OUTROS OLHARES

VOLTA DE MODAS DOS ANOS 2000 ESTIMULA DEBATE SOBRE MAGREZA EXTREMA

Especialistas dizem que o reaparecimento das peças pode ser um problema devido ao aumento dos transtornos alimentares

Vestir a calça saint tropez que deixa o umbigo de fora tem tirado o sono das adolescentes cada vez mais cedo. O retorno da cintura baixa e das microssaias dos anos 2000, assim como a tendência de extrema magreza entre as famosas, tem preocupado médicos e ativistas. A estudante Sabrina Menezes Santos, 15, comprou um modelo da calça, mas ainda não teve coragem de usar e até entrou na academia para melhorar o que viu no espelho.

“Não uso nada de cintura baixa, não consegui. Acho que o corpo não está bom, e que as pessoas vão ficar olhando e julgar. Não fiquei confortável”, conta. A adolescente tem IMC (índice de massa corporal) considerado saudável, mas diz que ser magra é assunto recorrente nas conversas com amigas e primas e que muitas delas também não gostam do próprio corpo.

A influenciadora Clara Cocozza, 17, viralizou quando fez um vídeo de humor com críticas que recebia sobre o próprio peso. “As pessoas sempre me criticaram por ser gorda e levei para redes sociais. Recebi muitos comentários de apoio e, naquela época, não era muito feliz comigo”, afirma.

Ela então começou a seguir influenciadoras do body positive, um movimento focado na aceitação de todos os corpos como são, e a se olhar com mais frequência no espelho. “Decidi me amar e deu certo. Menina gorda pode usar o que quiser, qualquer pessoa pode, é o padrão que nos impede de usar”, afirma Cocozza, que adora uma calça de cintura baixa e já fez três vídeos sobre este tipo de peça. A volta dos modelos dos anos 2000, somada à tendência de extrema magreza entre as celebridades aparece em um momento de alta dos transtornos alimentares. Estudos mostraram pioras nos sintomas de pacientes com distúrbios após a pandemia, e ambulatórios brasileiros observam aumento no número de atendimentos.

No interior e na capital de São Paulo, dois dos mais importantes centros de atendimento tiveram alta na procura por tratamentos de jovens. No Grata (Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares), a idade média dos atendidos era entre 15 e 18 anos, mas agora há pacientes de 10 a 13 anos. O grupo multidisciplinar é vinculado ao ambulatório de nutrologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP (Universidade de São Paulo).

“Tem chegado mais casos e chamam a atenção por serem pessoas cada vez mais jovens, principalmente com anorexia nervosa, que é uma subnutrição grave e tem risco de morte”, afirma a médica Vivian Marques Miguel Suen, 57, professora de nutrologia e coordenadora do Grata. A fila de espera do ambulatório dobrou no último ano, saltando de 15 para 30. O grupo atende cerca de 15 pacientes por vez, apenas casos diagnosticados e mais extremos. O tratamento, quando bem-sucedido e sem abandono, leva em média de 3 a 5 anos.

O Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP da capital está com três turmas lotadas e teve um aumento na procura por tratamento para crianças.

A unidade tem hoje 2.116 questionários preenchidos no site aguardando avaliação médica para confirmação de transtorno alimentar.

Para Fábio Tapia Salzano, 53, médico psiquiatra e vice- coordenador do Ambulim, é preciso conscientizar mídias, agências de modelos e influenciadores. “São excessos na busca de uma magreza que na verdade é desnutrição”, diz. Suen afirma que os transtornos alimentares são multifatoriais e crônicos, mas geralmente começam depois de um episódio de bullying na escola ou de ver o padrão de beleza magro nas redes sociais. “Quando chega ao diagnóstico de anorexia e bulimia, o tratamento é muito difícil, um único profissional não trata sozinho. Muitas vezes é preciso tratar a família, não só o paciente”, explicou Suen. A terapia, nesses casos, envolve psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional, nutricionista e nutrólogo.

As redes sociais podem indicar o início do problema, uma vez que jovens com distúrbios alimentares trocam informações sobre como perder peso vomitando ou tomando remédios, e como evitar questionamentos dos pais online. “Comida tem muito a ver com afeto. Se no dia a dia o filho passa a pular alimentação, come em quantidade menor e tem muitas idas ao banheiro após as refeições, esses podem ser os primeiro sinais e é importante entrar com ajuda terapêutica”, afirma Patrícia Capuani, terapeuta familiar e diretora do socioemocional do Colégio Novo em Ribeirão Preto.

A modelo e ativista Lettícia Muniz, 32, foi adolescente nos anos 2000 e chegou a desenvolver bulimia para ficar magra e ter uma carreira na TV. “Não existia ninguém falando sobre corpo. Se ligasse qualquer canal, todo mundo era magra, todas as revistas mostravam para gente que só aquilo era o certo”, conta. Aos 28 anos, já no Instagram, Muniz viu uma mulher acima do peso que achou linda – a modelo norte-americana plus size Ashley Graham. “Essa mulher postou uma foto simplesmente existindo e sendo feliz e me libertou de uma prisão de 18 anos. Minha mente explodiu e vi que não precisava mais lutar contra quem eu era.”

Para a ativista, que lançou uma coleção para pessoas grandes em parceria com a marca Vista Magalu, permitir que mulheres de variadas formas corporais acessem diversos tipos de roupa faz toda a diferença. “A moda é feita por pessoas magras e para pessoas magras. A mulher está ali naquele caminho de se amar, se aceitar e vem esse movimento que diz: “não é para você’”, aponta Muniz.

GESTÃO E CARREIRA

RECRUTAMENTO DE EXECUTIVOS BATE RECORDE

Número de admissões cresceu 62% no primeiro semestre, indica pesquisa, com retorno do trabalho presencial e troca de profissionais que haviam sido contratados na pandemia

O mercado de recrutamento de altos executivos encerrou o primeiro semestre em ebulição e com as consultorias especializadas em garimpar esses profissionais atingindo volume recorde de trabalho. É que a dança de cadeiras nos postos mais elevados das corporações se intensificou com o arrefecimento da pandemia e a volta das atividades presenciais.

A maior parte do aumento das movimentações no alto escalão se deve a trocas nos quadros adiadas pela covid-19 e a projetos interrompidos e, agora, retomados. Mas uma parcela do aumento das contratações ocorre também por causa do fim da “lua de mel” entre empresas e executivos – no caso daqueles que trocaram de emprego no auge da pandemia e, sem conhecer as equipes, não conseguiram liderá-las remotamente.

Pesquisa da consultoria americana Signium, especializada na contratação de alto escalão (o chamado C-Level, no jargão do mercado), mostrou crescimento de 62% no número de admissões no primeiro semestre ante o mesmo período de 2021. As contratações foram feitas por multinacionais e grandes empresas nacionais.

Do total de admissões, 80% foram motivadas por substituições e, destas, 32% dizem respeito a movimentações de profissionais que tinham mudado de emprego na pandemia e não deram certo. “É um número considerável”, diz Eduardo Drummond, sócio da Signium.

Ele ressalta que, para esses cargos, o principal requisito é a capacidade de influenciar e gerenciar pessoas. E, se o executivo não consegue fazer isso a distância, é difícil mantê-lo na empresa.

“Alguns executivos mudaram na pandemia e perceberam que o novo emprego não era o que esperavam. Agora, estão fazendo um novo movimento”, diz Tiago Salomão, sócio sênior da Korn Ferry, outra importante consultoria.

FUSÕES

Além da retomada de projetos – o principal fator –, Salomão diz que as fusões entre empresas têm levado a mudanças na governança e exigido novas contratações.

Entre fevereiro e abril, por exemplo, a Korn Ferry teve crescimento de 22% na receita global com serviços de recrutamento de executivos, presidentes e membros de conselhos ante os mesmos meses de 2021. “Foi o melhor trimestre da história globalmente, regionalmente e localmente.”

Também a Page Executive, especializada em alto escalão, ampliou em 135% a receita no País no primeiro semestre em relação a igual período de 2021. “Parece um número absurdo, mas é histórico, é real”, diz Paulo Dias, sócio da Page. Os cargos mais demandados foram diretor financeiro, presidente, diretor comercial, diretor de negócios, diretor de operações e conselheiros.

EU ACHO …

O NOVO RISCO DE RIR

Tudo foi transformado de forma radical. Em poucos anos, nossas referências sofreram metamorfose profunda. É natural que o humor acompanhasse o ritmo. Não rimos mais das mesmas coisas.

A minha infância transcorreu no interior da classe média gaúcha. As piadas na escola eram, quase sempre, preconceituosas. Achávamos natural rir do que percebíamos diferente. Nem posso dizer que éramos politicamente incorretos, pois, na verdade, nem sabíamos que poderia existir uma correção. Repetíamos o mundo ao nosso redor. Meu pai era um zeloso católico e muito sensível às necessidades das pessoas. Não obstante, quando dizia piadas, dr. Renato era o modelo daquilo que, hoje, seria a base para um cancelamento total. Talvez sofresse processo em 2022. O que houve?

Eu sou a geração de borda. Vivi um mundo e vi o nascimento de outro. Cresci com piadas incorretas e humor que não poupava a diferença e, atualmente, respiro o ar do novo mundo. Claro: dei “foras” em função da minha adaptação. Funciona como a mudança de nomenclatura de estudos: você disse “Primário” por tanto tempo que a “primeira etapa do Ensino Fundamental” fica estranha. A metáfora tem limites: não há ofensa se eu trocar Ensino Médio por Segundo Grau.

Novos tempos implicam desafios para um humor. Imagine uma piada que não inclua portugueses, loiras, negros, indígenas, gays ou judeus. Suponha um humor que não ofenda. Conseguiu? Muito difícil, querida leitora e estimado leitor.

É importante lembrar que as vítimas de piadas sexistas, racistas ou homofóbicas dificilmente lamentam a transformação da nossa sensibilidade. Propagandas “vintage” são assustadoras no preconceito. Há uma imagem das gravatas Van Heusen em que um homem está na cama, e uma mulher ajoelhada lhe traz o café da manhã. A chamada insiste: ele deve mostrar a ela que este é um mundo dos homens. Há material publicitário de automóveis falando do preço baixo dos consertos de lataria porque, afinal, mulheres também dirigem. É um show de horrores que hoje causaria filas de protestos nas concessionárias. Um dia, no entanto, já ajudou a vender.

Reforço o desafio. Encontre (e treine) piadas não ofensivas. O esforço ajudará na sociabilidade; tende a diminuir problemas. Se precisar rir de alguém, ironize a si.

Moacyr Scliar, por exemplo, era brilhante em buscar o melhor do humor judaico. Se o custo de causar graça passageira for arrasar com a autoestima de alguém de um grupo, a decisão racional você sabe qual é. O palhaço deveria causar graça em toda a plateia, não apenas no público branco, hétero e masculino. É uma escolha errada de mercado fazer rir meia dúzia e ofender quase todos. Tenha esperança na graça coletiva.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

PORQUE É IMPORTANTE CONTROLAR A QUANTIDADE DE SAL NAS REFEIÇÕES

Brasileiro ultrapassa muito a quantidade de sódio indicada pela OMS; tirar o saleiro da mesa é o primeiro passo para mudar hábitos

Mineral essencial para o funcionamento do corpo, o sódio contribui para o equilíbrio dos líquidos no nosso organismo, com participação em centenas de funções fisiológicas, como musculares e neurais – e só é possível obtê-lo por fontes externas, ou seja, pela alimentação, principalmente pelo sal de cozinha (cloreto de sódio). Mas, quando consumido em excesso, prejudica a saúde, muitas vezes de forma sorrateira, levando a problemas que podem culminar em enfarte ou acidente vascular cerebral (AVC).

“Estima-se que mais de 46 mil mortes ao ano por doenças cardiovasculares poderiam ser prevenidas ou adiadas caso a ingestão média de sal dos brasileiros fosse reduzida a 5 gramas por dia em adultos de mais de 30 anos”, diz a cardiologista Salete Nacif, do HCor, hospital referência em cardiologia, em São Paulo (SP). O brasileiro, de forma geral, extrapola esse limite: consome 9,3 gramas por dia, quase o dobro recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, realizada pelo Ministério da Saúde.

O levantamento indicou consumo elevado em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, embora o excesso seja maior em homens e mais jovens. Esse comportamento alimentar é um fator importante para a alta prevalência de hipertensão (pressão alta), doença crônica que atinge cerca de 30% dos brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Um estudo publicado este mês no European Heart Journal revelou que aqueles que sempre adicionam sal às refeições correm um risco 2.8% maior de morte prematura do que aqueles que raramente o fazem.

Pelo bem de sua saúde, o engenheiro Guilherme Rabello, de 53 anos, deixou de lado o biscoito, o fast-food e a feijoada, para encher o prato de legumes – com pouco sal -escolhidos no bufê do restaurante na hora do almoço. Resolveu mudar após uma arritmia cardíaca nas férias de 2018. Ele estava a bordo de um navio, no Caribe, e precisou desembarcar em uma ilha para receber atendimento médico, por estar com 180 batimentos por minuto.

“Meu coração quase saiu pela boca”, conta. Os exames não indicaram nenhuma doença, mas a cardiologista recomendou mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos frequentes e alimentação com pouco sódio. “Sou cuidadoso, pois tenho histórico de pressão alta na família e quero reduzir o meu risco de ter problemas de saúde”, diz ele, que nunca mais apresentou arritmia.

Quando consumimos muito sódio, o corpo trabalha para retirar o excesso do corpo e buscar o seu equilíbrio de líquidos corporais. “Se uma pessoa come muito churrasco, sente sede, bebe mais líquido e elimina o excesso de sódio ao urinar mais. Mas, a longo prazo, isso pode sobrecarregar os rins e o coração. Uma pessoa que consome muito sal pode ficar com pressão alta, que lesa os rins, em um círculo vicioso”, explica o nefrologista Osvaldo Merege Vieira Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

As principais fontes de sódio na dieta do brasileiro são o sal adicionado diretamente nos pratos e os temperos à base de sal usados para preparar os alimentos (74,4%) e o consumo de alimentos processados e ultraprocessados (20%), segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), realizada pelo IBGE. Por isso, a primeira recomendação é tirar o saleiro da mesa de jantar.

“A tendência das pessoas é pôr mais sal se ele estiver ao alcance”, alerta a nutricionista Cintia Pereira da Silva, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP.

DE OLHO NO RÓTULO

Não basta controlar a adição de sal no preparo dos alimentos, mas também restringir o consumo de alimentos processados e ultraprocessados, que recebem na indústria aditivos (como sódio) para serem conservados por mais tempo ou para ficarem mais agradáveis ao paladar. “É preciso educar o olhar na hora de escolher um produto no supermercado e fazer boas escolhas”.

Em outubro, entram em vigor novas regras de rotulagem nutricional de alimentos. Uma das mudanças é a inclusão do selo frontal que indica alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado ou sódio. No caso dos alimentos sólidos ou semissólidos, o selo será acrescentado quando uma porção de 100 gramas tiver mais de 600 gramas de sódio. Nos líquidos, a sinalização será obrigatória quando houver mais de 300 gramas de sódio em 100 mililitros do alimento.

“O consumidor está mudando de comportamento e quer entender o que consome”, diz Cintia. Ela estudou a rotulagem nutricional adotada no Chile, que desde 2016 alerta para o excesso de sódio, açúcar e gordura nos produtos alimentícios.

Ela acha que o selo frontal será importante para que as pessoas descubram que alguns produtos alimentícios não são saudáveis como parecem. Mas alerta que não basca evitar os alimentos sinalizados. “Não quer dizer que o alimento que não tem o selo está isento de sódio e pode ser consumido à vontade. Essa visão binária é um risco.”

Embora sejam práticos, alimentos enlatados, embutidos e refeições prontas industrializadas devem ser consumidos com parcimónia, reforça a nutricionista Fernanda Sardella. “Nossa alimentação deve se basear em frutas, legumes e verduras”, orienta. E recomenda caprichar no uso de temperos naturais na hora de cozinhar como forma de reduzir o consumo de sal sem perder o sabor. “Quando adotamos alho, cebola, gengibre, alecrim e outros temperos, sejam eles frescos ou desidratados, reduzimos a quantidade de sal e garantimos o sabor.”

A cozinheira Betricia Daniela Barg, de 46 anos, proprietária da Cuca Fresca Gastronomia, garante que passa longe do tempero artificial. “Um alimento industrializado contém muitos conservantes, aditivos químicos e o sódio é um inimigo da saúde. Não dá para comparar uma lasanha industrializada

com uma feita em casa. “Ela mesma foge dos produtos alimentícios processados e vê a diferença na saúde. “Quando me alimento com ingredientes frescos, meu organismo responde bem. Percebo melhora em tudo, do humor ao intestino.”

MODERE O CONSUMO

HÁBITOS

Tente educar o seu paladar e diminuir, aos poucos, a adição de sal nas refeições. Tire o saleiro da mesa, para dificultar o ato de salgar (muitas vezes automaticamente) a refeição.

CARDÁPIO

Evite o consumo de alimentos ultraprocessados. Refeições industrializadas prontas, embutidos (presunto, mortadela, salame, etc.), enlatados, bolachas doces e salgadas, molhos prontos (maionese, mostarda, ketchup, shoyu), salgadinhos, macarrão instantâneo costumam ter muito sódio.

RÓTULOS

A nova rotulagem, a partir de outubro, vai indicar os alimentos com alto teor de sódio, que devem ser evitados, mas isso não quer dizer que os alimentos que não têm podem ser consumidos à vontade. Portanto, é importante procurar no rótulo a quantidade de sódio presente no produto alimentício para ter uma ideia da quantidade ingerida.

PREPARO

Cozinhar sem sal e salgar na hora de servir pode ser uma boa estratégia, pois o alimento absorve menos sal. Abuse dos temperos naturais para dar sabor aos pratos, em vez de exagerar no sal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS SOLITÁRIOS

Em meio a epidemia de solidão, homens de meia-idade sofrem mais

O jornalista americano Billy Baker havia acabado de fazer 40 anos, era casado e tinha dois filhos pequenos quando seu editor disse que tinha uma pauta “perfeita para ele”: uma reportagem sobre o fato de homens de meia-idade não terem amigos. Foi um choque. Billy sempre se considerou um cara extrovertido, com vários amigos, uma vida bacana. Não se sentia um solitário. Mas descobriu que sim, ele era.

“Eu nunca me senti sozinho. Eu tinha amigos, mas não tinha tempo para eles. Sentia que algo faltava na minha vida, mas não sabia o que era. Não pensava “poxa, preciso de tempo com meus amigos”, era algo que eu deixava para depois que as coisas importantes fossem resolvidas, como trabalho, família, atividade física… Mas isso nunca é resolvido. E só então entendi que amizade é também uma coisa importante”, afirma.

Billy escreveu a reportagem “Precisamos nos ver mais”, que acabou fazendo tanto sucesso que gerou um livro, publicado no Brasil pela editora Sextante. O motivo por trás de tantas pessoas se identificarem com o jornalista é simples: o mundo vive uma epidemia de solidão.

Uma pesquisa de 2019 apontou que 61% dos americanos são comprovadamente solitários, porcentagem que havia crescido sete pontos de um ano para outro —antes dos impactos da pandemia. Outro grande estudo, conduzido pela AARP (uma ONG focada em pessoas com mais de 50 anos), mostrou que mais de 42 milhões de americanos acima dos 45 anos sofrem de “solidão crônica”. E isso não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos.

Mas se Billy e tantos outros solitários não têm consciência disso, qual o problema? A questão é que, mesmo quando não sabemos que estamos sós, nosso corpo sabe. Pesquisa da Universidade Brigham Young, que usou dados de 3,5 milhões de pessoas coletados ao longo de 35 anos, descobriu que indivíduos solitários têm um aumento de 32% no risco de morte prematura.

Pesquisadores vinculados à Associação Americana do Coração constataram que o isolamento social e a solidão elevam o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em até 30%. Isso sem falar em todas as perdas cognitivas e de saúde mental daqueles que não podem contar com outras pessoas.

MASCULINIDADES

Em suas pesquisas para o livro, o jornalista descobriu que o gênero faz diferença.

“Eu sou um cara e nunca admitimos quando estamos vulneráveis e as coisas não vão bem. Eu não teria admitido se não fosse meu editor. As mulheres são mais bem equipadas como animais sociais, têm compaixão natural, e quando o estresse acontece os mesmos químicos que levam um homem à resposta de luta ou fuga levam as mulheres a procurar outras pessoas, formar uma rede. Homens falam ombro a ombro e mulheres falam olho no olho. Mas há erros culturais também”, afirma. Para o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, que coordena um grupo terapêutico de homens, o problema maior está, justamente, nesses erros culturais.

“A sensação de conexão com o outro acontece quando o encontro não passa só pelo relato racional, pela troca de dados, as conquistas, os números, os projetos. Para que uma pessoa possa se sentir acompanhada, ela precisa se sentir vista e, para isso, precisa falar de si. É muito comum que os homens tenham poucas relações efetivas em que há, realmente, esse nível de entrega e intimidade. Essa conexão com o outro, em geral, os homens têm pouco”, avalia Amaral.

Isso não vale para todos os homens, segundo o psicólogo. É uma questão muito mais presente nos héteros, que às vezes só se abrem mesmo com a mulher:

“Para o homem gay, essa dinâmica é diferente, porque a entrega da intimidade tem a ver com nosso lado mais feminino. O que barra isso no homem heteronormativo é que ele não pode mostrar o que não servir como vantagem competitiva. Ele só mostra o que o coloca no pódio da sociedade. Essa intimidade, que constrói o contrário da solidão, só se desenvolve numa perspectiva mais colaborativa da vida. É o oposto da competição: não preciso fazer tudo sozinho, posso ajudar e ser ajudado, posso falhar e reconhecer o direito do outro de ter falhas”, analisa o psicólogo.

O impacto dessa forma de relacionamento preocupa Amaral. De acordo com ele, essa armadura impede que os homens se conectem com suas dores e desenvolvam questões de saúde física que, no fundo, têm “gênese emocional”.

RECRIANDO LAÇOS

Billy Baker empreende, então, uma jornada em busca da amizade. Vive um fracasso total quando tenta retomar relações do ensino médio. Atravessa o Atlântico para tentar se reconectar com o melhor amigo que, surpresa, já nem morava mais nos Estados Unidos e ele não sabia. Mas, sobretudo, aprende a fazer novas conexões.

“O primeiro passo foi reconhecer que precisava melhorar nesse aspecto. A cura da solidão é a amizade. E para isso é preciso experimentar estratégias. Eu tentei coisas que deram errado, como reunir a turma da escola. O passado é legal de visitar, mas você não vive nele. É preciso fazer amigos na comunidade em que está agora. Outra coisa é se colocar numa posição mais vulnerável, como fazemos numa relação amorosa”, conta ele.

O jornalista considera que o caminho mais fácil é integrar ou criar uma tribo, que tenha algo em comum, como, digamos, boliche. As pessoas se encontram semanalmente, têm aquele gosto em comum, vão criando conexões até surgir uma amizade. Ele também aconselha que se olhe para o colega de trabalho, que está cotidianamente ao seu lado e pode se tornar um bom amigo. Outra estratégia do jornalista foi segmentar relações que, para ele, foram: a turma da academia, o grupo do pôquer nas noites de quarta, o amigo de surfe, outro de corrida e outro com quem faz um podcast.

Talvez uma das dicas mais importantes dele seja abandonar a passividade: é preciso propor, receber não, propor de novo e ser específico: trocar o “precisamos nos ver mais” por “vamos almoçar no sábado?”. Uma hora acontece.

“Se você botar um pouquinho de esforço nas amizades, vai ter um retorno enorme. Não é como comer vegetais ou treinar por horas. É o caminho mais fácil para ter saúde. As pessoas sociáveis são mais felizes e saudáveis”, conclui.

OUTROS OLHARES

COMO PREVENIR E SE LIVRAR DE INSETOS NA SUA COZINHA

Encontrá-los na despensa ou armário é angustiante, mas especialista dá dicas para eliminá-los e evitar que apareçam de novo

O mundo é dos insetos, a gente só vive nele. “Eu sei que as pessoas se assustam quando os veem”, diz Zachary DeVries, professor-assistente do Departamento de Entomologia da Universidade de Kentucky. “Mas a verdade é que construímos nossas casas bem no meio de onde vivem esses insetos.”

Talvez não haja lugar mais angustiante de encontrar insetos do que na sua despensa ou seu armário. Se isso acontecer, não entre em pânico. Siga essas dicas para se livrar deles e evitar que apareçam de novo.

COMO ELES CHEGAM LÁ?

Embora seja possível que pragas como traças e besouros já estejam nos itens que trazemos do supermercado para casa, DeVries afirma que a maioria aparece depois que a comida entra nos nossos armários. Os insetos que são atraídos pela sua comida podem estar lá dentro ou podem entrar por portas abertas, fendas ou rasgos de telas de janelas.

Embalagens parcialmente abertas, como sacos de farinha ou de biscoitos, são convites aos insetos, assim como caixas de papelão finas com vãos estreitos, como caixas de massas ou bolachas. Qualquer coisa que derrame ou vaze – mel e açúcar, por exemplo – também pode atraí-los.

O QUE ELES COMEM?

Algumas pragas conseguem penetrar no revestimento das sementes das plantas, razão pela qual os grãos integrais são particularmente atraentes para certas espécies, explica DeVries. Outros precisam que o grão esteja aberto, como em muitas farinhas refinadas, massas, biscoitos, cereais, bolachas, etc. Alimentos para cães e gatos e sementes de pássaros também são locais comuns de infestação.

“Dentro das casas, as formigas domésticas se alimentam de açúcar, xarope, mel, suco de frutas, gorduras e carne”, lembra a Divisão de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade da Califórnia.

COMO VOCÊ PODE SE LIVRAR DESSES INSETOS?

Normalmente, quando você encontra traças ou besouros na despensa, o que você vê são os insetos adultos, ressalta DeVries. Quando há muitos deles, 10 ou 20, você provavelmente tem uma infestação.

Assim como eliminar o local de reprodução das moscas da fruta é a única maneira segura de eliminar essas pragas comuns, livrar-se da fonte é a chave para dizer adeus às traças e aos besouros. Separe sistematicamente todos os alimentos de sua despensa e abra os pacotes. Peneire grãos ou farinhas para detectar intrusos. Qualquer coisa que pareça estar fortemente infestada deve ser jogada fora. Muitas vezes, o dano é limitado a um ou dois itens, de acordo com DeVries.

Se quiser tentar resgatar itens – ou garantir que o que parece estar livre de pragas esteja limpo de fato –, você pode resfriá-los a 27 graus ou, idealmente, ainda mais frio, por três a sete dias; quanto mais tempo, melhor, informa a extensão de Illinois da Universidade de Illinois-Champaign. Ou você pode aquecer a comida a 140 graus em forno por uma hora, mas lembre-se de que a maioria dos fornos domésticos não consegue manter uma temperatura assim tão baixa.

Muito do mesmo conselho se aplica às formigas. Depois de encontrar o que está atraindo as formigas, ensina a Divisão de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade da Califórnia, remova-o. Aspire as trilhas das formigas e limpe com água morna e sabão. Isso elimina os feromônios que os insetos seguem para voltar à fonte de alimento, esclarece DeVries.

Em seguida, tente encontrar e selar os pontos por onde elas estão entrando. Se persistirem, você pode usar isca para formigas em diversas for- mas, como gel, mas tente guardá-la para infestações graves. Se puder, use iscas do lado de fora, perto dos pontos de entrada, para não atrair inadvertidamente mais formigas para dentro.

O QUE VOCÊ NÃO PRECISA USAR?

Inseticidas, avisa DeVries. Inseticidas, especialmente em spray, perto de alimentos e superfícies de preparação de alimentos, representam um perigo maior para você do que as pragas da despensa – que são um incômodo, mas não um problema de saúde. Para as traças e os besouros que você encontrar, use um mata-moscas ou aspirador para eliminá-los ou expulsá-los porta afora.

COMO VOCÊ PODE PREVENIR QUE ELES APAREÇAM?

DeVries sugere uma abordagem de três frentes para a prevenção: rotatividade de alimentos, impedir a entrada de intrusos e recipientes rígidos. Primeiramente, use a comida de sua despensa em tempo hábil. Traças e besouros demoram um pouco para se instalar, então, se você estiver usando suas farinhas, massas e lanches ao longo de algumas semanas ou até meses, provavelmente vai ficar tudo bem. São os itens antigos, enfiados lá atrás da prateleira, intocados por muito tempo, que são particularmente problemáticos.

Separe periodicamente o que você tem para ver o que precisa ser usado ou jogado fora (ou compostado). Evite deixar abertas portas ou janelas sem telas. Remende telas rasgadas e sele frestas em torno de rodapés, portas e janelas.

Manter sua comida em recipientes herméticos é um passo “muito simples, muito fácil” que você pode tomar, alerta DeVries. Isso desencoraja as pragas, é claro, com o benefício colateral de manter sua comida fresca por mais tempo. Com recipientes ou não, se você notar que algo derramou, limpe imediatamente.

GESTÃO E CARREIRA

BUSCA POR RESULTADOS E DIFICULDADE DE ADAPTAÇÃO PUXAM TROCAS NAS EMPRESAS

Consultores dizem ainda que pandemia acelerou entre executivos o desejo de ter ‘identidade cultural’ com empresa

Mais da metade (60%) das trocas de executivos em postos de alto escalão registradas no primeiro semestre deste ano – independentemente dos motivos da mudança – ocorreu por iniciativa das empresas, que viram os resultados não serem atingidos, aponta pesquisa da consultoria americana Signium, especializada no recrutamento desses profissionais.

Do lado dos executivos, entre os principais motivos para querer trocar de emprego, apareceu a dificuldade de adaptação cultural, potencializada pelo fato de as equipes estarem trabalhando remotamente durante a pandemia, aponta Eduardo Drummond, sócio da consultoria.

Outra razão foi a divergência no modelo de trabalho desejado pelo executivo (presencial ou remoto) e o oferecido pela empresa, além da intenção do profissional de buscar companhias que tenham, cada vez mais, valores que ele considere alinhados com seus propósitos de vida – outra tendência que foi acentuada pela pandemia.

Essas razões foram comprovadas em recente levantamento feito pela consultoria com executivos contratados. A enquete mostrou que 43% deles indicaram a dificuldade de adaptação com a cultura da empresa como o motivo da mudança, seguido pelo modelo de trabalho híbrido ou home office (26%), escopo de trabalho (17%) e a remuneração (13%).

“As pessoas não estão saindo de uma empresa para ir para outra por causa de salário”, diz Drummond. O momento de parada forçada provocada pela pandemia fez com que as lideranças começassem a refletir sobre a identidade cultural com a empresa na qual trabalham e se os propósitos são coincidentes, se têm a mesma “pegada”, diz o consultor.

PROPÓSITO

Esse foi o caso de Eduardo Roveri, de 40 anos, formado em administração de empresas, com MBA em gestão de pessoas pela FGV, e que há 20 anos atua em altas posições na área de recursos humanos em grandes companhias.

Depois de 15 anos na área de bebidas, em 2019 ele foi trabalhar numa multinacional americana de empilhadeiras. Por lá, ficou até junho deste ano, quando voltou às origens. Roveri diz que estava feliz na empresa anterior, mas foi atraído para a nova pelo propósito. “Eu me conectei com a proposta da empresa.”

A multinacional europeia está há dez anos no Brasil e agora planeja uma fábrica no País. Será a primeira unidade de produção fora da Europa, e Roveri diz que o propósito da companhia é ser a marca mais amada, não a mais vendida. “Isso me chamou atenção e fez eu querer fazer parte dessa história.” O executivo conta que foi abordado por um headhunter e que aceitou passar por várias etapas de seleção antes mesmo de receber a proposta salarial, um pouco maior do que ele ganhava na antiga empresa. No entanto, essa informação só foi de seu conhecimento no estágio final das negociações. “O que pesou mais foi o propósito de construir uma marca que preza pela qualidade, com uma fábrica que usa muita tecnologia e voltada para a sustentabilidade.”

Há dois meses, o executivo está à frente desse novo desafio de construir do zero a área de recursos humanos da multinacional no Brasil. Ele é o número um da área no País e se reporta ao presidente da empresa no Brasil e na Europa. Roveri é um exemplo das mudanças de comportamento dos profissionais de alto escalão que ocorreram na pandemia. “A pandemia fez a gente refletir mais sobre nós mesmos, e muitas dessas reflexões levaram as pessoas a mudar de vida e de trabalho.”

EU ACHO …

FEMINIZAÇÃO DA POBREZA

O casamento infantil deveria estar no centro da preocupação da sociedade

Em momentos tão decisivos como o atual período eleitoral, é necessário avaliar projetos e escolher aqueles comprometidos com a pauta das mulheres. Ela abrange temas como direito à creche, à saúde, mecanismos de acolhimento à vítima de violência, entre tantos outros.

Partindo de uma perspectiva interseccional, as mulheres devem estar contempladas em sua multiplicidade em todas as políticas públicas do país, como moradia, esportes, comunicação, agricultura e segurança pública.

Quero neste texto me estender na reflexão sobre a segurança pública e a mulher. Pois têm sido cada vez mais frequentes os relatos que tenho ouvido de mulheres vítimas de violência pelo ex ou atual companheiro, mas que não têm meios de se defender. Faremos essa reflexão a partir de uma história, a qual eu diria que está em boa parte dos relatos.

Nossa história começa assim: em um contexto social vulnerabilizado, uma menina adolescente é atraída para um homem anos mais velho. Naquele momento, ela passa pelas suas primeiras experiências com quem já entrou na vida adulta há algum tempo.

Infelizmente, isso é normalizado no país do casamento infantil. Lembro-me de que quando era professora da rede pública de ensino em Guarulhos. Vi muitas meninas engravidadas por homens mais velhos e que saíam da escola por não terem mais condições materiais para frequentá-la.

Em coluna de fevereiro, estendi-me sobre casamento infantil e como essa questão deveria estar no centro da preocupação da sociedade, por ser fonte de ausência de políticas públicas e de diversas formas de violência contra a mulher.

Voltemos à nossa história. Essa menina cresce e começa a perceber que a vida é mais. Ela tem vontade de conhecer outras realidades e sente que sua vida não comporta mais aquilo. O homem, de quem neste momento a jovem está grávida, ou com quem teve um ou mais filhos, torna-se mais desinteressante, ao mesmo tempo em que fica mais violento do que o habitual. Sua grosseria e possessividade são insuportáveis. A menina, então, toma uma atitude e volta para a casa da mãe, com as crianças. Nessa história, ela tem um lugar para onde voltar.

A mãe dessa jovem também foi um dia a menina que teve filhos com um homem mais velho, repetindo o ciclo de feminização da pobreza. Ela recebe a filha em casa, apesar do pouco espaço e do dinheiro que já não dava para pagar as contas. A mãe lamenta por aquele homem com quem teve a filha estar em algum lugar qualquer e não poder contar com seu ex- companheiro.

Os homens vão viver sua vida infernizando outras mulheres. Eis o abandono paterno amplamente legalizado e difundido no país.

O ex- companheiro da jovem faz da ameaça e da intimidação dela seu grande projeto de vida. Ameaça que vai falar com a facção para raspar a cabeça dela e amarrá-la ao pé da cama. Ela é dele, ele diz. Ele sabe onde é a casa da ex-sogra e passa na frente da residência a todo momento, liga e deixa mensagens para a ex- companheira, dizendo que se vê-la com outro irá matá-la.

Na casa da jovem, o clima é de constante apreensão. Todas as pessoas ali – na maioria das residências mulheres e crianças – têm medo de sair na rua para ir à padaria e encontrá-lo. O jeito é ir à polícia, dizer o que está acontecendo, mostrar as mensagens de celular e registrar um boletim de ocorrência.

Pode ser que não haja unidade policial perto e que ela e a mãe não consigam ser atendidas. Ou ainda que elas sejam mal atendidas, depois de horas de espera. Mas, para fins deste texto, elas foram atendidas.

No caso, a jovem obtém até uma medida judicial que diz que o homem deve se manter a centenas de metros de distância, ou será preso.

Mas o projeto de vida dele é infernizar a vida daquela família, e essas medidas não são o bastante, nem de longe. Então, para mostrar que é homem mesmo, esse infeliz vai até a casa da ex-sogra armado…

É desnecessário chegar ao fim dessa tragédia anunciada tão comum neste país. Estamos aqui falando de situações que não são apenas casos constantes de feminicídio, mas da perda de projetos de vida, de dores e de traumas.

Conto essa história para inspirar a criação de programas de proteção e de centros de empoderamento e enfrentamento aos homens violentos, entre tantas medidas possíveis. Eleições estão aí. É preciso ter consciência e avançar nos direitos das mulheres.

***DJAMILA RIBEIRO

ESTAR BEM

ADEUS À DOR NA LOMBAR

Segundo especialistas, é difícil descobrir as causas da lombalgia. Mas alguns hábitos ajudam a preveni-la

A mão apoiada na parte inferior das costas e a testa franzida sinalizam: a dor lombar (lombalgia) está atrapalhando a sua vida. Com esse incômodo, fica difícil se manter sentado e se movimentar. O problema é comum: pode atingir até 84% das pessoas em algum momento da vida, segundo artigo científico publicado no Journal of Spiral Disorders em junho de 2020. Embora seja mais prevalente entre idosos, a lombalgia é queixa de pessoas de diferentes faixas etárias e não faz distinção de condição socio econômica. As causas, a intensidade e a frequência dessa dor variam caso a caso, mas quase sempre trazem prejuízos para a vida social e profissional de quem é acometido por ela.

Desorientadas e apressadas, muitas pessoas recorrem à automedicação indiscriminadamente. “É comum que os pacientes que sofrem com dor lombar usem o remédio do vizinho, pois a tendência é ir pelo caminho mais fácil. Mas o abuso de alguns medicamentos é muito perigoso para a saúde”, alerta o ortopedista Renato Ueta, chefe do Grupo da Coluna do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os remédios indicados pelo médico são importantes para diminuir a dor para que o paciente possa entrar com as medidas de reabilitação, explica Ueta. Quando a dor lombar aparecer, ou mesmo com um simples sinal de que a lombar vai “travar”, é melhor procurar um médico, de especialidades como ortopedia, reumatologia, fisiatria e neurologia, ou um fisioterapeuta. Cada um no seu papel, tanto o médico como o fisioterapeuta podem atuar – geralmente em dupla ­ quando o assunto é dor lombar. O olhar atencioso de um bom profissional é fundamental, já que a lombalgia pode refletir causas mais graves como fraturas dos ossos, problemas nos rins e câncer – se houver algum indício, será preciso investigar e, neste caso, o fisioterapeuta fará o encaminhamento do paciente para um médico para que ele descarte essas possibilidades antes da intervenção terapêutica.

Na maioria dos casos, no entanto, não é possível para o profissional de saúde determinar a causa exata da dor lombar. “Por mais que desejemos apontar um único culpado pela dor, geralmente ela é multifatorial”, comenta Ueta. Estresse, de pressão, exercício físico mal realizado ou excessivo são algumas das possíveis causas da lombalgia. Mas a má postura e o sedentarismo são os fatores que o ortopedista   considera mais relevantes – e que se intensificaram na pandemia.

“Observamos um aumento brutal de pessoas com queixa de dores lombares, já que muitas delas deixaram de se exercitar, viveram sob estresse e passaram horas sentadas na frente do computador, muitas vezes com ergonomia inadequada”, diz Ueta.

TRATAMENTOS

Em home office, a arquiteta Patrícia França Azeredo, de 43 anos, sofreu com as dores na lombar no fim de 2020. “No meio do dia, eu já sentia dores que comprometiam o meu rendimento. Eu passava até 10 horas sentada e a minha cadeira não era muito boa”, conta. Com ajuda da sua fisioterapeuta, Patrícia comprou uma nova cadeira, praticou exercícios e conseguiu superar a crise. Para que a dor não volte, ela faz acupuntura semanalmente, além de praticar caminhadas com frequência.

A acupuntura traz bons resultados na diminuição das dores lombares, especialmente nos pacientes crônicos (dor que dura mais de 12 semanas), afirma o médico acupunturista e ortopedista André Tsai, presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA) e vice-presidente do Comitê de Dor da SBOT.

“Na medicina tradicional chinesa, a aplicação de agulhas no corpo restabelece o fluxo de Qi, o que diminui a tensão na região dolorida. Na visão da medicina ocidental, essas agulhas conseguem liberar substâncias como a endorfina e serotonina, que trazem bem-estar”, explica. A terapia permite atenuar as dores, diminuindo assim a necessidade dos medicamentos para dor, o que é especialmente benéfico para quem já usa outros remédios por conta de outras doenças. No tratamento não medicamentoso de reabilitação, os exercícios físicos são a principal recomendação, afirma a fisioterapeuta Amélia Pasqual Marques, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“Antigamente, a recomendação para esse tipo de dor era o repouso, hoje sabemos que para cuidar da dor é preciso se movimentar”, garante. “Mas é preciso ser orientado por um bom profissional, que faça uma avaliação e indique os movimentos mais adequados para aquele caso, naquele momento.” Ela explica que o fisioterapeuta também lança mão de terapias complementares como ultrassom, laser e tens, que ajudam a relaxar os músculos e diminuir as dores.

A advogada Renata Colaço Fransani Finardi, de 57 anos, sofreu por quase sete anos com dor na lombar. Teve sua primeira crise em 2006, que a impediu de fazer tarefas básicas do dia a dia, como pegar a sua filha bebê no colo. Foi diagnosticada com   hérnia de disco pelo ortopedista, que prescreveu medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios, além de indicar fisioterapia.

“Fiquei 20 dias de repouso, pois não conseguia ficar de pé nem por 2 segundos, já que a dor era fortíssima”, recorda.

Depois de alguns meses de calmaria, porém, as crises se repetiam, com piora no quadro da hérnia de disco. “Isso me abalava física e emocionalmente. Era apavorante.”

Renata se consultou com diversos médicos e fez RPG (Reeducação Postural Global), acupuntura e seitai (técnica manipulativa japonesa para problemas de coluna). O ortopedista levantou a possibilidade de fazer uma cirurgia para a hérnia, mas ela resolveu dar uma chance para o pilates. “Fortaleci a musculatura da região lombar e aprendi a contrair o abdômen e usar os glúteos para proteger a lombar em qualquer movimento que a requisite, com a ajuda de fisioterapeutas competentes. Eles também me ensinaram a me movimentar sem comprometer a lombar, na hora de me abaixar, de levantar um objeto e de fazer trabalhos domésticos”, completa ela, que desde 2013 não tem mais lombalgia.

FITNESS

O pilates é um exercício ”padrão ouro” para dores na lombar, afirma Sandra Amaral, especialista em fisioterapia musculoesquelética. Porém, ela esclarece que quem passou por uma crise deve procurar o pilates clínico, em que o fisioterapeuta vai atender à demanda específica do paciente. “Quando estiver zerado, ele poderá praticar o pilates fitness, que deixa o corpo lindo e delineado”, observa.

Praticar exercícios não garantia de uma lombar saudável, já que quando mal executados ou com carga excessiva podem trazer um impacto negativo, alerta Sandra. “Já atendi pessoas com excelente forma física, que participam de campeonatos de esportes, mas se focam apenas no aeróbico e não fortalecem os músculos da coluna, que são muito solicitados.” Ela recomenda que praticantes de corrida, futebol, ciclismo e vôlei, que proporcionam alto impacto na lombar, recebam atendimento de um fisioterapeuta que os ensine a ter cuidados específicos para se protegerem de lesões.

“Se a pessoa simplesmente toma um analgésico e melhora, ela vai repetir o movimento que machucou a sua lombar. Ela precisa se reeducar para fazer os movimentos de forma segura, antes de retornar as atividades normais”, ensina.

O empreendedor Rodrigo da Silva Bispo de Freitas, de 38 anos, pratica musculação, corrida, ginástica funcional e alongamento. Nem parece a mesma pessoa que sofria com a dor lombar enquanto estava sentado, seja para trabalhar ou dirigir. A lesão na lombar era reflexo de uma pisada torta, decorrente de uma torção no tornozelo há 13 anos.

“Na época, abandonei as lutas marciais, a corrida e a pedalada”, declara. Para se livrar das dores, Freitas mergulhou na fisioterapia: foi submetido a sessões de calor, de liberação miofascial, RPC, além de trabalhar a mobilidade de quadril.

“Comecei a prestar atenção na minha forma de pisar e melhorar a minha postura na hora de sentar”, admite. Dez semanas depois, não sentia mais dores. A fisioterapeuta Roberta dos Santos Cavenaghi, da clínica Physioterapia, em São Paulo, é responsável pelo tratamento de Freitas, e afirma que a dedicação do paciente é essencial para conseguir alcançar um bom resultado. “A maioria das pessoas chega a um serviço de fisioterapia querendo a cura em 10 sessões, número estipulado por planos de saúde. Mas não existe prazo para ensinar novas habilidades. Sendo assim, muitos desistem e ficam em uma procura sem fim por alívios rápidos, quando na verdade a cura está nas mãos dele”, avisa.

Segundo o ortopedista Renato Ueta, pilates e ioga são ideais para a prevenção da lombalgia, mas o mais importante é que a pessoa pratique o esporte preferido com frequência. “Quando não há mais dor, o fundamental é que cada um respeite os seus limites. Se uma pessoa gosta de dança, é isso que ela tem de fazer, pois com isso ela mantém a atividade física e tem prazer, o que a ajudará a lidar com o estresse.” A longo prazo, os cuidados podem ser deixados de lado. A vida corrida, a falta de disciplina e o orçamento restrito levaram a arquiteta Letícia Paula dos Santos, de 40 anos, a pausar a prática de exercícios físicos e pilares. Com isso, voltou a sentir dores lombares todas as manhãs.

Sua primeira crise aconteceu quando tinha 27 anos – ela forçava a coluna para carregar os dois filhos pequenos. “Estava assistindo à aula. Quando fui levantar da cadeira, travei”, comenta. Procurou um ortopedista, que solicitou exames e notou que o espaço entre as vértebras estava pequeno.

“Ele me orientou para melhorar a postura e fortalecer os músculos, além de receitar remédios”, diz Letícia, que fez algumas sessões de fisioterapia que a ajudaram a se livrar das dores. Mesmo assim, teve uma segunda crise dois anos depois, desencadeada pelo levantamento de um colchão. “Fiquei no chão por um bom tempo, sem conseguir me levantar.”

Letícia já levou um puxão de orelhada sua fisioterapeuta Liza Lambert, a quem recorre nos momentos de dor. ”A mudança de hábitos, que inclui a prática de exercícios físicos, é necessária para prevenir novas crises. Para não ter dores recorrentes, é preciso se cuidar sempre”, completa Liza.

HÁBITOS PARA PREVENIR DORES

SENTE-SE DIREITO

Não passe muitas horas sentado na mesma posição. Faça pausas, levante-se da cadeira para uma caminhada, faça um alongamento. Quando sentado em uma cadeira, use o encosto para acomodar as costas e não escorregue o quadril para frente.

ERGONOMIA

É preciso estar atento às suas condições de trabalho, como altura de sua cadeira e de sua mesa, que vai refletir na sua postura.

SONO

Durma em um colchão firme, que não precisa ser duro. Uma almofada entre as pernas quando dormir de lado pode dar mais conforto.

CARGA PESADA

Levantar e puxar objetos pesados coloca a sua coluna em risco. Procure ferramentas que o ajudem nessa tarefa.

AUTOMEDICAÇÃO

Se tiver dores, busque um médico para orientá-lo no tratamento, que, provavelmente, não será apenas medicamentoso.

DIAGNÓSTICO

Faça uma avaliação cuidadosa com um profissional, baseada na conversa (anamnese) e em exames físicos e clínicos.

MEXA-SE

Tanto na prevenção de crises como na reabilitação da lombar, a prática de exercícios é a recomendação de ouro dos especialistas. Procure um fisioterapeuta para orientá-lo sobre os melhores exercícios para a sua condição – e mantenha a prática na sua rotina.

PESO

Procure se manter com o peso adequado para o seu corpo.

CUIDE DA SAÚDE MENTAL

A depressão e o transtorno de ansiedade podem estar associados às dores lombares, por conta da sensibilização do sistema nervoso central.

SAPATO DE SALTO ALTO

O uso constante pode causar encurtamento de alguns músculos, o que poderá refletir na região lombar. Alterne com o uso de sapatos de salto baixo e faça alongamentos da parte posterior das pernas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FALAR SEM BRIGAR

Como técnicas de Comunicação Não Violenta (CNV) podem ajudar a expor opiniões na família e no trabalho de forma clara e sem conflitos

Conversando a gente se entende, diz o ditado. Você concorda com essa frase ou se sente frustrado por não conseguir engajar os outros para atender às suas necessidades e aos seus desejos? Quem deseja desenvolver habilidades de comunicação para melhorar os seus relacionamentos pode recorrer à Comunicação Não Violenta (CNV), que toma como base a empatia e a compaixão para fortalecer as conexões humanas, seja no âmbito pessoal ou profissional – o que não tem nada a ver com técnicas de persuasão.

Metodologia sistematizada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg na década de 1960 no livro Comunicação Não Violenta (Ed. Ágora), a CNV parte da premissa de que toda a comunicação humana demonstra necessidades universais como respeito, acolhimento e pertencimento, mesmo quando expressadas por gritos, ofensas e outras manifestações violentas. “A CNV é mais que uma técnica, é um convite para olhar para o que está por trás da linguagem. Ela parte do movimento de não violência do qual fizeram parte Gandhi e Martin Luther King”, diz a mediadora de conflitos Diana Bonar, fundadora da empresa PeaceFlow, que atua na área de prevenção da violência e dá treinamentos de CNV.

Pela abordagem da CNV, diante de um conflito ou desafio é preciso ser empático e considerar a necessidade do outro. “Isso não significa ser passivo ou permissivo, mas buscar uma solução pelo caminho do meio, com limites saudáveis”, esclarece Diana. A comunicação deve ser assertiva, isto é, clara, objetiva, firme e respeitosa. “O objetivo não é convencer o outro de nada, mas se conectar com ele para buscar uma solução.”

SINCERIDADE

Expor os sentimentos com sinceridade é uma forma de derrubar muros da comunicação. “Na nossa sociedade, principalmente os homens não costumam falar de seus sentimentos. Mas quando fazemos isso, a percepção e a disposição da outra pessoa com quem estamos conversando muda”, conta Diana. Ela diz ter um bom relacionamento com sua mãe, mas estava incomodada com alguns “pitacos” que ela dava em sua vida pessoal e resolveu chamá-la para um papo. “Comecei dizendo que ela era importante para mim, o que já quebrou resistência ao diálogo. Assim, tivemos uma interação saudável.”

Evitar críticas e rótulos também pode ajudar a comunicação a fluir. “Uma pessoa quer ser vista, considerada e respeitada quando participa de uma conversa. Senão, a tendência é que ela se posicione no ataque ou na defesa”, explica Diana. Em período pré-eleitoral, em que os ânimos estão exaltados e as pessoas se posicionam de forma polarizada, e em outros tipos de conversas difíceis, a recomendação da especialista é escolher bem as “batalhas” das quais participar, com sabedoria.

“Leve em consideração o grau de relevância desse relacionamento para você e a importância do resultado dessa conversa. Posso escolher não discutir porque valorizo o relacionamento. Se eu decido confrontar, melhor usar as habilidades em CNV para não acabar com o vínculo.”

A fisioterapeuta Erika Cabral Leal Ferreira Masullo, de 38 anos, está aberta às discussões políticas. “Tenho familiares e amigos que pensam diferente de mim, que maravilhoso! O que seria de nós se todos pensássemos a mesma coisa? A política é importante e deve ser debatida em qualquer lugar”, avisa. Atualmente, porém, os debates nem sempre são saudáveis no Brasil, na visão dela. “Fico triste quando percebo a agressividade, muitas vezes escondida em piadas e risadas, e quando vejo delicadeza excessiva”, avalia.

Determinada na sua busca por autoconhecimento, Erika fez este ano o curso Conectar-se, que promove habilidades de comunicação assertiva. “Pude entender a magnitude da influência do autoconhecimento na fala e na escuta, que são importantes facilitadores do convívio social”, lembra. O aprendizado refletiu-se na sua atitude: diante de um comentário machista de um líder em um grupo profissional no WhatsApp, ela resolveu escrever uma carta aberta de repúdio. “Em tempos anteriores, eu teria respondido de forma inadequada, tamanha era a minha indignação. Mas aprendi a me escutar antes de reagir. Escrevi uma carta equilibrada, lúcida e coerente.”

‘A VERDADE’

Muitas vezes, as pessoas são empáticas na sua comunicação, mas abandonam “a verdade”, explica Igor Gadioli, mestre em linguística e criador do curso Conectar-se, do qual Erika participou. “A pessoa pensa se vai incomodar o outro com aquilo que ela vai falar e perde de vista a própria necessidade”, ressalta. Para Gadioli, é um equívoco achar que é possível viver sem conflito, mas é possível construir a harmonia, ao expressar as necessidades de ambos os lados. “Dizer que quer evitar um conflito e cair na passividade é um erro. Quando uma pessoa ficou com raiva, já existe um conflito.”

Ser autêntico é importante para melhorar a comunicação, garante Gadioli. “Se eu chego atrasado porque o pneu do meu carro furou e estou transtornado, é melhor que eu diga o que estou sentindo, de forma transparente”, exemplifica. Porém, em vez de justificar a falha de chegar atrasado, é melhor assumir a responsabilidade. “Quem reclama muito e fica se justificando começa a perder o respeito, pois parece uma tentativa de se livrar da culpa. É melhor se voltar para a necessidade não atendida, se mostrando preocupado em trazer uma solução.”

Ao mesmo tempo, é preciso ter um “filtro” para comentar só o que faz sentido naquela conversa. “Antes de fazer uma crítica, reflita se isso é necessário, pois isso pode arranhar a relação. A escolha das palavras deve ser genuína e estratégica, se a intenção é que a pessoa mude.”

VIDA A DOIS

Casados há 12 anos, a advogada Fernanda Trajano de Cristo Soares, de 47 anos, e o executivo Paulo José Marcos Soares, de 53, sentiram que o relacionamento se beneficiou da CNV. “Hoje, a gente briga menos porque a comunicação melhorou. Resolvemos os nossos problemas gastando menos energia”, diz Soares, que se interessou pelo curso após ler livros de Marshall Rosenberg.

Para conseguir o bom resultado, ambos se empenharam. Há três anos fizeram um curso de três dias e se dedicaram a colocar o aprendizado em prática com paciência – treino que se intensificou com o isolamento social da pandemia. “Formar o hábito de usar a CNV dá trabalho. Não estamos acostumados a observar sentimentos e necessidades. Para conseguir uma fluidez e aplicá-la de forma mais rotineira, tem de treinar muito, prestar atenção.”

Os casais que passam a usar a CNV geralmente conseguem sair de uma dinâmica de “luta e fuga”, em que ficam na defensiva ou partem para o ataque, e passam a ter mais curiosidade pelo sentimento do companheiro, revela Debora Gaudêncio, consultora de comunicação consciente, que ministrou o curso de CNV do qual participaram Fernanda e Paulo Soares. Segundo ela, muitas pessoas demonstram interesse em apresentar a CNV para seu par. “Com essa troca fluida, os casais conseguem compreender o que se passa com o outro, o que gera conexão”, conclui.

A educadora parental Luciana Calabrisi, de 38 anos, utiliza os seus conhecimentos em CNV para manter um bom relacionamento com o marido, o professor Vinícius Valdivia, de 40 anos. “Com a CNV aprendemos a ouvir com atenção, evitando tirar conclusões. Expressamos o que estamos sentindo e deixamos claro qual a necessidade individual e o que gostaríamos que acontecesse em outra oportunidade”, acrescenta. Luciana conta que um dia, de manhã, ela e o marido estavam cansados. “Eu acordo algumas vezes de madrugada para amamentar. Disse a ele que estava vendo que ele estava cansado também. Conversamos e decidimos que um descansaria pela manhã e outro pela tarde, o que atendeu à necessidade dos dois.”

Colocar a CNV em prática, porém, não é fácil, por conta da cultura em que vivemos, advertem os especialistas. “É como remar contra a maré, já que vivemos em um mundo competitivo, violento e autoritário”, esclarece a mediadora de conflitos Diana Bonar. Ela observa que, de forma geral, a sociedade se vale da culpa, do medo e da vergonha para persuadir as pessoas. “Gritar e bater não são as únicas formas de violência. Forçar uma pessoa da sua equipe de trabalho ou uma criança a fazer algo com base no medo e na vergonha, só porque eu tenho poder, é um jeito violento de conseguir algo.”

Na visão dela, a CNV ganha importância no contexto atual, em que a saúde mental é um desafio de um mundo mais instável e imprevisível. Nas empresas, oferece um ambiente mais produtivo e criativo, pois traz segurança psicológica aos colaboradores. “O profissional não pode ter medo de expor o que pensa”, alerta Diana.

SILÊNCIO

E o silêncio dos colaboradores nas empresas pode ser destruidor, afirma Luciana Sato, sócia da consultoria Conexões Humanizadas, que trabalha a “musculatura emocional” das equipes nas empresas.

“Existem funcionários que deixaram de alertar sobre os erros das organizações em que trabalhavam por medo de se exporem”, adianta ela, em referência aos casos citados no livro A Organização Sem Medo, de Amy Edmondson, professora da Harvard Business School. Para ampliar essa consciência nas empresas, porém, é preciso fazer um trabalho consistente que promova o autoconhecimento. “Não existem fórmulas milagrosas para realizar mudanças após uma palestra”, orienta Luciana. O maior obstáculo para uma boa comunicação, na visão dela, é não estar aberto a visões diferentes. “Conflitos e perspectivas diferentes gerenciados de forma adequada podem ser um ativo competitivo para a resolução de problemas e inovação da organização”, completa. O aprendizado em CNV ajudou a psicóloga Noemi Lustosa Baptista, de 39 anos, a se relacionar com os chefes. “Consigo falar quando me sinto cansada e negociar férias. E isso não é visto como um problema, mas uma possibilidade de estabelecer acordos, com conexão e responsabilidade”, defende ela, que já participou de quatro cursos que abordavam a CNV ministrados por Diana Bonar. “A CNV é uma ruptura de mundo. Trouxe-me paz, leveza e amor na minha família, amigos e casamento. Acredito que sou uma pessoa melhor por conta desses conhecimentos e práticas.”

MELHOR NA COMUNICAÇÃO E NOS RELACIONAMENTOS

OBSERVE

Observe a si próprio e ao outro, sem julgamentos, com curiosidade de entender as necessidades de cada lado.

EMPATIA

Preste atenção nos seus senti- mentos e seja empático com o outro. Lembre-se de que cada um tem hábitos, culturas e pontos de vista diferentes.

VULNERABILIDADE

Não precisa esconder os seus sentimentos. Revelar suas vulnerabilidades pode ajudar o outro lado a sair da defensiva e a ceder.

FIQUE ABERTO

Não fixe um “rótulo” para a pessoa com quem você vai conversar. As generalizações atrapalham a comunicação.

VOCABULÁRIO

Expresse ao outro a sua necessidade, de forma simples, clara e honesta. Escolha bem suas palavras.

OUÇA

Pergunte ao outro se ele precisa de algo e escute com atenção genuína. Faça perguntas como: “O que podemos fazer para melhorar isso?”.

