EU ACHO …

QUE ÓDIO É ESTE?

Os ataques à menina de 10 anos, estuprada e grávida, reflete o medo que o Brasil tem de si mesmo. É um país doente

O espetáculo de horror faz o seu caminho para o silêncio. Emudecemos perante as imagens. A menina de 10 anos, novamente agredida, desta vez por aquelas mulheres, por aqueles homens que se manifestam com gestos de violência à porta do hospital. Lá dentro, a vítima, de novo impotente, de novo “Silenciosa suporta nova violação. Felizmente, alguém estava lá com ela, umas quantas mulheres, para que soubesse que não está só. Para os outros, os infelizes que a amaldiçoavam, ela é a culpada. Sim, culpada por existir e por nos fazer lembrar a face sórdida de um país doente. Culpada. Para exorcizar os seus fantasmas, a turba precisa de uma vingança que dure e persista, como o executante terrorista goza o lento e doce estrangulamento do seu refém. No fim, o Estado usa o programa de proteção a testemunhas, seu último recurso. Terá novo nome, nova vida, nova cidade. De certa forma, os arruaceiros conseguiram o que queriam. No plano civil, a primeira menina deixou de existir.

A ativista política, que gosta de ser fotografada com armas imitando o presidente que apoia havia revelado ao público o seu nome, o do médico que iria fazer a intervenção e o do hospital onde seria assistida. Certamente, não o fez sem informação e apoio institucional. Por sua vez, o primeiro hospital a quem a família pediu socorro negou a assistência que a lei determina, colocando-se no mais ignominioso lagar que a história reserva aos covardes – lavar as mãos é alimentar a sujeira moral. Depois vem o bispo, aquele que usa a autoridade eclesiástica para legitimar a barbárie e promover a equivalência moral – a violência do aborto é tão terrível quanto o estupro. Depois vem ainda o padre o inacreditável padre que, cheio de amor no coração, declara que, se o estupro se fazia há quatro anos, então é claro que estava gostando, que gosta de dar. Fica assim claro que os manifestantes são apenas os executantes, a ponta da lança, a tropa de choque. Por detrás, oculta, fica a cadeia de comando institucional e moral. A pergunta que resta é esta – que ódio é este?

Este ódio só na aparência é novo. Bem-vistas as coisas, ele vem de longe. É um ódio histórico. Já o vimos antes, em várias ocasiões e sempre prometendo o paraíso e a salvação. Já ouvimos, aqui na Europa, contra o herege, contra o judeu, contra o estrangeiro. Vimo-lo nas guerras civis religiosas com a mesma ambição de unidade e de injunção divina com que se combate a blasfêmia protestante – um rei, uma lei uma fé. Vimo-lo no anfiteatro da Universidade de Sevilha, quando o general fascista grita viva a morte!

Convidam-nos a pensar este ódio com uma demência, ou alienação, ou qualquer outra patologia tão cara aos especialistas dos estados de alma. Não são como nós, dizem-nos. São doentes e, se são doentes, talvez este ódio se cure, o que nos permite ter esperança. Numa outra versão pedem-nos para o pensarmos como consequência social – miséria, desemprego, falha de identidade. Sim, só pode ser responsabilidade da sociedade e da falta de humanidade com que se organiza. Assim, talvez tudo isso tenha solução e possamos pensar numa nova engenharia social para resolver este ódio. Talvez. Talvez tudo isso seja verdade, mas quero dizer uma coisa – este ódio não nasceu ontem, ele é bem humano e bem antigo. Sartre diria assim sobre o homem que odeia o judeu, o antissemita: É um homem que tem medo. Não de judeus, certamente – dele mesmo, das suas responsabilidades da sua solidão, da mudança, da sociedade e do mundo, de tudo menos dos judeus. É um covarde que não quer confessar a sua covardia, o antissemitismo, numa palavra, é o medo diante da condição humana.

