EU ACHO …

DIABRURAS DA DIDÁTICA

os professores precisam aprender seu ofício para poder ensinar

Eis uma seleção de dúvidas inocentes, com respostas curiosas:

1. “Senta aí e estuda até aprender o ponto.” Sábio conselho? Péssimo! Aprendemos muito mais dedicando igual tempo a estudar um pouquinho hoje e outros pouquinhos amanhã e depois.

2. Um professor passou cinquenta exercícios de equações do 1º grau, depois cinquenta do 2º e mais cinquenta de exponenciais. Outro passou os mesmos 150, mas todos embaralhados. Qual está certo? Na prova, logo em seguida, o primeiro grupo obteve notas maiores. Em outra, porém, meses depois, o segundo grupo mostrou melhores resultados. Ou seja, misturando as questões o aprendizado é mais efetivo e dura mais.

3. Gastar bom tempo com matemática, depois com física, e assim por diante? Melhor que saltitar rapidamente entre as matérias, confundindo a cabeça do aluno? Curiosamente, intercalar os assuntos dá melhores resultados.

4. “Fiz anotações cuidadosas na aula, mas sumiu o papel.” Tudo perdido? Quase nada, pois o ganho vem do esforço de selecionar o que anotar. Consultar o papel, mais adiante, quase não ajuda.

5. Após uma pergunta, quanto tempo até os professores cobrarem a resposta? Um segundo depois. Se esperassem cinco, a resposta seria 300% melhor.

6. Provas frequentes subtraem o tempo de aula? Não, provas inteligentes são uma das melhores maneiras de fixar o conhecimento. É tempo ganho e não perdido.

Diabruras da didática! Alguns desses resultados são inesperados, outros parecem amalucados. Mas não são devaneios, estão confirmados por pesquisas sólidas. São os esplêndidos frutos da aplicação da ciência rigorosa à sala de aula. Conhecemos hoje a eficácia de dezenas de procedimentos e fórmulas de uso frequente nela. E estão sendo inventadas outras tantas, desconhecidas no passado. Em um país de ensino tão ruinzinho, utilizar esses resultados traria uma bela contribuição.

Os livros que sugerem essas regras estão por aí (muitos em português), e até eu escrevi um. Por que não são usados nas faculdades de educação? Por que, em vez de formas práticas de atuar em

sala de aula, se inunda a cabeça dos futuros mestres com uma torrente de teorias intergalácticas? Pior, repete-se a dose nos cursos de reciclagem. Não são ideias erradas, mas não ajudam quando toca a campainha e começa a aula. Ensino bom requer professores bons. Eles não nascem sabendo. De fato, precisam que lhes seja ensinado o seu ofício.

Em meus contatos com professores, entendi que os mestres desejam ajudas práticas para facilitar e tornar mais eficazes as suas aulas. Os apaixonados pelas teorias complicadas são os doutores, encarregados da formação daqueles que militam em sala de aula. Em Tristes Trópicos, Lévi-Strauss fala de sua experiência em uma universidade brasileira, onde via todos enamorados de teorias da moda, abstratas e complicadas. Não se davam conta de que tudo começa entendendo o simples em profundidade. Será que hoje ainda seria verdade?

*** CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

SINAIS DE ALÍVIO

Depois de seis meses, finalmente o número de mortes em decorrência da Covid-19 começa a diminuir. É o início de uma nova etapa, que traz os primeiros sinais de alívio, mas a cautela ainda é necessária

A Praia de Ipanema lotada, em um fim de semana de feriado, foi sempre uma cena de celebração, a cara mais adorável e calorosa de um Rio de Janeiro tão frequentemente ferido. Neste ano, contudo, em plena pandemia do novo coronavírus, houve quem relacionasse a aglomeração a boa dose de irresponsabilidade. Evidentemente, havia ali quem pouco se incomodasse com as recomendações de saúde – mas uma boa parcela das pessoas desceu para a areia no último fim de semana, debaixo de sol forte, apenas porque, munida de informações reais, atenta às curvas de casos e mortes de Covid-19, e depois de seis meses de confinamento, viu no horizonte sinais de alívio. Não se trata, de modo algum, de esquecer as trágicas mais de 135.000 mortes deste 2020 interminável, marca pesada e triste de um país que não soube lidar com a mais agressiva crise sanitária de nosso tempo. As perdas precisam ser lembradas e relembradas, para que não se multipliquem ou sumam, e nada é mais constrangedor do que saber que o Brasil ocupa o terrível segundo lugar em óbitos em decorrência do vírus, atrás apenas dos Estados Unidos. Mas há, sim, janelas de esperança traduzidas em estatística.

