OUTROS OLHARES

LIBERDADE VIGIADA

Sistemas de monitoramento capazes de identificar um suspeito em uma multidão levantam o debate sobre os limites da privacidade em nome da vigilância.

Liberdade vigiada

Uma antiga máxima, atribuída tanto ao americano Thomas Jefferson (1743-1826) quanto ao irlandês John Philpot Curran (1750-1817), diz que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. A autoria pode não ter sido confirmada, mas o conteúdo se mostra cada vez mais profético conforme a tecnologia avança. Câmeras de segurança que monitoram ruas, edifícios e áreas públicas de forma ininterrupta se tornaram rotina e há tempos estimulam o debate sobre como a privacidade pode ser sacrificada em nome da busca de maior proteção. Os limites e as vantagens desse recurso ganharam um novo capítulo com um caso recente na China. Um homem, identificado apenas como Ao, acusado de crimes financeiros, achou que estaria seguro em meio às 60 mil pessoas que foram ao estádio de Nanchang assistir a um show do astro local Jacky Cheung. Mas Ao nem sequer teve tempo de ver o cantor subir ao palco. A tecnologia de reconhecimento facial usada pelas câmeras de segurança permitiu identificar sua presença. A polícia foi avisada e o prendeu imediatamente.

A China é um dos casos mais extremos quando o assunto é vigilância. O país tem cerca de 170 milhões de câmeras instaladas e o número chegará a 600 milhões até 2020. Embora em menor escala, o tipo de tecnologia que permite o reconhecimento facial a partir do cruzamento de algoritmos já está disponível no Brasil. Em São Paulo, o projeto City Câmeras criou uma plataforma colaborativa com dispositivos da prefeitura (cerca de dois mil já instalados) e câmeras residenciais, unidas em um sistema único, o que o Secretário Municipal de Segurança Urbana José Roberto Rodrigues de Oliveira chamou de “instrumento de prevenção e resolução de crimes”.

 PREVENÇÃO

Para especialistas, a tecnologia pode ser positiva para identificar suspeitos e coibir ocorrências. “Não dá para generalizar, mas essa noção está ligada à ideia verdadeira de que onde o poder público se mostra presente, seja pela limpeza, iluminação ou segurança, as pessoas são inibidas de agir de maneira imprópria”, afirma Marcelo Batista Nery, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência, da USP. O problema começa quando o debate sobre o uso dessa tecnologia e a decisão de implementá-la não é público. “Não dá para coletar indiscriminadamente os dados das pessoas, em uma situação em que todos são tratados como suspeitos”, diz Laura Tresca, coordenadora do programa de direitos digitais da ONG Artigo 19. A julgar pelo ritmo de instalação de novos sistemas de segurança, estamos condenados à eterna vigilância.

VIGILÂNCIA PRECISA

Como funciona a tecnologia capaz de identificar procurados pela polícia no meio da multidão.

1 – O rosto de cada pessoa é transformado em uma linha de código única

2 – O sistema compara esse código com imagens públicas de procurados pela justiça

3 – As imagens só são utilizadas quando há uma identificação positiva

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A “POLÊMICA” SOBRE O ATENDIMENTO PSICOLÓGICO ON-LINE

A Polêmica sobre o atendimento psicológico on-line

O mundo digital, sem dúvida, trouxe, junto com incríveis e inegáveis avanços tecnológicos, algumas controvérsias. O mundo PSI não poderia ficar fora desse debate. Atualmente, uma das principais polêmicas que povoam o dia a dia dos profissionais que atuam no setor é a questão da eficiência ou não do atendimento psicológico on-line, modalidade que vem ganhando força ao longo dos anos. Terapia, Psicoterapia, Psiquiatria e Psicanálise. Na verdade, para refletir sobre os atendimentos no campo on-line e também presencial, é imprescindível saber diferenciar essas quatro técnicas, ou seja, identificar com profundidade as semelhanças e diferenças entre elas. Inúmeros sites e aplicativos oferecem atendimentos terapêuticos on-line, o que não significa que ofertem Psicoterapia com psicólogo, ou análise com psicanalista, muito pelo contrário. Por isso, é importante estar atento.

