OUTROS OLHARES

MENOS CONTEÚDO, MAIS ENVOLVIMENTO

Para preparar os jovens para o mercado de acordo com as necessidades do mundo contemporâneo, é necessário direcionar o foco do conteúdo para competências comportamentais.

Menos conteúdo, mais envolvimento

O desempenho acadêmico na Finlândia está longe de ser garantia de uma vida bem­sucedida. Apesar de bem-vindas e desejadas, as boas notas – ao menos nos sistemas educacionais mais tradicionais – pouco revelam sobre alguns dos atributos mais valorizados em um mundo transformado pela informação, velocidade e automatização. Mas quais são esses atributos? Essa foi a pergunta de partida para o início de uma mudança profunda na educação no estado americano do Kansas. Para investigar quais são as capacidades que hoje integram a fórmula da realização pessoal e profissional de jovens, autoridades à frente de um projeto de reestruturação completa do sistema entrevistaram milhares de líderes, profissionais de destaque, pais e educadores.

A pesquisa revelou que 70% das habilidades citadas pela comunidade não são consideradas acadêmicas, o u seja, não fazem parte do currículo obrigatório. No grupo dos líderes de negócios, as qualidades que não se avaliam nas escolas responderam por mais de 80% das listadas.

A partir dos resultados, educadores estão desenhando uma mudança profunda na educação do estado do Kansas, em um projeto tão audacioso que está sendo comparado às missões que levaram o homem à lua no mandato de Kennedy. Os sete distritos selecionados para dar início às mudanças foram batizados de Mercury Seven e cada um é representado por um astronauta da missão espacial.

O desenvolvimento social e emocional, maturidade pré-escolar, planos individuais de estudo são alguns dos pilares que sustentam o plano de remodelagem educacional. As escolas irão basear suas atividades interdisciplinares em projetos construídos pelos alunos.

Para promover o desenvolvimento de habilidades não acadêmicas valorizadas pelo mercado e consideradas fundamentais na formação de pessoas bem-sucedidas, o novo sistema irá redirecionar o loco do conteúdo para competências comportamentais (soft skills) – como relacionamento interpessoal, comunicação e autoconfiança -, exercício do pensamento crítico, flexibilidade cognitiva e atividades extracurriculares, incluindo educação financeira. Nos primeiros anos do ensino formal, será enfatizado o ensino da música e atividades criativas.

A quebra da estrutura convencional estará presente nas formações das classes, não necessariamente divididas por idade, mas pela experiência e interesse dos alunos; e também na forma de avaliar, diferente dos testes convencionais voltados ao conhecimento de conteúdo. E como hoje sabemos que os domínios cognitivos não pertencem a um campo privilegiado e desconexo do físico, o projeto contempla a integração das atividades físicas com as intelectuais.

As investigações de onde partiu o desenho do programa reafirmam o resultado de outras pesquisas. Um relatório da Fundação Carnegie em parceria com a Universidade de Harvard e o Centro de Pesquisa de Stanford aponta que as chamadas competências comportamentais respondem por 85% do sucesso profissional e apenas 15% da formula é composta por ingredientes acadêmicos.

No ano passado, o Fórum Econômico Mundial divulgou um relatório mostrando que nos próximos anos a automatização irá eliminar 5 milhões de empregos e, em contrapartida, muitas atividades que ainda não existem serão a ocupação de grande parte dos estudantes de hoje. De acordo com o relatório, esse mercado em rápida transformação exige e valoriza os atributos que são os diferenciais humanos em relação às máquinas.

Na lista das competências mais necessárias para o mercado do futuro estão, nessa ordem, resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, administração de pessoas, trabalho em equipe, inteligência emocional, tomada de decisões, relacionamento com cliente e flexibilidade cognitiva.

São atributos que, mesmo estando naturalmente presentes em muitas pessoas, podem ser adquiridos e exercitados desde a infância. Para isso, parte do tempo em que estudantes ficam sentados ouvindo passivamente precisa ser transformada em desafios que estimulem o envolvimento das crianças.

A educação convencional não apenas deixa de trabalhar habilidades importantes para a vida como acaba por reprimi­las. Uma educação baseada na cooperação entre alunos e na sua participação ativa na construção de conhecimento, pelo contrário, utiliza-se das tendências naturais das crianças como forma de motivá-las. Conforme coloca o psicólogo e pesquisador em Antropologia e Educação Peter Gray, em Free to Leam (“Livre para Aprender”, sem edição brasileira), ”somos por natureza uma espécie intensamente social, projetada para cooperar. (…) mas apesar dos discursos que estudantes ouvem sobre o valor da cooperação, as próprias escolas trabalham contra esse comportamento. Da maneira como funcionam, ensinam o egocentrismo. A competitividade forçada, as notas e rankings implicitamente ensinam que o dever de cada um é cuidar de si e se sair melhor que os outros”.

