EU ACHO …

LIVROS PARA QUEM?

Por que a proposta de um novo imposto sobre o produto é cruel

Eu tinha 15 anos quando falei à minha mãe que queria ser escritor. Ela me encarou entre a surpresa e a preocupação e disse: “Mas, meu filho, pra viver como escritor no Brasil só o Paulo Coelho!”. A rebeldia juvenil me fez continuar a escrever. Em 2010, aos 20 anos, lancei meu primeiro livro e, desde então, publiquei outros cinco, que foram traduzidos para o exterior e tiveram os direitos de adaptação vendidos ao cinema. Sei que tive (tenho) uma trajetória incomum. Por vezes, sou usado como exemplo de escritor best-seller. Apesar disso, posso garantir: eu não vivo dos direitos autorais dessas obras. Minha mãe estava certa. Talvez só o Paulo Coelho.

Faça as contas comigo: um livro custa, em média, 50 reais. Por contrato, o autor recebe 10% do preço de capa, o que dá 5 reais por exemplar. Considerando que os livros de um autor muito popular vendem 10.000 exemplares (número difícil de alcançar), o autor recebe 50.000 reais ao final do período que leva para vendê-los, ou seja, uns dois anos. Dá, em média, 2.000 por mês. Ajuda a pagar as contas? Ajuda. Mas está longe de garantir uma vida luxuosa.

Para onde vai o restante do dinheiro?, você me pergunta. O texto é só o primeiro passo. Depois vêm o editor, o revisor, o tradutor, o artista gráfico, o diagramador, a gráfica, o divulgador, o distribuidor e a livraria. Ninguém ganha muito no final das contas. Fazer literatura no Brasil é um trabalho hercúleo, só para apaixonados. Nos últimos anos, a recuperação judicial de duas redes, Saraiva e Cultura, prejudicou o mercado e fez com que editoras, especialmente as pequenas e médias, fechassem ou ficassem no vermelho.

Fiz questão de traçar um panorama porque, acredite, é sobre esse mercado em crise, com perspectivas tenebrosas, que o ministro da Economia, em sua proposta de reforma tributária, decidiu fazer incidir um imposto de 12%. Sim, a ideia é que o governo receba por livro mais que o próprio autor. A taxação também impactará no preço final. Questionado sobre a decisão, Guedes disse que deixar as obras mais caras não é um problema, já que o livro é um produto consumido pela classe alta. Mais uma vez, ele evidencia seu desconhecimento em relação aos livros e ao público leitor.

Em tempos normais, uma das principais atividades do escritor brasileiro é participar de eventos literários. Em 2019 estive em Joinville, Tocantins, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Garanhuns, Votuporanga, Brasília e Maceió. Com frequência recebo mensagens de leitores contando que vendem coxinha ou economizam dinheiro do lanche para comprar livros. O leitor médio do Brasil pertence às classes C e D, está fora dos grandes centros e conta cada centavo para obter o livro que deseja.

A proposta ainda será votada no Congresso Nacional. Se você ama os livros, o conhecimento, as boas histórias, pode fazer sua parte e pressionar nossos representantes para terem o bom senso de não aprovar a taxação. Além de assinar a petição on-line em defesa do livro (bit.ly/DefendaLivro), faça barulho, converse com os amigos, use a hashtag #defendaolivro em suas redes sociais e compartilhe posts contra a tributação. Tornar esses produtos ainda mais inacessíveis é vil e cruel, uma aberração.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

A FÚRIA NEGACIONISTAHá duas epidemias que se cruzam no Brasil: a de coronavírus e a de estupidez. Aos poucos e sob a persistente influência do presidente Jair Bolsonaro, uma onda de obscurantismo se abate sobre o País e faz cada vez mais pessoas desprezarem ou minimizarem a ciência e a medicina. Só isso explica que, em meio a mais grave crise sanitária do século, cresça o número de cidadãos que compartilha a tese falaciosa, propagada pelo governo, de que vacinas não devem ser obrigatórias e causam mais riscos à saúde do que benefícios

São ideias aterrorizantes e contra os fatos, que, se prosperarem, podem levar milhares ou até milhões de pessoas à morte ou à invalidez, nos próximos anos, por inúmeras enfermidades reconhecidamente erradicadas pela vacinação. Trata-se de um retrocesso civilizacional com os ares sombrios da Idade Média. Grupos de direita que se opõem à imunização em massa aproveitam a crise da Covid-19 para promover a resistência às vacinas, comportamento que ganhou força nos últimos anos e é considerado uma ameaça global pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, tenta-se, a todo custo, politizar a doença, lançar teorias conspiratórias e incentivar a desobediência civil. A vacina contra o coronavírus nem existe e Bolsonaro já lançou uma campanha de descrédito contra ela.

Na segunda-feira 7, a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) publicou no Twitter uma declaração do presidente dada na semana anterior: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. No dia 8, Bolsonaro voltou ao assunto e disse que “não se pode injetar qualquer coisa nas pessoas e muito menos obrigar”. Foram afirmações levianas e sem respaldo científico ou legal, que feriram princípios éticos, já que a vacinação não é uma escolha e a imunização que será oferecida para a população não será “qualquer coisa”. Na verdade, a lei 6259/1975, que estabeleceu o Programa Nacional de Imunização, prevê a obrigatoriedade da vacinação. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, também estabelece a imunização compulsória para brasileiros de até 18 anos e sanções para pais e responsáveis que não cumprirem essa obrigação. E o próprio Bolsonaro sancionou uma lei, em fevereiro, que permite a vacinação compulsória no enfrentamento da pandemia.

