VOCACIONADOS

MUDANÇAS NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

A era virtual trouxe inúmeros benefícios, mas alguns problemas também surgem. As pessoas começam a fugir da interação pessoal, provocando o que pode ser chamado de solidão real.

Mudanças nas relações interpessoais

Não há como negar que, antes da era virtual chegar, a aproximação física das pessoas era maior e as relações interpessoais mais coesas. As conversas e negociações eram cara a cara, as brincadeiras entre as crianças eram na rua, as refeições e viagens de carro eram recheadas de papos, músicas e brincadeiras até a chegada ao destino final.

As famílias colecionavam revistas e enciclopédias para as pesquisas escolares e, quando não encontravam o assunto pesquisado, os estudantes recorriam a bibliotecas onde interagiam com bibliotecários e outros estudantes.

Quando faltava luz, a distração das famílias era brincar junto até que a luz retornasse. Além das brincadeiras habituais, como mímica e jogos diversos, tinha a divertida brincadeira de criar sombras e até mesmo fábulas com a sombra da luz das velas.

As tardes e os finais de semana eram recheados de interação e diversão. As crianças corriam, exercitavam-se mais e pegavam mais sol. Piscina, praia, futebol, queimada, piques, pipa e bolinha de gude eram brincadeiras que uniam as crianças diariamente.

As pessoas, frequentemente, faziam visitas aos amigos e parentes para ter notícias e conversar. Era comum ver pessoas sentadas na porta de casa ou grupos de amigos reunidos nas calçadas papeando, enquanto seus filhos brincavam por ali; todos se divertindo juntos.

As datas de aniversário eram motivo para as famílias se reunirem. Momento em que cada família largava sua rotina e afazeres e se reunia para comemorar e matar as saudades da família inteira. Primos, tios, avós e sobrinhos curtiam momentos com mais frequência. Os mais velhos, podiam relembrar suas histórias e passar informações valiosas a seus descendentes. Primos eram criados mais próximos e as famílias pareciam mais unidas com este contato mais estreito. Com a chegada do rádio e da TV, esse quadro já começou a se modificar. Inicialmente, as famílias ainda se reuniam na sala, para ouvir ou assistir a seus programas favoritos no único aparelho de rádio ou TV existentes na casa. Mais tarde, a aquisição de novos aparelhos que eram colocados nos quartos provocou o afastamento dos integrantes da família. Cada um isolava-se em seu quarto, onde podia assistir ao programa escolhido. Hoje não é difícil notar filhos trancados em seu quarto, assistindo na sua televisão o mesmo programa que os pais estão assistindo na sala.

Mais à frente, a internet chegou revolucionando, e muito, as coisas. Trouxe, sem sombra de dúvida, muitas facilidades, rapidez e avanços. Notícias que demoravam meses ou dias para chegar, via correios, passam a chegar na mesma hora em quase todos os lugares. Reuniões e negócios podem ser fechados por conferências on-line. Pessoas poupam tempo e dinheiro resolvendo assuntos importantes de sua própria residência ou empresa. Muitos deixam de sair de casa para fazer compras ou movimentar sua conta bancária. Até acompanhar a adaptação dos filhos na escola ou monitorar o dia a dia deles em casa tornaram-se possíveis com o advento da era virtual, de qualquer lugar e em tempo real.

Hoje, amizades e namoros surgem virtualmente. E nem sempre esse novo tipo de relação se dá com pessoas que moram no mesmo bairro, cidade ou país. Cada vez mais vemos pessoas se relacionando a distância com pessoas que, às vezes, nunca poderão encontrar pessoalmente.

Alguns problemas também surgem com a chegada dessa era – as pessoas começam a fugir da interação pessoal, seja pelo motivo que for: timidez, baixa estima, problemas com sua autoimagem. E começam a se esconder atrás dos aparelhos digitais como única maneira possível de se relacionarem ou quando a conversa, as refeições e a convivência familiar e social são prejudicadas pelo uso excessivo de tablets, computadores ou celulares.

Na era virtual, pessoas são substituídas por máquinas, perdendo inclusive seus empregos e o meio de sustentarem suas famílias. As empresas lucram com isso. E, cada vez mais, tratamos e nos relacionamos com máquinas para fazer o pedido de uma refeição, pagar o ticket do estacionamento, comprar entradas para uma sessão de cinema etc.

Pessoas retraídas, que temem por algum motivo o contato físico, tendem a preferir manter relações virtuais. Relações nas quais crianças, jovens e adultos optam por trocar os encontros e reuniões para permanecer teclando ou falando a distância. Os jogos e diversões em grupo dão lugar a disputas on-line com pessoas do mundo todo.

MUNDO PARALELO

Nas “relações virtuais”, podemos ser quem queremos e dizer que temos ou fazemos o que desejamos. Isso faz com que algumas pessoas criem um mundo paralelo e ilusório, muitas vezes, confundido com o mundo real. Podem-se criar identidades falsas, nas quais os traços da personalidade, os gostos, as aptidões e até a descrição da casa ou dos familiares próximos são criados com o objetivo de atrair e agradar os demais.

Isso normalmente passa a ocorrer com pessoas que apresentam baixa estima e que, de alguma forma, reprovam alguns aspectos seus, julgando ou temendo que sejam reprovados pelo outro, podendo resultar em experiências dolorosas de rejeição a sua pessoa. Essas pessoas, via de regra, já passaram por experiências traumáticas nesse sentido, sendo motivo de chacota entre seus colegas ou sendo excessivamente criticados/reprovados em casa por seus familiares ou por alguém que elas admiram e colocam numa posição de destaque e importância em sua vida.

As vítimas em potencial das relações exclusivamente virtuais costumam ser pessoas que não aprenderam a perceber seu valor e, muitas vezes, não conseguem identificar nada de bom, belo ou positivo nelas mesmas. Por isso, elas acreditam que são o que os outros disseram dela e se reduzem a algo bem distante do que realmente são.

Podem ser pessoas diferentes das demais, digo diferente fisicamente, intelectualmente ou emocionalmente, por exemplo. O que não quer dizer que sejam superiores ou inferiores; apenas diferentes e em algum momento de suas vidas foram incapazes de perceber e fazer com que outros percebessem e valorizassem essas diferenças de forma positiva. O que enriquece as relações sociais são justamente as diferenças. Precisamos aprender a lidar com as diferenças de forma a não julgar, excluir, humilhar ou sobressaltá-las. Somos e seremos superiores em relação ao outro em alguns aspectos e inferiores em relação a outros, e essa conta sempre termina equilibrada no final.

