PSICOLOGIA ANALÍTICA

OUTRAS VOZES

Segundo algumas estimativas, cinco em cada 100 pessoas já tiveram alguma alucinação auditiva, um sintoma nem sempre associado a transtornos psiquiátricos. Isolamento social ou eventos traumáticos podem desencadear o fenômeno.

Outras vozes

De repente, alguém gritou seu nome: “Isabela!”. Intrigada, a mulher deu uma volta pela casa em busca da voz misteriosa. A sala estava vazia. Ninguém nos quartos, na cozinha ou no banheiro. No quintal apenas o cachorro. Ela estava realmente a sós. Isabela sentiu um calafrio. E quem não sentiria?  De fato, a alucinação auditiva é um sintoma comum em algumas doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia. No entanto, nem todos que passam por essa experiência têm necessariamente um distúrbio mental. O filósofo grego Sócrates e a heroína francesa Joana d ‘Arc. diziam ouvir vozes, assim como o psiquiatra suíço Carl Jung e o artista plástico americano Andy Warhol.

O fenômeno já foi interpretado segundo diversos costumes e culturas. No século 12, a abadessa e filósofa Hildegarda de Bigen ignorou a hierarquia eclesiástica porque acreditava que as vozes que escutava eram a palavra de Deus. Foi assim que, para perplexidade geral, ela fundou o próprio convento em 1147. Ainda hoje a alucinação auditiva é estigmatizada. Nos sistemas de classificação dos transtornos psiquiátricos, representa um critério-chave para o diagnóstico da esquizofrenia. Pesquisas indicam, porém, que o fenômeno é bem mais disseminado.

Levantamento realizado em 1983 pelos psicólogos Thomas B. Posey e Mary E. Losch, ambos da Universidade Estadual de Murray, Estados Unidos, revelou que cerca de 70% dos universitários entrevistados recordaram pelo menos um episódio de alucinação auditiva. Alguns pensavam ouvir a voz de algum parente morto, outros acreditavam numa manifestação divina. Para a maioria tratava-se dos próprios pensamentos. Entre os estudantes, 40% relataram ouvir alguém chamar seu nome pouco antes de adormecer.  Nesse caso, há divergências: alguns psicólogos classificam o fenômeno como alucinação, outros argumentam que quando se está prestes a dormir ou despertar há um rebaixamento da consciência e ficamos mais sujeitos às pseudo alucinações –  assim chamadas, pois sabemos que não se trata de algo real.

PENSANDO ALTO

É difícil, portanto, falar em alucinações auditivas como se fossem um único tipo de manifestação. Há um continuum de manifestações auditivas que vai do falar sozinho ao pensar em voz alta. Isso explica por que os resultados das pesquisas nessa área variam tanto, dependendo da pergunta que se faz aos entrevistados e, principalmente, de como as experiências relatadas são classificadas. Segundo o psicoterapeuta Thomas Bock, diretor do ambulatório de psicoses do Centro Médico da Universidade de Hamburgo, de 3% a 5% da população europeia e americana já teve alucinações auditivas, embora a prevalência mundial de esquizofrenia seja de apenas 1%. Logo, nem todas as “vozes do além” são sintomas de distúrbios psicóticos. Muitas das pessoas que ouvem vozes geralmente passaram por experiências de abuso ou abandono na infância. Eventos traumáticos na idade adulta, como acidente grave, estupro ou perda de um ente querido também podem desencadear o fenômeno. A maioria sofre com conflitos psíquicos e se encontra em alguma situação-limite. “As alucinações auditivas seriam um sinal de que a ‘voz interior’ está ocupada, cuidando das próprias necessidades”, afirma Bock. Segundo ele, para alguns pacientes a voz tem origem interna e para outros, externa. A neurobiologia ajuda a entender o segundo caso: circuitos cerebrais que fornecem feedback do tipo “sou eu que estou falando” eventualmente falham.  Esse parece ser o caso dos esquizofrênicos, grupo em que as alucinações auditivas foram mais investigadas.

O psiquiatra Philip McGuire, do Instituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, realizou diversos experimentos com esquizofrênicos, nos quais testou o que chama de atribuição heterônima. Em um deles, McGuire colocou pacientes e pessoas saudáveis para falar ao microfone, ao mesmo tempo que ouviam sua própria voz, levemente modificada. Os participantes tinham de pressionar um botão quando achassem que estavam ouvindo a si mesmos. Como esperado, os esquizofrênicos tiveram mais dificuldades para identificar a própria voz; entre esses, os que costumavam ouvir sons imaginários atribuíam a fala a uma fonte externa, além de avaliá-la de forma depreciativa.

Técnicas de imageamento cerebral fornecem explicações adicionais sobre determinados aspectos fisiológicos das alucinações auditivas. As regiões aparentemente envolvidas são as relacionadas à linguagem, principalmente a área de Wernicke, responsável pela associação entre fala e audição. Diversos estudos, entre eles os conduzidos pelo neurobiólogo Thomas Dierks, da Universidade de Frankfurt, comprovaram por meio de tomografia helicoidal que essa região cerebral está envolvida nas alucinações auditivas. Utilizando o mesmo método, a equipe de Dierks observou, em 1999, o cérebro de três esquizofrênicos no exato momento em que ouviam as vozes imaginárias. Perceberam que, além da área de Wernicke, também o córtex auditivo primário (área que elabora nossa impressão auditiva do mundo exterior) era estimulado. Não surpreende, portanto, que as alucinações pareçam reais. Outros estudos mostraram que, em pacientes com alucinações auditivas graves, a área de Wernicke parecia menor ou atrofiada.

