EU ACHO …

A NOSSA COTA DE PACIÊNCIA

Vírus novo vira assunto velho: é mecanismo de autoproteção

O coronavírus já foi precificado e seu custo cruel, em doenças e fatalidades, absorvido. Basta olhar qualquer grande publicação nos países onde ele ainda persiste ou tentar rebrotar. Só com muito esforço os jornalistas conseguem “empurrar” o assunto para as manchetes. Fora, evidentemente, a expectativa em relação à vacina, ou vacinas, o público já está em outra. Os motivos principais são dois: uma espécie de ressaca emocional com uma doença que só traz más notícias e os mecanismos de proteção psicológica acionados por grandes crises. “O homem é uma criatura que se acostuma com tudo e acho que esta é a sua melhor definição”, resumiu Dostoiévski ao retratar, de forma tão genial e tão dolorosa, a teia de relações humanas num campo de trabalhos forçados na Sibéria, onde ele próprio penou durante quatro anos.

Quando os grandes números são colocados em contexto, a praga viral também tem um impacto menos chocante. Os mortos pelo vírus em todo o mundo já embicavam para 900.000 no mesmo dia da semana em que as fatalidades por todas as causas se aproximavam de 40 milhões. Ou seja, mais de 39 milhões de pessoas morreram neste ano por motivos alheios ao novo coronavírus.

Se as vítimas fossem jovens e crianças, obviamente o horror estaria em outro patamar. Nos Estados Unidos, o campeão em números absolutos, com as vítimas na casa dos 200.000, as mortes de doentes de zero a 14 anos foram sessenta. Uma única morte de criança, tragédia que abala toda a sociedade, já seria chocante, mas os temores dos pais e outros adultos jovens são, com razão, direcionados mais a seus antecessores do que aos sucessores no grande rio da vida.

Ter vontade de sair, passear, ir a um restaurante, cortar o cabelo – ou dar uma levantadinha no visual: clínicas de Londres registraram até 40% de aumento na procura por Botox, resultado direto de horas e horas de autocontemplação em reuniões por Zoom ou Skype – é um ato de reafirmação da vida e não de desprezo pelos mortos. Acostumar-se às diversidades também.

“Eu no momento não estou comendo peixe”, escreveu uma certa Winifred Graville a uma prima nos Estados Unidos, a quem enviava cartas regulares durante a Blitz, os bombardeios alemães constantes contra Londres ao longo de oito infernais meses da II Guerra Mundial. “Tem tantos alemães mortos pegos nas redes de pesca aparecendo nas nossas praias que perdi um pouco a vontade”. A autora das cartas descobertas por um pesquisador e transformadas em livro é um exemplo do estilo queixo para cima, a teimosia em não se deixar abalar por adversidades, que se tornou em estereótipo nacional – e positivo – dos ingleses.

Seria absurdo comparar uma doença com letalidade relativamente baixa à Batalha da Inglaterra, tendo esta uma peculiaridade em comum com epidemia: os combates aéreos eram transmitidos ao vivo pela BBC. A cobertura, minuto a minuto, inclusive pelas redes sociais, da disseminação do vírus e seus efeitos deletérios criou uma epidemia paralela, a do medo. Tão intenso que virou um desafio aos governos que entendem a catástrofe da catatonia econômica. Nesse sentido, perder a paciência com tanta notícia ruim pode ser uma coisa boa.

***VILMA GRYZINSKI 

OUTROS OLHARES

A CHANCE DE NÃO PERDER O ANO

Havendo segurança sanitária e liberdade de opção para os pais, faz sentido reabrir as salas de aula no Brasil, a exemplo de outros países. Quanto mais longa a parada, maiores os danos no futuro