“Quando a autoridade pública diz que a vacinação não é obrigatória, ela está prestando um desserviço enorme e mostrando desconhecimento da função das vacinas”, diz o hematologista Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e membro do Comitê de Contingência do Coronavírus, em São Paulo. “O papel da vacina é a proteção social, antes de tudo. Não é só a proteção individual, mas da comunidade”, afirma. Quem fala, como Bolsonaro, que a vacina não é obrigatória, coloca o interesse coletivo em segundo plano. Além disso, todas as vacinas estão sendo testadas sob rígidos protocolos de segurança, apesar da situação de urgência. Prova disso é a suspensão temporária dos testes da vacina desenvolvida pela AstraZeneca, que vinha fazendo ensaios clínicos com voluntários no Brasil (ver box). Outras quatro vacinas estão sendo testadas e só chegarão à população quando tiverem a eficácia e a segurança comprovadas.

INTERESSE COLETIVO

As declarações antivacina de Bolsonaro causaram assombro na OMS. A cientista-chefe do órgão, Soumya Swaminathan, chamou atenção para a eficácia das vacinas. “O primeiro aspecto a se considerar é que as vacinas erradicaram doenças como sarampo e varíola e fizeram muito pela humanidade”, disse. “Essas declarações mostram o quanto é necessário educação, transparência e informação pública sobre a importância das vacinas em geral e, em seguida, sobre a vacina contra a Covid-19.” O diretor geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, também comentou o avanço do discurso negacionista. “As pessoas não devem ser confundidas por movimentos antivacinas, mas ver como o mundo usou a imunização para combater a mortalidade infantil e para erradicar doenças.” O fato é que as vacinas se revelaram uma das invenções mais salvadoras da humanidade. Segundo a OMS, a vacinação em massa evita, hoje, pelo menos 240 mortes por hora no mundo e causa uma economia de R$ 250 milhões por dia, diminuindo a pressão sobre os serviços de saúde. Esses cálculos incluem a imunização para doenças como difteria, sarampo, coqueluche, poliomielite, rotavírus, pneumonia, diarreia, rubéola e tétano. A OMS estima que as vacinas impeçam a morte de 2 a 3 milhões de pessoas por ano e poderiam salvar mais 1,5 milhão de vidas se a imunização fosse ampliada.

CAPITÃO CLOROQUINA

Uma evidente demonstração de que o pensamento antivacina prospera foi dada em uma manifestação na Boca Maldita, área no centro de Curitiba (PR), também no Dia da Independência, em que os participantes diziam em cartazes “não queremos a vacina, nós temos a cloroquina”. O grupo, que se autodenomina Curitiba Patriótica e marca seus atos pelas redes sociais, reuniu uma dezena de pessoas. “Organizamos o ato porque somos patriotas. Como não haveria o desfile cívico, nos prontificamos a fazer uma manifestação”, afirma o publicitário César Hamilko, um dos participantes do protesto. Ele costuma divulgar pelo Facebook vídeos com mensagens de incentivo ao tratamento precoce do coronavírus, nos quais defende o uso do vermífugo ivermectina, de vitaminas, especialmente a D, e da cloroquina. Segundo ele, quem faz o tratamento, a partir do mínimo sintoma, não tem chance de ficar doente. Hamilko acredita que “Bolsonaro foi eleito e tem legitimidade para dizer o que os brasileiros devem tomar para se precaver contra a Covid-19”. Quanto à vacina contra o coronavírus, ele declara que não vai tomar. “Não confio no que vem por aí”, diz.

Segundo o pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Akira Homma, as vacinas e o processo de vacinação são um binômio de alto custo-benefício para a sociedade e para a civilização e os ganhos dela decorrentes só são comparáveis aos da água potável, em termos de saúde pública. A vacinação em massa previne doenças e aumenta a qualidade de vida. Junto com o saneamento básico, foi a principal responsável pela diminuição da mortalidade infantil e pelo aumento da longevidade da população no século XX. “Os movimentos antivacinas são insidiosos, altamente prejudiciais à saúde”, afirma Homma. O discurso antivacina, o questionamento constante do isolamento social, a aversão às máscaras, a promoção de remédios milagrosos: tudo é parte de um mesmo pacote negacionista. Para os bolsonaristas de plantão, pouco importa se a recusa à imunização contribui para que as doenças se alastrem. Mais importante para esses grupos é promover a desinformação.

Enquanto coloca em dúvida a eficácia das vacinas e relativiza sua importância, Bolsonaro continua na sua saga particular na defesa da cloroquina e não perde uma oportunidade de promover o medicamento. É uma completa inversão de prioridades. O presidente tenta desacreditar a vacina e trata a cloroquina como a solução do problema, aumentando as compras do produto a níveis estratosféricos e pressionando médicos para que adotem o medicamento. Dessa forma, espalhando tolices por onde passa, ele coloca o Brasil numa posição de pária internacional, onde a imunização coletiva, que permitirá a retomada da atividade econômica e a volta da normalidade, será sempre colocada sob suspeita pelos observadores internacionais. A imagem do País que o presidente promove é de um lugar onde não existe responsabilidade no combate à doença e onde as pessoas acreditam em informações falsas e fazem o que querem, sem obedecer a qualquer planejamento governamental porque para o presidente o que importa é massacrar a verdade.

