EU ACHO …

A IDADE SEM NOME

O velho conceito de velhice já não se aplica nos dias de hoje

Quando eu era criança, alguém de 60 anos era considerado “velho”. Minha avó só vestia roupas escuras, meu avô sentava-se numa cadeira o tempo todo, simplesmente esperando a vida passar. Aposentadoria era a regra: os chamados velhos dedicavam-se aos netos, filhos. A velhice era vista como um tempo amorfo, entre o fim da vida profissional, a doença e a morte. Tudo mudou. Outro dia, vi uma referência a uma clínica para idosos. Espantei-me. Eu já seria candidato a uma vaga! Essa possibilidade nunca havia passado pela minha cabeça – e continua não passando. Assim como para a maioria dos meus amigos. Caso de Analívia, que desde os 15 anos faz um trabalho de dança inovador e dedica-se a dar palestras nas principais cidades do mundo. Outro amigo dos tempos da escola, Raul, dá aulas de pilates! Minha vizinha, aos 70, oferece aulas de meditação, caminha todos os dias, e tem um namorado boa-pinta. Outro vizinho fala seis línguas e se dedica ao comércio exterior. Todos acima dos 60. Nenhum, eu inclusive, quer deixar de trabalhar.

Por sinal, é uma pergunta que parentes mais jovens fazem frequentemente: “Você não quer descansar?” Acho até divertida. Parar, eu? Se fosse descansar, escreveria, o que já faço como atividade principal.

São pessoas que se recusam a “envelhecer”. Estão em uma nova fase da vida, que vai dos 60 aos 80 e mais. Graças também aos avanços médicos. As etapas da existência só foram diferenciadas pela humanidade ao longo do tempo. O entendimento da adolescência só seria consolidado no século XX.

Ainda vai surgir um nome para essa nova fase que vivemos hoje, que não é nem velhice nem terceira idade. Os sessentões e oitentões da atualidade eram adolescentes e jovens na década de 60, tiveram contato com a contracultura e também com os movimentos de esquerda não tradicionais. Não enxergam a idade como seus pais e avós enxergavam. Cuidam do corpo, entram em cursos. Namoram. Boa parte possui uma vida profissional de que gosta – portanto, nem pensar em aposentadoria. Quem se aposentou trata de desfrutar a vida. Quando passeiam ou viajam com os filhos, estão na condição de amigos, companheiros. Muitos querem iniciar algo novo. O precursor dessa tendência talvez tenha sido o próprio Roberto Marinho, que botou a Rede Globo no ar quando tinha 60 anos – idade em que muitos empresários de seu tempo já estavam pendurando as chuteiras.

Falo de pessoas que nasceram antes do advento do computador pessoal, do celular… Mas que hoje sabem o suficiente para trocar e-mails, WhatsApps, assistir a filmes no streaming… Ou seja, estão incorporadas ao universo tecnológico. Talvez as pessoas só se considerem idosas quando os outros as veem como idosas. Não vou falar de plásticas e outros procedimentos – elas fazem também, é claro. E daí?

Em algum momento, essa nova etapa da vida após os 60 e sei lá, além dos 80, vai receber um nome, como a adolescência recebeu um dia. Por enquanto, apenas sabemos que a palavra “velho” não serve mais para definir essas pessoas. Eu digo por mim: os 60 são os novos 40.

***WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

QUANDO A GRAVIDEZ É UMA TRAGÉDIA

O caso da menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio traz de volta o debate sobre o aborto — um tema em que o Brasil avançou pouco nas últimas duas décadas

Em meio ao enfrentamento de duas enormes crises, a sanitária e a econômica, ficou um pouco fora de cena outro drama nacional da atualidade, o do retrocesso civilizatório. De combate não menos urgente, essa onda obscurantista que vem avançando nos últimos anos tem múltiplas facetas, começando no nível folclórico do terraplanismo e adquirindo um nível perigoso quando ajuda a insuflar temas como a nostalgia do autoritarismo. No campo comportamental, não é diferente. Nos últimos dias, o país viu com estupefação outro exemplo desse fenômeno preocupante e que mostra como o Brasil está parado no tempo no debate sobre um tema crucial: a descriminalização do aborto. Para ter direito a um dos poucos casos em que a lei permite a interrupção da gravidez, uma garota de 10 anos, abusada em casa pelo próprio tio, enfrentou uma autêntica via-crúcis. Não bastasse o ataque violento e repugnante, a menina e a avó paterna, que a acompanhava, como se fossem elas as criminosas, tiveram de agir na clandestinidade para driblar as pressões de grupos religiosos e as dificuldades encontradas na rede de saúde pública de seu estado, o que as obrigou a viajar 1.630 quilômetros em busca de atendimento. Para entrar com segurança no hospital, a criança foi colocada dentro do porta-malas de um carro. Saiu de lá também escondida. O horror, o horror.

O abusador acabou sendo preso em 18 de agosto, e uma corrente de solidariedade vem se fortalecendo para ajudar a garota a superar o trauma. Nada disso, no entanto, apaga o fato de o caso mostrar com clareza quanto o Brasil segue nas trevas no que diz respeito a esse tema. Na verdade, flerta até com um retrocesso. Mesmo cientes de que a vida da menina de 10 anos corria risco, vozes continuaram se levantando para condenar a vítima após o procedimento. “Crime hediondo”, classificou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Walmor Oliveira de Azevedo, ao se referir ao aborto legal realizado no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, no Recife.