A pandemia não acabou, e seria irresponsabilidade acreditar que ela esteja chegando ao fim. Mas, passados nove meses deste ano diferente de todos os outros, o mundo começa a se abrir para uma vida relativamente normal, cumprindo um protocolo de segurança – máscaras, luvas, mãos lavadas, testes, distanciamento – focado nos conhecimentos adquiridos ao longo da inédita convivência com o inimigo invisível e insidioso. À medida que contágio e mortes registram recuo constante, o comercio volta a funcionar, bares e restaurantes reabrem, serviços são reativados e, nos fins de semana deste inverno ensolarado, as praias se enchem de gente. Em meio à movimentação, uma atividade crucial permanece suspensa em quase todo o Brasil: o ensino presencial nas escolas. É compreensível que pais e mães se angustiem com os riscos da saída dos filhos do restrito círculo familiar. Mas cada dia que um aluno passa sem aprender estica sua defasagem de conhecimentos lá na frente, quando estiver construindo o futuro dele e do país. Sob esse ponto de vista, com os cuidados sanitários necessários garantidos, já está na hora de as escolas brasileiras tocarem a campainha e começarem a aula.

Em março, todos os 47,9 milhões de crianças matriculadas nas redes pública e privada do Brasil deixaram de ir ao colégio e entraram em um regime de ensino on-line reconhecidamente precário – sem falar nos 12% que não têm acesso à internet. Dois estados, Amazonas e Pará, liberaram a reabertura das escolas particulares em todos os municípios e outros cinco, incluindo São Paulo, em parte deles. Nos demais, é nítida a disposição dos colégios de pôr fim aos meses de portas fechadas. Consultamos 120 escolas particulares do país, classificadas entre as melhores, de acordo com o ranking do Enem, para conhecer seus planos de retomada. Delas, 10% já estavam em atividade e, entre as demais, a maioria absoluta – 77% – disse que só aguarda a liberação das autoridades para abrir as portas. Do total, 89% consideram essencial a presença das crianças na sala de aula. O Pueri Domus, onde estudam os gêmeos Gabriel e Maria Eduarda, de 13 anos, ainda não pode reabrir, e a mãe deles, a psicóloga Ana Paula Costa, lamenta. “Não considero este um ano perdido. O ensino remoto estimulou o amadurecimento e o senso de responsabilidade dos dois. Mas, em vez de um dia inteiro de atividade, hoje o máximo que fazem é andar de bicicleta no condomínio. O convívio com os amigos tem feito muita falta”, diz.

A retomada oficial depende das autoridades estaduais e municipais. Pois o que deveria ser uma decisão técnica, levando em conta o cenário epidemiológico da região, muitas vezes descamba para a vala comum das diferenças políticas, com confrontos entre governadores e prefeitos. A proximidade das eleições municipais não ajuda – os candidatos querem distância de medidas impopulares e do risco de escolas virarem focos de contágio. Algumas associações de professores também resistem à volta, alegando questões de segurança. As divergências costumam parar nos tribunais, alimentando uma guerra de liminares. O vai-vém na Justiça propicia absurdos com o acontecido no Rio de Janeiro, onde, na primeira semana de setembro, os alunos puseram a mochila nas costas, foram à escola um dia e acabou – aulas estão suspensas até segunda ordem.

Cada colégio que reabre deixa a critério dos pais aceitar ou não a volta dos filhos, e, por enquanto, a maior parte, compreensivelmente, se mostra temerosa. Em um levantamento realizado pela Associação Brasileira de Escolas Particulares com mais de 14.000 pais e responsáveis, 73% disseram preferir manter os filhos em casa, por medo da Covid-19. Já os filhos, quem diria, estão loucos para sair. A carioca Emanuele, 12 anos, aluna do Colégio Santa Terezinha, não vê a hora de voltar, mas sua mãe, Karla Ribeiro, diretora de uma ONG, é contra. “Se comigo, quando saímos, a Emanuele esquece os protocolos, toca em objetos e leva as mãos aos olhos e à boca, quem garante que isso não se repetirá no colégio? Enquanto não houver vacina ou remédio eficaz, ela vai estudar em casa, mesmo a contragosto”, afirma.

