PSICOLOGIA ANALÍTICA

DOMÍNIO DAS EMOÇÕES COM DISCIPLINA

A Rotina está relacionada ao comportamento porque se impõe e se torna inquestionável. Quando a criamos e seguimos, paramos de consultar à vontade e partimos para a ação.

Domínio das emoções com disciplina

 Costumamos associar rotina a algo chato e sem graça pelo simples fato de que é sempre bom sair dela. Para as crianças, que adoram novidades, fazer uma coisa diferente pode ser muito empolgante. Mas para que possamos curtir esses momentos é preciso haver uma rotina a ser quebrada. Sem ela, os d ias passam a ser caóticos, a alimentação e o sono são prejudicados, a criança não desenvolve a persistência e não exercita o controle da atenção.

A relação com a atenção pode não ser óbvia, mas é direta: toda a atividade que requer concentração exige esforço, traz um desconforto que nos leva a adiar a tarefa até o último momento. Se já temos um tempo determinado para atividades nas quais precisamos nos concentrar, não damos chance à procrastinação.

Entre crianças, a rotina é uma forma de tirar seu poder de decisão; de não deixar espaço para que decidam quando farão a tarefa, por exemplo. Isso as poupa de uma ansiedade desnecessária, acionada pela projeção do momento desconfortável de estudo. Um horário muito flexível e variável para as obrigações também dá margem para que elas lutem contra esse momento não apenas com procrastinação ou distrações, mas com birras e desobediência.

Disciplina é colocar a ação acima da vontade e dos sentimentos. Não se trata de obediência e sim de assumir um compromisso – geralmente consigo mesmo – e cumpri-lo, independentemente das condições emocionais. Ela nos ensina a termos mais controle sobre as próprias emoções e a focarmos na produtividade, no processo. Ao direcionarmos a atenção àquilo que nos comprometemos a fazer, somos transformados pela ação e deixamos de ser dominados pelos desejos.

Estabelecer horários para as atividades das quais costumamos fugir, por exigirem esforço cognitivo ou físico, nos permite maior produtividade e ganho de destreza em qualquer domínio – pois o desenvolvimento de habilidades necessariamente passa pela repetição, persistência e disciplina, atributos que recusam-se a se submeter à disposição. Se esperamos que uma criança desenvolva sozinha e naturalmente habilidades de seu interesse, acabamos privando-a da satisfação de se descobrir capaz de fazer algo com maestria e de perceber que o exercício programado transforma o esforço inicial em uma ação automática, realizada de forma ágil e com prazer.

Ao experimentar os ganhos relacionados à ação sem procrastinação, as crianças aprendem a se autodisciplinar – uma capacidade que está mais relacionada ao bom desempenho acadêmico que a resultados em testes de QI. Foi o que descobriram pesquisadores da Universidade da Pensilvânia em um estudo longitudinal com adolescentes, a partir de uma série de questionários relacionados aos hábitos. A conclusão foi de que autodisciplina é um preditor preciso de notas e frequência, com impacto maior que testes de inteligência.

A disciplina é uma virtude muito presente nos ensinamentos do pensamento oriental. É um dos fundamentos da terapia japonesa Morita, voltada para a transformação por meio da ação. Em Constructive Living, um de seus livros sobre essa visão oriental, o filósofo David Reynolds destaca: “Escrevo mais sobre rotinas que sobre variedade (embora ambas sejam importantes) porque a maioria das pessoas que encontro são naturalmente atraídas pela variedade, por mudanças, pela dispersão. Elas necessitam da estabilidade da rotina para superar a tendência de serem controladas por seus sentimentos”.

Apesar de parecer uma afirmação contraditória em uma primeira leitura, a rotina nos gratifica com mais espaço para a criatividade. Isso porque ao cumprirmos uma agenda livramos nossa mente das pequenas decisões e, portanto, da atenção que novas situações ou ambientes requerem. Por tornarem-se automáticas, as tarefas realizadas sistematicamente exigem um esforço mental menor e permitem que os recursos cognitivos sejam empregados em momentos mais criativos e produtivos.