Desde a notificação da morte número 1, em março, e depois de três meses de permanência em um platô incômodo, com média móvel superior a 1.000 óbitos diários, o país alcançou, finalmente, uma queda consistente nas mortes por Covid-19. No sábado 5 de setembro, a média de mortes no Brasil foi de 820, variação negativa de 18% em relação às duas semanas anteriores. Os epidemiologistas trabalham com redução na casa dos 15% para considerar o movimento de queda consistente. Ela chegou. Outro indicador do recuo da pandemia no Brasil é a taxa de transmissão da doença. Em agosto, o país conseguiu reduzir o índice para abaixo de 1, nível considerado de controle, segundo as balizas do rígido Imperial College, de Londres. O número indica para quantas pessoas cada infectado transmite o vírus. Nesta semana, a taxa teve uma leve piora, subindo para 1, mas está a anos-luz do número registrado no auge da disseminação, quando chegou a 3. Mesmo com o leve aumento, o Brasil tem taxa menor que a de outros países sul-americanos e europeus, como Venezuela, Chile, Argentina, Paraguai, Reino Unido, Portugal, Itália e Espanha. Na quarta-feira 9, as mortes recuaram em dezenove estados da Federação. Em sete, houve manutenção dos números. Apenas em Roraima deu-se aumento da média móvel. Pode-se dizer, enfim, que a epidemia oferece indícios mais do que razoáveis de perder força no Brasil.

A inclinação na curva de óbitos por Covid-19 é creditada ao aprendizado adquirido em relação ao tratamento e acompanhamento dos pacientes. Ao longo de oito meses de pandemia no mundo, descobriu-se quem são os grupos de risco, a importância do diagnóstico e acompanhamento precoce dos infectados, além de tratamentos eficazes contra a doença. As evidências mais recentes comprovaram que corticoides comuns reduzem a mortalidade de doentes graves quando aplicados no sétimo dia, por exemplo. Diz o infectologista e epidemiologista Bruno Scarpellini, da PUC do Rio de Janeiro: “Saber que a dexametasona faz diferença em pacientes graves é um divisor de águas”. Outra hipótese é a possibilidade de o vírus ter se tornado menos virulento, ou seja, ter evoluído de forma a causar uma enfermidade menos agressiva. “Os médicos têm observado casos mais leves. Mesmo nos pacientes internados, o quadro não é tão grave quanto era em abril”, diz Scarpellini. O fenômeno também é percebido na Europa. Muitos países enfrentam um aumento no número de casos, o que indica uma segunda onda, mas não no número de óbitos.

A inexorável movimentação, que tende a ganhar ímpeto, embora nunca se deve subtrair a possibilidade de alguma reviravolta e recuo, é avenida aberta para a introdução da peça tão ansiosamente esperada: a vacina, cuja procura rapidamente se transformou em alimento da diplomacia internacional e de governos em busca de votos. Nos Estados Unidos, a corrida pelo imunizante virou retórica eleitoral. O presidente Donald Trump, que briga pela reeleição, insinuou poder anunciar, antes mesmo de 3 de novembro, data da eleição presidencial, a boa-nova. “Teremos em breve essa incrível vacina, com velocidade nunca vista antes”, disse. Trump, é claro, acusou seu adversário, o democrata Joe Biden, de estar trabalhando contra a maré e fez do hipotético anúncio uma bandeira de campanha. Causou espanto, contudo, a revelação de que, no mesmíssimo dia em que Trump proferiu o discurso de confirmação da candidatura, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) remeteu aos departamentos de saúde dos 51 estados americanos diretrizes para o preparo de ambientes refrigerados de modo a armazenar dois tipos de imunizantes contra o novo coronavírus e indicações de quem deveria receber primeiro a vacina – profissionais de instituições hospitalares. Embora o presidente americano seja conhecido pelas suas bravatas, e esteja ansioso para usar politicamente o anúncio de uma vacina, as instituições nos EUA são sérias e parecem estar se preparando para o grande dia. Tomara que seja logo.

