EU ACHO …

AMOR AOS RESTAURANTES

Eles desempenham o papel de agregadores da sociedade

Mestre em encapsular grandes pensamentos em pequenas frases, Millôr Fernandes escreveu certa vez que “gastronomia é comer olhando pro céu”. Ele se referia, claro, à experiência sublime de provar um prato tão bom que não haveria como não agradecer aos deuses. Mas hoje, quando os restaurantes começam a reabrir, bem que poderiam, quando possível, servir seus clientes ao ar livre.

Ai, que saudade dos restaurantes! Pela comida, sim, mas não só. Sinto falta do papel agregador que eles tão bem representam. Quantas cenas inesquecíveis protagonizamos em suas mesas! Celebrávamos amizades, negócios, alianças republicanas. Quem se lembra da “turma do poire” do deputado Ulysses Guimarães, que, enquanto engendrava a Constituição de 1988, se reunia em torno de uma boa garrafa de licor de pera no Piantella de Brasília? Restaurantes são teatros onde esquetes são encenados. Lembro de amigos de adolescência que, no Rodeio, catapultavam bolinhas de manteiga no teto baixo de madeira e se divertiam em adivinhar em quem cairiam – um pastelão politicamente incorreto explícito, impensável hoje. Restaurantes são também palcos de histórias de amor – eu mesma fui cupido, embora nem sempre bem-sucedida. Vivi momentos mágicos, em São Paulo, entre amigos no La Tambouille e no A Bela Sintra, passei tardes de domingo agradáveis no Barbacoa, desfrutei noites descontraídas no Gero. O espaço não é suficiente para citar todos os meus preferidos, mas devo mencionar os japoneses, o Geiko-San, com sua sóbria elegância, e o moderno Kitchin.

Fui convidada por duas edições do Comer & Beber a entregar o prêmio de “o melhor da cidade”, em que tive oportunidade de observar de perto o orgulho dos donos de restaurantes. É com alegria, portanto, que acompanho a reabertura dessas casas de confraternização. Trata-se, afinal, da retomada de uma história fascinante, associada à civilidade.

Na segunda metade do século XVIII, um francês chamado Boulanger resolveu abrir, em Paris, uma casa que servia refeições. Escreveu na entrada um versículo adaptado do Evangelho de São Mateus: “Vinde a mim todos os que sofreis do estômago, que eu voz restaurarei”.

Mais tarde, casas similares – dedicadas a “restaurar” a energia dos clientes – passaram a ser chamadas de restaurantes. O primeiro nos moldes contemporâneos surgiu pouco depois, em 1782. Era o La Grande Taverne de Londres, parisiense, sob a direção do prestigiado Antoine Beauvilliers. Lá, pela primeira vez no mundo, as pessoas, acomodadas em mesas, pediam pratos individuais de um cardápio. Hoje a situação é tão arraigada em nossa cultura que até parece ter sempre existido. Os restaurantes parisienses ganharam impulso logo em seguida, a partir da Revolução Francesa, em 1789. Com a queda da aristocracia, cozinhas particulares foram desativadas. Sem trabalho, os chefs começaram a abrir os próprios restaurantes, de olho na nova freguesia. Hoje, vejo, apreensiva, imagens de pessoas se aglomerando na frente de bares, numa ânsia de voltar a frequentá-los sem tomar os devidos cuidados. É uma atitude compreensível, mas temerária. Enquanto o “velho normal” não desbanca o “novo anormal”, a cautela é o melhor tempero.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

NO PASSADO SERIA PIOR

Imaginar como seria se o coronavírus atual tivesse chegado há 30 anos ajuda a dimensionar quanto a ciência avançou nestas três décadas e como a vida mudou de lá para cá

O ano é 1990. Um vírus misterioso começa a se espalhar a partir de um surto localizado e, pouco a pouco, ganha bairros, cidades, estados, países e continentes inteiros. A trajetória exponencial do patógeno lota hospitais com pacientes com insuficiência respiratória. Cientistas especulam a partir dos quadros mais severos a ação de um novo agente de transmissão respiratória, mas, com a tecnologia disponível, levariam meses para identificá-lo.