Os projetos interdisciplinares, movidos pelo interesse e curiosidade dos alunos, permitem a ampliação do conceito de inteligência para além de capacidades e conhecimentos que podem ser mensurados em testes convencionais. Ensinam e aprimoram a forma como os jovens se relacionam com os outros e com eles mesmos.

 

Michele Müller – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

PSICOLOGIA ANALÍTICA

SOBRE FELICIDADE E PROPÓSITO

Falar sobre propósito virou moda tanto no âmbito profissional quanto pessoal. Mas será que as pessoas sabem do que estão falando?

Sobre Felicidade e propósito

Quem atua no mundo organizacional sabe bem: de tempos em tempos surgem modismos, expressões e às vezes até mesmo novas palavras que viram febre e são repetidas à exaustão por pessoas que nem sempre sabem sobre o que estão falando exatamente. A bola da vez é o “propósito”. O marketing descobriu que o discurso do propósito é capaz de impulsionar as vendas e, com isso, tem se dedicado à “fabricação” de propósitos organizacionais para empresas incautas e pouco autênticas que provavelmente, no passado, recorreram a esses mesmos profissionais para construírem suas missões não com alguma intenção muito mais sofisticada além de simplesmente as exibirem em suas home pages. A confusão em torno do tema propósito é tanta que consultorias e escolas de negócios respeitadas chegam a trabalhar o tema em seus treinamentos gerenciais, alheias acerca do fato de que a definição do propósito organizacional é uma decisão estratégica e, assim sendo, deve ser capitaneada pelo boad da empresa, ainda que este decida consultar suas lideranças. Sem dúvida, a definição do propósito organizacional, quando genuína, devo salientar, é capaz de trazer inúmeros benefícios para as empresas. Quanto aos indivíduos, a realidade é exatamente a mesma: uma imensa confusão quanto à definição do conceito de propósito, aliada a benefícios ainda mais extraordinários que o mesmo é capaz de lhes render. É por isso que prefiro me ater ao propósito pessoal, pois, a menos que você seja um empresário, é o único sobre o qual é possível exercer algum controle.

Podemos ver a relação entre propósito e felicidade recorrendo ao conceito de Ed Diener de bem-estar subjetivo, tido por muitos como uma espécie de “nome científico” da própria felicidade: “Avaliação, tanto cognitiva quanto afetiva, que uma pessoa faz acerca de sua própria vida e que inclui: experiências emocionais agradáveis, baixos níveis de humores negativos e alta satisfação em relação à vida”. Como podemos ver, trata-se de um conceito que possui três aspectos principais: uma avaliação (portanto um balanço) que a pessoa faz de sua vida, o que nos mostra que não se trata de um simples momento, mas de uma coleção deles, outro aspecto diz respeito a um predomínio de emoções positivas (e aqui não se está falando apenas de prazer, como, estranhamente, alguns preferem acreditar) e, por fim, o conceito de BES fala de um terceiro aspecto que tem sido sistematicamente ignorado, ou seja, a alta satisfação em relação à vida. É claro que algumas pessoas podem se dizer muito satisfeitas com suas vidas simplesmente por viverem uma grande quantidade de situações prazerosas, ou mesmo por simplesmente viverem mais emoções agradáveis do que desagradáveis. É bem possível que o próprio Diener tenha pensado tal satisfação como o simples predomínio de emoções agradáveis. Além disso, acho mesmo que se fizéssemos uma pesquisa sobre o tema talvez obteríamos muitas respostas apontando nesse sentido. Mas a realidade dos consultórios de Psicologia me parece bem diferente. É cada vez mais comum recebermos pacientes com anomia, ou seja, sofrendo de ausência de sentido. Fora isso, suas vidas chegam mesmo a ser boas, razão pela qual, não raro, sentem-se culpados e “sem o direito de reclamar” (talvez, por isso, jamais seriam sincero sem uma pesquisa). É por essa razão que entendo a satisfação expressa no conceito de BES de uma maneira um pouco diferente, visto minha experiência clínica ter me mostrado repetidas vezes que a verdadeira satisfação, aquela capaz de nos preencher de sentido, é possível por meio de uma única coisa: propósito pessoal. Parafraseando Viktor Frankl, o propósito nos traz “objetivos dignos de nós mesmos” e, ao alcançá-los, temos a certeza de que nossas vidas não estão passando inutilmente.  Porque aquele que conhece o que de melhor tem a oferecer e, efetivamente, utiliza tais recursos em prol de algo maior do que si mesmo atinge a excelência, conquista a sua completude e, de quebra, faz do mundo um lugar melhor pra se viver.  Essa é a felicidade genuína!

