem mais rico, mais famoso e mais cobiçado do seu tempo, ainda estava à procura da felicidade. No segundo capítulo de Eclesiastes, ele diz que procurou a felicidade na bebida, mas o que encontrou no fundo de uma garrafa foi a ilusão e a vaidade, não a felicidade. Depois, procurou a felicidade na riqueza. Amealhou grandes fortunas, enriqueceu e acumulou riquezas colossais, mas todo o seu dinheiro não lhe trouxe a felicidade verdadeira. Buscou, então, a felicidade nas aventuras amorosas. Multiplicou para si mulheres e mais mulheres. Chegou a ter setecentas princesas e trezentas concubinas, mas o que achou nessa vasta saga de aventuras foi só desilusão. Enfim, procurou a felicidade na fama e no sucesso. Tornou-se o homem mais famoso do seu tempo. Conquistou inúmeras medalhas, ergueu muitos troféus, foi aplaudido como ídolo nacional. Mas o fim dessa linha de tantos requintes foi a vaidade. A felicidade que ele buscava nas coisas e nas aventuras estava em Deus!

GESTÃO E CARREIRA

SEM EXPERIÊNCIA, MAS COM CHANCE DE SUCESSO

Insegurança de quem quer empreender pode ser um problema, por isso, a orientação de quem entende pode ser decisiva. Redes que não exigem experiência prévia mostram por quais motivos isso não está, necessariamente, ligado ao sucesso ou fracasso da operação

O crescimento do setor de franquias tem sido exponencial nos últimos meses. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) mostram que 2019 teve uma alta de 6.9% no faturamento em comparação com todo o ano de 2018. Os números são importantes para contextualizar esse cenário que atrai tanta gente, o de franquias.

Ainda passeando pelo desempenho, pelo segundo ano consecutivo, os dados parciais apontam uma expansão mais intensa nas unidades em operação (5,1%) e redes (1,4%). Já o total de empregos diretos do setor subiu 4,8%, chegando a cerca de 1,34 milhão.

Porém, ao mesmo tempo que o setor aponta um otimismo crescente, o medo e a insegurança de quem quer entrar no mundo das franquias também são grandes. Como muitas pessoas têm procurado alternativas depois da queda nos empregos, o interesse natural pela área desperta o empresário que existe em muitos, mas também potencializa os eventuais problemas.

Para a profissional do Grupo de Excelência em Franquias (GEF) do CRA/SP, Adriana Camargo. a falta de cautela pode atrapalhar. Não é necessário ter pressa para fechar um negócio, desde que o interessado procure e levante todos os dados da franqueadora com a qual pretende fazer a parceria. “O detalhamento financeiro não precisa ser só o que está na planilha, mas o que os demais franqueados estão conseguindo”, afirma.

Para combater essa insegurança, as melhores armas são a prática e o conhecimento, diz o CEO da Business Franquias, Daniel Costa. Com a internet e as ferramentas de pesquisa – a missão se tornou até mais fácil. “Ser o próprio patrão requer estudo, autoconhecimento, investimento, desenvolvimento de habilidades e persistência”, elenca Costa.

NÃO FOI PRECAVIDO

O consultor empresarial da Cury Franchising, Luiz Cury Filho, conta uma história que vivenciou. Um franqueado de uma grande marca rompeu o contrato pouco menos de quatro meses depois ao descobrir que a rede “não prestava assessoria”. “Ele não pesquisou previamente a marca antes de assinar o contrato. Por isso aconselhamos verificar, antes de fechar um negócio, se a marca entrega aquilo que promete”, explica.

O especialista considera que o sucesso de um franqueado segue, em termos gerais uma divisão: 25% marca, 25% know-how e 50% trabalho do franqueado. “Ou seja, sem arregaçar as mangas o sucesso poderá não vir ou demorar para ser atingido”, acrescenta.

TEM QUE TER VONTADE

A metade que diz respeito ao trabalho parece realmente fazer muita diferença na hora de investir. O CEO da rede de franquias Slice Cream, Eduardo Schlieper, que comercializa gelatos em formatos diferenciados, acredita que a vontade em aprender e acompanhar todos os processos pode superar a falta de experiência. “O importante é empreender em algo que lhe dê prazer, assim tudo funciona muito bem”, diz.

A postura da rede comandada por ele é de acompanhar de forma intensiva todo o processo e, quando há alguma dificuldade com um franqueado, fazer um “plano de ação” para que o problema seja solucionado. “Mesmo considerando o segmento altamente competitivo, o franqueado precisa ter força de vontade e saber que está realizando um sonho”, pondera.

COM ASSESSORIA

O método de trabalho pode ser diferente, mas o que a maioria das franqueadoras precisa levar em conta é que prestar assessoria tem um significado muito relevante para o próprio sucesso da marca. “Teoricamente, as franqueadoras deveriam avaliar o perfil do interessado antes de ele investir ou operar uma unidade franqueada. Assim, podem ser evitados problemas antes mesmo da largada”, comenta Adriana Camargo.

E é por isso que algumas investem em uma espécie de “test-drive” antes de fechar negócio. O diretor-executivo da rede SUAV, de cuidados estéticos, Diogo Cordeiro de Oliveira, explica que esse sistema – uma espécie de imersão do novo franqueado antes de abrir a própria loja – tem funcionado.

Após o acordo fechado, a franqueadora auxilia na escolha do ponto e nos itens necessários para instalação, bem como em relação aos fornecedores. O franqueado e a equipe passam por treinamento de pré-inauguração e acompanhamento de pós-inauguração. “O objetivo é fazer com que o franqueado conduza a operação sozinho da forma mais simples possível. Claro que em todo início de negócio eles acabam sentindo certa dificuldade, o que é normal”, relata.

Auxílio também é prestado pela franquia camisetas da Hora, uma marca on­line que permite que o franqueado trabalhe de casa. Uma “inovação”, nas palavras do CEO Marcelo Ostia, mas que também requer atenção especial. “Com planejamento e organização, fatores essenciais para uma boa administração, você poderá obter sucesso com seu novo empreendimento”, orienta.

SEM APUROS

Schlieper explica que, no caso da Slice Cream, quando um franqueado se vê em apuros, uma equipe passa a analisar o caso em detalhes. O acompanhamento intensivo gera, ao final, um plano de ações para que o quadro seja revertido. “Temos que identificar as dificuldades, depois as alternativas viáveis e, o mais importante de tudo, criar processos, objetivos e prazos para a superação efetiva dos problemas”, aponta. O objetivo final é sempre o equilíbrio – seja financeiro, seja operacional.

Adriana Camargo considera que a relação saudável entre marca e franqueado faz bem para todos. Se uma franqueadora pouco ajuda o parceiro, a conversa é a primeira chave. O diálogo entre franqueado e franqueador precisa ser verdadeiro e deve-se chegar a um acordo. Não resolvendo o problema, o jeito é partir para outras esferas. “Caso isso ocorra, na minha opinião, o melhor a se fazer é conversar com a franqueadora ou propor uma mediação de conflitos, com o auxílio de um profissional capacitado”, diz.

Cury Filho acredita que a falta de experiência não é o fator determinante para o insucesso, mas a falta de afinidade com o segmento de negócio sim. E ele exemplifica: “se o franqueado não tem interesse em lidar com público, deve fugir do varejo ou das vendas.

Já o diretor-executivo da SUAV acredita que o desenvolvimento de uma unidade pode ser prejudicado se o empreendedor tem dificuldades em saber o que significa. “empreender”. “Normalmente aqueles que não têm experiência, quando encontram dificuldades normais no dia a dia do negócio, desesperam-se”, afirma.

TRABALHO DURO

Não dá para brincar de ser empresário. Franquia é coisa extremamente séria, não é um hobbie. É trabalho duro. Daniel Costa propõe uma reflexão: por mais que o discurso utilizado hoje seja o do “testado e aprovado”, a simples transferência de know-how não deve ser a única base de relacionamento entre franqueador e franqueado. “Acho imprudente confiar apenas no conhecimento transferido pela franqueadora, não é o perfil da maioria dos franqueados de sucesso”, argumenta.

Mas, se ainda parece pouco, o medo pode ser dissipado facilmente. Afinal, abrir um negócio também pode ser traduzido em apenas uma palavra: conhecer. Com uma pesquisa sólida e bem-feita, todas as informações coletadas e todas as dúvidas postas e esclarecidas, o medo e a insegurança podem se dissipar. Mesmo se restar alguma ponta, uma boa conversa pode solucionar tudo. “Conver­se muito com o franqueador, tenha afinidade com as pessoas com quem você passará a conviver e esteja em sintonia com o posicionamento da marca”, mostra Adriana Camargo.

Luiz Cury Filho lembra que, em média, um tempo de contrato de franquia é de três a cinco anos, e que esse período não pode simplesmente “ser jogado fora”. “Procure ajuda com especialistas do setor e faça a escolha com menos riscos. Com certeza terá sucesso na sua jornada empresarial”, finaliza.

COMO NÃO DEIXAR O SONHO VIRAR PESADELO

Os especialistas em franquias enumeram quatro dicas que podem ajudar na hora de tornar uma decisão sobre empreender ou não.

PESQUISAR: quando se faz um estudo prévio do mercado é possível obter dados, indicadores e informações importantes que ajudam a tomar a decisão de investir ou não investir em uma franquia. Para uma pesquisa inicial, a própria internet pode ajudar muito. Sites especializados, revistas, jornais e canais de negócios podem ser muito uteis. A Associação Brasileira de Franchising fornece dados, estatísticas e informações sobre o mercado de franquias.

ANALISAR: o futuro franqueado deve analisar a viabilidade do negócio colocando uma “lupa” sobre os números do mercado local e pesquisando, por exemplo: qual o público alvo, pontos comerciais, a demanda pelo produto ou serviço que será comercializado, a concorrência local, as possíveis ameaças e oportunidades. E analisar outros fatores, como o cenário econômico brasileiro, o quanto o segmento que pretende investir está crescendo no País, o quanto em faturamento representa no mercado, se ainda há espaço para o segmento no Brasil, entre outros fatores.

FILTRAR: após definir o ramo em que pretende atuar, a dica é filtrar quais franquias já operam, quais as que estão em maior evidência. Você também deve avaliar quais as melhores condições de investimento, as que oferecem mais vantagens, as mais consolidadas, as que possuem maiores diferenciais competitivos, quais são as mais recomendadas pelos consumidores. Também é muito importante se identificar com a cultura da empresa.

INVESTIGAR: a palavra parece forte, mas a ideia é essa. Consultar outros franqueados sobre satisfação com a rede, suporte, se estão felizes. E procurar quem já não faz mais parte da franquia. A Circular de Oferta da Franquia, documento exigido por lei que deve ser entregue dez dias antes da assinatura de um contrato, mostra quais são os atuais franqueados e quem se desfiliou nos últimos 12 meses.

RAIO-X DAS FRANQUIAS

CAMISETAS DA HORA

Número de lojas em operação: 103 franquias on-line

Investimento inicial: R$10,5 mil

Royalties: RS240.00/mês

Capital de giro: R$4.4 mil

Faturamento mensal: RS30 mil

Média de lucro mensal: R58 mil

Prazo do contrato: 18 meses

Tempo de retorno do Investimento: de 4 a 6 meses

SLICE CREAM

Número de lojas em operação: 5 (1 própria e 4 franquias)

Investimento inicial: R$169 mil (incluindo taxa de franquia)

Royalties: 5″ sobre o faturamento bruto

Capital de giro: RS20 mil

Faturamento mensal: R$50 mil

Média de lucro mensal: 30%

Prazo do contrato: de 12 a 24 meses

Tempo de retomo do investimento: de 12 a 24 meses

SUAV

Número de lojas em operação: 28 (2 próprias e 26 franquias).

Investimento inicial: R$167,6 mil

Royalties: 5% sobre o faturamento

Capital de giro: R$36 mil

Faturamento mensal: R$70 mil

Média de lucro mensal: 20%

Prazo do contrato: 5 anos

Tempo de retorno do investimento: de 24 a 36 meses

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA SINFONIA EXPLOSIVA

Apesar de grande músico, Beethoven era solitário, com temperamento tempestuoso e paranoico. Sua personalidade é citada por seus transtornos de conduta e comportamento

Compositor e pianista, Ludwig van Beethoven nasceu em 1770, em Bonn, no Reino da Prússia, atual Alemanha. De família de origem flamenga, seu sobrenome significa “horta de beterrabas”. Filho de Johann, também músico, recebeu seu nome em homenagem a seu avô, que era maestro e considerado grande músico da cidade. Teve um total de sete irmãos, sendo que cinco morreram ainda na infância. Sua mãe, Magdalena, era vista como uma mulher extremamente moralista e seu pai, mesmo sendo músico, era mais conhecido pelo alcoolismo do que pelo seu trabalho artístico. Apesar disso, foi dele que recebeu suas primeiras lições de música. O objetivo de seu pai era afirmá-lo como “menino prodígio”, por essa razão, a partir de apenas 5 anos de idade, era obrigado a se dedicar quase integralmente a música, diariamente e por horas. E, a qualquer deslize nessa rotina, era açoitado por seu pai (e a mãe conivente com os castigos), trancafiado e privado de sono, tudo em prol da música.

Mesmo com pouca idade, mostrou-se extremamente talentoso e criativo. Aos 7 anos fez sua primeira performance em Colônia, cidade no norte alemão. Seu pai o anunciou como um garoto de 6 anos, fato esse que o levou a sempre acreditar que era um ano mais novo do que sua idade verdadeira, até mesmo anos depois, ao receber uma cópia de seu certificado de batismo, acreditando que o documento se tratava de um irmão. Foi um adolescente introspectivo, tímido e melancólico. Saiu da escola aos 11 anos e aos 17 já ajudava no sustento da família, trabalhando como organista, professor e músico. Aos 19 anos, com a morte do imperador Joseph II, recebeu a honra de compor um memorial musical que, por razões desconhecidas, nunca chegou a ser tocado. Mais de 100 anos depois, a Cantata Sobre a Morte do Imperador Joseph II foi descoberta por Johann Brahms – é considerada sua primeira grande obra.

Beethoven tomou-se amigo do conde Waldstein, a quem dedicaria mais tarde algumas de suas obras. O conde, percebendo grande talento no jovem músico, enviou-o para Viena, na Áustria, a fim de que estudasse música. Foi imediatamente aceito como aluno por Joseph Haydn, e também foi aluno de Antonio Salieri. Tornou-se um pianista virtuoso, com muitos admiradores, muitos desses da aristocracia vienense. Começou a publicar suas obras, seu Opus I é a coleção de três trios para piano, violino e violoncelo, chamada Piano Trios. Sua estreia para o público de Viena ocorreu em 1795 e em 1800 estreou sua Sinfonia número 1 em Dó Maior, no Teatro Real Imperial. Em 1804, após Napoleão ter se proclamado Imperador, compôs a Sinfonia número 3, chamada posteriormente de Sinfonia Heroica.

Foi também em Viena que surgiram os primeiros sintomas de sua tragédia. Foi diagnosticado em 1796, aos 26 anos de idade, com “congestão dos centros auditivos internos”, fato case que o levou a várias depressões e isolamentos. Consultou-se com dezenas de médicos, realizou diversos procedimentos, mas nada o ajudou. Desesperado, entrou cm uma crise depressiva e pensou em suicidar-se. Apesar de todas as adversidades, continuou compondo. No período de 1803 a 1812, em menos de dez anos, compôs dezenas de obras, dentre as mais famosas dessa época estão: Sinfonia Número 5, Sonata ao Luar, Kreutzer para Violino e Fidelio, sua única ópera. Após 1818, aparentemente recuperado de uma depressão severa, continuou compondo; surgem então alguns sucessos aclamados, como a conhecida Sinfonia Número 9 em Ré Menor, considerada por muitos sua obra-prima.

Mesmo com diversas tentativas de tratamento, durante o passar dos anos a doença progrediu e, aos 46 anos, estava praticamente surdo.

Apesar de grandioso músico, Beethoven era solitário, com temperamento tempestuoso e até mesmo paranoico. Costumava brigar com todos à sua volta, incluindo irmãos, amigos e patrões. Talvez, devido a sua dificuldade em se relacionar, Beethoven nunca casou. Sua personalidade hoje é frequentemente citada por seus transtornos de conduta e comportamento. Paranoico, mimado, explosivo e muito infantil são adjetivos que o definem.

Apesar da vida pessoal conturbada e praticamente surdo, suas melhores composições foram próximas à sua morte, incluindo Missa Solemnis e Quarteto Número 14.

Em 1814, já era conhecido como o maior compositor do século. Entre o período de 1816 e 1827 (ano de sua morte), compôs cerca de 44 obras. Beethoven morreu trabalhando em uma nova sinfonia, e com projetos para um réquiem. Em sua autópsia, foram citados, como causa da morte: cirrose, sífilis, hepatite infecciosa, envenenamento, sarcoidose e doença de Whipple (inflamação e dor articular, diarreia, perda de peso, dor crônica abdominal e escurecimento da pele). Além disso, descobriu-se que a surdez havia sido por decorrência de tifo, e não de uma doença arterial. É considerado por muitos o maior compositor do século XIX, e também o inaugurador do Romantismo.

ANDERSON ZENIDARD – é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e palestrante. Coordenador e professor do curso de especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação a psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.

EU ACHO …

ÓDIO MOBILIZADOR

Ao contrário do que pode parecer, o ódio não impede a felicidade. De fato, pode até mesmo contribuir com ela, sobretudo o ódio 2.0

No meu curso de Psicologia, havia uma aluna que acabou virando a “mascote” da nossa turma. Isso porque ela, na faixa doa seus 50 e poucos anos, era a maia velha da classe. Sua sabedoria (sobretudo contrastada com a vasta experiência de uma média etária de 20 anos) saltava aos olhos. Lembro com carinho de muitas de suas frases, mas de uma delas em especial:         “As pessoas pensam que o que move o mundo é o amor. Mas não é o amor, é o ódio!”.

Na época, achei aquilo engraçado. Acho que tomei a frase como uma piada porque a compreendi de maneira errada. Atribui a ela uma conotação pessimista diante da condição humana que, uma vez que não encontrava correspondência com a personalidade da autora, só poderia tratar-se de uma brincadeira dela.

Foram necessários muitos anos (necessário talvez que eu também chegasse aos 60) para compreendê-la. Foi ainda preciso que eu me propusesse a escrever sobre o caráter prático da Psicologia Positiva 2.0 para que a lembrança de tudo isso me viesse à tona.

O fato é que a emoção do ódio (raiva e todos os seus derivados) não é tão negativa quanto se haveria de supor. Minha amiga talvez tenha exagerado um pouco ao colocar tal emoção como a única a mover o mundo. Por outro lado, a capacidade mobilizadora do ódio é inegável. E é aí justamente que entra a necessidade da Psicologia Positiva. Toda mobilidade envolve uma direção, de forma que, mobilizados pelo ódio ou pela raiva, podemos tomar diferentes caminhos que, basicamente, se resumem a dois tipos: destrutivo ou construtivo. Observe que negativa, nesse caso, é muito maia a direção pela qual nos deixamos conduzir do que a emoção que estamos sentindo.

O caminho destrutivo da raiva (e utilizo “raiva” ao invés de “ódio” a fim de facilitar que você, leitor, se identifique maia facilmente com os exemplos) é bem conhecido por todos nós: brigas inúteis, agressões desnecessárias, pessoas que metem os pés pelos mãos e que, invariavelmente, acabam prejudicando a si mesmas, mais até do que os outros. Isso sem falar nos relacionamentos desgastados e perdas afetivas muitas vezes deles decorrentes.

Já o cominho construtivo da raiva ou ódio, ou aquilo que aqui estou chamando simplesmente de ódio 2.0, é bem diferente. Em primeiro lugar, ele nos mobiliza à ação. Importante esclarecer, contudo, que não me refiro aqui a uma ação de vingança ou desforra, já que isso fugiria ao aspecto construtivo do referido trajeto. Nesse sentido vale dizer que o uso construtivo do ódio torna-se construtivo na medida cm que nos leva ao desenvolvimento.

Podemos, por exemplo, movidos pela raiva, nos dedicarmos mais intensamente à conquista de uma meta: “Me largou por outra pessoa? Pois ele (a) vai ver que não preciso dele (a) pra viver!”. Além disso, a raiva também serve para testar nosso autocontrole. E a cada vez que conseguimos modular nossa resposta a ela, esforçando-nos a tomar um caminho construtivo diante dessa emoção, é como se colocássemos mais um “tijolinho” na nossa capacidade de nos controlarmos diante doa impulsos. Em outras palavras, se não sentíssemos raiva (e também frustração, e uma série de emoções negativas) não teríamos oportunidade de desenvolver nosso autocontrole.

Isso significa que é também por causa da raiva que nos tornamos seres humanos melhores, o  que, sem dúvida, pode parecer um tremendo paradoxo, mas que, de fato, nada mais é do que um exemplo claro da complexidade das emoções e, sobretudo, das limitações em classificá-las cartesianamente como positivas ou negativas.

Por fim, gostaria de compartilhar com você, leitor, que hoje tive um dia difícil. Basicamente, e como provavelmente já aconteceu também com você, fui vítima de uma certa “sacanagem” que, por diversas circunstâncias que obviamente não vêm ao caso, como agravante me impediu qualquer tipo de resposta (o que acabou por elevar sobremaneira o nível da minha raiva, é claro!). Impedida de dormir (experimente tentar dormir com raiva!) e de tomar uma atitude direta em relação ao fato, levantei às duas horas da manhã e fui escrever esta coluna e… bingo! Descobri que araiva pode também nos tornar mais produtivos!

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pela VIA Institute on Charater, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

A VOZ DA LIBERDADE

Publicado em 1861, relato de ex-cativa americana que virou cânone do movimento feminista negro mais de um século depois ganha a primeira tradução em português

Os leitores podem ter certeza de que esta narrativa não é ficção. Estou ciente de que algumas das minhas aventuras podem parecer inacreditáveis, mas são, ainda assim, absolutamente verdadeiras. Não exagerei as injustiças infligidas pela escravidão; ao contrário, minhas descrições não fazem jus aos fatos. Encobri a denominação dos lugares e dei nomes fictícios às pessoas. Não tinha por que manter segredo em relação a mim, mas achei que seria gentil e atencioso assim proceder em relação aos demais.

Gostaria de ser mais competente na tarefa que assumi. Acredito, porém, que os lei­ tores vão perdoar as deficiências, considerando as circunstâncias. Nasci e cresci na escravidão, permaneci em estado de escravatura por 27 anos. Desde que cheguei ao Norte, precisei trabalhar com afinco para me sus­ tentar e dar educação aos meus filhos. Isso não me deixou muito tempo livre para com­ pensar a falta de oportunidade de me aprimorar na juventude, e precisei escrever estas páginas em intervalos irregulares, sempre que podia me afastar por alguns momentos das funções domésticas.

Quando cheguei à Filadélfia, o bispo Paine me aconselhou a publicar um esboço da minha vida; eu disse a ele que não tinha nenhuma competência para tal empreitada. Apesar de ter melhorado um pouco minhas ideias desde aquele tempo, continuo com a mesma opinião, mas acredito que minha motivação vai desculpar aquilo que, de outro modo, poderia parecer pretensão. Não escrevi minhas experiências para chamar a atenção para mim mesma; ao contrário, teria sido mais agradável permanecer em silêncio a respeito da minha própria história. Também não pretendo despertar comiseração pelos meus sofrimentos. Mas, sinceramente, desejo despertar nas mulheres do Norte a consciência da condição de 2 milhões de mulheres no Sul, ainda em cativeiro, sofrendo o que eu sofri – a maior parte delas sofre muito mais. Quero somar meu relato ao de escritores mais capazes para convencer as pessoas dos Estados Livres sobre o que a escravidão de fato é. Apenas por meio da experiência é possível perceber a profundeza, a escuridão e o fedor daquele poço de abominações. Que as bênçãos de Deus recaiam sobre esta iniciativa imperfeita em nome do meu povo perseguido!

Durante meus primeiros anos de serviço para a família do doutor Flint, eu me acostumei a compartilhar de alguns agrados com os filhos da minha senhora. Apesar de aquilo me parecer mais do que certo, eu me sentia agradecida e tentei merecer a gentileza com o cumprimento fiel das minhas obrigações. Mas agora eu iria completar quinze anos – uma época triste na vida de uma menina escrava. Meu senhor começou a sussurrar palavras obscenas no meu ouvido. Jovem como era, eu não podia permanecer ignorante a respeito do peso que elas tinham. Tentei tratá-las com indiferença ou desprezo. A idade do senhor, minha juventude extrema e o medo de que sua conduta fosse relatada à minha avó me fizeram aguentar esse tratamento durante muitos meses. Ele era um homem ardiloso e recorria a vários meios para atingir seus objetivos. Às vezes agia de maneira tempestuosa e aterrorizante, a ponto de suas vítimas tremerem; às vezes demonstrava uma gentileza que, em sua cabeça, com certeza serviria para fazer a vítima ceder. Entre os dois, preferia seu humor tempestuoso, apesar de me fazer tremer. Ele tentou de tudo para corromper os princípios puros que minha avó havia imbuído em mim. Ele encheu minha jovem mente com imagens sujas, do tipo que só poderia sair da cabeça de um monstro vil. Eu lhe dava as costas com nojo e ódio. Mas ele era meu senhor. Eu era obrigada a viver sob o mesmo teto que ele – onde eu via um homem quarenta anos mais velho do que eu todos os dias desrespeitando os mandamentos mais sagrados da natureza. Ele disse que eu era propriedade dele, que tinha de me submeter à sua vontade em todas as coisas. Minha alma se rebelava contra aquela tirania mesquinha. Mas aonde eu podia ir para me proteger? Não fazia diferença se a menina escrava fosse tão negra quanto o ébano ou tão clara quanto sua senhora. Em qualquer situação, não há sombra de lei para protegê-la de insultos, violência ou até mesmo da morte; tudo isso é infligido pelos inimigos que tomam a forma de homens. A senhora, que deveria proteger a vítima indefesa, não tem nenhum sentimento em relação a ela que não seja ciúme ou raiva. A degradação, as injustiças e os vícios que advêm da escravidão são mais do que eu sou capaz de descrever. São maiores do que vocês estariam dispostos a acreditar. Com certeza, se metade das verdades contadas a respeito dos milhões de pessoas indefesas que sofrem desse cativeiro cruel fosse levada em consideração, vocês no Norte não iriam ajudar a engrossar o caldo. Decerto se recusariam a prestar ao senhor, em seu próprio solo, o trabalho mesquinho e cruel que cães de caça treinados e a classe mais baixa de brancos prestam a ele no Sul.

Em todo lugar, os anos trazem a todos bastante pecado e arrependimento, mas na escravidão já o próprio despertar da vida é obscurecido por essas sombras. Até mesmo uma criança pequena, acostumada a servir à sua senhora e aos seus filhos, vai aprender, antes de chegar aos doze anos, por que a senhora dela odeia esta e aquela entre as escravas. Talvez a própria mãe da criança esteja entre as escravas odiadas. Ela assiste a ataques violentos de ciúme passional e não tem como não entender qual é a causa. Ela se tornará prematuramente ciente das coisas malignas. Logo vai aprender a tremer quando escutar os passos de seu senhor. Será compelida a se dar conta de que não é mais criança. Se Deus a dotou de beleza, isso vai se revelar como sua pior maldição. Aquilo que desperta admiração nas mulheres brancas só serve para aumentar a degradação de uma escrava. Sei que algumas são tão brutalizadas pela escravidão que não são capazes de sentir a humilhação da sua posição, mas muitas escravas a sentem de maneira aguda e se encolhem só com a lembrança. Nem posso dizer o quanto sofri na presença dessas injustiças, nem quanto ainda me dói pensar em retrospecto. Meu senhor vinha ao meu encontro a cada passo, me fazendo lembrar que eu lhe pertencia e jurando pelo céu e pela terra que iria me convencer a me submeter a ele. Se saísse para tomar um pouco de ar fresco de­ pois de um dia de labuta incansável, os passos dele me seguiam. Se me ajoelhasse ao lado do túmulo da minha mãe, a sombra escura dele caía sobre mim até mesmo ali. O coração leve que me tinha sido concedido pela natureza ficou pesado com presságios tristes. As outras escravas da casa repararam na mudança. Muitas ficaram com pena de mim, mas nenhuma ousou perguntar o motivo. Não precisavam indagar. Elas conheciam muito bem as práticas deploráveis sob aquele teto e sabiam que falar delas era uma ofensa que nunca passava sem ser castigada. Como eu desejava ter alguém a quem fazer confidências. Teria dado o mundo para deitar a cabeça no peito fiel da minha avó e contar todos os meus problemas. Mas o doutor Flint jurou que iria me matar se eu não ficasse muda como uma tumba. Então, apesar de minha avó ser tudo para mim, eu a temia e a amava ao mesmo tempo. Me acostumara a olhar para ela com um respeito que beirava a reverência. Eu era muito nova e tinha vergonha de lhe contar coisas tão impuras, sobretudo porque sabia de sua severidade em relação a tais assuntos. Além do mais, minha avó era uma mulher de espírito elevado. Ela quase sempre era muito tranquila em seu comporta­ mento, mas, se sua indignação fosse atiçada, não era fácil apaziguá-la. Tinham me contado que certa vez ela havia corrido atrás de um cavalheiro com um revólver carregado porque ele insultara uma de suas filhas. Eu morria de medo das consequências de um ataque violento, e tanto o orgulho quanto o medo me mantinham em silêncio. Mas, apesar de não me abrir para a minha avó e até evitar sua vigilância precavida e suas perguntas, a presença dela nas redondezas representava alguma proteção para mim. Apesar de ela ter sido escrava, o doutor Flint tinha medo dela. Temia seus sermões ferinos. Além do mais, ela era conhecida e apoiada por muita gente, e ele não queria que sua própria sordidez se tornasse pública. Minha sorte era não viver em alguma fazenda distante, mas numa cidadezinha não tão grande a ponto de os moradores ignorarem as questões uns dos outros. Por mais que as leis e os costumes de uma comunidade escravagista fossem ruins, o médico, como homem profissional, achava prudente manter certa aparência externa de decência.

Ah, quantos dias e noites de medo e angústia aquele homem me causou! Não é para suscitar solidariedade que conto a verdade sobre o que sofri na escravidão. Faço isso para acender uma chama de compaixão nos leito­ res pelas minhas irmãs que continuam cativas, sofrendo como eu sofri no passado.

Certa vez, vi duas crianças lindas brincando juntas. Uma era branca bem clara, a outra era escrava dela e também sua irmã. Quando vi as duas se abraçando e ouvi sua risada alegre, virei as costas com tristeza para aquela visão adorável. Previ a desdita que iria recair sobre o coração da pequena escrava. Sabia que em breve sua risada se transformaria em suspiros. A criança clara cresceu e se tornou uma mulher ainda mais clara. Da infância à vida adulta, seu caminho estava forrado de flores e iluminado por um céu ensolarado. Quando o sol se ergueu na manhã feliz de suas núpcias, um dia da sua vida, se tanto, tinha sido anuviado.

Como todos aqueles anos tinham tratado a sua pequena irmã escrava, a companheira de brincadeiras da sua infância? Ela também era muito bonita, mas as flores e o sol do amor não eram para ela. A escrava bebeu do copo do pecado, da vergonha e da tristeza – aquele de que sua raça perseguida é obrigada a beber. Tendo em vista essas coisas, por que vocês, homens e mulheres livres do Norte, es­ tão em silêncio? Por que suas línguas falham para assegurar o que é correto? Eu gostaria tanto de ter mais capacidade! Mas meu coração está tão carregado, e minha palavra é tão fraca! Existem homens e mulheres nobres que nos defendem, lutando para ajudar aqueles que não podem ajudar a si mesmos. Que Deus os abençoe! Que Deus lhes dê força e coragem para seguir em frente! Que Deus abençoe aqueles, em todos os lugares, que trabalham em prol do avanço da causa da humanidade!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE NOVEMBRO

CORRUPÇÃO, UMA TRAGÉDIA NACIONAL

Ouvi, agora, isto, vós, cabeças de Jacó, e vós, chefes da casa de Israel, que abominais o juízo, e perverteis tudo o que é direito (Miqueias 3.9).

A corrupção no Brasil é aguda, agônica, endêmica e sistêmica. Está presente em nossa nação desde os seus primórdios. Nossos poderes constituídos estão levedados por esse fermento maldito. Nossos políticos, com escassas e honrosas exceções, abastecem-se do poder, em vez de servir ao povo. Nossos partidos políticos são cabides para dependurar interesses de corporações poderosas. Somos a sexta economia do mundo, mas temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Nossos governantes e legisladores vivem nababescamente, enquanto o povo geme sob o peso de pesados impostos, desassistido de esperança. As riquezas da nação caem no ralo da corrupção. Verbas vultosas, arrancadas das mãos calejadas dos trabalhadores, são desviadas para rechonchudas contas bancárias em paraísos fiscais. O dinheiro destinado a educação, saúde e segurança é desviado por gestores inescrupulosos. Temos uma nação rica, mas uma maioria vivendo na pobreza. As promessas de campanha política já não acendem mais a chama da esperança na alma do povo. Nosso povo perdeu a crença nos seus líderes políticos. Entra governo e sai governo, partidos sobem ao poder e descem do poder, e a corrupção continua desfilando garbosamente na passarela. Assistimos passivos a esse desfile de imoralidade. A corrupção, de fato, é uma tragédia nacional. Que Deus nos ajude a não nos conformarmos com essa tragédia.

GESTÃO E CARREIRA

O NOVO NEGÓCIO DO LIXO

Para onde estão indo os produtos recicláveis e os negócios circulares?

Bancos de carros velhos. Pontas de cigarro. Lentes de contato usadas. Para a maioria das pessoas esse tipo de detrito é lixo, mas para tom szaky tudo isso e muito mais é material reciclável. Ele é CEO e fundador da TerraCycle e de sua mais nova iniciativa, a Loop. As duas são soluções de economia circular que preenchem os gaps entre consumidores, corporações e resíduos. A TerraCycle, fundada em 2001, é empresa de reciclagem especializada em capturar e reaproveitar itens difíceis de reciclar, em parceria com corporações e governos. A Loop, que se tornou empresa de capital aberto em meados de 2019, concentra-se nos problemas de reaproveitamento de resíduos trabalhando com diversas marcas para fornecer embalagens reutilizáveis de produtos de consumo comuns — por exemplo, o Tide, detergente para lavagem de roupa, e o sorvete Häagen-Dazs.

A HBR perguntou a Szaky, líder global em redução de resíduos, se os consumidores, empresas e governos estão — ou não — ajudando a reduzir as quantidades absurdas descartadas diariamente pelas pessoas. Em sua entrevista editada, ele aconselha líderes de empresas interessados em seguir modelos circulares.

*** Você ocupa uma posição única entre as marcas e os consumidores. Que tipo de conversa você mantém com cada lado? E qual é o lado mais resistente à questão da sustentabilidade?

Nos últimos dois anos eu observei uma grande mudança na forma como os consumidores consideram os resíduos. Eles despertaram para todos os aspectos negativos do lixo e começaram a vê-los como uma crise. Por isso, os consumidores ainda estão “votando” com seus dólares em aspectos que os beneficiem pessoalmente, como conveniência, desempenho e preço final. Eles falam muito, mas não estão necessariamente mudando sua forma de comprar.

No entanto, somente manifestação de consumidor não cria nada empolgante: as marcas estão despertando para essa tendência. E com mais razão ainda os legisladores estão aprovando leis que afetam empresas de produtos de consumo, como banir sacolas plásticas e canudinhos. Na França, em poucos anos, os pratos, copos e talheres plásticos não serão mais usados nos restaurantes. Essas leis estão ecoando por toda a indústria de produtos de consumo.

*** Você acredita que os governos estão preenchendo os gaps deixados pelas empresas? Ou eles estão arrastando os consumidores encorajando-os a praticar ações que eles declaram apoiar?

Esta pergunta é mais difícil do que parece. Os canudos de plástico não eram considerados um problema até dois anos atrás. Depois se tonaram símbolo do que há de errado com o plástico e com seu descarte. Depois de um enorme clamor público, os políticos começaram a aprovar leis para bani-los. Então, as empresas proativamente baniram os canudinhos antes mesmo de mais leis entra- rem em vigor. Por isso, um movimento dos consumidores levou os políticos a tomar uma atitude, e depois as corporações aderiram. O canudinho de plástico está efetivamente com os dias contados. Mas foi preciso que corporações, consumidores e governos se manifestassem.

*** Fale um pouco do tipo de conversa que você mantém com os investidores e outros stakeholders na condição de fundador e líder de duas empresas. Como é estar na esfera da sustentabilidade, principalmente com nova startup?

Faz só dois anos que começamos a desenvolver o conceito para a Loop, o que a torna, sem dúvida, uma startup. A TerraCycle tem 16 anos e pode ser considerada empresa em crescimento. Por isso, minhas perspectivas são diferentes.

A TerraCycle vem crescendo ano após ano desde o começo, mas nos dois últimos anos ela cresceu exponencialmente. Corporações que antes não trabalhavam conosco agora estão trabalhando. E as corporações que trabalhavam estão aprofundando seu envolvimento. Nossa receita aumentou 30% organicamente em 2019, em comparação com 2018, e esperamos o mesmo em 2020. Isso ocorre basicamente porque tudo se movimenta mais rápido e as empresas que querem se aprofundar mais versus as grandes novas surpresas ou novas indústrias que estavam adormecidas agora despertaram.

Paralelamente, captamos recursos da ordem de US$ 20 milhões para a Loop Global e de cerca de US$ 20 milhões para a TerraCycle EUA. A principal mudança foi que os investidores estão muito mais interessados em investi- mentos de verdadeiro impacto. Isso está intimamente relacionado ao fato de o lixo ter se tornado uma crise.

Não creio que a Loop tivesse existido há cinco anos. Essencialmente, estamos pedindo às empresas de bens de consumo embalados (CPG, na sigla em inglês) e aos varejistas que basicamente reprojetem suas embalagens e abracem grandes mudanças para a economia na entrega de produtos embalados — em outras palavras, que tratem a embalagem como um ativo, não como custo. Por causa das diferentes formas de ver o lixo, as empresas têm cada vez mais vontade de aderir à ideia. Então, o que está acontecendo agora no mundo das startups como a Loop é que ideias mais audaciosas para resolver essas questões estão sendo discutidas.

*** Você acredita que as empresas já existentes serão capazes de fazer a mudança? Ou serão as novas empresas que estão entrando no mercado?

As duas. Acredito que veremos algumas organizações morrerem por causa disso. Outras pivotarão. E as novas empresas manterão o equilíbrio, como sempre acontece com qualquer mudança. Veja o setor tecnológico, por exemplo. Quantos varejistas sobreviveram a ela? Algumas fizeram excelente trabalho, certo? E algumas, como as varejistas especializadas em caixas grandes — Toys “R” Us, Linens’n Things, Staples na Europa — morreram no processo. O mais importante nessas situações é pivotar e reinventar a organização, lembrando que falar é fácil — fazer é que é difícil, pois exige enormes sacrifícios de curto prazo.

Acredito que não serão indústrias ou setores que terão de pivotar ou morrer, mas as empresas individualmente. Algumas organizações como Nestlé, Unilever e P&G consideram seriamente essas questões e tomam decisões difíceis que podem impactar negativamente no curto prazo, mas criam o alicerce para serem relevantes no longo prazo. Inversamente, muitas organizações — como grandes empresas de alimentação nos Estados Unidos — não estão enxergando o que está por vir e provavelmente serão superadas por startups que estão construindo seus modelos de negócio dentro da nova realidade que está surgindo.

*** Quando você conversa com investidores da TerraCycle ou da Loop, que tipo de preocupação eles demonstram? O que eles querem saber?

De repente surgiu na comunidade de investimentos um interesse muito maior neste tópico. Acredito que os investidores lhe dirão que a sustentabilidade é quase uma necessidade para o futuro. Há 15 anos, quando captávamos recursos para a TerraCycle, as pessoas investiam por causa do impacto e do propósito. Era como se elas estivessem doando a uma ONG. Hoje, os investidores lhe diriam que acreditam de fato que a sustentabilidade é uma exigência para o futuro.

Eles estão analisando os índices de sustentabilidade não apenas do ponto de vista financeiro — “ah, estou satisfeito com o lugar onde coloco meu dinheiro”. Hoje a sustentabilidade é considerada um fator crítico para a longevidade das empresas.

*** Grandes corporações comercializam a sustentabilidade na caixa do “propósito”, e não na dos “negócios”, com promessas e outros compromissos de alta visibilidade. Isso está mudando? As grandes corporações são capazes de mudar da caixa emocional para a caixa dos negócios da mesma forma que os investidores?

A mais famosa das promessas é a da Fundação Ellen MacArthur, assinada por mais de 400 empresas e organizações, sinalizando sua intenção de eliminar a utilização de novos plásticos. Elas basicamente afirmam que em 2025 seus produtos serão compostáveis, recicláveis e reutilizáveis. E que nessa data aumentarão significativamente o uso de recipientes recicláveis.

Agora, sejamos francos sobre o porquê dessas promessas. Desde que os resíduos se tornaram uma crise nos últimos dois anos, muitas empresas chegaram ao ponto em que precisam resolver o problema, ou a legislação as excluirá. A melhor forma de assumir a liderança é fazer promessas, até porque de hoje até o dia prometido você não precisa fazer nada, não é mesmo? Se todos prometem que em 2025 haverá todas essas coisas maravilhosas, eles deixam de ser responsáveis no presente.

Eu conversei com diretores de sustentabilidade de algumas das maiores empresas CPG do mundo que honestamente não têm a menor ideia do que deve ser feito: “A indústria vai descobrir”, dizem eles. É assustador.

Eis o que eu penso que vai acontecer em 2025 com essa promessa em particular. Há uma diferença entre a promessa de ser “reciclável” e ser produzido com “material reciclado”. Em outras palavras, a maioria das empresas, via Fundação Ellen MacArthur, prometeu que em 2025 seus produtos serão 100% recicláveis e produzidos com alta porcentagem (geralmente 25%) de material reciclado. Acredito que a maioria das empresas dirá que elas produziram embalagens “tecnicamente recicláveis”, mas que a indústria da reciclagem é culpada por “não reciclá-las”. Talvez 90% das empresas que fazem essas promessas venham a fracassar e depois dirão “ah, fizemos as nossas embalagens recicláveis, mas os sistemas atuais de reciclagem não têm capacidade de reciclá-las”.

Isso haverá de criar um grande ajuste de contas que irritará ainda mais os consumidores, que provavelmente se insurgirão contra as marcas.

*** E as 10% que foram bem-sucedidas, como conseguiram?

Elas simplesmente estão assumindo a dianteira. Veja um exemplo: atualmente, algumas empresas estão comprando futuros em plástico reciclável para garantir que terão o volume necessário, o que é algo sem precedentes em precificação de plásticos. Um bom exemplo é a Nestlé. Sua principal fala num recente comunicado à imprensa é: “Para criar um mercado, a Nestlé está comprometida em fornecer até 2 milhões de toneladas de plástico reciclado para seus produtos alimentícios e em alocar mais de 1,5 bilhão de francos suíços para pagar ágio por esse material até 2025”.

*** Uma coisa que me intriga é como você consegue colaborar com tantas empresas. É muito difícil? Você faz tudo sozinho?

É absolutamente necessário colaborar. São problemas sistêmicos, e para resolver o sistema você precisa da colaboração de multi-stakeholders. Só foi possível criar a Loop graças à colaboração de multi-stakeholders. Não havia outra forma de fazê-la decolar. E acredito que cada vez mais precisamos desse tipo de colaboração.

*** O que faz uma colaboração como essas funcionar?

Grupos comerciais e consórcios não funcionam. O problema com grupos industriais, pelo menos na minha experiência, é mantê-los unidos para que possam dizer publicamente que existe uma discussão entre multi-stakeholders. Mas os resultados em geral são nulos. Então, como criar uma mudança de sistemas realmente multi-stakeholders? Se você pretende mudar o sistema, é preciso que todos os stakeholders estejam de acordo.

Com a Loop nós, conscientemente, tentamos criar uma colaboração multi-stakeholder. E ver o que acontecia: está dando certo. Estamos adicionando uma marca a cada dois dias, e desde que a lançamos a maioria das grandes empresas multinacionais de CPG se associaram a nós: Procter & Gamble, Unilever, Mars, Nestlé, PepsiCo, Coca-Cola etc. E nós adicionamos um varejista a cada três semanas desde o lançamento, do mundo todo. A Loop opera na França (via Carrefour) e nos EUA (via Kroger e Walgreens), via comércio eletrônico; está expandindo com lojas físicas, nos dois países, ainda este ano. Ela será lançada também no Canadá (via Loblaw), Reino Unido (via Tesco), Alemanha (via varejistas que serão anunciados em breve) e no Japão (via AEON), todas este ano. E finalmente, recebemos insights extremamente positivos dos consumidores — as pessoas querem a Loop, e gostam da experiência quando têm acesso a ela.

Ainda não vejo muitas empresas com modelos semelhantes por aí. A Loop representa uma grande mudança de sistemas que requerem grande coalizão de multi-stakeholders. Ou seja, nenhuma empresa sozinha consegue fazer a mudança — todos precisam agir juntos. Muitos grupos nos telefonam para perguntar o que fizemos para que a Loop desse certo e de que forma podem aplicar esse tipo de sistema ou processo. Eles fazem tais perguntas porque normalmente as colaborações de multi-stakeholders são lentas, e é difícil obter resultados.

*** O que você responde?

Eu lhes digo que uma plataforma como essa não pode ser operada por comitês. Ela precisa ter um “presidente” que tome as decisões, mesmo impopulares, e garanta que tudo avance rápido. Você também fixa prazos públicos com os quais todos possam concordar. Foi por isso, por exemplo, que a lançamos no Fórum Econômico Mundial do ano passado — foi um prazo que permitiu que todos se alinhassem.

TOM SZAKY é fundador e CEO da TerraCycle, que começou como empresa sustentável de fertilizantes em 2003 e expandiu a ponto de se tornar um sistema líder de soluções de reciclagem. Em 2019, a empresa lançou a Loop, que tem por objetivo desbaratar a indústria da reciclagem por meio da transição, nas empresas e varejistas de produtos de consumo, das embalagens atuais para as embalagens reutilizáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MORTE SÚBITA NA JUVENTUDE

Por que cresce o número de jovens que estão em boas condições físicas e morrem repentinamente? A resposta envolve desde causas endógenas e hereditárias até fatores comportamentais

Os corações jovens são mais vulneráveis aos doces encantos do amor — e ao infarto fulminante. A primeira parte dessa frase é pura poesia; a segunda, pura ciência. E é a ciência que investiga, cada vez com maiores recursos tecnológicos, as causas que estão levando de forma crescente pessoas novas à morte súbita (triste e preocupante aumento de 10% ao ano), atingindo até mesmo donos de corpos forjados na saúde do esporte, como foi o caso da ex- ginasta Ana Paula Sheffer — que, lembremos, adorava poesia. Aos 31 anos e medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, ela foi encontrada morta em sua casa, na cidade paranaense de Toledo. Em média, trezentas e vinte mil pessoas, de todas as faixas etárias, falecem anualmente no Brasil de morte súbita. E há uma questão que a todos se coloca: por que o maquinário do coração novo é mais propício a deixar de bater de uma hora para outra, e, na maioria das vezes, de forma fatal? A resposta clínica e endógena, quem dá, são os corações envelhecidos e vividos: o sistema cardiovascular, com o correr do tempo, cria ramificações que espalham melhor o fluxo sanguíneo, podendo dessa forma evitar bruscas paradas cardíacas. O sistema circulatório dos corações novos ainda não possuem tais ramificações.

Há também motivos advindos do ambiente social. “Os jovens apresentam muito mais fatores de risco comportamentais”, diz Sérgio Timerman, cardiologista, diretor do Centro de Treinamento do Instituto do Coração e professor da Universidade de São Paulo. Ele explica que pessoas com pouca idade podem ser mais suscetíveis à morte súbita devido aos excessos que são naturais nessa etapa da vida — e há coisas tão perniciosas usadas por alguns indivíduos que, muitas vezes, se traduzem em infarto. É o caso, por exemplo, do consumo de cocaína: estima-se que 30% dos infartos na juventude são provocados pela dependência química dessa substância psicoativa. Juntemos a isso o hábito da nicotina e de bebidas alcoólicas. “Essa é uma tríade exemplar para a morte súbita”, afirma Timerman. Ao falarmos sobre pessoas acima de 50 anos, a percepção é de que esses riscos diminuem. E um fato é inconteste: cinquentões costumam verificar com mais frequência junto ao médico como anda a saúde do coração.

MÉDICOS NA PLATEIA

Há um destino traçado para todos os seres humanos e, dele, jovens e não jovens jamais conseguem fugir: a genética e a hereditariedade. Ou seja: antecedentes familiares funcionam como sinalizadores daquilo que pode ocorrer. Quando parentes próximos sofreram ataque cardíaco antes dos 50 anos, isso é um fator preocupante para os moços. Sabendo de tal situação, eles vão sempre ao cardiologista? Claro… que não! Some-se agora, aos fatores hereditários, episódios exacerbados de estresse, cada vez mais frequentes entre os jovens devido às altas expectativas que hoje a sociedade e a família neles depositam. O estresse é perigoso caminho que pode desembocar na morte repentina.

O ex-campeão mundial de natação Ricardo Prado, antes de completar 40 anos, teve de se submeter a uma cirurgia cardiovascular de emergência para não morrer: “Perguntei para o médico se era possível esperarmos o período de férias, mas ele me deu uma semana para realizar o procedimento”. Em seu caso, o pai havia tido um infarto logo após completar 60 anos. A imprevisibilidade desse tipo de evento também se verifica na história do atleta amador Carlos Fujii. No ano passado, durante um período de treinos, ele se sentiu mal: “apaguei, parece que me tiraram da tomada”. A sua fala é ótima e espirituosa, mas vamos ao fenômeno clínico: uma pequena placa de gordura se desprendera na corrente sanguínea e obstruíra uma artéria do coração. Seus companheiros de corrida o socorreram. Depois de um mês, estava recuperado.

Deixemos agora os jovens de lado e vamos aos que já atravessaram com saúde grande parte da vida e, repentinamente, são pegos pelo infarto. “Eu morri subitamente e voltei à vida graças ao atendimento médico rápido”, conta Fellippo Danello, 77 anos, cantor italiano radicado no Brasil. No momento em que interpretava a décima música de seu repertório, em um show no clube poliesportivo Paulistano, em São Paulo, Danello passou muito mal. Apesar disso, a sorte lhe foi madrinha: ele se apresentava para uma plateia de médicos: “Quando abri os olhos vi o rosto da minha cardiologista”. Na semana passada, a American Heart Association divulgou as novas diretrizes de ressuscitação e emergências cardiovasculares, decididas por convenção internacional. Agora são 491 recomendações para tentar salvar vidas, quando elas se tornam ameaçadas pela morte súbita.

EU ACHO …

FRUSTRAÇÃO COTIDIANA

Acertarem sempre, ainda mais em um processo dinâmico como é a educação. Mesmo com todo empenho e dedicação da família, os filhos sempre sentirão falta de algo

Uma das lições mais difíceis que aprendemos enquanto pais é que, embora amemos nossos filhos de modo incondicional e lhes dediquemos o melhor de nossa atenção, nem sempre eles percebem ou recebem nossas manifestações de amor e dedicação com a mesma intensidade. Mesmo com tudo que lhes oferecemos, eles crescem ressentidos com a falta de algo que julgam que teria sido perdido em suas vidas. E, não raramente, nos acusam de não os termos observado, ouvido ou até compreendido como pessoas e concluem que não lhes demos exatamente o que precisavam ou queriam. Que frustração!

É comum os pais acharem que tais queixas não correspondem à realidade, pois recordam em quantas oportunidades deixaram seu descanso de lado, para brincar e acompanhar as crianças, ou mesmo o investimento de tempo e recursos que colocamos à sua disposição, ao longo da infância e adolescência, em detrimento de seus prazeres pessoais. Mas será que isso ficou claro para elas?

Sabemos ser impossível, como pais e educadores, acertarmos sempre, ainda mais em um processo tão dinâmico como é a educação: em meio às obrigações diárias, a correria e os imprevistos, é difícil prestarmos toda a atenção que desejávamos poder dar a nossos filhos. Isto é fato!

Mas se pensarmos retroativamente, nossos avós e pais também se queixavam de terem pais que poderiam ter dado maior acolhimento aos seus desejos durante seu desenvolvimento, e essas pessoas muito provavelmente tinham uma vida menos estressante do que a que temos hoje. E crianças de décadas atrás eram bem menos conscientes de seus desejos e direitos, e pode-se entender que dessa forma fosse mais fácil satisfazê-las. Contudo, quem não ouviu queixas de seus pais sobre os avós e a forma como foram criados?

Nessa delicada relação entre pais e filhos, talvez sempre exista uma falha, porque é humano errar e porque não se consegue dar conta de tamanha empatia, a ponto de nunca frustrar outra pessoa por mais atenção que lhe dediquemos.

Por isso, a partir do pressuposto (em que acredito) de que não há nada mais importante do que a relação que construímos com nossos filhos, pois isso molda suas vidas e determina o ambiente que vivemos em casa, venho procurando compreender cases encontros e desencontros e suas consequências para a aprendizagem.

Porém, há muito a aprender sobre essa relação, que é fundamentalmente de interdependência: embora continuemos inteiros com nosso próprio perfil e vontades, devemos nos ligar aos filhos com respeito e amor. A interdependência demora para ser conquistada, mas é um caminho seguro para a autoconfiança e fortalecimento de um bom relacionamento familiar.

As crianças têm seus direitos assim como os adultos, e o mais importante de todos é o respeito ao seu momento de vida: ainda imaturas neurológica e mentalmente, precisam sentir segurança, apoio, limites enquanto crescem. Precisam viver em um ambiente no qual os adultos sejam responsáveis por si próprios e por ela, para que ao crescerem tenham a mesma relação de dignidade com seus filhos e para que convivam com respeito na própria família e também fora dela.