Até lá, centenas de milhares mortes, talvez milhões, dessa hipotética “Covid-90” teriam se acumulado ao redor do planeta. As primeiras nações a receber o vírus pelas fronteiras aéreas ou terrestres sofreriam com a carência de informações sobre a evolução da doença. Sem testes do tipo RT-PCR, capazes de detectar o vírus, seria ainda mais difícil executar o rastreamento de contatos e a transmissão assintomática se daria de forma avassaladora.

O exercício de imaginar uma pandemia de coronavírus há 30 anos ajuda a desenhar a dimensão dos avanços científicos nas últimas três décadas nas medidas de combate ao sars-CoV- 2. Especialistas não têm dúvidas de que o mundo enfrentaria a doença com as ferramentas disponíveis à época, mas certamente a um custo humano ainda mais alto do que agora.

Mesmo com todo o poderio tecnológico disponível em 2020, a ciência ainda não encontrou todas as respostas para a Covid-19, nove meses após a notificação do primeiro caso em Wuhan, na China. Mas a trajetória deste período tem carregado símbolos e vitórias, como o sequenciamento do genoma do sars-CoV-2 em tempo recorde, seu compartilhamento instantâneo na internet por cientistas chineses e a promessa da vacina mais rápida da história.

Especula-se que o novo coronavírus circulava no organismo de animais há um tempo indeterminado até desenvolver a capacidade de infectar seres humanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) conduz uma investigação acerca da origem do patógeno na China e, até o momento, a tese mais popular entre pesquisadores é que o paciente zero contraiu o vírus em um mercado de Wuhan. Se a janela de oportunidade fosse aberta há 30 anos, os desafios seriam ainda maiores, afirmaram especialistas ouvidos.

“As técnicas de sequenciamento ficaram muito mais rápidas e baratas. Sequenciar um organismo como um vírus atualmente demora um dia. Há 30 anos, isso demoraria alguns meses. Era uma época de sequenciamento manual”, explicou a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natalia Pasternak.

Essa demora, afirmou a pesquisadora, poderia atrasar diagnósticos e as medidas subsequentes, como o rastreamento de contatos e o isolamento de quem está doente.

“A técnica PCR é de 1984. Mas o teste RT-PCR, que é nosso único diagnóstico do sars-CoV-2, não existia ainda. Há vários outros vírus respiratórios, como o influenza, que sempre estiveram no radar. Teríamos demorado mais a entender qual vírus era e a avaliação seria só clínica. Isso poderia atrasar os diagnósticos, o rastreamento de contato”, completou Pasternak.

No entanto, é consenso que o sars-CoV-2 não se espalharia na mesma velocidade. Ainda que o fluxo internacional de pessoas fosse incomparável com a era da gripe espanhola, no início do século XX, a pandemia de 2020 foi agravada pelo mundo ultraglobalizado.

O epidemiologista Paulo Lotufo, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que é impossível calcular como se daria o avanço. “Basta ver a diferença de voos entre o que tínhamos em 2003, quando a sars surgiu, e o que tínhamos antes da pandemia”, disse Lotufo. “Teríamos também uma outra pirâmide populacional, em certos termos o impacto seria menor, mas os cuidados hospitalares seriam bem piores”.

Mas isso significa que estaríamos preparados? Gonzalo Vecina Neto, professor do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, é categórico: no Brasil, o abalo seria muito forte. “Teríamos saudades da gripe espanhola”, comparou o médico. “Seria um desastre muito pior do que a pandemia atual. Quanto mais voltarmos para trás, pior será o cenário. Você já tinha um pré-SUS (Sistema Único de Saúde) funcionando desde 1987. Mas tínhamos muitos problemas. A rede melhorou muito de lá para cá, embora ainda não seja o suficiente.”

