PSICOLOGIA ANALÍTICA

DE REPENTE, FEZ-SE A LUZ

Psicólogos definem insight como uma compreensão repentina. Esse conhecimento espontâneo permite, de um momento para o outro, encarar problemas de um ângulo bem diferente do habitual. É como se uma percepção até então adormecida, de repente, emergisse.

De repente, fez-se a luz

“Einstein, como foi que fez isso?”, perguntou Max Wertheimer ao inventor da teoria da relatividade em 1916. O psicólogo gestaltista queria descobrir como pensava alguém cujos lampejos geniais haviam revolucionado a mecânica clássica. Einstein sabia mais que os outros? Pensava de forma mais lógica? Ou tudo não tinha passado de simples acaso?

O físico contou ao psicólogo que, quando refletia sobre espaço, tempo e velocidade, costumava imaginar-se cavalgando um raio de luz ou correndo a seu lado, para então perguntar-se se a luz pararia, caso corrêssemos ao lado dela na velocidade da luz.

Um tanto estranho, talvez – mas possivelmente o verdadeiro segredo do sucesso de Einstein. Nascido na cidade alemã de Ulm, o físico matutou durante anos sem chegar a parte alguma. Sua intuição lhe dizia que havia algo errado no modo como a física concebia o mundo. Mas, o que era? Então, de repente, acertou em cheio com uma espécie de experimento mental: se dois raios atingem uma linha férrea ao mesmo tempo, mas a certa distância um do outro – perguntou-se -, nós percebemos esses dois eventos como simultâneos? A resposta é positiva se nossa localização for a uma mesma distância dos dois pontos atingidos. Mas, caso seja num trem em movimento, viajando entre os dois raios, veremos um deles um átimo antes do outro, mesmo estando exatamente no meio dos dois pontos fulminados.

 

LAMPEJO NOS TRILHOS

A observação, portanto, não depende apenas de nossa posição no espaço, mas também de estarmos ou não em movimento. Portanto, só podemos falar em “simultaneidade” levando em conta nosso movimento em relação ao evento observado. O conceito de simultaneidade perde, assim, seu sentido absoluto. Foi graças a esse lampejo que Einstein revolucionou nossas concepções de tempo e espaço, elaborando a teoria da relatividade. E, de quebra, estimulou a pesquisa da psicologia gestáltica acerca do insight – ou seja, daquela percepção súbita que precede tantas descobertas científicas. Wertheimer sabia que o insight de Einstein estava, sem dúvida, vinculado a seu conhecimento da física e à faculdade do pensamento lógico. Decisiva, porém, havia sido a capacidade de contemplar problemas físicos de modo diverso do habitual, libertando-se de pressupostos tidos até então por irrefutáveis.

Em resumo: Einstein era um mestre na reestruturação de problemas.

Na primeira metade do século 20, Max Wertheimer, Wolfgang Kõhler, Karl Duncker e Kurt Koffka aplicaram o conceito de reestruturação não apenas no estudo das ideias geniais e das invenções revolucionárias. Na verdade, estavam convencidos de que se tratava de um processo fundamental do pensamento capaz de levar todo e qualquer ser humano a ter percepções súbitas e originais. lnsights rearranjam de forma correta e fulminante as peças do quebra-cabeça, de modo a ensejar uma “boa configuração” – ou gestalt.  E eis aí o conceito que deu nome a toda uma escola da psicologia.

Contudo, a partir da década de 50 – quando os psicólogos gestaltistas já estavam cobertos da poeira dos “clássicos”-, os estudiosos do pensamento voltaram sua atenção para outros fenômenos. Estavam fascinados com os processos cognitivos que, como num computador, avançam passo a passo, e não aos saltos e de maneira imprevisível, como ocorre quando se experimenta uma súbita descoberta. Foi somente a partir da década de 80 que a psicologia cognitiva retomou a pesquisa do insight- de resto, produzindo ela própria, de lá para cá, numerosos insights a respeito do tema. Sabemos por experiência própria que, às vezes, a solução de um problema nos vem à mente de forma absolutamente repentina. De súbito, o nó se desfaz, cai a ficha, surge uma luz e a solução parece tão óbvia que nos espantamos de não ter chegado a ela muito antes. Mas, no estudo desse fenômeno, os pesquisadores deparam já de saída com uma dificuldade metodológica: como produzir tais lampejos de maneira sistemática, de modo a investigá-los em experimentos psicológicos?

Observemos o problema já empregado por Wertheimer (veja o problema 1, abaixo). Ele nos apresenta um paralelogramo sobreposto a um quadrado. As medidas dos lados a e b são dadas. O problema consiste em obter a soma das duas áreas. Primeiro, tente resolvê-lo sozinho – pode ser a sua chance de experimentar um súbito lampejo.

E aí? Conseguiu? Se sim, de que forma procedeu? Em primeiro lugar, você provavelmente empregou as fórmulas já conhecidas para calcular as áreas. Ou seja, deve ter chegado com muita rapidez à área do quadrado (a x a). Mais chatinho, porém, é descobrir a do paralelogramo. O que quer que a gente faça, fica sempre faltando um dado. Nada dá certo, e a solução parece impossível.

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DE OUTRO JEITO

Até aqui, parece um beco sem saída: você está patinando sempre no mesmo lugar. O que falta é a ideia brilhante. E ela é a seguinte: não se trata de calcular as áreas isoladas do quadrado e do paralelogramo, e sim de ver o problema de outro modo, literalmente: ou seja, enxergar nele dois triângulos isósceles que, com um pequeno deslocamento, formam um retângulo. A resposta, portanto, é a x b.

Não é pela via do pensamento lógico que se chega à necessária reestruturação, à nova visão das coisas. Ela aparece, em grande medida, de forma inconsciente. De um momento para outro, a percepção dos elementos que compõem o problema vira de cabeça para baixo: um quadrado e um paralelogramo transformam-se em dois triângulos isósceles que, juntos, formam um retângulo.

É notável a experiência particular e subjetiva que vivemos num momento de percepção súbita. Se a reestruturação é bem-sucedida, nós próprios, ao solucionar o problema, nos surpreendemos com nosso pensamento. Isso com frequência se traduz numa intensa sensação de descoberta. Diz-se que Arquimedes pôs-se a correr nu pelas ruas de Siracusa, gritando “Eureca!”, quando descobriu o conceito de densidade, o que lhe permitiu provar que a nova coroa de seu rei, Hieron II, não era feita de ouro: a imitação barata apresentou densidade menor que uma barra de ouro de mesmo peso. Lampejos dessa natureza nada têm a ver, portanto, com a resolução passo a passo de problemas, à maneira dos computadores. O conhecimento nos chega de forma abrupta, involuntária. É, pois, muito diferente do que ocorre quando fazemos uma operação aritmética, multiplicando, por exemplo, números compostos de vários dígitos. Nesse caso, quase sempre saberemos dizer que passos precisamos dar até o resultado. A cada dígito multiplicado, podemos estimar a que distância estamos da meta final. Mas nos problemas que demandam insight, isso não é possível: eles são de outra natureza.

É o que comprovam também os estudos da pesquisadora canadense Janet Metcalfe, da Universidade Columbia, Nova York. Ela propôs a voluntários que se debruçassem sobre problemas cuja resolução exigia algum tipo de insight e solicitou-lhes que indicassem, por intermédio das palavras “quente” ou “frio”, a que distância se sentiam de encontrar a solução. O resultado foi que, a poucos instantes de experimentar a súbita descoberta, os voluntários se sentiam tão perdidos quanto no começo da empreitada – característica usual nesse tipo de problema.

“No momento em que temos o insight, intenção e ação se dissociam completamente”, escreve com muita propriedade Daniel M. Wegner, psicólogo da Universidade Harvard. A “ação” seria aí o surgimento da ideia, e nosso grito de “Eureca!” indicaria que nosso insight não foi planejado, explica o psicólogo. Não temos a impressão de ter produzido a ideia genial, ainda que decerto a consideremos conhecimento próprio.

Mas por que é que os insights nos parecem involuntários? Se a ideia que conduz à solução do problema não resulta do empenho voluntário do pensamento, o que, afinal, nos conduz a ela? Por que problemas dessa natureza nos parecem, a princípio, insolúveis, se, na verdade, dispomos do saber necessário para resolvê-los?

