PSICOLOGIA ANALÍTICA

MENSAGENS SECRETAS

Propagandas com estímulos subliminares podem influenciar nosso comportamento? Estudos recentes apontam que sim, mas apenas em circunstâncias bastante específicas.

Mensagens secretas

A história de anúncios publicitários com conteúdos ocultos se assemelha a um roteiro de programa de televisão. Na vida real, um dos personagens principais dessa história é James M. Vicary, pesquisador da área de marketing. Em 12 de setembro de 1957, ele convocou a imprensa para anunciar os resultados de uma experiência incomum. Ao longo de seis semanas, durante o verão anterior, ele disparou as frases “Coma pipoca” e “Beba Coca-Cola” por 3 milésimos de segundo, a cada cinco segundos, em uma tela de cinema de Fort Lee, em New Jersey, enquanto telespectadores assistiam ao filme Picnic (exibido no Brasil com o título Férias de amor). As mensagens eram muito rápidas para serem lidas, mas o tempo foi suficiente para serem registradas no subconsciente dos espectadores. Como prova dessa afirmação, ele apresentou dados que indicavam 18% de aumento na venda do refrigerante e 58% da pipoca no cinema.

O público reagiu com fúria. As descobertas de Vicary foram ao encontro de um medo popular da época: de que consumidores pudessem ser manipulados. A ideia de anúncios transmitidos de forma subliminar (abaixo do limiar da consciência) soava como lavagem cerebral. Em 5 de outubro de 1957, três semanas após esse evento, Norman Cousins, editor-chefe do Saturday Review, escreveu o artigo “Subconsciente manchado”, no qual criticou campanhas publicitárias destinadas a “entrar nas partes mais profundas e privadas da mente humana, deixando terríveis marcas e arranhões”. A Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) não demorou para emitir um relatório sobre o potencial operacional da percepção subliminar. O livro The hidden persuaders (Novas técnicas de convencer, Ibrasa, 1959), do jornalista Vance Packard, que descreve as alegações de Vicary em detalhes, rapidamente se tornou um sucesso de vendas. Em resposta à pressão pública, o governo do Reino Unido, o da Austrália e a Associação Nacional de Emissoras, nos Estados Unidos, proibiram propagandas com mensagens escondidas.

Porém, apesar de toda comoção, ficou constatado que o experimento era uma fraude. Diversos pesquisadores tentaram sem sucesso replicar as descobertas anunciadas por Vicary. Cinco anos depois, ele reconheceu que seu experimento era um “artifício”. Sua confissão, no entanto, recebeu muito menos atenção do que seu golpe publicitário inicial. Muitas pessoas, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde a divulgação inicial teve grande repercussão, continuaram a acreditar que a publicidade subliminar poderia moldar a escolha do consumidor, apesar de todas as evidências mostrarem o contrário.

Recentemente, porém, psicólogos começaram a apontar que, em algumas situações específicas, mensagens subliminares podem sim redirecionar nossas decisões, embora não da forma como Vicary propôs. Essas informações na verdade não excedem ou comandam nossas intenções e vontades. Pelo contrário, os cientistas acreditam que estamos suscetíveis a sugestões extremamente breves apenas em circunstâncias bastante limitadas. Devido à rapidez com que esses estímulos passam pelos circuitos da memória, praticamente na mesma velo­ cidade com que piscam em uma tela, não provocam efeitos além de reforçar objetivos imediatos ou inclinações naturais.

 DE TRÁS PARA A FRENTE

Nas décadas após a experiência de Vicary, comerciantes, políticos, diretores de cinema e até mesmo serviços oficiais tentaram usufruir os benefícios da persuasão subliminar – mas sem sucesso mensurável. As táticas seguiam o modelo de Vicary: embutir flashes de milissegundos de palavras ou imagens em filmes. Por exemplo, em 1978, a estação de TV Wichita, do Kansas, recebeu permissão da polícia para mostrar de maneira subliminar a frase “Ligue para a polícia agora” durante uma notícia sobre o assassino em série Dennis Rader, conhecido como BTK – a aposta era que o próprio criminoso se sentisse compelido a se entregar. Infelizmente, ele só foi capturado 27 anos depois.

Em 2000, as mensagens subliminares entraram na corrida presidencial dos Estados Unidos. Em uma das campanhas do Partido Republicano a palavra “rats” (ratos) aparece rapidamente em um quadro sobre o candidato democrata AI Gore. Embora o termo seja um fragmento da frase “bureaucrats decide” (burocratas decidem), as quatro últimas letras surgem na tela 30 milissegundos antes do restante. Apesar de o candidato republicano George W. Bush ter alegado se tratar de um incidente, o comercial foi rapidamente tirado do ar.

Outras campanhas polêmicas envolveram a técnica backmasking (conhecida no Brasil como mensagem ao contrário), em que palavras ditas de trás para a frente são gravadas em uma faixa de áudio. Os defensores do método alegam que mensagens invertidas agem de maneira subliminar nos ouvintes. Na década de 80, muitos grupos religiosos americanos temiam que algumas bandas usassem backmasking para transmitir ensinamentos satânicos.

Duas famílias, aliás, chegaram a processar o músico britânico Ozzy Osbourne alegando que frases ao contrário em suas canções incentivaram seus filhos a cometer suicídio. Os tribunais recusaram os casos, assim como ações semelhantes contra a banda de rock Judas Priest, porque não foram encontradas evidências suficientes da ação da backmasking. Diversos estudos comprovam que a técnica não deixa vestígios mensuráveis na memória. Ainda assim, em 1983 a prática foi proibida na Califórnia. Também na década de 80, o mercado de fitas cassete de autoajuda com mensagens subliminares gravadas na direção correta começa a florescer. No entanto, em 1991 o psicólogo Anthony G. Greenwald e seus colegas da Universidade de Washington demonstraram que essas gravações também eram ineficazes. Para chegar a essa conclusão, Greenwald e sua equipe solicitaram a 237 voluntários que escutassem música clássica gravada com dicas subliminares para aumentar autoconfiança ou memória (uma etiqueta identificava a finalidade), diariamente, durante cinco dias. O que eles não sabiam é que a informação estava trocada em metade dos cassetes. Os pesquisadores relataram que ouvir a fita não provocou efeito nem na memória nem na autoconfiança dos participantes do experimento. Os voluntários, porém, disseram sentir melhora na autoestima ou na capacidade de armazenar informações (de acordo com a identificação na fita que receberam) – possivelmente por estarem sugestionados pelo que acreditavam estar desenvolvendo, o que os manteve mais atentos a essas habilidades.

Para muitos cientistas a experiência foi suficiente para encerrar o assunto.  Em 1992, o psicólogo Anthony R. Pratkanis, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, um dos coautores do estudo da fita cassete, escreveu que a crença na eficácia da persuasão subliminar oferece um exemplo do que o físico Richard Feynman chamou de ciência do culto à carga (cargo-cult science), em referência ao fenômeno encontrado em sociedades tribais, que encontram “carga” a partir de uma cultura tecnologicamente avançada e criam rituais em torno disso. Segundo definição de Feynman (extraída de parte de um discurso no Instituto de Tecnologia da Califórnia, em 1974) a ciência do culto à carga se assemelha à ciência real e aparentemente tem objetividade e experimentação cuidadosa. Porém, falta algo fundamental: ceticismo. Ao longo da década de 90, o campo de pesquisa de mensagens subliminares ficou em silêncio, sendo relegado ao reino da reflexologia, percepção extra-sensorial e outras disciplinas não científicas.

Durante a última década, no entanto, psicólogos voltaram a se interessar pelo assunto e a produzir trabalhos com resultados intrigantes. Em 2001, o psicólogo Ap Dijksterhuis e seus colegas da Universidade Radboud Nijmegen, na Holanda, e posteriormente da Universidade de Amsterdã, submeteram um grupo de alunos a um teste computadorizado de atenção: na tela piscavam sílabas sem sentido e palavras como “Coca” e “beba”. Em seguida, os pesquisadores ofereceram Coca-Cola e água mineral aos voluntários. De fato, os participantes foram mais propensos a aceitar uma das duas bebidas; no entanto, não pediram refrigerante com mais frequência. Um ano depois, Joel e Grant Cooper, da Universidade de Princeton, replicaram o experimento adicionando as palavras “sede” e imagens de latas de Coca-Cola em um episódio de Os Simpsons. Mais uma vez ficou constatado que não houve diferença significativa em comparação com um grupo controle, que não recebeu o estímulo.

 CHÁ GELADO

Para entender por que as mensagens subliminares ajudaram a deixar os participantes mais sedentos (mas não necessariamente inclinados a beber Coca-Cola), considere o que acontece quando entramos numa loja de conveniência em busca de algo para matar a sede. Primeiramente, precisamos acessar em nosso cérebro o nome de uma bebida. Se você costuma consumir Coca, é provável que esteja imune a qualquer sugestão subliminar para comprar outra marca. Mas se vez ou outra você opta por um chá gelado, por exemplo, mensagens abaixo do nível da consciência podem deixar o nome da marca (pelo menos temporariamente) mais acessível em sua memória, o que pode influenciar sua escolha.

Decidimos testar a teoria de que a marca Coca-Cola é imune aos efeitos de estímulos subliminares porque está profundamente impressa na memória da maioria das pessoas. Em um estudo de 2006, os psicólogos Jasper Claus, da Universidade de Utrecht, John Karremans, da Universidade Radboud, e eu solicitamos a um grupo de voluntários que executasse uma tarefa de atenção usando um computador. Metade dos participantes foi bombardeada com flashes de 23 milissegundos com as palavras “Lipton ice”. (Com base em um questionário, havíamos determinado o chá gelado como adequado para nossos propósitos: é uma boa escolha para matar a sede, mas não é a primeira opção da maioria das pessoas.) E metade visualizou sílabas sem sentido na mesma velocidade. Em seguida, todos deveriam escolher entre chá gelado e água mineral. Como esperado, o primeiro grupo optou com maior frequência pelo Lipton Ice. Mais uma vez, como no estudo anterior, ficou constatado que apenas voluntários com sede reagem assim, caso contrário a marca do produto registrado na memória não faz diferença.

