EU ACHO …

NAQUELA MESA

Memórias afetivas que permanecem por toda a vida

A mesa tem um quê de sagrado. Em torno do alimento que ela oferta, familiares e amigos se reúnem, estreitando vínculos e criando um repertório de memórias afetivas que poderão ser acessadas por toda a vida. Num almoço de domingo, um simples molho de tomate feito no passe vite trará de volta o elogio de sempre. Num lanche em dia de semana, o biscoito champanhe lembrará a avó. Assim como a textura macia e consistente de um pudim nos devolverá a infância já remota.

Qualquer comida é melhor quando compartilhada. À mesa, o ritual de fazer a refeição em conjunto requer o avesso da pressa. Assim a conversa evolui solta e pode tomar rumos inesperados. Na melhor tradição latina, que valoriza o falatório entrecruzado, um comentário casual sobre o ponto da massa ou um pedido para passar o azeite podem dar origem a reflexão, piada, ensinamento, nunca se sabe. Podem terminar também em desavenças, se bem que essas tendem a se dissolver logo, em meio a aromas agradáveis.

Guardo na retina e na alma as cenas banais e marcantes dos jantares semanais de terça-feira em casa. Meus pais nas cabeceiras, os seis filhos entre eles. Minha mãe provavelmente não entenderia o sentido de “gluten free”. Portuguesa típica, gostava de um bom bacalhau e mergulhava o pão no vinho. Adorava ainda a água portuguesa Pedras Salgadas, bicarbonatada e naturalmente gaseificada, indicada por ela para “anular” alguns exageros à mesa. Minha mãe dizia ainda que água boa deve ser rica em minerais, e jamais purificada – que só serviria para expelir os minerais do nosso organismo. Mamãe também não queria saber se alguém não gostava de cebola ou maçã, como era o caso do Abílio, o mais velho dos seis irmãos. Embates passageiros sobre esses ingredientes, aliás, fazem parte do folclore familiar, da mesma maneira que a superstição de minha mãe, que se recusava a pôr treze pessoas na mesa (mas isso só seria um problema quando a nós se juntaram genros e noras). Diz o ditado popular que, para conhecer uma pessoa, é preciso antes comer um saco de sal com ela. Famílias que comem unidas batem a marca proverbial com folga.

Hoje, aqueles que podem ficar em casa estão tendo a oportunidade de resgatar um hábito – de ouvir e falar entre goles e garfadas – que emprestou leveza de espírito, inteligência e charme à própria civilização.

É inevitável que a mesa também nos faça sentir saudade daqueles que já não se sentam mais ao nosso lado. A cadeira vazia é uma metáfora pungente da partida de um ente querido. “Naquela mesa ele sentava sempre/ E me dizia sempre o que é viver melhor”, diz o samba clássico que o filho de Jacob do Bandolim fez para o pai. Em meio à nostalgia vazada em tom menor, o que ficam, para mim, é o elogio do convívio e as boas lembranças, que logo se sobrepõem ao vácuo. Ficam ainda as histórias divertidas, os argumentos afiados, as lições pertinentes, o exemplo de vida. E fica também, como que embaçada nos vapores que sobem das travessas, a cena agitada e alegre embalada pelo tilintar de copos e talheres.

P.S.: a todos aqueles que perderam seus entes queridos pela Covid-19 neste ano tão difícil e doloroso eu dedico este artigo.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

A CINTURA COMO MANIFESTO

A volta da calça que deixa um palmo abaixo do umbigo à mostra desafia os quilos ganhos na quarentena. Há nela um quê de protesto adequado a novos tempos

Nos anos 2000, as calças de cintura baixa vieram ao mundo com estardalhaço para destacar um ativo valiosíssimo entre as mulheres: a barriga chapada. A maior das musas era a cantora americana Britney Spears, que começava a se destacar, na antessala dos atuais tempos das redes sociais, e não vacilou um segundo em abandonar o visual adolescente com que começara sua carreira. Suas exibições públicas foram valorizadas com os jeans justíssimos e zíperes de poucos centímetros – e uma imensidão de abdômen à mostra. O tempo passou, o recato se impôs e tudo ficou mais discreto. Mas como a moda vive de redescobertas, uma das novidades, agora, é o retorno dos modelos de vinte anos atrás.