Com a consolidação do SUS na Constituição Federal de 1988, sua estrutura e organização ainda eram incipientes em 1990. A expansão da rede em diferentes estados brasileiros, com hospitais, centros e ambulatórios de especialidades, ocorreu justamente ao longo daquela década e foi reforçada pelas reformas conduzidas pelo então ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Outro diferencial foi o fortalecimento da regulação.

“Nós tivemos o fortalecimento muito grande da vigilância sanitária com a criação da Anvisa e uma melhoria dramática do set privado com a criação da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Havia opção de plano de saúde sem UTI. Muitos pacientes teriam de ser despejados dos hospitais se poder pagar por um leito semi-intensivo”, lembrou. “Estávamos reestruturando o sistema saúde em função do processo de urbanização com a expansão da rede dentro de uma nova organização, que era a proposta pelo SUS: universalização, equidade e integralidade.”

Símbolos do processo de colapso dos sistemas de saúde no Brasil e no mundo, respiradores e ventiladores, essenciais para sobrevivência de casos graves da Covid-19 também seriam um importante empecilho para uma pandemia respiratória há 30 anos, recordou Vecina Neto.

“Já tínhamos bons respiradores, mas convivíamos com modelos que funcionava por pressão. Não tinham motores. A pressão do oxigênio e do ar comprimido fazia o aparelho injetar no pulmão e esperar a saída de ar. Era um sistema que, apesar de salvar vidas, destruía pulmões”, disse o médico. “A capacidade de monitoramento era ruim, antibióticos eram muito menos eficazes que os que apareceram depois. Foi um belo de um caminhar. Estávamos começando a viver um a revolução tecnológica.”

É praticamente consenso entre cientistas que a Covid-19 não será a única pandemia respiratória deste século. Par a Natalia Pasternak, é difícil precisar em números se uma pandemia há 30 anos seria mais letal, mas o progresso científico deixa lições para a próxima.

“Temos de adaptar nossas vidas ao potencial epidêmico de um vírus respiratório. Vamos precisar de um normal vigilante, preparado, que não seja vulnerável na próxima vez. Tem muita coisa boa para investirmos. Mesmo com pouca atenção à ciência temos a tecnologia RT-PCR, vacinas, celulares e GPS, que permitiram acompanhar o isolamento. Como teria sido essa pandemia se tivéssemos investido um pouco mais?”, questionou a presidente do Instituto Questão de Ciência.

A microbiologista pontuou que o avanço científico ao longo das últimas décadas permite uma resposta muito mais veloz do que uma crise de proporção comparável em 1990. Técnicas de alteração genética que estão sendo testadas a todo vapor pelas líderes da corrida global por uma vacina, como as farmacêuticas AstraZeneca, Moderna e Sinovac Biotech, são muito recentes e se tomaram peças-chave na pandemia. “Há 30 anos as vacinas eram de primeira geração, com o vírus atenuado, desativado, que são mais simples de fazer. Basta pegar o organismo, cultivar, enfraquecer ou inativá-lo. Mas as técnicas de clonagem de hoje permitem que tenhamos vacinas mais rápidas”, afirmou a microbiologista, lembrando que esse método exige laboratórios de altos níveis de segurança. “Não poderíamos, por exemplo, trabalhar com o sars-CoV-2 na USP, que não tinha um laboratório desse tipo na época.”

A rapidez nas pesquisas por uma vacina – o prazo médio antes da pandemia girava em torno de dez anos – e a expectativa por uma imunização eficaz em 2021 também colaboram para as perspectivas da recuperação econômica, um ponto crucial na resposta de governos à pandemia. Em 1990, o processo de retomada seria muito mais vagaroso, com consequências para economias muito menos globalizadas e interdependentes à época, na avaliação de Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

“A velocidade com que o mercado se refez da queda de março, no início da pandemia, é forte. Esse contexto tecnológico de um tempo de resposta mais rápido e um mundo conectado também fez o processo de retomada mais célere”, afirmou.

Arbetman argumentou que os governos teriam muito mais dificuldade de coordenar pacotes fiscais para atenuar o impacto da pandemia há 30 anos. Para tanto, comparou a proporção das crises que abalaram as Bolsas há três décadas com o tamanho do desafio do novo coronavírus.