LINGUAGEM CORPORAL

O corpo fala. A comunicação terá ruído se as suas palavras não condizem com sua expressão facial e corporal.

CRÍTICAS

Antes de fazer uma crítica na conversa, pense: criticar é necessário? Vai trazer algum benefício para o relaciona- mento? Lembre-se: quem recebe uma crítica geralmente se posiciona na defensiva, o que não ajuda na conversa e na negociação.

GENTILEZA

Não tente intimidar a outra pessoa pelo medo ou vergonha. Isso pode até ser um atalho para conseguir o que você quer de forma mais rápida, mas traz um impacto negativo no relacionamento.

NÃO APONTE DEDOS

Procurar definir o “culpado” não ajuda a resolver conflitos. Saia dessa dinâmica acusatória para buscar uma solução para o desafio em comum.

NÃO É UMA COMPETIÇÃO

Deixe de lado a lógica da competição, que nos leva a querer “vencer” uma discussão.

ESCOLHA SUAS BATALHAS

Escolha com sabedoria em quais conversas vai investir energia e se engajar. Considere a importância do resultado da conversa e a pessoa que está envolvida.

OUTROS OLHARES

TABAGISMO CRESCE ENTRE ADOLESCENTES NO BRASIL

Pesquisa do IBGE mostra que jovens entre 13e 17 anos, principalmente do sexo feminino, estão fumando mais no país. Preços baixos, facilidade de acesso, novos dispositivos e menos fiscalização estão entre as justificativas

Dados da última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) e divulgada neste ano, mostram que a proporção de adolescentes entre 13 a 17 anos que fumam aumentou de 6,6%, em2015, para 6,8%, em 2019. A alta foi relacionada ao crescimento do tabagismo especialmente entre as meninas da faixa etária, que passaram de 6% para 6,5% de fumantes.

Em comunicado, o Ministério da Saúde alerta ainda que pesquisas realizadas pela pasta na última década indicam que o tabaco é a segunda droga mais experimentada no país, e que a primeira tragada geralmente ocorre aos 16 anos.

“Esse é um tema que preocupa bastante, porque o uso de qualquer droga psicoativa, como é o caso da nicotina dos cigarros, é sempre mais alarmante em alguém cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, como é o caso dos jovens. Essas drogas quando entram no organismo atingem o sistema nervoso central e produzem diversas modificações que são mais acentuadas nesses casos. Além disso, elevam a probabilidade de ele voltar a usar a substância e eventualmente desenvolver uma dependência química, o que leva a riscos como câncer e problemas cardiovasculares”, diz a pesquisadora Vera Borges, da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O pesquisador André Szklo, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, explica que a PeNSE faz parte de um monitoramento ligado ao acompanhamento do tabagismo no Brasil, e por isso representa o padrão-ouro na análise do cenário no país. Para ele, o crescimento é reflexo de uma série de fatores que já vinham sendo percebidos, como os preços baixos, o fácil acesso e o abrandamento da fiscalização.

“A PeNSE mostra que os jovens conseguem comprar esses produtos facilmente, embora sejam proibidos. Além disso, desde 2017 os preços reais do cigarro vêm caindo, o que é um facilitador para o tabagismo. Há ainda outros pontos da legislação que não são cumpridos, como a proibição da adição de sabores e aromas que atraem os adolescentes. Então não há nada no cenário atual que indique que esse crescimento seja interrompido no curto prazo”, diz o especialista.

‘VAPES’ EM ALTA

Um dos pontos mencionados por Szklo em que a legislação não tem sido cumprida é a venda dos cigarros eletrônicos. Segundo o relatório Covitel, da Universidade Federal de Pelotas, realizado neste ano com mais de nove mil jovens, uma cada cinco indivíduos de 18 a 24 anos no Brasil já experimentou os chamados “vapes”. A adesão acontece apesar de a comercialização dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) ser proibida pela Anvisa desde 2009, decisão que foi ratificada neste ano.

Segundo a PeNSE, essa experimentação acontece entre os adolescentes, e é mais dramática entre os alunos de redes privadas. Considerando todos os formatos de cigarro, 24,4% dos alunos do nono ano do ensino fundamental, de em média 15 anos, relataram já ter fumado alguma vez na vida, contra 12,2% na rede pública. O índice também aumentou nas escolas particulares, onde era de 21,2% em 2015, mas caiu nas públicas – o percentual era de 13% há sete anos.

Além do cigarro eletrônico, o Ministério da Saúde destaca os narguilés, outro formato que cresce entre os jovens e oferecem mais riscos que o cigarro comum.

GESTÃO E CARREIRA

COMO VIVE AGORA QUEM SE DEMITIU NA PANDEMIA

Para americanos que mudaram de emprego na ‘grande renúncia’, decisão valeu a pena

Melody e Ian Karle não estavam felizes. Era fevereiro de2021 e o casal vivia em Houston. A crise energética após o inverno rigoroso no Texas havia começado, situação que os levou a ficar sem água corrente ou aquecimento. Mas isso não era tudo. Ian, que trabalhava como gerente de qualidade em uma empresa do setor de petróleo e gás, não aguentava mais seu trabalho. Ajudava a pagar as contas, sem dúvidas, mas fazia com que ele se sentisse esgotado e insatisfeito.

“A temperatura dentro de casa era congelante, estávamos sentados no sofá, e eu pensei: ‘Espera aí, por que raios estamos aqui?’”, disse Ian, 43 anos. “Ele não gostava do emprego que tinha, a rede elétrica era precária e éramos duas pessoas que trabalhavam e tinham suas próprias carreiras. Começamos a pensar, então, como poderíamos sair daquela situação”, disse Melody, 43 anos, que trabalhava como bibliotecária em uma universidade.

Eles fizeram as contas e decidiram que Ian podia pedir demissão e deixar o setor no qual trabalhava se vendessem a casa onde viviam e se mudassem para algum lugar com um custo de vida menor. Eles se mudaram, então, para Cut Bank, em Montana. Melody conseguiu um emprego como administradora remota de um sistema de biblioteca, e Ian abriu sua própria empresa de chocolate artesanal, um projeto pessoal iniciado nos primeiros dias da pandemia.

No total, os dois juntos tiveram uma redução de renda anual de US$ 100 mil e agora ganham cerca de US$ 70 mil. Eles tiveram de abrir mão das saídas noturnas luxuosas, mas esse tipo de tentação não existe na cidade pequena onde vivem, segundo eles. Em vez disso, estão curtindo atividades mais econômicas, como caminhadas e jardinagem. “Você não faz ideia do quanto de estresse está submetido até se livrar dele. É absurdo o quanto estou mais feliz agora do que costumava ser”, disse Ian.

SAÍDA EM MASSA

No ano passado, mais de 40 milhões de pessoas pediram demissão de seus empregos. A chamada grande renúncia foi motivada por pessoas que estavam cansadas de empregos frustrantes, de se sentirem esgotadas pelas demandas de trabalho e das dificuldades para conseguir se sustentar.

Embora algumas pessoas estejam atualmente em uma situação financeira melhor e ganhando um salário mais alto, outras que deixaram seus empregos têm enfrentado problemas financeiros. Elas deram um jeito de fazer isso dar certo pegando empregos de meio período, renunciando a certos luxos ou, como os Karles, se mudando para algum lugar mais barato. E apesar do estresse adicional, muitos acham que a decisão valeu a pena.

Os Karles sentem que estão vivendo uma vida com mais propósito. Várias vezes por semana, eles vendem as barras de chocolate de Ian nas feiras de produtores locais, além de cuidar de gatos resgatados em casa (esta última atividade é voluntária, não há remuneração por ela). Melody está plantando beterraba, ruibarbo, aspargos e muito mais em sua horta. O casal teve uma redução no orçamento, mas acredita ter encontrado algo melhor.

“Nós não conseguimos nem acreditar no que estávamos fazendo antes”, disse Melody. “Esta foi a melhor decisão que já tomamos.”

Os Karles representam um grupo de indivíduos e famílias que fizeram uma mudança e agora estão lidando com as consequências financeiras, para o bem ou para o mal. “A pandemia fez as pessoas pensarem e avaliarem de verdade como estavam vivendo”, disse Cliff Robb, professor de ciência do consumidor da Universidade de Wisconsin-Madison. “Vimos tantas oportunidades de emprego diferentes se tornarem flexíveis em suas estruturas, então as pessoas começaram a reavaliar tudo.”

Perguntamos aos leitores que fizeram esse balanço pessoal como isso afetou suas vidas financeiras. Aqui estão alguns relatos.

APREENSÃO

Em junho de 2021, Natalie Hanson, 26 anos, deixou seu emprego em um jornal de sua cidade natal, Chico, na Califórnia, onde ela cobria o governo municipal, habitação e falta de moradia. O salário não era dos melhores, segundo Natalie, e ela enfrentava assédio online quase contínuo por causa dos temas sobre os quais escrevia. O preço psicológico tornou-se insuportável.

“Pago minhas contas desde o ensino médio. Trabalhei durante toda a faculdade”, disse Natalie. “Mas eu ainda estava muito apreensiva quanto a pedir demissão.”

Ela conseguiu um novo emprego em um jornal em Oakland, na Califórnia, com um salário melhor. Mas o custo de vida em Oakland era bem maior do que aquele com o qual Natalie estava acostumada em Chico, cerca de três horas ao norte da região da baía de São Francisco. O valor que pagava pelo aluguel mais que dobrou e o preço do seguro de seu carro aumentou.

Em maio, Natalie pediu demissão e passou a trabalhar como repórter no serviço de notícias jurídicas Courthouse News Service. Embora o novo emprego ofereça um salário melhor do que o anterior, Natalie escreve artigos como freelance para organizações sem fins lucrativos locais e consegue uma renda extra de US$ 800 por mês. Mas ela planeja se mudar para um apartamento mais barato na cidade até o fim do ano. Apesar dos transtornos, Natalie não se arrepende de sua decisão inicial de pedir demissão do emprego em Chico. Ela agora vive em uma região que adora. “Não esperava poder viver na região da baía de São Francisco, trabalhando como jornalista, antes dos 30 anos”, disse ela. “Ficou bastante claro que existem possibilidades. No entanto, é preciso ser muito cuidadoso com as finanças”, frisa a jornalista.

FAZENDO AS CONTAS

Susan Woodland, 67 anos, pediu demissão do posto de diretora de coleções em um museu em Nova York em maio de 2020. Seu emprego exigia muito trabalho administrativo – o que ela não gostava – e, quando a pandemia surgiu, ela se viu tendo que decidir entre demitir outros funcionários de seu departamento ou deixar seu emprego. Ela escolheu a segunda alternativa.

Susan agora trabalha meio período como freelancer para museus, e pode lidar diretamente com as coleções deles, algo que ela considera muito gratificante. “Tem sido o melhor dos dois mundos. Posso definir meu próprio horário. Não paga as contas, mas é muito gratificante”, afirmou.

Segundo ela conta, foi um tremendo alívio emocional sair do expediente das 9h às 17h, e ela agora tem “a liberdade de ganhar bem menos dinheiro, mas seguindo as minhas próprias regras”.

Ela também tem alguma renda com investimentos, o que ajuda a cobrir seus custos de vida. Susan sempre foi obstinada em relação a economizar, mesmo quando era mais nova, e isso tem sido uma ajuda extra. “Sempre que recebia um pouco a mais – podia ser US$ 20 por semana –, meus pais diziam: ‘Guarde metade’. E eu sempre fiz isso”, afirmou.

O dinheiro está com certeza um pouco limitado agora, mas pedir demissão ainda valeu a pena, disse Susan. “Eu sabia que estava sendo extremamente mal remunerada.”

OLHANDO ALÉM

Para alguns, deixar o antigo emprego levou a uma recém-descoberta liberdade financeira. No ano passado, Maeve Connor, 35 anos, pediu demissão de seu trabalho como gerente de marketing em uma empresa com orçamento limitado de postos de serviços para caminhões.

“Eu sabia que estava sendo extremamente mal remunerada”, disse Maeve, que mora em Portland, no Oregon. Ela também não conseguia se livrar da sensação de que queria ter uma carreira mais significativa, então começou a se candidatar a vagas de empregos.

Em pouco tempo, Maeve foi chamada para assumir o cargo de especialista em comunicação na Central City Concern, uma organização sem fins lucrativos local que ajuda pessoas em situação de rua, e agora ganha US$ 63 mil por ano.

“Isso teve um impacto enorme na minha qualidade de vida”, disse ela. “Compro alimentos mais sofisticados agora. Tenho uma poupança com saldo considerável. Estou tentando descobrir se será possível algum dia comprar uma casa, o que nem sequer passava pela minha cabeça antes.”

Maeve também tem conseguido pagar por aulas de direção. “Não teria condições de pagá-las com meu salário anterior, e descobri que sou muito ruim dirigindo, então preciso de um monte de aulas.” Além disso, comprou uma aliança para a esposa e uma viagem para Nova Orleans. “Não precisei me preocupar com dinheiro de forma alguma enquanto estávamos lá”, disse.

Ela está satisfeita com a decisão de pedir demissão, sobretudo levando em consideração que a inflação fez os preços subirem e seu aluguel aumentou quase US$ 100 este mês. “Se eu ainda estivesse no meu antigo emprego, não sei como estaria lidando com essas coisas”, afirmou Maeve.

DIGERINDO A MUDANÇA

Rachel Sobel, 53 anos, deixou seu emprego como diretora de comunicações em uma seguradora de saúde em fevereiro.

Ela havia começado a trabalhar ali durante a pandemia, por isso estava se sentindo isolada no emprego. Depois de ser diagnosticada com uma doença autoimune, Rachel percebeu que não podia continuar no cargo. “Não me sinto bem durante muitas horas ao longo do dia, senti que estava abrindo mão de todas as horas que estava bem para trabalhar”, disse.

Rachel, que mora em Chicago, conseguiu passar a ser dependente do plano de saúde do marido, o que tornou possível levar adiante o plano de pedir demissão. Segundo ela, o salário do marido mal dá para cobrir as despesas básicas, e coisas como férias, melhorias na casa ou gastos inesperados não são possíveis neste momento. “Houve um pouco de arrependimento e pânico” no início, disse Rachel. De qualquer modo, ela não está 100% segura de como vão ficar as finanças do casal, “ainda não conseguimos digerir bem tudo isso”. Agora, ela trabalha como freelancer, editando, escrevendo e dando consultoria, o que cobre parte, mas não completamente, de seu antigo salário. Até mesmo as despesas necessárias foram adiadas.

“Vivemos em uma casa construída há cem anos”, disse ela. “Sempre há algo que precisa ser feito, e tínhamos um cronograma de coisas para consertar. Porém, agora precisamos reavaliar isso.” Uma parte do teto do porão está começando a desmoronar, mas ela não tem dinheiro para consertá-lo agora, o que tem sido uma fonte de frustração.

Problemas que talvez no passado fossem apenas pequenos ajustes passaram a ser dores de cabeça hoje. “Meu carro está ficando mais velho e, se precisar de um conserto de US$ 1 mil, pode ser que eu apenas o venda e abra mão de ter um automóvel”, disse ela.

Talvez o mais difícil seja o fato de sua filha ser uma estudante de pós-graduação que vive fora do estado e ela não poder mais visitá-la com a frequência de antes. “Enquanto antes eu podia facilmente viajar durante um fim de semana para visitá-la, fazer isso hoje seria um baque financeiro”, afirmou Rachel.

Ela está tentando lançar um coletivo criativo com alguns colegas e espera aumentar sua renda, no mínimo, em 50% do que ganhava trabalhando em período integral.

Mas, apesar de todos os novos desafios, pedir demissão valeu a pena para Rachel. Ela disse que se sentia uma pessoa mais feliz. “Estou me exercitando de novo, cozinhando mais, cuidando do meu jardim, fazendo passeios mais longos com meu cachorro”, disse. “Eu me sinto melhor, física e mentalmente.”

EU ACHO …

REFORMA, HISTÓRIA E SEXO

A experiência, diz uma psicóloga, ensina que em casa sem sexo as pessoas fazem obras o tempo todo

Vai construir ou reformar? Não comece a obra sem consultar um bom livro de História. Sim, você leu direito, minha querida leitora e meu estimado leitor. Nenhum cimento deve chegar ao seu lar sem que um historiador seja consultado.

Vamos às lições da História para obras. Primeira lição: planos ambiciosos de novos espaços podem causar impopularidade. Cuidado com o equilíbrio orçamentário. O imperador Shah Jahan que construiu o Taj Mahal, em memória da sua amada esposa, foi encarcerado pelo filho. Colaboraram os custos exorbitantes da obra e os planos de uma possível nova construção. Interditado politicamente pela ambição arquitetônica! Dizem que morreu olhando, ao longe, sua obra.

Construção veloz e com pressão costuma ser acompanhada de gambiarras. Transformar o pavilhão de caça do pai em um suntuoso palácio, em tempo curto, fez com que Luís XIV demandasse muito seus arquitetos. Muitas vezes, as paredes e acabamentos foram produzidos de forma menos sólida para atender ao desejo do rei. Pior: o plano de uma casa bem isolada do agito de Paris pode ter provocado, no futuro, o fim da dinastia. O mesmo é dito da Cidade Proibida, em Beijing. Isolamento geográfico tem um custo para o sistema político. Cuidado ao comprar um sítio no meio do nada!

Continuo no governo do Rei Sol. Ainda antes do esplendor de Versalhes, Nicolas Fouquet decidiu fazer um novo palácio e cometeu o erro de dar uma festa mais suntuosa do que seu chefe poderia oferecer. A festa impressionou a corte francesa e acabou despertando tantos rumores de corrupção que o ministro foi preso. Cuidado com aquilo que você simboliza com sua nova moradia!

Voltemos mais. O imperador Nero tinha decidido fazer um palácio novo e suntuoso: a Domus Aurea. Foi um dos muitos motivos da sua impopularidade e de seu fim trágico. O presidente Lincoln quase rompeu o casamento, pois sua esposa resolveu fazer mudanças na Casa Branca, em plena Guerra Civil. Milhares morrendo e ela pensando em cortinas novas… Reformas podem desgastar matrimônios.

Dizem que os custos da nova Basílica de São Pedro, em Roma, foram um dos motivos para a ruptura liderada por Lutero. Seria correto pensar que manter a velha basílica teria conservado a unidade da Igreja? Uma obra causou um cisma? Religiões e famílias podem dividir-se entre canteiros de cal e cimento.

Obras podem durar um pouco mais do que o previsto. A catedral de Colônia serve de consolo para o novo piso da sua cozinha estar tão arrastado: começou no século 12 e terminou em 1880. Foram mais de 630 anos de idas e vindas. Minha amiga empreendedora e meu amigo, com ímpetos de construção: consolados?

O esforço pela nova catedral de Siena foi interrompido pela Peste Negra. No Mosteiro da Batalha, em Portugal, há as chamadas “capelas imperfeitas”, inacabadas, por motivos variados. No mesmo país, o rei d. José fez um novo teatro de ópera moderno e suntuoso. Mal inaugurado, veio abaixo com o terremoto de 1755. Em função do mesmo desastre natural, a igreja do Carmo ainda é uma ruína em Lisboa.

Como vimos em pinceladas históricas, obras podem detonar carreiras, afundar dinastias e consumir tesouros. O tempo da reforma ou da construção é sempre muito superior ao previsto. O orçamento com que principiamos o sonho, quase sempre, fica aquém do inflado custo final. Ao final, com sorte, você tem uma casa reformada (ou construída) e uma família desgastada sobre um patrimônio dilapidado gravemente.

Em resumo, minha amiga reformadora e meu amigo construtor-leitor que me leem: pensem muito antes de construir ou reformar. Os desafios são inúmeros, o mundo é mutável, a terra treme, os outros invejam, a verba termina, os projetos soçobram e a ideia original naufraga. Pior, quase sempre desperta um fascista adormecido em muitas pessoas ao lidarem com mão de obra.

Em geral, ao começar a reforma, exaltamos a evolução das leis trabalhistas e as novas ideias de dignidade do trabalho. Ao final, nossa simpatia está, no mínimo, menor, quando não agressivamente inimiga da espécie humana. O papel de parede descolou? Cole você mesmo. A parede poderia ser derrubada? Imagine que ela possa ser estrutural e está, ali, há tanto tempo feliz.

Contrariando tudo o que eu disse até aqui, estava comprando algumas coisas em uma loja de materiais de construção, em São Paulo. Vi uma novidade: o passeio na loja era um animado programa familiar. As pessoas estavam felizes, discutindo compras em carrinho. Porém, reconheço, a História registra mais Luís XIV e seu ministro do que o cidadão comum que estava pintando com cal a parede da sua casa. Em outros recortes, a reforma pode ser um projeto de unidade familiar e até fazer surgir um passeio feliz em um sábado à tarde na Marginal do Tietê.

Para encerrar a reflexão, lembrei-me da frase de uma amiga psicóloga que talvez seja válida para reis e plebeus ao encararem uma obra. Ela dizia, sem base científica absoluta: “Em casa sem a existência de sexo regular, as pessoas fazem obra o tempo todo”. Será? Fica o desafio para pensar sua obra, a esperança de finalizá-la ou suspendê-la com luxúria.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

EVITE FICAR MUITO TEMPO SENTADO NO VASO SANITÁRIO

Deixe o celular de lado: especialistas alertam que o hábito pode causar hemorroidas

Atire a primeira pedra quem nunca ficou mais tempo do que deveria sentado no vaso sanitário olhando mensagens no celular, lendo notícias ou se divertindo com vídeos da internet. Pode até ser um momento de relaxamento, mas especialistas alertam que o hábito bastante comum pode ser prejudicial à saúde e causar hemorroidas.

“O hábito de ficar sentado no vaso sanitário por períodos prolongados pode aumentar a pressão nos coxins hemorroidários e, com o tempo, acabar fazendo com que suas veias e artérias aumentem de tamanho, tornando­ os sintomáticos, e é aí que está o problema”, informa o médico coloproctologista Lucas Bancerli Vinhas.

“Hemorroidas são estruturas anatômicas e que todos temos no ânus. São “coxins vasculares” que, em algumas situações, podem aumentar de tamanho e se tornarem sintomáticos. Assim se forma a doença hemorroidária, que afeta homens e mulheres.

“Apesar de não termos dados tão específicos da população brasileira, a doença hemorroidária certamente é um dos problemas mais comuns no consultório do coloproctologista”, continua o especialista. Segundo ele, os principais sintomas são sangramento, prolapso ou inchaço das hemorroidas, dor ou coceira anal.

As principais causas para o problema são a constipação intestinal, idade avançada e situações que gerem aumento da pressão abdominal, explica Vinhas. “E, consequentemente, torne esses vasos ingurgitados (inchados) e aumentem de tamanho, como: gestação, esforço físico e permanecer sentado por muito tempo, que é o caso de quem fica muitas horas no vaso sanitário, por exemplo”, destaca.

QUAL O TEMPO IDEAL?

 De acordo com Vinhas, não existe um dado na literatura científica que determine o tempo máximo de permanência sentado no vaso sanitário. “Recomendo aos pacientes que se sentem no vaso sanitário no momento em que estiverem com vontade mesmo, não ir antes e ficar se distraindo no celular, por exemplo. E logo depois que terminar, já fazer a higienização com ducha higiênica ou tomar banho, não ficar assentado se distraindo sem necessidade”, ressalta.

PREVENÇÃO E TRATAMENTOS

A doença hemorroidária tem diversas opções de tratamentos. ”Cirúrgicos ou não, e em caso de sintomas como sangramento, sensação de inchaço, dor ou coceira anal, o paciente deve procurar um coloproctologista para o diagnóstico preciso e a escolha do melhor tipo de tratamento”, alerta o médico.

Se quisermos evitar o surgimento ou mesmo a progressão da doença hemorroidária, devemos manter o nosso intestino saudável com um consumo adequado de fibras e líquidos, destaca o coloproctologista, associado a uma rotina de exercícios físicos.

“Além disso, é preciso evitar condições que ocasionem trauma local como o uso de papel para realizar a higiene local após evacuar (que idealmente deve ser realizada com ducha, bidê ou banho) e, finalmente, evitar permanecer sentado no vaso sanitário por longos períodos”, completa.

A coloproctologista Cristiane Koizimi Mamos Fernandes alerta que a doença hemorroidária tem tratamento, e começa com mudanças de hábitos de vida. Entre eles estão o aumento da ingestão de fibras dietéticas, como verduras, folhas, legumes crus, cercais e frutas; aumento da hidratação oral; atividades físicas regulares; assim como evitar ficar sentado no vaso sanitário por muito tempo.

Ela diz ainda que, se for preciso, é importante tratar com medicamentos ou mesmo com procedimentos realizados no consultório, como a ligadura elástica, ou até cirurgia (hemorroidectomia).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO QUE OS PAIS FALHAM AO LIDAR COM O SEXTING DOS FILHOS

Não adianta adotar um tom simplista e apenas dizer ‘ não’. É importante, advertem os estudiosos, saber ouvir e fazê-los falar

O sexting – compartilhamento digital de textos e imagens de conteúdo sexual explícito – está inextricavelmente entrelaçado à cultura da vida adolescente e vem se tomando cada vez mais comum e complexo nos últimos anos. No entanto, muitos pais e mães ainda adotam a abordagem simplista de dizer aos filhos: “Só digo não”.

Isso é um erro, de acordo com Carrie James e Emily Weinstein, pesquisadores de Harvard e coautoras de Behind Their Screens What Teens Are Facing (and Adults Are Missing), algo como Por Trás das Telinhas: O que os Jovens Estão Fazendo – e os Adultos não Estão Percebendo). “Dizer “não faça sexting” acaba com a conversa”, disse James. E, quando se trata de nudes, há muito para adolescentes, pais e mães conversarem. Em sua pesquisa, ela e Weinstein descobriram que adolescentes fazem sexting por vários motivos, alguns dos quais podem não ter ocorrido aos adultos, e que as garotas estão criando estratégias sofisticadas para desencorajar o vazamento de nudes.

“Uma das coisas que encontramos em nossas conversas com adolescentes é que muitos dos dilemas em torno do sexting são bem complicados”, cotou Weinstein, que, junto com James, é pesquisadora do Projeto Zero de Harvard, que explora temas em educação. “Se não estabelecermos essas conversas com os adolescentes, não os estaremos equipando para lidar com as pressões que estão enfrentando”. A seguir, o que pais e mães precisam saber sobre sexting e como conversar a respeito com os adolescentes.

É COMUM

Uma meta-análise de 2018 sobre pesquisas feitas antes de junho de 2016 mostra que cerca de 15% dos adolescentes haviam mandado mensagem de conteúdo sexual, 27% tinham recebido e 12% encaminhado sem consentimento. Outra de 2021 sobre estudos entre 2016 e o início de 2020 descobriu que 19% dos adolescentes haviam mandado essas mensagens, 35%, recebido e 15%, encaminhado sem consentimento.

Ambas, no entanto, analisaram estudos feitos antes da pandemia – e os lockdowns supostamente provocaram um aumento do sexting. De fato, isso se tornou uma preocupação tão grande que especialistas têm defendido incluí-lo nos currículos de educação sexual, descriminalizar o sexting consensual entre adolescentes e ensinar “sexting seguro”, aconselhando a excluir metadados, nunca fotografar o rosto ou características corporais.

É C0MPLICADO

Algumas das garotas com quem Weinstein e James conversaram em grupos de aconselhamento atuaram para reduzir as possibilidades de vazamento de seus nudes. Por exemplo, sobrepondo marcas d’água nas imagens com o nome do garoto a quem estavam enviando as fotos. Ou, em vez de enviar um nude, mandavam uma imagem do Google, capturando o resultado da pesquisa para mostrar que o corpo na foto não era delas, se a imagem fosse repassada. ”Carrie e eu ficamos pensando, porque nos dar esse trabalho todo? Porque não dizer simplesmente ‘não vou enviar foto para você’?”, questionou Weinstein. “E começamos a ver isso como uma espécie de tática de sobrevivência.”

Outra coisa que talvez não seja óbvia para pais e mães é a definição de sexting hoje. “Tendemos a usar uma palavra como sexting para pensar um tipo de situação na qual um garoto está pedindo nude a uma garota e ela precisa tomar uma decisão”, avaliou James. Mas uma meta análise de 2018 descobriu que a pesquisa sobre diferenças de gênero no envio de mensagens de conteúdo sexual é inconclusiva. E as pesquisas de James e Weinstein mostram que os jovens fazem sexting com uma ampla gama de pessoas por variadas razões. Eles às vezes acham o sexting excitante. Àsvezes, podem usá-lo para mostrar interesse por alguém. Em alguns casos, adolescentes mais velhos tiveram experiências de sexting em relacionamentos consensuais e de confiança. Eles qualificaram as advertências dos adultos sobre o sexting de “sem noção”.

As pesquisadoras também observaram que a comunicação digital íntima pode ser uma opção importante para jovens LGBT+ que estão explorando sua sexualidade e talvez não estejam prontos para fazê-lo em público.

Mas há muitos cenários em que os jovens fazem sexting sob pressão. Entre eles: estar sob ameaça ou coação para enviar a mensagem; ou não querer ferir os sentimentos de alguém.

Alguns dos cenários surpreenderam as pesquisadoras. Por exemplo, os pedidos de nudes de pessoas que eles veem só como amigos. Shelley Rutledge, psicóloga do Oregon, testemunhou o mesmo comportamento. Integrante de uma equipe de apoio a alunos, ela recomenda prepará-los para lidar com solicitações de imagens inadequadas assim que começam a usar a tecnologia. Não é uma situação única, contou ela. Pais e mães precisam monitorar a situação com frequência e trabalhar as “habilidades de recusa”.

Pais e mães também precisam entender que o compartilhamento consensual de imagens íntimas entre adolescentes não é mais visto como inapropriado para o desenvolvimento, afirmou Rutledge. Portanto, não é incomum que jovens de 13 a 18 anos estejam interessados no tema. No entanto, adolescentes são impulsivos e talvez não tenham capacidade de entender as consequências de suas ações ou acreditem na ideia de que suas experiências são únicas e que coisas ruins não vão acontecer com eles.

CONVERSANDO COM ADOLESCENTES

Então, como pais e mães podem descobrir o que está acontecendo no ambiente digital de seus filhos e conversar a respeito? Weinstein, James e Rutledge recomendam fazer perguntas abertas, evitando julgamentos e mantendo uma atitude de curiosidade. Por exemplo, você pode perguntar como é o sexting na escola, ou se os amigos de seus filhos estão falando sobre sexting.

Também é importante entender qual é a função do sexting para os adolescentes, observou Rutledge. Eles são tentados a fazer sexting porque querem fazer parte do grupo, salvar um a amizade? No caso, você pode trazer a conversa para o campo dos valores. Mas não basta ensinar os adolescentes a se defenderem de propostas sexuais inadequadas. Pais e mães também precisam dizer aos adolescentes porque não é seguro ou apropriado solicitar fotos. “Todos os gêneros pedem, todos os gêneros consentem, todos os gêneros podem explorar, todos os gêneros podem ser explorados”, concluiu Rutledge. “O importante é garantir que estamos tendo conversas inclusivas, explicando por que não é seguro oferecer uma imagem, mas também por que é muito, muito injusto pedir uma imagem.”

Finalmente, pais e mães devem assegurar aos filhos que eles podem pedir ajuda se o sexting der errado. Esta é outra razão, aponta Rutledge, pela qual é importante adotar uma abordagem calma, sem julgamento. Porque, no fim das contas, quando nossos filhos fazem uma má escolha ou estão sendo explorados e prejudicados, queremos que eles venham até nós.

OUTROS OLHARES

USUÁRIOS DE APPS DE RELACIONAMENTO RELATAM EXAUSTÃO MENTAL POR BUSCAS

Aniversário de 10 anos do Tinder levanta discussão sobre os impactos emocionais da procura por um par em plataformas

Abby, de 28 anos, está em aplicativos de namoro há oito. Como uma usuária comprometida, ela pode facilmente passar duas ou mais horas por dia acumulando matches, trocando mensagens e planejando encontros com homens que parecem promissores. Mas, na verdade, ela superou tudo: as buscas, as conversas monótonas e a dúvida que surge quando uma das combinações fracassa. Nem um único relacionamento de longo prazo floresceu de seus esforços. No entanto, apesar de tudo – o tempo, o tédio e as preocupações com a segurança – Abby se sente compelida a continuar tentando, impulsionada por uma mistura de otimismo e medo de que, se ela se desconectar, perderá a chance de conhecer alguém incrível. “Eu me sinto esgotada.”

O Tinder completou 10 anos em setembro, provocando um momento de reflexão coletiva sobre como os aplicativos remodelaram não apenas a cultura do namoro, mas também a vida emocional de quem os utiliza. Como Abby, muitos usuários assíduos dizem que anos de varredura e pesquisa os deixaram com um caso grave de esgotamento – uma palavra da moda, não clínica, emprestada da psicologia do local de trabalho que foi estendida a tópicos como paternidade e zoom. Como observou recentemente um artigo do The New York Times, as pessoas que sofrem com o esgotamento tendem a se sentir estressadas e cínicas. Para alguns, a única opção real é sair dos aplicativos de namoro; para outros, trata-se de encontrar pequenas formas de estabelecer limites.

“As pessoas simplesmente cansam. Elas ficam sobrecarregadas com todo o processo”, diz Helen Fisher, antropóloga biológica que é pesquisadora sênior do Instituto Kinsey e consultora científica do site de relacionamento Match.com.

EXPERIÊNCIA POSITIVA

Nem todas, claro. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2020 descobriu que 12% dos americanos se casaram ou tiveram um relacionamento sério com alguém que conheceram online, enquanto 57% daqueles que disseram ter tentado um aplicativo de namoro contaram que a experiência foi positiva.

“Acho importante ter em mente que a dinâmica da saúde mental em aplicativos de conexão varia muito de indivíduo para indivíduo”, pontua Jack Turban, professor assistente de psiquiatria infantil e adolescente da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que pesquisa gênero e sexualidade.

Segundo ele, os impactos na saúde mental dos aplicativos de namoro foram pouco estudados, mas muitas pessoas os usaram para encontrar comunidade e conexão com sucesso.

No entanto, há evidências de que a exaustão pode ser comum. Uma pesquisa de abril, com 500 pessoas, de 18 a 54 anos, feita pela empresa de análise de dados Singles Reports concluiu que quase 80% disseram que experimentaram desgaste emocional ou fadiga com o namoro online. Em 2016, a Match incluiu uma pergunta sobre fadiga em sua pesquisa anual com 5 mil americanos solteiros, onde cerca da metade dos entrevistados disseram que estavam esgotados com a vida amorosa.

“Depois de uma década de buscas infrutíferas, comecei a me perguntar: o que todo esse tempo, todo esse esforço, todo esse dinheiro, realmente me deu?”, questiona Shani Silver, de 40 anos, podcaster e autora do livro “A Single Revolution” (“Uma Revolução Solteira”, traduzida do inglês), cujo trabalho se concentra em mudar narrativas sociais negativas sobre ser solteiro.

Ela decidiu que esses aplicativos haviam tomado seu tempo, dinheiro e energia, sem lhe dar nada em troca. Então, em 26 de janeiro de 2019, Silver excluiu os apps de relacionamento de seu celular, uma decisão descrita por ela como uma espécie de epifania, que foi a “culminância de uma década de miséria”.

A melhora em seu humor e níveis de energia foi rápida e profunda. Antes de excluir os aplicativos, ela passava os momentos de inatividade deslizando perfis no celular; depois, ela descobriu que tinha tempo durante todo o dia para descansar. Ela percebeu que estava sentindo raiva e ressentimento em relação à felicidade dos outros, além de estar emocionalmente, mentalmente e fisicamente esgotada por existir em um estado de constante antecipação.

“Imagine esperar receber algo bom por anos”, diz Silver. “Viver nesse estado de “qualquer dia” por um período de tempo extremamente longo é incrivelmente insalubre.

Mas Turban acredita que simplesmente excluir os aplicativos não é suficiente.

“É importante entender por que os aplicativos estão causando problemas para você”, afirma ele, acrescentando que terapeutas podem ser úteis para ajudar a responder as seguintes questões. “Você tem medo de não conseguir o amor, então está se contentando com conexões, isso está te deixando infeliz? Além de examinar por que os aplicativos estão gerando sentimentos de insatisfação, também existem estratégias que os usuários podem tentar para se sentir menos esgotados enquanto permanecem online, uma delas pode ser simplesmente desacelerar e conversar com menos pessoas ao mesmo tempo.

Fisher recomenda que os usuários parem de conversar com outros pretendentes assim que encontrarem nove pessoas com as quais sentem algum nível de conexão e dediquem seu tempo realmente tentando conhecer essas primeiro. Ela aponta para pesquisas que sugerem que os sistemas de memória de curto prazo das pessoas não podem lidar com mais de cinco a nove estímulos ao mesmo tempo. Fisher acredita que isso pode ajudar a decidir com quais pessoas vale a pena gastar tempo e energia para se encontrar na vida real.

GESTÃO E CARREIRA

MOVIMENTO DO ‘QUIET QUITTING’ VIRA DESAFIO PARA A ÁREA DE RH DAS EMPRESAS

Tema virou debate nas redes sociais e questiona o comportamento de ‘vestir a camisa’ sem reconhecimento

Nos últimos dias, o brasileiro passou a lidar com mais um termo em inglês decorrente das atualizações das relações no mercado de trabalho: quiet quitting. A tradução literal é “demissão silenciosa”, mas, na prática, visa refletir a postura de profissionais que refutam a “vestir a camisa” sem o devido reconhecimento em prol da qualidade de vida e preservação da saúde mental.

A ideia é fazer apenas o que foi acordado no momento da contratação. Parece simples, mas o tema virou debate nas redes sociais, com questionamentos a respeito das possíveis posturas que as empresas poderiam adotar diante das reclamações de esgotamento e exploração, potencializadas no contexto pós-pandemia da covid-19.

Surgido nos Estados Unidos, o quiet quitting éuma atualização de quitting-in-place (desistir sem sair do lugar). O movimento ganhou força no TikTok, onde a hashtag acumula mais de 75,9milhões de visualizações.

Trata-se basicamente da tentativa de redefinir as relações de trabalho, em confronto com a cultura da alta performance. “É sobre impor limites e priorizar a sua saúde, é pensar a vida para além da profissão. A gente não vive só para gerar rendimento, e ter consciência de classe é fundamental”, resume a gerente de projetos, Bianca Rati, de 26 anos, adepta da ideia.

GRANDE RENÚNCIA

Impulsionada pelas gerações Z e Millenials, a tendência chegou em meio à chamada grande renúncia (Great Resignation) – movimento nos Estados Unidos iniciado por jovens ao compartilhar a saída dos empregos nas redes sociais. Só em março deste ano, 4,5 milhões de trabalhadores pediram demissão, segundo dados do Departamento do Trabalho dos EUA.

No Brasil, a tradução gerou estranhamento e críticas. “A pessoa está fazendo corpo mole para ser demitida e receber o FGTS: não faz nem sentido esse comentário porque é um termo que vem da indústria do trabalho dos EUA, né? E lá eles não têm FGTS”, prossegue a curitibana.

Nota-se nos adeptos que, como home office no período pandêmico, houve um despertar pela busca por mais qualidade de vida profissional e familiar, especialmente no que diz respeito à saúde mental. “Essa valorização do ‘trabalhe enquanto eles dormem’ é adoecedora. A covid nos mostrou o quanto isso não vale a pena. Na hora da crise econômica, muitas pessoas foram demitidas sem a menor consideração”, diz Bianca. Segundo ela, esse é um sistema que te pede para dar 110%, porém, se faz isso, não sobra nada para você, sua família e amigos.

PRESSÃO POR RESULTADOS.

Criador da página Startup da Real – iniciativa que desde 2017 debate os bastidores do empreendedorismo -, Alberto Brandão, de 37 anos, concorda que a pressão das empresas para que os funcionários gerem resultados, muitas vezes, não é proporcional ao reconhecimento.

“É claro que, em certos momentos, todo mundo vai precisar ficar até tarde, resolver alguma pendência. É completamente tranquilo e compreensível. O que não dá é para fazer três horas extras todos os dias”, pondera. Para Brandão, a ideia não é prejudicar as empresas, mas, sim, estabelecer limites claros onde uma coisa “começa e termina”.

Na busca de entender os anseios dos trabalhadores no cenário pós-pandemia, em que questões até então relegadas ganharam destaques, a pesquisa Randstad Workmonitor, divulgada em abril de 2022, pela Randstad – empresa fundada em 1960 para trazer soluções e consultorias em recursos humanos – ouviu 35 mil profissionais.

A coleta de informações ocorreu em 34 países com pessoas entre 15 e 67 anos. Para os brasileiros, um ponto importante é flexibilidade. Enquanto ter mais liberdade em termos de localização é fundamental para 71% dos funcionários em nível global, no Brasil o índice é de 85%.

Nessa linha, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional representou para 97% o aspecto fundamental na hora de decidir pela permanência ou mudança de trabalho – contra 94% do global. Além disso, 41% dos profissionais no País (versus 34% global) afirmaram que sairiam de um emprego que impactasse a rotina diária. Ou seja, o pensamento sobre quiet quitting jáestá presente na postura de muitas pessoas.

“A verdade é que as empresas não estão sendo pegas de surpresa; já estavam observando esse pico de desemprego. É uma reclamação constante da população mais qualificada; daqueles que têm ensino superior”, afirma Diogo Forghieri, diretor de Talent Solutions da Randstad Brasil.

PEDIDO DE DEMISSÃO

Levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, com dados do Caged, mostrou que entre janeiro e maio deste ano, 2,9 milhões de brasileiros pediram para deixar o serviço, maior número da série histórica iniciada em 2005. “Será cada vez mais difícil atrair talentos da nova geração com esse formato de exaustão mantido pelas companhias”, destaca o executivo.

Para Forghieri, as organizações precisam reescrever as regras do mercado, entendendo que os valores pessoais dos funcionários são pontos importantes, e não “uma onda passageira”. “É necessário sentar e ouvir os incômodos. Não tentar adivinhar, nem reprimir. Criação de grupos de afinidades também é importante”, reforça.

Além disso, jornada reduzida, semana de quatro dias, horários flexíveis e sistema híbrido seriam alguns pontos a serem observados para ter impacto cada vez maior no bem­ estar da família, e não só do indivíduo.

Já a líder de Recursos Humanos da Sólides, empresa de RH para PMEs e gestão de pessoas, Távira Magalhães, defende que a precaução como mecanismo para evitar o quiet quitting. “As companhias devem entender o perfil comportamental dos seus funcionários, observando as atividades que realizam hoje. Isso evitaria o esgotamento.”

Contudo, para tratar a consequência, ela aposta na conversa ”clara e transparente”, em que o cenário de segurança psicológica esteja posto. “É o grande desafio. Cabe ao colaborador entender quais são seus desejos e expectativas, e ao empregador buscar oferecer condições justas para executarem as funções com mais desempenho e sem desgastes, além de um espaço confiável para poderem falar abertamente sobre o assumo.”

EU ACHO …

ANTI-NUTRICÍDIO

Você já passou pela angustiante sensação de ouvir seu estômago roncando de fome em algum momento do dia? Imagine, então, pessoas que vivem esta situação não como algo passageiro, mas como uma condição.

No Brasil de hoje, 6 em cada 10 famílias não têm acesso à comida. Ou seja, vivem algum tipo de insegurança alimentar. São mais de 30 milhões de pessoas nesta situação. A insegurança alimentar passou a ocupar cada vez mais as manchetes dos noticiários, resultado de uma crise econômica que tem levado milhões de pessoas a situações desumanas.

De acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, lançado em junho deste ano, a fome também tem cor. Cerca de 65% dos lares chefiados por pessoas pretas e pardas convivem com algum tipo de insegurança alimentar.

Além desse grande problema, a dificuldade de acesso a alimentos com alto valor nutricional é outra questão enfrentada por boa parte da população. Esse problema não é só do Brasil. Ele vem afetando pessoas em várias partes do planeta, em diferentes escalas. Inclusive, o Dr. Llaila O Afrika cunhou um termo para se referir a ele: nutricídio. Ou genocídio alimentar.

Aqui não estou falando sobre comer um cachorro-quente, um biscoito recheado ou outros alimentos embalados, processados e pouco saudáveis de vez em quando. Refiro-me em substituir refeições inteiras, que teriam porções de legumes e verduras, por falta de acesso a opções e informações sobre aquelas que são mais saudáveis. O aumento no preço dos alimentos, especialmente, os in natura, como legumes e verduras, o crescimento de ultraprocessados nas prateleiras dos mercado se o aumento da quantidade de agrotóxicos permitida nos alimentos ajudaram no agravamento desse quadro de má nutrição.

Além disso, essa prática da substituição de alimentos por outros mais acessíveis ou do corte de refeições por falta de condições também apaga hábitos alimentícios.

É importante ressaltar que o ato de comer determinados pratos faz parte da nossa cultura. É parte da dignidade humana.

Também vemos nesse contexto um importante aumento da dependência da indústria farmacêutica, já que uma dieta precarizada facilita a manifestação de diversas doenças, como diabetes e hipertensão, por exemplo. É um ciclo que desencadeia outro.

Quando falamos em desertos alimentares, é preciso considerar também que não são todos os lugares que têm feiras, hortifrútis ou mercados bem pertinho.

Algo muito óbvio para alguns e pouco óbvio para tantos. São verdadeiros desertos de opções, obrigando a população desses locais a se deslocarem em busca de alimentos mais saudáveis ou consumir as opções mais próximas e baratas, que na maior parte das vezes é proveniente de fast foods.

Temos que lembrar que o nutricídio e os desertos alimentares não são problemas de ordem individual, mas sim coletiva, de saúde pública e que demandam políticas para que sejam resolvidos.

Você, assim como eu, também já deve estar cansado de precisar continuar batendo na mesma tecla de direitos tão básicos. Mas, infelizmente, precisaremos insistir nela enquanto for esta a realidade.

O acesso à alimentação adequada e à informação deve ser um direito garantido. Não podemos naturalizar a escassez e desigualdade como regras.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

CAMINHAR SÓ 2 MINUTOS DEPOIS DO ALMOÇO FAZ BEM

Um novo artigo sugere que é preciso muito menos exercido do que se pensava anteriormente para reduzir o açúcar no sangue depois de comer

Caminhar depois de uma refeição, diz a sabedoria popular, ajuda a esvaziar a mente e auxilia na digestão. Os cientistas também descobriram que caminhar 15 minutos após uma refeição pode reduzir os níveis de açúcar no sangue, o que ajudaria a evitar complicações como a diabete tipo 2. Mas, ao que parece, apenas alguns minutos de caminhada já podem ativar esses benefícios.

Em uma meta-análise, publicada recentemente na revista Sports Medicine, os pesquisadores analisaram os resultados de sete estudos que compararam os efeitos de sentar versus ficar em pé ou caminhar com relação à saúde do coração, incluindo níveis de insulina e açúcar no sangue. Eles descobriram que a caminhada leve após uma refeição, de apenas dois a cinco minutos, teve um impacto significativo na moderação dos níveis de açúcar no sangue. ”Cada pequena coisa que você fizer trará benefícios, mesmo que seja um pequeno passo”, disse o dr. Kershaw Patel, cardiologista preventivo do Houston Methodist Hospital, que não participou do estudo.

CAMINHADAS MUITO LEVES REDUZEM OS NÍVEIS DE AÇÚCAR

 Em cinco dos estudos que o artigo avaliou, nenhum dos participantes tinha pré-diabete ou diabete tipo 2. Os dois estudos restantes analisaram pessoas com e sem essas doenças. Os participantes tiveram de ficar em pé ou caminhar por dois a cinco minutos a cada 20 a 30 minutos ao longo de um dia inteiro.

Todos os sete estudos mostraram que apenas alguns minutos de caminhada leve após uma refeição foram suficientes para melhorar significativamente os níveis de açúcar no sangue em comparação com, digamos, sentar diante de uma mesa ou no sofá. Quando os participantes fizeram uma caminhada curta, seus níveis de açúcar no sangue subiram e caíram mais gradualmente.

Para pessoas com diabete, evitar flutuações agudas nos níveis de açúcar é um componente essencial no gerenciamento de sua doença. Também se acredita que picos e quedas nos níveis de açúcar no sangue podem contribuir para o desenvolvimento de diabete tipo 2.

Ficar em pé ajudou a baixar o açúcar no sangue, embora não tanto quanto a caminhada leve. “Ficar de pé trouxe um pequeno benefício”, contou Aidan Buffey, estudante de pós-graduação da Universidade de Limerick, na Irlanda, e autor do artigo. Comparado a sentar ou ficar em pé, “a caminhada leve foi urna intervenção superior”, ele garantiu.

Isso porque a caminhada leve requer um envolvimento mais ativo dos músculos do que ficar em pé e usa o combustível dos alimentos em um momento em que há muito circulando na corrente sanguínea. “Seus músculos vão absorver um pouco desse excesso de glicose”, explicou Jessie Inchauspé, autora do livro Glucose Revoltuion: The Life-Changing Power of Balance Your Blood Sugar.

“Você ainda comeu a mesma refeição, mas o impacto em seu corpo será menor”, ela acrescentou.

ANDAR DE 60 A 90 MINUTOS PODE SER AINDA MELHOR

Embora a caminhada leve a qualquer momento seja boa para a saúde, uma caminhada curta dentro de 60 a 90 minutos após uma refeição pode ser especialmente útil para minimizar os picos de açúcar no sangue, pois é quando esses níveis tendem a atingir o pico.

lnchauspé recomendou ainda levantar para fazer as tarefas domésticas ou achar outras maneiras de movimentar o corpo. Essa pequena quantidade de atividade também melhorará outras alterações na dieta que as pessoas podem estar fazendo para ajudar a controlar seus níveis de açúcar no sangue.

“Movimentar-se um pouco vale a pena e pode levar a mudanças mensuráveis, como esses estudos mostraram, em seus marcadores de saúde”, ensinou o dr. Enan Ashley, cardiologista da Universidade Stanford que não esteve associado ao estudo.

MINI CAMINHADAS SÃO MAIS PRÁTICAS NOS DIAS DE TRABALHO

 Buffey, cuja pesquisa se concentra em intervenções de atividade física em ambientes de trabalho, observou que uma mini caminhada de dois a três minutos é mais prática durante os dias de trabalho. As pessoas “não vão se levantar e correr em uma esteira ou correr pelo escritório”, ele adiantou, mas podem ir tomar um café ou dar um passeio pelo corredor.

Para as pessoas que trabalham em casa, ele sugeriu uma curta caminhada pelo quarteirão entre as reuniões do Zoom ou depois do almoço. Quanto mais normalizarmos as mini caminhadas durante os dias de trabalho, avaliou Buffey, mais viáveis elas serão. “Se você está em um ambiente rígido, é aí que as dificuldades podem surgir.”

Se você não pode tirar esses poucos minutos para dar uma caminhada, ressaltou Ashley, “ficar de pé vai te ajudar um pouco”. Os benefícios da atividade física nunca são tudo ou nada, concluiu Patel, mas existem em um continuum. “É um efeito gradual de mais atividade, saúde melhor”, completou. ”Cada passo adicional, cada levantada adicional ou caminhada rápida parece trazer um benefício”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

‘AS CINCO LINGUAGENS DO AMOR’ ACONSELHA CASAIS APÓS 30 ANOS

Livro escrito por Gary Chapman mostra como as pessoas dão e recebem afeto

Nem sempre foi assim. Houve uma época em que as palavras “amor” e “linguagem” raramente eram usadas juntas, e certamente não como uma locução. Então, três décadas atrás, Gary Chapman, pastor batista de 50 anos com doutorado em educação de adultos, introduziu o conceito ao mundo com seu livro seminal “As Cinco Linguagens do Amor: O Segredo do Amor Duradouro”.

Chapman explicou que as pessoas têm diferentes maneiras de expressar e entender o amor. Para fazer sua cara-metade sentir-se amada, é preciso simplesmente falar a linguagem dela. Como observa a introdução do livro:

Chapman baseou as cinco linguagens do amor nas evidências empíricas que descobriu enquanto trabalhava como conselheiro matrimonial por mais de 20 anos em sua igreja.

As linguagens são as palavras de afirmação (elogios verbais), tempo de qualidade (fazer alguma coisa juntos e ficar atento naquele momento), receber presentes (qualquer coisa, desde um buquê de flores até presentes mais significativos), prestar serviço (ajudar seu companheiro com tarefas ou preparar uma refeição) e toque físico (ficar de mãos dadas, fazer sexo e gestos de carinho).

Nos anos passados desde que o livro foi publicado, o termo “linguagem do amor” passou a ser usado tão livremente que se desligou de seu criador. Converteu-se num fenômeno cultural e foi introduzido como um indicativo de qualquer coisa que dá alegria a uma pessoa.

“Por mais que eu soubesse sobreas linguagens do amor, eu não conhecia a pessoa por trás delas”, comentou a humorista Kasey Borger, que, com seu noivo, James Folta, coescreveu uma lista satírica de novas linguagens do amor para o site de humor McSweeney’s (como “falar de como foi o trajeto até seu trabalho”). A explosão cultural foi inesperada para Chapman, que está com 80 anos hoje. “Estou tão surpreso quanto você”, ele disse em entrevista recente. Mas, apesar do entusiasmo todo, ele não crê que alguém tenha descoberto uma sexta linguagem do amor.

Um ano após se formar no Wheaton College, em 1960, Chapman se casou com Karolyn, que cresceu em China Grove, Carolina do Norte, como ele, e ia à mesma igreja. Quando eles se conheceram, Chapman estava saindo com a melhor amiga dela.

Em 1967 o casal se mudou para Winston-Salem, Carolina do Norte, onde ele tornou-se pastor e começou a dar aulas de educação adulta cobrindo conselhos práticos sobre temas como planejamento financeiro. Nesses cursos, ele falava do casamento e da família, e casais que estavam passando por dificuldades vinham lhe pedir conselhos. “Fui meio que empurrado para dar aconselhamento. Isso nem sequer constava dos meus deveres quando me tornei pastor”, afirma.

Chapman contou que, ao mesmo tempo em que em sua vida profissional ele ajudava outros casais, seu próprio casamento passava por momentos difíceis. Ele e Karolyn discutiam furiosamente sobre coisas sem importância. Karolyn, por exemplo, nunca fechava as gavetas e as portas de armários, e isso o irritava. E ela esperava que ele fizesse sua justa parcela das tarefas domésticas, coisa que Chapman não fazia.

“Eu dizia à Karolyn que ela estava bonita, que eu apreciava tudo que ela fazia. Repetia o tempo todo ‘te amo, te amo, te amo’”, ele contou. “Mas uma noite ela me disse: ‘Você não para de dizer que me ama, mas se me ama mesmo, por que não me ajuda?’”. Aquele foi o momento “eureca”: Chapman percebeu que aquilo que ele apreciava num relacionamento era receber elogios (ou palavras de afirmação), coisa que ele contou que recebera de seus pais quando era criança. Isso não tinha a mesma importância para sua esposa: ela valorizava atos de serviço.

Chapman notou que os casais que buscavam sua ajuda na igreja pareciam ter o mesmo problema: não sabiam como expressar amor de uma maneira que a outra pessoa apreciasse. Em um dos exemplos que ele incluiu no livro, uma mulher chegou à sala de atendimento dele frustrada porque seu marido vivia adiando o momento de pintar as paredes do quarto deles.

Ele, então, sugeriu: “Da próxima vez que seu marido fizer qualquer coisa boa, faça-lhe um elogio verbal. Se ele levar o lixo para fora, por exemplo, diga “Dan, quero que você saiba que eu realmente aprecio você levar o lixo para fora.” Três semanas depois a mulher voltou para dizer a Chapman que o plano funcionara. A linguagem de amor de seu marido era a das palavras gentis e afirmações positivas. O pastor batista foi juntando suas anotações feitas ao longo do tempo e procurando padrões que se repetissem. Descobriu que as coisas que a maioria das pessoas dizia querer de seus parceiros se enquadravam nas cinco categorias amplas sobre as quais ele escreveria em seu livro. E em outubro de 1992 nasceu “As Cinco Linguagens do Amor”. O livro teve pouca repercussão naquele primeiro ano, vendendo apenas cerca de 8.400 exemplares. Mas pouco a pouco, cada vez mais pessoas começaram a comprá-lo. “Meu editor me disse que o livro vende mais cópias a cada ano que passa”, comentou Chapman. De acordo com a editora, Moody Publishers, o livro já vendeu mais de 20 milhões de cópias (incluindo versões impressas, eletrônicas e em áudio).

Hoje existem meia dúzia de versões voltadas a públicos diversos, incluindo “As Cinco Linguagens do Amor para Homens”, “As Cinco Linguagens do Amor das Crianças”. Chapman apresenta um podcast semanal de uma hora de duração e também “Marriage Conferences”, seminários de um dia promovidos em igrejas espalhadas pelos Estados Unidos com a finalidade de ajudar casais a entenderem os elementos básicos das linguagens do amor. Cerca de mil pessoas assistiram à sua conferência mais recente, que aconteceu em Winston-Salem em abril deste ano. Ele criou um quis simples de múltipla escolha para ajudar as pessoas a entenderem sua própria linguagem do amor e a dos seus parceiros. Oprah Winfrey respondeu ao quis ao vivo quando ele compareceu ao “Oprah’s Lifeclass” em 2013. Questionada se ela apreciaria se seu parceiro a ajudasse a faxinar a casa, Oprah Winfrey parou para pensar. E então disse a Chapman, que estava sentado ao seu lado e achou graça da resposta: “Acho que faxinar a casa é o número um, dois e três das preliminares”.

Entre outros terapeutas conjugais destacados, as opiniões sobre o trabalho de Chapman se dividem. Julie Gottman, psicóloga clínica e co-fundadora do Instituto Gottman, de Seattle, disse que o livro de Chapman “pressupõe que as pessoas não sejam capazes de aprender maneiras diferentes de expressar o amor”.

“As categorias são superficiais e rígidas. As pessoas são muito mais flexíveis do que ‘As Cinco Linguagens do Amor’ supõe que sejam”, disse ela.

Gottman usou o toque físico como exemplo. Se uma pessoa se sente incomodada com a intimidade, ela disse que seria importante entender por que isso deixa a pessoa incomodada.

“Talvez ela tenha sido muito pouco tocada fisicamente na primeira infância ou talvez tenha sido tocada demais”, ela disse. “Talvez tenha sofrido abuso físico ou sexual.”

Contudo, ela disse, existem maneiras de introduzir alguém ao contato físico que ela sinta como sendo seguras, afetuosas e calorosas. O toque físico pode não ter sido a linguagem do amor daquela pessoa, mas pode se tornar sua linguagem. As pessoas podem evoluir em termos de como expressam e recebem amor. As cinco linguagens não são imutáveis.

Outra crítica feita ao trabalho de Chapman é que ele é baseado na observação de casais que o procuraram para buscar ajuda. Até agora há poucas evidências científicas que fundamentem seu trabalho. E sua formação acadêmica e seu doutorado são em antropologia e educação de adultos, não psicologia.

Para Orna Guralnik, a psicóloga principal da série “Couples Therapy”, a falta de evidências científicas não é um fator decisivo. “É o que chamamos de validade concreta: se não fosse útil para as pessoas, se não refletisse alguma coisa que tem importância, já teria desaparecido”, ela disse.

