PSICOLOGIA ANALÍTICA

SOB O OLHAR DA CIÊNCIA

Um século depois de Freud apresentar a (então) polêmica ideia de que habita em nós uma instância sobre a qual não temos controle –  mas se mostra em nossas ações e pensamentos –  muitos cientistas se rendem a evidências e buscam estudá-las em laboratório.

Sob o olhar da ciência

Há mais de um século, quando o criador da psicanálise lançou a ideia de que temos em nós um aspecto inconsciente, foi inevitável que fosse deflagrada a desconfiança dos cientistas, que se perpetua ao longo das décadas. Não é para menos, a proposta de Sigmund Freud é intrigante. Segundo ele, essa parte da mente abriga pensamentos, desejos e lembranças que, por seu teor excessivo, sexual ou violento, não suportamos manter por perto – e, por isso, são removidos para uma espécie de “porão” psíquico para que não tenhamos de lidar com eles a cada instante. Apesar de nossos esforços para manter esses conteúdos recalcados, eles continuam vívidos e vez por outra retornam mais ou menos disfarçados. Como esse aspecto não é, por definição, facilmente acessível, não é simples estudá-lo – embora se apresente inúmeras vezes por meio de atos falhas e no conteúdo dos sonhos, por exemplo. Depois de muitas abordagens psicológicas buscarem negar ou ignorar essa instância – o que, aliás, é compreensível, visto que parece realmente desconfortável ter um “estranho morando dentro de nós”-, a ciência tem se rendido e procurado compreendê-la melhor.

Atualmente o domínio da inconsciência, descrito mais genericamente no âmbito da neurociência cognitiva como qualquer processo que não permita a ativação da consciência, é rotineiramente estudado em centenas de laboratórios que usam técnicas psicológicas objetivas baseadas em análises estatísticas. Dentre tantos, dois experimentos revelam algumas capacidades da mente inconsciente – embora não exatamente na profundidade proposta por Freud. Ambos, porém, dependem do “mascaramento”, a ocultação de objetos da cena apresentada. Ou seja: as pessoas que participam dos estudos olham, mas simplesmente não veem o que seus olhos captam.

O primeiro estudo resultou de uma colaboração entre os pesquisadores Filip van Opstal, da Universidade Ghent, na Bélgica, Floris P. de Lange, da Universidade Radboud Nijmegen, na Holanda, e Stanislas Dehaene, do College de France, em Paris. Dehaene, diretor da Unidade de Neuroimageologia Cognitiva (lnserm-CEA, na sigla em francês), é mais conhecido por suas investigações sobre mecanismos cerebrais responsáveis por contas e números. Ele explora até que ponto uma simples adição ou uma média podem ser calculadas de forma automática – o que ele acredita que ultrapasse os limites da consciência. Somar 7, 3, 5 e 8 geralmente é considerado um processo cognitivo consciente e sofisticado. Porém, Van Opstal e seus colegas provaram o oposto de forma indireta, mas inteligente e bastante convincente.

Durante o experimento, a imagem de um conjunto de quatro números arábicos com um único dígito (1a 9, excluindo o 5) era projetada rapidamente numa tela. Voluntários tinham de indicar, o mais rápido possível, se a média dos quatro números era maior ou menor que 5. Cada rodada era precedida por uma pista oculta que podia ser válida ou inválida. A pista consistia num flash mostrando outro conjunto de quatro números cuja média era menor ou maior que 5 (veja ilustração abaixo). Estes eram precedidos e seguidos por marcas hastag ou jogo da velha (#) no lugar dos números visualizados de relance durante o flash. As marcas efetivamente escondiam as pistas de modo que, conscientemente, não era possível ver esse conjunto de números. Convidar os participantes a adivinhar se a média dos quatro números escondidos era menor ou maior que 5 também não funcionou: ela era aleatória.

No entanto, a pista ainda influenciava a reação dos participantes. Quando a dica implícita era válida, a resposta final era conscientemente mais rápida que quando a pista era inválida. Na ilustração, a média dos quatro indícios invisíveis (3,75) é menor que 5, enquanto a média dos números-alvo visíveis é maior que 5. Resolver esse conflito requer mais tempo de processamento (cerca de 1/40 de segundo). Isso significa que a pista aciona a atividade neural representada pela declaração “menor que 5” que, por sua vez, interfere no estabelecimento imediato de uma associação de neurônios representando “maior que 5”. Essas pistas invisíveis e indetectáveis influenciam no comportamento e sugerem que “saber sem se dar conta disso “pode, de alguma forma, ajudar a estimar a média dos quatro números de um dígito. É pouco provável que nesses casos as pessoas ajam seguindo as regras algébricas precisas que as crianças aprendem na escola.  Mas o processo pode basear-se na heurística (método para fazer descobertas). Por exemplo, para cada número maior que 5, realmente aumenta a probabilidade de o voluntário apertar o botão “maior que 5”.

Este é apenas o último de uma batelada de experimentos que demonstram a capacidade de “codificação do conjunto”, uma habilidade da mente de estimar, em poucos segundos, a expressão emocional dominante de uma multidão de rostos ou das dimensões aproximadas de pontos agrupados, mesmo que as faces ou os pontos isoladamente não sejam conscientemente identificados.

CAPA DE HARRY POTTER

Creio que a possibilidade que temos de agrupar rapidamente todos os diferentes elementos contidos numa cena e colocá-los no mesmo contexto é uma das principais características da consciência. Intrigados com essa questão, os neurocientistas Liad Mudrik e Dominique Lamy, da Universidade de Tel Aviv, e Assaf Breska e Leon Y. Deouell, da Universidade Hebraica em Jerusalém, dispuseram-se a testar até que ponto é possível integrar inconscientemente todas as informações de um único quadro numa experiência visual unificada e coerente.