O que geralmente provoca alguns mal-entendidos é o fato de que grande porcentagem da sociedade brasileira não conhece as diferenças que pontuam essas práticas. E, sabendo das leis vigentes no país, é fácil notar que, por conta dessa falta de informação, vários aplicativos e plataformas existentes na web atuam de uma forma que não deixa claro para seus clientes as diferenças atenuantes entre as técnicas e que seria muito importante que fossem ressaltadas.

Um terapeuta pode ser de várias áreas, desde os que fazem aconselhamento até aqueles que realizam terapias que tocam o corpo do paciente em sofrimento psíquico. Muitos daqueles que se intitulam terapeutas não fizeram universidade. Frequentam cursos práticos de duração curta e sem aprofundamento. Já o psicoterapeuta é um psicólogo, com formação universitária, que, sustentando-se pela ciência que lhe compete, intervém no comportamento da pessoa que busca auxílio, por meio de técnicas específicas, testes com comprovação científica e pela escuta do sofrimento em questão.

O psiquiatra, por sua vez, é o médico especializado, que usa da terapêutica medicamentosa em sofrimentos mentais crônicos ou graves. Além desses profissionais, também é importante destacar outro tão importante quanto o neurologista, que também é médico. Entretanto, atua apenas em nível orgânico/cerebral. Somente médicos podem fazer prescrição de medicamentos. Tanto eles quanto psicólogos precisam prestar contas aos seus respectivos conselhos de classes, depois de passar por anos de estudos e práticas supervisionadas, durante suas graduações.

Ainda há o psicanalista com formação que permeia outros caminhos além dos preconizados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O percurso de formação em Psicanálise se dá sob uma base de graduação, isto é, para ingressar no universo da formação psicanalítica é necessário ter uma graduação, seja qual for a área de atuação. Há um tripé colocado por Freud de que a formação do analista deve passar por: análise pessoal, supervisão e formação teórica.

É fundamental que haja um compromisso ético, uma vez que esses profissionais devem lidar com angústias e conflitos existenciais.

GESTÃO E CARREIRA

CONFIANÇA: UMA CONSTRUÇÃO DE IMPACTO

Todos os dias cada um de nós mostra sua confiança em alguém e também a nega a outro, mas sob quais critérios decidimos oferecer ou receber esse sentimento?

Confiança, uma construção de impacto

O tema da confiança é fundamental na vida de todos, em diferentes níveis. O sentimento de confiança na atual sociedade e no específico momento da história da humanidade não é algo fácil de encontrar e de viver – podemos dizer que estamos vivendo uma “crise” de confiança, e no mundo corporativo não é diferente.

Saber inspirar confiança é uma das estratégias de sucesso mais importantes na vida e no trabalho. Essa qualidade é fundamental para aquele que quer brilhar e se diferenciar da massa

Mas como podemos inspirar confiança nas pessoas, nos colaboradores, clientes e nas equipes? Qual é o elemento principal que permite viver a confiança em um relacionamento pessoal e profissional?

A essência desse elemento é que o estabelecimento da confiança deve partir do indivíduo. É a pessoa que quer estabelecer confiança que deverá ter a intencionalidade de estabelecer um vínculo com os outros, indo em direção ao outro e não esperar o contrário.

É o líder, por exemplo, que precisa ser proativo nesse sentido, criar empatia e construir essa ponte para se conectar com os colaboradores, começando a inspirar confiança, segurança nas decisões e confiabilidade nas suas atitudes e desenvolver assim, em si mesmo e nas equipes, engajamento, motivação e performance a longo prazo.

Nas organizações já é estabelecido quanto às competências socioemocionais das pessoas que constroem uma cultura de confiança na empresa, permitindo um ambiente de trabalho mais cooperativo, mais satisfeito, motivado e produtivo.

Hoje em dia a neurociência já confirma a importância dessas competências, com estudos e pesquisas que comprovam quanto a confiança na empresa e entre as pessoas no ambiente de trabalho permite que o colaborador se sinta mais feliz, realizado e orgulhoso de onde trabalha.

Uma pesquisa de Paul J. Zak, diretor e fundador do Center for Neuroeconomics Studies, em seus estudos sobre as dinâmicas da confiança entre as pessoas, que ele chama de “neurociência da confiança”, elaborou um modelo de comportamentos gerenciais que auxilia os líderes a desenvolverem uma liderança de sucesso:

RECONHECER A EXCELÊNCIA: a neurociência demostra que o reconhecimento por parte do líder e dos colegas do resultado de um objetivo atingido pela pessoa é fundamental não só para ela, mas inspira os outros a buscarem também a excelência.