Questões éticas, morais e religiosas emperram um debate racional e maduro. O avanço na discussão não implica em banalizar esse procedimento – nem mesmo referências nacionais mais progressistas e liberais defendem isso, caso do ministro Luís Roberto Barroso, do STF. “O Estado e a sociedade devem procurar evitar que ele aconteça”, disse ele, em nota enviada por sua assessoria à reportagem. “Mas criminalização é uma má política pública e que penaliza, sobretudo, as mulheres mais pobres, que não podem utilizar o sistema público de saúde”, completou. Em outros termos, ninguém quer o aborto, mas ele é um mal necessário para debelar um flagelo de saúde pública. Estima-se que 1 milhão de interrupções de gravidez sejam feitas no país por ano, dessas, apenas 1. 700 pelas vias legais. Em consequência disso, ocorrem quase trinta hospitalizações por hora provocadas por complicações de abortos clandestinos, como as infecções. Negras, menores de 14 anos e de família de baixa renda compõem a maior parte do grupo das mulheres que mais precisam recorrer ao aborto realizado de forma insegura. A falta de condições mínimas de higiene ou de cuidados, muito comuns nessas circunstâncias, pode deixar sequelas permanentes e até levar à morte. Entre os danos mais frequentes, estão sangramentos, esterilidade, perfurações no útero e lesões no intestino. “A realidade é que muitas mulheres já interrompem suas gestações todos os anos, nas piores condições”, diz o ginecologista Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos sobre o Aborto.

O drama que colocou esse tema novamente no centro do debate nacional é a soma de uma série de tragédias. Assim como milhares de adolescentes no país, a garota capixaba de 10 anos é fruto de uma família desestruturada – a mãe moradora de rua e usuária de drogas não apareceu nem na sua certidão de nascimento. Não se sabe sequer se está morta ou se continua desaparecida. O pai encontra-se preso desde 2014, condenado a dezesseis anos por homicídio. Dessa forma, a criança foi criada pela avó – uma senhora que labuta de domingo a domingo puxando o carrinho de coco e bebidas numa praia ao norte do Espírito Santo.

Nos últimos meses, ela notou que a neta, uma garota estudiosa, andava mais quieta que o normal. Achou que podia ser por causa da falta da escola, fechada na quarentena. Quando constatou o atraso na menstruação da garota, a avó tentou agendar uma consulta, mas os hospitais só estavam atendendo emergências por causa da Covid-19. No dia 7 de agosto, no entanto, a menina começou a sentir fortes dores abdominais e foi levada a um pronto-socorro. A equipe médica estranhou a barriga protuberante, fez um exame e descobriu a gravidez de cinco meses. Foi um choque para todos. Virou uma barbaridade quando em um depoimento a um assistente social e uma psicóloga ela contou que vinha sendo estuprada e “ameaçada de morte” pelo tio fazia anos. Segundo as investigações policiais, ele ajudava a avó da garota na barraca da praia e sempre arrumava um pretexto para ir à casa dela recarregar as mercadorias – nesses momentos, aconteciam os abusos.

Informada da ocorrência, a polícia entrou em ação, mas, quando chegou à casa do suspeito, ele já havia sumido. Viajando de ônibus, o abusador passou por Bahia e Minas Gerais. Ali, em Betim, no interior do estado, sem dinheiro e temendo ser linchado, decidiu se entregar. Ele já havia sido preso, em 2011, vendendo maconha. Estava em liberdade desde 2018. “No caso do estupro da menor, não temos dúvidas sobre sua culpa”, diz o delegado Icaro Ruginski. A própria família ajudou com informações para capturá-lo e se disse “aliviada” pela prisão. A sua mulher, com quem tem dois filhos pequenos, que custeou os honorários dos advogados do seu processo por tráfico, recusou-se a fazer o mesmo com o de estupro. À polícia, ele confessou sem remorsos que mantinha um relacionamento com a menina desde 2019 – segundo o abusador, de forma “consentida” e frequente”, o que, mesmo se fosse verdade, já seria considerado estupro pela lei.

Como se a catástrofe do episódio em si já não fosse suficiente, houve em paralelo uma outra calamidade: a exploração política do caso. A casa da avó da menina virou ponto de romaria de religiosos. A idosa chegou a desmaiar por mais de uma vez. Um pré-candidato a vereador da cidade gravou a si próprio rezando dentro da residência como forma de criar material para sua campanha. Conhecida por ser uma ferrenha militante antiaborto, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, despachou dois assessores para lá, segundo ela, com o objetivo de “conhecer detalhes das investigações”. Ex-assessora da ministra, a extremista Sara Winter divulgou criminosamente o nome da menina e do hospital onde ela faria a operação. Apesar de todas as pressões, a avó manteve a posição de apoiar a interrupção da gestação. “Era também o desejo da neta e do pai”, afirma Elida Joana, advogada do pai e próxima da família. O tratamento ocorreu em meio a um grande tumulto. Cerca de 200 pessoas apareceram na porta do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, muitas delas com terços nas mãos e camisetas com frases antiaborto. Não se ouviram protestos contra o estuprador.

