EU ACHO …

O PARADOXO DA ESTATÍSTICA

Os números contam boas histórias escondidas, mas podem mentir

A Mariquinha está em casa? Chove? Como alertou Bob Dylan, não é preciso ser meteorologista para saber a direção do vento. Mas se perguntarmos se choverá amanhã, se a Covid-19 foi controlada ou se aumenta a obesidade dos brasileiros, a resposta estará escondida dentro de uma montanha de números. Decifrá-los é a missão da estatística.

Proponho aqui uma indagação. Qual das duas afirmações a seguir está certa? (1) Com a estatística extraímos informações escondidas e (2) A estatística é a arte de mentir com números. Paradoxalmente, as duas. Na primeira, apenas batizamos um conjunto de técnicas. Na segunda, trata-se de uma real possibilidade, diante da ignorância ou vontade de enganar.

Há antídoto? Claro. Basta conhecer os meandros da estatística para não ser iludido. De fato, ela só engana a quem não decifrou as suas manhas. Infelizmente, como poucos a entendem, fica-se à mercê do que a imprensa revela. Alguns, muito corretos. Mas existem os ingênuos e os mentirosos. Ilustremos o tema com a pandemia. Comparar números absolutos de mortes é erro primário. Países como Andorra e Mônaco seriam os maiores sucessos de controle do surto. Brasil e Estados Unidos, grandalhões, seriam escabrosos líderes mundiais. Mas tomando óbitos per capita, muda tudo. Reino Unido, França, Itália e Chile têm maior letalidade per capita do que o Brasil.

Consideremos a Itália, Inglaterra ou França, países geograficamente circunscritos. Neles, a curva com a evolução da epidemia conta uma história. Pode mostrar aceleração, arrefecimento ou decréscimo. Ou até uma nova onda. Mas Brasil e Estados Unidos são continentes. Nova York desce, Arizona sobe. A curva agregando todos os estados é uma montoeira de dinâmicas superpostas. Nada diz. No Brasil, a cidade de São Paulo começou a se estabilizar, o interior cresce. Outros estados sobem ou descem. Juntar tudo é como tomar a média da temperatura de todos os pacientes de um hospital e desse controle tirar alguma conclusão interessante. Para quê?

Qual a letalidade do coronavírus? É simples, basta dividir os óbitos pelos infectados. Simples, mas errado. Se os testes são escassos, apenas quem aporta aos hospitais os fazem. Ou seja, o denominador são os casos sérios, e não a totalidade real de casos. Falecem 4% no Brasil? Não, pois esse número mede mais a disponibilidade de testes do que a mortalidade. Em um país que testa poucos, o denominador é pequeno, superestimando a letalidade. As únicas pesquisas brasileiras que medem a real incidência são as da Universidade Federal de Pelotas. Mostram que, para cada registro oficial, há seis infectados que não fizeram testes. Usando esses números, não discrepamos da média mundial. Mas isso não dá manchetes.

A identificação dos óbitos é politizada. Estados “de mal” com a Presidência registram como coronavírus os casos indefinidos. Quem está ”de bem” exclui os ambíguos. Mas há uma alternativa: estimar o acréscimo de mortes, comparadas com as do ano anterior. Se a sociedade fosse mais versada em estatística, estaria mais a salvo das interpretações – inocentes ou culposas – disseminadas pelo governo e redes sociais.

***CLAUDIO DE MOURA CASTRO           

OUTROS OLHARES

 A REVOLUÇÃO JÁ COMEÇOU

Nos países que adotaram o 5G, a polícia se tornou mais eficaz, a velocidade de transmissão de dados disparou e as máquinas ficaram mais inteligentes

Na coreia do Sul, em algumas cidades da China e em certas regiões da Suécia o download de filmes em alta resolução demora poucos segun­dos para ser finalizado. As vídeochamadas jamais travam. A polícia usa câmeras de altíssima qualidade conectadas à internet que captam imagens em tempo real, 24 horas por dia, sete dias da semana. Mães atarefadas vestem seus bebês com fralda dotada de sensores que avisam quando ela está suja. Testes com carros autônomos são bem-sucedidos.