TER UM DESAFIO PARA GERAR ESTRESSE SAUDÁVEL: ter desafios, obviamente possíveis de ser realizados e concretos, gera um estresse que potencializa o foco e reforça a cooperação.

DAR AUTONOMIA PARA OS COLABORADORES FAZEREM O PRÓPRIO TRABALHO: a autonomia promove, além de motivação, também inovação, pois permite ao colaborador ter a liberdade de testar diferentes possibilidades ou soluções, saindo do piloto automático e de esquemas mentais antigos que seguem o ditado: “sempre foi feito assim”.

PROMOVER A LIBERDADE NA CONSTRUÇÃO DO TRABALHO E ESCOLHA DE PROJETOS E EQUIPE : quando a empresa tem confiança no seu colaborador e permite que ele tenha mais autonomia sobre a forma de trabalhar, a responsabilidade e o comprometimento aumentam.

COMPARTILHAR AS INFORMAÇÕES: 40% dos funcionários reportaram na pesquisa não conhecer as estratégias, métodos e objetivos de suas empresas, e isso leva a criar condições de estresse e a não trabalhar bem, individualmente e em equipe.

CONSTRUIR RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS: quando as pessoas criam intencionalmente ligações sociais no trabalho, isso tem um impacto no aumento de desempenho e na socialização, pois elas se preocupam e se apoiam umas com as outras.

FACILITAR O CRESCIMENTO DAS PESSOAS DE FORMA INTEGRADA: a atenção ao desenvolvimento não só profissional, mas também pessoal dos colaboradores favorece o engajamento, a confiança, a lealdade e a permanência na empresa.

DEMONSTRAR TAMBÉM VULNERABILIDADE: os líderes que operam em contextos em que a confiança está presente pedem ajuda aos colegas e colaboradores; admitir suas vulnerabilidades é sinal de segurança e comprometimento.

Sem confiança qualquer atividade de management é esvaziada de significado, ao contrário de quando a empresa estabelece vínculos de confiança com seus colaboradores, o comprometimento deles com os objetivos da empresa se fortalece e aumenta a satisfação em pertencer à empresa, que diminui a rotatividade e mantém com mais facilidade seus colaboradores.

A confiança parte do indivíduo e se constrói aos poucos, é um recurso que aumenta e se fortalece com o tempo, com atitudes e ações e com o comprometimento individual de tecer relações com ética, coerência, credibilidade e transparência para construir alicerces sólidos para uma convivência pacífica e respeitosa, capaz de superar as diferenças e atingir realização individual e coletiva.

 

Eduardo Shinyashiki – é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal. Com mais de30 anos de experiência no Brasil e na Europa, é referência em ampliar o crescimento e a auto liderança das pessoas.

www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 16: 13- 20

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O Discurso de Cristo aos seus discípulos – Parte 2

 Na ocasião dessa grande confissão de Pedro a respeito de Cristo, que representa a homenagem e a lealdade da igreja, ele assinou e trouxe a público essa carta real e divina, pela qual se incorpora aquele corpo religioso. Tal é a comunhão entre Cristo e a igreja, entre o esposo e a esposa. Deus tinha uma igreja no mundo desde o início, e ela foi edificada sobre a pedra da semente prometida (Genesis 3.15). Mas agora, tendo vindo essa semente prometida, era necessário que a igreja tivesse uma nova diretriz, uma diretriz cristã, que estivesse relacionada a um Cristo já chegado. Agora temos essa diretriz; e é uma grande pena que este mundo, que é o grande suporte do reino de Cristo, seja corrompido e pressionado a serviço do Anticristo. O diabo empregou a sua astúcia para corromper o mundo, assim como procurou fazer com a promessa (Salmos 91.11), tentando pervertê-la em benefício de seus próprios objetivos (cap. 4.6). Talvez o inimigo tenha procurado corromper as duas passagens das Escrituras pois que elas o prejudicavam; e por isso ele procurou desprezá-las.

