PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE FOI QUE EU DISSE?

A troca de palavras e a inversão de sílabas, os chamados lapsos verbais, revelam como a linguagem se estrutura além das intenções puramente racionais.

O que foi que eu disse

Às vezes cômicos, às vezes constrangedores, os lapsos de linguagem dificilmente passam despercebidos. Se o autor do deslize é alguém famoso, na certa o episódio vai parar na TV, na internet, nos jornais e nas revistas. Foi assim que a secretária de Estado americana Condoleezza Rice fez o mundo inteiro rir quando disse a um jornalista que a questionava sobre projetos dos Estados Unidos no Iraque: “Você deve perguntar ao meu mari…, quer dizer, ao presidente”. Todo mundo sabe que Rice é solteira, e mesmo assim não houve piadinhas maldosas aludindo a um possível romance entre ela e George W. Bush, possivelmente porque seu lapso revelava cumplicidade intelectual e um tipo de vínculo cotidiano muito semelhante ao do casamento, sem significar necessariamente adultério.

O então presidente dos Estados Unidos é recordista em lapsos. Acumulou tantos, e tão particulares, em suas aparições públicas, que deu origem ao neologismo “bushismo”- que naquele país é usado para referir as gafes linguísticas do presidente. Mesmo sendo difícil superar Bush, o presidente Lula não fica muito atrás. Numa entrevista coletiva em 2005, em meio a denúncias de corrupção envolvendo membros de sua equipe, disse: “Eu durmo com minhas cabeças tranquilas”. Mas, além da diversão que proporcionam ao público e do embaraço que causam aos autores, o que são exatamente os lapsos? Por que acontecem? O que podem nos dizer sobre o funcionamento de mente?

Entre os precursores das pesquisas sobre lapsos de linguagem estão o filólogo Rudolf Meringer e o psiquiatra Karl Meyer. Juntos, eles publicaram, em 1895, o livro Erros na fala e na leitura: um estudo psicológico, no qual constam cerca de 8.800 erros verbais de escrita e de leitura. O principal objetivo era elaborar classificações, mas os autores também tentaram determinar a existência de mecanismos psíquicos associa­ dos ao fenômeno, particularmente aos sons proferidos, pois atribuíam valor psicológico aos fonemas.

Quem abordou o lapso com mais profundidade foi Sigmund Freud no texto Psicopatologia da vida cotidiana, de 1901. O pai da psicanálise não poupou críticas à abordagem de Meringer e Mayer e propôs que o lapso seria a confissão involuntária de um conflito interior, de um pensamento escondido em si mesmo e removido da consciência. Para Freud, é a dimensão involuntária que dá valor particular ao lapso. “No procedimento psicoterapêutico que utilizo para resolver e eliminar os sintomas neuróticos apresenta-se com frequência a tarefa de encontrar um conteúdo mental nos discursos e nas ideias aparentemente casuais do paciente. Esse conteúdo tenta ocultar-se, mas não consegue evitar trair-se inadvertidamente de diversas maneiras. É para isso que, em geral, servem os lapsos. Por exemplo, falando da tia, um paciente insiste em chamá-la de ‘minha mãe’ sem perceber seu erro, ou ainda uma senhora que fala do marido como se fosse o ‘irmão’. Para esses pacientes, tia e mãe, marido e irmão são, portanto, ‘identificados’, ligados por uma associação pela qual se evocam mutuamente”, escreveu.

MEDOS E DESEJOS

Não há consenso sobre as interpretações psicológica e psicanalítica dos “escorregões” da fala. Para alguns autores, a explicação freudiana dos lapsos é útil apenas num número limitado de casos. Uma hipótese muito mais simples sugere que esse tipo de erro ocorre devido à complexidade cognitiva da linguagem. Segundo essa abordagem, os lapsos revelariam muito mais sobre sua estrutura e uso que sobre nossas intenções inconscientes. Hoje, algumas áreas da linguística e da psicolinguística consideram os equívocos fenômenos esperados no fluxo do discurso e os analisam como reflexos do mecanismo de produção da linguagem. No entanto, não conseguem explicar por que, quando investigados mais a fundo, os tropeços invariavelmente esbarram em conteúdos psíquicos inconscientes.

Essa constatação, entretanto, não elimina a evidência de que o lapso não é uma forma normal de comunicação, mas seu funcionamento fornece informações preciosas que ajudam a compreender certos aspectos cognitivos da fala. Isso não exclui, naturalmente, a interpretação freudiana, segundo a qual os lapsos expressam medos ou desejos que escondemos até de nós mesmos.  Experiências realizadas nos anos 80 pelo pesquisador Michael T. Motley, da Universidade da Califórnia em Davis, ampliam o enfoque psicanalítico. Seu grupo elaborou uma série de testes que manipulavam os desejos dos sujeitos, induzindo-os a cometer enganos.

CONTRA O TEMPO

Grande parte do crédito à abordagem moderna do estudo dos lapsos cabe a Victoria Fromkin, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que nos anos 60 deu início a um paciente trabalho de coleta de milhares de exemplos. De suas pesquisas conclui-se que os lapsos verbais seguem, em geral, as mesmas regras. A troca de palavras (por exemplo, “sacuda os pratos e lave a toalha”), observada quando se invertem dois vocábulos na mesma frase, ocorre quase sempre com termos que pertencem à mesma categoria gramatical ou sintática (verbos por verbos, substantivos por substantivos). Já os lapsos de substituição, nos quais uma palavra é trocada por outra externa à frase, acontecem entre termos da mesma categoria semântica (“gato” no lugar de “cachorro”). É o caso, extremamente constrangedor, mas não raro, de alguém que vai ao velório e ao se dirigir à família do falecido diz “Parabéns” em vez de “Meus pêsames”.