Stellan Ohlsson, pesquisador do fenômeno do insight na Universidade de Illinois, Chicago, desenvolveu uma teoria que fornece respostas a essas perguntas. De acordo com ela, ao contemplar um problema, a primeira coisa que fazemos é construir uma representação mental –  ou seja, uma espécie de imagem interior –  na qual só entram determinados aspectos. É como um mapa do metrô, que nos dá a sequência das estações e os eventuais pontos de baldeação, mas não reproduz em escala fiel as distâncias entre as paradas: ressalta, pois, apenas aqueles aspectos da realidade importantes para a utilização do serviço. Para nos orientar pelas ruas da cidade, o mapa com certeza é de pouca valia.

Do mesmo modo, a representação inicial de um problema seleciona determinados aspectos dele. Isso acontece de forma automática: não é possível controlar a “coloração” resultante. Na verdade, contemplamos novos problemas sempre pela lente do saber prévio, acumulado ao longo do tempo. Esse saber, no entanto, não ajuda muito na resolução dos problemas que demandam insight. Ao contrário: ele bloqueia a percepção. Impede que vejamos a questão de outra maneira.

Quando, então, caímos no beco sem saída, reagimos com frustração e desânimo. Os pensamentos divagam, dedicamos cada vez menos tempo a tentativas sistemáticas de resolução ou, então, desperdiçamos nossa capacidade de reflexão em abordagens que já se mostraram infrutíferas. Nada mais nos ocorre.

Esse insucesso persistente é, segundo Ohlsson, precisamente a força motriz da reestruturação. Têm início, então, diversos processos inconscientes que modificam nossa representação interior do problema. De repente, novas possibilidades se abrem, e, de forma inteiramente inesperada, a solução nos vem à mente – solução que, depois, muitas vezes nos parecerá da mais absoluta banalidade.

Não será, porém, um tanto “forçada” a suposição de Ohlsson de que o saber prévio impede a solução de problemas? Por certo, essa hipótese não se traduz num conselho para que acumulemos o mínimo possível de conhecimentos. Tal estratégia não teria ajuda­ do Einstein. Claro que o saber é indispensável, sobretudo quando se trata de abordar de forma eficaz e rotineira problemas já conhecidos. influências prejudiciais só se manifestam quando a experiência passada se solidifica de tal forma que acaba bloqueando as novas ideias.

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COMO SURGE A LUZ?

Numa série de estudos bastante engenhosos, o gestaltista Karl Duncker demonstrou, já nos anos 20, que o emprego habitual de um objeto restringe seus possíveis usos alternativos. O psicólogo solicitou a voluntários que instalassem finas velas em posição vertical na parede de seu laboratório. Para tanto, tinham vários objetos à disposição: caixas de fósforos e tachinhas, entre outros.

Aos voluntários cabia ter a ideia de fixar as caixas de fósforos na parede com o auxílio das tachinhas, de modo que servissem de base para as velas. Nesse caso, a necessária reestruturação consistia em empregar as caixas não em sua função habitual de recipiente.

Uma constatação interessante foi, então, a de que a tarefa era solucionada com mais frequência quando caixas de fósforos (vazias) e tachinhas estavam dispostas lado a lado sobre uma mesa; e com menor frequência quando as tachinhas estavam dentro das caixas. Tachinhas dentro das caixas decerto ressaltam o uso habitual das últimas como recipientes, o que dificulta seu emprego de maneira diversa. Esse fenômeno da “vinculação funcional” foi a primeira demonstração de que o saber preexistente pode comprovadamente limitar a flexibilidade do pensamento.

Um discípulo de Wertheimer, Abraham Luchins, mostrou, então, como o emprego repetido dos mesmos passos na resolução de um problema conduz à exclusão de outras estratégias, talvez mais simples. Depois de terem solucionado diversas vezes tarefas semelhantes, seus voluntários atinham-se sempre ao mesmo procedimento, empregando-o seguidamente, mesmo quando dispunham de solução mais simples. Luchins atribuiu o fenômeno a um “problema de predisposição”: a predisposição a determinado método nos faz cegos para procedimentos mais eficazes. Num estudo de 1998, Jennifer Wiley, da Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia, examinou em que medida a especialização caminha lado a lado com a incapacidade de enxergar as próprias deficiências. Seus voluntários deveriam encontrar uma palavra que, combinada a cada uma de três outras, resultasse sempre num composto significativo. Por exemplo: que palavra se pode combinar com “estar”, “jantar” e “espera”? A palavra “sala”: sala de estar, sala de jantar, sala de espera.

Metade dos voluntários de Wiley era composta de fãs de beisebol; a outra desconhecia o esporte. Todos eles foram apresentados a dois conjuntos de palavras. O primeiro começava com a palavra “plate”, ensejando fácil combinação no âmbito do beisebol; as duas outras eram “broken” e “rest”. “Home” era a palavra-alvo, a que permitia as três combinações. ” Home plate” é a última base que o jogador precisa tocar para fazer o chamado ” home run” – a jogada máxima de ataque no beisebol. ” Broken home” (lar desfeito) e“rest home” (descansar em casa) são também combinações significativas.

No segundo conjunto, a terceira palavra foi trocada: “plate”,”broken” e “shot” (tiro). A palavra-alvo passou a ser “glass”: “plate glass” (vidro laminado), “broken glass” (vidro quebrado) e “shot glass” (copinho com uma dose de uísque).

O que se verificou foi que a metade dos voluntários especializada em beisebol teve mais problemas com o segundo conjunto que a não especializada.  Os fãs do esporte têm mente direcionada de tal maneira para o âmbito do beisebol pela palavra “plate” que sua dificuldade é muito maior em combiná-la com “glass”. Em suma: o saber prévio inibe a percepção.

Outra questão intimamente ligada a essa é em que medida o saber prévio impede a identificação do ponto crucial para a resolução de um problema –  isto é, em que medida ele nos impede de decidir onde, afinal, esse ponto crucial poderia estar. Identificá-lo é, decerto, tão importante quanto dirigir a atenção para os aspectos críticos do problema a solucionar. Com o intuito de investigar essa questão, desenvolvemos, para nossos próprios estudos, diversos problemas aritméticos com palitos de fósforo, propostos a nossos voluntários. A tarefa consiste em mover- mas não remover- um único palito, a fim de produzir a correta igualdade aritmética. A solução só pode conter algarismos romanos e os sinais de mais, menos e igual. Tente resolver as duas tarefas propostas no problema 2. E veja qual das duas você consegue solucionar com mais facilidade. Nossos voluntários acharam fácil a primeira tarefa: quase todos obtiveram êxito em menos de dois minutos. A segunda tarefa, ao contrário, revelou-se bem mais difícil: só um terço conseguiu resolvê-la em dois minutos. E, passados cinco minutos, um quarto deles ainda se torturava em busca da solução. Como explicar essa diferença?

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IGUAL, NÃO: MENOS

É provável que atue aí inconscientemente o nosso saber prévio. Aprendemos na escola que, na resolução de problemas aritméticos, mexemos sobretudo com valores. Em consonância com esse aprendizado, os voluntários começam a mover, antes de mais nada, apenas os palitos que lhes possibilitem alterar valores. Na primeira tarefa, isso funciona muito bem. Percebe-se rapidamente a possibilidade de transformar IV em VI, e está resolvido: VI = 111 + 111. Na segunda, porém, essa estratégia fracassa. A restrição introduzida pela noção de que os sinais de mais, menos e igual são inalteráveis conduz a um beco sem saída.

É somente quando ampliamos a noção do que seria o ponto crucial que novas possibilidades de solução se apresentam. Mover um palito do sinal de igual, à esquerda, para junto do sinal de menos, à direita, resulta na expressão correta: IV – 111 = 1.

Assim como ocorre na percepção do problema do quadrado e do paralelogramo, a noção do ponto crucial não se deixa ampliar de forma consciente –  na tentativa de resolução do problema, não sabemos que possibilidades estamos deixando de considerar.  Isso nós percebemos só no momento mesmo em que chegamos à solução.

