VOCACIONADOS

UMA OPRESSÃO MAIOR QUE A VIDA

Casos de suicídios em escolas de São Paulo disparam um alerta na sociedade quanto à opressão em que vivem os adolescentes hoje, mostram a vulnerabilidade em relação ao sofrimento psicológico e impulsionam ações de conscientização para a prevenção desse mal que aflige o mundo todo.

Uma opressão maior que a vida

A infelicidade extrema, a falta de esperança e a frustração com as vicissitudes inerentes à vida têm produzido um quadro alarmante na última década no Brasil: em média, 11 mil pessoas se matam por ano, um a cada 48 minutos, 30 por dia. Jovens com imensurável potencial para se destacar em inúmeras atividades estão decidindo pôr fim à própria vida bruscamente por não saber lidar com as opressões do mundo atual. Em vez de acalentar projetos, muitos interrompem seus sonhos com frequência inaceitável. Na semana passada, o tema ganhou visibilidade novamente no tradicional Colégio Bandeirantes, na zona Sul de São Paulo. A escola, cuja qualidade do ensino a coloca entre as mais conceituadas da Capital, comunicou a ocorrência de dois suicídios entre seus alunos, um de 16 e outro de 17 anos, em um intervalo de dez dias. No mesmo período houve um terceiro caso no Colégio Agostiniano São José, na zona Leste da cidade. A notícia causou comoção nas redes sociais e, ao mesmo tempo, abriu um debate franco – e oportuno – sobre o assunto.

De forma quase silenciosa, o suicídio é, hoje, a quarta maior causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos no País. É a terceira entre homens. Embora com uma ligeira queda em 2016, as ocorrências vêm apresentando uma incómoda tendência de alta nesta década. Mundialmente, o suicídio é a segunda maior causa de morte na mesma faixa etária. Uma das principais causas dessa onda nefasta é a epidemia de depressão e de outras doenças psiquiátricas que assola a sociedade e afeta uma grande população jovem. Os que se matam sofrem, em geral, com alguma dessas doenças e enfrentam grande solidão e tristeza. “É bastante difícil para todos nós lidar com essa situação. É como um tsunami”, afirma a coordenadora do Bandeirantes, Estela Zanini. “Essas duas tragédias afetaram muito a escola, geraram grande ansiedade entre professores, pais e alunos e nos levaram a intensificar várias ações preventivas e de apoio”.

 SENTIMENTOS OCULTOS

Nenhum dos dois estudantes era alvo de bullying, um dos fatores que costumam desencadear processos suicidas. Os dois tinham amigos, seus pais eram presentes e ambos tiravam notas altas, acima da média. Não foram influenciados por jogos ou séries de TV ou um pelo outro, segundo a escola. Os dois não se conheciam. Eram de turmas diferentes: um do segundo ano do ensino médio e outro do terceiro. O colégio tem 2.750 alunos. De acordo com Estela, os dois conseguiam enfrentar o altíssimo nível de exigência e de competitividade do Bandeirantes com relativa facilidade. Estavam, porém, enfrentando dificuldades pessoais e pressões sociais que mesmo as pessoas mais próximas desconheciam. O primeiro, S.C.R. que cometeu um ato mais planejado. sofria com sintomas de uma depressão e recebia acompanhamento médico. Suicidou-se um dia antes da semana de provas. Não deixou nenhum bilhete nem qualquer pista sobreo que foi o estopim da decisão de se matar. Desolado, seu pai o descreveu com ternura no Facebook: “Amado, doce, sensível inteligente, aplicado, exigente, articulado, carinhoso, protetor, amigo, fiel, engajado, questionador e com um olhar para as questões do nosso mundo que não tenho palavras para explicar.” O segundo, que tinha um irmão gêmeo. foi mais impulsivo e não dava sinais preocupantes de que poderia se matar. Tudo aconteceu de repente, depois de uma festa, na madrugada de sábado para domingo, 22. O deflagrador do suicídio foi uma desilusão amorosa, depois de ter visto a namorada com outro garoto. Ele chegou em casa e, sem dar nenhuma pista do que faria a seguir, saltou do oitavo andar. Diferentemente do primeiro caso, os pais não se manifestaram publicamente.

A direção da escola tomou a decisão sensata de abordar o assunto de forma direta e está acolhendo seus alunos mais vulneráveis psicologicamente, além de ter planejado diversas ações preventivas depois que os casos aconteceram. Professores e funcionários receberam treinamento e foram estabelecidos espaços de diálogo para todas as turmas. Para as classes de terceiro ano do ensino médio, as aulas foram suspensas no dia 23 e no dia 24 foram organizados encontros para conversa e reflexão, além de ações de acolhimento. A escola diz que está preparada para ajudar os alunos no enfrentamento do luto. Com 74 anos de existência, o Bandeirantes tinha registrado, até então, dois casos de suicídio, um há 15 anos e outro há 30 anos.

“A gente está recolhendo os escombros, a escola está realmente afetada e nosso trabalho de acolhimento agora é como um atendimento de emergência”, explica a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, responsável pelo programa de prevenção pós-suicídio no Bandeirantes. A escola tinha chamado Karina para lidar com o luto do primeiro aluno, morto no dia 10 de abril, e quando ia implantar seu programa aconteceu o segundo caso. Houve um grande número de pais pedindo mais informações. “O suicídio é um ato de comunicação. O mais importante é não negar o fato, a negação do sofrimento é a causa maior de perturbação”, diz Karina. “O que provoca mais problemas são as elucubrações e as coisas que são faladas.