Embora esse tipo de preocupação seja recorrente, tanto a Organização Mundial da Saúde quanto o Unicef, que atende crianças, e a Unesco, que trata da cultura, recomendam que as escolas sejam reabertas até antes das demais atividades. Ainda que se tenha comprovado recentemente que sua capacidade de transmissão do vírus é igual à dos adultos, as crianças totalizam apenas 8,5% dos casos de Covid-19 no mundo. No Brasil, entre mais de 4,4 milhões de pessoas infectadas, só 8.332 têm menos de 19 anos. E, embora uma só carregue o peso de uma tragédia, as mortes foram raríssimas. “Quando as medidas sanitárias são respeitadas, o risco de contágio é infinitamente menor nas escolas do que em shoppings e bares”, afirma o infectopediatra Marcelo Otsuka. Em Fortaleza, onde a reabertura se deu no dia 8 de setembro, Michelle de Oliveira, 37 anos, sente enorme satisfação em levar Stella, 4 anos, e Beatriz, 2, para a pré-escola, de máscara e passando pelo ritual de higienização das mochilas. “No primeiro dia, chorei ao ver a felicidade das meninas por estarem naquele ambiente, gastando a energia acumulada durante a quarentena”, relata.

A chave, enquanto a vacina não vem, é manter os protocolos. Hospitais renomados como Sírio-Libanês e Einstein, em São Paulo, e a Rede D’Or, do Rio, foram contratados para dar consultoria sobre segurança sanitária a muitas das escolas ouvidas. As recomendações vão do básico – higienização constante dos ambientes e das mãos, uso de máscaras, garrafas de água individuais e distanciamento de pelo menos 1 metro entre as carteiras – até mudanças que exigem esforço da comunidade escolar, como escalonamento no horário de entrada dos alunos, diminuição das turmas e formação de “bolhas” nas quais os estudantes convivem com um número restrito de colegas. Também é preciso identificar integrantes de grupos de risco e disponibilizar testes para casos suspeitos. Havendo contágio, recomenda-se fechar por duas semanas.

Aos pais e alunos que não se sentem seguros em voltar, as escolas se dispõem a oferecer um ensino on-line de maior qualidade do que a improvisação que prevaleceu no isolamento social. No levantamento, praticamente todas – 99% -, quando reabrirem, terão um sistema híbrido, com aulas presenciais e remotas. Em média, o plano é de que as escolas acolham apenas 30% dos alunos por vez, o que pode ajudar a tranquilizar os pais reticentes. “Abrir com pouca gente ajuda a quebrar um ciclo de inércia. Serve para testar as novas regras, os novos protocolos, e incentiva os outros, que vão perdendo o medo, no processo gradual que a situação exige”, diz Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV-RJ.

Entre os modelos pedagógicos a ser utilizados no ensino híbrido, um separa os alunos em duas turmas, a presencial e a remota, com horários e conteúdos diversos, o outro alterna aulas com e sem professor – nessas últimas, o aluno tem metas a cumprir. Também se contempla, para estudantes mais velhos, a transmissão simultânea das aulas em sala para a audiência remota, que poderão inclusive interagir com colegas e professores. Entusiasta do ensino digital, o professor de física Raphael Barbosa, 35 anos, do Colégio pH, do Rio, investiu 500 reais em equipamentos e montou um miniestúdio em casa para ensinar a distância. “Sei que a física não é a matéria preferida deles e me esforcei para tornar o conteúdo aprazível e interessante. Acho que consegui”, diz.

Os novos tempos vão continuar exigindo flexibilização. A volta à escola terá, necessariamente, de passar por um encolhimento do currículo, dando prioridade às matérias essenciais para o avanço do aprendizado. Alguns conteúdos serão adiados para 2021 e acumulados com a programação normal. Cerca de 70% das instituições ouvidas informaram que aplicarão testes para avaliar possíveis defasagens de aprendizado durante o período de ensino remoto, e 87% deixarão o aluno escolher se fará a prova em casa ou no colégio. Os testes remotos, explicam, serão mais dissertativos e espera-se que os pais colaborem, para impedir pesquisas e conversas via aplicativo.

