EU ACHO …

MORAR NOS EUA OUNA CHINA?

A democracia imperfeita ou a estabilidade do partido único

O futuro é asiático. Este é o título bem direto de um livro de Parag Khanna, americano de origem indiana. Motivo número 1: “Demograficamente, o futuro já é asiático. Mais de 50% da população mundial vive na Ásia”. Número 2: “De 35% a 40% da economia mundial está na esfera asiática”. Terceiro, não mencionado pelo autor, mas provocante: a China, principal motor e a locomotiva dessas transformações, almeja oferecer aos vizinhos, próximos ou mais distantes, um modelo de desenvolvimento e de sistema político. Uma espécie de “capitalismo controlado pelo partido” em que a estabilidade compensa a ausência de democracia.

Desde que a crise do coronavírus escapou da China e contaminou o planeta, os órgãos de propaganda do regime e seus apaniguados no mundo acadêmico ocidental aceleraram a mensagem. O principal argumento é o que transparece superficialmente no mapa-múndi. De um lado, o país onde tudo começou conseguiu conter a epidemia na faixa dos 4.500 mortos. Os tropeços iniciais foram corrigidos, a economia sofreu sem sair do eixo e o grande líder Xi Jinping comandou a importante vitória estratégica – palavras dele numa reunião de cúpula do Partido Comunista – contra o vírus. Do outro lado, o país cujo modelo político propiciou o florescimento da mais poderosa potência da história parece mal das pernas. A Covid-19 matou mais de 210.000 americanos, Trump conseguiu provocar mais desunião ainda mesmo acometido pela doença viral, o caos social com origem racial proporcionou cenas inacreditáveis e metade do país odeia a outra metade. Acima de tudo, os EUA parecem ter perdido a narrativa que assegurou sua hegemonia econômica, científica, militar e artística, a do país iluminado como um farol no alto de um morro, irradiando um sistema de liberdade e progresso como jamais houvera, ancorado numa Constituição criada por gênios e à prova de idiotas, pacote fechado e bem-sucedido. É claro que esse quadro foi exagerado, para o bem e para o mal, com fins de salientar a argumentação. E, acima de tudo, é para os EUA que os pobres, oprimidos e também remediados de todo o mundo sonham emigrar, nem que seja clandestinamente. É melhor fritar hambúrgueres na América do que desfrutar a estabilidade pseudoconfuciana promovida pelo partido único. Excetuando-se as elites globais que circulam em todas as esferas e nelas reproduzem seu modo privilegiado de vida, a China no máximo é um destino sonhado pelos norte-coreanos, submetidos a uma versão mais catastrófica e alucinada do que foi o maoismo.

O modelo chinês é impensável nas democracias avançadas. Faz mais sentido em países asiáticos sem currículo democrático ou até na África, onde a China investe pesado e monta uma teia de acordos que reproduzem, à chinesa, os métodos de cooperação – e cooptação – que propiciaram a hegemonia americana. A teia já está sendo tecida também bem no quintal latino-americano dos EUA. “No século XIX, o mundo foi europeizado”, escreve Parag Khanna. “No século XX, foi americanizado. Agora, no século XXI, o mundo está sendo irreversivelmente asiaticanizado.” Vamos chorar de saudade do imperialismo americano?

*** VILMA GRYZINSKI                

OUTROS OLHARES

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS

A massa de farinha e água que veio da Itália tem sido a base de milhões dos onipresentes panetones produzidos no Brasil nos últimos setenta anos

Esta é a história extraordinária de uma simples massa de pão. Há setenta anos, o imigrante Carlo Bauducco trouxe de Turim, no norte da Itália, uma mistura de textura viscosa e cheiro ácido, feita à base de farinha e água. Desde então, ela é tratada como a joia na empresa brasileira que leva seu sobrenome, ícone da indústria alimentícia. Chamada de massa madre, é ela que dá origem a todos os panetones da marca, que só neste ano atingiram a marca recorde de 80 milhões de unidades. A iguaria fica acondicionada em uma sala climatizada de 144 metros quadrados. Como nos berçários, há uma janela de vidro para que possa ser admirada. Todos os dias, é alimentada rigorosamente com mais água e farinha, incluindo feriados e fins de semana, de forma a manter volume suficiente para dar conta de tamanha produção. Pequenos pedaços lhe são extirpados e acomodados em cestos forrados com lençóis, que vão para estufas quentinhas. Depois de um tempo de descanso para crescerem mais um pouco, são incrementados com ovos, açúcar e recheios. A mistura vai ao forno e assim, a partir dessa multiplicação, nascem os pães natalinos que, eis algo nada milagroso, começam a invadir as gôndolas dos supermercados muito antes de dezembro – aliás, já estão aí.

Dos mais artesanais aos totalmente industrializados, os panetones pertencem a um ramo fértil no mercado de alimentos no Brasil. São dezenas de marcas que movimentam por volta de 735 milhões de reais ao longo dos três meses de venda. O levantamento mais recente da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados mostra que o consumo per capita dos brasileiros é de 440 gramas, o equivalente a um panetone inteiro. É metade em relação à Itália, o país de origem da receita, mas, considerando-se o tempo em que o alimento está na mesa dos italianos, o alcance brasileiro é extraordinário.

Uma das lendas sobre sua criação original remonta ao século XV, na cidade de Milão. A receita teria nascido por acidente. Exausto após ter trabalhado horas a fio na véspera de Natal, um padeiro chamado Toni teria queimado os biscoitos que assava para a ceia de um duque. Com medo da reação, decidiu, então, sacrificar a massa que havia guardado para o pão. Acrescentou farinha, ovos, açúcar, passas e frutas cristalizadas, e levou ao forno. O duque batizou o pão doce de “panediToni” (pão do Toni, panetone). No Brasil a receita chegou com os imigrantes italianos após a II Guerra Mundial. Os brasileiros, porém, só foram seduzidos pelo sabor perfumado da massa graças às versões enriquecidas com gotas de chocolate, o chocotone. E vicejou uma relação que parece ter existido desde sempre.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE OUTUBRO

A INTIMIDADE DA MESA

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo (Apocalipse 3.20).

A igreja de Laodiceia era a mais rica igreja da Ásia Menor. Laodiceia era o maior centro bancário, o maior polo têxtil e o mais avançado centro oftalmológico da Ásia Menor. A cidade era tão rica que, no ano 46 d.C., mesmo sendo devastada por um terremoto, foi reconstruída sem recursos do império. Seus próprios cidadãos endinheirados reergueram a cidade. A igreja da Laodiceia era um reflexo da cidade. Também se sentia rica e abastada. Mesmo não sendo acusada por Jesus de nenhum desvio doutrinário e de nenhum deslize moral, a igreja estava provocando náuseas em Jesus por sua mornidão espiritual. À essa igreja Jesus diz: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Que Jesus nos convide a cear com ele, já é um fato maravilhoso; mas que ele queira cear conosco, é algo incompreensível. O Senhor da glória, o Criador do universo, quer assentar-se à mesa conosco e desfrutar de um tempo de comunhão. Aqueles que o recebem hoje na comunhão da mesa assentar-se-ão com ele no trono. Aqueles que desfrutam da intimidade da mesa reinarão com Jesus na publicidade do trono. Sua promessa é gloriosa: Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar- se comigo no meu trono… (v. 21a).

GESTÃO E CARREIRA

A SENHA É O LOCAL

Startup se instala no Vale do Silício para vender uma solução antifraude em meios de pagamento

De cada dez transações realizadas por dispositivos móveis em 2019, nove foram bloqueadas como tentativas de fraude, segundo um levantamento da empresa de tecnologia Upstream em 20 países. Para oferecer mais segurança ao mercado de pagamentos, que movimenta trilhões de dólares por ano globalmente, a startup brasileira Incognia criou uma solução que diz ser única no mundo: a biometria comportamental por localização. Trata-se de um conjunto de códigos de programação, ou API, que é baixado quando uma pessoa instala um aplicativo no telefone celular e permite rastrear sua localização. Com isso, se o cliente de um banco mora em São Paulo e faz uma transferência de valores no interior de Goiás, por exemplo, a instituição pode realizar uma checagem adicional antes de autorizar a operação.

Segundo André Ferraz, fundador e presidente da Incognia, a tecnologia de localização permite criar uma identidade digital para cada pessoa com base em seu comportamento físico. ”Para eu conseguir roubar sua identidade digital, eu teria de ir aos mesmos lugares e no mesmo momento que você, entrando em seu escritório ou em sua casa”, diz Ferraz. Ele acredita que, com o tempo, essa identidade digital possa substituir completamente o uso de senhas. ”Um sistema baseado somente em senhas é muito frágil.”

A lncognia é uma empresa derivada da ln Loco, startup criada por um grupo de alunos de ciência da computação da Universidade Federal de Pernambuco em 2010. A empresa começou oferecendo uma solução de geolocalização para empresas do varejo – pessoas que passam em frente a uma loja recebem no celular ofertas do local sem precisar fornecer seus dados pessoais. Em novembro de 2019, a startup abriu um escritório em Palo Alto, no Vale do Silício, com o nome de lncognia, como parte de seu plano de se tornar uma empresa global. ”Neste ano, queremos fincar nossa bandeira nos Estados Unidos”, diz Ferraz. Em 2021, a meta é faturar 10 milhões de dólares com a venda da solução para o setor financeiro no mercado americano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XIII

CASOS À PARTE

Saiba mais sobre o aparecimento de outras condições clínicas que podem acompanhar o Transtorno do Espectro Autista

A palavra pode causar certa estranheza, mas comorbidade nada mais é do que o aparecimento de outras condições clínicas ao mesmo tempo. Uma pesquisa realizada pelo Hospital Infantil de Miami, nos Estados Unidos, analisou cérebros doados de autistas que já haviam morrido.

Após estudá-los, os pesquisadores notaram que a epilepsia acontece em até 30% das crianças com autismo e que uma em cada 20 crianças que receberam o mesmo diagnóstico até os três anos pode ter o transtorno ou desenvolvê-lo mais tarde.

Em autistas, a comorbidade é relativamente comum e dificulta o diagnóstico certo dos distúrbios apresentados, como epilepsia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ansiedade, deficiência intelectual, entre outros. É preciso, então, que os profissionais envolvidos no diagnóstico e os pais e responsáveis dos pacientes prestem atenção e levem em consideração a possibilidade da presença de outros distúrbios, antes de bater o martelo para o diagnóstico do TEA.

A GENÉTICA INFLUENCIA A INCIDÊNCIA DE COMORBIDADES EM AUTISTAS?

Sim. Segundo a bióloga Danielle de Paula Moreira, pesquisas comprovaram que algumas alterações genéticas aumentam o risco da manifestação de uma comorbidade. Por exemplo, alterações que atingem a região cromossômica 15q11-q13 e a remoção da região 22q13. Envolvendo um certo gene, aumentam o risco de o indivíduo apresentar crises compulsivas, bem como as chances de 75% dos indivíduos terem hipotonia, condição que afeta o tônus muscular. Outro caso comum é quando o gene 15ql12 é removido, condição identificada em pacientes com epilepsia e TEA isolados. “Esses dados evidenciam a contribuição dos fatores genéticos, sendo que é variável a probabilidade de um indivíduo manifestá-las em conjunto ou isoladas”, explica Danielle.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

Geralmente envolve o trabalho de uma equipe de pediatras, neuropediatras, psiquiatras infantis e terapeutas, como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. Segundo Danielle, “os profissionais fazem as avaliações clínicas e psicológicas para investigar o quadro clínico completo apresentado pelo indivíduo”. O diagnóstico, porém, apresenta algumas dificuldades. Uma delas é o déficit de comunicação, fazendo com que aumente a necessidade de uma entrevista clínica precisa.

COMO AS COMORBIDADES AFETAM O DESENVOLVIMENTO DO AUTISTA?

A influência das comorbidades no indivíduo com TEA é variável. “Os pais relatam com certa frequência que, por exemplo, após a criança ter a primeira crise convulsiva, há uma grande regressão no desenvolvimento, resultando em uma maior dificuldade na coordenação motora, além da comunicação verbal”, conta. Há relatos ainda de indivíduos com TEA e epilepsia, com uma gravidade maior do quadro clínico. Esses casos são mais graves e há uma grande influência no desenvolvimento intelectual, quando comparados com indivíduos que possuem apenas o transtorno.

É POSSÍVEL TRATA-LOS?

Sim. Segundo a bióloga, em 90% dos casos, após o tratamento, os indivíduos podem não voltar a manifestá-las. “Cada comorbidade é tratada exclusivamente e o prognóstico sempre depende de como o indivíduo responde ao tratamento e à terapia adotada”, explica.

Em casos de distúrbios gastrointestinais, como refluxo, diarreia e constipação, normalmente não há a necessidade do uso de medicamentos por tempo prolongado. As epilepsias são tratadas com remédios administrados pelo tempo que for necessário para manter as crises de convulsão controladas.

Danielle conta que o mais importante é que a intervenção seja feita precocemente, logo que os pais começarem a observar sinais que possam indicar uma comorbidade. “O tratamento e as terapias adequadas, o que pode variar entre os diferentes casos, são o mais importante para que haja a melhora tanto das comorbidades quanto do quadro do TEA”, salienta.

QUAL É A RELAÇÃO ENTRE O AUTISMO E O TDAH?

Um estudo feito no Departamento de Psiquiatria do Centro Médico Penn State Milton S. Hershey, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, demonstrou que o Transtorno Do Espectro Autista e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) podem ser diferenciados por meio da identificação de perfis e sintomas. A pesquisa, publicada em 2012, envolveu 847 crianças com autismo e 158 com TDAH, de idades entre dois e 16 anos, e a aplicação de um questionário com 30 itens relacionados aos sintomas do TEA. Os voluntários com autismo apresentaram 15 sintomas ou mais, enquanto a média das crianças com TDAH foi de quatro sintomas. Por outro lado, os traços de TDAH foram mais frequentes nos autistas. Este resultado explica a frequência de diagnósticos errados nos portadores do TEA. A confusão é comum por causa da similaridade dos sintomas, já que os portadores dos dois distúrbios podem apresentar irritabilidade, raiva e problemas de comportamento, além de velocidade lenta de processamento, dificuldade de aprendizagem na expressão escrita e problemas de coordenação.

QUAL É A FREQUÊNCIA DE COMORBIDADES EM AUTISTAS?

Segundo a bióloga Danielle de Paula Moreira, “mais de 70% dos indivíduos com o TEA apresentam alguma comorbidade, envolvendo distúrbios neurológicos, psiquiátricos, condições gastrointestinais, entre outros”. É importante salientar, porém, que há ainda a possibilidade de o paciente não apresentar comorbidades. As mais comuns são:

DISTÚRBIOS DO SONO: entre 50% e 80% de chances;

PROBLEMAS MOTORES: aproximadamente 70% de chances;

DEFICIÊNCIA INTELECTUAL: 45% de chances;

EPILEPSIA: 30% de chances;

TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE (TDAH): entre 28% e 44% de chances;

DISTÚRBIOS GASTROINTESTINAIS: 10% de chances.

EU ACHO …

O PADEIRO DE LOS ANGELES

                Um desempregado se salvou com pães – e quem não tem chance?

O Gjusta é um dos melhores cafés de Los Angeles, onde vivo. Durante a pandemia, suas portas estiveram fechadas. E então o padeiro Jyan Isaac, de apenas 19 anos, ficou desempregado e resolveu alugar um forno de um imóvel onde funcionava uma pizzaria e fazer pão para a vizinhança. Foi um sucesso. Ganhou notoriedade e uma legião de pessoas que encomendavam seu delicioso pão. O Los Angeles Times fez

matéria de página inteira e manchetou: “Fazendo pão para ganhar o pão de cada dia”. E daí? Bem, e daí que estou um pouco cansado (o.k., serei honesto: de saco cheio) do uso destas histórias para

perpetuar exploração. Nada contra narrativas lindas como a de Isaac — de verdade, eu me emociono. Quero inclusive ir experimentar o tal pão. O problema é o exército de “líderes” motivacionais que vendem a ideia de que basta querer para conseguir (e dizer isso não quer dizer que não é preciso querer para conseguir).

Uma das deputadas brasileiras que mais admiro é a Tabata Amaral, de origem simples da periferia de São Paulo e que ganhou bolsa de estudos em Harvard. Sua trajetória é repetida à exaustão, mas sempre omitem o que a própria Tabata reafirma: ela é exceção e não regra. Sim, e volto a Los Angeles: relatos como o do padeiro são evocados na melhor das intenções, pretendem motivar as pessoas a encontrar o padeiro dentro de si. Têm, contudo, um efeito perverso: e quem não tem essa possibilidade?

O mundo está em um poço de desesperança tão profundo que muito dificilmente funcionará um discurso de guru de executivo de Instagram para que a civilização se reencontre. Seja qual for o lado ideológico — liberal, comunista, fascista —, há um ponto em comum: todos se apoiam em ilusões para vender ideias. Cada um constrói o seu castelo de areia como quer, seja gritando por direitos sem maiores preocupações em como garanti-los, seja vendendo pote de ouro no final do arco-íris como se as oportunidades fossem iguais para todos. Enquanto alguns ficam brincando de cabo de guerra, nossa vida é atropelada, atrelada a um certo saudosismo por um passado autoritário e também a uma revolução tecnológica que não autoriza concessões. As redes sociais prometeram unir as pessoas — mas, a rigor, as separam. Os jovens ficam cada vez mais dependentes de ilusões do Instagram, em alguns casos as taxas de suicídio disparam, e a vida de verdade passa lá fora, com uns poucos ficando cada vez mais ricos.

No início deste mês, o LAX, o aeroporto de Los Angeles, foi fechado porque um piloto da American Airlines viu uma pessoa voando com um jetpack, aquela mochila com propulsão, como nos filmes. Um vídeo que circula na internet mostra pessoas bebendo num Tesla, porque o carro, autônomo, vai sozinho pela estrada. Um aplicativo chamado Citizen faz sucesso por aqui, como uma rede social de segurança, que testemunha, enquanto outros comentam e aplaudem, feito torcida de futebol.

O mundo como o conhecíamos morreu. Vender ilusões não nos reinventará. Lembro do meme de um passarinho cantando na gaiola. Para muitos, o canto é lindo, mas quem sabe o passarinho não está protestando pela sua liberdade?

***FERNANDO GROSTEIN ANDRADE

OUTROS OLHARES

COM OS PÉS NO CHÃO

Sinônimo de feminilidade ao longo dos últimos séculos, o sapato de salto alto vem perdendo a preferência entre as mulheres – é decisão estética e política

Do cume de sua sinceridade e autossuficiência, o designer francês Christian Louboutin não vacilou um segundo quando lhe indagaram a respeito da obra-prima assinada por ele, o stiletto de salto alto, imitado à exaustão:” Nenhum sapato com salto de 12 centímetros é confortável, mas as pessoas não me procuram para ter um par de chinelos. Não quero que olhem para minhas peças e exclamem: ‘São realmente confortáveis!’. O importante é que digam: “Uau, são lindos!”. Corria o mês de fevereiro, naquele outro mundo antes da pandemia, e o estilista celebrava a inauguração de uma exposição retrospectiva em Paris como celebração de seus trinta anos de trabalho. Louboutin estava nas nuvens, ao ser tratado como um Matisse ou um Picasso, e de lá não sairia, por merecimento e influência – apesar das dores impostas às articulações femininas. Mas eis que veio o vírus para mudar inapelavelmente o eixo do planeta, inclusive na moda. E o salto alto teve de descer ao chão, modestamente – sobretudo os mais altos e de espessura finíssima, verdadeiras agulhas.

O tropeço foi grande. A consultoria americana NPD Group estimou a queda de venda desses modelos no segundo trimestre de 2020 na casa dos 70% em comparação ao ano passado. Não se trata apenas de um efeito colateral das quarentenas impostas ao longo deste ano e que tornaram a vida em escritório, festas e todo tipo de encontro impraticável. Trata-se de uma nova faceta da moda que exalta a casualidade nos estilos e a valorização do conforto. A ideia, a rigor, já vinha sendo desenhada. Em 2019 registrara-se uma derrapada desse tipo de artigo em torno de 12% em relação ao ano anterior.

E o que anda por aí, como substituto? As versões que ganharam espaço são em especial as desenhadas com bico largo, que dá segurança ao pisar. A celebração da elegância desses sapatinhos mais básicos acaba de ser referendada pelas semanas de modas mais aguardadas do mundo, em Londres, Milão e Paris, ocorridas entre o fim de setembro e o início deste mês de outubro. Nas passarelas, marcas como as francesas Chanel e Dior e a italiana Prada exibiram volumoso número de modelos ao rés do chão. “A passarela está cada vez mais conectada com o que se usa nas ruas. Na vida real ninguém mais acha aceitável equilibrar-se sobre sapatos desconfortáveis para sugerir elegância ou poder”, diz a consultora de moda Mônica Boaventura. A mudança é emblemática, já que boa parte da sedução (para homens e mulheres) do salto alto, aquela louvada por Louboutin, é concentrada no gingado para manter-se firme sobre alturas.

Convém acompanhar a atual reviravolta com olhar enciclopédico. O salto alto foi criado para os homens. Entre soldados persas no século X, eles eram grandes aliados por elaborar uma espécie de trava nos estribos dos cavalos, o que permitia uma maior segurança ao disparar flechas. Ganhou requinte somente no reinado de Luís XIV (1643-1715), da França, quando se tornou símbolo de nobreza e glamour. As mulheres só passaram a adaptá-lo ao seu gosto alguns anos depois, e então eles foram progressivamente deixando de vesti-lo, abrindo alas para o universo feminino. Hoje, decidir calçar ou não plataforma de tanta altitude virou manifesto. Diz a consultora de estilo e professora do Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo, Tathiana Santos: “Ao questionar o uso do salto alto, as mulheres não estão demonizando o acessório, mas apenas defendendo o direito de usá-lo apenas por estilo, quando bem quiserem”. Assim caminha a humanidade, ora lá em cima, ora cá embaixo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE OUTUBRO

OS QUE MORREM NO SENHOR SÃO MUITO FELIZES

… Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham (Apocalipse 14.13).

A morte é a maior de todas as certezas. É o sinal de igualdade na equação da vida. Chega para todos: grandes e pequenos, ricos e pobres, doutores e analfabetos. A morte é o rei dos terrores. Sempre espalha medo e dor por onde passa. Não respeita idade nem posição social. Chega abruptamente, sem pedir licença. Precisamos enfrentar essa adversária até o último dia. A morte é o último inimigo a ser vencido. Parece algo estranho e paradoxal falar sobre morte e felicidade ao mesmo tempo. Mas a Bíblia diz: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor… para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham. Não são felizes todos os mortos, mas apenas aqueles que morrem no Senhor. Para eles, a morte não tem a última palavra. Para eles, a morte já foi vencida. Para eles, a morte não é um fim trágico, mas um começo glorioso. Morrer no Senhor é descansar das fadigas. Morrer para o cristão é lucro. É deixar o corpo para habitar com o Senhor. É partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Aqueles que morrem no Senhor entram imediatamente no gozo da bem-aventurança eterna. Ainda mais porque, embora tenham sido salvos pela graça, independentemente das obras, levam suas obras para o céu.

GESTÃO E CARREIRA

FAÇA VOCÊ MESMO O SEU NEGÓCIO

O isolamento social está impulsionando a criatividade e o empreendedorismo doméstico. Uma pesquisa do Facebook Audience Insights revela que no Brasil existem aproximadamente 30 milhões de pessoas interessadas em “faça você mesmo”, com 70% da demanda puxada pelas mulheres. Entre os temas mais procurados está a convivência com os filhos. Segundo a empresária Paula Zukerman, dona de uma página sobre dicas de lifestyle e família, a procura por dicas de como ter uma vida mais leve cresceu 30% na pandemia. “O propósito é mostrar que é possível ter uma vida normal e, com o que tiver disponível, fazer desse limão uma limonada. Temos que tornar a vida das pessoas mais leve, dentro de casa.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XII

ACEITAR, ENTENDER E INCLUIR

A importância de associações que fornecem apoio e orientações necessários para uma melhor qualidade de vida do autista e seus familiares

Só no Brasil estima-se que haja, aproximadamente, dois milhões de crianças dentro do espectro autista (em uma proporção de uma pessoa com autismo para 110 sem o transtorno, de acordo com dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, órgão norte-americano de saúde. Mesmo assim, entre o grande público, falta a conscientização de que o transtorno necessita do maior apoio e cuidados possíveis da parte dos pais e responsáveis. Devido aos sintomas característicos de dificuldades de interações sociais, no domínio da linguagem, atrasos da coordenação motora e outros comportamentos compulsivos e repetitivos, os pais devem sempre buscar a melhor qualidade de vida possível por meio da inclusão em escolas e, também, alguns cuidados em relação à própria convivência em casa com a criança.

MEU FILHO TEM AUTISMO, E AGORA?

É comum surgirem dúvidas a respeito de como vai ser o futuro do filho a partir do momento em que se descobre o TEA – se a sociedade vai aceitá-lo do jeito que ele é, se há algum tratamento, remédio, escolas que proverão uma educação e inclusão de qualidade.

A ansiedade de ter que lidar com todos esses novos questionamentos pode tomar conta dos familiares no início. Porém, hoje o apoio para as pessoas com autismo está cada vez mais presente na sociedade. Organizações não governamentais dedicadas exclusivamente à causa do autismo estão prontas para amparar tanto a pessoa com TEA como toda a família. A psicopedagoga Sheila Leal explica que “trabalhar a independência em qualquer criança é fundamental, desde que ela tenha todos os requisitos do desenvolvimento neurobiológicos e nenhum comprometimento motor que a impossibilite de realizar as atividades básicas”.

QUAIS OS CUIDADOS QUE OS PAIS DEVEM TER NO DIA A DIA?

Após realizado o diagnóstico multidisciplinar pelos profissionais indicados e confirmado o autismo na criança, o fundamental a se fazer em seguida é dar o máximo de apoio e amor no convívio diário.

Dependendo do nível do transtorno, situações mais ou menos complexas aparecerão. Por isso, a paciência é outro pré-requisito muito importante. O passo seguinte é não fingir que o autismo não está ali, aceitar e perceber que não é um luto, mas uma luta. E não querer enfrentá-la sozinho é imprescindível, pois existem profissionais que podem ajudar nesse caminho. “No formato que atuo (Método ABA – Análise do Comportamento Aplicada), existe uma sequência de treinos que os pais ou cuidadores aplicam e as crianças apreendem de forma eficaz como ir ao banheiro sozinho, lavar as mãos, sentar-se à mesa e utilizar talheres, entre outros”, explica Leal.

Segundo Katia Semeghini Caputto, pediatra, presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo em Bauru (Afapab) e mãe da Laura, 13 anos, que apresenta uma forma grave de TEA, “o mais difícil para uma criança muito comprometida são as atividades diárias. Até mesmo ir ao banheiro e comer exige muito treino da criança na própria escola, ou associação, para a família ir dando continuidade. A autonomia da criança é uma das coisas dentro desse transtorno que as famílias mais correm atrás”, revela.

É IMPORTANTE BUSCAR APOIO EM ONGS RELACIONADAS AO AUTISMO?

Como dito anteriormente, existem associações dispostas a fornecer o auxílio necessário para a pessoa e sua família que descobrem o autismo. É o caso da Luz Azul – Associação Pró-Autismo de Santa Cruz do Sul (RS), uma entidade sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento, a inclusão social e familiar e o bem-estar do autista. Hugo Braz, membro da ONG, esclarece a importância desses grupos – “organizações como a Luz Azul têm papel importante no apoio psicológico às famílias. Isso, aliado à conscientização dos direitos e ao fornecimento de conhecimentos básicos sobre como identificar e estimular potencialidades e como entender, lidar com e superar as dificuldades decorrentes do autismo, contribuem para a redução do estresse característico de famílias que convivem diariamente com pessoas autistas e, consequentemente, para o fortalecimento dos vínculos dessas famílias”.

Além disso, entidades voltadas à causa da melhor qualidade de vida de pessoas com autismo têm um importante papel de coletar informações sobre o transtorno, mostrar para o poder público, profissionais e outras famílias que não convivem com o TEA e tentar conscientizá-los a respeito do assunto para uma maior desconstrução em relação ao preconceito em volta dessa e outras deficiências. “Indiscutivelmente, o desafio é vencer a inércia e o descaso do poder público frente às necessidades e dificuldades características das pessoas com autismo”, finaliza Braz.

COMO OS PAIS PODEM PARTICIPAR JUNTO ÀS ONGS?

A preocupação das associações com a melhora da qualidade de vida da pessoa com autismo é bastante relevante. Porém, mais importante ainda é a participação da família e dos amigos junto dos trabalhos desenvolvidos. Segundo Braz, ”os familiares têm participação, basicamente, colaborando no acolhimento e apoio de outros familiares e participando de eventos e campanhas de conscientização social sobre o autismo. No projeto de educação física (desenvolvido pela Luz Azul), por exemplo, a contribuição ativa dos familiares é condição indispensável aos atendimentos”.

QUAL A IMPORTÂNCIA DA INCLUSÃO SOCIAL DO CRIANÇA COM AUTISMO?

Outro tópico fundamental para ser não só discutido como colocado em prática é a questão da inclusão do autista, seja no ambiente familiar, social ou na escola, para aproveitar espaços de lazer, entretenimento e educação para que, assim, sejam estimulados seu desenvolvimento e sua participação em diferentes ambientes.

Segundo a especialista em educação inclusiva, Maibí Fernanda Mascarenhas, “a inclusão é importante também para que os diversos grupos de pessoas e espaços públicos se sensibilizem e desenvolvam um olhar direcionado à inclusão, planejando, dentro de suas estruturas e ações, possibilidades efetivas para acolhimento de pessoas com deficiência e seus familiares”.

É importante lembrar a respeito do limite e das características particulares de cada um, pois, de acordo com os diferentes níveis de TEA, o que pode funcionar para um, às vezes, não tem a mesma eficiência com outro.

É POSSÍVEL A INCLUSÃO DE QUALQUER PESSOA COM TEA?

Visto que, de acordo com os vários níveis do espectro autista, as pessoas podem apresentar mais ou menos dificuldades em comunicação ou, por vezes, comportamentos agressivos ou compulsivos em determinadas situações, os pais podem ficar incertos a respeito de como o filho pode reagir à inserção em um ambiente escolar ou social em geral. Contudo, Mascarenhas ressalta que “toda inclusão é possível, porém, a individualidade de todas as pessoas deve ser considerada e preservada”. Em casos mais severos do transtorno, é necessário que familiares, amigos e profissionais estimulem o indivíduo com autismo à interação social em um processo gradativo, sem que haja um desgaste por ambas as partes, e o mais importante: sempre com acompanhamento e orientação. Como exemplo dessa evolução, a especialista em educação inclusiva fala que, se a pessoa com autismo tiver desconforto com excesso de barulho, o melhor é que esse processo seja realizado em ambientes mais abertos, onde o som não ficará muito concentrado, como um piquenique no parque.

“O ideal é equiparar duas ações: conhecer as características de cada indivíduo e, com base nisso, planejar e praticar estímulos progressivos para que se desenvolvam habilidades de convivência social e conhecimento de regras, dentro das particularidades de cada situação e contexto, “indica Maibí.

EXISTE ALGUMA LEI QUE GARANTE A INCLUSÃO DO AUTISTA?

De acordo com o artigo primeiro da lei nº 8.146, de 6 de julho de 2015, “é instituída a lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania”.

Contudo, não adianta apenas ter a lei; é necessário que educadores estejam plenamente capacitados para possibilitar essa inclusão da criança autista em relação às abordagens apropriadas para desenvolver sua capacidade de aprendizagem, para que, assim, a escola não acabe agravando sua situação.

Para isso, segundo Mascarenhas, “há documentos norteadores específicos sobre currículo e avaliação escolar, contendo diretrizes para a área de educação inclusiva, bem como cursos livres e de pós-graduação que abordam a teoria e práticas pedagógicas para a inclusão”.

COMO DEVE OCORRER A INSERÇÃO DO AUTISTA NO MERCADO DE TRABALHO?

Quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento do autismo, melhores serão as condições de a pessoa ser inserida no mercado de trabalho posteriormente. Depois da confirmação do transtorno, é importante procurar uma escola que seja efetiva em relação à inclusão, além de profissionais capacitados para orientá-la em diversas áreas para seu desenvolvimento. “A estimulação deve ser constante, porém, o conhecimento técnico do quadro de cada indivíduo é fundamental para que algumas habilidades possam eventualmente ser desenvolvidas e fixadas. Mantendo estes estímulos, existe a possibilidade de integração do autista no mercado de trabalho”, completa Maibí.

EXISTE UM DIA MUNDIAL DE CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO?

2 de abril é o dia decretado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007 para promover a união de famílias, profissionais e poderes públicos em torno da causa do Transtorno do Espectro Autista, em relação ao desenvolvimento do estudo da causa, tratamentos e conscientização. Em comemoração a este dia, diversos pontos turísticos de várias cidades ao redor do mundo são iluminados pela cor azul, símbolo do autismo, além de serem realizadas ações como passeatas e palestras sobre o tema.

E POR QUE A COR AZUL?

É a cor escolhida para representar o autismo devido à maior incidência de casos do TEA ser no sexo masculino.

EU ACHO …

A GELADEIRA

Culturas, crenças e desejos guardados na cozinha

O magnata Jeff Bezos, fundador da Amazon, é o homem mais bem-sucedido do mundo. Primeiro ser humano a cruzar a linha dos 200 bilhões de dólares de patrimônio pessoal, Bezos mantém um hábito comum a várias pessoas de sucesso que conheço: marcar textos e frases inspiradores e deixá-los em local de acesso fácil. Curiosamente, o texto de que ele mais gosta está estampado há muitos anos na porta de sua geladeira.

Numa tradução livre, a mensagem diz: “Ser bem-sucedido é rir muito e com frequência; conquistar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; ganhar o apreço de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza; encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma criança saudável, um canteiro de jardim ou redimindo uma condição social; saber que pelo menos uma vida respirou melhor porque você viveu”. Interessante perceber que em nenhum momento há uma associação entre sucesso e prosperidade.

Mas o que mais me no gesto de Bezos foi ele escolher a porta da geladeira para emoldurar e preservar a mensagem que lhe é significativa. Eu também sempre gostei de textos e frases inspiradores; assim como de geladeiras. E fazer dela “o meio e a mensagem” que nutre a nossa vida não deixa de ser uma ideia genial, capaz de dar novo significado ao mobiliário refrigerado presente em quase todas as casas do planeta. Equipamento prestes a celebrar 164 anos de existência.

Toda geladeira tem luz própria (literalmente), já que seu conteúdo diz muito a respeito de uma pessoa. Imaginar o que seus donos estampam na porta delas, com o que a abastecem, o que comem e como organizam os alimentos é algo que carrega um forte e inegável tempero de voyeurismo. Se eu vir uma geladeira quase vazia, com apenas água gelada e uma caixa de pizza semidevorada, posso apostar que o dono é um homem solteiro. Assim como se eu abrir a geladeira de uma família japonesa que mora em Ichigaya, área residencial de Tóquio, encontrarei várias pastas, temperos e iscas que integram um repertório culinário absolutamente distinto daquele com que estamos familiarizados. Geladeira e cultura andam de braços dados!

Sobre espreitar refrigeradores alheios, foi lançada em maio a segunda versão do livro Inside Chef’s Fridges, obra que nos mostra como são as geladeiras domésticas pessoais dos melhores chefs do mundo. O desejo de mostrar o que está por trás da porta das geladeiras também move os anônimos. A ponto de já existir, imagine, uma categoria de fotos que faz sucesso nas redes sociais, as “shelfies”. São selfies de prateleiras, que funcionam não só para as de livros. A tendência levou os fabricantes Bosch e Samsung a lançar, na Europa, modelos que tiram fotos de seu interior. Seja para mostrar ao dono o que é necessário levar para casa, seja para mostrar seu conteúdo aos amigos.

É o aproveitamento da luz própria do eletrodoméstico para, numa versão mais “cool” da vaidade, promover uma outra exposição de si mesmo. Por essa, nem os roteiristas de O Dilema das Redes — o documentário do momento exibido pela Netflix — poderiam esperar.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

A GERAÇÃO DO AQUI E AGORA

Pela primeira vez em meio século, os destinos do mundo estão nas mãos de uma nova faixa etária, a dos chamados millennials, de 24 a 39 anos, que trocam carro e casa próprios por experiências

O mundo mudou, e não é só por causa dos perrengues universais provocados pela pandemia. Entre os habitantes do planeta, a parcela majoritária em idade produtiva, que já está ditando o modo de pensar, viver, trabalhar e consumir e continuará a fazê-lo por décadas, são os chamados millenials – e eles são muito diferentes de tudo aquilo a que estávamos acostumados. A comprovação mais cabal de que as cartas estão nas mãos de uma nova geração se deu nos Estados Unidos, uma espécie de farol do comportamento ocidental: lá, em abril, os millennials, jovens entre os 24 e 39 anos assim denominados por nascerem com a existência voltada para o que seria o novo milênio, ultrapassaram em número os baby boomers, a turma então predominante que cresceu e apareceu como fruto das mudanças e da prosperidade que se seguiram à II Guerra Mundial. Antes dos Estados Unidos, a América Latina, a China e a Índia já registravam um em cada quatro habitantes dentro dessa faixa etária, que também agrupa a maior fatia populacional – 34% – no Brasil. Discretamente, sem grande alarde, o globo vem se ajustando aos efeitos de uma sacudida demográfica de enorme significado, capaz de estremecer os pilares da política, da economia e dos valores inclusive na Europa, mais envelhecida porém, e mesmo assim afeita à influência dessa tribo que molda o mundo e é moldada por ele.

Os millennials se encontram no topo da pirâmide econômica do planeta, somando 1,8 bilhão de pessoas – quase um terço da população. Esse universo em expansão deve representar, em 2030, 4 trilhões de dólares em poder de compra, segundo previsão do Banco Mundial. No Brasil, serão maioria da força de trabalho já no ano que vem e em uma década preencherão 70% dos postos. Vem daí, provavelmente, o medo constante do desemprego, citado como grande preocupação em todas as pesquisas. Mesmo estando situados em camadas sociais diversas e separados pela desigualdade social na maior parte dos países, o Brasil entre eles, esses jovens unem-se pela conexão com a internet em matéria de sonhos e aspirações. “Muitas vezes, eles só têm recursos para adquirir o básico, mas ambicionam os mesmos produtos e experiências que a parcela mais favorecida”, observa a socióloga e pesquisadora Marilene Pottes, da Antenna Consultoria.

A virada geracional tem alto potencial para influenciar votações, inclusive a disputa presidencial que se aproxima nos Estados Unidos, onde 42% dos eleitores serão millennials em 3 de novembro, contra 22% em 2014. A notícia não é boa para o republicano Donald Trump, rejeitado por 64% deles por encarnar radicalismos e preconceitos que a turma rejeita. Mas o democrata Joe Biden também não os entusiasma: embora esteja 20 pontos à frente do adversário nas intenções de voto, é visto de modo negativo por 57% dessa fatia populacional, que diz que só vai cravar seu nome na urna por falta de alternativa.

Quem são, afinal, esses jovens adultos que têm as rédeas da humanidade nas mãos? A resposta, em princípio complicada por abarcar usos e costumes de gente espalhada por todos os continentes, hoje em dia é facilitada pelo fator web, que fez da juventude atual uma massa mais ou menos homogênea em matéria de gostos, hábitos e aspirações.Tendo crescido junto com a disparada das redes sociais e dos smartphones, o millennial é, acima de tudo, um conectado, grudado na tela do celular dia e noite ou, como eles dizem, 24/7 (twenty-four/seven, em inglês, por favor). O tempo dedicado a mensagens cifradas, ícones, fotos e vídeos, sua forma de se relacionar com seus pares, fez dele um ser autocentrado e narcisista – e as selfies em série estão aí para uma amostra dessa face. Ao mesmo tempo, a convivência em tribos ativou neles o engajamento em causas sociais, destacando-se em primeiríssimo lugar as ações em prol do meio ambiente – aquecimento global e produção sustentável estão no topo da lista de suas preocupações.

A atitude tem, é claro, reflexo no que consomem. Como a demanda desse contingente populacional é um potente motor da economia, as empresas estão revirando seus conceitos para se adaptar a um novo comprador, mais saudável e consciente, atento para a qualidade de vida, a sustentabilidade e os valores éticos. “Em plena idade produtiva, essa geração não está só mudando a maneira de consumir, como atuando diretamente na transformação de bancos, companhias de telefonia, redes de varejo e empresas de tecnologia e inovação”, afirma o sociólogo Dario Caldas, diretor do Observatório de Sinais, consultoria de tendências em comportamento.

Passar o tempo fazendo o que gosta e aproveitar cada minuto da melhor forma possível é o objetivo declarado do millennial, que em geral não cultiva ambições espetaculares (tirando a de gerar e vender um unicórnio, as startups de 1 bilhão de dólares, o que costuma ser mais sonho do que projeto). Uma observação sistemática de seus perfis mostra adesão irrestrita ao lema “só se vive uma vez”- ops, you only live once, encapsulado na sigla YOLO, de alta frequência nas redes. Individualista, adepto de exercícios e de um modo de vida mais saudável para si e, por tabela, para o planeta em que vive, o millennial desenvolveu a paradoxal capacidade de dar pouca bola para as grandes questões da civilização, o que é ruim ou bom. Vão vivendo, ponto – e são inflexíveis.

Morar sozinho e comprar um carro, atos que baby boomers e Hollywood transformaram em ritos de passagem para a vida adulta, saíram de moda. O jovem moderno nem aprende a dirigir e não tem nenhuma pressa de se desprender do lar paterno, o que lhe dá liberdade para fazer as coisas no tempo que achar adequado. Por outro lado, sempre dentro de sua bolha, não aproveita a chance de conversar e desfrutar da experiência dos mais velhos, uma das falhas no aprendizado da tribo. Resistente a rótulos, essa juventude mantém distância de partidos, religiões e instituições, uma indiferença que, se de um lado estimula certa alienação, de outro incentivou nela uma maior aceitação da diversidade de raças e gêneros.

Acostumado à ausência de lideranças definidas nos movimentos empreendidos em redes sociais, o millennial simplesmente desconhece autoridade. Sendo assim, não tem por que se rebelar contra ela e aceita o establishment e o uso da máquina em vigor para alcançar as transformações que almeja – no que é o exato oposto da juventude rebelde dos baby boomers, em constante mobilização pelos direitos das mulheres, pela igualdade racial e pela paz mundial. “Além de numericamente relevantes, os millennials são formadores de opinião, influenciando outras faixas”, diz Ricardo Ismael, cientista político e professor da PUC-Rio. Artistas dessa fatia etária, como o youtuber Felipe Neto (que dá opinião até sobre o que não sabe), a cantora Iza e o ator Bruno Gagliasso, assumem posições sabendo perfeitamente que vão inspirar outras pessoas. Políticos que defendem minorias, dizem prezar a ética e fogem do padrão convencional costumam contar com seu apoio, sem grande distinção partidária. “A cada eleição, eles serão mais decisivos”, ressalta o sociólogo Paulo Baía, da UFRJ. “Busco políticos que sejam tolerantes com o diferente, que promovam diversas visões de mundo e governem para todos”, concorda o defensor público Luís Henrique Zouein, 29 anos, que, como muitos millennials, procura conciliar a carreira com as causas em que acredita.

Na mesma toada de “minha satisfação em primeiro lugar”, o jovem adulto de hoje se envolve em vários projetos ao mesmo tempo e muda de emprego sem piscar. “Sou ambiciosa e procurei um lugar onde pudesse crescer rápido. Em quatro meses, avancei aqui muito mais do que em uma empresa tradicional”, explica a carioca Letícia Becker, de 28 anos, que trocou um escritório de advocacia pela chance de trabalhar na startup de mobilidade urbana 99 – os nichos de novidades tecnológicas, com os desafios e riscos que carregam, são o emprego dos sonhos. Com seu novo jeito de ser, eles estão forçando o mercado a atender às suas vontades e caprichos. “Não compram apenas produtos. Querem coisas que traduzam as mensagens em que acreditam”, diz Keith Niedermeier, professor de marketing da Wharton School, da Filadélfia.

Viajar (sempre atento à pegada de carbono) e viver novas experiências estão no topo das atividades preferidas de uma geração que dá mais valor a usufruir do que a ter, o que embasa o sucesso de empresas de compartilhamento como Uber, Airbnb e o coletivo de escritórios WeWork. “No papel de consumidores, são mais ativos e exigentes do que as gerações anteriores. Pedem marcas que se posicionem de forma transparente e que ousem pôr em prática novos tipos de negócios”, diz Daniela Cachich, vice-presidente de marketing de alimentos da PepsiCo Brasil. Alição está sendo aprendida a duras penas por nomes consagrados como Unilever e Coca­ Cola – esta, uma marca-símbolo da juventude que perdeu o ritmo ao não perceber a tempo que millennial que é millennial torce o nariz para refrigerantes, e agora corre atrás do prejuízo. “Buscamos o engajamento de uma marca em causas em que acreditamos. Podemos até pagar mais caro, desde que ela dê um retorno positivo à sociedade”, pontifica o engenheiro agrônomo Lucas Iff, 30 anos. Em nome de seus princípios, Iff e a mulher, a advogada Priscila Martins, 27, mudaram do Rio de Janeiro para o interior de Minas Gerais, em busca de maior qualidade de vida.

No Brasil, a ascensão dos millennials à faixa mais larga da pirâmide demográfica desencadeia consequências de efeitos fundamentais no futuro do país. “Essa geração encarna um bônus demográfico, oportunidade única para as sociedades”, chama atenção o demógrafo José Eustáquio Alves. Isso quer dizer que a atual estrutura etária da população, com sua maior parcela em idade produtiva, favorece o desenvolvimento econômico. É verdade que, infelizmente, desperdiçamos parte da potencialidade do bônus, que começou a se desenhar a partir dos anos 1970. Mas a janela só se fecha em 2034 e os jovens adultos de hoje representam o último vento demográfico a favor, antes que o envelhecimento inexorável da população reduza sua força de trabalho.

Dar as mãos a grupos geracionais e entender como pensam tem o dom de ajudar a reerguer economias. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial. Passado o caos inicial e deslanchada a recuperação, o clima de prosperidade favoreceu uma explosão de nascimentos de bebês, os baby boomers, que hoje têm entre 56 e 74 anos. Essa faixa etária foi impactada pela popularização da TV, pela pílula anticoncepcional, pela entrada da mulher no mercado de trabalho, pelos ideais de liberdade e igualdade e pela ambição de trabalhar, formar família e enriquecer – quanto antes, melhor. Agora, isso é passado. “Diferentemente dos meus pais, posso adiar minha entrada no mercado profissional e os planos de me casar e ter filhos”, alegra-se Vivian Doimo, de 27 anos, que mora com a família e há três anos se prepara para o concurso de juíza. Sem pressa, a seu jeito e com satisfação pessoal garantida. #YOLO.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE OUTUBRO

CONTINUE ESPERANDO UM MILAGRE

Ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, a que chamou Samuel, pois dizia: Do SENHOR o pedi (1Sm 1.20).

Ana era estéril, mas tinha o sonho de ser mãe. Seu marido a amava, mas sua rival a provocava excessivamente para irritá-la. Elcana, seu marido, um dia lhe aconselhou a desistir desse sonho, mas Ana não desistiu. Continuou resoluta na expectativa do milagre. Em outra ocasião, ao vê-la orando no templo, o sacerdote Eli pensou que Ana estivesse bêbeda e a repreendeu. Mas Ana não se calou nem nutriu mágoa no coração. Manteve-se focada no seu propósito de gerar um filho. Fez um voto a Deus, dizendo que, se o Senhor ouvisse seu clamor e lhe desse um filho, ela o devolveria para ser um sacerdote. O sacerdote Eli, vendo que ela derramava sua alma diante de Deus, ordenou-lhe voltar para casa com a promessa da vitória. Ana voltou para casa, coabitou com seu marido, Deus se lembrou da promessa, e ela concebeu e deu à luz um filho, a quem chamou Samuel. A aparente demora de Deus era pedagógica. Os propósitos de Deus são maiores que nossos sonhos. Deus não deu apenas um filho a Ana, mas seu filho foi o maior profeta, o maior sacerdote e o maior juiz de sua geração. Quando as coisas parecem fora de controle, elas estão sob o controle de Deus. Quando tudo parece perdido, continue esperando um milagre!

GESTÃO E CARREIRA

DESTRUIÇÃO CRIATIVA

Pagamentos por meio de aplicativos se consolidam com a pandemia e ameaçam aposentar de vez as maquininhas de cartão

Pode parecer surreal, mas o setor formado pelas empresas de mais rápido crescimento no Brasil nos últimos anos corre o risco de desaparecer em ritmo igualmente surpreendente. O hábito de comprar por meio de máquinas de leitura de cartões magnéticos ou com chip pode se tornar obsoleto num futuro próximo. Trata-se de uma tendência inexorável nos chamados meios de pagamento, em que já é possível fazer transações via QR code e reconhecimento facial, sem o uso das máquinas onde se inserem os cartões e digita-se a senha no teclado numérico. Um novo passo nessa reviravolta estava prestes a ser dado no país com a entrada em funcionamento do WhatsApp Pay, operado pelo aplicativo de mesmo nome pertencente ao Facebook, em parceria com a empresa líder em operações de pagamento, a Cielo. O lançamento foi revertido, entretanto, na noite da última terça-feira, 23. O Banco Central, que tem defendido a descentralização do sistema financeiro, determinou que as bandeiras de cartões Visa e Mastercard suspendessem o suporte ao sistema, jogando um balde de água fria (ao menos temporário) na empreitada. Mesmo com a decisão do BC em relação ao WhatsApp, o fim das leitoras de cartão é visto como um processo inexorável. “As maquininhas estão com seus dias contados”, vaticina Paulo Caffarelli, CEO da Cielo, que hoje detém 42¾ do setor.

A decisão do BC, além de reforçar o interesse da autoridade monetária em se manter como indutora da modernização do mercado financeiro, atende aos apelos dos grandes bancos, que temiam o confronto com uma rede social tentacular na operação de transações financeiras. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também não via com bons olhos a parceria entre Cielo e WhatsApp por acreditar que poderia contribuir com a concentração no mercado – não levando em conta que outras empresas pretendiam entrar na parceria, como a Stone, que negociava a adesão. O BC argumenta que sua determinação tem por objetivo preservar um “ambiente competitivo” em um sistema de pagamentos “interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”.

As características delineadas pelo Banco Central são as mesmas que a instituição usa para defender o PIX, tecnologia de transferência instantânea que deve estrear em novembro no Brasil. Já a proposta de parceria entre WhatsApp e Cielo terá de passar por uma série de ajustes e exigências regulatórias para sair do papel. Mas tudo leva a crer que será apenas uma pausa. Apesar da momentânea sobrevida ao sistema tradicional, a decisão não interrompe o ciclo de inovação desse mercado. Segundo um levantamento feito pela consultoria EY, 54% dos brasileiros afirmam que usarão mais serviços financeiros digitais após a pandemia em detrimento do dinheiro vivo.

Os pagamentos virtuais atualmente oferecidos no mercado sempre tiveram boa performance decrescimento, mas a penetração nas classes mais baixas era mais difícil. Com a pandemia, esse cenário mudou. O uso da tecnologia para compras, principalmente por meio dos smartphones, disparou. O WhatsApp, involuntariamente, se tornou um propulsor desse movimento, como uma porta de acesso entre as empresas e o consumidor. Com isso, a inclusão de um meio de pagamento nessa intermediação passou a ser questão de tempo. Pagamentos por aplicativos de mensagem ainda provocam estranheza no Brasil, mas são sucesso indiscutível em outros países emergentes, como a China. Por lá, o responsável pela mudança é o WeChat, um “superapp” que armazena dados dos clientes e pelo qual é possível pagar compras e contas. A Índia, por sua vez, foi escolhida para ser o mercado-teste das primeiras versões do WhatsApp Pay. “A chegada desses novos meios de pagamento de certa forma reproduzirá o que aconteceu com o Uber, quando assistimos às reações negativas dos taxistas e do poder público. No caso das transações, essa reação vem dos bancos”, analisa Cristina Helena Pinto, economista da ESPM.

Curiosamente, a grande aposta do BC, o PIX, também está baseada em transferências usando smartphones, assim como carteiras virtuais como Pic­Pay e Mercado Pago. Para enviar o dinheiro a uma pessoa, o cliente precisará entrar no aplicativo da sua instituição financeira (banco, cooperativa ou fintech) e informar o número de telefone do destinatário ou ao escanear o QR code no caixa de uma loja. Os grandes trunfos desse formato de pagamento em relação às soluções que existem hoje são a possibilidade de ser utilizado entre clientes de diferentes instituições financeiras e, principalmente, a rapidez com que o recurso chega de uma ponta a outra da transação. Enquanto uma compra no débito leva semanas até ser liberada para o vendedor, o PIX funciona como uma transferência que disponibiliza o recurso em dez segundos. “Com a instantaneidade, os empresários receberão o dinheiro mais rápido e isso pode até diminuir a necessidade de capitai de giro, por exemplo”, afirma Carlos Eduardo Brandt, diretor adjunto de operações financeiras e pagamentos do BC.

A mudança no uso do dinheiro já está em curso, mesmo antes da operação do PIX, seja devido à pandemia, seja pela atuação de fintechs que operam transações virtuais. “Já conseguimos oferecer a transação por QR code em maquininhas de empresas como Cielo, Getnet e Rede. Migrar para o smartphone é algo natural”, afirma Gueitiro Genso, CEO do PicPay. Ao combinar critérios como livre concorrência, transparência e eficiência a baixo custo, a tecnologia acaba vencendo os entraves à inovação, até mesmo entre os mais renitentes adversários das novidades. Schumpeter (economista que criou a teoria da “destruição criativa”) estava certo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XI

PARA UMA MELHOR QUALIDADE DE VIDA

Terapias de diferentes áreas que favorecem o desenvolvimento do autista

Primeiramente, antes de iniciar qualquer terapia ou recorrer ao tratamento medicamentoso, a análise multidisciplinar para identificar o autismo é necessário. Após a confirmação do diagnóstico do TEA por diversos profissionais, é importante começar os tratamentos o quanto antes, visando amenizar o desenvolvimento dos sintomas.

POR QUE PROCURAR ESPECIALISTAS DE DIFERENTES ÁREAS?

O processo terapêutico pode variar de acordo com as necessidades e os interesses do paciente e conforme ocorrer a decisão da família. A definição da equipe de profissionais deve ser bastante estudada por meio de uma avaliação para elencar quais os cuidados necessários. O ideal é procurar especialistas experientes em terapias relacionadas ao TEA em diferentes áreas, como a psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, entre outros. Assim, cada um pode oferecer a sua visão do caso para que, em conjunto, a evolução do tratamento multidisciplinar seja positiva.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO FONOAUDIÓLOGO PARA O AUTISTA?

Este profissional é fundamental nos primeiros cuidados com o autismo, levando em conta que a alteração na comunicação, tanto verbal como não verbal, é um dos principais sintomas no quadro clínico da pessoa dentro do espectro autista. Visto que o diagnóstico precoce e a intervenção imediata são extremamente importantes para uma melhor evolução do quadro da criança com autismo, “o fonoaudiólogo, na maioria das vezes, é o primeiro profissional, além do pediatra, que recebe e identifica os primeiros sinais e sintomas do TEA na criança”, explica a fonoaudióloga Andréa Misquiatti.

Além da parte do déficit de comunicação, esse profissional também pode trabalhar outras funções que são comprometidas pelo TEA, como a motricidade oral, ou seja, a respiração, deglutição (engolir) e mastigação. “Realizamos atividades com alimentos, proporcionando o reconhecimento de uma gama variada de texturas, cores e sabores”, complementa a fonoaudióloga e psicopedagoga Sheila Leal.

COMO TRABALHAR A FONOAUDIOLOGIA EM CASA?

Após a criança ter recebido o diagnóstico, ela precisa ser levada aos especialistas indicados para tratamento. Mas o processo não acaba por aí! Dar continuidade com exercícios simples em casa é fundamental para o melhor desenvolvimento da linguagem da criança. Para isso, existem atividades relacionadas à comunicação voltadas para cada quadro clínico. Em relação a uma criança que possua uma expressão verbal, as atividades mais indicadas por Sheila são voltadas para “o aumento de vocabulário, conquista de alguns fonemas (para que ela possa ser melhor entendida), trabalhos com fantoches (para criar turnos da comunicação), programas realizados por imitação (com jogos, figuras, músicas) atuando de forma lúdica e objetiva”. Já para crianças que tendem a se comunicar de um modo não verbal, como escrita e desenhos, a fonoaudióloga indica “as técnicas Picture Exchange Communication System (PECS – Sistema de Comunicação por Troca de Figuras, em tradução livre). Assim, ela pode adquirir recursos para realizar sua comunicação e, com isso, ter estimulado também o desenvolvimento de sua fala”.

QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES APRESENTADOS PELO AUTISTA NO ÁREA FONOAUDIOLÓGICA?

Como distúrbios de linguagem são um dos sintomas mais recorrentes e evidentes, a pessoa com TEA pode apresentar variações dessas complicações dependendo da gravidade do seu quadro clínico,” por exemplo, quando emite ecolalia tardia e imediata (repetição de palavras ou frases inteiras) fora do contexto, inversão pronominal, discurso incoerente, alterações da prosódia (voz monótona), uso de palavras pouco usuais, discurso monotemático (falam sobre um único assunto) ou mesmo a falta de comunicação oral”, exemplifica a fonoaudióloga.

EXERCÍCIOS FÍSICOS SÃO RECOMENDADOS COMO TERAPIA PARA O TEA?

Terapeutas da Associação Cultural Educacional Social e Assistencial Capuava (Acesa Capuava) indicam a prática de exercícios físicos no processo de tratamento em casos de TEA, pois a coordenação motora e a cognição (raciocínio, memória, atenção, etc.) são dificuldades bastante presentes em pessoas com esse transtorno. E, além disso, atividades físicas, seja por meio da prática de esportes ou simples brincadeiras, são importantes para promover a socialização.

Os benefícios dessa terapia ultrapassam a melhora dos sintomas mais comuns do TEA. Ela também contribui para o gasto de calorias, o que é saudável para pessoas dentro ou fora do espectro autista, gera melhorias em quadros de agitação e, consequentemente, o sono, o humor e controla a ansiedade.

Outra recomendação dos especialistas é começar as atividades físicas com esportes individuais para, posteriormente, evoluir para os que trabalham com a coletividade. A natação é um exemplo de esporte que, além de poder ser praticado tanto individualmente como em grupo, utiliza o meio aquático, importante para o desenvolvimento motor.

A TERAPIA OCUPACIONAL AJUDA NO TRATAMENTO DO AUTISMO?

Outra área a ser levada em conta na busca da melhor qualidade de vida é a terapia ocupacional. Essa especialidade tem como objetivo trabalhar as questões voltadas à integração sensorial dessas pessoas. Segundo Sheila, “este trabalho é fundamental para o desenvolvimento de várias habilidades, como ficar descalço, ter contato com areia, grama, subir em objetos e balançar.”

O ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO DO AUTISTA É NECESSÁRIO?

Sim, é importante que tanto o portador do TEA quanto os pais participem de um trabalho psicológico. Além do auxílio com a característica reclusão social e outros déficits cognitivos, a psicoterapia ajuda em possíveis comportamentos agressivos e compulsivos, que podem interferir no convívio em família, na escola e na sociedade em geral. “Conheço, acredito e aplico as técnicas do Método ABA – Análise do Comportamento Aplicada – e observo intensas modificações nos comportamentos das crianças com TEA”, indica Sheila. Alguns pais podem relutar em aceitar o diagnóstico de autismo, parte fundamental do processo terapêutico para que possam dar continuidade ao mesmo e, assim, ajudar a criança a obter alguma evolução. Segundo a psicopedagoga, “os pais, quando orientados por psicólogos, passam a entender quais são os comportamentos que devem ser reforçados ou ignorados, e essas condutas têm reflexos imediatos na vida da criança”.

E QUANTO À FISIOTERAPIA, É INDICADO PARA CRIANÇAS COM TEA?

Essa é mais uma área fundamental a ser trabalhada, principalmente nos primeiros anos de vida de crianças que apresentem um atraso nas funções motoras, estimulando ações básicas como engatinhar, sentar, ficar em pé, andar sem ajuda e brincar com as mãos. Mais adiante, é possível que apareçam dificuldades em relação à coordenação motora e noções espaciais, que também podem ser trabalhadas com a fisioterapia por meio da integração sensorial, psicomotricidade (relação entre as funções psíquicas e motoras), circuitos motores e relaxamentos.

Com o passar do tempo, nas fases adolescente e adulta, é possível que apareçam outros obstáculos a serem trabalhados pela fisioterapia, como postura e mudanças comportamentais, que podem ser exercitados com o RPG (reeducação postural global), alongamentos e controle da respiração, por exemplo.

A PARTIR DE QUAL PONTO O TRATAMENTO MEDICAMENTOSO É RECOMENDADO?

O uso de medicamentos para o tratamento não só do TEA, como de outros transtornos neurológicos, é sempre alvo de polêmicas quanto em que momentos deve ou não ser indicado. Segundo a neuropediatra Solange da Costa Silva, “algumas vezes, é necessário o uso de neurolépticos (risperidona, quetiapina, haloperidol) para as alterações comportamentais, como agressividade, e uso de anticonvulsivantes para casos de epilepsia ou de distúrbios do humor. Para os que possuem transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), está indicado o uso de metilfenidato” – vale lembrar que está fora de cogitação o uso de remédios sem a prescrição de um médico especializado. Além da indicação, é importante ter em mente que nem todo individuo dentro do espectro autista irá precisar recorrer a um tratamento medicamentoso algum dia. “Para autistas ansiosos, agitados, hiperativos, com muitas manias e estereotipias, são recomendados remédios da linha psicológica e psiquiátrica para isso. Mas existem autistas que não tomam remédios e não precisam deles”, ressalta o neuropediatra Paulo Breinis.

Esses medicamentos são indicados para o controle de sintomas provenientes do autismo. Quanto a uma cura para o transtorno, ela ainda não existe e é o que a genética tanto trabalha para encontrar. Como citado anteriormente, o neurocientista e geneticista Alysson Muotri, alguns anos atrás, fez parte de um grupo, nos Estados Unidos, que conseguiu reverter o gene autista da Síndrome de Rett, feito que impulsiona a descoberta de uma solução para a cura do TEA. Porém, Muotri explica que os laboratórios dedicados a encontra-la são poucos, mesmo com evidências de que o autismo seja curável, tanto em “minicérebros” (derivados de células-tronco de pessoas dentro do espectro autista) como em animais. Segundo Muotri, “existem algumas drogas em fase pré-clínicas, e não se sabe quando os testes clínicos começarão. O principal obstáculo da pesquisa atualmente é a falta de financiamento. É difícil prever efeitos colaterais com novos medicamentos; para isso, servem os testes clínicos.”