Existem também erros de deslocamento (de um ponto a outro na frase), de perseverança (reutilização de um elemento depois de sua colocação no lugar correto), de antecipação (utilização de palavra ou sílaba antes de sua colocação correta) ou de amálgama (união de dois elementos para formar um terceiro, quase sempre inexistente). Um exemplo de lapso de perseverança é dizer que Roma foi fundada pelos irmãos “Rômolo e Rêmolo”, quando o correto é “Rômulo e Remo”.

Os enganos mais comuns implicam a troca de palavras e de fonemas, o que sugere que esses dois elementos são particularmente importantes na elaboração do discurso. No entanto, segundo a teoria linguística, existe uma hierarquia entre as várias unidades da linguagem (frase, palavra, morfema, sílaba, fonema), mas diversos tipos de lapsos podem ocorrer em qualquer um desses níveis.

Afinal, falar é uma tarefa cansativa. Uma verdadeira corrida contra o tempo. Escolhemos em média três palavras por segundo de um vocabulário de pelo menos 40 mil, que para serem pronunciadas recrutam aproximadamente 100 músculos. As possibilidades de errar, portanto, são inúmeras.

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JOGOS LINGUÍSTICOS

Muitos lapsos terminam em brincadeira. Foi o caso do sacerdote anglicano e professor da Universidade de Oxford William Spooner (1844-1930), cuja inclinação para trocar a primeira letra ou sílaba das palavras tornou-se célebre, dando origem a uma categoria particular de jogos de palavras chamados “spoonerismos”. São atribuídos a ele lapsos como tons of sai/ (toneladas de terra) em vez de sons of toil (filhos do sacrifício) e our queer dean (o nosso excêntrico presidente) no lugar de our dear queen (nossa prezada rainha). O equivalente francês é a contrepeterie, espécie de jogo que parece ter sido introduzido na França pelo renascentista François Rabeiais (1483-1553). Entre os notáveis praticantes dessa “arte da palavra” estão outros franceses, como o escritor Victor Hugo (1802-1885), o pintor e escultor Marcel Duchamp (1887-1968) e o poeta Jacques Prévert (1900-1977), autor do trocadilho Partir c’est mourir un peu/ Martyr c’est pourrir un peu (partir é morrer um pouco/ mártir é apodrecer um pouco).

Na língua portuguesa, quando um fonema (ou um de seus elementos) é deslocado de uma sílaba a outra (por exemplo, tauba, no lugar de tábua) fala-se em hipértese – fenômeno muito comum no modo de falar caipira. Se essa troca se estender à frase (como no divertido “transmimento de pensaçâo”) temos a hipértese intervocabular. O que soaria apenas como uma brincadeira de palavras, uma informalidade jocosa da língua, tomou-se recurso literário nas mãos de escritores como Millôr Fernandes na fábula “A baposa e o rode”, escrita toda com spoonerismos. No poema “Diversonagens suspersas”, Paulo Leminski (1944-1989) juntou as palavras personagens, suspensas, dispersas para falar do fazer poético. Na literatura em geral, os erros linguísticos, longe de constranger, encantam e comovem. Como disse Leminski: “A única razão de ser da poesia é o antidiscurso. Poesia, num certo sentido, é o torto do discurso. O discurso torto”.

OUTROS OLHARES

DE OLHOS BEM ABERTOS

Mais explícita e gratuita do que nunca, está em celulares, tablets, computadores, canais fechados; é compartilhada – até no pátio da escola – por jovens, pré-adolescentes e, comprovadamente, crianças. Pornografia: por que nossas escolas ainda não tratam do tema nas aulas e projetos de educação sexual?

De olhos bem abertos

Arkangel (Arcanjo), dirigido por Jodie Foster, está entre os episódios preferidos de críticos e fãs da série Black Mirror, exibida pelo Netflix. Nele, uma mãe preocupada de forma paranoica com segurança monitora passos, movimentos e atitudes de sua filha Sara, desde a infância, por um sistema que conecta o olhar da menina a um tablet e a um computador. Em um ponto do capítulo, no jardim da escola, um amigo de Sara – que mais tarde viria a namorá-la – mostra à protagonista, pelo celular, vídeos de guerra, execuções de cunho religioso e, por fim, um filme pornô. Um pouco mais à frente, os dois adolescentes se encontram para a primeira experiência sexual (e afetiva) da moça. E aí vem a surpresa: espantado com o empenho da moça em reproduzir (com atos e palavras) o que para ela tinha sido a única referência de sexo, o rapaz revela todo o seu espanto e não o esconde da amada. “Essa não é sua primeira vez, fale a verdade… Não é possível… Pelas coisas que você fez e disse, isso não pode ser possível…·, questiona o rapaz. Diante da confirmação de Sara de que se tratava mesmo de seu début, ele não se constrange em pedir: “então você não fale mais aquelas coisas… não deve dizer aquelas coisas, aquelas baixarias…”.

As duas sequências didáticas de Arkangel colocam em pauta, ao mesmo tempo, uma ironia reveladora e um descompasso no mínimo preocupante. O fato de o rapaz se assustar com a postura “pornográfica” de Sara, mimetizada justamente das cenas do filme apresentado por ele tempos atrás é obra de ironia suprema do destino. E o descompasso se revela numa questão claramente proposta pelas cenas: por que o conteúdo e os temas ligados à pornografia, consumidos em todo lugar e a todo tempo por milhões de adolescentes, meninos e meninas, em seus celulares, tablets, computadores, nas tevês abertas e fechadas, nas letras dos funks proibidões, produzidos, a propósito, de jovens para jovens, ainda não são trabalhados no Brasil, de forma didática e pedagógica, por escolas, educadores e responsáveis pelas políticas educacionais? Por que esses temas não são incluídos nas aulas de educação sexual dos adolescentes?