Não por acaso, a influência religiosa é certamente o maior entrave para que o aborto seja descriminalizado no país. No governo de Jair Bolsonaro, que se elegeu presidente com apoio dos principais líderes evangélicos, a oposição a toda e qualquer forma de aborto ganhou força em termos institucionais. No Congresso, onde fanatismos ideológicos assumem muitas vezes o lugar da razoabilidade, senadores desengavetaram uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), de autoria do ex-senador e cantor evangélico Magno Malta, para explicitar na Carta Magna que o direito à vida é inviolável desde a concepção. A proposta, se aprovada, poderia proibir o aborto até nos casos de estupro e de risco à vida da mãe, que já são autorizados hoje. Antes mesmo de a PEC ser debatida, houve uma forte reação da sociedade, com destaque para manifestações feministas nas ruas de algumas capitais. Há tempos, aliás, as mulheres têm assumido posições públicas importantes sobre o assunto, na defesa do direito ao próprio corpo. Publicada em 1997, uma reportagem trazia depoimentos corajosos de mais de uma dezena de personagens, entre famosas e anônimas, assumindo que haviam feito o aborto. Uma delas, a atriz Cissa Guimarães, hoje com 63 anos, lamenta que nada tenha mudado desde então. “Obviamente, demos passos para trás”, afirma. “O número de estupros aumentou, o feminicídio aumentou… Voltamos para a Idade Média.”

Na direção contrária à de alguns setores retrógrados do Congresso, o STF tem se destacado como um farol da razão nesse debate, iluminando avanços. Em abril de 2012, a Corte determinou por 8 votos a 2 que o aborto também deve ser autorizado em caso de anencefalia do feto. Quatro anos mais tarde, a Primeira Turma concedeu um habeas-corpus contra a prisão preventiva de médicos e funcionários de uma clínica de aborto, considerando que o procedimento realizado até o terceiro mês de gestação não configurava crime. Neste ano, o STF analisou uma ação que pedia a concessão do direito à interrupção da gravidez nos casos em que a mãe contraía o zika vírus, doença que pode provocar a microcefalia no feto. Relatora do caso, a ministra Carmen Lúcia decidiu que não deveria haver julgamento por questões processuais e rejeitou a ação sem entrar no mérito. Ela foi acompanhada pela maioria dos colegas, incluindo Luís Roberto Barroso, que fez ressalvas ao concordar. “Deve-se ter profundo respeito pelo sentimento religioso das pessoas, o que torna plenamente legítimo ter posição contrária ao aborto, não o praticar e pregar contra a sua prática. Mas é perfeitamente possível ser simultaneamente contra o aborto e contra a criminalização”, escreveu ele em seu voto.

Ao enquadrar no Código Penal uma decisão de foro íntimo de cada mulher, o Brasil segue na contramão dos países desenvolvidos. Na maior parte deles, o aborto é legalizado. Na América Latina, o Uruguai liberou o procedimento em 2012 e a Argentina começou a discutir no começo do ano um projeto nessa linha, mesmo sendo uma nação sob forte influência católica e terra do papa Francisco. O Brasil só não tem legislação mais restritiva que um grupo de 26 países nos quais a interrupção da gestação é proibida sob qualquer aspecto, sem exceção. Haiti, Jamaica e Madagascar, entre outros, fazem parte desse bloco. Para chamar a atenção para esses casos e oferecer atendimento, a ONG holandesa Women on Waves fazia abortos em uma embarcação próximo à costa de nações onde a prática é criminalizada.

Como mostra o caso da garota capixaba, nem a garantia legal para abortar em determinadas situações assegura o respeito e o pronto atendimento às mulheres no Brasil. O Hospital Pérola Byington, em São Paulo, uma das maiores referências no grupo das cerca de sessenta instituições de saúde que fazem o procedimento, realizou 560 interrupções de gestação apenas no ano passado. A taxa é 30% maior em relação ao ano anterior, para se ter uma ideia. O Pérola recebe pacientes de todas as partes do estado e do país, muitas delas combalidas depois de terem tentado soluções caseiras para interromper a gravidez, como o uso de instrumentos perfurantes. Outras haviam encarado sucessivas respostas negativas para abortar (inclusive de médicos de centros autorizados). “A situação é alarmante. A primeira violência que essas vítimas sofrem é o estupro, a segunda é a falta de auxílio de um profissional”, diz André Luiz Malavasi, coordenador da área da saúde da mulher da instituição. “Chegam aqui mulheres que passaram por cinco, seis endereços. E não receberam atendimento.”

Mesmo com uma decisão judicial favorável à interrupção de sua gravidez, a garota capixaba cujo drama comoveu o país foi recusada no Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), ligado à Universidade Federal do Espírito Santo. A diretoria do local alegou não ter estrutura para fazer o procedimento. No Recife, o aborto legal acabou sendo coordenado pelo obstetra Olímpio Moraes Filho. “Ela voltou a sorrir no dia seguinte à cirurgia”, conta o médico. Antes de sair de lá, a menina recebeu inúmeros presentes: roupas, sapatos, livros, brinquedos, flores, chocolates e tablets. Também começaram a aparecer pessoas dispostas a financiar os seus estudos. Ela e a avó devem entrar num programa de apoio e proteção a testemunhas, vítimas e familiares. Custeado pelos governos federal e estadual, ele possibilita a troca de identidade, mudança de endereço e apoio financeiro por quatro anos. Com o sonho maior de ser jogadora de futebol, a garota já realizou o primeiro desejo no trajeto de volta do hospital à sua casa: comer um McLanche Feliz. Ela tem toda a vida pela frente – e o Brasil, um longo caminho a percorrer para que outros casos de gravidez como esse não terminem em tragédia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE SETEMBRO

LUZ NA ESCURIDÃO

Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença (João 9.1).