Isso quer dizer que, como define Reynolds, variedade – ou seja, novidades – também é importante no nosso processo de criação e produção. Somos naturalmente tão ávidos por novidades, que são elas – e não a rotina e a repetição – que ativam o sistema de recompensa do cérebro, nos fazendo querer mais. No entanto, uma vida produtiva e criativa depende do equilíbrio entre o inesperado e o costumeiro, de um direcionamento inteligente de energia.

As obras inovadoras e os trabalhos mais admiráveis não surgem do caos nem aparecem por acaso para alguns raros sortudos que foram escolhidos pela inspiração. Pelo contrário: eles podem aparecer quando menos esperamos, mas só escolhem aqueles que enfrentaram os longos, lentos e pouco românticos períodos de dedicação e disciplina.

 

Michele Müller é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

GESTÃO E CARREIRA

VENDA RÁPIDA, FÁCIL E SUSTENTÁVEL

Especialistas explicam os motivos pelos quais sites que permitem a venda de itens usados estão ganhando tanto espaço no mercado eletrônico. Além de movimentarem a economia, eles dão sobre vida a itens que poderiam ser descartados ainda com condições de uso. O meio ambiente agradece!

Venda rapida, facil e sustentável

A forma como consumimos produtos e serviços tem mudado, e muito. Foi-se o tempo em que um produto que deixava de ser usado por alguém ficava esquecido em algum canto da casa. Eles têm ganhado sobrevida e valem dinheiro: para quem vende é sinônimo de faturamento, para quem compra é sinônimo de economia.

É tanta gente interessada em produtos usados que o número de empresas que trabalham com esse tipo de item cresceu 210% no Brasil em cinco anos, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Quando falamos nesse tipo de comércio no ambiente virtual, acredite, o setor cresceu cerca de 38% em 2016. Dados da Associação Brasileira de Comércio mostram que as lojas virtuais que trabalham com itens de segunda mão faturaram R$2,5 bilhões no País.

Para o especialista em marketing digital e sócio fundador da startup Elefante Verde, Fábio Duran, vários fatores resultaram no crescimento do mercado. A crise econômica é um dos motivos, afinal., comprar produtos com etiqueta está mais caro e não tem sobrado dinheiro para tantos supérfluos. Além disso, Duran atribui o bom momento do setor aos avanços da experiência de compra pela internet. ‘”Está cada vez mais fácil comprar produtos pela internet. As transações estão mais seguras e as empresas estão preocupadas em tomar a experiência de compras mais transparentes para o consumidor”, comenta o especialista.

 CLASSIFICADOS

Para dar mais corpo a esse mercado em expansão, os classificados on-line estão com a corda toda. É o caso da OLX. Brasil. O site, que permite que pessoa anunciem produtos de maneira rápida e gratuita viu a quantidade de transações aumentar. No comparativo entre os de primeiros meses de 2015 com o mesmo período de 2016, o crescimento foi de 74,8%. O número de itens vendidos no período também disparou: foi 105,9 maior em 2016.

A marca, fundada na Argentina em 2006, hoje está presente em mais de 50 idiomas e em 60 países do mundo. Para Fábio Duran, os sites de classificados, como a OLX, têm fisgado um público que quer vender poucas ou apenas uma unidade de um produto. “Apesar da transação não ser feita diretamente na plataforma, os classificados têm investido pesado para tomar a ferramenta cada vez mais segura. É interessante para os sites que o consumidor consiga fazer a negociação da maneira mais tranquila possível para que ele volte a usar a ferramenta”, comenta Duran.

O especialista em marketing digital destaca ainda que esse tipo de site é reflexo de uma mudança de entendimento por parte do consumidor quanto à relação que se tem com um item. Antigamente, as pessoas focavam na propriedade de produtos, hoje estão mais interessadas em sua posse’, pontua. Outro ponto que faz dos classificados on-line verdadeiros sucessos estão a quantidade de produtos ofertados. O mix é extremamente variado e os preços podem ser negociados diretamente com quem está vendendo.