 

Lilian Graziano – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA lnstitute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

GESTÃO E CARREIRA

AUTOCONCEITO PROFISSIONAL

A autoestima deve ser considerada como um fator importante para desenvolver-se na carreira, avaliar as habilidades e a capacidade de superar dificuldades a partir de recursos internos.

Autoconceito

Você já deve ter ouvido falar que uma pessoa que tem autoconfiança e autoestima possui mais chances de se posicionar no mercado. Isso ocorre porque a utilização dos recursos internos para a produtividade e realização é mais frequente e se conseguem alcançar melhores resultados a partir do senso de capacidade e de autovalorização para a concretização de objetivos. A psicóloga Beatriz Acampora afirma que “a autoestima é a fonte do nosso poder pessoal, da capacidade que todo ser humano tem de influenciar e ser influenciado nas relações sociais. Em todos os tipos de relações a autoestima é o pano de fundo, pois ela determinará o modo como o indivíduo vai respirar, se emocionar e agir. Em situações de trabalho, por exemplo, pessoas com alta autoestima tendem a ser mais ágeis, a falar assertivamente o que querem, a lutar pelos seus objetivos de forma clara. Uma pessoa com alta autoestima acredita em si mesma, é o que quer ser, goza a vida e assume responsabilidades sem culpar os outros ou se justificar pelas escolhas que faz”.

O mundo atual é repleto de cobranças, estimulação à competição, comparações e busca por um alto padrão de realização de tarefas, almejando sempre melhores resultados. Nesse sentido, é inevitável que as pessoas cobrem a si mesmas para fazer parte das exigências sociais. O autoconceito e a autoconfiança vêm sendo cada vez mais exigidos no mundo do trabalho, pois formam o alicerce para a atuação em equipe e a efetividade das ações em prol dos objetivos organizacionais.

Dessa forma, relaciona-se o auto­conceito com o trabalho em equipe, o alcance de determinados resultados para a organização e a satisfação no trabalho. O autoconceito profissional é definido por Souza & Puente ­ Palacios, no artigo “A influência do autoconceito profissional na satisfação com a equipe de trabalho” (2011, p. 4), como: “A percepção que o indivíduo tem de si em relação ao trabalho (tarefas) que executa”. Tal definição considera o autoconceito em função de percepções individuais relacionadas à realização profissional, à competência, à autoconfiança e à saúde, que são as suas dimensões constitutivas.

A realização profissional está, dessa forma, relacionada ao sentimento de competência diante dos processos de trabalho e das exigências cotidianas e tem conexão com a saúde, entendida a partir de um amplo espectro que envolve a vida psíquica, biológica e social.

O sentimento de competência implica o indivíduo apreender que tem um conhecimento específico e é capaz de colocá-lo em prática em prol de determinados resultados exigidos no ambiente laboral. Para que o senso de competência exista, é preciso um investimento do próprio sujeito no aprimoramento de suas habilidades.

Cada indivíduo, em sua relação com o trabalho, desempenha de determinado modo sua atividade, o que depende da maneira como ele se vê diante da tarefa executada, de como se relaciona consigo e com as pessoas da equipe da qual faz parte, com sua produção e sua autorrealização no trabalho.

A satisfação no trabalho e a realização profissional caminham juntas, uma vez que, quando o indivíduo percebe a si mesmo como capaz, útil e parte integrante de algo maior, competente e autoconfiante para realizar suas atividades laborais, há maior comprometimento com seu papel na organização, principalmente se esta oferece infraestrutura, benefícios, plano de cargos e salários adequados.

Assim como a organização escolhe o indivíduo mais capacitado para atuar em determinado cargo, o trabalhador também escolhe a organização que supra suas necessidades de realização profissional. Quanto mais qualificado é o trabalhador e mais exigências o cargo requer, maior essa relação de reciprocidade.

Indivíduos que acreditam no seu potencial e têm um alto autoconceito profissional tendem a ser mais resilientes, pois confiam que podem aprender constantemente e assumir novas responsabilidades, flexibilizando suas atividades e negociando prazos. Uma pessoa que tem autoconfiança na sua capacidade de trabalho supera os obstáculos em prol de melhores resultados e da sua autorrealização.

Toda empresa deve investir em um ambiente corporativo que propicie o autoconceito profissional, facilitando a valorização profissional, a comunicação assertiva, metas que sejam possíveis de serem alcançadas, acompanhamento dos processos de trabalho, o avanço da autonomia do profissional, reuniões de alinhamento e de feedback, um clima organizacional favorável às relações humanas, com respeito, tornando-se, assim, facilitadora de um autoconceito profissional positivo que traga resultados mais satisfatórios para o trabalhador e para a própria organização.