MOVIMENTO ANTIVAX

Entre os negacionistas há os que promovem a liberdade vacinal (só se vacina quem quer) e há os que rejeitam sumariamente qualquer imunização. De qualquer forma, a direita populista que ganha força em todo o mundo se apropriou desse discurso e passou a pregá-lo abertamente. Naturalistas também questionam o sistema de vacinação massificado, além de acusarem conspirações entre governos e a indústria farmacêutica. O movimento antivacina já se apresentava difusamente desde o início do século 20, quando campanhas de imunização enfrentavam a oposição de alguns setores da população – um caso clássico é o da Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro. Houve protestos contra a Lei de Vacinação Obrigatória e os serviços prestados pelos agentes de saúde. Pelo menos 30 pessoas morreram nos conflitos. Em 1998, um estudo publicado pelo médico britânico Andrew Wakefield na prestigiada revista Lancet vinculava a vacina tríplice viral a casos de autismo. Wakefield analisou a saúde de 12 crianças, das quais oito teriam manifestado o autismo duas semanas depois da aplicação da vacina. O pesquisador atribuiu esse fato a uma sobrecarga do sistema imunológico. Soube-se depois que as conclusões do trabalho de Wakefield foram fraudadas, mas o estrago já estava feito. Vinculou-se a vacinação a uma doença terrível e outras vacinas, além da tríplice viral, também foram estigmatizadas. Apesar de desmentida, a pesquisa deu munição para os negacionistas, que até hoje insistem nessa mentira, aumentou a crise de confiança em relação à imunização e levou muitos pais a deixarem de vacinar seus filhos.

Ao mesmo tempo em que lançam críticas, fake news e promovem mentiras para assustar a população, o problema da baixa imunização no Brasil se acentua ano a ano. Em 2019, atingiu proporções calamitosas. Segundo dados do Programa Nacional de Imunização (PNI), do Ministério da Saúde, sete das nove vacinas normalmente dadas para bebês registraram no ano passado os piores índices de cobertura desde 2013. No caso da tuberculose e da poliomielite, o percentual de crianças vacinadas foi o pior em 20 anos. Pela primeira vez no século, o Brasil não alcançou a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano, segundo dados do PNI. No ano passado, metade das crianças brasileiras não recebeu todas as vacinas previstas no Calendário Nacional de Imunização. Para Bolsonaro, porém, a precariedade na imunização é uma opção.

Segundo dados do PNI, a cobertura vacinal média no Brasil está em 51,6% para as imunizações infantis. No caso da tríplice viral, o índice é de 60%. O ideal é que essa cobertura ficasse entre 90% e 95% para garantir proteção contra doenças como sarampo, coqueluche, meningite e poliomielite. Essas doenças, que haviam sido erradicadas, estão voltando por causa do abandono da prevenção. Cada indivíduo que deixa de tomar vacina por opção é um agente infeccioso em potencial. O ambiente de incerteza que envolve o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 só piora essa situação e favorece a proliferação de boatos e meias-verdades sobre a vacinação e a medicina. Testes estão sendo feitos para garantir num futuro próximo uma imunização eficaz e segura. Mas as ideias de Bolsonaro perturbam o ambiente e reforçam a insegurança que afeta a todos por causa da pandemia. Enquanto em todo o mundo só se fala em colaboração e ajuda mútua, para o presidente brasileiro, um promotor da ignorância, o que vale é o cada um por si.

A farmacêutica AstraZeneca anunciou,na semana passada, uma “pausa voluntária” nos testes clínicos de suavacina contra a Covid-19. A interrrupção temporária dos ensaios em todo o mundo mostra que a segurança é preocupação fundamental nos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento. A suspensão ocorreu porque foi detectada uma reação adversa grave em um voluntário inglês que participava da iniciativa e teria desenvolvido uma doença inflamatória. “Essa é uma medida de rotina”, disse um porta-voz da empresa, associada à universidade de Oxford no projeto. “Como parte dos testes globais controlados e randomizados em andamento, nosso protocolo de revisão padrão foi acionado e fizemos uma pausa voluntária na vacinação, para permitir a revisão dos dados de segurança”.

A decisão adia os planos do governo brasileiro, que, apesar do negacionismo de Bolsonaro, esperava lançar a vacina da AstraZeneca nos próximos meses. Na terça-feira 8, em uma entrevista para uma youtuber mirim, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse que a intenção do governo era começar a vacinar as pessoas a partir de janeiro de 2021. “Esse é o plano. A gente está fazendo os contratos com quem está fazendo a vacina e, em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo”, disse o ministro. A vacina que deveria chegar, porém, é, a que teve os testes interrompidos. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), parceira da AstraZeneca no Brasil, prevê um atraso no estudo da vacina.

Há mais de 170 vacinas contra a Covid-19 em desenvolvimento, hoje, no mundo e 34 delas estão em fase de testes clínicos, sendo dez na fase 3, a penúltima. No Brasil, há quatro projetos em andamento. Um deles é o da vacina Sinovac, cujos estudos foram autorizados pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em junho. Essa vacina está sendo desenvolvida junto com o Instituto Butantan. Participam dos testes, que até agora não apresentaram qualquer imprevisto, nove mil pessoas. Outra iniciativa é da vacina Biontech e Wyeth/Pfizer. Deverão participar desse estudo 29 mil voluntários, sendo mil deles brasileiros. A Jansen-Cilag, divisão farmacêutica da Johnson & Johnson, também está desenvolvendo um estudo no Brasil que envolverá 60 mil voluntários.

A vacina russa Sputnik V desenvolvida pelo centro de pesquisas Gamaleya também está em fase 3 de testes. O estudo foi acolhido no Brasil pelos governos da Bahia e do Paraná. e os ensaios devem começar em outubro. Na quarta-feira 9, os laboratórios Dasa e a Covaxx, divisão da americana United Biomedical, anunciaram um novo projeto, o décimo do mundo a entrar na fase 3 e o quinto com testes clínicos no Brasil. Segundo Gustavo Campana, diretor médico da Dasa, a rede de laboratórios usará sua base de dados para recrutar os pacientes para os testes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE SETEMBRO

O EVANGELHO É PODEROSO

Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê… (Romanos 1.16a).