 CIRCUITOS NEURAIS

A experiência de ouvir vozes não precisa estar necessariamente relacionada a uma alteração neurobiológica. Uma hipótese corrente é que o cérebro simplesmente carece de estímulos do mundo exterior, de modo que os inventa. Em 1992, o neurologista Detlef Kõmpf, da Universidade Schleswig-Holstein, em Lübeck, Alemanha, observou que a ausência de estímulos sonoros pode causar alucinações musicais em idosos ou deficientes auditivos. Segundo ele, o cérebro é capaz de reter informações apreendidas nos circuitos neurais durante muito tempo. Se um dia os estímulos cessam, os sinais armazenados acabam ganhando “vida própria”. Pessoas que ouvem vozes em geral são muito retraídas e o fenômeno intensifica o isolamento social.

A tolerância do indivíduo às vozes imaginárias é o critério que determina a necessidade de intervenção clínica. Na prática, as alucinações se distinguem entre a audição eventual de vozes e as descritas por pacientes em tratamento psiquiátrico. A diferença foi estabelecida em 1998 pelo psiquiatra Marius Romme, da Universidade de Maastricht, Holanda. Embora em ambos os casos os pacientes escutem diálogos, comentários ou a reprodução sonora dos próprios pensamentos, os pacientes psiquiátricos relatam conteúdos ofensivos ou repreensões. Pessoas saudáveis costumam ouvir palavras benevolentes e motivadoras e têm a sensação de poder controlar as vozes.

Falar com o paciente como se ele tivesse uma doença grave muitas vezes só agrava o problema, com risco de a pessoa se retrair ainda mais. Deixá-los falar livremente sobre suas vozes, por outro lado, faz com que elas percam um pouco a força. Segundo Bock, esse é o primeiro passo para controlar a situação. Na tentativa de libertar as pessoas das alucinações auditivas, o psiquiatra Ralph E. Hoffman, da Faculdade de Medicina da Universidade Yale, em New Haven, as submete a estimulação magnética transcraniana de baixa intensidade. A técnica começou a ser usada em esquizofrênicos em 2000. Estudo publicado em 2005 mostrou que em metade dos casos as alucinações cessam ou são reduzidas nos três meses seguintes. Os resultados em indivíduos saudáveis ainda estão em fase de avaliação.

Se não é possível afastar as vozes para sempre, mudar a forma como a pessoa as avalia já ajuda muito. Ainda que o conteúdo da mensagem ouvida continue negativo, intenções e características que lhe são atribuídas podem ser interpretadas de outra maneira. Segundo as recomendações da organização alemã de apoio a pacientes com distúrbios psiquiátricos Netzwerk Stimmenhõren, o principal objetivo é fazer o indivíduo “senhor de sua própria casa”. Assim, a pessoa pode, além de continuar ouvindo as vozes, responder a elas, concentrando-se em mensagens positivas ou estabelecendo limites para sua manifestação. Isabela, por exemplo, permite que suas vozes a perturbem apenas na parte da manhã e assim consegue ter sossego o resto do dia.

Outra possibilidade de tratamento se baseia na análise das interações sociais, pois com frequência a relação com as vozes é semelhante às que o indivíduo constrói na vida real, segundo o psicólogo Mark Hayward, da Universidade de Leicester, Reino Unido. “É preciso encontrar a saída do isolamento”, diz. Depois de alguns anos de terapia, Isabela reaproximou-se da mãe e dos amigos. As vozes não foram embora, mas ela deixou de se ver como vítima. Hoje elas já não a assustam mais.

 

BETTINA THRÃENHARDT – é psicóloga e jornalista científica.

OUTROS OLHARES

5 HÁBITOS PARA GANHAR 10 ANOS

Pela primeira vez, a ciência contabiliza o saldo em longevidade de pessoas acima dos 50 anos que, finalmente, decidem adotar atitudes saudáveis no cotidiano.

5 Hábitos para ganhar 10 anos

Os médicos sempre dizem que uma guinada na forma de cuidar da saúde, mesmo após os 50 anos, é capaz de prolongar a vida. O que eles não sabiam era afirmar quanto tempo a mais de vida os novos hábitos trazem. Agora isso está na ponta do lápis. São 10 anos a mais, pelo menos, segundo uma extensa pesquisa que acaba de ser publicada na Circulation, revista da Associação Americana do Coração. As ações recomendadas são conhecidas: uma dieta que preconize a ingestão de frutas, verduras e gorduras saudáveis; exercitar-se regularmente trinta minutos por dia; manter o peso adequado à altura, beber moderadamente (uma taça de vinho para mulheres e duas para os homens) e não fumar. Parece óbvio, mas é a primeira vez que a ciência faz a conta do ganho real que um indivíduo de meia idade obtém ao seguir a cartilha da vida saudável.

O trabalho foi feito por pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA), que acompanharam por três décadas a evolução da saúde de 78 mil mulheres e 44 mil homens a partir dos 50 anos. Sem adotar as cinco atitudes saudáveis, elas tinham 29 anos de expectativa de vida. As que passaram a adotá-las viveriam mais 43 anos. No caso dos homens, o salto foi de 25 para 37 anos. Além disso, os cinquentões saudáveis apresentaram 74% menos risco de morte durante o período acompanhado. O grupo teve 82% menos possibilidade de morrer após um acidente vascular cerebral ou um infarto e 65% menos chances de falecer por causa do câncer.

São índices bastante expressivos, que podem ser explicados pelos benefícios fisiológicos proporcionados pelos hábitos. Somados, eles ajudam a proteger o corpo contra o câncer, as doenças cardiovasculares e as consequências destas, que são as principais causas de morte no mundo. Um dos grandes problemas, porém, é fazer com que as pessoas mudem de hábitos, e de forma consistente. “A adesão ainda é muito pequena”, lamentou Frank Hu, coordenador do trabalho.

A constatação traz ainda outro desafio: convencer os indivíduos de que eles são também responsáveis pela própria saúde. “É preciso que as pessoas atuem como protagonistas nisso, ficando mais conscientes do poder que têm de mudar a vida”, afirma a médica Vania Assaly, presidente da Associação Brasileira de Saúde Funcional e Estilo de Vida.

GESTÃO E CARREIRA

É BOM SE PREOCUPAR…

Esse sentimento, que sempre teve um peso negativo, foi essencial para a sobrevivência da espécie humana – e, se bem gerenciado, poderá ajudar no crescimento profissional e nos processos de decisão.

