OUTROS OLHARES

SENTINDO NA PRÓPRIA CARNE

O pesquisador lan Wilmut criou a ovelha Dolly e revolucionou a medicina. Agora com Parkinson, se submeterá à pesquisa resultante do conhecimento que ele gerou.

Sentindo na própria carne

O cientista escocês Ian Wilmut está na história. Em1997, ele posou ao lado da ovelha Dolly, no Instituto Roslin, em Edimburgo, e informou ao mundo o nascimento do primeiro clone de um animal. Dolly virou conceitos de ponta cabeça e abriu um caminho para a cura de doenças. A partir do conhecimento gerado, chegou-se a células capazes de se transformarem em qualquer tecido do corpo, representando a esperança no tratamento de enfermidades como a diabetes e o Alzheimer. Na semana passada, Wilmut emocionou a ciência mais uma vez. Aos 73 anos, ele anunciou que tem a Doença de Parkinson e que irá participar como voluntário na pesquisa conduzida no mesmo instituto e que, a exemplo de outras em andamento, teve como ponto de partida as informações levantadas a partir de Dolly, “Para mim, a ciência sempre foi importante, não apenas pelo conhecimento, mas também pelas oportunidades que oferece. Nesse momento, para mim, de tratamento”, disse Wilmut.

O pesquisador recebeu o diagnóstico antes do Natal do ano passado. Morador de uma região montanhosa da Escócia e afeito a caminhadas, Wilmut começou a sentir dificuldades para andar. Junto com tremores, é um dos primeiros sinais do Parkinson. A doença tem raiz em um desequilíbrio na disponibilidade cerebral de uma substância chamada dopamina. Isso acontece em razão da destruição gradual de células. Fenômeno semelhante ocorre em outras doenças, como o Alzheimer e várias de origem muscular e esqueléticas. Por esse motivo, a possibilidade de repor as células perdidas, devolvendo às áreas correspondentes suas funções, é uma das grandes apostas da medicina. É como trocar uma peça quebrada por outra, nova.

PRÊMIO NOBEL

Com Dolly, Wilmut e sua equipe mostraram ser possível criar essas peças de reposição. Em seu experimento, o cientista extraiu o código genético de uma ovelha adulta e o introduziu em outro óvulo, cujo núcleo havia sido previamente esvaziado. Esse zigoto gerou Dolly. O feito estimulou uma corrida em busca de células que pudessem virar matrizes de células especializadas. Dez anos depois, no Japão, o médico Shinya Yamanaka ganhou a disputa. Ele obteve células versáteis a partir da manipulação genética feita em células retiradas da pele de um ser humano adulto. Foram chamadas de células pluripotentes. Em 2012, ganhou o Prêmio Nobel de Medicina por isso.

Hoje, há dezenas de estudos clínicos realizados usando as pluripotentes como forma de tratamento para diversas enfermidades. Para Parkinson, o primeiro grande trabalho em humanos deve ser iniciado até o fim do ano, no Japão. No Roslin de Wilmut os preparativos começaram a ser feitos, com o apoio total do cientista. “Ele mudou os fundamentos do pensamento biológico”, disse Tilo Kunath, coordenador de um dos grupos do centro escocês, sobre a participação do mestre em seu trabalho.  “Todos os pacientes de doenças neurodegenerativas se beneficiarão da descoberta de Wilmut, inclusive ele'”, diz a farmacêutica bioquímica Patrícia Pranke, integrante da Rede Nacional de Terapia Celular, que reúne os pesquisadores brasileiros envolvidos nas investigações nacionais usando células-tronco.

 A HISTÓRIA DE UM MARCO CIENTÍFICO

  • A apresentação da ovelha Dolly foi feita no dia 22 de fevereiro de 1997
  • Ela viveu 6 anos, durante os quais teve seis filhotes
  • Foi sacrificada em fevereiro de 2003 devido ao crescimento de um tumor de pulmão

POR OUE FOI INOVADORA

1 – Mostrou pela primeira vez ser possível clonar qualquer célula adulta (já especializada) animal.

