EU ACHO …

MARACUTAIA VIRTUAL

As lições sobre confiança e culpa no infame “golpe do WhatsApp”

Na semana passada, minha mãe foi mais uma das muitas vítimas do “golpe do WhatsApp.” A quem não sabe como funciona, é simples: por meio dos dados de um anúncio on-line, os criminosos entram em contato com o vendedor como se fossem do site de vendas, inventam alguma irregularidade e avisam que enviarão uma mensagem SMS com um código que deve ser digitado no WhatsApp para confirmação do anúncio na plataforma. Acontece que o código enviado é, na verdade, o PIN de autenticação do WhatsApp. Com o número de telefone e o PIN, os criminosos conseguem roubar sua conta de WhatsApp e usá-la em “Assim com outro aparelho, passando-se por você. A partir daí, enviam mensagens aos seus contatos pedindo empréstimos.

No caso da minha mãe, ela havia anunciado um produto na OLX dias antes e só foi saber o que estava ocorrendo quando uma amiga telefonou para dizer que tinha feito o depósito pedido. Foram horas de muita tensão. Com o WhatsApp bloqueado, ela fez postagens nas redes sociais alertando do golpe e enviou SMS aos amigos. Enquanto isso, eu e meu pai enviávamos mensagens por WhatsApp aos conhecidos dela, pedindo que não fizessem nenhum depósito. Apesar da “força-tarefa”, a cada dez minutos aparecia alguém para informar que havia sido contatado e/ou feito a transferência.

Um dos amigos chegou a responder: “Pra você, eu empresto quanto quiser!”, o que fez com que os criminosos telefonassem para combinar um empréstimo vultoso, disfarçando uma voz feminina ao telefone. Felizmente, a esposa desse amigo alertou-o sobre o golpe antes que fosse tarde. O mais curioso nesses crimes é que, quando ocorrem com outra pessoa, achamos tão óbvio que nos espantamos por alguém cair nele. Mas, quando acontecem com a gente, é como se ficássemos cegos diante da obviedade. Alguns anos atrás, eu mesmo fui vítima daquele que alguém ligava para sua casa como se fosse um parente e pedia resgate de um sequestro forjado.

O “golpe do WhatsApp” é um golpe moral. Os criminosos conseguem arrancar dinheiro dos seus contatos com base na consideração que eles têm por você. Passado o susto, e recuperada a conta, após doze horas, minha mãe ficou arrasada. Sentia-se culpada e trouxa por ter sido enganada. Quatro amigas “emprestaram” o dinheiro, em um total de quase 10.000 reais. Em crise, minha mãe se sentia na obrigação de recompensar o prejuízo, como se ela tivesse pedido os empréstimos. Era uma decisão complexa.

Por um lado, os amigos tinham emprestado por confiarem nela. Por outro, ela não podia ser responsabilizada pelo engano alheio – principalmente em um golpe tão divulgado.

Assim como aprendemos a evitar ruas perigosas à noite, não podemos esquecer que celular e redes sociais são ruas perigosas virtuais: temos sempre de andar atentos, evitando links suspeitos e contatos pouco confiáveis. Mais tarde, descobri que existe uma maneira simples de evitar o golpe, que leva menos de um minuto para programar no celular. Basta acessar as configurações do WhatsApp e ativar a identificação em duas etapas. Caso você ainda não tenha feito, vale fazer agora. Além disso, desconfie na próxima vez que algum amigo pedir empréstimo.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

A VITÓRIA DO GRANDE IRMÃO

Aplicativos de celular estão vigiando a trajetória do novo coronavírus por meio da movimentação dos usuários. A questão ética é: como proteger a privacidade das pessoas?