Os especialistas advertem, no entanto, que mesmo para uma geração que nasceu conectada a redução do contato com a escola a uma tela de computador pode trazer dificuldades na l1ora da readaptação. “As crianças enfrentarão o desafio de recuperar o hábito do estudo, já que passaram muito tempo com a rotina virada do avesso”, avalia o matemático americano Salman Khan, um dos mais famosos do mundo e cujas aulas virtuais são seguidas por milhões de estudantes ao redor do globo. A empresária Sania Dornelas, 42 anos, está preocupada com o rendimento escolar da filha Lorena, de 9, quando for a hora de rever a sala de aula. “Além de não assimilar novos conteúdos integralmente, ela desaprendeu alguns, como a tabuada”, diz. Moradora do Distrito Federal, onde as aulas presenciais continuam suspensas, Sania diz que nem sempre se sente capacitada para ajudar a filha nos trabalhos escolares. “A única forma de este não ser um ano perdido é a reabertura”, afirma.

Outro motivo de preocupação dos educadores, decorrente da interrupção do convívio e do isolamento, é a pequena familiaridade dos alunos com habilidades que as escolas modernas vêm se esforçando para desenvolver neles, como trabalhar em grupo, respeitar diferenças e tomar decisões. A equipe pedagógica terá também de saber lidar com manifestações de depressão e irritabilidade, potencializadas na quarentena. O caminho é gradual, mas precisa ser iniciado. A volta deverá ser feita em fases, sendo a primeira delas direcionada para uma espécie de despressurização. “O aluno precisa ser testado para saber quanto aprendeu de verdade e receber atendimento personalizado, de modo a entrar no ritmo que a quarentena comprometeu”, ressalta Claudia Costin.

O novo coronavírus provocou o fechamento de escolas em 190 países e afetou diretamente a rotina de 1,6 bilhão de estudantes, dos quais se estima que 24 milhões não voltarão aos bancos escolares. Além dos prejuízos em termos de conhecimento e dos danos à saúde das crianças confinadas, deixar de ir ao colégio também resultará em enorme impacto econômico. Um estudo da OCDE, a organização dos países mais desenvolvidos, calcula que a defasagem de aprendizado nos meses de isolamento social deve causar perdas da ordem de 1,5% do PIB mundial até o fim do século. “Devido ao atraso educacional, em um país como o Brasil pode haver diminuição de até 3% na renda que essa geração vai acumular ao longo da vida. Além de reabrir as escolas, é preciso acelerar a melhoria do ensino para reverter essa previsão”, frisa o físico alemão Andreas Schleicher, diretor da área de educação da OCDE.

Lá fora, esse processo tem sido vitorioso. Mais de trinta países já retomaram a rotina escolar com sucesso, mesmo tendo de cerrar os portões de novo, temporariamente, ao detectar casos de contaminação – na França, setenta das 3.600 escolas já passaram por isso. A China, com a facilidade da obediência a ordens de cima que o sistema ditatorial impõe, recolocou neste mês mais de 100 milhões de alunos nos bancos escolares. Alemanha, Dinamarca e Coreia do Sul também estão com os colégios funcionando normalmente. “Um fator em comum na volta. bem-sucedida é a presença de diretores capazes de envolver toda a comunidade escolar na tarefa de virar a página”, ressalta Schleicher. Enquanto o mundo avançado se mexe, o Brasil permanece empacado na faixa mais alta de dias sem escola, segundo a OCDE, deixando para trás o recorde de vinte semanas registrado durante a gripe espanhola, no início do século XX. Faz sentido prolongar isso até o ano que vem?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE SETEMBRO

DESCANSA NO SENHOR E ESPERA NELE

Descansa no SENHOR e espera nele… (Salmos 37.7a).

Temos mais dificuldade para descansar que para agir. Temos mais dificuldade para entregar nosso caminho ao Senhor que para tomar o destino em nossas próprias mãos. O segredo de uma vida vitoriosa, porém, não está na destreza do nosso braço nem no poder do nosso dinheiro. As colunas que erigimos são torres frágeis. As fortalezas que edificamos são vulneráveis. Não é sensato gloriar-se no conhecimento, na riqueza e na força. Devemos gloriar-nos em conhecer a Deus. Ele é o refúgio verdadeiro. Dele vem o nosso socorro. Nosso trabalho é descansar nele. A vida muitas vezes é como uma viagem num mar revolto. A fúria das ondas e a agitação do mar arrancam das nossas mãos o controle do barco. Nessas horas, precisamos cessar a manobra e nos deixar levar. Foi assim que aconteceu com o apóstolo Paulo em sua viagem para Roma. Quando as circunstâncias são maiores que nossas forças, precisamos entender que ainda há solução. Nessas horas, precisamos acima de tudo descansar no Senhor e esperar nele. Precisamos aquietar-nos e saber que ele é Deus. A fé vê o invisível, toca o intangível e apropria-se do impossível. Não porque seja inconsequente, mas porque descansa na onipotência daquele que está assentado no alto e sublime trono e tem nas mãos as rédeas da história.