2 – Isso abriu a possibilidade de criação a partir de células especializadas, como as extraídas da pele, de células com comportamento semelhante ao das embrionárias. Elas podem ser transformadas em células de qualquer tipo de tecido

3 – Por essa razão, representam uma das principais apostas da medicina. Podem ser usadas como espécies de peças de reposição para substituir aquelas lesadas por enfermidades.

 

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

SONO E MEMÓRIA

Aprendizado recente pode ser consolidado dormindo.

Sono e memória

Pesquisadores do Reino Unido descobriram, em novo experimento, que os fusos do sono desempenham um papel fundamental no fortalecimento de novas memórias quando informações recém aprendidas são reproduzidas a uma pessoa enquanto ela dorme.

Fusos de sono são ondas cerebrais produzidas na região do tálamo, durando de meio segundo a dois segundos, na faixa de 10- 16 Hertz, segundo apurado em eletroencefalograma (EEG). Essas ondas, segundo pesquisas anteriores, fazem parte dos processos pelos quais o cérebro estabelece novas conexões e redes neurais, bem como a intensidade de sua ocorrência em uma noite de sono já foi diretamente relacionada à qualidade da memória estabelecida no dia seguinte.

No experimento em questão, sobre aprendizado recente, voluntários aprenderam a associar determinados adjetivos a objetos e cenas particulares. Alguns fizeram uma soneca de 90 minutos após a sessão de estudo, enquanto outros permaneceram acordados. Enquanto as pessoas cochilavam, os pesquisadores relembravam a elas as associações e adjetivos.

Como esperado, os pesquisadores viram que as pistas da memória levaram a um aumento nos fusos do sono. Curiosamente, os padrões de EEG durante os fusos permitiram aos cientistas discernir que tipos de memórias – objetos ou cenas – estavam sendo processados. Os resultados oferecem subsídios para metodologias de aprendizado e para novas pesquisas que envolvam estimulação cerebral durante o sono.

 

JUSSARA GOYANO – é jornalista e coach certificada pelo Instituto de Psicologia Positiva(IPPC) Atua com foco em performance e bem-estar Estudou Medicina Comportamental na Unifesp.

E-mail: atendimento@jussaragoyano.com

GESTÃO E CARREIRA

O PODER DAS CONEXÕES

Atuar corno um profissional que cria redes e conecta pessoas em prol de um objetivo em comum é bom para sua carreira e para o país.

O poder sas conexões

Em 2018, o Bluetooth está comemorando 20 anos de existência. A tecnologia foi desenvolvida pelos engenheiros da multinacional sueca Ericsson e ganhou esse nome em homenagem ao rei escandinavo Harald Bluetooth, que conseguiu pacificar e integrar as várias tribos nórdicas nos anos 950. E integração é o objetivo máximo do sistema tecnológico que melhora as conexões entre os equipamentos e permite ao usuário ter a própria PAN, sigla para private area network (ou área de conexão particular em numa tradução livre).

Refletindo sobre esse tema, percebi que tudo o que se refere a Bluetooth tem a ver com integração, conexão e expansão do networking privado – características que estão muito relacionadas com nosso desenvolvimento profissional e pessoal.

Por isso, proponho uma reflexão: você é um profissional Bluetooth? Você procura se conectar com as pessoas à sua volta, respeitando os limites alheios e promovendo uma integração de interesses e objetivos em comum? Você tenta ajudar os outros a se conectarem com suas essências e competências para que todos conquistem uma meta compartilhada?

Se estiver atuando assim, você está seguindo um ótimo caminho. Do ponto de vista individual, esse comportamento faz com que se destaque na carreira, pois profissionais que agem desse modo são responsáveis pelo próprio desenvolvimento, ao mesmo tempo que têm generosidade para ensinar aos outros e compartilhar conhecimento.

Do ponto de vista coletivo, é imprescindível atuar com a competência Bluetooth. Nossa sociedade precisa urgentemente de milhares de pessoas com essas características para que o país consiga construir alicerces baseados na ética, no respeito e na produtividade. Só assim o Brasil poderá se tornar uma nação bem-sucedida. Ser Bluetooth é servir, conectar-se, promover o crescimento dos outros. No fim das contas, ser Bluetooth é ser um verdadeiro cidadão brasileiro.

