OUTROS OLHARES

MARIA DA PENHA PARA TRANS DIVIDE TRIBUNAIS

Parte dos juízes nega medidas protetivas para elas sob argumento de sexo biológico

Há mais de oito meses, Luana Emanuele, então com 18 anos, correu pelas ruas de Juquiá (SP)  perseguida pelo pai, que a agrediu em casa quando ela resistiu a uma tentativa de estupro. Na fuga, ela encontrou  policiais militares que contiveram o homem, registraram boletim de ocorrência e a encaminharam a um hospital, onde ela fez exame de corpo de delito. Mesmo com o flagrante e a pele toda marcada, a medida protetiva que tentou contra o pai foi negada porque Luana é uma mulher transsexual.

“Como eu não tinha para onde ir, tive de voltar para São Paulo”, conta Luana. Segundo ela, os PMs disseram que só podiam registrar o crime e a levar para um lugar seguro. “Falaram que (os juízes) não iam aceitar a medida protetiva porque eu era uma mulher trans”. Em maio, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou a medida a ela, por causa deste exato motivo.

Apesar de haver precedentes, não há entendimento unânime na Justiça sobre estender a Lei Maria da Penha, antiviolência doméstica, para mulheres transsexuais. A medida protetiva inclui, por exemplo, afastar o agressor da casa ou do contato físico ou  virtual – com a vítima, sob pena de prisão se reincidir.

O TJ-SP “sustentou impossibilidade jurídica de fazer a equiparação ‘transexual feminino = mulher'”. A decisão foi pela maioria dos desembargadores – só uma votou a favor da medida. Já o Ministério Público paulista (MP-SP) recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) ­ o julgamento de um colegiado de ministros pode render jurisprudência inédita sobre o tema.

O próprio TJ-SP Já havia resolvido, em janeiro, que o caso de uma transexual agredida pelo ex-companheiro seria julgado na Vara de Violência Doméstica. No TJ do Distrito Federal, desde 2018 há decisões que reconhecem não só o sexo biológico, mas o gênero feminino. Por outro lado, em junho, a Justiça de Minas negou medida protetiva a uma transexual de Juiz de Fora agredida pelo padrasto.

Para o promotor Luís Marcelo  Míleo Theodoro, do MP-SP, a interpretação mais certa é a de que a Maria da Penha vale para o gênero feminino independentemente do sexo biológico. “Inclusive, sem necessidade de redesignação sexual”, defende.

Em nota, o TJ-SP diz que não é permitida orientação da administração “sobre o resultado dos julgamentos”, mas declara que juízes têm “independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento “. Se há discordância, afirma a Corte, cabe as partes recorrer. Já a Associação paulista dos Magistrados vê a lei aplicável a toda mulher cis (que se identifica com o gênero atribuído ao nascer) ou trans. Para a entidade, a Maria da Penha tem “inigualável valor civilizatório” e resgata “uma dívida social histórica”.

Para Matheus Falivene, doutor em Direito Penal pela USP, apesar de a Maria da Penha “não fazer referência expressa a sua aplicação a mulheres trans, a jurisprudência entende que ela é possível nos casos de violência praticada no âmbito familiar e doméstico”. Isso porque, afirma ele, “a lei não distingue orientação sexual ou identidade de gênero das vítimas mulheres, de forma que o fato dea ofendida ser transexual feminina não afasta a proteção legal, inclusive com relação a medidas protetivas de urgência”.

MEDO

Ainda não há data para a análise do recurso no STJ . Luana diz se sentir “descrente” no sistema e com medo de ser novamente agredida. Desde que se mudou para São Paulo, a avó com quem morava morreu e ela foi parar em um centro de acolhimento de jovens LGBTI+.

Hoje, vive sozinha em uma quitinete paga com seu trabalho em um hotel , mas conta ainda receber ameaças quase semanais do pai e de um tio que mora na capital , além de temer que descubram seu endereço. “Ele chegou a me encontrar, mas consegui fugir antes. Depois, entrou em contato comigo me xingando, falando que se eu voltasse lá iria me matar”.

PROFESSORA OBTEVE AFASTAMENTO DO EX APÓS AGRESSÃO

Em Goiânia, a professora e mulher trans Rafaella Nogueira, de 24 anos, obteve medida protetiva contra o ex-companheiro em 2019. Relata, porém, um processo “extremamente humilhante”.

O desgaste começou quando os policiais, após seu chamado, assumiram que ela seria a agressora. Após insistência e intervenção  de um amigo da Policia Federal, Rafaella foi levada à Delegacia da Mulher, mas em uma viatura – o ex-companheiro foi no próprio carro. ‘Eu que fui detida”, reclama. A medida protetiva saiu no mesmo dia, acredita, apenas por duas razões: seu nome social estar retificado em todos os documentos e ter sido recebida por uma delegada trans.

Por um ano, foi mensalmente acompanhada por um batalhão da PM que perguntava se o agressor havia tentado contato – pessoal, por telefone ou internet. “Se tem isso garantido, principalmente para mulheres trans em extrema vulnerabilidade, é determinante para não continuar sofrendo a violência”, diz. A Jovem, que levou quatro meses desde a primeira agressão até pedir ajuda, descreve o desafio de vencer barreiras psicológicas.

“A gente (mulheres trans) acredita que não vai encontrar outro parceiro  e que está ganhando uma oportunidade”, afirma.

Keila Simpson, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais ainda vê dificuldade para convencer sobre a ida às delegacias para denunciar abuso. Segundo ela, a maioria das pessoas trans “tem enorme receio porque são espaços povoados de estigmas”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE OUTUBRO

A PUNIÇÃO DOS MAUS SERÁ INEVITÁVEL

Preparados estão os juízos para os escarnecedores e os açoites, para as costas dos insensatos (Provérbios 19.29).

Nem sempre o homem recebe a justa retribuição das suas obras no exato momento em que comete o delito. O ladrão que rouba algumas vezes consegue escapar. O corrupto que lança mão do alheio às vezes consegue se enriquecer. O juiz iníquo que vende sua consciência para dar uma sentença injusta quase sempre sai ileso dessa farsa. Mais cedo ou mais tarde, porém, a verdade virá à tona, e esses escarnecedores não ficarão impunes. Aquilo que fizeram nas caladas da noite será proclamado à plena luz do sol. Aquilo que fizeram nos bastidores, longe dos holofotes, será estampado nas manchetes dos jornais. A punição dos maus será inevitável, pois, ainda que escapem do juízo dos homens, jamais escaparão do juízo divino. Os insensatos constroem o chicote para açoitar suas próprias costas. Eles tropeçam no próprio laço que armaram para os outros e caem na própria cova que abriram para derrubar seu semelhante. Deus é justo e não inocentará o culpado. Todos teremos de comparecer perante o justo tribunal de Deus e, no dia do juízo, os livros serão abertos, e receberemos julgamento segundo as nossas obras. Naquele dia, nossas palavras, obras, omissões e pensamentos passarão pela peneira fina do julgamento divino, e ninguém escapará, exceto aqueles que se arrependeram e buscaram o perdão de seus pecados em Cristo Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES EMPREENDEDORAS TÊM QUALIFICAÇÃO E NÚMEROS SÃO POSITIVOS

As últimas décadas foram marcadas por lutas pela igualdade de gênero. As mulheres conquistaram independência e vêm ocupando espaços que antes, eram exclusivos dos homens. Nesse cenário, o empreendedorismo feminino traz importantes contribuições para a sociedade. Cada vez mais empresárias atuam no mercado. Porém, o mundo dos negócios ainda impõe obstáculos extras a elas. Existem aproximadamente 9,3 milhões de empreendedoras no Brasil, o que corresponde a 34% dos donos de um negócio no país. Os dados são do Sebrae, segundo o qual a quantidade de empresárias consideradas chefes de domicílio chega a 45%, superando o número de mulheres que dependem do dinheiro do cônjuge. Isso significa que elas assumiram o protagonismo em seus lares, pois provém a principal fonte de renda da família.

O empreendedorismo feminino também se caracteriza pela qualificação. As donas de negócio têm escolaridade maior (16%). Além disso, apresentam taxas de inadimplência mais baixas (3,7% para elas contra 4,2% para eles). Empreendedorismo feminino é mais que mulheres abrindo empresas. Trata-se de uma ferramenta de transformação social. Veja dicas para participar dessa transformação:

1. ESTUDE O MERCADO – Um novo negócio surge para satisfazer uma demanda de mercado. Dito de outra forma, você deve entender quais são as necessidades do público, isto é, quais serviços ou produtos estão faltando em sua região. Escolha uma área de seu interesse e invista! Vale dar atenção especial aos setores de tecnologia e inovação, que são mais lucrativos.

2. PLANEJE O SEU NEGÓCIO – Agora é hora de organizar o orçamento. Antes de empreender, você deve prever os custos para adquirir materiais, instalar maquinário, contratar equipe, divulgar os serviços e fazer o que mais for preciso para entrar em operação. Lembre-se de pesquisar sobre impostos e enquadramento tributário.

3. BUSQUE CAPACITAÇÃO – Existem organizações que ajudam pequenas empreendedoras a tirar um projeto do papel. O próprio Sebrae oferece consultorias que dão ótimas dicas para quem está começando. Junto a isso, leia sobre administração, gestão de pessoas, marketing, finanças e vendas. Uma dona de negócio precisa entender um pouco de tudo isso para prosperar.

4. FAÇA NETWORKING – Sabe aquela história de que sozinhas vamos mais rápido, mas juntas vamos mais longe? Essa lógica se aplica perfeitamente ao empreendedorismo feminino. É importante conhecer outras empresárias, em encontros presenciais ou em grupos pela internet, para fortalecer parcerias. Elas poderão se tornar fornecedoras, clientes ou até mesmo sócias. Os sites de redes sociais são uma ferramenta para fazer networking.

5. PROCURE UMA LINHA DE CRÉDITO – Se você não tem muito capital para investir, deve buscar uma linha de crédito compatível com seus ganhos.

FONTE E OUTRAS INFORMAÇÕES: www.cresol.com.br.

EU ACHO …

NEURO REFLEXÕES

Navegando pelo celular para verificar notificações pipocando pela centésima vez num dia comum, me perdi em meio aos aplicativos. Demorei para achar as mensagens que queria responder. Será que só acontece comigo?

Percebi que não uso nem 10% dos aplicativos instalados no meu celular. E a maioria, na  verdade, mal sei para que servem. Tudo bem que boa parte deles já vem instalada. Mas até os muitos que escolhi baixar, usei uma vez ou nunca. Fiz desta reflexão um paralelo entre o uso do celular e do nosso cérebro.

Já sabemos que o cérebro humano é complexo e ainda há muito a ser estudado e descoberto sobre seu funcionamento. Mas diversos neurocientistas já negaram a antiga tese deque só estaríamos usando apenas 10% dele. A princípio, utilizamos 100%. Ou seja, utilizamos mais o cérebro do que fazemos o uso efetivo dos aplicativos do celular, segundo a minha experiência. Menos mal. E, sim, o cérebro dos golfinhos é maior e com mais neurônios do que o nosso. Aliás, para quem gosta de aprender sobre o assunto, o professor Nicolelis tem uma vasta produção.

Em conversa com outra referência no tema, a neurocientista Carla Tieppo, durante as interações que tivemos na Singularity University, aprendi que o cérebro humano adulto tem perto de 90 bilhões de neurônios que realizam quatrilhões de conexões sinápticas. E entre as sinapses dentro da minha cabeça fico pensando: se há tantas combinações de conexões e pensamentos que atravessam cada um de nós todos os dias e ao longo da vida, por que insistimos em reduzir e subestimar a trajetória do outro a partir dos nossos olhares enviesados?

Carla apontou que entre os tópicos mais debatidos pela neurociência está a neuromodulação. Reorganizar a modulação dos neurônios permitiria condicionar o cérebro a aprender coisas mais intencionalmente de modo mais rápido. Será possível fazer o cérebro aprender um novo idioma ou uma linguagem de programação em segundos?

Perguntei. Ela me disse de modo otimista que sim. Será que a neuromodulação usada para esses fins pode nos levar rápido ao fim de práticas discriminatórias?

Assim aplicaríamos o que nos ensinou Paulo Freire, que completaria seu centenário na semana passada Ele nos deixou como legado a luta pela educação e também premissa. Como a de que qualquer discriminação é imoral, e lutar contra ela, um dever. É um dever e um favor que fazemos a nós mesmos. Quem sabe a neuromodulação nos dá uma forcinha?

Afinal, ao discriminarmos alguém, estamos fazendo pressuposições. E ao pressupor algo, estamos limitando as possibilidades de sinapses, trocas e aprendizados que a trajetória daquela pessoa poderia nos agregar.

Tomara que possamos nos livrar de vieses e atitudes preconceituosas. Vieses muitas vezes “instalados” assim como os aplicativos inúteis do celular, que ocupam espaço e travam as possibilidades de criar novas conexões entre neurônios e com os outros. Nossos neurônios agradecerão se liberarmos espaço para potencializar seu melhor uso.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaiguadaderacial.com.br

ESTAR BEM

SUOR EXCESSIVO: UMA VIDA AFETADA PELO CONSTRANGIMENTO

Muitas pessoas não procuram ajuda médica para tratar da hiperidrose por vergonha ou por desconhecerem opções de tratamento, mas existe uma alternativa segura e eficaz para combater o problema

Suar é normal – e importante, porque ajuda a regular a temperatura do organismo. Mas, segundo a Sociedade Internacional de Hiperidrose, para aproximadamente 400 milhões de pessoas no mundo, o suor é motivo de constrangimento. Elas sofrem de hiperidrose, expressão que significa muita (“hiper”) produção e excreção de suor (“hidrose”).

Enquanto que a maior parte das pessoas transpira mais em dias de calor; em situações de nervosismo, como quando é preciso falar em público; ou durante a prática de exercícios físicos, para os portadores de hiperidrose o suor aparece em excesso mesmo sem motivo aparente. A transpiração acima do normal pode acontecerem qualquer área do corpo com glândulas sudoríparas, incluindo mãos, axilas, pés, rosto, couro cabeludo, a região pubiana e a área sob as mamas. Em muitos casos, essa condição pode atingir o corpo todo, simultaneamente.

O problema chega a prejudicar a rotina dos pacientes, que podem até mesmo desenvolver quadros de ansiedade em situações de convívio social. Para evitar constrangimentos, as pessoas com hiperidrose muitas vezes optam por adotar uma vidamais caseira.

Além do suor evidente, a doença pode deixar roupas molhadas e amareladas ou, ainda mais grave, impedir atividades básicas como segurar uma caneta com firmeza ou andar de mãos dadas com alguém, por medo do incômodo provocado pela transpiração nas palmas das mãos. “O fator emocional é muito importante. A pessoa passa a evitar situações que possam disparar o suor excessivo. Muitos têm o problema e não sabem que existe um tratamento simples, seguro e eficaz”, explica o dermatologista Nuno Osório (CRM 56771).

TRATAMENTO SEGURO

A hiperidrose pode ser tratada com uma opção pouco invasiva: a toxina botulínica A. Trata-se de um medicamento mundialmente reconhecido eutilizado para fins terapêuticos e estéticos, aprovado há mais de dez anos no Brasil.

Quando injetada nas axilas, por exemplo, a substância bloqueia a passagem do estímulo que provoca a produção excessiva de suor. A aplicação é realizada dentro do próprio consultório. Em muitos casos, o paciente identifica a eficácia do tratamento, fica menos ansioso com a possibilidade de suar em excesso e passa naturalmente a transpirar menos, mesmo depois que o efeito do tratamento passou”, afirma o dermatologista.

O efeito é percebido nos primeiros dias após a injeção e a redução visível do suor pode chegar a 94% já no primeiro mês. A solução, simples e eficiente, tem a duração média de nove meses a um ano. “É uma medicação bem conhecida e de risco baixo”, ressalta Osório.

A outra alternativa, a opção cirúrgica, é mais invasiva. Ela tem por objetivo barrar a ação dos gânglios simpáticos, responsáveis por estimular as glândulas de suor. Mas nem sempre resolve o problema por completo. “Muitas vezes, o paciente que passou por cirurgia sofre hiperidrose compensatória. Ou seja, deixa de suar em uma parte do corpo, como as axilas, porém passa a suar mais em outra: as costas, por exemplo”, informa o especialista.

Vale lembrar que a avaliação médica é essencial para a correta identificação da doença e introdução do tratamento adequa­ do em cada região. No caso do uso da toxina botulínica A, as aplicações devem sempre ser feitas por um profissional da saúde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FOBIA DA AGULHA: UM TRANSTORNO QUE TEM TRATAMENTO

Vacinação em massa contra a Covid-19 chama a atenção para o medo extremo da aplicação, que chega a impedir quem quer se imunizar de receber o produto; especialistas dão dicas para contornar o problema

Eles confiam na vacina. Eles querem a vacina. Mas milhões de americanos que desmaiam ou ficam nervosos ao ver uma agulha hospitalar estão arriscando contrair a Covid-19 em vez de tomar suas doses.

Ainda que a maioria das mortes por coronavírus ocorram entre os não vacinados – e outros tantos americanos se preparam para receber a dose de reforço -, os fóbicos das agulhas resistem. Eles costumam ser os primeiros a dizer que todo esse pavor não faz sentido, afinal de contas as injeções são rápidas e geralmente pouco dolorosas. Mas as memórias traumáticas superam as incertezas da Covid.

“’Irracional’ é a palavra perfeita para isso”, diz Jocie Konoske, 29, dona de casa de Portland, Oregon nos EUA, que, por causa de um problema dentário de infância, sempre evitou exames de sangue, vacinas de reforço ou contra a gripe e, agora, a vacina contra a Covid. “Se eu conseguisse tomar a vacina acredite em mim, o teria feito assim que possível.

100 MILHÕES SEM VACINA

Mais de oito meses depois que os imunizantes contra a Covid ganharam a aprovação para o uso emergencial, cerca de 100 milhões de americanos elegíveis permanecem não vacinados. Esse contingente costuma citar condições médicas efeitos colaterais, reações alérgicas, fertilidade, ceticismo quanto ao perigo do vírus ou teorias da conspiração.

É impossível dizer quantos deles estão resistentes por causa do medo de agulha. Mas cerca de 66 milhões de americanos podem sofrer com um medo de agulhas tão grave que arriscam atrasar a conquista da imunidade coletiva, de acordo com uma pesquisa publicada em abril pelo National Institutes of Health.

Um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra de junho, descobriu que 10% dos cidadãos do Reino Unido que recusam as injeções de Covid podem ter fobia. Na Índia, outra pesquisa de 2014 concluiu que até 4% da população daquele país sofria do transtorno.

A maior referência dos EUA sobre transtornos mentais reconhece a fobia de agulhas como uma condição que interfere na vida diária. Mesmo sedativos orais, como Valium, Ativan e Xanax, podem não conseguir reprimir o terror da injeção, diz Rick Novak, um anestesiologista de Palo Alto, na Califórnia.

Muitos pacientes afirmam que as vacinas na infância causaram dor ou citam uma experiência ruim. Alguns têm uma predisposição hereditária à síncope vasovagal, uma queda na frequência cardíaca e na pressão arterial provocada pela ansiedade, o que leva ao desmaio.

“Eu literalmente luto contra. Sou uma mulher de 1,62 m, mas você não faz ideia do quão forte eu fico”, disse Eylem Alper, 46 anos, gerente de projeto de Boston, que nunca sentiu nenhum tipo de agulha desde a infância, quando sua resistência era driblada por meia dúzia de adultos:  “Claro que não quero ficar doente, mas as fobias não têm qualquer tipo de lógica”.

Alper disse que tomaria a imunização contra a Covid-19 por meio de spray nasal, o qual os imunologistas suspeitam que até poderia oferecer uma proteção melhor do que as injeções, por ser introduzido por meio de membranas mucosas, assim como faz o vírus. Mas esse spray ainda está sendo desenvolvido.

A imunização infantil tem o poder de salvar vidas, evitando até 3 milhões de mortes por ano em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Nos EUA, aqueles que sofreram casos raros de reações adversas após a vacinação podem recorrer ao National Vaccine Injury Compensation Program.

Mas o potencial de reação não é a questão central para aqueles com medo de injeção, chamada de fobia de lesão por agulha de sangue no “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, uma referência nos EUA. Ele define a ansiedade como “desproporcional ao perigo real” e causadora de “sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo” na vida cotidiana. Às vezes, a ansiedade vai além das agulhas.

“Isso estabelece um ciclo em que qualquer coisa médica é assustadora, e eles passam a evitar médicos como um todo”, disse Robert Chernoff, psicólogo do Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles: “Seu cérebro diz: Perigo! E aí você sente isso não apenas emocionalmente, mas fisicamente”.

DISCURSO HONESTO NA TV

Alguns que finalmente deixaram de lado seu medo disseram ter sido inspirados por Rachel Maddow, apresentadora do canal de TV americano MSNBC que, durante uma transmissão em abril, falou sobre como ela mesma havia feito isso:

“É normal sentir-se relutante, ansioso ou assustado, e não querer tomar a vacina. Não há motivo para se envergonhar. Mas sinta o medo, e vá em frente mesmo assim. Só vá. Porque, acima de tudo, (vacinar-se)não é só por você. É para evitar que você pegue o vírus e depois o transmita”.

Ao mesmo tempo, cerca de 35% dos americanos não vacinados dizem que provavelmente não vão tomar as vacinas, e 45% definitivamente não vão, de acordo com uma pesquisa de julho conduzida pela Associated Press e o NORC Center for Public Affairs Research.

Hilary White, 73, professora da linguagem dos sinais de Corvallis, no Oregon, ficou traumatizada por vacinações infantis repetidas e desnecessárias – uma reação de sua mãe ao perder seus próprios irmãos devido a doenças infecciosas.

Enquanto a Covid-19 varria o país, White agendou sua vacinação em um posto sem aglomeração e pediu para um amigo apoiá-la. O plano funcionou para ambas as doses de Moderna, mas as notícias sobre a recomendação de uma dose de reforço está minando sua disposição para uma terceira injeção.

“Na TV, eles usam palavras como “espetar a agulha”, e isso realmente me deixa angustiada”, diz White, que confessa: “Daí eu vejo alguém tomando uma injeção, e todo o meu corpo fica fraco”.

Novak, o anestesiologista, disse por e-mail que, para aqueles que dão injeções em fóbicos, “a alternativa mais provável de sucesso é ser honesto e gentil, ou seja, explicar que a injeção durará apenas um segundo e que nada adverso acontecerá”.

“Distração é útil, seja por um ente querido, fazendo contato visual e segurando sua mão ou uma tela de vídeo ou videogame passando no momento”, sugere Novak.

TENSÃO APLICADA

A longo prazo, os terapeutas ensinam a técnica da tensão aplicada, uma série de exercícios musculares de aumento da pressão arterial de 15 segundos que evitam desmaios, de acordo com Katherine Dahlsgaard, psicóloga da Filadélfia.

“Estou treinando: “Tenso, tenso, tenso! Aperte, aperte, aperte! Agora, volte para o ponto morto!”, diz Dablsgaard, antes de completar: “O que quero dizer às pessoas que temem a vacina da Covid é: você pode tentar fazer isso sozinho.

Aqueles que reuniram essa coragem dizem que a vacinação contra Covid foi um dos seus momentos de maior orgulho.

Para Desiree Shannon, 60, advogada aposentada de Columbus, Ohio, a ansiedade começou meio século atrás, com uma vacina contra a gripe que a deixou, segundo ela, “incapaz de ficar sentada por uma semana”. Ainda assim, ela se cadastrou para tomar uma injeção contra a Covid em uma clínica de atendimento de urgência, mas acabou indo embora sem a vacina.

Na tentativa seguinte, uma amiga veio confortá-la e, após uma hora de negociações com uma enfermeira, ela disse que concordou com a sugestão de uma picada surpresa.

“Eles me pegaram pela tangente, se aproximaram de mim e deram a vacina”, lembra Shannon: “O que posso dizer é que senti uma sensação de queimação no meu braço. Na segunda vez, fui sozinha. Eu ainda estava com medo”.

Mas ela tomou a vacina com medo mesmo.

OUTROS OLHARES

ESTÉTICA FAKE

Dicas de beleza caseiras viralizam nas redes e preocupam médicos

Insatisfeita com o desenho do seu nariz? Tome um remédio para acne. A solução apresentada, por mais desprovida de sentido que possa parecer, tem sido seguida por milhares de meninas no mundo todo. Só no Brasil, para se ter uma ideia, as buscas na última semana por esse tipo de associação com o nome comercial do medicamento mais conhecido para o problema de pele aumentou 900%. A frase buscada: “Roacutan afina o nariz”.

No Tik Tok, o assunto ganhou destaque recentemente, principalmente sob as hashtags #roacutancheck e # roacutanchallenge, que já somam mais de 29 milhões de visualizações. Nos relatos, os jovens compartilham imagens do antes e depois para corroborar a hipotética ação do medicamento, alegando que observaram um afinamento do nariz após o tratamento.

Tamanho alarde chamou a atenção da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), que emitiu uma nota esclarecendo que não há qualquer comprovação da eficiência dessa prática.

A(falsa) lógica é a seguinte. As medicações para combater a acne como o Roacutan contêm uma substância chamada isotretinoína. Ela age diminuindo as glândulas sebáceas do rosto, o que geraria um afinamento de toda a pele da face, inclusive do nariz. O mecanismo pode dar a impressão de que o nariz está menor.

No entanto, este tipo de remédio possuí uma série de efeitos colaterais graves como complicações hepáticas e mal formação fetal e risco de abortamento caso seja usado por grávidas. Por isso, seu consumo deve ser realizado apenas quando indicado por um dermatologista para o tratamento de acne severa.

“Há vários problemas que podem surgir com isso. Primeiro, há perigo dos feitos colaterais, que podem ser graves. O segundo seria as pessoas notarem um efeito contrário ao esperado, o que pode afetar também aqueles que efetivamente precisam da medicação. O remédio é ótimo para aquilo que se propõe – alerta o dermatologista Beni Moreinas Grinblat, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

A SBD também reiterou que o consumo indiscriminado da isotretinoína pode causar reações adversas severas e que jamais deve ser feito sem acompanhamento médico. Entre eles, problemas hepáticos, aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos e risco de 30% de mal formações congênitas em fetos. É por isso que, antes de iniciar o tratamento, é necessário assinar um termo de consentimento sobre os riscos associados a uma eventual gravidez.

“A isotretinoína não é uma medicação de uso leviano. Quando usado para acne, o paciente tem a sensação de pele mais fina com menos poros. Tem ganhos estéticos, mas o uso meramente estético não é recomendado de forma alguma”, afirma Maria Claudia Tirico, dermatologista especializada em laser e estética pela Scripps Clinic, em San Diego, nos Estados Unidos.

A lista de orientações de beleza bizarras nas redes sociais não para por aí. Entre as mais populares está a técnica chamada dermaplaning, que consiste na raspagem da penugem de todo rosto feminino com o uso de uma lâmina para deixar a pele mais brilhante. As influencers a divulgam como sendo supostamente parte do ritual de beleza de Marilyn Monroe.

“Quando usamos uma lâmina pode haver cortes, infecções e alergias”, alerta Ademar Schultz, dermatologista da Santa Casa de Misericórdia de Vitória.

ALCANCE AMPLIADO

Não é de hoje que existe a propagação de fórmulas caseiras mágicas para a pele. Mas o que a rede social faz é disseminar isso de uma maneira muito mais rápida e com um alcance muito maior. O cenário se torna ainda mais preocupante desde a chegada da plataforma Tik Tok. São cerca de 1,1 bilhão de usuários, a maioria deles na faixados 10 e 19 anos.

“Sempre existe um ar de autoridade no que se diz nas redes, e isso é o que mais preocupa”, diz Grinblat.

Há menos de um mês o Tik Tok foi acusado de disseminar desinformação sobre a Covid-19 e as vacinas. O alerta foi da ONG Media Matters. Os vídeos circularam pela recomendações da página “Para Você”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE OUTUBRO

TESTEMUNHA CORRUPTA

A testemunha de Belial escarnece da justiça, e a boca dos perversos devora a iniquidade (Provérbios 19.28).

A testemunha corrupta interfere diretamente nas decisões de um tribunal. Inverte os fatos para inocentar os culpados e culpar os inocentes. A testemunha corrupta zomba da justiça, escarnece da verdade, tripudia sobre o direito e massacra os inocentes. É um agente do mal e um instrumento a serviço da violência. No julgamento de Jesus, o Sinédrio judaico contratou testemunhas falsas com o propósito de condená-lo. Fato semelhante aconteceu quando Estêvão, o primeiro mártir do cristianismo, foi apedrejado. Na história da humanidade esses fatos se repetiram tantas vezes, causando muito sofrimento entre os fracos e derramando muito sangue inocente. Se a testemunha corrupta perverte a justiça, a boca dos perversos tem fome de fazer o mal. A língua dos ímpios é carregada de veneno, é peçonha mortífera. Os homens sem caráter sentem um prazer mórbido em destruir a reputação do próximo. Banqueteiam-se com a desgraça alheia. Como abutres, abastecem- se da miséria dos outros. Tanto a testemunha falsa que abre sua boca para escarnecer da justiça quanto o perverso que abre sua boca para arruinar o próximo, ambos são abomináveis aos olhos do Senhor. Tanto um quanto o outro receberão a justa retribuição de Deus e o desprezo dos homens.

GESTÃO E CARREIRA

CULTURA DO ELOGIO AUMENTA SATISFAÇÃO E PRODUTIVIDADE DE FUNCIONÁRIOS

Quem não gosta de receber um elogio por um trabalho bem feito? Ou ser reconhecido em um projeto, mesmo que tenha contribuído apenas com alguns detalhes?

Especialistas na área de recursos humanos e psicólogos são unânimes em destacar que o elogio deixa as pessoas ainda mais motivadas e engajadas em projetos, seja na vida pessoal ou mesmo no trabalho. É com esse pensamento de promover uma cultura de feedbacks positivos que muitas grandes empresas estão trabalhando para motivar os seus colaboradores.

Afinal, a satisfação deles está diretamente ligada à sua produtividade. Mas existe alguma maneira para aumentar o engajamento de todos? Essa é uma pergunta que muitos líderes fazem todos os dias. É claro que não existe uma fórmula mágica para chegar ao nível máximo de engajamento, mas muitas companhias estão apostando em sistemas de reconhecimento e recompensas para estimular os seus colaboradores. A ideia é incentivar os funcionários a reconhecer e exaltar as ações feitas ou as ajudas dadas pelos seus colegas de trabalho em alguma atividade.

“O elogio é algo muito significativo para a maturidade de um profissional. As emoções estão diretamente relacionadas e isso implica em uma boa saúde mental. Um funcionário quando está bem, rende mais e, quando ganha um elogio, tende a aumentar ainda mais a sua produtividade”, explica a coordenadora do curso de Psicologia da Uninassau – Centro Universitário Maurício de Nassau Paulista, Márcia Karine.

“A cultura do elogio gera uma reciprocidade. No momento em que o funcionário recebe um elogio, ele sente-se valorizado e isso o impulsiona a buscar estar sempre em um local de destaque. Desta forma, ele tende a fazer mais e até melhor pois saberá que está sendo visto”, complementa Márcia. “Podemos fazer um paralelo com as redes sociais. Quando um amigo nosso publica algo que gostamos, vamos lá e damos ‘like’. Quando isso acontece, a pessoa que recebe a curtida se sente valorizada.

Quando levamos isso para o mundo corporativo, podemos fazer com que os colaboradores se sintam mais valorizados pelos serviços que prestam, seja por algo simples ou por encontrar uma solução para um problema mais complexo”, explica Magda Moura, gestora de recursos humanos da Pitang Agile IT. Na busca por enraizar ainda mais essa cultura de elogios entre os seus colaboradores, a Pitang Agile IT, uma das maiores empresas de desenvolvimento de softwares e soluções tecnológicas do país, desenvolveu um sistema próprio para incentivar o reconhecimento e destacar os colaboradores que mais contribuem com os seus colegas de equipe.

Batizado de Merit Coin, “o programa começou como um sistema de reconhecimento e recompensa para os colaboradores da empresa”, conta a Product Owner do sistema, Erica Lima. “A ideia era estimular o engajamento e fazer com que a cultura do feedback se tornasse constante”, complementa. Todo o modelo funciona por meio de uma plataforma online, na qual todos têm acesso. Mensalmente, todos recebem o valor de mil moedas, que são personalizadas com o nome escolhido pela companhia.

E esse “dinheiro” é utilizado pelos colaboradores para “reconhecer” colegas que os ajudam a desempenhar determinadas tarefas ou que impactaram de alguma forma no dia a dia do outro. Dentro da empresa, o modelo de reconhecimento acabou motivando ainda mais os colaboradores. O resultado fez com que o alcance do projeto fosse ampliado. Hoje, ele passa a ser desenvolvido também em outras companhias que buscam formas de incentivar o feedback entre os seus colaboradores.

“A ideia principal é ter seus colaboradores sendo reconhecidos, mantendo-os sempre engajados dentro da empresa, resultando em um crescimento na produtividade e evolução deles. Dessa forma, seja neste modelo de reconhecimento e premiação ou mesmo em formas mais tradicionais, como o feedback mensal, a meta é fazer com que todos saibam onde estão acertando e o que precisam melhorar em relação ao seu trabalho dentro da organização”, finaliza Erica.

Fonte e mais informações: www.sereducacional.com.

EU ACHO …

DIANTE DE SCHOPENHAUER

Como não perceber que a expectativa utópica é uma forma infantil de pensar?

A forma com a qual muitas pessoas buscam utopias como resposta para a vida me espanta. Como não perceber que a expectativa utópica é uma forma infantil de olhar para a realidade?

No plano pessoal, em alguma medida, ainda será possível planejar um sucesso na vida, uma “lenda pessoal” como diz a autoajuda. Mas, no plano histórico, a utopia é uma versão recente das expectativas milenaristas: o mundo vai acabar no reino da felicidade.

Isso não significa que não haja nada a fazer, sempre há, e, aliás, é o que temos feito desde a pré-história: enfrentar os elementos naturais, sociais e psicológicos que põem nossa vida em risco.

Aliás, o modo enxame de agir da humanidade, aquele que qualquer um pode enxergar quando olha para as redes  sociais e percebe como elas, de modo constante, destroem o mundo com a falsa promessa de que as pessoas sabem o que estão fazendo quando agem, é já um dado sociológico irrefutável.

A imensa maioria não tem nenhuma noção das consequências  de seus atos e não vão muito além do modo abelha de refletir e agir sobre mundo.

Proponho hoje a leitura da obra do escritor contemporâneo francês Michel Houellebecq como terapia filosófica. Muitos o conhecem pelo “submissão”, publicado no Brasil pela editora Alfaguara. Há outros títulos dele traduzidos no Brasil. O autor francês nunca foi aceito pela aristocracia editorial brasileira. Ele é considerado um niilista. Se você nunca o leu, comece por “Partículas Elementares”, da editora Sulina.

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck o considera um dos melhores intelectuais na descrição da sociedade pós-capitalista liberal democrática em que vivemos hoje.

Em obras como “Submissão” (2015) e “Partículas Elementares” (1998,) entre outras, Houellebecq descreve um mundo devastado pelo déficit de instituições confiáveis, pela banalidade da vida afetiva em retração pelo consumo automático sem gozo, pelos conflitos étnicos Intermináveis sem nenhuma expectativa de solução no horizonte, tudo isso na Europa.

Mas, hoje, quero falar para você de outra obra dele, esta, infelizmente, ainda sem tradução no Brasil, creio eu. Em Présence de Schopenhauer , editora L’Herne, 2017. Este pequeno ensaio trata de sua descoberta da obra de Schopenhauer (1788-1860) e como o filósofo alemão, para Houellebecq, seria leitura obrigatória para quem queira pensar o mundo.

Porquê?

Para o autor francês, o alemão Schopenhauer teria captado a intuição essencial do “mistério” da vida: uma vontade louca, cega, irascível, sem descanso e sem objeto  definitivo, em movimento criativo e destrutivo infinito. O filósofo Schopenhauer oferece ao escritor Houellebecq a ontologia que combina com suas descrições sociológicas e psicológicas.

É a inexistência de qualquer finalidade maior na vida das espécies que encanta o escritor. Por exemplo, na passagem em que Schopenhauer no seu “Mundo como vontade e Representação”, de 1819, descreve a ilha de Java e a descoberta de esqueletos de tartarugas ali é inesquecível. As tartarugas saem da água para desovar e são cruelmente devoradas por cães selvagens que as viram de costas, sem a proteção de seus cascos, e as comem vivas. Houellebecq recomenda fatos como estes aos ecologista que tomam a natureza como um ser sábio e generoso.

O ensaio segue comentando trechos da obra máxima do filósofo, com tradução do próprio Houellebecq. Outro trecho significativo é quando ele reconhece que 1num cenário terrível como este, Schopenhauer tem ousadia intelectual ao dizer mesmo noutras obras o que é indizível: precisamos de piedade, amor, sabedoria felicidade, todas experiências improváveis.

O impacto é ver como hoje em dia se fala dessas experiências com fórmulas falsas e esquemáticas, quando na verdade, tais experiências são quase incompreensíveis para seres dominados pela vontade cega, entediada e irascível.

Nossa vida é tomada pelos conflitos das paixões e dos desejos que não encontram harmonia. Vejamos, mais do que nunca, para ambos os autores, entre o sofrimento e o tédio. Fugimos de um, caímos no outro.

*** LUÍZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

CUIDADOS DERMATOLÓGICOS PARA HOMENS

A pele masculina é cerca de 25% mais espessa que a feminina. A densidade de colágeno também é maior que a nossa, e a textura da pele é muito mais áspera

Durante muito tempo, houve certo tabu e preconceito a respeito de homens buscarem cuidados dermatológicos, tanto em questões de saúde quanto estéticas. Hoje, felizmente, o cenário é diferente: o homem percebeu que uma boa aparência ajuda a ter sucesso pessoal e profissional e vemos um número cada vez maior de pacientes do sexo masculino nos consultórios de dermatologia. Segundo a Euromonitor, empresa global de pesquisas e tendências, o mercado de beleza masculino, que inclui cosméticos, fragrâncias e até maquiagem, vale, hoje, US$ 60 bilhões. Outro dado relevante: segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, nos últimos anos, houve um aumento de 400% dos procedimentos realizados em homens.

Existem peculiaridades da beleza masculina que exigem cuidados específicos. Primeiro, a pele masculina é cerca de 25% mais espessa que a feminina. A densidade de colágeno também é maior que a nossa, e a textura da pele muito mais áspera. Outra característica marcante diz respeito à produção de sebo e suor, resultado das altas concentrações de testosterona. Sendo assim, o homem possui glândulas sebáceas em maior quantidade e, por isso, sua pele costuma ser mais oleosa, com poros dilatados e tendência a acne e cravos. Daí a necessidade do uso de produtos específicos, como hidratantes, protetores e rejuvenescedores.

Os hormônios masculinos provocam mudanças no couro cabeludo, deixando-os mais propensos à calvície. Não à toa, os tratamentos capilares estão entre os mais procurados. Entre os principais procedimentos estão os lasers fracionados que fazem a bioestimulação, aumentando a densidade capilar e o surgimento de fios novos; o MMP, micro infusão de medicamentos na pele, na qual um aparelho composto por micro agulhas injeta um pool de vitaminas direto no couro cabeludo; e o micro agulhamento robótico com drug delivery de medicamentos que irão agir no bulbo capilar. E, recentemente, para aqueles que têm medo de agulha, surgiu uma nova tecnologia que, por alta pressão, introduz os medicamentos no couro cabeludo, sem uso de agulhas.

O rejuvenescimento facial é outra preocupação masculina. No geral, os homens são fãs dos tratamentos menos invasivos e com resultados mais naturais, capazes de melhorar a aparência, sem grandes modificações. Nesse sentido, o uso da tecnologia correta e feita pelo seu dermatologista especialista é a melhor opção. Lasers, ultrassom micro e macro focado e radiofrequência não ablativa são opções de tratamentos não invasivos que o homem pode realizar – e voltar para suas atividades normais no mesmo dia. A combinação do ultrassom micro e macro focado, por exemplo, promove a melhora da flacidez e do contorno além de diminuir a gordura na papada, desejo por um corpo mais saudável e definido também tem despertado o interesse dos homens. Para essa finalidade, a grande aposta do mercado é um aparelho de campo eletromagnético pesquisado e endossado pelos melhores dermatologistas dos EUA, com mais de 500 mil tratamentos realizados. A nova tecnologia melhora o tônus muscular com hiperplasia e hipertrofia do músculo tratado, assim como a funcionalidade osteo articular da região, por meio de contrações musculares supra máximas realizadas em 30 minutos de procedimento.

Não faltam opções para aqueles que desejam cuidar da pele. Procure sempre o dermatologista especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia – somente ele tem a formação necessária para cuidar da beleza e da saúde da sua pele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM A CADA 7 ALUNOS DIZ JÁ TER SOFRIDO ABUSO SEXUAL

IBGE ouviu quase 188 mil estudantes em mais de 1.280 cidades; e 15% afirmaram já terem sido tocados contra a vontade

Um em cada sete adolescentes brasileiros em idade escolar já sofreu algum tipo de abuso sexual ao longo da vida, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019. Realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a sondagem apontou   também que quase 9% das meninas já foram obrigadas a manter relações sexuais contra a vontade.

Dois terço dos escolares informaram já ter ingerido algum tipo de bebida alcoólica. Desse total, um em cada três o fez antes dos 14 anos.

Na coleta dos dados, o IBGE entrevistou quase 188 mil estudantes. Eles responderam às questões em 4.361 escolas de 1.288 municípios. O País tinha, em 2019, 11,8 milhões de estudantes de 13 a 17 anos. Dentre os temas abordados sobre saúde e comportamento,   chamam a atenção casos envolvendo algum tipo de abuso sexual. Dos entrevistados, 14.6% responderam que já foram tocados, manipulados, beijados ou passaram por situações de exposição de partes do corpo alguma vez contra a vontade. Entre as meninas, o porcentual chegou a 20,1%; os meninos chegaram a 9%.

Alguns dos alunos relataram que, além dessas agressões, foram obrigados a manter relação sexual – esses equivalem a 6,3% dos entrevistados. Também nesse caso, as meninas foram mais atacadas (8,8% delas foram vítimas dessas relações forçadas, ante 3,6% dos garotos).

Levantamento da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, divulgado em 2020, mostrou que 73% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorrem na casa da própria vítima ou na do suspeito. A agressão é cometida por pai ou padrasto em 40% das denúncias, conforme o balanço do Disque 100, canal de denúncia do governo federal.

Especialistas têm apontado que a pandemia pode ter prejudicado a identificação e denúncia desses casos, uma vez que crianças e adolescentes ficaram longe da escola, da comunidade e de redes de proteção. O Brasil foi um dos países em que crianças e adolescentes ficaram mais tempo afastados da sala de aula.

A redução do contato social tornam mais difíceis a denúncia e o combate a esses abusos, que podem ser enquadrados desde importunação sexual e estupro de vulnerável, com penas previstas no Código Penal. “A pesquisa traz alguns alertas que, infelizmente, podem ter se agudizado na pandemia”, diz Marco Andreazzi, gerente do estudo.

“A importância da pesquisa é principalmente no sentido de olhar pra freme. O melhor uso dela é identificar pontos de fragilidade e intervir para melhorar isso”, acrescenta Andreazzi.

DROGAS E BULLYING

Ao todo, 63,3% dos estudantes de 13 a 17 anos informaram ter ingerido pelo menos uma dose de bebida alcoólica. A pesquisa também apontou que 47% afirmaram ter passado por algum episódio de embriaguez. O uso de drogas ilícitas foi relatado por 13% dos entrevistados. Mais de um quinto deles (22,6%) afirmaram já ter fumado ao menos um cigarro. Nos dois casos, a prevalência foi maior nas escolas públicas. Em 2019, um em cada cinco estudantes (21,4%) de 13 a 17 anos disse ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa. No mesmo período, quase um quarto (23%) disse ter sofrido bullying de colegas. Em 2018, foi sancionada uma lei de combate ao bullying nas escolas. O texto ampliou as obrigações das escolas em promover medidas de proteção.

Entre os que responderam à pesquisa do IBGE, 35,4% declararam já ter tido sua iniciação sexual. Apenas 63,3% deles usaram preservativos na primeira relação. E 40,9 não utilizaram na última relação. Ainda de acordo com a pesquisa, 11,6% dos estudantes de 13 a 17 anos deixaram de ir à escola por não se sentirem seguros no trajeto de ida ou volta para casa.

OUTROS OLHARES

46 MILHÕES VIVEM EM LARES SEM RENDA DO TRABALHO, AFIRMA IPEA

Proporção de residências que dependem de aposentadorias e auxílios sobe de 23,5%, no 4° trimestre de 2019, para 28,5%, no 2° trimestre de 2021

A pandemia aumentou o percentual de lares sem renda do trabalho no Brasil, e a recuperação do quadro ainda não se completou. É o que indica o estudo divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

No segundo trimestre de 2021, a fatia de domicílios sem renda do trabalho foi de 28,5% – quase três em cada dez.

Na prática, isso significa que 46 milhões de pessoas sobreviviam em lares sem dinheiro obtido por meio de atividades profissionais, estima o pesquisador do Ipea, Sandro Sacchet, autor do estudo.

O “sustento” nesses casos vem de aposentadorias, pensões e programas sociais.

No quarto trimestre de 2019, a proporção era de 23,54%, ou 36,5 milhões de pessoas. Na crise o total somou mais 9,5 milhões de brasileiros.

A proporção de famílias sem renda do trabalho alcançou , no segundo trimestre, de 2020, os 31,56%. O percentual perdeu fôlego, mas segue alto.

“As contratações devem aumentar com a movimentação deste final de ano. A questão é ver em qual patamar o percentual se estabilizar depois ou não”, indica Sacchet.

O estudo foi produzido a partir de dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Ipea conclui que houve no mercado de trabalho “forte impacto inicial da pandemia e lenta recuperação, ainda incompleta”.

Segundo o estudo, o rendimento habitual médio dos trabalhadores ocupados , em termos reais, teve queda de 6,6% no segundo trimestre de 2021, ante igual período de 2020.

Mas o movimento é “apenas o inverso” do visto no início da pandemia, “quando os rendimentos habituais apresentavam um crescimento acelerado”.

Isso porque, no começo da crise sanitária, a perda de ocupações se concentrou em vagas com remuneração menor, em setores como construção, comércio e alojamento e alimentação, além de afetar os empregados sem carteira assinada e principalmente, os trabalhadores por conta própria.

Os profissionais que permaneceram ocupados à época foram os de renda relativamente mais alta, segundo o levantamento. A situação acabou levando para cima os ganhos médios com o trabalho.

O cenário agora traz diferenças. Com a volta de informais e trabalhadores por conta própria ao mercado, o rendimento médio cai.

Já a renda efetiva que de fasto foi ao bolso do trabalhador, subiu 0,9% no segundo trimestre de 2021, na comparação com o mesmo intervalo do ano passado, o pior momento da crise no mercado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE OUTUBRO

O APRENDIZADO É UM EXERCÍCIO CONTÍNUO

Filho meu, se deixas de ouvir a instrução, desviar-te-ás das palavras do conhecimento (Provérbios 19.27).

Na escola da vida ninguém se diploma. Somos eternos aprendizes. A cada estágio que avançamos e quanto mais aprendemos, mais temos coisas a aprender. O sábio é aquele que nada sabe. O que sabemos é infinitamente menor do que o que não sabemos. Quanto mais aprendemos, mais temos consciência de que estamos apenas arranhando a superfície do conhecimento. Só um tolo faz propaganda de seu conhecimento. Só um insensato proclama sua própria sabedoria. Só lata vazia faz barulho. Só restolho chocho fica empinado orgulhosamente. Só os ignorantes pensam que não têm mais nada a aprender. Nossos ouvidos precisam continuar atentos à instrução. Todo tempo é tempo de aprendizado. Aqueles que deixam de ouvir a instrução se desviarão das palavras do conhecimento. Se você parar de aprender, esquecerá até o que sabe. Quem cessa de aprender cessa de ensinar. Quem se ausenta da escola do aprendizado entra na fila da ignorância. O aprendizado é um exercício contínuo, um privilégio constante, uma aventura diária, uma semeadura diuturna e uma colheita ao longo da vida. Se fizermos uma semeadura abundante no aprendizado, teremos uma colheita bendita, cujos frutos nos deleitarão e nos fortalecerão para a jornada da vida.

