PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DSM E A DISLEXIA

Informações mais aprofundadas a respeito do transtorno, mesmo que um pouco desencontradas, só foram registradas na terceira edição do DSM da década de 1980.

O DSM e a dislexia

Uma curiosidade que precisa ser registrada é a forma como o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), publicação oficial de American Psychiatric Association, tem classificado a dislexia e outros distúrbios de aprendizagem ao longo dos anos. O DSM-1 e o DSM-II tinham poucas páginas e não especificavam os sintomas nem características aprofundadas dos distúrbios. O DSM-II, publicado em 1968, trazia apenas a citação “Specific learning disturbance” (distúrbio ou perturbação específica da aprendizagem). Não havia nenhuma descrição do que poderia ser um distúrbio específico de aprendizagem. Na terceira edição, ou seja, DSM­ Ill, publicado em fevereiro e maio de 1980, sendo primeira e segunda impressões, respectivamente, houve um considerável acréscimo de informações, ainda que tenham sido um pouco desencontradas. A definição passou a ser algo como: “(315) atrasos específicos no desenvolvimento. Um grupo de distúrbios em que um atraso específico no desenvolvimento é a principal característica. O desenvolvimento desses casos está relacionado à maturação biológica, mas também é influenciado por não biológicos. Os fatores e a codificação não possuem implicações etiológicas. Exclui: quando devido a um distúrbio neurológico (320-389)”.

“(315.0) Retardo específico de leitura. Distúrbios em que a característica principal é um grave prejuízo no desenvolvimento da leitura ou habilidades ortográficas que não são explicáveis em termos de retardo intelectual geral ou de escolaridade inadequada. Problemas de fala ou linguagem, diferenciação da diferenciação direito-esquerda, problemas de percepção motora e dificuldades de codificação são frequentemente associados. Problemas semelhantes, muitas vezes, estão presentes em outros membros da família. Fatores psicossociais adversos podem ser presentes.” A única citação sobre dislexia é a seguinte: “Dislexia do desenvolvimento, dificuldade de soletração específica”. Mas não especifica mais nada (DSM- lll, 444Appendix D).

Vale lembrar que essa versão que estou analisando é a versão digitalizada em inglês. Por isso, pode ter sofrido alguma alteração durante o processo de digitalização. Além disso, essas informações só são encontradas no adendo de revisão que, provavelmente, como todo adendo, foi inserido em data posterior, pois me lembro bem da época em que esse manual foi publicado, pois estava no auge do desespero à procura de respostas para o que havia ocorrido comigo num afogamento e, naquela época, não havia nada em inglês sobre dislexia. Como já relatei diversas vezes, as poucas respostas que encontrei chegaram em um livro alemão. Porém, nessa versão digitalizada encontra -se o termo dislexia do desenvolvimento, em inglês, embora não relate sintomas nem características. Quero frisar que nada tenho contra os norte-americanos, ao contrário, tenho ótimos amigos daquele país. O que eu cito se refere à descrição ou citação meio equivocada em relação aos distúrbios de aprendizagem, em especial a dislexia.

MISTURA

Outro fator que precisa ser frisado é a “mistura” de sintomas atribuídos à dislexia naquela época, que, infelizmente, continuam sendo “misturados”, especialmente no Brasil. Considerada como um “retardo de leitura específico’ citava sintomas como problemas de fala ou linguagem, dificuldade ou ausência na lateralidade (diferenciação direita-esquerda), problemas de percepção motora e dificuldades de codificação ser iam, segundo o manual, frequentemente associados. Isso, há muito tempo, já se sabe que não são sintomas associados nem menos ainda característicos da dislexia. Se ocorrerem em comorbidade, pode ser mais pelo tratamento errado do que dos sintomas propriamente ditos.

Essa é uma afirmação minha, a constatação é minha e eu assumo a responsabilidade pela afirmação, baseando-me em diversos casos que analisei e outros inúmeros que conheci por intermédio de outros pesquisadores e profissionais clínicos, ao longo de 40 anos de experiências.