A dura realidade é que as pessoas ficam sem chão. Como a escola vai lidar com a ausência desses alunos que de uma hora para outra se tomaram muito presentes? Toda a escola, a direção, os professores, os alunos têm tentado digerir o que é muito indigesto.” Segundo ela, muitas escolas enfrentam o problema com seus alunos, mas evitam qualquer divulgação. Desde que começou a trabalhar com o Bandeirantes, ela já foi procurada por oito escolas interessadas em seus serviços – em palestras de esclarecimento para pais e em treinamento de grupos de apoio. Uma das recomendações da OMS é não divulgar detalhes sobre os métodos de realização do suicídio para não influenciar pessoas mais vulneráveis.

Quem teve a dolorosa experiência de perder uma filha dessa forma foi a dona de casa Terezinha Máximo, de 45 anos. Sua caçula Marina se suicidou em março do ano passado, aos 19 anos. A jovem, que estudava filosofia na Universidade Federal do ABC, estava em tratamento contra depressão, mas mesmo com esse apoio psicológico e com a ajuda da família e dos amigos sucumbiu ao sofrimento. “A gente fica com uma série de perguntas, uma série de porquês e fica pensando no que pode ter feito de errado”, afirma Terezinha. Marina era uma menina alegre que passou por uma intensa mudança de humor a partir dos 17 anos. “No começo achávamos que fosse TPM, problemas de adolescente que ficariam para trás, mas a situação se agravou”, lembra Terezinha. Agarota passou a fazer tratamento psiquiátrico e a tomar medicação, mas isso não impediu que ela passasse a se automutilar, um sinal de alerta em muitos processos suicidas. Em certo momento, começou a dizer que não queria continuar daquela forma. “A pior parte de tudo isso é reaprender a viver sem a pessoa”, afirma Terezinha. Ela e o marido Joseval, que têm outro filho de 27 anos, montaram um blog e coordenam hoje um grupo de apoio para ajudar pessoas a se recuperar do luto do suicídio. “Se eu tivesse a chance de voltar no tempo para valorizar mais os sinais que ela estava dando –  não era só o problema da idade, mas um sofrimento real, eu voltaria”.

Sensação parecida é a do oficial de Justiça aposentado Ivo Oliveira Faria, de 59 anos. Sua filha Ariele, de 18 anos, se suicidou em março de 2014.

“Naquele dia, a gente almoçou normalmente num restaurante e a única coisa que ela fez de diferente foi pedir um suco de manga em vez de laranja”, lembra. “Ela não dava nenhum sinal de que pretendia tirar a própria vida, estava normal, tinha terminado o ensino médio e estava prestando vestibular para Direito”. Ariele era uma menina calada, mas muito afetuosa e maternal. Demonstrava grande voracidade de leitura e na escola tinha desempenho mediano.

Três meses antes de se suicidar ela comunicou o pai de que pararia de frequentar a Igreja Gnóstica Cristã. o que fazia desde a infância com a família. “Disse para ela que não haveria problema, que eu lhe daria todo o apoio”, afirma Faria. Antes do último ato, Ariele deixou um bilhete em que dizia que não aguentava mais, que sua decisão não tinha culpas e que gente morta não decepciona ninguém. “Entrei em parafuso depois da sua morte. Me falaram de um grupo de apoio aos sobreviventes do suicídio, o Vita Alere, e fui numa primeira reunião ainda em 2014”, diz. “Frequento o grupo desde então para lidar com meu luto.” Criar um grupo para lidar com o luto foi o que fez o geógrafo cearense Tadeu Dote Sá, que perdeu a filha Bia, de 13 anos, em 2008. Tadeu criou o Instituto Bia Dote de Amor e Paz, onde são promovidas reuniões, palestras, rodas de conversas e muitas outras ações que ajudam na prevenção do suicídio. “Investimos no instituto como se fosse urna faculdade ou um carro que a gente daria para a Bia”, diz Tadeu.

A decisão de se matar sofre influências biológicas, psicológicas, sociais e culturais. A adolescência é um período de especial vulnerabilidade porque envolve mudanças hormonais, definições de personalidade, cobranças de desempenho, obrigando meninos e meninas a enfrentar um mundo em transformação. “O jovem está mais doente psiquicamente de um modo geral”, diz a psicóloga Karin Scavacini, que está à frente do Instituto Vita Alere de prevenção e reação pós­ suicídio. “Há uma dificuldade de aceitar a experiência da solidão e do sofrimento, baixa tolerância à frustração e uma obrigação de parecer de bem com a vida.” A ansiedade em relação ao desenvolvimento escolar e profissional tem afetado mais as novas gerações, sobretudo a partir do ensino médio e durante a universidade. No ano passado, houve pelo menos seis tentativas de suicídio entre alunos do quarto ano da Faculdade de Medicina da USP. “Em 90% dos casos de suicídio, a pessoa tinha uma doença psiquiátrica que pode ou não ter sido diagnosticada antes da morte”, afirma o psiquiatra Celso Lopes de Souza. “A coisa é mais complexa do que achar culpados únicos, causas únicas.” Para o psiquiatra. na maioria dos casos, a pessoa que se mata não quer morrer. Ela apenas quer renascer de uma situação difícil que está vivendo e que acha que nunca vai acabar. O psicólogo americano Edwin Shneidman, considerado o pai da suicidologia moderna, diz que o suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.