Um cego é visto, ou passará despercebido. Enquanto caminhava, Jesus viu um homem cego de nascença. Nascera num berço de trevas e durante toda a sua vida estava cercado de escuridão. O colorido das flores, a exuberância das matas, a beleza do sorriso de uma criança eram realidades desconhecidas por aquele pobre homem. Seu mundo era sombrio, e sua vida era desprovida de esperança. Os discípulos especularam sobre as causas de sua cegueira, perguntando a Jesus quem havia pecado, o cego ou seus pais. Jesus esvaziou a curiosidade dos discípulos, afirmando: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus (v. 3). Jesus curou esse cego de forma estranha. Cuspiu na terra, fez lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego e ordenou-lhe: Vai e lava-te no tanque de Siloé (v. 7). O homem foi, lavou e voltou enxergando. Jesus ainda hoje abre os olhos aos cegos. Ele é a luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem. Seus milagres apontam para a obra da redenção e ainda são pedagógicos. Jesus acabara de afirmar: Eu sou a luz do mundo (João 8.12). Agora, ele arranca um homem das trevas. Assim como há trevas físicas, também há escuridão moral e espiritual. Mas Jesus agora mesmo pode abrir os olhos da sua alma e inundar o seu coração de luz.

GESTÃO E CARREIRA

BRINCADEIRA DE SUCESSO

Após conquistar o público infantil no YouTube, o Totoykids, lançado em 2014por um casal de mineiros, expande os negócios e desponta como um dos gigantes do segmento

Com 7 bilhões de views só em sua versão na língua portuguesa e um público estimado em 27 milhões de fãs, distribuídos por 48 países, o canal brasileiro no YouTube Totoykids, voltado para o entretenimento infantil já vinha sendo considerado um dos negócios mais bem sucedidos do site de vídeos de propriedade do Google – vale dizer, do mundo virtual. Na virada de 2019 para 2020, no entanto, o empreendimento anunciou que começaria a se expandir também para o, vá lá, mundo real”. O modelo é semelhante ao que foi adotado por gigantes do porte da Galinha Pintadinha. A ideia, ambiciosa, é montar um império baseado não só nos vídeos, mas também em roupas, bonecos, livros – enfim, tudo o que possa atrair a garotada pela força da marca.

Criado no ano de 2014, em Nova York, pelo casal de mineiros Isa Vaal, de 38 anos e André Vaz, de 40, o Totoykids que conta com 27 milhões de inscritos, conquistou os pequenos espectadores levando ao ar histórias protagonizadas por brinquedos e personagens autorais interpretados pela dupla. “À primeira vista; a fórmula pode parecer comum”, admite Vaz.

“Nosso diferencial é que decidimos tomar cuidado redobrado com o conteúdo em si escapando do vício frequente de querer apenas divertir as crianças. Nosso trabalho inclui uma pegada educativa”, diz ele. Resultado financeiro da estratégia: rendimento mensal em torno de 100.000 reais, tão somente com os anúncios vinculados aos vídeos do canal em português (há versões das produções também em inglês e espanhol). Os lucros devem dar um salto considerável com o lançamento, nos próximos meses, de uma linha de itens licenciados que abarcará cinco áreas: além de investirem na editorial, na de brinquedos e na de vestuário, Isa e Vaz apostam no setor alimentício e no de material escolar.

A origem do Totoykids remonta a uma fase de descontentamento do casal. Em 2013, desmotivados com suas respectivas profissões, Vaz, que é advogado, e Isa, psicóloga, decidiram mudar de ares e foram para os EUA.  Aintenção era investir na carreira de ator, no caso dele, e de roteirista no dela. Enquanto fazia um curso na atividade em que procurava se firmar, Isa resolveu trabalhar como babá. Na rotina com as crianças, notou quanto elas, mesmo ainda muito pequenas, se entretinham com smartphones e tablets – comportamento, aliás, que parece estar em todos os lares. “Mas a maioria das produções era de qualidade duvidosa, com a única intenção de viciar os olhinhos, satisfazendo aqueles pais que adotaram o hábito de colocar os filhos em frente às telas para ganhar uns minutinhos de tranquilidade”, conta Isa. “Faltavam vídeos que realmente estimulassem o público infantil, exercitando habilidades que são construídas nessa fase da vida.

Foi assim que, no ano seguinte, o casal decidiu montar o Totoykids. Para tanto, apoiou-se justamente na habilidade dela para o roteiro e na dele para a interpretação (Vaz estava cursando artes cênicas). Em seis meses de operação, com publicações semanais, alcançaram 500.000 inscritos no YouTube. A guinada de crescimento foi tamanha que um representante do próprio site de vídeos entrou em contato para saber quem estava por trás do empreendimento. Ao descobrir que não se tratava de uma companhia especializada e sim de um casal de amadores, a empresa americana listou o Totoykids como uma iniciativa a servir de exemplo a outros youtubers – a empreitada da dupla brasileira passaria a ser mencionada em treinamentos promovidos pelo Google.

Mais seis meses e o Totoykids chegaria a 1 milhão de fãs. Seu primeiro megassucesso, entretanto, surgiria em 2016: o vídeo no qual uma boneca brinca em uma piscina de bolinhas ultrapassou a marca de 180 milhões de views. A partir dalí, o negócio só cresceu. Hoje, o Totoykids está entre os dez canais infantis mais vistos do planeta, concorrendo com marcas como Peppa Pig. O casal de amadores de poucos anos atrás se transformou em uma dupla de empreendedores de peso. O que fez acentuar a atenção com tudo o que é produzido. Atualmente todo vídeo publicado passa antes pelo crivo de oito especialistas dos ramos de pedagogia, neurociência, psicologia e educação. ”Sempre pensamos que em cada clique há uma criança em formação” afirma Vaz.

