EU ACHO …

JUSTIÇA PARA AS VÍTIMAS DE ESTUPRO

Atraso na análise de kits de evidências pode impedir prisão de mais criminosos

Por todo o país, uma imensa quantidade de kits de análises de crimes de estupro não está sendo corretamente testada. Essas caixas de papelão contêm envelopes repletos de pelos, células da pele, sêmen, roupas e outras evidências forenses coletadas das vítimas após o relato do ataque sexual. Se o DNA em um kit corresponder a algum DNA guardado em um banco de dados de criminosos, alguém pode ser preso. Portanto, é um crime levar as mulheres a um processo de coleta, que é difícil do ponto de vista físico e emocional e dura horas, e nunca analisar os kits. Porém, mais de 100 mil kits de estupro estão empoeirando nas prateleiras de laboratórios, hospitais e delegacias nos EUA porque falta aos estados dinheiro ou vontade de processá-los.

Agora sabemos que, se os kits forem analisados, mais criminosos serão capturados. Por exemplo: o promotor distrital de Manhattan, em Nova York, concedeu subsídios para kits de estupro para 20 estados entre 2015 e 2018, e foram feitas 186 prisões e 64 condenações, muitas envolvendo estupradores em série cujo DNA apareceu em vários kits. Um esforço contínuo para testar um arquivo de kits antigos em Cuyahoga Count) Ohio, levou a mais de 400 condenações, principalmente em casos antigos. “É perigoso deixar essas pessoas soltas”, diz llse Knecht, diretora de políticas da Joyful Heart Foundation, uma ONG que apoia sobreviventes de agressão sexual. “Pesquisas mostram que, quanto mais tempo elas ficam nas ruas, mais crimes cometem porque é comum que sejam criminosos seriais”. Mais jurisdições deveriam se juntar a esses esforços. Resolver esse problema não depende apenas de dinheiro. Muitos estados agem como se os kits não fossem importantes e não tivessem um sistema para rastreá-los e processá-los: eles sequer têm um registro exato de quantos estão sem uso.

 Além de Washington, D.C., 32 estados já aprovaram leis que exigem que os kits recém-coletados sejam testados e 25 estados exigem algum tipo de rastreamento. Mas as leis são uma colcha de retalhos e não atendem tudo o que precisa ser feito. Em nível federal, em dezembro de 2019, o presidente Donald Trump assinou a Lei Debbie Smith, autorizando novamente uma lei de 2004 para disponibilizar US$ 151 milhões por ano para testar evidências forenses criminais. Mas o dinheiro é para todos os tipos de evidências de DNA, não apenas kits de estupro, e suas subvenções ajudam apenas com os kits não testados que já foram enviados para laboratórios, e não tocam no maior estoque de kits ainda nos armazéns da polícia ou dos hospitais.

Como essas são apenas soluções parciais, a situação geral está piorando. Um relatório de 2019 constatou que, entre 2011 e 2017, o número de solicitações para análise de DNA de cenas de crime em atraso – compostas principalmente por kits de estupro – cresceu 85%. “A demanda [por testes] aumentou tanto que em alguns lugares há uma nova série de pedidos”, diz Knecht. Embora os estados ainda estejam tentando processar os kits antigos, a polícia os está usando com mais frequência, em parte porque há mais conscientização da utilidade das evidências forenses na obtenção de condenações. “Em geral, é preciso aumentar a capacidade do sistema como um todo”, diz ela.

Poucos estados estão implantando completamente todas as seis estratégias sugeridas pela Joyful Heart para resolver o problema: (1) exigir um inventário anual estadual de kits não testados, (2) tornar obrigatório o teste de todos os kits não testados, (3) tornar os testes de novos kits obrigatórios. (4) estabelecer um sistema de rastreamento em todo o estado, (5) exigir que os sobreviventes sejam informados sobre o status de seu kit e (6) fornecer o financiamento para cada uma dessas iniciativas.

Fazer isso é o melhor caminho para que as vítimas sobreviventes recebam justiça. Devemos acreditar no que elas nos dizem e honrar a coragem delas em denunciar crimes e fornecer evidências ao usarmos essas evidências para capturar estupradores.