GESTÃO E CARREIRA

O PONTO DE VENDA DO FUTURO

Mais do que vender, as lojas precisam oferecer um diferencial competitivo para convencer o cliente a ir ao PDV, que pode ser atendimento personalizado, consultorias, entrega expressa, trocas facilitadas, entre outros

Falamos sempre que o perfil do consumidor mudou – e está mudando ainda mais. Com acesso a informações on e off­line, a quantidade de lojas, produtos e serviços que ele tem à disposição é enorme, mas seu tempo, mais restrito. Hoje, ele não precisa sair de casa para pesquisar reputação de empresas, qualidade, indicações, comparar preços etc. Então, por que se deslocar a um ponto de venda para adquirir um produto?

Para a diretora executiva elo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), Patrícia Cotti, a loja física deve ser entendida dentro de um contexto maior, que é o de oferecimento de uma solução para o consumidor. “Os canais de venda (físico, e-commerce, porta a porta) nada mais são do que pontos de contato e venda com o consumidor, devendo ser entendidos de maneira integrada, de acordo com a conveniência buscada”, diz a especialista. Na prática, por mais que haja preferência por um tipo de canal ou de outro, o consumidor vai efetuar sua compra de acordo com a conveniência momentânea.

É o conjunto de percepções que o consumidor desenvolve ao interagir com uma marca durante a fase de pesquisa, compra e pós-venda que o faz visitar a loja, tendo em mente que essas percepções compõem a imagem que o cliente adquiriu desta marca ou loja, e vão determinar, por exemplo, no caso de experiência positiva, se o cliente voltará a comprar e  se recomendará a marca aos amigos. “A transformação digital no varejo não é mais uma tendência, e sim uma necessidade do mercado. Houve uma mudança de comportamento  dos consumidores, que cada vez mais encontram no smartphone um parceiro fiel para seus  relacionamentos com marcas, produtos e serviços, o que  muda, totalmente, a regra do  jogo”, opina o COO e cofundador da Propz, empresa que oferece soluções de CRM, inteligência analítica e big data, Israel Nacaxe.

Por isso, apesar de parecer – e ser uma realidade – que o consumidor está fazendo mais compras on-line, o varejo físico pesa nas suas decisões e não será substituído pelo on-line. Dados do levantamento Panorama do Comércio Móvel realizado pelo Mobile Time em parceria com a Opinion Box no Brasil apontam que 85% dos brasileiros que possuem smartphone compram on-line. Atualmente, a população brasileira com acesso a smartphone é de 60% do total, representando 90% do potencial de compra do País.

Por outro lado, estudo realizado no primeiro semestre de 2019 pela Lett, plataforma de trade marketing digital, e pelo Opinion Box, plataforma mineira de pesquisas, mostram que 64% das pessoas preferem comprar em lojas físicas, contra 36% em lojas virtuais, quando as condições de preços e benefícios são as mesmas. Apesar do número de pessoas que preferem comprar on-line ser bem inferior àquelas que optam pelo varejo físico, 28,5% dos entrevistados sempre pesquisam os preços on-line mesmo quando estão em uma loja física e 35,2%, sempre que realizam compras em varejos físicos, buscam informações do produto na internet

O consumidor atual não quer apenas encontrar um produto que atenda às suas necessidades, ele busca também se conectar a marcas com valores e propósitos alinhados aos seus. “É na loja física que o consumidor manuseia o produto e tem contato presencial. Entendendo isso, muitas marcas que iniciaram no digital, como a Amazon, Amaro e Casper.com, já abriram as suas lojas físicas tanto para o consumidor conhecer os produtos quanto para ajudar na visibilidade e construção de marca”, diz o sócio e CEO do estúdio de design e tecnologia HUIA, Alessandro Canduro.

