EU ACHO …

FAKE NEWS E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

As redes de desinformação ameaçam a democracia há décadas

Ainda que as contas bolsonaristas tiradas do ar por Alexandre de Moraes não fossem, em geral, usadas para expressar opinião, mas para cometer fraude, a decisão do ministro cerceia a liberdade de expressão e abre perigoso precedente – não se combate crime ao arrepio da Constituição.

É preciso frisar, no entanto, que se trata de crime fora do comum e extraordinariamente difícil de combater. A liberdade de expressão não está na Constituição apenas porque alguém tem o direito de dizer o que pensa (afinal, os outros têm o direito de não ser ofendidos), mas porque a livre exposição de ideias é de interesse da sociedade: quando ela ocorre, os argumentos falsos são desmascarados, as boas ideias prosperam, as ruins são descartadas, a chance de alcançar a verdade cresce.

Nas redes sociais, entretanto, informações verdadeiras e falsas não têm chances iguais: as falsas são mais interessantes, geram mais likes e compartilhamentos, viajam muito mais rápido. E, como viajam dentro de bolhas, fora da vista de todos, não são desmascaradas.

É um campo fértil para redes de desinformação, que – explorando big data, estatística, psicologia e fragilidades nas redes sociais – impedem o contraditório, monopolizam o discurso e manipulam opiniões. A liberdade da falsa expressão das redes sociais com frequência leva ao estabelecimento da mentira como “fato”, a ponto de o célebre aforismo de Daniel Moynihan (“todos têm direito à própria opinião, mas não a seus próprios fatos”) deixar de valer. A desinformação leva à crença de que existe kit gay, de que a cloroquina funciona, de que o establishment não deixa Bolsonaro governar.

A rede de desinformação bolsonarista demonstrou o problema logo após a decisão de Alexandre de Moraes, ao caluniar Felipe Neto: em menos de 24 horas, a equipe do youtuber derrubou mais de 1.000 vídeos falsos que o acusavam de pedófilo. Esses vídeos – e outros, que não foram derrubados (no WhatsApp é impossível derrubar o que quer que seja) – alcançaram milhões de pessoas, grande parte das quais jamais saberá que são falsos. Bolsonaro usou um órgão público, a AGU, para defender o interesse privado de seus apoiadores (e o seu próprio): é um ato inconstitucional como o de Alexandre de Moraes, mas, enquanto o ministro fere a Constituição para coibir crimes, o presidente o faz para dar impunidade aos criminosos. Bolsonaro afirma defender a liberdade de expressão, o que, dado seu cacoete de atacar a livre imprensa e recorrer à Lei de Segurança Nacional para tentar calar adversários, seria divertido se não fosse ultrajante.

As redes de desinformação são a maior ameaça à democracia há muitas décadas, mas a solução para o problema não implica a suspensão de garantias constitucionais – medida, de resto, pouco eficaz e até contraproducente, pois alimenta o discurso vitimista e anti-establishment de Bolsonaro. Implica, sim, a criação de lei específica – aliás, já em discussão no Congresso -, que, diferentemente do que quer fazer crer a rede de desinformação bolsonarista, não é (nem pode ser) sinônimo de censura.

***RICARDO RANGEL

OUTROS OLHARES

O EFEITO BATOM

Com o uso obrigatório de máscaras para cobrir os lábios e o distanciamento social, o mais popular item de maquiagem deixa de interessar às mulheres do mundo todo (mas é só por enquanto)

“Há certos tons de destaque que podem prejudicar a aparência de uma garota”, disse Holly Golightly, personagem vivida por Audrey Hepburn no adorável Bonequinha de Luxo (1961). Na cena, Holly contorna os lábios com um batom vermelho-alaranjado, sem errar, delicadamente, ainda que estivesse no banco de trás de um táxi em fuga. Com tudo caminhando para o caos, Holly manteve seus rituais de beleza. Conseguiu, portanto, algum tipo de normalidade no conflito, sentindo-se bela. A relação da personagem com o cosmético não tem nada de cosmético: historicamente, a barrinha de tinta sempre foi muito mais do que enfeite para o rosto. O batom já foi símbolo para marcar mulheres que se prostituíam na Grécia antiga. Foi usado em discursos feministas por meio de campanhas que pediam às jovens que não tirassem o vermelho dos lábios diante de súplicas de namorados machistas.