Todos nós temos pontos fortes e fracos. Precisamos parar de apontar o ponto fraco do outro para nos fortalecer ou tirar qualquer tipo de vantagem ou proveito. Mas, para que isso não aconteça mais, é preciso que as pessoas se conheçam e reconheçam tal como são. Que aceitem que são dotadas de qualidades e fraquezas como todas as outras. E reconheçam boa parte desses pontos. Uma vez que conhecemos bem a nós mesmos dificilmente ficamos na mão ou somos levados pelo julgamento superficial e distante que fazem da gente. Precisamos estar atentos à leitura que se faz da gente, pois ali pode haver informações úteis a nós. Podemos julgar que algo em nós precisa e pode ser modificado. Mas jamais podemos nos reduzir àquilo que o outro enxerga na gente. Com certeza, somos muito mais do que alguém pode notar em nós.

Por vezes, as pessoas enxergam em nós aspectos que elas mesmas trazem em si. Servimos como uma espécie de espelho, onde o outro projeta sua própria imagem para enxergar aspectos que necessitam de mudança ou revisão. Não aceitemos o lixo do outro como nosso! Um caminho importante para evitar cair na solidão da era virtual é o fortalecimento da autoestima através do autoconhecimento, e se a pessoa notar que não é capaz de alcançar isso sozinha, se ela não consegue colocar no papel uma longa lista das qualidades que possui, precisa procurar ajuda profissional. Pois sem isso, ela corre o risco de se tornar refém do jugo do outro e se subjugar, se empobrecer e se submeter a situações difíceis e dolorosas desnecessariamente.

A era virtual permite que se viva ou fale quase tudo que não se consegue pessoalmente. Os riscos de constrangimento e humilhação para os envolvidos são menores. Os tímidos se empoderam, se fortalecem e se permitem falar de forma mais assertiva e firme. Teclando não se gagueja, não se pode ver o rubor na face nem o embaraço desconcertante que algumas situações provocam. Teclando, pode se pedir alguém em namoro sem que o pavor nos paralise.

Mas tudo isso acaba impedindo, ainda mais, a aproximação física, já que esse mecanismo chega possibilitando o relacionamento virtual e, de alguma forma, reforça a permanência das dificuldades enfrentadas pela pessoa que não consegue manter uma relação pessoal (cara a cara).

Imaginando as situações nas quais foram criados um falso personagem ou uma realidade para lidar ou atrair pessoas, a aproximação colocaria em risco a descoberta de todas as mentiras e a possibilidade de ruptura da nova relação.

E o que começa a ser usado para resolver uma dificuldade de criar uma aproximação física com alguém acaba se tornando uma fonte de isolamento e solidão eternos. E a autoestima dos que usam o virtual para tentar amenizar a solidão real permanece abalada e comprometida.

No virtual, evita-se o mal-estar existente nas “relações reais”, nas quais precisamos lidar com situações de disputa, confronto, decepções e humilhações, por exemplo. E, ao se privar desse tipo de vivência, o jovem acaba se privando de amadurecer e aprender sobre si mesmo, sobre o outro e sobre a sua relação com o outro. O fato é que a cada situação difícil e desconcertante vamos aprendendo e fortalecendo características em nós. E, sem isso, vamos nos tornando incapazes de nos relacionar de forma saudável e madura, fortalecendo cada vez mais a carapaça que nos protege do mundo hostil e distante.

E quanto mais evita esse contato e interação cara a cara, menos o sujeito tem a oportunidade de se conhecer, de saber seus limites e criar caminhos para lidar com situações negativas. E, dessa forma, ele vai se julgando cada vez menos capaz de lidar de forma satisfatória com os demais e diminuindo a possibilidade de passar a fazer algum contato real.

Quanto mais ela cria falsos perfis, contendo todas as características e qualidades que a “vítima da era virtual” gostaria de ter e julga que são importantes e valorosas para atrair alguém, menos oportunidades tem de reconhecer quais características ela, de fato, possui que farão com que as pessoas a conheçam e gostem dela. Essa permanência apenas no mundo virtual passa pela crença limitante e irreal de que ela nada possui para atrair ou agradar o outro.

 EDUCAÇÃO INFANTIL

A era virtual facilitou, e muito, a vida das mamães de crianças pequenas e de suas famílias como um todo. Que família conseguimos ver fazendo uma refeição junto ou conversando tranquilamente se trazem consigo uma criança pequena a um restaurante? Como lidariam com a impaciência das crianças da era virtual se não tivessem as milhares de distrações que se têm hoje para elas?

Um pequeno trajeto no assento infantil, para muitos, torna -se um pesadelo se as crianças não possuem algum aparelho que as distraia. Lápis e papel ou brinquedinhos já não prendem a atenção por muito tempo.

E, com isso, as crianças aprendem cada vez menos a esperar. Tornam-se intolerantes e cada vez mais exigem que suas necessidades sejam prontamente atendidas. Um trajeto, uma fila, uma consulta médica, a refeição com seus familiares… nada mais pode ser suportado por uma criança dessa era. E por qual motivo? Por causa dos avanços maravilhosos que ocorreram, nos trazendo produtos e tecnologia para facilitarem nosso dia a dia? Ou pelo mau uso que estamos fazendo desses produtos?

Vemos pais que se sentem culpados pela carga excessiva de trabalho e o pouco tempo oferecido a suas famílias, tentando suprir sua ausência com presentes sem fim. Vemos filhos ocupando seu tempo ocioso e sua carência afetiva com a criação de hábitos e por vezes vícios como: vídeos, jogos, séries, grupos virtuais etc. O resultado disso tudo acaba tomando uma proporção tal que cria marcas irreversíveis nos envolvidos e prejuízos devastadores à relação familiar. Quanto mais tempo mantemos o afastamento e o isolamento dos familiares, mais difícil se torna a reconexão.

Podemos observar crianças bem pequenas superestimuladas por celulares e tablets. Recebem muito estímulo visual e motor e um excesso de informações quando ainda não possuem maturidade suficiente para tal.

Não se pode negar que essa prática facilita e muito a vida das mamães, com diversas tarefas para executar e muitas vezes sem ter quem cuide de suas crianças. Mas, para as crianças, isso não tem sido uma boa alternativa. Vemos crianças e jovens com a saúde comprometida por isso. Quase não tomam sol, realizam pouco exercício físico e desenvolvem problemas como obesidade, colesterol e até trombose ainda na infância. Além disso, aprendem desde cedo a se distrair com aplicativos e vídeos ao invés do convívio com outras pessoas.

PREJUÍZOS

O grande prejuízo das relações nessa era está no uso que fazemos dos aparelhos, que deveriam ser utilizados para unir pessoas e agilizar a transmissão da informação de pessoas que estão distantes e impossibilitadas de se encontrar naquele momento, mas que acabam sendo usados para outros fins. E, ao invés de unir, separam. Em vez de recuperar relações distantes e suprir a falta das pessoas em sua ausência, causam a falta de pessoas que estão fisicamente próximas, mas afetivamente isoladas.

Quem não nota hoje em dia mesas ocupadas por familiares que estão reunidos fisicamente para uma refeição e, ao mesmo tempo, permanecem isolados uns dos outros, com sua atenção capturada por seus aparelhos celulares? Cada um deles está ocupado olhando, falando ou teclando com algum outro alguém que não está ali fisicamente presente ou interagindo com a máquina. E, enquanto isso, aquelas pessoas não interagem entre si, trocando afeto e atenção. São exemplos de casos em que os aparelhos modernos são usados de forma a empobrecer as relações ao invés de favorecê-las.

