EU ACHO …

DEPOIS DA PANDEMIA

“O mundo virtual precisará ser reconfigurado, pois teremos aprendido que, sem ele, não podemos sobreviver”

Como será o mundo após o coronavírus? É impossível prever o futuro. Mas podemos arriscar algumas hipóteses sobre o cenário logo após a pandemia.

A globalização vai derreter. Haverá um trauma com relação a doenças que podem vir de outros países. O comércio exterior sofrerá uma recessão profunda, causada pela perda de renda dos países. O receio de embarcar em um avião no qual um passageiro possa estar com um vírus incubado, não detectado por nenhum teste biométrico, deve afastar aspessoasde voos internacionais por longo tempo.

As viagens aéreas e o turismo voltarão gradualmente. Mas a escassez inicial de oferta fará com que elas sejam muito caras, com tarifas comparáveis às de 50 anos atrás, quando ir para a Europa custava o preço de um carro.

O coronavírus é uma ameaça existencial devastadora, pois ela chega associada com a recessão econômica causada pelo isolamento social. O tipo de ameaça que ele representa é peculiar, talvez pior do que o holocausto nuclear durante a Guerra Fria. As armas nucleares eram vistas como uma ameaça que poderia levar à extinção da humanidade. Mas há uma diferença.  Armas nucleares são controláveis, até quando são comercializadas no mercado negro. Não é o que ocorre com a COVID-19, que é incontrolável e ainda não tem cura. O risco existencial, potencializado pela aleatoriedade de um contágio comunitário, deixará uma marca de insegurança que perdurará. Como um trauma, ela não desaparecerá logo após a invenção de uma vacina ou o arrefecimento da pandemia. Deus jogava dados, mas não sabíamos.

As sequelas psicológicas se multiplicarão. A angústia do homem diante de sua finitude e da morte não será mais um sentimento apenas individual. Ela é, agora, interpretada como o horizonte de uma inelutável desaparição da espécie humana cuja fragilidade e precariedade foram expostas. A COVlD-19 não produz apenas uma doença que pode ser letal. Ela é uma ameaça aos meios de subsistência e, por isso, ao pacto social implícito que regula as relações humanas em todas as sociedades. Quando esse pacto é implodido, atitudes unilaterais são tomadas e pode haver uma quebra de confiança que dificilmente poderá ser restaurada. Se a pandemia durar muito, chegaremos à guerra de todos contra todos.

O desamparo, consciente ou não, aumentará. Ele é um sentimento que já ocorre agora, durante a pandemia e tende a continuar, e ainda será agravado pela percepção de que nossa civilização não é sustentável e que nunca estivemos preparados para sobreviver em um planeta com 7,5 bilhões de habitantes. Um planeta no qual tudo foi dimensionado para as massas e, por isso, as aglomerações tornam o contágio inevitável. Um planeta no qual políticos e religiosos impedem a discussão do problema da superpopulação.

O desamparo aumenta com a batalha de informações, com a guerra on-line e as fake news. Elas causam a erosão de qualquer porto seguro, de qualquer referencial confiável. O mundo virtual precisará ser reconfigurado, pois teremos aprendido que, sem ele, não podemos sobreviver. Será que as atividades realizadas no mundo virtual voltarão a acontecer no mundo físico? A ciência, na sua luta contra a religião, enfrentará uma batalha decisiva. Será que os cientistas encontrarão uma vacina ou um tratamento seguros? Se a ciência tropeçar na sua burocracia e demorar muito para validá-los, as religiões ganharão ainda mais força. O espectro de uma nova pandemia em um futuro próximo pode reforçar ainda mais a opção por uma visão religiosa do mundo. Talvez ingressemos em uma estranha era de trevas, na qual fanatismo religioso e hipertecnologias disputarão nosso imaginário.