 

Luiz Carlos Cabreira – escreve sobre careira, é professor na EAESP-FGV, e diretor na PMC – Panelli Motta Cabreira & Associados.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 17: 1-13 

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A Transfiguração de Cristo – Parte 2

V – O glorioso testemunho que Deus Pai deu de nosso Senhor Jesus, no qual “ele recebeu de Deus Pai honra e glória” (2 Pedro 1.17), quando veio essa voz da glória suprema. Isso foi como proclamar os títulos de nobreza ou o estilo real de um príncipe que, em sua coroação, se apresenta com os seus trajes cerimoniais. E é bom que se saiba, para o consolo da humanidade, que o estilo real de Cristo vem da sua mediação. Assim, na visão, Ele apareceu com um arco-íris – o selo da aliança – ao redor do seu trono (Apocalipse 4.3), pois a sua glória é ser o nosso Redentor.

Quanto a esse testemunho que o céu dá a respeito de Cristo, observe:

1.Como ele veio, e de que maneira foi apresentado.

(1). Havia uma nuvem. Frequentemente lemos no Antigo Testamento que uma nuvem era um sinal visível da presença de Deus. Ele desceu sobre o monte Sinai em uma nuvem (Êxodo 19.9), e também apareceu assim a Moisés (Êxodo 34.5; Números 11.25). Ele tomou posse do tabernáculo em uma nuvem, e, mais tarde, do templo. Onde estava Cristo na sua glória, ali estava o templo, e ali Deus se mostrou presente. Nós não conhecemos o equilíbrio das nuvens, mas sabemos que grande parte das relações e da comunicação entre o céu e a terra é mantida por elas. Pelas nuvens, os vapores sobem e as chuvas caem; por isso, diz-se que Deus “faz das nuvens o seu carro”; foi isso que Ele fez aqui, quando desceu sobre esse monte.

(2). Era “uma nuvem luminosa”. Sob a lei, era normalmente com uma nuvem espessa e escura que Deus mostrava o sinal da sua presença; Ele desceu sobre o monte Sinai em “uma espessa nuvem” (Êxodo 19.16), e disse “que habitaria nas trevas” (veja 1 Reis 8.12). Mas agora chegamos, não ao monte “aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas” (Hebreus 12.18), mas ao monte que é coroado com “uma nuvem luminosa”. A revelação do Antigo Testamento, e também a do Novo, continham sinais da presença de Deus, mas aquela era uma revelação com escuridão, e terror, e escravidão; porém essa, com luz, amor e liberdade.

(3). A nuvem “os cobriu”. Esta nuvem tinha a finalidade de ofuscar o poder daquela grande luz que, se não fosse por isso, teria dominado os discípulos, e teria sido intolerável; ela agiu como o véu que Moisés colocou sobre o seu rosto, quando este brilhava. Deus, ao se manifestar ao seu povo, considera a sua estrutura. Essa nu­ vem era, para os seus olhos, como parábolas para o seu entendimento, para transmitir coisas espirituais por meio de coisas possíveis de se sentir, conforme eles fossem capazes de suportar.

(4). “E da nuvem saiu uma voz”, e era a voz de Deus, que agora, como antes, falava “na coluna de nuvem” (Salmos 99.7). Aqui não houve trovão, nem relâmpago, nem voz de trombeta, como quando a lei foi dada por Moisés, mas somente uma voz, uma voz suave, e não aquela conduzida com um forte e grande vento, ou um terremoto, ou um fogo, como quando Deus falou com Elias (1 Reis 19.11,12). Moisés e Elias, então, foram testemunhas de que Deus “falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”, de uma maneira diferente daquela como Ele falava com eles antigamente. Essa voz veio da “magnífica glória” (2 Pedro 1.17), a glória que se sobressai, em comparação com a qual a anterior não tinha glória; embora a glória magnífica estivesse em uma nuvem, dela veio uma voz, pois “a fé é pelo ouvir”.