Quando o distanciamento social entra em vigor, a prioridade número 1 é conter a disseminação do novo coronavírus. Quando ele começa a ser relaxado, o foco muda: torna-se crucial a testagem em massa – 150 testes para cada 100.000 pessoas, segundo estudo da Universidade Harvard -, que permitirá rastrear a evolução da doença em tempo real. Para pôr em prática um monitoramento de tal dimensão, os países em fase de retomada de atividades estão usando em paralelo aplicativos instalados em smartphones capazes de identificar tanto quem esteve em alguma “zona vermelha”, como são chamados os focos de contágio, quanto quem esteve próximo de alguém que testou positivo para o vírus e alertar as autoridades. Ao redor do planeta, ao menos 29 países já oferecem aplicativos desse tipo, com comprovados bons resultados e um efeito colateral: as questões éticas em torno do possível acesso de governos e empresas a dados particulares dos cidadãos e a categorização – e eventual discriminação – das pessoas, separadas em imunizadas e em passíveis de contágio.

O projeto de maior amplitude une os concorrentes Google e Apple no desenvolvimento conjunto de uma ferramenta de rastreamento. Donos dos sistemas operacionais instalados em 99% dos celulares do mundo, os arquirrivais estão produzindo uma rede de troca de dados fornecidos voluntariamente pelos usuários que possibilite o envio de alertas sobre risco de contágio. Na primeira fase, neste mês, o processo será via aplicativo. No segundo semestre, uma plataforma vai integrar automaticamente os sistemas. Os desenvolvedores garantem que é o dono do celular quem ativa a tecnologia, que ele pode se registrar sob pseudônimo e que a ferramenta não usa dados de GPS, que seguem o deslocamento de pessoas. Mesmo assim, uma pesquisa mostrou que três em cada cinco americanos manifestam receio de aderir à novidade.

Mais arredios ainda às brechas na privacidade praticadas pelos gigantes da tecnologia, os governos da Europa estão optando por aplicativos em que cada etapa é decidida pelo usuário. Ele faz o download, e o celular passa a registrar e armazenar todos os contatos com quem mantiver proximidade inferior a 2 metros por pelo menos cinco minutos (padrão estabelecido pela OMS) e que tenha baixado o programa. Se o proprietário do celular ficar doente, ele mesmo notifica o aplicativo, que envia alertas a quem esteve perto dele. A mensagem pede que os afetados façam o teste e se isolem em casa. Noruega, República Checa e Áustria estão entre os que preteriram o serviço colaborativo também oferecido na Austrália. Ainda não há previsão de uso no Brasil.

O ponto mais sensível do monitoramento em massa é o destino das informações coletadas. Uma opção é reuni-las em um servidor central, como fará o Reino Unido, que em breve lançará nacionalmente seu aplicativo. Lá, o material captado ficará armazenado no sistema público de saúde, o NHS, e nenhum outro setor terá acesso ao banco de dados, que será inutilizado quando a crise acabar. “Seguiremos as mais rigorosas normas da ética e da segurança”, disse o ministro da Saúde, Matt Hancock – uma garantia encarada com ceticismo pelos britânicos. Alemanha, Itália, Suíça e Estônia adotaram a descentralização, ou seja, toda informação coletada permanecerá no celular do usuário, sem transferência para servidores –   método endossado em carta assinada por 300 acadêmicos de 26 nacionalidades, preocupados com qualquer possibilidade de governos ou empresas reaproveitarem dados acumulados em servidores externos para vigiar e discriminar sem justificativa aceitável. “Na luta contra a pandemia, os celulares passaram a transmitir informação delicada e pessoal”, observa Itziar de Lecuona, professora de bioética da Universidade de Barcelona. “Infelizmente, não existe um sistema totalmente seguro para impedir abusos.”

Pioneiros na utilização do rastreamento on-line, China, Coreia do Sul e Hong Kong impuseram pouca, ou nenhuma, trava ao controle estatal. O Partido Comunista chinês ordenou aos moradores de ao menos 200 cidades que instalassem no celular o que está sendo chamado de “passaporte da imunidade”: um QR code que armazena resultados de testes e acompanha interações e movimentos de pessoas, exibindo as cores verde (deslocamento livre), laranja (quarentena de sete dias) ou vermelha (quarentena de duas semanas). Se algum cidadão tiver contato com um infectado, seu movimento entre bairros ou no transporte público será automaticamente bloqueado por mais ou menos tempo, dependendo da data do encontro.