 

João Oliveira – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br) Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam, Tenha as Soluções Jogos para Gestão de Pessoas, Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 16: 24-28

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O Valor da Alma

Tendo Cristo mostrado aos seus discípulos que Ele deveria sofrei e que estava preparado e disposto a fazê-lo, aqui Ele lhes mostra que também eles devem sofrer, e que devem estar preparados e dispostos para isso. O sermão que temos nesses versículos é tenso.

I – É aqui que a lei do discipulado se afirma e são estabelecidos os termos, sobre os quais podemos ter a honra e os benefícios dela (v. 24). Jesus disse aos seus discípulos que não somente deveriam instruir a outros sobre isso, mas que, de acordo com esta regra, cada um deles deveria examinar a sua própria situação. Considere:

1.O que é ser um discípulo de Cristo: é segui-lo. Quando Ele chamou os seus discípulos, esta foi a palavra de ordem: “Segue-me”. Um verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que o segue no dever, e o seguirá na glória. Ê aquele que segue ao Senhor, não para lhe dar conselhos, como Pedro agora decidiu fazer, ao esquecer do seu lugar. Um discípulo de Cristo o segue, como a ovelha segue o pastor, o servo segue o seu mestre, os soldados seguem seu capitão; é aquele que aspira o mesmo fim que Cristo aspirou, a glória de Deus e a glória dos céus; é aquele que anda da mesma maneira que Ele andou, é conduzido por seu Espírito, segue os seus passos, submete-se à sua direção, e segue o Cordeiro para onde quer que Ele vá (Apocalipse 14.4).

2.Quais são as grandes coisas que se requer daqueles que desejam ser discípulos de Cristo: “Se alguém quiser vir”, – se algum homem estiver disposto a vir. Isto sugere uma escolha deliberada, disposição e resolução na escolha. Muitos são discípulos mais por acaso ou pela vontade de outros do que por qualquer ato de sua vontade própria. Mas Cristo terá o seu povo voluntariamente (Salmos 110.3). Ê como se Cristo tivesse dito: “Caso qualquer um que não seja meu discípulo esteja fortemente inclinado a vir a mim, e se vocês, que são meus discípulos, estiverem de igual modo inclinados a me seguir; será nestes termos – nestes, e não noutros: Vocês devem me seguir no sofrimento, como também em outras situações, e, por conseguinte, quando vocês se sentarem para computar os custos, considerem isso”.

Bem, quais são esses termos?

(1). “Renuncie-se a si mesmo”. Pedro aconselhou Cristo a ter compaixão de si, e estaria disposto, num caso semelhante, a considerar o conselho, mas Cristo diz a todos eles que não devem se compadecer de si mesmos, mas sim renunciarem a si próprios. E assim, devem seguir a Cristo, pois o seu nascimento, e a sua vida e morte, são todos um ato contínuo de renúncia a si mesmo e humilhação (Filipenses 2.7,8). Se renunciar a si mesmo é uma lição árdua, contra a natureza da carne e sangue, não é mais do que o nosso Mestre aprendeu e praticou antes de nós e por nós, para a nossa redenção e também para a nossa instrução; e “não é o servo maior do que o seu senhor”. Observe que todos os discípulos e seguidores de Jesus Cristo devem renunciar a si mesmos. A lei fundamental para a admissão na escola de Cristo, e a primeira e maior lição a ser aprendida nessa escola, consiste em renunciarmos a nós mesmos; é a porta e, ao mesmo tempo, o caminho estreito; isto é necessário para aprendermos todas as outras boas lições que nos são ensinadas. Nós devemos renunciar a nós mesmos completamente, não devemos admirar a nossa própria sombra, nem satisfazer os nossos caprichos; não devemos confiar em nosso próprio entendimento, nem procurar os nossos próprios interesses, nem permitir que a satisfação de nosso ego seja o nosso maior objetivo. Devemos renunciar a nós mesmos comparativamente; devemos renunciar a nós mesmos dedicando-nos a Cristo, à sua vontade e glória, e ao serviço dos seus interesses no mundo; devemos renunciar a nós mesmos pelos nossos irmãos, e pelo bem deles; e devemos renunciar a nós mesmos em nosso próprio benefício, ou seja, renunciar aos apetites do corpo em benefício da alma.