Paulo se preparava para visitar Roma, a capital do império. Seguia para Jerusalém a fim de levar aos pobres da Judeia uma generosa oferta. De Corinto, escreve sua mais robusta epístola e, já no prólogo, faz a mais audaciosa afirmação: Não me envergonho do evangelho. Paulo se sentia devedor do evangelho. Estava pronto para pregar o evangelho e dele não se envergonhava. Há indivíduos que se envergonham do evangelho e outros que são a vergonha do evangelho. Não é o caso de Paulo, mesmo tendo sido preso e mesmo tendo suportado açoites e apedrejamento por causa dele. Paulo não se envergonha do evangelho porque este é onipotente. O evangelho é o poder de Deus. Seu poder não é para a destruição; é o poder de Deus para a salvação. Não a salvação de todos sem exceção, mas a salvação de todos sem acepção. Há um limite estabelecido aqui. O evangelho traz salvação apenas para os que creem. Os que permanecem na incredulidade não serão salvos, exatamente por rejeitarem a única oferta da graça, por se recusarem a entrar pela única porta da salvação, por deixarem de andar pelo único caminho que conduz a Deus. A porta da salvação está aberta para você agora mesmo. Esta porta é Jesus. Eis a voz do Evangelho!

GESTÃO E CARREIRA

A FACILIDADE DO CLIQUE

Contabilidade digital pode ser a solução para uma gestão bem-feita e econômica, especialmente para pequenos negócios

A contabilidade de uma empresa exige organização e muita confiança. Ao mesmo tempo, não é um setor que pode ser deixado para segundo plano, já que uma pequena falha pode causar grandes dores de cabeça. Hoje o Brasil conta com pelo menos cinco milhões de empresas cadastradas no Simples Nacional que precisam do apoio de uma contabilidade profissional, além de sete milhões de microempreendedores individuais que utilizam esse tipo de serviço. É nesse ponto que surge uma nova oportunidade de negócio para startups possibilitando economia de até 50% nos custos mensais de pequenos e médios empreendedores: a Contabilidade digital.

A solução já conta com algumas ferramentas práticas que cuidam da folha de pagamentos, fluxo de caixa, impostos e documentos, como o Razonet – aplicativo que se adapta ao enquadramento tributário do cliente e ao tamanho da empresa. E o Agilize, outro serviço que vem com esse mote. Lançada em 2013 e com mais de cinco mil clientes, a plataforma foca o setor de serviços, oferecendo cálculo na apuração dos impostos, envio das declarações contábeis e fiscais, balanço mensal, Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), informe de rendimentos, Imposto de Renda Pessoa Jurídica e suporte completo gratuito.

São apenas dois exemplos do que o mercado já oferece e que funciona nessa área. “A contabilidade digital possui vantagens na otimização dos processos e agilidade na prestação de serviços, contudo, se não caminhar em conjunto com a expertise e consultoria do contador, a prestação de serviços pode ser precária e incompleta”, afirma a executiva da área de Contabilidade e Auditoria da Crowe – rede global nas áreas contábeis, auditoria e consultoria, Juliana Brito.

A profissional diz que uma das principais vantagens é o custo, pois muitos softwares de contabilidade on-line oferecem um baixo custo comparado aos escritórios de contabilidade, porém ela adverte que há casos que não existem contato humanizado, tampouco uma central de relacionamento e/ou atendimento técnico. Juliana lembra que a contabilidade, atualmente, é utilizada muito mais com o enfoque de consultoria e gestão empresarial do que simplesmente no mero cumprimento de obrigações e prestação de contas ao Fisco. Por esse motivo, a relação de proximidade do contador com seus clientes permite o amplo conhecimento no negócio e assessoria para tomada de decisões. “Contudo, é extremamente importante que os contadores estejam cada vez mais focados em tecnologias para otimização de processos, eliminando muitas tarefas manuais e utilizando seu tempo mais na análise de dados do que na execução, praticando a consultoria contábil com o propósito de agregar valor ao seu cliente”, admite.

Por esse motivo, Juliana completa que o uso de plataformas digitais tem facilitado a dinâmica dos empresários de pequenas e médias empresas, permitindo a alocação maior de seu tempo aplicado ao negócio e, da mesma maneira, com a visão para os escritórios contábeis, a tecnologia propicia maior análise de dados e diminuição de trabalhos manuais.

PROCESSO DE CONTABILIZAÇÃO

A contabilidade digital surgiu com o objetivo de simplificar a relação do empresário com o processo de contabilização mensal da sua empresa. Como todo processo de digitalização, está alicerçada na automatização de atividades rotineiras (muito comum no mundo contábil) e na simplificação da comunicação entre o prestador de serviço e o cliente. Esta é a grande vantagem: desburocratizar e encurtar o processo de comunicação entre o cliente e o contador através de uma plataforma digital. “A desvantagem é que a contabilidade digital ainda é processo restrito para empresas de menor porte, cujas interações necessárias com a contabilidade são menos frequentes e podem ser padronizadas”, resume o co-founder da Accontfy – startup brasileira que visa simplificar o processo de análise dos balancetes financeiros das empresas, gerando relatórios de demonstrações financeiras em segundos – , João Pedro Mano.