Os psicólogos israelenses usaram a “supressão por flashes contínuos”, uma técnica poderosa de ocultação, para tornar as imagens “invisíveis”. Nesse processo, padrões coloridos aleatórios, que mudam rapidamente, são disparados na forma de flashes em um dos olhos enquanto a imagem de uma pessoa realizando qualquer tarefa vai desaparecendo lentamente no outro olho. Em poucos segundos, a figura torna-se completamente invisível e o observador vê apenas formas coloridas. A cena que vai se tornando gradativamente mais intensa acaba finalmente irrompendo e o espectador consegue vê-la. Algo parecido com a capa de invisibilidade de Harry Potter que, com o passar do tempo, vai sumindo e revela o que está por baixo.

O aspecto fascinante do estudo de Liad Mudrik é que o tempo até a cena tornar-se visível depende do conteúdo da imagem. Imagens reais de uma mulher colocando uma pizza no forno, um garoto mirando um alvo com arco e flecha ou um jogador de basquete saltando para fazer um arremesso levam 2,64 segundos para se tornar visíveis, enquanto os quadros não naturais são mascarados por 2,50 segundos. A diferença é pequena, mas significativa: a mente inconsciente detecta coisas incongruentes nessas imagens. Uma mulher coloca um tabuleiro de xadrez no forno, a flecha a ser disparada é substituída por uma raquete de tênis e a bola de basquete se transforma em uma melancia.

Os psicólogos verificam se as duas imagens, a congruente e a incongruente, estão realmente invisíveis e se não podem ser distinguidas uma da outra quando mascaradas. Essa descoberta implica que a inconsciência reconhece que há algo errado nas imagens, que o objeto manuseado está fora do contexto.

A forma como a mente conduz esse processo é muito intrigante. Talvez porque as vastas e intrincadas redes neurais do córtex cerebral que codificam as imagens tenham aprendido que certos objetos combinam, outros não (como os bots – programas que executam automaticamente tarefas repetitivas – que o Google e outros mecanismos de busca usam para vasculhar a internet e listar todas as ocorrências da web para disponibilizá-las prontamente na próxima busca). Considerando o número quase infinito de combinações de objetos e contextos, é possível que essa solução seja realizada pelo cérebro? Ou será que as técnicas de ocultação suprimem a visibilidade da imagem, mas não impedem completamente o acesso consciente a elas? Somente mais pesquisas poderão responder a essas perguntas. Assim, talvez no futuro possamos finalmente conhecer a capacidade da inconsciência cognitiva e ter mais informações sobre o papel fundamental desempenhado pela consciência.       

 Sob o olhar da ciência2

 CHRISTOF KOCH – é professor de biologia cognitiva e comportamental do Instituto de Tecnologia da Califórnia e coordenador científico do Instituto Allen para Ciências do Cérebro, em Seattle.

 

OUTROS OLHARES

INFIDELIDADE 2.0

Nunca foi tão fácil trair. Nunca foi tão difícil esconder

Infidelidade 2.0

A mulher está cismada com a quantidade de mensagens que o marido recebe por dia. Também está intrigada porque ele não desgruda do celular nem quando vai ao banheiro. Somados a isso, outros indicadores fermentam seu desconforto: ele trocou a armação dos óculos, voltou a correr, aumentou o número de viagens a trabalho. Surpreendentemente, está mais carinhoso.

Uma noite – das raras que passam juntos -, ela bola um plano: vão a um restaurante, ela insiste para que tomem a segunda garrafa de vinho (na verdade, ela bica a bebida, quem bebe é ele), voltam altinhos para casa. Cansado, de pileque, ele capota na cama. Ela pega o celular, segura o polegar do marido desacordado e o comprime com cuidado no botão que liga o aparelho. Tcharam! A tela se abre no WhatsApp e ela pode ver a troca extensa de recados dele com outra mulher. É o fim do casamento?

O que no passado dependia de uma marca de batom na blusa, de um flagra, de um dedo-duro, de uma foto roubada, hoje acontece com apenas um delicado toque no celular – o guardião dos segredos mais precisos e mais evidentes (fotos, nudes, mensagens românticas, azaração) da infidelidade. Descobrir uma traição se tornou muito mais fácil. Entrar num relacionamento extraconjugal também. Há sites feitos sob medida para isso (como o extraconjugais.com ou o amantediscreto.com), há aplicativos talhados para esconder o que não pode ser revelado (como o Vaulty Stocks, que parece um aplicativo para checar o mercado financeiro, mas funciona para armazenar fotos e vídeos picantes), sem falar no pior inimigo da união estável: o Telegram – cujas mensagens são encriptadas e onde é possível definir um tempo para que sejam destruídas automaticamente. Casos acontecem, sempre aconteceram, mas, aparentemente, desenvolvem-se e tomam corpo com mais rapidez e facilidade graças à tecnologia e às redes sociais. Uma busca rápida na internet sobre o assunto traz informações que corroboram a ideia de que imaginar uma relação imune ao adultério é quase um devaneio. Um estudo do periódico Archives of Sexual Behavior, de 2017, observou 500 adultos que tiveram dois casamentos. Quem traiu no primeiro tem três vezes mais chances de trair o segundo cônjuge. Em 2011, a mesma publicação demonstrou que a infidelidade é tão comum entre homens quanto em mulheres. Um levantamento da American Sociological Review em 2015 mostrou que dependência financeira não protege, pelo menos as mulheres, de serem traídas: 15% dos homens que são financeiramente dependentes das parceiras as traem. No caso delas, só 5% relataram ser infiéis. Um estudo publicado pelo Journal of Personality and Social Psychology em fevereiro mostrou que as pessoas com alto grau de satisfação sexual eram mais propensas a trair os parceiros. Os pesquisadores acreditam que quem está sexualmente satisfeito é, em geral, mais aberto a ter novas experiências sexuais.