Foi este ódio que reconheci no comportamento daqueles manifestantes em fúria e dos religiosos que os apoiaram. O mesmo ódio vi-o igualmente quando os juízes (ou juíza, não sei mas parece-me que foram mulheres) proibiram o presidente Lula de enterrar o irmão. Este ódio não é ódio ao PT coisa nenhuma, é um ódio ao Brasil a si próprio, ou, se quiserem, a metade de si próprio, o que vai dar no mesmo. O ódio que esconde o medo. Medo da sua própria história escravocrata. Medo da igualdade. Medo dos novos direitos. Medo da contingência, medo do acaso, medo da diversidade, medo da alegria e medo, ainda, de que essa alegria que não está longe, seja lembrada. O Brasil com medo de si próprio.

Para um eloquente ministro do Supremo Tribunal Federal, a ameaça democrática é meramente “retórica”. Os acontecimentos, diz, estão ocorrendo como devem ocorrer. O ministro precisa se explicar, acalmar alguns seguidores e ajustar contas consigo próprio e com os acontecimentos que ele mesmo fez acontecer. Comporta-se como o eterno otimista que, tendo caído da varanda do 20° andar, ao passar no oitavo decide fazer o ponto da situação – até aqui tudo bem. Sim, senhor Ministro, tudo bem, é só retórica. Acontece que todas as desgraças começaram assim, com retórica. O Brasil ou melhor dito, uma parte do Brasil, está doente.

OUTROS OLHARES

POR UM FIO DE CABELO

Sem precisarem aparecer em público, envergonhados, os calvos procuraram tratamento na quarentena. Com uma boa-nova: as técnicas estão cada vez mais eficazes

A preocupação com a calvície é um drama recorrente e imemorial dos homens – drama só comparável ao desconforto de aparecer em público depois de uma intervenção cirúrgica para reposição dos fios. Salvos durante a pandemia por poder ficar em casa, longe dos olhos de outras pessoas, escondidos pela má iluminação das chamadas de videoconferência, os calvos procuraram maciçamente os consultórios de dermatologia em meio à quarentena, sobretudo nas últimas semanas. Encontraram, enfim, no confinamento, um modo mais aceitável, menos público, de tratar o incômodo estético. Especialistas no Brasil confirmam a intensa movimentação. Os números mostram que esse público não é nada reduzido. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, metade do universo masculino de até 50 anos tem calvície. E a boa. nova é que há bons tratamentos, cada vez mais sofisticados.

O procedimento mais eficaz é a cirurgia. O mercado de transplantes capilares, que nasceu nos Estados Unidos nos anos 1950, hoje é gigantesco. Cresceu mais de 150% na última década. No ano passado, foram realizadas mais de 735.000 intervenções em todo o mundo. “O sucesso tem base no avanço da técnica, que acabou com o antigo estigma de “cabelo de boneca”, diz o cirurgião Márcio Crisóstomo, um dos especialistas que mais fazem o procedimento no país – cerca de 300 cirurgias por ano em sua clínica em Fortaleza. As mais sofisticadas (e caras) consistem em transferir fios de outras regiões do corpo, como da nuca do próprio paciente (veja no quadro abaixo). O tratamento custa, em média, 20.000 a 40.000 reais. Há ainda os métodos convencionais, nada invasivos, como a ingestão de finasterida, medicamento que atua no couro cabeludo bloqueando a ação de uma substância envolvida no afinamento doca-belo antes da queda; e o minoxidil, um vasodilatador, que estimula a circulação sanguínea e permite que mais oxigênio e nutrientes cheguem à raiz dos cabelos. “Podem ser interessantes para calvícies leves, mas perdem o efeito se o uso dos remédios for interrompido”, diz o dermatologista Ademir Leite, diretor da Academia Brasileira de Tricologia. Há outros caminhos de esperança. Estudo recente publicado pela reputada revista científica Nature indicou o sucesso promissor da utilização de células tronco para fazer crescer as madeixas. A técnica foi bem-sucedida em ratos de laboratório – há, portanto, estrada pela frente.

A genética explica o fato de o problema acometer majoritariamente os homens. O gene da calvície é dominante no sexo masculino. Ou seja, manifesta-se mesmo quando herdado somente do pai ou apenas da mãe. E, ainda assim, a herança brota na presença de hormônios masculinos, como a testosterona, que costumam ser muito baixos nas mulheres. Teoricamente, para prevenir a calvície bastaria inibir a ação da testosterona. No entanto, há relatos de que tal recurso provocaria efeitos danosos, como redução da libido.