OUTROS OLHARES

A NOSTALGIA É CHIQUE

Deflagrada pelo TikTok, a nova tendência para o vestuário entre os jovens é copiar referências clássicas do Renascimento

De onde ecoam as mais avassaladoras tendências de comportamento hoje? Nove entre dez são difundidas pelo aplicativo chinês TikTok, a rede social com mais de 1,5 bilhão de usuários e que Donald Trump transformou em cavalo de batalha na Guerra Fria contra a China. Não há, enfim, território mais afeito aos interesses da chamada Geração Z (dos nascidos entre 1995 e 2010, de 10 a 25 anos de idade) e ao consumo imediato, ligeiro, do que o infindável arsenal de vídeos curtos, de quinze segundos, ou pouco mais. Caiu, portanto, como uma luva para o universo sempre efêmero – mas interessantíssimo – da moda. O atual sucesso é um vestido de tom rosa-claro com decalques brilhantes em formato de moranguinhos, aplicados em um generoso tecido do tipo tule, que se desdobra em uma saia rodada. O modelo primaveril tem causado furor entre as usuárias, que postam depoimentos relatando ansiedade para a chegada do item depois da compra on-line.

A criação é obrada designer nova­iorquina Lirika Matoshi e custa 490 dólares, algo em torno de 2.750 reais. Convém ressaltar que não há nenhum item luxuoso na vestimenta que justifique o preço. Mas há um trunfo valioso em tempo de diversidade: manequins que vão do tamanho pequeno ao extra grande. Viralizou, aliás, a imagem da modelo plus size Tess Holliday com um deles na entrega do prêmio Grammy, em janeiro, antes da pandemia, quando o mundo era outro. Mas foi dentro de casa, no confinamento, que o fenômeno explodiu realmente, associado ao interesse pelas coisas do passado, natural e agradável porta de saída para a dureza do cotidiano. O vestido com a estampa silvestre remete, claramente, ao Renascimento, do século XIV ao XVI. A referência está sobretudo no recorte das peças, com mangas levemente bufantes e cintura marcada, logo abaixo dos seios. A saia mais solta, com generosas quantidades de tecido, também conversa com aquele período de transformações na Europa.

“O Renascimento foi uma época revolucionária para o vestuário feminino, quando as mulheres descobriram que podiam seduzir os homens ao realçar a cintura”, diz João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado, de São Paulo. As citações renascentistas vão além: o gosto por tiaras para cabelo acolchoadas e blusas com decote quadrado. “A busca de referências do passado é uma forma de escapar dos problemas do dia a dia”, resume Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda. “Quanto mais distante um período está, mais ele é romantizado e visto como ideal, em contraposição à atualidade.” Vive-se a história de um presente virado de cabeça para baixo – e o guarda-roupa é um bom modo de entendê-lo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE SETEMBRO

A DISTÂNCIA NÃO LIMITA O PODER DE JESUS

Vai-te, e seja feito conforme a tua fé (Mateus 8.13).

Um soldado graduado viajou até Cafarnaum para implorar a Jesus em favor de seu criado, a quem amava, pois estava sofrendo muito em cima de uma cama, quase à morte. Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo (Mateus 8.7). Mas o centurião lhe respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado (v. 8). Aquele soldado romano demonstrou grande humildade e também robusta fé. Sabia que Jesus tinha poder para curar o seu criado. Sabia, porém, que ninguém pode achegar-se a Deus ostentando méritos ou fazendo exigências. Em vez de apresentar seus títulos a Jesus, afirmou que não era digno de recebê-lo em sua casa. O centurião não fez exigências, mas súplicas; não reivindicou direitos, mas clamou por misericórdia. Jesus ficou tão admirado com sua atitude, que afirmou: Nem mesmo em Israel achei fé como esta (v. 10). E, naquela mesma hora, o servo ficou curado. Jesus honra a fé do centurião e cura o servo à distância. Jesus pode fazer o mesmo ainda hoje. Não desista de clamar em favor de sua família e de seus amigos. Não há problema insolúvel quando o entregamos aos pés do Senhor. Não há causa perdida quando a depositamos nas mãos de Jesus. O Senhor pode tudo quanto ele quer. Cristo tem todo poder e autoridade no céu e na terra.