A EQUOTERAPIA É EFICIENTE NO TRATAMENTO DO TEA?

No equoterapia, assim como no diagnóstico e em todo o tratamento do autismo, é necessária uma equipe com diferentes profissionais especialistas, como fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta ocupacional e, principalmente, um equitador para garantir a segurança no trabalho com o cavalo. Dessa forma, com técnicas relacionadas cada uma à sua área, a equoterapia pode proporcionar a melhora de danos motores, comportamentais, sensoriais motores, cognitivos e emocionais. Outra característica interessante dessa terapia é a realização ao ar livre, sem a limitação física de um consultório e o barulho da cidade.

EU ACHO …

“SEU” FEIJÃO

– Penso em cada bobagem. Sabe coisa de quem não tem o que fazer?
– Acho que sei…
– A tua vida está paradona também?
– Total.
– A minha muito paradona. Falta de panela.
– E eu, então? Em que besteirada você anda pensando?
– Eu sou chamado de feijão carioca…
– Disso eu sei faz tempo. Aliás, o maior luxo, né?
– Mais ou menos, a coisa é meio esquizo…
– Esquizo? Vixi, isso é falta de panela mesmo.
– Por que eu sou chamado de feijão carioca se sou consumido mesmo em São Paulo?
– Sei lá, cara.
– Cara, não. Feijão!
– Esquece. Nesse País é tudo ao contrário…
– Você não é chamado de feijão preto?
– Sou. E também nunca entendi: sou consumido no Rio de Janeiro, mas toda minha origem está na Bahia. Pira, não pira?
– Pois é… na Bahia, sucesso mesmo é o feijão de corda.
– De corda…, tô ligado, faz tempo. Melhor esquecer, cara…
– Cara, não. Feijão!
– Mudando de assunto, por que colocaram nossos preços lá no alto? Aí que panela vira sonho de feijão mesmo.
– É o governo, não sabe gerenciar o armazém, governo ruizinho!
– E por que o povo votou nele?
– Porque o homem prometia feijão barato.
– Não entendeu.
– É não entendi. O certo é não entendi. Aprendeu?
– Aprendeu…
– Desisto…
– Do povo?
– Não. Quero dizer: desisto de você… e do povo.
– Tá nervozinho?
– O povo, que votou no homem que prometeu feijão barato e está vendendo feijão caro, é bem capaz de votar novamente no homem se ele prometer feijão barato.
– Que salada…
– Salada, não. Feijão!
– Vai ver o povo não gosta de feijão barato.
– Mas, então, porque vota no homem e depois fica batendo panela vazia e pede feijão barato?
– Pois é, a gente até sai na televisão… bizarro!
– Gente, não. Feijão!
– Oba, acho que lá vem freguesa…
– Veio nada. Passou batida… viu?
– Viu.
– Viu, não. A resposta certa é vi. Aprendeu agora?
– Aprendeu.
– É aprendi…
– Aprendeu…
– Desisto mesmo. Em quem você vai votar?
– No homem. E você?
– No homem também. Afinal, ele promete feijão barato.

*** ANTONIO CARLOS PRADO

OUTROS OLHARES

BRINCADEIRA CARA

A chegada de novos consoles em novembro vai agitar o mercado brasileiro de videogames, que já é o 13º maior do mundo e avança para a próxima fase — apesar dos preços

Pode parecer brincadeira, mas o preço é de verdade. Em novembro chegam ao mercado os consoles de jogos mais esperados pelos fãs dos videogames. A estrela da Sony, o Playstation 5, custará nada menos que R$ 5 mil, valor semelhante ao do Xbox Série X, da Microsoft. Os jogadores que passam horas na frente da tela ainda podem ter que gastar com cadeiras específicas para gamers, com preços entre R$ 800 e R$ 2 mil. Já quem prefere jogar em computadores turbinados pode incluir na conta valores de até R$ 10 mil. Isso sem contar uma série de acessórios, como teclados de R$ 2 mil, mouses de R$ 600 e fones com som tridimensional que podem beirar a casa dos R$ 2,5 mil.

MERCADO BILIONÁRIO

Os preços são resultados da alta do dólar e dos pesados impostos cobrados do setor no Brasil. São reflexo também do interesse do público e da forte demanda que o mercado gera no Brasil, o 13º maior do mundo, movimentando cerca de US$ 1,5 bilhão por ano. Segundo a consultoria global Newzoo, já há 75,7 milhões de jogadores no País e 83% deles gastam muito com itens e acessórios, além do valor pago pelos jogos em si. Se somarmos esse interesse ao isolamento provocado pela pandemia, entendemos melhor por que o segmento deve crescer 9,3% globalmente apenas em 2020, gerando um faturamento de cerca de US$ 159,3 bilhões. O maior mercado ainda é o asiático, com 55% de participação mundial, seguido pela região formada pela Europa, Oriente Médio e África, com 28%. A América Latina tem 9% e a América do Norte, 7%.

A importância do segmento de games hoje é tamanha que já provoca impacto no mercado de trabalho. Segundo o 2º Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais (IBJD), o número de desenvolvedoras de jogos cresceu 164% entre 2014 até 2018, chegando a 375 empresas e empregando 2,7 mil profissionais, alta de 144% no período. Os campeonatos do setor, categoria chamada de “e-esportes”, se multiplicaram e geraram rendas de US$ 1,1 bilhão em 2019 – o valor deve ser um pouco menor este ano, US$ 1,5 bilhão, em decorrência da pandemia, que impede os eventos presenciais. Um avanço significativo desde que o primeiro videogame chegou ao mercado brasileiro, o Odyssey, em 1983. Comparados aos sofisticados games atuais, nomes como Atari, Megadrive e Gameboy já pertencem a um passado distante e podem ser consideradas peças de museu.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE OUTUBRO

A CONTEMPLAÇÃO DE CRISTO

Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último (Apocalipse 1.17).

Os tempos sombrios da perseguição haviam chegado desde que Nero assumira o trono como imperador de Roma em 54 d.C. Dez anos depois, o próprio Nero colocou fogo na capital do império e lançou sobre os cristãos a culpa desse grave delito. Naquele tempo, os cristãos passaram a ser queimados vivos nas estacadas. Tito Vespasiano, que deportou os judeus no ano 70 d.C., também inaugurou o Coliseu Romano, entregando dez mil cristãos à morte na festa de inauguração dessa arena de suplício. Anos mais tarde, na época do imperador Domiciano, o apóstolo João foi deportado para a Ilha de Patmos. Era o último representante do colégio apostólico. Todos os outros já haviam sido mortos pelo viés do martírio. Naquela ilha vulcânica, Deus abriu uma porta do céu para João e mostrou-lhe as coisas que deveriam acontecer no desdobrar da história. Mais que isso, o próprio Cristo da glória apareceu a João. Não era mais o Cristo surrado e espancado da sexta-feira da paixão, mas o Cristo glorificado. Sua cabeça era branca como a neve, seus olhos se assemelhavam a chamas de fogo e seus pés pareciam de bronze polido. Sua voz era como de muitas águas, e seu rosto brilhava como o sol em todo o seu fulgor. João caiu aos pés de Cristo, mas o Senhor o ergueu, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último… estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos (v. 17b,18a). A contemplação de Cristo, pelos olhos da fé, ainda pode restaurar sua alma.

GESTÃO E CARREIRA

O CRESCIMENTO SAUDÁVEL DA PEPSICO

Empresa tem crescimento nas receitas globais no trimestre e vê salto de dois dígitos no consumo de alimentos durante o isolamento social. Desafio será fidelizar esse consumidor pós-pandemia.

Um fato: boa parte da população começou a dar mais atenção às refeições. Reflexão trazida à força pela Covid-19, mas que já embalava o brasileiro – pesquisa Datafolha de 2019 mostra, por exemplo, que 72% das pessoas acreditam que os alimentos produzidos no País trazem mais agrotóxicos do que deveriam. A gigante americana de alimentos e bebidas Pepsico percebeu esse movimento rapidamente. O CEO da divisão de alimentos da companhia no Brasil, João Campos, diz que as vendas cresceram dois dígitos, na esteira do confinamento. E o desafio é justamente fidelizar esse público. “As pessoas retomaram hábitos de consumo em casa, principalmente pela manhã e no fim de tarde, o que alavancou vendas de aveia, achocolatados, snacks e biscoitos”, afirma o executivo. “E vamos crescer a partir da inovação de produtos com itens regionais.”

No primeiro trimestre deste ano, que inclui o início do isolamento social, na segunda quinzena de março, a Pepsico cresceu globalmente. A receita líquida no período alcançou US$ 13,9 bilhões de dólares, alta de 7,7% em relação aos três primeiros meses de 2019. Ainda assim, registrou queda no lucro de 5%, que fechou em US$ 1,34 bilhão no período. Hoje, o segmento alimentos representa 54% do total do faturamento e o de bebidas responde por 46%. O market share de 2019 seguiu o resultado de 2018, mas representou ligeiro crescimento da divisão alimentos em relação a 2017, quando representa 53%, ante 47% de bebidas.

Na América Latina, onde o Brasil é o segundo maior mercado (atrás do México), a receita do primeiro trimestre somando alimentos e bebidas representou 9,4% dos números globais (equivalente a R$ 6,74 bilhões) em vendas de salgadinhos, refrigerantes e outros alimentos. No mundo, o País representa a sexta operação da companhia.

Esse crescimento não é só regional. Nos Estados Unidos, matriz da companhia criada em 1965 a partir da junção da empresa fabricante da Pepsi-Cola com a Frito-Lay, responsável pela produção de batatas fritas e salgadinhos industrializados, como os conhecidos Cheetos e Fandangos, a Pepsico cresceu em todos os segmentos no primeiro trimestre deste ano. Ao comunicar o balanço dos primeiros três meses de 2020, o CEO global da Pepsico, o espanhol Ramon Laguarta, ratificou o aumento do consumo de aveia em todas as operações da companhia no mundo nas últimas semanas. E reforçou os desafios para reter esse consumidor quando a reabertura das economias pós-pandemia estiver mais consolidada.

Mas, no imaginário de muitos, falar em Pepsi é falar em refrigerante. E esse aumento de gás – financeiro – também alcançou o segmento, na luta eterna contra seu principal rival, a Coca-Cola. Neste segmento, a companhia cresceu 7,3% na receita na América do Norte (Estados Unidos, seu principal mercado, e Canadá), saindo de US$ 4,5 bilhões, no primeiro trimestre do ano passado, para US$ 4,8 bilhões neste ano. Somente o volume de vendas de bebidas da Pepsico nos Estados Unidos e Canadá é 3,7 vezes superior ao total do que é comercializado pela companhia na América Latina e representa a maior fatia no faturamento global, seguido pela venda de batatas fritas e salgadinhos na América do Norte. Apenas nos Estados Unidos os números são desmembrados, já que são unidades de negócios diferentes. Nos demais locais, os resultados correspondem à movimentação financeira de todos os tipos de produtos.

Em termos de comparação, a empresa do tradicional rótulo vermelho e rival da Pepsi-Cola fechou globalmente o trimestre com US$ 8,6 bilhões (R$ 44,29 bilhões) em vendas, com lucro de U$ 2,76 bilhões (R$ 14,2 bilhões) no período. Ainda assim, a Coca-Cola informou que o volume de vendas, desde o início de abril, caiu 25% em todo o mundo.

Durante anos, a Pepsico utilizou como marketing no Brasil a frase “Pode ser?”, em referência à primeira escolha do cliente ser associada à Coca-Cola. No caso de snacks e demais alimentos, a braçada é mais confortável. No Brasil, a Pepsico é líder no segmento de salgadinhos.

Para crescer de forma orgânica, um dos caminhos segue no desenvolvimento de novos produtos, menos calóricos e com utilização de ingredientes regionais e associados à busca pela qualidade de vida, como açaí, inhame e tapioca. Criado no fim de 2017 com investimentos de US$ 25 milhões, já na gestão de João Campos, o centro de inovação e pesquisas da Pepsico em Sorocaba (SP), tem papel fundamental nesse processo. “Temos 80 cientistas atuando não só no desenvolvimento de produtos com ingredientes regionais para levar para o mundo, mas também na garantia de itens mais saudáveis e com o mesmo sabor”, diz João Campos.

A percepção da Pepsico em melhorar os índices caminham, de fato, na rota do sentimento do consumidor brasileiro. Pesquisa da consultoria Deloitte mostra que o mercado de snacks projeta faturamento de R$ 25 bilhões para este ano, com crescimento para itens que apresentam opções mais alinhadas com hábitos saudáveis. A avaliação é de Marcelo Soares, diretor de consultoria em estratégia da Deloitte. “O consumidor está tentando se informar melhor, mas ainda há dificuldade de compreensão do que está presente nos alimentos. Os rótulos precisam ficar mais claros e informativos.” Pelo estudo, chips e salgadinhos respondem por 18% deste mercado, e biscoitos doces, 51%.

Esse movimento em direção a alimentos mais saudáveis não são apenas iniciativas de empresas. Há questões regulatórias que obrigam a adoção de restrições a itens alimentares, como redução de sódio e gorduras nos alimentos, e de açúcar, em bebidas. Em dezembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) 332/2019 que impõe limites no uso de gorduras trans industriais em alimentos. A intenção é banir, até 2023, o uso de gordura parcialmente hidrogenada.

Para o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), João Dornellas, a indústria vem fazendo sua parte para atingir essas metas até antes da decisão do governo federal em adotar prazos para reduções desses itens mais prejudiciais à saúde nos produtos. “Com a realização de acordos voluntários com o Ministério da Saúde, a indústria de alimentos e bebidas retirou mais de 310 mil toneladas de gorduras trans nos produtos e mais de 17 mil toneladas de sódio em 35 categorias de industrializados”, diz. Segundo ele, há o compromisso também da cadeia de retirar, até 2022, 144,6 mil toneladas de açúcar dos produtos oferecidos. “Essas ações mostram o comprometimento da indústria de alimentos com a saúde do consumidor”, afirma Dornellas.

Se por um lado a preocupação interna é com a produção de um portfólio mais saudável, no campo externo o problema é ainda maior, com boa parte da rede de pontos de vendas descapitalizada. Com o começo da flexibilização do isolamento social por todo o País vem a preocupação para a recuperação do fôlego financeiro dessa cadeia, que inclui bares, lanchonetes, padarias, mercearias e restaurantes. Para estimular o reaquecimento do comércio e, na prática, estender a mão aos que de fato vendem seus produtos ao consumidor final, oito companhias de alimentação e bebidas no Brasil – Ambev, Aurora Alimentos, BRF, Coca-Cola, Grupo Heineken, Mondelez International, Nestlé e Pepsico – planejam investir R$ 370 milhões, por meio do Movimento NÓS, para salvar 300 mil pequenos comércios no País, que empregam cerca de 1 milhão de pessoas. Na prática, são iniciativas mais de apoio do que de aporte de recursos aos estabelecimentos. Ainda assim, significaria o investimento médio de R$ 1,2 mil em cada um dos locais.

Entre as ações do movimento, estão garantir a reabertura segura, condições mais vantajosas para reabastecer estoques e ajudar no fortalecimento das relações entre os comércios locais, de bairros, com seus clientes. “Não podemos pensar apenas nos interesses individuais. Os pequenos varejistas são nossos parceiros e não podemos medir esforços para ajudá-los a superar essa crise”, diz a nota divulgada pelo grupo de oito CEOs fundadores da iniciativa.

João Campos afirma que o comerciante escolhe com quem precisa se conectar e cada uma das companhias apresenta uma oferta de auxílio. “Ela passa por desconto, prazo, uma saída para dar esse fôlego para que retome as operações”, afirma o CEO da divisão de alimentos da Pepsico no Brasil. O benefício, no caso da companhia, estende-se ao segmento de bebidas. A Pepsico também realizou doações de alimentos e bebidas e adiantou recursos financeiros para cooperativas de reciclagem que alcançam a cifra de R$ 6 milhões. Segundo a companhia, os produtos somam 1 milhão de unidades, equivalente a 13,5 toneladas, e irão beneficiar famílias afetadas pela Covid-19 em oito estados – Bahia, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe.

A companhia, que chegou ao Brasil em 1953 por meio da Pepsi (antes mesmo da criação da Pepsico), tem hoje 10 mil colaboradores, dos quais 90% seguiram atuando na linha da frente, nas 11 fábricas e 100 centros de distribuição no País. Cerca de 1 mil funcionários da área administrativa passaram a atuar no sistema remoto. “Contratamos temporariamente cerca de 500 para o lugar dos que estavam em grupos de risco, para áreas de fábricas e vendas”, diz João Campos. “Mudamos toda a operação da noite para o dia, com o propósito claro de proteger as pessoas.” Desde que a quarentena foi implementada no Brasil, a Pepsico passou a oferecer telemedicina aos funcionários, por meio de parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein.

E se talvez seja impossível comer um só, como diz o velho slogan da Elma-Chips – que integra o grupo –, ainda mais em tempos em que boa parte da família está reunida em casa, em quarentena, a certeza é de que as pessoas querem cada vez mais comer algo que seja um pouco menos prejudicial à saúde, ainda que não totalmente saudável. E essa lição a Pepsico parece já ter aprendido.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – X

UM EXEMPLO DE SUPERAÇÃO

Temple Grandin é conhecida como a mais bem sucedida pessoa com autismo no mundo, respeitada por todo o trabalho desenvolvido na zootecnia

Mary Temple Grandin é uma professora universitária de destaque na área de zootecnia. Temple foi responsável por revolucionar o trato do gado criando equipamentos e instalações que favorecem o manejo dos animais.

Nada tão extraordinário se levado em consideração que diversas pessoas se destacam naquilo que fazem bem. Porém, Temple é ainda mais aclamada por ser uma autista.

Vencendo preconceitos e limitações, a norte-americana de 69 anos é um exemplo de que o autista é capaz de se incluir na sociedade e ainda fazer a diferença. Foi graças ao TEA, inclusive, que a zootecnista desenvolveu uma de suas principais invenções: corredores e currais redondos. A forte ligação com os animais a fez entender o comportamento do gado, percebendo a facilidade que bois e vacas têm em seguir um caminho curvo, além de não ficarem assustados durante o trajeto por não verem o final do corredor.

Incentivada, principalmente, por sua mãe, que se recusou a internar a filha em uma instituição psiquiátrica após o diagnóstico de alteração mental, Temple cursou uma escola para crianças superdotadas, se formou em psicologia e fez especialização em zootecnia. Atualmente, leciona na Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. Tamanho sucesso profissional e na militância do autismo a fez ser considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo na categoria heróis pela revista norte-americana Time, em 2010.

A seguir, confira uma entrevista exclusiva com Temple:

DESDE O SEU DIAGNÓSTICO, VOCÊ VÊ ALGUMA EVOLUÇÃO SOBRE O AUTISMO? SE SIM, QUAIS?

“Houve mudanças no diagnóstico e no tratamento do TEA nos últimos 50 anos. O TEA é agora reconhecido como uma desordem neurológica. Não é causado por uma má maternidade. É importante que as crianças pequenas que ainda não falam obtenham ensino extensivo para aprender a falar”.

VOCÊ ACREDITA QUE A FORMA COMO AS PESSOAS LIDAM COM AUTISMO MUDOU?

“As pessoas estão começando a perceber que a criatividade e a inteligência estão ligadas a traços de autismo leve. Albert Einstein e Steve Jobs seriam diagnosticados com autismo hoje em dia. Einstein não falava até os três anos de idade.”

QUAL É A IMPORTÂNCIA DE SE DISCUTIR AUTISMO NAS UNIVERSIDADES?

“É importante para a psicologia e para os estudantes de medicina estudarem sobre o autismo. É um espectro amplo que varia de cientistas da computação e artistas a pessoas que não conseguem falar e podem não ser capazes de se vestirem.

A pesquisa científica é necessária para tratar problemas com a hipersensibilidade sensorial. Alguns indivíduos com autismo têm problemas com ruídos altos que ferem os ouvidos. Roupas ásperas podem ser sentidas como uma lixa contra a pele”.

O QUE VOCÊ FALARIA PARA OS PAIS DE AUTISTAS?

“Uma pessoa com autismo pode continuar sempre crescendo e se desenvolvendo. Às vezes, os pais cometem o erro de serem superprotetores. Crianças autistas precisam encarar o mundo. Se a criança tem habilidade em matemática, arte ou música, trabalhe para desenvolver essa capacidade em uma carreira. Vários grandes músicos, como Mozart, eram pessoas esquisitas com poucas habilidades sociais. Provavelmente, elas eram autistas”.

FENÔMENO NA MÚSICA CLÁSSICA

Outro exemplo de um autista que se destacou em sua carreira profissional, o pianista Glenn Gould. Com excepcional talento para a música clássica, o canadense é considerado um gênio na interpretação das obras do compositor erudito Johann Sebastian Bach.

Desde criança, a facilidade com as partituras chamou a atenção de seus pais, e Gould começou a tocar piano antes dos 10 anos de idade.

Chegou a fazer grandes apresentações, mas sua dificuldade em interagir com o público o deixou recluso nos últimos anos de sua vida. Gould faleceu em 4 de outubro de 1982, aos 50 anos, na cidade de Toronto, no Canadá.

EU ACHO …

A VACINA CONTRA A COVID A IGNORANCIA E A MENTIRA

De todos os episódios curiosos na história do Brasil moderno, talvez o mais difícil para o estrangeiro compreender é a Revolta da Vacina, em 1904. O governo decreta a imunização obrigatória contra a praga da varíola na então capital, e a população carioca, que se beneficia da medida, reage com um quebra-quebra generalizado? O grande sanitarista Oswaldo Cruz, hoje considerado herói nacional, inicia uma campanha paralela para erradicar a febre amarela e a peste bubônica, que acaba provocando manifestações, tiroteios, estado de sitio, tentativa de golpe militar e 30 mortos? Como explicar uma coisa dessas? Mas agora, tardiamente e devido à pandemia da Covid-19, estou começando a entender. A corrida internacional para desenvolver uma vacina eficaz – a chamada “bala de prata” que vai fazer desaparecer uma pandemia que nesta semana ultrapassou a cifra de 1 milhão de mortos – está despertando no palco mundial algumas das mesmas dúvidas que preocuparam o brasileiro há mais de 100 anos. A vacina será segura? Como será administrada? Todo mundo terá o mesmo acesso a ela, ou os ricos vão monopolizar o estoque, deixando os pobres indefesos?

É como se ainda estivéssemos nos anos 1960, auge da corrida espacial que terminou com a chegada de uma missão americana à lua. Inclusive, o programa russo se chama “Sputnik V”, e seu rival americano recebeu um nome tirado diretamente de Jornada nas Estrelas: “Operação Dobra Espacial… O Reino Unido, a China e a Alemanha também entraram para valer na concorrência.

Mas alguns desses programas, como o da Rússia, tentaram inicialmente trabalhar em sigilo e ainda agora relutam contra a transparência. No caso das empresas farmacêuticas privadas – apenas nos Estados Unidos são nove -, elas são motivadas pelo lucro, e não gostam de divulgar pistas que possam ajudar competidores. Toda vez que uma delas emite um boletim anunciando o mínimo progresso, suas ações sobem. Então imagine a rentabilidade resultante da produção da primeira vacina a entrar no mercado.

Claro que todos queremos que uma vacina chegue às mãos de nossos médicos o mais rápido possível. Mas a pressa leva à desconfiança, e não devemos abrir mão dos requisitos que asseguram a segurança da população. Esse problema já surgiu nos Estados Unidos: em sua ânsia por um segundo mandato, Donald Trump pressiona os órgãos oficiais a afrouxar suas normas para que uma vacina esteja disponível antes da eleição. Alarmado, o governador de Nova York anunciou que o estado vai administrar apenas as vacinas aprovadas por uma junta médica estadual.

Eu, pessoalmente, não gosto do fato de alguns países autoritários usarem pessoas como cobaias, sem seu consentimento. Segundo grupos de direitos humanos, a China testa sua vacina não apenas em soldados, mas também em presos políticos da etnia uigur. Os uigures são um povo muçulmano que mora no extremo oeste da China, e mais de 1 milhão deles estão confinados em campos de concentração, acusados de nutrir “tendências separatistas “.

Mas, em contrapartida ao que a ONG Oxfam chama “nacionalismo de vacina”, existe um esforço multilateral, batizado Covax, composto de mais de 150 países. Depois de tergiversar durante dois meses, o Brasil acaba de se juntar ao grupo, que busca criar um estoque estável de vacina para cada país-membro. Mas Estados Unidos e China decidiram não participar, e vários outros signatários, incluindo Austrália, Canadá e Japão, também negociaram separadamente acordos bilaterais com fabricantes – uma política que vai contra o espírito comunitário do acordo.

No contexto brasileiro, a pandemia tem exacerbado as enormes desigualdades sociais já existentes, e a busca por uma vacina ameaça acentuá-las ainda mais. Em 2010, como em 1904, são os pobres que morrem desproporcionalmente e têm menor acesso a remédios, máscaras etc. Além disso, de longe parece que existe entre alguns brasileiros uma certa complacência e fatalismo com a Covid-19, e não apenas no Palácio do Planalto. Zika, dengue e chikungunya são todas doenças que já viraram endêmicas no país, então porque não aprender a conviver com mais uma?

Nesta semana, o chefe da OMS advertiu que “a desinformação mata”. Ele tem razão. Mas a ignorância e as mentiras se combatem com a transparência e solidariedade, e a corrida pela vacina demonstra que, neste momento de crise, ainda sofremos de escassez dessas duas qualidades essenciais.

LARRY ROHTER – Jornalista e escritor, ex correspondente do new York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

ARTIFICIAL, MAS ONIPRESENTE

Softwares inteligentes passam a ter inúmeras aplicações na vida cotidiana. Com o avanço tecnológico, eles vão assumir cada vez mais atribuições

“A proposta é usar todo o nosso conhecimento para construir um programa de computador que saiba e, também, conheça”, resumiu o cientista da computação John McCarthy, em 1956, durante uma conferência na Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, na qual apresentou o termo “inteligência artificial”. Naquele momento, era formalizada a busca por máquinas capazes de livrar os seres humanos de tarefas repetitivas, além de ser atualizada, por um novo termo, uma antiga ambição humana que nasceu muito antes dos chips de silício. Uma lenda judaica já apresentava, milênios atrás, a ideia de um ser artificial pensante, o Golem, feito de barro e subserviente aos homens. Na Idade Média, alquimistas chegaram a sonhar em dar vida à criatura por eles batizada de Homunculus. O tempo tratou de fortalecer esse desejo e a ciência o converteu em realidade. Hoje em dia, a inteligência artificial (IA) se faz onipresente.

Para se ter uma ideia clara de como a inteligência artificial está ativa na vida moderna, basta visitar a loja física do mercado Zaitt, em São Paulo. Nela, não há humanos em nenhum ponto do atendimento. Quando o cliente escolhe um item nas gôndolas, sensores de movimento conectados a um poderoso software monitoram se o produto foi escaneado no caixa. Na hora de pagar, não há fila: o valor é debitado da conta do cliente, que teve de se cadastrar antes de entrar no estabelecimento. Para isso, basta passar o celular em um sensor que está sincronizado com um aplicativo bancário. Nesse exemplo, trabalhadores humanos existem só nos bastidores, recebendo as ordens da IA que faz o balanço dos produtos que devem ser repostos.

As inovações geradas pelo desenvolvimento tecnológico estão inseridas até em atividades que, teoricamente, precisam do olhar humano. Na cervejaria Ambev, uma máquina está encarregada de selecionar novos talentos para a empresa. Logo após os candidatos se inscreverem no site da companhia e realizarem uma série de testes, as informações são imediatamente capturadas pela IA e analisadas por algoritmos que sabem, graças a escolhas anteriores, apontar quais são os melhores profissionais para determinadas vagas. Um dos pontos positivos de incumbir a IA de realizar a tarefa é que são desconsideradas pelo robô as informações pessoais, como gênero e idade, dos candidatos. “Na triagem feita pela máquina, são avaliadas somente as competências, evitando uma escolha enviesada”, diz o gerente de recrutamento e seleção da Ambev, Caio Zaio.

O mundo admiravelmente novo criado pela inteligência artificial provocará efeitos colaterais severos. O mais visível deles diz respeito aos empregos que poderão ser perdidos com o avanço inexorável das máquinas. Em outras palavras: muitos humanos vão ficar para trás. Um levantamento da consultoria americana McKinsey mostra que 50% das atividades tidas como repetitivas estão em processo de serem completamente transferidas para a IA até a próxima década. Em todo o mundo, o legado da mecanização avançada será de 800 milhões de pessoas sem oportunidades de trabalho. Outro estudo, dessa vez realizado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, virou meme ao pôr no ambiente on­line um sistema que indica quais são as chances de muitas carreiras serem extintas pela ascensão dos computadores (veja o quadro abaixo). Apesar de a análise ainda ser vista como brincadeira, é muito alta a probabilidade de profissões facilmente automatizáveis, como a de operador de telemarketing, sumirem do mapa de empregos nos próximos dez anos.

Mesmo os profissionais mais capacitados terão de absorver competências novas para não correr o risco do desemprego. Quem estiver disposto a aprender – ou, se for o caso, a se reinventar – poderá encontrar oportunidades. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), a demanda média por programadores com competências como a criação de códigos de IA deve ser de 70.000 profissionais por ano até 2024. E há também as atividades que não deverão ser afetadas. São aquelas que exigem capacidades demasiadamente humanas e que envolvem sensibilidade e perspectivas que só um cérebro biológico é capaz de oferecer. Ou seja: humanizar-se parece ser a escolha certa para garantir trabalho no futuro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE OUTUBRO

DEPRESSÃO, A NOITE ESCURA DA ALMA

Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia?…  (Salmos 13.2a).

Andrew Solomon, em seu livro O demônio do meio-dia, diz que a depressão é a principal causa de suicídio no mundo e a causa primária de muitas doenças graves. A depressão é como um parasita que rouba nossas esperanças e esmaga nossos sonhos. É a noite escura da alma. Atinge mais de 10% da população. É uma doença que precisa ser corretamente diagnosticada e adequadamente tratada. Muitas pessoas têm confundido depressão com ação demoníaca ou até mesmo com algum pecado não confessado. É preciso afirmar que um indivíduo cheio do Espírito Santo pode ficar deprimido, assim como uma pessoa fiel a Deus pode contrair um câncer. O profeta Elias lidou com esse drama. Depois de estupendas vitórias espirituais, entrou para uma caverna e desejou morrer. Olhou para a vida com óculos embaçados e pensou que era o único crente sobrevivente. Olhou para a vida com as lentes do retrovisor e julgou que seu ministério havia acabado. Por isso, pediu para si a morte. Deus tratou de Elias e o restaurou de sua crise depressiva. Devolveu-lhe a saúde emocional e o ministério. Deus também pode tirar sua alma do cárcere e curar você da depressão. Não jogue a toalha, não entregue os pontos, não desista de lutar. O sol voltará a brilhar!

GESTÃO E CARREIRA

SUBWAY QUER ACABAR EM PIZZA

Uma pizza colocou a rede de fast-food norte-americana Subway em evidência durante o mês. A esperada redonda, pedida por meio de aplicativo, chegou à casa de um cliente quase quadrada, com aparência de estar crua e pouco recheada. O consumidor postou a imagem nas redes sociais e a indignação viralizou. O erro, admitido pela empresa já nas horas seguintes à publicação por João ‘Guto’ Fugiwara, presidente para a América Latina, ocorreu dias após o item entrar no cardápio. O desvio foi corrigido e não altera a estratégia de incluir as pizzas no menu da rede especializada em sanduíches no período de quarentena e no pós-pandemia. “Foi um caso isolado. A pizza já é realidade em nossas lojas dos Estados Unidos há 12 anos. Em Porto Rico, há quase 20. E tem um futuro muito promissor no mercado brasileiro”, disse o executivo.

Com 1.850 lojas, o Brasil é o quarto maior mercado da Subway no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Canadá e Reino Unido – ao todo, são 42 mil unidades em 112 países. Além de partir para as redondas como forma de enfrentar a crise, a marca antecipou o projeto Subway Market, a comercialização de produtos no atacado, como o queijo em embalagem de dois quilos. “Era um modelo que a gente não possuía. Ainda estamos implementando”.

A grande arma para minimizar a queda nas vendas durante a quarentena foi a utilização de plataformas digitais para pedidos remotos, como delivery (por meio dos aplicativos iFood, Rappi e Uber Eats) e take away (solicita pelo app e retira na loja). A aplicação da tecnologia neste último modelo estava prevista apenas para o final do ano. “Ao dar canais alternativos para o consumidor, conseguimos movimentar o negócio de uma maneira geral”. Antes da pandemia, 70% dos clientes comiam nas lojas e o restante levava para casa. Agora, como cerca de trezentas unidades do País estão com os salões fechados, as vendas no delivery correspondem a algo entre 55% e 60% do total e, no take away, de 40% a 45%. Por ano, o Subway vende 104 milhões de sanduíches no Brasil.

O presidente da empresa disse não poder divulgar o faturamento referente à América Latina, onde há 4 mil lojas. No País, estima-se que o faturamento tenha chegado a R$ 2,2 bilhões em 2019, crescimento de 3,5% em relação a 2018. Apesar da pandemia, que provocou queda acentuada nas vendas em março e abril – desde então, a recuperação tem sido gradual –, o executivo afirmou que a receita deste ano pode se igualar à do ano passado, à medida que as atividades forem retomadas no Brasil.

Depois de fechar cerca de 130 lojas no ano passado por problemas financeiros das unidades ou ausência do franqueado na gestão, entre outros motivos, a Subway prevê inaugurar até 40 pontos em 2020, quantidade planejada antes da Covid-19. Em compensação, o executivo afirmou ter ficado surpreso com a quantidade de solicitações de plantas para realocações (novos locais apareceram com o fechamento de negócios na quarentena) ou remodelações de espaços no formato Fresh Forward, que inclui identidade visual renovada e novos displays para pães e vegetais, além de outras iniciativas para deixá-los mais modernos. “Devemos ter entre 100 e 130 plantas em execução buscando essa remodelação e outras 50 a 60 de realocações. É investir na crise, sabendo que vamos sair disso daqui a pouco.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – IX

VIVENDO COM TEA

Interpretar as ações de pessoas autistas é uma tarefa exigente

Muito se fala do “mundo autista”, referindo-se a um hipotético universo paralelo em que as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) viveriam à parte do resto da sociedade. Porém, não é bem isso que acontece. Os autistas vivem a mesma realidade que todos, porém, têm algumas reações diferentes se comparadas a não-autistas. O TEA não apresenta alterações físicas na formação do cérebro, no entanto, o autismo é um distúrbio do neurodesenvolvimento, isto é, durante o desenvolvimento do sistema nervoso do indivíduo, algo aconteceu para que o processo se desse de forma atípica. Essa alteração reflete no comportamento dos autistas, gerando condutas específicas e estereotipadas, ou seja, padronizada entre eles. “No caso das pessoas com autismo, os circuitos neurais responsáveis por características ligadas às emoções, empatia e previsibilidade de acontecimentos futuros funcionam de forma diferenciada da maioria dos seres humanos”, afirma a neuropsicóloga Renata Amável, especialista em autismo. Tal diferença faz com que os indivíduos apresentem dificuldades na tríade comportamental que engloba déficit na comunicação, interesses restritos e prejuízos na interação social. Quanto maior o nível de comprometimento, maior a dificuldade apresentada.

O QUE SÃO ESTEREOTIPIAS?

A definição de estereótipo é uma ideia padronizada tida coletivamente por um grupo sobre determinado tema. No caso do autismo, estereotipias são comportamentos automatizados e semsentido funcional que são característicos em pessoas com TEA e apresentados em ambientes distintos. “Vale lembrar que, conforme o autista é tratado para melhorar sua comunicação, as estereotipias tendem a diminuir”, destaca Renata.

QUAIS SÃOS AS ESTEREOTIPIAS MAIS COMUNS?

Um autista pode apresentar diversas estereotipias, isto é, comportamentos típicos de pessoas com TEA, que também podem variar entre os indivíduos. No entanto, as mais conhecidas são:

*** movimento pendular do corpo para frente e para trás;

*** flupping, palavra em inglês para se referir ao chacoalhar de mãos e braços ao lado do corpo, como se os braços fossem asas. É mais comum:

* em crianças e, geralmente, quando estão felizes, ansiosas ou irritadas;

* movimentos repetidos das mãos em frente dos olhos;

*andar com as pontas dos pés;

*ambulação de um lado para outro aparentemente sem sentido ou propósito;

*ecolalia, repetição de sons emitidos por outras pessoas, aparelhos, etc., ou por si próprios;

*batidas nas próprias orelhas;

*ficar observando as próprias mãos;

*olhar lateralizado;

*observar um objeto fora do ângulo normal do mesmo;

*pulos e giros sem motivo aparente.

OS AUTISTAS PODEM DESENVOLVER INTERESSE ESPECÍFICO POR UM ÚNICO ASSUNTO?

Grande parte dos autistas apresenta, além das estereotipias, deficiência intelectual. Irritabilidade, comportamentos auto lesivos, não desenvolvimento da fala ou dificuldade em comunicar-se, além de outras alterações mais comprometedoras, também podem se manifestar. Em alguns casos, mesmo com a deficiência do intelecto, a pessoa com TEA desenvolve uma grande habilidade intelectual específica, como saber exatamente qual dia da semana cai em qualquer dia do ano. “Contudo, é importante ressaltar os pontos positivos que a pessoa possui e explorar ao máximo suas capacidades, através de estímulos corretos e constantes, com abordagens multiprofissionais, que podem auxiliar no desenvolvimento da fala, socialização e comunicação, por exemplo”, afirma a psiquiatra Talita Braga. A especialista também destaca a necessidade de se estar atento ao interesse específico do autista, que pode ser utilizado para auxiliar no desenvolvimento pessoal, inclusive no aprendizado. “Por exemplo: se alguém com TEA tem grande interesse em marcas de carros, poderia-se utilizar de recursos gráficos com as letras existentes em cada marca de carro para ajudar na alfabetização de uma criança com dificuldades”, exemplifica a psiquiatra.

POR QUE ELES EVITAM CONTANTO FÍSICO?

No funcionamento do cérebro considerado normal, há a organização das informações sensoriais de forma a produzir padrões estáveis de comportamento. Isso permite uma interação produtiva com o ambiente e a aprendizagem. “O sistema tátil processa informações sobre aquilo que está em contato com a pele, como a temperatura, a ternura e outra informações vitais para nos proteger de perigos. Porém, os portadores de TEA apresentam déficits neste processamento”, explica Renata.

Estudos mostram que pessoas com TEA apresentam alteração da conexão entre diversas áreas do cérebro, isto é, a falta de interação entre elas o que resultaria na defasagem sensorial. Um experimento realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSC) observou crianças autista caminhando sobre o solo quente e em pedras pontiagudas. Notou-se que elas não demonstravam reação aparente em nenhum dos casos. “é muito comum observar crianças autistas que gostem de caminhar na ponta dos pés, que evitem pisar na areia, ou não gostem de se sujar ou de misturar alimentos de diferentes texturas e cores”, complementa a neuropsicóloga.

Outras pesquisas ainda identificaram uma área específica do cérebro responsável por modular a percepção e interpretação de movimentos biológicos (se interessar por alguém que se movimenta à sua frente, por exemplo) que não é ativada nos autistas. “Com este funcionamento, eles podem se esquivar do contato físico, mas por alterações sensoriais e não por falta de afeto pelas pessoas e familiares”, afirma Joana Portolese, assessora de neuropsicologia.

Assim sendo, os pais e cuidadores não devem entender como ausência de amor algumas reações dos autistas. Segundo o psicólogo Celso Goyos, especialista em educação especial, interpretar o que uma criança que não se manifesta verbalmente possa ou não estar sentindo pode ser de pouca utilidade para seu tratamento, já que partem apenas de deduções do adulto observador: “a função da reação da criança é o que importa; pode ser mantida pela fuga da estimulação aversiva, como também pode ser uma outra instância do comportamento de sua hipersensibilidade”.

OS AUTISTAS NÃO GOSTAM DE SONS?

Ter hipersensibilidade aos sons ao redor também é um co1mportamento que pode se manifestar nos autistas. Apesar de os especialistas desconhecerem as causas dessa característica em portadores de TEA, sabe-se que ela pode aparecer de três formas:

• HIPERACUSIA. É a sensibilidade anormal a sons de baixa ou moderada intensidade e geralmente relacionada a alterações no processamento central dos sons, o que causa desconforto;

• FONOFOBIA. Desconforto causado por alguns sons específicos e relacionados com o seu significado. Neste caso, a sensibilidade se dá pela lembrança emocional do som, e não pela intensidade do ruído. Relaciona-se por meio de conexões entre o sistema límbico e o sistema auditivo central;

• RECRUTAMENTO. É a perda auditiva sensorioneural periférica, que ocorre por uma redução nos elementos sensoriais do ouvido.

O especialista em autismo Celso Goyos lembra que a hipersensibilidade a estímulos do meio ambiente é comum não só em indivíduos com TEA. ”Não se sabe ao certo se esta característica tem origem diferente nesses indivíduos das de pessoas fora do espectro. Os tratamentos mais eficazes, no entanto, são comportamentais”, conta.

AUTISTAS SÃO SUPERINTELIGENTES?

É possível notar autistas com alto funcionamento intelectual, até com QI acima da média, como é o caso de vários cientistas. “Talvez por isso exista a imagem do ‘cientista maluco’, alguém com capacidades incríveis em determinadas áreas de conhecimento, mas que não se importa ou não compreende as regras sociais – pode ter cabelos desgrenhados, não interagir bem socialmente, vestir-se de forma peculiar, etc. Isso não ocorre ao acaso”, afirma Talita. A psiquiatra lembra que existe uma grande prevalência de TEA nos tais “gênios esquisitos”. Geralmente, são pessoas que não entendem piadas, metáforas e ironias, sendo bastante literais e rígidas com rotina.

Neste quesito, o interesse restrito acaba favorecendo o desenvolvimento dos autistas, já que, em alguns casos, pode ser algo usado de forma positiva. “Uma pessoa, mesmo com dificuldades em comunicações e interações sociais, mas que tenha um grande interesse em alguma área restrita, pode tornar-se um profissional de destaque na área, especialmente porque tem um foco aumentado no assunto. Inclusive, é possível, ter uma memória acima do normal, o que pode ser vantajoso”, explica a psiquiatra.

Por outro lado, as limitações de interação social trazem prejuízos na qualidade de vida, tornando indispensáveis as intervenções terapêuticas.

EU ACHO …

A HORA DE PARAR DE SEGUIR

Por que tanto drama quando cortamos os inúteis do Instagram?

Já me cansei de contemplar fotos de gente feliz. Parece tremendamente antipático falar assim, eu sei. Mas é difícil passar o dia vendo imagens de looks da moda, gente na academia, viagens, como se a vida fosse eternamente férias. Ainda mais porque não é verdade. Dá impressão que essas pessoas nem sequer espirram. Na real, vivem às voltas com boletos para pagar, crises como qualquer um de nós, e muitas vezes só sorriem nas selfies. Pior, muitos sonham em ser o @felipe­ neto, mas só conseguem exibir a boa forma física. Pensei muitas vezes: “Serei o único a ter barriga neste mundo?”. Enfim, resolvi dar uma limpada no meu Instagram.

Eu seguia quase 1800 pessoas. Mal via os posts de cada uma. A gente segue um, de­ pois segue outro… O número vai aumentando. Eu sempre gostei de ter contato com colegas de trabalho, sites literários, editoras (para ver os lançamentos), turismo, artes plásticas e, é óbvio, os amigos. Também os conhecidos. Mas as exigências foram aumentando. Recebia mensagens: “Gostou da minha foto?”. Educadamente, dizia que sim. “Por que não curtiu?” Sinceramente, no início dava o like. E outro, e outro. Virou uma função. Parei. Pedem mil coisas. Como usar minha influência para angariar fundos para vaquinhas virtuais. Respeito as causas. Mas só apoiaria uma vaquinha se conhecesse os organizadores pessoalmente. Já aconteceu tanta história suspeita, não é?

Gosto de imagens oníricas, esculturas, obras de arte. Não apareciam na minha timeline. Motivo: eu seguia muita página. Iniciei os unfollows. Critério: pessoas ou mesmo amigos com quem não tenho interação pelo Instagram. Se não nos falamos nunca, por que sou obrigado a, por exemplo, ver pela décima vez o TBT da última viagem de fulano à Europa (viagem na qual se endividou, acabou sem lugar para ficar e dormiu no aeroporto, mas os posts exalam plena felicidade, como se tivesse construído a Torre Eiffel)? Mal comecei, vieram mensagens ofendidas. “Que aconteceu? Algum problema?” Gente que não falava comigo há um ou dois anos escreveu magoada. Alguns insistiram para eu voltar a segui-los.

Jamais imaginei que o unfollow tivesse essa carga emocional. Observei que algumas pessoas, como o @leandro_karnal, não seguem praticamente ninguém. Que herói! Cada eliminação é um drama. Quando eu respondo que estou mudando o meu tipo de Instagram, não parecem compreender. Desde quando o Instagram virou problema psicológico? Será que tem alguém em terapia dizendo que dei unfollow?

Por que tanta chateação se os posts não correspondem à vida real? Talvez muita gente acredite que sua vida é assim, tão maravilhosa quanto aparece no Instagram. E que a realidade é somente uma parte chata, desagradável de sua vida. O que desejam que eu seja, um cúmplice dessa ilusão? Se der likes, estou chancelando essa vida de selfies, academias e paisagens?

Muitos nem falam mais comigo, desde que comecei. Mas minha lista já caiu pela metade, praticamente. Ficará ainda menor. Entre rosnados e lágrimas, sigo dando unfollow.

WALCYR CARRASCO 

OUTROS OLHARES

MODELOS SEM GÊNERO

A moda que não define sexo e ignora padrões é a nova fronteira da indústria que procura, cada vez mais, sair do óbvio. Saiba como isso irá mudar o guarda-roupa de todos

Imagine entrar em uma loja de roupas e não encontrar a tradicional divisão entre masculino e feminino? A questão é cultural e começa na área infantil: quando não se sabia o sexo da criança por nascer, elegia-se o amarelo para fazer “o enxoval”. Altamente politizada, a discussão de gênero virou deboche nas palavras da ministra Damares Alves quando assumiu a pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: “Menino veste azul e menina veste rosa”. Ou seja, a cor da sua roupa passa a ser uma decisão política. Mesmo quem não tem nenhum interesse na palavra “moda”, precisa escolher uma roupa para tirar do armário todos os dias. O futuro? Roupas sem gênero — vestir o que quiser e no corpo que desejar.

Mesmo sem estar no dicionário, a palavra “agênero”, tradução livre da inglesa “genderless”, tem dado pano para a manga. Os desfiles das semanas de moda das principais marcas do planeta reforçam essa tendência que começou há quase uma década. A tardia aceitação de modelos fora do padrão europeu de beleza foi um começo. Depois vieram as pessoas transgênero e as pessoas com corpos fora das medidas tradicionais. “O formato pequeno, médio e grande é uma padronização das lojas de departamento. Não há apenas três formatos de corpo no mundo”, explica a estilista Hellena Kuasne.

Aos 25, ela criou a marca Meninê para fazer roupas sem gênero e sob medida. “Eu converso com a pessoa e pergunto o que ela quer vestir, sou praticamente uma psicóloga de estilo”, diz. Escolher o tecido, o formato, a cor, o caimento baseado na própria personalidade é uma opção recente. O que a sua roupa diz sobre você? No mundo pós-pandemia, manequim mascarados, com cabelos raspados ou presos, não revelam o gênero num primeiro momento. O sexo pode ser apenas um detalhe. Ao assistir aos últimos desfiles, feitos com se fosse filmes, pré-gravados e orientados para o consumo virtual, é impossível não se perguntar: o que é mais importante, a roupa ou a/o modelo?

DIVERSIDADE

Com Gisele Bündchen, o Brasil passou a ditar tendência na passarela e foi precursor ao apresentar a modelo Lea T, nome artístico de Leandra Medeiros Cerezo, mulher trans, filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. Em 2010, antes da cirurgia de resignificação sexual, chocou o mercado ao posar nua para a capa da revista Vogue e emplacar uma campanha na marca francesa Givenchy. Hoje, os manequins apresentam diversidade: doenças de pele como vitiligo, tatuagem e cicatrizes não são mais escondidas.

A modelo mais desejada da indústria em 2019 foi uma mulher negra, africana e de cabelo raspado: a sudanesa Adut Akecht trabalha para os dois lados na passarela, faz “o papel” de homem e de mulher. Até a famosa grife italiana Versace se rendeu: trouxe três modelos acima do peso para a semana de moda de Milão, no final de setembro. A francesa Louis Vuitton apresentou com exclusividade o modelo canadense transgênero “Krow” para a passarela. Foi sua primeira aparição após a transição. E sua história encantou o mundo. “Dar visibilidade para uma comunidade que não é vista ou representada é uma prova do que o mundo se tornou”, disse esperançoso. Mesmo enquanto políticos como os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump continuam a pregar o retrocesso, a cultura dominante assinala um caminho sem volta. A cantora Pabllo Vittar que o diga. É a drag queen mais seguida no Instagram.

E o Brasil vai ainda mais longe ao aceitar — e amar — uma modelo de lingerie e roupas esportivas de 80 anos. Helena Schargel tem mais de 25 mil seguidores no Instagram e decidiu virar modelo após ir a um encontro “para a melhor idade” e perguntarem se “ela tinha um projeto”. Ela tinha. “Sempre quis tirar as mulheres da invisibilidade, se eu posso, você também pode”, diz. “É incrível ver que consigo inspirar outras mulheres. Recebo ligações do mundo todo perguntando qual é o segredo. O segredo é fazer o que todo mundo faz de uma maneira única”, diz. Diante de tanta liberdade, será necessário adotar um estilo, nem que seja uma camiseta branca e uma calça jeans, a roupa básica de todos os gêneros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE OUTUBRO

ANDANDO SOBRE AS ONDAS

Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar (Mateus 14.25).

Os discípulos de Cristo estavam no epicentro de uma grave crise. Atravessavam o mar da Galileia quando foram tomados de surpresa por uma terrível tempestade. Os ventos eram contrários e o barco que os transportava era jogado de um lado para o outro, sem direção. Já passavam das 3 horas da madrugada, e a situação só piorava. Os esforços humanos eram inúteis e o socorro divino parecia muito demorado. Foi nesse momento que um relâmpago riscou os céus e os discípulos viram alguém andando sobre as ondas. Ficaram aterrados de medo e gritaram: É um fantasma! (v. 26). Jesus, porém, lhes disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! (v. 27). Por que Jesus foi ao encontro dos discípulos de forma tão inusitada? Certamente para mostrar-lhes que aquilo que os ameaçava estava literalmente debaixo dos seus pés. Jesus é maior que os nossos problemas. Aquilo que conspira contra nós está sob seu controle. As circunstâncias que nos intimidam estão debaixo dos seus pés. Jesus é maior que a nossa dor. Mesmo que nosso peito seja surrado por um sofrimento avassalador, ele é poderoso para nos consolar. Ele é nosso refúgio na tribulação. Na tempestade, temos em Jesus uma âncora firme, um porto seguro. Podemos triunfar sobre o medo quando temos a consciência de que Jesus está presente. Jamais desampara aqueles que nele esperam. Sempre vem ao nosso encontro, ainda que na quarta vigília da noite!

GESTÃO E CARREIRA

CORPO SÃO, MENTE SÃ

Cada vez mais executivos estão sofrendo com a síndrome do Burnout – e isso gera problemas graves para os profissionais e para as empresas

Há quatro anos, inserimos questionários de avaliação 360 graus que aplico em executivos um módulo dedicado à saúde física e emocional. No começo, as pessoas achavam estranho ter de responder a questões desse tipo. Quando eu entrevistava membros do conselho de administração para falar sobre um CEO e entrava nesses detalhes, eles me diziam que esses temas eram do foro íntimo dos postulantes à vaga.

Mas eu introduzi essas perguntas racionalmente, pois percebi o crescente número de profissionais que sofriam de Burnout – expressão americana que demonstra bem o estado de “queima de circuitos” que começou a afetar alguns executivos. O burnout afasta o líder por um tempo, criando um vazio de poder e expondo outra grande dificuldade das organizações: o processo sucessório claro e ativo.

Uma empresa cujo CEO (ou outro executivo que se reporte ao CEO) precise ser afastado por uma ou duas semanas pode ter sensíveis prejuízos, algumas vezes irreparáveis. Principalmente se isso acontecer num momento crítico de lançamento de um produto ou serviço, em meio a um processo de fusão e aquisição ou, ainda, na implementação de um novo modelo de gestão. Por isso, acredito que a saúde física e emocional dos executivos deva constar no mapa de riscos de uma organização moderna.

Em minha avaliação, coloco as seguintes questões, que também podem ser usadas pelas companhias: O executivo cuida de sua saúde fazendo exames periódicos? O profissional tem hábitos saudáveis de se exercitar com frequência? O líder tem atividades, como hobbies ou trabalhos voluntários, que lhe permitam renovar sua saúde emocional? Ele consegue manter a calma em situações difíceis? O profissional demonstra predominantemente uma atitude pessimista em relação às suas atividades do presente e do futuro? Existe um balanço entre o número de horas trabalhadas e as atividades de lazer? O importante é avaliar o equilíbrio entre a saúde física e a emocional, pois elas anelam de mãos dadas.

Como sabemos, os líderes (e ainda mais o CEO) exercem uma enorme influência sobre o clima organizacional – e essa influência acontece muito pelo comportamento e pelo exemplo. Semblante pesado, irritação e mau humor contaminam todo o ambiente com o vírus da dúvida e da desconfiança. Começam os rumores: “O que será que está acontecendo?”; “Será que vamos ter cortes na empresa?”; “Será que o chefe está pensando em sair?”. Questões desse tipo se espalham e podem destruir o bom clima organizacional – responsável por fazer com que os empregados sejam eficientes e equilibrados.

Cuidar da saúde física e emocional deve ser uma obrigação de todo executivo. Se, por acaso, o profissional chegar a um ponto complicado demais, pedir a ajuda de um coach, de um mentor ou de um médico é importante. Só assim os efeitos de um eventual  burnout poderão não prejudicar a vida do executivo e, consequentemente, o clima e os resultados da empresa.

LUIZ CARLOS CABRERA – Presidente da L Cabrera Consultores e professor na FGV-EAESP

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – VIII

PERCEPÇÕES ÚNICAS

Entender o dia a dia e o universo da pessoa com Transtorno do Espectro Autista é importante para melhorar a convivência e esclarecer mitos

Desde pequenas, as crianças começam a manifestar comportamentos que despertam a preocupação dos pais e responsáveis: por que ela não interage com os outros? Porque repete certos movimentos? Calma, não é motivo de pânico. É importante identificá-los e procurar a ajuda de um pediatra, para indicar profissionais qualificados para fazer os exames e iniciar os tratamentos.

QUAIS SÃO OS COMPORTAMENTOS MAIS COMUNS?

Os sintomas podem aparecer logo nos primeiros meses de vida, mas não costumam ser identificados nesse período. Quando a criança completa três anos, as características se tornam mais evidentes e facilitam o diagnóstico. Vale lembrar que cada caso é um caso e deve ser analisado separadamente, mas, entre os comportamentos mais comuns, estão:

** O bebê apresenta um déficit no comportamento social evitando contato visual e mostrando-se pouco interessado na voz humana;

** Durante a amamentação, não há interação com a mãe;

** Não seguem os pais pela casa e nem ficam ansiosos diante da separação;

** Pouco interesse por atividades em grupo com outras crianças ou familiares;

** Apresentam um interesse peculiar por certos objetos, determinados por textura, cheiro, gosto, forma ou cor;

** Insistência em seguir rotinas nos mínimos detalhes;

**  Persistência em movimentos corporais estereotipados;

** Alterações na forma e no conteúdo da linguagem;

**  Incapacidade de se reconhecer pelo nome, característica que geralmente leva os pais a pensarem que a criança apresenta alguma incapacidade auditiva.

O QUE SÃO ESTEREOTIPIAS E COMO SE MANIFESTAM?

Os movimentos estereotipados fazem parte do g1upo de características típicas de quem apresenta o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo Mariana Arend de Paula Xavier, (psicóloga e psicopedagoga, “estereotipias são movimentos repetitivos, que funcionam como uma forma de autorregulação”. A ação não é exclusiva dos autistas. Em algum momento da vida, você provavelmente já se pegou fazendo rabiscos ao conversar pelo telefone ou balançando as pernas para prestar atenção, por exemplo.

A diferença entre essa repetição em pessoas com TEA está na forma em que ela se apresenta. “Neles, as estereotipias se intensificam em momentos de euforia, irritação ou ócio, por exemplo, servindo como uma tentativa de adequar algo que está incômodo”, explica a psicóloga. Não existe um padrão para esses movimentos, que podem ser o balançar das mãos, correr de um lado para o outro ou tampar os ouvidos, entre outros.

COMO A PESSOA COM TEA ENXERGA O MUNDO?

De acordo com a psicóloga Mariana Arend, “elas possuem um entendimento mais literal do que acontece ao seu redor, assimilando o que ocorre bem ao pé da letra e tendo maior dificuldade em ler sutilezas nas entrelinhas”. Essa diferença na compreensão afeta não somente a linguagem, como também o entendimento de conceitos matemáticos e de regras importantes para a convivência em sociedade, por exemplo. Por isso, a psicóloga explica que é importante que as regras sejam passadas da maneira mais clara possível

POR QUE NÃO OLHAM NOS OLHOS DAS OUTRAS PESSOAS?

A dificuldade para estabelecer contato visual não é uma regra, porém pode estar presente em alguns casos. “Para o diagnóstico do transtorno, é necessário que haja dificuldades de comunicação, interação social e interesses restritos e repetitivos, mas a forma como essas características acometem cada um dos indivíduos é extremamente diversificada”, explica Mariana. De acordo com a psicóloga, o grau de comprometimento pode variar de acordo com cada caso.

COMO CHAMAR A ATENÇÃO DELES?

A psicóloga Mariana Arend conta que é importante estimular e expor o autista a situações sociais, como festas e mercado, para aprimorar o repertório de interação. A escola é um exemplo de ambiente socializador, que estimula a convivência em grupo com pessoas da mesma faixa etária.

COMO FUNCIONA O RACIOCÍNIO DE UM AUTISTA?

De acordo com a psicóloga Larissa Helena Zani Santos de Carvalho, ele apresenta dificuldades no comportamento verbal, o que faz com que regras e rotinas visuais sejam mais fáceis para a assimilação.

QUAIS SÃO AS ALTERAÇÕES SENSORIAIS E NA CAPTAÇÃO DE ESTÍMULOS?

Os autistas podem ser hiposensíveis, quando não conseguem perceber os estímulos do ambiente, ou hipersensíveis, quando percebem de uma maneira tão intensa que dificulta a compreensão dessas informações.

Segundo Larissa, a sensibilidade auditiva é comum e, em alguns casos, leva a outros problemas comportamentais, como gritos e choros. “Por conta dessas alterações, eles compreendem melhor as imagens quando estão organizadas porque podem não entender o que a pessoa está falando, mas consegue assimilar a imagem”, explica.

Outra alteração sensorial comum é a seletividade alimentar, variação que depende da integração entre outros sentidos, como olfato e paladar.

COMO O AUTISTA COMPREENDE IRONIA OU SENTE AFETO?

Segundo a psicóloga Mariana Arend, “como as características variam em cada caso, não podemos dizer que não compreendem ironias, mas sim que eles podem apresentar mais ou menos dificuldade em entendê-las”. As ironias são expressões subjetivas, ou seja, depende da interpretação de cada pessoa, podendo ser mais difícil para a compreensão dos portadores do Transtorno do Espectro Autista.

Em relação à ideia de que eles não sentem afeto, Mariana explica que isso é mito. “Pode ocorrer dificuldade em demostrar este afeto, já que existe algum comprometimento na linguagem e na interação. Por isso, essa ideia da ausência de afeto acabou se perpetuando”, esclarece.

EU ACHO …

‘LINDINHAS’, DA NETFLIX: ASSISTA ANTES DE CONDENAR

Ameaçado de censura pelo governo brasileiro, o filme é na verdade um forte alerta para uma sociedade que não ampara como deveria suas crianças

A escolha infeliz de uma foto para um pôster causou alvoroço e induziu ao preconceito contra o filme Mignonnes (Lindinhas, no Brasil), lançado pela Netflix há poucas semanas. Na imagem, quatro pré-adolescentes em trajes e poses sensuais, nada compatíveis com a idade delas, passam a mensagem de que o longa, premiado no conceituado Festival de Sundance, estaria sexualizando crianças. Recentemente, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pediu a suspensão da veiculação do filme pela plataforma de streaming. Em meio às controvérsias, proponho aqui uma conversa mais ampla sobre o filme e seus temas urgentes para a realidade mundial — reconhecendo que cada um tem todo o direito de gostar ou não, concordar ou não com a obra. Mas só após assisti-la por inteiro. Ver só o trailer também não vale.

Na trama, Amy, a protagonista, vive praticamente sozinha com os irmãos mais novos, assim como outras meninas da vizinhança, na periferia de Paris. De família muçulmana, a jovem de 11 anos se contagia pela vivacidade de um grupo de garotas de sua faixa etária, que ensaia às escondidas para um concurso de dança. Sem a presença de familiares, os quais trabalham longas horas por dia, as meninas usam roupas diminutas, repetem comportamentos adultos e se rendem aos excessos das redes sociais. O filme não apresenta situações de abuso ou violência sexual e prostituição, temas que entrariam na seara da pornografia infantil. Mas ele é um verdadeiro tapa na cara, fazendo-nos (ou tentando fazer) acordar para o perigo de uma pré-adolescência desassistida. Perigo esse que inclui, de fato, a sexualização precoce e a pedofilização, e que vai além, impondo um futuro muito menos venturoso e gratificante do que aquele que as filhas e os filhos merecem.

A roteirista e diretora de origem senegalesa, Maïmouna Doucouré, de 35 anos, parte de suas próprias experiências de vida, na periferia de Paris, e dos relatos de pré-adolescentes entrevistadas durante um ano e meio. Ao escancarar essa realidade, ela acabou sendo mal interpretada por quem não acredita que a arte imita a vida e que, lamentavelmente, a vida para muitas pré-adolescentes é exatamente essa. E daí para pior.

A produção tem momentos desconfortáveis, com cenas intencionalmente ousadas, que exibem de forma insistente corpos e rostos jovens, em insinuantes ângulos, “caras e bocas”. A diretora optou por deixar de lado a mensagem subliminar para ser mais direta e crua em seu alerta quanto à objetivação do corpo feminino, o que induz o espectador menos cauteloso a uma opinião apressada. Essa insistente exposição do corpo, que caracteriza o filme e vem sendo considerada por muitos como abusiva, é comum na história das telas brasileiras, com propósitos os mais diversos, especialmente para a satisfação da vaidade de mães incautas (ávidas por tornarem suas filhas prodígios ou celebridades nacionais). Entretanto, a suposta inconsequente ousadia da roteirista merece uma reflexão.