Outra afirmação que merece destaque é a citação: “Problemas, muitas vezes, estão presentes em outros membros da família”. Essa afirmação passou a influenciar a ideia de que a dislexia (que nem sequer recebia esse nome em inglês) teria origem genética/hereditária. Nas páginas 93 e 94 dessa mesma edição, outra contradição. Pode se ler o seguinte: “(315.00) Transtorno da leitura do desenvolvimento. A característica essencial é um comprometimento significativo no desenvolvimento da leitura e habilidades não contabilizadas por idade cronológica, idade mental ou escolaridade inadequada. Além disso, na escola, o desempenho da criança em tarefas que requerem as habilidades está significativamente abaixo de sua capacidade intelectual. Perturbação “significativa” difere um pouco com a idade: uma discrepância de um a dois anos na habilidade de leitura. Para as idades de 8 a 13 anos é significativo, mas, abaixo dessa idade, é difícil especificar como uma grande discrepância é significativa. Essa desordem foi referida como “dislexia”. Ocorre uma leitura oral defeituosa, muitas vezes caracterizada por omissões, adições e distorções de palavras. Ao soletrar o ditado pode haver numerosos e estranhos erros, que não são explicáveis pela fonética ou pela simples reversão de letras (como b/ d). Outras características associadas comuns incluem dificuldades de linguagem sutis, tais como deficiência de discriminação de som e dificuldades de sequenciamento de palavras corretamente, e problemas comportamentais, como os associados ao transtorno de déficit de atenção e transtorno de conduta. Sinais neurológicos, como agnosia dos dedos, podem ser encontrados, particularmente, em crianças mais novas’:

As duas citações que merecem mais destaque nesse parágrafo são: em primeiro lugar, o termo “dislexia” é citado como se fosse algo do passado ou então alternativo do tipo “tem sido chamado” ou se chamou dislexia. Algo que já não se usasse mais o termo ou definição ou, se usado, seria apenas uma forma alternativa de expressão. Porém, levando-se em conta que na edição anterior o termo “dislexia’ praticamente, nem era citado e nessa edição a citação é de que foi um “termo do passado” ou poder ia ser um termo “alternativo’: onde afinal estaria publicado o termo e sua definição com precisão? Seria na Alemanha, comprovando minhas pesquisas e publicações?

 OBSERVAÇÃO

O segundo detalhe importantíssimo a analisar é que nessa terceira edição do DSM entrou uma pequena observação sobre uma suposta troca de letras. Ai, eu volto ao que citei anteriormente em meu livro Distúrbios de Aprendizagem e de Comportamento, quando abordei a pesquisa sobre a troca de letras que foi abandonada após alguns anos de defesa. Muito provavelmente por se ter percebido a incoerência ou por haver interesse por outras linhas de pesquisa. Estranhamente, na terceira edição do DSM foi citada essa suposta troca de letras, mas apenas com as letras p/ b e ocorrendo numa soletração/ ditado. Seria aqui o caso de detectar uma possível deficiência auditiva confundindo o p com o b num ditado e não a ideia totalmente errada de que possa ser sintoma de dislexia? De qualquer forma, apesar de haver uma citação no manual considerado “oficial” de classificação de distúrbios, foi considerada apenas a troca p/ b e não essa grande lista de trocas de letras que se encontra hoje em diversas definições, em dissertações de mestrado, teses de doutorado, debates televisivos e onde mais a imaginação dos desavisados os levar.

Nessa mesma edição estipula-se que “(94) Categorias de diagnóstico lento e, muitas vezes, há uma compreensão de leitura reduzida, embora a capacidade para copiar textos escritos ou impressos geralmente não seja afetada. O diagnóstico só pode ser feito por testes de QJ administrados individualmente, que contêm subtestes verbais e que produzem um nível de QJ em escala completa, além de uma variedade de testes de realização acadêmica, que contêm subtestes de leitura. Recursos associados”.