GESTÃO E CARREIRA

A REINVENÇÃO DOS NEGÓCIOS

A pandemia obrigou empresas tradicionais a buscarem novas fórmulas de atuação para fazer frente à crise. E algumas soluções deram tão certo que devem se transformar em prioridade de várias corporações

Quando a pandemia chegou, uma série de empresas teve de baixar as portas e a criatividade passou a ser a única alternativa para não deixar o negócio morrer na praia. Hotéis, restaurantes, organizadores de eventos e até sorveterias tiveram de se virar para ganhar uma sobrevida e resistir ao destino nebuloso que o vírus decretou ao mundo. Mas o que podia ser o fim já se mostra um novo começo. Soluções inusitadas ganharam forma e fazem tanto sucesso que devem permanecer no portfólio de muitas corporações daqui pra frente. É o caso dos quartos de hotéis da rede Accor, que viu sua ocupação despencar 80% desde março. Foi então que camas e poltronas saíram, abrindo espaço para mesas e cadeiras de escritório. Estava criado um ambiente alternativo para muitos executivos terem seu home office longe da rotina da residência.

A modalidade está dando tão certo que dos 330 hotéis da rede no País, 80 já oferecem a solução, que agora inclui salas de reuniões e até brinquedotecas para família. “Tivemos de agir rápido e criar alternativas. O sucesso foi tanto que a experiência está sendo replicada na Europa e chegará em breve à Ásia”, explica Patrick Mendes, CEO da Accor para América Latina, rede que tem entre suas bandeiras os hotéis Ibis, Sofitel, Mercure, Novotel, Pullman, entre outras. As diárias vão de R$ 29 a R$ 300, dependendo da marca. Os custos, segundo Patrick, foram marginais e a iniciativa compensou por manter as unidades funcionando.

A rapidez também foi a arma do Grupo MM. Especializada em eventos, a empresa havia realizado mais de 2,7 mil encontros, entre workshops, seminários e feiras em 2019, e apostava num crescimento de até 15% para este ano. Tudo estava indo como planejado até março, quando o jogo virou e foi preciso renegociar eventos cancelados pelos clientes com os fornecedores. “Tínhamos coisas agendadas até 2021, algumas até pagas”, diz a fundadora Meire Medeiros. Depois de enxugar seu quadro, ficando com 40% dos 120 funcionários, ela percebeu que o problema não seria restrito ao primeiro semestre e foi atrás de alternativas para realizar eventos virtuais. Encontrou parceiros que ofereceram plataformas robustas para substituir o presencial pelo online e agora já contabiliza 172 eventos contratados.

“Em um deles tínhamos dois mil convidados e conseguimos manter 1,6 mil conectados simultaneamente”, comemora. Daqui para frente, Meire acredita que a tecnologia vai continuar fazendo parte dos negócios e, mesmo que surja uma vacina, os eventos devem se tornar híbridos. O setor de eventos, que já amargou perdas de até R$ 90 bilhões neste ano, agora vê na tecnologia a chance de acrescentar mais gente aos encontros. “Por isso, investimos em um estúdio para gravação dos eventos online”, afirma. Mesmo não substituindo o formato tradicional, a nova modalidade conseguiu impedir uma queda total do faturamento da empresa, que manteve 60% da receita. E se os impactos foram severos para hotéis e eventos, no setor de alimentação não foi diferente. Impedidos de abrir as portas por meses, muitos apostaram no delivery. Mas como resolver o problema da entrega quando o produto é sorvete? A sorte da Bacio di Latte é que essa questão já estava sendo pensada pela empresa desde 2019. Em janeiro do ano passado, apenas três lojas da rede conseguiam entregar o produto com qualidade. Com testes de embalagens térmicas feitos há mais de um ano, a empresa encerrou 2019 com 55 lojas prontas para entregar e agora já são 120 das 135 lojas em todo o Brasil fazendo delivery.