É bom se preocupar

A febre é uma elevação da atura do corpo em valores acima dos considerados normais e funciona como um sinal de alerta: o sistema imunológico avisa que está combatendo alguma infecção. É um alarme natural. Do ponto de vista psicológico, quem faz esse papel de alertar que algo vai mal é a preocupação, um dos sinais da ansiedade. Mesmo que seja vista como uma sensação negativa, ela é responsável por indicar que há ameaças externas que podem nos prejudicar. “Essas emoções cumpriram a função de proteger nossos ancestrais ao longo da evolução. Os que eram mais atentos e que prestavam atenção em sua volta conseguiram fugir de animais selvagens e se perpetuar por meio da seleção natural”, afirma Beatriz Brandão, psicóloga da Simplex Empresarial, empresa de gestão de consultórios, de São Paulo.

Embora hoje não existam selvagens à solta em busca de uma presa humana, a preocupação continua a ter uma função positiva – tese defendida pelos professores Kate Sweeny e Michael D. Dooley, da Universidade da Califórnia, num artigo publicado na revista científica Social & Persona! Psychological Compass. Para escrever o texto, a dupla estudou como esse sentimento afeta as pessoas em diferentes situações e perceberam que o sentimento pode ter um viés motivador e funcionar como uma espécie de “colchão emocional”, preparando os indivíduos para enfrentar situações difíceis. Um dos exemplos citados pelos pesquisadores é o de um grupo de graduandos da faculdade de direito que estavam aguardando o resultado dos exames. Aqueles que estavam mais tensos conseguiram analisar o boletim de maneira mais assertiva, independentemente das notas conquistadas. “A preocupação é, muitas vezes, desagradável. Mas, por ter experimentado essa sensação angustiante no momento da espera, qualquer coisa parece melhor quando acontece – mesmo que seja urna má noticia. Até a decepção se toma um alivio”, diz Kate.

SOLUÇÃO DE IMPASSES

Em níveis normais, a preocupação é o primeiro passo para que possamos resolver o que nos aflige. A palavra vem do latim praeoccupo e significa, simplesmente, “antecipar-se”- algo interessante, porque pressupõe que tracemos planos e tomemos cuidados diante dos imprevistos. ”Essa é a parte produtiva do sentimento, que apresenta um viés de ação e nos move para solucionar pendências. O problema está na preocupação improdutiva, que paralisa e é apenas ruminação”, afirma Mariângela Gentil Savoia, psicóloga no Ambulatório de Ansiedade (Amban), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Aplicar esse viés de resolver problemas à carreira é uma boa atitude, pois ajuda os profissionais a ficar longe do comodismo e a se meterem para encontrar soluções. “Preocupar-se em se manter atualizado e em agir de acordo com o código de conduta da empresa faz com que você se destaque e sobreviva no mercado”, diz Beatriz. Além disso, esse comportamento pode ser positivo para navegar bem no mundo cheio de transformações em que vivemos. “Os preocupados costumam ser mais pessimistas, mas levam em conta os riscos. Eles podem ser um bom contraponto no mercado”, diz Guilherme Barati, psicólogo clinico de São Paulo.

O empreendedor Pablo Linhares, de 38 anos, tem esse perfil. Afrente da PLL, companhia de assistência técnica para empresas de telefonia com 700 funcionários e escritórios em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, ele costuma analisar os cenários possíveis para cada uma das decisões que toma. “Traço planos pensando em todas as possibilidades. Por isso, não costumo ruminar e sofrer. Quando algo dá errado, já estou pronto para reagir rápido’, afirma Pablo. Essa habilidade se mostrou especialmente relevante durante um dos momentos mais difíceis da empresa-; o extravio da carga de um cliente.

Como a logística era responsabilidade da PLL, Pablo precisou arcar com os custos e negociar uma solução. “Quando um problema acontece, a preocupação tem de surgir para que a gente consiga traçar rotas e consiga minimizá-lo”, diz o empreendedor.

EMOÇÕES SOB CONTROLE

Para entender por que a preocupação tem aspectos negativos e positivos, é preciso compreender como uma adversidade pode ser interpretada por nosso cérebro. Considere que ele é dividido em três partes: o cérebro reptiliano, o mais primitivo e ligado a nossos instintos animais, como atacar ou fugir o sistema límbico, responsável pelas emoções e sensações; e o novo córtex, que comanda nossas atividades racionais, de planejamento e resolução de problemas. O desequilíbrio ocorre quando a ansiedade sai do córtex e o sistema límbico começa a falar mais alto. “Quando estou com baixo desempenho no trabalho, posso deixar de ser racional, ficar com medo e criar teorias da conspiração”, diz Aristides Brito, neurocientista e coach da Marca Pessoal Treinamentos, de Santos (SP). “Muitas de nossas ansiedades não são reais, pois diminuímos nossa capacidade de solução ao transferir inseguranças e emoções com as quais não sabemos lidar.”

Para evitar essa situação, é importante externalizar os sentimentos que causam angústia. Isso ajuda a enxergar outros pontos de vista de um problema – sem que as emoções tirem nossa visão. E é exatamente assim que a nutricionista Damaris de Luca, de 39 anos, costuma agir. A profissional, que trabalha há 22 anos na LC Restaurantes, empresa de refeições coletivas em São Paulo, conta que o hábito de buscar outras visões sobre determinado assunto foi fundamental num dos momentos em que mais se sentiu pressionada na carreira. Em 2013, ela foi convidada a sair de sua área de atuação para comandar a diretoria de novos negócios, divisão recém-criada na companhia. “Senti uma preocupação muito grande com o futuro, pois estava saindo da função em que eu estava há anos, teria de criar uma equipe do zero e gerir pessoas mais velhas e experientes do que eu”, diz Damaris. Sabendo que não daria conta sozinha, – a profissional criou uma liderança mais colaborativa e organizou a rotina para ter momentos de relaxamento. . Procuro sempre resolver os problemas em grupo, envolvendo pessoas da minha área e de outros departamentos. Assim, consigo me distanciar, analisar e encontrar soluções sem sofrer e sem perder noites de sono.”