De acordo com a psicanalista Débora Damasceno, diretora da Escola de Psicanálise de São Paulo, os suicidas têm algo em comum: falta de perspectiva para o futuro. “O que os adultos precisam fazer é responsabilizar o jovem pela própria saúde mental. Isso acaba com a pressão de que ele não pode falar. Mas o adulto tem que estar disposto a ouvir”, afirma. Segundo ela, os adultos têm uma conduta protecionista com os jovens, o que faz com que a autonomia deles seja tirada. “A pergunta que o jovem tem que fazer é: ‘Eu estou conseguindo lidar com os meus sentimentos’? O impulso do suicídio não é do nada, é algo que vem acontecendo gradativamente”, explica. Débora também afirma que quando o adolescente não quer falar sobre suas questões é preciso observar sinais. “Se eles são comportados demais, não têm um comportamento de questionar a própria realidade e não pensam no futuro, essa não é uma conduta comum de um adolescente”, diz.

Uma das consequências mais dramáticas dos suicídios é o desconsolo e a desolação daqueles que ficam, principalmente os mais próximos. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que um suicídio afeta diretamente entre seis e dez pessoas. Algumas são contagiadas a ponto de também cometerem um ato final. Os sentimentos de quem conviveu intimamente com o suicida envolve culpa (“eu poderia ter feito alguma coisa”), vergonha (a ideia de que suicídio é um fracasso, uma covardia, e não se deve falar do assunto), impotência (por não ter conseguido fazer nada para evitá-lo) e falta de conhecimento (as profundas razões que levam alguém a se matar são um mistério). Acima de tudo. há uma grande dificuldade de respeitar o sentido da vida do outro e aceitar sua decisão.

 A IMPORTÂNCIA DE FALAR

Um dos trabalhos mais consistentes de prevenção ao suicídio no Brasil é realizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em 1962, que, nos últimos anos, tem aberto novos canais gratuitos de comunicação e ampliado sua capacidade de atendimento para todas as classes sociais, o que tem causado um grande aumento da demanda por seus serviços. Em 2017, o número de chamadas para o CVV duplicou, saltando de um milhão, em 2016, para dois milhões.

Dois eventos no ano passado – a série do Netflix “13 Reasons Why” e o jogo Baleia Azul -, justificam parte desse aumento, diz o porta-voz do CVV, Carlos Correia. Durante a exibição da série, as escolas entraram em pânico e se falou muito em bullying e suicídio. ” Mais adolescentes e jovens entraram em contato. “Os relatos que recebemos demonstram uma solidão muito grande e muita dificuldade de a pessoa compartilhar o que está sentindo”, afirma Correia. “Além de não julgarmos as pessoas pelo sofrimento, damos a oportunidade para ela fazer uma reflexão sobre a própria vida em um ambiente receptivo e amistoso”. Citando projeções da OMS, Correia diz que 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados com um esforço de prevenção adequado. A meta do Ministério da Saúde é diminuir em 10% os casos de suicídio no Brasil até 2020 – objetivo alinhado com o da Organização Mundial de Saúde. Ainda que a redução seja alcançada, o número permanecerá alto. Mudar esse quadro definitivamente depende de uma atenção maior às situações que fragilizam os jovens e tomam o sentimento de opressão maior que a vontade de viver.

 Uma opressão maior que a vida.2

A PREVENCÃO AO SUICÍDIO

AÇÕES COLETIVAS:

  • Tratamento de transtornos psiquiátricos, redução do acesso aos métodos suicidas, adequado manejo da informação sobre o tema nos órgãos de difusão de massa. (Organização Mundial da Saúde – OMS, 2014)
  • Oferecer psicoeducação sobre o fenômeno do suicídio e desenvolver um trabalho de prevenção.
  • Habilitar profissionais da saúde para lidar com o comportamento suicida
  • Incentivar programas de prevenção ao suicídio, dependência química e de álcool
  • Divulgar os sinais de alerta e fatores de risco.
  • Proporcionar reflexões sobre os mitos e pensamentos prejudiciais que ressaltam o estigma.

 Uma opressão maior que a vida.3

Fonte: Revista Isto é – Edição 2523

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 15: 10-20

20180104_191613

O Que Contamina o Homem

Tendo provado que os discípulos, ao comer sem lavar as mãos, não deviam ser considerados culpados de transgredir as tradições e imposições dos anciãos, Cristo passa a mostrar que eles não deveriam ser considerados culpados de ter feito nada que fosse, por si só, mau. Na primeira parte do seu sermão, Ele limitou a autoridade da lei, e assim mostrou a razão para o procedimento adotado. Considere:

I – A solene introdução a este sermão (v. 10): “Chamando a si a multidão”. A multidão tinha se afastado enquanto Cristo estava discursando para os escribas e fariseus. Provavelmente estes homens orgulhosos tinham ordenado que as pessoas se afastassem, não desejando falar com Cristo diante da multidão. Cristo devia satisfazê-los com uma conversa em particular. Mas Cristo tinha uma preocupação com a multidão. Ele logo dispensou os escribas e os fariseus, desviou-se deles e convidou a multidão para que fossem seus ouvintes: assim são evangelizados os pobres; e Cristo escolheu as coisas loucas e desprezíveis deste mundo. O humilde Jesus aceitou aquelas pessoas que os orgulhosos fariseus olhavam com desdém, e agiu dessa maneira para a humilhação dos fariseus. Ele se afasta deles por serem teimosos e impossíveis de serem ensinados, e se volta para as pessoas que, embora fracas, eram humildes e desejavam ser ensinadas. A elas, Ele disse: “Ouvi e entendei”. Nós devemos nos empenhar ao máximo para compreender aquilo que ouvimos da boca de Cristo. Não somente os intelectuais, mas também a multidão, as pessoas comuns, devem se esforçar em suas mentes para compreender as palavras de Cristo. Portanto, Ele as convoca para que entendam, porque o ensino que Ele iria apresentar agora era contrário às noções que tinham absorvido, como leite, dos seus mestres, e invalidava muitos dos costumes e usos ao quais eles se dedicavam, e enfatizavam. Observe que é necessária uma grande concentração da mente e uma clareza de entendimento para libertar os homens daqueles princípios e procedimentos corruptos nos quais eles foram criados, e aos quais foram acostumados durante muito tempo; pois neste caso, o entendimento normalmente é influenciado e corrompido pelo preconceito.

II – A verdade é apresentada (v. 11) em duas proposições, que eram opostas aos erros vulgares daquela época, e que, por isso, eram surpreendentes.

1.”O que contamina o homem não é o que entra na boca”. Não é o tipo nem a qualidade do nosso alimento, nem a condição das nossas mãos, que afetam a alma com alguma contaminação ou profanação moral. “O reino de Deus não é comida nem bebida” (Romanos 14.17), algo que contamina o homem, que por esta culpa se encolhe diante de Deus, que resulta em algo ofensivo a Ele, e que desse modo é inadequado para a comunhão com Ele. Aquilo que comemos de maneira irracional e sem moderação traz um resultado negativo, pois “todas as coisas são puras para os puros” (Tito 1.15). Os fariseus consideravam que a contaminação cerimonial era agravada pelo fato de alguém comer isto ou aquilo, e iam muito além do que a lei pretendia. Eles a sobrecarregavam com acréscimos de sua autoria, contra os quais o nosso Salvador dá testemunho. Ele pretendia, com isso, preparar o caminho para uma anulação da lei cerimonial a este respeito. Ele estava começando a ensinar os seus seguidores a não chamar nada de comum ou impuro; e se Pedro, quando recebeu a ordem de matar e comer, tivesse se lembrado dessas palavras, não teria dito: “De modo nenhum, Senhor” (Atos 10.13-15,28).

1.”Mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”. Nós somos contaminados, não pelo alimento que comemos sem lavar as mãos, mas pelas palavras que proferimos com um coração não santificado; é assim que a boca faz pecar a carne (Eclesiastes 5.6). Cristo, em um sermão anterior, colocou grande ênfase sobre as nossas palavras (cap. 12.36,37), e ali Ele tinha a intenção de reprovar e advertir aqueles que o criticavam; aqui, a intenção é reprovar e advertir aqueles que criticam os discípulos, e os censuram. Não são os discípulos que se contaminam com o que comem, mas os fariseus que se contaminam com o que falam deles, com desprezo e críticas. Aqueles que acusam os outros de transgredir os mandamentos dos homens, muitas vezes atraem uma culpa maior sobre si mesmos, por transgredirem a lei de Deus que trata dos julgamentos precipitados. Os que mais se contaminam são aqueles que se apressam a censurar a contaminação dos outros.

III – A ofensa que esta verdade gerou, e o relato que foi trazido a Cristo (v. 12). Os seus discípulos disseram-lhe: “Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram?” Em outras palavras: “O Senhor não previu que isto aconteceria com ‘essas palavras’, e não pensou que o fato de eles se enfurecerem mais ainda seria algo pior para o Senhor e para a sua doutrina?”

1.Não era estranho que os fariseus se ofendessem com esta verdade clara, pois eles eram homens repletos de erros e inimizades, enganos e maldades. Os olhos irritados não suportam a luz forte, e nada provoca mais os dominadores orgulhosos do que terem os seus erros a­ pontados por aqueles que a princípio tinham os olhos vendados, e que foram escravizados. Aparentemente os fariseus, que observavam as tradições com rigidez, estavam mais ofendidos que os escribas, que eram os seus professores; e talvez estivessem tão irritados com a última parte da doutrina de Cristo, que ensinava uma rigidez no controle da nossa língua, quanto com a primeira, que ensinava a indiferença a respeito da limpeza das mãos; os grandes defensores elas formalidades da religião normal­ mente desprezam imensamente a sua essência.

2.Os discípulos julgaram estranho que o seu Mestre dissesse algo que Ele sabia que iria ofender tanto aos fariseus. Ele não costumava fazer isso. Certamente, pensaram eles, se Ele tivesse imaginado o quanto isso seria provocador, Ele não teria dito isso. Mas Ele sabia o que estava dizendo, e a quem o dizia, e qual seria o resultado; e nos ensinou que, ainda que elevamos ser cuidadosos para não ofender aquele que é indiferente, não devemos, por medo de ofender, fugir de qualquer verdade ou dever: A verdade deve ser admitida, e o dever deve ser cumprido; e se alguém se ofender será por sua própria culpa. Este será um escândalo que não teremos gerado, mas apenas testemunhado.

