OUTROS OLHARES

DO CONTRA!

Na convivência e relação de pessoas com filhos, sobrinhos, netos ou outras crianças e jovens, é comum a paciência do adulto ser posta à prova. Como lidar com essa situação?

Do contra

Em muitos casos, felizmente a maioria, em que a paciência do adulto é testada pelo comportamento desafiador das crianças e jovens, a solução do problema é fácil, pois basta o adulto aprender a enfrentar com tranquilidade alguns períodos ou fases, quase inevitáveis, do desenvolvimento infanto-juvenil. A contestação faz parte do amadurecimento normal e pode se manifestar de diferentes formas, desde respostas de modo inadequado, petulante, grosserias, postura desafiadora, até chegar à desobediência total das determinações mais sérias impostas pelos pais, professores e outros adultos.

Isso não significa dizer que vamos aplaudir e acatar todos os comportamentos, mesmo os bizarros, de nossas crianças, até porque somos os adultos e devemos dar, além dos exemplos, continência a expressões do desenvolvimento de toda ordem, a fim de as preparar para a vida em sociedade. É de se esperar que, em uma relação, o mais imaturo erre mais vezes e que o mais maduro saiba controlar e direcionar a linguagem e os comportamentos inadequados dos mais jovens.

Mas o que acontece com aquele bebê lindo que mal aprende a falar e já diz não a tudo? Que se joga no chão, coloca os pés no sofá, entorna o leite de propósito? Será birra? Está certo, é esse comportamento o esperado das crianças pequenas que tentam formar sua individualidade e não compreendem regras, limites ou suportam frustrações. Mas e aquela menina super carinhosa que do dia para noite finge não escutar quando falamos com ela? E o garoto, sempre tão esperto e ágil, que parece ter perdido toda a sua energia quando lhe pedimos para fazer alguma coisa?

Testando os adultos a quem devem obediência e os seus próprios limites, as crianças vão declarando aos poucos sua independência, e mesmo o comportamento desafiador do adolescente tem suas origens não apenas no desenvolvimento de seu sistema nervoso e hormonal, mas no desejo incessante que todos temos de autonomia, de tomar iniciativas, de experimentar o novo, de ter algum poder.

Entretanto, procurar entender o que está por detrás do comportamento de oposição é muito importante para quem educa. Em alguns casos, o que parece ser um comportamento desafiador e ocasional para os adultos pode ser simplesmente resultado de uma situação nova, conflitante ou extraordinária que o jovem vivencia naquele momento, mas que toma toda sua energia, atenção e faz soar absurdas as intervenções dos adultos.

Tentar entender a razão dos comportamentos considerados negativos é uma das melhores formas de antecipar a boa conduta infantil, como, por exemplo, observar aquilo que costuma desencadear as condutas indesejadas, sejam tarefas ou atividades familiares, o excesso de autoridade paterna ou o contrário, negligência e/ou indiferença. Excesso de confiança na capacidade do jovem se autogerir pode ser atraente por um tempo, mas logo transforma a relação familiar em caos, pois, sentindo-se desrespeitado na sua imaturidade, insuficientemente acolhido e amado, é comum desenvolver pouca empatia, relações conflituosas dentro e fora de casa, desinteresse pelas obrigações escolares, entre outras coisas.

Famílias sem regras claras de convívio, onde impera a falta de amor e respeito, supervisão descuidada na vida da criança e do adolescente podem criar situações de risco ao aparecimento e perpetuação de atitudes de oposição, pois existem idades apropriadas para as diferentes responsabilidades poderem ser cobradas e na medida correta.

Se é normal pedir a uma criança de 5 anos para guardar seus brinquedos, é mais complexo para ela colocar o quarto todo em ordem. Dividir tarefas em etapas e orientar são papel dos adultos e que as crianças precisam para manter a serenidade e o equilíbrio no amadurecimento. Se o jovem tem dificuldade em mudar de ocupação, de interesse de modo rápido, por que não dar um aviso, um tempo maior para tal? Conversar com respeito, de maneira clara, demonstrando afeto e confiança na criança e no jovem, resolve muitos dos problemas familiares. Serve de modelo e acalma os ânimos quase sempre exaltados nesses momentos. No entanto, é importante prestar atenção ao comportamento desafiador que persista durante um período de mais de seis meses e que interfira de modo marcante com o relacionamento e desempenho familiar, escolar e social da criança ou do jovem, pois poderá tratar-se de um sinal de algo mais sério que exigirá uma consulta médica, especializada, para evitar problemas de grande alcance.