Além da solidão, presenciamos hoje casos em que crianças, jovens ou adultos se pegam viciados em vídeos, jogos e aplicativos, e suas atividades diárias e compromissos acabam prejudicados pelo uso excessivo e desmedido desses produtos. Baixo rendimento escolar, prejuízo no sono, alimentação ruim, falta da prática de esportes, tudo isso como consequência do vício adquirido. Suas relações pessoais também sofrem as implicações desse vício que toma todo o tempo, livre ou não, de sua vítima.

As vítimas desse tipo de tecnologia não conseguem, sequer, entender como uma atividade despretensiosa e divertida acabou tomando aquela proporção em sua vida. E o que vemos, normalmente, é que eles acabam ocupando um lugar no que diz respeito à anestesia da dor, ao abafamento das carências e insatisfações pessoais e à distração do tempo ocioso.

Para não ter que lidar com conflitos ou situações difíceis vemos pessoas se anestesiando e se escondendo atrás de aparelhos tecnológicos. Na impossibilidade real ou imaginária de enfrentar e atravessar as situações desafiadoras vemos pessoas se distraindo de seus problemas com aparelhos eletrônicos. Digo distraindo porque o problema ou dificuldade continua ali, do mesmo jeito, já que nada se fez ou faz para solucioná-lo. O que se faz é desviar a atenção dele e ignorá-lo, tentando viver como se ele não estivesse ali.

Desse jeito, qual a perspectiva que se tem da resolução dessa questão ou dificuldade enfrentada pela “vítima da era virtual”? Nenhuma. É preciso encarar o mal-estar a fim de descobrir sua causa e buscar sua solução. Ignorar, tamponar ou anestesiar não trarão um resultado satisfatório para nenhuma das partes.

Nos tornamos reféns das coisas. Passamos a ser controlados por elas, uma vez que criamos dependência delas. Julgamos que não somos capazes de solucionar ou superar uma dificuldade e nos escondemos atrás de coisas que não nos garantem satisfação e felicidade. Não podemos trocar as coisas pelas pessoas e continuarmos a nos sentir felizes e nutridos. As coisas devem servir para facilitar e unir pessoas. Elas não podem substituí-las.

O enfrentamento da dificuldade nas relações trará às pessoas informações valiosas acerca delas mesmas, do mundo e das pessoas com as quais convivem. É nesse movimento que cada um percebe o que precisa ser modificado na relação para conseguir restabelecer o bem-estar e a tranquilidade. Por vezes, essa mudança deverá ocorrer em si mesmo. A forma de encarar algo, de sentir, de agir ou reagir podem não estar adequadas à situação atual. A dificuldade pode sinalizar também para a necessidade de mudança em algo no outro ou em ambos. E sempre será necessário que os envolvidos desenvolvam habilidades preciosas, como um bom diálogo, boa vontade, cooperação, perdão, empatia e tolerância para ultrapassar e vencer as dificuldades iniciais apresentadas.

Então, se pudermos utilizar os aparelhos da era virtual para nos unir e divertir o grupo, ao invés de disfarçar e, consequentemente, manter a solidão, estaremos sendo verdadeiramente beneficiados por essa era.

OLHAR CRÍTICO DE LACAN PARA FREUD

m dos principais psicanalistas do século XX, e ainda hoje referência, o francês Jacques- Marie Emile Lacan (1901-1981) se dedicou ao estudo da Psicanálise, sob o ponto de vista da Ciência e da Filosofia, integrando as correntes de intelectuais que nasceram e viveram na França nos anos 50 e 60. Controverso e diverso no pensamento, o seu trabalho conceituai e investigativo chegou aos ouvidos e olhos de vários profissionais da área, influenciando até aqueles que hoje se afirmam como os principais pensadores da atualidade. A sua visão da Psicanálise é voltada para um regresso, embora crítico, aos postulados de Sigmund Freud. Essa abordagem levou-o a discordar da visão freudiana, procurando se voltar para a teoria da relação dos objetos na teoria da Psicanálise, influenciada pela visão psicodinâmica (introduzida também por Freud e que estuda as forças psicológicas que influenciam o comportamento e o crescimento humano). O foco vai também para o desenvolvimento infantil, embora se concentre na construção da psique na relação com os outros, em essencial com a família. Isso formula, em grande parte, a maneira como se relaciona com a sociedade e os seus diversos agentes.

 

Daniele Vanzan – é psicóloga e especialista em Psicologia Jurídica. Formou-se posteriormente em Terapia de Vida Passada (Terapia Regressiva) e Constelação Sistêmica. Atualmente, atende e ministra cursos para terapeutas interessados nessas áreas de atuação. Autora de dois livros infantis junto Editora Boa Nova: Não Consigo Desgrudar da Mamãe, que versa sobre a ansiedade de separação, e Eu Sou o Rei de Todo o Mundo, que aborda a problemática das crianças que têm dificuldade de aceitar limites. São livros destinados a crianças e adultos que necessitam de informações e orientações acerca desses temas.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

DEVEMOS SER HONESTOS?

 Honestidade está mais relacionada com caráter pessoa ou com a cultura de uma nação? Podemos dizer que com as duas coisas. Porém a neurociência tem estudos recentes que aprofundam essa questão.

Psique - Edição 146

Vamos definir o que é honestidade. No sentido literal do dicionário, honestidade é a palavra que indica a qualidade de ser verdadeiro: não mentir, não fraudar, não enganar. A etimologia da palavra tem origem no latim honos, que remete para dignidade e honra. Nesse sentido, é dever dos profissionais que trabalham com comportamento humano definir quais as possíveis etiologias da honestidade. Para entendermos isso devemos analisar como se forma o comportamento humano, a personalidade e o caráter. A Psicologia entende que o ser humano se desenvolve a partir da interação biopsicossocial, ou seja, genética, cultural, ou do meio social, e sua parte psicológica. Para tanto, atualmente, com os conhecimentos e adventos da neurociência do comportamento, fica indispensável a integração entre cérebro e mente. Então, quais as bases e explicações neurocientíficas dos mecanismos cerebrais, que controlam nosso comportamento, para que possamos planejar nossas ações e cumprir regras sociais?

O córtex pré-frontal é a região cerebral que coordena nossas ações e comportamentos morais. Podemos dizer que é a parte racional do cérebro, que nos permite refletir, planejar, flexibilizar, inibir comportamentos e controlar nossos impulsos. Ele precisa exercer uma tarefa de filtro dos sentimentos e impulsos instintivos que advêm do nosso sistema cerebral mais primitivo, o sistema límbico. Estudos na última década têm demonstrado as subdivisões do córtex pré-frontal e suas respectivas funções (Cozolino, 2002). O córtex pré-frontal pode ser subdividido em três regiões: córtex pré-frontal lateral, córtex ventromedial e córtex dorso lateral. Tanto o córtex pré-frontal lateral quanto o ventromedial desempenham funções de inibição e controle, as áreas laterais são ativadas quando a decisão envolve estímulos cognitivos sem conteúdo emocional positivo ou negativo, e as áreas ventromediais são ativadas quando a decisão é baseada em informação afetiva (Cozolino, 2002).

