PSICOLOGIA ANALÍTICA

O COMPLEXO DE ÉDIPO NA MODERNIDADE

O Complexo de Édipo e outras essências psicanalítica frente à nova estrutura familiar.

O complexo de Édipo na modernidade

Na opinião de Ana Maria Bittencourt, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), do ponto de vista psicanalítico, um dos problemas da atualidade acerca dos conceitos freudianos reside no estabelecimento do Complexo de Édipo e na interdição da sexualidade da criança diante das recentes modificações da estrutura familiar. Ela cita como exemplo a clássica imagem do menino apaixonado pela mãe. “Se não existe um homem que diga, ‘sua mãe é minha mulher, você não vai realizar o ato incestuoso com ela’. Se não houver a presença deste terceiro, a criança pode criar a fantasia de que todos os desejos dela podem ser realizados. Logo, tem que haver aquela pessoa que vai interditar”, explica.

Júnia Vilhena, professora do Departamento de Psicologia da PUC- Rio, também lembra que o Complexo de Édipo deve ser entendido como uma interdição que algum agente provoca na relação mãe e filho, algo que rompa a simbiose entre bebê e mãe. Segundo ela, que é também Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPES) da PUC Rio, o papel de agente interditor pode ser desempenhado por pessoas variadas, ou até mesmo instituições. Como exemplo, ela afirma que “essa função pode ser exercida por uma vizinha, um terceiro elemento que desempenha a função de interditor, pode ser um homem ou até o trabalho”.

HOMOSSEXUALIDADE

Um exemplo claro do quão diferente é a conjuntura histórica que se apresenta à psicanálise hoje, se comparada àquela de Freud, é a polêmica em torno do direito de casais de homossexuais de adotar uma criança. Como ocorreria o processo de identificação com um pai ou uma mãe que tenha desejo por um objeto do mesmo sexo? De que maneira a sexualidade deste indivíduo seria influenciada?

Para Ana Maria Bittencourt, em primeiro lugar, deve-se chamar a atenção para o fato de que a psicanálise não trabalha com o genérico. “Dito isto, é possível que, na singularidade de um determinado casal homossexual, um funcione como aquele que vai se oferecer àquele bebê como o objeto de desejo incestuoso – que vai pegar no colo, dar banho, mamadeira – e o outro vai funcionar como o interditor”, afirma. E conclui: “Eu acho que, de fato, ainda não há tempo de observação para que se possa responder a essa questão”.

Segundo Sara Menezes Cortez, psicanalista da Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro (Aperj Rio 4), a interdição ocorre de formas distintas nas diferentes estruturas sociais. No caso de uma mãe solteira, por exemplo, o Édipo vai se construir na “figura masculina que ela tem dentro dela, no pai, no avô. E no caso de um casal de lésbicas, a construção do Édipo vai se dar na pessoa que desempenha a figura masculina’. Ela ressalta que muito mais do que na pessoa, em si, essas construções se dão na função exercida.

Na opinião da psicanalista e professora da UFRJ, Marci Dória, a reflexão sobre os casais homo parentais passa necessariamente pela compreensão de que todo ser humano, independente da sua anatomia, tem uma possibilidade bissexual intrínseca que pode ser exercida, condição muitas vezes explorada por crianças de ambos os sexos – o que ocorreria em um contexto em que pesam as leis civilizatórias, os costumes, de cada cultura. “Quando você transgride muito uma certa lei organizadora, de um certo caminho civilizatório, as consequências podem ser muito grandes, como um pai que tem relação sexual com uma filha ou uma mãe que tem relações sexuais com um filho”, exemplifica. Nesse sentido, a transgressão ocorreria também em casais heterossexuais e não apenas em casais homo parentais. Deve-se analisar, por exemplo, se o casal está bem estruturado, psiquicamente organizado, se ele sabe lidar com as diferenças e se ele não determina que a criança tem que ser como ele é. “Não acho que a questão esteja na homo parentalidade, mas na maneira como cada um é estruturado. É uma questão de como se lida com a diferença, com a alteridade, com o reconhecimento de que o outro é diferente de você, mesmo que seja um filho que nasceu de você”, defende.

Ela ressalta, entretanto, que não se trata de diminuir a complexidade da questão. “Há consequências? É lógico que sim. Provavelmente em uma sociedade onde o mais natural – se é que a gente pode falar em naturalidade, pois desde que o homem entra na civilização a natureza dele tem a ver com tradição, valores e leis civilizatórias – tudo que foge disso gera um questionamento, causa uma polêmica e o indivíduo terá que fazer um esforço para dar um sentido à situação, para se referir àquilo, àquela situação, de uma certa maneira’.

Embora a questão da interdição, do conflito, seja uma realidade na cultura e, portanto, atual, Celmy Correa, membro efetivo da SBPRJ e psicanalista de criança, lembra que o conceito de Complexo de Édipo é datado, uma vez que foi descrito por Freud com base na família burguesa do século 19. Ela afirma que para o Édipo, e de forma geral para a psicanálise, os conflitos de ambivalência são muito importantes na medida em que são questões humanas.

Se por um lado as novas organizações familiares modificam a forma de manifestação do Édipo e alteram de certa maneira alguns conflitos humanos, por outro, é preciso ressaltar que não existem estudos que demonstrem modificações na sexualidade, agora entendida como manifestação das opções sexuais, em crianças criadas em diferentes formas familiares. “Não necessariamente uma criança criada por esse casal homo genérico terá sua sexualidade comprometida, ou será pervertida”, afirma.

