EU ACHO …

SHAKESPEARE NA PANDEMIA

O perigo iminente sempre foi à fonte do grande drama explorado em suas peças

Em maio de 2020, Robert De Niro, em conversa no programa Newsnight, da BBC TV, parecia incapaz de descrever a política norte-americana. Finalmente, ele exclamou: “É como Shakespeare, a coisa toda”, para resumir sua visão da crise. “Tão shakespeariano”, uma abreviatura cultural não verificada, tornou-se agora uma certeza estranhamente reconfortante que diz: “Você não está sozinho”. Para alguns leitores contemporâneos, as obras coletadas no First Folio de Shakespeare realmente formam um “livro da vida”.

Shakespeare deleita-se com o presente dramático. Ao menos três de suas peças começam com “Agora”. Ele sempre enfrentará as questões mais avassaladoras e virá em nosso socorro sob muitos disfarces, mas a influência é a sua posição-padrão. Isso é elisabetano: a era de Shakespeare vivia no “agora”, do nascer ao pôr do sol. ”A prontidão é tudo”, diz Hamlet. Tudo ou nada é um desafio que o dramaturgo celebra em suas antíteses ressonantes. “Ser ou não ser”, sua famosa oposição dramática, é ao mesmo tempo anglo-saxã, existencial e direta.

Foi o acaso de seu nascimento no Warwickshire elisabetano que o despertou para o drama da vida cotidiana? Foi aqui que ele aprendeu a extrair tantas nuances de significado dos detalhes cotidianos do mundo a girar? Em algum momento, em Stratford ou quando se mudou para Londres, ele descobriu a fonte do grande drama: o perigo iminente. Em sua imaginação, isso desabrocharia em um diálogo vitalício entre risco e originalidade, uma troca criativa que o escritor parece ter guardado para si mesmo. Nunca saberemos. Nas palavras de Jorge Luís Borges, o homem permanece um enigma, ao mesmo tempo” muitos e ninguém”.

Como era ele? Esta pergunta, tão importante no século XXI, teve pouca atração no XVII. Apesar das escassas evidências, há unanimidade impressionante entre as testemunhas contemporâneas. Quase todas as referências a “Shakespeare, o homem” concordam sobre sua decência, tratamento simples, discrição e polidez, nenhuma das quais sugere o lado sombrio que nos ajudaria a compreender peças como Ricardo III, Macbeth ou Rei Lear.

Podemos, entretanto, colocar essa figura indescritível em uma paisagem histórica. O Shakespeare que atingiu a maioridade durante décadas de crise, pavor e desordem fala a cada geração que se encontra inextremis. Qual é o segredo de sua empatia estranha e misteriosa, e onde está a chave para seus insights? Como e por que seu trabalho é tão perene?

De acordo com o diretor de teatro britânico Adrian Noble, uma pista para entender Shakespeare é que ele não é apenas “um grande visionário”, mas um “homem prático do teatro”. Escreveu peças para serem representadas “para um público que consistia de um amplo corte da sociedade: dos mais instruídos e lidos até os analfabetos”. Noble continua: “O público multifacetado que se amontoava entre as paredes do Teatro Globe era difícil de agradar e bastante volátil. Shakespeare tinha de chamar sua atenção e mantê-la”. Cortar uma mão, arrancar um olho, trazer um urso selvagem, derrubar uma floresta, cortar uma artéria: Shakespeare fará qualquer coisa para chamar a atenção do público.

Quatro séculos depois, o rapper britânico Storruzy, defensor dos estudantes negros desfavorecidos, usou um eco shakespeariano em seu disco de 2019 que liderou ,as paradas, Heavy

Is the Head (Pesada é a Cabeça), uma homenagem a Henrique IV. Nesse sentido, o ator Andrew Scott vê seu trabalho como ”eletrizar” o público. Ele também diz que encontrou seu próprio caminho no texto de Hamlet por meio do rap. “Eu odeio a ideia de Shakespeare colocado em uma caixa de vidro, como algo que está morto”.