A parte dorsolateral tem como tarefa mediar mecanismos de planejamento e resolução de problemas. O córtex ventromedial pré-frontal regula funções como o cumprimento de regras sociais e interpessoais, aprendizado através de experiências e interpretação de emoções complexas (Kelly; Borrill; Maddell, 1996).

As relações entre o lobo frontal e o comportamento foram evidenciadas pela primeira vez no século XIX, com o caso de Phineas Gage. Gage, que era engenheiro em uma ferrovia, teve um acidente de trabalho, tendo seu córtex pré-frontal esquerdo perfurado. Após esse acidente ele tornou-se despreocupado e passou a ter uma conduta social inapropriada, drásticas mudanças comportamentais e mudanças importantes de personalidade (Damásio, 1994). Esse trágico acidente foi um marco na neurociência do comportamento, demonstrando as íntimas bases neurológicas do comportamento.

As funções executivas são regidas pelo lobo frontal, mais precisamente o córtex pré-frontal. Chamamos de funções executivas a um grupo de habilidades superiores de organização e integração que estão conectadas neuroanatomicamente a diferentes vias de interação neuronal envolvendo o córtex pré-frontal. Essas funções possibilitam ao ser humano monitorar seu comportamento e avaliar as consequências sociais de suas ações. Essa região cerebral é a última a atingir seu grau de maturidade esperado, e inúmeros pesquisadores estabelecem que o desenvolvimento pleno dessas habilidades ocorre no período final da adolescência (Damásio, 2000; 2003; 2005; Giedd et aí., 1999; Lezak, 1995). Frente a isso, pode-se entender que um indivíduo com uma média de 20 anos estaria pronto para coordenar seu comportamento e regulá-lo de acordo com as regras sociais, morais e culturais de seu meio. Veja boxe Maturação cerebral entre as idades de 5 e 20 anos.

Os achados também são condizentes com a cronologia do desenvolvimento da moralidade em Piaget, na qual ele coloca dois momentos, o de heteronomia moral, até os 11 anos, quando a criança pode até considerar injusta uma ordem, mas não entende os motivos da injustiça e não consegue explicar os mesmos. A partir dos 12 anos, quando o córtex pré-frontal adquiriu o máximo de exuberância sináptica (número de conexões entre células nervosas), e com o advento da adolescência, passa a ocorrer um processo de poda das sinapses menos utilizadas e menos importantes para o indivíduo e começa o aumento da substância branca, correspondente a um aumento da bainha de mielina dos axônios e, consequentemente, uma mais eficaz e rápida condução do sinal eletroquímico entre diferentes áreas do cérebro, com aumento da eficiência e precisão dos pensamentos, emoções e tomada de decisões. O córtex pré-frontal é a última área a sofrer essa mielinização axônica intensa, e o córtex pré-frontal dorso lateral (DLPFC) e o córtex órbito-frontal (OFC), as áreas do pré-frontal que, por último, sofrerão essa especialização cognitiva. Por outro lado, o sistema límbico no cérebro adolescente já está maduro e essa diferença de maturação em diferentes áreas é que acarreta os comportamentos de risco, a necessidade de prazeres consumatórios e, consequentemente, o blefe e a desonestidade que muitas vezes acompanham esse momento hedonista de nossas vidas (Konrad; Firk; Uhlhaas, 2013).

TESTE DE HONESTIDADE

Em um estudo conduzido em Pádua, na Itália, Bucciol e Piovesan (2011) testaram a honestidade em crianças de 5 a 15 anos, de ambos os sexos, participantes de uma colônia de férias de verão. O experimento consistiu de sorteios utilizando uma moeda com uma face branca e outra preta, em cinco tentativas, e registrar o resultado em uma folha de papel. Para cada resultado de face branca a criança ganharia um prêmio (um sorvete, um refrigerante, balas). Foram testados dois grupos: um grupo controle, em que crianças não recebiam orientações, exceto as regras básicas do sorteio. No outro grupo, as crianças eram orientadas, verbalmente e por escrito, a não enganarem. Os sorteios eram realizados sem a supervisão dos pesquisadores, não tendo eles condições de afirmar sobre blefe ou honestidade, exceto em termos de probabilidade, no caso de 50% para cada lado da moeda, uma discrepância grande sugeriria o blefe por parcela significativa das crianças.

Na situação sem a instrução para não enganar, muitas crianças, mas não todas, tiveram a tendência de enganar, mas não houve diferenças nessa tendência relativamente a idade, gênero ou número de irmãos (média de 85,39% de face branca da moeda para cima). Na condição em que houve a solicitação para não enganar, a taxa de face branca das moedas caiu em 16,19%. O efeito da solicitação foi maior para meninas do que para meninos, sendo que elas relataram resultados da face branca 36% menor que os meninos na condição de solicitação para não enganar, mas houve uma tendência de se igualarem os valores na medida que a idade das meninas aumentava. O estudo sugere que uma simples maneira de fazer as pessoas agirem honestamente seria destacar e solicitar para se comportarem de forma honesta. Também parece que meninas são mais propensas a uma persuasão moral do que meninos, ao menos até uma determinada idade.

Estudos com neuroimagem e de desenvolvimento neural apresentam evidências de que duas regiões do córtex pré-frontal (o DLPFC e o OFC) apresentam papéis críticos nas decisões envolvendo honestidade. Um estudo em particular traçou as relações causais comparando o comportamento de pacientes com lesões no DLPFC e no OFC, com o de pessoas saudáveis, promovendo uma bateria de testes com base nos jogos de sinais, amplamente utilizados em pesquisas em economia comportamental e biologia evolucionista. Os resultados indicam que pacientes com lesões no córtex pré-frontal dorsolateral têm redução na preocupação com honestidade, sem alterações nas tendências altruísticas básicas. Essas lesões influenciavam no cálculo do valor da honestidade no jogo, por diminuir o valor subjetivo de ser honesto, em associação com a obtenção de interesses imediatos. Por­ tanto, essa região do córtex pré-frontal é necessária para sobrepor preocupações com a honestidade aos próprios interesses (Zhu et aí., 2014).