NO MEIO DO CAMINHO

Por essa função estar intimamente relacionada à ansiedade, quando estamos preocupados liberamos uma série de hormônios no sangue, principalmente adrenalina e glucocorticoides, que aceleram os batimentos cardíacos e a respiração, secam a boca e nos deixam suando frio. Esse estresse no longo prazo pode levar a quadros crônicos de ansiedade ou a outras doenças e distúrbios alimentares. “Um indicativo de que a preocupação está além do nível considerado saudável e se tornando sem sentido é quando ela começa a atrapalhar ou impedir que você faça as atividades simples do dia a dia como dormir bem”, afirma Mariângela.

Algumas pessoas são propensas a sofrer mais com a ansiedade diante de algum dilema. Entre elas estão as que apresentam baixa inteligência emocional, aquelas que sucumbem facilmente em situações mais exigentes ou as que têm um perfil controlador, não toleram a incerteza e querem tomar as rédeas de tudo. “O ideal é assumir uma postura de aceitação e adotar ações que minimizem a angústia. Por exemplo, não levar os problemas para a hora de dormir ou para o trabalho, procurar estar presente em todas as atividades e evitar a ruminação, diz Mariângela. E, assim como a maioria dos sentimentos, o que vai determinar se a preocupação assumirá um lado bom ou ruim é o equilíbrio. No mundo ideal, não é a despreocupação o caminho que devemos almejar, mas a preocupação na medida certa.

RUGUINHA NA TESTA

Estratégias para gerenciar melhor a preocupação:

COLOQUE NA AGENDA

Reservar uma hora do dia para refletir sobre o que o preocupa pode ser eficiente, principalmente se a sensação faz com que você perca o sono. Programe o mesmo horário, todos os dias, e se concentre em pensar sobre o que está causando aflição – assim você diminui a chance de os problemas voltarem à mente durante o dia ou a noite.

FAÇA LISTAS

Escrever tudo o que causa angústia é um método eficiente porque ajuda a racionalizar um processo que, muitas vezes, está acontecendo em meio a um turbilhão de sentimentos.

MANTENHA O FOCO

Um dos grandes problemas da preocupação é que ela pode consumir todas as atividades da vida de alguém, fazendo com que a pessoa não consiga se concentrar em mais nada. Porém, quanto mais ruminação houver, mais distante de uma perspectiva de resolução de problema você vai estar. O ideal é tentar focar o momento presente.

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 15-20

20180104_191613

A Remoção dos Escândalos

 Cristo, tendo advertido os seus discípulos a não serem motivos de escândalos, vem em seguida instrui-los quanto ao que eles devem fazer no caso de alguém os escandalizar; o que pode ser entendido por injúrias pessoais, e então essas instruções têm o propósito de preservar a paz da igreja. O Senhor também pode estar se referindo a escândalos públicos, e então estas palavras têm o propósito de preservar a pureza e a beleza da igreja. Consideremos isso de ambas as formas:

 I – Como as discussões que acontecem sobre qualquer assunto entre os cristãos. Se teu irmão transgredir contra ti, afligindo a tua alma (1 Coríntios 8.12), te afrontando, ou colocando desprezo ou abuso sobre ti; se ele manchar o teu bom nome, fazendo falsos relatos e intrigas; se ele passar dos limites dos teus direitos, ou, de alguma forma, te prejudicar em sua propriedade; se ele for culpado de qualquer destas transgressões que são especificadas (Levítico 6.2,3); se ele transgredir as leis da justiça, caridade, ou obrigações familiares; estas são transgressões contra nós, e frequentemente ocorrem entre os discípulos de Cristo, e, às vezes, por falta de prudência, trazem terríveis consequências. Então observe qual é a regra prescrita neste caso:

1. “Vai e repreende-o entre ti e ele só”. Deixe que isso seja comparado com Levítico 19.17 e explicado por este texto sagrado: “Não aborrecerás a teu irmão no teu coração”; isto é: “Se tu concebestes uma mágoa contra o teu irmão por qualquer injúria que ele tenha feito a ti, não permitas que os teus ressentimentos se transformem em um rancor secreto (como uma ferida, que é mais perigosa quando sangra internamente), mas os expõe em uma admoestação suave e grave, deixando que eles mesmos se dissipem, e logo serão eliminados. Não o ataques pelas costas, mas repreende-o. Se ele tiver feito a ti uma injustiça considerável, tenta sensibilizá-lo quanto a isso, mas deixa que a repreensão ocorra em particular, entre ti e ele só; se conseguires convencê-lo exponhas, porque isso só o deixará exasperado, e fará com que a repreensão pareça uma vingança”. Isto está de acordo com Provérbios 25.8,9: ‘”Não te apresses a litigar’, mas ‘pleiteia a tua causa com o teu próximo mesmo’, discute a questão calma e amigavelmente; e se te ouvir, satisfatoriamente, ganhaste a teu irmão; há um fim da controvérsia, e é um final feliz; não deixes que nada mais seja dito a respeito disso, mas permite que a inimizade anterior traga a renovação da amizade”.

2. “Se não te ouvir’, se ele não se considerar culpado, nem chegar a um acordo, ainda assim não te desesperes, mas submete o que ele irá te dizer a uma ou duas pessoas, não só para serem testemunhas do que se sucede, mas para argumentarem sobre o caso posteriormente com ele. Ê mais provável que ele lhes dê ouvidos porque não são parte da contenda; e se a razão falar mais alto com ele, a palavra da razão na boca de duas ou três testemunhas lhe será melhor falada e mais considerada por ele, e talvez isso o influencie a reconhecer o seu erro, e a dizer: Eu me arrependo.”