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é formado em Filosofia pela USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Lecionou na UNESP, na UFSCar e na PUC-SP. Estuda filosofia da mente e da tecnologia

OUTROS OLHARES

DE VOLTA PARA A COZINHA

O isolamento tem feito pessoas sem a menor experiência com as panelas sentir grande prazer em se aproximar do forno e fogão. O organismo agradece

A pandemia do novo coronavírus provocou uma revolução silenciosa, a portas fechadas, na vida dos brasileiros: a mudança na alimentação. O confinamento, que nos obrigou a ficar dentro de casa, em muitas situações sem a ajuda profissional para as tarefas domésticas, pôs a cozinha no lugar central na rotina das famílias. Levantamento feito pela empresa inglesa de mercado Global Web Index com dezessete países mostrou que um terço dos brasileiros passou a cozinhar desde o início da quarentena – e comida de verdade. As receitas prediletas são aquelas em que cada ingrediente é preparado artesanalmente. O prático e insosso caldo de carne em cubos, que pode ser diluído instantaneamente em água fervente, foi substituído por receitas caseiras com pedaços de bife e osso que demandam não menos de uma hora para ficar prontas. Os temperos desidratados, em pó, deram lugar a plantinhas frescas e cheirosas. A saúde agradece, com efeitos evidentemente positivos.O ícone dessa transformação é a ex- modelo Rita Lobo, dona da marca de sucesso Panelinha. Em seu programa de televisão pelo canal GNT, Cozinha Prática, e nas apresentações pelo YouTube ela valoriza a “comida de antigamente,” aquela preparada por nossos avós, com jeitinho caseiro, alimentos naturais e o mais decisivo: de forma simples, para quem não tem experiência. Ela mesma se interessou pelo forno e fogão apenas aos 18 anos. já crescida, quando desejou uma atividade paralela que durasse a vida toda – e que se transformou em ganha-pão. “Aprendi a cozinhar em escolas e livros”, diz nas redes sociais.

Pedir a comida pronta em um restaurante ou lanchonete tem ainda papel decisivo em tempos de quarentena, obviamente. Apenas em São Paulo, houve um aumento de 200% no uso dos aplicativos de delivery. Mas, com a reclusão durando mais do que o imaginado, deu-se a urgência de total dedicação às atividades domésticas – além da economia. “O atual movimento de volta para a cozinha é um dos mais significativos das últimas décadas”, diz o nutrólogo especialista em gastronomia Daniel Magnoni, do Hospital do Coração. Depois da II Guerra Mundial, grandes companhias começaram a produzir comida barata e pouco nutritiva. Preocupava-se mais com o barateamento dos produtos e dos processos de produção do que com a saúde dos consumidores. Mas isso não foi de todo ruim. A profusão de alimentos industrializados, alguns muito bons, e as várias formas de empacotamento permitiram o planejamento antecipado de um cardápio inteiro, dispensando a atenção de uma pessoa da casa para o preparo de uma refeição. Paralelamente, as redes de lanches rápidos, lançadas nos Estados Unidos, substituíram os talheres por embalagens. Foi um modo de adaptação à vida moderna, necessário, embora nem sempre saudável. Nos anos 1980, o movimento alimentar chamado slow-food surgiu na Itália como uma reação contrária à tentativa de construção de um McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma. O objetivo: defender as tradições gastronômicas regionais e as refeições de longa duração. A partir de então a sociedade passou a exigir produtos mais equilibrados, com informações transparentes nos rótulos. Gigantes da indústria alimentícia se adaptaram, lançando marcas com baixo teor de açúcar, sal e gorduras, sem lactose, sem glúten ou provenientes de fazendas orgânicas. Empresas e startups usam recursos tecnológicos para tornar os alimentos bons e adaptados às novas demandas, baseadas em rigorosos estudos científicos. “O que se vê agora é diferente”, diz Priscilla Primi, professora de nutrição da Universidade Paulista (Unip).”Não é apenas a procura por uma dieta equilibrada, mas a descoberta do prazer de cozinhar o próprio alimento.” Que a mudança tenha vindo para ficar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 04 DE SETEMBRO

A FESTA DA RECONCILIAÇÃO

… Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se (Lucas 15. 23b, 24).