 AUTORIDADE

Outro estudo demonstrou que na presença de uma autoridade ou instituição reguladora, comportamentos honestos podem sofrer ampla variação. Katharina Gangl e seus colegas da Universidade de Viena conduziram uma série de experimentos nos quais testaram as diferenças quanto ao tipo de autoridade exercida por instituições fictícias (Gangl et aí., 2017). Os resultados determinaram que a autoridade sendo coercitiva fosse embasada no controle pela força e pela punição, gerando desconfiança e sendo percebida como feroz e injusta, na maioria das vezes, induzindo a uma análise de custos e benefícios como se fora uma decisão de negócios, uma decisão racional que produz resistência e emoções negativas. Por outro lado, a autoridade, sendo legítima, será baseada na aceitação e apreciação, gerando experiências e provisão de informação, amizade e equidade, comunicando um papel dos membros da instituição amplamente aceito, e é percebida como um instrumento para estabelecer a equidade e uma norma social de cooperação. Também pode induzir à pressão moral e estresse psicológico, gerando conflitos entre os próprios interesses e o interesse da comunidade. Por outro lado, provoca uma motivação voluntária para cooperar. Ambas as situações refletem escolhas econômicas racionais e motivos sociais de reciprocidade ou de aversão à desigualdade. Os efeitos positivos na cooperação parecem não variar nas duas condições.

O experimento de Gangl e seus colegas consistia de cenários apresentados em slides, nos quais os participantes voluntários seriam hipoteticamente profissionais autônomos e teriam de pagar impostos em torno de 40% dos seus ganhos. Para manipular o tipo de autoridade, dividiram em autoridade coercitiva (com punição para a evasão e controle severo de pagamento dos impostos) e autoridade legítima (a partir de especialistas que ofereciam suporte ao pagamento dos impostos). Eles foram apresentados a um slide com as opções de pagamento de taxas e puderam escolher as opções de pagamento (amplamente desonesto – 0%, 25%, 50%, 75% e 100% – amplamente honesto) pressionando botões de 1 a 5 em um teclado adaptado. Foram 40 ensaios em uma condição e 40 ensaios na outra condição de autoridade, sendo que metade dos participantes iniciava na condição de autoridade coercitiva e a outra metade iniciava na condição de autoridade legítima. Nesse primeiro experimento, a autoridade coercitiva levou a um menor pagamento de impostos, tomada de decisões rápidas em que os voluntários se autodesignavam como racionais. Também foi verificada uma cooperação menos voluntária quando comparado à condição de autoridade legítima (Gangl et al., 2017).

No segundo experimento, Gangl e colegas avaliaram os potenciais elétricos relacionados a eventos (ERPs) e à negatividade fronto-medial (MFN), que é uma variação de amplitude de potenciais neurais gerados no córtex cingulado médio anterior (área relacionada às emoções morais), e no striatum ventral (área relacionada a uma antecipação de recompensas sociais e monetárias, bem como à rejeição social), duas áreas corticais do sistema límbico. Esses padrões de medidas a partir de eletroencefalografias têm sido amplamente utilizados em pesquisas envolvendo tomada de decisões sociais, com um alto grau de precisão temporal. O aprimoramento no MFN é inerpretado como controle cognitivo aprimorado, e tende a ser mais negativo quando os resultados são desfavoráveis, inesperados e salientes. MFNs são utilizados em experimentos envolvendo tomada de decisões sociais em jogos de economia e jogos de ultimato, em que decisões monetárias e altruísticas podem ser testadas. Previamente às medidas de MFN, foram exploradas medidas de potencial P2, que são indicativos dos níveis de excitação e captura de atenção. ERPs de 300 ms (P300) estão relacionados às tomadas de decisões sociais, acima desse valor referem-se a grandes mudanças na categorização de avaliação de estímulos e tendem a aumentar quando os resultados são positivos, requerendo grande alocação atencional.

Os resultados apontam para uma maior amplitude de P2 e MFN na autoridade legítima quando comparados com os da autoridade coercitiva e P300 foi mais pronunciada na autoridade coercitiva do que na legítima.

DIRETRIZES BIOPSICOSSOCIAIS

Obviamente que as funções executivas e o comportamento humano, bem como a honestidade, não dependem apenas do desenvolvimento cerebral. Só podemos compreender o indivíduo de acordo com as diretrizes biopsicossociais. Com isso, a Psicologia, integrada às neurociências, nos ensina que para um indivíduo crescer e se desenvolver adequadamente, o meio social e familiar é crucial. Os principais transtornos relacionados a alterações de conduta e comportamento geralmente originam-se em decorrência de negligência, maus-tratos e violência sofridos ao longo da construção da personalidade. Reduzir o ser humano apenas a um cérebro e a regiões cerebrais seria voltar a um dualismo míope e reducionista. O desenvolvimento da personalidade, que é um padrão mais ou menos flexível e esperado de comportamento, se dá através da interação entre o indivíduo e seu ambiente. O que chamamos de caráter, no senso comum, é formado através das inter-relações entre indivíduo, família e sociedade, desde a primeira infância até o final da adolescência. Para entendermos as ações de um indivíduo, temos que o compreender dentro do meio em que ele se encontra. Os comportamentos modificam-se de cultura para cultura, e o que em uma cultura pode ser considerado desonesto, ou amoral, em outra é considerado normal. O entendimento de “normal” e honesto consiste em estar dentro das normas esperadas e aceitas para aquela cultura e sociedade. O cumprimento de comportamento esperados depende de um bom funcionamento cerebral, e de um desenvolvimento da personalidade adequado e esperado para as diretrizes ética e morais de seu meio.

MATURAÇÃO CEREBRAL ENTRE AS IDADES DE 5 E 20 ANOS

Essas imagens foram construídas por meio de ressonância magnética cerebral (MRI) de crianças e adolescentes. durante 15 anos de desenvolvimento do cérebro. O vermelho indica maior quantidade de substância cinzenta, ainda imatura, conectando-se de forma pouco ordenada. A substância cinzenta diminui da área posterior para a anterior à medida que o cérebro vai se maturando e o excesso de conexões neuronais vai sendo progressivamente cortado e ordenado. As áreas responsáveis pelas funções básicas maturam precocemente, áreas de funções mais elaboradas maturam depois. A área pré-frontal responsável pelo raciocínio mais elaborado e pelas funções executivas se desenvolve por último na sequência de maturação normal do cérebro (Giedd et aí. 1999)

  Devemos ser honestos2

 

 Devemos ser honestos3

Luciana Tisser é psicóloga, com especialização em Neuropsicologia, mestre e doutora em Ciências da Saúde/Neurociências. Autora dos livros Por que Vou à Terapia? Por que Não Gosto da Hora de Dormir; Avaliação Neuropsicológica Infantil; O Cérebro e os Moradores; Por que Devemos Combater o Bullying? e Transtornos Psicopatológicos na Infância e na Adolescência. da Sinopsys Editora. É professora do curso de Psicologia Uniritter.

Rodrigo Sartorio é biólogo, M. Sc em Neurociências e Comportamento e doutor em Psicobiologia. Autor dos livros O Bullying na Dinâmica Escolar e Cognitiva e Compreendendo e Aplicando as Neurociências na Educação. Pesquisador em Psicologia Evolucionista, coautor de capítulo do livro Mentira e Autoengano. Do Grupo de Pesquisa em Psicologia Evolucionista da ANPEPP.