E há o batom como medidor econômico. Por ser item de preço relativamente baixo e resultado imediato, ele se tornou aliado feminino em tempos de crise, dose extra e barata de autoestima. O primeiro a entender essa lógica foi Leonard Lauder, herdeiro do grupo de estética Estée Lauder. Em 2001, depois do pandemônio deflagrado pelos ataques terroristas de 11 de setembro, ele percebeu inusitado crescimento de vendas. O fenômeno sugeriu a ele a ideia do “efeito batom” – a busca feminina pela beleza contra a dureza do cotidiano, e um olhar para o crash da bolsa de 1929 entregou reação parecida. Enquanto setores industriais patinavam, os produtos de maquiagem vendiam como pão quente.

E, no entanto, agora tem sido diferente. “O isolamento social restringiu quase todas as ocasiões nas quais seria possível utilizar o produto de beleza”, diz Elton Morimjtsu, analista da provedora de pesquisas de mercado Euromonitor International. A orientação de uso constante das máscaras faciais para barrar o contágio da Covid-19 também colaborou para o consumo modesto. Com os lábios cobertos por tecidos, é basicamente inútil ocupar-se desse ritual secular. No Brasil, por exemplo, a busca no Google pelo termo “batom” atingiu o pior patamar dos últimos seis anos, desde o início da quarentena. Mas não será assim para sempre, evidentemente. A gradual retomada da normalidade possível permitirá despontar, em casa, na rua, em todo o mundo, mulheres unidas e empoderadas que farão do batom, mais uma vez, uma arma pacífica.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE SETEMBRO

UMA MÃE QUE NÃO DESISTE DOS FILHOS

Não podendo, porém, escondê-lo por mais tempo, tomou um cesto de junco, calafetou-o com betume piche e, pondo nele o menino, largou-o no carriçal à beira do rio (Êxodo 2.3).

Joquebede foi uma mulher de coragem. Ela desafiou a própria morte. Seu filho Moisés nasceu para morrer, mas ela não o entregou à morte. Não desistiu do filho mesmo quando seu destino já estava lavrado pelo homem mais poderoso da terra, o Faraó do Egito. A ordem era matar toda criança do sexo masculino ou jogá-lo aos crocodilos do rio Nilo. Joquebede fez provisão para a vida, e não para a morte. Ela preparou um cesto bem calafetado e colocou o bebê nas águas do Nilo. Para ela, o Nilo não era a sepultura do filho, mas o caminho da sua libertação. Deus honrou a fé de Joquebede, e o menino foi parar nas mãos da filha de Faraó. Moisés não nasceu para morrer nas mãos dos egípcios, mas para libertar seu povo da escravidão egípcia. Os homens tinham um plano de morte para ele, Deus tinha uma agenda de vida. Faraó pleiteava sua morte; a mãe lutou por sua vida. Deus honrou Joquebede, e Moisés cresceu no palácio, viveu no deserto e libertou seu povo da escravidão. Mãe, não desista dos seus filhos. Aqueles que hoje podem ser o motivo das suas lágrimas amanhã poderão ser a razão da sua alegria! Nunca desista dos seus filhos. Nunca deixe de crer na salvação dos seus filhos! Nunca deixe de lutar e aguardar o tempo em que os seus filhos serão levantados na terra como reparadores de brechas.

GESTÃO E CARREIRA

ENTRE O HOME OFFICE E O ESCRITÓRIO

Enquanto as pessoas se adaptam ao trabalho em casa devido à pandemia, as empresas preparam as instalações para a volta ao expediente

Como tantas e tantas companhias, a Boehringer Ingelheim tem meditado sobre os prós e os contras de suspender o regime de home office imposto pela quarentena. Em São Paulo, onde fica a sede brasileira da farmacêutica alemã, a volta ao esquema tradicional foi autorizada pela prefeitura no começo de junho. Com ressalvas: por enquanto, os escritórios só podem funcionar 4 horas por dia e o início e o fim do expediente não podem calhar com os horários de pico do trânsito, das 7 às 10 horas e das 17 às 20 horas. ”Não temos urgência para voltar à rotina de antes porque a experiência do trabalho remoto tem sido um sucesso”, diz Esteban Ziegler, diretor de recursos humanos da farmacêutica no Brasil. ”Agora é hora de refletir sobre quais funções precisam de fato ser desempenhadas presencialmente e como deve ser o escritório de amanhã.”