Se de um lado Lindinhas escancara a sexualização precoce, de outro apenas resvala em temas não menos relevantes e próprios da pré-adolescência, seja na periferia de Paris, seja nos quatro cantos do Brasil: estão no roteiro o bullying ou vínculos utilitários entre crianças; a prática de pequenos delitos e seus riscos; dramas familiares insolúveis; choque de culturas e conflito de gerações; sensação de desamparo doméstico e busca pelo suporte social; banalização da importância da menarca (primeira menstruação); fascínio pelas redes sociais e mau uso delas; premência em superar a falta de perspectiva; necessidade “tóxi­ca” de sucesso e fama; indignação com a ordem patriarcal e identificação com a mulher (mãe) submetida ao homem, pela revolta e pelo sofrimento inconfessos.

Com tantos argumentos levantados de início, faltou ao filme “costurar” de forma mais contundente as causas e consequências das ações das garotas, e dos adultos ao redor, assim como a complexidade e as contradições de suas atitudes. Ou a diretora propositadamente deixou para quem o assiste essa incumbência. A alguns espectadores precipitados, pouco atentos ou não afeitos à linguagem indireta pode ter escapado a mensagem de que as “Amys” de todo o mundo, especialmente as socioculturalmente menos favorecidas, se ressentem da ausência de motivação e incentivo para um desenvolvimento pessoal saudável, sem imitação aos hábitos e vícios dos adultos, hábitos e vícios esses facilmente acessíveis pelas redes sociais e pela falta de privacidade na convivência familiar. O espectador distraído pode não se sentir, ao final do filme, convidado a considerar que a confluência de estímulos paradoxais gera respostas infames (como trocar sexo por um celular ou postar fotos de partes íntimas) em quem não tem maturidade suficiente para administrar tantos conflitos. Para mim, a cineasta falha ao ser, no final, condescendente com os adultos, em vez de colocar o dedo mais fundo na ferida.

Coube, então, à personagem Amy viver e resolver sozinha todo o processo de seu amadurecimento e de sua reconciliação consigo mesma e com todos com quem tentara aproximação ou rompimento. Talvez a diretora tenha entendido que fosse cedo para encarar desfechos mais trágicos, extremos ou sem volta.

Excessos, atitudes erráticas e descontextualizadas, instabilidade e afrontas são próprios de quem tem pouca idade. Isso se resolve com educação e tempo. O tempo passa e assim faz a sua parte, sem poder esperar que os adultos respondam pela parte deles. Aos pais cabe estarem aptos para acolher, educar e corrigir. Um bom começo, então, seria conhecer por inteiro um filme como esse, antes de demonizá-lo. Também convido o leitor a buscar e cuidar do adolescente que está dentro de si. Para melhor entender e significar aqueles que adolescem, numa época cuja sexualização precoce ocupa o vazio da ausência de outras possibilidades de visibilidade a uma geração com um futuro de incerteza sem precedentes. Incerteza essa que nós, “os mais velhos”, tentamos minimizar por meio da polarização: certo ou errado, preto ou branco, bom ou mau. Estreitamos, assim, nosso campo de visão e assumimos comportamentos reducionistas, atabalhoados, impulsivos e até pueris. Sem perceber, provocamos precocidade em nossas crianças, pelo apelo velado de que elas cresçam logo e nos aliviem de um pesado fardo: o nosso sentimento de despreparo para nossa própria vida.

*** CARMITA ABDO – Psiquiatra, é presidente da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual.

OUTROS OLHARES

 O PREÇO DOS LIKES

O documentário O Dilema das Redes faz sucesso denunciando como a busca incessante por lucro dos gigantes da tecnologia transformou ferramentas capazes de aproximar pessoas em uma ameaça em várias frentes, da sanidade mental dos jovens à democracia.

Há muito em comum entre o americano Tristan Harris, de 36 anos, e os típicos desbravadores da tecnologia que fizeram a fama do Vale do Silício, na Califórnia. Harris estudou ética aplicada à ciência da computação em Stanford, de onde saiu a maior parte deles. Essa turma é da mesma geração que produziu Mark Zuckerberg, dono do Facebook, e lá pelo meio da primeira década do milênio compartilhava o idealismo de mudar o mundo por meio da internet. “Sonhávamos em usar a tecnologia para o bem, preocupados em gerar um impacto social positivo”, contou Harris, em entrevista exclusiva por videoconferência. Hoje, sobrou só uma lembrança idílica disso. Em O Dilema das Redes, documentário que é a nova sensação da Netflix no Brasil e no exterior, a enorme decepção pessoal dele com os rumos do setor digital funciona como um alerta com implicações para toda a humanidade: as mesmas redes sociais que trouxeram possibilidades revolucionárias agora se revelam uma ameaça em várias frentes, da sanidade mental dos jovens à democracia dos países.

Como narra no filme, Harris trabalhava no Google em 2013 na função de consultor ético das novas ferramentas criadas pela empresa quando passou a se incomodar com a obsessão de seus pares em tornar a navegação em sites e e-mails cada vez mais viciante. Daí nasceu um manifesto -, desabafo em que pedia responsabilidade social à elite do ramo – algumas dezenas de profissionais de 20 a 35 anos que concebiam ferramentas capazes de impactar a vida de bilhões no planeta. O manifesto circulou, ganhou elogios, foi levado a um dos donos do Google, Larry Page. Harris achou que estava fazendo uma revolução. Mas nada de concreto aconteceu. Ele sairia da empresa dois anos depois, para se converter naquilo que já foi descrito como a “consciência” do Vale do Silício: um ativista que luta contra as ameaças embutidas no uso abusivo das redes sociais à frente do Center for Humane Technology, instituto que criou em 2013 para aprofundar esse debate e provocar mudanças. “Percebi que você não pode mudar o sistema de dentro dele”, afirma.

Harris é o personagem central, mas nem de longe o único atrativo de uma produção que chegou para causar incômodo e controvérsia. O Dilema das Redes ganhou atenção mundial ao estrear no cardápio da Netflix, em 9 de setembro. Em questão de duas semanas, o documentário chegou ao primeiro lugar da plataforma na Índia, ao segundo nos Estados Unidos, e ao quinto na Inglaterra –   e também galgou o Top 10 da Netflix no Brasil. O filme, dirigido por Jeff Orlowski, é também um campeão de repercussão. Entre americanos e europeus, desencadeou correntes de pessoas que, indignadas com os pormenores da sanha manipulativa das redes, anunciaram sua saída do Twitter e do Facebook. No Brasil, provocou comentários de famosos e políticos nas redes. Ironicamente, seu sucesso pode ser medido pela repercussão nas redes – o Instagram registrou quase 300.000 interações por aqui relacionadas ao filme nos últimos dias.

Tanto barulho é compreensível: nunca se viu um raio X tão profundo e devastador das ferramentas que na última década se impuseram como parte quase indissociável não só da rotina, mas da própria relação dos seres humanos com o mundo. Sua força vem das fontes que descrevem e opinam com contundência sobre o modus operandi dos gigantes das redes sociais. Ao lado de Harris, uma dezena de outros executivos com o conhecimento de causa de quem ocupou cargos estratégicos numa constelação que vai do Facebook ao Twitter, do Instagram ao Pinterest, dá depoimentos francos, instrutivos e estarrecedores. A certa altura, o documentarista pergunta qual o maior temor que o uso das redes provoca em um de seus entrevistados, Tim Kendall, que foi presidente da rede de compartilhamento de imagens Pinterest e diretor de monetização do Facebook. A resposta é perturbadora: “No curto prazo, uma guerra civil”.

Até chegar a esse ápice dramático, no entanto, O Dilema das Redes vai pintando um panorama preciso e extremamente acessível a qualquer pessoa, mesmo para quem não é versado nos desvãos da tecnologia, sobre a verdadeira natureza dos serviços que hoje fazem a cabeça de bilhões no mundo – e em especial dos brasileiros. Recentemente, a consultoria britânica Global Webindex mostrou que o país é o terceiro em uso de redes sociais em um ranking de 46 nações. Por dia, os brasileiros passam, em média, três horas e 38 minutos conectados nesse tipo de conteúdo, atrás apenas das Filipinas e da Nigéria.

O documentário começa reconhecendo as óbvias razões do apreço das pessoas pelas redes. Seu surgimento, no raiar do milênio, produziu uma revolução bem-vinda e sem precedente na forma como as pessoas se relacionam: famílias e amigos havia muito distantes se reencontraram no Facebook; das campanhas de doação de órgãos à explosão dos grupos que unem gente de todo o mundo com interesses comuns, as redes abriram possibilidades até então inimagináveis de interação. Mais que tudo, deram a milhões de anônimos a chance de, pela primeira vez na história, expressar opiniões. Isso tudo não tem preço? Tem, sim, e ele é altíssimo, como demonstra O Dilema das Redes. “As redes trouxeram um maior espaço para vozes que antes não tinha acesso à mídia tradicional. Mas junto com essa ampliação vieram também a polarização, os discursos de ódio e as fake news, que passaram a ser uma ameaça à democracia”, diz o cientista político Filipe Campello, da Universidade Federal de Pernambuco.

A produção de Jeff Orlowski expõe as raízes do problema valendo-se de um formato original: não é propriamente um documentário, mas um docudrama, híbrido de conteúdo jornalístico, como entrevistas e imagens de arquivo, com recursos de encenação da realidade. Recorre-se a atores para narrar de forma didática o impacto das redes na vida de uma típica família de classe média americana. O recurso também é usado para produzir uma alegoria sobre o modo de funcionar dos algoritmos – as ferramentas de inteligência artificial que interpretam e se antecipam aos desejos das pessoas nas redes. É um expediente que simplifica bastante as coisas, e por isso logo foi brandido pelos críticos como prova de que o filme seria tendencioso e alarmista. Mas, na verdade, a encenação só confirma o contrário: O Dilema das Redes já nasce como uma iniciativa memorável por seu esforço esclarecedor em reunir constatações e conceitos que estavam no ar para tecer uma tradução perfeita – e perturbadora – de um fenômeno no qual estamos mergulhados até o pescoço, sem nos dar conta dos riscos.

A partir de uma constatação óbvia, porém muitas vezes esquecida, a de que Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e companhia não estão primariamente interessados no bem-estar das pessoas ou países, mas em obter lucro, o filme mostra como essas companhias não medem artifícios para manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível. Como eles ganham dinheiro, se são gratuitos?, questiona o documentário. A resposta é: eles vendem a seus anunciantes a possibilidade de atingir você, o usuário que navega ali despreocupado. É como diz um jargão das empresas de tecnologia: “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”. Na verdade, explica no filme o guru da tecnologia Jaron Lanier, o produto é algo mais sutil: agradativa, leve e imperceptível mudança em nosso comportamento e percepção operada pelas redes. “Esta é a forma de eles ganharem: mudar o que você faz, o que você pensa, quem você é”, pondera Lanier. As consequências desse modelo de negócio são avassaladoras para a vida humana. No afã de serem cada vez mais eficientes na tarefa de prender a atenção dos usuários, as redes sociais se valem de seus eficientes algoritmos para rastrear a vida, os gostos e opiniões das pessoas num nível que faz o Grande Irmão de George Orwell parecer um anãozinho. “Muitos pensam no dia em que a inteligência artificial dominará os humanos. Esse dia já chegou – são as redes sociais”, disse o diretor Jeff Orlowski.

Nosso cérebro, que levou milhares de anos para adquirir sua excepcional capacidade de processamento e raciocínio, agora tem de competir com supercomputadores que usam um volume colossal de informação para perpetrar a tarefa de nos influenciar, manipular e prender. Para tanto, as redes recorrem a truques de persuasão psicológica que exploram desejos e medos atávicos, e de eficácia tão cirúrgica quanto imperceptível. Há fatores que assemelham o vício em redes sociais à dependência em drogas. Vários estudos mostraram, por meio do monitoramento do cérebro com ressonância magnética durante o uso das redes, que o fato frugal de dar ou receber likes ativa a área do córtex relacionada à sensação de recompensa, liberando no organismo uma torrente de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e ao bem-estar. O vício nas redes tem uma agravante em relação a outros: sua ação silenciosa. “Vivemos em ambientes permissivos ao uso do celular, então é mais difícil perceber quando alguém está com problemas”, diz a psiquiatra Carolina Hanna, do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

O Dilema das Redes elenca os efeitos deletérios dessa dependência sobre a vida pessoal. As vítimas principais são os jovens da chamada Geração Z, que nasceram a partir de 1996 e já cresceram imersos na fissura das curtidas. A produção da Netflix alerta para o aumento na taxa de suicídios entre meninas americanas quando as redes sociais se tornaram amplamente disponíveis por meio de smartphones. Entre 2011 e 2018, o número de suicídios cresceu 150% entre garotas de 10 a 14 anos. O narcisismo inerente às redes fez surgir até novos distúrbios, como a “dismorfia do Snapchat” – tentativa das meninas de mudar o corpo para se adequar ao padrão característico das fotos naquela plataforma.

No plano coletivo, o impacto das redes não é menos preocupante. Ao permitirem e estimularem a customização da vida social conforme os anseios (e suscetibilidades) de cada usuário, elas criaram bolhas de realidade peculiares, que não se comunicam entre si. As pessoas passaram a viver a ilusão de um Matrix personalizado: cada um agora vive em seu mundo próprio, onde interagem só com quem comunga das mesmas opiniões, preocupações e, não raro, pirações. Não é difícil adivinhar aonde isso nos levou: a um mundo em que a crença em maluquices como o terraplanismo se exibe sem pudor e em que a polarização atinge níveis tóxicos e perigosos. A democracia é, obviamente, a vítima em potencial da história. As fake news destroem reputações, influenciam de forma suja os processos eleitorais e circulam em uma velocidade seis vezes maior do que as notícias verdadeiras (como lembra o documentário, os boatos e teorias conspiratórias são sempre mais chamativos do que o mundo em preto e branco da realidade). Num caso trágico, a veiculação de conteúdo odioso no Facebook levou ao massacre da minoria muçulmana em Mianmar, em 2018. O submundo das redes influenciou o Brexit, a eleição de Trump nos Estados Unidos e – como destaca o filme – de Jair Bolsonaro no Brasil.

O uso delas como instrumento de mobilização política em larga escala surgiu por aqui durante as manifestações de 2013. A maioria dos atos foi organizada pelo Facebook e divulgada em tempo real no Twitter. A utilização da internet ampliou sua importância na disputa presidencial de 2018, já sob a sombra da desconfiança. Principal ferramenta de campanha de Bolsonaro, passou a ser vista como fator de distorção, em razão das suspeitas sobre o uso massivo de robôs e de fake news – que ainda são alvo de análise no Tribunal Superior Eleitoral. Empossado, Bolsonaro reforçou o uso das redes sociais como ferramenta política ao transformá-las em uma espécie de canal oficial de veiculação dos acontecimentos do governo e das suas opiniões sobre temas variados. Até aí, tudo bem. O problema é que um pedaço de sua militância utiliza esses canais, às vezes com o apoio do próprio presidente, para mobilizar atos contra a democracia, agredir personagens de outros poderes da República, distribuir insultos, mentiras e toda sorte de baixarias digitais contra adversários. Hoje, o clima no país está mais calmo e Bolsonaro parece menos engajado nesse processo, mas, para os especialistas, é preciso estar alerta, pois o papel desempenhado pelas redes sociais tende a ser ainda maior nas eleições deste ano, até em razão da pandemia do novo coronavírus, que deve limitar a campanha de rua. ”As instituições até estão mais atentas a isso, mas não estão equipadas para acompanhar, ainda mais numa eleição em que tudo é resolvido em tempo real”, afirma Marco Aurélio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como o caso brasileiro ensina, o combate às fake news, ao ódio e à manipulação das opiniões é árduo, e o mesmo vale para outras ameaças que vêm de roldão nos prazeres das redes sociais. O mundo ainda busca medidas capazes de corrigir os rumos da babel digital – antes que seja tarde. Pressionadas, as próprias empresas de tecnologia começam a se mexer, anunciando mudanças para conter a disseminação de notícias falsas e de discursos de ódio. Deletar posts considerados impróprios e cancelar contas de robôs fazem parte desse grupo de ações (o ditador venezuelano Nicolás Maduro e Bolsonaro foram os primeiros líderes mundiais a ser atingidos pela “malha-fina” de bloqueio do Twitter por publicar conteúdos que põem as pessoas em risco durante a pandemia do coronavírus). Na visão dos especialistas no assunto, a despeito de alguns avanços, o movimento dos gigantes da tecnologia é ainda muito tímido e a lentidão de respostas está relacionada diretamente à falta de uma maior regulação sobre a atividade dessas companhias (procurados, Facebook, Twitter, Instagram e Google não quiseram comentar especificamente O Dilema das Redes). Para Tristan Harris, a sociedade precisa continuar pressionando as empresas, mas as ações individuais precisam caminhar junto, com a disposição de cada um em impor limites à invasão de sua vida e filtrar as informações confiáveis em meio ao esgoto das fakes news. “É assustador lidar com uma máquina que dissemina mentiras mais rapidamente que a verdade. As lideranças do jornalismo têm de se unir para restabelecer a confiança nos fatos”, diz Orlowski. As palavras do grego Sófocles, que abrem o documentário, resumem bem o tamanho da tarefa: “Nada que é vasto entra na vida dos mortais sem trazer uma maldição.” 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE OUTUBRO

UMA VISITA NO CEMITÉRIO

Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram (Marcos 5.15).

Era noite. Uma tempestade havia atingido o barco que transportava Jesus e seus discípulos. O Mestre repreendeu a tempestade e acalmou os discípulos. Em seguida, eles desembarcam na terra dos gadarenos, num despenhadeiro dentro de um cemitério. Dos sepulcros surge um homem nu, possesso, furioso, violento, sangrando, gritando sem parar. A situação era medonha. O homem era um aborto vivo, um espectro humano. Jesus fez essa perigosa viagem por causa desse enjeitado pela família. Havia dentro daquele homem uma legião de demônios. Legião era uma corporação de seis mil soldados romanos. Dentro de um único indivíduo, havia seis mil demônios. Jesus o liberta desses espíritos malignos, cura sua mente, salva sua vida e o transforma num missionário para sua gente. Jesus ainda hoje liberta os cativos, levanta os caídos, cura os enfermos e salva os pecadores. Há esperança para aqueles que estão arruinados emocionalmente.

Há libertação para aqueles que estão nas algemas do pecado e atormentados pelos demônios. Jesus veio ao mundo para desfazer as obras do diabo e proclamar libertação aos cativos. Em Jesus há copiosa redenção. Ele é a fonte da vida, o Salvador do mundo.

GESTÃO E CARREIRA

NOVA GESTÃO E APOSTA NO MERCADO INTERNACIONAL

Com ‘prata da casa’ na presidência, Lojas Renner expande negócios ao Uruguai e à Argentina. E alcança receita de R$ 8,5 bilhões.

A premissa de construir no presente o futuro move a rotina do executivo Fabio Faccio à frente das Lojas Renner. O administrador chegou à rede varejista como trainee em 1999 e, em abril de 2019, assumiu a presidência com as missões de manter o plano de crescimento – inclusive no mercado internacional – e substituir o ex-CEO José Gallo. Em pouco mais de duas décadas no cargo, Gallo tirou a empresa do anonimato e a transformou em uma das maiores varejistas de moda do Brasil. Após quase um ano e meio da gestão Faccio, as adversidades se mostram bastante desafiadoras: aumento do desemprego no País, crise econômica e, para agravar tudo isso, pandemia.

Prever como vai terminar 2020 tornou-se tarefa das mais complicadas para o executivo, que, no ano passado, expandiu os negócios da companhia no Uruguai e os levou à Argentina. Com isso, a receita líquida chegou a R$ 8,5 bilhões, 13% acima dos R$ 7,4 bilhões de 2018. “Vivemos uma fase difícil, mas que vai passar. Logo ali na frente há um momento melhor”, afirmou Faccio. “Temos a obrigação de persistir, não desistir e trabalhar muito para construir empresas melhores e um País melhor.”

O plano de expansão da companhia em 2019 incluiu a abertura de 29 lojas, seis delas no exterior – duas no Uruguai, onde chegou a nove unidades desde o começo das atividades, em 2017, e quatro na Argentina, país no qual iniciou as operações em dezembro. No Brasil, foram 23 lojas. Neste ano, o projeto previa a inauguração de unidades apenas no País, com a média anual de 20 a 30 inaugurações, mas a Covid-19 reduziu os planos a dez, segundo Faccio. A Renner possui 382 pontos no total e pretende chegar a 520 até 2025. “Por mais que neste ano a gente vá abrir um número um pouco menor de lojas, esse target está mantido. Nos próximos anos, teremos um volume maior de inaugurações para recuperar esse volume perdido.”

A redução de 40% no investimento previsto para a abertura de novas lojas em 2020 ajudou a melhorar a saúde financeira da empresa, que redirecionou recursos para o digital. No ano passado, as vendas on-line aumentaram 52,8%, em comparação ao mesmo período de 2018. Neste ano, o crescimento se manteve consistente. No primeiro trimestre, praticamente sem interferência da quarentena, a alta chegou a 32,8%. Já entre abril e junho, fase de maior impacto do coronavírus, atingiu três dígitos com o fechamento das lojas físicas, entre 18 de março e 24 de abril. Em julho e agosto, houve avanço de 239% e de 206%, respectivamente. Camicado, Youcom e Ashua, integrantes do portfólio da Renner, também tiveram alta de três dígitos nas transações on-line.

O destaque de 2019 foi o app Renner, que viu o número de downloads crescer significativamente – em dezembro, somava 2,3 milhões de clientes ativos. O aplicativo foi o maior gerador de recompra entre os canais digitais, representando 33% das vendas e 45% dos acessos ao e-commerce. No segundo trimestre deste ano, de acordo com a companhia, o volume de downloads mais do que triplicou, versus o mesmo período de 2019 – alta de 259%. “Já estávamos trabalhando, havia alguns anos, na nossa digitalização, em melhorias de experiência de consumo dos nossos clientes”, disse Faccio. “O que a gente imaginava de participação num ambiente normal nos canais digitais para os próximos três a cinco anos aconteceu agora. E vai se manter”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – XII

MITO OU VERDADE?

Tire suas dúvidas sobre alguns fatos relacionados à psicopatia

TODO PSICOPATA É MANIPULADOR?

VERDADE.

Esta é uma das principais características do portador do distúrbio.

“Ele elege determinadas pessoas com personalidade submissas, frágeis ou dependentes e em circunstâncias ideais (que estão passando por períodos difíceis da vida, por exemplo) para exercer seu poder de sedução e manipulação”, explica a psiquiatra Andrea Kraft.

É POSSÍVEL ADQUIRIR O TRANSTORNO AO CONVIVER MUITO COM UM PSICOPATA?

MITO.

Apesar de a causa da psicopatia não ser completamente decifrada, sabe-se que não é algo totalmente recorrente de fatores externos, como a convivência. “Porém, este tipo de personalidade tem um grande poder de sedução e manipulação para convencer suas vítimas a praticar atitudes amorais e, até mesmo, cruéis”, lembra Andrea.

PESSOAS COM TRANSTORNO SOCIAL PSICOPÁTICO SÃO MAIS INTELIGENTES?

MITO.

Segundo o psiquiatra Vladimir Bernik, não há comprovações científicas quanto ao nível intelectual dos psicopatas.

“Analisado do ponto de vista das alterações de seu comportamento, quanto mais elaborada esta agressão ao convívio social, mais sugere ser produzida por pessoas aparentemente de bom nível intelectual. Mas, estatisticamente falando, não existe nenhuma vantagem de inteligência na média dos psicopatas em relação à população em geral”, afirma.

PSICOPATAS PODEM SER CONSIDERADOS LOUCOS?

MITO.

Bernik ressalta que a psicopatia não é uma doença mental.

“O psicopata, ou PP, no jargão psiquiátrico, é uma pessoa com transtorno de caráter e de conduta. Jamais ‘louco’ na linguagem popular”, explica. “A psicopatia difere da demência por não haver prejuízo na cognição (memória, capacidade de raciocínio e planejamento). Não há tampouco a existência de sintomas psicóticos (delírios ou alucinações) como na esquizofrenia. O psicopata tem consciência de que está mentindo, manipulando as pessoas e transgredindo regras. Entretanto, é incapaz de ter remorso ou empatizar com o sofrimento ou sentimento do outro”, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai.

SITUAÇÕES ESTRESSANTES PODEM LEVAR A COMPORTAMENTOS PSICOPATAS?

MITO.

“Situações estressantes podem agravar grande parte das doenças mentais, mas não é o caso da psicopatia, que é um transtorno de caráter e de personalidade”, explica Bernik.

TROLLS (PESSOAS QUE GOSTAM DE TUMULTUAR EM FÓRUNS DE DISCUSSÃO E EM REDES SACIAIS NA INTERNET), HACKERS E STALKERS (PESSOAS QUE ESPIONAM A VIDA DE OUTRAS PESSOAS PELA WEB) PODEM SER CONSIDERADOS PSICOPATAS?

VERDADE.

“Todas as pessoas que deliberadamente infringem as regras de conduta moral requerida pela vida e para a vida em sociedade, tanto no mundo real quanto no virtual, têm características de psicopatia”, afirma Bernik. No entanto, é importante destacar que não se deve generalizar este diagnóstico.

PSICOPATAS SÃO INCAPAZES DE AMAR?

VERDADE.

Trata-se de uma característica central do transtorno.

“O amor para eles se aproxima mais do sentimento de posse e da possibilidade de uso do outro a serviço de seus interesses. Por exemplo, um psicopata pode chorar a morte da mãe se ela o sustentava financeiramente”, expõe Tamai.

ANIMAIS PODEM SER DIAGNOSTICADOS COMO PSICOPATAS?

MITO.

O comportamento de alguns animais, como ratos, corujas e hamsters que matam suas crias (chegando, algumas vezes, a até comê-las), não pode ser comparado ao dos seres humanos.

“Quanto aos animais, parece que esses matam por uma questão de seletividade e manutenção da espécie. O homem mata por razões muito menos nobres”, destaca a psicóloga Raquel Staerke.

PSICOPATA É O MESMO QUE SOCIOPATA?

VERDADE.

O psicólogo Armando Ribeiro esclarece que os termos são sinônimos, mas complementa: “Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID -10), da Organização Mundial da Saúde, a nomenclatura atualmente correta é personalidade dissocial ou antissocial”.

EU ACHO …

DESEJO, NECESSIDADE, VONTADE

A felicidade está em enxergar o proibido – não em praticá-lo. Sobre isso, Stendhal, grande escritor francês, tem uma passagem ótima em um de seus contos. Numa tarde de calor escaldante, uma princesa está na sacada do palácio deliciando-se com um magnífico sorbée, o sorvete da época. De repente, ela pensa: “Pena que não é pecado”.

Assim é o mundo: a noção do proibido, o impedimento de fazer algo aumenta o gosto e o desejo – da mesma forma que o desejo só existe enquanto não é saciado. Desejo realizado é desejo esgotado, é desejo que deixou de existir, como escreveu um dia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “O vitorioso também será derrotado pela vitória”.

Falar em pecado é impossível sem falar da virtude. O que é um pecado? É a maximização da virtude; ou seja, é a virtude exagerada. Assim, pelo excesso, uma admiração se torna inveja. A virtude do prazer, por sua vez, vira luxúria. Quando exagerada, a virtude da indignação se transforma em ira. O orgulho muda para soberba e o descanso exagerado, preguiça.

Há uma grande diferença entre desejo, vontade e necessidade. Desejo é um impulso vital. Vontade é uma carência transitória, a inclinação em direção a algo num certo momento. A necessidade é uma urgência.

Uma necessidade é satisfeita, uma vontade é suprida. Uma pessoa tem necessidade de comer, de beber, de ganhar a vida. Tem vontade de comer pipoca, de tomar guaraná no final da tarde, de encontrar alguém – e essas vontades desaparecem quando a carência é suprida. E o desejo é uma energia constante, aquilo que impulsiona uma pessoa, algo que ela não pode deixar de ter em seu horizonte.

O desejo não é um estado, não é um lugar aonde eu chego. O desejo é o horizonte, aquilo que norteia, mas nunca se alcança. Como escreveu Eduardo Galeano sobre a utopia como horizonte, eu caminho dois passos em direção ao horizonte e o horizonte se afasta dois passos de mim. Caminho dez passos e ele se afasta dez passos. O horizonte não existe para que se chegue até ele, e sim para não me impedir de caminhar – o desejo é que impede que eu pare de caminhar. Por isso, o desejo é imortal.

É preciso lembrar que só os humanos são mortais, pois só os humanos sabem que vão morrer – os demais animais não lidam com o conceito de finitude e, portanto, não são mortais. Assim, os cães e os gatos, por exemplo, vivem a eternidade, dado que passam o dia como se fosse o único, enquanto sabemos que para nós pode ser o último.

O que é a imortalidade? É um presente contínuo, um presente sem fim. Com exceção do homem, todo animal vive um presente eterno, sem a preocupação do futuro. Ele vive, portanto, a imortalidade e, assim, é imortal. Nós não. Os humanos somos os únicos animais que têm noção de presente, passado e futuro – e também os únicos animais que possuem a capacidade de se sentir idiota. Eu, Mario Sergio Cortella, posso me recordar de três anos atrás e pensar: “como eu pude dizer uma asneira tão grande para ela?”. Assim, ao me recordar disso, me sinto idiota desde aquela época até o presente momento.

A noção de tempo anda de mãos dadas com os nossos desejos, essa energia que nos conduz, que nos dirige aos nossos horizontes. Essa energia morre conosco na hora do “descanso eterno”. Por que essa expressão?

Descansar do quê? Descansar do desejo incessante, pois o desejo dá vida e viver cansa. “Quem sou eu?”, “o que eu quero?”, “como consigo o que falta?”, “estou mesmo no caminho certo?”. Nós passamos o tempo todo em busca de respostas, que estão sempre no horizonte, um horizonte que jamais se atinge e, por isso, impede que eu deixe de caminhar, de procurar as minhas respostas. Só tira a própria vida aquele que perdeu o desejo, pois o desejo é sinônimo da vida.

Vida é vibração. Átomos vibram. Somos compostos de moléculas, que são átomos em vibração. Átomos animados – sendo que anima, em latim, quer dizer alma. Por que átomos vibram? Eis uma pergunta que nem os melhores cientistas conseguiram dar uma resposta satisfatória. Mas eu tenho uma suspeita de origem filosófica: átomos vibram porque eles não podem não vibrar. Em outras palavras, vibram porque têm necessidade de vibrar.

Note que a tríade desejo, vontade e necessidade não se separa. Vida é sempre desejo, vontade e necessidade.

Assim, na morte, cessam-se desejos, vontades e necessidades. Se é assim, por que se fala em desejo imortal? Para responder isso, é preciso entender de onde vem a palavra “morte”. Morte, no grego antigo, está ligada ao termo lethos, ou seja, à ideia de esquecer, ao esquecimento. É daí que vem “letal”.

Assim, quem morreu não vibra mais, não chama atenção e, portanto, é esquecido. Por outro lado, também no grego clássico, alethos – ou não mortal, aquilo que não é esquecido e, portanto, vive para sempre – é sinônimo de verdade (ou aletheia). A verdade é eterna, não morre jamais. A verdade é a essência. A essência, por sua vez, é imortal. E a essência humana é o desejo. Por isso, ele é a minha verdade.

E chegamos aqui a uma das questões mais difíceis para qualquer ser humano: “Qual é a sua verdade?”. “Qual é a sua essência?”. No dia em que você se for, essas questões irão embora com você. O que permanecerá de você no mundo?

Permanecerá o seu legado. Permanecerá aquilo que você ensinou, aquilo que ensignou, as marcas que deixou.

Permanecerá a sua verdade e a sua essência.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

RETOQUES NA SURDINA

O isolamento colocou as pessoas longe dos colegas de trabalho e frente a frente com as marcas de seu rosto. Resultado: aumento da procura por procedimentos estéticos

Fechada em casa, passando dias sem ver os colegas de trabalho, eventualmente participando de uma videoconferência em que todo mundo aparece com a cara esquisita – ela inclusive -, olhando no espelho antes de atender à porta e percebendo marcas que a bendita máscara põe em destaque, o que vem à cabeça de uma mulher cumprindo quarentena? Aproveitar que ninguém está vendo e corrigir as imperfeições, oras. Nos quatro ou cinco meses em que a maioria evitou por os pés na rua, as clínicas dermatológicas e os hospitais fora do circuito de atendimento de pacientes com Covid-19 permaneceram ativos e operantes, recebendo pacientes que viram no isolamento social as condições ideais para um discreto estica e puxa. “Depois de passar por um período de angústia, solidão e medo, é normal que a humanidade, ao vislumbrar a esperança de controle da epidemia, sinta uma renovada vontade de se embelezar para voltar à vida de antes”, teoriza o cirurgião plástico Volney Pitombo.

Com o rosto em evidência no monitor, na tela do celular e nas áreas ressaltadas em volta da máscara, a maior procura (tanto de mulheres quanto de homens, aliás) tem sido por procedimentos nessa região – o consenso é de um aumento de 30% nesse tipo de intervenção entre março e agosto, sendo que em alguns pontos, como as pálpebras, a demanda pela cirurgia de remoção do excesso de pele subiu 50%. Nariz e orelhas também entraram no radar dos quarentenados desgostosos com a aparência. “Eu me incomodava quando me via em fotos e vídeos no celular. Evitava sorrir e ficava de lado para a câmera. Estava com a autoestima abalada”, relata o engenheiro Arnon Vichy, 27 anos, que criou coragem e se submeteu a uma plástica no nariz no fim de julho, tendo o cuidado de manter a máscara a mão para, se necessário, esconder os hematomas que vieram no pós-operatório.

Quem tinha alguma intervenção estética planejada mais para a frente também fez uso do home office – e até do dinheiro que sobrou de alguma viagem não realizada – para antecipar a programação. Depois de emagrecer em consequência da cirurgia bariátrica, a assistente administrativa Ana Carolina Ferreira, de 21 anos, havia marcado a colocação de próteses de mama para as férias do ano que vem. Veio a quarentena e ela acabou entrando na faca em julho. “Em casa, eu me sentia refém da minha própria companhia e comecei a ver um monte de defeitos em mim. Então, remarquei, fiquei feliz e pude ter uma recuperação tranquila”, diz.

Ganharam igualmente adeptos, no período de confinamento, as aplicações de Botox, os preenchimentos artificiais, a aspiração de gordura nas bochechas e a atenuação de olheiras. “Nota-se uma preocupação muito grande com a área ao redor dos olhos. Nas reuniões por videoconferência, as pessoas ficam se criticando o tempo todo”, explica o cirurgião plástico André Maranhão, que aponta ainda para um aumento no número de lipoaspirações – até porque o repouso obrigatório na recuperação fica bem mais fácil quando se trabalha de casa. Incomodada com as marcas da idade, a empresária Márcia Reis, 54 anos, consultou uma especialista em harmonização facial e, em seguida, submeteu-se a aplicação de Botox e aspiração da papada e das bochechas. Acabou influenciando a filha, a publicitária Paula Reis, 28, que voltou para casa com os lábios e o queixo reformatados por preenchedores. “Nunca tinha feito nada, mas comecei a me sentir mais bonita usando os filtros do Instagram que me davam uma boca maior. Como estava em casa desde maio, sem emprego, com tranquilidade para me recuperar, resolvi experimentar”, explica Paula.

Dona de uma movimentada clínica dermatológica em São Paulo, que não fechou durante a quarentena, a médica Ligia Kogos conta que recebeu muita gente incomodada com a aparência em lives. “A maioria saiu do meu consultório com receita de ring light”, brinca, referindo-se ao equipamento que melhora a iluminação e, consequentemente, as feições das pessoas nas transmissões on-line. Ligia diz que o movimento diminuiu na pandemia, mas cresceu a opção por tratamentos mais demorados, e que atendeu a muitas emergências por problemas de stress e alergias, sobretudo ao álcool em gel. Quem continuou a atender nos meses de isolamento social reforçou o investimento em testes, máscaras, higienização e altas antecipadas. “Só opero em hospitais que não têm pacientes de Covid-19, o que traz conforto a quem vai se submeter a cirurgia plástica”, diz o médico Regis Ramos. As cirurgias eletivas em hospitais públicos e particulares estão liberadas desde 9 de junho, em São Paulo, e 16 de junho, no Rio de Janeiro. E, pelo jeito, não faltam pacientes dispostos a encarar agulhadas e até o bisturi para fazer bonito no mundo pós-pandemia.

EM REFORMA

Os procedimentos mais procurados por quem não aguenta mais se ver no Zoom

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE OUTUBRO

A ORIGEM DO UNIVERSO

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Genesis 1.1).

Desde que Charles Darwin publicou em Londres, em 1859, a obra A origem das espécies,2 a teoria da evolução se tornou uma crença cada vez mais popular. Muitos confundem a teoria da evolução com as verdades científicas. Há os que pensam que o universo veio à existência por geração espontânea. Outros entendem que o universo é resultado de uma colossal explosão. Outros ainda defendem que o universo resulta de uma evolução de bilhões e bilhões de anos. Falta a essas teorias a evidência das provas. Sabemos que o universo é composto de matéria e energia; isso a ciência prova. Sabemos que o universo é governado por leis; isso a ciência prova. Sabemos que matéria e energia não geram leis; isso a ciência prova. Logo, alguém fora do universo criou essas leis que governam o universo. O criacionismo tem a evidência das provas. O relato da criação, conforme registrado em Gênesis 1 e 2, está em estreita sintonia com os ditames da ciência. O mesmo autor da criação é o autor das Escrituras.

Embora haja sobejas evidências do criacionismo, comprovadas pela ciência, cremos pela fé que Deus criou o universo. Antes do início, só Deus existia. A matéria não é eterna. Deus trouxe à existência as coisas que não existiam. Do nada, ele tudo criou, tudo sustenta e tudo governa.

GESTÃO E CARREIRA

MEU ESCRITÓRIO É EM QUALQUER LUGAR

Home office, semana de quatro dias, locais sem aperto: a pandemia provoca uma revolução no setor e abre novos caminhos para empresas e funcionários

“A única coisa que devemos temer é o próprio medo”, discursou o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) em março de 1933, durante o lançamento do New Deal, o bem-sucedido plano de recuperação econômica para combater a crise de 1929, a Grande Depressão. O programa revolucionou o mercado com inovações como o salário mínimo, a redução da jornada de trabalho e o seguro-desemprego. Quase um século depois, outro grande e trágico acontecimento — a pandemia do novo coronavírus — também mudará para sempre a vida do trabalhador e dos patrões. Cada vez mais, flexibilização será regra do jogo, mesmo depois de a vacina chegar. Em tempos normais, apenas algumas empresas consideradas excêntricas apostavam no home office. O isolamento social, porém, pôs o paradigma do trabalho remoto à prova e agora até mesmo os mais céticos reconhecem que é possível ganhar dinheiro, até mais, fora do escritório — na mais visível das mudanças provocadas pela disseminação do vírus, que mexeu também com as famílias e com os serviços de telemedicina.

Entrevistamos nos últimos dias executivos de algumas das maiores empresas do Brasil para descobrir quais tendências dominarão o mercado daqui por diante. Logo de cara, ficou evidente: não há pressa para voltar ao escritório. O Itaú já avisou seus 55 000 colaboradores que o trabalho remoto será mantido ao menos até fevereiro de 2021. Na companhia de alimentos Kraft Heinz, só 10% do pessoal tem ido até a sede, mas apenas às segundas e terças-feiras, e sempre de forma voluntária. Aqueles que pertencem ao grupo de risco ou usam transporte público estão proibidos de retornar. Já a XP Investimentos decidiu dar um passo além das rivais e aboliu definitivamente o trabalho presencial.

Todas as empresas consultadas pela reportagem afirmaram que estão plenamente satisfeitas com o desempenho de seu pessoal durante a pandemia e que, mesmo à distância, a produtividade aumentou. Segundo David Vélez, CEO do banco digital Nubank, as taxas de engajamento dos funcionários que estão em casa bateram recorde de 90% durante a pandemia. “Todos os times reportaram ganhos de produtividade”, afirma. O corte de custos, a melhora na qualidade de vida e a possibilidade de contratar talentos em qualquer parte do mundo são outros benefícios do trabalho remoto apontados pelos gestores. A falta de interação pessoal, aquele cafezinho no corredor que pode suscitar ideias geniais, é um ponto negativo, mas as empresas estão atrás de soluções. “Tivemos de revisar as formas de comunicação, com reuniões pontuais e concisas”, diz Maurício Rodrigues, vice-presidente de finanças da farmacêutica alemã Bayer.

Gigantes estrangeiros como Twitter e Facebook já sinalizaram o desejo de implementar o home office permanente para quem assim preferir. No Brasil, o Bradesco deu a seus funcionários a opção de trabalhar remotamente de forma fixa, oferecendo uma ajuda de custo de 1 080 reais no primeiro ano para cobrir gastos com internet e luz. A tendência geral, porém, caminha em direção ao modelo “híbrido”, com os funcionários indo de um a três dias até a firma.

A pandemia, sem dúvida alguma, quebrou as barreiras do horário comercial e rotinas preestabelecidas. A multinacional Unilever, que foi pioneira em medidas de flexibilização no Brasil, como o job sharing (no qual pessoas dividem uma mesma função e trabalham apenas três dias por semana) e jornada de meio período, pretende ampliar seu leque, com horários livres para os funcionários — eles decidem o melhor período para a labuta. Algumas empresas usam a tecnologia para monitorar e controlar os horários dos funcionários, mas a tendência é que as relações sejam cada vez mais de confiança. “O que importa é entregar as tarefas”, diz Flavia Caroni, diretora de RH da Kraft Heinz. Entre as novas ideias destaca-se a adoção de um dia a mais de descanso, incentivada até por governos como o da Alemanha, Nova Zelândia e Reino Unido. “A semana de quatro dias pode funcionar em qualquer negócio ou país”, diz o neozelandês Andrew Barnes, autor do livro The 4 Day Week (A Semana de Quatro Dias). “A redução da jornada de trabalho protege todas as tradições e estilos de vida, fatores cruciais para a coesão familiar, qualidade de vida e senso de comunidade.”

A maioria das empresas brasileiras, porém, não se entusiasma com a ideia de reduzir a jornada. Na realidade, os funcionários têm trabalhado mais, o que explica inclusive a alta produtividade. Especialmente no começo da pandemia, muitos esticaram a jornada temendo perder o emprego. A conta, porém, sempre chega e a saúde mental passou a ser prioridade. A Ambev criou um departamento exclusivo para o atendimento psicológico de seus funcionários. Palestras e aulas de mindfulness (atenção plena) foram incorporadas ao expediente.

O novo normal afetou mais drasticamente o topo e a base da pirâmide corporativa. Os mais jovens se ressentem do acompanhamento presencial, o que exige maior capacidade de adaptação e amadurecimento, mas têm a seu favor a familiaridade com as tecnologias. Já os chefes tiveram de se tornar mais facilitadores e menos controladores. “A pandemia trouxe tristeza, mas também aprendizado”, afirma Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos, a maior empresa de recrutamento do país. “O líder tinha uma exigência muito grande de ser o super­ homem e, diante da incerteza, teve de assumir suas fragilidades e desenvolver sua sensibilidade.”

Nesse cenário, os escritórios não vão morrer, mas terão de ser “ressignificados”, para usar uma palavra típica do mundo corporativo. “A sede da empresa é um catalisador de sua cultura e ganhou um papel mais importante, já que as pessoas não têm de estar lá o tempo todo. O novo escritório tem de ser uma experiência mais atrativa e sedutora”, diz Sérgio Athié, presidente do Athié Wohnrath, maior escritório de arquitetura do país, especializado em projetos corporativos. “As grandes mesas com porta-retratos da família devem ser extintas e dar lugar a espaços colaborativos. Até pelo temor de uma nova pandemia futura, espaços mais abertos e ventilados, como a cobertura dos prédios ou o térreo, devem ser reaproveitados.”

Diante da necessidade de cortar custos, os chamados coworkings, ou escritórios compartilhados, tendem a ganhar tração. “A demanda por flexibilidade, que já existia, explodiu”, diz Lucas Mendes, CEO da WeWork no Brasil. Recentemente, a empresa lançou um cartão que dá acesso a todos os prédios da empresa no mundo. No Brasil, o passo mais ousado, reafirme-se, foi da XP Investimentos. A empresa aboliu o trabalho presencial e está construindo a Villa XP, um campus amplo e futurista que lembrará as sedes de Apple e Google, no Vale do Silício, e da Tencent, em Shenzhen, China.

São Roque, no interior de São Paulo, receberá o projeto, que contará com hotel, restaurantes, áreas de lazer e esportes, clínicas médicas, creches, laboratórios, auditórios e salas de reuniões abastecidas por fontes de energia renováveis. Engana-se, porém, quem pensa que os funcionários terão de se deslocar para o ambiente. O espaço receberá eventos corporativos, e não só da XP, além de atividades pontuais para funcionários, como o treinamento de novos contratados. “A ideia é ter um espaço moderno, em consonância com a dinâmica do trabalho descentralizado”, diz Guilherme Sant’Anna, head de gente e gestão da XP. “O escritório será utilizado só por funcionários em treinamento e para reuniões específicas.”

A tecnologia, evidentemente, se torna cada vez mais fundamental para viabilizar essa mudança. A Via Varejo, dona de Casas Bahia, Ponto Frio e do site de vendas do Extra, avançou a digitalização da empresa, pondo de pé um modelo até então ignorado pelas varejistas: a venda pelo Whats­App. As questões relacionadas aos benefícios também demandam mudanças. “Estando mais em casa, o colaborador deve ter maior autonomia e flexibilidade”, diz Raphael Machioni, CEO da Vee, startup de benefícios como vale-cultura e planos de academias de ginástica. “Ele pode, por exemplo, trocar o vale-transporte por um auxílio home office.” As novidades do mercado também são fruto da reforma trabalhista, que atualizou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e regulamentou o teletrabalho. Melhor ou não, só o tempo dirá, mas certamente o novo mundo profissional será muito diferente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – VII

COMO ESTIMULAR O AUTISTA?

 As terapias e os cuidados essenciais no desenvolvimento comportamental e comunicativo da criança com TEA

Por se tratar de um transtorno que afeta o neurodesenvolvimento, o autismo não tem cura. Contudo, algumas experiências contribuem para uma melhor integração de quem é diagnosticado com TEA. Terapias e tratamentos monitorados por equipes multidisciplinares visam o desenvolvimento da criança e a consequente melhora da qualidade de vida. O mais importante é que essa intervenção profissional ocorra o quanto antes, amenizando o progresso dos sintomas.

Entre as principais características presentes nos quadros de autismo, uma das que mais se destaca é a dificuldade de comunicação, tanto verbal como não verbal. Com o processo comunicativo comprometido, a interação social também é afetada, podendo desencadear prejuízos à autoestima e isolamento.

O PAPEL DA FONOAUDIOLOGIA

O fonoaudiólogo pode contribuir significativamente na superação dessas dificuldades. É ele o responsável por promoveras habilidades comunicativas, investindo no desenvolvimento das diversas formas de expressão. “Seu diagnóstico e intervenção são fundamentais. Geralmente, esse profissional, após o pediatra, é o primeiro a identificar o quadro, já que o atraso de fala e linguagem costuma ser mais evidente”, aponta a fonoaudióloga Ana Lúcia Durán.

Com os avanços nas pesquisas sobre neurociência, alguns métodos de intervenção e tratamento surgiram. E o caso do ABA e do TEACCH, duas das técnicas mais conhecidas na terapia do autismo. Apesar de serem os processos mais difundidos e utilizados, Ana Lúcia alerta para a necessidade de se buscar centros de referência para o autista. Assim, dependendo de cada caso, são elaboradas estratégias que possibilitem interação.

À GALOPE

Outra técnica muito utilizada no tratamento do autismo é a equoterapia. Um recente estudo realizado no Reino Unido mostrou que, ao cavalgar, o corpo da criança realiza alguns movimentos que diminuem a tensão na região do cérebro responsável pela fala e visão. Devido ao maior fluxo sanguíneo na área, a atividade neural tem um ganho significativo, contribuindo com melhorias na comunicação, no humor e na atenção.

Outros benefícios da prática da terapia são o desenvolvimento da postura e do trabalho em grupo. “A percepção do outro é uma das coisas que mais tem ganho. Assim, o paciente se sente como ‘não sozinho’ no mundo, que é uma das grandes dificuldades dos autistas”, afirma a terapeuta Cláudia Pocci. “Além disso, propicia ritmo, concentração e afeto, enquanto que o cavalo tem um papel importantíssimo por ser condutor de afetividade”, completa. A equoterapia pode ser praticada por crianças e adultos autistas de diferentes graus de comprometimento.

EM CASA

Engana-se quem pensa que as terapias são praticadas apenas nos consultórios. Os especialistas garantem que o próprio lar pode ser uma extensão das sessões, e a orientação familiar é um dos aspectos mais importantes no tratamento do autismo. “As estratégias utilizadas no ambiente terapêutico devem ser compartilhadas e repetidas em outras situações da vida do paciente”, observa Ana Lúcia Duran. E isso reflete muito bem no progresso do paciente. “Na maior parte dos casos, os avanços com o tratamento adequado contribuem para melhorar a qualidade de vida e autonomia”, complementa. Para a terapeuta Cláudia Pocci, o envolvimento familiar é fundamental, pois “toda a estrutura emocional da família é fortalecida, contribuindo para o desenvolvimento da criança”.

MÉTODOS DE TRATAMENTO

Apesar de cada caso de autismo ser tratado de forma diferente, há algumas técnicas mais populares utilizadas pelos profissionais.

o ABA (Análise do Comportamento Aplicado, sigla em inglês), é um método baseado na psicologia comportamental que visa reduzir as condutas inadequadas e aumentar os desejados por meio de recompensas. Nele, ao praticar o tratamento desejado, a criança recebe a recompensa, e quando ocorre o não desejado, não recebe.

O TEACCH (Tratamento e Educação poro Autistas e Crianças com Déficits Relacionados com a Comunicação, em sigla em inglês, também é um programa comportamental, mas voltado para um contexto pedagógico. Nesse método, o ambiente deve ser montado por meio de exposições visuais em quadros e murais, facilitando o reconhecimento das atividades por parte da criança. Além disso, há o cuidado para que não haja estímulos externos – como barulhos, brinquedos e movimentação – evitando, assim, a distração.

EU ACHO …

FELICIDADE COMO VITALIDADE

Não é à toa que o homem celebra desde tempos imemoriais a noite mais curta do ano, o solstício de verão, e a noite mais longa do ano, o solstício de inverno. Apreciamos a noite mais longa por ela nos dar a sensação de finitude, que nos apavora e nos alerta para a importância do dia. E aproveitamos a noite mais curta – geralmente 23 de dezembro no hemisfério norte – “porque o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações. Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente”, como cantou Nelson Cavaquinho.

Desse ponto de vista, não é casual que os latinos tenham criado uma festa chamada Sol Invictus, ou Sol Invencível. Também não por acaso, a partir do século 3, os cristãos deglutiram antropofagicamente essa festa e assumiram que Jesus nasceu naquele dia. Historicamente, isso não faz sentido. Aliás, mais do que isso: seria uma impossibilidade no inverno do hemisfério norte, na Palestina, ele ser adorado numa manjedoura – mesmo que as vaquinhas ficassem bafejando sobre ele, teria morrido imediatamente de pneumonia ou hipotermia.

Assim, não há evidências para o fato de Jesus ter nascido em 25 de dezembro, mas religião, mais do que um sistema de ideias, é um sistema de forças. As pessoas não abraçam uma religião para se sentirem mais sábias, e sim para se sentirem mais fortes. Por isso, é inútil discutir religião. Não porque não se possa – pode, pois ela é também um sistema de ideias – mas porque ela é, sobretudo, um sistema de crenças e forças. Por isso, discutir religião nunca é um debate teórico, seja sobre ideologia ou princípios. Discutir religião é tentar afrontar o que dá sentido à vida do outro. E aí tanto faz se é verdade ou não – o simples fato de alguém acreditar já basta. E isso pode nos deixar felizes.

Se felicidade é um episódio, resta saber: é um episódio de quê? De vibração da vida. De quando alguém sente a vida vibrar, quando uma centelha ou uma fagulha se acende em você de forma expressiva, quando você mesmo se sente brilhante, irradiando energia.

Em latim, a palavra felix tem um duplo sentido. Ela significa feliz, mas também significa fértil. Assim, felicidade é fertilidade – não apenas no sentido de reprodução, mas como sentimento de que a vida não cessa, de que não há esterilização dos sonhos nem desertificação do futuro. Quando me sinto vivo, me sinto impregnado de sonhos e futuro, ou de paraíso (a propósito, um parênteses: a ideia de paraíso, palavra persa que foi popularizada pelos hebreus, é uma ideia de quem vive no deserto, onde a valorização do oásis só pode existir para quem caminha em meio à areia escaldante. O oásis, ou o paraíso, é aquele lugar em que você não sofre mais, onde você descansa depois da longa travessia, onde você sente mais prazer por estar vivo, onde vibra por estar vivo).

Num exemplo banal de felicidade, algo parecido acontece comigo de manhã quando estou ouvindo música clássica no escritório e o gato vem e pula no meu colo e se esfrega em mim. Esse pequeno episódio me dá prazer – e me dá prazer também por ser um pequeno episódio, pois, se ele fizesse isso o tempo inteiro, o gato se tornaria chato e desagradável. Mas, ao fazer isso de maneira eventual – uma vida encostando em outra –, ele oferece a mim um carinho que faz minha vida vibrar e minha vibração funciona como um carinho para ele.

Outro momento de felicidade banal é quando começo a olhar e a mexer em algum dos meus 6.000 livros.

Cada um dos livros que mexo é um pedaço da minha história. Eu olho para um deles e me lembro de quando e do por que de tê-lo comprado, se li ou não – pois há livros que a gente compra mas não lê, ou só lê um pedaço, mas que a gente compra porque não quer não tê-lo. Isso não é só uma questão de posse material. Está mais para um viciado que não convive com a ideia de que o estoque acabou. É como o fumante que, mesmo morando ao lado da padaria, precisa deixar um pacote guardado em casa “para uma emergência”. Eu tenho muitos livros “para uma emergência” – para o caso de eu, que tenho amizade forte por livros, ficar sem uma alternativa de leitura. Às vezes vira paixão e isso me leva a ter um estoque irracional de livros que não li e, a julgar pelo tempo que estimo ter de vida, também não lerei.

Por outro lado, mesmo que não tenha lido, os livros têm cheiro – quem gosta de livros gosta de seu aroma, assim como quem gosta de carro gosta do cheiro de combustível ou de carro zero quilômetro (que, aliás, é um aroma fabricado, cientificamente estudado). Não gosto de carro, sequer tenho carteira de motorista. Gosto de livro e, portanto, gosto do cheiro de livro novo, do livro ao ser aberto, despaginado, violado, profanado, ao ser manchado pela água que derrubei, ou a comida ou a gota de azeite que caiu ali, ou os riscos, grifos e comentários que acrescentei – tudo isso realça o gosto de contemplar a biblioteca e me sentir feliz, revivendo a história de cada marca que deixei nos livros.

Isso é felicidade: sentir-se vivo. Há pessoas que se sentem felizes ao acumular riquezas. Outras, ao zelar pela família. Outras ainda ao curtir seus livros e suas plantas. Tenho um filodendro que está comigo há mais de 40 anos. Eu tinha 10 anos quando o ganhei e ele já foi comigo para todos os lugares em que vivi. De manhã, quando vejo o sol bater nele, quando vejo que ele está bem por estar ali, eu me sinto feliz. Quando já estou dormindo e Janete, a mulher com quem sou casado há mais de 25 anos, chega em casa e me dá um beijo, ou passa a mão no meu rosto, tenho uma sensação imensa de felicidade. Com esses exemplos, quero dizer que a felicidade está no simples, e não no complexo. Quer algo mais simples do que uma criança rasgar o papel que embrulha o presente?

Isso é o caminho mais curto para felicidade, sem nenhum tipo de meticulosidade. Abrir um presente de maneira meticulosa é a negação da felicidade, puxando a ponta de um durex aqui, tirando o nozinho do barbante acolá, puxando o papel com cuidado para não amassar. Isso é coisa de neurótico, de gente que não vive a alegria do momento, que não vive certas seduções.

Adão e Eva desobedeceram Deus e comeram o fruto proibido para serem felizes. Se não tivessem caído em tentação, permaneceriam imortais. E a imortalidade é insuportável, ainda mais quando se vive num mundo perfeito – como não há ausência de felicidade do paraíso, ninguém poderia se sentir feliz ali.

Insisto na ideia: Adão e Eva desobedecem Deus para poderem ser mortais. Para poderem sentir seus corpos. Para sentirem dor e depois alívio. Cansaço e depois o descanso. O paraíso devia ser tedioso. A serpente cumpre uma grande função, ainda que de natureza simbólica: ela nos permite a felicidade.

A felicidade é um momento. A possibilidade de não ter ausência impede a felicidade. O erótico só é erótico porque na maioria do tempo vivemos cercados de coisas sem nenhum erotismo. Se o erótico fosse permanente, não haveria revistas eróticas – que só são compradas todo mês porque os momentos eróticos se esgotam. Ou as revistas de decoração e suas casas maravilhosas que a maioria das pessoas nunca terá – e nem precisam ter, pois não se compram revistas assim para possuir imóveis, e sim para fruir a sensação de como seria ter uma casa dessas, numa espécie de posse virtual. Ou se compra uma revista de gastronomia para se deliciar com os olhos e não necessariamente com o estômago. O fato é que as pessoas compram essas revistas para se sentirem bem, para se sentirem mais felizes.

Só a carência permite momentos felizes. E esse é o nosso grande desafio aos deuses: não só o desejo de sermos felizes, como a possibilidade efetiva de sermos – ao contrário dos deuses, que em todas as mitologias são representados como entidades atormentadas.

Felizes são os humanos, pois não são felizes sempre – mas, quando são, podem fruir a felicidade com grande intensidade.

OUTROS OLHARES

MERGULHO INTERIOR

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Com a pandemia e o distanciamento social, mais do que nunca ganha corpo a busca do ser humano pela reflexão e espiritualidade

O gênio René Descartes cunhou uma frase que entraria para a História: “Penso, logo existo”. Analisada à exaustão, a reflexão é simples: se tudo é incerto, a única verdade inquestionável é a existência humana e a sua capacidade de refletir, debater e escolher o seu próprio destino. Hoje, passados séculos dessas reflexões, e em meio a uma pandemia avassaladora, a espiritualidade volta a ganhar corpo em um País que contabiliza mais de 150 mil mortos.

“A mente humana não está preparada para algo incontrolável como uma pandemia. O sofrimento coletivo faz com que as pessoas se adaptem e busquem soluções convenientes”, afirma o psiquiatra Guilherme Messas, professor da Santa Casa de São Paulo e membro do St Catherine’s College, em Oxford, na Inglaterra. Especialista em comportamento humano, ele afirma que é natural, na situação em que estamos vivendo, que o ser humano realize um mergulho interior. É o que vem acontecendo: desde o início da pandemia, a busca por meditação aumentou 80% no centro budista Mahabodhi, em São Paulo. Com missas e cultos de todas as crenças acontecendo online, as religiões têm visto o crescimento no interesse até de uma audiência que sequer se interessava pelo assunto.

A designer catarinense Marina Rocha Damasceno foi a primeira a ler o diagnóstico de câncer da mãe, em dezembro do ano passado. Já em metástase, o médico da família foi categórico: não havia chances de cura. “Eu estava no mercado quando recebi o e-mail. Quando cheguei em casa, nem sabia onde estava a Bíblia”, lembra. A história de Marina com a religião está intimamente ligada à mãe, Rosy Benta da Silva. Quando Marina começou a namorar, aos 14 anos, Dona Rosy aceitou o fato, mas impôs uma condição: que o novo casal frequentasse a igreja. “A gente dizia que ia para o culto, mas acabávamos no cinema ou na lanchonete”. Hoje, com a pandemia, tudo mudou. A mãe morreu em março, e logo em seguida Marina perdeu a avó materna, vítima da Covid-19. O pai também está internado com o coronarívus, em estado grave. A pandemia levou Marina, aos 28 anos, a se inspirar na religiosidade da mãe. “Mesmo que eu perca toda a minha família, jamais abandonarei Deus”.

A baiana Gabriela Pereira cresceu em um ambiente de sincretismo religioso e gosta de afirmar que “é um pouco de tudo”. Sempre foi adepta do uso de ervas, florais e meditação. Quando seu filho de 24 anos cometeu suicídio, em abril, ficou em choque. Depois de um mês isolada, buscou ajuda no Espiritismo e na meditação, e conseguiu voltar a trabalhar. Desde então, a preparadora física incorporou em suas aulas o lado espiritual – e não apenas o físico. “Com a pandemia, a sociedade vive um momento delicado. Há muita ansiedade. Quero ajudar as pessoas a melhorarem, de corpo e alma”.

Armando Remacre tem graduação em Engenharia de Minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, e Doutorado na École Nationale Supérieure des Mines de Paris, na França. O ex-professor da Universidade de Campinas (Unicamp) jamais pensou que um dia se tornaria um monge budista. Hoje, com o nome Gen Kelsang Geden, diz que é preciso abandonar a ideia de transcendência como uma coisa antiquada e símbolo de ignorância. “As pessoas não digerem a palavra ‘espiritual’ com facilidade”. O monge explica ainda que a inteligência emocional, tão em voga nos dias de hoje é, na verdade, uma versão atualizada da mesma característica. “A espiritualidade é um conceito que nos ensina a estar preparados para qualquer situação, seja no trabalho, no cuidado com os filhos ou no enfrentamento do lado psicológico de uma pandemia.”

Em seus anos como psiquiatra, Messas vê a prática religiosa como algo positivo, ainda mais no cenário atual – principalmente em questões que envolvem luto e depressão. Ele conta que, após as pandemias do passado, as pessoas, num primeiro momento, adotam duas posturas: a solidariedade e o “salve-se quem puder”. “Depois da Peste Negra, veio o Iluminismo. Após a Gripe Espanhola, surgiram regimes totalitários, mas também importantes movimentos artísticos”. Se a humanidade é imprevisível em suas crenças, que a espiritualidade ajude a confortar quem precisa, independente da religião.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

23 DE OUTUBRO

OBEDIÊNCIA, O BANQUETE DA FELICIDADE

Honra a teu e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra (Efésios 6.2,3).