Essa sucessão de bons resultados se tornou possível graças à rede de internet móvel 5G, pivô da atual Guerra Fria entre Estados Unidos e China, tecnologia que está prestes a transformar a vida de bilhões de pessoas em diversos países – até mesmo no Brasil. As mudanças se devem a um fator essencial: velocidade. Com o 5G, a internet é pelo menos 100 vezes mais rápida do que a da geração anterior, atalho para o mundo da inteligência artificial. A transmissão de dados será imediata. Os aparelhos vão se conectar entre si. A vida não será mais como antes, como provam as primeiras experiências nos países que já adotaram o sistema.

As aplicações do 5G são ilimitadas. “Ele vai tornar as cidades mais inteligentes”, diz Daniel Batista, cientista da computação e professor de programação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. O especialista dá um exemplo prático. Na maioria dos municípios, apenas algumas poucas avenidas, ruas ou ciclofaixas são monitoradas por câmeras. Com o 5G, praticamente todo o espaço urbano poderá ser esquadrinhado pelo olhar atento dos sistemas de vídeo. Outro potencial uso ajudará a salvar vidas. “Com o 5G, será possível, por exemplo, ter sistemas de GPS em ambulâncias conectados a um serviço de emergência que abriria os semáforos à medida que o veículo se aproximasse do local do acidente ou do hospital”, afirma o professor da USP. A mesma lógica vale para carros de polícia, que teriam prioridade na passagem por faróis ou outros reguladores de trânsito.

Os veículos autônomos, que têm consumido bilhões de dólares em investimentos das montadoras, terão um estímulo para virar realidade. Para funcionar sem oferecer riscos, eles dependem de uma rede complexa de sensores interligados por inteligência artificial. Antes do 5G, o carro autônomo poderia demorar alguns centésimos de segundos mais para tomar uma decisão, como desviar de um obstáculo ou frear bruscamente. Na era do 5G, a resposta do automóvel será imediata, e a probabilidade de alguma falha de conexão afetar o seu funcionamento será reduzida a quase zero.

Na Coreia do Sul, maior adepta do 5G no planeta, a produção desses veículos foi impulsionada pela instalação da nova rede, que se deu em abril de 2019. O país, o primeiro a adotar o 5G comercialmente (desde então foi seguido por Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e China), pretende investir 20 bilhões de dólares até 2022 para ampliar o uso da tecnologia. Atualmente, 6 milhões de sul-coreanos têm acesso ao 5G, mas os outros 45 milhões de habitantes esperam pela chance de adotar o sistema. Na Suécia, o 5G deu novo impulso à indústria de games. Desde o advento da tecnologia, no fim de 2019, o download de jogos on-line aumentou 200%.

O Brasil vê a tecnologia como um sonho distante. O leilão das frequências 5G, que serve para determinar quais empresas poderão operar a nova rede, está marcado para 2021 – isso se não houver, como é típico no país, atrasos ou adiamentos. No mês passado, a Claro anunciou a implementação, em algumas regiões e em caráter experimental, do 5G DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, da sigla em inglês), espécie de transição entre o 4G e o 5G, que é dez vezes mais veloz do que o primeiro.

Enquanto o 5G não chega, será preciso melhorar a segurança das redes de internet. “Com o aumento da taxa de transmissão de dados, criminosos vão conseguir vazar informações privadas em poucos segundos”, diz o professor Daniel Batista. O avanço da tecnologia suscita debates apaixonados sobre os limites da inteligência das máquinas. “Com equipamentos aprendendo diversas funções, passaremos a ser escravos da tecnologia”, afirmou o professor de comunicação wireless na King’s College London Mischa Dohler. O 5G, de fato, provocará grandes revoluções. Resta à humanidade saber usá-las.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE SETEMBRO

COMO ENVELHECER COM DOÇURA

Expirou Abraão; morreu em ditosa velhice, avançado em anos; e foi reunido a seu povo (Genesis 25.8).