Fashionistas de primeira hora como as modelos americanas Bella Hadid e Hailey Bieber já aderiram ao estilo, assim como marcas de prestígio, entre as quais Gucci, Tom Ford e Versace. O renascimento embute algum paradoxo. O item ressurgiu em plena quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus, período inglório, que parece estar chegando ao fim, no qual as mulheres (e homens também, é claro) ganharam quilinhos a mais. A modelagem que aperta as ancas, alertam os especialistas em moda, ressalta a gordura localizada no local, dando a aparência de duas cinturas. Ou seja, era costumeiramente usada por silhuetas secas. Hoje, portanto, não deveria emplacar.

Mas, como a dificuldade é a mãe da invenção, deu-se um jeito de fazer as calças mais larguinhas, em sua maioria, mesmo atreladas a corpos sem um pingo de gordura sobrando. “Hoje em dia conforto é fundamental para a moda vingar, ninguém mais acha aceitável sofrer para caber em uma tendência”, diz a consultora de moda e estilo Mônica Boaventura, dona de um badalado ateliê que leva seu nome em São Paulo.

Há poucos anos, outro item do vestuário feminino passou por uma adaptação semelhante, a chamada blusa cropped, curtinha, com medidas que normalmente chegam, no máximo, à altura do umbigo. Feitas em variados manequins e usadas em sobreposições, se adaptaram a todos os corpos.

Como moda também é manifesto, a calça de cintura baixa, readaptada aos dias de confinamento, ganhou força por refletir, de algum modo, os humores deste 2020 tão especial. Não há espaço para machismo, as mulheres impõem suas vontades, exigem igualdade e não cansam de informar que seu corpo lhes pertence. Simples assim. Tratam de exibi-lo do jeito que bem desejam, grito que ecoa os ruidosos anos 1960, com o nascimento da revolução sexual. Naquele momento, a peça, em sua primeira versão, era chamada de Saint-Tropez, em referência ao sensual balneário francês frequentado pela sensualíssima Brigitte Bardot. “A cintura baixa surge num momento de libertação feminina, com um teor de contestação e rebeldia”, diz a historiadora de moda Laura Ferrazza. A quebra de paradigma na época foi tamanha que Carlos Drummond de Andrade escreveria uma crônica, espantado com os umbigos em evidência: “Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça diferente acrescentada ao espetáculo feminino”. Já não há mais espanto, mas o espetáculo precisa continuar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE SETEMBRO

O CORDEIRO SALVADOR

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (João 1.29b).

João Batista foi o precursor do Messias. Apresentou-o como noivo. Chegou a dizer que não era digno de desatar-lhe as correias da sandália. Afirmou que Jesus era maior que ele, pois batizaria com o Espírito Santo e com fogo. Mas, de todas as afirmações de João Batista, esta foi a mais direta: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! Todos os rituais do Antigo Testamento apontavam para Jesus. Eram um símbolo do Cordeiro imaculado que seria imolado na cruz. Todas as festas, todos os rituais e todas as cerimônias judaicas não passavam de sombra da realidade em Cristo. Quando o sol desponta, não precisamos mais recorrer a luz de velas. Hoje temos Cristo, e ele nos basta. Ele é o cumprimento das promessas. Nele todas as coisas convergem no tempo e na eternidade. Cristo é o centro da história e da eternidade, do céu e da terra. Por nos amar com amor eterno, Deus entregou seu próprio Filho para morrer por nós, sendo nós ainda pecadores. Jesus é o Cordeiro de Deus, providenciado por Deus, para ser imolado pelo próprio Deus. Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Deus lançou sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi ferido e traspassado pelas nossas transgressões. Carregou o fardo dos nossos pecados sobre a cruz. Morreu pelos nossos pecados e cancelou o escrito de dívida que era contra nós. Pagou por completo a nossa dívida e nos reconciliou com Deus, dando-nos perdão e vida eterna.

GESTÃO E CARREIRA

DESCUBRA O SEU LUGAR NO MUNDO CORPORATIVO

Definir, estruturar e findar o core business é o norte que dará direcionamento ao negócio – mesmo que ele mude no meio do caminho

Ao estruturar um negócio, define-se o que será e seu campo de atuação, além da delimitação de um público-alvo.

Assim origina-se o core business: uma linha mestra para se dedicar, estudar e aprofundar cada vez mais os conhecimentos, que logo passam a se tornar know-how. Em tradução livre, a expressão refere-se ao negócio central da empresa, que a sustenta e determina a maneira como ela é percebida pelo mercado e por todos os seus stakeholders. Uma indústria automobilística, por exemplo, tem como foco principal do seu negócio o design e a fabricação de carros (a maioria apenas a “montagem” dos autos).

Não é um limitador, mas um eixo. “A consciência do próprio core business por parte da empresa e todas as reflexões a respeito têm que acompanhá-la desde o momento em que começou a realizar as suas atividades de forma um pouco mais contínua e estruturada”, diz o head de Supply Chain da AGR Consultores, Ricardo Rodrigues.