O objetivo dessa diretriz é:

Em primeiro lugar, estabelecer a existência da igreja: “Eu te digo”. E Cristo que dá o privilégio. Ele é a Cabeça da igreja, e o seu Governante, a quem todo o juízo é confiado, e de quem deriva todo o poder; aquele que age de acordo com a autoridade recebida do Pai e com a sua missão, que consiste na salvação dos eleitos. O privilégio é colocado na mão de Pedro: “Eu te digo”. As promessas do Antigo Testamento relacionadas à igreja foram dadas imediatamente a pessoas em particular, eminentes pela fé e pela santidade, como Abraão e Davi; nós não lhes conferimos nenhuma supremacia, muito menos a nenhum dos seus sucessores; assim, a diretriz do Novo Testamento é aqui entregue a Pedro no papel de um agente, mas para o uso e o favor da igreja em todas as épocas, de acordo com os objetivos aqui especificados e contidos. Aqui se promete:

1.Que Cristo irá edificar a sua igreja sobre uma rocha. Esse corpo de crentes é incorporado pelo estilo e pelo título da igreja de Cristo. É um grupo de filhos dos homens eleitos no mundo, e separados dele, e dedicados a Cristo. Jesus não diz a “sua” igreja, e sim a “minha”.

Pedro se lembrou disso quando advertiu os ministros a não governá-la acima do legado de Deus. A igreja é peculiar a Cristo, ela pertence a Ele. O mundo pertence a Deus, assim como aqueles que nele habitam; mas a igreja é um remanescente eleito, que se relaciona com Deus por meio de Cristo, como Mediador. Ela leva a sua imagem e o seu título.

(1). O Edificador e o Criador da igreja é o próprio Cristo: “Edificarei a minha igreja”. A igreja é um templo edificado por Cristo (Zacarias 6.11-13). Consequentemente, Salomão era um tipo de Cristo, e também Ciro (Isaias 44.28). Os materiais e a mão-de-obra pertencem a Ele. Pela obra do seu Espírito, através da pregação da sua Palavra, Ele acrescenta almas à sua igreja, e dessa maneira a edifica com “pedras vivas” (1 Pedro 2.5). Nós somos uma construção de Deus, e uma construção é uma obra progressiva; a igreja neste mundo está apenas em formação, como uma casa em construção. É um consolo a todos aqueles que desejam o bem da igreja, o fato de Cristo, que tem sabedoria e poder divinos, assumir a missão de construi-la.

(2). A fundação sobre a qual ela é edificada é “esta pedra”. Ainda que o arquiteto faça o seu dever muito bem, se a fundação se corromper, o edifício não permanecerá em pé. Portanto, vejamos qual é o fundamento, e ele deve ter Cristo em evidência, pois “ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto”. Veja Isaias 28.16.

[1]. A igreja é edificada sobre uma “pedra”, uma fundação firme, forte e duradoura, que não será desgastada pelo tempo, nem irá afundar sob o peso do edifício. Cristo não iria construir a sua casa sobre a areia, pois Ele sabia que poderiam surgir tempestades. É uma rocha alta (Salmos 61.2). A igreja de Cristo não fica em um nível neste mundo; uma rocha é grande, e se estende, e a mesma coisa acontece com a fundação da igreja; e quanto maior, mais firme – aqueles que estreitam a sua fundação não são amigos da igreja.

[2]. Ela será edificada sobre “esta” pedra: “Tu és Pedro”, o que significa um a pedra ou rocha. Cristo lhe deu esse nome quando o chamou pela primeira vez (João 1.42), e aqui Ele confirma esse nome. Em outras palavras: “Pedro, você responderá por esse nome, você é um discípulo firme e vigoroso, fixo e permanente, e aquele que tem alguma influência. Pedro é o seu nome, e a força e a estabilidade estão com você. Você não se deixa abalar pelas ondas das opiniões flutuantes dos homens a meu respeito, mas está sempre confirmado na verdade (2 Pedro 1.12)”. Com a menção desse nome significativo, aproveita-se a oportunidade para essa metáfora de edificar sobre uma pedra.

