PSICOLOGIA ANALÍTICA

INCOSNCIENTE, O ESTRANHO QUE VIVE EM NÓS.

Que aspecto é esse que nos habita, influencia escolhas, mas do qual sabemos tão pouco?  Essa intrigante instância psíquica organiza memórias, desejos e experiências que preferimos esquecer ou dos quais não queremos saber –  e se revela em sonhos, amores, desejos e fantasias.

Inconsciente, o estranho que vive em nós

Tempos atrás recebi um paciente que começou a falar sobre suas dificuldades no trabalho: – E além de tudo esse cara quer patronizar!

Repeti para ele a curiosa palavra que emergiu, provavelmente, como sugestiva combinação entre padronizar e patrão. Ele se referia a um colega de trabalho que queria que tudo fosse feito de modo meticulosamente correto. Mas o tal chato não era seu chefe de fato, apenas agia como tal. Ele poderia ter dito, simplesmente, que o colega se achava patrão, ou que ele era um seachão – uma pessoa arrogante, que “se acha” e se comporta como se fosse superior às demais. Mas ele não disse isso, o que teria sido de toda sorte trivial. Patronizar emergia, assim, como uma possível formação do inconsciente combinando desejos contrários nesta troca de um “d” por um “t”. Para minha surpresa ele responde: Ah! Foi só um ato falho. O que eu queria dizer é padronizar.

  • Sim, um ato falho. Aqui é o lugar… análise, lembra?
  • Mas foi inconsciente!
  • Sim, justamente, por isso quero saber o que você vai fazer com seu ato falho.
  • Mas é inconsciente. Eu queria dizer…
  • Entendi o que você queria dizer. Estou interessado no que você
  • Vocês psicanalistas querem ver sentido em tudo! Assim não dá.
  • Tá bom, vou patrocinar seu ato falho então. (Ele havia me dito antes que detestava quando os outros pagavam as contas para ele fazendo-se sentir incapaz de se virar sozinho.)
  • Como assim patrocinar?
  • Você prefere paitrocínio? (Eu sabia que o pai de meu paciente tinha um papel importante na posição que ele ocupava na tal empresa.)
  • Tá bom, vou ver o que consigo associar, antes que aconteça um latrocínio por aqui … O caso ilustra como nosso entendimento sobre o inconsciente pode funcionar para neutralizar suas incidências reais. Ilustra também como o inconsciente não admite “genérico” – a própria pessoa tem de associar, por si mesma, para saber do que cada emergência do inconsciente é feita. Porém, o mais incrível – e contraditório em relação às origens históricas do inconsciente – é que essa instância passou a servir de subterfúgio e desculpa para as coisas com as quais não temos (ou não queremos ter) responsabilidade alguma. Em inglês, “ato falho” passou a se chamar freudian slip (escorregão freudiano) e a ideia de que existam intenções, organizadas ao modo de um roteiro ou de uma “agenda secreta” dentro de nós, tornou-se convencionalmente admitida. Como se não tivéssemos de pagar a conta pelas “obras” que nosso inconsciente produz com (e contra) nossas vidas. O inconsciente tornou-se uma espécie de catástrofe ecológica: sabemos que ela existe, vai acontecer e nos levará a todos para o buraco, mas poucos realmente se dedicam a fazer alguma coisa com a situação.

Quando saímos da concepção do inconsciente como “aquelas contas que sei que tenho de pagar…, mas deixo para depois”, ou seja, do inconsciente como um saber mais ou menos consciente, como um saber que eu não queria saber, geralmente chamamos essa instância psíquica para nos ajudar a entender por que os outros nos incomodam tanto. O filósofo francês Jean-Paul Sartre escreveu que o “inferno são os outros”. Nós estamos em uma época em que o inferno é o inconsciente do outro. E ele nos atrapalha porque não é só um saber, mas um fazer, um ato (no sentido de um ato falho), mas também de uma prática continuada. É aquele que diz “sei muito bem o que estou fazendo…, mas vou continuar a fazê-lo assim mesmo”.

PÔNEI MALDITO

Essas são duas das concepções pré-freudianas de inconsciente: um hábito irreflexivo e um saber inconsequente. Algo entre a complacência e o cinismo. Quando aparece do meu lado peço para ele dormir mansinho como um pônei maldito, mas quando vem do lado “do outro” parece um Jason de Sexta-feira 13 que não descansa nem morre jamais. É nesta linha que dizemos que aquele motorista que “barbariza” no trânsito é um “recalcado”; aquele que não tem piedade é um “perverso “, sem falar naquela mistura de complicação com inconstância que chamamos, pós- modernamente, de histérica. Muitas operações neuro-cerebrais envolvendo, por exemplo, memória, emoções e tomadas de decisão ocorrem sem que possamos ter consciência delas. Outras tantas estruturas sociais, como linguagem, ideologia e trocas entre sistemas simbólicos ocorrem sem que exista um “fantasma na máquina” comandando com sua mão invisível as cordas do destino.

