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UMA NOVA EVASÃO ESCOLAR

Mais da metade dos jovens brasileiros, de todas as classes sociais, perdeu o interesse pelos estudos e corre o risco de ficar fora do mercado de trabalho. Onde a nossa educação está falhando e qual o custo disso para o futuro do País?

Uma nova evasão escolar

 

A decisão de parar de estudar da auxiliar de limpeza Regina de Jesus Araújo, hoje com 24 anos, se deu por motivos econômicos. Há seis anos, quando ela morava com os pais, considerava ter uma estrutura de vida precária e preferiu se dedicar ao trabalho para conseguir se sustentar. Conciliar os estudos, na época, com 18 anos, não era viável. “Não tive incentivo nenhum para continuar na escola. Hoje, mora sozinha e arca com as próprias contas. Para ter mais oportunidades profissionais, porém, percebeu que era preciso concluir a formação. E foi isso o que ela fez. Neste ano, cursa orgulhosa o primeiro ano do Ensino Médio em uma escola pública de São Paulo. “Quero ir para o ensino técnico. Gostaria de ser recepcionista porque gosto de trabalhar diretamente com as pessoas”, diz. É a tentativa de Regina para escapar de uma triste estatística, divulgada recentemente pelo Banco Mundial: 52 % dos jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos perderam o interesse pela escola e, por isso, correm o risco de ficar fora do mercado de trabalho. Parte dessa população simplesmente parou de estudar por necessidade financeira, como Regina havia feito, parte não consegue levar o colégio com o comprometimento que isso exige porque é obrigado a conciliar a atividade com trabalho informal e um terceiro grupo encontra-se atrasado em relação à série adequada à idade. Abandonar a escola para ajudar no sustento da família não é novidade. Oque preocupa nos dados do relatório do Banco Mundial é que a falta de interesse pelos estudos avança para camadas sociais em que a necessidade de gerar renda não é a maior pressão. Um em cada três brasileiros de 19 anos está hoje fora da escola.

O documento aponta outro dado alarmante: a falta de participação dos jovens na construção da economia vinha diminuindo desde 2004, mas há quatro anos a tendência sofreu uma reversão. Isso ocorreu principalmente por causa do aumento de pessoas que não estão nem estudando nem trabalhando (os chamados “nem-nem”) e de jovens que estão desempregados ou em trabalhos Informais. A justificativa imediata para o retrato tem a ver como momento econômico atual do País, de crise financeira, desemprego e Informalidade no trabalho. No entanto, há questões mais complexas por trás da situação. “A pergunta essencial que essa análise suscita para os formuladores de políticas é saber se, em condições econômicas menos favoráveis, é possível manter as conquistas anteriores em termos do engajamento juvenil. Esta é uma preocupação para um país cujo potencial de produtividade agora depende de forma tão crítica do engajamento de seus jovens”, diz o relatório.

A resposta, segundo consenso entre educadores, é a de que é possível manter os jovens em sua formação escolar independentemente da condição econômica da nação. Para isso, o sistema educacional precisa mudar. É necessário que o currículo se modernize o suficiente para despertar e manter o interesse dos jovens contemporâneos. “A escola que estamos oferecendo aos nossos adolescentes não dialoga com eles, não faz mais sentido”, afirma Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. “A escola do século XIX, com os alunos enfileirados e professor falando na frente, não funciona mais.”

EIXO ESTRATÉGICO

Há pelo país iniciativas que contemplam novos modelos. Sob a coordenação do Instituto Ayrton Senna, por exemplo, quinze escolas públicas de Santa Catarina adotaram mudanças importantes. “Estabelecemos um projeto de educação em tempo integral”, conta Ramos. Depois de um ano, a instituição comparou a taxa de abandono nesses colégios com as apresentadas por escolas do mesmo perfil sócio econômico. “O índice foi 50% menor”, informa o especialista.