As crianças e jovens que estão nesse último caso também sofrem muito, já que é difícil as pessoas sentirem simpatia por tal perfil desafiador, especialmente quando muito acentuado, prolongado e sem controle, pois estão sempre testando os limites e a autoridade, têm birras frequentes, discutem constantemente com os adultos, recusam-se a cumprir regras e costumam ser vingativas. Para levar uma vida harmoniosa e produtiva, crianças e jovens com tal comportamento precisam se sentir amadas e acolhidas pelos pais e serem acompanhadas por profissionais competentes que de fato as ajudem e apoiem a sua família durante o tratamento.

 

Maria Irene Maluf – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia –  ABPp (gestão 2005/07.) É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprerdizagem.  irenemaluf@uol.com.br

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A QUALIDADE DE SER VERDADEIRO

Exercer a honestidade em caráter amplo é muito difícil, porque existem convenções sociais que nem sempre espelham a realidade, mas são tidas como certas por já estarem formalizadas e enraizadas.

A qualidade de ser verdadeiro

“Honestidade é fazer certo, mesmo que ninguém esteja olhando”; Jim Stovall

Honestidade é aquisição desenvolvida e potencializada através da moral, ética e caráter, e indica a qualidade de ser verdadeiro: não mentir, não fraudar, não enganar. Quanto à etimologia, a palavra honestidade tem origem no latim honos, que remete para dignidade e honra. A honestidade pode ser característica de uma pessoa ou instituição. Significa falar a verdade, não omitir, não dissimular. O indivíduo que é honesto repudia a esperteza de querer levar vantagem em tudo.

Honestidade, de maneira explícita, é a obediência incondicional às regras morais existentes. Existem alguns procedimentos para alguns tipos de ações, que servem como guia, como referência para as decisões. Exercer a honestidade em caráter amplo é muito difícil, porque existem convenções sociais que nem sempre espelham a realidade, mas são tidas como certas por já estarem formalizadas e enraizadas.

Nascemos honestos ou nos tornamos honestos? Entenda como a filogênese do sistema nervoso central nos auxilia a compreender como ocorre a aquisição da honestidade e valores morais para o desenvolvimento do cérebro cognitivo, emocional humano.

Analisando as transformações filogenéticas humanas, percebemos que o cérebro e sua estrutura e morfologia estão relacionados com as atividades que foram significativas para a transformação da nossa espécie ao longo dos milhares de anos. Na natureza, não há nada tão complexo quanto o funcionamento do cérebro humano. Usamos 100% de sua capacidade e temos muitas possibilidades de estruturação de funções ainda mais complexas que serão construídas mediante as necessidades socioculturais.

A princípio, o homem tinha uma caixa craniana pequena com mandíbulas grandes para alimentação crua. Depois da descoberta do fogo, passou a ter uma caixa craniana com encéfalo maior e a mandíbula menor, o que permitiu maior desenvolvimento da inteligência. Nessa fase, o homem liberou as mãos do movimento da marcha e começou a utilizar ferramentas de trabalho para transformar a natureza.

O córtex cerebral aumentou de volume e, com ele, a possibilidade de processamento de informações por meio do pensamento e da linguagem. A socialização se tornou uma necessidade, bem como o desenvolvimento de habilidades de convivência e organização sociais. Em milhares de anos de evolução filogenética, a estrutura cerebral foi alterada em função das necessidades ambientais e culturais. Hoje, sabemos que a morfologia de nosso cérebro pouco se transforma diante de tantas inovações tecnológicas, mas a sua estrutura de funcionamento está totalmente aberta aos estímulos que recebe do ambiente e que serão os responsáveis pela consolidação das redes neurais que conduzirão a aprendizagem.

Em outras palavras, cada um de nós tem um cérebro de acordo com a sua cultura e com os desafios cognitivos que são colocados. Dessa forma, afirmamos que um cérebro que sofreu alguma alteração tem todas as condições de se transformar por meio dos processos de neuroplasticidade.

DIVISÕES

O cérebro humano é um órgão plástico e poderia ser dividido em três unidades (Relvas, 2008): Cérebro primitivo: responsável pela autopreservação e agressão (formado por tronco cerebral, cerebelo, mesencéfalo, bulbo e núcleos da base – corresponde ao cérebro dos répteis).

Cérebro intermediário: responsável pelas emoções (formado pelo sistema límbico – corresponde ao cérebro dos mamíferos). É responsável pelo equilíbrio ou desequilíbrio emocional do ser humano.