A questão é procedente diante de uma realidade impossível de ser negada e, mais ainda, evitada: a pornografia, com o que tem de fictícia, caricata, real, negativa e, eventualmente, até positiva, é consumida hoje em grande escala por pré-adolescentes, adolescentes e jovens no Brasil e no mundo. O acesso é livre e gratuito em todas as suas formas, origens e intensidades. Na suprema maioria dos casos, esse cardápio variado de aeróbica sexual de alto impacto é exercitado por duplas ou em coletividade, não raro sem qualquer proteção.

E, como se ainda fosse pouco, esse conteúdo é reiterado por edições sucessivas que sugerem humanos dotados de capacidade de protagonizar jornadas sexuais intermináveis, mirabolantes, no limite do inumano. E quase sempre colocado à disposição dos adolescentes antes mesmo da primeira experiência sexual – ou mesmo de qualquer orientação sobre como isso ocorre no plano das relações afetivas reais. “A área frontal do cérebro, relacionada à recompensa, às satisfações e ao prazer, desenvolve se antes do que as posteriores, ligadas à administração dessas pulsões, explica a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, livre-docente, professora e coordenadora do Programa de Estudos da Sexualidade da USP. “Se essas questões são estimuladas ainda antes de um trabalho de orientação sobre o assunto, as chances de o adolescente enfrentar problemas relacionados à sexualidade são reais”, completa a pesquisadora.

O problema criado por esse descompasso – e que merece ser discutido na educação sexual nas escolas – é a alta chance de geração de prejuízos psicológicos, educacionais e deformação incalculáveis, como ressalta a pesquisadora Carmita. Se um menino de 12, 13 14 ou 15 anos entra em contato com material desse calibre, antes mesmo de submetido a qualquer projeto de educação sexual, há chance de ele achar normal, por exemplo, bater na parceira e humilhá-la durante o ato sexual sem que ela mostre, em momento algum, qualquer desejo de ser agredida. Esse mesmo adolescente poderá ser levado a crer que, por exemplo, aquele é o comportamento padrão, natural ou desejável, cabendo a ele adotar ou aceitar o que, na verdade, é uma representação calculadamente perversa para a maioria das pessoas. Pelos mesmos caminhos, o garoto pode deixar de considerar importante o uso da camisinha após ver cenas de sexo coletivo sem preservativos.

No caso das meninas, diante da situação regular de extrema submissão a que são colocadas as mulheres nessas peças, o problema certamente torna-se ainda mais grave. De onde virá a base para que uma adolescente ou jovem se situe entre o que deseja e aquele simulacro de opressão, roteirizado como se fosse muitas vezes consentido, no clima da imaturidade e da anestesia das primeiras paixões ao companheiro de primeiras viagens sensuais igualmente imaturo?

Situações como essas preocupam Alexandre Saadeh, mestre e doutor em Ciências da Psiquiatria, professor de Psicologia da PUC-SP e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria da USP. ‘Não faz mais sentido as escolas e educadores ignorarem o contato de adolescentes e jovens com a pornografia. E, pior ainda, não terem um discurso preparado e assumido para lidar com isso. É fundamental o adolescente ser informado, no primeiro momento em que puder refletir sobre o tema, de que o conteúdo exibido em filmes pornôs é obra de ficção. Uma ficção distorcida e amplificada, idealizada para consumo –  ou divertimento e lazer, se assim preferem – de adultos, mas sem qualquer compromisso de formar ou educar”, define Saadeh, que foi consultor da série, Quem Sou Eu, do Fantástico, da Rede Globo, sobre crianças e adolescentes transgêneros.

“Os órgãos genitais imensos, as várias relações sexuais entre as mesmas pessoas filmadas e editadas para dar a sensação de vigor interminável dos parceiros, o descompromisso com o uso de preservativo, algo ainda majoritário nas produções. Enfim, um conjunto de elementos que, antes de tudo, gera questionamentos e dificuldades que podem criar problemas sérios a partir do momento em que os jovens passam a comparar, ainda que apenas para si, as dimensões e a suposta performance sexual dos atores com a sua, a da vida real. Por tudo isso, a adoção do tema é necessária’, completa o psiquiatra.

Para além de todos os desejos e expectativas de educadores e pais, o fato é que esses traumas ou “doenças” da inadequação já produzem transtornos, ou no mínimo mudanças, bastante consideráveis entre os adolescentes. Por isso, é importante pretender que a educação sexual nas escolas –  que, quando existente, limita-se quase sempre a orientar apenas para prevenção da gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis – inclua a orientação sobre comportamento sexual, considerando a realidade de exposição e consumo dos adolescentes. Essa realidade passa inevitavelmente pelos temas relacionados à Pornografia.

A polêmica não mobiliza educadores e pais apenas no Brasil. Semanas atrás, a The New York Times Magazine, revista do mais respeitado jornal do mundo, o The New York Times, publicou uma extensa reportagem de capa sobre o assunto com o título What Teenagers are Learning from online porn (O que os adolescentes estão aprendendo com a pornografia on-line), assinada pela jornalista e escritora Maggie Jones. O texto apresenta resultados de uma pesquisa de fôlego sobre o tema, liderada, na universidade americana de Indiana, pelos pesquisadores Bryant Paul, do departamento de mídia, e Debby Herbenick, da escola de saúde pública. E traz de talhes de um projeto pioneiro, o Boston Porn Literacy, idealizado pela pesquisadora Emily Rothman, do departamento de saúde pública da Universidade de Boston. O programa prepara educadores para formar professores e debater temas ligados à pornografia nas aulas de educação sexual em escolas de regiões pobres da periferia de Boston.