Em Hong Kong, quem chega do exterior é obrigado a usar um bracelete que define o prazo de seu confinamento. Na Coreia do Sul, até transações com cartão de crédito integram o banco que coleta dados do rastreamento. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu trava uma batalha com a Suprema Corte para permitir que os serviços de inteligência utilizem os dados que possuem para rastrear infectados. Na Polônia, quem testar positivo não só terá sua localização controlada, como precisará enviar selfies rotineiras para provar que de fato está em reclusão. “Abusos só serão contidos quando houver um protocolo internacional que proteja a privacidade pós-Covid-19”, diz Yves­ Alexandre de Montjoye, especialista em segurança digital do Imperial College, em Londres. Com a melhor das intenções, o fantasma do Grande Irmão passou a rondar a humanidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 02 DE SETEMBRO

PAZ DE ESPÍRITO, O MELHOR DO BANQUETE

Melhor é um bocado seco e tranquilidade do que a casa farta de carnes e contendas (Provérbios 17.1).

A sociedade valoriza muito a riqueza e o requinte, mas investe pouco em relacionamentos. As pessoas conseguem aumentar suas posses, mas não conseguem melhorar sua comunicação no lar. Adquirem bens de consumo, mas não têm prazer de usufruí-los. Fazem banquetes colossais, mas não têm alegria para saboreá-los. É melhor comer um pedaço de pão seco, tendo paz de espírito, que ter um banquete numa casa cheia de brigas. A felicidade não é resultado da riqueza, mas da paz de espírito. As pessoas mais felizes não são aquelas que mais têm, nem aquelas que se assentam ao redor dos banquetes mais requintados, porém aquelas que celebram o amor, a amizade e o afeto, apesar da pobreza. Precisamos investir mais nas pessoas que nas coisas. Precisamos valorizar mais os relacionamentos que o conforto. Precisamos dar mais atenção aos sentimentos que nutrimos no coração que ao alimento que colocamos no estômago. A tranquilidade é um banquete mais saboroso que a mesa farta de carnes. É melhor ter paz no coração que dinheiro no bolso. É melhor ter tranquilidade na alma que carnes nobres no estômago. A paz de espírito não é apenas um componente da festa; é o melhor da festa.

GESTÃO E CARREIRA

JEJUM DE PRAZER

Em busca de produtividade, a última moda no Vale do Silício é ficar offline e abrir mão de atividades que gerem satisfação, como sexo e comida. Será que isso funciona?

Não é de hoje que os profissionais do Vale do Silício são lançadores de tendências de comportamento, principalmente quando elas prometem turbinar a capacidade do cérebro e aumentar a performance no trabalho. Tudo o que eles inventam por lá, mais cedo ou mais tarde, ganha o planeta. Às vezes, os modismos acabam restritos àquele universo; outras, se espalham com tanta força que viram febre mundial. Foi assim, por exemplo, com a meditação. Apesar de existir há milhares de anos e ter efeito comprovado em nossa capacidade de atenção, a prática deve bastante do crescente interesse por ela nos últimos anos ao fato de ter se tornado uma obsessão em Palo Alto.

A última moda no polo tecnológico americano é o chamado “jejum de dopamina”. O termo e a técnica foram adaptados por Cameron Sepah, médico e professor na Universidade da Califórnia, em São Francisco, que tem entre seus pacientes vários profissionais que trabalham no Vale do Silício. A prática consiste em se desconectar temporariamente – daí o jejum – de estímulos externos, principalmente tecnológicos, mas não só, a fim de conseguir mais concentração e produtividade durante e após o processo. E o que a dopamina tem a ver com isso? Ela é um neurotransmissor (substância química que estabelece a comunicação entre os neurônios) envolvido nos mecanismos de atenção, aprendizagem e motivação para conquistar objetivos. Quando você chega aonde quer, o cérebro libera mais da substância como resposta à ativação dos circuitos de prazer e recompensa. A dopamina também está por trás de comportamentos de vício – em internet, jogos, drogas, compras, sexo. Com a ativação recorrente do circuito da dopamina, o organismo cria uma espécie de tolerância, o que faz com que precisemos de cada vez mais do neurotransmissor para obter a mesma sensação de prazer.