Essa definição de diagnóstico também condenou os indivíduos a não procurarem outro tipo de diagnóstico e tratamento. Apesar de, atualmente, existirem alternativas bem mais rápidas e eficientes no diagnóstico e tratamento, por uma questão de “obediência” ao que se publica de forma teoricamente “oficial’; muitas pessoas até hoje se recusam a aceitar inovações que podem superar as expectativas. Isso inclui também profissionais que seguem à risca as determinações do DSM. Assim, privam seus pacientes do acesso às inovações e passam muitos anos, se não a vida toda, em tratamento contínuo, só pelo receio do “novo”.

Na edição DSM-IV, publicada em 1994, incluem-se transtornos de aprendizagem (anteriormente distúrbios de habilidades acadêmicas). Nas páginas 46 e 47 também é citado que “muitos indivíduos (10%-25%) com transtorno de conduta, transtorno de oposição desafiante ou transtorno opositivo desafiador, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtorno depressivo maior ou distímico também possuem transtornos de aprendizagem. Há evidências de que, no desenvolvimento, podem ocorrer atrasos na linguagem em associação com transtornos de aprendizagem (particularmente transtorno de leitura), embora esses atrasos possam não ser suficientemente graves para garantir o diagnóstico separado de um transtorno de comunicação. Distúrbios de aprendizagem também podem ser associados a uma taxa mais elevada de transtorno de coordenação do desenvolvimento”.

A página 48 insiste “no diagnóstico efetuado por testes específicos de realização”. Cita que “crianças de origens étnicas ou culturais diferentes da cultura escolar predominante ou em que o inglês não é o idioma principal e as crianças que frequentaram a aula nas escolas onde o ensino foi inadequado podem marcar mal nos testes de realização. Crianças desses mesmos antecedentes também podem estar em maior risco de absenteísmo devido a doenças mais frequentes ou empobrecidos ou caóticos ambientes de vida. A visão ou a audição prejudicadas podem afetar a capacidade de aprendizagem e devem ser investigadas através de testes de triagem audiométrica ou visual”.

Ainda na página 48 e parte da 49 é reafirmada, entre outras citações, a medição de capacidade de leitura por testes padronizados administrados individualmente, e insiste em afirmar que “em indivíduos com transtorno de leitura (que também se chamou ou tem sido chamado de dislexia), a leitura oral é caracterizada por distorções, substituições ou omissões; ambos orais e a leitura silenciosa é caracterizada por lentidão e erros de compreensão”. E coloca como “características e distúrbios associados, transtorno de matemática e transtorno da expressão escrita são comumente associados à (315.00) desordem de leitura”.

 INSISTÊNCIA

Essa insistência na aplicação de testes padronizados e a associação de outros distúrbios como espécie de comorbidades, como já tenho publicado em outros artigos e livros, parecem apenas um prolongamento de um diagnóstico e tratamento obsoletos e mal aplicados. Ou seja, uma criança apresenta um determinado número de sintomas que caracteriza uma dislexia, passa por uma série de testes padronizados, segue fazendo um tratamento padronizado ou, mesmo que seja adaptado, um tratamento limitado. Com o tempo, acabará apresentando outros sintomas relacionados a outros distúrbios, não por serem comorbidades, mas por serem consequências de um tratamento que não funcionou para ela.

Ainda na página 49, “60% a 80% dos indivíduos diagnosticados com transtorno de leitura são do sexo masculino”. Porém, também cita que “os procedimentos geralmente podem ser tendenciosos para identificar os homens, porque eles mais frequentemente exibem comportamentos disruptivos em associação com distúrbios de aprendizagem. A desordem foi encontrada em taxas mais iguais em homens e mulheres quando um diagnóstico cuidadoso e critérios rigorosos são usados, em vez de referência tradicional baseada na escola e procedimentos de diagnóstico”.

Nesse ponto, é preciso entender que o DSM está corretíssimo, ponderando que em caso de diagnóstico mais cuidadoso e criterioso o número de homens e mulheres com dificuldades de leitura se equipara, deixando um pouco de lado a afirmação de maior número de homens disléxicos. Mas, se o próprio DSM-IV já afirmava isso, por que tantos ainda insistem até hoje em afirmar que há maior número de meninos do que meninas em se tratando de dislexia?