Em nossos experimentos, medimos os movimentos do olhar efetuados pelos voluntários na resolução dos problemas. No caso da aritmética dos palitos de fósforo, notamos que, de início, as pessoas fixam o olhar por muito mais tempo e com maior frequência nos valores da equação tendendo a desconsiderar os operadores (mais, menos e igual).

Se a tarefa não pode ser resolvida mediante a manipulação dos valores, os movimentos do olhar vão se tornando cada vez mais lentos. Por vezes, as pessoas fixam o olhar por cinco ou dez segundos num mesmo ponto – e sabemos que, normalmente, nossos olhos alteram seu ponto de fixação cerca de três vezes por segundo. Nessa situação, o que ocorre é, pois, que nosso olhar se perde na contemplação do beco sem saída.

Pudemos distinguir pessoas bem ou malsucedidas na resolução dos problemas com base no diagrama dos olhares. Quem olhou mais para os valores fracassou. Aqueles, porém, cujos olhares se detiveram por mais tempo nos operadores aritméticos acabaram por resolver o problema. Também eles, no entanto, tiveram de início a sensação de estar diante de um problema insolúvel.  E isso corrobora a tese de que o insight é produzido por processos inconscientes – caso ele se fundamentasse em decisões conscientes, o exame progressivo dos elementos relevantes de um problema teria de caminhar de mãos dadas com a sensação de estar cada vez mais próximo da solução.

Outro estudo dos movimentos do olhar, realizado por Elizabeth Grant e Michael Spivey, da Universidade Cornell, no estado de Nova York, apresentou descobertas surpreendentes. Os pesquisadores confrontaram seus voluntários com o “problema do tumor”, que remonta ao psicólogo gestaltista Karl Duncker.  Eis aqui o seu enunciado:

“Um grupo de médicos procura um procedimento que lhes permita, por meio de radiação, remover um tumor inoperável no estômago de um paciente. Na intensidade necessária, porém, os raios podem danificar o tecido. O que fazer para destruir o nódulo sem lesar o tecido saudável à sua volta?”.

ALGUMA IDEIA?

Os participantes do experimento depararam com uma apresentação do problema semelhante à encontrada no Problema 3. Nesse caso, verificaram-se diferenças notáveis entre os padrões de movimentação do olhar daqueles que tiveram êxito e dos que fracas­ saram. Os olhos dos bem-sucedidos fixaram-se com mais frequência na pele circundante, ao passo que os que não conseguiram solucionar o problema olharam especialmente para o tumor em si.

Se você ainda não encontrou a solução, por favor, concentre sua atenção na pele. Como demonstrou um segundo experimento, acrescentar ao contorno da pele uma leve cintilação na tela do computador aumentou drasticamente a porcentagem de acertos. Isso afastou os olhares dos voluntários do tumor em si. Ao que tudo indica, o maior obstáculo à resolução do problema do tumor está, mais uma vez, em conseguir abandonar uma suposição restritiva: a de que é necessário dirigir um raio de plena intensidade contra o tumor, a fim de destruí-lo. Enquanto o voluntário insistir nessa hipótese restritiva, estará sempre partindo do princípio de que o tecido em volta do tumor terá de ser danificado.

A solução: dirigir para o tumor várias fontes de radiação de intensidade menor, de modo que os raios se sobreponham, se somem e, assim, o destruam. A baixa intensidade dos raios isolados deixará incólume o tecido circundante (ver “Solução 3”). Para resolver esse problema, é necessário que, interiormente, abandonemos o centro aparente dos acontecimentos. Só quem considera diferentes possibilidades de colocar uma fonte de radiação exterior irá perceber que pode também dirigir vários raios de intensidade menor contra o tumor. Desviar a atenção do tumor em si ajuda a estimular tais pensamentos.

 HEMISFÉRIO DIREITO

Mais recentemente, também os cientistas cognitivos buscam no cérebro uma pista para o insight. É uma empreitada difícil, porque os procedimentos usuais das neurociências cognitivas, valendo-se da eletroencefalografia (EEG) e da tomografia por ressonância magnética funcional (fMRI), medem processos neuronais por períodos que vão de alguns milissegundos a uns poucos segundos.

Resolver problemas, porém, é algo que com frequência leva minutos ou mesmo muitas horas. Além disso, toda uma multiplicidade de processos cognitivos toma parte dessa operação. Por isso, o que se busca é descobrir pela via de procedimentos indiretos quais regiões cerebrais respaldam a reestruturação e a percepção súbita. E assim foi que Marc Jung-Beeman e Edward Bowden, da Universidade North-western, Chicago, investigaram se os hemisférios cerebrais dão contribuições diferentes nesse campo. A hipótese dos dois cientistas vincula-se à suposição de que o hemisfério esquerdo seria responsável pelo processamento consciente da linguagem, ao passo que o direito responderia pela atenção inconsciente e espacial. Descobertas mais recentes da pesquisa cerebral mostram que a rígida separação entre “hemisfério esquerdo consciente” e “hemisfério direito inconsciente” é de difícil sustentação. Ainda assim, parece haver certa divisão de tarefas. Jung-Beeman e Bowden partiram do princípio de que a solução passo a passo de problemas conhecidos ocorreria, sobretudo no hemisfério esquerdo e mediante a aplicação consciente de regras lógicas. Ao hemisfério direito, atribuem papel decisivo na solução de problemas que demandam insight. Na sua opinião, os insights surpreendem aqueles que os têm porque a reestruturação ocorre no hemisfério cerebral direito. Somente quando o resultado é transmitido para o lado esquerdo acende-se, subjetivamente, uma luz na nossa mente.

Em seus experimentos, os pesquisadores valeram-se do fato de que o olho esquerdo envia suas imagens para o hemisfério direito, e o olho direito, para o hemisfério esquerdo. Mostraram brevemente a voluntários a solução de problemas envolvendo insight em cuja resolução esses mesmos voluntários haviam fracassado – e o fizeram de modo que as imagens em questão fossem percebidas ora apenas pelo olho esquerdo, ora somente pelo direito. O resultado foi claro: as soluções identificadas com mais frequência foram as provenientes do olho esquerdo para o hemisfério direito. Ao que tudo indica, os processos inconscientes que conduzem à percepção súbita ocorrem predominantemente no hemisfério cerebral direito.

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GÜNTHER KNOBLICH – é professor adjunto da Universidade Rutgers, em Newark, Nova Jersey. MICHAEL ÕLLINGER – é pesquisador do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Neurociências, em Munique, e da Fundação Parmênides.

OUTROS OLHARES

AMBIENTE ESCOLAR VERSUS APRENDIZAGEM

Alunos com baixo desempenho no Pisa relatam maior desconforto físico e emocional com a escola.

Ambiente escolar versus aprendizagem

Além de verificar conhecimentos em matemática, leitura e ciências, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) também mede habilidades relacionadas à resolução colaborativa de problemas. Pela primeira vez, em 2015, os estudantes brasileiros foram submetidos a essa parte do teste, que exige dos jovens aptidão para trabalhar em grupo. Saber dividir tarefas, seguir regras e manter o entendimento compartilhado são algumas das qualidades avaliadas.

Nesse quesito, a média geral de proficiência dos brasileiros foi 411,7, o que coloca o país na penúltima posição da lista, como mostra o estudo Um Panorama sobre resolução colaborativa de problemas no Brasil, realizado pelo lede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) a partir dos micro dados do Pisa.

Uma análise detalhada do levantamento revela que há diferenças importantes entre o perfil dos alunos com alto e baixo desempenho em resolução colaborativa de problemas.

Aqueles que apresentaram as notas mais baixas sinalizaram maior desconforto com a escola – em termos físicos e emocionais. O índice de alunos que concordam que há barulho e desordem em todas ou na maioria das aulas é de 53,1% entre os estudantes com baixo desempenho, praticamente o dobro do índice de alunos com alto desempenho que relataram o mesmo problema. Mais da metade dos jovens que tiraram notas baixas no teste também disseram que os alunos não ouvem o que o professor diz em todas ou na maioria das aulas.