GESTÃO E CARREIRA

COMO AS MARCAS ESTÃO SE PREPARANDO PARA A BLACK FRIDAY

Por conta da pandemia, o padrão de comportamento dos consumidores mudou, acelerando a transformação digital e reforçando as vendas online

Acompanhando esse movimento, grande parte das empresas migrou para o e-commerce, o que foi difundido na Black Friday de 2020. De acordo com o levantamento da Ebit/ Nielsen, a edição registrou o maior volume de vendas já visto no país, somando 6 bilhões de reais no período de 26 e 30 de novembro.

Com o objetivo de manter o bom resultado, as marcas brasileiras já estão se preparando para a Black Friday de 2021, buscando corrigir as falhas do ano passado e investindo nos métodos de sucesso. As empresas entenderam que, além de um site seguro e preços acessíveis, um bom atendimento em todos os processos do cliente faz uma grande diferença no momento de fidelização.

Para isso, estão investindo pesado em tornar a experiência do consumidor positiva por meio de um atendimento completo, fornecendo fácil acesso a todos os canais ao entrar em contato com a loja para dúvidas, reclamações ou trocas. Para Anna Moreira Bianchi, CEO da NeoAssist, as marcas estão levando em consideração toda a experiência do cliente e depois da compra. “A expectativa é que a Black Friday deste ano siga as mesmas tendências de 2020, tendo o e-commerce como principal método para compras. Por isso, as empresas estão ajustando os pontos que ficaram a desejar na edição passada com o objetivo de fidelizar seus clientes, capacitando com cuidado toda a equipe, se preparando para os picos de vendas e oferecendo um atendimento eficiente durante todo o período, de olho também no pós, que acumulam chamados para solicitação de trocas, reclamações e acompanhamento dos pedidos”, afirma.

A fim de manter os colaboradores preparados para lidar com todas as demandas da data, uma série de treinamentos capacitores já estão sendo iniciados, tanto do time oficial quanto dos adicionais que devem ser contratados especial- mente para o evento. Após o treinamento, a equipe de atendimento e apoio ao cliente deve estar atenta e à disposição em todos os canais disponibilizados pela empresa, sendo capaz de responder a qualquer problema ou dúvida.

Além disso, a importância em conhecer o comportamento dos clientes sempre foi fundamental, porém, agora, as marcas estão atentas a dois tipos: os novos e os que a pandemia trouxe para o ambiente online. Entender quem são esses consumidores e quais os seus hábitos digitais é primordial para conquistá-los. Os varejistas também estão estudando investir cada vez mais no esquenta Black Friday, com ações promocionais distribuídas por todo o mês de novembro.

Sabendo que as pessoas já pesquisam preços e benefícios antes da compra, organizações já procuram divulgar seus produtos e serviços antes, muitas das vezes com descontos especiais. Quanto mais perto da data, mais a quantidade de compradores aumenta e é importante que a infraestrutura do site ou aplicativo esteja em perfeito funcionamento, pois caso não esteja pronto para lidar com um número alto de usuários, eles não perderão tempo e procurarão a concorrência.

“A Black Friday ainda pode ser uma ótima oportunidade para aumentar a base de clientes e fazer a empresa crescer, pois muitos consumidores enxergam na data uma ótima chance para as compras”, finaliza Bianchi.

EU ACHO …

RETORNAR ÀS VIAGENS A TRABALHO É REVIGORANTE, MAS TAMBÉM ASSUSTADOR

Vacinação alivia medo do vírus e voltar a estar entre pessoas diferentes é alentador; informações ainda são confusas e deixam incertezas

Não tem tanto tempo assim, mas já parece uma outra vida. Uma viagem de trabalho consistia em um determinado número de roupas adaptáveis às ocasiões e caprichos da temperatura, um documento de identidade ou um passaporte, e uma programação de encontros, cafés, reuniões ou eventos, parte deles marcados por apertos de mão, abraços, táxis compartilhados e jantares.

Quase dois anos depois da interrupção de praticamente todo evento social do mundo corporativo, me vi nesta semana embarcando para uma longa viagem que resultaria em uma sequência de encontros sem apertos de mão ou abraços e cercados por frases enunciadas um tom acima do habitual. As máscaras protegem, mas também abafam o som das palavras e nos tiram o poder da leitura labial.

Somado ao que me parece terem sido os efeitos do jetlag – certa indisposição causada pela mudança brusca de fuso horário -, meus dias de compromissos de trabalho foram um tanto confusos e cansativos.

E certamente só não foram mais exaustivos pela inegável satisfação de acompanhar uma série de discussões de maneira presencial. Encontrar fontes, colegas de profissão, pessoas.

Repetir uma frase que se perdeu na barreira da máscara jamais será tão cansativo quanto refazer raciocínios interrompidos por conexões de internet instáveis.

Ao mesmo tempo, me apresentei pela segunda vez a um colega que, sem máscara, fumava um cigarro em uma área externa. Sem a proteção, não o reconheci.

Uma repórter portuguesa com quem conversava se afastou para buscar uma bebida e, ao voltar, já tomando a água, custei a perceber que era minha interlocutora. Por pouco não cometi a indelicadeza de me retirar.

Se a vacinação, por um lado nos permite paulatinamente retornar esses deslocamentos e encontros, a pandemia, de outro, tomou a preparação muito mais complicada e mesmo cansativa.

Para mim, o desgaste começou com a decisão de aceitar o convite. Não tem muito tempo, passei quatro horas em um evento de trabalho sem ter coragem de tirar a máscara de proteção para almoçar. Aceitar o convite foi um cálculo pensado. O embarque seria quase um mês após a segunda dose da vacina contra a Covid-19. O destino, a França, já tem 80% de sua população vacinada e só recebe visitantes vacinados ou testados.

O evento para o qual fui convidada tinha premissa similar e ainda recomendava que os participantes evitassem contato físico e só tirassem as máscaras para comer, beber ou fumar.

A nova dinâmica dos eventos corporativos me faz sentir que estamos percorrendo um caminho ainda em construção. Enquanto ando por ele, algumas partes caem, outras são reconstruídas rapidamente.

Seria injusto dizer que as recomendações eram ignoradas. Ao mesmo tempo, continuo me perguntando o quão seguro é o tira e põe de máscaras durante os coquetéis e restaurantes.

Encarar uma sequência de aeroportos e voos foi um relevante passo, um voto de confiança possível somente pela drástica redução do risco fornecida por duas doses de vacina.

É justo dizer que a rotina que envolve voo, especialmente os internacionais – ou, para quem vive em São Paulo, aqueles saídos de Cumbica, em Guarulhos – já era muito cansativa antes da pandemia. O acesso aos terminais é ruim e mal projetado. O Expresso Aeroporto, por exemplo, sai da Estação da Luz da CPTM e chega apenas ao terminal 1. Do terminal 3, são 3 quilômetros de distância.

O jeito então é buscar um táxi ou um carro via aplicativo. Quem mora em São Paulo sabe que o risco de um trânsito pesado a caminho de Guarulhos exige medidas de precaução, como sair com tempo de sobra, aumentando o tempo dedicado à viagem, o check-in e despacho de mala agora levam mais tempo, pois inclui a conferência da carteirinha de vacinação. Começa ali também uma certa cacofonia de informações sobre as quais ninguém tinha muita certeza.

Um agente da companhia aérea quis saber do meu passe sanitário, algo que não tenho. Tento baixar o programa que o gera, mas o sistema não reconhece o código de validação, nem o fornecido pelo governo de São Paulo na carteirinha de vacinação, nem o do Valida SUS.

Sou informada depois que o passe é necessário apenas para acessar bares e restaurantes (depois viria a descobrir que a apresentação do comprovante de vacinação, com as datas das doses, teria o mesmo efeito do passe).

Apesar de já dispensar a quarentena na chegada ao país, a França ainda considera o Brasil um país vermelho, segundo a classificação de risco por cores. Isso me leva a mais uma fila, já em solo francês, para nova conferência da carteirinha. Ainda enfrentaria outras duas, uma para o raio – X, outra para a imigração. Nos sites das autoridades francesas, há a informação de que mesmo os passageiros vacinados precisarão apresentar um tipo de carta solene, na qual juram não ter sintomas e não ter conhecimento de ter tido contam com alguém contaminado. Fiz a carta. Ela nunca saiu da minha mochila.

Antes de voltar ao Brasil, nova surpresa. Tinha acabado de enviar um texto aos meus editores quando recebi um e-mail da companhia aérea comunicando o início do check-in. E foi assim que descobri a necessidade de ter um exame do tipo PCR-RT para retornar ao país. Conto com ele para embarcar para o Brasil – não sem antes enfrentar novas filas, novas leituras incompletas do certificado de vacinação, novos companheiros de jornada com seus narizes fora da máscara. Espero que seja a última surpresa da jornada. Por fim, volto dessa primeira viagem desejante de que o avanço da vacinação, mesmo menor que o necessário, proteja o Brasil de uma nova catástrofe, como a vivida no início do ano, pois não há nada como estar rodeada de outras pessoas.

***A repórter FERNANDA BRIGATTI viajou à convite da Airbus

ESTAR BEM

REGIMES DEMOCRÁTICOS

O sucesso de dietas que propõem cardápios mais flexíveis ilumina uma verdade: os programas drásticos estão fadados ao fracasso

A estatística transborda. Cinquenta milhões de adultos brasileiros seguem algum tipo de dieta. Nos próximos dois meses, metade terá desistido, inapelavelmente. Depois de mais quatro meses, somente 2% estarão seguindo as regras restritivas firmes e fortes. A principal causa do retumbante fracasso? Programas alimentares rigorosos demais – e a fome vence. Uma das explicações é lógica, atrelada aos mecanismos de defesa da espécie humana. Quando há redução drástica de calorias ou se exclui toda uma categoria de alimento, cai a produção de um composto no organismo essencial ao sucesso dos programas de emagrecimento: a serotonina, a substância do prazer. O novo balde de água fria nesses tipos de regime foi jogado recentemente com uma estocada no popular jejum intermitente, que prega ficar sem comer por horas a fio. Um estudo publicado na revista JAMA Internal Medicine mostrou que a médio prazo ele fracassa. Ao longo de três meses, a maioria dos participantes havia perdido cerca de 2 a 3,5 quilos – pouquíssimo a mais do que um grupo de controle. Foram avaliados esquemas de jejum de doze ou mais horas por dia. Uma das razões da falha apontada pelos especialistas é que os seguidores passavam a exagerar no consumo de alimentos ultracalóricos para aplacar o estômago vazio.

Resumo da ópera: o crivo científico e a dura travessia dos viciados em regimes radicais, como o da turma da intermitência, abriram espaço para dietas menos severas. Eis aí uma boa novidade. Duas delas, em especial, conquistam número cada vez maior de brasileiros (veja detalhes no quadro abaixo). A chamada “flexitariana”, como o nome sugere, é um aceno ao exagero do vegetarianismo. A base de alimentação proposta é com proteínas de origem vegetal, como soja, lentilha, feijão e nozes, mas com algum consumo animal, em um terço das refeições. Vale até o bom churrasco. Um segundo programa, o “volumétrico”, prega a redução de calorias das refeições, mantendo o volume de alimentos ingeridos. Desenvolvido pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, valoriza ingredientes com fibras, caldos e frutas ricas em amido, como banana e manga, que proporcionam mais a sensação de saciedade, mas permite carboidratos, como macarrão e proteína animal.

As duas modalidades – a flexitariana e a volumétrica – despontam com louvor, agora em 2020, em um ranking da revista americana US News, organizado desde 2010. Nele só aparecem dietas fáceis de seguir e com boas respostas. No topo da lista, praticamente imbatível, está a dieta mediterrânea, um tanto esquecida no Brasil, composta de alimentos típicos das regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo, como o sul da Europa. Inclui peixes, queijos, azeite de oliva e até mesmo pão e vinho. Ela faz perder peso mais lentamente, mas é unanimidade no quesito de controle da saúde. Desde a década de 80, inúmeras pesquisas comprovaram seu impacto no organismo, como a capacidade de prevenção contra diabetes, colesterol ruim, câncer e perda de memória. “Só emagrece e se mantém magro quem não exclui nenhum grupo alimentar”, diz o médico Antônio Carlos do Nascimento, da Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia. Não há, enfim, alimento melhor (e mais gostoso) do que o bom senso.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORA DE CONVERSAR SOBRE AQUELE ASSUNTO – III

TABU EM SALA DE AULA

Tema mal aparece na BNCC, que direciona o ensino no País; situação preocupa especialistas

Algo na aula de Ciências. Mais um pouco uns anos depois, em Biologia. O currículo que crianças e adolescentes brasileiros têm nas escolas passa longe da educação sexual, disciplina considerada essencial à promoção dos direitos humanos pela Organização das Nações Unidas(ONU). Homologada entre 2017 e 2018, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteia o ensino no País, é vista como um retrocesso em comparação ao antigo Plano Curricular Nacional, de 1998.

No documento voltado à educação o infantil e ao ensino fundamental, a menção mais próxima do tema está na tabela da disciplina de Ciências no 8º ano. O termo sexualidade é abordado como objeto de conhecimento sobre vida e evolução, indicando que deve tratar de infecções sexualmente transmissíveis e métodos contraceptivos. Nas orientações para professores do ensino médio, o termo é mencionado uma vez, como competência que pode ser desenvolvida em núcleo de estudo.

Mãe de Vicentina e Danton, de 12 e 15 anos, Tamara Ramalho diz que os filhos só aprenderam as funções do aparelho reprodutor pelo olhar da Biologia. “Não chamo isso de educação sexual”, critica a mãe dos adolescentes, que leciona Sociologia na rede pública.

Especialistas e professores afirmam que ensinar educação sexual se tornou mais difícil nos últimos anos. “Até 2018, a gente tinha mais liberdade para fundamentar o tema”, conta a professora Camila Burchard, da rede pública do Rio Grande do Sul. “Hoje, isso se restringe aos cuidados com o corpo e a higiene, mas só em algumas séries.”

Na opinião da coordenadora do Programa de Pós-graduação em Educação Sexual da Faculdade de ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista. Andreza Leão, os parâmetros curriculares nacionais eram mais amplos. Além de saúde sexual e reprodutiva, tratavam de relacionamentos afetivos, por exemplo, e contribuíam para a formação integral dos alunos.

ESFORÇO

Alguns Estados abordam questões de gênero e sexualidade como princípios norteadores no currículo. Pernambuco, por exemplo, usa como base as diretrizes nacionais, mas prevê que “o respeito às diversidades culturais, religiosas, étnicas, raciais, sexuais e de gênero não seja apenas um princípio, mas uma estratégia formativa para o desenvolvimento dos alunos”.

Já a rede estadual de São Paulo pode incluir disciplinas eletivas. Na opinião do chefe do gabinete do governo paulista, Henrique Pimentel, a BNCC não é o todo e deve ser complementada de forma colaborativa.

É o caso da disciplina eletiva sobre educação sexual da professora de Biologia, Verena Santos, que dá aulas no ensino médio da rede pública paulista. Além do material didático e do suporte tecnológico, ela usa jogos e deixa à disposição uma caixa de dúvidas, onde os alunos colocam perguntas para serem respondidas ao fim de cada aula. “Os alunos se interessam muito”,  comemora Verena.

MATERIAL DIDÁTICO

Conseguir corresponder às necessidades dos aluno no entanto, depende de conhecimento. E é neste ponto que a formação de muitos professores deixa a desejar, afirma Camila Sabino, que leciona Biologia no Recanto das Emas, região administrativa do Distrito Federal. “Pelo que eles têm na mão, já fazem muito.”

Outro entrave para as aulas de educação sexual é o material didático, que se limita a questões biológicas. “Não traz debates sobre homoafetividade e sobre como a pessoa se identifica socialmente”, exemplifica o professor de Ciências Ítalo Ferreira Garcia, de Salvador.

Líder de Relações Governamentais do movimento Todos pela Educação, Lucas Hoogerbrugge afirma que episódios como a interferência do Ministério da Educação (MEC) em editais de compra de livros didáticos para suprimir referências de enfrentamento ao machismo, homofobia e qualquer tipo de preconceito contribuem para dificultar o ensino da educação sexual. “É um desserviço.”

Entramos em contato com o Ministério da Educação para ter um posicionamento sobre iniciativas de educação sexual e as deficiências apontadas na BNCC, mas não obteve retorno. Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Maria Helena Guimarães de Castro afirma que não existe superficialidade no modo como a educação sexual é tratada na BNCC. Ela explica que a intenção do documento é apenas planejar uma abordagem geral. “Não concordo (com as críticas), porque aí teria de ter educação sexual, financeira, meio ambiente. Não é isso”, diz Maria Helena.

NOS CHATS DE JOGOS ONLINE, RISCO DE ASSÉDIO

Diálogo é importante para proteger seu filho de criminosos que se passam por crianças para aliciar menores

Uma criança está na sala, agarrada ao celular. Enquanto isso, no quarto do adolescente, o zum­ zum de um jogo online rola solto. Cenas nada incomuns desde que o coronavírus chegou ao País. Neste um ano e meio, é difícil encontrar pais que não estejam preocupados com o tempo que crianças e adolescentes passaram na frente dos jogos. Será um excesso? Meu filho está seguro em um ambiente que muitas vezes inclui chats e fóruns?

Dados mostram a resposta para a primeira pergunta. Publicada recentemente, a Pesquisa de Games do Brasil (PGB) apontou que 75,8% dos usuários desse tipo de entretenimento afirmam que jogaram mais em 2020.O segundo questionamento tampouco traz alívio para as famílias. Há, sim, riscos de crianças e adolescentes estarem expostos a ações de criminosos e assediadores, que procuram nos jogos online a chance de entrar em contato direto com menores de idade.

“A internet é a rua de antigamente”, diz o químico Nelson Mortean, de 45 anos. Consumidor de videogame desde a infância, ele conta que monitora com quem seu filho de 11 anos joga online. “Em algum momento, a relação caminha para deixar de ser virtual”, conta Mortean. “Então, podem surgir convites do tipo ‘Venha aqui em casa.”

O cuidado que o químico procura ter está longe de ser exagero. Os crimes virtuais de natureza sexual envolvendo crianças e adolescentes têm crescido no Brasil. Só em 2020, segundo a Safernet, organização civil voltada à promoção de direitos humanos na internet, as denúncias de pornografia infantil duplicaram e atingiram quase 100 mil registros em um único ano.

A possibilidade de criar perfis falsos em plataformas de games, nos quais os usuários conseguem mentir e omitir informações, tornou os jogos uma via fácil para aliciadores falarem com crianças. Thiago Oliveira, presidente da Safernet, diz que os agressores abordam as vítimas de várias maneiras, em relações construídas “em redes sociais, em fóruns sobre jogos e nos próprios games”.

Em geral, os criminosos primeiro tentam criar um vínculo com a vítima, seja com um elogio à foto do perfil ou iniciando uma conversa que desperte o interesse da criança. Depois, os pedófilos se sentem mais seguros para fazer insinuações sexuais e pedir fotos íntimas.

”Eu já vi casos em que a solicitação de fotos aconteceu em uma semana, enquanto em outros demorou mais de um mês”, conta Helena Regina Lobo, professora de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP).

Fã de jogos eletrônicos, o filho da bancária Thaís Chaar foi abordado por um garoto mais velho, que o convidou para um encontro num shopping de Fortaleza, onde a família mora. Vinícius, de 13 anos, interagia em um grupo de WhatsApp criado para crianças conversarem sobre videogames e agendar partidas online. “Eu e as outras mães não deixamos eles se encontrarem no shopping”, conta a mãe de Vinicius. “Não sabíamos se era um garoto ou alguém maior de idade. E pedimos para eles cortarem a amizade.”

Identificar os responsáveis por esses perfis é difícil porque o acesso às contas é feito, geralmente, por computadores que têm VPN, dispositivo que impede o rastreamento de IPs (identificação de um computador). Diante do risco, uma recomendação para os pais é o ajuste das configurações de privacidade para o uso do controle parental.

Em casos de assédio, a orientação é não se calar. ”Denuncie o perfil do assediador nos canais disponíveis no jogo e no Disque 100″, orienta a professora de Direito Digital Laura Mascaro.

FIQUE ATENTO

Alguns passos podem proteger o seu filho. O primeiro é justamente conversar com ele sobre segurança digital. Nada de dar Informações pessoais nem enviar fotos para estranhos. Oriente que fale com você se algo estranho ocorrer. Fale da necessidade de ter senhas fortes e ajude seu filho a manter o computador protegido. Procure também pesquisar os jogos antes de liberar o acesso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE OUTUBRO

FILHOS INGRATOS, A VERGONHA DOS PAIS

O que maltrata a seu pai ou manda embora a sua mãe filho é que envergonha e desonra (Provérbios 19.26).

A lei de Deus pode ser sintetizada em dois mandamentos: amar a Deus e ao próximo. O amor não é apenas o maior dos mandamentos, mas também o cumprimento da lei e dos profetas. O amor não é apenas a maior das virtudes, mas também o sinal distintivo de um verdadeiro cristão. O amor é a prova cabal de que somos convertidos, porque aquele que não ama não é nascido de Deus, já que Deus é amor. Também não podemos amar a Deus sem amar o próximo. E não há ninguém mais próximo de nós do que nossos pais. A ordem divina aos filhos é honrar pai e mãe e obedecer-lhes no Senhor. Esse é o primeiro mandamento com promessa. Os filhos que honram os pais têm vida longa e também prosperidade. Um filho ingrato, porém, traz vergonha para os pais e desonra para a família. Maltratar o pai e mandar embora a mãe são atitudes abomináveis aos olhos de Deus, crueldades sem tamanho. Há muitos filhos ingratos, que cospem no prato em que comeram. Agridem os pais com palavras e atitudes e abandonam-nos à própria sorte quando chegam à velhice. Os filhos que maltratam seu pai ou tocam sua mãe de casa não têm vergonha, não prestam. Os filhos que cometem tal desatino causam desonra para a família.

OUTROS OLHARES

DERMATOLOGISTAS ALERTAM SOBRE USO DE REMÉDIO DE ACNE

Sob risco de graves efeitos colaterais, medicamento está sendo utilizado indevidamente para quem pretende afinar o nariz

A difusão de informações nas redes sociais sobre o suposto potencial de afinar o nariz de um medicamento para acne fez a Sociedade Brasileira de Dermatologia divulgar um alerta sobre os riscos de graves efeitos colaterais do uso inadequado do remédio, que pode causar danos no fígado, aumento do colesterol e más formações no feto, no caso de pacientes grávidas.

A entidade notou um aumento de publicações sobre benefícios de medicamentos com isotretinoína, mais conhecida pelo nome comercial Roacutan, inclusive com o incentivo a desafios para uso da substância.

“É um remédio com muitos efeitos colaterais, como alteração no fígado e aumento do colesterol. No caso de gestantes, pode causar más-formações no feto. A gente sabe que ele dá uma atrofia na glândula sebácea, mas não tem embasamento científico de que o medicamento afina o  nariz”, explica Beni Moreinas Grinblat, segundo secretário da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Grinblat diz que, além de casos de acne que necessitam do tratamento, há uma condição chamada rinofima que pode receber a indicação do medicamento, mas o quadro atinge principalmente idosos.

De acordo com a entidade, a preocupação com mulheres em idade fértil se dá pelo fato de que o risco de um bebê nascer com má-formação congênita chega a 30% caso o uso seja feito por mulheres grávidas. Em nota divulgada, a SBD informou que, juntas, as hashtags que convocam para o desafio usando a medicação – #roacutancheck e #roacutanchallenge – atingem 29 milhões de visualizações.

Apenas nos últimos sete dias, as buscas no Google por ” Roacutan afina o nariz” aumentaram 900%. Mesmo com o crescimento, Grinblat pondera que o interesse está mais nas redes sociais do  que nos consultórios. “As pessoas estão se desafiando, mas não sei o quanto, na prática, está  acontecendo. No Brasil, não e um remédio fácil de comprar. Além da receita controlada, existe um termo de consentimento que tem de assinar na farmácia. Alguns pacientes, que já tomam, perguntam se é verdade. No consultório, eles estão desconfiados.” Os pacientes que fazem o tratamento são monitorados por meio de exames para verificar se estão tendo alterações no fígado e no colesterol.

EFEITOS COLATERAIS

Ter os olhos, boca e nariz ressecados não foi o que mais incomodou a estudante de Medicina Isadora Andreotti, 20 anos, enquanto tomava Roacutan para acne, indicação do medicamento. Em sua primeira experiência com o remédio, ela teve de interromper o tratamento após alterações no fígado. Também houve aumento dos níveis de triglicerídios e colesterol.

“Fiz tratamento com Roacutan três vezes, com dois médicos diferentes”, diz. “Fiquei satisfeita com o resultado, mas ainda tenho algumas cicatrizes e manchas de acne”.

As reações relatadas por Isadora estão dispostas na bula do medicamento como “muito comuns” – quando ocorrem em 10% ou mais dos pacientes. Na mesma lista aparecem distúrbios na vesícula biliar, conjuntivite e dores no corpo. Desordem dos sistemas linfático, nervoso e respiratório também são efeitos possíveis, embora menos recorrentes. O documento ainda menciona casos raros de depressão, perda de peso, alterações na contagem de células brancas, insônia, entre outros.

As espinhas, motivo pelo qual a isotretinoína foi receitada a Isadora, foram embora. Os danos ao fígado e aos níveis de colesterol, descritos como reversíveis na bula, também desapareceram. O nariz, que nunca foi o foco do remédio, continua o mesmo. “Consegui o resultado que queria, mas quem tomar para afinar o nariz pode arriscar a própria saúde a troco de nada.”

A isotretinoína também pode ser usada em pessoas que fizeram rinoplastia, segundo Paolo Rubez, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e especialista em Rinoplastia Estética e Reparadora pela Case Western University.

“Ela pode ser indicada para o pós-operatório quando a gente faz a cirurgia no nariz. Há trabalhos científicos que mostram benefícios do uso em baixas doses para o resultado do procedimento. Mesmo esses pacientes vão fazer o acompanhamento com cirurgião e dermatologista. O medicamento sozinho não afina o nariz.”

Rubez recomenda que as pessoas busquem informações sobre tratamentos em fontes confiáveis e sempre consultando especialistas da área. “Tem de tomar cuidado com procedimentos, ainda mais os adolescentes. Nessa idade, a gente nem opera. Espera chegar aos 16 anos.”

Em nota, o laboratório Roche Farma Brasil, responsável pela produção do medicamento no País, informou que, como a isotretinoína age nas glândulas sebáceas, pode desinchar a inflamação em casos específicos de peles oleosas acima do normal, causando a impressão de afinamento no nariz. Ainda de acordo com a Roche, o Roacutan é para o tratamento de formas graves de acne e não pode ser utilizado sem prescrição.

GESTÃO E CARREIRA

AS DIFERENÇAS ACENTUADAS PELO HOME OFFICE

Análises do Ipea com dados da Pnad Covid-19 destacam contrastes no trabalho remoto no Brasil

Muito se discute sobre o home office, principalmente após multinacionais adotarem o modelo de forma definitiva. O mercado entra neste debate como se essa fosse a realidade da maioria dos trabalhadores, quando na verdade, só 11% dos brasileiros trabalharam em suas casas no ano passado, conforme dados da Pnad Covid-19 analisados nas duas últimas Cartas de Conjunturas divulgadas pelo Ipea em julho e setembro deste ano. Os levantamentos e as análises mostram que o retrato do trabalho remoto é composto majoritariamente por mulheres, pessoas brancas e altamente escolarizadas, o que distancia o modelo da realidade de grande parte dos brasileiros.

A primeira nota foi divulgada pelo Ipea em 15 de julho com o objetivo de mensurar o trabalho remoto no País. Para isto, foram utilizados os dados da Pnad Covid-19, colhidos de maio a novembro de 2020. Dentre os 83 milhões de pessoas ocupadas no ano passado, 74 milhões (88,9%) continuaram trabalhando normalmente e 9,2 milhões (11,1%) foram afastadas. Dentre os que continuaram ativos, 8,2 milhões estavam em home office (11% da população total ocupada e não afastada).

“Em termos de potencial de mercado de trabalho, estimávamos que fosse 16% da população em trabalho remoto. A média é de 11% no País. Concordo que existe um gap, mas não é tão grande assim comparado a outros países”, diz Geraldo Goés, especialista em políticas públicas e gestão governamental na Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas (Dimac) do Ipea. “Entendemos que são características laborais de cada atividade. Algumas são mais propícias ao trabalho remoto, como profissionais da educação, gerentes, tomadores de decisão.”

O professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Mauro Rochlin vê os números do home office como expressivos. “Há um alto número de pessoas empregadas no setor agrícola, na indústria. A maior parte não está no setor administrativo, e sim no chão de fábrica. É claro que essa indústria tem parte no administrativo, mas a maior parte se concentra no setor produtivo.”

O perfil do trabalhador remoto é marcado por uma maioria feminina (56,1%), branca (65,6%) são brancos e brancas), com Ensino Superior completo (76,6%) e majoritariamente no setor privado (63,9%).

“A maioria dos trabalhadores do home office está no setor administrativo, que normalmente tem pessoas com um maior nível educacional”, diz Rochlin. ”Se você olhar a composição da população de nível superior, é muito desigual se comparada com a maioria da população brasileira (negra). A presença de pretos e pardos entre a população com Ensino Superior é menor do que quando fazemos um comparativo com a população no geral. Já que o trabalho remoto é feito majoritariamente na área administrativa (que exige maior nível educacional), a expectativa é de maior presença de brancos e brancas.”

A professora Carla Diéguez, socióloga do trabalho e coordenadora do curso de Sociologia e Política da FESP-SP, concorda.

“Isso demonstra que a educação é algo que tem classe. Ela é destinada para determinadas classes, principalmente o ensino superior, que vai recolocar em condições que vão te permitir acessos a alguns benefícios.”

“Entre esses benefícios e regalias, estão equipamentos”, completa Geraldo Góes. “Poucas pessoas tinham condições de exercer o trabalho remoto, porque não dependia só delas, mas também da própria empresa ter condições de colocar um computador na casa da pessoa.”

FLEXIBILIDADE

Foi o caso da startup de benefícios de saúde Pipo, que colocou todos os funcionários em home office e adotou a medida como definitiva.

“Tomamos essa decisão em maio de 2020, ela foi motivada por motivos diferentes. O primeiro é por ter acesso a talentos, para poder contratar pessoas de qualquer lugar além de São Paulo, e a segunda é para refletir nossos valores de autonomia. Ou seja, as pessoas terem autonomia para morar onde elas quisessem e ter flexibilidade”, conta Manoela Mitchell, CEO e cofundadora da Pipo Saúde. No setor privado, segundo a pesquisa, destacam-se no trabalho remoto serviços (14,5%), educação (10,3%) e comunicação (7,7%). Já no setor público, as áreas com maiores índices de trabalho remoto são administrações públicas (14,4%), empregados dos governos estaduais (13,9%) e empregados do governo federal (7,8%). Atividades que ficaram abaixo da média nacional são agricultura (0,6%), logística (1,8%) e alimentação (1,9%).

“De forma geral, a nossa economia não se situa em serviços de alta tecnologia e produtividade. Ainda somos sustentados pela commodity, pelo setor agrário e por serviços de baixo valor agregado”, diz Carla Diéguez.

Há também no estudo do Ipea um recorte por regiões. A maior concentração de pessoas em trabalho remoto está no Sudeste (58,2%), com 4,7 milhões de trabalhadores. A região é seguida pelo Nordeste, com16,3%, e pelo Sul, com 14.9%).

A participação de pessoas pretas ou pardas no trabalho remoto é menor em todas as unidades federativas. No Rio de Janeiro, por exemplo, 52,5% das pessoas ocupadas e não afastadas são negras, mas compõem só 34% dos trabalhadores em home office.

EU ACHO …

A QUEM INTERESSA MEU VOTO

Todo colunista já recebeu alguma mensagem de leitor avisando que, por causa de um determinado texto, cancelará a assinatura do jornal. É um clássico da mágoa que, involuntariamente, causamos em quem não concorda com o que escrevemos. O leitor está no seu direito, ainda que a ameaça raramente se concretize. No entanto, recebi o e-mail de um Claudio que foi até o fim e, já meio arrependido da medida extrema que tomou por motivo tão banal, despediu-se de mim fazendo um último pedido: por favor, não vote em um ladrão.

Fiquei comovida, juro. A política leva as pessoas a desatinos. Nunca vi esse leitor nem ele sabe nada sobre mim a não ser que sou contra este governo, e ele a favor, como já havia revelado em e-mails anteriores. O que responder a ele, com a atenção que merece?

Claudio, votarei em 2022 no candidato que tiver as melhores propostas para o país, não para mim mesma. Com cidadã, preciso do governo, mas não tanto como precisam outros. Sou privilegiada. Estudei, fiz faculdade, tive meu primeiro emprego aos 19, nunca sofri discriminação, vivo num bairro seguro de uma grande metrópole. O preço da gasolina afeta meu custo de vida, a criminalidade impede que eu caminhe sozinha à noite, mas, ainda assim, minha vida é infinitamente melhor do que a maioria dos brasileiros. Corri os mesmos riscos só durante a pandemia. Ali não havia privilegiados, estávamos todos à mercê de um vírus mortal que só viria a ser neutralizado através da vacina, do uso de máscara e do distanciamento social, procedimentos que este governo irresponsável negligenciou.

No mais, não preciso olhar para o próprio umbigo na hora de votar. Tenho obrigação, isso sim, de olhar para os lados, para quem é pobre e precisa comer, para quem está desempregado e precisa trabalhar, para quem nunca segurou um livro nas mãos. Ao votar, preciso escolher quem apoia a cultura, quem preserva o meio ambiente, quem transmite boa imagem do país no exterior, quem atrai investimentos, quem não incita a violência, quem não propaga fake news, quem desenvolve projetos de inclusão, quem respeita todas as religiões, incluindo os sem religião. E, claro, quem combate a corrupção.

Já tenho candidato para o primeiro turno de 2022 e, até onde sei, ele não é ladrão. Haverá de lazer alguma aliança que eu desaprove, ceder em questões que me desagradem, desapontará em alguns pontos: política nunca foi um jardim de infância. Mas ele jamais apoiará a ditadura ou exaltará a ignorância, que isso não é coisa de gente equilibrada e comprometida com o futuro. Agradeço sua preocupação e garanto a você: em qualquer configuração, meu voto não irá para um extremista. Porque extremista só haverá um no pleito, e sempre teremos opção mais democrática.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

AUTOCUIDADO NA PANDEMIA

A Covid-19 bagunçou a rotina e mexeu com a forma de se cuidar, se relacionar e consumir. Pesquisa com 1.874 brasileiros mostra como ela reverberou na alimentação, na atividade física e na busca por informações e serviços de saúde

Se tem uma palavra que deve ser cada vez mais incorporada ao nosso dia a dia a partir da pandemia, ela é autocuidado. Falamos de um conjunto de hábitos bem-vindos ao corpo e à mente e que inclusive é tratado como um direito ao cidadão pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O conceito abrange sete pilares: hábitos de higiene, prática de atividade física, alimentação balanceada, busca de informações confiáveis, restrição de comportamentos nocivos (como tabagismo e abuso de bebida alcoólica), conhecimento do próprio corpo e atenção a sinais estranhos e uso responsável de remédios e outros produtos. Todos eles foram afetados ou exercidos de alguma forma no mundo pós-Covid.

É nesse contexto que, com o apoio da Associação Brasileira de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip), conduzimos a pesquisa ”Autocuidado em Tempos de Pandemia,” que investiga como os brasileiros lidam com cada um dos sete pilares e os efeitos da Covid-19 na percepção e na adoção desses hábitos. O estudo, realizado pela internet em junho de 2020, envolve 1.874 mulheres e homens de todas as regiões do país. Sete em cada dez entrevistados se mostraram dispostos a rever e alterar atitudes pensando em preservar a saúde.

Os efeitos mais positivos, na visão dos participantes, aparecem na procura por informações sobre prevenção e bem-estar e na adesão a medidas de higiene, como lavar as mãos, utilizar álcool em gel e caprichar na limpeza da casa – comportamentos que, de fato, ajudam a minimizar a transmissão do coronavírus. Mas há situações impactadas negativamente pela pandemia. Para quase metade dos entrevistados, o maior desafio está na prática de exercícios, limitada pelo fechamento temporário de parques e academias e pela reabertura gradual e cercada de receios. A alimentação também sentiu o baque em muitos lares, transformados da noite para o dia em um espaço misto de trabalho, lazer e convívio familiar.

Quando questionados sobre os pilares do autocuidado mais difíceis de levar para a rotina, disparam justamente esses dois hábitos tão ligados à prevenção de doenças crônicas: 46% das pessoas apontam para a alimentação saudável e 65% para a atividade física. O mapeamento também capta reflexos significativos da Covid-19 no sono e no estado emocional dos brasileiros. Em live transmitida pelas redes sociais para discutir os achados da pesquisa, o educador físico e expert em qualidade de vida Mareio Atalla resumiu suas orientações para o novo normal em um conselho: precisamos (r)estabelecer uma rotina.

ADOTAR HÁBITOS DE HIGIENE

Vestir a máscara ao sair de casa, lavar as mãos quando retornar e utilizar álcool em gel no meio do caminho são algumas das cenas mais emblemáticas da pandemia de Covid-19. E não é para menos: as medidas de proteção e higiene estão entre as maneiras comprovadamente eficazes de barrar o contágio pelo vírus Sars­CoV-2. Na pesquisa “Autocuidado em Tempos de Pandemia”, 93% dos entrevistados afirmaram alterar hábitos de limpeza pessoal. A maioria passou a lavar mais as mãos e adotou o álcool em gel e quase metade se vale de mais produtos para caprichar na faxina da casa. Já está claro que uma das principais formas de transmissão do coronavírus se dá por gotículas de saliva expelidas por alguém infectado ou pelo contato próximo com um portador do patógeno. Desse modo, usar a máscara, manter distanciamento, lavar as mãos com água e sabão (alguns especialistas sugerem por cerca de 20 segundos) e usar o álcool em gel na ausência de uma pia por perto fazem a diferença na prevenção da Covid-19. De bônus, os hábitos de higiene reduzem o risco de pegar ou passar outros vírus e bactérias perigosos. Eis uma das principais lições da pandemia.

PRATICAR EXERCÍCIOS FÍSICOS

Suar a camisa para muita gente nunca foi uma promessa fácil de cumprir. E na pandemia a dificuldade aguçou de vez. Pudera: só agora parques e academias estão sendo reabertos, com todos os cuidados que a situação exige. Quem estava para iniciar alguma atividade desistiu. Muitos até já tinham dado o pontapé inicial no projeto de sair do sedentarismo, mas o hábito ainda não tinha sido bem assimilado quando veio a necessidade de ficar em casa. Com tudo isso, dá para entender por que os exercícios foram considerados o pilar do autocuidado mais difícil de cumprir na rotina. Ocorre que, mesmo antes da Covid-19, mais da metade da população brasileira já era sedentária. Com o coronavírus circulando e a turbulência pelos lares, tudo se complicou. Faltam tempo e motivação para malhar, a despeito de tantas aulas na internet. “Mas é fundamental vencer a inércia, porque os exercícios contribuem diretamente para o bem-estar físico e mental,” ressalta Antônio Lancha Jr., professor da Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (USP). Para recomeçar, encontre um espaço na agenda, conte, se possível, com as orientações de um profissional e retome aos poucos, tomando as precauções.

MANTER UMA DIETA EQUILIBRADA

Embora mais da metade dos participantes do estudo acreditem que a pandemia não desgovernou sua alimentação, uma parcela significativa pena para manter o equilíbrio à mesa (e na sala, no quarto ou na varanda). Um terço relata estar consumindo mais doces e percebe descontrole com a comida. “Estamos vivendo um período de imprevisibilidade. Isso gera ansiedade e afeta o comportamento alimentar”, analisa Lancha Jr. “Daí muita gente fica mais permissiva e, ao consumir alimentos com açúcar ou gordura, a sensação de tensão emocional pode até não desaparecer, mas é mitigada”, completa. Experimentos mundo afora indicam que, na presença do estresse, tendemos a preferir itens mais gordurosos ou açucarados, como chocolate e batata frita, a iogurte, fruta ou salada. O professor da USP explica que tudo está ligado à bioquímica cerebral e a missão aqui é quebrar o círculo vicioso que transforma a comida em um antídoto contra a ansiedade. Para quem enfrenta essas angústias no dia a dia, convém estabelecer horários para comer, comprar e priorizar alimentos mais naturais, frescos e saudáveis e, se for ocaso, procurar suporte profissional.

EVITAR ATITUDES NOCIVAS

Algumas pessoas descarregam a tensão na comida, outras o fazem no cigarro ou mesmo no álcool. No levantamento, 11% dos brasileiros relataram ter um impacto negativo em relação a evitar ou controlar comportamentos prejudiciais à saúde, como fumar ou beber além da conta. O abuso de álcool movido pela quarentena foi registrado em vários países e chegou a fazer a OMS pedir que os governos restringissem a venda de cerveja, vodca, gim e companhia. O tabaco também se aproveitou da situação. Um trabalho capitaneado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ouviu mais de 44 mil brasileiros, indica que 34% dos fumantes passaram a tragar mais cigarros no dia a dia com a pandemia – 22% ampliaram em dez o número de unidades consumidas. Especialistas reforçam que utilizar esses meios para desestressar não só gera mais dependência como expõe corpo e mente a efeitos rebote e desbalanços. Enquanto o excesso de bebida alcoólica pode debilitar a imunidade, o tabagismo desata inflamações e lesões nos pulmões e nos vasos sanguíneos. São cenários nada bem-vindos em tempos normais, que dirá com o coronavírus à solta.

FICAR ATENTO E CONHECER O PRÓPRIO CORPO

Decifrar os sinais que o organismo dá nos ajuda a prevenir problemas hoje e lá na frente. E, na pesquisa, seis em cada dez entrevistados se dizem mais atentos ao próprio corpo. A Covid-19 deixou claro, e à duras penas, que reconhecer os sintomas é o primeiro passo antes de tomar qualquer decisão diante de uma doença – inclusive ir ao hospital. Nesse sentido, o medo de sair de casa e se contaminar reduziu a procura por centros de saúde, algo compensado, em parte, pela adesão das pessoas à telemedicina e à orientação remota. Até porque nem sempre é preciso voar ao pronto-socorro e se expor ou tomar o lugar de alguém que requer realmente atendimento. “Quando seguimos os pilares do autocuidado de forma disciplinada e consistente, diminuímos a necessidade de utilização do sistema de saúde, evitamos consultas desnecessárias e contribuímos com a produtividade geral e a sustentabilidade do setor”, argumenta Cesar Bentim, fundador da startup Artegist Healthcare e consultor do estudo. É evidente que situações como falta de ar e dor no peito merecem uma corrida ao hospital – e não só pela Covid-19. Mas o ponto é que, fora dessas emergências, uma consulta médica à distância pode esclarecer quem, de fato, precisa se deslocar até lá.

USAR REMÉDIOS DE FORMA RESPONSÁVEL

O amadurecimento de uma postura mais ativa e ponderada em relação à saúde parece se refletir no uso de medicamentos isentos de prescrição, os MIPs. “Tomar remédio por conta próprio deve ser uma prática responsável pautado por orientação e educação, o fim de que o indivíduo conheça seu corpo e faça escolhas eficazes e seguras”, diz Marli Sileci, vice-presidente executiva do Abimip. Ela ressalta que esses produtos devem ser usados diante de males menores, já conhecidos ou diagnosticados, e após tirarmos as dúvidas na bula ou com o farmacêutico – se os sintomas persistirem, é hora de procurar o médico. Mas cabe diferenciar automedicação de autoprescrição, confusão detectada na pesquisa. “A automedicação responsável consiste na utilização dos MIPs, fármacos com baixa toxicidade, caso de analgésicos, antitérmicos e antiespasmódicos”, explica o toxicologista Sérgio Graff, diretor da Toxiclin, em São Paulo.

A autoprescrição envolve o uso de remédios que exigem receita e, infelizmente, às vezes são adquiridos mesmo sem o pedido médico (entram aqui anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, antibióticos…). “Essa é uma atitude que pode trazer uma série de riscos”, alerta Graff.

INFORMAR-SE E ATUALIZAR-SE SOBRE SAÚDE

A pesquisa “Autocuidado em Tempos de Pandemia” constata: os brasileiros passaram a se preocupar com a fonte da informação e a disseminação das notícias falsas. Quase nove em cada dez afirmam que serão mais criteriosos com os conteúdos de saúde e 75% já se conscientizaram sobre o perigo das fake news. Apesar de a maioria se informar pela TV, são considerados mais confiáveis os sites especializados em saúde e as opiniões dos profissionais da área. “Mas continua sendo problemática a busca por remédios milagrosos ou aqueles indicados por um vizinho ou mencionados na internet”, pondera Graff. “Com a Covid-19, não é raro pessoas sem nenhum sintoma e sem orientação se medicarem baseadas em relatos de redes sociais”, lamenta. Segundo o médico, isso reforça a necessidade de investir em campanhas sem viés ou ideologia que eduquem a população de forma consistente. Embora não existam saídas fáceis para o ecossistema das fake news, os especialistas acreditam que só mobilizando todos os setores da sociedade conseguiremos sobrepujar as pseudonotícias com conteúdos sérios e baseados em ciência. E é através deles que podemos transformar o autocuidado numa nova rotina.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORA DE CONVERSAR SOBRE AQUELE ASSUNTO – II

QUAL O CAMINHO PARA O PAPO FAMÍLIA DAR CERTO?

É comum ouvir histórias de famílias que tentaram, sem sucesso, ter Aquela Conversa. Vergonha, receio e até falta de conhecimento podem dificultar essa importante troca entre pais e filhos. Por isso, convidamos quatro famílias que já conseguiram ultrapassar essas barreiras para compartilhar a experiência delas e inspirar que você faça o mesmo em casa. As conversas ­ realizadas em vídeos com a presença de um especialista no tema – estão disponíveis no YouTube.

A história da assistente social Talita Gonçalves, de 47 anos, e da filha Sofia, de 16, poderia virar exemplo de sucesso em um episódio de série britânica Sex Education. Ao contrário da história da Netflix – em que o papo não flui bem apesar de Jean, a mãe de Otis, ser sexóloga -, na casa dela a conversa funciona.

Sofia sempre se beneficiou da relação de confiança com os pais para complementar o que aprendia nas aulas de biologia do ensino médio. “A gente acabava falando sobre isso em casa mesmo”, conta. “Na escola, só havia educação sexual em disciplinas específicas.”

Mãe de três filhos, Talita viu a filha chegar à pré-adolescência sem sobressaltos: sexualidade já era um tema natural, discutido desde a primeira infância. Mesmo assim, sabia que seria um desafio iniciar conversas até então inéditas na família, com uma linguagem adequada para a nova fase da filha. “Mas se não há essa evolução em casa, eles buscam a evolução do assunto na rua. Eu penso que é onde mora o perigo”, diz Talita.

O psicanalista Bruno Branquinho diz que fazer essa adequação é o caminho. “A cada idade você vai ter de passar um dado à criança para que ela possa entender e trabalhar a informação”.’

Se a criança e o adolescente forem reprimidos quando sentirem dúvidas, alerta o psicanalista, eles podem buscar outras fontes e acabar, aí sim, acessando conteúdos inadequados para a idade.

EXPERIÊNCIAS DISTINTAS

A artesã Indira Frauches replicou com o filho, Daniel, de 18 anos, o modelo de diálogo que tinha com a família quando ela era adolescente. ”Meu pai dizia que eu tinha de ouvir em casa para não ruborizar quando ouvisse na rua”, lembra. Isso garantiu que Daniel se sentisse à vontade para tirar com a mãe dúvidas sobre sexualidade.