3. “E, se não as escutar’, e não referir a questão ao julgamento delas, então relate-a à igreja, aos ministros, presbíteros, ou a outros oficiais, ou às pessoas mais respeitadas na congregação a que pertences, faze-os juízes para tratar do assunto, e não apeles ao magistrado, nem solicites uma intimação para ele.” Isto é totalmente explicado pelo apóstolo (1 Coríntios 6), onde ele reprova aqueles que foram à lei perante os injustos, e não perante os santos (v. l), e que deveriam recorrer aos santos para julgarem as pequenas questões (v. 2) pertencentes a esta vida (v. 3). Se você perguntar: “Quem é ‘a igreja’ que deve ser consultada?”, o apóstolo instrui (v. 5): “Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” Aqueles da igreja que presumidamente são mais capazes de determinar tais assuntos; e ele fala ironicamente, quando diz (vv. 4,5): “Pondes na cadeira aos que são de menos estima na igreja… Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” Esta regra era então um requisito, especialmente quando o governo civil estava nas mãos daqueles que eram não só estrangeiros, mas inimigos.

4. “Se também não escutar a igreja’, não der ouvidos à decisão dela, mas persistir no erro que te fez, e continuar a te fazer ainda mais injustiças, considera-o como um gentio e publicano; toma o benefício da lei contra ele, mas que este seja sempre o último recurso. Não apeles para os tribunais de justiça até que tenhas primeiro tentado outros meios de resolver a questão em desacordo. Também podes, se quiseres, romper a tua amizade e familiaridade com ele; embora não devas, de modo algum, pensar em vingança, podes escolher se terás qualquer acordo com ele, no mínimo, de um modo que não possa lhe dar uma oportunidade de fazer a mesma coisa outra vez. Tu o terás restaurado, tu terás preservado a amizade dele, porém ele pode não agir da mesma forma, mas com falsidade.” Se um homem trapacear e abusar de mim uma vez, a culpa será dele; se ele fizer isso duas vezes, a culpa será minha.

II – Consideremos isso como os pecados escandalosos, que são um escândalo aos pequeninos, um mau exemplo àqueles que são fracos e sugestionáveis, e de grande tristeza para aqueles que são débeis e tímidos. Cristo, tendo nos ensinado a ser indulgentes com a fraqueza de nossos irmãos, aqui nos aconselha a não sermos indulgentes com a maldade daqueles que utilizam a fraqueza como pretexto. Cristo, planejando edificar uma igreja para si mesmo no mundo, cuidou aqui da preservação:

1. De sua pureza, para que ela pudesse ter uma autoridade de expulsão, um poder para purificar-se e renovar-se, como uma fonte de águas vivas, que é necessário, uma vez que a rede do Evangelho traz à tona tanto peixes bons como ruins.

2. De sua paz e ordem, para que todo membro possa conhecer o seu lugar e obrigação, e a pureza dela possa ser preservada de um modo regular, e não desordenadamente. Então vejamos:

(1). Qual é o caso suposto? “Se teu irmão pecar contra ti”.

[1]. “O ofensor é um irmão, alguém que está na comunhão cristã, que é batizado, que ouve a Palavra, que ora contigo, com quem tu te reúnes para a adoração a Deus regular ou ocasionalmente.” Note que a disciplina da igreja é para os membros da igreja. Deus julga os que estão de fora (1 Coríntios 5.12,13). Quando qualquer transgressão for feita contra nós, o primeiro passo é identificar se o transgressor é ou não um irmão, pois antes de resolvermos qualquer problema, precisamos entendê-lo.

[2]. ”A ofensa é uma transgressão contra ti; se o teu irmão pecar contra ti (assim é a palavra), se ele fizer qualquer coisa que seja ofensiva a ti como um cristão.” Um pecado gritante contra Deus é uma transgressão contra o seu povo, que tem uma verdadeira preocupação pela sua honra. Cristo e os crentes têm interesses entrelaçados; aquilo que for feito contra os crentes será considerado por Cristo como algo que está sendo feito contra ele mesmo; e aquilo que for feito contra Ele, só poderá ser considerado pelos crentes como algo que está sendo feito contra eles mesmos. ”As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Salmos 69.9).

(2). O que deve ser feito nesse caso. Temos aqui:

[1]. As regras prescritas (vv. 15-17). Prosseguindo nesse método, temos:

Em primeiro lugar: “Vai e repreende-o entre ti e ele só”. Não espere que ele venha a ti, mas vá até ele, como o médico visita o paciente, e o pastor vai em busca da ovelha perdida. Não devemos achar que o esforço para a recuperação de um pecador ao arrependimento seja grande demais. Repreende-o, faça com que ele se lembre do que fez, e do mal de sua ação; mostre-lhe as suas abominações. As pessoas são relutantes em enxergar os seus erros, e têm a necessidade de ser informadas sobre eles. Embora o fato seja claro, como também o erro, eles de­ vem ser expostos. Os grandes pecados frequentemente distraem a consciência, e no momento a entorpecem e a silenciam; existe a necessidade de ajudar a despertá-la. O próprio coração de Davi o afligiu, quando ele cortou a orla da veste de Saul, e quando ele contou o povo em um censo; mas (o que é muito estranho) não vemos que ele tenha sido afligido no caso de Urias, até que Natã lhe disse: “Tu és o homem”.

“Repreende-o, e faz isso com razão e argumentos, não com paixão.” Onde o erro é evidente e grande, a própria pessoa é a pessoa certa para lidarmos, e temos uma oportunidade para isso; não há nenhum perigo aparente de causar mais sofrimento do que bem. Devemos, com mansidão e fidelidade, dizer às pessoas o que está errado nelas. A repreensão cristã é um mandamento de Cristo para trazer os pecadores ao arrependimento, e deve ser tratada como um mandamento. “Que a repreensão seja em particular, entre ti e ele só; fique patente que buscas não a sua reprovação, mas o seu arrependimento.” Note que esta é uma boa regra, que deveria ser observada de forma costumeira entre os cristãos: não falar dos erros dos nossos irmãos aos outros, até que tenhamos falado desses erros com eles próprios, fazendo desse procedimento algo menos acusador e mais reprovador – isto é, menos pecados cometidos e mais deveres cumpridos. Provavelmente haverá mais eficácia sobre um ofensor quando ele vir o seu reprova­ dor preocupado não só com a sua salvação, ao lhe declarar o seu erro, mas também com a sua reputação, ao falar de seu erro de forma privada.