Alguns resultados da pesquisa liderada por Paul acendem o sinal de alerta. Antes de citar alguns deles, a autora do texto da NYTM descreve uma situação hipotética, mas com chances plenas de acontecer com milhões de jovens, neste ou a qualquer momento, no Brasil e em vários pontos do mundo. “Imagine um adolescente atual com 14 anos. Um amigo mostra-lhe um clipe de pornografia curto, no celular, durante o trajeto de ônibus para a escola ou após o futebol. Um GIF pornográfico aparece no Snapchat”, escreve Maggie, que também cita outras cenas mais pesadas. E acrescenta: “Como a maioria dos garotos de 14 anos, ele ainda não teve relações sexuais, mas é um menino curioso, então talvez comece a mergulhar em um dos muitos sites pornográficos livres que funcionam bem:  XVideos.com, Xnxx.com, Bongacams.com, todos entre os cem mais frequentados do mundo. Ou cai no Pornhub, o mais popular deles, com 80 milhões de visitantes por dia, tráfego maior do que o de gigantes como Pinterest, Tumblr ou PayPal. Como a maioria desses portais não verifica a idade do internauta – ou simplesmente pergunta sobre ela sem o menor mecanismo de controle -, milhões de celulares, notebooks e máquinas permitem que esses adolescentes acompanhem pornografia, a todo momento, longe dos olhos dos adultos”. Nada muito estranho para quem acompanha a realidade. De acordo com a pesquisa da equipe de Paul e Debby Herbenick, os meninos têm seu primeiro contato com a pornografia aos 13 anos, e as meninas, aos 14. Metade dos pais entrevistados acreditava que seus filhos não tiveram qualquer acesso a conteúdo pornográfico entre os 14 e os 18 anos. E, em casos de ações sexuais mais “radicais”, fora dos supostos padrões, os pais subestimaram ou Ignoraram o que seus filhos estavam assistindo por, no mínimo, dez vezes.

Está longe de ser tudo. Prepare-se, leitor, pois esse parágrafo não tem como fugir de descrições que podem causar desconforto – não é um tema fácil. Um quarto das meninas e 36 % dos meninos ouvidos admitiram ter visto vídeos pornôs de “faciais’, ou seja, com ejaculações no rosto das mulheres. Praticamente um terço deles e delas tinha acompanhado cenas de Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo, o BDSM. Vinte por cento das mulheres e 26% dos homens tinham contato regular com vídeos de dupla penetração, descritos pelos jovens no estudo, conta a NYTM, como um ou mais pênis ou objetos introduzidos no ânus ou na vagina de uma mulher’. Um em cada três meninos e metade dessa quantidade de meninas disseram ter assistido a vídeos de gang- bang (sexo grupal) e de rough oral sex, algo como sexo oral áspero ou rude.

Ainda não há pesquisas e estudos acadêmicos que apontem, com segurança, o quanto disso se transforma ou não, para o bem ou para o mal, em comportamento. Trabalhos menos recentes levaram à conclusão de que o número de adolescentes que consumiam altas taxas de pornografia e adotaram estereótipos de gênero, ou tornaram-se menos carinhosos do que seus pares, não era estatisticamente preocupante. Tudo poderia ser questão de mera correlação, e não de causa e efeito. Em todo caso, os resultados da pesquisa liderada por Bryant Paul e Debby Herbenick, aliados a dados reunidos pela NYTM, sugerem que o formato e o tipo de sexo praticado por adolescentes e jovens estão, no mínimo, em mudança nos últimos anos. Outra pesquisa, uma das maiores sobre sexualidade realizadas nos Estados Unidos, feita também com a colaboração de Debby Herbenick, publicada no The Journal of Sexual Medicine, revela que a porcentagem de mulheres americanas de 18 a 24 anos que fizeram sexo anal mais do que dobrou entre 1992 e 2009, passando de 16% para 40%. Entre as mais novas, uma em cada cinco, entre 18 e19 anos, e seis por cento das entrevistadas de 14 a 17 também admitiram a experiência.

 Um trabalho desenvolvido na Suécia, em 2016, com 400 meninas, exibiu outro detalhe interessante: o número de moças da amostra que haviam entrado em contato com pornografia e feito sexo anal era maior que o dobro das que jamais tinham consumido informação sobre o tema. E outro, realizado também com jovens, pela Universidade de New Hampshire, atesta que 93% dos homens e 62% das mulheres declararam ter assistido a pornografia antes dos 18 anos – 35% dos meninos no mínimo dez vezes durante a adolescência. Os próximos estudos darão subsídios para afirmar se esses dados adicionais recebem influência direta do consumo de conteúdo pornográfico pela juventude ou são frutos de simples curiosidade juvenil. Ou até mesmo uma alternativa segura de sexo escolhida diante do risco de gravidez precoce, uma das alternativas levantadas pela NYFM.

Se a pornografia na vida de adolescentes e jovens é um fato real, e cada vez mais intenso, e se a sua presença precoce nesse cotidiano evidencia o descompasso entre o que os estudantes aprendem sobre sexo dentro e fora da escola, quais os principais desafios a serem enfrentados por escolas e educadores na tarefa de diminuir essa diferença?