Ora, o inconsciente freudiano não é apenas a inconsciência, no sentido da não consciência ou no sentido de uma outra consciência. Entre o inconsciente a céu aberto com suas profundezas obscuras e o inconsciente exposto a trovoadas, que nos atinge com um raio irracional, há espaço para uma dimensão produtiva e positiva. Nesse sentido, podemos dizer que o inconsciente é algo simultaneamente descoberto e inventado, uma vez que é um sistema que organiza nossas memórias, desejos e experiências que pretendemos esquecer ou dos quais não queremos saber. Ele existiu desde sempre, desde que sonhamos, amamos ou fantasiamos. O psicanalista Jacques Lacan acrescentou que há inconsciente desde que falamos com os outros. Os animais não têm inconsciente não porque não são racionais, ou porque não tenham consciência e muito menos porque estão privados de afetos e emoções – mas exclusivamente porque não falam. Mas se o inconsciente sempre existiu qual é a novidade da psicanálise? Na verdade, o que Freud inventou foi uma forma de usar o inconsciente para alguma coisa – aliviar o sofrimento psíquico e os sintomas, de modo a tornar a vida das pessoas mais interessante e, quiçá, menos dolorosa. Ele criou um método para ler o inconsciente e libertar o desejo do qual ele é feito usando uma maneira reduzida e muito mais concentrada de inconsciente que se chama transferência. Após algum tempo de análise, muitas pessoas se perguntam, surpresas, “o que acontece”, ao perceberem que passaram a agir de forma menos repetitiva e mais autônoma, sem, contudo, saber precisar de forma exata os momentos nos quais se deram as transformações. É o inconsciente que “acontece” entre analista e analisando. Com essa constatação, Freud mudou também nosso entendimento do que é uma patologia mental. Note que a mesma neutralização do inconsciente se dá com o que chamamos de “psicológico”. Uma pessoa que pensa estar sendo fulminada por um ataque cardíaco recebe a agradável notícia de que aquela “tempestade” em meio à taquicardia, sentimento iminente de morte e pânico, é apenas… psicológica. De novo estamos diante desse saber que “não quer dizer nada”. Agora, considere o problema do ponto de vista de quem está vivendo a situação: quando a “trovoada inconsciente” vem para o lado do “inconsciente a céu aberto”, aí temos problemas, que podemos chamar de sintomas. Eles chovem em nossa vida, eclodindo o chão onde pisamos, tornando nosso caminho um lodaçal sem fim.

 SEXUAL, INFANTIL, RECALCADO

Se o inconsciente sempre existiu, o que Freud inventou foi um método de tratamento usando o inconsciente como hipótese de trabalho e reforçando a ideia de que esse aspecto psíquico é algo que ocorre na relação entre pessoas, na forma como nós nos interpretamos e nos entendemos –  ou nos desentendemos. Podemos pensar que o inconsciente tem três capítulos principais: o sexual, o infantil e o recalcado. São as três figuras deste estranho que nos habita: o vizinho lascivo que “só pensa naquilo”, o passado de enganos e ilusões e a amnésia deliberada para coisas desagradáveis.  O prefácio do inconsciente é a inconsciência e o epílogo eu não posso contar porque seria antecipar o final e estragar o desfecho.

Muito se discute por que a psicanálise insiste no fato de que o inconsciente tem uma inflexão sexual, quando há tantas coisas mais interessantes e proveitosas na vida.

Carl Jung lembrou-nos de nossas aspirações à transcendência. Alfred Adler fala da importância do poder. Wilhelm Reich ressalta que temos uma sexualidade muito mais “prática” e “econômica” do que a proposta por Freud. Fritz Pearls e Levy Moreno tentaram dizer que somos mais criativos e ficcionais do que nosso inconsciente poderia pretender. Pierre Janet e Jean Piaget insistiam que a realidade ou o pensamento podem ser mais decisivos que a sexualidade. Sem falar dos teóricos que reivindicam um entendimento mais social e coletivo, contrariando interesses individua­ listas e egoístas do inconsciente freudiano.

É verdade, pensamos em sexo muito mais do que estamos dispostos a admitir. E quando não pensamos, a sexualidade se impõe, às vezes de forma inesperada. Há algo, porém, que precisa ser observado: o que chamamos de sexualidade em psicanálise é sempre mais amplo, mais complexo, mais deformado do que parece. Teima em aparecer em tudo o que colocamos dentro do condomínio fechado do “não sexual”. Talvez o que chamamos de “sentido”, nos referindo ao que “faz ou não sentido”, seja também mesmo texturizado sexualmente.

É muito mais fácil admitir que o inconsciente está ligado à infância. Neste caso precisamos deixar o passado para trás e ir em frente. Sempre em frente, diz nossa consciência desejante. Mas existem lemas dos quais nos valemos. Há um, bastante usado no exército: “Que ninguém seja deixado para trás”.  E outro, frequente no senso comum: “Para que ficar remoendo o passado?”. Alguns pacientes usam o conceito de inconsciente – ou de autoconhecimento –  para se desculpar pelo próprio desejo.

Não raro, essas mesmas pessoas remoem o futuro que jamais acontece. Por outro lado, há uma afirmação que perdeu a graça: somos todos crianças, que mal há nisso? O sentido regressivo, histórico e temporal do inconsciente é uma de suas facetas mais anacrônicas para nossa cultura.