ALÉM DA VENDA

Em resposta, empresas de todos os portes precisam integrar processos e soluções tecnológicas para aumentar sua eficiência operacional, trazer inovações e entregar experiências de consumo realmente relevantes. O fato é que o ambiente de varejo precisa evoluir e tornar­ se muito mais do que um lugar para comprar produtos. Os clientes passaram a demandar mais conveniência, opções de escolha, acesso facilitado, simplificação dos pontos de contato e, principalmente, personalização.

O sócio da Forebrain, Billy Nascimento, acredita que a discussão precisa estar no entendimento da jornada do consumidor, em suas preferências e necessidades e no modo como construir os elementos corretos para criar maior facilidade, economia, conveniência, emoção e valor.

Na opinião do sócio e head de Tecnologias Imersivas da More Than Real, startup de realidade aumentada, Marcos Trinca, as lojas estão virando, cada vez mais, pontos de experiência. ”Existem lojas da Nike, por exemplo, que hoje não têm estoque, o consumidor vai até lá testar o produto. Acontece que na loja tem uma cesta de basquete, e o consumidor escolhe um par de tênis, coloca no pé e vai jogar basquete com os amigos dentro da loja. A partir da experiência, se ele gostar do calçado, pode comprá-lo por meio de um totem ou pelo celular e o produto será entregue na casa dele em poucos dias”, exemplifica.

Outro motivo, na opinião de Trinca, que atrai o consumidor até uma loja física é ter o produto em mãos. Apesar disso, Patrícia, do Ibevar, ressalta que é errado, por exemplo, considerar que o papel da loja física é a entrega imediata. “Nem sempre o consumidor está em busca de um produto com entrega imediata. Sair com sacolas, no meio do horário do almoço, por exemplo, pode ser um entrave. O que o consumidor quer é saber que ele vai ter o produto na hora que ele precisa usar. O imediatismo da entrega é a segurança de que aquele produto vai estar lá disponível quando ele chegar em casa à noite ou quando ele precisar usar. Se a empresa tiver um sistema eficiente de entrega (O que no atual cenário é facilitado em, muito pelos aplicativos de ”entrega de tudo”), esta ideia da entrega imediata pode ser quebrada”, pontua a especialista.

NA PRÁTICA

Para o gerente de varejo da tradicional varejista de calçados infantis Bibi Calçados, Júlio César Hannel Mattos, o digital vem crescendo, mas a experiência presencial da loja ainda é fundamental para os consumidores. ”Na loja física, o atendimento pode ser aprimorado por meio do uso de ferramentas digitais no sentido de facilitar o processo de compra e orientar os consumidores. O fator humano, o olho no olho, ainda é um diferencial que torna a experiência presencial insubstituível”, afirma.

Para tornar a experiência mais relevante, os vendedores precisam estar preparados para oferecer as informações que os consumidores buscam mesmo que a venda não ocorra. Para Mattos, essa orientação faz parte do processo de atração e conquista do cliente. “Quanto melhor a loja atender o consumidor, quanto mais ela ajudá-lo, fornecendo informações e saciando suas dúvidas, melhor será o relacionamento e a experiência. E, dessa forma, maiores serão as chances de conversão, recomendação e fidelização”, ressalta o representante da Bibi.

A rede de franquias e pelúcias personalizáveis Criamigos aposta no ponto de venda como sua chave para conversão. Para isso, as sócias Natiele Krassmann e Veronicah Sella desenvolveram um trajeto de compra das pelúcias que envolve cinco etapas: escolher o tipo de bicho (entre vacas, cachorros, zebras, unicórnios, dinossauros, entre outros), encher a pelúcia com espuma (processo do qual o cliente participa), gravar uma mensagem para colocar no brinquedo, escolher acessórios e roupas e, por fim, fazer a certidão de nascimento, na qual o cliente preenche seus dados e dá nome à pelúcia, coletando também informações para ações no futuro. “Nossa proposta é oferecer amor, então há um intenso treinamento da equipe de vendas e atendimento para passar diferenciação, olho no olho, carinho e personalização a cada atendimento, tanto para crianças como para adultos. E tem dado certo”, pontua Natiele Krassmann.