A suposição de que a criança criada por casais homossexuais pode apresentar alterações sexuais é inclusive um grande preconceito que afeta ainda mais os casais homossexuais masculinos, explica Júnia Vilhena. “A homossexualidade feminina é muita mais permitida do que a masculina, é mais fácil para um casal de lésbicas adotar uma criança do que para um casal de homens. Isto porque se faz muita frequentemente uma associação da homossexualidade masculina com a pedofilia”, diz.

As próprias motivações das escolhas como objeto de seu desejo por uma pessoa do mesmo sexo ou uma do outro sexo devem ser questionadas. “Essa é uma questão que a psicanálise ainda não conseguiu responder de maneira satisfatória, inclusive em função do preconceito calcado no medo que rodos nós temos de tomar contato com a nossa própria condição bissexual e, portanto, de tomar contato com fantasias e desejos homossexuais que todos nós podemos ter”, defende Ana Maria Bittencourt.

A analista defende que “a psicanálise precisa levar em conta esse preconceito na hora de refletir sobre as possíveis influências dessas novas configurações na subjetividade de uma criança para poder responder se determinadas patologias serão provocadas pelo fato de haver um casal homossexual ou o quanto isso pode se dever a pressão que tal união pode sofrer dentro de uma sociedade onde ele está inserido”, defende. Bittencourt acrescenta, ainda, que “a repressão faz com que nós alijemos os homossexuais, pois eles são uma ameaça ao tradicional. Eles representam algo que quebrou com a nossa tradição, com a família constituída por pai, mãe e filho”. E pontua: “a homossexualidade não é uma categoria e não se pode patologizá-la”.

 OUTRAS FORMAÇÕES

Se falta perspectiva histórica para analisar os possíveis efeitos da união entre homossexuais e o desenvolvimento da sexualidade do indivíduo neste contexto, outras estruturas familiares bem distintas daquelas encontradas nos pacientes analisados por Freud já se consolidaram – mas nem por isso são plenamente compreendidas. Filhos de pais separados, de pais e mães solteiros, bebês de proveta: hoje se apresenta à psicanálise uma vasta gama de novas considerações vinculares que ela se vê obrigada a levar em consideração.

Na opinião de Júnia Vilhena, os novos laços que começam a ser tecidos na contemporaneidade interferem de maneira importante na organização familiar. Um exemplo bem peculiar das novas categorias de parentesco seria o “ex-irmão”, que surgiria quando um casal que já possuía filhos com outras pessoas se une. Essas crianças, embora não tenham relações consanguíneas, acabam se tornando irmãos postiços e, quando ocorre uma separação elas, viram “ex-irmãos”. A rígida fronteira do incesto, nesse caso, torna-se menos precisa ao passo que existem envolvimentos afetivos, mas não ligação de sangue. A questão na realidade é tão singular que Celmy Correa lembra que em culturas descritas por antropólogos “o incesto entre mãe e filho, pai e filha, não é considerado incesto, ele é permitido. Em muitos casos, o que é barrado é a relação, por exemplo, com o irmão da mãe, ou o tio, ou um avô – dependendo de toda a mitologia que estrutura aquela cultura, que a organiza. Dessa forma, diferentes culturas podem apresentar uma situação edípica aparentemente distinta da nossa cultura ocidental, da organização burguesa”.

Quanto à incerteza que paira sobre o grau de influência dessas transformações, a psicanalista de crianças e adolescentes da SBPRJ Teresa Mancini concorda que ainda é necessário observar melhor as novas organizações da família. Entretanto, ela acredita que “a constituição da identidade se fará de uma maneira mais fácil dentro de uma estrutura familiar harmônica. Harmônica no sentido de ter um casal, ter pai e mãe com papéis definidos, ter uma relação afetiva bem vivida, onde a criança tenha o lugar de filho, o pai lugar de pai e a mãe lugar de mãe”. Para Mancini, essa estrutura, de certa maneira “tradicional”, acabaria favorecendo o desenvolvimento da identidade, agindo como um elemento facilitador.

Quanto às diferenciações de classe social, é interessante observar que determinadas situações podem ser bem características e dessa maneira podem manter alguma ligação com o conceito de sexualidade infantil. Sara Menezes Cortez considera que é possível identificar, nos extremos sociais – em famílias muito ricas ou muito pobres -, uma dificuldade na constituição da subjetividade infantil por conta dos longos períodos em que as crianças muitas vezes permanecem afastadas dos pais. Cortez considera também que situações como o abandono podem facilitar uma identificação por parte da criança com figuras como traficantes, por conta da falta de pais exercendo os seus papéis na construção de sua subjetividade. Os traficantes, no caso, passam a exercer para a criança o papel do pai, e uma das razões para que isso aconteça, de acordo com a especialista, é a proteção que esse traficante acaba, em alguns casos, dando às crianças. Teresa Mancini, por sua vez, considera que realmente haja muitas vezes, por parte de crianças, a identificação paterna em traficantes, mas ela acredita que esta situação é decorrente não de uma razão social, mas sim de um contexto familiar no qual a criança está inserida.

Na opinião de Marci Doria, se a princípio não se pode negar que mudanças na estrutura familiar ocorreram, não se pode afirmar também se o foi para melhor ou pior. Ela questiona inclusive a suposição de que, antes, as famílias eram mais estáveis. ”Às vezes, havia urna mãe profundamente infeliz naquela relação, totalmente amargurada e que amargurava os filhos. Ou um pai que escava em casa, mas que na verdade era muito ausente, que tinha outras famílias escondidas ou outras relações”, defende a especialista.