A bem da verdade, não é de hoje que a companhia se opõe à velha rotina corporativa. Ou pelo menos em sua sede brasileira, que se espalha por quase dois andares em uma das duas torres do complexo Rochaverá Corporate Towers, no bairro do Brooklin, na zona sul paulistana – os medicamentos são produzidos nos municípios de Paulínia e Itapecerica da Serra, em São Paulo. Um dos diferenciais do escritório é o número de estações de trabalho, nenhuma delas com dono. São 312, ou 68 a menos do que o total de funcionários alocados no endereço. A desproporção, instituída em 2009, tem como objetivo impor a todos pelo menos um dia de home office por semana. Alguns trabalham de casa até 12 dias por mês – com a bênção do RH e dos chefes, e bem antes da covid-19. ”A relação de confiança que estabelecemos na última década explica a naturalidade e a eficácia com que nos adaptamos ao home office compulsório”, avalia Ziegler.

Até segunda ordem, os funcionários só vão pisar novamente no Rochaverá se convencerem seus gestores de que determinadas tarefas não podem ser bem desempenhadas à distância – para os que pertencem ao grupo de risco para a covid-19 não há conversa. Enquanto a lista de empregados com sinal verde não é definida – nem a data de regresso deles -, a diretoria se debruça sobre as mudanças indispensáveis para a volta da rotina tradicional com menos risco de contágio. Alguns atributos do escritório, que ostenta o selo Gold da Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), concedido pela ONG americana U.S. Green Building Council, favorecem a retomada em segurança. É o caso do sistema de acendimento automático das luzes do teto, implantado, originalmente, para aumentar o aproveitamento da iluminação natural e diminuir o consumo energético. No contexto atual, o dispositivo se destaca pela ausência de interruptores, potenciais focos de contaminação. Outras características bem-vindas em tempos de pandemia: os vistosos jardins verticais, que oxigenam o ambiente, e a falta de paredes ao redor de muitas das mesas de reuniões, o que impede o aprisionamento do ar e facilita o distanciamento.

Eis as feições dos escritórios do futuro, de acordo com os especialistas ouvidos para esta reportagem. Para o estúdio de arquitetura e engenharia It’s Informov, eles terão portas automatizadas, para evitar o contato com barras e maçanetas, e setas indicativas no chão determinando um trajeto único, circular. O objetivo delas é evitar o cruzamento de funcionários – porventura sem máscaras, espalhando perdigotos adiante – em direções diferentes. Responsável pela sede do iFood e do Bradesco, o estúdio também prevê cabines individuais para facilitar reuniões online mesmo com colegas presentes na empresa e a instalação de totens nas entradas para acelerar a medição da temperatura de quem chega – mais de 37,8 graus Celsius atestam febre, um dos sintomas da covid-19. ”Os escritórios não vão deixar de existir, mas servirão mais como pontos de apoio ao trabalho remoto”, acredita Murilo Toporcov, diretor executivo da It’s Informov. Às voltas com 24 obras de novos escritórios – as companhias são mantidas em sigilo -, o estúdio vai implementar em parte deles algumas das novidades.

Com filiais em 16 países e uma lista de clientes que inclui o Facebook e a Toyota, o estúdio de arquitetura Gensler propõe que os banheiros ganhem entradas similares às dos aeroportos, que dispensam os usuários de encostar em maçanetas. Sistemas automáticos de descarga e acionamento de água e sabão também são recomendados. Outra proposta da multinacional é montar áreas de isolamento para os funcionários que manifestarem durante o expediente algum dos sintomas do novo coronavírus – como o objetivo é impedir o contágio de outros empregados, é crucial que elas não estejam ligadas ao sistema de ar condicionado do restante do escritório. Mais uma recomendação: transformar terraços, rooftops e outras áreas ao ar livre em salas de reuniões, que também podem ser usadas para refeições.