A educação integral é uma das alternativas para envolver alunos, motivá-los a pesquisar e incitar a curiosidade, tornando o ensino atraente ao mesmo tempo em que desenvolve o potencial dos jovens. Nesse modelo há ainda uma ênfase no desenvolvimento das chamadas competências sócio emocionais, que trabalham habilidades fora da cartilha tradicional de ensino, como resiliência, empatia e liderança. “Não é preciso criar novas disciplinas, mas sim oferecermos outras maneiras de trabalhar em sala de aula”, afirma Ramos. Alterações mais profundas como essas são vistas em maior escala apenas em escolas particulares que se propõem a oferecer uma nova maneira de ensinar, com mais envolvimento dos alunos, atenção especifica para dificuldades ou habilidades individuais e desenvolvimento de conhecimentos que vão além das disciplinas básicas. São instituições, porém, com mensalidades altas – as mais inovadoras chegam a custar R$ 8 mil por mês-, que obviamente não podem ser pagas pela maioria da população. Há. portanto, necessidade de revisão e implantação, por políticas governamentais, de iniciativas que contemplem as mudanças na rede pública. Isso inclui investimento em formação e valorização de professores. “Temos que focar em um projeto de país que coloque educação como eixo estratégico”, afirma Priscila Cruz, fundadora e presidente – executiva do movimento Todos Pela Educação. “Ou fazemos isso ou o Brasil perderá o bonde da história de novo.”

Os prejuízos envolvem perdas individuais e também coletivas. Do ponto de vista pessoal, o documento do Banco Mundial mostra que os cidadãos de baixa escolaridade enfrentam falta de oportunidades e baixos salários. Os números revelam que quanto maior o índice de conclusão dos ciclos de ensino, maior o rendimento, até quatro anos na escola, o salário cresce 16,4% para cada ano estudado: de 14 a 18 anos de estudo, o salário cresce 35,65% por ano estudado. “Isso gera aumento no Produto Interno Bruto e melhor distribuição de renda, explica Priscila. O Brasil todo sofre hoje com a queda da produtividade resultante da falta de conhecimento, informação e, muitas vezes, da incapacidade de formular raciocínios básicos. Sem uma população preparada para exigências de um mercado global de trabalho cada vez mais sofisticado, a tendência é o país seguir em ritmo de estagnação. O desafio é quebrar essa corrente. “O desenvolvimento do Brasil é o desenvolvimento dos seus cidadãos, afirma a representante do Todos pela Educação.

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Fonte: Revista Isto É – Edição 2522

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE AS MULHERES QUEREM AFINAL?

Cérebro feminino prefere homens altruístas como parceiros em se tratando de relações a longo prazo, mas surpreendentemente em relações curtas os egoístas são mais valorizados.

O que as mulheres querem afinal

Qual o papel da beleza e de qualidades como ser confiável ou altruísta na atratividade de um homem perante uma mulher?

Estudos anteriores haviam confirmado que de fato a beleza é importante para uma mulher. Com base na teoria de evolução darwiniana, pesquisadores identificaram uma preferência das mulheres por homens que as mulheres consideram bonitos, particularmente em relações de curto prazo e na fase fértil do ciclo menstrual.

Em estudo realizado em Londres, 5 mil mulheres anotavam as relações sexuais que tinham e a fase do ciclo menstrual onde estavam. Nesse estudo, foi sugerido que as mulheres preferiam os parceiros bonitos (inclusive em casos extraconjugais) na fase fértil do ciclo menstrual, e que as relações sexuais na fase não fértil se davam mais entre o casal. A explicação evolucionista para esse padrão é de que existe uma relação entre a beleza, ou ser fisicamente atrativo, como um marcador de qualidade genética do indivíduo.

Em outras palavras, as mulheres parecem possuir um sensor inconsciente que as deixa mais atraídas por homens bonitos quando estão férteis, de forma que, ao ter relações sexuais com esses homens, possam ser fertilizadas por eles, transmitindo aos seus filhos as boas características genéticas. É a hipótese evolucionista “pai bonito-filho bonito”.

Um novo estudo ajudou a entender o funcionamento das preferências femininas. Nessa investigação, foi demonstrado que ajudar os outros sem pensar em si mesmo é mais atrativo do que ter boa aparência, pelo menos em uma relação de longo prazo. As mulheres avaliaram um homem de aparência mediana, dando dinheiro a uma pessoa sem teto, como mais atrativo do que um homem de excelente aparência que caminhava direto sem dar atenção ao miserável. O estudo sugere que boa aparência não é tudo no jogo do acasalamento humano, especialmente quando se refere a relações a longo prazo.