Cérebro racional: responsável pelas funções intelectuais (formado pelo neocórtex e alguns grupos neuronais subcorticais). É responsável por três tarefas: o controle dos movimentos do corpo, a percepção dos sentidos e o pensamento. Foi durante muito tempo sinônimo de inteligência, razão e espírito, é o promotor da racionalidade humana.

O valor da honestidade humana depende do cérebro racional, mas é ativado pelo sistema límbico emocional de recompensa e das amígdalas cerebrais.

É necessário compreender que, na ativação das informações das amígdalas, promove-se uma experiência emocional. As amígdalas cerebrais são estruturas neurobiológicas que, de acordo com Ledoux, têm projeções em muitas áreas corticais. As projeções das amígdalas para o córtex são consideradas mais frequentes que as projeções do córtex para a amígdala. Além de projetar-se de volta às regiões sensoriais corticais de onde recebe informações, as amígdalas também se projetam para algumas áreas de processamento sensorial, das quais não recebe informações. Como resultado, uma vez ativadas as amígdalas, elas são capazes de influenciar as emoções e as áreas corticais responsáveis pelo processamento dos estímulos que as estão ativando. O que pode ser muito importante no direcionamento da atenção para estímulos emocionalmente relevantes, mantendo a memória de objeto de curto prazo focado no estímulo ao qual as amígdalas estão atribuindo um significado. As amígdalas também estabelecem um conjunto impressionante de conexões, com as teias de memória de longo prazo que envolvem o sistema do hipocampo e áreas do córtex que interagem com o hipocampo na armazenagem de informações de longo prazo. Essas vias podem contribuir para a ativação de memórias de longo prazo significativas em suas implicações emocionais de estímulos imediatamente presentes.

ESTIMULAÇÃO

Embora as amígdalas tenham conexões relativamente escassas com o córtex pré-frontal lateral, seus elos com o córtex cingulado anterior são bastante fortes, um dos outros parceiros no circuito executivo da memória no lobo frontal. E estabelece, igualmente, conexões com o córtex orbital, outra peça importante na memória de trabalho, a qual pode ter uma participação especial nas memórias de trabalho, no que se refere a recompensas e punições. Por meio dessas conexões com estruturas especializadas de curto prazo, com as redes de memória de longo prazo e as do lobo frontal, as amígdalas podem influenciar o conteúdo das informações da memória de trabalho. Há muita redundância desse sistema, possibilitando que a percepção consciente da atividade das amígdalas seja realizada de diversas maneiras.

A ativação das amígdalas produz a estimulação automática de redes neuronais responsáveis pelo controle da expressão de uma variedade de reações: comportamentos específicos da espécie (imobilização, fuga, luta, expressões faciais), reações do sistema nervoso autônomo (alterações na pressão sanguínea e nos batimentos cardíacos, piloereção, suor) e reações hormonais (liberação de hormônios do estresse, como a adrenalina e os esteroides suprarrenais, bem como uma série de peptídeos na corrente sanguínea). O sistema nervoso autônomo e as reações hormonais podem ser considerados respostas viscerais, reações dos órgãos internos e glândulas (as vísceras). Quando essas reações viscerais e comportamentais se expressam, criam sinais corporais que retornam ao cérebro.

Então, podemos dizer que: o cérebro aprende através do exercício das habilidades, das necessidades, da motivação, da curiosidade, do interesse, da repetição e das fases inerentes ao desenvolvimento neurocognitivo (Zorzi, 2009, p. 171).

De acordo com Davidson (2013), os correlatos cerebrais às emoções positivas e às emoções negativas não ocorrem no tronco cerebral nem no sistema límbico, e sim no córtex pré-frontal. Sua pesquisa teve por objetivo codificar os movimentos musculares que constituem os sinais faciais das emoções. Os experimentos realizados por Davidson contribuíram com a percepção de emoções positivas e emoções negativas estarem ligadas à ativação do córtex pré-frontal.

O humano aprende valores por informações, exemplos e a plasticidade cerebral é intencional para o desenvolvimento cognitivo nas tomadas de decisões no controle inibi tório das emoções.

Para Relvas (2012, p. 119), a plasticidade cerebral intencional é a denominação das capacidades adaptativas do sistema nervoso cerebral, ou seja, é a sua habilidade para modificar sua organização estrutural própria e seu funcionamento. É a capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em virtude das necessidades e dos fatores do meio ambiente. A plasticidade é minimizar ou reverter uma adaptação funcional/estrutural do sistema nervoso central.