Em um segundo estudo, metade dos voluntários consumiu algumas gotas de sal (sem que soubesse) antes de assistir a uma propaganda com mensagens subliminares –  o objetivo era deixá-los com vontade de beber algo. Desses, uma parte relatou estar com sede, 80% decidiram tomar Lipton Ice. No grupo controle, cerca de 30% (com sede) e 20% (sem sede) escolheu a bebida. Em um estudo de 2011, os psicólogos Thijs Verwijmeren, Daniel Wigboldus, Karremans e eu refinamos esses resultados e demonstramos que o priming subliminar funcionou só em pessoas que estavam com sede e gostavam da bebida, mas não a tomavam regularmente. Não conseguimos influenciar aqueles que disseram que o chá gelado era sua bebida favorita. Os resultados podem explicar, pelo menos em parte, por que pesquisas anteriores, geralmente envolvendo a marca Coca-Cola, não conseguiram demonstrar efeitos subliminares em relação à escolha da marca. Há décadas esse refrigerante é a bebida preferida de estudantes universitários, público geralmente recrutado por pesquisadores. Além disso, estes estudos geralmente não levam em conta os diferentes níveis de sede. Outros pesquisadores apontam vulnerabilidade semelhante entre pessoas cansadas. Em um estudo de 2009, a psicóloga alemã Christina Bermeitinger, da Universidade de Saarland (atualmente da Universidade de Hildesheim), em parceria com seus colegas da Universidade da Austrália Ocidental recrutou voluntários para participar de um estudo sobre os efeitos causados   na concentração pela droga dextrose. Os pesquisadores criaram duas marcas fictícias de pílulas e projetaram logotipos diferentes que foram apresentados de maneira subliminar a metade dos participantes enquanto jogavam em um computador. Durante alguns intervalos, os cientistas ofereceram aos voluntários pílulas de dextrose etiquetadas com as marcas falsas. Os cientistas constataram que aqueles que relataram se sentir mais cansados demonstraram maior inclinação em relação à marca disparada de maneira subliminar no jogo.

As pesquisas sugerem que a vulnerabilidade depende de diversos fatores, como necessidades físicas e hábitos. A mudança subliminar repentina (subliminal revulsion), um efeito relacionado, também pode ser desencadeada em condições específicas. Demonstramos isso em um estudo recente, em que projetamos de maneira subliminar as palavras “Lipton Ice” em algumas sequências da animação Madagascar e em outras do perturbador filme sobre dependentes de heroína Trainspotting. Em seguida, oferecemos o chá gelado ou água mineral aos participantes. Os voluntários que assistiram ao primeiro (e disseram estar com sede) optaram com maior frequência pelo Lipton Ice. Mas, entre aqueles que viram Trainspotting, a taxa foi menor. Mais uma vez, constatamos que mensagens subliminares influenciam somente voluntários com sede.

LAVAGEM CEREBRAL NO MERCADO

A ideia de que somos influenciados por propagandas subliminares ainda assusta muita gente. Pesquisas na área ainda são tabus e recebem pouquíssimo financiamento. Programming the nation (Programando a nação), um documentário sensacionalista lançado em outubro de 2011, indagava: “Sofremos lavagem cerebral? Perdemos nossa mente?”. Esse terror, porém, não se justifica. Certamente ninguém gosta de se sentir manipulado, mas o fato é que tudo ao nosso redor influencia nossas escolhas o tempo todo e muitas vezes não nos damos conta disso. O aroma do café fresco pode nos induzir a querer um expresso, e a visão de um bolo de chocolate nos fazer salivar. Nossos estudos recentes indicam que mensagens subliminares influenciam o comportamento da mesma maneira que estímulos ambientais. Pessoas com sede são mais receptivas a sugestões subliminares em relação a uma bebida, assim como alguém com fome tem maior probabilidade de exagerar nas compras no supermercado.

Em um estudo de 2005, o psicólogo Rob Holland e seus colegas da Universidade Radboud decidiram testar a força de influências ocultas do dia a da. Os pesquisadores pediram a 56 alunos que listassem cinco atividades que pretendiam realizar durantes os próximos dias. Metade dos participantes realizou a tarefa em uma sala com cheiro cítrico de limpador multiuso, e metade em um ambiente inodoro. O primeiro grupo não relatou perceber qualquer aroma. E, mesmo assim, 36% escreveu que planejava limpar o apartamento. Já no outro grupo, apenas 11% considerou fazer faxina. Os pesquisadores acreditam que o odor aumentou a acessibilidade cognitiva do objetivo de limpeza. No entanto, os cientistas não sabem se de fato os voluntários concluíram a tarefa, que pode ter se perdido na memória em meio a assuntos mais urgentes que vieram à tona, como estudar para as provas.

De fato, esse tipo de sugestão não dura muito tempo na memória. Gatilhos ambientais parecem ser mais potentes em cenários onde podemos atuar imediatamente, o que os torna úteis em certos pontos comerciais. Lojas de departamento disparam músicas natalinas para nos deixar mais suscetíveis ao “espírito” de troca de presentes e aumentar as vendas. Em 1993, os economistas Charles Areni e David Kim, pesquisadores da Universidade Técnica do Texas, apontaram outra maneira em que a música pode alterar o comportamento. Durante algumas semanas, os cientistas acompanharam as vendas em uma loja de vinhos, que alternou o som ambiente com faixas de música clássica, como As quatro estações, de Antônio Vivaldi, e canções de bandas populares, como Fleetwood Mac. O tipo de som não teve nenhuma influência sobre o número total de garrafas vendidas. No entanto, os clientes que ouviram música erudita compraram bebidas mais caras em relação àqueles que escutaram o estilo pop.

Os hábitos de pessoas que comem fora de casa também parecem variar de acordo com estímulos musicais. O psicólogo Adrian-North, na época da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e seus colegas da instituição alternaram o som ambiente de um restaurante com música clássica, pop ou silêncio, por três semanas. Durante a execução de música erudita, os clientes gastaram em média US$ 45; US$ 40 enquanto escutavam pop; e US$ 39 quando não havia som.

Em alguns casos, a música de fundo pode de fato influenciar escolhas. Em outro experimento, North e seus colegas expuseram uma seleção de quatro vinhos alemães e quatro franceses, igualmente caros, em um supermercado britânico. Durante alguns dias, os cientistas intercalaram canções alemãs e francesas no ambiente. Depois, entrevistaram os clientes que compraram a bebida e descobriram que poucos haviam se dado conta de ter escutado alguma música. Aqueles expostos a canções francesas, porém, escolheram vinhos da mesma nacionalidade com maior frequência, e o mesmo se deu em relação às bebidas alemãs.

Acreditamos que, assim como a música, a publicidade com mensagens abaixo do nível da consciência pode exercer influência em situações imediatas do cotidiano. No entanto, para causar efeitos reais teriam de ser curtas, aparecer no momento em que decidimos algo e estarem relacionadas às nossas intenções imediatas ou aos nossos hábitos. Os resultados sugerem que é improvável que anúncios publicitários com conteúdos subliminares possam induzir consumidores a comprar determinada marca dias depois.

Nossos estudos revelam que, na prática, mensagens escondidas são menos potentes ou aterrorizantes do que se acreditava no passado. E, em algumas ocasiões, podem até ser benéficas. Pesquisas mostram que a exposição em milissegundos às palavras “furioso” e “relaxado” tende a provocar efeitos na frequência cardíaca e na pressão arterial de uma pessoa. O subconsciente registra diferentes tipos de sugestão e não apenas aquilo que interessa aos anunciantes.

UM PRESENTE DOS DEUSES

O fenômeno do culto à carga aparece em sociedades tribais quando entram em contato com a civilização industrializada. Surge com o fato de os nativos observarem grupos ocidentais, geralmente militares, recebendo suprimentos – alimentos, medicamentos, cobertores etc. –  por barcos e aviões.

Sem compreender a origem dessa carga tão bem-vinda, os nativos acabam atribuindo sua chegada a causas sobrenaturais. Muitas vezes grupos imitam ritualisticamente a forma de andar e se vestir dos grupos industrializados na esperança de também receber o benefício. Há registro de grupos que abriram clareiras na selva imitando aeroportos e construindo rádios, fones de ouvido e inclusive falsos aviões de madeira que serviriam como isca para atrair a atenção das entidades “doadoras”. O primeiro caso que se tem registro foi o movimento nas ilhas Fiji, em 1885, mas ocorreram vários outros, inclusive na Amazônia.

UMA COISA PUXA A OUTRA

O priming é um efeito experimental que se refere à influência que um evento antecedente {prime) tem sobre o desempenho de um evento posterior (alvo). Nesse método, supõe-se que uma palavra possa ser acessada mais rapidamente se precedida por outra com a qual ela partilhe características semânticas (médico/hospital), fonológicas (hora/oca), ou morfológicas (dança/dançarino).

 

 WOLFGANG STROEBE – é professor de psicologia social das universidades de Utrecht e de Groningen, na Holanda.

OUTROS OLHARES

NOS EMBALOS DO K-POP

Estudantes brasileiros se matriculam em universidades da Coreia do Sul depois de se apaixonar pela moderna música popular do país asiático.

Nos embalos do K-pop

Estudante de relações internacionais em uma faculdade particular de Niterói, Rio de Janeiro, lago Leiria mudou seu projeto de vida em razão de uma música. Ao zapear a TV, descobriu o clipe de “Someone like U”, do quarteto feminino sul-coreano Dai Shabet. “Fiquei completamente encantado”, afirmou o jovem de 20 anos ao contar como surgiu sua paixão pelo K-pop, o gênero musical do país asiático que conquistou milhões de fãs pelo mundo. “A partir daí comecei a pesquisar mais sobre os grupos, as músicas e, com o passar do tempo, comecei a querer entender a cultura, o país e a história”, disse.