GESTÃO E CARREIRA

SUA CARREIRA: QUE RUMO TOMAR?

Sua carreira, que rumo tomar

“O trabalho e o livre jogo da imaginação são para mim a mesma coisa”, dizia o médico vienense e fundador da psicanálise Sigmund Freud. Por imaginação associada ao trabalho ele quis dizer: prazer, vontade, desejo, satisfação e realização. Freud não aceitava a ideia de uma vida sem trabalho, pois o seu trabalho lhe proporcionava esses elementos que são a base de uma vida feliz. Por outro modo, quando o trabalho é fonte de angústias e tristezas, joga-se a vida fora. Este é portanto, o primeiro e mais importante direcionamento para a carreira profissional: buscar prazer e alegria no que se faz.

Trabalhar de forma entusiasmada é indispensável para o sucesso profissional. Não há bom médico que deteste medicina. Mas quando não se gosta do que faz, a tendência é a de não fazer bem-feito, com dedicação e atenção. Mas a necessidade de sobrevivência, somada às pressões da sociedade, nem sempre permite que se atinja logo de início uma condição satisfatória no trabalho. Quando isso acontece, não há motivo de desespero. Deve se encarar nesse caso, o trabalho presente como uma fase transitória, uma fase de construção para uma futura situação de realização em outro trabalho. Para isso, é preciso estudar continuamente, direcionando sua carreira para o objetivo da sua vontade e da sua realização.

Assim, você deve realizar um projeto para a sua carreira, um projeto que tome o rumo do que deseja para você mesmo. Não são as opiniões alheias, seja das mídias, das empresas, dos professores ou dos amigos que vão determinar o que é bom para você. Só você pode obter essa resposta a partir de suas próprias reflexões. Um projeto de carreira deve oferecer clareza sobre o que se quer a curto e a longo prazo, listando as dificuldades e desafios a serem vencidos. Uma carreira oportunista voltada exclusivamente para o curto prazo, pode causar sérios danos a longo prazo. Pensar apenas no longo prazo, entretanto, pode prejudicar as ações do presente. Um equilíbrio, nesse caso, se faz necessário.

A nossa vontade muda ao longo do tempo, conforme avança o amadurecimento. Assim sendo, não há nada de errado em querer mudar de profissão, por exemplo. Ou de se preparar para duas profissões simultâneas. Você é livre para fazer o que quiser e a sua carreira deve ser um projeto de sua autoria. A sua carreira deve ser uma criação sua e não dos outros. Cuidado com as opiniões alheias, os palpites ou os modismos. Preparando-se continuamente – por melo dos estudos – e sem jamais abrir mão do que deseja, sua carreira vai ganhando sentido e realização.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 15: 29-39

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Quatro Mil Homens São Alimentados

Aqui temos:

I – Um relato geral das curas realizadas por Cristo, de curas em grande escala. Os sinais do poder e da bondade de Cristo não são escassos nem limitados, pois nele

há uma abundância que transborda. Considere:

1.O lugar onde essas curas se realizaram: isso acontece u perto “do mar da Galileia”, uma parte da nação de que Cristo era profundo conhecedor. Nós não lemos sobre nada que Ele tenha feito nas partes de Tiro e Sidom, exceto a expulsão do demônio da filha da mulher cananeia, como se Ele tivesse feito a viagem com este objetivo. Os ministros não devem deixar de se esforçar para fazer o bem, ainda que seja para poucos. Aquele que conhece o valor de uma alma, irá a extremos para salvar uma alma da morte e do poder de Satanás.

Mas “Jesus partiu dali”. Tendo deixado cair aquela migalha debaixo da mesa, Ele aqui retorna para fazer um banquete completo para os filhos. Cristo foi às partes de Tiro e Sidom, mas Ele se assentou “ao pé do mar da Galileia” (v. 29), não em um trono suntuoso, nem em um tribunal de julgamento, mas sobre um monte: assim eram, simples e humildes, as suas mais solenes aparições nos seus dias na carne! Ele se assentou sobre um monte, para que todos o pudessem ver, e pudessem ter livre acesso a Ele. Ali Ele se assentou, como alguém cansado da sua jornada, e desejando descansar um pouco; ou mesmo esperando conceder a sua graça. Ele se assentou, esperando pacientes, como Abraão, à porta da sua tenda, pronto para recebê-los. Ele se posicionou para fazer a sua boa obra.

2.As multidões e as doenças que foram curadas por Ele (v. 30): “E veio ter com ele muito povo”; para que se cumprisse a Escritura que diz: ”A ele se congregarão os povos” (Genesis 49.10. Se os ministros de Cristo pudessem curar o mesmo número de pessoas que Cristo curou, muito mais gente os procuraria; nós nos tornamos rapidamente sensíveis às dores e às doenças físicas, mas poucos estão preocupados com as suas almas e com as enfermidades espirituais.

Agora:

(1). A bondade de Cristo era tanta, que Ele recebia todos os tipos de pessoas. Os pobres, e também os ricos, são bem recebidos por Cristo, e com Ele sempre existe lugar suficiente para todos os que chegam. Ele nunca reclamou das multidões nem dos amontoados de gente, nem olhou com desprezo para as pessoas comuns – o povo, como eram chamadas. Pois as almas dos camponeses são tão preciosas para Ele quanto as almas dos príncipes.

(2). O poder de Cristo era tal, que Ele curava todos os tipos de enfermidades; aqueles que vinham até Ele trouxeram consigo os seus parentes e amigos doentes, e os puseram “aos pés de Jesus” (v. 30). Não lemos nada sobre o que disseram a Ele, mas deixaram ali os doentes, como objetos de pena, para serem cuidados por Ele. Os seus problemas falavam mais por eles do que poderia falar a língua do orador mais eloquente. Davi derramou a sua queixa perante Deus, e isso foi o suficiente; ele então a deixou com Ele (Salmos 142.2). Qualquer que seja a nossa situação, a única maneira de encontrar consolo e alívio é deixá-la aos pés de Cristo, espalhá-la diante dele, e recorrer ao seu conhecimento, e então submetê-la a Ele, e esperar pela sua disposição. Aqueles que desejam obter de Cristo a cura espiritual, precisam se colocar aos seus pés, para serem governados como Ele desejar.

Foram trazidos a Cristo “coxos, cegos, mudos, aleijados e outros muitos”. Veja o trabalho do pecado! Transformou o mundo em um hospital: a quantas doenças diferentes os corpos humanos estão sujeitos! Veja o trabalho do Salvador! Ele vence os inimigos em benefício da humanidade. Aqui havia doenças às quais um lampejo de imaginação não ajudaria nem na investigação de sua causa, nem em sua cura. Estas enfermidades não estavam nos temperamentos, mas nos membros do corpo, e até mesmo estes estavam sujeitos aos mandamentos de Cristo. Ele enviou a sua palavra, e os curou. Todas as doenças estão sob o comando de Cristo, para ir e vir, conforme Ele ordenar. Este é um exemplo do poder de Cristo, que pode nos consolar em todas as nossas fraquezas, e da sua piedade, que pode nos consolar em todos os nossos sofrimentos.