Há quatro estágios na vida do filho pródigo: feliz e inconsciente (na casa do pai); infeliz e inconsciente (no país distante, cercado de amigos); infeliz e consciente (na pocilga, cuidando de porcos) e feliz consciente (de volta ao lar). O filho pródigo vivia insatisfeito na casa do pai. Pensou que a felicidade estava longe, fora dos portões. Decidiu pedir antecipadamente sua herança e partir para um país distante, a fim de curtir as aventuras da vida. No início, enquanto havia dinheiro no bolso, muitos amigos e muita diversão embalaram suas noites. Ele gastou tudo o que tinha em uma vida dissoluta. Chegou, porém, a fome, e os amigos foram embora. Ele começou a passar necessidades e, por fim, foi parar numa pocilga para cuidar de porcos. A felicidade que o jovem buscava longe do pai não passava de uma miragem enganosa. Ele era feliz na casa paterna e não sabia. Agora estava infeliz e sabia. Foi nesse momento que resolveu voltar para casa e pedir perdão ao pai. Estava disposto a ser apenas um trabalhador. Mas, para sua surpresa, quando voltou para casa, o pai o esperava e correu ao seu encontro para lhe abraçar, beijar e dar uma grande festa pela sua volta. Aquela foi a festa da reconciliação. Há festa no céu quando um pecador se arrepende. Os anjos celebram sua volta para Deus.

GESTÃO E CARREIRA

GURU DAS REDES

As marcas estão usando cada vez mais as mídias sociais para interagir com os consumidores. Por trás dessa estratégia está o Community Manager, profissional que age como um embaixador da empresa na internet

Mais da metade da população brasileira é usuária de redes sociais. Foi isso o que mostrou o relatório Digital in 2019, feito pela agência We Are Social em parceria com a empresa de gestão de mídias sociais Hootsuite, que revelou que 66% dos brasileiros estão conectados às mídias sociais, o que representa mais de 140 milhões de pessoas.

Com tanta gente conectada, as empresas encontraram a oportunidade de falar diretamente com os consumidores na internet. Isso fez surgir uma nova carreira: a de community manager, ou gerente de comunidade.

É ele quem monitora fóruns, blogs e perfis de redes sociais para identificar assuntos que estão em alta e encontrar maneiras de fazer com que a empresa participe das conversas com os internautas. “O community manager ajuda a marca a entender manifestações da sociedade, escutar o feedback de produtos e serviços, e identificar novos concorrentes. Isso faz com que os clientes criem afinidade com a marca”, diz Rodrigo Helcer, CEO da Stilingue, plataforma especializada no monitoramento de redes sociais. Além disso, esse profissional auxilia no posicionamento da companhia no mercado e pode contribuir com a equipe de pesquisa e desenvolvimento. Uma fabricante de cosméticos que está acompanhando discussões sobre questões raciais, por exemplo, se posiciona sobre o assunto, identifica as necessidades dos clientes e cria produtos.

Para atuar na área, é fundamental conhecer ferramentas de identificação de tendências, ser usuário de mídias sociais e conseguir analisar dados. No entanto, são as habilidades comportamentais (empatia, curiosidade, criatividade e proatividade) que impulsionam a carreira. “Esse é um cargo altamente humano, pois exerce o papel de troca com a comunidade. É importante ter escuta ativa e sensibilidade para saber a hora de entrar em uma conversa”, diz Isabela Ventura, CEO da plataforma de marketing Squid.

O paulistano Otávio Bautista, de 26 anos, se especializou no tema. Formado em publicidade, ele começou sua carreira como estagiário em uma agência responsável por gerenciar perfis de bares e restaurantes. “Seis anos atrás, as redes eram completamente diferentes. O Facebook estava em alta, o Instagram era pouco usado, e começava a aumentar o número de influenciadores no YouTube”, diz. Há dois anos, Otávio foi contratado para atuar como community manager na fintech Easynvest e há seis meses assumiu a liderança da equipe. Ele ainda tem canais pessoais sobre finanças no YouTube e no Instagram – hobby que o ajuda a testar estratégias que possam ser aplicadas no trabalho. “É preciso ser conectado e ativo para conhecer as novas ferramentas e pensar nas oportunidades de inclusão da marca nos assuntos que estão em alta”, diz.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

HORAS TRABALHADAS: 8 horas diárias

DIVISÃO DO TEMPO

50% – Pesquisa de referências e de assuntos em alta

30% – Interação com usuários e produção de conteúdo para as redes

20% – Análise de métricas

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ter a capacidade de agir sob pressão, manter-se atualizado sobre o que está acontecendo nas redes e conhecer as ferramentas disponíveis de métricas, edição e engajamento.