Desde a Antiguidade já se tentava resolver a calvície. Papiros egípcios de 4.000 a.C. recomendavam a aplicação no couro cabeludo de uma mistura de gorduras do corpo de animais, como leão, jacaré e cobra. Júlio César (100 a.C.-44 a.C.), o imperador romano, apelava para receitas que incluíam ratos queimados. Curiosamente, a calvície é menos rejeitada onde é menos frequente. Nas culturas orientais, os monges rezavam para ficar calvos – a queda dos cabelos era interpretada como o desprendimento dos sentimentos mundanos. Do ponto de vista funcional, nada precisaria ser feito, ressalve-se. Os cabelos são praticamente supérfluos. Os humanos sobreviveriam. se todas as pessoas fossem carecas. Os fios servem para proteger a cabeça contra o excesso de frio ou de calor. Um simples chapéu, em tese, poderia substituí-los. Apesar da pouca utilidade, o cabelo ganhou o status de item essencial da beleza. “E uma das questões culturais mais enraizadas na cultura ocidental ligada à autoestima”, diz o cirurgião plástico Luiz Paulo Barbosa, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. De mãos dadas com preocupações estéticas, a ciência avança. Virá o dia, que pode não estar muito distante, em que ser ou não ser calvo será uma mera escolha.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE SETEMBRO

ESTÁ ENFERMO AQUELE A QUEM AMAS

… Senhor, está enfermo aquele a quem amas (João 1 .3b).

Lázaro, amigo de Jesus, estava enfermo na aldeia de Betânia. Suas irmãs enviaram um recado urgente para Jesus: Está enfermo aquele a quem amas. Elas estavam certas de que Jesus atenderia prontamente a esse pedido. Ao receber a mensagem, porém, Jesus disse: Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus (v. 4). Em vez de seguir imediatamente para Betânia, Jesus permaneceu mais dois dias onde estava. Quando foi ao encontro daquela família amada, Lázaro já estava morto e sepultado havia quatro dias. Os judeus questionaram o amor de Jesus, sobretudo em virtude de sua demora. Ainda hoje temos dificuldade de conjugar o amor de Deus com sua demora. Mas o Senhor nunca chega atrasado. Ele é o Senhor do tempo e faz tudo perfeitamente. A ressurreição de um morto é um milagre maior que a cura de um enfermo. A ressurreição de um morto de quatro dias, essa só o Messias poderia realizar, segundo a crença dos rabinos. Quando Marta interceptou Jesus no túmulo de Lázaro, alegando que já se haviam passado quatro dias e agora o milagre seria impossível, Jesus respondeu: Se creres, verás a glória de Deus (v. 40). Jesus chamou Lázaro da morte para a vida, a glória de Deus se manifestou e aquela família amiga foi consolada. Jesus ama você e cuida de você em suas dores, angústias e necessidades.

GESTÃO E CARREIRA

EM BUSCA DE NOVOS ARES

Com passivo de RS 340 milhões em ações trabalhistas e de fornecedores e RS1 bilhão em dívidas tributárias, a Viação Itapemirim recebe aporte de RS 2,1 bilhões para lançar companhia aérea. Será que decola?

Há anos, o mercado brasileiro da aviação comercial tem atravessado ciclos constantes de turbulência. Enquanto busca assimilar o fim das operações da Avianca Brasil, no ano passado, o setor assiste à disputa de Latam, Gol e Azul para ampliar espaços e reduzir o endividamento de aproximadamente R$ 75 bilhões. O trio sofre a concorrência de empresas de baixo custo – as chamadas low cost – e acompanha, dos bastidores, as tratativas para a chegada de mais um concorrente: o Grupo Itapemirim. A companhia de transporte rodoviário pretende seguir o caminho da Gol, também originária das estradas e, com aporte de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,1 bilhões) do fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, lançar a própria empresa área. Seu presidente, Sidnei Piva, prevê iniciar as atividades em meados de 2021, mas a empreitada desafia projeções mais otimistas e depende do aval da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Acho um pouco mais complicado do que estão vendendo”, afirma Thiago Carvalho, membro da Comissão de Direito Aeronáutico da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e sócio do escritório D’Andrea Vera, Barão e Carvalho Advogados.