Chegamos agora ao tão aguardado DSM-V, que foi publicado em 2013. Em sua página 68, cita que “uma característica essencial do transtorno de aprendizagem específico é a dificuldade persistente para aprender habilidades acadêmicas, sendo as principais: a leitura de palavras simples com precisão e fluentemente, compreensão de leitura, expressão escrita e ortografia, cálculo aritmético e raciocínio matemático (resolução de problemas matemáticos). Em contraste com a conversa ou a caminhada, que são os marcos de desenvolvimento adquiridos que surgem com maturação cerebral, habilidades (leitura, ortografia, escrita, matemática) devem ser ensinadas e aprendidas explicitamente. O distúrbio de aprendizagem específico interrompe o padrão normal de aprender habilidades acadêmicas; não é simplesmente uma consequência da falta de oportunidade de aprender ou instrução inadequada.

Dificuldade de dominar essas habilidades acadêmicas também pode impedir a aprendizagem em outros assuntos acadêmicos (história, ciência, estudos sociais), mas esses problemas são atribuíveis a dificuldades de aprender habilidades acadêmicas subjacentes. Dificuldade para aprender a mapear letras com os sons de um idioma – para ler palavras impressas (muitas vezes chamada de dislexia) – é uma das manifestações mais comuns de transtorno de aprendizagem específico’.

Aqui, além de continuar a preocupação em afirmar que o distúrbio foi chamado de dislexia, como uma alternativa, o que se percebe é uma junção de diversos distúrbios como uma espécie de associação da deficiência de aprendizagem. São muitos os detalhes e seria impossível transcrever tudo neste artigo. Sugiro a quem tiver curiosidade em saber mais que leia na íntegra o manual.

OBSERVAÇÕES PERTINENTES

Nos meus livros sobre distúrbios de aprendizagem, eu faço algumas observações complementares sobre as publicações DSM, mas a síntese que percebo é que, ao longo dos anos, a cada publicação, os sintomas, especialmente os da dislexia, foram aumentando e se juntando de tal forma que parece que tudo pode ser dislexia ou, como o manual cita, “distúrbio específico de aprendizagem”. O que espanta também é a quantidade de páginas a mais entre a primeira e a recente edição. De 132 páginas da primeira edição, passando para 136 da segunda, 507 páginas da terceira, 915 páginas da quarta e chegando a 970 páginas da quinta edição. Apesar de conter algumas explicações sobre os distúrbios, ainda assim nota-se que aumentaram muitos os distúrbios classificados e os sintomas a eles atribuídos. A sequência correta diante de tantas pesquisas, testes, publicações e avanços tecnológicos deveria ser a diminuição e até a cura de alguns distúrbios e não esse aumento excessivo.

Depois de observar tudo isso, a pergunta que fica é: se você suspeitar que seu filho(a) ou aluno(a) tenha dislexia, você procurará um profissional que busca respostas em diversas fontes ou um que leva o DSM ao pé da letra?

NECESSIDADE DE CLASSIFICAR DOENÇAS MENTAIS

Ao longo da história, a medicina sempre procurou desenvolver uma classificação para as inúmeras doenças mentais. A criação do DSM (Diagnosticand Statistical Manual of Mental Oisorders) pela American Psychiatric Association (APA), em 195, 2 surgiu da necessidade de uma sistematização das mais variadas classificações existentes nos Estados Unidos desde 1840. Naquela época, ocorreu a primeira tentativa de levantamento das doenças mentais, em uma classificação que contava com subtipos, como idiotia e insanidade. Hoje, de tempos em tempos, a APA tem grupos de trabalho para discutir as revisões do DSM e, assim, lançar novas edições, mais atualizadas, acompanhando as conclusões dos mais recentes e frequentes estudos sobre as doenças mentais.