Outro destaque é o índice de estudantes que se sentem desconfortáveis e fora de lugar na escola. Entre os que apresentaram baixa performance na resolução de problemas, 1/3 compartilha desse sentimento. Os dados indicam a importância do ambiente escolar para o aprendizado e o desenvolvimento dos alunos e sinalizam que classes lotadas, indisciplina e falta de atenção individualizada são problemas que também precisam ser trabalhados.

Ambiente escolar versus aprendizagem.2

GESTÃO E CARREIRA

O “COMBINADO” NÃO SAI CARO

Contrato de boca, em qualquer tipo de negociação, geralmente representa risco de calote. Só quem já passou por isso sabe como é uma situação complicada. Especialistas orientam: coloque tudo no papel.

O combinado não sai caro.

Negócios são negócios, amizades à parte! Essa frase deveria ser levada à risca no mundo empresarial, especialmente pelas micro e pequenas empresas. Mas o fato é que, na maioria das vezes, são elas mesmas que mais fecham contratos de boca confiando em clientes, fornecedores e prestadores de serviços que chegam na “camaradagem” por já serem amigos ou porque foram indicados por outros clientes.

A falta de um contrato assinado, por exemplo, pegou de surpresa o empresário da Ortolani Comunicação & Marketing, Adriano Ortolani, que já está no mercado há quatro anos. Ele passou por essa experiência de fechar contratos de boca duas vezes. No primeiro contrato arcou com o prejuízo, no segundo, perdeu uma amizade de anos.

Segundo ele, a primeira vez aconteceu no final de 2013, quando o serviço com o principal cliente foi cancelado por alegação de falta de verba. “Era uma parceria muito boa, e acabei sendo dispensado sem multa rescisória. Não questionei, mas levei como lição. Já a segunda aconteceu um mês depois. Era um cliente novo, com quem negociava há três meses, e o sócio era um grande amigo. O serviço foi encerrado por WhatsApp e não existiu nenhuma conversa. Dessa forma, como eu já havia sido prejudicado anteriormente, não hesitei ao alertar que, embora não tivéssemos contrato, tínhamos um vínculo e a saída deveria ser respeitada assim como nos contratos assinados. Ou seja, eu poderia ficar mais 30 dias ou então encerraria os serviços naquele dia, recebendo uma multa rescisória. Recebi o valor, mas perdi o amigo”, conta.

 COSTUME BRASILEIRO

Por alguma razão, culturalmente, o Brasil funciona desta forma: contratos “amigáveis”. Indicações e conhecimento são mais importantes do que aspectos técnicos que podem e deveriam ser previamente verificados. O advogado e cio do escritório Zaroni Advogados, Raphael Zaroni, explica que isso acontece porque sempre entramos em qualquer relacionamento no momento de necessidade ou no momento do encantamento e nunca pensamos nos potenciais conflitos futuro.

O empresário Adriano Ortolani confirma a opinião de Zaroni e ainda completa: “A cultura empresarial de ter contratos formalizados ainda não faz parte dos pequenos. Isso porque a formalidade pode trazer barreiras na hora do fechamento de negócios. Um contrato ainda é visto como algo bem conservador, e muitos têm medo de assinar por não ter um respaldo jurídico. A informalidade na prestação de serviços chega a ponto que muitos ainda nem sabem a importância de receber uma nota fiscal de serviço”, elucida.

Devido a isso, Raphael Zaroni avalia que toda relação começa bem, mas apenas as bem estruturadas contratualmente têm chance de acabar sem conflitos desnecessários. “Pequenas desavenças que poderiam encontrar soluções padronizadas em um contrato tornam-se a razão para o fim da relação, da sociedade e muitas vezes vai parar em disputas judiciais”, lamenta.

 

Mas, juridicamente, os contratos de boca não valem? De acordo com o advogado, valem sim, e a maior vantagem disso é não engessar pequenas operações cotidianas, como a contratação de um pequeno reparo em um pneu de carro furado, ou seja, para não burocratizar questões cotidianas, simples e já abrangidas pela lei (normalmente o próprio Código de Defesa do Consumidor). ”A maior desvantagem, contudo, é quando a compra foge daquelas de prateleira. Quando o serviço é técnico, o produto é feito sob medida, com materiais escolhidos pelo cliente, quando se trata de um bem durável, como uma máquina, ou de serviços de execução complexa e continuada, como a de um contador, por exemplo”, avalia Zaroni.

Por isso, o advogado do escritório especialista em Direito Empresarial Ramunno Alcaide Advogados, Pedro Ramunno, acrescenta e reforça que embora os contratos verbais (salvo aqueles em que a legislação impõe algum tipo de formalidade para a plena produção de efeitos, como no caso do contrato de compra e venda de bem imóvel) sejam válidos, por serem menos burocráticos e mais rápidos, a celebração dessa forma impõe inúmeros riscos ao empresário. “Dentre esses riscos, podem ser citados desde a dificuldade para comprovar que o contrato existe e foi de fato celebrado até questionamentos sobre questões que não costumam ser abordadas pelas pessoas quando celebram um acordo verbalmente, a exemplo do foro eleito para resolver eventuais controvérsias ou os parâmetros a serem utilizados para atualização de valores a serem pagos, na hipótese de descumprimento contratual”, demonstra.

 O CENÁRIO DOS PEQUENOS    

Ortolani conta que ele presta serviço tanto para pessoas jurídicas quanto para pessoas físicas. Pessoas físicas são trabalhos pontuais, mas as jurídicas acabam exigindo um contrato mínimo de seis meses para o bom desenvolvimento do serviço. “Mesmo assim, por mais de dois anos, conforme aparecia as indicações, os contratos eram ignorados para mantermos a transparência e parceria. A vantagem era que um serviço sem contrato podia ser iniciado no dia seguinte e depois de 30 dias, ele recebia. Já o contrato, por muitas vezes demorava semanas para ser assinado, e aí, delongávamos também para iniciar o serviço e, consequentemente, receber”, desabafa.

De acordo com Ramunno, no mundo ideal, seria certamente recomendado que toda e qualquer negociação fosse formalizada por escrito e instrumentalizada por meio da assinatura de um contrato com todas as formalidades e detalhes – tidos, não raro, e erroneamente, pelos empresários como burocracias desnecessárias – possa ser uma espécie de obstáculo à dinamicidade exigida pelo empresariado, que precisa de decisões rápidas e de fácil reprodução.

A recomendação, mesmo assim, não é deixar de formalizar a negociação por meio de um contrato e manter a relação apenas acordada “de boca”, mas promover alternativas para a sua formalização. “Obviamente, a forma ideal dependerá do perfil do empresário, da atividade por ele desenvolvida e do perfil do seu cliente. As possibilidades, como é possível imaginar, são inúmeras, sendo ponto incontroverso que, atualmente, há diversas formas de contratarmos de maneira mais segura do que ‘de boca”‘, pontua Ramunno.

Rafael Zaroni explica essas possibilidades dizendo que nem tudo, necessariamente, precisa fazer parte de um contrato, mas o contrato precisa regular o que vale em caso de discordância entre seus termos e, por exemplo, um ajuste feito através de um e-mail. ” Muitos documentos podem substituir um contrato e nem sempre é necessário engessar a relação com seu cliente que apenas realiza compras esporádicas. Nesses casos, uma proposta bem estruturada, regulando todo o fornecimento, as obrigações e outras coisas que sejam relevantes podem perfeitamente cumprir um papel essencial e substituir o contrato. Em outros casos, a própria lei exige a formalização por meio de um contrato, que deve observar minimamente algumas questões. De qualquer forma, ter alguma formalização evita pequenos maus entendidos e a sensação de estar sendo lesado”, recomenda.

COMO FORMULAR UM CONTRATO

Um contrato bem escrito, bem formulado e que não desrespeite a legislação faz “lei entre as partes”, ou seja, até que se prove o contrário, vale o que está contratado. “Essa é a grande proteção que um bom contrato oferece, seja para compra de produtos de maior valor, para se1viços ou para qualquer outro tipo de relacionamento empresarial de médio a longo prazo ou de maior complexidade “, informa Raphael Zaroni.

Do ponto de vista formal, os contratos costumam apresentar uma estrutura semelhante: qualificação das partes, introdução contendo as motivações para a contratação, cláusulas contendo disposições aplicadas à relação contratual, campo para assinatura das partes e, eventualmente, de testemunhas.