Uma experiência bem diferente da que viveram Thais Cespe, de 16 anos, e o pai dela, Fernando. Ela conta que mesmo o momento da primeira menstruação foi complicado, com pouca orientação. “‘Os pais não sabem lidar bem com esses assuntos e acabam não falando'”, acredita a adolescente.

Mesmo quando não existe um tabu, diz a ginecologista e sexóloga Carolina Ambroginia, às vezes a comunicação entre pais e filhos é feita de forma confusa, tornando o tema mais embaraçoso.

Para ela, o mais adequado é introduzir a conversa de forma gradual. “Quando a puberdade chega, o ideal é que o adolescente já saiba o que acontece com o seu corpo, porque é uma fase muito difícil”, diz Carolina.

O pai de Thais, Fernando, reconhece que o diálogo sobre Aquele Assunto com a filha foi tardio. “É uma coisa recente na minha vida e essa ausência criou bloqueio”, diz. Hoje, morando em cidades diferentes, pai e filha tentam construir um espaço de aprendizado.

“SEM VERGONHA”

 Totalmente à vontade nas redes sociais, o influenciador digital carioca Rapha Vicente, de 21 anos, até os 15 tinha dificuldade para falar com a família sobre sexo e sexualidade. Agora, no entanto, o tema é discutido “sem vergonha” na casa dele com a madrinha Luciene Elias, de 65, e a avó Antônia da Silva, de 67. “Seja o que for, tem de ser conversado com a família”, ensina a madrinha.

A educadora Beatriz Melo, que preside a Liga de Educação Sexual da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, lembra que uma boa conversa pode até evitar que ocorra uma iniciação sexual por mera curiosidade. “Há estudos que apontam que quanto mais cedo você começa a falar sobre esse assunto, mais tarde os jovens iniciam a vida sexual porque a curiosidade foi sanada por uma conversa”, diz Beatriz.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

TIRE SUAS DÚVIDAS

1. O QUE FAZER PARA QUE, NO PÓS-PANDEMIA, OS ADOLESCENTES SE DESENVOLVAM SEXUAL E AFETIVAMENTE DE FORMA SEGURA?

Para Laura Lindberg, demógrafa social e pesquisadora chefe do Guttmacher Institute, nos EUA, é preciso priorizar o acesso a informações de contracepção e reconhecer e apoiar a necessidade dos jovens por intimidade, encontrando formas saudáveis para que eles se relacionem. “Precisamos ajudá-los a equilibrar as coisas”, diz.

2. HÁ COMO FACILITAR A PRIMEIRA CONVERSA SOBRE AQUELE ASSUNTO COM MEU FILHO? Uma estratégia simples pode ser começar o papo a partir de temáticas e de discussões que aparecem em livros, filmes ou séries. Principalmente quando os conteúdos tem linguagem descontraída e fazem parte do universo adolescente. Sex Education, da Netflix, é uma boa referência.

3. MEU FILHO DESCONVERSA QUANDO TENTO PERGUNTAR ALGO. DEVO INSISTIR?

Nem sempre o adolescente estará disposto a falar. Inclusive, porque ele pode ainda estar processando uma informação ou um sentimento. Se você iniciar o papo e sentir que esse é o caso, diga apenas que estará à disposição quando ele precisar conversar.

4. COMO CRIAR UM AMBIENTE ACOLHEDOR PARA O DIÁLOGO?

Seu filho precisa compreender que tem liberdade para falar e que vai ser acolhido – e não julgado. Deixe claro que a conversa não vai ser exposta para outras pessoas.

5. COMO PAIS E EDUCADORES PODEM FALAR SOBRE MENSTRUAÇÃO?

 A normalização do ciclo menstrual deve fazer parte das conversas familiares. “É um sinal vital”, diz Chris Sobel, professora de estudos de Gênero e Sexualidade da Mulher na Universidade de Massachusetts Boston. Professores podem abordar o tema em várias aulas, da Química à Politica, segundo ela.

6. COMO SABER O QUE MEU FILHO TEM DE EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA?

Leia o projeto político-pedagógico para conhecer a identidade da instituição, bem como os métodos das aulas e os objetivos em relação ao tema. Nas reuniões, pergunte quais atividades estão planejadas. Vale também conversar com outros pais sobre a importância do assunto.

OUTROS OLHARES

INFÂNCIA INTERROMPIDA

Brasil já é o 5º país no mundo em número de casamentos de crianças

Ilegal, o casamento infantil e adolescente no Brasil tem sua face mais cruel no Maranhão e Piauí. Em campo para atualizar os dados da pesquisa “Como é ser menina no Brasil”, de 2015, uma ONG que atua em 75 países, a Plan lnternational Brasil, escolheu a cidade de Codó, a 219,7 km de São Luís, para buscar respostas. O que se soube, no último levantamento, é que cerca de 3 milhões de meninas entre 6 e 15 anos no país enfrentavam os desafios de uma vida adulta antes do tempo, antes mesmo de brincar como crianças. Desta vez, o foco do levantamento são as jovens entre 14 e 19 anos.

Os pesquisadores localizaram as mesmas personagens da última pesquisa, além de novas vítimas. O levantamento será concluído em outubro, mas quem está em campo já vê os sinais do triste avanço do número de casamentos precoces:

“Nunca vimos tantos casos como agora (ele trabalha na Plan há doze anos). A gente tem se surpreendido. Sem dúvida, a situação econômica e a pandemia contribuíram para piorar a situação, assim como os casos de abuso e de violência contra a criança”, avalia Flávio Debique, gerente nacional de Programas e Incidência da Plan, em Codó.

Com população estimada em 123.368 pessoas, o município maranhense é miserável, ocupando o 4.352° lugar entre os 5.570 municípios do país no que diz respeito ao salário médio familiar, que lá é de R$ 1, 6 mil. Para Debique, a falta de contato com as escolas e as amigas, nos últimos meses, isolou muitas crianças do mundo. Não à toa, a ONG nasceu mundialmente durante outra pandemia, a da Gripe Espanhola, entre 1918 e 1920, que matou cerca de 50 milhões de pessoas em todos os continentes.

Outro componente que amplia o drama: a fuga para um casamento para escapar de abusos dentro de casa. Como o caso de uma menina, hoje com 15 anos e grávida aos 13, que foi morar com o namorado porque era abusada pelo padrasto desde os 11.

“Neste caso, a gravidez foi a fuga dela. Ela se libertou do padrasto, a mãe denunciou e ele está foragido”.

APROVAÇÃO DOS PAIS

Seguindo os cuidados previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, enviamos perguntas e recebemos áudios de três das jovens entrevistadas pela pesquisa. Em geral, elas se expressam como as crianças que ainda são. Vivendo a realidade de adultos, na pequena Codó, outra jovem, hoje com 16 anos, ficou grávida aos 14.

“A gente se conheceu pelas redes sociais e namora há três anos. Casamos porque fiquei grávida”, conta Claudia*. “A gente não planeja engravidar. Nenhum adolescente deseja engravidar, muito menos casar tão cedo assim. Alguns dizem que só de 18 para frente. Mas às vezes acontece. Tem muita coisa nova acontecendo. Ser mãe nova é difícil, a vida tá meio complicada, mas boa. Não posso passear para muitos lugares. A gente ainda não se casou na igreja e no cartório, só foi morar junto. Eu amo minha filha. E a família dele (o namorado) substituiu a minha família”.

Claudia diz que vai ensinar métodos contraceptivos para a filha, algo que pouco conhecia quando engravidou. O plano inicial, que era ser advogada, pode mudar para outro, como ser policial, enfermeira ou veterinária:

“Agora fico muito impressionada com uma mulher sendo juíza. Fico inspirada”.

No país, nem com a autorização dos pais adolescentes menores de 16 anos têm direito ao casamento civil e religioso, desde a aprovação da Lei 13.801, de 2019, que alterou o artigo 520 do Código Civil.

De posse do cargo de desembargadora no Rio de Janeiro desde a semana passada e juíza que se especializou na área de Família, Andréa Pachá lembra que negou autorização a uma menina de 16 que pretendia se casar.

“Em muitos casos, vemos que a família quer resolver a violência de uma gravidez precoce com o casamento. A lei hoje não impede que uniões precoces continuem acontecendo. Mas (a decisão) vai criando a percepção simbólica de que casamento não é cura”, observa Andréa Pachá. “Conversei sobre o peso daquele casamento com os pais”.

A desembargadora acredita que a ausência da escola durante a pandemia e a falta de contatos com amigos e até mesmo vizinhos impactem no número de casos de violência doméstica e também de uniões precoces por falta de orientação e rede de apoio. Procurada, a assessoria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou que a entidade não se pronunciaria sobreo assunto.

Codó é um microcosmo da pesquisa integral, que está ouvindo 2 mil meninas em todas as regiões do país. O Brasil está hoje no quinto lugar no ranking internacional de casamentos infantis, de acordo os dados do Fundo Nacional para a Infância. Estava em quarto lugar até o ano passado, mas foi ultrapassado pela Etiópia, precedida de Índia, Bangladesh e Nigéria. Estudiosos indicam que, aqui, há uma certa anuência dos pais em relação às uniões.

“Infelizmente temos encontrado muito, nesses últimos tempos, meninas de 13 anos, 14 anos, que engravidaram. Muitas foram morar informalmente com os namorados. Essas crianças jamais poderiam estar casadas. Essas uniões são totalmente proibidas por lei. De fato, elas perderam uma importante rede de proteção com a pandemia. O contato com o mundo exterior é essencial”,  afirma Cynthia Betti, diretora-executiva da Plan International Brasil.

FALTA DE OPÇÕES

Apesar de concentrado em regiões mais pobres, o drama se espalha Brasil afora. Promotora de Justiça e coordenadora do Centro Operacional de Infância do Ministério Público de São Paulo, Renata Rivitti relata casos semelhantes em seu estado. Para ela, o primeiro e crucial problema é que é uma questão “altamente invisibilizada”.

“Tem alta relação com a vulnerabilidade social. Quando pensamos em países da África e na Índia, por exemplo, estamos falando de rituais, muitos religiosos. No Brasil, se dá como se fosse a naturalização de uma escolha. E não é. Em muitos casos, é falta de opção”, diz Rivitti.

Em grande parte dos casos, as mães das adolescentes também engravidaram quando eram crianças – o que acaba naturalizando a situação em família. Em outros, o abuso é tolerado. Um dado: quase todos os maridos são adultos.

“A avó dele era vizinha da minha avó. Aí a gente decidiu morar junto porque ele morava muito longe da casa da mãe dele. Nós pegamos essa responsabilidade. Meu sonho é ter minha casa, para colocar meu filho dentro. E vou dizer a ele que tudo é muita responsabilidade”, relata Flávia*, que se uniu ao marido aos 14 anos e citou a palavra “responsabilidade” seis vezes.

A história contada por Silvia*, outra “noiva” que se tornou mãe no ano pandêmico de 2020, também traz componentes dramáticos:

“Sempre é melhor antes de namorar, de casar, realizar alguns sonhos que a gente tem. A gente se conheceu e dois dias depois já estávamos namorando. Voltei pra casa dos meus pais, mas apanhei da minha mãe, acabei fugindo. Vim passar o Natal com ele e fui ficando. Aí veio a Natália*(a filha) e os sonhos mudaram. A gente tem que pensar nela. Se dedicar. Eu não posso nem estudar. Alguns sonhos a gente tem que deixar pra trás”, conta Silvia, que se uniu ao namorado aos 16 anos. Os pais da jovem não concordaram com o casamento.

“Nenhum pai quer que os filhos casem tão novos”, afirma Silvia.  “Ser mãe e esposa jovem é muito complicado. Algumas coisas que a gente desejava fazer a gente não faz mais. A gente planejava tanta coisa…”.

A promotora Renata Rivitti corrobora a visão de que a pandemia agravou o cenário do casamento infantil:

“O momento aumentou muito tudo isso. Há muito mais litígios, brigas familiares. Aumenta o número de meninas em busca de socorro. O “casamento” acaba parecendo uma saída. Em geral não é”.

* Nomes fictícios.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE SETEMBRO

AMIGOS SANGUESSUGAS

Ao generoso, muitos o adulam, e todos são amigos do que dá presentes (Provérbios 19.6).

A lei da sanguessuga é: dá, dá. A sanguessuga gruda no nosso corpo apenas para sugar nosso sangue. Ela se alimenta da nossa seiva e se abastece da nossa vida. Há pessoas que se acercam de nós e nos cobrem de elogios, adulando-nos com palavras doces, apenas para receber algum proveito pessoal, para tirar alguma vantagem, para ganhar algum presente. São pessoas egoístas e mesquinhas. Não estão interessadas em você, mas no que você tem. Não amam quem você é, mas o que você pode oferecer. Tentam comprá-lo com bajulação. São sedosas nas palavras, estratégicas nos elogios, mas falsas nas motivações. Querem aninhar-se debaixo de suas asas. Querem viver seguras sob a proteção de sua sombra. Desejam seus presentes mais do que sua presença. Querem seus bens mais do que o seu bem. Querem o que você tem, não quem você é. São sanguessugas, e não amigos. São aproveitadores, e não camaradas de jornada. São indignos de sua companhia, e não parceiros de seus sonhos. O rei Salomão nos alerta para o fato de que todos procuram agradar às pessoas importantes; todos querem ser amigos de quem dá presentes. A prudência nos ensina a não engrossarmos as fileiras desse grupo. Não devemos dar guarida a esse bando de aproveitadores nem nutrir em nosso coração esse sentimento vil.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDE DO SEU TIME E ELE CUIDARÁ DOS SEUS CLIENTES

Você se lembra das vezes em que se irritou esperando na linha de telefone para ser atendido, dos longos formulários para preencher e da ansiedade em ter que ficar repetindo seus dados pessoais cada vez que era passado de área em área? Pois é, as experiências negativas ficam conosco, e não só para os clientes como também para as equipes que trabalham na ponta do atendimento

A pesquisa CX Trends 2021 mostrou que 75% dos times de atendimento nas empresas latinoamericanas estão se sentindo sobrecarregados e mais da metade passou a trabalhar de casa, mudando toda a estrutura e apoio que tinham de trabalho. A pandemia trouxe à tona inúmeros desconfortos e problemas pessoais a todos, mas grande parte do estresse também está relacionado à velocidade com que as empresas tiveram que reestruturar seus times e processos da noite para o dia.

E por que estamos falando dos times de atendimento? A verdade é que a percepção dos clientes sobre uma marca, hoje se embasa muito mais na experiência deles com a marca, especialmente quando precisam conversar com elas para resolver um problema, do que propriamente o produto e o preço.

E quem lida com essa jornada são as equipes de CX e atendimento ao cliente. Se ali falta tecnologia, suporte e processos adequados para atender ao cliente como ele espera, dificilmente ele terá uma boa experiência e continuará com a marca.

1. A INFLUÊNCIA DA LIDERANÇA NA AGILIDADE – O estudo Agilidade em Ação mostra que 82% dos agentes de atendimento na América Latina disseram que suas lideranças consideram a agilidade importante para o sucesso do negócio. Por isso, o primeiro ponto que trago é a importância do envolvimento das lideranças em promover uma cultura que tenha agilidade e o cliente no centro.

E isto é feito criando processos e padrões movidos pela colaboração e pelo compartilhamento de conhecimento. A colaboração continua sendo um desafio para todas as empresas. Hoje, 48% dos agentes na América Latina consideram ainda não possuir as ferramentas necessárias para trabalhar de casa, e sem isto dificilmente a empresa atingirá seus objetivos com o cliente.

Criar um ambiente que facilite a colaboração aberta e o compartilhamento de conhecimento é uma maneira poderosa de melhorar a eficiência da equipe. Por exemplo, se um agente resolve um problema difícil para um cliente, documentar e compartilhar esse esforço pode poupar outros agentes de complicações semelhantes e ajudar os clientes com mais agilidade.

Portanto, escolher tecnologias flexíveis e integradoras que possibilitem o compartilhamento de informações se torna ainda mais importante para lidar com mudanças como foi durante a pandemia.

2. VISÃO DO CLIENTE SEM SILOS – Da mesma forma, é importante que a tecnologia contribua para que a equipe de atendimento tenha uma visão unificada de toda a jornada dos clientes. Se o agente perde tempo para achar uma informação, pedir dados do cliente, passar a demanda entre diferentes áreas e canais para entender o que o cliente precisa, além daquele consumidor ter uma péssima experiência com a marca, a equipe de atendimento e muitas outras áreas perdem produtividade a todo momento.

Na pesquisa Agilidade em Ação, vimos que 37% dos agentes de empresas de médio porte dizem precisar de mais contexto do cliente para oferecer uma experiência melhor. Manter os dados coletados da experiência do cliente em silos entre as áreas é uma oportunidade perdida.

O feedback do cliente e os dados relacionados devem ser compartilhados por toda a sua organização; da equipe de produto ao marketing. Essas informações podem alimentar a tomada de decisões informada e baseada em dados, consequentemente aumentando a aquisição e fidelidade do cliente.

3. OTIMIZANDO PROCESSOS PELA AUTOMAÇÃO E AUTOATENDIMENTO – Além de ter as informações corretas em mãos, os líderes também podem otimizar o trabalho da equipe ao adotar recursos de automação e inteligência artificial. Embora não seja um substituto para os seres humanos, implementar chatbots com tecnologia de IA, por exemplo, ajuda a filtrar os chamados mais simples para que o agente foque nos clientes que querem de fato falar com um atendente humano.

Se uma transferência for necessária, os bots podem fazer com que suas contrapartes humanas se adaptem rapidamente ao contexto e tornar a solução de problemas mais rápida e eficiente. Se a empresa também investe em criar um bom canal de autoatendimento, como Centrais de Ajuda e Perguntas Frequentes, muitos dos problemas mais simples podem ser resolvidos pelo próprio cliente – e o Agilidade em Ação mostra que 61% dos consumidores preferem fazer isso para achar respostas .

4. MANTER-SE À FRENTE DAS MUDANÇAS – Por fim, é preciso treinar as equipes para que possam aproveitar o melhor dos processos e tecnologias disponíveis, e constantemente aprender e se adaptar às mudanças do mercado, da empresa e do cliente. Ter um olhar continuamente atento a todos estes fatores e muitos outros se tornará parte da cultura ágil da empresa e da área de atendimento.

Afinal, agilidade é um músculo que, assim como tantos outros, precisa ser exercitado com frequência para alcançar os resultados esperados da equipe e consequentemente em toda a experiência que o cliente terá com a sua marca.

*** FÁBIO GONÇALVES – É consultor de Soluções da Zendesk Brasil.

EU ACHO …

O DESAFIO

Vou desafiar meus leitores e minhas leitoras. É um convite a uma posição mais científica na formulação de opiniões. Meu texto de hoje tem dois objetos: um é de memória de um centenário, outro é uma metodologia de pensamento.

Começo pela metodologia. O pensamento científico tenta enfrentar o que for “preconceito”. Dentre muitos sentidos, a palavra indica um conceito surgido antes da experiência, algo que está na cabeça sem observação da realidade. O indivíduo é um evangélico fervoroso e, por causa da sua fé, evita ler um bom texto do papa Francisco, por exemplo. Obviamente, o mesmo ocorre com o católico convicto em relação a outros credos. Também Freud, Adam Smith ou Marx são precedidos de muitas informações de segunda mão. Sempre houve mais nieczschianos do que leitores de Nietzsche, mais freudianos do que examinadores dos textos do médico austríaco.

Existem, por fim, os que conhecem algo de uma referência, porém apenas tomaram contato com trechos, excertos, frases perdidas. Talvez Platão e a Bíblia sejam as vítimas mais frequentes desse mal. Como na parábola dos cegos que apalpam um elefante, uns imaginam que a forma do mamífero seja de uma espada por tocarem no marfim, outro afirma ser uma parede por tocar seu abdômen e um terceiro garante que é uma mangueira por ter encostado, exclusivamente, na tromba.

Passemos ao centenário e à união dos dois temas. A 19 de setembro de 1921, ou seja, há cem anos, nascia o recifense Paulo Reglus Neves Freire. Filho de uma classe média urbana (o pai era militar), enfrentou dificuldades, porém seguiu o curso de Direito e começou a lecionar português. Seu olhar agudo tocava em um grande problema do Brasil: a alfabetização de adultos. Os métodos tradicionais causavam desistência. Apenas para dar uma breve indicação do tamanho do desafio: em 1906, de cada mil habitantes do Estado de Pernambuco onde Paulo Freire viria a nascer, 193 eram alfabetizados e 807 analfabetos. Os números podiam ser ainda mais desanimadores (168 alfabetizados em mil na Paraíba) ou subir um pouco mais (247 alfabetizados por mil em São Paulo). Apenas no Distrito Federal a área aproximada da então capital, Rio de Janeiro, a alfabetização ultrapassava 50% da população (519 em mil). Éramos um país rural e com poucos leitores. Deixamos de ser um país rural…

O quadro foi mudando lentamente ao longo do século 20, sem nunca ter conseguido eliminar a gravidade do analfabetismo total e do ainda não calculado analfabetismo funcional. Como construir uma sociedade produtiva e minimamente justa com analfabetismo, letramento imperfeito, dificuldades estruturais de leitura e de interpretação de texto? Abundam alunos defasados na relação idade/ano cursado, desistência e evasão escolar, sucateamento material da escola pública e a evidente falta de um projeto nacional consistente e contínuo sobre a educação. O quadro como via o jovem Paulo Freire e a nós, cem anos depois…

A questão tinha tocado fundo em Anísio Teixeira (1900-1971), um dos mais influentes pensadores da educação pública brasileira. Um dos livros do baiano de Caetité apresenta como título quase um programa permanente: Educação Não É Privilégio.

Há muitos outros educadores. Paulo Freire é um deles. Ele concebeu um modelo de alfabetização novo. Partiu do universo dos alunos em um célebre experimento com cortadores de cana. Usando uma palavra em voga hoje, empoderou os alunos que deixaram de ser receptores passivos de uma escola informativa, baseada na memória e com autoridade do professor. Escreveu sobre suas experiências, inclusive sobre alguns fracassos que motivaram aperfeiçoamentos no método.

Paulo Freire tem muitos livros. Seu método chamou a atenção de intelectuais na Europa e nos EUA. O livro Pedagogia do Oprimido, obra básica para conhecer seu pensamento, é traduzido para quase todas as línguas. Sei da importância do livro, porém o meu preferido é Pedagogia da Esperança. É o intelectual brasileiro mais citado na área de educação nos grandes centros. Cerca de 40 instituições universitárias de peso deram a ele o título de Doutor Honoris Causa. Exemplos? Genebra, Bolonha e Barcelona. Foi professor-visitante em Harvard. Um brasileiro debatido e estudado no mundo todo. Não por acaso, é o patrono da educação brasileira.

Comecei falando do caráter pouco científico de julgar sem ler. Depois falei do centenário de Paulo Freire. Tenho encontrado defensores e detratores apaixonados da obrado recifense. Encontro bem menos leitores. Lanço o desafio cheio de esperança no centenário dele: antes de defender ou atacar Paulo Freire, leia dois livros dele ao menos. Pouco eu sei, porém, um começo. Depois de ler e examinar a obra, talvez alguns dados biográficos dele. Por fim, livremente, sendo você de esquerda ou de direita, emita sua sagrada opinião, agora com certo embasamento.

Educação é algo muito sério. Paulo Freire encarou o gravíssimo drama do analfabetismo. Hoje vivemos outro tipo de drama: pessoas que possuem a capacidade de ler e se recusam a fazê-lo. Freire dizia que a esperança é um ato revolucionário. Acredito nisso.

*** LEANDRO KARNAL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COM A CABEÇA FEITA

Estudo mundial constata o aumento explosivo de sintomas de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes, resultado direto dos efeitos perversos da pandemia

As crianças e adolescentes vivem uma contradição nesta pandemia. Se eles são mais resistentes à ação nefasta do vírus do que os adultos, suas mentes estão entre as vítimas preferenciais do cenário atual. Um dos mais completos estudos já realizados sobre os efeitos da Covid-19 na saúde psicológica identificou o aumento explosivo de sintomas de ansiedade e depressão entre jovens, considerando desde a primeira infância até pouco antes de se tornarem maiores de idade. O levantamento coordenado pela Universidade de Calgary, do Canadá, compilou informações de 29 estudos que abordaram os desígnios mentais de 80.000 pequenos participantes de diversas partes do mundo, inclusive da América do Sul. O porcentual de jovens ansiosos saltou de 11,6% antes da pandemia para 25,2% agora – trata-se de um aumento superior a 100%. Para ficar claro: um em cada quatro jovens desenvolveu algum tipo de ansiedade enquanto o novo coronavírus se multiplicava pelo mundo. Os depressivos eram 12,9% nos tempos pré-Covid e são 20,5% atualmente.

A juventude é um período único da vida. Nessa fase, são comuns rompantes de felicidade entremeados com momentos de angústia, tudo junto e misturado em uma sinfonia de pensamentos típicos da tenra idade. Os psicólogos dizem que, nesse período mágico, os jovens precisam de rotina, ordem e equilíbrio – tudo aquilo que a pandemia aniquilou de forma repentina. A vida ficou imprevisível, cheia de incertezas. Com as restrições de circulação, o convívio social foi abruptamente interrompido. Amigos de escola, colegas de clube, parceiros de baladinhas para os adolescentes, todos eles saíram de cena, e a tela do smartphone, computador ou TV passou a ser, durante uni bom tempo, o único ponto de contato com o mundo lá fora. “Estar socialmente isolado, afastado dos amigos, das rotinas escolares e das interações sociais revelou ser muito duro para os jovens”, diz Sheri Madigan, uma das autoras do estudo.

Os meses de isolamento foram, de fato, terríveis. Rejane Tardelli, mãe de Maria Fernanda, de 12 anos, e João Guilherme, de 14, identificou uma mudança negativa no humor dos filhos desde o começo da pandemia. Para entender o problema, ela agendou consultas com uma psicóloga para toda a família – e, sim, a crise se devia ao isolamento imposto pelo vírus. Maria Fernanda conta que, com a suspensão da escola e das aulas de futebol, tênis e skate, a vida piorou. “Fiquei mais triste mesmo”, resume a garota. Ela teve de trocar o contato com amigos e colegas por brincadeiras com o cachorro e mais tempo on­line, em sites como o YouTube.

A volta às aulas pode ser um antídoto contra a ansiedade e a depressão. As escolas obviamente favorecem o contato próximo entre os jovens, mas elas também estão atentas aos incômodos mentais. Segundo Claudia Santos Ferreira, psicóloga do Colégio Pensi, no Rio de Janeiro, a procura dos estudantes por conversas ou atendimentos cresceu de modo significativo desde o começo da pandemia, inclusive entre crianças com menos de 10 anos. “Entre nossos alunos, aumentaram muito as queixas daquilo que os menores chamam de tristeza e os mais velhos, de depressão”, afirma Claudia. “Eles têm falado frequentemente sobre dificuldades nas relações com os colegas, da sensação de isolamento e do frequente desinteresse pelos estudos.”

O fenômeno é notado em diversos colégios. Meire Nocito, diretora educacional do Visconde de Porto Seguro, de São Paulo, reforça o papel vital do retorno às aulas presenciais. “Na escola, o jovem tem autonomia, ao contrário do ambiente doméstico, onde fica muito vinculado à família”, diz. “Em tempos de pandemia, ele precisa estar em um lugar onde aprende a lidar sozinho com conflitos.” Brae Anne McArthur, uma das pesquisadoras que conduziu o estudo da Universidade de Calgary, concorda com esse ponto de vista. “Sabemos que jovens se dão bem com rotinas claras”, diz. “Por isso, o retorno à escola e a atividades extracurriculares é muito importante, podendo acrescentar mais pontos de apoio à saúde mental de crianças e adolescentes.”

A história ensina que as grandes crises costumam ser devastadoras para as novas gerações. Durante a II Guerra, crianças da então Prússia Oriental foram separadas de suas famílias e, para escapar da morte, vagaram por florestas durante meses. Devido aos hábitos selvagens que acabara1n adquirindo , recebera1n o apelido de crianças-lobo. Durante anos, esses ex- andarilhos, mesmo depois de reintegrados à sociedade, conviveram com os danos psicológicos provocados pela experiência traumatizante. Um famoso estudo dessa época reforçou a importância da manutenção de laços familiares. Durante os confrontos, milhares de crianças foram retiradas de Londres e outras cidades para morar em lares adotivos no interior da Inglaterra. Segundo a pesquisa, os jovens que ficaram com suas famílias, mesmo debaixo de bombardeio, eram mais “felizes” – na medida do possível, ressalte-se – do que os exilados.

O curioso é que, na pandemia do século XXI, muitos laços familiares foram revigorados graças ao confinamento forçado. Para muitas famílias, o período dentro de casa ajudou a aproximar pais e filhos. “Algumas crianças relataram que essa fase trouxe aspectos positivos e oportunidade de crescimento”, diz Guilherme Polanczyk, psiquiatra de crianças e adolescentes e professor da USP. Isso certamente ocorreu em muitos lares, mas o quadro geral mostra que a pandemia provocou estragos que deverão ser duradouros. Na psicologia, um evento traumático ocorrido hoje vai reverberar apenas amanhã, em um processo que pode levar meses ou anos. Seja como for, apenas o futuro será capaz de dimensionar o real estrago provocado por um vírus que obrigou a sociedade a se reorganizar, alterando hábitos enraizados. É certo que as crianças e adolescentes sofreram, só não se sabe exatamente quanto. Mas é certo também que vão se restabelecer.

OUTROS OLHARES

UM A CADA SETE JOVENS AINDA TEM SINTOMAS TRÊS MESES APÓS COVID

Resultados de pesquisa feita no Reino Unido ainda são preliminares

Um estudo conduzido por pesquisadores da University College of London (UCL) e do Instituto de Saúde Pública da Inglaterra concluiu que uma a cada sete crianças e adolescentes que têm entre 11 e 17 anos ainda apresentava três ou mais sintomas ligados à Covid-19 mesmo três meses após ter tido a infecção.

A pesquisa monitorou dois grupos, um de 3.065 jovens que testaram positivo para a doença entre janeiro e março deste ano, e um segundo grupo de 3.759 crianças e adolescentes que testaram negativo no mesmo período. Os resultados preliminares foram divulgados na última semana pela UCL.

O estudo é o maior já feito sobre Covid-19 longa nessa faixa etária, mas ainda não foi revisado por pares. De acordo com as primeiras conclusões dos pesquisadores, cerca de 30% dos jovens pertencentes ao grupo que testou positivo relataram ter três ou mais sintomas depois de 15 semanas.

Entre o grupo que testou negativo, 16% dos indivíduos fizeram a mesma afirmação. A diferença entre os dois grupos indica que 14% das pessoas entre 11 e 17 anos ainda apresentavam os sintomas devido à doença.

“Existe uma evidência consistente que alguns adolescentes terão sintomas persistentes depois de testar positivo para o Sars-CoV-2 (vírus causador da Covid-19). Nosso estudo apoia essa evidência, com dores de cabeça e cansaço incomum sendo as reclamações mais frequentes”, afirmou o responsável pela pesquisa, o professor Terence Stephenson, da UCL, ao site da universidade.

Segundo os pesquisadores, o número alto de jovens que testaram negativo e ainda assim relataram sintomas de Covid-19 pode ser explicado, por exemplo, pelo fato de sintomas como cansaço incomum serem normais na faixa etária monitorada. Isso reforça a necessidade de haver dois grupos para comparação, ressalta a coautora do estudo, professora Roz Shafran, também da UCL.

“Nosso estudo também mostra a importância de se ter um grupo para comparação de modo que os sintomas da Covid-19 longa não sejam confundidos com problemas de saúde não relacionados à doença. Sem um grupo de controle dos jovens, nossas descobertas não poderiam ser interpretadas”, disse.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE SETEMBRO

A MENTIRA TEM PERNAS CURTAS

A falsa testemunha não fica impune, e o que profere mentiras não escapa (Provérbios 19.5).

Os tribunais da terra estão repletos de falsas testemunhas. Pessoas que juram falar a verdade, com a mão sobre a Bíblia, e depois abrem a boca para falar mentiras. O resultado desse teatro vergonhoso é que inocentes saem desses tribunais condenados, e os culpados acabam livres, sob a proteção da lei. No entanto, ainda que a verdade seja escamoteada nos tribunais da terra, ainda que a mentira vista a toga sagrada do direito e desfile na passarela da justiça, sua máscara um dia cairá, e suas vergonhas serão vistas por todos. A mentira tem pernas curtas. O mentiroso não é consistente. Ele incorrerá em contradição mais cedo ou mais tarde. Tropeçará em sua própria língua. Será pego em sua própria armadilha. Seus pés descerão à cova que ele abriu para seu próximo. O mal que ele intentou para o outro cairá sobre sua própria cabeça. Isso porque as trevas não prevalecerão sobre a luz. A mentira não triunfará sobre a verdade. A falsa testemunha não ficará impune nem conseguirá escapar do castigo. A mulher de Potifar, ao acusar o jovem José do Egito de assédio moral, teve sua reputação resguardada por algum tempo. Mas a verdade veio à luz, sua trama foi descoberta, e seu nome caiu na vala de desprezo por gerações sem fim.

GESTÃO E CARREIRA

COMO COLOCAR O BEM-ESTAR EMOCIONAL DOS COLABORADORES COMO PRIORIDADE

De acordo com uma pesquisa da Willis Towers Watson com 186 grandes empresas em atuação no Brasil, 97% têm como prioridade o bem-estar emocional dos colaboradores para os próximos três anos.

Com a grande transformação da relação entre as pessoas e o ambiente de trabalho nos últimos meses, o formato híbrido (parte no escritório e parte em home-office) deverá se consolidar daqui em diante e a empatia irá se tornar algo imperativo dentro das corporações. Com ela, vem a necessidade de prezar ainda mais pela a saúde mental e a motivação dos colaboradores.

De acordo com uma pesquisa da Willis Towers Watson com 186 grandes empresas em atuação no Brasil, 97% têm como prioridade o bem-estar emocional dos colaboradores para os próximos três anos. Nessa mesma pesquisa, 88% afirmam que a pandemia foi prejudicial para a saúde mental dos mesmos. No entanto, manter o time engajado e feliz em um modelo híbrido de trabalho não é um desafio apenas das grandes companhias.

Mas sim de todo o mercado brasileiro, inclusive dos micro, pequenos e médios negócios. Hoje, mais de 90% das empresas no país possuem menos de 100 funcionários, segundo o IBGE. Segundo Gabriel Leite, cofundador da Feedz, plataforma completa para engajamento e desempenho de colaboradores, independente do tamanho do negócio, seja uma grande companhia ou uma PME, o RH deverá criar uma cultura de valores em que as pessoas são a prioridade.

Ou seja, a saúde mental e a felicidade dentro das organizações estarão no centro das decisões. Pensando nisso, Gabriel elencou algumas dicas para construir uma cultura organizacional forte, na qual os valores da empresa estão totalmente focados nas pessoas. O resultado é um time mais motivado e feliz.

1)  SEJA, ACIMA DE TUDO, HUMANO – O contato social restrito aos meios digitais pode ser um dos principais fatores da desmotivação. Então, uma das soluções é criar ambientes em que as pessoas  se sintam acolhidas e seguras. Por exemplo, incentivar momentos de descontração, pausas durante o expediente e garantir que o trabalho não se sobreponha à vida pessoal.

2)  RECONHEÇA TANTO AS CONQUISTAS EM GRUPO QUANTO AS INDIVIDUAIS – Sucessos coletivos são incríveis e devem ser reconhecidos, mas uma maneira de manter todos motivados é pensar também nas conquistas individuais. O simples ato de fazer o reconhecimento do trabalho e desempenho pode aumentar a produtividade, diminuir a rotatividade de funcionários, inspirar lealdade e aumentar o engajamento.

3)  PEÇA FEEDBACK DIRETO DOS COLABORADORES – Você só saberá se seus métodos estão funcionando se perguntar. Incentivar rotinas para trocas de feedbacks é essencial para manter o time engajado e feliz. Mas fique atento: a liderança deve prezar por um ambiente acolhedor, em  que o colaborador se sinta à vontade para compartilhar inseguranças e sugestões de melhoria para a empresa.

4)  SEGURANÇA ACIMA DE TUDO – Da mesma forma que as empresas precisam cumprir as normas  de segurança no ambiente físico de trabalho, como as regras sanitárias de prevenção à Covid-19, por exemplo, também é necessário investir na segurança emocional dos colaboradores. Para isso, é essencial construir relações de confiança e desenvolver uma cultura de diálogo e acolhimento.

Desenvolver uma cultura de bem-estar, focada na criação de cenários de felicidade para os colaboradores, não é fácil. Para a liderança, há o dever de compreender a pessoa sem perder de vista que ela é um ser humano que contribui para o andamento dos negócios.

*** FONTE E MAIS INFORMAÇÕES: www.feedz.com.br

EU ACHO …

ÚLTIMA GERAÇÃO DE PRIMEIROS

Certa vez,recebi no LinkedIn um relato de uma moça recém-promovida gerente na empresa em que trabalhava. E me identifiquei demais, em várias partes. Segundo ela, amigos e parentes estavam em festa e não era para menos. O cargo representava um marco: era a primeira pessoa da família a conseguir um posto tão alto. Filha de uma faxineira e de um pedreiro, ambos com ensino fundamental inconcluso, ela sempre foi encorajada a ir longe nos estudos. Certamente, suas vivências e dificuldades tinham lhe fortalecido e ensinado a perseverar, criando estratégias para driblar a escassez .

No entanto, este orgulho e um olhar carinhoso sobre seu passado foram uma construção. Afinal, em seu meio tinha se sentido acuada e coagida a mentir sobre seus pais. A maioria dos colegas falavam sobre bibliotecas em casa com centenas de livros compartilhados por gerações. No caso dela, a maioria dos livros que acessou eram xerocados ou PDFs passados por professores que aliviavam sua barra financeira.

Na faculdade, a biblioteca era sua principal aliada para ler, participar de grupos de estudos, pegar livros caros emprestados ou tirar aquele soninho nos intervalos das aulas. Típico de quem mora hem longe da faculdade e tem que acordar megacedo.

Mas agora a promoção vinha mostrando que tudo pelo que passou tinha valido a pena. Será? Às vezes, questionava-se.

Assim que recebeu a promoção, sua chefe imediata sugeriu que usasse parte do recurso para fazer uma pós-graduação, já que a empresa poderia arcar com uma parte do investimento.

Ela achou a ideia incrível, mas, ao pegara planilha e fazer os cálculos, deu-se conta de que investir em si mesma ainda não poderia ser a principal prioridade.

Ganhar pouco mais de dez salários mínimo por mês poderia parecer uma fortuna se esse dinheiro fosse só para ela.

No entanto, o título de ser a primeira da família a alçar um posto tão alto também pesava no bolso. Ela tinha uma dívida histórica com toda a rede corresponsável por sua conquista

Isso na prática também significava ter uma participação financeira mais robusta na ajuda aos pais do que seus irmãos, ainda desempregados. O pai tinha acabado, inclusive, de descobrir uma doença rara, e ela precisaria ajudá-lo. Destinava parte do salário aos irmãos e familiares que sempre pediam algum tipo de suporte para pagamento de dívidas.

Ir a um restaurante mais caro para fazer networking ainda não era um reflexo. Ou, se rolasse, pedia o item mais barato torcendo para não sugerirem de ratear a conta. Isso gerava um frio na barriga pois qualquer movimento em falso poderia coloca-la no vermelho. Sentia como se estivesse vivendo em uma espécie de limbo em que precisava ajudar quem não tinha as mesmas condições.

Antes de ocupar o tal posto, desconhecia uma das regras de ouro do mundo corporativo: promoções também moram no networking. Competência pode contar, mas proximidade e recomendação do amigo do amigo importam e muito.

Um mentor lhe dissera que comparecer a happy hours não era só diversão. Por isso, deu-se conta deque talvez devesse ter participado mais vezes no passado. Não se dá cargo de confiança a quem não se conhece.

Uma coisa ela já sabia: precisaria se esforçar muito para entregar acima da média e justificar a escolha daqueles que apoiaram seu crescimento na empresa. E, ao mesmo tempo, driblar a pressão extra por ser uma das poucas mulheres negras naquele tipo de cargo.

Ela deseja que, no futuro, entre as próximas gerações, alcançar um posto como aquele ou mais alto não seja mais um marco para pessoas como ela.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BEIJINHO, BEIJINHO, TCHAU, TCHAU

A pandemia aboliu o costume nacional – e de boa parte do mundo – de cumprimentar pessoas com um ou mais beijos no rosto. Há quem diga que é para sempre. Será?

Na revolução de costumes que a pandemia desencadeou pelo mundo, uma das transformações mais notáveis ocorreu no modo como as pessoas se cumprimentam. Tirando as mãos juntas na frente do peito, à moda indiana, e a inclinação de cabeça e torso, típica dos orientais, todos os outros gestos de saudação mais usados foram abolidos em nome da prevenção contra o novo coronavírus. À medida que a vacinação e o conhecimento das situações de contágio avançam, dá para imaginar que um rápido aperto de mão ou um abraço com rostos bem afastados têm chance de reaver seu lugar no encontro entre duas pessoas. Mas e o beijinho no rosto, aquele manancial de partículas despejadas justamente das redondezas da boca, nariz e olhos, as áreas mais críticas da contaminação? Deste, ninguém arrisca, por enquanto, a prever a volta – nem os franceses, seus maiores divulgadores. Em uma pesquisa do Instituto Francês de Opinião Pública feita com a imunização já avançada no país, 78% dos entrevistados se disseram dispostos a dispensar permanentemente la bise, como o gesto é conhecido, ao cumprimentar pessoas que pouco ou nada conhecem. Mais: 50% pretendem evitar beijos na bochecha até na relação com os mais próximos.

Os franceses não inventaram o beijinho como cumprimento, mas foi da França que ele se espalhou pelo mundo. Atribui-se o sucesso de la bise no país à calorosa cultura latina e à tendência francesa de conferir significado aos gestos – ao se beijarem, as duas pessoas se colocam em pé de igualdade e transmitem uma mensagem de sociabilidade e acolhimento.

“Há dois tipos de cultura no mundo: a que valoriza o contato físico e a que o inibe. Na França, sempre predominou o apreço pela proximidade”, diz Dominique Picard, especialista em relações sociais da Université Sorbonne Paris Nord. Quer dizer, até a Covid-19 fazer seu estrago e o beijo na bochecha ganhar a pecha de vilão. Mesmo estando 65% dos franceses imunizados, o presidente Emmanuel Macron, beijoqueiro contumaz inclusive de senhoras que não foram criadas assim, como a chanceler alemã Angela Merkel e a ex-primeira-dama americana Melania Trump, se viu soterrado em críticas ao tentar reabilitar o cumprimento beijando (de máscara) dois veteranos da II Guerra Mundial, em uma cerimônia em junho. “Acho que esse gesto não volta tão cedo. Mas sou otimista e confio que vai acabar reaparecendo, afinal o toque é inerente à condição humana e fundamental para o desenvolvimento cognitivo,” anima-se David Le Breton, antropólogo da Universidade de Estrasburgo.

No Brasil, onde chegar por último em um jantar de família impunha o ritual de dar a volta na mesa beijando um por um os presentes, a pandemia extinguiu esse tipo de cumprimento e a rejeição a ele segue firme e forte. Muita gente se declara, inclusive, favorável a sua interdição definitiva, a não ser em ocasiões especiais. “Agora, eu beijo meus filhos e meu marido. E ponto-final”, decreta a funcionária pública Cláudia Teresa Guimarães, 57 anos, do Rio de Janeiro. Na mesma linha, a estudante Ana Clara Lopes, 24 anos, de Campos dos Goytacazes, no interior fluminense, encarou o fim da obrigatoriedade de beijar quem encontrar pela frente como uma espécie de libertação. Fica apenas no soquinho com os conhecidos. “Parei para refletir e me dei conta de que se trata de um excesso de contato físico”, afirma.

A ciência corrobora a tese de que a beijação indiscriminada não é saudável. O beijo permite que gotículas de saliva repousem na face da outra pessoa, facilitando a disseminação de vírus e bactérias – um gesto rápido que abre portas não só para o novo coronavírus, mas para uma série de outros agentes causadores de enfermidades como gripes, herpes, caxumba, catapora e conjuntivite. Edimilson Migowski, professor de doenças infecciosas da UFRJ e presidente do comitê científico de enfrentamento da Covid do estado do Rio, está entre os que acreditam que o beijinho na bochecha sairá de moda por um bom tempo, talvez para sempre. Como as vacinas não são 100% eficazes, diz, a doença permanecerá ativa mesmo em países onde boa parte da população já estiver imunizada, fazendo dos protocolos anti-Covid cuidados duradouros. “Duvido que aquele beijo social volte a ser regra. Ficou deselegante expor o outro ao risco”, aposta Migowski.

Pode até ser que o beijinho suma do mapa – mas os registros da história não apontam nessa direção. A origem documentada do cumprimento usando o rosto – no caso, esfregando narizes – está na índia: textos em sânscrito datados de 1500 a.C. sugerem essa forma primitiva de saudação. A prática se internacionalizou por volta de 326 a.C., quando o exército de Alexandre, o Grande, ocupou partes da Índia e, seguindo adiante, apresentou o esfrega­narizes a povos do Oriente Médio. O cumprimento, já transmutado em beijo, viria a ganhar espaço e prestígio como ritual afetivo no Império Romano. Coube aos romanos categorizar o gesto, dando nome de saevium à versão amorosa, de osculum nos atos religiosos e de baseum nas manifestações de polidez e cortesia – este, o ponto de partida do beijinho-cumprimento de hoje em dia. À medida que o Império se expandia, os romanos, tal qual missionários do beijo, foram transplantando o costume para os limites de seus domínios. Na França, acredita-se que tenha chegado durante as guerras travadas com os gauleses, povo de origem celta que ocupava boa parte da região. A popularização definitiva se deu quando o beijo no rosto foi abraçado pela Igreja Católica como símbolo do cristianismo. No período em que a peste bubônica dizimava a população da Europa, a partir de 1300, o beijo na bochecha entrou em recesso devido – então como agora – ao seu potencial de transmissão da doença. O gesto atravessou a Idade Média nas sombras, identificado pela mesma Igreja como ato pecaminoso, símbolo de sensualidade e sujeira. O trauma deixado pela peste negra durou quase 500 anos, mas enfim aconteceu: o beijinho voltou, e justamente na França. Da Revolução Francesa, em 1789, em diante, beijinhos no rosto representavam os três ideais da nascente república: fraternidade, igualdade e liberdade. O liberou geral viria com a rebelião dos jovens, nos anos 1960 – o beijinho deixou o círculo mais íntimo e familiar e ganhou o mundo. Ou melhor, parte dele – os Estados Unidos e a Europa não latina até hoje torcem o nariz. Na virada para o século XXI, as bochechas brasileiras, tal qual as de muitas outras nacionalidades, passavam o dia inteiro recebendo beijos. Isso acabou. Fica a pergunta: até quando?

OUTROS OLHARES

DE FIBROSE A DOR DE CABEÇA: PACIENTES CONVIVEM COM SEQUELAS HÁ UM ANO

Pesquisa da USP identifica problemas em 60% de 750 pacientes do Hospital das Clínicas, especialmente em pessoas com mais tempo de internação. Recuperados relatam perda de sentidos e problemas respiratórios e cardiológicos, além de reflexos emocionais e cognitivos

Mais de um ano após ter covid-19, a baiana Renilda Lima ainda tem 20% do pulmão comprometido, sofre cansaço diariamente, convive com perda de memória e tem baixa imunidade. A doença, contraída em maio de 2020, causou sequelas que persistem até hoje e que Renilda, de 34 anos, não sabe se conseguirá se recuperar. Segundo pesquisa do Hospital das Clínicas da USP, 60% dos pacientes que tiveram covid no ano passado estão em condições de saúde semelhantes, mesmo após um ano da alta hospitalar.