Talvez os próprios discípulos hesitassem com as palavras que Cristo proferiu, as quais consideraram ousadas, e dificilmente reconciliáveis com a diferença que a lei de Deus colocava entre os alimentos puros e impuros; e, portanto, objetaram dessa maneira a Cristo, para que eles mesmos pudessem ter mais informações. Da mesma maneira, eles pareciam preocupados com os fariseus, embora estes tivessem discutido com eles; o que nos ensina a perdoar e a procurar o bem, especialmente o bem espiritual, dos nossos inimigos, perseguidores e caluniadores. Eles não queriam que os fariseus fossem embora descontentes com alguma coisa que Cristo tivesse dito, e, portanto, embora não desejassem que Ele se retratasse, esperavam que Ele explicasse, corrigisse e modificasse o que tinha dito. Os ouvintes fracos muitas vezes se mostram bastante solícitos a ouvir a mensagem de Deus. Já os ouvidos iníquos se ofendem com muita facilidade. Mas se nós agradarmos aos homens, ocultando a verdade e tolerando os seus erros e a sua corrupção, não seremos servos ele Cristo.

IV – A condenação sobre os fariseus e as suas tradições corruptas. Esta se mostra como a razão pela qual Cristo não se preocupou em ofendê-los; por­ tanto, os discípulos também não deveriam se preocupar porque eles eram uma geração de homens que detestavam ser modificados, e estavam destinados à destruição. A respeito deles, Cristo prevê duas coisas:

1.Que eles e suas tradições seriam desarraigados (v. 13): “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada”. Não somente as opiniões corruptas e as práticas supersticiosas dos fariseus, mas também a sua seita, os seus métodos, e a sua constituição, eram plantas que não tinham sido plantadas por Deus (as regras que professavam não eram instituições dadas por Deus, mas deviam a sua origem ao orgulho e à formalidade). Os judeus tinham sido plantados como uma “vide excelente”, mas agora que tinham se tornado a “planta degenerada” de uma “vide estranha”, Deus os renegou como não sendo ele sua plantação. Considere que:

(1) Na igreja visível, não é estranho encontrar plantas que o nosso Pai celestial não plantou. Está implícito que tudo o que é bom na igreja é plantação ele Deus (Isaias 41.19). Mas mesmo que o lavrador seja muito cuidadoso, o seu terreno irá produzir ervas daninhas, em maior ou menor quantidade, e há um inimigo que está ocupado semeando outras. O que é corrupto, embora sua existência seja permitida por Deus, não é de sua plantação. Ele só planta “boa semente no seu campo”. Portanto, não sejamos enganados, como se tudo o que encontramos na igreja devesse ser bom, e como se todas as pessoas e coisas, plantas que nós encontramos no jardim elo nosso Pai, fossem plantas dele. “Não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus” (veja Jeremias 19.5; 23.31,32).

(2) Aqueles que têm o espírito dos fariseus, que são orgulhosos, formais e dominadores, sejam quantos forem, e ela seita que forem, Deus não os reconhecerá como sendo da sua plantação. “Por seus frutos os conhecereis”.

(3) Estas plantas que não são ela plantação ele Deus, não estarão sob a sua proteção, mas deverão, sem dúvida, ser arrancadas. O que não é obra de Deus, se desfará (Atos 5.38). As coisas que não fazem parte das Escrituras murcharão e morrerão por si mesmas, ou serão devidamente destruídas pelas igrejas. De qualquer maneira, no Grande Dia, estas ervas daninhas que irritam e ofendem serão reunidas para o fogo. O que aconteceu com o farisaísmo e as suas tradições? Há muito tempo foram abandonados; mas o Evangelho ela verdade é grandioso e permanecerá. Ele não pode ser arrancado.

2.A ruína dos fariseus e dos seus seguidores – que admiravam os seus princípios (v.14).

(1)  Cristo diz aos seus discípulos que não se preocupem com os fariseus: “Deixai-os”. Em outras palavras: “Não conversem com eles, não se preocupem com eles; não cortejem seus favores, nem temam o seu descontentamento. Não se preocupem”. Embora eles estejam ofendidos, seguirão o seu caminho, e terão que sofrer as consequências ele suas decisões. Eles estão presos às suas próprias fantasias, e farão tudo à sua própria maneira, deixemo-los. Não procure agradar a uma geração de homens que não agradam a Deus (1 Tessalonicenses 2.15), pois eles não se contentarão com nada que não seja o domínio absoluto sobre as suas consciências. Eles estão “entregues aos ídolos”, como Efraim (Oseias 4.17), os ídolos inventados por eles; deixem que fiquem sozinhos, “quem está sujo suje-se ainda” (Apocalipse 22.11). A situação destes pecadores, que Cristo ordena que sejam deixados sozinhos, é verdadeiramente triste.