Assim como Every Third Thought (Cada Terceiro Pensamento) patrocinou uma reconciliação com questões de vida e morte, a redescoberta de Shakespeare pode ser uma revelação. Em qualquer releitura, alguns de seus versos mais diretos e poderosos vêm em simples monossílabos antigos. “Ser ou não ser” é igualado por “Não me deixes enlouquecer” (Let men ot bemad), de Rei Lear, e a despedida de Iras (em Antônio e Cleópatra): “Nós somos para as trevas” (We are for the dark:). Eu também estava familiarizado com “as trevas”. O animal humano vive no epicentro de sua própria vida, principalmente quando adoece.

Nessa condição, a misteriosa introdução de Shakespeare é profundamente consoladora. Numa longa convalescença, quando cada dia se torna um lembrete da fragilidade humana, o poder extraordinário de Shakespeare de se conectar com a perplexidade de seu público e evocar uma emocionante sensação de mistério na provação humana inspira uma mistura de reverência, admiração e fascínio. Para mim, isso se tornou um longo diálogo interno. Se eu não pudesse mais viajar, ou me mover à vontade, como antes, ao menos poderia fazer viagens da mente, no “livro da vida” de Shakespeare. A palavra-chave da minha recuperação foi “plasticidade”. Uma definição de “plasticidade” descreve o fenômeno como “a capacidade de alteração contínua das vias neurais é sinapses do cérebro vivo e do sistema nervoso em resposta à experiência ou lesão”. De outra forma, “plasticidade” tem a ver com adaptabilidade cerebral, o tipo de resposta inconsciente que ocorre em qualquer releitura de Shakespeare. Hoje tenho três edições das Obras Completas, e cada uma traz as impressões de muito estudo: manchas de café e vinho, páginas rasgadas, marcas fantasmagóricas de lápis e cantos dobrados.

Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, a devoção à memória do poeta encontra vários tipos de expressão, desde a comédia cult da tevê Upstart Crow ao sombrio tributo quadricentenário de Kenneth Branagh, All Is True (2018). Na virada do milênio, uma parada de sucessos de Grandes Britânicos da BBC fez de Shakespeare sua quinta escolha (à frente da Rainha Elizabeth e de Isaac Newton, mas atrás de Diana, a princesa de Gales, e de sir Winston Churchill, que liderou a votação).

Ocasionalmente, a tensão liberada de uma história shakespeariana cria uma onda de poder retórico capaz de inverter a razão, desafiar a lógica e transcender o significado. Diante de algumas guerras culturais fervilhantes, o desafio de Hamlet (“Quem vai lá?) é um chamado às ruínas, uma questão para mobilizar qualquer um preocupado com a defesa da cultura global entendida no sentido mais amplo. Foi possivelmente por isso que, na “desgraça geral” (palavras de Shakespeare) que irrompeu durante e após a eleição presidencial de 2016, muitos norte-americanos recorreram a Shakespeare em sua angústia.

OUTROS OLHARES

FILÉ A JATO

Startups criam máquinas capazes de imprimir carne a partir de plantas e moléculas de animais e podem iniciar uma revolução na indústria de alimentos

Em 1984, um estudante de engenharia perguntou ao americano Chuck Hull, inventor da impressora 3D, qual seria o futuro da máquina que, àquela altura, reproduzia formas rudimentares de resinas. “Vai chegar o dia em que seremos capazes de imprimir qualquer coisa, até mesmo um automóvel”, disse Hull. Ele estava certo, mas nem tanto. Na verdade, as máquinas foram muito além do que a sua imaginação pôde conceber. Atualmente, a tecnologia, de fato, é capaz de produzir qualquer tipo de objetivo inanimado – qualquer um mesmo. De barcos a casas. De próteses a armas. Isso, porém, não é exatamente novidade. A mais recente aplicação das impressoras 3D é ainda mais surpreendente e pode levar a caminhos inesperados. Os cientistas descobriram que os aparelhos são capazes de dar vida a suculentas carnes sintéticas, desde que sejam utilizados os ingredientes corretos.