Doria chama a atenção, ainda, para alguns excessos que ocorreram com a consolidação da psicologia infantil, no processo de reconheci­ mento da criança enquanto sujeito. “A psicologia começou a dizer que se masturbar era normal e que isso fazia parte da descoberta do prazer do próprio órgão, das fantasias, do lidar com o próprio corpo e isso não seria algo a ser punido. No entanto, a partir daí, muitos pais acharam que tinham que ensinar o filho a se masturbar, por exemplo. Nessas circunstâncias é criado um excesso em função de um certo caráter incestuoso, algo complicado – bem diference do indivíduo descobrir as expressões do seu corpo”, explica.

A professora acrescenta que as crianças devem ser ouvidas, mas em alguns momentos criaram-se situações às vezes absurdas em que os adultos não assumiriam mais certas decisões. “Como a criança pode resolver onde é que ela quer escudar ou se ela pode parar de estudar? Os pais delegaram as decisões e as consequências das decisões para os filhos, que, por sua vez, não podem arcar com certas decisões ou consequências. Então, ocorrem determinados excessos e se começa a viver numa espécie de civilização paranoica, em que não se pode fazer nada”.

RELAÇÕES OBJETAIS

A despeito das modificações sofridas pela sociedade e dos desafios decorrentes que se impõem à psicanálise, na opinião de Ana Maria Bittencourt, os conceitos fundamentais de Freud sobre a sexualidade infantil não se modificaram. ”As postulações freudianas de que existe uma sexualidade infantil, de que o recalque desta sexualidade ocupa um lugar inconsciente e essa sexualidade recalcada produz sintomas não sofreram mudanças conceituais”, afirma.

Segundo a especialista, mesmo levando-se em consideração as diferenças entre as várias correntes psicanalíticas que se desenvolveram desde Freud, existe um ponto que as une: o trabalho com o inconsciente. “Faz parte da sexualidade infantil ter o desejo incestuoso, e esse ponto fundamental não mudou. Eu não conheço uma corrente que o negue, pois negar essa questão é negar a existência do inconsciente”, pontua.

Entretanto, se por um lado pode-se afirmar que a teoria se manteve, por outro, não se pode negar que ela sofreu acréscimos importantes. “A psicopatologia tem a ver com toda uma história e, evidentemente, a cultura em que estamos inseridos produz determinados sintomas que antes não eram expressos com tanta abundância quanto outros. Exemplos são os problemas das adições, dos distúrbios alimentares, das doenças psicossomáticas”, diz

Tais patologias, conforme explica Bittencourt, diferem das situações neuróticas à medida que se caracterizam por uma pobreza de processos simbólicos. Ela cita como exemplo o caso de jovens levados ao consultório por suas mães em função de uma bulimia e que não necessariamente, têm um sofrimento psíquico.  “Esse indivíduo tem uma queixa apenas de que vomita e de que isso é muito desconfortável para ele. Essa situação muda um pouco a técnica, pois o analista tem que partir do princípio de que neste tipo de patologia não necessariamente se está trabalhando com um recalcado. Pode-se estar diante de um outro tipo de defesa, com outro tipo de explicação para a formação desse sintoma – o que pode ter relação, por exemplo, com o que certos autores consideram como sendo falhas ambientais. Ou seja, são doenças que não são produzidas por um recalque da sexualidade, mas por uma falta da capacidade que a pessoa tem de ter uma experiência psíquica do que está se passando. A experiência passa direto para o corpo. O corpo fala de algo de que o psiquismo não consegue expressar de outro modo”, afirma. Para ela, estas seriam as “doenças da contemporaneidade” ou “patologias do vazio”. “O tipo de cultura narcísica em que estamos inseridos, com essa valorização do corpo, com essa hiper­sexualização presente das crianças, com essa sociedade muito consumista, que dá a objetos valores muito grandes, favorece que este tipo de patologia floresça mais hoje, possivelmente, do que naquela época de Freud”, diz.

A tentativa de dar conta de tais quadros, tendo em vista possíveis falhas ambientais, deu origem justamente à teoria das relações de objeto, que para muitos – entre eles Bittencourt – seria um desenvolvimento das teorias freudianas. “Winnicott, principalmente, foi um dos autores que partiram da compreensão de que existem determinados sintomas que não mais são devido a um conflito intrapsíquico relacionado às pulsões sexuais, aos recalques e a uma instância superegóica. O sintoma neurótico se daria no fundo por um conflito entre a sexualidade e uma instância censora que vai dizer que aquele desejo sexual é proibido”, destaca a psicanalista.

Bittencourt explica que, em síntese, os teóricos das relações de objeto propõem que determinadas formações sintomáticas vão se dever a uma falha ambiental, ou seja, a uma falha do objeto, do outro, em poder funcionar como um esquema de proteção às pulsões. “Digamos assim: é suposto que a esse objeto, a mãe, por exemplo, caiba ter uma função de proteger o eu infantil de um excesso pulsional. Então, se o objeto falha em atender a essa necessidade de proteção, aquela excitação que o eu infantil experimentou torna-se uma condição traumática. Há uma necessidade de que o objeto funcione com essa função de acolhimento, de dar um envolvimento àquele eu infantil para que ele não se transborde em uma excitação excessiva”, resume.