Em cada um desses blocos, o advogado da Ramunno Alcaide Advogados recomenda que se agrupem cláusulas que tratem de assuntos relacionados, sempre procurando resguardar, na medida do possível a maior quantidade de cenários que possam vir a causar dúvida no decorrer da execução do contrato. “Nesse sentido, em um exemplo hipotético, se as partes contratam a compra e venda de determinado produto, é importante já deixar previsto qual das partes será responsável pela entrega ou retirada do produto, qual o prazo para isto, o que acontece se for descumprida essa disposição, a forma como o produto deve ser entregue ou retirado, de quem será a responsabilidade, se importará algum custo para alguma das partes, etc.”, exemplifica.

A recomendação por disposições claras e objetivas que englobem grande parte dos cenários não significa que toda e qualquer questão relacionada à relação entre as partes deve ser incluída no contrato. “A depender do tipo de relação e do perfil das partes, pode ser muito adequado um contrato mais simples, conciso e que regule apenas os pontos essenciais da relação entre partes contratantes”, completa Pedro Ramunno.

Quanto à redação, ele diz que a indicação é única: utilizar linguagem simples, objetiva e clara. O contrato é destinado sobretudo para as próprias partes, devendo-se utilizar uma linguagem que seja facilmente compreendida por elas. O contrato não é, definitivamente, um artigo acadêmico que será submetido à apreciação de juristas.

Além disso tudo, Ramunno diz que existe a importância da presença de um advogado para a elaboração de um bom contrato. “Não raro os empresários decidem, por si, adaptar modelos de contratos na internet (quase sempre tecnicamente péssimos), com o objetivo de economizar o valor que seria gasto com um advogado para esse serviço. Não há dúvida de que fazer o contrato sozinho é menos custoso do que contratar um advogado, porém, o custo com um advogado em razão de um litígio decorrente de um contrato malfeito é certamente muito maior do que o valor para fazer um contrato bem-feito. Trata-se do famoso ‘o barato que sai caro”, argumenta.

Esse, por exemplo, é um risco que o empresário Adriano Ortolani não corre mais no seu negócio. De acordo com ele, depois da lição aprendida com seus dois clientes que “quebraram o contrato”, ele tomou algumas medidas, como contratar um advogado para elaborar um contrato bom para os dois lados, com termos fáceis de entender, sempre que fecha um novo negócio. “Hoje, existe a necessidade, sim, de ter um contrato, seja ele de R$ 1 mil ou de R$ 1 milhão. A vantagem é que agora os dois lados estão mais seguros, e aconteça o que acontecer durante o tempo de serviço, terá o respaldo jurídico do contrato”, demonstra.

Ortolani acrescenta que essa lição foi aprendida tanto nas relações com os clientes quanto com seus fornecedores e colaboradores terceirizados. “Assim como eu sou contratado por algumas empresas, com objetivo de terceirizar serviço, também contrato pessoas que terceirizam serviço para a minha empresa e, agora, da mesma forma, todos possuem contratos, o que também garante a prestação de serviços dessas pessoas pelo tempo de vigência do contrato, sem existir promessas não cumpridas”, afirma.

 NO MEIO DO CAMINHO…

O serviço prestado precisa sofrer modificações, e agora? É possível os contratos que já tiveram o martelo batido serem alterados?

Segundo Ramunno, a alteração dos contratos deve seguir a mesma forma de sua contratação. Se o contrato foi celebrado por escrito e assinado pelas partes, eventual alteração deverá ser feita por escrito e igualmente assinada pelas partes. Trata­ se de uma questão de segurança jurídica, não de burocracia.

Raphael Zaroni sobrepõe que, na verdade, via de regra, modelos de contrato nada mais são do que modelos. Eles sempre precisam ser adaptados à realidade do negócio que será refletido. “Adicionalmente, merece ser esclarecido que, caso já houver um contrato formalizado, as partes podem resolver modificar seus termos por meio de um aditivo, que também dependerá de assinatura de todas as partes. Apena os chamados contratos de adesão (como os de Planos de saúde, Seguros Automotivos entre outros) não podem ser alterados e, portanto, sua interpretação judicial também é diferenciada”, explica.

Sendo assim, o advogado Pedro Ramunno diz que se as partes decidirem, por exemplo, alterar a forma de pagamento do preço presente em um contrato escrito, é altamente recomendado que a alteração também seja instrumentalizada por um aditivo escrito. “Não raro as pessoas ‘modificam’ disposições de um contrato escrito por meio de negociações feitas ‘de boca’. Imagine uma eventual controvérsia envolvendo justamente essa alteração, o que é mais convincente (ressalvados outros meios de prova): um contrato escrito ou a fala de uma das partes?”, conclui.

VOCÊ SABIA?

No commom law (ou Lei Comum) em alguns estados do Estados Unidos, um contrato verbal quando firmado na presença de uma testemunha é válido, pois poderá ser provado na hipótese de ser contestado judicialmente. De acordo com as leis do Estado de New York e do Estado da Flórida, um business handshake (aperto de mão) vincula as partes quando feito na presença de testemunhas. Exemplos são: Um aperto de mãos do presidente dos EUA, Primeiro Ministro da Inglaterra e o Papa valem como um contrato. Normalmente após o aperto de mãos, um staff inteiro de ambas as partes redige os instrumentos refletindo a real vontade das partes. Um caso famoso no Estado de NY foi o processo Texaco vs Penzoil de 1984 em que uma empresa foi vendida com um aperto de mãos pelas partes e posteriormente vendida novamente para uma terceira empresa por um valor maior. A parte lesada buscou reparação judicialmente e ganhou milhões em indenização em juízo.

Mas, embora o contrato verbal seja válido nesses estados, as empresas de advocacia aconselham também que seja feita sempre uma formalização por escrito para evitar fraude, litígios e a incidência da prescrição. “Nem todos os contratos necessitam ser escritos, mas em conformidade com o Statute of Frauds (Estatuto das Fraudes, vigente nos EUA ), alguns contratos devem ser obrigatoriamente por escrito, por exemplo: transações de direito imobiliário (contrato de locação, compra e venda de um imóvel, etc.), promessas de casamento e acordos pré-nupciais, contratos de confissão de dívida e pagamento e, por fim, qualquer contrato que não seja concluído no prazo de um ano da sua assinatura”, revela a diretora-executiva do Jurídico Global  Hayman-Woodward, Alessandra Balbino.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 19: 23-30

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A Recompensa dos Seguidores de Cristo

Temos aqui a conversa de Cristo com os seus discípulos a respeito da ruptura do relacionamento do jovem rico com Cristo.

 I – Cristo aproveitou esse acontecimento para mostrar a dificuldade da salvação dos ricos (vv. 23-26).

1. É muito difícil alguém rico como esse jovem alcançar o céu. Note que da decadência e iniquidade dos outros é bom inferirmos quais lições nos servem como alerta.

Vemos aqui que:

(1). Isso é veementemente declara­ do por nosso Salvador (vv. 23,24). Ele disse as palavras desses versículos para os seus discípulos, que eram pobres e possuíam pouco neste mundo, para reconciliá-los com a sua condição: quanto menos riquezas materiais eles tivessem, menores seriam os obstáculos que enfrentariam no caminho para o céu. Deveria ser motivo de contentamento para aqueles que estão em uma condição inferior o fato de não estarem expostos às tentações de uma condição melhor e mais próspera. Se eles, neste mundo, vivem em piores condições que os ricos, porém irão mais facilmente para um mundo melhor, não têm razões para reclamar. Essa afirmação é ratificada no versículo 23. “Em verdade vos digo”. Aquele que tem motivos sobejos para saber qual é o caminho para o céu, pois Ele o mostra, nos conta que essa é uma das maiores dificuldades no caminho para o céu. Ela é repetida no versículo 24: “E outra vez vos digo”. Assim Ele fala uma vez, ou melhor, duas vezes, que aquele que se nega a perceber, também se nega a acreditar.