Algumas mudanças, inevitáveis e exigidas pela prefeitura de São Paulo, estão ancoradas nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS.) Uma delas é o espaçamento das estações de trabalho, para garantir 1,8 metro de distância. O ideal é o formato cruzado, para que ninguém se sente na frente de ninguém – instalar placas de acrílico até a altura do rosto e limitar a quantidade de funcionários por turno são outras soluções. A disponibilização de álcool em gel na entrada, nas áreas de trânsito e em cada estação de trabalho também é inevitável, assim como a higienização redobrada, inclusive dos elevadores e dos filtros de ar-condicionado. A responsabilidade, portanto, também recai sobre as administradoras dos edifícios comerciais. A uma quadra da Avenida Paulista, o edifício Santos Augusta, que abriga os escritórios do Spotify e da Farfetch, está instalando lâmpadas ultravioleta, nocivas ao novo coronavírus, em todas as saídas de ar. Também reforçou os protocolos de limpeza e demarcou os pisos para incentivar o distanciamento, entre outras medidas desse tipo, bem-vindas mesmo quando a pandemia em curso tiver sido vencida.

Há alterações que vão além do espaço físico. O Hospital Albert Einstein, onde foi registrado o primeiro caso de covid-19 na América Latina, recomenda que as jornadas deixem de coincidir com a hora do almoço. ”Eliminam-se os riscos de contaminação nos restaurantes e de aglomeração na copa da empresa”, explica Anarita Buffe, diretora do setor de consultoria do Einstein. Desde o início da pandemia em curso, o hospital já foi contratado por cerca de 40 companhias, como Cinemark, BRF, Gol e Vigor, ávidas por permanecer na ativa em segurança. As consultorias do Einstein iniciam em 60.000 reais, no caso de escritórios mais simples, e podem passar de 1 milhão de reais, quando envolvem fábricas com complexas linhas de produção. Algumas recomendações dispensam explicações: uso de máscaras durante todo o expediente e nos trajetos de ida e volta; e nada de compartilhar canetas e canecas.

Enquanto algumas companhias correm para adaptar suas instalações, outras quebram a cabeça para assimilar o trabalho remoto em definitivo – várias fazem as duas coisas. A XP Investimentos, por exemplo, informou que os funcionários poderão escolher entre trabalhar ou não de casa após a quarentena e que pretende montar uma sede, menor, nos arredores de São Paulo, destinada mais a treinamentos, dinâmicas e recepção de clientes e parceiros. Em regime de home office até o fim do ano, o Google disponibilizou 1.000 dólares para cada empregado, ou o equivalente em moeda local. O dinheiro só pode ser gasto, mediante reembolso, com a compra de itens que facilitem o trabalho remoto, como cadeiras apropriadas. É bom ouvir o arquiteto Guto Requena, de cuja prancheta saiu a primeira configuração da sede do Google em São Paulo. ”Os escritórios que mais estimulam o trabalho são os que se preocupam com o bem-estar”, explica ele. ”Daí a importância de investir em plantas, em iluminação mais aconchegante e na melhora acústica. Tudo isso também vale para o home office.”

O HOME OFFICE DE HOJE…

Quem não tem um cômodo para transformar em escritório precisa eleger uma área protegida dos filhos e demais moradores.

***Quase quatro meses depois da quarentena, chega do sofá da sala e da mesa da cozinha. Uma cadeira ergonômica e uma escrivaninha são indispensáveis.

***A internet meia-boca de sua operadora pode bastar para a Netflix. Para o trabalho remoto, repleto de reuniões online, é preciso melhorar a velocidade da conexão.

***Se seu computador já deu o que tinha que dar, chegou a hora de fazer aquele upgrade. A compra de um mouse para quem usa notebook também é recomendada.