2.”Tome sobre si a sua cruz”. A cruz aqui representa todos os sofrimentos, como homens ou cristãos; aflições, perseguições devido à justiça, ou seja, cada problema que acontece conosco, tanto por fazer o bem como por não fazer o mal. Os problemas dos cristãos são apropriadamente chamados de cruzes, em alusão à morte na cruz, à qual Cristo obedeceu; e isso deveria trazer a solução para os nossos problemas, e tirar-nos o terror deles, já que eles são o que temos em comum com Cristo. E Ele os suportou antes de nós. Observe que:

[1]. Cada discípulo de Cristo tem a sua cruz e deve considerá-la. Assim como cada um tem o seu dever específico para ser cumprido, assim também cada um tem o seu problema diferente para suportar, e cada um sente mais o seu próprio peso. As cruzes são o legado comum dos filhos de Deus, mas desse legado comum, cada um tem a sua porção específica. Essa é a cruz que a Sabedoria Infinita designou para nós, e a que foi imposta pela Providência Soberana sobre nós, como adequada para nós. Ê bom que tomemos a cruz que nos corresponde, e a tomemos adequadamente. Podemos pensar que poderíamos suportar a cruz de outra pessoa melhor do que a nossa; mas a melhor situação é aquela que foi determinada por Deus, e nós devemos fazer o melhor que pudermos.

[2]. Cada discípulo de Cristo deve fazer o que o Deus sábio fez com a sua cruz. Esta é uma alusão ao costume romano de obrigar aqueles que eram condenados à crucificação a carregar a sua própria cruz; esta expressão foi ilustrada quando Simão Cireneu carregou a cruz de Cristo. Em primeiro lugar, supõe-se que a cruz encontra-se em nosso caminho e está preparada para nós. Não devemos criar cruzes para nós, mas devemos nos adequar àquelas que Deus nos deu. A nossa regra é não nos afastarmos do caminho do nosso dever, nem para encontrarmos uma cruz, nem para nos livrarmos de uma. Não devemos, por nossa precipitação e imprudência, colocar cruzes sobre as nossas próprias cabeças, mas devemos tomá-las quando estiverem posicionadas em nosso caminho. Assim, devemos lidar com a aflição para que não seja um obstáculo ou impedimento para nós em qualquer serviço que tenhamos de fazer para Deus. Nós devemos tirá-la de nosso caminho, vencendo o “escândalo da cruz”; e devemos continuar com ela em nosso caminho, mesmo que ela seja pesada. Em segundo lugar o que nós devemos fazer é não somente suportar a cruz (o que um tronco, uma pedra, ou uma vara podem fazer), nem somente ficar tranquilos debaixo dela, mas devemos erguer a cruz e aproveitá-la para conseguir bons benefícios. Não deveríamos dizer: “Isto é um mal e devo suportá-lo, porque não posso evitá-lo”, mas: “Isto é um mal e devo suportá-lo, porque trabalhará para meu benefício”. Quando nos alegramos com as nossas aflições, e nos gloriamos nelas, é quando tomamos a cruz. Isso acertadamente acompanha o “renuncie-se a si mesmo”; porque aquele que não renunciar aos prazeres do pecado, e as vantagens deste mundo, por Cristo, quando chegar o momento, nunca terá a coragem de carregar a sua cruz. “Aquele que não pode adotar a resolução de viver como um santo, tem dentro de si a demonstração de que provavelmente nunca morrerá como um mártir”.

(3). “Siga-me”, no sentido particular de carregar a cruz. Os santos sofredores devem considerar Jesus, e obter dele orientação e incentivo para o sofrimento. Podemos suportar a cruz? Nesse sentido, seguirem os a Cristo, que a suportou antes de nós, por nós e a retira de nós. Ele suportou o final oneroso da cruz, o final que tinha a maldição sobre si, que foi um fim sombrio, e dessa forma tornou a outra parte leve e fácil para nós. Ou nós podemos compreender isso de forma geral, ou seja, devemos seguir a Cristo em todos os exemplos de santidade e obediência. Observe que os discípulos de Cristo devem procurar imitar o seu Mestre, e consolar-se com todas as coisas, segundo o seu exemplo, e continuar fazendo o bem, quaisquer que sejam as cruzes que apareçam em seu caminho. Fazer o bem e sofrer o mal é seguir a Cristo. “Se alguém quiser vir após mim… siga-me”; esta parece ser uma redundância. Qual é a diferença? Certamente é que: “Se qualquer homem vier após mim, na fé, e dessa maneira ter o nome e crédito de um discípulo, que ele me siga na verdade, e assim realize o trabalho e o dever de um discípulo”. Ou então: “Se qualquer homem se dispuser a vir após mim, com bons princípios, continue a me seguir com toda perseverança”. Isto é seguir ao Senhor totalmente, assim como fez Calebe. Aqueles que buscam a Cristo devem segui-lo.