Parte da economia mundial ficou paralisada em decorrência das quarentenas nacionais e medidas de distanciamento social adotadas mundo afora, inclusive nos estados brasileiros. Uma fração das atividades, no entanto, pôde se adaptar ao isolamento graças às novas ferramentas. Em 1990, o home office seria impensável, na avaliação de Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). “Não seria possível trabalhar de casa ou ter aulas remotas. Sem internet não é possível tornar sua casa produtiva. Ela é essencial para uma atividade coordenada. Isso não significa que as pessoas não desenvolveriam alternativas como parte da resiliência à crise”, disse Steibel. Em 1990, é bom lembrar, além de internet, também não havia telefone celular em quase nenhuma parte do país. O serviço foi lançado naquele ano no Rio, e só chegaria a São Paulo em 1993. Por um lado, seria mais difícil matar a saudade de filhos, netos e amigos; por outro, a avalanche de fake news teria mais dificuldade de circular. Uma escolha difícil.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE SETEMBRO

CARNAVAL, A FALSA FELICIDADE

Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus (Romanos 6.1).

O carnaval é a maior festa popular brasileira. Patrocinada por recursos públicos e promovida pelas autoridades políticas, a festa atrai milhões de turistas de todo o mundo. Carros alegóricos e desfiles cheios de pompa ocupam as avenidas e os sambódromos das grandes cidades. Escolas de samba e carros elétricos desfilam para o delírio de uma multidão sedenta de prazer. O carnaval é a festa das máscaras e do nudismo. É a festa da bebedeira e da embriaguez. É o esforço inútil de encontrar alegria onde só existem as cinzas da frustração. A alegria promovida pelo carnaval tem gosto de enxofre. No palco dessa festa sacrifica-se a decência, estabelece- se a permissividade sem freios e conspira-se contra os valores que devem reger uma família digna. Embaladas por shows alucinantes, multidões pulam e dançam; inspiradas por uma exultação mundana, terminam a festa com o coração mais vazio, a alma mais aflita e a plena certeza do desgosto de Deus. O carnaval, de fato, é uma festa em que a alegria verdadeira não encontra espaço na passarela. A verdadeira alegria é irmã gêmea da santidade. A pureza é o tempero dessa felicidade. Somente na presença de Deus nossa alma encontra delícias perpetuamente.

GESTÃO E CARREIRA

DECIFRANDO NÚMEROS

Estatísticas ganham destaque no mercado de trabalho: haverá 20.000 vagas para eles nos próximos cinco anos, com salários de até 30.000 reais por mês

No minuto em que você lê esta seção, 16 milhões de mensagens de texto são enviadas, 156 milhões de e-mails são trocados, 4 milhões de vídeos são assistidos no YouTube e 46.000 fotos são postadas no Instagram. Os rastros digitais estão por toda parte e, com o avanço da internet das coisas (IoT), aumentarão ainda mais. É nesse contexto que os estatísticos ganham relevância. Capazes de estruturar, decifrar e tirar informações valiosas desse mundaréu de dados, tornaram-se figuras importantíssimas nos negócios, dando suporte às tomadas de decisão e ajudando na elaboração de estratégias.

Para Leonardo Berto, gerente de negócios da Robert Half, consultoria de recrutamento de São Paulo, a profissão, que antes predominava no setor financeiro, agora permeia todos os segmentos. Tanto que, em 2017, foi apontada como a melhor do ano nos Estados Unidos: a empregabilidade de quem atua na área saltará 34% nos próximos sete anos.

O crescimento também deve acontecer no Brasil. Segundo o Conselho Regional de Estatística da 3ª Região (Conre-3), estima-se que serão gerados 20.800 postos para cientistas de dados em cinco anos. Como o país forma poucos estatísticos, cerca de 360 ao ano, haverá uma corrida por talentos. Os salários da categoria já sofrem uma escalada e chegam a 30.000 reais.