Até há dois meses, o trabalho de produção de vídeos do Totoykids, que envolve uma equipe de dez profissionais, era realizado em um estúdio em Nova York e na própria residência do casal, que continua morando nessa cidade americana. Em dezembro, Isa e Vaz abriram um escritório em São Paulo. Com isso foram criadas vagas para quarenta funcionários. Aqui, o foco será a promoção dos produtos licenciados. Uma dessas linhas girará em torno do personagem mais célebre do canal, o José Comilão, que incentiva a alimentação saudável. ”Alguns pais podem, com razão ter receio de expor os filhos ao consumismo exacerbado”, diz Vaz. “No nosso caso, fiquem tranquilos. Só apostaremos naquilo que faz bem às crianças. Afinal, entre a audiência fiel estão também nossos dois filhos (de 2 e 5 anos).”Trata-se de um belo exemplo de como encontrar uma maneira de unir interesses, aptidões, conveniências e dinheiro.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PANDEMIA E RESILIÊNCIA

O impacto da covld-19 na saúde física dos cidadãos do mundo é extraordinário. Em meados de maio, havia mais de quatro milhões de casos em mais de 180 países. Os efeitos sobre a saúde mental podem ser ainda maiores. A certa altura, quase um terço da população do planeta tinha ordens para ficar em casa. Cerca de 2,6 bilhões de indivíduos – mais do que o total de pessoas vivas durante a Segunda Guerra Mundial – viviam os efeitos emocionais e financeiros do coronavírus. “O isolamento é talvez o maior experimento psicológico já conduzido”, escreveu a psicóloga Elke Van Hoof, da Universidade Livre de Bruxelas ­ VUB. Ainda estamos começando a avaliar os resultados deste experimento involuntário.

A ciência da resiliência, que investiga como as pessoas suportam e resistem às adversidades, oferece algumas pistas. Um indivíduo resiliente, escreveu o psiquiatra George Vaillant, da Universidade Harvard, parece um tenro ramo de árvore, com um cerne verde e vivo. “Quando torcido e retorcido, o galhinho enverga, mas não quebra; em vez disso, reverte à sua forma original   e continua crescendo.” A metáfora descreve um número surpreendente de pessoas: até dois terços dos indivíduos se recuperam de experiências difíceis sem apresentar efeitos psicológicos duradouros, mesmo quando passam por eventos traumáticos como um crime violento ou ser prisioneiro de guerra. Mas o outro terço sofre um estresse real, alguns durante meses, outros, por anos.

Mesmo se a maioria dos indivíduos se mostrar resiliente, o ônus dos transtornos causados pela covid-19 e o número de pessoas envolvidas estão levando os especialistas a alertar para um “tsunami” de doenças mentais. São múltiplos os impactos: ameaça de contrair a doença, solidão, perda de entes queridos, consequências de uma perda de emprego e incerteza sobre o fim da pandemia. Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático sem dúvida alguma se seguirão para alguns. Linhas diretas ele ajuda para saúde mental relatam um salto nas chamadas, e pesquisas iniciais constataram elevados níveis de preocupação. “Essa pandemia abrange todos os tipos de estressores difíceis”, diz a psicóloga Anita DeLongis, da Universidade da Colúmbia Britânica, que estuda respostas psicossociais a doenças. Os suicídios de profissionais da saúde que estiverem na linha de frente de combate à doença são fortes lembretes dos riscos.

Para complicar ainda mais a resiliência individual, a pandemia não afetou igualmente a todos. Embora haja muitos elementos em comum na experiência – o coronavírus atingiu todos os níveis da sociedade e deixou poucas vidas inalteradas – há muita diferença nos transtornos e na devastação experienciados. Pense no Brooklyn, bairro da cidade de Nova York. Moradores que começaram o ano vivendo ou trabalhando a poucos quilômetros uns dos outros têm histórias muito distintas, de perdas e superação, e de adaptação aos desafios do distanciamento social. A rapidez com que indivíduos, empresas e organizações se recuperarão, e a qualidade da recuperação, vai depender dos empregos, do plano de saúde e da saúde que tinham quando tudo isso começou; das dificuldades psicológicas que enfrentaram; e do acesso a recursos financeiros e a apoio social.

A pandemia escancarou as desigualdades no sistema de saúde dos EUA e em sua rede de segurança econômica. Negros e latinos morrem a taxas muito mais altas do que brancos. “Quando falamos sobre condições preexistentes, não se trata apenas de ser obeso ou não, trata-se da condição preexistente da nossa sociedade”; diz a antropóloga médica Carol Worthman, da Universidade Emory, especialista em saúde mental global.

Felizmente, a pandemia inesperada está gerando um conhecimento sem precedentes, não só em virologia, mas também sobre saúde mental e resiliência. Cientistas comportamentais estão medindo o dano psicológico em tempo real e se esforçando para identificar o que ajuda as pessoas a enfrentar e superar seus problemas. Ao contrário, digamos, dos ataques terroristas de 11 de setembro ou do furacão Katrina, que ocorreram ao longo de um intervalo de tempo finito e delimitado, apesar de seus efeitos terem sido prolongados, a duração indefinida da covid-19 permite a condução de novos tipos de estudos longitudinais e novas direções de pesquisa. A mudança súbita e maciça para modos virtuais de trabalho e sociabilidade deve impulsionar investigações mais sutis sobre o que torna a interação social satisfatória – ou embotada e enfadonha. Se os pesquisadores encararem o desafio da covid-19, diz o psiquiatra Dennis Charney, da Escola Icaho de Medicina, “haverá toda uma nova ciência da resiliência. Poderíamos aprender como ajudar as pessoas a se tornarem mais resistentes e adaptáveis antes que essas coisas aconteçam”.