Diante do quase inevitável, vem a pergunta: o que fazer? Se ser pego no flagra ficou muito mais fácil e a humanidade não parece ter mudado o pendor por pular a cerca, é de se pensar que mais relações amorosas vão acabar e isso acontecerá ainda mais cedo? A pesquisadora belga Esther Perel rebate com outra pergunta: e se a infidelidade for algo bom?

Perel, de 59 anos, loira, vestida com roupas bem nova-iorquinas e com um leve e sensual sotaque do francês materno, atende casais em um consultório em Manhattan há 34 anos. Seu livro Sexo no cativeiro, lançado em 2006, foi um fenômeno mundial de vendas e suas duas últimas conferências em vídeo – TEDs – tiveram mais de 20 milhões de visualizações.

No novo livro, Casos e casos Repensando a infidelidade (já disponível em português em e-book e com lançamento em papel previsto para maio, pela editora Objetiva), a guru internacional dos relacionamentos amorosos diz que a infidelidade é mais comum do que se imagina, muito mal compreendida e, sim, perfeitamente defensável. Com a eloquência e a propriedade que lhe são características, ela vai além:

“A infidelidade tem a tenacidade que o casamento apenas inveja”.

Perel defende que, apesar do peso trágico que carrega, a traição pode ser uma grande chance para a reconstrução de um matrimônio mais feliz. “Muitas pessoas tiveram experiências positivas com a infidelidade, passaram por mudanças transformadoras tão grandes quanto passam os doentes terminais. Mas eu não aconselharia ninguém a ter um caso, como não aconselharia ninguém a desenvolver um câncer.”

A empresária Carolina Siequeroli descobriu que era traída da maneira mais clichê que existe. “Logo que me casei, peguei meu marido na cama com outra”, contou. Mas, como a dar razão às ideias de Perel, Siequeroli acredita que o que parecia uma tragédia mudou sua vida para melhor. “Foi um choque, mas ao mesmo tempo senti um grande alívio”, lembrou. O casal tinha uma amiga em comum, de quem a empresária sempre teve ciúmes. “Eu me sentia mal com isso e não sabia se era coisa de minha cabeça ou se de fato acontecia algo. Quando vi os dois juntos, percebi que eu tinha razão. Foi ruim, mas foi bom porque pelo menos a tortura da desconfiança terminou ali.”

Depois de muito choro, dor, discussões e conversas intermináveis, Siequeroli decidiu não se separar. “Perdoei. Sabia que ele me amava muito. Nosso casamento era ótimo em vários campos. Muitos criticaram minha decisão. Houve pressão para que me separasse.”

Perel afirma que os relacionamentos são como “uma colcha de regras” que começa a se esticar desde o primeiro dia para se moldar à realidade. Siequeroli mudou o tecido da colcha. ”Para mim, traição passou a ser estar ao lado de alguém fisicamente por obrigação, mas desejando estar com outra pessoa.” O casal decidiu “revelar desejos e vontades sem falsa moral”. “Passei a ser a única em minha turma de amigas que não controlava o marido, mas que tinha a relação mais transparente de todas.” Carolina teve dois filhos e viveu feliz por 11 anos. A separação veio, segundo ela, porque o amor foi acabando. “Hoje, além de pai de meus filhos, ele é meu melhor amigo. Quem mais me ajuda na vida”, disse.

A gerente comercial Roberta Grillo, um belo dia, quando já tinha nove anos de um bom casamento e pouco depois do nascimento do primogênito, viu mensagens de uma mulher no celular do marido. Ela, que é workaholic e nunca fez o tipo controladora, teve “quase certeza” de que ele estava tendo um caso, mas não rastreou mais nada. Decidiu também não fazer perguntas. “Podia ser algo passageiro e eu não queria me separar. A gente sempre acha que é reversível.” Nesse caso, não foi. O marido tinha se apaixonado por uma terceira pessoa, e os dois se separaram amigavelmente.

Nas palestras que Esther Perel dá ao redor do mundo, ela costuma perguntar se alguém já passou por uma experiência parecida. Ninguém nunca levantava a mão até que, recentemente, na França, alguns o fizeram. Admitir em público ser vítima ou autor de uma traição é raríssimo. Mal compreendida, segundo Perel, a traição segue tabu. Durante a apuração desta reportagem, foi perguntado se alguém teria uma história do tipo para contar em um grupo de adultos, ex-colegas do colégio paulistano Bandeirantes. Havia 150 pessoas presentes, ninguém se manifestou. O silêncio foi o mesmo em outro grupo com cerca de 20 mulheres, todas com nível superior. Na verdade, uma disse, quase em desabafo: “Deve ser horrível passar por isso, não desejo para ninguém”. Numa pesquisa feita pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos, 91% dos entrevistados disseram que a infidelidade é moralmente condenável – mais detestável do que a poligamia, o divórcio e o suicídio.

Apesar de detestadas, relações extraconjugais são mais frequentes do que se admite. Uma pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo, feita há dois anos com 8.200 pessoas, apontou que 50,5% dos homens e 30,2% das mulheres já foram infiéis no relacionamento. As estatísticas nos Estados Unidos variam de 26% a 70% para elas e 33% a 75% para eles. Os estudiosos do assunto, porém, garantem que os números devem ser maiores. No consultório de Perel, a maioria dos pacientes diz que é horrível esconder um caso extraconjugal do parceiro, mas que faria o mesmo se tivesse um amante.