A ideia de que estamos fixados em algum lugar do passado, que nossa liberdade e autonomia são limitadas por certas disposições infantis, que existem fantasias inconscientes das quais podemos nos envergonhar, nos culpar ou nos agredir perdeu muito de sua popularidade diante da erotização da infância, do narcisismo da adolescência ou da covardia corporativa do adulto. Mas, curiosamente, essa é uma daquelas ideias que fracassam quando triunfam. Sob certos aspectos, nossa educação parece ser equipada com blindagem anti-trauma. A capacidade de desculpar alguém por sua “infância infeliz” deu à luz o masoquismo da vítima levado à condição de axioma político. Nossos ideais e heróis adquiriram a espessura moral de uma Barbie repleta de segurança, cuidado e busca constante de autossatisfação.

A terceira dimensão do inconsciente, o recalcamento, é o conteúdo que se oculta em deformações simbólicas, repetições reais ou em subtrações imaginárias, desejáveis e indesejáveis. Esta parece ser a face mais atual do inconsciente, pois estamos todos um tanto desconfortáveis quanto ao que “realmente queremos” em um mundo de múltiplas ofertas de destinos e consumo de experiências. E isso só pode acontecer porque estamos escondendo, em algum lugar, o que seria a essência de nosso desejo e a verdade de nosso ser. Esse inconsciente cheio de signos e símbolos, repleto de trocas reveladoras, que usa seus truques para desvendar segundas intenções naqueles antigos livros dos sonhos, não está mais à venda nas bancas de jornal. Agora ele está disponível em banda larga nos manuais para decodificar a dança da sedução, entender a linguagem secreta das entrevistas de emprego ou realizar a viagem interna para aprender as sete leis espirituais do sucesso. Até a hermenêutica de si perdeu a vergonha e está se apresentando com métricas de resultados. Toda mensagem que demore mais de cinco segundos para revelar do que é feita está errada, é proibida ou depende de alguma central telefônica mal-intencionada. Tudo está tão “acessível” que enferrujamos a prática da intimidade, montamos greve geral contra o trabalho de decifração e tomamos toda experiência de sentido precário e incerto com desconfiança.

Resumo: o inconsciente sexual tornou-se trivial por excesso de oferta, o inconsciente infantil tornou-se inútil porque serve como desculpa moral generalizada e o inconsciente recalcado não assusta mais ninguém porque nossa vida “líquida” tornou tudo transparente. Será mesmo? Ledo engano. O inconsciente não é a inconsciência. A inconsciência se resolve pela atenção, pelo cuidado e pela crítica, o inconsciente não se resolve. Não é um estado patológico, como a gripe ou a dor de dente, que um dia vai nos deixar em paz. Só que se você não cuida, escuta ou presta atenção ao seu inconsciente, é como se ele inchasse, apodrecesse e começasse a exalar um mau cheiro insuportável. E não há como extraí-lo, amputá-lo. Ele veio para ficar como uma dor no ombro que melhora, mas não cura (nem com a prática de pilates todo dia), como uma sombra que não larga seu dono. Daí o lema freudiano: “Ali onde há inconsciente, lá preciso fazer um sujeito”.  

MUNDOS ESTRANHOS: para Freud, sonhos são a “via régia para o inconsciente”. Segundo ele, porém, aquilo de que nos lembramos ao acordar é resultado da elaboração onírica, resultante da passagem do conteúdo latente para uma representação consciente, o que implica um processo de deformação daquilo que está escondido em nossa mente. Para que esse “disfarce” ocorra, os elementos são fundidos, combinados, deslocados e os pensamentos, expressos em palavras, sensações e principalmente imagens

Inconsciente, o estranho que vive em nós.2

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER – é psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

OUTROS OLHARES

O SUS E AS TERAPIAS ALTERNATIVAS

O SUS e as terapias alternativas

A polêmica é inevitável na mesma dose em que se faz desnecessária. Ao disponibilizar no SUS vinte e nove terapias alternativas, o Ministério da Saúde acertou ou errou? Quer se defenda uma posição ou outra, o fato é que cada uma delas tem a sua ponta de razão.

O CFM julga que o ministério comete um equívoco, sobretudo porque as terapias alternativas não se adequam à eficácia e à segurança, fatores imprescindíveis ao exercício da medicina. Isso ocorre porque tais métodos (à exceção da acupuntura e homeopatia) não trazem consigo comprovação científica. Em decorrência da auto- sugestão, um paciente até pode apresentar sinais de melhora em seu quadro de enfermidade, mas essa situação é efêmera e está longe de se traduzir em tratamento. O CFM considera um absurdo as autoridades terem colocado sob a guarda do SUS as práticas que geram apenas efeito placebo, e isso no momento em que o nosso sistema público de saúde está falido e sem verba para os procedimentos mais elementares.

Aqueles que defendem a iniciativa do governo federal afirmam que a medida do ministério está de acordo com todos os protocolos da OMS: o conforto emocional do paciente tem sempre de ser levado em conta, ou seja, ele tem o direito de seguir o tratamento no qual acredita – até porque o efeito placebo, em alguns casos, ajuda na recuperação.

Assim, cabe ao profissional da saúde explicar claramente em que consiste o tratamento comprovado pela ciência e também o caminho da terapia alternativa, até porque as duas possibilidades não são conflitantes nem excludentes. Se as crenças do enfermo o beneficiam no tratamento científico, tanto melhor.