APOSTA NO DELIVERY

Mas não foi fácil vencer o temor de que o produto não chegasse integro. Assim, a empresa arregaçou as mangas e junto com uma agência lançou uma campanha maciça na internet para mostrar que estava vendendo e se surpreendeu com uma questão básica, mas que jamais tinha imaginado. Nos sistemas de entrega de comida, o usuário procurava por sorvete e não gelato. “Não aparecíamos nem nas buscas e tivemos de mudar isso rápido”, explica o diretor de marketing da Bacio di Latte, Fábio Medeiros. Outro ponto crucial foram as quantidades. Tinha apenas duas embalagens para entrega, uma de 1,3 litro a R$ 89, e outra de 630 ml a R$ 65. O ticket médio nas lojas era de apenas R$ 16, porque as pessoas pediam apenas um sorvete de casquinha. “Criamos embalagens individuais, a R$ 20”. Aí vieram os kits que permitem às pessoas montar seu sorvete e, para melhorar, as pessoas podem usar vale refeição no pagamento. Agora a empresa trabalha na diversificação dos canais de venda, como supermercados e restaurantes. Com todas as ações, a rede comemora o salto de três mil para 40 mil pedidos mensais por delivery.

Nem as franquias escaparam dos efeitos da pandemia. A rede de spas urbanos Buddha criou uma modalidade onde massagistas e terapeutas atendem os clientes em suas casas. O Smart Spa já virou uma nova modalidade de franquia. Presente em shoppings, aeroportos e metrôs a Nutty Bavarian, que comercializa castanhas, precisou fechar todos os quiosques (mais de 120) em março e decidiu investir em vendas via WhatsApp, além do e-commerce. Para os franqueados participarem da nova frente foi criado um link para que cada um virasse um vendedor. A entrega é feita pelo iFood e até a sede em São Paulo virou um ponto de coleta para delivery. Além disso, tirou do papel o plano de entrar no varejo com vendas em supermercados. Diante da pandemia, a saída é inovar e se preparar para uma mudança profunda. Os negócios nunca mais serão os mesmos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NECESSIDADE DE AFETO

As pessoas reagem de forma diferente às manifestações afetivas. Como podemos atuar como gestores das nossas emoções para uma vida mais saudável

A palavra afeto é um substantivo abstrato, o que significa que ela não existe sozinha, depende de alguém ou algo para existir. Trata-se de uma inclinação a uma pessoa ou objeto, uma disposição, seja positiva ou negativa. Os afetos foram, por muito tempo, subestimados, tratados como algo impreciso, irracional e primitivo, que remete ao início de nossa existência. Porém, hoje podemos perceber como eles são importantes em nossa vida e em nossas interações, pois somosseres relacionais. Apesar de fazer parte de nossa essência, cada pessoa lida de maneira diferente com os afetos, mas por quê? Essa é a questão que busco responder aqui. Para isso, parto do conceito de afeto e de uma contextualização histórica de seu estudo ao longo dos séculos, chegando aos pesquisadores contemporâneos. Dessa maneira poderemos compreender a que fatores estão ligadas essas diferenças e como podemos lidar melhor com os afetos em nossa vida.

A afetividade é um estado psíquico que engloba os sentimentos e as emoções. Mas, qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é uma reação episódica, que envolve uma alteração no nosso corpo, como aumento na frequência cardíaca: medo, alegria e raiva são exemplos de emoção. O sentimento, por sua vez, é um estado psicológico de longa duração e nós o interpretamos de acordo com as nossas experiências, vivências, ou seja, ele tem uma dimensão subjetiva.

CONTROLE DAS EMOÇÕES

O psiquiatra Daniel Siegel e a psicanalista Tina Payne Bryson explicam que as emoções estão relacionadas à parte de baixo do cérebro (tronco cerebral e região límbica), já a parte superior do cérebro (córtex cerebral e suas diversas partes) garante uma percepção mais completa do mundo, como pensar, imaginar e planejar. Quando essa parte superior está funcionando bem, nós conseguimos controlar bem as nossas emoções, refletir antes de agir e reagir. Podemos afirmar então que quando alguém tem um ato de afeto ou reage positivamente a uma demonstração afetiva está com as duas áreas do cérebro integradas, pois consegue interpretar suas emoções em forma de sentimentos saudáveis. Os psicólogos Ângela Branco e Jaan Valsiner classificam os afetos em níveis: no nível inferior estão os processos fisiológicos imediatos (como uma sensação de bem-estar), no meio estariam as emoções (ódio, medo, alegria, raiva) e, no nível mais alto, estariam os estados afetivos (como os valores, sentimentos, convicções) que são sentidos por cada um de nós de forma diferente.