Há, na mesa dos laboratórios, ao menos 180 vacinas sendo testadas – nove delas já estão na derradeira etapa, a fase clínica 3, submetidas a dezenas de milhares de testes em seres humanos (veja no quadro ao lado). Quatro delas atraíram voluntários no Brasil: as da Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, a chinesa Sinovac Biotech e as americanas da Pfizer e da Johnson & Johnson. Existem percalços, e não é prudente desdenhá-los. Na terça-feira 8, a AstraZeneca suspendeu, temporariamente, os testes com a vacina em todo o mundo, inclusive no Brasil, em parceria com a Unifesp e o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. O motivo: evento adverso imprevisto em uma voluntária do Reino Unido. Houve espanto, as ações da empresa nas bolsas de valores despencaram, mas essa foi uma medida de segurança. Tudo indica que os trabalhos serão retomados, depois da compreensão exata do que ocorreu – é zelo natural de qualquer iniciativa científica, sobretudo atrelada à vida das pessoas. Trata-se de uma freada, não uma interrupção. “A ação da AstraZeneca de interromper de forma ética e sem hesitar o processo de pesquisa ao mais remoto sinal de que algo pode estar errado, mesmo que tudo esteja certo, foi correta e exemplar”, diz o geneticista Salmo Raskin, diretor do Genetika, Centro de Aconselhamento e Laboratório de Genética, em Curitiba.

Essa é a diferença entre política e ciência. Em nome de mais votos ou aprovação popular, os processos não podem ser antecipados nem se pode fazer uma aposta em medicamentos que ainda não tiveram sua comprovação atestada. Não é prudente, por exemplo, ao arrepio de informações concretas, agir como o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, que anunciou em alto e bom som depois de uma reunião ministerial: “Em janeiro do ano que vem a gente começa a vacinar todo mundo”. Tomara, mas e se houver atrasos, como pode acontecer com o produto de Oxford e da AstraZeneca? As duas partes da frase de Pazuello carregam problemas. A chegada das doses em janeiro é, por ora, uma possibilidade e uma imensa vontade – os laboratórios correm, têm pressa, a velocidade é fascinante, mas nenhum deles marcou oficialmente datas no calendário. Oferecer vacina a todo mundo, e aqui entramos na segunda porção do comentário de Pazuello, é uma dificuldade colossal, que exige dinheiro e inteligência, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil. Depois de aprovada uma substância, o nó será distribuí-la, numa inescapável operação de guerra.

Para antecipar o esforço logístico que promete ser o maior e o mais amplo de toda uma geração, a operadora de entregas DHL Logistics e a consultoria McKinsey apresentaram um estudo com números superlativos. A projeção -, é que serão necessários 15.000 aviões e 15 milhões de caixas térmicas com barras de gelo para distribuir 10 bilhões de doses de vacina por todo o planeta. Mas, para imunizar 90% da população global, pode ser preciso produzir mais de 17 bilhões de doses. Não, esse número não está superestimado, em um planeta com 7,8 bilhões de pessoas. Calcula-se que entre 20% e 30% das doses se percam durante o transporte, danificadas por temperaturas além do desejado, e o momento da aplicação. No Brasil, contudo, o Ministério da Saúde prevê apenas 10% de perdas no processo, em virtude da experiência do país na distribuição de vacinas. “Nossa capacidade é histórica, distribuímos mais de 300 milhões de doses de vacina por ano, temos competência balizada e comprovada com relação à capacidade logística e de capilaridade”, disse o secretário em Vigilância de Saúde, Arnaldo Medeiros. “São 37.000 postos de vacinação no país. A vacina contra a Covid-19 não tende a ser tão diferente de qualquer outra.”