O estudo da USP acompanha 750 pacientes que ficaram internados no primeiro semestre de 2020 no Hospital das Clínicas da instituição. Eles serão analisados durante quatro anos, mas os resultados preliminares indicaram que 30% ainda possuem alterações pulmonares importantes. Além disso, parte também relata sintomas cardiológicos e emocionais ou cognitivos, como perda de memória, insônia, concentração prejudicada, ansiedade e depressão.

Segundo Carlos de Carvalho, professor titular de Pneumologia da USP e diretor da divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor), os resultados preliminares mostram que algumas sequelas a longo prazo ainda podem ser revertidas. “Há casos em que os pulmões apresentam inflamações mesmo um ano depois da alta hospitalar. Já vimos que essas  inflamações podem virar fibroses (cicatrizes pulmonares), que são permanentes”, declara. No caso de Renilda, as sequelas físicas vieram junto com as emocionais. Além do cansaço – o que a levou a interromper algumas atividades diárias -, ela também passou a ter dificuldades de dormir e medo de ficar novamente em estado grave se contrair doenças respiratórias. “Até hoje meu sono não é regulado. Troco o dia pela noite. Recusei três propostas de emprego com medo de ficar doente”, contou.

Natural de Feira de Santana, a 116 quilômetros de Salvador, a baiana teve covid no primeiro pico da pandemia no Brasil, momento em que os hospitais públicos estaduais da Bahia não tinham leitos vagos. Ela tratou da doença em casa até conseguir um leito de estabilização em Salvador, onde permaneceu por três dias. No retorno para casa, ficou de cama durante dois meses e não conseguiu se recuperar totalmente.

Carvalho explica que as sequelas são piores e mais longas nos casos em que o tratamento das complicações causadas pela Covid é feito tardiamente ou de maneira não adequada. “Percebemos que os pacientes que demoraram mais a serem encaminhados para o hospital das Clínicas chegaram em um estado mais grave, e isso também agrava as sequelas. Quanto maior o tempo de internação e a gravidade das infecções, maior a tendência de haver mais sequelas a longo prazo”.

SENTIDOS

A perda do paladar e do olfato, sintomas comuns no período de infecção, também está entre as sequelas de longa duração. O estudante de Engenharia Ambiental e cozinheiro Emmanuel Ramos, de 20 anos, afirma que os dois sentidos estão “distorcidos” e que os cheiros de alguns temperos foram perdidos. “Tenho enjoos também quando sinto o cheiro de produtos de limpeza e até das queimadas que atingem minha região”,  disse Ramos, de Palmas.

Nos dois casos, as sequelas alteraram a rotina anterior à Covid. Em relação a Emmanuel Ramos, o atrapalha na cozinha. Já Renilda parou de fazer faxina em casa, de ir à academia e sente que não pode desempenhar a mesma função de antes no trabalho, em que era gerente de um estacionamento, por também sofrer perda de memória.

Essa última sequela é relatada por 42% dos pacientes durante a pesquisa da USP.  De acordo com os relatos ouvidos, a perda de lapsos de memória é frequente na rotina e acontece a qualquer hora. “Às vezes, saio da minha sala de trabalho para beber água no corredor e no caminho esqueço o que fui fazer”, descreve a acreana Sheyenne Queiroz, de 45 anos. Ela contraiu a Covid em novembro e não chegou a ficar no estado grave da doença, mas passou a sofrer com dores de cabeça fortes e esquecimento. “Cheguei a achar que estaria com aneurisma por causa da intensidade das dores de cabeça, mas, ao procurar um neurologista e fazer exames, ele me disse que se tratava de uma sequela da Covid-19″, diz.

A neuropsicóloga do Instituto Alberto Santos Dumont, Joísa de Araújo explica que as queixas mais recorrentes dos pacientes estão concentradas em esquecimento, dores de cabeça, ansiedade, sintomas depressivos e sensação de fadiga, inclusive em pessoas ditas “assintomáticas” durante o período de infecção. “Muitos jovens, que não tinham queixas anteriores, passaram a apresentar dificuldades de recordar questões do dia a dia”, afirma

ASSISTENTE AINDA SOFRE COM FALTA DE AR APÓS QUATRO INTERNAÇÕES

Baiana contraiu covid-19 em junho de 2020 e foi diagnosticada com inflamação no pulmão e Arterite de Takayasu

Natural de Esplanada, Bahia, Eliane Silva, de 32 anos, contraiu Covid-19 no final de junho de 2020 e precisou ser internada quatro vezes por causa do vírus. Foram três vezes por causa das sequelas da doença, além da hospitalização no período em que estava infectada.

A assistente de pessoal passou a sofrer com falta de ar, fadiga e problemas na circulação. Ela foi diagnosticada com vasculite pulmonar (doença autoimune que se caracteriza pela inflamação dos vasos pulmonares) e Arterite de Takayasu, uma doença inflamatória crônica.

Em julho, a baiana foi internada em uma unidade de saúde de Salvador para tratar uma nova crise. “Não tinha problema respiratório e tudo começou depois da Covid. Hoje me sinto muito abalada. Às vezes, digo para o médico que prefiro nem pensar nisso tudo, pois já dá vontade de chorar”, confessa.

Segundo o professor Carlos de Carvalho, casos de doenças autoimunes são possíveis em qualquer infecção ou vírus. Entretanto, ele afirma que os resultados obtidos na pesquisa não indicam que essa é uma característica recorrente, apesar de possível. “É algo que permanecemos atentos para ver se doenças autoimunes irão se manifestar ao longo dos anos, mas, com um ano, não vimos.”

Em julho do ano passado, Eliane ficou internada, mas recebeu alta no mesmo mês. No entanto, passou a sentir dores debaixo do peito esquerdo e entre a costela em novembro e precisou retornar ao hospital. Na maioria das vezes, os médicos afirmavam que as dores eram gases e passavam uma medicação paliativa. Somente em janeiro, cinco meses após as primeiras dores, descobriu o que sofria.

O tratamento inicial durou de quatro a seis meses, com coagulantes e uso de corticoide, remédio com potência anti-inflamatória. Entretanto, ela voltou a sentir dores ao iniciar o desmame dos medicamentos e foi internada no dia 28 de julho. “É muito complicado ter uma internação a cada seis meses. O psicológico fica a mil por horas.”

PERGUNTAS EM ABERTO

A pesquisa do Hospital das Clínicas é realizada com pacientes que estiveram internados entre 30 de março e 30  de agosto de 2020. Segundo Carvalho, isso significa que não se sabe quais sequelas as variantes surgidas a partir deste ano – como a Delta, mais transmissível – podem deixar a longo prazo. “Ainda são perguntas em que não sabemos as respostas porque é preciso fazer novos estudos.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE SETEMBRO

AMIGOS INTERESSEIROS

As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa (Provérbios 19.4).

Há amigos e amigos. Há amigos de verdade e amigos de fachada. Amigos do peito e amigos que nos apunhalam pelas costas. Há amigos que nos amam e amigos que amam o que temos. Há amigos que estão ao nosso lado no dia da fartura e amigos que nos abandonam na hora da escassez. Esses amigos de plantão não são amigos verdadeiros, mas apenas aproveitadores. Esses amigos utilitaristas rasgam os lábios em palavras sedosas e nos tecem elogios bajuladores, mas se afastarão de nós ao sinal da primeira crise. Os ricos conseguem muitos amigos dessa categoria. Esses lobos com peles de ovelhas, mascarados de amigos, estão sempre buscando alguma vantagem pessoal. Estão sempre tecendo ao rico os mais distintos elogios, enquanto maquinam no coração oportunidades para tirar algum proveito. O pobre não consegue granjear esse tipo de amizade. Ainda bem! Diz o ditado popular que é melhor viver só do que mal acompanhado. O amigo verdadeiro ama todo o tempo. Ele é mais achegado do que irmão. Não nos deixa na hora da crise nem nos abandona na hora da aflição. Jesus é o maior exemplo de amigo. Ele deixou a glória e desceu até nós. Amou-nos não por causa de nossa riqueza, mas apesar da nossa pobreza. Deu sua vida por nós não por causa dos nossos méritos, mas apesar dos nossos deméritos. Você é um amigo verdadeiro? Você tem amigos verdadeiros?

GESTÃO E CARREIRA

COLABORADORES PODEM TROCAR DE EMPREGO PARA MANTER O TRABALHO REMOTO

A pesquisa revelou uma tendência de opção pelo trabalho híbrido na volta ao ambiente corporativo, decisão tomada com clareza, em especial, pelas mulheres

A pandemia trouxe consigo o distanciamento social e a necessidade de novas formas de trabalho. Dezoito meses após a adoção forçada do trabalho remoto pela maioria das empresas no país, o retorno ao escritório torna-se uma realidade cada vez mais próxima, e é um tema que impacta diretamente na retenção e contratação de talentos. É o que demonstra uma pesquisa da Robert Half, que entrevistou 358 pessoas entre 29 de junho e 19 de julho, considerando trabalhadores e desempregados que buscam recolocação.

A pesquisa revelou uma tendência de opção pelo trabalho híbrido na volta ao ambiente corporativo, decisão tomada com clareza, em especial, pelas mulheres. Quando perguntadas se buscariam uma nova oportunidade, caso a empresa onde trabalhem atualmente decidisse não oferecer uma opção 100% ou parcialmente remota, as mulheres se mostraram mais determinadas a mudar de emprego. Entre elas, quatro em cada dez (44,1%) informaram que optariam por uma nova oportunidade que oferecesse um modelo de trabalho remoto. Entre os homens, esse percentual é de 31,4%.

De modo geral, quando perguntados sobre como gostariam que fosse o modelo de trabalho adotado pela empresa após a pandemia, 63,8% dos entrevistados declararam que, ao longo da semana, gostariam de trabalhar mais vezes em casa que no escritório. Já 16,7% preferem inverter a frequência, e trabalhar mais vezes no escritório que em domicílio.

“Antes da pandemia, a percepção geral dos colaboradores era de que o home office era um benefício oferecido pelas empresas, um diferencial de contratação. O que a pesquisa nos mostrou é que, hoje, o colaborador tem consciência de que está diante de um novo modelo de trabalho, disposto a mantê-lo e conciliá-lo com sua nova rotina”, afirma Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half para a América do Sul, ao destacar que 76,5% dos profissionais, após vivenciar o trabalho remoto por mais de um ano, passaram a considerá-lo como um novo modo de trabalho.

A pesquisa ainda demonstra que as empresas estão atentas ao desejo dos colaboradores, embora muitas ainda não tenham um plano de retorno totalmente definido. Segundo os entrevistados, mais da metade das empresas (58,1%) ainda não definiu como será o modelo de trabalho após a pandemia. Entre aquelas que já anunciaram a decisão, no entanto, o modelo híbrido é o mais adotado (65,4%).

Entre as empresas que optaram pelo modelo híbrido, 46% definiram um esquema mais rígido de comparecimento, em que os funcionários trabalham alguns dias no escritório e outros em casa. Apenas 19,4% oferecem um modelo totalmente flexível, no qual o colaborador opta pelo trabalho remoto ou no escritório, sem dias definidos. Também é alto o índice de retorno total ao escritório, indicado por 21,4% dos participantes. “Fica clara, ao longo da pesquisa, a necessidade de diálogo entre empregadores e colaboradores para definir como criar a melhor experiência de trabalho daqui para frente. Cada pessoa se relaciona com o trabalho remoto de uma maneira muito particular, e a melhor forma de lidar com essas peculiaridades é por meio do diálogo aberto e da inclusão do colaborador nessa decisão de retorno”, conclui Mantovani.

*** Fonte e outras informações:  www.roberthalf.com.br.

EU ACHO …

FAXINA LITERÁRIA

O primeiro passo é providenciar a “sujeira”. Espalho frases de qualquer jeito, abuso dos pronomes possesivos, solto umas ideias mal alinhavadas. Que ninguém veja. Há um começo manco, um final precipitado, mas já se percebe o conteúdo; precisa apenas de uma boa faxina. É um texto, apenas mais um texto esparramado na tela em branco. Tem futuro, depois que começar a varredura pode dar certo, mas deixe pra amanhã, desligue o computador e vá dormir.

No dia seguinte, mãos à obra. A página tem que ficar apresentável, estará diante dos olhos de muita gente, procure não passar vergonha.

E a partir desse ponto que me animo, que gosto de ser aquela que escreve, sabendo que escrever não é só emendar urna palavra na outra. É limpar, suprimir, arruinar, desinfetar, reescrever uma, quatro, dez vezes, até abrir a porta ao prezado leitor e liberar o acesso, “pode entrar”.

Aquele verbo, por exemplo. A frase ganhará outro ritmo se ele tiver três silabas em vez de duas. Busque outro com o mesmo sentido e se possível a mesma terminação.

A palavra medo não se aplica no segundo parágrafo, o assunto não é tão dramático, troque por receio, que fica mais suave, e fique atenta àquela rima ali no meio, a não ser que seja proposital, o leitor perdoa quando o autor poetiza a rotina. Vamos lá, não desanime, ainda há trabalho pela frente.

Aquelas redundâncias perto do fim: dispense todas elas.

Caramba, justo onde inseri uma piada? Cortá-la vai doer, a gente se apega, sabe? Será que posso transferi-la para outra parte do texto? Não, ela não serve,precisa ser eliminada. Lá por novembro vocêtenta de novo, hoje não é dia de gracinhas. Diga adeus, coragem.

Retiro um “é preciso reconhecer que” para ir direto ao assunto, dou contundência a uma descrição, deleto quatro adjetivos poluentes e troco “até este exato momento” por algo mais enxuto: “por enquanto”, isso. Preciso me manter nas cercanias dos 2.300 caracteres ou comprometerei a diagramação da coluna.

Passo a guilhotina nos advérbios, enxugo um excesso de palavras terminadas em “ão” e troco uma crítica explicita por uma ironia. Aparafuso uma palavra que estava frouxa, ajusto uma concordância equivocada e inverto a sequência de duas frases – hum, ficou melhor assim. Substituo uma expressão em inglês por sua versão em português, retiro umas aspas, altero um tempo verbal, reforço um ponto de vista, volto a colocar as aspas, leio tudo em voz alta e só então me indisponho com uma gíria que não se usa mais. Ah, tudo bem, ela fica.

Terminou? Termina nunca. Sempre sobra uma gordurinha ou uma pontuação duvidosa, mas, paciência, uma hora é preciso dar o texto por encerrado, relaxe, ficou ajeitadinho, o público já pode entrar.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS CRIANÇAS IGNORADAS

As políticas públicas educacionais desenvolvidas no brasil costumam deixar de lado alunos com transtornos do déficit de atenção e com outros problemas de aprendizagem

O baixo desempenho de estudantes brasileiros nas avaliações de Português e Matemática tem causado sérias preocupações em especialistas de diversas áreas. Essa defasagem entre o desempenho esperado para a idade e escolaridade e o desempenho observado tem origem em questões pedagógicas, socioculturais, ambientais, entre outras. Considerar todos esses fatores é, sem dúvida, necessário para que ocorra uma mudança significativa no quadro da Educação brasileira. Investir na formação de professores, melhorar as condições de trabalho e de remuneração dos educadores, bem como adotar práticas educacionais baseadas em evidências científicas são algumas das prioridades a serem consideradas.

No entanto, ainda há um contingente de crianças e jovens que, mesmo se essas condições educacionais fossem ideais, ainda assim teriam dificuldades para acompanhar o processo de aprendizagem. Esse grupo de crianças corresponde de 4% a 6% da população escolar – meninos e meninas que têm transtornos do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e/ou transtornos específicos de aprendizagem (TEA). Os sinais desses transtornos são identificados na escola, mas não são restritos ao ambiente escolar. Essas crianças têm dificuldades nas funções cognitivas de atenção e memória, em alguns aspectos do desenvolvimento da linguagem social e até emocional, e éna escola que essas dificuldades se tornam um problema maior.

A pesquisa cientifica no mundo inteiro, inclusive no Brasil, demonstra, sem ambiguidades, que quanto mais cedo esses transtornos forem identificados por profissionais da saúde melhor será o processo educacional.

Desde a Declaração de Salamanca, em 1994, o Brasil tem avançado muito em suas políticas educacionais da perspectiva da educação inclusiva, estabelecendo diretrizes e critérios para o acompanhamento de crianças com necessidades especiais, no ensino regular e complementação no Atendimento Educacional Especializado. A política atual destaca o apoio aos escolares com  deficiências física, auditiva, visual, intelectual, transtorno global do desenvolvimento (autismo) e   altas habilidades/superdotação. No entanto, o grupo de crianças com TDAH e/ou TEA não está contemplado nessa resolução que especifica o público-alvo do Atendimento Educacional Especializado.

No mundo, há legislação específica para apoio educacional e garantia de diagnóstico por equipes multidisciplinares em mais de 150 países. Como exemplo, destaco as legislações no Reino Unido e Estados Unidos da América, que enfatizam a importância da identificação precoce desses casos para intervir o mais rapidamente possível.

Em 2010, o então senador Gerson Camata apresentou um projeto de lei que dispõe sobre a necessidade do poder público garantir o  diagnóstico e  o  apoio educacional das crianças e jovens com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e dislexia, um dos transtornos específicos de aprendizagem.

O projeto já tramitou no Senado e foi aprovado em todas as comissões em que passou (Seguridade Social e Família; Educação e Cultura; Finanças e Tributação; e Constituição. Justiça e Cidadania). No momento o projeto se encontra na Câmara dos Deputados e já foi aprovado na Comissão de Seguridade Social e Família. Na Comissão de Educação, o projeto de lei nª 7081/2010 teve como relatora a deputada Mara Gabrilli, que emitiu voto favorável com apresentação de um novo substitutivo que especifica melhor as condições de cada setor: Educação e Saúde para lograr o acompanhamento dessas crianças e jovens. Ainda faltam duas comissões para a aprovação final: a Comissão de Finanças e Tributação, Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O projeto de lei nº 7081/2010 elaborado pelo estabelecimento de políticas que reconheçam as crianças com TDAH e transtornos específicos de aprendizagem como população que precisa de apoio pedagógico em sala de ala regular. Caso seja aprovado, caberá ao Poder Executivo regulamentar essa lei, estabelecendo as suas diretrizes e inserindo essas ações em programas inter­setoriais de Saúde e Educação.

Com essa aprovação, o Brasil estaria corrigindo um equívoco e, com isso, melhorando as condições de sucesso de aprendizagem para esse grupo de crianças que estão à margem desse processo. Infelizmente, ainda não é o bastante para sanar todas as dificuldades que o sistema educacional enfrenta, mas, sem dúvida, já representará um grande avanço e, pelo menos, essa parcela da população escolar terá condições mais justas de alcançar o sucesso no processo de aprendizagem.

*** ANA LUÍZA NAVAS – é professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP e membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Déficit de Atenção.

OUTROS OLHARES

BYE, BYE, PIZZA

A polêmica dieta cetogênica, que induz à queima de gordura pelo corte radical de carboidratos, volta a ganhar força e atrai de famosos a anônimos que desejam perder peso

Há dietas que não sobrevivem a uma temporada na moda. Foi assim com a da lua, cujo princípio era beber somente líquidos durante 24 horas quando o satélite natural da Terra muda de fase, e com várias outras que propunham semelhantes despautérios. Não é o que acontece com a dieta cetogênica, baseada na severa restrição de consumo de carboidratos e no aumento expressivo de ingestão de proteínas e gorduras. Há pelo menos cinco anos, o regime passa ao largo do sobe e desce entre as preferências e, desde o ano passado, permanece na primeira posição da lista das top diets, segundo levantamento da Pollock Communications, agência americana de relações públicas especializada no atendimento a empresas do setor de alimentos. E a previsão, de acordo com a pesquisa realizada com nutricionistas e nutrólogos dos Estados Unidos, é a de que a ketodiet reinará absoluta por muitos anos.

O segredo de tamanho sucesso em um universo tão competitivo quanto o das dietas está na rápida perda de peso promovida pela cetogênica. Adele, a cantora inglesa, perdeu 45 quilos em seis meses. Kourtney Kardashian, uma das integrantes da família que hipnotiza seguidores nas redes sociais, mantém seus 45 quilos com a dieta. A modelo Sasha Meneghel, a filha de Xuxa, eliminou 8 quilos. Ao mesmo tempo, o que para os adeptos é uma vitória a ser comemorada – sem pizza, claro – representa na opinião de boa parte dos médicos algo que pode não ser tão bom assim para a saúde. A pitada de controvérsia dá o toque final à receita de popularidade.

A cetogênica surgiu no início do século XX como opção para o tratamento da epilepsia, doença neurológica que leva a movimentos descontrolados e crises convulsivas. A proposta mais conhecida é a do médico americano Russell Wilder, que jogou luz ao termo cetogênico quando desenvolveu esse regime que promove condições metabólicas semelhantes às induzidas pelo jejum prolongado. Nessa condição, sem a energia proveniente da glicose fornecida pelos carboidratos, o corpo utiliza o combustível dos corpos cetônicos, produtos fabricados a partir da transformação da gordura em glicose. A gordura, até então armazenada, vai sendo queimada. Ao determinar a restrição aos carbs, a dieta de sucesso desencadeia mecanismo semelhante. Aorientação é ingerir diariamente até 10% do nutriente cinco vezes a menos do sugerido para uma alimentação balanceada. Como nossa reserva de glicose dura no máximo 36 horas, após esse período o organismo entra em cetose e obtém seu combustível da gordura guardada ou ingerida.

No cardápio da keto, há muita proteína e gorduras saudáveis, como as encontradas em óleos vegetais. O que não pode são doces, pães, alimentos processados. Analisada por esse aspecto, a dieta é saudável. “Os açúcares promovem processos inflamatórios. A dieta elimina esse risco”, diz o médico nutrólogo Pablo Llompart, que indica o regime. Por outro lado, várias pesquisas sugerem que a ausência de carboidratos e o excesso de gordura causam problemas cardiovasculares e hepáticos. “A cetogênica pode ter consequências prejudiciais a longo prazo”, afirma a cardiologista Sara Seidelmann, do Hospital Brigham and Women’s, em Boston, e autora de um estudo sobre os padrões alimentares de mais de 400.000 pessoas no mundo.

Há ao menos um consenso: a perda rápida de peso serve como estímulo para a adesão a um estilo saudável de vida. O difícil é segui-la por muito tempo. Além de cansaço e alterações de humor nos primeiros dias, o cardápio pode enjoar. “É preciso aprender a deixar a comida do dia a dia saborosa. Assim, fica mais fácil fazer a dieta sem entrar em desespero no terceiro dia”, aconselha a chef Dani Faria Lima, que cuida do cardápio do ator Reynaldo Gianecchini, novo adepto da cetogênica. Mais duas orientações: ser acompanhado por um médico e resistir ao cheirinho de pão quentinho no café da manhã. Difícil.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE SETEMBRO

NÃO CULPE A DEUS PELOS SEUS FRACASSOS

A estultícia do homem perverte seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se ira (Provérbios 19.3).

Deus não é parceiro de suas loucuras. O que o homem semear, isso ele ceifará. Você bebe de sua própria fonte. Você come os frutos de sua própria semeadura. Você se abastece de si. O tolo faz suas loucuras e depois se ira contra Deus. Desanda a boca para falar impropérios e depois quer ouvir palavras doces. Apressa os pés para o mal e depois quer receber o bem. Suas mãos são ágeis para cometer injustiça e depois esperam boas recompensas de suas ações malignas. E o pior, ao receberem a justa recompensa de suas obras más, os tolos colocam a culpa em Deus. A falta de juízo é que faz a pessoa cair na desgraça; no entanto, ela joga a culpa em Deus. Quando concebe o mal no coração e se apressa para executá-lo, não consulta a Deus. Quando se entrega à prática do mal, tapa os ouvidos aos conselhos de Deus; mas, na hora de receber o justo castigo de seus atos insensatos, a pessoa se sente injustiçada e atribui a culpa ao Senhor. Essa atitude é a mais consumada tolice. É querer inverter uma ordem imutável: colhemos o que plantamos. Não podemos semear o mal e colher o bem. Não podemos plantar joio e colher trigo. Não podemos semear discórdia e colher harmonia. Não podemos plantar ódio e colher amor.

GESTÃO E CARREIRA

CINCO RAZÕES PARA TODO EMPREENDEDOR BUSCAR UMA MENTORIA

Aprender com quem tem experiência na área pode otimizar as estratégias de um negócio, estimular seu crescimento e proporcionar economia de forma significativa.

Essas são algumas das razões que levam empreendedores a buscar um processo de mentoria. É o que está ocorrendo na Acelerar – aceleradora da Área Central, empresa de tecnologia focada em associativismo empresarial e que disponibiliza um processo de mentoria para empreendedores de todo o Brasil.

O objetivo é ajudar quem tem interesse em melhorar a performance empresarial por meio de soluções práticas. O mentor Jeferson Rosa, que conta com mais de 20 anos de experiência na área, reuniu as principais dicas. Acompanhe:

1. ACELERAR A OBTENÇÃO DE RESULTADOS – Grupos de empresas precisam alcançar certo amadurecimento para ter a melhor recompensa possibilitada por estratégias como a compra conjunta, por exemplo. Esse processo pode levar até dois anos para ser concretizado, mas, a partir da mentoria incluída na aceleradora, ele é finalizado entre seis e oito meses. É uma forma de conquistar preços mais competitivos, com impacto a curto prazo.

2. ECONOMIZAR RECURSOS FINANCEIROS – É possível realizar uma análise de como e qual produto o empreendedor pode adquirir para seu negócio, os prazos para efetuar a aquisição, auxílio na negociação e como otimizar o processo de compra conjunta. Esses pilares estão diretamente conectados com o desempenho das companhias. São muitas as variáveis, como o mix de produtos, por exemplo, mas essa consultoria pode gerar uma economia de aproximadamente 10%. Vale ressaltar que a compra conjunta pode ser feita para mercadorias que serão utilizadas no seu negócio ou revendidas.

3. CRIAR CONEXÃO COM STAKEHOLDERS – A identificação de potenciais parceiros confere ao empreendedor mais possibilidades de alavancar seu negócio. Durante a mentoria feita em grupos empresariais, é possível desenvolver habilidades empreendedoras e aprimorar a performance da empresa com sinergia. O contato desses grupos é intermediado por um gestor de projetos, responsável pela apresentação de boas práticas para ganhos reais. O resultado é um crescimento em conjunto e a possibilidade de desenvolver parcerias sólidas, que ajudam a alavancar os lucros.

4. DESENVOLVER CARACTERÍSTICAS ESTRATÉGICAS – A jornada do mentorado começa com a coleta de informações. O segundo passo consiste em fazer o cadastro e a categorização de seus fornecedores e de produtos. Tudo isso utilizando a tecnologia a favor da tomada de decisão, que é sempre feita com acompanhamento, garantindo que todos os envolvidos estejam alinhados. O software da Área Central disponibiliza gráficos com os fornecedores mais relevantes, pulverizando o potencial do empresário. Para muitos, essa é uma nova forma de enxergar o próprio negócio.

5. OTIMIZAR A GESTÃO DO TEMPO – Muitos empreendedores possuem tempo escasso. Por isso, o processo de mentoria, além de ser feito de forma remota, ajuda na organização da gestão, prazos e logística. Dessa forma, planejamento e execução são realizados em menos tempo. Somando o uso da tecnologia com a expertise em consultoria, o mentorado que coloca em prática essas melhorias está contribuindo com o próprio desenvolvi- mento, de seu negócio e do ecossistema de inovação.

Fonte e outras informações: www.areacentral.com.br

EU ACHO …

O BRANCO DOS OLHOS

A barra é um mundo diferente do Leblon”, foi a explicação que recebi logo pela manhã para uma pergunta informal e sem pretensão alguma de rivalizar os personagens dos famosos bairros do Rio de Janeiro, onde fazia uma breve visita profissional.

Na parte da tarde, a mesma explicação foi feita sobre o bairro oposto: Ah, aqui é Leblon e não a Barra”. Refleti então na perda de tempo que é a valorização das diferenças que são absolutamente indiferentes. Afinal, quão distintas podem ser pessoas que moram no mesmo país e cidade, durante a mesma geração e,nesse caso, que ainda são da mesmíssima classe social?

Pessoas iguais criam parâmetros convenientes e aleatórios para definir diferenças que as tornem melhores ou únicas. Acredito profundamente que somos mais parecidos que diferentes, mais comuns em nossas escolhas do que pensamos e essa obsessão por observar nuances superficiais prejudicam a colaboração tão necessária para a vida em sociedade.

O Leblon e a Barra, no Rio, são só um exemplo do que fazemos também em São Paulo ou em qualquer outra cidade do mundo. Quem mora em Higienópolis é diferente de quem mora no Jardim Europa? Em qual medida essa suposta diferença afeta decisões importantes na vida de empreendedoras, mães, donas de casa, profissionais liberais ou executivas que moram ou trabalham nesses bairros? E, mais que isso, o quanto valorizar essas diferenças cria uma separação inconveniente para a melhora da vida de todos?

É só parar para conversar com atenção por alguns minutos com uma mulher que trabalha em São Paulo no ano de 2021 para entender que ela tem dores e anseios parecidos com os meus. Nossas preocupações familiares, carências, vivências são mais próximas que distantes e, nos despindo do esconderijo de nossas máscaras, somos apenas mulheres brasileiras que podem ter trocas, amparo e aprendizado mútuo se minimizarmos nossas antenas para o diferente e alterar para o que é igual, comum e prioritário. Focar no enredo e não na alegoria, sabe?

O historiador e pensador europeu Rutger Bregman, em seu último livro Humanidade uma história otimista do homem, vai bem longe nesta análise de que somos mais parecidos e abertos a estarmos juntos do que nossas diferenças e afirma: “Os seres humanos nasceram para aprender, se relacionar e interagir. Somos a única espécie de primatas que tem o branco dos olhos pronunciado e essa característica permite que acompanhemos o olhar do outro. Somos livros abertos e o foco da nossa atenção é claro para qualquer um”, explica. ”Sobrevivemos como Homo sapiens porque coabitamos em grupos maiores e migramos para outros grupos com facilidade. Nosso anseio por relações cria novas conexões e não diferenças”, conclui.

***ALICE FERRAZ

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORA DE CONVERSAR SOBRE AQUELE ASSUNTO – I

Educação sexual é ainda mais necessária na pós-pandemia, quando os adolescentes vão levar os relacionamentos das telas para o mundo real

De olhares no recreio e das baladas típicas da idade para um cenário de pandemia, em que intenções e descobertas só podem ocorrer virtualmente. Para os adolescentes, o desenvolvimento emocional e sexual precisou se reconfigurar de uma hora para a outra. E como fica agora que o contato social vai aumentar ainda mais, com o início da vacinação para menores de 18 anos? Como evitar decepções, riscos e eventuais excessos?

Conversar sobre Aquele Assunto é o melhor caminho, afirmam especialistas, que se preocupam com questões como dificuldade de os adolescentes estabelecerem laços afetivos fortes, maior consumo de material pornográfico e aumento de relações sexuais desprotegidas.

Sanar as lacunas entre as experiências que os adolescentes tiveram nos meios digitais e as que viverão a partir de agora é um ponto importante para lidar neste momento. ”Um dos principais problemas relatados por eles em relação à sexualidade é o receio de como vai ser quando encontrar a pessoa, uma vez que na telinha é uma coisa e pessoalmente, outra”, observa Enylda Motta, psicoterapeuta e sexóloga da USP. “Costuma existir muita ansiedade a respeito. Mas a descoberta vai acontecer de uma forma ou de outra.”

A estudante Larissa Oro Kintope, de 18 anos, passou por esse momento de insegurança. Ela eo namorado se conheceram na pandemia e conversaram virtualmente  por quase dois meses antes do encontro presencial. A adolescente tinha receio de não saber o que fazer. Também se perguntava se o namorado se sentiria confortável de ter algum contato físico.

A primeira interação ao vivo foi no shopping, sem tirar as máscaras. Depois, resolveram evitar lugares públicos. “Tinha pensado em vários encontros, mas no fim ficamos em casa. Nos adaptamos.”

LAÇOS AFETIVOS

Capacidade de adaptação, aliás, é fundamental para que os adolescentes consigam estabelecer laços afetivos duradouros e saudáveis. “A  grande recuperação que precisaremos ter é reaprender a socializar adequadamente e com confiança sem intermédio das telas”, afirma  Felipe Fernandes, pós-doutor em Gênero e Antropologia da Educação.

Morador de Curitiba, o estudante Vinicius Rodrigues Lemos, de 18 vem tendo dificuldade nessa readaptação. Ele diz que a pandemia impediu que tivesse novas relações – algo que lhe faz falta. “A pandemia criou esse medo, uma fobia social”.

No caso da gaúcha Luiza, também de 18 anos, os contatos online até ocorreram. “Esses flertes satisfizeram um pouco no sentido de me sentir desejada, mas depois não se concretizaram”, relata a adolescente, que pediu para não se identificar. “A pandemia pausou isso e deixei de viver partes da minha vida.”

TEMPO PERDIDO

Se alguns adolescentes sentem receio de contato, outros podem acabar antecipando o ritmo das relações. É o que atestaram os pesquisadores David Bell, Leslie Kantor e Laura Lindberg, autores de um estudo que avaliou o efeito da covid-19 na vida sexual de adolescentes nos Estados Unidos. Como explica Bell, da Universidade de Columbia, alguns vão querer “compensar o tempo perdido”, embora esse aumento no número de relações deva ser temporário.

Outro receio é de que deixem de usar preservativos. “Nossa preocupação é de que os cuidados com a Covid-19 façam com que eles não prestem atenção nas infecções sexualmente transmissíveis  (ISTs)”, diz Laura Lindberg , pesquisadora chefe do Guttmacher Institute.

Por mais que a pesquisa não inclua brasileiros, a psicóloga Brune Coelho, mestre pela Universidade Federal de Juiz de Fora acredita que essa maior busca por manter relações sexuais pode ocorrer também por aqui. Ela faz a ressalva, porém, de que ainda é muito cedo para fazer previsões definitivas.

Há também quem acredite que a pandemia pode até favorecer que as relações sejam mais rígidas. É o caso da antropóloga e professora Miriam Grossi, da Universidade Federal de Santa Catarina. “Antes de se relacionarem, os jovens vão se perguntar: ‘Por onde essa pessoa andou? Será que se cuida?”.

MAIS DIÁLOGO

Isso não quer dizer que pais e educadores não precisem estar atentos e abertos para dar orientações e acolher os jovens. Até porque problemas como gravidez na adolescência e baixo uso de camisinha já eram questão de saúde pública antes da pandemia. Quase metade (44%) dos adolescentes de 12 a 18 anos que afirmaram já terem tido relação sexual não usou o preservativo na primeira vez, segundo uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), realizada no ano passado. Além disso, 35% disseram que não utilizam ou raramente usam camisinha

A pesquisa ainda revelou que 16% dos adolescentes aumentaram as práticas de sexo virtual ou de masturbação com conteúdo erótico online. Um dado que a sexóloga Lucimar Ghelfi vê com preocupação.  “Se esses adolescentes só tiverem experiências virtuais, no momento de reproduzir isso, cria-se um espaço muito grande entre real e virtual”, afirma. Além disso, há temores relativos à inadequação sexual. “O hiper estímulo pode levar a disfunções sexuais, principalmente à ejaculação precoce”, pondera o médico urologista Sander Tessaro.

O diálogo é um fator decisivo para que essa fase de descobertas seja vivenciada de forma saudável. “A sexualidade dos adolescentes deve ser tratada com naturalidade, a repressão pode afastar e inibir. Quando se fala a respeito disso, o assunto se torna natural e cria-se confiança”, afirma a psicoterapeuta Enylda, da USP.

A estudante Giovana  Fleith do Vale, de 18, sempre teve abertura para falar com a mãe. Quando recebeu uma foto de um homem no Instagram, foi à ela que recorreu. “É bom ter apoio. Nossa relação é muito boa, falamos sobre tudo”.

OUTROS OLHARES

A VIOLÊNCIA SILENCIOSA

Apesar de mais denúncias de agressões a crianças, abrigos se esvaziam na pandemia

A adolescente Maria* perdeu o pai quando tinha 3 anos e a mãe aos 9. A família decidiu que a menina passaria a viver com um casal de tios e o filho deles em Campo Largo (PR). Passados mais quatro anos, Maria relatou a outra tia ter sido abusada sexualmente pelo tio. Os abusos, segundo ela, ocorreram ao longo do último ano, sempre quando a tia e o primo saíam.

“Fui ao conselho tutelar, que me orientou a fazer um boletim de ocorrência. A família toda me julgou, não acreditou (na denúncia). Minha sobrinha está morando com a gente eaté agora não conseguiu atendimento psicológico”, diz a tia, uma professora de 29 anos que pediu anonimato.

No último ano, o número de crianças e adolescentes acolhidos em abrigos teve uma redução de 15%, segundo a Secretaria Nacional de Assistência Social. Passou de 29.998 acolhimentos, em 2019, para 25.534 em 2020. Em tempos normais, a “queda” seria uma ótima notícia, sinal de que há menos violações de direitos e de que a rede de proteção está funcionando. Mas não é nisso que acreditam especialistas.

Integrantes do Judiciário e da rede pública de proteção a menores de idade avaliam que não foi a redução da violência que esvaziou os abrigos, mas sim o abafamento dos casos. Presas em casa com seus agressores e longe da escola, principal canal de identificação de violações, crianças e adolescentes como Maria sofrem em silêncio. O funcionamento parcial de equipamentos da assistência social e de saúde durante a pandemia, com regimes de plantão ou trabalho remoto, foi outro agravante.

A promotora de Justiça Renata Rivitti, assessora do Centro de Apoio Operacional da Infância do Ministério Público de São Paulo, explica que num primeiro momento da pandemia houve um empenho maior da Justiça para encaminhar crianças e adolescentes acolhidos em abrigos. Em abril do ano passado, na tentativa de protegê-los do coronavírus, o Conselho Nacional de Justiça aprovou um documento com recomendações para agilizar processos de adoção ou até mesmo a reintegração às famílias de origem.

“Conforme a situação mais alarmante foi passando, surgiu uma nova situação: escolas fechadas e equipamentos de assistência social trabalhando em horários alternativos. Reduziram-se as formas de a notícia da violência chegar”, diz Renata.

PEDIDOS ANÔNIMOS

Se os abrigos ficaram mais vazios, os pedidos de socorro não pararam de chegar. Em 2020, as denúncias por telefone de violações contra crianças e adolescentes no Brasil cresceram quase 10%, de acordo com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Caíram os registros policiais – estupro de vulneráveis, por exemplo, teve queda de 11%, segundo o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Mas de acordo com especialistas, em muitos casos, responsáveis pelas vítimas, além de terem medo, não conseguem se desvencilhar dos agressores para ir à delegacia.

No fim de agosto, estivemos em dois abrigos no estado de São Paulo. Segundo funcionários, as unidades não conseguiram preencher nem mesmo metade das 30 vagas oferecidas nos últimos meses. Em um dos abrigos, apesar da estrutura com quatro dormitórios, brinquedoteca, balanço e espaço para pintar e desenhar, havia apenas três crianças. Uma delas era a recém-nascida Vitória*, abandonada pela mãe, usuária de drogas, ainda no hospital.

Integrante do Instituto Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Ariel Castro diz que é urgente a retomada dos serviços presenciais nas varas de Infância e Juventude, conselhos tutelares e serviços de assistência.

“Fazer atendimento de crianças em situação de risco e de violência não funciona por videochamada. O agressor está ao lado da vítima, que se sente constrangida de falar”, diz o advogado.

O Serviço de Acolhimento Aldeia São José, em Campo Largo (PR), tem capacidade para abrigar 20 crianças e adolescentes. Na série histórica, registrou média de atendimento de 15 a 18 abrigados. Segundo a coordenadora do serviço, a socióloga Maria Cristina Pieruccini, o espaço está hoje com seis abrigados:

“Isso significa que há uma importante redução na violação de direitos de crianças e adolescentes? Infelizmente, não. Com a recente retomada das aulas presenciais, já recebemos uma criança, cuja violação de direito foi percebida pela professora”, conta.

ATENÇÃO AOS SINAIS

Em março, depois de quase um ano sem frequentar aulas presenciais, Vera*, de 12 anos e também do Paraná, foi chamada pela escola para um teste de aprendizagem. Quando a pedagoga perguntou como tinham sido os meses de pandemia em casa, a menina desandou a chorar. A profissional estranhou e a encaminhou para uma unidade de saúde. Lá, descobriram que ela estava sendo assediada, manipulada e abusada sexualmente por um homem de 52 anos

Para conquistar seus pais e ficar próximo da menina, ele dava presentes à família. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público. Se ficar comprovado que o acusado enganava a família, ela permanecerá em sua casa. Caso contrário, poderá ser mandada a um abrigo.

A promotora Renata Rivitti reforça que a escola precisa estar ainda atenta para identificar as comunicações não verbais das crianças, porque nem sempre elasse expressam dentro da lógica dos adultos, como Vera.

“As crianças não necessariamente falam, mas demonstram, seja por comportamento agressivo, disperso, depressivo. O que precisamos nos preocupar é: estamos preparados para ouvir a criança, dar credibilidade para o que ela fala e dar atendimento?”, indaga a promotora.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE SETEMBRO

A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO

Não é bom proceder sem refletir, e peca quem é precipitado (Provérbios 19.2).

Há um ditado popular que diz: “O apressado come cru”. Quem investe tempo em planejamento trabalha menos e com mais e melhores resultados. Li certa feita que os japoneses gastam onze meses planejando algo e um mês para executá-lo; os brasileiros gastam um mês no planejamento e onze meses na execução. Fazer antes de planejar ou realizar um projeto sem cuidadoso planejamento é laborar em erro e semear para o fracasso. Quem não planeja bem planeja fracassar. O tempo gasto em amolar o machado não é tempo perdido. Quem começa a construir uma casa sem antes ter uma planta? Quem vai à guerra sem antes calcular o seu custo? Quem começa um projeto sem antes avaliar suas vantagens e perigos? Agir sem pensar não é bom. A pressa é inimiga da perfeição. Um empreendedor, via de regra, faz duas perguntas antes de iniciar qualquer negócio: Quanto vou ganhar se fechar esse negócio? Quanto vou perder se deixar de fechar esse negócio? Tomar decisões sem reflexão é uma insensatez. Falar antes de pensar é tolice. Entrar num negócio sem avaliar as oportunidades e os riscos é pavimentar o caminho do fracasso. Mas investir o melhor do seu tempo no planejamento é sinal de prudência, pois a pressa é inimiga da perfeição. Não seja tolo, seja sábio!

GESTÃO E CARREIRA

EMPREENDEDORES VOLTAM AOS ESCRITÓRIO COM REGIME HÍBRIDO E ESPAÇOS MENORES

Empresas adotam sistema de rodízio de funcionários e diminuem gastos com condomínio e aluguel

Com a suspensão das medidas de restrição na maioria dos estados, pequenas e médias empresas testam, ainda que lentamente, o retorno aos escritórios.

A volta ao trabalho presencial acontece gradualmente, com a implementação de modelos híbridos, a adoção de sistemas de rodízio e a continuidade do home office para parte da equipe.

A divisão do quadro de funcionários permitiu escritórios menores. E a redução dos gastos com condomínio e aluguel tem ajudado as empresas a prepararem o terreno para a reintegração do pessoal.

“Temos um ambiente novo, agora sem divisórias. Estamos contratando especialistas para treinar nossos colaboradores para essa nova realidade”, afirma Leonardo Pantaleão, diretor-executivo da Sices Solar, que atua no mercado de energia fotovoltaica.

A empresa colocou a maioria dos 150 funcionários em home office no início da pandemia e trocou o escritório de quase 2.000 metros quadrados por outro com a metade do tamanho. Com o avanço da vacinação, planeja, a partir de outubro, a volta dos funcionários no modelo híbrido.

Segundo Pantaleão, a decisão foi tomada após algumas pessoas manifestarem a preferência pelo trabalho presencial. Ainda assim, no espaço físico menor, a empresa economizará 40% no aluguel. “Diminuindo o custo fixo, consigo reduzir também o preço final do produto. A empresa fica mais competitiva”, diz.

Além da imunização dos funcionários, a marca de vinhos Veroni leva em consideração a variação no fluxo de caixa para planejar o retorno, a partir de novembro.

A empresa tem no catálogo vinhos rosê e branco, mais consumidos no verão. No ano passado, as vendas nessa estação do ano subiram cerca de 200%, de acordo com Mariana Noronha, sócia da Veroni. “No trabalho remoto, a relação com a equipe fica menos humanizada. Alguns funcionários podem ter a sensação de que fazem um trabalho menos importante, o que não é verdade”, afirma Noronha.

Em um primeiro momento os seis funcionários do administrativo da Veroni poderão escolher trabalhar em casa um dia da semana.

Na decisão do modelo mais adequado para o retorno ao escritório, gestores podem comparar os números de produtividade da empresa com dados específicos do setor de atuação, diz Alexandre Slivnki, vice-presidente da ABTD (Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento).

Cifras maiores ou menores que as da concorrência podem indicar que o modelo remoto está dando certo ou que o trabalho presencial ainda é a melhor alternativa.

Antes de voltar ao escritório, as empresas devem se certificar de que tomaram cuidados para minimizar os riscos de contaminação. Ainda não há consenso, mas a Covid-19 pode ser caracterizada pela Justiça como doença ocupacional, alerta Paulo Sérgio João, professor de direito do trabalho da PUC-SP e da FGV.

o distanciamento social entre os funcionários é uma preocupação da empresa de tecnologia BHC Sistemas, que estabeleceu rodízio para os 30 colaboradores no escritório de 180 metros quadrados. A empresa adotou uma plataforma em que os profissionais reservam no máximo 15 postos de trabalho com antecedência, evitando a aglomeração. Após o uso de um ambiente, uma notificação é disparada para a equipe de limpeza fazer a higienização do local.

“Entro na plataforma e sei quem está em cada ambiente. Assim, garantimos a boa execução do protocolo de segurança”, diz Adalberto Bem Haja, fundador da BHC Sistemas. A experiência com a plataforma foi tão bem sucedida internamente que a empresa passou a comercializá-la. No ano passado, registrou faturamento de R$6 milhões, 15% a mais do que em 2019. Pesquisa da consultoria PwC mostra que 79% das empresas devem manter ou implementar o trabalho remoto nos próximos meses, e 68% das companhias planejam adotar o modelo híbrido. A consultoria de qualidade e engenharia de software Yaman já adotava o modelo híbrido antes da pandemia. Com a crise, implementou o que chama de “work anywhere”-“(escritório em qualquer lugar, na tradução livre).

Segundo Andrey Coelho, hoje a Yaman tem funcionários em 11 estados do país. “Ganhamos com a diversidade cultural e criatividade da equipe”.

Com a decisão de ir ou não para o escritório a critério dos próprios funcionários, o retorno ao trabalho presencial acontece a passos lentos, o menor fluxo de pessoas permitiu que a Yaman devolvesse metade do espaço alugado.

“Não queremos nos desfazer do escritório, mas nosso espaço físico mudou de propósito. Se tornou mais um ponto de encontro”, diz Coelho.

Hoje há mais empresas que trabalham de forma totalmente remota, mas se desfazer do ponto físico pode ser um tiro no pé, segundo Fernando Moulin, professor do master em gestão da experiência do consumidor da ESPM e parceiro de negócios da Sponsorb, consultoria de performance. Muitas empresas se precipitaram. Hoje observamos fadiga do Zoom, pessoas com dores lombares e a miopia explodindo, diz Moulin.

Ele lembra que mesmo companhias inovadoras do Vale do Silício (EUA), ainda que mantenham a flexibilidade, descartam o trabalho remoto em tempo integral.

As empresas também precisam ouvir os colaboradores. “Se a companhia implementar uma norma autocrática, pode perder grandes talentos”, diz Slivnik, da ABTD.

A Depender dos trabalhadores, o modelo híbrido prevalecerá. Estudo da WeWork e da WorkPlace Intelligence, empresa de consultoria de RH, feito nos EUA, indicou que 95% dos funcionários desejam combinar as atividades em casa e no escritório.