A velhice é um caminho incontornável. Não há atalhos para fugir dessa realidade. O tempo é implacável e esculpe em nossa face rugas indisfarçáveis. Cada fio de cabelo branco que brota em nossa cabeça é a morte nos chamando para um duelo. Os anos pesam sobre nós como chumbo, deixando nossas pernas bambas, nossos braços fracos e nossos olhos embaçados. A velhice é uma realidade inescapável. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos estar frente a frente com ela, a não ser que a morte nos visite precocemente. A questão não é envelhecer, mas como envelhecer. A velhice pode ser uma bênção ou uma maldição; um campo de delícias ou um deserto de sofrimento; uma colheita farta ou uma frustração incurável. Muitas pessoas envelhecem com amargura. Tornam-se revoltadas com a vida e amargam na velhice uma dolorosa solidão. Outras, porém, tornam-se doces, sábias e fazem dessa fase outonal os anos mais extraordinários da caminhada. Os velhos podem ser cheios do Espírito e nutrir grandes sonhos na alma. Podem olhar para frente e ter projetos, em vez de apenas celebrar as conquistas do passado. Podem influenciar a nova geração em vez de apenas enaltecer o passado. A velhice é um privilégio, uma bênção, uma dádiva de Deus. Devemos desejá-la e recebê-la com gratidão!

GESTÃO E CARREIRA

O PAPEL DE DESTAQUE DA KLABIN

Maior produtora e exportadora de embalagens do Brasil amplia suas vendas e encontra um caminho no comércio eletrônico. A missão, agora, é manter o crescimento em um cenário de incertezas para a indústria.

Um bom termômetro para aferir a temperatura do varejo no Brasil, ainda mais no momento de crise provocado pela pandemia da Covid-19, é a produção de embalagens. A enorme procura em supermercados, somada ao crescimento do e-commerce no País após o início do isolamento social, criou um cenário positivo para a indústria de papel e celulose. Se há mais encomendas de embalagens, há aumento nas vendas. Nesse quesito, pode-se dizer que a Klabin ocupa papel de destaque. Nos primeiros três meses do ano, a companhia, que é a maior produtora e exportadora de papéis para embalagens do Brasil, cresceu 8% em volume em relação ao primeiro trimestre de 2019, com 849 mil toneladas comercializadas, performance pouco acima do observado para a toda a indústria do setor, que obteve alta de 7,5% no período. “Tanto no primeiro quanto no segundo trimestre, tivemos vendas maiores em todos os segmentos”, disse o CEO da Klabin, Cristiano Teixeira.

Foi no setor de bens não duráveis, como alimentação, bebidas e farmacêutico, que a utilização de embalagens de papel cresceu significativamente. No segundo bimestre de 2019, representava 79% do total comercializado. No mesmo período deste ano, pulou para 85%. No on-line, a alta foi impulsionada pelo acréscimo de cerca de 5,7 milhões de novos consumidores, segundo estudo da Neotrust/Compre&Confie, que foram às compras durante a pandemia. Mais consumo pelo computador reflete em mais embalagens.

Na plataforma virtual da companhia, o reflexo foi percebido desde o início da quarentena. Entre março e junho, o fluxo de visitas na rede da Klabin cresceu 60%. Nos últimos dois meses, a venda de embalagens personalizadas para food service delivery e take away quadruplicou, o que já representa 15% das vendas de embalagens do site. A Klabin registrou, nos primeiros três meses deste ano, R$ 2,6 bilhões de receita líquida, alta de 4% em relação ao primeiro trimestre de 2019. Metade do resultado vem da exportação dos produtos e a outra, do mercado interno. A empresa também está entre os maiores fornecedores do mundo de papel-cartão para a gigante sueca Tetra Pak, líder global de embalagens de alimentos e produtos líquidos.

Única da América do Sul a fornecer à companhia sueca, ampliou sua participação a partir da necessidade de mais insumos para atender à demanda mundial. “A Klabin foi a empresa mais preparada para reagir à demanda da Tetra Pak e conseguiu operar com 30% mais vendas do que o normal”, afirmou Teixeira. A perspectiva, no entanto, é de que haja acomodação no segundo semestre, devido à estabilidade de consumo, diferentemente do cenário percebido nas primeiras semanas após o início do confinamento.