REGISTROS DA MEMÓRIA

Alguns autores acreditam que as emoções elementares, como o medo e a raiva, estariam se atrofiando no decorrer da evolução do ser humano pois foram configuradas no processo evolutivo da espécie e possuíam, naquele momento, função de reação fisiológica ao ataque e à defesa. Acredita-se que, devido às mudanças nas nossas condições de vida, elas seriam desnecessárias e, por vezes, nocivas para nós. Meu modo de entender os afetos é muito similar ao de Lev Vygotsky. O psicólogo não deixa de tomar como premissa a origem biológica das emoções, porém, segundo ele, elas também podem ser construídas por meio das relações sociais.

Além disso, as emoções elementares não se tornaram inúteis no processo evolutivo da espécie, essa premissa analisa o fato apenas por um viés biológico e deixa de lado o psicológico. Vygotsky destaca que as emoções sempre foram poderosas organizadoras de comportamento e essa função continua existindo até hoje.Assim, acreditando na possibilidade que temos de perceber as emoções, refletir sobre os sentimentos e buscar formas mais saudáveis de agir e reagir no mundo, as emoções podem ser fortes aliadas para uma vida melhor.

Considero que, como uma dimensão do psiquismo, a afetividade dá um sentido especial às nossas vivências e nossas lembranças e influencia sensivelmente os nossos pensamentos. Afetividade e cognição se complementam: sentimos de acordo com o que pensamos e pensamos de acordo com o que sentimos. A partir das memórias que guardamos de todas as nossas vivências, experiências individuais e sociais, construímos nosso modo de pensar, nossas ideias e nossos conceitos e essas questões nos influenciam e moldam a forma como vamos reagir aos afetos recebidos. É impossível desconsiderar o desenvolvimento do ser humano e seus afetos sem o poder das relações intrapessoais e interpessoais e da troca com o meio desde a mais tenra idade.

CARGA EMOCIONAL

Tendo discorrido sobre a relevância da esfera afetiva sobre nossa vida e sua relação com a parte cognitiva, o foco agora cairá sobre a forma como reagimos aos afetos. Para isso, vou me basear na teoria da inteligência multifocal (TIM), que busca oferecer uma compreensão sobre a construção dos pensamentos e sobre a importância de agirmos conscientemente sobre eles, para buscarmos uma saúde emocional melhor.

Segundo a TIM, as nossas experiências são armazenadas por meio de um fenômeno inconsciente chamado RAM (registro automático da memória), que registra, automaticamente, tudo aquilo que apreendemos por meio dos cinco sentidos e guarda essas memórias em “janelas”. Se uma experiência foi vivenciada com alta carga emocional, seja ela positiva ou negativa, ela será mais facilmente resgatada na memória em meio aos milhões de outros registros (janelas) que foram construídos ao longo da vida.

É importante compreender que não construímos nossos pensamentos somente porque queremos, de forma consciente (pela decisão do eu), muito pelo contrário, a construção é, em grande parte, feita de forma inconsciente, por meio do registro das experiências na memória.

Aquelas vivências que tiveram uma forte carga emocional criam janelas killer ou janelas light. As killer recebem esse nome por serem “assassinas da inteligência”, ou seja, elas não permitem que tenhamos reação inteligente diante de estímulos estressantes. Elas contêm nossas experiências traumáticas, como frustrações, perdas, medos, rejeições, traições etc. Já as janelas light são chamadas assim por “iluminarem a nossa inteligência”, permitindo respostas mais sábias diante das situações da vida. Correspondem às experiências saudáveis como superações, coragem, capacidade de se colocar no lugar do outro etc.

Tudo o que percebemos, sentimos, pensamos, experimentamos, torna-se tijolo na construção da plataforma de formação do eu. É por isso que o autoconhecimento da dimensão afetiva, ou seja, perceber aquilo que nos emociona e que nos faz sentir bem ou mal ajuda nas inúmeras decisões do dia a dia e na resolução de conflitos de natureza pessoal e interpessoal.