EU ACHO …

OS LOGRADOS

O ano de 1630 foi de muita ansiedade na  França. Ao sul, além dos Pirineus, a Península  Ibérica inteira era governada por Filipe IV, Habsburgo. Do outro lado do reino, o sacro império, encabeçado por Fernando ll, também pertencia àquela família que fazia, assim, um “anel de ferro” ao redor do território francês.

O risco de “sufoco geopolítico” era agravado pela Guerra dos 30 anos (1618-1648). Protestantes e católicos travavam um conflito que chocou o mundo pelo número de mortos e pela violência extrema nos domínios germânicos. Estavam em jogo a supremacia religiosa, o aumento do poder imperial e o crescimento de uma força insuportável para a política externa francesa. Temendo tudo isso, o governo do poderoso ministro Richelieu fornecia recursos para os rebeldes protestantes. A lógica política superava escrúpulos religiosos.

Problemas fora e dentro do reino: apesar da tolerância religiosa decretada pelo rei Henrique IV, em 1598, a França continuava com uma maioria católica e um grupo forte protestante (huguenotes). O cardeal-ministro teve de atacar posições fortificadas dos reformados. O Estado francês queria evitar que os huguenotes formassem um Estado dentro do Estado, algo perigoso para um ponto fundamental no Atlântico como La Rochelle, que poderia receber auxílio de reis como Carlos I, da Inglaterra. O ponto foi sitiado e bloqueado e grande parte da população morreu de fome. A Coroa francesa venceu no campo de batalha, porém confirmou a liberdade religiosa. Protestantes sim, porém sem exércitos próprios ou pontos livres.

O rei da França, em 1630, nosso ano em questão, era Luís XIII. Subiu ao trono aos 9 anos de idade, quando seu pai, Henrique IV, foi assassinado por um fanático religioso. Incapaz de assumir plena consciência do poder que caiu em seu colo com a morte do pai, a criança foi controlada pela mãe, Maria de Médici. A França já conhecia uma célebre conspirador a rainha Catarina de Médici.

Um rei fraco controlado pela mãe. Uma rainha- mãe italiana astuta e vista com desconfiança por ser estrangeira e por suas ligações com outros conterrâneos como Concino Concini. Um cardeal ambicioso e quase modelo de política realista. Ainda não falei da esposa de Luís XIII: espanhola e, como tal, originária de um país inimigo. Personagens fascinantes em um palco de conflitos externos e lutas intestinas: que enredo temos pela frente! Alexandre Dumas percebeu tudo ao fazer Os Três Mosqueteiros (1844).

Já que o grande público ama o fato específico mais do que as estruturas em transformação, vamos a um. O jogo do poder na corte estava em grande limite de tensão. Vamos acrescentar um fato no final do ano de 1630 uma epidemia de peste se alastra pela França – O rei sofre com dor de dentes, febres e uma disenteria insistente. Teme-se pelo futuro da Coroa. Chegou a receber a extrema-unção no dia do seu aniversário. Os grupos em conflito, especialmente o cardeal e a rainha-mãe, usam de todos os recursos para tomarem o poder na eventualidade da morte do segundo Bourbon. No outono de 1630, o rei recupera a saúde.

A cena seguinte ocorre no palácio de Luxemburgo, em Paris. O rei imagina poder ir a Versalhes, na época um pavilhão de caça modesto em comparação ao que o Luís seguinte construiria ali. A Médici quer evitar a presença do cardeal no Conselho e  ordena aos guardas que fechem as portas. Maria fica com o filho e ataca o cardeal. Este, em um gesto ousado, entra por uma porta secreta e faz uma cena dramática diante do rei. Pergunta se estão falando sobre ele. Ela está furiosa e ataca Richelieu. O prelado se ajoelha e beija a bainha do vestido da rainha que continua vociferando. O rei fica impressionado com a cena: a mãe parece descontrolada, o cardeal assume tom humilde e dedicado ao serviço da Coroa. Freud teria algo a dizer. Era domingo, 10 de novembro de 1630.

No dia seguinte, no seu pavilhão em Versalhes, Luís XIII recebe a visita do cardeal que faz novas promessas de submissão e de afeto. O rei decide afastar os ministros e políticos ligados à rainha- mãe. O golpe da mãe fracassou. Os aliados dela (como o marechal Francois de Bassompierre e Michel de Marilac) são presos. O filho preferido de  Maria, Gastão d’Or’leans, foi para uma corte rival.  A vitória do ministro é total Guillaume Bautru, conde de Serrant, classificou o dia como “joumé e desdupes”. A palavra exata poderia ser escolhida entre aliados ingênuos, jornada dos logrados, mas “dupe” inclui a ideia de idiota, enganado ou tolo. O termo de Bautru passou à história: quem foi tosquiar saiu tosquiado, o plano de derrubar Richelieu arrasou com o grupo da rainha – mãe e o cardeal ficou com o apoio total do rei. Armand Jeandu Plessis, nome de batismo do ministro, passa à história como astuto, maquiavélico e vitorioso na afirmação do poder real e na condução da política externa da França. Dumas fez um retrato terrível dele e uma construção romântica da esposa de Luís XIII. Uma visão mais objetiva diria que uma rainha que favorecia a espionagem espanhola na corte francesa e trocava correspondência com os inimigos ingleses era alguém que estava mais próximo da Bastilha do que do panteão romântico.

E o povo? Teve impostos (como a gabela, sobre o sal) aumentados muitas vezes. Aumentou a miséria na França? A pergunta sempre fica: a “razão de Estado” é boa para a população em geral? Onde estariam os verdadeiros “logrados”? Tenho esperanças de que, um dia, mude a resposta óbvia até aqui.

*** LEANDRO KARNAL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VIDA CONDICIONADA

O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) é muito mais do que uma simples “mania” pessoal. O quadro pode causar sérios prejuízos ao corpo e à mente, deixando a pessoa sem controle de seus pensamentos e ações

“Eu tenho TOC”. Essa frase é comumente utilizada entre o grande público, mas dificilmente empregada na situação correta. Isso porque todos temos um comportamento que se repete mais do que outros no dia a dia, seja em relação à organização, limpeza ou outros aspectos rotineiros. Porém, entre não conseguir deixar a cama desarrumada e ter que apagar e acender as luzes do quarto 30 vezes todos os dias antes de dormir, por exemplo, há uma grande diferença, no caso, a propriedade ao falar: “Eu tenho TOC”.

CASO SÉRIO

TOC é a sigla popular para transtorno obsessivo compulsivo, o qual, em termos médicos, é classificado como um distúrbio ansioso caracterizado por pensamentos obsessivos que se fixam na mente do indivíduo até que ele os transforme em ação (mesmo que a pessoa não esteja de completo acordo com o pensamento). Além disso, é marcado pela presença de comportamentos compulsivos, ou seja, ações repetitivas e exageradas, consideradas fora dos padrões pela sociedade, realizadas na tentativa de neutralizar as ideias obsessivas.

Para compreender o quadro de uma forma simples, a especialista em psiquiatria Lucia Milena de Oliveira explica que “as obsessões tendem a aumentar a ansiedade da pessoa ao passo que as compulsões reduzem a sensação. Se o paciente resiste à realização de uma compulsão ou é impedida de fazê-la, também surge a ansiedade”.

CÉREBRO COMPULSIVO

A ciência ainda estuda para entender completamente como o TOC afeta as atividades cerebrais. E uma pesquisa publicada na revista Nature, por cientistas da Universidade de Wtirzhurgo, na Alemanha, deu um passo importante nessa missão.

De acordo com o experimento feito em roedores, a deficiência da proteína SPRED2 gerou comportamentos de limpeza excessivos em roedores utilizados como cobaias. A substância é encontrada em maior quantidade na amígdala e nas gânglios basais e é responsável pela inibição do circuito Ras/ERK-MAPkinaseGWld. Sem tal interdição, os estudiosos acreditam que os rituais obsessivos compulsivos são estimulados. A descoberta possibilita o avanço no tratamento medicamentoso do distúrbio por meio da inibição química do circuito.

PREJUÍZOS SOCIAIS

Além dos efeitos negativos no bem-estar devido à ansiedade descontrolada, se não tratado, o quadro também pode exercer influências incapacitantes na vida social do indivíduo.

A vivência com o distúrbio acaba sendo uma experiência passiva para o paciente, uma vez que, ao tentar resistir aos próprios pensamentos obsessivos – sem sucesso – tem apenas um alívio passageiro apesar do grande esforço. Desse modo, como afirma a psiquiatra Sandra Carvalhais, “é frequente que as pessoas se queixem de cansaço mental (e mesmo físico), o que interfere no fluxo normal de pensamentos e atividades, comprometendo a sua vida”.  Então, devido a esse consumo de energia que deveria ser gasta com diferentes capacidades cognitivas, como o foco e a concentração na hora do trabalho, os prejuízos atingem o nível social além da saúde do organismo,

Lucia ainda complementa ressaltando que a execução dos rituais (as compulsões) gera uma exposição prejudicial ao indivíduo. “As pessoas podem achar frescura alguém lavar sempre as mãos, pensar que a pessoa tem nojo das outras, rotular ou até fazer bullying. Já vi paciente que apresentava compulsão de andar dois passos para trás cada vez que via um carro branco. Isso fazia com que ele chegasse no emprego com horas de atraso e acabou sendo demitido”, relata a especialista.

Outro ponto a ser levantado é a possibilidade de os pensamentos se tornarem ruminativos, ou seja, ideias que “ocupam” a mente do sujeito de tal forma que ele não consegue tomar decisões, hesita entre as diversas opções e está sempre em dúvida. A indecisão parece uma “condição de vida'”, conclui Sandra Carvalhais.

EM BUSCA DE ALÍVIO

Primeiramente, é importante ressaltar que não há uma cura definitiva para o transtorno, portanto, a chave é ter paciência para manter o TOC em questão sob controle e ter uma melhor qualidade de vida. O tratamento costuma ser baseado na utilização de “antidepressivos e psicoterapia, principalmente a da linha cognitivo-comportamental. A resposta ao tratamento não é imediata, podendo demorar semanas para o indivíduo sentir uma melhora”, esclarece Lucia Milena de Oliveira. Vale lembrar também que a orientação familiar e no trabalho quanto às dificuldades proporcionadas pelo distúrbio pode ajudar na recuperação do paciente.

POESIA CANTADA

AOS NOSSOS FILHOS

IVAN LINS

COMPOSIÇÃO: IVAN LINS / VITOR MARTINS

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando largarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

OUTROS OLHARES

BRINQUEDO ANTIESTRESSE POP-IT VIRA FEBRE COM REDES SOCIAIS

Buscas por bolhas de silicone disparam 535% em sites que comparam preços

Tudo começou com a pequena Giovana, de dez anos. Aficionada pelo TikTok, ela passou a assistir a vídeos de gente se divertindo com um brinquedo colorido de silicone com bolhas, que poderiam ser pressionadas de ambos os lados e faziam um suave “ploc”.

Foi o suficiente para insistir em que o pai, o empresário Roffman Ribeiro, encontrasse o produto. “Moramos na Barra da Tijuca e percorri uma parte da zona oeste do Rio atrás do pop-it”, diz Ribeiro, referindo-se ao “fidgettoy”- ou brinquedo antiestresse – da vez.

A procura, em maio, foi sem sucesso. Como trabalha com marketing digital e tem contato com alguns importadores, Ribeiro encomendou o produto e montou uma pequena loja dentro do site da sua agência, a Inconnect Marketing.

“Não tinha grandes expectativas, só montei a loja no fim de maio e pedi para ela avisar os amigos, pensando nos pais que também não iriam encontrar os pop-its. Mas viralizou”, diz. Em três meses, Ribeiro faturou R$150 mil com os pop-its – pelo menos dez vezes a renda mensal que ele tinha com a agência, cujo trabalho precisou interromper. Agora 100 % da sua atenção está voltada para o site Fidgettoys.com.br, domínio que ele registrou. A febre dos pop-its se alastrou nos últimos três meses com as redes sociais – foi até tema no mês passado do aniversário de 12 anos de Rafinha Justus, filha do publicitário Roberto Justus e da apresentadora Ticiane Pinheiro.

Segundo a Mosaico, que reúne sites de comparação de preços, em agosto, houve aumento de 535% nas buscas por brinquedos de amassar , em relação a julho. Já a quantidade de alertas criados – avisos quando o produto atingir determinado preço – disparou 1.600%.

Influenciadores mirins, como Luluca, com 11,3 milhões de seguidores no YouTube, fazem vídeos periódicos com os mais diferentes formatos de pop-its e de outros fidget toys, como o polvo do humor, o minicubo, o spinner ou as bolinhas amassáveis. É o suficiente para movimentar a venda dos produtos, desde lojas tradicionais até camelôs.

A maioria dos pop-its é importada. No Brasil, a Luka Plásticos se apresenta como a única fabricante certificada pelo Inmetro. Especializada em injeção plástica, com a fabricação de produtos promocional e de peças para a indústria automobilística, a empresa encontrou nos pop-its uma nova veia de vendas.

“Começamos a produção há cerca de 50 dias e já vendemos mais de 200 mil unidades para atacadistas”, diz Gonzaga Pontes, diretor da Luka Plásticos. Hoje, 50% do seu faturamento vem das bolhas de silicone. Seus principais clientes são atacadistas que revendem os produtos na internet.

Uma das varejistas de brinquedos mais populares de São Paulo, a Armarinhos Fernando está há cerca de 20 dias “vendendo muito bem” um único modelo de pop-its a R$ 19, 90 , segundo o gerente geral da empresa, Ondamar Ferreira.

“Compramos um lote até agora, o frete da China está muito caro”, diz o executivo.

Na Fidgettoys, de Roffman Ribeiro, o preço varia de R$ 60 a R$ 850. O item mais caro do mix é um pop-it gigante, de 85 centímetros, que pesa dois quilos. “Metade do preço é só frete, mas achei importante ter o produto para servir de aspiracional”, diz ele.

O tíquete médio da Fidgettoys é RS 205. Ribeiro já atendeu clientes ilustres, como a modelo Gracyanne Barbosa e a atriz Thaís Fersoza, mulher do cantor Michel Teló. Apesar do sucesso, o empresário, que até março era coordenador de distribuição da Volkswagen no Rio, diz que não ficou rico.

“Tem a despesa com o produto, a tarifa de importação, o intermediador de pagamento, a divulgação nas redes. Cerca de 70% do preço do produto é custo”, afirma Ribeiro, que conta com a esposa para fazer a postagem nas redes sociais e outros três profissionais – um designer, um editor de vídeo e um gestor de tráfego.

Ribeiro afirma que a primeira quinzena de julho foi “maravilhosa” em vendas, mas nos 15 dias seguintes apareceram os primeiros problemas com a logística. “Minha vida virou um caos”, diz.

“Vendemos para os mais diferentes locais do Brasil: Amazonas, Roraima, Ceará, Tocantins, Rio, São Paulo. Teve caso de pedido parado nos Correios por mais de 20 dias. Descobrir em qual rota o pedido está e tentar esclarecer o caso com os Correios não é uma tarefa fácil”, diz.

O empresário não sabe até quando deve durar a febre dos pop-its, mas a Fidgettoys vai continuar como uma loja de brinquedos, aproveitando a bola da vez. “O pop-it já superou completamente as minhas expectativas, mas acho que o sucesso ainda dura mais uns dois meses”, afirma o empresário, que se diz ”viciado” no barulhinho das bolhas sendo apertado. “Sempre pego um pop- it quando chega alguma reclamação”, brinca.

Já Gonzaga Pontes, da Luka Plásticos, avalia que os pop-its devem se tornar uma nova linha de produtos. “Existem efeitos terapêuticos para as crianças, elas se acalmam”, afirma.

Segundo especialistas, o brinquedo pode estimular a parte sensorial da criança, por meio de toques, cores e sons, ajudando na coordenação motora.

“Meu filho adora. Viu no You Tube, fomos ao shopping e ele me enlouqueceu até comprar”, diz Karinna Rodrigues, mãe de Pedro Henrique, de sete anos, que acabou levando um lote de produtos para oferecer como lembrancinha na festa de aniversário do filho, no mês passado.

“Mas acalmá-lo, não acalma não”, brinca Karinna, ela própria uma usuária do pop-it: comprou uma capinha de celular com o tema.

Giselle Vazquez, mãe de Bianca, 9, e Bernardo, 6, concorda. “Não acalma, mas, se brincar traz bem-estar, então está valendo”, diz ela, que também gosta de apertar a bolha quando encontra uma por perto. “As crianças usam os pop-its nas brincadeiras que veem no YouTube”.

“As crianças ficaram loucas pelo pop-it”, diz Ingrid Ferreira, mãe de Maria Luísa, 10, e João Paulo, 6. “Mas eles brincam cinco minutos e param. Porém, quando veem os youtubers brincando, apresentando os mais diferentes tipos de pop-its, passam horas assistindo”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE SETEMBRO

A INTEGRIDADE VALE MAIS DO QUE DINHEIRO

Melhor é o pobre que anda na sua integridade, do que o perverso de lábios e tolo (Provérbios 19.1).

Vivemos uma crise colossal de integridade. Essa crise desfila na passarela diante dos olhos estupefatos de toda a nação. Está presente no Palácio da Alvorada, em Brasília, e nas choupanas mais pobres dos bolsões de miséria de nosso país. Está presente na suprema corte e também nos poderes executivo e legislativo. A ausência de integridade enfiou sua cunha maldita no comércio, na indústria e até mesmo na igreja. Famílias estão sendo assoladas por essa crise de integridade. Vivemos uma espécie de torpor ideológico e uma vergonhosa inversão de valores. As pessoas valorizam mais o ter do que o ser. Coisas valem mais do que pessoas. Nessa sociedade hedonista, os homens aplaudem a indecência e escarnecem da virtude, enaltecem o vício e fazem chacota dos valores morais absolutos. Precisamos levantar nossa voz para dizer que é melhor ser pobre e honesto do que mentiroso e tolo. É melhor ter uma consciência tranquila do que possuir dinheiro desonesto no bolso. É melhor comer um prato de hortaliça com paz na alma do que se refestelar em banquetes requintados, mas com o coração perturbado pela culpa. É melhor ser pobre honesto do que ser rico desonesto. A integridade vale mais do que dinheiro. O caráter é mais importante do que a aparência. O que somos vale mais do que o que temos.

GESTÃO E CARREIRA

EM MEIO A DESEMPREGO RECORDE, PAÍS TEM ‘BOLSÕES’ DE VAGAS NÃO OCUPADAS

Faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores habilitados para funções básicas na construção civil; a dificuldade se repete no setor de prestação de serviços a empresas, como logística, e na agropecuária – onde há até leilão de salários

Em meio à 14,8 milhões de brasileiros desempregados – a maior marca desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2012 -, há setores que estão contratando e vivendo uma realidade completamente diferente da que predomina no País. Na construção, faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores para funções básicas. No campo, há leilão de salários para admitir vaqueiros e operadores de máquinas. E, com o avanço da digitalização, empresas de logística e tecnologia viraram grandes demandantes de mão de obra.

Os bolsões de aquecimento do mercado de trabalho com e sem carteira assinada estão concentrados em praticamente três de dez setores: agropecuária, construção e serviços prestados a empresas -, revela um estudo feito pela consultoria IDados, com base na PNAD Contínua. Em maio deste ano, a construção empregava quase 12% a mais do que em maio de 2020, o auge da crise sanitária. Em seguida, vem a agropecuária, com avanço de cerca de 10% no pessoal ocupado. Por fim, estão os serviços prestados a empresas, com crescimento perto de 6%. “É uma recuperação frágil do mercado de trabalho, já que muitos setores hoje não têm aumento na ocupação em relação ao auge da crise, em maio de 2020”, afirma Bruno Ottoni, economista da consultora e responsável pelo estudo. Ele ressalta que cinco setores têm queda da ocupação e dois – emprego doméstico e indústria – permanecem estáveis na comparação com maio de 2020. Também em relação ao período pré-pandemia, maio de 2019, quando o desemprego era alto, a maioria dos segmentos continua como nível de ocupação no vermelho.

 Pesquisa da firma de consultoria e auditoria PwC Brasil, feita com 62 empresas de 16 segmentos entre outubro de 2020 e março de 2021, atesta esse resultado. A enquete revelou que 79% das companhias ampliaram os quadros, com crescimento de até 30 % nas contrações, puxadas pelo agronegócio e tecnologia. “O resultado surpreendeu positivamente, quando a gente vê os índices de desemprego tão elevados”, diz Flávia Fernandes, sócia da PwC.

CAMPO

Impulsionada pelo boom das commodities, a ocupação na agropecuária hoje supera o auge da crise e é maior do que antes da pandemia. Atualmente, há 8,7 milhões de trabalhadores no campo e a ocupação cresce por sete meses seguidos.

“Com o aumento da cotação da soja e do boi, produtores estão ampliando as safras e os rebanhos. Isso aumentou muito a procura por mão de obra, inclusive com leilão de salários e crescimento da rotatividade”, afirma Jaqueline Lubaski, sócia da consultoria de RH Destrave Desenvolvimento.

Há 25 anos atendendo a grandes empresas do agronegócio, ela não havia presenciado um aumento generalizado da procura por trabalhadores do gerente ao vaqueiro. “Estamos desesperados porque não temos vaqueiros nem capataz.”

Um ano atrás, o salário de um capataz, no Centro-Oeste estava em R$ 2,5 mil, com moradia, água, luz, internet. Hoje, Jaqueline conta que oferece R$ 3,5 mil, mais vale alimentação de R$ 618, e não consegue contratar.

SEM PARAR

O quadro se repete na construção, especialmente na capital paulista. Empreiteiras de São Paulo – que virou um grande canteiro de obras na pandemia -, enfrentam a falta de pedreiros, encanadores, eletricistas, conta o vice-presidente de Relações Institucionais do Sinduscon -SP, Yorki Estefan. A demanda está sendo puxada pelo aumento dos lançamentos, que foi de 183% no  primeiro semestre deste ano ante 2020.

“Hoje, precisamos de dez pintores e não encontramos”, afirma Gilvan Delgado, dono da empreiteira Aracama. Para suprir a falta, ele contratou Marcos Paulo Viana, de 33 anos, que veio do setor de panificação, sem experiência na construção.

O reflexo, dessa escassez já bateu nos salários. “O dissídio dos trabalhadores em maio foi por volta de 7%, e estamos tendo de pagar 15%”, diz Mario Rocha, CEO da construtora Rocontec. Com os prêmios, Antônio de Sousa Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo, conta que há pedreiro tirando R$ 8 mil, enquanto o piso é de R$ 2.030.

Outro setor com alta na ocupação é o de serviços prestados às empresas, que inclui logística, serviços financeiros online e tecnologia da informação. No primeiro semestre, foram feitas 100   milhões de compras online, segundo o Ebit-Nielsen. E, por trás de cada transação, há uma massa de trabalhadores.

O Mercado Livre, por exemplo, um dos gigantes do setor, vai ter recorde de admissões neste ano. Fechou 2020 com 4,9 mil empregados diretos, hoje tem 10 mil e vai encerrar 2021 com 16 mil. ”Crescemos muito as contratações por conta de logística, tecnologia e serviços financeiros”, diz Patrícia Monteiro, diretora de People.

EU ACHO …

2024 É LOGO ALI

Faltam quase mil dias para os próximos Jogos Paralímpicos, depois da edição histórica que se encerrou no domingo passado em Tóquio.

Se nos falta otimismo ao olhar para o cenário político de modo geral, basta nos oxigenarmos na lembrança da melhor campanha da História do Brasil em Paralimpíadas. Não podemos deixar a chama da esperança se apagar. E assim como os atletas que já estão se preparando para Paris 2024, nós também precisamos aprender a pensar a longo prazo e preparar o futuro desde agora.

Nossos atletas nos deixaram transbordando de orgulho, trazendo para casa 72 medalhas.

Nem preciso dizer que Carol Santiago foi um arraso até debaixo d’água. A nadadora conquistou cinco medalhas. Débora Menezes quebrou tudo no parataekwondo. Alex Pires fez história ganhando a medalha de prata na maratona. Além disso, Fernando Rufino se destacou na canoagem. Isso só para citar alguns nomes.

Nosso supernadador Daniel Dias, que anunciou sua aposentadoria após suas 27 medalhas, abre caminhos para tantas e tantos. Fora as reflexões sobre como podemos avançar na inclusão das pessoas com deficiência no nosso dia a dia. Esta é uma causa que deve ser de todas etodos nós. Levantar a pauta é também uma das grandes conquistas dos Jogos Paralímpicos, embora recebam uma cobertura de mídia muito menor que os Jogos Olímpicos.

Quando falamos da inclusão de pessoas com deficiência, lembro o quanto vibrei quando uma amiga minha comprou uma Barbie cadeirante e já estou aqui de olho no site para comprar a minha. Minha amiga Andrea Schwarz sempre fala sobre a necessidade de representatividade dentro e fora do mundo corporativo.

Eu nunca tinha visto uma boneca cadeirante antes. E tenho certeza de que ao ter uma boneca como essa, crianças e adultos podem cada vez mais treinar seus olhares para trazer visibilidade às deficiências (parece óbvio, mas muitos ignoram) e também lutar pelo direito na prática da acessibilidade para todas as pessoas.

Além de banirmos urgentemente de nosso vocabulário termos capacitistas, que promovem discriminação às pessoas com deficiência, como dizer que algo está capenga como sinônimo de ruim ou chamar alguém de débil mental como algo depreciativo.

Sabemos que a Barbie cadeirante que mencionei é só a representação de uma das deficiências que as pessoas podem ter. É por isso que além de terem suma importância, os Jogos Paralímpicos também são extremamente didáticos ao trazerem visibilidade para a diversidade de deficiências e classificarem-nas em diferentes categorias, agrupando atletas a partir de perfis funcionais semelhantes.

Apesar das boas-novas trazidas pelas Paralimpíadas, faltam aparatos básicos como rampas, sinalizações e informações que promovam mobilidade e acesso às oportunidades de educação, esportes e emprego. Já sabemos que o Brasil não é dos países que mais se destaca quando o assunto é acessibilidade.

E, neste caso, não precisamos ter apego a esse título. Tampouco deveríamos nos agarrar a histórias de superação como a de pessoas com deficiência que, com ou sem medalhas, tornam-se heroínas no dia a dia só por conseguirem driblar as mais diferentes barreiras que remetem a ações, para muitos de nós básicas, como sair de suas casas.

Que até 2024 possamos construir novas bases para permitir que novos atletas paralímpicos e olímpicos possam alçar voos ainda maiores. Se já tivemos um desempenho incrível com tantos obstáculos estruturais, imagine sem eles?

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaiguadaderacial.com.br.       

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUASE PERFEITO

Pesquisadores desenvolvem braço biônico que restaura comportamentos naturais

Lá pelo ano de 3.5OO a. C., diz a lenda, a guerreira Vishpla, rainha da Índia, perdeu a perna numa batalha e recebeu uma prótese de ferro para poder retornar à luta. A história épica é a primeira menção de um dispositivo artificial capaz de substituir uma parte do corpo. Foram necessários milênios para se chegar a um dos aparelhos mais extraordinários já desenvolvidos. Nesta semana, os avanços atingiram novo patamar quando cientistas da Cleveland Clinic, nos EUA, anunciaram um braço com funções muito semelhantes às de um órgão natural, até mesmo as mais sofisticadas.

O “braço biônico” permite que as pessoas pensem, se comportem com ele como se não fossem amputadas. Os resultados foram publicados na Science Robotics. O grande avanço é combinar mecanismos importantes: controle motor intuitivo, cinestesia de toque e sensação intuitiva de abrir e fechar a mão.

“A técnica é o estado da arte sob o ponto de vista acadêmico e de desenvolvimento tecnológico. A tendência que existe hoje na área é fazer integração sensório-motora para controle de próteses. Vários experts têm advogado que é preciso integrar não só a parte motora, mas também a parte sensorial”, diz Leonardo Abdala Elias, fundador e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Neuro-engenharia e coordenador do Centro de Engenharia Biomédica da Unicamp. – E eles conseguiram.

Como prova a lenda de Vishpla, a próteses existem há milênios, mas foi há cerca de 70 anos que voltaram a ser pesquisadas e começaram a se aprimorar. Há quatro décadas surgiram as bioelétricas, que têm um comando a partir de um motorzinho. Ou seja, o usuário consegue levar o ombro para trás, abrir a mão, trazer o ombro para frente, fechar a mão. Já a integração sensorial é uma busca bem recente, dos últimos cinco anos. Os avanços são fundamentais para conter o abandono das próteses que, segundo Elias, chega a 60% no caso dos que perderam membros superiores.

O grande problema é a carga cognitiva. Quando uma pessoa não amputada vai pegar um copo, ela olha uma vez para o objeto e o resto se desenvolve naturalmente: esticar o braço, abrir a mão e colocar a pressão necessária para movê-lo. Como as próteses acessíveis hoje não têm sensibilidade, a pessoa tem que olhar e racionalizar cada uma das etapas.

Os desafios são pouco óbvios para quem não sofre a ausência do membro. Se fechar os olhos, essa pessoa sabe a posição da sua mão ou braço. Ao pegar um objeto, identifica imediatamente a pressão que deve usar para movê-lo. Se encostar em algo quente, imediatamente seu cérebro será notificado e ela se afasta. Essas são algumas das capacidades que estão sendo buscadas em centros acadêmicos de países como Suécia, Reino Unido e, principalmente, Estados Unidos. No país, boa parte da verba vem de uma agência de pesquisa ligada à Defesa americana – preocupação derivada do grande número de soldados feridos em guerras.

Pesquisas também vêm sendo feitas no Brasil, onde, apenas em 2020, 68.962 pessoas tiveram membros amputados.

Segundo a professora de fisiatria da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho Diretor do IMREA (instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Cínicas de SP), Linamara Rizzo Battistella, as próteses bioelétricas usadas atualmente nos membros superiores oferecem muita dificuldade:

“Elas exigem atenção, coordenação e muito treinamento. São próteses sensíveis, e o acabamento não tem um senso estético, capaz de criar um conjunto mais harmônico.

Por outro lado, o braço biônico de Cleveland traduz outra lógica, que seria a capacidade de, com um impulso cerebral, movimentar o segmento.

“Não será para todos porque exige boa integridade dos nervos, treinamento e boa coordenação. Ainda não é automático. Mas será um dia. Por isso é importante olhar para estas pesquisas como um caminho e não um ponto de chegada. Mas é um bom começo. O fato de ter a função do tato, o sensor que te dá propriocepção, isso é muito refinado. A participação visual na prótese bioelétrica é muito grande, já na biônica é a percepção sensorial”, diz Battistella.

Quando esses braços biônicos vão chegar à população é difícil dizer porque vai além da ciência. Depende também da indústria de reabilitação, das agências reguladoras e muitos outros agentes.

OUTROS AVANÇOS

Em relação aos membros inferiores, as pesquisas mais importantes estão na biomecânica, na direção do controle da impedância, que é a rigidez na articulação para fazer movimentos mais harmônicos e suaves.

Há outras linhas de pesquisa. Em uma delas, como explica André Luiz Jardini Munhoz, pesquisador no Instituto Nacional de Biofabricação Biofabris/Unicamp, o coto da perna é escaneado, a imagem vai para o computador e é usada para montar um cartucho (dispositivo que integra a prótese ao membro) pela impressão 3D, oferecendo mais conforto para a pessoa amputada.

Outro projeto segue a linha internacional: em parceria com o Ministério Público do Trabalho, são desenvolvidos braços com sensores, capazes de emitir sinais do cérebro ao nervo e do nervo ao cérebro.

Paralelamente, na área de próteses, são estudados tecidos para simular a pele, biomateriais para implantes, ligas de titânio, polímeros associados, etc. Há também próteses virtuais, com olhos biônicos, e auditivas.

POESIA CANTADA

MUNDO COLORIDO

VANUSA

COMPOSIÇÃO: VANUSA.

O meu mundo é colorido
Porque eu assim o quis
Fiz de cada tristeza
Um motivo pra ser feliz

Sou tão negra quanto os negros
Que são brancos como a mim
Uma flor em vez de arma
Pra lutar até o fim

O meu mundo é colorido
Como o verde da esperança
Pelo sorriso da criança
Que por si já é colorido

Sou guerreira tanto quanto
Quero explicar porquê
Sou capaz de odiar
Da mesma forma que amar

O meu mundo é colorido
Porque preciso viver
Para quê? Nada fizemos
Para quê? Nada sofremos

Somos jovens e é preciso
Não morrer na guerra assim
Eles não tem culpa
De ser negra a cor até o fim

O meu mundo é colorido!
O meu mundo é colorido!
O meu mundo é colorido!
O meu mundo é colorido!

OUTROS OLHARES

O NOVO MELHOR AMIGO

Cães cibernéticos já são usados em ambientes de alto risco na indústria petroquímica e de mineração, mas sua aquisição por forças policiais gera polêmica

A passeata no centro de Dallas, no estado americano do Texas, transcorria de forma pacífica, apesar do motivo do protesto: a morte de dois negros por policiais brancos na Louisiana e em Minnesota. A paz acabou quando Micah Johnson – um jovem negro de 25 anos munido de fuzil – disparou contra a polícia, ferindo sete guardas e matando outros cinco. Depois de uma infrutífera negociação, Johnson, acantonado em uma garagem próxima, recebeu a visita de um robô de controle remoto que explodiu ali mesmo, tirando sua vida. Essa ação sem precedente, ocorrida em julho de 2016, atiçou a imaginação das pessoas. Afinal, se a polícia podia fazer aquilo com uma máquina comum, até onde ela iria com um robô inteligente? Um ano e meio depois do caso Dallas, a série Black Mirror projetou, em um de seus episódios, a imagem de um cão-robô perseguindo sua vítima – cena perturbadora, porém restrita ao terreno da ficção, pelo menos segundo as empresas que estão fabricando o novo melhor amigo do homem.

A robótica, é bom lembrar, já faz parte do cotidiano, seja em fábricas automatizadas, seja dentro de casa. Algoritmos são chamados de robôs e estão espalhados pela internet. Nada disso, porém, é tão interessante quanto as máquinas da Boston Dynamics, empresa americana fundada em 1992 e hoje controlada pela sul-coreana Hyundai, que tem milhões de visualizações toda vez que posta vídeos de seu robô humanoide Atlas dançando ou vencendo obstáculos. Do laboratório da Boston, já saiu uma dezena de modelos, incluindo o BigDog, um quadrúpede de carga que nunca chegou a ser comercializado. O sucesso do momento, vendido por 74.500 dólares – preço que pode dobrar com os opcionais -, é Spot, um cão-robô com mais de 500 unidades em operação, prestando serviço para empresas de atividades insalubres e para a polícia – não sem causar polêmica, é verdade.

Recentemente, o departamento de polícia de Honolulu, no Havaí, adquiriu uma unidade completa por 150.000 dólares, utilizando recursos do fundo de combate à Covid-19. Desde então, Spot vem sendo usado para monitorar assentamentos de desabrigados que contraíram o coronavírus. Ele é capaz de conferir a temperatura da pessoa escaneando os olhos a 2 metros de distância. Leva água e comida para os sem-teto e se torna um elo de comunicação com eles. A polícia se mostra satisfeita com o resultado, mas não os munícipes, incomodados com o investimento feito em um robô com verba que poderia ser doada à população empobrecida pela crise. Em Nova York, Spot – rebatizado de DigiDog pela polícia local – foi usado em operações em conjuntos habitacionais, provocando a revolta de comunidades que ainda se lembram do caso Dallas. Segundo a União Americana pelas Liberdades Civis, é questão de tempo até que as forças de segurança sejam tentadas a armar os cães. Sob pressão, a polícia de Nova York achou por bem devolver o equipamento.

A Boston não está sozinha no mercado. A empresa suíça ANYbotics já vendeu vinte unidades de seu cão cibernético, batizado de ANYmal, e espera comercializar dez vezes mais nos próximos três anos. Ela tem clientes de peso como a petrolífera Petronas e a mineradora brasileira Vale, para as quais vende unidades customizadas por 165.000 dólares. Conversamos com Cheila Marques, gerente da ANYbotics, que esclareceu que o cão-robô é ideal para ambientes de alto risco, como plataformas de petróleo e indústrias químicas: “Ele sobe e desce escadas, agacha-se, tem sensores e pode inspecionar lugares de difícil acesso”.  Perguntada sobre o uso militar do ANYmal, Cheila diz que essa modalidade contraria o estatuto da companhia.

Não se sabe se a chinesa Xiaomi terá a mesma postura antibelicista com o CyberDog, anunciado há poucos dias. Ainda na fase de protótipo, ele tem um aspecto futurista e até mesmo ameaçador. Ainda não está claro onde será empregado, mas, segundo a empresa, serão produzidas inicialmente 1.000 unidades destinadas a “entusiastas da robótica”. O fato é que as três marcas ainda estão no estágio preliminar da inteligência artificial, no qual dispositivos dependem da intervenção humana. Isso deverá mudar nas próximas décadas, quando serão lançados robôs totalmente autônomos. Até lá, é bom que os parâmetros morais de uso tenham sido configurados – de preferência, universalmente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE SETEMBRO

O VALOR DO AMIGO VERDADEIRO

O homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão (Provérbios 18.24).

O renomado cantor brasileiro Milton Nascimento diz que amigo é coisa para se guardar no coração. Há muitas pessoas que nos cercam na hora da alegria, mas poucas permanecem do nosso lado na hora da crise. O amigo verdadeiro é aquele que chega quando todos já foram embora. O amigo ama em todo tempo, e na desventura se conhece o irmão. A Bíblia fala a respeito do filho pródigo, que saiu a esbanjar sua herança num país distante. Lá dissipou todos os seus bens vivendo dissolutamente, cercado de amigos. Quando a crise chegou, contudo, esses amigos de farra se dispersaram. Os amigos da mesa de jogo, os amigos de boteco e os amigos das baladas apenas se servem de você, mas nunca estarão prontos para servi-lo. Os amigos utilitários só se aproximam buscando alguma vantagem. Eles não amam você, mas o que você tem e o que você lhes pode dar. Algumas amizades não duram nada, baseiam-se meramente em interesses; mas o amigo verdadeiro é mais chegado do que um irmão. Está sempre ao seu lado, especialmente nos tempos de desventura. Jesus é o nosso verdadeiro amigo. Sendo rico, fez-se pobre para nos tornar ricos. Sendo Deus, fez-se homem para nos salvar. Sendo bendito, fez-se maldição para nos tornar benditos aos olhos do Pai.

GESTÃO E CARREIRA

O ESTRESSE DO RETORNO

Com o regresso das atividades presenciais, empresas e trabalhadores combinam esforços para facilitar a readaptação e tratam de criar o novo normal

O mundo mudou e o normal não é mais o mesmo de antes. No momento em que muitas pessoas começam a voltar ao trabalho presencial depois de um longo tempo de isolamento, há uma mistura de sensações e uma grande curiosidade sobre como as coisas irão se desenvolver a partir de agora. Para gente que teve excelente adaptação ao home office, voltar à antiga rotina pode ser desafiador e até estressante. Outros não viam a hora de retomar a convivência com os colegas e a agitação do ambiente corporativo. De qualquer forma, são inúmeros os casos em que o retorno ao trabalho representa uma nova realidade. Há empresas que mudaram de endereço e outras que alteraram inclusive sua estrutura organizacional.

“Ficou tudo diferente, vai ser um novo processo de adaptação”, afirma Lucas do Nascimento Araújo, 27, que trabalha no setor de administração e financeiro da empresa Eppendorf, uma multinacional fabricante de insumos e equipamentos de laboratório, que fornece, inclusive, para o Instituto Butantan. Sua readaptação começou pela localização da sede administrativa da empresa que ficava na zona Oeste da capital paulistana, na região da Lapa, durante o confinamento. “Era uma casa que foi transformada em sala comercial e, agora, ela fica em um prédio”, conta. Nesse momento, Lucas tem que ir ao trabalho uma vez por semana, às terças-feiras, na Vila Madalena, nova localização da empresa. “Agora vou de Metrô, e o escritório fica a dez minutos da estação”, diz. Apesar de gostar do relacionamento empresarial e das vantagens logísticas do novo endereço de trabalho (antes ele perdia três horas para fazer o percurso de sua casa até a Eppendorf), Lucas sente-se inseguro devido à pandemia. Ele já tomou a primeira dose, mas entende que nem todas as pessoas se cuidam devidamente. O que lhe deixa mais aliviado é o fato de a empresa ter adotado medidas de controle sanitário.

A engenharia civil Thamiris Ferreira, 28, que atua na área de suprimentos da Nortis Incorporadora, detalha como está sendo o processo de readaptação ao modelo presencial. A empresa também adotou a esquema hibrido para os funcionários. “Os espaços dentro da empresa foram modificados, pensando nos cuidados relativos à pandemia”, diz. Com a intenção de minimizar os riscos de disseminação do vírus, a construtora desenvolveu um sistema para garantir o distanciamento. entre os funcionários. As cadeiras usadas por cada um tem que ser reservadas por aplicativo. Nela, há um código QR que o funcionário lê, por meio do smartphone, criando um vínculo. “Se a leitura não for feita, a cadeira vai para outra pessoa”, conta.

Os especialistas em comportamento empresarial afirmam que o retorno nesse momento de respiro da pandemia se, mal planejado, pode gerar estresse e ansiedade nas pessoas. José Raucci, psicólogo da Nuovavita Psicologia, afirma que por estarem se expondo a uma situação que não está totalmente dominada, as pessoas tendem a ficar ansiosas e desenvolver outros distúrbios emocionais. Porém, em pesquisa recente da consultoria Thomas Case & Associados mostrou que 76,3% dos trabalhadores preferem o modelo híbrido de trabalho. É o caso de Camila Mastrange, 37, química e matemática, que leciona para alunos do ensino médio, em uma escola privada na Zona Sul de São Paulo.

A docente explica que a causa de sua apreensão está relacionada com a forma mais comum com que os alunos se relacionam com o professor. Na hora de tirar dúvidas, se dirigem à mesa e ficam tête a tête com ela. “A Covid-19 levou um aluno meu, isso causa insegurança”, diz. Camila trabalha em diversas escolas e esclarece que apesar da instituição de ensino ter colocado em prática todas as medidas protetivas, acima das outras escolas em que atua, parece que os alunos ainda não compreenderam a necessidade de se manter distância do professor. Ela já tomou a primeira dose da vacina da Pfizer, mas, com certeza, preferiria continuar lecionando remotamente. “Ainda estou em confinamento, só saio de casa uma vez por semana e, mesmo assim, fico preocupada”. O retorno à vida normal também pode representar um alívio. Foi isso que aconteceu com Andresa de Almeida, CEO da Prime Guarantee Investment AS, e mãe de João Guilherme, de 13, e Ana Laura, de 9 anos. Há um mês, as crianças retornaram para as aulas presenciais. “Eles já estavam cansados de ficar em casa e eu finalmente também pude voltar à empresa”, desabafa.

EU ACHO …

UM REINO CHEIO DE MISTÉRIO

No dia 21 de setembro comemorou-se o Dia da Árvore, o que deve ter dado trabalho a muito menino do primário, do qual certamente exigiriam uma redação sobre o tema: com a alma bocejando, os meninos devem ter dito que a árvore dá sombra, frutos etc.

Mas, ao que eu saiba, não se comemora o dia da planta, ou melhor, da plantação. E esse dia é importante para a experiência humana das crianças e dos adultos. Plantar é criar na Natureza. Criação insubstituível por outro tipo qualquer de criação.

Lembro-me de quando eu era menina e fui passar o dia numa granja. Foi um dia glorioso: lá plantei um pé de milho com muito amor e excited. Depois, de quando em quando, eu pedia notícias do que havia criado.

Mais tarde, na Suíça, plantei um pé de tomates numa lata grande, bonita. Quando começaram a aparecer os ainda pequenos tomates verdes e duros achei inacreditável que eu mesma lhes tivesse provocado o nascimento: eu entrara no mistério da Natureza. Cada manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ir examinar minuciosamente a planta: é como se a planta usasse a escuridão da noite para crescer. Esperar que algo amadureça é uma experiência sem par: como na criação artística em que se conta com o vagaroso trabalho do inconsciente. Só que as plantas são a própria inconsciência.

Nesse reino, que não é nosso, a planta nasce, cresce, amadurece e morre. Sem nenhum objetivo de satisfazer algum instinto. Ou estarei enganada, e há instintos os mais primários no reino vegetal? Meu tomateiro parecia ter tomates vermelhos porque assim queria, sem nenhuma outra finalidade que não a de ser vermelho, sem a menor intenção de ser útil. A utilização do tomate para se comer é problema dos humanos.

Um dos gestos mais belos e largos e generosos do homem, andando vagarosamente pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.

E quando os tomates ficaram redondos, grandes e vermelhos? Chegara a hora da colheita. Não foi sem alguma emoção que vi num prato da mesa os tomates que eram mais meus que um livro meu. Só que não tive coragem de comê-los. Como se comê-los fosse um sacrilégio, uma desobediência à lei natural. Pois um tomateiro é arte pela arte. Sem nenhum proveito senão o de dar tomate.

O ritmo das plantas é vagaroso: é com paciência e amor que ela cresce.

Entrar no Jardim Botânico é como se fôssemos transladados para um novo reino. Aquele amontoado de seres livres. O ar que se respira é verde. E úmido. É a seiva que nos embriaga de leve: milhares de plantas cheias de vital seiva. Ao vento as vozes translúcidas das folhas de plantas nos envolvem num suavíssimo emaranhado de sons irreconhecíveis. Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada deixando o mundo ser. O reino vegetal não tem inteligência e só tem um instinto, o de viver. Talvez essa falta de inteligência e de instintos seja o que nos deixa ficar tanto tempo sentada dentro do reino vegetal.

Lembro-me de que no curso primário a professora mandava cada aluno fazer uma redação sobre um naufrágio, um incêndio, o Dia da Árvore. Eu escrevia com a maior má vontade e com dificuldade: já então não sabia seguir senão a inspiração. Mas que seja esta a redação que em pequena me obrigavam a fazer.

*** CLARICE LISPECTOR

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PROBLEMAS RENAIS: MAIS UM FARDO DA PANDEMIA

Sobreviventes da Covid-19 podem precisar de diálise e até transplante de rim, mostra novo estudo; como são silenciosas e indolores, doenças no órgão são ainda mais perigosas, alerta nefrologista

Problemas nos rins costumam ser indolores e silenciosos, e agora configuram a mais recente complicação identificada a acometer uma grande quantidade de sobreviventes da Covid-19.

Danos ao órgão, responsável pela filtragem do sangue, podem ocorrer entre pessoas que se recuperam do coronavírus em casa e podem ficar mais graves diante de casos mais severos da Covid, descobriu um estudo publicado no Jornal da Sociedade Americana de Nefrologia. Mesmo os pacientes de Covid não hospitalizados e sem problemas renais têm um risco quase duas vezes maior de desenvolver doença renal em estágio terminai, em comparação com alguém que nunca teve Covid.

As descobertas destacam mais um fardo pernicioso da pandemia que já deixou doentes mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo.

Os dados mostram 7,8 pessoas a mais precisando de diálise ou transplante de rim a cada 10 mil pacientes de Covid-19 em quadros leves ou moderados.

“Esse não é um número pequeno, se você multiplicar pelo grande número de americanos e também globalmente que podem acabar desenvolvendo um quadro renal em estágio final“, disse Ziyad AI-Aly, diretor do centro de epidemiologia clínica do Veterans Affairs St. Louis Health Care System, no Missouri, Estados Unidos. “Essa constatação é realmente significativa e certamente moldará nossas vidas provavelmente na próxima década ou mais”.

Em abril, AI-Aly, que liderou o estudo, examinou, com seus colegas, dados coletados durante o tratamento de rotina no programa do Veterans Health Administration para registrar a enormidade de sequelas debilitantes que assoIam os sobreviventes de Covid meses após o diagnóstico, de coágulos sanguíneos, derrame, diabetes e dificuldades respiratórias até danos ao coração, fígado e rins, depressão e ansiedade.