Ele explica que o processo de contabilização de uma empresa se divide em três principais blocos: Organização das informações transacionais (pagamentos e recebimentos, emissão de notas fiscais, movimentação do estoque, entre outros), processamento dessas informações (efetivo processo de contabilização, apuração de impostos; processamento da folha de pagamento, cumprimento das obrigações principais e acessórias) e análise da performance da empresa.

A complexidade do processo de contabilização acaba variando muito conforme o tamanho e o segmento da empresa. “Por exemplo, empresas enquadradas no Simples Nacional possuem uma quantidade de obrigações junto à Receita Federal muito menor do que empresas optantes pelo Lucro Real. Da mesma forma, empresas de serviços como consultorias e escritórios de advocacia e pequenos comércios possuem um processo de apuração de resultado mais simples do que indústrias, por exemplo, que precisam controlar estoque de matéria-prima e mercadorias, realizar o processo de apuração de custos, criar um controle de depreciação, além de uma série de outras atividades necessárias para o adequado processo de contabilização. Por esse motivo, temos visto uma expansão da contabilidade digital ainda direcionada a negócios de menor complexidade como MEIs, empresas de serviço com baixa emissão de notas fiscais e franquias”, conta.

As plataformas digitais existentes oferecem vários tipos de serviços e vêm facilitando o processo de criação e contabilização de alguns segmentos de empresas. Elas oferecem planos que vão desde o processo de criação da nova empresa até o gerenciamento da folha de pagamento para empresa de menor porte. Com essas ferramentas é possível interagir on-line com contadores, o que agiliza a tratativa dos assuntos contábeis.

Pedro Mano destaca alguns dos cuidados necessários na hora de escolher a melhor plataforma. Para ele, o maior risco está mesmo no âmbito fiscal – algo que não está restrito somente às plataformas on-line, mas também ocorre na contabilidade tradicional. Por isso, a empresa precisa ter muito cuidado com a entrega das obrigações junto aos órgãos governamentais. “O Brasil ainda é um país muito burocrático e isso afeta diretamente as empresas. Comumente, elas são autuadas e multadas em grande parte dos casos por erro no processo de apuração e recolhimento de impostos. Por esses motivos, é essencial que as empresas acompanhem de perto esse assunto e cobrem controles que forneçam segurança de que as obrigações estão sendo devidamente entregues”, analisa.

A F360º é uma empresa paulista de gestão financeira completa indicada para franquias, já que permite gerir várias unidades ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Ela integra conciliação de cartões com fluxo de caixa, contas a pagar e a receber, DRE e outros. O sucesso dos serviços prestados desde 2013 colocou a marca no ranking das 100 Startups to Watch 2019, que reúne empresas inovadoras com potencial de impactar seus mercados.

SEGURANÇA EM PRIMEIRO LUGAR

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 43% das micro e pequenas empresas ainda fazem a sua contabilidade no papel. Além disso, 53% dos empreendedores não fizeram nenhum curso para melhoria do conhecimento sobre como administrar um negócio. Esses dois valores mostram que ainda existe falta de conhecimento sobre as facilidades da tecnologia e até sobre como fazer isso de maneira segura. O co-founder da Accountfy lembra que, antigamente, existia receio em inserir dados na nuvem ou em utilizar sistemas SaaS – aqueles que a empresa paga mensalidade para utilizar um sistema cuja estrutura também está na nuvem. “Existia a falsa impressão de que os dados estavam expostos e desprotegidos. Esse receio foi reduzindo à medida que todos começaram a utilizar e-mail para transferência de qualquer tipo de informação e começaram a armazenar seus documentos na nuvem – principalmente para resguardá-los de perda ou dano. Além disso, as plataformas SaaS estão cada vez mais robustas, provando que os dados não precisam estar dentro do espaço físico da empresa para estarem seguros”, ressalta.

Mesmo assim, é importante certificar-se de alguns pontos. O primeiro passo é sempre buscar conhecer a política de segurança da plataforma que está prestes a adotar, incluindo informações sobre como é a política de backup da informação, se a plataforma possui certificações de segurança e outras. Além disso, o ponto principal a que os empreendedores precisam ficar atentos é com a política de uso da informação. Uma vez que a empresa é proprietária dos seus dados, deve certificar-se de que a política de uso da(s) plataforma(s) garanta que eles só poderão ser usados para outro fim caso ela tenha a sua autorização.

UM MERCADO DE TENDÊNCIAS

Uma coisa é certa independentemente do setor: as plataformas digitais estão rompendo com diversos modelos de negócio tradicionais. Há mudanças na forma de distribuir filmes e músicas, acessar transporte público, alugar imóvel, a maneira de se locomover pelas grandes cidades e tantas outras situações. “Com contabilidade e finanças não poderia ser diferente. As atividades rotineiras e manuais vêm sendo substituídas por plataformas que consigam automatizar partes do processo e assim entregar um serviço mais ágil e de menor custo do que o modelo tradicional. Com a utilização de plataformas digitais, as empresas cada vez mais delegarão essas atividades para plataformas digitais e se concentrarão na análise dos números a fim de definir estratégias que melhorem sua performance”, acrescenta Mano.

Considerando o fluxo necessário para a adequada contabilização, algumas plataformas e soluções têm se posicionado com o intuito de suportar as empresas em uma ou mais etapas do processo e na parte de análise, mas sempre de maneira robusta nas informações. Há sistemas como o Nibo, Conta Azul, Omie e outros, que atuam como sistemas financeiros para organização dos movimentos transacionais das empresas (pagamentos, recebimentos e emissão de notas fiscais) e organização dessas informações para envio ao contador. “Com essas informações, a contabilidade faz o processamento e gera o balancete contábil que sistemas como o Accountfy se propõem a organizar, ajudando as empresas a interpreta-las e utilizá-las de maneira a obter melhores resultados, além de conectar as informações geradas pela contabilidade para criar cenários de projeção futura, elaborar um orçamento para o próximo ano e acompanhar seus indicadores de desempenho”, completa e conclui o co­-founder da Accountfy.