“Quando recebemos urna curtida ou comentário em um post ou chega a notificação de um novo e- mail ou mensagem, ocorre uma descarga de dopamina no cérebro. Passamos a querer mais da sensação boa que isso causa, e é daí que nasce o vício digital. Embora não seja reconhecido oficialmente – afinal, é um fenômeno novo -, já é sabido que o mecanismo de dependência da tecnologia é semelhante ao de dependência em drogas”, diz Thaís Garneiro, neurocientista e cofundadora da Nêmesis Neurociência Organizacional.

A saber: a sigla Fomo (fear of missing out, ou medo de estar perdendo alguma coisa, em português), que passou a ser usada nos anos 2000 para descrever o estado de ansiedade, mau humor e até depressão em que algumas pessoas podem ficar quando não estão online, tem a ver com essa história. “É uma espécie de abstinência, como se a dopamina estivesse entrando em colapso”, diz Carla Tieppo, neurocientista e professora na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

UM POUCO DE MAL-ENTENDIDO

A proposta original do jejum de dopamina, segundo o próprio criador do conceito, é baseada na técnica de controle de estímulos usada na terapia cognitivo-comportamental para tratar comportamentos de vício. A prescrição é reduzir a exposição à tecnologia, mas também a outros comportamentos impulsivos para algumas pessoas, como comer, beber ou consumir pornografia, desconectando-se deles progressivamente – primeiro, algumas horas por dia, depois 24 horas, um fim de semana e até uma semana inteira.

Porém, como naquela brincadeira de telefone sem fio, a ideia foi sendo distorcida enquanto se popularizava, e hoje já existem coaches recomendando (e clientes obedecendo) ficar sem redes sociais, sexo e até música, atividade física, comida, bebida e contato com os amigos por dias inteiros para evitar distrações e atingir picos de performance cognitiva. “Não faz sentido abrir mão de coisas que trazem bem-estar, como contato com amigos, exercícios e comida, se a pessoa tem uma relação com elas”, explica Thaís.

FAZ SENTIDO?

Para as especialistas, a ideia do jejum de dopamina não só não faz muito sentido como pode deixar as pessoas ainda mais ansiosas, querendo obter resultados rápidos. “A ideia de conter o excesso de estímulos para aumentar a concentração é válida, mas não dá para dizer que deixar de se expor a determinados comportamentos vá interromper ou diminuir a liberação de dopamina; ela está em atividade o tempo inteiro”, afirma Carla. “Além disso, o neurotransmissor está diretamente ligado à produção de serotonina, que regula o humor e o bem-estar. Sem isso não conseguiríamos nem levantar da cama.” A neurocientista explica que depois de um dia inteiro ou de um fim de semana sem acesso à tecnologia é natural que você se sinta melhor, mas isso não tem relação com a dopamina. “Tem mais a ver com a redução de estímulos, que desestressa o cérebro e aumenta a capacidade de atenção. Porém, quando você retoma o comportamento nocivo, o mal-estar volta”, afirma.

Também é necessário entender a mensagem por trás da prática. “As pessoas estão buscando receitas estapafúrdias para produzir cada vez mais, o que por si só prejudica o bem­ estar e a saúde. Pensar na performance em vez de no equilíbrio mental é uma armadilha”, diz Franciele Maftum, psicóloga e mestre em neurociência cognitiva pela Universidade de Reading, no Reino Unido. ” Mais importante é rever a relação com a tecnologia e estar disposto a mudar hábitos. Existem outras formas de diminuir a frequência de estímulos externos, conseguir se concentrar e aumentar a capacidade produtiva, mas dependem de esforço próprio e paciência”, diz. No fundo, não existem dietas milagrosas – nem para o corpo, nem para o cérebro.