Quando as mulheres foram perguntadas sobre relações de curto prazo, no entanto, a pesquisa revelou algo bizarro. Ser altruísta passa a ser uma fraqueza. Para relações de curto prazo, as mulheres preferem um homem que não é altruísta. Isso pode estar relacionado ao fato de que os traços sombrios da personalidade, como narcisismo e psicopatia, podem fazer os homens mais atrativos a curto prazo. Claramente, esses tipos de homens não são bonzinhos ou generosos, são autocentrados e egoístas. Para esse estudo, mulheres foram expostas a fotos de dois homens diferentes, um mais atrativo do que outro. Então a mulheres liam diferentes cenários descrevendo como cada homem estava se comportando, às vezes altruisticamente e às vezes não. O perfil mais atraente foi dos homens que eram tanto altruístas como atraentes. Segundo os pesquisadores, a preferência para homens altruístas foi também influenciada por sua atratividade física tanto que a desejabilidade do homem que era atrativo aumentou significativamente mais quando era também altruísta.

Para relações de curto prazo, no entanto, o homem de melhor aparência foi a escolha preferida das mulheres, não importa o que o homem estava fazendo na foto, se era altruísta ou não. Já nas relações de longo prazo, o estudo sugere que o altruísmo pode ter um efeito aditivo para as qualidades de escolha de parceiro, somando-se à atratividade física, e que possuir ambas as qualidades têm um efeito maior na desejabilidade de um homem que somente uma das características. Em se tratando de relações duradouras, a generosidade e o altruísmo superam a beleza, pelo menos nas enigmáticas preferências do cérebro feminino.

 

 Marco Callegaro – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011.)

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 16: 21-23

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 Cristo Repreende Pedro

Temos aqui o discurso de Cristo aos seus discípulos, a respeito dos seus próprios sofrimentos, onde observamos:

I – A predição de Cristo dos seus sofrimentos. Aqui Ele “começou” a falar de seus sofrimentos, e a partir dessa ocasião, Ele frequentemente falou sobre eles. Ele já tinha dado algumas indicações sobre os seus sofrimentos, como quando disse: “Derribai este templo”; quando falou sobre o Filho do Homem sendo visto subir, e sobre comer a sua carne e beber o seu sangue (João 6.53,62). Mas agora Ele começava a mostrar isso, a falar clara e expressamente sobre esse assunto. Até então, Ele não tinha falado sobre isso, porque os discípulos eram fracos e não poderiam suportar a notícia de algo tão estranho, e tão melancólico; mas agora que eles estavam mais amadurecidos no conhecimento, e fortalecidos na fé, Ele começava a lhes falar sobre os seus sofrimentos. Cristo revela o seu pensamento gradualmente às pessoas, e lhes transmite a luz à medida que elas conseguem suportá-la, e estão preparadas para recebê-la. “Desde então”, quando eles tinham feito aquela confissão de Cristo, de que Ele era o Filho de Deus, Ele começou a mostrar-lhes que haveria de sofrer. Quando Jesus percebia que os discípulos já conheciam uma verdade, Ele lhes ensinava outra, pois a “qualquer que tiver, será dado”. “Deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição” (Hebreus 6.1). Se eles não estivessem bem fundamentados na crença de que Cristo era o Filho de Deus, isso teria provocado um grande abalo à sua fé. Nem todas as verdades devem ser ditas a todas as pessoas, em todas as ocasiões, mas somente aquelas que são apropriadas e adequadas à sua condição atual. Considere:

1.O que Ele predisse a respeito dos seus sofrimentos, os seus detalhes e as suas circunstâncias; tudo muito surpreendente.

(1). O lugar onde Ele passaria por esses sofrimentos. Ele deveria ir a Jerusalém, a cidade principal, a cidade santa, e ali sofreria. Embora vivesse a maior parte da vida na Galiléia, Ele deveria morrer em Jerusalém; ali eram oferecidos todos os sacrifícios, e ali, portanto, de­ veria morrer aquele que seria o maior sacrifício.

(2). As pessoas que o fariam padecer: “Os anciãos, e os principais dos sacerdotes, e os escribas”; eles constituíam o grande sinédrio, que tinha sede em Jerusalém, e que era venerado por todo o povo. Aqueles que deveriam ter sido os mais entusiasmados em confessar a Cristo, e admirá-lo, eram os que mais amargamente o perseguiam. É estranho saber que homens que tinham conhecimento das Escrituras, que professavam esperar pela vinda do Messias, e pretendiam ter algo de santo no seu caráter, tenham tratado o Senhor dessa maneira tão bárbara quando Ele veio. Foi o poder romano que condenou e crucificou a Cristo, mas a responsabilidade foi atribuída aos “principais dos sacerdotes, e dos escribas”, que foram os que primeiro se agitaram nesse sentido.