O modelo cearense Lucas Fernandes, de 27 anos, participava de um reality show. Por isso mesmo, não conseguiu esconder dos milhões de telespectadores do Big Brother Brasil deste ano que, no mínimo, tinha se encantado pela personal trainer catarinense Jéssica Mueller, de 26 anos. Foi o que bastou para ele ser expulso. O público sabia que Lucas tinha uma noiva, a modelo Ana Lúcia Vilela – que era uma dos milhões de telespectadores que acompanhavam o programa. Ao ser enviado para o “paredão”, Fernandes foi eliminado por ter jogado mal e pela infidelidade. A noiva não apareceu para recebê-lo na saída da casa. A cantora Roberta Miranda o condenou numa rede social: “Se sou noiva desse moço, meto-lhe chifre com o melhor amigo dele”. Os noivos não são mais noivos.

infidelidade já não tem mais o peso de uma tragédia shakespeariana, mas ainda desestabiliza qualquer um. Em Otelo, o general mouro enlouquece com o ciúme provocado por uma suspeita de que a mulher, Desdêmona, o traía. Otelo mata a mulher e, ao perceber que ela era inocente, suicida-se. “A sociedade moderna continua impregnada de uma enorme culpa cristã”, disse a psicoterapeuta de casais Lídia Aratangy, que há mais de 30 anos lida com dilemas conjugais. “Nas gerações passadas, muitos homens se vangloriavam dos casos extraconjugais. Hoje, não mais, até porque houve uma valorização do vínculo amoroso.

A valorização do amor, porém, não significa que eles estejam traindo menos do que antes. Nem que elas, depois de muitas conquistas sociais, mudaram de comportamento. Ainda há mais preconceito contra as mulheres que traem do que quando se trata dos homens.

Esther Perel cita pesquisas que indicam que a infidelidade por parte das mulheres aumentou 40 % de 1990 para cá. Esse dado, ela explica em seu livro, “não inclui apenas relacionamentos sexuais fora do casamento, mas também outros contatos físicos, envolvimentos platônicos, encontros em salas de bate-papo, grupos do WhatsApp, exibicionismo pela internet, visitas a sites pornográficos, entre tantas outras formas modernas de relacionamentos que existem hoje”.

O mercado está trabalhando duro para garantir a privacidade de quem quer manter uma história escondida no celular. Há inúmeros aplicativos e ferramentas on-line, como o KYMS, que tem cara de calculadora, mas ao digitar uma senha aparece o conteúdo escondido – seja ele mensagens ou nudes. Há o Private SMS & Call – Hide Text, que esconde as chamadas realizadas. Ou o Confide, em que as mensagens desaparecem após serem lidas. É como um Snapchat de texto. Há ainda o Black SMS, que transforma suas mensagens de textos em imagens pretas que só podem ser exibidas com uma senha. E até o PeeperPeerer, que fotografa quem tenta bisbilhotar o celular alheio. O caso relatado na abertura da reportagem não aconteceria se o marido tivesse um iPhone X, que passou a contar com um scanner de reconhecimento facial para desbloquear o telefone. E o dono tem de estar de olho aberto. Não adianta postar o aparelho no rosto do suspeito quando ele estiver dormindo. O Galaxy 8 também escaneia a íris do dono do aparelho.

Edval Domingues, um designer de 42 anos, fez um escândalo quando chegou em casa e viu o então namorado com o computador ligado e o sofá manchado de esperma. Discutiram até o parceiro, aos prantos, confessar que estava em um site de pornografia se divertindo. Os dois fizeram as pazes, mas a sensação de traição não passou. “Ele entendeu quanto isso me magoou e prometeu mudar de conduta”, lembrou ele, já separado, mas ainda hoje chateado.

No consultório da psicoterapeuta Lídia Aratangy, são comuns os desentendimentos gerados por trocas de mensagens com terceiros. “O ciúme é um problema do ciumento, mas acho também que o sofrimento da pessoa amada deve ser levado em conta”, disse ela. Aratangy conta o caso de uma paciente que, apesar dos apelos do marido, não parava de conversar no WhatsApp com um amigo de faculdade que reencontrara havia pouco. A mulher só teve a dimensão do sofrimento que estava causando quando o marido chorou durante a sessão.

Querer controlar o desejo do outro para não sofrer, no entanto, também não funciona. Até os casais mais monogâmicos, segundo Esther Perel, precisam reconhecer que ninguém tem a posse da sexualidade do parceiro. “Na tentativa de impedir traições, o controle excessivo da vida do outro acaba com o mistério, que, é justamente o que mantém o desejo aceso.” Na utopia romântica dos tempos modernos, existe a expectativa de que miraculosamente o desejo por outras pessoas evapore, segundo ela, em nome de uma única atração. “A monogamia é a vaca sagrada do ideal romântico”, escreveu Perel.

Ela discute o fato de que hoje ser feliz no casamento “é mandatório”. Segundo ela, os laços agora se formam muito mais em torno da atração e do amor. Só que laços assim são mais frágeis do que os que se baseiam em bens materiais, que lastreavam muitos dos relacionamentos antigos. Os laços atuais são mais fáceis de se romper também porque a expectativa em torno do casamento é gigante. ”Esperamos que uma pessoa consiga dar coisas que só uma cidade inteira seria capaz de prover”, afirmou. Perel conta que os pacientes chegam ao consultório dela em Manhattan como “consumistas decepcionados com o romantismo”. Eles se casam e depois acham que levaram gato por lebre, comportam-se como consumidores enganados. “Eles percebem que a expectativa do romantismo não se ajusta à crua realidade, que não é nada romântica. A visão utópica do amor ideal transforma-se em uma grande arma que desperta o desencanto.” Aí, levam o produto com defeito para ser consertado no divã. E traem.