Em primeiro lugar, para alguns, essa rocha significa o próprio Pedro como um apóstolo, o principal, embora não o príncipe dos doze, o principal entre eles, mas não acima deles. A igreja está edificada sobre “o fundamento dos apóstolos” (Efésios 2.20). As primeiras pedras desse edifício foram dispostas no ministério deles, e por eles; por isso se diz que os seus “nomes” estão escritos nos fundamentos da nova Jerusalém (Apocalipse 21.14). Agora Pedro, sendo aquele apóstolo por cuja mão as primeiras pedras da igreja foram colocadas, tanto em relação aos judeus convertidos (Atos 2) como aos gentios convertidos (Atos 10), pode, de alguma maneira, ser considerado como a rocha sobre a qual a igreja foi edificada. “Cefas” era considerado como uma coluna (Gálatas 2.9). Mas parece muito severo chamar assim a um homem que somente coloca a primeira pedra de um edifício, algo que é um ato transitório na fundação sobre a qual o edifício é construído, o que é algo permanente. Se fosse assim, isso não serviria para sustentar as pretensões do bispo de Roma; pois, se Pedro não tivesse a liderança que ele reivindica, ele jamais poderia transmiti-la aos seus sucessores, e menos ainda aos bispos de Roma. A posição dos bispos de Roma é motivo de discussão por ser altamente duvidosa. Mas não há dúvida de que eles não estão na verdade do cristianismo.

Em segundo lugar, para outros, “esta pedra” significa Cristo. Jesus estaria dizendo: “Você é Pedro, você tem o nome de pedra, mas sobre esta pedra” – apontando para si mesmo – “edificarei a minha igreja”. Talvez Ele tivesse colocado a sua mão sobre o seu peito, como quando disse: “Derribai este templo” (João 2.19), ao falar do templo do seu corpo. Foi quando Ele aproveitou a ocasião do templo, onde Ele estava, para falar de si mesmo, e deu chance para que alguns o confundissem com o templo; assim, aqui Ele aproveitou a ocasião de Pedro para falar de si mesmo como a Rocha, e deu oportunidade para que alguns o confundissem com Pedro. Mas isso deve ser explicado por aquelas muitas passagens das Escrituras que falam de Cristo como a única fundação da igreja (veja 1 Coríntios 3.11; 1 Pedro 2.6). Cristo é, ao mesmo tempo, o seu fundador e a sua fundação; Ele atrai almas, e as atrai para si; elas se unem a Ele, elas descansam nele, dependendo dele constantemente.

Em terceiro lugar, para outros, esta “pedra” significa a confissão que Pedro fez a respeito de Cristo, e que pode ser entendida como uma referência ao próprio Cristo. Essa foi uma boa confissão e um testemunho por parte de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”; os demais concordaram com ele nesse aspecto. “Bem”, diz Cristo, “esta é aquela grande verdade sobre a qual ‘edificarei a minha igreja”‘.

1.Remova esta verdade, e a igreja universal não terá mais nenhuma sustentação. Se Cristo não é o Filho de Deus, o cristianismo é uma fraude, e a igreja é uma simples quimera: “É vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé… e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Coríntios 15.14-17). Se Jesus não é o Cristo, aqueles que o reconhecem e que têm a sua preciosa presença em suas vidas não são membros da igreja, mas enganadores e enganados.

2.Remova a fé e a confissão dessa verdade de qualquer igreja em particular, e ela deixa de fazer parte da igreja de Cristo, e recai no estado e no caráter de infidelidade. Isto é “a dobradiça principal em que a porta da salvação está apoiada”; aqueles que abandonam esse conceito não retêm a fundação; e embora possam se dizer cristãos, eles mentem; pois a igreja é uma sociedade sagrada, edificada sobre a certeza e a segurança dessa grande verdade; e grande ela é, e sempre prevalecerá.

3.Aqui Cristo promete preservar e proteger a sua igreja, quando ela for edificada: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” – nem contra essa verdade, nem contra a igreja que é edificada sobre ela.

(1). Isso dá a entender que a igreja tem inimigos que lutam contra ela, e que se empenham em arruiná-la, inimigos esses representados aqui pelas “portas do inferno”, isto é, a cidade do inferno (que se opõe diretamente a essa cidade celestial, a “cidade do Deus vivo”), o interesse do diabo entre os filhos dos homens. As portas do inferno são os poderes e as políticas do reino do diabo, a cabeça e os chifres do dragão, com que ele guerreia contra o Cordeiro; tudo isso vem das portas do inferno, tendo sido tramado e planejado ali. A luta contra a igreja se dá pela oposição às verdades do Evangelho, pela corrupção das leis do Evangelho, pela perseguição aos bons ministro s e aos bons cristãos; atraindo ou conduzindo, persuadindo com astúcia ou obrigando com crueldade àquilo que é in­ consistente com a pureza da religião; este é o desígnio das portas do inferno, desarraigar o nome do cristianismo (Salmos 83.4), devorar o bebê-varão (Apocalipse 12.9-17), lançar essa cidade ao chão.