***Um bom fone de ouvido, de preferência com microfone, facilita reuniões online e pode salvar você quando os filhos ou os vizinhos não derem trégua.

***Uma iluminação aconchegante dá mais vontade de trabalhar, assim como um ambiente decorado com plantas.

***Está habituado a revisar relatórios e documentos impressos, mas não tem impressora? Chegou a hora de comprar uma para chamar de sua.

***Uma poltrona para leitura pode tornar o trabalho menos monótono. Uma máquina de café expresso vai estimular pausas no expediente.

… E O ESCRITÓRIO DO FUTURO

Até o surgimento de uma vacina para o novo coronavírus, a sugestão é que máscaras sejam usadas durante todo o expediente e nos trajetos de ida e voltaAs jornadas deverão ser mais curtas para que os funcionários possam almoçar em casa.

***Terraços, rooftops e áreas ao ar livre deverão virar salas de reunião e locais para eventuais refeições.

***Ao chegar, todos vão conferir a própria temperatura em totens automatizados ou com a ajuda de recepcionista.

***Haverá uma área de isolamento para funcionários que apresentarem sintomas de covid-19 durante o expediente.

***Dispensers com álcool em gel e toalhas descartáveis serão vistos nas áreas comuns e nas mesas.

***Plantas e jardins verticais internos vão oxigenar os ambientes.

***Os corredores serão mais largos e haverá setas indicativas no chão, determinando um único sentido.

***A higienização será redobrada. Isso vale para áreas comuns dos edifícios e filtros de ar-condicionado.

***Haverá distância de 1,8 metro entre as estações de trabalho, em menor número que o de funcionários para estimular o home office.

***Lâmpadas ultravioleta, nocivas ao novo coronavírus, serão instaladas em todas as saídas de ar.

***Os banheiros vão ter entradas que dispensam o toque em maçanetas. O acionamento de descarga, água e sabão será automático.

***Copas e cozinhas coletivas darão lugar a pontos de apoio com café e água, com copos descartáveis.

FONTES: Hospital Albert Einstein, Cushman & Wakefield, Glenser, lt’s lnformov e Guto Requena

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIBERDADE OU ILUSÃO?

Neurônios influem nos processos de escolha. Mas, considerando a ação neural, até que ponto temos autonomia para decidir?

Segunda-feira de manhã. Um homem sai de casa para tomar o ônibus que o levará ao trabalho. O calor do sol bate em seu rosto. A disposição que sente é tanta que resolve caminhar até o escritório, embora isso signifique 15 minutos a mais do que o trajeto do ônibus.

A situ ação é tão prosaica que, antes mesmo de atingir o próximo quarteirão, ele já está pensando em outras coisas. Os filósofos identificam aí problemas muito complexos que os têm mantido ocupados por mais de 200 anos. De alguma maneira os sentidos e os neurônios do personagem de nosso exemplo captaram o brilho do sol como uma sensação “agradável”, e foi isso que o fez tomar a súbita decisão de caminhar em vez de recorrer ao ônibus. Todo mundo já passou por situações desse tipo sem se dar conta da exata conexão entre uma simples atividade neuronal, a resposta subjetiva a ela e o livre exercício da vontade. Será que a atividade cerebral e a sensação “agradável” são, em última análise, a mesma coisa, ou essa sensação consciente surge como efeito secundário da ação dos neurônios?

Estamos diante do antigo dilema entre mente e corpo: qual é a relação entre os processos físicos do organismo e a consciência? Cérebro e mente são mesmo duas entidades diferentes? Já há algum tempo sabemos que a consciência está baseada principalmente no córtex cerebral, mas informações mais recentes e detalhadas indicam outros componentes processados em diferentes áreas do cérebro. Com o progresso das pesquisas, logo conheceremos a base neuropsicológica da consciência; neurocientistas e cientistas cognitivos poderão então oferecer novos dados para enriquecer os debates filosóficos e talvez torná-los mais objetivos. Ou talvez os pesquisadores acabem levantando novas questões filosóficas fundamentais. Vamos supor que os estudiosos descubram que chegamos a nossas crenças, julgamentos e decisões por meio de um processamento direto de informações pelos neurônios. Isso poderia significar que o homem que saiu de casa cedo para trabalhar não tomou a decisão de caminhar até o trabalho de livre e espontânea vontade, mas reagiu como fantoche absolutamente guiado pela particular conexão dos neurônios em seu cérebro.