A psicanalista acrescenta, ainda, que tais teóricos propuseram um tipo de abordagem, uma técnica, uma prática clínica que supre essa limitação daquele paciente de estabelecer a neurose de transferência. “Eles acharam que esse trabalho daria conta de cercas patologias que Freud, com os instrumentais de que ele possuía na época, acreditou que não poderia abranger”, pontua. Ela acrescenta ainda que “o fato de uma pessoa ter tido falhas no ambiente precoce não significa que ela não tenha problemas relacionados à sexualidade. E os dois níveis de situação podem aparecer no material de uma determinada sessão psicanalítica”.

SEXUALIDADE HOJE

Na opinião de Marci Doria, ocorreu uma cerra ampliação conceitual do conceito de sexualidade. “Isso ampliou toda discussão e base teórica sobre o assumo, o que certamente implicou numa melhora de atendimento. Hoje já se sabe uma série de mecanismos relacionados ao desenvolvimento de psicoses que afetam o nosso relacionamento com o outro. Isto certamente torna melhor a nossa escuta e abre a possibilidade de operar analiticamente com pacientes muito mais graves. Antigamente não se tinha isso. Além disso, a psicanálise atualmente não seria só para ricos, já que existe uma série de trabalhos sociais que visam a levá-la a diversas comunidades carentes”, destaca.

Para Doria, as mudanças no que diz respeito à sexualidade infantil foram fundamentalmente técnicas e, nesse sentido, o psicanalista deve ver o que está disponível em cada paciente em termos de recursos, vocabulário, formas de dar sentido ao que está se passando. “É necessário verificar o universo cultural e os valores de cada pessoa porque aquele valor teve certamente algum efeito na vida dela. Cada pessoa tem um inconsciente, mas ele se dá de forma singular. Não é o conceito que muda, mas o modo de operá-lo. Tudo dependerá do objeto com o qual se lida e o jeito de lidar com ele. No tratamento de crianças, por exemplo, é comum a utilização de jogos e de brincadeiras de mãe e filho, enquanto que em adultos são utilizados psicodramas”, argumenta.

A ORIGEM

Apesar dos muitos direcionamentos que a pesquisa do inconsciente dinâmico tomou, na opinião de José Candido Bastos, membro da SBPRJ, o pilar central do qual saem todas as teorias é o de Freud. “Foi dito por muita gente que havia um inconsciente, mas que não haveria formas de explorá-lo e Freud, indiscutivelmente, foi a primeira pessoa do mundo a descobrir uma forma de explorar esse inconsciente”, afirma.

Dentre as contribuições dos diversos autores para o desenvolvimento da psicanálise, o estudioso destaca os esforços despendidos na tentativa de compreender o universo infantil. “Todas os teóricos que vieram depois trataram diretamente de crianças, como Melanie Klein, Winicott entre outros. Eles tiveram esse relacionamento e tentaram compreender o mundo infantil e como ele era estruturado. E descreveram isso de uma forma muito mais detalhada, muito mais aprofundada do que Freud”, afirma.

Entretanto, ele salienta que isto diminui de maneira alguma a importância do “pai” da psicanálise na contemporaneidade. “O trabalho fundamental do analista é trabalhar com o inconsciente dinâmico. Este trabalho tem tido a possibilidade de mudanças muito fecundas, muito eficientes, mas sempre apoiados naquela base sólida que Freud estabeleceu e que realmente ainda é válida até hoje”, ressalta Bastos.

Na opinião de Luiz Antônio Telles de Miranda, membro da Aperj Rio 4, muitas vezes ocorre um certo reducionismo dos autores pós-freudianos ao pensamento de Freud, quando, na verdade, eles seriam independentes. “Eu creio que o grande enriquecimento da técnica para nós, como analistas, é justamente diferenciar muitíssimo bem o que os teóricos das relações de objeto entendem que é o psiquismo, o porquê do adoecer. E mesmo dentro dos teóricos das relações de objeto, pode-se perceber, por exemplo, que Winnicott pensa diference de um Kohut, que pensam diferente do Ferenczi”, defende. Ele acrescenta que “nada disso pertence à teoria Freudiana, mas pode nos ajudar a trabalhar o complexo de Édipo, que é o que Freud propõe”.

Um ponto que diferenciaria os teóricos da relações de objeto da teoria freudiana, no ponto de vista do estudioso, é que Freud por exemplo, faz um psiquismo fundado e angústia e resolvida em princípio de prazer “O fundador das teorias das relações de objeto, que na minha opinião é Ferenczi, era um contemporâneo e um discípulo de Freud mas tinha uma compreensão diferente do adoecer psíquico e cria uma estrutura do psiquismo diferente. Se ele cria uma estrutura do psiquismo diferente, mudam a técnica, os objetivos e as indicações”, destaca Telles de Miranda. E conclui: “a teoria do Freud ser sempre a teoria do Freud, pois ele funda psiquismo de uma única maneira. Parece-me que ela continua viva”.

NEUROCIÊNCIA: CASAMENTO POSSÍVEL

De acordo com José Candido Bascos, a relação estabelecida entre a psicanálise e a neurociência é um processo controvertido. “Entre os analistas alguns acham que a neurociência não traz nenhuma contribuição para a psicanálise, alguns dizem até que seria um elemento que facilita uma destruição da análise, uma destruição do valor da psicanálise”, afirma.

Ele, entretanto, discorda dessa posição. “Na minha opinião, e na de um número cada vez maior de pessoas ligadas à nossa ciência, é evidente que essas descobertas trazem esclarecimento sobre alguma coisa que nós afiançávamos, que nós afirmávamos de uma maneira empírica e que com essas pesquisas científicas agora podem ser provadas com roda a tecnologia moderna – uma tecnologia que não pode ser negada e que, já em sua época, Freud imaginava que pudesse haver no futuro. Tanto assim, que em determinados trabalhos ele afirma:·’isso será esclarecido no futuro’. São vários os trabalhos em que ele faz essa referência e essa suposição”, ressalta o especialista.