COMO ESCOLHER A MELHOR PLATAFORMA?

•  Conheça muito bem seu negócio e suas necessidades.

•  Verifique se os serviços oferecidos pela plataforma suprem todas as demandas.

•  Avalie a reputação na internet, buscando comentários em lojas virtuais como Google e Aplle Store (no caso de Aplicativos) ou em sites como Reclame Aqui.

•  Lembre-se de que a ferramenta fará a gestão de seu dinheiro e, por isso, deve estar devidamente legalizada e registrada no órgão oficial da classe incluindo seus funcionários.

•  Analise com cuidado os critérios de segurança da informação, especialmente no que diz   respeito ao armazenamento de dados e garantias contra ataque de terceiros ou hackers. A dica é preferir um armazenamento em nuvem.•  Ainda no tópico segurança, assegure-se de que só terão acesso às informações pessoas autorizadas, de acordo com suas funções exercidas. Leia as linhas pequenas para ter certeza de que essas pessoas só podem utilizar seus dados até certo ponto. A guerra pela informação tem se tornado maior que a busca por petróleo, e todo

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FIQUE SABENDO!

Valorize a contabilidade e utilize-a. O “custo-Brasil” relacionado à burocratização contribuiu no tempo para construir a ideia de que a contabilidade serve apenas para entregar ao Governo as obrigações legais. Esse é um erro muito comum e muito prejudicial para qualquer tamanho de empresa. O pequeno e médio empreendedor precisa acreditar que os números contábeis são a melhor fonte de informação que ele pode obter para gerenciar o seu negócio. Para isso, ele precisa trabalhar a fim de garantir processos que permitam à sua contabilidade ter acesso às informações necessárias para realizar o processo de contabilização adequado e, principalmente, precisam cobrar do seu contador mensalmente a entrega do balancete em tempo hábil para ele analisar.

Portanto, é essencial que ele busque ferramentas digitais que o ajudem a organizar a entrada das informações transacionais e soluções que lhe possibilitem a análise das informações geradas pela contabilidade, de modo que consiga direcionar o seu negócio de maneira assertiva. O empreendedor precisa fazer com que os seus números contábeis reflitam a realidade da sua empresa. Somente assim conseguirá gerenciar melhor; identificar oportunidades de melhoria, prevenir-se de fraudes e acessar linhas de crédito mais estruturadas para sua empresa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE MENINOS E MENINAS

Psicóloga americana estuda os primeiros indícios do pensamento em bebês. No início da vida, papel dos hormônios é maior que o da cultura

Se tivesse sido cego a vida inteira e de repente passasse a enxergar, será que você distinguiria pela visão o que já conhecia pelo toque – por exemplo, diferenciaria um cubo de uma esfera? As flores pareceriam com as flores tocadas e os rostos com os rostos, ou tudo seria uma grande confusão? De que forma começaria a dar sentido aos vários objetos apresentados imediatamente à sua vista? Se nascemos sem saber nada, como passamos a saber alguma coisa?

A psicóloga Elizabeth Spelke, professora da Universidade Harvard, leva essas questões àqueles que talvez sejam os mais habilitados para respondê-las: os bebês. No amplo laboratório do William James Hall, Spelke e seus colaboradores têm lidado com alguns dos mistérios mais insondáveis do conhecimento humano pesquisando seres que ainda não conseguem falar, andar ou mesmo engatinhar. Ela tem o que chama de “apetite insaciável” para estudá-los. Seus colegas de laboratório procuram voluntários por meio de páginas na internet, folhetos e cartas enviadas a berçários e consultórios de pediatria. Eles observam como os bebês sentam no colo de suas mães, procurando pelos sinais que permitem aferir suas primeiras compreensões de números, linguagem, percepção de objetos, espaço e movimento.

As descobertas de Spelke ajudaram a rever drasticamente nossos conceitos sobre a percepção humana nos primeiros dias, semanas e meses de vida. A pesquisadora forneceu algumas das evidências mais substanciais até hoje a respeito de questões como Natureza versus cultura e características inatas versus adquiridas. Suas constatações sobre aquilo de que um bebê é capaz se tornaram centrais para desvendar a cognição humana.

A partir de suas conclusões, a psicóloga construiu uma teoria audaciosa – se não polêmica – do core knowledge ou “conhecimento de base”, segundo a qual todos os humanos nascem com habilidades cognitivas que lhes permitem entender o mundo. Esse conhecimento básico, diz ela, fundamenta tudo que aprendemos ao longo da vida e tanto nos unifica como nos distingue enquanto espécie. A teoria levou a Associação Americana de Psicologia a laureá-la com o William James Fellow Award no ano 2000. E seu trabalho mostra que, apesar das diferenças entre as pessoas, todos temos mais em comum do que em geral reconhecemos.

CLAREZA, NÃO CONFUSÃO

O cerne da metodologia de Spelke é a observação do “olhar preferencial” – a tendência de bebês e crianças a examinar mais demoradamente aquilo que é novo, surpreendente ou diferente. Mostre repetidas vezes a um bebê um coelhinho de brinquedo e ele vai olhá-lo por um período cada vez mais curto. Mas experimente colocar quatro orelhas no coelhinho ao mostrá-lo, digamos, pela décima vez. Se o bebê detiver o olhar por mais tempo, você saberá que ele diferencia quatro de dois. A abordagem consegue contornar as incapacidades do bebê em falar ou em articular movimentos e tira o máximo da única coisa que ele controla bem: o tempo em que fixa os olhos em um objeto.