3.A influência dessas curas sobre a multidão (v. 31).

(1). Ela “se maravilhou”, e com razão. Os milagres de Cristo devem nos maravilhar. “Foi o Senhor que fez isto, e é coisa maravilhosa aos nossos olhos” (Salmos 118.23). As curas espirituais que Cristo realiza são maravilhosas. Quando as almas cegas conseguem ver pela fé, quando os mudos começam a falar em oração, os coxos, a andar em santa obediência, isso é maravilhoso. “Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele fez maravilhas”.

(2). Eles glorificaram “o Deus de Israel”, de quem os fariseus, quando viam essas coisas, blasfemavam. Os milagres, que são aquilo de que nos maravilhamos, devem ser um motivo do nosso louvor. E a misericórdia, que é motivo da nossa alegria, deve ser objeto da nossa gratidão. Aqueles que eram curados, glorificavam a Deus. Se Ele cura as nossas enfermidades, tudo o que está em nós deve bendizer o seu santo nome. E se nós tivermos sido graciosamente preservados da cegueira, da deficiência física, da mudez, temos iguais motivos para bendizer a Deus, como se Ele nos tivesse curado dessas condições; e quem estava observando glorificou a Deus. Deus deve ser reconhecido com louvor e gratidão pelas dádivas que concede aos outros, como pelas dádivas que Ele concede a nós mesmos. Eles o glorificavam como “o Deus de Israel”, o Deus da sua igreja, o Deus que tem uma aliança com o seu povo, o Deus que tinha enviado o Messias prometido; este é o Senhor. Veja Lucas 1.68. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel. Isso foi feito pelo poder do Deus de Israel, e nenhum outro poderia fazê-lo.

II – Aqui está um relato de quando Jesus alimentou quatro mil homens com sete pães e uns poucos peixinhos, da mesma maneira como tinha recentemente alimentado cinco mil homens com cinco pães. Os presentes realmente não eram tão numerosos quanto naquela ocasião, e a provisão, um pouco maior, o que não sugere que a generosidade de Cristo tivesse diminuído, mas que Ele realizava os seus milagres conforme a situação exigisse, e não por ostentação; portanto, Ele os adequava à ocasião. Tanto naquela ocasião como agora, Ele considerou tantos quantos deviam ser alimentados e usou tudo o que estava à disposição para alimentá-los. Quando os maiores poderes da natureza são superados, devemos dizer: Isto é o dedo de Deus; e nem agora, nem naquela ocasião, eles foram superados; por isso, este não é um milagre menor do que aquele.

Aqui está:

1.A piedade de Cristo (v. 32): “Tenho compaixão da multidão”. Ele diz isso aos seus discípulos, tanto para colocar a sua compaixão à prova, como para despertá-la. Quando Ele estava prestes a realizar esse milagre, Ele os chamou, e fez que conhecessem o seu propósito, e conversou com eles sobre isso; não porque precisasse do conselho deles, mas porque Ele iria dar a eles um exemplo do seu amor condescendente. Ele não os chamou de servos, pois “o servo não sabe o que faz o seu Senhor”, mas os tratou como seus amigos e conselheiros. “Ocultarei eu a Abraão o que faço?” (Genesis 18.17). No que Ele disse aos discípulos, observe:

(1). A situação da multidão. “Já está comigo há três dias e não tem o que comer”. Este é um exemplo do entusiasmo deles, e da extensão do seu afeto por Cristo e pela sua palavra. Eles não somente deixaram o seu trabalho para estar com Ele em dias de trabalho, mas enfrentaram um grande número de dificuldades para continuar com Ele. Eles precisavam do seu descanso natural, e, aparentemente, estavam como soldados no campo; eles precisavam do alimento necessário, e mal tinham o suficiente para conservar a alma e a vida. Naquelas regiões mais quentes, eles podiam suportar o jejum melhor do que nós podemos nesses climas mais frios, mas embora isso fosse nocivo ao corpo, e pudesse comprometer a sua saúde, ainda assim o zelo pela casa de Deus os consumia, e eles valorizavam as palavras de Cristo muito mais do que o alimento de que precisavam. Nós julgamos que três horas é um tempo excessivo para os ritos públicos, mas essas pessoas estavam juntas por três dias, e não reclamaram disso, nem disseram: Que cansativo é isso! Observe com que ternura Cristo diz: “Tenho compaixão da multidão”. Era conveniente que eles tivessem compaixão dele, que se esforçou tanto com eles nos três dias, e era tão infatigável nos seus ensinamentos e nas suas curas – tanta virtude tinha saído dele, e pelo que parece, Ele também estava em jejum. Mas Ele, com a sua compaixão, impediu que eles jejuassem mais. O nosso Senhor Jesus observa por quanto tempo os seus seguidores continuam a segui-lo, e observa a dificuldade que eles suportam para isso. “Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência” (Apocalipse 2.2); e isso, de maneira nenhuma, ficará sem recompensa.

A situação à qual as pessoas estavam reduzidas serve para evidenciar:

[1]. A dádiva do seu alimento: Ele os alimentou quando tiveram fome, e então o alimento foi duplamente bem-vindo. Ele os tratou como fez com o Israel dos antigos; Ele os deixou ter fome, e então os sustentou (Deuteronômio 8.3); pois a alma farta pisa o favo de mel, mas à alma faminta todo amargo é doce.

[2]. O milagre do alimento: tendo jejuado por tanto tempo, o seu apetite era ainda mais urgente. Se duas refeições em que a fome não é saciada produzem um glutão na terceira refeição, o que farão três dias de fome? E ainda assim, “todos comeram e se saciaram”. Note que existe misericórdia e graça suficiente em Cristo para dar urna satisfação abundante ao mais ansioso e dilatado desejo. ”Abre bem a tua boca, e a encherei”. Ele sacia até mesmo a alma faminta.

(2). A preocupação do nosso Senhor com eles: “Não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho”. Isso seria uma mancha para Cristo e para a sua família, e um desencorajamento tanto para essas pessoas como também para outras. Note que a infelicidade do nosso estado atual é que quando as nossas almas estão, de alguma maneira, elevadas, os nossos corpos não conseguem acompanhá-las nas boas ações. A fraqueza da carne é o grande pesar para a disposição do espírito. Não será assim no céu, onde o corpo terá sido transformado em um corpo espiritual. Não precisaremos de descanso. Estaremos louvando a Deus noite e dia, e não desfaleceremos; ali nunca mais teremos fome, nunca mais teremos sede (Apocalipse 7.16).