Em seu quarto, cercado de pôsteres de seus artistas favoritos, disse que começou a estudar coreano no ano passado e que seu objetivo agora é viver em Seul. “Hoje, cada decisão acadêmica e profissional que eu tomo é feita pensando na Coreia do Sul. Quero conquistar a oportunidade de estudar em uma universidade sul-coreana para compreender melhor o país, que vem se expandindo tanto ao longo dos anos.”

Leiria é um K-popper – ou capopeiro, na corruptela tupiniquim -, como são conhecidos os apaixonados pelo pop sul-coreano, fascínio que costuma incluir a moda, a dança, as novelas e os filmes do país asiático. Se o jovem capixaba ainda se esforça para realizar seus novos sonhos, muitos brasileiros amantes do K- pop já frequentam as universidades coreanas. Raíssa Otaviano, estudante de Direito Nuclear na Seoul National University, conta que o fascínio pela cultura local pesou na escolha de seu mestrado. “Apesar de meu campo de estudo ser um pouco específico, eu tinha opções e oportunidades reais em instituições na França e na Noruega antes de vir para cá”, afirmou. “No final, um misto entre a generosidade das bolsas e minha vontade de ver o BTS (nome de uma famosa banda sul-coreana) de perto falou mais alto”, afirmou a carioca de 30 anos.

Aos que não o conhecem, o K-pop (abreviação de korean pop) é uma mistura de gêneros ocidentais – como o hip hop, o rock e o pop – com música eletrônica. O ritmo, sempre dançante, é marcado nos clipes e nos shows por coreografias divertidas, feitas para serem copiadas pelos fãs. As roupas coloridas e os cabelos atrevidos dos integrantes das bandas ajudam a fazer do gênero uma espécie de suprassumo do pop contemporâneo. E o uso de frases em inglês, a maioria das vezes no refrão, contribui para seu sucesso internacional.

O K-pop (também conhecido como “Hallyu,” “onda coreana” em português) não exerce atração apenas sobre os brasileiros. Um levantamento do Ministério da Educação da Coreia do Sul revela que a cultura popular coreana é o terceiro motivo a atrair alunos estrangeiros ao país. O número cresce ano a ano e atingiu 124 mil universitários em meados de 2017. Mais da metade – 68;184 são estudantes do país vizinho, a China. O número de brasileiros já atinge cerca de 200, de acordo com a Embaixada do Brasil.

Segundo o levantamento do governo da Coreia do Sul, o principal fator a atrair estrangeiros são as generosas bolsas de estudo – seguido pela segurança das cidades sul­ coreanas. Matheus Bertol, estudante catarinense de 23 anos, fã de bandas como Girl’s Generation e Wanna One, está há quatro anos no país como estudante de letras na Korea University, com bolsa de estudo do programa mais cobiçado pelos estrangeiros. O Korean Government Scholarship Program (KGSP) oferece vagas anuais em todos os níveis de ensino superior, com cotas exclusivas para brasileiros. Elas incluem despesas de traslado, acomodação, alimentação e mensalidades, além de aulas de coreano.

As condições da bolsa facilitaram sua mudança para o país. “Quando falei que queria vir para cá, minha mãe não queria deixar de jeito nenhum, dizendo que tinha medo de cair uma bomba (da Coreia) do Norte e que aqui as pessoas comiam cachorro. Meu pai, felizmente, foi mais compreensivo e me ajudou a juntar toda a documentação necessária para embarcar nessa jornada”, contou durante uma visita, junto com outros k-poppers, à SM Town, uma das mecas do K-pop, situada no bairro de Gangnam, em Seul, que alcançou fama global pelo hit de 2012 do cantor PSY  – o clipe de “Gangnam Style”  foi o primeiro vídeo a ultrapassar a marca de um bilhão de visualizações no YouTube.

A qualidade do ensino, um dos motivos da prosperidade da Coreia do Sul nas últimas décadas, é outro fator que atrai os brasileiros. “As estruturas das faculdades são incríveis, e o nível das aulas também, apesar de achar que, no caso de meu curso, as disciplinas teóricas são melhores que as práticas”, afirmou Thaís Lima, de 28 anos, vlogger da página “Na terra do Kimchi” e estudante de design de moda na Ewha Womans University.

Não é fundamental falar coreano para estudar nas universidades locais, mas tudo fica mais fácil para quem aprende a língua. “Quando cheguei aqui, estudei coreano por um ano antes de começar meu curso, como parte do treinamento oferecido pelo KGSP e, apesar de quase todas as faculdades oferecerem disciplinas em inglês, escolhi fazer matérias em coreano por achar que um pouco da qualidade do curso se perdia na tradução”, afirmou Lima.

A língua ajuda ainda a ganhar a simpatia da população local. “Apesar de ser totalmente possível viver em Seul ou outras grandes metrópoles coreanas apenas falando o inglês, estudar coreano é fundamental para quem quer de fato aproveitar sua experiência aqui. É difícil ganhar a confiança dos coreanos, mas aprender a língua é o primeiro passo”, disse Matheus Bertol. Mesmo apaixonados pelo K-pop, muitos brasileiros experimentam dificuldades por conta das diferenças culturais. A carioca e capopeira de 30 anos Fernanda Menicucci desembarcou na Coreia em 2012 para aprender a língua e hoje, depois de ter concluído uma pós-graduação em relações internacionais, trabalha para a empresa de jogos virtuais IGS. “Há vantagens e desvantagens em relação ao Brasil. Os coreanos são bastante organizados e práticos, mas também muito literais, apressados e extremamente competitivos, fato que às vezes é uma dor de cabeça para quem quer construir sua vida aqui”, afirmou a carioca, que admitiu já ter comprado mais de 120 cópias do mesmo álbum de sua banda de K-pop favorita para poder participar de uma sessão especial de autógrafos.

A competitividade no país asiático provoca muitas vezes reações hostis de estudantes sul-coreanos em relação aos estrangeiros. “Apesar de nunca ter sido pessoalmente afetado, não são poucas as histórias de pessoas que são testemunhas da hostilidade de coreanos na hora de disputar uma vaga de emprego ou de tirar a maior nota na turma”, afirmou Gustavo Kawashita, de 21 anos, youtuber e estudante de cinema na Hanyang University. Segundo ele, isso acontece, entre outros motivos, por ser “comum as empresas pedirem o histórico escolar em processos seletivos na hora de escolher seus novos funcionários”.

Kawashita, descendente de japoneses, conta que seus pais ficaram surpresos quando optou por realizar seus estudos na Coreia do Sul e não na terra de seus ancestrais. “Eles tinham expressado o desejo de que eu fosse ao Japão, mas sabiam que eu era fascinado por filmes, séries e novelas coreanos. Quando fui aprovado para o processo seletivo da bolsa, não teve outro jeito. Vim e estou muito satisfeito aqui”, contou depois de arriscar alguns passos de uma de suas coreografias favoritas do grupo Twice nas escadarias de sua faculdade.

As conversações de paz entre as Coreias do Norte e do Sul, somadas à reunião prevista entre Donald Trump e Kim Jong-un, reduzem as chances de um conflito na península coreana e melhoram ainda mais as perspectivas para os estudantes brasileiros. “Antigamente minha mãe me ligava preocupada, com medo de uma guerra estourar, de ter um ataque do Kim Jong-Un, querendo saber se eu sabia onde havia abrigo antibomba”, lembrou Fernanda Menicucci. “Hoje sou eu que ligo toda semana para minha família no Rio de Janeiro para ter certeza de que ninguém foi pego por uma bala perdida.”

GESTÃO E CARREIRA

NA BOCA DO POVO

Identificar novas oportunidades, entender o comportamento de compra do consumidor e converter engajamento em vendas são missões necessárias para a sobrevivência e o sucesso de qualquer empresa – e é aqui que entra o marketing do futuro. Conheça as estratégias mais populares realizadas pela área para aumentar a rentabilidade de seu negócio.

Na boca do povo

Para que um negócio dê certo em meio a um cenário de tantas incertezas, ter uma boa ideia não é mais suficiente.

Inovar uma vez e nunca mais também não basta. A verdade é que toda empresa precisa sempre de alguém que assuma um dos papéis mais complexos da organização: o inquieto, o analítico, o observador. Esse é o papel do profissional de marketing em sua essência. Como um campo do conhecimento, o marketing aborda o estudo do público de interesse das empresas e orienta as decisões das organizações para trabalhar exatamente esse público. Mas, mais do que fazer uma coleta de dados ou criar um produto, essa área trabalha fundamentalmente com planejamento, pesquisa e, por que não dizer, até com psicologia. Essa é a parcela de uma empresa que questiona o tempo todo, que aponta erros e acertos identificados por clientes, que busca novas oportunidades de atuações para o negócio – em resumo, é impossível pensar em uma empresa hoje, seja de qual porte for, que não tenha alguém ou uma equipe dedicada a essa função.

Se há pouco mais de 20 anos o marketing tinha como foco principal o aumento das vendas, atualmente sua atuação também visa entender e satisfazer as necessidades do consumidor. Com isso, o marketing tem assumido a missão de promover, muitas vezes ao lado da comunicação, um verdadeiro mergulho dos clientes nas marcas. Com as ferramentas e estratégias disponíveis, em especial as que surgiram por meio da tecnologia, esses profissionais conseguem segmentar clientes, mercados e, de quebra, conquistar novos consumidores dia após dia. Enquanto no passado, em tempos difíceis, empresários iniciavam os cortes de custos nas áreas de Comunicação e Marketing, hoje essa história tem sido escrita de forma diferente.

Para comprovar a ascensão do marketing e de suas ferramentas para o sucesso e a sobrevivência das empresas, a Sales force, uma das líderes mundiais em plataformas de gerenciamento de relacionamento de clientes (CRM), divulgou no último mês de maio um estudo com mais de quatro mil profissionais da área, com o objetivo de entender como é possível conquistar a satisfação e o engajamento dos clientes na contemporaneidade. Segundo a pesquisa, 65% dos profissionais de alto desempenho da área adotaram algum tipo de estratégia de jornada do cliente, e 88% acreditam que esta é fundamental para o sucesso de sua estratégia geral de marketing. Em paralelo, 63% das equipes de marketing de alto desempenho estão implementando transformações digitais em suas organizações.