BUSCA POR INFORMAÇÕES

A dislexia tem sido divulgada e tratada de forma equivocada por muito tempo. Os dados oficiais fogem à realidade e cada vez mais torna-se difícil aos pais e professores encontrarem informações precisas. Em busca dessas informações muitas vezes perde­se tempo precioso para um diagnóstico e tratamento em que não só pioram os sintomas como evoluem para baixa autoestima e dificuldade de socialização. É preciso atenção para buscar ajuda com o profissional correto e a certeza de que dislexia, se bem diagoost1cada e tratada, pode ser administrada e seus sintomas amenizados.

 

Lou de Olivier – é multiterapeuta, psicopedagoga. Psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental, bacharel em Artes Cênicas e Artes Visuais. Detectora do distúrbio da dislexia adquirida/Acquired Dyslexia, precursora da Multiterapia, introdutora da Brinquedoteca aliada à aprendizagem no Brasil e Europa e criadora do método Terapia do Equilíbrio Total/Universal.

http://loudeolivier.com

OUTROS OLHARES

FAXINA NA REDE

O trabalho dos moderadores de conteúdo, que removem imagens consideradas ofensivas por Google Facebook e Instagram, pode ser uma ameaça à democracia.

Faxina na rede

Cada vez que alguém denuncia uma imagem ou um vídeo impróprio nas redes sociais, técnicos analisam se o conteúdo continua online ou deve ser derrubado. Os responsáveis por essa decisão fazem parte de equipes que não ficam instaladas em prédios no Vale do Silício, mas em Manila, nas Filipinas, trabalhando em absoluto sigilo, cada moderador fica mergulhado no que há de pior na web, de pornografia infantil à decapitação de prisioneiros de terroristas. Sua missão: avaliar cerca de 25 mil imagens por dia, tendo apenas alguns segundos para decidir o que as pessoas devem ver em suas linhas do tempo.

Essa é a realidade retratada pelo revelador ‘The Cleaners”, coprodução da alemã Gebrueder Beetz com o estúdio brasileiro Grifa Filmes dirigida por Hans Block e Moritz Riesewieck. A narrativa é costurada pela trajetória de cinco moderadores filipinos, cada um com suas motivações para encarar o trabalho. Um deles acredita em uma missão cristã de livrar a web de pecados; outro compara sua tarefa à guerra às drogas que o presidente Rodrigo Duterte instaurou nas Filipinas. Eles seguem protocolos rígidos, a ponto de apagarem uma imagem icônica do conflito no Vietnã por conta de nudez infantil, e dependem muito da intuição. “Eles seguem um lema: “não pense demais”. Levar muito tempo para analisar cada imagem pode ser problemático”, dizem os diretores. Não existem regras claras para esclarecer casos dúbios, e os moderadores são submetidos a uma pressão emocional enorme. Vários apresentam transtornos semelhantes aos de ex – combatentes – o que toma o atual sistema de moderação falho.

“PERDENDO O CONTROLE”

Delegar a responsabilidade sobre o que circula em suas páginas a um sistema pouco confiável já seria uma atitude temerária. Mas o que Block e Riesewieck mostram no filme é ainda mais preocupante. Para atuar em alguns países, empresas como o Facebook precisam se submeter às exigências de governos. O documentário usa o exemplo da Turquia, em que alguns conteúdos que não ferem nenhuma regra ficam indisponíveis aos usuários daquele país por conta de decisões políticas. “Essas empresas estão quase perdendo o controle. Suas regras não valem para o mundo todo, o que prejudica sua principal missão, que deveria ser conectar as pessoas”, afirmam os cineastas.

A situação se agrava ainda mais com o discurso de ódio que se espalha pelas redes sociais sem interferência. já que os moderadores não podem derrubar uma postagem apenas porque ela é mentirosa.  “A esfera pública foi transferida para a vida digital. Temos que atentar para isso”, dizem Block e Riesewieck. Em muitos lugares, o Facebook é a principal fonte de informação. O jornalista filipino Ed Lingao resume o perigo que se esconde nesse ambiente digital, com as regras atuais. “Podemos perder a democracia porque estamos dispostos a desistir dela”. O documentário integra a programação do festival É Tudo Verdade, com sessões exibidas em abril no Rio de Janeiro e em São Paulo. No segundo semestre, será exibido no canal pago Play TV.