A boa notícia é que teremos o produto por aqui, logo que a sua eficácia científica ficar comprovada. O governo de São Paulo fechou acordo para a produção de 120 milhões de doses da vacina de origem chinesa. No Rio, a Fiocruz está se preparando para produzir 30 milhões de unidades. Há dois meses, vinte pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio, têm reuniões diárias com representantes da farmacêutica AstraZeneca para discutir aspectos técnicos e começar a produção, em dezembro e janeiro. Há, ainda, um acordo com o Ministério da Saúde para a fabricação de outros 70 milhões de doses. Maior produtor mundial da vacina contra a febre amarela e fabricante de outros sete imunizantes (tríplice viral, pálio e rotavírus, entre eles), o complexo de Bio-Manguinhos, a unidade fabril da Fiocruz, foi escolhido para desempenhar esse papel por possuir uma robusta linha de produção montada. “Tudo está acontecendo em ritmo acelerado porque nesta primeira fase, quando o insumo será importado, só precisaremos fazer ajustes na nossa estrutura”, diz Maurício Zuma, diretor de Bio-Manguinhos.

As salas para a formulação e as linhas de envase e embalagem da vacina já estão reservadas e os equipamentos passam por revisões e testes. Pelo contrato firmado entre o governo brasileiro e a farmacêutica do Reino Unido também será feita a transferência de tecnologia (o segredo industrial) para a Fiocruz. A instituição carioca tem o apoio de um grupo de empresas e organizações, entre elas a Fundação Lemann, que fizeram uma doação de 100 milhões de reais. “Saímos na frente porque já temos uma grande estrutura. Só para encomendar da Europa e montar o maquinário da derradeira etapa de produção, levaríamos uns dois anos”, estima Luiz Lima, vice-diretor de produção da Fiocruz.

No paulistano Instituto Butantan, o trabalho com a chinesa Sinovac Biotech anda a passos largos. A vacina, a Coronavac, está sendo testada em 9.000 voluntários de cinco estados brasileiros e o Distrito Federal. A estimativa inicial é que todos os pacientes recebam as duas doses do medicamento, ou placebo, até o fim deste mês. Não há relatos de problemas de rejeição entre os que já receberam o fármaco, somente dor no local da aplicação e quadros de indisposição, reações aguardadas nesse tipo de teste. O acordo é negociado inteiramente pelo Butantan direto com a farmacêutica chinesa por meio de ligações diárias em um aplicativo de vídeochamadas semelhante ao Zoom. “São duas sessões diárias, às 10 e às 22 horas, para atenuar o fuso horário entre os dois países”, diz o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. O que já foi combinado a distância é a entrega de 15 milhões de doses iniciais do fármaco pronto para aplicação, em seringas. O envio será feito em três lotes de 5 milhões de doses entre outubro e dezembro.

Há, enfim, muito otimismo. O pior momento, de fato, passou. Temos menos mortes, menos casos, as curvas exibem a nova realidade, a taxa de contágio chegou a patamares toleráveis. Ensaia-se o retorno às aulas presenciais, apesar do receio de pais e professores. Os cidadãos começam, enfim, a respirar, a ter coragem de sair do confinamento. A vida precisa continuar, sem jamais deixarmos de homenagear os mais de 135.000 brasileiros que partiram. 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE SETEMBRO

O POVO MAIS FELIZ DA TERRA

Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus… (Mateus 5.12a).

O povo de Deus é o povo mais feliz da terra. O evangelho que o alcançou é boa-nova de grande alegria. O reino de Deus que está dentro dele é alegria no Espírito Santo. O fruto do Espírito é alegria e a ordem de Deus é: Alegrai-vos! Moisés, antes de concluir o livro de Deuteronômio, traz uma palavra ao povo de Israel nos seguintes termos: Feliz és tu, ó Israel! Quem é como tu? Povo salvo pelo SENHOR (Deuteronômio 33.29a). O povo de Deus é um povo feliz, muito feliz. E por várias razões. É feliz porque foi escolhido por Deus desde a eternidade. É feliz porque é o objeto do cuidado amoroso de Deus em todas as circunstâncias. É feliz porque, além das bênçãos da graça comum, também e sobretudo, é o povo salvo pelo Senhor. A salvação é a maior de todas as dádivas. É um presente de consequências eternas. É um presente caro que nem todo o ouro da terra poderia comprar. Esse presente custou tudo para Deus, custou a vida do seu Filho. Deus nos deu a salvação como um presente gratuito. Nada fazemos para conquistá-la e nada temos para merecê-la. Nós a recebemos graciosamente. Isso é graça bendita. É favor imerecido. É amor sem igual. A felicidade do povo de Deus decorre dessa verdade maiúscula: somos salvos pelo Senhor!