II – Aqui há argumentos para nos persuadir a nos submetermos a essas leis e a concordarmos com esses termos. A renúncia a si mesmo e o sofrimento resignado são lições difíceis, que nunca serão aprendidas se procurarmos os conselhos de outros seres humanos, a carne e o sangue; portanto, devemos consultar o nosso Senhor Jesus e ver que conselhos Ele nos dará; e aqui Ele nos dá:

1.Algumas considerações apropriadas para nos envolvermos nesses deveres de renúncia pessoal e sofrimento por Cristo. Considere:

(1). O peso da eternidade que depende de nossa escolha presente (v. 25): “Aquele que quiser salvar a sua vida”, negando Cristo, “perdê-la-á, e quem” é contente em “perder a sua vida”, confessando Cristo, “achá-la-á”. Aqui estão a vida e a morte, o bem e o mal, a bênção e a maldição, apresentados diante de nós. Observe:

[1]. A infelicidade que acompanha a apostasia mais plausível. ”Aquele que quiser salvar a sua vida” neste mundo, entregando a sua vida ao pecado, “perdê-la-á” no mundo por vir. Aquele que abandonar a Cristo para preservar uma vida temporária e evitar uma morte temporária, certamente não alcançará a vida eterna, e sofrerá a segunda morte; ele será eternamente preso por ela. Não pode haver uma desculpa mais favorável para a apostasia e para a iniquidade do que salvar a vida por ela. A lei da autopreservação é convincente; ainda assim, ela é uma tolice, porque no final ficará patente que ela é autodestrutiva; a vida, nesse caso, só é preservada por um momento. A morte, nessa circunstância, só é tratada como um descanso; mas a vida perdida é a eterna, e a morte que se encontra é o abismo e o complemento de toda desgraça, e a separação interminável de tudo que é bom. Ora, é necessário que todo homem racional pondere sobre isso, aconselhe-se e expresse os seus pensamentos, se há qualquer coisa conquistada, em última análise, pela apostasia, mesmo que por ela o homem salve os seus bens, a sua posição, ou vida.

[2]. O benefício que resulta da constância mais perigosa e cara: “Quem perder a sua vida” por amor de Cristo neste mundo, “achá-la” em um mundo eterno e melhor, para o seu próprio benefício. Considere que, em primeiro lugar, muitas vidas são perdidas por amor a Cristo, ao fazer a sua obra e ao trabalhar fervorosamente pelo seu nome, em um trabalho de sofrimento, ao preferir morrer a negar ao Senhor as suas verdades, ou os seus caminhos. A religião sagrada de Cristo nos é entregue, selada com o sangue de milhares, que não consideraram as suas próprias almas, mas menosprezaram as suas vidas (como Jó expressa, em outra situação), embora fossem muito valiosas, quando tomaram parte na obra de Deus, cumprindo os seus deveres e sustentando o “testemunho de Jesus” (Apocalipse 20.4). Em segundo lugar, embora muitos se coloquem, neste mundo, em uma posição de perdedores por amor a Cristo, perdendo até mesmo a própria vida, ainda assim, no final, jamais alguém foi ou será, para Ele, um perdedor. A perda de outros confortos por amor a Cristo pode, possivelmente, ser compensada neste mundo (Me 10.30); mas a perda da vida não pode ser compensada neste mundo. Por esta razão, ela será compensada no mundo vindouro, na vida eterna, cuja perspectiva fiel tem sido o grande apoio dos santos sofredores de todas as épocas. A certeza da vida que eles encontrarão, no lugar da vida que eles arriscaram, os capacitou a triunfar sobre a morte e todos os seus terrores; a ir sorrindo para o cadafalso, a suportar a fogueira cantando, e a responder às últimas instâncias da fúria dos seus inimigos como se fosse somente uma leve aflição.