OUTROS OLHARES

O FEMINISMO SE OLHA NO ESPELHO

Militantes radicais, as radfems, e ativistas que brigam pela inclusão da transexualidade na luta travam discussões fortes sobre os conceitos de sexo e gênero, discordando ao tentar entender o que é ser uma mulher

Conceitos de sexo e gênero se embaralham dentro do movimento feminista, opondo as militantes radicais, chamadas radfems, e os ativistas que lutam para incluir transexuais, pessoas não binárias e outras denominações debaixo de um mesmo guarda-chuva.

“Feministas radicais [que falam que pessoas trans endossam o sexismo] geralmente estão se referindo a mulheres trans que performam feminilidade”, diz o escritor. “Mas a comunidade trans é diversa, há pessoas não binárias, mulheres e homens trans que são dissidentes de gênero e não concordam com esses estereótipos.”

A socióloga e cientista política Jacqueline Pitanguy, autora de “Feminismo no Brasil”, afirma que embates, assim como fusões, entre movimentos sociais são comuns na história.

“O feminismo tem uma composição complexa da luta política”, afirma Pitanguy. “E é a partir da elaboração teórica de conceitos como sexo e gênero que estudamos relações de poder de uma sociedade.”

Segundo Andreia Nobre, autora de “Guia (Mal-Humorado) do Feminismo Radical”, as críticas contra o movimento radfem são, na maioria das vezes, “uma caça às bruxas”. Ela classifica como preocupante o fato de haver “mulheres sendo chamadas de transfóbicas simplesmente por falarem de anatomia feminina”.

Além disso, Nobre diz que o ativismo trans esbarra na luta por direitos femininos. “Se gênero é um sentimento e algo fluido, o que será das políticas de proteção às mulheres?”, questiona. Ainda nessa linha, pergunta quais critérios podem ser adotados para definir o gênero de acusados de feminicídio, já que cada vez mais há adeptos da ideia de que ter um pênis não é, necessariamente, sinônimo para definir alguém como homem.

Advogados entendem que o feminicídio se trata de um assassinato cometido contra uma mulher em decorrência do fato de ela ser mulher, independentemente de como o criminoso é identificado.

Lucy Delap, a historiadora, defende que o debate sobre gênero seja feito longe dos ringues da chamada cultura do cancelamento. “Há todas as oportunidades para debatermos o assunto e, ao mesmo tempo, temermos a ideia de uma completa ruptura entre feministas e pessoas queer [termo que, neste contexto, se refere a quem não é cisgênero].”

Ainda que a fala dela sobre uma possível harmonia possa parecer utópica, ou até mesmo rasa, há quem compactue com a ideia. Um exemplo é a socióloga britânica Finn Mackay.

 Em entrevista por e-mail, Mackay – que refere a si tanto no feminino quanto no masculino – afirma que se define como “radfem trans masculina”. “Não fiz nenhuma transição social, legal ou médica, então, nunca me identificaria com o homem trans”, diz. “Sou criticada por quem sugere que não mereço me chamar de feminista, porque apoio os direitos trans.”

A socióloga conta que as críticas contra ela surgem mais nas redes sociais, ambiente que ela diz ter deixado o debate polarizado. “Isso impede as pessoas de discutir, aprender e conversarem”, afirma. “Mas é importante também não apoiarmos pontos de vista hostis e excludentes.”

Mackay lembra Judith Butler e a radfem Andrea Dworkin para dizer ainda que, apesar de divergências, há também semelhanças na maneira pela qual a teoria queer e o feminismo radical veem o gênero – a partir da compreensão de que ele surge como construção social e prejudica não só mulheres, como também homens, ainda que num grau diferente. A socióloga, assim como as radfems e parte dos ativistas trans, acredita que a solução para o sexismo seria a abolição dos papéis de gênero, o que viria a acontecer num longo processo histórico. “É claro que há radfems transfóbicas e ativistas trans misóginos, mas toda essa discussão não deveria ser reduzida a uma luta entre feministas e ativistas trans”, defende Mackay, que sugere autocríticas a ambos os grupos.

“O ativismo queer precisa reconhecer os efeitos da socialização. Mulheres são treinadas desde a infância para serem cautelosas com homens em espaços femininos. Então aquelas [que são contra a presença de pessoas com pênis nesses locais] podem estar apenas lidando com a socialização, num sistema que as culpa pela violência masculina”, afirma. “Mulheres trans são, desproporcionalmente, afetadas pela violência sexual e pelo abuso doméstico”, ela diz, lembrando que esse é um ponto que precisa ser reconhecido pelo movimento radfem. “É uma questão em que todos deveríamos estar lutando juntos.”

GESTÃO E CARREIRA

VANTAGENS  PARA QUEM TEM E-COMMERCE OU ATUA EM MARKETPLACES

Em meio ao estabelecimento do e-commerce e também dos marketplaces, como Mercado Livre e Shopee, esse modelo de negócio se tornou uma opção cada vez mais atrativa para empreendedores de diversos setores, especialmente PMEs.

No entanto, optar por empreender vendendo produtos online, sendo por loja própria ou revenda em plataformas, não elimina a necessidade de formalização com CNPJ.

Entre as soluções para formalizar um negócio de vendas online está o Escritório Virtual (EV), que tem facilitado as operações de centenas de CNPJs no Brasil. De acordo com o CEO da Company Hero, Miklos Grof, a vantagem básica da solução está em se encaixar nas exigências atuais do mercado, principalmente com o movimento mais recente dos marketplaces priorizando em suas plataformas os vendedores com CNPJ.

“Há ambientes de revenda online que bloqueiam aqueles que atuam com o próprio CPF e ultrapassam o limite do faturamento permitido. Isso sem mencionar o quanto fica mais caro para o comerciante, pois as taxas aplicadas aos itens comercializados nesses casos são bem mais altas”, pontua. “Situações como essas mostram que a tendência do mercado é beneficiar mais vendedores com empresas formalizadas, o que se reflete na visibilidade de produtos e, consequentemente, no engajamento de clientes”, complementa.

Com exceção do MEI, toda empresa precisa vincular um endereço fiscal que seja legalizado pelas juntas comerciais em seus registros de CNPJ, por questões ligadas ao Fisco e para que o estado possa se comunicar e localizar o seu negócio quando for necessário. “Muitos empreendedores não sabem que o CNPJ pode ser bloqueado já no momento de abertura, caso o endereço seja residencial ou não permitido pelos critérios da junta comercial estadual”, explica Grof.

“Além disso, em alguns casos, o escritório contábil contratado para abrir o CNPJ empresta o endereço próprio para vincular à empresa do seu cliente, o que não é ideal, já que amarra a empresa a um prestador de serviços. Há também cenários com pessoas que começam vendendo em marketplaces com o CPF, mas que rapidamente estouram o faturamento permitido e perdem vendas”, completa.

O Escritório Virtual impede que esses problemas cheguem ao empreendedor por se tratar da regularização do endereço fiscal e comercial da empresa, sem que haja a necessidade dela operar fisicamente naquele CEP. Ou seja, toda a operação do e-commerce acontece em qualquer outro lugar, mas possui aquele local como o seu endereço legal.

A solução também gera vantagens que podem ser de- terminantes para o crescimento dos comércios virtuais. A Company Hero separou seis delas, confira:

ASSERTIVIDADE – Basicamente, o único pré-requisito para a utilização do Escritório Virtual por e-commerces e vendedores de marketplaces é a Inscrição Estadual, que permite o recolhimento do ICMS e a emissão da Nota Fiscal de Produto (NF-e).

A liberação do documento é feita pela prefeitura responsável, mas não tende a encontrar grandes obstáculos; a chance do respectivo CNPJ ser negado pelo estado é muito menor nesse formato, pois não traz possíveis empecilhos que o endereço físico pode ter devido a outros critérios de aprovação.

Com a necessidade da Inscrição Estadual vinculada àquela empresa de comércio, o nosso time responsável realiza uma consulta de viabilidade. Assim, a empresa só paga pela solução com a garantia de que o processo vai dar certo”, afirma Grof.

É uma alternativa que praticamente não carrega imprevisibilidades que podem impactar no andamento dos negócios, como é o caso de empreendedores que têm pressa para se formalizar e precisam começar a emitir notas fiscais o mais rápido possível, porém podem ter o CNPJ negado por conta do endereço, visto que para algumas atividades não é possível abrir em bairros residenciais.

ACESSIBILIDADE – Quem quer vender online se depara com a dúvida se alugar salas e espaços físicos para ter um domicílio fiscal válido é realmente a única alternativa para formalizar seu CNPJ. Contudo, na grande maioria das vezes, eles não utilizam esses ambientes, ou simplesmente atuam na irregularidade para reduzir custos fixos, o que é muito arriscado e não recomendado.

O aluguel mensal de uma sala não fica por menos de R$ 1.500,00, sem acrescentar todos os custos fixos de manutenção, luz, condomínio etc. Já com o Escritório Virtual, os gastos são muito reduzidos: o valor de assinatura deste serviço por um ano equivale ao aluguel de apenas um mês de uma sala comercial.

Isso representa um custo fixo 10 a 15 vezes menor, dependendo da região onde a empresa opera. Logo, é um preço mais acessível e justo, que não compromete a saúde financeira da companhia.

SEGURANÇA – A separação da vida pessoal e profissional é um grande desafio para os iniciantes no e-commerce e, a depender do endereço cadastrado no CNPJ, o empreendedor pode correr alguns riscos desnecessários nesse a sentido. A principal razão disso é o fácil acesso aos dados do cadastro online do CNPJ, que permite localizar o endereço de qualquer empresa.

Imagine se alguém bate na porta da sua casa para querer saber de uma compra em atraso. Ou pior, se algum criminoso realiza uma tentativa de roubo por associar que seu e-commerce tem grande volume em mercadorias. São situações suscetíveis a acontecer para quem está começando uma jornada nas vendas de produtos online, mas quer podem ser facilmente evitadas com o Escritório Virtual.

CREDIBILIDADE – O comércio online implica um desafio maior de gerar transparência ao consumidor por não possuir um ambiente físico para poder comprovar sua existência e veracidade como uma loja física.

Dessa forma, se um cliente quer comprar o produto de uma determinada marca por esse meio e, ao pesquisar o endereço da mesma, se depara com um imóvel residencial, a credibilidade da empresa fica em risco, pois pode transmitir uma certa suspeita.

Com o Escritório Virtual, e-commerces podem registrar endereços fiscais e comerciais em prédios de renome em várias regiões, o que aumenta consideravelmente a confiança do cliente para prosseguir com a compra.

PRATICIDADE – Por fim, o Escritório Virtual é a opção mais prática para que a empresa possa atender suas obrigações legais sem que ela pare de funcionar ou opere

o faturamento com limitações. Com a solução, o empreendedor recebe de forma 100% virtual todos os documentos referentes à formalização fiscal, como IPTU, alvará dos bombeiros, habite-se e outros.

“Além disso, o serviço garante a gestão de correspondências otimizada, poupando o empreendedor de burocracias cotidianas. Portanto, com o Escritório Virtual é possível vender online mantendo o CNPJ em dia com as exigências fiscais, garantindo a segurança de que a empresa está legalizada para crescer e faturar sem restrições”, conclui o CEO. – Fonte e mais informações

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ORGASMO COMO META PODE TORNAR SEXO MENOS PRAZEROSO Especialistas afirmam que a experiência sexual completa deve ser satisfatória

Gozar, ejacular, chegar ao orgasmo uma, duas ou três vezes pode ser bom, mas não é sinônimo de ter uma vida sexual cheia de qualidade e satisfação. A cobrança por performance pode transformar esse prazer em obrigação e pressão.

Especialistas lembram que atingir o clímax não deve ser o objetivo final do sexo, mas sim a busca por aproveitar a experiência sexual como um todo.

Um orgasmo nada mais é do que uma das fases do ciclo de resposta sexual que independe do gênero da pessoa e representa, ao mesmo tempo, o pico, o alívio e o fim de uma tensão sexual, afirma Teresa Embiruçu, médica ginecologista do Ambulatório de Sexualidade da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sexóloga pela Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

“Às vezes a pessoa deflagra essa descarga da energia sexual, mas é quase um orgasmo mecânico. Você pode chegar ao orgasmo físico e ter a sensação que aquela relação não foi tão legal”, diz a ginecologista. “Uma relação sexual prazerosa se define não pela presença ou ausência do orgasmo, mas pela conclusão de que aquele contato foi bom como um todo.”

Fatores como gênero e orientação sexual, assim como as expectativas e os estigmas relacionados a diferentes grupos sociais também podem atravessar a qualidade do prazer.

Uma pesquisa americana divulgada no Archive of Sexual Behavior aponta que, enquanto 95% dos homens heterossexuais alcançam o orgasmo em todas as relações, apenas 65% das mulheres heterossexuais dizem o mesmo. Já no caso de mulheres lésbicas, essa porcentagem chega a 86%. Jacy Lima, criadora de conteúdo sobre saúde íntima e sexualidade, destaca que “a corrida pelo orgasmo” gera pressões. “Estar numa relação sexual pensando só que tem que gozar, que tem que agradar, não ajuda. Hoje eu prezo muito pelo meu prazer durante o sexo. Se eu atingir ou não o orgasmo, tanto faz, eu tenho que sair dali satisfeita”, afirma.

Cultivar uma relação de qualidade com o corpo e o prazer também significa superar traumas. Jacy, que foi abusada sexualmente dos 5 aos 8 anos, reforça que garantias de direitos básicos e de bem-estar são pré-requisitos para o cultivo do prazer individual. “Não adianta eu tentar empoderar uma mulher empurrando um vibrador e cobrando um orgasmo. A gente precisa entender o que é importante para aquela mulher. Às vezes ela precisa lidar com traumas, com violências sexuais sofridas, questões religiosas, problemas de autoestima ou falas depreciativas que ouviu a vida inteira.”

Do outro lado estão os homens heterossexuais e cisgênero, que possuem alto índice de orgasmo por relação sexual. No entanto, uma vez que orgasmo não representa métrica de qualidade, será que eles têm uma boa relação com o prazer?

O médico urologista Osei Akuamoa Jr., especialista em saúde do homem e cirurgias minimamente invasivas, afirma que a frequência sexual do homem brasileiro é boa, mas isso não indica qualidade.

“O universo de disfunções erétil e ejaculatória entre os homens é muito grande. Temos dados de que 40% dos pacientes que iniciam as atividades sexuais enfrentam alguma dificuldade, e isso tem muito a ver com os conceitos de performance e de masculinidade”, diz.

Rodrigo Roque Rabelo, 40, projetista e coordenador do grupo Respeito Todo Dia, que discute masculinidade, conta que cresceu acreditando nessas metas de performance e que, no passado, pensava que o bom era a quantidade.

“Depois de um tempo, com a idade, você entende que não é uma questão de alta performance. Se antes eu tentava várias, hoje é uma. Mas com certeza essa uma é de maior qualidade. Eu gosto muito mais do ato em si. Para mim o foco é o caminho, não a chegada.” Segundo a médica Teresa Embiruçu, tentar explorar e alcançar mais orgasmos pode ser saudável, mas é preciso entender de que forma isso é feito. É importante que as pessoas ampliem seus repertórios, busquem se explorar e se conhecer. O que não é ideal é fazer disso uma obrigação, uma norma que, caso não seja atendida, se converta em frustração.

Ela também chama atenção para uma segunda etapa do desafio: quando as pessoas conseguem desenvolver uma boa relação com o próprio prazer, mas ainda precisam comunicar aos parceiros. “Existe a dificuldade de falar de que jeito a pessoa gosta, com medo de desagradar o outro, com medo do julgamento. E se o outro me perguntar onde eu aprendi isso? Tem pessoas com pênis que gostam de ser tocadas na região anal, mas como numa relação heterossexual você conta isso para sua parceira? Eu vou colocar meu relacionamento em risco porque eu quero fazer um sexo diferente?”

Para Jacy Lima, esta é uma oportunidade para pensar e cultivar o bem- estar de todas as pessoas, indo além do sexual. “Ninguém vai ter prazer se estiver com autoestima baixa, com problema financeiro, familiar, profissional. O sexo, o prazer, o orgasmo, tudo isso faz parte do nosso bem-estar, mas têm outros fatores de que também precisamos cuidar.”

EU ACHO …

O SALVA-VIDAS

De vez em quando aparece no noticiário algum sortudo que teve sua vida salva por um objeto: uma caneta no bolso, uma moeda, uma calculadora, algo que impediu que uma bala de revólver lhe perfurasse o coração. Pois aconteceu de novo: sábado passado, em Cuiabá, um professor de 52 anos reagiu a um assalto e teve sua vida salva porque, na hora do disparo, a bala acertou o que ele trazia em mãos: um livro. Um livro bem grosso, imagino. Um tijolaço.

Em plena semana em que inicia a nossa Feira, não posso perder essa chance de fazer uma analogia. Terei coragem de apelar e dizer que os livros salvam a vida de milhares de pessoas todos os dias? Bom, agora já disse.

Piegas ou não, forçado ou não, eu acho mesmo que os livros nos “salvam”, de alguma maneira. Salvam a gente de levar uma vida besta, doutrinada pela tevê. Salvam a gente de ficar olhando só pra fora, só para o que acontece na vida dos outros, sem nos dedicar a alguns momentos de introspecção. Salvam a gente de ser preconceituoso. Salvam a gente do desconhecimento, do embrutecimento, do mau-humor, da solidão, salvam a gente de escrever errado. Se existe salvador da pátria, não conheço outro.

Quando me refiro a alguém que lê, estou me referindo a alguém que lê bastante, que lê com paixão, que compulsivamente. Porque ler dois ou três livros por ano, apesar de estar dentro da média brasileira, está longe de ser comemorado. Vira um programinha excêntrico: “Vou aproveitar que hoje está nevando e ler um livro”. Nada disso. Livro salva quem nele se vicia. Salva quem não consegue se saciar. Quem quer saber mais, conhecer mais, se aprofundar mais. É imersão. Mergulho. Salva a gente da secura da vida.

A Feira começa depois de amanhã e estará cheia de livros, inclusive os volumosos. Viver para contar, a biografia do Garcia Marquez, tem 474 páginas. Os 100 melhores contos do século tem 618. A montanha mágica, de Thomas Mann, 986. Se não salvarem espiritualmente ninguém, darão ao menos um bom escudo.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CONHEÇA OS RISCOS E OS CUIDADOS NA HORA DE FAZER AS UNHAS

Especialistas apontam para o perigo de tirar as cutículas, usar palitos de madeira e outras práticas costumeiras utilizadas por manicures

Você não precisa olhar muito longe – nas mãos (e pés) das mulheres em todas as esferas da vida – para perceber unhas feitas.

Fico espantada com a forma como algumas, com adagas elaboradamente pintadas estendendo-se da ponta dos dedos, conseguem digitar, discar telefones celulares e até assinar seus nomes. Eu me pergunto que deformidades articulares podem esperar por elas daqui a décadas depois de usar seus dedos em posições tão pouco naturais.

Mas muitas não precisam esperar anos para descobrir as consequências desagradáveis dessa fúria cosmética. Elas experimentam reações alérgicas aos agentes químicos em produtos, unhas caindo e uma variedade de outros problemas.

Na revista Women’s Health in Primary Care, dois dermatologistas de Nova York, Herbert P. Goodheart, do Mount Sinai Hospital, e Hendrik Uyttendaele, do Centro Médico da Universidade de Columbia, revisaram os procedimentos envolvidos nas práticas atuais de cosméticos para unhas e seus perigos.

PROBLEMAS

Começaram com o que muitas vezes é o primeiro passo em uma manicure: remover a cutícula, talvez depois de aplicar um amaciante com álcalis fortes que quebram a queratina dessa pele protetora. A remoção da cutícula deve ser desencorajada porque pode levar à inflamação e infecções do tecido circundante e da raiz da unha, causando deformidades permanentes. Os médicos também alertaram contra o uso do palito de madeira, que pode contribuir para infecções fúngicas e perda da unha.

Os produtos cosméticos do setor estão repletos de substâncias químicas tóxicas e alergênicas, incluindo tolueno, ftalatos, cânfora e formaldeído. Muitos desses componentes podem causar reações alérgicas, e não apenas nas unhas. Por exemplo: a dermatite palpebral pode ocorrer quando alguém toca ou esfrega os olhos com unhas feitas, transferindo a resina tolueno-sulfonamida-formaldeído do esmalte para a pele altamente sensível.

Fortalecedores com fibra, usados para tratar unhas quebradiças, são outra fonte de reações alérgicas, assim como a cola acrílica usada para prender muitas unhas artificiais. Além disso, uma pressão exercida nas pontas das unhas artificiais pode danificar as naturais que es- tão embaixo, provocando a sua perda parcial ou total.

RECOMENDAÇÕES

Os especialistas dizem que “unhas naturais costumam ser a escolha mais saudável e precisam de menos manutenção”. Mas eles também reconhecem que fazer com que as entusiastas abandonem as unhas feitas é uma causa perdida. Para elas, sugerem alguns passos. Para reduzir o risco de infecção, as mulheres que vão à manicure devem comprar seu próprio kit contendo um conjunto de instrumentos, como alicate, para levar ao salão. As cutículas não devem ser removidas – no máximo, aparadas suavemente – e as unhas artificiais devem ser usadas com muito cuidado. As mulheres devem parar periodicamente de usar esmalte e outros cosméticos para promover a saúde geral da região e poder inspecionar a unha natural quanto a anormalidades.

Aparar ou lixar as unhas naturais em forma oval para fazer os dedos parecerem mais longos aumenta o risco de separação do leito ungueal. Um método semelhante ao usado para as unhas dos pés – pontas retas com cantos longos – é mais sensato e resulta em menos unhas quebradas.

Goodheart e Uyttendaele descreveram as várias mudanças degenerativas que afetam as unhas à medida que as pessoas envelhecem. Enquanto a maioria dessas alterações são normais e não requerem tratamento, algumas predispõem as unhas a infecções e deformidades e outras são sinais de doenças subjacentes que devem ser diagnosticadas e tratadas.

“Com a idade, as unhas geralmente ficam finas e frágeis; por outro lado, as unhas dos pés geralmente se tornam mais grossas e mais duras”, dizem os autores.

As unhas costumam ficar mais quebradiças com o tempo. Vários fatores contribuem para isso, como uso frequente de produtos cosméticos, exposição excessiva a detergentes ou água ou, possivelmente, deficiência de ferro, doença da tireoide ou diminuição da circulação periférica.

Esses problemas podem ser reduzidos usando luvas de borracha ao lavar a louça, luvas quentes no frio, aplicando cremes hidratantes na hora de dormir e após a lavagem, mantendo as unhas curtas, usando uma lima macia e tomando um suplemento vitamínico contendo complexo B.

Talvez o problema mais comum, que afeta quase metade das pessoas com mais de 70 anos, seja a infecção fúngica. O tratamento adequado pode exigir a identificação do organismo culpado, uma vez que leveduras e bolores podem ser resistentes a certos remédios antifúngicos.

“Os cremes antifúngicos tópicos sozinhos geralmente são ineficazes devido à má penetração das unhas”, dizem os dermatologistas, acrescentando que as terapias orais podem ter efeitos colaterais graves. “Deixar as infecções fúngicas das unhas sem tratamento é, muitas vezes, uma decisão sábia.”

OUTROS OLHARES

ECOANSIEDADE

A emergência climática cria (mais) uma angústia em relação ao futuro. Fomos atrás de mulheres que aplacaram o sofrimento ao transformá-lo em ação

A petropolitana Eveline Baptistella, de 44 anos, vive e trabalha pela natureza. “Pesquiso a relação entre animais humanos e não humanos. O meu estudo se concentra no Pantanal”, diz ela, que mora em Tangará da Serra, no Mato Grosso. Em 2020, durante as queimadas que devastaram a região, Eveline experimentou uma angústia aguda. “Acabei me envolvendo para tentar minimizar o desastre que resultou na queima de 30% do bioma. Passei por um sofrimento psíquico”, lamenta. Lidar, no dia a dia, com a extinção de algumas espécies e o sofrimento de outras também a coloca em permanente estado de “luto”. “Entro em contato com a dor dos bichos todos os dias. Sigo por saber da urgência e por não conseguir ficar parada”, explica.

Pesquisadora e professora, ela não está sozinha: depois do pior da pandemia, voltou a dar palestras para crianças e jovens sobre consciência ecológica e pôde observar uma sensação recorrente: o medo de catástrofe ambiental vem crescendo a olhos vistos. “A própria crise sanitária é derivada dessa questão. O sentimento que predomina entre a juventude é a desesperança.”

O desassossego diante da crise climática e do aquecimento global que toma conta do mundo já tem nome: ecoansiedade. A expressão foi cunhada em 2017 pela American Psychology Association (APA — Associação Americana de Psicologia) e é descrita como “medo crônico de sofrer um cataclismo ambiental que ocorre ao observar o impacto, aparentemente irrevogável, das mudanças climáticas, gerando uma preocupação associada ao futuro de si mesmo e das próximas gerações”. Já o sofrimento ligado a desastres da natureza que, de fato, ocorreram, caso relatado por Eveline, tem o nome de solastalgia.

De acordo com Mariana Pelizer, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, a ecoansiedade costuma atingir pessoas mais sensíveis à questão ecológica, que não conseguem desenvolver uma nova forma de viver (mudando a forma de se alimentar e de consumir, por exemplo) ou que entendem esse processo como apocalíptico. “Nesse caso, apresenta-se como medo crônico do futuro”, observa. “A emergência climática é uma realidade e a ansiedade, geralmente, tem a ver com a falta de controle do que está para acontecer.

Mas, individualmente, podemos fazer escolhas cotidianas que façam diferença no coletivo. Mudanças locais impactam nas transformações globais. Uma das formas de lidar com esse sofrimento é envolver-se em movimentos ligados ao cuidado com o planeta”, sugere.

Mariana também enumera alguns sintomas típicos. “Além do temor de viver grandes desastres, os clássicos das crises de ansiedade podem se fazer presentes, como insônia, falta de ar e palpitações.

É importante procurar ajuda especializada”, ressalta.

Há 20 anos lidando com o assunto, a psicóloga ambiental Renata Carvalho Koldewijn sentiu esses efeitos no próprio casamento. A cerimônia foi em Brumadinho (MG) e, na mesma data, a barragem de uma mina se rompeu em Nova Lima, próximo ao local. “Não consegui prestar mais atenção em nada”, recorda-se ela, que tem 43 anos.

“Quem não percebe a gravidade da situação está alienado.”

Já a advogada e ecofeminista Vanessa Lemgruber, de 29 anos, admite sentir, volta e meia, um “certo desespero”. “Por achar que não vai surgir uma solução para o planeta. E se surgir, não será para todos”, explica. Mas também acredita na capacidade humana de gerenciar crises. “Aceito as contradições da vida e tento transformar a ansiedade em ação”, diz.

Foi isso que fez Amanda Costa, de 25 anos. Formada em Relações Internacionais, jovem embaixadora da ONU e diretora da Perifa Sustentável, ela enxerga a ecoansiedade como realidade. “Já fiquei mal, minha geração não quer ter filho por causa disso”, diz a paulista, que foi à luta. “Criar novas narrativas é minha missão de vida.”

 GESTÃO E CARREIRA

 PROJETO QUER 5 MILHÕES DE VAGAS PARA JOVENS DE BAIXA RENDA ATÉ 2030

Iniciativa criada pelo Instituto Coca-Cola Brasil amplia rede de empresas privadas para acelerar a inclusão produtiva

Iniciativa que já reúne mais de 200 empresas privadas no país quer gerar 5 milhões de oportunidades de empregabilidade a jovens de baixa renda até 2030. O Pacto Coletivo pelos Jovens, criado pelo Instituto Coca-Cola Brasil (ICCB) no fim de 2020, trabalha agora para dar escala ao movimento e atrair novas corporações. Para isso, realizou anteontem o Potências do Futuro, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. O evento, que teve apoio do G10 Favelas, presidido por Gilson Rodrigues, contou com a participação de mais de 35 executivos de companhias como McDonald’s, Itaú, Ancar, Bob’s e Electrolux, que se reuniram com 23 jovens do projeto.

“Numa primeira década capacitando jovens em conexão com o mercado de trabalho, impactamos 250 mil. Mas, pela demanda social no país, com 47 milhões de jovens, sendo 18 milhões deles abaixo da linha da pobreza ou em extrema pobreza, temos de ir de milhares para milhões”, diz Daniela Redondo, diretora executiva do ICCB.

A digitalização dos cursos de formação para o primeiro emprego, puxada pela pandemia, explica Daniela, colaborou para uma primeira aceleração do movimento, fazendo o alcance do projeto saltar de 44 para mais de dois mil municípios no país. Antes da Covid-19, 28 mil jovens passavam pelo curso Coletivo Online. No ano passado, esse número passou a 50 mil, marca que deve dobrar este ano.

FOCO NO PÓS-CONTRATAÇÃO

O curso recebe jovens de 16 a 25 anos de idade, contatados em conjunto com educadores e articuladores de comunidades. Do total, 70% são negros, 69% são mulheres, e 75% têm renda familiar inferior a dois salários mínimos. Com isso, há empresas que já pedem seleções com recortes específicos, como apenas para jovens negros, por exemplo.

Monitoramentos feitos três e seis meses após a conclusão desse curso, que é ancorado em habilidades socioemocionais, mostram que aproximadamente 50% dos jovens qualificados começaram a trabalhar. Uma parte dessa inclusão produtiva é via parceiros. Outra parte dos jovens se movimentou, empreendeu ou aprendeu a procurar emprego.

O esforço para ampliar a rede de empresas no Pacto pretende ainda avançar no apoio aos jovens no pós-contratação.

“Se ele é apenas contratado e não há movimento depois disso, o risco de esse jovem perder o emprego nos primeiros meses é alto. E aí não foi uma inclusão de fato, não ajudou esse jovem a galgar o desenvolvimento para ter a resiliência e sair do ciclo de pobreza”, conta Daniela. Eduardo Santos, diretor-geral da EF Education First, que integra o Pacto e participou do evento em Paraisópolis, reconhece que nem todas as empresas estão preparadas para receber jovens de comunidades e em vulnerabilidade, mas entendem o valor de fazer isso:

“Esses jovens são os futuros consumidores, o que impacta a economia, e ainda são donos das jornadas de inovação e resolução de problemas que as empresas têm e que seu corpo diretivo, muito pouco incluso e diverso, passará a ter dificuldade de resolver.

EU ACHO …

OS EXCLUÍDOS

Ao contrário do que o título desta crônica possa sugerir, não vou falar sobre aqueles que vivem à margem da sociedade, sem trabalho, sem estudo e sem comida. Quero fazer uma homenagem aos excluídos emocionais, os que vivem sem alguém para dar as mãos no cinema, os que vivem sem alguém para telefonar no final do dia, os que vivem sem alguém com quem enroscar os pés embaixo do cobertor. São igualmente famintos, carentes de um toque no cabelo, de um olhar admirado, de um beijo longo, sem pressa pra acabar.

A maioria deles são solteiros, os sem-namorado. Os que não têm com quem dividir a conta, não têm com quem dividir os problemas, com quem viajar no final de semana. É impossível ser feliz sozinho? Não, é muito possível, se isso é um desejo genuíno, uma vontade real, uma escolha. Mas se é uma fatalidade ao avesso – o amor esqueceu de acontecer – aí não tem jeito: faz falta um ombro, faz falta um corpo.

E há aqueles que têm amante, marido, esposa, rolo, caso, ficante, namorado, e ainda assim é um excluído. Porque já ultrapassou a fronteira da excitação inicial, entrou pra zona de rebaixamento, onde todos os dias são iguais, todos os abraços, banais, todas as cenas, previsíveis. Não são infelizes e nem se sentem abandonados. Eles possuem um relacionamento constante, alguém para acompanhá-los nas reuniões familiares, alguém para apresentar para o patrão nas festas da empresa. Eles não estão sós, tecnicamente falando. Mas a expulsão do mundo dos apaixonados se deu há muito. Perderam a carteirinha de sócios. Não são mais bem-vindos ao clube.

Como é que se sabe que é um excluído? Vejamos: você passa por um casal que está se beijando na rua – não um beijinho qualquer, mas um beijo indecente como tem que ser, que torna tudo em volta irrelevante, incluindo você. Se bater uma saudade de um tempo que parece ter sido vivido antes de Cristo, se você sentir uma fisgada na virilha e tiver a impressão de que um beijo assim é algo que jamais se repetirá em sua vida, se de certa forma esse beijo a que você assistiu parece um ato de violência – porque lhe dói – então você está fora de combate, é um excluído.

A boa notícia: você não é um sem-trabalho, sem-estudo e sem comida – é apenas um sem-paixão. Sua exclusão pode ser temporária, não precisa ser fatal. Menos ponderação, menos acomodação, e olha só você atualizando sua carteirinha. O clube segue de portas abertas.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CONJUGAÇÃO DE FATORES EXPLICA GRAVIDEZ MENSTRUADA

Sangramento mais longo e sobrevida do espermatozoide no corpo feminino podem causar concepção ‘surpresa’ no fim do ciclo

Muitas mulheres acreditam ser impossível engravidar durante a menstruação. A concepção, de fato, não pode ocorrer durante o período menstrual. Porém, havendo uma rara conjugação de fatores, uma relação sexual enquanto se está menstruada é capaz, sim, de gerar gravidez alguns dias depois.

É sabido que a maior chance de ficar grávida ocorre durante o período fértil, que costuma começar uma semana depois que a menstruação acaba. No entanto, a janela da fertilidade pode se iniciar mais cedo para algumas mulheres, inclusive dentro da menstruação.

O ciclo menstrual dura, em média, 28 dias, mas pode variar de 21 a 35 dias. A ovulação – liberação do óvulo para ser fertilizado por um espermatozoide – costuma ocorrer no meio do ciclo, podendo acontecer dois dias antes. Por exemplo: uma mulher que tem um ciclo de 28 dias vai ovular no 14º dia, podendo isso acontecer também no 12º ou no 13º dia. No entanto, uma mulher com o ciclo de 21 dias pode ovular entre os dias 8, 9 ou 10.

O ciclo é contado a partir do primeiro dia de menstruação e vai até o dia anterior ao próximo período menstrual. Assim como o ciclo menstrual varia, o tempo de menstruação também: ele pode ser de três a sete dias, dependendo da mulher. Essa duração não necessariamente segue o padrão do período menstrual. Portanto, pode acontecer de mulheres com ciclos curtos passarem por vários dias de sangramento.

Além disso, é preciso considerar também o tempo de sobrevivência de um espermatozoide dentro do corpo feminino. Eles são capazes de ficar, em média, três dias à espera do óvulo para fertilizá-lo – mas, segundo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), esse tempo pode mais que dobrar, chegando a sete dias.

O óvulo sobrevive por 12 a 24 horas após a ovulação. Por esse motivo, para que a gravidez ocorra é necessário que haja o encontro com um espermatozoide nesse período. É mais provável que uma pessoa engravide se tiver relações sexuais três dias antes e até o dia da ovulação.

Mas se a relação sexual desprotegida ocorrer durante a menstruação – principalmente no final dela – e a mulher ovular até três dias depois do sexo, há risco de engravidar, mesmo  sendo raro.

“Mulheres com sangramento menstrual de vários dias podem ter a falsa impressão de terem engravidado menstruando”, diz a ginecologista Karina Tafner.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDO LISTA POSIÇÕES QUE AJUDAM MULHER A CHEGAR AO CLÍMAX

Quem vai por cima e o quanto da pele do parceiro toca o clitóris podem fazer toda a diferença no orgasmo das mulheres. A conclusão é de estudo feito em Nova York (EUA) que avaliou como a posição dos parceiros interfere no clímax feminino.

Por meio de ultrassons, os pesquisadores testaram cinco posições descritas na literatura médica e observaram a mudança do fluxo sanguíneo no clitóris antes e depois do ato sexual. A mulher por cima do homem, cara a cara com o parceiro, e o casal sentado, também de frente um para o outro, foram as que mais intensificaram o fluxo de sangue no órgão erétil feminino.

Contudo, a força exercida pelo contato do clitóris com a pele do parceiro foi mais intensa quando ela estava por cima, o que também resultou em orgasmos mais poderosos.

O objetivo da pesquisa era identificar como a parte biomecânica do corpo e as forças empregadas (tanto pelo casal como pela gravidade) podem influenciar no prazer feminino. O estudo foi conduzido pelos médicos Kimberly Lovie e Amir Marashi, do departamento de imagens médicas da clínica New HMedical.

O artigo “Coital positions and clitoral blood flow: A biomechanical and sonographic analysis” (Posições sexuais e fluxo sanguíneo clitoriano: uma análise biomecânica e ultrassonográfica, em português) foi publicado na edição digital de julho da revista Sexologies, periódico da Federação Europeia de Sexologia.

“De acordo com os resultados, as posições face a face são mais propensas a levar ao orgasmo porque maximizam a estimulação do clitóris e o fluxo sanguíneo. Além disso, posições em que a parceira feminina tem mais controle sobre a pressão exercida no clitóris [quando mulher está por cima] produzem aumentos mais uniformes no fluxo sanguíneo clitoriano”, afirmam os autores no artigo.

Para os pesquisadores, os resultados podem ajudar no tratamento médico de disfunções sexuais, como a dificuldade em atingir o orgasmo.

Foram observadas as seguintes posições: parceiros deitados face a face com mulher em cima do homem; sentados um de frente para o outro; deitados face a face como homem por cima da mulher; deitados face a face com o homem por cima da mulher e ela apoiada em um travesseiro; e homem ajoelhado atrás da mulher realizando a penetração vaginal traseira.

Das cinco, apenas nesta última não houve maior fluxo de sangue para o clitóris, justificado pela falta de contato direto com a região. Na posição com o homem por cima, o sangue ficou mais difuso na pelve da mulher e menos concentrado no clitóris, gerando orgasmo menos intensos do que com a mulher por cima. Isso comprovou que o sucesso das posições face a face não é devido apenas à capacidade de facilitar a comunicação verbal e física entre os parceiros, mas também ao modelo biomecânico do encaixe.

O face a face com homem em cima da mulher não está entre as posições com maior probabilidade de levar ao orgasmo, mesmo sendo a posição mais comum. Ainda assim, isso pode ser corrigido com um travesseiro. A ideia é equilibrar a distribuição de forças para uma penetração mais profunda, algo que pode ser obtido com uma almofada sexual de posicionamento (triangular e mais consistente que o travesseiro comum). Ela deve ficar embaixo da mulher e em contato com a cama.

Para identificar o fluxo sanguíneo foram feitos ultrassons com um casal voluntário de médicos de 32 anos de idade. Eles estavam em uma relação monogâmica heterossexual, eram conhecidos dos pesquisadores e fizeram os testes em casa. Cada posição durou dez minutos e foi feita em um dia diferente. O orgasmo não era obrigatório, mas foi constatado nos cinco testes.

Os autores ressalvam que as mulheres podem ter respostas diferentes nessas posições e também são influenciadas pela parte psicológica e pelos graus de força de impulso que o parceiro pode ter.

Segundo a psicoterapeuta Evelyn Ribeiro Lindholm, especialista em sexualidade e comportamento, pesquisas que olham para o prazer sexual da mulher são de suma importância, visto que outras fontes de consulta, como a pornografia, não estimulam uma sexualidade madura ou mesmo real.

OUTROS OLHARES

PACIENTES TRANS FAZEM CIRURGIAS E PROCEDIMENTOS PARA FEMINIZAÇÃO FACIAL

Tratamentos médicos tornam os traços do rosto mais próximos aos de mulheres cisgênero, mas planejamento deve ser individualizado

“As pessoas apontam na rua e riem quando veem mulheres [trans] com características ditas masculinas, nós viramos piadas por isso”, afirmou a influenciadora e modelo Bruna Andrade, 25. Esse cenário, que cobra que mulheres trans sejam femininas, faz com que a mudança de gênero no Brasil ainda esteja associada à mudança cirúrgica corporal.

Como resultado, muitas dessas mulheres têm dificuldade de aceitar a própria imagem, e ainda sofrem com a disforia de gênero – um desconforto agudo que algumas pessoas trans sentem em relação ao próprio corpo. Segundo especialistas, esta sensação pode ser ainda maior em relação ao rosto.

Por isso, mulheres trans têm recorrido a cirurgias e tratamentos estéticos de feminização facial, que tornam os traços do rosto semelhantes ao de mulheres cisgênero. Muitas afirmam, porém, que falta conhecimento dos médicos brasileiros para a realização dos procedimentos. Especialistas ponderam que o tratamento não é indicado para todas, mas pode ser um aliado. “Amenizar o que está visível não é só pelo padrão estético, mas para não passar pelos constrangimentos que surgem quando alguém nota em público que a pessoa que está ali é trans por determinada característica física”, afirma Keila Simpson, 57, travesti e presidente da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Simpson lembra que grande parte do público trans não dispõe de recursos para os procedimentos – um problema antigo que se agrava com a influência das redes sociais na indústria da beleza. Para ela, as necessidades de pessoas trans nunca foram encaradas com seriedade pela medicina. “Não sabem cuidar porque não pesquisaram o corpo trans. Fazer vista grossa e dizer ao paciente para procurar quem faz o procedimento não é a resposta que um médico deve dar. Mais dia ou menos dia, esses profissionais vão entrar em contato com essa população, seja para cuidar da sua saúde física e psicológica ou da sua saúde estética”, pondera Simpson.

A atriz e cantora Verónica Valenttino, 38, foi uma das participantes de um estudo brasileiro inédito publicado na revista científica internacional Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology. De acordo com a médica Bianca Viscomi, autora da pesquisa, padronizar a beleza trans descartando as características individuais pode piorar a aceitação da própria imagem pela paciente.

Viscomi diz que procedimentos ajudam a pessoa a identificar o que gosta antes de optar por uma cirurgia. O estudo qualitativo foi feito com cinco voluntárias e estabeleceu três etapas ao longo de 90 dias: tratamento de músculos, ligamentos e reposicionamento da gordura facial, melhora da pele com bioestimuladores de colágeno, e preenchimento com ácido hialurônico. Os objetivos foram individualizados.

“O osso frontal do homem é reto e o da mulher tem uma leve concavidade. Uma das pacientes sempre quis mexer nisso e fomos fazendo com o preenchimento. Ao final, ela disse que estava pronta para o avanço cirúrgico”, afirma.

O custo da feminização dermatológica gira em torno de até R$ 30 mil – a pesquisa contou com a doação de materiais de uma empresa farmacêutica especializada, a Merz Aesthetics Global, para ser concluída. Um procedimento cirúrgico completo de face e corpo no Brasil, por sua vez, pode custar até R$ 150 mil em média.

O cirurgião Jose Carlos Martins Junior, médico fundador da Transgender Center Brazil e autor do livro “Transgêneros: Orientações Médicas para uma Transição Segura”, afirma que 90% dos pacientes trans que procuram a cirurgia em sua clínica não buscam redesignação de sexo, mas estão focadas na aparência do rosto. “O que é indicado para uma mulher trans pode não ser indicado para outra. De cada 10, por exemplo, só uma ou duas vão fazer [a raspagem do] pomo de adão. Agora 100% fazem testa, remodelam crânio, as órbitas, puxam cabelo para frente, fazem o contorno facial”, diz o médico.

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHADOR BUMERANGUE É REQUISITADO NO MERCADO CORPORATIVO

Definido como trabalhador bumerangue, resumidamente é o profissional que optou por sair da empresa, por diversos motivos, mas que aceitou retornar diante de uma nova proposta.

“A princípio, não há uma única razão que define o retorno de um colaborador, contudo é possível listar algumas das mais prováveis, como exemplo: alinhamento com a proposta de valor da organização ou da marca, maior alinhamento das competências ao negócio da empresa, proposta desafiadora de trabalho e desenvolvimento profissional, além de remuneração e condições de trabalho mais atrativas que as anteriores concedidas pela própria empresa”, explica Eliete Carina de Melo, docente do Senac-SP.

Para as organizações, a volta de um funcionário é notada como positiva. Conhecer a cultura da empresa, práticas, políticas, normas e o negócio em que atua, agiliza o pro- cesso de imersão e gera resultados mais rápidos.

“Por outro lado, em casos em que colaboradores retornam com ascensão de carreira, mesmo que o colaborador bumerangue retorne com novas habilidades, pode surgir a cultura de “que é necessário deixar a empresa para ser valorizado”, explica Carina.

Nesse cenário, o trabalho do departamento de Recursos Humanos é muito importante. Antes de contratar um ex-colaborador é importante analisar os motivos que o levaram a deixar a organização e o que o faz retornar.

“Por outro lado, é importante ter planos estratégicos que fortaleçam a cultura interna de desenvolvimento, reconhecimento de pessoas e o fortalecimento do senso de pertencimento, e assim permitir que a trajetória do colaborador seja maximizada na própria organização e não seja necessário deixar a companhia, novamente, para ter novos desafios e oportunidades”, ressalta a educadora.

O cenário é de transformações rápidas com reflexos marcantes em razão da pandemia. Cabe ao trabalhador bumerangue a flexibilidade para possíveis readequações, pois esteve fora da empresa por algum tempo.

Por outro lado, os desafios organizacionais podem ser endereçados a alguém já conectado e alinhado, ou seja, com um perfil adaptativo e transformador.

EU ACHO …

DO SEU JEITO

“I’ ve lived a life thafs full/Vve traveled each and every highway/But more, much more than this/fve lived it my way.”

Este é um verso de My Way, canção que foi imortalizada por Frank Sinatra e que também foi gravada pelo Sex Pistols e por Nina Hagen. É a história de um cara que viajou, amou, riu e chorou como todo mundo, mas fez isso do jeito dele. Numa sociedade cada vez mais padronizada, essa letra deveria virar hino nacional.

Abro revistas e encontro fórmulas prontas de comportamento: como ser feliz no casamento, como ter uma trajetória de sucesso, como manter-se jovem. Resolve-se a questão com meia dúzia de conselhos rápidos. Para ser feliz no casamento, todo mundo deve reinventar a relação diariamente. Para ter uma trajetória de sucesso, todo mundo deve ser comunicativo e saber inglês. Para manter-se jovem, todo mundo deve parar de fumar e beber. Todo mundo quem, cara pálida?

Todo mundo é um conceito abstrato, uma generalização. Ninguém pode saber o que é melhor para cada um. Fórmulas e tendências servem apenas como sinalizadores de comportamento, mas para conquistar satisfação pessoal pra valer, só vivendo do jeito que a gente acha que deve, estejamos ou não enquadrados no que se convencionou cha mar de “normal”.

O casamento é a instituição mais visada pelas “fórmulas que servem para todos”. Na verdade, todos convivem com o casamento desde a infância. Nossos pais são ou foram casados, e por isso acreditamos saber na prática o que funciona e o que não funciona. Só que a prática era deles, não nossa. A gente apenas testemunhou, e bem caladinhos. Ainda assim, a maioria dos noivos diz “sim” diante do padre já com um roteiro esquematizado na cabeça, sabendo exata- mente os exemplos que pretende reproduzir de seus pais e os exemplos a evitar. Porém, noivo e noiva não tiveram os mesmos pais, e nada é mais diferente do que a família do outro. Curto-circuito à vista.

É mais fácil imitar, seguir a onda, fazer de um jeito já testado por muitos, e se não der certo, tudo bem, até reações de angústia e desconsolo podem ser macaqueadas, nossas dores e medos muitas vezes são herdados e a gente nem percebe, amamos e sofremos de um jeito universal. Agir como todo mundo é moleza. Bendito descanso pra cabeça: é uma facilidade terem roteirizado a vida por nós. Mas, cedo ou tarde, a conta vem, e geralmente é salgada.

Fazer do seu jeito – amores, moda, horários, viagens, trabalho, ócio – é uma maneira de ficar em paz consigo mesmo e, de lambuja, firmar sua personalidade, destacar-se da paisagem. Claro que não se deve lutar insanamente contra as convenções só por serem convenções – muitas delas nos servem, e se nos servem, nada há de errado com elas. Estão aí para facilitar nossa vida. Mas se não facilitam, outro jeito há de ter. Um jeito próprio de ser alguém, em vez de S1mplesmente reproduzir os diversos jeitos coletivos de ser mais um.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CREMES ANTIRRUGAS PARA OS OLHOS FUNCIONAM?

Especialistas explicam que produtos podem ajudar a prevenir o envelhecimento, mas devem contar alguns ingredientes ativos importantes para realmente fazer diferença: retinóis, retinoides prescritos ou vitamina C

Seja pelo envelhecimento, exposição ao sol, tabagismo ou por apertar muito os olhos, sorrir ou franzir a testa, ninguém está imune aos vincos e linhas finas da pele que surgem com a idade. E a área ao redor dos olhos é especialmente suscetível a essas mudanças.

“A pele sob e ao redor dos olhos é delicada e mais fina. É um lugar onde rugas e linhas podem aparecer com mais destaque”, explica Sara Perkins, professora de dermatologia da Escola de Medicina da Universidade de Yale. Enquanto algumas pessoas não se importam muito com as rugas, outras podem querer retardar o processo de envelhecimento e manter a pele com aparência mais jovem. Isso pode levá-las a se perguntar: será que esses potes minúsculos e caros de creme para os olhos valem a pena? Aqui está o que dizem os especialistas.

Sara Perkins e Zakia Rahman, professoras de dermatologia da Universidade de Stanford, dizem que há evidências de que cremes para os olhos – e até mesmo hidratantes faciais comuns – podem ajudar a prevenir e reparar rugas. Mas há uma grande ressalva: eles devem conter algum dos ingredientes ativos importantes: retinóis, ou retinoides prescritos ou vitamina C.

“Quando falamos sobrea eficácia dos cremes para os olhos, não é justo analisar todos os produtos como uma coisa só. Porque alguns deles podem ser apenas hidratantes sem nenhum ingrediente biologicamente ativo presente”, esclarece Perkins.

Os retinóis e os retinoides de prescrição são compostos químicos relacionados derivados da vitamina A. Os retinoides são prescritos, enquanto os retinóis são geralmente encontrados em produtos comuns.

Essas substâncias podem aumentar a renovação celular, prevenir a degradação do colágeno, produzir novo colágeno e criar mais ácido hialurônico (uma substância que o corpo produz naturalmente que ajuda a manter a pele hidratada). Especialistas dizem que há boas evidências de que esses compostos podem ajudar a prevenir e melhorar as rugas.

“Todo dermatologista que conheço, inclusive eu, os usa como parte de seu regime de cuidados com a pele”, afirma Zakia Rahman. As duas especialistas observam que tanto os retinóis quanto os retinoides  – mas particularmente os segundos, que são mais potentes – podem causar irritação na pele, embora isso deva diminuir com o tempo. Se você está comprando um produto sem receita com retinol, Perkins recomenda procurar um com pelo menos 0,25% a 1% do ativo.

Sara Perkins também alerta que esses produtos podem piorar as queimaduras solares, então ela recomendou aplicá-los à noite e usar protetor solar durante o dia. Ela também ressalta que eles se tornam menos eficazes quando expostos à luz solar. Além disso, ambos as especialistas enfatizaram que, se você estiver grávida, não deve usar produtos com retinol ou retinoide.

VITAMINA C

Há também evidências moderadas de que a vitamina C tópica ajuda a inibir e a reparar rugas.

“É um antioxidante potente”, diz Rahman.

Ela acrescenta que a vitamina C neutraliza moléculas nocivas chamadas radicais livres, que podem danificar a pele. Também ajuda na produção de colágeno.

No entanto, Perkins observou que, embora haja “evidências convincentes” de que a vitamina C tópica ajude com rugas, os dados são mais robustos para retinóis e retinoides. Se você estiver escolhendo entre os dois, ambas as especialistas recomendaram o uso de um retinol ou retinoide em vez de uma vitamina C tópica. Existe a possibilidade de que a vitamina C cause irritação na pele.

As médicas americanas também mencionaram que há evidências de que produtos de cuidados com a pele contendo ácido hialurônico podem melhorar a aparência da pele. Este ingrediente pode engordar a pele, dando-lhe uma aparência mais jovem. No entanto, ambas observaram que esses efeitos eram apenas temporários.

“Existem dados que mostram que o uso de ácido hialurônico melhora a aparência de linhas finas e rugas do rosto. Mas funciona de uma maneira diferente, trazendo água para a pele em vez de trabalhar em nível molecular”, acrescenta Sara Perkins.

HIDRATANTES FACIAIS

“Creme para os olhos como categoria é uma das minhas maiores preocupações”, aponta Perkins, acrescentando que os ingredientes dos cremes para os olhos são geralmente os mesmos encontrados nos hidratantes faciais mais comuns.

Zakia Rahman concorda. Os cremes para os olhos podem ser um pouco mais espessos ou ter uma concentração menor de ingredientes ativos em comparação com outros produtos de cuidados com a pele facial, uma vez que são feitos sob medida para a superfície sensível das pálpebras.

“Mas, no geral, eles tendem a custar muito mais por grama do que os hidratantes comuns usados para o rosto, e muitas vezes não têm ingredientes muito diferentes”, explica Zakia Rahman, que prefere usar hidratante facial regular para a pele ao redor dos olhos no seu dia a dia.

Então, vale a pena comprar um creme antirruga para os olhos?

A menos que você faça questão de usar um creme específico para os olhos, um hidratante facial regular que contenha os principais ingredientes ativos mencionados pelas especialistas deve funcionar da mesma forma nas rugas.

Se você comprar um creme para os olhos com esses ingredientes, provavelmente estará pagando mais caro por uma quantidade menor de produto com benefícios semelhantes. Mas com qualquer um desses itens de cuidados com a pele, você também não deve esperar um milagre, e os resultados podem levar tempo.

“Os efeitos levam meses, não dias”, ressalta Zakia Rahman.

Quanto ao melhor método de prevenção de rugas nos olhos? Ambos as especialistas concordaram inequivocamente: a proteção solar é fundamental.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE TEMOS TANTO MEDO DA SOLIDÃO?

Metade dos brasileiros se sentem solitários; para psiquiatra, é importante estar bem consigo mesmo

De acordo com o levantamento Perceptions of the Impact of Covid-19 (Percepções do Impacto da Covid-19), realizado pelo instituto Ipsos em 2021 com pessoas de 28 países, 50% dos brasileiros dizem que se sentem solitários. É o maior índice entre todas as nações. Já na Holanda (15%), no Japão (16%) e na Polônia (23%), as pessoas são as que menos se sentem sós.

A solidão, sem dúvida, ainda será objeto de estudo de profissionais de saúde mental pelos próximos anos. Isso porque, após a pandemia de covid- 19 e a imposição do isolamento social, muitos estão com dificuldades de estabelecer novas relações. E as antigas, em grande parte, se desgastaram.

De um tempo para cá, a palavra solitude ganha força. No latim, significa “a glória de estar sozinho”. “É uma oportunidade de refletirmos, como se estivéssemos silenciando para nos conectar com um estado que vai propiciar aproximar-se do sentido da nossa vida. É o melhor campo de energia condensada que nos protege da sensação de vazio, da falta de companhia, do abandono”, explica o psiquiatra Luiz Cuschnir, com 40 anos de atuação.

Segundo Cuschnir, a solidão pode causar sentimentos como tristeza, desalento e desesperança e o indivíduo pode ter dificuldade para sentir alegria novamente. “Há um ciclo de constante retorno, em se viver eternamente uma biografia se lamentando por quem se foi, pelo passado, pelo que não deu certo. O ataque à autoestima vem poderoso”, diz.

Por isso, segundo ele, é tão importante apreciar a própria companhia, curtir um momento consigo. “Através do autoconhecimento, conseguimos nos entender para dar lugar a outra pessoa em nossa vida.”

O especialista explica que a solidão surge quando nos apegamos àquilo que perdemos. “Precisamos comemorar e valorizar a vida para ser vivida como algo maravilhoso, não como cheia de perdas e lamentos, mas de frutos e conquistas. Especialmente nestes tempos desafiadores em que estamos vivendo”, afirma.

O sentir-se sozinho, na visão do especialista, pode vir acompanhado de culpa, raiva, vergonha, fracasso, incompetência. “São ‘temperos’ que se vão somando a outros para constituir perigosamente o lugar da vítima e da falta de opções para seguir em busca do melhor presente, que é estar vivo”, reflete.

RELAÇÕES AFETIVAS

Mas engana-se quem pensa que a solidão é própria de quem não tem ninguém com quem conviver. É possível, mesmo rodeado de outras pessoas, sentir-se solitário. E isso ocorre sobretudo quando não há uma interação de qualidade, seja pelo fato de não ser ouvido ou acolhido em suas opiniões ou por dilemas afins.

Muitos casais reclamam da falta de interesse ou de tempo dos seus parceiros. Seus momentos de convivência se resumem a assistir a um filme no streaming ou jantar em um restaurante – e, mesmo assim, cada um conferindo o seu celular. “As relações afetivas devem propiciar o reconhecimento dos aspectos vitais para que o melhor de cada um alimente os caminhos necessários para trocas saudáveis e duradouras dos relacionamentos”, explica o psiquiatra. “Só se alcança o nível de autoconsciência exigido para nos relacionarmos – conosco e com os outros – se corrigirmos a forma como nos enxergamos na solidão diante do espelho.”

Segundo o médico, muitas vezes um relacionamento pode ter mais camadas do que percebemos. “Por isso, precisamos saber lidar com nossa solidão, criando mecanismos para torná-la construtiva. Às vezes imaginamos que o outro irá nos salvar de algo que nem conhecemos.” Cuschnir afirma que é importante discernir os aspectos positivos e negativos da solidão. “Isso nos tira da confusão do que somos, do que queremos ser, do que temos a obrigação de ser, das nossas crenças sobre realização, felicidade ou segurança.”

OUTROS OLHARES

PERFUMES ÍNTIMOS TRAZEM RISCOS PARA REGIÃO GENITAL

Para especialistas, produtos como o que leva assinatura de Anitta são ‘desnecessários’ e podem prejudicar flora bacteriana

O lançamento do perfume íntimo com chancela da cantora Anitta, nesta semana, provocou estrondo – e críticas – nas redes sociais. Criado pela farmacêutica Cimed, o Puzzy by Anitta chega com a promessa de mudar o aroma natural da região genital. Mas médicos ressaltam que alterar o equilíbrio de mucosas sensíveis do corpo tem seus riscos.

Especialistas ouvidos apontam que produtos do gênero são “desnecessários” e podem causar sensibilidade e reações prejudiciais. Ginecologista e especialista em reprodução assistida, Karina Tafner afirma que hoje existem muitos desodorantes, lubrificantes e hidratantes vaginais, mas que itens do gênero devem ser vistos com cuidado. Muitos deles alteram o pH da vulva, o que pode impedir o crescimento de bactérias saudáveis, úteis no combate a infecções.

“A sociedade construiu a genitália feminina como algo impuro, e essa comercialização de produtos de higiene é usada para atingir um ideal e arrumar esse “problema”. Nós temos cheiros, a vagina e o ânus também têm cheiro, o importante é manter essa região limpa para evitar esses odores. Ou seja, esses produtos são desnecessários desde que você mantenha uma higiene adequada”, explica a médica.

Tafner diz que, se o usuário optar pelo uso, ele precisa ter certeza de que o produto é feito para a área e não causará alergias ou irritações na região íntima. O conselho da ginecologista é procurar produtos com pH neutro, hipoalergênicos e usá-los raramente.

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e professor da Faculdade de Medicina da USP, Fábio Guilherme Campos enxerga o uso de perfume para a região íntima como um “exagero”. Para ele, o produto, dependendo de sua composição, pode induzir reações alérgicas, além da predisposição a fungos.