MENOS CONEXÃO, MAIS FOCO

Estratégias para fazer um detox digital eficiente sem prejudicar o bem-estar

DEFINA HORÁRIO E LIMITE DE TEMPO PARA NAVEGAR

Estabeleça um horário para se conectar pela manhã e desconectar à noite, garantindo assim algumas horas offline todo dia, que podem ser usadas para se exercitar, ler, ver um filme, estar com as pessoas. Aliás, prefira as interações presenciais as virtuais sempre que possível. escolha também dois ou três momentos no dia para checar redes sociais e sites de notícias ou outros que sejam de seu interesse, mas atenção para não ficar mais de 30 ou 40 minutos navegando.                                                                                             

SILENCIE O APARELHO ENQUANTO TRABALHA

Assim você evita distrações (para você e quem está em volta) e consegue focar por mais tempo o que está fazendo. Deixar o aparelho longe do alcance enquanto estiver envolvido em tarefas evita a tentação de checa-lo a toda hora.                                                                                                    

BLOQUEIE AS NOTIFICAÇÕES

O alarme ou sinal visual que avisa a chegada de nova mensagem, comentário ou curtida em alguns aplicativos dispara a liberação de dopamina…Por isso sentimos uma sensação boa de imediato e ficamos ansiosos à espera próximo.

OBSERVE O CORPO E A MENTE

Fique atento às sensações físicas (como insônia, dores no corpo e na cabeça, problemas de visão) e psicológicas (ansiedade, tristeza, angústia) depois de ficar muito tempo online. Note também se seu desempenho no trabalho ou estudo está sendo prejudicado nessas situações. Procure ajuda profissional se achar que tem dificuldade para fazer mudanças por conta própria no comportamento.

VALE TUDO PARA FAZER MAIS?

Conheça outros modismos que prometem melhorar a capacidade cerebral

TOMAR BANHO GELADO

Entrar embaixo da ducha fria, de preferência pela manhã, colocaria o corpo em um estado de estresse propício para despertar o cérebro e fazê-lo funcionar melhor por várias horas seguidas. A prática também teria impacto na imunidade e aumentaria a longevidade.

FUNCIONA?

Na maioria das situações, um banho frio não faz mal nenhum e pode dar um susto no corpo e no cérebro, o que ajuda a acordar e a se sentir mais bem-disposto. A água gelada também pode ser boa para a pele e para o cabelo, pois preserva a oleosidade natural que funciona como proteção, mas não há evidências de que turbine a capacidade cognitiva.

LEVANTAR MUITO CEDO

Mesmo com a vida ganha, Tim Cook, da Apple, Richard Branson, da Virgin, e outros executivos de grandes empresas pulam da cama antes das 5 da manhã e seguem um ritual que pode incluir meditação, exercícios físicos e envio de e-mails de trabalho. Alguns já declararam que consideram isso uma vantagem competitiva que os faz serem mais produtivos.

FUNCIONA?

Acordar cedo pode ser uma questão de hábito e até há estudos relacionando o comportamento a menos procrastinação e mais disposição. Mas adotar uma rotina madrugadora pede ajustes na alimentação e na quantidade de horas de repouso e, de preferência, exige que haja um propósito na prática. A privação de sono oferece riscos para a saúde física e emocional, além de diminuir a capacidade de concentração, memorização e raciocínio.

USAR MICRODOSES DE LSD

Uma geração de jovens profissionais do setor de tecnologia mais interessados em extrair o máximo de sua capacidade de atenção, criatividade e produtividade do que em experimentar uma viagem de ácido vem consumindo doses mínimas da droga (cerca de um décimo do necessário para provocar alucinações) uma ou duas vezes por semana, normalmente pela manhã, no lugar do café.

FUNCIONA?