Faxina na rede 2

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

LIBERDADE: USE COM MODERAÇÃO

O discurso da informalidade e da diversidade pode ser usado como escudo para atitudes consideradas antiéticas. Empresas e profissionais precisam tomar cuidado para evitar esse problema.Liberdade - use com moderação

Não é raro que confraternizações promovidas por empresas deixem muita gente com dor de cabeça. Em geral, a cefaleia aparece por causa da quantidade de bebida ingerida – talvez para compensar todas as happy hours que foram desmarcadas por horas extras. Mas, em alguns casos, a ressaca não pode ser resolvida com comprimidos e ingestão de água. Na filial brasileira da companhia de tecnologia Sales force, o que veio nos dias seguintes à festa a fantasia da firma foi mais parecido com um tsunami.

Na noite da comemoração, um funcionário da área comercial usou muita criatividade e pouco bom senso para tentar ganhar o prêmio de 3000 reais que seria dado ao empregado mais imaginativo. Ele se fantasiou de um meme conhecido como “Negão do WhatsApp” e, ao que tudo indica, não viu problema algum em estar num evento do trabalho vestido como se estivesse despido, de maneira obscena e com traços racistas. A fantasia ficou em quarto lugar e foi recebida com bom humor por parte dos funcionários. Outra parte, ofendida, fez uma denúncia anônima internamente, citando o código de ética da empresa. A matriz americana investigou o caso e decidiu pelo desligamento imediato do empregado. O diretor comercial não aceitou a demissão, intercedeu pelo subordinado e também foi demitido. Foi, então, a vez de o presidente da operação brasileira tentar interferir – e acabou tendo o mesmo destino dos outros.

O caso abre uma discussão: o discurso de liberdade e informalidade, disseminado por muitas companhias, estimula atos antiéticos? No caso da Sales force, a justificativa usada para defender a fantasia controversa foi a irreverência que existe no Brasil – ainda mais em momentos de celebração. O fato é que o ambiente, mesmo festivo, não é privado: a festa da companhia é regida pelos valores da organização e é um símbolo dela. ”Quando alguém vai contra esses valores, não deixa muita alternativa para a companhia”, afirma Ricardo Sales, consultor em diversidade, de São Paulo. Alguns funcionários disseram que as demissões foram exageradas, não condizendo com a cultura da companhia, de ser aberta à diversidade e à liberdade de expressão. “Mas a noção de que a liberdade de expressão é ilimitada é falsa. Muitos usam essa justificativa para expressar o próprio preconceito. Valorizar a diversidade não é respeitar o direito de cada um se fantasiar como quiser, mas, entre outras coisas, vetar desrespeitos, diz Ricardo.

O código de conduta, que serviu de base para a demissão dos funcionários da Sales force, também apareceu na explicação de uma demissão no Google no ano passado. Em agosto, um engenheiro americano, então funcionário da empresa, escreveu e divulgou internamente um memorando afirmando que há razões biológicas por trás da desigualdade de gêneros. Segundo ele, as mulheres teriam menos aptidão para trabalhar como engenheiras. O funcionário foi demitido e, na ocasião, o CEO do Google afirmou que trechos do texto ” violam nosso código de conduta e ultrapassam o limite ao trazer estereótipos de gênero para dentro do ambiente de trabalho”. No último dia 9 de janeiro, o ex-googler se aliou a outro ex-funcionário, que havia sido demitido em dezembro de 2016 depois de dizerem no fórum interno que o FBI teria motivos para investigar um funcionário muçulmano. Os dois querem processar a companhia alegando discriminação por serem homens brancos conservadores. ”As demissões foram uma busca por coerência. Se você capacitou as pessoas, treinou, mostrou o que é certo, não pode tolerar esse tipo de coisa”, diz Ricardo. “É diferente de uma censura, que é o que os ex-funcionários estão alegando que aconteceu.”