Como gosta de lembrar em sua TED sobre infidelidade, o adultério existe desde que o casamento foi inventado – assim como o tabu em tomo dele. Tanto que, ela diz, o adultério é o único pecado que tem dois mandamentos na Bíblia, um para não praticá-lo e outro para nem pensar nele. Em algumas culturas, porém, adultério nem existe. Para o povo Lozi, que vive na Zâmbia, ter um relacionamento sexual com quem quer que seja não é traição. Entre os kofyar, da Nigéria, se a mulher não está satisfeita com o marido e não quer se separar, fica oficialmente liberada para encontrar um amante. Os esquimós têm o costume de emprestar a mulher a um visitante como prova de boa hospitalidade.

O empresário italiano Paolo, de 40 anos (ele pediu para ter o nome trocado na reportagem), conta que, bem antes de se casar há dez anos, combinou com a mulher que cada um poderia fazer o que bem entendesse. Existia apenas uma regra: não deixar que o outro soubesse. Paolo explica assim o trato: “Não sou dono do desejo de minha mulher, como ela não é proprietária do meu. E você não vai passar uma vida inteira querendo apenas uma pessoa”.

O acordo foi rompido quando a moça, tomada pela culpa ou talvez querendo uma mudança forçada no combinado, contou que tinha traído o marido com um colega do escritório. Foi além e contou o que havia feito para toda a família. Paolo ficou tomado de ciúme e vergonha. Sentiu-se humilhado, vasculhou o computador da mulher, leu mensagens, grampeou o telefone dela. Chegou a ameaçar o amante, exigindo que ele não se aproximasse mais da mulher. Fez tudo o que nunca imaginou que faria. Até que: “Depois de sofrer, de me torturar, pensei na vida boa que sempre tivemos, pensei em meu filho e resolvi continuar casado. Eu a amo”. E continuaram a relação.

“É muito difícil superar uma infidelidade. Na experiência de consultório, percebo que os casais demoram mais de dois anos para conseguir isso”, disse Magdalena Ramos, que é psicanalista, autora de vários livros sobre família e casais e professora de psicologia na PUC de São Paulo. Os homens, segundo ela, ainda têm mais dificuldade na superação do que as mulheres. “Eles acham que a traição reflete a incompetência deles como machos. Quando o homem diz que perdoa, depois transforma a vida do casal em um inferno, ataca e desprestigia a mulher”, disse. A outra especialista, Lídia Aratangy, completou: “A mulher que perdoa muitas vezes faz o mesmo”.

O cineasta Domingos Oliveira, diretor e ator do filme Separações, é taxativo: “Infidelidade não se perdoa. Essa é uma mentira milenar”. Casado há 30 anos, ele acha que as pessoas só conseguem aproveitar o amor plenamente se forem fiéis. “A monogamia tem vantagens enormes. O problema é que o homem não é monogâmico, por isso sente culpa, paga o preço com a dependência.”

Mesmo perdoando, ninguém esquece a traição, dizem terapeutas e pesquisadores do assunto. O motivo é simples: a dor é enorme e desperta crises profundas de identidade e de autoestima. “Uma traição necessariamente leva o parceiro a se sentir excluído. Isso remete àquela sensação da primeira infância quando os pais fecham a porta e você fica de fora”, disse Aratangy. Para Magdalena Ramos, quando o caso é traição, as pessoas chegam ao consultório magoadas e com muita raiva. “E chegam sempre com um discurso fechado, de culpado e de vítima”, disse.

Mas, para terminar com uma afirmação da guru Esther Perel: “A moral se acomoda de acordo com os papéis”. Por isso, é bom lembrar que, se em um momento a pessoa está no papel do traído, em outro, inesperadamente, pode estar em outro dos três lugares de um triângulo amoroso que já execrou.

Infidelidade 2.0 -1

Abaixo, à direita, o aplicativo lnvisible Text permite enviar secretamente textos, fotos e vídeos, sem que sejam armazenados no celular.

Infidelidade 2.0 -2

Extraconjugais é um entre muitos sites criados nos últimos anos para facilitar encontros adúlteros.

Infidelidade 2.0 -3

 No Telegram, (abaixo à direita), o usuário pode definir o tempo para que a mensagem, criptografada, seja destruída automaticamente.

 Infidelidade 2.0 -4

Com o Slydial (acima, à esquerda), amantes podem deixar recados diretamente na caixa postal de seus parceiros, sem precisar falar com eles. As desculpas ficaram muito mais fáceis

 O Amante Discreto (abaixo) permite que os casados procurem novos amores a partir de critérios como idade, interesses e região.

Infidelidade 2.0 -5

 

 O Confide apaga automaticamente as mensagens assim que são lidas pelo destinatário, como se fosse um Snapchat de texto, e dificulta a captura de tela.

 Infidelidade 2.0 -6

 

O Black SMS (abaixo, à direita) transforma as mensagens em imagens pretas que só podem ser exibidas com uma senha.

 Infidelidade 2.0 -7

O PeeperPeerer (acima à esquerda) cria atalhos fakes de aplicativos e, quando um enxerido tenta acessá-los, é fotografado.

GESTÃO E CARREIRA

COMO UM LÍDER PODE MOTIVAR SUA EQUIPE?

Como um líder pode motivar sua equipe

O primeiro passo para motivar uma equipe passa pelo processo de descobrir se o que tem em suas mãos ou sob sua orientação é uma equipe. E, se não for, como transformá-la em uma. Em sendo, torna-se o trabalho de motivá-la algo prazeroso e alcançável de uma forma mais simplificada. Em não sendo, cabe todo um processo de preparação para tornar-se equipe e, a partir daí, identificar as semelhanças dos objetivos em motivação para que se atinjam os objetivos e metas estabelecidas. Motivação vem de “motivo”- que o faça sair do lugar, que o faça se mexer, que justifique por que concentrar esforços e tantas outras definições. E como poderíamos identificar algo em comum dentre vários membros de uma equipe, já que essas pessoas possuem origens, histórias e sentidos diferentes para suas vidas, o que realmente poderia fazer para que pensassem com o sentido de equipe e agissem como tal?