A aprendizagem de valores organiza-se através da aquisição de estímulos / informações e promove a modificabilidade neuronal, denominada de plasticidade cerebral intencional. O humano não aprende por conselhos, mas na maioria das vezes pelos exemplos. E essa consideração filosófica tem uma relação neurobiológica diretamente com os neurônios – espelhos existentes na parte superior do cérebro no córtex. Desde cedo, quando somos pequenos, imitamos. Primeiro, os gestos de nossa mãe. Um pouco mais velhos, brincamos de médico, professor, policial etc. Na adolescência, temos ídolos e pessoas que imitamos, e já adultos buscamos ser pessoas de sucesso a partir do que vemos em outras pessoas que admiramos.

CHAVE DO APRENDIZADO

“Neurônios-espelhos” podem ser a chave do aprendizado e da cultura e são a grande descoberta da Neurociência como o fato de que há ativação dessas células na observação, assim como na ação motora. Nas palavras de Dobbs (2006), em O Reflexo Revelador: “A descoberta desse mecanismo (…) sugere que nós também fazemos mentalmente tudo aquilo a que assistimos alguém fazer”. Os neurônios-espelhos são disparados do mesmo modo quando realizamos uma ação ou quando simplesmente observamos outras pessoas realizando essa mesma ação. O fato de que nosso cérebro reage igualmente nessas duas situações explica a aprendizagem por imitação, fingimento, e também a empatia, já que acabamos vivendo a ação dos outros como nossa, e isso nos ajuda a compreendê-la.

Quando esses neurônios especializados são ativados, outras zonas do cérebro também o são, como o sistema límbico, responsável pelas emoções. Desse modo, é possível que sejamos capazes de reconhecer gestos faciais, ir até nossas recordações e aprendizagens prévias e unir toda essa informação para interpretar a situação e dar a ela um significado.

Quando o estímulo já é conhecido do sistema nervoso central, desencadeia uma lembrança; quando o estimulo é novo, desencadeia uma mudança (Relvas, 2009).

Para Relvas (2009), todo ser humano deve ser preparado, especialmente pela educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, para si mesmo, como agir nas diferentes circunstâncias da vida (Delors, 1999, p. 99).

Considero que é por meio de uma educação integral que o sujeito poderá, pelo conhecimento cognitivo, compreender o mundo que o cerca, pois entenderá a si mesmo, terá um comportamento de protagonista e participante, responsável e justo na construção de seu tempo, de sua sociedade. Por isso, não devemos esquecer que, mais do que nunca, a educação parece ter como papel essencial conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensar, de discernir, de sentir e imaginar o de que necessitam. Em outras palavras, confere o empoderamento a todos os atores participantes desse processo. A plasticidade cerebral intencional vem sendo uma condição inerente a todos os humanos que aprendem dia após dia e transformam o funcionamento do seu cérebro, ora para compensar funções cognitivas pouco desenvolvidas, ora para potencializar as riquezas do desenvolvimento que existem em todos nós, como valores e exemplos importantes para uma sociedade que são aquisições sociais e culturais.

NEURÔNIOS-ESPELHOS E AS AÇÕES DOS OUTROS

Localizados no córtex pré-motor, os neurônios-espelhos são células ativadas pela execução de uma ação simples, que seja direcionada a objetivos e que respondem, igualmente bem, à própria ou à outra pessoa – permitindo entender a base neural. O lóbulo parietal superior, o lóbulo parietal inferior e a parte dorsal do córtex pré-motor são todos frequentemente envolvidos na imitação. Um neurônio-espelho, também conhecido como célula-espelho, é um neurônio que dispara tanto quanto um animal realiza um determinado ato. Dessa forma, o neurônio imita o comportamento de outro animal, como se estivesse ele próprio realizando essa ação. Esses neurônios já foram observados de maneira direta em primatas. Também existem em humanos e em alguns pássaros.

FILOGÊNESE

A filogênese (ou filogenia) pode ser definida como o estudo da relação evolutiva entre grupos de organismos, que é descoberto por intermédio do sequenciamento de dados moleculares e matrizes de informações morfológicas. A expressão filogenética deriva do grego Ale e Filon, denotando “tribo” e “raça”, e o termo genético, denotando em relação ao nascimento da gênese ‘origem’ ou ‘nascimento’. O resultado dos estudos filogenéticos é sua filogênese.