Há em todo o mundo diversas publicações sobre abordagens não convencionais, como, por exemplo, o “European Journal of lntegrative Medicine” e o ”American Journal of Chinese Medicine”. No Brasil, o próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financia estudos e pesquisas nesse campo. Em relação à falência do SUS, que é pública e notória em todo o País, a argumentação dos que se opõem ao CFM segue a seguinte linha de raciocínio: não será a introdução de terapias integrativas que quebrará ainda mais o sistema. A mazela que o faliu por inteiro tem outro nome: é a corrupção generalizada em todos os setores da vida pública. Concluindo: se alguém crê nesses métodos não convencionais e quer se tratar por meio deles, tem todo o direito, democraticamente, de encontrá-los no SUS. A questão é republicana. Como se disse, há razão nas duas pontas. O importante, repita-se, é o médico que assistir o paciente expor, com clareza, as consequências, resultados e efeitos (desejados e colaterais) dos tratamentos heterodoxos e dos tratamentos já comprovados em amplas pesquisas pela ciência.

GESTÃO E CARREIRA

SE VOCÊ NÃO SABE PARA ONDE IR…

Se você não sabe para onde ir...

Eu queria contar para vocês qual é o meu personagem de histórias preferido: O gato de Cheshire. Lembram?’ Um gato com listras, olhos amarelos e sorriso escancarado. Ele não é meu ídolo porque é fofinho, colorido e intrigante, mas pelo quanto ele representa a sensatez. Mas com o assim?

O escritor Lewis Carrol criou esse personagem no livro “Alice no país das Maravilhas”. E preciso contar com minhas palavras o diálogo que ele atribuiu aos dois, diálogo este que me fez ser fã do gato:

Estava Alice a chorar copiosamente diante de uma encruzilhada e eis que aparece do nada um gato no galho de uma árvore que lhe pergunta:

–  Por que choras, linda menina?

Ela procura de onde vem a voz e diz:

–  Pode me dizer, por favor, qual caminho tomar para sair daqui?

E ele diz sem pensar ou pestanejar, com a maior obviedade possível:

–  Isto depende muito de aonde você quer chegar.

Alice responde prontamente:

–  O lugar não me importa muito…

E vem o gato novamente com a sua sensatez:

–  Ora, então não importa qual caminho você vai tomar.

–  Desde que eu chegue a algum lugar – retruca Alice.

E o gato finaliza:

–  Oh, sim, você certamente chegará a algum lugar – e com um sorriso irônico, o gato complementa – Se caminhar bastante.

Vamos analisar o que esse diálogo nos ensina no mundo dos negócios? A falta de objetivos claros é um dos problemas mais frequentes no universo das micro e pequenas empresas. É um dia a dia frenético de decisões a serem tornadas, viagens, correria, atendimentos, ficar de olho na concorrência, monitorar o fornecedor, treinar os funcionários e… ufa! Será que isso tudo está valendo a pena?

Existem vários motivos para que as pessoas deixem de definir objetivos. Os principais são não ter esse hábito desenvolvido e, por incrível que pareça, medo. Sim, se tenho medo de não realizá-los, é bem provável que eu não tenha coragem de escrevê-los. Essa crença precisa ser repensada, primeiro na definição dos objetivos pessoais para, depois, refletir nos objetivos empresariais.

Definir um objetivo não é um passe de mágica, não; o fato de defini-lo não garante alcançá-lo. Entretanto, ao definir um objetivo, é como se o caminho à sua frente ficasse mais nítido, com mais foco. Fica mais fácil decidir se deve aproveitar urna oportunidade que aparece, pois você saberá se ela tem relação com aonde você quer chegar. Fica mais lógica a análise de um risco, faz com que você tenha mais coragem para trabalhar até mais tarde e até mesmo continuar na hora que surgem os mais diversos tipos de obstáculos, porque coloca sentido e direção na sua caminhada. E mais: estabelecer objetivos aumenta a autoconfiança! Olha só que interessante.

Deixar o destino da empresa ao sabor dos ventos pode levá-la a lugares que não sejam os melhores ou mais indicados. Pense bem! O gato ainda alerta Alice de forma tão direta que, se caminhar bastante, chegará sim a algum lugar. Como seria viver uma vida, abrir uma empresa, viver aquele dia a dia frenético que citei sem saber se era lá que você queria estar, e muitos seguem a vida apenas caminhando. Você só vai saber se vale a pena caso souber aonde chegar. Aí conseguirá avaliar sozinho a evolução do caminho da sua vida e da sua empresa.

E, então, que tal separar um tempinho ainda esta semana para definir aonde você quer chegar?

 

CECÍLIA BETTERO – é administradora especializada em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 19: 3-12

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A Lei do Divórcio

Nós temos aqui a lei de Cristo no caso do divórcio, ocasionada, como algumas outras manifestações da sua vontade, por uma discussão com “os fariseus”. Ele suportou tão pacientemente as contradições dos pecadores, que as transformou em instruções para os seus próprios discípulos! Observe aqui:

 I – O caso proposto pelos fariseus (v. 3): “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” Os fariseus lhe perguntaram isso para provocá-lo, e não porque desejassem ser ensinados por Ele. Algum tempo atrás, Ele havia, na Galileia, manifestado seu pensamento sobre esse assunto, contra aquilo que era uma prática comum (cap. 5.31,32); e se Ele, do mesmo modo, se pronunciasse agora contra o divórcio, eles fariam uso disso para indispor e enfurecer o povo desse país contra Ele, que olharia com desconfiança para alguém que tentasse diminuir a liberdade de que eles tanto gostavam. Os fariseus esperavam que Ele perdesse o afeto das pessoas tanto por esse como por qualquer um dos seus preceitos. Ou então, a armadilha pode ter sido planejada dessa forma: se Ele dissesse que os divórcios não eram legais, eles o aponta riam como um inimigo da lei de Moisés, que os permitia; se dissesse que eram legais, eles caracterizariam a sua doutrina como não tendo em si aquela perfeição que era esperada na doutrina do Messias, uma vez que, embora os divórcios fossem tolerados, eles eram vistos pela parte mais rígida do povo como não sendo algo de boa reputação. Alguns pensam que, embora a lei de Moisés permitisse o divórcio, ainda que houvesse uma causa justa, havia uma controvérsia entre os próprios fariseus, e eles desejavam saber o que Cristo diria sobre isso. Causas matrimoniais têm sido numerosas, e algumas vezes intrincadas e confusas; elas se tornam assim não por causa da lei de Deus, mas pelos desejos e pela loucura dos homens. Nesses casos, as pessoas frequentemente decidem o que vão fazer, antes de perguntarem qual seria a melhor solução.

A pergunta dos fariseus foi a seguinte: Será que um homem pode repudiar a sua mulher por qualquer motivo? O divórcio era permitido por alguns motivos, como por prostituição, mas o divórcio era praticado, como acontecia geralmente, por pessoas irresponsáveis, e por qualquer motivo. Será que ele poderia ser praticado por qualquer motivo que um homem pudesse julgar adequado (embora fosse, como sempre, frívolo), como também por qualquer antipatia ou desagrado? A tolerância, nesse caso, permitia isso: “Se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia, ele lhe fará escrito de repúdio” (Deuteronômio 24.1). Eles interpretavam esta passagem literalmente; e assim, qualquer desgosto, mesmo que sem motivo, poderia se tornar a base para um divórcio.

II – A resposta de Cristo para essa pergunta. Embora ela fosse apresentada para tentá-lo, mesmo sendo um caso de consciência, e de consciência pesada, Ele deu uma resposta satisfatória. Não foi uma resposta direta, mas foi eficaz, afirmando os bons princípios, como prova inegável de que os divórcios arbitrários que estavam sendo praticados, que tornavam os laços matrimoniais tão precários, não eram de forma alguma legítimos. O próprio Cristo não daria a regra sem uma razão, nem declararia o seu julgamento sem uma prova nas Escrituras para apoiá-lo. Seu argumento é este: “Se estão, marido e mulher, pela vontade e desígnio de Deus, ligados pela mais rígida e íntima união, então eles não devem sei levianamente e em qualquer ocasião, separados; se a ligação for consagrada, não poderá ser facilmente desfeita”. Para provar que existe tal união entre marido e mulher, Ele ressalta três pontos.

1. A criação de Adão e Eva. No que se refere a isso, Ele apela para o próprio conhecimento que eles tinham das Escrituras: “Não tendes lido?” Há alguma vantagem em discutir, tratar com aqueles que possuem e têm lido as Escrituras. Vocês têm lido (mas não têm considerado) “que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea” (Genesis 1.27; 5.2). Note que será de grande utilidade para nós pensarmos frequentemente sobre nossa criação, como e por quem, por que e para que, fomos criados. Ele os criou macho e fêmea, uma fêmea para um macho; de modo que Adão não poderia se divorciar de sua esposa, e tomar outra, porque não existia nenhuma outra para ser tomada. Isso, da mesma forma, sugeria uma união inseparável entre eles. Eva era uma costela tirada de Adão, de modo que ele não podia repudiá-la, porque não devia remover um pedaço de si mesmo, contradizendo as manifestas indicações da criação dela. Cristo faz uma breve alusão a isso, mas, recorrendo ao que eles tinham lido, Ele os remete ao registro original, onde é observado que, muito embora o restante das criaturas vivas tenha sido criado macho e fêmea, ainda assim isso não é dito no que se refere a nenhuma delas, mas apenas no que concerne à raça humana; porque a conjunção entre homem e mulher é racional, e planejada para propósitos mais nobres do que meramente a satisfação dos sentidos e a preservação da semente. E ela é, portanto, mais íntima e sólida do que aquela que existe entre macho e fêmea entre os animais, que não são capazes de se ajudar mutuamente como Adão e Eva. Por conseguinte, a forma de expressão é um tanto singular (Genesis 1.27): “E criou Deus o homem à sua imagem, macho e fêmea os criou”; algumas traduções da Bíblia em inglês trazem os pronomes “ele” e “eles” (singular e plural) de uma forma alternada. O singular é utilizado no princípio da criação, antes que se tornassem dois. Porém, mais tarde, eles se tornam novamente um, através de uma aliança de casamento, uma união que só poderia ser íntima e indissolúvel.

2. A lei fundamental do casamento é: “Deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher” (v. 5). A relação entre marido e mulher é mais íntima do que aquela que existe entre pais e filhos; então, se a relação filial não pode ser facilmente rompida, muito menos pode a relação de casamento ser rompida. Pode um filho abandonar seus pais, ou pode um pai ou mãe abandonar seus filhos, por qualquer motivo, seja ele qual for? Não, de modo nenhum. Muito menos pode um marido repudiar a sua esposa. Entre marido e esposa, a relação é mais íntima, e o laço da união é mais forte, do que entre pais e filhos – embora não por natureza, mas por desígnio divino. Observe que a relação pais-filhos é, em grande medida, substituída pelo casamento quando um homem deixa os seus pais para se unir à sua esposa. Veja aqui o poder de uma instituição divina. O resultado dela é uma união mais forte do que aquela que resulta das obrigações mais elevadas da natureza.