[1]. Jesus disse que é difícil para um rico ser um bom cristão e ser salvo; entrar no Reino dos céus, seja aqui ou no mundo vindouro. O caminho para o céu é, para todos, um caminho apertado, e a porta que leva a ele é uma porta estreita; mas é particularmente assim para os ricos. O cumprimento de mais deveres é esperado mais deles que dos outros, porém eles não os conseguem cumprir. Da mesma forma, mais pecados os tentam, os quais eles mal podem evitar. Os ricos têm grandes tentações a enfrentar, e, como tais, elas são muito insinuantes; é difícil não se encantar com um mundo sorridente. É muito difícil, quando estamos cheios desses tesouros ocultos, não nos aproximarmos deles para experimentá-los. Os ricos têm muitas compensações através de seus bens, de seus ganhos, de seu tempo e de suas oportunidades de fazer o bem e de ficarem bem; muito mais do que os outros. É uma grande indicação da graça divina que um homem seja capaz de abrir caminho através dessas dificuldades.

[2]. Jesus disse que a conversão e a salvação de um rico é tão extremamente difícil, “que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha” (v. 24). Essa é uma expressão proverbial, denotando uma dificuldade totalmente instransponível pela arte e força do homem; nada abaixo da onipotente graça de Deus possibilitará a um rico ultrapassar esse obstáculo. A dificuldade da salvação dos apóstatas (Hebreus 6.4) e de pecadores habituais (Jeremias 13.23) é por isso representada como uma impossibilidade. A salvação de qualquer deles é tão difícil (até mesmo os justos são salvos com dificuldade), que, onde houver um obstáculo singular, ele será adequadamente apresentado dessa mesma maneira. Ê muito raro um homem ser rico e não colocar o seu coração em suas riquezas; e é completamente impossível para um homem que coloca o seu coração em suas riquezas entrar no céu; pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2.15; Tiago 4.4). Em primeiro lugar, o caminho para o céu é muito corretamente comparado com o fundo de uma agulha, que é difícil de alcançar e difícil de atravessar. Em segundo lugar, um homem rico é adequadamente comparado a um camelo, um animal de carga, pois ele tem riquezas, assim como um camelo tem sua carga – ele a carrega, mas ela pertence a outro, ele a recebe de outros, gasta-a por outros e, em breve, deve deixá-la para outros; é um fardo, pois os homens carregam a si mesmos de dívidas (Habacuque 2.6). O camelo é uma criatura grande, mas de difícil manejo.

(2).  Essa verdade causa muita admiração, e os discípulos têm dificuldade para aceitá-la (v. 25): “Os seus discípulos, ouvindo isso, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá, pois, salvar-se?” Cristo lhes contou muitas verdades surpreendentes antes, com as quais eles ficaram surpresos, não sabendo o que fazer delas; essa era uma delas, mas a fraqueza deles era a causa de sua admiração. Não foi em oposição a Cristo, mas para sua própria conscientização, que eles disseram: “Quem poderá, pois, salvar-se?” Considerando os muitos obstáculos que existem no caminho da salvação, é, de fato, muito notável que alguém seja salvo. Quando pensamos em quão bom Deus é, pode parecer um mistério que tão poucos sejam seus; mas quando pensamos em quão mau o homem é, é um mistério maior que tantos sejam dele, e que Cristo será, eternamente, ad­ mirado neles. “Quem poderá, pois, salvar-se?”. Como há muitos ricos que têm muitas posses, e muitos mais pretendem se tornar ricos e são influenciados pelas grandes for­ tunas, quem pode ser salvo? Se as riquezas são um obstáculo para os ricos, será que as recompensas e o luxo não são grandes dificuldades para aqueles que não são ricos, tornando-se expectativas semelhantemente perigosas para eles? E quem, pois, pode chegar ao céu? Essa é uma boa razão pela qual os ricos devem lutar contra a corrente.

2. Embora seja difícil, ainda assim não é impossível ao rico ser salvo (v. 26). “Jesus, olhando para eles”, dirigiu-se a eles com irritação e os olhou com tristeza, para envergonhá-los por seu tolo pensamento sobre as vantagens que os ricos supostamente possuíam em se tratando de coisas espirituais. Ele os contemplava como homens que haviam ultrapassado esse obstáculo e que estavam em um claro caminho para o céu, e tanto mais por serem pobres neste mundo. Ele lhes disse: ”Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível”. Esta é, em geral, uma grande verdade: Deus é capaz de fazer aquilo que excede em muito todo o poder criado; nada é difícil demais para Ele (Genesis 18.14; Números 11.23). Quando os homens estão perdidos, Deus não está, pois, o seu poder é infinito e irresistível; no entanto, essa verdade é aplicada aqui:

(1).  Para a salvação de quem quer que seja. Quem poderá salvar-se? perguntam os discípulos. Por meio de algum poder humano, ninguém, diz Cristo. Para os homens isso é impossível: a sabedoria do homem logo será confundida em seus planos, e a força do homem ficará desnorteada quando se tratar de realizar a salvação de uma alma. Nenhuma criatura pode realizar em si mesma, ou em qualquer outra, a mudança que se faz necessária para a salvação de uma alma. Para os homens é impossível que uma corrente tão forte seja invertida, um coração tão duro seja abrandado, e uma vontade tão inflexível seja subjugada. Ê uma criação, é uma ressurreição, e para os homens isso é impossível; nunca poderá ser feito pela filosofia, medicina ou política; mas “para Deus todas as coisas são possíveis”. O princípio, o andamento e o aperfeiçoamento da obra da salvação dependem inteiramente do poder do Deus onipotente, para quem todas as coisas são possíveis. A fé é operada por esse poder (Efésios 1.19), e é mantida por ele (1 Pedro 1.5). A experiência de Jó com a convincente e humilhante graça de Deus fez com que ele a conhecesse mais do que a qualquer outra coisa: “Bem sei eu que tudo podes” (Jó 42.2).

[1]. Especialmente para a salvação dos ricos: é impossível para os homens que os ricos sejam salvos, mas, para Deus, até isso é possível; não que os ricos possam ser salvos em seu mundanismo, mas que eles podem ser salvos dele. A santificação e a salvação daqueles que são cercados pelas tentações deste mundo não são sem esperança; isso é possível e pode ser realizado pela autossuficiência da graça divina. E quando esses são levados ao céu, lá são monumentos eternos ao poder de Deus. Eu acredito que nessa palavra de Cristo haja um indício da misericórdia que Ele ainda tinha reservado para esse jovem, que havia agora se retirado com tristeza; não era impossível para Deus, todavia, recuperá-lo e conduzi-lo ao caminho certo.

 

II – Pedro aproveitou a ocasião para perguntar o que receberiam aqueles que aceitassem as condições recusadas pelo jovem que rompera com Cristo, como também aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo (v. 27). Temos aqui as expectativas dos discípulos em relação a Cristo, e as suas promessas a eles.

1. Aqui temos as expectativas dos discípulos em relação a Cristo. Pedro, em nome dos demais, comunica que eles confiam nele e dependem dele, e entendem que alguma coisa importante substituirá aquilo que eles ha­ viam deixado por Ele: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos; que receberemos?” Cristo havia prometido ao jovem que, se ele vendesse tudo e viesse, e o seguisse, teria tesouros no céu; agora, Pedro deseja saber:

(1).  Se eles haviam cumprido suficientemente essas condições. Eles não haviam vendido tudo (pois muitos deles tinham esposa e família para cuidar), mas haviam deixado tudo; eles não entregaram tudo aos pobres, mas haviam renunciado a tudo que pudesse, de alguma forma, ser um obstáculo para que servissem a Cristo. Quando ouvimos quais são as características daqueles que serão salvos, compete a nós investigarmos se, pela graça, correspondemos a essas características. Aqui Pedro espera que, no que se refere ao escopo e ao objetivo principal da condição, eles a tivessem cumprido, pois Deus havia colocado neles um santo desprezo pelo mundo e pelas coisas visíveis, em comparação com Cristo e as coisas invisíveis; e não se pode definir nenhuma regra de como isso deve ser evidenciado, mas sim de acordo com a maneira como somos chamados.