GESTÃO E CARREIRA

VAI DE ESFIHA OU LASANHA?

Rede que popularizou a comida árabe no Brasil tenta recuperar perdas da pandemia investindo em culinária italiana, unidades express e vendas pela internet.

Quem ler sobre a história de qualquer grande companhia de fast-food vai achar tudo perfeito. Uma ideia genial que deu certo, sucesso de público e cardápio (segundo eles) irresistível. No caso da rede Habib’s, não é diferente. Trinta e dois anos se passaram desde que a empresa abriu a primeira unidade em São Paulo. De 1988 até hoje, os restaurantes da marca popularizaram a culinária árabe entre as classes C e D e conquistaram consumidores fiéis pelo Brasil, principalmente no triângulo Rio-São Paulo-Minas. O sucesso da sua política de preços acessíveis, com esfihas custando centavos (hoje a R$ 1,25), logo ampliou a visão empreendedora do fundador e atual CEO, o empresário luso-brasileiro Alberto Saraiva, e inspirou a criação de outro braço de negócio – em 1991, apenas três anos depois, nascia o Ragazzo, especializado em cardápio italiano, em São Caetano do Sul (SP). Ano a ano, as marcas expandiram os horizontes, atingiram 628 unidades, sendo 340 do Habib’s e 288 do Ragazzo. No ano passado, com vendas estimadas em R$ 2,7 bilhões, o grupo ficou atrás apenas de Burger King (R$ 2,8 bilhões) e do líder do segmento, a McDonald’s (R$ 5,3 bilhões).

Mas, como na vida, a trajetória da empresa não é feita só de boas recordações. O sucesso da rede nas últimas décadas contrasta com o sufoco que a empresa vem enfrentando nos últimos meses. A exemplo do que ocorreu com todo o comércio não essencial, as lojas do Habib’s e do Ragazzo tiveram de fechar as portas em meados de março – atendendo apenas por delivery e retirada. Resultado: queda “acentuada” no faturamento, demissões nas áreas administrativas e em algumas lojas (os números são mantidos em sigilo), renegociação de contratos com fornecedores, com proprietários de imóveis, com bancos, além de cortes de salários sob o amparo da Medida Provisória 936. “Estamos sofrendo, mas acho que vamos sair fortalecidos”, disse o diretor de operações, Mauro Saraiva, primo do fundador e hoje principal executivo da companhia. “As empresas, de uma maneira geral, estão sofrendo também. Fazendo a lição de casa, com mais produtividade, e sair dessa.”

Após período de queda de mais de 90% no movimento, as vendas começam a apresentar crescimento gradual, embaladas pelo fato de 85% das unidades das marcas estarem situadas em ruas e, com os salões fechados, permitidas a fazer o atendimento via drive thru (ativado em 70 lojas que não possuíam) e delivery – ambos os serviços apresentaram crescimento de 50% na quarentena. “Hoje, estamos com 70% a 75% do volume de movimento pré-crise, no Habib’s e no Ragazzo.” A retomada das vendas, segundo Saraiva, se deve principalmente à ampliação dos canais digitais das marcas, além da abertura de novas unidades express do restaurante voltado à culinária italiana. Serão ao menos 100 entre as 120 inaugurações previstas para este ano. “Estamos andando cinco anos em cinco meses. Tudo o que estava no nosso roadmap de inovação, de novos modelos de negócios, de novas jornadas com o consumidor, foi posto à prova”, disse o executivo.

INICIATIVAS

No que depender do apetite do diretor de operações, a retomada seguirá forte. Considerando a máxima de que “nada será como antes, será melhor”, a organização criou um plano de ações intitulado Mais Atitude, Menos Crise com 41 oportunidades, como novos canais e modelos de atendimento, por exemplo, para que possa atravessar a pandemia da melhor maneira. “O foco esteve sempre em oferecer o melhor produto, com menor preço possível e qualidade no atendimento”, afirmou Saraiva.