 A qualidade de ser verdadeiro 2

Marta Relvas é professora, bióloga, neuroanatomista, psicopedagoga, autora de livros e DVDs sobre Neurociência e educação/transtornos da aprendizagem, publicados pela Wak Editora.

GESTÃO E CARREIRA

O NOVO PAPEL DOS LÍDERES

A verdadeira liderança está em estabelecer laços de confiança e transformar os sistemas de trabalho em ambientes mais colaborativos.

O novo papel dos líderes

Todos os anos, eu tenho orgulho de me dedicar à pesquisa Carreira dos Sonhos, feita pelo Grupo Cia de Talentos em parceria com a NextView People, que mapeia os desejos dos jovens profissionais de todo o país. Esse estudo, que completa 17 anos em 2018, tem nos ajudado a entender quais são os objetivos de carreira de quem está entrando no mercado de trabalho. E, a cada novo lançamento, sempre refletimos sobre os resultados que já temos em mãos.

Ao recuperar os dados da edição 2017, sentimos que voltamos algumas casas, pois há desconexão entre indivíduos e instituições – o que gera uma desconfiança generalizada. O xis da questão está no fato de que, neste mundo Vuca. (sigla em inglês para” volátil, incerto, complexo e ambíguo”), não existem respostas simples. Mas o que sabemos é que, mesmo neste cenário de transformações rápidas e constantes, o engajamento só floresce em ambientes confiáveis. A confiança leva à lealdade. E a lealdade leva as pessoas a fazer o seu melhor para oferecer resultados positivos à empresa.

Ao entender que confiança é um elemento-chave do engajamento, ficamos mais perto de resolver o problema. Para conseguir navegar neste mundo desconhecido, precisamos (re)construir a confiança das pessoas nas companhias e das pessoas nas pessoas. Esse é o mais novo desafio dos líderes organizacionais. A questão é que, hoje, quando pensamos no papel dos líderes, falamos sempre sobre como prosperar dentro do sistema ou talvez, até, em como florescer apesar do sistema. Mas a discussão não deveria ser essa. A verdadeira liderança está em transformar o sistema.

Isso é urgente porque os profissionais não estão satisfeitos com os modelos de trabalho atuais – e isso já constatamos na pesquisa Carreira dos Sonhos 2016, portanto, fica complicado conseguir engajá-los em algo em que não acreditam. Precisamos de transformações. E isso demanda uma gestão diferente, com decisões que sejam parte de um processo coletivo que envolva redes de pessoas.

Todas essas reflexões nos levaram a definir o foco da pesquisa Carreira dos Sonhos 2018, que mapeará as percepções e as expectativas dos profissionais sobre seus líderes; descobrirá se os respondentes querem assumir posições de liderança; e se as pessoas se sentem empoderadas e se querem empreender. Convido o leitor a participar da pesquisa por meio do link http://bit.ly/carreira_dos_sonhos_2018. A participação não é restrita aos jovens. Profissionais de média e alta gerência também são ouvidos no estudo. Assim, teremos uma visão geral do mercado de trabalho no Brasil e ajudaremos as empresas a se prepararem para atender às expectativas dos funcionários.

 

Sofia Esteves – é fundadora e presidente do conselho do grupo Cia de Talentos, professora e pesquisadora de Gestão de Pessoas.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 17: 1-13 

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A Transfiguração de Cristo – Parte 1

Aqui temos a história da transfiguração de Cristo. Ele havia dito que o “Filho do Homem” viria, dentro de pouco tempo, no seu reino, e os três evangelistas habilmente conectam aquela história com esta promessa; como se a transfiguração de Cristo fosse destinada a algumas pessoas especiais, como uma garantia do reino de Cristo, daquela luz, e do seu amor, que aqui aparece para os seus escolhidos e santificados. Pedro fala disso como “a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus” (2 Pedro 1.16). Tais prefácios apresentaram adequadamente uma emanação do seu poder, e um aviso prévio da sua vinda.

Quando Cristo estava aqui na terra, embora a sua condição, em geral, fosse uma condição de humilhações e sofrimentos, houve alguns lampejos da sua glória entremeados, para que Ele mesmo pudesse se sentir mais encorajado nos seus sofrimentos, e os outros, menos magoados. O seu nascimento, o seu batismo, a sua tentação e a sua morte foram os exemplos mais notáveis da sua humilhação; e cada um deles esteve presente com alguns sinais de glória, e os sorrisos do céu. Mas sendo a sequência do seu ministério público uma humilhação contínua, aqui, justamente no meio dele, surge essa descoberta da sua glória. Assim como agora, que está no céu, Ele tem suas deferências, quando esteve na terra o Senhor também teve os seus triunfos.