Dentre os resultados sobre o Brasil, a Sales force apontou que 87% dos entrevistados têm participado de iniciativas de melhoria da experiência do consumidor e 47% colocaram a satisfação dos clientes como principal mensuração do sucesso em marketing. Esses dados são apenas um pequeno exemplo de como as companhias entendem e veem o marketing como determinante para o caminho da lucratividade e, consequentemente, do reconhecimento de sua marca em um mercado tão globalizado. Para ajudar a tornar o marketing uma parte importante do funcionamento da sua empresa, veja a seguir como fazer um planejamento assertivo para seu negócio, conheça as mais populares estratégias existentes e saiba como implementá-las a partir de agora.

0S 4Ps

Estudar o consumidor e seu comportamento é essencial e determinante para que qualquer negócio tenha sucesso no mercado. É também uma das mais importantes etapas da estruturação de um plano de negócio. Compreender a forma com que o público toma suas decisões de compra faz toda a diferença para a atuação do empreendimento. Muitas vezes, para isso, o empresário precisa usar de sua sensibilidade e buscar uma visão quase isenta, de fora, que o permita olhar para a própria empresa como um cliente. Só assim ele poderá encarar com sinceridade qual é a percepção do consumidor sobre seu produto ou serviço e quais são as maneiras mais efetivas de atingi-lo e conquistá-lo.

Para ter uma visão mais objetiva das possibilidades de atuação da empresa, aumentar as vendas e conseguir construir uma marca de sucesso, é fundamental ter bastante claros os chamados 4 Ps do marketing, também conhecidos como marketing mix. Cada um dos ”Ps” citados corresponde a definições que ajudam no atingimento de um determinado público-alvo. Assim como na cozinha, onde esquecer um ingrediente pode acabar com a harmonia de um prato, no marketing também é preciso ter esses quatro itens definidos, isto é, Produto, Praça, Preço e Promoção.

Conforme explica o especialista em marketing digital e cofundador da agência digital de performance Pixel 4, Marcelo Montone, “Produto diz respeito ao que o empresário vende, quais são seus diferenciais e por que as pessoas comprariam seu produto ou serviço. Já Preço avalia se há competitividade, uma vez que o preço é um fator absolutamente determinante na escolha dos consumidores, especialmente em épocas de crise. Você estudou seus concorrentes, consegue ganhar deles no preço? Praça aborda onde ele quer distribuir seu produto, pois isso influencia na verba e nos resultados esperados. Por fim, em Promoção, o empresário define o que ele pode oferecer como benefício extra para quem os escolhe. Pode pensar em sampling, campanhas virais, promoções com prêmios sorteados pela Caixa, etc.”.

O estudo dos 4 Ps é o primeiro passo para a estruturação do Plano de Marketing de qualquer empresa. Dentre as variáveis que devem ser previstas nesse plano estão, por exemplo, o resultado esperado para que sejam estabelecidas as metas de vendas, a verba disponível para alavancar a marca sem prejudicar o balanço e o resultado positivo da empresa e o pipeline de lançamentos e ações da empresa.

Para o coordenador dos cursos de Administração e Relações Internacionais da ESPM Rio, Marcelo Guedes, o plano de marketing deve ser criado e acompanhado pelos gestores da empresa. ”Além       do conhecimento dos hábitos de uso e atitudes do consumidor, deve-se conhecer, em detalhes, o ambiente competitivo no qual o negócio está inserido, como concorrentes, substitutos e fornecedores. O conhecimento de tendências de mercado e casos de sucesso também é muito bem-vindo. Finalmente, não deve ser deixado de lado as tendências relacionadas com os ambientes econômico, sociocultural, político-legal, demográfico e natural”, esclarece Guedes.

Usualmente, vemos marcas de grande porte realizar estudos massivos e de maior complexidade a respeito do mercado onde a empresa está inserida ou sobre seus públicos de interesse. Já para os pequenos e médios empresários, de acordo com o professor de Planejamento de Comunicação, Marketing Estratégico e Comunicação Digital do Centro Universitário Senac, Enrico Rosa Trevisan, três questões básicas devem ser levadas em consideração: “uma avaliação sincera sobre os benefícios e características (positivas e negativas) de seu produto ou serviço, uma boa definição e compreensão do processo decisório de seu público-alvo e, por fim e não menos importante, uma análise de qual posição sua empresa ocupa no cenário competitivo. Olhar para a concorrência é tão importante quanto ser autocrítico”.

CENÁRIO EM EBULIÇÃO

Ainda que tenhamos como exemplo as ações realizadas por grandes empresas no marketing, o cenário tem se modificado nos últimos anos para as pequenas e médias empresas. A tecnologia possibilitou que um novo mundo fosse aberto, acessível a todos os tipos de negócios.

Para Enrico Trevisan, o ambiente digital favorece – e muito – para que as PMEs estabeleçam suas políticas de comunicação. “Isso porque ele apresenta algumas ferramentas de comunicação que, quando comparadas com formatos de anúncios no ambiente off-line, são consideravelmente mais baratas. O critério de eficiência/eficácia é sempre relativo. O planejamento de comunicação digital não é diferente das ferramentas tradicionais. Deve-se planejar com antecedência os critérios de sucesso e avaliação da campanha para que o empresário tenha consciência tanto das possibilidades quanto das limitações de ferramentas digitais”, afuma o professor do Senac-SP.

No ambiente on-line é possível investir baixo e colher bons resultados tanto a respeito do diagnóstico de novos mercados e públicos quanto sobre impacto de campanhas de comunicação. Para a especialista em Internet Marketing e autora do livro “Facebook Marketing – Tudo o que você precisa saber para gerar negócios na maior rede social do mundo”, Camila Porto, é altamente recomendado que as PMEs busquem e apostem em estratégias de marketing baratas, geralmente encontradas por meio da tecnologia.

As mídias sociais e as opções de publicidade on-line, como Adwords, permitem que empresas com qualquer verba de marketing possam utilizar seus recursos. “O importante é investir o que for possível, pois a cada dia o mercado está ficando mais competitivo e difícil de gerar resultados sem investir em publicidade. O grande diferencial de mídias como o Facebook, por exemplo, é poder oferecer uma audiência global, mas com opções de segmentar os anúncios apenas para quem realmente tenha interesse em determinado produto ou serviço. Dessa forma, hoje, independentemente da verba que um negócio tenha, a partir de dez reais por dia, ele consegue promover sua solução para qualquer tipo de público”, projeta Camila.

Embora as perspectivas sejam otimistas, tornar estratégias baratas em rentabilidade para o negócio pode parecer fácil, mas exige esforço e entendimento de matérias que talvez não sejam especialidade do empresário, conforme pondera o especialista em marketing digital, Marcelo Montone. Segundo ele, o primeiro passo é reunir conhecimentos em marketing e nas possibilidades de se promover por meio dele e da internet. Depois, as PMEs devem encontrar quais ações trarão mais sucesso ao seu negócio.

Mas como descobrir qual se encaixa melhor no perfil da empresa e na verba disponível? “O melhor caminho é sempre iniciar por onde se tem uma mensuração de resultados mais apurada com custos de execução e promoção mais baratos, e isso acontece na internet. Trabalhar um site que seja acessível tanto em desktops quanto em tablets e smartphones, gerenciar o relacionamento com seus clientes por meio de conteúdos relevantes nas redes sociais e promover seus produtos e serviços através de mídia de performance no Google e Facebook atingindo em cheio seu público-alvo, além de campanhas de e-mail marketing”, aconselha Montone.

O marketing digital tem despontado como o grande local para que as PMEs possam expandir seus negócios, uma vez que a internet no Brasil possui mais de 110 milhões de usuários. Além disso, o custo de execução e de implementação, como citado brevemente por Camila Porto, é bem menor do que no off-line. O ambiente on-line também possui três características importantes que o diferencia dos tradicionais meios de comunicação de massa: a possibilidade de segmentação, que permite uma atuação mais assertiva; a alta interação, inexistente no passado e que se tornou quase uma regra de vida ou morte para as marcas hoje, uma característica intrínseca da internet, e finalmente a mensuração, pois a internet possibilita a total mensuração dos esforços promocionais. Vários fatores podem comprovar a popularidade do marketing digital. O primeiro é audiência. A cada dia, mais e mais pessoas usam a internet o dia inteiro para tudo. Isso abre um canal importante, pois é preciso estar onde o cliente está e ele está na internet. O segundo são as possibilidades de comunicação com essas pessoas, seja via conteúdo, informações, seja com anúncios, hoje há formas de impactar esse público, envolvê-lo e fazer a venda, tudo on-line ou trazer as pessoas do on-line para negócios físicos. “Por fim, a possibilidade de mensuração de resultados e avaliação do desempenho de uma ação praticamente em tempo real são pontos importantes para as empresas, ainda mais em tempos de economia. Se algo não está funcionando, basta mudar o rumo, rever a estratégia ou simplesmente parar uma campanha”, explana Camila Porto.

AUXILIANDO PMEs

Na última década, uma série de empresas passaram a surgir com o objetivo de auxiliar os pequenos negócios nessa batalha digital diária. Fundada em 2012, a Agência Small é especializada em marketing para pequenas empresas, oferecendo criação e design, projetos web, mídias e redes sociais, estratégias de marketing e marketing de conteúdo. Com 70 clientes ativos, atende no Brasil, na Argentina e em Miami.

Segundo o CEO da empresa, Arthur Cezar Domingues, há planos para empresas micros, pequenas e médias. No caso das microempresas, em um primeiro momento, elas buscam estar na internet, investindo em trabalhos pontuais, como criação de identidade digital, websites e material e apoio a vendas. Entre as pequenas, a agência prepara um planejamento de marketing e mídia. Para as médias, há serviços mais avançados e consultores de marketing disponíveis.