ATIVIDADES – CHAVE

•  Desenvolver a estratégia de comunicação da empresa nas redes sociais

•  Interagir com os seguidores e clientes da marca

•   Acompanhar métricas e resultados de campanhas

•  Gerenciar crises

•  Monitorar as discussões que surgem nas redes

PONTOS POSITIVOS

É uma área com muitas oportunidades e que está ligada diretamente com a estratégia de crescimento da companhia. A atuação dá experiência em atendimento ao cliente e em análise de tendências.

PONTOS NEGATIVOS

O trabalho demanda conexão constante para não perder o que acontece nas redes sociais, e isso pode ser exaustivo. O Community Manager é responsável pelo gerenciamento de crises nas redes sociais, o que torna a função estressante.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Graduações como publicidade e propaganda, marketing, jornalismo, relações públicas e comunicação social, além de cursos sobre as plataformas de mídia.

QUEM CONTRATA

Empresas de todos os tipos, tamanhos e segmentos, mas principalmente startups.

SALÁRIO: De 2.119 a 3.919 reais

VAGAS: 44

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LOUCOS DE RAIVA

Em algumas situações, as explosões de irritação são inevitáveis – mais importante que reprimi-las é lidar com elas

O que trânsito congestionado, políticos desonestos, computadores quebrados e sujeira de cachorro na rua têm em comum? Acertou: nos irritamos com tudo isso. Ficamos bastante incomodados sempre que não conseguimos atingir um objetivo, satisfazer um desejo ou quando nossa autoestima é atacada.

A irritação é uma reação hostil a determinado estímulo. Ainda que o primeiro impulso dure apenas poucos segundos, o estado pode perdurar por mais tempo e ser reavivado a qualquer momento. Embora a percebamos como desagradável, a irritação em si – sobretudo quando bem vivida – pode ser divertida também.

Essa emoção básica tem muitas facetas – em português, a palavra “irritação” provém do latim irritare, que significa “incitar, estimular, provocar”. Pode transformar-se em inveja, ciúme, quando se trata da – suposta – posse de outra pessoa. Também o desejo de vingança aparece quando a irritação é provocada por uma ofensa.

Por raiva entendemos uma emoção mais densa, explosiva, em que a irritação desencadeia reação imediata, e a energia represada descarrega-se no chamado acesso de raiva. Quando raiva e irritação se voltam para determinado alvo por um período de tempo maior, falamos em ódio. Por fim, a ira vincula irritação à confrontação e à justificação intelectuais, fazendo, então, da ”raiva dos injustiçados” a “ira dos justos”.

Toda s as culturas conhecem a irritação, a raiva e a ira. Mas o valor ou explicação que têm é algo que depende do contexto cultural. A chamada patologia dos humores, por exemplo, predominante desde a Antiguidade até a Idade Média, partia do princípio de que um desequilíbrio entre os “humores corporais” conduzia aos quatro principais temperamentos humanos. O excesso de bile (em grego, kholé) determinaria violentas e calamitosas explosões temperamentais e de raiva, isto é, o tipo colérico.

No final da Idade Média e durante o Renascimento, passou a predominar a concepção de que a irritação irrefreada não traria desgraça apenas àquele contra o qual o sentimento se dirige, mas também ao próprio enfurecido. A ira e a inveja foram até incluídas entre os sete pecados capitais.

Irritação e raiva são emoções bastante intensas, associadas a fortes reações corporais. Elas se manifestam sobretudo em três planos, todos sujeitos ao controle direto do cérebro: alterações somáticas típicas, aumento da pressão arterial e tensionamento dos músculos.

TRÊS PARTES

Universo cultural à parte, todos os seres humanos têm “posturas básicas” geneticamente determinadas frente à irritação e à raiva. Elas conduzem aos mesmos processos no sistema nervoso e, além disso, a expressões gestuais semelhantes. Contudo, isso pode ser alterado por influências culturais ancestrais.

Para melhor compreender como isto se dá, é possível pensar numa concepção simplificada do sistema cerebral em três partes:

1. O “cérebro reptiliano” compreende o tronco cerebral e porções do diencéfalo. “Moram” aí reflexos e instintos. Essa é a base instintiva sobre a qual se assentam nossos sentimentos. É aí que se funda nosso estado geral de excitação. Ele dá a medida do quanto vamos nos irritar.