O fato é que as atividades cerebrais estão ligadas de modo inextricável à concepção dos seres humanos acerca de si mesmos. Precisamos, portanto, recorrer à filosofia para avaliar os avanços biológicos na solução do quebra­ cabeça da relação mente-corpo. Como os processos cerebrais se relacionam à consciência? Será possível explicar cientificamente a consciência? E, nesse caso, como esses resultados influenciariam nossa auto imagem de seres dotados de livre-arbítrio e responsáveis pelas próprias ações?

DUELO FILOSÓFICO

Para muitos filósofos, durante séculos, a mente era uma entidade autônoma, frequentemente concebida como um “homúnculo”, ou ser humano em miniatura, capaz de observar o que ocorria no cérebro. Hoje a consciência é considerada uma representação de um grupo de processos mentais – tais como crenças, desejos ou temores – experimentados diretamente de uma perspectiva pessoal. “Diretamente” significa estarmos conscientes desses estados sem depender de informações de nossos sentidos.

Assim, enquanto o homem caminha até seu local de trabalho, formula diversas hipóteses sobre o que outras pessoas na rua estão pensando ou sentindo, baseando­ se em expressões faciais ou outras informações que ele experimenta indiretamente, por meio do filtro de seus sentidos. Mas tem acesso direto a seus próprios pensamentos e desejos; acesso, aliás, que só ele tem.

Isso nos conduz à primeira questão formulada acima: como os processos cerebrais se relacionam à consciência? Há dois pontos de vista dominantes na filosofia quanto à abordagem desse problema – os dualistas acreditam que o cérebro e a mente apoiam-se em dois diferentes tipos de processo; para os monistas, um único tipo de processo subjaz às atividades da mente e do cérebro.

Para os dualistas, as percepções são geradoras de impulsos nervosos que os fazem seguir por um caminho diferente do inicialmente planejado. A atividade neuronal também influencia a percepção dos processos mentais: quando nosso personagem vira a esquina e continua a caminhar, se vê em uma rua bastante sombria e arrepende-se da decisão de não tomar o ônibus.

Mas os dualistas também supõem que os processos físicos e mentais contrastem uns com os outros, algo problemático do ponto de vista científico. Tal hipótese torna muito difícil explicar como processos não-materiais podem influenciar atividades materiais. Os monistas de hoje não têm essa dificuldade, pois consideram o funcionamento da mente efeito de segunda ordem proveniente do mundo físico. Para eles, a consciência surge das atividades neuronais da mesma maneira que campos magnéticos advêm de correntes elétricas em um fio enrolado. Essa ideia está muito mais de acordo com a concepção científica, mas antes de a aceitarmos como verdadeira devemos ao menos verificar empiricamente a existência da interação – isto é, provar que um campo mental consciente pode ser encontrado e definido. Mas não dispomos, no presente, de pistas para explorar esse fenômeno.

De acordo com os monistas, um único tipo de processo ocorre na cabeça, independentemente de a atividade se desenrolar no domínio mental ou neuronal. A diferença entre cérebro e consciência reside simplesmente na maneira pela qual são acessadas as informações. Se esse acesso se dá por uma perspectiva pessoal interna – como ao perceber de maneira agradável o calor do sol na pele -, então os processos estão no âmbito da consciência. Mas se ocorrem a partir de uma perspectiva externa – como ao observarmos outras pessoas na rua sorrindo e olhando para o sol -, o processo é neuronal.

Embora essa teoria possa parecer um pouco artificial, a vida cotidiana mostra que fenômenos aparentemente distintos são muitas vezes duas faces da mesma moeda. Quando vamos a um concerto e vemos e ouvimos um violoncelo, usamos dois tipos de input pertencentes a um processo único de percepção. Mas enquanto eles estiverem de acordo espacial e temporalmente, jamais diferenciaremos um violoncelo “acústico” de um violoncelo “óptico”.