Júlio Trecenti, de 27 anos, é um desses raros profissionais. Graduado em estatística na Universidade de São Paulo (USP), ele faz doutorado e é sócio fundador da Platipus Consultoria, especializada em jurimetria (estatística aplicada ao direito). “O curso de estatística é menos concorrido do que o de engenharia; e a carreira, mais promissora”, diz. Sua rotina consiste em coletar informações em fontes como sites públicos e redes sociais e, com base na combinação de conceitos de marketing, inteligência de mercado e ciência de dados, prever, entre outras coisas, sentenças de processos judiciais.

Para Hedibert Freitas Lopes, professor de estatística e econometria do Insper, a carreira demanda paciência, atenção aos detalhes e especialização constante. Como diferencial ele destaca a capacidade de comunicação. “Não adianta entender tudo de números se não souber traduzi-los.”

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO: 10 horas, em média

90% – Buscando, analisando e estruturando dados

10% – Com a parte burocrática (realização de reuniões, envio de e-mails e análise de projetos)

ATIVIDADES-CHAVE:

 *** Implementar sistemas que auxiliem na coleta de informações

 *** Criar e estruturar bancos de dados

  *** Mapear comportamentos, detectar padrões e identificar tendências

  *** Elaborar gráficos e traduzir de maneira clara os números levantados

*** Auxiliar nas tomadas de decisão, nos projetos e na elaboração de estratégias tanto na iniciativa privada quanto na pública

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

•   Capacidade de concentração

•   Raciocínio lógico

•   Habilidade em matemática

•   Conhecimento de programação

•   Fluência em outros idiomas, sobretudo inglês

PONTOS POSITIVOS:

•   Atuar em um setor que está em alta

•   Minimizar e evitar equívocos nas estratégias de instituições públicas e privadas

•   Como há pouca gente qualificada no mercado, os salários estão aumentando

PONTOS NEGATIVOS:

•  Alta complexidade de formação (é preciso fazer cursos técnicos específicos, como probabilidade e processamento de dados, e se dedicar com afinco aos estudos)

•  A rotina é puxada: com o enorme volume de dados disponível diariamente, muitas vezes é necessário esticar no escritório

•  Concorre-se por vagas com outros profissionais de exatas, como engenheiros, físicos e matemáticos

OPORTUNIDADES:

Há demanda na indústria, no varejo e em setores diversos, como médico, bancário, jurídico e de serviços

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Graduação em estatística, investir em cursos de programação e em especializações em Data Science. Para quem deseja se aprofundar no assunto, há material on-line gratuito de universidades como a americana Stanford e a britânica Oxford, disponíveis em sites como COURSERA (www.coursera.org) e EJX (www.edx.org)

VAGAS: 20.800 Vagas segundo o (Conre-1), nos próximos cinco anos

QUEM CONTRATA:

Multinacionais, startups de tecnologia e consultorias focadas em ciências de dados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CULTO AOS DESAJUSTADOS

Com caráter anárquico e poucos valores morais, Jean Genet se destacava intelectualmente, porém sem habilidade para relações afetivas devido ao seu transtorno de personalidade antissocial

Jean Genet nasceu em Paris em 1910. Filho de uma prostituta (que o abandonou em um orfanato nos primeiros meses) e de pai desconhecido, foi adotado por um casal de camponeses bastante humilde de Morvan, na Borgonha. Naquele tempo era comum enviar às regiões rurais as crianças abandonadas da capital.

Após a morte de sua mãe adotiva, o pai não o quis mais, pois era muito rebelde e já fazia pequenos furtos. Jean foi “dado” para um casal de idosos criar, mas permaneceu com eles somente por dois anos, pois os roubou e eles não o quiseram mais.