 MARKETPLACE

Nos marketplaces a realidade é tão promissora quanto à dos classificados. Em 2014 as lojas virtuais que atuam nesse formato faturaram R$9 bilhões. Um ano depois, chegaram a R$41,3 bilhões, segundo dados da E-bit. No meio dos produtos comercializados na plataforma estão… Imagine quem? Os produtos usados.

Apesar do crescimento, ainda há muito que expandir. A Associação Brasileira de Startups revela que, atualmente, apenas 8% das empresas estão no formato de marketplace. Mas você deve estar se perguntado, afinal, do que se trata o tal do marketplace?  De maneira bem simplista é a ferramenta que aproxima quem procura por um produto de quem fornece esse produto.

O especialista em marketplace e CEO da Ecommet, Frederico Flores, diz que o segmento atrai cada vez mais consumidores por conta da praticidade que se tem ao pesquisar por um item. Por outro lado, para quem está vendendo também é uma baita vantagem.  A pessoa que opta por vender em uma loja virtual própria tem gastos com a manutenção do site, com ações de marketing e com sistemas antifraude”, exemplifica Flores.

Já quem prefere vender por meio de um site de marketplace vai enfrentar transações mais baratas e com menos dor de cabeça. O vendedor pode anunciar o produto sem custo. Ele só terá que pagar a comissão para o site quando o item for vendido”, explica Flores. Dessa forma, é possível, inclusive, vender por preços mais baixos do que em outros meios.

Flores é enfático ao dizer que “o marketplace é um caminho sem volta”. Ele tem razão. Em 2016 o segmento cresceu cerca de 18%, segundo a ABCOmm. “Entre os fatores desse boom está o fato de o consumidor poder comparar preços e comprar com segurança na plataforma. O marketplace ainda se responsabiliza pela venda, independentemente de quem seja o ‘real vendedor”, comenta.

Nessa modalidade, o marketplace faz a venda, mas o estoque não pertence a ele. Para ter uma ideia, é como se você comprasse uma geladeira de uma empresa do Rio Grande do Sul e um micro-ondas de uma loja que fica no Maranhão. O consumidor não sabe, necessariamente, de onde vem o produto, mas sabe que comprou por meio daquele marketplace em questão.

Fábio Duran, da Elefante Verde, explica que ao comprar um produto, seja ele qual for; em um marketplace, o consumidor está protegido do ponto de vista jurídico. “O que vale para o consumidor é o que ele está vendo no momento da compra. Mesmo que o estoque não seja do marketplace, ele é tão responsável quanto o responsável pelo estoque, justifica.

COMPARATIVO

No comparativo entre o classificado e o marketplace, Duran diz que o primeiro é mais assertivo para quem vai vender produtos unitários, enquanto o outro ê uma alternativa para quem quer fugir de uma loja virtual tradicional. “Mas isso não quer dizer que a empresa não possa estar presente nos dois modelos de negócio. Eles podem se completar”, opina o especialista.

FUTURO

Pensando no futuro próximo, Frederico Flores acredita que a rota a ser seguida pelos marketplaces será a desburocratização para o consumidor. “Hoje, quando compramos produtos de estoques diferentes, pagamos por fretes distintos, mas chegaremos a um momento em que o marketplace vai se encarregar de receber um único frete do consumidor e fazer o pagamento interno para os demais envolvidos na transação, explica Flores.

O especialista também é otimista com o setor quando compara o desempenho dos marketplaces em outros países: “No Brasil, apenas 20% das compras são feitas em marketplaces. Nos EUA, esse número atinge os 45%, já na China a marca é de 85%’.

BOM PARA O MEIO AMBIENTE

Independentemente da plataforma – se um classificado ou um marketplace – existe um grande ganhador nesse hábito de consumo: o meio ambiente. Com tantas possibilidades de passar adiante os produtos, eles estão indo para o lixo muito mais tarde. E isso é bom demais. Para ter uma ideia, uma jaqueta de couro demoraria mais de quatro décadas para se decompor na natureza.