A CULPA É DE QUEM?

Quando problemas como esses ocorrem, sempre é mais fácil culpar o RH. No caso da Sales force, um funcionário entrevistado por VOCÉ S/A que pediu para não ser identificado afirmou que não houve um direcionamento explícito sobre qual tipo de fantasia seria permitida e cabia ao departamento colocar os limites. Mas esse é mesmo o papel da área de gestão de pessoas?

“O RH não tem como distribuir bom senso. Talvez ele tenha falhado antes, na contratação do profissional ou ao não trabalhar a cultura, mas não é o culpado direto pelo ocorrido”, diz Leni Hidalgo, professora de gestão e liderança no Insper, de São Paulo. Para minimizar os riscos, a solução proposta por Arthur Diniz, sócio e CEO da consultoria de recursos humanos Crescimentum, é deixar explícito o que é ou não permitido. ”Quanto mais claro for o código de conduta, mais fácil será andar na linha’, diz Arthur. “Mas também não adianta ter um documento de 300 páginas ao qual ninguém tem acesso. Precisa ser algo simples, fácil de ser interpretado e de ser colocado em prática.”

No entanto, ter só um calhamaço de regras não basta. É preciso que a liderança dê o exemplo e siga à risco que a companhia prega – algo que na Sales force do Brasil, não parecia ocorrer no departamento comercial “Se a alta liderança não dá o tom da conduta interno, não adianta nada um conjunto de regras”, diz Alexandre Marins, diretor de desenvolvimento de talentos da consultoria LHH América Latina. A eles, cabe a rotina de cuidar, todos os dias, dos valores éticos da empresa. Se, por exemplo o funcionário vai a uma palestra de 2 horas sobre diversidade e fica recebendo mensagens de cobrança do chefe, o empregado entende que o debate foi perda de tempo. Mas, se perguntar o que o subordinado aprendeu com o evento, o gestor mostrará que aquele tema realmente importa.

CUIDADOS COM A REPUTAÇÃO

As companhias, com razão, estão preocupadas com ativos intangíveis. E a reputação é um deles. Ela está nas mãos dos funcionários que se manifestam, inclusive de maneira equivocada. ‘”Procuramos ter na vida corporativa a fronteira entre a identidade pessoal e a profissional, mas, com as mídias sociais, as fronteiras são cinzas”, diz Roberta Campos, coordenadora do programa de mestrado em administração do Coppead, da UFRJ. O que há em comum entre todos esses casos, além da falta de habilidade política para entender que seus atos e falas têm consequências maiores do que se imagina, é a dificuldade em cuidar da própria reputação profissional. E, para isso, é preciso desenvolver uma competência importante: a leitura do ambiente. Comece observando tudo, desde a maneira como as pessoas se cumprimentam até a forma de começar uma reunião, os móveis, as salas da diretoria e da presidência (ou a inexistência delas). O segundo passo é perceber como as pessoas se comunicam com os clientes e entre elas: há encontros nos fins de semana, ou as relações são estritamente profissionais? Analisar esses aspectos ajuda a entender corno as coisas funcionam ali. Além disso, abra-se para conviver e conversar com pessoas que não estão tão próximas a você. Entrar em contato com novas visões é uma forma de trabalhar a habilidade política e não escorregar na falsa ideia de que a liberdade para ser quem você é seria uma chancela de autorização para comportamentos antiéticos e, no limite, criminosos. “Se você faz uma piada, mas alguém a achou ofensiva ou se sentiu desconfortável – mesmo que não tenha dito nada e tenha ficado só uma sensação, considere a posição do ofendido antes de partir para a autodefesa”, diz Leni. “Ninguém está livre de fazer um comentário estúpido. Só que você tem de saber que o que falar vai ter um impacto, afirma Leni.

 ninguém está livre também de ter preconceitos. A questão é a maneira como lidamos com nossos vieses – sejam eles inconscientes ou não. Para tanto, existem algumas ferramentas, como pedir (e ouvir) feedbacks de colegas, amigos e familiares. É um processo que exige maturidade, humildade e a compreensão de que nenhum de nós é dono da verdade.