Bastos cita como exemplo de aproximação entre as postulações freudianas e as recentes descobertas da neurociência sobre a questão do esquecimento de todos os fatos ocorridos até os cinco anos de idade. Esta questão é particular­ mente importante na medida em que é nesta fase da vida que ocorre a formação do inconsciente dinâmico, que vai dar matiz, colorido, forma à toda a vida futura.

“Freud afirmava isso, mas sem nenhuma comprovação. A neurociência moderna, por sua vez, explica que a criança não é capaz de registrar na memória aqueles acontecimentos, pois o aparelho de memorização, que é o hipocampo, ainda não está mielinizado, ou seja, não está pronto para memorizar”, afirma o psicanalista. Ele explica ainda que, depois dos cinco ou seis anos, a criança começa a possuir as características necessárias para registrar a memória. “E aí se passa a uma outra memória, a evocável. E não mais aquela memória que dinamicamente é importante, mas não pode ser evocada”, pontua.

Outro exemplo de uma possível colaboração entre as ciências, de acordo com Bastos, são os trabalhos desenvolvidos por Eric Kandell sobre a classificação das memórias. “Kandell divide as memórias em Declarativas (explícitas) e Procedurais (implícitas). As primeiras registram todos os fatos e eventos ocorridos e estão mediadas pelo córtex pré-frontal. Esta seria a área correspondente ao consciente e pré-consciente na visão de Freud”, explica o psicanalista.

A memória procedural (implícita), por sua vez, segundo a descrição de Kandell, seria composta por quatro elementos: o primeiro ligado à conduta, o segundo à parte de reconhecimento de estímulos ligados ao neocórtex, o terceiro ligado ao condicionamento clássico, que daria as respostas emocionais e as reações músculo esqueléticas, e um último componente que seria o do aprendizado automático.

“Todos esses elementos estariam contidos no que Freud chamou de inconsciente dinâmico, que nunca chega diretamente ao consciente, mas que continua mostrando sua existência, estabelecendo uma maneira de ser, um comportamento que se repete por toda a vida – e que como consequência aparece na situação analítica. Situação em que o paciente não se lembra de nada do que foi vivido e esquecido, mas age em função disco”, pontua Bastos.

Segundo ele, era este inconsciente que Freud explorava com a psicanálise e que a neurociência tenta localizar anatômica e funcionalmente, o que seria um encontro entre as duas ciências. “Na memória procedural (implícita) temos um exemplo biológico de um componente da vida mental inconsciente”, afirma Bastos, citando Kandell. “A ciência está se rejuvenescendo, com isso criando coisas muito novas e que mostram que muito do que Freud disse pode ser comprovado cientificamente”, conclui.

OUTROS OLHARES

A HERANÇA DO RACISMO

Meio século após a morte de Martin Luther King, o mundo ainda vive mergulhado em discursos de ódio contra a população negra.

A herança do racismo

Em 1963, o pastor afro-americano Martin Luther King fez um discurso histórico contra o racismo na Marcha de Washington. “Eu tenho um sonho”, disse ele. Ganhador do Nobel da Paz de 1964, o líder político foi assassinado em 4 de abril de 1968. Meio século após sua morte, o sonho de Luther King ainda se mantém, assim como o ódio que ele combateu. Provas disso são os discursos de supremacistas brancos nos Estados Unidos e na Europa, carregados de xenofobia e preconceitos raciais

“É evidente que houve evolução no que diz respeito aos direitos civis de forma que a população negra pudesse alcançar espaços de poder que antes eram inalcançáveis. Mas isso ficou muito longe de representar uma superação do racismo”, diz o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP). Ele cita como exemplo a eleição de Barack Obama nos Unidos. Ao alcançar o poder máximo no país, o ex-presidente deixou a impressão de que não era mais necessário discutir o racismo. “Há uma tentativa de excluir, de uma vez por todas o debate racial das políticas públicas”, afirma. Durante a era Obama, os insultos raciais tomaram uma proporção muito maior do que no período pré direitos civis. A ideia equivocada de que os EUA superaram a discriminação ficou evidente com o fortalecimento de discursos como o de Donald Trump. O confronto entre supremacistas brancos e militantes do movimento negro em Charlottesville, no ano passado, é um exemplo de como o atual presidente dos EUA lida com questões raciais. Trump em nenhum momento condenou os supremacistas e manteve a ideia de que houve violência das duas partes. “O grande problema é ter na presidência alguém que vai legitimar o lado mais horrível da história, algo que não pode acontecer novamente”, diz Santos.

Os discursos de ódio racial não se limitam aos EUA. Em vários países da Europa, a direita radical avança atacando imigrantes, apontados como vilões durante muitas campanhas eleitorais de partidos nacionalistas, que acusam os estrangeiros de tirar emprego das populações locais. O fenômeno das fake news está diretamente ligado a isso. Nos tempos atuais, a pregação racista só mudou de plataforma, passando da televisão para a internet. É o que afirma Virgílio Pedri Rigonatti no recém-lançado “Cravo Vermelho, livro que narra os acontecimentos que marcaram os anos 60. Ele lembra, por exemplo, de ver na TV marchas lideradas por Luther King e de, ao mesmo tempo, acompanhar a Ku Klux Klan no noticiário. “O assassinato foi um balde de água fria nos jovens”, diz o escritor.