A respeito da transfiguração de Cristo, considere:

 

 I – As circunstâncias em que ela ocorreu, e que estão registradas aqui (v. 1).

1.A época: “seis dias” depois que Ele havia feito o discurso solene aos seus discípulos (cap. 16.21). Lucas diz: “quase oito dias depois dessas palavras”, seis dias inteiros tinham se passado entre o discurso e esse dia, que era o oitavo dia. Nada está registrado como tendo sido feito ou dito pelo nosso Senhor Jesus durante os seis dias anteriores à sua transfiguração; assim, antes de grandes aparições “fez-se silêncio no céu quase por meia hora” (Apocalipse 8.1). Assim, quando Cristo parecer não estar fazendo nada pela sua igreja, espere, dentro de pouco tempo, alguma coisa extraordinária.

2.O local: aconteceu no topo de um “alto monte”. Cristo escolheu um monte:

(1).  Por ser um lugar secreto. Ele se afastou; pois embora uma cidade sobre uma colina dificilmente possa ficar escondida, duas ou três pessoas sobre um monte dificilmente poderão ser encontradas. Por isso as suas orações particulares eram, em geral, nas montanhas. Cristo escolheu um lugar afastado onde se transfiguraria, porque a sua aparição pública na sua glória não seria coerente com a sua condição atual; e dessa maneira Ele mostra a sua humildade e nos ensina que a privacidade é grande amiga da nossa comunhão com Deus. Aqueles que desejam ter um relacionamento com o Céu devem, frequentemente, se afastar das coisas e dos negócios deste mundo; e jamais se sentirão sozinhos, pois o Pai está com eles.

(2).  Porque sendo um lugar sublime, estava bastante elevado, acima das outras coisas. Aqueles que desejam ter um relacionamento transformador com Deus, não devem apenas afastar-se, mas subir; erguer os seus corações e “buscar as coisas que são de cima”. A ordem é: “Sobe aqui” (Apocalipse 4.1).

3.As testemunhas do acontecimento. Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João.

(1).  Ele levou três pessoas, um número adequado para dar testemunho do que vissem; pois “pela boca de duas ou três testemunhas, será confirmada toda palavra”. Cristo faz aparições suficientemente exatas, mas não comuns; “não a todo o povo, mas às testemunhas” (Atos 10.41), para que aqueles que não tinham visto, mas que haviam crido, pudessem ser bem-aventurados.

(2).  Ele levou esses três homens porque eram os principais discípulos, os três mais dignos do Filho de Davi. Provavelmente fossem excelentes em dons e graças; eles eram os favoritos de Cristo, destacados para serem testemunhas das ocasiões em que Ele se afastava. Eles estavam presentes quando Ele ressuscitou a menina (Marcos 5.37). Eles deveriam, posteriormente, ser testemunhas da sua agonia, e esse episódio deveria prepará-los para isso. Uma visão da glória de Cristo, enquanto ainda estamos neste mundo, é um bom preparativo para os nossos sofrimentos com Ele, que são os preparativos para a visão da sua glória no outro mundo. Paulo, que tinha problemas em abundância, tinha, por outro lado, abundantes revelações.

 

II – A maneira como aconteceu (v. 2); Ele “transfigurou-se diante deles”. A substância do seu corpo continuou a mesma, mas a sua aparência foi grandemente alterada. Ele não se transformou em um espírito, mas o seu corpo, que tinha aparecido fraco e desonrado, agora aparecia em virtude e glória. Ele “transfigurou-se” – Ele passou por uma metamorfose. Os poetas profanos divertiam e ofendiam o mundo com histórias extravagantes e ociosas de metamorfoses, especialmente as metamorfoses dos seus deuses, que os menosprezavam e diminuíam, e eram igualmente falsas e ridículas; alguns pensam que Pedro se refere a eles quando, prestes a mencionar essa transfiguração de Cristo, disse: “Não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas” (2 Pedro 1.16). Cristo era, ao mesmo tempo, Deus e homem; mas, nos dias da sua carne, Ele assumiu a forma de servo (Filipenses 2.7). Ele cobriu a glória de sua divindade com um véu; mas agora, na sua transfiguração, Ele afastou aquele véu, apareceu em forma de Deus (Filipenses 2.6) e deu aos seus discípulos um vislumbre da sua glória, que não podia deixar de modificar a sua forma.