Se a diferença entre cérebro e consciência for atribuída ao fato de utilizarmos dois modos diferentes de acesso, então ninguém poderá alegar que a “realidade” está relacionada apenas a processos neuronais. Corpo e mente terão então a mesma importância: nenhum será mais real que o outro, e ambos serão dignos de estudo científico. Para os monistas, processos mentais são idênticos a processos cerebrais.

CORES E MORCEGOS

Resta, porém, um problema. Mesmo que possamos identificar os processos neuronais que formam a base de um tipo particular de atividade consciente, ainda não estaremos em condições de entender como a atividade dos neurônios se relaciona à experiência consciente. E essa é a pista para responder a nossa segunda questão, sobre se é realmente possível uma explicação científica da consciência.

Um filósofo procuraria formular essa tese de forma um pouco mais clara. O que importa é a diferença entre uma simples determinação de que a consciência está associada a certos eventos neuronais e nossa capacidade de explicar por que isso ocorre. Mesmo que seja possível descrever precisamente o que acontece nos neurônios durante um dado processo consciente, tudo o que essa descrição nos diz é que tais processos ocorrem sob certo conjunto de circunstâncias, mas não explica porque são especificamente essas as presentes e não outras.

Podemos entender melhor o que isso significa examinando dois famosos “experimentos mentais”. O primeiro deles se refere a Maria, uma neurobiologista extremamente talentosa que sabe tudo sobre como os seres humanos percebem as cores. Só que Maria é daltônica e nunca pôde ver nenhuma cor. Será que seu perfeito conhecimento da percepção das cores lhe permite saber como é a experiência de perceber uma cor? Não. Se um dia ela for capaz de ver uma cor, experimentará uma situação absolutamente nova. Aceitar isso, entretanto, significa que o conhecimento neurobiológico não nos pode fornecer nenhuma conclusão segura acerca dos processos ocorridos na consciência – o que nos leva a acreditar na extrema improbabilidade de em algum momento encontrar explicação para a relação entre cérebro e consciência.

Isso se torna ainda mais complexo com um segundo experimento mental, realizado nos anos 70 pelo filósofo Thomas Nagel, da Universidade de Nova York. Suponhamos mais uma vez que a consciência seja apenas um fenômeno cerebral. Imaginemos também conhecer absolutamente tudo sobre os processos físicos que se passam no cérebro dos morcegos. Teríamos nesse caso uma ideia clara da consciência dos morcegos? Saberíamos “como é” ser um morcego?

LIBERDADE E ILUSÃO

Em ambos os exemplos nos falta uma explicação. Podemos aceitar que alguns processos neuronais estejam ligados a processos mentais específicos, mas isso não é suficiente para entendermos por que são esses os processos presentes e não outros, e não sabemos o que ocorreria do ponto de vista subjetivo se os processos neuronais fossem modificados. Assim, não estamos certos se morcegos – lagartos ou minhocas – têm consciência. Essa percepção torna difícil responder a outras questões ainda mais perturbadoras: a partir de qual momento podemos afirmar que um feto possui consciência e, consequentemente, deve ser considerado indivíduo, capaz de sentir dor?

Alguns filósofos e cientistas argumentam que o conhecimento da atividade neuronal não é, em princípio, adequado para fornecer explicações sobre a consciência. Mas essa noção pode estar subestimando o progresso a ser alcançado por futuras descobertas científicas. Nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, era não plausível que a luz branca fosse composta de luzes de outras cores – um conceito estabelecido por Isaac Newton. Cientistas de ponta, como Robert Hooke, discordaram absolutamente da teoria newtoniana, mas hoje se aceita pacificamente o fato de a luz branca consistir num espectro colorido completo. Ao acolhermos essa descoberta, abrimos caminho para explicações científicas plausíveis para muitos outros fenômenos ópticos.

Para entender a consciência, precisamos de um maior número de características objetivas identificáveis externamente. Já conhecemos muitos aspectos dos vários estados de consciência, mas nosso saber ainda é insuficiente. É muito cedo para afirmar que um dia surgirá uma explicação abrangente a respeito, mas tampouco temos prova de que essa possibilidade esteja excluída.