A iniciativa é liderada pela empresa israelense Redefine Meat, que apresentou recentemente ao mercado a sua inédita impressora. As máquinas devem ser alimentadas com uma combinação de plantas e moléculas bovinas. Alguns minutos depois, elas imprimem filés que, pelo menos visualmente, são idênticos aos bifes tradicionais. Segundo a Redefine, startup criada em 2018 com a ambição de revolucionar o setor de alimentos, o sabor remete a carnes de verdade, nem de longe lembrando um produto sintético. “Conseguimos obter a mesma consistência de um bife convencional, inclusive imitando músculos e gorduras”, diz Alexey Tomsov, engenheiro da companhia. As máquinas foram concebidas para imprimir 20 quilos por hora, o suficiente para abastecer um restaurante de porte médio. A ideia é inicialmente levar a novidade para pequenos bistrôs ainda em 2020, e oferecer o equipamento ao mercado, para qualquer um que quiser comprá-lo, no começo de 2021. O preço não foi definido.

As grandes empresas estão atentas ao novo segmento. A rede americana de fast food KFC, uma das maiores do mundo, vai testar no mercado russo, em parceria com a startup 3D Bioprinting Solutions, nuggets feitos por impressoras. Assim como o equipamento da Redefine Meat, as máquinas usam como ingredientes plantas e, nesse caso, moléculas de frango. Em poucos minutos, imprime-se um balde cheio de nuggets, com a vantagem adicional de que nenhum animal precisou ser sacrificado. Eis aí o fator que encanta ambientalistas: as carnes fake, obviamente, têm potencial para preservar milhões devidas. “Sempre haverá pessoas criando e comendo animais”, disse em uma palestra nos Estados Unidos o cardiologista Uma Valeti, fundador da startup Memphis Meats, uma das principais empresas de carnes sintéticas do mundo. “Mas, pela primeira vez na história da humanidade, estamos perto de oferecer em larga escala um bife suculento, igualzinho à carne da vaca que estava pastando no campo, mas que foi 100% criado em laboratório.”

As carnes produzidas em laboratório podem levar a uma radical transformação na indústria de alimentos. Uma pesquisa feita pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, identificou trinta empresas que tentam recriar em laboratório carnes idênticas às consumidas hoje em dia. Antes das impressoras 3D, porém, os projetos eram caros e demorados, o que inviabiliza a execução. Com os equipamentos de impressão, espera-se que o setor ganhe novo dinamismo, e provavelmente não vai demorar para que as carnes fake fabricadas por uma máquina instalada no fundo de uma cozinha constem no cardápio de restaurantes estrelados. Não à toa, jovens companhias como a Memphis Meats, uma das maiores do ramo, contam com investidores pesos-pesados. Entre eles, Bill Gates, fundador da Microsoft, e Richard Branson, criador da Virgin. Uma das principais empresas de alimentos do mundo, a americana Cargill desembolsou dezenas de milhões de dólares para alavancar a Memphis Meats.

O avanço das impressoras pode levar à impressão de carne de verdade. Um artigo publicado pela revista científica Science apresentou detalhes de um experimento realizado na Estação Espacial Internacional. O cosmonauta russo Oleg Kononenko imprimiu no espaço células de cartilagem humana usando um equipamento criado pela empresa russa de biotecnologia Bioprinting Solutions. O método baseia-se em imitar o processo natural de regeneração do tecido muscular, mas sob condições controladas. Segundo Kononenko, a máquina 3D também foi capaz de produzir no espaço glândulas tireoides de ratos. Trata-se de algo realmente espetacular. Significa que, no futuro, as tripulações poderão imprimir seus próprios alimentos, incluindo carnes de laboratório. Se tudo der certo, elas serão tão saborosas quanto um belo pedaço de picanha.