Na avaliação da pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, professora titular e diretora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da PUC-SP, o trabalho deve começar com o envolvimento dos pais. “Num país em que, muitas vezes, os educadores encontram dificuldades até mesmo para abolir símbolos elementares e prosaicos de gênero, como o rosa para meninas e o azul para os meninos, precisamos reconhecer: apontar caminhos para a solução de questões polêmicas como essa é tarefa difícil,” pondera a educadora.

“Mas nenhum passo importante nesse tema será dado sem que os pais entendam que, para além de conceitos, formações, resistências, padrões morais e crenças religiosas de cada um, a realidade radiografada pelos pesquisadores da Universidade de Indiana, e detalhada na reportagem da NYTM, se impõe a cada dia – e isso vem ocorrendo há anos. É fato. E, diante dele, há um início de trabalho: os pais caminharem juntos – e quem achar que não é o caso, que escolha outra escola e não prejudique a trajetória dos outros”, reforça a pedagoga.

A proposta de Maria Ângela remete a um outro foco de resistência, este talvez tão difícil de ser superado quanto a previsível contrariedade de boa parte dos pais e familiares: a dificuldade de convencer os líderes de escolas, sobretudo no campo privado, a cutucar esse vespeiro, diante da necessidade de tocarem pontos capazes de gerar contrariedade em parte considerável de quem financia o seu rebanho. “Não haverá interesse em aprimorar a questão em boa parte das escolas privadas brasileiras, sobretudo as que privilegiam claramente, antes da boa educação, a disputa com outras para conquistar vagas nas universidades -, e claro, os rendimentos financeiros e de marketing que isso gera”, avalia a psicóloga e psicanalista Ana Olmos, uma das mais influentes analistas do comportamento adolescente do país. “Afinal de contas, pais são também clientes nessa história, esse negócio não envolve pouco dinheiro e, em grande parte dos casos, contrariar, ou mesmo gerar um pequeno constrangimento em quem paga, ainda que em função de uma boa causa, pode ter como consequência a perda de aluno – e, obviamente, de receita.

“Mas escolas privadas com direcionamento consciente e formuladores de políticas para escolas públicas precisam assumir e iniciar esse trabalho com urgência, resume Ana. O que se cogita não é, evidentemente, transformar aulas e projetos de educação sexual nas escolas em programas de ensino de pornografia. É, antes de tudo, assumir a existência de um dado real, que cerca os adolescentes com intensidade e força cada vez maior, e, a partir desse estágio, criar os recursos para combater seus pontos negativos.

E essa discussão está apenas começando.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE A BRIGA ENTRE UBER E TAXISTAS ENSINA ÀS EMPRESAS?

O que a briga entre uber e taxistas ensina às empresas

Quem vive hoje na cidade de São Paulo e em outras capitais brasileiras sabe que existe uma batalha entre taxistas e o aplicativo Uber. É uma disputa que, por vezes, se apresenta violenta. Mas o que isso ensina para aqueles que são responsáveis pela gestão de empresas? Essa situação não é nova. Situações semelhantes ocorrem desde a revolução industrial. Uma nova tecnologia pode prejudicar interesses dos que se beneficiam da situação atual.

No caso especifico do Uber, a inovação não está tanto na tecnologia aplicada. ou seja, softwares e celulares. A grande inovação é o modelo de negócio do Uber. O Uber estimula um aumento da oferta de serviços de táxi sem as dificuldades impostas pelo setor público.

Isso prejudica os interesses dos donos de frotas de táxi, que pagam caro para ter as licenças concedidas pelas Prefeituras Municipais. Não é muito difícil perceber que a oferta de táxis nas cidades brasileiras é determinada pelo poder público e não pela atratividade que esse negócio tem. Conclusão: cria-se uma condição de escassez artificial que faz com que os donos de táxis tenham um lucro acima do normal e, ao mesmo tempo, torna a licença concedida pela Prefeitura um ativo de altíssimo valor.

Isso permite, por exemplo, a criação de empresas que alugam seus carros para taxistas que não têm condição de comprar as licenças. Por outro lado, o Uber é um excelente modelo de negócio para o taxista que não tem condição de adquirir a licença da Prefeitura. Esse mesmo tipo de batalha é velha conhecida da história: já ocorreu na revolução industrial na Inglaterra, ocorreu também no Brasil com os donos de bancas de jornal, quando os maiores jornais decidiram alavancar vendas por meio de assinaturas, e ocorreu também, mais recentemente, com a indústria fonográfica que sofreu com a chegada dos gravadores de MP3.

O ponto chave é que no embate entre novas tecnologias e estruturas estabelecidas, as novas tecnologias costumam ser mais bem-sucedidas. Fica o alerta para aqueles que querem perenizar seus negócios: lutar contra novas tecnologias cujo tempo chegou é guerra ladeira acima. O melhor é tentar se adaptar quanto antes para não se tornar irrelevante.

 

ÁLVARO CAMARGO – é consultor e professor docente dos cursos de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 20: 1-16 PARTE 2

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A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

(2). Aqui está a prestação de contas com os trabalhadores. Observe:

[1]. Quando a conta foi feita; aproximando-se a noite, então, como sempre, os trabalhadores do dia foram chamados e pagos. O período da noite é a hora da prestação de contas; a prestação de contas específica deve ser terminada na noite da nossa vida; porque depois da morte vem o juízo. Os trabalhadores fiéis deverão receber o seu galardão quando morrerem; ele é adiado até então, de forma que eles podem esperar com paciência por ele, porém não mais que isso, porque Deus observará a sua própria regra: “No seu dia, lhe darás o seu salário, e o sol se não porá sobre isso”. Veja Deuteronômio 24.15. Quando Paulo, aquele obreiro fiel, partisse, ele sabia que estaria com Cristo imediatamente. O pagamento não será totalmente adiado até à manhã da ressurreição; mas então, na noite do mundo, será a prestação geral das contas, onde cada um receberá de acordo com as coisas feitas por meio do corpo. Quando o tempo acabar, e com ele o mundo do trabalho e da oportunidade, então começará o estado da retribuição; então o Senhor chamará os trabalhadores e lhes dará a sua paga. Os ministros os chamam para a vinha, para fazerem o seu trabalho; a morte os chama para fora da vinha, para receberem o seu pagamento; e para aqueles que atenderem o chamado para a vinha, o chamado para fora dela será feliz. Eles não vieram para a sua paga até que foram chamados; devemos, com paciência, esperar o tempo de Deus para o nosso descanso e recompensa; devemos andar conforme o relógio do Senhor. A última trombeta, no grande dia, convocará os trabalhadores (1 Tessalonicenses 4.16). Então tu chamarás, disse o servo bom e fiel, e eu responderei. Ao chamar os trabalhadores, eles devem começar pelo último, e assim até o primeiro. Que aqueles que entrarem na hora undécima, não sejam colocados atrás dos demais, mas, para que não sejam desencorajados, sejam chamados primeiro. No grande dia, os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, depois, nós, os que ficarmos vivos (na hora undécima do seu dia), seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.

[2]. Qual foi o pagamento; e nisso observe:

Em primeiro lugar, o pagamento geral (vv. 9,10). Cada homem recebeu um dinheiro. Receberão, sem dúvida nenhuma, a vida eterna os que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, e honra, e incorrupção (Romanos 2.7), não como salários pelo valor de seu trabalho, mas como o dom de Deus. Embora haja graus de glória no céu, ele será para todos uma felicidade completa. Aqueles que vêm do Oriente e do Ocidente, e chegarem depois, que forem apanhados nas estradas e limites, se assentarão com Abraão, Isaque e Jacó, no mesmo banquete (cap. 7.11). No céu, todo vaso estará cheio, transbordante, embora os vasos não sejam iguais em tamanho e capacidade. Na distribuição de alegrias futuras, como ocorreu no recolhimento do maná, aquele que colher muito não terá nada sobrando, e o que colher pouco não terá falta de nada (Êxodo 16.18). Todos aqueles que Cristo alimentou miraculosamente, embora tivessem diferentes tamanhos, homens, mulheres e crianças, comeram e ficaram satisfeitos.

O pagamento de salários de um dia inteiro para aqueles que não haviam feito a décima parte do trabalho de um dia tem a finalidade de mostrar que Deus distribui o seu galardão por sua graça e soberania, e não por uma dívida. Os melhores trabalhadores, e aqueles que começam mais cedo, tendo tanto espaço vago em seu tempo, e não tendo os seus trabalhos esgotados diante de Deus, podem verdadeiramente ser considerados como aqueles que trabalham na vinha apenas uma hora dentre as suas doze; mas devido ao fato de estarmos de­ baixo da graça, e não debaixo da lei, até mesmo serviços tão imperfeitos, feitos com sinceridade, não só serão aceitos, mas pela graça gratuita serão ricamente recompensados. Compare Lucas 17.7,8 com Lucas 12.37.

Em segundo lugar, o protesto daqueles que se ofenderam com esta distribuição e partilha. As circunstâncias disso servem para adornar a parábola; mas o objetivo geral é claro, que os derradeiros serão primeiros. Temos aqui:

1. Os ofendidos (vv. 11,12). Murmuravam contra o pai de família; não que haja, ou que possa haver, qualquer insatisfação ou murmuração no céu, porque isso tanto é culpa como tristeza, e no céu não há nenhuma delas; mas pode haver, e frequentemente há, insatisfação e murmuração com relação ao céu e às coisas celestiais, enquanto eles estão em perspectiva e promessa no mundo. Isso significa o ciúme para o qual foram os judeus provocados pela admissão dos gentios no Reino dos céus. Como o irmão mais velho, que na parábola do filho pródigo se queixou da recepção de seu irmão mais novo, e reclamou da generosidade de seu pai para com ele, assim esses trabalhadores reclamaram com o seu senhor, e o acharam injusto, não porque não tivessem o suficiente, mas porque os outros foram igualados a eles. Eles se vangloriaram, como fez o irmão mais velho do filho pródigo, dos seus bons serviços: “Suportamos a fadiga e a calma do dia”; isto era o máximo que eles poderiam fazer. É dito que os pecadores trabalham para o fogo (Hebreus 2.13), ao passo que os servos de Deus, na pior situação, fazem apenas o trabalho sob o sol; não no calor da fornalha de ferro, mas apenas no calor do dia. Agora esses derradeiros trabalharam só uma hora, e também no fresem· do dia; contudo, “tu os igualaste conosco”. Os gentios, que foram chamados por último, possuem os mesmos privilégios dos judeus no reino do Messias; os judeus estavam trabalhando por muito tempo na vinha da igreja do Antigo Testamento, sob o jugo da lei cerimonial, na expectativa desse reino. Há em nós uma maior propensão a pensarmos que temos muito pouco, e que os outros têm demais, quando se trata dos sinais do favor de Deus. Também pensamos que fazemos demais, e os outros, muito pouco, na obra de Deus. Todos nós somos muito aptos a desvalorizar os desertos dos outros, e supervalorizar os nossos próprios. Talvez Cristo aqui tenha dado uma intimação a Pedro, para não se vangloriar demais, como ele parecia fazei por ter deixado tudo para seguir a Cristo; como se tanto ele como os demais tivessem suportado a fadiga e a calma do dia; portanto, talvez pensassem que deveriam ter um céu particular ou diferenciado. É difícil para aqueles que fazem ou sofrem mais do que o comum por amor a Deus, não serem exaltados demais com esse pensamento, e esperarem merecer bênçãos diferenciadas. O bendito apóstolo Paulo se guardou disso; embora fosse o principal dos apóstolos, ele se considerava como nada, como menos do que o menor dos santos.