“Várias perguntas surgem na minha cabeça com esse lançamento. Qual é a composição? Irrita? Posso usar todo dia ou há uma quantidade específica? Um perfume tem cheiro, corantes, substâncias que, em contato com regiões de extrema sensibilidade como é a área íntima, podem causar severos riscos à saúde. Não é necessário perfumar essa região. Ela não é suja ou tem odores normalmente, ela terá sujeira e cheiro característico se não houver higiene”, afirma Campos.

A produção do perfume está a cargo da Cimed, terceira maior indústria do ramo no país. Segundo comunicado, o Puzzy by Anitta foi “testado e passou por exames ginecológicos e dermatológicos” e tem aprovação da Anvisa. A companhia afirma que o produto foi “inspirado na rotina de Anitta, que já usava uma fragrância íntima desenvolvida por uma amiga”.

Sem detalhar sua composição, o comunicado diz que o perfume foi idealizado “de forma a garantir que o produto não cause ardência, já que a fórmula é 100% sem álcool e hipoalergênica, além de não conter parabenos”.

GESTÃO E CARREIRA

HERDEIROS VOLTAM AOS BANCOS DE ESCOLA

Principal desafio de negócios familiares, sucessão exige planejamento de longo prazo e preparação; de olho nesse nicho, banco criou curso que já formou 130 potenciais CEOs

A sucessão é uma “dor” comum nas empresas familiares. Ao perceber que esse processo de troca de comando entre as gerações era um tema que tirava o sono de algumas famílias, o banco de investimentos Citi lançou um curso focado na preparação de herdeiros, que chegou à sua quinta edição na última semana.

O treinamento começou a ser ministrado depois de um questionamento de um cliente que passava por um processo de sucessão e pediu uma formação voltada para esse desafio. Desde então, o curso já formou 130 herdeiros.

Os conteúdos são desenvolvidos com a Cambridge Family Enterprise Group, instituição especializada em sucessão. Já o Citi entra com as matérias relacionadas a assuntos financeiros, como mercado de capitais e tesouraria.

A necessidade de formação mais ampla dos sucessores, de acordo com Helena Rocha, sócia da consultoria e auditoria PwC, intensificou-se durante a pandemia de covid-19, em meio aos desafios enfrentados pelas empresas.

E a necessidade, aponta ela, é de conteúdos específicos, e não de educação formal, algo que esse público jovem já tem. “Entre esses jovens (herdeiros), 84% já possuem diplomas universitários e 32%, MBA ou doutorado, mas agora as empresas precisam de novas perspectivas, com ênfase maior nas pessoas e nos propósitos, e não só no crescimento do negócio”, diz Helena.

A especialista afirma que, embora os grandes negócios estejam olhando para o futuro, ainda existe uma barreira de comunicação entre as diferentes gerações. “O plano de sucessão é um dos eventos mais importantes e um momento único na vida de uma empresa familiar”, afirma a especialista.

OBJETIVOS

Os desafios das empresas familiares são grandes em todo o mundo, destaca o responsável pela área de Prática de Conselhos e Sucessão de CEOs da Egon Zehnder no Brasil, Luís Giolo, que vem ajudando empresas familiares neste processo.

“Ao contrário de corporações, que se concentram principalmente no aumento do valor para o acionista, as empresas familiares normalmente agem em nome de partes interessadas, com interesses múltiplos e potencialmente conflitantes”, afirma ele.

Por isso, uma estrutura forte de governança é a estratégia para garantir que a companhia não seja prejudicada ou até deixe de existir em meio a conflitos pessoais.

“As melhores empresas têm colocado um robusto processo de sucessão, com regras de governança claras, muitas vezes proibindo que outros familiares ocupem posições na empresa, de forma a encerrar o ciclo de liderança familiar no futuro”, ressalta Giolo.

CURSO PARA LIDERANÇAS DE NEGÓCIO FAMILIAR JÁ FORMOU TRÊS CEOS

Maior parte dos alunos tem entre 25 e 30 anos; 80% já têm alguma atuação no negócio que poderão vir a comandar

Entre os potenciais novos líderes de negócios familiares que passaram pelo curso ministrado pelo Citi desde 2017, a idade média é de 25 a 30 anos – o mais jovem tinha 19 anos. Cerca de 80% dos alunos já trabalham nos negócios que poderão vir a comandar, enquanto três estudantes já foram alçados ao cargo de CEO.

No curso deste ano, uma das participantes foi Julia Cavalca Knack, de 26 anos, uma das herdeiras do Grupo Cavalca, fundado por seu avô há mais de 70 anos. A holding nasceu como produtora de grãos, mas hoje tem também uma trading (de exportação e importação) e uma construtora. O negócio es- tá preparando a terceira geração da família para uma futura sucessão. A família colocou na mesa que tudo será feito de forma estruturada, com o auxílio de uma consultoria.

Formada em Comércio Exterior, Julia já atua como gerente financeira do grupo. “Entre as coisas que aprendemos foi a importância da preparação dos líderes de terceira, quarta, quinta geração. Esse seria um sonho de meu avô: perpetuar a empresa. E para isso é importante a preparação dos acionistas”, diz. Após o curso, ela pensa em buscar uma pós-graduação em mercado de capitais.

Colega de Julia no curso, Eloisa Guerra Nogarolli, 24 anos, escolheu uma área de formação distante da atividade da empresa da família, a varejista Cia. Sulamericana de Distribuição. Ela acaba de se formar em Psicologia. Depois do curso do banco americano, ela acredita estar mais preparada para falar de negócios com o pai e os tios, que comandam a empresa. “Meus pais nunca me pressionaram e me deram liberdade para fazer minhas escolhas. Mas, ao mesmo tempo, entendo que existe uma responsabilidade.”

De olho em participar do dia a dia da empresa, Eloisa identificou que precisa fazer um curso de Matemática. Ela ressalva que deverá equilibrar a carreira de psicóloga com o acompanhamento do negócio: “Se não fizer isso, sempre irei ficar com a pulga atrás da orelha.”

QUINTA GERAÇÃO

A Melhoramentos, negócio centenário do setor editorial e de produção de papel fundado em 1890, está partindo para a quinta geração. O negócio faz parte de um clube muito seleto: segundo a PwC, apenas 5% das empresas familiares chegam à quinta geração.

Na Melhoramentos, os primos Paula Weisglog e Marcello Willer, acabaram de assumir posições no conselho de administração. “A família está apenas nos conselhos – de administração, de acionistas ou da família”, diz Paula, que por duas décadas esteve ligada às pautas de sustentabilidade de empresas, mas não atuou na Melhoramentos.

Agora escolhida presidente do colegiado, ela tem colocado no topo das prioridades a pauta ESG (de iniciativas ambientais, sociais e de governança). “Para se perpetuar, a empresa tem de mudar, assim como a sociedade”, afirma Paula, ressaltando que o negócio tem de se alinhar com os propósitos da nova geração de líderes.

PASSO A PASSO

GOVERNANÇA ESTRUTURADA

Para que o processo tenha mais chance de êxito, especialistas lembram que a estrutura de governança corporativa da empresa precisa estar estruturada de forma a evitar que questões pessoais afetem seu dia a dia

PERFIS

Muitos negócios estão contratando consultorias para estudar o perfil da próxima geração que assumirá a empresa: algumas companhias optam por buscar executivos de mercado, deixando a família apenas no conselho, enquanto outras tentam unir as áreas de interesse de cada herdeiro a um departamento específico

COMUNICAÇÃO

As diferentes gerações precisam se comunicar para definir a melhor estratégia da empresa e conseguir promover a transição, com um sucessor aprovado por todos.

EU ACHO …

A MORTE NA VIDA DE CADA UM

Quem tem a chance de cursar uma faculdade pode escolher a profissão que bem entender. Psicólogo, engenheiro, jornalista, biólogo, sem falar na medicina e suas diversas especialidades. Pois uma coisa nunca entrou na minha cabeça: como alguém, diante de tantas alternativas, resolve se especializar em oncologia? O que faz alguém se sentir emocionalmente apto para tratar diretamente com a morte? O câncer já não é uma doença fatal, os medicamentos e a tecnologia conseguem reverter grande parte dos casos, mas, ainda assim, é uma espada sobre a cabeça de todos. A qualquer momento, qualquer pessoa, de qualquer idade e com qualquer hábito de vida, pode estar desenvolvendo um câncer em algum lugar do corpo, e isso é amedrontador. Esse inimigo oculto será enfrentado pelo oncologista, que ganhará a luta muitas vezes, perderá outras tantas, e que conviverá dia após dia com a aflição extrema de seus pacientes. Eu tinha certeza de que esses médicos deitavam-se à noite, exaustos, e se perguntavam por que diabos não optaram por ser oftalmo ou otorrinolaringologistas.

Passei a reconsiderar todas essas minhas especulações depois de ler Por um fio, do doutor Dráuzio Varella. O livro, que teria tudo para ser mórbido, é de uma delicadeza comovente. Não traz relatos de dor e desespero, e sim relatos de generosidade, de gratidão, de lembranças ternas do passado e até relatos de um humor surpreendente diante da iminência do fim.

Todos nós, se pudéssemos escolher, preferiríamos morrer dormindo ou num acidente rápido e indolor. Sair de cena subitamente, para não sofrer. Pois até isso o livro me fez questionar. Não havendo agonia física, a consciência de que iremos partir em breve pode ser um momento de reconciliação com os outros e consigo próprio, pode ser um momento de reflexão e despedida, pode ser um momento de perdão e de profundo conforto, pois nessa hora é que percebemos que nossa passagem pela terra não foi em vão, caso contrário, o que estaria fazendo esta gente toda no quarto do hospital, em volta do leito, contando piada e tentando lhe animar? Não há como não lembrar do filme Invasões bárbaras, que mostra o quanto é desestabilizante saber que se vai morrer num prazo curto de tempo, mas que mostra também que é uma grande oportunidade de preencher lacunas afetivas e fazer um inventário dos nossos ideais e emoções.

A morte nunca será uma situação fácil, mas não precisa necessariamente ser dramática. O livro de Dráuzio Varella, com elegância e sutileza, demonstra isto: se há tragédia, é na vida daqueles que não têm do que recordar, não têm de quem sentir saudades, que olham para trás e descobrem que não fizeram nada, que não foram importantes para ninguém. Essa aridez e precariedade é a verdadeira morte. Para os que souberam valorizar o que tinham em mãos, a morte apavora quando se apresenta, mas, aos poucos, os doentes tornam-se mais serenos, e menos onipotentes seus médicos. Segundo o doutor Dráuzio – e talvez por isso tantos escolham esta profissão -, a oncologia é uma lição permanente de humildade.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

VEJA OS PIORES ALIMENTOS E BEBIDAS PARA OS DENTES

O critério dos especialistas é não só o risco de causar cárie, mas também a capacidade de desgastar o esmalte

Se você já ouviu falar que doces apodrecem seus dentes ou que o hábito de beber água gaseificada saborizada ou bebida alcoólica todo dia irá corroer o esmalte deles, pode estar se perguntando que outras comidas e bebidas podem estar prejudicando seu sorriso. Embora seja tecnicamente verdade que todos os alimentos e bebidas podem causar cárie – ou danos à superfície ou esmalte dos dentes – nem todos os estragos são iguais, e algumas pessoas são mais suscetíveis a esses ataques do que outras.

Ao avaliar o quanto uma refeição, lanche, sobremesa ou bebida é ruim para sua saúde bucal, há duas coisas principais a considerar, explica Apoena de Aguiar Ribeiro, odontopediatra e microbiologista da Universidade da Carolina do Norte, que estuda o microbioma oral e como isso afeta a cárie: sua composição e sua qualidade.

Dentro de nossas bocas vivem mais de 700 espécies de bactérias — algumas úteis, outras prejudiciais. As bactérias nocivas quebram os açúcares de alimentos e bebidas e os transformam em ácidos, que com o tempo podem extrair minerais essenciais dos dentes e causar cáries.

Se você não estiver atento à limpeza, as bactérias também podem formar uma película macia, ou placa, na superfície dos dentes, o que pode exacerbar a acidez e criar um ambiente ideal para que ainda mais microrganismos proliferem. Se a placa dentária crescer e endurecer o suficiente, ela pode se transformar em tártaro, o que também pode irritar as gengivas e causar gengivite.

ALIMENTOS E BEBIDAS

Alimentos açucarados — e em particular, aqueles compostos de sacarose, ou açúcar de mesa —são especialmente ruins para os dentes porque bactérias nocivas prosperam neles, segundo a especialista. Você geralmente vai encontrar sacarose em alimentos processados e bebidas açucaradas, como doces, bolos, concentrados de suco de frutas e refrigerantes.

Além disso, todos os alimentos que são pegajosos, gosmentos ou mascáveis — como gomas, frutas secas, xaropes e doces — ficam presos nos cantos e fendas dos dentes e nos espaços entre eles.

“Quando o excesso de açúcar permanece em seus dentes, bactérias nocivas podem armazená-lo em suas células, como uma despensa dentro delas, e continuar produzindo ácido por horas depois que a pessoa comer”, alerta Apoena.

Algumas frutas frescas, vegetais ou alimentos ricos em amido – como frutas cítricas, batatas, arroz e bananas – são muitas vezes consideradas ruins porque podem conter açúcares ou ácidos que são capazes de desgastar os dentes.

“Mas eles também contêm nutrientes que melhorarão sua saúde geral, o que, por sua vez, pode beneficiar seus dentes. Mesmo que sejam alimentos açucarados ou que tendem a ficar presos nos dentes, essa troca pode valer a pena”, afirma Dorota Kopycka-Kedzierawski, dentista do Centro Médico da Universidade de Rochester e pesquisadora de cariologia, o estudo de cáries.

Algumas bebidas, como refrigerantes açucarados, sucos de fruta, energéticos e milkshakes, também são infratoras pesadas. Eles lavam seus dentes em soluções pegajosas e açucaradas e são ácidas.

“Nossos dentes começam a quebrar quando o nível de ácido na boca caia baixo de um pH de 5,5, e os refrigerantes tendem a ter um efeito pH em torno de 3 a 4”, pontua Rocio Quinonez, professora de odontopediatria da Universidade da Carolina do Norte. Outras bebidas carbonatadas como água gaseificada saborizada e álcool também são ácidas. Assim como cafés e bebidas alcoólicas que são frequentemente consumidos com xaropes e misturas açucaradas.

LIMPEZA E CUIDADOS

Portanto, você deve estar atento não apenas à sua dieta, mas também aos seus hábitos de limpeza.

“Contanto que você escove os dentes duas vezes ao dia, uma de manhã e outra antes de dormir, e use fio dental todos os dias, os benefícios nutricionais desses alimentos superarão os riscos de danos dentários”, explica Dorota.

Existem algumas outras estratégias para manter sua saúde bucal sob controle. A principal é evitar petiscar e beber ao mesmo tempo. A saliva, que ajuda a eliminar as partículas de alimentos remanescentes, é uma das forças mais protetoras para os dentes. Remineraliza e fortalece o esmalte e, por conter bicarbonato, ajuda a neutralizar a acidez na boca.

“Mas toda vez que você come ou bebe, leva cerca de 20 a 30 minutos para a saliva atingir níveis protetores, então lanches ou bebidas frequentes podem causar desequilíbrio”, esclarece Quinonez.

Se você não abre mão daquela bebida açucarada, tente consumi-la com uma refeição, ou de uma só vez, em vez de bebericá-la ao longo de todo o dia.

“Beber água depois de qualquer comida ou bebida que você consumiu também pode ajudar a eliminar os açúcares”, sugere Quinonez.

Limite a ingestão de álcool. Pessoas que bebem muito devem ter cuidado, porque a bebida alcoólica pode inibir a salivação regular.

Além disso, esteja atento a certas condições ou efeitos colaterais de medicamentos, e busque alternativas para trocar suas bebidas açucaradas e lanches por substitutos sem açúcar, como aspartame ou álcoois de açúcar, que não são metabolizados por bactérias como os açúcares comuns, e, portanto, não contribuem para a cárie. Mas lembre-se de que os ácidos dos refrigerantes diet ainda causarão alguma desmineralização dos dentes.

Outras dicas comprovadas por estudos são: mastigar chiclete sem açúcar com xilitol três vezes por dia, beber chás preto e verde, pois contêm flúor e têm níveis de pH mais altos, e claro, fazer exames regulares.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GUIA TRAZ DICAS PARA AJUDAR ADOLESCENTES QUE SE CORTAM

 Automutilação é uma forma encontrada pelos jovens para lidar com os sofrimentos emocionais

Comuns entre adolescentes, as automutilações preocupam pais e professores. Cortes na pele são uma forma encontrada pelos jovens para lidar com sofrimentos emocionais, mas inspiram cuidados. Para orientar as famílias e educadores sobre o problema, especialistas ligados à Universidade de São Paulo (USP) lançaram um guia com dicas: a mensagem principal é acolher com empatia os sentimentos dos jovens. A cartilha foi publicada por especialistas em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. O documento traz indicações de cuidado, abordagem e acolhimento. Entre os pontos de alerta está a relação das autolesões com as redes sociais. Segundo o guia, a internet expõe métodos e fotos de autolesão, causando um efeito de imitação ou de gatilho para aqueles que estão vulneráveis emocionalmente. “A situação nas redes é perigosa, pois pode colocar indivíduos que precisam de ajuda dentro daquele mesmo ambiente”, diz a professora da USP Kelly Graziani Giacchero Vedana.

Jovens ouvidos atribuem o comportamento de autolesão a vários fatores, mas dizem ver influência do que assistem na internet. “Achava que era só eu que fazia isso, e aí vi outras pessoas (nas redes sociais) e comecei a conversar com elas. Isso foi criando bola de neve e me influenciando mais”, conta a estudante Maria (nome fictício), de 24 anos, que se corta desde os 13. O ato de transformar o sofrimento mental em dor física é um comportamento chamado de autolesão e é mais comum na adolescência: 23,3% das ocorrências estão na faixa etária dos 15 aos 19 anos, segundo o Ministério da Saúde.

MOTIVAÇÃO

Entre os diferentes tipos de autolesão estão as atitudes de se cortar, queimar, bater a cabeça, coçar, socar objetos e impedir cicatrização de feridas. Aline Conceição da Silva, aluna de doutorado da USP que elaborou a cartilha durante a pesquisa na universidade, explica que o recurso é normalmente utilizado como um alívio, principalmente para aqueles que ainda estão entendendo suas emoções. “A adolescência é o momento em que há vários sentimentos que estes jovens ainda não sabem lidar.” Ela, que é especialista em prevenção da violência provocada, esclarece que o comportamento tem a intenção de comunicar um sofrimento, resolver um conflito ou até mesmo ser um meio para evitar o suicídio. Apesar de ser comum entre jovens, a autolesão pode acontecer em qualquer idade.

SINAIS Desregulações hormonais, desamparo, baixa autoestima, maus-tratos na infância abusos, negligências físicas e emocionais estão entre os fatores de risco para a automutilação. Transtornos mentais, instabilidades na família, falta de amigos, bullying, histórico de suicídio, sentimento de não-pertencimento, violência, vergonha e preconceito também têm influência. A estudante de Psicologia Clara (nome fictício), de 25 anos, conta que as brigas na família e a separação dos pais foram fatores para que começasse a se machucar aos 11 anos. “De alguma forma coloquei a culpa em mim

MITOS E VERDADES

MITO: Comportamento é para chamar a atenção.

VERDADE: A automutilação pode sinalizar sofrimento emocional e necessita de cuidado.

MITO: É típico da adolescência e passa com o tempo.

VERDADE: Comportamento tem repercussões físicas e emocionais potencialmente duradouras e necessita de acompanhamento profissional e de uma rede de apoio.

MITO: É preciso usar violência para deter a automutilação.

VERDADE: Punições e violência podem retroalimentar o sofrimento emocional, levando à intensificação das autolesões.

MITO: Geração anterior era mais madura e capaz de lidar com problemas.

VERDADE: Cada geração enfrenta contextos distintos; não fazer comparações é respeitar o sofrimento do outro.

MITO: A família é responsável pela ausência de educação e limite do adolescente.

VERDADE: As automutilações têm múltiplos fatores.

MITO: A automutilação é uma tentativa de suicídio que não deu certo

VERDADE: A autolesão não tem intencionalidade suicida, mas pode ocorrer concomitante- mente. É preciso avaliação de risco e acompanhamento profissional.

OUTROS OLHARES

MULHERES NEGRAS DESISTEM DE TER FILHOS POR MEDO DO RACISMO

Decisão mira o autocuidado e a proteção à saúde mental, e leva em conta a violência policial e obstétrica

“E se isso acontecer com um filho meu?”

Foi o que se perguntou Lorena Vitória, uma mulher negra de 21 anos, após ver seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Policia Militar:

O medo de que os futuros rebentos sejam vítimas de racismo faz com que a estudante de design de moda questiona se vale a pena ceder ao desejo de ser mãe, ou se é melhor não  colocar outra criança negra em um mundo racista.

“A gente vê hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros já me dói tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu”, diz.

A indecisão de Lorena é comum entre mulheres negras. O medo de que seus filhos sofram racismo – que se manifesta na violência policial e obstétrica, no preconceito e na discriminação – faz com que muitas delas abram mão da maternidade. A decisão também serve como proteção a própria saúde mental.

Isso ocorre pois o racismo é motor de sofrimento psíquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília e autora da tese “Onde se esconde o racismo na psicologia clínica?”.

Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de proteção à saúde mental. Não ter filhos é um deles, uma vez que não precisariam se preocupar com as violências que viriam a sofrer.

De acordo com o Atlas da Violência 2021, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desde a década de 50, quando começaram  a crescer as taxas de homicídio no país, o aumento foi mais acentuado entre a população negra, especialmente entre os mais jovens.

E o medo se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo Fórum mostra que negros são 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens.

Evelyn Daisy de Carvalho de Sousa, 39, nunca teve um forte desejo de ser mãe devido a uma condição de saúde hereditária. Conforme se tornou adulta, o medo de que seus filhos sofressem violência foi o que era preciso para que ela confirmasse a decisão. Percebeu também que precisava proteger sua saúde mental.

Sua decisão acumula ainda outras variantes. Fundadora do Traçamor, um projeto que atende mulheres em período de transição capilar, Evelyn também é responsável pela criação de dois sobrinhos negros, o que faz com pense constantemente em como os manter vivos e seguros.

“Imagina eu tendo gerado, colocado uma criança no mundo para ter essa preocupação? Você coloca uma pessoa no mundo para sofrer essas consequências”.

Além disso, viu a irmã sofrer com a violência obstétrica em suas quatro gravidezes, sendo mal atendida por médicos em dois partos. “Na ginecologia passamos muita humilhação. Eu passei muita humilhação com o ginecologista do posto do meu bairro. Imagina se eu estivesse grávida?”

Para Janete Santos Ribeiro, mestre em educação pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e ex-coordenadora pedagógica do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a decisão deve levar em consideração se existir o desejo pela maternidade e pensar em quais formas isso será sanado para não virar um fator de sofrimento. “A solidão da mulher negra tem sido uma imposição da cultura patriarcal, elitista e racista. Não queremos mais essa solidão pautando nossas decisões e escolhas.”

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESÁRIOS FALHAM 2 VEZES ANTES DE TER SUCESSO

Pesquisa mostra que 96% dos donos de negócios acreditam que erros são oportunidades de aprendizado

Natural de Minas Gerais, Isonel da Paixão Araújo, de 49 anos, se mudou para São Paulo na década de 1990 com a ideia de ter o próprio negócio. Começou a trabalhar como garçom e barman e, familiarizado com o setor, abriu um hortifrúti em 1998. Ele acreditava que, por já atuar no meio, conhecer fornecedores e possíveis clientes, seria uma boa aposta. O negócio, porém, não fluiu como o esperado.

“Quando você trabalha com produto alimentício, tem uma margem boa, mas também muita perda, porque são produtos perecíveis, e isso me causava certa preocupação”, relata. A logística dos produtos não funcionou bem, e o lucro que ele tinha era levado com os itens que estragavam.

Araújo fechou o negócio após um ano e meio e avalia que não tinha preparo suficiente. O fato de não ter se dedicado 100% ao empreendimento (ele ainda trabalhava como garçom) também influenciou negativamente. Persistente e buscando “algo a mais”, ele foi atraído para o setor de beleza por meio da irmã, que já tinha um salão.

Ali, a postura dele foi diferente, pois tinha aprendido com a experiência anterior. “Eu encarei de cabeça, apostei primeiro em mim para dar certo. Fiz cursos, fiz estágio com minha irmã, ela me orientou, indicou clientes.” Em 2000, ele abriu o próprio salão, que leva seu nome e está na mesma localização até hoje, na região do Jardim Paulista.

Encarar o que deu errado como algo positivo é desafiador, mas empreendedores costumam persistir, ser inquietos e aprender com as experiências negativas. Segundo a Pesquisa Global de Empreendedorismo 2022, encomendada pela Herbalife Nutrition à One Poll, 96% dos donos de negócios brasileiros concordam, parcial ou totalmente, que erros são oportunidades de aprendizado. Em média, os empreendedores tiveram duas ideias malsucedidas antes de encontrar uma que funcionasse.

A maioria dos empresários ouvidos concorda que, para ter sucesso, não se pode ter medo de errar e está disposta a correr o risco de falhar a fim de ser bem-sucedido. Eles também apontam o amadurecimento como fator de sucesso de um negócio. Quando tinha 24 anos, Wagner Alexandre abriu uma loja de assistência técnica para celulares que durou quatro meses.

Ele teve outra empresa no mesmo segmento e depois uma hamburgueria. Entre os motivos para ter saído dos negócios, o curitibano lista a falta de maturidade e destreza para trabalhar com sócios. “No primeiro negócio, eu não tinha noção de estrutura de empresa, perspectiva de crescimento, visão de longo prazo”, diz ele, hoje com 34 anos.

SUCESSO

Em 2017, Alexandre abriu outra hamburgueria, desta vez sozinho. Hoje, a Pimp Burger tem duas unidades e vai iniciar a expansão por franquias, cuja formatação foi concluída no início de julho. O empresário aprendeu que é necessário formatar bem o contrato entre os sócios, definindo direitos e deveres de cada um, com funções bem descritas para não haver cobranças inadequadas no futuro.

“Fazer sociedade é algo complexo, e os conflitos são inerentes. É essencial que os papéis de cada um estejam definidos”, diz Roberto Lange Rila, responsável pelos cursos de Gestão e Negócios do Senac EAD. Segundo ele, sempre vamos aprender, no sucesso ou no fracasso, mas muitas vezes é com fracasso. Ele diz que não ter um plano de negócio é um desafio para muitos empreendedores.

EU ACHO …

O PRIMEIRO QUARTO

Poucas são as crianças que desde cedo têm um quarto só para elas. Na maioria das famílias, crianças compartilham o quarto com o irmão, o que, diga-se, é muito seguro, principalmente na hora em que se apaga a luz e os monstros da nossa imaginação saem de trás da cortina: convém não estar sozinho nessa hora.

Mas crianças crescem, e sua necessidade de isolamento também. Chega um momento em que não há graça nenhuma em repartir o guarda-roupa: é injusto você ficar com uma gaveta a menos só porque utiliza cabides a mais. Seu irmão cola na parede o pôster do Ozzy Osborne e não negocia, então você é obrigada a revidar com o pôster do Linkin Park e o quarto fica parecendo um estúdio de rádio pirata. Os amigos dele sentam na sua cama, pegam suas coisas, colocam aqueles tênis nojentos em cima da sua colcha, e você não pode erguer um muro para dividir o território porque na sua casa o regime é democrático. Então você segura a onda, nada a fazer, a não ser rezar antes de dormir para pedir que todos tenham muita saúde e paz, mas, se não for abuso, pô, Senhor, dê uma forcinha  para que a gente consiga mudar para um apartamento maior.

Deus existe. Abençoado apartamento de três dormitórios. Você mal acredita no que conseguiu realizar: o sonho do quarto próprio.

O primeiro quarto é como se fosse nosso primeiro lar. Tudo o que entrar ali – se o orçamento permitir e sua mãe for camarada – terá seu estilo, seu gosto. Você é que manda: pode escancarar a janela, ser a anfitriã de suas colegas de aula, pode fechar a porta para escutar seu som, escrever mil páginas de poemas sem ter alguém espiando sobre seu ombro, pode à noite deixar acesa uma luzinha, pode dançar sozinha, pode dormir só de calcinha. Um lugar para exercer algo sobre o qual você já ouviu comentários entusiasmantes, porém nunca havia experimentado: liberdade.

Seu quarto é o seu refúgio dentro da sua própria casa, é seu bunker, seu direito ao recolhimento, não o tempo inteiro, mas quando for necessário – e tantas vezes é. Um lugar para chorar. Poucos são os que têm privacidade para ficar tristes. Neste mundo de vigília e patrulha constantes, é um luxo poder sofrer sem ter ninguém nos observando.

O primeiro quarto é nosso primeiro palco – e é bastidor ao mesmo tempo. É onde ensaiamos a vida que encenaremos mais adiante. No quarto testamos vários figurinos, nos maquiamos, criamos novos penteados, cantamos, inventamos coreografias, escalamos nós mesmos para o papel principal, decidimos a marcação, e podemos até enxergar a plateia nos aplaudindo de pé. Nosso quarto é nossa fronteira aberta, nossa zona de travessia, realidade e imaginação convivendo em paz, livres de diagnósticos rígidos: ninguém aqui é louco, apenas artista.

Uma artista, claro, que precisa sentar à mesa para jantar com a família, que precisa fazer os deveres da escola, que precisa juntar a toalha do chão e arrumar a própria cama – nada de moleza, mocinha. Mas a mocinha, nas horas vagas, tem um canto todo seu, uns poucos metros quadrados para sonhar sem que lhe chamem a atenção, sem que lhe interrompam com perguntas. E o melhor de tudo: por trás da cortina não há mais bicho-papão. Solidão, seja muito bem-vinda.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SUOR NOTURNO PODE SER SINAL DA LINHAGEM BA.5

Cientista irlandês ouviu relatos de infectados pela subvariante da Ômicron

Os sintomas da Covid-19 mudaram ao longo da pandemia com o surgimento de novas linhagens do Sars-CoV-2. Dos tradicionais perda de olfato e de paladar, chegou-se aos sinais mais comuns hoje, como nariz escorrendo, tosse persistente e garganta arranhando. Agora, a emergência da subvariante da Ômicron BA.5 trouxe mais uma manifestação da doença: os suores durante a noite.

O relato vem chegando com mais frequência aos consultórios, afirma um imunologista da Universidade de Trinity, na Irlanda.

“Um sintoma extra para BA.5 que vi esta manhã são os suores noturnos. A doença é um pouco diferente porque o vírus mudou. Existe alguma imunidade, com as células T (de defesa) e outros parâmetros de proteção. E essa mistura de seu sistema imunológico com o vírus ligeiramente diferente pode dar origem a uma doença também diferente com, estranhamente, esse sintoma sendo uma característica”, contou o imunologista Luke O’Neill à rádio irlandesa NewsTalk.

A BA.5, assim como uma versão semelhante chamada de BA.4, tem se tornado rapidamente a principal responsável por novos casos de Covid-19 onde já foi detectada. No último dia 14, a Organização Pan-Americana da Saúde, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), alertou que a subvariante deve se tornar predominante nas Américas em semanas.

No Brasil, de acordo com o último levantamento do Instituto Todos pela Saúde, com base na análise de mais de 150 mil testes PCR dos laboratórios da Dasa, DB Molecular e HLAGyn, os casos prováveis de BA.4 e BA.5 cresceram de 79,3% para 93,2% nas duas últimas semanas de junho.

SINAIS COMUNS

No último mês, uma nova análise de dados do aplicativo Zoe, que monitora sintomas relatados da Covid-19 no Reino Unido, indicou quais são os sinais mais frequentes hoje em pessoas vacinadas com duas doses e entre os não vacinados.

Os resultados, divulgados pela parceria de pesquisadores do King’s College de Londres e da Universidade de Londres, com apoio do Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS), mostrou que para os imunizados os sintomas mais comuns são: nariz escorrendo, dor de cabeça, espirros, dor de garganta e tosse persistente.

Já para aqueles que não tomaram vacina, os sintomas são: tosse persistente, febre, nariz escorrendo, dor de garganta e dor de cabeça.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SONO AJUDA A ESQUECER

Artigos publicados na Science oferecem evidências de que dormimos para podar uma parte do acúmulo de informações que recebemos todos os dias, mas ainda não se sabe se essa é a principal razão para ‘desligarmos’

Ao longo dos anos, os cientistas surgiram com muitas ideias sobre por que dormimos. Alguns argumentam que é uma maneira de economizar energia. Outros sugerem que o sono oferece uma oportunidade de limpar os resíduos celulares do cérebro. Outros ainda propõem que o sono simplesmente força os animais a ficarem parados, deixando-os se esconder de predadores.

Dois artigos publicados na revista Science oferecem evidências de que dormimos para esquecer uma parte do acúmulo de informações que recebemos todos os dias. Para aprender, temos que desenvolver conexões, ou sinapses, entre os neurônios em nossos cérebros. Essas conexões permitem que os neurônios enviem sinais uns aos outros de forma rápida e eficiente para armazenarmos novas memórias nessas redes neuronais.

Giulio Tononi e Chiara Cirelli, biólogos da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, propõem que fazemos tantas sinapses durante o dia, por conta da quantidade de informações recebidas, que os circuitos cerebrais se tornam “ruidosos” demais.

A dupla, juntamente com outros pesquisadores, encontrou uma grande quantidade de evidências indiretas para apoiar a chamada hipótese da homeostase sináptica. Quando dormimos, argumentam os cientistas, nossos cérebros reduzem as conexões para estabilizar essas trocas de sinais. Os neurônios podem “podar” as sinapses, pelo menos em laboratório. Como observado nos experimentos com aglomerados de neurônios, os cientistas podem dar a eles uma droga que os estimula a desenvolver sinapses extras e, depois, reduzem parte do seu crescimento.

Outra evidência vem das ondas elétricas liberadas pelo cérebro. Durante o sono profundo, essas ondas diminuem. Os pesquisadores argumentam que o encolhimento das sinapses produz essa mudança.

A cientista Luísa de Vivo liderou uma pesquisa meticulosa de tecidos retirados de camundongos, alguns acordados e outros dormindo. Ela e os outros pesquisadores calcularam 6.920 sinapses sendo feitas no total. Assim, descobriram que as sinapses nos cérebros dos camundongos adormecidos eram 18% menores do que nos acordados.

Tononi e Cirelli tiveram a chance de testar sua teoria observando as sinapses nos cérebros de camundongos:

“É surpreendente que haja uma mudança tão grande no cérebro”, diz Tononi.

MÁQUINA DE PODA

O segundo estudo foi liderado por Graham H. Diering, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Diering e outros pesquisadores começaram a explorar a hipótese da homeostase sináptica estudando as proteínas em cérebros de camundongos.

Eles adicionaram um produto químico que acendeu uma proteína nas sinapses cerebrais e descobriram que o número dela caiu durante o sono. Esse declínio é como se as sinapses estivessem encolhendo. Então, procuraram o gatilho molecular para essa mudança e uma proteína em particular, chamada Homer1A, destacou-se.

Em experimentos anteriores com neurônios em laboratório, a Homer1A provou ser importante para reduzir sinapses. Diering se perguntou se isso também era importante durante o sono. A pesquisa sugere que a sonolência aciona os neurônios para produzir Homer1A e enviá-la para suas sinapses. Quando chega o sono efetivamente, a Homer1A liga a máquina de poda.

Mas esses cortes não atingem todos os neurônios. Um quinto das sinapses permaneceu inalterado. É possível que essas sinapses codifiquem memórias bem estabelecidas que não devam ser adulteradas.

“Você pode esquecer de uma forma inteligente”, afirma Tononi.

FUNÇÃO FINAL

Outros pesquisadores, no entanto, alertaram que as novas descobertas não configuram uma prova incontestável da hipótese da homeostase sináptica.

Para Markus H. Schmidt, do Instituto de Medicina do Sono de Ohio, embora o cérebro possa podar as sinapses enquanto dormimos, é questionável se essa é a principal explicação para a existência do sono:

“A questão é: essa poda é a função do sono ou uma função à parte?

Muitos órgãos, não apenas o cérebro, parecem funcionar de forma diferente durante o sono, destaca Schmidt. O intestino, por exemplo, produz muitas novas células.

Segundo Tononi, as novas descobertas devem levar a uma análise do que as drogas atuais para dormir fazem no cérebro. Embora possam deixar as pessoas sonolentas, também é possível que interfiram nessa poda para formar memórias.

“Você pode realmente trabalhar contra si mesmo”, afirma o pesquisador. No futuro, remédios para dormir podem ser moldados para atingir apenas as moléculas envolvidas no sono, permitindo que as sinapses sejam devidamente editadas.

OUTROS OLHARES

BALANÇAR AS PERNAS E MEXER OS DEDOS FAZ BEM À SAÚDE

Movimentos inquietos ajudam a ativar a musculatura e elevar o fluxo sanguíneo, de acordo com novo estudo

Você é um inquieto? A partir de agora, você pode ignorar os pedidos frequentes que, sem dúvida, recebe para ficar parado. Um novo estudo descobriu que a inquietação – bater os dedos, balançar os pés e outros movimentos corporais que incomodam seus colegas de trabalho – é boa para sua saúde.

Sentar é um dos flagelos da vida moderna. Nós nos sentamos durante reuniões, viagens de carro e avião, enquanto completamos longas tarefas de trabalho e enquanto assistimos “Stranger things”. Estudos de padrões de movimento indicam que a maioria de nós passa de oito a dez horas por dia sentado. Durante esse tempo, nossos corpos e, em particular, nossas pernas, mal se movem.

As consequências para a saúde dessa imobilidade muscular estão bem documentadas e incluem um risco aumentado de ganho de peso, bem como diabetes, uma vez que os músculos não utilizados nas pernas não puxam o açúcar do sangue, levando a um aumento perigoso dele no sangue.

Mas o impacto mais imediato de ficar sentado por tempo demais está em nossa rede vascular. Estudos mostram que sentar ininterruptamente causa um declínio abrupto e significativo no fluxo sanguíneo para as pernas. Isso é problemático, pois, quando o fluxo sanguíneo diminui, o atrito ao longo das paredes dos vasos também diminui. As células que revestem essas paredes começam a bombear proteínas que contribuem com o tempo para o endurecimento e estreitamento das artérias. Biologicamente, isso faz sentido, porque as artérias não precisam ser tão flexíveis quando não há muito sangue nelas, mas quando o fluxo aumenta, o vaso sanguíneo permanece rígido, aumentando a pressão e o risco de aterosclerose.

Poderíamos combater essa situação facilmente nos movendo ou levantando, fazendo com que os músculos das pernas se contraiam e o fluxo sanguíneo permaneça estável.

“Mas há muitas situações em que as pessoas não podem simplesmente ficar de pé, como durante longas reuniões ou viagens de carro”, diz Jaume Padilla, professor de nutrição e fisiologia do exercício da Universidade de Missouri, que liderou o novo estudo.

Assim, Padilla e seus colegas começaram a considerar outras maneiras relativamente discretas e práticas que alguém poderia combater o declínio no fluxo sanguíneo associado a ficar sentado. Para o novo estudo, publicado na Revista Americana de Fisiologia do Coração e Circulação Fisiológica, a resposta é fazer movimentos inquietos.

HORAS SENTADOS

Padilla e seus colegas pensaram que era concebível que a inquietação da parte inferior do corpo também pudesse resultar em atividade muscular suficiente para elevar o fluxo sanguíneo para as pernas. Para testar essa possibilidade, recrutaram 11 universitários saudáveis e, usando ultrassom e um manguito de pressão arterial, primeiro mediram o nível de fluxo normal através de uma das principais artérias das pernas e determinaram quão bem essa artéria respondeu às mudanças na pressão arterial – um marcador de saúde arterial.

Em seguida, pediram a cada um que se sentasse por três horas na frente de uma mesa. Os voluntários podiam estudar, trabalhar em seus computadores, falar ao telefone ou se divertir de outra forma, mas, durante essas três horas, não foram autorizados a se levantar.

Mais importante ainda, eles pediram aos voluntários que mantivessem uma perna perfeitamente imóvel, o pé apoiado no chão e imóvel. Coma outra perna, os voluntários foram instruídos a se mexer – batendo os calcanhares no chão por um minuto e depois ficando parados por quatro minutos. Um relógio soou para que eles soubessem quando começar ou parar de mexer. Ao longo das três horas, os pesquisadores monitoraram o fluxo sanguíneo nas artérias das pernas dos voluntários.

O fluxo sanguíneo na perna imóvel diminuiu vertiginosamente, mas aumentou na perna inquieta, em comparação com os níveis base e com a perna imóvel.         

Mais impressionante, ao final das três horas, quando os pesquisadores testaram novamente a capacidade das artérias dos voluntários de responder às mudanças na pressão arterial, o vaso na perna imóvel não funcionou mais tão bem quanto durante o teste, o que sugere que já não era tão saudável quanto antes. Mas a artéria na perna inquieta dos voluntários respondeu tão bem ou melhor do que no início às mudanças na pressão arterial.

“Ficamos surpresos com a magnitude da diferença entre as duas pernas”, conta Padilla “As contrações musculares associadas à inquietação são realmente muito pequenas, mas parece que são suficientes para combater algumas das consequências prejudiciais de ficar sentado.

O estudo foi pequeno, de curto prazo e envolveu apenas jovens saudáveis, por isso novas pesquisas são necessárias. Mas se você não pode se levantar e andar durante sua próxima reunião, balance os pés ou mantenha as pernas em movimento. E se o seu colega franzir a testa, diga que a ciência descobriu que a inquietação é um bom remédio.

GESTÃO E CARREIRA

SEGMENTOS PROMISSORES PARA EMPREENDER NESTE 2º SEMESTRE

Desde o começo da pandemia, empreendedores sentiram a necessidade de se reinventar e com isso, inúmeras oportunidades começaram a aparecer. Basta olhar ao redor para ver como o mercado está mudando e estão surgindo novas necessidades.

Seja na venda de pro- dutos ou de serviços, os melhores negócios só são garantidos quando você entende os principais desejos, expectativas e necessidades dos consumidores. Para o cofundador e CPO da Unicorn Factory, Michael Citadin, o mercado está sempre em busca de boas ideias e, também, com um time que saiba executar, em outras palavras, as empresas que sabem fazer gestão, especialmente pelo momento econômico mundial, são as mais promissoras.

Os bons investimentos devem continuar crescendo no ecossistema, principal- mente as ideias ou startups que tenham bom mercado para atuação. Além disso, os investidores estão à pro- cura de negócios com boa capacidade de execução, ou seja, o número absoluto de investimentos pode vir a reduzir, mas os cheques tendem a serem maiores.

“Vejo essa mudança de comportamento como pro- cesso evolutivo e bom para o ecossistema, uma vez que quem está preparado desde o início tende a receber mais investimento do que poderia receber anteriormente”, diz Citadin. Para encontrar as áreas mais aquecidas, é preciso compreender as tendências e os acontecimentos ao nosso redor. Nesse senti- do, ainda que as pessoas já estejam preparadas para o “novo normal”, a pandemia ainda tem forte influência mercadológica.

Até porque, o período pandêmico transformou os hábitos de consumo, e isso ainda reverbera no mercado atual. Contudo, conhecer os caminhos que o comércio e demais setores estão tomando irá facilitar o planejamento para o próximo semestre. Mas afinal, qual a importância de identificar o nicho do seu negócio?

Para Michael, a identificação possibilita que a startup possa ser especialista do seu cliente, criando proposta de valor que o mercado valorize. “Vemos isso como uma oportunidade que acelera o desenvolvimento do negócio uma vez que traz foco para o dia a dia”, comenta.

“É clichê, mas necessário ressaltar que entender se a ideia de negócio é viável, se possui mercado e se a pro- posta de valor é realmente um diferencial frente aos concorrentes, são questões elementares que farão com que a startup encontre seu product market fit”, reforça. Sobre os segmentos que acredita que devem prosperar nos próximos meses, o empreendedor destaca a representatividade das fintechs.

“Alguns anos atrás o principal setor era das fintechs, hoje elas continuam com sua representatividade, mas vemos ótimos negócios dos mais variados setores prosperando, como agtech, hrtech, edtech, proptech, healthtech, foodtechs, entre outras. No final do dia o que importa é a startup resolver uma dor real do mercado”. – Fonte e outras informações: (https://www.nicornfactory.com.br).

EU ACHO …

POR QUE EU FUI ABRIR A BOCA?

Você foi alertada pela sua bisavó, pela sua avó e pela sua mãe: o silêncio é de ouro. Mas não adiantou nada, como não vai adiantar quando você tentar passar essa máxima para sua filha. Mulher tem um certo descontrole verbal, está no nosso DNA. Você sai com as amigas e antes do segundo chope já está quebrando aquele juramento de nunca contar nenhuma novidade antes que ela se confirme. Desobedecendo a si própria, lá está você comentando sobre uma promoção que talvez pinte em novembro, sobre a azaração que talvez vire namoro, sobre a viagem à Patagônia que talvez você faça no final no ano. Não dá para amarrar a língua dentro da boca?

Menos mal que você está falando do que lhe diz respeito. O estrago começa quando a gente se põe a falar de uma amiga, quando a gente comete uma indiscrição relativa à nossa irmã, quando a gente entrega um segredo que era propriedade privada de outra pessoa. Tudo coisinha à toa, um comentariozinho de nada, fofoquinhas sem importância. Mas que ressaca que bate na manhã seguinte.

Você disse que detestou um filme cujo diretor é um dos seus melhores amigos. Você espalhou que o marido da Fulana é o campeão da grosseria e amanhã compartilharão a mesma mesa numa festa. Você admitiu que não suporta saraus e já frequentou vários com o sorriso nas orelhas, sua falsa. Você entregou as três plásticas que sua cunhada fez no rosto e ela pediu tanto que você não contasse. Escapou, ué. Quanta frescura, o que é que tem fazer plástica?

Pra você pode não haver razão nenhuma para segredo, mas se alguém lhe contou algo em confidência, custa fechar a matraca? Não custa, mas nossa voz é rápida no gatilho, não lê as placas de advertência, quando vê, já avançou o sinal, já foi, está lá adiante. Rebobinar a fita, impossível. Fica então aquele gostinho azedo na boca, de quem não cometeu nenhum pecado grave, mas perdeu uma bela oportunidade de ser elegante.

Reza a lenda que chiques são as mulheres que falam pouco. As econômicas. Aquelas que apenas sorriem, enquanto as outras, histéricas, falam todas ao mesmo tempo. Mulheres caladas, controladas, que nunca dizem algo inconveniente. Elas mantêm um ar enigmático. Dão a entender que já passaram pela fase de palpitar sobre tudo. Disseram o que tinham para dizer no divã do analista e, agora, mais maduras, descobriram a arte de escutar. Só dando na cara.

Eu sei, eu sei, puro recalque. E olha que eu nem tenho motivo para isto, no planeta de onde venho sou considerada até bem reservada. Mas, vez que outra, me empolgo e pronto: descambo para a tagarelice. Com a melhor das intenções, diga-se. Tudo em nome da honestidade. Por que eu confirmei que o cabelo dela está tenebroso? Porque ela perguntou, ora. Por que eu disse para ele não me ligar nunca mais? Porque naquela hora eu estava tomada pelo ódio. Mas agora eu quero!

Em nome da honestidade, cometemos algumas indelicadezas e precipitações. Como sofre uma mulher: ela precisa ser autêntica e, ao mesmo tempo, discreta. Ter opinião, mas nunca dizer uma leviandade. Ser sábia, porém nunca imprudente.

Na próxima encarnação, não quero vir honesta, nem desonesta. Quero vir muda.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

FRIO DA BELEZA

Inverno é estação ideal para tratar do rosto; veja as 7 técnicas mais indicadas

Embora o envelhecimento da pele seja um processo natural, diversos fatores, como sono insuficiente, baixa hidratação e tabagismo, aceleram essas mudanças, provocando o aparecimento precoce de manchas, rugas e outras linhas de expressão. Para quem se incomoda com os sinais do tempo no rosto, o inverno é o momento ideal para buscar tratamentos que requerem evitar a exposição ao sol durante a recuperação. A coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio de Janeiro, Patrícia Ormiga, explica que estação mais fria do ano traz certas vantagens para um tapa no visual.

“Existem procedimentos tradicionais excelentes que são realizados de forma melhor no inverno porque o paciente não pode estar bronzeado nem pegar sol depois da intervenção, como o peeling e outros que agem nas camadas mais externas da pele”, diz a dermatologista.

Ela destaca, no entanto, que as técnicas têm avançado muito nos últimos anos e muitas já não contam com esse requisito. Para a dermatologista Ana Carolina Sumam, membro especialista da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a melhor estratégia depende de uma série de fatores, como o efeito desejado e em qual parte do processo de envelhecimento do órgão ela vai atuar.

“O envelhecimento da pele envolve uma série de processos biológicos. Nós temos a perda óssea da face, assim como em outros ossos do corpo; a perda de bolsas de gordura que promovem sustentação facial durante a juventude e as alterações na pele, como rugas de expressão e manchas, que são decorrentes da perda de colágeno”, afirma a especialista.

Ouvimos quatro dermatologistas, que listaram as sete técnicas simples mais indicadas para o rejuvenescimento da pele do rosto. A seguir, os procedimentos escolhidos:

LASERS

É um dos procedimentos em que é preciso evitar a exposição ao sol nos dias seguintes. Isso porque a técnica atua na camada externa da pele e pode provocar sensação de ardência e ressecamento após o procedimento. Trata-se de um feixe de luz que mira um alvo na pele e altera a sua composição. Esse alvo pode ser a própria melanina, no caso de clareamento de manchas, ou pontos de estimulação de colágeno, por exemplo.

O dermatologista Abdo Salomão Jr., da SBD, explica que há uma ampla variedade de objetivos para os quais o laser é utilizado:

“Ele é aplicado para tratar estrias, cicatrizes, melanomas, manchas, entre muitas outras imperfeições. Com os modelos mais novos, o tratamento é feito em uma única sessão, e a pessoa vai para a casa no mesmo dia.

PEELINGS

O nome peeling vem do inglês “descamar”, que é basicamente o que a técnica faz com a pele para estimular a sua renovação. Para isso, podem ser utilizados procedimentos chamados de físicos, quando ocorre a esfoliação da camada mais superficial da pele, ou químico, quando são utilizadas substâncias como ácidos para promover o resultado.

“O inverno é uma estação favorável à realização de peelings, uma vez que o frio evita a dilatação dos vasos, o que faz com que haja menos inchaço”, explica Natasha Crepaldi, professora de dermatologia da Universidade Federal do Mato Grosso.

Após a pele ser descascada, retirando as células mortas, o corpo é estimulado a renovar a região, produzindo novas células. A técnica é indicada para atenuar manchas, marcas de expressão, de espinhas e de acnes na pele. Ela envolve uma única ida ao dermatologista, mas pode ser repetida mediante indicação.

Uma modalidade antiga de peeling, mas que tem repercutido recentemente, é a que utiliza a substância fenol para a descamação. É um produto mais agressivo que, por apresentar diversos riscos e ser aplicado apenas em hospitais, tem caído em desuso.

“É uma queimadura programada, em que você remove toda a epiderme e uma parte da derme. Os resultados são brilhantes, mas é um procedimento muito sofrido. Há riscos altos de cicatrizes e manchas, a pessoa fica de dois a três meses com o rosto vermelho, um mês sem sair e uma semana sem abrir os olhos”, diz Salomão Jr.

MICROAGULHAMENTO E ELETRODERME

O microagulhamento é uma técnica que utiliza uma série de agulhas minúsculas, inseridas na pele para induzir pontos de produção de colágeno. É comum o uso de um creme anestésico antes do procedimento, que também é feito em sessão única. Há ainda a eletroderme, muito popular hoje, que é uma nova versão do método. Nela, as agulhas são conectadas a uma máquina e suas pontas emitem uma radiofrequência para intensificar o efeito. Pela estimulação do colágeno, o microagulhamento atua na redução da flacidez.

PREENCHIMENTO COM ÁCIDO HIALURÔNICO

Os preenchimentos usam substâncias sintéticas para remodelar vincos, como rugas, e dar volume a pontos que podem ser deformados pela perda óssea. A grande maioria é feita com substâncias à base de ácido hialurônico, que tem segurança e eficácia consideradas unânimes. Salomão Jr. explica que existem outras substâncias, mas muitas são subprodutos do petróleo que podem levar à rejeição pelo corpo.

Essa técnica costuma ser utilizada para corrigir perdas de volume e de formações no relevo da pele, como rugas ou olheiras. Requer uma sessão e os efeitos duram em média um ano.

BIOESTIMULADORES E LIFTING

Os bioestimuladores, assim como o microagulhamento, atuam nas células que produzem colágeno. São diversos modelos, como injetáveis — com substâncias capazes de induzir a produção da substância —ou lasers. Uma modalidade em alta são os fios de sustentação, também conhecidos como lifting, feitos com ácido polilático.

No caso do lifting, além da maior rigidez conferida pelo aumento da proteína proporcionada pelo ácido, os fios são inseridos no rosto para fixar a pele ao tecido subcutâneo. Após cerca de um ano, o corpo absorve o material dos fios, mas os efeitos permanecem por mais tempo.

ULTRASSOM MICROFOCADO

As ondas do ultrassom microfocado criam zonas de calor controladas na pele para estimular processos de coagulação. Isso ativa o sistema imunológico local, induzindo uma cicatrização que repara o tecido e, posteriormente, estimula a produção de colágeno.

Salomão Jr. explica que as versões mais recentes do método são indicadas especialmente para tratar áreas delicadas, como pálpebras e ao redor da boca. A aplicação costuma ser rápida, e exige apenas uma sessão.

NOVA GERAÇÃO DE BOTOX

Um dos métodos mais conhecidos, a toxina botulínica é uma bactéria que atua reduzindo a contração muscular. Ela é usada principalmente para as rugas dinâmicas do terço superior da face. Porém, a nova geração de botox pode ser aplicada em outras regiões, como no pescoço.

“Nós sempre estamos evoluindo para melhorar a aplicação, e de tempos em tempos surgem toxinas novas no mercado”, explica Patrícia, da SBD.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRATÉGIAS REDUZEM ESTRESSE NA HORA DA BIRRA

Ataque de raiva pode ser rito de passagem no desenvolvimento, e estimular a criança a descrever sentimentos ajuda

Muitos de nós fomos ensinados que ter raiva é ruim e que demonstrar que estamos com raiva e expressar nossos sentimentos é feio. Essa declaração foi feita por Jazmine McCoy, psicóloga infantil e familiar e autora de “The Ultimate Tantrum Guide” (O guia definitivo do chilique, em português).

Mas a raiva não é ruim, disse McCoy, nem expressá-la é,inerentemente perigoso ou desrespeitoso, Aprender a lidar com a raiva é uma técnica para a vida toda que permite que as crianças ajam em casa, na escola e no mundo sem perder o controle.

É uma habilidade que os pais podem ajudar seus  filhos a cultivar, começando quando são bebês e crianças pequenas, incentivando-os a desenvolver diversas válvulas de escape e criando maior capacidade de enfrentamento para si mesmas.

NÃO TENHA MEDO DOS ATAQUES

Em relação a crianças e raiva, pode ser útil lembrar alguns fatos simples: primeiro, a raiva é uma emoção humana básica,.

E segundo, as emoções existem para nos falar sobre nós mesmos e nossos relacionamentos, explicou Dave Anderson, psicólogo clínico e vice presidente de programas escolares e comunitários do Child Mind lnstitute, Organização  sem fins lucrativos que oferece terapia para crianças e famílias.

As emoções podem nos ajudar a responder a perguntas básicas: do que gostaríamos de ter mais? o que gostaríamos que terminasse?

Lembrar que a raiva é uma parte intrínseca do ser humano pode nos ajudar a responder a uma criança violenta com compaixão, e não julgamento. Gritar com uma criança – que está gritando com você e com o mundo – só vai agravar a situação.

“Algumas emoções são realmente estressantes, como medo ou raiva”, disse Anderson. Os pais devem tentar ajudar seus filhos a processar essas emoções de maneira saudável, acrescentou.

“A chave é que queremos que eles consigam fazer o que precisam fazer na escola, com a família e em situações sociais, sem que suas reações às próprias emoções realmente atrapalhem ou dificultem para eles formar relacionamentos positivos.”

Também pode ser útil lembrar que ataques ou birras (termos não clínicos que descrevem aqueles momentos terríveis em que seu filho fica totalmente louco) pode ser um rito de passagem de desenvolvimento especialmente para crianças menores de 3 anos que ainda estão aprendendo a se autorregular.

Não é raro que crianças pequenas ou pré-escolares tenham acessos de raiva várias vezes, disse Denis Sukhodolsky, diretor da unidade de prática baseada em evidências do Centro de Estudos da Criança, na Escola de Medicina da Universidade Yale.

A duração média dos ataques das crianças é de cerca de três minutos, acrescentou ele, mas há uma grande variedade de quanto tempo podem durar – entre 1 e 20 minutos.

“As crises de raiva servem a um propósito de desenvolvimento”, disse Sukhodolsky. “As crianças estão aprendendo a lidar com independência, transições, aprendendo regras sociais e a lidar com situações em que a conformidade é necessária.”

AJUDE A CRIANÇA A DESENVOLVER UM VOCABULÁRIO EMOCIONAL

“Nomeie para domar” – frase cunhada pelo psicólogo Dan Siegel,- é um mantra muito repetido entre os especialistas em desenvolvimento infantil que acreditam na importância de ensinar as crianças a identificar e dar nome a seus sentimentos para poderem falar sobre o que estão sentindo.

McCoy recomenda a leitura de livros simples para bebês, com fotos de outras crianças sorrindo, rindo ou franzindo a testa, que eles tendem a achar “cativantes”. Evidências mostram que os bebês podem começar a identificar emoções nos outros com apenas 6 meses de vida.

Os livros também podem ser uma ferramenta eficaz para crianças em idade escolar primária. Olhe para as imagens e pergunte o que os personagens estão sentindo, ou converse sobre as implicações emocionais de um enredo específico, levando as crianças a explicar o  que você vê. O mesmo vale para assistir Tv com adolescentes.

Para crianças mais novas, recursos visuais como “medidores de humor” ou “temas que levam as crianças a descrever seus sentimentos e avaliar a intensidade deles também podem ser úteis, estejam elas calmas e relaxadas ou furiosas.

Seja qual for a estratégia que você escolher, o objetivo é ajudar as crianças a desenvolver a linguagem de que precisam para expressar seus sentimentos. É uma habilidade que se desenvolve com o tempo e a pratica, e pode ajuda-las a se sentirem compreendidas.

“É importante validar as emoções das crianças”, disse o doutor Sukhodolsky – quer você tenha em casa uma criança de 2 anos ou uma de 22.

DIGA A ELES QUANDO ESTIVER IRRITADO

Os pais as vezes sentem que precisam proteger os filhos de suas próprias emoções, mas abrir-se durante momentos de fúria ou frustração pode ser educativo. Descreva ao seu filho como se sente fisicamente. Sua mente está agitada? Seu coração está batendo forte?

“Realmente levar algum tempo para desacelerar e descrever o que acontece no seu corpo – e como você sabe dizer o que está sentindo – é uma experiência muito poderosa”, disse a doutora McCoy.