3. A natureza do contrato matrimonial. Esta é uma união de pessoas; os cônjuges “serão dois numa só carne”, de modo que (v. 6) “já não serão dois, mas uma só carne”. Os filhos de um homem são partes dele mesmo; mas a sua esposa é ele mesmo. Assim como a união conjugal é mais íntima do que aquela que existe entre pais e filhos, ela também é, até certo ponto, equivalente àquela união que existe entre um membro e outro no corpo natural. Uma vez que esta é uma razão pela qual os maridos devem amar suas esposas, também é uma razão pela qual eles não devem repudiá-las, pois “nunca ninguém aborreceu a sua própria carne”, ou a separou de si, “antes, a alimenta e sustenta”, e faz tudo o que pode para preservá-la. Os dois serão um; por isso deve haver apenas uma esposa, pois Deus fez apenas uma Eva para um Adão (MaIaquias 2.15).

A partir daí, o Senhor deduz: “O que Deus ajuntou não separe o homem”. Note que:

(1).  Marido e mulher são uma união de Deus; o próprio Deus instituiu o relacionamento entre marido e mulher no estado de inocência. O casamento e o sábado sagrado são as instituições, mais antigas. Embora o casamento não seja exclusivo da igreja, mas comum para o mundo, mesmo sendo caracterizado por uma instituição divina, que é aqui ratificada pelo nosso Senhor Jesus, ele deve ser conduzido como uma união sagrada, e santificado pela Palavra de Deus, e pela oração. Um respeito consciencioso para com Deus nessa instituição teria uma boa influência sobre o dever, e, consequentemente, sobre a tranquilidade e o conforto do relacionamento.

(2).  Marido e mulher, sendo unidos pela lei de Deus, não podem ser separados por qualquer lei humana. Homem nenhum deve separá-los; nem o próprio marido, nem alguém designado por ele; nem mesmo o magistrado, pois Deus jamais lhe deu autoridade para fazer isso. “O Senhor Deus de Israel, diz que aborrece o repúdio” (Malaquias 2.16). O homem não deve tentar separar aquilo que Deus uniu. Esta é uma regra geral.

 III – Uma objeção levantada pelos fariseus contra o dever do homem não separar o que Deus ajuntou – uma objeção não destituída de plausibilidade (v. 7): “Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la?” Jesus utilizou as Escrituras para argumentar contra o divórcio; os fariseus, por sua vez, alegam a autoridade das Escrituras para defendê-lo. Note que as aparentes contradições na Palavra de Deus são andes obstáculos para homens de mente corrompida. E verdade, Moisés era fiel àquele que o designou, e não ordenou nada além daquilo que recebeu do Senhor; mas, nesse caso, o que eles chamam de mandamento era apenas uma concessão (Deuteronômio 24.1), planejada mais para conter os excessos do que para encorajar o divórcio em si. Os próprios doutores judeus observam tais limitações naquela lei; o divórcio não podia ser concedido sem uma grande deliberação. Uma razão particular deve ser apontada: o atestado de divórcio deveria ser escrito, e, como uma ação judicial, deveria ter todas as suas formalidades executadas e registradas. Ele deveria ser entregue nas mãos da própria esposa (o que obrigaria os homens, se eles tivessem alguma consideração, a refletir), e os cônjuges eram expressamente proibidos de se juntar novamente.

IV – A resposta de Cristo a essa objeção.

1. Ele retifica o erro dos fariseus com relação à lei de Moisés. Eles a chamaram de um mandamento, Cristo a chama somente de permissão, uma tolerância. Corações carnais tomarão o braço se lhes dermos a mão. A lei de Moisés, nesse caso, era uma lei política que Deus concedeu como o Governante daquele povo; e o divórcio era tolerado por razões de Estado. Sendo o rigor da união matrimonial o resultado de uma lei não-natural, mas formal, em alguns casos a sabedoria de Deus prescindia dela através do divórcio, sem qual­ quer depreciação de sua santidade.