EM TRÊS DIMENSÕES

O que esses equipamentos são capazes de fazer

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE SETEMBRO

A BACIA E A TOALHA

Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois (João 13.7).

Jesus é o Senhor e o Mestre, mas lavou os pés dos seus discípulos. Jesus não é apenas um senhor entre tantos; é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Não é apenas um mestre entre uma legião de sábios; é o Mestre por excelência, pela pureza do seu caráter, pela excelsitude de seus métodos e pela singularidade de seu conteúdo. Jesus é o Senhor que criou e governa o universo e o Mestre que nos revelou o próprio Deus. Ele é a verdade. Ele é a luz. Mas esse Senhor e Mestre não arrogou para si grandes coisas. Ao contrário, mesmo sendo Deus, fez-se homem; mesmo sendo Senhor, fez-se servo; mesmo sendo Santo, fez-se pecado. Esvaziou-se da sua glória, vestiu pele humana e humilhou-se até a morte, e morte de cruz. Quando os discípulos, no cenáculo, discutiam sobre quem deles era o maior no reino dos céus, Jesus levantou-se, cingiu-se com uma toalha, colocou água na bacia e lavou os pés dos discípulos. Depois, voltou à mesa e disse: Vós me chamais o Senhor e o Mestre e dizeis bem; porque eu o sou (v. 13). Jesus nos deu o exemplo de que a bacia e a toalha são os símbolos do seu reino. Quem quiser ser grande deve ser servo de todos. Aqueles que se humilham serão exaltados. Num mundo que valoriza tanto o poder e a força, Jesus nos ensina que a bacia e a toalha se constituem nas poderosas armas daqueles que são verdadeiramente grandes.

GESTÃO E CARREIRA

FRANGO SEM ESTRESSE

De uns tempos para cá, muito se fala em processos produtivos sustentáveis, com uso de energias limpas e renováveis, que protejam os recursos naturais necessários para a manutenção da vida na Terra. Dentro dessa nova mentalidade, até mesmo a forma de criar animais para abate passa por mudanças. A Netto Alimentos, empresa paulista especializada em ovos, com fábricas em Araçariguama e Iacri, no interior do Estado, embora não tenha granja própria, tem certificação para atuar dentro das normas do modelo cage free, que é a criação de galinhas fora das pequenas gaiolas. Além de ser cruel, o confinamento em gaiolas prejudica a qualidade, pois o estresse causado pelo aperto e pela temperatura ambiente contribui para que as aves botem ovos de cascas finas com presença de trincas, o que não é normal. A certificação é feita dentro do programa Certified Humane, cujos padrões são estabelecidos pela Humane Farm Animal Care (HFAC), que exige biosseguridade na granja, proibição do uso de antibióticos preventivos, entre outras medidas. A política da Netto Alimentos segue uma tendência mundial. Os ovos são comprados de granjas certificadas, o que garante completa rastreabilidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TORMENTOS DA IRA

Ao longo dos séculos, estudiosos do comportamento tentam responder uma questão crucial: é possível controlar o que sentimos?

Alegria ou irritação, medo ou surpresa, pesar ou orgulho: os acontecimentos mais banais despertam múltiplas emoções. Elas acompanham cada instante do nosso cotidiano, onipresentes como o ar que respiramos. No entanto, empenhamo-nos quase sempre em conter nossos sentimentos ou em mantê-los dentro de limites toleráveis. Assim, quase nenhuma emoção escapa ao crivo da consciência.

Por que, afinal, buscamos controlá-las? Elas não são valiosas demais para ser reprimidas? Afinal, sem o afeto dificilmente ajudaríamos outro ser humano ou criaríamos nossos filhos; e, sem nos roer de raiva, talvez jamais criássemos coragem para pôr o vizinho no seu devido lugar. Portanto, para que o esforço de reprimir esses sentimentos?