2. A ofensa removida. Três exortações do pai de família como resposta a essa presunção impertinente.

(1).  Que o queixoso não tinha razão alguma para dizer que lhe foi feita qualquer injustiça (vv. 13,14). Aqui ele declara a sua própria justiça: ”Amigo, não te faço injustiça”. Ele o chama de amigo, porque ao argumentar com os outros devemos usar palavras brandas e argumentos fortes; mesmo que os nossos inferiores sejam irritantes e provocadores, não devemos nos irar, mas falar-lhes calmamente.

[1].  É incontestavelmente verdadeiro que Deus não pode fazer injustiça. Esta é a prerrogativa do Rei dos reis. Porventura, será Deus injusto? O apóstolo se sobressalta com esse pensamento: “De maneira nenhuma!” (Romanos 3.5,6). A sua palavra deveria calar todas as nossas murmurações. A despeito daquilo que Deus nos faça, ou retenha de nós, Ele não nos faz nenhuma injustiça.

[2].  Se Deus der uma graça aos outros, e a negar a nós, será bondade para eles, mas não será nenhuma injustiça para nós. Quando Deus concede a abundância a alguma outra pessoa, e não a nós, não se trata de uma injustiça contra nós; jamais devemos criticar o Senhor. Como a graça é gratuita, e é assim dada àqueles que a têm, vangloriar-se é uma atitude reprovável para sempre. Semelhantemente, se a graça for retida daqueles que não a têm, murmurar será uma atitude reprovável para sempre. Portanto, toda boca deve se calar, e toda carne deve estar em silêncio diante de Deus.

Para convencer o murmurador de que ele não foi injustiçado, o senhor o lembra da negociação: “‘Não ajustaste tu comigo um dinheiro?’ E se tu recebeste o que concordaste, tu não tens nenhuma razão de reclamar in­ justiça; terás o que combinamos”. Embora Deus não seja devedor a ninguém, Ele, no entanto, se agrada de misericordiosamente se fazer um devedor pela sua própria promessa, por cujo benefício, através de Cristo, os crentes concordam com Ele, e ele manterá a sua parte do acordo. Bom é para nós que frequentemente consideremos aquilo em que concordamos com Deus. Em primeiro lugar, as pessoas mundanas e carnais concordam com Deus quando estão em busca de um pagamento desse mundo; eles escolhem a sua porção na vida (Salmos 17.14); nessas coisas, elas estão dispostas a receber o seu galardão (cap. 6.2,5), a sua consolação (Lucas 6.24), os seus bens (Lucas 16.25); e com essas coisas, elas serão afastadas, serão cortadas das bênçãos espirituais e eternas. E assim Deus não lhes faz injustiça; elas têm o que escolheram, o pagamento com que concordaram; esse será o seu destino, que elas mesmas escolheram; será algo conclusivo contra elas. Em segundo lugar, os crentes obedientes concordam com Deus quanto ao seu pagamento no mundo por vir, e eles devem se lembrar de que concordaram com isso. “Não concordaste em levar a Palavra de Deus por isso? Tu concordaste; e irás tu concordar com o mundo? Não concordaste em aceitar o céu como a tua porção, e não aceitar nada menos do que isso? E buscarás tu a felicidade na criatura, ou pensarás que deverias compensar as deficiências de tua felicidade em Deus?”

Ele. portanto:

1. Vincula-o ao seu acordo (v. 14): “Toma o que é teu e retira-te”. Se entendermos essa palavra como estando relacionada ao que é nosso por dívida ou absoluta propriedade, ela seria uma palavra terrível; todos nós estaríamos aquém das expectativas, com algo por fazer, se fôssemos despedidos apenas com aquilo que poderíamos chamar de nosso. A criatura mais elevada deverá ir embora sem nada, se tiver de se retirar somente com aquilo que é seu; mas se entendermos isso como sendo o que é nosso pelo dom, o dom gratuito de Deus, isto nos ensina a estar satisfeitos com as coisas que temos. Em vez de nos queixarmos de que não temos mais, tomemos o que temos, e sejamos agradecidos. Se Deus for melhor aos outros do que a nós em qualquer aspecto, mesmo assim não temos motivo para reclamar, visto que Ele tem sido melhor para nós do que merecemos ao nos dar o nosso pagamento, pois somos servos inúteis.

2. O senhor diz ao servo que aquele a quem ele invejava deveria receber o mesmo que ele: “‘Eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti’; estou resolvido a dar”. Note que a imutabilidade dos propósitos de Deus ao distribuir os seus dons deve calar as nossas murmurações. Se Ele quiser fazê-lo, não devemos contestar; pois Ele está de comum acordo, e quem o pode mudar? Ele não presta contas daquilo que lhe diz respeito; nem é próprio que o faça.

(2).  Ele não tinha nenhum motivo para discutir com o senhor; porque o que ele lhe deu era absolutamente o que lhe pertencia (v. 15). Assim como havia anterior­ mente declarado a sua justiça, aqui ele declara a sua soberania: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?” Considere:

[1].  Deus é o dono de todos os bens; a sua propriedade nisso é absoluta, soberana e ilimitada.