Proximidade, confiança geram colaboração espontânea, criam diálogos produtivos, diminuem a distância entre gerações e mantêm o respeito ao outro, principalmente aos familiares. Todos tornam-se mais capazes de ouvir, compreender e trabalhar de modo a buscar soluções e atender as necessidades uns dos outros.

Acontece que na tentativa de orientarmos nossos filhos, nos esquecemos por vezes de reconhecer suas competências e habilidades pessoais como traços de sua personalidade, falhamos no respeito a eles e até criamos um ambiente hostil, distanciando-nos de quem mais amamos. Damos “broncas”, não ouvimos seus argumentos, deixamos de lado seus desejos sem ao menos explicarmos por quê.

Uma forma de modificar um clima desagradável e evitar mágoas futuras deve começar por pensar em nossos filhos e tratá-los como se fossem os filhos de nossos amigos, sendo corteses, escutando e orientando com respeito. Mostramos muitas vezes mais interesse por estranhos, mantemos   mais nosso humor e cortesia com pessoas que não são de nossa família.

Compreender que pais não podem ser “os melhores amigos de seus filhos” é parte desse mesmo aprendizado: há o papel funcional dos adultos na educação dos filhos, que não lhes permite que deixe seu perfil e assuma outro, sem consequências graves na formação de um adulto autônomo, capaz, e socialmente adequado.

Criança alguma por mais inteligente e amadurecida que seja, está perto de poder ser a melhor amiga de seus pais: não tem maturidade emocional, moral e intelectual para esse papel. Pais e filhos não podem juntos ser “sócios” na tomada de decisões sobre a própria educação, por exemplo. As crianças podem e devem opinar, mas as decisões são sempre dos adultos, até porque estes são legalmente responsáveis pelos atos de seus filhos. Uma coisa é dizer ao filho que não se pode comprar tudo ou mesmo um brinquedo mais caro naquele momento. Outra é trocar confidências e preocupações como: “não sei como pagar a sua escola este mês”.

Pais e filhos estão geneticamente programados para se amarem; mas fazer desse amor uma conquista é tarefa dos pais.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/2007). É autora de artigos nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

OUTROS OLHARES

A ERA DO DINHEIRO VIRTUAL

Os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos preparam a criação do real e do dólar digitais, criptomoedas oficiais que deverão fazer frente a suas congêneres

Por todo o mundo desenvolvido, os bancos centrais estão sendo arrastados para o sistema financeiro do século XXI. O grande desafio dessas instituições tem sido acompanhar a velocidade de inovações trazidas pelo mercado para revolucionar as formas de pagamento. Em poucas áreas isso pode ser tão bem percebido quanto em relação às moedas digitais, um território novo pelo qual o governo brasileiro começa a se aventurar. No início do mês, ao comemorar a aprovação da autonomia do Banco Central (BC) pelo Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou que o país criará o real digital, uma moeda virtual lastreada na unidade monetária nacional. A novidade dá sequência a outras inovações que vêm sendo preparadas pelo BC, como o compartilhamento de dados financeiros do open banking e o novo sistema de transações digitais, o PIX. “O Brasil terá moeda digital, estamos à frente de muitos países”, disse Guedes, na ocasião. A ideia é implementar o que no exterior já é conhecido pela sigla de CBDC (Central Bank Digital Currency, ou moeda digital de Banco Central, em português). De acordo com Roberto Campos Neto, presidente do BC, o projeto deve ficar pronto até 2022.

As principais vantagens observadas por diversos bancos centrais mundo afora são a eficiência que a digitalização da moeda pode trazer ao sistema de pagamentos e a eliminação de gastos com papel, impressão e transporte seguro necessários à moeda física, por exemplo. Os resultados da implementação, porém, ainda são incertos, afinal, nenhum país usa uma moeda digital soberana em grande escala. “A identificação das vantagens é dependente da situação especifica de cada país”, disse o chefe adjunto do departamento de tecnologia do Banco Central, Aristides Andrade Cavalcante Neto, coordenador do grupo de estudo sobre emissão de moeda digital. “Um dos objetivos é a digitalização dos pagamentos, de forma rápida, barata, segura e eficiente”, explica. O principal desafio é identificar qual modelo de moeda digital seria mais adequado ao contexto brasileiro e que acabe se complementando ao uso do PIX, que entrou no ar oficialmente no dia 16 de novembro.

Os estudos vão em linha com o que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, também está fazendo. Administrador do dólar, a moeda dominante nas relações de comércio internacional, a instituição não pôde fechar os olhos diante dos avanços alcançados em países como a China, Coreia do Sul e França com suas criptomoedas nacionais. A instituição, porém, conduz o tema com cautela. “É mais importante para os Estados Unidos acertar que ser o primeiro”, disse recentemente Jerome Powell, presidente do Fed, em um evento do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao se referir aos planos de adoção da moeda digital. Se os americanos prezam pela segurança, em termos de velocidade, o banco central chinês está à frente de todos, refletindo o acelerado ritmo com que o país adentrou na era do dinheiro virtual – com a ressalva de que os dados divulgados pelo Estado chinês não costumam ser totalmente transparentes. No começo do mês, o chefe do Banco Popular da China, Yi Gang, afirmou que correu bem o programa piloto de implementação, do yuan digital em quatro cidades chinesas, com 4 milhões de transações no valor de 2 bilhões de yuans (cerca de 300 milhões de dólares).

As moedas digitais são o novo capítulo da revolução trazida pela internet. Tudo começou com a criação do bitcoin, em 2008, um sistema eletrônico de troca de dinheiro ponto a ponto que tem como vantagem a facilidade das transações, sem a necessidade de intermediários como bancos ou o pagamento de taxas. Desde então, mais moedas digitais vêm sendo criadas, como a ethereum e a tether, e a pandemia aumentou a sua utilização. De acordo com o site de rastreamento de preços CoinMarketCap, o volume de transações em 24 horas do bitcoin depois do surgimento da Covid-19 chegou a ultrapassar 70 bilhões de dólares – antes, o recorde era de cerca de 45 bilhões. O crescimento das criptomoedas é tamanho que grandes empresas de pagamentos passarão a aceitá-las a partir do ano que vem, como o PayPal. Trata-se de uma grande conquista para os seus adeptos. E está aí a grande preocupação dos bancos centrais em não ficar de fora do movimento: o risco é de moedas não soberanas, com as quais não podem lidar por meio de política monetária, ganharem muito espaço nas transações internacionais. Um dos grandes motivos para os Estados Unidos contarem com maior facilidade para se endividar fortemente sem correr os mesmos riscos de outros governos é que o país pode fazer emissões muito maiores de sua moeda e ainda conseguir empréstimos com juros mais baixos, já que o dólar tem demanda global. Perder uma vantagem como essa teria o potencial de trazer efeitos sísmicos para a maior economia do mundo.

Apesar do crescimento da demanda pelo dinheiro digital, a regulamentação na área está apenas começando. Na segunda-feira 9, o BC autorizou o Mercado Crédito, um dos braços da empresa de comércio eletrônico Mercado Livre, a atuar como instituição financeira. Na prática, isso significa que a plataforma do conglomerado digital de origem argentina poderá ofertar produtos financeiros como crédito por meio de fundos próprios, sem precisar da intermediação de um banco. A empresa, que realizou entre janeiro e setembro operações de crédito no valor de 2 bilhões de reais, monitora as regulações do BC, mas já considera o PIX como o caminho para a moeda digital brasileira. “Esse novo sistema de pagamento eletrônico já tem o potencial de substituir o dinheiro por meio de transações feitas por aplicativos, por exemplo”, diz Rodrigo Furiato, diretor de carteira digital do Mercado Pago.

Na China, foi uma outra empresa de comércio eletrônico, a Alibaba, que deu o empurrão inicial para a transformação. Porém, alguns atritos com o governo começam a aparecer quando o Ant Group, gigante de pagamentos nascido da empresa fundada pelo bilionário Jack Ma, se preparava para fazer sua abertura de capital, na primeira semana de novembro. A expectativa era movimentar 34 bilhões de dólares na operação, a maior já realizada no mundo. Às vésperas da realização da oferta pública nas bolsas de Xangai e Hong Kong, Ma foi convocado para uma reunião com autoridades monetárias chinesas e o processo foi suspenso. O motivo alegado para o cancelamento foi a necessidade de adequação a uma nova regulamentação prestes a ser implementada por Pequim. Um sinal de que nem mesmo o governo mais aberto às novidades das finanças digitais está disposto a ser atropelado por mudanças tão radicais.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE NOVEMBRO

UMA NOIVA MUITO ESPECIAL

Eis Rebeca na tua presença; toma-a e vai-te; seja ela a mulher do filho do teu senhor, segundo a palavra do SENHOR (Genesis 24.51).

Abraão estava preocupado com o casamento de seu filho Isaque. Sabia que um casamento errado podia ser uma grande tragédia na vida do filho. Por isso, mandou Eleazar, seu servo mais experiente, procurar uma noiva para Isaque entre o seu povo. Queria uma jovem temente a Deus para casar-se com seu filho. Eleazar buscou a Deus em oração para fazer essa escolha e encontrou uma jovem bela, corajosa, trabalhadora, decidida e recatada. Rebeca foi um presente de Deus para Isaque. Desde o primeiro encontro, Isaque afeiçoou-se a Rebeca. Aquele casamento foi feito debaixo de oração e submissão à vontade de Deus. Os pais ainda hoje devem preocupar-se com o casamento dos filhos. Devem orientá-los acerca da escolha. Devem orar a Deus e pedir um cônjuge que conheça ao Senhor. O namoro e o noivado são etapas muito importantes para um casamento feliz. Um jovem cristão deve orar antes de começar um relacionamento. Deve conhecer o caráter da pessoa, sua família, seus sentimentos e suas atitudes antes de firmar um compromisso. Um namoro e um noivado sem reflexão desembocam num casamento cheio de perturbação. Um adágio popular diz: “Abra bem os olhos antes de se casar; depois, feche-os”.

GESTÃO E CARREIRA

QUEM SABE FAZ AO VIVO

O comércio eletrônico provocou uma revolução no varejo tradicional. Agora, o show de vendas chinês pode fazer o mesmo com os aplicativos e as lojas virtuais

Nos últimos dez anos, a China foi responsável por um terço do aumento do consumo no mundo. Nos próximos dez, deve igualar os Estados Unidose a Europa ocidental, somados. Ela tem a maior população e a maior classe média consumidora. Mesmo com o engasgo provocado pelo novo coronavírus, 600 milhões de chineses (quase três vezes a população do Brasil) continuam comprando produtos industrializados regularmente. A maioria é cliente do Alibaba, um mamute tecnológico que vende de (e tudo – de macarrão congelado a carros de luxo – e que é, ao mesmo tempo, loja virtual, plataforma de pagamento e crédito, distribuidora, entregadora e, agora, produtora de shows de consumo ao vivo pela internet: o Live Stream Shopping, ou LSS.

À primeira vista, comprar virtualmente não parece ser novidade.Canais de venda pela televisão foram estabelecidos há décadas, inclusive no Brasil, mas o fato é que negócios no estilo Shoptime estão tão distantes do novo modelo chinês quanto um Ford T de 1908 estaria hoje de um carro de Fórmula 1. Movido por super aplicativos como Taobao e Tmall, o LSS combina evento ao vivo, celebridades e marketing de produto com venda instantânea a um apertar de botão, no smartphone, tablet ou notebook, sem precisar sair do ambiente virtual. A interatividade é completa e os clientes, majoritariamente jovens adultos entre 20 e 35 anos, não perdem tempo fazendo ligações telefônicas. É comum encontrar comentários de usuários nas redes sociais descrevendo como a compra foi prazerosa. O sucesso do modelo de negócios depende exatamente disso: não pode haver atrito entre entretenimento e comércio eletrônico.

A rainha do LSS na China é uma mulher de 34 anos que, de um armazém-estúdio de dez andares com 500 funcionários, é capaz de liquidar o estoque de um produto em minutos. Viya Huang Wei comanda um negócio multibilionário que funciona com a precisão do relógio atômico. Como o show é ao vivo, tudo precisa estar pronto quando vai ao ar, das amostras que serão testadas até a sincronização do estoque como canal de vendas. Moderadores recebem as mensagens de texto e repassam à apresentadora, que esclarece as dúvidas na hora. É usual pedirem que Viya experimente um batom e descreva sua textura, sabor e aroma – solicitação a que ela atende sorrindo.

Diante de tamanha pujança – estimativa de quase 800 bilhões de reais em vendas em 2020 -, é de perguntar como os países ocidentais ainda não embarcaram massivamente na venda on-line instantânea. A primeira explicação seria que o consumidor não se apegaria ao LSS da mesma forma que os chineses. Mas a maior parte dos analistas acredita que a infraestrutura tecnológica e a forma como os negócios estão distribuídos tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil sejam a barreira de entrada. Enquanto o Alibaba é um exemplo de empresa 100% verticalizada (dos influenciadores sob contrato aos estúdios de streaming, do crédito ao cliente ao delivery, ela controla todos os aspectos da operação), o sistema ocidental é pulverizado, com múltiplos parceiros, varejo físico forte e acirrada concorrência.

Em 2016, a Amazon lançou um serviço semelhante e, apesar do fracasso inicial, voltou à carga no ano passado convocando influenciadoras como Carla Stevenné, de 22 anos, para se apresentar em sua plataforma. Stevenné, que faz vídeos no YouTube desde os 14, é a resposta americana ao sucesso de Viya, apesar de ainda distante do faturamento da celebridade chinesa. O que se pergunta agora é se o comércio eletrônico brasileiro, que hoje já representa 11% do varejo do país, também estaria disposto a enfrentar o desafio. Campeões do segmento, como Magazine Luiza e Via Varejo, têm monitorado o modelo há algum tempo, tanto é que as Americanas, da B2W, devem testar seu grande LSS no próximo dia 27, na Black Friday, que reproduza liquidação pós­ feriado de Ação de Graças dos EUA.

Por mais otimistas que sejam as projeções, não é apropriado fazer comparações com o Dia do Solteiro, comemorado em 11 de novembro (11/11) devido ao múltiplo solitário 1, quando os chineses se auto presenteiam. Neste ano, espera-se bater mais um recorde de vendas em um único dia, superando os impressionantes 38,4 bilhões de dólares de 2019, número cinco vezes maior que o da Black Friday americana. Viya deve ter trabalhado muito na semana que passou. E, se continuar assim, não terá descanso tão cedo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAPEGUE-SE! – V

DESAPEGO É O SEU LEMA?

Saiba se você é desapegado(a) ou se está hora de ter essa atitude

Não é fácil! separar o que é apego da natural necessidade de guardar coisas que tenham valor afetivo. O problema é quando esse “guardar”, seja o que for, passa dos limites e acaba se transformando numa forma de agir que prejudica a si mesmo. As perguntas, abaixo podem esclarecer se você é apegado(a) além da conta!

ROUPAS E OBJETOS PESSOAIS SÃO CLÁSSICOS IDENTIFICADORES DE QUEM É APEGADO

. É capaz de se desfazer de tudo aquilo que não usa há mais de dois anos e, com certeza, não usará?

. É capaz de se desfazer de roupas que não cabem mais, mesmo que se proponha fazer um regime?

. Sem contar aquelas peças que realmente são a única lembrança de um ente querido, é capaz de jogar fora peças que ganhou de pessoas especiais?

LOUÇAS E OBJETOS DE DECORAÇÃO

. Metade das xícaras do conjunto “tão lindo”, quebrou. Você é capaz de se desfazer das restantes acreditando que comprar um conjunto novo será mais produtivo no seu cotidiano?’

. As taças de cristal foram quebrando, e, a não ser que você tenha muita imaginação para utilizar as restantes na decoração, é capaz de doar para um casal recém-casado que poderia ficar feliz só com duas taças?

. Seu estilo é mais prático e despojado. Consegue vender/ doar o conjunto de copos e jarra totalmente diferente de tudo aquilo que você gosta?

PAPÉIS E REFERÊNCIAS VARIADAS

. Você adora cursos mas muitos dos materiais impressos distribuídos não serão necessários na sua profissão, ou mesmo úteis na sua vida. É capaz de, pelo menos uma vez por ano, jogar fora todos os que definitivamente sabe que não vai usar?

. Você está numa relação séria há bastante tempo, consegue mexer naquela gaveta onde tem pequenas lembranças dos ex-parceiros que não foram tão importantes assim e fazer uma limpa?

. Há anos você se formou, tem um anuário que está lotado de papéis e livros que foram importantes durante a faculdade, mas que agora você pode, com uma pesquisa rápida na internet, obter muito mais informação do que se fosse mexer em todos os livros guardados (exceto os de referência, é claro, é capaz de doar para a escola ou faculdade que está montando uma biblioteca?

MAQUINÁRIOS EM GERAL

. Quando casou ganhou uma máquina de fazer macarrão; agora, anos depois, nunca teve tempo, disponibilidade ou vontade mesmo de se aventurar no mundo das massas artesanais você consegue se desfazer?

. Quando mudou-se, aproveitou a reforma e colocou ar condicionado em todos os ambientes da casa. Há anos não liga aquele ventilador de pé, doaria para um lar de velhinhos, por exemplo?

. A máquina de lavar louça provou que não ajuda e ainda dá despesa, mas foi um sonho antigo comprá-la. É capaz de abrir mão e desocupar a cozinha apertada?

Se respondeu que não conseguiria para metade das perguntas, talvez seja necessário começar a trabalhar o desapego.

EU ACHO …

FELIZMENTE EXISTE O MOVIMENTO FEMINISTA

Que não está tranquilo nem favorável, disso todos nós sabemos. Da avalanche de informações que ameaça nos soterrar, destacam-se alguns acontecimentos que revelam a persistência de práticas criminosas que se mantêm, mesmo com os supostos avanços civilizatórios. O caso do jogador Robinho é um desses episódios que nos levam a pensar com e para além dos fatos. Acusado pela justiça italiana de estuprar uma jovem albanesa, violentada por seis homens, entre eles o próprio Robinho, as declarações do jogador e de seus apoiadores dão mais uma volta no parafuso do sexismo e do patriarcado — tecnologias de exclusão e destituição que legitimam toda e qualquer violência de gênero. Em interceptações telefônicas, testemunha-se alguém absolutamente tranquilo, convicto que vai se safar do delito cometido. Diz o jogador: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu…”. Cravando ainda mais o parafuso no muro do sexismo e do desrespeito com mulheres, exatamente por serem mulheres, acrescenta Robinho, sem pestanejar: “infelizmente, existe esse movimento feminista”.

Ao contrário do que diz o jogador, felizmente existe o movimento feminista, considerado um dos movimentos mais importantes do mundo, responsável por mudar significativamente o cartão postal do século XX. Provavelmente Robinho não sabe, mas foi graças ao movimento feminista que mulheres (e homens) puderam estabelecer novos arranjos familiares em virtude da presença feminina no mercado de trabalho, dos direitos sexuais e reprodutivos, entre tantas outras coisas; foi e é graças ao movimento feminista que práticas violentas, como o estupro, são consideradas abomináveis, inaceitáveis e criminosas.

Pelas conversas telefônicas interceptadas, entende-se o porquê Robinho lamenta a existência do feminismo. Do alto de sua masculinidade grotesca, alimenta um mundo em que a brutalidade siga sendo um símbolo de virilidade e de vontade que deve se sobrepor aos corpos submissos. O fato de “debochar” da situação (“eu tô rindo porque não estou nem aí) demonstra que Robinho sabia a quem estava violentando. Para ele, mulher, bêbada, e ainda por cima albanesa (portanto a escória do mundo) sequer é gente. Do alto de sua masculinidade sórdida, mesmo na condição de vítima do racismo italiano, quando por lá jogou e morou, Robinho parece tirar da cartola a única tecnologia de destituição que possui o machismo, para violentar e violar. Abominável!

*** ROSANE BORGES

OUTROS OLHARES

O PREÇO DA VAIDADE

Ao anunciar que estreará na bolsa de valores, influenciadora digital italiana levanta a discussão sobre o papel e os riscos desse tipo de marketing digital

“Ipo de si mesma.” Assim, em tom laudatório e com a vaidade potencializada pela beleza e pelos 21,6 milhões de seguidores no Instagram, a italiana Chiara Ferragni, de 33 anos, anunciou um ineditismo: a possível abertura de sua imagem na bolsa de valores por meio de uma “oferta pública inicial”. Muita água há de rolar até que as ações de Chiara subam ou desçam no mercado financeiro da Itália. Mas uma pergunta se impõe: o que há de tão valoroso no trabalho dela que mereça ser negociado? Para ela, seu estilo de vida. Blogueira de moda e influencer (eis como ela registraria sua profissão ao preencher uma ficha de hotel), a moça se tornou uma poderosa marca nas redes sociais exibindo sem pudor roupas de grife, itens de consumo, viagens espetaculares e seu filho, Leone, de 2 anos. Nada que publica sai de graça – por cada post patrocinado, recebe quase 60.000 dólares, o equivalente a 340.000 reais. “Se o passo de Chiara realmente se concretizar, ele abre portas para um novo mercado”, diz Eric Messa, coordenador do Núcleo de Inovação em Marketing Digital da Faap, em São Paulo.

Os influenciadores digitais, de fato, se transformaram em peças valorizadas na estratégia de marketing do mundo da moda – não por acaso, empresas de todo o mundo já perceberam a vitalidade dessa turma e dedicam 20% de suas verbas de marketing às postagens. Essa é a faceta visível, rentável e gloriosa – mas ela esconde sombras. Há fragilidades, é claro. Do ponto de vista de recurso de propaganda, aos olhos do consumidor, há um risco evidente – quem garante a qualidade do que é oferecido? Como são estabelecidas as fronteiras entre aquilo que parece espontâneo e o que, é espaço comprado? No mundo da publicidade tradicional, que sofre com o avanço dos influenciadores, há normas claras e agências de controle; como o brasileiro Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

Dada a novidade, a trama jurídica ainda precisa ser construída. Sabe­se, contudo, de ao menos um caso de uma influencer condenada por um Juizado Especial Cível de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, por ter indicado uma loja para a compra de um smartphone que nunca foi entregue. Descobriu-se depois, que a promoção era um golpe aplicado em todo o país. A ré recorreu, mas teve seu pedido negado. Ou seja: os influenciadores podem, sim, ser má influência, se não houver cuidadosa atenção.

Um modo de entender o estrago que pode vir atrelado ao mundo que brotou nas redes sociais, ali onde pululam boas histórias mas também mentiras, é medir a força dos personagens que só expõem a cara em smartphones. Um estudo da MuseFind, plataforma americana de pesquisas, mostrou que 92% dos consumidores confiam mais em um influenciador do que em um anúncio ao modo antigo. “O peso dos influenciadores digitais se tornou muito relevante”, reconhece Sabrina Balles, líder de measurement da Nielsen. Relevante ou exagerado? A paulista Bruna Tavares, de Campinas, em São Paulo, fez fama ao exibir produtos de maquiagem. Com 2,8 milhões de seguidores só no Instagram, ela cobrava até 70.000 reais por acordo publicitário. Parabéns à Bruna. Ela é correta, digna e faz bem seu trabalho. Nem todos, porém, seguem o seu competente e ético exemplo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE NOVEMBRO

BAIXA AUTOESTIMA, A SÍNDROME DE GAFANHOTO

Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei… (Isaias 43.4a).

Milhões de pessoas vivem com a autoestima achatada. Sentem-se esmagadas pelo complexo de inferioridade. Olham para si mesmas com desprezo. Sentem-se inferiores aos demais. São como os espias de Israel, que se viram como gafanhotos diante de gigantes. Precisamos entender que não somos o que pensamos ser, nem mesmo o que as pessoas dizem que somos. Somos o que Deus diz que somos. Temos valor para Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Pertencemos a ele por direito de criação. Aqueles que creem no Senhor Jesus pertencem a ele também por direito de redenção. Somos duplamente de Deus. Temos valor para ele. Quando rejeitamos o projeto, estamos rejeitando também o projetista. Quando nos sentimos um zero à esquerda, estamos menosprezando o Criador. Quando nos sentimos sem valor, estamos fazendo pouco caso do Redentor. A Bíblia diz que somos filhos de Deus, herdeiros de Deus e habitação de Deus. Somos a herança de Deus, a menina dos olhos de Deus e a delícia de Deus, em quem ele tem todo o seu prazer. Não deve haver espaço para orgulho nem para autodesprezo em nosso coração.  Somos o que somos pela graça de Deus. Nele devemos alegrar-nos!

GESTÃO E CARREIRA

RIACHUELO QUER SER STARTUP

Aos 72 anos, tradicional empresa de varejo de moda intensifica parcerias com universidades e empresas tecnológicas para reinventar seu modelo de negócio

O período para reflexão e revisão de estratégias. Foi assim que a rede varejista Riachuelo usou a pandemia. A companhia, com faturamento de R$ 7,8 bilhões no ano passado, aproveitou a suspensão de atividades das 323 unidades no País para intensificar a estratégia de incorporação de novas tecnologias para seu modelo de negócio e de aproximação com startups e centros de pesquisas de universidades Brasil afora. “As startups estão nos ajudando a encontrar respostas rápidas tanto na contratação como na execução dos serviços”, diz o head de Inovação, Demetrio Teodorov, executivo responsável por orquestrar a revolução digital da companhia. “O mais importante é que elas nos apresentam um pensamento não óbvio. Sair do óbvio é um tesouro.”

O primeiro passo da empresa para se reinventar em meio à pandemia tem sido a integração de todos os setores e a simplificação dos processos internos, segundo Teodorov. A execução do plano é feita por meio de programas, por exemplo, com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Outra ação em parceria com a UFPE é o patrocino ao Cesar Summer Job, programa de capacitação para os alunos durante o período de férias, oferecendo mentoria para os participantes e analisando a possibilidade de implementação do resultado final do curso dentro da empresa. “Todas as atividades têm sempre um viés estratégico, como testar comportamentos requeridos, entender as oportunidades de novos negócios, as necessidades do cliente e a ultracustomização”, afirma Teodorov. “A universidade nos traz um frescor, pois é um ambiente em que as pessoas não estão acostumadas ao mundo corporativo, elas têm uma mentalidade diferente.”

Já no programa Citi, de estímulo à inovação patrocinado pelo banco americano, a Riachuelo tem acesso às soluções de dezenas de empresas juniores da instituição para o desenvolvimento de estratégias omnichannel. “Fazemos análise de todas essas startups e geramos um book mensal com o objetivo de fomentar a cultura da inovação dentro da empresa.” Ele desataca que as melhores ideias são cadastradas no Riachuelo Lab, iniciativa lançada no início do ano que funciona como um banco de contatos de parceiros em todas as vertentes do negócio: varejo, banco, financeira, fábricas, têxtil, transportadoras, centros de distribuição, call center e empreendimentos.

Atualmente, a Riachuelo possui no banco de dados mais de 200 startups, que têm propostas de soluções para as novas demandas das redes de varejo. Entre as iniciativas está o espaço RCHLO + (Riachuelo Mais), que é uma área dedicada à customização de peças. O cliente pode criar uma estampa, adicionar textos, emojis e até fotos e imprimir na hora. Outra possibilidade de personalização das peças são as aplicações de patches. No espaço, também há a possibilidade de realizar workshops, bate-papos, ativações com artistas, entre outras ações. “A partir do início da pandemia da Covid-19, começamos a rever contratos com empresas e estamos verificando a viabilidade de trocar fornecedores por startups e microempresas para fomentar o mercado dos pequenos empreendedores”, diz Teodorov.

O plano de modernização da companhia, fundada há 72 anos – o fundador do grupo dono da marca, Nevaldo Rocha, morreu na quinta-feira (18), aos 91 anos –, tem orçamento de R$ 168 milhões. O recurso já tem sido utilizado em infraestrutura de tecnologia da informação, segurança e projetos como o Self Check Out (modalidade de autopagamento), RFID (método de armazenamento e recuperação de dados remoto que usa dispositivos como cartões ou tags) e omnicanalidade, estratégia que visa à integração dos canais de venda, oferecendo a mesma experiência em todos eles.

CONSUMIDOR EXIGENTE

Para o período pós-pandemia, a expectativa na empresa é de que o consumidor seja mais exigente com as marcas e use mais os meios digitais. E isso levou à antecipação de projetos. As vendas pelo WhatsApp, por exemplo, estão habilitadas para 100% das lojas físicas e disponíveis em todos os mercados operados pela companhia, e o serviço Click & Collect, que permite que os clientes retirem os produtos adquiridos on-line nas lojas físicas, também está disponível em toda a rede. A empresa implementou ainda o drive-thru em 156 lojas e criou um projeto para transformar seus colaboradores em novos promotores de venda.

Em entrevista em abril, o CEO da Riachuelo, Oswaldo Nunes, falou da aposta da companhia em ações de inovação, como as plataformas digitais. “Esses canais vêm num ritmo de crescimento bem maior do que antes da crise”, disse na ocasião. “A partir de agora teremos um cliente mais digital. E investir nessa transformação é cada vez mais necessário.” Parte do processo para o desenvolvimento destas soluções se dá a partir do evento Demodays, no qual times internos mapeiam os desafios e buscam microempresas que apresentem recursos que possam resolver essas questões. Além disso, o custo normalmente equivale a cerca de 10% do valor cobrado por uma empresa convencional. Inovar, além de tudo, sai mais barato.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAPEGUE-SE! – IV

DE OLHO NA SUSTENTABILIDADE

Pense no meio ambiente e seja responsável na hora de se desapegar de objetos

Sabe aquele item eletrônico que não funciona mais e fica lá no cantinho da casa acumulando poeira? Ou até mesmo aquele aparelho que, para você, não tem mais uso algum, mas que ainda funciona? E as cascas de alimentos? Ah, e aquela. comia que venceu? A bateria e a pilha que acabaram? A lâmpada que queimou? Pois é, não é bom deixar tudo isso dentro, de casa sabendo que não, são mais úteis, mas é importante saber desapegar dessas coisas com responsabilidade ecológica.

Segundo o Pnuma, um programa da ONU para o meio ambiente, o mundo descartou cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2017. Em 2014 o Brasil gerou cerca de 1,4 milhão de toneladas, tornando-se o principal gerador desse tipo de lixo na América Latina. A última edição do estudo Panorama dos Resíduos Sólid0os no Brasil feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), constatou que o total de resíduos sólidos urbanos gerado no pais aumentou 1,7% de 2014 a 2015, período em que a população brasileira cresceu 0,8% e a atividade econômica (PIB) retraiu 3,8%. Apesar do aumento, a porcentagem é menor do que em anos anteriores e, de acordo com o mesmo estudo, reflete um modelo de consumo que aderiu ao descartável e não mudou isso com a chegada da crise econômica.

LOCAIS INADEQUADOS

Segundo a Abrelpe os avanços percebidos pelo setor ainda não são suficientes para reduzir o               volume total de resíduos sólidos urbanos que são encaminhados para locais inadequados. Em termos percentuais houve uma melhora relativa de 0,3% em relação ao ano anterior, porém em termos absolutos, cerca de 30 milhões de toneladas de resíduos foram dispostas em lixões e aterros controlados, uma quantidade que é 1% maior do que o montante registrado em 2014. O desafio apresentado ainda é bastante considerável, uma vez que, apesar das determinações da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Federal 12.305/2010) e de outras Leis Ambientais, mais de 3.300 municípios ainda fazem uso de unidades irregulares para destinação dos resíduos coletados.

DESAPEGO CORRETO

BATERIAS DE TELEFONES CELULARES: geram lixo tóxico. Por isso, uma possibilidade ao descarte deste material no lixo doméstico é entregar as baterias antigas em lojas de eletrônicos. Muitas delas providenciam ou encaminham o material para reciclagem.

RESTOS DE MEDICAÇÕES: o descarte incorreto pode levar ao uso inadvertido por outras pessoas resultando em reações adversas graves e intoxicações. Medicamentos ocupam o primeiro lugar entre os agentes causadores de intoxicações desde 1996, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas. Existem diversas iniciativas que permitem o descarte de forma segura de medicamentos vencidos ou sobras de tratamentos, bem como, de suas embalagens e de objetos perfuro -cortantes usados para ministrá-los.

PILHAS E BATERIAS: o ideal é separar o lixo tóxico dos outros, pois facilita a coleta e o armazenamento em aterros especiais.

LÂMPADAS FLUORESCENTES: essas lâmpadas contêm substâncias químicas que afetam o ser humano, como o mercúrio, um metal pesado que, uma vez ingerido ou inalado, causa efeitos devastadores ao sistema nervoso. É recomendável que se armazene em locais secos. Lembre-se de identificar a caixa e de nunca quebrar a lâmpada.

EU ACHO …

PENSO, LOGO DESISTO

Se há um elemento que não podemos subestimar atualmente é o limite da estupidez humana. Se vivesse no Brasil de hoje, e não na França do século 17, Descartes não teria dito “penso, logo existo”, mas “penso, logo desisto”. Não há nada mais frustrante do que tentar ver a realidade sob o prisma da lógica. O pensamento cartesiano, inspirado por Descartes, foi descartado. A lista de fatos que mostra isso é quase infinita, mas vamos nos ater à discussão recente: a politização da vacina anti coronavírus. O uso político de uma doença já é de uma baixeza inigualável, uma vez que o número de mortos — seres humanos com famílias, carreiras, sonhos — passa a importar apenas para justificar uma narrativa, sem qualquer empatia com as vítimas. Os negacionistas negam, no fundo, o direito ao conhecimento. Esse governo federal ainda se sentará no banco dos réus, não apenas por sua incompetência evidente, mas por sua crueldade dolosa.

O presidente Bolsonaro não se importa que os brasileiros morram — desde que se mantenha no poder. Sua mais nova estratégia contra os inimigos é defender que “a vacina não será obrigatória”. O capitão cloroquina diz isso por uma única razão: a opção mais avançada não é a que ele patrocinou, mas sim o governador de São Paulo, João Doria, seu adversário político.
É um argumento tão infantil que nem parece que vem de um homem de 65 anos, mas de um moleque de nove, brigando no playground. É óbvio que a eficácia da vacina deve ser provada, não é disso que se trata. O boicote que o presidente sugere deixa de ser uma posição política para se tornar uma questão criminosa. A vacina não nasce da origem ideológica do cientista, mas dos testes em laboratório. Alguém sabe quem fez a vacina contra poliomelite? Varíola? Sarampo? Isso só importa para terreplanistas e apoiadores cegos.

Bolsonaro engana a população com gráficos comprados em bancos de imagem e militares irresponsáveis sem respeito por suas próprias patentes. Ser vacinado durante uma pandemia mundial não tem nada a ver com liberdade, porque quem não se vacina pode contrair a doença e transmiti-la a outras pessoas. Explicando para um moleque de nove anos: um cidadão tem a liberdade de beber uma garrafa de cachaça, mas não tem liberdade de fazer isso e sair dirigindo por aí porque pode matar outras pessoas. Da mesma forma, fazendeiros vacinam o gado para que infecções não se espalhem pelo rebanho. O gado não tem liberdade para decidir se é vacinado ou não. Ou tem? Temo que o Brasil de hoje tenha virado uma grande fazenda — e com o líder do rebanho no comando.

*** FELIPE MACHADO

OUTROS OLHARES

TRAGA (BOM) CONTEÚDO

Twitter permitirá que pessoas sigam ‘temas’ em vez de apenas acompanhar as contas de usuários

Toda rede social tem uma preocupação inescapável. Fazer com quem o usuário volte (muitas vezes) e poste (muitas vezes). O resultado dessa equação permite que cada um de nós entregue tempo e dados para as plataformas. Por esse motivo a decisão que o Twitter adotará globalmente esta semana é emblemática para amplificar sua relevância. Ele permitirá que as pessoas passem a seguir temas e não apenas contas. Em outras palavras, em vez de acompanhar somente a ressonância verbal-visual vinda de seus amigos virtuais você poderá localizar novos grupos e fazer interações a partir de segmentos temáticos. Inicialmente, o cardápio trará 300 assuntos.

O Twitter pretende, assim, resolver algo que não é pequeno. Pense na seguinte situação: você é um amante de gastronomia e passa a seguir as contas dos seus chefs preferidos. Acabará consumindo um festival de postagens autopromocionais (menus, pessoas da equipe, horários), mas não exatamente estará mais bem-informado pelas novidades e tendências gastronômicas. A opção de seguir temas justamente serviria para aumentar a qualidade dos conteúdos.

Essa solução, chamada Topics, permitirá que sejam escolhidos assuntos de interesse do usuário dentro das três centenas de opções, que vão de esportes a entretenimento, de contas que são ‘autoridades’ no assunto. A intenção é tornar a plataforma mais acessível para usuários novos ou ocasionais e, ao mesmo tempo, dar alternativas aos heavy users.

A ideia de permitir que as pessoas sigam tópicos além de (ou em vez de) contas individuais remonta aos primeiros dias da empresa. Mas foi preciso o desenvolvimento de ferramentas de aprendizado de máquina e a contratação de uma equipe editorial humana para que isso acontecesse. O lançamento fará com que aprimoramentos ocorram. As perguntas são as mais variadas – de quantas contas serão seguidas a quantos temas aparecerão na timeline? E, por enquanto, um tópico está proibido: política.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE NOVEMBRO 


DEPRESSÃO, A DOR DA ALMA

Desfalece-me a alma, aguardando a tua salvação… (Salmos 1 9.81a).

A depressão é uma doença que provoca muitas outras enfermidades. Ela dói na alma, atordoa a mente e fragiliza o corpo. A depressão atinge milhões de pessoas em todo o mundo. É como um parasita que suga a seiva das emoções. É como uma sanguessuga que extrai o néctar da vida. A depressão é a maior causa de suicídio. Empurra suas vítimas para um corredor escuro, para um deserto inóspito, para um vale profundo, para um quarto sem janelas.

A depressão é multicausal, e seus sintomas são variados. As pressões da vida, as decepções nos relacionamentos, as crises financeiras, o agravamento da saúde, o luto doloroso são algumas das causas mais comuns da depressão. A boa notícia é que a depressão é cíclica. Não dura para sempre. Há uma saída para a depressão. Há cura. Há luz no fim do túnel. Há uma janela de escape nesse quarto escuro. Devemos tratar a depressão com remédio, terapia e fé. Aqueles que atribuem a depressão apenas à influência de demônios estão equivocados.

Aqueles que julgam que depressão é pecado não estão calçados pela verdade. Uma pessoa temente a Deus e cheia do Espírito Santo pode ficar deprimida. O profeta Elias um dia ficou deprimido e pediu para si a morte. Deus, porém, o curou, o restaurou e devolveu-lhe o ministério. Não se desespere. O Senhor pode tirar sua alma do cárcere!

GESTÃO E CARREIRA

TECHNO PELE

O setor de skincare cresce com o uso de tecnologia e apelo ao público jovem: bem-estar impacta na confiança no trabalho

Exposta diariamente a impurezas e agressões invisíveis, a pele precisa de cuidados mais do que especiais. E o setor de skincare tem desenvolvido novas formas de atendera essa demanda, investindo na inovação de técnicas, equipamentos, protocolos e produtos.

Segundo o portal de estatística alemão Statista um dos mais completos do mundo, em 2025 o mercado de produtos para a pele deve chegar perto de US$ 190 bilhões – em 2019, fechou em US$ 141bi. Segundo o instituto de pesquisa de mercado NPD, nos EUA as vendas de produtos para a pele cresceram 13% em 2018 (para efeito de comparação as vendas de maquiagem tradicional cresceram apenas 1%).

Em fevereiro deste ano, a Avon realizou a primeira edição de seu Skineare Summit, em Nova York. A empresa anunciou uma novidade, desenvolvida em parceria com a Universidade de Manchester: uma molécula que estimula e reequilibra a produção de tipos de colágeno fundamentais para o antienvelhecimento.

Outro nicho que começa a ganhar relevância é o de produtos que usam canabidiol em sua formulação. Em janeiro, a Saint Jane, marca de cremes à base de CBD, estreou nas lojas da Sephora nos EUA – Algumas novidades no mercado são o iMask Magic, da Basali, que cria máscaras faciais de colágeno a partir ingredientes naturais, quase como um liquidificador de máscaras (US$300); o ZIIP Nano Current Facial Device, da ZIIP Beauty, que é uma máquina de nano corrente elétrica que se propõe a tonificar, esculpir e dar contorno à pele, prometendo antienvelhecimento (US$ 495): e a LightStim for Acne LED Light Therapy, da Light Stim, que usa luzes LED azuis e vermelhas para “destruir bactérias causadoras da acne (US$165).”O efeito bactericida e anti-inflamatório do LED azul diminui o período de inflamação da acne e previne manchas”, explica a dermatologista e colunista da Forbes Letícia Nanci. Segundo ela, alguns aparelhos de tratamento antiacne contam também com a tecnologia de vibração sônica, que estimula a circulação local e melhora a drenagem e eliminação de toxinas.

O sistema de cuidados com a pele Optune, da Shiseido, incorpora inteligência artificial (IA) e internet das coisas (loT) para criar fórmulas personalizadas – são 80 mil combinações possíveis. Personalização também é a premissa da tecnologia Neutrogena MaskiD, da Johnson & Johnson, que produz máscaras faciais impressas em 3D.

IA te m sido usada para dar conselhos aos usuários – caso do HiMirror, um espelho inteligente controlado por voz que faz uma análise diária da pele e que simula maquiagens com o uso de realidade aumentada (RA). Em 2019, a P&G lançou o Opté Precision Skincare, que detecta manchas na pele e aplica maquiagem em pontos específicos. Empresas como a L’Oréal, por sua vez, estão levando o conceito de personalização ao nível genômico.

Sustentabilidade (incluindo o conceito de animal-free) nos produtos e nas embalagens também estão na pauta do dia. A unicórnio Ginkgo Bio Worksm, por exemplo, criou uma levedura geneticamente modificada para produzir óleo de rosas sem utilizar a planta propriamente dita.

Mas a sensação do momento são as escovas sônicas de limpeza facial. Além de massagear e dar um toque suave à pele, o aparelho promete a desobstrução dos poros, a remoção de resíduos e uma maior retenção de água e sabonete, possibilitando uma higienização mais efetiva. Essa foi a aposta da Foreo, empresa sueca fundada em 2013 que, com uma agressiva e bem calculada estratégia de marketing, popularizou seu produto principalmente entre o público jovem. A marca chegou ao Brasil em 2016 e investiu RS 20 milhões em parcerias com mais de 140 influenciadores, youtubers e celebridades. “[A estratégia] foi importante para nos apresentarmos ao mercado brasileiro, afirma Bianca Tavares, gerente geral da marca no Brasil “Mais do que cuidar da pele, queremos que nossos consumidores vivenciem uma experiência única”

Essa experiência inclui o mais recente lançamento da Foreo: o Luna Mini 3, com suas 8 mil pulsações por minuto em 12 intensidades diferentes. Os produtos da marca também são fabricados e vendidos por empresas nacionais e transnacionais, como as brasileiras Avon e Multilaser e a gigante chinesa Xiaomi. “Essas esponjas não devem ser usadas diariamente”, adverte Letícia Nanci. “A pele deve ser limpa suavemente com sabonete mais adequado ao seu tipo de pele; a orientação seria usá-las duas vezes por semana”. Com mais de 10 milhões de produtos vendidos pelo mundo, a Foreo foi avaliada em US$ 1 bilhão.

Nas clinicas dermatológicas existem avançados tratamentos não invasivos para as queixas mais frequentes: manchas, envelhecimento e gordura localizada. Ainda novo no mercado, o ultrassom macro focado (de nome comercial Scizer) promete diminuir a gordura localizada de regiões como abdome, costas, coxas e braços. O tratamento (de uma a três sessões) é praticamente indolor.

O laser de picossegundos, uma grande inovação na área da dermatologia, permite a remoção de manchas e tatuagens em todos os tipos de pele – inclusive negra e asiática, que mancham mais. Esse tipo de laser emite energia muito rapidamente na pele, não causando o efeito de aquecimento comum dos outros lasers. Além da remoção de manchas, também é usado para rejuvenescimento, tratamento de cicatrizes, linhas finas e flacidez.

Para homens com queixa frequente de calvície, existem inúmeros tratamentos eficazes. Uma boa opção, cientificamente comprovada e aprovada pela FDA, são os capacetes e bonés de laser de baixa intensidade, infravermelho e LED vermelho. que promovem fotobiomodulação – com melhora da densidade do folículo e estímulo de crescimento de novos fios. Algumas marcas são IGrow, Hair max e a nacional Capelux. “A recomendação é usá-los diariamente por alguns minutos”, conclui a doutora Letícia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAPEGUE-SE! – III

VIVA COM MENOS

Muito além de reduzir o consumo excessivo, o estilo de vida minimalista propõe o desapego de tudo o que temos em excesso

O termo minimalismo é atribuído a um conjunto de movimentos artísticos, culturais, e científicos do século XX que eram adeptos daquilo que é simples e fundamental e que se utilizava de poucos elementos essenciais como base de expressão. Com o tempo, o minimalismo foi influenciando diversas áreas, como design, literatura, música, decoração, entre outras.

Mas, o que significa quando alguém se autodenomina uma pessoa minimalista? Nem sempre quer dizer que esse indivíduo vive em uma casa pequena com poucos móveis e apenas vinte peças de roupa. Na verdade, essa é uma maneira de caracterizar aqueles que se cansaram do consumo excessivo, e estão dando mais atenção ao que realmente importa, coisas que, geralmente, o dinheiro não pode comprar.

SOMENTE O NECESSARIO

Alguma vez você já sentiu um vazio interno e, a fim de preenche-lo, foi fazer umas comprinhas? ou, então, achou que adquirir aquele item que está em alta iria te deixar mais feliz, porém a sensação de alegria durou apenas poucos dias? Isso é mais comum do que se imagina, e um dos motivos para situações como essa ocorrerem frequentemente é a cultura de consumismo extremo em que vivemos. Para fugir disso e levar uma vida mais leve, apostar no minimalismo vem sendo uma opção para muitas pessoas. “Ele se tornou um estilo de vida por focar no que é essencial ao ser humano, na qualidade de vida sem exageros e com desprendimento dos bens materiais”, comenta a psicóloga Lidiane Silva.

Mas se engana quem pensa que, para ser minimalista é preciso abrir mão de tudo e viver com pouco. ”Ser minimalista não significa que não podemos ter mais de dois pares de sapatos, roupas diversas, uma casa bem decorada e estruturada. “Essa forma de viver é sobre não se tornar escravo do consumo, pois, muitos estão sempre endividados e continuam comprando aquilo que não lhes acrescenta, vivendo sob pressão interna e externa, além de passar por um estresse que só tende a aumentar”, ressalta Lidiane. Ao direcionarmos toda nossa atenção aos bens materiais, deixamos de aproveitar momentos importantes, viajar, descansar e passar tempo com quem amamos. “Trabalhar somente para comprar traz um cansaço emocional muito grande”, completa a psicóloga.

Segundo Lidiane, é importante que o minimalismo seja introduzido e ensinado às crianças desde cedo, para que não se tornem adultos desenfreados, a comprar desnecessariamente”. Esse é um estilo de vida que tende a trazer benefícios a curto e longo prazo, na individualidade de cada um, contribuindo ainda para uma saúde mental devidamente equilibrada”, afirma.

NA PRÁTICA

Querer se livrar dos excessos já é o primeiro passo para a mudança. Mas, no dia a dia, é importante analisar de onde nasce o desejo de consumir, de ter coisas e de acumular bens que serão pouco utilizados, e entender a real necessidade que precisa ser suprida – e de que forma isso pode ser feito.

“Inicialmente, o minimalismo pode parecer subjetivo, mas, na prática, é surpreendentemente simples: ocupar os espaços com itens que realmente possuem utilidade, lutar contra a tentação de guardar coisas velhas, e parar de pensar em nossa casa e em nossa vida como um estoque, um depósito, e sim como um ambiente de convivência são algumas das formas de aderir ao novo estilo de vida”, sugere Adriana Schneider, coach especialista em desenvolvimento humano.

O minimalismo deve ser utilizado em todas as áreas, servindo como uma estratégia, técnica ou ferramenta para trazer controle essencial ao consumo. “Ele pode ser aplicado, por exemplo, ao ir ao supermercado e comprar apenas aquilo que será consumido em uma quantidade adequada, para que não ocorra desperdício; ao comprar roupas e refletir se aquela aquisição é necessária, se aquela peça será usada ou se será apenas mais uma no guarda-roupa,  ao querer trocar de carro e avaliar se terá mesmo condições financeiras para não passar aperto, em outras áreas ou se tornar escravo de prestações, abrindo mão de práticas que trariam qualidade de vida”, lista Lidiane.

DESAPEGO

Ao aderir ao estilo de vida minimalista, o desapego às coisas que não são essenciais passa a ser automático. Conforme se inicia esse processo, de maneira consciente e comprometida, é possível reavaliar prioridades e, assim, abrir mão daquilo que não agrega valor em todos os sentidos da vida – objetos, ideias, sentimentos, pessoas e atividades. Com o minimalismo, o foco deixa de ser no material, tangível e imediato, e imigra para a vivência de experiências significativas. Ele amplia nossa consciência e nos obriga a rever as coisas que valorizamos e a remover tudo o que nos distrai, ocupa e aprisiona”, destaca Adriana.

Portanto, se o objetivo é desapegar-se do que está tomando um espaço na sua vida que poderia ser preenchido com o que realmente importa, seguir por este caminho vai, sem dúvidas, trazer resultados surpreendentes. “Com isso, é possível retirar o foco de vida no “ter” e enxergar a importância ou essência da alegria que está relacionada ao “ser”: ser fiel, bem resolvido, tranquilo, menos estressado, menos exigente consigo mesmo, levando ao desapego do que não desperta uma evolução sentimental e comportamental positiva na existência”, completa Lidiane. Vale lembrar que o minimalismo não descarta a importância de sentir-se bem e autorrealizado com conquistas materiais, ele apenas destaca o valor de não se tornar refém do consumismo inconsciente.

EU ACHO …

LIBERDADE DE EXPRESSÃO AMEAÇADA

Reflete-se, a todo o momento, sobre as razões que nos fazem humanos. Este é o papel da filosofia: tentar indicar de onde viemos e para onde vamos. No entanto, o que nos torna diferente dos outros seres vivos é a capacidade de expressão, de comunicação, de interação clara e inequívoca, de ampliação da consciência e do conhecimento, da inquietude em aumentar horizontes.

O conceito de democracia é inexorável à defesa das liberdades individuais: todos têm assegurado o direito inalienável de se expressarem como bem entenderem. E o conjunto de leis que rege esse sistema é o responsável por delimitar onde começa e termina o espaço de cada um.

Pré-definir o que um cidadão pode dizer ou como se expressar invalida qualquer conceito de coletividade democrática. Em uma sociedade altamente conectada, com acesso à troca de conhecimento em velocidades inimagináveis, a liberdade de expressão é mais do que um direito: torna-se bem intangível, conquista de cada ser humano ao nascer.

Neste momento, o Brasil está à beira de entrar em período de ameaça à liberdade de expressão irrestrita. O país corre o risco de ser condenado à obediência a quem é contra o livre pensar. Este é o maior perigo que se vive no Brasil: controle absoluto da internet como cortina de fumaça da regulação. Se a internet é regulada de forma como pretendem alguns inimigos da democracia, a sociedade estará fadada a ruir no seu conceito fundamental. Não há sociedade, portanto, não há   democracia; portanto, não há liberdade de expressão; portanto, não há vida.

Que os cidadãos, que – em sua imensa maioria – acreditam nas liberdades individuais, agigantem- se e entendam que é necessário se expressar para assegurar o direito inato à liberdade. Que a democracia seja defendida – e, por consequência, o livre pensar, o livre dizer e o livre expressar. Termino com outra frase do professor de Psicologia da Universidade de Toronto, Jordan Peterson: “Controlar o que pode ser dito significa controlar o que pode ser pensado.”

SÉRGIO LIMA – Publicitário, especialista em marketing político e gestor da agência de conteúdo de marketing político Inclutech.

OUTROS OLHARES

1001 UTILIDADES

Impulsionado pelo uso medicinal, o cânhamo deixa o estigma de lado e vira matéria-prima para a produção de alimentos, roupas de grife, cosméticos e até casas

A chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 foi influenciada pelo cânhamo. A fibra resistente, presente nas velas e nas cordas das caravelas, ofereceu as condições para que os navegadores pudessem atravessar o Atlântico e, depois, dominassem o novo território repleto de riquezas naturais. Se era considerado um material de ponta na época das grandes aventuras marítimas, o produto acabaria perdendo espaço com o passar dos anos até ser estigmatizado por causa de sua origem: a Cannabis sativa, a planta usada na produção da maconha. O combate às drogas quase liquidou o uso industrial do cânhamo, mas a história vem mudando nos últimos anos sob influência das pesquisas científicas. Rica em canabidiol (CDB), a substância tem sido empregada no tratamento de convulsões, epilepsia e esclerose múltipla e, em paralelo, vem se tornando matéria-prima também para a confecção de roupas, fabricação de cosméticos e alimentos e na construção de casas.

Os Estados Unidos descobriram o tremendo potencial econômico da planta pegando o vácuo da comprovada eficácia medicinal. Estima-se que, até 2025, o mercado deverá movimentar 35 bilhões de dólares anuais no país. Em 2018, quando o cânhamo foi legalizado em território americano, a cifra mal chegava a 1 bilhão de dólares. O Brasil, por ora, é espectador do movimento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite apenas a importação do insumo para a fabricação de medicamentos. “Soa contraditório, porque isso protege o mercado externo e impede a construção de uma cadeia nacional”, diz o advogado Arthur Ferrari Arsuffi, que atua em três ações para liberar o plantio da erva no Brasil.