A pesquisa mais recente de AI-Aly comparou os riscos de doenças relacionadas aos rins em 89.216 usuários do programa de saúde dos veteranos americanos que sobreviveram à Covid com mais de 1,7 milhão de pessoas que não tiveram a doença causada pelo Sars-CoV-2.

“O mais problemático sobre a doença renal é que ela é realmente silenciosa, ela realmente não se manifesta em dor ou quaisquer outros sintomas”, disse AI-Aly, que também trabalha como nefrologista.

AI-Aly e colegas descobriram que os pacientes não hospitalizados da Covid têm um risco 23% maior de sofrer lesão renal aguda em seis meses do que quem não foi infectado. Esta condição impede a remoção de resíduos e toxinas do sangue.

E, até seis meses após a infecção, os sobreviventes da Covid apresentaram probabilidade cerca de 35% maior do que os pacientes não infectados por Covid de sofrer algum tipo de declínio substancial na função renal, disse Al-Aly.

Especialistas alertam para limitações nas comparações feitas pelo estudo, pois, enquanto um grupo havia histórico de infecção por Covid, o outro, por mais que não tenha tido contato com o coronavírus, pode ser constituído por pacientes com vários outros problemas de saúde.

Os pesquisadores tentaram minimizar as diferenças com análises detalhadas que se ajustaram a uma longa lista de características demográficas, condições de saúde preexistentes, uso de medicamentos e se as pessoas estavam em lares de idosos.

Outra limitação é que os pacientes do sistema de veteranos eram, em grande parte, do sexo masculino e brancas, com uma idade média de 68 anos, portanto não está claro o quão generalizáveis podem ser os resultados.

Um ponto forte da pesquisa, dizem os especialistas, é que ela envolve mais de 1,7 milhão de pacientes com registros médicos eletrônicos detalhados, tornando-se o maior estudo até agora sobre problemas renais relacionadas à Covid.

Embora os resultados provavelmente não se apliquem a todos os pacientes da Covid, eles mostram que, para aqueles no estudo, “há um impacto bastante notável na saúde dos rins dos sobreviventes de Covid-19 longa, especialmente aqueles que ficaram muito doentes durante a fase aguda da infecção”, disse C. John Sperati, nefrologista e professor associado de medicina da Johns Hopkins, que não esteve envolvido no estudo.

Para avaliar a função renal a equipe de pesquisa avaliou os níveis de creatinina, um produto residual que os rins supostamente eliminam do corpo, bem como uma medida de quão bem os rins filtram o sangue, chamada taxa de filtração glomerular estimada.

Adultos saudáveis perdem gradualmente a função renal ao longo do tempo, cerca de 1% ou menos ao ano, começando na casados 30 ou 40 anos, disse Perry Wilson, nefrologista e professor de medicina em Yale, não envolvi do no estudo. Doenças e infecções graves podem causar perda de função mais profunda ou permanente que pode levar a doença renal crônica ou doença renal em estágio terminal.

O novo estudo descobriu que 4.757 sobreviventes de Covid perderam ao menos 30% da função renal no ano após a infecção, disse Al-Aly.

“Isso é equivalente a aproximadamente “30 anos de declínio da função renal”, disse Wilson.

Os pacientes da Covid tinham até 25% mais probabilidade de atingir esse nível de declínio do que as pessoas que não tinham a doença, mostrou o estudo.

Um número menor de sobreviventes de Covid teve declínios mais acentuados. Mas os pacientes da Covid tinham 44% mais probabilidade do que os pacientes não Covid de perder pelo menos 40% da função renal, e 62% mais chances de perder pelo menos a metade dela.

MISTÉRIOS PERMANECEM

A doença renal em estágio final, que ocorre quando pelo menos 85% da função renal é perdida, foi detectada em 220 pacientes com Covid, disse Al-Aly. Os sobreviventes da Covid tinham quase três vezes mais chances de receber o diagnóstico do que os pacientes sem Covid, descobriu o estudo.

AI-Aly e os demais pesquisadores também analisaram um tipo de insuficiência renal súbita chamada lesão renal aguda, que outros estudos encontraram em até metade dos pacientes de Covid hospitalizados. A condição pode ser curada sem causar perda prolongada da função renal.

Mas este estudo de agora descobriu que, meses após a infecção, 2.812 sobreviventes da Covid sofreram lesão renal aguda, quase o dobro da taxa em pacientes não Covid, disse AI-Aly.

Os médicos não sabem ao certo porque a Covid pode causar danos aos rins. Os órgãos podem ser especialmente sensíveis a surtos de inflamação ou ativação do sistema imunológico, ou os problemas de coagulação do sangue frequentemente vistos em pacientes com Covid podem perturbar a função renal, disseram os especialistas.

POESIA CANTADA

ESTRELA

GILBERTO GIL

COMPOSIÇÃO: GILBERTO GIL.

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida seja assim
Assim, um altar
Onde a gente celebre
Tudo que Ele consentir

Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir

Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida seja assim
Assim, um altar
Onde a gente celebre
Tudo que Ele consentir

OUTROS OLHARES

ESTUDO APONTA IMPACTO DA COVID NOS TESTÍCULOS

Pesquisa da Fapesp registra, ainda sem revelar infertilidade, menor movimentação dos espermatozoides e menos testosterona

Ao acompanhar, desde o ano passado, pacientes homens que tiveram covid-19, o andrologista Jorge Hallak, professor da Faculdade de Medicina da USP, começou a observar que os resultados de exames de fertilidade e hormonais deles permanecem alterados por muitos meses após se recuperarem da doença.

Apesar de ser um teste inicial e não ter condições de diagnosticar fertilidade ou infertilidade, o espermograma de vários pacientes tem indicado, por exemplo, que a motilidade espermática – a capacidade de os espermatozoides se moverem e fertilizarem o óvulo, cujo índice normal é acima de 50 % – ficou entre 8% e 12% e permaneceu nesse patamar quase um ano após terem sido infectados pelo vírus. Já os restes hormonais apontam que os níveis de testosterona de muitos deles também despencaram após a doença. Enquanto o nível normal desse hormônio é de 300 a 500 nanogramas  por decilitro de sangue (ng/dL), em pacientes que tiveram covid-19 esse índice caiu abaixo de 200 e, muitas vezes, ficou entre 70 e 80 ng/dL.

“Temos visto, cada vez mais, alterações prolongadas na qualidade do sêmen e dos hormônios desses pacientes, e mesmo naqueles que apresentaram quadro leve ou assintomático”, disse Hallak. Alguns estudos feitos pelo pesquisador em colaboração com colegas do Departamento de Patologia da FM-USP, publicados nos últimos meses, têm ajudado a elucidar essas observações da prática clínica. Constatou-se que o Sars-CoV-2 também infecta os testículos, prejudicando a capacidade das gónadas masculinas de produzir espermatozoides e hormônios. “Entre todos os agentes prejudiciais aos testículos que estudei até hoje, o Sars­ CoV-2 parece ser muito atuante”, afirma Hallak.

Em um estudo com 211 pacientes que tiveram covid-19, os pesquisadores verificaram em exames de ultrassom que mais da metade apresenta inflamação grave no epidídimo – estrutura responsável pelo armazenamento dos espermatozoides, e onde eles adquirem a capacidade de locomoção. Os pacientes têm idade média de 33 anos. O estudo, apoiado pela Fapesp, foi publicado na revista Andrology.” Ao contrário de uma infecção bacteriana clássica ou por outros vírus, como o da caxumba, que causa inchaço e dor nos testículos em um terço dos acometidos, a epididimite causada pela covid é indolor e não é possível de ser diagnosticada por apalpamento ou a olho nu”, explica Hallak. Por isso, segundo ele, seria interessante ensinar o autoexame dos testículos como política de saúde pública no pós-pandemia.

Outro estudo do mesmo grupo, também apoiado pela Fapesp, indicou que o coronavírus invade todos os tipos de células testiculares, causando lesões que podem prejudicar a função hormonal e a fertilidade masculina. Os pesquisadores pretendem realizar um estudo de acompanhamento de pacientes homens para avaliar quanto tempo duram as lesões causadas pelo SARS-Co V-2. “Ainda não sabemos se essas lesões testiculares poderão ser revertidas e quanto tempo levará para isso acontecer”, afirma Hallak.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE SETEMBRO

A DELICADEZA NO TRATO

O pobre fala com súplicas, porém o rico responde com durezas (Provérbios 18.23).

A comunicação é a radiografia da alma. Quem não fala com doçura expõe suas entranhas amargas. Quem é duro no trato demonstra ter um coração maligno. A Bíblia fala de Nabal, marido de Abigail. O homem era filho de Belial, dominado por espíritos malignos. Era um homem rico, mas incomunicável. Ninguém podia falar-lhe. Suas palavras feriam mais do que ponta de espada. Suas atitudes revelavam seu coração ingrato, e suas palavras duras demonstravam seu espírito perturbado. Esse homem cavou a própria sepultura. Semeou ventos e colheu tempestade. Por ter tratado com desdém Davi e seus valentes, foi sentenciado à morte. Sua morte só não aconteceu por mãos de Davi porque Abigail defendeu a causa do marido com senso de urgência. A Bíblia diz que o pobre pede licença para falar, mas o rico responde com grosseria. O pobre fala com súplicas, mas o rico responde com durezas. O rico, por causa de seus bens, fala com dureza e age com prepotência. Julga-se melhor do que os outros, tripudia sobre eles e usa o poder do seu dinheiro para humilhar aqueles que vêm à sua presença. Essa é uma atitude insensata. A delicadeza no trato é um dever de todos os homens. Pobres e ricos podem ser benignos no trato e usar sua língua para abençoar as pessoas, em vez de feri-las.

GESTÃO E CARREIRA

LIÇÕES ÚTEIS PARA UMA REUNIÃO MAIS EFICAZ

Em tempos de ‘Zoom’, planejar reuniões é essencial para se ter um time mais produtivo

Comparecer a reuniões significa ressentir-se da maioria delas: encontros longos a respeito de questões que poderiam ser resolvidas por e-mail; conversas atrapalhadas por contratempos tecnológicos; reuniões dominadas por aquele colega que fala alto demais e interrompe todo mundo ou que lotam a agenda ao ponto de não termos mais tempo para, digamos, trabalhar de fato.

As reuniões “representam o maior custo singular não avaliado nem discutido no balancete de uma organização”, afirma Steven Rogelberg, professor da Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, e autor de The Surprising Science of Meetings (A Surpreendente Ciência das Reuniões). Reuniões mal conduzidas resultam em frustração imediata, diz Rogelberg. “Quando participamos de uma reunião ruim, essa negatividade nos acompanha, e ficamos ruminando essa sensação, isso prejudica nossa produtividade.” Além disso, alerta ele, funcionários constantemente submetidos a reuniões ruins mostram menos comprometimento no trabalho e por vezes acabam se demitindo.

A pandemia de covid-19, em que muita gente passou a trabalhar remotamente, aumentou o número diário de reuniões por trabalhador, aponta a Faculdade de Administração de Empresas de Harvard. E muitos trabalhadores reclamaram da chamada “fadiga de Zoom”.

Mas, mesmo em seus melhores momentos, as reuniões podem criar uma dinâmica estranha. “Quando vamos a uma reunião, abrimos mão do nosso poder pessoal e protagonismo em favor do líder da reunião”, afirma Rogelberg. “E é um grande problema abrir mão, literalmente, do nosso livre arbítrio em favor de outra pessoa.”

Quando o protagonismo pessoal é nosso, há maneiras de tornar as reuniões menos tensas e mais eficientes. Aqui vão algumas dicas para organizar reuniões melhores, presenciais ou virtuais:

1) ADOTE A “MENTALIDADE DE ADMINISTRADOR”.

A função do administrador da reunião é servir como o melhor facilitador possível – o que inclui um ritual de preparação para a reunião, como os participantes são tratados e como se conclui o encontro.

2) CRIE E DISTRIBUA UMA AGENDA DETALHADA PARA OS PARTICIPANTES.

Isso inclui rastrear e acompanhar metas e projetos, resolução de problemas e discussão de assuntos complexos, afirma Paul Axtell, coach e autor de Meeting Matter (Reuniões Importam). É importante, ainda, incluir no encontro um número de itens apropriado à quantidade de tempo disponível.

Rogelberg sugere organizar a agenda como um questionário. A reunião será bem-sucedida quando todas as perguntas tiverem sido respondidas. Quando for impossível pensar em uma questão para incluir na agenda, é sinal de que a reunião é desnecessária.

3) CONTROLE DA DISCUSSÃO É FUNÇÃO DO LÍDER

Assim como chamar a atenção de quem se desviar do tema, diz Axtell. Se algum participante interromper repetidamente um colega, Axtell sugere dizer: “Desculpe, posso cortar você um pouquinho” Quero garantir que a Janine (nome hipotético) conclua o que tem para falar, depois voltamos para você.” É melhor organizar reuniões pequenas – com seis participantes, no máximo, diz Rogelberg. Quanto maior o grupo, maior a probabilidade de algo sair errado, e cada participante terá menos oportunidade de contribuir. Uma dica é gravar suas reuniões no Zoom e depois disponibilizá-las para que os funcionários cuja presença não era essencial.

4) FAÇA REUNIÕES CURTAS, ESPECIALMENTE SE FOREM VIRTUAIS.

Temos menor capacidade de concentração atualmente, então, faça o que puder para reduzir o tempo das reuniões, diz Rogelberg. Reuniões de 15 ou 20 minutos podem ser tão efetivas quanto reuniões de uma hora. “Quando o tempo é curto, isso tende a criar uma pressão positiva”, afirmou ele. “Dá mais foco.”

5) ABRA AS REUNIÕES VIRTUAIS ANTES DA HORA MARCADA.

Humanos buscam conectar-se, especialmente quando estão trabalhando remotamente, a partir de lugares diversos. Axtell sempre abre as salas de reunião online de 10 a15 minutos antes do horário marcado, “para que as pessoas possam dar um ‘oi’ e conversar um pouco”.

6) ESTABELEÇA AS REGRAS NO INÍCIO.

No começo de uma reunião, garanta que todos saibam o que esperar. Por exemplo, informe aos participantes se você chamará algum deles para falar, para que ninguém seja pego de surpresa. Também é uma boa ideia informar a maneira que você lidará com dúvidas. Guardá-las até o último momento raramente funciona bem, diz Axtell, porque perde-se o contexto delas.

7) FRAGMENTE REUNIÕES GRANDES EM REUNIÕES MENORES.

Designe cada subgrupo para discutir uma tarefa por, digamos, 15 minutos, e depois reagrupe todos os participantes. “Funciona como um aquecimento”, afirma Rogelberg. “Quando os participantes retornam, tende a haver muito mais comunicação.”

8) SAIBA SE SEUS COLEGAS ESTÃO BEM.

Nos primeiros dias da pandemia, houve uma ênfase em saber como estavam nossas pessoas próximas e garantir que todos ficassem bem. Isso ainda é importante, diz Keswin. Uma sugestão: nos primeiros minutos da reunião, “peça que todos os participantes digam ao grupo, com um adjetivo, como se sentem hoje”.

9) ESTEJA CIENTE DOS PERCALÇOS DO TRABALHO HÍBRIDO.

Nessa nova era, alguns colegas continuarão trabalhando remotamente, participando virtualmente de reuniões, enquanto outros atuarão presencialmente. É importante que todos se sintam incluídos, alerta Keswin.

10) TERMINE BEM A REUNIÃO.

Quando restarem poucos minutos, comece a concluir as discussões. Axtell aconselha perguntar: “Alguém gostaria de acrescentar algo? Todo mundo concorda com nossas conclusões?”

EU ACHO …

O VASO DE FLOR

Neste domingo, Caio Fernando Abreu faria 73 anos. Não é uma data redonda, mas é sempre oportuno lembrar este escritor que faleceu aos 47 e se tornou eterno.

O Caio F dos contos, das cartas, das peças de teatro, dos romances, e que sem ter conhecido o furor das redes sociais, tomou-se um dos autores mais citados por elas. Qual a razão deste encantamento que não se desfaz, ao contrário, só aumenta?

Deve ser porque são tempos brutos, incultos, superficiais, e Caio era o oposto disso: um homem que tinha a alma concentrada e que mergulhava nos sentimentos. Aperitivava algumas experiências, mas sempre desejou a refeição completa.

Quando todos queriam ser um sucesso, Caio queria ser amado. Acreditava que encontraria no amor seu conforto espiritual, seu lugar no mundo. Ele, que morou em várias metrópoles sem se enraizar em nenhuma, até que fez do texto o seu lugar, o seu território de reconhecimento.

Caio era pop e profundo ao mesmo tempo. Com suas palavras carregadas de poesia e sensibilidade, revelava o secreto e o escuro que nos habita internamente, dando assim visibilidade para aquilo que não costumamos expor à luz do dia.

Caio foi e ainda é um holofote, um farol, uma lanterna que ilumina as solidões mais melancólicas. Interessava-se pelos outsiders e pelo lado maldito da vida, mas e sem nunca perder o refinamento. Domava o próprio desespero com uma elegância genuína. Ninguém foi tão sofisticado ao retratar a crueza do mundo e a dor da rejeição. Escrevendo, criava cenários visuais para seus leitores, como se o texto fosse um videoclipe. Sua amargura vinha sempre acompanhada da descrição de um sofá estampado no canto da sala, da paisagem urbana que ele via através da janela (onde certamente haveria, no parapeito, um vaso de flor) , da música que estava tocando (Nara Leão? Tom Waits?). Caio cultivava suas trevas em bom ambiente, não era de sofrer sem trilha sonora ou sem uma vela acesa no castiçal.

Poucos como ele narraram tão bem a aproximação entre dois estranhos: os gestos lentos, as palavras bem cuidadas, os silêncios espichados. Expectativas quase nunca atingidas, que resultavam em cacos que Caio juntava um a um, formando mais um mosaico da sua coleção de emoções fragmentadas. Ele se foi, mas em nosso universo íntimo, somos como Caio: o tempo passa, a gente se constrói, aí sopra um vento forte e nos esparrama, e então juntamos do chão as partes que ficaram espalhadas e com elas nos reconstruímos, e a cada nova formatação ficamos um pouco melhores do que antes, ou um pouco mais desalentados, mas nunca os mesmos. Só o que não muda é o vaso de flor no parapeito da janela, atenuando nossa desolação. Em meio à tanta bestialidade, há sempre que preparar a casa para a esperança.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERCEPÇÕES INCOMUNS

A esquizofrenia é um distúrbio que abala a razão e as emoções, porém o está ligado ao vago e popular conceito de loucura

Considerada um castigo dos deuses e até possessão demoníaca na antiguidade, a esquizofrenia é um distúrbio mental que atinge indivíduos de diversas faixas etárias, apresentando crises que perturbam o modo como pensam e sentem as situações que acontecem, bem como as pessoas que o rodeiam. O transtorno carregou estigmas negativos por séculos, mas vem ganhando mais aceitação com o avanço das pesquisas e dos tratamentos e o maior acesso à informação.

SENSIBILIDADE INCONSTANTE

Há muitos mitos a respeito do que é a doença e como são suas alucinações. Ouvir vozes e ver coisas que nenhuma outra pessoa ouve ou vê é o primeiro indício comumente associado, porém não é bem assim que se conceituam a esquizofrenia e seus sintomas de crise. Longe de ser uma loucura incapacitante, o transtorno tem tratamento, garantindo ao paciente uma vida saudável.

O quadro pode ser descrito como uma patologia psicológica grave que afeta diversos domínios da mente, como a percepção da realidade. Os sintomas costumam ser diferenciados em positivos, que são delírios e alucinações, alterações no comportamento e na expressão dos sentimentos, e negativos, como apatia, isolamento social, redução da sensibilidade afetiva.

Além disso, algumas funções importantes do cérebro são afetadas pelo transtorno, como o desempenho cognitivo, a concentração e a memória de trabalho – habilidade de lidar com ações e emoções cotidianas. “A esquizofrenia não está limitada ao que leigamente se considera ‘loucura’ , puro preconceito e estigmatização. Na verdade, ela é um conjunto complexo de condições psiquiátricas”, comenta o psiquiatra Rodrigo Pessanha.

O problema está no desequilíbrio do neutro transmissor dopamina. Em quadros esquizofrênicos, o sistema mesolímbico fica sobrecarregado da substância, produzindo os sintomas positivos, já as vias mesocorticais têm uma deficiência desse elemento, gerando os sintomas negativos da doença.

DISTÚRBIO JOVEM

Por mais que haja estudos sobre o mecanismo da psicopatologia, a medicina ainda não é capaz de realizar um diagnóstico por exames laboratoriais – um marcador biológico que possa indicar a doença ainda está sendo pesquisado. O indivíduo é avaliado com esquizofrenia por meio de análise clínica da manifestação dos sinais.

“Os sintomas psicóticos costumam surgir entre o fim da adolescência e meados dos 30 anos,   sendo o início antes dessa faixa etária mais raro. A idade de pico do início do primeiro episódio psicótico tende a ocorrer na faixa dos 20 e 25 anos para o sexo masculino e entre os 25 e 30 anos para o feminino”, explica a psicóloga Carolina Macedo. A especialista defende a tese de que a doença é bio-psico-socio-cultural, ou seja, “o resultado de uma interação entre fatores genéticos, biológicos, psicológicos e sociológicos”. Outro mito associado à esquizofrenia é que sua causa está no uso de drogas psicoativas, como cocaína, LSD e anfetamina. Porém, o quadro de surto persecutório, acompanhado de vozes e imagens, é uma realidade para os indivíduos com a patologia. Para esclarecer as dúvidas, a especialista Carolina Macedo ressalta que “tais substâncias podem dar origem a uma crise ou exacerbar os sintomas psicóticos, pois são agonistas dopaminérgicos indiretos, mas não são causadoras do transtorno”.

MARES MAIS CALMOS

O tratamento para a psicopatologia é feito de forma medicamentosa e por psicoterapia. Remédios antipsicóticos graves ou sutis são utilizados de acordo com o grau das manifestações e do estado de agitação do paciente. Eles atuam de forma a reduzir as crises e perturbações, bem como as tomando mais escassas ao longo do tempo.

A psicoterapia visa trazer uma melhor qualidade de vida para a pessoa com esquizofrenia, reduzindo o isolamento social e aumentado a interação familiar. Algumas práticas que envolvem expressões artísticas ou arteterapia são muito utilizadas para que o indivíduo possa expor suas emoções – elementos abalados pela doença – gerando um alívio, além de ser uma forma de analisar seu estado.

Ainda não existe uma cura para a esquizofrenia, entretanto, com os tratamentos e acompanhamento, é possível uma melhor qualidade de vida. No âmbito de inserção social, “a progressão educacional e a manutenção do emprego costumam ficar prejudicadas. Os indivíduos costumam ter empregos inferiores aos de seus pais, e a maioria, especialmente os homens, não casam ou têm contatos sociais limitados fora da família”, esclarece Carolina Macedo.

É essencial para a reabilitação aprender a lidar com os pensamentos perturbadores, os sentimentos e comportamentos na medida do possível. “Entender a natureza complexa desta condição, sem uma atitude pessimista e fatalista ou um otimismo irresponsável é essencial, ainda que não suficiente. O comprometimento na busca dos melhores recursos possíveis por parte de médicos e familiares e a criação de uma rede de suporte efetivo também são elementos imprescindíveis”, comenta Rodrigo Pessanha.

EU ACHO …

O NARIZ

Tinha nascido em uma família de mulheres lindas, pelo menos era isso que ouvia desde pequena. Sendo assim, dentro de sua cabeça, era natural que, quando crescesse, também fizesse parte dessa categoria. Na infância, foi uma criança forte, simpática, alegre e cabeluda – mas nenhuma menção era feita sobre a beleza. Não se sentia pressionada, mas, ao chegar na adolescência, começou a ficar ansiosa: “quando, afinal, seria ‘linda’?”

Aos 13 anos, surgiu a primeira noção de que talvez essa realidade preestabelecida não seria assim tão óbvia no seu caso. Seu nariz começou a crescer mais do que o esperado e foi quando começou a ouvir alguns comentários na família: “O nariz cresce primeiro, mas, quando o rosto amadurecer, ficará linda”. Olhava-se espelho com desconfiança, como reflexo de uma promessa não cumprida. Tinha medo do desapontamento que produziria quando descobrissem a verdade, que ela definitivamente não seria tão linda quanto achavam. Tentava, então, ser a mais simpática, a mais agradável, a mais atenta a tudo e a todos. Podia não ter sido agradada como presente gratuito da beleza de nascença, mas certamente iria se esforçar para produzir uma emoção em quem a conhecesse.

Aos 16 anos, finalmente, concluiu que, além de estar fora do molde familiar, seu padrão de beleza estava longe do estabelecido pela mídia para sua geração.Com a imagem dos pequenos e perfeitos narizes das atrizes mais famosas da época, era cristalina a mensagem de que um nariz grande não era belo. Maitê Proença, Monique Evans, Michelle Pfeiffer, Farrah Fawcett e até Jaclyn Smith, a personagem do mais importante seriado de TV que assistia semanalmente, As Panteras, eram a prova viva de sua tese. Lembrou, então, de um conhecido de seus pais que sabia ser o mais famoso cirurgião plástico do momento e marcou uma consulta sozinha. Tinha certeza que ele poderia resolver a situação, contornar esse ”defeito” que a colocava tão distante de todas as suas referências femininas.

Abriu seu coração ao médico, que ouviu seu relato com atenção genuína, e disse: “Sente nesta cadeira e vamos ver o que podemos fazer”. Sentiu um alívio imediato. E vira a cabeça para cima, para o lado, para baixo, apalpa o osso cada dia mais proeminente, respira, solta, respira de novo, tira foto de todos os ângulos, olha a foto. “Pronto! Ele entendeu!”, pensou. “Vou ser linda!” Tinha lágrimas nos olhos. Foi quando o cirurgião sentou ao seu lado, a olhou de perto e disse com franqueza absoluta: “Você é linda. Não tem uma beleza padrão, eu sei, você sabe, mas seu nariz carrega sua personalidade, seu rosto foi feito para ele, sua boca tem o tamanho para seu nariz. Ele está perfeito para você e não posso mexer em algo que vai te diminuir”.

Sem margem para réplica, levantou, agradeceu e saiu da sala. Desnorteada, chorou sozinha. Se arrependeu de não ter levado alguém junto para insistir, convencê-lo de que estava errado. À partir dali, no entanto, seguiu a vida com a frase do médico ecoando sempre em sua cabeça toda a vez que era chamada de nariguda ou que se comparava intimamente com a beleza de sua família ou geração. Namorou, casou, separou, casou de novo e seu nariz virou para ela um símbolo de resistência e autoestima. Essa semana, trinta e cinco anos depois, encontrou por acaso o cirurgião na porta de um restaurante. Reconheceram-se e abraçaram-se como se tivessem se visto na véspera. Foi quando ele olhou seu nariz, e, com carinho, disse: “E eu não falei que era perfeito?”.

*** ALICE FERRAZ

POESIA CANTADA

NADA MUDOU

LEO JAIME

COMPOSIÇÃO: LEO JAIME

Ela me dá um beijo na testa
E quer que eu tenha um dia legal
Mas se eu quiser eu posso ver nas ruas
Senhores e escravos, nada é real

Todo mundo me diz bom dia
Todo dia é sempre igual
Crianças pedem na janela do carro
Até nas noites de Natal

Ô, ô, ô, ô, nada mudou

Se ela quer o sétimo céu
Vai ter de subir degrau por degrau
Os melhores momentos do mundo
Não são manchetes no jornal

Os velhos jogam dama na praça
Professores de tudo que é dor
Fingindo esconder a falta que faz
Viver um grande amor

OUTROS OLHARES

BEBIDA ALCOÓLICA PODE AFETAR SEU CORAÇÃO

Nos EUA, novo estudo concluiu que o álcool, mesmo em pequena quantidade, é capaz de aumentar o risco de desenvolver alterações na frequência cardíaca, problema que atinge cerca de 3 milhões de americanos

Um  novo estudo descobriu que o consumo de álcool, mesmo que uma lata de cerveja ou um copo de vinho, pode aumentar rapidamente o risco de um tipo comum de arritmia cardíaca conhecida como fibrilação atrial em pessoas que têm um histórico da doença.

Os médicos há muito suspeitam da ligação entre o álcool e a fibrilação atrial não, mas não tinham evidências definitivas de que o álcool pudesse causar arritmia. O novo estudo está entre os mais rigorosos até hoje: os pesquisadores recrutaram cem pessoas com histórico de fibrilação atrial e as acompanharam intensamente por quatro semanas, monitorando a ingestão de álcool e o ritmo cardíaco em tempo real.

Os cientistas descobriram que beber álcool aumentava as chances de uma pessoa ter um episódio de fibrilação atrial, ou de frequência cardíaca anormal, nas horas seguintes. E, quanto mais bebiam, maior a probabilidade de ter uma arritmia. O novo estudo foi publicado no Annals of Internal Medicine. Asconclusões, com dados de estudos anteriores, sugerem que pessoas com histórico de fibrilação atrial podem reduzir suas chances de desenvolver arritmias reduzindo o consumo de álcool ou evitando por completo bebidas alcoólicas.

Os autores especularam que as descobertas poderiam ter implicações mais amplas para adultos saudáveis também. Embora o consumo moderado de álcool seja amplamente considerado benéfico para a saúde do coração, a nova pesquisa sugere que, pelo menos em algumas pessoas pode potencialmente perturbar o funcionamento do órgão. “Isso demonstra que, sempre que consumirmos álcool, ele presumivelmente terá um efeito quase imediato no funcionamento elétrico de nossos corações”, disse Gregory Marcus, autor do estudo e professor de medicina na divisão de cardiologia da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

A fibrilação atrial, também conhecida como A-fib, é a disfunção na frequência cardíaca mais comum nos Estados Unidos, afetando cerca de três milhões de adultos. Ocorre quando as câmaras superiores do coração, os átrios, começam a bater irregularmente, o que pode interromper o fluxo sanguíneo para as câmaras inferiores do coração, os ventrículos. Com o tempo, pode levar a complicações, como insuficiência cardíaca e derrames.

A A-fib pode ser persistente ou pode ocorrer esporadicamente, com sintomas como palpitações, falta de ar e fadiga, que duram alguns minutos ou horas a cada episódio. Quando ocorrem ocasionalmente, a condição é conhecida como fibrilação atrial paroxística.

As pessoas têm maior chance de desenvolver fibrilação atrial à medida que envelhecem. Também é mais provável ocorrer em pessoas com fatores de risco, como hipertensão, doenças cardíacas, obesidade, ascendência europeia ou histórico familiar.

Cerca de quatro décadas atrás, os médicos começaram a documentar casos de pessoas com arritmias após crises de bebedeira nos fins de semana e feriados, um fenômeno que veio a ser conhecido como “síndrome do coração pós-feriado”. Desde então, uma série de estudos observacionais descobriram que pessoas que consomem álcool regularmente, mesmo que apenas uma bebida por dia, têmuma probabilidade maior de desenvolver fibrilação atrial em comparação com pessoas abstêmias.

Muitos desses estudos anteriores tinham deficiências importantes. Na maioria dos casos, eles confiaram que as pessoas teriam relatado com precisão e honestidade sua ingestão de álcool, o que nem sempre é confiável. Estudos descobriram, por exemplo, que as pessoas tendem a subestimar o quanto bebem. Outra limitação é que as pessoas que são solicitadas a relembrar um episódio de fibrilação atrial podem identificar erroneamente uma variedade de comportamentos como gatilhos.

O novo estudo, no entanto, foi projetado para contornar essas limitações. Marcus e seus colegas recrutaram cem pessoas com histórico de fibrilação atrial paroxística, a maioria delas homens, e os fizeram usar monitores de eletrocardiograma 24 horas por dia. Os dispositivos continham um botão que os participantes deveriam apertar sempre que ingerissem uma bebida alcoólica. Os pesquisadores também usaram outras medidas objetivas para monitorar a ingestão de álcool. Eles equiparam os participantes com monitores de tornozelo especiais que podiam detectar seus níveis de álcool no sangue. E fizeram exames de sangue de rotina para medir os níveis de fosfatidiletanol dos participantes, ou PEth, um biomarcador que dá alguma indicação do consumo recente de álcool por uma pessoa.

GATILHO PARA ARRITMIA

Em quatro semanas de rastreamento , os pesquisadores descobriram que ao menos 56 participantes haviam experimentado um episódio de fibrilação atrial. Os dados indicaram que o álcool costumava ser um gatilho para arritmias. Tomar um drinque dobrava as chances de uma pessoa ter um episódio de fibrilação atrial nas quatro horas seguintes, enquanto tomar duas ou mais doses triplicava as chances. Quanto mais alta a concentração de álcool no sangue de uma pessoa, maior a probabilidade de ter uma arritmia.

Marian R. Piano, pesquisadora que publicou muitos estudos sobre álcool e saúde cardiovascular, e que não estava envolvida com o novo estudo, disse que as descobertas representam um passo importante em nossa compreensão de como o álcool afeta o coração. Segundo ela, os profissionais de saúde devem conversar com seus pacientes, especialmente aqueles que têm fibrilação atrial, sobre a quantidade de álcool que consomem e se seria prudente reduzir ou evitar.

“A fibrilação atrial é uma arritmia que pode ter efeitos graves, como um derrame. Portanto, entender o que pode ser um gatilho relevante é crucial”, disse Piano, professora e reitora associada de pesquisa na Escola de Enfermagem da Vanderbilt University.

A especialista disse que gostaria de ver mais pesquisas sobre em um grupo mais diverso de pessoas. Os participantes desse novo estudo eram, em sua maioria, brancos e apenas 22 deles eram mulheres.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE SETEMBRO

A ESPOSA É UM MARAVILHOSO PRESENTE

O que acha uma esposa acha o bem e alcançou a benevolência do Senhor (Provérbios 18.22).

O casamento é uma fonte de felicidade ou a razão dos maiores infortúnios. Pavimenta o caminho do bem ou promove grandes males. O casamento foi instituído por Deus para a felicidade do homem e da mulher, mas podemos transformar esse projeto de felicidade num terrível pesadelo. Muitos homens não buscam a direção divina para seu casamento. Casam-se sem reflexão, movidos apenas por uma paixão crepitante ou por interesses egoístas. Precisamos pedir a Deus o nosso cônjuge. Essa procura deve estar regada de oração. Devemos observar os princípios estabelecidos pelo próprio Deus nessa busca. Como Isaque, também devemos buscar a direção de Deus para encontrar a pessoa que ele reservou para nós. A Bíblia diz que a casa e os bens vêm como herança dos pais; mas do Senhor, a esposa prudente. Encontrar essa pessoa é uma grande felicidade. É tomar posse da própria bênção do Senhor. Uma esposa prudente vale mais do que riquezas. Seu valor excede o de finas joias. Um casamento feliz é melhor do que granjear fortunas. De que adianta ter muito dinheiro e morar com uma mulher rixosa? De que adianta ter a casa cheia de bens, mas viver em permanente conflito e tensão dentro de casa? O casamento feito na presença de Deus e o lar edificado por Deus são uma expressão eloquente da benevolência do Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

COMUNICAÇÃO CENTRALIZADA EM UM SÓ CANAL É EFICIENTE E EVITA DESGASTE

O trabalho remoto atravessa muitas empresas há mais de um ano e, mesmo com toda a sua flexibilidade, são perceptíveis os primeiros sinais de fadiga dos colaboradores nesse modelo

Prova disso é que, segundo estudo da Gartner, 93% dos líderes de RH relataram estar cada vez mais preocupados com o esgotamento dos funcionários. A boa notícia é a possibilidade de estabelecer um ambiente mais positivo com a ajuda de uma boa estratégia de comunicação interna e o uso de ferramentas adequadas.

“Ao explorar as diferenças entre ambientes de trabalho presenciais e híbridos, nossa pesquisa descobriu que uma série de recursos nativos do modelo híbrido estão causando fadiga, e isso está colocando o bem-estar do funcionário em risco. Além disso, muitas das estratégias que as organizações estão empregando para garantir a produtividade estão, na verdade, exacerbando esses fatores de fadiga”, afirma Alexia Cambon, diretora da Gartner.

O que tem afetado a concentração dos colaboradores? Três fatores-chave são apontados pela consultoria como causas de desgaste: distrações digitais, sobrecarga virtual e dificuldade de desconexão.

DISTRAÇÕES NO TRABALHO: e-mails; ligações e videoconferências de trabalho não planejadas; notificações de mensagens no chat corporativo; e atualizações ou requisição de reuniões.

DISTRAÇÕES DIGITAIS: e-mails pessoais; mensagens de texto; notificações de redes sociais; manchetes de notícias; e ligações e videoconferências pessoais não planejadas.

DISTRAÇÕES PESSOAIS: responsabilidades domésticas; responsabilidades de cuidado (aos familiares etc.); e entregas/correio.

E-MAIL: MOCINHO OU VILÃO DA COMUNICAÇÃO INTERNA?

A Gartner afirma que “altos níveis de virtualização são cognitivamente desgastantes para o funcionário, com 75% dos líderes de RH concordando que o aumento no número de pontos de contato virtuais coloca os colaboradores em risco de esgotamento”. Portanto, o e-mail, que antes era um dos únicos pontos de contato virtual entre empresa e colaborador se tornou um de muitos. E o uso excessivo dessa ferramenta contribui diretamente para a fadiga.

Um estudo realizado pela Universidade Católica da Lovaina (Bélgica) relata que o excesso de e-mails está diretamente relacionado ao aumento de estresse dos colaboradores e a perda de produtividade. Para Caroline Sauvajol-Rialland, professora responsável pela pesquisa, essa “sobrecarga de informação” causa interrupções na concentração do funcionário e em seu ritmo de trabalho. Ela também explica que 30% do tempo do profissional é usado para atender ligações ou responder e-mails.

É importante salientar que abusar do envio de e-mails gera prejuízos para a comunicação interna (e, consequentemente, para o resultados e finanças do negócio). Então, a solução não é abandonar a comunicação online (longe disso!), mas sim adotar uma estratégia de Comunicação Interna digital de forma que não sobrecarregue o colaborador, oferecendo as informações de forma objetiva. Preferencial- mente, em um mesmo canal para concentrar a atenção e o tempo do colaborador.

GABRIEL KESSLER – É CGO do Dialog.ci, startup responsável por desenvolver plataforma online de comunicação interna e RH, que funciona como um hub para o colaborador e melhorar o engajamento dentro das empresas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS DOIS (OU MAIS) LADOS DA MOEDA

O transtorno bipolar não é apenas uma variação entre o bom e o mau humor

Dias bons e ruins fazem parte do cotidiano, mas a oscilação constante de humor pode indicar algo a mais. Porém, isso também não quer dizer que uma pessoa que muda fácil da raiva para a alegria sofre com algum distúrbio. E necessário cuidado ao diagnosticar esta variação de temperamento como um caso de transtorno bipolar.

NEURÔNIOS DESCONECTADOS

Segundo o psicanalista Paulo Miguel Velasco, no paciente com o distúrbio, “o hipocampo é afetado em cerca de 10%, o que gera perda parcial de conexão com os neurônios, diminuindo a eficiência  dos medicamentos”. As funções desta área encefálica são ligadas no eixo frontal, podendo danificar a memória. O cérebro de uma pessoa diagnosticada com o transtorno pode sofrer com o excesso de alguns neurotransmissores, como o glutamato e a dopamina. Em situação de defesa, o órgão envia células protetoras, o que causa inflamações e, consequentemente, as falhas nas ligações entre os neurônios.

EM CRISE

Sem as medicações necessárias, as crises em indivíduos bipolares são inevitáveis. Os níveis variam de acordo com a incidência do bom e do mau humor e são divididos em leve, moderado, grave e crônico. O que os difere é a frequência com que se manifestam e o tempo de duração.

“O tratamento à base de lítio, é o mais recomendado, comeficácia em 86% dos casos. Também é possível a administração de antidepressivos, ansiolíticos e anticonvulsivos para amenizar as crises”, revela o psicanalista.

Não há uma idade específica para desenvolver o transtorno, sendo mais comum, de acordo com a psiquiatra Maria Cristina de Stefano, ”no início da vida adulta, dos 20 aos 25 anos. Porém, casos mais tardios podem surgir entre os 30 e 35 anos. Não há evidências em crianças, mas na adolescência é possível ocorrer devido às alterações normais de humor da puberdade”.

NÃO É TUDO IGUAL

O transtorno maníaco-depressivo é frequentemente confundido com outros distúrbios em virtude dos seus sintomas. É muito comum o bipolar apresentar traços de outros transtornos como a síndrome borderline. Ambos apresentam instabilidade afetiva, irritabilidade, ansiedade curta, ódio excessivo de alguém e distúrbios dissociativos”, explica Velasco.

Diferentemente do senso comum, a pessoa não tem que lidar apenas com os picos de humor. Segundo o psicólogo Leonardo Barros, “a bipolaridade pode, muitas vezes, passar despercebida e ser considerada característica da personalidade, além de ser confundida com esquizofrenia, depressão e síndrome do pânico. Por isso, é importante que se estabeleça um diagnóstico exato antes que qualquer tratamento seja iniciado.

Além de outros transtornos mentais, os sintomas podem ser confundidos com quadros de saúde como o hipotireoidismo, hiperticoidismo, doenças da supra- renal, diabetes, síndrome de ovários policísticos e outras patologias que causam grande oscilação de humor.

AS VARIAÇÕES

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) e a Classificação Internacional de Doenças (CID), o transtorno bipolar está dividido em:

TIPO 1: tanto os sinais de mania (extrema excitação) e depressão se manifestam intensamente (ao mesmo tempo ou não) e podem prejudicar a vida social, levando à internação do indivíduo.

TIPO 2: oscilação entre depressão e euforia sem maiores prejuízos sociais para a pessoa.

NÃO ESPECIFICADO: sintomas que indicam o distúrbio, mas não há a confirmação no diagnóstico.

CICLOTIMIA: grau menor de transtorno de humor que traz apenas uma alternância entre a depressão moderada e a hipomania (estado leve de excitação).

POESIA CANTADA

PEQUENINO CÃO

SIMONE

COMPOSIÇÃO: CAIO SILVIO / FAUSTO NILO

É a qualidade das paixões de quem procura
Ser maltratado maltratando a criatura
Adormeceu em minha mão, como um menino
Só, sem destino, um pequenino cão

Se a vida abraça a redenção das amarguras
Você não faça a eternidade na tortura
Entorpecendo o coração a gente espanta
O passarinho por pavor ou medo

Eu sei que o certo, sem sabor, é a tua loucura
Eu sei que a cor do teu amor é muito escura
E sem poder te dar à luz, meu coração, eu durmo cedo
E só te peço amor: Não me abandones mais

Quando desperto e vejo na porta da frente
Uma saída, minha vida, noutra vida diferente
E sem poder te dar à luz, meu coração, eu durmo cedo
E só te peço amor: Não me abandones mais

OUTROS OLHARES

VIOLÊNCIA REVIVIDA

Método de interpretar o agressor constrange mulheres na Justiça

Quando foi ao tribunal participar de uma sessão de constelação familiar, a universitária A., de 22 anos, reviveu a violência que buscava esquecer e punir ao buscar a justiça. Em uma sala, a jovem foi levada a relembrar as agressões sofridas no relacionamento com o ex-marido. Também foi coagida pelo mediador a pedir desculpas para o ex, que a agrediu ainda grávida, e depois, com o filho pequeno.

Relatos como o da jovem (o nome foi preservado para não comprometer o processo) têm se repetido no país nos últimos meses. Tribunais têm usado a técnica de constelação familiar, desenvolvida na Alemanha como um método terapêutico para solução de conflitos por meio de uma encenação, em processos da Vara da Família que envolvem denúncias de violência, o que constrange as vítimas.

A técnica passou a ser adotada em tribunais em 2012, com aval de resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que incentiva o uso de saídas extrajudiciais para desafogar o Judiciário. Apesar de a aplicação ocorrer majoritariamente em processos de guarda ou pensão alimentícia, os casos que têm gerado reclamações são de mulheres que também estão processando seus ex-maridos por agressão, e por isso a violência é abordada pelos mediadores.

Nos relatos feitos à reportagem, há desde convites para se colocar no lugar do agressor e refletir sobre o que causou a violência até uma dramatização do conflito em um auditório com mais de 50 pessoas. No último caso, desconhecidos são convidados a interpretar os envolvidos no processo.

“Os mediadores me colocaram para pedir perdão a ele (ex-marido) porque seria bom para mim. Me recusei, pois eu sou a vítima de violência, não ele. A partir daí fui colocada como louca. Me senti completamente sozinha, humilhada e desesperada”, disse A.

MARIDO NÃO FOI

Também estudante, C., de 36 anos, foi chamada para participar de três sessões de constelação. O ex-marido, acusado de agressão, nunca compareceu. A mediadora pediu para que ela perdoasse o homem, que, meses antes, a empurrou no hall do apartamento, o que lhe causou traumatismo craniano.

“Disseram que isso vem dos antepassados e que ele assimilou, mas não sabia o que estava fazendo”, disse ela. “É uma violência institucionalizada. É muito pesado, doloroso e injusto”.

A advogada Mariana Tripode, fundadora da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres, atendeu diversas clientes submetidas à prática em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Brasília e São Paulo. Um desses casos envolveu uma menor de idade estuprada pelo próprio pai. A advogada conta que a mediadora pediu à mãe da vítima para acolher o ex-marido, e não excluí-lo da família e “desonrar” sua posição de pai. Caso contrário, estaria violando a “lei da hierarquia”.

“Noto um crescimento do uso da constelação familiar em todo o Brasil, principalmente em casos envolvendo violência contra a mulher. A prática pode até ser eficaz fora da Justiça, mas dentro coloca a mulher em uma situação de revitimização”, disse Mariana, acrescentando que tenta-se “empurrar” o perdão da mulher para encerrar o caso. Pesquisadora da Universidade de Tsukuba, no Japão, Gabriela Bailas afirma que não existe nenhum artigo científico que estude os reais efeitos da técnica.

“Essas constelações são aplicadas em casos da Vara de Família, em sua maioria com mulheres vulneráveis, de renda baixa e que vão apenas com o intuito de resolver o seu problema. Feridas são abertas e depois são deixadas lá sem nenhuma assistência”, disse ela.

CLAREZA SOBRE DINÂMICAS

Já a advogada e terapeuta sistêmica Bianca Pizzatto Carvalho afirma que a constelação visa a trazer clareza sobre as dinâmicas que estão envolvidas nos relacionamentos e conflitos.

“As mulheres não apanham pelo mesmo motivo e os homens não batem pelo mesmo motivo. Quando as partes entendem a dinâmica da violência, elas têm a possibilidade de mudar”, disse a advogada.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), estado onde um dos casos citados ocorreu, disse que processos de violência doméstica não são encaminhados para a constelação. Afirmou também que a técnica pode ajudar os envolvidos a compreender a origem do conflito e a construir a solução.

A explicação não é suficiente para algumas das litigantes. Uma mulher de 45 anos, mãe de três filhos que pediu para não ser identificada, entrou com uma ação em 2018 para solicitar ao ex­ marido o pagamento da pensão alimentícia. A juíza do caso promoveu quatro sessões de constelação em que ela mesma desempenhou o papel de mediadora. Uma delas foi acompanhada de dezenas de pessoas:

“Imagina ter o seu pior pesadelo exposto dessa forma. Foi um momento traumatizante e que deixou feridas abertas nos meus filhos.

PARA #METOOBRASIL, ESTADO É INEFICAZ COM VÍTIMAS

Fundadora da campanha diz que em um ano recebeu mais denúncias do que algumas delegacias especializadas de São Paulo

Lançado no país há um ano, o movimento #Me­TooBrasil conseguiu atender 151 vítimas de violência sexual e mandar um total de 68 casos para instituições públicas de proteção. Segundo a organização, 50% das mulheres que relataram abusos nunca haviam pedido ajuda. Para a advogada e fundadora do movimento, Marina Ganzarolli, isso demonstra a ineficácia do Estado em responder a esse tipo de crime.