2.Observe qual foi o testemunho do céu: “Este é o meu Filho amado… escutai-o”. Aqui, temos:

(1). O grande mistério do Evangelho revelado: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Estas são as mesmas palavras que foram pronunciadas do céu por ocasião do batismo de Jesus (cap. 3.17); e foi a melhor notícia que veio do céu à terra, desde que o homem pecou. Esta verdade tem o mesmo objetivo daquela grande doutrina (2 Coríntios 5.19): “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Moisés e Elias foram grandes homens, e muito queridos no céu, mas ainda assim não passaram de servos, e servos de quem Deus nem sempre se agradou; pois Moisés, às vezes, falava de uma forma impensada, e Elias era um homem sujeito a paixões; mas Cristo é o “Filho”, e nele Deus sempre se compraz. Moisés e Elias foram, às vezes, instrumentos de reconciliação entre Deus e Israel; Moisés era um grande intercessor, e Elias, um grande reformista; mas em Cristo, Deus reconcilia o mundo; a sua intercessão é mais importante do que a de Moisés, e a sua reforma, mais efetiva que a de Elias.

Essa repetição da mesma voz que veio do céu no seu batismo não era uma repetição inútil; mas, como a duplicação do sonho de Faraó, tencionava mostrar que aquilo estava estabelecido. O que Deus disse uma vez – na verdade, duas vezes-, sem dúvida Ele sustentará, e Ele espera que nós observemos aquilo que Ele disse. Isso foi dito no seu batismo, porque, naquela ocasião, se iniciaria a sua tentação, e o seu ministério público; e agora era repetido, porque Ele estava iniciando os seus sofrimentos, que devem ser datados a partir desse momento. Pois agora, e não antes, Ele começa a fazer predições aos discípulos, e imediatamente depois da sua transfiguração é dito (Lucas 9.51): “completando-se os dias para a sua assunção”; portanto, isso foi repetido para protegê-lo contra o terror, e aos seus discípulos, contra o escândalo da cruz. Quando as aflições começam a ser abundantes, “também a nossa consolação sobeja” (2 Coríntios 1.5).

(2). O maior dever que o Evangelho exige, e que é a condição para nos beneficiarmos em Cristo: “Escutai-o”. Deus, em Cristo, se compraz somente daqueles que o ouvem. Não é suficiente dar ouvidos a Ele (Em que isso nos fará bem?), mas devemos ouvi-lo, e crer nele, como o grande Profeta e Mestre; devemos ouvi-lo, e ser governa­ dos por Ele, como o grande Príncipe e Legislador; ouvi-lo, e prestar atenção nele. Quem desejar conhecer a mente de Deus, deve ouvir a Jesus Cristo. Pois foi através dele que Deus Pai, nestes últimos dias, falou conosco. Essa voz vinda do céu tornou tudo o que era dito a respeito de Cristo tão autêntico como se tivesse sido dito a partir de uma nuvem. É como se Deus nos entregasse a Cristo para que dele recebêssemos todas as revelações da sua mente; e isso se refere àquela profecia de que Deus suscitaria um profeta como Moisés no meio do povo de Israel (Deuteronômio 18.18); a Ele, devemos ouvir.

Cristo aparecia agora em glória; e quanto mais virmos a glória de Cristo, mas motivos teremos para ouvi-lo; mas os discípulos estavam observando a sua glória, que era o que eles viam. Por isso, eles são convidados não a olhar para Ele, mas a escutá-lo. A visão que eles tinham da sua glória logo foi interceptada pela nuvem, mas o que eles deviam fazer era ouvi-lo. Nós “andamos por fé” – pela fé que vem do ouvir-, e “não por vista” (2 Coríntios 5.7).

Moisés e Elias (a lei e os profetas) agora estavam com Ele; por isso foi dito: “Ouçam-nos” (Lucas 16.29). Quando os discípulos pensaram em fazer tabernáculos para Moisés e Elias (e também para Jesus), eles estavam dispostos a igualá-los a Cristo. Eles (Moisés e Elias) estavam falando com Cristo, e provavelmente os discípulos estavam muito ansiosos por saber o que estavam dizendo, e para ouvir mais das suas bocas. Não, disse Deus, escutai-o, e isto será suficiente. Eles deviam ouvir a Jesus, e não a Moisés e a Elias, que estavam presentes e cujo silêncio consentia com essa voz; eles não tinham nada a dizer em contrário; eles estavam desejosos de ver qualquer interesse que gerassem no mundo, como profetas, completamente transferido a Cristo, “para que em tudo tenha a preeminência”. Não se perturbem com o fato de Moisés e Elias ficarem tão pouco tempo com vocês; ouçam a Cristo, e vocês não precisarão deles.