Por vários delitos, incluindo repetidos atos de vadiagem e furtos, ele foi enviado aos 15 anos de idade para a Metray Penal Colony, onde ficou recluso. Nos três anos (de 1926 a 1929) em que ficou sob custódia do Estado, passou por várias colônias penais, sendo transferido por ter problemas ora com a instituição normativa, ora com os colegas de confinamento. Nesse período assumiu sua homossexualidade de forma ostensiva e até agressiva. Ao sair da colônia penal, não tinha para onde ir e ingressou na Legião Estrangeira Francesa, da qual foi oficialmente afastado por desonra por ter sido descoberto fazendo sexo com outro homem no alojamento. Nessa ocasião estava com 19 anos. Após ser expulso, Genet se viu novamente sem destino certo e passou um período como andarilho, ladrão e prostituto por toda a Europa, experiências que ele relata em Diário de um ladrão, escrito em 1949.

Embora tenha estudado em escola regular só até os 13 anos, Genet roubava livros e lia avidamente “um pouco de tudo”. Desenvolveu significativa bagagem cultural devorando e   assimilando Mallarmé, Rimbaud, Dostoiévski e Baudelaire, entre outros. Aprendeu vários idiomas na prática (alemão, espanhol, italiano, árabe e inglês), pois passou um

longo tempo se prostituindo em países que falavam esses idiomas. Possuía capacidade de assimilação superior à média e também uma memória privilegiada. Com esses atributos desenvolvidos pela necessidade de sobreviver sozinho desde muito jovem, conseguia se destacar intelectualmente. Porém, possuía um caráter anárquico e com poucos valores morais, pois roubava, furtava, mentia, chantageava, traia e trapaceava aparentemente sem nenhuma culpa ou arrependimento.

Ousado e até arrogante, tinha opinião formada sobretudo, sua bagagem de experiências vividas era ainda superior à cultural, e ele sabia usá-la muito bem. Suas opiniões eram rebeldes e questionadoras, contudo possuía a contestação precisa e denunciava a hipocrisia da sociedade. Falava sobre política de forma feroz. Também desenvolveu conceitos sobre outras artes, com apurado conhecimento de Mozart e Reinbrandt (que foram temas de seus futuros ensaios). Genet começou a escrever poemas e os apresentar nos bairros boêmios de Paris.

Com seu histórico e o transtorno de personalidade (antissocial) que possuía, dificilmente teria conseguido algum destaque não fosse seu fabuloso gênio literário, que cedo chamou a atenção de literatos como Jean Cocteau e muitos outros intelectuais franceses, que manifestaram intensa admiração por sua poesia, e posteriormente também por suas peças de teatro e romances.

Na vida pessoal, suas relações afetivas foram tumultuadas e na maioria das vezes com marginais. Possuía muitos amantes e apresentava compulsão sexual. O sexo associado ao perigo e ao promíscuo o atraía e fazia parte da sua rotina.

Genet transformou sua vida em representação literária. Relatou em livros e peças de teatro suas andanças e atos vividos. Não se sabe até onde as histórias são reais ou fictícias, acredita-se que sejam uma mistura das duas, mas para a literatura pouco importa, e sim a qualidade do trabalho, que chamou a atenção de todos pela excelência.

Genet criou o mito do marginal em seus textos e romanceou os roubos, a prostituição e as   prisões. Ele se afastava da tradição realista da sociedade burguesa (no auge naquele momento literário) de Balzac, Flaubert e Zola, para escrever e se filiar à subjetividade dos “românticos” do caos, do submundo, das mazelas humanas. Foi um autor que fundia a vida e arte. Transformou a falta de ética e de moral em virtudes de seus personagens.

Ele dizia: “Não se é um artista sem grandes infortúnios”. Não deixa de ser uma maneira de se colocar acima dos outros autores, que não possuíam sua trajetória de vida. Para reafirmar sua “superioridade”, provavelmente, criou fatos, alterou outros, exagerou em vários. Fica claro que sua narrativa só tinha sentido para ele se fosse para ser escrita em palavras capazes de impactar o espectador/leitor.

Ele foi descrito como um autor maldito, ligado ao teatro da crueldade de Antonin Artaud.

Genet escolheu seus personagens entre os marginalizados da sociedade. O mal, o sacrilégio, a decadência humana, a crueldade são o centro de seu trabalho, a ponto de se tornar uma espécie de religião, ligada ao transcendente. Isso não impede que sua estética contenha um tipo pessoal de poesia baseada na simulação, na ficção e na representação de papéis como parte do comportamento inerente do homem na sociedade. Sua escrita no palco tem conexões com o teatro do absurdo, porém é extremamente real.