(2)  Jesus dá aos discípulos duas razões para isso. “Deixem-nos”, pois:

[1] Eles são orgulhosos e ignorantes; duas más qualidades que frequentemente se encontram, e que produzem um homem incurável na sua tolice (Provérbio 26.12). “São condutores cegos” que conduzem cegos. São profundamente ignorantes das coisas de Deus, e estranhos à natureza espiritual da lei divina; e além disso, são tão orgulhosos, que pensam ver melhor e mais longe do que qualquer outra pessoa, por isso assumem a responsabilidade de serem líderes dos outros, para mostrar aos outros o caminho para o céu, quando eles mesmos não conhecem nenhum passo do caminho; e, por conseguinte, aconselham a todos, e condenam aqueles que não os seguem. Embora sejam cegos, se tivessem admitido isso e tivessem vindo a Cristo para receber a cura para os seus olhos, poderiam ter visto; mas desdenharam a insinuação de alguma situação como esta (João 9.40): “Também nós somos cegos?” Eles tinham convicção de que eram guias dos cegos (Romanos 2.19,20), que eram vocacionados para isso e preparados para isso; que tudo o que diziam era um oráculo e urna lei. “Por isso, deixe-os em paz, a situação deles é desesperadora; não se intrometam com eles; vocês poderão provocá-los, mas nunca convencê-los”. Como era triste a situação da religião judaica, agora que os seus líderes estavam cegos, mostrando-se arrogantes e tolos, a ponto de serem obstinados e categóricos no seu comportamento, ao passo que as pessoas estavam tão entorpecidas a ponto de segui-los com uma fé e obediência cegas, e voluntariamente andarem” após a vaidade” (Oseias 5.11). Agora se cumpria a profecia (Isaias 29.10,14). E é fácil imaginar o que ocorre no fim de tudo isso, quando “os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam pelas mãos deles”, e o povo ama tal situação (Jeremias 5.31).

[2] Eles estão destinados à destruição, e em breve mergulharão nela: ”Ambos cairão na cova”. Este deve ser o fim, se ambos estão tão cegos – e ainda assim, ambos são tão ousados, aventurando-se adiante e sem perceber o perigo. Ambos serão envolvidos na desolação geral que se aproxima, e que atingirá os judeus, e ambos afundarão na destruição e na perdição eternas. Os condutores cegos e os seguidores cegos perecerão juntos. Nós sabemos que o inferno é o destino de quem ama e comete a mentira (Apocalipse 22.15). “O que erra e o que faz errar” serão submetidos ao julgamento de Deus (Jó 12.16). Observe, em primeiro lugar, que aqueles que, pela sua astúcia ardilosa, levam outros ao pecado e ao erro, não escaparão da destruição, nem mesmo com toda a sua astúcia e habilidade. Se ambos caem na cova, os condutores cegos cairão mais fundo e sofrerão o pior (veja Jeremias 14.15,16). Os profetas serão consumidos primeiro, e então as pessoas a quem profetizavam (Jeremias 20.6; 27.15,16). Em segundo lugar, o pecado e a ruína dos enganadores não irão representar nenhuma proteção àqueles que foram enganados por eles. Embora os guias desse povo o tenham feito errar, ainda assim “os que por eles são guiados são devorados” (Isaias 9.16), porque fecharam os olhos para a luz que deveria ter corrigido o seu erro. A queda dos dois juntos agravará a queda dos dois; pois aqueles que dessa forma aumentaram os pecados um do outro, aumentarão a ruína um do outro – este é um processo mútuo.

V – A orientação dada aos discípulos a respeito da verdade que Cristo tinha estabelecido (v. 10). Embora Cristo rejeite o ignorante decidido, que não se importa com a instrução, Ele pode se compadecer do ignorante que está desejoso de aprender (Hebreus 5.2). Se os fariseus, que anularam a lei, estavam ofendidos, que continuem ofendidos; mas “muita paz tem os que amam a lei de Deus”, pois nada os ofenderá; de uma maneira ou de outra, a ofensa será removida (Salmos 119.165).

Aqui temos:

1.O desejo dos discípulos ele receber mais orientação sobre esse assunto (v. 15). Nesse pedido, assim como em muitos outros, Pedro foi o orador; os outros discípulos, provavelmente, o incentivavam a falar, ou deixavam claro que estavam de acordo: “Explica-nos essa parábola”. O que Cristo tinha dito estava claro; mas, como não estava de acordo com as noções das quais eles tinham sido impregnados, embora não o contradissessem, ainda assim classificavam esse importante ensino como uma parábola, e não conseguiam compreender. Considere:

(1) A compreensão fraca pode transformar verdades claras em parábolas, e procurar complicar o que é simples. Os discípulos frequentemente faziam isso, como em João 16.17. Até mesmo um gafanhoto é um peso para um estômago delicado; e os bebês, em termos de entendimento, não conseguem tolerar e digerir um alimento sólido.

(2) Quando uma mente frágil tem dúvidas a respeito ele alguma palavra de Cristo, um coração justo e uma mente disposta irão procurar orientação. Os fariseus estavam ofendidos, mas não o tornaram público. Detestando ser transformados, eles detestavam ser instruídos; mas os discípulos, embora ofendidos, procuraram a satisfação, atribuindo a ofensa não à doutrina transmitida, mas à superficialidade da sua própria capa cidade.