“Se te ouvir” – isto é, se te der atenção – se ele for tocado pela reprovação satisfatoriamente, “ganhaste a teu irmão”; tu ajudaste a salvá-lo do pecado e da ruína, e isso será teu crédito e conforto (Tiago 5.19.20). Note que a conversão de uma alma consiste em ganhar essa alma (Provérbios 11.30); e devemos desejá-la e trabalhar por ela como se fosse um ganho para nós. E como a perda de uma alma é uma grande perda, o ganho de uma alma é, com certeza, um grande ganho.

Em segundo lugar: Se isso não acontecer, “leva ainda contigo um ou dois” (v.16). Não devemos nos cansar de fazer o bem, embora atualmente não vejamos o bom sucesso dessa atitude. Se ele não o ouvir, não desista dele como em um caso em que não haja esperança; não diga que não servirá para nada mais lidar com essa pessoa, mas continue no uso de outros meios. Até mesmo aqueles que endurecem os seus pescoços devem ser frequentemente reprovados, e aqueles que se opõem devem ser instruídos em mansidão. Em um trabalho desse tipo, devemos sentir novamente as dores de parto (Gálatas 4.19); e é depois de muitos sofrimentos e dores que a criança nasce.

“Leva ainda contigo um ou dois”.

1. Para ajudá-lo; eles podem falar alguma palavra pertinente e convincente em que você não pensou, e podem tratar do assunto com mais prudência do que você o fez”. Note que os cristãos devem enxergar a sua necessidade de ajudar a fazer o bem, e orar por auxílio mútuo. Assim como em outras tarefas, ao repreender-se o dever deve ser cumprido, e que possa ser cumprido da melhor maneira possível.

2. “Para produzir efeito nele. Será mais provável que ele se humilhe por seu erro quando vir dois ou três testemunhando contra si” (Deuteronômio 19.15). Observe que o transgressor deve encontrar a hora certa para se arrepender e se corrigir. Ele precisa enxergar que a sua má conduta está se tornando uma ofensa e um escândalo geral. Embora em um mundo como este seja raro encontrar alguém bom de quem todos os homens falem bem, é mais raro ainda encontrar alguém bom de quem todos os homens falem mal.

3. “Para serem testemunhas de sua conduta, caso o assunto seja, depois disso, levado ao conhecimento da igreja”. Ninguém deve ser submetido à censura da igreja como obstinado e contumaz, até que seja muito bem provado que tal pessoa seja assim.

Em terceiro lugar: “Se não as escutar”, e não se humilhar, “dize-o à igreja” (v. 17). Há alguns espíritos obstinados a quem os meios mais prováveis de convencimento se mostram ineficazes; no entanto, não se deve desistir deles como incuráveis, mas permitamos que o assunto se torne mais público, e mais ajuda seja requisitada. Observe:

1. As admoestações em particular devem sempre ocorrer antes das censuras públicas; se métodos mais gentis funcionarem, aqueles que são mais severos não devem ser usados (Tito 3.10). Aqueles que ponderarão sobre os seus pecados, não precisarão ser envergonhados por eles. Deixemos que a obra de Deus seja feita de modo eficaz, mas com o menor estardalhaço possível; o seu reino vem com poder, mas não com observação. Mas:

2. Onde a admoestação em particular não funcionar, a censura pública deverá ocorrer. A igreja deve receber as queixas do ofendido, repreender os pecados dos ofensores, e julgar entre eles, depois de uma investigação imparcial dos méritos da causa.

“Dize-o à igreja”. É um a pena que esta ordem de Cristo. que foi expressa para acabar com as diferenças e remover os escândalos, seja em si um grande assunto de debate, e ocasione diferenças e escândalos pela corrupção dos corações dos homens. A grande questão é: o que se deve dizer à igreja. Isso compete ao magistrado civil, dizem alguns. Ao sinédrio judeu, dizem outros; mas pelo que se segue (v.18), fica evidente que o Senhor se refere a uma igreja cristã, que, embora ainda não formada, estava em seu início embrionário. “Dize-o à igreja”, àquela igreja específica em cuja comunhão o ofensor vive; torne o assunto conhecido aos daquela congregação que são, por permissão do Senhor, designados a receber informações desse tipo. Dize-o aos líderes e governantes da igreja, ao ministro ou aos ministros, aos presbíteros ou diáconos, ou (se esta for a constituição da sociedade) dize-o aos representantes ou chefes da congregação, ou a todos os membros dela; eles devem examinar o assunto e, se concluírem que a queixa é frívola ou sem base, repreendam o queixoso. Se eles a considerarem justa, repreendam o ofensor, e intimem-no ao arrependimento. É provável que isso traga mais força e eficácia à repreensão, por ser ministrada:

1.  “Com maior solenidade,”, e:

2. “Com maior autoridade”. Ê algo terrível receber uma repreensão de uma igreja, de um ministro, um reprovador por ofício; portanto, o assunto ganha uma perspectiva diferente, como uma deferência de uma instituição de Cristo e de seus embaixadores.