2. No sistema límbico vivemos emoções como a irritação soba forma de estados de espírito inconscientes que exercem forte influência sobre nosso comportamento. De especial importância há aí uma estrutura chamada amígdala. Em cobaias, ao serem estimuladas certas regiões da amígdala, observa-se uma esperada reação agressiva, acompanhada de gestos “irritados”. O sistema límbico envia sinais ao cérebro reptiliano, em especial à porção chamada hipotálamo.

Essa estrutura cerebral possui íntima vinculação com a hipófise – nossa glândula hormonal suprema e controla o nível dos hormônios. Desse modo, ao experimentar a emoção da raiva, o corpo é de imediato “acionado para o ataque”. São liberados hormônios do stress, como a adrenalina, os folículos pilosos se eriçam (filogeneticamente, gesto primordial da sensação de ameaça, que, no homem, se manifesta por intermédio da pele arrepiada), aumentam a pressão arterial e os batimentos cardíacos, melhorando a irrigação dos órgãos.

Com isso, nosso metabolismo se adapta à situação causadora da irritação. Paralelamente, o sistema límbico cuida ainda para que nosso modo de expressão se conduza de acordo com a emoção vivida: o sentimento se manifesta tanto no tom de voz como na mímica e nos gestos.

3. No plano superior desse nosso modelo simplificado do cérebro está o córtex. Em termos gerais, essa parte governa os movimentos voluntários, processa conscientemente os estímulos sensoriais e é responsável por processos cognitivos complexos, tais como o pensamento ou a fala. Vivemos as emoções conscientes sobretudo por meio do lobo frontal – a porção anterior do córtex. Assim, em vez de relegá-las à periferia da consciência como sensações indistintas, podemos voltar nossa atenção para elas, analisá-las e nomeá-las. É isso que, de acordo com o contexto, transforma a irritação em inveja, vingança ou decepção.

O córtex modera e governa nossas reações emocionais. Se reagimos a uma ofensa, estamos, de início, à mercê da resposta do sistema límbico. Depois, com o auxílio do córtex cerebral, analisamos o custo-benefício e definimos como vamos lidar com essa raiva.

O caso da reação de irritação, no entanto, não tem a ver com circuitos neuronais fixos e definidos, operando nas já mencionadas regiões do cérebro. Tampouco existe um “centro da raiva” específico no cérebro, único responsável por esse sentimento. A irritação surge da interação de várias estruturas cerebrais bem diferentes que governam o nível geral de excitação no sistema nervoso e os processos somáticos automáticos; identificam e processam sentimentos; efetuam, com ajuda da memória, uma comparação da situação presente com situações irritantes do passado.

Além disso, pesquisas recentes revelaram que a própria conexão neuronal entre as células cerebrais pode se modificar quando fortes impressões emocionais se repetem de forma constante. Técnicas de diagnóstico por imagem mostraram tais modificações em vítimas de eventos traumáticos.

Assim como não existe um “centro da raiva”, tampouco há um hormônio específico que seja responsável pela irritação. Em vez disso, toda uma série de hormônios e neurotransmissores está relacionada a essa emoção, tais como a adrenalina, a noradrenalina, a dopamina e a testosterona.

A adrenalina, hormônio do stress, é liberada em caso de perigo e põe o corpo em estado de atenção máxima: as funções cardíaca e circulatória, a respiração, o processamento dos estímulos por parte do cérebro e outras funções passam a operar no máximo, a fim de possibilitar pronta reação. Nesse contexto, fala-se de uma reação de fuga ou luta, na qual todas as reservas de energia são postas a serviço de excitação e atividade corporal elevadas. Em linhas gerais, a noradrenalina atua de modo semelhante à adrenalina, acelerando os batimentos cardíacos. Assim como a dopamina, ela influencia sobretudo o grau de vigilância e de excitação.

O sistema límbico governa a expressão facial, capaz de denunciar involuntariamente nosso estado emocional. A expressão típica da irritação compõe-se de um franzir do rosto, de uma ruga de ira ou raiva na fronte e da contração do músculo da testa. Essa mímica faz com que os olhos se apertem, protegendo-se da incidência excessiva de luz. É assim que nos encapsulamos, isolando-nos da causa da ira. Também no plano mental usamos “proteção para os olhos”, tornando ­nos como cegos para uma possível solução do conflito.