 

VI – O medo que os discípulos sentiram da voz que saiu da nuvem, e o encorajamento que Cristo lhes deu.

1.Os discípulos “caíram sobre seu rosto, e tiveram grande medo”. A grandiosidade da luz, e a surpresa, poderia ter uma influência natural sobre eles, para desalentá-los. Mas isso não era tudo, pois desde que o homem pecou, e ouviu a voz de Deus no jardim, as aparições extraordinárias de Deus sempre foram terríveis para o homem, que, sabendo que não tinha nenhum motivo para esperar nada de bom, tinha medo de ouvir qualquer coisa diretamente de Deus. Observe que mesmo quando “o esplendor de ouro” surge de um lugar secreto, “em Deu s há uma tremenda majestade” (Jó 37.22). Veja como é a voz do Senhor (Salmos 29.4). É bom que Deus nos fale por meio de homens como nós, pois não sentiremos medo deles.

2.Cristo, graciosamente, os levantou, com ternura abundante. As glórias e a grandeza do nosso Senhor Jesus não diminuem, de maneira nenhuma, nem a sua consideração e a sua preocupação pelo seu povo que está cercado de insegurança. E agradável pensar que agora, no seu estado exaltado, o Senhor Jesus sente compaixão e condescendência pelo crente sincero, mesmo que se trate do menor dos salvos. Observe aqui:

(1). O que Ele fez: “aproximando-se Jesus, tocou-lhes”. A sua aproximação dissipou o medo dos discípulos, e quando eles compreenderam que Cristo os compreendia, não houve mais necessidade de consolá-los. Cristo colocou a sua mão direita sobre João num caso semelhante, e também sobre Daniel (Apocalipse 1.17; Daniel 8.18; 10.18). O toque de Cristo frequentemente era curativo, e aqui foi fortalecedor e consolador.

(2). O que Ele disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Observe que embora um temor reverente na nossa conversa com o Céu seja agradável a Cristo, devemos lutar contra o medo de nos maravilharmos. Cristo disse: “Levantai-vos”. Cristo, pela sua palavra, e pelo poder da sua graça, que a acompanha, é quem levanta os homens das suas tristezas e silencia os seus medos; e ninguém, exceto Cristo, pode fazer isso: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. Note que os medos infundados logo se dissipam, não quando nos entregamos a eles e nos deixamos sujeitar a eles, mas quando nos levantamos e fazemos o que podemos contra eles. Considerando o que tinham visto e ouvido, eles tinham mais motivos para se alegrar do que temer, e ainda assim, aparentemente, eles precisavam desse aviso. Devido à fraqueza da carne, frequentemente nos amedrontamos com aquilo que deveria nos encorajar. Observe que depois que tiveram uma ordem expressa do céu de que deviam ouvir a Cristo, as primeiras palavras que ouviram dele foram: “Não tenhais medo”. A missão de Cristo no mundo era dar consolo às pessoas boas, para que, tendo sido libertadas das mãos dos seus inimigos, pudessem servir a Deus sem temor (Lucas 1.74,75).

 

VII – O desaparecimento da visão (v. 8): “Erguendo eles os olhos, ninguém viram, senão a Jesus”. Moisés e Elias tinham ido embora, os raios da glória de Cristo tinham sido deixados de lado, ou estavam ocultos novamente. Eles esperavam que esse tivesse sido o dia da entrada de Cristo no seu reino, e a sua aparição pública naquele esplendor externo que eles imaginavam; mas veja como eles ficam desapontados. Não é prudente elevar demasiadamente as nossas expectativas neste mundo, pois as nossas glórias e esperanças mais valiosas aqui se dissipam, e até mesmo aqueles que vivem em íntima comunhão com Deus sentem que esta vida não é um banquete contínuo, mas um banquete fugaz. Mesmo que, às vezes, sejamos favorecidos por alguma manifestação especial da graça divina, como vislumbres e promessas da glória futura, ainda assim estes são afastados rapidamente; dois céus são uma expectativa demasiadamente grande para aqueles que não merecem sequer um céu. Então, “a ninguém viram, senão a Jesus”. Observe que Cristo fica conosco quando Moisés e Elias se vão. Os profetas não “viverão para sempre” (Zacarias 1.5), e nós vemos a conclusão do ministério dos nossos pastores; mas “Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hebreus 13.7,8).