[2].  Ele pode, portanto, dar ou reter as suas bênçãos, como bem quiser. O que temos não nos pertence; portanto, não nos é lícito fazer o que quisermos com isso; mas o que Deus tem, isso lhe pertence; e isto o justificará. Em primeiro lugar, em todo o uso de sua providência; quando Deus toma de nós aquilo que nos é caro, e que pode­ ríamos utilizar de uma maneira incorreta ou má, devemos calar o nosso descontentamento. Ele não pode fazer o que quiser com o que é seu? Criaturas tão dependentes como nós não devem se queixar de nosso Soberano. Em segundo lugar, em todas as dispensações de sua graça, Deus dá ou retém os meios da graça, e o Espírito da graça, como bem quiser. Não somente que há um conselho em toda vontade de Deus, e o que nos parece ser feito arbitrariamente parecerá, por fim, ter sido feito de forma sábia, e para fins santos. Mas há algo suficiente para calar todas as murmurações e objeções: Deus é o Senhor soberano de tudo, e Ele pode fazer o que quiser do que é seu. Nós estamos em suas mãos, como o barro nas mãos de um oleiro; e não devemos tentar dizer ao Senhor o que Ele deve fazer, nem lutar contra Ele.

(3).  Ele não tinha motivo para invejar o seu conservo, guardar rancor dele, ou se irar por ele não ter vindo para a vinha no mesmo instante, por não ter sido chamado antes. Ele não tinha motivo para se irar com o senhor por ter lhe dado o salário pelo dia todo, quando havia ficado ocioso durante a maior parte do dia. Porque: “É mau o teu olho porque eu sou bom?” Veja aqui:

[1]. A natureza da inveja: “é mau o teu olho”. O olho é a entrada e a saída desse pecado. “Saul tinha Davi em suspeita. Vendo, então, Saul, que tão prudentemente se conduzia, tinha receio dele” (1 Samuel 18.9,15). O olho mau não tem prazer no bem dos outros, e deseja o seu mal. O que pode ter mais maldade em si? Ê tristeza para nós mesmos, ira para Deus, e má vontade para com o nosso próximo; e é um pecado que não tem prazer, nem proveito, nem honra em si; é um mal, um único mal.

[2]. O agravo dele:” porque eu sou bom.” A inveja é o oposto de Deus, que é bom, e faz o bem, e tem prazer em fazer o bem. Ela é uma oposição e uma contradição a Deus; é não gostar de seus procedimentos, e um desgosto pelo que Ele faz e por aquilo com que Ele se agrada. Ê uma violação direta dos dois grandes mandamentos de uma só vez; tanto em relação ao amor de Deus, com cuja vontade devemos concordar, como em relação ao nosso próximo, com cujo bem-estar devemos nos alegrar. Assim, a maldade do homem se vale da bondade de Deus para ser ainda mais pecaminosa.

Em último lugar, aqui está a aplicação da parábola (v. 16), e a observação que a ocasionou (cap. 19.30): “Os derradeiros serão primeiros, e os primeiros, derradeiros”. Houve muitos que seguiram a Cristo então, na regeneração, quando o reino do Evangelho foi primeiramente estabelecido, e esses judeus convertidos parecem ter ganho a dianteira dos outros; mas Cristo, para afastar e calar a vanglória deles, aqui lhes diz:

1. Que eles poderiam ser, possivelmente, superados por seus sucessores em termos de profissão de fé, e, embora estivessem mais adiantados do que os outros quanto a essa profissão de fé, poderiam ser achados inferiores a eles em conhecimento, graça e santidade. A igreja gentílica, que ainda não havia nascido, e o mundo gentílico, que por hora estava ocioso na praça, produziriam um grande número de cristãos eminentes e úteis, muito maior do que aquele que foi encontrado entre os judeus. Cada vez mais excelentes serão os filhos da solitária do que os filhos da casada (Isaias 54.1). Quem sabe a igreja, em sua idade avançada, pode ser mais gorda e próspera do que nunca, para mostrar que o Senhor é reto? O cristianismo primitivo tinha mais pureza e poder como uma santa religião, quando comparado com o que vemos na era degenerada em que vivemos. No entanto, os trabalhadores podem ser enviados para a vinha na hora undécima do dia da igreja, no período de Filadélfia. E quem é capaz de imaginar que efusões abundantes do Espírito podem, então, ser derramadas, em um volume superior às bênçãos espirituais recebidas no passado?

2. Que eles tinham motivo para temer, para que não fossem achados hipócritas no final; porque “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Isso é aplicado aos judeus (cap. 22.14). Foi assim então, e ainda é verdadeiro; muitos são chamados com um chamado comum, mas não são escolhidos com uma escolha salvadora. Todos aqueles que são escolhidos desde a eternidade são efetivamente chamados, “na plenitude dos tempos” (Romanos 8.30), de modo que para confirmarmos o nosso chamado efetivo, “procuremos fazer cada vez mais firme a nossa vocação e eleição” (2 Pedro 1.10). Mas não é assim quanto ao chamado externo; muitos são chamados, e mesmo assim se recusam a vir (Provérbios 1.24). À medida que são chamados por Deus, retiram-se da presença dele (Oseias 11.2,7). Por essa razão, parece que eles não foram escolhidos, porque os “eleitos o alcançaram” (Romanos 11.7). Há apenas poucos cristãos escolhi­ dos, em comparação com os muitos que são apenas cristãos chamados; portanto, isso nos preocupa. Devemos nos dedicar a edificar a nossa esperança pelo céu sobre a rocha de uma escolha eterna, e não sobre a areia de um chamado externo. E devemos temer, para que não sejamos achados apenas como cristãos em nossa aparência, pois assim estaríamos, realmente, em uma condição de insuficiência. Devemos nos esforçar para não sermos achados como cristãos contaminados, pois assim pareceria que “ficamos para trás” (Hebreus 4.1).