Mas o forte de vendas na internet são os eletrônicos. Ainda bem. Sabe quanto tempo um celular demoraria para se decompor em um aterro sanitário (isso sem falar da contaminação do solo, que é muito mais grave)? Mais de 450 anos. Os componentes de metal e plástico são tão nocivos para a natureza que o melhor a ser feito é permitir que o produto possa ser útil para outra pessoa.

TEMPO DE DECOMPOSIÇÃO NA NATUREZA

Tempo médio pode variar dependendo do solo e condições de descarte do material

  • Loucas – indeterminado
  • Computadores smartphones e materiais eletroeletrônicos (componentes de metal e plástico) – cerca de 450 anos
  • Jaqueta de Couro – cerca de 4S anos
  • Roupas de tecido sintético – cerca de 30 anos Móveis de madeira pintados – cerca de 13 anos
  • Móveis de madeira pintados – cerca de 13 anos

 

Fonte: Revista Gestão & Negócios – Edição 97

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 15: 1-9

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Jesus Repreende os Escribas e os Fariseus

Costuma-se dizer que os maus modos produzem boas leis. O calor exacerbado dos mestres judeus no apoio à sua hierarquia ocasionou muitos sermões excelentes do nosso Salvador para o estabelecimento da verdade, como vemos aqui.

I – Na crítica dos escribas e fariseus aos discípulos de Cristo, por comerem sem lavar as mãos. Os escribas e fariseus eram os homens mais importantes da religião judaica, homens que se beneficiavam da santidade alheia, grandes inimigos do Evangelho de Cristo, mas que disfarçavam a sua oposição simulando zelo pela lei de Moisés, quando, na verdade, não queriam outra coisa além do apoio à sua própria tirania sobre as consciências dos homens. Eles eram homens de instrução, e homens de negócios. Esses escribas e fariseus aqui apresentados eram de Jerusalém, a cidade santa, “para onde as tribos subiam”, e onde estavam “os tronos do juízo”; portanto, eles deveriam ter sido melhores do que os outros, e no entanto, eram piores. Os privilégios externos, se não aproveitados ele maneira adequada, normalmente fazem os homens in­ char de orgulho e maldade. Jerusalém, que deveria ter sido uma fonte pura, agora tinha se tornado uma fossa envenenada. “Como se fez prostituta a cidade fiel!”

Se estes grandes homens eram os acusadores, qual é a acusação? Que artigos eles apresentam contra os discípulos de Cristo? Ora, na verdade, a acusação é a não conformidade aos cânones da sua religião (v. 2): “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos?” Esta acusação se cumpre com um exemplo particular: Eles “não lavam as mãos quando comem pão”. Um delito muito grave! Este era um sinal de que os discípulos de Cristo se comportavam de maneira inofensiva; pois esta era a pior “transgressão” de que podiam ser acusados pelos escribas e fariseus.

Considere:

1.Qual era a tradição dos anciãos. As pessoas deveriam lavar as mãos muitas vezes, sempre antes das refeições; era uma lavagem cerimonial. Nisto eles colocavam uma grande dose de religião, supondo que o alimento que tocassem com mãos impuras os contaminaria. Os próprios fariseus praticavam isso, e com grande rigidez o impunham aos outros, não sob penas civis, mas como uma questão de consciência, fazendo disso um pecado contra Deus, se não fosse observado. O rabino Joses determinou: “Comer sem lavar as mãos é um pecado tão grave quanto o adultério”. E o rabino Akiba, mantido prisioneiro, tendo recebido água tanto para lavar as mãos como para beber com a sua refeição, e tendo a maior parte sido derramada acidentalmente, lavou as mãos com o que sobrou, embora não lhe sobrasse nada para beber, dizendo que preferiria morrer a transgredir a tradição dos anciãos. Não, eles não comeriam com alguém que não se lavou antes da refeição. Este forte fanatismo em uma questão tão pequena poderia parecer muito estranho, se nós não o víssemos ainda hoje nos opressores da igreja, que não somente gostam de colocar em prática as suas próprias invenções, mas também forçam, furiosamente, a obediência às suas imposições.