 

VIII – As palavras entre Cristo e os seus discípulos, quando desceram do monte (vv. 9-13).

Observe que:

1.Eles “desceram do monte”. Nós devemos descer dos montes sagrados onde temos comunhão com Deus, e complacência tanto dessa comunhão, como daquilo que estamos falando. “É bom estarmos aqui”; mas, mesmo aqui, nós não temos uma “cidade permanente”. Bendito seja Deus, há uma montanha de glória e alegria diante de nós, da qual nunca desceremos. Mas observe que quando os discípulos descem daquela montanha terrena, Jesus desce com eles. Quando voltamos ao mundo, depois de desfrutarmos a comunhão com o Senhor, devemos nos preocupar em levar Cristo conosco, e então isto será o nosso consolo: o fato de que Ele está conosco.

2.Quando eles desceram, falaram com Cristo. Observe que quando estamos retornando de alguma tarefa sagrada, é bom que a nossa conversa seja adequada ao trabalho que estivemos realizando. Esta comunicação, que é boa para a edificação, deve ser oportuna e muito especial. Caso contrário, será danosa, e seria melhor que ocorres­ se em outra ocasião.

Aqui temos:

(1). A recomendação que Cristo deu aos seus discípulos, de manter o assunto da visão muito privativo, naquele momento (v. 9): “A ninguém conteis a visão até que o Filho do Homem seja ressuscitado”. Se eles tivessem tornado pública a visão, a sua credibilidade teria sido abalada pelos sofrimentos de Cristo, que agora se aproximavam. Eles deveriam esperar e só divulgar o que tinham visto depois da sua ressurreição; pois, então, aquela glória, e também a sua glória subsequente, seria uma grande confirmação da visão. Note que Cristo observava um método em suas manifestações. Ele queria que as suas obras fossem consideradas em conjunto, para que explicassem e exemplificassem umas às outras, para que pudessem ser vistas em sua força total e evidências convincentes. Tudo é belo em sua própria ocasião, a seu próprio tempo. A ressurreição de Cristo seria propriamente o início do estado e do reino do Evangelho (tudo o que veio antes foi apenas preparatório e funcionou como prefácio). Por isso, embora esse fato tivesse ocorrido anteriormente, não deveria ser apresentado como uma evidência (o que parece ter sido muito enfatizado em 2 Pedro 1.16-18) até à ocasião em que a religião que essa manifestação visava confirmar tivesse sido trazida à sua plena consistência e maturidade. A hora escolhida por Cristo é a melhor e a mais adequada para a sua manifestação, e nós devemos atentar para isso.

(2). Uma objeção que os discípulos fizeram contra o que Cristo tinha dito (v. 10): “Por que dizem, então, os escribas que é mister que Elias venha primeiro?” É como se eles perguntassem: “Se Elias faria uma visita tão curta, e iria embora tão repentinamente, e nós não podemos dizer nada a esse respeito, por que nós fomos ensinados pela lei a esperar essa sua aparição pública no mundo imediatamente antes do estabelecimento do reino do Messias? A vida de Elias, aquilo que todo mundo está esperando, deve ser mantida em segredo? Ou, se a ressurreição do Messias – e com ela o início do seu reino – é chegada, o que acontece com aquele glorioso prefácio e com a introdução ao reino que nós esperamos ter com a vinda de Elias?” Os escribas, que eram os que explicavam publicamente a lei, diziam isso de acordo com as Escrituras (Malaquias 4.5): “Eis que eu vos envio o profeta Elias”. Os discípulos usavam a linguagem comum dos judeus, que afirmavam que as palavras dos escribas eram as palavras das Escrituras. Ao que esses ministros nos dizem, de acordo com a Palavra de Deus, devemos responder: “Deus está falando conosco, não os ministros”, pois recebemos a Palavra de Deus não como palavra de homens (1Tessalonicenses 2.13). Quando os discípulos não conseguiram conciliar o que Cristo disse com o que eles tinham ouvido do Antigo Testamento, quiseram que Ele lhes explicasse por que isso ocorria. Note que quando estamos confusos, enfrentando dificuldades com as Escrituras, devemos pedir a Cristo, em oração, que o seu Espírito abra o nosso entendimento e nos conduza a toda a verdade.