À medida que aprendemos mais sobrea consciência, temos de igualmente considerar as implicações. Suponhamos por um momento ser possível provar que a consciência é realmente sinônimo de certa atividade nos neurônios do córtex cerebral. Teremos de lidar então com uma terceira grande questão: qual a consequência disso para a imagem que os seres humanos fazem de si mesmos?

Se a atividade mental se identifica a processos cerebrais, seguindo leis preditivas da Natureza, então não podemos mais afirmar que a vontade seja livre. Nosso comportamento não será determinado por nós, mas sim por leis que governam a atividade neuronal.

Por mais que esse argumento nos desagrade, é difícil discordar de sua lógica – até percebermos que a liberdade está vinculada a duas condições. Jamais descreveríamos um comportamento como livre se ele fosse de algum modo imposto por algo exterior a nós. E a liberdade também deve ser separada de coincidências fortuitas. Se for mera coincidência os neurônios do sr. P. provocarem sua decisão de ir a pé para o escritório, então ela não se originou em sua livre vontade, mas foi uma ocorrência aleatória. Ações livres devem ser atribuídas a uma pessoa, e essa liberdade surge, então, como uma espécie de ato de criação. Podemos atender aos dois critérios se traduzirmos “liberdade” por “autodeterminação”.  Essa tradução é muito mais que simples jogo de palavras, pois esclarece algo que comumente passa despercebido nas discussões sobre a liberdade da vontade: a liberdade requer uma pessoa, um self, que deve determinar-se a si próprio. A determinação do self distingue uma ação livre de outra, executada de maneira mecânica. O que é esse self? Certamente não se trata de uma alma interna ou um homúnculo pilotando o destino.

É, ao contrário, uma espécie de núcleo constituído pelos traços de personalidade e convicções mais fundamentais que definem o ser humano. Por exemplo, se eu acredito que roubar é um ato repreensível, então levarei ao caixa do supermercado todas as mercadorias que apanhei e pagarei por elas. Essa ação é produto de minha vontade espontânea, dirigida por minha própria determinação.

Que significa, então, para nosso livre-arbítrio, que as convicções e, consequentemente, o impulso inicial de nossas ações estejam baseados na atividade neuronal? Se uma convicção específica está na base de um ato motivado pela livre vontade, essa vontade não é ameaçada pelo fato de a convicção ter base neuronal.

PRIMEIRO A AÇÃO

De fato acontece o oposto: ao efetivar um traço fundamental da personalidade, o processo neuronal fornece a nossos desejos e convicções o poder de agir – ele provê condições para a ação autodeterminada. Nossa autodeterminação não é colocada em risco quando nossos conceitos e convicções morais efetivam-se em uma base neuronal.

De acordo com nossa definição de autodeterminação, traços centrais da personalidade devem estar conscientemente ativos o tempo todo. Mesmo quando as ações são desencadeadas por processos pré-conscientes, nosso comportamento deve ainda assim ser considerado autodeterminado. Por isso, os tão discutidos experimentos realizados nos anos 70 pelo neuropsicólogo Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia em São Francisco, não contradizem a tese de que há comportamentos autodeterminados. Libet descobriu que algumas ações simples, como caminhar ou mover a mão, são iniciadas por processos neuronais antes de a pessoa tomar a decisão consciente de produzir a ação. São discutíveis as consequências desse experimento, mas ele evidentemente não refuta a ideia de autodeterminação; o processamento das sensações físicas pelo cérebro, que o tornam consciente de que o corpo está caminhando, pode apenas ser mais lento do que o tempo necessário para processar as instruções para caminhar. É possível que tais experimentos modifiquem a concepção sobre o papel da consciência na tomada de decisões.

A consciência e a capacidade de determinar as próprias ações são centrais para nossa noção de ser humano. E nossas concepções desempenham papel crucial em alguns dos assuntos mais intensamente debatidos na atualidade. Quanto mais aprendermos sobre os mecanismos subjacentes à consciência e ao livre-arbítrio, mais fácil será resolvê-los.