Ainda não há evidências suficientes, embora o uso “consciente” do LSD e de outras drogas psicodélicas esteja sendo amplamente estudado pelos efeitos no tratamento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. O composto imitaria o efeito da serotonina (neurotransmissor que regula o humor) no cérebro. O LSD é proibido tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANGÚSTIAS DA DECISÃO

Considerações racionais são fundamentais num processo de escolha, embora não evitem arrependimentos e culpas

Imagine que você tenha de escolher entre dois empregos que igualmente lhe agradam. Ambos oferecem bom salário, mas um exige poucos deslocamentos, enquanto o outro impõe viagens frequentes. Você opta pelo primeiro e apesar de gostar do trabalho, descobre um dia que a pessoa admitida para a outra vaga ganha um salário bem maior que o seu. Decepcionado com sua opção, você se sente responsável por essa escolha. E se arrepende.

Numa outra situação, você tem de escolher entre viajar para a praia ou para o campo. Você fecha os olhos e imagina o vento do mar no rosto. Então pensa: “Será que, se for para a praia, vou ficar pensando no charme de um chalé com lareira e no clima ameno da montanha?”. Concluí que sim e escolhe viajar para o campo. Você não se arrepende.

Neste caso, foi possível antecipar as emoções que a outra escolha causaria. A manobra mental ajuda na decisão. Todos nós procedemos assim recorrendo às nossas experiências, de modo que os arrependimentos “fictícios”, aqueles que imaginamos como consequência eventual de nossas escolhas e os sentimentos que os acompanham, estão na essência de muitas decisões.

Todos os dias nos confrontamos com escolhas. Às vezes, essas decisões são difíceis, pois é preciso apostar na qualidade daquilo que vamos escolher e na satisfação que nos trará.

NO VERMELHO

Segundo as teorias clássicas da economia, os profissionais da decisão (corretores da bolsa de valores, por exemplo) aprimoram suas estratégias de escolha fundando-se sobre o “valor esperado”, isto é, a probabilidade de obter certo resultado multiplicado por esse resultado. Um jogador de cassino calcula a probabilidade de ganhar R$ 100 no vermelho e R$ 500 no verde. Se a chance de ganhar R$ 100 é de uma em dez e a de conseguir R$ 500 é de uma em 100, o “valor esperado” é de dez no primeiro caso e de cinco no segundo. Se for racional, ele preferirá apostar no vermelho.

Entretanto, sabe-se que as decisões humanas, na prática, são influenciadas por diversas considerações pouco racionais. Muita gente prefere uma soma menor (digamos, R$ 450) com probabilidade de ganho de 100 % (tem-se a certeza de ganhar a quantia) a um valor superior associado a uma probabilidade menor (R$ 1 mil, com chance de 50%), ainda que neste caso o lucro possível seja maior. Por que somos tão racionais?

É possível examinar esse mecanismo voltando-nos para algumas pessoas que, por causa de lesão cerebral no córtex órbito-frontal (na altura da testa, bem acima dos olhos), nunca se arrependem. Elas têm dificuldades consideráveis na vida cotidiana e, sem saber antecipar os arrependimentos a que estarão sujeitas, são incapazes de tornar decisões que possam satisfazê-las. Em nosso estudo, propusemos a esses pacientes – e a voluntários sãos – um jogo cujo princípio é análogo ao da roleta.

Na competição, os jogadores são colocados diante de um monitor de computador onde aparecem, a intervalos regulares, duas roletas. Eles escolhem uma delas para jogar depois de pensar bem, já que as possibilidades de ganho não são as mesmas. Pode-se escolher entre uma roleta que oferece 50% de oportunidade de ganhar R$ 40 e 50% de perder R$ 10 (figura 1a), por exemplo, e outra com 80% de chance de perder R$ 1º e 20% de ganhar R$ 40. Logicamente, os jogadores escolhem a primeira. Durante uma hora, diversos pares de roletas são apresentados, cada uma com apostas e probabilidades variáveis.