Na hora da contratação de colaboradores é fundamental que a entrevista tenha o poder de fazer ingressar na equipe pessoas que tenham a predisposição para entender a importância e o papel de uma equipe para, assim, compreender o funcionamento da empresa. Outro fator importante é buscar identificar em cada um dos membros dessa equipe a sua particularidade positiva, a sua habilidade ou dom que possa ser enaltecido e percebido como parte de um conjunto de habilidade em que cada membro entra com uma competência ou habilidade formando um todo que torna esse grupo uma equipe.

Os que sabem expressar-se, os que sabem articular, os que colocam em prática atividades corriqueiras, os que desbravam, os que não se intimidam diante de obstáculos; somando tudo isso pode-se dizer que se tem uma equipe nas mãos. E, para motivar essa equipe, deve-se saber o que encanta cada um, muitas vezes, uma disputa acirrada ou um desafio a ser vencido perante outra equipe ou um desafio de metas a serem atingidas são motivadores excelentes.

Alguns gostam desse desafio de estar em um crescente nas metas e isso já é o suficiente para sentir-se motivado, outros precisam de premiações ou reconhecimento individual e, às vezes, coletivo. E ainda há aqueles que precisam de crescimento profissional identificado como nomeação para cargos mais elevados dentro da empresa; é bom observar que cada pessoa tem algo que a motiva e essa motivação conjunta tem que atender cada um individualmente, daí a grande dificuldade, mas nada que uma boa conversa individual não resolva.

Em tempos de crise é comum que medidas contra quedas de vendas e outras quedas venham surgir para incentivar a retomada do crescimento da empresa, e essa motivação pode ser a manutenção do emprego como justificativa, como prova de que é hora de ser cada vez mais equipe, pois a empresa como um todo precisa continuar existindo para o bem da coletividade e, com isso, essa motivação é, sem dúvida, muito usada nesses tempos de dificuldade no mercado.

Por isso, seja o exemplo com senso de equipe, aja todo o tempo com o senso de equipe perante os seus colaboradores, deixe claro que a empresa é dividida em setores, que cada área tem seu papel no contexto geral, que cada funcionário é célula de um só corpo e que o esforço de cada um representa um resultado final que, se positivo, beneficia todos.

Agora peça para cada um deles escrever os seus sonhos em um papel e que viabilizem a realização desses sonhos através do seu trabalho na empresa. Veja quanto tempo irá levar, incentive-os a produzir para encurtar a concretização desses sonhos e mostre que há como ganhar mais em benefícios, salários e reconhecimentos se eles fizerem por onde. Faça-os vestir literalmente a camisa dessa equipe/empresa deixando-os saber que o sucesso individual deles passa pelo sucesso da empresa onde trabalham.

 

 Marcos Antônio Menezes de França – é escritor, professor, coach e especialista em Gestão de Pessoas.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 20: 1-16 – PARTE I

20180104_191613

 A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

A parábola dos trabalhadores na vinha tem a finalidade de:

 I – Nos dar uma ideia do Reino dos céus (v. 1), isto é, a maneira e o método da dispensação do Evangelho.

As leis desse reino não estão envoltas em parábolas, mas são claramente apresentadas, como no Sermão da Montanha. Mas os mistérios desse reino são entregues em parábolas, em ordenanças, como aqui e no capítulo 13. Mais necessário é que se conheçam os deveres do cristianismo do que as suas noções. No entanto, é necessário que as suas noções sejam mais ilustradas do que os seus deveres; esta é a finalidade das parábolas.

 II – Em particular, nos dar uma ideia a respeito do Reino dos céus, do qual o Senhor havia dito, na conclusão do capítulo anterior, que os derradeiros serão primeiros, e os primeiros, derradeiros. A parábola está ligada a esse ensino; essa verdade, que tem em si uma aparente contradição, precisava de uma explicação adicional.

Nada era mais misterioso na dispensação do Evangelho do que a rejeição dos judeus e o chamado dos gentios; assim, o apóstolo fala a respeito desse assunto (Efésios 3.3-6). Os gentios deveriam ser co-herdeiros; nada era mais provocativo aos judeus do que a sua intimidação. Então este parece ser o principal objetivo dessa parábola: mostrar que os judeus deveriam ser os primeiros a serem chamados na vinha, e muitos deles deveriam atender o chamado. Mas, por fim, o Evangelho deveria ser prega­ do aos gentios, e eles deveriam recebê-lo, e ser admitidos com os mesmos privilégios e vantagens dos judeus; esses deveriam ser co-herdeiros com os santos, e isso era algo com que os judeus, mesmo aqueles que criam, ficariam muito incomodados, mas sem uma razão plausível.

Mas a parábola pode ser aplicada de forma mais geral, e nos mostrar:

1. Que Deus não deve nada ao homem; esta é uma grande verdade que o conteúdo de nossa Bíblia apresenta como o objetivo dessa parábola.