O marketing é essencial para toda e qualquer empresa entender e continuar entendendo onde está inserida (o que faço, para quem faço, como faço, quando faço, quanto cobro e como eu mostro tudo isso). Sem isso, não há possibilidade alguma de um negócio se sustentar por muito tempo. ”No caso das redes sociais, por exemplo, temos muitas possibilidades de expor o negócio para seu público, utilizando estratégias sem custos, como fazer postagens de dicas, sugestões, ofertas, promoções, datas especiais, além de interagir, associar-se a aplicativos free, trocar mensagens, seguir para ser seguido, ou utilizando anúncios patrocinados para potencializar, principalmente no início”, afirma Domingues.

Outro exemplo de sucesso é a GGV Consultoria Empresarial, que promove soluções rentáveis de marketing para auxiliar empreendedores a potencializarem micros, pequenos e médios negócios. Os diferenciais da GGV estão na metodologia de trabalho, na qual são adotados como premissas para a prestação de qualquer serviço a realização de pesquisas de mercado e o foco em viabilizar os projetos com custo­ benefício para o cliente.

O cofundador e diretor executivo da GGV, Geraldo Hisao, explica que as pesquisas da empresa apontam que os empresários chegam à agência com três principais dificuldades, sendo elas o próprio gestor, pois não sabem cobrar resultados ou não trabalham com metas, a gestão financeira e a falta de informações do mercado para realizar uma gestão estratégica do negócio.

Essa combinação de fatores leva a investimentos sem objetividade e clareza, promovendo o insucesso desses empreendimentos. “Muitos gastam em publicidade e investem pouco em marketing, além de poucos empresários saberem a real diferença entre um e outro. Existem muitas ações de marketing baratas e que dão um resultado muito satisfatório, como fechar parceria com empresas na região para impulsionar as vendas em dias de pouco movimento; realizar uma pesquisa de satisfação para gerar relacionamento com o cliente e gerar indicadores; cadastro completo dos clientes para envio de SMS, e-mail marketing e até mesmo WhatsApp; investir em Facebook Ads, que tem um alcance muito bom com pouco investimento; criação de combos para facilitar a escolha do cliente e aumentar o ticket médio e promoções em dias de menor movimento estimulando vendas de produtos específicos”, exemplifica o diretor da GGV.

 MICROMARKETING

Essa expressão passou a ter destaque recentemente, mas trata de um tema bastante corriqueiro na área, a segmentação. Por meio do micromarketing, o profissional delimita seu foco de atenção ao criar um produto ou desenvolver uma campanha. Dessa maneira, ele consegue ser mais assertivo e encontrar até um diferencial competitivo para o que está oferecendo. “A ideia é que se coloque o consumidor sob o microscópio, ou seja, que se faça uma avaliação bem detalhada sobre um determinado público. A segmentação de marketing é uma faceta do estudo mercadológico que pressupõe a delimitação de um grupo de consumidores para serem atendidos pelas empresas e que serão alvo de seus esforços de comunicação, sendo ela digital ou off-line”, detalha Trevisan.

A segmentação para o marketing ocorre da mesma maneira que a segmentação, por exemplo, as revistas impressas, em que publicações são cada vez mais específicas e aprofundadas, de forma a buscar diferenciação do conteúdo vasto da internet. Aqui, uma campanha feita a partir de um público específico, com suas escolhas e gostos bem definidos, seus comportamentos analisados, o sucesso do produto será muito maior. “Pessoas que moram perto tendem a ter comportamentos parecidos, e é esse tipo de segmentação que as empresas fazem em ações específicas de geolocalização, por exemplo”, lembra Marcelo Montone.

INBOUND MARKETING

A mais popular das estratégias de marketing atuais, o inbound marketing pressupõe que a geração atual necessita de informações, de conteúdos relevantes, e não somente de argumentação de vendas. Em resumo, é o chamado marketing de conteúdo, aquele que atrai o cliente para a empresa sem vender produtos, agregando valor ao conhecimento. A tática vai ao encontro do uso das mídias sociais, em que conteúdos interessantes são compartilhados a todo o tempo. Para Arthur Domingues, ele ainda engatinha no Brasil, mas é uma evolução natural do marketing digital. “A prática traz técnicas que, se bem elaboradoras e aplicadas, podem fazer uma empresa aumentar suas conversões e vendas sem necessariamente aumentar o investimento. Uma dica interessante para as PMEs é investir em vídeos inbound marketing. Se uma imagem equivale a mil palavras, um minuto de vídeo equivale a 1,8 milhão de palavras”, aconselha.

O inbound só funciona, no entanto, se houver uma combinação inteligente entre SEO, conteúdo engajador e campanhas em mídias sociais. Como prova do sucesso da prática, Geraldo Hisao afirma: “o inbound é a forma de oferecer conteúdo para os clientes, capturando leads e nutrindo esses leads para o momento de compra. Até o Facebook mudou recentemente suas métricas para que os conteúdos da timeline fossem mais relevantes e agradáveis para os usuários. Isso volta a gerar conteúdos relevantes para os clientes na hora em que ele quer absorvê-los”.

Entretanto, o professor e coordena ­ dor da ESPM Rio e sócio-diretor da Branded, Vítor Lima, alerta para cuidados necessários com esse tipo de estratégia, principalmente da estruturação de processos, geração de conteúdo e trabalho comercial. “Trabalhar a geração e tratamento de leads, por exemplo, pode ser um problema caso toda a organização não esteja orientada para essa prática. Como dica, no caso de se optar pelo inbound, acho importante que sempre seja considerada uma boa segmentação e produção de conteúdo relevante, tendo uma atenção especial ao que se coloca na landing page e formulário de captura de dados”, pondera.

 E-MAIL MARKETING

Estratégia mais antiga, o e-mail marketing passou por muita rejeição no início dos anos 2000, quando eles se tornaram sinônimo de SPAM, mas voltou a ganhar força depois que as empresas souberam como usá-lo. Com uma campanha bem estruturada, texto bem feito e target segmentado, o e-mail marketing promove uma grande conversão. A diferença é que agora os empresários entendem que o e-mail marketing só funciona quando os clientes pedem para receber o conteúdo.

Enviar para quem não solicitou, então, seria um tiro no pé, como reforça a especialista em internet marketing, Camila Porto. “Se for uma lista em que as pessoas pediram para receber conteúdo, certamente, é uma boa estratégia porque elas querem receber essas informações. Se for uma lista comprada ou que o cliente não pediu autorização para mandar, é melhor parar para evitar ser chamado de chato”, alerta.

Hoje ela diz que as pessoas não querem mais simplesmente receber propaganda em suas caixas de e-mail, elas querem valor, informação, algo que agregue em seu dia. “Vejo cada vez mais a importância do e-mail, desde que seja feito com relacionamento, não uma propaganda em massa sem nenhum critério”, reitera.

Atualmente, o e-mail marketing se tornou muito forte entre os que trabalham com e-commerce. Segundo Enrico Trevisan, do Senac­ -SP, para usá-lo bem, deve-se valer do pressuposto que a base de clientes cadastrados está bem atualizada e composta de informações não só cadastrais, mas também com informações de comportamento de compras, como frequência de compras e valores.

REDES SOCIAIS

Acima de tudo, estar nas redes sociais reforça a máxima de que empresas não dialogam com empresas, pessoas dialogam com pessoas. As redes sociais, portanto, devem ser compreendidas como uma força de engajamento e de relacionamento de empresas com clientes que, consequentemente, podem dar resultados no aumento das vendas. Mas o primeiro de tudo e que é determinante é entender a vocação de cada rede social para que a empresa “seja social”.

O Facebook, por exemplo, une informação e relacionamento aprofundado, possibilitando conteúdos e anúncios. O Instagram, por sua vez, é utilizado para quem quer transmitir um “estilo de vida”. “O mais importante é gerar valor para as pessoas. Produzir conteúdo de qualidade é algo que vem sendo falado há pelo menos uns dez anos, mas muitas empresas ainda veem as mídias sociais como um grande panfleto para fazer propaganda. As pessoas entram nas mídias sociais para se relacionar com amigos, consumir informações, entretenimento, mas também compram”, afirma Camila Porto.

Porém, quanto mais as empresas se relacionarem com seus clientes, gerarem valor para eles compartilhando informação de qualidade, mais conseguirão “extrair” valor no momento da venda. Utilizar vídeos é fundamental hoje, pois é o formato de conteúdo que as pessoas mais consomem e que permite maior proximidade com o público.

O professor da ESPM Rio lembra que, antes de tudo, é preciso entender que esses canais são para trabalhar relacionamentos, e não vendas diretas. “Minha recomendação é sempre buscar capacitação e consultoria especializada. A construção de marca leva anos, e a desconstrução, segundos, pois basta uma publicação fora de contexto para que seja iniciada uma crise e, consequentemente, prejudicar a imagem da marca em questão. Tendo claro o objetivo definido, muitas são as possibilidades de projeto, como geração de conteúdo e anúncios no Facebook ou Instagram”, avalia Vítor Lima.

 LINKS PATROCINADOS +ADWORDS

O uso de links patrocinados já é uma prática comum na internet. Eles são os anúncios de texto promovidos pelo Google tanto dentro do site como em outros da rede de relacionamento da plataforma. “Os links patrocinados funcionam através de segmentações demográficas e atitudinais, oferecendo aos consumidores ofertas através da busca por palavras-chave, portanto, um bom planejamento de conteúdo e de palavras-chave é essencial para um bom resultado, além da otimização da verba constantemente”, explica Marcelo Montone.

Já o Adwords é a ferramenta de publicidade do Google que incorpora os links patrocinados, a rede de display e o remarketing. Para Vítor Lima, como o Google possui em sua base aproximadamente 95% de todos os sites brasileiros, investir nessa ferramenta pode apresentar bom resultado. “Dificilmente um consumidor não consulta os resultados da ferramenta durante um processo de compra, o que pode ser explorado de maneira extremamente estratégica. Se mapeada corretamente a jornada desse consumidor, é possível fazer um anúncio de Adwords específico para cada fase/ etapa do processo”, indica.