O que quero dizer é que ao vivenciarmos uma situação, nosso cérebro buscará, em milésimos de segundos, informações para sabermos como responder a ela, E onde ele vai buscar informações? No nosso maior banco de dados, na nossa memória. Assim, se você está tendo uma experiência afetiva qualquer em sua vida e os registros em sua memória em relação a esse tópico são majoritariamente janelas killer, provavelmente você não conseguirá ter uma reação saudável. Dessa maneira, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos é diferente devido, majoritariamente, às diferentes experiências de vida que tivemos e ao registro delas em nossa memória.

GESTOR DA PSIQUE

Então, se tivemos experiências negativas em relação aos afetos, sempre responderemos de forma negativa às novas experiências? Não. Porque somos gestores de nosso psiquismo e podemos alterar em nossa memória não o registro, não a lembrança, mas a carga emocional ligada a elas, agregando novas janelas de compreensão e aprendizado sobre as situações.

A partir dessa compreensão, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos depende de algumas variáveis ligadas à nossa memória e à maneira como agimos sobre ela. Essas variáveis seriam: “como estou” (estado emocional e motivacional no momento da vivência), “quem sou” (a história existencial arquivada nas janelas da memória), “onde estou” (ambiente social que influencia meu jeito de ser e minhas respostas), “quem sou geneticamente” (natureza genética e matriz metabólica cerebral) e o “como atuo como gestor da psique” (como atuo conscientemente diante dos registros da minha memória). Na sequência, falarei um pouco a respeito de estudos sobre os efeitos de determinadas experiências sobre os afetos, notadamente sobre o papel da família no desenvolvimento afetivo de seus filhos.

DESENVOLVIMENTO AFETIVO

Desde o princípio da vida fetal, milhões de pensamentos e emoções já são registrados na nossa memória, tecendo complexas redes de janelas na nossa psique, dando início desde cedo a nossa vida afetiva. Assim, é importante a família ter consciência de que precisa preparar um ambiente saudável e afetivo durante a gravidez para que o fenómeno RAM do bebe registre vivências e construa janelas da memória associadas a emoções tranquilas e, dessa maneira, desenvolva habilidades afetivas saudáveis. O feto carregará essas memórias por toda sua infância e vida adulta e elas se transformarão em pensamentos, em noções de si e do mundo, que se desdobrarão em reações daquele ser às manifestações e necessidades afetivas (abraço, segurança, proteção, interações com os outros).

Crianças privadas de afeto apresentam, entre outros prejuízos, alterações no funcionamento de áreas cerebrais associadas ao processamento das emoções, os efeitos serão observados a longo prazo, na idade adulta. Há uma clara evidência de que crianças que não desfrutaram de vínculos afetivos sólidos terão maior tendência à agressividade e ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas como depressão. Isso é o que afirma o pesquisador Jamie Hanson, do Departamento de Psicologia da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, ao salientar que “a negligência emocional praticada por pais e cuidadores em relação às crianças deixa marcas nos circuitos neuronais” e que “no futuro, essas cicatrizes podem contribuir para o surgimento de sérios distúrbios afetivos”.

Assim compreendemos o papel imprescindível da família nesse processo de desenvolvimento dos afetos, pois é nela que se estabelecem os primeiros vínculos fundamentais para a possibilidade de pertencimento a outros grupos mais amplos no futuro. No núcleo familiar, a criança entra em contato com o meio que lhe fornecerá suporte para desenvolver seus afetos.

Contudo, muitas crianças nascem em famílias que se encontram em situação socioeconômica degradante, esse fator pode propiciar a vulnerabilidade de vínculos e afetos durante seu desenvolvimento. O abandono parental e a desestruturação familiar são considerados fatores de risco para a construção da afetividade nas crianças.