ONTEM E HOJE

“Uma figura emblemática que ultrapassa os limites dos Estados Unidos.” É assim que o pró-reitor de assuntos comunitários da UFABC Almeida, doutor em sociologia pela USP define Luther King. Para o especialista, desde o surgimento do líder americano, o racismo foi mudando de face ao longo dos anos. “O racismo é a última fronteira do ódio e, de tempos em tempos, ele aparece mostrando sua fúria”, afirma Almeida, citando a tentativa de Israel de expulsar imigrantes africanos, em março. As investidas contra os imigrantes só acabaram com a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), na semana passada. “Então não aprendemos nada com a história? Segundo o professor Almeida é importante considerar que o racismo é estruturante na sociedade brasileira e no mundo. E que, para resolver essa questão, é funda primeiro, reconhecer que ela existe.

 

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

MERITISSIMO ROBÔ

Meritíssimo robô

Cerca de 1050 advogados têm usado um robô para escrever as petições e dar entrada nos processos de clientes que pagaram mais ICMS nas contas de luz e querem pleitear uma restituição do governo. O Eli, de Enhanced Legal lntelligence, foi lançado no final do ano passado pela Tikal Tech, que desenvolve sistemas de inteligência artificial após seu CEO perceber a oportunidade de mercado.”[O ICMS] é uma causa que, se não tivesse essa automação, não valeria a pena para os advogados, pois os valores são baixos e o trabalho muito cansativo, já que envolve levantar faturas de luz de vários anos, diz Derek Oedenkoven, CEO da empresa. O empreendedor, entretanto, não acredita que as máquinas sejam uma ameaça significativa aos profissionais de direito. “Muitos casos judiciais são repetitivos, mas outros são totalmente novos, o que demanda uma capacidade intelectual dos advogados para a defesa de novas teses”, afirma. A inteligência artificial vai resolver os processos que são mecânicos e tomam tempo,”

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 1- 6

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A Importância da Humildade

Assim como nunca houve um padrão de humildade maior, nunca houve um pregador maior que Cristo, em todos os aspectos, inclusive em termos de humildade. Ele aproveitou todas as ocasiões para ensiná-la aos seus discípulos e seguidores.

 I – A ocasião desse discurso com relação à humildade foi urna competição inconveniente entre os discípulos por preeminência; eles chegaram ao pé de Jesus, dizendo, entre si (porque estavam envergonhados para perguntar a ele, Marcos 9.34): “Quem é o maior no Reino dos céus?” Eles não quiseram dizer quem o seria pelo caráter (então a pergunta teria sido boa, de forma que eles poderiam saber em quais graças e deveres precisavam se superar), mas quem pelo nome. Eles tinham ouvido muito, e pregado muito sobre o Reino dos céus, o reino do Messias, sua igreja neste mundo; mas mesmo assim eles estavam muito distantes de ter qualquer noção clara disso, e sonhavam com um reino temporal, a pompa exterior, e o seu poder. Cristo havia recentemente predito os seus sofrimentos, e a glória que deveria se seguir; que Ele deveria ressuscitar dos mortos, que a partir daí eles esperassem o início de seu reino; então eles pensavam que era a hora de estabelecer os seus lugares no reino. É bom, nesses casos, falar logo. Surgiram debates desse tipo diante de outros discursos de Cristo (cap. 20.19,20; Lucas 22.22,24). Ele falou muitas palavras com relação aos seus sofrimentos, mas apenas uma palavra sobre a sua glória; no entanto, eles se firmaram em uma coisa, e ignoraram a outra; e em vez de lhe perguntarem como poderiam ter forças e graça para sofrer com Ele, perguntaram quem seria “o maior” ao reinar com Ele. Note que muitos amam ouvir e falar dos privilégios e da glória, e desejam ignorar os pensamentos de trabalho e dificuldade. Eles olham tanto para a coroa, que se esquecem do jugo e da cruz. Foi o que os discípulos fizeram aqui, quando perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?”

1. Eles supõem que todos os que têm um lugar naquele reino são grandes, porque é um reino de sacerdotes. Os homens verdadeiramente grandes são aqueles verdadeiramente bons; e eles aparecerão assim finalmente, quando Cristo os possuir como o seu povo, embora sejam tão maus e pobres no mundo.

2. Eles supõem que há graus nessa grandeza. Todos os santos são honoráveis, mas nem todos da mesma forma; uma estrela difere de outra estrela em glória. Nem todos os oficiais de Davi eram valorosos, nem todos os seus valorosos estavam nas três primeiras posições.

3. Eles supõem que alguns deles devam ter a posição de primeiro-ministro de estado. A quem o Rei Jesus deveria ter prazer em honrar, além daqueles que tinham deixado tudo por Ele, e que eram agora os seus companheiros na paciência e na tribulação?

4. Eles disputam quem deveria ser o quê, cada um tendo uma pretensão ou outra ao reino. Pedro sempre foi o principal orador, e já tinha recebido as chaves; ele espera ser o presidente da Câmara dos Pares ou o camareiro-mor da casa, sendo assim o maior. Judas tinha a bolsa, e assim ele espera ser o tesoureiro-mor, o qual, embora agora venha por último, espera ser o maior. Simão e Judas são meio parentes de Jesus, e esperam estar acima de todos os grandes oficiais de estado, como príncipes de sangue. João é o discípulo amado, o favorito do Príncipe; portanto, espera ser o maior. André foi chama­ do primeiro; e por que não teria a primeira preferência? Nós somos muito inclinados a nos entreter e a nos agradar com fantasias tolas de coisas que nunca acontecerão.