Como exemplo, o professor da ESPM Rio diz que uma empresa que vende shampoo pode ter um anúncio para pessoas que estejam na fase de avaliação de alternativas de produtos que possuem determinado componente e outro para quem ainda está buscando uma solução para queda, que não necessariamente seja um shampoo.

Camila Porto ressalta que a primeira dica em relação ao Adwords é trabalhar com palavras de cauda longa, ou seja, que têm volume de busca interessante em relação ao custo por clique. “Evitar entrar no mercado de palavras genéricas é uma das coisas mais inteligentes que uma pequena empresa pode fazer, pois pode ter um custo­ benefício melhor. Aproveitar também a rede de display é um caminho interessante, pois pode atingir públicos mais segmentados e qualificados pagando menos”, diz.

SEO

Sigla para Search Engine Optimization, a prática de SEO é extremamente importante para qualquer conteúdo na internet. O professor do Senac-SP, Enrico Trevisan, explica que ela permite que certos códigos presentes no site da empresa possam ajudar para que o conteúdo seja encontrado com mais facilidade pelos motores de busca, de forma orgânica. É um serviço que deve ser feito com o acompanhamento de um profissional da área por ser relativamente específico, mas tão importante quanto a política de Links Patrocinados, afinal estamos falando da possibilidade de a empresa ser encontrada pelo consumidor no ambiente digital.

Com o SEO, a indexação permite que o site da empresa apareça nas buscas mesmo quando o usuário não procure pelas principais palavras da marca, como nome da empresa, produto, etc. “Eu indico SEO para qualquer empresa que tenha um site, pois é muito mais barato que a estratégia de AdWords e o site consegue ter um posicionamento orgânico, onde a maioria das pessoas acabam clicando. Claro que é uma estratégia que demora alguns meses para começar a dar resultado”, indica Geraldo Hisao.

 ENVIOS DE SMS

O uso do SMS como ação de marketing é algo controverso nos tempos atuais, contrapõem os especialistas entrevistados. É unânime que o envio de SMS para clientes deve ser de forma extremamente inteligente, com foco na potencialização do consumo ou do engajamento desses clientes para com a marca. Nesse caso, a segmentação vale mais uma vez como regra maior – somente envie SMS para aqueles clientes que assim o desejaram e com mensagens objetivas.

Para Marcelo Montone, SMS deve ser enviado “somente para os clientes que realmente querem receber publicidade em forma de mensagem, mas particularmente acho muito invasivo e complicado para a marca trabalhar”. Enrico Trevisan, por sua vez, também reforça que esse tipo de comunicação pode ser considerado invasivo e cansativo pelos consumidores. “Porém, essas ‘falhas’ podem ser minimizadas com bases mais qualificadas de clientes e com mensagens mais coerentes com as necessidades do público”, reforça.

 MARKETING DE GUERRILHA

É importante ressaltar que nessa tática não há lugar para o convencional ou para o tradicionalismo. No marketing de guerrilha, o principal é pensar fora da caixa, de forma a causar grande impacto em seus consumidores, a partir de poucos recursos. Geralmente, essas ações velozes e criativas ajudam as marcas a alcançar altos ROIs (Retorno sobre o Investimento). Essa estratégia pode ser compreendida como um conjunto de técnicas inusitadas ou não convencionais que têm o objetivo de fazer uma marca menor ganhar notoriedade em um contexto desfavorável ou dominado por outra mais favorecida. “Resumindo, trata-se de uma ação de comunicação usando formas diferenciadas de tornar a estratégia inesquecível pelo público-alvo. Envelopamentos de ônibus e ações inusitadas em mobiliário urbano têm sido amplamente usadas no Brasil”, prevê o coordenador da ESPM Rio, Marcelo Guedes. Já Eurico Trevisan vê na prática uma forma de “pegar uma onda” de oportunidade deixada pela concorrência e, assim, ganhar espaço em um momento inesperado. “Podemos citar exemplos que ganharam certa notoriedade, como o Burger King ter convidado o McDonald’s para juntar esforços no Dia Mundial da Paz (2015) e criarem, em conjunto, o McWhopper. Esse investimento do Burger King foi claramente intencional para “jogar” com a opinião pública, fazendo com que o McDonald’s fosse visto como uma empresa não interessada em “promover a paz”, quando, na verdade, a divulgação da iniciativa do Burger King aconteceu em menos de 20 dias antes da data comemorativa, o que impossibilitaria a verdadeira junção das empresas nessa empreitada”, exemplifica o professor do Senac-SP.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 19: 16-22

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A Consulta e a Decepção do Jovem Rico

Eis aqui um relato do que ocorreu entre Cristo e um esperançoso jovem nobre que se dirigiu a Ele com uma séria pergunta. Mateus diz ser um jovem (v. 20); e eu o intitulei um nobre, não apenas porque ele tivesse grandes posses, mas porque era um príncipe (Lucas 18.18), um magistrado, um juiz de paz em seu país; é provável que tivesse habilidades acima da sua idade, de outro modo sua juventude o teria privado da magistratura.

Então, no que diz respeito a esse jovem nobre, nos é dito o quanto ele tentou alcançar o céu e falhou.

I – O quanto realmente ele tentou alcançar o céu, e o quão gentil e carinhosamente Cristo o tratou, em prol de um bom início. Aqui está:

1. A maneira educada como o nobre se dirige a Jesus Cristo (v. 16): “Bom Mestre, que bem-farei, para conseguir a vida eterna?” Nenhuma pergunta melhor poderia ser feita, nem mais seriamente.

(1).  Ele confere a Cristo um título honroso, “Bom Mestre”. Isso não anuncia uma condição de regente, mas um mestre que ensina. Chamá-lo de “Mestre” indica a submissão do jovem, e também a sua vontade de ser ensinado; e “bom Mestre”, a sua afeição e um peculiar respeito para com o Mestre, como no caso de Nicodemos: “És mestre, vindo de Deus”. Não sabemos de ninguém que tenha se dirigido a Cristo mais respeitosamente do que aquele mestre em Israel e este príncipe. É bom quando a qualidade e a dignidade dos homens aumentam a sua civilidade e cortesia. Era uma atitude nobre dedicar esse título de respeito a Cristo, apesar da simplicidade de sua aparência. Não era habitual, entre os judeus, abordar seus mestres com o título de “bom”; portanto, isso evidência o respeito incomum que ele nutria por Cristo. Note que Jesus Cristo é um bom Mestre, o melhor dos mestres; ninguém ensina como Ele; Ele é conhecido por sua bondade, pois Ele pode “compadecer-se ternamente dos ignorantes”; Ele é “manso e humilde de coração”.

(2).  Esse nobre se aproxima de Jesus com uma missão importante (nenhuma missão poderia ser mais importante do que esta), e ele veio não para provocá-lo, mas desejando sinceramente ser ensinado por Ele. Sua pergunta é: “Que bem-farei, para conseguir a vida eterna?” Isso causa a impressão:

(1).  De que ele tinha uma forte crença na vida eterna; ele não era saduceu. Ele estava convencido de que no outro mundo existe uma felicidade pronta para aqueles que estão preparados para ela neste mundo.

[2].  De que ele estava interessado em se assegurar de que viveria eternamente, e estava desejoso dessa vida mais do que de qualquer prazer desta vida. Era raro, para alguém da idade e da qualidade desse jovem, parecer tão preocupado com o outro mundo. Os ricos tendem a considerar que está abaixo deles fazer uma pergunta como essa; e os jovens ainda mais – mas aqui estava um jovem, e um homem rico, apreensivo sobre a sua alma e a eternidade.

[3].  De que ele era cônscio de que algo deve ser feito, alguma coisa boa, para a obtenção dessa felicidade. É através de uma paciente perseverança em fazer o bem que procuramos alcançar a imortalidade (Romanos 2.7). Nós devemos prosseguir fazendo, cada vez mais, aquilo que for bom. O sangue de Cristo é o único preço pela vida eterna (Ele a conquistou para nós), mas a obediência a Cristo é o caminho que leva a ela (Hebreus 5.9).

[4].  De que ele era, ou pelo menos acreditava ser, desejoso de fazer o que tinha de ser feito para obter a vida eterna. Aqueles que sabem o que é ter vida eterna, e o que é não alcançá-la, ficarão felizes em aceitá-la sob quaisquer termos. O Reino dos céus sofre, sem problema algum, este tipo de violência santa. Note que embora existam muitos que dizem: “Quem nos mostrará o bem?”, nossa grande pergunta deve ser: “Que bem-farei, para conseguir a vida eterna?” O que devemos fazer para ser felizes para sempre, felizes em outro mundo? Porque este mundo não tem aquilo que nos fará felizes.