Vivemos hoje o drama de pais matando filhos e filhos assassinando pais. Há uma guerra dentro da família. Como disse Jesus, os inimigos do homem são os da sua própria casa. A Palavra de Deus, porém, diz que os filhos que honram pai e mãe recebem duas promessas especiais de Deus: vida longa e vida feliz. A felicidade é resultado da obediência. Nenhum filho é feliz se for um pesadelo para os pais. Nenhuma filha constrói sua felicidade com o cimento da rebeldia. Os filhos que desobedecem aos pais colhem infortúnio. Os filhos que desonram os pais colhem tragédias. Muitos filhos encurtam seus dias na terra porque seguem pela estrada escorregadia da desobediência, envolvem-se com amizades perniciosas e frequentam lugares perigosos. Muitos filhos se afundam no pântano do desespero e são o desgosto de seus pais porque tapam os ouvidos para escutar os conselhos de seus progenitores. Filhos obedientes são filhos felizes. Filhos que honram os pais são filhos que dilatam seus dias na terra. Filhos que obedecem aos pais são filhos que experimentam a verdadeira felicidade. A felicidade está no banquete da obediência, não nos balcões da rebeldia.

GESTÃO E CARREIRA

NOS PASSOS DA DIVERSIFICAÇÃO

Assumindo riscos e quebrando paradigmas, a Alpargatas, dona da marca Havaianas, preserva investimentos em canais digitais e lançamentos de produtos, conseguindo multiplicar suas vendas.

A dois anos de se tornar sexagenária, a dona da Havaianas, Osklen e Dupé, encontrou, na experiência de seu CEO, Roberto Funari, a saída perfeita para driblar a crise econômica que tem abalado grandes empresas globais. Aos 54 anos, o executivo paulistano acumula o know-how de quem viveu, por 17 anos, em quatro continentes e seis países. Sua visão global garantiu à Alpargatas bons resultados nos últimos anos, especialmente durante o período de maior turbulência. Enquanto muitas corporações demitiam e paralisavam investimentos, a empresa contratou 500 funcionários para seu centro de distribuição em Extrema (MG) – um aporte de R$ 3 milhões –, inaugurado em meio à pandemia. Com crescimento expressivo, o ano de 2019 acumulou resultados positivos para a companhia, atingindo R$ 3,7 bilhões em receita líquida, alta de 9,8% em relação a 2018 (R$ 3,4 bilhões). A Alpargatas ainda registrou crescimento de 29,5% no lucro líquido recorrente, que passou de R$ 333,2 milhões em 2018 para R$ 431,6 milhões no ano passado.

Neste ano, a companhia manteve os investimentos: R$ 29 milhões no segundo trimestre do ano, dos quais R$ 18 milhões (62%) foram destinados a transformações digitais e a projetos de ganho de eficiência nas fábricas e na cadeia de suprimentos. O restante, R$ 11 milhões, foi destinado para sustentação e manutenção das operações. Segundo Funari, esses fatores foram importantes para os resultados. “Mantivemos os níveis de produção, trouxemos estoques de segurança para perto dos pontos de consumo e garantimos disponibilidade e reposição”, disse. Esse crescimento resultou num salto de 53,1% no lucro líquido consolidado da empresa, passando de R$ 29,1 milhões no segundo trimestre de 2019 para R$ 44,5 milhões no mesmo período deste ano, e gerou um valor de mercado de R$ 15,8 bilhões no final do segundo trimestre.

Com o fechamento de 100% das suas 756 lojas e 45% dos 300 mil pontos de vendas na fase mais aguda da pandemia, a empresa viu a participação do e-commerce saltar 205% nos meses de abril, maio e junho, na comparação com o primeiro trimestre deste ano. O crescimento é ainda maior se comparado com o segundo trimestre de 2019, chegando a quase 600%. Grande parte dos resultados positivos foi em decorrência da boa atuação do grupo no mercado internacional, em especial da principal marca do grupo, Havaianas, que possui 30 lojas em solo estrangeiro e é comercializada em mais de 120 países.

As vendas no mercado global, favorecido pela variação cambial, representaram, no segundo trimestre, 46% do faturamento do grupo, e passaram de R$ 282,9 milhões para R$ 316 milhões entre abril e junho, alta de 11,7%. A receita líquida da Havaianas Internacional cresceu, em maio e junho, 61% e 57%, respectivamente, em comparação com os mesmos meses de 2019. O mercado nacional também apresentou participação expressiva para a empresa. O Dia dos Namorados, uma das principais datas do comércio, registrou crescimento de 400% nas vendas do e-commerce, em comparação com 2019. Os resultados positivos deram ao segmento de e-commerce mais visibilidade. Há um mês, a Alpargatas lançou uma nova loja global da Havaianas. “Estamos em 18 países e, até a metade de 2021, alcançaremos até 40 nações”, afirmou o CEO da empresa.

Em setembro deste ano, o grupo anunciou uma negociação de venda da marca Mizuno no Brasil para a Vulcabras. A venda, avaliada em R$ 200 milhões, faz parte da estratégia de expansão global e digital das marcas Havaianas e Osklen e não englobou as fábricas da Alpargatas, que, após o fechamento do negócio – ainda sujeito a celebração de contrato de licenciamento entre Vulcabras e Mizuno e aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) –, serão reestruturadas para atender exclusivamente à Havaianas.

Outra aposta da companhia é a entrada e consolidação no universo lifestyle. Criada em 1962, a Havaianas possui roupas, boias e até carregador de celular, e continua investindo na diversificação de produtos como expansão da marca. Durante a pandemia, foram lançadas parcerias com a grife francesa Yves Saint Laurent e com a New Era, a maior marca de bonés do mundo. Houve, também, o lançamento das meias e da linha Tradzori, releitura do chinelo no estilo japonês, que serviu de inspiração para a criação da primeira sandália da marca. “ Agora, passamos a ter Havaianas dos pés à cabeça”, afirmou o executivo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – VI

COMPORTAMENTO EXCÊNTRICO

Conheça características comuns em indivíduos com autismo

Os primeiros casos de autismo foram descobertos devido aos sinais característicos do transtorno. A falta de contato visual com outras pessoas, os movimentos repetitivos, entre outras estereotipias, despertaram a atenção dos médicos que desconheciam tais comportamentos nas crianças.

Desde então, a ciência evoluiu bastante no campo dos transtornos mentais e hoje é possível identificar alguns sinais de Transtorno do Espectro Autista (TEA) – e outros tanto.

CONEXÃO PRÓPRIA

Antes de tudo, é importante saber que o termo “mundo autista” é um equívoco, pois o autista não vive em outro mundo, como se fosse um “extraterrestre”. Devido a alterações neurológicas, ele interage com o ambiente de forma diferente, com graus de dificuldade que variam em cada caso.

Um dos principais temas sobre o comportamento dos autistas é a possível falta de empatia e envolvimento com as pessoas, surgindo até o mito de que eles não sentiriam afeto. Na realidade, o que ocorre é uma falta de habilidade demonstrar tal sentimento, já que a dificuldade em se clonar é uma das características do transtorno.

A falta de contato visual também se destaca no comportamento, o que pode reforçar ainda mais a ideia de que os autistas seriam incapazes de se relacionarem – o que não é verdade. cientistas ainda não sabem ao certo o que provocaria tal função, mas acreditam que tenha ligação com a região cerebral do giro fusiforme, envolvida no reconhecimento facial.

Uma peculiaridade das manifestações do TEA é a padronização do comportamento, isto é, um autista dificilmente apresentará outras estereotipias além das que já são frequentes.  Portanto, somente a vivência será capaz de indicar a melhor de se relacionar com o indivíduo. Independentemente do sintoma que o autista apresenta, é preciso que as pessoas que convivem ao seu redor tenham em mente a necessidade de compreender suas limitações e, na medida do possível, trabalhar para que ele desenvolva as habilidades comuns aos outros indivíduos.

SENSIBILIDADE ALTERADA

De forma geral, os autistas costumam ter alguma alteração sensorial, podendo ser hipo ou hipersensíveis a estímulos do ambiente, como sons e luzes. Da mesma forma que alguns não conseguem nem mesmo perceber estímulos visuais, auditivos ou táteis, há casos que percebem de uma forma exagerada, o que gera uma confusão sensorial e, muitas vezes, crises de choro e gritos, tamanho o incômodo.

Dessa forma, é importante sempre estar atento ao ambiente em que o autista está para evitar seu mal-estar.

A SÍNDROME DE ASPERGER

O TEA abrange diversos níveis do autismo. Um deles é conhecido como síndrome de Asperger, uma forma classificada pela literatura médica como leve, pois os indivíduos conseguem, na maior parte das atividades, conviver bem socialmente – diferentemente dos casos graves de autismo. “A literatura descreve que a comunicação e a memória são muito boas nesses casos. Por exemplo, são capazes de assistir a um filme e verbalizar por várias vezes frases dele. Isso acontece na memória visual também. Conseguem ler um livro e contar o que há em determinada página. Eles têm um funcionamento cerebral extremamente importante”, afirma a psicopedagoga Sheila Leal. Ainda de acordo com a especialista, um marco da característica do Asperger é a linguagem, que se desenvolve adequadamente nos primeiros anos da infância, contudo, algumas vezes não alcança um nível coerente com a idade do autista: “muitas vezes, a comunicação é elevada para a idade e há uma velocidade do vocabulário e da linguagem oral expressiva. Só que eles se limitam muito na questão da expressão, por que há uma velocidade de pensamento maior do que a verbalização”, explica Sheila. No entanto, o melhor desenvolvimento desta aptidão não significa que as outras áreas de socialização também sejam bem evoluídas, o que acabam sendo ignoradas perante a boa comunicação. Por exemplo: autistas Asperger são melhor aceitos socialmente, já que não apresentam comportamentos extremos, como a hipersensibilidade e ecolalia (repetição de palavras e sons), mas isso não indica que outras características estejam excluídas. “É aquela pessoa mais isolada, que não gosta muito de contato físico, às vezes, tem dificuldade em se fazer entender pelas outras pessoas, até mesmo por conta do vocabulário; mas se destacam na questão acadêmica, nas empresas tecnológicas”, conta a psicopedagoga.

Mesmo com algumas facilidades de convivência, o autista Asperger também possui sinais marcantes, como lista o neurologista Antônio Carlos de Farias: “são crianças com vocabulário diferenciado, interesses muito rescritos e com rigidez com rotinas e alimentação”. Apesar de terem melhor capacidade de socialização, algumas características podem ser notadas, como a inocência ao não perceberem as sutilezas da linguagem, levando tudo ao pé da letra, tendo dificuldade, por exemplo, de entender piadas, sátiras, malícia e ironias. Isso pode torná-las, muitas vezes, em vítimas de bullying.

EU ACHO …

SEXO, O SIMPLES E O COMPLEXO

Você pode achar que estou sendo reacionário, mas não estou, inclusive porque vivi também essa época e tenho certa noção (não toda, claro) do que estou dizendo: não dá para separar Darwin e Woodstock, o grande festival de rock que durou três dias, realizado numa fazenda americana em agosto de 1969.

A imagem mais forte do rock’n’roll é a selvageria; portanto, a pura natureza. O rock, o grito primal, a simplicidade primordial. O consumo de substâncias que nos fazem sair da racionalidade, a maconha, o LSD. O comportamento livre, a nudez, o se abraçar, o se juntar, o “paz e amor”, o sexo. Isso sem falar no ar livre, na natureza, na lama – o local primordial, aquele em que rolamos nos primórdios da espécie. Em Woodstock, o astro foi Jimmy Hendrix, que morreu jovem e ajudou a cultuar a imagem da Supernova, de estrela que brilha muito e desaparece rápido, da vida bela e da vida breve.

Woodstock é uma representação fortíssima da nossa descida da árvore do paraíso direto para a lama.

Woodstock ficou no passado associado a algo que está longe de ser um modelo, mas muito disso não se deveu a Woodstock, e sim a um grande show ao ar livre dos Rolling Stones, em dezembro de 1969, na Califórnia, no qual um jovem foi morto. Esse evento associou shows de rock à violência, embora isso não mude o fato de que o rock, o bom e velho rock, seja uma expressão darwinista do homem.

Já viu Jerry Lee Lewis tocando piano? É visceral, ele transava com o piano – algo condizente com a própria ideia dele de seguir seus instintos, que inclusive o levou a casar com uma parente de 13 anos e, portanto, ser acusado de pedofilia. E James Brown? Quer coisa mais darwiniana, mais animal, mais simples do que James Brown e sua sex machine?

Cabe perguntar: O que somos nós no nosso nível mais fundo, mais reptiliano, além de máquinas de sexo?

Como disse antes, lembrando de Henry Kissinger, imaturos gostam de sexo, maduros gostam de poder. O poder é sexual e, como o sexo, é uma energia de dominação – não só de dominar mas de constranger o outro, de violá-lo, violar o corpo, a mente, às vezes no sentido de violência mesmo.

Em última instância, a palavra certa é profanação – profanar a natureza, os relacionamentos sociais, as relações pessoais, a dignidade do outro. As pulsões freudianas, seja a erótica ou a de morte, são poderosas.

A natureza humana padece da ausência de simplicidade. À primeira vista não parece, mas as palavras “evolução” e “simplicidade” têm relação. Como se viu, “evoluir” vem de vol, que significa rolar ou dobrar. A origem da palavra “simples” tem a ver com o radical indo-europeu plek, ou plex, que também significa “dobra”. E sim, em latim, quer dizer único. Assim, uma coisa simples é aquela que tem uma só dobra, da mesma forma que dúplex tem duas, tríplex tem três e uma coisa complexa tem muitas dobras. A complexidade incomoda a humanidade. O homem tem dificuldade de explicar – isto é, dobrar para fora – coisas complexas.

A vida é complexa. E, quando tentamos explicar o complexo, não conseguimos viver o simples.

Essa é uma das razões por que o mundo masculino – que, na nossa cultura é mais básico, menos sofisticado, mais primal, mais simples – se irrita com a tendência de algumas mulheres de quererem explicar, de quererem “discutir a relação”. E as mulheres se irritam com os homens que viram para o lado e dormem depois do sexo. Muitas mulheres podem encarar como desprezo, mas muitos homens não enxergam dessa maneira.

Como dizia Guimarães Rosa, “o animal satisfeito dorme”. Assim, depois que o homem pratica uma de suas simplicidades naturais – o sexo –, nada mais natural que ele proceda a uma segunda simplicidade natural, o cochilo. Mas as mulheres gostariam que, ao praticar sexo, o homem ignorasse o mundo da natureza,

mergulhasse no mundo cultural e atribuísse uma aura mística a algo que é essencialmente simples, e não complexo.

Essa característica atrapalha ainda mais a busca da felicidade, inclusive porque muita gente não compreende que felicidade não é um estado ou uma condição de permanência – algo que só poderia ser obtido no Nirvana ou em qualquer outro lugar onde a paixão inexista. A felicidade é uma ocorrência eventual, um instante, um episódio – e é exatamente pelo seu caráter passageiro que ela deve ser valorizada. Assim, a felicidade pode existir por causa de um desejo de algo ou alguém, mas também pela ausência de algo ou alguém. Desse modo, a felicidade pode estar em episódios breves como um gole numa taça de vinho, ou em um gole na cerveja ou em um suco.

Mas, se você faz essas mesmas coisas de forma continuada, logo o sabor e o prazer vão embora, pois é preciso haver a ausência, a carência para valorizar a percepção do presente. É como naquelas frases clássicas: “a abstinência prolongada é o melhor afrodisíaco” ou, para usar uma imagem mais gastronômica, “a fome é o melhor tempero”. Fazer compras quando se está com fome é pedir para gastar mais, assim como ir ao supermercado depois do almoço é medida de economia.

O cheiro de um perfume pode ser delicioso num primeiro momento e enjoativo quinze minutos depois. Da mesma forma, a valorização da luz vem do escuro, e a valorização do escuro vem do excesso de claridade – algo que fica evidente no filme Insônia, no qual Al Pacino é um detetive que vai para o Alasca naquele período do ano em que o sol nunca se põe por lá, irradiando uma luz contínua e desesperadora.

A felicidade, assim como o erótico, precisa de latência, para repousar e renascer.

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

O ESPAÇO AO SEU ALCANCE

O bilionário Richard Branson apresenta a sua aeronave Virgin que vai levar em breve pessoas comuns para um turismo estrelar

Os fãs da cultura geek, antigamente apelidados de nerds, estão experimentando o momento histórico em que a ocupação das naves espaciais deixa de ser exclusiva para astronautas e passa a ser possível para qualquer mortal. É o início da jornada às estrelas por cidadãos comuns. Na terça-feira, 28, o bilionário Richard Branson, proprietário da empresa de turismo espacial Virgin Galactic, realizou evento para apresentar a sensação de estar no espaço na nave VSS Unity. A exposição não pôde ser presencial, mas ocorreu ao vivo no Youtube, pelo canal da empresa. Também foi convidado um pequeno grupo de jornalistas que puderam acompanhar a simulação de estar dentro da nave por meio de óculos de realidade virtual decolando na pista da Virgin Galactic, no Novo México, junto com executivos da companhia.

A nave tem uma estética que remete a filmes de ficção. A disposição do espaço interno privilegiou 12 janelas circulares, espalhadas pelas laterais e teto, de onde se esperam as melhores sensações nas viagens: são duas janelas por pessoa. O objetivo é que os seis passageiros possam ter a melhor visualização possível do cenário espacial. Luzes instaladas em volta das janelas terão cores para orientar qual o estágio do voo. A cor branca indicará subida inicial, laranja será o desligamento do motor do foguete e a luz preta avisará a chegada ao espaço.

Em tempos de selfies, não há porquê se preocupar em levar o celular. A nave possui 16 câmeras, estrategicamente posicionadas para atender a vontade dos mais exibicionistas. As selfs podem sair com o horizonte da Terra ao fundo. As poltronas têm uma inclinação que atende ao maior conforto possível e foram projetadas para a pressão de uma viagem espacial, inclusive ajustável ao físico de cada passageiro, com a programação de quatro tamanhos diferentes. Na frente dos assentos, similares aos dos aviões, há um monitor com informações de navegação, como altura, velocidade, tempo de voo, além de entretenimento. Mas no espaço é bem provável que o passageiro queira sair da poltrona para dar uma flutuada e saborear a gravidade zero. Pensando nisso, há um espelho gigantesco nos fundos, que atende ao objetivo de testemunhar os efeitos da gravidade, mas também melhora a iluminação e amplia arquitetonicamente o ambiente.

FILA DE 600 PESSOAS

Claro que haverá um preço a ser pago pela aventura. O passeio custará US$ 250 mil por uma viagem de apenas 90 minutos. No entanto, já estão na fila mais de 600 pessoas inscritas, o que revela um público ávido pela sensação de estar a 97 mil metros. O próprio magnata do setor de transportes e entretenimento, Richard Branson, é um deles e sempre deixa claro que será o primeiro na viagem tripulada que deveria acontecer em 2020. Por conta da Covid-19, os voos comerciais devem ocorrer somente em 2021. Ainda precisam ser realizados testes de voo com passageiros nos assentos traseiros, além de ajustes na cabine para aumentar e garantir o conforto na viagem. Falta realmente muito pouco para a realidade acompanhar a ficção.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

22 DE OUTUBRO

O CORPO DA RESSURREIÇÃO

Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade (1Coríntios 15.53).

Os gregos não acreditavam na ressurreição do corpo. Eram dualistas e defendiam que a matéria era essencialmente má, e o espírito, essencialmente bom. Sendo o corpo matéria, e essencialmente mau, julgavam que ele não passava de uma prisão para alma. Quando Paulo pregou sobre a ressurreição na cidade de Atenas, alguns escarneceram do apóstolo. Porém, a ressurreição de Cristo é a pedra de esquina do cristianismo. Um Cristo morto não poderia ser nosso redentor. Se Cristo não ressuscitou, então foi vencido pela morte, e a morte tem a última palavra. Mas Cristo ressuscitou como as primícias daqueles que dormem. A morte foi tragada pela vitória. O túmulo vazio de Cristo é o berço da igreja. Porque Cristo ressuscitou, nós também receberemos no último dia um corpo imortal, incorruptível, poderoso, glorioso, espiritual e celestial. Receberemos um corpo semelhante ao corpo da glória de Cristo. O corpo da ressurreição não enfrentará cansaço nem fadiga; não será surrado pela doença nem tombará pela morte. Desfrutaremos para sempre das venturas eternas que Cristo preparou e reinaremos com ele pelos séculos sem fim. Não caminhamos para um entardecer cheio de sombras, mas para a manhã gloriosa da ressurreição. O melhor está por vir!

GESTÃO E CARREIRA

O MOTOR DE UM MUNDO NOVO

Referência em energias renováveis, a Raízen cresce, se internacionaliza, firma novas parcerias e prova que é possível aliar sustentabilidade e bons resultados financeiros.

No século 18, quando a revolução industrial deu a largada na primeira combustão de carvão como forma de obter energia, a história da humanidade mudou para sempre. Três séculos depois, com riscos, malefícios e finitude dos principais processos de transformação energética escancarados, a necessidade de reavaliar o uso massivo de combustível fóssil abriu espaço para nascer, em solo brasileiro, a Raízen. Com o objetivo de se tornar referência em energia limpa, a empresa, que surgiu em 2011 de uma joint venture entre Shell e Cosan, se consolida na dianteira da transição energética que teremos, invariavelmente, de encarar nas próximas décadas. Líder nessa revolução em curso, o CEO da companhia, Ricardo Mussa, garante o comprometimento da empresa, independentemente dos desafios no caminho, em busca de um mundo movido por energias que não destruam o planeta.

Com esse mantra, a empresa se internacionalizou, passou a investir em formas alternativas de energia limpa, fez novas joint ventures e, em face da Covid-19, se adaptou para atender as expectativas dos acionistas sem deixar de lado seu comprometimento com a população. “Nos reinventamos a cada dia para continuar entregando resultados consistentes”, afirmou Mussa.

A Raízen, que atua desde o cultivo da cana-de-açúcar até a produção e venda de açúcar e etanol, inaugurou ano passado a primeira planta de painéis fotovoltaicos em Piracicaba (SP), confirmando os planos de Mussa de diversificar a geração de energia limpa. “Também firmamos a compra de 81,5% da Cosan Biomassa”, disse. Além disso, a empresa firmou parceria com a Femsa Comércio e criou o Grupo Nós, joint venture focada no negócio de lojas de conveniência nos postos de serviço, com a marca Shell Select, e de proximidade, com a marca Oxxo.

Tudo isso aconteceu mesmo diante das dificuldades econômicas que o Brasil já enfrentava. Segundo o CEO da companhia, diante das conjunturas política e econômica, a condução da empresa exigiu ainda mais resiliência e foco na eficiência, mas sem abandonar os planos de expansão. “Por isso, além dos números que entregamos na safra 2019-2020, nossos indicadores revelam que o melhor desempenho foi resultado da eficiente estratégia de comercialização, capturando melhores preços dos produtos vendidos.”

E ele está correto. No segundo trimestre de 2020, a Raízen amorteceu parte do abalo trazido pela crise. Entre abril a junho de 2020 (o primeiro da safra 2020-21) a moagem de cana cresceu 5%, para 22 milhões de toneladas. O mix de produção foi de 54% para o açúcar (versus 49% no mesmo período de 2019), em linha com a meta para o ano-safra. Segundo Mussa, apesar do impacto da queda de consumo de combustíveis e forte baixa dos preços no começo da pandemia, a empresa logo se adaptou. “Soubemos extrair resultados positivos da desvalorização cambial por meio de exportações, além de aproveitarmos o crescimento do mercado de açúcar, que não enfrentou quedas acentuadas de consumo, mesmo durante a crise”, afirmou.

Com olhar no horizonte, o CEO da Raízen ultrapassa o período da pandemia e enxerga um futuro mais limpo e sustentável no que diz respeito ao uso de energia. “Realizaremos movimentos que reforçam a prática de economia circular no desenvolvimento de projetos com alcance comercial a exemplo do etanol de segunda geração (E2G), biogás, cogeração de energia por biomassa e pellets”, afirmou. Com essa diversificação já em curso, a empresa firmou outra join venture, desta vez com a WX Energy, para venda de cerca de 26,9 TWh de energia na safra 2019-20. “Isso reforça nossa atuação em trading no mercado livre de energia.”

Com 29 mil funcionários no Brasil, e cerca de 2,5 mil na Argentina, e mais de 15 mil parceiros – entre produtores de cana, transportadoras e revendedores, o empresário entende que, sozinho, ninguém chega a lugar algum e, por isso ,ano passado, a empresa criou o Pulse Hub, espaço dedicado a startups que buscam desenvolver seus projetos ou expandir sua atuação. “Por meio dele, conseguimos engajar parceiros e aplicar ações produtivas, com o objetivo de desenvolver startups com potencial para otimizar toda a nossa cadeia produtiva.” Se o mundo é de todos e todos sentirão os efeitos nocivos do uso desenfreado de combustíveis poluentes, a Raízen promete ajudar a reverter massiva emissão de carbono. “Acreditamos no potencial no biocombustível e entendemos que ele assume uma posição estratégica no contexto atual de busca por uma matriz limpa renovável.” O Planeta Terra agradece.

AS MELHORES

1. RAÍZEN 431,65 PONTOS

2. ENAUTA 424,25 PONTOS

3. LIQUIGÁS 411,83 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – V

PALAVRA DE ESPECIALISTAS

Ainda restam dúvidas sobre o diagnóstico? Eles respondem a todas as questões

Saber exatamente o número de casos de autismo no Brasil e no mundo não é algo fácil, visto que diversos pacientes não recebem o diagnóstico adequado.

Porém, o assunto tem recebido cada dia mais atenção, e a quantidade de informações disseminada auxilia pais e cuidadores a buscarem ajuda de especialistas.

Independentemente da idade do indivíduo, quanto antes o autismo for identificado, melhor para a qualidade de vida do autista. “Tendo os conceitos diagnósticos e níveis de gravidade em mente (lembrando que podem também existir outros diagnósticos ao mesmo tempo, como a deficiência intelectual), é possível entender melhor o que é o autismo e suas diferentes apresentações”, ressalta a psiquiatra Talita Braga.

HÁ UM EXAME PARA O AUTISMO?

Não há nenhum tipo de exame laboratorial, como de sangue, genético ou relacionado à estrutura cerebral, que detecte a existência do TEA. “Tal diagnóstico é clínico, ou seja, não há um exame que irá detectar o autismo; mas muitos médicos pedem uma variedade de análises a fim de avaliar se há outras condições médicas concomitantes”, explica a psicóloga Beatriz Marques de Mattos.

Por ser uma condição comportamental, o diagnóstico é realizado com base nos sinais do comportamento da criança, que se manifestam na medida em que ela se desenvolve, e de entrevistas com pais e responsáveis.

EM QUE OS MÉDICOS BASEIAM A CLASSIFICAÇÃO?

Clínicos e pesquisadores de todo o mundo consultam a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatísticas dos Transtornos Mentais (DSM) para determinar o diagnóstico, bem como o nível de manifestação. “Nessa nova versão, o transtorno do espectro autista engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e Síndrome de Asperger”, ressalta Beatriz.

É PRECISO CONSULTAR MAIS DE UM ESPECIALISTA?

Sempre será um médico especialista que dará o diagnóstico final, no entanto, são realizadas avaliações multidisciplinares para identificar o grau de gravidade do quadro. “Mesmo entre aqueles indivíduos com TEA considerado leve, em virtude de pontuação dentro da faixa normal de medidas completas de QI de escala, testes neuropsicológicos revelam disfunção cognitiva, particularmente em funções executivas e cognição social, tais como flexibilidade mental, planejamento, controle inibitório e prejuízos da teoria da mente”, explica a assessora de neuropsicologia Joana Portolese. Entre os profissionais envolvidos, estão psiquiatras, pediatras e neurologistas. No entanto, as áreas de terapia ocupacional, psicologia, fonoaudiologia, entre outras, também são essenciais.

QUAL O PAPEL DO PSICÓLOGO NO DIAGNÓSTICO?

Ele irá atuar junto a uma equipe multiprofissional e a um médico, podendo ser um psiquiatra ou um neurologista, para realizar o diagnóstico. Este profissional tem capacidade de identificar e avaliar sinais comportamentais que indicam o TEA. “O psicólogo realiza avaliações complementares para conhecer a funcionalidade e habilidades e identificar comorbidades, mas o diagnóstico é feito pelo pediatra, psiquiatra ou “neurologista”, destaca Joana.

QUAIS OS MAIS RECENTES AVANÇOS DA CIÊNCIA SOBRE O AUTISMO?

Estima-se que diariamente são divulgados cerca de 60 novos artigos científicos sobre autismo em todo o mundo. Por ainda não ter sido totalmente decifrado, o transtorno instiga muitos pesquisadores e especialistas na busca por respostas. No entanto, os cientistas afirmam que nunca se esteve tão próximo da cura.

Pesquisas avançadas, como a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, especialista em genética e professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, tem combinado o estudo das alterações genéticas implicadas no transtorno com suas consequências celulares durante o desenvolvimento dos neurônios, o que amplia as possibilidades de mapeamento do distúrbio. Além disso, a procura por novas drogas que sejam efetivas na reversão de sintomas do TEA também está bastante promissora.

Um trabalho publicado em 2015 pela Universidade de Londres, na Inglaterra, destacou que os sintomas do autismo podem aparecer desde cedo. Os pesquisadores notaram que uma capacidade visual apurada aos nove meses de vida do bebê já seria capaz de prever a probabilidade de a criança ser diagnosticada com TEA no futuro.

Já um estudo da Universidade de Missouri, também nos Estados Unidos, indicou que o contato com animais faz bem aos autistas. Após analisarem 70 famílias com filhos com TEA, notou-se que os autistas que conviviam com animais de estimação apresentavam melhores habilidades sociais.

QUAL O PRIMEIRO PROFISSIONAL QUE DEVE SER PROCURADO?

Nem sempre os pais são os primeiros a desconfiarem que o filho é autista. Parentes, professores ou outras pessoas próximas também podem levantar a suspeita. De qualquer forma, o pediatra, por ser o médico que acompanha por mais tempo a vida da criança, deve ser o primeiro profissional a ser consultado. Durante a consulta, os pais devem expor o maior número possível de detalhes sobre o comportamento do pequeno. Isso facilita a interpretação do médico e o possível encaminhamento a exames.

Uma questão importante é que, havendo suspeita do quadro de autismo, o tratamento deve ser iniciado logo, mesmo sem o diagnóstico concluído. “Temos evidências científicas de que os tratamentos mais adequados possuem efeitos maiores e melhores se forem iniciados o quanto antes possível”, afirma Celso Goyos, psicólogo especialista em educação especial

EXISTE ALGUMA FASE EM QUE O DIAGNÓSTICO É MAIS FÁCIL DE SER FEITO?

Infelizmente, não. O diagnóstico de autismo ainda é algo bastante delicado, independentemente da idade do portador. Por isso, os profissionais envolvidos devem ser capacitados para chegar o mais rápido possível ao resultado.

FONOAUDIÓLOGOS TAMBÉM FAZEM PARTE DA EQUIPE DE DIAGNOSTICO?

 A avaliação fonoaudiológica é muito importante, já que cerca de 20% a 30% dos autistas são não verbais, e a mesma porcentagem deles apresentam uma história de desenvolvimento de regressão, com perda da linguagem previamente adquirida. “Embora muitas crianças com TEA apresentem progressos significativos na linguagem, no período de 24 a 48 meses, com expansão de vocabulário e com respostas dentro da idade esperada, testes de habilidades receptivas e expressivas evidenciam que a capacidade global de comunicação continua a ser prejudicada”, ressalta Joana.

O QUE OS ESPECIALISTAS AVALIAM PARA CHEGAR A UM DIAGNÓSTICO?

A psiquiatra Talita Braga listou os principais itens que o médico deve analisar e identificar no paciente (no momento presente ou na história prévia) para que seja feito o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista.

1. Déficits persistentes na comunicação e na interação social, por exemplo: dificuldade na reciprocidade socioemocional (iniciar ou manter uma conversa e demostrar interesse, emoção e afeto), nos comportamentos comunicativos não-verbais (déficits na compreensão e uso de gestos, a ausência total de expressões faciais, etc.) e para desenvolver, manter e compreender relacionamentos (dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais; em compartilhar brincadeiras imaginativas entre amigos e a ausência de interesse por pares).

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades tendo pelo menos dois dos seguintes: movimentos motores; uso de objetos ou fala estereotipadas ou repetitivas (por exemplo repetição de movimentos com o corpo, como balançar o tronco para frente e para trás; alinhar brinquedos ou separá-los por cor/tamanho; ecolalia, isto é, repetir palavras; ter um discurso com linguagem rebuscado e formal); insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível á rotinas ou padrões de comportamento verbal e não verbal (como sofrimento extremo em relação a pequenos mudanças, dificuldades com transições, rituais de saudação, necessidade de fazer sempre o mesmo cominho ou ingerir os mesmos alimentos todos os dias); interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (exemplo: forte apego ou preocupação com objetos incomuns e só querer saber e falar sobre o assunto) e reação aumentada ou diminuída a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (como indiferença a dor/temperatura – a criança pode se machucar e não apresentar a reação esperada de dor –  se recusar a comer alimentos que não sejam crocantes, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento – uma criança pode passar horas olhando para objetos que rodam, como uma máquina de lavar).

3. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento. Porém, podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas; ou podem ser mascaradas por estratégias aprendidas mais tarde na vida (como aprender que, ao encontrar as pessoas pelo manhã, é educado dizer “bom dia” e dar um sorriso, e fazer isso de forma artificial).

4. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.

5. Essas perturbações não são melhor explicados por simplesmente deficiência intelectual ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual ou Transtorno do Espectro Autista podem estar presentes na mesma pessoa; assim, para fazer o diagnóstico de transtorno autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível de desenvolvimento.

EU ACHO …

EVOLUÇÃO NEM SEMPRE É PARA MELHOR

O autoconhecimento é um processo necessário e fundamental para a melhoria de si mesmo – um processo interminável, pois tudo o que acontece a nossa volta nos afeta e nos transforma. Mas, quando pensam em autoconhecimento, geralmente as pessoas cometem um equívoco, pois associam autoconhecimento à evolução – e encaram evolução, necessariamente, como aperfeiçoamento.

Não é assim. Nem toda evolução significa uma mudança para melhor. Na cabeça da maioria das pessoas, a palavra evolução também está associada ao Darwinismo. Mas o fato é que Darwin tinha vergonha de usar o termo evolução. Em seu diário, ele prefere usar a palavra transformação, e só usava evolução no sentido de mudança. Ele fala apenas que as espécies se transformam – algumas inclusive para pior, pois desapareceram. O câncer evolui, as encrencas, os problemas, os confrontos evoluem, e ninguém pode dizer que isso é uma coisa boa.

O século 20 no Ocidente foi marcado por essa ideia equivocada da evolução como melhoria. Esse equívoco começa a nascer no Renascimento, que introduz o antropocentrismo. Antes disso, no mundo medieval, prevalecia o teocentrismo, que colocava Deus como o centro do Universo. Na Renascença, o humano substitui o divino como figura central. Essa passagem é representada, sobretudo, por duas imagens. Uma é o Homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, rascunhado em 1490, o célebre desenho de um homem nu no meio de um círculo. O segundo é a representação da Criação, por mim citada em outro trecho, pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, a famosa cena do dedo de Deus encontrando o dedo de Adão – uma cena em que não fica claro se é Deus que está criando o Humano para não ficar sozinho no Universo ou se é o Humano que está criando Deus para não ficar sozinho no Universo.

Mais do que uma antroposofia, o que a Renascença propõe é uma antropolatria, ou uma adoração do Humano, num movimento que culminará, no século 18, no Iluminismo e, no 19, no Historicismo e no Positivismo. E é aqui que um dos maiores representantes do Positivismo, o filósofo inglês Herbert Spencer, vai criar a ideia da sobrevivência do mais forte – algo que Darwin nunca comungou, pois sua tese gira em torno da sobrevivência do mais apto, sem que isso esteja vinculado à força.

Pelo ponto de vista de Darwin, quais seres são os grandes vencedores na batalha pela vida? As bactérias, que são os seres com maior poder de adaptação. O paleontólogo americano Stephen Jay Gold provou isso em números. Ele somou a massa de todas as bactérias que estão entre nós e constatou que o resultado é muito maior do que o peso dos mais de 6 bilhões de humanos que habitam a Terra. A antropolatria nos leva a cair numa armadilha que foi decantada por Shakespeare quando escreveu “que grande maravilha é o humano!”.

O nosso romantismo, quando desvairado, nos faz olhar as estrelas e nos embevecer com a ideia de que somos os únicos capazes de admirá-las. Não haveria nada de errado se a questão se resumisse a admirá-las. Mas o ponto é que o Humano se sente proprietário das estrelas, ou mesmo a razão de ser das estrelas – e o Humano não é o centro do Universo nem o proprietário de nada além de suas posses terrenas.

O curioso é que a palavra evolução se vale de um radical usado no grego e no latim – o radical vol (formador de palavras como “envolver” e “vulva”), que mais tarde será utilizado como “rol”, de “rolar”, que dá a ideia de desenvolvimento. Por isso, desenvolvimento, em espanhol, é desarollo. O inglês não chegou até o “rol”. Ficou no “vol”, de envelope, de algo fechado em si mesmo. Assim, desenvolvimento, em inglês, é development – ou seja, algo que se tira do envelope, da redoma, e faz crescer.

Na antiguidade, havia a percepção de que o homem segue um roteiro que já estava escrito antes de ele nascer, como se apenas representasse um papel numa peça de teatro. Mas, na antropolatria, o homem se imagina dominador, proprietário da vida e da existência.

E aqui voltamos ao começo: supor que evolução sempre significa uma melhoria é um equívoco, inclusive de natureza etimológica, uma vez que o radical “vol” indica somente mudança, desenvolvimento – e não aperfeiçoamento.

O “homem moderno” fala em evolução sempre acreditando que todos nós estamos avançando e rumando para um ponto ideal, aquele que o teólogo francês Pierre de Chardin chamou de Ponto Ômega, que seria o ápice da Vida e da Criação. E, quando o homem passa a enxergar a evolução como uma caminhada rumo à perfeição, acaba mergulhando no território da obsessão evolucionista e derrapando no raciocínio equivocado de que, se nós evoluímos, estamos indo todos em direção a um futuro melhor.

A grande encrenca é que isso dificulta a compreensão de muitos problemas, inclusive a questão ecológica.

Se nós acreditamos que a humanidade sempre evoluirá para melhor, a tendência é esquecer a natureza deletéria do homem, esquecer que ele é um animal destrutivo. Assim, até a própria noção de ecologia fica prejudicada, uma vez que as pessoas cultivam uma esperança vã de que a humanidade só vai melhorar e que, portanto, todos os transtornos causados pelo homem – efeito estufa, mudanças climáticas, poluição, o desequilíbrio da vida – são ritos de passagem para um mundo melhor. É como se a humanidade acreditasse que em algum momento da existência haverá uma purificação natural e incontestável do homem.

Bem, no mínimo, isso é uma postura arrogante e, certamente, errada. É preciso ter esperança, mas não tem cabimento não fazer nada para mudar a situação e achar que, por pior que seja, vai melhorar no final.

Essa postura ameaça não só a ecologia mas toda a convivência de maneira geral, pois desliga um item imprescindível à sobrevivência e à civilização, que é o alarme.

De maneira geral, nossas medidas de prevenção existem para nos fazer prestar atenção em um perigo.

Mas há uma enorme diferença entre a pura espera e ter realmente esperança, ir atrás das coisas, fazê-las acontecer. No fundo, de certa maneira, o século 20 atormentou o mundo com a ideia de que tudo dará certo para o homem, uma ideia levada à alma popular pelo escritor Fernando Sabino quando disse que “no fim tudo dá certo; se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou no fim”.

Esse otimismo, porém, não muda o fato de que, assim como houve um começo, haverá um fim – não necessariamente da vida em si, mas talvez da nossa espécie, dizimada por catástrofe natural, meteoro, bomba, ignorância, vírus ou coisa parecida

É por tal razão que evolução não necessariamente é melhoria – e nem autoconhecimento. Muita gente acha que se conhece bem e que é a melhor companhia para si mesmo, sem perceber que pode estar sozinho e mal acompanhado.

Isso acontece quando as pessoas se alienam, quando não têm clareza daquilo que fazem, quando produzem aquilo que o escritor Eduardo Giannetti da Fonseca usou como matéria-prima em um ótimo livro, Auto Engano. Autoengano é o escondimento e a dissimulação de si mesmo.

Distraídos, perguntam alguns, alarme? Já soou?

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

É ROCK N’ROLL, BABY

Com as vendas em baixa há anos, a guitarra parecia ter chegado ao fim de sua carreira musical. Até a quarentena se instalar e reabilitar os solos dentro de casa

Partiu da boca do próprio Eric Clapton, o “Deus”, a triste constatação, em 2017: “Talvez a guitarra tenha acabado”. No ano seguinte, a célebre fabricante Gibson entrou em recuperação judicial, sucumbindo a uma dívida de 500 milhões de dólares. Vítima da música eletrônica digitalizada e da multiplicação dos cantores em detrimento das bandas, o instrumento-símbolo do rock’n’roll parecia haver caído em desuso sem volta. Eis que a quarentena, sempre ela, prendeu todo mundo em casa, sacudiu os hábitos e costumes e reabilitou os acordes elétricos. No meio da contração geral das economias prevista para este ano, o mercado de instrumentos musicais saiu quase ileso graças às vendas de guitarras, violões e ukeleles – sim, aquela espécie de cavaquinho havaiano – para pessoas carentes de um hobby durante o isolamento social. “Foi uma retomada sem precedente”, diz Daniel Neves, presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima).

Tanto a guitarra quanto o violão se encaixam no princípio do cocooning, ou “encasulamento”, que não é novidade, mas foi amplamente abraçado e consolidado no primeiro semestre deste incomparável 2020 por uma legião de consumidores interessados em instalar e aperfeiçoar dentro de casa atividades que costumavam desempenhar fora dela. Programador de 21 anos e guitarrista autodidata há oito, Hector Grecco mudou-se de Goiânia para o home office em São Paulo em julho e aproveitou o tempo no lar para, pela primeira vez, tomar aulas on-line. “Pude me reconectar com a música e tentar fazer algo diferente”, alegra-se Grecco, que desde então comprou mais duas guitarras e procura parceiros para formar uma banda. Não foi o único a pôr a mão na carteira. O site da megaloja de instrumentos e apetrechos musicais Made in Brazil acusou aumento de 300% nas vendas on-line entre abril e junho. A produção nacional cresceu 10% e o faturamento do mercado ultrapassou 1 bilhão de reais entre janeiro e agosto. “É a primeira vez que vejo um boom como esse. A demanda chegou a tal ponto que às vezes não foi possível atender”, diz Luiz Valezin, CEO da WMS, distribuidora da Taylor Guitars no Brasil, que comemora alta de 23% nas vendas de violões e guitarras na pandemia.

Nos Estados Unidos, a terra da guitarra elétrica, a Gibson, depois de fechar as fábricas e congelar as vendas em abril, informou em agosto que, retomadas as atividades, estava vendendo tudo o que produzia. A californiana Taylor decretou junho de 2020 o mês mais movimentado desde que a empresa foi fundada, em 1974. A Fender, que fabrica as icônicas Stratocasters e Telecasters, também celebrou a quarentena. “Caminhamos para o melhor ano da nossa história, o que nunca pensei que aconteceria quando a pandemia começou”, disse o comandante da empresa, Andy Mooney. Além de vender guitarras como nunca, a fabricante abriu o acesso ao Fender Play, um aplicativo de aulas on-line, que ganhou 930.000 usuários. Engana-se quem pensou em uma multidão de velhos e nostálgicos roqueiros: 18% dos novos clientes do Fender Play têm entre 18 e 24 anos e 70% estão abaixo dos 45. A WMS do Brasil confirma a tendência. “Os perfis mais comuns desses guitarristas amadores são jovens entre 16 e 18 anos e adultos na casa dos 40”, diz Valezin.

Guitarra e violão se tornaram os instrumentos por excelência da quarentena porque são práticos, fáceis de carregar e de guardar e têm uma vasta faixa de preço – de 800 reais, para os exemplares mais comuns, a 30.000 reais. Sem falar no componente emocional, muito presente neste ano difícil. “O repertório de música popular para guitarra é extenso e familiar, o que torna o aprendizado mais prazeroso”, explica a americana Leigh Van Handel, pesquisadora de psicologia da música. Segundo Leigh, durante a peste negra, no século XIV, a Igreja Católica tratava pacientes em quarentena nos lazaretos da Itália fazendo-os cantar e tocar juntos, ao soar dos sinos das capelas. ”A música em geral ameniza sentimentos de ansiedade, solidão estresse, e tocar cria uma sensação de conexão, vital durante o isolamento”, acrescenta. A indústria torce agora para que, passada a pandemia, os riffs não voltem a emudecer. Diz Valezin, ele próprio guitarrista: “Sempre pode haver um recuo, mas acredito que a guitarra nunca vai morrer”. Nem o rock’n’roll, baby, tampouco os riffs eternos de Van Halen.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

21 DE OUTUBRO

VIOLÊNCIA URBANA, UMA AMARGA REALIDADE

Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? (Habacuque 1.2).

A maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública. Temos medo de bala perdida, sequestro, assalto e arrombamento. Nossas cidades estão-se transformando em campos de sangue, e nossas ruas, em trincheiras de guerra. O aumento do consumo de álcool e drogas pesadas tem sido um pesadelo para as famílias. Perdemos todos os anos milhares de pessoas para o tráfico, e milhões de jovens enterram seu futuro na cova desse vício degradante. O resultado é que a violência urbana atinge níveis insuportáveis. Sentimo-nos inseguros até dentro de casa. À luz do dia, assaltos, sequestros e assassinatos ocorrem por questões fúteis. O trânsito dos grandes centros urbanos, além de congestionado, parece mais um barril de pólvora. As pessoas andam com os nervos à flor da pele. Discutem, brigam e matam por questões banais. A repressão da lei não é suficiente para frear esse impulso de violência. Não bastam restrições externas; é necessária uma mudança interna. Somente Jesus pode transformar o coração, pacificar a alma e dar ao homem domínio próprio e controle emocional. A única esperança para a família e para a sociedade é Jesus. Só ele pode dar vida e vida em abundância.

GESTÃO E CARREIRA

A REVIRAVOLTA DA TELEFONIA

Em um setor sem espaço para crescer em novas linhas, a operadora TIM turbina seus resultados, agregando serviços aos planos já existentes.

 A entrada principal da sede da operadora TIM no Brasil, em um dos mais modernos prédios da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, lembra um shopping center na hora do almoço, com um intenso vai-e-vem de funcionários da companhia. E essa movimentação está, desde o ano passado, cada vez mais agitada. Mesmo em um cenário de estabilidade no número de novos clientes – já que o Brasil, com mais de 220 milhões de linhas de celulares, tem mais números ativos do que habitantes –, a companhia está crescendo em receita, em lucro e em perspectivas. “Nosso crescimento não depende apenas das receitas convencionais em telefonia, mas da proposta de oferecer aos clientes um ‘pack’ completo de serviços”, afirmou o italiano Pietro Labriola, presidente da empresa no Brasil.

No ano passado, a TIM Brasil registrou faturamento de R$ 17,3 bilhões, alta de 2,3% sobre 2018. No mesmo período, obteve lucro líquido de R$ 2 bilhões, crescimento de 32,1% em relação ao ano anterior. Embora o número de clientes com linhas de celular tenha caído nesse período, os gastos por usuário aumentaram, graças principalmente aos planos pós-pagos, como o TIM Black Família, que puxou o crescimento. O segredo do segmento Black, segundo Labriola, é a agregação de valor com parcerias com plataformas de streaming, como Netflix e Deezer (música), e serviços de backup na nuvem já incluídos no pacote. Os planos familiares responderam por 33% das vendas de pós-pagos desde o lançamento. “O pós-pago puro tem de ser um tipo de Mastercard Black. Tem de ser uma experiência, não um pacote de telecomunicação. Quem paga mais tem de ter um serviço a mais”, disse o presidente.

A operação móvel da TIM, com 55 milhões de linhas móveis, é responsável pela maior parte da receita líquida de serviços. O ARPU (receita média mensal por usuário) teve alta de 5,8%, atingindo a cifra de R$ 25,10. Isolando o pós-pago, o valor foi de R$ 47 (+6,1%), enquanto o pré-pago manteve a média de R$ 12,90 (+7,9%). “Falar e receber ligações deixaram de ser a essência do mercado de telefonia. A nova realidade é a incorporação de serviços financeiros e soluções de conectividade e mobilidade”, afirmou o executivo.

Os resultados da TIM foram impulsionados pela consolidação da empresa na liderança em cobertura 4G. A operadora terminou 2019 com 3.477 mil cidades alcançadas, das quais 1,1 mil possuem 4.5G. A tecnologia VoLTE pode ser encontrada em 3,4 mil cidades, compreendendo 93% da rede 4G da operadora, enquanto a frequência de 700 MHz está presente em 2,3 mil municípios. Outra importante frente de negócios, que a cada dia ganha mais importância em um contexto de isolamento social e crescimento do home office é a internet via fibra óptica. Os serviços fixos, mesmo antes da pandemia, viviam uma trajetória de crescimento. O ARPU do TIM Live foi de R$ 83,80, alta de 4,4% no ano.

Desde que assumiu a presidência da TIM Brasil, em abril do ano passado, Labriola tem dedicado esforços a aprimorar a qualidade dos serviços, especialmente na relação com os clientes. O próprio executivo, sem ser identificado, visita as lojas da empresa para medir o nível de treinamento dos funcionários e perceber possíveis problemas no processo de resolução das demandas dos usuários – que não são poucas. “Muitos dizem que essa abordagem não é função de um presidente. Não acredito nisso. Quando eu consigo entender a origem de determinado problema, consigo dar prioridade para a melhoria do processo. Assim, ajudo milhões de clientes de uma só vez”, afirmou Labriola. O estilo de gestão de Labriola, que acompanha com lupa cada detalhe da operação, tem ajudado a TIM a melhorar todos os indicadores financeiros – processo que faz brilhar os olhos dos investidores. No ano passado, os papeis TIM Part. (ON) tiveram valorização de cerca de 30%.

Outro termômetro da saúde financeira da TIM é a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que passou de 40,9%, no quarto trimestre de 2018, para 42,9% no mesmo período do ano passado. Em 2019, o indicador atingiu R$ 8,3 bilhões, alta de 30,7% em relação a 2018. Com mais dinheiro em caixa, baixo endividamento e boa saúde financeira, a TIM caminha para adquirir uma fatia, junto com a Claro e Vivo, da operação de celular da Oi. Com isso, as operadoras deverão ter mais força para os investimentos na tecnologia 5G, a partir de 2021.

AS MELHORES

1. TIM 190,00 PONTOS

2. CLARO 185,00 PONTOS

3. VIVO 154,00 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – IV

COMO DESCOBRIR

Quem são os profissionais aptos para reconhecer o autismo e quais as escalas avaliativas utilizadas

Desde o nascimento, os pais se preocupam com a saúde dos bebês. Eles nascem e fazem alguns testes ainda no hospital. Assim, é possível que morbidades sejam identificadas antes de ir para casa. No entanto, no caso do autismo, a situação pode ser um pouco diferente … Alguns pais costumam relatar o diagnóstico tardio de seus filhos, o que faz com que a intervenção por meio de terapias seja adiada, afetando o desenvolvimento dos pequenos. Entretanto, os profissionais médicos estão se tornando cada vez mais capacitados para atender esses casos e direcioná-los para especialistas.

PORQUE O DIAGNÓSTICO É DEMORADO?

Em 2015, em um estudo realizado em Londres, no Reino Unido, foram entrevistados cerca de mil pais sobre suas experiências quanto ao diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista de seus filhos. Os resultados demonstraram que, geralmente, foi preciso esperar cerca de três anos e meio, desde o início do processo, para obter a confirmação de que os filhos possuem TEA. Ainda de acordo com a pesquisa, publicada pela editora on-line Sage Journals, entre os fatores que provocam a insatisfação de pais e responsáveis estão o estresse associado ao processo e a desaprovação sobre o auxílio dado após a identificação do transtorno. No entanto, de acordo com a psicóloga e especialista em neuropsicologia e aprendizagem Natália César de Brito, hoje, o diagnóstico de autismo é feito precocemente, com a identificação de traços do transtorno em crianças com menos de dois anos de idade. “A demora no diagnóstico se deve, em parte, por conta dos profissionais, que estão tendo maior contato com o autismo agora e aprendendo a identificar seus sinais e sintomas,” explica a psicóloga.

O QUE GARANTE O DIAGNÓSTICO CORRETO?

Por conta do autismo ser considerado um distúrbio inerente do desenvolvimento do sistema nervoso central, de acordo com a psicóloga Maria Aparecida Gomes, todo recurso para a identificação é válido. “Porém, o brincar torna-se o fator fundamental para a organização psíquica, sendo um instrumento de diagnóstico e de intervenção com o qual o profissional poderá agir no acolhimento”, explica.

Ainda de acordo com Gomes, o primeiro diálogo entre o bebê e seu cuidador (pai, mãe, irmãos, etc.) também indica como a organização psíquica está ocorrendo. “O indício que caracteriza um sinal de risco autístico é não acontecer esta dinâmica com o cuidador no final do quarto mês de vida”, acrescenta.

QUEM ESTÁ APTO PARA IDENTIFICAR O TRANSTORNO?

Quando há a suspeita de autismo, segundo Brito, uma equipe multidisciplinar é convocada para que o diagnóstico seja feito e, assim, favoreça o desenvolvimento da criança. Dessa forma, não existe apenas um profissional apto para fazer a avaliação. Desde que sejam especialistas em autismo, psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, neurologistas e até pediatras podem identificar o TEA. Contudo, encontrar os profissionais habilitados, que não cometam equívocos, pode ser uma difícil barreira a ser ultrapassada, pois ainda há um número reduzido de pessoas especializadas no país.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

Os profissionais norteiam-se pelos critérios presentes na 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e também pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para realizar o diagnóstico do TEA.

No âmbito da neurologia, a identificação do Transtorno do Espectro Autista também leva em conta a análise da história clínica da criança. Contudo, existem exames neurológicos que precisam ser realizados quando há a suspeita de outros distúrbios. De acordo com o neurologista Custódio Michailowsky, são: “eletroencefalograma, polissonografia, potencial evocado auditivo e P-300, ressonância magnética do encéfalo, cintilografia cerebral e PET-CT. Além disso, é importante fazer uma boa avaliação neuropsicológica”. Pode ser ainda que o especialista solicite um exame genético. Só assim, se descarta a hipótese de outros distúrbios.

Entretanto, o diagnóstico final é feito por meio da avaliação clínica: “é o que chamamos de padrão ouro e deverá ser realizada com entrevistas, aplicação de escalas e questionários e observação do comportamento da criança em ambiente natural”, explica a psicóloga Larissa Zani.

QUAIS SÃO AS ESCALAS PARA A AVALIAÇÃO?

Por meio das descrições dos pais sobre o desenvolvimento e comportamento do indivíduo autista, seja criança ou adolescente, e também pela observação clínica, algumas entrevistas são realizadas para obter informações mais precisas sobre o grau do TEA.

Segundo Natália de Brito, a escala CARS (Childhood Autism Rating Scale) é a mais empregada. Por meio de 13 itens, distingue os graus de comprometimento do autismo (leve, moderado e severo) e também separa o transtorno de outros atrasos no desenvolvimento. A CARS costuma ser aplicada logo nas primeiras consultas médicas após a identificação de comportamentos estranhos à idade, sendo adotada no diagnóstico de em crianças com mais de dois anos e meio.

“No meu local de trabalho, utilizamos o Pro­Self, que é o Protocolo Self de Avaliação do Desenvolvimento. São avaliadas diferentes áreas do desenvolvimento da criança, identificando qual exige maior necessidade de estimulação”, explica a psicóloga. Com base nos resultados, é elaborada uma programação terapêutica individual, que será trabalhada com a criança durante seis meses.

Após esse período, há uma nova aplicação, para reavaliar o desenvolvimento. “Esse protocolo pode ser encontrado no livro Espectro Autismo O que é, o que fazer, de Maria Helena Keinert e Sérgio Antoniuk”, acrescenta Natália. No entanto, ainda existem outras escalas para a identificação do transtorno. Confira algumas delas:

HÁ DIFERENÇAS ENTRE MENINOS E MENINAS COM TEA?

O autismo é um transtorno predominantemente masculino, ou seja, as chances de se desenvolver em meninos é muito maior do que em meninas. Por isso, pesquisadores têm se preocupado quanto às diferenças de comportamento observadas entre os sexos.

Um estudo publicado em setembro de 2015, no jornal científico Molecular Autism, mostrou que as crianças do sexo feminino podem apresentar comportamentos repetitivos e restritos menos severos. Ainda de acordo com a pesquisa, o que explicaria tais discrepâncias seriam as diferenças cerebrais entre os sexos, como os padrões de massa cinzenta presentes no córtex motor, na área motora suplementar, no cerebelo, no giro fusiforme e na amígdala. Tais regiões auxiliam o órgão a planejar e executar diversas funções motoras e também interferem no funcionamento da “área social”, o que explicaria o fato de meninas e meninos se comportarem de maneira diferente.

COMO A DIFERENÇA NA MANIFESTAÇÃO ENTRE OS SEXOS INTERFERE NA HORA DE DIAGNOSTICAR?

De acordo com a psicóloga Natália de Brito, a maior diferença na hora de realizar a identificação é que, em meninas, a interação social é menos prejudicada do que em meninos. “O diagnóstico ocorre na mesma faixa etária, porém é importante que mais sinais e sintomas sejam observados”, elucida.

No entanto, essa discrepância não interferiu na maneira como os testes avaliativos foram elaborados: “como chega-se aos resultados por meio de observação prévia e atenciosa da criança, o gênero não interfere em seu resultado, aplicação ou desenvolvimento”, explica a especialista.

É POSSÍVEL IDENTIFICAR O TEA AINDA NA GRAVIDEZ?

Embora a ciência tenha avançado muito, quando o assunto é autismo, ainda não existem exames para uso clínico que identifiquem o transtorno ainda no período de gestação. Contudo, o pré-natal e os demais cuidados durante a gravidez são essenciais e interferem diretamente no desenvolvimento saudável do bebê. Por isso, não devem ser deixados de lado.

COMO ENCONTRAR O PROFISSIONAL ADEQUADO

Uma grande dificuldade enfrentada por pais e responsáveis é encontrar o profissional ideal para diagnosticar e coordenar as terapias para “amenizar” as características do TEA. No entanto, há algumas saídas:

• PERGUNTE AOS CONHECIDOS

Procure seu plano de saúde, hospitais ou outros médicos que possam lhe indicar especialistas no assunto;

• NA INTERNET

A plataforma pode ser uma opção para indicar profissionais habilitados em TEA na região onde mora. No entanto, é preciso prestar atenção para não cair em armadilhas. Sempre busque sites de instituições reconhecidas;

• ASSOCIAÇÕES

Pais e familiares costumam criar grupos de ajuda aos portadores do transtorno. Muitas vezes, tais associações já contam com recomendações de uma equipe de saúde, além de desenvolverem trabalhos para encorajar os pois em momentos de dificuldade.

EU ACHO ..

FABRICAÇÃO DO PASSADO, ANSEIO DE FUTURO E DESESPERO DO CONSUMO

Desde sempre, e mais ainda nestes tempos, nossos grandes medos vêm do escuro. O homem não teme o que vê, mas o que não vê.

Uma das clássicas imagens do medo e do terror está naqueles olhos que podem ser vistos na penumbra sem que se consiga identificar de quem são, se de homem ou animal, se de vampiro ou algo mais assustador.

Há 50 ou 60 anos, nos antigos seminários, conventos e colégios religiosos, havia um quadro, nos dormitórios, nos mictórios, no refeitório. Era um quadro do olho de Deus dentro de um triângulo. Abaixo da imagem, havia esses dizeres: “Deus vê tudo”.

Nas tradições grega, romana e judaica, a visão de Deus ou dos deuses é terrível. Está aí a origem do terror diante de Deus: ser visto sem poder vê-lo. Ser visto sem saber como ele te vê. Não ser visto por você mesmo, mas ser visto só por ele. Como é uma situação sem saída, uma das maneiras que se encontrou de afastar o terror foi pintá-lo, retratá-lo de uma maneira menos agressiva. Surge então a imagem do senhor de barba branca, com jeito severo mas também paternal e amoroso.

O islamismo, por sua vez, é genial na manutenção do terror religioso (terror no seu sentido etimológico, de espanto); não há nem pode haver imagem de Alá, ou de Maomé, seu profeta. Como ele não morreu, pois foi levado aos céus, ele continua te vendo, sob a égide eventual do “ao infiel, a espada”. A propósito, uma das forças do cristianismo também está no fato de que não existe cadáver de Jesus, na crença dos adeptos, pois ele não morreu; foi para os céus. A vitória da vida sobre a morte – que é o segredo do cristianismo – é a vitória da luz sobre a sombra.

O mundo medieval é um mundo de sombras. Mas o mundo que nasce com a Renascença é o mundo da gravura, da pintura, da imprensa, da exposição.

Você quer coisa que exponha mais do que a imprensa? O escritor Guy de Maupassant tem uma frase bem-humorada e maldosa que aponta o alcance dessa invenção: “Ao alfabetizar o vulgo, a tolice se liberta”. Com a popularização de jornais, livros e revistas, as pessoas podem não só ler besteiras mas também escrevê-las e divulgá-las. A imprensa libertou a exposição e a internet a elevou à enésima potência.

Agora eu posso entrar no Google e ver quantas referências existem a meu respeito. Se não as encontro, isso é desesperador. De certa forma, o Orkut, o Facebook e o Twitter diminuem essa angústia – embora a substituam por outra. Nas comunidades virtuais, você cria suas referências e, sobretudo, vê e é visto. Por outro lado, as pessoas passam a se afligir numa competição desesperadora para ver quem consegue mais seguidores.

O anonimato, como antes falei, é o desespero. Para escapar desse subterrâneo, dessa penumbra numa sociedade que incentiva o consumo, o que resta às pessoas que não querem se identificar com o grotesco é tentar se destacar com a propriedade de bens. A capacidade de consumir, portanto, é o que vai dar valor às pessoas. E elas se sentirão mais valorizadas à medida que tiverem O carro, A tv, A roupa. Obviamente, os bens que atribuem valor variam conforme a camada social a cada qual pertence.

As camadas populares buscam coisas que brilham, indicadores de futuro, da luz no final do túnel. Por isso, compram móveis de fórmica ou de latão dourado. Móveis novos com linhas e cores futuristas, como são a maioria das cozinhas pré-moldadas.

Já a burguesia não quer futuro, pois isso já está quase garantido. A burguesia quer passado, que é algo que não tem. Como muitos de nós somos filhos de imigrantes, de gente que deixou seu país natal sem recursos, a atual burguesia das capitais não tem berço, tradição, heráldica – por isso, muitos compram em sites especializados a origem e o brasão da família.