2.Qual foi a transgressão a essa tradição, ou imposição, que os discípulos tinham cometido. Aparentemente, eles não lavaram as mãos quando comeram pão, o que era muito ofensivo para os fariseus, porque os discípulos, em outras coisas, eram rígidos e conscienciosos. O costume era suficientemente inocente, e tinha uma decência no seu uso civil. Nós lemos sobre a água para purificação nas bodas, onde Cristo estava presente (João 2.6), embora Cristo a tenha transformado em vinho, e dessa maneira aquela utilidade chegou ao fim. Mas quando isso veio a ser praticado e imposto como um rito e uma cerimônia religiosa, e com tal importância, os discípulos, embora fracos em conhecimento, ainda assim estavam bem ensinados, para não acatar esse costume, ou observá-lo; nem quando os escribas e fariseus os vigiavam. Eles já tinham aprendido o ensino de Paulo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6.12), especialmente em se tratando daqueles que procuravam dizer às suas almas: “Abaixa-te, para que passemos sobre ti”.

3.Qual era a queixados escribas e fariseus contra os discípulos. Eles discutem esse assunto com Cristo, supondo que Ele permitia que eles agissem assim, sem dúvida como resultado de seu próprio exemplo. Em outras palavras: “Por que os seus discípulos transgridem os cânones da religião? E por que você tolera que eles façam isso?” Era adequado que a queixa fosse feita a Cristo, pois os próprios discípulos, embora conhecessem o comportamento que deveriam ter; e que tiveram nesse caso, talvez não fossem tão capazes de explicar porque agiam daquela forma, como seria desejável.

II – Aqui está a resposta de Cristo a essa crítica, e a sua justificação dos discípulos quanto àquilo de que foram acusados de transgressão. Note que enquanto permanecermos “firmes na liberdade com que Deus nos libertou”, Ele certamente nos sustentará nela.

Cristo responde aos escribas e fariseus de duas maneiras:

1.Como uma recriminação (vv. 3-6). Eles eram argueiros espiões nos olhos dos seus discípulos, mas Cristo lhes mostra uma trave nos seus próprios olhos. Mas aquilo de que Ele os acusa não é meramente uma recriminação (pois a condenação de quem nos reprova não representa uma vingança), mas é uma recriminação à sua tradição (em cuja autoridade eles fundamentavam a sua acusação), que não somente torna a desobediência lícita, mas também a oposição um dever. Jamais devemos nos submeter a uma autoridade humana que se estabeleça em competição com a autoridade divina.

(1) A acusação geral é: “Transgredis vós também o mandamento de Deus pela vossa tradição”. Eles a chamavam de “tradição dos anciãos”, enfatizando como o costume era antigo, e o fato de que era a autoridade dos anciãos que o impunha, assim como a igreja de Roma faz com os padres e concílios; mas Cristo a chama de “vossa tradição”. As imposições ilícitas serão responsabilidade daqueles que as apoiam e mantêm, e as observam, assim como daqueles que as inventaram e impuseram (Miquéias 4.16). “Transgredis vós…o mandamento de Deus”. Aqueles que são os mais zelosos das suas próprias imposições, normalmente são os mais descuidados dos mandamentos de Deus, o que é uma boa razão por que os discípulos de Cristo devem conservar-se vigilantes contra tais imposições, para que, embora, a princípio, elas somente pareçam infringir a liberdade dos cristãos, elas não acabem, finalmente, confrontando a autoridade de Cristo. Embora os fariseus, nessa regra de lavar-se antes de comer, não desafiem nenhum mandamento de Deus, ainda assim, como acontecia em outras situações, Cristo justifica a desobediência dos discípulos à regra.

(2) A prova dessa acusação é um exemplo particular da transgressão deles ao quinto mandamento.

[1] Vejamos qual é o mandamento de Deus (v. 4), qual é o preceito e qual é o incentivo da lei.