2. O encorajamento que Jesus Cristo deu a essa abordagem. Não é de seu feitio mandar embora, sem uma resposta, qualquer pessoa que vem a Ele com tal determinação, pois nada o agrada mais (v. 17). Em sua resposta:

(1).  Ele ternamente ajuda a fé do jovem; pois, sem dúvida, Ele não quis fazer uma reprovação, quando disse: “Por que me chamas bom?” Mas Ele pareceu encontrar essa fé no que o jovem disse quando o chamou de “bom Mestre”, algo de que o nobre talvez não estivesse consciente; ele pretendia somente reconhecê-lo e honrá-lo como a um bom homem, mas Cristo o levaria a reconhecê-lo e honrá-lo como a um bom Deus; porque “não há bom, senão um só que é Deus”. Note como Cristo está graciosamente pronto para fazer o melhor que puder daquilo que é dito ou feito de errado; assim, Ele está pronto para fazer o máximo do que é dito ou feito de bom. Suas interpretações são frequentemente melhores do que as nossas intenções. Isso fica patente na expressão: “Tive fome, e destes-me de comer”, embora não pensastes que fosse eu. Cristo fará esse homem entender que Ele é Deus, mas que não deve chamar de bom alguém que esteja na forma humana; Ele o fez para nos ensinar a transferir para Deus todo o louvor que nos for dado, a qualquer momento. Alguém nos chama de bom? Devemos dizer-lhe que toda bondade é de Deus, e, portanto, dar glória não a nós, mas a Ele. Todas as coroas devem ser lançadas diante do trono do Senhor. Só Deus é bom, e além dele não há ninguém essencialmente, originalmente, e invariavelmente bom. A bondade é dele e vem dele, e toda a bondade na criatura é dele; Ele é a fonte da bondade, e quaisquer que sejam as correntes, todas as fontes estão nele (Tiago 1.17). Ele é o grande padrão e o grande exemplo de bondade; por Ele, será medida toda bondade; aquilo que for como Ele, e que estiver de acordo com a sua vontade, pode ser considerado bom. Em nossa linguagem, o chamamos de “Deus”, porque Ele é bom. Nisso, como em outras coisas, o nosso Senhor Jesus é “o resplendor da sua glória” (e a sua bondade é a sua glória), e “a expressa imagem da sua pessoa”. Portanto, Ele é adequadamente chama­ do de “bom Mestre”.

(2).  Ele direciona claramente o seu discurso, em resposta à pergunta do nobre. Ele começou com a ideia de que Ele era bom, e, consequentemente, Deus, mas não ficou nisso, a fim de que não parecesse que estava se desviando, e assim abandonando a questão principal, como muitos fazem em discussões desnecessárias e disputas verbais. A resposta de Cristo é, em resumo, esta: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos”.

[1].  O objetivo proposto é “entrar na vida”. O jovem, em sua pergunta, falou de vida eterna. Cristo, em sua resposta, fala de vida; para nos ensinar que a vida eterna é a única vida verdadeira. As palavras relativas a ela são as palavras “desta vida” (Atos 5.20). A vida atual dificilmente merece o nome de vida, pois é em meio a esta vida que nós entramos na morte; ou, na realidade, entramos na verdadeira vida, naquela vida espiritual que é o começo e o penhor da vida eterna. O príncipe desejava saber como poderia ter a vida eterna; Cristo lhe diz como ele poderia entrar nela; nós a temos através da conquista de Cristo, um mistério que ainda não foi inteiramente revelado, e por isso Cristo o evita. Mas o modo de entrar nela é através da obediência, e Cristo nos instrui nisso. Pela obediência, conquistamos nosso título; através dela, assim como por nosso testemunho, nós a provamos. É acrescentando virtude à fé que nos é “concedida a entrada (a palavra usada aqui) no Reino eterno” (2 Pedro 1.5,11). Cristo, que é a nossa vida, é o caminho para o Pai. É através de Cristo que vemos a Deus Pai e damos frutos. Cristo é o único caminho, mas os deveres e a obediência da fé são os caminhos para Cristo. Na morte e no grande dia, existe uma entrada para a vida futura, uma entrada ampla, e apenas aqueles que cumprem o seu dever entrarão na vida; é o criado fiel e diligente que entrará então no gozo do seu Senhor, e esse gozo será a sua vida eterna. Há uma entrada para a vida agora; “nós, os que temos crido, entramos no repouso” (Hebreus 4.3). Nós temos paz, consolo e gozo na fé e na esperança da glória que há de ser revelada, e para isso a obediência sincera também é indispensavelmente necessária.

[2]. O caminho prescrito consiste em observar os mandamentos. Note que observar os mandamentos de Deus, conforme eles são revelados e tornados conhecidos para nós, é o único caminho para a vida e para a salvação. E a sinceridade aqui é recebida através de Cristo, como o nosso aperfeiçoamento no Evangelho, assegurando o perdão, através do arrependimento, naquilo em que falhamos. Através de Cristo, somos libertados do poder da condenação da lei, mas o poder da autoridade dela reside na mão do Mediador, e sob ela. Nessa mão, ainda estamos “debaixo da lei de Cristo” (1 Coríntios 9.21). Estamos sob esta mão como sob uma regra, embora não como um pacto. A obediência aos mandamentos inclui a fé em Jesus Cristo, pois este é o maior dos mandamentos (1 João 3.23) – e uma das leis de Moisés dizia que quando o grande Profeta se levantasse, os israelitas deveriam ouvi-lo. Observe que para nossa felicidade, agora e para sempre, não basta conhecermos os mandamentos de Deus; devemos observá-los, fazendo deles o nosso modo de agir, obedecê-los como nossa prática comum, guardá-los como nosso tesouro, cuidadosamente como as meninas dos nossos olhos.

[3]. Diante de seu pedido insistente por mais exemplos, o Senhor menciona alguns mandamentos específicos que o jovem deve guardar (vv. 18,19). O jovem perguntou a Jesus: “Quais?” Note que aqueles que querem seguir os mandamentos de Deus devem buscá-los diligentemente, e indagar a respeito deles, no que eles consistem. Esdras preparou o seu coração para buscar a lei e cumpri-la (Esdras 7.10). “Há muitos mandamentos na lei de Moisés; bom Mestre, diga-me quais são aqueles cuja observância é necessária para que eu alcance a salvação”.

Em resposta a isso, Cristo especifica vários, especialmente os mandamentos da segunda tábua. Em primeiro lugar, aquele que se refere à nossa própria vida e a do nosso próximo: “Não matarás”. Em segundo lugar, aquele que se refere à nossa decência e à do nosso próximo, que nos deve ser tão cara como a própria vida: “Não cometerás adultério”. Em terceiro lugar, aquele que se refere à nossa riqueza e bens exteriores, e aos do nosso próximo, conforme protegidos pela lei da propriedade: “Não furtarás”. Em quarto lugar, aquele que se refere à verdade e ao nosso bom nome, e ao do nosso próximo: “Não dirás falso testemunho”, nem contra ti mesmo, nem contra o teu próximo; assim, este mandamento é expresso de forma geral. Em quinto lugar, aquele que se refere aos deveres ligados aos relacionamentos particulares: “Honra teu pai e tua mãe”. Em sexto lugar, aquela abrangente lei do amor, que é a fonte e o resumo de todas essas obrigações, de onde todas elas derivam, sobre a qual todas se apoiam e na qual todas são cumpridas: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5.14; Romanos 13.9), a “lei real” (Tiago 2.8). Alguns pensam que isso surge aqui, não como o resumo da segunda tábua, mas como a importância particular do décimo mandamento: “Não cobiçarás”, que em Marcos é: “Não defraudarás”, implicando que não é lícito obter vantagem ou ganho através da diminuição ou perda de outra pessoa; pois isso é cobiçar e amar a si mesmo mais do que ao próximo, a quem cada um deve amar como a si mesmo, e tratar como trataria a si mesmo.

O nosso Salvador menciona somente obrigações da segunda tábua; não como se a primeira fosse menos importante, mas:

1. Porque aqueles que ocupavam, então, o lugar de Moisés, negligenciaram por completo ou corromperam em grande parte esses preceitos em suas pregações. Enquanto eles pressionavam pelo “dízimo da hortelã, do endro e do cominho”, o “juízo, a misericórdia e a fé”, resumo das obrigações da segunda tábua, eram desprezados (cap. 23.23). As pregações daqueles judeus se esgotavam totalmente nos rituais, sem considerar a ética; por isso Cristo insistia mais naquilo em que eles menos se concentravam. Uma verdade única ou uma única obrigação não deve cancelar outra, mas cada uma deve ter o seu lugar e manter-se nele. Porém, a equidade requer que aquela que estiver em maior risco de ser excluída seja ajudada. Esta é a verdade a que somos chamados a prestar o nosso testemunho, e que não é somente confrontada, mas negligenciada.

2. Porque Ele ensinaria ao jovem, e a nós todos, que a honestidade moral é uma parte necessária da verdadeira cristandade, e que assim deve ser considerada. Embora um homem de moral simples esteja longe de ser um cristão completo, certamente um homem imoral não pode ser um cristão verdadeiro; pois a graça de Deus nos ensina a viver sóbria e moralmente, bem como devotamente. Além disso, embora as obrigações da primeira tábua contenham em si mais aspectos da essência da verdadeira religião, as obrigações da segunda tábua contêm mais evidências dela. A nossa luz arde pelo amor que temos por Deus; mas ela brilha no amor que temos pelo nosso próximo.

II – Observe, nesse ponto, quais eram os defeitos do jovem, embora se apresentasse como justo, e em que ele falhou; ele falhou por duas coisas:

1. Pelo orgulho e um conceito vaidoso de sua própria virtude e força. Esta é a ruína de milhares de pessoas que se tornam infelizes ao se imaginarem felizes. Quando Cristo lhe disse quais mandamentos deveria guardar, ele respondeu com desdém: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade” (v. 20).

Considere então que:

(1).  No entendimento que este jovem tinha da lei, de que apenas os aspectos externos do ato pecaminoso eram proibidos, eu acredito que ele disse a verdade, e Cristo sabia disso, pois não o contra­ disse. Além disso, foi dito que Jesus o amou. Até então, tudo era muito bom e agradável a Cristo. O apóstolo Paulo considera isso um privilégio, não desprezível em si mesmo, embora isso nada fosse em comparação com Cristo, pois Ele era, “segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3.6). Seu cumprimento desses mandamentos era completo: “Todas essas coisas tenho observado”. Ele se esforçava desde cedo, e de uma forma constante: “desde a minha mocidade”. Note que um homem pode estar totalmente livre do pecado e ainda assim não alcançar a graça e a glória. Suas mãos podem estar limpas das corrupções externas e ainda assim ele pode perecer eternamente pela maldade de seu coração. O que devemos pensar, então, daqueles que não atingem esse ponto, cuja trapaça e injustiça, embriaguez e impureza, testemunham contra eles? Aqueles que desde a juventude violaram a todos esses mandamentos, embora tenham chamado a si mesmos pelo nome de Cristo? Bem, é triste estar em um nível inferior ao daqueles que não são dignos de alcançar o céu.