[3]. O valor da alma que está na estaca ou na fogueira, e a falta de importância do mundo em comparação a ela (v.26). “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” A mesma palavra que se traduz por vida (v. 25), porque a alma é a vida (Genesis 2.7). Isto é uma alusão ao princípio comum de que tudo que o homem conseguir, se perder a sua vida, não poderá lhe fazer bem, porque ele não poderá desfrutar os seus ganhos. Mas não é só isso; tudo isso fala da alma como imortal, e da perda que pode ocorrer além da morte; uma perda que não pode ser compensa­ da, mesmo que alguém ganhasse o mundo todo. Considere que, em primeiro lugar, cada homem tem a sua própria alma. E a alma é a parte imortal e espiritual do homem que pensa, raciocina e tem o poder de reflexão e expectativa, que atua no corpo agora, e atuará em separado do corpo dentro de pouco tempo. A nossa alma não é nossa em relação a domínio e propriedade (porque não somos de nós mesmos. “Todas as almas não minhas”, diz Deus), mas quanto à proximidade e relação; a nossa alma nos pertence, porque ela é o nosso próprio ser. Em segundo lugar; é possível que a alma se perca, e este risco existe. A alma é perdida quando se separa eternamente de todo o bem, em direção a todo o mal de que a alma é capaz; quando se pode dizer, de forma figurada, que ela morre; quando é separada do favor de Deus e naufraga sob a sua ira e maldição. O homem nunca está destruído até que esteja no inferno. Em terceiro lugar, se a alma está perdida, isso se deve à perdição do próprio pecador. O homem perde a sua própria alma, porque faz aquilo que certamente a destruirá, e negligencia a única coisa que poderia salvá-la (Oseias 13.9). O pecador morre porque quer morrer: “O seu sangue será sobre a sua própria cabeça”. Em quarto lugar, uma alma é mais valiosa que todo o mundo; a nossa alma é mais valiosa para nós do que toda a fortuna, honra e prazeres desse momento presente, se os tivermos. Aqui o mundo todo está colocado na balança contra uma única alma, e o mundo todo é mais leve, tem menos valor do que uma única alma. Este é o julgamento de Cristo sobre o assunto, e Ele é o juiz competente. Quando se trata de saber o valor de uma alma, ninguém pode superar o nosso Senhor, porque Ele, e só Ele, as redimiu. E Ele não depreciaria o mundo, porque foi Ele que o criou. Em quinto lugar, vencer o mundo significa, frequentemente, perder a alma. Muitos arruinaram seus interesses eternos por causa de seus cuidados excessivos e irracionais para proteger e progredir em seus interesses profanos. É o amor pelo mundo e a avidez ao tentar obtê-lo que “submergem os homens na perdição e ruína”. Em sexto lugar, a perda da alma é uma perda tão grande, que o ganho do mundo inteiro não compensará a perda, nem a equilibrará. Aquele que perde a sua alma, mesmo que ganhe o mundo todo, faz uma péssima barganha para si, e por fim será um perdedor, em uma situação terrível e indescritível. Quando fizer o balanço final, e comparar as perdas e ganhos, descobrirá que, ao invés das vantagens que tinha prometido a si mesmo, ele arruinou todos os seus propósitos e intenções, e está irreparavelmente destruído.

“Que dará o homem em recompensa da sua alma?” Uma vez que a alma está perdida, estará perdida para sempre. Não há resgate que possa ser pago ou aceito. É uma perda que nunca poderá ser reparada e nunca será recuperada. Se, após o alto preço que Deus pagou para redimir nossas almas e nos restaurar à posse delas, elas forem negligenciadas dessa maneira no mundo, a ponto de se perderem, essa nova hipoteca nunca será paga; não haverá mais sacrifícios pelos peca­ dos, nem preços pelas almas, mas a redenção de uma alma nessa situação estará eternamente impedida. Por isso é bom sermos prudentes a tempo, e fazermos o bem a nós mesmos.

2.Aqui estão algumas considerações apropriadas para nos encorajar a renunciar a nós mesmos, e a sofrer por Cristo.

(1). A certeza que temos da glória de Cristo em sua segunda vinda para julgar o mundo (v. 27). Se olharmos para o fim de todas essas coisas, a situação do mundo atual, e a postura das almas, então formaremos uma ideia muito diferente do estado presente das coisas. Devemos procurar enxergar as coisas futuras, e viver, hoje, uma vida que seja compatível com a vida que teremos no mundo por vir.

O grande estímulo para permanecermos firmes na religião é a segunda vinda de Cristo. Devemos considerá-la:

[1]. Como honra sua: “O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos”. Considerar a Cristo em seu estado de humilhação, tão abatido, tão degradado, “opróbrio dos homens e desprezado do povo”, desencorajaria os seus seguidores de fazer qualquer esforço, ou de correr qualquer risco, por Ele; mas com os olhos da fé, ver o Capitão de nossa salvação vindo em sua glória, com toda a pompa e todo o poder do mundo superior, nos anima, e nos faz pensar que nada é demasiado para fazer, ou muito difícil para sofrer, por Ele. “O Filho do Homem virá”. Aqui Ele dá a si mesmo o título de sua condição humilde (Ele é “o Filho do Homem”), para mostrar que não tem vergonha de ostentá-lo. A sua primeira vinda foi na insignificância dos seus filhos. Ele compartilhou, como eles, a carne e o sangue. Mas em sua segunda vinda, Ele virá na glória de seu Pai. Na sua primeira vinda, Ele foi acompanhado de seus pobres discípulos; na sua segunda vinda, Ele virá acompanhado de gloriosos anjos; e se “sofrermos, também com ele reina­ remos” (2 Timóteo 2.12).