Em viagem ao país árabe para missão de negócios ao lado do governador de São Paulo, João Doria, Piva revelou ter encomendado 35 aeronaves. São 15 unidades do modelo Q400, com capacidade para 80 pessoas e fabricados pela canadense Bombardier, e 20 do tipo CRJ 1000, que transporta até 100 passageiros e são produzidas pela Mitsubishi. O preço estimado dessa compra gira em torno de US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 6,1 bilhão). Seja como for, a iniciativa da companhia chama atenção. Fundada em Cachoeiro de Itapemirim (ES), em 1953, e adquirida por empresários paulistas em 2017, a companhia está em recuperação judicial desde março de 2016, o que põe em dúvida sua capacidade de operar. INVESTIDAS Com passivo de R$ 340 milhões em ações trabalhistas e de fornecedores, além de R$ 1 bilhão em dívidas tributárias, a Itapemirim enfrenta briga nos tribunais por seu comando. “Um cenário que assusta qualquer investidor”, observa Carvalho.

A Itapemirim trabalha com a ideia de integrar o modal aéreo de voos regionais com o terrestre, utilizando os ônibus do grupo. O dinheiro aplicado pelos árabes seria utilizado, ainda, para obter concessão de aeroportos pelo interior do Brasil e para a renovação da frota, que hoje é de 500 coletivos. “Houve uma tentativa de integração avião-ônibus com a BRA (Brasil Rodo Aéreo), no final dos anos 1990 e meados de 2000. A Varig chegou a participar, mas a situação da própria companhia comprometeu todo o projeto”, destaca Carvalho. Apesar do momento sombrio pelo qual passa a Itapemirim, o especialista mostra-se favorável à entrada da empresa no mercado nacional da aviação. Ele diz não ver problemas, caso sejam cumpridas todas as exigências da Anac que garantam condições de segurança e demais protocolos para a operação. “Há espaço para novas empresas no mercado brasileiro. Isso é desejável e bem-vindo. Melhora a concorrência e, assim, teremos tarifas mais competitivas”, declara Carvalho.

INVESTIDAS

Não é a primeira vez que a companhia se arrisca na aviação. Nos anos 1990, criou a Itapemirim Cargo, empresa de transporte de cargas que encerrou as atividades por causa da crise cambial enfrentada pelo País em 1999. Em março de 2017, chegou a anunciar a compra da Passaredo Linhas Aéreas, mas o negócio foi desfeito meses depois, segundo informações, pelo não cumprimento de cláusulas contratuais por parte da Itapemirim. A Anac diz não ter protocolado pedido da companhia para constituição de empresa aérea. Segundo a Agência, o fato de o Grupo estar em recuperação judicial não impede a outorga da concessão, mas pode dificultar a obtenção de certidões que comprovem a regularidade fiscal, previdenciária e trabalhista exigidas para a aprovação. Por enquanto, a Itapemirim está só taxiando. E ninguém sabe quando – e se – vai decolar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SINGULARES E PLURAIS

Como as emoções positivas geradas a partir das relações cotidianas podem estimular o convívio e gerar mais bem-estar e florescimento

Respondemos a estímulos sociais desde o primeiro instante após o nascimento, e esses estímulos, com o decorrer dos anos, moldam nossa mente. Para tanto, as emoções positivas decorrentes dos mais variados tipos de relacionamento humano são essenciais na arte do bom convívio social.

Etimologicamente, conviver engloba uma série de significados: viverem proximidade; ter relações cordiais; adaptar-se ou habituar-se a condições extrínsecas; ou, ainda, compartilhar do mesmo espaço. Da mesma forma, a convivência pode dizer respeito ao indivíduo em suas relações próximas com familiares, amigos, colegas de trabalho, mas também a grupos de pessoas que tecem relações entre si, como é o caso das relações diplomáticas entre países ou mesmo das torcidas organizadas nos estádios. Seja no nível micro ou macro, permanece a noção de construção e manutenção constante de uma relação – com quem você quer viver, como você quer conviver, as melhorias e os resultados que quer ver no modo pelo qual você se relaciona e, também, a contribuição que você quer dar ao mundo por meio de sua forma de relacionar-se com os outros.