Senhor, disse Pedro, “nós deixamos tudo”. Nada de valor, mas era tudo o que eles haviam deixado; um deles, por certo, havia deixado um posto na alfândega, mas Pedro e a maioria deles haviam deixado apenas alguns barcos e redes e os direitos relativos a um pequeno comércio de peixes; e ainda assim, observe como Pedro fala disso, como se fosse algo importante: “Eis que nós deixamos tudo”. Nós temos a tendência de dar grande valor aos nossos serviços e sofrimentos, gastos e perdas por Cristo, e a pensar que o tornamos nosso devedor. Entretanto, Cristo não os critica por isso. Embora fosse pouco o que eles houvessem deixado, ainda assim aquilo era tudo que tinham, como as duas moedas da viúva, e era tão querido para eles como se fosse algo maior. Por essa razão, Cristo apreciou que eles tivessem deixado o que tinham para segui-lo; pois Ele aceita o homem de acordo com o que esse tem.

(2). Se, por essa razão, eles podiam esperar receber aquele tesouro que o jovem terá, se vender tudo. Senhor, diz Pedro, que receberemos, nós que deixamos tudo? Todas as pessoas se interessam pelo que podem obter; e os seguidores de Cristo têm a permissão de considerar seus interesses verdadeiros e perguntar: “O que recebe­ remos?” Cristo olhou para o gozo que lhe estava proposto, e Moisés olhou para a recompensa que seria uma retribuição. Para esse fim, ela é colocada diante de nós, para que através de uma paciente persistência na prática do bem, possamos buscá-la. Cristo nos encoraja a perguntar o que receberemos ao deixar tudo para segui-lo, para que possamos ver que Ele não nos chamou para nos prejudicar, mas para que tenhamos um proveito incrivelmente grande. Como perguntaria a linguagem de uma fé obediente: “O que devemos fazer?”, levando em conta os mandamentos; assim, é próprio de uma fé esperançosa e confiante perguntar: “O que receberemos?”, levando em conta as promessas. Mas observe que os discípulos tinham, havia muito, deixado tudo para se engajarem no serviço a Cristo, e mesmo assim, até esse momento, nunca haviam perguntado: O que receberemos? Embora não houvesse perspectiva visível de vantagem nisso, eles tinham tanta certeza da bondade do Mestre, que sabiam que não sofreriam perdas por causa dele, e por isso lhe perguntaram de que maneira Ele os compensaria por suas perdas – eles vinham cuidando de sua vocação, e não perguntavam quais seriam as suas recompensas. Cristo é honrado quando confiamos nele e o servimos, e não devemos fazer barganhas com Ele. Agora que esse jovem se retirara da presença de Cristo para desfrutar as suas riquezas materiais, era hora de os discípulos pensarem a que deviam se dedicar, e no que deveriam confiar. Quando vemos o que outros conservam devido à sua hipocrisia e apostasia, é adequa­ do que consideremos o que esperamos obter através da graça, pela nossa sinceridade e constância, e não em troca delas, e então veremos mais razões para ter piedade deles do que para invejá-los.

2. Temos aqui as promessas de Cristo aos discípulos e a todos aqueles que trilham nos caminhos da fé e da obediência. Cristo desconsidera, sem dar a perceber, aquilo que havia de vaidade ou de vãs esperanças naquilo que Pedro disse, mas aproveita a ocasião para estabelecer o vínculo de uma promessa:

(1).  Para seus s8guidores imediatos (v. 28). Eles haviam enfatizado o seu respeito para com Ele, como os primeiros que o seguiram, e a eles o Senhor promete não apenas tesouros, mas glória no céu; e aqui eles têm uma concessão ou privilégio sobre isso, daquele que é a fonte da glória naquele reino: “Vós, que me seguistes… na regeneração … vos assentareis sobre doze tronos”. Observe:

[1]. O preâmbulo ao privilégio ou ao exame da concessão, que, como de costume, é um relato dos serviços deles: “Vós, que me seguistes… na regeneração”; por­ tanto, eu farei isso por vós. A época do aparecimento de Cristo no mundo era um tempo de regeneração, de correção (Hebreus 9.10), quando as coisas antigas começavam a se extinguir, e as coisas novas começavam a surgir. Os discípulos haviam seguido a Cristo quando a igreja ainda estava no estágio embrionário, quando o templo do Evangelho não tinha mais do que colunas, quando tinham mais do trabalho e ocupação de apóstolos do que da dignidade e do poder que pertenciam ao seu cargo. Agora eles seguiam a Cristo, com cansaço permanente, quando poucos o faziam; e por isso, sobre eles, Ele colo­ cará sinais especiais de glória. Cristo demonstra um favor especial por aqueles que lhe entregam a sua vida desde cedo, que confiam nele mesmo sem vê-lo, como fizeram aqueles que o seguiram na regeneração. Pedro falou que eles haviam deixado tudo para segui-lo – Cristo fala somente da atitude de seguirem-no, que era o assunto principal.

[2]. O dia de sua honra, que define a hora inicial. Não imediatamente após aqueles dias. Não. Eles devem permanecer por algum tempo na obscuridade, como estavam. Mas quando “o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória”; e a isso alguns se referem como: ” na regeneração”: “Vocês, que agora me seguiram, serão, na regeneração, dignificados dessa maneira”. A segunda vinda de Cristo será uma regeneração, pois haverá no­ vos céus e uma nova terra, bem como a restauração de todas as coisas. Todos aqueles que tiverem parte na regeneração e na graça (João 3.3) terão parte na regeneração que ocorrerá em glória; pois assim como a graça é a primeira ressurreição (Apocalipse 20.6), a glória é a segunda regeneração.

O fato de a glória deles ser adiada até que o Filho do Homem se assente no trono de sua glória implica, em primeiro lugar, que eles devem aguardar pelo seu desenvolvimento. Assim como a glória de nosso Mestre é postergada, é adequado que a nossa também o seja e que devamos esperar por ela com fervorosa expectativa, como a de uma esperança invisível (Romanos 8.19). Devemos viver, trabalhar, e padecer na fé, na esperança, e na paciência, que consequentemente serão testadas por esse período de espera. Em segundo lugar, que eles devem compartilhar os resultados do avanço da obra de Cristo – a glória deles deve ser uma comunhão com Ele em sua glória. Eles, tendo sofrido com um Jesus sofredor, devem reinar com um Jesus vencedor pois agora e no mundo futuro, Cristo será tudo em todos; estaremos onde Ele estiver (João 12 .26), nos manifestaremos com Ele (Colossenses 3.4); e essa será uma recompensa abundante não apenas por nossa perda, mas pelo adiamento; e quando o nosso Senhor vier, receberem os não apenas o que é nosso, mas o que é nosso com juros. As viagens mais longas trazem os maiores retornos.

[3).  A própria glória aqui assegurada: “Vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”. É difícil determinar o sentido específico dessa promessa, e se ela não deveria ser cumprida muitas vezes (o que não vejo problema em admitir). Em primeiro lugar, quando Cristo for elevado à mão direita do Pai e se sentar no trono de sua glória, então os após tolos receberão o poder do Espírito Santo (Atos 1.8); serão tão aperfeiçoados em relação à sua condição atual, que pensarão estar assentados sobre tronos, na promoção do evangelho. Eles o comunicarão com autoridade, como um juiz a partir da tribuna; eles terão seus poderes aumentados e anunciarão as leis de Cristo, pelas quais a Igreja, o Israel espiritual de Deus (Gálatas 6.16), será governado, e o Israel segundo a carne, que se mantiver na infidelidade, com todos os outros que assim o fizerem, será condenado. A glória e o poder que lhes são conferidos podem ser explicados através de Jeremias 1.10: “Ponho-te neste dia sobre as nações e sobre os reinos”; Ezequiel 20.4: “Julgá-los-ias tu?”; Daniel 7.18: “Os santos receberão o reino”; e Apocalipse 12.1, onde a doutrina de Cristo é chamada de “uma coroa de doze estrelas”. Em segundo lugar, quando Cristo surgir para a destruição de Jerusalém (cap. 24.31), então Ele enviará os apóstolos para julgar a nação dos judeus, pois nessa destruição, as previsões deles, de acordo com a Palavra de Cristo, se cumprirão. Em terceiro lugar, alguns pensam que isso se refere à conversão dos judeus, que ainda está para acontecer, no fim do mundo, após a queda do Anticristo; assim pensa o Dr. Whitby, e que “isso diz respeito à autoridade dos apóstolos ou às doze tribos de Israel, não pela ressurreição de seus corpos, mas por uma revivificação do Espírito que neles residia, e da pureza e do conhecimento que eles comunicaram ao mundo, e, principalmente, pela confissão do seu Evangelho, como a base da sua fé e do rumo de suas vidas”. Em quarto lugar, é certo o seu cumprimento total na segunda vinda de Cristo, quando os santos em geral e os doze apóstolos, especialmente, como assessores de Cristo, julgarão o mundo por ocasião do “juízo daquele grande Dia”, quando o mundo todo receberá a sua sentença final e os apóstolos ratificarão e aplaudirão a sentença. Mas as tribos de Israel são citadas, em parte, porque o número de apóstolos era designado pelo mesmo número de tribos; e em parte porque os apóstolos eram judeus, o que deveria trazer algum grau de amizade. Porém, embora os apóstolos mencionassem então os judeus, eram perseguidos por estes de uma forma implacável. Isso dá a entender que os santos julgarão os seus conhecidos e familiares segundo a carne e, no Grande Dia, julgarão aqueles com quem tinham amizade; eles julgarão os seus perseguido­ res, aqueles que os julgaram neste mundo.