Outra questão: como conseguimos conter nossas emoções? Profundamente enraizado em nossa herança biológica, o animal dentro de nós parece muito mais forte que qualquer mecanismo mental de mediação.

Esses temas estão no centro de uma área de pesquisa na qual psicólogos, sociólogos, antropólogos e, mais recentemente, neurocientistas têm adquirido valiosos conhecimentos. Tradicionalmente, aquela primeira questão – se o homem pode de fato controlar emoções – sempre foi respondida afirmativamente. Os estoicos já o postulavam. Marco Aurélio (120-180 d.C.), por exemplo, escreveu em suas Meditações, “Livre da paixão, a mente humana torna-se mais forte”. E, quase 2 mil anos depois, em O mal-estar na civilização, de 1929, Sigmund Freud explicou por que emoções transbordantes seriam inconciliáveis com o convívio social.

Com certeza, elas nem sempre trazem à tona apenas o que há de bom em nós. A raiva pode transfigurar-se em violência; reações fóbicas e depressão, por vezes, conduzem ao suicídio. Se uma pessoa armada ou um motorista enfurecido resolve dar livre vazão a sua raiva, é fácil prever a catástrofe. A capacidade de regular as próprias emoções parece, portanto, constituir necessidade vital para a sobrevivência do Homo sapiens.

Acreditar que temos nossos sentimentos sob controle está longe de significar que isso de fato aconteça. Talvez eles continuem borbulhando sob a superfície da consciência. Essa era a opinião de Freud, que introduziu na psicologia o conceito de recalque, sentimentos muito dolorosos ou incompatíveis com o ideal que temos de nós mesmos são exilados sem maiores delongas no inconsciente. Mas a energia própria das nossas emoções precisa de escape – como uma panela de pressão -, e acaba se manifestando, por exemplo, sob a forma de perturbações neuróticas ou mesmo físicas.

Outros pesquisadores mais tarde sustentaram a hipótese de Freud. Na década de 30, Franz Alexander (1891-1964), psicanalista e um dos fundadores da medicina psicossomática, descobriu que a pressão sanguínea tende a subir de forma constante nas pessoas que reprimem sistematicamente suas emoções. Não era apenas de parâmetros confiáveis para as emoções e o seu controle que Alexander carecia. Na verdade, suas descobertas baseavam-se em meros dados estatísticos, e não na experimentação. Por isso, ele não conseguiu elucidar a possível relação de causa e efeito existente entre o controle das emoções e a saúde de um indivíduo.

De lá para cá, no entanto, os estudos sobre o tema foram aprofundados. Isso abre caminho para que o modo como os seres humanos regulam seus sentimentos seja estudado. O psicólogo James Cross, professor da Universidade Stanford, na Califórnia, coordena uma equipe que investiga estratégias para controlar os sentimentos e a forma como isso afeta o bem-estar psíquico e a saúde.

De início, urna surpresa desagradável aguardava os voluntários no laboratório de Cross: eles deveriam assistir a filmes chocantes, gravações em vídeo que despertam repulsa, como a amputação de um braço ou rituais africanos exibindo a prática da circuncisão. Sem virar o rosto.

Num desses experimentos, Cross solicitou a metade de seus voluntários que, na medida do possível, não fizessem caretas ao assistir às cenas. Eles deveriam se concentrar em manter expressão neutra, de modo que ninguém pudesse ver o que estavam sentindo. Esse tipo de autocontrole é chamado de “supressão” pelos psicólogos.

A outra metade não recebeu instrução alguma. Cross filmou as expressões faciais do grupo e registrou reações fisiológicas como condutibilidade elétrica da pele e frequência e intensidade dos batimentos cardíacos. Todos os participantes responderam a um questionário sobre o que haviam sentido durante a exibição dos vídeos.