(3). A solução a essa objeção: “‘Pedi, e dar-se-vos-á”. Peçam orientação, e lhes será dada.

[1]. Cristo concorda com a predição (v. 11): “‘Em verdade Elias virá primeiro e restaurará todas as coisas’. Até aqui, vocês têm razão”. Cristo não veio para alterar nem invalidar nada que tivesse sido predito no Antigo Testamento. Observações corruptas ou enganosas podem ser suficientemente rejeitadas e destruídas, sem diminuir ou desprezar a autoridade ou a dignidade do texto sagrado. As profecias do Antigo Testamento são verdadeiras e boas, e devem ser aceitas e aproveitadas, embora alguns homens tolos e acalorados possam tê-las interpretado mal e chegado a conclusões erradas. Ele “virá… e restaurará todas as coisas”; não as restaurará ao seu estado antigo (João Batista não esteve prestes a fazer isso), mas pode-se interpretar que ele realizará todas as coisas, todas as coisas que foram escritas sobre ele, todas as predições sobre a vinda de Elias. João Batista veio para restaurar as coisas espiritualmente, dar nova vida à religião decadente, “converter o coração dos pais aos filhos”; o que quer dizer a mesma coisa que “ele restaurará todas as coisas”. João pregava o arrependi­ mento, e isto restaura toda s as coisas.

[2]. Jesus confirma o ocorrido. Os escribas dizem a verdade, “Elias já veio” (v. 12). Observe que as promessas de Deus sempre se cumprem, e os homens não percebem isso, mas perguntam: “Onde está a promessa?”, quando ela já se cumpriu. “Elias já veio, e não o conheceram”; eles não entenderam que ele era o Elias prometido, o precursor do Messias. Os escribas se ocupavam de fazer críticas às Escrituras, e não compreendiam, pelos sinais dos tempos, o cumprimento das Escrituras. Observe que é mais fácil explicar a Palavra de Deus do que aplicá-la e fazer uso adequado dela. Mas não é de admirar que a estrela da manhã não tivesse sido observada, quando aquele que é o próprio Sol “estava no mundo… e o mundo não o conheceu”.

Por não conhecê-lo, “fizeram-lhe tudo o que quiseram”. Se eles tivessem sabido, eles não teriam crucificado a Cristo, nem decapitado João Batista (1 Coríntios 2.8). Eles ridicularizaram João, perseguiram-no e acabaram matando-o; isto foi obra de Herodes, mas, aqui, essa é uma acusação feita a toda a geração dos judeus incrédulos, e particularmente aos escribas, que, embora não condenassem João, ficaram satisfeitos com o que Herodes fez. Cristo acrescenta: ”Assim farão eles também padecer o Filho do Homem”. Ou seja: “Não se espantem com o fato de Elias ter sido atacado e morto por aqueles que fingiam, com grande reverência, esperá-lo, pois o próprio Messias será tratado de maneira semelhante”. Os sofrimentos de Cristo fizeram com que todos os outros sofrimentos não fossem mais estranhos (João 15.18). Depois de terem ensopado suas mãos com o sangue de João Batista, eles estavam prontos para fazer a mesma coisa com Cristo. Observe que os homens lidam com Cristo da mesma maneira como lidam com os servos de Cristo. E aqueles que estão embriagados com o sangue dos mártires ainda gritam: Queremos mais (Atos 12.1-3).

(4). A satisfação dos discípulos com a resposta de Cristo à sua objeção (v. 13): “Entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista”. Ele não mencionou o nome de João, mas lhes deu a descrição dele ao colocar nas suas mentes o que Ele havia dito anteriormente com respeito a ele: “Este é Elias”. Esta é uma maneira vantajosa de ensinar; ela envolve os pensamentos dos próprios aprendizes, e faz deles, se não os seus próprios professores, aqueles que lembrarão a si mesmos; e as­ sim o conhecimento se torna fácil para aquele que o compreende. Quando usamos com diligência os meios do conhecimento, as névoas são curiosamente dissipadas, e os enganos são corrigidos!