Mas o propósito geral dessa promessa é mostrar a glória e a dignidade que estão reservadas aos santos no céu, o que será uma abundante recompensa pela desonra que sofreram aqui pela causa de Cristo. Há maiores graus de glória para aqueles que mais realizaram e sofreram. Os apóstolos, neste mundo, eram perseguidos e torturados, lá eles se sentarão para descansar e relaxar; aqui obrigações, angústias e mortes habitavam neles, mas lá eles se sentarão em tronos de glória; aqui eles eram arrastados aos tribunais, lá eles serão promovidos a juízes; aqui as doze tribos de Israel os espezinhavam, lá elas estremecerão diante deles. E isso não será uma recompensa suficiente para compensar as suas perdas e gastos por amor a Cristo? (Lucas 22.29).

[4].  A ratificação desse privilégio. Ele é permanente, é inviolável e imutavelmente garantido, pois Cristo disse, em outras palavras: “Em verdade vos digo: Eu sou ‘o Amém, a testemunha fiel e verdadeira’, que tem o poder de dar este privilégio; Eu o disse, e isto não pode ser revogado”.

(2).  Aqui está uma promessa para todos aqueles que queiram, de maneira semelhante, deixar tudo para seguir a Cristo. Não era peculiar aos apóstolos ter essa preferência, mas “essa honra, tê-la-ão todos os santos”. Cristo cuidará para que nenhum deles saia perdendo por causa dele (v. 29): “Todo aquele que tiver deixado” alguma coisa por causa de Cristo, receberá muitas vezes mais.

[1].  Perdas por causa de Cristo são admitidas aqui. Cristo havia dito aos discípulos que o seguiam que eles deviam negar a si mesmos em tudo que lhes fosse feito neste mundo; agora, Ele entra em detalhes, pois é bom estar preparado para o pior. Mesmo que eles não tivessem deixado tudo, como fizeram os apóstolos, ainda assim haviam deixado muitas coisas, incluindo, possivelmente, suas casas e seu trabalho, para peregrinar pelos desertos. Esses discípulos também podem ter deixado os seus entes queridos que não desejavam acompanhá-los, seguindo a Cristo. Estes são especialmente citados como os mais difíceis de deixar de lado, especialmente para as pessoas que têm um espírito sensível e delicado: “irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos”. As posses materiais como as “terras” são acrescentadas na conclusão; os rendimentos da terra eram a fonte do sustento da família.

Em primeiro lugar, aqui se presume que a perda dessas coisas ocorre pelo amor ao nome de Cristo; caso contrário, Ele não se obrigaria a compensá-la. Muitos deixam irmãos, esposa e filhos em busca de glórias e paixões, como a “ave que vagueia longe do seu ninho”; este é um abandono pecaminoso. Mas se os deixamos por amor a Cristo, porque não podemos ficar com eles e manter a consciência limpa, nós devemos deixá-los ou desistir de nossa afeição por Cristo. Não devemos, e nem podemos abandonar a preocupação que sentimos por eles, ou as nossas obrigações para com eles, mas o consolo que temos neles. E faremos isso em vez de negar a Cristo, mantendo em vista a sua pessoa, a sua vontade e a sua glória. Isto é o que será compensado. Não é o sofrimento que faz o mártir ou aquele que confessa a fé cristã, mas a causa pela qual ele sofre.

Em segundo lugar, supõe-se a ocorrência de uma grande perda; e mesmo assim, Cristo se responsabiliza por compensá-la, pois Ele é capaz de fazê-lo, não importa o tamanho dessa perda. Perceba a tamanha barbaridade dos perseguidores que despojavam pessoas inocentes de tudo que tinham, por nenhum outro crime exceto a sua fidelidade a Cristo! Perceba a paciência dos perseguidos, e a força do seu amor por Cristo, que era como um fogo que as muitas águas não poderiam apagar!

[2]. A compensação por essas perdas é aqui assegurada. Milhares de pessoas se relacionaram com Cristo e confiaram nele no mais alto grau. Mas ninguém perdeu por sua causa; ninguém jamais deixou de ganhar de maneira indescritível por sua causa; isto fica claro ao fazermos o balanço final de nossa vida. Cristo, nesse momento, dá a sua palavra sobre esse assunto; Ele não somente indenizará o sofrimento de seus servos e os salvará incólumes, mas os recompensará abundantemente. Que eles façam uma lista de suas perdas por causa de Cristo, e poderão ter a certeza de que receberão:

Em primeiro lugar, “cem vezes tanto” nesta vida; às vezes, em espécie, as mesmas coisas que eles haviam deixado. Deus preparará mais amigos para os seus angustiados servos; estes serão seus amigos por amor a Cristo. O número desses novos amigos será maior do que o número daqueles que eles abandonaram, e que tinham como característica dominante o amor a si mesmos. Os apóstolos, aonde quer que fossem, encontravam pessoas que eram gentis com eles e os recebiam, abrindo-lhes seus corações e suas portas. Todavia, eles receberão cem vezes tanto, em benefícios, em se tratando daquelas coisas que são abundantemente melhores e mais valiosas. Suas graças se multiplicarão, seus consolos serão abundantes, eles terão sinais do amor de Deus, uma comunhão mais íntima com Ele, além de maior comunicação com Ele, previsões mais claras e antecipações mais agradáveis da “glória que há de ser revelada”. E então eles poderão verdadeiramente dizer que receberam cem vezes mais consolo em Deus Pai e em Cristo do que poderiam ter recebido da es­ posa ou dos filhos.

Em segundo lugar, no fim, “a vida eterna”. Os benefícios anteriores já bastariam como recompensa, mesmo que não houvesse mais; cem por cento é um grande lucro. Que tal cem vezes? Não obstante, a vida eterna vem como uma adição, além de tudo o que o Senhor nos concede neste mundo. A vida aqui prometida inclui todos os confortos da vida no mais alto nível, e a sua duração é eterna. Se pudermos combinar a fé com a promessa, e confiarmos em Cristo para levá-las a cabo, com certeza não consideraremos nada como demasiadamente difícil para ser feito, nada será difícil demais para tolerarmos, não nos recusaremos a abrir mão de nada, por mais precioso que seja, por amor a Ele.

No último versículo, o nosso Salvador adverte sobre o engano de alguns que pensam que a superioridade na glória esteja relacionada e seja dirigida pela precedência no tempo, e não pela medida e pelo grau da graça. Não. “Muitos primeiros, serão derradeiros, e muitos derradeiros serão primeiros” (v. 30). Deus cruzará os braços; Ele revelará às criancinhas o que escondeu dos sábios e entendidos. Além disso, o Senhor rejeitará os judeus incrédulos e aceitará os gentios crentes. A herança celestial não é dada como as heranças materiais geralmente o são, pela idade ou pela primogenitura, mas de acordo com a vontade de Deus. Este é o tema de outro sermão, que estudaremos no próximo capítulo.