2.A repreensão que Cristo lhes fez pela sua fraqueza e ignorância (v. 16): “Até vós mesmos estais ainda sem entender?” Não importa a quantos Cristo ensine e ame; Ele repreende a todos, sempre visando o bem de cada um. Observe que são realmente muito ignorantes aqueles que não compreendem que a contaminação moral é muito pior e mais perigosa do que a cerimonial. Duas coisas agravam a sua ignorância:

(1).  O fato de que eram os discípulos de Cristo: ”Até vós mesmos estais ainda sem entender?” Em outras palavras: ”Até vocês, que eu admiti em um círculo de tanta intimidade comigo, são tão pouco experientes na palavra da justiça?” Note que a ignorância e os enganos daqueles que professam a religião, e desfrutam os privilégios de serem membros de uma igreja, representam, com justa razão, uma tristeza para o Senhor Jesus. “Não é de admirar que os fariseus, que não sabem nada sobre o reino do Messias, não entendam esta doutrina. Mas vocês, que ouviram falar dela, e a aceitaram, e a pregaram aos outros, não podem ser estranhos ao espírito e ao gênio dela”.

(2).  O fato de que eles tinham sido, já por algum tempo, alunos de Cristo. “Vocês ainda não entendem, mesmo depois de estarem tanto tempo recebendo os meus ensinamentos?” Se eles tivessem começado a estudar na escola de Cristo na véspera, a situação seria outra, mas o fato de terem sido, por tantos meses, os ouvintes constantes de Cristo, e ainda não conseguirem entender, era uma grande reprovação para eles. Cristo espera de nós alguma proporção de conhecimento, graça, e sabedoria, conforme o tempo e os meios de que dispomos. Veja João 14.9; Hebreus 5.12; 2 Timóteo 3.7,8.

3.A explicação que Cristo lhes deu sobre essa doutrina da contaminação. Embora Ele reprove a ignorância dos discípulos, Ele não os abandona, mas se compadece deles, e os ensina, como em Lucas 24.25-27. Aqui, Ele nos mostra:

(1). Que nós corremos pouco risco de contaminação por aquilo “que entra pela boca” (v. 17). Um apetite desordenado, a falta de moderação e os excessos na alimentação nascem do coração e contaminam, mas o alimento, em si, não contamina, como supunham os fariseus. Daquilo que existe de sujeira e contaminação no nosso alimento, a natureza (ou melhor, o Deus da natureza) providenciou uma maneira de nos limpar; o alimento “desce para o ventre e é lançado fora”, e não sobra nada em nós, exceto a nutrição pura. Nós somos feitos e conservados de uma forma milagrosa e aterrorizante; e assim as nossas almas são mantidas vivas. A capacidade de expelir é uma necessidade do corpo, como qualquer outra, para a expulsão daquilo que é supérfluo ou nocivo; assim, alegremente a natureza se transforma, para o seu próprio bem; pela alimentação, nada contamina. Se comermos sem lavar as mãos, ou se algo impuro se misturar com o nosso alimento, a natureza o irá separar e expelir, e isso não representará para nós contaminação. Lavar-se antes de comer pode ser uma questão de asseio, mas não de consciência; e cometeremos um grave erro se confundirmos higiene com prática religiosa. O que Cristo condena não é o procedimento em si, mas a opinião que se constrói sobre ele, como se o alimento nos tornasse agradáveis a Deus (1 Coríntios 8.8); o cristianismo não se apoia em práticas desse tipo.

(2). Que nós corremos grande risco de contaminação por aquilo que “sai da boca” (v. 18), e que procede da abundância do coração. Compare esse texto com Mateus 12.34. Não existe contaminação naquilo que recebemos pela generosidade de Deus; a contaminação surge nas consequências da nossa corrupção. Aqui, temos:

[1]. A origem corrupta daquilo que sai da boca: “Procede do coração”. Aí está a origem e a fonte de todo pecado (Jeremias 8.7). Ê o coração que é tão desesperadamente perverso (Jeremias 17.9); pois não existe um pecado em uma palavra ou obra que não estivesse primeiro no coração. Ali está a raiz da amargura, que traz tristeza e infelicidade. O íntimo de um pecador são verdadeiras maldades (Salmos 5.9). Toda a maldade dita nasce do coração, e contamina; do coração corrompido vem a comunicação corrompida.

[2]. Algumas das tendências corrompidas que jorram dessa fonte são especificadas. Embora nem todas saiam da boca, todas saem do homem e são os frutos daquela maldade que está no coração, e ali são forjadas (Salmos 58.2).

Em primeiro lugar, “os maus pensamentos” – pecados contra todos os mandamentos. Por isso Davi coloca os pensamentos vãos em oposição à lei (Salmos 119.113).

Estes são os primogênitos da natureza corrupta, o início da sua força e aqueles que mais se assemelham a ela. Estes, como filhos e herdeiros, permanecem na casa e se alojam em nós. Existe uma grande quantidade de pecados que começam e terminam no coração, e não vão além dele. As fantasias e imaginações carnais são maus pensamentos, maldade na concepção, planos e objetivos maldosos, e maquinações que visam o mal dos outros (Miquéias 2.1).

Em segundo lugar, as “mortes” – pecados contra o sexto mandamento. Estes vêm de uma maldade no coração contra a vida do nosso irmão, ou um desprezo por ela. Por isso, daquele que odeia o seu irmão, diz-se que é homicida (1 João 3.15); ele também está sujeito ao tribunal de Deus. A guerra está no coração (Salmos 55.21; Tiago 4.1).