Numa cidade como São Paulo, a classe média vai às feirinhas de antiguidades na praça Benedito Calixto ou no vão do Masp para comprar a cristaleira da vovó, a poltrona dos anos 1930, a luminária da década de 1940 ou a mesa que veio de uma fazenda do século passado – mesa que nunca é reformada, que é comprada para permanecer descascada, algo que nunca se verá nas casas populares. Nessas, móvel descascado é sinal de miséria. Na do burguês, de riqueza, pois o antigo tem valor.

É uma tendência tão forte que até se criou uma indústria de construção do antigo – Embu das Artes, em São Paulo, ou Tiradentes, em Minas Gerais, por exemplo, são polos de artesanato do passado, de fabricação das mais novas antiguidades que se podem adquirir.

Nesses lugares, no fundo, as pessoas vão atrás do conforto e da segurança de ter uma herança, um passado, uma história, uma família. Não deixa de ser outro sinal de desespero, ou infelicidade – nas feiras de antiguidade, é comum ver casais andando de mãos dadas em busca de laços que deem sentido a sua vida, não raro medíocre.

As camadas populares não precisam disso, pois já têm família. Aliás, sem família a vida não existe, pois não há como existir em meio à miséria sem laços. Família não quer dizer apenas pai, mãe, filhos, avós, primos e tios. No caso, é uma família ampliada que engloba vizinhos, a mulher da casa da esquina que empresta o açúcar, o cara da frente, aquele único que tem carro e leva quem precisa ao hospital de madrugada. A burguesia, por sua vez, se dá o direito de nem saber o nome do cara que mora na porta ao lado, pois pensa não ter nenhuma necessidade dele.

De qualquer modo, a família é um ninho de afeto e todos precisamos de afeto. Mas, no caso da burguesia, a família precisa ser construída por laços de história, ou laços de família.

A ideia de família ainda é estranha ao mundo burguês. Karl Marx estava certo ao dizer que o capital destruiu a família. Já a pobreza – que não foi atingida pelo capital a não ser como vítima – é solidária. Os vizinhos cuidam dos filhos da casa ao lado quando os pais estão no trabalho. Se o barraco desmorona, todo mundo que morava lá encontra abrigo na casa de alguém, pois, dizem, “onde comem cinco, comem dez”. A burguesia, por sua vez, não sabe o que fazer nem com os pais idosos. Em vez de abrigá-los em sua moradia, paga para alguém cuidar deles em uma casa de saúde.

A burguesia também quer solidez. Por isso compra móveis pesados, camas de ferro, estátuas de bronze.

O proletariado quer leveza, quase nada escuro – de pesada, já basta a vida –, quer cores. Isso é assim no mundo todo – na África, principalmente na porção Sul da África, por exemplo, as pessoas se vestem com roupas coloridas, vibrantes.

A burguesia cultua o escuro, o tédio. Na Europa, o movimento punk, o movimento dark nascem ligados à ideia de um mundo que não lhes serve, um mundo impregnado de riquezas – mas é a mesma riqueza que os sustenta. O movimento hippie das décadas de 1960 e 1970, do qual fiz parte, carregava a ideia da simplicidade – e a simplicidade era o brilho. Era o Flower power, o poder da flor, da cor; não o da olheira, do rímel, da Amy Winehouse.

Alguns lugares do Brasil ainda guardam o passado belo e simples, como Penedo ou Visconde de Mauá, onde moram o que eu chamo de “viúvas do John Lennon”, e onde há a maior concentração de óculos redondos do país. Assim como há os ninhos do pesado, do escuro, da balada gótica.

O gótico é o terror presente na vida – nos tempos medievais, as catedrais góticas eram propositalmente gigantescas, altíssimas, para que o homem se sentisse pequeno e diminuído diante de Deus. Como tendência, o gótico é sucedido pelo rococó do Barroco, pelo exagero do detalhe como diferencial (o punk, o gótico, o dark não deixam de ser o rococó revisitado, com seus cintos e braceletes com tachinhas, seus alfinetes, sua maquiagem              escura e exagerada).

E o Barroco e seus rococós são substituídos, na Europa, pelo Romantismo, um movimento que é iluminado, que não tem nada de escuro – na música, por exemplo, surge Mozart, que consegue fazer uma missa de réquiem absolutamente esplendorosa.

Não é casual que a última obra de Beethoven seja uma ode à alegria. Ainda bem; é a luz de novo.

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro ” O QUE A VIDA ME ENSINOU”.

OUTROS OLHARES

LIGADOS NA TOMADA

Sucesso entre atletas de elite e celebridades, a malhação com eletroestimulação chega às academias com a promessa de tonificar músculos com menos esforço

Fazer flexões ou abdominais com roupa molhada elevando choque em diversas partes do corpo não parece ser a mais agradável das atividades, mas trata-se de uma tendência fitness cada vez mais procurada pelos brasileiros. Antes restritas a celebridades e atletas de elite, as máquinas de eletroestimulação muscular (EMS, na sigla em inglês) chegaram às academias e parecem responder perfeitamente aos anseios de uma sociedade apressada – “ligada no 220”, para usar uma expressão recorrente.

As sessões duram menos de meia hora e são, obrigatoriamente, acompanhadas por um profissional responsável por controlar a carga dos impulsos. Os choques acontecem durante quatro segundos (intercalados pelo mesmo período de descanso) e são leves. Provocam um formigamento suportável e alguns clientes relatam cócegas como efeito colateral. Sua eficácia é incontestável.

“Vinte minutos de EMS equivalem a um treino convencional de mais de uma hora”, diz Marcio Lui, personal trainer de famosas como Sabrina Sato e Yasmin Brunet. “O EMS potencializa o resultado, pois estimula mais de 300 músculos de uma vez e atinge camadas mais profundas da musculatura que nenhum outro exercício consegue atingir.”

Os choques funcionam para o ganho de força, resistência, tonificação muscular, emagrecimento, prevenção e tratamento de lesões. E o melhor: os resultados aparecem em poucas semanas. “A diferença de tônus muscular é visível”, afirma a apresentadora Adriane Galisteu, adepta da modalidade. “Antigamente, fazíamos tratamento de celulite com os choques da chamada corrente russa. Essa é uma versão muito melhorada.”

Os eletrodos foram desenvolvidos na Alemanha e funcionam ao entrar em contato com roupas específicas e umidificadas, capazes de conduzir eletricidade aos músculos. Atualmente, existem pelo menos três marcas reconhecidas que fabricam o aparelho. Qualquer pessoa pode contratar um personal trainer e usar um espaço da academia para a prática dos exercícios. Os treinos custam, em média, 120 reais, mas é possível obter descontos em planos de longo prazo, o que explica a explosão da atividade.

A alemã Miha, líder global do setor, informa que vendeu 24 equipamentos (custam cerca de 100.000 reais) e abriu dez clínicas especializadas em 2020. Agora, tem 150 parceiros nas cinco regiões do Brasil, entre academias e estúdios de bem-estar. Mas atenção: por sua intensidade, o trabalho deve ser realizado no máximo duas vezes por semana e com alguns dias de intervalo. É contraindicado para grávidas, pessoas com marca-passo cardíaco ou implantes, além de portadores de doenças como hérnia, tuberculose e hemofilia.

Nem mesmo o novo coronavírus, que fechou academias durante alguns meses, freou o sucesso da eletroestimulação. Ao contrário, tornou o procedimento ainda mais praticado. “As atividades são realizadas de forma individual, em espaços específicos e arejados e com a devida higienização”, diz a personal Cau Saad, dona de um dos principais estúdios da capital paulista que atende, inclusive, idosos. “É ótimo para eles, é bom para a postura, reduz dores e dá disposição.” Nas academias, o uso de máscara é obrigatório; nos treinos em casa, como o de Adriane Galisteu, é opcional. Os estímulos elétricos são conhecidos desde o século XVIII e se desenvolveram nas últimas décadas, primeiro pelas mãos dos antigos soviéticos e depois por outros países da Europa. Heróis do esporte consideram os choques aliados dos treinamentos. O jamaicano Usain Bolt, o homem mais veloz de todos os tempos, e o tenista espanhol Rafael Nadal tornearam os músculos graças ao EMS. No futebol, o Bayern de Munique, que conquistou a última Liga dos Campeões com sobras e que exibiu uma capacidade física superior mesmo após a parada pela pandemia, usa há mais tempo a tecnologia. No Brasil, o Corinthians trocou recentemente a tradicional máquina alemã por uma nova tecnologia espanhola, que funciona sem fios, via bluetooth. “Dá para conciliar a estimulação neuromuscular com corrida ou bicicleta”, explica Joaquim Grava, o médico que batiza o centro de treinamento do clube. Em Pernambuco, um fisioterapeuta vem utilizando o EMS com sucesso no tratamento de pacientes que relataram fadiga após se curarem da Covid-19. “A eletroestimulação acelera a recuperação neuromuscular, cardiorrespiratória e metabólica”, diz Francimar Ferrari Ramos, que trabalha no Hospital Esperança, do Recife. Ele utilizou o método em mais de vinte pacientes e, em breve, pretende publicar um estudo para comprovar a eficácia do tratamento. Nessa nova onda, os brasileiros parecem mesmo estar ligados.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

20 DE OUTUBRO

AS TORRENTES DO CÉU ESTÃO CHEGANDO

… Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão do homem… (1Reis 18.44b).

O profeta Elias foi levantado por Deus num tempo de extrema crise. A política era comandada por Acabe, o pior rei de Israel. A economia estava em colapso, pois não chovia sobre a terra. A religião estava em decadência, pois o povo se divida entre o Deus vivo e Baal, um ídolo pagão. Elias confrontou o rei por sua perversidade; o povo, por sua instabilidade espiritual; e os profetas de Baal, por sua cegueira. Fogo de Deus caiu do céu, e o povo caiu de joelhos na presença de Deus. Depois de eliminar esses arautos da heresia, Elias subiu ao cume do monte Carmelo com o propósito de buscar em Deus um tempo de restauração para a nação. Aconteceram cinco coisas: 1) Elias ouviu o ruído de abundantes chuvas; 2) Elias se prostrou diante de Deus; 3) Elias orou perseverantemente; 4) Elias buscou um sinal de Deus; 5) Elias creu que uma nuvem do tamanho da palma de uma mão era a garantia da chegada das torrentes do céu. Após três anos e meio de seca, Deus derramou as copiosas chuvas, e a terra floresceu e deu os seus frutos. Hoje vemos sinais de crise por todos os lados. A crise tornou-se endêmica e sistêmica, e enfiou suas garras mortíferas na política, na religião e na família. Precisamos de novos Elias que tenham coragem de confrontar os poderosos deste século, autoridade para exortar o povo e poder para triunfar sobre as hostes do mal. Só então as torrentes do céu virão sobre nós trazendo restauração.

GESTÃO E CARREIRA

CRESCIMENTO COM SIMPLICIDADE

A busca da excelência operacional, a redução dos custos financeiros e o foco nos resultados tornam a Marfrig Global Foods um exemplo de gestão para as empresas do Brasil e do mundo. O pioneirismo no lançamento de produtos de alto valor agregado e o compromisso com o meio ambiente fazem mais que isso: somam-se à eficiência da gestão para garantir os recordes de crescimento da companhia.

Um açougue familiar em Mogi-Guaçu, no interior paulista, foi o lugar onde o ainda garoto Marcos Molina dos Santos aprendeu as bases do ofício que nas décadas seguintes o levaria a construir um império global. Atrás do balcão, como haviam feito o avô e o pai, Molina aprendeu a cortar e servir as peças de um jeito que encantava a clientela, a cuidar do caixa para nunca faltar troco e a comprar dos fornecedores pagando o preço justo a quem oferecia a melhor qualidade. O aprendizado daqueles tempos foi fundamental que ele entendesse as oportunidades que o mercado oferecia. A primeira delas foi precoce: aos 16 anos ele quis ser emancipado para abrir sua própria distribuidora de miúdos. Logo depois, passaria a fornecer cortes para churrascarias de alto padrão na capital paulista. Com o passar do tempo, sua empresa foi crescendo até se tornar uma das líderes globais em carne bovina, além da maior produtora de hambúrgueres.

A simplicidade, contudo, permaneceu como marca registrada da Marfrig Global Foods, empresa que faturou perto de R$ 50 bilhões no ano passado, com 32 mil colaboradores e resultados que a fazem merecer o título de Empresa do Ano segundo os critérios de avaliação do anuário AS MELHORES DA DINHEIRO 2020. “A Marfrig tem humildade. Ela sempre pensa que pode melhorar”, afirmou o diretor-presidente Miguel Gularte.

Por “melhorar” entenda-se não apenas a busca de recordes ano a ano (o que de fato tem ocorrido), como também a adoção de práticas de administração eficientes, com inovação, qualidade e compromisso com o meio ambiente – algo de que a Marfrig pode se orgulhar como poucas empresas que atuam no setor de carne bovina em todo o mundo. Prova de que a sustentabilidade é uma das diretrizes estratégicas da empresa foi o anúncio, em julho, do plano de visão até 2030 desenvolvido em parceria com o IDH (The Sustainable Trade Initiative). O plano é baseado nas premissas da rastreabilidade completa da cadeia de suprimentos, na inclusão de produtores no manejo sustentável dos recursos naturais, no combate ao desmatamento e na total transparência para que a sociedade possa acompanhar os desdobramentos da iniciativa.

Para alcançar seus objetivos ambientais de longo prazo, a Marfrig tem inovado o ecossistema em que atua. Exemplo do pioneirismo nesse quesito é a marca Viva, linha de carnes “carbono neutro” desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo a Marfrig, os produtos da linha Viva são provenientes de animais inseridos em um sistema de produção pecuária-floresta que neutraliza as emissões de metano. A compensação é assegurada a partir da certificação e verificação por auditorias independentes. Antes da carne carbono zero, a Marfrig havia lançado o Revolution Burger, linha que ampliou o portfólio da empresa no quesito de produtos de base vegetal. “Logo que começaram a surgir as ‘carnes alternativas’, no Vale do Silício, eu fui lá visitar. Em 2016, começamos uma conversa com a ADM, uma das líderes daquele movimento nos Estados Unidos”, disse o fundador e presidente da Marfrig, Marcos Molina. “A ideia era oferecer uma alternativa ao consumidor que passou a comer menos carne. Apesar de a base de clientes veganos ainda ser pequena, ela vem crescendo a uma média de dois dígitos ao ano.” Este ano, a Marfrig e a ADM anunciaram o acordo para criação da PlantPlus Foods, joint venture para a comercialização de produtos de base vegetal por meio dos canais de varejo e food service nos mercados da América do Sul e América do Norte. “Nossa capacidade de produção e distribuição, combinada Para alcançar seus objetivos ambientais de longo prazo, a Marfrig tem inovado o ecossistema em que atua. Exemplo do pioneirismo nesse quesito é a marca Viva, linha de carnes “carbono neutro” desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo a Marfrig, os produtos da linha Viva são provenientes de animais inseridos em um sistema de produção pecuária-floresta que neutraliza as emissões de metano. A compensação é assegurada a partir da certificação e verificação por auditorias independentes. Antes da carne carbono zero, a Marfrig havia lançado o Revolution Burger, linha que ampliou o portfólio da empresa no quesito de produtos de base vegetal. “Logo que começaram a surgir as ‘carnes alternativas’, no Vale do Silício, eu fui lá visitar. Em 2016, começamos uma conversa com a ADM, uma das líderes daquele movimento nos Estados Unidos”, disse o fundador e presidente da Marfrig, Marcos Molina. “A ideia era oferecer uma alternativa ao consumidor que passou a comer menos carne. Apesar de a base de clientes veganos ainda ser pequena, ela vem crescendo a uma média de dois dígitos ao ano.” Este ano, a Marfrig e a ADM anunciaram o acordo para criação da PlantPlus Foods, joint venture para a comercialização de produtos de base vegetal por meio dos canais de varejo e food service nos mercados da América do Sul e América do Norte. “Nossa capacidade de produção e distribuição, combinada à excelência técnica e de desenvolvimento da ADM, fazem da PlantPlus uma empresa que desde o início estará preparada para atender a evolução desse mercado”, afirmou Molina.

O aumento de portfólio a partir do aproveitamento da capacidade de produção e distribuição e da oferta de itens de maior valor agregado havia sido desenhado anos atrás. “Desde 2018 nosso planejamento consistia em eficiência na fábrica, investimento em capex e aumento de processados”, afirmou Molina à DINHEIRO. Capex é a sigla para “capital expenditure”, expressão inglesa que se refere ao montante despendido na aquisição de bens de capital de uma determinada empresa. Em 2018, os investimentos da Marfrig, incluindo a aquisição de 51% da National Beef Packing (NBP), nos Estados Unidos, foram de R$ 4,3 bilhões. Em 2019, a participação foi ampliada para 81%. O retorno veio de forma rápida. No primeiro trimestre de 2020, a Operação América do Norte, comandada pelo CEO Tim Klein, teve receita líquida de R$ 9,7 bilhões. “O resultado é reflexo de diversos fatores de mercado”, afirmou Klein, destacando a maior disponibilidade de gado aliada ao aumento no volume de vendas de produtos prontos no mercado americano.

Se as notícias foram boas no Hemisfério Norte, por aqui foram ainda melhores. A receita líquida da Operação América do Sul foi de R$ 3,8 bilhões, crescimento de 26,1% sobre o primeiro trimestre de 2019. Pesa nessa conta o aumento substancial das exportações, que cresceram 65% no período. “Somos a empresa com o maior número de plantas habilitadas para exportar para a China e isso fez enorme diferença”, disse Miguel Gularte. “Quando a China começou a deixar para trás a crise do novo coronavírus, fomos beneficiados.” As exportações representam 60% das receitas totais da operação da Marfrig América do Sul. E a receita vinda de fora continuou crescendo nos meses seguintes, o que contribui para que a Marfrig alcançasse um número capaz de orgulhar qualquer executivo. Ao encerrar o segundo trimestre deste ano com lucro líquido de R$ 1,59 bilhão, a empresa cravou exatos 1.743% de alta em relação ao lucro obtido no mesmo período um ano antes (que havia sido de R$ 87 milhões).

As condições externas que permitiram esse avanço, incluindo a depreciação do real e toda a turbulência decorrente da pandemia poderiam ter sido desperdiçadas caso a empresa não estivesse devidamente preparada. A Marfrig estava. Várias medidas de aumento de produtividade haviam sido executadas. Unidades pouco produtivas, como a de Tucumã (PA), foram encerradas. A produção se concentrou em plantas com maior escala, como a de Várzea Grande (MT), de onde saem inclusive os hambúrgueres vegetais.

A empresa não mirou apenas no portfólio. No aspecto financeiro, ações de liability management com a liquidação antecipada das operações de capital de giro resultaram numa redução de despesas com juros de cerca de R$ 135 milhões. Com recursos próprios, a Marfrig liquidou, em janeiro deste ano, US$ 446 milhões em Notas Sênior com vencimento para 2023 e juros anuais de 8%. Ao mesmo tempo, liquidou o equivalente a R$ 938 milhões em operações de capital de giro, atingindo um custo médio de dívida de 5,8% ao ano, o menor de sua história.

Em um mundo que se tornará mais pobre e com menos empregos devido aos impactos da pandemia de Covid-19, haverá espaço para uma empresa do porte da Marfrig continuar crescendo? Para o diretor presidente Miguel Gularte, sim. “Nós estamos em um segmento onde a demanda supera a oferta”, afirmou. “Isso não mudou, nem mesmo com toda a alteração econômica mundial decorrente da Covid-19.” Para ele, o que houve foi uma mudança de canal comercial. Enquanto os restaurantes estão demandando menos, até por terem reaberto com restrições de ocupação, por outro lado, há maior venda de carne no atacado. “Sempre que surge um advento econômico transformacional ele vem acompanhado de uma revisão nas prioridades de alocação dos recursos. E alimentação segue como uma prioridade para as famílias”, disse, citando também o aumento da preocupação com a saúde e a procedência dos alimentos. No novo normal pós-pandemia, ter confiança naquilo que se põe na boca pode ser tão vital quanto usar máscara ou álcool gel. E essa confiança passa pelos valores que uma empresa cultiva no dia a dia. E nisso, a simplicidade pode fazer toda a diferença.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – III

QUAL É A CAUSA?

As especulações para a origem do transtorno são várias

Mesmo com estudos e pesquisas avançadas, as causas do TEA ainda são incertas para a ciência. Especulações sobre as origens do autismo passam por maus hábitos durante a gestação, como uso de remédios antidepressivos, álcool e outras drogas, até riscos causados por fatores ambientais, como a poluição. Porém, o que mais desperta a atenção dos pesquisadores atualmente é a importância da genética na luta para desvendar o que realmente influencia no aparecimento do autismo.

QUAIS OS CUIDADOS DURANTE A GESTAÇÃO PARA EVITAR O APARECIMENTO DO TEA?

Segundo terapeutas da Associação Cultural Educacional Social e Assistencial Capuava (Acesa Capuava), a importância de tomar cuidados extras durante a gravidez é um conselho que não precisa vir de um médico para ser acatado, ainda mais com fatores de risco para o desenvolvimento do autismo na criança.

Elementos como a má nutrição maternal e lesões no sistema nervoso devido ao consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas, como cocaína e crack durante a gestação, podem influenciar no aparecimento do TEA. “Nós temos uma criança em nossa associação com uma síndrome alcoólica fetal, e ele apresenta os sinais clínicos do TEA, tem os movimentos repetidos, déficit de interação social e de linguagem”, conta Kátia Semeghini Caputo, pediatra e presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo de Bauru (Afapab).

É importante ressaltar que esses hábitos da mãe no período da gravidez não são uma causa direta para o autismo, mas um gatilho, ou seja, um agente influenciador em quem já seja predisposto ao desenvolvimento do transtorno. Além do mais, como isso acontece ainda é uma incógnita para a ciência e objeto de estudo por parte da genética.

A GENÉTICO CONSEGUE EXPLICAR?

Com anos de estudos para tentar encontrar os causadores do autismo, hoje, a maior aposta das pesquisas se encontra na genética, cuja explicação consiste em que ocorram em mutações em genes relacionados ao neurodesenvolvimento do córtex cerebral humano no período gestacional. “Os fatores genéricos têm diversos genes envolvidos, daí o termo poligênico. Não existe um gene único que seja o do autismo. Apesar de os estudos estarem avançando cada vez mais, se tivesse uma explicação genética, já se conseguiria tratar o autismo”, explica a pediatra.

HÁ FATORES AMBIENTAIS ENVOLVIDOS NAS CAUSAS DO TEA?

Outra teoria acerca da causa do autismo se encontra nos fatores ambientais, como a poluição. No entanto, mais uma vez, não se pode apontar um único culpado como motivo do transtorno, mas sim um gatilho para pessoas que apresentem uma predisposição ao TEA. Um estudo de 2014 da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, concluiu que pessoas que moravam perto de uma fábrica tinham mais chances de gerar crianças que nasciam dentro do espectro autista. Contudo, até hoje não houve uma explicação para o fato descoberto.

EXISTEM DOENÇAS QUE PODEM INFLUENCIAR NO AUTISMO?

Além de hábitos não saudáveis das mães em período de gestação, fatores virais e infecciosos podem ser sinais de preocupação para o desenvolvimento do autismo em seus filhos. Segundo Kátia, “as infecções durante a gravidez podem não só causar o TEA, como muitos outros. Por exemplo, o citomegalovírus, que causa a microcefalia, com ou sem os sinais do TEA, a toxoplasmose e a rubéola”.

E QUANTO AOS REMÉDIOS CONSUMIDOS NA GRAVIDEZ TAMBÉM SÃO UM RISCO?

Em um trabalho publicado em 2013, conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), foi encontrado mais um potencial gatilho para o autismo. Na pesquisa, era aplicado ácido valpróico, substância utilizada em remédios anticonvulsionantes, em camundongos fêmeas gestantes na décima semana de gestação. E, como consequência, os filhotes nascem com sinais de TEA. Kátia explica que “camundongos são altamente sociais; eles procuram a companhia de outros de sua espécie. E esses começaram a se isolar, comprovando que o ácido pode ser um causador do transtorno quando a mãe ingere a substância na gestação”.

AS VACINAS PODEM CAUSAR O AUTISMO INFANTIL?

Esse rumor começou em 1998, com a publicação de um artigo do pesquisador britânico Andrew Wokefield. No estudo, Wokefield concluiu que a vacina tríplice viral SCR, aplicada para imunizar contra o sarampo, a caxumba e a rubéola, seria uma causadora do autismo em crianças que a tomaram. Em abril de 2015, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores nos Estados Unidos, comprovando cientificamente que a teoria de Wokefield estava incorreta. Os cientistas analisaram mais de 95 mil crianças que tomaram a vacina tríplice – SCR e concluíram que ela não influencia no risco de desenvolvimento do TEA.

EU ACHO …

A CRIAÇÃO DE DIFERENCIAIS

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos da América, disse que “sexo é para principiantes; os experientes gostam é de poder”. A questão central do poder é ser visto para não ser esquecido. Kissinger está certo. O que mais levaria certos políticos brasileiros que já tiveram tudo a continuar na vida pública até a degradação? O que leva alguém que poderia conviver mais com os netos, ter um hobby, desfrutar melhor a vida, o que leva esse alguém a se ver em situações constrangedoras? Para que continuar? Porque eles precisam continuar visíveis.

Por essa mesma razão, pessoas que têm certa exposição gostam de fazer um arquivo com tudo o que mencione seu nome. Eu, por exemplo, às vezes dou entrevistas para jornais e revistas. Eu dei a entrevista, sei o que falei, não preciso dela para me lembrar de nada mas mesmo assim quero recortá-la e guardá-la. Também por isso eu mando enquadrar a capa da revista com uma fotografia minha. Para quê? Ora, eu quero me ver vendo e sendo visto. Nem os serial killers fogem disso. Eles matam para ter exposição. Não é só o policial que recorta tudo o que saiu sobre o assassino nos jornais. O serial killer também guarda todos os recortes para se ver sendo visto. Assim, o maior castigo para um assassino desses seria não ter uma linha publicada nos jornais, seria ser ignorado.

O desejo de não ser esquecido assumiu muitas formas no mundo moderno. Até a desfiguração é uma forma de exposição – haja vista a trajetória de Michael Jackson, que se desfigurou a ponto de comprovar o filósofo Friedrich Nietzsche quando ele disse que “alguns homens nascem póstumos”. A desfiguração contínua fez com que Michael Jackson perdesse sua identidade até ganhar uma outra identidade pública.

Note que “identidade pública” é uma contradição em termos, pois a noção de identidade só faz sentido para um indivíduo. Mesmo assim, a “identidade pública” é um dos maiores desejos da modernidade. Por isso, tantas garotas pagam a agências e fotógrafos para fazer um book. Se uma mãe já não tem idade para desfilar nas passarelas, tenta a todo custo que sua filha tenha a exposição que ela não teve. Se alguém foi viajar, faz questão de postar as fotos num blog ou numa comunidade virtual.

No fundo, tudo isso é o mesmo grito: “Olha eu aqui”. Tudo é a personificação daquilo que Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro escreveram na música Pesadelo: “Você corta um verso, eu escrevo outro. Você me prende vivo, eu escapo morto. De repente olha eu de novo”.

Numa época em que todo mundo tem as mesmas condições e a mesma facilidade de se expor, seja no Facebook, no Orkut, no Twitter, o excesso de exposição devolve as pessoas ao anonimato.

No desespero para se destacar na multidão, a única chance que resta é criar um diferencial – e, nesse jogo, parece que agora vale tudo. Um exemplo disso está no livro Zonas úmidas, da jornalista inglesa Charlotte Roche. É um livro escatológico sobre uma garota de 18 anos que já experimentou de tudo sobre sexo. Essa moça não usa perfume convencional – ela passa a mão no próprio sexo e depois espalha o cheiro pelo corpo, numa forma extremada de demarcar o diferencial do seu desejo de exposição.

Pergunto: depois disso, que outro tipo de registro, de diário, faltaria ser escrito por uma garota? Temos o diário de Anne Frank, que narra todo o desespero por ter ficado trancada num gueto durante o Holocausto. O diário de Anne Sulivan, que trata da capacidade de alguém enxergar sem enxergar. O diário de Bridget Jones, uma mulher que se sente desconfortável consigo mesma e que pensa em homens e calorias durante 95% do seu tempo. Diários de adolescentes, de felizes e infelizes, de perdidos e achados, diários de todo jeito. Como alguém faz para se diferenciar se quase tudo já foi feito?

Um coloca piercing, o outro também. Um expande a orelha, outro imita. Uma transa com quem quer, a outra também. Uma faz tatuagem, a outra vai atrás. Faço mais uma, duas, três tatuagens, o outro faz quatro, cinco, seis, até só sobrarem os olhos. E aí voltamos à desfiguração, que leva à perda de identidade. Se todos têm tatuagem no corpo todo, o que virá agora? Tirar toda a pele certamente seria um diferencial, assim como se perfumar com os próprios cheiros ou descobrir uma outra coisa que ninguém fez para se distinguir na multidão.

Hoje, a diferenciação está ligada à exposição hiperbólica, ao exagero pleno, ao grotesco. Nos nossos tempos, o grotesco se tornou altamente sedutor. É a mulher com a bunda do tamanho de melancia, o seio explodindo de silicone, o lábio inflado como uma boia de sinalização. É o homem com os músculos estourando, com o cabelo hiperproduzido, com a vaidade desvairada de uma diva ou uma violência desmedida a troco de nada.

A hipérbole é mais necessária para quem está por baixo. Veja o exemplo dos Estados Unidos da América da década de 1970, quando a nação mais militarizada do Ocidente foi humilhada pelos vietnamitas. Para resgatar sua autoestima, hiperbolizou a figura do herói de guerra, do Rambo. Antes disso, era um país que cresceu dizimando os índios e, por isso, precisou hiperbolizar a figura do “mocinho” e do cowboy. Essa compulsão ao exagero faz com que a penumbra e o anonimato sejam ainda mais desesperadores.

Essa, de verdade, é a divina comédia humana.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

SE MEUS CABELOS FALASSEM

O visual exuberante com franjão da inesquecível Farrah Fawcett ganha adeptas nas redes sociais como sinônimo de sensualidade e liberdade femininas

Nunca houve cabelos como os de Farrah Fawcett (1947-2009) – ou, posto de outra forma, nunca as madeixas definiram tanto um tempo da civilização quanto os anos 1970 impregnados nos fios da atriz de As Panteras. Os cabelos, enfim, são como um tratado de sociologia que sai do salão para andar pelas ruas. Podem ser ultrafemininos e sensuais como os de Farrah, na pele da detetive particular Jill Munroe, que enchia a tela com a juba loira, esvoaçante e repicada, completamente imune a cenas de ação e perseguições. Podem ser curtíssimos e utilitários como o corte rente na nuca de Coco Chanel, criado há cem anos, logo depois da Gripe Espanhola e da I Guerra, quando as mulheres começavam a brigar pelo direito ao trabalho. Não há enigma: diga-me como cortas o cabelo e te direi quem és, simples assim. Neste estranho 2020 da pandemia, de nostalgia como socorro a um presente difícil e futuro incerto, o estilo Farrah Fawcett voltou a ganhar simpatizantes e se popularizou nas redes sociais, sobretudo no Tik­Tok, a invenção chinesa que colou. Há adeptas dos 8 aos 80.

A história começou com coleções de roupas lançadas no finzinho de 2019, inspiradas em peças da década de 70. Estava tudo lá: as calças com barras avolumadas, casacos de alfaiataria, acessórios com pedrinhas e o jeitão um tanto desleixado de andar de Farrah Fawcett. Para chegar à mítica cabeleira o passo foi pequeno. A modelo Sofia Richie, a atriz Hailee Steinfeld e a cantora Jennifer Lopez, todas americanas, foram algumas das que apareceram com o novo visual. “O corte exuberante fica bem em quase todos os tipos de rosto”, diz o cabeleireiro Marcos Proença, dono de dois cobiçados salões paulistanos.

Mas pegou, mesmo, agora, porque pode ser feito em casa, ali onde a civilização se fechou desde março. Proliferam nas redes sociais tutoriais nos quais meninas que mal passaram dos 20 anos ensinam com proficiência como usar os datados bobes e os modeladores de cabelo (muitas vezes ao som das melodias da banda sueca Abba). Há aulas de como cortar a franja característica e o jeito correto de movimentar escovas e pranchas com as mãos, a fim de conquistar os fios avolumados que contornam o rosto em formato de cascata. “Para as jovens, reexibir o que foi moda há cinquenta anos é uma potente forma de expressão, é celebrar os aspectos libertários daquele tempo”, diz o professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) João Braga.

Não há, portanto, futilidade alguma no movimento de imitação de Farrah. Trata-se de um modo de expressão. Ressalve-se que exibir as melenas lindas, livres e soltas já foi um tabu. No início do século XX, poder enxergar um bom volume de fios livres desde o topo da cabeça era um benefício concedido apenas ao marido, na intimidade do lar, entre quatro paredes. Os lenços eram compulsórios, associados a chapéus. A lógica só começou a ser invertida com movimentos como os de Chanel e, depois da I Guerra, numa nova versão, com os chamados cortes à la garçonne (do francês “ao modo dos rapazes”). Na década de 50 surgiriam as tinturas para ser usadas em casa e, então, brotou a mágica de Marilyn Monroe, com cabelos loiríssimos.

Lembre-se que o fenômeno Farrah Fawcett, esse que renasceu, era o desfecho de uma revolução que tinha nascido um pouco antes, na virada dos anos 1960 para os 1970 – havia, portanto, uma avenida aberta para avanços notáveis. As mulheres já podiam usar pílula anticoncepcional, desciam ao asfalto para defender seus direitos, se tornaram donas da própria liberdade sexual e passaram a decidir ter ou não filhos. Uma liberdade coroada magistralmente com a chegada de Farrah Fawcett e sua personagem. “Ela reunia as qualidades de ser heroína, poderosa, feminina e glamourosa, algo totalmente relacionado à imagem da mulher naqueles anos”, diz a historiadora da moda Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda. O retorno de um ícone que simboliza liberdade em um momento como o de agora, quando a independência foi tão tolhida com a pandemia, é extraordinariamente emblemático. Tem a força de um belo manifesto feminino.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE OUTUBRO

UMA MULHER MUITO ESPECIAL

Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias (Provérbios 31.10).

O livro de Provérbios fala sobre uma mulher muito especial, conhecida como a mulher virtuosa. Ela mantinha um relacionamento correto com seu marido, que confiava nela; ela lhe fazia bem todos os dias de sua vida; e ele a elogiava publicamente. Também mantinha um relacionamento correto com os filhos, pois trazia nos lábios palavras de sabedoria e bondade, e seus filhos se levantavam para chamá-la de mulher feliz. Essa mulher mantinha ainda um relacionamento correto com o próximo. Embora fosse uma empresária com muitos compromissos e ainda atendesse ao bom andamento da sua casa, não se esquecia dos pobres nem encolhia sua mão aos necessitados. Essa mulher relacionava-se saudavelmente consigo mesma, pois, embora se vestisse com elegância e bom gosto, sabia que enganosa é a graça e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada. Mais importante que tudo, a mulher virtuosa mantinha um relacionamento de intimidade com Deus. Ela temia ao Senhor, e a força e a dignidade eram seus vestidos. A biografia dessa mulher pode ser assim resumida: ela é louvada pelo marido, pelos filhos, por suas obras e pelo próprio Deus. De fato, uma mulher muito especial. Você quer imitá-la?

GESTÃO E CARREIRA

UM POR TODOS, TODOS POR UM

A cooperativa paranaense Coamo ultrapassa a marca de 29 mil associados e planeja faturar R$ 17,8 bilhões em 2020, 33% acima do resultado anterior

Pouca gente sabe, mas a expressão popular “a união faz a força” tem origem no texto bíblico que diz “é fácil quebrar uma vara, mas é difícil quebrar um feixe de varas”. As cooperativas do agronegócio brasileiro são a pura concretização da metáfora. Juntas, as 1.613 entidades ativas no País respondem por quase 50% do Produto Interno Bruto (PIB) agrícola. De tudo o que é produzido no campo, 48% passam por uma dessas empresas de caráter associativo em algum momento da produção até chegar ao destino final. Os dados são do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números que demonstram o gigantismo desse setor não param por aí. Eles também se referem a pessoas. De acordo com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), mais de 1 milhão de associados fazem parte desse sistema, que gera cerca de 210 mil empregos diretos. Nesse contexto, a paranaense Coamo Agroindustrial se destaca como a maior cooperativa agrícola da América Latina.

Ter vencido no ano passado e agora, em 2020, comprova a alta eficiência da gestão da cooperativa criada em 1970. A Coamo nasceu como fruto da união de 79 agricultores associados que subscreveram sua ata de fundação, com capital social de 37.540 cruzeiros, a moeda corrente da época. Hoje, possui 29.174 associados que estão distribuídos em 71 municípios dos estados de Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina. Para este ano, projeta faturamento de R$ 17,8 bilhões. A meta, se realizada, representará crescimento de 33% em comparação a 2019, ano no qual faturou R$ 13,4 bilhões.

Em crescimento consistente com a expansão do agronegócio brasileiro, a cooperativa contabilizou a movimentação de 8,1 milhões de toneladas de soja, milho, trigo, aveia e café de janeiro a agosto. Até o fim do ano, a marca de 9 milhões de toneladas deve ser superada com tranquilidade. O ano poderia ser ainda melhor, se não fossem os impactos da pandemia da Covid-19, que, mesmo sem causar grandes estragos no agronegócio brasileiro, prejudicou algumas culturas – como a do café, que registrou ligeira retração nas vendas com o fechamento do segmento Horeca (hotéis, restaurantes e cafeterias), além de ter a velocidade da colheita reduzida, devido à diminuição do número de trabalhadores no campo.

Para José Aroldo Gallassini, presidente do conselho administrativo da Coamo, o segredo para que a cooperativa continue a prosperar é a fidelidade dos associados. “O quadro vem crescendo, conforme vamos implementando novas áreas de atuação. Temos como objetivo ampliar constantemente o volume de recebimento da produção e o fornecimento de insumos”, afirmou Gallassini. Em 2019, a Coamo recebeu 3,1% da produção nacional de grãos e exportou mais de 4,8 milhões de toneladas, que representam quase US$ 1,5 bilhão. Para 2020, a previsão é de que os embarques ao exterior ultrapassem as 5 milhões de toneladas, em mercadorias no valor de US$ 1,65 bilhão.

Para possibilitar o crescimento da receita total da cooperativa, projetos de expansão estão na agenda. Entre eles investimentos em novas unidades de recebimento para a ampliação da capacidade de exportação. “Ainda este ano devemos aumentar o recebimento da produção em 20%, a capacidade de esmagamento de soja em 70% e o faturamento em mais de 30%”, disse o presidente. A meta é inaugurar mais quatro unidades, além das atuais 119. Dentro do planejamento da cooperativa, a primeira inauguração deve acontecer este mês e será para o recebimento de grãos na cidade de Dourados (MS). Em seguida, um novo terminal próprio de exportação em Paranaguá (PR) deverá entrar em operação no segundo semestre de 2021. Outras duas unidades estão em fase de estudo para implantação: uma para a indústria de ração e outra para etanol de milho.

Mesmo com a pandemia da Covid-19 ainda assombrando o mundo, a cooperativa manteve o ritmo e adotou medidas para que os impactos fossem amenizados entre seus mais de 10 mil colaboradores, entre diretos e indiretos. Redução de tempo de horas trabalhadas sem comprometer salários, sistema de rodízio nas unidades, regime de quarentena para grupos de risco e iniciativas para evitar aglomeração e circulação de pessoas, além da higienização pessoal, foram essenciais para que a rotina prevalecesse. “Promovemos condições para vencer essa dura batalha. A agricultura não para e não pode parar”, disse Gallassini.

Os resultados que estão por vir comprovam a efetividade da precaução e do comprometimento de todos. “Comemoramos 50 anos em 2020 celebrando a maior produção da Coamo, com faturamento recorde, graças à variação cambial e ao aumento das exportações”, afirmou o presidente do conselho. Ainda contribuíram para o desempenho da Coamo a safra recorde do campo, a alta do preço de algumas commodities e, sobretudo, a resiliência dos cooperados brasileiros.

AS MELHORES

1. COAMO 434,35 PONTOS

2. COCAMAR 395,93 PONTOS

3. COOPAVEL 327,98 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – II

CONHECENDO O ALTISMO

O transtorno ainda não é completamente desvendado pela ciência, mas pede a atenção da sociedade. Conheça comportamentos que auxiliam a identificar o TEA.

Crianças isoladas que evitam contato visual e pouco ou quase nada falam. Essas são algumas das manifestações do autismo, um distúrbio que ainda é um enigma para ciência, mas que afeta mais de 70 milhões de pessoas pelo mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

UM POUCO DE HISTÓRIA

Em 1906, o psiquiatra suíço Plouller utilizou o termo autismo pela primeira vez ao descrever o isolamento frequente em alguns de seus pacientes. Mas foi só na década de 1940 que o transtorno recebeu maior atenção, quando o médico austríaco Leo Kanner, vivendo nos Estados Unidos, teve contato com Donald T., um garoto com um problema que seria batizado, posteriormente, como autismo; e o psiquiatra austríaco Hans Asperger descreveu uma condição muito semelhante, que ficou conhecida como Síndrome de Asperger.

A partir de então, artigos científicos e pesquisas sobre o tema só aumentaram.  Popularmente conhecido como autismo, o transtorno possui uma história marcada por alterações na nomenclatura e nos critérios utilizados para o diagnóstico. Atualmente, as características do distúrbio constam na 5′ edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

NÃO É DOENÇA

O TEA é classificado como um transtorno ou distúrbio do neurodesenvolvimento. Não se trata de uma doença nem um uma síndrome, já que não é conhecido seu gene causador. Especificamente no caso do autismo, tampouco há identificado um gene comum em vários pacientes, embora os comportamentos e déficits sejam descritos de forma semelhante. A síndrome de Rett, por exemplo, anteriormente era considerada como um dos Transtornos do Espectro do Autismo. “Agora, sabe-se que é uma síndrome genética definida, com uma mutação em um gene específico”, explica a bióloga Patrícia Beltrão Braga.

CAUSA INDEFINIDA

Apesar dos avanços da ciência, as causas concretas do Transtorno do Espectro Autista ainda são desconhecidas pela ciência. “Hoje, sabe-se que o transtorno é decorrente de uma associação entre alterações genéticas e predisposição ambiental. Não há uma causa única. Diferentes genes têm sido reconhecidos como mais possivelmente associados com a ocorrência do transtorno”, explica a neurologista Ana Carolina Coan. A especialista destaca que uma questão importante é que com o maior número de pesquisas e estudos sobre o tema, vários mitos sobre a possível causa do autismo foram esclarecidos, como a associação de vacinas e a ocorrência de autismo. A hipótese de que vacinas com ou sem metais pesados poderiam causar o transtorno surgiu em 1998, quando o pesquisador britânico Andrew Wakefield publicou um artigo fraudulento relacionando o autismo em 12 crianças à vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, bócio e rubéola).

Como não se sabe ao certo a causa, não há cura ainda para o autismo. Contudo, os estudos sobre terapias e tratamentos específicos para o transtorno, visando a qualidade de vida, vêm trazendo descobertas animadoras. “Vários grupos de pesquisa têm desenvolvido protocolos de tratamento, que podem ser individualizados de acordo com o sintoma do paciente, e que poderão direcionar melhor os esforços de tempo e uso de recursos financeiros visando uma melhora dos sintomas dos pacientes”, afirma Ana Carolina.

COMPORTAMENTOS TÍPICOS

O autista não apresenta nenhuma anomalia física, passível de identificá-lo apenas pela aparência, como a Síndrome de Down. São características do comportamento que entregam o quadro. O TEA pode se manifestar logo nos primeiros meses de vida de forma leve, moderada ou grave, mas não costuma ser identificado nesse período. Há algumas semelhanças entre os indivíduos com autismo, contudo, elas podem mudar com o tempo, quando há o acompanhamento de profissionais habilitados que estimulam as áreas afetadas pelo transtorno.

CONFIRA OS PRINCIPAIS SINTOMAS:

Dificuldades persistentes de se comunicar e de interagir socialmente. “A criança pode ter atraso para adquirir a fala ou não conseguir falar. Da mesma forma, pode apresentar dificuldade de se comunicar mesmo por gestos ou entender o que está acontecendo em um contexto social específico (por exemplo, ter dificuldade de reconhecer expressões das faces relacionadas com alegria ou tristeza)”, elucida Ana Carolina;

Dificuldade de manter relacionamentos de amizade;

Movimentos estereotipados, isto é, padrões restritos e repetitivos de interesses e de atividades. Por exemplo: passar horas em uma mesma atividade, usar sempre o mesmo tipo de roupa ou comer o mesmo tipo de alimento, movimentos ou vocalizações repetitivas, como abanar as mãos, repetir várias vezes a mesma palavra ou um mesmo som. “Elas ainda apresentam uma grande necessidade de se manter em uma mesma rotina, podendo apresentar muita dificuldade de mudanças no dia a dia”, ressalta a neurologista.

NADA DE OUTRO MUNDO

É comum ouvir que “o autista vive em um mundo à parte”. Essa afirmação, além de bastante excludente, é equivocada. É verdade que, devido às alterações neurológicas típicas do transtorno, o autista pode apresentar alterações sensoriais e na captação de estímulos no ambiente em que está. Porém, isso não significa que ele não tenha conexões com a realidade.

COM A PALAVRA…

Danilo Benette Marques, neurocientista:

“A neurociência tenta enxergar mais a fundo o autista, olhando para seu cérebro e, principalmente, como as alterações nele se relacionam aos seus comportamentos diferenciados”, principalmente, como as alterações nele se relacionam aos seus comportamentos diferenciados”, esclarece.

Assim, o profissional ressalta que cada vez mais fica em evidência o fato de que o autismo se origina no desenvolvimento do feto, por causas genéticas, ambientais ou uma fusão de ambas. “Já foram descritos alguns genes específicos que estão relacionados ao autismo bem como efeitos ambientais que podem ser influentes durante a gestação, como uso de drogas, intoxicação por metais e infecções”, complementa. Ainda assim, outra possibilidade envolvendo neurônios despertou muita atenção entre os cientistas recentemente.

OS ESPELHOS QUEBRADOS

Em 1990, um grupo de neurocientistas liderado pelo italiano Giacomo Rizzolatti colocou eletrodos em cérebros de macacos. O objetivo da pesquisa era descobrir quais neurônios estavam ativos durante seus movimentos, como, por exemplo, ao pegar uma noz. Identificadas as células, um dos estudiosos esticou o braço para pegar a noz, e surpresa: os neurônios do macaco também se ativaram.

Esse acontecimento marcou a descoberta dos neurônios-espelho, capazes de imitar uma ação ao verem alguém executando o mesmo movimento – e que, posteriormente, descobriu-se que também se aplica a emoções. Você chora ao assistir uma série bem dramática? Fica feliz quando algum amigo está extremamente contente por conquistar algo? Tudo isso está ligado à propriedade espelho do cérebro.

Eis que, em 2005, outro experimento, dessa vez capitaneado pelo médico indiano Vilayanur Ramachandran, surpreendeu ao sinalizar a possibilidade de associar essas células ao autismo. “Por meio de uma técnica específica, ocorre uma certa alteração da atividade elétrica do cérebro, tanto quando alguém movimenta a própria mão quanto na hora que a pessoa vê outra movimentando”, descreve Danilo. “Os resultados dessa pesquisa mostraram que crianças autistas evocavam tal atividade quando moviam a mão, mas não ao verem outra pessoa se movimentando”. Tal observação acabou levando a reflexões sobre a chance de essas alterações na atividade espelho influenciarem no comprometimento da interação social de quem possui e ainda na sua inabilidade de sentir o que o outro sente ou de se colocar no lugar dessa pessoa.

Porém, é preciso ter muitas ressalvas ao tratar essa questão. “Apesar de elegante, é improvável que todo o espectro autista seja explicado com a hipótese dos espelhos quebrados”, salienta o especialista, “mas é evidente que ela contribui muito para nossa compreensão do que se passa na mente de um autista. Realmente, ainda existe muita pesquisa a ser feita na neurociência do autismo”, finaliza.

DIAGNÓSTICO COMPLEXO

Uma das mais complicadas questões que envolve o TEA diz respeito ao seu diagnóstico. Alguns outros quadros como depressão, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e dislexia possuem características semelhantes, mas que o neurocientista Danilo Benette Marques faz questão de diferenciar. “O papel evolutivo do comportamento depressivo é exatamente o contrário do que se vê no autismo”, explica o especialista, “já que, na depressão, existe um anseio grande pela expressão emocional para seu grupo social sejam amigos ou familiares. Além disso, muitas vezes o que gera o estado depressivo são eventos aversivos associados ao grupo em que o paciente se insere”.

Já em relação ao TDAH, cuja definição por si só já é controversa, “o transtorno é originalmente caracterizado por hiperatividade e falta de foco, o que levaria a um baixo rendimento escolar. No caso do autismo, também é possível encontrar baixo rendimento escolar, no entonto a criança ainda mantém interesses restritos e comportamentos repetitivos, evidenciando não a falta de foco, mas sim um foco exacerbado em coisas muito específicas

Por fim, em se tratando da dislexia, pacientes disléxicos apresentam maior dificuldade na linguagem escrita – enquanto a verbal transcorre normalmente, além da interação social. Em relação ao autismo, as últimas características são muito mais prejudicadas.

EU ACHO …

COMO ME TORNEI EU MESMO

E a exposição pessoal? Vale um pouco dela para reforçar alguns aprendizados memoráveis, isto é, que podem ser lembrados por mim e, eventualmente, servir a outras pessoas.

Uma das coisas que sempre me perguntam é como entrei na área de Filosofia, como profissão, como professor, com gosto, prazer ou perturbação. É impossível pensar o mundo da Filosofia sem pensar o mundo dos livros, pois ele se dá basicamente no campo teórico. Nós trabalhamos com aquilo que a humanidade recolheu e refletiu sobre o que chamamos de pensamento filosófico. Por isso, é impossível separar os livros da Filosofia.

Para eu ter contato com o pensamento de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, preciso ter acesso àquilo que foi registrado por eles. Assim, meu encanto com a Filosofia surgiu com os livros.

Nasci em Londrina, no norte do Paraná, em 1954. Meu pai era bancário, um homem sem escolaridade completa; tinha só o que hoje se chama de ensino fundamental. Minha mãe era professora, formada na antiga escola normal, mas que deixou de ensinar quando se casou. Os dois se mudaram jovens para lá, numa época em que se “desbravava” aquela região. Como gerente do Banco Mercantil de São Paulo, meu pai tinha a tarefa de abrir agências no norte do Paraná. Vivemos em Londrina até meus 13 anos, em 1967.

Como é que a Filosofia entra nessa história? Em primeiro lugar, eu morava numa casa com pais escolarizados; logo, livros não eram estranhos ao nosso cotidiano. Segundo, meu pai era um autodidata – embora só tivesse o fundamental, teve uma carreira bem-sucedida e se aposentou como diretor do banco. Numa casa que sempre teve muitos livros, minha mãe incentivava a leitura. Comecei com gibis, que eu adorava, e aos poucos peguei gosto pelos livros. Tenho um débito muito grande com o grupo Abril, dos Civita, cujas publicações foram decisivas em três momentos da minha vida.

Quando eu tinha uns 5 anos, todos os domingos, eu saía de casa de mãos dadas com meu pai ou com minha mãe e íamos até uma banca de jornal que ficava atrás da igreja para comprar o “Patinho”, como eu chamava O Pato Donald, revista quinzenal que demorava para chegar em Londrina. Aprendi a ler com os gibis, e também com Monteiro Lobato. Não havia emissora de televisão e nem transmissão na minha época de garoto em Londrina. Durante o dia, ficava entre a escola e as brincadeiras com os amigos. À noite, antes de dormir, eu lia.

Com meus 10 anos, a Abril lançou uma enciclopédia chamada Conhecer, em fascículos quinzenais. Eu os colecionei, fascículo por fascículo, até somar os 12 volumes mais os três dicionários enciclopédicos. O último número daquele tempo saiu em 1969, trazendo o milésimo gol do Pelé. Quarenta anos depois, eu mantenho essa enciclopédia até hoje. Mas a questão é que eu não apenas comprava e colecionava, mas que eu lia tudo, verbete por verbete – o que gerou para mim uma cultura literalmente enciclopédica, em alguns momentos erudita, em outros pernóstica, uma vez que, com 12 anos, eu sabia que escaravelhos e outros besouros são coleópteros, chamava papagaio de psitacídeo, sabia que o nome científico da barata é periplaneta americana, que oplita era um soldado da infantaria pesada na Grécia Antiga, sabia o que era o Canal do Panamá, qual a capital da Tanzânia, os afluentes do Amazonas, o peso atômico do bário…

Essas informações acumuladas, ainda que superficiais, depois seriam fundamentais na minha vida, como aluno ou professor.

Em 1973, quando eu entrei na faculdade de Filosofia, já morando em São Paulo, a Abril lançou Os Pensadores, coleção de capa dura com textos dos principais filósofos. Na época, não havia nada parecido. Li toda a série, fascículo por fascículo. Foi assim que três publicações da Abril – O Pato Donald, Conhecer e Os Pensadores – formaram o assoalho sobre o qual construí um conhecimento que pode ser chamado de holístico.

Além disso, cultivei ao longo dos anos um hábito que meus amigos achavam muito estranho: eu lia dicionário. Começava a letra A em janeiro e lá pelo mês de setembro tinha chegado ao Z. Eu não lia para decorar. Apenas lia para ler. As informações ficavam adormecidas na memória, até o momento em que precisava acessar o estoque.

Às vezes era útil, às vezes não. Mas estava lá.

Da biblioteca de casa, tinha lido todos os infantis, dos irmãos Grimm a Monteiro Lobato, na época um autor proibido pela Igreja para católicos. Minha família era católica com bom senso. Para a Igreja, ele era identificado como comunista, algo que nunca foi. Mas, como ele era um nacionalista que defendia o petróleo, a Igreja associava uma coisa a outra e o tachava de comunista. Assim, livros como Reinações de Narizinho estavam no Index Librorum Prohibitorum.

Certamente a semente do gosto pela leitura sempre esteve comigo. Mas houve um fato que propiciou que ele se desenvolvesse – um fato que Darwin diria que foi fruto do acaso.

Aos 7 anos, eu era aluno do Grupo Escolar Hugo Simas, em Londrina, onde fui alfabetizado pela dona Mercedes. Nas férias de janeiro de 1961, meus pais decidiram visitar parentes que moravam no interior de São Paulo. Fomos de jipe. Na barreira que então separava os estados de São Paulo e Paraná, tive de ser vacinado contra hepatite. E, aí, eu peguei hepatite… Fui obrigado a ficar três meses de cama. O tratamento, na época, consistia em repouso absoluto (não podia levantar nem para tomar banho) acompanhado de duas injeções por dia e comida absolutamente sem sal.

Isso me levou a sonhar – e eu sonho até hoje – com a torta da Minie, aquelas tortas salgadas que ela fazia para o Mickey e colocava na janela para esfriar. Quando eu via aquilo nos gibis, salivava como um cão de Pavlov. Até hoje, quando vejo uma torta da Minie, eu salivo.

Para não enlouquecer nos três meses em que fiquei de cama, tinha três opções. A primeira era dormir bastante, o que eu não gostava. A segunda era ler, algo que eu já gostava devido aos gibis do Pato Donald – nessa época eu tinha um hábito de leitura que foi mantido até uns 20 anos de idade: eu colocava o gibi no chão e o lia deitado de bruços na cama, com a cabeça para fora. Mais tarde, como na evolução das espécies (no caso, a nossa), passei a ficar de pé para ler e, só depois, aprendi a sentar com o livro na mão.

A terceira opção para não enlouquecer era ouvir rádio. Ouvia novelas radiofônicas. Lembro até hoje da voz de Lima Duarte quando jovem. Ouvia as novelas O direito de nascer e Jerônimo, herói do sertão. Ouvia também as rádios Mairynk Veiga e a Nacional, ambas do Rio de Janeiro, transmitidas em ondas curtas. Ouvia um programa inesquecível para mim, o Balança mas não cai, com Paulo Gracindo e Brandão Filho. Também participava de alguns dos programas de rádio que havia em Londrina naquela época. Eu tinha um telefone ao lado da cama e então ligava para participar.

Além disso, lia jornais, inclusive a Folha de Londrina, que existe até hoje. Esse hábito devo a meu pai. Todos os dias, antes de sair de casa para o trabalho, ele deixava o jornal para mim e meu irmão mais novo, já falecido, e nos dizia: “Quando voltar, vou tomar o jornal” – tomar o jornal como quem toma a lição de casa. Assim, durante anos, ele tomou o jornal de mim e do meu irmão, perguntando o que tinha acontecido de mais importante em Londrina, no Rio de Janeiro, Brasília, a nova capital do país, os principais fatos no mundo. No começo, era odioso. Depois, se tornou um hábito, como tomar banho, escovar os dentes, fazer ginástica.

Então: durante a hepatite, além do rádio, havia gibi e jornal. Mas gibis e jornais são curtos e eu tinha muito tempo para preencher. Comecei a pedir emprestado os gibis da vizinhança. Em uma semana, já tinha consumido o estoque. Aí foi a vez de pedir emprestado os livros infantis – em um mês, todos os disponíveis estavam lidos. Como eu ainda tinha bastante tempo de cama, os vizinhos começaram a trazer seus outros livros – Irmãos Karamazov, El Cid, Dom Quixote, obras de Kafka. E eu fui lendo para passar o tempo, lendo sem entender nada, mas não tinha importância, eu me distraía com os clássicos da literatura. Ainda hoje, eu brinco dizendo que minha relação com a literatura é figadal, por causa da hepatite.

Mas o que isso tem a ver com a Filosofia?

Bem, para ser “filósofo”, é preciso gostar de ler, ter dedicação ao mundo das ideias, o que eu fazia desde os 7 anos. Agora vem a revelação de um desejo: à medida que fui crescendo, tinha uma intenção clara – servir a humanidade.

Eu tinha dois modos de fazê-lo. O primeiro era seguir a noção de honra, bravura e valor que aprendi com os Romanos, seja com a literatura latina ou com filmes do Cecil B. DeMille (Cleópatra era um deles). Quando criança, eu tinha escudo, elmo e espada, tudo de plástico mas igual a dos romanos. Uma das minhas brincadeiras preferidas era simular lutas no quintal de casa – na minha imaginação, eu fui um general romano durante anos e anos da minha infância. Isso também ajudou a que, mais tarde, eu tomasse gosto pelo estudo da História, para saber como foram realmente as coisas que eu gostava de imitar.

O segundo modo era servir a humanidade inspirado nas muitas leituras que eu fazia, sobretudo nas histórias de grandes homens, de grandes exemplos da humanidade, como o líder indiano Gandhi ou o médico e teólogo Albert Schweitzer.

Naquele momento, para mim, o melhor jeito de atingir minha meta era entrar no clero católico. Assim, aos 14 anos, decidi que iria me dedicar ao sacerdócio e exercer atividades missionárias. Meus pais, que tinham mais bom senso do que eu, não me deixaram entrar com 14 anos. Mas com 17 eu entrei. E fui para a Ordem Carmelitana Descalça, que me levou a ficar três anos em um convento.

Por que o clero foi para mim uma opção? No Brasil de 1973, quando entrei no clero e na universidade, nós estávamos vivendo uma ditadura. Eu morava em São Paulo e, antes de entrar na faculdade, estudava num colégio público, o Marina Cintra, localizado na rua da Consolação, perto da rua Maria Antônia, onde ficava a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e também, como até hoje, a Universidade Mackenzie (com parte dela no CCC, Comando de Caça aos Comunistas). Minha atuação política na época se dava no movimento secundarista e vivíamos nos confrontando com o pessoal do Mackenzie, universidade que admiro agora com alegria.

O clero foi uma escolha consciente em relação a uma experiência religiosa que eu queria adensar e aprofundar. Além disso, com suas missões, o clero proporcionava um trabalho social e, principalmente, oferecia a possibilidade de desenvolvimento do que eu entendia ser a minha tarefa na vida, a de auxiliar a humanidade. Na ditadura, a Igreja era a única entidade que atendia a todos os meus interesses.

O convento era um lugar enorme, com cerca de 100 quartos e 100 banheiros. Ali, na época, moravam seis pessoas, entre elas um de meus “professores”, o brilhante e fascinante irmão Demetrius. Com seus 70 anos, poliglota, fluente nos principais idiomas, vivos ou mortos – em suas conversas, misturava português, latim e italiano –, leitor voraz, ele tinha visto de perto duas guerras mundiais. Imagine o deslumbramento de um rapaz como eu poder conviver com uma pessoa com tanto conhecimento e experiência de vida.

No convento, meu quarto tinha um catre, uma pia, uma mesa, uma cadeira e um cabide para pendurar o hábito. Dormia cedo, acordava às 4 da manhã, ia à capela fazer as vésperas e voltava ao quarto. A rotina incluía rezas – às seis horas da manhã, ao meio-dia, quatro da tarde, oito da noite e também à meia-noite – e trabalho manual, como cozinhar, cuidar da roupa, limpar o convento, lavar banheiro.

Tudo era comunitário. O dinheiro que lá havia ficava numa caixa de sapatos. Quando ia ao cinema, pegava algumas notas, assistia ao filme e, na volta, depositava o troco na caixinha.

Ali, aprendi a viver com menos, a levar uma vida mais simples. Aprendi a respeitar a hierarquia e a ter disciplina, vivendo numa ditadura do relógio, pois a Igreja preza a divisão do tempo, com horários rígidos para acordar, rezar, fazer tarefas, dormir. Aprendi muito com o estudo, consolidei minha formação, aprendi idiomas. E, como não há como estudar Teologia sem estudar Filosofia, para alguém como eu, que não se cansa de ler, era um mundo próximo do ideal.

Quando terminei minha formação, após o curso de Filosofia, decidi não continuar no clero, embora me mantivesse firme em meu propósito de ajudar a humanidade.

O que eu poderia fazer? A Filosofia era uma paixão (com o tempo se converteu em amor). Adorava o mundo da Literatura, da História, do pensamento, adorava pensar o pensamento.

No clero, também aprendi a pregar, isto é, a falar em público, procurando convencer e ensinar. Assim, tornar-me professor me pareceu um caminho natural. Com o tempo, fui aprendendo a transformar o complexo em simples e a me expressar com o que eu chamo de uma “profunda superficialidade” nas minhas provocações filosóficas, na minha filosofia do cotidiano.

Formei-me no final de 1975 e, antes da diplomação, a faculdade na qual eu estudava convidou-me para assumir aulas de Ética Social no ano seguinte, e também para atuar como assistente do professor doutor Paulo Afonso Caruso Ronca.