As práticas têm ajudado a companhia a atenuar os efeitos da crise e a se fortalecer. As atitudes às quais o executivo faz referência englobam os diversos canais de relacionamento com os clientes. Além do drive thru e do delivery, o take away (para retirar) conquistou a clientela. O consumidor faz o pedido por meio dos aplicativos das duas bandeiras ou do parceiro iFood e realiza o agendamento para retirada em uma das lojas, sem precisar aguardar em fila de espera e a necessidade de sair do veículo. “Essa multicanalidade nos permitiu transitar por essa crise da melhor maneira e mais fortalecidos.” Ele estima investimento próprio de R$ 30 milhões nos próximos 12 meses na aquisição e na troca de sistemas, em hardware e em software. No montante, não estão incluídas a parte do budget anual e a que será subsidiada por parceiros para complementar o processo de digitalização dos atendimentos, além da modernização das lojas – os valores são mantidos em sigilo.

DIVERSIFICAÇÃO

Para o especialista em varejo Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese, a diversificação na forma de atendimento é essencial em momento de pandemia, com muitos salões de lojas ainda fechados. “Se você consegue aumentar a capilaridade, diversificar as formas de atender, ter uma loja mais versátil, isso tudo pode funcionar”, afirmou. No entanto, ele chama atenção ao fato de que, no ramo de food service, isso não basta. As lojas precisam estar perto do cliente e preparadas para recebê-lo. “Estamos em uma situação transitória. As pessoas vão voltar a consumir fora de casa.”

Com pensamento na segurança dos clientes nos salões, reabertos recentemente em muitos estados, as duas bandeiras realizaram uma série de mudanças para a retomada, como digitalização do cardápio – por QR Code e via tablet –, autoatendimento via Toten, disponibilização de utensílios descartáveis nas mesas, além da instalação de 27 pontos de álcool em gel no interior das lojas. “Temos alarme em todas as unidades que tocam de meia em meia hora para lembrar as equipes que chegou o momento de se dirigirem aos postos de higienização”, disse o executivo. Os salões representam cerca de 45% do volume de vendas de cada unidade.

ATENÇÃO ESPECIAL

Os franqueados atingidos pela proibição de funcionamento, principalmente os estabelecimentos em shoppings centers, receberam atenção especial. Entre as medidas adotadas pela organização para reduzir os impactos do isolamento social nas operações estão descontos em royalties e propaganda, nos produtos fornecidos pelas indústrias próprias, congelamentos de preços, redução no valor das taxas de intermediação dos pedidos do delivery, negociações com parceiros financeiros e de aluguéis, além do congelamento de dívidas vencidas.

Outra estratégia adotada pelas bandeiras para ampliar as vendas foi a introdução nas lojas da ghost kitchen (cozinha exclusivamente voltada ao delivery), o que permitiu ao Habib’s vender o cardápio do Ragazzo e vice-versa. “Complementamos a receita do franqueado que não tinha essa opção. E levamos ao público aquilo (marca e produto) que ele não conhecia ou que gostaria de pedir”, disse Saraiva. Para Serrentino, da Varese, as empresas estão testando mais. “Isso é muito saudável e positivo. Um pouco da cultura de uma startup. Ou seja, testa tudo, experimenta tudo e depois investe no que dá certo.” Um Habib’s à italiana pode ser a saída do imbróglio chamado quarentena.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NOITE DE UM DIA DIFÍCIL

Um minucioso levantamento feito por algoritmo a partir de 24.000 relatos oníricos revela que os sonhos podem ser apenas uma continuidade do que ocorre no cotidiano

Os sonhos foram sempre uma ferramenta para tentar escrutar os desvãos recônditos da mente humana. Entendê-los seria um atalho para superar traumas ou, ao menos, um luminoso caminho de compreensão dos problemas do cotidiano. Em muitas culturas, serviram de peça de encaixe no quebra-cabeça de visões do futuro – no livro do Gênesis, da Bíblia, José, o filho de Jacó, interpreta os sonhos do faraó egípcio de vacas gordas ou vacas magras como predição de bonança ou tempestade. Há 500 anos, os chineses criaram um minucioso dicionário de relatos noturnos para ajudar a explicar o que acontecia durante o dia. Mas foi só na virada do século XIX para o século XX, com A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, que os filmes que ocupam as mentes durante o período de sono viraram assunto sério e científico. Para Freud, a grosso modo, os sonhos seriam a realização de desejos escondidos, desejos que, invariavelmente, não realizamos em decorrência das imposições sociais, quase sempre atreladas a impulsos sexuais ou violência. Não se trata, evidentemente, de negar a beleza do raciocínio freudiano, alicerce de nossa civilização, muito menos de negá-lo definitivamente, mas novas pesquisas começam a explicar, com precisão inédita, por que sonhamos. Trata-se, enfim, de interpretá-los mais modestamente.