CURVE-SE, MAS NÃO QUEBRE

Rafael Hasid, natural de Israel, chegou a Nova York no ano 2000 para frequentar o então Instituto Culinário Francês. Em 2005, ele abriu um restaurante chamado Miriam, no Brooklyn, que se tornou famoso no bairro. Nas primeiras semanas de março, Hasid percebeu o que estava por vir. “Eu seguia as notícias em Israel”, diz ele. “Estávamos duas semanas atrás em todos os aspectos. Eu dizia, “vai acontecer aqui”. Quando o popular brunch de fim de semana do Miriam atraiu só um terço do público, Hasid doou todos os alimentos perecíveis aos vizinhos. Quando a cidade exigia que todos os restaurantes fechassem, o Miriam já fechara.

Ao se depararem com eventos potencialmente traumáticos, “cerca de 65%das pessoas apresentarão sintomas psicológicos mínimos”, diz o psicólogo George Bonanno, da Universidade Columbia. Especialista em resiliência, ele estuda os efeitos póstumos de furacões, ataques terroristas, lesões que ameaçam a vida e epidemias, tais como o surto da SARS em 2003. Sua pesquisa e as de outros mostram três respostas psicológicas comuns à adversidade. Cerca de 60%das pessoas seguem uma trajetória de resiliência e mantêm uma saúde psicológica e física relativamente estável. Em torno de 25% enfrentam, por um tempo, psicopatologias como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depois se recuperam, um padrão conhecido como trajetória de recuperação. E 10% sofrem transtornos psicológicos duradouros.

Mesmo entre populações diferentes e com diversos status socioeconômicos, esse padrão se mantém. “Isto vale para todo mundo”, diz Bonanno. Por outro lado, o risco de distúrbios psiquiátricos é duas vezes maior para pessoas que se encontram nos patamares mais baixos da escala econômica.

Mas os efeitos de uma crise tão generalizada na saúde mental podem não seguir esse modelo. Estudos mostram que uma quarentena rigorosa pode levar a efeitos psicológicos negativos, tais como o TEPT, embora poucos de nós tenham estado numa quarentena real, que consistiria como isolamento total após uma possível exposição a uma infecção.

Em vez disso, grande parte do mundo vive com restrições, que Bonanno suspeita, equivalem a algo mais parecido com um gerenciamento constante de estresse. “É a primeira vez na história recente que temos um lockdown global tão longo”, diz a epidemiologista Daisy Fancourt, da University College de Londres. “Não sabemos como as pessoas reagirão.”

O potencial escopo do impacto é considerável. “Esta situação difere de outras formas de estresse, porque não afeta apenas uma área da vida”, diz a psicóloga da saúde Nancy Sin, da Universidade da Columbia Britânica. “As pessoas estão lidando com desafios familiais ou de relacionamento com desafios financeiros e de trabalho, com a saúde”.

Relatórios iniciais já estão mostrando efeitos claros. A primeira pesquisa nacional em larga escala, feita na China, o primeiro lugar atingido pela crise, verificou que quase 35% das pessoas relataram aflição psicológica. Nos EUA, um medo e inquietação crescentes em relação à covid-19 foram constatados em pessoas que já sofrem de ansiedade. Outro estudo registrou resultados preocupantes em adultos mais velhos. Isso surpreende porque pesquisas anteriores mostram que, em sua maioria, pessoas mais idosas têm um bem-estar emocional melhor. “Durante esta pandemia, adultos mais velhos não têm aquela força emocional associada à idade que esperaríamos”, diz Sin, que estuda o envelhecimento e colabora com DeLongis em um estudo em andamento da covid-19 envolvendo 64 mil indivíduos globalmente. “Eles relatam tanto estresse quanto pessoas de meia-idade e outras mais jovens”.

Sin ainda está analisando as causas do estresse, mas suspeita que ele seja causado pela maior probabilidade de adultos mais velhos ficarem doentes e perderem entes queridos. Porém, pessoas mais idosas estão lidando melhor com seu estresse do que as mais jovens, e relatando menos depressão ou ansiedade. “Elas podem estar se beneficiando da perspectiva que acompanha o fato de elas terem vivenciado mais coisas do que indivíduos mais jovens”, diz Sin. Adultos com mais de 65 anos também tiveram mais tempo para desenvolver meios para lidar com o estresse e muitos são aposentados e têm menos chances de se preocuparem com o trabalho.

Fancourt começou um estudo em meados de março que se expandiu para incluir mais de 85 mil residentes do Reino Unido. A pesquisa monitora depressão, ansiedade, estresse e solidão semanalmente. “Precisamos saber em tempo real o que está acontecendo”, diz Fancourt. Com seis semanas de estudo, os cientistas constataram que os níveis de depressão estavam mais altos do que antes da pandemia.

De modo geral, as pessoas com doenças de saúde mental já diagnosticadas, as que vivem sozinhas e as pessoas mais jovens relatam os níveis mais altos de depressão e ansiedade. No lado positivo, houve uma ligeira diminuição nos níveis de ansiedade depois que o lockdown foi declarado. “A incerteza tende a piorar as coisas”, diz Fancourt. Alguns ficam paralisados por não saber o que está por vir, enquanto outros acham meios para tocar a vida.

Após três semanas com o restaurante fechado, Hasid ainda não recebera nenhum financiamento do governo destinado a proteger pequenas empresas. Embora sua situação fosse incerta, “eu pensava que precisávamos continuar criando negócios para nós mesmos”, diz ele. Quando alguns clientes lhe mandaram e-mails para perguntar se ele consideraria fornecer jantares de Páscoa, Hasid criou um cardápio comemorativo para entrega em domicílio. Antes da pandemia, ele planejava abrir uma delicatéssen num lugar próximo. Em vez de um novo espaço, Hasid abriu a deli dentro do próprio restaurante. Sua maior preocupação é a segurança dos funcionários. Para tranquilizá-los, além do distanciamento social, ele exige o uso de máscaras e luvas, e o restaurante é desinfetado diariamente de manhã e à noite com alvejante.