“E é um dois em um porque ao fazer isso pelo seu filho você está diminuindo seu próprio ritmo”.

Certifique-se de dar o passo final crucial, disse ela: mostre como você enfrenta. Você pode dizer algo como: “vou respirar fundo algumas vezes”.’ Ou “vou me sentar por um momento”. Ou “vou pegar um pouco de água”, disse McCoy. “O que quer que você precise naquele momento, fale em voz alta e ajude-os a entender o que está acontecendo”.

IDENTIFIQUE MANEIRAS EFICAZES DE REAGIR

As crianças t:unbém precisam encontrar suas próprias maneiras de autorregular e elas podem ser diferentes das suas. Ajudar seu filho a encontrar uma válvula de escape (ou canais) para a raiva pode exigir experimentação. Algumas crianças respondem a exercícios  simples de respiração profunda, disse Anderson.

Outras podem precisar de uma liberação física mais intensa. Em seu site, McCoy sugere deixar as crianças baterem massinha de modelar, rasgar papel ou construir uma torre de blocos e derrubá-la. Elas podem achar bom gritar, socar um travesseiro ou correr lá fora.

Idealmente, você aprenderá a identificar os sinais de que seu filho está ficando frustrado e a encaminhá-lo para esses escapes antes que atinjam o ponto de ebulição.

“Você não espera até que a situação exploda para levar uma criança a usar uma técnica de enfrentamento”, disse Anderson. Especialistas dizem que a correção do comportamento é praticamente impossível quando as crianças estão em pleno ataque de raiva.

“O que você deve fazer é procurar aqueles momentos em que a frustração dela está começando a aumentar’, disse. Incentive-as a experimentar estratégias de enfrentamento para que pratiquem o gerenciamento de grandes emoções antes que se tornem intensas demais.

DEFINIR LIMITES CLAROS SOBRE COMPORTAMENTOS INSEGUROS

As crianças devem aprender a diferença de que, embora todas as emoções – incluindo raiva – sejam válidas em todo comportamento, disse a doutora McCoy.

Portanto, limites claros e consistentes em torno de comportamentos agressivos ou inseguros são importantes. E se seu filho parece sentir raiva com frequência, ou como se tivesse dificuldade para controlar suas reações, consulte um pediatra ou um psicólogo.

Os pais de crianças pequenas e pré-escolares devem anotar a duração e a frequência das crises emocionais de seus filhos, disse o doutor Sukhodolsky, bem como se elas ocorrem em diferentes contextos – não apenas em casa, mas também na escola, no playground ou em encontros com outras crianças.

Os pais de pré-adolescentes e adolescentes devem estar atentos se a raiva deles parece realmente constante ou intensa, disse o doutor Anderson. Mudanças de humor são típicas  da adolescência, mas raiva ou irritabilidade que dure várias semanas, não.

“Quando os adultos dizem “Oh meu Deus, isso o está impedindo de se envolver na escola” ou impedindo de fazer amizades” ou “É difícil para nossa família suportar, nós procuramos coisas que possam indicar a necessidade de tratamento”, disse o doutor Anderson.

Distúrbios comportamentais, uma categoria que inclui transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, e transtornos de humor, como a depressão, muitas vezes podem se apresentar como irritabilidade, acrescentou ele. Se seu filho não for neurotípico, consulte seu pediatra ou terapeuta sobre maneiras alternativas de lidar com as emoções dele.

OUÇA E ESTEJA ABERTO AOS SENTIMENTOS DOS SEUS FILHOS

Em termos gerais, é importante garantir que seu filho tenha amplas oportunidades de discutir seus sentimentos com amigos de confiança, familiares ou um psicólogo.

Nem sempre é fácil ouvir que seu filho está passando por um momento difícil, mas essas conversas e conexões são essenciais para validar o que ele está vivenciando e proporcionar liberação emocional . “Gosto de dizer que a melhor forma de controlar a raiva é sentir-se compreendido”, disse McCoy.

OUTROS OLHARES

MÃES QUE VALEM POR DOIS

País vê crescer total de bebês sem pai na certidão de nascimento

O mesmo Brasil que discute o direito ao aborto garantido por lei a meninas estupradas, tema que ganhou repercussão com a recente história da gravidez de uma criança de 11 anos no Sul, registra o maior número de bebês sem o nome do pai na certidão desde o primeiro semestre de 2018.

Os dados, levantados pelos Cartórios de Registro Civil do Brasil (Arpen), mostram que, no primeiro semestre deste ano, nasceram 1.313.088 bebês e, destes, 86.610 não tinham o nome do pai no documento. No mesmo período de 2018, foram 1.452.161 recém-nascidos, dós quais 78.798 ficaram sem o nome do pai. O total de registros monoparentais cresceu 1,2% em cinco anos, sobretudo pela negligência dos homens.

A constatação ganha ainda mais relevância quando se observa que 2022 teve, entre janeiro e junho, o menor número de nascimentos dos últimos quatro anos. Mesmo com a queda da natalidade, aumenta a legião de mães solo.

Sem ter apoio para cuidar de seu recém-nascido e com dificuldade de conseguir emprego, C., de 34 anos, que não se identifica porque também foi vítima de violência doméstica, sente o peso da solidão na maternidade. Após ter sido agredida ainda grávida e saído de casa, ela só teve como opção registrar o filho, hoje com 3 anos, apenas em seu nome, e criá-lo sozinha. Acolhida  na casa de amigos em Niterói, C conta que o pai da criança nunca mais procurou por ela ou pelo filho. Até hoje, o ex-companheiro não conhece a criança.

“Eu optei por não colocar o nome pela minha paz! pela paz do meu filho. É muito chato quando perguntam por que meu filho não tem o nome do pai. Sempre me olham como se eu tivesse feito a escolha errada do parceiro, e não que ele tivesse errado ao não assumir o pr6prio filho”, diz C., que não chegou a pedir uma medida protetiva por temer que o processo fosse demorado e dispendioso.

Na série histórica de janeiro a junho, o número de crianças sem o registro paterno só se aproxima das estatísticas de 2019, que eram as piores até o início deste ano. Naquele ano, 84.480 bebês, de um total de 1.464.025 nascimentos foram registrados apenas no nome da mãe. Em 2020, foram 77.863 crianças sem o pai na certidão e, em 2021, 82.203 recém-nascidos nessas condições.

MACHISMO ESTRUTURAL

Depois que o filho nasceu, C. passou a ter sucessivas vagas de emprego negadas. Sobrevivendo hoje de bicos como diarista e da venda de comida, o que lhe rende mensalmente cerca de RS 600, ela conta que só consegue manter a família graças a doações e à ajuda do amigo que a acolheu há três anos. O filho o chama de pai.

“Quando eu fugi, tive que abandonar meu emprego, passei a gravidez desempregada e ainda hoje ninguém me contrata, com medo de eu faltar por causa do meu filho. Parece que está ainda mais fácil para os homens abandonarem as crianças e não partilharem dos cuidados.”

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora sobre desigualdade de gênero e estrutura familiar, Felícia Picanço observa que o fenômeno da omissão paterna nos registros de nascimento precisa ser estudado com mais profundidade. Ela acredita, entretanto, que as estatísticas preocupantes podem estar relacionadas ao agravamento da crise econômica e ao fortalecimento do conservadorismo social.

“Ao mesmo tempo que o pai considera a família um pilar importante, alguns homens só assumem filhos concebidos dentro de casamentos tradicionais. Outros, nem isso. A hierarquização de gênero, que sobrecarrega a mulher e a coloca como obrigada a cuidar das tarefas domésticas e dos filhos, é a mesma que protege os homens, relativizando o abandono e a falta de responsabilidade na divisão de tarefas”, explica.

Desde 2012, o Conselho Nacional de Justiça permite que o reconhecimento de paternidade seja feito diretamente em Cartório de Registro Civil, sem a necessidade de decisão judicial quando há acordo entre as partes. Quando a iniciativa parte do próprio pai, basta que ele compareça ao cartório com a cópia da certidão de nascimento do filho e a autorização da mãe ou do próprio filho, caso ele seja maior de idade. Segundo dados da Arpen, no primeiro semestre deste ano, 14.620 pessoas receberam o nome do pai em suas certidões de nascimento, que foram retificadas seja por iniciativa voluntária do pai biológico ou por registro de paternidade socioafetiva. Essa última situação acontece quando uma outra pessoa assume o papel de se tornar o responsável pela criança por motivação afetiva, mesmo sem vínculo de sangue.

PRESENÇA TARDIA

A administradora Priscila Batista, de 29 anos, foi procurada no ano passado pelo pai de seu filho, hoje com 8 anos para fazer o reconhecimento parental. Ele disse que se arrependeu  de ter abandonado a criança, quando ela ainda estava na barriga da mãe. Na época em que Priscila engravidou, o ex-companheiro se recusou a assumir o filho e foi morar em outro estado. A administradora foi à Justiça exigir pagamento de pensão, mas após três anos de espera, desistiu do processo. O encontro entre pai e filho só aconteceu quando o registro foi feito.

“Um pouco de dinheiro ajudaria, mas não teria nenhum tipo de afeto, que éo que realmente meu filho precisava. Por isso, desisti. Para a família dele, eu ainda devo ter saído como errada, porque somos julgadas o tempo todo. Hoje meu filho tem contato com ele, mas não o chama de pai. A ideia de que mulher precisa ser forte é muito romântica. Eu me sinto cansada às vezes, apesar de contar com a minha família”, admite Priscila.

Priscila viveu a situação duas vezes. Quando a filha caçula de 2 anos nasceu, a menina recebeu apenas o seu sobrenome, de acordo com ela, porque o então companheiro, de um segundo relacionamento, alegou “não estar pronto” para exercer a paternidade:

“Ele inicialmente não quis. Meses após o nascimento, disse estar arrependido. Hoje é totalmente presente na vida dela. Mas é triste saber que mulheres ainda precisam quase implorar para que o pai seja um pai de verdade”, desabafa Priscila, que faz parte de um grupo com mais de 30 mil mães solo no Facebook, que se juntaram para se ajudar e trocar experiências.

Na visão da pesquisadora do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, Marilia Moschkovich, apesar de o Brasil ter avançado em leis que facilitem o registro parental, elas não garantem que os homens passarão a exercer a paternidade e as mulheres ficarão menos sobrecarregadas. Segundo a especialista, o reconhecimento do filho é importante, mas é fundamental amparo social para que as mães solo contem com estrutura para cuidar dos filhos.

“Hoje há um certo fetichismo de que tudo se resolve com legislação. Mas há coisas, como o desejo, que a lei não é capaz de dar conta. A briga para exigir deveres de paternidade a  homens  que engravidam mulheres só faz sentido hoje porque existe pobreza, porque não há alimentação universal popular, porque não há transporte público gratuito para todos, porque faltam vagas em creches, não existe nenhuma política séria de educação sexual, e porque o aborto não é legalizado”, conclui.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE O EMPREENDEDOR PRECISA SABER ANTES DE ABRIR SEU NEGÓCIO

O planejamento passa por questões básicas, como separar contas pessoal e profissional, e pelo estudo profundo do setor de atuação

Pode parecer romântico ou até mesmo poético, mas não é. Um aspirante a empreendedor quando começa a pensar na empresa que pretende montar precisa responder às seguintes perguntas, de acordo com os especialistas consultados pelo Estadão: Quem eu sou? Para onde vou? Como chego lá? O que eu gosto de fazer?

Partindo da última pergunta, é essencial saber o que a pessoa gosta de fazer, pois há uma tendência maior de o negócio dar certo se o indivíduo exerce algo que lhe satisfaça. O gerente de relacionamento com o cliente do Sebrae Ênio Pinto explica que existem alguns processos que podem ser segui- dos, antes mesmo de embarcar de vez nos negócios. Primeiro a pessoa pode listar o que gosta de fazer e, dentro dos temas, avaliar onde é competente. “Onde eu sou melhor do que a média?”

A partir daí, deve-se estudar se existe demanda da comunidade para aquele produto ou serviço, ou seja, será que as pessoas pagariam por isso? Além disso, o ideal é sempre testar. “A recomendação é: sonhe grande, comece pequeno e cresça rápido”, diz Ênio. Antes de sair efetivamente para a rua ou de montar um ponto físico, faça um protótipo.

Se a pessoa gosta de cozinhar, ressalta ele, vale montar algo em casa, vender para vizinhos, dentro do próprio quintal. Isso ajuda a praticar habilidades e ver se pode dar certo. “No papel, a pessoa precisa fazer um plano de negócios e depois colocar na rua”, completa o gerente do Sebrae.

Essa etapa do plano de negócios é essencial para que uma estrutura seja montada. A professora do Senac São Paulo Giovana Cunto, que dá aulas em curso especializado em empreendedorismo para pequenos negócios, pondera que o plano é o que vai diminuir a distância entre o sonho do empreendedor e a implementação do negócio. A partir do momento que a pessoa consegue traçar um mapa do percurso que irá percorrer, descrevendo o passo a passo, é possível minimizar as chances de erro. Um bom plano de negócios, diz Giovana, aperfeiçoa a ideia, tornando-a clara. “Facilita a apresentação da empresa a sua equipe, aos fornecedores e potenciais clientes. Além de analisar os pontos fortes e fracos do negócio e avaliar o empreendimento por meio da comparação entre o que foi previsto e o que efetivamente foi realizado.”

PLANEJAR

Segundo Giovana, uma das dificuldades ao se tornar “pessoa jurídica” é o planejamento – ou a falta dele. Quando o empreendimento é iniciado por necessidade, e não por um desejo, como acontece em casos de demissões, por exemplo, o tempo para planejamento é escasso, e a pessoa física quer poder tirar o mais rapidamente possível um sustento daquele negócio.

Foi o que ocorreu com Pryscilla Tavares da Costa Matos, de 31 anos, e com o marido, Thiago Macedo da Costa, de 38 anos. Ele perdeu o emprego na pandemia, em meados de 2020, e ela, em 2021. Na mesma época, Pryscilla engravidou. Com tudo isso, decidiram empreender. Como já havia vendido salgados anteriormente para ter um complemento de renda, resolveu arriscar e começou a vender banoffees. “No primeiro momento, ensinei meu marido a fazer a torta e, quando eu também perdi o emprego, passei a trabalhar junto no negócio. Começou como necessidade, mas agora é a nossa única fonte de renda.”

Pryscilla já tinha feito um curso de confeitaria no Senac São Paulo, o que a ajudou para a confecção das tortas. Mas a produção não era nem de longe a maior dificuldade do início. Para ela, as partes administrativa e de marketing eram muito complicadas. Por isso, ela procurou outro curso na mesma entidade.

CURSOS

A educação continuada é outro ponto destacado por especialistas. O ideal é sempre ter uma capacitação que possa ser aplicada ao negócio que está sendo iniciado. Caso tenha montado um restaurante, por exemplo, não basta saber e gostar de cozinhar. É necessário fazer fluxo de caixa e separar as contas pessoais do empreendimento.

Esse empecilho apareceu na vida de Pryscilla. De início, ela não conseguia investir no negócio. O dinheiro das vendas era usado para despesas da casa. Mas, com os cursos que buscou e a experiência que foi adquirindo, os problemas foram sendo sanados. Hoje eles estão às vésperas de inaugurar um ponto físico em São Paulo.

Essa parte financeira acaba sendo um entrave na vida do empreendedor, tanto do negócio quanto no lado pessoal. Para o empreendimento, há duas possibilidades: pegar crédito ou arrumar um sócio.

Nos primeiros passos do empreendedor, o que acaba pesando muito é a insegurança pessoal. O vice-presidente de Canais e Novos Negócios da Contabilizei, Guilherme Soares, diz que muitas pessoas acabam desistindo do negócio porque a parte pessoal fica atrapalhada. “Nos primeiros três meses, a receita é irregular. Aí a pessoa se desespera e quer arrumar renda de qualquer forma. Uma dica é tentar se preparar para o período.”

DICAS PARA TER SUCESSO

GOSTAR DO TEMA

Uma das dicas é criar negócios com temas que satisfaçam o empreendedor, pois aumentam a chance de o negócio dar certo

PLANO DE NEGÓCIOS

Fazer um planejamento antes de colocar o empreendimento na rua é essencial para garantir o sucesso do negócio

EDUCAÇÃO CONTINUADA

É importante fazer cursos, se manter atualizado com as tendências e aprender sobre finanças

MERCADO

O empreendedor precisa conhecer os fornecedores, os clientes e os concorrentes

CONTAS BANCÁRIAS

Não misturar a conta da empresa com a pessoal

EU ACHO …

RASGANDO AS FOTOS

Depois de uma briga histórica, daquelas de não deixar coisa alguma em pé, você se vê completamente sozinha, o romance acabou. Ele não era nada daquilo que você pensava, é um cafajeste, um galinha, um insensível. Você corre até a cozinha, pega uma tesoura afiada, voa para seu quarto e, bufando de ódio, tira do armário a caixa com todas as fotos que vocês tiraram durante o namoro e (não faça isso, garota, você vai se arrepender, o cara fez parte da sua história, um dia esta raiva vai passar e você nem lembrará do rosto dele, vai querer recordá-lo, larga esta tesoura, não faz bobagem, me escu…) começa a picar bem picadinho todas as fotos em que aparecem juntos, menos aquela em que você está uma deusa – esta você vai cortar pela metade, e a parte em que ele aparece vai para o lixo, naturalmente.

Serviço feito. Nem mesmo um expert em quebra-cabeças de mil peças conseguiria juntar o olho direito com olho esquerdo daquele infeliz, as fotos viraram farinha, agora? Está se sentindo melhor?

Você está se sentindo um trapo. A dor da perda não se aplaca com um gesto extremado, e se o propósito era vingança, grande porcaria: o modelo fotográfico que f esquartejado segue inteirinho da silva tocando a vida dei não sentiu nem um arrepio quando você praticamente moeu seu sorriso lindo. Ele tinha um sorriso lindo, não tinha?

Você vai lembrar do sorriso, dos olhos, da boca ainda por muito tempo. Picotar fotos é só a materialização de um desejo: gostaríamos que certas pessoas saíssem da nossa vida instantaneamente, bastando pra isso uma tesourada. Mas o processo de despedida é bem mais lento e mais difícil. É preciso deixar o tempo agir. E o tempo age com mais parcimônia.

Mas alguém lá quer saber de parcimônia? Mulheres com o orgulho ferido seguirão mutilando seus álbuns de fotografia, arrancando cabeças e amputando casais que pareciam colados com superbonder. Uma pena aleijar assim o passado, mas, por outro lado, talvez seja conveniente deixar bem livre esse ímpeto destrutivo e o pouco apego às lembranças. Nenhum problema em descarregar nosso ódio num pedaço de papel. Sabe-se lá o que aconteceria se o engraçadinho aparecesse na nossa frente e nos encontrasse com uma tesoura na mão.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DIETA RICA EM FRUTAS PODE AJUDAR A EVITAR DEPRESSÃO

Pesquisa britânica apontou que consumo de ao menos três porções diárias é capaz de aumentar bem-estar

Pessoas que comem frutas regularmente são menos propensas a relatarem sintomas de depressão. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica British Journal of Nutrition, que avaliou os impactos de hábitos alimentares na saúde mental. Os pesquisadores da Universidade de Aston, no Reino Unido, observaram ainda que o excesso de lanches salgados no dia a dia tem o efeito contrário: está associado a um número maior de queixas de ansiedade e mal-estar.

Para chegar às conclusões, os cientistas entrevistaram 428 participantes, de em média 40 anos, sobre os hábitos de consumo diários de frutas, vegetais e lanches salgados. Além disso, coletaram informações sobre a saúde psicológica dos voluntários, com relatos sobre sintomas de depressão, ansiedade e outros transtornos relacionados à mente.

Os participantes comiam, em média, duas porções de frutas por dia. Aqueles que se alimentavam com mais unidades relataram menos sintomas de depressão e registraram índices maiores de bem-estar, mostraram os resultados do estudo. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), por exemplo, recomenda um consumo diário de cinco porções.

“Tanto as frutas quanto os vegetais são ricos em antioxidantes, fibras e micronutrientes essenciais que promovem a função cerebral ideal, mas esses nutrientes podem ser perdidos durante o cozimento. Como é mais provável que comamos frutas cruas, isso poderia explicar sua influência mais forte em nossa saúde psicológica”, explica a autora do estudo Nicola-Jayne Tuck, pesquisadora da universidade, em comunicado.

O trabalho não encontrou, no entanto, uma associação muito forte entre comer vegetais e uma melhora nos índices de saúde mental. No entanto, os responsáveis pelo estudo destacam que pesquisas anteriores já haviam mostrado que essa relação demanda um alto consumo dos alimentos, superior a cinco porções por dia, frequência que não foi atingida por um número significativo dos participantes.

NÃO RECOMENDADOS

Por outro lado, aqueles que se alimentavam com lanches salgados, como batatas fritas e salgadinhos, numa frequência de mais de três vezes por semana, registraram níveis mais elevados de ansiedade, depressão e estresse, e tiveram mais queixas de “lapsos mentais diários”, termo associado a falhas cognitivas durante tarefas do cotidiano. Segundo os pesquisadores, a ocorrência desses lapsos foi associada apenas ao consumo dos lanches, o que comprova a relação direta da dieta pobre em nutrientes com a piora da saúde mental. Eles explicam que um exemplo dessas falhas é quando esquecemos onde está determinado objeto ou não lembramos nomes de pessoas conhecidas.

“Muito pouco se sabe sobre como a dieta pode afetar a saúde mental e o bem-estar e, embora não tenhamos examinado diretamente a causalidade aqui, nossas descobertas podem sugerir que lanches frequentes em alimentos salgados pobres em nutrientes podem aumentar os lapsos mentais diários, o que, por sua vez, reduz a saúde psicológica”, diz Nicola-Jayne.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELE É BI, E DAÍ?

Mulheres heterossexuais desafiam preconceitos ao se relacionarem com homens que também gostam de homens

Os influenciadores Daniela Choma, de 24 anos, e Alisson Candeo, de 28, construíram o que se costuma chamar de família perfeita: juntos há cinco anos, têm duas filhas, Jade, de 2 anos, e Aurora, de 3 meses, e somam mais de oito milhões de seguidores em suas redes. Um público que acompanha de perto os momentos de intimidade e um dia a dia cheio de cumplicidade e amor que marcam a vida do casal. Mas nem mesmo este cenário “tradicional” é capaz de validar o relacionamento deles para boa parte dos moradores de Irati, no interior do Paraná, cidade onde vivem. O problema? Alisson é pansexual, e antes de conhecer Daniela, se relacionava apenas com homens.

“Quando o conheci, ele se identificava como gay. Tínhamos os mesmos amigos, estávamos sempre nos mesmos lugares. Até que, em uma festa, começamos a brincar que éramos namorados, e rolou um flerte. Um dia, fui à casa dele e nos beijamos. A partir daí, nunca mais nos desgrudamos”, conta Dani, que é heterossexual.

As inseguranças quanto à sexualidade de Alisson, no entanto, surgiram no começo do namoro, muito por causa dos comentários de amigos e pessoas próximas. “Tive muitos relacionamentos que deram errado e pensava que ele poderia se apaixonar por um homem estando comigo. Nossos amigos colocavam isso na minha cabeça, dizendo que ele era gay, e que não seria agora que ficaria com uma mulher. Então, isso fez com que eu demorasse para querer ter algo mais sério. Foram muitas conversas até que eu me sentisse mais segura”, relata.

Ao mesmo tempo em que Daniela tentava entender seus sentimentos e a paixão por Alisson, ele viu a sua sexualidade e desejos ganharem novos contornos, algo longe de ser um processo fácil. “Foi uma confusão, porque tinha o sentimento de estar amando uma mulher e, desde criança, sempre tive um jeito mais efeminado. falavam: ‘Olha lá o viadinho!”, relembra o rapaz. “Quando superei essa fase, passei por cima dos preconceitos e consegui falar abertamente sobre ser gay. Ao conhecer a Dani, entendi que meu interesse era por pessoas.”

Com anos de namoro – e agora um casamento – , as expectativas foram alinhadas e ambos estão muito mais confiantes um no outro. Mesmo assim, Dani e Alisson afirmam que ainda escutam comentários preconceituosos. As pessoas invalidam a minha sexualidade como  se soubessem mais do que eu mesmo, como se fosse impossível eu amá-la e respeitá-la”, lamenta o rapaz.

Se falar sobre bissexualidade e pansexualidade parece ser tabu, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIA+, é tarefa ainda mais árdua para um homem declarar publicamente que sente atração por outros homens. De acordo com pesquisa inédita realizada em maio deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a orientação sexual dos brasileiros, 2,9 milhões de pessoas ou 1,8% da população se identifica como homossexual ou bissexual: número menor do que a parcela de pessoas que não souberam ou quiseram responder à pesquisa, cerca de 3,4%.

Para o psiquiatra, professor e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatra da USP, Alexandre Saadeh, os números são equivocados. “É muito abaixo do que a gente vê, do que a gente sabe, porque uma coisa é pesquisar nas grandes capitais; outra, é pesquisar no interior. Ainda tem o ponto que a sexualidade é vivida entre quatro paredes: para o mundo, é preciso ser cisgênero e heterossexual, e para o homem que se relaciona com outros homens, ainda existe aquela questão: quem é penetrado e quem penetra? Quem é o passivo e quem é o ativo? Essa é uma visão muito limitante, porque há outras maneiras de expressar a sexualidade e ter prazer. Então, para o homem bi, a coisa pesa muito mais”, comenta. “A bissexualidade é pouco validada e para que os outros entendam que não é só uma fase, é muito difícil”.

Apaixonada pelo fotógrafo Eric Solon, de 32 anos, a jornalista Isis Rangel, de 29, afirma sempre ter vivido num círculo de amigos “desconstruídos” e que o fato de o namorado ser bi nunca foi um problema. No entanto, precisou enfrentar, durante muito tempo, piadas e brincadeiras homofóbicas. “Já ouvi coisas do tipo ‘ele é viadinho, queima-rosca e outras coisas bem toscas. Mas, desde o começo, nosso relacionamento foi muito tranquilo. O que importa é a forma como ele me trata e o que sente por mim”, afirma a jovem.

Atualmente, os dois são casados e vivemem Santos, no Litoral paulista. “Muitas vezes, eu nem falo que sou bi porque não adianta”, afirma Eric, que opta por lidar com a questão de um jeito irônico. ” Digo: ‘Ah, sou um ser humano e gosto de pessoas’. Parece que as pessoas pensam que bi não existe. Acho que, para elas, o B (da sigla LGBTQIA.P+) é de biscoito.”

Segundo a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, a mentalidade patriarcal associa, há cinco mil anos, a masculinidade à heterossexualidade, fazendo com que o ideal de homem esteja atrelado a força, poder, ousadia, coragem e jamais se relacionar com outro homem.

“E isso faz com que homens bissexuais se reprimam muito. Se você olhar na história, vai ver que a relação de dois homens já foi crime, pecado, e no século XIX, a homossexualidade foi considerada uma doença. Então, é natural que um homem, mesmo sendo bissexual, tenha muito mais dificuldades do que as mulheres de se assumirem publicamente. Mas essa questão está evoluindo, e acredito que dentro de algum tempo, a bissexualidade será aceita com mais naturalidade.”

A recepcionista Laura Macedo (nome fictício a pedido da entrevistada), de 35 anos, conta que suas experiências sexuais e amorosas se restringiram, praticamente, apenas a homens bissexuais, por sempre circular pelo meio LGBTQIA+.

Ela diz se sentir atraída pelo fato de eles terem a “mente mais aberta” e por entenderem que ela preza bastante por sua liberdade. “Eles sabem conversar e têm uma abordagem melhor na hora de se aproximar. Fui casada durante seis anos e sempre tive a cabeça bem resolvida em relação a isso. O cara sendo bi ou hétero não importa, porque tudo depende do caráter. Já fui traída pela mesma pessoa com homem e mulher”, afirma.

Já o farmacêutico Mikley Souza de Oliveira, de 23 anos, entendeu que, após algumas relações com mulheres hétero, prefere mesmo as meninas que, assim como ele, também sejam bi. “O entendimento sempre foi mais simples, e eu não me sentia coagido. Sempre existe um achismo sobre como o homem bissexual se relaciona. A pessoa confunde, pensa que você vai ser promiscuo por causa da sua sexualidade. Quando conto para a menina que sou bi, parece que existe uma quebra de expectativa. Talvez, ela pense que não vou ser másculo o suficiente ou algo assim. Hoje, eu deixo minha sexualidade clara desde o início, para já saber se as coisas podem fluir ou não.”

OUTROS OLHARES

QUANDO FOI QUE OS PERFUMES DEIXARAM DE SER SOBRE SEXO?

Mensagens mais diretas e comuns há duas décadas são hoje inimagináveis. O que se busca agora é provocar uma forte conexão emocional

Quando um novo perfume Yves Saint Laurent saiu em 2001, Tom Ford, o diretor criativo da casa na época, deu uma festa sensacional na Bolsa de Paris, onde colocou um bando de modelos praticamente nus em um contêiner gigante de acrílico. A fragrância foi chamada Nu. Linda Wells, editora-chefe fundadora da Allure e também uma festeira, comparou a festa de Ford a um “aquário humano”, repleto de modelos “se contorcendo” em roupas íntimas. Era como uma piscina de bolinhas que se pode encontrar em uma festa de aniversário infantil, só que maior, abastecida com álcool e cheia de adultos quase nus.

“Eram todos esses corpos”, disse Wells. “Era toda essa carne. Era como uma orgia.”

Um evento como esse parece inimaginável hoje, e não só por- que o hedonismo descontrolado se tornou um tabu depois do #MeToo. O ideal de marketing mudou: a maioria dos designers e marcas não está usando sexo para vender perfume, e as pessoas não estão comprando perfume para fazer sexo.

Durante décadas, o marketing em torno do perfume fez da sedução uma prioridade. A fragrância era uma maneira engarrafada de ajudar alguém a encontrar um parceiro, uma construção que parece irrelevante já que agora temos aplicativos de namoro, uma maneira mais eficiente e consistente de encontrar um parceiro do que alguém sentir seu cheiro e se apaixonar por você.

“Parece realmente antiquado e meio ofensivo”, contou Wells.

“Agora todos nós pensamos: ‘Esse anunciante vai me dizer como devo me sentir ou que quero fazer sexo por causa de sua fragrância ou que quero me tornar um objeto por causa de sua fragrância?’.”

Hoje, as marcas falam sobre a fragrância em termos de lugares e como ela fará o usuário se sentir. Marcas de perfume menores e de nicho, como a Byredo ou Le Labo, são anunciadas como “gênero neutro”.

Essas marcas não jogam com construções de gênero desatualizadas e mensagens singulares sobre sexo e orientação sexual. Não é uma competição sobre que perfume é o mais sexy, é sobre qual deles pode provocar a conexão emocional mais forte. Segundo Rachel Herz, neurocientista e autora de The Scent of Desire: Discovering Our Enigmatic Sense of Smell, o perfume passou do marketing de “temas diretos” como poder ou sexo para encorajar uma “jornada pessoal”. Essa jornada pode ser sobre empoderamento ou sobre ser sua melhor versão, como o que a Glossier vende com o Glossier You. De acordo com seu site, o perfume “crescerá com você, não importa onde você esteja em sua evolução pessoal” porque “não é um produto acabado. Ele precisa de você”.

Outras fragrâncias levam os clientes a uma jornada diferente. O Harlem Nights, da World of Chris Collins, leva os usuários ao clima dos bares speakeasy com notas de almíscar e rum que evocam charutos, bebidas de alta qualidade e a vida noturna dos anos 1920. Então, quando o perfume deixou de ser sobre sexo?

IDEAIS DE GÊNERO

Tradicionalmente, os perfumes eram projetados para homens ou mulheres – raramente ambos – impulsionados por campanhas multimilionárias que retratavam normas tradicionais de gênero ou imagens hiper- sexualizadas. Você se lembra dos anúncios do Eternity da Calvin Klein dos anos 1980 com Christy Turlington e Ed Burns? E a campanha sensual de 2010 do Guilty da Gucci com Evan Rachel Wood e Chris Evans? Ambos parecem heteronormativos no clima cultural de hoje.

Uma geração mais jovem, com interpretações mais fluidas do que constitui gênero, orientação sexual e relacionamentos românticos, está liderando a conversa. “Gênero neutro” e “sem gênero” tornaram-se conceitos dominantes, integrais à moda.

Seguiu-se um aumento nas fragrâncias unissex e sem gênero. De fato, muitos dos rótulos de nicho e artesanais que ganharam amplo apelo nunca atribuíram gênero a suas fragrâncias. A Byredo comercializa seus perfumes como unissex desde que Ben Gorham fundou a linha em 2006. O mesmo vale para Le Labo, Escentric Molecules, D.S. & Durga, Malin + Goetz e Aesop. “Seu gênero, sua nacionalidade, sua orientação sexual – não importa”, afirmou Chris Collins, fundador e executivo-chefe da World of Chris Collins. Todos os 12 perfumes da marca são sem gênero. “Não deve haver distinção”, concluiu.

Para as potências globais de fragrâncias, gênero e romance ainda são essenciais para atrair o mainstream. Embora as campanhas publicitárias da Dior não sejam abertamente sexuais, a marca apresenta ideais femininos distintos por meio das campanhas da Miss Dior, que apresentam Natalie Portman desde 2011, bem como os anúncios dourados de J’Adore Dior, nos quais Charlize Theron encarnou uma deusa grega por 18 anos.

“O romance não está necessariamente ultrapassado”, avaliou Herz. São as representações do romance que estão mais abstratas, ela explicou, porque “as coisas são menos definidas heterossexualmente” do que há uma década.

POR QUE USAR PERFUME?

 Durante a pandemia, com lojas fechadas e formas limitadas de testar perfumes antes de comprar, Suzanne Sabo, 45, de Levittown, Pensilvânia, comprou perfumes “às cegas” para se agradar. A primeira fragrância que ela encomendou foi Jasmine Rouge do Tom Ford Beauty, que descobriu em um anúncio online. “Não havia nada de sensual ou sexual nisso”, lembrou Sabo, escritora bolsista de uma escola técnica. “Era tão básico. Era uma descrição do cheiro. Eu me senti uma nova mulher apenas usando o perfume, de moletom, em casa. Eu me senti valendo um milhão de dólares.” A coleção de fragrâncias Tom Ford de Sabo cresceu para incluir Lost Cherry, Soleil Blanc, White Suede e Bitter Peach. “Somos mães de classe média que estavam estressadas.”

Rachel ten Brink, sócia-geral da Red Bike Capital e fundadora da linha de perfumes Scent- bird, viu os clientes começarem a adotar essa mentalidade anos atrás. A principal resposta de uma pesquisa de 2015 perguntando aos clientes da Scentbird por que eles usavam fragrâncias foi “como elas me fazem sentir- me”. Atrair o sexo oposto era o número 6 ou 7.

Marcas menores e independentes costumam ser mais criativas em sua forma de fabricar perfumes, destacando ingredientes e notas individuais ou usando uma história para atrair clientes. As fragrâncias costumam ser mais fortes, mais ousa- das e mais caras do que nas lojas de departamento, sinônimo de “presente grátis com compra”. “Aromas artesanais sempre foram mais sobre o perfume, as notas e os ingredientes, e me- nos sobre a imagem”, disse Larissa Jensen, analista da indústria de beleza do NPD Group.

Frascos de fragrâncias com limões, laranjas ou lavanda são a “descrição visual” que atrai as pessoas, ela revelou. “Você não está olhando para um anúncio que tem apenas a bunda nua de um homem.”

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRA NA ÁREA FINANCEIRA – QUAIS SÃO AS NOVAS DEMANDAS?

Não há área mais demandada no mercado do que a de finanças. Responsável pela administração dos recursos financeiros da empresa, gestão de riscos, oportunidades, planejamento e resultados, se torna uma das mais importantes bases de sobrevivência de companhias dos mais diversos portes e segmentos. A contratação destes profissionais é uma necessidade constante no mundo corporativo – mas, ao mesmo tempo, custosa de ser mantida em alto nível de excelência.

Independente do regime político vigente no país ou atratividade do cenário econômico,  um bom executivo de finanças sempre será a peça-chave para o crescimento ou desmoronamento do negócio. Quando capaz de organizar um departamento saudável, será essencial para prover o capital necessário para que a companhia se mantenha competitiva no mercado, buscando obter receitas no curto, médio e longo prazo e, acima de tudo, como utilizar os recursos financeiros a favor da organização.

Em momentos de aquecimento econômico, é dever da área financeira gerir o fluxo de caixa viabilizando estratégias que alavanquem a companhia no mercado – seja pela firmação de parcerias comerciais, investimentos no desenvolvimento de novos projetos, ou outras ações focadas na otimização de processos e análise de produtividade.

Já em períodos econômicos instáveis, por sua vez, é de sua responsabilidade gerenciar as finanças em viés de contenção de ameaças, por meio do fechamento de operações, cortes orçamentais ou redução de custos necessários em quaisquer atividades ou times. Não à toa, a pandemia foi um dos maiores impulsionadores da necessidade de um departamento robusto de finanças nas empresas, de forma que conseguissem contingenciar, ao máximo, os impactos econômicos da crise na perpetuidade do negócio.

Ao longo de 2021, por exemplo, a busca por estes profissionais aumentou 80% em relação ao ano anterior, segundo dados compartilhados pela Wide. Em uma exigência notável, os critérios de avaliação de retenção destes talentos vêm se tornando cada vez mais seletivos – substituindo todos aqueles que não se demonstrarem preparados e capacitados para trazer melhores resultados neste momento crítico de recuperação econômica.

Muito mais do que ter o conhecimento, o profissional de finanças deve ser capaz de compreender profundamente o negócio, analisando as oscilações do mercado e quais ações tomar em meio a tamanha instabilidade para reter custos desnecessários e impedir o fechamento de portas da companhia. Ou, ainda, como utilizar esses fatores a favor da empresa, redirecionando investimentos nas áreas mais estratégias de diferenciação.

Aliado a essas capacidades, uma boa habilidade interpessoal também faz toda a diferença para um bom desempenho desses profissionais – uma vez que seu sucesso ou fracasso estará intensamente relacionado à qualidade comunicacional com seus colegas, outros times da empresa e parceiros de negócio, sejam eles atuais ou futuros. Quanto melhor for sua desenvoltura comportamental, mais fortes serão as relações profissionais construídas.

Gerenciar uma companhia em meio a uma legislação complexa e constantemente passível de mudanças é uma missão desafiadora – especialmente, em cenários de crise como o que estamos vivendo com a pandemia e, mais recentemente, os impactos da Guerra na Ucrânia. Mas, com o apoio de um profissional qualificado e preparado para lidar com tais impactos, os danos destes e de qualquer conflito na empresa serão imensamente reduzidos.

Não importa a época do ano ou cenário do mercado, as empresas sempre precisarão de profissionais de finanças qualificados para gerir e alavancar a companhia frente aos concorrentes. Para aqueles que desejam seguir essa jornada, é preciso se manter constantemente atualizado sobre as mudanças legislativas no país e, acima de tudo, prezar pela comunicação próxima com todas as equipes e parceiros. Assim, certamente estarão preparados para lidar com qualquer empecilho que possa colocar o sucesso da companhia em jogo.

*** RICARDO HAAG  – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção (https://wide.works/).

EU ACHO …

O SENTIDO DA VIDA

Não é nenhuma novidade que dinheiro, viagens, status, beleza e outras coisinhas mundanas são sonhos de consumo, mas não dão sentido à vida de ninguém. A única coisa que justifica nossa existência são as relações que a gente constrói. Só os afetos é que compensam a gente viver uma vida inteira sem saber de onde viemos e para onde vamos. Diante da pergunta enigmática – por que estamos aqui? -, só nos consola uma resposta: para dar e receber abraços, apoio, cumplicidade, para nos reconhecermos um no outro, para repartir nossas angústias, sonhos, delírios. Para amar, resumindo.

Piegas? Depende de como essa história é contada. Se é através de um power print – aqueles textinhos cheios de flores acompanhados de musiquinha romântica -, qualquer mensagem, por mais filosófica e genial que seja, fica piegas de doer. Mas se é através de um filme inteligente, sarcástico, tragicômico como Invasões bárbaras, o piegas passa à condição de arte.

O filme é uma continuação de O declínio do império americano. Naquele, um grupo de amigos se encontrava numa casa à beira de um lago e discutia sobre vida, morte, sexo, política, filosofia. Em Invasões bárbaras, esses mesmos amigos, quase 20 anos depois, se reencontram por causa da doença de um deles, que está com os dias contados. Descobrem que muitos dos seus ideais não vingaram, que muita coisa não saiu como o planejado, só o que sobrou mesmo foi a amizade entre eles. E a gente se pergunta: há algo mais nesta vida pra sobrar? Quando chegar a nossa hora, o que realmente terá valido a pena? Os rostos, nomes, risadas, pernas, beijos, olhares que nos fizeram felizes por variados e eternos instantes.

Pais e filhos, maridos e mulheres, amantes e amigos: são eles que sustentam a nossa aparente normalidade, são eles que estimulam a nossa funcionalidade social. Se não for por eles, se não houver um passado e um presente para com eles compartilhar, com que identidade continuaremos em frente, que história teremos para carregar, quem testemunhará que aqui estivemos? Só quem nos conhece a fundo pode compreender o que nos revira por dentro, qual foi o trajeto percorrido para chegarmos neste exato ponto em que estamos, neste estágio de assombro ou alegria ou desespero ou sei lá, você que sabe em que pé andam as coisas. Se não nos conheceram, se não nos desvendaram, se ninguém aplicou um raio X na gente, então não existimos, o sentido da vida foi nenhum.

Todas as pessoas querem deixar alguns vestígios para a posteridade. Deixar alguma marca. É a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio que supostamente nos imortaliza. Filhos somem no mundo, árvores são cortadas, livros mofam em sebos. A única coisa que nos imortaliza – mesmo – é a memória de quem amou a gente.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

VERDADES E MENTIRAS DO ‘GLOW UP’, INVENTADO PARA MELHORAR SUA IMAGEM

O desafio do ‘antes’ e ‘depois’ nas redes, para revelar como sua aparência melhorou, pode ser apenas um jogo que não mostra quem você é

“Glow up.” Talvez você já tenha ouvido essa expressão, especialmente se anda percorrendo os vídeos do TikTok e outros. Tendência entre as blogueiras mundo afora e cada vez mais presente aqui do Brasil, o glow up se traduz em algo como adotar uma série de mudanças na sua rotina que podem “melhorar” sua aparência e estilo de vida.

“O glow up acabou se tornando um desafio nas redes sociais, nas quais diversos usuários consomem e viralizam esse desafio do ‘antes e depois’, para mostrar como você ‘evoluiu’ de aparência”, explica Liliah Angelini, executiva da WGSN, empresa líder em tendências de comportamento e consumo.

Começar a meditar, beber mais água, ficar de olho na alimentação e praticar mais exercícios são algumas das dicas que as influenciadoras dão para quem quer se sentir mais atraente e ter uma vida supostamente mais saudável em pouco tempo.

O problema da corrente é justamente que as “melhorias” prometidas com a rotina não são reais, como explica Luiza Voll, fundadora do Grupo Contente.vc, que analisa as relações na internet e atua por uma rede mais saudável para os usuários. “Os corpos, o estilo de vida e toda construção estética reforçada pelo glow up é, na maioria das vezes, impossível de se alcançar tendo uma rotina de cuidados comuns.”

De acordo com a influenciadora Marieli Mallmann, que conta com mais de 170 mil seguidores no Instagram, o glow up, como disseminado na internet, não passa de uma farsa. “Encontramos nas tendências e estéticas divulgadas na internet uma forma de fazer parte de algo e é por isso que é tão fácil cair no jogo de fingir e nos mostrar de forma diferente para o mundo – como gostaríamos de ser, não como realmente somos”, adverte.

Por esse motivo, Marieli deixou de fazer uso dos filtros para gravar conteúdos. “Chegamos a um ponto em que construímos cuidadosamente essa vida online que, às vezes, não tem nada a ver com nossas vidas reais. Desde 2020 eu não uso mais filtros de redes sociais. Nem mesmo os que alteram só as cores da imagem, que dirá os que alteram o meu rosto. Minha relação com minha imagem mudou muito.”

Para Luiza, é importante que o usuário entenda o limite entre querer se tornar mais saudável e se pressionar para se enquadrar em um padrão de beleza vigente. “A gente adora se cuidar e ver que com o tempo ganhamos aquele glow. Quem não quer aparentar sua melhor versão, ainda mais nas redes sociais? Mas precisamos observar se essas narrativas estão nos fazendo bem e nos divertindo, ou se estão ativando algum gatilho, alguma emoção incômoda demais”, diz.

CONTROVÉRSIAS

Quando postamos algo nas redes sociais, editamos, ajustamos e adaptamos para que a publicação represente a nossa melhor versão. Com o glow up não é diferente: disfarçadas de mudanças básicas na rotina estão o estabelecimento de padrões somente alcançáveis a partir de procedimentos estéticos caros, que vão muito além de beber água e dormir mais de oito horas por noite e esbarram em uma questão financeira.

Para a psicanalista Joana Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza PUC-Rio, o problema dessas tendências é que elas uniformizam o que é bonito e vendem a solução. “É necessário que todos nós nos mantenhamos insatisfeitos. E basta você consumir, comprar, parcelar práticas e uma série de produtos que te prometem a felicidade, a saúde perfeita, uma estética irretocável”, conta. Quando você não faz uso dessas “soluções”, parece que tem um problema. “Dessa forma, se cria uma massa de excluídos e um mercado que promete, através dessas práticas, inclusão social.”

Segundo Liliah Angelini, em uma sociedade baseada em imagens e repleta de preconceitos, o glow up se torna mais uma moeda social. “A questão é que apenas algumas pessoas podem acessá-lo e isso tem efeitos colaterais para quem fica de fora”, explica. “Em um 2022 em que falamos sobre novas expressões de beleza, autoexpressão em voga, consumidores plurais e autênticos, aumento da aceitação individual, ver desafios como esse é como observar um caminhar na contramão do futuro”, complementa.

IMPACTO DA PANDEMIA

Com a pandemia de covid-19, a imersão pessoal e profissional nas redes sociais se intensificou. Com o uso das telas potencializado, as pessoas ficaram mais tempo a sós consigo mesmas, se vendo por outros ângulos ao ter de ligar a câmera para as reuniões online.

Foram quase dois anos em casa, que geraram mudanças significativas no corpo e na mente. “O que conhecíamos antes como dismorfia do Snapchat, fenômeno que descreve a relação conflituosa entre filtros e a forma como nos enxergamos, se tornou a dismorfia do Zoom. Ou seja, nunca olhamos tanto para a nossa própria imagem à procura do que poderíamos melhorar, do que estava fora de conformidade com os padrões”, explica Luiza.

Não coincidentemente também foi no início da pandemia que os conteúdos de autocuidado, skincare e bodycare começaram a bombar nas redes sociais. Com mais tempo em casa, as pessoas passaram a se preocupar mais com o cuidado com o corpo e com a autoimagem, sendo esse somatório de fatores essencial para a disseminação dos conteúdos de glow up.

UM NOVO OLHAR

Para uma relação mais agradável e menos adoecedora na internet, a psicanalista Joana Novaes explica que é necessário mudar a forma de pensar. “É preciso lembrar que tanto a gordura quanto o envelhecimento e a feiura acenam com aquilo que nos faz humanos, nos iguala. Todo esse mercado que surge de especialistas no sentido do aprimoramento corporal, e sobretudo do aprimoramento no vídeo, surge com o intuito de afastar de nós o contato com a realidade”, afirma. “Para a gente pensar em uma relação mais inclusiva, generosa, de maior prazer com o próprio corpo, a beleza não pode ser o único marcador.”

Além disso, em um oceano de possibilidades, é interessante refletir sobre que perfis seguir. “O que a gente consome, independentemente da vertente, acaba tendo um efeito muito grande sobre a nossa percepção de beleza. É necessário ficar atenta ao que chega às nossas telas, uma vez que esse tipo de conteúdo tem o poder de influenciar na forma como nos vemos”, conclui Marieli.

VIDA DIGITAL SAUDÁVEL

QUEM SEGUIR

O que consumimos influencia na nossa percepção de beleza. Fique atento a quem você segue e qual a sua realidade para não fazer comparações injustas. Siga pessoas que te estimulam e pare de seguir pessoas que te deixem para baixo.

QUESTIONE

Se seu feed fosse um espelho, você se enxergaria nele? As pessoas que você segue devem dialogar com o que você pensa e quer para si.

TEMPO DE TELA

Tente reduzir o tempo que passa online. A internet e a vida no Instagram não representam a realidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUAIS ESTRATÉGIAS ADOTAR PARA TER EQUILÍBRIO DIANTE DO NOTICIÁRIO?

Em mundo que não dá trégua, sucessão de notícias ruins pode contribuir para pessimismo, ansiedade e depressão

Crise econômica. Pandemia. Ataques à democracia. Guerra. Aquecimento global. E violência, muita violência. O mundo não dá trégua, e o noticiário também não. Mas às vezes a sequência de notícias duras provoca uma sensação de desânimo que pode afetar a saúde mental de algumas pessoas. Uma vez que não dá para fingir que as coisas não estão acontecendo, e se manter informado é absolutamente essencial nos dias de hoje, é preciso desenvolver ferramentas para lidar com isso.

Uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia feita em 2017 mostrou que mais da metade dos americanos dizem se sentir estressados, ansiosos, cansados e com dificuldades para dormir em razão das notícias ruins. De lá para cá, não surgiram motivos para imaginar que o cenário melhorou, pelo contrário.

Segunde o psicólogo Stélios Sdoukos, da The School of Life,  uma organização com sede em Londres dedicada ao estudo da inteligência emocional, o noticiário pode contribuir para deixar a pessoa mais pessimista e ansiosa, aumentando sintomas depressivos. O vinculo não é necessariamente direto, mas o contexto de desesperança interfere.

“As pessoas se sentem cada vez mais afetadas pelas notícias, como crimes hediondos como do médico que estupra pacientes ou de um homem que mata a família toda. Não há como ficar indiferente. Estamos expostos às notícias o tempo todo e precisamos delas para entender o que está acontecendo ao nosso redor. Mas o mal-estar élegitimo porque é coerente com aquilo que estamos lendo. Ser afetado mostra que nossa humanidade está presente”, explica Sdoukos.

Sevocê é uma das pessoas que andam desanimadas com as notícias, veja como lidar com elas de forma positiva:

ACEITE O MAL-ESTAR

Você fica sabendo de um crime chocante pelo jornal ou pela TV. Sente um aperto no peito, revolta ou tristeza. De acordo com o psiquiatra Ricardo Krause, presidente nacional da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (Abenepi), a solução não passa por ignorar esses sentimentos:

“É preciso se permitir sentir as emoções. As pessoas associam emoção ao descontrole, e acham que é algo ladeira abaixo, como se ficar triste em um momento significasse ficar deprimido ou desesperado depois. Então, fazem de conta que não estão sentindo nada. Mas não é assim. Quando você não trata da coisa no início ela progride”, explica o médico, salientando que o uso abusivo de álcool e drogas muitas vezes vem dessa tentativa de mascarar os sentimentos.

TENHA CONSCIÊNCIA

Pare, pense, entenda que algo está acontecendo dentro de você. É preciso dar tempo para assimilar o impacto de uma notícia ruim sem deixar evoluir para o desespero. Anotar os sentimentos num diário de papel, ou fazer um acompanhamento em apps como o Daylio, com um registro diário de emoções, é algo muito saudável.

“Isso faz com que a pessoa não aja no automático. Quando alguém nomeia os sentimentos, presta atenção neles. Quando não tem essa consciência, torna-se meramente reativo. Inteligência emocional não é só saber lidar com os outros e conter emoções: é saber das próprias emoções e agir com consciência”, afirma Krause.

Stélios Sdoukos sugere uma estratégia usada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, em inglês):

“É importante observar os pensamentos. Quando você pensa “nada vai dar certo para mim” tente se afastar disso, adicionando uma frase: “Observo que estou tendo o pensamento de que nada vai dar certo para mim”. Isso ajuda a mente a processar que é só um pensamento e não uma verdade absoluta. O manejo não vem da eliminação dos sintomas de ansiedade, mas de uma outra relação com emoções que gostaria de eliminar.

Segundo o psicólogo, para lidar com a ansiedade gerada por essa exposição é importante entender o que pode te deixar mais ou menos ansioso. Algumas situações são mais difíceis  de serem processadas e “pode ser coerente se afastar, trabalhar sua relação com o consumo de um assunto específico”.

BUSQUE A MUDANÇA

O sentimento de indignação diante de alguma notícia pode servir como estopim para uma reflexão – e tal vez até ação – critica e produtiva na sociedade.

“Quando a pessoa lê sobre o crime do anestesista, ela rechaça, mas será que na nossa cultura, na nossa comunidade, não alimentamos isso com piadas machistas? No caso da morte de um homem que fazia uma festa com tema de um partido, vale refletir sobre como as pessoas falam de política hoje. O diálogo não existe, está todo estereotipado, então, se a pessoa sinaliza concordância com um lado, o outro pode transformar um almoço de família numa guerra, quando a interação deveria ser diferente. A gente não dispara o tiro, mas pode disparar tiros simbólicos”, diz Sdoukos.

O psiquiatra Ricardo Krause considera que partir para a ação pode ser positivo tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

“O que posso fazer para modificar isso? Agir, trabalhar comunitariamente, distribuir comida, construir casa, contar história para criança, conversar com idosos. Há muito a ser feito. É pensar global e agir local. E se você faz uma coisa para mudar aquela situação, neutraliza a sensação de impotência. É fantástico ver que você não se sente paralisado.

O PODER DA PALAVRA

Evite empregar um discurso pessimista depois de ler alguma coisa que te desanima. Para Krause, é importante saber que a forma de falar, mesmo que para si mesmo, tem impacto.

“É sério, e as pessoas não levam a sério a força das palavras. A comunicação não violenta é um caminho de prestar atenção no que se fala e como se fala. Substitua frases como “está tudo uma droga mesmo”, “é o fundo mundo” ou “pior não pode ficar” por coisas como “vamos achar uma solução” ou “vai passar”. Quando diz algo com esperança, você não permite que o ciclo de desespero se concretize”, diz. Mesmo na hora de conversar sobre o assunto, é preciso cuidado. Falar por falar pode ser apenas uma forma de remoer um assunto. O médico recomenda, em contrapartida, procurar alguém que ajude a pensar sobre aquilo, porque incomoda, o que pode ser feito.

SEU UNIVERSO

Se muitas coisas não vão mesmo bem, muitas outras mostram a beleza da vida e inspiram gratidão. É preciso saber onde encontrar isso, seja no seu microcosmo (sua casa, sua família, seu trabalho), seja dentro de si mesmo. É para isso que devemos voltar os olhos nos momentos de desalento.

“É importante construir uma vida que tenha sentido para a gente, que vale a pena ser vivida. Os pensamentos podem nos arrastar para um piloto automático e nos levar a uma vida não alinhada com nosso propósito. Esses valores, o que faz o coração bater mais forte, são o porto seguro para voltar”, diz Sdoukos.

Krause concorda que é importante separar as coisas negativas do noticiário da nossa vida cotidiana:

“Quando estou com medo vou lembrar de coisas boas, ver uma cena que me emocione, fazer um carinho num cachorro, tomar um sorvete, brincar com meu filho… É preciso uma caixa de ferramentas contra as coisas que nos deixam desconfortáveis.”

O pr6pdo noticiário pode ajudar a trazer esse alívio, com informações sobre coisas prazerosas, como cultura, viagens e gastronomia, além de dicas e orientações para uma vida melhor.

OUTROS OLHARES

FRIO CRIADO PELO AR CONDICIONADO PODE SER RESPONSÁVEL POR GANHO DE PESO

A climatização que nos traz conforto térmico também aumenta apetite e eleva a ingestão de calorias nas refeições, afirma especialista

O pesquisador do Instituto de la Grasa (Instituto da Gordura, traduzido do espanhol) Javier Sánchez Perona vai direto ao ponto: “Ar condicionado engorda porque o clima fresco desperta nosso apetite”, escreve ele, em um artigo de seu blog malnutridos, com o qual começa se questionando exatamente como o uso desses aparelhos afeta o peso.

Em seu blog, Sánchez Perona explica que quando chegou a Sevilha para trabalhar no Instituto de la Grasa, há mais de 20 anos, vindo de sua cidade natal, Mondragón na província de Guipúscoa, comunidade autônoma do País Basco, foi surpreendido pelo calor da capital andaluza e como isso fez diminuir seu apetite. Ele diz que naquela época, assim como a maioria dos sevilhanos, não tinha ar condicionado. O pesquisador do Departamento de Alimentação e Saúde explica que achava que essa poderia ser uma das razões para haver poucas pessoas com sobrepeso em Sevilha.

Os anos se passaram, o ar condicionado se popularizou e Sevilha se tornou a região espanhola com maior índice de obesidade. É uma coincidência ou esses dois eventos estão relacionados?

Não encontrei nenhum estudo que demonstre especificamente uma relação de causa e efeito entre o aumento do uso de ar condicionado e o aumento da obesidade, provavelmente porque não foi feito. O que está cientificamente comprovado é a relação entre temperatura e apetite. Quanto mais alta a temperatura, menos apetite. Portanto, parece óbvio que, se vivermos e comermos com ar condicionado, comeremos mais e engordaremos — esclarece Sánchez Perona.

Há evidências de que quando você come com uma temperatura mais baixa o apetite aumenta.

“O corpo em repouso tem um certo gasto energético, o que chamamos de taxa energética basal. E os seres humanos são homeotérmicos: isso significa que temos a capacidade de regular nosso metabolismo para manter uma temperatura corporal constante, independentemente da temperatura do ambiente. E o que o corpo usa para produzir essa energia que o mantém em temperatura constante é a comida”, explica Maria José Castro, médica especialista em nutrição da Universidade de Valladolid, na Espanha.

Essa relação entre temperatura e apetite foi comprovada com várias investigações. Já em 1963, um estudo realizado com ratos mostrou que, expostos a uma temperatura de 35°C, os animais comiam apenas 10% do que haviam consumido a 24°C. E a 40°C paravam de comer completamente. Mas não só os ratos comem menos com o calor. Outra investigação de 2015, realizada na Universidade de Birmingham, dos Estados Unidos, mostrou que para cada grau de aumento da temperatura ambiente, os participantes do estudo, desta vez humanos, ingeriram 85,9 kcal a menos do alimento que receberam no estudo. Mas se, como pontua Sánchez Perona, não há pesquisas especificamente focadas em mostrar que o ar condicionado engorda, o que há são trabalhos que comprovam que viver em ambientes com temperaturas pouco variáveis faz você ganhar peso. E essas temperaturas ligeiramente variáveis, em que cada vez mais pessoas vivem, são alcançadas com ar condicionado no verão e aquecimento no inverno. Estas duas magníficas invenções dão-nos o que tem sido chamado de “estilo de vida sedentário termal”.

Um estudo publicado em 2014 por pesquisadores também da Universidade de Birmingham conclui que “com a ampla adoção do controle climático, os seres humanos são protegidos de temperaturas extremas e passam cada vez mais tempo em um estado termicamente confortável em que são minimizadas as demandas de energia”. Ou seja, como temos menos calor e menos frio, precisamos de menos energia para manter a temperatura constante de nossos corpos. E por esta razão, conclui esse estudo, “o tempo passado naquela zona termoneutra poderá contribuir para uma maior eficiência energética com diminuição da taxa metabólica e consequente ganho de peso”.