Desenvolver essa consciência é urgente para se tornar uma pessoa mais autoconsciente e, também, para navegar no mercado de trabalho, que, cada vez mais, exige comportamentos éticos. “Existe a valorização da diversidade e é politicamente esperado que todos entrem nessa onda. Por isso, é importante saber onde se está pisando antes de falar ou de vestir uma fantasia”, diz Bia Nóbrega, coach, de São Paulo. Isso não quer dizer que as pessoas não possam expressar suas ideias, mesmo que elas causem polêmica. O importante é refletir sobre o que será dito – o que costuma tornar as discussões mais profundas e maduras. A liberdade de expressão deve existir, sim, mas, como quase tudo na vida, precisa ser usada com sabedoria e, claro, moderação.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 17:22,23

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Os Sofrimentos de Cristo São Preditos

Aqui Cristo prediz os seus próprios sofrimentos. Ele havia começado a fazer isso antes (cap. 16.21) e, entendendo que para os seus discípulos tinham sido palavras duras, Ele achou necessário repeti-las aqui. Há algumas coisas que Deus fala uma vez, às vezes duas, e ainda assim o homem não se dá conta delas. Observe aqui:

1.O que Jesus predisse a seu respeito: que Ele seria traído e morto. Ele sabia perfeitamente, de antemão, todas as coisas que lhe iriam acontecer, e ainda assim empreendeu a obra da nossa redenção, o que glorifica imensamente o seu amor: A sua clara previsão dessas coisas era um tipo de paixão antecipada; o seu amor pela humanidade tornava tudo mais fácil para Ele.

(1). Jesus diz aos discípulos que Ele seria “entregue nas mãos dos homens”. Ele seria entregue (e assim podemos interpretar que Deus Pai o entregou pelo seu conselho e conhecimento prévio (Atos 2.23; Romanos 8.32); mas, da maneira como nós interpretamos, isto se refere à traição de Judas, que o entregou às mãos dos sacerdotes, e à traição deles, os quais, por sua vez, entregaram-no aos romanos. Ele foi “entregue nas mãos dos homens”; homens dos quais Ele era aliado por natureza, e de quem, portanto, Ele deveria poder esperar piedade e carinho; homens que Ele tinha decidido salvar, e de quem, portanto, Ele deveria poder esperar honra e gratidão; mas esses eram os seus perseguidores e assassinos.

(2). Eles o matariam. Nada menos do que isso poderia satisfazer a ira deles. Era o seu sangue, o seu sangue precioso, que eles queriam; tinham sede desse sangue. “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”. Nada menos poderia satisfazer à justiça de Deus e corresponder à sua missão. Uma vez que Ele devia ser um sacrifício de expiação, Ele precisava ser morto: “Sem derramamento de sangue não há remissão”.

(3). El e ressuscitaria ao “terceiro dia”. Ainda, ao falar da sua morte, Jesus dava uma ideia da sua ressurreição, da alegria que estava posta diante dele, e foi com essa perspectiva que Ele “suportou a cruz e desprezou a afronta”. Isso era um incentivo, não somente para Ele, mas também para os discípulos. Pois se Ele ressuscitaria no terceiro dia, a sua separação deles não seria longa, e o seu retorno para junto deles seria glorioso.

2.Como os discípulos receberam essas informações: “Eles se entristeceram muito”. Aqui se exibia o amor dos discípulos pelo seu Mestre, mas juntamente com toda a sua ignorância e os seus enganos a respeito da sua missão. Na verdade, Pedro não disse nada contra isso, como havia dito antes (cap. 16.22), tendo, naquela ocasião, sido severamente repreendido pelo Senhor. Mas ele e os demais discípulos lamentaram profundamente; como se a tristeza do seu Mestre e o pecado e a destruição daqueles assassinos fossem uma perda pessoal para cada um deles.