A grande verdade que declaramos é que “Deus é luz” (1 João 1.5), “habita na luz” (1 Timóteo 6.16), e “cobre-se de luz” (Salmos 104.2). E, portanto, quando Cristo apareceu “em forma de Deus”, Ele apareceu “na luz”, a mais gloriosa de todas as coisas visíveis, a primogênita de toda a criação, e a que mais se assemelha ao Pai eterno. Cristo é a Luz; enquanto estava no mundo, Ele “resplandeceu nas trevas”, e por isso “o mundo não o conheceu” (João 1.5,10); mas naquele momento, na sua transfiguração, aquela Luz brilhou nas trevas.

A sua transfiguração apareceu em dois aspectos:

1.”O seu rosto resplandeceu como o sol”. O rosto é a principal parte do corpo, pela qual somos conhecidos; portanto, todo esse brilho foi colocado no rosto de Cristo, aquele rosto que, depois disso, Ele não mais escondeu “daqueles que o afrontavam e cuspiam”. Ele “resplandeceu como o sol” quando está na plenitude da sua força, tão claro e tão brilhante; pois Ele é o Sol da justiça, a Luz do mundo. O rosto de Moisés brilhou, mas como a luz, com uma luz refletida e emprestada, mas o de Cristo brilhou corno o sol, com uma luz inerente, que era ainda mais sensivelmente gloriosa, porque subitamente irrompeu, pode-se dizer, por trás de uma nuvem negra.

2.”As suas vestes se tornaram brancas como a luz”. Todo o seu corpo se modificou, assim como o seu rosto; de modo que raios de luz, arremessando-se de todas as partes através das suas vestes, as tornaram brancas e cintilantes. O brilho no rosto de Moisés era tão fraco, que podia facilmente ser oculto por um fino véu; mas tal era a glória no corpo de Cristo, que as suas vestes se iluminavam por ela.

 

III – As pessoas que apareceram por ocasião da transfiguração. Ele virá “com dez milhares de santos”; e, como uma amostra deles, “eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele” (v. 3). Considere que:

1.Havia santos glorificados com Ele; se havia três para dar testemunho na terra, Pedro, Tiago e João, também havia alguns para dar testemunho da parte do céu. Assim, havia uma semelhança viva com o Reino de Deus, que é composto por santos no céu e santos na terra, e ao qual pertencem os “espíritos dos justos aperfeiçoados”. Vemos, aqui, que aqueles que “dormiram em Cristo” não estão mortos, mas existem em um estado separado, e estarão para sempre com o Senhor.

2. Esses dois eram “Moisés e Elias”, homens muito eminentes na sua época. Os dois tinham jejuado quarenta dias e quarenta noites, como Cristo, e tinham realizado outros milagres, e ambos foram admiráveis tanto ao deixar este mundo como ao viver nele. Elias foi levado ao céu em um carro de fogo, e não morreu. O corpo de Moisés nunca foi encontrado. Possivelmente estava preservado da degradação, e reservado para essa aparição. Os judeus tinham grande respeito pela memória de Moisés e Elias, e por isso os dois vieram para dar testemunho dele. Alguns entendem que é possível que eles tenham vindo para levar notícias dele ao mundo superior. Na pessoa deles, a lei e os profetas honraram a Cristo e lhe deram testemunho. Moisés e Elias apareceram aos discípulos, que os viram, e os ouviram falar. E, seja pelas suas palavras, ou por informações de Cristo, souberam que eram Moisés e Elias. Os santos glorificados se reconhecerão mutuamente no céu. Eles conversaram com Cristo. Observe que Cristo tem comunhão com os bem-aventurados, e não será estranho a nenhum dos membros dessa corporação glorificada. Cristo agora seria selado no seu trabalho profético. Por isso, esses dois grandes profetas eram os mais adequados para estar presentes com Ele, como se estivessem transferindo toda a sua honra e todo o seu interesse a Ele; pois Deus “a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho” (Hebreus 1.1).