A questão é de pura lógica: se comemos igual, mas nosso corpo gasta menos, esse excesso de comida vira quilos extras. Todos esses estudos estão relacionados ao interesse dos cientistas em desvendar as causas da chamada epidemia de obesidade que está se espalhando pelo mundo. Porque é evidente que, desde que essa epidemia começou a crescer, a genética humana não foi alterada, portanto a causa deve estar no meio ambiente.

Por muito tempo, dois motivos principais foram responsabilizados: o crescente consumo de alimentos, incluindo produtos processados e ultraprocessados, e o sedentarismo. Mas muitas pessoas no mundo científico acreditavam que deveria haver mais razões. E pouco a pouco algumas são reveladas. O abandono massivo do tabaco, tão benéfico no combate ao câncer, tem, no entanto, esse lado negativo de favorecer o aumento dos índices de obesidade.

O consumo crescente de alguns medicamentos, incluindo antidepressivos, anticoncepcionais e anti-histamínicos, também parece influenciá-los. Todos juntos, somados à má alimentação, ao sedentarismo e ao confortável ar condicionado em que cada dia mais pessoas vivem, facilitam a nossa vida e, aparentemente, nos engordam.

GESTÃO E CARREIRA

STARTUPS: VALE A PENA BUSCAR UM EMPREGO NESSAS EMPRESAS?

A era de ouro das startups chegou ao fim? Há poucos anos, conquistar um emprego nessas empresas brilhava os olhos de inúmeros profissionais – atraídos pela rápida escalabilidade do negócio no mercado, possibilidade de crescimento interno em um curto espaço de tempo e, um chamariz de oportunidades de negócios.

Mas, em meio a tamanhas ondas de demissões divulgadas nos últimos meses, a construção de uma carreira nessas companhias virou alvo de questionamento para muitos. A resposta para essa dúvida, contudo, irá variar conforme inúmeros fatores subjetivos. Em uma breve análise cronológica, é de se impressionar as tamanhas mudanças que as startups sofreram em um curto espaço de tempo.

Há apenas dois ou três anos, o cenário econômico e mercadológico internacional era o palco perfeito para o desenvolvimento dessas empresas – marcado por uma mudança de mercado que começou a valorizar jornadas mais flexíveis, uma hierarquia menos robusta, ambiente de trabalho menos formal e o início da transição para o modelo remoto.

Atraindo cada vez mais olhares, os fundos de investimentos nessas empresas chegaram a registrar recordes consecutivos. Em 2021, por exemplo, mais de R$ 46 milhões em captações foram registra- dos, segundo dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (AB- VCAP) – quantia três vezes maior à de 2020. Em um cenário altamente otimista, contudo, tal crescimento veloz foi, ao mesmo tempo, o principal desacelerador dessas companhias.

Todas as intensas trans- formações do mercado macroeconômico tornaram o aporte de investi- mentos uma missão cada vez mais difícil, obrigando que muitas startups iniciassem uma série de demissões recorrentes na tentativa de contingenciar suas despesas e tornar o negócio novamente viável. Em todos os segmentos, a medida se tornou essencial como ajuste financeiro de operação, exigindo dos executivos um olhar mais cauteloso ao avaliar qualquer nova oportunidade de negócio. Menos dispostos a injetar recursos em empresas, agora temerosas pela inconstância, buscar uma oportunidade profissional em qualquer startup deixou de ser um sonho de consumo para, em muitos casos, se tornar uma opção duvidosa.

Não há como afirmar que qualquer vaga nessas empresas trará sucesso ou fracasso – muito me- nos, ter certeza de que essas demissões continuarão ocorrendo.

Por isso, aqueles que cogitam se candidatar a uma carreira nas startups precisam levar alguns critérios em consideração. Em sua natureza, as trilhas profissionais nessas companhias podem  ser completamente efêmeras, passíveis de iniciar e terminar a qualquer momento e de forma muito rápida. Diante disso, é essencial que, ao aplicar seu currículo para uma posição, avalie cuidadosamente todo o ciclo do negócio.

Busque compreender, em termos de governança, aqueles que estão por trás de sua criação e, especialmente a viabilidade do segmento apresentado. É muito comum encontrar startups que se vendem no mercado por histórias encantadoras e promessas mirabolantes que, apesar de conquistar muitas atenções, dificilmente possuem real perspectiva de sucesso.

Mas, para evitar frustrações, é necessário analisar se a companhia possui real fôlego financeiro para fomentar suas atividades e, acima de tudo, sua rentabilidade para prosperar. Por mais devastador que tamanhas demissões sejam, essa readaptação do modelo de negócios pode ser, justamente, a ação necessária para que as startups recuperem seu fôlego e voltem a se tornar tão atrativas quanto costumavam ser.

Para aqueles que ainda se questionam sobre a viabilidade de trabalhar nessas empresas, é preciso acompanhar o movimento dessas companhias e analisar seu desempenho. Mas, acima de tudo, unir essas  informações  com suas próprias ambições e desejos, em prol de uma construção de carreira alinhada aos seus sonhos profissionais.

EU ACHO …

INTIMIDADE

Se alguém perguntar o que pode haver de mais íntimo entre duas pessoas, naturalmente que a resposta não será sexo, a não ser que não se entenda nada de intimidade, ou de sexo.

Pré-adolescentes, ainda cheirando a danoninho, beijam três, sete, nove numa única festa e voltam pra casa tão solitários quanto saíram. Dois estranhos transam depois de uma noitada num bar – não raro no próprio bar – e despedem-se mal lembrando o nome um do outro. Quanto mais rápidos no ataque, quanto mais vorazes em ocupar mãos, bocas, corpos, menos espaço haverá pra intimidade, que é coisa bem diferente.

O filme Encontros e desencontros me fez lembrar de uma expressão antiga que a gente usava quando queria dizer que duas pessoas haviam feito sexo: “dormiram juntos”. Era isso que determinava que a relação era íntima. O que o casal havia feito antes de pegar no sono ou ao acordar não era da nossa conta, ainda que a gente desconfiasse que ninguém havia pregado o olho. Se Fulano havia dormido com Sicrana, bom, era sinal de que havia algo entre eles. Hoje a gente diz que Fulano comeu Sicrana e isso não quer dizer absolutamente nada.

Encontros e desencontros mostra a perplexidade de dois americanos no Japão – e a vivência profunda de sentir-se um estrangeiro, inclusive para si mesmo. Chega a ser previsível que a cena mais caliente do filme não seja a de um beijo e suas derivações, e sim a cena em que o casal de protagonistas está deitado na mesma cama, ambos vestidos, falando da vida, quando o cansaço e o sono os capturam. Ninguém apaga a luz, ninguém tira a roupa, ninguém seduz ninguém, eles apenas sentem-se à vontade para entrar juntos num estado de inconsciência, que é o momento em que ficamos mais vulneráveis e desprotegidos. Pra não dizer que faltou um toque, Bill Murray pousa a mão no pé de Scarlett Johansson antes de dormir profundamente. Poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima.

Enquanto isso, casais unem-se e desunem-se numa ansiedade tal que parece que vão todos morrer amanhã. Não há paciência para uma troca de olhares, para a descoberta de afinidades, e muito menos para deixar a confiança ganhar terreno. O que há é pressa. Uma necessidade urgente de quebrar recordes sexuais, de aproveitar a vida através de paixões quase obrigatórias, forjadas, que não são exatamente encontros, mas desencontros brutais. Meio mundo está perdido em Tóquio.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

MULHERES COM DOENÇA DE ANITTA RELATAM DOR NO SEXO E CÓLICAS

Sinais da endometriose se juntam ao sofrimento emocional, pois o problema nem sempre é reconhecido pelos médicos e parceiros

Cólicas fortes, dores durante a relação sexual e problemas para engravidar: esses são alguns sintomas da endometriose, doença ginecológica que atinge uma em cada dez mulheres. Além da dor  física, elas relatam outro tipo de sofrimento, emocional, por não terem seus sintomas reconhecidos pelos médicos ou pelos parceiros.

O tema repercutiu porque a cantora Anitta revelou ter sido diagnosticada após nove anos de dores. Outras mulheres enfrentam espera ainda maior.

A enfermeira Ana Paula Araújo, de 38 anos, conta que desde que começou a menstruar sentia cólicas “avassaladoras”. “Não conseguia nem trocar de roupa. Todo mês, ia para o pronto-socorro tomar medicação na veia.” Nesses atendimentos de urgência, ouvia o que muitas já ouviram: “Tem mulher que sente mais cólica. Isso é normal”. Não é.

As dores diminuíram quando ela começou a tomar anticoncepcional, mas não passaram. Vieram ainda as cistites de repetição (inflamações na bexiga) – mesmo sintoma relatado por Anitta. “E com o tempo adquiri fadiga crônica. Eu dormia e acordava mais cansada.”  Após oito anos tentando engravidar, teve finalmente o diagnóstico de endometriose.

“Senti alívio por saber que tinha alguma coisa que justificava (o quadro de saúde),que eu não estava louca. Mas o outro sentimento foi revolta por ter demorado tanto tempo a descobrir”. Ela chegou a largar o emprego por causa das dores e recusava passeios. Após cirurgia para retirar os focos da endometriose, sente menos cólicas e melhorou a fadiga.

Outro sintoma comum é a dor durante o sexo, mas os relatos nem sempre são reconhecidos pelos médicos como problema de saúde.

“Sempre tive dor durante a relação sexual. Comentei com uma médica, que fez a pergunta: ‘Você gosta mesmo do seu namorado” É esse tipo de coisa que a gente passa por falta de preparo”, diz a servidora pública Michele Oliveira, de 37 anos.

O diagnóstico só veio aos 29 anos, apesar dos sintomas desde a adolescência. E o estágio era avançado: foi preciso uma cirurgia na pelve, com remoção de parte do intestino. A endometriose pode causar focos de endométrio na pelve e na parede do intestino. Após a cirurgia, Michele engravidou.

CAUSA

A endometriose ocorre quando células do endométrio – tecido que reveste o útero -, que deveriam ser expelidas na menstruação, se movimentam no sentido oposto e caem nos  óvulos ou na cavidade abdominal. Não há clareza sobre por que isso ocorre com algumas mulheres e outras não. A cirurgia é um dos tratamentos possíveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

‘TRANSTORNO DE PERSONALIDADE TORNA A VIDA DISFUNCIONAL’

Como entender o problema, que tem longa duração e afeta quase 10% da população mundial

Associação Americana de Psiquiatria estima que 9,1% das pessoas no planeta tenham algum tipo de transtorno de personalidade (ou TP). A Organização Mundial da Saúde alterou a forma como essas patologias são relacionadas na 11.ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A CID é a base para identificar tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo. Na nova versão do manual psiquiátrico, o capítulo voltado para transtornos de personalidade sofreu alterações significativas no conceito e na classificação das doenças.

“As mudanças têm impacto direto e os profissionais precisarão se adaptar. Os transtornos de personalidade são um assunto diário na psiquiatria forense, por exemplo. A identificação de sua presença, bem como o seu nível de severidade afetarão as conclusões periciais”, analisa o pós-doutor pela University of London Elias Abdalla-Filho, que lança o livro Personality Disorders in the 10th and 11th Editions of the International Classification of Diseases.

O psiquiatra e psicanalista falou ao Estadão sobre os sinais, sintomas e tipos de tratamento para as patologias.

O QUE SÃO TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE?

São traços de personalidade que afetam negativamente a relação de uma pessoa com ela mesma (sentimentos de menos valia, sentimentos crônicos de vazio, dúvidas excessivas) e com outras pessoas (comporta- mento sedutor, indiferença pelos sentimentos alheios, tendência a guardar rancores) a ponto de provocar uma disfuncionalidade em sua vida.

O QUE CARACTERIZA UM TP?

O transtorno de personalidade é caracterizado pela longa duração dos traços disfuncionais. Não se pode diagnosticar um TP baseado em um comportamento isolado.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

Os sintomas estão na dependência direta do tipo de TP. Dessa forma, é possível perceber, por exemplo: tendência a guardar rancores e a interpretar como hostis as manifestações amistosas de outras pessoas, presentes no transtorno de personalidade paranoide; frieza emocional, afetividade embotada, indiferença a elogios ou críticas no transtorno de personalidade esquizoide; insensibilidade aos sentimentos alheios, baixa tolerância à frustração e incapacidade de experimentar arrependimento no transtorno de personalidade antissocial.

EXISTE DIFERENÇA ENTRE TRANSTORNO MENTAL E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE?

O transtorno de personalidade é um dos tipos de transtorno mental (TM), assim como a doença mental é outro tipo de TM diferente do TP.

QUAIS SÃO OS TRATAMENTOS PARA TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE? HÁ CURA OU SOMENTE UMA MANUTENÇÃO DOS SINTOMAS?

“Cura” é um termo que não se usa em psiquiatria por dar uma ideia de uma “garantia” contra uma possível recaída do transtorno. O tratamento dos TPs é essencialmente psicoterápico, sendo a terapia cognitivo-comportamental uma das mais valorizadas. No entanto, em alguns momentos mais agudos, os medicamentos podem ser úteis. Exemplos podem ser dados pelo uso de estabilizadores de humor ou antidepressivos em pacientes borderline. Considerando que estes últimos podem chegar a apresentar flashes psicóticos, não se descarta a possibilidade de uso de medicamentos antipsicóticos em baixas doses, o que também pode ser usado em TPs com sintomas fortemente paranoides. Uma consideração a ser feita quando se aborda esse tema se refere à psicopatia. O psicopata não está preso a nenhum tipo de TP, e durante muito tempo vários psiquiatras o associassem ao TP antissocial. Porém, esse é e um capítulo à parte.

OUTROS OLHARES

TERAPIA DE UMA SÓ APLICAÇÃO AJUDA A TRATAR HEMOFILIA

Em estudo, vírus modificado levou gene para dentro do corpo, corrigindo defeito na produção de proteína de coagulação

Uma nova classe de terapia gênica contra hemofilia teve bons resultados em ensaios clínicos iniciais que avaliam a segurança do procedimento e demonstraram sua capacidade de tratar a doença. Em estudo publicado ontem, cientistas relatam que o método funcionou em nove dos primeiros dez voluntários recrutados.

O tratamento foi desenvolvido por um grupo do University College de Londres (UCL) e da empresa de biotecnologia Freeline para tratar as complicações da hemofilia de tipo B. Nesta variante da doença, os pacientes possuem um defeito hereditário no gene que codifica proteína de coagulação fator IX (FIX), localizado no cromossomo X. Essa proteína é necessária para o processo de coagulação, que em hemofílicos não ocorre adequadamente, deixando-os vulneráveis a hemorragias.

O novo método, identificado no estudo com o acrônimo FLT180a, consiste em uma única aplicação de um vírus adeno-associado inofensivo contendo o DNA da forma correta do fator IX. Uma vez dentro do organismo, o micróbio se espalha pelo fígado, e a presença do gene ali garante a produção de um suprimento constante da proteína correta.

A terapia experimental conseguiu manter bons níveis do fator IX nos pacientes que receberam o tratamento ao longo de 26 semanas, a exceção de um que não reagiu bem.

O artigo que descreve o resultado do ensaio clínico saiu ontem na revista médica New England Journal of Medicine e foi liderado pela hematologista Pratima Chowdary, do hospital Royal Free, de Londres. O método requer aplicação com cautela, porque exige também o uso de drogas imunossupressoras para evitar que o sistema imune dos pacientes ataque o vírus terapêutico. O único voluntário para o qual a terapia não funcionou teve o tratamento descontinuado justamente porque não respondeu bem a esses medicamentos de apoio.

Essa nova forma de terapia gênica pode ajudar no tratamento da doença, que acomete um a cada 30 mil homens e representa de 15% a 30% das hemofilias. (a hemofilia A, relacionada a outra proteína, é mais prevalente). Hoje os pacientes de hemofilia B dependem de uma terapia profilática de reposição, com injeções frequentes de fator IX para controlar hemorragias.

“Nós constatamos que os níveis normais de fator IX podem ser atingidos em pacientes com hemofilia severa ou moderadamente severa após o uso de doses relativamente baixas do FLT180a”, relataram Chowdary e seus colegas no estudo. “Em todos os pacientes, com exceção de um, a terapia gênica levou a uma expressão duradoura do fator IX, eliminando a necessidade de profilaxia”.

EFEITOS ADVERSOS

Alguns efeitos colaterais foram relatados, a maioria deles problemas já conhecidos relacionados aos imunossupressores de apoio da terapia. Apenas um dos pacientes teve um problema aparentemente relacionado com a terapia gênica. O indivíduo, que recebeu a maior dosagem, desenvolveu um coágulo, no entanto foi tratado com sucesso.

Um dos objetivos das fases 1 e 2 do teste clínico, relatadas no estudo, é justamente ajustar a dosagem do tratamento. Caso haja sucesso, os cientistas dizem que o ensaio clínico segue então para a fase 3, com número maior de voluntários, para determinar de forma mais acertada a eficácia da nova terapia.

 GESTÃO E CARREIRA

  A DIFÍCIL ARTE DA SUCESSÃO DO CEO – CHIEF EXECUTIVE OFFICER

Toda sucessão de CEO começa com cinco perguntas básicas: Qual é o contexto? Qual é o mandato? Quem está envolvido no processo e quando? Como o propósito da organização está evoluindo? E qual o tipo de líder que precisamos? Na prática, o processo de sucessão para o primeiro posto de uma empresa costuma ser um tanto diferente da eleição de um governante público.

Em tese, não deveria, uma vez que ambos buscam uma liderança capaz de alcançar os melhores resultados possíveis para uma comunidade – seja ela uma corporação, uma cidade ou um país. Claro que existem particularidades que tornam bem distintas as duas conduções. Em suma, porém, ambas devem, ou deveriam, se pautar primeiramente pelas competências dos candidatos, analisando aspectos como confiança e integridade entre os envolvidos e evitando distorções como polarizações excessivas.

É fato que a maior parte das organizações tem dificuldade para desenvolver alternativas de sucessão internas para a posição de CEO. Quando muito, algumas conseguem gerar ao menos uma alternativa viável, mas há os casos de se estar à frente de duas excelentes opções. Muitos clientes nos perguntam como conduzir movimentos sucessórios de CEOs da melhor forma.

As dúvidas permeiam diferentes aspectos do processo, desde quando ele deve ser iniciado, em que momento os eventuais candidatos devem saber que estão no páreo e principalmente o que fazer para escolher certo, bem como de que maneira gerenciar as consequências da decisão para o não escolhido. Apresento a seguir, então, um programa de diretrizes para sucessões bem realizadas, acrescentando alguns paralelos com a seara governamental.

SABEMOS QUE COMEÇAR CEDO E NÃO PARAR, FAZ A DIFERENÇA

De três a cinco anos antes da transição parecem produzir os melhores resultados para uma avaliação completa e o desenvolvimento do pipeline de talentos para atender às especificações da função e às metas de negócios. O processo deve realmente começar logo após o novo CEO assumir o cargo, e o planejamento sucessório não deve ser episódico, mas contínuo e integrado à gestão organizacional.

Transpondo o raciocínio para um cenário político macro, considere o quão positiva para uma nação é a construção de estratégias de desenvolvimento que perdurem independentemente de qual partido esteja no poder, com o foco sempre em objetivos de curto, médio e longo prazos. Essa, porém, não é a regra. O alinhamento é o resultado do debate e do discurso.

Os melhores resultados são aqueles que são inclusivos, portanto, o alinhamento não deve ser forçado, mas ser alcançado ao longo do tempo, após as várias opiniões do Conselho sobre a função e os requisitos para o próximo CEO. Debate e dissensão devem ser encorajados, não evita- dos, pois eles geralmente levam aos resultados mais representativos. É o oposto da polarização.

Confie no processo, pois ele serve como uma base segura e testada pelo tempo para manter os planos de sucessão avançando no fluxo para os melhores resultados. Concorde com esse princípio antecipadamente e permaneça fiel a ele, ainda que haja momentos difíceis – sempre há. Eles precisarão ser tratados, mas o processo se adapta a eles e continua sendo a espinha dorsal de todo o esforço, independente dos obstáculos. Na política, essa base corresponde aos princípios democráticos da disputa pelo poder.

CONFIANÇA E INTEGRIDADE SÃO A COLA

Pode não haver prática mais vital do que essa. As relações envolvidas na solução são o elemento mais importante do processo, sem exceção. Elas devem ser estabelecidas

e mantidas com confiança e respeito. Muitas vezes é preciso coragem para manter esses princípios, mas sempre vale a pena. Fazendo uma reflexão para as esferas governamentais, alianças constituídas em prol de um bem coletivo são diferentes de conchavos que visam em primeiro lugar vantagens políticas para os aliados.

Foque no desenvolvimento, uma vez que os líderes de hoje quase nunca estão prontos. A experiência por si só nunca irá prepará-los para a liderança exigida do CEO neste ambiente incerto e disruptivo. Eles devem ser continuamente “cultivados” e nutridos. As metas de desenvolvimento estão evoluindo de forma constante e bem-sucedida para atender às demandas da liderança hoje – tanto na preparação para os escritórios quanto no trabalho contínuo de adaptabilidade e capacidade de resposta uma vez na função.

Se utilizado corretamente, o desenvolvimento imersivo é a chave para preparar melhor os líderes para o sucesso. Essa máxima vale também para os comandantes políticos, dada a complexidade crescente das questões sociais. É preciso um time. Hoje existem inúmeras necessidades díspares pressionando os líderes. Ficou claro que um único líder não pode mais atender a todas elas. Na verdade, a melhor abordagem é construir uma rede de serviços de desenvolvimento e suporte.

Para cada CEO, as perguntas a serem feitas são: o que essa pessoa precisa para atingir as metas e quem são os especialistas mais qualifi- cados para ajudá-la? Trata-se de uma premissa básica também para a condução de um governo verdadeiramente democrático. Avalie além da experiência. Ainda que a experiência anterior de um candidato sempre seja uma medida vital na avaliação de cargos futuros, a realidade hoje é que o desempenho passado não prevê o sucesso nem pode preparar completamente alguém para ser CEO.

PRECISAMOS IR MAIS LONGE

Mergulhar no caráter de uma pessoa e abrir seu potencial para selecionar e continuar desenvolvendo os líderes determinados, autoconscientes e transformados que os cargos exigem, tanto nas empresas quanto na política. Aceite que a “Especificação da Posição” é um alvo dinâmico e móvel. Nada permanece exatamente igual por muito tempo, nem mesmo as especificações cuidadosamente acordadas para o cargo de CEO.

Estas também devem seguir o curso durante o processo de sucessão. As prioridades podem mudar devido a fatores imprevistos. Embora o processo permaneça bloqueado, amaneira de abordá-lo deve sempre ser dinâmica, com a vontade de revisitá-lo e adaptá-lo às circunstâncias em mudança, conforme necessário. Quem ocupa um cargo político de liderança precisa igualmente estar conectado com as variações das demandas socioeconômicas.

FOQUE NA CONSTELAÇÃO DE LÍDERES

Os líderes não atuam mais frouxamente desvinculados de suas organizações, pois a colaboração é o meio para o sucesso. Assim, ao selecionar um CEO, envolva a equipe executiva e se esforce para garantir que os indivíduos estejam na mesma página do líder e contribuam com forças complementares às dele. O ponto nevrálgico, aqui, é que ninguém governa sozinho.

TENHA UM PLANO DE CONTINGÊNCIAS

Sempre, sempre tenha um plano de emergência, pois a falta de um pode causar estragos. Reserve um tempo para que o Conselho concorde com isso e revise-o com regularidade. Certifique-se de que o plano de emergência não seja apenas para o CEO, mas também considere as perdas das outras posições de liderança N-2. Nos meios governamentais, cabe observar com cuidado a trajetória do candidato a vice. A nomeação é apenas a metade do processo.

Tornar-se CEO não é necessariamente o fim de uma carreira, mas o começo de uma oportunidade sem precedentes para a qual, novamente, nenhuma quantidade de experiência passada pode preparar o executivo completamente. Forneça aos novos CEOs programas de integração superlativos e amplo suporte ao desenvolvimento. Incentive-os a pedir ajuda e a disponibilize prontamente. O sucesso da empresa dependerá disso. O êxito de uma cidade, Estado ou país também não se restringe à figura daquele que ocupa o cargo mais importante do executivo.

Faça um benchmark contra o talento de CEO Best-In Class no mercado. Não conduza a sucessão sem olhar à sua volta. Certifique-se de medir o seu próprio talento em comparação com o melhor externamente e leve em conta quaisquer diferenças ou distinções importantes que possam vir à tona. No âmbito governamental, esse tópico me remete à importância da alternância de poder para a constituição de uma democracia sólida.

Na situação inusitada de se deparar com a difícil escolha entre duas ótimas alternativas para o posto de CEO, peça a cada um dos candidatos para elaborar seu plano para os primeiros 100 dias e apresentá-lo ao Presidente do Conselho ou ao Comitê de Nomeação. Sair dos conceitos de competências, potencial ou testes e ir para a vida real de como tudo isso será colocado em prática pode fazer a diferença.

Se nem assim ficar claro quem é a melhor opção, considere trazer uma terceira alternativa de mercado para a mesa. A comparação de uma terceira via com os dois candidatos internos já em disputa poderá ajudar no processo, avaliando melhor o quanto o conhecimento prévio da organização e eventual alinhamento à cultura podem ser melhores que alguma competência específica mais diferenciada, uma maior representatividade externa ou um potencial de crescimento mais elevado.

O que está em jogo na sucessão, acima de vaidades ou convicções preestabelecidas, é o bem-estar e a prosperidade de um grupo, lógica que se aplica às empresas, mas serve também para pátrias.

EU ACHO …

CARDÁPIO DA ALMA

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?

Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta.

Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?

Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira nesse processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.

Se não há silêncio à sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.

Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.

Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas não vou me descuidar. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SAÚDE NO PRATO

Conheça hábitos de alimentação saudáveis que podem ajudar a transformar o corpo e o bem-estar

Médicos e especialistas em saúde concordam que o que as pessoas colocam no prato diariamente tem forte impacto no bem-estar.

Fazer escolhas conscientes e mais saudáveis pode transformar o corpo, ajudar a impulsionar a mente e melhorar a saúde. Não é necessário cortes radicais ou abdicar totalmente de prazeres como doces e churrascos. Mas a escolha de hábitos saudáveis e moderação podem gerar um impacto enorme no bem-estar e ajudar na produtividade, na redução de problemas como insônia, taquicardia e ansiedade, entre outros.

DIETA BALANCEADA

Manter uma alimentação balanceada é a chave para o bem-estar. Ao ingerir alimentos naturais e frescos e em quantidade equilibrada, o corpo amplia a produção de hormônios relativos ao bem-estar, como dopamina, serotonina e endorfina, ajudando a promover mais disposição e produtividade.

O excesso de açúcar, gordura e aditivos químicos, por sua vez, atrapalha o bom funcionamento do corpo.

Uma alimentação balanceada deve incluir por dia duas frutas; três tipos de verduras e legumes; leites e laticínios; óleos bons para saúde (como azeite extravirgem); oleaginosas (como castanhas e amendoins); cereais (como pães e arroz) e proteína (carne magra para quem não é vegetariano ou vegano).

Mas manter essa rotina no dia a dia não significa que é proibido comer doces, carnes gordas ou beber refrigerantes. Se controladas, essas “transgressões” ajudam a quebrar o estresse que a busca por uma alimentação saudável pode acabar gerando. Moderação é a chave.

HOME OFFICE SAUDÁVEL

Trabalhar em casa e se alimentar bem tem sido um desafio de muitos profissionais durante a pandemia.

Levantar a todo momento para abrir a geladeira e abusar do delivery são dois hábitos que geram impacto negativo no peso e na saúde. Uma das estratégias para evitar isso é planejar as refeições.

Uma boa lista de supermercado com itens pensados para a semana toda, incluindo vegetais, folhas e frutas ajuda a evitar muitas saídas para compras e deixa a geladeira cheia de opções saudáveis.

Preparar de uma vez grandes quantidades de arroz, feijão e carne e congelar em pequenas porções ou até em marmitas completas também facilita na hora das refeições. O alimento dura até três meses no congelador.

ÁGUA

A água é uma das principais aliadas do bem-estar e do bom funcionamento do corpo. Ela auxilia na absorção dos nutrientes, no funcionamento do intestino, no metabolismo, protege e hidrata articulações e células.

O consumo de pelo menos dois litros diários também ajuda a regular a pressão sanguínea.

Substituir a água por sucos, refrigerantes ou mesmo água com gás não é uma boa escolha. Essas bebidas carregam açúcares e outras substâncias que acrescentam calorias ao dia a dia e podem ter efeitos nocivos no organismo.

O gás também tem efeito erosivo nos dentes e pode promover a produção de gases.

ALIADOS

Alguns alimentos têm o poder de elevar o astral, melhorar o humor e aumentar a disposição. Se consumidos com equilíbrio, eles podem ser ótimos aliados para o bem-estar. O chocolate (pelo menos 70% cacau) ajuda a melhorar o humor e prolongar a sensação de bem-estar.

As folhas escuras, como espinafre, são fonte de vitaminas do complexo B e ajudam em quadros depressivos. O abacate é rico em vitamina B3, que atua no sistema nervoso ajudando a manter os hormônios que regulam as substâncias químicas do cérebro. Oleaginosas têm atuação no cérebro. A concentração de vitamina B1 ajuda a melhorar a concentração, já o selênio m atua para evitar depressão, irritação e ansiedade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MEMÓRIA DEVE SER TREINADA TODOS OS DIAS, SOBRETUDO NA ERA TECNOLÓGICA

Especialista aponta que exercícios mentais, hábitos e dieta podem contornar problemas como distorção e distração tecnológica

À medida que envelhecemos, nossa memória diminui. Esta é uma suposição arraigada e, no entanto, de acordo com Richard Restak, neurologista e professor clínico da Faculdade de Medicina e Saúde da Universidade George Washington (EUA), o declínio não é necessariamente inevitável. Autor de mais de 20 livros sobre a mente, ele tem décadas de experiência na orientação de pacientes com problemas de memória. The Complete Guide to Memory: The Science of Streng-thening Your Mind (O Guia Completo para a Mente: A Ciência de Endireitar Sua Mente, em tradução livre), último livro de Restak, inclui ferramentas como exercícios mentais, hábitos de sono e dieta que podem ajudar a melhorar a memória. Ainda assim, Restak se aventura além desse território familiar, considerando todas as facetas da memória – como ela está conectada ao pensamento criativo, o impacto da tecnologia, e como a memória pode moldar nossa identidade. “O objetivo do livro é superar os problemas cotidianos de memória”, diz o autor. Especialmente destaca a memória de trabalho, que fica entre a memória imediata e a de longo prazo, e está diretamente ligada à inteligência, à concentração e às conquistas.

Segundo Restak, esse é o tipo mais crítico de memória, e exercícios para fortalecê-la devem ser praticados diariamente. Mas a chave para evitar problemas posteriores, acrescenta, é reforçar todas as habilidades ligadas à mente.

O declínio da memória não é inevitável com o envelhecimento, argumenta. Em vez disso, ele aponta para dez “pecados” ou “tropeços que podem levar a memórias perdidas ou distorcidas”. Sete desses empecilhos foram descritos pela primeira vez pelo psicólogo e especialista em memória Daniel Lawrence Schacter – são os “pecados de omissão”, como a distração; e os “pecados de comissão”, como memórias distorcidas. A esses, Restak acrescentou outros três de sua autoria: distorção tecnológica, distração tecnológica e depressão.

A depressão, por exemplo, pode diminuir muito a memória. Entre “as pessoas que são encaminhadas a neurologistas por problemas de memória, uma das maiores causas é a depressão”, disse Restak. Seu estado emocional afeta o tipo de memórias que você lembra. O hipocampo (ou “centro de entrada de memória”, de acordo com o autor) e a amígdala (a parte do cérebro que gerencia emoções e comportamento) estão ligados. Por isso, ressalta o valor de tratamentos químicos e psicoterápicos.

TECNOLOGIA

Entre os três novos pecados da memória de Restak, dois estão associados à tecnologia. O primeiro é o que ele chama de “distorção tecnológica”. Armazenar tudo em seu telefone significa que “você não sabe”, o que pode corroer nossas próprias habilidades mentais. “Por que se preocupar em focar, concentrar e aplicar esforço para visualizar algo quando uma câmera de celular pode fazer todo o trabalho para você?”

A segunda maneira pela qual nosso relacionamento com a tecnologia é prejudicial para a memória é porque muitas vezes tira nosso foco das tarefas manuais. “Em nossos dias, o maior impedimento da memória é a distração”, escreveu Restak. Muitas dessas ferramentas foram projetadas com o objetivo de viciar a pessoa que as usa e, como resultado, nos distraímos com elas. Hoje, as pessoas podem verificar seus e- mails enquanto assistem à Netflix, conversam com um amigo ou caminham pela rua. Tudo isso impede nossa capacidade de focar no momento presente, o que é fundamental para a codificação de memórias. “Em última instância, “nós somos o que podemos lembrar”, diz.

DICAS

PRESTE MAIS ATENÇÃO

Alguns lapsos de memória são de atenção. Por exemplo: se esqueceu o nome de alguém que conheceu em evento, pode ser porque estava conversando com várias pessoas e não prestou atenção.

ENCONTRE DESAFIOS DE MEMÓRIA DIÁRIOS E REGULARES

Restak sugeriu compor uma lista de compras e memorizá-la. Quando você chegar à loja, não retire automaticamente sua lista (ou seu telefone) – em vez disso, pegue tudo de acordo com sua memória. Se você não for à loja, tente memorizar uma receita. Ele acrescentou que cozinhar com frequência é realmente uma ótima dica.

JOGUE MAIS

Jogos como dama e xadrez são ótimos para a memória.

LEIA MAIS HISTÓRIAS

Um indicador precoce de problemas de memória, de acordo com Restak, é desistir da ficção. “As pessoas, quando começam a ter dificuldades de memória, tendem a mudar para a leitura de não ficção.”

DETERMINE SE HÁ MOTIVO PARA PREOCUPAÇÃO

Muito depende do contexto. Por exemplo, é normal esquecer o número do quarto do hotel, mas não o endereço do seu apartamento. Em dúvida, consulte um médico.

OUTROS OLHARES

BRASIL VIVE ‘SEGUNDA PANDEMIA’, COM MULTIDÃO DE DEPRIMIDOS E ANSIOSOS

Suicídios no país sobem sem parar, segundo o Datasus, e matam mais que acidente de moto

“É tristeza o nome da doença, a pior que tem”, diz Gerson Hein, 48, secando a testa com o antebraço numa manhã ensolarada de inverno. Enquanto segura uma muda verde de fumo, as botas sujas de terra, ele aponta para os cinco bois do outro lado da cerca.

“Eles tão tudo assim felizes pastando, mas tem que estar sempre prestando atenção. Se um se isolar do bando, arriar as orelhas e murchar o rabo, tem alguma coisa de errado. “O agricultor fala dos bichos, mas o assunto é gente: “Dá igual no ser humano, dá e mata”.

Gerson felizmente nunca viu de perto, mas sua propriedade fica numa região onde casos de enforcamento já não chocam mais. A cidade é Venâncio Aires (RS), a uma hora de Porto Alegre, que historicamente tem uma das mais altas taxas de suicídios do Brasil.

Foram nove óbitos e 38 tentativas só nos seis primeiros meses deste ano, sendo agricultores como ele as vítimas mais comuns. A cidade gaúcha de 72 mil habitantes reflete um país que adoece mentalmente e tem uma multidão de deprimidos e ansiosos e, consequentemente, de mortos.

O total de óbitos no país por lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus, sem considerar a subnotificação. Isso equivale amais de um óbito por hora, superando as mortes em acidentes de moto ou por HIV.

A curva vai na contramão do resto do mundo, mas segue a tendência da América Latina,  de acordo com a OMS {Organização Mundial de Saúde), que atribui a piora à pobreza, à desigualdade, à exposição a situações de violência e ausência ou à ineficiência de planos de prevenção.

“Tudo é em forma de tentar sair da vida que a gente leva”, afirma Ana Paula da Silva, 39. Ela conta que tem episódios de automutilação e tentou tirar a própria vida cinco vezes, relembrando uma infância de ausências: “Às vezes a gente só tinha o almoço ou a janta”. Começou a trabalhar aos 14 e se prostitui nas ruas de Venâncio após perder o pai, alcoólatra. Também se rendeu à cocaína e à bebida. Hoje, sente-se melhor e tenta recomeçar com as rodas de conversas no Caps (Centro de Atenção Psicossocial). O Rio Grande do Sul ocupa sempre o topo do ranking brasileiro, por motivos que o comitê estadual de prevenção do suicídio tem dificuldade de entender. As hipóteses passam pela cultura herdada da colonização alemã. “No Sul, saúde mental é vista como besteira, como se a pessoa não quisesse trabalhar” diz a coordenadora do comitê, Andréia Volkmer.

No Vale do Rio Pardo, onde fica Venâncio Aires, soma-se ainda o fator econômico de uma região que depende essencialmente do tabaco e portanto, do clima e da qualidade da safra. Muitas vítimas ali são homens acima dos 50 anos, fumicultores que não se sentem mais produtivos.

Pesquisadores também citam os agrotóxicos organofosforados como desencadeadores da depressão. A cidade, porém, diz que os casos variam muito e põe o fator em segundo plano: “Identificamos muitas pessoas que tinham sofrido violência ou eram violentos, por exemplo”, diz a enfermeira Patrícia Antoni, coordenadora do comitê municipal.

Os motivos são complexos e múltiplos, mas “a palavra mais perigosa que tem é quando a pessoa diz ‘cansei’, aí tem que correr”, afirma o psiquiatra Ricardo Nogueira, docente da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) e autor de dois livros e de um manual sobre prevenção ao suicídio no estado.

Ele descreve o ato como o ponto final “dos seis Ds”: desesperança, depressão, desemprego, desamor, desamparo e desespero. Prevenir o suicídio é, então, prevenir o sofrimento mental em suas diversas formas. E não são poucas.

O leque de transtornos chega a mais de 300 tipos, segundo a classificação DSM-5, referência internacional criada pela Associação Americana de Psiquiatria. “Mas os mais comuns são ansiedade e depressão, problemas que o Brasil conhece bem, como mostram diferentes pesquisas.

Um levantamento da OMS em 2017 apontou o Brasil como o país com o maior índice de ansiosos do mundo (9.3% ou 18 milhões de pessoas) e o terceiro maior em depressivos (5.8%) ou 11 milhões, muito próximo dos EUA e da Austrália (5.9%)  – o órgão pondera que não se pode falar em ranking porque são estimativas.

Hoje, porém, esses números já estão longe da realidade. Os efeitos do luto, do medo e do isolamento pela Covid-19 foram explosivos no últimos dois anos (apesar do período não ter influenciado de forma significativa no suicídios, especificamente).

A última pesquisa mais abrangente, da Vital Strategies e da Universidade Federal de Pelotas, mostrou que o que dizem ter sido diagnosticados com depressão subiram de 9.6% antes da pandemia para 13.5% em 2022, A Associação Brasileira de Psiquiatria cita que um quarto da população tem, teve ou terá depressão ao longo da vida.

“Estamos saindo da pandemia de coronavírus e entrando numa pandemia de saúde mental”, diz Nogueira. “No auge da Covid, nós íamos atender os pacientes em casa e eles diziam: “doutor, pelo amor de Deus, abram os bares, porque aí pelo menos paramos de beber quando eles fecham”.

Enquanto os bares fechavam, o mesmo ocorria com serviços de saúde mental, o que reprimiu a demanda e fez os pacientes em crise aumentarem. No Caps da Restinga, extremo sul de Porto Alegre, por exemplo, os 3.000 atendimentos anuais de dependentes químicos viraram 14 mil, incluindo mais mulheres e pessoas da classe média.

Nos últimos meses a equipe da unidade da Restinga teve que dar atenção especial à aldeia indígena Van-Ká, da etnia kaimpang, a alguns quilômetros dali. Um de seus líderes, Eli Fidelis, 51, suicidou-se após anos em depressão.

“Aqui a gente faz nossas festas. Menos velório, que não é para acontecer mais, diz Nerlei, 38, o caçula dos oito irmãos, indicando um espaço coberto e circular. “Um tempo atrás a gente nem sabia o que era depressão”, afirma outro irmão, o cacique Odirlei, 40.

Eli é um exemplo de uma parcela da população que carrega o triplo da taxa de suicídios brasileira, diretamente relacionada, entre outros fatores, ao alcoolismo. O fenômeno não   é generalizado, mas localizado em comunidades e etnias específicas e concentrado nos adolescentes, segundo o Ministério da Saúde.

Outros estratos que acendem alertas são policiais e pessoas LGBTQJA+. As chances de um jovem desse segundo grupo ter um transtorno mental é três vezes maior para ansiedade; duas vezes para depressão e cinco vezes para estresse pós-traumático, mostrou um estudo feito em escolas de São Paulo e Porto Alegre em 2019.

Os adolescentes e jovens-adultos em geral são, agora, a maior preocupação no país e no mundo, com índices de mortes autoprovocadas disparando acima da média.

A OMS bate na tecla de que o suicídio é prevenível, recomendando quatro diretrizes principais aos países: dificultar o acesso aos principais métodos utilizados, qualificar o trabalho da mídia para que neutralize relatos e enfatize histórias de superação; expandir e fortalecer os serviços de saúde mental, capacitando profissionais para identificar casos precoces; trabalhar habilidades socioemocionais nos espaços de ensino.

Na Escola Municipal Dom Pedro 2°, em Venâncio, por exemplo, usa-se a figura dos girassóis, que “olham um para o outro em dias nublados”: é comum que alunos chamem os professores quando observam algo de errado com os colegas.

“Contra o suicídio não tem vacina. O que tem que ter é gente sensibilizada, treinada e capacitada”, lembra o psiquiatra Ricardo Nogueira.

GESTÃO E CARREIRA

CHEFES TÓXICOS SÃO PROBLEMA PARA 8 EM CADA 10 EXECUTIVOS

Vítimas de assédio moral relatam estresse e angústia, aponta pesquisa

“Preciso de ‘mais gás’ em você”, A cobrança sutil, em um e-mail enviado pelo chefe poucas semanas depois de iniciar o novo trabalho, deixou Renato (nome fictício), 36, incomodado. Analista sênior de TI, de uma grande empresa de telecomunicações, ele tentava fazer o seu melhor depois de herdar tarefas de um colega recém-demitido, delegadas pelo chefe que tirou férias logo após a sua contratação, no regime remoto.

O incómodo inicial deu lugar a um mal-estar profundo quando, nas reuniões online, ele, um analista sênior, passou a ser comparado depreciativamente com um analista Júnior. Críticas enviadas pelo chefe por e-mail não raro tinham outros analistas copiados, alguns com dez anos ou mais de casa, que deixaram de ser promovidos com a chegada de Renato.

Contratado em meio à pandemia e morando em Belo Horizonte, distante da sede da empresa, em São Paulo, ele não encontrou receptividade na equipe. Não sabia com quem conversar para resolver dúvidas simples, enquanto questões urgentes, que envolviam terceiros, demoravam horas para serem respondidas. Passou a trabalhar de madrugada para conseguir solucionar pendências sozinho.

As cobranças por resultados aumentavam. Renato diz que o chefe repetiu que ele era um analista sénior em uma das maiores empresas do setor do mundo e que por isso ele saberia como agir; uma vez que a empresa não tolerava erros.

Mas Renato já não sentia mais confiança em si mesmo e começou a sofrer de ansiedade, enfrentando episódios de pânico quando avistava o nome do chefe nas chamadas do celular. Achava que seria demitido a qualquer momento.

Ele afirma que se sentia “um lixo” diante dessa situação.

O problema de Renato e de 78% dos altos executivos do país se chama “chefe tóxico”. Foi o que identificou uma pesquisa feita pela consultoria em gestão e educação executiva BTA Associados, entre março e abril deste ano, com 321 profissionais dos níveis de gerência, diretoria, presidência e conselhos de empresas.

“Perguntamos aos executivos se eles já trabalharam ou trabalham com um chefe tóxico, e 78% disseram que ‘sim’, afirma a psicóloga Betânia Tanure de Barros, sócia da BTA e especialista em comportamento organizacional.

Como principais características de um chefe tóxico, que pratica assédio moral, os executivos apontaram desonestidade, agressividade, narcisismo e incompetência.

“É um perfil completamente oposto ao de um líder de referência, apontado pelos entrevistados como alguém integro, com visão estratégica, competência técnica, que tem escuta aberta, boa comunicação e empatia”, afirmou Betânia. A pesquisa identificou que 82% já trabalharam ou trabalham com um líder assim.

A maior parte dos executivos ouvidos na pesquisa da BTA diz sofrer algum nível de assédio moral no trabalho. Os casos mais graves indicaram altos níveis de angústia para 42% dos entrevistados, de ansiedade para 60%, e de estresse para 62%. Mais de um quarto dos executivos (26%) afirmaram que podem adoecer com o trabalho.

“Durante a pandemia, as empresas acabaram negligenciando, de alguma maneira o treinamento dos líderes. Houve muito investimento em tecnologia, mas liderança ficou em segundo plano”, afirma Betânia. No final de 2020, outra pesquisa da BTA apontou que 84% das companhias tinham intenção de reduzir ou, no máximo, manter os investimentos em desenvolvimento dos seus executivos.

“Agora há uma predominância de líderes com competências medianas em um ambiente altamente demandante”, afirma.

Ao mesmo tempo, o trabalho remoto permitiu um nível de assédio maior em termos de cobrança, porque não existem espectadores, diz Tatiana Iwai, professora de comportamento e liderança do Insper.

“O executivo não está diante de uma equipe, a não ser em reuniões online, e os diálogos são privados”, afirma Tatiana. “Neste tipo de ambiente, a pressão pode ser muito mais intensa.”

“As empresas reconhecem e mantêm esse tipo de liderança tóxica porque, na maioria das vezes, ela entrega resultados”, diz a sócia da BTA, Vânia Café.

“Justamente pela assertividade e certa agressividade destes líderes na condução da equipe, eles conseguem cumprir metas. Isso leva a empresa a relevar o comportamento tóxico”, afirma a especialista. Tatiana Iwai destaca, no entanto, que grandes escândalos corporativos – como o que ocorreu com a Caixa Econômica Federal recentemente – não acontecem da noite para o dia.

“São comportamentos tóxicos que vão se tornando regulares e acabam moldando a cultura daquela empresa”, diz ela. “No entanto, em algum momento, tudo isso vem à tona e compromete a imagem da companhia com todos os seus públicos de interesse: funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade e investidores.”

A contrapartida do comportamento de assédio moral é a dificuldade de atração e a perda de talentos”, diz Vânia Café. “As empresas criam reputação no mercado, com base na sua cultura de liderança. Uma empresa – ou equipe – de alta rotatividade pode ser um indicativo de assédio moral”, afirma.

Flávio (nome fictício), 45 está há décadas na área de vendas e se orgulha de saber trabalhar sob pressão. É executivo de contas de uma multinacional de tecnologia e atende clientes do governo federal, em Brasília.

Ele afirma que as empresas costumam estipular metas superestimadas porque, caso algum setor falhe, outro pode compensar. Flávio também diz que os chefes fazem pressão para que os vendedores se tornem amigos dos clientes, sem entender que a construção desse tipo de relação é demorada.

O problema é que, quando chega o fim do ano o executivo precisa atingir sua meta, começa a assumir riscos.

Ele conta que, em seu trabalho anterior, fez uma encomenda de equipamentos para alguns clientes que, posteriormente, desistiram da compra. Quando isso ocorreu, ele relata tersido alvo de muita pressão – segundo Flávio, seu chefe gritava: “Tem milhões de reais em equipamentos parados. Você prometeu que sairia dia 15 de agosto e agora é 30 de setembro e está tudo parado. A divisão América Latina e a divisão Américas contavam com isso. Como você falha assim? É o segundo mês que você falha”.

Como resultado da pressão, diz ter desenvolvido um quadro de ansiedade. Ele relata que passou a ter dificuldade para se concentrar, que não podia mais beber, porque o álcool o desequilibrava emocionalmente, desencadeando choros, e que teve problemas de libido.

A saída que encontrou foi terapia e a religião espírita, afirma. Um tempo depois, ele deixou o trabalho.

Hoje, Flávio reclama da carga de trabalho, que aumentou muito com a pandemia. Segundo ele, são inúmeras reuniões todos os dias, e cada uma define uma nova tarefa a ser realizada por ele.

O vendedor diz ainda que não consegue mais impor limites ao seu horário de trabalho, usando o tempo antes e depois do expediente para ter um momento privado para pensar e definir estratégias.

Agora, ele diz que já estuda um plano B: dar adeus à vida executiva e se concentrar na vida no campo.

Já Renato, em Belo Horizonte, deixou depois de seis meses a empresa de telecom. e passou a trabalhar em uma companhia de tecnologia. Ainda hoje faz terapia, mas já superou as crises de pânico.

A gota d’agua para ele no antigo emprego foi a falta de empatia do chefe com a sua doença. Renato pegou Covid no início de 2021 e ficou 20 dias internado, 10 deles na UTI. Ele diz que sua imunidade estava baixa porque vinha dormindo mal e comendo muito em razão da ansiedade e que pertencia a um grupo de risco, por ser obeso. Renato diz ter ficado com 70% do pulmão comprometido.

Levou o laptop para o hospital e continuou trabalhando. Alguns dias depois, porém, avisou o chefe que seria encaminhado a UTI, em razão do agravamento do quadro, e levaria apenas o seu celular pessoal, para se comunicar com a mulher.

Cinco dias depois, em um dos momentos mais críticos da terapia, quando estava sendo submetido ao ventilador mecânico para suprir a carência de oxigênio, sem conseguir falar, recebeu uma mensagem por WhatsApp: “OI, quando puder, me liga”. Era o chefe, querendo que Renato providenciasse um atestado médico.

EU ACHO …

A EX

Nunca mais daria diamantes. Convidaria suas eleitas para um… sorvete, doce efêmero como o amor

Ele era romântico em qualquer sentido do termo. Um homem dado a declarações de amor, oferta de flores e banhos de hidro, ao entardecer, com vinho. Heitor era um cavalheiro,  um bom amante e muito atencioso aos detalhes. Estela, a namorada, parecia descobrir novo encanto a cada dia.

O namoro estava perto de completar dois anos e não poderia estar melhor. Ele tinha anunciado que ela estivesse pronta para um lugar especial naquele sábado frio de julho, Ela intuiu que seria pedida em casamento.

Sim: o plano do bravo Heitor era esse. Um anel foi comprado. Naquela noite, no lugar que ele amava, com vista para toda a cidade, ele tentaria o upgrade de namoro para noivado.

A Lua foi cúmplice dos enamorados e apresentou-se cheia em céu límpido de inverno. O anel exalava uma onda de emoção do seu silencioso estojo, quase gritando para ir ao dedo da eleita. O homem planejava o momento certo de fazer o pedido. A mulher intuía, arfante, que seria uma noite perfeita.

Um pouco antes do pedido do vinho, Heitor percebeu o vulto de Isabela em um canto do restaurante. Eles estiveram casados por seis anos. Amaram-se e, por decisão tranquila e consensual do casal, separaram-se. Isabela se casara de novo e tinha uma filha com o atual  esposo, o qual a acompanhava na noite em questão. Perseguição? Não, Isabela era um modelo de equilíbrio e jamais faria algo assim. Pura e absoluta coincidência.

Havia um problema que chegava à consciência de Heitor aos poucos e tomava sua paz. Ele pedira Isabela no mesmo restaurante. Sim, podemos acusar nosso romântico de, talvez, pouco criativo.

Ele começou a ficar inquieto. Dissera à ex que a amaria para sempre e que seriam felizes até ambos ficarem velhinhos. Tinha prometido que iriam juntos ao geriatra, de mãos dadas. As promessas duraram seis belos verões. Ele sentira o amor absoluto no momento do pedido e, poucos anos depois, tinham formado um casal indiferente, sem que nenhum tivesse um deslize grave a acusar no outro. Separam-se não por colisão, simplesmente por falta de combustível, parte seca na estrada da vida, talvez.

Heitor passou a duvidar do seu futuro com Estela. E se Estela fosse, de novo, a história de Isabela? A quase rima pobre dos dois nomes o incomodava mais. Estela/Isabela agora dançavam na sua cabeça. Repetira o restaurante, escolhera nomes (e tipos físicos) parecidos e agora, quase oito anos depois, estava prestes a fazer a mesma cena no mesmo lugar. Uma angústia nova o incomodou ainda mais agora: o modelo do anel de noivado, a lapidação do diamante e as curvas da platina eram… quase idênticos nos dois pedidos. Ele se percebia uma cópia de si, uma farsa repetida, um apaixonado tomado pelo momento que encenaria a mesma pantomima – com risco idêntico de fracasso.

Deboa memória, Heitor tinha exata lembrança de que sentia um amor intenso e que suspirava por eternidade quando pediu a primeira esposa. Enganou-se. O que garantia que não estava equivocado novamente? Nada, matematicamente nada. Era um salto no escuro, excessivamente claro, em meio a todas as incertezas que o futuro sempre apresenta em alguma borda de abismo.

Heitor foi ficando lívido. Sua certeza do que fazer naquela noite de Lua cheia tinha sido abalada. Mais: tinha dúvida de qualquer compromisso permanente, agora que sabia que seu coração não era sólido, todavia, um pântano inseguro de promessas feitas e, depois, esquecidas. Ele não se considerava confiável e supunha que o amor não era mais um fato seguro. A presença da ex era uma fissura funda no bloco granítico do outrora decidido Heitor. Ela, Isabela, era a prova viva de que tudo passa e que Cupido, como bem advertia o Padre Vieira, era uma criança, porque os rumores humanos não se tornavam adultos. Seu casamento morrera antes de chegar a alguma boda adolescente. Tinha terminado na primeira infância, com apenas seis anos de contato.

A namorada percebeu o incômodo do nosso dividido homem e perguntou se ele estava bem. O anel que fulgurava de forma invisível no bolso do blazer, agora, era uma pedra fria e incômoda. Quantos outros anéis ele daria a quantas outras mulheres, até que o fim tornasse o último casamento eterno, não por decisão de um coração romântico, porém por falha cardíaca mesmo? Só a morte seria o cumprimento de toda promessa matrimonial? Por isso, o padre dissera: ”Até que a morte os separe!”. Heitor duvidava de tudo. Perdera a fé no amor, em si e em diamantes. Alegou um mal-estar por causa da comida e do vinho, pediu a conta e despediu-se apressadamente da atônita Estela. Ela, Estela, e ela, Isabela, tinham sido involuntárias placas tectônicas que rompiam a calma superfície do homem outrora romântico e talhado para o casamento.

Não preciso dizer, apaixonada leitora e enlevado leitor, que o sol da primavera não brilhou sobre o casal. Constrangido, ele rompeu três dias depois. Guardou o anel, para refletir – diante do óbvio – como pessoas volúveis apostavam em materiais permanentes como amuleto. “Fadiga de material humano”, comentou o desolado Heitor. Nunca mais daria diamantes.

Doravante, convidaria suas eleitas para um… sorvete. Sim, o doce gelado era efêmero. Funcionava feliz por alguns minutos e passava, como o amor. Lambiam a casquinha, beijavam-se e se separavam. “Assim deve ser, sorvete e namoro, nunca mais diamantes e casamento…”, filosofava Heitor.

No mundo, deveria existir a esperança de diamantes, convivendo com sorvetes.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

ESTES ALIMENTOS PODEM AJUDAR NA SUA HIDRATAÇÃO

Esqueça a teoria dos ‘oito copos de água’. Frutas, vegetais e outros tipos de líquido também contam para manter o corpo hidratado

Se você não está ingerindo líquidos suficientes para produzir suor adequado em um dia quente, pode estar mais vulnerável à insolação. A desidratação pode ser causada pelo calor extremo, mas também pode exacerbar outras condições relacionadas ao calor, como cãibras de calor.

Portanto, ingerir líquidos é crucial, mas a hidratação pode ir além de beber água. A crença popular de que todos nós precisamos beber oito copos por dia para estarmos realmente hidratados persiste, embora tenha sido desmascarada várias vezes. “Realmente, não há dados por trás dos oito copos de água por dia”, disse o dr. Dan Negoianu, nefrologista da Universidade da Pensilvânia. “Só porque sua urina está escura, isso não prova que você está desidratado.”

Estar hidratado significa simplesmente consumir líquidos suficientes a ponto de não sentir sede, contou Negoianu, e essa quantidade varia para todos. Há muitas coisas além de água para mantê-lo hidratado, dizem os especialistas, incluindo alimentos e bebidas. Aqui, algumas sugestões.

OLHE PARA SUAS FRUTAS, SEUS VEGETAIS E BEBIDAS FAVORITOS

“Achamos que precisamos beber muita água o tempo todo porque ouvimos isso o tempo todo”, analisou Tamara Hew-Butler, cientista de medicina esportiva da Wayne State University especializada em equilíbrio de fluidos.

Mas qualquer alimento ou bebida que tenha conteúdo líquido será hidratante, ela explicou: “Seu corpo não se importa de onde vem a hidratação, ele só precisa de líquido”.

Frutas e vegetais frescos são fontes ideais porque não só tendem a conter alto teor de água, mas também têm fibras, o que proporciona outros benefícios para sua dieta. Melancia e melão são especial mente suculentos. Morangos, laranjas, uvas, pepinos e aipo também contêm muita água.

Bebidas de todos os tipos podem ser hidratantes. Suco, leite, chá e café contêm fluidos que seu corpo pode usar. Bebidas com alto teor de açúcar podem não ser a melhor escolha nutricional, mas pesquisas mostram que bebidas adoçadas com açúcar são tão boas quanto a água para fornecer fluidos ao seu sistema.

Nos dias quentes, sobremesas congeladas, como picolés e sorvetes são recipientes úteis para o consumo de líquidos.

“Você pode atingir e exceder suas necessidades diárias de líquidos através da ingestão de bebidas e alimentos com alto teor de umidade sem beber um único copo de água”, ensinou Hew-Butler por e-mail.

BEBIDAS COM CAFEÍNA TAMBÉM PODEM HIDRATAR

Bebidas com cafeína também podem ser hidratantes. Embora a cafeína seja frequentemente considerada um diurético ou substância desidratante, pesquisas mostram que consumir café ou outras bebidas com cafeína produz os mesmos efeitos de beber água.

Se você está ingerindo uma quantidade significativa de cafeína após um longo período sem ela, pode experimentar um pequeno pico de desidratação, lembrou Kelly Hyndman, pesquisadora da Universidade do Alabama em Birmingham que estuda a função renal e a retenção de líquidos. Mas, caso contrário, a cafeína não causará desidratação, acrescentou ela – pelo menos não nos níveis que as pessoas normalmente consomem.

NÃO TENHA MEDO DE ALIMENTOS SALGADOS

Você provavelmente já ouviu falar que alimentos salgados desidratam, mas isso não é totalmente verdade, avaliou Hyndman. Nossos corpos estão constantemente procurando manter um equilíbrio sal-água, o que eles fazem com a ajuda de vários hormônios. Um dos mais proeminentes é o hormônio antidiurético, ou ADH.