E-COMMERCE

Segundo a presidente da Associação Brasileira do Papelão Ondulado, Gabriella Michelucci, o estoque inicial de suprimentos, feito no início da pandemia, e a corrida pelo computador explicam o crescimento inicial. “Antes da pandemia, o e-commerce representava de 4% a 5% das vendas do varejo. Hoje, chega perto de 7%, o que mostra o crescimento da demanda por papelão”, disse Gabriella. A perspectiva de crescimento em 2020 é bem mais tímida, na casa de 0,3% sobre os 3,6 milhões de toneladas de papelão ondulado expedidos pelas empresas do setor, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas encomendada pela ABPO. Levando-se em conta que o Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher 6,5% no ano, segundo o Boletim Focus, o saldo positivo do segmento, ainda que mínimo, pode ser visto como bom. “Esse resultado é de um cenário moderado, considerando a perspectiva para o segundo semestre. Depende, também, de como será o consumo daqui em diante”, afirmou ela.

Se, por um lado, houve acréscimo de vendas de papéis e embalagens a partir das vendas on-line, por outro, a pandemia trouxe diminuição no volume de sacos de cimento – setor do qual a Klabin tem 60% do mercado. É que, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Cimentos (SNIC), o mercado encolheu 5,8% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, em virtude da paralisação da construção civil por causa da crise do coronavírus. Com a retomada gradual, a expectativa é de que nos próximos meses o volume volte a patamares registrados antes da pandemia.

INVESTIMENTO

Foi em 2019, num cenário em que ainda se falava em crescimento da economia e não em recessão, que a companhia fez o maior anúncio de investimento de sua história: o projeto Puma II, pelo qual serão alocados, até 2023, R$ 9,1 bilhões para a construção da unidade onde serão instaladas duas máquinas de papéis para embalagens, com capacidade anual de 920 mil toneladas. Dos R$ 820 milhões de investimentos realizados no trimestre, R$ 527 milhões foram destinados ao Puma II. Mas nem tudo foi positivo para a Klabin em 2019. No início do ano passado, a companhia assistiu ao anúncio da fusão da concorrente Suzano com a Fibria, que resultou na maior empresa produtora de celulose de eucalipto do mundo, o que fez com o preço do papel atingisse preços abaixo do esperado, por causa do grande volume de material estocado pela empresa. “Os preços não se recuperaram até então, em virtude do aumento do estoque da Suzano”, afirmou Cristiano Teixeira.

Para aumentar sua participação no mercado, a Klabin concretizou, em março, a aquisição da unidade de negócios de embalagens da International Paper no Brasil, por R$ 330 milhões. Com a compra, que ainda aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a empresa aumentará o market share de 18% para 24%, além de alcançar capacidade instalada de 1 milhão de toneladas de papel ondulado ao ano. Com 18 unidades industriais no Brasil e uma na Argentina, a companhia é responsável por 498 mil hectares, dos quais 240 mil hectares são de mata nativa. Segundo a empresa, são preservadas 883 espécies de animais e quase 1,9 mil de plantas, além de 258 mil hectares de área plantada de eucalipto e pinus, de onde saem os seus produtos.

De um lado preservação ambiental, de outro a aposta em inovação. Uma das mais recentes iniciativas surgiu no centro de tecnologia da companhia, no Paraná. Pesquisadores da empresa, em parceria com o Instituto Senai de Inovação, desenvolveram uma formulação inédita de álcool gel a partir de celulose microfibrilada, que substitui o carbopol, elemento químico essencial para a produção e que começou a faltar no mercado, por causa da grande demanda. Foram produzidas 4 toneladas para distribuição a 24 mil profissionais de Saúde no País. Não está nos planos da companhia produzir álcool gel, mas sim fornecer o insumo para empresas do segmento.