Defini-lo é importante para que se possa alinhar os recursos da organização (pessoas, financeiro, capacidade) a fim de se dedicarem aos negócios e clientes essenciais que a empresa quer focar para alcançar os resultados. Nenhuma empresa hoje pode se dar ao luxo de ter capacidade e recursos para atender linhas de negócio que não são realmente chave para o alcance dos resultados.

Fundamenta-se para se provar que economicamente não vale mais a pena dispender energia interna da corporação em atividades que não agregam valor ao produto. “Essa definição torna claro para os clientes e para o mercado o posicionamento da empresa e seus diferenciais competitivos. Se o core business está bem definido, fica evidente, tanto internamente quanto aos clientes, em quais negócios a empresa atua e se destaca”, afirma o consultor.

NO DECORRER DO CAMINHO

Apesar de ser um caminho traçado desde a fundação da empresa, é possível mudá-lo, em determinado momento, devendo essa alteração ser tratada como um projeto amplo e estruturado, que envolve a grande maioria das áreas da empresa, e especialmente clientes e fornecedores. “Mesmo adaptações vistas como pequenas ou simples precisam de uma reflexão e de um planejamento prévio para serem efetivadas”, reforça o consultor.

O estúdio de arquitetura e design urbano Plantar Ideias, dos arquitetos e designers Luciana Pitombo e Felipe Stracci, por exemplo, percebeu que precisava redefinir seus caminhos.

Com quase três anos de trajetória, o escritório começou com a criação de peças para áreas externas. Participaram de três edições da Casa Cor em São Paulo e hoje contam com peças que estão no Parque do Ibirapuera, por exemplo. Com essa evolução dos negócios, os sócios optaram por fazer uma divisão de core: Luciana segue à frente das peças que criam e comercializam por meio de parceiros, enquanto Felipe Stracci passa a se dedicar aos projetos de urbanismo – outra paixão da Plantar. “Quando decidimos que íamos ser um escritório de arquitetura, sabíamos que fazíamos projetos, porém, dentro de cada atendimento, buscamos entender qual é a essência da empresa e como atender cada cliente e optamos por absorver diversas capacidades de gerar valor para a empresa”, diz a arquiteta e designer, sócia do negócio, Luciana Pitombo.

A mudança se fez necessária pelo dinamismo do mercado. Na opinião de Luciana, a instabilidade econômica do País faz com que os empreendedores se sintam desconfortáveis ou vendo novas demandas que necessitariam de grandes mudanças do core business, entretanto, o eixo de uma empresa está pautado nas expertises que ela possui, e fazer grandes mudanças pode acabar por enfraquecer a entrega por falta de domínio de assuntos que fogem ao eixo central de trabalho.

Durante as ações de planejamento empresarial, a revisitação no Plano de Negócios, avaliação de canais de projeto e demandas são questões que podem se transformar ao longo dos anos, por isso, é fundamental que toda empresa se encare como um organismo vivo que se adapta e transforma. “Mesmo porque existem fatores internos e fatores externos que influenciam no sucesso de uma empresa, sendo assim, tudo que foge ao nosso controle pode acabar por estimular transformações na empresa que desviem do planejamento inicial, não sendo de forma alguma uma inconsequência, desde que o planejamento seja um processo constantemente atualizado. Apesar das mudanças de entregas, o core business se mantém, amplia ou restringe, mas a expertise permanece, fortalecendo a marca”, opina.

CAMINHOS ALTERNATIVOS

Para entender se a empresa está mudando seu negócio central é preciso ficar muito atento ao mercado, acompanhando de perto seus clientes através dos dados e informações que chegam diariamente à empresa. Para tanto, é vital que os empreendedores e executivos entendam quais são os índices e métricas mais importantes para seus produtos e/ou serviços e acompanhem de perto – o que se chama de “Inteligência de Mercado”. “É necessário ir para a rua, interagir com o cliente, pois é nesse contato que se tem a noção real do que realmente importa (valida seu foco no core business). Por fim, é fundamental ler, acompanhar pesquisas de tendências e estar sempre atualizado das principais novidades do seu respectivo mercado para não perder o passo e ficar para trás”, indica o professor de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Afonso Carlos Braga.