Em quarto lugar: “Se também não escutar a igreja”, se ele menosprezar a admoestação, se não se envergonhar de seus erros, nem os corrigir, considere-o como um gentio e publicano; que ele seja expulso da comunhão da igreja, afastado das ordenanças especiais, que perca a honra da posição de membro da igreja, que seja colocado sob desgraça, e que os membros da igreja sejam avisados a se afastarem dele, para que possa sentir vergonha de seu pecado, e que eles não se contaminem por ele, nem se tornem culpáveis juntamente com o transgressor. Aqueles que desprezam as ordens e regras de uma sociedade, e trazem reprovação sobre ela, falsificam as honras e os privilégios dela, e são justa­ mente isolados até que se arrependam e se sujeitem, e se reconciliem com ela novamente. Cristo indicou esse método para vindicar a honra da igreja, a preservação de sua pureza, e a convicção e restauração daqueles que são escandalosos. Mas observe que o Senhor não diz: “Que ele seja para ti como um diabo ou um espírito mal­ dito, como alguém cujo caso não tem esperança”, mas “como um gentio e publicano, como alguém que está na posição de ser restaurado e recebido outra vez. Não o considera como um inimigo, mas admoesta-o como um irmão.” As instruções dadas à igreja de Corinto com relação ao incestuoso concordam com as regras aqui; ele deve ser tirado dentre eles (1 Coríntios 5.2), e deve ser entregue a Satanás. Porque se ele for expulso do reino de Cristo, será considerado como pertencendo ao reino de Satanás; eles não devem estar em companhia dele (vv. 11,13). Mas se for humilhado e regenerado, ele deve ser recebido novamente em comunhão, e tudo estará bem.

[2]. Aqui está uma garantia para a ratificação de todos os procedimentos da igreja de acordo com essas regras (v. 18). Aquilo que foi dito anteriormente a Pedro é repetido aqui a todos os discípulos, e a todos os obreiros fiéis da igreja, até o final do mundo. Enquanto os ministros pregam a palavra de Cristo fielmente, e, em seu governo da igreja, obedecem estritamente às suas, eles podem ter a certeza de que são, e sempre serão, do Senhor. Ele os apoiará, e ratificará aquilo que eles dizem e fazem, para que seja considerado como dito e feito pelo próprio Senhor. Ele os reconhecerá:

Em primeiro lugar, em sua sentença de suspensão. “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu”. Se as censuras da igreja seguirem devidamente a instituição de Cristo, seus juízos seguirão as censuras da igreja, seus juízos espirituais, que são os mais dolorosos de todos os outros, como aqueles que foram sofridos pelos judeus rejeitados (Romanos 11.8), “um espírito de profundo sono”. Porque Cristo não tolerará que as suas próprias ordenanças sejam menosprezadas, mas dirá amém para as sentenças justas que a igreja decretar sobre os seus ofensores obstinados. Por maior que seja o desprezo que os zombadores orgulhosos possam demonstrar em relação às censuras da igreja, faça-os saber que elas são confirmadas no tribunal do céu; e seria em vão apelarem para este tribunal, porque o juízo já foi expresso ali contra eles. Aqueles que são deixados de fora da congregação dos justos agora, não permanecerão nela no grande dia (Salmos 1.5). Cristo não os possuirá como seus, nem receberá para si mesmo aqueles a quem a igreja devidamente entregou a Satanás; mas, se através de algum erro, ou da inveja, as censuras da igreja forem injustas, Cristo irá misericordiosamente ao encontro daqueles que forem banidos (João 9.34,35).

Em segundo lugar, em sua sentença de absolvição. “Tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Considere que:

1. Nenhuma censura da igreja liga tão firmemente. Mas, mediante o arrependimento e a restauração dos pecadores, eles podem e devem ser novamente restaurados. A punição que alcança o seu propósito é suficiente, e o ofensor deve então ser perdoado e confortado (2 Coríntios 2.6). Não há nenhum abismo intransponível estabelecido, exceto aquele entre o céu e o inferno.

2. Aqueles que, por seu arrependimento, forem recebidos pela igreja em comunhão novamente, podem receber o conforto da sua absolvição no céu, se os seus corações forem sinceros para com Deus. A suspensão está para o terror do obstinado assim como a absolvição está para o ânimo do penitente. O apóstolo Paulo fala como alguém que tem a mente de Cristo, quando diz: ”A quem perdoardes alguma coisa também eu” (2 Coríntios 2.10).

Então, Cristo aqui dá uma grande honra à igreja. Ele não só condescenderá, reconhecendo as suas sentenças, mas as confirmará; e nos versículos seguintes temos duas coisas que são a base disso.

(1).  A prontidão de Deus em responder as orações da igreja (v. 19). “Se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito”. Aplique isso:

[1].  Em geral, a todos os pedidos, em oração, da semente fiel de Jacó; eles não buscarão a face de Deus em vão. Temos muitas promessas, nas Escrituras, de uma resposta misericordiosa às orações que forem feitas com fé. Mas esta dá um ânimo particular à oração conjunta, pois podemos entendê-la assim: “Os pedidos em que dois de vocês concordarem serão concedidos; quanto mais aqueles que tiverem a concordância de muitos”. Nenhuma lei do céu limita o número daqueles quepe­ dem. Cristo se agrada de honrar e permitir uma eficácia especial às orações conjuntas dos crentes fiéis, e às súplicas comuns que eles fazem a Deus. Se eles se unirem na mesma oração, se combinarem que se apresentarão ao trono da graça com algum propósito especial, ou, apesar da distância, concordarem em uma questão específica em oração, eles serão bem-sucedidos. Além da consideração geral que Deus tem pelas orações dos santos, Ele se agrada pa1ticularmente pela união e pela comunhão deles nessas orações. Veja 2 Crônicas 5.13; Atos 4.31.