Spelke não inventou o método de estudo do olhar preferencial. O crédito é de Robert L. Fantz, psicólogo da Universidade Western Reserve, que na década de 50 e no começo da de 60 descobriu que chimpanzés e bebês olham por mais tempo para objetos inesperados. Um pesquisador conseguiria avaliar a capacidade de discernimento e percepção de um bebê ao lhe mostrar uma sequência de eventos diferentes e controlados, observando quais mudanças seriam percebidas como novidade.

Usando essa técnica básica, Fantz e outros descobriram que o mundo dos bebês não era, como supunha o psicólogo William James em 1890, uma “confusão cheia de movimentos e zumbidos”. Os bebês davam sentido ao mundo de imediato. Por exemplo, Fantz e outros descobriram que os recém-nascidos podiam diferenciar o vermelho do verde; com 2 meses discriminavam todas as cores primárias e, com 3, preferiam o amarelo e o vermelho ao azul e ao verde.

Eles constataram que um recém-nascido é capaz de distinguir o rosto da mãe do de um estranho (exceto quando ambos os adultos usavam um lenço sobre o cabelo), um bebê de 4 meses reconhece familiares e um de 6 pode interpretar expressões faciais. Na década de 70, os psicólogos reconheceram o primeiro ano de vida como um período de enorme desenvolvimento, muito mais agitado do que então se considerava.

SEM CAIR

Esse trabalho atraiu Spelke quando ela ainda era universitária na Faculdade Radcliffe. De 1967 a 1971, ela estudou com o psicólogo do desenvolvimento infantil Jerome Kagan, de Harvard, e se entusiasmou com a investigação das operações essenciais da cognição através da análise de crianças. Spelke prosseguiu com essa pesquisa quando trabalhou em seu doutorado em psicologia na Universidade Cornell, onde a famosa psicóloga do desenvolvimento Eleanor J. Gibson a orientou. Gibson, uma das poucas psicólogas premiadas com a Medalha Nacional de Ciência, revelou muito sobre a cognição infantil com alguns experimentos de alta qualidade. Sua experiência mais conhecida é a do “abismo visual”, em que faz uso de uma chapa de vidro sobre o tampo de uma mesa. Ao engatinhar sobre essa superfície escorregadia, os bebês evitariam uma provável queda, A maioria sim, descoberta que modificou as teorias sobre a percepção espacial dos bebês.

Inspirada por essas pesquisas, Spelke chegou à sua própria experiência inovadora. Quis investigar se quando os bebês olham e escutam percebem imagem e som como duas coisas separadas ou se reconhecem a relação entre ambos.  Ao se perguntar como averiguar isso, ela conta que imaginou dois eventos visuais lado a lado, como dois filmes, e um alto ­ falante onde se poderia alternar o som de cada um dos eventos. “O bebê viraria o olhar para o evento correspondente à trilha tocada pelo alto-falante: “Essa experiência virou minha tese de doutorado. Foi a primeira vez que fui capaz de começar com uma pergunta geral sobre como organizamos um universo unitário a partir de modalidades múltiplas e transformar a questão em um experimento de olhar preferencial simples – que se revelou bastante eficaz.”

VINCULAÇÃO INATA

Spelke descobriu que os bebês reconhecem a ligação entre som e visão, movimentando o olhar conforme a trilha sonora. Assim teve início a sua carreira de análise de grandes questões por meio de experimentos aplicados a crianças. A abordagem de modalidade mista tratou do mesmo “problema de vinculação” enfrentado pelos cegos que subitamente começam a ver, investigando como o cérebro decodifica os sinais de diferentes sentidos numa única impressão. Segundo Spelke, a abordagem não respondeu como essa habilidade parece ser inata.

Ao longo dos anos, a especialista conduziu outras investigações sobre o reconhecimento de objetos e rostos, movimento, navegação espacial e números (incluindo relações numéricas). Como é capaz de desenvolver testes simples, mas tão poderosos? “Penso como uma criança de 3 anos”, diz ela. Ao mostrar aos bebês objetos em movimento e depois interromper seu curso lógico ou a velocidade, ela descobriu que mesmo um bebê de 4 meses infere que um objeto em movimento deve se manter em movimento. Apesar disso, apenas aos 8 meses ele entende o princípio da inércia e espera que o trajeto do objeto seja constante.

Ao mostrar aos bebês diferentes séries de discos, ela descobriu que os de 6 meses conseguem distinguir 8 de 16 e 16 de 32 – mas não 8 de 12 ou 16 de 24. Spelke constatou que bebês de 1 ano de idade, ao observar uma pessoa escolher entre dois objetos, sabem pelo olhar do adulto qual objeto ele pegará, enquanto os de 8 meses não têm essa capacidade.

À medida que aumentavam os dados resultantes desses projetos, Spelke começou a desenvolver sua teoria do conhecimento de base, em boa parte feita em colaboração com colegas como o renomado linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o matemático e neuropsicólogo cognitivo francês Stanislaus Dehaene e a psicóloga de Harvard Susan Carey. Os sistemas do conhecimento de base, diz Spelke, são “módulos ” neuronais presentes no nascimento para a construção das representações mentais de objetos, pessoas, relações espaciais e numéricas. Similar à “gramática profunda” que Chomsky acredita estar subjacente a toda linguagem humana, esses módulos de conhecimento básico permitem que todos os bebês organizem sua percepção.