E, apesar de poder parecer inconsistência ou falta de planejamento, a mudança do core business não deve ser encarada como falha. “Tudo está mudando e cada vez mais velozmente. Delimitar-se não deve ser confundido com limitar-se. A exemplo das startups que estão crescendo e ganhando espaço, pois desenvolvem projetos e/ou produtos pilotos, aprende-se com os erros etc. (“pivotar”), ao invés de se prender a longos processos de desenvolvimento de novos projetos. Deve-se, portanto, acelerar (com método, não aleatoriamente) e testar rapidamente em áreas controladas, corrigir e partir para escala maior após aprender com o piloto”, exemplifica Braga.

RENOVAÇÃO CONSTANTE

No mundo de hoje, as condições competitivas, regras de negócio e demandas do consumidor mudam muito rapidamente. Aos empresários, é importante sempre reavaliar seus modelos de negócio, a cada ciclo de planejamento estratégico da empresa, encarando essa revisitação da maneira mais simples possível, especialmente no início: vale a pena testar bastante os novos modelos que resultarão em mudanças no modelo de negócio para confirmar se é a direção certa, e ter coragem de decidir e fazer mudanças mais certeiras depois desses aprendizados ao longo do tempo. “Em alguns casos, pode-se justificar criar uma empresa ou ainda uma nova divisão separada para experimentar o novo modelo de negócio, sem trazer impactos ao atual. Porém, mesmo neste caso, a comunicação clara e transparente é fundamental”, diz Ricardo Rodrigues.

É recomendável também que a empresa se apoie em especialistas e consultorias para ajudá-la a entender o momento de fazer mudanças complexas e o melhor planejamento. Vale, por exemplo, a máxima de que o negócio que cresce sustentadamente com rentabilidade é aquele que de fato coloca o cliente e suas necessidades/experiência no centro, desenvolvendo seus produtos, serviços e modelagem de negócio sob esta ótica. “Em paralelo, vale repartir os recursos da empresa, alinhados e direcionados para o core business selecionado, com metas claras e desafiadoras, e sem desperdício de energia com o que não é o foco”, sugere o especialista da AGR Consultores.

O crescimento de todo negócio é um dos objetivos, potenciais, da grande parte dos empreendedores, sendo natural querer expandir produtos e serviços ofertados. Sendo assim, a opção de um core business “amplo” ou pelo menos de entendimento generalista faz com que a diversificação se torne possível e alinhada com o eixo fundamental.

A Plantar Ideias, por exemplo, possui mais de cinco canais de projetos, com potencial de ampliação desses canais que hoje não são explorados, mas que possuem alinhamento intrínseco ao core business de entrega de soluções criativas para áreas externas, campos e demandas que surgirão ao longo dos próximos anos e que exigirão mudanças constantes para atender às demandas do momento. Para a sócia da Plantar Ideias, o grande desafio é entender esta entrega de valor do negócio, alinhado com uma visão de futuro coerente, não só com as demandas atuais, mas também com soluções mais arrojadas e sustentáveis para a sociedade.

De acordo com o docente Afonso Carlos Braga, esse caminho pode ser conquistado ao tirar a “missão” e a “visão” do papel, estendendo aos colaboradores qual é o seu propósito, como ela atende e gera clientes satisfeitos e, não menos importante, para onde a empresa quer chegar. “Estratégia é essa jornada: como sair da missão e chegar à visão e, mesmo com desvios e percalços, resistir e buscar aquele objetivo maior traçado. Só se mantém firme na jornada as empresas que entendem seu core business!”, indica o professor do Instituto Mauá.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OLHAR A MORTE NO HORIZONTE

Em O Velho e o Mar, Santiago e Manolin resumem a relação “puer-senex”, tão importante para simbolizar e compensar no idoso o fato de que há no seu horizonte o deixar de viver

Enquanto um homem diminui suas funções em relação ao que antes era capaz, outro inicia sua aprendizagem quando começa a dispor de toda vitalidade que a natureza proporciona. Esse é o tema que aprendemos por meio dos interstícios da obra O Velho e o Mar.

Ernest Hemingway, contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1954, elabora nessa obra uma metáfora que descortina o palco da vida para contemplarmos a luta entre o homem e sua própria natureza.

A novela escrita em 1951, durante o período em que o autor morava em Cuba, conta a história do velho Santiago e do adolescente Manolin, seu aprendiz. Depois de 81 dias semconseguir pescar nenhum peixe, os pais de Manolin entenderam que o velho tinha má sorte afastaram o garoto desse convívio em que o idoso e o jovem pareciam unir o começo da vida com o final. O grande círculo que gira em torno de um centro, chamado sentido da vida. Os pais de adolescentes sempre acham que sabem o que é melhor para eles, por isso não os escutam. Entretanto, mesmo impedido de pescar com o amigo, o jovem nunca deixou de visitá-lo e de ajudá-lo em algumas tarefas.