[2]. Como nosso interesse: “Então, dará a cada um segundo as suas obras”. Considere que, em primeiro lugar, Jesus Cristo virá como Juiz, para conceder recompensas e infligir punições, excedendo infinitamente o máximo que qualquer autoridade terrena tenha para agir e distribuir recompensas e punições. O terror do tribunal dos homens (cap. 10.18) será eliminado por uma expectativa confiante na glória do tribunal de Cristo. Em segundo lugar, então os homens serão recompensados, não de acordo com os seus ganhos neste mundo, mas de acordo com as suas obras, com o que eles foram na terra, e com o que fizeram. Nesse dia, a traição dos apóstatas será punida com a destruição eterna, e a perseverança das almas fiéis será recompensada com a coroa da vida. Em terceiro lugar, o melhor preparativo para esses dias será renunciar a si próprio, tomar a sua cruz e seguir a Cristo; porque somente assim faremos do Juiz nosso Amigo, e estaremos de acordo com os seus requisitos. Em quarto lugar; a recompensa dos homens de acordo com as suas obras será protelada até aquele dia. Aqui na terra, o bem e o mal parecem ser dispensa­ dos desordenadamente; não vemos a apostasia ser punida com golpes, nem a fidelidade ser encorajada com sorrisos imediatos vindos do céu; mas naquele dia, todas as contas serão acertadas. Por isso “nada julgueis antes de tempo” (1 Coríntios 4.5; veja 2 Timóteo 4.6-8).

(2). A nova abordagem do seu Reino neste mundo (v. 28). Estava tão próximo, que alguns que acompanhavam Jesus viveriam para ver. Como Simão estava certo de que não veria a morte até ver nosso Senhor vir em carne, também alguns estavam certos de que não sentiriam a morte (a morte é uma coisa perceptível, seu terror é visto, seu amargor é sentido) até terem visto o Senhor Jesus Cristo vindo no seu Reino. No fim dos tempos, Ele virá na glória do seu Pai; mas agora, na plenitude dos tempos, Ele viria no seu próprio Reino, no seu Reino mediador. Um pouco da sua glória foi manifestada poucos dias depois disso, na sua transfiguração (cap. 17.1); essa foi uma ocasião em que o Senhor vestiu as suas vestes reais. Mas isso indica a vinda de Cristo pelo derramamento do seu Espírito, pela semeadura do Evangelho por parte da igreja, pela destruição de Jerusalém e pela eliminação do lugar e da nação dos judeus, que foram os inimigos mais mordazes do cristianismo. Aqui estava vindo “o Filho do Homem no seu Reino”. Muitos dos presentes viveram para ver, particularmente João, que viveu até depois da destruição de Jerusalém e viu o cristianismo implantado no mundo. Que isso encoraje os seguidores de Cristo a sofrerem por Ele.

[1]. Que as suas missões serão bem-sucedidas; os apóstolos foram empregados no estabelecimento do reino de Cristo; que eles saibam, para seu próprio consolo, que a despeito de qualquer oposição que encontrem, ainda levarão a sua doutrina, e verão o trabalho das suas almas. Observe que é um grande incentivo para os santos sofredores te­ rem certeza, não somente da segurança, mas do avanço do reino de Cristo entre os homens, não somente ades­ peito de seus sofrimentos, mas por meio deles. A perspectiva confiante do sucesso do reino da graça, assim como da nossa participação no reino de glória, pode nos conduzir com disposição em meio aos nossos sofrimentos.

[2]. Que a sua causa será defendida; a morte deles será vingada, e haverá um acerto de contas com os seus perseguidores.

[3]. Que isso seja feito brevemente, no tempo presente. Quanto mais próximos estamos da salvação da igreja, mais alegres deveríamos estar no nosso sofrimento por Cristo. “Eis que o juiz está à porta”. Isto é dito como um benefício para aqueles que deveriam sobreviver ao sombrio tempo presente, e que deveriam ver dias melhores. Observe que é desejável compartilhar o júbilo da igreja (Daniel 12.12). Note que Cristo diz que alguns, não todos, viverão para ver aqueles dias gloriosos; alguns entrarão na terra prometida, mas outros cairão no deserto. Ele não lhes diz quem viverá para ver o seu Reino, pois, se soubessem, teriam afastado os pensamentos de morte; mas “alguns” deles viverão. “Eis que o Senhor é chegado”. “Eis que o juiz está à porta”. “Sede, pois, irmãos, pacientes”.