O preceito é: “Honra a teu pai e a tua mãe”; isto é imposto pelo Pai de toda a humanidade, e ao prestar respeito àqueles a quem a Providência fez instrumentos da nossa criação, nós honramos a Ele, que é o Autor de tudo e que com isto colocou um pouco da sua imagem neles. Todos os deveres dos filhos para com seus pais estão incluídos nessa honra a eles, que é a fonte e o fundamento de tudo mais. “Se eu sou Pai, onde está a minha honra?” Aqui o nosso Salvador supõe que isso significa o dever dos filhos de sustentar os seus pais e de atender as suas necessidades, se houver oportunidade, e serem prestativos, de todas as maneiras, para o conforto deles. “Honra as viúvas”, isto é, sustenta-as (1 Timóteo 5.3).

O incentivo da lei no quinto mandamento é uma promessa: “par a que se prolonguem os teus dias”. Mas o nosso Salvador deixa isso de lado, para que ninguém conclua que este mandamento seja apenas alguma coisa elogiável e vantajosa, e insiste no castigo anexo à infração deste mandamento em outra passagem das Escrituras, que indica o dever como sendo alta e indispensavelmente necessário: “Quem maldisser ao pai ou à mãe, que morra de morte”. Esta lei nós lemos em Êxodo 21.17. O pecado de amaldiçoar os pais aqui é oposto ao dever de honrá-los. Aqueles que falam mal de seus pais, ou que lhes desejam mal, que zombam deles ou se dirigem a eles com linguagem vergonhosa e indecente, infringem esta lei. Se chamar um irmão de raca era tão grave, o que será chamar a um pai por este nome? Pelo exemplo dessa lei do nosso Salvador, aparentemente negar os cuidados ou atenção aos pais se inclui no termo “maldisser”. Embora a linguagem possa ser suficientemente respeitosa, e em nada violenta, ainda assim de que isto ser virá, se as obras não forem correspondentes? Não será diferente daquele que disse: “Eu vou, senhor; e não foi” (cap. 21.30).

[2] Vejamos qual foi a contradição que a tradição dos anciãos trouxe a esse mandamento. Ela não foi direta e evidente, mas implícita. Os casuístas tinham formulado essas regras que lhes proporcionavam uma fuga fácil da obrigação desse mandamento (vv. 5, 6). Vocês ouvem o que Deus diz, mas vocês dizem isso e aquilo. Aquilo que os homens dizem, até mesmo grandes homens, e homens instruídos, e homens poderosos, deve ser examinado junto àquilo que Deus diz; e se for julgado contrário ou incoerente, pode e deve ser rejeitado (Atos 4.19). Considere:

Em primeiro lugar, qual era a tradição deles? Era a de que um homem não poderia, em nenhuma hipótese, empregar ou doar as suas propriedades deste mundo de melhor maneira do que dando-as aos sacerdotes, e dedicando-as ao ser viço do templo – e quando alguma coisa estivesse dedicada dessa maneira, não era apenas ilícito aliená-la, mas todas as outras obrigações, embora justas e sagradas, eram substituídas e invalidadas, e, portanto, a pessoa era liberada delas. E isto, em parte, se originava no seu cerimonial e na consideração supersticiosa que eles tinham com o templo, e em parte, na sua cobiça e no seu amor pelo dinheiro, pois com o que era dado ao templo, eles lucravam. A primeira explicação, em pretexto, e a última, em realidade, estavam no fundo dessa tradição.