“Os relatos recebidos durante o primeiro ano mostram que o Estado é incapaz de uma intervenção no momento oportuno, quando o crime ocorre. Nas poucas vezes em que é notificado, se mostra ineficaz em dar uma resposta à vítima”, critica Marina, especialista em Compliance Cultural, Direito da Mulher e da Diversidade, que atua com mulheres e LGBTs vítimas de violência há 15 anos. A advogada conta que fica clara a falta de confiança das vítimas nas instituições. Muitas deixam de procurar delegacias especializadas e o Judiciário com medo de serem desacreditadas.

“ME SINTO UM LIXO”

“Por que você não gritou, tentou bater nele? ouviu uma das vítimas atendidas pelo #MeTooBrasil ao relatar a um delegado o abuso sofrido pelo padrasto, aos 14 anos. Ela respondeu que havia sido ameaçada de morte caso gritasse.  Mas continuou questionada. “É a primeira vez que vejo uma pessoa ser violentada e não lutar para que não aconteça”, disse o policial. “A partir daí, minha vida não tem sentido nenhum, tomo remédios de depressão e ansiedade para dormir e me sinto um lixo de ser humano”, relatou.

Inspirado na campanha americana, o #MeTooBrasil quer deixar de ser uma campanha para se consolidar como a ONG voltada para o enfrentamento à violência sexual no ano que vem.

Segundo Marina Ganzarolli, há delegacias especializadas do estado de São Paulo que não chegam aos 151 atendimentos feitos pelo #MeToo Brasil em um ano inteiro.

“Pensando nos 15 anos da Lei Maria da Penha, avançamos muito no debate sobre a violência doméstica, a ponto de já existir uma conscientização geral da população brasileira de que em briga de marido e mulher se mete sim a colher. Mas ainda não alcançamos isso em relação à violência sexual. Apesar de repetir o mantra da “culpa não é da vítima”, seguimos buscando no comportamento dela algo que justifique a violência. Ainda nos perguntamos se ela estava bebendo, que roupa estava usando. Sempre naturalizando as situações de assédio”, alerta.

Uma análise de 77 relatos enviados anonimamente ao #MeTooBrasil mostra que 57% dos abusos contra menores de idade foram praticados por um homem da família. A maioria foi contra meninas (88%), mas há casos com meninos (12%). Em 20% dos relatos, a mãe foi acusada de alienação parental (influenciar psicologicamente a criança para afastá-la do pai) após denunciar o crime.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE SETEMBRO

O PODER DA COMUNICAÇÃO

A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto (Provérbios 18.21).

Podemos avivar ou matar um relacionamento dependendo da maneira como nos comunicamos. A vida do relacionamento conjugal, bem como de todos os outros relacionamentos interpessoais, depende da maneira como lidamos com a comunicação. A comunicação é o oxigênio dos relacionamentos. Certa feita, um jovem espertalhão quis colocar numa enrascada um sábio ancião que vivia em sua vila. O velho sempre tinha respostas sábias para todos os dilemas que lhe eram apresentados. O jovem, então, disse para si mesmo: “Vou levar um pássaro bem pequeno nas minhas mãos e perguntar ao velho se o pássaro está vivo ou morto. Se ele disser que o pássaro está morto, eu abro a mão e deixo o pássaro voar. Se falar que está vivo, eu aperto as mãos, esmago o pássaro e o apresento morto. De qualquer forma, esse velho estará encrencado comigo”, pensou o jovem. Ao se aproximar do ancião, o jovem o desafiou nestes termos: “O senhor é muito sábio e sempre tem respostas certas para todos os dilemas, então me responda: o pássaro dentro das minhas mãos está vivo ou está morto?” O velho olhou para ele e disse: “Jovem, o pássaro está vivo ou está morto, só depende de você”. A comunicação dentro da sua casa, no seu casamento, no seu trabalho, na sua escola, na sua igreja está viva ou morta; só depende de você, pois a morte e a vida estão no poder da língua (Provérbios 18.21).

GESTÃO E CARREIRA

BRASILEIRO TROCA DE ÁREA PARA TER EMPREGO

Em set ores onde há escassez de mão de obra, falta de qualificação não é obstáculo

Mesmo sem qualificação adequada, trabalhadores são forçados a mudar de ramo em busca de ocupação. Setores que perderam o brilho por causa da pandemia, como comércio e serviços, são trocados pelo construção, comércio online e o agronegócio.

A troca foi detectada por empregadores na hora em que recebem os currículos dos candidatos. Diante da escassez de mão de obra qualificada, investir na formação tem sido uma das saídas para preencher as vagas.

“Aumentou a migração de trabalhadores de outras áreas para construção”, afirma Gilvan Delgado, dono da empreiteira Atacama. Com déficit de mão de obra, ele contratou Marcos Paulo Viana, de 33 anos, que desde os 16 trabalhava na microempresa de panificação do pai. Inclusive, carregava no currículo só cursos desse setor”.

O negócio de pão de forma integral, vendido a pequenos comércios e diretamente a consumidores, não foi para a frente quando veio a pandemia. A microempresa fechou e Viana encontrou na construção civil uma nova oportunidade. Um ano atrás, quando começou na empreiteira, não tinha conhecimento da área.  No início, trabalhava como ajudante em diversas funções para aprender. Hoje, coordena os serviços operacionais, como encarregado do controle de qualidade.

“Entrei na empreiteira achando que iria sair rápido, que seria algo transitório, mas fui aprendendo, evoluindo e crescendo”, diz. Na construção, Viana ganha quase o dobro do que tirava na panificação e planeja fazer um curso técnico na área ou até uma faculdade de Engenharia.

Esse também é o plano de Jacqueline Torres, de 27anos. Formada em Administração, desde maio ela trabalha na área de saída de mercadorias no centro de distribuição do Mercado Livre, em Cajamar (SP). Pretende cursar uma pós graduação em logística, tema que entrou para o seu radar faz três meses.

Durante oito anos, Jacqueline foi funcionária de uma loja de calçados da rua 25 de Março, tradicional polo do comércio atacadista. “Cuidava da parte administrativa e vendia”.

Apesar do bom salário, Jacqueline decidiu procurar outro emprego, porque se via estagnada. Em 2019, conseguiu uma vaga na área de tecnologia de outra companhia, mas com a pandemia foi demitida. Depois de quase um ano procurando uma ocupação, foi admitida em março de 2021 na área de marketing de uma empresa de alimentos. Mas logo apareceu a chance de trabalhar no Mercado Livre.

Hoje, ela coordena uma equipe de 75 pessoas, gerenciando desde a separação do pedido até a saída da mercadoria. Ganha o dobro do que recebia no último emprego e 2% a mais em relação ao salário do comércio tradicional. “Tive de aprender tudo desde o começo, foi muito rápido”, afirma. Há três meses na empresa, ela diz que parece que está há um ano, diante da carga de novos conhecimentos.

“Treinamos e formamos pessoas”, diz Patrícia Monteiro, diretora de People do Mercado Livre. Para serviços de logística, a diretora conta que tem admitido trabalhadores vindos de outros setores que não vão bem.

MUDANÇA

 Após quatro anos como motorista de ônibus em Piraju, interior de São Paulo, Antônio Márcio Sanches, de 41 anos, fez uma manobra radical: trocou o transporte coletivo pelo trator. Com a pandemia, as viagens de ônibus diminuíram, e ele teve o contrato suspenso. Passou a receber o auxílio do governo, e a renda caiu. “Com a pandemia, ficou enrolado e sai por conta.”

Sanches conhecia o produtor rural e zootecnista Miguel Abdalla e aceitou o desafio de mudar de ramo. Pouco mais de um mês, começou a pilotar trator e colheitadeira. Decidiu ir para o agronegócio em busca de um ganho maior e conseguiu. “Tiro cerca de 50% a mais do que ganhava como motorista.”

Além da receita maior como autônomo, ele diz que o ambiente de trabalho no campo é mais sossegado. Cursando o ensino fundamental, Sanches quer fazer um curso técnico para pilotar máquina agrícola, assim como fez para dirigir ônibus.

EU ACHO …

OS IMBECIS

Um jovem casal passava horas lendo em conjunto. Encontravam grande prazer na tarefa. No meio de um dia frio de quase primavera, ele diz a ela:

– Amor, você já leu Georges Bemanos?

– O católico monarquista francês?

– Sim. Acabei de ler esta frase:

“A única diferença entre um otimista e um pessimista é que o primeiro é um imbecil feliz e o segundo é um imbecil triste”.

– Que forte ideia!

– Forte mesmo. Mas eu me lembro de outra frase de um homem oposto, Bernard Shaw: O pessimista? O homem que se ressente de  todos os outros porque os acha tão desagradáveis como ele”.

– Bemanos é um tipo de moralista e Shaw traz um pouco de psicanálise.

– Uma ideia interessante, amor. Eu anotei aqui uma outra ideia, de Lewis Mumford: “Os conservadores são pessimistas em relação ao futuro e os otimistas, ao passado”. Assim, ele volta a Bemanos, pois imagina que todos temos um ponto negativo. Se sou um conservador, o futuro e até o presente podem ser tenebrosos. Se sou um otimista, o que já ocorreu é inferior ao que pode ocorrer, logo, sou um pouco negativo com o vivido e ansioso pelo que virá.

– Na semana passada, você deu uma palestra para professores de uma escola pública. Recordo-me do seu roteiro que lembrava a importância da educação e como cada professor poderia construir um futuro melhor para si, para os alunos e para o Brasil. Pense bem: você acha mesmo que o entusiasmo que você despertou vai durar? Que o sistema permitirá que saia algum empreendedor vitorioso dali?

– Claro que acho! Não creio que ser empreendedor seja o caminho exclusivo da felicidade e único indicativo de mérito. Porém, o melhor caminho para que surjam boas lideranças comunitárias, empreendedores de todo tipo, pessoas realizadas e felizes é lembrar a todos que somos senhores do nosso destino.

– Sim, amor, é a sua cara falar isso. Eu poderia dizer que você azeitou uma máquina de exclusão. Os professores ganham muito mal e os alunos naquela região sempre tiveram um ensino complicado que foi piorado pelo pandemia. Que um ou outro possa fazer algo diferente faz parte do desvio-padrão de todo experimento. Todavia, veja: ao dizer que os professores são maravilhosos e agentes do futuro, você substitui a dignidade material que eles não têm, o apoio que não chega e a realidade dura por uma espécie de ópio entusiasmado. Seu otimismo pode estar ajudando o mundo a permanecer como sempre esteve! Você virou um analgésico social.

– Ah, querida, sempre trazendo uma nota de enxofre para meu paraíso… Retirar a capacidade de sonhar ou o horizonte de esperança de alguém é matar a alma. Seria como desistir de uma luta antes de ela começar por ser complicada. Pessimismo é covardia e quase uma preguiça mental.

– Meu querido Cândido, disse ela sorrindo ao citar a personagem quase ingênua de Voltaire, “nunca sei se eu te beijo ou te esbofeteio quando você diz essas coisas…”, comentou a companheira com um olhar ambíguo. – Sei que você tem a melhor Intenção. Imagine que você dissesse algo oposto: “Meus queridos colegas professores: o sistema de ensino público foi montado para não funcionar. O salário é ruim, a estrutura física da escola é péssima, faltam coisas básicas e os alunos não têm condições de apoio em casa para transformar o conhecimento em alavanca de mudança. O maior objetivo aqui nesta escola é oferecer um treinamento mínimo de leitura e hábito para que cada aluno vire um bom empacotador de super ou vendedor treinado de fast-food. Caso vocês discordem dessa máquina de perpetuação de desigualdades, não melhorem o cárcere: derrubem-no! Para construir uma nova escola, eu tenho de rejeitar a antiga. Não sejam melhores carcereiros, sejam libertadores e se libertem!” Isso seria algo útil a dizer.

– Nossa, Cláudia, quanta amargura. Pedro estava assustado. Amava sua noiva, porém ficava espantado com o que considerava uma incapacidade de pensar com leveza o mundo. Pedro acreditava, genuinamente, naquilo que dizia nas palestras. A mulher desenvolvia um argumento que o tornava um ser perverso, alguém que animava presídios ou tocava como a banda do Titanic a afundar.

O casal já tinha conversado multas vezes sobre o tema. Cláudia tinha postura radical: os alunos não deveriam ser enganados com promessas falsas. Eles estavam ali para garantir certa aparência de igualdade do Brasil com suas escolas públicas para ”todos”. Porém, era um jogo viciado, com dados que nunca dariam o número vencedor a eles. A crise da educação não era um acidente, era um projeto, como tinha destacado Darcy Ribeiro há muitos anos. Tudo era montado para que a política e o capital continuassem com seu trajeto sem atritos. Claro, pensava ela, nosso Capitalismo não podia, hoje, contar com pessoas escravizadas analfabetas. Os funcionários tinham de saber enviar um e-mail, receber um vídeo ou até acessar o treinamento da lanchonete em um aplicativo. Os antigos escravizados tinham de ser minimamente alfabetizados. Aqui entrava a escola pública. Pedro, pensativo, não se cansava de incentivar alunos e professores. Seria um imbecil alegre e sua noiva uma imbecil triste? Sua amada queria libertar todos de uma falsa promessa de melhoria e ele seria um dourador de venenos? Eis uma dúvida legítima para você, querida leitora e estimado leitor. Qual o seu imbecil preferido? Com ou sem esperança?

***LEANDRO KARNAL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALÉM DO MEDO

A fobia age no inconsciente e pode ser um obstáculo em diversas áreas da vida – algumas que você nem imagina!

Entre o grande público, a definição de fobia pode ser confundida com a de medo. Apesar de haver certa semelhança, o medo está relacionado com o instinto de sobrevivência. “Já a fobia é uma aversão excessiva, exagerada, irracional e persistente em relação a um objeto, animal ou alguma situação que represente pouco ou nenhum perigo real, mas que é sentida como se fosse”, explica o médico Gilberto, Katayama. Isso ocorre em uma ocasião específica, que é entendida pela pessoa com o transtorno como uma ameaça terrível.

É possível identificar esse tipo de quadro por meio dos comportamentos e recursos apresentados na tentativa de afastar o que causa incômodo. “Para muitas pessoas, torna-se relativamente simples perceber um indivíduo fóbico, porque as suas atitudes se tornam socialmente inadequadas no contexto social no momento em que esse medo extremo se manifestar”, frisa Katayama.

Saiba mais sobre o medo como um transtorno mental a seguir.

A AÇÃO NA MENTE

Assim como a maioria dos casos, a fobia tem início por meio dos estímulos captados pelos sentidos. Após isso, as informações são levadas ao cérebro para serem analisadas em áreas específicas e especializadas. “O sentimento de medo, por exemplo, é processado inicialmente pelo sistema límbico, mais especificamente pela amígdala. Este sentimento, associado às sensações físicas, será processado pela mente, que buscará  atribuir um significado lógico ao que estamos experimentando. Quando o objeto fóbico se faz presente, surgem nossos comportamentos reativos e reações de fuga ou desistência”, esclarece Gilberto.

Além disso, a memória é outro fator importante nas respostas dos indivíduos. Isto é, ao vivenciar uma situação, o cérebro  busca experiências semelhantes como forma de comparação. “A cada estímulo, buscamos na memória, de forma inconsciente, as experiências passadas similares. E estas bagagens se apresentam como memórias vivas, ou seja, vêm acompanhadas das sensações, sentimentos e pensamentos”, complementa  o médico. Com isso, de maneira inconsciente, a mente soma as lembranças antigas com as novas a cada situação vivida, as deixando disponíveis para experiências futuras.

OBSTÁCULO SOCIAL

As fobias interferem em diversos aspectos do dia a dia e, entre as principais, está a questão da convivência com o mundo ao redor. “Fobia social é um transtorno de ansiedade que se caracteriza pelo desconforto e pela esquiva de situações sociais e de desempenho”, descreve o psiquiatra Tito Paes. Dessa forma, a relação interpessoal do indivíduo sofre como um tipo de bloqueio, interferindo no seu dia a dia.

Ir a festas, construir um relacionamento, participar de reuniões, falar em público… Tudo isso parece muito distante das pessoas que sofrem com esse teor. Segundo Tito, isso ocorre porque há “um receio de ser avaliado negativamente pelas pessoas nas situações sociais e de desempenho”.

A ORIGEM

Mas de onde vem essa preocupação que impede o indivíduo de viver e conviver em sociedade? Apesar de não existir nenhuma comprovação científica, alguns estudos apresentaram hipóteses para a origem desse quadro. “As causas da fobia social ainda não estão bem elucidadas. Admite-se que um componente genético tenha um papel na eclosão desta fobia. Uma vulnerabilidade biológica maior para manifestação de sintomas de ansiedade na infância pode contribuir para o surgimento dos sintomas”, atesta Tito.

Contudo, o psiquiatra ressalta que o fator familiar é outro possível desencadeamento e merece um cuidado a mais – principalmente a relação entre pais e filhos e o incentivo ao contato com outras pessoas. “O ambiente em que a criança foi criada também pode exercer uma influência importante. Assim, é possível que ela adquira a falta de interesse dos pais pela vida social. Em alguns casos, os responsáveis podem desencorajar seus filhos de terem vida social”, explica Tito.

Além disso, alguns pais dão muita ênfase a opiniões alheias e isso afeta na maneira de agir dos filhos, que podem se preocupar demais com o que os outros pensam. Há também os indivíduos que enfrentam longos períodos de isolamento, como em caso de doenças, dificultando o desenvolvimento de suas habilidades sociais.

O CORPO FALA

Esse medo em demasia gera diversos sintomas por todo o corpo. Isso ocorre porque o cérebro prepara o físico para encarar uma situação de perigo. “É provocada uma liberação de hormônios que informam à pessoa que ela irá enfrentar uma luta ou uma possível fuga”, cita a psicanalista Cristiane Vilaça.

Dentre os principais sinais, estão taquicardia, sudorese e falta de a r, mas eles não são os únicos.” Diante das situações sociais ou de desempenho, o fóbico social manifesta sintomas físicos como tremor, tensão, abalos musculares e ruborização, bem características nesses casos”, descreve Tito.

E não para por aí. A psicóloga clínica Cristiane Maluhy Gebara afirma que o fóbico ainda pode sofrer com sintomas psíquicos, abrangendo “os sentimentos de vergonha e humilhação, a autodepreciação, a antecipação negativa, o medo da avaliação negativa e a timidez excessiva”. Com isso, há uma degradação psicológica da pessoa e ela busca o isolamento, alterando sua rotina e suas atividades diárias. “Os sintomas da fobia são muito desagradáveis e provocam sofrimento e ansiedade a ponto de interferirem na qualidade de vida”, ressalta Gilberto.

TIMIDEZ X FOBIA SOCIAL

Apesar de causarem sintomas e sinais relativamente semelhantes, há uma grande diferença entre os dois conceitos. Ambos afetam a parte social do indivíduo, porém, a fobia impede a convivência e o torna solitário. Enquanto isso, uma pessoa tímida continua realizando suas atividades diárias, caracterizando-se apenas como um traço de personalidade.

POESIA CANTADA

METADE

OSWALDO MONTENEGRO

COMPOSIÇÃO: OSWALDO MONTENEGRO. 

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade, não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
A outra metade é canção
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também

OUTROS OLHARES

PEQUENINO, MAS LUCRATIVO

As redes registram cada vez mais influenciadores mirins, que ganham fama e dinheiro com o estímulo dos pais. Os especialistas alertam para os perigos

Aos 3 anos, o menininho de bochechas fartas e sorriso fácil acomodado na cadeira infantil do carro ensaia um “eu te amo” em inglês para a mãe, que registra, eufórica, aqueles segundos. O vídeo, como quase tudo em que Noah Tavares estampa o rosto, viralizou entre o seu recém alcançado 1 milhão de seguidores no Instagram e os mais de 5milhões que acompanham suas variadas gracinhas no TikTok. Administrada pela mãe, a farmacêutica Frécia Tavares, 33 anos, a bio de Nonô, como ficou célebre, informa que ele é “uma pessoa pública”. E como. “Comecei a postar fotos dele quando era um bebezinho e me surpreendi com o sucesso”, conta Frécia, cuja determinação acabou transformando o filho em um pequeno ás da publicidade – chega a cobrar 4.000 reais por foto postada, divulgando marcas como Coca-Cola, Itaú e Rappi. “Temos uma rotina de gravação praticamente diária”, diz a farmacêutica, que largou o emprego para gerenciar a atribulada agenda. Em tempos pré-web, Nonô seria garoto-propaganda. Hoje é influenciador digital e encorpa a hashtag mini- influencer, já empregada 1 milhão de vezes, e subindo no Brasil.

A quem o aborda – e não é pouca gente – ele se apresenta: “Sou aquele menino famoso da internet”.

A indústria do entretenimento é uma usina de converter fofura e talento precoce em fama desde a mais tenra idade. Um mergulho mais fundo, porém, mostra que o caminho pode ser tortuoso para a criança, que perde contato com a espontaneidade da infância e passa a cumprir um roteiro traçado pelos pais. “Familiares às vezes agem de forma narcisista, expondo os filhos para aparecer através deles”, diz a psicóloga Ceres Araújo, fazendo um alerta para um efeito colateral nocivo: “O excesso de expectativa por parte dos adultos exerce sobre a criança uma pressão que tende a se traduzir em sofrimento”. Diversos nomes estelares penaram depois de estrearem jovens demais, entre eles Michael Jackson, que aos 6 anos cumpria uma maratona de shows e era alvo de castigos físicos do pai-empresário, e Macaulay Culkin, o astro de Esqueceram de Mim, que, revelado aos 4 anos, adentrou a maturidade sem saber lidar com a fama e abandonou as telas.

As redes sociais, sempre elas, deram novos contornos ao fenômeno, com seu potencial de fazer de uma peraltice um sucesso global, muitas vezes oco. E os pais se entusiasmam além da conta. A tentação de exibir todos os passos da prole ganhou até nome em inglês: sharenting, mescla de share (dividir) com parenting (paternidade.) Especialistas reconhecem a complexidade de estabelecer nesse movediço terreno a fronteira entre o razoável e o contraindicado – e o bom senso será sempre um balizador, lembram. Cientificamente, já está comprovado que uma rotina intensa demais no mundo paralelo da internet reduz vivências essenciais para o desenvolvimento. O risco é de a criança se deixar fisgar por imagens fáceis no lugar de afiar raciocínios complexos. “As redes atuam no sistema de recompensa do cérebro infantil como um estímulo positivo, mas não são nem de perto suficientes para enriquecer a linguagem e o pensamento”, afirma o neuropediatra Mauro Muszkat, da Unifesp. A médica Fernanda Kanner, 38 anos, viu a filha Nina, 14, disparar no TikTok, com 2 milhões de seguidores. Notando que o cotidiano virtual fugia do controle, a mãe tomou a dura decisão de encerrar a conta há um mês. “A pseudo fama a fez acreditar que a beleza era o que ela tinha de mais especial. Fiz isso para o seu bem”, justifica a médica. Quando o dinheiro entra na equação, a probabilidade de um desequilíbrio na rotina infantil se eleva. “Sempre houve crianças aparecendo em propagandas, mas, depois que as mídias tradicionais passaram a ser reguladas, as redes se tornaram uma opção mais interessante, já que ali as regras não estão plenamente definidas”, explica a antropóloga Solange Mezabarba. Desde 2014 uma norma do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente proíbe que a publicidade infantil seja dirigida diretamente aos pequenos, mas nem sempre é trivial discernir brincadeira de propaganda. A sutileza se revela, por exemplo, em situações como o unboxing, em que o mini- influenciador vai abrindo uma caixa e de lá retira “produtos-surpresa”, como roupas e brinquedos, tudo à venda. Na segunda-feira 23, nove empresas foram denunciadas ao Ministério Público da Bahia pelo Instituto Alana por prática de publicidade infantil irregular. “Acriança percebe o influenciador mirim como um amigo, não como um ator, e aí está o problema”, explica Isabella Henriques, diretora-executiva do Alana. No fim de 2020, a fabricante de brinquedos Mattel foi condenada a pagar 200.000 reais por danos morais coletivos, após o Tribunal de Justiça de São Paulo considerar que a empresa fez publicidade indireta ao contratar uma criança com canal no YouTube para divulgar uma marca de bonecas. A Mattel diz “garantir a ética, a qualidade e a verdade em sua comunicação”.

A lei brasileira determina que filhos não podem se tornar responsáveis pelos rendimentos da família, o que é frequente no universo dos influencers mirins. “O Estado e os pais também devem zelar pelo que é melhor para a criança”, frisa Glicia Salmeron, presidentedaCo1nissão dos Direitos da Criança da OAB. A especialista em turismo Patrícia Yamazaki, 43 anos, deixa a filha, Maria Eduarda, de 8, gravar anúncios (ela é embaixadora de grifes conhecidas de roupas e contabiliza 73.000 seguidores). Mas impõe horários, acreditando que assim a menina segue uma trilha saudável. “Só marco trabalhos aos sábados e domingos. Não quero que ela se deslumbre com o mundo digital e deixe de se empenhar nos estudos”, diz a mãe. Todo o cuidado é pouco nesse campo de tantos e variados estímulos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE SETEMBRO

O CORAÇÃO SE ALIMENTA DA BOCA

Do fruto da boca o coração se farta, do que produzem os lábios se satisfaz (Provérbios 18.20).

Há uma estreita relação entre o coração e a boca. A boca fala o que procede do coração, e o coração se alimenta do que a boca fala. O coração é a fonte, a boca, os ribeiros que fluem dessa fonte. Sendo a boca o veículo do coração, é também o celeiro que o alimenta com o melhor das iguarias. Quando a boca diz palavras sábias, bondosas, edificantes, o coração se satisfaz com o que produzem os lábios. Palavras verdadeiras, oportunas e cheias de graça sempre alegrarão o coração. Essas palavras abençoam não apenas quem as ouve, mas também quem as profere. Essas palavras alimentam não somente o coração dos ouvintes, mas também o coração daqueles que as proclamam. Como é bom ser portador de boas-novas! Como é bom ser instrumento de Deus para consolar os tristes! Como é bom abrir a boca para falar a verdade em amor e encorajar as pessoas diante dos dramas da vida! Quando plantamos sementes na vida dos outros, nós mesmos colhemos os frutos dessa semeadura. Quando plantamos boas sementes na lavoura do nosso próximo, vemos essas mesmas sementes florescendo e frutificando em nosso próprio campo. Bebemos o refluxo do nosso próprio fluxo. As bênçãos que distribuímos para os outros caem sobre a nossa própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

 HERDEIROS ESG REVOLUCIONAM EMPRESAS FAMILIARES

Chegada de ‘millennials’ ao comando dá ênfase a metas ambientais, sociais e de governança

Não é mera coincidência a ascensão sincronizada dos millennials no comando de empresas familiares e da sigla em inglês ESG, ou ASG em português – Ambiental, Social e Governança. Forjados em uma educação globalizada já sob ansiedade climática, herdeiros têm sido a força motriz por trás da adoção de boas práticas socioambientais em empresas fundadas por antepassados com outros valores. As trajetórias são variadas e nem sempre lineares -afinal, cada família é ESG à sua maneira – , mas os que chegam se parecem e são cada vez mais verdes.

Aos 35 anos, Alex Seibel é da terceira geração de uma família judaica polonesa que se estabeleceu no Brasil no entre- guerras, fugindo do antissemitismo. Seu avô Bernard chegou a São Paulo adolescente, aos 14 anos e acabou fazendo carreira no setor moveleiro. Em 1961, comprou a Leo Madeiras, loja de insumos para marcenaria que se tomaria pedra angular de um grupo de negócios familiares.

Em 2009, uma outra empresa dos Seibel, a Satipel, se fundiu com a Duratex, tornando-se uma das maiores fabricantes de painéis de madeira do mundo. A transação representou um salto de ordem de grandeza nos negócios da família. Hoje, os Seibel fazem parte do bloco de controle da Dexco (novo nome da Duratex) junto com a Itaúsa e têm 20% da companhia, fatia que vale R$ 3 bilhões na Bolsa.

Mas a trajetória de Alex, neto de Bernard, começou longe do core business familiar. Em 2012, aos 26 anos, o jovem foi enviado a Porto Alegre para trabalhar na Empório Body Store marca que vendia cosméticos artesanais. Em seguida, a Empório Body Store fez uma joint-venture com a The Body Shop, famosa empresa britânica. Em pouco tempo, a marca da L’Oréal – e que hoje pertence à Natura – compraria a Empório Body Store. Mas a passagem deixou impressões marcantes no herdeiro dos Seibel.

“Foi lá que conheci a trajetória da Anita Roddick, fundadora da The Body Shop e pioneira no uso de produtos de base vegetal e no comércio justo com comunidades locais.

O primeiro resultado dessa experiência foi a Positiva, uma consultoria de soluções ambientais inspirada em conceitos como permacultura e economia circular. Logo, Alex constatou que o modelo tinha pouco alcance e resolveu transformar a empresa em uma linha de produtos de limpeza e higiene pessoal ecológicos. Desde 2015, a Positiva já reciclou 50 toneladas de plástico. A marca está em 500 pontos de venda e é ativa no e-commerce.

CADÊ O DINHEIRO?

A Positiva foi a primeira de uma série de empreendimentos centrados na sustentabilidade. Alex, mais tarde, voltou para o negócio familiar, criando um núcleo de impacto no Family office do clã, o HS Investimentos. Recentemente, assumiu vaga no conselho de administração da Dexco.

“Escolhi atuar na esfera do capital”, explicou Alex.

É justamente aí que o Brasil mais peca, observa Marina Cançado, responsável pela área de sustainable wealth ( patrimônio sustentável) da XP. Diferentemente do que ocorre nos EUA e na Europa, o investimento institucional tem sido um dos pontos cegos do ESG no Brasil.

“Estou positivamente surpreendida na forma como a nova geração está mexendo nos negócios. Falta ainda mexer nos investimentos. Talvez os Family offices locais ainda sejam tocados por pessoas de velha guarda”, especula Marina, ela própria herdeira da rede de farmácias Drogaí, que tem 219 lojas no interior de São Paulo.

NA VANGUARDA

Curiosamente, um dos pioneiros do tema no Brasil foi um banqueiro. Ex-presidente do Real e, posteriormente, do Santander, Fábio Barbosa lembra que era ridicularizado com apelidos como ”banqueiro verde” e “abraçador de árvore” ao abordar a sustentabilidade duas décadas atrás.

“Se minha geração não deixou um Brasil melhor, pelo menos ela deixou filhos melhores. A cada dia sai do mercado um consumidor que achava isso uma bobagem e entra outro que acha isso importante. A cada dia sai do mercado um profissional que escolheu a carreira por salário e entra outro que escolheu por propósito. Isso é motivo de celebração”, resume Barbosa, que é membro dos conselhos de administração do Itaú Unibanco e da Endeavor Brasil.

A mudança geracional é real e global. As estimativas variam, mas calcula-se que até US$ 68 trilhões que hoje pertencem a baby boomers serão herdados por millenials americanos ao longo desta década. Isso vai quintuplicar a riqueza dos jovens que estão ocupando cargos de poder nas empresas.

A sensação de deslocamento leva muitos herdeiros a experimentarem o ESG fora de casa. “Entre 2005 e 2010 eu era universitário e fiz uma espécie de grande programa de trainee dentro da empresa. Chegou um momento em que percebi que não era para eu estar ali”, lembra Pedro Wickbold, de 34 anos, herdeiro de quarta geração da fabricante de pães que leva seu sobrenome.

O plano era sair para empreender. Wickbold trouxe para o Brasil a marca italiana Wewood, cujos relógios são feitos em madeira. A cada peça vendida, uma árvore é plantada. Três anos depois, em2014, Wickbold vendeu o negócio.

“Casei e tirei 2015 para dar uma volta ao mundo com minha mulher. Estivemos em 120 cidades de 37 países. Conheci muita gente, vi muita riqueza e muita pobreza. E voltei encantado com o Brasil, que é um país fantástico, mas cuja desigualdade é abissal. Voltei determinado a retomar o legado da família e, por meio dele, contribuir para mudar isso”, sustenta.

Sua chegada precipitou uma guinada sustentável. Já em 2016, a marca de pães fechou parceria com a rede de negócios sustentáveis Origens Brasil. Por meio dela, a Wickbold passou a comprar castanha-do-pará e farinha de babaçu diretamente de famílias extrativistas da Amazônia. Por meio da Amigos do Bem, a panificadora também está comprando castanha de caju de famílias no sertão nordestino. Essas matérias-primas se transformaram na Linha Raízes, de pães especiais.

“É mais caro, mas demonstra nosso engajamento socioambiental. Adotar essa política é um processo de convencimento desafiador, mas a família sempre foi aberta a isso. E o mais importante é que dá resultado”, afirma o executivo, que assumiu a presidência da companhia no ano passado e criou uma área de sustentabilidade que está calculando a pegada de carbono para traçar um plano de mitigação.

SUCESSÃO NO LUTO

Para Manuella Curti, herdeira da marca de purificadores de água Europa, a chegada ao comando foi abrupta, trágica e envolta em luto.

Em 2010, em um intervalo de apenas seis meses, ela perdeu o irmão e o pai. Aos 26 anos, coube à jovem advogada ocupar o vácuo.

Ao tomar as rédeas da companhia, Manuella diz que começou pelo “questionamento de nosso propósito”, o que desembocou em uma crise de identidade da Europa. Foi a oportunidade para integrar ao negócio uma sensibilidade social e ambiental característica de sua geração, explica:

“Mudar fatores ligados à cultura da empresa sempre são processos mais longos e nem sempre o caminho mais fácil. Na Europa, isso não foi diferente.

Manuella decidiu avançar em políticas como a ampliação do nível de circularidade dos resíduos e maior diversidade na companhia. “É preciso haver conexão entre a geração de valor do ESG e o resultado econômico”, observa.

Mas a maioria dos herdeiros assumem negócios que, em geral, não têm o ESG como prioridade, diz Carlos Mendonça, sócio da PwC:

“Uma pesquisa nossa mostrou que a pauta ESG está lá embaixo nas prioridades. Por isso muitos jovens não querem trabalhar na empresa da família nem têm orgulho desse legado.

Segundo ele, as três maiores prioridades são expandir seus negócios, avançar em tecnologia e melhorar o uso de recursos digitais. Só 39% das empresas têm uma estratégia ESG fundamentada

EU ACHO …

PAÍS MAL-ASSOMBRADO

Somos perseguidos pelos fantasmas que não foram devidamente enterrados

Nessa última semana, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul hasteou em sua sede a bandeira do Brasil Império, como símbolo de reconhecimento aos ideais libertários e de respeito à Constituição. Em 1822, marco da homenagem do órgão aos “ideais libertários”, a população negra era escravizada e seguiu sendo durante a grande parte do século 19.

No Facebook e no WhatsApp, uma corrente de fake News em curso há mais de ano “informa” as pessoas que dom Pedro 2º era um bravo líder que “por mais de 40 anos lutou contra poderosos fazendeiros pela abolição da escravatura”.

Quem quiser ver Pedro 2º na versão romântica, como um líder sensato, que respeitava a população negra no último país a abolir a escravidão na América, basta ver a novela das seis da maior emissora do Brasil.

Somos transportados a um outro país. É engraçado o que uma liberdade de roteirização pode fazer. Como diz um provérbio africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, a história da caça glorificará o caçador”. Pessoas negras não detêm concessões públicas, nem poderio econômico para criar suas novelas.

Como nos ensina Chimamanda Adichie em “O Perigo da História Única:” “É impossível   falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo – ‘nkali’ é um substantivo que se traduz: ‘Ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do ‘nkali’. Como é contada, quem as conta, quando e quantos histórias são contadas, tudo realmente depende do poder”.

Como vivemos uma história única contada há décadas no país de “Escrava Isaura”, “Sinhá Moça”, “Terra Nostra” e tantas outras produções, os brancos no poder do regime escravista se tornam os mocinhos da história. Nem parece que vivemos no último país da América a abolir a escravidão. Nem parece que foi o mesmo país que massacrou populações negras quilombolas e indígenas, que manteve leis para “inglês ver”.

Seguindo com Chimamanda, “poder é a habilidade de não só contar a história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história e começar com ‘em segundo lugar’. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história diferente”.

Parece que foi em outro país que o Brasil imperial instituiu como política pública o incentivo da vinda de imigrantes europeus, como forma de branquear a população. Uma política formulada por teóricos do racismo científico, que acreditavam que a população negra era biologicamente inferior à branca.

Ao mesmo tempo, vemos intelectuais ressentidos com o protagonismo negro no debate público, em vez de aceitar que precisam estudar autores negros e abrir mão de falácias argumentativas para justificar seus racismos. O ostracismo deve doer a ponto de se abrir mão da honestidade intelectual para impor aquilo que se quer provar. Realmente a branquitude não se enxerga, pois se recusa a reconhecer os lugares construídos a partir da opressão de outros grupos, a pauperização histórica da população negra que possibilitou a concentração de renda nas mãos brancas, a tentativa de culpabilização de pessoas negras por um sistema que as oprime. É uma total inversão lógica, ética e política.

Como já escrevi aqui, fazendo referência à artista multidisciplinar Grada Kilomba, a escravidão e o colonialismo, enquanto histórias mal- resolvidas, funcionam como fantasmas.

Fantasmas comumente são vistos como aqueles espíritos errantes com fim traumáticos e que ficaram presos ao plano terreno. Seguimos assombrados pelos fantasmas que não tiveram seus devidos fins, não foram devidamente enterrados. Não houve rituais fúnebres condizentes, então eles permanecem, nos assustam, mas a verdade é que sempre estiveram aqui, em um país que se recusa a enfrentá-los.

Temos o fantasma do marco temporal em um país que não respeita os povos indígenas;  o fantasma do golpe em um país que nunca condenou os torturadores da ditadura e ainda os homenageia com nomes de ruas, temos o fantasma do colonialismo, que mata e persegue a população negra e que tenta por algozes como heróis, que faz com que seja possível intelectuais racistas julgarem que sabem teorizar sobre racismo sem investigar seu próprio grupo racial e tantos outros fantasmas que fazem do Brasil um país mal-assombrado.

*** DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros “Feminismos Plurais”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTE E MUSICALIDADE

A música está presente em variadas culturas. Não por acaso, a Neurociência tem investigado a relação entre música, emoção e comportamento humano, com o objetivo de compreender os seus benefícios para os seres humanos

A música se faz presente em diversos lugares. É plausível dizer que o canto dos pássaros em um jardim, assim como a queda d’agua de uma cachoeira, configuram cenários repletos de sons musicais. Do mesmo modo que, nos grandes centros urbanos, sirenes, buzinas, ruído de motores, vozes de pessoas que alertam, vendem e orientam também inspiram compositores exercendo influência direta na configuração do cenário musical de uma cidade. Desse modo, tom, melodia, harmonia e ritmo são constantes na vida dos humanos.

Os avanços tecnológicos permitiram descobertas científicas no campo de estudos sobre mente e musicalidade. A Neurociência tem investigado a relação entre música, emoção e comporta­ mento humano, com o objetivo de compreender os benefícios da música para os seres humanos. A música está presente em variadas culturas, sendo produzida por meio de diversos instrumentos que alcançam tonalidades distintas.

Este dossiê apresenta dados sobre mente e musicalidade, musicoterapia, além de relatar o modo pelo qual música e criatividade se conjugam no trabalho realizado por um músico, compositor e psicólogo que se beneficia da música e da criatividade para compor sua identidade enquanto atua profissionalmente em situações de vulnerabilidade social.

EXPERIMENTAÇÕES

O indivíduo entra em contato com a experiência musical na mais tenra idade. Das canções de ninar, entoadas pela mãe, ao ruído da água em ebulição durante o preparo da mamadeira, crianças ouvem uma grande porção de sons logo nos primeiros contatos estabelecidos na relação com adultos. A experiência vivenciada pela criança pode gerar prazer, dentre outras emoções, além de configurar esquemas que englobam regiões do cérebro.

O neurologista britânico Oliver Sacks, autor de diversos livros sobre temas relacionados aos campos da Psiquiatria e Neurologia, reconhecido professor de Neurologia da Columbia University, situada nos Estados Unidos, afirma que a espécie humana é a única a dispor de um cérebro capaz de entender estruturas musicais e ser afetado emocionalmente pelas características impressas nas músicas. Por meio da utilização de avançados recursos tecnológicos, descobriu-se que músicos sofrem significativas mudanças em regiões do córtex cerebral que nunca foram observadas em outros profissionais. Além dessa constatação, observaram-se alterações cerebrais em pessoas expostas a estímulos musicais, ainda que tais pessoas não tivessem habilidades musicais.

Segundo Sacks, a música se apossa de muitas partes do córtex cerebral, o qual se desenvolve quando um ritmo é percebido, aprendido e imaginado. Ele considera a musicalidade peculiar aos seres humanos, quando sustenta que nenhum outro animal é capa de ouvir e distinguir sons complexos, compostos de tons, semitons, ritmos e expressões orais. A percepção musical é, portanto, uma habilidade específica dos humanos e merece atenção da parte de pesquisadores interessados na compreensão da vida humana.

De acordo com Daniel J. Levitin, pesquisador da Universidade McGill, situada em Montreal, Canadá, a música foi e ainda é fundamental ao processo de evolução humana. Trata-se de um recurso indispensável para a vida cotidiana. O referido autor publicou um livro intitulado, A Música no seu Cérebro (2010) (no original, This is your Brain on Music, 2006), para divulgar estudo acerca da interação música, mente, corpo e cérebro. Ele lançou mão de músicas de diferentes estilos, partindo de Johann Sebastian Bach até o rapper norte-americano Eminem, com a finalidade de investigar fatores importantes na definição de gostos musicais. Segundo Levitin, o fato de as atividades musicais mobilizarem quase todas as partes cerebrais corrobora com as críticas ao pensamento dualista que considera a separação entre mente e corpo na compreensão do ser humano. A música é percebida em sua completude a partir de oito parâmetros perceptivos, conforme exposto por Levitin: (1) intensidade, (2) altura, (3) contorno, (4) duração, (5) andamento, (6) timbre, (7) localização espacial e (8) reverberação. Desse modo, as afetações incidem no ouvinte como um todo.

De acordo com Levitin, o ato de ouvir música se inicia nas estruturas subcorticais (núcleos cocleares, tronco cerebral e cerebelo) antes de avançar para o córtex auditivo. Esse modo de compreender a audição é condizente com a crítica que se faz à separação dualista entre razão e emoção, mente e corpo, dentre outras cisões operadas sob a influência do pensamento cartesiano, uma vez que a constatação indica o fato de a audição estar atrelada a diversas partes do córtex cerebral, sem atribuir, portanto, exclusividade ao córtex auditivo. Quando alguém acompanha uma música conhecida, prossegue o referido autor, aciona outras regiões do cérebro, como o hipocampo que está relacionado à memória, além de recorrer às subseções do lobo frontal. Outras regiões são envolvidas quando um músico compõe uma canção, por exemplo. Nesse caso, exigem-se ativações do córtex com o objetivo de se resgatar dados memorizados, mas espera-se que o compositor efetue planejamentos e cálculos que definirão ritmo, velocidade e intensidade musical.

No dedilhar de um violão, ou na digitação dos teclados de um piano, recorre-se ao córtex motor, situado no lobo parietal, bem como ao córtex sensorial que viabiliza percepção tátil. Para se efetuar a leitura de uma partitura, faz-se necessário mobilizar o córtex visual, situado na região do lobo occipital. Além destas regiões, exigem-se capacidades vinculadas à linguagem, o que sugere afetação da área de. Broca, situada nos lobos temporal e frontal. Em suma, a riqueza da música e da musicalidade reside na complexidade de sua natureza.

POESIA CANTADA

METADE

ADRIANA CALCANHOTTO

COMPOSIÇÃO: ADRIANA CALCANHOTTO

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?

OUTROS OLHARES

STATUS DE CUIDADO COM FILHOS E CASA VOLTA AO DEBATE NA PANDEMIA

Decisão argentina de contar cuidado materno para aposentadoria reforça ideia sobre aumentar proteção social

Invisível tanto quanto essencial, o cuidado com filhos, com parentes e com a casa ganhou uma nova dimensão durante a pandemia da Covid-19 e motivou o desligamento de mulheres do mercado de trabalho.

Segundo estudo do Banco Mundial, 56% das mulheres da América Latina  e do Caribe ficaram desempregadas, temporária ou permanentemente, a partir da crise sanitária – um índice 44% superior ao dos homens da região. Ainda que parte delas tenha perdido emprego por atuar nos setores mais atingidos pela crise, como comércio e serviços domésticos, de acordo como estudo, o fator mais relevante para a desproporção do desemprego de mulheres em relação a homens foi a atividade de cuidado.

“Jamais pensei em sair do meu emprego e ficar em casa cuidando das crianças”, admite a matemática Joana Villas Boas Mello, 41, que trabalhou no setor bancário por 13 anos e abandonou o emprego durante a pandemia.

“Esse nunca foi um plano na minha vida, mas nossa rotina na pandemia não se sustentava”,  admite ela, que tem dois filhos pequenos.

Joana passou a desempenhar um tipo de trabalho não remunerado que, mesmo sendo às vezes mais exaustivo que o dia a dia do banco, está longe de receber reconhecimento similar. “O trabalho de casa e dos cuidados com os filhos é muito subvalorizado. Uma coisa é saber disso na teoria. Outra coisa é viver na prática. Foi desse lugar que ela assistiu à decisão da Argentina de contabilizar os anos de cuidado materno para a aposentadoria de mulheres que são mães.

As argentinas poderão acrescentar de um a três anos de tempo de serviço por filho que tenha nascido com vida para atingir o tempo mínimo exigido por lei para garantir o direito à previdência. Segundo o decreto, serão ainda considerados dois anos por filho adotado e será adicionado um ano para cada filho com deficiência. A medida é alvo de debate, mas não se trata de um caso isolado. O Uruguai já havia reconhecido o trabalho materno em 2008 e permite que mulheres contabilizem um ano de tempo de serviço adicional para cada filho, até o limite de cinco anos.

E o Chile, que complementa a aposentadoria de mulheres segundo a quantidade de filhos, tem vivido debates intensos sobre a economia do cuidado durante sua nova Constituinte.

A Assembleia chilena é marcada pela paridade de gênero e as mulheres constituintes reivindicam a criação de políticas públicas para que o trabalho de cuidado não recaia desproporcionalmente sobre elas.

O Brasil é exemplo flagrante da desigualdade na divisão sexual do trabalho de cuidado. Antes da pandemia, as mulheres do país gastavam, em média, o dobro de horas semanais dos homens em trabalho não remunerado de cuidado, segundo dados de 2019 do IBGE. Na pandemia, 50% das mulheres brasileiras passaram a se responsabilizar pelos cuidados com alguém, de acordo com pesquisa da Sempre Viva Organização Feminista.

Segundo definição da OIT(Organização Internacional do Trabalho); o trabalho de cuidado pode ou não ser remunerado e envolve atividades diretas, como alimentar um bebê ou assistir a um doente, e indiretas, como cozinhar ou limpar.

Na pandemia, o Brasil foi um dos países em que as escolas ficaram fechadas por mais tempo no mundo. Como as normas sociais do país colocam a mulher como principal responsável pelo cuidado com os filhos, o impacto desse fechamento na vida das mães foi desproporcional.

De acordo com o Banco Mundial, ter filhos de até cinco anos pesou para a perda de emprego de mulheres muito mais do que para os homens que têm filhos nessa faixa etária. E o peso desse fator para o desemprego de mulheres se intensificou à medida que a pandemia se alongou.

“A novidade na questão da inserção das mulheres no mercado de trabalho não é apenas que elas são numerosas entre os desempregados, mas também que são mais numerosas entre aquelas que abandonaram o mercado de trabalho “, diz Lena Lavinas, professora de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Segundo o IBGE, o país tem hoje 14,8 milhões de desempregados, entre eles quase 2 milhões de trabalhadoras domésticas, além de 6 milhões de pessoas que saíram do mercado de trabalho e não estão mais procurando emprego – situação chamada de desalento.

Estudo do Núcleo Afro do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) já havia indicado que três dos cinco setores econômicos com maior redução de postos de trabalho na pandemia (alojamento e alimentação, serviços domésticos e demais serviços) eram dominados por mulheres e por mulheres negras.