Quando consumimos muitos alimentos salgados de uma só vez, nossos cérebros secretam ADH, que por sua vez diz aos nossos rins para reter água, impedindo-nos de urinar em excesso. Ao mesmo tempo, o cérebro secreta outro hormônio, a vasopressina, que está ligada à sensação de sede. Juntos, todos esses hormônios sinalizam que você precisa de mais líquidos. Consumir muitos alimentos salgados só é um problema se você também estiver ignorando seus sinais de sede, observou Hew-Butler.

Se você estiver procurando por alimentos salgados que sejam hidratantes, azeitonas e picles são escolhas aceitáveis, embora seja raro que as pessoas os consumam em grandes quantidades. A sopa, especialmente com caldos à base de água, também pode ajudar a encher-se de água.

Mas o que é realmente desidratante é o álcool. “O álcool suprime o ADH”, informou Hyndman. Então, quando você o consome, “você não tem esse hormônio dizendo ao seu rim para reabsorver água” e qualquer fluido que você consumir passará direto por você.

CRIANÇAS E IDOSOS REQUEREM ATENÇÃO

“A maioria de nós que diz que está desidratada provavelmente não está”, adverte Hyndman. Se você reclama de ter uma bexiga pequena ou está apenas fazendo xixi com mais frequência do que gostaria, talvez não precise consumir tanto líquido. Aqueles que precisam ser mais diligentes na hidratação ativa são as crianças, os idosos e pessoas com condições médicas subjacentes, aconselhou Hyndman. O restante de nós simplesmente precisa tomar uma bebida ou comer alimentos cheios de líquidos quando estiver com sede, concluiu Hew-Butler, e confiar em nossos instintos. “Não precisamos pensar demais nisso.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BEBER ÁGUA PROVOCA REAÇÃO DE PRAZER NO CÉREBRO

Hidratação faz corpo liberar dopamina, neurotransmissor da satisfação

Sabe aquela sensação de bem-estar ao beber um copo de água depois de muito tempo com sede? Esse é o resultado do seu cérebro liberando dopamina, um neurotransmissor associado ao sistema de recompensa do corpo e um dos responsáveis pela sensação de prazer durante o sexo.

Um estudo recente publicado na revista Nature descobriu que o cérebro libera dopamina em resposta à hidratação. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Howard Hughes Medical Institute, ambos em São Francisco, nos Estados Unidos, fizeram experimentos com camundongos sedentos e descreveram os resultados no artigo científico.

Cientistas já sabiam que o cérebro libera dopamina quando uma pessoa come algo de que gosta, principalmente alimentos doces ou gordurosos. No novo trabalho, os pesquisadores descobriram que outra região cerebral mobiliza o neurotransmissor — desta vez quando “sente” chegar a hidratação.

Para analisar a produção de dopamina após a ingestão de água, os pesquisadores deixaram os camundongos com sede e usaram uma tecnologia para monitorar as ondas que vinham da área tegmental ventral (VTA) no cérebro, uma maneira de medir quanta dopamina está sendo produzida.

No experimento, os cientistas observaram que os níveis de produção de dopamina aumentaram assim que os camundongos começaram a beber água. Mas o que surpreendeu os cientistas foi descobrir que, 10 minutos depois da ingestão do líquido, os níveis de dopamina aumentaram novamente – coincidindo com a quantidade de tempo que levou para a água que eles bebiam chegar ao cérebro.

Os pesquisadores então repetiram o experimento, mas adicionaram sal à água. Desta vez, o segundo aumento na dopamina foi muito menor devido ao impacto desidratante do sal.

Os pesquisadores então analisaram se o segundo aumento na produção de dopamina teve impacto duradouro nos camundongos. Eles deram aos animais uma escolha de garrafas de água de cores diferentes – ambas eram água pura, mas quando os animais beberam da segunda garrafa, os cientistas injetaram uma pequena quantidade de sal em seu intestino.

Após várias sessões de treinamento, os pesquisadores perceberam que os camundongos começaram a preferir a água que não estava associada a uma injeção de sal. Eles sugerem que isso indica que a produção de dopamina no VTA ajuda os animais a aprender qual líquido beber ou qual comida comer, para garantir que recebam quantidade de água suficiente.

OUTROS OLHARES

ESTUDO APONTA ORIGEM DA HISTÓRIA DE AMOR ENTRE CÃES E SERES HUMANOS

Análise de DNA indica que os cachorros atuais estão mais próximos dos lobos da era do Gelo

Um levantamento sem precedentes da diversidade genética que existia entre os lobos do fim da era do Gelo acaba de trazer mais pistas sobre as origens da longa história de um amor entre cães e seres humanos.

Os dados indicam que a maioria dos cachorros vivos hoje tem parentesco mais próximo com os lobos antigos que viviam no leste da Eurásia, em locais como a Sibéria, embora outras populações da espécie aparentemente também tenham contribuído para os ancestrais dos bichos domésticos de hoje.

Os resultados, publicados recentemente na revista científica britânica Nature, não  chegam a resolver totalmente o enigma da domesticação dos cães, mas trazem uma grande massa de informações  novas sobre o tema.

“O conjunto de dados do artigo é bastante impressionante. Temos cerca de 70 genomas sequenciados (ou seja, ‘soletrados’ na íntegra, como o genoma humano atual) ao longo de uma série temporal de 100 mil anos. Isso permitiu que analisássemos uma quantidade enorme de detalhes a respeito de como os lobos evoluíram ao longo desse período. E, claro, um dos aspectos disso é a relação deles com os cães domesticados”, explica David Stanton, pesquisador do Centro de Paleogenética da Queen Mary University de Londres, em comunicado oficial.

Ele é um dos coautores do estudo, realizado por uma equipe internacional com dezenas de cientistas, a maioria europeus.

Os lobos com milhares ou dezenas de milhares de anos que “doaram” seu DNA para estudo têm distribuição geográfica ampla. Seus esqueletos vêm de boa parte da Europa Ocidental, da Rússia; do Oriente Médio, da Ásia Central e da América do Norte.

Defato, os lobos eram uma das espécies de grandes mamíferos mais bem distribuídas pelo planeta no Pleistoceno (a era do Gelo), ponto no qual se assemelhavam aos seres humanos que acabariam domesticando alguns deles.

Essa distribuição geográfica, sinal de grande versatilidade, pode ajudar a explicar o fato de que os bichos não desapareceram no fim desse período, ao contrário do que aconteceu com muitos outros predadores do Pleistoceno, como ursos-das cavernas e dentes de-sabre.

“É impressionante como eles conseguiam se movimentar de forma relativamente rápida e fácil por muitas regiões”, observou Stanton em comunicado oficial.

Outro possível fator chave foi revelado pela análise genômica: a conexão frequente entre as populações de lobos ao longo do tempo. Ao que tudo indica, a reprodução envolvendo diferentes grupos da espécie funcionava como um eficiente “telefone sem fio levando mutações novas no DNA de um canto a outro do hemisfério Norte, principalmente se elas aconteciam na Sibéria.

O território siberiano parece ter sido o lugar que mais “exportava” genes de lobos para as populações lupinas em outros lugares do planeta. Com essa facilidade para se misturar e incorporar novidades genéticas, os bichos podem ter aumentado sua capacidade de se adaptar a novos desafios do ambiente ao longo do tempo.

A situação parece ter mudado de figura para os lobos a partir de 10 mil anos antes do presente, época na qual a agricultura e a criação de animais estava começando em diversos lugares do mundo, com aumento da densidade populacional humana. Isso pode significar que, a partir desse momento, os membros da nossa espécie causaram mudanças ambientais que reduziram o território disponível para os bandos lupinos e impediram que eles continuassem com o contato entre si.

Os dados genômicos também indicam que os ancestrais dos cães vivos hoje ainda faziam parte de uma única “grande família” com os lobos, ao menos no que diz respeito ao DNA, há 28 mil anos.

Essa poderia ser a data para o início do processo de domesticação, o que significaria que os cães passaram a viver com os seres humanos cerca de 20 mil anos antes do que qualquer outro animal. Mesmo assim, os autores do novo estudo observam que o processa pode até  ter começado antes disso.

A comparação mais detalhada dos lobos antigos com os membros modernos da sua espécie e os cães revelou ainda que nenhuma população atual de lobos bate com a dos possíveis ancestrais dos cães domésticos.

Os cachorros estão mais próximos dos lobos que existiram no leste da Eurásia no fim da era do Gelo, de maneira geral. Mas os cães do Oriente Médio e da África derivariam até metade de seu DNA de outros lobos antigos, mais próximos dos que vivem atualmente na parte mais ocidental da Eurásia.

Isso pode indicar que os cães foram domesticados duas vezes, no Oriente e no Ocidente, ou que ocorreu apenas a domesticação oriental, à qual se somaram, mais tarde, cruzamentos rom lobos ocidentais (já que a miscigenação entre lobos e cães é relativamente comum). Ainda não é possível dizer qual dos dois cenários é o mais provável.

GESTÃO E CARREIRA

REMUNERAÇÃO DE CEOS É ALVO DE DISCUSSÃO

País ainda não possui estudo que mostre diferença salarial entre o alto escalão e a base; nos EUA, CEO ganha 351 vezes mais

Apesar dos avanços em termos de governança corporativa no Brasil, ainda não existe por aqui um levantamento estruturado que mostre a diferença entre os salários do alto escalão e o ganho médio dos trabalhadores das companhias. Nos Estados Unidos, o Economic Policy lnstitute já fez esse mapeamento, que deixou evidente o abismo salarial dentro de uma mesma empresa.

O resultado mostrou que, em 2020, os presidentes das 350 maiores empresas americanas ganharam, na média, 351 vezes mais que seu funcionário “médio”. O salário dos presidentes, conforme o levantamento, cresceu 18,9% naquele ano, enquanto o ganho do trabalhador comum avançou só 3,9%. O estudo mostra ainda que, em 1965, essa diferença de salário entre o CEO e o restante da empresa era de 21 vezes. “A pandemia trouxe uma dinâmica importante  para o tema, chamando atenção para o distanciamento de salários entre a base e o topo da pirâmide corporativa, em meio a demissões e reduções de salários”, afirma Fabio Coelho, presidente da Alnec, associação que representa  investidores nacionais e estrangeiros.

Já o gerente de Pesquisa e Conteúdo do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Luiz Martins, reforça que uma métrica que vem sendo analisada por investidores é exatamente se o crescimento do salário médio dos empregados de uma empresa segue o mesmo ritmo do que o do CEO, mesmo que os valores em si não sejam comparáveis. Ele  frisa, contudo, que a análise de um salário de um executivo de uma grande empresa precisa computar uma série de variáveis.

DOIS CASOS

O levantamento também mostra o conjunto dos salários das diretorias. No Bradesco, por exemplo, o alto escalão do banco somou uma remuneração de R$ 818 milhões. Esse montante está ligado ao número de membros da diretoria da instituição: um total de 88 executivos. O maior valor de 2021 foi recebido pelo presidente do banco, Octavio de Lazari: R$ 23,7 milhões.

Outra empresa cuja remuneração da diretoria salta aos olhos, mas que está de fora da lista dos dez maiores, é a da agência de turismo CVC, que ainda tenta se recuperar da crise com a pandemia. A remuneração total da diretoria soma R$28 milhões, sendo que 64% desse valor foram pagos apenas para seu presidente, Leonel Andrade. Procurada, a CVC não comentou.

“Falta transparência sobre os critérios da distribuição da verba global aprovada pelos acionistas em assembleia. Quando analisamos a distribuição pelos dados dos formulários de referência, são constatadas algumas discrepâncias, quase sempre beneficiando administradores ligados aos acionistas controladores”, afirma Renato Chaves, que organizou o estudo. Essa diferença, diz ele, se refere ao salário do presidente de algumas empresas em relação ao restante da equipe de diretores.

EU ACHO …

SOBRE COISAS QUE ACONTECEM

Quando abri os olhos pela manhã, não podia imaginar que seria o dia que mudaria a minha vida.

Que seria o dia que conheceria o homem que me faria cometer um crime. O dia que eu me enxergaria no espelho pela última vez. O dia que descobriria que estava grávida. O dia que encontraria um envelope lacrado, com uma carta remetida a mim 20 anos antes.

(Que dia foi esse? Quem está falando?)

É apenas um exercício de criação. Iniciei a crônica com uma frase fictícia e demonstrei os desdobramentos que ela poderia ter. Uma vez escolhido o caminho a seguir, uma história começa a ser contada, que pode ser longa ou curta, verdadeira ou fantasiosa. Bem-vindo ao mundo encantado da escrita.

Convém que a primeira frase seja cintilante. A partir dela, o leitor será fisgado ou não. Exemplo clássico: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, início do romance Anna Karenina, de Tolstói. Arrebatador. Uma vez aberta a janela do pensamento, a mágica acontece: o leitor é puxado para um local em que nunca esteve, é deslocado para um universo que poderá até ser hostil, mas certamente fascinante, pois novo. Talvez não se identifique com nada, mas será desafiado a enfrentar sua repulsa ou entusiasmo. Não estará mais em estado neutro. A neutralidade é um desperdício de vida, uma sonolência continua.

A crônica tem o mesmo dever: o de jogar uma isca para o leitor e atraí-lo para o texto. Gênero híbrido (literário/ jornalístico), encontrou no Brasil a sua pátria. Somos a terra de Rubem Braga e Antonio Maria, para citar apenas dois gênios entre tantos que fizeram da leitura de jornal um hábito não só informativo, mas prazeroso e provocador. Se eu fosse citar todos os colegas que admiro, teria que me estender por meia dúzia de páginas, mas só tenho essa.

A crônica é um gênero livre por excelência. Pode ser nostálgica, confessional, lunática, poética. Pode dar clicas, polemizar, elogiar, criticar. Pode ser partidária ou sentimental divertida ou perturbadora, à toa ou filosofal – é caleidoscópica, tal qual nosso cotidiano. Ao abrirmos os olhos pela manhã, nem imaginamos que uma miudeza qualquer poderá nos salvar da mesmice, nos oferecer um outro olhar, mas assim é. Todos nós vivemos, por escrito ou não, uma crônica diária. Hoje, antes de adormecer, você já estará um pouco transformado.

*** MARTHA MEDEIROS                            

ESTAR BEM

BURNOUT MATERNO

O burnout materno, segundo especialistas, é um reflexo social, no qual as mães se sentem solitárias e sobrecarregadas dentro e fora de casa. Exigir menos de si mesma pode ajudar – mas receber apoio é essencial

Quando o seu filho Antônio nasceu, em 2012, Bel Junqueira, na época com 27 anos, sentia-se potente. “Eu era uma mãe leoa, achava que daria conta de tudo sozinha.” Mas, com o passar do tempo, se percebeu sobrecarregada e solitária nas tarefas e alvo de julgamentos da família. Na sua rotina, não havia espaço para o lazer e eram grandes as dificuldades para conciliar o trabalho de mãe com o de fotógrafa autônoma. “Eu não sabia que seria tão difícil e percebi que havia algo errado comigo. Eu estava infeliz e exausta.”

Em 2017, procurou uma psiquiatra, que avaliou que ela estava com burnout materno, síndrome caracterizada pelo esgotamento físico e/ou mental da mãe. “Ela recomendou que eu pedisse ajuda para cuidar do meu filho, encarasse a maternidade de forma mais leve e prescreveu um medicamento antidepressivo”, conta. Seis anos depois, Bel não se sente mais exausta. “Consigo me acolher. Digo para mim mesma: hoje eu dei o meu melhor.”

Apesar de ser reconhecido por psicólogos e psiquiatras – embora não por todos –, o burnout materno não é considerado uma doença mental, mas um agrupamento de sintomas. O termo, que ganhou popularidade nos últimos anos, foi criado por uma associação ao burnout, síndrome provocada pelo estresse crônico no trabalho, uma doença ocupacional.

“A sobrecarga de tarefas de cuidado exercidas pela mãe, que são invisibilizadas e sem pausa, podem custar a sua saúde, que entra em colapso. Geralmente acontece com mulheres que se exigem ou são pressionadas a dar conta de tudo e não têm com quem dividir essas tarefas”, diz a psicóloga perinatal Juliana Tfauni. Segundo ela, a irritabilidade e a perda de prazer no cuidado dos filhos são sintomas do burnout materno. A esse quadro se podem somar transtornos como a depressão e a ansiedade generalizada. Uma pesquisa feita pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP- USP), em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, apontou que 63% das mães entrevistadas demonstravam sintomas depressivos durante a pandemia por causa da sobrecarga de tarefas.

EXAUSTÃO

Sem ajuda nos cuidados do filho, Fernanda Urbano, de 29 anos, chegou a ponto de não conseguir levantar da cama por exaustão, no ano passado. “Dava 200% do meu tempo para o meu filho e me esquecia de mim. Parecia que o esforço nunca era suficiente”, conta. Em vez de receber ajuda, foi alvo de críticas de familiares.

Do pai da criança, o apoio era quase nulo, o que levou à separação do casal. “Ele só ajudava se eu pedisse muito.” Por recomendação da pediatra do filho, Fernanda buscou uma psiquiatra, que identificou o burnout materno. A síndrome desencadeou uma depressão, que levou a uma fibromialgia. “Ela me deu um medicamento, indicou um psicólogo e pediu que eu encontrasse formas de descansar.”

Desde então, Fernanda priorizou a sua saúde: faz caminhadas todos os dias com o filho de 2 anos e vai à academia duas vezes por semana. Não se sente mais sobrecarregada. “Hoje sei que preciso de um tempo para mim e isso não é egoísmo.” Faz psicoterapia, não se culpa quando as coisas saem do controle, dispensou os perfis de “mães perfeitas” no Instagram.

A mulher que está sofrendo de burnout materno ouve com frequência, da própria mãe, de mulheres mais velhas, que elas davam conta de tudo, segundo a psiquiatra Patrícia Pipper. “As pessoas de outras gerações precisam entender que o cenário mudou. Antes havia uma rede familiar de apoio mais estruturada e as mulheres não entravam no mercado de trabalho como hoje. Além disso, a maternidade não é vista como o único lugar de realização da mulher”, pondera.

Para se ter uma ideia da carga horária das mães, um estudo com mulheres americanas calculou que elas trabalham em média 98 horas por semana – mais que o dobro de um emprego formal. A psiquiatra Patrícia observa que se atribui à mulher o papel de quem desempenha o cuidado em nome do amor. “Espera-se que ela cuide de toda gestão que envolve o filho, o que é extenuante. Obviamente, as mães falham nessa tarefa, quando lhes recai a culpa, pois associam a falha à falta de amor ou a ser uma mãe ‘ruim’.”

Segundo a psiquiatra, o burnout materno é um reflexo social. “As mães estão adoecendo por conta da solidão, do desamparo e da fragilização dos vínculos humanos, além da rigidez dos papéis de gênero”, diz Patrícia. Por isso, o tratamento não inclui necessariamente medicamentos, mas mudanças na dinâmica da família como um todo e de laços de apoio, como creche e outros ambientes.

CULTURA

Para fomentar discussões na sociedade sobre a saúde mental materna, Patrícia criou o movimento Maio Furta-cor. “O problema não se resolve dentro dos consultórios, mas mudando a cultura acerca da maternidade e dos papéis de gênero”, adverte. Neste sentido, políticas públicas são essenciais. “Precisamos de creches de qualidade, segurança alimentar, seguridade social e licenças paternidade e maternidade condizentes com a parentalidade.” Para avaliar se uma paciente tem Burnout materno, a psiquiatra leva em conta o histórico de saúde mental e os arranjos familiares, assim como o contexto social e o suporte que essa mãe tem ou lhe falta. Ela pede exames de laboratório apenas quando há queixas de sintomas físicos, para descartar anemia, doenças de tireoide e falta de vitaminas. “Na saúde física é possível notar queda dos cabelos, emagrecimento ou ganho de peso, alterações no sono. Emocionalmente, essas mulheres sentem irritabilidade, por vezes agressividade, permeadas por tristeza, e isso vai minando a maternidade e a relação com o bebê.”

O burnout materno vitimiza também as crianças dessas mães que sofrem da síndrome, observa a psicóloga Josie Zecchinelli, do Instituto Maternidade Consciente, que capacita profissionais de saúde para dar assistência a mães e famílias. “Numa situação de exaustão, o corpo entra no modo sobrevivência. Isso acarreta um prejuízo no desenvolvimento da criança e na relação entre mãe e filho, pois há um distanciamento emocional não consciente.” Segundo a psicóloga, estudos mostram que o burnout materno aumenta os níveis de negligência e violência contra a criança. “Na realidade de cada mãe, é preciso pensar em caminhos múltiplos para lhe trazer alívio. A sobrecarga não é um problema individual, mas social, cultural e familiar.”

A dificuldade de conciliar a maternidade com a vida profissional levou a escritora Nana Queiroz, de 36 anos, ao burnout materno em 2019. “Sentia que estava em dívida com o meu filho, sempre falhando, então não me permitia dormir ou descansar. Quando ele dormia, minha mente entrava em turbilhão. Dava uma sensação de falta de ar”, descreve. Ela voltou a trabalhar quando o filho tinha cinco meses e se alimentava exclusivamente da amamentação. “Ele era apegado a mim, mas eu queria aumentar minha produtividade no trabalho para mostrar que não devia nada como profissional.”

Até que Nana teve uma pane: no trabalho, não conseguia mais nem ler seus e-mails e não parava de chorar. Foi ao psiquiatra, que identificou o burnout e prescreveu 20 dias de licença, além de um medicamento. “Tive uma sensação de fracasso.”

Mas como acolhimento da família, dos amigos e da empresa, Nana pôde conciliar os dois papéis. Um colega ofereceu uma mentoria, para ajudá-la a fazer uma lista de tarefas e descartar as menos importantes. “Eles sugeriram que eu fizesse pausas para dormir depois do almoço. Percebi que trabalhar uma hora descansada era melhor do que duas horas morrendo de sono.” As mudanças fizeram diferença: depois de alguns meses, Nana foi promovida e criou coragem para ter o segundo filho. “Essa cura coletiva foi boa para todos os envolvidos.”

Mas, de forma geral, o mercado de trabalho é cruel com as mães brasileiras: após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2016. A maior parte das saídas do mercado de trabalho das mães se dá sem justa causae por iniciativa do empregador.

PAPEL DO PAI

Uma maior participação do marido no cuidado dos filhos e da casa também contribuiu para a qualidade de vida de Nana. “A divisão de tarefas era um problema. Eu achava delicado chamar a pessoa que amo para essa conversa difícil. Então fizemos algumas sessões de psicoterapia de casal. Não precisei mais ser a gerentona da casa, que tinha de pedir para ele as coisas.” Em seu livro Os Meninos São a Cura do Machismo, Nana sugere às mães que mostrem para a família que a felicidade delas importa. “De maneira amorosa, explico para eles que não são o centro de tudo. Uma mãe feliz é uma lição de feminismo para as crianças.”

Quando o pai da criança não é tão participativo, um bom caminho é dizer a ele abertamente o que sente, em vez de delegar as tarefas, segundo Cássia Cardoso Pires, psicóloga clínica que atende individualmente ou em casal. “Dessa forma, a conversa tem mais chance de dar certo, pois a outra pessoa se compromete a fazer algo, sem imposição”, explica. Uma das autoras do livro Pais!!! Onde Foi Que Acertei? Uma Conversa Entre Psicólogas e Pais, Cássia sugere que a família faça as tarefas da casa de forma lúdica, pois com a exaustão tudo vira obrigação e deixa de ser prazeroso.

Ter uma expectativa realista do comportamento de um bebê ajuda os casais a evitar a hiper vigilância e a frustração, que podem levar ao burnout parental, explica o pediatra especializado em neonatologia Carlos Eduardo Correia, o Cacá. “Os pais ficam excessivamente vigilantes e perdem a confiança em sua capacidade de cuidado com o bebê quando não percebem que o choro dele é uma comunicação, não um problema físico ou consequência de algum erro dos pais. O choro não deve ser considerado um indicador de qualidade do cuidado.”

Uma licença paternal mais longa também contribuiria para formar mais pais potentes e desconstruídos. “Falta um ambiente social que permita que eles se relacionem entre si a respeito desse assunto, algo que ainda traz dificuldade aqui no Brasil. É uma política pública que promove uma transformação social, observada nos países que adotaram a licença paternal estendida”, diz o pediatra.

REDE DE APOIO

As tarefas relacionadas ao cuidado, exercidas principalmente por mães, são um trabalho não remunerado, uma realidade que conflita com a fantasia criada na gravidez, observa a psicóloga Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto Mater Online. “O burnout materno pode surgir quando a maternidade real não condiz com a idealizada”, diz.

Ter uma rede de apoio é um fator de proteção para os pais, mas atualmente há um afastamento da “aldeia” que ajudava no cuidado das crianças, explica a psicóloga. “Antes a tia, a avó, a vizinha ajudavam. Hoje as famílias estão isoladas nos apartamentos e os familiares estão distantes. O resultado é que a mulher assume essas tarefas e não tem tempo para dormir, pentear o cabelo, viver.”

Por conta da romantização da maternidade, as mães têm vergonha de admitir que estão exaustas. Por isso, os grupos de apoio voltados a elas são importantes, na visão de Christelle Maillet, de 41 anos, criadora do Mães com Humores, canal voltado à saúde mental materna. Ela é mediadora dos grupos de apoio gratuitos, voltados a mães e futuras mães com depressão ou transtorno bipolar – fatores de risco para desenvolver burnout materno.

“Acolhemos as mães que relatam suas dificuldades e que podem estar à beira do burnout materno por meio da escuta empática, de palavras acolhedoras e da troca de experiência e de dicas que mostram que ela não está sozinha”, conclui.

NÃO ENTRE EM PANE

PARCERIA

Após o nascimento do filho, pais e mães precisam mudar a dinâmica da relação, reforçar a comunicação e selar “combinados”. Os pais devem estar inseridos na dinâmica de cuidados dos filhos e da casa.

BAIXE AS EXPECTATIVAS

Não existe uma receita de maternidade ideal. As mídias sociais de mães e pais “perfeitos” podem colaborar para uma autocobrança insalubre.

DELEGUE

Peça e aceite ajuda. Assumir dificuldades não é sinal de fracasso ou de que não é boa mãe.

AJUDE

Familiares e amigos podem se colocar à disposição. Quando um bebê nasce, as atenções se voltam para ele e a mãe pode ser esquecida. Perceba as necessidades dessa mãe.

BUSQUE SUA TRIBO

A solidão é uma queixa comum, e grupos de apoio são uma opção. O PSI Brasil Apoio ao Pós-Parto é voltado a gestantes e pais com filhos de até um ano. O Mães com Humores mantém grupos com foco em mães com depressão e transtorno bipolar

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO E SEROTONINA NÃO TÊM RELAÇÃO DIRETA

Pesquisa levanta debate sobre medicamentos usados para tratar a doença

Um novo artigo aponta que não há evidências suficientes para confirmar a associação direta entre baixos níveis de serotonina e o desenvolvimento da depressão. A conclusão do estudo repercute em questões sobre o tratamento do transtorno psiquiátrico, já que antidepressivos atuam com base nessa compreensão.

A serotonina, popularmente chamada de “hormônio da felicidade”, é um neurotransmissor que atua em diversas áreas do corpo humano, como humor e sexualidade. Para pessoas com quadro depressivo, foi descoberto que medicamentos – chamados de inibidores de recaptação da serotonina – que atuam no aumento dessa substância tiveram efeitos positivos no tratamento da doença.

Esses resultados benéficos resultaram em uma percepção de que baixos níveis de serotonina seriam uma importante causa da depressão. O que a nova pesquisa sugere é que não há evidências suficientes para definir isso.

O artigo foi publicado na revista Molecular Psychiatry. Ele é uma revisão sistemática –  análise de outros estudos prévios – e é composta por 17 dessas pesquisas que já haviam sido realizadas.

Os autores observaram, com base no resultado das outras investigações, que nem todos os pacientes com depressão apresentavam baixo nível de serotonina. Ou seja, o quadro depressivo estaria associado a outros fatores.

Também foi visto que a utilização de métodos para reduzir a serotonina em indivíduos sem a condição não resultou em um quadro depressivo. As conclusões reiteram que os baixos níveis de serotonina não são necessariamente uma causa da depressão. Rogério Panizzutti, médico psiquiatra e professor do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da UFRJ, afirma que é importante identificar outras razões que podem ter relação com o desenvolvimento da doença. “É uma explicação meio simplista de que o problema da depressão é a queda da serotonina”, diz Panizzutti.

Panizzutti, que não é um dos autores da pesquisa, afirma que existem antidepressivos que atuam em outros neurotransmissores, como na dopamina, indicando que existem outras substâncias envolvidas na doença. “Todos [esses remédios] têm um desfecho similar que é o tratamento da depressão.”

Além disso, Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, aponta que é necessário entender o desenvolvimento da depressão por outras frentes que não somente na busca de um biomarcador que explicaria o quadro depressivo. “Se impôs a ideia de que a depressão não tinha nenhuma relação mais profunda com a forma de vida”, afirma Dunker, que é autor do livro “Uma biografia da depressão” e não assinou a nova pesquisa. Essa visão, no entanto, passou a ser questionada. O psicanalista explica que algumas pesquisas da neurociência apontaram que existe uma interação entre cérebro e a ambiente que a pessoa vive. Dessa forma, a depressão não seria um fenômeno estritamente biológico, mas envolveria outras questões do indivíduo e do meio que o cerca.  Ele considera que a pesquisa é importante por abrir um leque de possibilidades no estudo da depressão e também de outras psicopatologias. 

Além de concluir que faltam  a evidências para confirmar a relação causal entre serotonina e depressão, a pesquisa reitera que é necessário entender melhor os mecanismos dos inibidores de recaptação dessa substância.

Um dos pontos é que, como o desenvolvimento da depressão não necessariamente são os baixos níveis do neurotransmissor, os inibidores não estariam agindo diretamente na causa da doença.

Os autores também pontuam que um estudo analisado na revisão sistemática observou uma diminuição de serotonina com a utilização a longo prazo dos antidepressivos. Por isso, seria necessário o desenvolvimento de novas pesquisas para entender de forma mais nítida os efeitos desses medicamentos no tratamento da doença e como eles agem no organismo humano.

Os pontos ainda são objeto de debates. Para Dunker, as dúvidas sobre os mecanismos dos antidepressivos podem gerar dúvidas do resultado dos medicamentos. “Como não sabemos como eles funcionam, pode ser que estejam funcionando sobre causas ou efeitos secundários”, diz.

Panizzutti reitera que remédios atuantes em outros neurotransmissores também ocasionam efeitos positivos no tratamento da doença. Para ele, isso seria um indicativo de que “provavelmente não é que todos estes sistemas de neurotransmissores estão com defeito na depressão, mas sim que, alterando a ação deles, se consegue um efeito antidepressivo”.

Ou seja, mesmo não atuando diretamente na causa da doença, esses medicamentos ocasionam uma melhora do quadro clínico do paciente, diz Panizzutti. “Isso é o que importa para a pessoa que está sofrendo.”

Marcelo Feijó, que não assina o estudo e é professor do departamento de psiquiatria da EMA (Escola Paulista de Medicina) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que as ações do remédio realmente ainda são passíveis de pesquisa. “Não temos todo o conhecimento do que [o inibidor] produz dentro do cérebro.”

Uma explicação inicial da ação desse tipo de medicamento era de que ele resultaria no aumento da serotonina no organismo por inibir a recaptação da substância. Feijó, no entanto, explica que novas pesquisas apontam outros mecanismos para entender os benefícios dos inibidores.

“Algumas pesquisas falam que [o aumento da serotonina] é apenas o começo da mudança”, resume.

No entanto, essa falta de conhecimento sobre o mecanismo não seria um indicativo de que eles não funcionariam, afirma o professor. “O risco de um estudo como esse é falar que as medicações que mexem no sistema da serotonina não seriam eficazes.”

Feijó explica que pesquisas já indicaram a eficácia do antidepressivo, embora possa variar para cada paciente em razão da depressão ser uma doença multifatorial.

OUTROS OLHARES

VACINA CONTRA COVID PODE ALTERAR A MENSTRUAÇÃO

Pesquisa conduzida com 40 mil pessoas mostra que 42% das entrevistadas relataram sangramento mais abundante após a injeção, mas cientistas garantem que mudanças são temporárias e inofensivas

Mais de 5 bilhões de pessoas no mundo receberam uma vacina contra a Covid-19. Picada a picada, o sucesso previsto em ensaios clínicos rapidamente foi visto nas ruas: de acordo com um estudo publicado na revista Lancet, graças a elas, cerca de 20 milhões de vidas foram salvas. O preço a pagar, na grande maioria dos casos, foram efeitos colaterais leves, como dores de cabeça ou mal-estar, embora seus efeitos além dos previstos em estudos anteriores ainda estejam sendo investigados. Entre as mulheres, por exemplo, persiste a polêmica sobre o impacto (ou não) no ciclo menstrual, com dados e experiências às vezes contraditórias.

Uma pesquisa com quase 40 mil pessoas publicada na revista Science Advances lança um pouco mais de luz sobre o impacto na menstruação: 42% das entrevistadas com ciclos menstruais regulares relataram sangramento mais intenso após a imunização. Isso não significa que seja a causa, mas desenha “uma tendência”, dizem os pesquisadores, que servirá para informar melhor as mulheres, embora esse fenômeno seja temporário e não preocupante, apontam. As vacinas são seguras e recomendadas.

Foi sua própria experiência pessoal que abriu as portas para Katharine Lee, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Tulanem, estudar o eventual impacto da vacinação na menstruação. Ela e Kathryn Clancy, antropóloga da Universidade de Illinois, ambas coautoras do estudo, notaram a menstruação “instável” após receberem a vacina, mas quando foram procurar o porquê, encontraram poucas informações.

Assim, lançaram uma pesquisa nas mídias sociais, blogs científicos e artigos de jornais para recrutar participantes. No total, 39.129 pessoas participaram da pesquisa. E as respostas mostraram que 42% das mulheres com menstruação regular relataram aumento do sangramento após a vacinação, enquanto outros 44% não encontraram alteração no padrão de sangramento.

Pesquisas sugerem, no entanto, que há grupos mais propensos a apresentar sangramento mais intenso após a vacinação, como brancas, latinas, mais velhas, que estiveram grávidas no passado ou têm distúrbios menstruais subjacentes, como endometriose ou síndrome dos ovários policísticos.

A pesquisa também revela que, entre as que não menstruam, 71% das que tomam anticoncepcionais que suprimem a ovulação, dois terços das mulheres na menopausa e mais de um terço das que tomam hormônios de afirmação de gênero também tiveram sangramento.

SEM RISCOS

Porém, os pesquisadores garantem: as mudanças no fluxo menstrual não são incomuns ou perigosas.

Na verdade, essas alterações já foram relatadas em estudos antigos associados à vacina contra febre tifoide, hepatite B ou papilomavírus humano. Além disso, os desequilíbrios descritos em sua pesquisa geralmente são temporários e duram alguns ciclos.

“O que estamos falando aqui é de uma mudança temporária na menstruação, não um distúrbio menstrual. Um distúrbio menstrual geralmente é uma patologia, como endometriose ou miomas, e a vacina não causa isso”, diz Lee.

É mais provável ter efeitos prolongados no seu ciclo caso você contraia Covid, e parece que muitas pessoas com Covid longa também têm alterações menstruais prolongadas.

Cristina González Cea, ginecologista do Hospital de Santiago de Compostela, vê “uma relação causal muito clara entre vacinas e infecção por Covid com esses distúrbios menstruais”:

“Em janeiro, após a aplicação das terceiras doses, vimos uma enxurrada de pacientes em consultas com esses fenômenos de sangramento abundante ou ausência de menstruação.

Santiago Palacios, porta-voz da Sociedade Espanhola de Ginecologia e Obstetrícia explica que a mulher nota a diferença:

“Do ponto de vista médico não é alarmante e não damos relevância, mas gera preocupação na paciente e sua qualidade de vida é afetada.”

Os pesquisadores enfatizam que, por enquanto, não foram observados efeitos sobre a fertilidade e descartam as vozes maliciosas que associam os desequilíbrios menstruais ao risco de infertilidade. Os desequilíbrios são mais como o efeito “da pílula do dia seguinte, que também gera desregulação e tem impacto, mas temporário”.

MOTIVOS

Existem várias hipóteses para a causa dessa alteração. González Cea começou a investigar precisamente por que isso está acontecendo e aponta para uma ação viral que altera a função hormonal.

“Coletamos amostras de 150 pacientes com episódios de sangramento pós-vacina ou pós-Covid e, nas ultrassonografias, encontramos ovulação sustentada fora do ciclo e aumento do estrogênio. Nossa teoria vai para a hiper ovulação. Acreditamos que pode ser o vírus que causa a estimulação dos receptores hormonais”, explica a médica.

Silvia Agramunt, ginecologista do Hospital del Mar de Barcelona, também levanta a hipótese de inflamação e coagulação.

“Supostamente, a vacina ativa o sistema imunológico e pode induzir alterações na coagulação e que o útero repara mal a parede quando expele o endométrio”, sugere. Na mesma linha, Katharine Lee aponta:

“O ciclo menstrual deve responder aos fatores de estresse. Sabemos que as regras variam com base em coisas como estresse imunológico, como ter gripe. A vacina é um estressor imunológico porque ativa o sistema imunológico para protegê-lo, e o útero é um órgão imunológico.

GESTÃO E CARREIRA

JOGOS SÃO A NOVA TENDÊNCIA DOS PROCESSOS DE SELEÇÃO DE TRAINEES

Testes tradicionais usados no passado dão lugar a etapas com games e dinâmicas em grupo online com os candidatos

Você já teve a sensação de que estava fazendo uma prova de vestibular durante um processo seletivo? A era dos testes entediantes e intermináveis parece estar chegando ao fim, ao menos para os candidatos de programas de trainee. Experiências imersivas e interativas são a nova aposta de grandes empresas como Americanas e Unilever.

De acordo com a pesquisa Millennials – Unravelling the Habits of Generation Y in Brazil, a geração Z já representa 24% do mercado de trabalho brasileiro. Para atrair e reter jovens talentos da nova geração, as empresas apostam cada vez mais em jornadas gamificadas para otimizar o recrutamento, engajar os candidatos e tornar a seleção mais descontraída.

O jogo de tabuleiro criado pela Pushstart para a seleção de trainees da Americanas deste ano é um dos exemplos das novas ferramentas usadas durante os processos seletivos. Por meio do jogo, o candidato conhece toda a mecânica da empresa e, conforme resolve os desafios, avança as próximas casas, podendo também pedir ajuda para um gestor.

“Todas as etapas do nosso processo seletivo para trainee são gamificadas”, conta a gerente de gente da Americanas, Flávia Picanço. O objetivo é fazer com que o candidato fique imerso e tenha a real experiência de como é trabalhar na organização. “Queremos passar um pouquinho do nosso DNA, de como funcionamos e quais são os desafios que temos aqui”, diz. Segundo ela, o lado lúdico permite ao processo uma colaboração e uma interação muito profunda entre os candidatos. Além de ajudar a tirar o nervosismo e a ansiedade, comuns durante a jornada. Presente nos processos seletivos para estágio e trainee de grandes empresas como a Ambev, Itaú, Pepsico e Americanas S.A., a PushStart foi fundada em 2014, e começou como um estúdio de games e animações, no entanto, há quatro anos trabalha também com soluções em recrutamento e seleção. “Nascemos em um momento em que os processos seletivos estavam cada vez mais desconectados com a realidade da empresa e do candidato”, conta Felipe Marlon, sócio fundador da startup.

INTERAÇÃO

A empresa desenvolve jogos ao lado dos times das empresas e de consultorias. A companhia atua em duas frentes de trabalho. Na primeira, os candidatos conhecem a empresa a partir de uma experiência imersiva, seja por meio do KolabVerse – plataforma de interação onde os candidatos podem customizar e controlar seus avatares para explorar o universo da empresa –, seja pelo formato Stories, inspirado nas redes sociais.

Nesse ambiente, os candidatos assistem a vídeos de apresentação da empresa e participam de trilhas gamificadas, com o objetivo de analisar o fit cultural (alinhamento entre os valores da empresa e do candidato) e o lado lógico dos participantes.

A segunda frente é a Kolab Dynamics, uma plataforma destinada à realização de dinâmicas em grupo online. Com conteúdos personalizados, é possível simular um desafio específico da própria empresa e colocar os candidatos para debater e apresentar soluções. “Por meio da tecnologia, conseguimos levar desafios diferentes para cada candidato. Não é mais sobre certo ou errado”, destaca Marlon.

Com a mesma base tecnológica, a startup usa jogos de escape room (que partem do raciocínio lógico) e formato tabuleiro. “Não é sobre ganhar o máximo de pontos e vencer o concorrente. A gente se conecta à mecânica, interatividade e storytelling dos games. Transformar cada uma das empresas com quem trabalhamos em algo único e divertido”, diz Marlon.

O fundador da PushStart salienta que toda a análise dos indicadores de desempenho é feita pela empresa recrutadora. As plataformas da startup funcionam como uma ferramenta e criam o ambiente imersivo para que as atividades sejam feitas de forma dinâmica, além de tornar a busca pelo perfil desejado mais assertiva.

Nesse contexto, a startup pode trabalhar ao lado de consultorias de recrutamento como a Cia de Talentos. No caso do processo seletivo para trainee da Unilever, por exemplo, foi criado um Stories Game. Através de vídeos em formato inspirado nas redes sociais com colaboradores e gestores, os candidatos conheciam mais sobre a empresa e passavam por desafios de tomadas de decisão, baseados no dia a dia da multinacional.

ADERÊNCIA

Foi-se o tempo em que as habilidades técnicas eram as únicas responsáveis pela seleção de jovens talentos. Com as novas práticas de trabalho, a aderência entre empresa e candidato é um dos pré-requisitos mais importantes durante um processo seletivo.

No caso da Cia de Talentos, os mapeamentos iniciais avaliam valores, cultura e estilo de trabalho. Nesse contexto, as empresas podem trabalhar com poucos requisitos e abrir espaço para selecionar jovens de diferentes perfis e realidades. Segundo Paula Esteves, sócia da consultoria, ao abrir mão de determinados requisitos e escolher novos critérios de avaliação, é possível garantir mais humanização e acessibilidade. Isso também se reflete no aumento da procura pelos programas. O número de candidatos que participaram de processos seletivos pela empresa em 2021 cresceu 93% em relação a 2018. “Essa é a nova era dos trainees. As pessoas conseguem olhar para o programa e pensar que também pode ser para elas”, afirma.

As jornadas de desenvolvimento gamificadas também funcionam como ferramenta para melhorar a experiência do usuário durante o processo. A tecnologia torna as atividades mais dinâmicas e os candidatos podem aprender sobre a empresa e desenvolver competências de forma interativa.

“Não quero que o candidato se sinta em uma etapa de avaliação, mas em uma atividade em que ele toma decisões e resolve problemas, sem certo ou errado”, destaca Paula.

EU ACHO …

OUTRO POR DENTRO

“Aquele ali tem outro por dentro.” Ela disse isso com tanta amargura na voz que o ambiente tornou-se gélido. Não era um comentário, era uma sentença. O cara tinha outro por dentro. Quem estaria escondido em seu corpo? Um alien? O demo? Sem dúvida, algum cafajeste.

Certas expressões nascem carregadas de preconceito, e só levamos em conta seu lado pejorativo. Se alguém diz que você tem outro por dentro, está dizendo que você é mascarado, desonesto, que representa um papel que não é totalmente verdadeiro. Porém, pra variar, acho que a questão merece ser encarada com mais flexibilidade. Você, eu e a população mundial – bilhões no planeta – também temos outros por dentro, e não somos mascarados nem desonestos: somos humanos.

Onde foi parar a nossa autenticidade? Segue exatamente onde está. Somos autênticos batalhadores, autênticos cidadãos do bem, porém essa é a versão oficial, é a propaganda que divulgamos para o mercado externo, o nosso melhor. Somos verdadeiramente pessoas maravilhosas -ou, ao menos, pessoas muito bem intencionadas. Pagamos os impostos em dia, somos cordiais, damos passagem no trânsito, não compactuamos com a brutalidade dos dias e telefonamos para nossas avós para lhes aliviar a solidão. Mas há outros em nós. Há vários. Há todos aqueles que foram abafados, que não servem aos nossos objetivos, todos aqueles com quem, muitas vezes, nem simpatizamos, mas que existem. Seguem sendo nós, ainda que não batizados e sem firma reconhecida em cartório.

Na cama de um hospital, há em nós alguém saudável. Ao vencermos um campeonato, há em nós um fracassado. Apaixonados, há em nós um cético. Ao saltar de paraquedas, há em nós alguém que teme. No êxtase, há em nós um melancólico. Ao nos responsabilizarmos sobre nosso destino, outro lá dentro de nós assume a direção. Não estamos sós.

Há numa Maria uma Sheila, há num Celso um João, há numa Beatriz uma Sônia, e numa Verônica uma Verinha. Há em todas nós uma Leila Diniz, como já cantou Rita Lee. E sou capaz de apostar que há uma Rita Lee em várias beatas.

Por que isso seria falsificação? Há em mim um Woody Allen, uma Marília Gabriela, uma Lya Luft, um Nelson Motta, uma Madre Tereza e uma Rita Cadilac, e sou eu mesma, íntegra e inteira. Quantos rapazes cordiais não se transformam em homens das cavernas quando calçam uma chuteira e entram em campo? Quantas mulheres singelas não viram competitivas e agressivas numa mesa de canastra? Hitler tinha um músico sensível dentro dele. Pinochet traz um pai de família guardado no peito. Nenhum prejuízo Para a nossa avaliação: seguimos sabendo quem eles são. E quem somos.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

HÁ PESSOAS MAIS SENSÍVEIS A EFEITOS COLATERAIS?

Diferença na maneira como o organismo de cada um metaboliza os remédios pode torná-los mais tóxicos ao corpo

Sempre que tomamos um remédio, nosso objetivo é tratar – e, às vezes, curar – algum problema de saúde que está nos afligindo e prejudicando nossa qualidade de vida. No entanto, algumas pessoas podem sentir alguns sintomas (como dores de cabeça, náuseas, sonolência e tontura, por exemplo) que estão associados à ingestão do medicamento. Eles são conhecidos como efeitos colaterais e estão descritos na bula. Mas, há pessoas que sempre sofrem com esta situação. Seriam algumas delas mais sensíveis aos medicamentos em geral?

Sim : algumas pessoas são mais sensíveis aos medicamentos.

Em 1978, um farmacologista que fazia parte de uma equipe de pesquisa em Londres tomou uma dose de teste do medicamento para pressão arterial chamado de brisoquina e imediatamente caiu no chão. Posteriormente, descobriu-se que a metabolização do remédio nele era fraca, o que o levou a sofrer uma queda vertiginosa na pressão arterial.

Algumas pessoas têm alergia a medicamentos especificas enquanto outras podem apresentar reações incomuns. Mas as diferenças na maneira como os corpos metabolizam  os remédios podem torná-los propensos a efeitos colaterais. Algumas pessoas fazem o metabolismo muito lentamente ou muito rapidamente, o que pode causar altos níveis de medicamentos ou metabólitos (produto do metabolismo) acumulados no sangue.

Os médicos começaram a reconhecer as diferenças individuais no metabolismo dos remédios na década de 1950. Já na década de 1970, pesquisadores de Londres descobriram que o metabolismo lento das drogas pode ser uma característica genética herdada.

Em 1980, eles mostraram que aproximadamente 9% da população britânica eram metabolizadores lentos. Desde então, extensas variações no metabolismo de remédios foram documentadas em muitas populações e etnias.

Essas variações nem sempre são perceptíveis. Este é frequentemente o caso de medicamentos que têm uma alta margem de segurança – ou uma grande diferença entre a dose efetiva usual e a dose que causa efeitos colaterais graves.

Variações no metabolismo, no entanto, podem ser particularmente importantes com medicamentos que têm uma margem de segurança estreita. Os exemplos incluem sangramento excessivo com a ingestão de varfarina, um anticoagulante; aumento da sensibilidade ao medicamento betabloqueador propranolol, que reduz a pressão arterial; e o medicamento antiplaquetário clopidogrel, que é comumente administrado para prevenir coágulos sanguíneos antes e após a angioplastia. Com o analgésico codeína, uma rara variação genética levou uma pessoa à depressão respiratória e à morte.

Uma grande variedade de medicamentos é suscetível a variações no metabolismo que podem tornar as pessoas propensas a efeitos colaterais. A lista inclui antidepressivos, anticoagulantes, antibióticos e muito mais. Para muitos medicamentos, um teste terapêutico começando com uma dose baixa pode ajudar a determinar se você é mais sensível aos efeitos ou não.

TESTES GENÉTICOS

Os avanços na genética molecular estão expandindo rapidamente a capacidade dos médicos de preverem a sensibilidade aos medicamentos. Ainda assim, os especialistas consideram testes iniciais de variações no metabolismo apenas para um pequeno número de medicamentos.

Além de atestar a sensibilidade a medicamentos, os testes genéticos conseguem também analisar os remédios que têm um melhor desempenho para tratar determinada doença considerado os genes que o paciente possui. Isso torna o tratamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANGÚSTIA DA BALANÇA AFETA CADA VEZ MAIS CRIANÇAS

Pesquisa aponta que em 20 anos triplicou busca por emagrecimento na população infantil dentro dos parâmetros de IMC considerados ideais. Entre indivíduos com sobrepeso, procura por dietas quadruplicou

O número de crianças com massa corporal considerada saudável que opta por fazer dieta triplicou nas últimas duas décadas. A conclusão é de um estudo realizado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Os especialistas chegaram a essa conclusão após analisarem dados de cerca de 34 mil crianças, de 8 a 17 anos, que participaram da Pesquisa de Saúde da Inglaterra. A equipe revisou questionários a respeito de hábitos de saúde respondidos entre 1997 e 2016.

Nas entrevistas, as crianças responderam se estavam “tentando emagrecer, tentando ganhar peso, ou não tentando mudar de peso?”. Os resultados, publicados na revista Archives of Disease in Childhood, mostram que mais de um quarto das crianças (26,5%) estavam tentando perder peso em 2016. Em 1998, eram 21,5%.

Entre aquelas com um IMC considerado saudável, a proporção das que queriam emagrecer saltou de 5%, quando o estudo começou em 1997, para 14%, em 2016. Entre as crianças com excesso de peso, a porção das que desejavam perder peso quadruplicou no período de duas décadas, de 9% para 39%. As obesas apresentaram o menor aumento, com o número dobrando de 33% para 63%.

Para os pesquisadores, o aumento no número de crianças com sobrepeso e obesidade tentando emagrecer é considerado um “sucesso”. Por outro lado, as tentativas entre jovens com índice de massa corporal saudável “levantam preocupações”.

COMUNICAÇÃO

Segundo os pesquisadores, houve um aumento acentuado nas tentativas de perda de peso entre as crianças a partir de 2011-2012. Isso coincidiu com o feedback dos pais sobre o peso de seus filhos como parte do Programa Nacional de Medição de Crianças (NCMP), que pesa e mede os alunos na escola.

“O aumento dos esforços para perder peso entre crianças com sobrepeso ou obesidade pode implicar algum sucesso em comunicar a importância do controle de peso a esse grupo”, escreveram os pesquisadores.

Por outro lado, eles afirmam que o aumento do número de crianças saudáveis que faz dieta é preocupante e alertam que “é necessária maior atenção para direcionar as mensagens de controle de peso adequadamente”.

No geral, a proporção de crianças tentando perder peso foi maior entre as mais velhas —uma em cada três crianças de 13 a 17 anos, em comparação com uma em cada cinco crianças de 8 a 12 anos. A proporção de crianças em busca de emagrecimento foi maior entre as meninas (60%) do que entre os meninos (40%). Mas o aumento ao longo do tempo foi significativo apenas para os meninos, disseram os pesquisadores.

A obesidade infantil é um problema mundial. No Reino Unido, uma em cada três crianças está com sobrepeso ou obesidade, e isso só cresceu durante a pandemia. No Brasil, um estudo encomendado pelo Ministério da Saúde mostrou que uma em cada dez crianças brasileiras de até 5 anos está com o peso acima do ideal. Destas, 7% estão com sobrepeso e 3% com obesidade. Acima de 5 anos de idade, a taxa de obesidade sobe para 15%.

O excesso de peso na infância é uma questão de saúde pública. A obesidade infantil aumenta o risco de doenças crônicas e graves, como se tornar um adulto obeso, aumento da probabilidade de diabetes tipo 2 na infância e na idade adulta, apneia do sono, asma, esteatose hepática, doença cardiovascular, colesterol alto, cálculos biliares, intolerância à glicose e resistência à insulina e até mesmo demência.

Um estudo publicado na revista Journal of Science and Medicine in Sport revelou que a obesidade infantil afeta negativamente a capacidade cognitiva na meia-idade, o que aumenta o risco da doença. Diversos trabalhos recentes relacionaram distúrbios de autoimagem e alimentação ao uso excessivo de redes sociais.

OUTROS OLHARES

‘EFEITO ZOOM’ FAZ AUMENTAR AS OPERAÇÕES PLÁSTICAS NO ROSTO NO PAÍS

Procedimentos no nariz, no pescoço e na sobrancelha crescem na pandemia. Especialistas veem efeitos de rotina da auto-observação em videochamadas

Cansaço mental, tristeza pela pandemia e o “efeito Zoom” explicam o aumento de cirurgias plásticas faciais. As operações no rosto – nariz, sobrancelha e pescoço são as que mais cresceram – serviram como doses de prazer para um período sombrio. Também ajudaram a “corrigir” o que muitos brasileiros percebiam como defeitos ao se olhar nas telas nas videochamadas.

As plásticas faciais foram os únicos procedimentos cirúrgicos estéticos que aumentaram no Brasil em 2020, na comparação com o ano anterior, segundo dados mais recentes da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (I­saps). Em 2019, haviam sido realizadas 451.546 plásticas na face. No ano seguinte, já em meio à pandemia, o  número saltou para 483.800.

A cabeleireira Karina Amorim, de 44 anos, nunca havia feito uma plástica. Desde o ano passado, já fez quatro e tem outra cirurgia agendada para este mês – todas no rosto. Quando a pandemia começou, ela demorou a aceitar que ficaria em casa e  não poderia abrir seu salão de beleza. As cirurgias foram uma “válvula de escape”.

“O emocional estava abalado, então eu tentava mostrar que era forte.” Ela nunca apreciou as chamadas de vídeo, mas teve de aderir a essa forma de comunicação. Não gostava do que via. “Comecei a aceitar as videochamadas, a me posicionar diante da imagem e a ver o tanto que estava destruída”, conta Karina, que fez plásticas nos lábios, sobrancelhas e bochechas. Ela também pensava em como retomaria os contatos sociais após o isolamento. As cirurgias na face, diz, ajudaram a levantar o astral.

As telas podem não ser o único gatilho para as plásticas, mas ajudam a entender onde melhorar. “Você vai se vendo, na tela e no espelho, e tem a percepção do que quer”, diz Gabriela Montgomery, de 47 anos, que trabalha com programação neurolinguística.

A quantidade de plásticas no corpo, como lipoaspiração e abdominoplastia, caiu, mas o número de cirurgias para nariz, sobrancelha e pescoço aumentou. A blefaroplastia, que retira o excesso de pele das pálpebras, é a mais comum, mas não foi a que mais cresceu. Os maiores aumentos foram em procedimentos para rejuvenescer o pescoço (17,6%), levantar a sobrancelha (24.4%) e mudar o formato do nariz (21,3%).

A aposentada Maria Guiomar Garcia, de 53 anos, já marcou a blefaroplastia. Ela afirma que o uso de máscaras reforçou a importância da expressão pelo olhar. E o dela está entristecido.

“Por causa das coisas que passamos, mortes de parentes, amigos, o olho cai mais”, afirma Maria Guiomar. “Passamos por muitas coisas e isso deixou as pessoas tristes. Tem de procurar melhorar.”

DEPRESSÃO

Cirurgiões ouvidos dizem que questões emocionais podem até levar pacientes aos consultórios de cirurgia plástica, mas não deveriam ser motivo para realizar um procedimento. Pacientes em depressão, por exemplo, devem ser encaminhados a tratamentos com profissionais de saúde mental e não operados.

Dados da Academia Americana de Plástica Facial também atribuem ao “efeito Zoom” parte do crescimento das cirurgias no rosto. Nos Estados Unidos, a entidade calcula aumento de 40% nos procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos na face, de 2020 a 2021. Oito em cada dez cirurgiões plásticos americanos disseram que seus pacientes querem melhorar a aparência em videoconferências.

Uma autocobrança para estar – e parecer – bem na tela de trabalho é o pano de fundo para as plásticas, na avaliação do cirurgião plástico Victor Cutait. “As pessoas chegam aqui se queixando: ‘Estou cansada de fazer reunião e parecer que não dormi”, relata.

Pessoas em posição de liderança nas empresas querem mostrar um ar “fresh” e os liderados, disposição.  “O foco é sempre parecer melhor, mais descansada, animada, e a face é reflexo disso”, diz o cirurgião.

SEM FILTROS

Se antes era comum que pacientes chegassem aos consultórios com revistas de celebridades para orientar o trabalho dos cirurgiões, hoje desembarcam com as próprias fotos manipuladas, diz Alexandre Piassi, do departamento de mídias digitais da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O desejo é não precisar mais manipular as imagens  -o que é visto no universo online como falta de autenticidade.

”Veio uma influencer aqui dizendo que precisava parar de usar filtro porque as pessoas cobravam”, conta Cutait. Nos consultórios, o resultado disso é uma demanda constante ao longo de todos os meses do ano – o que não ocorria antes. Segundo o cirurgião Paolo Rubez, o boom de procura pré-pandemia era nas férias de janeiro e julho. Agora, as cirurgias estão diluídas  ao longo do ano.

GESTÃO E CARREIRA

NOVA TEMPORADA DE TRAINEES DEVE ELEVAR NÚMERO DE VAGAS

Expectativa é de que mais de 200 empresas lancem programas neste semestre; guia do trainee traz as mudanças no processo

Seja pelo salário acima da média ou pela oportunidade de começar a carreira em uma grande empresa, ser trainee é o desejo de jovens que cada vez mais enxergam no programa a oportunidade para acelerar a carreira e entrar no mercado de trabalho. Para esses profissionais, a nova temporada, que começa neste mês, deve trazer um número maior de vagas Brasil afora comparado a 2021.

No ano passado, mais de 150 empresas abriram processos seletivos com vagas em diversas áreas e para profissionais de todo o País. Neste ano, a expectativa é de que esse número ultrapasse 200 companhias, segundo o presidente da plataforma Seja Trainee, Luís Abdalla.

Do lado das empresas, o programa tem papel essencial ao desenvolvimento de novas lideranças e na criação de equipes plurais, atraindo o desejo de inovação e transformação das novas gerações. Para os candidatos, é a porta de entrada para o mercado de trabalho.

Apesar da escassez de mão de obra qualificada, as empresas exigem cada vez mais experiência para jovens que acabam de sair das universidades. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro jovens entre 18 e 24 anos está desempregado no País.

Nesse cenário, os programas se tornaram ainda mais concorridos. Para se adequar à nova realidade, com as grandes transformações digitais e novas pautas na agenda das corporações, as empresas têm investido pesado em processos seletivos gamificados e cada vez menos tradicionais.