Em segundo lugar, como eles permitiam a aplicação desse princípio ao caso dos filhos? Quando as necessidades dos seus pais exigiam a sua ajuda, eles diziam que tudo o que sobrava dos gastos com eles mesmos e seus filhos, eles tinham dedicado ao tesouro do templo: “É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim”; e por isso os pais não deveriam esperar nada deles; o que sugere, além disso, que o benefício espiritual daquilo que era dedicado refluiria aos pais, que deveriam viver disso. Eles diziam que esta era uma alegação válida; e muitos filhos, pouco sinceros e que não estavam dispostos a cumprir o seu dever, faziam uso dela e eram justificados. Assim, entendemos que os fariseus diziam que eles deveriam ser liberados de suas verdadeiras obrigações. Alguns iam mais longe, e acrescentavam: “Ele fez bem, seus dias serão prolongados na terra, e ele será considerado como tendo observado adequadamente o quinto mandamento”. A desculpa da religião tornava a recusa em sustentar os pais não somente aceitável como também plausível. Mas o absurdo e a impiedade dessa tradição eram muito evidentes; pois a religião revelada pretendia melhorar, e não destruir, a religião natural, da qual uma das leis fundamentais é esta de honrar pais e se eles soubessem o que significa: “Misericórdia quero [e justiça], e não sacrifício”, eles não teriam criado os rituais mais arbitrários e destruidores da moral mais necessária. Isto deixava sem efeito o mandamento de Deus. Qualquer coisa que leve à desobediência, ou que a estimule, na verdade torna nulo o mandamento; e aqueles que assumem a responsabilidade de dispensar as pessoas do cumprimento à lei de Deus, na avaliação de Cristo o repelem e anulam. Infringir a lei é ruim, mas ensinar os homens a fazê-lo, como faziam os escribas e fariseus, é muito pior (cap. 5.19). Com que objetivo é dado o mandamento, senão como o de ser obedecido? Quanto a nós, a regra não terá nenhum efeito se não formos regidos por ela. “Já é tempo de operares, ó Senhor”; é o momento para o grande Reformista, o grande Refinador, aparecer; “pois eles têm quebrantado a tua lei” (Salmos 119.126); não somente pecaram contra o mandamento, mas, pela sua tradição, invalidaram o mandamento. Porém, demos graças a Deus, apesar deles e de todas as suas tradições, pois o mandamento continua em pleno vigor, com força e valor.

2.A outra parte da resposta de Cristo é uma repreensão; e aquilo de que Ele os acusa é de hipocrisia: “Hipócritas” (v. 7). Observe que é prerrogativa daquele que investiga o coração e conhece o que há no homem, dizer quem é hipócrita. Os olhos dos homens conseguem perceber a profanação declarada, mas somente os olhos de Cristo conseguem discernir a hipocrisia (Lucas 16.15). E assim como este é um pecado que os seus olhos descobrem, também é um pecado que, mais que os outros, a sua alma odeia.

Cristo então fundamenta a sua reprovação em Isaías 29.13: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito”. Isaías falou dos homens daquela geração aos quais ele profetizava, mas Cristo aplica as palavras dele a esses escribas e fariseus. A reprovação de pecados e pecadores, que encontramos nas Escrituras, objetivavam a alcançar as pessoas e práticas semelhantes, até os confins do mundo; pois elas não são “de particular interpretação” (2 Pedro 1.20). Os pecadores dos últimos tempos foram profetizados (1 Timóteo 4.1; 2 Timóteo 3.1; 2 Pedro 3.3). As ameaças dirigidas aos outros pertencem a nós, se formos culpados dos mesmos pecados. Isaías não profetizou somente sobre eles, mas sobre todos os outros hipócritas, contra quem a sua palavra ainda aponta, e permanece em vigor. As profecias das Escrituras se cumprem todos os dias.

Essa profecia decifra exatamente uma nação hipócrita (Isaias 9.17; 10.6). Aqui estão:

(1) A descrição dos hipócritas, em dois aspectos:

[1] No seu próprio desempenho de adoração religiosa (v. 8). “Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim”. Considere:

Em primeiro lugar, até onde podem chegar os hipócritas; eles se aproximam de Deus, e o honram. Eles professam ser adoradores de Deus. O fariseu sobe ao templo para orar; ele não fica àquela distância em que estão aqueles que vivem no mundo sem Deus, mas o seu nome está entre aqueles que estão próximos a Ele. Eles o honram, isto é, eles têm a responsabilidade de honrar a Deus, eles se unem aos que fazem isso. Alguma honra a Deus provém do serviço dos hipócritas, quando estes ajudam a manter a forma e a aparência da religiosidade no mundo. Deus é, de algum modo, honrado, embora eles não pretendam honrá-lo. Quando os inimigos de Deus se submetem, mas de maneira falsa, quando eles mentem a Ele, a palavra que proferem também é um engano (Salmos 66.3). Porém, de certo modo, até mesmo esse tipo de louvor resultará em honra ao Senhor, e ao seu nome.