[2].  Em particular, àqueles pedidos que são colocados diante de Deus sobre ligar e desligar, aos quais essa promessa parece se referir mais especialmente. Observe, em primeiro lugar, que o poder da disciplina da igreja não está confinado aqui na mão de uma única pessoa; mas duas, no mínimo, devem estar preocupadas com o assunto. Quando o coríntio incestuoso estava para ser expulso, a igreja estava reunida (1 Coríntios 5.4), e o castigo foi infligido por muitos (2 Coríntios 2.6). Em um caso de tamanha importância, dois é melhor que um, e na multidão de conselheiros há segurança. Em segundo lugar, é bom ver aqueles que têm o controle da disciplina da igreja concordando com a sua aplicação. Discussões acaloradas e animosidades, entre aqueles cujo trabalho é remover escândalos, será o maior escândalo de todos. Em terceiro lugar, a oração deve sempre estar de acordo com a disciplina da igreja. Não decrete uma sentença que você não possa, com fé, pedir a Deus que confirme. A palavra referente a ligar e desligar (cap. 16.19) era proferida através da pregação, e esse processo deveria estar envolto pela oração. Portanto, todo o poder dos ministros do Evangelho deve estar na Palavra e na oração, às quais eles devem se dedicar completamente. Ele não diz: “Se vocês concordarem com uma sentença e decretarem alguma coisa, ela deverá ser feita” (como se os ministros fossem juízes e senhores), mas: “Se vocês concordarem em pedir algo a Deus, vocês obterão uma resposta favorável da parte dele.” A oração deve estar de acordo com todos os nossos esforços em prol da conversão dos pecadores (veja Tiago 5.16). Em quarto lugar, as petições unânimes da igreja de Deus para a ratificação de suas justas censuras serão ouvidas no céu, e obterão uma resposta; isso lhes será feito, será ligado ou desligado no céu. Deus dará a sua autorização aos apelos e pedidos que você lhe fizer. Se Cristo (que aqui fala como quem tem toda a autoridade) diz: “Isso lhes será feito,” podemos nos sentir seguros de que será feito, mesmo que o resultado não se apresente da maneira que o buscamos. Deus nos aceita de uma maneira especial, e continua a ser o dono de nossa vida quando estamos orando por aqueles que escandalizaram tanto a Ele como a nós. Deus virou o cativeiro de Jó, não quando ele estava orando por si mesmo, mas quando ele estava orando por seus amigos que haviam transgredido contra ele.

(2).  A presença de Cristo nas assembleias dos cristãos (v. 20). Todo crente tem, em si mesmo, a presença de Cristo; mas a promessa aqui se refere às reuniões onde dois ou três estão reunidos em seu nome, não só para a disciplina, mas para a adoração religiosa, ou qualquer ato de comunhão cristã. As assembleias de cristãos para propósitos santos são aqui indicadas, instruídas e encorajadas.

[1]. Elas são aqui indicadas; a igreja de Cristo no mundo existe mais visivelmente em assembleias religiosas; é a vontade de Cristo que estas sejam realizadas. e acompanhadas, para a honra de Deus. para a edificação dos homens, e para a preservação da religiosidade no mundo. Quando Deus tem a intenção de conceder res­ postas especiais à oração, Ele requer uma assembleia solene (Joel 2.15,16). Se não houver liberdade e oportunidade para assembleias grandes e numerosas, mesmo assim é a vontade de Deus que dois ou três se reúnam, para que Ele mostre a sua boa vontade à grande congregação. Quando não pudermos fazer o que faríamos, no exercício da religião, devemos fazer o que pudermos, e Deus nos aceitará.

[2]. Eles são aqui instruídos a se reunir em nome de Cristo. No exercício da disciplina da igreja, eles devem se reunir em nome do Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 5.4). Este nome fornece ao que eles fazem uma autoridade na terra, e uma aceitabilidade no céu. Em nossas reuniões ou em nossa adoração, devemos manter os nossos olhos em Cristo; devemos nos reunir pela virtude de sua garantia e decreto, em sinal de nossa relação com Ele, professando a nossa fé nele, e em comunhão com todos aqueles que, em todo lugar, o invocam. Quando nos reunimos para adorar a Deus, devemos depender do Espírito e da graça de Cristo como Mediador para que sejamos auxiliados, e do seu mérito e da sua justiça como Mediador para que sejamos aceitos. Precisamos ter uma verdadeira consideração para com Ele como o Caminho para o Pai, e o nosso Advogado junto ao Pai; assim nos reunimos em seu nome.

[3]. Eles são aqui encorajados com uma garantia da presença de Cristo: “Aí estou eu no meio deles”. Pela sua presença comum, Ele está em todos os lugares, como Deus; mas essa é uma promessa de sua presença especial. Onde os seus santos estão, o seu santuário está, e ali Ele habitará; é o seu repouso (Salmos 132.14), é o seu andar (Apocalipse 2.1); Ele está no meio deles, para vivificá-los e fortalecê-los, para reanimá-los e confortá-los, como o sol no meio do universo. Ele está no meio deles, isto é, em seus corações; é uma presença espiritual, a presença do Espírito de Cristo com o espírito deles, que aqui é proposta. “Aí estou eu”, não só: Eu estarei aí, mas, e Eu estou aí; como se Ele viesse primeiro. Estando diante deles, eles o encontrarão aí. Ele repetiu essa promessa na sua partida (cap. 28.20): “Eis que eu estou convosco todos os dias”. A presença de Cristo está nas assembleias de cristãos conforme a sua promessa, e pode ser pedida pela fé. Os cristãos podem depender dela: ”Aí estou eu”. Isso é o equivalente ao Shekiná, ou a presença especial de Deus no tabernáculo e no templo do passado (Êxodo 40.34; 2 Crônicas 5.14).

Embora apenas dois ou três estejam reunidos, Cristo está no meio deles; esse é um estímulo para a reunião de alguns, quando é feita, em primeiro lugar, por escolha. Além do culto particular realizado por pessoas específicas, e os cultos públicos de toda a congregação, pode haver, às vezes, uma oportunidade para dois ou três se reunirem, ou para auxílio mútuo em conferência, ou para o auxílio conjunto em oração, não em desprezo ao culto público, mas em cooperação com ele; Cristo estará presente ali. Ou, em segundo lugar, por coação; quando não houver mais que dois ou três para se reunir, e se não ousarem adorá-lo por medo dos judeus, mesmo assim Cristo estar á no meio deles, porque não é a multidão que convida a presença de Cristo, mas a fé e a devoção sincera dos adoradores. E mesmo que haja apenas dois ou três, o menor número que pode haver, mesmo assim Cristo está presente no meio deles. Ele é a pessoa principal, e a sua reunião será tão honorável e confortadora quanto se houvesse dois ou três mil participantes.