(3). O que Ele iria sofrer: Ele iria “padecer muito… e ser morto”. A maldade insaciável dos seus inimigos, e a sua própria paciência invencível, são exibidas na variedade e multiplicidade dos seus sofrimentos (Ele sofreu muitas coisas), e na sua intensidade; nada menos que a sua morte poderia satisfazê-los, Ele precisava ser morto. O sofrimento de muitas aflições, se não levar à morte, é mais tolerável. Pois enquanto houver vida, haverá esperança; e a morte, sem tais preâmbulos, seria menos terrível. Mas Ele precisaria, primeiro, sofrer muitas coisas, e depois ser morto.

(4).  Qual seria o feliz resultado de todos os seus sofrimentos: Ele iria “ressuscitar ao terceiro dia”. Assim como os profetas, também o próprio Cristo, quando deu testemunho antecipado de seus sofrimentos, testemunhou também toda a glória que a eles se seguiria (1 Pedro 1.11). A sua ressurreição ao terceiro dia provaria que Ele era o Filho de Deus, apesar de todos os seus sofrimentos; e, portanto, Ele faz menção disso para conservar a fé dos seus discípulos. Quando Ele falou da cruz e da “afronta”, Ele falou com o mesmo “gozo que lhe estava proposto”. Foi com essa esperança que Ele “suportou a cruz, desprezando a afronta”. Ê assim que devemos considerar o sofrimento de Cristo por nós, observá-lo no caminho para a sua glória; e assim devemos considerar o nosso sofrimento por Cristo, olhar através dele para a compensação da recompensa. “Se sofrermos com Ele também com ele reinaremos”.

2.A razão pela qual Ele falou dos seus sofrimentos.

(1). Para mostrar que eles eram o resultado de um conselho e consentimento eternos; eles tinham sido combinados entre o Pai e o Filho, desde a eternidade: “É necessário que Cristo sofra”. A questão foi decidida no conselho e no conhecimento prévio determinados, de acordo com a sua própria disposição voluntária de realizar a nossa salvação. Os seus sofrimentos não eram nenhuma surpresa para Ele, não lhe representaram nenhuma armadilha, mas Ele tinha uma visão distinta deles, o que aumenta ainda mais o seu amor (João 18.4).

(2). Para corrigir os erros de que os seus discípulos tinham se impregnado, a respeito da pompa exterior e do poder do seu reino. Crendo que Ele era o Messias, eles só esperavam dignidade e autoridade no mundo, mas aqui Cristo lhes dá outro ensinamento, Ele lhes fala a respeito da cruz e dos sofrimentos. Na verdade, Ele lhes conta que os principais dos sacerdotes e os anciãos, que, provavelmente, eles esperavam que apoias­ sem o reino do Messias, seriam os seus maiores inimigos e perseguidores; isto lhes daria outra ideia daquele reino cuja chegada eles mesmos haviam pregado; e era necessário que esse engano fosse corrigido. Aqueles que seguem a Cristo devem ser informados, com clareza, de que não devem esperar grandes coisas neste mundo.

(3). Isso pretendia prepará-los, pelo menos, para a cota de tristeza e medo que eles teriam devido ao seu sofrimento. Se Ele sofreu muitas coisas, os discípulos não podiam deixar de sofrer algumas; se o seu Mestre fosse morto, eles seriam dominados pelo ter ror; seria melhor que eles soubessem disso antes, para que se preparassem de maneira conveniente, e, estando prevenidos, pudessem estar em guarda.

II – O desgosto que Pedro sentiu ao ouvir isso. Ele disse: “Senhor, tem compaixão de ti”; provavelmente ele expressasse o sentimento dos demais discípulos, como antes, pois ele era o orador principal. Ele “tomando-o de parte, começou a repreendê-lo”. Talvez o pensamento de Pedro estivesse um pouco elevado devido às grandes coisas que Cristo lhe havia dito. Assim, é provável que ele tenha se tornado mais ousado com o Senhor do que lhe seria conveniente; é muito difícil conservar o espírito humilde em meio a estímulos tão grandes!