Em tramitação na Câmara, um substitutivo de projeto de lei é a principal esperança para aqueles que desejam a legalização do cultivo no país. Enquanto isso não ocorre, a expectativa é que o aumento da oferta diminua o custo do insumo e reduza o preço final dos medicamentos – e, no futuro, o dos produtos manufaturados. “Ao não agilizar o processo, desperdiçamos oportunidades por puro preconceito”, diz Marcelo De Vita Grecco, fundador da The Green Hub, empresa criada para fomentar negócios voltados para o uso medicinal do cânhamo no Brasil.

A onda pró-cânhamo tende a se fortalecer nos próximos anos, no embalo da busca por produtos sustentáveis. “As grandes marcas de beleza estão apostando em itens feitos a partir da substância”, diz o engenheiro agrônomo Lorenzo Rolim, presidente da Associação Latino-Americana de Cânhamo Industrial. Entre os produtos constam cremes hidrantes e máscaras faciais. Na indústria da moda, a Levi’s lançou no ano passado jeans e jaquetas feitos com 69% de algodão e 31% de cânhamo. No ramo de alimentos, fabricantes americanos vendem azeites com a substância. Apesar de ser uma variedade da Cannabis sativa, ressalte-se que o cânhamo possui baixo índice de THC, o componente que provoca a reação psicoativa da maconha. Ele pode até ser um ótimo negócio, mas não dá barato.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE NOVEMBRO

O MILAGRE NÃO É SUFICIENTE

Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer? Outros, porém, zombando, diziam: Estão embriagados! (Atos 2.12,13).

Enganam-se aqueles que pensam que, se virmos mais milagres, teremos mais fé. As três gerações mais incrédulas da história foram as que testemunharam mais milagres: a geração de Moisés, a geração de Elias e a geração de Jesus. Os milagres podem atrair as pessoas, mas não podem transformar suas vidas. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo foi derramado sobre os cristãos reunidos. Um som impetuoso veio do céu. Línguas como de fogo pousaram sobre cada pessoa no cenáculo. Os 120 que estavam ali começaram a falar em outras línguas, glorificando a Deus.  Cada nacionalidade presente em Jerusalém ouvia essas pessoas falando em seu próprio idioma materno. Porém, esse extraordinário milagre produziu apenas ceticismo, preconceito e zombaria nessa multidão. Mas Pedro se levantou para pregar a Palavra. Falou sobre a morte, a ressurreição, a ascensão e o senhorio de Cristo. Seu sermão cristocêntrico produziu tamanho impacto no coração da multidão, que as pessoas clamaram ao pregador: Que faremos, irmãos? (v. 37c). Pedro ordenou que se arrependessem de seus pecados e fossem batizados para receberem o dom do Espírito Santo. O resultado foi que naquele dia cerca de três mil pessoas foram salvas e agregadas à igreja. Numa geração que está ávida por milagres, precisamos alertar que o milagre não basta; precisamos da pregação do evangelho, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.

GESTÃO E CARREIRA

O COFRE ESCONDIDO

Sua empresa pode ter dinheiro retido na Receita Federal. Há R$ 1,5 trilhão por lá.

Por meio de muita tecnologia – lastreada em soluções que utilizam Inteligência Artificial (IA) –, um escritório de consultoria e contabilidade do Paraná tem conseguido encontrar dinheiro das empresas parado em restituições devidas pela Receita Federal. Dinheiro é modo de falar. Trata-se de uma montanha de grana que pode chegar a R$ 1,5 trilhão. É pelo menos o dobro de qualquer pacote de ajuda discutido para amenizar os estragos provocados pela crise do coronavírus.

O que explica esse volume de reais paralisado num momento em que todos buscam liquidez é a burocracia inercial gerada pela teia tributária brasileira. Num prazo de 30 anos, entre a promulgação da Constituição de 1988 e 2018, o Brasil editou algo como 390 mil normas tributárias. São 13 mil por ano, o que significa três novas decisões ou diretrizes editadas a cada duas horas, durante 365 dias, por três décadas seguidas. O resultado é pura aritmética. E igualmente assustador.

A elevada chance de uma empresa errar com o Fisco, em qualquer instância, exige que um exército atue no back office, alimentando um custo que não tem similar no mundo. “Na dúvida, a maior parte do empresariado brasileiro prefere pagar além para evitar o risco”, diz Lucas Ribeiro, sócio fundador da Roit, que traz a solução em IA. Apenas entre seus 400 clientes, ele calcula ter R$ 120 milhões em restituições. Nem todas têm direito, mas a média seria de R$ 300 mil. A diferença da Roit foi adotar a saída tecnológica.

Ribeiro, advogado com especialização na área de projetos de software, começou a desenvolver uma solução própria há dois anos. Há um ano, ela foi colocada em prática. Até então eles faziam 100% do trabalho de forma humana. Isso dava dois meses para identificar todos os créditos e outros dois meses para pedir a execução. Na Receita, mais seis meses a um ano, que é o limite para deferir e depositar qualquer restituição. Agora, levam duas horas até chegar à Receita.

“Esse dinheiro, que é dele, acaba não sendo requisitado.” Ele diz que o contribuinte brasileiro se divide em três perfis: o que paga em dia e quer tudo certo, o segundo é o que prefere otimizar o risco para minimizar o recolhimento de impostos e, por fim, vem aquele que não paga mesmo. “E 90% estão no primeiro grupo”, afirma. Ribeiro elogia o nível de tecnológica do Fisco e isso levou até a uma mudança de comportamento do contribuinte mal intencionado. O perfil do cara que não quer pagar, segundo ele, tende a desaparecer porque o cruzamento de dados é cada vez mais consistente. “Não se trata de um mundo como o de 20 anos atrás”, destaca.

Por esse motivo, sua aposta em soluções tecnológicas. Como o sistema da Roit foi moldado em Inteligência Artificial, cada resultado ou cliente com dados imputados amplia a performance do software. “Temos 1,3 bilhão de combinações de cenários tributários.” Isso traz ganho não apenas de velocidade, mas também de assertividade. O procedimento administrativo, ele diz, não é simples, mas evita o caminho do Judiciário, desgastante para o empresário e para a própria Receita. No Brasil de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), o contencioso tributário apenas no âmbito federal chega a R$ 3,4 trilhões. Dá meio PIB. E pode durar anos.

Ribeiro diz que boa parte do dinheiro a restituir vem de erros simples. “As empresas têm benefícios que desconhecem, pela cultura da Receita, pelo medo de declarar algo errado e porque o contador vai preferir o risco mínimo”, diz. Isso leva a enquadramentos equivocados e, como há um emaranhado de normas, a chance humana de encontrar a resposta correta não vence a probabilidade de um software.

Como o sistema federal está unificado, ele diz que não existe viés regional nas decisões. “A Receita é o órgão de governo mais bem administrado sob o ponto de vista tecnológico.” Nem mesmo por segmento ele enxerga distorções, mas elenca tendências. Dentro de sua carteira os setores que mais teriam dinheiro a restituir são agronegócio, tecnologia, transporte & logística e o varejo de combustíveis, que trabalha margens bastante limitadas. Atualmente, um em cada quatro funcionários da Roit são da área de tecnologia. “Uso ciência de dados para levar soluções às empresas. E tenho uma regra: dinheiro no caixa é solução.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAPEGUE-SE! – II

DEIXE A VIDA MAIS LEVE

Diferentemente do que muitos pensam, desapega-se não é sinônimo de frieza, e egoísmo. Entenda como essa atitude melhora suas relações e promove a liberdade no seu dia a dia

Você tem o costume de se apegar a coisas, ideias, pessoas, sentimentos ou situações a ponto de não conseguir abandoná-las, mesmo que já não lhes sirvam mais? Uma roupa apertada, um erro cometido por outra pessoa, uma mágoa guardada por muitos anos, um relacionamento que está fazendo ma… Para ficar em paz consigo mesmo é preciso deixar ir embora aquilo o que não acrescenta e, assim, abrir espaço para o novo. Mas, na prática, desapegar-se pode ser mais complicado do que parece e demanda ajuda.

O apego geralmente está relacionado à ideia de que, para encontrar a felicidade, é preciso ter, sejam objetos, amizades, relacionamentos, entre outras coisas. “O ser humano acredita que, ao possuir algo, ele será mais feliz. Mas, com isso, ele acaba caindo na armadilha de ter cada vez mais, muitas vezes pelo status ou por querer reconhecimento daquilo que possui”, comenta a neuropsicopedagoga e psicanalista Barbara Fernandes.

PRECISO ME DESAPEGAR?

É importante, em primeiro lugar ter em mente do que se trata o “desapego”.  Para o psicólogo Roberto Debski, é uma atitude necessária para seguirmos em frente e evoluirmos na vida. “Desapegar é deixar que as pessoas, fatos e objetos do passado façam parte de nossa história, mas que não fiquemos presos a eles. Não se trata de esquecer, mas de colocar cada coisa em seu devido lugar”, explica.

O americano Dave Bruno, professor de História na Universidade Nazarena de Point Loma, em San Diego, decidiu que era a hora de desapegar, de mudar suas atitudes. Em 2008, ele assumiu o desafio de viver um ano inteiro com apenas 100 itens, incluindo roupas, livros, aparelhos eletrônicos, lembranças de família e objetos pessoais. Dave abriu exceções para os bens que também eram usados pela mulher e os filhos, como móveis e eletrodomésticos, mas nada além.

Apesar de sua atitude ter sido considerada radical por muitos, ele acabou conquistando seguidores ao redor do mundo, ganhou a atenção da mídia e publicou o livro The 100 Things Challenge (O Desafio das 100 Coisas, em tradução livre).

“Desapegar é uma atitude de coragem, de ousadia, de acreditar que o novo será melhor do que aquilo que já passou”, afirma Roberto. Mas, cuidado com o excesso: é preciso se perguntar se a obsessão pelo consumo deve ser substituída pela obsessão do não consumo, ou seja, pelo desapego. A psicanalista Simone Vitale explica que esse ato torna-se um exercício saudável na medida em que aprendemos que não é necessário possuir para ser feliz e que a felicidade como diz o psicanalista Jorge Forbes em seus artigos, “não é bem que se mereça”.

Do desapego surgem algumas ramificações, como o que envolve o material, e o emocional. “O desapego emocional é conseguir deixar ir as pessoas e relações que já passaram, tiveram um lugar na história, mas já tiveram seu ciclo encerrado”, esclarece Roberto. Já o desapego material é o se desfazer das coisas que não têm mais utilidade e abrir espaço nos armários, e na vida. O acúmulo de objetos e materiais gera estagnação de energia mental, que não flui, e isso prejudica a pessoa em vários sentidos. “Passa uma mensagem inconsciente de que não há espaço para o novo, e pode gerar dificuldades em mudar, evoluir e crescer”, elucida o especialista.

ALERTA VERMELHO

O medo de perder coisas ou pessoas é comum, mas, em excesso, ele pode afetar a saúde psicológica e até mesmo física de um indivíduo. A falsa sensação de que precisamos manter algo, de que aquilo não pode ser descartado, mesmo não tendo mais utilidade alguma, faz com que sintomas como ansiedade, preocupação excessiva e nervosismo surjam. “Por motivos conscientes ou não, a tentativa de preservar algo em nossas vidas a qualquer custo pode gerar angustia e sofrimento, desenvolvendo, assim, outras patologias e psicopatologias”, explica a psicóloga e escritora Marilene Kehdi.

Em relação aos objetos, existem pessoas que possuem uma dificuldade extremamente grande em se desfazer deles, ainda que não signifiquem nada para os outros ou que não funcionem mais. Nesses casos o item passa a ter uma importância tão grande que chega a ocupar uma condição de continuidade do próprio corpo. É como se, ao livrar-se daquilo, o mundo interno daquele indivíduo estivesse sendo alterado. Há ainda os acumuladores, porém, isso passa a ser considerado uma questão patológica.

De acordo com a psicóloga Sirlene Ferreira, uma maneira de saber se o apego está além do que é considerado normal é tentar analisar se você está, de fato, conseguindo definir a verdadeira importância das coisas, pessoas ou sentimentos que insiste em manter.

POR DENITRO DA MENTE

Além de questões emocionais que estão diretamente ligadas ao apego, é possível encontrar em nosso cérebro explicações para essa dificuldade em deixar as coisas irem. Segundo Barbara, existe uma estrutura cerebral chamada amígdala – um grupo de neurônios – cuja função é proteger o ser humano contra perdas, riscos ou perigo. “O apego é, geralmente, uma atitude de quem quer se proteger de perdas. Por isso, podemos dizer que essa é, também, uma questão fisiológica”, pontua a psicanalista.

A fim de analisar casos mais graves, o pesquisador David Tolin, da Escola de Medicina da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, realizou um estudo para descobrir o que ocorre no cérebro de pessoas acumuladoras. Para isso, ele selecionou 43 adultos já diagnosticados com o problema, outros 31 com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e mais 33 saudáveis. Para a pesquisa, cada um precisou levar uma pilha de papéis de sua casa, como jornais, revistas e correspondências antigas. Os próprios cientistas também levaram os itens pedidos. Depois, um total de 50 itens dos convidados e outros 50 levados pelos profissionais foram fotografados e mostrados aos voluntários dentro da máquina de ressonância magnética. Ao olharem para as imagens desses dois grupos, eles deveriam escolher se gostaram de guardar para si aqueles itens ou se preferiam descarta-los.

Ao fim do experimento, verificou-se que as pessoas saudáveis optaram por jogar fora uma média de 40 dos 50 itens que haviam levado. As que possuíam TOC descartaram por volta de 37 itens. Já os acumuladores só rejeitaram cerca de 29 dos 50. Eles também demoraram mais tempo para tomar a decisão sobre o que fazer com os itens e demonstraram mais ansiedade, tristeza e indecisão do que os outros grupos ao fazer as escolhas.

Nesse mesmo estudo, os pesquisadores ainda compararam exames de ressonância magnética do cérebro de pessoas com e sem o distúrbio e o resultado sugeriu algumas alterações na região anterior do encéfalo (principalmente em estruturas como o córtex cingulado e a ínsula). Essas diferenças, segundo os cientistas, seriam a causa das falhas em tomar decisões, e o receio de optar por escolhas erradas, além de justificar o apego aos acúmulos.

VOCÊ MAIS LEVE

Apego excessivo é sinônimo de sobrecarga, e isso pode ser aplicado em todas as áreas de nossa vida. Por isso, desapegar-se é uma forma de criar espaço para momentos, relações e até mesmo bens materiais novos. Por mais difícil que seja, é importante exercer essa mudança e entender que o presente é o que mais importa. “Focar no aqui e no agora é fundamental para a qualidade de vida. Viver o presente faz com que você esteja atento aos seus comportamentos e ao tipo de vínculo que está criando com todos ao seu redor. Ao longo da vida, algumas perdas vão deixando um profundo vazio, e elas precisam ser compreendidas, aceitas e elaboradas. Caso contrário, a tendência é se apegar demais a tudo aquilo o que não se quer mais perder, completa Marilene.

Em alguns casos, é preciso buscar a ajuda de um profissional para conseguir lidar da melhor maneira com essa questão. “O auxílio de um psicólogo pode ser fundamental na busca interior de uma resposta para determinadas atitudes, como o apego além do comum, por exemplo. “A psicoterapia tem o objetivo de proporcionar autoconhecimento, e isso é muito importante para a saúde mental”, ressalta Sirlene.

OUTROS OLHARES

DISCUSSÃO DESNECESSÁRIA

Ser ou não ser obrigatória é problema inócuo em relação à vacina contra a Covid-19. O fundamental é montar uma rede confiável e bastante ágil de produção e distribuição das doses

Depois de ter transformado a aprovação e distribuição de uma vacina contra a Covid-19 em briga política contra o governador de São Paulo, João Doria, apenas porque o imunizante chinês, o CoronaVac, não lhe interessa – por vir da China e por hipoteticamente ajudar um adversário – de urnas -, o presidente Jair Bolsonaro seguiu o fio. Na segunda-feira 26, ele retomou o assunto: “Não pode um juiz decidir se você vai tomar a vacina, isso não existe”. Reagia a uma afirmação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, que admitira ver com bons olhos o tema chegar à Justiça. Bolsonaro ainda teve tempo de brincar, no dia em que o Brasil chegava ao patamar de 156.000 mortes em decorrência do novo coronavírus. Foi ao Twitter, postou uma foto ao lado de seu cão de estimação, e sublinhou: “Vacina obrigatória, só aqui no Faísca”. Foi troça sem graça, e convém ressaltar que Fux também não precisaria acelerar os passos, levando para o topo da cadeia do Judiciário uma decisão que talvez nem precise estar lá. Do, ponto de vista ético, é plenamente aceitável que algumas boas cabeças defendam o direito individual e inalienável de qualquer pessoa dizer não a tudo o que é compulsório – até que, ao pôr na balança a vontade pessoal e o interesse coletivo, o bom senso decida pelo comunitário. Foi assim com a adoção da obrigatoriedade do uso do cinto de segurança e a ninguém, lembre-se, é dado o direito de fumar em locais fechados.

Se a discussão da vacina fosse levada a patamares de tal quilate, o dos direitos e deveres, ela seria muito interessante – mas, por ter nascido como peça de propaganda eleitoreira, é apenas desnecessária. A obrigatoriedade, a rigor, não está em jogo. Levantamento recente conduzido pelo Ibope mostrou que 75% dos adultos brasileiros tomariam a vacina contra a Covid-19 com certeza absoluta – 20% responderam que talvez tomem e apenas 5% disseram se recusar a levar as picadas. Os índices de aprovação já seriam suficientes para imunizar toda a população. Considera-se que, acima de 70% de cobertura, a imunidade de rebanho é conquistada.

Obrigatórias, sim, deveriam ser as campanhas de conscientização e, depois, de aplicação das doses. A logística é complexa, de modo a preservar as substâncias a temperaturas baixas – e, para não se deteriorarem, precisam chegar rapidamente a seus destinos. Nessa direção, a do zelo pelo cidadão, houve ao menos uma boa notícia: na quarta-feira 28, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação da matéria-prima para a fabricação da CoronaVac. A decisão atendeu a uma solicitação do Instituto Butantan. Foi um adequado gesto de bandeira branca entre os governos de São Paulo e o federal, na contramão do vírus ideológico que havia contaminado o ambiente.

É inútil, portanto, entrar no campo da legalidade – até porque, se fosse esse o caminho, seria bom lembrar da norma que o próprio Bolsonaro assinou em fevereiro deste ano, quando o vírus começava a aparecer, ao prever medidas imperiosas de saúde a ser tomadas pelo estados, incluindo a determinação de exames médicos, isolamento e … vacinas. “Ainda que a lei não tivesse jamais existido, não há o que questionar, o aval à aplicação forçosa é amparado pela Constituição brasileira”, diz Thiago Pellegrini Valverde, professor de direito da Universidade São Judas. Ressalve-se, ainda, que a vacinação obrigatória não é novidade. A BCG, contra a tuberculose, e a DTP, contra o tétano, a difteria, a coqueluche e a pólio, por exemplo, são impostas. Sob uma fiscalização firme, os pais que se recusam a imunizar seus filhos estão sujeitos a multa de até vinte salários mínimos – e não seria errado dizer que o hábito, mais do que a mão forte do Estado, é que fez toda vacinação no Brasil ser plenamente aceita e celebrada.

O célebre episódio da Revolta da Vacina, de 1904, no Rio, quando um motim popular estourou em decorrência da obrigatoriedade da imunização contra a varíola, é incompatível com a sociedade moderna. Desde os anos 1950, com o desenvolvimento da vacina contra a poliomielite, que livrou milhares de pessoas da morte e de viver no horrendo “tanque de aço”, aparelho semelhante a um cofre para auxiliar na respiração, os brasileiros saúdam as vacinas. Não é diferente agora – seja a vinda da China, como a CoronaVac, seja importada da Europa, como a substância de Oxford em parceria com a inglesa AstraZeneca, aqui testada pela Fiocruz. O Brasil não pode andar para trás.

EU ACHO …

O DESAFIO DAS DOENÇAS EMERGENTES

O progresso humano trouxe bem-estar, mas também mais ameaças à nossa saúde, que só podem ser combatidas com pesquisa e inovação

A humanidade progrediu significativamente nos últimos 50 anos na produção de alimentos, energia e medicamentos – sem dúvida, três das mais importantes condições para a melhoria da qualidade de vida humana. Esse progresso, sustentado pelo avanço sem precedentes da pesquisa e da inovação, propiciou aumentos de 30% a 40 % na expectativa média de vida da população brasileira, atualmente próxima de 75 anos. Outras fascinantes conquistas da humanidade a serem consideradas são o acesso à informação instantânea e à mobilidade global.

Entretanto, os mesmos fatores que alavancaram a produção de alimentos e energia estão intimamente relacionados a doenças emergentes no nosso tempo, provocadas pelo aumento de gases poluentes e do efeito estufa na atmosfera, pelo uso indiscriminado de defensivos agrícolas e pela pressão exercida pelas ações humanas sobre a fauna e a flora dos diversos ecossistemas.

É até possível que a pandemia do novo coronavírus tenha despertado a consciência da sociedade para as ameaças impostas pela deterioração do meio ambiente, que poderá acelerar o aparecimento de novas pandemias. A pergunta que se faz é como a humanidade vai se preparar para as próximas grandes ameaças que estão no horizonte. Sabe-se que os investimentos em pesquisa e inovação serão cada vez mais decisivos para enfrentarmos os desafios de saúde pública impostos pelas doenças emergentes.

O enorme arsenal das ciências genômicas revelou, rapidamente, que o novo coronavírus deve ter surgido de um animal silvestre, possivelmente do morcego ou do pangolim. O vírus foi associado à covid-19 quando cientistas de vários institutos de pesquisa chinês es isolaram e sequenciaram o RNA total do fluido bronco alveolar de um paciente internado com síndrome respiratória aguda grave (Sars) no hospital central de Wuhan, em 26 de dezembro de 2019.

Entre os milhares de sequências genômicas obtidas, os cientistas observaram que uma delas, de presença abundante, apresentava alta similaridade com os genomas da família de coronavírus encontrada em morcegos. Posteriormente, designaram esse vírus como Sars-CoV-2 e comprovaram ser ele o causador da covid-19. Nos últimos 20 anos, vários coronavírus passaram de animais silvestres para humanos, causando surtos de doenças respiratórias graves, tais como Sars e Mers.

Projetos de sequenciamento em larga escala de genomas virais existem há décadas e já levaram à descoberta de milhares de sequências de coronavírus em diversos animais de regiões geográficas distintas. A pergunta aqui é como utilizar essas informações para desenvolver estratégias de prevenção de novas pandemias.

Os vírus, em geral, possuem genomas compactos codificadores de enzimas e outras proteínas que lhes permitem entrar nas células e se reproduzir. Os mecanismos gerais de infecção são muito parecidos nas diferentes famílias de vírus, mas pequenas diferenças nos seus genomas podem levar a impactos devastadores na saúde dos indivíduos infectados.

No Brasil, país de dimensões continentais e detentor de mega diversidade, quantos vírus existem na fauna silvestre com potencial de cruzar a barreira para infectar pessoas? Qual o impacto da ação humana na fauna dos biomas brasileiros que poderia quebrar a barreira de transmissão desses vírus? Qual o efeito dos gases poluentes e de resíduos decorrentes de mau uso de defensivos agrícolas no enfraquecimento do sistema imunológico humano, o que significaria abrir caminho para o ingresso de um novo vírus? Como identificar as fragilidades existentes na fração mais idosa da população, que é mais susceptível à infecção de novos vírus? As respostas a essas perguntas são fundamentais e só podem ser alcançadas pela pesquisa científica, única ferramenta confiável para se chegar a qualquer inovação tecnológica.

O primeiro passo é mapear em profundidade e em larga escala os genomas virais existentes na fauna brasileira, com foco principalmente em espécies animais hospedeiras potenciais de famílias de vírus que podem ser transmitidas a humanos. Temos também de sequenciar os genomas de uma amostra representativa da população brasileira para descobrir nossas próprias fragilidades potenciais para doenças emergentes. Grandes bancos de dados de acesso público permitiriam que milhares de pesquisadores, estudantes e jovens empreendedores pudessem utilizar essas informações para gerar inovações. Mas quais inovações? Por exemplo, precisamos de métodos de diagnóstico mais precisos e de aplicação ampla, rápida e eficaz. Nenhum método de diagnóstico utilizado atualmente para a testagem do Sars-CoV-2 é bom o suficiente para o estudo imunológico em larga escala. Apesar de alguns serem mais precisos, ainda dependem de logística complexa de amostragem, o que limita sua aplicação. Esse problema é uma das causas de ainda não sabermos qual a real fração da população brasileira já infectada peloSars-CoV-2.

O método adequado deveria possibilitar a distribuição em massa do teste, via postal, para a população realizá-lo de forma simples e segura em casa. Além disso, tal método deveria possibilitar aplicação imediata, com pequenos ajustes moleculares, para quaisquer vírus novos. Com isso, estratégias de controle poderiam ser mais eficazes. Esses métodos ainda não existem em nenhum lugar do mundo.

Precisamos também de estratégias de tratamento amplas o suficiente para serem aplicadas a qualquer infecção, e que sejam também rapidamente personalizáveis, específicas para o patógeno em questão e eficazes para prevenir o desenvolvimento de doenças. Novos antivirais e vacinas eficazes são difíceis de ser desenvolvidos e demandam grandes investimentos de longo prazo. Apesar de estarmos presenciando o desenvolvimento a jato de vacinas para o Sars-CoV-2, só conheceremos a real extensão de seus efeitos benéficos no médio ou longo prazo.

As ameaças não virão só dos vírus. Bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também representam um grande perigo para a saúde humana. Estima-se que a resistência múltipla a antibióticos poderá matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050 e custar dezenas de trilhões de dólares para os sistemas de saúde. No Brasil, esse problema já corresponde a uma fração significativa do orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Tanto o diagnóstico mais preciso como novos tratamentos para doenças emergentes poderão se beneficiar das tecnologias de edição genômica e da aplicação de algoritmos de inteligência artificial.

Finalmente, a pesquisa científica que impulsiona e a larga a base de conhecimentos é, no Brasil, financiada quase que exclusivamente pelas agências de fomento governamentais. Esse modelo não basta para enfrentarmos os desafios das doenças emergentes e das novas pandemias. Precisamos de maior participação do setor privado – e não estamos falando aqui somente de gastos, mas sim de investimento com retornos econômicos e sociais robustos. Só assim garantiremos que as próximas gerações de brasileiros desfrutem de melhores oportunidades e qualidade de vida.

O país já conta com contingente altamente qualificado de jovens cientistas preparados para enfrentar esses grandes desafios. Mas ainda dependemos que o setor privado, sobretudo aquele muito bem capitalizado, faça sua parte, contribuindo com os investimentos necessários para colocar o país no cenário global de pesquisa e inovação de forma competitiva.

*** PAULO ARRUDA

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE NOVEMBRO

MITOS SOBRE O DINHEIRO

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas… (1Timóteo 6.9a).

Há dois mitos muito comuns sobre o dinheiro. O primeiro deles é que o dinheiro produz segurança. Os ricos blindam seus carros, vivem em mansões amuralhadas e andam com guarda-costas. Pensam que podem viver seguros com esses expedientes. Ledo engano. Mesmo vestidos com couraças de ferro, os ricos andam inseguros e assaltados pelo medo. O segundo mito é que o dinheiro traz felicidade. Os ricos vestem-se garbosamente, frequentam os restaurantes mais requintados, participam dos banquetes com as iguarias mais caras, mas não se fartam nem se saciam. Há um vazio na alma que o dinheiro não preenche. Há uma sede no coração que as coisas não podem satisfazer. Salomão foi o homem mais rico de Israel. Tinha muitos bens, muito sucesso e muitos prazeres, mas nada disso preencheu o vazio da sua alma. Tudo era vaidade, bolha de sabão. O apóstolo Paulo disse que a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. Nada trouxemos para este mundo e nada dele levaremos. Portanto, colocar o coração nas riquezas é insensatez. Devemos ajuntar tesouros lá no céu, pois lá está a nossa pátria. O segredo da felicidade está no contentamento com a piedade. O contentamento é um aprendizado. O apóstolo Paulo disse que aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação. Você também pode ser feliz!

GESTÃO E CARREIRA

KPMG APOSTA NA INCLUSÃO

A população negra no Brasil é vítima de uma desigualdade comprovada por meio de pesquisas sérias feitas ano a ano. Realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com dados de 2018, uma delas aponta que os trabalhadores brancos recebem, em média, 68% mais do que os trabalhadores pretos e pardos. O levantamento também mostra que essa desigualdade persiste nas funções de chefia. Somente 29,9% de cargos gerenciais são exercidos por pretos e pardos. Essa diferença, no entanto, pode ser reduzida por meio de políticas públicas inclusivas e por ações socialmente responsáveis. Dentro desse contexto, a KPMG firmou parceria com o braço corporativo da empresa de educação internacional EF – Education First para criação do programa #Impulse. A iniciativa, exclusivamente destinada a jovens negros, tem como principal objetivo impulsionar a igualdade por meio da seleção de estudantes ou recém-formados para o ensino virtual da língua inglesa e aprendizado em uma plataforma da KPMG Business School. O processo seletivo começou em 8 de abril e será concluído em 20 de maio. O programa selecionará 50 bolsistas para um curso de um ano. Além de participar de um aprendizado focado no desenvolvimento das habilidades de comunicação global, durante o projeto os alunos terão a oportunidade de participar de encontros oferecidos pela KPMG Brasil, para que o bolsista possa conhecer a estrutura da empresa e interagir com lideranças e grupos de trabalhos. “A iniciativa une duas competências importantes no atual cenário do mercado de trabalho: a aquisição de conhecimento de idiomas e culturas e o aprimoramento de competências ligadas à transformação digital, cada vez mais requisitadas pelas empresas”, diz a sócia líder da área de capital humano da KPMG no Brasil, Luciene Magalhães.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAPEGUE-SE!

Livrar-se do que não faz bem traz mais leveza ao dia a dia

ANTES DO DESAPEGO

Passamos muitas horas do dia conectados e é inevitável receber estímulos de consumo. Além das propagandas que chegam no e-mail e nas redes sociais, somos influenciados pelo que o outro publica. Acreditamos que, para ser mais feliz, mais bem sucedido, mais, bem quisto, precisamos ter outras roupas, viajar mais, um carro mais novo, mais maquiagem, suplementos, decorar a casa…  E, assim, vamos comprando acumulando, buscando ter uma vida perfeita que não existe – o que se vê na publicidade e nos posts, afinal, são apenas um recorte, um roteiro de uma história só de bons momentos. Mudar os hábitos para consumir menos também é mudar a mente e aprender que é possível estar bem sem tanta coisa material. Isso faz parte do desapego, que deve ser consciente, para não acabar apenas consumindo e jogando fora. Quer saber mais sobre como desapegar e viver uma vida mais leve? Vem com a gente até os próximos posts!

EU ACHO …

UMA LEI PARA O DILEMA DAS REDES

A nova regulação de proteção de dados prevê maior controle das pessoas sobre suas informações, o que deve ter impacto direto sobre a forma como as redes sociais atuam no país

Uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet de 2020 mostra que, atualmente, mais de 70¾ dos domicílios brasileiros têm acesso à internet. Embora a conexão à rede traga inúmeras vantagens –   como redução de distâncias, acesso à informação e liberdade para a publicação de ideias -, há algumas preocupações pertinentes por parte dos usuários. Especialmente no, Brasil, a apreensão em relação à segurança de dados está acima da média mundial, de acordo com o Unisys Security Index 2020 – o que sinaliza o fato de o país ser um dos maiores alvos de fraudes como phishing (golpe de envios de e-mails ou mensagens com promoções ou informações falsas com o intuito de roubar dados) e ransomware (quando um software “mal-intencionado” bloqueia acessos e pede resgate para as vítimas, uma forma de extorsão virtual). Mas não são só os ataques cibernéticos que geram angústia em relação à proteção de informações pessoais: a pesquisa Global Weblndex coloca o país como o segundo mais conectado às redes sociais, as quais, infelizmente, vinham permitindo de forma indiscriminada o uso de dados – de usuários para estratégias publicitárias ou,  políticas.

Preocupações como essas foram amplificadas pelo escândalo do vazamento de dados do Facebook para a empresa Cambridge Analytica, que coletou indevidamente informações de 87 milhões de usuários por meio de testes de personalidade na rede social. Esses dados foram usados para influenciar a opinião de eleitores em vários países. O episódio foi o pontapé para que autoridades europeias criassem o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), que vigora desde 2018, estabelecendo regras para o uso de informações pessoais. Na mesma linha, foi aprovada no Brasil a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que, após muito vaivém político, finalmente entrou em vigor em setembro e passou a fazer parte do dia a dia dos brasileiros – sejam eles empresas ou consumidores com diferentes níveis de uso da internet. Tanto o GDPR quanto a LGPD visam a centralizar o ambiente regulatório, além de fornecer aos usuários o controle sobre seus dados pessoais e privacidade em meios de comunicação, caso assim desejado.

As empresas brasileiras precisam estar aptas a responder a perguntas de cidadãos sobre suas informações. Algumas delas: Quais são os dados que possui das pessoas? Para que são utilizados? Qual a justificativa para ter cada um deles? As informações são ou foram transferidas para outras empresas? Qual é o grau de segurança em que elas são mantidas? O efeito da nova lei nas redes sociais, utilizadas massivamente no país e grande fonte para se encontrar detalhes pessoais, será sentido de forma significativa. Informações cujo processamento não foi ativamente consentido não poderão ser usadas. As empresas deverão ter urna base legal para obter informações de clientes, assim como para justificar a não exclusão de dados. Isso porque, apesar de a LGPD não especificar o direito ao esquecimento, como ocorre na lei europeia, ela tem como princípio o uso dos dados pessoais apenas enquanto eles forem necessários à empresa, de forma legalmente justificada, o que gera brechas para pedidos de exclusão.

É esperado que a LGPD resulte em estratégias de vendas mais responsáveis por parte das empresas, especialmente as que dependem das redes sociais para monitorar informações de potenciais clientes e desenvolver uma segmentação automatizada. Isso também vale para aquelas que compram dados cadastrais para envio de spam. O que ocorre é que, com a nova lei, os modelos automáticos de classificação via algoritmos das estratégias de venda fiam sob o escrutínio público, pois a lei especifica que os usuários podem pedir detalhes sobre os critérios e procedimentos utilizados em modelagens, ficando passíveis à auditoria pública sobre potenciais aspectos discriminatórios. Por exemplo, deve haver salvaguardas robustas para o uso de informações relacionadas a orientação sexual, raça, saúde, política e crenças religiosas.

Outro aspecto resultante da implantação da LGPD pode ser a redução na disseminação de fake news, tendo em vista que ficará mais controlado o acesso a dados que permitam identificar determinados grupos de pessoas ou eleitores. Dessa forma, campanhas de ódio, assédio e exposição da intimidade alheia usando a internet como meio de divulgação seriam situações menos corriqueiras na vida dos usuários de redes sociais.

Ainda que, no Brasil, a LGPD seja uma novidade, a experiência do GDPR já trouxe aprendizados e modificações importantes nas redes sociais. Mudanças como novas dinâmicas de desindexação nas plataformas de busca para atender a pedidos de exclusão de dados começaram a acontecer. Também passou a existir a exigência de que os anunciantes de públicos personalizados atestem o consentimento desse mesmo público. A regulação instituiu ainda a exigência de autorização para uso de cookies (histórico detalhado de acesso) em anúncios direcionados. Em suma, está havendo maior cuidado com dados pessoais trocados em mensagens públicas de redes sociais (que não são propriedade da plataforma).

Por meio desses novos processos, os usuários podem garantir mais privacidade, segurança sobre o uso de dados pessoais e controle sobre experiências de compra. À medida que os consumidores estão mais vigilantes sobre o tratamento de dados, a responsabilidade e a transparência com que cada empresa tratar o público tendem a estimular a confiança em suas marcas, algo que tem valor inestimável.

*** FERNANDA BARROSO é diretora-geral da Kroll no Brasil

OUTROS OLHARES

UM IMPOSTOR ENTRE NÓS

O game Among Us se tornou o mais badalado de 2020, o ano da pandemia – e passou até a ser usado como ferramenta política para atrair eleitores jovens

Um jogo simples e sem programação gráfica moderna, quase tosco, é um dos campeões de popularidade em 2020, o ano da pandemia. Lançado sem muito alarde em 2018, o Among Us (entre nós, em português) alcançou no terceiro trimestre a marca de mais de 100 milhões de downloads. Só mesmo quem não tem um smartphone, andou um tempo em Marte ou foi procurar água na Lua é que passou ao largo da brincadeira. Mesmo na opção paga (e mais completa), o sucesso é estrondoso. O game é o quarto na lista dos mais comprados pela plataforma de jogos Steam e o terceiro em tempo jogado nos últimos trinta dias, com quase 140 milhões de horas – atrás apenas dos imbatíveis Counter-Strike: Globa Offensive (CS:GO) e Dota 2, e à frente de clássicos como o Grand Theft Auto V (GTA V). A diversão recupera um passatempo da criançada da era analógica – o Máfia, também conhecido pelos nomes Assassino ou Cidade Dorme. A versão clássica poderia ser feita com um baralho de cartas ou até mesmo com sorteio, sem nada às mãos, para definir os papéis de cada participante. Os “mafiosos” ou “assassinos” eram responsáveis por matar os “cidadãos”. Estes, por sua vez, faziam uma votação ao final de cada rodada para tentar descobrir os vilões da partida. Em Among Us, tudo se dá em algum canto do espaço sideral, com naves à espreita. O objetivo dos tripulantes é identificar impostores e completar a tarefa ao redor de um mapa. Já os impostores precisam eliminar os outros, simples assim. Com um detalhe: toda a movimentação de votos, a definição de quem é quem, culpado ou inocente, se dá em forma de chat por mensagens de texto. Ou seja: há distração “dentro” e “fora” do ambiente de disputa.

As cifras de Among Us eram tímidas até agosto. Ganhou extraordinária visibilidade quando alguns famosos, em exercício de autoestima, passaram a transmitir as partidas por meio de plataformas de vídeo como o Twitch e o onipresente YouTube. Neymar, é claro, deu as caras entre um treino e outro. O maior youtuber individual do mundo, o sueco PewDiePie, com 107 milhões de inscritos em seu canal, entrou firme na farra. O brasileiro Felipe Neto (palpiteiro em assuntos que vão da economia ao esporte) pegou carona – e então deu-se a disseminação irreversível, até que desponte outra mania no horizonte. Há de se reafirmar, para não perder o fio da meada, o papel decisivo da quarentena. No isolamento social imposto pela Covid-19, dentro de casa, um quarto da população mundial adotou videogames como entretenimento, o que significou uma disparada de 43% ante o mesmo período de 2019, em um processo de massificação sem precedentes. Os fabricantes dobraram os lucros em relação ao ano passado.

A lição que fica com o salto do Among Us: a simplicidade também é vencedora e nem sempre é preciso recursos complexos, digitalmente rebuscados para que um divertimento caia no gosto do mundo globalizado. “E um jogo muito fácil, que prende você”, resume Julia Quintas, atriz de 21 anos que joga com os amigos que fez na faculdade de teatro, virtualmente. Julia está entre os 60 milhões de pessoas do planeta que passam horas entretidos com o enredo diariamente. “O mais legal é jogar nas salas privadas com os amigos. Ele pede muita conversa e debate para enfrentar os desafios, e acabamos rindo ainda mais.”

Among Us, no entanto, tem uma peculiaridade que o leva para além da singeleza e do fenômeno passageiro. O fato de ser atraído por jovens eleitores (e não só crianças) fez com que se tornasse ferramenta política, em ano de eleições nos Estados Unidos e no Brasil. A deputada americana Alexandria Ocasio-Cortez protagonizou uma das lives com maior audiência na história do Twitch, com mais de 5 milhões de visualizações, jogando Among Us. A estratégia da congressista do Partido Democrata era se aproximar do público jovem e engajá-lo a votar na legenda no próximo pleito do país. Guilherme Boulos (PSOL) e Arthur do Val (Patriota), candidatos à prefeitura de São Paulo de lados ideológicos opostos, também aderiram à onda, em lives que chamaram mais atenção pelo mau gosto nas ofensas aos adversários políticos do que pelo entretenimento. No game e na vida real, não é fácil descobrir quem é quem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE NOVEMBRO

COELHO OU CORDEIRO?

… Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado (1Coríntios 5.7b).

A sociedade secularizada mudou o símbolo da Páscoa, transformando-a numa mera festa do consumismo. O coelho destronou o cordeiro, e o chocolate substituiu o sangue. O que tem o coelho que ver com a Páscoa? Absolutamente nada! Não há nenhuma conexão entre a Páscoa e o coelho. Este é um intruso, um instrumento sutil para desviar o foco do verdadeiro sentido da Páscoa, afastando assim as pessoas de uma reflexão honesta acerca do livramento que Deus providenciou para seu povo por intermédio da morte de seu Filho. A Páscoa tem que ver com a libertação do cativeiro. A salvação dos judeus aconteceu mediante a morte de um cordeiro e a aspersão de seu sangue nos batentes das portas. Os israelitas não foram poupados da morte porque eram melhores que os egípcios. Não foram libertos por suas virtudes nem por suas obras. Foram salvos pelo sangue do cordeiro. Quando o anjo de Deus passou pela terra do Egito, naquela fatídica noite, viu o sangue. O sangue era o sinal e a senha da libertação. Os israelitas não foram salvos da morte porque eram monoteístas e os egípcios, politeístas. Foram salvos pelo sangue do cordeiro. Assim, também, somos salvos do pecado pelo sangue de Jesus. Não é o que fazemos para Deus que nos abre a porta de libertação, mas o que Deus fez por nós em Cristo!

GESTÃO E CARREIRA

O FIM DO RELÓGIO DE PONTO

Não é o tempo que você passa na empresa que importa e sim o resultado que você entrega

A produtividade humana não é um elemento padronizado que podemos organizar no horário comercial. Tem dias que não estamos com cabeça para produzir entre as 8h e 18h e mesmo assim temos que cumpri-lo. Precisamos mudar essa dinâmica. Um profissional precisa ter parte da decisão sobre o seu melhor horário de trabalho e ser cobrado somente pelo seu resultado. Pra mim, esse é o futuro. Quantas vezes já fomos para os nossos postos de trabalho cheios de preocupações com outros assuntos? Estudos, necessidades pessoais, saúde, entre outros. Ou quantas coisas perdemos porque precisávamos bater o ponto necessariamente às 8h? (Não vou nem citar quantos momentos importantes muitos pais e mães não conseguem participar na vida de seus filhos). É uma mecânica que não é boa para ninguém. Para a empresa não é a melhor porque não pensa no funcionário como gente. Como uma pessoa com necessidades, preocupações e vida além do trabalho. E não é boa para o funcionário, porque ele não consegue entregar o seu melhor. Não acredito

nessas frases de efeito que falam que temos que aprender a separar o pessoal do profissional. Que no ambiente de trabalho temos que ser profissionais e esquecer todo o resto. Quero ver se você, sabendo que está perdendo um momento importante de quem você ama, ficaria super bem no trabalho. É impossível, somos humanos. A questão que eu levanto é que precisamos de mais flexibilidade nas nossas relações de trabalho. O tempo que eu passo na empresa não é diretamente proporcional à minha produção. Precisamos tratar mais as pessoas como pessoas. Eu acredito muito em meritocracia. Quer sair mais cedo? Precisa ir no médico? Quer ver o jogo do filho? Não tem problemas. Não estamos contratando profissionais para esquentar cadeira. Estamos contratando resultados. E as pessoas dão mais resultados onde são valorizadas.

PAULO GABRIEL JR – é professor de marketing, relações públicas, especialista em marketing digital, gestão de projetos e em inovação e empreendedorismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A POSITIVIDADE TÓXICA

Os tempos pandêmicos acentuaram um paradoxo das redes: ao alardearem o lado ensolarado da vida, elas podem desencadear um ciclo de tristeza

Mal a pessoa acordou, a mão estica para o celular, abre o aplicativo e não tem escapatória: depara com a primeira mensagem motivacional. Seja o indefectível “bom dia, dia”, seja uma sequência de carinhas amarelas e sorridentes, seja na forma de verso, meme, figuras variadas, stickers e até correntes, uma avalanche de otimismo escorre da tela e se esparrama pela humanidade, passando a impressão de que, com tantas coisas boas ao redor, só não é feliz quem não quer. A insistência na tecla de que a vida é bela – ampliada no Twitter, Instagram e Facebook pela onipresente #gratidão, por exemplo – já vinha mostrando sua face menos rósea, mesmo antes da pandemia. Mas, no cenário de isolamento social e preocupações ampliadas, o incômodo com os recados ensolarados se intensificou, a ponto de o nome dado ao fenômeno ter se popularizado:  positividade tóxica, que vem a ser aquela imposição de euforia e animação que acaba fazendo mal às pessoas – literalmente.

A expressão foi cunhada nas buscas do Google em 2019, mas sua procura teve um salto, de 85% este ano (376% na versão em inglês, toxic positivity). “Existe o mito de que basta pensar positivo para tudo dar certo. A ideia termina por ser prejudicial, porque não nos prepara para as frustrações”, diz Guilherme Spadin, diretor de psicoterapia da The School of Life em São Paulo. O conceito está relacionado ao que o psicanalista Sigmund Freud chamava de “afeto estrangulado” – a tentativa de reprimir emoções negativas apelando para a demonstração de felicidade e otimismo em toda e qualquer situação, inclusive nas mais adversas.

Uma enquete entre quem posta e quem lê mensagens motivacionais realizada pela pesquisadora comportamental Vanessa Van Edwards, fundadora do portal americano Science of People, indicou efeitos, com o perdão da palavra; negativos em ambos os casos. Mais de 75% dos entrevistados admitiram que, ao mostrar alegria constante, estão ignorando suas reais emoções. Do outro lado, 68% relataram episódios de ansiedade e pânico diante de tanta imagem maravilhosa que eles mesmos não conseguiam reproduzir em sua vida. “Minha turma nas redes dizia em peso que estava fazendo exercícios em casa, aprendendo outros idiomas e até começando a namorar. Enquanto isso, eu engordei e voltei a ter crises de ansiedade”, conta a estudante de publicidade Pamela Dias, de 23 anos. Moradora de Campinas, interior de São Paulo, ela sentia culpa por não encontrar o tal “lado bom da pandemia”. A saída foi desinstalar os aplicativos e se afastar do mundo perfeito das mensagens fofinhas e das famílias lindas que vivem em casas maravilhosas. “Como animal social que somos, temos a tendência a nos comparar com quem aparenta estar melhor ou ter mais. Mas a comparação desmedida é justamente o que atrapalha a pessoa ser, de fato, feliz”, afirma Luiz Gaziri, autor do livro A Ciência da Felicidade.

Outro estudo, este da psicóloga alemã Gabriele Oettingen, da Universidade Nova York, revela que os indivíduos que pensam positivo o tempo inteiro raramente atingem as suas metas porque, quando seu cérebro registra o prazer das satisfações ilusórias, a pressão arterial cai e, junto com ela, reduz-se a motivação que faz o ser humano progredir. Em relação à saúde mental, a impossibilidade de perceber tantas coisas boas, como aconteceu com Pamela, resulta em sentimentos como culpa e tristeza, que podem desencadear ou agravar doenças como depressão e distúrbios do sono. “A toxicidade está em não querer enfrentar as dificuldades ou aceitar as frustrações. Ser positivo não significa ignorar que angústia, fracasso e tristeza fazem parte da natureza humana”, explica a neuropsicóloga Adriana Fóz.

Nada disso quer dizer que quem manda carinhas felizes logo cedo está sendo maldoso – pelo contrário, pensar e receber palavras boas ativa o núcleo accumbens, a área do prazer do cérebro, e não há mal algum em querer ajudar o outro a se sentir melhor diante de situações difíceis. A designer Andrielli Aguilera, de 28 anos, acumula quase 100.000 seguidores no Instagram produzindo ilustrações no melhor estilo good vibes only (só boas vibrações) e tem certeza de que o otimismo é o motor de sua audiência. “As pessoas querem apreciar o que elas não têm e sonhar com a vida que desejam”, ensina. Sem problema – desde que a positividade traga, verdadeiramente, efeitos bons e saudáveis para o dia de cada um.

EU ACHO …

A TIRANIA DO MÉRITO

Em novo livro, o filósofo Michael J. Sandel demole o engodo do esforço pessoal como razão do sucesso

O novo livro do norte-americano Michael J. Sandel, A Tirania do Mérito, combina linguagem acessível e profundidade analítica. Digo profundidade porque Sandel se aventura nos labirintos das sociedades capitalistas contemporâneas. À porta de entrada do labirinto estão de sentinela os arroubos xenófobos, racistas, intolerantes e racistas daqueles que se consideram abandonados à beira da estrada da vida. “Assim como o triunfo do Brexit no Reino Unido, a eleição de Donald Trump em 2016 foi um veredicto furioso sobre décadas de crescente desigualdade e uma versão da globalização que beneficia aqueles que estão no topo, mas deixa os cidadãos comuns se sentindo descapacitados”, escreve o filósofo. “Foi também uma repreensão para uma abordagem tecnocrática da política que é surda aos ressentimentos das pessoas que sentem a economia e a cultura os deixarem para trás. A dura realidade é que Trump foi eleito batendo em uma fonte de ansiedades, frustrações e queixas legítimas às quais os principais partidos não tinham resposta convincente.”

A partir desse ambiente de frustração e revolta, Sandel vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia e suas contradições. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também – especialmente – quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal.” Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concretados indivíduos-habitantes das sociedades capitalistas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.

A busca pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios, atolada no pântano da sociedade de massa.

Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o consumo dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do endividamento. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete uma fração crescente de sua renda nas encrencas do endividamento. No mundo em que mandamos mercados da riqueza, os vencedores e perdedores dividem-se em duas categorias sociais: na cúspide, os detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza, gozam de “tempo livre” e do “consumo de luxo”. Na base, os dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência.

Sandel reconhece que, em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social, o desemprego estrutural promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários tromba com a igualdade de oportunidades.

A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos -utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade iluminista são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc. Vou buscar o auxílio de Elisabeth Roudinesco para valorizar o livro de Sandel.

Exímia em percorrer os caminhos perigosos da filosofia e da psicanálise, Roudinesco ausculta, na aurora do século XXI, rumores cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas? Classificar, ranquear, calcular, medir, colocar um preço, homogeneizar, este é o nada absoluto das investigações contemporâneas, impondo-se sem limites em nome de uma modernidade falsa que solapa todas as formas de inteligência, a crítica fundamentada na análise da complexidade das coisas e dos indivíduos.

Roudinesco desvela os desencantos da sexualidade pós-moderna. “Nunca a sexualidade foi tão desenfreada, e nunca a ciência avançou tanto na exploração do corpo e do cérebro. No entanto, nunca o sofrimento psicológico foi tão intenso: solidão, uso de drogas que alteram a mente, tédio, fadiga, dieta, obesidade, medicalização de cada segundo da existência. A liberdade do eu, tão necessária, e conquistada à custa de tanta luta durante o século XX, parece ter se transformado em uma demanda por contenção puritana.”

Quanto ao sofrimento social, afirma, é cada vez mais difícil de suportar, porque parece estar constantemente em ascensão, num contexto de desemprego juvenil e trágicos fechamentos de fábricas. O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?” O avanço exasperado da ”quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos. Roudinesco registra o descompasso entre as promessas e as realizações da sociedade competitiva. Quanto mais se promete aos indivíduos felicidade e segurança, mais a sua infelicidade persiste, mais as vítimas das promessas não cumpridas se revoltam contra “aqueles que os traíram”.

OUTROS OLHARES

O PAGAMENTO INSTANTÂNEO

A partir de 15 de novembro, com o PIX, o brasileiro só precisará de um celular para pagar, transferir ou receber dinheiro. A mudança pretende incluir os desbancarizados

A hiperinflação representou um dos períodos mais nefastos da economia nacional, desafiando pessoas e empresas. Mas propiciou que o sistema financeiro brasileiro se tornasse um dos mais avançados do mundo em termos de tecnologia. Há poucos anos, na gestão Ilan Goldfajn, a agenda BC+ do Banco Central previu uma modernização que aproximasse o País das melhores experiências contemporâneas, em especial vindas na China. Em novembro, a chegada do PIX concretizará mais um salto de modernidade. Os bancos como os conhecemos não serão mais os mesmos. O novo sistema de pagamento instantâneo abrirá as portas para uma série de alterações estruturais que vão mudar a forma como compramos, vendemos e negociamos. Ajudará a incluir no sistema os 48 milhões de brasileiros que vivem à margem do sistema bancário — os desbancarizados.

O cadastramento começa no dia 5 de outubro. E o sistema passa a operar dia 16 de novembro. Ele entrará em vigor aos poucos. Em um primeiro momento, começa a substituir as transferências clássicas do tipo DOC ou TED. Tudo passa a ser feito de forma instantânea, tanto para pessoas como empresas, 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias do ano. Além disso, qualquer transferência de dinheiro ou compra pode ser feita pelo celular ou até com um smartwatch. Ou seja, se você sair para caminhar levando apenas seu celular ou relógio e quiser tomar uma água de coco ou comprar pão poderá simplesmente pegar o celular, apontar para um QR Code no balcão e pagar, dispensando uso de cartão, cheque e dinheiro. E o que é melhor: as transações deixam de ter custo para a pessoa física e caem muito para as empresas. Do outro lado do balcão, quem vende vai receber o dinheiro pagando taxas menores e, num futuro próximo, poderá até vender sem precisar alugar as maquininhas. E o melhor, receberá o dinheiro na conta na hora. No curto prazo, o Pix ainda pode realizar um sonho antigo dos brasileiros, acabar com os boletos. Empresas e concessionárias de serviços poderão enviar só um QR Code para o pagamento da fatura. “A agilidade da compensação e a possibilidade de fazer pagamentos em qualquer dia traz uma comodidade nunca antes vivenciada pelo brasileiro”, explica Carolina Sansão, gerente de Inovação e Tecnologia da Febraban.