Também era louvável que ele desejasse saber o que mais era esperado dele: “Que me falta ainda?” Ele estava convencido de que lhe faltava algo para completar suas obras diante de Deus, e estava, pois, desejoso de sabê-lo, porque, se ele não estava enganado, desejava realmente fazê-lo. Não tendo ainda alcançado o que buscava, ele parecia avançar ainda mais. E ele recorreu a Cristo, pois esperava-se que a sua doutrina refinasse e aperfeiçoasse a instituição mosaica. Ele desejava saber quais eram os mandamentos especiais de sua religião, para que pudesse cumprir tudo que nela havia, para se aperfeiçoar e completar. Quem poderia fazer uma oferta mais honesta?

Mas:

(2).  Mesmo naquilo que disse, o jovem revelou a sua ignorância e estupidez.

[1].  Tomando a lei em seu sentido espiritual, como Cristo a expunha, sem dúvida, em muitas coisas ele havia pecado contra todos esses mandamentos. Se ele estivesse familiarizado com a extensão e o significado espiritual da lei, ao invés de dizer: “Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda?”, ele teria dito, com vergonha e tristeza: “Tudo isso tenho violado; o que farei para que os meus pecados sejam perdoados?”

[2].  Tome isto como você quiser, que ele o disse com características de orgulho e altivez, contendo excessiva ostentação, que é excluída “pela lei da fé” (Romanos 3.27), e que o excluí da justificação (Lucas 18.11,14). Ele se valorizava demais, como faziam os fariseus, apoiando-se na aparência da sua fé diante dos homens, e tinha orgulho disso, o que prejudicava a aceitabilidade da sua fé. A frase: “Que me falta ainda?”, talvez não fosse tanto um desejo por mais esclarecimentos como uma exigência de enaltecimento de sua suposta perfeição atual, e um desafio ao próprio Cristo a lhe mostrar qualquer ponto em que apresentasse alguma falha.

2. Ele estava longe da salvação devido a um amor exagerado ao mundo e aos seus prazeres. Essa foi a rocha fatal, sobre a qual ele se rompeu. Observe:

(1).  Como ele foi testado nessa questão (v. 21). Jesus lhe disse: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens”. Cristo colocou de lado a questão da ostentação da sua suposta obediência à lei, desconsiderando-a, pois isso seria uma maneira mais eficaz daquele jovem se mostrar, do que uma discussão sobre o alcance da lei. “Vai”, disse Cristo, “se queres ser perfeito, se queres te mostrar sincero em tua obediência” (pois a sinceridade é o nosso aperfeiçoamento no Evangelho), “se queres te aproximar daquilo que acrescentou à lei de Moisés, se queres ser perfeito, se queres entrar na vida, e assim ser perfeitamente feliz”. Aquilo que Cristo prescreve aqui não é um exagero ou um aperfeiçoamento sem o qual não podemos ser salvos; mas, em seu escopo e objetivo principais, é nossa obrigação necessária e indispensável. Aquilo que Cristo disse ao jovem precisa ser bem mais entendido por todos nós, que, se quisermos nos justificar como verdadeiros cristãos, e quisermos ser considerados como pelo menos herdeiros da vida eterna, devemos fazer duas coisas:

[1).  Devemos, na prática, preferir os tesouros celestiais às riquezas e opulência deste mundo. Aquela glória deve ter precedência em nosso julgamento, e apreço diante da glória deste mundo. Não é mérito nosso preferir o céu ao inferno; o pior dos homens neste mundo ficaria feliz em ter Jerusalém como refúgio, quando não pode mais permanecer aqui, e tê-la como substituta; mas torná-la nossa opção, e preferi-la à terra, significa ser um cristão de fato. Nestas circunstâncias, como evidência disso, em primeiro lugar, devemos entregar o que temos neste mundo para a honra e o serviço a Deus: “Vende tudo o que tens, dá-o aos pobres”. Se as oportunidades de caridade forem muito prementes, venda os bens que porventura tenha para dá-los aos necessitados; como faziam os primeiros cristãos, tendo em vista esse mandamento (Atos 4.34). Vende o que não podes entregar para uso piedoso, todas as vossas coisas supérfluas; se não podes fazer o bem com elas, vende-as. Não te prendas a elas, abra mão delas de todo o coração em honra a Deus, e a título de ajuda aos pobres”. Um piedoso desprezo pelo mundo e uma compaixão pelos seus pobres e aflitos são, no todo, uma condição de salvação. E para aqueles que têm recursos, dar esmolas é, da mesma forma, uma evidência necessária desse desprezo pelo mundo e dessa compaixão pelos nossos irmãos; por meio disso, será realizado o julgamento no grande dia (cap. 25.35). Embora muitos daqueles que se dizem cristãos não ajam como se acreditassem nisso; é certo que quando aceitamos Cristo, de­ vemos abandonar o mundo, pois não podemos servir a Deus e ao dinheiro. Cristo sabia que a avareza era o pecado que mais facilmente envolvia este jovem, pois em­ bora tudo o que possuía houvesse sido conquistado honestamente, ele não podia compartilhá-lo alegremente; e, através disso, Ele descobriu a sua falta de sinceridade. Esta ordem foi como o chamado de Abraão: “Sai-te da tua terra… para a terra que eu te mostrarei”. Assim como Deus prova os crentes através de suas graças mais poderosas, Ele também testa os hipócritas através dos piores pecados que cometem. Em segundo lugar, devemos depender daquilo com que contamos no outro mundo, como uma recompensa por tudo aquilo que deixamos para trás, perdemos ou gastamos por amor a Deus neste mundo: “Terás um tesouro no céu”.

E nosso dever confiar em Deus para que tenhamos uma felicidade extraordinária, que nos recompensará por todos os gastos realizados a serviço de Deus. O manda­ mento soou como severo e ríspido: “Vende tudo o que tens, dá-o”; e a objeção contra isso logo se levantava: ”A caridade começa em casa”; por isso Cristo incorpora, imediatamente, a promessa de um tesouro no céu. Note que a promessa de Cristo torna os seus mandamentos indolores e o seu jugo não apenas suportável, mas agradável, doce e muito suave. Ainda assim, esta promessa era um julgamento da fé desse jovem, como também o mandamento o era em relação à sua caridade e ao seu desprezo pelas riquezas do mundo.

[2]. Devemos nos dedicar inteiramente a ser conduzidos e governados por nosso Senhor Jesus: “Vem e segue-me”. Aqui parece que o significado é uma assistência próxima e constante à sua pessoa, como se a venda do que ele possuía neste mundo fosse tão necessária como fora para os discípulos abandonarem suas profissões. Mas de nós, é exigido que sigamos a Cr isto, que devida­ mente nos ocupemos de suas ordens, sigamos rigidamente o seu padrão, e com alegria nos submetamos às suas ordens, e por obediência justa e total observemos seus estatutos, e guardemos suas leis, e isso tudo a partir de um preceito de amor a Ele, e de confiança nele, tendo um santo desprezo por todo o resto, em comparação a Ele, e muito mais por aquilo que compete com Ele. Isto é seguir a Cristo por completo. Vender tudo e dar aos pobres não será suficiente, a menos que nos cheguemos e sigamos a Cristo. Se eu der todos os meus bens para alimentar os pobres e não tiver amor, isto não me beneficiará em nada. Bem, nesses termos, e não abaixo deles, se receberá a salvação; e são termos muito acessíveis e razoáveis, e assim se parecerão para aqueles que se alegram pela salvação, sob quaisquer condições.

(2).  Veja como ele foi exposto. Isso o tocou em um ponto delicado (v. 22): “O jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades”.

[1]. Ele era um homem rico e amava suas riquezas, e, portanto, retirou-se. Ele não apreciava a vida eterna sob essas condições. Note que, em primeiro lugar, aqueles que têm muitas coisas neste mundo são mais sujeitos à tentação de amá-las e colocar nelas o seu coração. Essa é a natureza cativante da riqueza material, de forma que aqueles que menos a necessitam, mais a desejam: “Se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” (Salmos 62.10). Se ele tivesse apenas duas moedas e lhe fosse mandado dá-las aos pobres, ou apenas “um punha­ do de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija” e lhe tivesse sido ordenado que fizesse disso um bolo para um pobre profeta, a provação, se pensaria, teria sido muito maior e ainda assim essas provações foram supera­ das (Lucas 21.4; 1 Reis 17.14). Isso mostra que o amor ao mundo tem mais força do que as necessidades mais prementes. Em segundo lugar, o poder do amor a este mundo afasta de Cristo muitos que parecem ter bons senti­ mentos em relação a Ele. Uma grande riqueza é uma grande ajuda para aqueles que se colocam acima dela, assim como é um grande obstáculo para aqueles que se apaixonam por ela durante a sua caminhada para o céu.

Ainda assim havia alguma honestidade nisso, de modo que, não gostando das condições, ele se retirou, e não fingiu aceitá-las, pois não havia lugar em seu coração para o rigor delas; melhor assim do que como fez De­ mas, que, tendo conhecido o caminho da justiça, mais tarde voltou-se para o outro lado, “amando o presente século”, para maior escândalo da sua fé. Como este jovem não podia ser um cristão por completo, ele não seria um hipócrita.

[2]. Apesar disso, ele era um homem de opinião e bem-intencionado, e por isso retirou-se triste. Ele tinha confiança em Cristo e estava relutante em desistir dele. Muitos indivíduos são arruinados pelo pecado que come­ tem com relutância – retiram-se de Cristo com tristeza e mesmo assim nunca estão realmente tristes por deixá-lo, pois, se estivessem, voltariam para Ele. Dessa forma, a riqueza desse homem era motivo de aflição de espírito, ao mesmo tempo em que era a sua tentação. Esse seria, então, o motivo da tristeza, quando seus bens se esgotassem e todas as suas esperanças de vida eterna também fossem perdidas.