A maioria dos participantes solicitados a manter expressão neutra conseguiu esconder sinais de suas emoções. Nem por isso, no entanto, eles sentiram menos repugnância, nojo ou até medo – conforme se verificou pelas respostas ao questionário – do que aqueles que haviam assistido às mesmas cenas sem ter recebido instruções específicas. Mas um dado chamou a atenção: apesar da suposta impassibilidade, o sistema nervoso autônomo reagiu com particular intensidade nos que haviam reprimido a emoção, o que permite inferir uma reação veemente de stress. Esse dado fortalece a noção de que controlar emoções fortes pode ser nocivo à saúde.

EM DESVANTAGEM

Todavia, o efeito negativo do controle da expressão emocional não se restringe ao aumento do stress. Como demonstram em vários estudos os psicólogos Roy Baumeister e Dianne Tice, ambos da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, pessoas que reprimem suas emoções são menos capazes de resolver desafios intelectuais. Jane Richards, da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que os repressores de sentimentos têm mais dificuldade em memorizar detalhes de experiências emocionalmente significativas. Tampouco no relacionamento interpessoal eles se saem tão bem, como demonstrou Emily Butler, da Universidade do Arizona, em Tucson. Em questionários com respostas anônimas, pessoas que não deixam transparecer nenhum sentimento em conversa com seus interlocutores foram consideradas por estes menos simpáticas – e também menos interessantes.

Está claro que, além dos efeitos físicos de curta duração, o controle das emoções acarreta consequências duradouras. Num estudo publicado em 2003, James Cross e Oliver John, da Universidade Berkeley, perguntaram a estudantes em que medida eles controlavam seus sentimentos no dia a dia. Com base nas respostas, os voluntários foram divididos em dois grupos: o daqueles que davam expressão mais frequente a suas e moções e o dos “repressores”.

A comparação resultou numa série de diferenças significativas. Quem preferia engolir a raiva, o medo ou o pesar revelou-se, em média, mais pessimista, com tendência à depressão e mais inseguro. Além disso, essas pessoas fazem menos amizades e suas relações tendem a ser superficiais. Temperamentos mais frios, portanto, parecem já de início em desvantagem, e em diversos aspectos.

Um estudo do pesquisador belga Johan Denollet, médico do Hospital Universitário de Antuérpia, deu ainda um último empurrãozinho nessa conclusão preocupante. Ele perguntou a pessoas que haviam sofrido infarto quais eram seus “hábitos emocionais”. Denollet queria saber desses pacientes com que frequência eles tinham mau humor ou outras emoções negativas, tais como medo, raiva ou remorso, e se compartilhavam seus estados de espírito com os outros ou preferiam guardá-los para si. Quando, dez anos depois, Denollet tornou a contatar os mesmos pacientes, com o intuito de repetir as perguntas, cerca de 5%deles haviam morrido. Mas tanto entre os que haviam relatado ter emoções negativas com frequência acima da média como entre os que tinham demonstrado tendência à repressão emocional, os mortos perfaziam um total de 25%. Ou seja, uma taxa de mortalidade cinco vezes maior. Dar vazão aos sentimentos parece, portanto, não apenas humano como também – e literalmente – de importância vital.

BASTA OBSERVAR

As descobertas de Denollet nos deixam num dilema. A psicologia diz que, sem adequar nossas emoções, não podemos ir adiante; mas, dependendo da forma como fazemos isso, nos tornamos indivíduos mais solitários e fisicamente doentes. Felizmente, pesquisas mais recentes apontam uma possível saída. Controlar demonstrações do que sentimos não tem necessariamente consequências ruins: basta fazermos uso saudável dessa habilidade.

Nos estudos mencionados, os voluntários controlavam apenas seu comportamento, e não os sentimentos em si. Mas outra modalidade de controle das emoções tem por alvo menos o comportamento visível que a experiência interior, subjetiva.