Aqui está:

2.O poder de Cristo. A sua compaixão pela necessidade deles coloca em ação o seu poder para alimentá-los. Considere:

(1). Como o seu poder foi alvo de desconfiança por parte de seus discípulos (v. 23): “Donde nos viriam num deserto tantos pães?” Uma pergunta adequada, poderíamos pensar; como aquela de Moisés (Números 11.22): “Degolar-se-ão para eles ovelhas e vacas que lhes bastem?” Mas aqui era uma pergunta inadequada, considerando não apenas a certeza que os discípulos tinham do poder de Cristo, mas também a experiência em particular que tinham tido recentemente, de uma provisão milagrosa, oportuna e suficiente, em uma situação semelhante. Eles tinham sido não apenas as testemunhas, mas também os ministros, no milagre anterior; o pão multiplicado passou pelas suas mãos. Assim, a pergunta deles era um exemplo de enorme fraqueza: “Donde nos viriam, tantos pães?” Eles estavam sem saber o que fazer, enquanto tinham o seu Mestre com eles? Esquecer experiências passadas nos deixa à mercê de dúvidas presentes.

Cristo sabia o quanto a provisão era escassa, mas Ele queria saber por eles (v. 34): “Quantos pães tendes? ” Antes de realizar o milagre, Ele queria que ficasse claro que Ele tinha muito pouco com que trabalhar, para que o seu poder pudesse brilhar ainda mais. O que eles tinham era para eles mesmos, e mal dava para a sua própria família; mas Cristo faria com que eles entregassem o alimento a toda a multidão, e confiassem na providência para conseguir mais. Convém que os discípulos de Cristo sejam generosos, pois o seu Mestre era assim – o que nós temos, devemos doar, se houver oportunidade; ser hospitaleiros, não como Nabal (1 Samuel 25.11), mas como Eliseu (2 Reis 4.42). A avareza hoje, por causa da preocupação com o amanhã, é uma complicação de afetos corrompidos que deve ser eliminada. Se formos prudentemente generosos e caridosos com aquilo que temos, nós podemos, piedosamente, esperar que Deus nos envie mais. Jeová-jiré, o Senhor proverá. Os discípulos perguntaram: “Donde nos viriam… tantos pães?” Cristo perguntou: “Quantos pães tendes?” Quando não pudermos ter o que quisermos, devemos aproveitar ao máximo o que tivermos, fazendo o melhor que pudermos com os nossos recursos. Devemos pensar mais naquilo que temos do que nas nossas necessidades. Cristo, aqui, agiu de acordo com a regra que Ele ensinou a Marta: Não fique ansioso com muitas coisas, nem afadigado com muitos serviços. A natureza se satisfaz com pouco; a graça, com menos; mas a luxúria não se satisfaz com nada.

(2). Como o poder de Jesus foi descoberto pela multidão, na provisão abundante que Ele lhes ofereceu, de maneira muito semelhante à situação anterior (cap. 14.18ss.). Observe aqui:

[1]. O alimento que estava disponível: “sete pães e uns poucos peixinhos”. O peixe não era proporcional ao pão, pois o pão é o sustento da vida. É provável que o peixe tivesse sido pescado pelos próprios discípulos, pois eles eram pescadores e estavam perto do mar. Agradável é comer do trabalho das nossas mãos (Salmos 128.2), e desfrutar daquilo que é, de alguma maneira, o produto da nossa própria dedicação (Provérbio 12.27). E não devemos nos prender ao que conseguimos graças à bênção de Deus no nosso trabalho; pois por isso devemos trabalhar, para ter o que repartir (Efésios 4.28).

[2]. A distribuição das pessoas em uma posição para receber o alimento (v. 35): Ele “mandou à multidão que se assentasse no chão”. Eles viam muito pouco alimento, mas precisavam sentar na grama, confiando que teriam uma refeição com Ele. Aqueles que têm o seu alimento espiritual em Cristo devem sentar aos seus pés para ouvir a sua Palavra, e esperar que ela venha de uma maneira invisível.

[3]. A distribuição da provisão entre eles. Primeiramente, Ele deu “graças”. A palavra usada no milagre anterior foi eidogese Ele abençoou. Tudo se resume na mesma coisa; dar graças a Deus é uma maneira apropriada de pedir uma bênção de Deus. E quando nos aproximamos para pedir, e receber mais dádivas, devemos dar graças pelas dádivas que recebemos. A seguir, Ele partiu os pães (pois era ao partir os pães que eles se multiplicavam), “e deu-os aos seus discípulos, e os discípulos, à multidão”. Embora os discípulos não tivessem confiado no poder de Cristo, ainda assim Ele os usou agora da mesma maneira como antes. Ele não se deixa provocar, como poderia, pela fraqueza e pela hesitação dos seus ministros, para deixá-los de lado; mas ainda lhes dá a Palavra da vida e eles, por sua vez, transmitem-na ao seu povo.

[4]. A abundância que houve (v. 37): “E todos comeram e se saciaram”. Aqueles a quem Cristo alimenta, Ele sacia. Enquanto trabalhamos para o mundo, trabalhamos por aquilo que não pode satisfazer (Isaias 55.2); mas aqueles que esperam em Cristo obedientemente, serão abundantemente satisfeitos da bondade da sua casa (Salmos 65.4). Assim, Cristo alimentou o povo outra vez, para lhes fazer entender que, embora Ele fosse chamado de Jesus de Nazaré, Ele era de Belém, a casa de pão; ou, melhor ainda, que Ele mesmo era o pão da vida.

Para mostrar que todos eles tinham se saciado, sobraram “sete cestos cheios” do alimento multiplicado, não tanto quanto houve no milagre anterior, porque havia tantas pessoas para comer como naquela ocasião, mas suficiente para mostrar que com Cristo há alimento suficiente, e que sobram estoques de graça para mais do que os que a procuram, e para aqueles que procuram mais.

[5]. A atenção foi dirigida aos presentes – não para que pudessem pagar a sua cota (aqui não havia contas a fazer; todos se alimentaram gratuitamente) -, para que pudessem ser testemunhas do poder e da bondade de Cristo; e para que isso pudesse ter alguma semelhança com aquela providência universal que “dá mantimento a toda a carne” (Salmos 136.25). Aqui quatro mil homens foram alimentados. Mas o que eram eles, em comparação com aquela grande família que recebe alimento pela divina providência todos os dias? Deus é um grande administrador, em quem os olhos de todos esperam, e Ele lhes dá o seu mantimento a seu tempo (Salmos 104.27; 145.15).

[6]. A dispersão da multidão, e a ida de Cristo para outro lugar (v. 39). Ele “despediu a multidão”. Embora Ele os tivesse alimentado duas vezes, eles não deveriam esperar que os milagres fossem as suas refeições de todos os dias. Deixemos que agora eles sigam para as suas casas, para o seu trabalho, e para as suas próprias mesas. E Ele mesmo foi de barco a outro lugar; pois, sendo a “luz do mundo”, Ele ainda precisava se movimentar e se ocupar fazendo o bem.