RISCOS

O Pix leva em conta experiências de sucesso realizadas em países como a China e a Índia — onda compras corriqueiras são feitas facilmente pelo celular, sem dinheiro físico. No entanto, sua arquitetura é considerada mais completa e complexa, segundo o diretor de estratégia de PME e Open Banking do Itaú, Carlos Eduardo Peyse. Há quase dois anos sendo preparado pelo BC, o sistema contou com a participação de 980 instituições, incluindo os varejistas. Eles ajudaram a estabelecer critérios que permitirão incluir os desbancarizados. Nem tudo é vantagem para os players atuais. Os bancos tradicionais terão impacto na receita com a queda das taxas cobradas pelo DOC e a TED, mas acreditam que acabarão ganhando no atacado atendendo mais gente e reduzindo os custos operacionais. As fintechs e os bancos digitais, em especial, podem se beneficiar, fornecendo novas funcionalidades com mais agilidade. As empresas que trabalham na intermediação de compras — as operadoras das “maquininhas” — também correm para se ajustar. “A vantagem do sistema brasileiro é que ele não é fechado e pode agregar funcionalidades, podendo incluir pagamentos parcelados ou pré-datados”, explica Letícia Murakawa, diretora executiva da Capco, consultoria global de gestão e tecnologia de serviços financeiros. Essa é a segunda fase prevista para o PIX. A terceira é permitir transações offline, em regiões sem acesso à internet.

Com o PIX, os dados também ficarão mais protegidos. Cada um terá apenas de solicitar uma chave ao seu banco, que associará seu email ou número de celular à sua conta. Depois é só fornecer esse dado para que a pessoa faça a transferência. Cada conta só pode ter uma chave, ou seja, se a pessoa tem uma conta no banco A poderá associar ao e-mail e se tiver outra conta no banco B poderá associar ao telefone. “Mas cada chave abre só uma porta”, explica Victor Corazza Modena, professor do IBE, conveniada da FGV. Segundo ele, o cenário disruptivo e inovador exigirá cuidados. Os usuários devem continuar atentos a fraudes. Mesmo antes de começar já surgiram sinais de envio de emails que induzem clientes de bancos a inserir seus dados para o cadastramento das chaves em endereços suspeitos. Os bancos alertam que o cadastro só deve ser feito na página ou no aplicativo da instituição. Levará pelo menos dois anos para que as pessoas se adaptem e confiem. Mas isso deve mudar em pouco tempo, especialmente quando o brasileiro perceber que pode gastar menos. “O brasileiro gosta de tecnologia e a pandemia mostrou que tudo pode ser mais fácil no digital”, diz Letícia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE NOVEMBRO

SANTOS NA CASA DE CÉSAR

Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César (Filipenses 4.22).

O apóstolo Paulo estava preso em Roma. Nero, um homem perverso e devasso, ocupava o trono do império romano. Seu palácio era uma casa de intrigas, traições e assassinatos, a síntese de toda a maldade que campeava na capital do império. Paulo, porém, transformou aquele palco de horror em plataforma de evangelismo. Mesmo algemado diariamente a soldados da guarda pretoriana, não cessou de pregar a Cristo. Depois de dois anos, todo o destacamento de dezesseis mil soldados de elite, bem como outros membros do palácio, havia sido evangelizado. Em sua saudação à igreja de Filipos, Paulo escreve: Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César. Esse episódio nos enseja três verdades solenes. Em primeiro lugar, não é o lugar que faz você; é você quem faz o lugar. Podemos florescer como um lírio mesmo num charco de lama. Podemos espargir nossa luz mesmo no meio da escuridão. Podemos ser arautos da justiça mesmo numa casa de intrigas e perversidades. Em segundo lugar, não existem pessoas irrecuperáveis para Deus. Mesmo na casa de César, há gente convertida. Em terceiro lugar, as oportunidades estão à nossa volta. Paulo fez de suas algemas uma plataforma missionária. Era um embaixador em cadeias. Fez da prisão seu campo missionário. As oportunidades de Deus estão à nossa volta. Precisamos de olhos espirituais para vê-las!

GESTÃO E CARREIRA

POR TRÁS DOS RÓTULOS

Mais do que lutar pelo mercado de US$ 30 bilhões no Brasil, marcas investem em produção mais consciente e sustentável

Os últimos anos presenciaram o crescimento da oferta de produtos veganos no mercado brasileiro. Surgiram micros e pequenas empresas especializadas nas prateleiras de supermercados e farmácias foram abastecidas com marcas estrangeiras e nacionais focadas em uma produção mais consciente e sustentável. Players internacionais mantêm seus olhos atentos à oportunidade de investir no Brasil, o quarto colocado no ranking mundial de consumo de HPPC (higiene pessoal, perfumaria e cosméticos), ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão. O Brasil participa com aproximadamente 6,2% no mercado global, com faturamento na casa dos USS30 bilhões.

Diante da ebulição desse setor, é importante entender a diferença entre as denominações dos produtos e não cair no conto do greenwashing (sustentabilidade fake). Os veganos usam ingredientes sintéticos para fugir da exploração animal, mas não significa que são orgânicos (quando 100% dos ingredientes são naturais).

Aproximar o público da experiência e do entendimento do que está por trás da criação dos produtos é o objetivo de Patrícia Lima, criadora da Simple Organic. A publicitária, que trabalhava com moda, decidiu mudar o estilo de vida caótico e workaholic ao engravidar. Do universo das agências até a fundação da Simple, foram três anos de transição, entre pesquisas e prospecção de fornecedores. Hoje, a marca é a primeira brasileira a conquistar os selos Eu Reciclo e Lixo Zero. Além disso, Patrícia revolucionou o conceito das lojas, transformando-as em laboratórios. “Não queria loja com cara de loja. Queria a cliente se sentindo em casa. A ideia evoluiu conforme fizemos encontros e oficinas”, conta a fundadora. “Montamos uma biblioteca de matérias-primas para as pessoas entenderem o que envolve cada passo, cada textura, para que serve cada componente. A curiosidade é muito grande, e trazemos o consumidor para o convívio próximo”.

Seguindo o mesmo caminho de apostar na experiência do consumidor, o salão de cabeleireiros Laces se destaca. Com mais de 32 anos de mercado, o Laces investiu no conceito de hair spa e chegou muito antes da moda do eco-friendly. Tal experiência credenciou Itamar Cechetto, CEO do  Laces, e Cris Dios, fundadora da marca, ao comando das operações dos salões da norte-americana Aveda, no Brasil

“Integrar rentabilidade, sustentabilidade financeira e práticas de comércio justo é um desafio. Durante nossa trajetória, aprendemos que não é interessante ser xiita, mas sim uma empresa que respeita esses conceitos e, em vez de se isolar do mundo convencional, criar canais para dialogar com o público que não tem as mesmas práticas”, explica Itamar, que também é dono do Bioma Salon Aveda.

“Através da marca é possível converter clientes de consumo convencional para o consumo consciente.” Além de usarem produtos veganos e orgânicos, eles afirmam ter compromisso com a questão da sustentabilidade em suas unidades. ”Tecnologia com sustentabilidade custa dinheiro: 30% de toda a matriz energética da loja de Moema [bairro nobre paulistano] é de origem limpa; 33% de todos os recursos da loja da Aveda são provenientes de fontes renováveis e de origem limpa”, garante Itamar.

CUIDADOS COM A PELE

A Biossance é outra marca norte-americana que desembarcou em terras brasileiras nos últimos anos trazendo alternativas para os cuidados com a pele. A empresa nasceu em 2017, em Berkeley (Califórnia), como parte da biotecnológica Amyris.

Os produtos da Biossance são pautados ao uso do esqualano, extraído da cana-de-açúcar como alternativa ao que costumava ser retirado do fígado de tubarões. “Nossa chegada ao Brasil foi marcada por um plano estratégico bem estruturado, garantindo-nos crescimento de 250% em receita em 2019 e projeção de crescimento mínimo de 100% em 2020”. contabiliza Camila Farnezi, diretora da Biossance na América Latina “É um plano agressivo, mas nossa trajetória vem alcançando metas e superando todas as expectativas. Em breve, nossa plataforma digital de conteúdo educativo chegará ao país para ajudar o consumidor a fazer novas escolhas de forma consciente.”

Cinco novos produtos veganos devem ser lançados este ano no Brasil – apenas seis meses após a chegada às prateleiras dos Estados Unidos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SE EU FOSSE VOCÊ

Marido e mulher, afinal, ficam fisicamente parecidos depois de muitos anos de casamento? Segundo a ciência, a resposta é não

Uma máxima conhecida diz que os casamentos duradouros são tão marcantes que, com o passar do tempo, marido e mulher ficam parecidos um com o outro, inclusive fisicamente. Embora a teoria tenha forte apelo ao senso comum, não existe estatística confiável que a comprove ou refute – ou pelo menos não havia até agora. Um grupo de cientistas decidiu avaliar a sério a hipótese, de forma a pôr um ponto-final no assunto. Afinal, a modelo brasileira Gisele Bündchen e o jogador de futebol americano Tom Brady estão mais parecidos depois de tantos anos de casamento? O astro Benedict Cumberbatch e a diretora Sophie Hunter ficaram “a cara de um, focinho do outro”? O estudo publicado pelo periódico Scientific Reports pode ter desvendado a verdade sobre esses e tantos outros casais. Para os apaixonados, contudo, ela é um pouco decepcionante.

O psicólogo Michal Kosinski, especialista em comportamento organizacional da Universidade Stanford (EUA) e líder do trabalho, conduziu sua pesquisa de uma forma relativamente simples: pediu a voluntários que examinassem fotos de casais ao longo do tempo e afirmassem ou negassem que os rostos ficaram parecidos. As mesmas imagens foram submetidas a um software de reconhecimento facial. O objetivo nessa etapa era verificar se a inteligência artificial tinha a mesma opinião dos voluntários humanos.

Foram analisadas fotos públicas de 517 casais: metade tirada dois anos depois do casamento, e a outra metade de vinte a 69 anos após o matrimônio. Coube também aos voluntários escrutinar imagens de uma das partes do casal cercada de seis pessoas. O objetivo era aferir se, de repente, o indivíduo se parecia mais com qualquer figura aleatória do que com seu próprio parceiro. Enquanto isso, um grupo diferente de voluntários foi convidado a adivinhar a probabilidade de uma das seis pessoas ser casada com o homem ou com a mulher em questão. Aqui, buscava-se verificar se a mera semelhança de traços poderia ser suficiente para identificar um casal entre vários rostos na multidão.

Todo o experimento foi replicado com o uso de software de reconhecimento facial. O resultado? Segundo o Kosinski, o software, assim como os voluntários, reconheceu mais similaridades entre os rostos dos casais do que entre as faces de duas pessoas quaisquer. Essa semelhança, contudo, não seria resultado do passar do tempo. Levando em consideração as conclusões dessa pesquisa, o senso comum não teria forte base científica na qual se apoiar.

Mesmo assim, não foi exatamente uma derrota para a crença popular. Uma pesquisa parecida, realizada pela Universidade de Michigan em 1987, não só chegou a uma conclusão diferente como também destacou que o efeito seria mais notável quanto mais feliz fosse o par em questão. É preciso levar em conta, porém, que Michigan não tinha à época os recursos tecnológicos de Stanford. Pin Pin Tea-Makorn, coautora do levantamento mais recente, disse que, mesmo que os resultados de Stanford contradigam os do estudo anterior, isso não significa que um dos dois esteja invalidado.

Conforme o ser humano evolui, os mecanismos psicológicos mudam, trazendo a necessidade de atualizar as pesquisas. Além disso, a equipe de Stanford admite que diversos casais analisados apresentavam de fato similaridade facial, mas ela não havia surgido ao longo do casamento – estava lá desde o princípio. Do ponto de vista evolutivo, faria sentido buscar alguém parecido, já que é uma indicação de compatibilidade genética. Da perspectiva psicológica, as pessoas costumam procurar parceiros fisicamente similares, além daqueles com personalidades e valores semelhantes. Seja como for, casais como Gisele Bündchen e Tom Brady são inegavelmente parecidos – basta espiar a foto que ilustra esta reportagem. Para o resto dos mortais, a semelhança, assim como a beleza, está nos olhos de quem a vê.

EU ACHO …

REFÉNS DA INSENSATEZ

Ainda é cedo para vislumbrar um esfriamento nos ânimos

Começam a aparecer aqui e ali, na imprensa e nas redes, análises dando conta da existência de sinais de que o ambiente geral de ânimos acirrados estaria cedendo espaço à moderação nas relações políticas. Por essa perspectiva, as pessoas estariam cansadas da radicalização na maneira de externar pontos de vista e um tanto mais dispostas a não transformar divergências em guerras de fim do mundo.

Em boa medida baseada na expectativa de que os americanos dariam uma demonstração acachapante de repúdio a um governante do tipo de Donald Trump, essa impressão por aqui se sustenta no fraco desempenho nas capitais (por ora medido apenas nas pesquisas de intenção de voto) dos candidatos apoiados por Jair Bolsonaro e pelo PT às eleições  municipais  do próximo dia 15.

Confirmado o fracasso eleitoral dos polos antagônicos da eleição de 2018, a projeção para a disputai presidencial de 2022 seria a tendência de prevalecer o centro, aí entendido como o campo da moderação, do bom senso, enfim, da racionalidade. Vou aqui deixar de lado uma predisposição algo obsessiva ao otimismo para discordar. Ou melhor, ponderar que há precipitação e mais desejo do que senso de realidade nessa suposição sobre a adesão da maioria à sensatez. Basta ver o que faz sucesso hoje em dia: são justamente os comportamentos mais exacerbados. Conquista fama e destaque aquele, ou aquela, que se expressa em termos exorbitantes na defesa de suas posições. Seja na defesa ou no ataque ao governo.

Ambos os lados se acusam de alimentar ódio e seguem atuando em igual dinâmica odienta permeada por vulgaridades e palavrões que passaram a ser perfeitamente aceitos na imprensa em textos de opinião e até mesmo em relatos de informação. Em nome da liberdade de expressão imprime-se a liberalidade no exercício da falta de educação.

Ora, se é socialmente aceito que não se fale nem se escreva de modo civilizado, não é de esperar que haja uma mudança no modelo de comportamento na política, pois os que buscam obter êxito nessa seara não atuarão em desacordo com o padrão de sucesso calcado em insultos e maus modos. Sob pena de não fazerem nem para o cafezinho na urna. A aludida moderação é muito malvista e seus adeptos são chamados pejorativamente de “isentões”.

Muito provavelmente é o carimbo que receberá quem se apresentar à disputa presidencial fora do esquadro da radicalização. A Bolsonaro a sensatez não interessa, o que faz seus adversários reagir no mesmo diapasão. Mas, ainda que haja oponentes civilizados, isso não significa que o eleitorado se sentirá atraído por eles, preferindo alguém capaz de fazer frente a ele na base do conflito.

Adoraria ver, mas tenho dúvida sobre se será possível em breve tempo assistir ao brasileiro escolher para governar o país uma pessoa reconhecida não pelo poder de provocar emoções, mas por qualidades consistentes como, por exemplo, notório saber governamental.

*** DORA KRAMER

OUTROS OLHARES

O DOUTOR HOUSE

Os recursos de inteligência artificial atrelados à saúde inauguram uma era: a possibilidade de acompanhar os problemas do organismo e promover o bem-estar dentro de casa

Talvez não exista procura mais compulsória hoje, depois de sete meses de pandemia, do que a do bem-estar dentro do lar – ressalve-se, contudo, que o vírus acelerou um fenômeno que já crescia de forma exponencial. A Deloitte, empresa de consultoria, vinha apontando crescimento da indústria global de apetrechos destinados à saúde e ao bem viver – nos últimos quatro anos, foi na ordem de 12¾. Em 2018, por exemplo, a receita dessa fatia de mercado chegou a extraordinários 94 bilhões de dólares em todo o mundo. Nesse universo, destaque para smartphones e dispositivos “vestíveis” (tradução livre do termo em inglês wearable), como pulseiras e relógios inteligentes, que permitiram o monitoramento da quantidade de passos diários, da prática de exercícios, dos batimentos cardíacos, do nível de oxigenação no sangue e dos ciclos de sono.

Era, sem dúvida, um movimento sem retorno, mas agora enormemente potencializado pela Covid-19 e pelo avanço tecnológico. Bem-vindo, portanto, ao universo de residências inteligentes atreladas a ferramentas de controle da saúde. A Associação Brasileira de Automação Residencial e Predial estima que existam cerca de 300.000 casas automatizadas no país – e em boa parte delas a regra agora é incorporar os recursos já existentes de inteligência artificial a dispositivos e sensores que antes se viam apenas em hospitais. Diz Chao Lung Wen, chefe da disciplina de telemedicina da FacuIdade de Medicina da USP: “Estamos entrando numa nova década, com casas inteligentes que vão promover bem-estar e oferecer serviços com qualidade hospitalar”.

Neste admirável mundo novo, há boas soluções para uma série de questões que afetam a nossa saúde. O proprietário dessa casa está sujeito a convulsões? Trata-se de um idoso que mora sozinho e tem problemas de locomoção? Pois o piso hoje pode ser revestido de sensores que detectam uma queda repentina e perigosa. Já no espelho do banheiro uma engrenagem verifica a visão, faz uma análise da pele e exibe tutoriais de alongamento e ioga para ajudar a começar o dia com entusiasmo. Como se sabe, em matéria de saúde, o monitoramento faz toda a diferença. Por isso, as empresas especializadas vêm investindo pesado em equipamentos que coletam os dados fornecidos por esses sensores de modo a armazená-los na nuvem, o que possibilita o acesso por médicos e serviços de emergência – desde que tudo seja autorizado pelo usuário.

Muitas vezes, esse processo é feito sem que a pessoa sequer perceba. Entre as novidades, há sensores de sono que podem ser instalados debaixo do colchão para aferir a qualidade da noite, com detecção de ronco e de apneia. Um fabricante japonês de banheiros, por exemplo, vende tecnologias que permitem medir o fluxo de urina, a glicose no sangue e o índice de massa corporal. Em paralelo, o sistema de iluminação é desenhado para funcionar de acordo com o nosso relógio biológico. Ou seja, pela manhã há uma luz energizante. Já no fim do dia, a intensidade é reduzida, para induzir a produção de melatonina e preparar o ambiente e o corpo para uma boa noite de relaxamento total.

Tudo isso parece futurista, mas não é. Virou realidade. Segundo estudo da P&SIntelligence, empresa de pesquisa de mercado e negócios, o mercado global de casas computadorizadas com atenção para a saúde teve uma receita de 8,7 bilhões de dólares em 2019 e deve chegar a 96,2 bilhões em 2030. É um crescimento gigantesco associado ao aumento da população idosa e à prevalência crescente de doenças crônicas. Não por acaso, em 2017, o Google Nest, divisão focada no desenvolvimento de produtos para o lar da empresa do Vale do Silício, comprou a startup Senosis, que oferece medições clínicas do corpo. Ao mesmo tempo que parece um pouco assustador, essa casa do futuro – já acessível hoje – vai fazer com que as pessoas vivam mais e melhor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE NOVEMBRO

JESUS, O PASTOR INCOMPARÁVEL

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas (João 10.1).

Jesus é o bom, o grande e o supremo pastor das ovelhas. Como bom pastor, ele dá a vida pelas ovelhas. Como grande pastor, ele vive para as ovelhas. E, como supremo pastor, ele voltará para as ovelhas. Jesus não é apenas pastor, mas o bom pastor. Não é apenas um bom pastor, mas o bom pastor. Jesus é singular. Não há outro igual a ele. Em que consiste essa singularidade? No fato de que Jesus deu sua vida pelas suas ovelhas. Ele morreu pelas suas ovelhas. Mas sua morte é distinta de todas as outras mortes. A morte de Jesus foi substitutiva. Ele morreu vicariamente. Morreu em nosso lugar, levando sobre si nossas transgressões. Jesus morreu pelas suas ovelhas. Verteu o seu sangue para redimi-las. Derramou a sua alma na morte para que suas ovelhas pudessem viver eternamente. Sofreu sede cruel para que suas ovelhas pudessem beber a água da vida. Foi feito pecado, para que suas ovelhas pudessem ser justificadas. Foi feito maldição para que suas ovelhas fossem benditas. Suportou a ira de Deus para que suas ovelhas recebessem a graça de Deus. O bom pastor é também o grande pastor que ressuscitou dentre os mortos e vive para suas ovelhas. Vive para interceder por elas. Vive para reinar sobre elas. Mas o bom e o grande pastor é também o supremo pastor que voltará trazendo consigo o galardão para suas ovelhas.

GESTÃO E CARREIRA

CONTROLADOR FORA DE CONTROLE

Saiba se você está sendo um bom administrador ou prejudicando a produtividade por conta do controle excessivo da sua empresa

O que você está fazendo agora? Já começou a tarefa que passei? Você está ocupado? Imagine essas frases ditas por um chefe a todo momento enquanto você desempenha suas funções diárias. Causa estresse e muita pressão, não? É comum que o empreendedor queira estar por dentro de cada detalhe do seu negócio, mas é extremamente importante que saiba delegar, abrir mão do controle total das coisas e, principalmente, confiar em seus colaboradores.

Uma pesquisa chamada ”Confiança e Produtividade no Brasil” , realizada por 16 anos pelos pesquisadores Marco Túlio Zanini e Carmen Migueles, da Ebape/IGV e da Fundação Dom Cabral, mostrou que a queda da produtividade nas empresas está muito mais atrelada a fatores culturais do que, de fato, à educação formal. O excesso de regras e o controle de atividades colaboram para os dados, uma vez que acabam por engessar a atuação dos profissionais.

A palavra controle já nos remete à palavra de posse, o que não tem nada de saudável. Se o administrador precisa desse controle, é porque não confia nos seus liderados. “E, se não confia, precisa fazer uma autoanálise para ver se o problema está na entrega da equipe ou na própria gestão”, destaca a psicóloga Larissa Rizk. Ela é também atriz e diretora de produtos na Toque eXperience, que leva para empresas um trabalho bem embasado sobre como lidar com as mais diversas situações, usando o teatro como ferramenta e a psicologia como base. Ela ainda acrescenta a importância de observar os sinais, porque permitir que o processo siga dessa maneira pode, além dos resultados negativos da produtividade, gerar questões como insegurança e desmotivação na equipe.

Essa diminuição na entrega dos resultados vai impactar os lucros da empresa e a saúde emocional de toda a equipe, tornando-a limitada. “O papel do líder é incentivar a criatividade e a autonomia de acordo com as competências e sempre trazendo desafios para os liderados”, completa Larissa.

A mentora de negócios e líderes Renata Tolotti parece ter entendido o recado desde sempre. Ela é sócia de três empresas de ramos diferentes, formada em arquitetura e também atua como consultora. Para ela, o segredo do equilíbrio está na gestão de projetos.

DELEGUE MAIS, FAÇA MENOS

Renata Tolotti entende que cabem a ela as tomadas de decisão, mas não a execução das tarefas. “Minhas empresas não podem parar ou ficar deficitárias se eu não estou presente. Obviamente que estou constantemente mensurando se o crescimento e as ações estão sendo cumpridos. Já fui micro gerenciadora e isso me acarretou acúmulo de tarefas e estresse. Eu tento buscar promoções internas em primeiro momento, antes de buscar fora da empresa. Isso facilita muito colocar a pessoa certa no lugar certo. Quando é feita a contratação externa, somente é feita por indicação ou investigação da carreira do candidato muito bem­ feita”, explica.

A empresária lembra ainda a importância de saber que uma pessoa não é boa em tudo. Por isso, um gestor deve saber qual o resultado que a empresa quer obter, mas não necessariamente como fazer aquilo.

Além disso, ela acredita que o controle excessivo mata a criatividade e soluções efetivas, incluindo a possibilidade de perder talentos dentro da própria empresa e não desenvolver o potencial da equipe. “Confesso até que demorei muito a aprender a dar autonomia. Não fazer absolutamente tudo, principalmente de ordem gerencial, dava a sensação de que eu não fazia nada pela minha empresa. Trabalhar, para mim, era passar o dia mergulhado em pilhas de papel sobre minha mesa, dando ordens, fiscalizando, tomando para mim tudo que fosse possível. Até que um dia eu descobri que não precisava me comportar como funcionário da empresa, mas sim como o gestor dela”, acrescenta o autor do livro Gestão Fácil e dono da franquia odontológica Odonto Excellence, Oseias Gomes. Ele conta que começou devagar a incentivar colaboradores para assumirem cada vez mais o protagonismo de suas atividades quando percebeu que estava sendo centralizador.

O ponto de descoberta foi justamente quando notou que delegava tarefas, mas não dava autonomia para as pessoas, já que nada poderia chegar ao seu destino final sem passar por ele antes. “Eu era tão centralizador que, analisando hoje a minha vida, muitas vezes fui uma espécie de office boy de luxo da minha empresa. Eu me pegava indo ao banco para pagar contas e duplicatas, ficando horas em filas, voltava para a empresa e conversava horas com o jardineiro sobre as plantas na entrada, fiscalizando lâmpadas queimadas e tapetes limpos e outros. Notei que até estava passando por cima de departamentos da empresa, decidindo por eles o que eu mesmo disse que deveriam fazer”, recorda.

Ao notar isso, o passo seguinte foi ter uma equipe de confiança para realizar as tarefas. Mas é preciso pensar em competência aliada à capacitação, conforme explica. Isso porque nem sempre o seu vínculo de confiança pessoal com o profissional significa que ele está apto a desempenhar uma tarefa corretamente. Mais que confiar, é preciso assegurar que o colaborador tenha o necessário para o cargo.

“Os empresários, de forma geral, devem ser capazes de promover uma visão 360º do negócio, incluindo processos, qualidade, ambiente, controle, igualdade e responsabilidade. Gerir os processos significa gerenciar cuidadosamente toda a relação do negócio com o mercado externo e os fluxos internos de todas as fases pelas quais as informações e os clientes devem passar: começo, meio e fim. Uma gestão de processos eficiente resulta em um sistema fluido no qual, desde o início da relação com o cliente até o departamento final, promove-se uma trajetória alinhada com os objetivos e necessidades de todos, ou seja, com o mínimo de ruídos e travas possíveis no processo de venda e relacionamento em todas as frentes em que a empresa atua”, completa.

EMPRESA SAUDÁVEL

Larissa concorda com Oseias. Para ela, a questão principal está nos processos e nos fluxos bem definidos. “O líder deve participar de tomadas de decisões, sim, mas que esteja bem definido até onde a equipe pode chegar “sozinha”, explica.

É claro que nem tudo é tão simples de resolver. Às vezes, o empreendedor pode detectar que está passando dos limites no quesito controle e realizar as mudanças necessárias, mas, mesmo assim, seguir ansioso pela resolução dos processos.

A psicóloga destaca que a ansiedade vem de insegurança, do desejo de controle para que as coisas fluam de acordo com a sua visão, do seu jeito. Quando esse controle foge às mãos do profissional, acaba gerando a ansiedade. “Ou seja, é necessário trabalhar com as questões internas ligadas ao controle e à confiança. Entender que é possível que as coisas aconteçam e tragam resultados positivos com a atuação do outro. Um exemplo que vivi na minha empresa são as altas demandas para experiências vivenciais para humanização, quer dizer, exercícios com técnicas teatrais para unir a equipe, enxergar o melhor do outro, empatia, entre outros benefícios”, sugere.

Em resumo, saudável é tudo aquilo que flui e deixa fluir, que acredita nas competências e potenciais de cada um, na diversidade, e incentiva para que todos cresçam e se desenvolvam. Assim, o negócio também será próspero – além da vontade de aprender sempre.

POR ONDE COMEÇAR

No início, concentre-se em vendas e como fazer seu produto ou serviço melhor que os dos concorrentes. O empreendedor no início não tem muitos indicadores, processos e muito menos planejamento estratégico muito bem definido, pois está em um processo de aprendizagem. Por isso, é fundamental ter a certeza de que o mercado quer o que ele tem a oferecer. “Procure aumentar e controlar as vendas!”, aconselha Renata. Ela lembra ainda que confiança é uma característica conquistada com o tempo, por isso, para ter baixa rotatividade e aumentar a produtividade, ela utiliza ferramentas de análise comportamental, valores pessoais e motivadores.

Usar o perfil mais assertivo para as atribuições da vaga ajuda a encontrar a pessoa certa para a vaga. “O mercado tem uma tendência em contratar pessoas baratas e com pouca experiência e exigirem alta performance. A contratação de pessoas mais preparadas faz com que as empresas precisem de um quadro menor para os mesmos resultados, além de essas pessoas precisarem de menos intervenções nas tarefas, pois estão mais preparadas”, adverte.

É importante lembrar que pessoas felizes trazem melhores resultados, mas que isso não significa um ambiente sem metas claras ou regras de conduta, mas sim processos menos burocráticos e engessados, que não limitem tanto as ações do colaborador.

Mas, no fim das contas, o que mais pode gerar esse tipo de comportamento controlador por parte do empreendedor? “Vaidade. Digo isso porque também fui assim. Foi a vaidade que não me permitiu por muito tempo ver que não é preciso unicamente confiança para lidar com alguém no mundo empresarial, para me sentir confortável com minhas próprias decisões, que não havia necessidade de ser sozinho e fazer tudo sozinho, muito menos achar que só eu estava altamente preparado para o trabalho e que eu não precisava mudar também para continuar trabalhando”, declara Oseias.

Segundo ele, foi preciso despir­ se da vaidade e parar de pensar que apenas ele sabia o que estava fazendo. Era isso que gerava tanta angústia no seu caminho profissional, e essa angústia também encontrou nos líderes de sucesso. Por isso, considera que é necessário abandonarmos todos os estereótipos do passado que geraram as vaidades em nós. “Uma coisa é certa: o poder está fora de moda. Não são as jornadas de trabalho de 15 horas que trarão o sucesso. Por isso, é a visão estratégica que fará do novo empreendedor um líder que realmente importa para os colaboradores, alguém que ‘desempata’ uma situação difícil e sabe o melhor caminho a seguir. Não é o controle obsessivo sobre as planilhas ou sobre a meta de vendas”, finaliza.

MONTE SUA EQUIPE, DELEGUE O TRABALHO

MONTE UMA EQUIPE DE CONFIANÇA: o processo de seleção precisa ser bem embasado nas necessidades do líder e da empresa. É necessária uma proximidade entre eles, que o líder tenha a percepção de quando e o que pode delegar para que juntos construam a relação de confiança e o líder entender que pode delegar cada vez mais. A diversidade é um dos temas mais citados hoje em dia nas empresas, porque as pessoas e os líderes precisam entender que, quanto mais diversa for a equipe, melhores os resultados. Junto com a diversidade vem a soma de competências.

LIDE COM A EQUIPE: conversas. Muitas conversas. Todo bom relacionamento precisa de conversas, onde cada um alinha as suas expectativas. Entender o ponto de vista do outro nos coloca em uma posição de empatia. A empatia não está só ligada a se colocar no lugar do outro e agir como EU gostaria de ser tratado, e sim tratar e agir da forma como o OUTRO gostaria de ser tratado.

TIRO NO PÉ: se o líder não aprender verdadeiramente a delegar, entender e respeitar o outro e expor as suas ansiedades para que juntos construam a relação de confiança, ele não está preparado para ser um líder.

Nas empresas, as competências não estão somente ligadas às competências técnicas dos negócios, mas também às competências emocionais e de relacionamentos.

FONTE: Larissa Rizk, psicóloga e diretora de produtos na Toque Experience.

VOCÊ É CONTROLADOR QUANDO…

•  Quer tomar todas as decisões do negócio sozinho.

•  Não incentiva a análise e a autonomia.

•  Não toma decisões com base em fatos, mas sim relações pessoais.

• Acha que chamar a atenção de um colaborador é o suficiente, sem mostrar as diretrizes do trabalho e ter mais conversas, estabelecendo uma troca.

•  Não está aberto verdadeiramente às ideias e soluções externas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDP – O PODER DA FICÇÃO

No cinema, séries… personagens com múltiplos personalidades fazem o maior sucesso!

O filme Fragmentado (2017), do diretor M. Night Shyamalan, trouxe no papel principal James MacAvoy, como Kevin Wendell Crumb, que também aparece em Vidro (2019) do mesmo diretor, completando a trilogia junto com Corpo Fechado. O filme trouxe à tona novamente o tema das múltiplas personalidades. Crumb está passando por um tratamento psiquiátrico que já dura longos anos (ele foi diagnosticado com o transtorno de personalidades múltiplas após abusos sofridos na infância), pois dentro de sua cabeça viviam ao mesmo tempo Hedwig (um garotinho de nove anos), Dennis (adulto e agressivo) e Patrícia (uma senhora), entre outras manifestações distintas e peculiares. No total são 23 “pessoas” diferentes se alternando num mesmo indivíduo.

PÉSSIMOS INTENÇÕES

O filme tem início quando Dennis sequestra três adolescentes com intenções sinistras e as prende num cativeiro. Há o confronto entre as personalidades, conflitos e comportamento obsessivos vêm à tona. Revelações e reviravoltas acontecem a todo instante movidas pelos desejos e manipulações que as “personalidades” promovem entre si. Enquanto isso, as personalidades dominantes Patrícia e Dennis parecem comandar os acontecimentos em nome de algo maior que vai se revelando ao longo da história: o surgimento de uma 24ª personalidade com poderes sobre-humanos e assustadores, chamada por eles de “A Besta”.

FOI INSANO

Em entrevista logo após o lançamento do filme, MacAvoy disse que “ter de interpretar todos esses personagens, às vezes na mesma tomada, pode confundir os espectadores, tanto quanto os atores que interpretaram os papéis. Foi insano fazer este filme”.

CLÁSSICOS DE DUAS CARAS

O MÉDICO E O MONSTRO, filme de 1931, direção de Rouben Mamoulian, talvez seja o exemplo mais clássico de personalidades diversas habitando numa mente apenas. E são bem diferentes um do outro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde (vividos por Frederic March, ganhador do Oscar por sua dupla atuação). Um deles é gentil, o outro é diabólico. Um é doce e controlado, o outro um verdadeiro monstro selvagem. Tudo baseado numa novela em estilo gótico, escrita pelo escocês Robert Louis Stevenson, que teve várias adaptações e serviu inspiração para muitas outras obras e produções cinematográficas e literárias do mesmo gênero.

PSICOSE, filme de 1960, direção de Alfred Hitchcock. Um dos suspenses mais famosos e icônicos do cinema de todos os tempos. Mulher rouba a firma onde trabalha, vai para um motel de beira de estrada e lá desaparece misteriosamente. A irmã e o namorado vão para lá e se hospedam também para investigar. O motel é estranho, o clima é assustador, o suspense e os sustos são genuínos e o final, surpreendente. Anthony Perkins é o perturbado e assustador Norman Bates, dono do local. Em 2003 o American Film Institute classificou o personagem de Perkins como o segundo maior vilão do cinema de todos os tempos, perdendo apenas para o Dr. Hannibal Lecter, o psiquiatra canibal de O Silêncio dos Inocentes.

VESTIDA PARA MATAR, filme de 1980, direção de Brian de Palma. Difícil falar desta produção sem dar os famigerados spoilers. Dr. Robert Elliot, um psicoterapeuta vivido por Michael Caine, começa a ficar aterrorizado quando a polícia descobre que uma assassina está eliminando violentamente os seus pacientes. Ele resolve então investigar por sua própria conta o que está acontecendo. A tensão sobe à níveis insuportáveis e as reviravoltas acontecem a todo instante. Claramente influenciado pelos filmes de Hitchcock.

SYBIL, filme de 1976, dirigido por Daniel Petrie. Baseado no livro da jornalista Flora Rheta Schreiber, sobre o tratamento de uma mulher jovem que sofria do transtorno: um caso real. O período relatado no livro é de onze anos. A atriz Sally Field, que representou a paciente real Shirley Ardell Mason, recebeu um Emmy por sua atuação neste filme. No enredo, logo depois de tentar o suicídio, Sybil se submete à terapia e durante as sessões emergem aos poucos 16 personalidades distintas, criadas por ela para enfrentar os abusos físicos e emocionais sofridos na infância.

EU ACHO …

À ESPREITA

As pandemias raramente têm um fim rápido e definitivo, sugerem os surtos anteriores

Em 7 de setembro de 1854, no meio de uma epidemia de cólera violenta, o médico John Snow procurou a administração da paróquia de St. James para obter permissão para remover a alça de uma bomba de água pública na Broad Street, no Soho, em Londres. Snow observou que 61 vítimas do cólera haviam recentemente retirado água da bomba e concluiu que o líquido contaminado era a fonte da epidemia. Seu pedido foi atendido e, embora demorasse mais 30 anos para a teoria dos germes do cólera ser aceita, sua ação acabou com a epidemia.

À medida que nos adaptamos a mais uma rodada de restrições por causa do coronavírus, seria bom pensar que há em vista um ponto final semelhante para a Covid-19. Infelizmente, a história sugere que as epidemias raramente têm términos tão definidos quanto a do cólera no Reino Unido de 1854. Ao contrário, como observou o historiador social da medicina Charles Rosenberg, a maioria das epidemias “flutua sem pressa para o encerramento”.

Já se passaram 40 anos desde a identificação dos primeiros casos de Aids, mas a cada ano 1,7 milhão de seres humanos são infectadas pelo vírus HIV. Na verdade, na ausência de uma vacina, a Organização Mundial da Saúde não espera encerrar o processo antes de 2030. Embora o HIV continue a representar uma ameaça biológica, não inspira nada parecido com os temores que produziu no início dos anos 1980, quando o governo de Margaret Thatcher lançou sua campanha “Não Morra de Ignorância”, cheia de imagens assustadoras de lápides no chão. Na verdade, do ponto de vista psicológico, podemos dizer que a pandemia da Aids terminou com o desenvolvimento de medicamentos antirretrovirais e a descoberta de que os pacientes infectados podiam conviver com o vírus até a velhice. A defesa por professores de Harvard da disseminação controlada do coronavírus em grupos mais jovens, juntamente com a proteção dos idosos, explora um desejo semelhante de banir o medo da Covid-19 e encerrar a angústia dessa pandemia. Está implícita a ideia de que as pandemias são fenômenos tão sociais quanto biológicos, e que, se nos dispusermos a aceitar níveis mais elevados de infecção e morte, atingiremos mais rapidamente a imunidade coletiva, ou “de rebanho”, e retornaremos à normalidade mais cedo. Em texto na revista Lancet, cientistas sustentam, no entanto, que a estratégia se baseia em uma “falácia perigosa”. Não há evidências de “imunidade de rebanho” duradoura ao coronavírus após a infecção natural. Em vez de acabar com a pandemia, argumentam eles, a transmissão descontrolada entre os mais jovens poderia simplesmente resultar em epidemias recorrentes, como ocorreu com várias doenças infecciosas antes do advento das vacinas. Não por acaso, eles chamaram sua petição rival de “Memorando de John Snow”.

A ação decisiva de Snow em Londres pode ter acabado com a epidemia de 1854, mas o cólera voltou em 1866 e 1892. Foi somente em 1893, quando começaram os primeiros ensaios em massa de vacinas, na Índia, que se tornou possível imaginar o controle científico racional da doença e de outras enfermidades. O ponto alto desses esforços foi em 1980, com a erradicação da varíola, a primeira e ainda única doença a ser eliminada do planeta. Esses esforços começaram, no entanto, 200 anos antes, com a descoberta, por Edward Jenner, em 1796, de que era possível induzir imunidade contra a varíola com uma vacina feita a partir do vírus relacionado da varíola bovina.

Com mais de 170 vacinas para a Covid-19 em desenvolvimento, é de se prever que não tenhamos de esperar tanto desta vez. O professor Andrew Pollard, diretor do teste da vacina da Universidade de Oxford, adverte, porém, que não devemos esperar uma injeção no futuro próximo. Em um seminário online, Pollard disse acreditar que o mais cedo que uma vacina estará disponível será no segundo semestre de 2021, e somente para profissionais de saúde da linha de frente. A conclusão é que “poderemos precisar de máscaras até julho”, afirmou.

A outra maneira como a pandemia poderia ser encerrada é com um sistema de teste e rastreamento verdadeiramente revolucionário. Uma vez que possamos suprimir a taxa reprodutiva para menos de 1 e ter confiança de mantê-la assim, a tese do distanciamento social dilui-se. Claro, algumas medidas locais podem ser necessárias de vez em quando, mas não haveria mais a necessidade de restrições gerais para evitar que os sistemas de saúde sejam sobrecarregados. Essencialmente, a Covid-19 se tornaria uma infecção endêmica, como a gripe ou um resfriado comum, e desapareceria no segundo plano. É o que parece ter acontecido depois das pandemias de gripe de 1918, 1957 e 1968. Em cada caso, até um terço da população mundial foi infectado, mas, apesar do número alto de mortos (50 milhões na pandemia de 1918-19, cerca de 1 milhão cada naquelas de 1957 e 1968), em dois anos elas acabaram, seja porque a imunidade coletiva foi alcançada, seja porque os vírus perderam a virulência. O cenário de pesadelo é que o Sars-CoV-2 não desaparece, mas retorna continuamente. Foi o que aconteceu com a Peste Negra do século XIV, que causou repetidas epidemias europeias entre 1347 e 1353. Algo semelhante ocorreu em 1889-90, quando a “gripe russa” se espalhou da Ásia Central para a Europa e a América do Norte. Apesar de um relatório do governo inglês indicar 1892 como data oficial do fim da pandemia, na verdade a gripe russa nunca foi embora. Em vez disso, foi responsável por ondas recorrentes da doença na virada do século XIX para o XX.

Mesmo quando as pandemias eventualmente chegam a uma conclusão médica, entretanto, a história sugere que elas podem ter efeitos culturais, econômicos e políticos duradouros. A Peste Negra é amplamente associada ao colapso do sistema feudal e à obsessão artística por imagens funéreas. Da mesma forma, diz-se que a praga de Atenas no século V a.C. destruiu a fé dos atenienses na democracia e abriu o caminho para a instalação de uma oligarquia espartana conhecida como os Trinta Tiranos. Embora os espartanos tenham sido expulsos posteriormente, Atenas nunca recuperou sua confiança. Se a Covid-19 levará a uma avaliação política semelhante, só o tempo dirá.

***MARK HONIGSBAUM – é professor da City University de Londres e autor de The Pandemic Century: One Hundred Years of Panic, Hysteria and Hubris.

OUTROS OLHARES

O TRIBUNAL DA VERGONHA

Vídeo do tratamento humilhante de uma jovem em audiência de um caso de estupro, mostra como o ambiente machista da Justiça costuma vilanizar mulheres que buscam reparo contra essa violência

No fim dos anos 70, o julgamento do assassinato da socialite mineira Ângela Diniz marcou época pela linha de defesa adotada pelo advogado Evandro Lins e Silva e se transformou em um divisor de águas no tratamento dado pela Justiça às mulheres. Silva era defensor do empresário paulista e assassino confesso Raul Fernando do Amaral, o Doca Street. Motivado por ciúme, ele matou Ângela com quatro tiros, três deles no rosto da namorada. Para justificar o crime bárbaro, o advogado gastou grande parte do tempo destruindo a honra da vítima, a quem chamou de “Vênus lasciva”, “prostituta de alto luxo da Babilônia” e “pantera que, com suas garras, arranhava os corações dos homens”. Graças à estratégia, ele inverteu os papéis e transformou Doca Street em vítima de uma mulher fatal que o havia ofendido em sua dignidade masculina. O réu saiu do tribunal aplaudido e com uma pena modesta de dois anos. Somente dois anos depois, e em meio a uma gigantesca mobilização feminina apoiada na campanha “Quem ama não mata”, a Justiça enfim seria feita. Um segundo julgamento resultaria em uma condenação maior.

Passadas quase quatro décadas e, guardadas as devidas proporções, ecos do caso Ângela Diniz ressurgiram no país, mostrando que os tribunais não se livraram do ranço machista que costuma vilanizar mulheres vítimas de violências justamente quando elas procuram reparação na Justiça. O episódio que trouxe à tona a triste lembrança de um julgamento moral refere-se a uma denúncia de estupro em uma boate de luxo em Florianópolis, o Café de La Musique. A acusadora, a influencer Mariana Ferrer, diz que, depois de ser drogada, acabou violentada pelo empresário André de Camargo em um camarim privado da casa noturna. A agressão ocorreu em dezembro de 2018. Nas roupas dela, a perícia encontrou sêmen do empresário. O inquérito policial concluiu que Camargo cometeu estupro de vulnerável, definição jurídica para os casos em que a vítima não tem condições de oferecer resistência. Em sentença publicada no dia 9 de setembro, porém, seguindo a percepção do Ministério Público, o juiz Rudson Marcos absolveu o empresário sob o argumento de que não haveria “provas contendentes nos autos a corroborar a versão acusatória”.

Depois da sentença, protestos feministas chamaram a atenção ao desfecho da história, mas ela parecia destinada a cair na vala comum de processos de estupro que são engavetados deixando no ar uma incômoda sensação de que não se fez justiça à vítima. Na semana passada, no entanto, o episódio voltou ao noticiário graças a uma reportagem do site The Intercept Brasil, que revelou um degradante vídeo dos bastidores do julgamento de Mariana. Nele, o advogado de defesa insurge-se contra a influencer, ofendendo-a e a acusando-a de publicar fotos provocativas nas redes sociais, como se isso, de alguma maneira, justificasse o avanço de alguém sobre o corpo dela. Em dado momento, o defensor Cláudio Gastão da Rosa diz, dirigindo-se a Mariana, que “jamais teria uma filha de seu nível”. Enquanto isso, o juiz assiste impassível às barbaridades.

As imagens com cenas explícitas de um absurdo linchamento moral que nada tinha a ver com o mérito do caso provocaram reações fortes entre a sociedade e as autoridades. A história viralizou nas redes sociais com ajuda da expressão “estupro culposo”. Ela não consta nem na decisão do MP nem na do juiz, mas foi publicada pelo Intercept para tentar resumir a tese de que o criminoso não deveria ser condenado porque, em teoria, não tinha como saber que a vítima não estava totalmente consciente. A infame audiência provocou imediata reação de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, que publicou em seu Twitter que o tratamento dado a Mariana Ferrer na ocasião era estarrecedor. “O sistema de Justiça deve ser instrumento de acolhimento, jamais de tortura e humilhação”, escreveu. Pouco depois, a Ordem dos Advogados de Santa Catarina convocou Gastão a prestar esclarecimentos. Celebridades também se manifestaram sobre o assunto. Com a hashtag #justicapormariferrer, nomes como Bruna Marquezine, Iza, Deborah Secco e Rafa Kalimann declararam apoio a ela.

Independentemente do desfecho do julgamento (a defesa da influencer recorre para tentar reverter a decisão que absolveu o empresário), o caso mostra como o ambiente dos tribunais ainda é um terreno hostil às mulheres que, de forma corajosa, se dispõem a tentar alguma reparação depois de sofrer uma experiência traumática. Na audiência do caso Mariana, promotor, advogado de defesa, réu e juiz eram do sexo masculino. Eles seguiram regras de um tribunal liderado por homens e se ancoraram em uma legislação cuja espinha dorsal tem quase um século de idade. “Note-se que o tratamento ao réu é bastante diferente daquele direcionado à vítima”, diz a socióloga Eva Blay. “O rosto dele aparece escondido e é tratado sempre como empresário, enquanto mal se fala que ela foi demitida após denunciar o estupro.”

A cena da humilhação sofrida pela influencer está longe de ser uma exceção, assim como a linha de atuação de Gastão da Rosa não é um caso isolado no direito brasileiro. “Essa é uma tendência e uma estratégia de defesa está ancorada num viés cultural muito forte, notadamente machista e que põe em suspeição a palavra da vítima”, afirma o advogado Fernando Castelo Branco. “É uma estrutura que impõe à vítima a condição de investigada e uma forma de inibir o surgimento de outras denúncias.” Castelo Branco defende as mulheres que foram abusadas por um famoso nutrólogo de São Paulo, Abib Maldaun Neto, condenado a dois anos e oito meses de prisão em regime semiaberto por violação sexual mediante fraude. O advogado lembra que a primeira denúncia apresentada contra o médico foi rejeitada por uma juíza. Segundo ela, uma mulher de 30 anos era madura o suficiente para não sofrer um abuso como o que foi cometido por Maldaun Neto. No caso em questão, o nutrólogo aproveitava-se das consultas para introduzir os dedos na vagina das pacientes. No processo, a advogada do nutrólogo chegou a afirmar que as mulheres abusadas por ele estavam em conluio para obter alguma vantagem e até requisitou que uma delas fizesse um exame psiquiátrico. “O que se viu na audiência da Mariana Ferrer é abominável. Aquilo não é a celebração do direito, mas uma execração pública”, diz Castelo Branco.

No fim dos anos 70, o julgamento do assassinato da socialite mineira Ângela Diniz marcou época pela linha de defesa adotada pelo advogado Evandro Lins e Silva e se transformou em um divisor de águas no tratamento dado pela Justiça às mulheres. Silva era defensor do empresário paulista e assassino confesso Raul Fernando do Amaral, o Doca Street. Motivado por ciúme, ele matou Ângela com quatro tiros, três deles no rosto da namorada. Para justificar o crime bárbaro, o advogado gastou grande parte do tempo destruindo a honra da vítima, a quem chamou de “Vênus lasciva”, “prostituta de alto luxo da Babilônia” e “pantera que, com suas garras, arranhava os corações dos homens”. Graças à estratégia, ele inverteu os papéis e transformou Doca Street em vítima de uma mulher fatal que o havia ofendido em sua dignidade masculina. O réu saiu do tribunal aplaudido e com uma pena modesta de dois anos. Somente dois anos depois, e em meio a uma gigantesca mobilização feminina apoiada na campanha “Quem ama não mata”, a Justiça enfim seria feita. Um segundo julgamento resultaria em uma condenação maior.

Passadas quase quatro décadas e, guardadas as devidas proporções, ecos do caso Ângela Diniz ressurgiram no país, mostrando que os tribunais não se livraram do ranço machista que costuma vilanizar mulheres vítimas de violências justamente quando elas procuram reparação na Justiça. O episódio que trouxe à tona a triste lembrança de um julgamento moral refere-se a uma denúncia de estupro em uma boate de luxo em Florianópolis, o Café de La Musique. A acusadora, a influencer Mariana Ferrer, diz que, depois de ser drogada, acabou violentada pelo empresário André de Camargo em um camarim privado da casa noturna. A agressão ocorreu em dezembro de 2018. Nas roupas dela, a perícia encontrou sêmen do empresário. O inquérito policial concluiu que Camargo cometeu estupro de vulnerável, definição jurídica para os casos em que a vítima não tem condições de oferecer resistência. Em sentença publicada no dia 9 de setembro, porém, seguindo a percepção do Ministério Público, o juiz Rudson Marcos absolveu o empresário sob o argumento de que não haveria “provas contendentes nos autos a corroborar a versão acusatória”.

Depois da sentença, protestos feministas chamaram a atenção ao desfecho da história, mas ela parecia destinada a cair na vala comum de processos de estupro que são engavetados deixando no ar uma incômoda sensação de que não se fez justiça à vítima. Na semana passada, no entanto, o episódio voltou ao noticiário graças a uma reportagem do site The Intercept Brasil, que revelou um degradante vídeo dos bastidores do julgamento de Mariana. Nele, o advogado de defesa insurge-se contra a influencer, ofendendo-a e a acusando-a de publicar fotos provocativas nas redes sociais, como se isso, de alguma maneira, justificasse o avanço de alguém sobre o corpo dela. Em dado momento, o defensor Cláudio Gastão da Rosa diz, dirigindo-se a Mariana, que “jamais teria uma filha de seu nível”. Enquanto isso, o juiz assiste impassível às barbaridades.

As imagens com cenas explícitas de um absurdo linchamento moral que nada tinha a ver com o mérito do caso provocaram reações fortes entre a sociedade e as autoridades. A história viralizou nas redes sociais com ajuda da expressão “estupro culposo”. Ela não consta nem na decisão do MP nem na do juiz, mas foi publicada pelo Intercept para tentar resumir a tese de que o criminoso não deveria ser condenado porque, em teoria, não tinha como saber que a vítima não estava totalmente consciente. A infame audiência provocou imediata reação de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, que publicou em seu Twitter que o tratamento dado a Mariana Ferrer na ocasião era estarrecedor. “O sistema de Justiça deve ser instrumento de acolhimento, jamais de tortura e humilhação”, escreveu. Pouco depois, a Ordem dos Advogados de Santa Catarina convocou Gastão a prestar esclarecimentos. Celebridades também se manifestaram sobre o assunto. Com a hashtag #justicapormariferrer, nomes como Bruna Marquezine, Iza, Deborah Secco e Rafa Kalimann declararam apoio a ela.

Independentemente do desfecho do julgamento (a defesa da influencer recorre para tentar reverter a decisão que absolveu o empresário), o caso mostra como o ambiente dos tribunais ainda é um terreno hostil às mulheres que, de forma corajosa, se dispõem a tentar alguma reparação depois de sofrer uma experiência traumática. Na audiência do caso Mariana, promotor, advogado de defesa, réu e juiz eram do sexo masculino. Eles seguiram regras de um tribunal liderado por homens e se ancoraram em uma legislação cuja espinha dorsal tem quase um século de idade. “Note-se que o tratamento ao réu é bastante diferente daquele direcionado à vítima”, diz a socióloga Eva Blay. “O rosto dele aparece escondido e é tratado sempre como empresário, enquanto mal se fala que ela foi demitida após denunciar o estupro.”