Saudoso, porém com determinação, Santiago sai para pescar e logo alcança uma corrente em alto-mar. É aí que o destino o arrasta por meio de um grande peixe que fisga. Homem e peixe lutam por três dias até o velho conseguir matá-lo e amarrá-lo à lateral de sua canoa. “Tal qual Jonas, que foi engolido pela baleia e lá permaneceu durante três dias e três noites, simbolizando um profundo mergulho no inconsciente, também Santiago, com os seus diálogos consigo mesmo, traz a sabedoria resgatada do tesouro oculto sepultado no inconsciente dos homens.

Enquanto volta para a terra, os tubarões atacam para se alimentar do peixe abatido. Santiago consegue matar o primeiro, depois de uma batalha que foi um combate sem trégua. Naquele momento. ele recorre à imagem do seu ídolo, um jogador americano de beisebol. DiMaggio, tido como grande campeão de sua época. O velho imagina como seria a luta desse jovem atleta se estivesse em seu lugar naquele momento. Pensa na doença do seu herói, uma “espora de um galo de briga” no calcanhar, e questiona se ele conseguiria fazer tudo com perfeição tendo alguma limitação. Pergunta a si mesmo como quem revela que os jovens também podem carregar as suas barreiras, talvez aquelas de suas experiências de vida. Para o velho, o homem não vale muito, comparando aos grandes pássaros e animais. Ele mesmo gostaria de ser aquele peixe lá embaixo, na escuridão do mar.

A batalha de Santiago continua cada vez mais difícil para vencer o vigor dos tubarões, com o seu corpo esgotado, como descreve Hemingway: “Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos, que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”. O velho, com as suas mãos feridas pela luta, navegava de volta à medida que apreciava seu peixe gigante tornar-se apenas esqueleto, tal qual acontece quando terminamos de viver. Agora era um velho, um barco e o esqueleto de um grande peixe amarrado em sua lateral. Como acontece aos heróis, aqueles que são capazes de encontrar a redenção onde não parece haver qualquer esperança. Para Santiago “um homem pode ser destruído, porém não derrotado”.

O velho, muito ferido em sua batalha solitária, aproxima-se até ser visto por Manolin, que passou aqueles dias com os olhos observando o horizonte, à procura do seu mestre. Finalmente o garoto pôde tratar das dores do físico e da alma do seu herói. Para Jung, o herói é aquele que desce para depois subir.

Na praia o barco com a carcaça do peixe torna-se um troféu para que olhem o velho com algum valor. São as marcas de sua luta por uma existência digna de quem sabe estar próximo do fim e busca a transcendência. Os turistas passam admirando aquele cenário, com uma enorme cabeça de peixe e um velho dormindo em sua cabana, vigiado por um menino. Santiago consegue então o respeito e admiração dos colegas.

Tomando essa história como uma metáfora da nossa existência, assistimos a luta de um idoso com a natureza que aos poucos vai causando “pequenas mortes”, diminuindo seu vigor, sua autonomia, aceitando o combate sem trégua contra um adversário implacável que tem como horizonte a “grande morte” com a consciência de que  envelhecer é viver e aceitar a cada dia, essas “pequenas mortes”. É diferente da concepção errônea de que envelhecer é morrer.

Ao Ruirmos no mar da vida, precisamos desse contato com o jovem que já experimentamos ter sido e, nessa relação, ressignificamos algumas experiências ao tomarmos o garoto como um espelho que nos ajuda a fazer contato com esse menino que ainda nos habita. Por outro lado, para o garoto, é salutar buscar fora da família, um mentor que possa ajudá-lo nessa separação da matriz familiar, a fim de que consiga sua própria individualidade. Os conhecimentos adquiridos na juventude precisam de um solo fértil para construir um sentimento sólido do eu. Podemos conseguir essa condição quando os pais estão dispostos a compartilhar suas experiências com franqueza.

Hemingway encerra sua novela com o velho sendo cuidado pelo menino. Como conviver com um corpo que, de vigoroso e jovem, torna-se vagaroso, modificado em sua aparência, abandonando a beleza da juventude e cansado, desajeitado? Para isso, precisamos encontrar o caminho da transcendência. Não podemos abandonar o barco que dá sentido à vida. Vamos poder olhar a morte no horizonte, acolhê-la como parte do viver e simbolizar o morrer para extrair alguma graça da experiência, pois qualquer experiência pode gerar alguma satisfação.

CARLOS SÃO PAULO- é médico e psicoterapeuta jungiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br/ www.ijba.com.br