As obras, tendo como referência os aspectos grotescos da existência humana, expressam uma profunda rebelião contra a sociedade e suas convenções.

Embora consideradas pornográficas, elas denunciam os ritos de nossa sociedade conservadora e escancaram o vazio dos conceitos morais provincianos.

Sua obra apresenta a obsessão pelas relações de poder entre os personagens, sempre há o opressor e o oprimido, e a “beleza da dor sentida” pelos oprimidos.

Seus primeiros trabalhos, Nossas Senhora das Flores e O Milagre da Rosa, chamaram a atenção de Jean Cocteau, mas foi através da influência de Jean-Paul Sartre (que escreveu um ensaio de 500 páginas sobre ele e sua obra) que ele ficou famoso. Enquanto compunha romances ou peças como O Balcão, Os Negros e Os Biombos, conquistou definitivamente a nata da intelectualidade europeia.

Ele foi definido por Jean-Paul Sartre como um existencialista preocupado com os problemas de identidade e alienação. Essa definição é bastante contestada, pois Genet aparentemente não apresentava essa consciência existencialista, ele tinha como objetivo maior agredir a sociedade, embora a interpretação dessa intenção seja livre. E Sartre, como filósofo e um dos grandes expoentes do existencialismo, só podia interpretar, como o fez, dentro de seu universo.

Mesmo fazendo sucesso como escritor e ganhando dinheiro com suas obras, Genet criou uma mitologia pessoal marcada por escândalos, roubos, confusões e rixas.

Colecionou uma sucessão de amantes marginais, que o acompanhavam pelo baixo mundo parisiense. Tudo era em excesso: bebida, cigarro, drogas, sexo e brigas.

Em 1947, aos 37 anos, tendo sido preso dez vezes por roubo, atos obscenos em público e prostituição homossexual, o juiz entendeu ser um caso irrecuperável e o condenou à prisão perpétua.

Numerosos escritores, artistas e intelectuais franceses se mobilizaram e apresentaram uma petição pela graça presidencial em favor de Genet, que foi finalmente concedida em 1948 pelo presidente da França Vincent Auriol

Apesar de muitos amantes, viveu poucos amores, mas foi infeliz neles. Entre eles destaca-se o jovem Lucien Sénérmaud, que se casa com uma mulher, abandonando­ o. Genet apaixona-se por um marinheiro, André Javal, mas é também abandonado.

Paralelo a isso, suas obras foram proibidas nos EUA e em alguns outros países. Genet mergulhou em uma crise pessoal, entrando em depressão.

Encontra um novo parceiro, que seria o grande amor de sua vida, Abdallah, um jovem equilibrista de circo, analfabeto e pobre, com uma mãe semiparalítica. Genet assume toda a família, no entanto, após alguns anos juntos, Abdallah se suicida, aos 28 anos. No mesmo período, um dos seus poucos amigos, Bernard Frechtman, também se mata. Genet entrou em um período de depressão profunda e tenta o suicídio mais de uma vez.

A partir de 1968, Genet tornou-se politicamente ativo, manifestando-se contra a Guerra do Vietnã. Engajou-se na defesa de trabalhadores imigrantes na França, assumiu a causa dos palestinos e envolveu-se com líderes de movimentos norte-americanos como Panteras Negras (movimento que defendia a resistência armada nos bairros negros contra a perseguição policial) e  Beatniks (composto por artistas que levavam vida nômade ou fundavam comunidades livres, que contestavam as normas sociais).

Jean Genet morreu em Paris, no Hotel Jack’s, em 1986, aos 76 anos, de câncer na garganta. Estava rico e vivia, como sempre, uma pobreza de relações afetivas.

Está enterrado no cemitério espanhol de Larache (Marrocos), como era seu desejo.

O culto aos desajustados deu a tônica de sua vida e obra. Não pertencer era sua identidade, desde sempre.