A cena da humilhação sofrida pela influencer está longe de ser uma exceção, assim como a linha de atuação de Gastão da Rosa não é um caso isolado no direito brasileiro. “Essa é uma tendência e uma estratégia de defesa está ancorada num viés cultural muito forte, notadamente machista e que põe em suspeição a palavra da vítima”, afirma o advogado Fernando Castelo Branco. “É uma estrutura que impõe à vítima a condição de investigada e uma forma de inibir o surgimento de outras denúncias.” Castelo Branco defende as mulheres que foram abusadas por um famoso nutrólogo de São Paulo, Abib Maldaun Neto, condenado a dois anos e oito meses de prisão em regime semiaberto por violação sexual mediante fraude. O advogado lembra que a primeira denúncia apresentada contra o médico foi rejeitada por uma juíza. Segundo ela, uma mulher de 30 anos era madura o suficiente para não sofrer um abuso como o que foi cometido por Maldaun Neto. No caso em questão, o nutrólogo aproveitava-se das consultas para introduzir os dedos na vagina das pacientes. No processo, a advogada do nutrólogo chegou a afirmar que as mulheres abusadas por ele estavam em conluio para obter alguma vantagem e até requisitou que uma delas fizesse um exame psiquiátrico. “O que se viu na audiência da Mariana Ferrer é abominável. Aquilo não é a celebração do direito, mas uma execração pública”, diz Castelo Branco.

Esse cenário é ainda mais preocupante em um país onde crescem as estatísticas de violência contra a mulher. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve 11.958 estupros registrados oficialmente no país em 2007. No ano passado, o número foi de 66.123, um salto indigesto de mais de 400%. Os dados mostram que, a cada oito minutos, uma mulher é estuprada, mas esses números certamente são muito maiores – e humilhações impostas a vítimas como a influencer Mariana Ferrer certamente desencorajam mulheres a prestar queixa contra seus agressores. Tratadas como vilãs, exatamente como Ângela Diniz quatro décadas atrás, as vítimas escondem-se no anonimato, preferindo guardar a tragédia para si em vez de correr o risco de ser expostas ao escrutínio de homens inclinados a acusá-las.

Diversos estudos reforçam a tese da subnotificação. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 58,5% dos entrevistados colocaram a culpa na vítima do estupro. A justificativa não poderia ser mais torpe: eles dizem que, se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. “É como se a palavra da mulher fosse posta em jogo toda vez que ela fala”, afirma Gabriela Manssur, promotora conhecida por suas lutas a favor dos direitos da mulher. Outra pesquisa, também realizada pelo Ipea, estima que somente 10% dos casos são registrados, o que escancara o abismo entre a violência sofrida pelas mulheres e o que de fato está demarcado nos dados oficiais brasileiros.

As mulheres enfrentam a agravante de o Brasil ser uma sociedade notadamente conservadora. O primeiro código penal da República, que vigorou de 1890 a 1940, criou a ilusão da legítima defesa da honra – um recurso usado por hábeis advogados toda vez que seu cliente era acusado de bater na esposa.

Os juristas do código penal seguinte, promulgado em 1940 e em vigor até hoje, eliminaram do texto a esdrúxula distinção entre mulher “honesta” e “pública” e até aumentaram as penas para até dez anos de reclusão, mas incluíram outro artigo que só complicaria mesmo a vida do perpetrador se a vítima fosse menor de idade. “A história do Brasil está marcada pelo abuso contra o sexo feminino”, diz Maria Arminda do Nascimento Arruda, socióloga e coordenadora do escritório USP Mulheres, que estuda temas ligados à violência e à igualdade de gênero. Outros avanços ocorreram nas últimas décadas, como a criação das delegacias da mulher, mas reproduzir essa lógica dentro do Judiciário é muito mais complexo. Segundo especialistas, não há uma legislação que obrigue um magistrado a impedir uma argumentação depreciativa e a solução seria investir mais na formação humanitária nas escolas de direito para além dos pontos técnicos e jurídicos.

Como mostram as imagens do caso Mariana Ferrer, ainda há um longo caminho a percorrer nesse aspecto. Após a divulgação das cenas, o Ministério Público de Santa Catarina publicou uma nota garantindo que o promotor de Justiça interveio quando o advogado do réu teve atitudes desrespeitosas com a jovem. O defensor do réu, por sua vez, também por meio de uma nota, justificou sua atitude da seguinte forma: “Acredito ter atuado dentro dos limites legais e profissionais, considerando-se a exaltação de ânimos que costuma ocorrer em audiências como aquela”. Atual advogado de Mariana, Júlio César Ferreira da Fonseca apresentou em outubro um termo de apelação para tentar reverter a sentença. Menos de três meses após denunciar o estupro, Mariana se mudou para outro estado. Foi com a mãe, Luciane Aparecida Borges, e a irmã de 16 anos, morar em Uberaba, Minas Gerais. Ela parou com o trabalho de influencer. Hoje, posta em suas redes sociais, basicamente, assuntos relacionados ao caso de estupro. A mãe, que tinha uma loja de acessórios em Florianópolis, fechou o negócio e atualmente faz comida natural para vender. Segundo uma amiga da família, Mariana passa o dia no quarto, lendo e relendo o processo. Faz tratamento para síndrome do pânico e, por isso, sai pelo menos uma vez por semana para ir a psicóloga. Nessas ocasiões, usa um boné e fica o tempo todo olhando para o chão para não ser reconhecida. Até aqui, só a vítima foi punida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE NOVEMBRO

O SILÊNCIO DE DEUS

Atenta para mim, responde-me, SENHOR, Deus meu!… (Salmos 13.3a).

O silêncio de Deus grita mais alto em nossos ouvidos que os berros da natureza. Os trovões que ribombam das nuvens tempestuosas são mais suaves que o silêncio de Deus nas noites escuras da alma. Não é fácil lidar com o silêncio de Deus. Quando Deus se cala, ficamos confusos e perturbados. Muitos salmos de lamento expressam essa angústia. O patriarca Jó lidou com o silêncio de Deus. Fuzilado pela dor e esmagado pelas perdas, Jó bradou desde a terra até os céus, à espera de explicações. Perdeu bens, filhos e saúde. Perdeu o apoio da mulher e a compreensão dos amigos. Perdeu a dignidade da vida e a compaixão das pessoas. Mergulhado numa dor atroz, endereçou a Deus dezesseis vezes a mesma pergunta perturbadora: Por que…? Por que…? Por que…? Jó esperava que uma explicação vinda de Deus pudesse aliviar sua dor. Mas essa explicação não chegou. O silêncio de Deus foi cabal. Os céus cerraram suas comportas. A única voz que Jó ouviu no epicentro da tempestade foi o total silêncio de Deus. Quando Deus resolveu falar com Jó, não respondeu a nenhuma de suas perguntas. Ao contrário, fez-lhe setenta perguntas, todas revelando sua majestade. Jó foi restaurado por Deus, mas não obteve nenhuma explicação dos céus. Recebeu em dobro tudo quanto possuíra. Saiu dessa experiência mais perto de Deus e mais maduro espiritualmente. O silêncio de Deus não o destruiu, mas o fortaleceu.

GESTÃO E CARREIRA

PEQUENO, PORÉM NOTÁVEL

Os pequenos produtores rurais têm se destacado e conseguido sobreviver em meio aos grandes produtores. O agronegócio é a locomotiva do Brasil, então que tal pegar carona em um dos vagões?

Foi um dos motivos para o Brasil se tornar o que é hoje. O agronegócio representa mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. E há uma expectativa bastante positiva. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reviu para cima o incremento que o setor acrescenta ao PIB, de 0,5% para 1,4% em 2019. Muito disso foi motivado pelo bom desempenho até agora, pouco mais de 1,3%.

Segundo o fórum Agrocenário 2020, o ano que vem deve ser ainda melhor para quem trabalha no campo. Tanto nas plantações como na exportação de carne, os preços devem se elevar.

Isso é reflexo de algo que já acontece hoje. A demanda mundial por proteína animal aumentou significativamente neste ano, impulsionada especialmente pela China, que vem enfrentando problema sanitário no rebanho de suínos – e que, segundo os especialistas, deve demorar anos para que todo o estoque seja reconstruído. Até lá, devem faltar 23 milhões de toneladas de carne suína no país asiático, o que pode significar que a boa fase das exportações brasileiras persista por algum tempo.

No entanto, mesmo com a solução do problema chinês, ainda assim a expectativa para o agronegócio brasileiro é muito positiva para os próximos anos. Estudos feitos por entidades que avaliamo crescimento populacional apontam que, até 2050, o mundo terá dez bilhões de pessoas. Países como China e Índia, os mais populosos, estão em pleno desenvolvimento apresentando maior poder aquisitivo. Com isso, o Brasil deve suprir boa parte da demanda com a vocação para a produção de alimentos. “A nossa área tem que crescer, aproximadamente, dez milhões de hectares nos próximos dez anos para abastecer o mundo com os grãos necessários. Mesmo com essa expansão, vamos usar apenas 10% da terra do País para a produção de grãos, cana-de-açúcar, laranja – um índice ainda muito baixo. O Brasil vai continuar importante no cenário mundial do agronegócio e o crescimento é sensacional para os próximos anos”, aposta o professor titular das faculdades de Administração da USP de Ribeirão Preto (SP) e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento do agronegócio, Marcos Fava Neves.

PARA OS PEQUENOS

E se as expectativas são positivas para os grandes produtores, também são para os donos de pequenos agronegócios. A agricultura familiar, que foi a base lá atrás, está mais forte do que nunca. Tanto que muitos investidores do agronegócio já começaram a traçar estratégias nesse sentido.

Mas será que é possível concorrer com os grandes? “É perfeitamente possível. A agricultura familiar é responsável por mais de 70% dos alimentos postos à mesa do consumidor brasileiro. Em todos os estados do Brasil, a agricultura familiar apresenta números significativos”, diz o CEO da Granter e membro da Vertical Agronegócio da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), Clovis Rossi.

Só em Santa Catarina, são mais de 150 mil propriedades. Esse número expressivo na economia local pode crescer ainda mais. Restaurantes em todo o País, atendendo às demandas de consumidores mais interessados em produtos naturais ou que utilizem os métodos menos industrializados possíveis, procuram produtores locais para abastecer os estoques. Um exemplo disso é a Leve Bem Delivery. Criada em 2013, a startup surgiu com o objetivo de fazer parte de um sistema de produção sustentável, respeitando o ecossistema. Entregando nas regiões de Alphaville, Cotia e alguns bairros de São Paulo, o portal funciona como uma feira on-line de orgânicos, em que os clientes escolhem frutas, verduras e legumes por meio do site da marca. Depois do pedido, a empresa solicita a colheita para os produtores credenciados, com selo do Produto Orgânico Brasil, monta a cesta e realiza o envio desses produtos recém-apanhados da horta.

Além dos frutos, a marca dispõe de uma diversidade de insumos, através de um empório, também on-line, onde é possível escolher geleias, cafés orgânicos e outros produtos. “Nesses anos de operação, aprendemos a valorizar o trabalho do pequeno produtor que trabalha de domingo a domingo e pode perder tudo a qualquer momento, e a respeitar o poder de escolha dos nossos clientes, entregando produtos frescos e selecionados”, afirma o cofundador, Eduardo Castagnaro. Para o futuro, a ideia é expandir ainda mais a área de entrega e agregar novos produtores ao esquema, acompanhando as tendências do setor.

O Surgimento de Agtechs, que apresentam soluções nas mais diversas frentes, acabou por facilitar e beneficiar a agricultura de pequena escala. Essas empresas facilitam o acesso ao crédito, aos ganhos de produção e algumas até o acesso do produtor ao consumidor final. “De uma maneira ou de outra os produtores serão beneficiados com o aumento de renda, favorecendo a permanência no campo e a redução do êxodo rural, pois a atividade será cada vez mais atrativa”, acrescenta Clóvis Rossi.

O GRANDE MEDO

Apesar do otimismo, muitos produtores têm medo de concorrer com os grandes players do mercado. Medo de não conseguir suprir a demanda, a ideia de que “um produto local pode não ser tão bem-visto quanto um feito em larga escala” são alguns dos pensamentos. Para quem trabalha na área de estudos do agro, o momento não é de fugir e simpartir para cima. ”A melhor maneira de estar no setor é fortalecendo a ação coletiva, a cooperativa, o associativismo que podem ligar o produtor às principais tecnologias existentes no mundo e, ainda, proporcionar o uso compartilhado delas”, explica Marcos Fava.

A criação de cooperativas agrícolas é característica desse movimento. Juntos, os produtores conseguem “unir forças” para entrar em um determinado mercado. E, com a ampliação do acesso à internet no campo e a tecnologia com custo menor, tudo é potencializado e a competitividade é acirrada. ”Vimos que nos sistemas de integração a união de pequenos produtores e da indústria de alimentos gera riqueza e transforma a economia de regiões inteiras. A soma das forças favorece ambos. “Neste tipo de sistema, a criação de suínos e aves se estabeleceu no sul do Brasil na década de 1970 e hoje observamos a representatividade econômica do setor, gerando gigantes do agronegócio. Como atuamos na suinocultura, levando tecnologia para esses produtores integrados, observamos não só a predisposição de produtores para adesão, mas também como a tecnologia pode influenciar na melhoria de resultados”, exemplifica Clovis Rossi.

A informação é considerada como chave para que o sucesso seja garantido. Os produtores podem ter acesso facilitado ao crédito, alimentar a competitividade com adesão a tecnologias compatíveis com o negócio e melhor gerir os recursos da propriedade. As mudanças que estão ocorrendo em todas as áreas do conhecimento também afetam o agronegócio. A chamada “revolução 4.0”, por exemplo, gera impactos muito positivos, o que pode ser um marco na transformação da agricultura de pequena escala, em que pequenos produtores podem assumir o papel de empreendedores rurais, com estratégias corporativas aplicadas à própria gestão. É a internet das coisas sendo transportada para todas as áreas possíveis.

A ideia de ser diferente é o primeiro passo que um produtor precisa pensar antes de investir no agronegócio. Cada região tem uma característica, por isso a busca pela informação – olha ela mais uma vez – é primordial.

Aprender com ”vizinhos” e o compartilhamento de experiências também pode diferenciar um sistema que funciona daquele que enfrenta dificuldades. E ainda há o apoio do poder público. “As melhores oportunidades estão nas culturas nas quais a mão de obra possa ter mais valor, como aquelas que não precisam de grande escala, que possam estar mais próximas aos consumidores e a rentabilidade por hectare seja maior”, afirma Fava.

Segundo ele, alguns exemplos são atividades de horticultura, fruticultura e até agricultura integrada. O produtor deve evitar aquelas em que são necessários módulos mínimos para ficar eficiente. Caso queira utilizá-las, os módulos devem ser construídos com vizinhos para compartilhar máquinas, implementos e serviços, usando toda essa nova tecnologia que está chegando à agricultura.

MELHORANDO…

Na questão patrimonial, a avaliação é que o Brasil está melhorando, com novas gestões sobre segurança – tanto de dados quanto dos próprios negócios. As invasões de terra diminuíram, apesar de a insegurança no campo ainda ser muito grande. Aí a tecnologia entra em cena mais uma vez. Assim como em bairros residenciais, produtores rurais estão se unindo em grupos nos aplicativos de mensagens e redes sociais para buscar essa sensação de segurança.

Seguradoras e cooperativas de crédito rurais são as principais instituições de apoio. As empresas de extensão rural ligadas ao estado podem reduzir os riscos relacionados e direcionar o produtor ao cultivo ou à criação que melhor se desenvolvem na região. Fazer benchmark, ou seja, identificar o que dá certo e o que dá errado nas propriedades próximas e se servir disso estrategicamente pode ser o fator primordial para definir o sucesso ou o fracasso.

Nada melhor do que uma boa reflexão e até mesmo um bom papo sobre como as coisas têm funcionado com produtores em negócios similares. “O produtor deve observar atentamente as tendências de tecnologia e avaliar aquelas que podem contribuir com a melhoria de processos e até mesmo da produtividade”, finaliza Rossi.

OS OVOS DE OURO

Os ovos fazem parte da alimentação do povo brasileiro desde sempre, e, essa relação tem se mostrado ainda mais próxima com a alta do preço da carne. Mas, para o empresário mineiro Leandro Pinto (foto), a história é ainda mais antiga. O enxoval foi comprado com dinheiro da venda de adubo feito pela granja da família.

Os anos passaram e o jovem foi trabalhar em uma loja de máquinas agrícolas na cidade de Itanhandu (MG), logo uma oportunidade saltou aos olhos: um amigo estava mal de saúde e ofereceu a granja para que Leandro cuidasse. Eram 30 mil galinhas no total.

O 30 tem outro significado: são três décadas de existência do Ovos Mantiqueira, que começou na Serra. Hoje são várias fazendas e está chegando a primeira fábrica de processamento de ovos em Primavera do Leste (MT). A extensa linha de ovos é distribuída em quase todo o território nacional, além do mercado internacional, principalmente Oriente Médio, África e Ásia.

Dentro do processo de adaptação ao novo momento do mercado, a criação de galinhas fora das gaiolas também se tornou destaque. E foi com a aposta em tecnologia que a Mantiqueira mudou o cenário da avicultura no país, desenvolvendo granjas totalmente automatizadas através de novas tecnologias para produção.

Outro pilar forte da marca é o investimento constante em ecologia, em que um departamento desenvolve técnicas de preservação do meio ambiente com todas as certificações do mercado – formas de se manter conectada e conquistar novos mercados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDP – TIPOS DE TRANSTORNO

Conheça os principais, as diferenças e as características de cada um segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a bíblia dos especialistas em saúde mental

Normalmente a pessoa que possui algum tipo de transtorno mental não consegue enxergar com clareza om que está ocorrendo, qual é seu tipo de personalidade e nem tem capacidade para resolver sozinha os problemas e desafios do seu dia a dia. Por isso é tão importante que os que vivem bem próximos estejam sempre observando. E para diagnosticar e tratar, os psiquiatras e psicólogos são os que maispodem ajudar. Conheça agora os tipos de transtorno e suas peculiaridades.

TRÊS GRUPOS

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), os diferentes tipos de transtorno de personalidade estão divididos em três grupos. Porém, a maioria dos especialistas também concorda que os indivíduos podem manifestar sintomas característicos de categorias diferentes, ou seja, essa classificação não tem a intenção de delimitar a expressão dos sintomas. O neurocientista Aristides Brito cita algumas características típicas de cada uma delas:

GRUPO A

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE PARANOIDE, ESQUIZOIDE E ESQUIZOTÍPICA

“São indivíduos desconfiados ao extremo, suspeitam e costumam entrar em conflito com tudo e com todos. Muitas vezes acham os outros maldosos, pensam que todos querem prejudicá-lo. Acabam se tornando excêntricos, esquisitos mesmo.”

PARANOIDE – Podem enxergar “conspirações” por todos os lados. Pensam que estão sendo constantemente explorados pelas outras pessoas. Imaginam que toda e qualquer informação pode ser usada contra eles a qualquer momento. A vida a dois pode ser complicada por causa das desconfianças exageradas. Podem guardar raiva e reagir violentamente a insultos.

ESQUIZOIDE – Podem parecer pessoas sempre frias e distantes. Aparentam não sentir prazer naquilo que estão fazendo. Parece que não estão ali. Muitas vezes optam por fazer as coisas sozinhos e fugir das emoções. Têm muita dificuldade em se relacionar com qualquer pessoa que não seja bem próxima, tipo familiares mais chegados.

ESQUIZOTÍPICA – São indivíduos que podem ter percepções distorcidas dos fatos à sua volta. Frequentemente possuem crenças bizarras. Sentem-se frequentemente fora do contexto social em que transitam e também muito ansiosos. Relações mais íntimas costumam ser evitadas a qualquer custo, por medo de rejeição.

GRUPO B

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL, BORDERLINE, HISTRIÔNICA E NASCISISTA

“São os mais emotivos, vivem reclamando o tempo todo. Costumam ser dramáticos ao extremo. São indivíduos que não gostam de respeitar leis e regras.”

ANTISSOCIAL – Digamos que eles não gostam de seguir regras. Mesmo que interfiram nos direitos e vontades das outras pessoas. Se utilizam disso para tirar vantagens em várias situações: mentir e enganar pode fazer parte do seu jeito de levar a vida. Atitudes irresponsáveis e até ilícitas infelizmente podem fazer pane do dia a dia destes indivíduos.

BORDERLINE – Os portadores deste transtorno apresentam mudanças de humor bruscas. Superfelizes e agitados num momento. Tristes e depressivos em outro. Agem com total impulsividade, prejudicando, inclusive a si mesmos com frequência. Fica bastante difícil manter relacionamentos amorosos, por exemplo.

HISTRIÔNICA – Praticamente necessitam de atenção das pessoas o tempo todo. Fazem um verdadeiro teatro dramático com fatos corriqueiros do dia a dia para conseguir aquilo que querem. Costumam ser o centro dos acontecimentos, nobilizando tudo e todos em seus propósitos. Os argumentos costumam ser espalhafatosos e impressionantes.

NARCISÍSTICA – Realmente aqui estão os indivíduos que se supervalorizam. São fantasias de grandeza a cerca da própria personalidade. Independentemente de qualquer coisa, se acham o máximo. Sentem que estão acima do bem e do mal, tirando vantagens e até chantageando os outros para atingir as coisas que quer. Acreditam ser especiais e únicos.

GRUPO C

TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE EVITATIVA, DEPENDENTE E OBSESSIVO-COMPULSIVA.

“São mais isolados, se tornam até agressivos se seus espaços forem “invadidos”. Têm um apego exagerado à organização e vivem arrumando as coisas por onde passam. Podem parecer medrosos e ansiosos.”

EVITATIVA – São extremamente sensíveis às críticas negativas. Podem até fugir de situações onde tenham que interagir com outras pessoas, tamanha a insegurança. Há um receio exagerado de passar vergonha ou serem rejeitados. Sentem-se inadequados na maioria dos lugares e situações. Não acreditam nas próprias qualidades.

DEPENDENTE – Indivíduos que não se sentem bem sozinhos. Preferem que outras pessoas assumam o controle de suas vidas, principalmente quando se deparam com algum desafio mais contundente. Têm dificuldades em tomar decisões. Sofrem nas relações amorosas, até por conta do comportamento excessivamente submisso.

OBSESSIVA-COMPULSIVA – Sentem necessidade de seguir algum tipo de organização, de arrumação em muitas de suas atividades diárias. Podem se dedicar em excesso ao trabalho. Tentam buscar um perfeccionismo que talvez nem exista, o que na maioria das vezes acaba gerando ansiedade e estresse. Têm o costume de guardar coisas, mesmo que não vá usá-las.

EU ACHO …

ESCUTAR É PRECISO

É impossível resistir aos novos podcasts nacionais sobre crimes

A onda de podcasts chegou há alguns anos ao Brasil, mas demorei a embarcar nela. Para mim, não fazia sentido passar horas “escutando” narrativas, quando minha pilha de livros continuava tão alta e minha lista de filmes e séries pendentes não parava de crescer. Então, no início do ano, muitas pessoas me recomendaram o podcast Projeto Humanos sobre o Caso Evandro, feito por Ivan Mizanzuk. Sem expectativas; comecei a escutar e, quando percebi, não conseguia mais parar.

Ao longo dos episódios, somos apresentados a um chocante caso real ocorrido em 1992: o sequestro e o macabro assassinato, do menino Evandro em Guaratuba, no litoral do Paraná. Na época, o fato ficou conhecido como “As bruxas de Guaratuba”, já que as duas principais suspeitas eram Celina e Beatriz Abagge, esposa e filha do prefeito. Segundo a tese policial, as duas haviam feito um ritual de magia com o corpo. Em um roteiro primoroso, Mizanzuk destrincha o caso de modo didático e viciante, com ganchos fortes, jogando com a curiosidade do ouvinte: afinal, as rés são culpadas ou inocentes? Quem são os outros envolvidos? Qual é o papel da imprensa e da polícia nessa investigação repleta de erros grosseiros?

Mesmo sendo autor de histórias policiais, o crime real nunca me fascinou muito. Em geral, a violência é brutal, vulgar e ilógica. Para mim, só faz sentido mergulhar em histórias de crimes reais quando essas narrativas ajudam a discutir temas e lançar reflexões. Sem dúvida, esse é o maior mérito de O Caso Evandro: mais que um bom mistério, Mizanzuk faz uma crônica de costumes da sociedade paranaense, além de crítica brutal à força policial e à imprensa sedenta por sangue a qualquer custo.

No mesmo sentido, vale mencionar Praia dos Ossos, meu vício mais recente. Produzido pela rádio Novela e apresentado por Branca Vianna, o podcast revisita o conhecido Caso Doca Street, ocorrido em 1976. Ângela Diniz, socialite mineira de 32 anos, foi assassinada pelo então namorado, Doca, em Búzios. Mais tarde, Doca usou no tribunal o argumento da legítima defesa da honra para escapar da condenação. Afinal, para que voltar a esse caso mais de quatro décadas depois? O segredo está na abordagem: tendo o crime como ponto de partida, o podcast discute machismo, feminicídio e traz um mosaico potente da sociedade mineira. É chocante acompanhar o jogo argumentativo no Tribunal do Júri, no qual o advogado de defesa (Evandro Lins e Silva) constrói uma narrativa em que Doca é a vítima e Ângela é a “culpada” pela própria morte. Mais atual, impossível.

Na esteira de podcasts brasileiros sobre crimes reais, vale também conferir o Modus Operandi de Carol Moreira e Marina Boa-fé; o Que Crime Foi Esse? de Anna Lívia Marques e Fernanda Renton; o Café com Crime; e o 1001 Crimes. A experiência de ouvir um programa do tipo fica no meio do caminho entre a literatura e o audiovisual. Do cinema, traz o uso do som, da montagem e da trilha. Da literatura, a figura do narrador, que cria cumplicidade. A imersão se aproxima mais daquela de quem devora um livro. Com um bom podcast para escutar, lavar a louça, correr na esteira ou arrumar a casa pode ser mais divertido do que você imagina.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

OS DIAMANTES SÃO ETERNOS

O mais famoso biquíni de todos os tempos, celebrizado pela primeira Bond girl, Ursula Andress, vai a leilão e pode ser arrematado por 2.8 milhões de reais

O novo filme de James Bond, Sem Tempo para Morrer, capítulo final do ator Daniel Craig na pele do agente secreto a serviço de Sua Majestade, foi adiado pela segunda vez nesta temporada. Originalmente programado para chegar aos cinemas em abril, precisou ser postergado para novembro por causa da pandemia e, em uma decisão que paralisou de vez o mercado exibidor, acabou empurrado para abril de 2021, completando o ciclo de um ano de atraso. Apesar disso, no rastro da expectativa da estreia – tem potencial para arrecadar 1 bilhão de dólares -, os negócios que cercam o filme continuam em andamento, inclusive o leilão de itens que foram usados na produção das 24 aventuras anteriores do agente 007.

Equipamentos e armas (que não necessariamente funcionam) estarão disponíveis, até 12 de novembro, a todos os cinéfilos endinheirados que quiserem dar lances na casa de leilões Profiles in History, cuja especialidade são relíquias de Hollywood. Do catálogo on-line que já está aberto ao público, nenhum item é mais cobiçado do que o biquini que transformou Ursula Andress em uma celebridade instantânea e na primeira Bond girl – uma linhagem de mulheres deslumbrantes que passariam a fazer parte das missões futuras do espião britânico. O traje de duas peças entrou para a história em 1962, quando Úrsula saiu de um mergulho nas águas quentes da Jamaica para deparar com Sean Connery em uma cena do filme 007 contra o Satânico Dr. No, na estreia do personagem no cinema.

O biquíni branco-marfim de Úrsula está cercado de lendas que se misturam com fatos, como quase tudo no mundo cinematográfico. A atriz suíça, então com 26 anos, que falava inglês carregado de sotaque e precisou ser dublada na edição final, não teria gostado do figurino de sua personagem, Honey Ryder, e decidiu ela mesma desenhar o traje de banho. O top, feito de linha de algodão, foi montado sobre os aros de um sutiã meia taça. A parte de baixo, também forrada de algodão com amarração nas alças, era forte o suficiente para resistir a mergulhos, mas não para sustentar uma faca de pesca. Um cinto do uniforme da Real Marinha Britânica foi tomado emprestado de um oficial de verdade que estava por perto e colocado às pressas na cintura da moça.

Úrsula Andress não lançou o biquíni, mas tirou de cena o maiô inteiriço e celebrizou a invenção de pouquíssimo pano de Louis Réard, um engenheiro automotivo francês que, em 1946, criou a novidade. Úrsula, hoje com 84 anos, afirmou certa vez que o biquíni branco-marfim mudou sua vida, transformando-a no símbolo sexual de uma geração. Mesmo assim, em 2001 ela pôs o conjunto em leilão na casa Christie’s de Londres, onde foi arrematado por 41.125 libras esterlinas (cerca de 300.000 reais) pelo dono da rede de restaurantes Planet Hollywood. Em novembro, o atual proprietário espera vendê-lo por 500.000 dólares (2,8 milhões de reais). Não foram feitas réplicas da cobiçada peça. O biquíni desenhado e usado pela primeira Bond girl do mundo é único – jamais haverá outro igual.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE NOVEMBRO

DIVÓRCIO, A APOSTASIA DO AMOR

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério… (Mateus 19.9a).

O casamento está-se transformando em um contrato de risco. A sociedade contemporânea aderiu aos produtos descartáveis e olha para o casamento como uma experiência temporária. Os véus das noivas estão cada vez mais longos, e os casamentos cada vez mais curtos. Em alguns países já há mais divórcios que casamentos. Casa-se sem reflexão e divorcia-se por qualquer motivo. Muitos casamentos que começaram com juras de amor e sonhos de felicidade terminam com um traumático divórcio. Mais feridos que os cônjuges, ficam os filhos, pois os cônjuges podem até se apartar um do outro, mas não há divórcio entre pais e filhos. Os filhos são as maiores vítimas do divórcio. A Bíblia diz que Deus odeia o divórcio (Malaquias 2.14). O divórcio é a apostasia do amor, a quebra da aliança, o fracasso do casamento. Deus instituiu o casamento, e não o divórcio. Este é permitido por Deus e não ordenado por ele. Permitido apenas por causa da dureza do coração, ou seja, pela incapacidade de perdoar. O perdão é melhor que o divórcio. Não há pessoas perfeitas nem casamentos perfeitos. Todo casamento exige investimento e renúncia. Todo casamento exige paciência e perdão. As crises podem ser vencidas e as limitações podem ser superadas. O amor tudo vence!

GESTÃO E CARREIRA

O LADO ESCURO DAS COZINHAS

O que são as “dark kitchens”, um tipo de negócio que segue o embalo do crescimento do mercado de entrega de comidas

A árvore de tronco largo e com galhos que se espalham para todos os lados costuma chamar a atenção de quem passa em frente ao Figueira Rubaiyat, um dos endereços da alta gastronomia no bairro dos Jardins em São Paulo. Famoso pela comida, o restaurante também é referência em termos de ambiente, com as mesas espalhadas embaixo da copa da figueira centenária. Apesar disso, o Rubaiyat está se preparando para expandir um novo modelo de negócios, sem os garçons, maitres e o glamour presentes em seus restaurantes em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Santiago do Chile, Buenos Aires e Madri. Ainda este ano, o grupo pretende entrar em uma “dark kitchen” – cozinhas industriais alugadas apenas para quem quer fazer delivery. O termo teve origem nos Estados Unidos na última década, quando começaram a surgir “cozinhas escuras” para alugar em contêineres. O Rubaiyat vai inaugurar uma unidade na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e outra em Campinas, no interior paulista. A experiência com delivery começou há três anos usando a estrutura dos restaurantes, mas é em 2020, com o aluguel de espaços em dark kitchens, que o grupo pretende dar início a um período de aceleração do crescimento. A meta é que esse segmento responda por 25% do faturamento até 2025.

A Rappi, startup mais conhecida pelo serviço de entrega, é o grande nome quando o assunto é a construção de centros de cozinhas industriais para alugar. Desde 2015, já montou 100 dark kitchens em todas as regiões do país. “Os restaurantes estão muito preparados para atender os clientes presencialmente. Quando o delivery chega, eles percebem uma dificuldade na adaptação. Isso gera a necessidade de ter um espaço com uma dinâmica só para entrega”, disse Georgia Sanches, diretora de contas na Rappi Brasil. Fora do Brasil, a empresa tem mais de 100 cozinhas nesse modelo em operação na Colômbia, México, Chile e Argentina, e abrirá em breve uma filial no Peru. A expectativa é implementar 600 espaços na América Latina ainda em 2020.

Do ponto de vista dos restaurantes que adotaram o modelo da dark kitchen, a vantagem é poder fazer um teste de demanda sem ter de montar uma estrutura própria. Por outro lado, restaurantes fiéis somente ao salão têm sentido uma queda do movimento. “Para abrir um restaurante novo demora um ano e meio. Para colocar em operação uma unidade numa dark kitchen é só um mês e meio”, disse Diego Iglesias, um dos sócios do Rubaiyat. Em caso de insucesso, a desmontagem do negócio também é mais rápida. Pensando nessas vantagens, a Al Capizza apostou no modelo no final de 2018. Além de oito estabelecimentos com salão, a pizzaria conta com 13 dark kitchens para atender a capital paulista. “O investimento elevou em dez vezes o faturamento da empresa que hoje conta com a produção mensal de 70 mil pizzas”, contou um dos sócios da Al Capizza, Marcos Mazieri.

A expansão das dark kitchens tem acontecido, principalmente, a partir do interesse de restaurantes já estabelecidos ou de investidores. Para empreendedores com menos dinheiro para aplicar, uma alternativa é o que se convencionou chamar de co-working gastronômico. Nas dark kitchens, as empresas alugam a cozinha inteira. Nos co-workings, o alvo é uma bancada. No Co-Kitchen, situado no bairro de Botafogo, no Rio, Cynthia Jacques, que produz azeites aromatizados, geleias e conservas, conseguiu acesso a um pedaço de uma cozinha industrial e um lugar para armazenar produtos. “No Co-Kitchen conseguimos produzir oito vezes mais em um dia de trabalho. comparando com o que faço em casa. Isso me proporciona tempo para cuidar de outros aspectos do negócio. Além disso, a adequação com a vigilância sanitária é menos uma preocupação”, afirmou Jacques, que também conta com as entregas para aumentar suas vendas.

A expansão do delivery é evidente até mesmo para quem não é adepto de pedir comida pelo aplicativo ou telefone. Uma medida do sucesso é o número de motos de entregadores nas ruas. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei), o mercado de delivery gastronômico cresceu cerca de 10% ao ano e, em 2019, movimentou mais de R$ 130 bilhões. Pelos dados do Guiabolso, um aplicativo de gestão financeira, os brasileiros despendem 7,2% do seu orçamento com pedidos de entregas, e as empresas do setor apostam que esse percentual pode aumentar bem mais. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dá uma ideia do tamanho do mercado a ser abocanhado. As famílias brasileiras gastam, em média, 30% de seu orçamento com alimentação fora de casa.

Entre as causas no aumento dos pedidos de entrega de comida estão os aplicativos. Quem saía da casa dos pais para morar sozinho até a década de 1980 não conseguia nem comprar uma linha de telefone fixo, na época artigo raro e caro sob a tutela estatal. Com a popularização dos smartphones, fazer pedidos tornou-se algo instantâneo. “Há a questão econômica. A opção de comer em casa pode ser mais barata”, explicou Michel Alcoforado, especialista em comportamento do consumidor e fundador da consultoria Consumoteca.

No ecossistema do delivery também há as empresas que nasceram já voltadas para o sistema de entregas e montaram a própria cozinha. Esse foi o caso do Rão, fundado em 2013 no Rio de Janeiro. Especializado em comida japonesa num primeiro momento, a empresa se expandiu, ampliou a linha de produtos para pizzas e cozinha árabe e se transformou numa franquia, com mais de 70 lojas no Brasil, Estados Unidos e Portugal. “Pegamos nossa fórmula de operações e replicamos em outras frentes. O serviço de entrega não é só um desdobramento do setor de bares e restaurantes, mas uma tendência que, cada vez mais, se expande para outros segmentos”, contou Guilherme Lemos, presidente do Grupo Rão, que também tem um braço de conveniência. Somente em janeiro foram inauguradas quatro unidades no estado do Rio. As próximas marcas a serem lançadas serão de cachorro­ quente, o DogRão, e comida brasileira, Rão Grill. A expectativa do grupo é ganhar relevância no mercado nacional com foco em São Paulo e na região sul do país, contou Lemos. Fora do Brasil, os próximos países serão Espanha, França, Itália e Dubai.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDP – MÚLTIPLOS “EUS”

Entenda como funciona o distúrbio caracterizado pela presença de duas ou mais personalidades em um único indivíduo

Vozes sobressaíam à musica do ambiente e seguiam Alice onde quer que fosse. Então, um apagão em sua mente tirava dela as últimas horas vividas: era impossível lembrar do que se passara. Os pesadelos que sempre a perseguiram agora eram mais detalhados e pareciam ainda mais reais. Ao menos três vezes por semana, ela acordava em um local desconhecido, fora de casa. Por vezes, tinha corte em seus braços ou se deparava com objetos que não sabia de onde vieram. No livro Hoje Eu Sou Alice, a autora relata a trajetória de uma mulher de 40 anos que sofre com Transtorno Dissociativo de Personalidade (TDP). Além de lutar contra o vício em álcool e a anorexia, ela precisa conviver com suas nove personalidades – a maioria delas crianças e de diferentes idades.

DA FICÇÃO PARA A VIDA REAL

Em 1908, com a descoberta da esquizofrenia, diz-se que muitos casos de TDP tenham sido mal diagnosticados. Com o lançamento do filme Sybil, nos anos 1970, o transtorno ganhou maior atenção. A história conta o caso real de Shirley Ardel Mason, paciente psiquiátrica americana e artista comercial que obteve notoriedade por possuir o distúrbio.

“O TDP tem sido estudado por médicos e cientistas há mais de cem anos. Em 1980 foi chamado de Transtorno de Personalidade Múltipla no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que descreve os sintomas das condições psiquiátricas. Esse nome foi alterado na edição de 1994”, ressalta o médico neurologista Martin Portner. O especialista comenta que, na descrição do caso da famosa paciente Anna O. por Sigmund Freud, na virada do século XIX, o estado secundário da personalidade da paciente é descrito por um estado alterado da consciência. “Trata-se do nascimento do conceito do transtorno de personalidade múltipla. Mas a falta de conhecimento e de recursos de neuroimagem e neuropatologia acabaram deixando as conjecturas daquela época inconclusas”, declara.

Entretanto, o problema vivido pela personagem do livro e pela mulher retratada no cinema é apenas um dos tipos de transtorno de personalidade existentes. O DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição) os divide em três conjuntos. O grupo A envolve os transtornos de personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica. Desconfiados ao extremo, indivíduos que possuam algum desses distúrbios “suspeitam e entram em conflito com tudo e todos. Muitas vezes, acham os outros maldosos e pensam que estão querendo prejudicá-los. Acabam sendo excêntricos”, explica o neurocientista Aristides Brito. No grupo B estão as pessoas com transtorno de personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista. São aqueles que, segundo o profissional, estão sempre reclamando e dramatizando as situações. Também não costumam respeitar leis e regras.

Já o último grupo abrange pessoas com transtornos de personalidade evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva. “Eles são mais isolados e podem se tomar agressivos caso sintam-se ‘invadidos’ em seus espaços. Possuem um exagero por organização”, completa o especialista.

O DIAGNÓSTICO

Os quadros de TDP são raros e graves, ocorrendo, geralmente, após grandes episódios traumáticos. Atualmente, existe um forte consenso de que o distúrbio dissociativo de personalidade seja fruto de uma interrupção – causada pelo trauma – no desenvolvimento psicológico de uma criança, impedindo os processos normais de formação e estabilização da identidade. “Relatos de traumas repetitivos na infância em pessoas com TDP (que foram comprovados) incluem queima, mutilação e exploração. O abuso sexual também é rotineiramente relatado, juntamente com abuso emocional e negligência. Em resposta a um trauma de grande magnitude, a criança desenvolve estados ou identidades múltiplos, muitas vezes conflitantes. Elas refletem contradições radicais em seus primeiros apegos, ambientes sociais e familiares – por exemplo, o pai que oscila imprevisivelmente entre a agressão e o cuidado”, revela Martin Portner.

A psicóloga Lidiane Silva explica que, para que seja feito o diagnóstico do transtorno, é necessário que, primeiramente, o médico avalie as queixas do paciente e se há depressão e/ou transtorno de estresse pós-traumático, somatização ou até mesmo um quadro de esquizofrenia, podendo, assim, chegar ao diagnóstico de TDP. “A avaliação é demorada e, muitas vezes, é necessário obter o relato de familiares para que se possa fechar o diagnóstico correto, pontua a profissional.

DIVIDIDA EM PARTES

Uma pessoa com TDP possui duas ou mais personalidades diferentes e distintas. De acordo com estudos, é possível que esse número chegue a 23, podendo ter, cada uma, idade, gênero e, inclusive, doenças diferentes. “Não é comum que chegue a tanto, mas pode acontecer, levando em consideração o fator traumático que desencadeou tal distúrbio”, comenta Lidiane.

Além disso, a pessoa com o distúrbio possui uma personalidade habitual, chamada de “core” e as personalidades alternativas, ou “alteres”. É como se ocorresse uma divisão de uma entidade que deveria ser única. Segundo Martin Portner, quando a mudança de uma personalidade para outra ocorre e um alter assume o controle, o indivíduo é acometido por uma amnésia, ou seja, ele não se recorda dos traços da outra personalidade que exibia alguns minutos atrás. “Cada alter possui traços individuais distintos, uma história pessoal e um modo de pensar e de se relacionar com o ambiente ao seu redor. Eles podem ter gênero, nome e conjunto de boas maneiras e preferências diferentes. É incrível, mas é possível que o alter tenha, até mesmo, alergias diferentes do que a ‘pessoa’ principal”, expõe o neurologista.

Apesar da geralmente ocorrer a amnésia no momento em que há a mudança de personalidade, em algumas situações, a pessoa com TDP pode estar ciente de seus outros estados e das memórias dos tempos que uma alteração é dominante. “O estresse ou a lembrança de um trauma podem desencadear uma mudança entre alteres”, completa o profissional.

EU ACHO …

SEM BOLA DE CRISTAL

Nosso futuro pode ser projetado a partir do que fizermos hoje

O futuro é um território virgem, não mapeado, de muitas incógnitas e possibilidades. Como seremos? Como serei? Como será? As perguntas no verso de Caetano Veloso resumem a ansiedade demasiadamente humana sobre o que a vida nos reserva. Procuram-se as respostas nos lugares mais improváveis. Nas linhas da palma da mão ou na tenda mística do oráculo. Também nas cartas tiradas no tarô, nos búzios jogados sobre o tabuleiro, na interpretação do mapa astral. Quiromantes, astrólogos e demais especialistas em previsões esotéricas continuam com a agenda cheia, checando o que está escrito nas estrelas, nas mãos ou em outra superfície qualquer.

A previsão do futuro tem apelo inegável porque mexe com um temor ancestral do ser humano: o medo do desconhecido. Parte da nossa vida é dedicada a tentar aplacá-lo. Há maneiras racionais de fazer isso, e quase todas passam por algum tipo de planejamento. Investimentos em estudos; cuidados com relações afetivas, escolhas de aposentadorias, empenho em ter uma vida saudável – tudo isso tende a diminuir o grau de incerteza a que estamos expostos.

Se você quiser realmente saber como será o seu futuro, no entanto, há um método mais simples e certeiro: basta levar em conta o que está fazendo hoje. É a nossa rotina atual – ou a falta dela – que determinará, ao menos em parte, o que seremos amanhã. Como exercício, proponho que projete um intervalo qualquer de tempo – dez anos, por exemplo. Como você gostaria de estar em 2030? Fazendo o quê? Dedicando-se prioritariamente a quais projetos pessoais? E a carreira profissional, em que ponto ela deveria estar? Um amor renovado? Talvez um novo amor?

Não é uma proposta totalmente nova. “Conta-me o teu passado e saberei o teu futuro”, teria dito Confúcio, o filósofo chinês que viveu séculos antes de Cristo e influenciou o pensamento oriental, pregando, entre outras lições, a importância da sinceridade. Minha fórmula deriva desse conceito: se você, honestamente, me disser o que fez hoje, eu lhe direi o futuro que o aguarda.

“Como assim, Lucília?” É simples. Não se trata de vidência, mas de lógica. Nossas conquistas, na maioria das vezes, dependem menos do acaso do que da determinação. Se você quiser se aperfeiçoar na arte da culinária, por exemplo, deve cozinhar hoje. Se deseja um dia cantar sem espantar os amigos, cante hoje. Se almeja chegar firme e sacudido aos 80, malhe hoje. E assim por diante. Varia o objetivo, não o dia de começar a concretizá-lo – é sempre hoje. Portanto, incorpore à rotina tudo aquilo que fará você uma pessoa parecida com seus melhores anseios. Se preciso, saia de sua zona de conforto, mesmo que seja para criar outra, mais consciente.

Entregar o seu futuro ao eventual alinhamento dos astros não chega a ser uma estratégia de vida. Prefiro concordar com Peter Drucker, o pai da administração moderna: “A melhor forma de prever o futuro é criá-lo”. Talvez ele estivesse pensando principalmente em gestão de empresas, mas não vejo por que não aplicar a máxima à vida. Em 2030 você será produto do que está criando em 2020.

E, então, a sua lista de atividades está de acordo com seus sonhos?

*** LUCILIA DINIZ                  

OUTROS OLHARES

TODOS CHEGARÃO LÁ

A criançada em fase de alfabetização foi a turma que mais sentiu o baque de estar longe da escola. Mas os especialistas garantem: logo estarão lendo e escrevendo

A pandemia embaralhou a vida estudantil e, como se sabe, fez com que uma multidão de crianças e adolescentes se sentasse à frente de uma tela em casa para dar andamento ao ano letivo na modalidade on-line. Os mais velhos demonstraram, em geral, um razoável poder de adaptação. Mas os pequenos, e não poderia ser diferente, oscilaram entre perdidos e assustados, sem ter ao lado o professor para guiá-los em seus primeiros passos no mundo, digamos, mais sério. Foram eles os que mais sentiram o baque, uma turma de quase 6 milhões de alunos entre 6 e 8 anos que, a essa altura, já deveria estar alfabetizada – e não está. É natural que os pais, cheios de expectativas sobre a evolução dos filhos no bê-a-bá, se preocupem e levantem a questão: e agora, como essa defasagem será vencida sem comprometer o 2021 que se avizinha? A pergunta faz todo o sentido – afinal, os fundamentos da leitura e da escrita são essenciais para galgar degraus mais elevados de conhecimento -, mas não justifica a ansiedade. “É um exagero dizer que o estudante terá dificuldade para avançar no colégio. Esse prejuízo não será permanente”, enfatiza Marcos Raggazzi, diretor pedagógico do grupo Bernoulli.

Os desafios da garotada novinha no ensino remoto, em que a maioria segue firme, são gigantescos – a começar pela capacidade de manter a atenção diante do computador. Mesmo que essa geração demonstre precoce destreza com a tecnologia, é jovem demais para ter algo que falta até a muito adulto: foco. É por essa razão que os pais estão sendo instados pelos colégios a entrar em cena e incentivar a criança a se fixar na aula virtual, de preferência participando dela – uma medida muito bem-vinda (veja outras no quadro abaixo), embora nada trivial. “Minha filha se distrai e fica o tempo todo querendo saber quanto falta para a lição terminar. O fim do ano se aproxima e ela não deslanchou”, conta a administradora de empresas Fabiana Vaz, 41 anos, mãe de Maya, de 6, que contratou inclusive uma professora particular. Muitas vezes, na ânsia de suprir as lacunas, os próprios progenitores fazem o papel do mestre, o que pode dar um nó no cérebro dos pequenos. ”Alguns ensinam o alfabeto do mesmo modo antigo que aprenderam, e isso tende a atrapalhar”, alerta Miriam Louise Sequeira, coordenadora do colégio Santa Cruz, de São Paulo.

Estar frente a frente com o professor é comprovadamente benéfico nessa delicada etapa em que a criança precisa prestar atenção ao som das palavras e conseguir traduzi-lo na forma de letras. “Dar esse grande salto à distância é mais complicado. Na sala de aula, o mestre dispõe de várias ferramentas para fazer a ligação entre sons e símbolos”, explica Magda Soares, uma das maiores autoridades em alfabetização no país. A boa notícia é que, nesta já longa jornada pandêmica, as escolas estão atentas às fragilidades do ensino remoto e corrigindo erros registrados na largada. Na alfabetização, uma das iniciativas é subdividir ao máximo as classes, de modo a acompanhar cada aluno. Para os que ainda não sabem ler nem escrever, os docentes passaram a gravar vídeos e mensagens em áudio, enquanto, para os que estão adiantados, escrevem. Uma providência geral foi encurtar o turno escolar à distância – de quatro para duas horas -, o que vem se revelando produtivo.

Como todo novo fenômeno, a pandemia e seus efeitos acadêmicos estão sendo mapeados. Perdido, o ano não está, mas estatísticas ajudam a dimensionar os danos. A pesquisa mais vultosa sobre a criançada na alfabetização, feita pelo Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos, mostra que se aprenderá, em média, menos da metade do esperado antes do novo coronavírus. Mas os especialistas estão convictos de que, traçado um bom plano, os alunos logo retomarão o ritmo, sem sequelas em um horizonte distante. “Vamos correr para sanar os gargalos já no primeiro semestre do ano que vem, monitorando de perto esses alunos”, avisa Viviane Monteiro, diretora pedagógica da educação infantil na Escola Parque, no Rio de Janeiro, que, como outras, retornou às aulas presenciais em esquema mesclado com o on-line. Para todos os estreantes no abecedário, 2021 será um ano de, como diz o ditado, trocar o pneu com o carro andando: na prática, alfabetizar e, em paralelo, avançar nas matérias da série seguinte.

Os sentimentos extremados dos primeiros meses de epidemia estão dando lugar a um pensamento mais pragmático e acomodado ao novo normal. “Não estou preocupada com dia e hora, mas se meus filhos serão bem alfabetizados”, frisa a advogada Melissa Carneiro, que passou por todo o sufoco em dose dupla: é mãe de gêmeos de 7 anos. A neurociência já desvendou muito sobre o que ocorre na mente de pequenos humanos ao ser alfabetizados: ler e escrever modifica significativamente seu cérebro, precipitando sinapses em série. A partir daí, as crianças dão uma arrancada no mundo do saber. Logo, logo, elas estarão soletrando pandemia e muitos outros vocábulos com facilidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE NOVEMBRO

ALÉM DA SEPULTURA

Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem (1Tessalonicenses 4.14).

A morte é o sinal de igualdade na equação da vida: nivela todos os homens. Não há na terra refúgio seguro que nos possa esconder da morte. Suas mãos álgidas descem sobre ricos e pobres, velhos e crianças. Há vários pensamentos acerca da morte e da vida além-túmulo. Alguns acreditam que a morte é o fim da existência. Outros pensam que a morte é um prêmio, uma vez que o corpo é o cárcere da alma. Outros acham que tanto o corpo quanto a alma vão para a sepultura, aguardando o dia da ressurreição. Há os que creem na reencarnação e defendem a pluralidade de vidas; e outros professam crer no purgatório, entendendo que a alma vai para um lugar de tormento para ser purificada e poder entrar no céu. O que a Bíblia diz sobre esse assunto? Segundo a Palavra de Deus, ao homem está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo. O espírito volta a Deus que o deu, e o corpo volta ao pó. Os que morreram sem Cristo começam imediatamente a sofrer as penalidades do inferno e os que morreram com Cristo entram imediatamente na glória. A Bíblia afirma que, no dia da ressurreição, uns se levantarão da morte para a ressurreição do juízo e outros para a bem-aventurança eterna. Porque Cristo venceu a morte e arrancou seu aguilhão, aqueles que morrem em Cristo são bem-aventurados, pois morrer é deixar o corpo e habitar com o Senhor; é partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor!

GESTÃO E CARREIRA

COMO IDENTIFICAR CHEFES NARCISISTAS E LIDAR COM ELES

Necessidade constante de veneração e falta de empatia são características desses profissionais

Carolina Diniz, de 42 anos, respira fundo ao descrever, sem meias palavras, o período profissional de sua vida em que foi subordinada a uma chefe de personalidade narcisista: “Vivi um verdadeiro inferno”. Formada em Direito e com vasta experiência como empresária — de 2002 a 2012, ela foi proprietária de seis lojas de material esportivo em Minas Gerais, estado em que nasceu —, a advogada encerrou as atividades comerciais e decidiu voltar ao mercado corporativo, onde tinha atuado no passado. “Fui trabalhar numa empresa de telefonia e me transferi para Recife. Lá, me tornei responsável pelo varejo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste por seis anos”, lembra. “Estava no auge quando recebi o convite para fazer parte da equipe de uma multinacional de tecnologia, cuja sede era em Belo Horizonte, perto da minha família. Aceitei.”

Três meses depois de começar no emprego, o gestor que tinha feito o convite e que seria seu chefe direto foi promovido e Carolina passou a ser a comandada por uma nova gerente. “Identifiquei, imediatamente, a questão narcisista. Se ela pudesse, abafava qualquer iniciativa minha e da equipe. Não tinha parabéns, cumprimento nem feedback. Recebia elogios de diretores da empresa a respeito da performance do time, mas nunca os compartilhava”, relata. “Ela achava que sabia mais daquele mercado do que qualquer pessoa, sentia-se inabalável e precisava aparecer a todo custo”, emenda. Depois de um ano de trabalho sofrido, noites insones e choro contido, ela foi mandada embora, apesar de ter batido as metas. “Um bom líder só cresce quando projeta o colaborador. Gente tem de gostar de gente. Gestores assim destroem sonhos”, analisa, à frente hoje de uma startup de hotelaria.