II – O próprio discurso, que é uma justa reprovação para a pergunta: Quem será o maior? Nós temos muitas razões para pensar que, se Cristo tivesse a intenção de que Pedro e seus sucessores em Roma fossem os chefes da igreja, e seus principais sacerdotes na terra, tendo tido uma ocasião tão boa para isso, Ele agora avisaria aos seus discípulos; mas Ele está tão distante disso, que sua resposta desautoriza e condena a própria atitude de desejar ser o maior. Cristo não conferir à tal autoridade ou supremacia em nenhum escalão de sua igreja; quaisquer que tiverem essa intenção serão usurpadores; em vez de estabelecer qualquer dos discípulos nessa dignidade, Ele adverte a todos eles a não aspirarem tal posição.

Cristo aqui os ensina a serem humildes:

1. Por um sinal (v. 2); “E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles”. Cristo frequentemente ensinava por sinais ou ilustrações sensatas (comparações visuais), como os profetas do passado. A humildade é uma lição aprendida de forma tão dura, que precisamos de todos os modos e meios para sermos ensinados. Quando olhamos uma criança pequena, devemos ter em mente a comparação que Cristo fez com essa criança. Coisas sensatas devem ser utilizadas para propósitos espirituais. “Jesus a pôs no meio deles”; não para que eles pudessem brincar com ela, mas para que pudessem aprender através dela. Os homens crescidos, e os homens grandes, não deveriam desdenhar da companhia das crianças pequenas, ou considerar como algo inferior a atitude de notá-las. Eles podem falar com as crianças, e instruí-las; ou prestar atenção nelas e receber instruções delas. O próprio Cristo, quando criança, esteve “assentado no meio dos doutores” (Lucas 2.46).

2. Por um sermão sobre esse sinal, no qual Ele mostra a eles e a nós:

(1).  A necessidade da humildade (v. 3). O seu prefácio é solene, e ordena tanto a atenção como o consentimento: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Aqui observe:

[1]. O que Ele exige e no que Ele insiste.

Em primeiro lugar: “Vocês devem se converter, vocês devem ter uma outra mentalidade, e em outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos, tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um lugar nele. O orgulho, a ambição e a artificialidade de honra e domínio, que apare­ cem em vocês, devem sofrer um arrependimento, uma mortificação e uma reforma, e vocês devem se dar conta disso.” Além da primeira conversão de uma alma de um estado de natureza para um estado de graça, há conversões posteriores de determinados caminhos de apostasia, que são igualmente necessários para a salvação. Todo passo fora do caminho devido ao pecado deve ser um passo de volta ao caminho através do arrependi­ mento. Quando Pedro se arrependeu de ter negado ao seu Mestre, ele se converteu.

Em segundo lugar: Vocês devem se tornar “como crianças”. A graça que converte nos faz como meninos, e não como meninos no entendimento (1 Coríntios 14.20), nem inconstantes (Efésios 4.14), nem brincalhões (cap. 11.16); mas, como crianças, devemos “desejar afetuosamente o leite racional” (1 Pedro 2.2); como crianças, não devemos nos preocupar com nada, mas deixar que o nosso Pai celestial cuide de nós (cap. 6.31). Devemos, como crianças, ser inocentes e inofensivos, e sem malícia (1 Coríntios 14.20), governáveis, e estar sob autoridade (Gálatas 4.2); e (o que aqui é a principal intenção) devemos ser humildes como crianças pequenas, que não ligam para a pompa, que não dão importância às formalidades. O filho de um nobre brincará com o filho de um mendigo (Romanos 12.16). A criança em farrapos, mas vestida, estará tão alegre quanto a outra criança, e não invejará a roupa da criança que se veste de seda; as crianças pequenas não têm grandes ambições quanto a lugares de destaque, ou a projetos de se elevarem a altas posições no mundo; elas não se exercitam em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para elas. E nós devemos, da mesma maneira, calar e sossegar a nossa alma (Salmos 131.1,2). Como as crianças são pequenas no corpo e baixas em estatura, assim devemos ser pequenos e baixos no espírito, e nos nossos pensamentos a respeito de nós mesmos. Este é um sentimento que leva a outras boas disposições; a época da infância é a época do aprendizado.

[2]. Que ênfase o Senhor coloca sobre isso. Sem isso, “de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Note que os discípulos de Cristo têm a necessidade de ser mantidos em expectativa por meio de ameaças, para temerem ficar “para trás” (Hebreus 4.1). Os discípulos, quando fazem aquela pergunta (v. 1), têm a certeza de entrar no Reino dos céus; mas Cristo os desperta para o fato de estarem enciumados uns dos outros. Eles eram ambiciosos, e queriam ser “o maior no Reino dos céus”. Cristo lhes diz que, a menos que tenham uma atitude melhor, jamais chegarão lá. Muitos que aspiram ser o maior na igreja, demonstram ser não só pequenos, mas nada, e acabam não tendo parte ou porção no assunto em questão. O nosso Senhor pretende aqui mostrar o grande perigo do orgulho e da ambição; a despeito do que os homens professem, se eles se permitirem cair nesse pecado, serão rejeitados e não entrarão nem no tabernáculo de Deus, nem em seu santo monte. O orgulho fez cair do céu os anjos que pecaram, e nos deixará de fora, se não nos convertermos. Aqueles que se exaltam com o orgulho, caem na condenação do diabo. Para evitar isso, devemos nos fazer como crianças pequenas. E para fazermos isso, devemos nascer de novo, devemos nos revestir do novo homem, devemos ser como o santo Filho Jesus; assim Ele é chamado, mesmo depois de sua ascensão (Atos 4.27).