MANTENDO DISTÂNCIA

Os gestos e a postura do corpo emitem outros sinais de nossa irritação – o punho cerrado, por exemplo, ou um tensionamento visível da musculatura. O tom da voz também se altera e ela pode passar a soar estridente ou abafada.

A expressão gestual, a postura do corpo e o tom de voz são, em princípio, resultado de nossos sentimentos. Ao mesmo tempo, comunicam algo. É muito importante para nós, bem como para todos os outros animais que vivem em sociedade, descobrirem que estado de espírito se encontram aqueles que nos circundam, a fim de nos prepararmos. Se um indivíduo demonstra irritação, os outros podem se manter a uma maior distância, até que a irritação “desapareça”, o que diminui a possibilidade e a ocorrência de agressão ou conflito. A irritação tem uma função de advertência e proteção.

Se estamos irritados e identificamos irritação nos outros, podemos enviar-lhes sinais apaziguadores. Um tom de voz mais dócil e conciliador, gestos tranquilizadores, uma postura corporal mais humilde ou um sorriso cordial são sinais que suavizam a irritação alheia. Se lidamos de forma apropriada com a irritação e a raiva, elas se tornam úteis na regulação dos relacionamentos sociais: por meio delas, é possível nos distanciar dos outros, discutir com eles ou nos proteger.

Mas torna-se difícil reagir de forma apropriada à irritação quando ela só se mostra velada, reprimida pelo desejo de se mostrar simpático, pelo medo da punição ou pelo sentimento de culpa. Isso conduz a comentários ácidos, do tipo: “Você já não parece tão gordo como antes!”.

Pode-se identificar com nitidez a irritação velada pela comunicação não-verbal – em especial, pela expressão gestual ou pela entonação. Mal-entendidos e perturbações podem advir daí. E, a longo prazo, provocar ainda mais hostilidade.

Assim descreve a psicoterapeuta Verena Kast outra função importante da irritação: ela nos mostra que algo não vai bem e nos ajuda a modificar relações que julgamos insuportáveis, ou ao menos difíceis de suportar. “Quem se permite ficar irritado acredita que a vida ainda pode mudar.” A raiva e a irritação nos dão a energia necessária para efetuar essas modificações. Uma das formas de isso ocorrer é por meio da agressão.

Em princípio, porém, comportamento agressivo e irritação não são similares. Nos animais, uma certa confusão até se justifica: não podemos perguntar-lhes sobre seu estado de ânimo; só depreender de seu comportamento as emoções que porventura sentem. Nos seres humanos, entretanto, a situação é diferente, principalmente em virtude de sua capacidade de controlar os próprios sentimentos com o auxílio da razão: a irritação não conduz, portanto, necessariamente à agressão. E, por outro lado, tampouco se apresenta sempre associada a sentimentos de raiva. Ainda assim, há certa conexão entre agressão e irritação: um estado de ânimo irritadiço – raivoso há de conduzir a um comportamento agressivo.

PODER E VINGANÇA

Essa dissociação parcial entre raiva e irritação, por um lado, e agressão, por outro, não ocorre apenas no ser humano. Muitos animais limitam seu comportamento agressivo a gestos ameaçadores que não se fazem acompanhar de ações de luta efetiva. Todo aquele que só deseja demonstrar com credibilidade sua posição hierárquica e sua disposição para a defesa ou o ataque poupa energia e tem nas mãos as melhores cartas da evolução. Foi necessário desenvolver mecanismos para comunicar a disposição de lutar.

O desenvolvimento desses mecanismos pode, em última análise, ter conduzido à dissociação ao menos parcial entre nossos sentimentos de irritação e raiva e o comportamento agressivo. Também a fala auxilia os humanos a tomar o caminho da discussão irritada, em lugar do das vias de fato. Mas quando a irritação efetivamente conduz à agressão, ela pode estar a serviço da imposição da própria vontade, da aquisição de poder ou do restabelecimento da autoestima ferida, por vingança.