2. Que muitos que começam por último, e pouco prometem na religião, às vezes, pela bênção de Deus, chegam a ter um maior conhecimento, graça, e utilidade do que outros cuja entrada veio muito antes, e que prometiam muito mais. Embora Cusi ganhe a dianteira de Aimaz, no entanto Aimaz, escolhendo o caminho da planície, ultrapassa Cusi. João anda mais rápido, e chega primeiro no sepulcro; mas Pedro tem mais coragem, e entra primeiro. Assim, muitos derradeiros serão primeiros. Alguns fazem disso uma advertência aos discípulos, que haviam se vangloriado de seu abraço oportuno e zeloso a Cristo; eles tinham deixado tudo para segui-lo; mas eles devem considerar isso, continuando a ser zelosos; devem prosseguir vigorosamente e perseverar; senão, o fato de terem tido um bom começo lhes será de pouco proveito; aqueles que pareciam ser os primeiros, seriam os derradeiros. Às vezes, aqueles que são convertidos posteriormente superam aqueles que se converteram anterior­ mente. Paulo foi como alguém que nasceu fora do devido tempo, embora não tenha ficado atrás dos principais apóstolos, e tenha superado aqueles que estavam em Cristo antes dele. Há algo de afinidade entre essa parábola e a do filho pródigo, na qual aquele que retornou de sua peregrinação era tão querido por seu pai quanto aquele que nunca se desviou; o primeiro e o derradeiro desfrutavam de um tratamento semelhante. 3. Que are­ compensa será dada aos santos, não de acordo com o tempo de sua conversão, mas de acordo com a sua preparação pela graça neste mundo; não de acordo com o tempo de experiência (Genesis 43.33), mas de acordo com a medida da estatura da plenitude de Cristo. Cristo havia prometido uma grande glória, na regeneração, aos apóstolos que o haviam seguido no início da dispensação do Evangelho (cap. 19.28); mas então Ele lhes diz que aqueles que forem fiéis a Ele, mesmo nos últimos dias do fim do mundo, terão o mesmo galardão; eles se assentarão com Cristo em seu trono, assim como os apóstolos (Apocalipse 2.26 – 3.21). Aqueles que sofrerem por Cristo nos últimos dias terão o mesmo galardão dos mártires e os crentes confessos dos tempos antigos, embora estes sejam mais celebrados; e os ministros fiéis de hoje terão o mesmo galardão dos primeiros patriarcas.

Temos duas coisas na parábola: o acordo com os trabalhadores, e a prestação de contas com eles.

(1).  Aqui está o acordo feito com os trabalhadores (vv. 1-7); e aqui será perguntado, como sempre:

[1]. Quem os contrata? Um homem, pai de família. Deus é o grande Pai de família de quem somos, e a quem servimos; como um pai de família, Ele tem trabalho a fazer, e servos que o farão; Ele tem uma grande família no céu e na terra, que toma sobre si o nome de Jesus Cristo (Efésios 3.15), da qual Ele é o Proprietário e o Governante. Deus contrata trabalhadores, não porque precise deles ou de seus serviços (Porque, se formos justos, o que estaremos fazendo de bom para Ele?), mas o Senhor age como um pai de família caridoso e generoso que mantém homens pobres trabalhando, demonstrando-lhes bondade, para guardá-los da ociosidade e da pobreza, e pagá-los por trabalharem para si mesmos.

[2]. De onde eles são contratados? Da praça, onde, até serem contratados para o serviço de Deus, estavam ociosos (v. 3), ociosos todo o dia (v. 6). Observe, em primeiro lugar, que a alma do homem permanece pronta para ser contratada para um serviço ou outro; ela foi (como todas as criaturas foram) criada para trabalhar, e é uma serva da iniquidade, ou uma serva da justiça (Romanos 6.19). O diabo, por meio de suas tentações, está assalariando trabalhadores para o seu campo, para alimentar os porcos. Deus, por seu Evangelho, está assalariando trabalhadores para a sua vinha, para prepará-la, e mantê-la, um serviço prestado ao paraíso. Uma escolha nos é dada, pois de todo modo devemos ser contratados (Josué 24.15): “Escolhei hoje a quem servireis”. Em segundo lugar, que até sermos contratados para o serviço de Deus, estamos ociosos o dia todo; um estado pecaminoso, embora trate-se de um estado de trabalho servil a Satanás, pode realmente ser chamado de um estado de ociosidade; os pecadores não estão fazendo nada, nada pertinente, nada do grande trabalho para o qual foram enviados ao mundo, nada que resultará em bem na prestação de contas. Em terceiro lugar, que o chamado do Evangelho é feito àqueles que estão ociosos na praça. A praça é um local de ajuntamento de pessoas, e ali a sabedoria clama (Provérbios 1.20,21); é um lugar de recreação, ali os meninos se assentam e clamam aos seus companheiros (cap. 11.16); e o Evangelho nos chama da vaidade para a seriedade; é um lugar de negócios, de barulho e agitação; e dali somos chamados a nos retirar: “Venham, venham desta praça”.

[3]. Para que eles são contratados? Para trabalhar na vinha. Em primeiro lugar, a igreja é a vinha de Deus. Ela deve ser plantada, regada e protegida; e os frutos dela devem ser para a honra e o louvor do Senhor. Em segundo lugar, todos nós somos chamados par a ser trabalhadores nessa vinha. O trabalho evangelístico é um trabalho da vinha: podar, preparar, cavai; regar, cercar e limpar. Cada um de nós tem a sua própria vinha para manter – a nossa própria alma; e ela é de Deus e deve ser mantida e preparada para Ele. Nesse trabalho, não de­ vemos ser preguiçosos ou ociosos, mas trabalhadores diligentes, trabalhando e desenvolvendo a nossa própria salvação. O trabalho para Deus não aceitará a frivolidade. Um homem pode ir ocioso para o inferno; mas aquele que vai para o céu, deve estar ocupado.