Mas Cristo diz aos fariseus que havia uma razão para essa tolerância – e esta não se devia, de modo algum, a algum mérito deles: “Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossa mulher”. Moisés se queixou do povo de Israel em seu tempo, pois o coração do povo estava endurecido (Deuteronômio 9.6; 31.27), endurecido contra Deus; naquela ocasião, a per­ missão para o divórcio se devia ao fato de eles estarem endurecidos contra o próximo; os homens eram geral­ mente violentos e ultrajantes, qualquer que fosse o caminho que seguissem tanto em seus desejos como em suas paixões. E então, se a eles não tivesse sido permitido repudiar suas esposas quando expressassem antipatia por elas, eles as teriam tratado com crueldade, teriam agredido e abusado delas, e talvez as matassem. Note que não há maior crueldade no mundo do que um homem ser rude e áspero com a sua própria esposa. Os judeus, ao que parece, eram abomináveis por isso, e então lhes foi permitido repudiá-las; melhor divorciar-se delas do que fazer pior, do que cobrir “o altar do Senhor de lágrimas” (MaIaquias 2.13). Uma pequena complacência para satisfazer a vontade de um louco, ou de um homem que delira, pode evitar um dano maior. Leis formais podem ser prescindidas em prol da preservação da lei da natureza, pois “Deus quer misericórdia e não sacrifício”. Entretanto, aqueles que tornaram isso necessário são infelizes, são perdidos que possuem um coração endurecido. E ninguém pode desejar ter a liberdade do divórcio, sem virtualmente confessar a dureza de seu coração. Jesus diz: “por causa da dureza do vosso coração”, não apenas daqueles que viviam naquela época, mas de toda a sua semente. Deus não apenas vê, mas também antevê a dureza do coração dos homens. Ele adaptou os manda­ mentos e a providência do Antigo Testamento ao temperamento daquela gente, e o fez através do medo. Observe também: a lei de Moisés considerava a dureza do coração dos homens, mas o Evangelho de Cristo, a cura; e sua graça tira do homem o coração de pedra e lhe dá um coração de carne. Através da lei, vinha o conhecimento do pecado; mas através do Evangelho, ele é derrotado.

2. Jesus os leva de volta à instituição original: “Mas, ao princípio, não foi assim”. Note que as perversões que se insinuam em qualquer lei de Deus devem ser expurgadas recorrendo-se à instituição original. Se a cópia es­ tiver incorreta, ela deverá ser examinada e retificada pelo original. Desse modo, o apóstolo Paulo, ao corrigir as transgressões da igreja de Corinto em relação à Santa Ceia, recorreu ao que aconteceu naquela reunião (1 Coríntios 11.23): “Porque eu recebi do Senhor”. A verdade estava disponível desde o princípio; nós devemos então perguntar “pelas veredas antigas, qual é o bom caminho” (Jeremias 6.16), e devemos fazer as devidas correções, não pelos padrões recentes, mas pelas regras antigas.

2. Jesus define a questão através de uma lei explícita: “Eu vos digo” (v. 9), e isso está de acordo com que Ele havia dito antes (cap. 5.32). Naquela ocasião, isso foi dito em um sermão; aqui, em uma discussão. Mas é a mesma Palavra, pois Cristo não muda. Entretanto, em ambas as passagens:

(1). Ele permite o divórcio em caso de adultério; sendo que a razão da lei contra o divórcio consiste na máxima: “Serão dois numa só carne”. Se a esposa se prostituir e se tornar uma só carne com um adúltero, a razão da lei cessa, e também a lei. O adultério era punido com a morte pela lei de Moisés (Deuteronômio 22.22). Então, o nosso Salvador suaviza o seu rigor, e determina que o divórcio seja a penalidade. O Dr. Whitby entende isso não como adultério (porque o nosso Salvador usa a palavra porneia fornicação), mas como a impureza cometida antes do casamento, que é descoberta mais tarde; porque se fosse cometida depois do casamento, seria um pecado capital, e assim o divórcio não seria necessário.

(2). O Senhor desaprova isso em todos os outros casos: “Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério”. Essa foi uma resposta direta para a pergunta dos fariseus, e que não estava de acordo com a lei. E nisso, como em outras coisas, o tempo do evangelho é “tempo de correção” (Hebreus 9.10). A lei de Cristo tende a restabelecer o homem em sua integridade primitiva; a lei do amor, do amor conjugal, não é um novo manda­ mento, mas era desde o princípio. Se considerarmos quantos danos às famílias e países, quantas confusões e desordens resultariam de divórcios arbitrários, entenderemos o quanto essa lei de Cristo é para o nosso próprio benefício, e que amigo o cristianismo é para nossos interesses seculares.

A lei de Moisés, que permite o divórcio por causa da dureza do coração dos homens, e a lei de Cristo, que o proíbe, sugerem que estando os cristãos sob a dispensação do amor e da liberdade, pode-se, legitimamente, esperar uma brandura de coração entre eles, pois eles não serão desumanos como os judeus, pois “Deus chamou-nos para a paz”. Não haverá oportunidade para divórcios se os cônjuges forem indulgentes um com o outro, e perdoarem um ao outro no amor, como aqueles que são, e esperam ser, perdoados, e que descobriram que Deus não nos repudiará (Isaias 50.1). Não há necessidade de divórcios se os maridos amarem suas esposas, se as esposas forem obedientes a seus maridos, e se ambos viverem juntos como herdeiros da graça da vida: e estas são as leis de Cristo. Não encontramos uma lei como essa em todas as leis de Moisés.

V – Aqui está uma sugestão dos discípulos contra essa lei de Cristo (v. 10): “Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar”. Parece que os próprios discípulos estavam relutantes em renunciar à liberdade do divórcio, considerando-a como um bom expediente para preservar o bem-estar na condição de casado; e então, como crianças mal-humoradas, se eles não tivessem o que queriam ter, jogariam fora aquilo que tinham. Se a eles não for permitido repudiar suas esposas quando lhes aprouver, eles não terão esposas de modo nenhum. Entretanto, desde o princípio, quando o divórcio não era permitido, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só”, e os abençoou, declarando como abençoados aqueles que fossem, dessa forma, completamente unidos; no entanto, a menos que possam ter a liberdade do divórcio, os discípulos acham que é melhor o homem não se casar. Note que:

1. A natureza corrupta não tolera o controle e as restrições, e de bom grado romperia os laços de Cristo ao meio para obter a liberdade para a sua própria luxúria.