A vida cotidiana nos mostra que isso é possível. Somos capazes de ver a mesma situação sob diferentes ângulos e, mediante uma alteração no modo de pensar, de exercer influência sobre nossas emoções. Um garçom lento, por exemplo, é capaz de nos fazer ferver o sangue. Em geral, porém, basta observar que o pobre homem está apenas atarantado com o grande afluxo de fregueses que nossa irritação se dissipa.

Diversos pesquisadores investigaram o controle cognitivo das emoções – e se ele é capaz de evitar as consequências negativas já descritas. Mas como ensinar voluntários a se sentir, com a força do pensamento, menos mal diante de cenas horripilantes? Solicitando a eles, por exemplo, que reflitam sobre as sequências em vídeo com a máxima objetividade, ou seja, que contemplem as cenas de uma amputação, por exemplo, com os olhos de um médico. Voluntários que se valem dessa estratégia de racionalização não apenas deixam transparecer mais raramente sentimentos negativos em seu comportamento como também dizem experimentar menos mal-estar e repulsa. Além disso, nesses experimentos, verificou-se menor ativação do sistema nervoso autônomo.

É possível, portanto, que certas estratégias ajudem bastante no controle das emoções. Se podemos manipular nossos sentimentos de acordo com o modo como avaliamos uma situação, então isso deve ser passível de verificação no cérebro. Assim pensaram também Kevin Ochsner e Sílvia Bunge, hoje pesquisadores da Universidade Colúmbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Davis, respectivamente.

SOLENE CONTROLE

Os neuropsicólogos examinaram voluntários com o auxílio da tomografia por ressonância magnética funcional (fMRI). Esse método torna visível a atividade em diferentes regiões cerebrais por meio do teor de oxigênio no sangue. Durante a tomografia, Ochsner e seus colegas exibiram imagens chocantes de cirurgias, de crianças com doenças fatais e de cães bravos mostrando os dentes. Eles ora pediam aos participantes que apenas as contemplassem, ora que se distanciassem delas o máximo possível, empregando para tanto uma estratégia específica, treinada de antemão. Essa estratégia consistia na reelaboração cognitiva da “história por trás da imagem”. Por exemplo: “Imagine que o bebê da imagem logo estará curado”. Ou: “O cachorro está bem longe de você, contido por uma cerca alta”.

Deu certo. Quando os voluntários seguiram o conselho de refletir sobre a imagem com distanciamento, o córtex pré-frontal revelou nítido aumento de atividade. Essa região cerebral é responsável pelo chamado controle executivo – isto é, por quase tudo que tenha a ver com planejamento, decisão e execução de ações. Quanto mais ativas se revelavam as células nervosas dessa região, maior era a calmaria em regiões do sistema límbico e sobretudo na amígdala, que, como se sabe, tem participação no modo como se lida com emoções negativas. Estratégias de pensamento podem, portanto, balizar reações emocionais com eficácia. Ou seja, as coisas em si não são nem boas nem ruins: é o pensamento que as faz assim. As pessoas que se saíram bem com a estratégia de reelaboração cognitiva disseram ter tido menos náusea e nojo e demonstraram atividade reduzida em seu sistema nervoso autônomo.

A grande questão, no entanto, é se esse método é de alguma valia também na vida cotidiana, ou seja, em situações reais. Foi com o intuito de examinar essa questão que Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, partiu ao encontro dos mestres do controle emocional: os monges tibetanos. Meta importante dos budistas é se desligar de todos os sentimentos negativos e pensar sempre de forma positiva. Vistos de fora, os monges de fato aparentam impassibilidade admirável. Declaram sentir muito menos medo, pesar ou raiva. Mantêm, ao contrário, uma inclinação para a calma e a passividade. Mesmo em situações nas quais outros morrem de medo, os monges tibetanos exibem solene autocontrole mental. Literalmente: ameaçados de tortura pela ocupação chinesa, alguns preferiram a auto imolação pelo fogo – com um sorriso nos lábios, conta-se.