(2).  Ele mostra a honra e o avanço que resultam da humildade (v. 4), fornecendo assim uma resposta direta, mas surpreendente, à pergunta deles. Aquele que se tornar humilde como uma criança pequena – embora possa temer que assim se apresente como alguém desprezível, como um homem de mente tímida, que desse modo se lança para fora do caminho da preferência -, esse é o maior no Reino dos céus. Os cristãos mais humildes são os melhores cristãos, os mais parecidos com Cristo, e os mais elevados em seu favor; estão melhor posicionados para as comunicações da graça divina, mais adequados para servir a Deus neste mundo, e desfrutar o mundo vindouro. Eles são grandes, porque Deus domina o céu e a terra, e não deixa de considerá-los; e certamente aqueles a serem mais respeitados e honrados na igreja são os mais humildes e os que renunciam a si mesmos; porque, embora eles não bus­ quem ser grandes, são aqueles que o merecem.

(3).  O cuidado especial que Cristo tem por aqueles que são humildes. Ele advoga a causa deles, os protege, se interessa por suas preocupações, e não permite que sejam vítimas de injustiça, sem que tenham uma futura compensação.

Aqueles que assim se tornam humildes temerão:

[1]. Que ninguém os receba; mas (v. 5): “Qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe”. Jesus considera qualquer ato de bondade feito a alguém como sendo feito a Ele mesmo. Existe um ato que deve ser aceito e recompensado como um ato de respeito a Cristo: aquele que acolhe um cristão manso e humilde, mantém-no em uma situação de tranquilidade, não o deixa perder por sua modéstia, aceita-o em seu amor e amizade, em sua companhia e cuidado, e estuda alguma maneira de lhe fazer algum gesto de bondade; aquele que faz isso em nome de Cristo, por amor a Ele, pelo fato de o cristão levar a imagem de Cristo, servir a Cristo, e porque Cristo o recebeu. Mesmo que apenas uma pequena criança seja recebida em nome de Cristo, isto será aceito. Note que a terna consideração que Cristo tem por sua igreja se estende a cada membro em particular, até mesmo ao que é aparentemente mais insignificante; não só a toda a família, mas a cada membro da família. Quanto menores forem aqueles a quem demonstrarmos bondade, mais boa vontade estaremos demonstrando em relação a Cristo. Quando fazemos algo por pessoas que naturalmente não ajudaríamos, estamos fazendo mais por amor a Cristo; e Ele aceita esta oferta. Se Cristo estivesse pessoalmente entre nós, entendemos que jamais conseguiríamos recebê-lo tão bem quanto Ele merece. Mas sempre temos conosco os pobres, os pobres de espírito; e podemos fazer a eles aquilo que faríamos pessoalmente ao próprio Cristo. Veja cap. 25.35-40.

[2]. Eles temerão que todos abusem deles; os homens mais indignos se deliciarão ao menosprezar o humilde. Ele trata dessa objeção (v. 6), e adverte a todas as pessoas quanto ao risco envolvido em sua resposta, para que não tragam qualquer injúria a algum dos pequeninos de Cristo. Esta palavra funciona como uma parede de fogo em torno deles; aquele que tocar neles, toca na menina dos olhos de Deus.

Considere, em primeiro lugar, o crime que está em foco: escandalizar um desses pequeninos que creem em Cristo. A sua crença em Cristo, embora sejam pequeninos, os une a Ele, e faz com que Ele se interesse pela causa deles, de forma que, como eles participam do benefício de seus sofrimentos, Ele também participa das injustiças que lhes são causadas. Os pequeninos que creem têm os mesmos privilégios dos grandes, porque todos eles conseguiram uma fé preciosa. Há aqueles que escandalizam estes pequeninos, fazendo-os pecar (1 Coríntios 8.10,11), afligindo e causando dor em suas almas justas, desencorajando-os, aproveitando-se de sua mansidão para fazer deles uma presa individualmente, em suas famílias, aprisionando os seus bens ou o seu bom nome. Dessa forma, os melhores homens frequentemente têm encontrado o pior tratamento da parte deste mundo.

Em segundo lugar, a punição desse crime que é sugerida nesta palavra: “Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar”. O pecado é tão horrendo, e a ruína é proporcionalmente tão grande, que seria melhor que o transgressor sofresse os castigos mais dolorosos infligidos sobre o pior dos criminosos, algo que só pode matar o corpo. Note que:

1. O inferno é pior do que a profundeza do mar, porque ele é um abismo sem fundo, e é um lago de fogo. A profundeza do mar apenas mata, mas o inferno é atormentador. Conhecemos alguém que teve conforto na profundeza do mar: Jonas (Jonas 2.2,4,9); mas ninguém jamais teve o menor grão ou vislumbre de conforto no inferno, nem o terá na eternidade.

2. A condenação irrevogável e irresistível do grande Juiz trará uma prisão mais rápida, um naufrágio mais certo e mais rápido, do que uma mó de azenha pendurada ao pescoço. Existe um grande abismo que jamais pode ser transposto (Lucas 16.26). Escandalizar os pequeninos de Cristo, embora por omissão, é apontado como o motivo para esta terrível sentença: ”Amaldiçoados sejam”, que no final será a condenação dos perseguidores orgulhosos.