(2).  Isso nos garante que os inimigos da igreja não conseguirão vencer. Enquanto houver mundo, Cristo terá uma igreja nele, na qual as suas verdades e as suas leis serão mantidas e observadas, apesar de toda a oposição dos poderes das trevas. “Não prevaleceram contra mim” (Salmos 129.1,2). Isso não dá segurança a nenhuma igreja em particular, ou aos governadores da igreja, de que nunca irão errar, nunca irão apostatar e nunca serão destruídos; mas sim de que em algum ou outro lugar, a religião cristã terá uma existência, embora nem sempre no mesmo grau de pureza e esplendor, mas de modo que a sua herança nunca será completamente eliminada. A mulher vive, embora no deserto (Apocalipse 12.14), abatida, mas não destruída (2 Coríntios 4.9). Corrupção lamentável, perseguições penosas, mas nenhuma delas fatal. A igreja pode se frustrar em algumas ocasiões, mas na batalha final ela será mais que vencedora. Os crentes estão individualmente “guardados pela virtude de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1 Pedro 1.5).

Em segundo lugar, a outra parte dessa diretriz consiste em estabelecer a ordem e o governo da igreja (v. 19). Quando uma cidade ou sociedade é incorporada, os funcionários são indicados e recebem autorização para agir pelo bem comum. Uma cidade sem governo é um caos. Essa constituição do governo da igreja aqui é expressa pela entrega das chaves e, com elas, o poder para ligar e desligar. Isto não deve ser interpretado como algum poder peculiar com que Pedro tivesse sido investido, como se ele fosse o único porteiro do Reino dos céus e tivesse aquela chave de Davi, que pertence somente ao Filho de Davi. Não. Isto concede a todos os apóstolos e aos seus sucessores um poder ministerial para guiar e governar a igreja de Cristo, da maneira como ela existe em congregações e igrejas, de acordo com as regras do Evangelho. Todos nós, que somos sacerdotes, recebemos, na pessoa do bem-aventurado apóstolo Pedro, as chaves do reino do céu. As chaves só foram colocadas primeiro nas mãos de Pedro, porque ele foi o primeiro que abriu as portas da fé aos gentios (Atos 10.28). Como o rei ao entregar uma diretriz a uma corporação, confere autoridade aos magistrados para manter tribunais no seu nome, para julgar questões e para determinar de acordo com a lei, confirmando o que é feito regularmente como se fosse em qualquer tribunal superior-, assim também Cristo, tendo inaugurado a sua igreja, indicou o posto do ministro para a conservação da ordem e do governo, e para observar que as suas leis fossem devidamente obedecidas: “Eu te darei as chaves”. Ele não disse: “Eu te dei as chaves”, nem disse: ”Agora eu te dou as chaves”, mas disse: “Eu te darei”, querendo dizer que isso aconteceria depois da sua ressurreição: “Subindo ao alto… deu dons aos homens” (Efésios 4.8). Nessa ocasião, o seu poder foi realmente entregue, não somente a Pedro, mas a todos os demais (cap. 28.19,20; João 20.21). Ele não disse: ”As chaves serão dadas”, mas sim: “Eu darei as chaves”; pois os ministros obtêm a sua autoridade de Cristo, e todo o poder de que eles dispõem deve ser usado em nome de Cristo (1 Coríntios 5.4).

Agora:

1.O poder aqui delegado é um poder espiritual; é um poder pertencente ao Reino dos céus, isto é, à igreja, à parte dela que é militante aqui na terra, à dispensação do Evangelho. É com esses fatores que o poder ministerial e apostólico está completamente familiarizado. O poder aqui transmitido não se trata de um poder civil ou secular, pois o reino de Cristo “não é deste mundo”. As suas instruções, dadas posterior­ mente, eram relativas às “coisas concernentes ao reino de Deus” (Atos 1.3, versão RA).