A More Than Real, que desenvolve ações diferenciadas para varejistas de realidade   aumentada, também trabalha na diferenciação para o engajamento do consumidor. “Um exemplo de ação bem bacana que fizemos foi o game de realidade aumentada (AR) “ache os ovos” para a Páscoa em parceria com o Extra. Na ação, por meio do aplicativo do Extra, os clientes percorreriam a loja para encontrar as tags do game e, com ela, experimentar a AR do coelhinho da Páscoa Extra, que dançava e poderia dar um prêmio através de um banner na tela do celular desse consumidor. Com isso, o cliente fazia um print / fotografia dessa tela, pegava o produto na gôndola e mostrava a foto no caixa, pagando o produto com o preço da promoção. Com a ação, mais de 50% das pessoas que usaram a realidade aumentada de faro realizaram a compra do produto, e isso gerou uma venda incremental de quase R$1 milhão”, exemplifica Marcos Trinca.

Para o diretor de inovação da rede Hortifruti Natural da Terra, Felipe Feldens, o que se vê no mundo inteiro é que o cliente cada vez mais deseja ter uma experiência descomplicada entre diversos canais. “Os cases de maior sucesso são exatamente aqueles nos quais a jornada do consumidor passa entre diferentes ambientes sem nenhum tipo de barreira e de maneira fluida combinando o melhor de cada um. As lojas físicas oferecem melhor experiência e atendimento humanizado, enquanto nos canais digitais temos conveniência, velocidade e praticidade. O cliente não quer um ou outro, ele quer tudo”, opina.

A rede inaugurou, recentemente, a Vila, um lugar para as pessoas terem mais contato com a terra, em um espaço multifuncional com objetivo de ser uma ocupação feita pela comunidade, onde é possível encontrar horta e escola, que além de ter aulas de jardinagem, plantio, entre outras coisas, também ensinam todo o processo de compostagem e todo o ciclo vivo para redução do lixo.

MIX DE ON E OFF

Nesse sentido, o omnichannel consolida a mudança de mindset no comportamento do consumidor, uma vez que ele já não compra exclusivamente de um único canal (como ocorria no passado com a fidelização de uma loja específica). Nos dias atuais, ele tem acesso a informações de forma na on-line e transita entre os mundos digitais e físicos no simples toque no celular.

Dessa forma, pode optar por consumir produtos onde eleger a melhor experiência naquele determinado momento e compra de acordo com a sua necessidade instantânea. “Há diversas lojas que já integram tecnologias para interagir com os clientes, como beacons (um gps que localiza com precisão por qual corredor um cliente passa em uma loja de   departamento), realidade aumentada, robótica, self check-out, carteira digital, entre outras. Claro que tudo isso faz parte do que este consumidor moderno espera receber nas suas idas às lojas, porém o atendimento passa a ser o principal diferencial no ponto de venda e não poderá ser substituído nunca. A loja física tem o papel de criar experimentação visual, algo que a internet não consegue transmitir”, reforça o fundador e CEO da Umclube, Thiago Monsores, retail tech que atua na fidelização de clientes e caminha para ser o superapp dos shopping centers.

O varejo do futuro deve usar a tecnologia a seu favor: em virtude da dificuldade logística do País, passa a servir também como um ponto de entrega e coleta dos produtos, facilitando projetos como “Clique e Retire” e “entrega expressa”, com o intuito de minimizar a espera do consumidor pelo produto – um atrito que pode ser contornado com a utilização da tecnologia e integração.

TENDÊNCIAS PARA O FUTURO DA LOJA FÍSICA

•   Mudança no perfil do consumidor.

•   Uso de dispositivos móveis.

•   Integração da loja física e on-line.

•   Colaboração na cadeia de abastecimento.