TEORIA POLÊMICA

A sofisticação desses sistemas em bebês parece a dos módulos de primatas não-humanos, o que sugere um desenvolvimento antigo e evolucionário; um bebê de 6 meses tem a mesma compreensão de números, espaço, objetos e rostos que um macaco reso adulto. Spelke entende que esses instrumentos cognitivos são subjacentes a habilidades mais complexas e a conhecimentos que adquirimos ao longo do crescimento, como habilidade de falar novos idiomas, manipulação de números e outras operações mentais abstratas.

O conhecimento de base constitui o fundamento para um robusto aparato cognitivo que nos acompanha durante a vida, fato que pratica mente ignoramos. “Mesmo para os adultos”, afirma Spelke, “a maior parte das capacidades que nos permitem lidar com o mundo (guiar nossas escolhas através do ambiente, articular o que dizemos, calcular se um carro na rua pode nos atropelar ou se objetos em queda nos acertarão) é completamente inconsciente. Quantas coisas fazemos sem pensar direito nelas? Operamos com sistemas cognitivos complexos que em geral não estão acessíveis à simples introspecção. Para mim, esse é mais um sinal de que a maioria de nossas operações cognitivas é como as dos bebês – construídas sobre o conhecimento de base que temos desde pequenos.”

Essa visão de Spelke é o que os filósofos chamam de teoria “inatista” – a certeza de que nossas características são inatas. Elas são naturais e não construídas. Spelke sabe bem que isso a coloca em uma posição arriscada. Falar de habilidades naturais dá margem a especular sobre diferenças naturais para essas habilidades.

Há poucos anos, Spelke se viu envolvida em acalorada controvérsia sobre essas possíveis diferenças quando foi bastante questionada sobre a declaração do reitor de Harvard, Lawrence Summers, de que as disparidades biológicas podem ajudar a explicar por que as mulheres ocupam tão poucos postos nos departamentos de matemática e ciência daquela universidade.

É claro que Spelke foi a escolha natural para debater o assunto, não apenas por ser uma cientista altamente reconhecida da mesma universidade de Summers, mas também por ter estudado precisamente as habilidades inatas mencionadas pelo reitor. Embora não tenha inclinação para a briga, Spelke é espirituosa, engraçada, bem informada e dotada de habilidade argumentativa. Assim, cumpriu com elegância a tarefa de baixar a bola de Summers.

“Se você encarar as coisas de acordo com o ponto de vista de Summers,” diz ela com um leve sorriso, “pesquisar as habilidades cognitivas inatas, como eu faço, é um estudo das diferenças entre os sexos. Na verdade, eu não sabia que estudávamos diferenças de gênero, porque não encontramos nenhuma. Mas uma vez que o assunto apareceu, fiquei feliz em lhe contar sobre nosso trabalho.”

BRINCANDO DE ESCONDER

Spelke explicou em várias entrevistas e num debate público, bastante noticiado, com o colega e amigo Steven Pinker, psicólogo de Harvard, como o grande volume de evidências, reunidas depois de décadas de pesquisa, mostra pouca (ou quase nenhuma) diferença baseada no sexo de bebês ou de crianças pequenas. Nesses primeiros anos, quando a cultura exerce o mínimo de efeito e os níveis de hormônios sexuais estão extremamente altos, não apareceu nenhuma diferença determinada pelo sexo na enorme variedade de habilidades relacionadas ao pensamento matemático.

Por exemplo, coloque uma criança de 4 anos numa sala especialmente arrumada, esconda um bloco em um canto, faça a criança fechar os olhos e a gire, e então peça que ela procure o bloco. Algumas delas vão se reorientar rapidamente na sala e encontrar o objeto; outras não. A porcentagem de meninos e meninas que conseguem, no entanto, é idêntica. Portanto, embora “haja uma base biológica para o pensamento matemático e científico”, como Spelke lembrou no debate com Pinker, “esses sistemas se desenvolvem igualmente em homens e mulheres”.

Otimista inabalável, Spelke acredita que a compreensão crescente das habilidades cognitivas irá reduzir, e não alimentar, a discórdia sobre as qualidades humanas. “Algumas pessoas acham assustadora a ideia de termos habilidades naturais, porque isso parece estimular a noção de que alguns tipos podem nascer mais dotados que outros. Se você é um inatista no que se refere às capacidades cognitivas básicas, como eu, isso o leva a ser um inatista sobre, digamos, as diferenças entre os sexos?: Essas alegações de base biológica podem evoluir até o ponto de ser invocadas para explicar tudo. Mas você tem de ser muito cuidadoso sobre os dados que utiliza.”

A informação que parece indicar diferenças entre os sexos, afirma Spelke, vem de estudos problemáticos cujos resultados são distorcidos por influências culturais – como pais que respondem de modo diferente para meninas e meninos, departamentos de universidade que avaliam as mulheres com mais rigor. Summers deve ter levado o último ponto ao pé da letra: em maio, anunciou que Harvard gastaria US$ 50 milhões em dez anos para admitir e manter mulheres e minorias em sua faculdade.

Enquanto isso, as crescentes pilhas de informação sobre as crianças – pessoas ainda não contaminadas pela cultura – mostram uma paridade surpreendente entre os sexos e as raças. “Obtivemos evidência de um sistema intrincado e rico de conhecimento de base compartilhado por todos e que nos dá um fundamento comum”, declara Spelke. “Em um mundo com tantos conflitos, acho que isso é algo de que precisamos muito.”