Antes de completar 22 anos de idade, lá estava eu como professor universitário e, na sequência, no ano seguinte, também iniciei a docência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, lugar no qual me “exponho” até agora…

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

ELES TÊM A RESPOSTA

Em pleno ano pandêmico, a turma que se prepara para o Enem cavucou a internet e encontrou ali aulas oferecidas de graça por mestres do mais alto nível

Não existe momento mais cercado de tensão na vida de um estudante brasileiro do que aquele em que precisa enfrentar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), passaporte de entrada para a imensa maioria das universidades. A próxima edição contém tudo de atípico que um ano pandêmico pode reservar: a data ficou por alguns meses em suspenso, até se cravar os dias 17 e 24 de janeiro, e as aulas seguem para grande parte da turma na modalidade on-line, com as lacunas já conhecidas que ela embute. Diante de tanto sacolejo, os 6 milhões de jovens que passarão pelo temido teste estão se adaptando como podem, o que abrange navegar por conta própria e desencavar caminhos para suprir a falta que um bom professor frente a frente faz. E assim muita gente foi explorar as redes, sempre elas, e ali encontrou mestres inspiradores e divertidos para todos os gostos.

Uma boa régua para medir o tamanho dessa multidão de alunos que partiu em busca de reforço na internet é a audiência nos canais de educação do YouTube, onde floresce um time de professores capaz de arrastar numerosas plateias para as salas de aulas virtuais. De março a agosto, a procura cresceu quase 40%, em média por mês, e o total de inscritos bateu os 80 milhões, um recorde. Tivemos acesso à lista dos dez canais de educação brasileiros mais acessados na plataforma, um grupo que acolhe vários estilos – entre os discretos e os mais dados a um show. Em comum, oferecem uma linguagem direta, afeita às redes, transmitindo com notável entusiasmo um certo ponto da matéria em quinze, vinte minutos. “Esse é o período em que a janela de atenção está aberta e o aluno, assimilando. Mais do que isso, começa a ser contraproducente”, ensina o mestre dos mestres em lições on-line, o matemático americano Salman Khan, o mais visto em todo o planeta. O público aprecia a concisão, fator que, em meio ao mundaréu de tópicos a vencer até o exame, dá um tremendo alívio. “Além disso, posso pausar e voltar mil vezes se não entendi alguma coisa, possibilidade que não tenho nas aulas em tempo real da escola”, explica Bruna Torezim, 17 anos, que quer ser psicóloga.

No topo do ranking, com respeitosos 3 milhões de fiéis inscritos, está o curitibano Noslen Borges, 41 anos, professor de português e redação, que encara pedreiras como a lógica das frases e análise sintática. E bota imaginação aí para despertar a atenção, aferida pela alta participação da garotada que o acompanha. Valem paródias para memorizar o impossível e canções de sucesso para ensinar figuras de linguagem. Como seus colegas de plataforma, apenas recentemente ele conquistou desenvoltura com as câmeras, depois de três anos na web, apesar de ser velho de guerra nos cursinhos pré-vestibular. Trabalhava ao mesmo tempo em sete instituições, entre cursinhos e escolas, até que, premido pela agenda excessiva, resolveu se arriscar em carreira-solo na internet. Já ouvira falar que podia dar dinheiro e bons frutos acadêmicos. “Notava antes que muitos de meus alunos olhavam mais para o celular do que para o professor. Decidi então levar minha presença para dentro do aparelho, falando o idioma deles”, diz. A conversão para a internet exigiu desses docentes um ajuste completo – desde o jeito de ensinar à destreza com a tecnologia. Em 2011, o biólogo Paulo Jubilut, 39 anos, havia perdido o emprego em um cursinho de Florianópolis e, com uma webcam, decidiu gravar aulas no improviso. Foi aos poucos melhorando e acabou montando um estúdio. “Ninguém acreditava que eu poderia tornar essas aulas rentáveis. Falavam que eu estava maluco em apostar tempo e dinheiro nisso”, conta Jubilut, que, como oito dos dez campeões em audiência ouvidos pela reportagem, saltou de estágio nos negócios: além das lições gratuitas no YouTube, onde fatura com anúncios, ele fundou uma plataforma em que cobra mensalidade para fornecer planos de estudo e correção de exercícios. Mesmo tendo atingido esse patamar, nenhum deles abre mão dos sites nos quais deslancharam – afinal, são uma vitrine. Tanto assim que Rafael Procópio, 37 anos, quinto no ranking nacional ensinando matemática, um dia recebeu um improvável telefonema, direto do Vaticano. “Fui convidado para discutir o futuro da educação com gente do mundo todo, com o papa Francisco em pessoa”, orgulha-se ele, que trata de operações complexas em ritmo de funk.

Com a profusão de conteúdo educacional na rede – só no YouTube são 450 canais -, evidentemente nem tudo possui a mesma qualidade: é preciso, portanto, garimpar. “Temos investido na casa de bilhões de dólares para criar um ecossistema confiável e variado, procurando cada vez mais a interação com as escolas”, disse Katie Kurtz, diretora mundial de conteúdo e educação do YouTube. A aproximação da internet com a sala de aula tradicional faz parte de um movimento maior e inescapável – o híbrido entre ensino presencial e remoto. “A escola que brigar contra a tecnologia estará condenando a si própria”, resume Ronaldo Mota, ex-secretário de Educação à Distância do MEC. Aos 31 anos, a carioca Pamella Brandão tem um olhar afiado sobre esses dois mundos: ela já foi coordenadora pedagógica de um dos maiores cursinhos de São Paulo e agora ensina nas redes. “É um ganho para o aluno adiantar a vida assistindo a aulas gravadas e usar a escola para debater e tirar dúvidas”, opina a professora de redação, trilhando a linha que Khan e outros especialistas mundo afora defendem – com uma ponderação: a fusão dos dois universos deve ser muito bem orquestrada.

Os dez mestres ouvidos, altamente calejados em Errem, enfatizam que trata-se de uma maratona, e não de uma corrida de 100 metros, que exige muito treino e controle do ritmo para a boa resolução da prova. Perder tempo demais com uma questão difícil, por exemplo, pode comprometer o andamento geral. Caçula na lista dos mestres de audiência, a mineira Débora Aladim, 22 anos e 2,7 milhões de seguidores, ainda nem se formou em história, mas tem como trunfo a conexão, com o perdão do trocadilho, com a turma que a assiste. “Comecei fazendo resumos e gostaram. Falamos a mesma língua”, avalia. A partir de canais como o dela, formam-se grupos de estudos entre gente que nunca se viu. “Acho a internet prática para estudar. Lá você tem autonomia e uma dinâmica descontraída”, frisa Eduardo Negrão, que brigará por uma vaga no curso de direito da Universidade de São Paulo (USP). Como tudo neste ano sem paralelos, o Enem também não será mais como antigamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE OUTUBRO

O PERIGO DE PERDER O FOCO

… mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo… (Filipenses 3.13b, 14a).

O apóstolo Paulo disse aos crentes de Filipos que estava inteiramente comprometido com o projeto de Deus em sua vida. Tinha um alvo e para ele avançava. Somos como um corredor de olimpíada. Não podemos distrair-nos com os aplausos ou as vaias da plateia. Precisamos manter os olhos fixos no alvo. Um dia, os inimigos de Jerusalém, que se opunham à reconstrução da cidade de Davi, convidaram Neemias, o governador, para assentar-se à mesa com eles. Queriam distrair Neemias e paralisar a obra, mas Neemias respondeu que estava realizando uma grande obra e não podia parar. Neemias não gastou tempo discutindo com os inimigos; ele investiu todo o tempo na obra. Não perdeu o foco. Certo dia, Davi chegou ao campo de guerra, e os soldados de Saul estavam fugindo de Golias. O jovem pastor resolveu enfrentar o temido gigante. Seu irmão mais velho teceu-lhes amargas críticas. Davi, porém, não perdeu tempo com o irmão. Afastou-se dele e continuou firme em seu propósito de vencer o gigante. Davi não perdeu o foco. Os discípulos de Jesus certa feita foram abordados por um pai aflito, cujo filho estava possesso por uma casta de demônios. Esse pai rogou aos discípulos que o curassem, mas eles não puderam. Não puderam porque estavam discutindo com os escribas, os inimigos de Jesus. Em vez de fazerem a obra, estavam discutindo a obra. Por terem perdido o foco, provocaram decepção num pai aflito e grande tristeza em Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

DE FORTALEZA PARA O MUNDO

Companhia cearense M. Dias Branco quer conquistar espaço no exterior, com a montagem de fábrica ou a aquisição de alguma empresa já consolidada

A cearense M. Dias Branco sabe bem do seu tamanho e do que ainda pode crescer. No Brasil, a companhia de massas e biscoitos lidera a presença no mercado, com pouco mais de um terço de participação e com crescimento quatro vezes superior à média do setor. Isso, no entanto, não é razão para que a empresa criada em 1953 por Francisco Ivens de Sá Dias Branco (que morreu em 2016), filho do padeiro português Manuel Dias Branco, se acomode. Pelo contrário. O objetivo é claro: conquistar espaço no exterior, com a montagem de fábrica ou compra de empresa já consolidada.

Do total de R$ 1,89 bilhão da receita líquida registrada no segundo trimestre, que representou alta de 22,2% sobre o mesmo período de 2019, as exportações significaram 2%. E os planos da empresa de Fortaleza, segundo o vice-presidente de Investimentos e Controladoria da M. Dias Branco, Gustavo Theodozio, é de aumentar em três pontos percentuais até 2022 para, a partir daí, conquistar o mundo. “Temos grande capacidade para ser um importante player global”, afirmou o executivo.

O caminho para chegar aos Estados Unidos e à União Europeia, os principais mercados no alvo, passa pela América do Sul, principalmente por causa da enorme desvalorização do real frente ao dólar. “Há grandes empresas na América Latina que podem ser parceiras de negócios. Depois o caminho natural é Estados Unidos e Europa”, disse Theodozio. Com exceção da Oceania, os produtos da M. Dias Branco estão presentes em 37 países, com volume maior na América Latina. Hoje a empresa tem 15 unidades industriais, entre fábricas de massas, biscoitos, margarinas e moinhos, e 17,5 mil funcionários.

A perspectiva de crescimento financeiro e geográfico está fincada no bom fôlego financeiro da companhia, principalmente no montante de R$ 1,4 bilhão em caixa e na baixa alavancagem, de 0,4 o endividamento em relação ao Ebitda. Um indicador desse reflete na nota AAA (bra), atribuída em setembro pela agência de análise de risco Fitch Ratings.

Com isso, a companhia pretende expandir algumas de suas 19 marcas pelo Brasil. Cinco delas, incluindo as massas Vitarella, com presença forte em Pernambuco, a Adria, com grande atuação em São Paulo, e a Piraquê, no Rio de Janeiro, serão nacionalizadas. Com uma fábrica no exterior, a previsão é de que esses itens sejam produzidos fora e conduzam o processo de internacionalização. Ainda que não revele o nome, Gustavo Theodozio reconhece que a M. Dias Branco também planeja aquisição de companhias do segmento no Brasil.

A mais recente delas, a compra da Piraquê, em 2018, mostrou-se certeira, com bons resultados na receita da empresa. Logo que chegou ao portfólio da M. Dias Branco, respondia por 7% do faturamento. Hoje, passa de 10%. O ponto alto para a compra foi a possibilidade de redução de custos. “Na conta, consideramos a sinergia de todos os departamentos, logística de distribuição e produção. Além disso, analisamos o potencial de crescimento, que já começa a se consolidar”, afirmou Theodozio.

Nos primeiros seis meses de 2020, a empresa cresceu. Foram comercializados no semestre 291,3 mil toneladas de biscoitos e 234,6 mil toneladas de massas (totalizando 525,9 mil toneladas), alta de 19,1% em biscoitos e 32,7% em massas em comparação ao resultado do primeiro semestre de 2019. Entre maio e junho, o lucro líquido saltou de R$ 100,6 milhões no segundo trimestre do ano passado para atuais R$ 152,4 milhões, alta de 51,5%. No semestre, o resultado foi ainda melhor. Entre janeiro e junho deste ano, a alta na receita foi de 23,2% e, no lucro líquido, alcançou 83,7% de crescimento. A M. Dias Branco fechou 2019 com marketshare de 32% em biscoitos. Após seis meses, o percentual subiu para 34,5%. No caso de massas, saltou de 32,2% para 34,9%.

Para seguir crescendo, justamente em um momento de retomada da indústria brasileira a partir da crise econômica, por causa da pandemia da Covid-19, a M. Dias Branco planeja investir. O objetivo é fechar com aportes de R$ 250 milhões em compras de equipamentos, ações tecnológicas e incentivos a programas de aceleração de startups. “A tendência é de que mesmo no cenário pós-Covid, a M. Dias Branco continue com crescimento forte”, disse Theodozio. Quando o assunto é massa e biscoito, a crise ficou longe do Ceará.

AS MELHORES

1. M. DIAS BRANCO 379,80 PONTOS

2. SANTA CLARA 370,45 PONTOS

3. AURORA 353,60 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO?

No Brasil, estima-se que haja dois milhões de casos de TEA (Transtorno do Espectro Autista), com números baseados em pesquisas internacionais. E essa taxa tende a crescer, não em função da quantidade de casos, mas pela eficiência com que os diagnósticos vêm sendo feitos. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, uma em cada 68 crianças de oito anos de idade possui o transtorno. O resultado da pesquisa foi divulgado já tem quase cinco anos e representava um aumento de 30% em relação 2008, quando a prevalência era de uma criança a cada 88 pessoas – ou seja, se reavaliado, hoje esse número deve ser ainda mais expressivo. No entanto, um dos motivos que ainda continua dificultando o progresso em desvendar o autismo é a falta de conhecimento da grande maioria da população ainda que haja curiosidade e necessidade de conhecê-lo. Para sanar todas assuas dúvidas de maneira correta e sem equívocos, demos o passo inicial cedemos ao transtorno a devida atenção e reunimos nos próximos posts as melhores matérias já publicadas com repostas para as mais diversas perguntas relacionadas ao tema. Afinal, como definir o transtorno? De que maneira é feito o seu diagnóstico e quais são os principais níveis do problema? É possível identificá-lo em casa, nas brincadeiras comuns do dia a dia? A criança autista vai poder conviver normalmente com o restante da família? Existem formas de estimulá-la? O que há de mais avançado nas pesquisas sobre o assunto? Para responder a essas questões e buscar outras temáticas relacionadas, consultamos não só especialistas, mas entramos em contato com quem está inserido nesse contexto, ou seja, os familiares que convivem com os autistas. Eles revelaram não só os desafios, os medos, mas também suas motivações e as conquistas que batalham dia após dia. Convidamos você a fazer o exercício tão importante da empatia, de se colocar no lugar daqueles que reconhecem a necessidade de entender o TEA, a fim de tornar o mundo um lugar muito melhor e cada vez menos hostil para essas pessoas, permitindo a participação e inclusão plena dos indivíduos com autismo na sociedade. Para isso, é necessário dar a eles a mesma oportunidade, só assim será possível empoderá-los como seres humanos diversos e capazes que são.

EU ACHO …

A SOCIEDADE DA EXPOSIÇÃO

Por falar em diferenças e igualdades, o fato de vivermos em metrópoles – em cidades altamente povoadas, com elevada densidade demográfica, onde a convivência se dá em aglomerados imensos – cria automaticamente uma situação de anonimato para seus habitantes.

Pela simples expressão numérica, por ser um entre milhões, todo cidadão se torna anônimo, sem identidade, invisível. O filósofo irlandês George Berkeley disse um dia que “ser é ser percebido”. Ou seja, se não é percebido, não existe. Berkeley não estava falando apenas de pessoas, mas de tudo o que existe. Uma estrela, um planeta, uma galáxia, se nós não os conhecemos, não os percebemos; logo, eles não existem para nós – e só passam a ter existência quando são notados. Isso vale para uma sociedade “galáctica” como a nossa – e não é galáctica pelo número de estrelas que contém, mas pelo número de pessoas que querem ser estrelas para poder brilhar.

Não é casual que vivamos afirmando que “gente foi feita para brilhar”. O brilho pessoal é uma concepção da modernidade, pois, na Ásia antiga ou mesmo no mundo medieval europeu, o que prevalecia era o culto ao anonimato, ao silêncio, a prática do silêncio e da meditação. Isso ficou para trás.

Hoje a modernidade transformou o ruído numa forma de expressão – a tal ponto que nossa expressão de vida tem de ser ruidosa. Para serem notadas, para ganharem existência, as pessoas vivem em função de apelos como “eis-me aqui”, “olhem para mim”. É aquilo que Guimarães Rosa um dia chamou de “viver em voz alta”. Isso contraria os modismos orientais que vira e mexe são abraçados por um segmento da classe média que tenta negar o ruído com o silêncio e a meditação, práticas hinduístas, chinesas, asiáticas de maneira geral.

“Ouvir é ouro e falar é prata”, eis um ditado que não faz mais sentido para a sociedade moderna. Hoje é o contrário. Eu preciso falar, e preciso fazê-lo em voz alta para que me notem. Viver no formigueiro é viver num anonimato que me conduz ao esquecimento. Daí vem a inconformidade em relação ao silêncio, a necessidade de exposição para passar a existir e brilhar.

Esse brilho, no entanto, é menos o brilho duradouro de uma estrela e mais o brilho passageiro de um cometa – num trocadilho, o brilho célere da celebridade, o brilho instantâneo.

No século 17, Blaise Pascal disse, ao olhar para o céu, uma frase que gosto demais: “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”. Talvez o maior pavor moderno hoje seja o silêncio – não apenas o silêncio como a ausência de ruído, mas o silenciar sobre mim. Por isso, a obsessão por comunicação, uma comunicação regida pela celeridade, pela celebridade, uma comunicação do “cá estou”, do “fale comigo” seja como e onde for – no celular, no SMS, Orkut, no Facebook, no Twitter.

Se não retornam, eu entro em depressão. Tendo em vista o tamanho da rede de comunicação na internet, muitas vezes criar um blog equivale a jogar uma garrafa no oceano, à esperança do náufrago de que algum dia alguém encontre a garrafa.

É o grito dos desesperados.

Na oração cristã Salve, Rainha, diz-se que “a vós bradamos os degradados, filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. O vale é lugar baixo em que vivemos, embora desejemos o alto da montanha, onde o sol bate. O vale é frio e sombrio na maior parte do tempo.

Não é à toa a noção de que o mundo inferior – inferos, em latim, de onde vem a palavra inferno – é o reino das sombras. Nós não queremos o inferior, e sim o superior.

Uma das características da modernidade foi trazer à tona o culto a homens que conseguiram chegar aonde ninguém jamais esteve. Reverenciamos quem atingiu o pico do Everest, do Aconcágua, quem venceu o Himalaia ou chegou ao Polo Norte, ao Polo Sul, à cabeceira do Nilo, mesmo que à custa da morte. Mas tudo isso já foi conquistado no passado. Então era preciso ir além. Assim, no século 20, e mais ainda no 21, o desafio foi e ainda é chegar aonde ninguém mais chegou enquanto riqueza, admiração, exposição.

Em latim, há um sufixo – o peni – que apavora o homem moderno. Peni quer dizer quase. Penúltimo é o quase último, península é a quase ilha e, a que eu mais gosto, penumbra é a quase sombra.

O homem moderno se desespera em ser quase, em quase ser – quase conhecido, quase famoso, quase feliz. O “quase” leva ao desespero. O homem quer escapar da penumbra da caverna e chegar ao sol, à exposição da luz. Hoje, no entanto, toda a lógica disso passa pelo “olhe, estou aqui, preste atenção em mim”.

A velha frase de Greta Garbo I wanna to be alone, o seu desejo de não ser mais vista, ao contrário do que imagina, inaugura a era da exposição moderna. Isso porque uma mulher com a fama de Greta Garbo – uma mulher que construiu sua fama com a beleza que deixou de ter ao envelhecer –, quando diz “eu quero ficar só”, na verdade está dizendo “não me esqueçam, prestem atenção em mim”.

Isso é o esconder para ser procurado. Isso só faz quem quer estar em evidência. Aquele que quer ficar quieto no seu canto não constrói uma vida de exposição.

Se você quer o anonimato, seja anônimo – e não se torne célebre para depois dizer que quer o anonimato. Apesar disso, não é difícil entender a postura de Greta Garbo. Brigitte Bardot, por exemplo, não se escondeu, manteve a exposição. E assim, aos poucos, foi sendo esquecida como a Brigitte Bardot deslumbrante, o símbolo sexual que mereceu estátua em Búzios. Foi esquecida até como a mulher idosa que é hoje, pois muitos não sabem quem ela foi ou é, assim como muitos que a conheceram dos filmes não sabem dizer se está viva ou não.

Assim, para não serem esquecidas, as pessoas fazem música, escrevem livro, tatuam o corpo, participam de comunidades virtuais, mergulham no Twitter, criam blogs. O que é manter um diário senão o desespero contínuo, o pedido silencioso e desesperado para que alguém o leia?

Ninguém, em sã consciência, faz um diário para si mesmo – isso seria um exercício psicopata.

O grande desejo de quem faz um diário é ser lido. O diário fica escondido apenas para aumentar a emoção, para atribuir mais valor ao que será alcançado. Nenhum de nós faz um diário, escreve poemas, pinta quadros, para que sejam esquecidos. Quem faz para ser esquecido tem problemas mentais, como Van Gogh, um louco que queimou boa parte de sua produção. Antes de ser um artista genial em sua arte, ele era um doente.

Insisto: ninguém faz um diário para ser mantido fechado, assim como ninguém produz nada para ser esquecido.

A caixa de Pandora, que guardava todos os males que poderiam afligir a humanidade, só se tornou um dos mitos mais importantes do Ocidente porque foi aberta. Se continuasse fechada, sem que ninguém visse seu conteúdo, não haveria mito algum.

Na sociedade da exposição e do espetáculo, ver e ser visto é fundamental. O velho ditado “diz-me com quem andas e te direi quem és” ressurge com força. Estar em boa companhia qualifica o acompanhante – até por isso, as pessoas gostam de ir a bares e outros lugares da moda, onde vão artistas e celebridades. Estar cercado de estrelas, de pessoas que brilham, tira o anônimo das sombras, diminui seu pavor da penumbra.

Esse pavor, aliás, está muito bem retratado em Alice no país das maravilhas, livro de Lewis Caroll. Alice cai num buraco escuro que a leva a outro mundo, do qual ela tenta desesperadamente voltar. Ela precisa voltar à luz, pois isso significa mostrar-se. Em outro livro, Caroll coloca Alice atrás do espelho. Na nossa sociedade, nós também temos pavor de ficar atrás do espelho, pois, nas histórias infantis, quem fica ali é a bruxa. Queremos ficar na frente, ter nossa imagem refletida. Por isso, inclusive, quebrar espelho traz má sorte – se quebro o espelho, como terei a minha imagem? E a minha exposição, onde fica?

OUTROS OLHARES

TIJOLOS MÁGICOS

A crise do novo coronavírus fez bem para a Lego. Com mais tempo em casa, pais e filhos voltaram a se divertir juntos – e as vendas das peças de encaixar dispararam

A pacata cidade dinamarquesa de Billund, atualmente com pouco mais de 6.000 habitantes, assistiu em 1932 ao nascimento de um mundo mágico. Naquele ano, o carpinteiro Ole Kirk Christiansen, insatisfeito com as vendas de sua loja de móveis e ansioso para proporcionar alguma diversão ao filho, decidiu se aventurar no ramo dos brinquedos. Christiansen começou de forma artesanal, com animais de madeira. Dois anos depois, a empresa ganhou um nome – a junção das palavras legegodt, cujo significado é “brincar bem” no idioma local – e, no fim da década de 40, veio a revolução: a Lego começou a produzir tijolos de plástico, duradouros e encaixáveis uns nos outros, abrindo infinitas possibilidades para a imaginação de crianças e adultos.

A brincadeira ficou séria e levou a empresa familiar à consagração internacional. Eleitos o brinquedo do século XX pela revista americana Fortune, os tijolinhos ainda hoje constroem sonhos e foram capazes até mesmo de driblar a crise do novo coronavírus. A marca, na verdade, viu no cenário uma oportunidade. Com pais e filhos obrigados a permanecer em casa, velhas diversões – mais lúdicas e socializáveis do que tablets ou videogames – se tornaram uma alternativa. Fenômeno semelhante ocorreu com os quebra­ cabeças, cujas vendas em 2020 triplicaram, de acordo com a Ri Happy, a maior loja de brinquedos do país.

Os alicerces sólidos fizeram com que o Grupo Lego obtivesse no primeiro semestre de 2020 um dos melhores resultados de sua história. As vendas aumentaram 14% em relação ao mesmo período de 2019, enquanto o lucro avançou 11%. Distribuidor oficial da Lego no Brasil, o Grupo MCassab informou que o país acompanhou um “crescimento de dois dígitos”, acima do esperado para o ano. Seu mais recente lançamento, a linha Super Mario, está se esgotando. “Notamos os benefícios de nossos investimentos em iniciativas de longo prazo, como e-commerce e a inovação de produtos”, disse o CEO da Lego, Niels Christiansen.

O caminho, porém, foi tortuoso. A pandemia levou ao fechamento por alguns meses de duas das cinco grandes fábricas da marca no mundo, no México e na China, o que obrigou os varejistas a recorrer ao estoque existente para atender à demanda. O mercado asiático foi fundamental: o lançamento do conjunto Monkey Kid, inspirado em uma lenda chinesa, obteve grande sucesso no país da Muralha, que deverá ganhar oitenta lojas oficiais da Lego ainda em 2020.

O novo coronavírus forçou a marca a acelerar planos que demorariam de dois a três anos para ser implementados. O número de visitantes do site dobrou para 100 milhões no primeiro semestre. Ao contrário das concorrentes Mattel e Hasbro, que relataram perdas operacionais e puseram a culpa no fechamento de lojas e problemas com distribuição e estoque, a Lego conseguiu garantir as entregas on­line ao reforçar parcerias no varejo. De acordo com um estudo da consultoria britânica Brand Finance, a pandemia deve reduzir o valor de mercado das empresas do setor de brinquedos em até 20%, um prejuízo calculado em 3 bilhões de dólares. A Lego, no entanto, deve seguir como líder mundial, com queda de apenas 3%.

O gigante dinamarquês repetiu em 2020 a notável capacidade de se reerguer – e fez isso tijolo por tijolo. No início do século, a empresa, que ainda pertence à família fundadora, quase foi à falência. Sem saber como concorrer com a onipresença de computadores e videogames, acumulou prejuízos de 200 milhões de dólares em 2003. No ano seguinte, com a troca do CEO, iniciou um plano de recuperação extremamente bem-sucedido, baseado na volta às origens: foco nos tijolos. Cortou 30% da mão de obra, reduziu os tipos de peças, eliminando versões semelhantes, e investiu em produtos licenciados como os da linha Star Wars, seu best­seller, além de outros ícones do mundo pop, como Harry Potter e Bob Esponja. Heróis como Batman e Homem-Aranha e modelos de carros como Bugatti e Ferrari também foram contemplados com versões criativas da Lego.

A estreia do longa-metragem Uma Aventura Lego (2014), que obteve grande sucesso de bilheteria, foi um marco para o renascimento da marca. Hoje em dia, os brinquedos estão presentes em 140 países (desde 1986 no Brasil), e saem das fábricas da Lego 100 bilhões de peças todos os anos. Uma de suas virtudes, a longevidade dos tijolos, se tornou um problema ambiental – eles podem demorar até 1.300 anos para se decompor no mar. A Lego, então, se comprometeu a buscar materiais sustentáveis e, estreou uma linha à base de cana-de-açúcar.

Assim como a Apple, a Lego não atrai apenas clientes, mas fervorosos fãs, especialmente educadores. ”A Lego tem a capacidade de unir a família e, sobretudo, estimular a criatividade das crianças”, diz a psicoterapeuta Fernanda Grimber. “Na pandemia, desenvolver a imaginação se tornou essencial para pais e filhos. Eu diria até que a Lego tem uma função terapêutica e ajuda a baixar a ansiedade.” Perto de completar noventa anos, a empresa nascida do sonho de um carpinteiro está cada vez mais ativa.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE OUTUBRO

RESTAURANDO O FERVOR ESPIRITUAL

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (Apocalipse 3.15).

A igreja de Laodiceia, na Ásia Menor, era rica e abastada. Olhava-se no espelho e dava a nota máxima a si mesma. Porém, quando passou pelo escrutínio de Jesus, foi reprovada. A única coisa boa que havia naquela igreja era a opinião que tinha de si mesma e, ainda assim, era uma opinião falsa. Jesus disse que estava a ponto de vomitar-lhes de sua boca por ser aquela comunidade uma igreja morna. A falta de fervor espiritual provoca náuseas em Jesus. Um cristão não pode ser apático, insosso e morno. A mornidão espiritual é uma tragédia, pois, além de não saciar a sede das pessoas à nossa volta, ainda provoca enjoo no Filho de Deus. A igreja de Laodiceia recebeu apenas censuras, e nenhum elogio de Jesus. Essa igreja, contudo, não foi acusada de heresias nem de imoralidade. Era uma igreja ortodoxa, ética e próspera. Não tolerava falsas doutrinas. Não havia escândalos entre seus membros. Não havia pobreza em sua membresia. A igreja vivia em paz mesmo num tempo em que a perseguição se espalhava pelo mundo. Talvez você e eu nos sentíssemos orgulhosos de sermos membros de uma igreja assim. Mas Jesus identifica nessa igreja falta de fervor. As coisas aconteciam na igreja, mas Jesus estava do lado de fora. A igreja estava feliz consigo mesma, mas provocava grande sofrimento ao Filho de Deus. A igreja tinha muito da terra, mas lhe faltava o fervor vindo do céu.

GESTÃO E CARREIRA

PELO FUTURO DA PROTEÍNA – E DO PLANETA

Maior produtora mundial de hambúrgueres, a Marfrig é também a primeira empresa de proteína animal do Brasil na lista da Science Based Targets, iniciativa internacional que promove diretrizes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa com base na ciência

Limitar o aquecimento global em no máximo 2ºC até o ano 2100, como prevê o Acordo de Paris firmado em 2015, tem sido um desafio para países e empresas. Especialmente para aquelas cuja atividade envolve fontes de emissão de gases de efeito estufa, como é a pecuária. Balizar procedimentos que permitam às empresas cumprir as metas de redução de emissões com base na ciência é a missão da iniciativa internacional Science Based Targets. Ela é formada por entidades que representam as grandes autoridades no tema: Pacto Global das Nações Unidas, WWF, World Resources Institute e Carbon Disclosure Project. Até agora, quase 1 mil companhias aderiram à mobilização. No Brasil, apenas uma empresa se proteína animal integra a lista: a Marfrig.

Em meio à pressão internacional pela preservação da Amazônia e dos recursos naturais de forma a garantir a sobrevivência das futuras gerações, é louvável que uma empresa entenda fazer parte do problema e ajudar a buscar soluções. Esse modo de encarar o ecositema em que atua ajudou a dar à Marfrig o primeiro lugar entre os frigoríficos.

A agenda de sustentabilidade tem sido uma das pautas mais importantes da Marfrig desde 2009. Para o diretor-presidente Miguel Gularte, o compromisso com o meio ambiente, ao lado do cumprimento das projeções financeiras estabelecidas para o biênio 2019/2020, foi um dos fatores que levaram a empresa a se diferenciar no segmento em que atua. “A Marfrig saiu na frente das demais em diversas iniciativas. Ela se antecipou à concorrência ao tomar decisões corretas na área de sustentabilidade e também de inovação, ao lançar produtos de origem vegetal que se mostraram um grande êxito”, afirmou.

Em julho, a Marfrig assinou um compromisso público articulado pelo Centro Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) junto de 38 empresas dos setores industrial, agrícola e de serviços. Um dos principais focos dessa coalizão é o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia e nos demais biomas brasileiros, mas ele prevê ainda ações para a inclusão econômica de comunidades locais como forma de garantir a preservação das florestas e a redução do impacto ambiental no uso dos recursos naturais. Dentro da Marfrig, um comitê de sustentabilidade reúne nomes como Marcelo Furtado, ex-diretor do Greenpeace no Brasil, e Daniela Mariuzzo, diretora do IDH Brazil.

Em 2019, pontuado por importantes movimentos estratégicos e societários, a Marfrig registrou uma receita líquida consolidada de R$ 49,9 bilhões, crescimento de 11,2% em relação ao ano anterior. Um dos destaques da gestão no período foi o aumento de participação na National Beef (quarto maior player do mercado americano de carne bovina), para 81,73% do capital da companhia. Em dezembro, a Marfrig realizou uma operação de follow-on de R$ 900 milhões, utilizando os recursos para reduzir seu endividamento. O BNDES aproveitou a oferta e vendeu ao mercado a fatia de 33% que detinha na empresa.

Os recordes continuaram no primeiro semestre de 2020, quando o resultado do desempenho operacional ficou significativamente acima da média de mercado. Entre abril e junho deste ano, a receita líquida consolidada atingiu R$ 18,9 bilhões, crescimento de 54% em relação ao mesmo período de 2019. O melhor indicador, contudo, foi o lucro líquido do período. Com R$ 1,6 bilhão, ele ficou 1.743% acima do registrado no segundo trimestre do ano passado – e muito acima das expectativas dos analistas do mercado.

AS MELHORES

1. MARFRIG 440,63 PONTOS

2. JBS 399,10 PONTOS

3. BRF 346,13 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NÃO HÁ PROBLEMA EM COMER CARNE?

Publicações científicas podem causar danos quando são irresponsáveis

Em outubro passado, o Comitê Médicos pela Medicina Responsável, uma organização com 12 mil associados, pediu à promotoria pública da Filadélfia que lançasse uma investigação sobre imprudência perigosa. A causa desse pedido foi uma série de estudos e diretrizes de dieta publicados em Annals of Internal Medicine, sugerindo que não há problema se os americanos mantiverem uma dieta rica em carnes vermelhas processadas.

As diretrizes geraram um frenesi na mídia, e manchetes dramáticas sugeriam que houve uma reviravolta no conhecimento nutricional. Isso gerou uma reação contrária, e vários estudiosos e organizações de saúde pública atacaram as diretrizes.

Os críticos apontaram numerosas falhas na publicação em Annals. Em especial, os autores usaram uma metodologia de revisão que valoriza os testes clínicos randomizados (TCR). Mas, uma vez que é difícil fazer TCRs na área da nutrição, ao escolherem essa ferramenta em particular, os pesquisadores excluíram a maioria dos estudos de referência sobre carne vermelha e saúde. Pouco depois, soube-se que alguns deles tinham laços não revelados com a indústria de alimentos. Em particular, o autor principal é autor sênior de um estudo semelhante de 2016 que contestou a orientação de se ingerir menos açúcar. Esse estudo, também publicado em Annals of lnternal Medicine, foi pago pelo International Life Sciences Institute, um grupo fundado por um executivo da Coca-Cola, notório por suas reiteradas tentativas de contrariar orientações internacionais de saúde.

Mais precisamente, a mensagem “carne vermelha é boa” vai contra um grande e bem estabelecido corpo de evidências de estudos epidemiológicos de coorte, testes randomizados com fatores de risco comprovados e estudos com animais. Pessoas (e animais de laboratório) cujas dietas contêm expressivos percentuais de carnes vermelhas e alimentos processados têm maior probabilidade de sofrer e morrer de diabetes do tipo 2, doença cardiovascular, problemas respiratórios, doenças neurodegenerativas e câncer do que aquelas com dietas menos carregadas em carnes. Um estudo com dezenas de milhares de pessoas acompanhados por 26 anos, na média, mostrou que cada porção diária extra de carne vermelha foi associada a um risco 13% mais alto de morte por todas as causas. Comer carne vermelha processada para 20%. Considerando-se o que a literatura tem informado sobre carne, mais de uma dúzia de especialistas pediram a Annals a retratação do estudo. Alguns sugeriram que ele nunca deveria ter sido publicado.

Se a ciência estiver aberta a novas evidências e ideias, estudos ruins ou mesmo irresponsáveis serão publicados algumas vezes. Mas a Annals fez duas coisas problemáticas. Primeiro, não publicou apenas uma série de estudos sobre nutrição: publicou uma série de diretrizes. Seus autores, além disso, sugeriram “a continuidade do atual consumo de carne vermelha não processada (recomendação fraca, evidência com baixo grau de certeza), …[e] sugerimos a continuidade do atual consumo de carne processada (recomendação fraca, evidência com baixo grau de certeza)”.

Mais do que isso, Annals não apenas publicou as diretrizes, mas as promoveu com um editorial e material para a imprensa que começa com uma manchete sem ressalvas: “Não é preciso reduzir o consumo de carne vermelha processada para ter boa saúde” – e termina com uma declaração que, em 24 horas, foi contrariada com credibilidade: “Aqueles que buscam contestar as conclusões terão dificuldades para encontrar evidências adequadas para construir um argumento”.

A indústria exagera a incerteza científica e promove visões anômalas para defender atividades e produtos perigosos. Cabe às publicações especializadas cautela ao publicar descobertas polêmicas e não tomar posições. Já há som e fúria suficientes na imprensa para nos confundir. A última coisa de que precisamos são publicações científicas contribuindo para a cacofonia.

EU ACHO …

A GRAÇA DA VIDA

Uma das questões mais intrigantes da humanidade é por que somos capazes de tirar a nossa própria vida.

O sociólogo francês Émile Durkheim, no século 19, estudou a fundo o assunto e escreveu um livro chamado O suicídio. Se o equilíbrio está no apego a si, o suicídio está no desapego à vida, no nada mais me importa. Chamo atenção para o verbo “importar”, que significa portar para dentro, trazer para dentro. Quando eu vivo apenas a “exportação” – quando só coloco para fora e nada recebo para dentro – crio a possibilidade de me desapegar.

Essa questão também foi tratada pelo escritor italiano Umberto Eco no livro O nome da rosa, que pode ser lido como um romance histórico, como uma história policial mas também como uma obra filosófica. Há ali um embate entre duas correntes teológicas do século 13, os franciscanos e os dominicanos, que divergem sobre como a Igreja deve encarar a posse e o uso de bens materiais. Os franciscanos diziam que Jesus apenas usava seu manto, portanto, era livre dele. Os dominicanos sustentavam que ele o possuía, era seu dono e, assim, era atrelado a ele. Por trás disso, estava uma questão maior: a Igreja deveria ter bens ou apenas usá-los? Como se sabe, prevaleceu a primeira opção e a Igreja daquela época se tornou riquíssima. Já eu concordo com São Francisco de Assis, patrono dos franciscanos: uma pessoa deve ter o uso, ou até possuir, mas jamais ser possuída por aquilo que ela possui. Ou, como diria Millôr Fernandes, o importante é ter sem que o ter te tenha.

E assim, retornando ao nosso tema, ser possuído por aquilo que possui é paixão, não é apego nem amor.

A falta de razão na paixão é tamanha e tão assumida que muitos dizem “estou louco por você” ou, como disse antes, “sou louco por futebol”. Em oposição a isso, está o apego. É com ele que você se agarra à vida, à natureza, ao mundo mas sem se sentir proprietário deles, e sim um usuário, alguém que compartilha e, por isso, quer que o outro fique bem.

Para quem mora em São Paulo, por exemplo, não é fácil se sentir conectado à natureza. Por mais que alguém tenha consciência ecológica e saiba que precisa proteger o solo e os rios, não se sente apegado ao rio Tietê ou ao Pinheiros. Esses rios são de todos – mas, quando algo é de todos, também é de ninguém. E, se é de ninguém, também não é meu. Se não é meu, a relação com ele será de indiferença.

Por que os jardins e quintais são cuidados? Porque pertencem a alguém e esse alguém cuida deles, da mesma forma que algumas praças são adotadas por empresas ou associações de bairro. Se não, seriam terrenos baldios, de todos e de ninguém.

Como o apego está ligado à Ética – ao campo da conduta e do comportamento –, também está ligado à Estética, ao bom e ao belo. Nós também nos apegamos ao que consideramos belo. Todos dizem que aquela “é uma bela macarronada”, “uma bela jogada”, “uma bela pessoa”. Nenhum desses comentários tem a ver necessariamente com simetria ou com beleza.

Citando mais uma vez o Guernica de Picasso: você o olha e diz que é um belo quadro, mesmo que ele seja a expressão do desespero e do horror, ainda que tudo lá seja disforme. Onde está a beleza no disforme? Está na emoção que ele provoca e, portanto, no apego que ele oferece.

De maneira geral, a expressão da beleza está conectada àquilo que lhe agrada, que lhe dá uma graça – por isso se fala em agradecimento. Em latim, gratia (que originou graça em português) era uma versão do grego caris, de onde vêm palavras como carisma. E caris, no grego antigo, é a boa graça, a proteção, a bênção. Trata-se de uma bonita conexão, pois, quando você vê o bom e o belo, quando se apega a algo ou alguém, se sente cheio de graça.

Não é à toa que cristãos usam a expressão “Ave, Maria, cheia de graça”. O que é a graça aqui? Aquilo que me protege, que cuida de mim, que me abençoa, me deixa feliz.

O que tem graça é engraçado, ao passo que o que me faz sofrer é a ausência do bom e do belo, é o desgraçado, o feio, o mal. O desgraçado derruba e o engraçado anima e me dá graça.

Poucas coisas na vida são melhores do que a gratuidade do gesto, aquilo que vem de graça. É o abraço espontâneo, o beijo roubado, a mão no ombro, é o gesto certo num momento em que não seria necessário fazê- lo. É a graça que desperta o sentimento genuíno de agradecimento por sua gratuidade. É a graça da gratidão.

Quem é muito jovem talvez não tenha ouvido a cantora argentina Violeta Parra cantar a música Gracias a la vida. Pois, para mim, graças à vida é a erotização da vida, é a vida cheia de graça. Um exemplo disso está naquilo que os que moramos na cidade de São Paulo nem sempre entendemos: muitos cariocas, no final de tarde, param na beira da praia para aplaudir o pôr-do-sol. Alguns veem nisso um gesto sem sentido. Mas é um agradecimento, assim como muitas pessoas elevam as mãos aos céus quando se sentem muito bem, numa reverência que pode ser entendida como uma espécie espontânea de gracias a la vida.

A vida em paz é a vida cheia de graça, enquanto a vida em tormento é a vida desgraçada.

O amor conduz à graça. A paixão é o ponto de partida, o impulso para o amor. A paixão, porém, é desgraçada. Como não tem controle sobre sua força e seu movimento, ela produz beleza como um vulcão, mas na sequencia vem a destruição. É o filme Atração fatal, que ficou famoso com a cena do coelhinho na panela…

O Deus do Antigo Testamento é um deus apaixonado, um deus furioso que tem tamanha paixão por sua criação que é capaz de afogá-la com um dilúvio. Por outro lado, também tem apego, pois deixa um grupo sobrando.

Sobre as decisões divinas, há uma interessante parábola islâmica. Um mestre sufi está meditando quando de repente chega um grupo de crianças com um saco de balas. São 14 balas para 12 crianças e elas pedem que o mestre as ajude a reparti-las da maneira mais justa possível. O mestre diz que vai ajudá-las, mas antes pergunta se as crianças querem que ele as divida como Deus o faria ou como o Humano faria. Em coro, todos dizem que como Deus.

E o mestre então começa: “cinco para você, duas para você, nenhuma para esse, uma para aquele…”.

A justiça divina, se entendida como destino, é um acaso, ao passo que a justiça humana é uma construção, para criar igualdade nas diferenças…

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

O BIG BROTHER DOS CRIMES

O aplicativo Citizen estimula usuários a filmar e transmitir ao vivo ocorrências policiais com a promessa de contribuir para a segurança pública

Em 2014, o filme O Abutre provocou certa polêmica ao fazer uma sátira sombria do telejornalismo policial. Desesperado para encontrar trabalho, o protagonista decide reportar crimes em Los Angeles. Ao longo da narrativa, ele se torna insensível às mortes que relata, passando a causar acidentes para ter histórias terríveis para contar. Devido a um aplicativo lançado nos Estados Unidos, o cenário está mais próximo do que nunca (sem a parte da criação de crimes, claro). Trata-se do Citizen, que permite que usuários transmitam ao vivo, via smartphone, ocorrências policiais como roubos, ataques, incêndios, vazamentos de gás e todo tipo de tragédia. Os donos do app dizem que o objetivo é informar os assinantes do serviço sobre as regiões que oferecem perigo, permitindo que desviem do caminho ou compareçam ao local para ajudar possíveis vítimas. Na prática, porém, o Citizen vai muito além disso.

O aplicativo conta com 5 milhões de usuários espalhados por duas dezenas de cidades dos Estados Unidos. Apesar do grande número de inscritos, nem todos são ativos na plataforma – a maioria fica apenas à espreita. Desde maio, o serviço ganhou nova função: ajudar as pessoas a rastrear a presença do coronavírus. Com a mesma promessa de fornecer um senso de comunidade e segurança aos participantes, o Citizen agora mostra em seu mapa estatísticas sobre a disseminação da Covid-19 pela cidade e fornece informações sobre as regulamentações impostas pelas autoridades para conter a pandemia.

À primeira vista, parece ser algo bastante positivo. Quem, afinal, não gostaria de saber os lugares em que há encrencas e manter distância segura deles? No mundo real, não é assim que as coisas funcionam. A polícia de Nova York, por exemplo, teme que o Citizen estimule a ação de justiceiros, o que seria uma óbvia violação das regras civilizatórias. Além disso, é preciso considerar o risco real de um cidadão despreparado interferir em uma ocorrência, o que seria perigoso para ele próprio e para os outros envolvidos.

Outro ponto negativo diz respeito à privacidade dos usuários. Para que o Citizen funcione adequadamente, a função de localização do celular deve estar sempre ligada. Ou seja: o aplicativo saberá o tempo todo o lugar exato em que o inscrito está. “Isso é preocupante, pois pode oferecer à empresa um mapeamento de hábitos de locomoção, endereço da residência e local de trabalho da pessoa”, diz Bruno Bioni, mestre em direito pela Universidade de São Paulo e consultor especializado em proteção dedados. O especialista diz que há limites jurídicos para o aplicativo. Vítimas dos acidentes que tenham sido eventualmente filmadas ou fotografadas podem processar o app pelo uso indevido de suas imagens. “Como a finalidade do aplicativo é o relato de crimes, indivíduos podem ser erroneamente identificados e sofrer danos decorrentes disso”, afirma.

De fato, há inúmeros relatos de equívocos. Em Manhattan, um usuário relatou ter visto um tigre, mas descobriu-se depois que o animal em questão era um guaxinim. Episódios prosaicos como esse não causam maiores problemas, mas há o risco evidente de alguém confundir um criminoso com um cidadão comum. Existe a preocupação inclusive com a possibilidade de o aplicativo incentivar práticas racistas, imputando a negros crimes que eles não cometeram.

A empresa spOn, dona do Citizen, diz que trabalha para corrigir eventuais erros de rota, mas destaca os alegados benefícios oferecidos pela tecnologia. Entre eles está, evidentemente, o aspecto da segurança. O discurso parece ter convencido o mercado financeiro. Recentemente, o Citizen levantou 60 milhões de dólares com fundos de investimentos, até mesmo de executivos graúdos. É o caso de Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos principais investidores da plataforma.

O Citizen não é o único aplicativo desse tipo disponível no mercado. Nos EUA, há pelo menos outras três plataformas parecidas. No Brasil, o B.O. Coletivo oferece aos inscritos a possibilidade de identificar as regiões mais violentas de uma determinada cidade e informar outros usuários sobre as ocorrências. Ele, porém, não conta com o principal atributo do Citizen: a transmissão de vídeos em tempo real. No fundo, é isso que atrai a curiosidade – e, provavelmente em alguns casos, o espírito mórbido – dos usuários.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE OUTUBRO

TÃO GRANDE SALVAÇÃO

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8,9).

A salvação tem uma causa meritória e uma causa instrumental. A causa meritória é a graça, pois expressa a obra realizada por Cristo na cruz; a causa instrumental é a fé, pois nos apropriamos da salvação pela graça mediante a fé. Não somos salvos por causa da fé, mas mediante a fé. Três verdades podem ser destacadas acerca da salvação: 1) sua causa: a graça; 2) seu instrumento: a fé; 3) sua consequência: as boas obras. Somos salvos pela graça, mediante a fé para as boas obras. Não somos salvos pela obra que fazemos para Deus, mas pela obra que Cristo fez por nós na cruz. Não praticamos as boas obras para sermos aceitos por Deus, mas para evidenciar nossa aceitação pela graça. As boas obras não são a causa da salvação, mas o resultado. Fomos salvos para as boas obras, e não por causa delas. Graça, fé e boas obras constituem o tripé da nossa salvação. As três são realizadas pelo próprio Deus, pois a graça, a fé e as boas obras são operações de Deus em nós e por nós. A salvação não é um caminho que abrimos da terra ao céu. Não é uma medalha de honra ao mérito que receberemos no Dia do Juízo. É uma obra exclusiva de Deus. Tudo provém de Deus. É Deus quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar.

GESTÃO E CARREIRA

MINHA CASA, MINHA TECNOLOGIA

Líder do setor de linha branca, a Whirlpool, dona das marcas Brastemp, Consul e Kitchen Aid, contabiliza receita de R$ 7,74 bilhões, alta de 17,1% sobre um ano antes. A grande aposta é a inovação.

Para quem gosta de adrenalina, a trajetória do setor de eletrodomésticos no País nos últimos anos renderia uma boa história de ação. De 2015 a 2018, quedas recordes de vendas e produção abalaram as empresas. Em 2019, as vendas começaram fracas, surpreenderam positivamente no segundo semestre e cresceram de maneira impressionante nos três meses finais. O setor de linha branca, que representa o segmento de máquinas de lavar, refrigeradores e fogões, fechou o ano com crescimento de 7,8%, resultado muito comemorado depois de ter crescido em 2018 apenas 1% — num ano de alta de 1,1% do PIB —, segundo Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).

Líder do setor, a Whirlpool teve razões a mais para celebrar. Dona das marcas Brastemp, Consul e Kitchen Aid, a companhia de origem americana contabilizou no Brasil receita de R$ 7,74 bilhões no ano passado, alta de 17,1% sobre um ano antes. O lucro líquido avançou 292%, depois da venda da fabricante de compressores Embraco, e atingiu R$ 734,2 milhões. No embalo dos bons resultados, as despesas operacionais caíram de R$ 737,8 milhões, em 2018, para R$ 600,2 milhões, em 2019, em razão do resgate de créditos de impostos a recuperar (PIS e Cofins) conquistado em processos judiciais. Entre outubro a dezembro, as vendas atingiram R$ 2,7 bilhões, aumento de 36%. “O mercado estava reagindo muito bem. Encerramos 2019 com dados muito positivos, mas ainda no mesmo patamar de 2011”, disse o presidente da Whirlpool na América Latina, João Carlos Brega, que comanda uma companhia com 108 anos de história e 68 anos no Brasil.

Neste ano, no entanto, a crise causada pela pandemia gerou um clima de altos e baixos para a Whirlpool. O susto inicial, com fechamento do comércio e suspensão das principais atividades econômicas, deu lugar a um crescimento da demanda por renovação de eletrodomésticos e aquecimento do varejo com a injeção dos bilhões do coronavoucher. “Atualmente, estamos vivendo um momento muito bom. Resta saber se é um ciclo sustentável”, afirmou. Umas das explicações para esse ciclo é a incorporação de novas tecnologias em seus produtos. Anualmente, são investidos de 3% a 4% do faturamento em inovação. No Brasil, a companhia dispõe de quatro centros de tecnologia e 23 laboratórios de P&D, o que garante o lançamento de cerca de 200 novidades por ano. As grandes apostas mais recentes são a lavadora Double Wash Brastemp, com dois cestos independentes e que lava diferentes tipos de tecidos e cores ao mesmo tempo — a primeira Top Load (abertura superior) no mundo a lavar roupas de cores e tecidos diferentes ao mesmo tempo —, a geladeira 3-Doors Brastemp, equipada com três compartimentos independentes, a cervejeira smart Beer Consul e a Blend, primeira máquina de bebidas all-in-one do mundo a oferecer mais de 10 diferentes tipos de categorias e 20 sabores ao toque de um botão. O produto ainda funciona como purificador de água, oferecendo também água gaseificada. “Nossos produtos são muito mais do que equipamentos domésticos e isso ficou mais claro na pandemia. Não fazemos apenas geladeira, criamos soluções em armazenamento de alimentos.”

Além do auxílio emergencial e da reabertura do comércio, um fator decisivo para a expansão foi a mudança no perfil do consumidor dos brasileiros. Com mais tempo em casa, as famílias aumentam seus investimentos em eletrodomésticos e eletrônicos. Entre os produtos com mais saída, se destacaram as Smart TVs, forno de micro-ondas e lavadoras. Segundo a consultoria GfK, as vendas de TVs desta categoria aumentaram 32% no primeiro semestre de 2020, em comparação com a primeira metade de 2019. Em julho, pelos cálculos da consultoria, o faturamento do varejo com vendas de eletrodomésticos cresceu 49,5% e de eletrônicos avançou 32,3% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Apesar da boa performance, o setor ainda vê com cautela os próximos meses. O fim do pagamento do auxílio emergencial, sem recuperação rápida da economia, pode esfriar o ritmo do consumo. A associação Eletros diz esperar, por outro lado, que a Black Friday e o Natal impulsionem as vendas neste ano e que, no geral, será um ano de perdas moderadas.

AS MELHORES

1. WHIRLPOOL 436,05 PONTOS

2. INTELBRAS 428,65 PONTOS

3. TOLEDO 409,25 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO SE LIBERTAR DOS OPIOIDES

Mais de sete milhões de pacientes com dor crônica tomam os arriscados analgésicos. Pesquisadores estão encontrando jeitos melhores para ajudá-los a largar ou reduzir seu uso sem provocar agonia

Com 1,90 metros de altura, Brett Muccino é um homem grande, por isso acha difícil se imaginar voando pelo estreito para-brisa de seu velho Ford Ranger. “Ele era uma coisa minúscula”, recorda-se. O acidente de carro, em 1986, esmagou vértebras em seu pescoço e na região lombar. E também deu início a uma batalha de 34 anos com dor crônica e uma relação de amor e ódio com os opioides dos quais dependeu para lidar com ela.

Em um dia de outono, Muccino usava um boné e uma jaqueta com as palavras ”Veterano do Vietnã” enquanto visitava o Centro Médico para Assuntos de Veteranos (abreviado VA de West Haven, em Connecticut. Ele se movia de modo vacilante, ligeiramente encurvado sobre um andador. As dores nas costas não são a única fonte de tormento deste aposentado diretor de um lar para idosos. Uma neuropatia diabética – o ‘VA atribui seu diabetes à exposição ao Agente Laranja durante a guerra – deixou seus pés e mãos doloridos. Ele também sofre de infecções crônicas ao redor de um joelho artificial.

Muccino, agora com 68 anos, havia procurado a Clínica de Reavaliação de Opioides de West Haven depois de uma longa e perigosa jornada que incluiu sete cirurgias espinhais e doses crescentes de opioides quando as operações, e as sessões de fisioterapia, falharam em lhe trazer alívio. Nos anos 1990, os médicos mudaram seu tratamento do medicamento Percocet, de curta ação, para 40 miligramas (mg) por dia de uma nova e badalada droga: OxyContin, de ação prolongada. Em poucos meses, ele precisou do dobro da dose, mas “pelo menos, ela lhe permitia trabalhar”, diz ele. Ninguém lhe disse que ela era viciante. Ele descobriu quando um cirurgião suspendeu seu uso bruscamente pouco antes de um procedimento nas costas. “Foi uma interrupção abrupta, sem nenhuma discussão sobre o que eu sentiria”; lembra. Em 48 horas, Muccino estava em um pronto-socorro acossado pela agonia da abstinência – gritando de dor, tremendo e incapaz de reter alimentos. De volta aos opioides, ele começou a suplementar sua receita comprando drogas na rua e, mais tarde, de um médico inescrupuloso, tomando mais de 320 mg de 0xy por dia. Periodicamente ele tentava se “abster”, mas a dor sempre o levava de volta.

No verão de 2016, Muccino estava farto desse ciclo vicioso. Depois que sua última cirurgia lombar lhe trouxe algum alívio, ele disse aos seus médicos: “quero parar de tomar tudo”. Seu timing foibom alguns anos antes, o centro VA tinha inaugurado essa clínica especializada perto de sua casa. Sua equipe o ajudou a aprender diversas técnicas de gerenciamento de dor e lhe deu um medicamento que tanto reduz a dor como controla os sintomas de abstinência. Assim começou uma lenta e paulatina redução da ingestão de Oxy, que levou meses, mas que acabou culminando em sua meta: zero.

As dificuldades de Muccino são comuns, mas a ajuda que ele recebeu é rara. Quando as mortes nos EUA, decorrentes tanto de opioides legais como ilegais, explodiram de 9.489, em 2001, para 47.600, em 2017, o país começou a realizar uma ampla campanha de repressão contra os analgésicos de prescrição obrigatória. Autoridades da área de saúde, companhias de seguros e até farmácias começaram a barrar e a não mais atender pacientes, além de limitar as dosagens. As restrições causaram tormento e angústia entre os sete a 10 milhões de pessoas que tomam esses medicamentos para dores crônicas que derivam de condições que vão de fibromialgia a lesões na medula espinhal a danos teciduais deixados por ferimentos de guerra ou cirurgias. Muito embora drogas ilegais (especialmente o fentanil ilícito) causem a maioria das overdoses, os gestores ficaram alarmados com o fato de mais de 30% das mortes por opioides envolverem medicamentos controlados. Em 2016, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgaram uma diretriz, lembrando aos médicos que as drogas deveriam ser usadas como último recurso para a dor crônica. As instruções advertiam contra prescrever doses diárias acima de 50 equivalentes do miligrama de morfina (MMEs, em inglês, são uma forma de equiparar as doses de vários opioides). Vários estados também entraram em ação. Pelo menos 36 deles emitiram políticas ou diretrizes que, de alguma forma, limitavam a quantidade de opioides que os médicos poderiam prescrever. Além disso, muitos clínicos interpretaram erroneamente a diretriz do CDC como um limite rígido de dosagem – mesmo para usuários de longo prazo. Em 2017, quase 70% dos médicos de família haviam limitado a prescrição das drogas, e quase 10% pararam inteiramente de oferecê-las, de acordo com uma pesquisa do Boston Globe.

Mas suspender esses medicamentos abruptamente pode intensificar a dor dos pacientes e leva-los a recorrer a drogas de rua ou ao suicídio, especialistas advertem. “Isso cria uma desestabilização intensa, tanto médica como psicológica”; diz Beth Darnall, psicóloga de dor da Escola de Medicina da Universidade Stanford. Ela estava entre 92 especialistas e defensores que escreveram uma carta aberta em setembro de 2018 para a Força-Tarefa federal de Gerenciamento de Dor advertindo para “um alarmante aumento em relatos de suicídios de pacientes”. Em abril de 2019, tanto o CDC como a Food and Drug Administration (o órgão que controla medicamentos) tomaram medidas para alertar médicos sobre esses riscos.

Não há dúvida de que suspensões abruptas são ruins, mas há muito menos clareza sobre a melhor forma de reduzir a dependência de opioides em pacientes com dor crônica. Felizmente, pesquisas financiadas pelo governo federal começam a apontar o caminho. Entre as descobertas está que a redução paulatina da dosagem em usuários de longo prazo parece funcionar melhor quando realizada lentamente, com minuciosa atenção individualizada e instruções sobre formas alternativas para lidar com a dor – algo parecido com a ajuda que Muccino obteve. Surpreendentemente, alguns estudos sugerem que muitos pacientes acabam se sentindo melhor com doses mais baixas ou até mesmo sem nenhuma medicação, depois que efeitos colaterais, tais como letargia, confusão mental e extrema constipação desaparecem aos poucos. Um novo “guia” sobre a redução de dosagens, publicado em outubro passado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS, em inglês), endossa essas técnicas de procedimento gradativo, colaborativo e “centrado no paciente”.

”A pergunta das pesquisas sobre dor que provavelmente tem o maior impacto sobre a sociedade é: Qual a segurança e eficácia de opioides no longo prazo?”, diz Sean Mackey, chefe da divisão de medicina da dor em Stanford. ”A realidade é que não sabemos”. Mas as respostas estão chegando para desvendar com segurança o grande caso de amor americano pelos opioides.

A ATRAÇÃO PELOS OPIOIDES

A ideia de que essas drogas são uma boa escolha para dores crônicas – aquelas que duram mais de três meses – decolou em meados dos anos 1990. Naquela época, a comunidade médica começou a levar a dor mais a sério em termos gerais, rotulando-a como “o quinto sinal vital” (depois da pressão arterial, pulso, taxa respiratória e temperatura). Foi quando o OxyContin, uma versão de liberação prolongada do opioide oxicodona, foi lançado no mercado, junto com algumas informações enganosas sobre sua segurança no longo prazo e natureza não viciante – afirmações que mais tarde tornaram-se questões de processos milionários. Antes disso, os opiáceos naturais, tais como a morfina, e opioides sintéticos, tais como a oxicodona, eram usados principalmente para dores agudas de curto prazo, câncer e cuidados paliativos. De acordo com uma análise do CDC, as prescrições de opioides quadruplicou entre 1999 e 2010.

As drogas eram consideradas uma alternativa barata para o tratamento padrão-ouro da dor crônica intratável: programas interdisciplinares de gerenciamento de dor e reabilitação que envolvem uma equipe de psicólogos, médicos, terapeutas físicos e outros especialistas que trabalham com um paciente por semanas em clínicas especializadas. Essa abordagem é muito mais intensiva em termos de trabalho do que tomar um comprimido, mas ela lida com a natureza “biopsicossocial” da dor crônica – o fato de que o que um indivíduo sente não é só determinado pelo disparo de fibras nervosas da dor, mas também pode ser afetado por fatores, tais como humor, personalidade, contexto social e até pelo significado que uma pessoa atribui à dor. “Se a sua dor significa que seu câncer está se agravando, ela é muito menos tolerável do que se ela significar que você treinou arduamente para a maratona”, diz Mark Sullivan, psiquiatra no Centro para Alívio da Dor da Universidade de Washington.

Embora opioides fossem prescritos em massa para pessoas com fortes dores nas costas e todos os tipos de condições de longo prazo, a maioria cios estudos só investigou seus efeitos ao longo de seis semanas ou menos. Esse tempo não foi suficiente para observar as dependências físicas e psicológicas que se desenvolveu, no decorrer de meses e anos, ou como, à medida que o organismo se habitua às drogas, as  pessoas muitas vezes necessitam de doses maiores que aumentam o risco de problemas respiratórios, tonturas e overdoses que constituem ameaças à vida.