No caso da engenheira de produção paulista Bárbara Rodrigues, de 29 anos, o machismo aguçou ainda mais a personalidade narcisista de seus dois últimos chefes. “O primeiro se referia a tudo que tinha de bom na gerência da empresa como algo que tinha sido inventado por ele”, diz. “Grande parte da equipe era formada por mulheres e ele tinha o hábito de, sistematicamente, interromper a nossa fala. Era um caso clássico de mansplaining (quando um homem tenta explicar para uma mulher algo que ela domina mais do que ele) e manterrupting (quando um homem interrompe uma mulher quando ela está falando). Não escutava o que a gente falava ou simplesmente desvalidava as nossas opiniões. Queria brilhar o tempo todo”, conta a engenheira, que trocou de emprego, mas não de problema. “Fui para uma empresa familiar. Porém, dei de cara com a mesma questão. Passei a ter crises de ansiedade. Só de pisar no metrô em direção ao trabalho, minha respiração ficava ofegante. Saí depois de seis meses.”

O médico e psicoterapeuta Roberto Aylmer, especializado em gestão estratégica de pessoas, define como tóxico o comportamento do chefe narcisista, assim como o do gestor psicopata. “É aquele que olha muito para si, seu combustível é a admiração e a necessidade constante de veneração e de brilho. Outro traço característico de seu temperamento é a falta de empatia”, diz Aylmer, lembrando que o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) está catalogado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). “Já o psicopata é o ponto mais extremo. Costumam ser pessoas apaixonantes, mas que não sentem culpa nem remorso”, define. “Há cerca de 20 anos, a falta de compreensão emocional era regra nas companhias, mas hoje a empatia é considerada um ativo nas empresas, não mais uma ‘coisa fofa’. Nesse novo contexto, um chefe narcisista não tem como se sustentar”, analisa.

De acordo com Aylmer, blindar-se de profissionais com essas características não é nada fácil. “Quem está no topo da pirâmide, acima do narcisista, geralmente, não enxerga o problema porque ele faz tudo para evitar críticas. A minha sugestão para quem está sendo dirigido por pessoas assim é fazer alianças com seus pares. Ser generoso no ambiente de trabalho pode ser um antídoto, já que o chefe narcisista costuma criar conflitos entre os integrantes do time para reinar sozinho”, explica. Quando manobra alguma dá certo, o impacto é devastador para a saúde física e mental do subordinado. “O efeito pode ser, por exemplo, a Síndrome de Burnout”, destaca Aylmer. “Por ser uma doença do trabalho e ter implicância legal, acredito que, daqui para frente, o departamento jurídico vá inibir as empresas, que, por sua vez, serão mais rigorosas em relação a comportamentos tóxicos por parte de seus líderes.”

Coach e especialista em desenvolvimento humano, Vivian Wolff diz que, para suportar a situação, é necessário estar com a bagagem emocional fortalecida. “Não é qualquer um que aguenta. Tem de tentar aprender a jogar o jogo. Ferir o ego de um narcisista no comando vai sempre gerar um contra-ataque”, pondera. “Porém, ao entrar na seara do assédio, é preciso denunciar.” Ela também aponta outro dano. “Existe o risco de a convivência diária gerar um ‘crítico interno’ que acabe concordando com o discurso depreciativo do chefe”, explica Vivian. “Por isso, é fundamental se amar, cuidar-se e praticar a autocompaixão, entender que todo o mundo tem defeitos e tudo bem”, continua ela, lembrando da força das novas gerações. “Elas querem ser tratadas de igual para igual. Este velho modelo está se desconstruindo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDP – A SOBRECARGA DO CONVÍVIO

Entenda as dificuldades enfrentadas no relacionamento com pessoas que sofrem de Transtorno Dissociativo de Personalidade e conheça os principais tratamentos para o distúrbio

Cada ser humano é único e possui suas diferenças e particularidades. Sendo assim, a convivência entre duas pessoas pode ser complicada em alguns aspectos, com os quais é necessário saber lidar para que não se tornem um problema na relação. Mas e quando, naquela mesma pessoa com a qual você se relaciona, existem duas, três ou até mesmo vinte personalidades distintas? Conviver com um indivíduo que sofre de Transtorno Dissociativo de Personalidade (TDP) pode ser uma tarefa difícil e até mesmo causar sofrimento em ambas as partes.

APOIO FAMILIAR

“Viver com TDP é nada menos do que uma constante agonia, não só para quem está acometido, mas, sobretudo, para a família”, afirma o médico neurologista Martin Portner. Por isso, é necessário que aqueles que convivem com uma pessoa com o distúrbio busquem saber mais sobre esse problema. E, mais importante: procurem ajuda profissional para lidar com seus próprios sentimentos também. “É fundamental que os familiares se cuidem, pois não é fácil o dia a dia com alguém que possua qualquer transtorno de personalidade. Essa convivência demanda muita energia psíquica a fim de se organizar na relação”, indica a psicóloga Paula Vital dos Reis. Além de procurar acompanhamento médico, é preciso compreender que o indivíduo com TDP pode ter passado por um trauma muito grande e essa foi a forma de ele sobreviver ao sofrimento. “Se você ama essa pessoa, tenha paciência e dialogue sempre que possível, sem julgamentos”, indica o neurocientista Aristides Brito.

Ademais, Martin Portner garante que é preciso abordar o assunto com franqueza com aquele que apresenta o transtorno. Em vários momentos, será necessário ter o mesmo jogo de cintura que se tem com a educação de uma criança. Sobretudo, “a esperança deve ser sempre mantida, pois existe a possibilidade de, um dia, as várias identidades da pessoa se encontrarem e a vida passar a ser vivida de maneira normal”, ressalta o especialista. Para que isso ocorra, ou até mesmo para controlar a situação da melhor maneira, é preciso estar atento à necessidade de tratamento.

BUSCA PELO CONTROLE

A psicoterapia a longo prazo é o tratamento primário para TDP. Nela, o profissional vai buscar, por meio de técnicas, a desconstrução das diferentes personalidades do paciente e uni-las em uma. As abordagens incluem terapias cognitivas e criativas, como a arteterapia e a musicoterapia, além da psicanalítica. “Todas as linhas psicoterápicas visam a qualidade de vida do indivíduo, sua saúde mental e a integração de razão e emoção. O intuito é fazer com que o paciente tenha maior domínio de si mesmo para que saiba lidar com sua realidade e utilizar da forma mais produtiva o potencial que tem”, afirma Paula.

Para a psicóloga Lidiane Silva, é fundamental que haja empatia com o terapeuta durante as sessões, para que as técnicas e o direcionamento do profissional possam surtir efeitos significativos. Desenvolver uma nova rotina e um estilo devida que melhorem o bem-estar do paciente e fortaleçam seus vínculos socioafetivos é, de forma geral, o objetivo da psicoterapia. Em relação ao indivíduo com TDP, especificamente, “levando em consideração as manifestações dos sintomas, é necessário reconectar a pessoa às suas múltiplas personalidades para que haja uma melhora no quadro psicopatológico. Essa técnica chama-se integração”, detalha a profissional.

Tratamentos que fogem um pouco do convencional também podem ser boas opções para pessoas com o transtorno. A hipnose, por exemplo, “ajuda a trabalhar os processos inconscientes e a obter um estado alterado da consciência para fazer com que o paciente se oriente quanto as suas fugas e necessidades, auxiliando, assim, no processo de autoconhecimento e resolução de conflitos”, ressalta Lidiane. Além disso, nos Estados Unidos, principalmente, alguns especialistas trabalham com a Hipnose Ericksoniana, um método que considera o paciente como principal responsável por reverter seus próprios conflitos internos. “Nessa linha, os profissionais buscam resgatar os traumas em seu ponto de partida e tentam ressignifica-los”, explica Aristides.

UMA AJUDA A MAIS

Apesar de não existirem medicações específicas para tratar esse transtorno, Martin Portner afirma que antidepressivos, ansiolíticos ou tranquilizantes podem ser prescritos poro ajudar no controle dos sintomas de saúde mental associados a ele. “Com o tratamento adequado, muitas pessoas que são prejudicadas pelo TDP podem melhorar sua capacidade de viver, trabalhar e cooperar”, declara o especialista.

EU ACHO …

O FIM DO AMOR ROMÂNTICO

A busca exacerbada pela individualidade nos tempos atuais põe em xeque a ideia da fusão de almas, historicamente cultivada, e faz refletir sobre novos arranjos de relacionamento

Não ache que a sua experiência pessoal é uma regra, muita gente tem mais sorte do que a senhora no relacionamento. Se a senhora nunca teve um amor de verdade, o azar é seu. Nunca foi amada, por isso fala mal do amor. É complexada porque nunca ninguém te quis. Que pessoa fria. É contra o amor.

Esses são alguns dos inúmeros ataques dirigidos a mim nas redes sociais quando critico o ideal do amor romântico. Imaginam que estou, na verdade, criticando o amor. E não se trata disso. A questão é que existe uma crença enganosa de que essa é a única forma possível de amar – um equívoco, na minha visão. O amor é uma construção social que, a cada período da história, se apresenta de uma maneira diferente. No caso do viés romântico, que fique claro: o problema não reside em mandar flores ou jantar à luz de velas, tudo muito bem-vindo. O que critico mesmo são as falsas expectativas alimentadas, baseadas na idealização da pessoa amada. Características de personalidade que ela não possui lhe são atribuídas. No fim, não se relaciona com a figura real, mas com aquela projetada de acordo com as nossas necessidades.

Qual é atualmente a propaganda mais difundida, poderosa e eficaz do mundo ocidental? Coca-Cola, Apple, Microsoft? Não. É justamente a do amor romântico. Ela chega até nós diariamente por meio de novelas, músicas, cinema, publicidade, com seu conjunto de crenças e valores que, mesmo inconscientemente, define como devemos sentir e agir em um relacionamento. Ocorre que estamos em meio a um processo de profunda mudança de mentalidade. A incessante busca da individualidade caracteriza a nossa época. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida e desenvolver seu potencial. E o amor romântico propõe o exato oposto disso. Ele prega que os dois se transformem em um só.

O tempo vai mostrando como essa forma de amor se desenrola. É difícil resistir à convivência diária do casamento. Nela, a excessiva intimidade torna obrigatório enxergar o parceiro como ele é e, assim, a idealização não tem mais corno se sustentar. O desencanto é inevitável e aí vêm o tédio, o sofrimento e a sensação de ter sido enganado. Quando percebemos que o outro não é a personificação de nossas fantasias, nos ressentimos e, geralmente, o culpamos.

O amor romântico apresenta atitudes e ideais próprios. Contém o conceito de que duas pessoas se transformam numa única, havendo complementação total entre elas, sem nada lhes faltar. E abarca ainda outras expectativas, que na prática não são realistas: a de que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, de que o amado é a única fonte de interesse do outro e que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. O resultado dessas crenças na vida a dois é que, com frequência, um acaba imaginando o outro como ele não é e espera dele coisas que não pode dar.

Após a Antiguidade, o cristianismo estabeleceu um hiato em que o amor se voltou para Deus. Ele só ressurgiu no século XII, com os trovadores, nobres pertencentes à corte da Provença, na França. O amor romântico mais tarde se irradiou por outras regiões e classes sociais da Europa medieval, transformando o comportamento de homens e mulheres. Ele ainda não podia fazer parte do casamento, que se dava por interesses econômicos e políticos. Só passou a ser uma opção no matrimônio no século XIX, depois da Revolução Industrial, quando se formou a família nuclear –   pai, mãe e filhos. Como fenômeno de massa, aparece nos anos 1940. Todo mundo passou a desejar casar por amor, incentivado pelos filmes de Hollywood.

Entre os anseios contemporâneos, porém, preservar a individualidade começa a ser fundamental para a existência – e é nesse ponto que a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente, por trilhar exatamente o caminho inverso. Apesar de isso vir se exacerbando, não é de hoje que a humanidade repensa as diversas formas de amar. A partir dos anos 1960, o surgimento da pílula e os movimentos de contracultura – feminista, gay, hippie – levaram ao rompimento dos modelos tradicionais da relação afetiva. O sociólogo inglês Anthony Giddens chama de “transformação da intimidade” o fato de milhares de homens e mulheres ocidentais estarem tomando consciência da importância de desaprender e reaprender a amar.

Sim, o amor romântico está saindo de cena e levando com ele sua principal característica: a exigência de exclusividade. Abre-se espaço assim para novos arranjos, como o das relações livres, sem compromisso com a fidelidade, do amor a três, do poliamor. Em meu livro Amor na Vitrine trato desse tema. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas vão desejar se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas. No Ocidente, cada vez mais se discute se a monogamia é realmente uma fórmula melhor que a não monogamia. Aos que não acreditam nessa possibilidade, basta visitar os anos 1950 e 1960. Se naquele tempo alguém dissesse que um dia seria natural a moças não se casarem virgens, seria tachado de irresponsável. Afirmavam que a sociedade não estava pronta para tamanha reviravolta. A virgindade era precondição para o casamento. O mesmo ocorreria a respeito da separação de um casal, vista então como tragédia familiar. Quem poderia admitir que, décadas depois, se tornaria tão comum?

Há 47 anos atendo casais em meu consultório. Passei, de uns tempos para cá, a receber parceiros que põem à mesa novos conflitos, derivados do fato de que um deles gostaria de manter a relação não monogâmica. A outra parte muitas vezes se desespera com tal possibilidade, o que é compreensível em uma transição entre antigos e novos valores. Assistimos a grandes transformações e tudo indica que a aspiração por liberdade começa a predominar. A fantasia romântica da fusão de almas faz ambos perderem a própria identidade. As mudanças são evidentemente lentas e graduais, mas me parecem definitivas.

***REGINA NAVARRO LINS – é psicanalista e autora de vários livros, entre eles Amor na Vitrine.

OUTROS OLHARES

TRANSPARÊNCIA É BOM

Agora chamados de “alinhadores”, os aparelhos dentários feitos de acrílico ganham força no Brasil, especialmente entre jovens e crianças

É inevitável que os aparelhos dentários sejam imaginados como recursos modernos da ortodontia. No entanto, há relatos de sua existência em múmias de 4.000 anos do Antigo Egito. E mais: versões um pouco mais recentes eram desenhadas com metais grosseiros enrolados em volta dos dentes. O nome do jogo era funcionalidade e não estética. Thomas Berdmore, que cuidava das arcadas do rei George III (1738-1820) da Inglaterra, foi o primeiro a perceber que não bastavam as correções: “Eles dão um ar juvenil e saudável ao semblante, melhoram o tom de voz, tornam a pronúncia mais agradável e distinta, ajudam na mastigação e evitam que os dentes opostos fiquem proeminentes”. E, já no século XX, a boca metálica despontou como símbolo de infância e atalho para o bullying dos colegas.

A história mudou. Hoje, põem-se aparelhos para mexer em mínimos defeitos, muitas vezes perceptíveis apenas pelas implacáveis lentes dos programas de videoconferência ou por olhos mágicos de mães e pais. E os metais, até os mais delicados, agora estão sendo massivamente substituídos por materiais transparentes. Eis a nova onda: os “alinhadores”, assim chamados, são feitos de plaquinhas de acrílico, acetato e poliuretano. Exercem, supostamente, a mesma função dos aparelhos tradicionais, mas com discrição. Dados do Data Bridge Market Research, empresa de pesquisa de mercado, estima um crescimento de 38% no mercado global do produto até 2027.

Para chegar a tal delicadeza no material, há doses imensas de tecnologia por trás do processo de desenvolvimento. Na consulta inicial, o ortodontista faz a moldagem da boca com um scanner digital e gera a imagem da arcada dentária do paciente em 3D. Com a ajuda de um software, o especialista determina os movimentos exatos que o modelo deverá exercer para enquadrar os defeitos. A placa tem aproximadamente 0,7 milímetro de espessura e afasta ou aproxima os dentes alguns milímetros por semana. Ao longo do tratamento, são usadas diversas placas personalizadas, trocadas periodicamente. Elas não são coladas. Podem ser retiradas ao longo do dia, portanto, durante as refeições e na higienização bucal. “Por isso são procuradas especialmente por crianças, adolescentes e jovens adultos”, diz a dentista Liliam Fucuda, da Affetto Odontologia Preventiva. Em dois anos, a busca pelos alinhadores cresceu 60% no Brasil. A individualização faz com que o tempo de tratamento seja até duas vezes menor em relação aos modelos metálicos tradicionais. É, contudo, recurso caro: 10.000 reais, quase o dobro do custo de um aparelho convencional.

Não restam dúvidas de que a estética é um importante motivo de atração para os alinhadores. Eles, curiosamente, viraram um item de moda, e ostentá-los concede ar contemporâneo e jovial a quem os utiliza, na contramão da imagem do passado.

Não por acaso, artistas de Hollywood, como Tom Cruise, e influencers de todo o tipo andam por aí nas redes sociais abrindo o sorrisão, que supõem ser charmoso. Sim, pode até ser – mas o que vale mesmo é um aspecto escondido, e muitas vezes esquecido. Uma arcada defeituosa pode ter consequências impensáveis para muita gente, desde cárie e gengivite até problemas de dicção, de qualidade da respiração e dores de cabeça, de ouvido e até de coluna. A saúde, é claro, deve vir antes da aparência.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE NOVEMBRO

AS TEMPESTADES DA VIDA

Entretanto, o barco já estava longe, a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário (Mateus 14.24).

As tempestades da vida são inevitáveis, imprevisíveis e inadministráveis. A vida não é uma viagem por mares esmaltados. Não poucas vezes, as tempestades furiosas levantam ondas gigantescas contra nós. Nessas horas, somos varridos por ventos contrários e temos a sensação de que o naufrágio será inevitável. Assim estavam os discípulos de Jesus no mar da Galileia. Mesmo cumprindo uma ordem expressa de Jesus para entrarem no barco e atravessarem até a outra margem do lago, os discípulos foram surpreendidos por uma borrasca medonha. Tentaram inutilmente administrar a crise. Debalde foram seus esforços. O barco estava indo a pique enquanto os discípulos se encharcavam de medo.  A noite trevosa já estava adiantada. Já passavam das 3 horas da madrugada, e a situação se tornava cada vez mais ameaçadora. Quando todas as esperanças estavam no fim, Jesus foi ao encontro dos discípulos, andando sobre o mar e mostrando que ele sempre vem ao nosso encontro, ainda que na última volta do ponteiro. Ele não vem para dizer que nosso problema é insolúvel, mas vem calcando debaixo dos seus pés aquilo que nos ameaça. Antes, porém, de acalmar o mar revolto e aquietar os ventos sibilantes, Jesus acalmou seus discípulos. A tempestade que estava dentro deles era maior que a tempestade exterior. O maior problema dos discípulos eram seus sentimentos, e não suas circunstâncias. Jesus ainda acalma as tempestades da nossa vida!

GESTÃO E CARREIRA

O CUPIDO DO SUCESSO

A dificuldade das pessoas com mais de 40 anos para encontrar a sua alma gêmea despertou a criação de um dos maiores sites de encontros da América Latina

A história do site Coroa Metade começou com uma queixa do seu criador, o jornalista Airton Gontow, que já estava com mais de 40 anos, separado e não encontrava a sua alma-gêmea. Ele começou a perceber que esse problema não ocorria apenas com ele, mas com os amigos e conhecidos. “Separei-me aos 43 anos e, por dois anos, mesmo não sendo tímido, vivenciei as diversas dificuldades que um homem mais velho passa para encontrar uma nova companheira. Não estamos mais na faculdade, muitas vezes não temos vontade de frequentar baladas e geralmente não queremos nos envolver afetivamente com alguém do trabalho”, relata.

Foi então que, há oito anos, ele foi a uma festa de amigos e constatou que a sua necessidade era a mesma de toda a sua geração. No encontro, percebi que 60% dos antigos colegas eram solteiros, viúvos ou divorciados. E todos se queixavam da falta de uma companheira para a vida toda. “Muitas amigas me diziam indignadas: Faço academia, estou em forma, os homens olham para mim no shopping e em restaurantes, não tenho problema de encontrar um homem que passe um dia, uma semana ou um mês comigo, mas é tão complicado achar alguém que queira uma relação estável com uma mulher que vive com dois filhos”, lembra. Gontow voltou para casa pensando no que poderia criar para suprir a necessidade deste público. Estava ali a oportunidade de um novo negócio, e imediatamente ele teve a ideia de um site de relacionamento especificamente para essa faixa etária. Então nasceu o nome Coroa Metade e assim surgia o primeiro site de relacionamento para as pessoas “maduras”, em 2011.

A GRANDE SACADA

O nome Coroa Metade foi a grande sacada do site, pois resumia em duas palavras o seu objetivo. Ele já direcionava as pessoas para aquela ideia da “procura da cara metade”.

Mas, ainda assim, o criador do site realizou várias pesquisas antes de bater o martelo e se decidir por ele. Existia uma questão importante que precisava ser levada em conta: as pessoas não gostavam de ser chamadas de coroas. Por isso, resolveu fazer uma pesquisa para saber a aceitação do nome, que obteve 84% de aprovação. “De maneira geral, as pessoas percebem que é um nome carinhoso e, acima de tudo, hoje, a moda não é esconder a idade, mas mostrar que tem saúde e qualidade de vida na idade que a pessoa tem”, afirma. Além do nome, em suas pesquisas, o jornalista constatou que um site para um grupo com essa faixa etária passa uma ideia de mais credibilidade. O fato de as pessoas terem mais idade demostra que são mais seletivas e não podem perder mais o seu tempo.

Segundo Airton Gontow, o site é procurado basicamente por homens e mulheres que não têm tempo a perder em encontros sem sentido, mas que ainda acreditam que é possível encontrar um grande amor. ”Pensando nisso, procuramos garantir aos nossos usuários a oportunidade de conhecer com discrição, foco e privacidade pessoas interessantes, com os mesmos valores e objetivos”, explica.

Não faltam diferenciais ao site, desde o nome até o seu pioneirismo. “O principal foi o pioneirismo, o relacionamento direto com os usuários, procurando corrigir falhas e também alertar sobre questões de segurança. Além disso, nos situamos no mercado como um site voltado para um público específico. O nosso cliente tem buscas mais sérias e procura não por uma companhia, mas uma companheira ou companheiro”, mostra.

NEM TUDO FORAM FLORES

Como todo negócio inovador, no início o site Coroa Metade enfrentou momentos difíceis. O criador não tinha dinheiro para investir em anúncios e por isso dependia das reações da mídia. Por sorte, logo começaram a sair matérias nos jornais e revistas, o que ajudou a fidelizar pessoas e atrair outras nos estados em que não atuava. “Não havia ninguém no site no estado do Amazonas, por exemplo. Aí conseguimos uma matéria espetacular em um grande jornal local, que escreveu sobre a novidade. Logo se inscreveram 120 pessoas: 70 mulheres e 50 homens, com buscas específicas de altura, religião, idade, nível cultural, cidade etc., mas existiam poucas opções para os perfis procurados. Quando conquistamos a segunda matéria, as primeiras 120 pessoas já haviam nos deixado”, recorda a dificuldade.

Atualmente, o site já atinge todo o Brasil, mas fica fisicamente na Zona Sul de São Paulo. Ele funciona com uma equipe enxuta, de sete pessoas, e conta com cerca de 500 mil pessoas cadastradas. No entanto, se contarem quem deixou de ser usuário, quem só visitou o site e quem os visitou pelas redes sociais, passaram por mais de dez milhões de pessoas.

Os casos de sucesso são incontáveis, já uniu mais de 79 casais, centenas de namoros, fora os que não voltam para contar.

COMO FUNCIONA

O site tem funcionamento simples, baseado no modelo de match maker, surgido nos Estados Unidos. As pessoas preenchem amplos cadastros antes de começar a teclar. O objetivo é traçar o perfil pessoal do eventual parceiro(a) e assim, aumentar as chances de encontrar alguém que realmente valha a pena. “O cadastro é gratuito, mas existe uma assinatura (conta Premium), que dá diversas vantagens, como acesso ao chat, aparecer antes nas buscas, saber quem viu o perfil e se comunicar com todos os usuários do site, mesmo com quem não é pagante”, relata o empresário.

O preço da assinatura mensal do Coroa Metade vai de R$18,90 a R$37,90, dependendo do prazo e forma de pagamento. A assinatura de apenas um mês sai por R$37,90. A trimestral sai por R$74,70 (em até três vezes de 24,90 com cartão de crédito) e a semestral à vista por R$113,40 (que equivale a R$18,90 por mês, ou seja, 50% de desconto em relação ao preço da assinatura mensal) ou R$125,40 a prazo (em até seis vezes de R$20,90, com cartão de crédito). O site dá de presente a “degustação” da assinatura, para que o usuário teste antes de assinar.

Sobre ganhos, Airton conta que, apesar de os sites serem lucrativos, o mercado é bem competitivo e tem como maior desafio o fato de que a maioria dos usuários não quer assinar um serviço pago. Além disso, é preciso estar em constante evolução. ”Agora, além de aprimorar o site, estamos trabalhando para lançar um novo. Por isso, até agora tudo que ganhamos reinvestimos em melhorias e no novo projeto, que é um site de relacionamentos para veganos e vegetarianos, o naVEGcomigo”, diz.

Os planos do jornalista não param por aí. Ele pretende criar um portal também voltado para o público LGBT. O portal e o canal de YouTube Mundo Coroa possui notícias diversas e entrevistas voltadas para o público maduro. ”Não é uma tarefa fácil, mas faremos de tudo para conseguir, com boas informações, voltadas para o público maduro, em áreas como longevidade, turismo, saúde, cultura, lazer e comportamento”, exemplifica.

Para quem deseja se aventurar nessa área, o empreendedor indica muita pesquisa, observar o mercado, calcular os custos. Um. Bom caminho é procurar parceiros tecnológicos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MAIS RAZÃO, MENOS IMPÚLSO, MENOS PRAZER

Uma pesquisa exclusiva mostra a transformação do comportamento do brasileiro durante a pandemia: ele poupa mais, se diverte menos e está pessimista em relação ao futuro

No mundo pré-pandêmico, o professor universitário Roberto Francisco de Abreu, de 56 anos, não economizava. Todos os dias havia um motivo para sair, celebrar, encontrar amigos e não necessariamente se preocupar com a conta no final da noite. A rotina se mantinha ainda que, ao fim de cada mês, algumas contas ficassem no vermelho. A falta de preocupação com o futuro se refletia na qualidade – e no preço – de seu sono. Abreu dormia sem pensar nos boletos a pagar e, mesmo no inverno, ligava o ar-condicionado e se cobria com um edredom. Em março, tudo mudou. As aulas minguaram, o salário caiu e a pandemia tirou a leveza despreocupada de seus dias. “Fiquei assustado, e ainda estou, porque não tinha uma reserva. É uma cultura do brasileiro acreditar que o amanhã vai ser melhor. E, quando fomos impactados por uma coisa dessas, percebemos que o amanhã é incerto”, contou.

De março para cá, Abreu se tornou outro homem. Fez uma reorganização financeira severa. Comida, só preparada em casa. Ar-condicionado, só quando indispensável. Hoje, mesmo com menos aulas e recebendo menos, saiu do negativo para uma situação em que consegue economizar um pouco todo mês com a ajuda de uma consultora financeira. Cortar, renegociar e poupar são os novos mantras. Mais do que uma mudança pontual, ele mudou sua forma de gastar. “É uma mudança de olhar, mais consciente. Está havendo uma reorganização no consumo, e acredito que veio para ficar. Já estou fazendo uma projeção financeira para o futuro, quanto preciso economizar para me aposentar com tranquilidade”, afirmou o professor, que revelou não vir comprando nenhuma roupa já há sete meses.

O comportamento mais parcimonioso com os gastos, com foco em economizar, ganhou força entre os brasileiros durante a pandemia. Uma pesquisa conduzida pela agência de publicidade DPZ&T com 2 mil pessoas, em três etapas, entre os meses de junho e setembro, mostra o início de uma transformação. Segundo os dados, obtidos com exclusividade, o comportamento despreocupado deu lugar à cautela e à intenção de planejar o futuro. No período pesquisado, quem acreditava que a economia e o emprego se recuperariam não chegou ao patamar dos 20% dos entrevistados. Em junho, eram 18% dos entrevistados em comparação a 19% do mês passado. Outros 50% discordaram da afirmação. Os que concordavam que “estamos saindo dessa”, em junho, eram 22% e, dois meses depois, 31%. Nas três etapas da pesquisa, o índice de pessoas que concordavam com a afirmação “O futuro será muito melhor” se manteve idêntico: 36%. “As pessoas estão mais ligadas no final da pandemia, mas o futuro é uma incógnita”, afirmou Fernando Diniz, sócio da DPZ&T.

Com menos medo da pandemia e mais disposição em buscar novas fontes de renda, o motorista Anderson Buriche, de 42 anos, que havia sido dispensado do emprego em março, dedicou-se a trabalhar para aplicativos de transporte. O que costumava ser sua segunda fonte de renda virou a principal ocupação. Sua esposa, Renata, manicure, também ficou sem trabalho. No auge da pandemia, ele chegou a rodar dez horas em um dia e ganhar apenas RS 70. Para complementar a renda, colocou a mulher e o filho de 17 anos, que está sem aula no colégio estadual, para tocarem um pequeno negócio de venda de água. “É um dinheirinho que não sai do orçamento. Tivemos cortes, como parar de pedir lanche, fazer churrasco, comprar roupa para meu filho de 2 anos. Enxugamos ao máximo, e ainda tive de renegociar a dívida do cartão, mas estou honrando tudo”, disse Buriche. Ele revelou não ter confiança em uma volta à normalidade.

O estudo, que contemplou as classes A, B e C, mostra diferenças comportamentais entre faixas de renda. A classe C estava mais otimista que as outras em junho: 24% acreditavam que a situação melhoraria (em comparação a 19% da classe A). Agora, a curva se inverteu: 39% dos entrevistados de renda alta acreditam na melhora mais rápida em comparação a 35% da classe C. Esses dois percentuais são, contudo, a minoria. Mais de 60% dos entrevistados têm uma avaliação mais moderada ou pessimista sobre as perspectivas de recuperação.

A forma como homens e mull1eres encaram a pandemia também é diferente. Segundo a pesquisa, 67% dos homens afirmaram ter mais medo de serem infectados em junho do que tinham no início, enquanto as mulheres eram 77%. Na economia doméstica, 71% das mulheres afirmaram conduzirem suas finanças com cautela e planejamento em relação a 64% dos homens. Para o economista Eduardo Giannetti, há um paralelo estreito entre saúde e economia. “É o valor que se atribui ao futuro. As mulheres têm mais apreço pelos valores que se materializam no tempo, o homem é mais impulsivo. É bastante consistente com a psicologia econômica dos gêneros: prudência, parcimônia, cautela; a mulher pensa mais no futuro da família do que o homem”, explicou.

Na casa da bióloga llana Salorenzo, de 41 anos, em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a relação com o consumo também precisou ser repensada. Os cuidados com a família, que inclui a filha pequena e a mãe imunodeprimida, além dos com a casa e o trabalho, se tomaram um malabarismo desafiador. A família segue em isolamento a maior parte do tempo e optou por não mandar a pequena para a escola. Assim, mesmo sendo “contra consumismo e geração de lixo”, começaram a dar muitos brinquedos para a criança na tentativa de ocupá-la. “Eu me dei conta, sentamos e conversamos. Estávamos indo por um caminho diferente do que deve ser. Agora estamos mais adaptados”, contou. Mas os desafios continuam: “Não tenho coragem de trazer a funcionária. A casa fica uma loucura, a gente faz quando dá, um dia lava um banheiro, no outro dia lava outro”, disse. O desespero inicial passou, mas ela ainda não tem confiança de que tudo voltará ao normal tão cedo. “Hoje, o medo diminuiu não porque nos acomodamos, mas porque já sabemos do que se trata. Mas tenho certeza de que a curto prazo não sairemos dessa.”

O consumo nos últimos meses foi sustentado por um balão de oxigênio. Como medida para mitigar os efeitos da crise, 67 milhões de pessoas receberam um auxílio emergencial do governo, que custou aos cofres públicos RS 174 bilhões, o que representa cinco vezes o gasto anual do Bolsa Família em apenas cinco meses. Não fosse essa medida, projeta-se que o sentimento de descrença em relação à economia impactaria mais os indicadores. Giannetti explicou que muitos daqueles que hoje ainda recebem o auxílio deixaram de engordar as fileiras do desemprego durante o recebimento do benefício – mas agora deverão voltar a ela. “É muito provável, e já está começando a acontecer, que o desemprego dê um salto nos próximos meses. Aí, sim, virá a onda forte e brava do impacto socioeconômico da pandemia”, previu.

O advento do auxílio e a maior cautela com os gastos fez com que, apesar da crise e do desemprego, os entrevistados afirmassem conseguir poupar mais. Para 46%, a necessidade de ter algum investimento se deu em razão da preocupação com o futuro. “Isso pode ter efeito pedagógico na população, porque o brasileiro é um dos povos que menos poupam no planeta. Mesmo países com populações com nível de renda menor têm mais poupança, como a China. O brasileiro é imediatista, é um traço comportamental porque vem de culturas imediatistas. Outro elemento é o clima. Ao longo de muitas gerações isso tem impacto brutal”, explicou Giannetti. Outra mudança observada é a melhora no convívio familiar. Eles disseram ter melhorado a convivência como resultado do home office e do isolamento e também afirmaram estar estudando mais. O professor Roberto Abreu sentiu isso no dia a dia de seus cursos, com alunos mais interessados em participar. “Acho que perceberam que é um valor que estão investindo e agora entendem que precisam se dedicar mais.”

Apesar das mudanças, ainda há dúvidas sobre se o brasileiro cauteloso veio para ficar ou se é apenas um produto temporário da pandemia. Giannelti acredita na segunda opção. “Quando sentir que acabou, deve haver um momento de desafogo. Depois do luto, consternação e pânico, vem um rebote, como foi o Carnaval pós-gripe espanhola. Nos Estados Unidos, após o 11 de setembro, durante algumas semanas, despencou a demanda por produtos dietéticos, academias de ginástica, tudo que exigia fazer um esforço imediato. Havia dificuldade de abrir mão de prazeres por beneficias que não se sabia se seriam colhidos. A onda hedonista virá quando virarmos a página”, profetizou. Em 1920, uma das mais marcantes marchinhas do Carnaval, composta por Assis Valente e eternizada na voz de Carmen Miranda, ilustrava a sede por vida. Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar (…) E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei um samba em traje de maiô/E o tal do mundo não se acabou.”

O QUE VOCÊ APRENDEU COM A PANDEMIA?

“Passar mais tempo com os animais aqui de casa, que são considerados parte da família, e não ter de lidar com pessoas na rua”

HOMEM, 37 ANOS, CLASSE B

“A convivência diária com a família, porque estamos mais próximos e tentando resolver as coisas com mais simplicidade”.

HOMEM, 43 ANOS, CLASSE A

“Estou tendo aulas on-line, o que eliminou o teste de 160 km diários indo e voltando da faculdade e poupou tempo, dinheiro e esforço”.

HOMEM, 21 ANOS, CLASSE C

“Pude estudar coisas novas na internet e pude repensar o que realmente importa em nossas vidas. Também vi filmes e séries”.

MULHER, 65 ANOS, CLASSE B

Criei consciência corporal e espiritual. Me dediquei mais a isso nesse período, me sinto mais saudável e motivada”.

MULHER, 44 ANOS, CLASSE B

“Consigo descansar mais, pois fui mandado embora do meu último emprego. Assisto às coisas que gosto e limpo a casa para ajudar minha mãe”

HOMEM, 22 ANOS, CLASSE C

“Me aproximei mais de pessoas e vi que estar próximo nem sempre é estar perto”.

MULHER, 20 ANOS, CLASSE B

“Acho que aprendi a dar mais valor à vida como um todo. Sinto que fiquei mais próximo dos meus familiares, e isso é ótimo”.

HOMEM, 21 ANOS, CLASSE C

“Por atingir quase o fundo do poço, eu decidi que se eu não tentasse melhorar algumas áreas da minha vida, como alimentação, eu ia morrer. Então, melhorei”.

MULHER, 24 ANOS, CLASSE B

“Me sinto inseguro de curto a médio prazo com relação à economia e à geração de novos empregos, porém sinto que meu vinculo familiar (com esposa e filha) está melhor do que antes da pandemia”.

HOMEM, 38ANOS, CLASSE C

“Me preocupo mais com o bem-estar da minha família, como nunca tinha me preocupado antes. Temo perder alguém pela epidemia, passei a me importar mais com a minha família”.

HOMEM, 41 ANOS, CLASSE B

“Apesar de todo o problema, de ficar sem trabalhar, ficar sem dinheiro, ficar mais tempo com meus filhos está valendo a pena.”

HOMEM, 41 ANOS, CLASSE C

“Procurei ficar mais próxima de Deus e me conhecer melhor”.

MULHER, 44 ANOS, CLASSE B

“As reflexões que fiz sobre companheirismo e amizade me ajudaram a enxergar as pessoas que realmente atendem a esses adjetivos”.

MULHER, 43 ANOS, CLASSE A

“Estou arriscando mais na gastronomia e preparando diferentes pratos. aprendi a trabalhar com diferentes softwares por causa das aulas remotas”.

MULHER, 43 ANOS, CLASSE B

“Saber quanto somos finitos”.

HOMEM, 33 ANOS, CLASSE B

EU ACHO …

OS NOVOS GURUS SENSUAIS

No Instagram, eles unem frases de autoajuda a corpos sarados

Abro meu Instagram. Vejo uma linda garota, de biquíni e traseiro em primeiro plano. É @kellybonde01, com a frase: “Eu nunca perco! Ou eu ganho ou aprendo”. Perfeita para um livro de autoajuda. Só acho difícil conectar tanta sabedoria com a foto sensual. Mas não é a única. Há uma nova geração de gurus da internet, que aliam posts sensuais com autoajuda, fé e esoterismo. É uma tendência. Ao lado de frases como “Jesus Incomoda”, @tayraravelli posta uma imagem com a língua de fora e a reflexão “once you know peace, no one can still that secret place from you” – “uma vez que você conheça a paz, ninguém poderá roubar esse lugar secreto de você” (aparentemente, roubaram o inglês, já que o correto seria “steal” e não “still”). Outra, com lábios sensuais em destaque, traz uma legenda que, lá pelas tantas, diz: “Busque e explore a imensidão que é ser VOCE“. Hashtags: # faith #love #makeup #beauty #maquiagem.

Qual a lógica? É uma salada mista que vai de fé a maquiagem num só post. Tem também @hudson_lincer sem camisa, barriguinha de tanque: “Que possamos ser sempre cheios de boas energias. O Universo agradece!”!!Ou @marcorebucci, de bíceps flexionados e shorts exibindo as pernas musculosas: “Ame, acredite, pense, grite, sonhe, conquiste, lute, batalhe, tenha força, tenha foco, tenha fé. Sorria e agradeça a Deus por mais um dia e mais uma semana que está vindo!”.

Já conheci muito candidato a guru. Tinham em comum a atitude mística, o olhar contemplativo e a vontade de se intrometer na vida alheia. Gurus gostam de dar conselhos sem que ninguém peça – com raras exceções. São capazes de dizer quem você deve namorar, quem foi em outras vidas, e com quanto deve contribuir para a construção do templo. Mas propunham meditações em grupo, reflexões sobre a existência, o estudo de mestres. Os atuais contentam-se com as frases curtas do Instagram. Não dá para falar das profundezas do universo em espaço tão curto, mas a foto sensual talvez leve a outros significados que eu, em minha caretice, ainda não consegui penetrar. A abraçada a um urso gigante, com lingerie preta e bumbum em primeiro plano, @kariinee_gomees aconselha: “Mostre sempre a criança que existe dentro de você”. Hashtags: # style #model. Em seu perfil, aconselha: “Se jogue no que te faz feliz”. Todos são profundos como um saquinho de pipocas. Outro exemplo é @thalesstunes:”Faça o que te faz bem, desde que não faça mal a ninguém”. Mas e daí? Alguns têm pouquíssimos seguidores. Já Thales Antunes, que acabo de citar, chegou aos 12.5OO e Tay, à respeitável marca de 293.000. Gurus sexy estão conquistando seu espaço e já são mais conhecidos que filósofos como Schopenhauer e mais lidos que Dostoiévski, acredito. O mundo de hoje não vê problema em misturar maquiagem, fé, lábios carnudos, oceanview, e tudo o mais que surgir pela frente. Sábios da estirpe de Nietzsche ou mesmo famosos como Maharishi, que foi guru dos Beatles, teriam muita dificuldade em adquirir barriguinha de tanque. Na real, alguém já imaginou Mãe Diná de biquíni?

*** WALCYR CARRASCO             

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MEU PARTIDO É VOCÊ!

A dura vida dos influenciadores digitais que disputam cargos políticos na esteira da renovação, mas têm vergonha de suas legendas

No Instagram, o ator e influenciador digital Thammy alterna registros de cenas familiares em um dúplex luxuoso na Zona Sul de São Paulo com vídeos de caminhadas pela periferia da capital paulista cumprimentando e abraçando potenciais eleitores por ruas e vielas à margem dos riscos de contaminação pelo novo coronavírus. Aos 38 anos, o filho da cantora Gretchen, musa dos anos 1980 conhecida como Rainha do Bum bum, se transforma em político em sua segunda investida nas urnas. Em 2014, ao se revelar transgênero, deparou com uma onda de ataques transfóbicos vindos de uma parcela da população que o reconhecia em razão da fama de sua mãe. As agressões exigiram de Thammy um posicionamento contundente que, com o passar dos anos, virou militância contra a discriminação de gênero e culminou em sua primeira candidatura frustrada à vereança de São Paulo, há quatro anos. Agora, com a nova polêmica envolvendo uma propaganda da empresa Natura em homenagem ao Dia dos Pais, da qual foi protagonista, o influenciador que coleciona mais de 3 milhões de seguidores resolveu tentar a sorte novamente.

Como espelho da sociedade, as redes se tornaram um palco de discussão política. Em 2018, vozes estridentes da internet invadiram as urnas e chegaram ao Congresso na esteira do discurso ultraconservador de Jair Bolsonaro, como foi o caso dos deputados Joice Hasselmann (PSL-SP) e Alexandre Frota (PSDB-SP). Hasselmann tinha um canal no YouTube com mais de 215 mil seguidores, enquanto Frota comandava uma página no Facebook, a Revoltados Online, seguida por mais de 2,5 milhões de perfis. Para além da polarização, ganharam espaço influenciadores que não usavam suas redes para falar de política, como o youtuber brasiliense Luís Miranda, de 34 anos, que se elegeu deputado federal pelo DEM vivendo nos Estados Unidos e dando dicas de como empreender em solo americano em seus canais nas redes. Miranda ficou em sexto lugar entre os mais votados pelo Distrito Federal. O que se observa agora, dois anos depois, é que as redes vêm se tornando máquinas de fazer candidatos. E que os partidos, que antes funcionavam como vitrine de candidaturas, hoje são peça acessória – quando não uma formalidade quase oculta.

No caso de Thammy, ele prefere não se rotular como direita ou esquerda e se desvincula de identificações partidárias. Contudo, escolheu um partido de direita para lhe dar guarida, o PL, antigo PR de Valdemar Costa Neto. “O PL foi uma escolha por conta do amigo que respeito muito, Celso Jatene (vereador em São Paulo). Um mentor que admiro” disse, ignorando o histórico do mandatário da legenda. Apesar de defender uma bandeira progressista de respeito aos direitos LGBT, há uma modulação de tom para não afastar eleitores conservadores.

O paradoxo partidário também está presente na candidatura do ex-policial militar e youtuber Gabriel Monteiro. Desde que anunciou sua pré-candidatura a vereador do Rio de Janeiro, em meados de agosto, até o início oficial da campanha eleitoral, no último domingo, Monteiro vem preferindo ignorar que seu partido é o PSD do ex-ministro Gilberto Kassab, investigado por recebimento de propina na Lava Jato. Com mais de 2 milhões de seguidores, tanto no Instagram quanto no YouTube, Monteiro faz campanha valendo-se da polêmica de ter acusado a cúpula da PM de corrupção ao mesmo tempo que ataca a agenda progressista. “Estou num partido hoje porque é uma exigência legal. Se eu pudesse, seria independente” afirma ele. “Acredito que partidos políticos não são necessários para uma pessoa se candidatar. Sou favorável a algumas ideias pelas quais com certeza meu partido não é tão apaixonado. Não acredito que nenhum partido hoje me representa genuinamente”, disse o candidato, que foi expulso da PM por deserção e responde administrativamente por uma série de indisciplinas na corporação.

Prometendo renovação, os influenciadores se apresentam na internet como espontâneos e independentes. Mas, na prática, precisam seguir regras mínimas de conduta partidária e aceitar dividir palanques, ainda que virtuais, com outros candidatos da mesma sigla ou coligação. Monteiro, no caso, não está imune de ter de aparecer em uma live ao lado de Gilberto Kassab. Esse novo contingente acena para a parcela mais jovem do eleitorado, que corresponde a 26% do total de eleitores do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o segmento de 16 a 29 anos. Trata-se da mesma parcela da população que recorre a influenciadores para se informar, consumir produtos ou hábitos de bem-estar. Um dos principais influenciadores do Brasil, Felipe Neto tem mais de 52 milhões de seguidores somados em todas as redes e tem adotado, ao longo dos anos, a defesa de ideais políticos, ainda que diga não almejar a disputa de nenhum cargo. Personalidade conhecida no mundo jovem há mais de uma década, Neto nutria milhões de seguidores que se entretinham com seus vídeos, mas não tinha nenhuma relevância no debate público. Isso mudou depois que começou a emitir posicionamentos políticos críticos ao governo de Jair Bolsonaro. Hoje, antagoniza o presidente nas redes e foi escolhido uma das 100 personalidades do ano pela revista Time.

Entre as redes preferidas dos novos candidatos, o Instagram é disparado a favorita. Não à toa, segundo dados da agência Statista divulgados em agosto deste ano, cerca de 24% dos usuários brasileiros no Instagram estão na faixa dos 18 aos 24 anos e 31,7% estão na faixa dos 25 aos 34. “Os políticos finalmente entenderam que a internet é um espaço a ser conquistado. Antes, havia a ideia de que a web era só um espaço de entretenimento ou era o lugar de uma vida apenas virtual, que não tocava muito na vida real. Como se a vida on-line não tivesse consequências. O bolsonarismo teve uma forte presença nas redes sociais em 2018 e se beneficiou”, explicou David Nemer, pesquisador na Universidade da Virgínia.

Nos Estados Unidos, a eleição da deputada americana Alexandria Ocasio­ Cortez, conhecida como AOC, foi um dos marcos mais recentes dessa transformação. A democrata foi a primeira política a se eleger com um engajamento majoritariamente virtual, focado no Instagram. Ao contrário de outros políticos que já haviam aderido às redes, como o ex-presidente americano Barack Obama e o próprio presidente Donald Trump, AOC tinha um público-alvo definido: o eleitor jovem. Além disso, sua campanha foi marcada pela mobilização juvenil e pela defesa de pautas identitárias, como o combate ao racismo, à homofobia e ao machismo. Uma tática que produziu efeitos desconfortáveis para o governo republicano, já que ela se tornou uma das vozes mais audíveis e independentes contra Donald Trump.

Em 2019, Lino Viegas, então com 19 anos, foi alvo de rumores de que teria um relacionamento com o influenciador Carlinhos Maia, que no ano anterior alcançou o segundo lugar no ranking de stories mais visualizadas do mundo, atrás somente de Kim Kardashian. À época, a conta de Viegas no Instagram, que mostrava cenas da vida de um aspirante a influenciador, foi usada para desmentir a fofoca. Hoje, seu perfil é dedicado quase que exclusivamente a outro propósito: divulgar sua candidatura de vereador em Viana, no Maranhão. Com 80 mil seguidores, Viegas exibe uma típica rotina de candidato, interagindo com a população em diferentes pontos da cidade. Lançou-se pelo PCdoB, mas escolheu não usar o vermelho da sigla em sua campanha, optando pelo verde e o azul. “Eu me identifico como um influenciador que virou político, e não o contrário”, contou o jovem, que antes da polêmica com Carlinhos Maia tinha apenas 25 mil seguidores na rede.

O bacharel em Direito Nikolas Ferreira, de 24 anos, se valeu de seu longo histórico de militância a favor da família Bolsonaro nas redes sociais para postular uma vaga na Câmara Municipal de Belo Horizonte neste ano. Lançou-se pelo PRTB, partido de Hamilton Mourão, mas diz ter planos de se filiar ao Aliança assim que o partido for aprovado e Bolsonaro embarcar nele. Com quase 200 mil seguidores no Instagram, o jovem rapidamente ganhou o apoio de bolsonaristas, tendo no filho zero três do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um de seus maiores cabos eleitorais.

Para o pesquisador David Nemer, Jair Bolsonaro exacerbou a tendência já existente de negação das legendas, ainda que os próprios bolsonaristas não tenham conseguido escapar delas, nem criar uma nova até o momento. Embora o mundo antipartidos só exista na retórica, influenciadores continuam se valendo dessa tese para reforçar sua independência. No limite, esse movimento pode causar maior pressão em torno da liberação de candidaturas avulsas, atualmente vedadas pela Constituição Federal e pela Lei 9.504/1997, a Lei das Eleições. “Nem sempre as ideias novas que os jovens trazem se identificam com os preceitos do partido. E, de maneira geral, eles são muito mais interessados em ideias do que num ideal partidário específico”, afirmou Nemer. O candidato João Vítor Pires, que tem apenas 3.400 seguidores mas tenta se colocar como influenciador, faz eco ao coro de que os partidos são dispensáveis. “As estruturas dos partidos no Brasil são muito antigas e geralmente repelem os jovens. Então, quando você acha um partido que abriga bem, que dá uma estrutura e a garantia de que você vai ter uma legenda, isso é muito importante”, disse o jovem, que tem 22 anos e lançou-se pelo PSB, apesar de não fazer questão de citar o partido ao qual está filiado. Segundo o cientista político Felipe Nunes, da empresa de análise de dados Quaest, o estilo dessas novas candidaturas é mais uma consequência da crise que as legendas partidárias enfrentaram nos últimos ano “Os partidos brasileiros passam por um processo de degradação absurdo. A fragmentação partidária brasileira, o descrédito em relação às ideias partidárias, tudo isso é visível no sistema. É óbvio que os políticos, independentemente de serem jovens vão entender isso e fazer campanhas cada vez mais voltadas para seus valores e atributos”, pontuou. Na avaliação dele, desvincular-se dos signos partidários é uma prerrogativa do candidato, pois o sistema eleitoral brasileiro, de lista aberta para cargos do Legislativo, pressupõe o voto em pessoas, não em partidos. Mas isso esbarra e um dos grandes paradoxos do mecanismo político do país. “Ele nos força a votar n pessoas, embora o funcionamento e a dinâmica das campanhas e dos Congressos (as Câmaras, as Assembleias) se deem por meio de partidos”, concluiu. A cruzada de Bolsonaro para tentar aprovar o Aliança é um exemplo inclemente de que, ruim com partidos, pior sem eles.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE NOVEMBRO

GLORIFIQUE A DEUS NO SOFRIMENTO

Mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome (1Pedro 4.16).

A felicidade verdadeira coexiste com a dor, é temperada com as lágrimas e mantém-se de pé até na hora do luto. Por termos uma viva esperança, caminhamos neste mundo com os pés na terra e os olhos no céu. Somos felizes quando choramos pelos nossos próprios pecados e quando somos perseguidos pelos pecados dos outros. Jesus concluiu a lista das bem-aventuranças dizendo: Bem- aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5.10). Sofrer por causa dos nossos próprios erros deve ser motivo de vergonha; sofrer, por causa da justiça, porém, é motivo de grande alegria. Também os profetas que viveram antes de nós suportaram toda sorte de opróbrio por causa da justiça. Jesus, de igual modo, foi perseguido por andar por toda a parte fazendo o bem. Semelhantemente, os apóstolos foram perseguidos por viverem em santidade e por pregarem a verdade. O apóstolo Paulo diz que todos aqueles que quiserem viver piedosamente serão perseguidos. Temos, contudo, a promessa de que a nossa leve e momentânea tribulação produzirá para nós eterno peso de glória, e o sofrimento do tempo presente não é se compara às glórias por vir a serem reveladas em nós. A felicidade da qual desfrutamos agora é apenas um prelúdio da nossa felicidade eterna!

GESTÃO E CARREIRA

O RETORNO

A quarentena tem sido um momento de aprendizado, mas as empresas precisam agora planejar a volta ao ambiente físico de trabalho

Há quem diga que a quarentena tem sido um bom momento para desacelerar. Mas, na visão das empresas, a palavra ”aceleração” nunca fez tanto sentido. Rapidamente, muitas organizações foram obrigadas a migrar para o trabalho remoto e a reinventar seus negócios. Home office, digitalização, gestão remota, metodologias ágeis, cuidado com a saúde mental, cultura do aprendizado contínuo e, claro, a tão importante presença da humanização – principalmente nas lideranças!

Ignorar essas tendências de mercado custou muito caro para algumas corporações. No entanto, as que passaram pelo stress test precisam se preparar para uma nova fase: a reabertura das empresas.

QUANDO VOLTAR AO ESPAÇO FÍSICO DE TRABALHO

O retorno ao ambiente de trabalho depende, em grande parte, do local em que a empresa está localizada. O presidente Jair Bolsonaro, recentemente, deixou a cargo dos governadores e prefeitos as decisões sobre assuntos ligados ao coronavírus. Assim, estado e município vão decidir o momento que consideram mais seguro para reabrir as empresas. A gestão e o RH precisam estar atentos à legislação de cada cidade.