Hasid reconhece que sua capacidade de se adaptar não é algo que todo empreendimento comercial possa fazer, em especial muitos restaurantes que funcionam com margens apertadas. A nova operação está usando uma equipe mínima, mas Hasid continua pagando – do próprio bolso – todo empregado que não foi capaz de s cadastrar para receber o auxílio-desemprego. O serviço de delivery gerou uma renda 30% menor para o Miriam, mas ele diz que isso é melhor do que nada. O restaurante também está preparando uma refeição semanal para um hospital local. “Não é uma máquina de fazer dinheiro, mas é o mínimo que podemos fazer.” Hasid está satisfeito com a reinvenção do Miriam e otimista com sua sobrevivência. “Estamos numa situação muito melhor do que um monte de outros lugares em Nova York”, diz ele.

OS COMPONENTES DO ENFRENTAMENTO

Quando o morador do Brooklyn Toni Inck desenvolveu uma ‘febre persistente e uma tosse seca, em março, temeu que estivesse com covid-19. Devido à escassez de testes à época, seu médico primeiro o examinou para todos os outros vírus conhecidos. Depois, médico e paciente se encontraram nas ruas de Manhattan. De pé na Avenida Madison, trajando todo o equipamento de proteção individual, o médico lhe ministrou o teste, que veio positivo após seis dias.

Ser bem-sucedido no enfrentamento de uma crise significa seguir ativo e se envolver em atividades cotidianas. É preciso resolver problemas, regular emoções e gerenciar relacionamentos. Existem fatores que predizem resiliência, tais como o otimismo, a capacidade de manter a perspectiva, forte apoio social e ponderação flexível. Pessoas que acreditam poder superar tendem de fato a enfrentar melhor.

Durante nove dias de isolamento em um quarto de visita, Inck preencheu seu tempo com meditação e leitura. Sob alguns aspectos, as coisas foram mais difíceis para sua esposa, Wendy Blattner, que gerenciava os cuidados do marido, a transição de sua agência de marketing para o trabalho a distância, e as emoções das duas filhas do casal. Blattner deixava refeições do lado de fora da porta do quarto do marido e acordava à noite para medir sua temperatura e nível de oxigênio sanguíneo. Ela estava assustada, porém determinada. “Eu estava convencida de que ele tinha excelentes cuidados, mesmo que fosse a distância, e que eu tinha dentro de mim os recursos e o apoio de que precisava”, diz ela.

As competências de enfrentamento da maioria das pessoas podem ser fortalecidas. Vários dos novos estudos são projetados para identificar estratégias bem-sucedidas que atenuam os efeitos do estresse. Até agora, diz Fancourt, as pessoas são encorajadas a seguir estratégias clássicas de saúde mental: dormir o suficiente, seguir uma rotina, fazer exercícios físicos, comer bem e manter conexões sociais fortes. Investir tempo em projetos que proporcionam uma sensação de propósito, mesmo que despretensiosos, também ajuda.

Em trabalhos anteriores, DeLongis mostrou que indivíduos com alta capacidade empática têm mais chance de se envolverem em comportamentos de saúde adequados, como o distanciamento social, e de apresentar melhores resultados em saúde mental do que os que têm baixo nível de empatia. Mas seus estudos anteriores de doenças como a SARS e a febre do Nilo Ocidental foram transversais e só registraram um certo período. Seu estudo sobre a covid-19 acompanhará comportamentos e atitudes por meses a fio, para monitorar mudanças em empatia e enfrentamento ao longo do tempo. “isso não se limita a um traço de empatia”, diz DeLongis. Respostas empáticas podem ser aprendidas e estimuladas por mensagens apropriadas: seu palpite é que aumentos ou diminuições nas respostas empáticas, ao longo do tempo, estarão associados a mudanças nos comportamentos ligados à saúde e nos mecanismos de enfrentamento.

Como parte do estudo de DeLongis, Sin está fazendo com que as pessoas registrem suas atividades e emoções diárias por uma semana. “Até agora, os resultados indicam que a vida é realmente desafiadora, mas que as pessoas estão encontrando jeitos de enfrentar o desafio”, diz ela. Muitas relatam grande quantidade de interações sociais positivas, muitas à distância. Adultos mais velhos estão reportando os mais altos níveis de experiências positivas em suas vidas cotidianas, muitas vezes por darem apoio a outros.

É notável que conexões remotas se mostrem satisfatórias. Pesquisas anteriores sobre os efeitos da tecnologia digital e da mídia se concentram na associação entre o tempo passado diante de telas e o bem-estar psicológico, mas revelaram pouco sobre o valor dos diferentes tipos de interação on-line. Agora que o mundo depende da internet para socializar, é crucial investigar essas nuances. As mídias sociais deveriam emular uma interação cara a cara, ou formas menos intensas de comunicação podem fazer as pessoas se sentirem conectadas? Ainda não sabemos, mas é provável que esses estudos agora sejam financiados, o que não ocorria antes.

A mídia social é um fator em outros tipos de pesquisa, também. A psicóloga Roxane Cohen Silver da Universidade da Califórnia, avalia o impacto da exposição à mídia sobre o bem-estar. “Quem consome muitas notícias sobre uma crise que atinge toda a comunidade está mais aflito e ansioso”, diz ela. O cientista social computacional Johannes Eichstaedt, da Universidade Stanford, está combinando análises em larga escala do Twitter com aprendizado de máquina para registrar níveis de depressão, solidão e alegria durante a pandemia.