Alguns médicos, na época, estavam incomodados com a lacuna de conhecimento. A pesquisadora Erin Krebs estava na faculdade de medicina nos anos 1990. Ela se lembra de ter ficado surpresa e cética com o fato de que drogas que nunca tinham sido estudadas no longo prazo estavam sendo prescritas por meses e anos a fio. Krebs, agora chefe de medicina interna geral no Sistema de Cuidados para Saúde de Assuntos de Veteranos pesquisa maneiras de ajudar os chamados “pacientes de longo prazo,” oriundos da era do uso irrestrito de opioides, a gerenciar a dor com doses mais seguras. Mas ela também investiga a questão mais básica de se opioides são uma opção válida para dores de longo prazo. No ano passado, ela publicou o primeiro ensaio randomizado para comparar diretamente opioides com analgésicos não opioides – indo de anti-inflamatórios populares a medicamentos para dores nos nervos periféricos, como a gabapentina – um estudo que durou um ano. Sua equipe acompanhou 240 pacientes com dores de intensidade moderada a severa, e descobriu que, em média, o grupo não opioide relatou menos dor intensa e menos efeitos colaterais. Quando propôs o estudo, em 2010, diz Krebs, “a suposição de que opioides eram melhores era tão forte que algumas pessoas sentiam que seria antiético dizer que alguns pacientes não podiam receber opioides!”

Desde então, Krebs encontrou mais evidências de que opioides podem ser uma má escolha para a dor crônica. Em uma conferência sobre dor em 2018, ela apresentou alguns dados preliminares chocantes de um estudo de longo prazo de 9.245 veteranos de guerra que tomavam opioides há seis meses ou mais. Só 25% deles classificaram a eficácia de seus tratamentos como muito boa ou excelente, e 80,9% disseram que sua dor se manifestava por todo o corpo – um sintoma que pode refletir um suspeitado efeito colateral de uma droga: uma síndrome de dor chamada hiperalgesia induzida por opioides (HIO). “Essas pessoas estão realmente doentes. Nós não as curamos”, Krebs disse.

COMO REDUZIR

Quando o risco de opioides parece maior do que os benefícios – se pacientes fazem uso indevido das drogas ou exibem sintonias ligados a overdoses, por exemplo – as novas diretrizes do HHS instam os médicos a considerar uma diminuição das dosagens. Em um mundo ideal, pacientes com sofrimento intratável iriam às clínicas interdisciplinares de dor e reabilitação, que têm um bom histórico de transitar pacientes de opioides para outras formas de gerenciar a dor. Porém muitas dessas clínicas fecharam quando a comunidade médica abraçou amplamente os opioides, e o tratamento nas que permanecem abertas é caro. Por isso está em andamento uma busca por abordagens mais baratas e viáveis. Em 2018, Darnall publicou um dos primeiros artigos a dar uma resposta: uma redução muito lenta e personalizada da dose.

Em um estudo piloto com 168 pacientes, publicado em JAMA Internal Medicine, Darnall mostrou que, ao longo de quatro meses, os 51 indivíduos que concluíram o ensaio reduziram suas dosagens de opioides em quase 50%, em média, sem agravar a dor. Eles receberam uma cuidadosa orientação de um médico comunitário e um livro de autoajuda. Uma redução lenta e paulatina foi especialmente crítica nas primeiras quatro semanas, diz ela, quando a dosagem foi diminuída em não mais do que dois cortes de 5%. Isso é bem menos do que os 10% semanais sugeridos no “manual de bolso” de 2016 do CDC, e está em conformidade com a versão atualizada do HHS.

Darnall está ansiosa par a determinar se ferramentas adicionais são úteis para um desmame gradual. Com financiamento do Instituto de Pesquisa de Resultados Centrados em Pacientes (PCORI, em inglês), ela agora está supervisionando um ensaio de um ano com 1.365 pacientes com dor crônica chamado EMPOWER. Quinhentos dos pacientes não desejam uma redução, e querem se ater aos seus atuais tratamentos de opioides, servindo como um grupo de controle. Os outros serão randomicamente designados para um de três tratamentos. Um grupo simplesmente repetirá os métodos do estudo piloto de Darnall. Outro fará esse regime e receberá, além disso, oito sessões semanais de terapia cognitivo-comportamental (TCCG) em grupo para dor, um tipo de aconselhamento de curto prazo que se concentra em padrões de pensamento e crenças para afetar comportamentos e sensações. O terceiro grupo também seguirá o protocolo piloto e acrescentará seis Woorkshops semanais em grupo sobre “auto­gerenciamento” da dor.

O autogerenciamento da dor é uma intervenção de baixo custo comandada por pares treinados em vez de por profissionais de saúde, mas nunca foi estudado no contexto de uma redução paulatina de opioides. O método, desenvolvido pela educadora em saúde Kate Lorig, de Stanford, conduz os participantes através de uma série altamente estruturada de atividades, aulas e discussões que oferecem ferramentas para gerenciar a dor e recuperar uma vida mais ativa.

A equipe de Darnall irá avaliar como o método de autogerenciamento da dor se compara à TCCG, mais cara, e se qualquer um dos dois sistemas melhora o protocolo básico da redução lenta e paulatina. Eles também coletarão dados sobre o uso de maconha e produtos derivados de cannabis por parte dos participantes para ver que impacto eles têm na redução de opioides e vice-versa. A necessidade de tais pesquisas é urgente, diz Darnall. Não importa quais intervenções acabarão saindo no topo, se os resultados para qualquer grupo corresponderem a ou excederem os de seu estudo piloto, ela terá demonstrado um jeito seguro, prático e econômico de reduzir a ingestão de opioides, que poderia então ser aplicado em comunidades em qualquer lugar.

AMENIZANDO A ABSTINÊNCIA

Outros pesquisadores, incluindo Sullivan e Krebs, também estão testando maneiras práticas e baratas que, se bem-sucedidas, poderiam ser ampliadas em escala. Krebs está liderando um grande ensaio, também financiado pelo PCORI, no qual 500 veteranos trabalharão por telefone com um farmacêutico para otimizar a segurança e eficácia de seus regimes medicamentosos. Outros 500 serão designados para uma equipe multidisciplinar (médico, psicólogo e farmacêutico ou fisioterapeuta) que dará menos ênfase a remédios e se concentrará mais em alcançar objetivos pessoais e melhor qualidade de vida, mesmo que as dores não possam ser curadas. O estudo também examinará a utilidade de uma medicação criada para amenizar o processo de desmame.

“Ninguém é obrigado a reduzir dosagens neste estudo”, diz Krebs, mas os participantes que tomam doses elevadas serão instruídos sobre os riscos. Os que optarem por uma paulatina redução serão selecionados aleatoriamente para fazê-lo com ou sem a ajuda de buprenorfina-naloxona, um medicamento que combina um analgésico opioide com um bloqueador de opioides e proporciona alivio da dor, reduz sintomas de abstinência e tem um risco baixo de overdose. “Este medicamento funciona no ambiente de dependência de opioides”, diz Krebs, “por isso questionamos se ele também poderia ajudar pessoas em um contexto de tratamento para dor”.

A Clínica de Reavaliação de Opioides em West Haven, onde Muccino recebe tratamento, é um dos lugares de interesse no estudo de Krebs. Seu diretor, Will Becker, rotineiramente oferece buprenorfina-naloxona a pacientes para ajudar a reduzir o uso de opioides. Cerca de 60% aceitam, Muccino entre eles. Becker crê que a droga proporciona “um pouso suave” a pessoas que são dependentes de opioides há anos. Ele também acha que apenas apresentar opções aos pacientes faz uma grande diferença na capacidade de redução gradativa: ”Ter uma opção os empodera”.

O desmame de opioides na clínica de Becker enfatiza alcançar objetivos funcionais definidos pelos pacientes. Estes poderiam ser ‘voltar ao trabalho’ ou só ‘levantar mais cedo da cama’.” Buscamos metas específicas, mensuráveis, orientadas para uma ação, realistas, e com prazo determinado’; diz Becker. “Essas são coisas discretas e reais com as quais eles podem voltar a se envolver – coisas que a dor lhes roubou.”

Para Muccino, uma das grandes metas era poder passar tempo com e desfrutar a companhia de seus sete netos ou, como ele disse, “ser capaz de ver meus netos crescer pelo maior tempo que eu puder”. Ele lamenta ter perdido grande parte da infância de seus próprios filhos: “Eu trabalhava de 60 a 70 horas por semana, e vivia dopado, com elevadas doses de drogas. Eu costumava chegar em casa e desmaiava no sofá”. Usar buprenorfina-naloxona sob a supervisão de Becker o ajudou a parar de tomar Oxy-Contin inteiramente.

Um punhado de estudos e experiências clínicas sugerem que, uma vez que os pacientes superam seus receios iniciais, muitos se sentem melhor com doses mais baixas ou até sem opiáceos. A dor subjacente não irá mudar necessariamente, diz Mackey, de Stanford, mas com doses baixas “vejo que eles se sentem mais ativos, alertas e conscientes”. Ainda assim, existe uma minoria de pacientes que pioram e os especialistas em dor se preocupam com este grupo, especialmente numa época em que há uma pressão pela redução. Eles observam que nem todo mundo pode ser desmamado ou sequer ser levado a diminuir o consumo de opioides.

ALÉM DOS OPIOIDES

Reduzir o uso dos opioides exigirá prescrevê-los para menos pacientes e tornar outros tratamentos mais acessíveis – incluindo terapias físicas e comportamentais, e medicamentos não opioides para combater dor. A primeira parte é mais fácil e já está acontecendo: um grande estudo publicado no ano passado constatou que as prescrições iniciais de opioides caíram 54% entre julho de 2012 e dezembro de 2017. O mais difícil é mudar a prática médica e as expectativas dos pacientes quanto ao que deve ser o tratamento. Como diz Sullivan: ”Não há jeito melhor de deixar seu paciente mais feliz do que lhe dar um pouco de OxyContim, porque ele já começa a se sentir melhor no carro voltando da farmácia para casa”. Outras terapias, diz ele, tendem a fazer efeito mais lentamente: “elas podem envolver muito trabalho”, como é o caso com terapia física ou comportamental.

Ajudaria se os médicos, em especial os dedicados a cuidados primários, recebessem melhor treinamento para avaliar e tratar de dor, um problema observado pela Estratégia Nacional de Dor, federal, divulgada em 2018. A estratégia também destaca que ”o público em geral” se beneficiaria de mais compreensão da complexidade da dor e de como gerenciá-la.

Muccino ganhou essa compreensão. Hoje, além de uma baixa dose de buprenorfina-naloxona, ele administra a dor com relaxamento, distração e métodos que aprendeu na TCCG. Em casa, escuta música enquanto se alonga e se fortalece com exercícios fisioterápicos. “Brinco com meus netos, passeio de carro. Qualquer coisa, menos tomar um comprimido.

EU ACHO …

A ECOLOGIA, O APEGO E O EROTISMO

O QUE A VIDA ME ENSINOU

Algumas concepções orientais milenares pregam o desapego ao mundo. Mas, para proteger algo ou alguém, é preciso ter apego. Como proteger e cuidar sem apego? É essa uma das razões por que as pessoas em geral e a maioria dos jovens em particular ainda não se envolvem com temas fundamentais como a ecologia, não se preocupam em zelar pela natureza para garantir um mundo sustentável. Para os jovens, o erotismo permeia tudo e esse tema, a ecologia, não foi erotizado. As campanhas publicitárias conseguem erotizar um jeans de tal forma que ele pode ser vendido pelo preço de uma tv de plasma de 42 polegadas. Conseguem erotizar um par de tênis e vendê-lo pelo preço de dois pneus de carro. Conseguem, em resumo, transformar objeto em desejo. As pessoas precisam do que desejam.

O tema da sustentabilidade, no entanto, jamais foi erotizado.

A maioria das campanhas se apoia na tese de que devemos nos desapegar para proteger o planeta. Mas, insisto, o que nos faz zelar, proteger, cuidar é o apego, e não o desapego. É por me apegar àquilo que gosto, que usufruo, que desfruto, que quero cuidar da minha saúde. É por me apegar a alguém que quero cuidar dessa relação, para que ela não se esgarce. É por me apegar, por exemplo, à beleza da natureza que quero protegê-la. A falta de erotização das campanhas em prol da natureza resulta que, para um jovem, a única coisa que se entende é que ele precisa abrir mão de alguma coisa para manter o planeta. E abrir mão inevitavelmente significa gerar desinteresse.

Assim, é preciso erotizar a responsabilidade socioambiental, transformá-la em desejo de cuidar da vida em suas múltiplas faces, para que se possa ter apego ao rio, à sociedade humana, de forma que o rio não fique poluído e a sociedade não se frature numa comunidade de vítimas.

Há um grande pensador chamado Enrique Dussel, que vive hoje no México. Ele escreveu um livro intitulado Ética da Libertação, no qual ele recusa a palavra “excluídos” para se referir a quem vive à margem da sociedade. Ele usa a palavra “vítimas”. O “excluído”, de certa forma, reduz o problema, banaliza-o, pois desde sempre há o excluído da rodinha, o excluído do time, da festa, da empresa. Já a vítima é diferente. Vítimas têm peso, gravidade. Sobre isso, inclusive, é útil lembrar do professor José de Souza Martins, grande sociólogo da Universidade de São Paulo, que, tratando do tema da exclusão, também fala de inclusão precária, referindo-se àqueles que estão mas não estão de fato.

Dussel também diz coisas sensacionais sobre ética. Para nós, a ética nasce na Grécia clássica. Mas Dussel sustenta que ela nasce na África, nas comunidades banto, e se consolida no Egito antigo com os faraós. O mais curioso nisso é que o nascimento da Ética, entendida como a arte de conviver com o outro, está relacionado à escravatura. A Ética, inclusive, nasce por causa da escravatura. Antes dela, nas batalhas da humanidade, matavam-se os inimigos. E matavam porque não valorizavam a vida deles. Mas, no momento em que deixo de liquidar o inimigo e o aprisiono para que trabalhe para mim, ele passa a fazer sentido para mim, passa a ser útil, passa a ser valorizado. Cria-se com isso uma relação entre senhor e escravo que necessariamente obriga a ter regras de convivência, o que, por sua vez, conduz ao apego.

Por isso, no começo do século 19, Hegel, inestimável filósofo alemão, dizia que existe uma dialética entre senhor e escravo. Isto é: há uma identidade entre o senhor e o escravo. Isso fica mais evidente ainda no que se convencionou chamar de Síndrome de Estocolmo, na qual o sequestrado desenvolve uma relação de apego com seu sequestrador, e vice-versa. Apegar-se é olhar o outro como a um igual, que deve ser preservado, e não como a um estranho, que pode ser descartado.

E aqui volta-se à ironia histórica: o escravo não podia ser descartado, pois ele era um bem. A escravatura, por incrível que pareça e por mais horrorosa que seja, vai introduzir na história humana o conceito de que é preciso proteger a vida do outro porque ele é um bem para mim – e patrimônios precisam ser cuidados.

Voltando à ecologia, é aqui que está o erro do tratamento do ambiente em relação aos jovens. Eles não enxergam o mundo como um bem e, portanto, são indiferentes a ele.

Para piorar, em ecologia trabalha-se com a noção de que “vai acontecer”, em vez de “está acontecendo”. Com esse discurso, é praticamente impossível fazer com que alguém com 20 anos de idade se preocupe com algo que pode acontecer daqui a 50 anos.

Não dizem que a diferença entre um jovem e um idoso é que o jovem tem tempo mas não tem projetos e um idoso tem projetos mas não tem tempo? Sem projeto, não se defende o futuro. Mas, se as campanhas conseguirem erotizar a sustentabilidade, a visão dos jovens terá outra dimensão, que possibilitará que eles exijam a sustentabilidade já e agora, como um objeto do desejo.

Isso vai gerar apego – e apego impede que se fira aquilo que se ama, pois ferir o que se ama é ferir a si mesmo. Apego, simpatia, amizade, essas coisas só podem existir com o que está conectado à minha própria vida. O meu equilíbrio, por sua vez, só pode existir se tenho apego também a mim mesmo.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

A GRANDE APOSTA

A guerra entre os bancos tradicionais e as fintechs se acirra com o desempenho conflitante de suas ações na bolsa e põe à prova modelos de negócios antagônicos

Desde a sua origem, os bancos têm um modelo de negócios simples: captar dinheiro dos correntistas e emprestá-lo a juros. Muito mais do que uma atividade de “pessoas gananciosas” – imagem consagrada pelo personagem Shylock no clássico O Mercador de Veneza, de Shakespeare -, os bancos foram fundamentais para as maiores realizações do homem moderno, das grandes navegações aos avanços tecnológicos, da conquista da democracia às inovações na medicina. Sem concessão de crédito, não haveria o mundo tal qual o conhecemos. Segundo o economista americano Robert Shiller, ganhador do Nobel, o sistema financeiro permite a transformação de “impulsos criativos em produtos e serviços vitais”. Na aurora da era digital, tudo isso tem sido posto em xeque de algum modo. Cresce entre os investidores a ideia de que o modelo tradicional dos bancos está se tornando ultrapassado e que, em vez deles, haverá lugar apenas para as chamadas fintechs, instituições financeiras baseadas em aplicativos.

No Brasil, a desconfiança tem sido justificada pela comparação do desempenho das ações dos quatro maiores bancos do país – Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – com o das do Inter, uma das instituições digitais que melhor simboliza os novos tempos. Desde que o Inter estreou na bolsa, em abril de 2018, seu valor de mercado multiplicou oito vezes. Além do Inter, outra estrela do segmento é a corretora XP, que tem papéis negociados na americana Nasdaq. De dezembro do ano passado, quando abriu o capital, até agora, a alta das ações chega a 60% em dólares. Já os quatro grandes, somados, tiveram queda próxima de 30% no mesmo período. A pandemia piorou o quadro: enquanto as ações dos grandes bancos amargam perdas que chegam perto de 40% entre o fim de fevereiro e o começo de outubro, como é o caso do Banco do Brasil, os papéis do Inter subiram cerca de 25%. O fenômeno não é apenas local. Nos Estados Unidos, na lista das dez maiores quedas nas bolsas em 2020 aparecem quatro das mais tradicionais instituições financeiras do país: JP Morgan, Wells Fargo, Bank of America e Citigroup.

O fenômeno não representa o fim dos bancos clássicos. Muito longe disso. Quando os números entram em cena, as desvantagens dos estreantes em relação aos tradicionais começam a aparecer. Enquanto o Inter registrou pouco menos de 3 milhões de reais em lucros no segundo trimestre e tem 12,4 bilhões em ativos, o Santander, com 27 milhões de clientes, obteve lucros de 2,13 bilhões de reais e 987 bilhões de reais em ativos. Em junho, a carteira de crédito do Itaú totalizava 811,3 bilhões de reais. No Inter, o valor mal chegou a 6 bilhões de reais. “Os grandes bancos são máquinas geradoras de dinheiro”, diz Alberto Amparo, analista da Suno Research. Apesar da competição com as fintechs, eles ainda têm muitas vantagens.”

Entre elas, a escala, a eficiência e a capacidade de captar dinheiro no mercado a um custo mais baixo que o das instituições menores. A despeito de toda a roupagem descolada dos aplicativos dos bancos digitais, o negócio dos bancos ainda é o mesmo de 500 anos atrás: emprestar dinheiro. “As fintechs precisam crescer muito para emprestar no montante de um grande banco”, destaca Amparo.

Com o tamanho – e os lucros bilionários -, os bancos podem simplesmente absorver parte da concorrência. No marketing, o Itaú briga com a XP no crescente mercado do investidor pessoa física. Mas, em 2017, comprou quase 50% da corretora, participação que pode aumentar nos próximos anos. “As fintechs devem ser parceiras, e não apenas concorrentes”, diz Renato Lulia, head de Relações com Investidores e Inteligência de Mercado do Itaú.

Dito isso, é inegável que os bancos tradicionais parecem enfrentar uma tempestade perfeita. Eles sofrem com questões pontuais provocadas pela pandemia. A principal delas: a quarentena levou ao fechamento de inúmeros negócios e instalou milhões de pessoas na fila dos desempregados. O efeito imediato é o maior risco de inadimplência. Para se ter ideia, no primeiro semestre do ano passado o Itaú destinou 8 bilhões de reais para cobrir eventuais calotes. Em 2020, o montante subiu para quase 18 bilhões de reais. Isso afeta de forma decisiva os resultados: o lucro caiu quase 14 bilhões de reais do ano passado para cá. Como não poderia deixar de ser, a estratégia aborrece os investidores da bolsa, que têm nos bancos uma decisiva fonte de dividendos.

O que mais ameaça os grandes bancos, porém, é o aumento da concorrência. Um país com juros historicamente altos e pouca competição sempre garantiu gordos lucros às instituições que passaram no processo de seleção natural do ambiente econômico do Brasil. Historicamente, os retornos dos bancos brasileiros são maiores do que os dos estrangeiros. Desde 2010, o ROE (sigla em inglês para retorno sobre o patrimônio) do Itaú ficou abaixo de 20% somente em 2012. Nos EUA, o retorno do JP Morgan nos últimos dez anos nunca ultrapassou 15%. No ano passado, chegou a13,9%.

Recentemente, o Banco Central, seguindo o exemplo de nações civilizadas, iniciou uma série de mudanças regulatórias que permitiram a abertura do mercado para as fintechs – o que, de quebra, tira receita dos grandes bancos. A mudança mais recente é o PIX, um sistema de pagamentos e transferências bancárias instantâneas que pode zerar o custo do TED ou DOC, fontes relevantes de recursos para as instituições tradicionais.

O impacto das ações do BC foi uma concorrência nunca vista no país. Há uma profusão de fintechs especializadas em venda de seguros, concessão de crédito, crowdfunding, plataformas de investimentos, gestão financeira, entre outros serviços. Segundo o Radar Fintechlab, existem no país 771 empresas desse tipo, um aumento de 27% desde o ano passado. Dessas, 270 foram fundadas nos últimos doze meses. Há dezessete bancos digitais e 114 plataformas de empréstimos. “Essas empresas mudaram o mercado de uma forma saudável”, diz João Carlos Santos, da consultoria Accenture.

O cenário é, de fato, desafiador. “Os bancos estão sofrendo ataques de todos os lados”, afirma Renoir Vieira, gestor da Aurora Capital e crítico do modelo de negócios das instituições financeiras do país. Vieira ganhou fama ao sugerir a venda das ações do Itaú – uma operação especulativa em que o operador aposta na desvalorização do preço de determinada ação. Segundo ele, os bancos tradicionais estão perdendo a batalha para as fintechs. “Eles continuarão sendo empresas boas e bem administradas, mas com lucros muito menores do que os atuais. Por que o Itaú teria um retorno maior do que o do JP Morgan? Não faz sentido”, diz Vieira. O Inter é o melhor exemplo da nova geração. “Não somos um banco, mas uma plataforma de serviços financeiros e não financeiros”, afirma João Vitor Menin, presidente do Inter. A isca para atrair clientes, geralmente jovens, é o custo zero na abertura e manutenção da conta- corrente. Para isso, é preciso contar com uma estrutura leve. Não ter agências é um dos diferenciais apontados por Menin. Segundo ele, o custo de manutenção dos clientes corresponde a apenas 15% do que os grandes bancos gastam com a mesma atividade.

Uma vez dentro da plataforma, aí vale tudo para faturar. O aplicativo não se restringe aos serviços bancários tradicionais, mas permite a compra de produtos como roupas, tênis e passagens aéreas. No segundo trimestre, o marketplace cresceu 218%, com vendas de 123 milhões de reais. O ritmo de abertura de contas chega a 20.000 por dia. Atualmente, são cerca de 7 milhões de correntistas. É esse ritmo frenético de investimentos, com uma pitada de inovação, que está seduzindo os investidores na bolsa.

Criar um ecossistema com diversas marcas é a estratégia do Santander para competir com as fintechs. Recentemente, o banco espanhol comprou 60% da corretora on-line Toro Investimentos. A Toro se junta à Sim, plataforma de crédito para pessoa física, e à em Dia, de renegociação de dívidas, entre outras 22 marcas coligadas que atuam em segmentos como crédito, imóveis, seguros, tecnologia, entretenimento, investimentos, entre outros. “Nós podemos criar um grande ecossistema e ser tão bons quanto fintechs especializadas em um único produto”, diz Sérgio Rial, presidente do Santander. Os bancos públicos também aumentaram a presença digital. A Caixa lançou o aplicativo Caixa Tem que, entre outras funcionalidades, permite o pagamento de contas sem cartão nas casas lotéricas, e o Banco do Brasil criou há alguns dias uma conta digital movimentada totalmente por celular.

Quem vencerá a batalha? Talvez ambos. Alguns analistas acreditam que os bancos clássicos apenas diminuirão de tamanho, mas continuarão a ser empresas tão sólidas quanto sempre foram. As fintechs, por sua vez, precisam ter ganhos de escala iniagináveis para superar gigantes que estão no mercado há mais de 200 anos, como é o caso do Banco do Brasil. O que se sabe de antemão é que, como sempre acontece num mercado em plena competição, quem ganha é o consumidor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE OUTUBRO

O SABOR DO PÃO DO CÉU

Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas… (Mateus 6.16a).

O jejum é uma prática antiga e encontrada nas maiores religiões do mundo. O jejum é uma disciplina espiritual muito importante. Por meio do jejum, nós nos humilhamos diante de Deus e somos fortalecidos por ele. Jejuamos quando nos abstemos daquilo que nos é importante para buscarmos aquilo que nos é essencial. Jesus disse que não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. O jejum é o banquete de Deus, a provisão do céu para o fortalecimento da alma. O jejum não é penitência. É abstinência temporária do pão da terra, para nos alimentarmos do pão do céu. Jejum é fome de Deus; é saudade do céu. Infelizmente o jejum tem sido negligenciado na igreja contemporânea porque temos perdido o sabor do pão do céu. Estamos tão acostumados com o sabor do pão da terra que nos esquecemos do sabor do pão do céu. Enquanto apuramos o paladar com os diversos sabores da provisão da terra, perdemos a fome pelas coisas lá do alto. Com isso não estamos dizendo que a provisão da terra seja má. Não, ela é boa. Então, qual é a diferença entre comer e jejuar, se comemos e jejuamos para a glória de Deus? É que, quando comemos, alimentamo-nos do pão da terra, símbolo do pão do céu; mas, quando jejuamos, não nos alimentamos do símbolo, mas de Jesus, a própria essência do pão do céu. Como anda seu paladar pelo pão do céu?

GESTÃO E CARREIRA

QUEM ENSINA TAMBÉM APRENDE

Um dos maiores do setor de educação do País, o grupo yduqs tem de reestruturar seu modelo de negócio para reverter prejuízo causado pela pandemia. Agora, quer ir às compras para ter mais salas de aula cheias no futuro, além de reforçar a participação no ensino a distância

As salas de aula vazias nos últimos meses pode passar a ideia de que o segundo maior grupo de educação do País, a Yduqs, está com pouco trabalho. É o oposto disso. Desde o ano passado, a companhia convive com um intenso ritmo de novas notícias, com mais motivos para comemorar do que para se preocupar. Em 2019, sua base de alunos cresceu 10% e superou a marca de 570 mil matriculados. Em 2020, a companhia contabilizou mais um aumento de quase 10% no volume de calouros, tanto nos cursos presenciais quanto na educação a distância (EAD). “Tomamos decisões determinantes para que nossos resultados permanecessem positivos”, disse Adriano Pistore, vice-presidente da Yduqs. “Como em 15 dias tivemos de fechar 110 campi em todo o Brasil, buscamos formas de manter as aulas e de preservar a interação dos professores com os alunos de forma remota”, afirmou o executivo, referindo-se à pandemia.

Em parceria com a americana Microsoft, dona da plataforma de reuniões Teams, a Yduqs conseguiu implementar aulas a distância para cerca de 300 mil alunos em apenas uma semana. Isso exigiu mobilizar todo o time de docentes e desenvolvedores de tecnologia, capacitar mais de 8 mil professores para o ensino não presencial e distribuir equipamentos apropriados a todos eles. Nada disso seria possível sem acesso à internet de qualidade. Para isso, o grupo precisou fazer acordos com as operadoras de telefonia do País para garantir a conexão. “Já tínhamos a expectativa de que 2020 seria muito forte para o EAD, mas a pandemia acelerou todas essas previsões”, disse Pistore.

Segundo ele, a Yduqs não sentiu impacto relevante em suas operações no primeiro semestre. Até mesmo o efeito temporário no resultado é visto como algo positivo. “Tivemos de abrir mão de uma parcela da receita para garantir a permanência dos alunos que tiveram a renda afetada pela pandemia, e decidimos distribuir bolsas integrais para 31 mil alunos”, afirmou o executivo. O resultado foi afetado por concessão de descontos de R$ 67,5 milhões referentes ao programa de bolsas Estácio com Você – da Universidade Estácio de Sá – e redução na receita do segmento presencial, impactado pela redução de 53% nas receitas provenientes do Fies.

Por essa razão, a Yduqs registrou prejuízo de R$ 79,5 milhões no segundo trimestre, revertendo lucro de R$ 194,7 milhões no mesmo período de 2019. No ano passado, o resultado financeiro do grupo foi o maior entre as empresas de educação do País, o que garantiu o primeiro lugar no anuário AS MELHORES DA DINHEIRO 2020. Este ano, a receita da companhia cresceu 3,5% de abril a junho, para R$ 991,1 milhões, na comparação anual. “Para nós, mais importante do que um impacto temporário nos números é a permanência dos nossos alunos pelos próximos anos”, disse Pistore. Nesse contexto de mudanças, a Yduqs quer sair às compras. Após o anúncio de que o concorrente Ser Educacional fechou acordo de intenção de negócio com a Laureate Brasil, a Yduqs entrou na disputa. Se a ofensiva der certo, o grupo vai incorporar 50 campi universitários e cerca de 267 mil estudantes da Laureate.

Sobre a pandemia, a Yduqs acredita estar aprendendo a trabalhar unindo o presencial ao virtual. Segundo Pistore, 100% das salas terão wi-fi de alta qualidade para que as aulas sejam interativas. “Constatamos que 94% dos alunos aprovaram nossa reação ao isolamento e nossas novas tecnologias de ensino remoto”, afirmou. Afinal, quem ensina também aprende. Com ou sem crise.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PESO NÃO É TUDO

Excesso de foco na balança favorece estigmas e práticas preconceituosas

No começo de quase toda consulta, é provável que você tenha de subir em uma balança para ter seu peso registrado, e será difícil que o médico não fale de peso em algum momento. Mas muitas conversas sobre peso dificultam, ao invés de favorecer, a campanha para tornar as pessoas mais saudáveis. As recomendações para perder alguns quilos são comuns, embora o uso de um modelo único de corpo como referência de saúde possa esconder a complexidade da fisiologia de cada indivíduo.

Uma massa corporal mais alta é associada ao aumento do risco de hipertensão, diabetes e doença cardíaca. Muitos estudos epidemiológicos de centenas de milhares (em alguns casos, milhões) de pacientes mostraram que pessoas mais pesadas apresentam risco maior dessas doenças. Mas esse não é o quadro completo. Pesquisadores identificaram um subgrupo de pessoas obesas consideradas “metabolicamente saudáveis”, o que significa que elas não apresentam pressão sanguínea elevada ou o precursor de diabetes chamado resistência à insulina, por exemplo. Embora os números variem muito, dependendo do estudo, a população metabolicamente saudável poderia englobar algo entre 6%e 75% dos indivíduos obesos.

Um relatório intrigante publicado em 2016 concluiu que um índice de massa corporal mais alto (IMC, a relação entre peso e altura) “aumenta apenas moderadamente os riscos de diabetes entre pessoas saudáveis” e que as pessoas magras doentias apresentam o dobro de probabilidade de sofrer de diabetes do que as pessoas gordas saudáveis. Claramente, há algo além do peso nessa equação. Embora a associação entre excesso de peso e doenças seja muito real, a experiência individual pode variar muito e depende de fisiologia e comportamento pessoais.

Apesar dessas descobertas, os médicos recomendam rotineiramente dietas para perda de peso como uma forma de “tratar” indicadores fracos de saúde como colesterol alto e insônia de pacientes obesos – uma abordagem com pouco sucesso. Virtualmente nenhuma dieta funciona no longo prazo (companhias que propagandeiam dietas têm poucos dados, quando os têm, para apoiar suas alegações de eficácia). O resultado: 95% a 98% dos que tentam perder peso fracassam e até dois terços terminam mais gordos do que antes de começar. Passar anos preso ao círculo de perder peso, ganhar e perder de novo está associado com resultados piores de saúde cardiovascular e contribui para hipertensão, resistência insulínica e colesterol alto. É hora de os médicos descartarem os cuidados de saúde baseados na balança e focarem comportamentos que são positivos para a saúde. Mudanças no estilo de vida, como melhorar a nutrição com ingestão de frutas, verduras e grãos integrais, além de aumentar a atividade física e parar de fumar, podem melhorar a pressão no sangue e sensibilidade à insulina – com frequência, sem exigir mudanças no peso corporal.

Entre os subprodutos mais insidiosos nos cuidados à saúde centrados no peso estão o crescente estigma sofrido por quem tem sobrepeso. Pela experiência amplamente relatada por diversas pessoas gordas, os médicos costumam prescrever perda de peso sem fazer  exames, testes ou outros procedimentos normais que seriam automaticamente aplicados a magros. Pesquisas nas últimas duas décadas mostram que profissionais de saúde têm atitudes negativas com os obesos, conforme escreveram os autores de um grande estudo de revisão publicado em 2013 em Current Obesity Reports. Também as consultas com pacientes gordos, na média, são mais curtas, e os médicos rotineiramente usam palavras negativas nos prontuários dessas pessoas. Tais práticas preconceituosas afastam as pessoas de seus exames anuais e impedem a detecção de graves doenças de base. E a pesquisa sugere que o estresse crônico de viver com a vergonha de ser uma pessoa pesada pode dar origem a mudanças metabólicas que aumentam o acúmulo de gordura, elevam a pressão arterial e aumentam os níveis de lipídios no sangue.

Para praticar a medicina com base em evidências, livre de estigmas, os médicos devem parar de confiar apenas no peso como indicador de saúde e de prescrever servilmente a redução de peso. Em vez disso, devem se concentrar em mudanças comportamentais para melhorar os resultados do tratamento. Pessoas de todos os tamanhos têm direito aos protocolos baseados em evidências que as empoderam e as mantêm saudáveis.

EU ACHO …

O CÓDIGO DA FOME

Dá para imaginar o que é isso? Ficar dias e dias com o estômago a ronco, aquela dor aguda, lancinante, enganada às vezes a caldo de folha ou na maisena insossa de farinha com água e nada mais? Nem aroma para consolo? Sentado no declive do chão de pedra, proximidade do teto de palha, parede de barro e pau, que ameaça todo dia cair, no castigo do sol e da chuva, com o odor incessante de esgoto a céu aberto, em um ambiente onde a miséria espreita como sina, dividir a parca ração do dia é quase um privilégio de poucos ali — cenário mais extenso e predominante Brasil afora do que imaginam os benfejados pela sorte. Quem não está lá nem desconfia da sinopse de angústias desses humildes desvalidos, o contingente populacional classificado por institutos oficiais na condição de carência alimentar extrema, consumidos pela privação, cujas vidas são uma experiência de risco em alta cadência, rotineiramente. As crianças desnutridas, que mais sofrem, com seus corpos miúdos, pernas mirradas, braços de tão magros estendidos como asas sem serventia, remela nos olhos entre insetos, reclamam no choro instintivo (manhã, tarde e noite) por um prato de alimento sólido. Uma refeição honesta, quem sabe! No amplo universo dos desesperados sociais brasileiros, viver com fome é realidade constante. Ao menos 10,3 milhões deles estão no momento sem nada para comer, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada semana passada. Uma barbaridade! Número que tende a piorar com a pandemia, depois de um incremento recente de mais de 3,1 milhões de necessitados na mesma condição, agravando um quadro que já é vergonhoso e inaceitável no País que se autoproclama “celeiro do mundo”, detentor do maior cinturão verde planetário, onde tudo que planta dá, com área cultivável de dimensões continentais. A verdade do evento trágico é deveras pior. Atualmente, segundo o levantamento, 36,7% dos lares brasileiros — isso mesmo! — têm dificuldade para garantir qualidade e quantidade de alimentos a todos os integrantes da família. Atente para o drama: está se falando de mais de um terço, quase a metade das casas no País, onde falta comida suficiente para seus membros. É suportável aceitar tamanha indigência? Talvez até para não chocar em demasia uma sociedade acostumada ao descaso, os famintos são, eufemisticamente, enquadrados em três níveis de “insegurança alimentar” — todas elas abomináveis, mas que tendem a abrandar o choque de quem não compreende a dimensão do desastre social, de proporções épicas, agora em curso. Na escala, existem as famílias que não podem comprar o suficiente para sustento e passam aperto. No pelotão intermediário é considerado restrição alimentar “moderada” o constrangedor estratagema de pular refeições. E no grau extremo, não há mesmo nada o que comer, muitas vezes por dias, e a mendicância, apelando nas ruas, segue como último subterfúgio. É desolador aceitar, mas a fome por aqui adquire rosto e move um Brasil mais comum do que muitos imaginam. Por que falhamos em providências essenciais e prementes para boa parte da população? Como pudemos chegar a esse grau de desamparo? A face mais arrasadora e ultrajante da calamidade alimentar está no contraste da consciência de líderes, senhores do Estado, que negam o destino comum a tantos brasileiros. O mandatário Jair Bolsonaro, por exemplo, é o primeiro a desdenhar do infortúnio: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse recentemente, desconsiderando as evidências e até chacoteando dos desvalidos. “Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”. Provavelmente, o parvo chefe da Nação não está frequentando as ruas que devia na condição que o cargo lhe exigiria. Todos sabem, sanha corrente, Bolsonaro não desperdiça uma chance de errar, como confirmam as baboseiras lançadas em qualquer direção. Foi agraciado pelo Congresso com uma política de transferência de renda de R$ 600, que não era seu intento e acabou encampando como ideia sua para fins eleitoreiros, capaz de, na esteira do isolamento, conter em parte a extenuante procissão de miséria dos pés-descalços, descamisados, desabrigados indolentes da paisagem nacional. Mas agora se depara na encruzilhada de como resolver um problema em crescente avanço. Após enterrar, espetaculosamente, o “Renda Brasil”, maquina alternativas, nem todas claras, que passam pelo resgate da famigerada CPMF para fazer brotar verba suficiente. É bom desconfiar da produção de gambiarras no Planalto Central. Quando o capitão Bolsonaro tem uma ideia, convém trancá-lo no banheiro e esperar que passe. O vendaval de aflitos não pode esperar muito tempo, na crueza da escassez, para saciar suas necessidades. Na calada da noite, nos barracos construídos ilegalmente ou na cobertura de papelão cercada por pneus velhos, debaixo do viaduto, em palafitas rudimentares, tentando sobreviver por meios insanos, são seres humanos, cidadãos, favelados ou não, invasores de terras e de imóveis abandonados, “pobres e paupérrimos” — na lembrança, essa sim providencial, do presidente — que acalentam e esperam diariamente resposta para a fome. João, Genésia, José, Francisca, são tantos os nomes e rostos dessa tragédia que machuca até encará-los. O pequeno Gerson, da comunidade paulista de Paraisópolis, deitado no chão, numa miserável confraternização com seu vira-lata, é todo dia engabelado pela mãe para sair às brincadeiras, tentando driblar a fome. É dor que não passa assistir à cena. Qualquer um, no mínimo de discernimento humanitário, vergaria lágrimas. A miséria mostra seu código de necessidade mais evidente na fome. Ela atinge e faz vítimas em escala bíblica no Norte e no Nordeste, que abrigam a parcela prevalente dos domicílios com privação alimentar. As carências, no caso, são mais sentidas em áreas rurais, regiões ribeirinhas, lares chefiados por mulheres, por negros ou pessoas autodeclaradas pardas. É a fome reforçando o preconceito. Perceba, também, o tamanho da frequência do drama enfrentado pelo rebento Gerson, acima citado: metade das crianças com menos de cinco anos (6,5 milhões ao todo no País) cresce em residências com algum grau de insegurança alimentar. O que tamanha chaga representa no desenvolvimento do País a maioria desconfia. A alimentação adequada é condição “sine qua non” para o aprendizado e desempenho escolar. Parte majoritária do público de pequeninos encontrava o que comer nas escolas e entidades de ensino. Com o fechamento dos estabelecimentos, em meio à quarentena, nem isso. A merenda de crianças e adolescentes sumiu da rotina e a leitura lógica sinaliza que a pandemia intensificou a vulnerabilidade dos que não comem, numa escalada sensivelmente agravada pelo aumento conjuntural dos preços dos alimentos. Na pororoca de situações inesperadas, todas conspirando para o mal, o desperdício de bilhões de sacas de grãos, frutas e vegetais — que se deixam cair nos transportes de safra, nos equívocos de escoamento ou de armazenamento indevido — parece inconcebível e poderia reparar ao menos parte do drama. Restam ainda a autoestima e esperança dos desvalidos e o caminho da solidariedade, capaz de fazer milagres. Há ainda um Brasil capaz de oferecer um prato a mais para uma boca a mais. Não apenas por meio das entidades filantrópicas e mutirões assistenciais. Cada um pode e deve fazer a sua parte, começando ontem, para legitimar a erradicação dessa doença da fome, que teimou em maltratar logo o povo habitante do celeiro do mundo.

OUTROS OLHARES

LEITURAS NA QUARENTENA

O período prolongado da quarentena em casa teve um aspecto positivo e inesperado para as famílias brasileiras: o público infanto juvenil está lendo mais

Há pelo menos um aspecto positivo nesses tempos de quarentena pelo qual as famílias estão passando: o período prolongado em casa levou as crianças a ler mais. No início da pandemia, passaram mais tempo em frente às telas, celular, videogame e computador. De um tempo para cá, porém, houve um aumento nas vendas de livros infantis em todo o País. Na casa de Benício, de seis anos, a leitura passou a fazer parte do cotidiano. “À noite, antes de dormir, ele nos pede para contar uma história”, conta o designer Murilo Blasich, pai do menino.

Essa família paulistana não tinha o hábito da leitura, mas percebeu a importância de incentivar a prática e dar bom exemplo ao filho. Nos últimos meses Benício já leu dois exemplares: o bem-humorado “O livro do corpo para lá de repugnante”, de Emma Dodson e Sarah Horne, e “Amoras”, do rapper Emicida. Para Dayana da Silva Bueno, da Fundação Abrinq, a leitura faz as crianças conhecerem melhor as palavras e desenvolve a capacidade de interpretação. “A leitura é um meio de entretenimento, mas também de conhecimento e prazer”, diz.

CRESCIMENTO

No último levantamento realizado pela Nielsen Bookscan, em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o mercado dos livros infanto juvenis cresceu cerca de 20% em julho e agosto, na comparação com abril e maio. O fato também foi percebido pela escritora Janine Rodrigues, proprietária da EdTech Piraporiando, que fornece material literário a escolas do Brasil e do exterior. “Tivemos um aumento de 40% nas vendas durante a quarentena”, disse. Ela defende que a leitura na infância é essencial. “Além de fortalecer o vínculo familiar, a criança aprende a questionar as coisas”, diz.

Para a família da fotógrafa carioca Rachel Cruz dos Santos, o livro foi um remédio, uma vez que sua filha Luiza, de seis anos, desenvolveu ansiedade durante a quarentena. Rachel conta que o pediatra chegou a prescrever medicamentos para a menina em julho. “Percebemos que ela ficava agitada ao passar muito tempo na frente das telas”, conta. Em vez de remédios, a mãe comprou livros. “Ela está lendo as ‘Reinações de Narizinho’, de Monteiro Lobato, e adora a Emília”, conta. A leitura reduziu os sintomas de ansiedade de Luiza. Em um País onde a média por habitante é de dois exemplares por ano e 30% da população nunca comprou um livro, a notícia de que as crianças brasileiras estão lendo mais é uma boa surpresa em meio a um ano complicado para todo o mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

14 DE OUTUBRO

FILHOS QUE HONRAM AOS PAIS

Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo (Efésios 6.1).

O quinto mandamento da lei de Deus ordena que os filhos honrem os pais. Este, na verdade, é o primeiro mandamento com promessa. Os filhos que honram os pais recebem de Deus duas preciosas promessas: vida longa e prosperidade. O contrário também é verdade: os filhos que desonram os pais encurtam seus dias sobre a terra e fazem provisão para o desastre. Nenhum filho pode ter um relacionamento certo com Deus se desonrar pai e mãe. Os filhos honram os pais quando os respeitam e lhes obedecem no temor de Deus. Os filhos honram os pais quando seguem seus conselhos e se pautam pelos princípios cristãos aprendidos no lar. Os filhos honram os pais quando buscam sábia orientação destes para suas decisões na vida. Os filhos honram os pais quando são convertidos a eles. Os filhos honram os pais quando cuidam deles na velhice. Um dos sinais de decadência da sociedade é a desobediência dos filhos aos pais. A rebeldia é como o pecado da feitiçaria; é algo abominável aos olhos de Deus. Por isso, os filhos rebeldes são a tristeza dos pais, mas os filhos obedientes são o seu deleite. Filhos bem-aventurados no tempo e na eternidade são aqueles que honram pai e mãe. Honram pela obediência; honram pelo amor desvelado; honram pelo cuidado protetor.

GESTÃO E CARREIRA

A LUTA POR NOVAS CORES NAS EMPRESAS

O movimento negro aumenta a pressão por mais diversidade no mundo corporativo

A ONG Educafro, com um largo histórico de defesa da causa negra, enviou cartas em agosto para três nomes influentes no mercado financeiro brasileiro: Gilson Finkelsztain, presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3: Marcelo Barbosa, presidente da Comissão de Valores Mobiliários, (CVM), órgão estatal que regula e fiscaliza o mercado de capitais; e Pedro Melo, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), dedicado ao fomento de boas práticas de governança nas empresas.

Com um preâmbulo respeitosamente protocolar, o texto não economiza no tom de denúncia bem característico da retórica ativista adotada há décadas pela ONG, uma das pioneiras na defesa de cotas raciais em universidades no Brasil. Em resumo, acusa as entidades dirigidas pelos três executivos de se omitir diante da ausência de pretos e pardos nas salas refrigeradas onde são tomadas as decisões nas empresas de um pais em que eles são 56% da população.

A carta assinada por Frei David Santo, fundador da Educafro e Handemba Mutana dos Santos, um jovem advogado que ajudou a ONG a estruturar a ofensiva, argumenta que as entidades responsáveis pelas regras e pelos padrões que regem o mercado de capitais precisam exigir um compromisso de empresas de capital aberto com ações efetivas de equidade racial e de gênero em postos de liderança. Anúncios recentes de programas dirigidos a pretos e pardos, como os feitos por uma varejista brasileira e uma multinacional alemã, tendem a ter foco em trainees, não na alta direção.

No Brasil, cotas sociais com reserva de vagas para pardos, negros e indígenas vigoram em universidades federais desde 2012. No ano passado, o IBGE detectou pela primeira vez que o número de pretos e pardo superou o de brancos nas universidades públicas, chegando ao patamar de 50,3%. Nas faculdades privadas, o acesso também ficou mais fácil com crédito universitário. No entanto, isso ainda não se refletiu no mercado de trabalho, onde a falta de profissionais qualificados sempre foi uma das explicações preferidas para a ausência de diversidade racial.  Ainda hoje, negros se concentram nas funções operacionais e de menor remuneração e enfrentam taxa de desemprego de 17,8%, bem acima dos 10,4% entre os brancos. Não há sequer um negro entre os presidentes das 100 maiores companhias listadas na Bolsa. O problema não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, onde 10% dos formandos em universidades são negros, eles são apenas 4% dos altos executivos. No Reino Unido, negros e outras minorias étnicas já são 22% dos universitários, mas só 8% dos líderes nas empresas não são brancos.

A distorção brasileira é maior porque aqui, diferentemente desses dois países, a população negra é a maioria. Aproxima-se mais do cenário da África do Sul, onde 79% são negros marcadas pelo passado recente de segregação, mas ocupavam apenas 16% das funções executivas nas companhias em 2017, segundo dados da consultoria McKinsey.  “No Brasil. as empresas e esses órgãos que organizam o mercado atuam como se estivessem na Noruega. Há escritórios formados só por brancos e ninguém se sente questionado por isso”, disse Frei David. O Brasil não se diferencia somente pelo tamanho do problema, mas também pela defesa de cotas como solução.  Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, critérios raciais são levados em conta nas admissões de muitas universidades e de uma parte das empresas, mas reservas especificas de vagas são mais raras.

Nas cartas às entidades. Frei David pediu encontros para apresentar sugestões concretas. Acostumado a ver suas correspondências serem ignoradas, ele recebeu cm poucos dias convites para reuniões on-line com representantes das três entidades, um sinal de que alguma coisa está mudando no radar do ambiente empresarial brasileiro.

Uma série de fatores contribui para isso. Um dos principais é a onda de movimentos antirracistas desencadeados em todo o mundo pelo assassinato do cidadão negro George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos, que chegou ao Brasil. As empresas estão sendo chamadas por ativistas, consumidores, investidores e seus próprios funcionários a se posicionar contra o racismo e ter uma atitude coerente para dentro e para fora, expostas à velocidade dos debates que ameaçam a imagem delas nas redes. E estão atônitas.  “Ouvimos as sugestões da Educafro e, com muita humildade, respondemos: para muita coisa a gente não tem resposta. Compreendemos que precisamos avançar nesse ponto, mas ainda estamos avaliando como”, disse Pedro Melo, dirigente do IBGC, único dos três destinatários das cartas da Educafro que aceitou ouvir Frei David na companhia de seus diretores.

Valéria Café, diretora de Vocalização e Influência do IBGC, disse que os movimentos antirracistas evidenciaram o diagnóstico de que há um problema racial no país, que até agora não foi abordado pelas empresas no Brasil. Segundo ela, o primeiro passo da entidade deverá ser viabilizar uma nova pesquisa para medir a presença de negros em cargos de decisão nas empresas. O último levantamento consistente, para ela, é o do Instituto Ethos, de 2016, que diagnosticou apenas 4,7% de pretos e pardos entre altos executivos e 4,9% nos conselhos de administração. “Temos um papel, sim, de construir uma agenda positiva no sentido de inclusão”.

Dados do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, que reúne desde 2005 empresas listadas na Bolsa comprometidas com o desenvolvimento sustentável, indicam que a mudança é mínima. Da atual carteira formada por 30 empresas (como Natura, Bradesco, Banco do Brasil e Renner, entre outras), que somavam R$ 1,6 bilhão em valor de mercado no fim do ano passado, somente 3% delas têm negros em seus conselhos. E 30% dizem discutir ou avaliar estratégias de inclusão em cargos da alta administração.

No ano anterior, com uma composição diferente, eram 7% e 21%, respectivamente. Na carteira de 2018, quando o questionário usado para admitir as empresas era menos especifico sobre esse tema, 69% das candidatas ao selo de sustentabilidade informaram que não tinham negros no conselho e nem programa de inclusão.

Por isso a B3 se tomou o principal alvo da Educafro. A ONG sugeriu cinco ações que a Bolsa poderia tomar para fomentar a inclusão de pretos e pardos nas empresas. Uma delas é justamente aperfeiçoar o questionário nesse tema. Em vez de apenas perguntar às empresas, a sugestão é estabelecer desde metas de inclusão até mesmo veto a quem não tiver políticas para atingi-las.

O presidente da B3 delegou a conversa com Frei David à superintendente de Sustentabilidade da Bolsa, Gleice Donini. Procurado, Finkelsztain também a indicou para falar do assunto. Assim como o IBGC, a executiva disse que a B3 ainda analisa as propostas da Educafro, mas afirmou que a instituição está estudando uma nova mudança na avaliação de diversidade racial na revisão que está fazendo do questionário do ISE para o próximo ano, que leva em consideração sugestões de empresas e da sociedade civil por meio de uma consulta pública.

Donini disse que as perguntas sobre raça já foram ampliadas na última revisão, em 2018, mas admitiu que é preciso mais “assertividade” nesse tema: “Estamos distantes do ideal nessa área, mas o ISE estimula a empresa a mensurar o problema para definir como tratá-lo”, afirmou a superintendente. Ela frisou que o papel do ISE é de “inclusão” e avaliou que a transparência dos dados e a comparação entre as empresas já é suficiente para estimular as empresas a adotar melhores práticas, apesar do avanço lento.

Ela também não tem uma resposta ainda para outra sugestão da Educafro: criar um índice de equidade racial e de gênero que pudesse mostrar o desempenho só das empresas que investem nisso. Em março, ao participar do evento anual Ring the bell for gender (Toque o sino pela equidade de gênero), o presidente da B3 disse, ao lado de executivas convidadas para a abertura simbólica do pregão que um índice capaz de “tangibilizar” a inclusão da mulher como “vetor de mudança” seria uma evolução. Para Donini a pauta racial deve ganhar força também. “Essa é uma agenda que mudou na sociedade agora, assim como a feminina anteriormente”, disse a executiva. “As empresas estão claramente mudando sua postura, ouvindo essas demandas na questão racial. É um tema que veio para ficar.”

Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos, uma das maiores consultorias de RH do país, admitiu que o tema de gênero teve mais espaço nas empresas, mas disse que isso está mudando. “Políticas de gênero ainda são difíceis de avançar, mas, como a questão racial envolve uma dor, empurra-se para debaixo do tapete. Só que agora isto não é mais possível”, afirmou. Na Cia de Talentos, 80% dos clientes pedem algum corte racial nos processos seletivos. E para aumentar a atração, ela já segue há anos uma receita: deixar para trás exigências como faculdade de primeira linha ou inglês fluente. “Isso não faz mais sentido. Para a empresas, o que conta mesmo é o perfil do indivíduo, de onde ele veio e de que lugar vê o mundo. Não há dúvidas de que as empresas têm melhores resultados com isso”, disse Esteves

Pesquisas tendem a mostrar que diversidade muitas vezes traz benefícios financeiros e de inovação paras as empresas. Um dos estudos mais citados é o da McKinsey, que apontou um aumento de 1% na geração de caixa a cada 10% de avanço na diversidade em companhias. Uma pesquisa da consultoria americana BCG com 1.700 empresas em oito países identificou que, entre as empresas com diversidade acima da média, 45% inovavam. Entre as menos diversas da amostra, só 16%. As do primeiro grupo tinham faturamento 9% maior que as do segundo grupo.

Outro fator econômico que favorece a agenda racial é o fato de que os conceitos de sustentabilidade são vistos cada vez mais pelos investidores como uma coisa ampla, que se resume hoje em três dimensões na sigla em inglês ESG: ambiental, social e de governança. A primeira assombra as multinacionais e exportadoras brasileiras diante da condenação mundial da política do governo brasileiro para a Amazônia, desencadeando uma série de iniciativas delas para se afastar desse risco de imagem. A de governança é a mais desenvolvida já pelas empresas. “A dimensão social é a que está ganhando mais força agora e ficou mais latente na pandemia”‘, avaliou Marcella Ungaretti, analista de ESG da XP Investimentos.

“Já são USS 30 trilhões gerenciados no mundo por fundos que consideram os parâmetros ESG para decidir em que empresas vão investir. É uma demanda crescente de investidores e analistas, que só ganhou destaque no Brasil mais recentemente, mas avança rápido”, disse Ungaretti.

Em vez de indicar um porta-voz, a CVM respondeu sobre as sugestões de Frei David – que foi ouvido por um conjunto de executivos da autarquia sem a presença do presidente – por meio de um comunicado. Diz que incentiva a transparência das empresas em relação à diversidade e tem a previsão de revisar o Formulário de Referência (conjunto de informações que empresas de capital aberto são obrigadas a oferecer ao mercado) para reforçar a divulgação dos aspectos ESG. A nota também afirma que desenvolve ações de inclusão no sistema financeiro e recomenda aos gestores de empresas considerarem as recomendações de diversidade em órgãos de administração e gerenciais do Código Brasileiro de Governança Corporativa (CBGC). “A questão racial insere-se na temática da diversidade e é um dos aspectos a serem considerados pelos emissores (de ações)”, diz o texto, sem mencionar iniciativa regulatória.

Para o historiador Douglas Belchior, dirigente da rede de cursos preparatórios de universitários negros Uneafro e integrante da Coalizão Negros de Direitos, as empresas estão chegando muito tarde a esse assunto, mas terão de acelerar o passo. Ele não tem dúvida de que o mercado de trabalho é a nova fronteira dos movimentos negros por inclusão, que já conseguiram as cotas em universidades e no serviço público federal. “O racismo no Brasil é perverso a ponto de conseguir manter as pessoas fora das empresas sem ter segregação institucionalizada”, afirmou Belchior. “Os Jovens, inclusive os brancos, não aceitam mais isso. Meus filhos não vão mais aceitar que não há lugar para eles. Não será nunca mais como é agora”, completou o historiador.

A PSIQUE E AS PSICOPATIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – XI

SEM DÓ NEM PIEDADE

Os 10 serial killers mais terríveis da história mundial

Segundo dados do Mapa da Violência 2014, mais de 52 mil homicídios – de pessoas entre 15 e 29 anos – foram registrados no Brasil somente no ano de 2011. É fato que nem todos foram cometidos por psicopatas ou assassinos em série; entretanto, casos conhecidos de crimes violentos costumam estampar as páginas policiais de jornais brasileiros e internacionais todos os meses.

Alguns deles parecem histórias de filmes de ficção por conta do seu grau de frieza e meticulosidade, enquanto outros são movidos por uma violência extrema de corrente de uma súbita emoção ou simplesmente daquilo que o homicida considera o correto a ser feito.

A seguir, contamos a história dos dez maiores assassinos em série da vida real, levando em conta registros de números de vítimas. Em cada caso, há uma justificativa diferente para os crimes e atos cometidos sem dó, nem piedade.

ISABEL BÁTHORY (A CONDESSA DRÁCULA)

NACIONALIDADE: HÚNGARA

NÚMERO DE VÍTIMAS: POR VOLTA DE 650

PERÍODO DE ATUAÇÃO: ENTRE 1600 E 1620

Também chamada de “A condessa sangrenta”, casou-se aos 15 anos com o conde Nádasdy. No entanto, seu esposo passava muitas temporadas longe de casa por ser um militar. Assim, Isabel assumiu os deveres de cuidar do castelo e de toda a família. Muito cruel com os seus funcionários, Isabel costumava punir friamente quem desrespeitasse suas ordens. Ela espetava agulhas nas partes sensíveis do corpo de suas vítimas ou as executava, deixando-as nuas e fazendo-as andar na neve até morrerem congeladas. Quando retornava à casa, o marido costumava ajudar a condessa com as punições. Mesmo após o falecimento do conde, as mortes continuaram. Isabel passou a beber o sangue de suas vítimas e contava com a ajuda de cinco cúmplices que acobertavam seus crimes. Depois de anos, ela começou a ser investigada e encontraram uma agenda com os nomes de mais de 650 vítimas.

SENTENÇA: seus ajudantes foram decapitados ou jogados na fogueira, enquanto Isabel – por ser nobre – foi condenada à prisão perpétua.

HENRY LEE LUCAS

NACIONALIDADE: NORTE-AMERICANO

NÚMERO DE VÍTIMAS: CONFESSOU MAIS DE 600 ASSASSINATOS

PERÍODO DE ATUAÇÃO: ENTRE 1960 E 1983

Henry Lee teve uma infância conturbada. Ele era filho de uma prostituta que agredia os filhos e os obrigava a assisti-la ter relações sexuais com os clientes. Em uma briga com um dos irmãos, foi atingido no olho e teve uma infecção, precisando utilizar um olho de vidro. A mãe também o vestia com roupas de menina e o obrigava a ir para a escola dessa maneira, onde era ridicularizado pelas outras crianças. Foi seu irmão mais velho – que também o molestava – quem ensinou o garoto a torturar e matar animais.

Aos 18 anos, ficou preso por roubo durante seis anos. Em 1960, após ser libertado, assassinou a própria mãe e voltou à detenção por mais dez anos. Depois de sair da cadeia, conheceu seu parceiro de crimes, Ottis Toole. Juntos, os dois mataram centenas de mulheres e cometeram atos de necrofilia e até canibalismo.

Lucas confessou muitos outros crimes ao longo dos anos, pois assim suas condições de vida na prisão melhoraram. Em alguns casos policiais chegaram a inventar crimes, dos quais o assassino se afirmava culpado.

SENTENÇA: prisão perpétua. Morreu em 2001 devido a um problema cardíaco.

PEDRO ALONSO LÓPEZ (MONSTRO DOS ANDES)

NACIONALIDADE: COLOMBIANO

NÚMERO DE VÍTIMAS: MAIS DE 300

PERÍODO DE ATUAÇÃO: DÉCADAS DE 1970 E 1980

López é acusado de matar e estuprar mais de 300 pessoas no Peru, na Colômbia e no Equador. Filho de uma prostituta, foi expulso de casa aos oito anos, por tentar abusar sexualmente de sua irmã mais nova. Durante a infância, foi acolhido por um pedófilo que abusou dele nessa fase da vida.

Aos 18 anos, foi preso por roubo de carros. Na cadeia, foi espancado por uma gangue e vingou-se assassinando quatro integrantes do grupo. Ao ser solto, começou a matar meninas entre nove e 12 anos. López declarou ter preferência pelas equatorianas, por pensar que eram mais gentis e inocentes. Ele estuprava e assassinava suas vítimas, depois as enterrava.

Então, em 1980, uma enchente revelou alguns cadáveres escondidos. Pedro foi acusado e capturado pela polícia, confessando seus crimes. No entanto, os investigadores não acreditaram na história até López levá-los ao local onde estavam enterrados cerca de 50 corpos.

SENTENÇA: condenado a 20 anos de prisão. Foi liberado, em 1998, e nunca mais visto.

HAROLD SHIPMAN (DOUTOR MORTE)

NACIONALIDADE: BRITÂNICO

NÚMERO DE VÍTIMAS: EM TORNO DE 215

PERÍODO DE ATUAÇÃO: NOS ANOS DE 1970 A 1990

Ainda aos 17 anos, Harold acompanhou lentamente a mãe lidar com o câncer. Ele viu seus últimos anos de agonia serem aliviados pelo uso das doses diárias de diamorfina (nome científico da heroína) que os médicos aplicavam. Após a morte da mãe, ingressou na Escola de Medicina de Leeds, no Reino Unido, e tornou-se médico.

O primeiro assassinato ocorreu em 1975, após se formar. Harold aplicava grandes doses de diamorfina em seus pacientes; a maioria era mulheres acima dos 40 anos, semelhante ao perfil de sua mãe.

Seus colegas de consultório, então, começaram a desconfiar do grande número de mortes dos seus pacientes. Após a abertura de uma investigação, Shipman foi considerado um serial killer. Mais de três mil nomes constavam nos arquivos de seu consultório, mas apenas 215 casos do Doutor Morte foram investigados.

SENTENÇA: condenado à prisão perpétua em 1998. Contudo, cometeu suicídio na sua cela em 2004, enforcando-se com os lençóis da cama.