HOME OFFICE PERMANENTE COMO OPÇÃO

Gerenciar equipes à distância foi um tabu por muito tempo. Muitas empresas acreditavam que esse formato de trabalho traria a ”perda de controle” sobre os colaboradores. Mesmo em meio à avalanche emocional que os profissionais do mercado tiveram de lidar durante o isolamento, o home office provou ser eficiente. Entre março e abril, minha organização – Grupo Cia de Talentos – realizou a pesquisa Trabalho remoto: como as mudanças relacionadas aos novos cenários aceleraram as transformações no modo de trabalho e descobriu que:

• 71% dos estagiários, 76% da média gestão, 70% dos colaboradores individuais e 86% da alta liderança disseram estar confortáveis com a mudança de ambiente de trabalho;

• 71% dos estagiários, 66% dos colaboradores individuais, 76% da média gestão e 76% da alta liderança consideram ter a estrutura e os recursos necessários para produzir de casa;

• 63% dos estagiários, 63% dos colaboradores individuais, 76% da média gestão e 71% da alta liderança afirmaram ter sua produtividade preservada no trabalho realizado remotamente.

Logo, uma das opções para as empresas é, nos setores ou cargos em que isso for possível, manter os profissionais em home office. A prática, além de trazer mais segurança aos colaboradores, também impacta na diminuição de custos das empresas.

AS MELHORES PRÁTICAS DE RETORNO AO TRABALHO

• PROFISSIONAIS DO GRUPO DE RISCO: os que pertencem a esse grupo devem ter seu retorno evitado até que o vírus esteja controlado no Brasil. É importante considerar também um mapeamento dos profissionais que não são do grupo de risco, mas que moram com familiares que sejam. Para deixá-los mais seguros, se possível, recomenda-se que a retomada ao trabalho presencial seja opcional, mantendo-os em home office.

• AS ESCOLAS NÃO TÊM PREVISÃO DE RETORNO: muitos pais e mães estão aflitos com a reabertura das empresas, já que não têm com quem deixar os filhos. É importante escutar as necessidades desse público e encontrar soluções viáveis, como o retorno parcial ou a permanência do trabalho remoto. Outra medida é criar um espaço preparado, com os devidos profissionais e segurança, para receber as crianças durante o horário de trabalho.

• PROTOCOLOS DE PREVENÇÃO AO CORONAVÍRUS: as medidas de segurança incluem higiene (lavar as mãos com frequência), material de proteção (máscaras e álcool em gel), esterilização diária das estações de trabalho e instalações físicas que permitam o distanciamento social. É indicado manter as baias de trabalho separadas, com espaçamento de, no mínimo, 2,5 metros entre elas. O distanciamento também é necessário nas áreas de convivência, como halls, salas de reunião, espaços de lazer e áreas de alimentação. Uma alternativa é criar turnos de trabalho, de forma que a equipe não tenha de dividir o ambiente da empresa ao mesmo tempo ou, pelo menos, criar diferentes horários para as equipes almoçarem.

• A TRANSPARÊNCIA É SEMPRE BEM-VINDA: defina protocolos de como a empresa e os profissionais vão proceder e comunicar os casos de suspeita ou de confirmação da covid-19 entre os colaboradores.

• TREINAMENTO ONLINE ANTES DO RETORNO: realize uma reunião coletiva para informar os procedimentos de cuidado que a empresa vai aplicar e como os profissionais devem se comportar no novo formato de trabalho.

• SAÚDE MENTAL DOS COLABORADORES – não podemos esquecer que o isolamento e a instabilidade da economia provocaram impactos profundos na saúde mental dos profissionais. Acione a equipe de RH para identificar os colaboradores que possam estar com ansiedade ou depressão e utilize os recursos disponíveis para acolher esse público, como grupos de apoio e a disponibilização de atendimentos psicoterapêuticos.

Por último, cuidado com o otimismo excessivo. A flexibilização do isolamento social não quer dizer que já vencemos a covid-19. Seja responsável e continue seguindo as medidas de segurança necessárias, ok?

Juntos podemos muito!

SOFIA ESTEVES – é fundadora do Grupo Cia de Talentos e especialista em gestão de pessoas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XXII

PARA SABER MAIS

Dicas de onde encontrar outras informações relacionadas ao autismo

FILMES E DOCUMENTÁRIOS

RAIN MAN (1989)

Direção: Barry Levinson

Após a morte de seu pai, Charlie (Tom Cruise) descobre que tem um irmão autista chamado Raymond (Dustin Hoffman) que herdou uma grande fortuna. Charlie sequestra o irmão da instituição onde ele está internado para exigir metade do dinheiro, nem que para isto tenha que ir aos tribunais. Durante uma viagem cheia de imprevistos, os dois descobrirão o verdadeiro significado de serem irmãos.

MISSÃO ESPECIAL (2004)

Direção: Gregg Champion

Ao descobrir que seus dois filhos gêmeos são autistas, Corrine (Mary Louise Parker) fica inconformada, mas aceita a situação. Porém, seu marido não aceita tão bem e Corrine acabao abandonando e passa a criar seus filhos sozinha. As atitudes das crianças na escola denunciam o transtorno e eles são expulsos. Contudo, graças ao apoio e amor incondicional da mãe, conseguem superar as dificuldades.

O NOME DELA É SABINE (2009)

Direção: Sandrine Bonnaire

A obra é um documentário feito pela atriz Sandrine Bonnaire sobre a história de sua irmã autista Sabine. Por meio de imagens filmadas ao longo de 25 anos, a diretora consegue captar diversos momentos da irmã ao mesmo tempo em que conduz o telespectador a fazer uma reflexão. O documentário francês foi premiado pela crítica internacional de Cannes.

O MENINO E O CAVALO (2009)

Direção: Michel O. Scott

O casal Isaacson viaja até a Mongólia em busca de uma cura para seu filho autista, que demonstra uma relação especial com cavalos. O filme é feito de momentos instantâneos da vida real desta família que se vê lutando contra as dúvidas e comemorando as pequenas vitórias.

ADAM (2009)

Direção: Max Mayer

Adam (Hugh Dancy) é um jovem meigo e simpático, mas com dificuldades de se relacionar com as pessoas por ter Síndrome de Asperger. Ao conhecer sua nova vizinha Beth (Rose Byrne), Adam faz novas descobertas.

TEMPLE GRANDIN (2010)

Direção: Mick Jackson

O filme é baseado na história de Temple Grandin, uma autista famosa por revolucionar as práticas de tratamento de animais em fazendas e abatedouros. Fatos de sua vida desde a infância até a carreira profissional são relatados nesta obra.

O ENIGMA DO AUTISMO (2011)

Direção: Christopher R. Sumpton

Este documentário traz as descobertas recentes sobre os efeitos que bactérias intestinais podem ter no cérebro, gerando uma possível relação com o autismo.

A MOTHER’S COURAGE: TALKING BACK TO AUTISM (2009)

Direção: Friarik Pór Fridriksson

Narrado pela atriz Kate Winslet, o filme mostra a busca de Margret, uma mãe que tenta desvendar a mente de seu filho autista. Ela busca especialistas no assunto e outras famílias tocadas pelo autismo a fim de novas informações e esperança de que seu filho possa ser capaz de se expressar.

LIVROS

LONGE DA ÁRVORE

Autor: Andrew Solomon

A obra traz à tona dez “identidades horizontais”, isto é, divergentes dos padrões familiares, sociais e linguísticos predeterminados na sociedade (eles, o autismo) e como os indivíduos portadores destas identidades são tratados por familiares e pessoas próximas. Uma lição sobre aprender a amar e a respeitar as diferenças.

MUNDO SINGULAR – ENTENDA O AUTISMO

Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva

O livro trata sobre a visão de mundo, os desafios, os tratamentos e as perspectivas de crianças com autismo. Escrito por psiquiatras e psicólogos especialistas no assunto, a obra tem uma linguagem acessível e relatos de casos reais.

SITES

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AUTISMO (ABRA)

www.autismo.org.br

A ABRA não atende pessoas com autismo, mas exerce um trabalho político de representação, em nível nacional, das associações não governamentais que as assistem e as defendem. Em seu site, é possível encontrar diversas informações sobre o transtorno.

AUTISMO E REALIDADE

www.autismoerealidade.org

Formada por pais e profissionais, a organização busca favorecer a busca e a divulgação do conhecimento sobre o autismo por meio de campanhas e estudos científicos.

ASSOCIAÇÃO DE AMIGOS DO AUTISTA (AMA)

www.ama.org.br

Fundada por pais de autistas em 1983, quando o autismo ainda era muito pouco conhecido no Brasil, a organização é hoje reconhecida como instituição de utilidade pública e luta pelo bem-estar dos autistas, ganhando diversos prêmios pelo trabalho realizado.

REVISTA

www.revistaautismo.com.br

É a primeira revista exclusivamente sobre autismo da Américo Latina e a primeira do mundo em língua portuguesa. Com um trabalho 100% voluntário, é feita por pais de autistas, além da colaboração de profissionais. Sua circulação é nacional com a periodicidade semestral. No entonto, grande parte do material está disponível no site.

EU ACHO …

AS ONDAS, AS ONDAS

Talvez não dê para vê-las no horizonte ou talvez muitas pessoas simplesmente tenham optado pela cegueira. Contudo, elas espreitam o Brasil despeitado que finge não existir pandemia. Nesse Brasil despeitado, o mal que aflige o mundo acabou como que por milagre e não haverá de voltar, porque, afinal, Deus é brasileiro independentemente da fé. As ondas, as ondas. O mar, o mar, o livro de Iris Murdoch que li repetidas vezes na adolescência. Divago.

As ondas existem, como já era previsível no início do início. O vírus é novo, a pandemia é jovem – tem menos de dez meses, quiçá ainda não tenha aprendido a andar sem bambolear. Mas na cabeça de muitos nós estamos “no meio da pandemia”, tal qual se escuta por aí. Na cabeça de muitos já estamos no fim da pandemia porque a vacina está logo ali, e quando a vacina vier tudo se resolve porque é assim que acontece nos filmes sobre pandemias imaginárias. Na cabeça daqueles que lotam as praias e os bares sem o uso de máscaras, que se aglomeram com parentes pois todos estão tomando muito cuidado e não vai acontecer nada, ora, vão a festas ou organizam eles próprios tais eventos em ambientes fechados, pouco ventilados, quem é o vírus? Quem o vírus pensa que é? Somos todos imunes, estamos todos protegidos, nada nos atinge, quanta gente histérica a fazer birra com o resfriado alheio. Mortes? Ah, não vamos falar sobre isso. Que assunto mórbido, que pessoa amarga você é, como ousa tirar a alegria da liberdade recém-conquistada. Veja, fulano teve Covid e está super bem, já até voltou a trabalhar, o vizinho me contou. A sicrana então, teve foi nada, nem um espirrozinho. Estamos livres! Vamos viver a vida!

Mas, as ondas, as ondas. Elas aí estão. Na Europa, é possível enxergá-las com nitidez pois nesses países houve controle da epidemia, o número de casos caiu e o de mortes também. Logo, o recrudescimento é demasiado nítido. Por esse motivo, governos reagem com novas medidas restritivas. A França com seu toque de recolher entre as 21 horas e as 6 horas da manhã, algo feito apenas durante as duas guerras do século passado. Disso alguns fazem troça e perguntam, “mas será que o vírus só circula durante a noite?”. Acham muita graça e têm nas redes sociais a confirmação de que de fato saíram-se com uma tirada genial. Que lacrada fabulosa. Enquanto isso, pessoas morrem e as sequelas se amontoam. Encefalopatias, problemas vasculares, disfunções neurológicas, fibroses pulmonares.

Ainda assim, já foi determinado pelo presidente que o vírus é nada, ele o venceu. Pouco importa que tenha tido acesso a tratamentos que sequer foram aprovados pela agência de vigilância sanitária, a Food and Drug Administration. Importa menos ainda que esses tratamentos não estejam ao alcance da população. A economia não pode parar, as pessoas têm de aproveitar a vida, ninguém deve ser submisso ao vírus. Pouco a pouco os hospitais voltam a encher em várias localidades que, inclusive, trataram o vírus com o devido respeito. Mas, como ocorre no Brasil, quando as pessoas viram estatística – mais um caso de Covid-19, mais uma internação, mais um falecimento – elas são rapidamente esquecidas. A não ser, é claro, se forem parentes ou amigas de alguém. E as pessoas sempre são parentes ou amigas de alguém. Qualquer pessoa, inclusive aquelas que se julgam imbatíveis e que acreditam que as tragédias só atingem os outros.

Querendo ou não, as novas ondas haverão de afetar as economias. Não à toa, nessa semana das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial não se fala sobre outra coisa. Como ficarão os cenários à frente para a economia mundial? O que fazer com um mundo de dívidas, e como fazer em um mundo de dividas? E a desigualdade, como vamos freá-la? Há alguma chance de freá-la?

“Existe hoje uma tendência a criticar e rebater de modo quase instintivo tudo o que soa inconveniente”. Esta frase está no primeiro parágrafo do décimo capítulo de Ruptura, meu mais novo livro. De que trata o capítulo? Das quarentenas intermitentes. Das ondas, das ondas.

MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e Professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

TÃO LONGE, TÃO PERTO

Dezenas de especialidades aderiram ao atendimento a distância depois do isolamento imposto pelo vírus

A afirmação pode parecer otimista demais diante da tragédia da pandemia do novo coronavírus, mas há um fruto inexoravelmente positivo do ponto de vista da medicina. Para além de estudos em torno de remédios antivirais e do desenvolvimento de vacinas em tempo recorde, a saúde se reinventou em 2020 em seu aspecto mais básico: o do contato entre médicos e pacientes, desta vez feito por meio do atendimento a distância. A interação entre as duas partes com smartphones, tablets e computadores feita de forma direta — apenas com a intermediação de um especialista. Ou seja: profissionais de branco com profissionais de branco se encontravam no mundo dos vídeos, mas os enfermos eram afastados de tal possibilidade, só podiam ver e ser vistos presencialmente. Isso mudou. O aval para a comunicação sem um mediador foi concedido oficialmente no Brasil em março deste ano pelo Ministério da Saúde.

A medida deflagrou um movimento inexorável e revolucionário: de lá para cá, segundo dados da startup Conexa Saúde, 1,3 milhão de consultas virtuais foram realizadas nas mais variadas especialidades — e em 80% dos casos não se necessitou de complementos ao vivo. Antes, o recurso era quase inexistente, incipiente.

E a telemedicina se impôs, como uma das facetas do mundo que se inaugura. Telos, em grego, raiz da expressão telemedicina, significa distância. No exercício da pragmática medicina dos Estados Unidos, por exemplo, essa distância nunca foi impeditiva — a consulta virtual já está mais do que estabelecida entre os americanos. Um marco no país ocorreu em 1967, quando o Hospital Geral de Massachusetts foi ligado ao aeroporto da cidade de Boston, com o objetivo de atender qualquer emergência que ocorresse entre embarques e desembarques. No Brasil, onde o olho no olho foi sempre prezado, sobretudo porque as imposições sociais sempre favoreceram uma medicina de ambulatórios, há resistências — estas que começam a ser ultrapassadas, embora a história esteja apenas começando.

Em 2019, deu-se a regulamentação da telemedicina. Houve tanta polêmica, tanto ruído, que o Conselho Federal de Medicina (CFM) recuou e revogou a medida duas semanas depois de sua divulgação. A disseminação do vírus parece ter mudado o rumo da prosa, inapelavelmente. Na quarta-feira 30, VEJA acompanhou um procedimento por telemedicina que reuniu ciência e afeto de forma excepcional, conduzido pelo Hospital Infantil Sabará, em São Paulo: a consulta de Lorenzo, de 1 ano de idade, portador de uma malformação no intestino. Era a primeira avaliação no hospital depois da operação e de um período de internação encerrado há pouco tempo. A delicada consulta foi acompanhada pelos médicos do menino, virtualmente, no Rio de Janeiro. Diz Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein: “Não há como discordar de um fato evidente: ampliar o acesso médico é uma forma de absoluto humanismo”.

O Einstein, em São Paulo, aliás, instituição que usa o recurso desde 2012 de forma experimental, é exemplo do que está por vir. Cerca de 25 milhões de reais foram investidos em equipamentos e programas que oferecem segurança e facilidade na conexão. Entre os apetrechos mais espetaculares, há um robô controlado por celular cuja missão é visitar os pacientes nos quartos de UTI. No topo da máquina, numa tela, aparece o rosto do médico, que pode estar a milhares de quilômetros. No conglomerado gigante Dr. Consulta, de 45 clínicas particulares voltadas para as classes C e D, a telemedicina cresceu de tal forma a deflagrar a criação de uma cartilha de boas práticas aos profissionais, com orientações básicas, mas de extrema importância, como se preocupar como o local de trabalho (deve estar sempre claro e organizado), realizar testes de conexão na internet antes das consultas para que o serviço não seja desabilitado de surpresa diante do paciente e ser absolutamente pontual. O alastramento das consultas on-line já começa inclusive a extrapolar as questões ligadas à pandemia. Na rede Prevent Senior, em São Paulo, que lida apenas com pacientes idosos (e, em tese, os que mais deveriam recorrer a problemas com a Covid-19), as queixas ligadas à infecção não chegam mais a 15%. O grupo criou uma sala de 350 metros quadrados para os médicos atenderem apenas virtualmente às mais variadas especialidades. Diz o diretor médico do grupo Pedro Batista Junior: “A agilidade trazida pelas ferramentas digitais é impressionante, o paciente se sente mais à vontade e procura mais rapidamente o atendimento médico”. Na Inglaterra, país com tradição em telemedicina, o impacto já foi comprovado em números. Lá, a rapidez dos serviços de cuidados a distância para idosos com doenças crônicas reduziu em 15% as visitas de emergência e em 20% as admissões hospitalares.

Há, no entanto, uma grande e real barreira a ser vencida no Brasil, e ela é de ordem prática: ampliar o acesso digital no país. De acordo com o último censo da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma em cada cinco residências brasileiras não tem conexão com a internet. Nas áreas rurais, quase metade das casas está fora do universo on-line. Como estabelecer a telemedicina de forma ampla no Norte, por exemplo, se apenas 70% das pessoas estão conectadas à internet? “Oferecer acesso a quem está em áreas onde não há infraestrutura é fundamental. Essas regiões devem ser as mais beneficiadas”, diz Donizetti Giamberardino Filho, vice-presidente do CFM. Por oferecer acesso entende-se o que fizeram, em parceria, o Albert Einstein e os ministérios da Defesa e da Saúde, em julho. Eles implementaram atendimento virtual a pacientes de uma área remota, onde há comunidades indígenas no território do Alto Rio Negro, no Amazonas. O projeto, que levou serviços de neurologia pediátrica, psiquiatria, ginecologia, cardiologia e reumatologia a 44 moradores, foi um experimento para saber se seria possível utilizar internet via satélite nas teleconsultas no local, cercado pela Floresta Amazônica. Funcionou, mas exigiu empenho redobrado. Há obstáculos, sem dúvida, mas parece irreversível ver, num futuro muito próximo, exemplos extraordinários de telemedicina. Hipócrates (460 a.C.-375 a.C.), o pai da medicina, intuiu a necessidade de detalhar as doenças de quem o procurava para chegar ao diagnóstico, com conversas minuciosas e exames clínicos. Continuará desse modo — o que muda, pela primeira vez na história, e talvez definitivamente, são as ferramentas utilizadas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 08 DE NOVEMBRO

O JUGO DE JESUS

Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mateus 1.30).

Você está cansado! Esse cansaço não é físico, mas emocional. O descanso para essa fadiga emocional não é conseguido com uma noite bem-dormida ou mesmo com calmantes. Mais que cansado, talvez você esteja até mesmo sobrecarregado. Sua alma está gemendo debaixo de tanto peso. Tenho uma boa notícia para você. Jesus pode dar descanso à sua alma e alívio ao seu coração. Ouça seu convite: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (v. 28-30). Você encontra descanso para sua alma quando se achega a Jesus. Ele é a fonte que refrigera sua alma. Jesus convida você para colocar seu pescoço debaixo do seu jugo. O jugo é uma canga na qual dois animais são atrelados. Normalmente se atrela um boi inquieto e bravo a um boi manso. O boi bravo tenta espernear, mas não consegue. Está sujeito ao mesmo jugo. Jesus usa essa figura para convidar você e colocar seu pescoço debaixo do seu jugo. Ele irá caminhar com você, ensinar você, aquietar sua alma e serenar seu coração. O jugo de Jesus é suave, e seu fardo é leve. Ele nos chama não para a escravidão, mas para a liberdade. Ele veio não apenas nos trazer descanso, mas vida, e vida em abundância.

GESTÃO E CARREIRA

O NOVO HOMEM

Mercado global de beleza masculina que movimentou US$ 57,7bilhões em 2017 projeta US$ 78,6 bilhões para 2023.

Com mais de 960 mil inscritos, o canal do YouTube Maquiagem de Homem, do maquiador paulista Fabiano Okabayashi, é uma prova de que os homens estão cada vez mais vaidosos. Marcas e lojas de maquiagem passaram a se preocupar mais com esse público, em um mercado que – tudo indica – só tende a crescer.

“Os homens perderam o preconceito e passaram a se olhar mais, de forma mais carinhosa”, afirma Okabayashi. Segundo o maquiador, o mercado de beleza masculina passou por um boom global entre 2011 e 2012. Na época, a marca norte-americana Tom Ford lançou uma linha exclusiva de maquiagem para o homem, que não deslanchou. “Se fosse hoje, teria sido um sucesso”.

É difícil pontuar o momento exato em que o público masculino começou a consumir artigos do tipo. “O que vem acontecendo é a reconstrução do masculino, e um dos movimentos mais marcantes nessa cena é o dos jovens, que celebram o diferente, a individualidade”, explica o especialista em tendências Marco Bodini, consultor da Stylus Brasil. Ele ressalta que o homem não quer transformar a aparência, mas sim refiná-la com produtos como base, corretivo e lápis.

Com o aumento da demanda masculina, o mercado, claro, tem respondido à altura. Em 2017, a marca MMUK Man fez história ao anunciar a primeira loja física de maquiagem masculina no Reino Unido. Criada em 2011, a companhia funcionava anteriormente apenas por e-commerce. Já em agosto de 2018, a francesa Chanel lançou sua primeira linha de maquiagem para homens, intitulada Boy de Chanel e composta por uma base com protetor solar, um lápis para sobrancelhas e um hidratante labial.

Ao todo, o mercado global de beleza masculina alcançou USS 57,7 bilhões em 2017, segundo relatório da Research & Markets. A previsão da mesma instituição é a de que a soma chegue aos USS 78,6 bilhões em 2023.

No Brasil, segundo o youtuber Okabayashi, uma parcela dos produtos oferecidos no mercado é importada do Japão e da Coreia do Sul, principalmente no ramo de cuidados com a pele. Outra parte está concentrada entre O Boticário e a Natura. Nesse caso, os produtos “não são muito variados e não chegam a ser propriamente maquiagem”, restringindo-se a tonalizastes para fios brancos, cremes hidratantes e fragrâncias.

Se o cenário local ainda é relativamente tímido quando se trata de maquiagem, o verdadeiro potencial está aqui: de acordo com uma pesquisa realizada pela Minds & Hearts em 2016, com 414 brasileiros de 16 a 59 anos, 45 % dos homens disseram que buscam informações sobre cosméticos e tratamentos masculinos na internet. E, segundo a consultoria britânica Euromonitor, as vendas no segmento de beleza masculina cresceram 70% no Brasil entre 2012 e 2017, indo de R$ 11,7 bilhões para RS 19,8 bilhões. Entre as principais categorias está a de produtos para a pele – que apresentou um crescimento de 75%.

O instituto de pesquisa europeu afirmou que o mercado brasileiro de produtos para homens representa 13 % das vendas globais do setor e é o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

E mais: a previsão é a de que até 2021, a América Latina seja a líder do crescimento no mundo – com o Brasil acima da média do continente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XXI

É VERDADE QUE …?

11 mitos e verdades a respeito do Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Mesmo os estudos envolvendo o TEA terem evoluído bastante com o tempo, existem algumas questões que podem causar certos preconceitos em relação ao autista. Por isso, saiba de uma vez o que é ou não verdade sobre esse transtorno.

1. AUTISTAS TÊM INTELIGÊNCIA MAIS DESENVOLVIDA?

MITO. Essa é uma afirmação comum entre o grande público, porém equivocada. Apesar de existirem pessoas dentro do espectro autista com habilidades excepcionais para pintura, desenhos detalhados, dons naturais para a música, memória fotográfica, cálculos matemáticos e outras áreas, isso não os torna exclusivamente capacitados. Ou seja, do mesmo modo que há autistas que se destacam com suas capacidades, também há pacientes fora do quadro com talentos impressionantes.

No entanto, há pesquisas que indicam que indivíduos com a síndrome de Asperger -, uma forma de autismo com sintomas mais brandos, geralmente demonstram uma performance acima da média ou na média em testes de inteligência.

2. O TEA SE TORNOU MAIS COMUM COM O TEMPO?

DEPENDE. Na verdade, o que mudou com o tempo não foi a maior ou menor incidência de casos de autismo, mas sim os estudos da medicina envolvendo a identificação do quadro. Na quinta e mais atual versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5,sigla em inglês) foram inclusos critérios de diagnóstico antes não considerados dentro do espectro autista. Além disso, o maior conhecimento do distúrbio pelo grande público reflete no reconhecimento cada vez mais precoce em crianças, deixando-o mais visível.

3. O AUTISTA DEVE SER INTERNADO?

MITO. O que os cuidadores de pacientes autistas devem ter em mente é que o contato afetivo com amigos e familiares é o mais importante para assegurar uma melhor qualidade de vida à pessoa. Portanto, o isolamento social, mesmo em instituições especializadas, pode ser algo prejudicial.

4. AUTISTAS TÊM DIFICULDADE EM LIDAR COM CARINHO?

MITO. Uma das principais características do TEA é a presença de uma hipersensibilidade em relação a sons, gostos e texturas, por vezes, até dolorosa. E isso pode criar o pensamento errôneo de que indivíduos com o transtorno têm aversão ao toque humano por não serem afetuosos. O que ocorre, como explica a psicóloga Mariana Arend, é uma “dificuldade em demonstrar essa ternura, já que existe um comprometimento na linguagem e na interação social, e por isso esse mito da ausência de afeto acabou se perpetuando”.

5. O DESENVOLVIMENTO DO AUTISMO NOS FILHOS TEM A VER COM A POUCA IDADE DOS PAIS?

DEPENDE. Essa é uma questão ainda nebulosa até mesmo para a ciência. Contudo, sabe-se que o desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é multifatorial, ou seja, está relacionado com diferentes indicadores, ambientai genéticos, etc.

Porém, há pesquisas que analisam a influência da idade dos pais no autismo, como é o caso de um estudo financiado pela organização norte-americana Autism Speaks, publicado na revista científica Molecular Psichiatry em junho de 2015. Analisando mais de 5 milhões de crianças, sendo 30 mil casos de autismo, a pesquisa associou pouca idade da mãe (abaixo dos 20 anos), pai (de 50 anos pra cima) e mães (entre 40 e 49 anos) com idades mais avançadas e casais com grande diferença de idade com o risco de desenvolvimento do autismo. Porém, não foram encontradas evidências para delimitar a faixa etária parental como um fator determinante para o TEA.

6. O AUTISMO TEM RELAÇÃO COM A PSICOPATIA?

MITO. É importante frisar que a única semelhança entre os quadros é que ambos são transtornos mentais. O que pode causar essa confusão é a dificuldade das pessoas com autismo em demonstrar simpatia, sendo a antipatia uma característica marcante dos psicopatas. Porém a psicopatia vai muito além, apresentando ausência total da preocupação com o próximo.

7. A REJEIÇÃO MATERNA INFLUENCIA NO TEA?

MITO. Apesar de o carinho materno ser importantíssimo para o autista, a rejeição por parte da mãe não é uma casa para o desenvolvimento do distúrbio. Essa é apenas uma teoria antiga que nunca chegou a ser comprovada cientificamente.

8. O CONTATO COM ANIMAIS É BENÉFICO PARA O AUTISTA?

VERDADE. E isso se dá muito pela relação com um animal não exigir um sistema complexo como as relações interpessoais. Outro fator importante é que os bichinhos normalmente apesentam boas reações às crianças, podendo ser até uma forma de terapia, como é o caso da equoterapia – parte da Terapia Assistida por Animais (TAA), com cavalos, que promove o desenvolvimento físico e psicológico.

9. GRITOS E OUTROS SINAIS CORPORAIS SÃO APENAS PIRRAÇA?

MITO. Novamente uma característica do autista é mal interpretada. Devido à grande dificuldade em comunicação, o paciente não encontra formas fáceis de se manifestar caso algo lhe incomode. Isso faz com que se expresse por meio de movimentos repetitivos (estereotipias), como balançar as mãos, gritar, tampar os ouvidos, etc. “No autismo, as estereotipias se intensificam, por exemplo, em momentos de estresse, servindo como uma tentativa de se adequar a algo que está desconfortável”, comenta Mariana.

10. O AUTISTA SE ISOLA EM SEU PRÓPRIO MUNDO?

MITO. A única mudança é o modo como a pessoa dentro do espectro autista interage com o ambiente externo. No entanto, o autista não vive em um universo paralelo, apenas com uma perspectiva diferente.

11. HÁ REMÉDIOS PARA O AUTISMO?

MITO. Assim como as causas, um tratamento medicamentoso eficaz para o TEA também é uma incógnita para a ciência. Existem pesquisas avançadas sobre o assunto, porém o meio mais eficiente de garantir ao autista uma boa qualidade de vida é pelo acompanhamento de uma equipe multidisciplinar e o apoio e carinho total de familiares e amigos. Desse modo, as dificuldades presentes na vida desse indivíduo podem ser amenizadas por partes, trabalhando tanto questões físicas como psicológicas.

EU ACHO …

O PESO DA DESIGUALDADE

O IBGE acaba de publicar a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) referente a 2019, e os dados são aterrorizantes. Não se costuma falar muito sobre a obesidade no Brasil, ao menos não no debate público, devido à percepção equivocada de que o termo carrega preconceitos em relação a pessoas que estão acima do peso. Mas a obesidade não é sinônimo de “gordofobia” ou qualquer outro termo pouco edificante que se pretenda usar para tratá-la. A obesidade é uma doença, uma doença crônica. A obesidade é uma doença crônica em que ela própria é fator de risco para o desenvolvimento de várias outras doenças crônicas. Entre elas, a hipertensão, a diabetes, doenças cardiovasculares diversas, problemas renais. Todos esses males são fatores de risco para o desenvolvimento de quadros graves da Covid-19. Como a Covid-19 estará conosco por muito tempo, o perfil antropométrico da população brasileira, que já tinha caráter de urgência, é hoje ainda mais urgente.

O que mostra a PNS? Primeiramente que o problema que aflige o Brasil – ainda que tenhamos retornado ao mapa da fome – não é o déficit de peso, mas o contrário. Cerca de 60% dos brasileiros com mais de 18 anos estão com excesso de peso e 26% sofrem de obesidade. Tanto o excesso de peso quanto a obesidade aumentaram fortemente desde 2002/2003. Naquela altura, 12% da população adulta brasileira era obesa, a prevalência mais do que dobrou de lá para cá. Há também diferenças marcantes entre gêneros: entre os homens com mais de 20 anos, 22% são obesos; entre as mulheres com mais de 20 anos, 30% são obesas. Em 2002/ 2003, cerca de 10% dos homens e 14,5% das mulheres sofriam de obesidade. Segundo vários estudos, a obesidade já foi “doença de rico”. Contudo, desde os anos 1980, acentuando-se ao longo dos anos 2000, a obesidade é cada vez mais relacionada com a desigualdade e a pobreza. As mulheres obesas brasileiras são, sobretudo, mulheres de baixa renda. Mulheres que não podem adoecer pois cuidam de lares com muitos filhos e parentes idosos. Mulheres que, uma vez obesas, têm um risco maior de sofrer dos casos graves da Covid-19 e que moram em comunidades onde o risco de contrair a Covid-19 é desproporcionalmente mais alto do que para a população mais abastada.

O peso da desigualdade, portanto, está não apenas no índice de massa corporal (IMC), mas nas marcas que a Covid-19 haverá de deixar em segmentos bastante específicos e visíveis da população brasileira. Diante dessas várias epidemias – a de obesidade, a de hipertensão associada além de outras doenças, a de Covid-19 -, o governo brasileiro pretende dar fim ao Guia Alimentar elaborado pelo Ministério da Saúde cujo propósito é dar informações à população mais carente sobre nutrição e prevenção de doenças crônicas relacionadas à dieta. Vejam: as questões de segurança alimentar que afligem esse segmento da população brasileira não estão associadas apenas à fome. Estão também associadas às dietas carregadas de alimentos ultraprocessados posto que mais baratos, ao hábito de tomar refrigerantes e outras bebidas com alto teor de açúcar. O governo Bolsonaro, aliás, acaba de afagar as multinacionais produtoras de refrigerantes concedendo-lhes desonerações polpudas. Ou seja, nossas políticas públicas haverão de alimentar não apenas a epidemia de obesidade e doenças relacionadas, como também agravarão os riscos de contrair Covid-19 para parte considerável da população, a de baixa renda. Todas essas pessoas, mais doentes, menos capazes de exercer suas funções de cuidado ou de trabalho, precisarão receber mais assistência do governo. Todas essas pessoas, cuja carga de doenças crônicas presentes e futuras está ficando cada vez maior, haverão de recorrer ao SUS. Terá o SUS a capacidade de ajudá-las? Terá o SUS a capacidade de orientá-las? Com o subfinanciamento que hoje aflige nosso sistema de saúde pública, aquele sem o qual o número de óbitos na pandemia seriam inequivocamente maiores, o SUS não poderá atender adequadamente a essas demandas. Os problemas estruturais se agravarão. As desigualdades tornar-se-ão mais enraizadas e mais acentuadas. É preciso dar conta da saúde pública quando se pensa na brutal desigualdade brasileira. É preciso ter claro que nosso problema de fundo é muito maior do que a epidemia de Covid-19. Não temos só uma epidemia. Temos múltiplas.

MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

GRACINHAS CRIATIVAS

Popularizado globalmente há apenas um ano, o TikTok, aplicativo chinês de vídeos que Donald Trump quer banir, já está formando seu time de milionários

Nada mau para uma coleção de vídeos rapidíssimos sobre todo tipo de bobagem: desde que caiu nas graças dos adolescentes ocidentais, em 2019, o aplicativo chinês TikTok já foi baixado mais de 2 bilhões vezes em todo o mundo e abriu as portas para o surgimento de uma geração de celebridades, com a esperada compensação financeira em patrocínios, lançamentos de marcas próprias e jogadas de marketing. O prêmio maior veio na forma de um ranking que acaba de ser divulgado no exterior, alinhando os tiktokers do mundo inteiro que arrecadaram mais de 1 milhão de dólares em um ano. Sete americanos se qualificaram para a lista, donos de um patrimônio total de 18 milhões de dólares – sendo que todos, menos um, são menores de 21 anos.

No alto do pódio dos tiktokers milionários está a dançarina Addison Rae, que atingiu seu primeiro milhão de seguidores em outubro de 2019, aos 19 anos, e hoje arrebanha na audiência de seus vídeos – em que aparece dançando, dublando músicas conhecidas e usando marcas bem visíveis – muitos milhões de pessoas. Para chegar à fortuna de 5 milhões de dólares, ela fechou contratos para promover peças da grife esportiva Reebok e da fabricante de relógios sueca Daniel Wellington. Estima-se que seu cachê, bem como o de outros personagens da elite do TikTok, alcance 200.000 dólares por post patrocinado. A jovem californiana tem ainda um podcast, uma marca de roupa e uma linha de maquiagem com seu nome, além de planos de estrelar um filme adolescente produzido pela Miramax em 2021.

Em seguida vêm duas irmãs, Charli, 16 anos, e Dixie D’Amelio, 20, com 4 milhões e 2,9 milhões de dólares, respectivamente. Dixie, inclusive, tem ambições que vão além do universo tiktoker: pretende ser cantora e garantiu mais visualizações em seu primeiro clipe do que os rappers Kanye West e Travis Scott, que lançaram um single no mesmo dia. Além das inevitáveis coleções de produtos de beleza e roupas, as duas apareceram em comerciais durante a final do futebol americano, o SuperBowl – o intervalo mais caro do mundo -, lançaram canal no YouTube e integraram o time de influencers presentes na Semana da Moda de Paris.

Todas as três já integraram, em algum momento, a comunidade de tik­tokers que mora ou passa parte do tempo na Hype House, mansão em estilo espanhol bancada pelos, digamos, artistas mais bem-sucedidos e localizada em um condomínio fechado no topo de uma montanha em Los Angeles. A lista de negócios fechados pelas estrelas do aplicativo inclui Burger King, Oreo, Hyundai, Sony e até as brasileiras Magazine Luiza e Ambev, que encontraram nos tiktokers uma forma de promover seus produtos entre os jovens que comem e dormem na internet. O app tem hoje as melhores taxas de engajamento entre produtores de conteúdo e seguidores, e os vídeos publicados na plataforma tendem a atingir mais pessoas, em diferentes lugares do mundo, do que o Instagram e o Facebook. “Ganho mais com publicidade e lives no TikTok do que em qualquer outra rede que uso há muito mais tempo”, diz a influencer brasileira Camilla Martins, de 23 anos, que acumula 5,4 milhões de seguidores e cobra em média 5.000 reais por parceria.

Nascido para fazer dinheiro, o app possibilita a marcas e gravadoras de música pagarem para lançar hashtags, desafios e coreografias personalizadas, arrecadando ainda mais atenção. A máquina milionária não se restringe às grandes contas – qualquer usuário “normal” com boa frequência de uso pode ganhar uns trocados ao convidar novos amigos a criar contas próprias, ao assistir a mais minutos seguidos de vídeos e ao postar mais conteúdo, todas conquistas em forma de pontos que posteriormente podem ser transformados em depósitos em conta. Os tiktokers com mais de 1.000 seguidores, ao fazer uma live, têm permissão para receber “prêmios” em forma de dinheiro dos seguidores que o acompanham. “Dá para viver disso, e muito bem”, diz o catarinense Mário Jr., 21 anos, que estourou na rede social com vídeos que simulam diálogos românticos com garotas, ganhou o apelido de Galã e foi procurado por marcas como Casas Bahia e o site de relacionamentos Tinder. “O TikTok é minha principal fonte de renda”, conta Thatty Ferreira, de 23 anos, que publica de vídeos de maquiagem a dicas de edição de imagem na plataforma. Entende­ se por aí por que, quando Donald Trump ameaçou banir dos Estados Unidos a ByteDance, empresa chinesa responsável pelo aplicativo, nomes como Microsoft, Oracle e Walmart tenham-se apresentado para comprar o TikTok americano. As negociações ainda prosseguem, assim como as dancinhas e gracinhas do aplicativo que continuam a divertir e a render.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 07 DE NOVEMBRO

O PERDÃO INCOMPARÁVEL

… Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós (Colossenses 3.13b).

Jesus foi o maior de todos os mestres pela grandeza de seu ensino, pela riqueza de seus métodos e pela nobreza de seu caráter. Ninguém jamais ensinou com tanta graça e poder. Jesus contou uma parábola imortal, a parábola do credor sem compaixão. Um rei acertava conta com seus súditos e encontrou um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo o homem com que lhe pagar, o rei mandou-lhe vender toda a sua família. Este devedor pediu paciência ao rei, que lhe perdoou a grande dívida. Em seguida, encontrando o mesmo homem alguém que lhe devia cem denários, não tinha como pagar e lhe rogou mercê, o perdoado pelo rei não teve misericórdia e jogou o outro na prisão. Ao saber dessa história, o rei ficou irado e entregou esse homem sem compaixão aos verdugos até quitar toda sua dívida. Jesus terminou a parábola dizendo: Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão (Mateus 18.35). Só podemos entender essa parábola quando compreendemos o que representa dez mil talentos em comparação com cem denários. Dez mil talentos são 350 mil quilos de ouro e cem denários representam cem dias de trabalho. Dez mil talentos são seiscentas mil vezes mais do que cem denários. Isso significa que a nossa dívida com Deus é impagável, mas Deus a perdoou completamente. Por isso, devemos perdoar uns aos outros, assim como Deus em Cristo nos perdoou.

GESTÃO E CARREIRA

NOVOS AROMAS NA ÁGUA DE CHEIRO

Rede de perfumaria que fez sucesso nos anos de 1980 e 1990 volta ao mercado com novo modelo de negócio. O plano é seduzir público jovem

Se você tem mais de 30 anos, provavelmente já ouviu falar de Absinto ou de Água Fresca – e sabe que esses nomes não estão relacionados apenas a um tipo de bebida. Os dois foram responsáveis pela ascensão da rede Água de Cheiro no País nas décadas de 1980 e 1990, antes de entrar em decadência com o avanço de concorrentes como O Boticário e Natura. Hoje, ao lado da linha de produtos de higiene e cuidados corporais, a dupla de perfumes é a principal aposta no processo de retomada da empresa. Fundada em 1976, a companhia mineira chegou a ter 900 pontos de vendas em território nacional, número que caiu drasticamente a partir dos anos 2000 por, segundo especialistas, erros de gestão.

Adquirida em leilão, por R$ 6,6 milhões, em 2016, pelo Grupo Narsana, a Água de Cheiro encerrou 2019 com 127 franquias. Agora, apesar da crise provocada pelo coronavírus, desenhou um plano para inaugurar aos menos outras 70 em 2020. Para isso, reforça o investimento no comércio de rua, no recém-criado conceito de loja contêiner e na parceria com a Besni – rede de varejo de moda – para comercialização do portfólio, atualmente com 450 produtos.

A parceria nasce para fazer frente a grandes magazines como Renner e Riachuelo, que também vendem produtos de beleza e perfumaria multimarcas. A rede mineira e a Besni implantaram o modelo pop-up store (lojas temporárias) no interior de três unidades na Grande São Paulo da rede de varejo de moda: Vila Nova Cachoeirinha, Shopping Taboão e Centro de São Paulo. “Essas lojas estão indo superbem. Trabalhamos com todo o mix de produtos Água de Cheiro. A ideia é expandir o negócio para as 34 operações da Besni até o fim do ano”, diz o diretor, Olindo Caverzan Júnior. A retomada da Água de Cheiro já teve duas etapas. “Em 2017 e 2018, trabalhamos na recuperação da imagem da marca, relançamos a logomarca e mudamos o modelo de design de lojas. Foram investidos mais de R$ 3 milhões nessas ações”, afirma Caverzan. “Em 2019, criamos o departamento de expansão da marca para todo o Brasil e vendemos 86 contratos.” A fase três será a do crescimento, tendo o público jovem como foco.

NOVAS GERAÇÕES

Concorrente em outras épocas das gigantes do setor, a Água de Cheiro diversificou o portfólio para atingir as novas gerações. Entre os lançamentos, está a marca Selfie, linha de desodorantes e colônias com visual colorido e lúdico, como embalagens no formato de garrafa de refrigerante. Ainda para este ano, a empresa promete outra novidade voltada ao mesmo público, que será resultado de parceria com uma marca do universo geek – os detalhes são mantidos em sigilo. Além disso, investe em produtos multimarcas. “Em nossas lojas, 70% do portfólio vem de itens Água de Cheiro e 30% de produtos multimarcas, como Antônio Banderas, Everlast, Forum, Gabriela Sabatini, Lamborghini, Pacha”, declara.

CONCEITO HÍBRIDO

Outra estratégia definida pela Água de Cheiro é a criação de lojas-contêiner, modelo de negócio híbrido de produtos e serviços. O espaço vai comercializar itens da marca e estará equipado com estações de manicure e pedicure. Pode ser instalado em estacionamentos de supermercados, postos de gasolina, além de outros locais de acordo com regras estabelecidas pelas prefeituras. A inauguração estava prevista para logo após o Carnaval, mas foi adiada por causa da quarentena. “Esperamos abrir a primeira unidade nos próximos dois ou três meses”, afirma Caverzan, ao destacar o custo mais baixo para os interessados em adquirir esse modelo de franquia – entre R$ 50 mil e R$ 70 mil. O investimento para quiosque varia de R$ 80 mil a R$ 100 mil e o de uma loja, entre R$ 100 mil e R$ 150 mil.

Apesar de o processo de expansão das lojas físicas avançar pelo Brasil, principalmente na região Sudeste (com foco em Minas Gerais e São Paulo), Caverzan diz que a Água de Cheiro ainda não possui distribuição suficiente para atender a todas as regiões. Diante da situação, revela atenção especial ao e-commerce, criado há dois anos e meio. “Tivemos crescimento médio de 18% durante a quarentena, com itens de cuidados no dia a dia, como sabonete, sabonete líquido, hidratante e álcool gel”, observa o executivo. Mas a grave crise provocada pela Covid-19 traz mais preocupações do que boas notícias. Não se trata, no entanto, do único ponto de atenção dentro das discussões de planejamento estratégico da companhia. O diretor demonstra preocupação com a situação política, que tem impactado o dólar, negociado a R$ 5,90 na quinta-feira 14. As fragrâncias utilizadas pela Água de Cheiro são de casas internacionais, cotadas na moeda americana. Ele afirma que os contratos para o primeiro semestre já foram negociados com taxas menores. “Já o planejamento para o restante do ano está sob análise. Mas a empresa está disposta a segurar o preço, para não impactar o consumidor e a rede de franqueados”, afirma Caverzan.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XX

MENTES EXTRAORDINÁRIAS

Saiba mais sobre histórias famosas de autistas (e algumas especulações)

O autismo não vê raça, cor, gênero, nacionalidade e, muito menos, classe social. Qualquer família pode ter um autista entre seus membros que, muitas vezes, sentem-se de mãos atadas quando descobrem o transtorno. No entanto, alguns portadores do transtorno e de síndromes do espectro autista se destacam em diversas áreas profissionais como as ciências e as artes.

Da mesma forma, celebridades, assim como qualquer outra pessoa, estão sujeitas a terem filhos autistas. Alguns se tornam grandes defensores do autismo e já manifestaram o envolvimento que têm pela causa em entrevistas. Há, ainda, quem se destaque mesmo possuindo o transtorno. Confira algumas histórias emocionantes:

SUCESSO NA PECUÁRIA

A zoóloga norte-americana Temple Grandin é considerada uma das mais célebres autistas. Portadora da síndrome de Asperger, ela se interessou por animais ainda na juventude. Embora sua mãe tenha recebido recomendação médica para interná-la em uma instituição psiquiátrica, optou por inscrever Grandin em um colégio para superdotados. Dessa forma, foi muito incentivada por seu professor de ciência a continuar sua formação acadêmica. Temple obteve seu título de doutora em zootecnia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Na pecuária, é conhecida por projetar corredores e currais redondos, onde o gado não fica assustado e comporta-se naturalmente, caminhando em círculos.

A norte-americana também é conhecida pela publicação de artigos científicos e pelo seu ativismo em favor do autismo. Em uma palestra, no TED Talks, Grandin defende que o mundo precisa de pessoas que fazem parte do espectro autista.

FÍSICO BRILHANTE

Muito se especula sobre o fato de o físico Albert Einstein apresentar um autismo de alto funcionamento. Não existem provas concretas para um diagnóstico correto, contudo, alguns especialistas se baseiam em testemunhos sobre o seu comportamento. Embora fosse brilhante em matemática, apenas começou a falar entre os dois ou três anos de idade e apresentava ecolalia (repetição desnecessária de palavras) na infância.

Segundo testemunhas, Einstein dedicava muita atenção aos seus estudos, várias vezes, deixando as refeições de lado. O físico também era visto como bastante solitário e seguia estritamente algumas rotinas, além de ter manias para se vestir.

OUVIDO ABSOLUTO

Rafael Soares – filho da atriz Teresa Austregésilo e do apresentador Jô Soares – era autista e faleceu aos 50 anos, em outubro de 2014, devido a um câncer no cérebro.

Fascinado por música, tocava piano e possuía ouvido absoluto, ou seja, apresentava capacidade de identificar qualquer tom (ou nota) musical a partir de um barulho qualquer. O filho do apresentador era rigoroso com horários e tinha grande paixão pelo rádio, chegando a manter uma emissora dentro de sua casa.

ORGULHO FAMILIAR

Marcos Mion, apresentador do programa Legendários (da Rede Record), é pai de Romeo (um de seus três filhos), portador de uma variação de autismo que se encaixa na categoria NOS (not Otberwise Specified, em português, “sem nenhuma especificação”. Contudo, o menino fala, faz contato visual e também troca carinhos com os pais. Em entrevistas, Mion afirmou que o filho demora mais para aprender, mas mantém um bom relacionamento com os irmãos mais novos.

Em abril deste ano, o apresentador e seus convidados do programa utilizaram roupas azuis em homenagem ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Além disso, Marcos se envolve em campanhas sobre o transtorno.

TALENTO VOCAL

A cantora escocesa Susan Boyle – conhecida pela participação no programa Britains Got Talent em 2009 – foi diagnosticada com síndrome de Asperger em 2012. Após descobrir o transtorno, contou à imprensa que tinha dificuldades na aprendizagem durante a infância. Apesar de seu comportamento inseguro no palco, alcançou notoriedade e terminou a atração classificada em segundo lugar. Em apenas dois anos, vendeu mais de 14 milhões de discos no mundo todo.

NO MUNDO DA MODA

Em 2007, o reality show America’s Next Top Model atraiu a atenção de alguns espectadores por conta da presença da modelo norte-americana Heather Kuzmich. A jovem recebeu o diagnóstico da síndrome de Asperger aos 15 anos e era tida como “socialmente desajeitada” e com problemas para manter contato visual enquanto falava com outras pessoas.

No programa, foi alvo de piadas de algumas colegas por conta de seu comportamento e grande concentração. A síndrome fez com que ela “congelasse” em algumas sessões de fotos, afetando sua comunicação com a produção do America’s Next Top Model. Entretanto, por oito semanas seguidas, Heather foi escolhida como a favorita pelos telespectadores e ficou entre as cinco finalistas.

ESPECULAÇÕES

Para alguns especialistas, Bill Gates – um dos criadores da Microsoft – possui alguns traços do autismo. De acordo com pessoas que convivem com ele, o empresário se balança muito durante reuniões, não gosta de manter contato visual e tem pouca habilidade social.

EU ACHO …

AS REDES DOS LIVROS

Os aplicativos digitais ampliam o prazer de devorar uma boa obra

Sempre me interessou saber como a tecnologia e a internet diminuem distâncias e criam pontes. Apaixonado por livros, comecei a escrever ainda adolescente motivado por uma comunidade do Orkut em que contávamos histórias protagonizadas pelos personagens de Agatha Christie. Como leitor, sempre me senti solitário – com quem conversar sobreo que eu lia? Como descobrir novos autores de certos estilos? Como controlar a fila de leitura sem esquecer os livros que ainda queria comprar e conhecer?

Comecei usando o Goodreads, a principal rede social de livros no mundo. Nela, é possível compartilhar suas impressões sobre determinada obra e conhecer as opiniões de outros. Com um catálogo de títulos de todo o mundo, o Goodreads é muito usado pelos americanos, mas vale ressaltar que todo seu conteúdo é em inglês. Logo depois, descobri o Skoob, fundado em 2009. Criado por brasileiros, o Skoob é uma rede social que conta com mais de 5 milhões de usuários e rapidamente se tornou minha favorita. O nome deriva da palavra books (livros) ao contrário. No Skoob, criei um perfil com o objetivo de ter controle maior sobre o que havia na minha estante. Para isso, fui cadastrando livro a livro e montando uma biblioteca virtual. Obcecado por método, fiquei fascinado com as funcionalidades do site. Além de registrar cada um, pude incluir marcadores como “Lidos”, “Estou lendo”, “Quero ler”, “Favorito”, “Desejado”. “Emprestei” e “Abandonei”. Foi nostálgico relembrar a sensação de cada leitura ao tentar atribuir uma nota (de 1 a 5), e fazer comentários ou resenhas sobre as obras mais especiais. Terminada a “estante”, o site tem um paginômetro que soma as páginas dos livros já lidos.

Segundo o fundador da rede, o objetivo do Skoob é socializar o ato de ler. E realmente funciona. Com minha biblioteca virtual pronta, encontrei espaço para adicionar amigos, conversar com outros skoobers e trocar impressões. Nas páginas de cada livro há uma área de resenhas e debates, assim como informações biográficas de autores e sugestões de outras obras no mesmo estilo. Você pode seguir seus autores e editoras favoritos, além de entrar em grupos de discussão e criar metas de leitura. Um prato cheio para quem quer mergulhar no mundo dos livros e não sair tão cedo.

Depois que comecei a publicar meus romances, encontrei ainda outras ferramentas on-line para quem ama boas histórias. No Wattpad, muitos autores iniciantes colocam seus textos com objetivo de receber um feedback do público. É um ótimo modo de testar seu estilo, trama e personagens junto aos leitores. Hoje, tanto no Skoob como no Goodreads, faço questão de acompanhar as resenhas que escrevem sobre meus livros. Com a crítica literária tão escassa nos jornais e revistas, esse é um espaço raro mas essencial para um escritor: saber como suas histórias chegam aos leitores. Se você ama ler e ainda não conhecia as comunidades virtuais sobre livros, pode ir correndo procurar porque vale a pena. Caso entre nelas, não se esqueça de me adicionar.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

NÃO É MENTIRA DE PESCADOR

De lazer relaxante de fim de semana a aventuras em alto-mar e destinos distantes, a pesca esportiva conquista adeptos – mas algumas modalidades são para poucos

Uma das mais belas e emocionantes passagens da literatura universal tem dois protagonistas: um marlim-azul e um pescador solitário e cansado que empenha toda a força que lhe resta para pegá-lo. A memorável batalha entre o homem e o magnífico peixe de quase 700 quilos é descrita no livro O Velho e o Mar, do seminal escritor americano Ernest Hemingway, ele mesmo um pescador apaixonado que se estabeleceu em Cuba para fazer o que mais gostava. Para além do romantismo da cena, porém, há uma revolução em andamento na pesca esportiva, quase setenta anos depois do lançamento do livro: viajantes com sede de aventura e equipamento de última geração rodam o mundo atrás de experiências inesquecíveis, dispostos a gastar um bom dinheiro para isso.