Na primeira parte do teste, os participantes desconhecem os resultados da roleta que não escolheram. Assim, é impossível haver arrependimento: no máximo, eles podem ficar satisfeitos ou decepcionados com o resultado da sua roleta, como a pessoa que escolheu o emprego sem viagens e ignora o destino de quem aceitou o outro.

Observamos as reações dos participantes de dois modos. No primeiro, colocamos eletrodos em seus dedos e constatamos que quanto mais forte a emoção, maior a corrente elétrica registrada, pois as mãos ficavam umedecidas de suor. No outro, pedimos que descrevessem como se sentiam naquele momento anotando, numa escala de -50 a +50, se estavam bem ou mal. Todos tiveram reações similares. Se o ponteiro parava, por exemplo, num ponto da roleta que representasse perda de R$ 10, quando poderia parar numa área que lhes faria ganhar R$ 40, todos eles se decepcionavam.

ANTECIPAÇÕES PREJUDICADAS

Além disso, os dois grupos não sentiram nenhuma emoção particular ao ganhar R$ 10 numa situação em que poderiam ganhar R$ 40: a alegria de ganhar menos é temperada pela decepção de não ter ganho mais. Do mesmo modo, eles expressaram pouca emoção ao perder R$ 10 numa situação em que poderiam ter perdido R$ 40: a decepção de perder R$ 10 é compensada pelo alívio de não ter perdido mais. Por outro lado, ficaram contentes em ganhar R$ 10 quando poderiam ter perdido mais: desta vez, eles realmente tiveram sorte. O fato de os participantes com ou sem lesão cerebral terem apresentado as mesmas reações mostra que a zona cerebral em questão não intervém na capacidade de ficar contente ou descontente com o resultado de uma experiência.

Num segundo momento, os participantes tiveram de optar entre as duas roletas, mas, depois de feita a escolha, foram informados sobre o resultado da outra roleta. Com isso, tinham chance de se arrepender quando o resultado da segunda roleta se mostrava melhor que o da escolhida. Eles estavam numa situação parecida à do trabalhador que fica sabendo dos ganhos do colega no emprego que recusou.

Neste caso, os participantes sãos mostraram-se muito decepcionados ao perder R$ 10 e ver que na outra roleta teriam ganho R$ 40. Eles haviam feito uma escolha e eram responsáveis pelas consequências, já que teriam ganho mais se tivessem escolhido o outro equipamento. Ficaram igualmente desapontados ao ganhar R$ 10 e ver que poderiam ter conseguido quatro vezes mais. Quando desconheciam os resultados da segunda roleta, ficavam contentes de embolsar os R$ 10. Mostraram-se, porém, mais satisfeitos de perder a quantia ao ver que na outra roleta teriam perdido R$ 40. Se ganhassem R$ 40, sabendo que na outra perderiam o mesmo valor, então ficariam muito satisfeitos.

PERDAS E GANHOS

A diferença mais evidente verificou-se nos jogadores cujo córtex órbita-frontal é lesado: eles ficam decepcionados se perdem R$ 1O, mas essa decepção não é reforçada por saber que na outra roleta seria possível faturar R$ 40; ela é a mesma de quando não sabem o outro resultado. Do mesmo modo, se ganham R$ 10, ficam contentes. Mas a satisfação não aumenta se contamos a eles que na outra roleta teriam perdido R$ 40.

A ausência de arrependimento parece invejável, mas, de fato, tem um lado prejudicial. Pessoas capazes de se arrepender antecipam no presente os arrependimentos que terão se fizerem uma ou outra escolha, graças a seu córtex orbito-frontal, e essa antecipação aprimora as escolhas: no fim do jogo, constatamos que os participantes normais ganharam em média R$ 60, enquanto aqueles com lesão no córtex orbito­ frontal terminaram devendo R$ 20.