Os números da Klabin e do próprio segmento de papel e celulose poderiam ter sido bem diferentes no período de isolamento, não fosse por um detalhe: inicialmente, o setor de papel e celulose não foi considerado como essencial pelo governo federal, mesmo sendo fundamental para garantir a manutenção de boa parte da cadeia varejista brasileira. Foi necessário que o CEO da companhia avisasse a ministros, por carta, que para o varejo seguir vendendo seria necessário ter papel para embalar os produtos. “Não adianta ter o ovo se não tem a caixa do ovo”, disse Teixeira. Gabriella, da ABPO, endossa. “Se não houvesse a liberação da fabricação de embalagens, haveria uma ruptura total para a indústria.” Foi preciso alguém dizer isso para que o presidente da República e sua equipe chegassem à conclusão elementar que, sem papel, não tem entrega.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RAÍZES DA VIOLÊNCIA

Neurotransmissores e hormônios participam de um complexo mecanismo que constitui as bases biológicas da agressividade

Em Boston, há uma lanchonete onde, antes de comer, é preciso brigar. Trata-se de uma caixa transparente dentro da qual duas drosófilas disputam um pratinho de levedo em meio a golpes de patas e investidas furiosas. Os encontros deste bizarro clube de lutas, administrado por Edward Kravitz, neurobiólogo da Faculdade de Medicina de Harvard, são meticulosamente registrados em vídeo. O objetivo é estudar as bases biológicas da agressividade, uma das expressões mais antigas e comuns a todas as espécies, cujos mecanismos desencadeantes permanecem, porém, um enigma.

Os modelos animais ajudaram pesquisadores a compreender patologias como câncer e diabetes e são hoje indispensáveis no desenvolvimento de todos os tratamentos modernos. No entanto, só nos últimos anos adquiriram importância na pesquisa sobreo comportamento humano. Isso porque as novas tecnologias de análise molecular, trazendo à luz a complexa rede de circuitos bioquímicos por trás de cada pulsão, permitem identificar pontos comuns a várias espécies.

“À primeira vista, a drosófila é muito diferente do homem, mas é um ótimo ponto de partida para isolar as moléculas que suscitam comportamentos agressivos porque conhecemos todo o mapa do seu DNA e muitos dos seus genes encontram correspondência no “genoma humano”, observa Kravitz.

Fáceis e econômicas de criar, essas moscas-das-frutas têm também a vantagem de apresentar comportamentos diferentes conforme o sexo – machos e fêmeas combatem de maneiras distintas, com esquemas reconhecíveis com base nos movimentos de cada um.

Numa pesquisa publicada recentemente nos Proceedings of the National Academy of Sciences, Kravitz demonstrou que, modificando geneticamente os neurônios de um inseto macho, podiam ser atribuídas ao seu cérebro as características cerebrais de uma fêmea em idade adulta. Muitos dos comportamentos dessas moscas alteradas, desde os sexuais aos rituais de corte, mudavam para se assemelhar aos das fêmeas. Apesar disso, seu modo de combater permanecia o mesmo.

ORIGENS COMUNS

“É a primeira prova experimental de que, modificando um gene, se influi também sobre um comportamento”, observa Bruce Baker, biólogo da Universidade Stanford. Com o colega Kravitz, Baker estuda o papel da galanina, um dos principais neurotransmissores envolvidos no estímulo de agressividade e galanteio. “Significa também que a agressividade é um traço extremamente conservado ao longo do processo evolutivo, e depende de mecanismos que se desenvolvem muito cedo, antes mesmo da determinação do sexo.

Os comportamentos podem ser muito diferentes de uma espécie para outra, mas parece claro que as moléculas na base desses estímulos são as mesmas.”

Os pesquisadores empregam técnicas de engenharia genética para obter animais knock-out – privados de um gene de que se quer estudar a função -, ou knock-in, quando a sequência de DNA é aumentada. No entanto, a ideia de que existam “genes da violência” hoje está descartada. Mais atenção vem sendo dada a um grupo de neurotransmissores que têm como característica comum a presença, no interior da própria estrutura molecular, do aminoácido triptofano. No entanto, há muitas outras moléculas que contribuem na modulação da intensidade da resposta agressiva.