2. É uma atitude tola e impertinente para os homens, abandonar os confortos desta vida por causa das cruzes que habitualmente os acompanham, como se precisássemos necessariamente sair do mundo por não termos todas as coisas que desejamos; ou precisássemos assumir uma ocupação ou uma condição improdutiva, porque a sobrevivência nele se tornou a nossa obrigação. Não. Qualquer que seja a nossa condição, devemos direcionar nossas mentes para isso: ser agradecidos pelos nossos confortos, obedientes às nossas cruzes, sabendo que quando pensarmos nos nossos dias, deveremos ter em mente que “Deus fez este em oposição àquele”, e assim fazermos o melhor com o que tivermos (Eclesiastes 7.14). O fato de não podermos desfazer os laços do casamento a nosso bel-prazer não significa que não devamos nos submeter a eles; mas que quando nos submetermos, deveremos decidir nos comportar de acordo por amor, submissão, e paciência, o que tornará o divórcio a coisa mais desnecessária e indesejável que pode existir.

VI – A resposta de Cristo a essa sugestão (vv.11,12), na qual:

1. Ele reconhece que é bom para alguns não se casar: Aquele que é capaz de receber essa palavra, que a receba – “Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido”. Cristo consentiu com o que os discípulos disseram, “não convém casar”; não como uma objeção contra a proibição do divórcio, como eles o pretendiam, mas dando-lhes uma regra (talvez não menos desagradável para eles): que aqueles que têm a dádiva da abstinência, e não sentem qualquer necessidade de casar-se, fazem melhor se continuarem solteiros (1 Coríntios 7.1); pois aqueles que não estão casados têm a oportunidade, se tiverem disposição, de se preocupar mais com as “coisas do Senhor em como hão de agradar ao Senhor” (1 Coríntios 7.32-34), sendo menos comprometidos com os cuidados desta vida, e tendo uma maior disponibilidade de tempo e pensamento para preocupar-se com coisas melhores. O crescimento da graça é melhor do que o crescimento da família, e a comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo deve ser preferida à qualquer outra comunhão.

2. Ele desaprova, como absolutamente prejudicial, proibir o casamento, porque “nem todos podem receber esta palavra”; realmente poucos podem – é preferível que as cruzes da condição de casado sejam carregadas do que esses homens caírem em tentação para evitá-las; “é melhor casar do que abrasar-se”.

Cristo fala aqui de uma dupla incapacidade para o casamento.

(1). Aquela que é uma calamidade pela providência de Deus; tal como a daqueles que nascem eunucos, ou se tornam assim através dos homens, e que, sendo incapazes de corresponder a uma finalidade do casamento, não devem se casar. Mas que lhes seja permitido compensar essa calamidade com a oportunidade que existe na condição de solteiro – servir melhor a Deus.

(2). Aquela que é uma virtude pela graça de Deus; como é a daqueles que se fizeram eunucos “por causa do Reino dos céus”. Essa é uma incapacidade para o casamento, não no corpo (e alguns, por erro de interpretação dessa Escritura, prejudicaram a si mesmos de forma tola e perniciosa), mas na mente. Aqueles que se tornaram eunucos alcançando um sagrado desinteresse por todos os prazeres da condição de casado, têm uma decisão estabelecida, na força da graça de Deus, de se privar completamente deles; e por jejum, e outros exemplos de mortificação, subjugaram todos os desejos voltados a eles. Estes são aqueles que podem receber esta palavra; além disso, não devem obrigar a si mesmos, através de voto, a nunca se casar. Eles só devem entender que, da forma como pensam agora, pretendem não se casar.

Então:

[1]. Essa simpatia pela condição de solteiro deve ser concedida por Deus; pois ninguém pode recebê-la, exceto “aqueles a quem foi concedido”. Note que a abstinência é um dom especial de Deus para alguns, e não para outros; e quando um homem, na condição de solteiro, descobre por experiência que tem esse dom, ele pode resolver permanecer solteiro, e (como o apóstolo diz, 1 Coríntios 7.37) ficar “firme em seu coração, não tendo necessidade”, mas tendo poder sobre a sua própria vontade para se manter assim. Mas os homens, nesse caso, devem tomar cuidado para não se gabarem de um falso dom (Provérbios 25.14).

[2]. A condição de solteiro deve ser escolhida por amor ao Reino dos céus. Pois naqueles que resolvem nunca se casar apenas para que possam economizar nas despesas, ou para satisfazer um temperamento mal-humorado e egoísta, ou ainda para ter uma maior liberdade para servir a outros desejos e prazeres, isto está muito longe de ser uma virtude – é um vício perverso. Mas quando é por amor à religião – não sendo um ato meritório em si mesmo (em que os papistas o transformaram), mas apenas como um meio para manter a mente mais aplicada e mais direcionada aos serviços da religião, e para que, não tendo família para sustentar, a pessoa possa fazer mais obras de caridade -, isto é aprovado e aceito por Deus. Note que essa condição é melhor para nós. E ser escolhido e comportar-se adequadamente, que é o melhor para a nossa alma, nos leva a nos prepararmos mais e a nos preservarmos para o Reino dos céus.