PEDRO RODRIGUES FILHO (PEDRINHO MATADOR)

NACIONALIDADE: BRASILEIRO

NÚMERO DE VÍTIMAS: EM TORNO DE 100

PERÍODO DE ATUAÇÃO: DÉCADAS DE 1970 E 1980

Da pequena cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, Pedro começou seus crimes ainda aos 14 anos, quando assassinou o prefeito do município. Seu pai trabalhava em uma escola municipal e foi acusado de roubar a merenda. Assim, foi despedido pela própria prefeitura. No entanto, o verdadeiro ladrão era um guarda do colégio, que Pedro também assassinou pouco tempo depois. Dessa forma, começaram os crimes daquele que se considera um justiceiro por matar apenas aqueles que “merecem”.

Na infância e adolescência, envolveu-se em brigas de facções, executando traficantes. Foi preso aos 19 anos, mas isso não o impediu de matar criminosos na cadeia durante sua estadia. Pedro também foi responsável pela morte do pai, após descobrir que ele teria assassinado sua mãe com 21 facadas. Ele jurou vingança, e, quando o pai foi preso, Pedro deu-lhe 22 facadas, arrancou o coração, mordeu um pedaço e cuspiu-o no chão. Ao todo, foram comprovados 71 homicídios cometidos por Pedro mas ele afirma ter matado mais de 100 pessoas.

SENTENÇA: foi condenado a 120 anos de prisão, mas cumpriu aproximadamente 30 anos, quando foi solto em 2007. No entanto, três anos depois, foi preso novamente por participação em rebeliões.

DONALD HENRY GASKINS (PEE WEE)

NACIONALIDADE: NORTE-AMERICANO

NÚMERO DE VÍTIMAS: POR VOLTA DE 100

PERÍODO DE ATUAÇÃO: DE 1953 A 1982

Durante a infância, sua mãe foi muito negligente. Quando tinha um ano de vida, Donald bebeu uma garrafa de querosene e sofreu com convulsões até os três anos. Depois do trauma, vieram as agressões físicas dos padrastos. Seus primeiros crimes, durante a adolescência, foram roubos. Gaskins foi identificado por uma testemunha e enviado para uma escola reformatória. Após algumas fugas e retornos constantes à instituição, foi solto aos 18 anos.

No entanto, voltaria à cadeia poucos anos depois, acusado de tentar assassinar uma adolescente que teria o insultado. Ficou preso por mais seis anos, até conseguir fugir da prisão. Assim, viu-se livre para cometer seus crimes, motivado por ter sido insultado, roubado ou por lhe deverem dinheiro. Donald costumava torturar suas vítimas ao máximo e utilizava métodos como facadas, mutilação e asfixia. Ele também chegou a praticar canibalismo com os corpos de algumas pessoas.

SENTENÇA: foi denunciado por uma testemunha que ouviu, durante uma conversa, o local onde ele enterrava os corpos. Após confessar te matado mais de 100 pessoas e seu colega de cela, foi condenado a morte na cadeira elétrica.

THEODORE ROBERT COWELL (TED BUNDY)

NACIONALIDADE: NORTE-AMERICANO

NÚMERO DE VÍTIMAS: ENTRE 30 E 35 MULHERES

PERÍODO DE ATUAÇÃO: DÉCADA DE 1970

Na infância, uma tia do criminoso disse ter acordado no meio da noite e encontrado o garoto brincando com facas, ao lado de sua cama. Já na faculdade de direito, era conhecido por ser um excelente aluno e visto por seus amigos como sincero, bonito e bom comunicador. Em seus crimes, Bundy costumava se aproximar de mulheres jovens com cabelo liso e escuro, parecidas com sua primeira namorada. Por meio de sua simpatia, Theodore as abordava em locais públicos e convidava para passear em seu Fusca. Em seguida, a atingia com uma pancada na cabeça e sequestrava para praticar o estupro. Ted também gostava de ter relações sexuais após a morte das jovens ainda que os corpos estivessem em estado de putrefação. O assassino decapitou, pelo menos 12 mulheres e manteve suas cabeças em seu apartamento, como troféus.

Seus crimes foram descobertos quando, ao ser abordado por um policial, fugiu em seu carro, sendo capturado como suspeito de um roubo. Algum tempo depois, confirmou-se que era o assassino das jovens. Ted também fugiu da prisão duas vezes, mas foi capturado.

SENTENÇA: foi julgado e executado na cadeira elétrica em 1989.

JEFFREY LIONEL DAHMER (O CANIBAL DE MILWAUKEE)

NACIONALIDADE: NORTE-AMERICANO

NÚMERO DE VÍTIMAS: 15

PERÍODO DE ATUAÇÃO: ENTRE AS DÉCADAS DE 1970 E 1990

Na adolescência, Dahmer tinha o hobby de dissecar animais e até mantinha um cemitério particular nos fundos de sua casa. Seus amigos o descreviam como estranho e logo descobriram que o adolescente era alcoólatra.

Foi abandonado pela mãe – sem dinheiro e semcomida – após terminar o ensino médio. Mesmo assim, começou a faculdade e desistiu três meses depois. Nessa época, cometeu seu primeiro assassinato. O pai, semsaber do crime, o fez entrar no Exército. Nos dois anos de serviço prestado, Dahmer aprendeu muito sobre a anatomia humana e acabou sendo dispensado por conta do alcoolismo. Em 1982, foi morar com a avó por seis anos. Na cidade, foi detido algumas vezes por se masturbar em público e cumpriu dez meses na prisão. Sua avó então o expulsou de casa por conta de suas noitadas e pelos maus cheiros que vinham do porão. Assim, Jeffrey mudou-se para a cidade de Milwaukee, nos Estados Unidos, onde cometeu crimes como necrofilia, canibalismo e abuso sexual. Foi descoberto, em 1991, após uma de suas vítimas escapar. Ao vasculhar a casa, policiais encontraram fotos dos assassinados, partes do corpo no freezer e cadáveres em vasilhas com ácido. Ainda foi descoberto um altar com velas e crânios dentro do seu armário.

SENTENÇA: 957 anos de prisão. No entanto, foi espancado até a morte por outro preso.

DENNIS ANDREW NILSEN (O ASSASSINO GENTIL)

NACIONALIDADE: ESCOCÊS

NÚMERO DE VÍTIMAS: APROXIMADAMENTE 15

PERÍODO DE ATUAÇÃO: DE 1978 ATÉ 1983

Nilsen não lidava bem com a sua orientação sexual, nem a sua família. Sua mãe, por exemplo, o pressionava para casar-se com uma mulher e ter filhos, mas isso não era o que ele queria. Então, a família se afastou e, solitário, Dennis passou a abusar de bebidas alcoólicas e a paquerar homens mais jovens nos bares.

Após alguns relacionamentos darem errado, Nilsen começou a se aproximar, na maior parte dos casos, de jovens homossexuais ou desabrigados. Ele os convidava com o intuito de oferecer abrigo, comida e alguns drinques. Depois, estrangulava suas vítimas ou as afogava em banheiras. Em seguida, deixava os corpos em sua cama por semanas, masturbando em cima deles e, algumas vezes, conversando com os cadáveres. Para escondê-los, costumava dissecar e mantê-los embaixo do assoalho, queimava junto a pneus no quintal ou desmembrava os corpos para jogá-los fora pelo encanamento. Os crimes foram descobertos após os canos do esgoto entupirem e um funcionário encontrar alguns pedaços de carne e pequenos ossos de origem desconhecida.

SENTENÇA: em 1983, recebeu a sentença de cumprir, pelo menos, 25 anos preso. Embora o tempo mínimo tenha passado, Nilsen continua preso.

FRANCISCO DE ASSIS PEREIRA (MANÍACO DO PARQUE)

NACIONALIDADE: BRASILEIRO

NÚMERO DE VÍTIMAS: CERCA DE 10 MULHERES

PERÍODO DE ATUAÇÃO: FINAL DA DÉCADA DE 1990

Segundo os depoimentos do próprio Francisco, durante a infância, ele havia sido molestado por uma tia e criou grande fixação por seios. Além disso, em um de seus relacionamentos amorosos, uma namorada gótica quase arrancou-lhe o pênis com a boca. Assim, Francisco tinha fortes dores durante as relações sexuais com suas vítimas.

O Maníaco do Parque ficou conhecido por estuprar e matar diversas vítimas no Parque do Estado, ao sul da cidade de São Paulo. O motoboy, que trabalhava na região do Brás, na capital paulista, abordava as mulheres na rua, estacionando sua moto e apresentando-se como agenciador de modelos. Assim, convencia suas vítimas a fazer uma sessão de fotos na natureza. Então, eram levadas até o Parque do Estado. No local, ele estuprava e estrangulava as moças.

Em meados de julho de 1998, seiscorpos nus foram encontrados com marcas de mordidas nas coxas, ombros e seios. A polícia então começou as investigações e encontrou três mulheres que haviam registrado tentativas de estupro na região. Assim, após a divulgação de um retrato falado do Maníaco do Parque, Francisco foi encontrado.

SENTENÇA: foi acusado de estupro, roubo, homicídio e ocultação de cadáver. Passou por alguns julgamentos e foi sentenciado a cumprir cerca de 270 anos de prisão.

EU ACHO …

VIVER EM PAZ

As pessoas falam em amor à primeira vista. Não creio que isso exista – a mim, parece ilógico, uma conexão impossível, uma vez que o amor é uma construção, e não uma fagulha, um instante. Acredito em paixão à primeira vista, pois é a paixão que solta faíscas, é a paixão que dá o disparo, a paixão que desassossega e faz perder a razão.

O amor é um produto da convivência, da admiração, do pensar sobre o outro, do sentir a ausência de maneira calma, e não em desespero. Por isso, uma vida em paz é uma vida com amor, uma vida que surge depois que a energia explosiva da paixão se converte em amor perenizável. Gosto mesmo da ideia de amar o amor – a capacidade de guardar aquilo que me faz bem. É claro que a paixão também faz bem, mas só por um certo tempo. Ela não pode ser persistente, caso contrário ela faz adoecer, ela descontrola, suspende a noção de tempo e espaço.

Assim, paz de espírito é aquilo que faz com que eu consiga orquestrar as minhas paixões de maneira que elas se convertam em energia positiva e controlável.

Por esse ponto de vista, para ter paz de espírito, viver em paz é saber que está fazendo o que precisa fazer. Isso exige racionalidade.

Obedecer ao coração não é ser dominado pelo coração, não é excluir a razão. Obedecer ao coração é agir em equilíbrio, numa parceria entre o coração e a razão. Para mim, o equilíbrio ideal é aquele da bicicleta, o equilíbrio que só existe quando se está em movimento.

Algumas religiões consideram o equilíbrio e o alcance da paz como estados de ausência de qualquer emoção. Para mim, equilíbrio não é um ponto estático entre dois opostos, não é estar no meio. É ir aos extremos e não se perder, seja na ciência, na religião, na política, nos experimentos, no erótico. É ser capaz de vivenciar os múltiplos territórios da vida sem neles se ancorar.

A pessoa que vai para a “balada” e fica com um, depois fica com outro e no próximo final de semana fica com mais outro, bem, essa pessoa não é alguém que tem muitas possibilidades, e sim alguém com uma lacuna de sentimentos. Excesso de oferta muitas vezes é incapacidade de escolha. Quem transa com quem quer quando quer não é um libertário, e sim uma pessoa com um sentimento caótico em relação a suas escolhas. Pode-se argumentar que a pessoa escolheu ficar com muitos. Tudo bem, mas tenha em mente que, se tudo é prioridade, então não existe prioridade nenhuma. É como mural de faculdade: lotado ou vazio dá no mesmo, já que ninguém lê.

Escolher é adotar certas posturas e deixar outras de lado. Em sânscrito, havia uma ótima palavra para isso: cria, que quer dizer purificar. Ela deu origem à palavra crisis, em grego, de onde vem a palavra crítica e também a palavra critério. Criticar é separar o que uma pessoa deseja do que ela não deseja. Assim, ter uma vida crítica é ter uma vida consciente. Aquele que leva uma vida não crítica, ou sem critérios, não tem rumo, é um alienado.

Por isso, o equilíbrio não está em vivenciar tudo e qualquer coisa, mas em saber fazer escolhas sabendo que nem toda escolha é válida. Se toda escolha tiver validade, estamos no campo do relativismo, que é ausência de critério.

Se tudo tem validade, até a apreciação do mundo fica afetada. Gostar de qualquer comida ou de qualquer pessoa denota que a noção de gosto está prejudicada. Gostar, ter afeto, desejar sem critério só demonstra ausência de capacidade de entendimento.

Assim como a carência define os nossos rumos, é a ausência que molda nossos gostos. Uma pessoa só sente felicidade ou paz porque a felicidade e a paz não são contínuas. Nós só valorizamos algo quando há a possibilidade desse algo se ausentar. O exílio dá saudade. A felicidade contínua é uma impossibilidade, uma vez que as pessoas vivem em meio a outras pessoas e a atribulações. Mas, se a felicidade pudesse ser um estado contínuo, nós não a perceberíamos, assim como não percebemos nossa respiração, exceto na carência, quando o ar falta.

O erótico, claro, é um princípio vital. Freud dizia que as pessoas são regidas por duas pulsões, dois impulsos, aos quais ninguém consegue resistir: o erótico (vital) e o tanático (destrutivo). Freud tem uma grande descrença na capacidade humana. Para ele, biologia é quase destino.

Para mim, não é bem assim. Concordo, por exemplo, que o impulso tanático deve ser controlado, pois, se não fosse, não haveria civilização. Mas discordo quando ele diz que o erótico é o impulso da paixão e, portanto, também destrutivo e insustentável. O erótico, na minha concepção, é o impulso do amor, da construção, da vibração – pois a vida vibra. Vibrar significa ressoar, fazer sentir a presença. E você vibra perante a pessoa que você ama, o prato que aprecia, a música que frui, numa vibração que inevitavelmente estabelece uma conexão. Os gregos chamavam essa conexão de simpatia, ou aquilo que cria uma ligação, uma união entre nós. Já em latim, isso seria conhecido como amizade.

Tudo isso passa por uma lógica que aprendi com Janete Leão Ferraz, com quem sou casado. Quando começamos a namorar, mais de 25 anos atrás, ela colocou uma música do Djavan para deixar claro como deveria ser um relacionamento no entender dela: ”Se você quer zero a zero, eu quero um a um”.

São dois empates, mas dois empates diferentes. O empate do zero a zero é aquele do caminho do meio, aqueles que os gregos antigos chamavam de caminho da virtude. Já o empate do um a um exige movimento.

Exige esforço e apego, e não acomodação e desapego.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraido do livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

ALÉM DA BARBA, CABELO E BIGODE

Nova geração de cosméticos masculinos ultrapassa a mera vaidade: apostam em saúde, inovação, bem-estar e praticidade

A divisão de gênero na indústria da beleza começou com o perfume, as colônias e as águas de cheiro: “Pour Homme”, em francês, para dar luxo à fragrância e “Pour Femme”, quando destinados às mulheres. Mas, por muito tempo, os setores voltados à beleza e aos cosméticos no País ignoraram o lucrativo mercado masculino. As linhas “Homem” das principais marcas brasileiras como Natura, Boticário e Avon, eram pequenas até meados dos anos 2000 e se baseavam basicamente nos desodorantes, produtos para a barba, xampu e o condicionador. A partir de 2010, marcas como a Dove, da gigante Unilever, e suas concorrentes, começaram a expandir a vasta gama de produtos de beleza para os homens. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o Brasil é segundo País do mundo que mais consome produtos e fragrâncias masculinas.

“Lembro do meu pai, depois de jogar futebol com amigos, ir para o vestiário com uma toalha e um sabonete em barra qualquer. Hoje, a nécessaire é um item amplamente aceito entre os homens”, diz Alain Muramatsu, um dos fundadores da startup Kásia Cosméticos. A marca trouxe conceitos inéditos para o mercado nacional, como a argila modeladora para cabelos e o xampu probiótico, que controla a saúde do couro cabeludo. A existência de uma startup fundada por dois ex-funcionários, um da Natura e outro da Cless Cosméticos, chama a atenção. “A empresa surgiu para produtos masculinos com o nome Go Man, mas a demanda foi tanta que virou o braço de uma marca maior, que atenderá outros públicos”, afirma Bruno Weiers.

De acordo com o último “Caderno de Tendências” da ABIHPEC, a expectativa pré-pandemia era de que o mercado brasileiro masculino de cuidados pessoais passasse a marca de US$ 6,7 bilhões comercializados até 2020. “A maioria dos cosméticos são vendidos em farmácias, mercados ou pelo e-commerce, lugares abertos durante a pandemia. O impacto, para nós, não será grande”, diz Weiers. O corretor de imóveis de luxo, Dante Manfrim, divide o espaço do banheiro com a mulher quando o assunto é cosmético. “Eu uso protetor solar, produtos para a barba, protetor labial, creme para o rosto e para corpo, mais perfume e desodorante”. Manfrim, contudo, segue à risca o movimento de muitos brasileiros que ainda focam no perfume. Com 14 frascos, descarta apenas a maquiagem, mas não nega a possibilidade de vir a pintar o cabelo no futuro, por exemplo.

Entretanto, outra tendência do mercado é ampliar o leque ainda mais: tirar o gênero do rótulo de vários produtos, diminuir o tamanho das embalagens e deixá-las com cores neutras e com informações claras. A explosão das barbearias com mesas de sinuca e cerveja artesanal foi um movimento forte no Brasil. Produtos em formato de bebidas, caveiras, motocicletas e vários elementos ligados ao imaginário do “macho alfa” não devem prosperar. Manfrim, aos 37 anos, diz que usa produtos de beleza desde os 12 e seu filho de 16 segue seus passos. “Não tenho vergonha de ser vaidoso e como diria aquela música: use filtro solar”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

13 DE OUTUBRO

NÃO RASGUE AS VESTES, RASGUE O CORAÇÃO

Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes… (Joel 2.13a).

O povo hebreu manifestava sua profunda tristeza rasgando as vestes. Era sinal de pesar e prova de verdadeiro quebrantamento. Com o passar do tempo, as pessoas continuaram a praticar o gesto, mas sem o sentimento correspondente. Rasgar as vestes tornou-se apenas um ato cênico, sem nenhuma sinceridade diante de Deus. Era uma mostra de quebrantamento diante dos homens, sem nenhum arrependimento diante de Deus. Tornou-se um show, um teatro, uma encenação para impressionar as pessoas. Tornou-se consumada hipocrisia. O profeta Joel alertou o povo de Israel a rasgar o coração, e não as vestes. Não adianta fazer um espetáculo diante dos homens, com gestos profundos, emoções abundantes e palavras piedosas. Deus não se impressiona com o nosso desempenho exterior. Ele vê o coração e procura a verdade no íntimo. Deus não se satisfaz com palavras vazias e gestos exteriores. Não aceita uma espiritualidade apenas de aparência. Ele repudia o farisaísmo e não tolera a hipocrisia. Aqueles que tentam justificar-se diante dos homens e impressionar Deus rasgando suas vestes enganarão a si mesmos. A falsa modéstia é orgulho consumado. A espiritualidade farisaica não passa de tola vaidade. Não são aqueles que rasgam as vestes que são recebidos por Deus, mas os que rasgam o coração.

GESTÃO E CARREIRA

GUERRA DO LUXO

O conglomerado francês LVMH, dono da Louis Vuitton, e a grife americana de joias Tiffany & Co. deixam a elegância de lado e lavam a roupa suja nos tribunais após compra dar errado. Negócio de US$ 16,2 bilhões, firmado em novembro, não previa a ocorrência de uma pandemia

Anunciada com pompa e circunstância em novembro do ano passado, a compra bilionária da Tiffany & Co. pela gigante LVMH tinha tudo para ser um sucesso. Ambas as partes sairiam ganhando. Porém, no meio do caminho tinha uma pedra, e não era de diamantes, e sim uma pandemia mortal que fechou todas as portas e derrubou as bolsas de valores de todo o mundo. Se, no ano passado, a soma de US$ 16,2 bilhões (R$ 92 bilhões em reais com o dólar atual) parecia apenas um punhado de dólares para Bernard Arnault, diretor da LVMH e um dos dez homens mais ricos do mundo e o mais rico da França, em setembro de 2020, ele decidiu pensar melhor.

Alegando problemas diplomáticos entre França e Estados Unidos, tarifas comerciais e valor incompatível com mercado atual, a LVMH adiou a fusão, tentou negociar e por fim anunciou que não compraria mais a marca americana. Os acionistas da Tiffany & Co. resolveram não deixar por isso mesmo. Entraram com um processo na justiça americana pedindo a realização da compra nos termos previamente acordados. Em nota, a LVMH se disse “surpresa” com o processo e que vai contra-atacar. A LVMH ainda tentou colocar a culpa no governo francês, dizendo que recebeu uma carta pedindo para que a aquisição não acontecesse antes de janeiro de 2021, devido a possíveis tarifas alfandegárias dos produtos franceses no mercado americano. O Ministério de Finanças da França tirou o corpo fora e disse que não tinha nada a ver com a história.

A Tiffany alega que o conglomerado está fazendo de tudo para não cumprir o combinado, o que parece ser o caso. Contudo, Bernard Arnault não largará o osso tão cedo e prometeu “lutar vigorosamente” na justiça de Delaware, estado americano onde o processo foi movido “O processo movido pela Tiffany demonstra a desonestidade da empresa em suas relações com a LVMH. A ação diz que a LVMH falhou em tomar as medidas razoavelmente necessárias para obter as aprovações das várias autoridades regulatórias em tempo hábil. Essa acusação não tem fundamento e a LVMH vai demonstrar isso ao Tribunal de Delaware”, disse a empresa em nota escrita por Arnault.

NO BRASIL

Se o futuro é incerto, isso pode afetar o consumidor? Com seis lojas no Brasil, a famosa joalheria com sede na Quinta Avenida em Nova York, não deve perder o seu glamour com as brigas nos tribunais. Muito menos as mais de 70 marcas da LVMH que, além da Louis Vuitton, incluem Dior, Givenchy e Marc Jacobs. Isso para ficar na ala “fashion”. O grupo também comanda o mercado de bebidas, lojas de maquiagem e recentemente adquiriu 5% das ações de um grupo de mídia, que comanda a revista Paris Match, por exemplo. “O mercado de luxo já passou por muitas crises e sempre se recuperou. Algumas grifes não pararam de vender nem mesmo durante as grandes guerras.

O que muda agora é que todos foram obrigados a fechar e a repensar o modelo de negócio”, explica a especialista em mercado de luxo, Malu Albertotti. Com formação em Negócios de Luxo pela ESSEC Business School em Paris, a especialista acredita que o setor de joias demore mais para ser aquecido, mas não vê a possibilidade de uma marca como a Tiffany falir num futuro próximo. A Hermès, por exemplo, marca francesa das famosas bolsas Birkin que não cedeu a pressão de compra da LVMH há dez anos, vai muito bem, obrigada. Continua sendo uma empresa familiar, comandada pela sexta geração de herdeiros.

O luxo chegou tarde ao País. Foi apenas na década de 1980 e 1990 que as grandes marcas começaram a aparecer por aqui. Em 1989, momento de alta inflação e incertezas financeiras, abria a primeira loja da Louis Vuitton no Brasil. “É algo recente na nossa história e o mesmo acontece com o mercado chinês, por exemplo”, diz Malu Albertotti. Ou seja, em países em desenvolvimento e onde há maiores chances de mobilidade social, o mercado vai se recuperar. O problema parece estar na própria Europa. Em Paris, 40% do consumo acontecia por meio do turismo. Se ninguém está viajando para a cidade mais visitada do mundo, há um problema enorme.

Existe ainda o comportamento das novas gerações diante do consumo, pois tendem a consumir de forma mais questionadora: de onde vem esse produto que eu estou comprando? Que ideia essa marca quer me vender? Ela respeita o meio ambiente? O mercado está de olho nessa tendência. “A moda e o luxo são coisas diferentes. A moda é cíclica, feita para ser descartada, mas o luxo é para sempre”, diz Albertotti. LVMH e Tiffany sabem disso e, apesar da suspensão do negócio, continuarão se sustentando com a força de suas marcas. Só se lamenta a falta de elegância de uma briga judicial.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – X

PSICOPATAS NA FICÇÃO

Os personagens mais famosos em series, livros e filmes

DEXTER

Quando o assunto é psicopata, Dexter Morgan é o representante número um no mundo das séries. Protagonizando a atração que leva seu nome, o personagem é um policial durante o dia e…um assassino à noite! A obra é baseada nos livros de Jeff Lindsay e estreou em 2006, contando a história de Dexter, um assassino em série que trabalha como analista forense na polícia de Miami, nos Estados Unidos. Ainda criança, o personagem teve o perfil psicopata diagnosticado pelo pai adotivo, que ensina o garoto a seguir um código, em que ele pode saciar suas vontades sanguinárias matando apenas aqueles que merecem, que para ele são outros assassinos.

Dexter cresce escondendo seu lado sombrio durante o dia e “fazendo justiça” durante a noite. Porém, ao longo da série, o cerco vai se fechando, e fica cada vez mais difícil ocultar seus instintos, principalmente daqueles que ele ama, como sua família e sua esposa. A atuação do ator Michael C. Hall para a adaptação em série de TV foi tão boa que rendeu o prêmio de melhor ator no Globo de Ouro, em 2009.

HANNIBAL LECTER

Difícil não se deixar levar pelo poder de convencimento deste personagem tão complexo. Interpretado pelo premiado ator Anthony Hopkins, o personagem Hannibal Lecter faz parte de diversos filmes, tamanho foi o sucesso do primeiro longa, O Silêncio dos Inocentes, de 1991. Em seguida, vieram Dragão Vermelho, Hannibal e Hannibal – A Origem do Mal, todos em torno deste personagem enigmático. Dr. Lecter é um psiquiatra com tendências canibais e assassinas. Criado pelo escritor Thoma Harris, é conhecido como um dos assassinos mais frios e inteligentes da ficção. Isso porque possui uma personalidade calma, e centrada, ao mesmo tempo em que é um assassino sem piedade.

Longe da imagem de um psicopata desequilibrado, Hannibal possui um perfil meticuloso e inteligente. Mesmo após ser capturado; o assassino ajuda a polícia a perseguir outros criminosos. Porém, até que ponto se pode confiar em um psicopata? Além dos filmes, ainda há a série Hannibal, com a mesma abordagem psicopática assassina.

JOHN DOE

Poucos filmes conseguiram prender o espectador do começo ao fim como Seven Os Sete Crimes Capitais, de 1995. A trama envolve dois detetives em busca de um assassino em série que baseia seus crimes nos sete pecados capitais: gula, avareza, inveja, luxúria, ira, preguiça e orgulho. O criminoso em questão é John Doe (Kevin Spacey), que se mantém ausente fisicamente durante boa parte do filme. John extermina suas vítimas inspirado no pecado que ela mais comete, como ao obrigar um homem a comer até a morte, representando o pecado da gula. Ao ser revelado, Doe apresenta uma personalidade doentia e sádica, e não se considera um assassino ou um psicopata. Acredita estar fazendo o melhor para essas pessoas, já que elas haviam sucumbido doentiamente a algum dos pecados. O passado do personagem envolve uma infância com abusos da mãe alcoólatra e a traição de sua esposa. O acumulo de todas essas emoções junto ao transtorno de personalidade antissocial colaboraram para a transformação de John Doe emum psicopata que mata em nome de Deus.

JIGSAW

Quem assistiu a algum dos oito filmes da saga Jogos Mortais já deve ter escutado a frase “eu quero jogar um jogo”. O autor dela é John Kramer (Tobin Bell), um serial killer maníaco por jogos de tortura. O assassino sequestra pessoas que considera que não dão valor para a própria vida, e as submete a jogos psicológicos de tortura e armadilhas mortais. Kramer não se considera um psicopata, já que acredita ajudar essas pessoas, dando a elas uma segunda chance para viver. O personagem é um engenheiro civil vítima de um câncer de cólon; ao saber que seu caso não teria cura, tenta cometer suicídio jogando o próprio carro em uma ribanceira. Ao sobreviver ao acidente, vê uma segunda chance para sua vida e decide fazer o mesmo com outras pessoas, porém, de forma bem mais macabra. Kramer se apresenta como o boneco Jigsaw DJ, que tortura suas vítimas envolvendo o sacrifício de algum ente querido do prisioneiro em questão, ou algum valor moral muito importante para a vítima (como fobias ou traumas de infância). A assinatura do serial killer é o desenho de uma peça de quebra-cabeça no corpo da vítima, uma brincadeira com seu próprio nome, Jigsaw DJ, que significa “peça de quebra-cabeça” em inglês.

ANNIE WILKES

Como os traços característicos de um psicopata, Annie Wilkes apresenta mudanças abruptas de humor e ataques de fúria imprevisíveis. É personagem do romance Louca Obsessão, escrito por Stephen King foi lançado em 1987. A obra fez tanto sucesso que ganhou uma adaptação nos cinemas, com o filme Louca Obsessão, de 1990, estrelado porKathy Bates no papel de Annie Wilkes, lhe rendendo o Oscar de melhor atriz. Annie é uma ex- enfermeira que vive isolada em um sítio, até que encontra o escritor Paul Sheldon ferido após uma nevasca próximo ao local em que vive. Ao vê-lo machucado, a enfermeira o leva para sua casa, para cuidar dele até que a estrada esteja desimpedida pela nevasca. Quando o escritor retoma a consciência, Annie diz ser sua fã e apaixonada pela personagem Misery, de um dos romances de Paul, e pelo próprio escritor. Porém, Sheldon começa a achar que existe algo estranho na ex- enfermeira, pois percebe que ela não tem pressa em levá-lo ao hospital. Quando Annie descobre que Misery morre no livro, obriga o escritor a escrever uma nova obra para trazer sua personagem favorita de volta, mantendo Paul preso na cama. Annie chega ao ponto de quebrar seus tornozelos com uma marreta, para garantir que ele não fugisse.

PATRICK BATEMAN

Não poderia haver nome melhor para o filme estrelado por Christian Bale no papel de Patrick Bateman: Psicopata Americano. O longa de 2000 conta a história de Bateman, um jovem bem sucedido, bonito, narcisista, apreciador do luxo e da riqueza, que atua entre investidores e acionistas na Wall Street, em Nova York: Porém, o que o galã esconde é seu prazer em matar, sendo um verdadeiro serial killer. impulsionado pelo materialismo e pela inveja, Bateman comete crimes com justificativas banais, como assassinar um colega de trabalho apenas porque ele tem um cartão de visita de melhor qualidade que o dele.

Muitas características do transtorno de personalidade antissocial podem ser identificadas no protagonista, como seu comportamento frio e egoísta. Além disso, sofre com ataques de psicose, tornando seu comportamento ainda mais sinistra. Porém, diferentemente da maioria dos serial killers, Bateman não possui um tipo específico de vítima. Ele dá fim àqueles que entram em seu caminho e têm algo (material ou não) que ele não possui. O gatilho para seu desejo de matar é a busca incessante pela perfeição profissional e estética.

PEYTON FLANDERS

A personagem central do longa A Mão que Balança o Berço, de 1992, concentra várias características psicopatas, principalmente a vontade de conseguir o que quer. Interpretada por Rebecca De Mornay, Peyton Flanders é uma mulher traumatizada com o suicídio do esposo e a perda de seu filho. Porém, decide trabalhar justamente na casa da mulher que fez seu marido se matar para, então, buscar sua própria vingança. A moça apresenta-se como uma candidata perfeita para a vaga de babá: é educada e muito dedicada. Ela começa a se apegar à filha da patroa e quer ficar com a bebê para si. Por isso, passa a fazer de tudo para eliminar a mulher, como preparar uma armadilha na estufa. Peyton arma as maldades de forma indireta, sem levantar suspeitas, e aos poucos vai destruir não a vida de toda a família sem ser descoberta, até ficar fora de si.

NORMAN BATES

Um dos psicopatas mais conhecidos da telona arrancou muitos gritos no filme Psicose, de 1960, do conceituado diretor Alfred Hitchcock. Inspirado em Ed Gein, um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos, Norman Bates (Anthony Perkins) é um jovem tímido, criado por sua mãe Norma Bates, de forma muito autoritária, o que o fez ter uma personalidade inconstante e possessiva. Após a morte do pai de Norman, mãe e filho ficam ainda mais próximos, até que ela arruma um namorado, despertando um ciúme enlouquecedor no filho. Em uma espécie de complexo de Édipo; o rapaz envenena a própria mãe e o namorado. Depois disso, o personagem apresenta um transtorno psicológico em que assume a personalidade da mãe em alguns momentos. Além disso, o assassino mantém o corpo da mãe em seu quarto por anos, vivendo em um hotel da família. Quando a jovem Marion Crane se hospeda no hotel de Bates, o assassino apaixona-se pela garota ao mesmo tempo em que assume a personalidade ciumenta da mãe, assassinando a facadas a garota no chuveiro, vestido com as roupas de Norma, em uma das cenas mais clássicas do cinema. Atualmente a série de TV Bates Motel é um prólogo da trama, que retrata a vida de Norman e de sua mãe antes dos eventos do filme.

AMY DUNNE

Outra personagem que saiu dos livros direto para as telonas, Amy Dunne (Rosammund Pike) é a personagem central da obra Gone Girl de Gillian Flynn, que ganhou o título Garota Exemplar nas telonas, em 2014. Trata-se de um ótimo exemplo de psicopata, já que Amy vai até as últimas consequências para conseguir o que quer. A personagem é uma jovem linda e doce que passa a imagem de “cool girl”, ou garota legal, aparentemente sem defeitos, que se dá bem com todo mundo. Porém, por trás do rosto angelical, Amy se apresenta como uma verdadeira manipuladora e mentirosa, envolvendo a todos que cruzarem seu caminho, como seu marido. Sob a impunidade que a imagem de “mulher perfeita” a fornece, ela trama uma história visando somente seu benefício próprio, em nome do poder, do egoísmo e da absoluta falta de empatia. Um verdadeiro caso de psicopata – dissimulada e sem escrúpulos.

JOE CARROLL

Mais um representante das séries, Joe Carrol, James Purefoy) é um sedutor professor de literatura na série de TV The Following. Carismático e pai de família, ele se revela um serial killer e vai parar na cadeia após matar de forma cruel 14 alunas na universidade onde lecionava. Nove anos mais tarde, Joe, condenado à morte, escapa da cadeia e passa a reunir uma rede de discípulos, criando uma verdadeira seita de homicidas que agem segundo suas instruções. Com seus seguidores e esperteza de sobra, Joe volta a matar. O protagonista é um assassino carismático, inteligente e estrategista, que consegue atingir psicologicamente o detetive que está atrás dele. Bem psicopata, não? O espectador nunca sabe qual será seu próximo passo.

MAX CADY

Acusado por assassinatos e estupros, e por culpa de seu advogado de defesa que ocultou informações importantes do caso, Max (Robert De Niro), personagem central do filme Cabo do Medo, de 1991, passa 14 anos na cadeia. Porém, usa esse tempo para planejar sua vingança e se aprofundar no estudo de direto. Até sair da prisão, põe em prática um jogo psicológico com seu advogado, tudo dentro da lei, revelando sua natureza psicopata. Entre seus planos, Max seduz a filha do advogado e coloca em risco a vida de todos da família. A atuação de Robert De Niro valeu uma indicação ao Oscar como melhor ator

EU ACHO …

O ACOLHIMENTO DA DISCORDÂNCIA

Para lidar com a mudança, você precisa, sobretudo, prestar atenção nas pessoas. Paulo Freire, o brasileiro que mais acumulou títulos de doutor honoris causa na história do nosso país, também era um mestre nisso. Quando alguém vinha falar com ele, um homem mundialmente famoso, Paulo não só parava para escutar como dava toda a atenção do mundo. Não raro, colocava a mão no ombro do interlocutor para criar uma condição de igualdade, um vínculo, uma conexão física para materializar o que Aristóteles chamou de amizade: dois corpos numa única alma.

Quando conversava, Paulo Freire não mantinha com seu interlocutor uma fala diplomática ou cordial. Ele cultivava uma disposição legítima de aprender com o outro. Era um homem da ética, e não da pequena ética, da mera etiqueta (sim, etiqueta é a pequena ética, assim como camisetas são pequenas camisas).

Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acomodados com o que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras e âncoras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo.

A concordância faz com que permaneçamos estacionados. A discordância faz com que cresçamos. A palavra concordância vem de cor, coração, e significa unir os corações. Discordar, por sua vez, é promover a separação dos corações, algo que possibilita o desenvolvimento pessoal. Assim, para estimular o crescimento do outro e de si mesmo, Paulo Freire primeiro acolhia seu interlocutor, colocava a mão em seu ombro, estabelecia uma ligação. Depois, quando fosse o caso, discordava, sempre aberto a acolher em si a discordância do outro e, portanto, a aprender.

Desse modo, ao prestar atenção naquilo que não era o óbvio nele mesmo, ele conseguia avançar. Seguindo esse princípio, nos seus 76 anos de vida, Paulo Freire nunca parou de crescer.

Acolher a discordância foi justamente uma das mais importantes lições que recebi de meu pai, grande torcedor do time do São Paulo. Pais geralmente gostam que os filhos torçam para o mesmo time. Mas eu me bandeei para o Santos, um time que não é óbvio nem em seu emblema (conhecido como peixe, seu símbolo é uma baleia – baleias são mamíferos, não peixes). Curiosamente, nenhum dos meus filhos é santista. Todos torcem para o São Paulo. Da mesma maneira que jamais interferi na preferência futebolística dos meus filhos, meu pai não só jamais questionou a minha escolha como a aprovava e a apoiava. Para demonstrar com clareza que acolhia a nossa discordância, ele me levava ao estádio quando o São Paulo jogava contra o Santos. E era capaz de aplaudir o Santos! Respeitar o time de futebol alheio é uma maneira soberba de ensinar a respeitar e a acolher as ideias, as posições, as perspectivas do outro.

E olha que, para o brasileiro, futebol é mais sagrado do que religião – você pode até conhecer um ex-católico, mas jamais vai encontrar um ex-corinthiano, ex-gremista ou ex-flamenguista. Futebol é paixão e a paixão é a suspensão temporária do juízo e da razão, é uma expressão da irracionalidade. Meu pai acatava a minha escolha pelo Santos por que sabia que o futebol, assim como a religião e a preferência musical, pertence ao território da paixão, do irracional, do gosto que não se discute – apesar de a irracionalidade, não raro, descambar para o fanatismo, que é uma suspensão violenta do juízo e da razão. Meu pai dizia: “Torça, grite, lamente e comemore, mas não transforme o seu time no único time possível. Se você achar justo brigar pelo seu time até o fim, entenda que o torcedor de outro time também pode fazer o mesmo”. Assim ele me ensinava a cultivar a tolerância mesmo num ambiente de rivalidade.

Os estádios estão cada vez mais violentos, mas isso não quer dizer que a tolerância não seja possível em grandes arenas. Veja o exemplo do Boi Bumbá no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Durante três horas, desfilam os Caprichosos, de azul, e depois o Garantido, de vermelho. Na hora do desfile de um, a torcida do outro não pode vaiar, gritar, dar um pio. Se algum torcedor gritar, seu time perde pontos. A regra ali é deixar o espetáculo acontecer. Por mais que haja rivalidade no ar, não pode haver conflito. O respeito pelo outro é tão grande que os juízes não usam caneta com tinta azul ou vermelha, as cores dos dois times. Para dar suas notas, usam tinta verde.

A paixão pode ser irracional, mas a manifestação dela não.

Loucos por futebol! O perigo está no “loucos”, pois há o perigo de a paixão se tornar fanatismo, do conflito se transformar em confronto. A divergência é admissível, até desejável, mas ela nunca pode conduzir à anulação do outro, daquele que pensa diferente de você. Por que muita gente perdeu o gosto de ir a estádios de futebol?

Porque, ali, o conflito cedeu lugar ao confronto. A torcida organizada passou a ser uma espécie de exército empenhado em anular os adversários.

Aqui é preciso lembrar que um adversário fraco te enfraquece, um concorrente burro te emburrece. E que um adversário forte fortalece. Lembra-se da final da Copa das Confederações, em junho de 2009, quando o Brasil terminou o primeiro tempo perdendo de dois a zero e terminou o jogo ganhando por três a dois dos Estados Unidos? O Brasil reagiu porque encontrou um adversário poderoso que o estimulou, um oponente que ele desprezava a princípio, mas que aprendeu a respeitar.

Se você não respeita um adversário poderoso, corre o risco de cometer a mesma tolice do general Sedgwick, algo que registrei em meu livro Qual é a tua Obra? (Vozes). Sedgwick lutou na guerra civil norte-americana. No dia 9 de maio de 1864, durante a batalha de Spotsylvania, o general, ao ver as tropas inimigas parando lá longe, não se preocupou sequer em se proteger. Ainda debochou, proferindo uma das frases mais fatídicas de todos os tempos: “Imagina se vou perder meu tempo. Dessa distância, eles não acertariam nem em um elef…”. E caiu morto com sua frase incompleta, fulminado por um tiro certeiro na cabeça disparado ao longe por um inimigo poderoso que foi negligenciado.

A anulação do outro é o ápice do confronto e o confronto deve ser evitado a todo custo. Isso vale para o terreno das ideias, da convivência, para o casamento. Aliás, para o campo dos relacionamentos, o grande pensador Rubem Alves criou uma imagem excelente. Para ele, os relacionamentos devem ser como um jogo de frescobol, e não como uma partida de tênis. Eis aí uma boa lição. No tênis, você usa toda a sua competência para que o outro receba a bola do pior modo possível. Você procura sacar de um jeito que ele não veja nem a cor da bola. Toda vez que o oponente erra, você se congratula. No frescobol, por sua vez, você capricha para que o outro receba a bola do melhor modo que consegue. Quando manda uma bola atravessada, você pede desculpas e procura não repetir mais isso, pois quer sempre repassar a bola ao outro com perfeição. Esse é o sonho, a meta a ser alcançava, embora muitas vezes a vida se pareça mesmo com uma partida de tênis.

O esporte traz muitos aprendizados para não sucumbir à paixão, àquilo que suspende o juízo e a razão.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro ‘‘O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

A ARTE DE COMER BEM

A mudança nos rótulos dos produtos aprovada nesta semana no Brasil estimula o debate sobre a definição de um alimento saudável diante da profusão de ofertas de comida

É natural que, em sete meses de pandemia, as atenções das autoridades de saúde estivessem voltadas para o vírus. Na quarta-feira 7, contudo, deu­se no Brasil uma decisão de valor histórico e permanente – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou por unanimidade mudanças cruciais nos rótulos dos alimentos no Brasil. A principal alteração é a inclusão de um selo em forma de lupa – que deverá estar visível na frente das embalagens – como alerta para a presença exagerada de gordura, sal ou açúcar no alimento, sinalizando, portanto, que faz mal ao organismo. A ação era fundamental – apenas 25% dos brasileiros entendem perfeitamente o que está escrito nas embalagens – e é resultado de uma longa pressão, de mais de seis anos, do Instituto de Defesa do Consumidor (ldec) com o apoio da comunidade médica. A decisão é louvável, chega a ser mais rigorosa do que em muitos países europeus, mas embute problemas. Os limites estabelecidos dos compostos que podem ser ruins foram postos em patamares exageradamente elevados, 50% acima da proposta original. Ou seja: alguns produtos com ingredientes ruins vão escapar da classificação. “Pôr a régua lá em cima poderá livrar alguns alimentos importantes da rotulação, como nuggets, bolinho pronto e bolacha recheada”, diz a nutricionista Ana Paula Bortoletto, coordenadora do Programa de Alimentação Saudável do ldec.

De todo modo, a valorização dos rótulos no Brasil é uma conquista. Tê-los em evidência é indício de que uma indagação seminal – o que é comer bem? – tem sido feita com empenho. Dito de outro modo: para muito além de etiquetas, o que é se alimentar de maneira saudável diante da profusão de ofertas nos dias de hoje? A batalha vem de longe. Na década de 90, os fabricantes foram obrigados a exibir com mais clareza o conteúdo dos produtos, indicando, por exemplo, a presença de glúten e a quantidade de substâncias delicadas (“baixo conteúdo”, “alto teor”, “reduzido” e “aumentado”). No início dos anos 2000 foram incluídos à rotulagem os itens principais contidos nas embalagens: gorduras saturadas, colesterol, cálcio, ferro e sódio, além do valor energético e de nutrientes. O conhecimento científico e tecnológico conquistado nos últimos anos está conseguindo finalmente consolidar algumas certezas numa área plena de vaivém. A novidade: já não se condena um alimento por ele em si, mas pelo modo como é preparado.

Os famigerados ultraprocessados, elaborados com uma profusão de substâncias sintetizadas em laboratório, que alteram a cor, o sabor, o aroma e a textura do ingrediente principal, devem, sim, ser vetados do cardápio. Os nitritos e os nitratos de sódio utilizados, compostos químicos com a função de evitar a formação de bactérias (e, portanto, fazer com que os alimentos durem mais), podem induzir ao câncer. Já o método de defumação, que dá gosto e também contribui para prolongar a data de validade da comida, faz uso do alcatrão proveniente da fumaça do carvão. “Essas substâncias em exagero aumentam o risco de danos celulares”, afirma o médico Antonio Carlos do Nascimento, membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia. Quanto maior o consumo desse tipo de comida, maior o risco. Um dos estudos mais completos sobre o assunto, conduzido recentemente pela Universidade de Navarra, na Espanha, mostrou que pessoas que consomem mais de quatro porções por dia desses alimentos têm probabilidade 62% maior de morrer de câncer na comparação com quem come menos de duas porções cotidianas. A equipe monitorou os hábitos alimentares e a saúde de quase 20.000 pessoas ao longo de quinze anos. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde pôs esse tipo de comida na mesma categoria do cigarro em relação aos efeitos cancerígenos.

Para escapar do estigma colado às companhias de tabaco, parte numerosa da indústria de alimentos virou o jogo – e, em movimento para lá de sensato, investiu em produtos mais saudáveis, lançando versões de refrigerantes, iogurtes e biscoitos com menos açúcar, sódio e gordura. Pesquisa mundial conduzida pela Deloitte, empresa especializada em consultorias e auditorias, mostra que nove em cada dez companhias de alimentação introduziram em 2017 ao menos um produto formulado ou reformulado com cuidado para fazer bem ao organismo.

Um dos exemplos clássicos de como um mesmo alimento pode ser tanto benéfico como maléfico para o organismo é o hambúrguer. Há versões fabricadas pela indústria sem absolutamente nenhum condimento, nem mesmo sal. A conservação se faz apenas pelo congelamento. Fora da geladeira, no entanto, a validade equivale à da carne in natura (porque de fato é feito só com carne, sem itens artificiais para turbinar.) “Duram por um período até cinco vezes menor em relação aos produtos com aditivos”, explica István Wessel, fabricante de carnes sem conservantes. Duram menos em temperatura ambiente e não fazem mal – e isso vale para diversos outros produtos das gôndolas dos supermercados. Diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein: “Os sucos industrializados naturais, sem adição de açúcar, são tão saudáveis quanto os feitos em casa”.

Há ainda, nessa direção, um novo conceito prestes a entrar na rotina doméstica: a chamada comida inteligente. São os produtos plant-based (do inglês, à base de plantas), feitos com vegetais, imitando a textura e o sabor da proteína animal, por exemplo. O setor movimenta 6 bilhões de dólares ao ano no mundo, e não para de crescer, incentivado pelo apetite dos jovens millennials. De acordo com um estudo do Instituto Ipsos, de pesquisas de mercado, 47% dos brasileiros estariam abertos a aderir a esse tipo de comida. “Esses alimentos só terão apelo em massa se cumprirem três pilares: excelente sabor, ser sustentável e, sobretudo, ser saudável”, diz Matheus von Mühlen, fundador da Open Food Innovation Summit, feira que reunirá grandes marcas do segmento tecnológico e saudável na próxima semana, em São Paulo. Toda e qualquer opção à mesa que promova a mente sã – em corpo são é bem-vinda.

TÃO IGUAIS, TÃO DIFERENTES

Como identificar se um alimento é saudável ou não

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

12 DE OUTUBRO

CRIAÇÃO, UMA VERDADE ESPLÊNDIDA

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Genesis 1.1).

A ciência prova que o universo é constituído de matéria e energia. Prova também que o universo é governado por leis. Matéria e energia não criam leis. Logo, se o universo é governado por leis, alguém fora do universo criou essas leis, uma vez que leis não se criam. Aqueles que defendem que o universo surgiu espontaneamente ou veio à existência mediante uma explosão cósmica, ou mesmo por um processo de evolução de milhões e milhões de anos, ficam sem resposta diante desse fato incontroverso. Como vida procede de vida, o mundo não poderia ter surgido espontaneamente. Uma explosão cósmica não poderia produzir um universo com movimentos e leis tão precisos. Uma evolução de milhões e milhões de anos não explica o fato de todos os seres vivos serem geneticamente programados. Seria mais fácil crer que milhões de letras lançadas a esmo ao espaço cairiam ao chão na forma de uma enciclopédia do que crer que uma explosão deu origem ao universo. Seria mais fácil acreditar que um rato correndo atabalhoadamente sobre as teclas de um piano tocasse “Serenata ao Luar” do que crer que este universo tão vasto e tão complexo surgiu espontaneamente ou foi produto de uma evolução das espécies. A verdade antiga, atual e eterna é que no princípio criou Deus os céus e a terra. O que passar disso é mera conjectura.

GESTÃO E CARREIRA

A GRANDE APOSTA

A guerra entre os bancos tradicionais e as fintechs se acirra com o desempenho conflitante de suas ações na bolsa e põe à prova modelos de negócios antagônicos

Desde a sua origem, os bancos têm um modelo de negócios simples: captar dinheiro dos correntistas e emprestá-lo a juros. Muito mais do que uma atividade de “pessoas gananciosas” – imagem consagrada pelo personagem Shylock no clássico O Mercador de Veneza, de Shakespeare -, os bancos foram fundamentais para as maiores realizações do homem moderno, das grandes navegações aos avanços tecnológicos, da conquista da democracia às inovações na medicina. Sem concessão de crédito, não haveria o mundo tal qual o conhecemos. Segundo o economista americano Robert Shiller, ganhador do Nobel, o sistema financeiro permite a transformação de “impulsos criativos em produtos e serviços vitais”. Na aurora da era digital, tudo isso tem sido posto em xeque de algum modo. Cresce entre os investidores a ideia de que o modelo tradicional dos bancos está se tornando ultrapassado e que, em vez deles, haverá lugar apenas para as chamadas fintechs, instituições financeiras baseadas em aplicativos.

No Brasil, a desconfiança tem sido justificada pela comparação do desempenho das ações dos quatro maiores bancos do país – Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – com o das do Inter, uma das instituições digitais que melhor simboliza os novos tempos. Desde que o Inter estreou na bolsa, em abril de 2018, seu valor de mercado multiplicou oito vezes. Além do Inter, outra estrela do segmento é a corretora XP, que tem papéis negociados na americana Nasdaq. De dezembro do ano passado, quando abriu o capital, até agora, a alta das ações chega a 60% em dólares. Já os quatro grandes, somados, tiveram queda próxima de 30% no mesmo período. A pandemia piorou o quadro: enquanto as ações dos grandes bancos amargam perdas que chegam perto de 40% entre o fim de fevereiro e o começo de outubro, como é o caso do Banco do Brasil, os papéis do Inter subiram cerca de 25%. O fenômeno não é apenas local. Nos Estados Unidos, na lista das dez maiores quedas nas bolsas em 2020 aparecem quatro das mais tradicionais instituições financeiras do país: JP Morgan, Wells Fargo, Bank of America e Citigroup.

O fenômeno não representa o fim dos bancos clássicos. Muito longe disso. Quando os números entram em cena, as desvantagens dos estreantes em relação aos tradicionais começam a aparecer. Enquanto o Inter registrou pouco menos de 3 milhões de reais em lucros no segundo trimestre e tem 12,4 bilhões em ativos, o Santander, com 27 milhões de clientes, obteve lucros de 2,13 bilhões de reais e 987 bilhões de reais em ativos. Em junho, a carteira de crédito do Itaú totalizava 811,3 bilhões de reais. No Inter, o valor mal chegou a 6 bilhões de reais. “Os grandes bancos são máquinas geradoras de dinheiro,” diz Alberto Amparo, analista da Suno Research. “Apesar da competição com as fintechs, eles ainda têm muitas vantagens.”

Entre elas, a escala, a eficiência e a capacidade de captar dinheiro no mercado a um custo mais baixo que o das instituições menores. A despeito de toda a roupagem descolada dos aplicativos dos bancos digitais, o negócio dos bancos ainda é o mesmo de 500 anos atrás: emprestar dinheiro. “As fintechs precisam crescer muito para emprestar no montante de um grande banco”, destaca Amparo.

Com o tamanho – e os lucros bilionários -, os bancos podem simplesmente absorver parte da concorrência. No marketing, o Itaú briga com a XP no crescente mercado do investidor pessoa física. Mas, em 2017, comprou quase 50% da corretora, participação que pode aumentar nos próximos anos. “As fintechs devem ser parceiras, e não apenas concorrentes”, diz Renato Lulia, head de Relações com Investidores e Inteligência de Mercado do Itaú.

Dito isso, é inegável que os bancos tradicionais parecem enfrentar uma tempestade perfeita. Eles sofrem com questões pontuais provocadas pela pandemia. A principal delas: a quarentena levou ao fechamento de inúmeros negócios e instalou milhões de pessoas na fila dos desempregados. O efeito imediato é o maior risco de inadimplência. Para se ter ideia, no primeiro semestre do ano passado o Itaú destinou 8 bilhões de reais para cobrir eventuais calotes. Em 2020, o montante subiu para quase 18 bilhões de reais. Isso afeta de forma decisiva os resultados: o lucro caiu quase 14 bilhões de reais do ano passado para cá. Como não poderia deixar de ser, a estratégia aborrece os investidores da bolsa, que têm nos bancos uma decisiva fonte de dividendos.

O que mais ameaça os grandes bancos, porém, é o aumento da concorrência. Um país com juros historicamente altos e pouca competição sempre garantiu gordos lucros às instituições que passaram no processo de seleção natural do ambiente econômico do Brasil. Historicamente, os retornos dos bancos brasileiros são maiores do que os dos estrangeiros. Desde 2010, o ROE (sigla em inglês para retorno sobre o patrimônio) do Itaú ficou abaixo de 20% somente em 2012. Nos EUA, o retorno do JP Morgan nos últimos dez anos nunca ultrapassou 15%. No ano passado, chegou a 13,9%.

Recentemente, o Banco Central, seguindo o exemplo de nações civilizadas, iniciou uma série de mudanças regulatórias que permitiram a abertura do mercado para as fintechs – o que, de quebra, tira receita dos grandes bancos. A mudança mais recente é o PIX, um sistema de pagamentos e transferências bancárias instantâneas que pode zerar o custo do TED ou DOC, fontes relevantes de recursos para as instituições tradicionais.

O impacto das ações do BC foi uma concorrência nunca vista no país. Há uma profusão de fintechs especializadas em venda de seguros, concessão de crédito, crowdfunding, plataformas de investimentos, gestão financeira, entre outros serviços. Segundo o Radar Fintechlab, existem no país 771 empresas desse tipo, um aumento de 27% desde o ano passado. Dessas, 270 foram fundadas nos últimos doze meses. Há dezessete bancos digitais e 114 plataformas de empréstimos. “Essas empresas mudaram o mercado de uma forma saudável”, diz João Carlos Santos, da consultoria Accenture.

O cenário é, de fato, desafiador. “Os bancos estão sofrendo ataques de todos os lados”, afirma Renoir Vieira, gestor da Aurora Capital e crítico do modelo de negócios das instituições financeiras do país. Vieira ganhou fama ao sugerir a venda das ações do Itaú – uma operação especulativa em que o operador aposta na desvalorização do preço de determinada ação. Segundo ele, os bancos tradicionais estão perdendo a batalha para as fintechs. “Eles continuarão sendo empresas boas e bem administradas, mas com lucros muito menores do que os atuais. Por que o Itaú teria um retorno maior do que o do JP Morgan? Não faz sentido”, diz Vieira. O Inter é o melhor exemplo da nova geração. “Não somos um banco, mas uma plataforma de serviços financeiros e não financeiros”, afirma João Vitor Menin, presidente do Inter. A isca para atrair clientes, geralmente jovens, é o custo zero na abertura e manutenção da conta- corrente. Para

isso, é preciso contar com uma estrutura leve. Não ter agências é um dos diferenciais apontados por Menin. Segundo ele, o custo de manutenção dos clientes corresponde a apenas 15% do que os grandes bancos gastam com a mesma atividade.

Uma vez dentro da plataforma, aí vale tudo para faturar. O aplicativo não se restringe aos serviços bancários tradicionais, mas permite a compra de produtos como roupas, tênis e passagens aéreas. No segundo trimestre, o marketplace cresceu 218%, com vendas de 123 milhões de reais. O ritmo de abertura de contas chega a 20.000 por dia. Atualmente, são cerca de 7 milhões de correntistas. É esse ritmo frenético de investimentos, com uma pitada de inovação, que está seduzindo os investidores na bolsa.

Criar um ecossistema com diversas marcas é a estratégia do Santander para competir com as fintechs. Recentemente, o banco espanhol comprou 60% da corretora on-line Toro Investimentos. A Toro se junta à Sim, plataforma de crédito para pessoa física, e à em Dia, de renegociação de dívidas, entre outras 22 marcas coligadas que atuam em segmentos como crédito, imóveis, seguros, tecnologia, entretenimento, investimentos, entre outros. “Nós podemos criar um grande ecossistema e ser tão bons quanto fintechs especializadas em um único produto”, diz Sérgio Rial, presidente do Santander. Os bancos públicos também aumentaram a presença digital. A Caixa lançou o aplicativo Caixa Tem que, entre outras funcionalidades, permite o pagamento de contas sem cartão nas casas lotéricas, e o Banco do Brasil criou há alguns dias uma conta digital movimentada totalmente por celular.

Quem vencerá a batalha? Talvez ambos. Alguns analistas acreditam que os bancos clássicos apenas diminuirão de tamanho, mas continuarão a ser empresas tão sólidas quanto sempre foram. As fintechs, por sua vez, precisam ter ganhos de escala inimagináveis para superar gigantes que estão no mercado há mais de 200 anos, como é o caso do Banco do Brasil. O que se sabe de antemão é que, como sempre acontece num mercado em plena competição, quem ganha é o consumidor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – IX

AMOR OU ÓDIO?

Conheça os motivos que levam homens e mulheres a cometerem crimes passionais

O que leva uma namorada a agredir seu amado? Ou um cônjuge a tirar a vida de sua parceira? Em um clássico da literatura inglesa, o general Otelo é tomado pelo ciúme e convencido pelo soldado lago que havia sido traído por Desdêmona, sua esposa. O militar, então, a asfixia e, ao descobrir a verdade, apunhala-se, tirando a própria vida.

NA OBRA DE SHAKESPEARE

O ciúme é narrado desde a Antiguidade, mas a expressão “verde de ciúme” surgiu devido à obra Otelo, o Mouro de Veneza, do dramaturgo inglês William Shakespeare. A frase apareceu por conta da cena em que o soldado Iago – que manipula o general Otelo ­ afirma que “o ciúme é um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta”.

Na história, o velho general Otelo havia se apaixonado e casado com a jovem e bela Desdêmona. No entanto, o soldado lago faz de tudo para abalar o casamento e alcançar seu objetivo: obter o cargo de tenente, que havia sido concedido ao soldado Cássio. Iago, então, convence Otelo de que Desdêmona e o soldado recém-promovido estão tendo um caso extraconjugal. O general fica descontrolado e asfixia a própria esposa, motivado pelo ciúme. No entanto, ao saber que tudo não se passava de uma armação, apunhala-se e cai morto sobre o corpo de sua mulher.

FORA DA FICÇÃO

Crimes passionais que levam à morte, agressão física, mutilação genital ou qualquer outra espécie de violência não existem apenas em livros, filmes e peças de teatro. Muitos Otelos e Desdêmonas estão espalhados pelo mundo. As psicanalistas Maria Thereza Coelho e Rosilene Santiago explicam que um crime passional pode ocorrer “quando uma pessoa passa por experiências que envolvem o término de um relacionamento por parte do parceiro (motivado por uma terceira pessoa) ou o relacionamento se encontra em vias de romper (pelo mesmo motivo)”. Os agentes também podem ser motivados pela dúvida da traição e sentimentos como ciúme e ódio, em relação à parceira e ao “rival”. Além disso, não têm a possibilidade de “descarregar o excesso de energia psíquica e denominar o que lhe ocorre”, acrescenta. Ainda segundo as especialistas, o indivíduo pode ficar descontrolado, ansioso, impulsivo e também consumir substâncias psicoativas que o levam a ações não planejadas. “No momento do crime, ele perde o controle sobre si e seus atos. Às vezes, tem um lapso de memória em relação à própria ação criminosa, significando-a como fraqueza, tentação demoníaca, defesa da honra, dentre outros sentidos”, complementam.

De acordo com o psicólogo João Alexandre Borba, para uma pessoa cometer um crime passional, é preciso que acumule a raiva por muito tempo até perder o controle. “Nunca uma pessoa vai virar, de repente, e tomar uma atitude exasperada ou que cause um mal ao outro. Se ela fizer isso, é porque já vem agredindo o próximo”, explica.

ESCUDO ERRADO

Quem está dentro de um relacionamento amoroso em conflito pode perceber os primeiros sinais de raiva, agressão física e psicológica da parte do parceiro. Além disso, é possível notar se há algum sentimento reprimido. “A raiva, quando muito acumulada, é um sentimento que funciona para proteger outra emoção”, afirma Boroa.

Também de acordo com o psicólogo, o ideal seria expressar o que a está causando; no caso, pode ser o sentimento de tristeza ou a insegurança. “Quando esse nível de autoexpressão não acontece, a pessoa começa a se perder e isso gera um descontrole. E aí, no momento em que passa a perder quem ela é, realmente pode fazer uma besteira”. O suicídio ou a agressão física a outrem podem ser algumas das consequências.

É PSICOPATIA?

O indivíduo que se descontrola diante de uma situação de intensa emoção nem sempre é um portador do transtorno de personalidade antissocial. Muitas vezes, ele perdeu o controle e não conseguiu manter um nível saudável de sanidade naquele momento. Contudo, segundo Boroa, no caso de um crime em que se tira a vida de alguém de uma maneira descomunal, “pode-se contar que há alguns traços de psicopatia no meio”, destaca.

Por outro lado, se o indivíduo for um psicopata – em um nível severo -, é capaz de assassinar e usar o outro para alcançar seus objetivos ou para adquirir status, o nível de racionalização do psicopata é altíssimo; eles não têm emoção. Se alguém é muito sensível, vive sofrendo e não sabe o que fazer com esse sofrimento, está semp