[4]. Quais serão os seus salários? Ele promete, em primeiro lugar, um dinheiro (v. 2). Um dinheiro romano era o salário de um dia de trabalho, e era suficiente para o sustento por um dia. Isso não prova que o galardão da nossa obediência a Deus seja segundo as obras, segundo a dívida (não, esse é segundo a graça, a graça gratuita, Romanos 4.4), ou que haja qualquer relação entre os nossos serviços e as glórias do céu. Não! Quando tivermos feito tudo, ainda devemos nos considerar como ser­ vos inúteis; mas isso deve significar que há um galardão colocado diante de nós, e um galardão suficiente. Em segundo lugar, o que for justo (vv. 4-7). Observe que Deus terá certeza de não ser tardio com ninguém pelo serviço que prestarem a Ele; jamais alguém perdeu por trabalhar para Deus. A coroa colocada diante de nós é uma coroa de justiça que o justo Juiz nos dará.

[5]. Por quanto tempo eles são contratados? Por um dia. Ê o trabalho de um dia que é feito aqui. O tempo de vida é o dia, no qual devemos fazer as obras daquele que nos enviou ao mundo. É um tempo curto; o trabalho dura apenas um dia, mas o galardão durará para sempre. Foi dito que o homem, como jornaleiro, tem contentamento no seu dia (Jó 14.6). Isso deve nos estimular à presteza e à dedicação ao nosso trabalho, pois temos pouco tempo para trabalhai; e a noite tem se apressado, quando nenhum homem pode trabalhar. E se o nosso grande trabalho estiver incompleto no final do nosso dia, ficaremos incompletos para sempre. Isto deve também nos encorajar em relação aos sofrimentos e às dificuldades do nosso trabalho, que é apenas por um dia; a sombra que se aproxima, pela qual o cervo suspira, trará consigo tanto o descanso como a paga pelo nosso trabalho (Jó 7.2). Mantenha-se firme em sua fé e paciência, ainda por um tempo.

[6]. São citadas várias horas do dia, nas quais os trabalhadores foram contratados. Os apóstolos foram enviados na primeira e na terceira hora do dia do Evangelho; eles tiveram uma primeira e uma segunda missão, enquanto Cr isto esteve na terra, e a tarefa deles era convocar os judeus; depois da ascensão de Cristo, por volta da hora sexta e nona , eles saíram novamente na mesma missão: pregar o Evangelho somente aos judeus, primeiro àqueles que estavam na Judéia, e depois disso aos da dispersão; mas, por fim, como era por volta da undécima hora, eles chamaram os gentios para o mesmo trabalho e privilégio com os judeus, e lhes disseram que em Cristo Jesus não deveria haver diferença entre judeus e gregos.

Mas isso pode ser, e geralmente é aplicado aos vários períodos da vida, nos quais as almas são convertidas a Cristo. O chamado comum é simples, para vir e trabalhar na vinha; mas o chamado efetivo é particular, e se completa quando o atendemos.

Em primeiro lugar, alguns são efetivamente chamados, e começam a trabalhar na vinha quando são muito jovens; são enviados de manhã cedo. As tenras idades são temperadas com graça, e com a lembrança de seu Criador. João Batista foi santificado desde o ventre, e, portanto, era grande (Lucas 1.15); Timóteo, desde a meninice (2 Timóteo 3.15); Obadias temia ao Senhor desde a sua mocidade. Aqueles que têm esta jornada para percorrer, precisam começar cedo; quanto mais cedo melhor.

Em segundo lugar, outros são economicamente contratados na meia-idade. “Ide vós trabalhar na vinha, na hora terceira, sexta ou nona.” O poder da graça divina é aumentado na conversão de alguns, quando estão no meio de seus prazeres e buscas mundanas, como ocorreu com Paulo. Deus tem trabalho para todas as idades; não há tempo inoportuno para se converter a Deus. Ninguém pode dizer: “Tudo deve ocorrer no momento certo”, pois, seja qual for a “hora do dia”, o tempo de nossa vida que passamos servindo ao pecado já foi mais do que suficiente – foi desperdiçado. “Ide vós também para a vinha.” Deus não rejeita ninguém que esteja disposto a ser contratado, porque ainda há lugar.

Em terceiro lugar, outros são contratados para a vinha na idade avançada, na hora undécima, quando o dia de vida praticamente já se passou, e resta apenas uma hora das doze. Ninguém é contratado na hora duodécima; quando a vida se acabou, a oportunidade se acabou; mas “enquanto há vida, há esperança”.

1. Há esperança para aqueles que pecam há muito tempo; porque se, em sinceridade, eles se converterem a Deus, sem dúvida nenhuma serão aceitos; o verdadeiro arrependimento nunca ocorre tarde demais – ele é sempre aceito e bem-vindo. E:

2. Há esperança de que velhos pecadores possam ser trazidos ao arrependimento; nada é difícil demais para a graça do Todo-poderoso, pois ela pode mudar a pele do etíope, e as pintas do leopardo; pode fazer com que aqueles que contraíram o hábito da ociosidade trabalhem. Nicodemos pode nascer de novo, mesmo sendo idoso, e o velho homem pode ser despido, pois é corrupto.

No entanto, ninguém, sob esse pretexto, deve protelar o seu arrependimento até ficar velho. Esses foram mandados para a vinha, é verdade, na hora undécima; mas ninguém os havia contratado, ou se oferecido para contratá-los antes. Os gentios entraram na hora undécima, mas isso ocorreu porque o Evangelho não lhes havia sido pregado antes. Aqueles que receberam as ofertas do Evangelho na hora terceira, ou sexta, e resistiram a elas e as recusaram, não poderão dizer na hora undécima: “Ninguém nos assalariou”; nem poderão ter a certeza de que algum homem os contratará na hora nona ou undécima. Portanto, para não desencorajar ninguém, mas para despertar a todos, está sendo lembrado que hoje é o tempo aceitável: se quisermos ouvir sua voz, é necessário fazê-lo hoje.