Atividade antes dominada quase exclusivamente por homens, que zarpavam solitários ou com um grupo de amigos, a pesca esportiva passou a cativar mulheres e atrair a família inteira. O engenheiro civil Roberto Bontempo é um desses aficionados, e hoje escolhe as viagens de acordo com a possibilidade de pescar e de estar ao mesmo tempo acompanhado da mulher e dos dois filhos. “Descobri que é possível fazer pescaria, turismo e ter um convívio familiar intenso”, diz o engenheiro, que cita, entre tantos destinos memoráveis, Amazônia, Alasca, Namíbia e até uma jornada a bordo do trem transiberiano para pescar em Khabarovsk, no extremo oriente da Rússia. São férias fascinantes, que podem proporcionar a aventura de uma vida e ainda por cima com todo o conforto, mas são dispendiosas: um pacote para o Alasca, por exemplo, custa de 4.000 a 6.000 dólares por pessoa, sem contar a parte aérea.

Embora esteja crescendo exponencialmente nos últimos anos, a pesca esportiva, algumas vezes, é passada de pai para filho. Foi o caso do empresário Carlos Pimenta de Souza Júnior. A paixão, que começou aos 10 anos, virou obsessão. Hoje é ele quem leva o pai para se divertir em rios chilenos formados pelo degelo dos Andes. Pimenta explica que existe um ciclo interminável entre os praticantes do esporte, nem que para isso seja necessário gastar pequenas fortunas: “Nós estamos a todo momento atualizando equipamentos e buscando itens de ponta”, diz. “Pode ser uma isca mais moderna ou até mesmo um drone para fotografar o passeio.”

Um bom pescador carrega consigo pelo menos 10.000 reais em equipamentos, incluindo molinetes, alicates, anzóis, linhas e varas de altíssima qualidade. Carretilhas japonesas, as preferidas dos especialistas, são encontradas na internet por 8.000 reais, E existem modelos ainda mais caros: A Associação Nacional de Ecologia e Pesca Esportiva (Anepe) estima que haja entre 8 milhões e 9 milhões de adeptos do esporte no Brasil, número que engloba desde o pescador de domingo até o praticante disposto a viajar por duas semanas para alto-mar ou rios distantes e desafiadores.

Nos Estados Unidos, onde o número é quatro vezes maior, a modalidade conhecida como fly fishing, que consiste em usar isca artificial e entrar na água doce até a altura da cintura, tem seduzido jovens adultos que veem nessa atividade uma forma de se aproximar da natureza e se desligar do celular no fim de semana. Seja qual for o estilo de pesca, ela está entre os hobbies preferidos dos americanos, um lazer que fisgou personalidades como o ex-presidente Barack Obama, a atriz e empresária Paris Hilton e o jogador de futebol americano Ryan Tannehill.

Marcos Glueck, presidente da Anepe e fundador de uma agência de turismo especializada no ramo, afirma que a pesca esportiva tem tudo para deslanchar no país. “Precisamos aproveitar melhor a nossa diversidade de peixes e a extensão marítima”, diz. De fato, o território nacional tem mais de 7.000 quilômetros de litoral, além de amplas bacias hidrográficas, que somam quase 15.000 quilômetros de rios navegáveis. Glueck vê na retomada do turismo pós-pandemia uma oportunidade para consolidar a atividade e acredita que a tendência é de que as pessoas busquem lugares exclusivos, fugindo de aglomerações e privilegiando sensações. Além disso, há um desejo latente de se reconectar com a natureza, o que, na opinião dos aficionados, somente a pescaria pode proporcionar. Hemingway, que descreveu de forma tão sublime a batalha do velho pescador com o gigantesco marlim-azul, certamente concordaria.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE NOVEMBRO

O TERROR INDESCRITÍVEL DAS DROGAS

Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres (João 8.36).

A nação brasileira ficou chocada com o assassinato do grande líder religioso Robinson Cavalcanti e de sua esposa Miriam, em 27 de fevereiro de 2012, em Olinda, Pernambuco. Pai e mãe foram mortos a facadas pelo próprio filho adotivo, um jovem de 29 anos que, depois da alucinada investida, ainda tentou matar a si próprio. A razão alegada: dependência de drogas. Todos os dias nossos jornais estampam tragédias semelhantes. Nossa juventude está capitulando ao poder destruidor das drogas. Mais de 90% dos municípios brasileiros estão sendo assolados pelo crack, uma droga pesada, que vicia desde a primeira experiência. Os traficantes, blindados com couraças de ferro, dominam setores dos grandes centros urbanos e criam leis paralelas que desafiam a polícia. Sentimo-nos impotentes. Esses agentes da morte se infiltram nas escolas e instituições públicas, estendendo tentáculos mortíferos por todos os lugares. Os traficantes, mesmo quando presos e levados a presídios de segurança máxima, ainda coordenam o tráfico, comandam o crime e espalham terror por toda parte. Somos uma sociedade assolada pelo medo. Não há esperança para o nosso povo fora do evangelho de Cristo. Não há saída para aqueles que estão cativos pelas drogas senão a libertação que Cristo oferece: Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres (João 8.32).

GESTÃO E CARREIRA

NA ORDEM DE BILHÕES

Depois de receber novo aporte de 124 milhões de dólares, a Movile, dona de aplicativos como iFood, Rapiddo e PlayKids, quer crescer ainda mais

Enquanto o Brasil segue praticamente estagnado, a Movile vai na contramão. Com 16 escritórios, 1.600 funcionários e nove empresas no portfólio, entre elas o aplicativo de delivery de comida iFood, o “Netflix para crianças” PlayKids e a plataforma de entregas Rapiddo, a holding de tecnologia cresce 60% ao ano. Há 1 ano, recebeu da Naspers, conglomerado sul-africano de mídia, e do fundo Inova Capital, de Jorge Paulo Lemann, um aporte de 124 milhões de dólares, o maior de sua história. Fabrício Bloisi, fundador e CEO, espera expandir os negócios, que já operam em países como Chile, México, Colômbia e Argentina. Sua meta, considerada altamente agressiva, é alcançar 1 bilhão de usuários (hoje são 230 milhões) e elevar o faturamento (estimado em 800 milhões de reais) para 10 bilhões de dólares.

1. VONTADE DE CRESCER

É comum ouvir nos corredores que a Movile só chegou aonde chegou por ter metas extremamente ambiciosas e foco no resultado. “para trabalhar conosco é preciso ter ambição”, diz Luciana Carvalho, diretora de gente.

2. INFORMALIDADE

Apesar da pressão, funcionários dizem que o ambiente de trabalho é informal e descontraído. Na sede em São Paulo, há videogame, mesas de sinuca e de pingue-pongue. Em todos os escritórios serve-se café da manhã, com frutas, suco, chá, café, leite, quatro tipos de pão e frios variados. Diretores e CEOs sentam no meio dos times. Salas fechadas, só as de reunião.

3. GENTE DIFERENTE

No site Love Mondays, ex-empregados relatam que homens têm predominância em promoções e são maioria no Board. o RH afirma que isso acontece mais na área de TI e que há iniciativas para reverter o quadro. O objetivo da companhia, hoje, é aumentar a diversidade cognitiva – de opiniões, ideias e crenças. “Se conseguirmos isso, o resto será consequência”, diz Luciana.

4. INICIATIVA PRÓPRIA

Sem programas de diversidade estruturados, um grupo de Movilianos, chamados internamente de “respect”, se organizou para debater questões LGBT e de gênero. Uma das iniciativas foi convidar o apresentador Marcelo Tas para falar de sua experiência com o filho transgênero.

CULTURA FORTE

Todo mês, há uma reunião entre o CEO da holding, Fabrício Bloisi, e os executivos de cada uma das nove empresas que a compõem. A ideia é que eles “cascateiem” as informações às equipes, alinhando resultados, metas e rumos do negócio.

6. MOBILIDADE

Apesar de não haver um processo de recrutamento interno formal, o trânsito de pessoas acontece. No ano passado, 40 profissionais, de analistas a diretores, migraram de empresa. Em 2020, a meta é movimentar 10 posições-chave e 50 outros postos. “preferimos perder gente ‘no’ grupo do que ‘do’ grupo”, afirma Luciana.

7. TROCA-TROCA

Para que haja compartilhamento das melhores práticas que estão rolando na organização, a holding promove imersões, chamadas de People Connections, entre os times das nove empresas. Em setembro, reuniu as equipes de RH. As próximas serão as de Marketing e as de Tecnologia.

8. EMPREENDER DE DENTRO PARA FORA

O intraempreendedorismo é bem-vindo. Se alguém tem uma ideia promissora, a Movile a impulsiona e deixa a pessoa tocar a operação. Foi assim com PlayKids, Rappido e ChatClub. Para a empresa, isso estimula o senso de dono, a inovação e a retenção de talentos.

9. JORNADA LIVRE

Há liberdade para entrar e sair a qualquer hora do dia. Não existe controle de jornada e ninguém olha se você chega às9 ou às 12 horas. “O resultado fala mais alto”, diz Luciana.

10. NASPERS

Todo ano, os colaboradores são enviados para treinamentos presenciais da Naspers. Inclusive na cidade do cabo, onde é a sede do conglomerado sul-africano (seu principal sócio), para aprender sobre Liderança, Tecnologia e Inteligência de Mercado. Além disso, todos os funcionários têm acesso gratuito ao Udemy, plataforma com mais de 30.000 cursos.

VAGAS ABERTAS: Em todo o grupo são cerca de 600 vagas, sobretudo na área de programação

COMPETÊNCIAS: Valoriza pessoas criativas, inovadoras, que gostem de se desenvolver, de ser desafiadas e de tomar riscos. Por ser de um setor nervoso, onde tudo muda o tempo todo, os funcionários precisam ter resiliência e agilidade para encarar novos cenários

SITE PARA ENVIO DE CURRÍCULO: movile.com/jobs

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XIX

A VIDA COM O AUTISMO

Palavras emocionantes de familiares sobre como é conviver com o transtorno

ALÍVIO COM A DESCOBERTA

“Meu filho é gêmeo, nasceu de 29 semanas e soubemos que teria um atraso motor. Mas ele foi crescendo, frequentando escola regular, fisioterapia, fono, etc… Aos sete anos, dava muito trabalho na escola, então, procuramos um amigo que tinha um filho autista, e ele nos indicou a Afapab (Associação dos Familiares Amigos e Pais dos Autistas de Bauru). O Augusto fez testes, e então veio o resultado: ele faz parte do espectro autista, no nível leve. Eu e meu marido sentimos um alívio por sabermos o que ele tinha e corremos pra internet nos informar. Depois de um mês, o Augusto estava frequentando a Afapab diariamente e isso já acontece há quatro anos.

VIDA QUE SEGUE

O Augusto tem uma vida social normal: viajamos, vamos ao cinema, supermercado, casa de amigos, enfim, a todos os lugares. Ele conversa, é carinhoso, mas, como todo autista, tem problemas de comportamento em determinados locais e situações, alguma dificuldade na fala e de se interagir com outras crianças, mas nada que o impeça de ter uma vida social normal. Em casa (lugar que ele adora ficar!), gosta de assistir filmes, jogar videogame e ver vídeos no computador. Seu irmão, Vinícius, é super companheiro e o ajuda quando ele precisa. “Acredito que o Gu, apesar de suas limitações físicas e cognitivas, seja uma criança muito feliz, pois é cercado de pessoas que o amam, frequenta uma escola especializada para se desenvolver e nós, pais, fazemos de tudo para que ele se tome o mais independente possível e continue sendo uma criança linda, feliz e que veio em nossa família para nos ensinar muito!”

DIAGNÓSTICO ERRADO

“Em 2008, após dois anos recebendo o laudo de surdez para o meu filho, finalmente conseguimos a doação de uma prótese coclear que possibilitaria que meu caçula ouvisse. Com muita alegria iniciamos o processo e, no exame de audição comportamental, a fonoaudióloga informou que os exames estavam dentro da normalidade e que Eros ouvia perfeitamente, me encaminhando para uma neuropsiquiatra. Desde quando Eros tinha dois anos eu via diferença. Ele não tinha contato visual e era um bebê bastante calmo, não gostava de colo e parecia que sempre estava mais confortável no berço. O único momento que tínhamos de ligação era na amamentação, mas nunca imaginamos que fosse algo errado e, sim, apenas um bebê que não gostava de muito contato.

O DESCONHECIDO

Na consulta com a neurologista tivemos o diagnóstico de autismo, palavra estranha com muitas implicações nela, afinal, eu só conhecia deficiências que todos conhecem e autismo era algo fora do meu contexto. As explicações da especialista foram que ele provavelmente não falaria e não haveria uma forma correta de socialização, mas que tudo poderia ser amenizado com terapias e tratamentos apropriados. Na época, se tinha algo que eu não tinha condições de fazer era pagar e era tudo muito caro. Eros precisaria de fonoaudióloga, psicóloga, terapeuta comportamental, psicopedagoga, psicomotricista, esporte, escola especializada, neurologista. Naquele momento eu só sabia absorver e pensar: “e agora?”.

Daquele dia em diante tudo mudou: a busca por local para tratamento e de escola e aí a decepção e o medo. Não havia nada, ninguém sabia o que era autismo e nem estavam dispostos a aprender, tudo era muito novo. O que me restou foi pesquisar e estudar, e foi aí que descobri o Sonrise, uma terapia desenvolvida por pais de autistas nos Estados Unidos que visa o desenvolvimento e a melhora dos sintomas do autismo. Foi onde vi pela primeira vez a luz no fim do túnel e que havia uma possibilidade de chegar até meu filho. Conseguimos alguns resultados, mas eu precisava saber se tinham mais pessoas passando pelo mesmo problema que eu e ouvir delas suas próprias necessidades.

O APOIO DE SEMELHANTES

Em 2010, conheci minha grande amiga Wanya Leite e o Grupo Bate Papo Amigos dos Autistas. Descobri que não estava sozinha, muito pelo contrário. Com o grupo, meu interesse em ter um local adequado para nossas crianças ampliou, ainda mais vendo os avanços do Eros que, nesta época, já estava falando suas primeiras palavras, nos motivando a continuar. Mas a falta de condições financeiras continuava e, com isso, em 2011, dei andamento à criação da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA), a única instituição na baixada fluminense a fazer tratamento especializado ao público autista e suas famílias, afina, como mãe, eu não poderia tratar apenas as crianças e esquecer suas famílias, pois eu mesma sei o sofrimento e a sensação de impotência que muitas vezes nos leva à depressão. Iniciou-se o processo de legalização e, com isso, nosso trabalho de divulgação nas escolas e em reuniões. Promovemos vários workshops, tudo em prol da conscientização. Em 2013, iniciamos os atendimentos terapêuticos, e já nessa época, Eros estava falando frases e com o desenvolvimento social um pouco mais adequado. Começamos os atendimentos com 15 crianças e, em 2014, nos tornamos a primeira instituição a ter convênio com a prefeitura para o atendimento gratuito, e já no segundo semestre tínhamos 90 crianças em atendimento, mais suas famílias.

ESPERANÇA POR DIAS MELHORES

Ver no dia a dia a possibilidade dessas crianças terem uma oportunidade que meu filho não teve e seus pais recebendo uma orientação adequada foi uma das grandes realizações pra mim. Ver meu filho receber atendimento e mostrar às famílias que pode até ser difícil, mas autismo tem tratamento e principalmente tem uma família imensa pronta a ajudar, uma família que nasceu da solidão e desespero de duas mães e que hoje pode ajudar mais de 600 pessoas.

Espero, em um futuro próximo, ver meu filho tendo condições de independência e autonomia, espero poder conceder isso às famílias que confiam em mim e em nosso trabalho. Para famílias de autistas não existe impossível, só existe a certeza do amor e da determinação de fazer o melhor por um filho.

AMOR DE TIA

“Minha trajetória no universo dos autistas começou quando meu sobrinho João Vitor, foi diagnosticado aos dois anos e meio. Na época, foi um desespero para minha irmã e para toda a família porque não conhecíamos nada sobre o transtorno e, simplesmente, ele parou de falar, de comer e de escutar. Não tinha mais contato visual, já não brincava mais, perdeu total interesse em tudo, entrou em um outro mundo. Minha irmã foi uma lutadora. Com o pouco de conhecimento que havia no Brasil sobre o autismo, foi de consultório a consultório, muitos erros, poucos acertos. Eu morava nos Estados Unidos, onde fiquei por quase três décadas, com muitas vindas ao Brasil, mas lá a pesquisa escava mais adiantada. Então, comecei a procurar tudo que era possível: participei de seminários, congressos, fiz várias especializações sobre educação continuada no autismo para tentar ajudar meu sobrinho. Com isso, me encantei com a causa e me tornei uma ativista, formei grupos de apoio às famílias em vários estados e também em várias cidades em Nova Jersey, onde eu residia.

ASSOCIAÇÃO PARA AUTISTAS

Porém, quando tínhamos um grupo na cidade de Newark, vimos o aumento da procura pelas comunidades imigrantes e, na maioria, sem documentação para estadia no país. Assim, após cerca de 14 anos, junto com duas amigas, decidimos abrir uma associação sem fins lucrativos, a BIA: Brazilian International Association of Autism. Na BIA, tínhamos profissionais, psicólogos, terapeutas, nutricionistas, advogados de imigração, entre outros, para orientação das famílias e oficinas de artes, jardinagem, culinária, música e informática para os portadores. Somente contávamos com voluntários, a quem agradecemos muito. Apesar de termos todas as licenças para funcionamento, nunca tivemos ajuda governamental ou de empresas, acredito que por ser uma entidade que ajudava aos imigrantes, e existe uma perseguição grande a eles. Somente tivemos ajuda de Deus, de amigos, eventos que fazíamos e com a diretoria para suprir as necessidades, porque nunca cobramos nada, nosso trabalho foi só por amor. Acredito que o mais importante foi o trabalho social, quando a BIA era ponte entre os órgãos governamentais para conseguir os direitos dos autistas nascidos nos Estados Unidos, mesmo sendo filhos de pais imigrantes. Também auxiliamos os pais que foram presos pela imigração. 59 autistas que passaram pela associação, de alguma forma, foram ajudados. A BIA, atualmente, não está fechada, porém, suspensa. Não temos sede, mas o atendimento continua virtual e alguns profissionais ainda estão dando assistência.

ATUAÇÃO NO BRASIL

Muitas vezes, vindo ao Brasil, me reunindo com grupos e pesquisando sobre o transtorno, tomei a decisão de retornar, porque acredito que já plantei sementes nos Estados Unidos, agora é só esperar para florescer. Por aqui, o trabalho vai ser grande, nosso objetivo é abrir a BIA-Brasil para autistas adultos, uma vez que pouco se oferece para esta faixa etária. Eu tenho encontrado muitos ainda sem esse diagnóstico. Além disso, a Lei dos Direitos dos Autistas foi aprovada e sancionada, mas não está sendo cumprida. Temos que fazer valer estes direitos, temos que ser voz daqueles que não conseguem se expressar.

Meu sobrinho, atualmente, é sociável; voltou a falar com nove anos, claro que apresentando alguma dificuldade. Ainda frequenta uma associação para jovens e adultos especiais, faz teatro, música, informática, inglês e é um excelente fotógrafo. É feliz e muito amado! A melhor terapia é a do amor e da aceitação.”

UMA LUTA CONSTANTE

“Aos dois meses e meio de idade, minha filha foi internada às pressas, pois apresentou choro incessante, febre e vômito. Em dezembro de 2007, uma tomografia apontou a presença de um tumor. Tudo dizia “não” para nós. A medicina e a ciência não tinham praticamente nada a oferecer. E é, aí, que o milagre acontece, quando se tem fé. Ela superou o impossível naquele mês e nos seguintes, superando um choque séptico pós-quimioterapia, em janeiro de 2008. Pela fé, retirei-a da quimioterapia; o que era ofertado iria nos levar a um fim trágico. O tratamento pouco podia fazer, e os riscos e toxicidades eram imensos. Graças a Deus, hoje, ela é considerada curada. Essa página, viramos em maio de 2008. E iniciamos uma nova fase, que culminou no diagnóstico de autismo.

Foquei na reabilitação, pois apresentava sequelas da cirurgia cerebraI. O neurocirurgião disse que haveria alguma perda visual. Nos mudamos em novembro de 2009 para Brasília, onde meu pai vive. Prestei concurso na Universidade Federal de Goiás, em regime de dedicação exclusiva, e fui nomeada em agosto de 2010. Realizei um sonho e senti-me tranquila sobre o futuro de Lígia, pois poderia pagar uma boa reabilitação. Em Goiânia, buscava as terapias interessantes para sua reabilitação, inclusive, uma escolinha.

O AUTISMO COMO CAUSA

Em 2012, percebi que Lígia não gostava de parques, shopping e crianças. Chorava muito diante de passeios considerados prazerosos. Não se interessava por quase nada. Tapava o ouvido, balançava o corpo, não apontava o que queria, não seguia com o olhar o que me esforçava para mostrar. Era afetuosa e sorridente, apesar do humor oscilante. Ficava confusa. Eu estava preparada para sequelas decorrentes da cirurgia cerebral, mas havia algo que ninguém diagnosticava. Ela começou a falar com dois anos e três meses, de repente. Repetia o que ouvia nas conversas e nos desenhos. Andou com dois anos e seis meses, e foi uma grande alegria, já que os médicos achavam que, se sobrevivesse, seria vegetativa.

Liguei para um colégio em São Paulo, marquei uma consultoria e também um médico recomendado pela escola para um diagnóstico, pois, até então, falavam em “atraso global”. Então, o neuropediatra revelou o que eu desconfiara: transtorno do espectro do autismo – no seu entender, sequelar. Lígia tinha quatro anos e dez meses. Durante a consultoria do colégio, decidi não voltar mais à Goiânia. Viajamos a São Paulo, mas cheguei à conclusão de que aquele colégio só oferecia mesmo um belo discurso. Em dezembro, pedi exoneração do meu sonho, e voltei, em 2013, a ser horista em faculdade.

BUSCA PELO MELHOR

Do diagnóstico até hoje, tenho amargado uma peregrinação inócua. As escolas, públicas ou particulares, não cumprem a lei, estão despreparadas para a inclusão e não oferecem um plano de desenvolvimento individual para os autistas, com estabelecimento de metas e acompanhamento especializado. Tudo é mal feito e amador. Entidades, idem. Terapeutas de excelência são uma agulha no palheiro. Lígia, em seu autismo de nível moderado, apresenta um baixo funcionamento por falta de terapias de qualidade. A inabilidade para o diagnóstico – mesmo diante da ecolalia e das estereotipias tão evidentes, como o balançar do tronco – também negou chance a ela de contar com intervenções mais precoces e focadas.

Em 2015, comecei a cursar duas pós-graduações em Educação Especial e Educação para Autistas e me tornei militante dos direitos dos autistas. Espero ter minha voz ouvida e as reivindicações atendidas, o que não tem sido fácil, até mesmo pela desunião das famílias das pessoas com autismo. Como grupo, podemos ter mais força para as conquistas.

CUIDADOS NECESSÁRIOS

Desde junho, Lígia está com uma nova equipe de terapeutas. Estou lutando para que a Prefeitura pague o tratamento, pois é muito caro. Ao lado disso, busco melhorar seu sistema imunitário, e já marquei consulta com homeopata em Uberlândia (MG) certificada para o tratamento de autistas. São tentativas. O exame de sangue (imunopro300) apontou diversas alergias alimentares, inclusive, por leites e glúteo. Solicitei ensino em domicílio com especialista em educação para autistas à rede municipal, e espero que consigamos, até que ela esteja bem o suficiente para ir a uma sala de aula. A prática esportiva é importante. Como Lígia tem suas sequelas da cirurgia, considerei a natação a melhor modalidade, com professor especializado em especiais.

Porém, um autista, normalmente, não apresenta apenas o autismo. Temos tudo por fazer: conquistar clínicas-escolas excelentes, informar com precisão e qualidade e conscientizar as pessoas para que respeitem os autistas, fiscalizar o cumprimento da lei e exigir especialização de quem atende esse público. Não podemos nos contentar com migalhas. Temos de tentar transformá-los em cidadãos autônomos e produtivos para que não se tornem um peso social.”

DIAGNÓSTICO TARDIO

“A Laura teve o diagnóstico tardio, aos seis anos, por mim, que sou pediatra. Levei minha filha nos melhores especialistas do país seis anos atrás; ainda se tinha essa postura de se esperar para dar o diagnóstico. A Laura apresentava uma hidrocefalia, e hoje sabemos que a criança autista pode ter um dos hemisférios mais alargados. Foi submetida a ventriculostomia aos dois anos, mas teve regressão. A parte motora melhorou, mas as poucas palavras que falava, parou de falar e até hoje ela não se comunica verbalmente. Foi dado o diagnóstico de deficiência mental, e eu não achava que era só isso, até que apliquei o CARS (Childhood Autism Rating Scale – Escala de Avaliação do Autismo na Infância), uma ferramenta para se levantar a hipótese de transtorno do espectro do autismo. Neste momento, falei: “minha filha é autista”. Minha filha foi acolhida por uma escola maravilhosa de Bauru, mas um dia, me pediram ajuda. Disseram que não me cobrariam uma parte da mensalidade para eu procurar alguém para ajudar essa escola. Mesmo com todo esse carinho, a Laura é uma autista grave.

SONHO CONJUNTO

Uma mãe de Bauru plantou um sonho de termos uma escola especial para nossos filhos e eu o abracei com algumas famílias. Fundamos a Afapab (Associação dos Familiares Amigos e Pais dos Autistas de Bauru) e a luta começou. Mas o sonho ia além de cuidar de nossos filhos. Hoje, temos uma equipe multidisciplinar para poder cuidar das crianças que fazem o atendimento de 24 horas semanais e uma equipe para o diagnóstico precoce. Somos movidos pelo amor aos nossos filhos, que são nossa luz.”

COM PESQUISA E APOIO

“O diagnóstico foi difícil de obter, pois sabia-se pouco sobre o autismo. Após eu falar sobre alguns comportamentos do Jefferson ao pediatra, ele o encaminhou a um neurologista. Exames como audiometria e eletroencefalograma não mencionaram autismo e sim, um foco irritativo do lado esquerdo do cérebro. Certo dia, lendo uma matéria, percebi que alguns dos comportamentos dele tinham a ver com os de uma pessoa com autismo. A partir daí, saí em busca de ajuda profissional. Nesta época, o Jefferson estava com quase cinco anos de idade.

COMPORTAMENTO

Não há nenhuma suspeita do que causou o autismo. Não tenho conhecimento de nenhum caso na família. Na época, o desenvolvimento dele era meio lento, pois não tinha alternativas como hoje. Não sabíamos como lidar com comportamentos como chorar sem motivo aparente e crise com mudanças de rotina. Era angustiante ir com ele ao médico e, como tinha fortes crises de amigdalite, todo mês tinha que levá-lo. Atualmente, o Jefferson está bem melhor. Teve bom desenvolvimento em relação à comunicação, à compreensão e à sociabilização.

APOIO DA AMA

Conheci a AMA (Associação de Amigos do Autista) por meio de uma psicóloga que atendia o Jeferson e por meio de uma campanha que o Antônio Fagundes fez para a AMA. Após obter o diagnóstico, procurei. Logo conseguimos a vaga lá. O atendimento iniciou-se em fevereiro de 1994, em Parelheiros (SP). A AMA foi muito importante para ele. Houve um bom desempenho e crescimento para ambas as partes. Sempre que posso, procuro informações sobre autismo em outros locais para também passá-las a outros pais quando procuram ajuda”.

*** O Jefferson trabalha atualmente em uma gráfica pela Lei de Cotas. Ele contou um pouco como foi os anos de escola e como é sua vida: “No início, não era fácil na escola, porque fiquei dois anos na unidade do AMA, em Parelheiros, e nunca tinha frequentado uma escola em que não tivesse pessoas com autismo. Eu gostava mais de estudar inglês. Hoje em dia, não tenho o mesmo contato com os colegas. Trabalhar é bom e eu gosto. Nas horas vagas, gosto de jogar videogame, ouvir rádio e assistir TV. Sou amigo de uma pessoa que é cinéfila, e em algumas vezes, fomos juntos ao cinema. Nunca sofri preconceito por ser autista.”

EU ACHO …

O CAMINHO DAS PEDRAS

Descer a pé a Estrada Velha de Santos vale cada passo

Uma pesquisa recente revelou que um dos maiores anseios relacionados ao fim da quarentena é rever o mar. Também gosto do mar, é claro, mas sempre valorizei mais caminhos que destinos. Já escrevi aqui sobre minha experiência de andarilha pelo caminho francês de Santiago de Compostela, que percorri com Luiz, meu marido. Imagens dessa viagem de 2018, assim como as lembranças do turbilhão de sensações vividas, tomam conta de mim até hoje.

Durante o confinamento, não via a hora de curtir meus filhos e retomar minhas caminhadas de aventura, sem hora para voltar. No primeiro fim de semana desta primavera com ares de verão, tive o privilégio de realizar os dois desejos num único programa. Luiz, filhas, genro e eu agendamos uma descida a pé até a Baixada Santista pela Estrada Velha.

O curto percurso, de apenas 9 quilômetros, é rodeado de Mata Atlântica, sítios históricos, quedas d’água. A experiência foi potencializada por céu nublado, cerração baixa, garoa persistente, friozinho refrescante na medida certa – a intempérie amena, eu sei, é companheira fiel das melhores trilhas. Primeira rodovia asfaltada da América Latina, o caminho paulista começa em São Bernardo do Campo e termina em Cubatão. A flora, repleta de espécies raras, é digna de um jardim botânico selvagem. Quanto aos monumentos, eles nos remetem aos anos 1920, nos idos da Primeira República. Há também ecos imperiais, como a histórica Calçada do Lorena, por onde dom Pedro subiu a serra para declarara independência do Brasil às margens plácidas do Ipiranga.

Para quem quer matar a vontade de ver o mar, nem precisa ir até o fim. Basta chegar ao Pouso Paranapiacaba, que em tupi-guarani quer dizer “lugar de onde se avista o mar”. Paramos ainda no Belvedere Circular – ponto em que a Estrada Velha cruza a Calçada do Lorena – e no Rancho da Maioridade, assim nomeado em alusão à emancipação de dom Pedro II. Segundo a lenda, o local teria servido de alcova para encontros furtivos entre o imperador dom Pedro I e Maria Domitila, a Marquesa de Santos. Fake news. A data de construção é posterior àquele relacionamento – sem falar que a Marquesa de Santos nunca pôs os pés em Santos.

Andar soba garoa, ao contrário do que se imagina, pode ser agradável. O farelo d’água afasta o calor e os mosquitos. Se a temperatura mais baixa incomodar, o segredo é relaxar, soltar os ombros, deixar o sangue fluir – e ignorar o tênis molhado. O corpo se acostuma. Em tempos de pandemia, a garoa tem a vantagem de dispersar aglomerações. Durante o percurso, não vimos ninguém, salvo um casal que passou por nós em sentido contrário. Foi um passeio animado, que nos deu oportunidade para uma boa conversa, enquanto comíamos paçocas e sanduíches levados nas mochilas.

Como é bom sentir a tranquilidade de estar em família a céu aberto, ainda mais em cenário tão exuberante. Terminei o programa já pensando no próximo. Fiquei imaginando a quantidade de rotas de aventura espalhadas pelo país. Elas merecem ser percorridas, como se faz nas trilhas de Santiago de Compostela, ao som do hino-canção “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.

*** LUCILIA DINIZ                  

OUTROS OLHARES

EXCESSO? NEM DE VIRTUDES

Temos orgulho de ser corajosos, mas, sem o sentimento de medo e autopreservação, a espécie humana não sobreviveria. É o que revelam as mais recentes descobertas

Pupilas dilatadas, mãos suadas, sensação de frio na barriga. Essas são manifestações orgânicas típicas de medo – emoção que, apesar de rejeitada e associada à covardia, tem uma importância evolutiva que salvou nossa espécie da extinção. Trabalhos acadêmicos e um novo livro jogam agora luz sobre uma das mais sombrias reações humanas, suscitando debates entre cientistas. “Trata-se de um mecanismo de sobrevivência universal”, define a professora de psicologia Elizabeth Phelps, da Universidade de Nova York. Segundo a especialista, passamos boa parte da vida aprendendo a diferenciar o que representa ou não perigo. A psicóloga clínica Neuza Corassa, diretora do Centro de Psicologia Especializado em Medos, de Curitiba, afirma que o sentimento é, de fato, inerente à espécie humana, mas ressalta que cada indivíduo reage à sua maneira: “Alguns precisam de terapia para lidar com isso, outros, não. Na última década, aprendemos a respeitar os temores de cada um”.

Para além das fobias sociais, experimentos recentes comprovam que certas aversões nascem implantadas em nós, como um chip de computador, na forma de instinto. Tome-se, por exemplo, o pavor que muitas pessoas têm de aranhas e cobras. Um estudo conduzido pelas universidades de Leipzig, na Alemanha, e de Uppsala, na Suécia, chegou à conclusão de que até mesmo bebês apresentam uma reação de stress ao ver esses animais. Ou seja, mesmo sendo o primeiro contato, eles já sabem instintivamente o perigo que os bichos podem representar.

No livro The Nature of Fear: Survival Lessons from the Wild (A essência do medo: lições de sobrevivência da natureza, ainda sem edição brasileira), Daniel T. Blumstein, estudioso do comportamento animal, debruça-se sobre a história natural do medo, exemplificando, com casos da vida selvagem, como ele tem sido benéfico para todos os seres vivos, especialmente o homem. “É uma ferramenta que, acima de tudo, nos mantém seguros”, disse Blumstein. “O mundo é um lugar perigoso, e cabe a nós lidarmos com esses riscos, já que eliminá-los por completo é impossível.”

O medo tem papel fundamental na evolução humana, mas funciona melhor longe dos extremismos. O Homo sapiens, ao longo de milhares de anos, não teria escapado se partisse para cima de qualquer animal que encontrasse pela frente. E tampouco duraria se ficasse paralisado a ponto de não conseguir fugir quando necessário. O mesmo valeria no convívio com a própria espécie. Afinal, deixar o pavor atingir um nível debilitante poderia fazer com que um indivíduo se isolasse de seus pares, reduzindo sua capacidade de se proteger. Nenhum dos extremos permitiria que ele sobrevivesse por muito tempo.

Quando se fala em evolução, é preciso lembrar que a função biológica do ser vivo é justamente sobreviver, ao menos até se multiplicar, passando adiante as suas características por meio do DNA. No mundo animal, já foi comprovado que a habilidade de identificar as coisas a se temer é um traço que pode ser geneticamente herdado. Ou seja: o indivíduo perseverante passa a sua prole o recurso instintivo de discernir entre uma situação perigosa e uma situação normal – como contatou-se no experimento com os bebês. Assumindo que nem o exageradamente corajoso nem o excessivamente covarde teriam vivido o suficiente para gerar descendentes, conclui-se que nossos ancestrais foram aqueles que ficaram alertas em relação às ameaças, mas não a ponto de abdicar da vida. Nós seríamos, portanto, fruto desses indivíduos, medrosos apenas quando as situações, de fato, exigiam.

Graças ao componente social do ser humano, nosso rol de fobias costuma aumentar ao longo da vida. Um sintoma disso é que, em tempos de Covid-19, novos medos parecem aflorar de todos os lados. Na Austrália, relatos de avistamento de morcegos – primeiro animal relacionado à disseminação do novo coronavírus – cresceram de forma expressiva, não necessariamente porque mais morcegos começaram a aparecer, mas porque as pessoas passaram a enxergar nesse animal um perigo que antes não viam – temor que, por sinal, talvez nem se justifique. A história mostra que o pânico em algumas sociedades já levou várias espécies locais à extinção, causando danos irreparáveis ao meio ambiente.

Como então reagir adequadamente aos temores que, deum maneira ou de outra, estarão presentes na vida de todos? “Não há um número mágico quando o assunto é a medida certa do medo – tudo depende da circunstância”, responde Blumstein. “Se eu tivesse que deixar um recado para a sociedade sobre o tema, seria ligado à política: cuidado com o candidato que usa o medo para levá-los a votar nele. Se ele diz que é o único capaz de acabar com o risco, vote em outro. O risco não pode ser eliminado, só administrado.” Sábio conselho do escritor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE NOVEMBRO

ANSIEDADE, O ESTRANGULAMENTO DA ALMA

Por isso, vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber… (Mateus 6.25a).

A Organização Mundial de Saúde diz que mais de 50% das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas de doenças psicossomáticas. A ansiedade é o estrangulamento da alma. Os psicólogos explicam que a ansiedade é a mãe das neuroses, a doença do século, o pecado mais democrático da nossa geração. Está presente em todas as famílias, atingindo jovens e velhos; doutores e analfabetos; crentes e ateus. A ansiedade é inútil, pois por intermédio dela não podemos acrescentar nem sequer um côvado à nossa existência. A ansiedade é prejudicial, pois nos rouba a energia do presente, em vez de nos capacitar a enfrentar os problemas do futuro. A ansiedade é sinal de incredulidade, pois aqueles que não conhecem a Deus são os que se preocupam com o dia de amanhã. Quando buscarmos o reino de Deus em primeiro lugar, as demais coisas nos serão acrescentadas. O apóstolo Paulo fala sobre a cura da ansiedade, dando-nos três conselhos: orar corretamente (Filipenses 4.6), pensar corretamente (v. 7) e agir corretamente (v. 9). Quando conhecemos a grandeza de Deus e apresentamos a ele nossa ansiedade, quando pensamos nas coisas de Deus e agimos de forma coerente com nossa fé, então vencemos a ansiedade e desfrutamos da paz de Deus, que excede todo o entendimento.

GESTÃO E CARREIRA

NEGÓCIO LEGALIZADO

Desde dezembro do ano passado, a venda de remédios à base de maconha foi regulamentada no Brasil. Essa novidade cria um promissor mercado ligado à erva – que pode movimentar 4,6 bilhões de reais

Aos 9 anos, a administradora Cristina Taddeo, hoje com 45, foi diagnosticada com uma doença nefrológica (que afeta os rins). Sua vida mudou completamente e ela enfrentou uma rotina de medicamentos diários, consultas e exames. Em 2002, aos 28 anos, sua condição se deteriorou e Cristina teve de adicionar sessões de hemodiálise em seu dia a dia. Mas algo a diferenciava dos outros pacientes. “Embora seja comum ter náuseas e dores, eu era a única na sala do hospital que não passava mal durante o tratamento”, afirma Cristina. O motivo? Ela tomava um óleo feito à base de maconha. “Descobri pesquisando por conta própria e preparava na minha cozinha [algo que na época e a inda hoje é considerado ilegal]”, diz.

Depois de cinco meses fazendo hemodiálise, Cristina precisou se submeter a seu primeiro transplante de rim (o segundo seria em 2013), e mesmo o sucesso da cirurgia não evitou os efeitos colaterais. “Eu tinha dores agudas provocadas pela reação do corpo ao órgão novo e muita indisposição. Foi aí que intensifiquei o uso do óleo”, diz. O potencial terapêutico da administração dos princípios ativos tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), ambos presentes em diversas espécies da planta da maconha, foi descoberto pela ciência no final dos anos 90.

Acontece que o corpo humano produz naturalmente substâncias endocanabinoides, semelhantes àquelas encontradas na Cannabis, para estimular receptores espalhados no cérebro, órgãos, tecidos, glândulas e células imunológicas. Essas estruturas auxiliam na homeostase, que é a manutenção de um ambiente corporal interno estável, apesar das alterações no ambiente externo. Quando processos terapêuticos ou doenças, como os de Cristina, interferem nesse equilíbrio, os princípios ativos da maconha ajudam a potencializar artificialmente a homeostase.

A melhora notável foi o estalo para Cristina perceber que poderia ajudar outras pessoas. Por isso, há 17 anos, criou a BeHemp, fundação que auxilia pacientes com doenças que podem ser beneficiados pelo canabidiol. Para criar a fundação, a empreendedora investiu dinheiro do próprio bolso e contou com a ajuda da família. “Antes, já havia empreendido com franquias de balada, roupas e outros negócios, mas apenas com a BeHemp consegui realização pessoal e profissional”, diz. Atualmente, a instituição auxilia cerca ele 600 famílias com medicamentos, acompanhamento médico e visitas aos pacientes, tudo gratuitamente. “A dinâmica da família muda quando uma pessoa tem uma doença crônica. O paciente sofre e seus familiares também”, explica.

Em 2018, dois anos após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar a importação de remédios com THC, Cristina criou a HempCare Pharma, companhia revendedora de medicamentos, suplementos, cosméticos e alimentos feitos de Cannabis. Há um mês, Cristina fundou outro negócio, o Dr. Hemp, clínica médica especializada em tratamentos com Cannabis medicinal. “Percebi que poderia ganhar dinheiro e gerar impacto social”, diz. Hoje, a HempCare vende, em média, 600 produtos por mês, e a Dr. Hemp está com a agenda lotada até o final de março.

NOVO MERCADO

Atualmente, cerca de 40 países já autorizaram a maconha para fins terapêuticos – inclusive os Estados Unidos, nação que liderou o combate à planta no século 20. Por lá, onde cada unidade federativa tem a liberdade de formular as próprias leis, 33 dos 50 estados americanos, mais o distrito federal já regulamentaram os remédios à base de Cannabis. E, com a liberação para uso medicinal (e algumas vezes recreativo) no mundo, começa a surgir um novo e crescente mercado de negócios ligados à erva, que atrai profissionais e empreendedores.

Só em 2018 o mercado global de maconha movimentou 18 bilhões de dólares. De acordo com um relatório da consultoria New Frontier Data, feito em parceria com a The Green Hub, aceleradora brasileira de startups de Cannabis, apenas no Brasil essa indústria pode movimentar outros 4,6 bilhões de reais nos próximos três anos. A expectativa de crescimento do segmento é tanta que ganhou até um nome: green rush, em alusão a gold rush, ou “corrida do ouro”, que agitou o Oeste americano no século 19.

Por aqui, desde 2015 pacientes que tenham receita médica e autorização da Anvisa podem importar remédios derivados da maconha. Em quase cinco anos, pelo menos 9.540 pessoas já trouxeram 78.000 unidades de produtos para tratar problemas como dores crônicas, efeitos colaterais de quimioterapia e de transplantes, e doenças como epilepsia, autismo, mal de Parkinson e neoplasia maligna.

No final do ano passado, a legislação facilitou um pouco o acesso a esses itens. Em dezembro, a Anvisa editou a Resolução nº 327, que regulamentou a venda de remédios à base de Cannabis no país. Com a decisão, ficará mais simples importar os medicamentos e os compostos para a fabricação dos produtos em território nacional. E, ainda que o plantio e a importação da planta (ou de partes dela, como flor, folha, caule e bulbo) in natura continuem proibidos, a tendência é que os preços caiam e o consumo aumente, fomentando o green rush tupiniquim. “O mercado de Cannabis é muito promissor e cobiçado, e empresas de diferentes setores [universidades, importadoras, farmacêuticas, laboratórios, farmácias, transporte, segurança] já estão se preparando para atuar nesse nicho”, diz Carolina Sellani, analista da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

FALTA INFORMAÇÃO

A própria Abiquifi possui um grupo de trabalho com advogados, médicos, representantes de 14 empresas farmacêuticas e outros profissionais dedicados ao estudo do mercado de maconha medicinal. “Além das questões técnicas, há todo um trabalho de comunicação a ser implementado. As companhias estão se articulando para orientar, informar e educar os trabalhadores do setor”, diz Carolina. Nesse sentido, em abril São Paulo vai sediar o Cannabis Thinking, fórum multidisciplinar sobre maconha medicinal, voltado para médicos e profissionais da área farmacêutica. Hoje, dos 450.000 doutores com registro nos diferentes conselhos regionais de medicina (CRMs) brasileiros, apenas 1.100 prescrevem remédios feitos de Cannabis.

Para Renato Filev, doutor em neurociência e pesquisador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), vinculado à Unifesp, o Conselho Federal de Medicina (CFM) é tímido em sua relação com a maconha e só aconselha o uso em casos de epilepsia. “Há muita desinformação e desconfiança entre os médicos”, diz. Por outro lado, ele defende que há também curiosidade e demanda por informações de qualidade. “Como o complexo sistema endocanabinoide é uma descoberta recente na medicina, os livros didáticos e as universidades ainda não absorveram total mente esse conhecimento”, afirma Renato. O pesquisador acredita que o assunto fará parte dos currículos em breve e cita que a Universidade Estácio promoveu, no final de 2019, um curso de extensão para médicos sobre o uso de Cannabis. “As vagas esgotaram e houve fila de espera”, diz. O próprio Cebrid, pioneiro em pesquisas com maconha, desde 2017 mantém um curso online gratuito sobre o tema, que contou com a participação de 3.000 pessoas. Também no ano passado, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, criou a primeira disciplina obrigatória sobre Cannabis nos cursos de medicina e farmácia – o que mostra o interesse por parte da comunidade pelo assunto.

HÁ VAGAS

Mas não são somente os profissionais de saúde que terão de se atualizar se quiserem aproveitar o crescimento do mercado de Cannabis. “Até chegarmos a uma cadeia estável, o setor precisará de pessoas de diferentes áreas”, diz Camila Teixeira, CEO da Indeov, consultoria que representa comercialmente empresas estrangeiras de maconha que desejem entrar no Brasil.

Para ter uma ideia do potencial de geração de empregos, é possível pegar o exemplo da Flórida, estado americano com 21 milhões de habitantes. Dados de 2019 mostram que, desde a regulamentação da maconha para uso medicinal em 2017, o setor criou 15.000 novas vagas de trabalho na região. No Brasil, não há uma estimativa sobre a quantidade de empregos que serão gerados, mas especialistas acreditam que, somando todas as carreiras – advogados, educadores, técnicos para farmácias e laboratórios, especialistas em comunicação, marketing, relações públicas, transporte, segurança e logística -, o número deve superar centenas de milhares. “Por causa do alto desemprego no país, não faltam trabalhadores interessados, mas experiência na área ninguém tem. Isso não é necessariamente um problema, porque, assim como ocorre em outros setores novos, as companhias acabam formando os profissionais”, completa José Bacellar, CEO da VerdeMed Brasil, farmacêutica de Cannabis canadense que chegou ao país em 2018 e está com dez vagas abertas.

Aliás, as contratações já começam a aparecer. A HempCare está em busca de um CEO do mercado farmacêutico e, segundo Cristina, a clínica Dr. Hemp não teve dificuldade para preencher as quatro vagas abertas para médicos quando foi fundada. “Recebemos mais de 30 currículos de profissionais, muitos já com experiência e pesquisas no uso de Cannabis medicinal”, conta. Outra companhia que está expandindo é a Entourage Phytolab, criada e presidida por Caio Santos Abreu. Fundada em 2014, a empresa hoje conta com oito funcionários. “Incluindo os prestadores externos, somos em 20 pessoas e estamos com cinco vagas para cargos técnicos”, diz o empreendedor.

Advogado de formação, Caio iniciou a pesquisa do assunto em 2005 devido a um câncer que sua mãe, Sueli, teve. “Ela fez quimioterapia e passou de 50 para 38 quilos, tinha muitas dores, náuseas, falta de apetite e fraqueza”, conta. Sueli começou a tomar um óleo de Cannabis artesanal, comprado ilegalmente, e a melhora foi evidente. “Ela começou a se alimentar mais, recuperou o peso e revigorou o ânimo. Embora tenha falecido em 2009, os desconfortos causados pela doença foram atenuados”, diz Caio.

OS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

A Entourage Phytolab foi a primeira empresa do Brasil a importar legalmente a planta de maconha para fins científicos, por meio de uma autorização judicial. Para isso, em 2017, firmou uma parceria com a Unicamp e deu início às pesquisas. Importou 10 quilos de maconha canadense de alta qualidade – carga avaliada em 200.000 reais, que ficava em uma câmara fria vigiada por seguranças e câmeras – e desenvolveu medicamentos com tecnologia 100% nacional para tratar a epilepsia. “As vendas do produto devem começar no último trimestre deste ano ou apenas em 2021”, afirma Caio.

Isso porque, antes de ser liberados para venda, os medicamentos nacionais e importados à base de maconha devem ser aprovados e registrados pela Anvisa, processo que pode durar de seis meses a um ano. “Em 2020, a agência terá de lidar com muitos pedidos simultâneos de aprovação e registro, algo que pode fazer com que os produtos não cheguem às prateleiras tão rapidamente”, avalia Sueli de Freitas, especialista ela área regulatória do escritório L.O. Baptista Advogados e integrante do grupo de trabalho sobre Cannabis medicinal da Abiquifi. A regulamentação da Anvisa, porém, não foi o último capítulo dos debates sobre o uso de maconha no Brasil. Em outubro do ano passado, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou um parecer ao Supremo Tribunal Federal para que fosse determinado um prazo para a agência regulamentar também o plantio para fins terapêuticos – atualmente, apenas 40 famílias brasileiras têm autorização judicial para plantar maconha e fazer o medicamento. Em contrapartida, no mesmo mês, o STF adiou o julgamento que definirá se o porte de drogas para consumo próprio é crime – três ministros já votaram pela legalização. O Canadá, que possui uma das legislações sobre Cannabis mais avançadas do mundo, pode ser um bom exemplo para o Brasil. O país aprovou o uso medicinal em 2001 e o recreativo em 2018. Por causa disso, os canadenses estão largando na frente no mercado de maconha medicinal e, das dez maiores companhias do mundo que atuam no ramo, seis são de lá.

Com 37 milhões de habitantes, o país da América do Norte tem mais de 360.000 usuários frequentes de Cannabis medicinal registrados em seu sistema público de saúde e lidera globalmente a exportação tanto das plantas como do óleo. O Brasil, com seus mais de 200 milhões de cidadãos, tem cerca de 4 milhões de potenciais usuários medicinais, de acordo com o relatório da New Frontier Data. É daí que vem todo o interesse no mercado.

Os remédios são apenas uma parcela do setor, que pode se expandir para uso recreativo, veterinário, têxtil, cosmético e até alimentício. Nos próximos cinco anos, de acordo com diferentes estimativas, de 60 a 80 nações terão autorizado o uso medicinal e/ou recreativo. Com isso, a planta Cannabis caminha para se tornar uma commodity agrícola global, negociada internacionalmente como o café, por exemplo. O Brasil, em razão dos milhões de hectares de terras cultiváveis e da vasta experiência em agronegócio, está muito bem posicionado para se destacar nesse mercado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XVIII

UM MUNDO DIFERENTE

As deficiências intelectuais ou atrasos cognitivos não têm cura e podem ser percebidos ainda na infância

Dificuldades para resolver problemas ou compreender determinadas ideias consideradas mais abstratas, absorver o obedecer a regras, estabelecer relações sociais ou realizar ações simples do cotidiano são algumas das características de quem é diagnosticado como deficiente intelectual.

De acordo com o neuropediatra Clay Brites, “esses indivíduos apresentam enorme imaturidade e não conseguem fazer associações de significados entre as coisas ou resolver problemas do dia adia sem o auxílio de terceiros”. Por isso, é imprescindível que o portador do problema seja cercado de estímulos que o ajudem a vencer suas limitações e adquirir independência em suas relações com o mundo. “As pessoas com DI têm um comportamento excessivamente imaturo, infantil para a idade e com nítida impressão de que não funciona no ambiente de acordo com sua realidade de vida”, completa o profissional.

TIPOS DE DEFICIÊNCIA

“Do ponto de vista da prática neurológica, no consultório ou cm hospitais, a DI pode ser subdividida em deficiência intelectual sindrômica, quando défices intelectuais associados a outros sinais e sintomas médicos estão presentes, e na deficiência intelectual não-sindrômica, em que a limitação cognitiva e das competências funcionais aparecem sem outras anormalidades”, define o neurologista Martin Portner. O profissional aponta que a síndrome de Down e a síndrome do X frágil são exemplos de deficiências intelectuais sindrômicas.

A deficiência intelectual afeta, aproximadamente, 2 a 3% da população em geral. Os casos de DI não-sindrômicas ou idiopáticas são responsáveis por cerca de 30 a 50% desses casos. Importante lembrar também que essas deficiências têm início no período de desenvolvimento humano e não na fase adulta. Por sua vez, pessoas com transtorno cognitivo que possuem ou já possuíram QI normal, mas agora mostram confusão, esquecimento ou dificuldade de concentração, têm comprometimento cognitivo típico de lesões cerebrais, que são efeitos secundários de medicamentos ou demência.

NÚMEROS IMPORTANTES

Dados divulgados pelo IBGE em 2015 apontam que 0,8% da população brasileira têm algum tipo de deficiência intelectual e a maioria (0,5%) já nasceu com tais limitações. Desse total de pessoas com deficiência intelectual, mais da metade (54,8%) possui grau intenso ou muito intenso de limitação e cerca de 30% frequentam algum serviço de reabilitação cm saúde. Outra informação relevante é que os percentuais mais elevados de deficiência foram encontrados em pessoas com o ensino fundamental incompleto ou sem instrução. “Deficiência significa uma condição onde a dificuldade do indivíduo é maior do que sua capacidade de concluir ou resolver situações sociais e acadêmicas e, judicialmente, devem ser realizadas as devidas adaptações. A deficiência intelectual é um dos diversos tipos de deficiências que existem”, explica o neuropediatra. São,aproximadamente, dois milhões de casos por ano no Brasil.

FATORES DE RISCO

As alterações genéticas e cromossômicas aparecem como causa mais comum para a manifestação de uma deficiência intelectual ainda que, em cerca de 40% dos casos seja impossível identificar exatamente por que ela acontece. Algumas motivações são biomédicas, como distúrbios metabólicos, prematuridade, lesões cerebrais, etc. Outras são geradas por dificuldades no pré-natal, durante a gravidez ou por má-formação do feto. “Problemas no período de gestação (quando, por exemplo, a mãe grávida adoece com rubéola), no nascimento (como não receber oxigênio de forma imediata e suficiente ao nascer) e a exposição a certos tipos de doenças ou toxinas (como na meningite) são algumas causas conhecidas”, alerta o neurologista Mart