TEORIA DO APEGO

Corroborando essa linha de pensamento, o psicanalista inglês John Bowlby já havia apontado, na década de 1950, a importância do relacionamento com o cuidador primário no desenvolvimento   social e emocional da criança. Bowlby percebeu que existia uma dinâmica recorrente nas formas como nós nos apegamos às pessoas, o que ele chamou de teoria do apego. Segundo ele, nos relacionamentos amorosos podemos observar três perfis: o perfil A, mais saudável, tem facilidade  de se aproximar dos outros, o B, ansioso, anseia por amor e não sente que tem reciprocidade do  parceiro, e o C, distante, sente-se desconfortável quando alguém chega perto demais dele. Esses padrões de comportamento remontam a padrões da infância, ou seja, experiências traumáticas na infância geram relações amorosas conflituosas. Concluiu-se que as pessoas C provavelmente tiveram alguém da família que estava fisicamente presente, mas emocionalmente distante, por isso essas crianças desenvolveram um entendimento afetivo de que se conectar com alguém machuca. Jó o perfil B foi exposto a uma perda ou desaparecimento do cuidador durante a criação dele, por isso desenvolve o pensamento de que a qualquer momento será abandonado. Ninguém possuí cem por cento de nenhum dos três perfis, mas sim uma maior tendência a algum deles, o que faz com que pessoas que têm percepções muito diferentes do afeto entrem em atrito ao se relacionar.

Além das experiências de cuidado dentro da família e do meio social para o desenvolvimento dos afetos, algumas variáveis traumáticas podem afetar negativamente a forma como vamos lidar com eles, como o abuso sexual. Diversos estudos demonstram que as consequências do abuso sexual infanto juvenil facilitam o aparecimento de psicopatologias graves e prejudicam a evolução psicológica, social e afetiva da vítima. Esses efeitos podem se manifestar de várias formas, em qualquer idade. Muitas vítimas criam mecanismos de proteção que as impedem de continuar a viver como antes, como, por exemplo, desenvolver aversão a algumas formas de manifestação de afeto (abraços, beijos e qualquer tipo de toque no corpo).

É importante frisar que não somente as experiências de alto impacto emocional como traumas ou negligência familiar influenciam o nosso desenvolvimento afetivo, mas todas as nossas experiências e relacionamentos. Discorri sobre as mais impactantes, porém até mesmo situações que pareçam sem importância podem trazer influências às nossas reações afetivas. Portanto, é essencial que possamos pensar sobre a maneira como vivemos e expressamos nosso lado afetivo, colocando nosso eu como gestor, buscando respostas cada vez mais saudáveis e alinhadas ao que desejamos para nossa vida e a daqueles que nos rodeiam.

REAGIR AO AFETO

Com a correria dos dias de hoje, deixamos de nos preocupar com aspectos importantes para a nossa saúde emocional como os afetos. Olhar para dentro de nós é conseguir entender o que acontece na nossa mente para poder dialogar com nosso círculo social sobre o que nos causa dor e, também, sobre nossas alegrias, expectativas, sonhos.

Nós precisamos ser ativos na gestão do nosso psiquismo. O ser humano aprendeu a decifrar sua inteligência para atuar na vida social, mas não para atuar na sua própria mente. A forma como reagimos aos afetos vem sendo configurada desde quando estávamos no útero materno, de maneira inconsciente, mas existe uma forma consciente de modificar tais códigos: não podemos apagar as nossas janelas killer, mas podemos ressignificá-las a partir do momento em que temos consciência de que somos gestores do nosso eu, dos nossos pensamentos e nossos sentimentos.

Uma forma de reeditar nosso inconsciente é questionar qualquer pensamento não saudável que ronde a nossa mente, criticando-o e determinando ter uma nova reação, uma nova atitude, uma nova visão sobre ele. A partir desse processo consciente, retiramos o poder das janelas killer, e aumentamos o número de janelas light com relação àquele assunto que nos traumatiza, nos entristece, nos frustra, e isso influenciará nossas reações diante de acontecimentos do futuro. Um eu gestor que aprende a administrar seus pensamentos e emoções e a reeditar as zonas de conflito expande suas habilidades afetivas.

Assim como Vygotsky, devemos dar a devida importância à nossa vida afetiva, cuidando do que sentimos e do que pensamos. Ao fazer isso, também contribuímos para que outras pessoas possam refletir sobre seus afetos e cuidamos também de nossos relacionamentos, sejam eles afetivos, familiares e também profissionais. Pois toda relação tem afeto em maior ou menor grau.

Podemos concluir então que diferentes variáveis atuam influenciando nossos afetos, porém temos a possibilidade de alterar de maneira consciente nossas reações afetivas ao cuidarmos do nosso mundo interno. Não temos o poder de mudar nossa genética e nem as experiências que vivemos, mas temos o poder de alterar a carga emocional do registro dessas experiências, escrevendo uma nova história de sucesso de dentro para fora.