2.O poder dado aqui é o poder das chaves – uma alusão ao costume de outorgar autoridade aos homens de um lugar, entregando-lhes as chaves do lugar. Ou como o dono da casa entrega as chaves ao administrador (ou mordomo), as chaves dos depósitos onde estão armazenadas as provisões, para que ele possa dar, a todos da casa, o seu alimento no tempo correto (Lucas 12.42), e negá-lo, se for o caso, de acordo com as regras da família. Os ministros são “despenseiros” (1 Coríntios 4.1; Tito 1.7). Eliaquim, que tinha a chave da casa de Davi, possuía autoridade máxima na casa (Isaias 22.22).

3.É um poder de ligar e desligar, isto é (seguindo a metáfora das chaves), de fechar e abrir. José, que era senhor da casa de Faraó e governador dos depósitos, tinha o poder de “sujeitar os seus príncipes e de instruir os seus anciãos” (Salmos 105.21,22). Quando os depósitos e os tesouros da casa estão fechados a todos, eles estão ligados, quando eles são abertos novamente, são desligados daquela obrigação, são liberados da censura e devolvidos à sua liberdade.

4.É um poder cuja administração Cristo prometeu entregar. Ele irá confirmar as sentenças dos seus comissários com a sua própria aprovação; será ligado no céu, e desligado no céu. Não que Cristo, dessa maneira, se visse obrigado a confirmar toda a reprovação feita pela igreja, certa ou errada; mas que aquelas que são determinadas devidamente de acordo com a Palavra, essas estão seladas no céu, isto é, a palavra do Evangelho, na boca dos ministros fiéis, deve ser considerada não como a palavra dos homens, mas como a palavra de Deus, e deve ser recebida apropriadamente (1 Tessalonicenses 2.13; João 12.20).

”As chaves do Reino dos céus” são:

(1). A chave da doutrina, chamada de chave do conhecimento. “O seu trabalho será explicar ao mundo a vontade de Deus, tanto em termos de verdade como de dever; e para isso, vocês terão as suas tarefas, as suas credenciais e instruções completas para ligar e desligar”. Isto, na linguagem comum dos judeus daquela época, significava proibir e permitir. Ensinar ou declarar que algo era ilícito, era ligar; e ensinar ou declarar que algo era lícito, era desligar. Agora os apóstolos tinham um poder extraordinário para isso; algumas coisas proibi­ das pela lei de Moisés agora deviam ser permitidas, como comer determinados alimentos. Algumas coisas permitidas agora passavam a ser proibidas, como o divórcio; e os apóstolos estavam autorizados a declarar isso ao mundo, e os homens podem levar em consideração as suas palavras. Quando Pedro aprendeu, e depois instruiu aos outros, a não chamar nada de impuro, esse poder foi exercido. Existe, além disso, um poder que é transmitido a todos os ministros, para pregarem o Evangelho como obreiros indicados; para falarem às pessoas o que é bom, em nome de Deus, e de acordo com as Escrituras, e o que o Senhor exige delas. E aqueles que “anunciam o conselho de Deus” usam adequadamente essas chaves (Atos 20.27).

Alguns opinam que a entrega das chaves é uma alusão ao costume dos judeus ao graduar um doutor da lei, que consistia de colocar na sua mão as chaves do armário onde era guardado o livro da lei, caracterizando que ele tinha sido autorizado a abri-lo e a lê-lo – e a atitude de ligar e desligar seria uma alusão à maneira como eram feitos os seus livros, em rolos; eles os fechavam, atando-os com um cordão, que era desatado quando abriam o livro. Cristo dá aos seus apóstolos o poder de fechar ou abrir o livro do Evangelho às pessoas, conforme o caso exigisse. Veja o exercício desse poder (Atos 13.46; 18.6). Quando os ministros pregam o perdão e a paz aos penitentes, a ira e a maldição aos impenitentes, em nome de Cristo, eles estão agindo de acordo com essa autoridade de ligar e desligar.