No contexto dos estudos em Psicologia Positiva, o florescimento humano tem ligação direta com essas noções de convívio e as emoções positivas decorrentes. Segundo Roy Baumeister e Mark Leary, psicólogos sociais e pesquisadores, com base em um estudo pioneiro da década de 1990 no qual abordaram o anseio por vinculação como uma necessidade básica altamente motivadora das ações humanas, todos nós temos uma necessidade inata de estabelecer e manter uma quantidade mínima e valorosa de relacionamentos interpessoais, assim como de satisfazer o desejo de pertencimento.

Isso não significa, contudo, que seja fácil aprofundar a convivência com as pessoas ao nosso redor. De acordo com uma enquete do instituto Galup, por exemplo, apenas 30% das pessoas afirmam ter amigos próximos no ambiente de trabalho. Em seu benefício, esses funcionários são muito mais inclinados a se engajar, a ter mais bem-estar e melhor performance.

Independentemente do contexto, os benefícios da coexistência positiva ultrapassam a mera ideia de traquejo social ou de realização colaborativa. O impacto também é sentido no corpo.

Depois de analisar uma série de estudos sobre relacionamentos e saúde, Debra Umberson e Jennifer Montez, pesquisadoras da Universidade do Texas, concluíram que há evidências científicas concretas do impacto das relações sociais sobre uma série de indicadores de saúde, incluindo a saúde mental e física, hábitos saudáveis e mortalidade. Adultos mais conectados socialmente são mais saudáveis e vivem mais, afirmam.

 Por outro lado, segundo vários pesquisadores, a quantidade e a qualidade de relacionamentos próximos estão intimamente relacionadas à felicidade. Segundo Jonathan Haidt, professor de Psicologia da Universidade da Virgínia, a noção de felicidade está intrinsecamente conectada às relações com nossos entes mais próximos. De forma direta ou indireta, sempre há alguém envolvido em nossos prazeres e comemorações, bem como na maneira como os aproveitamos e relatamos – estudos indicam que as pessoas compartilham com outra pessoa seu evento mais positivo do dia, no mesmo dia, 80% do tempo.

A boa convivência em grande parte depende de uma boa comunicação. Ao pensar sobre relacionamentos, convivência e emoções positivas, a pesquisadora e professora de Psicologia Shelly Gable, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, parte dos seguintes questionamentos: o que as pessoas fazem quando as coisas dão certo? Elas capitalizam (ou seja, compartilham eventos positivos umas com as outras)? E mais: a forma como os outros respondem importa para o indivíduo e seus relacionamentos e a convivência social entre os sujeitos?

Sua conclusão foi a criação do framework ACR (Aclive Constructive Responding, ou resposta ativa-construtiva), que indica que a forma como respondemos às pessoas pode ajudar a construir ou a prejudicar nossos relacionamentos. Para Shelly, há quatro tipos possíveis de resposta quando alguém se aproxima de nós com uma boa notícia:

1) podemos parecer entusiasmados e oferecer apoio;

2) apenas escutar o que é dito;

3) desqualificar a notícia ou ignorar o que foi dito; e

4) mudar de assunto.

A primeira opção, claro, é a idealizada do ponto de vista de quem compartilha algo com alguém.

De forma correlata, Christopher Peterson, em seu livro Pursuing the Good Life: 100 Reflections Positive Psychology (Perseguindo a boa vida: 100 reflexões sobre Psicologia Positiva, em tradução livre), propõe um exercício de linguagem ligado à ideia do ACR de Gable: o “dia livre de poréns”. Quando alguém lhe contar alguma boa notícia, a ideia é responder sem usar a palavra “porém”. A versão mais geral dessa intervenção é chegar ao final de um dia inteiro sem usar essa palavra ou qualquer outra similar, como “mas”, “entretanto”, “ainda assim”, “por outro lado”, entre outras. Você acha isso possível?

Assim, a relevância de observações como as das pesquisas acima confirma que não somos reféns do discurso alheio e que podemos utilizar meios mais efetivos de comunicação para tornar nossos vínculos verdadeiramente construtivos, o que na prática é uma alavanca para que possamos nos proporcionar e proporcionar aos outros, conscientemente, uma convivência mais enriquecedora e orientada à felicidade.

FLORA VICTÓRIA- é presidente da SBCoaching. Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autorade obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.