Para se preparar para a alta temporada de processos seletivos para trainee, preparamos um especial sobre as mudanças nos programas, com dicas de ex-trainees e oportunidades abertas. As reportagens serão publicadas uma vez por semana.

“Eu gosto de enxergar o programa trainee como a residência na medicina”, explica a professora de Liderança e Comportamento Organizacional da Fundação Dom Cabral, Luciana Ferreira. “A sala de aula traz aplicabilidade, mas essa experiência real não acontece. Falta a mão na massa.”             1

Contratada em 2008, Flávia Picanço começou como trainee na área comercial da Americanas. Hoje, é gerente executiva de Gente da companhia e está à frente de todos os programas de entrada da companhia. O Programa Trainee de 2022 foi o primeiro após a fusão com a B2W. A iniciativa forma jovens líderes há 20 anos e, segundo ela, continua tendo como foco levar aos jovens um processo de imersão sobre como é trabalhar na companhia.

EU ACHO …

FALHAR NA CAMA

Pobres entrevistadores, profissão difícil a deles. Na falta de assunto, são obrigados a perguntar para o entrevistado coisas estapafúrdias como “você já falhou na cama?”. E os convidados respondem, que gente educada. Um conhecido cantor, semana passada, disse num programa de tevê que também já havia falhado. É natural. Aliás, esse tipo de falha nem deveria mais entrar em pauta, já que seres humanos se cansam, se estressam, ficam ansiosos, e isso tudo também acaba embolado nos lençóis. Brochar não é falha, é no máximo uma frustração momentânea, e passa. Falhar na cama é outra coisa.

Quando um casal tira a roupa e se deita juntos, as regras passam a ser determinadas por eles e ninguém mais. Não há certo nem errado, tudo é permitido, desde que com o consentimento de ambas as partes. Consentiu? Então vale sadomasoquismo, fantasias eróticas, lambuzamentos, ménages a trois, a quatre, a cinq… vale o que der prazer, vale o combinado.

O que não vale é forçar a barra. O que não pode é haver imposição de uma prática com a qual um dos dois não concorda. O que não se admite é violência e brutalidade, a não ser que elas façam parte do cardápio sexual do casal. Se não fizer, é estupro. Isso é falhar na cama.

Não vou dizer que falta de amor também é falha, porque não é. Muitas vezes o amor não é convidado para a festinha. Não é preciso amar. Não é preciso nem fingir que ama, todo mundo é adulto e deve saber mais ou menos o que esperar do encontro. Mas, mesmo não amando, não custa ser carinhoso. Não custa, depois do embate terminado, ter um pouco de paciência, não sair correndo como se fosse perder o último ônibus da madrugada. Não custa lembrar do nome da pessoa com quem você esteve há cinco minutos gemendo agarradinho. Não custa dizer que foi bom pra você. Se não foi, considere essa mentirinha a boa ação do dia. Pra que dizer que vai denunciar a criatura pro Procon por propaganda enganosa? Não seja grosseiro. Isso é falhar na cama.

O resto está liberado pra rolar. Inclusive, não rolar.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

IOGURTE PROTEICO, VEGETAL, KEFIR? VERSÃO NATURAL AINDA É A MAIS SAUDÁVEL

Conheça as diferente propriedades dos vários produtos disponíveis que chegaram ao mercado, seus atrativos e suas desvantagens

A indústria do iogurte nunca deixa de nos surpreender. Até recentemente, tínhamos duas opções: simples ou adoçado. Em geral, todos os iogurtes com sabor se enquadram na categoria açucarada. E a escolha era simples: natural, quer se trate de iogurtes de soja ou iogurtes clássicos. A comunicação já desmantelou vários lotes de iogurtes supostamente mais saudáveis que os naturais: os que fazem o intestino feliz, os que ajudam as defesas, os 0%, os ricos em fibras. Já sabemos que não, esses acréscimos não melhoram o iogurte natural.

Mas agora temos uma nova geração de criatividade em copos de 125g, e pode não estar tão claro se finalmente melhoraram o iogurte natural. Vamos fazer um tour pelas últimas novidades e tirar conclusões.

IOGURTES PROTEICOS

Eles parecem ser as estrelas dos iogurtes saudáveis há meses. Há muitos sabores disponíveis, mas todos têm a palavra “proteínas” bem grande e geralmente também trazem o peso em gramas do referido nutriente.

Um iogurte natural tem 3,3-3,7g de proteína por 100g,ou cerca de 4g por copo de 125g, que é a apresentação mais comum. Os iogurtes proteicos têm o dobro ou mais dessa quantidade (8-10g por 100g), ou seja, eles realmente cumprem o que prometem. É um iogurte que não tem ingredientes adicionados para atingir esse aumento, mas é drenado, tornando-se mais espesso, com menos água e, portanto, mais concentrado em nutrientes.

É certo que esses produtos podem ser úteis em dietas, em doentes que necessitem reforçar a ingestão ou para pessoas com determinadas necessidades, uma vez que oferecem maior saciedade e mais nutrientes em menor volume. Mas também é verdade que não precisamos de mais proteínas, por isso não é necessário pagar um custo extra por elas. Elas não são um nutriente deficiente na dieta.

Sabe como você pode adicionar esses 5 ou 6g extras de proteína a um iogurte natural normal? Jogue um bom punhado de nozes e sementes, e você também receberá muitos outros micronutrientes e fibras como presente.

IOGURTES VEGETAIS SEM SOJA

O iogurte natural de soja, tão saudável quanto o de vaca e mais sustentável, não é mais novidade nas prateleiras. Acho que todas as grandes empresas já têm sua linha de iogurtes de soja. É um produto consolidado.

Então agora temos iogurtes vegetais de outra coisa. Os de coco e amêndoa são especialmente bem sucedidos. Há também aqueles que misturam soja com coco, com aveia, mas não é a esses que me refiro. Grandes marcas já entraram na onda. Seus ingredientes são basicamente coco, água, amido e bactérias.

Sob o olhar nutricional, esse tipo é de pouco interesse; é pobre em proteínas e cálcio e mais rico em gordura do que um iogurte de soja. O seu interesse é sobretudo organo- léptico: é bom. E por causa de seus ingredientes, é saudável. Embora, como dissemos, a única razão para pagar o custo extra que representa em comparação com a soja seja o sabor ou a textura.

A versão de amêndoa é semelhante à anterior, mas trocando o coco pela oleaginosa.

IOGURTES NATURAIS ‘PREMIUM’

Dentro da gama de iogurtes naturais clássicos há também uma tendência notável: fazer versões mais gourmet. Iogurte natural em copo de vidro feito com a receita de 1919 – cuja diferença para normal (de copo plástico), além do preço e da embalagem, é que tem creme e isso aumenta sua quantidade de gordura e imagino que o torna mais untuoso e palatável. Mas certamente não mais saudável.

Outras marcas oferecem iogurtes naturais orgânicos, artesanal com leite de vaca de pasto e outras lendas semelhantes. Novamente, a diferença nutricional para o iogurte natural oferecido no supermercado é mínima. No máximo, novamente, eles têm mais teor de gordura. É aqui que o consumidor valoriza o tipo de produção, por exemplo, embora se estivermos preocupados com o tratamento das vacas, o iogurte que temos que comprar é o de soja. Não existem vacas felizes produzindo coisas vendidas em supermercados, não se engane.

KEFIR

Kefir merece uma menção porque se tornou muito popular em pouco tempo. De algo que os hippies faziam em casa passou a ter variedades de grandes marcas.

A diferença entre o kefir e o iogurte é o tipo de microrganismo utilizado para fermentar o leite, que no caso do primeiro é um fungo e no caso do iogurte são bactérias. O kefir também é mais líquido e geralmente é um pouco mais ácido que o iogurte. Nutricionalmente, não há grandes diferenças entre iogurte e kefir. É verdade que o kefir fornece uma maior variedade de microrganismos na forma de probióticos, mas também não é uma questão particularmente relevante.

Portanto, a escolha de um ou outro dependerá mais do nosso gosto pessoal do que de critérios nutricionais.

IOGURTES DE CABRA

Embora os produtos lácteos de cabra não sejam novos, até recentemente a única coisa que se podia encontrar em um supermercado feito com leite desse animal era o queijo. Isso mudou.

O bom é que, neste caso, geralmente são iogurtes naturais, ou seja, saudáveis. Mas o preço é consideravelmente superior. No quesito nutricional, as diferenças são irrelevantes. O que é certo é que pode haver maior tolerância para pessoas com problemas digestivos, já que seu teor de uma proteína específica (alfa-caseína) é menor. O menor teor de lactose também ajuda na digestibilidade, embora a lactose em qualquer iogurte já seja reduzida pela fermentação bacteriana.

A conclusão? Bem, se valorizamos o aspecto nutricional e o preço, a melhor opção ainda são os iogurtes naturais. Mas se consideramos ética e sustentabilidade, o natural de soja é boa opção. Você pode escolher alguma das outras opções apenas por gosto pessoal, não por critérios nutricionais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

4 EM CADA 10 SUICÍDIOS ENVOLVEM USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

Quatro em cada dez pessoas que se suicidam usam substâncias psicoativas, especialmente o álcool, antes de tirar a própria vida, mostra um estudo inédito da UnB (Universidade de Brasília) que investigou dados comportamentais e sociodemográficos das vítimas com objetivo de ajudar na formulação de políticas públicas de prevenção.

O trabalho analisou 1.088 suicídios ocorridos no Distrito Federal, em um período de nove anos. Desses casos, 780 passaram por exames toxicológicos e 44% tiveram resultados positivos para substâncias psicoativas, sendo desses 72% para o uso exclusivo de álcool e 22% para outras drogas associadas, em especial a cocaína, além do álcool.

O estudo mostra que entre 2005 e 2014 o aumento da taxa de suicídio relacionada ao uso de substâncias psicoativas foi dez vezes maior que o crescimento populacional do Distrito Federal. Na pesquisa, só esses casos passaram por uma análise mais minuciosa sobre o perfil das vítimas. Os resultados, publicados em artigo científico na revista BMC Psychiatric, refletem a situação preocupante da saúde mental dos brasileiros. O total de óbitos no país pelas chamadas lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus. A maioria dos suicídios analisados no estudo foi cometida por homens (84%), o que também ocorre no resto do país. Dados do Ministério da Saúde mostram uma taxa média anual de 6,13 casos de suicídios por 100 mil pessoas (9,8 para homens e 2,5 para mulheres).

Pretos e pardos responderam por 82% dos casos analisados. Essa população constitui o grupo mais socialmente vulnerável no país e, segundo os pesquisadores, isso pode ser fator de risco para o suicídio.

A proporção, porém, não é a mesma observada no cenário nacional. Dos 14.084 suicídios registrados no país em 2021, 50% são de pretos e pardos e 47%, de brancos. Indígenas respondem por 1% e aqueles de cor ignorada, por 2%.

A maior parte dos casos investigados ocorreu em casa (74%) e nas faixas etárias entre 30 e 59 anos (55%), seguida pelos jovens entre 18 e 29 anos (35%).

Para a professora Andrea Gallassi, autora do estudo e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da UnB, estudos como esse são essenciais para identificar padrões associados aos suicídios e, a partir deles, investir em políticas de prevenção voltadas aos indivíduos com maior risco. “Temos um problema cultural em relação aos homens. Essa sociedade patriarcal, machista, faz com que o homem tenha muita dificuldade em lidar com seus sentimentos e fraquezas e de procurar ajuda”, afirma Gallassi.

Segundo a professora, as campanhas de comunicação em saúde precisam levar esses dados em conta para ajudar os homens a reconhecerem o adoecimento. “Todos os anos tem o Novembro Azul focado no câncer de próstata. Precisamos avançar, falar em saúde mental dos homens. Tem que falar que homem sofre, tem depressão e dificuldade de lidar com sentimentos.”

Para ela, a situação está relacionada, inclusive, a muitos casos de feminicídio seguidos de suicídio do homem. “Ele foi educado numa cultura machista de que a mulher pertence ao homem e tem uma enorme dificuldade de lidar com a perda de alguém que, na cabeça dele, lhe pertence.”

Segundo relatos da família coletados no estudo, depois do uso de álcool e drogas, o crime ligado a relacionamentos é citado como a segunda maior motivação do suicídio. Em terceiro lugar estão as doenças mentais prévias, como depressão e ansiedade.

De acordo com o estudo, a concentração de álcool no sangue das pessoas que morreram por suicídio estava entre 1,5 e 2,99 gramas por litros, quantidade que pode causar desorientação e confusão mental, por exemplo.

O efeito agudo do álcool sobre os neurotransmissores e as funções cognitivas também pode aumentar a agressividade, a impulsividade e a desinibição. “A pessoa faz uso para se encorajar a tirar a própria vida. Mas não sabemos se era dependente de álcool ou outras drogas ou se usou para ter coragem”, diz Gallassi.

Nas entrevistas com familiares sobre o comportamento de quem se suicidou, foi relatado que 88% apresentaram mudança de comportamento antes de praticar o ato: 52% se tornaram mais depressivos e 32%, mais agressivos.

Um outro dado que chama atenção é que a maioria das pessoas que tinham histórico anterior de tentativas de suicídio não usou álcool e outras drogas antes de tirar a própria vida. “A hipótese é que elas já tinham um planejamento mais consolidado e não precisaram de um elemento encorajador.”

De acordo com Gallassi, é grande a chance de uma pessoa que tentou se matar anteriormente repetir a tentativa. “Por isso, é fundamental monitorá-la de perto para ver se vai permanecer com a ideação suicida.”

Em relação a políticas de prevenção, a pesquisadora afirma que uma das principais estratégias seria a capacitação das equipes de saúde da família na atenção primária do SUS para as questões de saúde mental, especialmente os fatores de risco relacionados aos suicídios. “Tem que questionar as famílias sobre casos de transtornos mentais, depressão, tentativas anteriores de suicídios, dependência de álcool e outras drogas e, uma vez identificados, encaminhar a pessoa aos Caps [centros de apoio psicossocial]. Muitas vezes, isso nem é questionado.”

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda quatro diretrizes para a prevenção: dificultar o acesso aos principais métodos utilizados, qualificar o trabalho da mídia para que neutralize relatos e enfatize histórias de superação, expandir e fortalecer serviços de saúde mental, capacitando profissionais para identificar casos precoces e trabalhar habilidades socioemocionais nos espaços de ensino.

OUTROS OLHARES

ECO SEXO

Iniciativas sustentáveis, como dildos de madeira e camisinhas veganas, que chegam ao mercado de produtos eróticos e sugerem formas de tornar a vida sexual ecologicamente mais correta

Vale tudo entre quatro paredes? Não para aqueles cuja consciência ambiental fala mais alto do que os gemidos de prazer. O crescimento do número de consumidores ecologicamente corretos consegue impactar o mercado erótico, que tem se reinventado com a criação de produtos menos nocivos à natureza. Mas para quem veste a camisa (ou seria camisinha?) da sustentabilidade, adotar práticas de um sexo eco-friendly vai muito além do consumo.

De acordo com a consultora de comunicação para sustentabilidade Karin Rodrigues, pensar na forma de descarte de produtos eróticos é parte fundamental de uma vida sexual mais ecologicamente correta. Ela frisa que a responsabilidade precisa ser dividida entre as empresas e o consumidor final. A indústria erótica produz lixo porque nosso sistema produz lixo. Precisamos nos responsabilizar pelo descarte e recolhimento das peças, para que elas possam ir para a reciclagem depois”, pontua a especialista.

A respeito dos preservativos ofertados no Brasil, cuja matéria-prima não é biodegradável, Karin avalia que é um lixo “que vale a pena ser gerado”, mas sugere como alternativa o descarte separado de resíduos recicláveis para não contaminá-los. Enquanto isso, na Alemanha, a marca Einhom (unicórnio, em tradução livre) ganha espaço no mercado (e nas camas) com suas camisinhas veganas e sustentáveis. Além de trocar a caseína por um lubrificante natural feito à base de plantas, a empresa prioriza o látex extraído por pequenos produtores da Tailândia, que se distanciam das monoculturas da borracha em larga escala, causadoras de desmatamento.

Outra opção para quem quer seguir à risca uma vida sexual mais sustentável é usar lubrificantes à base d’água e com componentes naturais, evitando os fluidos de silicone, que é substância derivada da exploração de petróleo. A Feel, marca de sexual wellness, foca integralmente no desenvolvimento desses produtos. “Sabíamos que havia oportunidade em criar cosméticos eróticos mais saudáveis tanto para a saúde da mulher, quanto para o meio ambiente. E é muito importante ter essa consciência ambiental. “Embalamos nossos produtos com o mínimo de plástico possível”, diz Marina Ratton, CEO da empresa.

Plástico, aliás, é outro material muito incorporado nos brinquedos eróticos – além do silicone – e que dispensa apresentações como um dos principais vilões da preservação da natureza, com tempo de decomposição que pode durar até 450 anos. Atenta ao problema, a Climaxxx passou a ofertar dildos e outros sex toys de cristal, esculpidos à mão por uma artesã que seleciona criteriosamente os fornecedores das pedras, levando em consideração a ética na extração. “A pauta da sustentabilidade está muito conectada com o feminino. A Terra é essa grande mãe que nos acolhe. Então, fomos afinando nossa curadoria de produtos para não ter tanta reserva e, portanto, lixo. Os brinquedinhos de cristais são lindos e duram muito mais tempo”, comenta Larissa Ely, fundadora da marca de sex shop.

A sexóloga Cátia Damasceno recomenda alguns cuidados para quem optar por sex toys feitos de cristal ou madeira. “Usar com o preservativo, porque se o material apresentar qualquer tipo de fissura, pode comprometer a higiene; além de limpar antese após o uso. Uma outra dica é utilizar o óleo de coco nos dildos de madeira, pois é natural e auxilia também na hidratação do material.”

Há também quem tome atitudes menos óbvias para ser ecologicamente mais correto no sexo, que vai de priorizar o uso de lençóis e lingeries com fabricação ética e sustentável, como as da marca Cisó, até evitar transar no chuveiro ou com as luzes acesas. Não há consenso entre ativistas no segundo caso. Mas na dúvida se vale a pena ou não, é melhor deixar que o tesão responda.

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL TEM ‘BOOM’ DE PROCURA POR EMPRESAS E IMPULSIONA STARTUPS

Plataformas digitais reduzem barreiras ao atendimento terapêutico durante a pandemia, mas segmento não está totalmente imune à crise que abala mundo ‘tech’

A saúde mental deixou de ser tabu nas empresas, especialmente desde que o burnout, o esgotamento ligado ao excesso de tarefas, tornou-se uma doença do trabalho reconhecida mundialmente. Com isso, a demanda por programas de bem-estar psicológico teve um salto entre as empresas, impulsionando tanto startups especializadas quanto empresas de saúde que veem uma possibilidade de ganhos extras no setor.

Um dos símbolos dessa tendência é a Vittude, que conecta pessoas a psicólogos e tem programas voltados à melhora da saúde mental. Desde o começo da pandemia, a receita da companhia cresceu 540%. Hoje, cerca de 170 empresas são clientes, como O Boticário, Renner e SAP. “Nós mostramos para as empresas que não se preocupam com as pessoas que elas precisam se preocupar com o lucro”, diz Tatiana Pimenta, CEO da Vittude.

Outra companhia que surgiu nesse mercado foi a Zenklub. Rui Brandão diz ter criado o negócio após sua mãe ter sofrido um burnout. Para o executivo, o atendimento digital reduziu os preconceitos sobre os tratamentos. O número de clientes corporativos, em dois anos, saltou de 12 para 400. “Se antes o digital era algo visto como de má qualidade, ficou provado que há muitos benefícios de acesso e comodidade”, diz Brandão. A startup já viabilizou 1, 3 milhão de consultas.

A preocupação com a saúde mental virou uma oportunidade para empresas de outros ramos da saúde, como Gympass e Alice. O Gympass criou a plataforma Wellz. Rogerio Hirose, líder de novos negócios do Gympass, conta que a iniciativa busca atender uma demanda vinda das empresas que já eram parceiras do negócio de academias. “A conscientização sobre saúde mental nas empresas aumentou”, diz. O plano agora é levar o Wellz aos mais de dez países onde o Gympass atua.

A Alice, de planos de saúde, também teve os negócios impulsionados pelo aumento da preocupação com a saúde mental. “Houve um aumento na preocupação do brasileiro com a saúde de maneira geral – incluindo a saúde mental, o que foi impulsionado também pela pandemia de covid-19”, diz Guilherme Azevedo, líder de saúde na Alice.

DESAFIOS

Apesar da alta do mercado, especialistas afirmam que as startups precisam melhorar sua eficiência operacional. A Zenklub e a Alice precisaram rever estratégias e demitir um total de mais de 100 pessoas. A Vittude também teve dificuldades financeiras, e só se encontrou quando conquistou clientes corporativos.

Há quem já projete uma onda de aquisições entre negócios que atuam no setor de saúde mental. “Aumentou muito o mercado interessado no setor, e isso chama a atenção de investidores para surfar nesse crescimento de migração para o mercado corporativo”, afirma Fabio Sanchez, sócio da firma de M&A JK Capital. ”Vemos uma tendência de consolidação do setor junto a grandes clínicas para alimentar toda a cadeia do setor.  Devido aos contratos com empresas, a plataforma de saúde mental tem uma gama de vidas para atender, gerando uma série de clientes em potencial para um comprador.”

EU ACHO …

TRAIÇÃO E SEMÂNTICA

Quando alguém diz, por exemplo, “João traiu Renata”, a primeira coisa que me vem à cabeça é que João espalhou um segredo cabeludo que Renata havia lhe confiado, ou então que João entregou Renata para a polícia, ou ainda que João fugiu com todo o dinheiro que Renata havia economizado, que crápula. Nunca penso que João transou com outra mulher.

Trair pressupõe que algo foi feito contra alguém. E sexo não é algo que seja feito contra uma terceira pessoa. Sexo é sempre a favor, sempre pró, e sempre egoísta – não diz respeito a quem ficou do lado de fora do quarto. Faz-se sexo para dar e receber prazer, e não para prejudicar quem quer que seja. Traição é uma palavra dura demais para ser usada como sinônimo de infidelidade e adultério.

A palavra adultério é até romântica, remete a encontros clandestinos, beijos roubados, vidas secretas, roteiros de cinema, letras de samba. O adúltero – apesar de ter que carregar esse palavrão nas costas – é na verdade um alegre.

Infidelidade já é uma palavra mais burocrática, boa para ser usada em tribunais, alegar quebra de contrato. É palavra comprida e possui um certo status, parece coisa de estelionatário graúdo, gente com conta em paraíso fiscal pensando bem, “conta em paraíso fiscal” é uma metáfora que se aplica perfeitamente a romances paralelos. Mas estelionato é crime, e infidelidade não é. O infiel é um inofensivo, vende fácil seus carros usados.

Os infiéis não metem medo, os adúlteros possuem um charme boêmio, então, na falta de uma palavra mais intimidante, apela-se para “traidores”, a fim de arrancarmos deles alguma culpa, remorso, vergonha. Mas que ninguém se engane: a palavra traição está combinando cada vez menos com a realidade sexual vigente. Ninguém está batendo palmas aqui para a poligamia. Estou apenas refletindo sobre a adequação e inadequação de certos vocábulos. Traição? Convém enfrentar os revezes amorosos sem mexicanizar demais a cena.

No início de todo romance, homens e mulheres se satisfazem plenamente um com o outro, mas com o passar do tempo a relação passa a satisfazer apenas parcialmente -e parcialmente pode ser mais que suficiente quando inclui amizade, cumplicidade, diversão, leveza. Porém, a parte que começa a faltar – a sedução – deixa o campo aberto para novas experiências, que podem acontecer ou não. Nada disso tem a ver com desamor. Pode-se amar alguém e sucumbir a uma aventura. Não estou dizendo nenhuma novidade, estou? Há algum inocente no recinto?

Traições pegam você desprevenido. A infidelidade, ao contrário, é sempre uma possibilidade a ser considerada, mesmo quando parece improvável. E não, não há nenhum inocente no recinto.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

RELÓGIO DA FOME

Horário das refeições influencia metabolismo e saúde, diz ciência

Na busca por urna vida mais saudável, a alimentação ocupa um papel central. Mas, enquanto muitas pesquisas se dedicam ao que comer, outras tem se debruçado sobre o “quando”. O interesse é a chave da chamada crononutriçâo, um campo em alta que parte da premissa de que a hora escolhida para cada refeição impacta o corpo de formas diferentes. Essas decisões podem não apenas melhorar a qualidade de vida como prevenir problemas de saúde e ajudar no tratamento de doenças, explicam os especialistas.

A premissa básica é que nosso organismo funciona da mesma maneira ao longo das 24 horas do dia. Seu comportamento responde aos estímulos do mundo exterior e, com isso, há demandas diferentes dependendo do horário. A alimentação está entre essas variáveis.

“Nosso corpo recebe o alimento de forma diferente. A capacidade digestória, a quantidade   de enzimas que a gente secreta, tudo isso muda. Então, (a crononutrição) se baseia muito na ideia de que nós temos melhores e piores horários para comer”, explica a nutricionista Cibelle Crispim, professora e coordenadora do Grupo de Estudos em Cronobiologia Nutricional da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

É uma área nova, afirmam os especialistas, mas que ganha cada vez mais relevância na comunidade científica. Ela é derivada de um campo ainda maior, chamado de cronobiologia, que investiga os ritmos biológicos e os impactos no corpo de modo mais amplo. A crononutrição observa essas variações do ritmo pelo ângulo da refeição e da metabolização dos alimentos.

Segundo o endocrinologista e nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), o tema ganhou mais destaque a partir de 2014. Mais recentemente, veio o nome.

“O desenvolvimento do campo começou com estudos de trabalhadores em turnos diferentes, que mostraram que eles tinham variações nos padrões de consumo alimentar e tinham uma propensão maior a desenvolver algumas alterações metabólicas e obesidade por conta disso”, afirma.

CICLO HORMONAL

A nutricionista Priscilla Primi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) explica que esse ciclo, e as suas variações, é comandado pela secreção de hormônios. Por isso, entender quais deles estão mais ativos em quais horários, e como eles impactam na alimentação, é parte crucial da crononutrição.

“Nós temos uma secreção de hormônios diferente na parte da manhã e da noite, o que impacta diretamente no funcionamento da metabolismo, na resposta glicêmica, na absorção dos nutrientes. As pesquisas dizem que temos uma melhor resposta na absorção dos nutrientes durante o dia, até meados da tarde. Isso porque o cortisol, que é o nosso harmônio de vigília, de alerta, e a insulina, que regula a glicose, têm o pico pela manhã. Enquanto isso, a melatonina, hormônio do sono, que reduz essa atividade, tem o pico na madrugada”, afirma Priscilla.

Em resumo, isso quer dizer que o corpo tem um comportamento natural que nos prepara para receber e metabolizar alimentos pela manhã e à tarde, enquanto não tem a mesma eficiência para absorver as refeições à noite.

“Quando você inverte o ciclo, fazendo jejum de manhã, que é quando o corpo metaboliza melhor os carboidratos, ou fazendo refeições maiores à noite, isso é prejudicial. A noite esses hormônios não são bem secretados, e aí na hora que você deveria fazer a digestão e gastar essas calorias, você está dormindo”, completa.

Especialistas destacam o papel importante do sono na regulação desse ciclo, uma vez que éele um dos responsáveis por estabelecer um padrão. Isso porque é por influência da exposição à luz e da hora de dormir que o corpo determina a liberação dos hormônios.

“É difícil desatrelar a crononutrição do sono. Nosso corpo tem um relógio, que informa se é dia ou noite. São células no cérebro que recebem um sinal que é escuro, por exemplo, e o transmitem para outros órgãos. Aí o próprio cérebro começa a secretar os hormônios ligados à noite. Da mesma forma, o claro da manhã é um sinal para estimular essas células e secretar os hormônios da manhã”, explica Crispim.

A falta de sono adequado influencia comportamentos que levam ao excesso de alimentos durante a noite, momento em que o corpo não está preparado para absorvê-los. Um estudo da Universidade Northumbria, na Inglaterra, publicado na revista científica Advances in Nutrition, constatou que pessoas que dormem mais tarde tem mais tendência  a dietas não saudáveis, ricas em gordura, consumir mais álcool, açúcar e bebidas cafeinadas.

META8OLISMO

Esse desalinhamento ao comer não está relacionado apenas ao ganho de peso. Especialistas esclarecem que os principais objetivos da crononutrição são na verdade melhorar a qualidade de vida e, principalmente, ajudar na prevenção de doenças ligadas a uma má metabolização dos alimentos.

Uma análise de estudos da área, conduzida por pesquisadores da King’s College de Londres e publicada na revista Proceedings of the Nutrition Society, encontrou uma ligação entre comer em desacordo com o relógio interno e um risco elevado para sofrer de hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e obesidade.

O hábito de tomar café da manhã, por exemplo, é considerado como um marcador de saúde em alguns estudos, explica Cibelle Crispim. Entre outros fatores, consumir alimentos com baixo índice glicêmico ao acordar melhora a resposta à glicose com um efeito maior do que quando consumidos à noite, afirmam os cientistas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIGAR E DIZER UM ‘OLÁ’, GESTO ESSENCIAL EM TEMPOS DE SOLIDÃO

Pesquisa com quase 6 mil pessoas nos EUA aponta a importância e o poder de pequenas iniciativas para a autoestima dos amigos

Ligar, enviar mensagens de texto ou um e-mail para um amigo apenas para dizer ”olá” pode parecer um gesto insignificante – uma obrigação, até mesmo, que não vale o esforço. Ou talvez você se preocupe porque um contato inesperado não foi bem-vindo, já que costumamos estar sempre ocupados.

Mas uma nova pesquisa sugere que falar casualmente com as pessoas de nossos círculos significa mais do que imaginamos. ”Mesmo enviar uma breve mensagem a alguém apenas para dizer ‘olá’ e perguntar como está pode ser mais valorizado do que as pessoas pensam”, avisa Peggy Liu, professora associada na Faculdade de Administração Katz da Universidade de Pittsburgh.

A Dra. Liu é a principal autora de um novo estudo – publicado no Journal of Personality and Social Psychology – que descobriu que as pessoas tendem a subestimar o quanto os amigos gostam de ser lembrados.

Ela e sua equipe realizaram 13 experimentos envolvendo mais de 5.900 participantes, para ter uma ideia de como as pessoas imaginam o quanto os amigos valorizam os contatos e quais tipos de interações são os mais poderosos.

Em alguns dos experimentos, os participantes procuraram alguém que consideravam um amigo; em outros, entraram em contato com alguém de quem, eram amigos, mas com quem consideravam ter um vínculo fraco.

Aqueles que entraram em contato foram solicitados a avaliar o quão agradecidos, felizes e satisfeitos eles imaginariam que o contato ficaria ao receber notícias deles – indo de nada a muito.

Os pesquisadores então pediram aos destinatários do contato que avaliassem o quanto gostaram do contato.

Em todos os 13 experimentos, aqueles que iniciaram o contato subestimaram significativamente o quanto isso seria apreciado.

Os contatos mais surpreendentes (entre aqueles que não estavam em contato recentemente) tendiam a ser especialmente poderosos.

A Dra. Liu e seus colegas pesquisadores mantiveram o grau para o que contava como contato intencionalmente baixo: uma breve ligação, mensagem de texto ou e-mail, ou um pequeno presente, como biscoitos ou uma planta.

Os pesquisadores não se concentraram nas interações de mídia social no estudo, mas a Dra. Liu disse que não há razão para supor que entrar em contato com alguém pelo Facebook ou Instagram seria menos significativo.

MAIS  CONTATOS

E o fato de que esses contatos rápidos e simples foram significativos deve encorajar as  pessoas a buscar seus contatos sociais com mais frequência “só  por isso”, disseram os pesquisadores. A pesquisa deles não é o único estudo recente a enfatizar o poder dos pequenos momentos de conexão. Outro estudo, publicado no The American Journal of Geriatric Psychiatry, descobriu que ter interações sociais positivas está ligado a um senso de propósito em adultos mais velhos. Isso se soma ao crescente corpo de pesquisa que sugere que as pessoas com quem passamos tempo diariamente têm um “impacto muito grande” em nosso bem-estar, disse Gabrielle Pfund, pesquisadora de pós­doutorado da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern e uma das pesquisadoras desse estudo. (Na época do estudo, a Dra. Pfund estava trabalhando com uma equipe da Universidade de Washington em St. Louis).

No entanto, os novos estudos chegam em um momento desafiador para a amizade e a conexão nos Estados Unidos, que está no meio de uma crise de solidão que se tornou mais complicada – e mais aguda – durante a pandemia.

As pessoas também tendem a assumir que nossos amigos e conhecidos não serão tão abertos a nós quanto gostaríamos, disse Marisa Franco, psicóloga e professora clínica assistente da Universidade de Maryland e autora do livro Platonic: How the Science of Attachment Can Help You Make and Keep Friends. Ela observou que muitas pessoas se sentem desconfortáveis em entrar em contato devido a um fenômeno conhecido como “lacuna de afeição”, ou a tendência de subestimar o quanto realmente somos queridos.

‘EFEITO BAGUNÇA’

As pessoas também podem se conter por causa de um fenômeno semelhante conhecido como “efeito bela bagunça”, que sugere que, quando somos vulneráveis com os outros, nos preocupamos em ser julgados com severidade. Esse viés de negatividade tende a percorrer todos os aspectos da amizade, disse a Dra. Franco, e pode ter um impacto tangível em como nos comportamos e interagimos.

Mas especialistas em amizade como a Dra. Franco dizem esperar que as descobertas enfatizem a necessidade de se conectar diariamente e encorajem as pessoas a ver a amizade como componente importante da saúde pessoal, mesmo que entrar em contato às vezes pareça estranho ou trabalhoso. “Para estar funcionando da melhor maneira possível, precisamos estar em um estado conectado”, ela disse. “Assim como você precisa comer, precisa beber, você precisa estar conectado para funcionar bem.”

OUTROS OLHARES

CHOCOLATE AMARGO FAZ REALMENTE BEM PARA A SAÚDE?

Estudos sugerem que o cacau pode trazer benefícios, mas não está claro como isso

O chocolate tem uma longa e ilustre reputação. Feito a partir do cacau, que é derivado dos grãos do cacaueiro (cujo nome científico se traduz em “comida dos deuses”), ele foi utilizado por algumas das primeiras culturas mesoamericanas como alimento, remédio, oferenda ritual e talvez até com função de moeda.

O sabor certamente protagoniza a popularidade do chocolate, mas você também deve ter ouvido falar que esse deleite delicioso é bom para sua saúde. Como esse senso comum é explicado pela ciência?

“O cacau é claramente bom para você. Se o chocolate é bom para você ou não depende de quanto cacau está presente e o que mais está nele”, esclarece Dariush Mozaffarian, cardiologista e professor de nutrição da Tufts Friedman Escola de Ciência da Nutrição e Política.

Acredita-se que o cacau contenha cerca de 380 compostos químicos diferentes, dentre eles uma grande classe de flavanóis, que atraem um interesse significativo de pesquisa por seus potenciais benefícios à saúde. Mas está menos claro sobre quantos flavonoides e outros fitonutrientes você precisa para melhorar a saúde, ou se sua barra de chocolate contém o suficiente para fazê-lo. E os especialistas têm opiniões divergentes sobre isso.

“Os grãos de cacau são repletos de fibras e “cargas de fitonutrientes”,” afirma Mozaffarian.

O chocolate ao leite normalmente contém cerca de 20% de cacau, explica o especialista, embora o teor de cacau possa variar. A FDA (agência reguladora americana) exige que esse tipo de produto contenha pelo menos 10% de cacau, mas algumas barras chegam a ter 50% ou mais. O cardiologista também sugere a verificação dos rótulos com cuidado. Para possíveis benefícios à saúde, ele recomendou a escolha de chocolate com pelo menos 70% de cacau.

PESQUISAS

Muitos pequenos estudos descobriram que o chocolate amargo, suplementos ou bebidas de cacau podem reduzir modestamente a pressão arterial, melhorar o colesterol e a saúde dos vasos sanguíneos em adultos.

“E alguns estudos de longo prazo descobriram que aqueles que comem mais cacau podem ter um risco menor de certas doenças cardiovasculares”, destaca.

Em uma revisão publicada em fevereiro na revista científica JAMA Network Open, Mozaffarian e seus colegas examinaram como certos alimentos e nutrientes estavam associados a problemas de saúde do coração. Eles encontraram “evidências prováveis ou convincentes” de que comer chocolate estava associado a um risco reduzido de doenças cardiovasculares, estimando que uma ingestão média diária de apenas 10 gramas (dois quadradinhos de uma barra) estava associada a uma redução de 6% no risco.

“Mas esses tipos de estimativas são baseados em estudos observacionais, que têm limitações importantes”, destaca Joann Manson, chefe de medicina preventiva do Hospital de Mulheres Brigham, em Boston.

Segundo a médica, esses estudos só podem identificar correlações entre comer chocolate e saúde; eles não podem provar que o chocolate traz benefícios — os chocólatras podem ser diferentes em outros aspectos que afetam sua saúde.

Resultados de estudos também foram inconsistentes. Alguns não encontraram nenhum benefício, e outros descobriram que aqueles que comem chocolate habitualmente ou com mais frequência são mais propensos a ganhar peso, apontou ela. Esses estudos também não costumam levar em conta os diferentes tipos de chocolate, que podem variar em seu teor de cacau. E a contagem de açúcar, gordura e calorias pode anular quaisquer benefícios.

CÁPSULAS DE CACAU

Para resolver algumas dessas deficiências, Manson e seus colegas conduziram um grande estudo randomizado com mais de 21 mil idosos nos Estados Unidos. Metade dos participantes recebeu um suplemento de extrato de cacau contendo 500 miligramas de flavonoides, e a outra metade recebeu um placebo. Os resultados do estudo, chamado de ensaio COSMOS, foram publicados no Jornal Americano de Nutrição Clínica. Depois de acompanhar os participantes por 3,6 anos, os pesquisadores descobriram que, enquanto o grupo do suplemento de cacau não era estatisticamente menos propenso a eventos, incluindo ataques cardíacos e derrames, eles tiveram, sim, uma redução de 27% nas mortes cardiovasculares. Manson considera os resultados “sinais promissores para proteção do coração”, no entanto afirma que outros estudos ainda são necessários.

O estudo não deu chocolate aos participantes, mas cápsulas concentradas de extrato de cacau – para obter a mesma quantidade uma pessoa teria que comer cerca de 4 mil calorias de chocolate ao leite ou 600 calorias de chocolate amargo por dia.

“Chocolate é um deleite maravilhoso, mas para tratá-lo como um alimento saudável, acho que há limitações”, concluiu a pesquisadora. Mozaffarian completa:

“Comer uma pequena quantidade de chocolate amargo todos os dias provavelmente é muito bom para nós, e vai fazer você feliz, porque tem um gosto bom.

GESTÃO E CARREIRA

MENTORIA LEVA CAPITAL INTELECTUAL A STARTUPS

Programas de aceleração apostam na orientação de empresas que desejam aliar propósito com o financeiro

Alta da inflação, demissões em massa nas startups e crise global formam um cenário desafiador para empresas que buscam capital financeiro. Quando se fala dos negócios de impacto socioambiental, a complexidade pode aumentar ainda mais, principalmente se não houver uma boa preparação para aliar propósito e sustentabilidade financeira. Nesse sentido, programas de aceleração oferecem outro tipo de investimento tão valioso quanto: o capital intelectual.

As iniciativas oferecem mentoria, promovem conexões, testam soluções de forma segura e possibilitam a captação de investimento. Na mentoria, profissionais mais experientes avaliam e orientam de acordo com a necessidade de cada empreendimento. Olham desde a parte financeira, marketing e comunicação até questões inerentes ao empreendedorismo de impacto, como tese de mudança -, métricas para medir o impacto e como apresentar o potencial do negócio para o mercado e potenciais investidores.

Pesquisas atestam o valor desses projetos. O relatório A aceleração funciona?, lançado no Brasil pela Global Accelerator Learning lnitiative e Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), aponta que empresas aceleradas aumentaram as receitas, o  número de funcionários e receberam investimento externo com valores maiores.

“Muitas vezes, o que vai destravar a empresa para outro patamar é o conhecimento e não o  capital”, avalia o presidente e sócio fundador da 7Stars Ventures, Daniel Abbud. “Se não tem capital intelectual para operar a companhia, quanto mais dinheiro receber, mais vai gastar, e é um pecado pôr dinheiro em companhia que não tem maturidade para lidar com esse recurso.”

Ao perceber que precisava de uma base sólida para avançar com o negócio, o presidente da Toti, Caio Rodrigues, buscou esse suporte. A empresa que capacita refugiados e migrantes em tecnologia e os conecta com o mercado de trabalho nasceu de um projeto na faculdade, com prazo para encerrar. “Depois que começou a rodar a primeira turma, vimos que tinha potencial”, diz ele.

Veterano dos programas de aceleração, o empreendedor recebeu apoio em fases distintas da companhia. “Quando a Toti começou a ganhar corpo e sair dos muros da faculdade, sentimos necessidade de mais conhecimento, ampliar rede, ouvir a opinião de mais pessoas para apoiar no desenvolvimento da ideia.”

Em 2020, a Toti foi selecionada para o lnovAtiva de Impacto Socioambiental, uma política pública gratuita voltada à aceleração de startups com propostas de impacto. Naquele momento, já estruturada, a empresa ia ao mercado para vender os serviços. “A gente estava se conectando com parceiros para entender e definir qual seria o melhor serviço. Contamos com o apoio de diferentes pessoas, que falaram o que seria interessante adicionar de benefício aqui ou o que não tinha tanta aderência.”

Rodrigues afirma que, lá na faculdade, a proposta não era ser um negócio de impacto, mas toda a mentoria e conexões possibilitadas pelas acelerações ajudaram a transformar o projeto em empresa.

ACELERAÇÃO DE NICHO

Ter programas de aceleração focados nos negócios de impacto também é uma demanda dos empreendedores desse nicho. “Eles têm uma dor grande de como combinar o propósito do negócio, a transformação social e ambiental, com a parte financeira”, diz Ana Hoffman, coordenadora do lnovAtiva de Impacto Socioambiental. •

EU ACHO …

DAR-SE ALTA

Nada como não ter grandes esperanças para também não ter grandes frustrações. Todos diziam que o novo filme do Woody Allen era fraco e repetitivo, mas sempre acreditei que um fraco Woody Allen ainda é melhor do que muita coisa considerada boa por aí. Então lá fui eu para o cinema conferir Igual a tudo na vida e, não sei se devido à baixa expectativa ou ao meu entusiasmo incondicional pelo cineasta, saí mais do que satisfeita: não considerei o filme fraco coisa nenhuma.

Fraco achei o ator protagonista. Inexpressivo. Quase comprometedor. Fora isso, foi uma delícia ver Woody Allen jogar a toalha, reconhecer que a busca pelo sentido da vida é uma tarefa cansativa e infrutífera e que todo mundo vive as mesmas angústias, do intelectual ao motorista de táxi. Extra, extra! Woody Allen se deu alta!

É verdade que Igual a tudo na vida remete a situações já mostradas em seus outros filmes, mas era esse mesmo o propósito. Woody Allen faz o papel de um escritor veterano que dá dicas para um escritor amador, que não passa dele mesmo, anos antes. Não foi preciso escalar para o papel alguém com semelhanças físicas e os mesmos trejeitos: a angústia existencial do jovem Falk basta para identificá-lo como um Woody Allen Júnior em busca de libertação. E o que é libertação? Fala o veterano: “Quando alguém lhe der um conselho, você diga que é uma excelente ideia, mas depois faça apenas o que quiser”. Tem lógica. Quem é que pode adivinhar o que se passa dentro de nós? Não compensa preservar relações por causa de culpa, ficar imobilizado, temer consequências. Vá lá e faça o que tem que ser feito. Sozinho. Porque é sozinho que estamos todos, afinal.

Ou seja, nada que Woody Allen já não venha há anos discutindo em sua obra, mas agora tudo me pareceu mais leve e menos intelectualizado, até o restaurante que Allen costuma usar como locação mudou, sai o abafado Elaine’s, entra o arejado Isabella’s.

É claro que os filmes da fase neura eram mais ricos, é claro que uma vida de questionamentos tem mais consistência do que uma vida resignada, e é claro que o Elaine’s tem alma, e o Isabella’s não. Mas a passagem dos anos e a proximidade da morte reduzem bastante esse orgulho que temos em ser profundos e diferenciados.

Todos as criaturas do mundo estão no mesmo barco procurando amor, sexo, reconhecimento, segurança, justiça e liberdade. Algumas coisas iremos conquistar, e outras não, e pouco adianta deitar falação, porque seremos para sempre assim: sonhadores, atrapalhados e contraditórios. Jamais teremos controle sobre os acontecimentos. A sutil diferença é que, se em seus filmes anteriores Woody Allen parecia dizer “não há cura”, agora ele parece dizer “não há doença”.

Eis a compreensão da natureza humana, acrescentada por uma visão bem-humorada e madura do que nos foi tocado viver. Leva-se tempo para aprender a não dramatizar demais as situações. Dar-se alta é reconhecer, com alívio, que o que parecia doença era apenas uma ansiedade natural diante do desconhecido. Só quando aceitamos que o desconhecido permanecerá para sempre desconhecido é que a gente relaxa.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

NOVOS HÁBITOS PODEM AJUDAR A LARGAR O CIGARRO

Profissionais explicam que o tratamento varia para cada pessoa, mas algumas práticas são universais e envolvem alimentação, atividades físicas, mudanças de padrões e até um pequeno ‘castigo’ para quem fumar

Parar de fumar não é uma tarefa fácil, principalmente por se tratar de uma dependência química. Qualquer derivado do tabaco possui nicotina – uma droga psicoativa – que ao ser inalada produz alteração no sistema nervoso central, induzindo ao vício. A falta dela é o motivo pelo qual as pessoas costumam fumar. Se a droga permanecer no corpo do indivíduo por mais tempo, a tendência é que a dependência seja menor. Portanto, a velocidade da metabolização da nicotina é um dos fatores para as pessoas se viciarem.

Mesmo sendo uma tarefa árdua, existem diversos estudos e técnicas para parar de fumar. Dois principais modelos são: o abrupto, onde se prepara o paciente e combina uma data para ele parar de fumar, de uma vez só; e o gradual, que consiste na diminuição do número de cigarros gradativamente. Segundo Paulo Corrêa, coordenador da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, o tratamento para o fumante, precisa ser personalizado. É necessário ter uma conversa com o paciente e verificar o funcionamento psicológico e comportamental. Contudo, existem alguns hábitos que são fundamentais para quem busca parar:

PRATIQUE ATIVIDADES FÍSICAS

É recomendado que as pessoas que desejam parar de fumar pratiquem atividades físicas  que gostem. O cigarro é conhecido por diminuir o colesterol bom, o HDL, enquanto os exercícios físicos aumentam.

“A atividade aeróbica ajuda porque ela previne um pouco a nicotina, tira o apetite, aumenta o metabolismo. A pessoa que para de fumar, tende a ganhar algum peso, então a gente estimula a atividade física a aeróbica, que vai tanto liberar os neurotransmissores quanto dar a sensação de prazer. Você  está tirando o prazer artificial e colocando o natural”, explica Corrêa.

FAÇA DIETAS LEVES

Atente-se aos alimentos consumidos. Uma das preocupações de quem deseja parar de fumar é o ganho de peso. É importante entender que é normal o aumento do apetite durante O período pós-cessação, mas não passa de uma sensação temporária. Portanto, é recomendado seguir uma dieta mais leve, evitando carboidratos e gorduras.

“Você vai ter mais apetite. Procuramos estimular hábitos saudáveis. A pessoa está acostumada com hábitos muito ruins (fumar), então a gente tenta povoar os hábitos com coisas mais positivas (atividades físicas, dieta mais leve).

ELIMINE GATILHOS

Os gatilhos são adversários diretos para os indivíduos que querem parar de fumar. Alguns estão ligados à alimentação (o exemplo mais comum é o café); outros ao ambiente, tanto de casa quanto do trabalho. Sendo assim, modifique elementos de casa, principalmente os que dão estímulos para começar a fumar.

“Se você tem um canto da casa em que costumava fumar, chame uma empresa que vai tirar o cheiro ( ruim), jogue a cadeira que você sentava fora. Mude os móveis de lugar para ter outra dinâmica”, diz Corrêa.

BÔNUS: ‘CANTO DO CASTIGO’

Por mais que funcionem, as técnicas citadas não são garantias de eficácia. Por isso, especialistas vivem testando métodos diferentes. É o que relata a professora da Faculdade de Medicina da USP e diretora do programa de tratamento do tabagismo do Incor, Jaqueline Scholz:

“Eu tenho a minha própria técnica, chamada de “fume de castigo”. O indivíduo precisa se isolar e se deslocar, obrigando-o a se esforçar para fumar. Então se ele quiser beber um café, que beba, sentado e na hora de fumar, que ele tenha que se levantar e ir para o “cantinho do castigo”. Onde ele vai para uma área externa da casa ou área de serviço, fica de pé, parado e olhando a parede. Em um estudo feito, das 75 pessoas que aderiram ao protocolo, houve uma redução de 30 a 50% no consumo”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SE ORGANIZAR DIREITINHO, TODO MUNDO AMA

Poliamor quebra monopólio da monogamia nas séries de TV, refletindo mudança de comportamento já em curso fora das telas, sobretudo entre os jovens

Triângulos amorosos são fundamentais na geometria das séries de TV. Na primeira versão do hit teen “Gossip Girl”‘, de 2007, o motor da trama era a disputa entre as ricas nova-iorquinas Blair e Serena pelo bonitão Nate. Na nova versão, do ano passado, parecia que a dinâmica se repetiria com os personagens Audrey, Max e Aki. Só que não: quebrando expectativas e paradigmas, o triângulo virou trisal, lance que gerou elogios da crítica e identificação do público.

Romper com paradigmas da monogamia é um recurso cada vez mais comum nas séries, especialmente naquelas voltadas para jovens – além de “Gossip Girl” (HBO Max), variações desta história surgem em produções como “Por que as mulheres matam” (Globo play), “Elite”, ”Wanderhust” (ambas da Netflix) e a nacional “Love3” (Prime Vídeo), lançada este ano. Para especialistas, é reflexo do que já ocorre fora das telas.

“A TV não faz revolução. Normalmente, mostra-se alguma coisa que já tem algum grau de aceitação na sociedade”, pontua Lúcia Loner Coutinho, doutora em Comunicação pela PUC-RS. “Há também uma função didática: apresentar a situação para quem tem menos acesso à informação e, a longo prazo, ajudar no processo de compreensão do outro. Sem contar que a representação é importante.

Para Felipe Braga, criador e diretor da série brasileira “Lov3”, discutir esse tema em produções audiovisuais é importante como “exercício de tolerância, empatia e autoconhecimento”.

“Os jovens de hoje se pautam por uma premissa simples: a de que um indivíduo tem o direito de ser absolutamente o que quiser. Questionar padrões significa pôr em prática essa premissa, exercitando-a cotidianamente, o que não é necessariamente simples ou indolor. A juventude contemporânea parece sobretudo disposta a discutir esses temas sem medo. A experiência dos personagens na tela servepara nos indicar caminhos, para entendermos que não estamos sozinhos em nossas angustias.

Se antes a cultura pop, principalmente a made in Hollywood, moldava e refletia o modelo de amor romântico, agora ela abraça a realidade de que 43% dos millenials descartam a relação monogâmica como a ideal, segundo levantamento de 2020, feita pelo Instituto de pesquisa YouGov.

“O amor é uma construção social. Todo mundo pode ter relações não monogâmicas e, no momento, está se abrindo espaço para que cada um escolha sua forma de viver”, diz Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora de 14 livros sobre relacionamento amoroso, entre eles “Novas formas de amar”. “Se uma pessoa quiser ficar casada 40 anos e fazer sexo só com o seu parceiro está tudo certo, desde que essa monogamia seja espontânea, o que é raro. Se daqui a 30 anos as relações não monogâmicas forem predominantes todo muda de figura.

VOO SOLO

O conceito consagrado de poliamor é a possibilidade prática de amar e ser amado por  várias pessoas, com todos os participantes confortáveis nessa situação.

Mas, naturalmente, a coisa não precisa ser tão fixa. Há ainda o poliamor solo ou solopoli, ou seja, alguém que está sempre livre para namorar quantas pessoas sentir vontade e, ao mesmo tempo, não se prender a elas, sem necessariamente viver sob o mesmo teto ou construir uma família.

Mas nada éuma regra e tudo pode mudar de acordo com as relações que se formam pelo caminho, como explica Isane Farias, Iris Ribeiro e Igor Almeida.

Moradores de Salvador, os três se consideram “poliamoristas com relação livre”, formam  um trisal desde 2019 e moram juntos. Inicialmente, Isane e Igor eram um casal heterossexual que resolveu abrir o relacionamento para novas possibilidades. Assim Isane conheceu Íris e as duas começaram a se encontrar (sem Igor). Só mais tarde Iris também se conectou com Igor e, hoje, os três tem um relacionamento livre, ou seja, os três podem ter relacionamentos com outras pessoas. A base de tudo para eles, éa conversa.

“É muito sobre liberdade e autonomia”, conta Íris. “A aceitação da família foi um pouco difícil, e a gente sofre ainda mais porque além de trisal, somos livres”.

A soteropolitana Isane acrescenta que é importante fazer o exercício de não hierarquizar as relações. Segundo ela, todas as possibilidades de relacionamento têm mais a ver com estar emocionalmente disponível para viver um amor do que com o sexo propriamente dito.

Enquanto isso, Danilo vive a não monogamia de maneira diferente do trio de Salvador. O morador de São Paulo também está em um trisal, mas os três só se relacionam entre si. Assim como Isane e Igor, que já mantinham um relacionamento, Danilo e o marido, César, acabaram se interessando por uma terceira pessoa, Heriberto, e então, decidiram embarcar neste novo arranjo. Nas datas comemorativas, feriados, viagens e festas em família, os três estão sempre juntos.

Este éo segundo relacionamento a três que Danilo e César vivem. O primeiro durou dois anos; esteacaba de completar 12 meses.

“Nunca achamos que a terceira pessoa é a solução de um problema. Funciona justamente porque nossa base funciona”, conta Danilo. “No início, amigos próximos perguntavam se estava tudo bem… Era difícil aceitar. Mas é uma relação leve, de equilíbrio, cuidado e respeito uns pelos outros.”

São histórias como essas que servem de inspiração para a ficção. Em “Gossip Girl”, Audrey e o colega Aki namoram desde a pré-adolescência e, no meio do caminho, se veem apaixonados e interessados pelo melhor amigo, Max. Já em “Elite”, tudo começa como um jogo de sedução:

Polo sentia prazer em saber que Carla estava sendo amada e desejada por outro, no caso Christian. A interação à distância foi tamanha que os três passaram a se relacionar. Em “Porque as mulheres matam”, disponível no Globo play, Taylor é uma advogada bissexual que mantém um casamento aberto com o escritor Eli. Até que ela se apaixona por Jada e a leva para morar com os dois, formando um trisal.

APP ESPECÍFICO

Mesmo que as novas formas de amar estejam sendo representadas em seriados populares, o preconceito e o medo da exposição ainda assustam. A reportagem, por  exemplo, encontrou dificuldade em achar quem aceitasse compartilhar suas histórias.

Uma saída para quem quer manter a discrição tem sido os aplicativos específicos para quem busca uma relação poliamorosa. Ysos, Feeld, 3Fun e Pitanga são algumas opções. Apesar dessas plataformas serem especificamente para adeptos e/ ou interessados em relações não monogâmicas, é comum que ainda assim os usuários se escondam.

Ao se cadastrar no Pitanga, por exemplo, é normal ver fotos sem rostos ou de paisagens, além de identificações de usuários que não refletem os verdadeiros nomes das pessoas. O app lançado em 2016 conta hoje com 250 mil usuários, diz o idealizador da plataforma, Venícios Belo. Segundo ele, entre os perfis, 45% são de casais, 35% de homens e 20% de mulheres. A faixa etária predominante vai de 24 aos 40 anos.

“Compreendo que o amor é muito maior do que a gente pode imaginar”, opina Venícios. “O que temos percebido é que cada vez mais casais têm se registrado em busca de outros amores. As pessoas estão se entregando a viver as relações. Para Regina Navarro Lins, questionar a monogamia passa pela busca por individualidade. E esclarece que, sim, dá para amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

“Tanto romanticamente quanto eroticamente. Muitos se sentem na obrigação de fazer uma escolha e isso gera conflitos e sofrimento”, diz a pesquisadora. “Acredito que, daqui a um tempo, vamos ver formas de viver totalmente diferentes das que fomos ensinados.”

Criador da série “Lov3”, Felipe Braga também mira o futuro:

“Falar de relacionamentos não monogâmicos na série é uma oportunidade de discutir uma sociedade pós-patriarcal, em que a política dos afetos e corpos legitima outros modelos de relação, de desejo e de família. Mas sem jamais perder de vista que deve persistir o respeito pelo outro.

ILEGAL, MAS EXISTE

Um ponto que dificulta o reconhecimento das relações poliafetivas é a falta de legislação que as protejam enquanto instituição familiar. Exemplo: no último domingo, um trisal de Londrina, no Paraná, formado por Maria Carolina Rizola, Douglas Queiroz e Klayse Marques teve um filho. Agora, Maria e Douglas lutam na Justiça para ter o nome de Klayse registrado na certidão de nascimento da criança como mãe afetiva.

O advogado César Fonseca fez seu trabalho de conclusão de curso na UFRJ sobre a possibilidade jurídica de uniões poliafetivas. Ele ressalta que “a poliafetividade não é legal, mas é fática, está no dia a dia”. Isane, Íris e Igor, por exemplo, já vivem juntos como família. E pensam em ter filhos daqui a uns anos.

“O direito nasce da necessidade das pessoas. Essas pessoas vivem algo que não é abordado na legislação, mas que, no fim das contas, não traz prejuízo a ninguém. E mesmo assim o Estado se recusa a prestar qualquer tipo de proteção a elas”, desabafa César, explicando que conviveu com amigos que vivem na condição de família poliafetiva. “Outro posto-chave é a questão da autonomia da vontade. Elas vivem naquela situação e se consideram uma família. Não é o Estado que tem que bater na porta delas e dizer que não é.

5 PASSOS RUMO AO POLIAMOR

Muitas dúvidas surgem quando se deseja adotar a não monogamia. Não há “script” a ser seguido, mas especialistas e poliamoristas destacam alguns pontos que acreditam ser importantes para quem pensa em optar por este formato de relacionamento

PESQUISE

É importante buscar informação sobre a não monogamia. Ler livros, ouvir podcasts, seguir páginas que falam do tema e, se possível, conhecer exemplos próximos.

PALAVRA

Processo de autoconhecimento, o olhar para si, para entender quais são seus desafios, o que está disposto a viver e quais os seus limites.

FALAR MESMO

É preciso manter uma comunicação constante com os integrantes da relação. Expressar os medos, vulnerabilidades, inseguranças. Assim se constrói uma parceria por meio do diálogo.

REDE DE APOIO

Uma rede de apoio é fundamental. Busque pessoas que acreditem na forma do poliamor, para ter trocas sobre as experiências.

PACIÊNCIA

Será um relacionamento construído passo a passo. Afinal, vivemos em uma sociedade monogâmica, e a desconstrução do padrão leva um tempo. Não se cobre, e procure não cobrar os outros.

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