•   Tecnologias como realidade virtual, inteligência artificial e internet das coisas.

•   Experiência imersiva.

•   Personalização. AR/VR.

•   Reconhecimento facial.

•   Captação e análise de dados do consumidor em tempo real.

•   Oferecimento de cestas únicas.

•   Digital Visual Merchadising.

•   Logistic Store, Omnichannel e New Retail.

•   Delivery de tudo.

•   Compartilhamento e economia compartilhada.

•   Guideshops, Lockers e formatos alternativos de entrega.

4 PASSOS DE UMA EXPERIÊNCIA POSITIVA

Consumimos experiências de forma passiva e ativa, absorvendo-as ou imergindo nelas. Pensar, portanto, em:

1.  ENTRETENIMENTO: criar um ambiente de experiência. pensando em um consumo passivo de absorção, ou conteúdos on-line.

2.  EDUCAÇÃO: pensar em um consumo ativo de absorção ou informação.

3. ESTÉTICA: pensar em um consumo passivo imersivo para criar efeito WOW.

4. ESCAPISTA: ativar um consumo ativo imersivo, que favoreça a interação dos produtos ali oferecidos.

FONTE: FOREBRAIN.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRESCRIÇÃO: BRINCAR

A aprovação de um videogame para o tratamento de crianças com déficit de atenção abre caminho para o uso da realidade virtual no tratamento de distúrbios mentais

Em decisão inédita, a FDA, a agência dos Estados Unidos que regula os remédios, aprovou um jogo de videogame para o tratamento médico de crianças. Desenvolvida pela empresa de medicina digital americana Akili Interactive Labs com o nome comercial de Endeavor Rx, a diversão é recomendada para o controle de um transtorno psíquico infantil, o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O distúrbio é diagnosticado em torno dos 7 e 8 anos de idade e, por uma razão ainda desconhecida, acomete sobretudo os meninos. A prevalência global é de 5%. Os sintomas são desatenção, impulsividade e hiperatividade. A vida escolar é afetada. Quem sofre do problema e não é acompanhado tem notas baixas e é tachado de preguiçoso, malcriado e aéreo injustamente.

O pulo do gato do videogame é conseguir prendera atenção da criança e exigir que ela monitore duas tarefas simultaneamente, melhorando a capacidade de atenção. “Esse produto mostra o impacto que a tecnologia pode ter no funcionamento cerebral, sobretudo na infância”, diz o psiquiatra Guilherme Polanczyk, professor de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade de São Paulo.

Na brincadeira, o usuário conduz uma nave voadora por um percurso cheio de obstáculos, em que precisa evitar riscos como fogueiras ou minas subaquáticas. Ao mesmo tempo, coleciona alvos ao longo do caminho. O game tem ainda algoritmos que podem se adaptar em tempo real para ajustar o nível de dificuldade, dependendo de quem está no comando, e assim personalizar o tratamento. A região do cérebro estimulada pelo enredo é o córtex pré-frontal, área com maior impacto no TDAH. É por meio dela que se desenvolvem a concentração, o controle de impulsos, o planejamento, a tomada de decisão e a conscientização. Diz o psiquiatra Luiz Rohde, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador do programa de déficit de atenção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: “É promissor, mas ainda é cedo para ser definido como um recurso terapêutico definitivo”.

O tratamento do TDAH é feito tradicionalmente com anfetaminas, como a Ritalina e o Adderall. Elas acalmam e são celebradas por isso. Trata-se, contudo, de substâncias viciantes que, em excesso, podem desencadear problemas respiratórios, taquicardia, depressão e ansiedade. Os games também têm efeitos colaterais, que incluem dor de cabeça e sensação forte de frustração, mas são claramente mais leves. Nos Estados Unidos, é preciso receita médica para baixar o jogo. No Brasil, ele ainda não foi aprovado pelas autoridades de saúde.

No passado recente, jogos eletrônicos têm sido usados em crianças com outros tipos de problemas psíquicos, em especial o autismo, e com bons resultados. A realidade virtual treina o contato olho no olho e estimula a interação social. Mas é a primeira vez que o uso tem um aval oficial.