(2).  A chave da disciplina – que nada mais é que a aplicação da chave anterior às pessoas em particular, com uma estimativa correta do seu caráter e dos seus atos. Não é o poder legislativo que é conferido aqui, mas sim o judicial; o juiz não faz a lei, mas somente declara o que é lei, e de acordo com uma investigação imparcial dos méritos da causa, dá a sua sentença. Este é o poder das chaves, onde estiver depositado, com referência à filiação à igreja e aos privilégios resultantes.

[1]. Os ministros de Cristo têm o poder de admitir pessoas na igreja: “Ide, ensinai todas as nações, batizando-as”. Em outras palavras: “Àqueles que professarem a fé em Cristo, e a obediência a Ele, aceitem-nos, bem como às suas sementes, como membros da igreja, por meio do batismo”. Os ministros devem permitir que entrem no banquete de casamento aqueles que assim desejarem, e impedir a entrada daqueles que aparentemente não forem adequados para uma comunhão tão sagrada.

[2]. Eles têm o poder de expulsar aqueles que tenham perdido a sua filiação à igreja, ou seja, desligá-los; recusar aos não crentes a aplicação das promessas do Evangelho, e os seus selos; e declarar aos que parecem estar “em fel de amargura e em laço de iniquidade” que não têm direito a parte nenhuma, como fez Pedro com Simão, o mágico, embora ele tivesse sido batizado; e isto, no julgamento de Deus, é desligar.

[3]. Eles têm o poder de restaurar e de receber novamente – depois do arrependimento – aqueles que foram expulsos; ligar aqueles que tinham sido desligados declarando-lhes que, se o seu arrependimento for sincero, a promessa de perdão lhes pertencerá. Os apóstolos tinham um dom miraculoso de discernir espíritos; mas até mesmo eles se deixavam influenciar pelas aparências externas (como vemos em Atos 8.21; 1 Coríntios 5.1; 2 Coríntios 2.7; 1 Timóteo 1.20), sobre as quais os ministros ainda podem realizar um julgamento, se forem hábeis e fiéis.

Finalmente, aqui está a missão que Cristo deu aos seus discípulos, de conservar isso em segredo, por enquanto (v. 20): “Que a ninguém dissessem que ele era o Cristo”. Eles ainda não deveriam tornar público para o mundo aquilo que tinham professado a Ele, por diversas razões:

1.Porque essa era a ocasião da preparação para o seu Reino. O grande tema que agora estava sendo pregado era que o Reino dos céus era chegado; portanto, aquelas coisas que eram adequadas para abrir caminho para Cristo agora deveriam ser reforçadas, como, por exemplo, a doutrina do arrependimento; esta grande verdade, na qual e com a qual o Reino dos céus realmente se estabeleceria. Tudo é bonito no seu tempo, e um bom conselho é: “Prepara fora a tua obra… e então edifica a tua casa” (Provérbios 24.27). 2. A identidade de Cristo como o Messias seria provada pelas suas obras, e seria melhor que elas dessem testemunho dele do que os seus discípulos, porque o testemunho delas nada mais era do que o seu próprio, no qual Ele não insistia. Veja João 5.31,34. Ele tinha tanta confiança na demonstração dos seus milagres, que dispensava outras testemunhas (João 10.25,38). 3. Se eles soubessem que Ele era Jesus Cristo, “nunca crucificariam ao Senhor da glória” (1 Coríntios 2.8).

2.Cristo não desejava que os apóstolos pregassem que Ele era o Cristo até que tivessem a evidência mais convincente preparada para confirmar isso. As grandes verdades podem ser prejudicadas, se forem afirmadas antes de poderem ser suficientemente prova­ das. Ora, a grande prova de que Jesus era o Cristo seria a sua ressurreição; com ela, Ele seria “declarado Filho de Deus em poder”; e, portanto, a sabedoria divina não desejava que essa verdade fosse pregada até que a ressurreição pudesse ser usada como prova.

3.Era necessário que os pregadores de uma verdade tão grande fossem dotados com porções do Espírito maiores do que os apóstolos tinham naquela ocasião; por isso a afirmação aberta foi postergada até que o Espírito fosse derramado sobre eles; mas quando Cristo foi glorificado, e o Espírito foi derramado, nós encontramos Pedro proclamando nos telhados o que era falado ao ouvido (Atos 2.36), que a Jesus “Deus fez Senhor e Cristo”; pois, assim como há uma ocasião para guardar silêncio, também existe uma ocasião para falar.