O córtex orbito-frontal, que nos permite antecipar o arrependimento no momento de tomar uma decisão, é responsável pela capacidade de nos projetarmos emocionalmente no futuro, o que facilita decisões A diferença entre a decepção e o arrependimento está no sentimento de culpa, presente no segundo caso: pacientes com lesão cerebral se decepcionam quando a seta para num valor negativo, o que mostra que são capazes de antecipar um bom resultado e de sofrer uma emoção negativa se o objetivo não é alcançado.

CONQUISTA DA EVOLUÇÃO

Todavia, a decepção não aumenta se a outra roleta tem um bom resultado: eles não imaginam que teriam se dado melhor se tivessem feiro outra opção. A capa cidade de pensar em termos hipotéticos engendra o sentimento de responsabilidade diante da situação presente. Do ponto de vista neurobiológico, o arrependimento pode ser definido como a emoção ligada à capacidade de representar a si mesmo em situações hipotéticas. Sendo um sentimento desagradável associado à noção de responsabilidade, tiraríamos dele lições e, assim, diminuiríamos os riscos de decepção quando precisássemos decidir algo. Essas experiências esclarecem muito sobre a maneira como tomamos decisões e mostram que cada um se projeta inconscientemente no futuro quando se confronta com escolhas. Eis a origem do arrependimento: em tempos pré­ históricos, o cérebro humano teria desenvolvido essa capacidade, que lhe conferia uma condição superior na tomada de decisões.

Tal superioridade é tão clara que numerosos estudos mostram que pessoas com lesão no lobo orbito-frontal encontram grande dificuldade para tomar decisões no meio social. Por exemplo, tendem a perder o emprego, são incapazes de manter relações pessoais estáveis com as pessoas próximas e fazem repetidamente investimentos financeiros desastrosos. Curiosamente, essa anomalia não resulta de falta de conhecimento ou de inteligência.

Segundo o neurologista Antônio Damásio, ela seria consequência de um déficit emocional. Os pacientes seriam incapazes de produzir “marcadores somáticos”, isto é, reações emocionais manifestadas quando antecipamos uma decisão, as quais nos previnem dos resultados prováveis da escolha que nos preparamos para fazer (por exemplo, o desconforto que sentimos diante da ideia de repreender severamente um amigo).

Nossos estudos sugerem que o arrependimento constituiria um marcador somático controlado primeiramente pelo córtex orbito­ frontal. Essa região teria se tornado muito importante por conduzir todas as situações de escolha, notadamente pela produção de “arrependimentos antecipados”. Assim, o arrependimento seria um “efeito secundário” de nossa capacidade de tornar decisões. Inversamente, as pessoas incapazes de se arrepender tornam decisões que com frequência as colocam em dificuldade.

ANATOMIA CEREBRAL NO JOGO DA ROLETA

1. Os participantes devem escolher entre duas roletas e clicar naquela com que desejam jogar. Num primeiro caso (a), o participante escolhe jogar com a primeira roleta – que dá 50% de chance de perder RS 10 e 50% de ganhar R$ 40 -, em vez da outra – com a qual teria 80% de possibilidade de perder RS 10 e 20% de ganhar RS 40. O resultado da segunda roleta não é mostrado. Na roleta escolhida, ele perde RS 10 e fica decepcionado. Depois, nas outras três escolhas que faz, ele fica indiferente (b), e em seguida contente. As reações das pessoas sãs e daquelas com lesão no córtex orbito-frontal são idênticas neste caso.

2. Numa segunda parte da experiência, escolhe-se entre as duas roletas, mas, quando elas param de rodar, o jogador vê o resultado da roleta não escolhida. Seu grau de contentamento ou decepção difere da primeira experiência, pois agora ele compara. Assim, quem lamenta ter perdido RS 10 sem saber que poderia ter ganho RS 40, fica louco de arrependimento quando vê o resultado da segunda roleta. Contrariamente, perder apenas RS 10, e não RS 40, traz satisfação, e ganhar RS 10 sem perder quatro vezes esse valor deixa-o extasiado. Nos pacientes com lesão no córtex orbito-frontal, a emoção não varia quando veem a segunda roleta, pois eles não se arrependem.