Como temia Blattner, as coisas de fato ficaram difíceis para sua família. Na sétima e oitava noites, quando a febre de Inck pairava em torno de 39,5 ºC e seus níveis de oxigênio sanguíneo caíam para 93,seu médico (via Zoom) disse que se os níveis permanecessem ali ou piorassem, Inck deveria ir ao hospital. “Não quero ter um paciente que morra em casa”, disse ele, uma declaração que alarmou as filhas. “A pior coisa para nós foi o medo”, diz Inck. Mas o antitérmico Tylenol manteve sua febre sob controle, e uma respiração curta e rasa sustentou o nível de oxigênio em seu sangue na zona de segurança. Depois de 10 dias, ele começou a se sentir melhor.

A experiência deixou Inck agradecido e energizado. Ele se lançou de novo ao trabalho e se inscreveu para ser um doador de plasma para pacientes críticos.

AS CONDIÇÕES PREEXISTENTES DA SOCIEDADE

Mesmo pessoas muito resilientes precisam de ajuda externa se enfrentarem desafios em múltiplas frentes. Como diretora executiva da lMPACCT Brooklyn, uma ONG de desenvolvimento comunitário que atende a vizinhança negra pelo Brooklyn, Bernell K. Grier vê como a pandemia atingiu duramente a comunidade afro-americana. “Todo dia ouço falar de pessoas que estão positivas para a covid, se recuperando dela ou que morreram da doença”, diz ela. Três óbitos aconteceram em apartamentos que Grier gerencia e exigiram que ela organizasse serviços de limpeza e desinfecção profunda. Ainda assim, ela seguiu adiante.

A pandemia, diz Fancourt, “vai exacerbar o gradiente social que estamos acostumados a ver através da sociedade. É crucial que haja programas de nível nacional para apoiar as pessoas”. No Reino Unido, tais intervenções incluem o Serviço Nacional de Saúde e um programa de licença temporária que paga até 80% dos salários de milhões de britânicos que não puderam trabalhar. Nos EUA, existem programas de empréstimos e auxílio-desemprego emergencial, mas eles se mostraram difíceis de acessar rapidamente.

A organização de Grier oferece diversos serviços ligados a moradia, advocacia para pequenas empresas e interação com instituições financeiras e governamentais. Assim que a pandemia começou, sua equipe distribuiu informações sobre saúde pública e recursos econômicos. Eles iniciaram video­conferências para ajudar empresas a solicitar empréstimos. Desde o final de abril, “nenhuma das que ajudamos recebeu qualquer coisa”, diz Grier. “[O auxílio) não está chegando aos nossos negócios”. Apenas 70% dos inquilinos de Grier foram capazes de pagar aluguel em abril. “Ainda temos que pagar os zeladores, o aquecimento e a eletricidade, os impostos e tudo o mais”, diz ela. “É um efeito dominó. Se os residentes não podem pagar, nós não podemos pagar.”

Worthman, a antropóloga da Emory, diz que a capacidade de enfrentamento das reverberações da pandemia não é apenas uma questão individual, mas uma questão social. também é uma oportunidade. “Muitos têm apontado para períodos de desastre na história americana, depois da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão, que conduziram a reais mudanças estruturais que beneficiaram as pessoas”. Cultivar a resiliência através do apoio comunitário parece mais importante do que nunca. Como enfermeira numa escola no Brooklyn, Marilyn Howard, que emigrou da Guiana para os EUA quando adolescente, trabalhou durante as primeiras semanas de março até que as escolas públicas fecharam. Ela ficou doente um dia depois de deixar o trabalho. Levou 10 dias para que ela recebesse os resultados do teste que confirmaram que tinha covid-19. A essa altura, Howard achava estar a caminho da recuperação. Mas em 4 de abril ela acordou com uma dificuldade para respirar que se agravou rapidamente. Seu irmão, Nigel Howard, chamou uma ambulância. Mas o dia 4 de abril foi perto do pico da pandemia no Brooklyn e não havia ambulância disponível. Nigel pegou seu carro e a levou ao hospital mais próximo, mas a respiração de Marilyn deteriorou no caminho. Menos de um minuto antes de chegarem seu coração parou. Ela tinha 53 anos.

“Coisas simples poderiam ter salvado a vida de minha irmã”, diz Howard, o caçula dos cinco irmãos de Marilyn. Se as escolas tivessem fechado mais cedo ou se sua colega pudesse ter tirado um dia de licença, por não se sentir bem, ela talvez não tivesse ficado doente. Se alguém tivesse recomendado o uso de um oxímetro de pulso, ela teria sabido que precisava ir ao hospital mais cedo. Se uma ambulância estivesse disponível. Os irmãos de Howard organizaram um velório numa casa funerária para dizer adeus a ela. Haslyn só permitiu a presença de três pessoas de cada vez no recinto, mas um velório virtual simultâneo permitiu que mais de 250 pessoas celebrassem a vida de Marilyn.

“Meus irmãos e eu começamos a planejar uma organização que ajude as comunidades negra e parda, ambas pobres, a lidar com algumas dessas questões em um nível local e tangível”, diz Haslyn. Isso é algo que eles podem fazer em memória de sua irmã e que a teria deixado orgulhosa. “Esta é uma das formas como estamos lidando com a perda”, diz ele. “Como transformamos tragédia em triunfo?”