Por fim, uma forma particular da raiva serve à sondagem dos próprios limites. Crianças pequenas, na fase em que começam a querer impor a própria vontade, e jovens na puberdade tomam consciência da própria vitalidade em explosões de raiva, de que se valem para sondar os limites de sua ação agressiva. Se o mundo ao redor não reage de forma apropriada a esse comportamento, isso é com frequência interpretado como fraqueza ou falta de interesse. Raiva e agressão podem, então, se intensificar.

Pouco importa se nosso filho de 3 anos começa a espernear diante dos doces no supermercado ou se um jovem resolve adornar com grafite o muro de nossa casa – em ambos os casos é necessário que, no interesse deles próprios, mostremos os limites do comportamento aceitável. E podemos fazê-lo deixando clara a nossa irritação – posta aí a serviço da comunicação.

Em geral, somos capazes de conter a irritação, seja por medo de vingança, seja em decorrência de sentimentos de culpa, por exemplo. Se, porém, não conseguimos fazê-lo, uma reação raivosa exagerada pode facilmente conduzir à agressão destrutiva e ao emprego da violência – relacionamentos têm, então, seu fim precipitado, ou danos são causados a nosso semelhante. Explosões de violência surgem particularmente em situações de stress social – o encurralado acredita que somente o ataque pode salvar sua autoestima.

É frequente que crianças e jovens que apresentam reações agressivas impróprias e são incapazes de controlar a própria raiva tenham sofrido um longo período de carência afetiva e sido privados de carinho e proteção. Reiteradas experiências de violência também podem provocar o comportamento agressivo, o que, por sua vez, dificulta a construção de novas relações sociais. Nesse caso, é possível que, com tal comportamento, se busque inconscientemente evitar novas decepções e rompimentos.

Irritação e raiva, ambas ativam o sistema nervoso simpático e põem o corpo em estado de alerta. Se, em decorrência de stress prolongado no ambiente de trabalho, não logramos atenuá-las, medidas automáticas do sistema nervoso e processos hormonais são postos em curso, com graves consequências: passamos a sofrer de um estado de tensão e de distúrbios cardiovasculares crônicos – sobretudo hipertensão arterial -, e nosso sistema imunológico se enfraquece.

MODERAÇÃO, POR FAVOR

Esses sentimentos são parte do “equipamento emocional básico” dos seres humanos. Não podemos bani-los. Pelo contrário: sua presença indica um conflito ou um perigo a nos ameaçar, razão pela qual devemos dar atenção a essa presença e levá-la a sério. Graças a esses sentimentos, refletimos sobre nossos próprios limites, rechaçamos – se necessário – quem se aproxima deles e nos protegemos de intrusões indevidas. A energia que a irritação põe à disposição afasta o medo e a sensação de impotência. As emoções voltam nossa atenção para o problema a ser resolvido. Assim, em vez de “Ora, não se irrite!”, deveríamos dizer: “Trate de se irritar, sim – mas com moderação”.

Para lidar de forma apropriada com esses sentimentos é fundamental, antes de mais nada, tomar consciência de nossa irritação, com todos os seus indicadores físicos e emocionais. O passo seguinte é da expressão consciente ao sentimento: as palavras nos permitem manifestar a irritação sem ter de recorrer à violência física. Não podemos nos esquecer, porém, de que também as palavras e os gestos podem ferir muito, em particular quando manifestam irritação velada. Nesse sentido, seria salutar que todos aprendêssemos e exercitássemos desde pequenos como reconhecer e conviver com a irritação.

Por fim, é fundamental ainda ter clareza de que, com nosso comportamento, está em nossas mãos irritar ou não nossos semelhantes. Também somos responsáveis, portanto, pela irritação e pela raiva ao nosso redor, e devemos levá-las a sério. A irritação pode nos ajudar a impor respeito por nossos limites e a articular nossos próprios interesses. Ao mesmo tempo, porém, cabe-nos respeitar os limites e a integridade dos outros.

Da próxima vez que você se irritar porque alguém quer passar à sua frente na fila, basta que você expresse essa irritação. Mas sinalize também ao outro sua disposição conciliatória. Se fizer isso, terá boas chances de esclarecer de forma sensata o conflito e resolvê-lo. A irritação, é de supor, vai desaparecer – ela já terá cumprido sua função.