Klaus Miczek, da Universidade Tufts, e Craig C. Ferris, da Universidade de Massachusetts, concentraram a atenção em dois neurotransmissores: serotonina e vasopressina. Em muitas espécies, entre elas o ser humano, baixos níveis de serotonina correspondem a comportamentos agressivos. Os ratos, por exemplo, atacam muito mais facilmente outro animal depois de consumirem substâncias que estimulam os receptores serotonérgicos, impedindo o cérebro de metabolizar a molécula. Ao contrário, drogas como a feniluramina, que estimulam esses receptores, diminuem a frequência dos comportamentos agressivos.

MAIS FORÇA

Se saturar os receptores de serotonina reduz a agressividade, a vasopressina, ao contrário, a alimenta, agindo diretamente sobre o hipotálamo, região do cérebro onde têm origem muitos estímulos comportamentais. Na década de 90, estudos clínicos conduzidos por Emil F. Coccaro, da Universidade da Pensilvânia, mostraram que também no ser humano a escassa secreção de serotonina é acompanhada de agressividade.

Os instintos agressivos seriam, portanto, simplesmente provocados pela carência de uma molécula? A química da violência parece mais complexa.

“A serotonina desempenha papel central no controle da agressividade em todos os mamíferos, e conhecemos pelo menos 14 receptores diferentes no cérebro humano”, observa o neurobiólogo Robert Sapolsky, da Universidade Stanford. “Muitas outras moléculas potencializam o comportamento agressivo. Entre elas a dopamina, adrenalina e noradrenalina, que aumentam o metabolismo e a força. Também a testosterona contribui, mas não tanto quanto se pensa. Nas fêmeas, é muito importante a relação entre progesterona e estrogênio liberados no sangue.” Nos mamíferos de ambos os sexos, além disso, altos níveis de estrogênio podem alterar o equilíbrio d o “eixo do stress”, constituído por hipófise, hipotálamo e glândulas supra renais, estas responsáveis pela secreção de glicocorticoides, conhecidos como hormônios do stress.

Em 2004, estudos conduzidos com gatos pelo neurologista Alan Siegel, da Universidade de Nova Jersey, demonstraram que também algumas moléculas do sistema imunológico, como as citocinas, são capazes de potencializar o comportamento agressivo, da mesma forma que outros neurotransmissores como o ácido gama­ aminobutírico (CABA) e diversos neuropeptídeos. A serotonina permanece, de qualquer modo, o detonador principal de cada resposta agressiva, e por isso as pesquisas se concentram nos ratos, que têm receptores cerebrais extremamente semelhantes aos dos humanos.

Hoje é também possível criar roedores geneticamente modificados que apresentam traços típicos de problemas psiquiátricos complexos como a depressão e a esquizofrenia, mas os resultados destas pesquisas devem ser interpretados com cuidado. “Desenvolver modelos animais para estudar os distúrbios humanos é um instrumento muito importante para compreender as bases dos distúrbios psiquiátricos, mas os resultados obtidos devem ser interpretados com cautela”, explica o neurocientista Alessandro Bartolomucci, do Instituto de Neurociências do Conselho Nacional de Pesquisa de Roma. Segundo ele, “o estudo dos neurotransmissores e dos genes implicados em tais distúrbios podem dar apenas indicações sobre os mecanismos biológicos de base na espécie estudada. Dada a semelhança de estruturas e funções existentes entre os vertebrados, é provável que tais mecanismos sejam altamente conservados também no homem, mas isso deve ser verificado experimentalmente. No que diz respeito aos ratos transgênicos, por sua vez, modificar um ou mais genes produziria animais com características análogas às de um paciente psiquiátrico, mas quase nunca podemos reduzir uma síndrome complexa à disfunção de um só gene”.