Os sonhos, é o que se revela agora, talvez sejam apenas uma continuidade natural do dia, das horas que permanecemos acordados – dormir e estar acordado seriam condições semelhantes, uma na cama, de olhos fechados, outra na vigília, de olhos abertíssimos, mas sem grandes enigmas psicanalíticos. Um trabalho organizado por pesquisadores da Universidade Roma Tre, da Itália, publicado na semana passada na prestigiada revista Royal Society Open Science, chegou a essa conclusão depois de usar inéditos mecanismos de inteligência artificial associados a algoritmos para cruzar informações de um banco de dados dos Estados Unidos com o registro de 24.000 relatos oníricos divididos por idades, gêneros, classes sociais, períodos históricos e temas, anotados entre 1930 e 2017. “Os sonhos podem ser mero reflexo de como nos sentimos durante o dia ou em determinado momento de nossa vida, e por isso sonhamos frequentemente com algo relacionado a um episódio traumático”, disse Luca Maria Aiello, um dos autores do trabalho, pesquisador sênior do Nokia Bell Labs do Reino Unido. “O mundo onírico complementa a vida real. Por isso é importante prestar atenção aos sonhos, eles podem nos dar algumas informações valiosas.”

O lote de descobertas do trabalho é interessantíssimo ao definir pontos comuns em milhares de viagens na cama. Verificou-se, no levantamento, que mulheres têm sonhos menos violentos do que os homens. Dos 14 aos 17 anos há, invariavelmente, nos braços de Morfeu, interações sociais negativas e confrontação permanente. Dos 18 aos 25 anos, as interações passam a ser naturalmente mais dóceis e amigáveis. Veteranos da Guerra do Vietnã, expostos ao sangue do conflito, ainda sonham com agressões, com tiros e bombas. Os deficientes visuais, que usualmente têm o socorro diário e positivo de outras pessoas, sonham placidamente – e os totalmente cegos criam mais personagens imaginários do que os aptos. Esse pacote de experiências, para muito além da satisfação pessoal – a fascinante informação de que sonhos tendem a se repetir de uma pessoa para outra, em situações semelhantes de vida -, pode oferecer uso coletivo. “Como os sonhos refletem o que acontece na realidade, os eventos coletivos impactam a maneira como populações inteiras sonham”, afirma Aiello. Esse comportamento de rebanho já foi identificado em torno dos ataques terroristas de 11 de setembro e começa a ser investigado em relação à Covid-19. Há trabalhos de investigação na busca de algum padrão de resposta noturna ao medo do novo coronavírus. “Encontrar esse padrão, com a ajuda de modelos matemáticos, seria muito atraente para lidar com desafios globais com impacto na psique de todos, como são as guerras, as crises financeiras e as pandemias”, diz Aiello.

Os conflitos, ao alimentarem momentos de desconforto da realidade, são um poderoso fomento para os sonhos. No livro Sonhos no Terceiro Reich, a alemã Charlotte Beradt (1907-1986) foi atrás de uma indagação: seria ela a única a estar tendo pesadelos terríveis, misturando-os a personagens e leis estúpidas do nazismo? Charlote entrevistou 300 berlinenses entre 1933 e 1939 e descobriu que o horror era parte comum dos sonhos da população. Descobriu, enfim, que uma célebre frase de um oficial do Partido Nazista, Robert Ley, era uma verdade: “O único ser humano que ainda possui uma vida privada na Alemanha é aquele que está dormindo”. Os sonhos não autorizam privacidade. Tê-los é como estar acordado – e nem sempre são o inconfesso retrato de vontades disfarçadas. Convém deixar Freud um tantinho de lado e, quem sabe, ficar com o comentário melancólico das dores de amores de John Lennon e Paul McCartney no clássico e fácil rock A Hard Day’s Night, a “noite de um dia difícil”. Os sonhos costumam ser simples assim.