Em segundo lugar, a posição que os hipócritas assumem; a adoração é vazia, eles adoram apenas com suas bocas e seus lábios. E uma religiosidade somente da boca para fora, eles mostram muito zelo, e isso é tudo, mas no seu coração não existe um amor verdadeiro; eles fazem ouvir a sua voz (Isaias 58.4), e mencionam o nome do Senhor (Isaias 48.1). Os hipócritas são aqueles para quem a religião e a adoração religiosa são um mero culto de lábios. Com palavras e língua, os piores hipócritas podem ser tão bem-sucedidos quanto os melhores santos, e falar tão justamente quanto a voz de Jacó.

Em terceiro lugar, o que falta ao hipócrita; é o principal: “Seu coração está longe de mim”, normalmente alienado e separado (Efésios 4.18), na verdade vagando e insistindo em outras coisas; não há nenhum pensamento sério a respeito de Deus, não há nenhuma afeição piedosa com relação a Ele, nenhuma preocupação com a alma e a eternidade, nenhum pensamento agradável com relação a fazer a obra de Deus. Deus está perto de sua boca, mas longe do seu coração (Jeremias 12.2; Ezequiel 33.31). O coração, juntamente com os olhos dos tolos, está “nas extremidades da terra”. É como “urna pomba enganada, sem entendimento”, e por isso é um dever tolo (Oseias 7.11). Um hipócrita diz urna coisa, mas pensa outra. A grande coisa que Deus procura e exige é o coração (Provérbio 23.26); se este estiver longe dele, não será um serviço razoável, e, portanto, não será aceitável; é o “sacrifício dos tolos” (Eclesiastes 5.1).

[2] Nas suas prescrições aos outros. Um exemplo da sua hipocrisia é o fato de ensinarem “doutrinas que são preceitos dos homens”. Os judeus, então, como os papistas, tinham o mesmo respeito à tradição oral que tinham à palavra de Deus, recebendo-a. Quando as invenções dos homens são adicionadas às instituições de Deus, e impostas da mesma maneira, estamos diante de urna hipocrisia, uma mera religião humana. Os preceitos dos homens tratam adequadamente das coisas dos homens, mas Deus terá a sua própria obra realizada segundo as suas próprias regras, e o Senhor não aceita aquilo que não foi designado por Ele mesmo. Somente aquilo que vem dele é que pode nos conduzir até Ele.

(2) A ruína dos hipócritas; é investir com pouco alcance: “Em vão me adoram”. A adoração dos hipócritas não alcança o objetivo ao qual se destina; nem agrada a Deus, nem é benéfica para eles mesmos. Se a adoração não for oferecida em espírito, não estará na verdade, e, portanto, não será nada. O homem que somente parece ser religioso, e não o é, a sua religião é vã (Tiago 1.26); e se a nossa religião for uma vã oblação, uma religião vã, quão grande é a vaidade! Como é triste viver em uma época de orações, sermões, sábados, e sacramentos que são observados em vão, como quem golpeia o ar. E assim será se o coração não estiver com Deus em tudo isso; o louvor de lábios é inútil (Isaias 1.11). Os hipócritas semeiam o vento e colhem a tempestade; eles confiam na vaidade, e a vaidade será a sua recompensa.

Assim, Cristo justificou os seus discípulos na questão da desobediência às tradições dos anciãos; e foi isto o que os escribas e fariseus conseguiram pela reprovação deles. Não sabemos de nenhuma resposta que possam ter dado; mesmo que não tenham ficado satisfeitos, ainda assim foram silenciados e não puderam resistir ao poder com que Cristo lhes falou.