A própria definição de agressividade ainda não foi estabelecida pela comunidade científica. “Nos animais, a agressividade é tipicamente medida pela frequência dos ataques dirigidos a um intruso que ultrapasse os limites do seu território. Mas é uma medida indireta, porque a agressão é um comportamento, enquanto a agressividade é o estado motivacional, um conjunto das alterações neuroquímicas e fisiológicas que estão na base da agressão”, diz Bartolomucci.

O limite conceitual é evidente também no Manual Diagnóstico e estatístico de Transtornos Mentais (DSM­IV), que cita os comportamentos agressivos como sintoma de vários distúrbios psiquiátricos, mas não dá uma definição convincente da agressividade, como acontece para a depressão. “Estamos diante de um fenômeno complexo, desencadeado por razões diversas, que evoluiu como resposta a pressões seletivas muito diferentes, da defesa do território à sexualidade, mas é também modulado e atenuado por fatores sociais. Felizmente, na maioria dos casos a agressividade pode ser inibida e não desembocar em comportamentos violentos”, observa Bartolomucci.

Nos países anglo-saxões, há uma grande atenção para o excesso de agressividade de crianças e adolescentes, muitas vezes descrito com a expressão inglesa bullying, que remete às atitudes agressivas a experiências sociais nos primeiros anos de vida do indivíduo (ver quadro abaixo). No entanto, estudos recentes indicam que também as relações sociais entre adultos contam muito. As pesquisas de Sapolsky e Share com macacos silvestres mostraram que, depois da morte por doença dos machos dominantes e mais violentos, as fêmeas preferiam aqueles menos agressivos. Além disso, os pesquisadores constataram que, depois de dois anos da ausência dos mais agressivos, o grupo repudiava novos indivíduos muito violentos.

Àmedida que as bases biológicas da agressividade se tornam mais claras, ganha força a hipótese de tratar e controlar os comportamentos muito violentos com uma nova classe de drogas que estimulam os receptores de serotonina, conhecidos como serenics. Hoje, a atenção é dirigida aos inibidores seletivos de recaptação da serotonina, usados como antidepressivos. O objetivo é modular os impulsos de maneira específica, sem induzir os pacientes a um estado de apatia. A fluoxetina já se demonstrou eficaz em alguns casos, assim como outras moléculas que agem sobre o receptor 1B da serotonina, mas ainda com muitos efeitos colaterais.

MAIS OTIMISMO

A possibilidade de expandir o emprego desses inibidores entrou, porém, em compasso de espera no fim do ano passado, quando a FDA, agência americana que regulamenta alimentos e medicamentos, verificou uma relação entre o uso de fluoxetina e a frequência dos suicídios em adolescentes tratados por síndromes depressivas.

O freio principal aos investimentos no desenvolvimento de drogas nesse campo deriva, porém, da impossibilidade de registrar novas moléculas para regular a agressividade. A FDA aprova, de fato, somente fármacos destinados ao tratamento de patologias específicas, mas, como já se disse, o DSM-IV não dá uma definição da agressividade como distúrbio patológico. O único estudo clínico específico iniciado por uma empresa farmacêutica é aquele sobre o uso da eltoprazina para controlar a agressividade de pacientes paranoicos e esquizofrênicos efetuado por uma empresa que, no entanto, arquivou o projeto em 1994.

Se os laboratórios não investem, os pesquisadores parecem, porém, mais otimistas. Sapolsky recentemente propôs uma terapia gênica voltada para modificar a secreção de CRH, hormônio que induz a hipófise a liberar cortisol e influencia o equilíbrio dos estrogênios. Segundo ele, seria tecnicamente possível inserir genes por meio de drogas em alguns neurônios, a fim de controlar a resposta ao stress e também à agressividade. Seja qual for o caminho tomado pela pesquisa para novos tratamentos, os cientistas são os primeiros a lembrar que o controle farmacológico da agressividade é um terreno delicado do ponto de vista ético. Quem sofre de agressividade patológica poderia se beneficiar, mas sempre há o risco de encorajar o tratamento de um grande número de pessoas cujo comportamento agressivo é determinado não por disfunções bioquímicas, mas por fatores sociais.