 

IV – O grande prazer e a grande satisfação que os discípulos tiveram com a visão da glória de Cristo. Pedro, como era usual, falou pelos demais: “Senhor, bom é estarmos aqui”. Aqui, Pedro expressa:

1.O prazer que eles tiveram com essa conversa: “Senhor, bom é estarmos aqui”. Embora sobre um alto monte, que podemos supor que fosse áspero e desagradável, frio e exposto, ainda assim Pedro diz: “É bom estarmos aqui”. Ele expressa o sentimento dos seus companheiros discípulos: “É bom, não apenas para mim, mas para nós”. Ele não procurou monopolizar esse prazer, mas alegremente os incluiu. Ele disse isso a Cristo. Os afetos piedosos e devotos se comprazem em se derramar diante do Senhor Jesus. A alma que ama a Cristo, e ama estar com Ele, ama ir até Ele e dizer-lhe: “Senhor, bom é estarmos aqui”. Isto dá a entender um reconhecimento agradecido da bondade de Jesus, por fazer com que participassem desse momento tão importante e prazeroso. Observe que a comunhão com Cristo é a alegria dos cristãos. Todos os discípulos do Senhor Jesus reconhecem que é bom estar com Ele no monte sagrado. É bom estarmos aqui, onde Cristo está, e para onde Ele nos traz consigo, por seu convite; é bom estarmos aqui, afastados e sozinhos, com Cristo; estarmos aqui, onde podemos “contemplar a formosura do Senhor” (Salmos 27.4). É agradável ouvir Cristo comparar trechos das Escrituras registradas por Moisés e os profetas, ver como todas as instituições da lei e todas as predições dos profetas apontavam para Cristo, e se cumpriam nele.

2.O desejo que tinham da continuação daquela situação: “Façamos aqui três tabernáculos”. Nestas palavras, assim como em muitas outras proferidas por Pedro, existe uma mistura de fraqueza e boa vontade, mais entusiasmo do que prudência.

(1).  Aqui vemos um entusiasmo por essa conversa com seres celestiais, uma complacência louvável com a visão que eles tinham da glória de Cristo. Aqueles que, pela fé, contemplam “a formosura do Senhor” na sua casa, não podem evitar desejar habitar ali todos os dias das suas vidas. É bom ter “uma estabilidade no seu santo lugar” (Esdras 9.8), uma residência permanente; permanecer nas práticas sagradas como um homem que está em casa, não como um viajante. Pedro pensava que esse monte era um bom lugar onde edificar, e ele desejava construir tabernáculos ali; assim como Moisés, no deserto, construiu um tabernáculo para a Shekiná, ou glória divina.

O fato de Pedro querer fazer ali tabernáculos para Cristo, e Moisés, e Elias, mas nenhum para si mesmo, evidenciava um grande respeito pelo seu Mestre e os convidados celestiais, com o esquecimento elogiável de si mesmo e dos seus companheiros discípulos. Ele fica­ ria contente em ficar ao ar livre, no chão frio, em tão boa companhia. Se o seu Mestre não tinha onde reclinar a cabeça, não importava se ele, Pedro, tinha onde ou não.

(2).  Mas no seu entusiasmo, ele deixou transparecer uma grande dose de fraqueza e ignorância. Que necessidade tinham Moisés e Elias de tabernáculos? Eles pertenciam àquele mundo abençoado, onde já não mais sentiam fome, nem sede, “nem sol nem calma alguma caia sobre eles”. Cristo recentemente tinha predito os seus sofrimentos, e ordenado que os seus discípulos esperassem a mesma coisa. Pedro esqueceu disso, ou, para evitar isso, precisaria construir os tabernáculos no monte de glória, afastados dos problemas. Mesmo utilizando outras palavras, Pedro ainda insiste na antiga ideia – “Senhor, tem compaixão de ti”-, embora tivesse sido tão recentemente repreendido por dizer isso. Observe que existe uma tendência nos homens bons em esperar a coroa, sem a cruz. Pedro estava tomando posse desse privilégio como um prêmio, embora ainda não tivesse lutado a sua batalha, nem terminado a sua carreira, assim como os outros discípulos (cap. 20.21). Nós estaremos fora do nosso objetivo se procurarmos um céu aqui na terra. A estranhos e peregrinos (que é o que somos, na melhor das circunstâncias, neste mundo), não cabe falar em construir ou esperar uma “cidade permanente” na terra.

Mas há uma desculpa para a incoerência da proposta de Pedro, não somente porque ele “não sabia o que dizia” (Lucas 9.33), mas também porque submeteu a proposta à sabedoria de Cristo: “Se queres, façamos aqui três tabernáculos”. Observe que quaisquer que sejam os tabernáculos que nos propusermos a construir para nós mesmos, neste mundo, precisamos sempre nos lembrar de pedir a permissão de Cristo.

Ao que Pedro disse, não houve resposta. O desaparecimento da glória, em breve, seria a resposta. Aqueles que prometem a si mesmos grandes coisas na terra, serão logo iludidos pela sua própria experiência.