1.Não era apropriado que Pedro contradissesse o seu Mestre, ou o tomasse de lado para aconselhá-lo. Ele pode ter desejado que, se fosse possível, esse cálice fosse afastado, sem dizer taxativamente: “Isto não pode ser assim”, quando Cristo havia dito: “Deve ser assim”. ”A Deus se ensinaria ciência”? Aquele que repreende a Deus, que responda isso. Quando as dispensações de Deus são complicadas ou contrárias a nós, devemos silenciosamente concordar com a vontade divina, e não ser contrários a ela; Deus sabe o que Ele deve fazer, sem o nosso ensinamento. A menos que compreendamos o intento do Senhor, não nos cabe ser seus conselheiros (Romanos 11.34).

(1). Era um comportamento muito mundano o fato de Pedro se manifestar tão acaloradamente contra o sofrimento, e que assim se assustasse com a ideia da cruz. Este é o nosso lado corrompido, aquele que está sempre pronto para rejeitar os sofrimentos. Nós consideramos os sofrimentos da maneira como eles se relacionam com a nossa vida atual, à qual eles são inquietantes; mas existem outras maneiras de avaliá-los que, se devidamente observadas, irão nos capacitar a suportá-los alegremente (Romanos 8.18). Veja a maneira apaixonada como Pedro fala: “Senhor, tem compaixão de ti”, em outras palavras: “Que Deus não permita que o Senhor sofra e seja morto, nós não podemos suportar pensar nisso”. Mestre, salva-te, assim pode ser lido; e ninguém mais te será cruel; tem compaixão de ti, e isso não te acontecerá”. Ele imaginava que Cristo temesse o sofrimento tanto quanto ele o temia; mas nós nos enganamos, se avaliamos o amor e a paciência de Deus baseando-os em nós mesmos. Ele sugere, da mesma maneira, a improbabilidade do acontecimento, falando humanamente. “De modo nenhum te acontecerá isso”. É impossível que alguém que se interessa tanto pelas pessoas, como o Senhor, seja esmagado pelos anciãos, que temem o povo: isso não pode acontecer. Nós, te seguimos, lutaremos pelo Senhor, se for necessário; e há milhares que estarão ao nosso lado”.

III – O desagrado de Cristo com a sugestão de Pedro (v. 23). Não lemos sobre nada dito ou feito por qualquer dos seus discípulos, em nenhuma ocasião, de que Ele se ressentisse tanto quanto isso, embora eles frequentemente precisassem de suas correções.

Considere:

1.A maneira como Ele expressou o seu desagrado: Ele se voltou para Pedro e (imaginamos), com a expressão bastante séria, disse: “Para trás de mim, Satanás”. Ele não perdeu tempo considerando a sugestão, mas deu uma resposta imediata à tentação, que demonstrava o quanto Ele a tinha recebido mal. Ele havia acabado de dizer: “Bem-aventurado és tu, Simão”, e tinha até mesmo aproximado Pedro do seu seio; mas aqui Ele diz: “Para trás de mim, Satanás”; e as duas coisas eram justificáveis. Observe que um homem bom, pela surpresa da tentação, pode ficar muito diferente do que é. Jesus respondeu a Pedro como tinha respondido ao próprio Satanás (cap. 4.10). Observe que:

(1).  Uma das astúcias de Satanás consiste em enviar-nos tentações pelas mãos insuspeitas dos nossos melhores e mais queridos amigos.

Assim ele atacou Adão, por meio de Eva; Jó, por meio da sua mulher; e aqui, Cristo, por meio do seu amado Pedro. Portanto, nós não devemos ser ignorantes das suas artimanhas, mas nos opormos aos seus truques, sempre nos protegendo contra o pecado, seja o que for que nos levar a ele. Até mesmo a bondade de nossos amigos pode ser usada por Satanás como uma tentação contra nós.

(2).  Aqueles que têm exercitado os seus sentidos espirituais, estarão atentos à voz de Satanás, até mesmo em um amigo, um discípulo, um ministro, que os tente dissuadir do seu dever. Nós não devemos considerar tanto quem fala quanto o que é dito. Devemos aprender a reconhecer a voz do diabo quando ele fala na boca de um santo assim como quando ele fala na boca de uma serpente. Quem quer que nos afaste daquilo que é bom, e que nos faça ter medo de fazer muito por Deus, fala a língua de Satanás.