O mesmo estudo apontou ainda para o aumento, durante 2020, da proporção de mulheres que deixaram de buscar emprego por causa de atividades de cuidado. Em novembro do ano passado, 21% das mulheres em desalento informaram como causa os cuidados não remunerados com parentes e com a casa. Entre os homens, esse percentual era de apenas 1,3%.

Trata-se de uma situação cercada de estigmas negativos.

“Trabalho desde os 17 anos, nunca fiquei sem emprego, e não me ver como profissional foi muito difícil”, admite Joana, que parou de trabalhar para cuidar dos filhos. “Tive que renovar a carteira de motorista na pandemia e, quando me perguntaram minha profissão, eu travei. Simplesmente não conseguia responder”, conta. Para a professora de sociologia da USP, Nadya Araújo Guimarães, uma construção longeva não reconhece isso como um trabalho, e o vigor dessa construção é tão grande que as próprias pessoas que fazem esse trabalho às vezes não o reconhecem como trabalho.”

Segundo ela, foram os movimentos feministas que apontaram para o cuidado como um “trabalho não pago e desigualmente distribuído, que onera as mulheres”.

“No Brasil, essa desigualdade é impactante porque ela tem uma diferença de sexo e uma diferença de cor”, diz. “As mulheres trabalham mais do que os homens, mas as mulheres negras têm uma quantidade de trabalho não remunerado doméstico ainda maior:”

É o caso de Ana Paula da Silva Vieira, 38, que se desdobrava entre o trabalho como porteira, a manutenção da casa de três cômodos e os cuidados de mãe-solo com o filho de cinco anos até perder o emprego no mês passado.

“Sou o homem e a mulher da casa, e tudo depende só de mim”, desabafa. “Já tinha feito uma dívida antes da pandemia, que agora ficou pior. Às vezes deixo de pagar uma coisa pra poder pagar outra. O primeiro trabalho que aparecer, eu estou pegando. Não posso ficar desempregada”,  preocupa-se.

Para ela, que sempre trabalhou com registro em carteira, sem trabalho não dá para pagar o INSS de maneira autônoma para garantir melhor aposentadoria no futuro. “Previdência não é minha prioridade, neste momento”.

“Numa conjuntura recessiva, com alto desemprego feminino e queda de renda das mulheres, a capacidade de contribuição para a aposentadoria é muito baixa”, diz Lena Lavinas. “Inclusive porque, estando essas mulheres também endividadas junto ao setor financeiro, a prioridade é pagar a dívida para poder renegociá-la”.

É por causa dessa urgência que mães de crianças pequenas muitas vezes têm que o economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper, pondera a iniciativa argentina. “A medida é interessante, mas garante um benefício lá na frente, quando a mulher tiver por volta de 65 anos, e isso pode já ser tarde demais para beneficiar a criança, que pode ter se desenvolvido na pobreza, acumulando problemas socioemocionais e de aprendizado que vão impactar seu futuro”, diz ele, que integra o Núcleo Ciência pela Infância do Insper. Para Menezes, e mais vantajoso para as mães ter auxílio direto e imediato por meio de uma transferência de renda no valor mínimo de RS 400 por criança. “Seria uma espécie de Bolsa Família turbinado”. O economista Paulo Tufne, diretor-presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, enxerga como polêmico e questionável querer corrigir, a partir da previdência, problemas decorrentes do mundo do trabalho ou da convivência social e familiar.

“É muito mais interessante criar um mecanismo assistencial para famílias em que a mulher definitivamente é privada do trabalho e de renda para cuidar de um parente. E fazer isso focalizado nas famílias mais pobres”, avalia.

No caso brasileiro, o trabalho de cuidado não tem proteção social nem benefício previdenciário.

“Trata-se de uma carga desigualmente distribuída, que pesa sobre o trabalho remunerado, diminuindo as chances da mulher de estar no mercado de trabalho, o que gera efeitos sobre os benefícios futuros”, diz Guimarães, da USP. Ela destaca a pandemia deu visibilidade para o trabalho do cuidado em suas diversas formas, inclusive o não remunerado, feitos nos domicílios.

Segundo a professora, há no Brasil uma defasagem em relação a outros países quanto ao reconhecimento e a mensuração desse fenômeno. “Só em 2016 que a Pnad passou a considerar essas atividades como trabalho. E, enquanto países como Colômbia, Argentina e Uruguai fazem pesquisas de orçamento de tempo [que permite a atribuição de um valor para esse tipo de trabalho], no Brasil isso nunca aconteceu. Medir esse fenômeno é condição para que se desenvolvam políticas públicas para ele”, afirma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE SETEMBRO

NÃO OFENDA A SEU IRMÃO

O irmão ofendido resiste mais que uma fortaleza; suas contendas são ferrolhos de um castelo (Provérbios 18.19).

Não é uma atitude sensata ferir uma pessoa, pois um homem ofendido em sua honra torna-se uma fortaleza inexpugnável. Suas contendas são mais fortes do que os ferrolhos dum castelo. Quando Tito Vespasiano invadiu e devastou Jerusalém no ano 70 d.C., cerca de três mil judeus fugiram e se refugiaram na fortaleza de Massada, nas proximidades do mar Morto. Depois de verem seu povo ser massacrado e seu templo ser incendiado, esses judeus se tornaram verdadeiros gigantes para se defenderem no alto dessa fortaleza construída por Herodes, o Grande. Quando os romanos tentavam aproximar-se, os judeus jogavam pedras lá de cima. Estavam feridos em seu orgulho e em sua honra e, como se fossem um só homem, lutaram bravamente até o dia em que, sem esperança de salvamento, resolveram que um suicídio coletivo seria melhor do que cair nas mãos dos romanos para serem desonrados e mortos à espada. Não podemos ferir as pessoas. Não podemos agredi-las com palavras e atitudes. Não temos o direito de humilhá-las. Todo ser humano deve ser respeitado. Devemos tratar a todos com dignidade e amor. Pois uma pessoa ferida resiste como uma fortaleza, e suas contendas são tão fortes como os ferrolhos de um palácio.

GESTÃO E CARREIRA

PRESSÃO POR INCLUSÃO FAZ ESCOLAS DE ELITE BUSCAREM ALUNOS E PROFESSORES NEGROS

Diante da demanda dos pais pela pauta antirracista, colégios particulares de São Paulo reformam currículos, formam docentes e incluem novos autores e pesquisadores não brancos. Oferta de bolsas e auxílios ajuda a tornar classes mais plurais

A demanda dos pais por uma educação antirracista pode levar a uma das maiores mudanças na história recente das escolas particulares de elite de São Paulo. Já há reformulação de currículos, não só na forma como se fala dos negros e indígenas na aula de História, mas com novos autores e pesquisadores não brancos. Elas também passaram a dar preferência para contratar professores negros – superando a ideia de que eles são sempre o porteiro ou a faxineira. E ainda abriram bolsas para alunos negros e indígenas, com mensalidade, material, transporte e passeios pagos pela escola e pelas famílias, com doações que chegam a R$4 milhões.

Projetos parecidos surgiram em 2020 e 2021 em colégios como Santa Cruz, Vera Cruz, Oswald de Andrade, Escola da Vila, Gracinha, Equipe, entre outros. O caminho para a mudança não é fácil e causa questionamentos pessoais e institucionais, admitem diretores e professores ouvidos pela reportagem. Eles falam da deficiência na própria formação, buscada também em currículos eurocêntricos e brancos. E ainda existe a dificuldade em lidar com situações de racismo, considerado muitas vezes um tabu, ou com dúvidas das crianças sobre raça e cor.

Para ajudar no chamado letramento racial, as escolas procuraram assessorias que analisam materiais, abordagem dos docentes e falam da importância de se cuidar também da relação entre negros e brancos no ambiente escolar. “Não é pra trazê-los para ‘o mundo encantado do Alto de Pinheiros’, e, sim, criar um novo lugar”, diz a advogada Roberta di Ricco Loria, mãe de três filhos na Escola Vera Cruz e diretora da associação criada pelos pais, o Projeto Travessias. “O racismo é complexo. Se não houver sensibilização de toda a comunidade escolar, não funciona.”

Em 2020, o Vera Cruz recebeu 18 alunos negros ou indígenas no último ano da educação infantil – são três bolsistas por sala. A mensalidade é dividida entre a escola e a associação de pais, que já arrecadou R$ 4 milhões. A intenção é garantir 18 bolsistas anualmente e que todos possam ficar até o fim do ensino médio na escola.

Uma delas é Fernanda, de 6 anos, filha da massagista Norma Oliveira da Luz. Entre os requisitos do processo seletivo, que já está aberto para 2022, estão raça, renda baixa e morar, no máximo, a 12  quilômetros da escola. No ano passado, a direção entrevistou cerca de 50 famílias das 270 que se inscreveram. Norma fala da alegria quando soube que a filha, que estudava numa escola pública, tinha conseguido a vaga. Ela veio do interior da Bahia com o pai e 21 irmãos, já foi babá, empregada doméstica e hoje sustenta Fernanda sozinha. “Eu não pude, mas minha filha vai poder sonhar.”

A pressão das famílias por uma educação antirracista ganhou força no ano passado depois do assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos. Em meio à pandemia, surgiram grupos no WhatsApp para discutir a inclusão nas escolas. Alguns pais e mães formaram a Liga lnterescolas por Equidade Racial, que intermediou o acesso dos colégios a especialistas.

A inclusão de negros na educação havia ganhado força no País em 2012, quando foi aprovada a lei de cotas, que estabelece reserva de vagas nas universidades federais para jovens pobres, com recortes por raça. A Universidade de São Paulo (USP) também adotou ações afirmativas recentemente, amparada em estudos sobre o bom desempenho de cotistas. Antes disso, em 2003, uma lei determinou que os currículos das escolas incluíssem a história e a cultura afro-brasileira, mas pouco foi feito na rede privada.

“Não tem mais como a gente não reconhecer o racismo estrutural e não contribuir para eliminá-lo. A escola é uma instituição importante porque participa da educação da sociedade”, diz a diretora pedagógica do Colégio Santa Cruz, Débora Vaz. A escola contratou professores negros, está mexendo no currículo e anuncia amanhã bolsas para negros e indígenas para 2022. Serão 12 vagas para não pagantes e 10 para pagantes, um lugar de honra no concorrido processo seletivo do Santa Cruz.

Mirian Ferreira dos Santos, de 27 anos, foi contratada este ano como professora assistente na escola. Nas séries iniciais do fundamental, onde dá aulas, é a única negra. Certa vez, ela substituiu uma outra professora numa sala onde há uma aluna negra. “Eu vi a diferença no olhar dela, o sorriso, ela me viu como uma profissional que estava em um lugar de reconhecimento e se parecia com ela.”

CURRÍCULO.

Em vez de apresentar o negro pela primeira vez na escola como o escravo, falar de Martin Luther King – esse é um exemplo de educação antirracista. Ou aprender sobre os povos indígenas antes de falar sobre a chegada dos portugueses ao Brasil. E não ter apenas bonecas brancas na educação infantil. “O currículo às vezes é muito engessado e conteudista. Os professores têm dificuldade na literatura, usam só os cânones em seus planos de aula”, diz Suelem Lima Benício, consultora de educação em relações étnico raciais do Colégio Oswald de Andrade. Ela fez formação dos professores e dos funcionários administrativos e analisou o projeto pedagógico. “É um processo que vai durar muito. Se queremos formar jovens transformadores, a escola precisa estar incomodada”, diz a diretora pedagógica do Oswald, Andrea Andreucci. O cientista político Cássio França, pai de duas filhas na escola e membro do grupo antirracista, diz que o colégio “já é outro”. A leitura de férias da filha adolescente incluiu O quarto do despejo, de Carolina Maria de Jesus, o diário da catadora de papel que vivia numa favela. “Com o fim da pandemia o projeto deve acelerar mais.”

Para Sheilla André, contratada como coordenadora pedagógica no Oswald este ano, um colégio que se diz humanista precisa buscar a igualdade. “No meu currículo não dizia que eu era negra, mas percebi que era importante para a escola nas entrevistas.  “O colégio também deve lançar um programa de bolsas em setembro. Sheilla diz que temeu a reação dos pais na escola de elite, mas acabou se sentindo acolhida.

“Nosso desafio é que não seja uma coisa pontual, um evento, para ter um selinho antirracista”, diz a coordenadora da Ação Educativa, Denise Carreira. Ela é autora de um documento sobre relações raciais na escola, feito em 2013 com o Unicef e o Ministério da Educação, mas abandonado pelo governo federal hoje. Denise usa o material com as escolas particulares e diz que a abordagem tem de ser multidimensional. “Precisamos educar crianças e adolescentes brancos para construir uma cultura democrática. A situação dramática atual do País é em parte responsabilidade de uma elite segregada em seu mundo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENXAQUECA CIRÚRGICA

Com bons resultados, procedimento recebe aval de sociedade americana

Classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das doenças mais incapacitantes do planeta, a enxaqueca aflige 30 milhões de brasileiros. São as mulheres as principais vítimas, pela oscilação natural dos hormônios do corpo feminino. Não é por menos que o problema é um dos principais alvos da indústria dos remédios. Um dos procedimentos mais interessantes, no entanto, com nenhuma ligação com medicações, tem ganhado espaço nos últimos tempos no Brasil e no mundo: a cirurgia.

O procedimento consiste em descomprimir dois tipos de nervos associados à sensibilidade: o trigêmeo (que passa pelas regiões de nariz, maxilar, bochechas, testa e lateral) e o occipital (com ramificação pela nuca e parte de trás da cabeça).Ambos são apontados como uma das causas das intensas dores de cabeça.

São sete tipos de cirurgias já praticadas, uma para cada área em que as dores costumam começar ou se tornar mais fortes. Com preço que pode variar de RS5 mil a R$ 50 mil, a depender da complexidade, elas são feitas nos hospitais, sob anestesia geral ou local, e duram de 20 minutos a cinco horas. A mais comum é a retirada de um pequeno pedaço de músculo ou vaso para descomprimir os nervos da sensibilidade.

A operação é indicada para pacientes com diagnóstico de enxaqueca feito por neurologistas e que não respondam bem ao tratamento convencional ou que sofram muitos efeitos colaterais causados pelos remédios contra a doença. Cerca de 80% a 90% das pessoas submetidas à cirurgia de enxaqueca apresentam pelo menos 50% de melhora na intensidade, duração e frequência das crises, sendo que de 30% a 40% delas afirmam não sentir mais as dores.

Nos Estados Unidos, onde é mais popularizada, é realizada em universidades, como Harvard, e recentemente foi reconhecida pela Sociedade Americana de Cirurgia Plástica. No Brasil, o procedimento é considerado experimental pela Academia Brasileira de Neurologia e pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, e, por isso, neurologistas não podem realizá-lo. O Conselho Federal de Medicina(CFM) não impede a prática, no entanto.

“Este é um procedimento que existe há mais de uma década e que tem evoluído fortemente. Trata-se de uma cirurgia superficial, e, portanto, não chega perto do cérebro. Os efeitos colaterais são relacionados à sensibilidade da região operada, não há risco de sequelas neurológicas”, destaca Paolo Rubez, cirurgião plástico e especialista em cirurgia de enxaqueca pela Case Western University, nos EUA, um dos médicos que mais fazem a operação no Brasil.

A técnica nasceu nos anos 2000, nos Estados Unidos, por acaso. Naquele tempo, o cirurgião plástico Bahman Guyuron percebeu que após procedimentos cirúrgicos estéticos no rosto, alguns pacientes relatavam uma diminuição nas enxaquecas.

Nem toda dor de cabeça pode ser classificada como enxaqueca. Ela é definida como uma dor que pode durar de quatro a 72 horas, com intensidade moderada a grave, e que dificulta a realização de atividades do cotidiano, como trabalhar, ler, comer. A sensação costuma ser do tipo pulsátil, ou seja, como se fosseuma artéria latejando. Normalmente, vem acompanhada de outros sintomas, como irritabilidade com a luz (fotofobia), com sons e cheiros.

OUTROS TRATAMENTOS

São variados os tipos de tratamento da enxaqueca: eles vão desde o uso de analgésicos até os anticorpos monoclonais e a aplicação de toxina botulínica. Eles vão depender se a enxaqueca é aguda – um episódio específico – ou crônica – recorrente.

“Nos casos de enxaqueca crônica, os tratamentos têm como objetivo diminuir a frequência e a intensidade das dores ao longo do mês. Não é uma cura, é colocar o paciente no grupo em que as dores são episódicas”, explica Gabriel Batistella, neurologista e assistente de Neuro-Oncologia Clínica na Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

É nos casos da enxaqueca crônica que entram também os anticorpos monoclonais e a toxina botulínica. Em 2019, a Anvisa aprovou o uso do erenumabe, que pertence ao primeiro grupo. Ele bloqueia os receptores do peptídeo relacionado com os genes de calcitonina (CGRP), responsável por desencadear crises de enxaqueca. Já a toxina botulínica promove o relaxamento muscular da região onde é aplicada, evitando contrações, e inibe sinais dolorosos, aliviando assim as crises. Essas duas técnicas são úteis e evitam episódios frequentes de dor.

Quando a enxaqueca é aguda, , explica o médico, o tratamento visa suspender as dores daquele momento. Os medicamentos mais comuns são dipirona, paracetamol, anti-inflamatório e os triptanos.

“Não costumo recomendar remédios que apresentam uma combinação de muitas substâncias, como dipirona, cafeína e relaxante muscular. Este tipo de medicamento pode induzir à resistência a ele mesmo ou então gerar um vício no paciente. O corpo gosta tanto do remédio que vai gerar uma dor de cabeça só para o paciente voltar a usá-lo”, afirma Batistella.

POESIA CANTADA

BILHETE

IVAN LINS

COMPOSIÇÃO: IVAN LINS / VITOR MARTINS.

Quebrei o teu prato
Tranquei o meu quarto
Bebi teu licor
Arrumei a sala
Já fiz tua mala
Pus no corredor

Eu limpei minha vida
Te tirei do meu corpo
Te tirei das entranhas
Fiz um tipo de aborto
E por fim nosso caso acabou
Está morto

Jogue a cópia das chaves
Por debaixo da porta
Que é pra não ter motivo
De pensar numa volta
Fique junto dos teus
Boa sorte, adeus
Boa sorte, adeus

OUTROS OLHARES

EM UM ANO, #METOOBRASIL RECEBEU RELATOS DE 151 VÍTIMAS

Mais da metade só narrou o abuso sexual; 68 foram encaminhadas à Justiça

“Por que você não gritou? Não tentou bater nele? Essa é a primeira vez que vejo uma pessoa ser violentada e não lutar.”

As frases vêm do relato que Júlia (nome fictício) enviou à campanha #MeTooBrasil, narrando o abuso que sofreu aos 14 anos. No depoimento, relembra como o padrasto a assediou, como foi rejeitada pelo pai ao buscar ajuda e maltratada ao denunciar o caso para o delegado da sua cidade.

Lançado há um ano, o movimento #MeTooBrasil, que acolhe vítimas de violência sexual, se inspirou na campanha americana de mesmo nome que expôs abusos em Hollywood e que resultou, em março de 2020, na condenação do produtor Harvey Weinstein a 23 anos de prisão por agressão sexual e estupro.

Neste primeiro ano, a campanha brasileira recebeu 151 relatos relacionados à violência sexual. Desses, 77 usaram a plataforma como forma de relatar suas histórias, como Júlia; as outras 74 vítimas buscaram ajuda efetivamente – 68 desses atendimentos resultaram no encaminhamento para rede de proteção do Estado.

Para a advogada Marina Ganzarolli, idealizadora do projeto, frases como “em briga de marido e mulher não se mete acolher” não encontram mais uma aceitação tácita na sociedade. Campanhas nas redes sociais, contudo, como a que diz que “a culpa não é da vítima”, ainda se limitam a hashtags e o que elas pregam não foi ainda assimilado. A advogada admite que a campanha que concebeu, com um nome em inglês, esbarra em barreiras sociais, econômicas e até digitais. Mas,  diz, sua criação foi a forma que encontrou para romper bolhas. “Para a gente conseguir uma resposta eficaz contra a violência sexual no Brasil, precisamos falar com todo o mundo. Aprendi que seria interessante beber das influências das hashtags e das redes sociais e atingir movimentos hegemônicos para conversar fora desse círculo de garantia de direitos humanos.

Ao entrar em contato com a plataforma, a vítima recebe apoio e orientação do Projeto Justiceiras, que oferece amparo à mulheres vítimas de violência sexual. Depois disso, é dado o encaminhamento do caso no âmbito judicial.

De acordo com o levantamento realizado pela campanha, 54% das mulheres que buscaram pelo #MeToo Brasil são casos não urgentes, ou seja, que não aconteceram na hora e, por isso, não buscam ajuda imediata. A maioria dos relatos da campanha são pedidos de ajuda que partem de mulheres brancas (65%), da região Sudeste do país (53%) e tem entre 21 e 30 anos.

”A maioria nos procura para saber se ainda tem como denunciar as violências sofridas há mais de dez anos. Elas ainda estão revisitando traumas do passado e entendendo as possibilidades de reparação”, diz Ganzarolli. ”Nenhuma vítima consegue denunciar sozinha, não conseguem nem falar para pedir ajuda, quem dirá brigar com um Saul Klein ou um Roger Abdelmassih.

Ela lembra que é comum que vítimas de crimes sexuais demorem anos para buscar ajuda e aponta que um dos maiores problemas da violência sexual no Brasil é a subnotificação do casos.

De acordo com o mais recente anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2010, houve uma queda de 14% no registro de estupros e estupros de vulneráveis. Mas  a leitura não é  necessariamente otimista, diz a advogada.

“As condições em que esses crimes acontecem são dentro do convívio familiar e aumentaram com o isolamento social. Por isso, com certeza, a violência sexual aumentou, o que caiu foram os registros”. São vários os fatores que contribuem para a subnotificação, mas um deles é a incompreensão de como funciona a violência sexual, normalmente perpetrada por pessoas do ciclo afetivo da vítima.

“Não é uma pessoa que ela odeia, que ela quer ver presa, que ela quer destruir, normalmente é o pai, irmão, padrasto, tio, chefe, um colega. É um processo difícil porque a vítima tem uma série de afetos com aquela pessoa para fora da situação de trauma”.

De acordo com os dados das mulheres que recorreram ao #MeTooBrasil, 55% das denúncias são de violências que aconteceram dentro de casa, 54% afirmaram que era a primeira vez que buscavam ajuda, 21% relataram que o agressor possui posse ou acesso a armas de fogo e 14,7% vivem com seus agressores. Os dados seriam divulgados nesta terça (31), em um Webinar.

Ganzarolli afirma que, apesar de a grande maioria das vítimas dos casos de violência sexual ser de mulheres, meninos também são vítimas de violência sexual, tanto na infância quanto na adolescência.

“Não são nem 5% dos casos, mas eles são ainda mais invisibilizados, por sofrerem com a chave da homofobia. Por isso não falam nunca sobre as violências sofridas”.

Como Márcio (nome também fictício), que teve sua história contada à campanha pela avó. O garoto contou que o pai havia introduzido o dedo em seu ânus. A família, então, levou o menino, cuja idade não foi indicada no relato, para fazer exame de corpo de delito. Porém as investigações nada constataram. Agora a avó teme que a guarda da criança vá para o pai.

Medos como o da avó de Márcio são constantes entre as vítimas que sofrem abusos, diz Ganzarolli, que estima que o Brasil 30 anos atrasado na compreensão da violência sexual, se comparado aos EUA e países da Europa.

“Lá fora, se o funcionário de uma empresa é acusado de abusar de alguém, a lógica é afastá-lo ou demiti-lo. Aqui pensam “e se eu punir o cara e não for verdade? Eu vou ser condenado pelo agressor por ter difamado e acabado com a vida dele?” É sempre pela perspectiva do agressor”.

Na visão da advogada, a atual legislação contra crimes sexuais no Brasil é boa e resguarda bem as vítimas. O gargalo estaria na aplicação das leis. “Quantos equipamentos de saúde pública no Brasil estão preparados para aplicar a Lei do Minuto Seguinte (que prevê que hospitais ofereçam às vítimas de violência sexual atendimento emergencial e multidisciplinar)? Estaria exagerando se eu dissesse 40.”

Ela identifica como um avanço recente na área o surgimento da Ouvidoria das Mulheres, em maio de 2020. O canal, criado pelo conselho do Ministério Público a fim de receber denúncias, foi também uma forma de agilizar o encaminhamento dentro da instituição e promover o apoio multidisciplinar às vítimas – em um ano, mais de 870 já procuraram ajuda do órgão.

“Quando falamos de violência doméstica, discute-se um bem protegido, que é a entidade familiar; já quando falamos de violência sexual, é sobre um crime que aborda a sexualidade doentia de homens. Mas as pessoas acham que estamos falando sobre sexo”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 18 DE SETEMBRO

A DECISÃO SÁBIA VEM DE DEUS

Pelo lançar da sorte, cessam os pleitos, e se decide a causa entre os poderosos (Provérbios 18.18).

Nos tribunais há muitas batalhas jurídicas em andamento entre os poderosos. Os pleitos são defendidos com vigor e fortes arrazoados. Advogados ilustres, com argumentos arrasadores, defendem o pleito de seus clientes com eloquência irreparável. Esses pleitos, porém, se arrastam por longos anos, em virtude da complexidade da causa e da burocracia da justiça. A queda de braço entre os poderosos parece não ter fim. A pugna parece interminável. Os pleitos não chegam a um fim desejável. Sempre que uma sentença é dada, recorre-se a um tribunal imediatamente superior e, assim, a pendenga jurídica cruza anos e anos sem um veredito final. Nos tempos antigos, especialmente no povo de Deus, essas questões eram resolvidas pelo lançar da sorte. O Deus que sonda os corações era consultado quando uma decisão difícil precisava ser tomada. Então, Deus respondia e trazia uma solução clara, justa, que cessava os pleitos. Quando Judas Iscariotes, traindo o seu Senhor, enforcou-se, era necessário um substituto para ocupar o seu lugar. A igreja reunida no cenáculo, em Jerusalém, buscou a Deus em oração, e por meio do lançamento de sortes Matias foi escolhido para ocupar o seu lugar. Hoje, não usamos mais esse expediente, porém o princípio de buscar a Deus e agir segundo a sua vontade ainda deve reger nossas decisões.

GESTÃO E CARREIRA

RECUSA DE VACINA ACENDE DEBATE CORPORATIVO

Segundo especialistas, proteção do coletivo se impõe à do indivíduo e normas das empresas são asseguradas por lei

Com o avanço da vacinação contra a covid-19 no País, muitas empresas que mantiveram o time em home office até agora estão voltando a operar no presencial. Apesar de a imunização ser comprovadamente a forma mais eficaz de se proteger do vírus, o fato de algumas pessoas recusarem a vacina tem obrigado o mundo corporativo a se posicionar para garantir um ambiente coletivo seguro.

Com a previsão de reabrir seus escritórios em outubro, a Microsoft dos Estados Unidos já anunciou que vai exigir o comprovante de vacinação de todos os funcionários e visitantes para que possam entrar nos prédios da companhia a partir de setembro. Facebook e Google também informaram, no início do mês, que os colaboradores que retomarem ao presencial deverão estar vacinados.

No Brasil, o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP) manteve recentemente a justa causa aplicada à demissão da funcionária de um hospital que não quis se vacinar. A justificativa foi que, apesar de a vacinação não ser compulsória, a imunização em massa é a única maneira de frear a pandemia. Nesse caso, para proteger a saúde do coletivo, as empresas têm o direito de restringir a frequência ou o exercício de atividades de quem não aceitar entrar na dança – e até de demitir por justa causa, dependendo do motivo da recusa.

“A empresa não pode forçar o empregado a se vacinar, mas, se ele não o fizer, poderá sofrer consequências trabalhistas”, afirma Rodrigo Takano, sócio do departamento trabalhista do Machado Meyer Advogados. “Caso a empresa estabeleça a vacinação como uma condição para a proteção da saúde e segurança dos seus empregados no ambiente do escritório e o empregado se recuse a se vacinar, ele estará violando uma norma interna e inviabilizando o seu trabalho no ambiente coletivo. Nesse contexto, o empregador tem legitimidade para dispensar o empregado por justa causa”, ele esclarece.

Sob a ótica do trabalhador, o especialista ressalta que ele não poderá ser punido por não se imunizar se houver prescrição médica com contraindicação, mas o acesso presencial à empresa pode ser limitado. “Em comparação com outros programas nacionais de vacinação, como o da H1N1 (Influenza), a obrigatoriedade de vacinação é a mesma, porém, no contexto de pandemia e calamidade pública, há um rigor maior de toda a sociedade no que concerne a exigir e fiscalizar a vacinação individual em razão da tutela da coletividade”, reitera.

PROTEÇÃO DIRETA E INDIRETA

Diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações e médica do corpo clínico da Cedipi, a pediatra Silvia Bardella Marano explica que, apesar de nenhuma das atuais vacinas contra a covid-19 eliminar o estado de portador do vírus, a pessoa que se imuniza não adoece com a mesma frequência que a que está desprotegida – e, se contrair o vírus, as chances de transmissão são inferiores. “Além dos anticorpos, quem se vacina desenvolve vários graus de resposta contra aquele agente e as chances de o vírus se multiplicar são muito menores”, afirma.

A médica sublinha a importância da questão traçando um paralelo com outros vírus conhecidos. “Urna pessoa com sarampo contamina 18 pessoas, uma com varicela transmite a doença para quase 100 % dos contatos não imunes e uma pessoa com Covid-19 contamina de 3 a 6 pessoas, dependendo da cepa. Então, ela representa um risco para a população, especialmente para quem não está vacinado por limitações da idade, gestação ou imunossupressão.”

De acordo com Silvia, quem ainda não pode tomar a vacina por algum motivo acaba indiretamente protegido pela imunidade de rebanho.

CONSCIENTIZAÇÃO

Em Goiânia, a Consciente Construtora promoveu campanhas de conscientização sobre a importância da imunização para seus colaboradores. Como resultado, a grande maioria dos funcionários já recebeu a primeira dose e deve estar completamente imunizada até setembro. Dos 190 operários, apenas 4 optaram por não tomar a vacina.

A empresa afirma que orienta, incentiva e procura sempre conscientizar os colaboradores sobre a importância da vacina, inclusive facilitando para que os profissionais possam sair durante o expediente de trabalho para se vacinar. Apesar da campanha permanente, no entanto, eles entendem se tratar de um ato voluntário. Não há nenhum tipo de descontinuidade de contrato ou penalidade com aqueles que, por questões pessoais, decidam não se vacinar.

No caso da healthtech Dandelin, como a equipe é jovem, por enquanto somente os dois sócios-fundadores já estão 100% imunizados e voltaram a frequentar o escritório em formato híbrido. “Com o avanço da vacinação, optamos por deixar opcional o retorno ao escritório, mas somente para aqueles que tiverem tomado as duas doses da vacina e aguardado os 14 dias para que a imunização esteja completa”, explica o CEO Felipe Burattini.

Ele fala que nenhum dos colaboradores tem um posicionamento negacionista quanto à necessidade da vacinação, tanto para a prevenção pessoal quanto coletiva, mas que a empresa é rigorosa com a questão. “Caso algum colaborador se recusasse a ser vacinado, teríamos a certeza de que os valores dele não estariam em conformidade com os da Dandelin”, complementa Mára Rêdiggollo, COO da empresa.

A foodtech Pratí, que até hoje manteve na fábrica somente os profissionais que exercem atividades que não podem ser realizadas a distância, também optou por uma volta gradativa para o escritório daqueles que tenham tomado as duas doses da vacina ou a dose única, no caso da Janssen. Se houver recusa, porém, a empresa vai dialogar. “Os colaboradores que estão em home office e não quiserem se vacinar, manteremos no formato remoto até se vacinarem”, afirma o CEO Fabio Canina. “Para os que atuam de forma presencial, buscaremos entender o motivo da recusa e continuaremos reforçando a importância da imunização, pensando sempre no bem-estar de todos”, ele pondera.

EU ACHO …

A XEPA DO INSTAGRAM

De batom a biscoito, a publicidade na internet virou uma praga

Eu concordo com a publicidade. Base da nossa sociedade de consumo. Digo isso para não ficar semelhante a um esquerdista dos velhos tempos para quem anunciar já era, em si, um pecado. Hoje vivemos sob a era dos influencers. E me pergunto: não há responsabilidade sobre o que eles dizem? Abro meu celular, passo por uma figura pública comendo biscoitos, dizendo que são deliciosos. É uma ação paga, claro. Mas ela comeu os biscoitos, ou só está dizendo pela graninha? Na publicidade tradicional, há um projeto que envolve inúmeras pessoas, e se exige responsabilidade. Quando alguém fura, há inclusive processos. Toda a estrutura pressiona para proteger o consumidor. Mas e os influencers?

Dizem o que querem. Não digo que sejam coisas ruins. A maioria fala de biscoitos, cosméticos, dá a dica de comidinhas… A minha pergunta é: a influencer usou aquele produto? Desfrutou a comidinha? Eu tenho um contato relativo com o mundo de influencers. Sei que ganham por ações pagas, e muitos faturam alto. Cada batom apresentado, cada unha pintada. Mas eles usam os produtos? Experimentam pelo menos? Ou só na hora de gravar?

Quando eu era pequeno, aprendi que devo ter responsabilidade sobre o que falo. Na publicidade tradicional também já vimos gente que “não bebe” fazendo propaganda de cerveja – inclusive a Sandy. Não colou. Mas no dia a dia da internet está desenfreado. Às vezes – acho pior – disfarçado. A personalidade faz uma foto descontraída e lá no canto tem o produto. Como que por acaso. Eu mesmo, confesso, já fiz post com chocolates. Sinto a consciência em paz porque sou guloso e adorava a marca. Mas exagerei dando mordidas de hipopótamo em um ovo de Páscoa. Eu comeria aquele chocolate de novo? Todos os anos. Comeria outro? Daquele jeito? Exagerei. Ou seja, a palavra tem valor. Só que esse valor passou a ser medido em preços. As pessoas ficam ricas ou pelo menos vivem bem falando de coisas que não experimentam, não conhecem. E se um produto fizer mal?

O contato dos influencers com o produto é rápido, só na hora da gravação, na maior parte das vezes. Não têm a menor ideia do que estão dizendo. Criam um mundo falso, de um cotidiano recheado de produtos que não conhecem. As pessoas que os seguem pagam a conta.

Eu não sei dizer. Mas a gente não deveria pensar em cobrar responsabilidade social dos influencers? Tipo: que no mínimo conhecessem o produto que alardeiam? Não digo que se tenha de usar o produto todo dia, mas, antes de falar bem, não teriam de conviver com ele?

São questões novas que estão surgindo com a força do Instagram. Eu me lembro que, no passado, tudo que um jovem ator queria fazer era uma peça de teatro. Muitos não pensam mais nisso. Querem bons posts bem pagos, e com isso viver. São objetivos de vida, não tenho nada a dizer. Mas essa nova publicidade motiva um estilo de vida, de consumo rápido e crenças em testemunhos positivos.

Testemunhos nos quais as pessoas nem sabem do que estão falando.

*** WALCYR CARRASCO

EU ACHO …

AGIR É VITAL

Eventos on-line facilitam a vida. Perde-se o contato presencial, mas ganha-se em tempo. Num mesmo final de tarde, sem levantar do sofá, assisti a uma palestra do biólogo americano Jared Diamond promovida pelo Fronteiras do Pensamento, e em seguida uma live com a gerontologista Candice Pomi, no Instagram da jornalista Patrícia Parenza. Falaram sobre dois assuntos que convergiram: o fim. Jared, sob o aspecto universal; Candice, pessoal.

Candice abordou a troca de papéis (filhos cuidando dos pais idosos) e a importância de nos prepararmos (cedo) para nosso próprio envelhecimento, não com o intuito de viver mais, mas de viver melhor, com autonomia. Nossa população tem hoje mais adultos acima dos 60 anos do que crianças de O a 5. No entanto, a quantidade de pediatra continua bem maior do que a de geriatras. Costumamos deixar para pensar na velhice só quando ela se aproxima, o que é, no mínimo, um desperdício. Entre os 60 e os 100 anos, há oportunidades magnífica de vida, mas antes temos que perder o medo de conversar sobre declínios, adaptações, finitude.

Aos 84 anos, o biólogo Jared Diamond mantém a mente ativa e os olhos no futuro. Ele lembra que doenças emergentes sempre existiram, mas hoje elas circulam a jato pelos cinco continentes, caso da Covid. O único proveito dessa pandemia é reconhecer que, pela primeira vez, o mundo precisa de uma solução global – nenhum país vencerá o vírus sozinho. E temos um desafio ainda maior: nosso senso de coletividade precisa ser direcionado para três dramas planetários que matam mais que a Covid. São eles: as mudança climáticas, o esgotamento dos recursos naturais e a desigualdade social.

A Covid assusta porque mata rapidamente e de forma direta, mas ela não extinguirá o planeta. Já as outras três catástrofes, sim, serão fatais se não houver uma mobilização integrada. Alterações do clima provocam tsunamis, incêndios, estiagem, elevação do níveldo mar e destruição de recifes. A exploração indiscriminada da natureza elimina florestas, acaba com os solos, provoca escassez de energia. E a desigualdade social gera fome, disseminação de doenças, violência. Mas continuamos preocupados apenas com o amanhã imediato, e não com o fim do planeta que se desenha para depois de amanhã.

Tanto no cotidiano privado como no exercício da cidadania, o recado está dado: planeje-se, em vezde entregar-se aos humores do destino. Se parece paranoia, paciência, é uma paranoia útil. Que façamos bom uso do relativo controle que ainda temos sobre o período que iremos viver. Frase de Jared Diamond: ”Negar uma crise é o caminho mais curto para o desastre”. Seja uma crise existencial, política, sanitária, ambiental, não importa: uma vezinformados, é preciso, agora, levantar do sofá.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÂMERA LIGADA, A CULPADA PELO CANSAÇO NAS WEB CHAMADAS

Pesquisa mostra que lidar com a própria imagem em reuniões on-line pode causar pressão excessiva sobre funcionários

Aquele cansaço típico relatado por muitas pessoas após uma reunião virtual, realizada em frente a uma tela de computador ou celular, pode ter um responsável: a webcam aberta. Isso é o que afirma estudo conduzido pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, que analisou o impacto de uma câmera ligada na fadiga dos usuários.

O estudo, publicado no Journal of Applied Psychology, analisou 103 participantes em 1.400 instantes de suas chamadas e concluiu que o ato de deixar o dispositivo ligado pode estar diretamente relacionado com a sensação de cansaço após o encontro virtual. Isso porque as pessoas tendem a se sentir mais pressionadas com a exposição e com a necessidade de parecerem profissionais engajados diante de uma câmera.

“Há muita tensão em relação à autoimagem associada às câmeras. Ter uma formação profissional e parecer pronta, ou manter as crianças fora da sala estão entre algumas das pressões”, explica a professora Allison Gabriel, autora do estudo.

O trabalho também mostrou que, ao contrário do pensamento convencional, pessoas com câmeras ligadas tendem a apresentar menor produtividade nas reuniões do que aqueles que as mantêm desligadas, uma vez que há um cansaço maior para se manter “apresentável” e disponível. Além disso, mulheres e funcionários mais novos seriam mais vulneráveis a essa fadiga, provavelmente devido às pressões adicionais de apresentação pessoal.

“As mulheres muitas vezes sentem uma pressão para serem perfeitas sem esforço ou têm maior probabilidade de interrupções no cuidado dos filhos”, afirma a pesquisadora. “Já os funcionários mais novos imaginam que devem participar mais para mostrar produtividade”.

O esforço para se expor é algo familiar para a publicitária Flávia Moura, que tem trabalhado de forma remota desde abril de 2020 devido ao distanciamento imposto pela Covid-19. Mãe de uma criança de cinco anos, Flávia sente que, além de ter ficado mais “neurótica”- nas palavras dela -por causa da pandemia em si, também se sente mais preocupada com a aparência e menos confiante no próprio trabalho.

A publicitária relata que tem que se desdobrar para comparecer às reuniões on­line da empresa em que trabalha, além de cuidar da filha, da casa e dos gatos de estimação. É comum ter que desligar a câmera quando a filha lhe pede atenção, o que a faz sentir-se culpada.

“É uma culpa que eu sei que é injustificada. Ninguém é obrigado a ficar com a câmera aberta, mas eu costumo deixar por achar que, assim, vão me levar mais a sério como profissional. No fundo, eu sei que é besteira, mas fiquei mais preocupada com essa visão que os outros têm de mim durante a pandemia”, conta Flávia.

A preocupação sentida pela publicitária se tornou mais comum de um ano para cá, quando grande parte das pessoas se viu em uma situação semelhante e com a qual não estava acostumada. O psicólogo e pesquisador na área de prevenção em saúde mental Renato Caminha afirma que essa sensação pode ser explicada no seu campo de trabalho por meio de um fenômeno chamado de “exaustão do eu”.

“Quando a gente tem longos períodos de atenção fixa, direcionada, isso promove um fenômeno chamado de “exaustão do eu”. Fazendo uma analogia, é como se você fosse à academia e desgastasse excessivamente o físico. É o excesso do foco de atenção que justamente pode tornar você mais desatento, disperso”, afirma o psicólogo.

Para recuperar o vigor dos processos cognitivos, as pessoas necessitam de descanso, mas, como aponta o psicólogo, isso muitas vezes não é possível, sobretudo quando já se está no ambiente de repouso, em casa. Esse cansaço pode levar à irritabilidade, menos disponibilidade para o outro e, inclusive, mais déficit de atenção.

A pesquisadora Allison Gabriel, inclusive, recomenda no estudo que as empresas não obriguem o uso da câmera em reuniões. A ideia é não forçar um situação em que o funcionário se sinta pressionado e, posteriormente, prejudicado.

“No final das contas, queremos que os funcionários se sintam autônomos e apoiados no trabalho para estarem em sua melhor forma. Ter autonomia sobre o uso da câmera é mais um passo nessa direção”, defende a psicóloga.

POESIA CANTADA

NADA POR MIM

MARINA LIMA

COMPOSIÇÃO: HERBERT VIANNA / PAULA TOLLER

Você me tem fácil demais
Mas não parece capaz
De cuidar do que possui
Você sorriu e me propôs
Que eu te deixasse em paz
Me disse vá e eu não fui

Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu

Você me diz o que fazer
Mas não procura entender
Que eu faço só prá agradar (Te agradar)

Me diz até o que vestir
Por onde andar, por onde ir
E não me pede prá voltar

Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu

OUTROS OLHARES

REVOLUÇÃO VIRTUAL

Facebook propõe novo modelo de interação em que as pessoas e os acontecimentos reais são projetados no mundo online em três dimensões

Se há vinte anos alguém dissesse que as pessoas não iriam mais para os seus escritórios, mas que trabalhariam de casa através de videoconferências, ninguém acreditaria como algo provável ou até mesmo prático. Hoje isso já está superado e a previsão é que viveremos plenamente em ambientes virtuais em 3D, na forma de avatares, cumprindo todo tipo de função profissional e reproduzindo nossa própria vida na rede com personagens animados. O Facebook, empresa comandada por Mark Zuckerberg, está encabeçando essa revolução para estabelecer a nova realidade tridimensional. A empresa lançou novos óculos “VR” (virtual reality) e ditou que o futuro será a imersão no online. Você deixará de ter uma foto de perfil e terá seu corpo inteiro transportado para um lugar cibernético chamado “metaverso”. “Faremos com que as pessoas que nos veem como uma empresa de mídia social nos vejam como uma empresa metaversa”, disse Zuckerberg.

Se a palavra parece saída da ficção científica é porque isso é verdade: o termo “metaverso” surgiu pela primeira vez no livro “Snow Crash”, escrito por Neal Stephenson, em 1992. O enredo trazia dois entregadores de pizza que mergulham no espaço virtual para fugir de uma vida disfuncional. Hoje se fala simplesmente numa combinação da vida comum das pessoas com recursos de realidade aumentada, como uma espécie de projeção de si mesmo na rede. “As pessoas conversam em telas onde só o rosto é visto”, explica o cofundador da empresa de realidade virtual VR Monkey, Pedro Kayatt. “Mas uma reunião de trabalho onde é possível ver o gestual dos envolvidos, será muito mais produtiva”. Ele diz que os ganhos na educação serão relevantes, já que os estudantes poderiam interagir como em um videogame com colegas e professores. Apesar da ideia não ser nova, só agora a humanidade ­— e os desenvolvedores — conseguiram reunir tecnologia avançada e internet de boa qualidade para fazer com que um mundo paralelo seja possível. Jogos como “Second Life”, que surgiu em 2003, eram pesados e com gráficos ruins. Por lá se criava uma segunda vida e se estabeleciam relações sociais virtuais. A ideia agora é usar essas ferramentas em nosso cotidiano e permitir que o metaverso seja acessado por todos.

Se os óculos de realidade virtual ainda causam estranheza, atualmente os modelos são modernos, leves e acompanhados por dois controles. O futuro, é ainda mais promissor. A Apple deve lançar seus dispositivos de realidade aumentada em breve e o design deve ser cada vez mais funcional e prático. O metaverso é centrado em uma economia em pleno funcionamento: ou seja, você poderá entrar em lojas, ocupar diversos “espaços” com facilidade e ainda manter os avatares e mercadorias que compra. Os videogames ensaiam esse universo, mas ainda em uma tela. Jogos como Roblox, Fortnite e Animal Crossing — criam comunidades, colocam roupas de grife para serem compradas e usadas pelos avatares e até levam a shows de artistas reais, recriados conforme o gráfico dos jogos. Entretenimento, mercado de trabalho e viagens são apenas o começo. Essa fronteira tecnológica pode tomar proporções grandiosas — imagine um mundo sem limitação de tamanho e criatividade no qual você poderá percorrer normalmente. A possibilidade de mercado — de geração de riqueza, principalmente para as empresas — será imensa.
Mark Zuckerberg quer as pessoas literalmente dentro do Facebook — e com isso dividir seus gestos, sotaques, maneiras de se vestir com a empresa. Um passo além da concessão de privacidade. Se atualmente a rede social já sabe muito sobre você, passará a saber ainda mais. Quem irá controlar o metaverso? O que sua existência faria ao nosso senso comum de realidade? A humanidade ainda está abraçando a versão bidimensional das plataformas sociais e disputar a versão 3D pode ser exponencialmente mais difícil. “Estamos mediando as nossas vidas e nossa comunicação através de pequenos retângulos brilhantes. Acho que não é realmente como as pessoas são feitas para interagir”, disse Zuckerberg em entrevista à imprensa americana. Com o aquecimento global e futuras pandemias, viver sem tecnologia será impossível — mas será que estamos indo na direção correta?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE SETEMBRO

CUIDADO COM SUAS MOTIVAÇÕES

O que começa o pleito parece justo, até que vem o outro e o examina (Provérbios 18.17).

As coisas não são o que aparentam ser; elas são o que são em sua essência. Não somos o que somos no palco, mas o que somos na intimidade. Muitas vezes as pessoas não admiram quem somos, mas quem aparentamos ser. Não gostam de nós, mas da máscara que usamos. Respeitam não nosso caráter, mas nosso desempenho. Amam nossas palavras, mas não nossos sentimentos. Salomão está dizendo aqui que as pessoas podem julgar-nos justos quando iniciamos um pleito. Nossas palavras são eloquentes, nossa defesa é irretocável, nossos direitos são soberanos. Porém, quando alguém se aproxima, levanta a ponta do véu e revela o que escondemos sob as camadas de nossas motivações mais secretas, descobre que há um descompasso entre nosso pleito e nossos interesses pessoais. Há um abismo entre o que falamos e o que somos. Há um hiato entre o que professamos e o que praticamos. Há inconsistência em nossas palavras e deformação em nosso caráter. Uma cunha separa nossas intenções mais secretas do nosso pleito. Não basta parecer justo em público; é preciso ser justo em secreto. Não basta parecer justo no tribunal dos homens; é preciso ser justo no tribunal de Deus. Não basta parecer justo aos olhos dos homens; é preciso ser justo aos olhos de Deus.