DUELO DESIGUAL

Para o estudo do controle emocional humano, a meditação dos monges seria o objeto de pesquisa ideal, afirma Davidson. Para sorte do pesquisador, o Dalai Lama, supremo representante do budismo tibetano, é bastante aberto às neurociências e já estimulou em diversas ocasiões encontros entre budistas, psicólogos e neurocientistas.

Davidson, portanto, pôs mãos à obra. Por meio da eletroencefalografia (EEC), registrou as ondas cerebrais de oito monges enquanto estavam mergulhados em práticas meditativas. Os participantes de seu estudo tinham de 10 mil a 50 mil horas de meditação – não eram, portanto, iniciantes. Os padrões de EECs desses monges foram comparados aos de novatos em meditação que tinham passado por treinamento de apenas uma semana.

OUTRAS CULTURAS

Resultado desse duelo desigual: durante a meditação, os monges apresentaram maior porcentagem das chamadas ondas gama – padrões velozes, de frequência entre 25 e 42 hertz -, que acompanham estados elevados de atenção. As ocorrências revelaram-se especialmente pronunciadas em duas regiões do lobo frontal, ambas envolvidas no controle das emoções. De acordo com Davidson, a atividade gama dos monges está entre as mais intensas já descritas na literatura não-patológica. Na opinião do pesquisador, esses modelos neuronais expressam a capacidade dos monges de controlar pensamentos e sentimentos, exercitada durante anos.

No final da década de 60, por exemplo, a antropóloga americana Jean Briggs viveu vários meses entre os utkus, tribo inuíte do ártico canadense. A pesquisadora espantou-se sobretudo com a raridade de conflitos entre eles. Submeteu seus anfitriões a questionários pormenorizados e observou seu dia a dia. Ao fazê-lo, constatou que a manifestação de emoções, como irritação e raiva, era extremamente malvista. Até mesmo os bebês eram ignorados pelos utkus quando começavam a berrar. Adultos que, furiosos, levantassem a voz eram tidos ou por idiotas ou um perigo para a comunidade – o que a própria antropóloga teve o desprazer de experimentar na pele, quando certa vez perdeu o controle diante da família que a hospedava: precisou de imediato encontrar novas acomodações.

Ainda assim, Briggs ficou tão fascinada com o convívio pacífico da tribo que descreveu suas pesquisas de campo num livro que se tornou clássico: Never is anger. Nele, recomendava tomar os utkus como exemplo no controle eficaz de emoções negativas. Nos anos seguintes, outros pesquisadores classificaram as conclusões da antropóloga como parciais. Ela teria, por exemplo, se deixado levar apenas pela expressão emocional que os urkus demonstravam, e não por relatos da vida emocional interior. Seria, portanto, possível supor que eles pertencessem à categoria dos repressores de sentimentos.

PAPÉIS MENTAIS

Voltemos ao garçom atrapalhado: um método de controle emocional interessante para não explodir com o pobre homem consistiria, digamos, em nos colocar por um momento na pele dele. Essa mudança de perspectiva tenderá a suscitar compreensão: um pequeno atraso já não parece coisa tão dramática; afinal, não estamos com pressa, e a comida vai acabar chegando, mais cedo ou mais tarde. Graças a tal estratégia, podemos modificar impulsos negativos. E, com algum treino, ela nos permite ver as coisas com outros olhos, sem que a consciência se veja obrigada a volta e meia nos repreender para que o façamos.

Todavia, muitas questões permanecem abertas. Por que algumas pessoas têm mais dificuldade em controlar as próprias emoções? Que estratégias de controle são mais eficazes? Como se pode aprendê-las?  O que podemos assimilar de outras culturas? Seja como for, o balanço provisório dos pesquisadores é esperançoso. Não estamos simplesmente à mercê dos nossos sentimentos. O ser humano deve – e pode – se tornar senhor das próprias emoções.