(3).  Devemos ser livres e leais em repreender o amigo mais querido que tivermos, aquele que diz ou faz algo errado, mesmo que possa nos parecer gentileza. Não devemos elogiar, mas sim repreender, as cortesias enganosas. “Fiéis são as feridas feitas pelo que ama”. Estas feridas serão uma benignidade (Salmos 141.5). (4) Àquilo que parecer uma tentação ao pecado, deveremos resistir com aversão, sem abrir qualquer possibilidade de negociação.

2.Qual foi a razão do desagrado de Jesus? Por que Ele se ressentiu assim com uma sugestão que parecia não apenas inofensiva, mas gentil? Duas razões são dadas:

(1). “Me serves de escândalo” – Tu és o meu empecilho (pode ser assim interpretado); você é um obstáculo no meu caminho. Cristo se apressava na obra da nossa salvação, e o seu coração estava tão dedicado a isso, que Ele achava ruim ser impedido, ou tentado a se afastar da parte mais difícil e mais desanimadora da sua missão. Ele estava tão fortemente envolvido com a nossa redenção, que aqueles que tentassem desviá-lo disso, ainda que indiretamente, o tocavam em um ponto muito sensível. Pedro não foi tão severamente repreendido por desonrar e negar o seu Mestre nos seus sofrimentos quanto por dissuadi-lo deles; embora sua primeira falha tenha sido cometida por falta de bondade, essa última foi por excesso. E necessário uma firmeza e determinação muito grandes em qualquer questão, quando somos afrontados com o objetivo de sermos dissuadidos. E o homem não suportar à ouvir nada em contrário; como no caso de Rute: “Não me instes para que te deixe e me afaste de ti”. Observe que o nosso Senhor Jesus preferia a nossa salvação ao seu próprio conforto e à sua própria segurança: “Porque também Cristo não agradou a si mesmo” (Romanos 15.3). Ele veio ao mundo, não para ser poupado, como recomendava Pedro, mas para se deixar gastar em nosso benefício.

Considere por que Ele chamou Pedro de “Satanás”, quando ele lhe fez a sugestão; porque qualquer coisa que estivesse no caminho da nossa salvação, Ele considerava como vinda do diabo, que é um inimigo declarado da nossa salvação. O mesmo Satanás que depois entrou em Judas, astutamente, para destruir Jesus na sua missão, aqui incentivava Pedro, de maneira plausível, a afastá-lo dela. Dessa maneira, “o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz”.

“Me serves de escândalo”. Observe como:

[1]. Aqueles que se envolvem em qualquer boa e grande obra devem esperar encontrar obstáculos e oposição por parte de amigos e adversários, tanto de dentro como de fora de seu ambiente cotidiano.

[2]. Aqueles que se opõem ao nosso progresso em qualquer dever, devem ser considerados uma ofensa a nós. Então nós faremos a vontade de Deus, assim como Cristo a fez-, pois o seu alimento e bebida eram fazê-la – quando considerarmos um verdadeiro problema a tentativa de nos afastarem do nosso dever. Aqueles que nos impedem de fazer algo por Deus, ou de sofrer por Ele, quando isso nos é exigido, são nossos adversários nesse aspecto, não importando o que sejam em outros.

(2). “Não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens”. Considere:

[1]. ”As coisas que são de Deus”, isto é, os assuntos da sua vontade e glória, frequentemente se chocam e interferem com as coisas que são “dos homens”, isto é, a nossa própria riqueza, o nosso prazer e reputação. Quando consideramos o dever cristão como nosso caminho e trabalho, e a graça divina como o nosso final e porção, desfrutamos as coisas de Deus; mas para que isso aconteça, a carne deve ser renegada, e é necessário correr riscos e suportar dificuldades. E aqui está a prova. Quais serão as nossas escolhas?

[2]. Aqueles que temem desenfreadamente, e engenhosamente se recusam a sofrer por Cristo, quando isto lhes é solicitado, são os que estão mais apegados às coisas do homem do que às coisas de Deus. Eles apreciam mais as coisas do mundo, e transmitem essa impressão aos outros.