Em terceiro lugar, “os adultérios e a prostituição” – pecados contra o sétimo mandamento. Estes vêm do coração devasso, impuro e carnal; e a luxúria que ali reina, ali é concebida, e dá à luz estes pecados (Tiago 1.15). O adultério existe primeiro no coração, e depois no ato (cap. 5.28).

Em quarto lugar, “os furtos” – pecados contra o oitavo mandamento: trapaças, injustiças, roubos e todos os contratos ofensivos; a origem de tudo isso está naquele coração que é “exercitado na avareza” (2 Pedro 2.14), e está nas riquezas (Salmos 62.10). Acã cobiçou, e então tomou (Josué 7.20,21).

Em quinto lugar, “os falsos testemunhos” – pecados contra o nono mandamento. Este pecado nasce de uma combinação entre a falsidade e a cobiça, ou falsidade e maldade, no coração. Se a verdade, a santidade e o amor, que Deus exige no íntimo, reinassem como deveriam, não haveria falsos testemunhos (SIalmos54.6; Jeremias 9.8).

Em sexto lugar, “as blasfêmias”, ou seja, falar mal a respeito de Deus, que é o pecado contra o terceiro mandamento; falar mal do nosso próximo, algo que é contra o nono mandamento. Isto nasce de um desprezo e desdém tanto em relação a Deus como aos nossos irmãos no nosso coração. E dali que procede a blasfêmia contra o Espírito Santo (cap. 12.31,32); este é o transbordamento da amargura interior

“São essas coisas que contaminam o homem” (v. 20). Observe que o pecado contamina a alma, deixando-a feia e abominável diante dos olhos de um Deus puro e santo; inadequada para a comunhão com Ele, e para desfrutar a presença dele na nova Jerusalém, onde não entrará coisa alguma que contamine e cometa abominação e mentira. A mente e a consciência são contaminadas pelo pecado, o que torna todo o resto igualmente contaminado (Tito 1.15). Esta contaminação pelo pecado era sugerida pela contaminação cerimonial que os mestres judeus acrescentaram, mas não compreenderam. Veja Hebreus 9.13,14; 1 João 1.7.

Estas, portanto, são as coisas que devemos evitar cuidadosamente, assim como qualquer aproximação delas, em vez de enfatizar a limpeza das mãos. Cristo ainda não havia rejeitado a lei da distinção dos alimentos (o que não foi feito até Atos 10), mas a tradição dos anciãos, que tinha sido adicionada à lei; e, dessa maneira, Ele conclui: “Comer sem lavar as mãos” (que era o problema em questão), “isso não contamina o homem”. Se o homem lavar as mãos, isto não o faz melhor diante de Deus; se não lavar, isto não o faz pior.

GESTÃO E CARREIRA

RECRUTE COM Q. I.

Avaliar a capacidade cognitiva de candidatos ajuda a selecionar melhor.

Recrute com Q.I.

 Obcecado por autopromoção e auto louvação, Donald Trump tuitou, em outubro passado, ter quociente de inteligência (Q.I.) mais alto que seu secretário de Estado, Rex Tillerson. Trump já havia lembrado dessa gasta medição em 2013, quando também se gabou de ter Q.I. maior que os dos ex-presidentes Barack Obama e George W. Bush. O Q.I. já passou por todas as interpretações erradas possíveis – muitos rejeitam completamente esse tipo de medição –, e Trump exagera sua importância. Há muito tempo Q.I. não é a principal definição de inteligência. Mas eis que um estudo publicado na revista científica Industrial and Organizational Psychology constata que recrutadores de empresas deveriam incluir essa medição em seu trabalho. Segundo o artigo, o habitual hoje é que o Q.I. seja completamente ignorado, em favor de traços de personalidade e conhecimento técnico. Para os autores, isso impede a devida mensuração de uma característica básica para um bom desempenho profissional – a capacidade cognitiva, de apreensão e reconhecimento de padrões, mudanças e informações. Essa capacidade, fundamental para assimilar conhecimento, é parcialmente medida pelo Q.I.

Isso não significa que o Q.I. deva direcionar o recrutamento – apenas que precisa ser considerado. Estudo publicado pela americana Harvard Business School destaca os três traços conjuntos que devem nortear a escolha de um candidato: habilidade cognitiva (outra denominação para Q.I.), habilidades sociais e energia para agir.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

Matéria cinzenta é maior entre os que são fisicamente mais ativos.

Envelhecimento saudável (2)

Atividades cotidianas, como faxina, levar os cães para um passeio e cuidar do jardim, além da prática de atividades físicas, estão associadas a uma maior quantidade de matéria cinzenta no cérebro de idosos, de acordo com um estudo publicado recentemente no Journal of Gerontology: Psychological Sciences.

Mais matéria cinzenta no cérebro pode ser algo estratégico tanto para tarefas cognitivas quanto na motricidade, passando pela linguagem acurada, o aguçamento dos sentidos e o processamento saudável das emoções. Medida de saúde, ela começa a diminuir na vida adulta e tal diminuição é associada a disfunções cognitivas, demência e doença de Alzheimer.

Na pesquisa em questão, os cientistas usaram acelerômetro para medir a atividade de 262 adultos mais velhos, que ficaram com o aparelho de 7 a 10 dias seguidos. Ressonância magnética funcional também foi outro recurso utilizado pelos pesquisadores junto aos voluntários do estudo.